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29/07/2024

― Mataram Joca Ramiro!...

Arte: Rodrigo Rosa

[…]
Segundo digo, o tempo que paramos na Guararavacã do Guiacuí regulou em dois meses. Bem ermo. De lá, a gente cruzou as vizinhanças todas, fizemos grande redondeza. Todo dia, trocávamos recado de avisos com o pessoal do Alaripe. Notícia, nenhumas. Nada não chegava em envio, do que fosse para chegar. Da outra banda do rio, se sucedeu a queima dos campos! quando o vento dava para trás, trazia as tristes fumaças. De noite, o morro se esclarecia, vermelho, asgrava em labaredas e brasas. Da banda de cá, num rumo, daí a obra de duas léguas, tinha uma lavourinha, de um sujeito ainda moço, que era amigo nosso.
― Ah, se ele quisesse alugar a mulherzinha dele para a gente, bem caros prêços que eu pagava... ― assim o que dizia o Paspe, suspiroso. Mas quem vinha eram os meninos do lavrador, montados num cavalo magro, traziam feixes de cana, para vender para a gente. As vezes, vinham em dois cavalos magros, e eram cinco ou seis meninos, amontados, agarrados uns nos outros, uns mesmo não se sabia como podiam, de tão mindinhos. Esses meninozinhos, todos, queriam todo o tempo ver nossas armas, pediam que a gente desse tiros. Diadorim gostava deles, pegava um por cada mão, até carregava os menorzinhos, levava para mostrar a eles os pássaros das ilhas do rio. ― Olha, vigia! o manuelzinho-da-crôa já acabou de fazer a muda... Um dia, em que tínhamos caçado uma paca bem gorda, o Paspe pitou de sal um quarto dela, enrolou em folhas, e deu ao menino mais velho!
― Pra tu leva de presente, dá à tua mãe, fala que quem mandou fui eu... ― ele recomendou. A gente ria. Os meninos receavam o gado! ali no meio tinha reses muito bravas, um dia uma vaca deu corrida em alguém, querendo bater. Mas, depois, com o secar, de magros e fracos os bois se atolavam no embrejado, até morrerem alguns. Os urubus espaceavam, quando o céu empoeirado. Pousavam no pindaibal do brejo. João Vaqueiro chamava a gente, ia desatolar os bois que podia. Uns eram mansos! por um punhado de sal, se chegavam, lambiam o chão nos pés da gente. João Vaqueiro sabia tudo. Chega passava a mão nas tetas de uma vaca ― capins tão bons, o senhor crê? ― algumas ainda guardavam leite naqueles peitos. ― A gente carecia era de dar um fogo, se sair por aí, por combate... ― sensato se dizia. Que jagunço amolece, quando não padece.
A quase meio-rumo de norte e nascente, a quatro léguas de demorado andamento, tinha uma venda de roça, no começo do cerradão. Vendiam licór de banana e de pequí, muito forte, geleia de mocotó, fumo bom, marmelada, toucinho. Sempre só um de nós era que ia lá ― para não desconfiarem. Ia o Jesualdo. A gente outorgava a ele o dinheiro, cada um encomendava o que queria. Diadorim mandou comprar um quilo grande de sabão de coco de macaúba, para se lavar corpo. O dono da venda tinha duas filhas, o Jesualdo cada vez que voltava carecia de explicar à gente, de dia e de noite, como elas eram, formosuramente. ― Ei, que quando vier o tempo, que de guerra se tiver licença, ah, e se esse vendeiro for contra nós, ah, eu vou lá, pego uma das duas, de mocinha faço ela virar mulher... ― oVove disse. ― O que tu não faz! Porque o que eu quero é o exato: que eu vou lá, prezado peço em casamento, e nóivo... ― o Triol contestou. E o Liduvino e o Admeto cantavam coisas de sentimento, cantavam pelo nariz. Ao que perguntei: e aquela canção de Siruiz? Mas eles não sabiam. ― Sei não, gosto não. Cantigas muito velhas... ― eles desqueriam.
Daí, deu um sutil trovão. Trovejou-se, outro. As tanajuras revoaram. Bateu o primeiro toró de chuva. Cortamos paus, folhagem de coqueiros, aumentamos o rancho. E vieram uns campeiros, rever o gado da Tapera Nhã, no renovame, levaram as novilhas em quadra de produzir. Esses eram homens tão simples, pensaram que a gente estava garimpando ouro. Os dias de chover cheio foram se emendando. Tudo igual ― às vezes é uma sem-gracez. Mas não se deve de tentar o tempo. As garças é que praziam de gritar, o garcêjo delas, e o socó-boi range cincêrros, e o socó latindo sucinto. Aí pelo mato das pindaíbas avante, tudo era um sapal. Coquexavam. De tão bobas tristezas, a gente se ria, no friinho de entrechuvas. Dada a primeira estiada, voltou aquele vaqueiro Bernabé, em seu cavalinho castanho! e vinha trazer requeijão, que se tinha incumbido a ele, e que por dinheirinho bom se pagou. ― A vida tem de mudar um dia para melhor ― a gente dizia. Requeijão é com café bem quente que é mais gostoso. Aquele vaqueiro Bernabé voltou, outras diversas vezes.
Ah, e, vai, um feio dia, lá ele apontou, na boca da estrada que saía do mato, o cavalinho castanho dava toda pressa de vinda, nem cabeceava. Achamos que fosse mesmo ele. Aí, não era. Era um brabo nosso, um cafuz pardo, de sonome o Gavião-Cujo, que de mais norte chegava. Ele tinha tomado muitas chuvas, que tudo era lamas, dos copos do freio à boca da bota, e pelos vazios do cavalo. Esbarrou e desapeou, num pronto ser, se via que estava ancho com muitas plenipotências. O que era? O Gavião-Cujo abriu os queixos, mas palavra logo não saíu, ele gaguejou ar e demorou ― decerto porque a notícia era urgente ou enorme. ― Aruê, então?! ― Titão Passos quis. ― Te rogaram alguma praga? O Gavião-Cujo levantou um braço, pedindo prazo. A fé, quase gritou!
― Mataram Joca Ramiro!...
Aí estralasse tudo ― no meio ouvi um uivo dôido de Diadorim ―! todos os homens se encostavam nas armas. Aí, ei, feras! Que no céu, só vi tudo quieto, só um moído de nuvens. Se gritava ― o araral. As vertentes verdes do pindaibal avançassem feito gente pessoas. Titão Passos bramou as ordens. Diadorim tinha caído quase no chão, meio amparado a tempo por João Vaqueiro.
Caíu, tão pálido como cera do reino, feito um morto estava. Ele, todo apertado em seus couros e roupas, eu corri, para ajudar. A vez de ser um desespero. O Paspe pegou uma cuia dágua, que com os dedos espriçou nas faces do meu amigo. Mas eu nem pude dar auxílio: mal ia pondo a mão para desamarrar o colete-jaleco, e Diadorim voltou a seu si, num alerta, e me repeliu, muito feroz. Não quis apóio de ninguém, sozinho se sentou, se levantou. Recobrou as cores, e em mais vermelho o rosto, numa fúria, de pancada. Assaz que os belos olhos dele formavam lágrimas. Titão Passos mandava, o Gavião-Cujo falava. Assim os companheiros num estupor. Ao que não havia mais chão, nem razão, o mundo nas juntas se desgovernava.
― Repete, Gavião!
― Ai, chefe, ai, chefe: que mataram Joca Ramiro...
― Quem? Adonde? Conta!
Arre, eu surpreendi eriço de tremor nos meus braços. Secou todo cuspe dentro do estreito de minha boca. Até atravessado, na barriga, me doeu. Antes mais, o pobre Diadorim. Alheio ele dava um bufo e soluço, orço que outros olhos, se suspendia nas sussurrosas ameaças. Tudo tinha vindo por cima de nós, feito um relâmpago em fato.
― ...Matou foi o Hermógenes...
― Arraso, cão! Caracães! O cabrobó de cão! Demónio! Traição! Que me paga!... ― constante não havendo quem não exclamasse. O ódio da gente, ali, em verdade, armava um pojar para estouros. Joca Ramiro podia morrer? Como podiam ter matado? Aquilo era como fosse um touro preto, sozinho surdo nos ermos da Guararavacã, urrando no meio da tempestade. Assim Joca Ramiro tinha morrido. E a gente raivava alto, para retardar o surgir do medo ― e a tristeza em crú ― sem se saber por que, mas que era de todos, unidos malaventurados.
― ...O Hermógenes... Os homens do Ricardão... O Antenor... Muitos...
― Mas, adonde onde!?
― A desgraça foi num lugar, na Jerara, terras do Xanxerê, beira da Jerara ― lá onde o córrego da Jerara desce do morro do Voo e cai barra no Riachão... Riachão da Lapa... Diz-se que foi sido de repente, não se esperava. Aquilo foi à traição toda. Morreram os muitos, que estavam persistindo lealmente. Aí, mortos! João Frio, o Bicalho, Leôncio Fino, Luís Pajeú, o Cambó, Leite-de-Sapo, Zé Inocêncio... uns quinze. Até se deu um tiroteio terrível; mas o pessoal do Hermógenes e do Ricardão era demais numeroso... Dons bons, quem pôde, fugiram corretamente. Silvino Silva conseguiu fuga, com vinte e tantos companheiros...
Mas Titão Passos, de arrompe, atalhou a narração, ele agarrou o Gavião-Cujo pelos braços!
― Hem, diá! Mas quem é que está pronto em armas, para rachar Ricardão e Hermógenes, e ajudar a gente na vingança agora, nas desafrontas? Se tem, e ondé então que estão?!
― Ah, sim, chefe. Os todos os outros! João Goanhá, Sô Candelário, Clorindo Campêlo... João Goanhá pára com porçanheira de homens, na Serra dos Quatís. Aí foi ele quem me mandou trazer este aviso... Sô Candelário ainda está para o Norte, mas o grosso dos bandos dele se acha nos pertos da Lagoa-do-Boi, em Juramento... Já foi portador para lá. Sendo que se despachou um positivo também para dar parte a Medeiro Vaz, nos Gerais, no de lado de lá do Rio... Sei que o sertão pega em armas, mas Deus é grande!
― Louvado. Ah, então! graças a Deus! Ao que, então, está bem... ― Titão Passos se cerrou.
E estava. Era a outra guerra. A gente ficávamos aliviados. Aquilo dava um sutil enorme.
― Teremos de ir... Teremos de ir... ― falou Titão Passos, e todos responderam reluzentemente.Tínhamos de tocar, sem atraso, para a Serra dos Quatís, a um lugar dito o Amoipira, que é perto de Grão Mogol. Artes que o Gavião-Cujo ainda contava mais, as miúcias ― parecia que tinha medo de esbarrar de contar. Que o Hermógenes e o Ricardão de muito haviam ajustado entre si aquele crime, se sabia. O Hermógenes distanciou Joca Ramiro de Só Candelário, com falsos propósitos, conduziu Joca Ramiro no meio de quase só gente dele, Hermógenes, mais o pessoal do Ricardão. Aí, atiraram em Joca Ramiro, pelas costas, carga de balas de três revólveres... Joca Ramiro morreu sem sofrer. ― E enterraram o corpo? ― Diadorim perguntou, numa voz de mais dór, como saía ansiada. Que não sabia ― o Gavião-Cujo respondeu; mas que decerto teriam enterrado, conforme cristão, lá mesmo, na Jerara, por certo. Diadorim tanto empalidecesse; ele pediu cachaça. Tomou. Todos tomamos. Titão Passos não queria ter as lágrimas nos olhos. ― Um homem de tão alta bondade tinha mesmo de correr perigo de morte, mais cedo mais tarde, vivendo no meio de gente tão ruim...  ― ele me disse, dizendo num modo que parecia ele não fosse também jagunço, como era de se ser. Mas, agora, tudo principiava terminado, só restava a guerra. Mão do homem e suas armas. A gente ia com elas buscar doçura de vingança, como o rominhol no panelão de calda. Joca Ramiro morreu como o decreto de uma lei nova.
A daí, carecia fosse alguém do lado de lá do morro, pela gente do Alaripe. ― Pois vamos, Riobaldo! ― Diadorim se pós. Vi que ele fervia ali assim no pego do parado. Selamos os cavalos. Serra acima, fomos. Ao no galope, cada um engulia suas palavras. A mesmo estava o céu encoberto, e um mormaço. Mas, na descambada, Diadorim me reteve, me entregou a ponta do cabresto para segurar. ― De tudo nesta vida a gente esquece, Riobaldo. Você acha então que vão logo olvidar a honra dele? ― me perguntou. Devo que retardei muito em responder, com cara de não compreensão. Porque Diadorim completou! ― ...dele, a glória do finado. Do que se finou... E dizia aquilo com uma misturação de carinho e raiva, tanto desespero que nunca vi. Desamontou, foi andando sem governar os passos, tapado pelas môitas e árvores. Eu restei ficando tomando conta do cavalo. Pensei que ele tivesse ido a lá, por necessitar. Mas demorou tanto a volta, que eu resolvi tocar atrás, para o que havia ver, esporei e vim puxando o cavalo dele adestro. E aí o que vi foi Diadorim no chão, deitado debruços. Soluçava e mordia o capim do campo. A doideira. Me amargou, no cabo da língua. ― Diadorim! ― chamei. Ele, sem se aprumar, virou o rosto, apertou os olhos no choro. Falei, falei, meus consolos, e ele atendia, em querelenga, me pedindo que sozinho fosse, deixasse ele ali, até minha volta.
― Joca Ramiro era seu parente, Diadorim? ― eu indaguei, com muita cordura. ― Ah, era, sim... ― ele me respondeu, com uma voz de pouco corpo. ― Seu tio, será? ― Que era... ― ele deu, em gesto. Entreguei a ele o cabresto do cavalo, e continuei ida. Em certa distância, para prevenir os alaripes, e evitar atraso, esbarrei e disparei tiros, para o ar, umas vezes. Cheguei lá, estavam todos reunidos, por meu feliz. E estava chovendo, de acordo com o mormaço. ― Trago notícia de grande morte! ― sem desapear eu declarei. Eles todos tiraram os chapéus, para me escutar. Então, eu gritei! ― Viva a fama do nosso Chefe Joca Ramiro... E, pela tristeza que estabeleceu minha voz, muito me entenderam. Ao que quase todos choraram. ― Mas, agora, temos de vingar a morte do falecido! ― eu ainda pronunciei. Se aprontaram num átimo, para comigo vir. ― Mano velho Tatarana, você sabe. Você tem sustância para ser um chefe, tem a bizarria... ― no caminho o Alaripe me disse. Desmenti. De ser chefe, mesmo, era o que eu tinha menos vontade.
Mas assim se deu que, no seguinte dia, no romper das barras, saímos tocando, Diadorim do meu lado, mudado triste, muito branco, os olhos pisados, a boca vencida. Deixamos para trás aquele lugar, que disse ao senhor, para mim tão célebre ― a Guararavacã do Guaicuí, do nunca mais.
Redeando, rumamos, em tralha e tórto, por aquele a-fora ― a gente ia investir o sertão, os mares de calor. Os córregos estavam sujos. Aí, depois, cada rio roncava cheio, as várzeas embrejavam, e tantas cordas de chuva esfriavam a cacunda daquelas serras. A terrível notícia tinha se espalhado assaz, em todas as partes o povo fazia questão de obsequiar à gente, e falavam muito bem do falecido. Mas nós passávamos, feito flecha, feito faca, feito fogo. Varamos todos esses distritos de gado. Assomando de dia por dentro de vilórios e arraiais, e ocupando a cheio todas as estradas, sem nenhum escondimento: a gente queria que todo o mundo visse a vingança! Alto do Amoipira, quando terminamos lá, os cavalos já afracavam. João Goanhá, em toda economizada estatura, foi ver a gente vindo e abriu seus bons braços. Ele estava com próprios trezentos guerreiros. E sempre outros chegavam. ― Meu irmão Titão Passos... Meu irmão Titão Passos... ― ele falou, crescente. ― E vocês todos, valentes cabras... Agora é que vai ser a grande briga! Disse que com três dias se saía em armas. João Goanhá ia na vaca e no boi: não estava com pororas. E Só Candelário, onde era que estava? Só Candelário, piorado doente, devia de estar um tempo desses nos Lençóis, para onde portador seguira, com pressa de chamado. Mesmo assim, João Goanhá desnecessitava de esperar por ele, para aos dois Judas traidores dar batalha. No que achamos bom conselho. E outros vinham chegando, oferecendo peito de ajuda, com prestança em ponta. Veio até quem não se imaginou! como aquele Nhão Virassaia, com seus trinta e cinco cacundeiros ― o que carregava nome de fama por todo o RioVerde-Grande. E o velho Ludujo Filgueiras, montesclarense, com vinte e dois atiradores. E o grande fazendeiro coronel Digno de Abreu, que mandou, seus, trinta e tantos capangas, também, por Luís de Abreuzinho comandados, que era dele filho-natural. E o gado em pé que se provia, para se abater e se comer, chegava a ser uma boiada. Com sacas de farinha, surrão de sal, e açúcar preto e café ― até em carro-de-bois os mantimentos de fubá e arroz e feijão entregados. Só em quantidades de munição era que a gente não produzia luxo, e Titão Passos se entristeceu de não poder ter trazido a nossa, na Guararavacã tão em vão esperada. Mas a lei de homem não é seus instrumentos. Saímos em guerra. Ahã, do norte, da Lagoa-do-Boi, com troca de avisos, sobrevinha também o bastante da rapaziada dos baianos, debaixo do comando de Alípio Mota, cunhado de Sô Candelário. A simples íamos cercar bonito os Judas, não tinham escape. Aindas que se escapassem para o poente, atravessassem o rio, ah, encontravam ferro e fogo! lá estava Medeiro Vaz ― o rei dos Gerais!
[...]

Guimarães Rosa, em Grande sertão: veredas

04/06/2019

Viver é muito perigoso...

Ilustração: Rodrigo Rosa

[…] No real da vida, as coisas acabam com menos formato, nem acabam. Melhor assim. Pelejar por exato, dá erro contra a gente. Não se queira. Viver é muito perigoso...
A que, o que logo vi, que Marcelino Pampa, por bem de seu dispor, não dava altura. A tento de se acertar nos primeiros rumos de se mexer, ele me chamou, mais João Concliz. ― Os Judas estão aqui mesmo, de nós a umas quinze léguas, e sabem da gente. Deveras atacar, não atacam, com este tempo de todas chuvas e ribeirões cheios. Mas vão fechando modo de rodear a gente, de menos longe, porque a quantidade deles é à farta... Recurso, que eu acho, é dois! ou se fugir para o chapadão, enquanto tempo ― mas é perder toda esperança e diminuir da vergonha... Ou, então, forçar tudo e experimentar um caminho por entremeio deles! se vai para a outra banda do Rio, caçar João Goanhá e os outros companheiros... Mais ainda não sei, quero toda razoável opinião. Assim ele, Marcelino Pampa, disse. ― Mas, se souberem a notícia que Medeiro Vaz morreu, hoje mesmo é capaz que sejam de vir em riba de nós... ― foi o que João Concliz achou; e estava muito certo. Eu não atinava com o que dizer, as confusões dessas horas me encostavam. O que era, na situação, que Medeiro Vaz havia de fazer? E Joca Ramiro? E Sô Candelário? Ao esmo, esses pensamentos em mim. Ai de, foi que reconheci como súcia de homens carece de uma completa cabeça. Comandante é preciso, para aliviar os aflitos, para salvar a ideia da gente de perturbações desconformes. Não sabia, hoje será que sei, a regra de nenhum meio-termo. Sem ação, eu podia gastar ali minha vida inteira, debulhando. Também, logo depois, depois de muitos silêncios e poucas palavras, Marcelino Pampa resolveu que, de tarde, nossa conversa ia ter repetição. Atontados, três.
Dali, fui para perto de Diadorim. ― Riobaldo, ― ele mal disse ― você está vendo que não temos remédio... Aí, esbarrou, pensou um tempo, com uma mão por cima da outra. ― E vocês, que foi que determinaram de se fazer? ― me perguntou. Respondi! ― Hoje de tarde é que se toma decisão, Diadorim. Você está mal satisfeito? Ele endireitou o corpo. Foi, falou! ― Sei o meu. Cá por mim, isso tudo pouco adianta. Quente quero poder chegar junto dum dos Judas, para terminar! Eu sabia que ele falava coisas de pelejar por cumprir. Eu tinha mais cansaço, mais tristeza. ― Quem sabe, se... Para ter jeito de chegar perto deles, até se não era melhor... ― assim ele desabafou, em trago; e recolhido num estado de segredo. Por seus grandes olhos, onde aquilo redondeou, cri que armasse agarrar o comando, por meio de acender o bando todo em revolta. Qualquer loucura, semelhante, era a dele. Mas, não; mais disse: ― Foi você, mesmo, Riobaldo, quem governou tudo, hoje. Você escolheu Marcelino Pampa, você decidiu e fez... Era. Gostei, em cheio, de escutar isso, soprante. Ah, porém, estaquei na ponta dum pensamento, e agudo temi, temi. Cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo!
Mas, depois de janta, quando estávamos outra vez reunidos ― Marcelino Pampa, eu e João Concliz, ― não se teve nem o tempo de principiar. Pelo que ouvimos: um galope, o chegar, o riscar, o desapêio, o xaxaxo de alpercatas. Sendo assim o Feliciano e o Quipes, que traziam um vaqueirinho, escoltado. Que vieram quase correndo. O vaqueirinho não devia de ter mais de uns quinze anos, e as feições dele mudavam ― de mestre pavor.
― Arte, que este tal passou, às fugas, meio arupa. Pegamos. Aí ele tem grande coisa pra contar... ― e empurraram um pouco o vaqueirinho. De medo ― a gente olhava para ele ― e de nossos olhos ele se desencostava. Afe, por fim, bebeu gole de ar, e soluceou:
― E um homem... Só sei... E um homem...
― Te acerta, mocinho. Aqui você está livre e salvo. Aonde é que está indo? ― Marcelino Pampa regrou.
― E briga enorme... E um homem... Vou indo pra longe, para a casa de meu pai... Ah, é um homem... Ele desceu o Rio Paracatú, numa balsa de burití...
― Que foi mais que o homem fez? ― então João Concliz perguntou.
― Deu fogo... O homem, com mais cinco homens... Avançaram do mato, deram fogo contra os outros. Os outros eram montão, mais duns trinta. Mas fugiram. Largaram três mortos, uns feridos. Escaramuçados. Ei! E estavam a cavalo... O homem e os cinco dele estão a pé. Homem terrível... Falou que vai reformar isto tudo! Vieram pedir sal e farinha, no rancho. Emprestei. Tinham matado um veadinho campeiro, me deram naca de carne...
― Qual é que é o nome dele? Fala! Como é que os outros dizem? Aí e que jeito, que semelhança de figura é que ele tem?
― Ele? O jeito que é o dele, que ele tem? Em é mais baixo do que alto, não é velho, não é moço... Homem branco... Veio de Goiás... O que os outros falam e tratam! Deputado. Desceu o Rio Paracatú numa balsa de burití... ― Estávamos em jejum de briga... ― ele mesmo disse. Ele e seus cinco deram fogo feito feras. Gritavam de onça e de uivado... Disse! vai remexer o mundo! Desceu o Rio Paracatú numa balsa de burití... Desceram... Nem cavalo eles não têm...
― E ele! Mas é ele! Só pode ser... ― aí alguém lembrou. ― E é. E, então, está do nosso lado! ― outro completou.
― Temos de mandar por ele... ― foi a palavra de Marcelino Pampa. ― Onde é que estará? Na Pavoã? Alguém tem de ir lá... ― E ele... E ver a vida! quem pensava? E é homem danado, zuretado... ― Está a favor da gente... E ele sabe guerrear... E era. Repegava a chuva, trozante, mas mesmo assim o Quipes e Cavalcânti montaram e saíram por ele, da Pavoã no rumo. De certo não acharam fácil, pois até à hora de escurecer não tinham aparecido. Mas! aquele homem, para que o senhor saiba, ― aquele homem! era Zé Bebelo. E, na noite, ninguém não dormiu direito, em nosso acampo. De manhã, com uma braça de sol, ele chegou. Dia da abelha branca.
De chapéu desabado, avantes passos, veio vindo, acompanhado de seus cinco cabras. Pelos modos, pelas roupas, aqueles eram gente do Alto Urucúia. Catrumanos dos gerais. Pobres, mas atravessados de armas, e com cheias cartucheiras. Marcelino Pampa caminhou ao encontro dele; seguinte de nosso comandante, nós formávamos. Valia ver. Essas cerimônias.
― Paz e saúde, chefe! Como passou?
― Como passou, mano?
Os dois grandes se saudavam. Aí Zé Bebelo reparou em mim:
― Professor, ara viva! Sempre a gente tem de se avistar... De nomes e caras de pessoas ele em tempo nenhum se esquecia. Vi que me prezava cordial, não me dando por traidor nem falso. Riu redobrado. De repente, desriu. Refez pé para trás.
― Vim de vez! ― ele disse; disse desafiando, quase.
― Em boa veio, chefe! E o que todos aqui representamos... ― Marcelino Pampa respondeu.
― A pois. Salve Medeiro Vaz!...
― Deus com ele, amigo. Medeiro Vaz ganhou repouso…
― Aqui soube. Lux eterna... ― e Zé Bebelo tirou o chapéu e se persignou, parando um instante sério, num ar de exemplo, que a gente até se comoveu. Depois, disse:
― Vim cobrar pela vida de meu amigo Joca Ramiro, que a vida em outro tempo me salvou de morte... E liquidar com esses dois bandidos, que desonram o nome da Pátria e este sertão nacional! Filhos da égua... ― e ele estava com a raiva tanta, que tudo quanto falava ficava sendo verdade.
― Pois, então, estamos irmãos... E esses homens?
Os urucuianos não abriram boca. Mas Zé Bebelo rodeou todos, num mando de mão, e declarou forte o seguinte:
― Vim por ordem e por desordem. Este cá é meus exércitos!...
Prazer que foi, ouvir o estabelecido. A gente quisesse brigar, aquele homem era em frente, crescia sozinho nas armas.
Vez de Marcelino Pampa dizer!
― Pois assim, amigo, por que é que não combinamos nosso destino? Juntos estamos, juntos vamos.
― Amizade e combinação, aceito, mano velho. Já, ajuntar, não. Só obro o que muito mando; nasci assim. Só sei ser chefe.
Sobre curto, Marcelino Pampa cobrou de si suas contas. Repuxou testa, demorou dentro dum momento. Circulou os olhos em nós todos, seus companheiros, seus brabos. Nada não se disse. Mas ele entendeu o que cada vontade pedia. Depressa deu, o consumado!
― E chefe será. Baixamos nossas armas, esperamos vossas ordens...
Com coragem falou, como olhou para a gente outra vez.
― Acordo! ― eu disse, Diadorim disse, João Concliz disse; todos falaram! ― Acordo!
Aí Zé Bebelo não discrepou pim de surpresa, parecia até que esperava mesmo aquele voto. ― De todo poder? Todo o mundo lealda? ― ainda perguntou, ringindo seriedade. Confirmamos. Então ele quase se aprumou nas pontas dos pés, e nos chamou!
― Ao redor de mim, meus filhos. Tomo posse! Podia-se rir. Ninguém ria. A gente em redor dele, misturando em meio nosso os cinco homens do Urucúia. Adiante! ― Pois estamos. E o duro diverso, meu povo. Mas os assassinos de Joca Ramiro vão pagar, com seiscentos-setecentos!... ― ele definiu, apanhando um por um de nós no olhar. ― Assassinos ― eles são os Judas. Desse nome, agora, que é o deles... ― explicou João Concliz.
― Arre, vote! dois judas, podemos romper as alelúias! Alelúia! Alelúia! Carne no prato, farinha na cúia!... ― ele aprovou, deu aquilo feito um viva. Nós respondemos. E assim era que Zé Bebelo era. Como quando trovejou: desse trovoo de alto e rasto, dos gerais, entrementes antes dos gotêjos de chuva esquentada: o trovão afunda largo, pé da gente apalpa a terra. Conforme foi: trovejou de cala-a-boca ― e Zé Bebelo tocou um gesto de costas da mão, respeitoso disse: ― Isto é comigo... Do que se tratava, retorno e conto, ele o seguinte revelou: ― Tudo eu não tinha, com os meus, munição para nem meia-hora... A gente reconheceu mais a coragem dele. Isto é, qualquer um de nós sabia que aquilo podia ser mentira. Mesmo por isso, somenos, por detrás de tanta papagaiagem um homem carecia de ter a valentia muito grande.
Guimarães Rosa, in Grande sertão: veredas