13/06/2026

Terra Sonâmbula — Décimo capítulo



A Doença do Pântano

Tuahir mira e admira. Há dias que não se arredam do machimbombo. No entanto, a paisagem em volta vai negando a aparente imobilidade da estrada. Agora, por exemplo, se desenrola à sua frente um imenso pantanal. O mar se escutava vizinho, a mostrar que aquelas águas lhe pertenciam. O velho se dirige ao miúdo:
Quer ver o mar, não é?
Muito, tio.
Então, vamos embora.
E se fazem por caminhos de matope onde crescem as árvores do mangal. Atrás vai ficando a residência de chapa e cinzas, posta na estrada como um monumento de guerra.
Quer ver o mar por causa do quê?
O jovem nem sabe explicar. Mas era como se o mar, com seus infinitos, lhe desse um alívio de sair daquele mundo. Sem querer ele pensava em Farida, esperando naquele barco. E parecia entender a mulher: ao menos, no navio, ainda havia espera. Por isso, ele enfrenta aquela marcha pelo pântano. Chapinham numa imensidão: lodos, lamas e argilas fedorosas. A caminhada iria durar os seguintes dias.
Logo na primeira noite os sentem. Os mosquitos. São grandes, negros, zunzumbentes. Não mordem, apenas. Entram no sangue e ficam chiando lá dentro.
Merda de mosquitos!
Muidinga vai reclamando. O velho Tuahir lhe admolesta: não se chateie, miúdo. E lhe lembra:
Foi o mosquito que construiu o pântano. Também, dentro de nós, o mosquito pantaneja, podrecendo nossas águas.
São tão picados que, ao despertar no seguinte dia, Tuahir tem as orelhas feitas num dobro. Não tarda a que lhe apareçam as febres. Seu corpo se cinzenta, os dedos se tornam asmáticos. Ele teima:
A febre não é derivada dos mosquitos. É o canto desses pássaros que me faz quenturas.
Quais pássaros?
Você não lhes viu, esvoando por aí?
Muidinga não lembra ter avistado nenhumas aves. Quer dar cuidados ao seu companheiro. Mas o velho não aceita. Tem tanta febre que, posto nos charcos, faz ferver a água. O pântano em volta, sempre igual, faz perder as direcções. Estão perdidos, cansados. Sentados num tronco, esperam nem se sabe o quê. Devíamos ter ficado no machimbombo, comenta Muidinga.
Foi você que queria ver o mar, lembra o velho.
O velho treme tanto que suas palavras se desconexam. Depois, se calam ambos. À volta, se escuta apenas o silêncio pingando. Tuahir, porém, ainda guarda algumas forças. Sobe num ramo alto e se pendura de cabeça para baixo. Muidinga se admira ao lhe ver morcegando. Mas ele lhe sossega: era hábito da infância. Seu sangue era fraco e a mãe o deixava amarrado pelos pés no tecto da casa.
Sabe o que você vai fazer agora? É. Você vai dar voltas por aí e deitar susto nas aves da má sorte, essas que me estão trazer febres.
Muidinga parte então pelo lamaçal. O mangal, afinal, não se cansa em repetida monotonia. A paisagem se vai desembrulhando em novidade, seus olhos se estreiam naquela água. As garças flutuam como lenços brancos em fundo de cinza. Suas plumas, sem outro serviço que a beleza, penteiam a alma de Muidinga, como se lhe trouxessem a carícia do sono. Por cima do voo as brancas aves parecem meditar, seu peito sério, quase petulante. Seus gestos são de ensaiado bailado. Nem a fome lhes dá pressa, a caça se cumpre sempre mediante vagares.
Na margem das águas mortas, Muidinga olha as aves se afastando. Para além se estende o rasteirinho capim, emergindo muito verde por entre o solo escuro. Por entre os arbustos lhe chega o lamento de uma xigovia, essa flautinha feita em fruto da ncuacueira. Era um pequeno pastor que se aproximava. Ao vê-lo o pastorzito se assusta. Deve pensar que Muidinga é um saltinhador do mato. Muidinga o chama e se apresenta. Timiudamente, despontam os primeiros fios de conversa e os dois se vão confiando. Muidinga pede que o pastor toque a xigovia. E fecha os olhos, pronto a ser encantado.
O senhor está dormitoso?
O pastor lhe sacode, aflito. Muidinga sorri, pedindo que comece. Mas o outro continua receoso. Diz que já tinha visto muitos adormecerem definitivos, ao som da flauta. Não quer que seu visitante vá muito longe, embalado no esvoar da mente. Em vez de xigoviar diz preferir contar uma história, verdadeira, passada consigo, naqueles mesmos pastos.
Conta lá, então.
Semana passada faleceu um boi, cujo esse boi era o maior de todos.
Assim desfia o menino seu relato. Havia, entre sua manada, um muito triste boizarrão. De manhã até de noite o bicho boiava em rasteira solidão, esquecido de si, dos capinzais e das obrigatórias ruminações. Seus olhos felpudos seguiam todas distracções. Tudo lhe era pretexto, fosse o estremecer de uma sombra, fosse o farfalinar de uma borboleta tricotando seu voo. O pastorzinho se agastava: que doença estaria a consumir o animal? E se decidiu a segui-lo, de luz a lés. Foi então reparou que o bicho se prendia na visão de uma dada e considerada garça. A ave pernalteava-se, se juntava às nuvens, suas gémeas: sempre e sempre a atenção do boi nela se centrava. O ruminante se imobilizava, impedido. O pastor chambocava o bovino a ver se ele manadeava. O varapau, vuuum-ntáá, estalava nos costados. Nem valia a pena. Pois ele sacudia os lentos cornos e seguia, de impossível, impassível.
Sem nenhum comer, o bicho definhava-se. O pastor nem sabia como explicar a seu tio, dono da criação. Certa noite, ao juntar suas migalhas, o pastor viu aquilo que duvidava de contar. Pois que o boi esticava o pescoço para a lua e declamava mugidos que nunca foram ouvidos. De repente, se agitou todo seu corpo, o bicho parecia estar em parto de si mesmo. De sua garganta se afilaram os gemidos que se foram vertendo, creia-se, num cantarinhar de ave. Às duas por uma, ele começou a minguar, pequenando-se de taurino para bezerro, de bezerro para gato chifrudo. Em violentos arrepios se sacudiu e os pêlos, aos tufos, lhe foram caindo. No igual tempo lhe surgiam plumas brancas. Em instantes, o mamífero fazia nascer de si uma ave, profundamente garça.
O recente pássaro, então, percorreu o redor, procurando não se sabe qual quê com seu olhar em seta. Até que, de súbito, se vislumbrou uma outra garça, essa mesma que lhe fazia, enquanto boi, demorar o coração. E o transfigurado mamífero acorreu em volejos, se chegando à autêntica ave. Dançou em repentinos saltos, as pernas de nervosa altura, como se estivessem ainda a soletrar os primeiros passos. A terra parecia demasiado pesada para aquele habitante dos céus. Ali ficaram os recíprocos dois, em namoros despregados, soltando brancas fulgurações.
O pastor se garantiu que assim acontecia todas as noites de luar cheio. No roçar da aurora, o boi regressava à condição de tristonho quadripedestre. Sucedeu um ano, contudo, que por meses seguidos, a lua teimou em não sair. Por tempos consecutivos, as noites se velaram, escuras, viscosas. O boi percorria as nocturnas horas se mantendo boi, mugindo como as acabrunhadas xipalapalas. Morreu na trigésima noite. O pastor assistira a sua lenta agonia e jura ter visto lágrimas deflagrando nos redondíssimos olhos do bicho.
O menino suspende o relato, uma angústia lhe prende a voz. Muidinga não sabe como reparar aquela falta em seu companheiro de ocasião. Lhe faltam palavras, lhe fogem as entrelinhas. Então, tira de si o amuleto que o protegia dos maus espíritos, prenda de Tuahir. Afinal, trocam magias. Aquela suave estória, concedendo leveza a um apaixonado bovino, soava como uma dádiva de magia.
Se faz tarde, Muidinga se despede do pastorzito, regressando ao lugar onde deixara o companheiro doente. Tuahir se desprendera da árvore e treme. Ele tinha concebido um plano: juntariam uns paus de mangal, improvisariam uma jangada para fugir pântano abaixo. O miúdo tinha razão, admitia. Talvez na praia encontrassem gente, barcos, viagens.
Mas você não tem força para nada, tio Tuahir.
Tuahir então apontou para a margem: ele já juntara os paus e os amarrara no jeito de barcaça. Nesse poente, os dois partem naquela jangada. Muidinga remava. Se recorda de Kindzu em suas aventurosas viagens. A tremeluzente voz de Tuahir se faz ouvir:
Se eu falecer aqui não me enterre no matope.
O tio não vai morrer.
Você não sabe nada. Vou-lhe dizer: quem morre enterrado no lodo se transforma em peixe.
Está bem, não lhe enterro. Se um dia o tio morrer faço como fizeram com Taímo. Lhe deitamos na água.
O velho sorri e se enrosca em si, como se procurasse um ventre. Depois adormece. À medida que a jangada avança no mangal o miúdo vai medindo o quanto afecto guarda por aquele homem. No fundo, o velho foi toda a sua família, toda a sua humanidade. A jangada escorrega pelas lisas águas até desembocar numa margem onde a areia branqueja. Nítido se escuta o rugido do mar.
Escute: é o mar, o autêntico mar. Já estamos perto, tio.
Oh, esse mar já escuto desde que chegámos lá no machimbombo.
Cada vez mais a voz de Tuahir se esfuma. Em auge de arrepios, o velho pede carinhos de mão e de peito. Não era requerer de doente mas de esposa. Muidinga lhe ajusta a manta na esperança que ele caia em sono. Porém, Tuahir lhe surpreende as mãos, juntando-as a seu rosto. Pede ao rapaz que se deite juntinho a si, para ganhar quentura. O velho levanta a sua manta, abrindo espaço para que Muidinga se ajuste. O rapaz se deita, constreito. Dois medos em si se juntam: o de tocar em Tuahir e o de se estar deitando com a morte. Maneirosa, a mão do outro lhe desvanece uma ruga que teima em seu rosto. Longe se escuta o assobio da xigovia.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

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