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01/02/2026

Escrever com sangue

De todo o escrito, só amo aquilo que alguém escreve com o seu sangue. Escreve com sangue, e aprenderás que o sangue é espírito.

Friedrich Nietzsche, em Assim Falou Zaratustra

13/01/2026

Vida futura

 “Nos processos dos seus sonhos, o homem se exercita para a vida futura”.

Friedrich Nietzsche, em Humano, Demasiado Humano

03/11/2025

O pessimista do intelecto

O verdadeiramente livre no espírito também pensará livremente sobre o espírito mesmo, e não esconderá de si algumas coisas terríveis quanto à origem e direção dele. Por isso os outros talvez o considerem o pior inimigo do livre-pensar e lhe apliquem o nome injurioso e apavorante de “pessimista do intelecto”: habituados, como são, a não designar alguém por sua força e virtude proeminente, mas por aquilo que para eles é mais estranho nele.

Friedrich Nietzsche, em Humano, demasiado humano II

10/09/2025

Limites

Há muitas coisas que, de uma vez por todas, não quero saber. – A sabedoria traça limites também para o conhecimento.

Friedrich Nietzsche, em Crepúsculo dos ídolos

20/08/2025

Coragem

Mesmo o mais corajoso de nós apenas raramente possui a coragem para aquilo que realmente sabe…

Friedrich Nietzsch, em Crepúsculo dos ídolos

09/05/2025

De velhas e novas tábuas

11.

Esta é a minha compaixão por tudo que é passado: que eu o veja abandonado —
— abandonado à mercê, ao espírito, à loucura de toda geração, que vem e reinterpreta tudo o que foi como uma ponte para si!
Um grande tirano poderia vir, um astucioso monstro que, com sua clemência ou inclemência, compelisse e espremesse tudo que é passado: até que este se tornasse uma ponte para ele, e prenúncio, arauto e canto de galo.
Mas este é o outro perigo, e minha outra compaixão: — a memória de quem é da plebe remonta até o avô — com o avô, porém, o tempo acaba.
Assim tudo passado é abandonado: pois poderia suceder que um dia a plebe se tornasse senhora e afogasse todo o tempo em águas rasas.
Por isso, ó meus irmãos, é necessário ter uma nova nobreza, que seja inimiga de toda plebe e toda tirania e novamente escreva a palavra “nobre” em novas tábuas.
Pois são necessários muitos e diferentes nobres para que haja nobreza! Ou, como um dia falei, em alegoria: “Justamente isso é divino, que haja deuses, mas nenhum Deus!”.

Friedrich Nietzsche, em Assim falou Zaratustra

02/05/2025

De velhas e novas tábuas

9.

Há uma velha ilusão chamada bem e mal. A roda dessa ilusão girou, até agora, em torno de videntes e astrólogos.
Outrora se acreditava em adivinhos e astrólogos: por isso acreditava-se: “Tudo é destino: tu deves, pois tens de!”.
Então se desconfiava de todos os adivinhos e astrólogos: por isso acreditava-se: “Tudo é liberdade: tu podes, pois queres!”.
Ó meus irmãos, sobre as estrelas e o futuro houve apenas ilusão e não conhecimento até agora: por isso, sobre bem e mal houve apenas ilusão e não conhecimento até agora!

Friedrich Nietzsche, em Assim falou Zaratustra

14/04/2025

De velhas e novas tábuas

8.

Quando há pranchas sobre a água, quando passarelas e parapeitos se erguem sobre a corrente: então ninguém acredita, em verdade, naquele que diz: “Tudo flui”.
Pelo contrário, até os imbecis o contradizem. “Como”, dizem eles, “tudo flui? Passarelas e parapeitos estão acima do que flui!”
“Acima do que flui está tudo firme, todos os valores das coisas, pontes, conceitos, todo o ‘bem’ e o ‘mal’: tudo isso está firme!” —
Mas, quando vem o duro inverno, o domador de rios, até mesmo os mais espirituosos aprendem a desconfiar; e, em verdade, não apenas os imbecis falam então: “Não deveria tudo — ficar parado?”.
“No fundo está tudo parado” — eis um verdadeiro ensinamento invernal, uma boa coisa para tempos infecundos, um bom consolo para os que hibernam e ficam junto à estufa.
“No fundo está tudo parado” —: mas contra isso prega o vento do degelo!
O vento do degelo, um touro que não é boi de arado — um touro raivoso, um destruidor, que com chifres furiosos rompe o gelo! Mas o gelo — — rompe passarelas!
Ó meus irmãos, agora não se acha tudo a fluir? Não foram por água abaixo todos os corrimãos e passarelas? Quem ainda se agarraria a “bem” e “mal”?
“Ai de nós! Viva nós! O vento do degelo sopra!” — Assim pregai, ó meus irmãos, por todas as ruas!

Friedrich Nietzsche, em Assim falou Zaratustra

09/04/2025

De velhas e novas tábuas

7.

Ser verdadeiro — poucos são capazes disso! E quem pode, não o quer ainda! Menos capazes de todos, porém, são os bons.
Oh, esses bons! Homens bons jamais dizem a verdade; para o espírito, ser bom de tal modo é uma doença.
Eles cedem, esses bons, eles concedem, seu coração repete as palavras, seu fundo obedece: mas quem obedece não escuta a si mesmo!
Tudo o que os bons chamam mau deve se juntar, para que nasça uma verdade: ó meus irmãos, sois também vós maus o bastante para essa verdade?
O temerário ousar, a demorada desconfiança, o cruel Não, o fastio, o cortar na carne viva — como é raro isso juntar-se! Mas dessa semente é — gerada a verdade!
Ao lado da má consciência cresceu até agora toda ciência! Destroçai, ó homens do conhecimento, destroçai as velhas tábuas!

Friedrich Nietzsche, em Assim falou Zaratustra

31/03/2025

De velhas e novas tábuas

6.

Ó meus irmãos, quem é primogênito sempre será sacrificado.124 Mas agora somos nós os primogênitos.
Todos nós sangramos em secretos altares de sacrifícios, todos nós assamos e ardemos em honra de velhos ídolos.
O que temos de melhor ainda é jovem: isso atrai os velhos paladares. Nossa carne é tenra, nossa pele é somente uma pele de cordeiro: — como não atrairíamos velhos sacerdotes de ídolos?
Dentro de nós mesmos ainda habita ele, o velho sacerdote de ídolos, que assa para banquete o que temos de melhor. Ah, meus irmãos, como não seriam vítimas os primogênitos?
Mas assim é nossa maneira; e eu amo aqueles que não querem preservar a si mesmos. Amo com todo o meu amor aqueles que declinam: pois eles passam para o outro lado. —

Friedrich Nietzsche, em Assim falou Zaratustra

20/03/2025

De velhas e novas tábuas

5.

Esta é a maneira das almas nobres: elas nada querem ter de graça, muito menos a vida.

Quem é da plebe quer viver de graça; mas nós, a quem a vida se deu, — nós sempre refletimos sobre o que de melhor podemos dar em troca!

E, em verdade, é falar nobremente dizer: “O que a vida promete a nós, isso vamos cumprir — com a vida!”.

Não se deve querer fruir quando não se dá fruição. E — não se deve querer fruir!

Pois fruição e inocência são as coisas mais vergonhosas: nenhuma das duas quer ser buscada. Deve-se tê-las — mas deve-se antes buscar a dor e a culpa! —

Friedrich Nietzsche, em Assim falou Zaratustra

18/03/2025

De velhas e novas tábuas

5.

Esta é a maneira das almas nobres: elas nada querem ter de graça, muito menos a vida.

Quem é da plebe quer viver de graça; mas nós, a quem a vida se deu, — nós sempre refletimos sobre o que de melhor podemos dar em troca!

E, em verdade, é falar nobremente dizer: “O que a vida promete a nós, isso vamos cumprir — com a vida!”.

Não se deve querer fruir quando não se dá fruição. E — não se deve querer fruir!

Pois fruição e inocência são as coisas mais vergonhosas: nenhuma das duas quer ser buscada. Deve-se tê-las — mas deve-se antes buscar a dor e a culpa! —

Friedrich Nietzsche, em Assim Falou Zaratustra

06/03/2025

De velhas e novas tábuas

4.

Olha, eis aqui uma nova tábua: mas onde estão meus irmãos, que a levem comigo ao vale e aos corações de carne? —
Assim exige meu grande amor aos mais distantes: não poupes teu próximo! O homem é algo que tem de ser superado.
Há muitos caminhos e modos de superação: deves tu cuidar disso! Mas somente um palhaço pensa: “O homem também pode ser saltado”.
Supera a ti mesmo também no teu próximo: e um direito que podes arrebatar, não deixes que te seja dado!
Aquilo que fazes, ninguém pode fazer a ti. Vê, não existe retribuição.
Quem não pode comandar a si mesmo, deve obedecer. E muitos podem comandar a si mesmos, mas ainda falta muito para que também obedeçam a si!

Friedrich Nietzsche, em Assim falou Zaratustra

27/02/2025

De velhas e novas tábuas

1.

Aqui me acho sentado, esperando, com velhas tábuas partidas ao meu redor, e também novas tábuas inscritas pela metade. Quando chegará minha hora?
— a hora de minha descida, meu declínio: pois ainda uma vez quero ir até os homens.
Por isso espero agora; pois primeiro devem me chegar os sinais de que é a minha hora — o leão rindo e o bando de pombas.
Entrementes falo comigo mesmo, como uma pessoa que tem tempo. Ninguém me conta algo novo: assim, conto-me a mim mesmo.

Friedrich Nietzsche, em Assim Falou Zaratustra

16/12/2024

Um pecado original dos filósofos

— Em todas as épocas os filósofos se apropriaram das teses dos perscrutadores de homens (moralistas) e as estragaram, tomando-as incondicionalmente e querendo demonstrar como necessário o que eles viam apenas como indicação aproximada ou como verdade de uma década, própria de uma região ou cidade — quando justamente dessa forma acreditavam se pôr acima deles. Assim, na base das célebres doutrinas schopenhauerianas do primado da vontade sobre o intelecto, da imutabilidade do caráter, da negatividade do prazer — que são todas erradas, tais como seu autor as entendia — encontraremos verdades populares, assentadas pelos moralistas. Já o termo “vontade”, que Schopenhauer converteu em designação comum de muitos estados humanos e inseriu numa lacuna da língua, com grande vantagem para si mesmo, enquanto moralista — pois ficou livre para falar da “vontade” tal como Pascal havia dela falado —, já a “vontade” de Schopenhauer resultou numa desgraça para a ciência em suas mãos, graças ao furor filosófico da generalização: pois dessa vontade faz-se uma metáfora poética, quando se afirma que todas as coisas da natureza teriam vontade; por fim, com o objetivo de aplicá-la em toda espécie de disparate místico, foi mal utilizada para uma reificação falsa — e todos os filósofos da moda repetem e parecem saber exatamente que todas as coisas têm uma vontade, e mesmo que são essa vontade (o que, segundo a descrição que se faz dessa vontade-toda-uma, significa tanto quanto querer absolutamente o estúpido Diabo como Deus).

Friedrich Nietzsche, em Humano, demasiado humano

10/12/2024

Os pretendentes da realidade

 — Quem finalmente percebe como e por quanto tempo foi enganado, abraça, por despeito, até a realidade mais feia: de modo que, vendo-se a marcha do mundo em seu conjunto, a esta couberam, em todas as épocas, os melhores de todos os pretendentes — pois os melhores sempre foram melhor e mais longamente iludidos.

Friedrich Nietzsche, em Humano, demasiado humano

07/12/2024

Querer ser justo e querer ser juiz

— Schopenhauer, cujo grande conhecimento das coisas humanas, demasiado humanas, cujo primordial senso dos fatos foi um tanto prejudicado pela colorida pele de leopardo de sua metafísica (que é preciso antes remover, para descobrir embaixo um verdadeiro gênio de moralista) — Schopenhauer faz esta excelente distinção, com a qual terá bem mais razão do que realmente podia confessar a si mesmo: “a compreensão da rigorosa necessidade das ações humanas é a linha que separa as mentes filosóficas das outras”. Essa poderosa percepção, a que por vezes ele se achava aberto, ele contrariava dentro de si mesmo com o preconceito que ainda tinha em comum com os homens morais (não com os moralistas) e que assim expressa, de maneira ingênua e crédula: “a última e verdadeira explicação sobre a íntima essência da totalidade das coisas deve, por necessidade, ligar-se estreitamente àquela sobre a significação ética do agir humano” — o que precisamente não é “necessário” de forma nenhuma, e sim é rejeitado por aquela proposição sobre a rigorosa necessidade das ações humanas, ou seja, da absoluta não liberdade e irresponsabilidade da vontade. As mentes filosóficas se diferenciarão das outras, portanto, através da descrença na significação metafísica da moral: e isso pode estabelecer entre elas um abismo profundo e insuperável, de que o deplorado abismo entre “cultos” e “incultos”, tal como hoje existe, não pode dar ideia. É certo que devem ser reconhecidas como inúteis várias outras escapatórias que as “mentes filosóficas”, como Schopenhauer mesmo, deixaram para si: nenhuma leva ao ar livre, ao ar do livre-arbítrio; cada uma, através da qual até agora se tentou escapar, revelou novamente por trás o muro brônzeo do fado: nós estamos na prisão, só podemos nos sonhar livres, não nos tornar livres. Que não se pode contrariar por muito tempo mais esse conhecimento, isso demonstram as desesperadas, incríveis posturas e contorções daqueles que contra ele investem, que com ele prosseguem a luta. — Eis o que agora se passa neles, aproximadamente: “Então ninguém é responsável? E em tudo há pecado e sentimento do pecado? Mas alguém tem de ser o pecador: se é impossível e não mais é permitido acusar e julgar o indivíduo, a pobre onda na inevitável rebentação do devir — então: que a rebentação mesma, o devir, seja o pecador: aqui está o livre-arbítrio, aqui se pode acusar, condenar, expiar e pagar: que seja Deus o pecador, e o homem, seu redentor: que a história universal seja culpa, autocondenação e suicídio; que o malfeitor se torne seu próprio juiz, e o juiz, seu próprio carrasco”. — Esse cristianismo de cabeça para baixo — que é, senão isso? — é a última estocada na luta entre a doutrina da moralidade absoluta e a da não liberdade absoluta — uma coisa horrível, se fosse mais do que uma careta lógica, mais do que um gesto feio do pensamento que sucumbe — algo como o espasmo final do coração desesperado e ansioso de cura, ao qual a loucura sussurra: “És o cordeiro que carrega o pecado de Deus”. — O erro está não apenas no sentimento “eu sou responsável”, mas igualmente na antítese “eu não sou responsável, mas alguém tem de ser”. — Isso justamente não é verdadeiro: o filósofo deve então dizer, como Cristo: “não julguem!”, e a diferença última entre os espíritos filosóficos e os outros seria que os primeiros querem ser justos e os outros querem ser juízes.

Friedrich Nietzsche, em Humano, demasiado humano

02/12/2024

No espelho da natureza

— Um homem não se acha descrito com exatidão, quando ouvimos que ele gosta de andar por altos campos de trigo amarelo, que prefere as cores das florestas e das flores do outono amarelecido e caduco, por elas insinuarem coisas mais belas do que a natureza jamais alcançou, que ele se sente em casa sob grandes nogueiras de espessas folhas, como entre parentes próximos, que a sua maior alegria, estando nas montanhas, é encontrar os pequenos lagos afastados, dos quais a solidão mesma parece contemplá-lo, que ele ama a cinzenta paz do nevoento crepúsculo que em noites de outono e princípio de inverno se aproxima das janelas e envolve, como cortina de veludo, todo ruído inanimado, que ele sente as rochas brutas como testemunhos do passado desejosos de falar e as venera desde criança, e, por fim, que o mar, com sua movediça pele de serpente e sua beleza de fera, é e sempre lhe será estranho? — Sim, alguma coisa desse homem foi descrita, certamente; mas o espelho da natureza nada diz sobre o fato de que o mesmo homem, com toda a sua idílica sensibilidade (e não “apesar dela”), poderia ser bastante frio, mesquinho e presunçoso. Horácio, que entendia de tais coisas, pôs o mais delicado sentimento pelo campo na boca de um agiota romano, no famoso verso “beatus ille qui procul negotiis” [feliz aquele que, longe das ocupações...].

Friedrich Nietzsche, em Humano, demasiado humano

26/11/2024

É tolice cometer injustiça

A injustiça que fazemos é bem mais difícil de suportar do que a injustiça que alguém faz conosco (não exatamente por razões morais, note-se bem —); o autor é sempre aquele que sofre, quando é suscetível a remorsos ou tem a percepção de que, mediante seu ato, armou a sociedade contra si e se isolou. Por isso devemos, já por conta de nossa felicidade interior, ou seja, para não sermos privados de nosso bem-estar, independentemente do que pedem a religião e a moral, tratar de não cometer injustiça, mais ainda que de não sofrer injustiça: pois nesse último caso temos o consolo da boa consciência, da esperança de vingança, de compaixão e aplauso dos justos, até mesmo da sociedade inteira, que teme quem faz o mal. — Não são poucos os que entendem do feio autoembuste que é transmutar toda injustiça que fazem numa que lhes é feita por outra pessoa, e reservar-se o direito excepcional da legítima defesa para desculpar o que eles mesmos fizeram: para assim carregar mais facilmente seu fardo.

Friedrich Nietzsche, em Humano, demasiadamente humano

19/11/2024

Genealogia da moral


PRÓLOGO

1. Nós, homens do conhecimento, não nos conhecemos; de nós mesmos somos desconhecidos — e não sem motivo. Nunca nos procuramos: como poderia acontecer que um dia nos encontrássemos? Com razão alguém disse: “onde estiver teu tesouro, estará também teu coração”. Nosso tesouro está onde estão as colmeias do nosso conhecimento. Estamos sempre a caminho delas, sendo por natureza criaturas aladas e coletoras do mel do espírito, tendo no coração apenas um propósito — levar algo “para casa”. Quanto ao mais da vida, as chamadas “vivências”, qual de nós pode levá-las a sério? Ou ter tempo para elas? Nas experiências presentes, receio, estamos sempre “ausentes”: nelas não temos nosso coração — para elas não temos ouvidos. Antes, como alguém divinamente disperso e imerso em si, a quem os sinos acabam de estrondear no ouvido as doze batidas do meio-dia, e súbito acorda e se pergunta “o que foi que soou?”, também nós por vezes abrimos depois os ouvidos e perguntamos, surpresos e perplexos inteiramente, “o que foi que vivemos?”, e também “quem somos realmente?”, e em seguida contamos, depois, como disse, as doze vibrantes batidas da nossa vivência, da nossa vida, nosso ser — ah! e contamos errado... Pois continuamos necessariamente estranhos a nós mesmos, não nos compreendemos, temos que nos mal-entender, a nós se aplicará para sempre a frase: “Cada qual é o mais distante de si mesmo” — para nós mesmos somos “homens do desconhecimento”…
2. Meus pensamentos sobre a origem de nossos preconceitos morais — tal é o tema deste escrito polêmico — tiveram sua expressão primeira, modesta e provisória na coletânea de aforismos que leva o título Humano, demasiado humano. Um livro para espíritos livres, cuja redação foi iniciada em Sorrento, durante um inverno que me permitiu fazer uma parada, como faz um andarilho, e deitar os olhos sobre a terra vasta e perigosa que meu espírito percorrera até então. Isto aconteceu no inverno de 1876-7; os pensamentos mesmos são mais antigos. Já eram, no essencial, os mesmos que retomo nas dissertações seguintes — esperemos que o longo intervalo lhes tenha feito bem, que tenham ficado mais maduros, mais claros, fortes, perfeitos! O fato de que me atenho a eles ainda hoje, de que eles mesmos se mantenham juntos de modo sempre firme, crescendo e entrelaçando-se, isto fortalece em mim a feliz confiança em que não me tenham brotado de maneira isolada, fortuita, esporádica, mas a partir de uma raiz comum, de algo que comanda na profundeza, uma vontade fundamental de conhecimento que fala com determinação sempre maior, exigindo sempre maior precisão. Pois somente assim convém a um filósofo. Não temos o direito de atuar isoladamente em nada: não podemos errar isolados, nem isolados encontrar a verdade. Mas sim, com a necessidade com que uma árvore tem seus frutos, nascem em nós nossas ideias, nossos valores, nossos sins e nãos e ses e quês — todos relacionados e relativos uns aos outros, e testemunhas de uma vontade, uma saúde, um terreno, um sol. — Se vocês gostarão desses nossos frutos? — Mas que importa isso às árvores! Que importa isso a nós, filósofos!…
3. Por um escrúpulo que me é peculiar, e que confesso a contragosto — diz respeito à moral, a tudo o que até agora foi celebrado na terra como moral —, escrúpulo que surgiu tão cedo em minha vida, tão insolicitado, tão incontido, tão em contradição com ambiente, idade, exemplo, procedência, que eu quase poderia denominá-lo meu “a priori” — tanto minha curiosidade quanto minha suspeita deveriam logo deter-se na questãode onde se originam verdadeiramente nosso bem e nosso mal. De fato, já quando era um garoto de treze anos me perseguia o problema da origem do bem e do mal: a ele dediquei, numa idade em que se tem “o coração dividido entre brinquedos e Deus”, minha primeira brincadeira literária, meu primeiro exercício filosófico — quanto à “solução” que encontrei então, bem, rendi homenagem a Deus, como é justo, fazendo-o Pai do mal. Era isso o que exigia meu “a priori” de mim? Aquele novo e imoral, pelo menos imoralista “a priori”, e o “imperativo categórico” que nele falava, tão antikantiano, tão enigmático, ao qual desde então tenho dado atenção, e mais que atenção?... Por fortuna logo aprendi a separar o preconceito teológico do moral, e não mais busquei a origem do mal por trás do mundo. Alguma educação histórica e filológica, juntamente com um inato senso seletivo em questões psicológicas, em breve transformou meu problema em outro: sob que condições o homem inventou para si os juízos de valor “bom” e “mau”? e que valor têm eles? Obstruíram ou promoveram até agora o crescimento do homem? São indício de miséria, empobrecimento, degeneração da vida? Ou, ao contrário, revela-se neles a plenitude, a força, a vontade da vida, sua coragem, sua certeza, seu futuro? — Para isso encontrei e arrisquei respostas diversas, diferenciei épocas, povos, hierarquias dos indivíduos, especializei meu problema, das respostas nasceram novas perguntas, indagações, suposições, probabilidades: até que finalmente eu possuía um país meu, um chão próprio, um mundo silente, próspero, florescente, como um jardim secreto do qual ninguém suspeitasse... Oh, como somos felizes, nós, homens do conhecimento, desde que saibamos manter silêncio por algum tempo!…
4. O primeiro impulso para divulgar algumas das minhas hipóteses sobre a procedência da moral me foi dado por um livrinho claro, limpo e sagaz — e maroto —, no qual uma espécie contrária e perversa de hipótese genealógica, sua espécie propriamente inglesa, pela primeira vez me apareceu nitidamente, e que por isso me atraiu — com aquela força de atração que possui tudo o que é oposto e antípoda. O título do livrinho era A origem das impressões morais; seu autor, o dr. Paul Rée; o ano de seu aparecimento, 1877. Talvez eu jamais tenha lido algo a que dissesse “não” de tal modo, sentença por sentença, conclusão por conclusão, como a esse livro: sem traço de irritação ou impaciência, porém. Na obra acima mencionada, na qual trabalhava então, eu me refiro, oportuna e inoportunamente, às teses desse livro, não para refutá-las — que tenho eu a ver com refutações! — mas sim, como convém num espírito positivo, para substituir o improvável pelo mais provável, e ocasionalmente um erro por outro. Foi então que, como disse, pela primeira vez apresentei as hipóteses sobre origens a que são dedicadas estas dissertações, de maneira canhestra, como seria o último a negar, ainda sem liberdade, sem linguagem própria para essas coisas próprias, e com recaídas e hesitações diversas. Confira-se, em particular, o que digo em Humano, demasiado humano (parágrafo 45) sobre a dupla pré-história do bem e do mal (a saber, na esfera dos nobres e na dos escravos); igualmente (§ 136) sobre valor e origem da moral ascética; igualmente (§ 96, 99, e vol. II, 89), sobre a “moralidade do costume”, aquela espécie de moral mais antiga e primordial, que difere toto coelo [diametralmente] do modo de valorizar altruísta (que o dr. Rée, como todos os genealogistas da moral ingleses, vê como o modo de valorar em si); igualmente (§ 92), O andarilho (§ 26), Aurora (§ 112), sobre a origem da justiça como um acerto entre poderosos mais ou menos iguais (o equilíbrio como pressuposto de todo contrato, portanto de todo direito); do mesmo modo, O andarilho (§ 22, 33), sobre a origem do castigo, ao qual a finalidade de intimidação não é essencial nem primordial (como pensa o dr. Rée — ela lhe é, isto sim, enxertada em determinadas circunstâncias, e sempre como algo acessório, adicionado).
5. No fundo interessava-me algo bem mais importante do que revolver hipóteses, minhas ou alheias, acerca da origem da moral (mais precisamente, isso me interessava apenas com vista a um fim para o qual era um meio entre muitos). Para mim, tratava-se do valor da moral — e nisso eu tinha de me defrontar sobretudo com o meu grande mestre Schopenhauer, ao qual aquele livro, a paixão e a secreta oposição daquele livro se dirigem, como a um contemporâneo (— também ele era um “escrito polêmico”). Tratava-se, em especial, do valor do “não-egoísmo”, dos instintos de compaixão, abnegação, sacrifício, que precisamente Schopenhauer havia dourado, divinizado, idealizado, por tão longo tempo que afinal eles lhe ficaram como “valores em si”, com base nos quais ele disse não à vida e a si mesmo. Mas precisamente contra esses instintos manifestava-se em mim uma desconfiança cada vez mais radical, um ceticismo cada vez mais profundo! Precisamente nisso enxerguei o grande perigo para a humanidade, sua mais sublime sedução e tentação — a quê? ao nada? —; precisamente nisso enxerguei o começo do fim, o ponto morto, o cansaço que olha para trás, a vontade que se volta contra a vida, a última doença anunciando-se terna e melancólica: eu compreendi a moral da compaixão, cada vez mais se alastrando, capturando e tornando doentes até mesmo os filósofos, como o mais inquietante sintoma dessa nossa inquietante cultura europeia; como o seu caminho sinuoso em direção a um novo budismo? a um budismo europeu? a um — niilismo?... Pois essa moderna preferência e superestimação da compaixão por parte dos filósofos é algo novo: justamente sobre o não-valor da compaixão os filósofos estavam até agora de acordo. Menciono apenas Platão, Spinoza, La Rochefoucauld e Kant, quatro espíritos tão diversos quanto possível um do outro, mas unânimes em um ponto: na pouca estima da compaixão. —
6. Este problema do valor da compaixão e da moral da compaixão (— eu sou um adversário do amolecimento moderno dos sentimentos —) à primeira vista parece ser algo isolado, uma interrogação à parte; mas quem neste ponto se detém, quem aqui aprende a questionar, a este sucederá o mesmo que ocorreu a mim — uma perspectiva imensa se abre para ele, uma nova possibilidade dele se apodera como uma vertigem, toda espécie de desconfiança, suspeita e temor salta adiante, cambaleia a crença na moral, em toda moral — por fim, uma nova exigência se faz ouvir. Enunciemo-la, esta nova exigência: necessitamos de uma crítica dos valores morais, o próprio valor desses valores deverá ser colocado em questão — para isto é necessário um conhecimento das condições e circunstâncias nas quais nasceram, sob as quais se desenvolveram e se modificaram (moral como consequência, como sintoma, máscara, tartufice, doença, mal-entendido; mas também moral como causa, medicamento, estimulante, inibição, veneno), um conhecimento tal como até hoje nunca existiu nem foi desejado. Tomava-se o valor desses “valores” como dado, como efetivo, como além de qualquer questionamento; até hoje não houve dúvida ou hesitação em atribuir ao “bom” valor mais elevado que ao “mau”, mais elevado no sentido da promoção, utilidade, influência fecunda para o homem (não esquecendo o futuro do homem). E se o contrário fosse a verdade? E se no “bom” houvesse um sintoma regressivo, como um perigo, uma sedução, um veneno, um narcótico, mediante o qual o presente vivesse como que às expensas do futuro? Talvez de maneira mais cômoda, menos perigosa, mas também num estilo menor, mais baixo?... De modo que precisamente a moral seria culpada de que jamais se alcançasse o supremo brilho e potência do tipo homem? De modo que precisamente a moral seria o perigo entre os perigos?…
7. Em suma, desde que para mim se abriu essa perspectiva, tive razões para olhar em torno, em busca de camaradas doutos, ousados e trabalhadores (ainda hoje olho). O objetivo é percorrer a imensa, longínqua e recôndita região da moral — da moral que realmente houve, que realmente se viveu — com novas perguntas, com novos olhos: isto não significa praticamente descobrir essa região?... Se para isso pensei no mencionado dr. Rée, entre outros, isto ocorreu por não duvidar que a natureza mesma das suas questões o levaria a métodos mais corretos para alcançar as respostas. Teria me enganado nisso? Meu desejo, em todo o caso, era dar a um olhar tão agudo e imparcial uma direção melhor, a direção da efetiva história da moral, prevenindo-o a tempo contra essas hipóteses inglesas que se perdem no azul. Pois é óbvio que uma outra cor deve ser mais importante para um genealogista da moral: o cinza, isto é, a coisa documentada, o efetivamente constatável, o realmente havido, numa palavra, a longa, quase indecifrável escrita hieroglífica do passado moral humano! — O dr. Rée não sabia de sua existência; mas ele havia lido Darwin — e assim, em suas hipóteses, de maneira no mínimo divertida, a besta darwiniana e o moderníssimo, modesto fracote moral dão-se graciosamente as mãos, este com expressão de bondosa e refinada indolência no rosto, à qual se mistura inclusive um grão de pessimismo e de cansaço, como se não pagasse a pena levar todas essas coisas — os problemas da moral — tão a sério. A mim me parece, muito ao contrário, que não existem coisas que mais compensem serem levadas a sério; sua recompensa está, por exemplo, em que talvez se possa um dia levá-las na brincadeira, na jovialidade. Pois a jovialidade, ou, para dizê-lo com a minha linguagem, a gaia ciência, é uma recompensa: um pagamento por uma longa, valente, laboriosa e subterrânea seriedade, uma tal que, admito, não é para todos. No dia, porém, em que com todo o coração dissermos: “avante! também a nossa velha moral é coisa de comédia!” — teremos descoberto novas intrigas e possibilidades para o drama dionisíaco do “Destino da Alma”; e ele saberá utilizá-las, disso podemos ter certeza, ele, o grande, velho, eterno poeta-comediógrafo da nossa existência!…
8. Se este livro resultar incompreensível para alguém, ou dissonante aos seus ouvidos, a culpa, quero crer, não será necessariamente minha. Ele é bastante claro, supondo-se — e eu suponho — que se tenha lido minhas obras anteriores, com alguma aplicação na leitura: elas realmente não são fáceis. No que toca ao meu Zaratustra, por exemplo, não pode se gabar de conhecê-lo quem já não tenha sido profundamente ferido e profundamente encantado por cada palavra sua: só então poderá fruir o privilégio de participar, reverentemente, do elemento alciônico do qual se originou aquela obra, da sua luminosa claridade, distância, amplidão e certeza. Em outros casos, a forma aforística traz dificuldade: isto porque atualmente não lhe é dada suficiente importância. Bem cunhado e moldado, um aforismo não foi ainda “decifrado”, ao ser apenas lido: deve ter início, então, a sua interpretação, para a qual se requer uma arte da interpretação. Na terceira dissertação deste livro, ofereço um exemplo do que aqui denomino “interpretação”: a dissertação é precedida por um aforismo, do qual ela constitui o comentário. É certo que, a praticar desse modo a leitura como arte, faz-se preciso algo que precisamente em nossos dias está bem esquecido — e que exigirá tempo, até que minhas obras sejam “legíveis” —, para o qual é imprescindível ser quase uma vaca, e não um “homem moderno”: o ruminar…
Sils-Maria, Alta Engadina, julho de 1887

Friedrich Nietzsche, em Genealogia da moral