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06/08/2025

A Casa do Girassol Vermelho


Vós sois o sal da terra. E se o sal perder a sua força, com que outra coisa se há de salgar?
(Mateus, V, 13)

O entusiasmo era contagiante. Febril. Uma alegria física inundava as faces que até a véspera permaneciam ressentidas. O que veio antes e depois ficará para mais tarde. Mas o que importa, se naquela manhã a alegria era desbragada!
Xixiu mal olhou para fora, ficou alucinado com a paisagem. Parecia um monstro. Da janela mesmo gritou para o universo, que se compunha de quatro pessoas, além dele e de minha irmã Belsie:
Nanico, sujeito safado! Tá namorando, não é, seu animal de rabo?!
Nanico tirou rapidamente a mão dos seios de Belinha e respondeu desajeitado:
Tou.
Apenas Belinha, que estava gostando do jardim e das mãos do companheiro, não se conformou com a intervenção do Xixiu, irmão dela. No entanto, disfarçou a irritação. Ninguém se irritava naquele dia. Com naturalidade, virou-se para mim, que beijava a um canto a suave Marialice, e propôs:
Vamos trocar, Surubi, você fica comigo e o besta do seu irmão se ajunta com a hipócrita da minha irmã.
Se fosse em outra ocasião a proposta seria recusada e o negócio teria dado em briga. Mas naquela manhã quente, queimada por um sol violento, a Casa do Girassol Vermelho, com os seus imensos jardins, longe da cidade e do mundo, respirava uma alegria desvairada.
A troca foi feita sem comentários, enquanto Xixiu, arrastando Belsie pelas mãos, saía da Casa soltando estilhaços:
Minhas irmãs não são isso que vocês imaginam, corja de salafrários! Ah, se o velho Simeão fosse vivo!
E, exaltado, gargalhava:
Pouca-vergonha! Pensam que elas são iguais à sua?!
Momentaneamente os estilhaços me feriram e lhe atingi o rosto com um soco que levava todos os meus noventa quilos de peso.
Caiu rindo no chão. Despudoradamente, Belsie ria também. Rimos todos — Belinha cerrou a minha boca com o seu riso e seus beijos.
Sua irmã, avessa às expansões mais rudes, sugeriu, com uma voz cariciosa, que fôssemos para a represa.
O primeiro a concordar foi Xixiu. Nem esperou pela nossa aquiescência. Colocou sua mulher nas costas e saiu galopando pela estradinha. Seguimos atrás, os braços dados. Habituado à sensualidade de Belinha, Nanico vinha por último, constrangido com o ar etéreo de Marialice.

Descansamos por algum tempo na relva que circundava o açude. Um quase nada, porque a minha companheira, despindo-se, obrigou-me a imitá-la, e mergulhar na represa. Quando os outros casais resolveram acompanhar-nos, Belinha já se cansara de suas diabruras aquáticas e, da margem, fazia-me sinais para que eu saísse d’água.
Custei a sair, pois todas as vezes que tentava alcançar o relvado, ela pisava nas minhas mãos e eu era forçado a recuar. Só o consegui nadando em direção à margem oposta. Galguei o barranco e vim correndo ao encontro dela, enfurecido, pronto a lhe bater. Agarrei o seu corpo ainda molhado e apertei-o com força. Gemeu, chamou-me de boçal e comigo rolou na relva macia.
Estávamos alheios a tudo que não fosse nós mesmos, quando Xixiu, frenético, nos ameaçou com o passado:
Cambada de imorais! Se o velho Simeão estivesse vivo sairia tiro!
Belinha assustou-se e, transtornada pelo terror, murmurou entre os dentes as palavras do irmão: “Se o velho estivesse vivo...”. Repetia a frase, repetia, convulsa, enlouquecida, apertava os seios contra o meu peito. Dava uma entonação de violento prazer às suas palavras, colando, a espaços, os seus lábios nos meus:
Velho Simeão, o monstro. Está enterrado, irremediavelmente perdido na boca asquerosa dos vermes. Eles não têm boca, nem lábios, nem nada, porém o carrasco, o odiento, está perdido. (Raciocinava alto, derramando ferozmente no meu físico a satisfação pela morte do velho.)
Todos nós fôramos tocados por uma centelha diabólica, que nos fazia buscar, ansiosos, no prazer, o esquecimento dos dias de desespero do passado.
Xixiu atravessara os limites da alucinação. De pé, como um gigante ressentido, lançou o seu desafio:
Velho Simeão, maldito Satanás! O seu corpo servirá de esterco às nossas cebolas!
Soltou palavrões, insultou a memória do morto e mergulhou no açude. Reapareceu mais adiante, mostrando uma fisionomia dura, para desaparecer, logo depois, numa curva. Não demos maior importância ao fato. Ele voltaria em seguida, já esquecido das torturas que, anos seguidos, sofrêramos nas mãos do nosso pai adotivo.

Ah! Se o velho Simeão fosse vivo! Aquele porco imundo, puritano hipócrita!
Enquanto viveu sua esposa, dona Belisária, tudo corria bem, sem que tivéssemos saudade da vila, onde passávamos fome junto às nossas famílias. Boa senhora. Arrancara-nos da miséria, para nos criar e consolar-se da falta de filhos.
Se nos excedíamos em molecagens, Simeão, fazendeiro forte e rude, nos olhava com o rabo dos olhos, ocultando seus sinistros pensamentos. Sua mulher, entretanto, não permitia que ele nos aplicasse o tratamento que dava aos empregados, nos quais fazia o uso frequente do chicote.
Com a morte da velha, anos depois, o marido começou a nos perseguir. A primeira providência foi separar-nos. Nem mesmo de nossa irmã eu e Nanico podíamos aproximar-nos.
Para nos comunicarmos tínhamos que procurá-la, furtivamente, aproveitando o momento em que todos dormiam na casa. Certa noite, Xixiu, o mais rebelde e que vivia inconformado com a proibição, foi apanhado conversando com Belsie no aposento das moças. O velho Simeão armou um escândalo medonho e, no dia seguinte, mandou buscar um padre para casá-los:
Sou homem de moral rígida e não admito imoralidades em meu lar.
Xixiu, que acabara de completar dezenove anos, não lhe perdoou a frase nem a antecipação do matrimônio. Há muito ele e minha irmã vinham alimentando sonhos de namorados e a parte principal, em seus devaneios, era o vestido de noiva, com grinalda e véu, que Belsie usaria na cerimônia nupcial.
Para que o rancor do meu cunhado chegasse ao máximo, o velho não permitiu que os noivos dormissem juntos, mantendo a proibição de nossos encontros com as jovens.
Daí por diante, ao menor motivo, eles passaram a se insultar. Num desses atritos, em que Xixiu afirmou que dona Belisária morrera virgem porque o marido considerava pecado o ato sexual, os dois se atracaram com fúria.
Foi uma luta dura. Se bem que mais fraco do que seu adversário, o rapaz não lhe dava margem para tirar grande vantagem da desproporção de forças.
Admirávamos de longe a bravura do companheiro. Se a briga fosse comigo, já teria liquidado Simeão, o que não seria nenhuma façanha, dado o meu físico agigantado. Eu, entretanto, reagia com lentidão e gostava de passar o tempo, se me davam folga, contemplando os olhos doces de Marialice.
Havia duas horas que trocavam pescoções. Sentíamos que o meu cunhado começava a fraquejar, a perder, porém não intervínhamos na luta.
Todavia, numa hora em que Xixiu levou uma pancada mais violenta e caiu, avancei para o velho e lhe dei uma dúzia de socos no rosto. Não precisava de tanto. Um murro fora o suficiente para imobilizá-lo. Os restantes serviram para que ele tombasse desmaiado.
A turma delirou. Levantamos Xixiu e, juntos, as mãos dadas, dançamos em torno do corpo do vencido. Esperamos que voltasse a si. Quando recobrou os sentidos, não se mexeu. Limitou-se a nos olhar com raiva. Continuamos a dançar pela tarde adentro. (Todos os acontecimentos alegres da nossa existência eram comemorados com bailados coletivos.)

A desforra de Simeão não tardou. Na noite do mesmo dia, seguido por dois empregados, ele entrou sorrateiramente no meu quarto e me levou amordaçado para o terreiro.
Amarraram-me a uma árvore e me moeram de pancadas. Xixiu e Nanico encontraram-me, na manhã seguinte, ainda amarrado, o corpo cheio de equimoses e coágulos de sangue. Trataram-me e, silenciosos, me reconduziram para dentro de casa.
Passei alguns dias de cama, remoendo funda revolta, urdindo planos de uma vingança completa, que tiraria tão logo me recuperasse. Arrebentaria o velho a pontapés, ele poderia esperar. Meu irmão tentou dissuadir-me da ideia. Simeão passara a andar armado e acompanhado de um preto fortíssimo.
O rancor me consumia. Espreitava os menores movimentos do nosso pai adotivo. Todo o dia. De madrugada, costumava passar repetidas vezes pela porta do seu quarto, sempre guardada pelo crioulo. Ah! Se eu os pegasse dormindo. Matava os dois.
Três anos durou aquela guerra surda. Até que um dia o velho sofreu um distúrbio cardíaco e veio a falecer. Mal soubemos da notícia, corremos ao encontro das moças, agora livres da mulherona encarregada de vigiá-las.
E demos início à festa. Amarramos a mulher e, em seguida, pegamos o negro. Trouxemos a cama de Simeão para o jardim, onde estendemos o cadáver. Enfiamos uma rosa vermelha em suas mãos e cuspimos na sua face.
Quem levou a primeira surra foi a mulher. O crioulo, mandei que o soltassem: queria bater nele sozinho, livre.
Ao certificar-se de que tinha um só contendor pela frente, exultou. Não por muito tempo. Os meus punhos, caindo no seu corpo, na sua cara, com toda a raiva que me provocava a lembrança do seu patrão, fizeram-lhe ver que estava perdido.
Liquidado o preto, que ficou estirado no chão, recomeçamos o bailado de três anos atrás. Dançamos, cantamos até a noite nos encontrar exaustos. (Xixiu gritava convulso.)

Isto fora na véspera. Agora a alegria era desbragada. Pisávamos na memória do velho Simeão, escarrando no passado. No dia anterior cuspíramos no seu rosto defunto.
As horas haviam passado despercebidas, como também se extinguira o delírio que, desde aquela tarde, nos tomara de assalto. A noite já começara a fragmentar o dia.
Belinha, a sensual Belinha dos seios brancos, cobria, em silêncio, a sua nudez. Os seus olhos machucados e distraídos evitavam o meu corpo despido. Estávamos constrangidos e preocupados, sob o alheamento de Nanico e Marialice, imersos na euforia de uma mútua contemplação. Minha irmã, inquieta, aparecia e desaparecia por entre os arbustos que mais adiante cercavam o açude. Procurava o heroico mentecapto. Brincadeiras como aquela ele as fazia com frequência: o seu cérebro desgovernado exigia desgastes físicos violentos.
Um pressentimento mau passou pela mente de Belsie e nos assustou com um grito feroz:
Ouuu, Xixiu! Volta, demônio!
Gritou mais, arrancando-nos de nossa momentânea perplexidade. Corremos ao encontro dela e, juntos, demos, às carreiras e aos gritos, várias voltas pelas margens da represa.
Desistimos. Nunca mais voltaria.
A noite caminhara muito e todos nós adquirimos a certeza de que Xixiu fora ao encontro de Simeão. Invejamos a luta gloriosa a que não iríamos assistir, os gritos que ele soltaria ao esmagar o velho carrasco.
Belsie teve que ser arrastada. Não se conformava. A face marcada por intenso sofrimento, os lábios moles, chamava pelo marido:
Volta, Xixiu. Volta.
A voz perdera a primitiva ferocidade e da sua garganta brotavam preces.

 
Voltávamos cansados, as fisionomias tensas. A ausência de Xixiu, uma pesada ausência, nos esmagava. Com a deserção do grande companheiro, iam-se os anos heroicos da luta contra o velho Simeão. Agora pelejaria só, sem a nossa assistência, os nossos aplausos. Mas venceria.
O nosso silêncio não representava nada mais do que um desejo, medrosamente abafado, de acompanhar as suas pegadas e presenciar o derradeiro combate. Faltava, entretanto, quem tomasse a iniciativa.

Ficara na represa.
Carregaríamos, daquele dia em diante, a sua obcecante recordação. A Casa do Girassol Vermelho se dobraria sobre as próprias ruínas. (Quem soltaria os estilhaços e nos convidaria para os assaltos decisivos, os grandes gritos de revolta?)
Sabíamos que nada mais seria importante, digno da violência, da paixão. Um futuro mesquinho nos aguardava: Belsie se amarraria a um agressivo mutismo. Marialice e Nanico — dois idiotas — olhariam um para o outro indefinidamente, alheios a qualquer determinação de romper com o mundo. Belinha, sem os apelos do irmão, não sentiria explodir a carne e guardaria para si o fruto da fecundação. Eu, gigante bronco, viveria de braços caídos.

Um trem apitou ao longe e, ao passar por nós, deixou uma esteira de fagulhas. Dos carros, que seguiam velozes, saltavam quadradinhos prateados. Cheios de gente. Além de nós, havia no mundo mais alguém.
Era preciso reagir. Avancei resoluto pela estrada e, atravessando na frente dos companheiros, exigi que parassem.
Firme, os punhos cerrados, conclamei todos para a luta, que seria contra a sombra do velho Simeão. Tracei planos para a campanha, ameacei, gritei. Aos poucos minha voz foi amortecendo.
Olhavam-me mudos, os rostos sem esperança. (Xixiu morrera mesmo.)
Dei-me por vencido. Não adiantava lutar. Tudo se quebrara.
Humilhado, sentindo a desaprovação de todos, virei-me com ternura para Belinha e lhe disse comovido:
Este foi o último dia.
Não respondeu. Esticou para o alto os olhos inexpressivos e embaçados. Abaixou-os depois para o ventre, onde começavam a surgir as primeiras pétalas de um minúsculo girassol vermelho.

Murilo Rubião, em Obra Completa

31/07/2025

O edifício

Chegará o dia em que os teus pardieiros se transformarão em edifícios; naquele dia ficarás fora da lei.
(Miqueias, VII, 11)

Mais de cem anos foram necessários para se terminar as fundações do edifício que, segundo o manifesto de incorporação, teria ilimitado número de andares. As especificações técnicas, cálculos e plantas, eram perfeitas, não obstante o ceticismo com que o catedrático da Faculdade de Engenharia encarava o assunto. Obrigado a se manifestar sobre a matéria, por alunos insatisfeitos com o tom reticencioso do mestre, resvalava para a malícia afirmando tratar-se de “vagas experiências de outra escola de concretagem”.
Batida a última estaca e concluídos os alicerces, o Conselho Superior da Fundação, a que incumbia a direção-geral do empreendimento, dispensou os técnicos e operários, para, em seguida, recrutar nova equipe de profissionais e artífices.

1. A LENDA

Ao engenheiro responsável, recém-contratado, nada falaram das finalidades do prédio. Finalidades, aliás, que pouco interessavam a João Gaspar, orgulhoso como se encontrava de, no início da carreira, dirigir a construção do maior arranha-céu de que se tinha notícia.
Ouviu atentamente as instruções dos conselheiros, cujas barbas brancas, terminadas em ponta, lhes emprestavam aspecto de severa pertinácia.
Davam-lhe ampla liberdade, condicionando-a apenas a duas ou três normas, que deveriam ser corretamente observadas. A sua missão não seria somente exercer funções de natureza técnica. Envolvia toda a complexidade de um organismo singular. Os menores detalhes do funcionamento da empresa construtora estariam a seu cargo, cabendo-lhe proporcionar salários compensadores e constante assistência ao operariado. Competia-lhe, ainda, evitar quaisquer motivos de desarmonia entre os empregados. Essa diretriz, conforme lhe acentuaram, destinava-se a cumprir importante determinação dos falecidos idealizadores do projeto e anular a lenda corrente de que sobreviveria irremovível confusão no meio dos obreiros ao se atingir o octingentésimo andar do edifício e, consequentemente, o malogro definitivo do empreendimento.
No decorrer das minuciosas explicações dos dirigentes da Fundação, o jovem engenheiro conservou-se tranquilo, demonstrando absoluta confiança em si, e nenhum receio quanto ao êxito das obras. Houve, todavia, uma hora em que se perturbou ligeiramente, gaguejando uma frase ambígua. Já terminara a entrevista e ele recolhia os papéis espalhados pela mesa, quando um dos velhos o advertiu:
Nesta construção não há lugar para os pretensiosos. Não pense em terminá-la, João Gaspar. Você morrerá bem antes disso. Nós que aqui estamos constituímos o terceiro Conselho da entidade e, como os anteriores, jamais alimentamos a vaidade de sermos o último.

2. A ADVERTÊNCIA

A mesma orientação que recebera dos seus superiores, o engenheiro a transmitiu aos subordinados imediatos. Nem sequer omitiu a advertência que o encabulara. E vendo que suas palavras tinham impressionado bem mais a seus ouvintes do que a ele as do ancião, sentiu-se plenamente satisfeito.

3. A COMISSÃO

João Gaspar era meticuloso e detestava improvisações. Antes de encher-se a primeira fôrma de concreto, instituiu uma comissão de controle para fiscalizar o pessoal, organizar tabelas de salários e elaborar um boletim destinado a registrar as ocorrências do dia.
Essa medida valeu maior rendimento de trabalho e evitou, por diversas vezes, dissensões entre os assalariados.
A fim de estimular a camaradagem entre os que lidavam na construção, desenvolviam-se aos domingos alegres programas sociais. Devido a esse e outros fatores, tudo corria tranquilamente, encaminhando-se a obra para as etapas previstas.
De cinquenta em cinquenta andares, João Gaspar oferecia uma festa aos empregados. Fazia um discurso. Envelhecia.

4. O BAILE

Inquietante expectativa marcou a aproximação do 800o pavimento. Redobraram-se os cuidados, triplicou-se o número de membros da Comissão de Controle, cuja atividade se tornara incessante, superando dificuldades, aplainando divergências. Deliberadamente, adiou-se o baile que se realizava ao termo de cada cinquenta pisos concluídos.
Afinal, dissiparam-se as preocupações. Haviam chegado sem embaraços ao octingentésimo andar. O acontecimento foi comemorado com uma festa maior que as precedentes.
Pela madrugada, porém, o álcool ingerido em demasia e um incidente de pequena importância provocaram um conflito de incrível violência. Homens e mulheres, indiscriminadamente, se atracaram com ferocidade, transformando o salão num amontoado de destroços. Enquanto cadeiras e garrafas cortavam o ar, o engenheiro, aflito, lutava para acalmar os ânimos. Não conseguiu. Um objeto pesado atingiu-o na cabeça, pondo fim a seus esforços conciliatórios. Quando voltou a si, o corpo ensanguentado e dolorido pelas pancadas e pontapés que recebera após a queda, sentiu-se vítima de terrível cilada. De modo inesperado, cumprira-se a antiga predição.

5. O EQUÍVOCO

Depois do incidente, João Gaspar trancou-se em casa, recusando-se a receber os seus mais íntimos colaboradores, para não ouvir deles palavras de consolo.
Já que se fazia impossível continuar as obras, desejava, ao menos, descobrir o erro em que incorrera. Acreditava ter obedecido fielmente às instruções do Conselho. Se fracassara, a culpa deveria ser atribuída à omissão de algum detalhe desconhecido da profecia.
A insistência dos auxiliares venceu sua teimosia e concordou em atendê-los. Queriam saber por que desanimara, não mais comparecera ao edifício. Ficara ressentido pela briga?
Que adiantaria a minha presença? Não lhes satisfez a minha humilhação?
Como? — indagaram. — Aquilo fora uma simples bebedeira. — Estavam todos envergonhados com o que acontecera e lhe pediam desculpas.
E ninguém abandonou o trabalho?
Ante a resposta negativa, ele se abraçou aos companheiros:
Daqui para frente nenhum obstáculo interromperá nossos planos! (Os olhos permaneciam umedecidos, mas os lábios ostentavam um sorriso de altivez.)

6. O RELATÓRIO

Em ambiente calmo, todos se empenhando nas suas tarefas, mais noventa e seis andares foram acrescidos ao prédio. As coisas seguiam perfeitas, a média de trabalho dos assalariados era excelente.
Empolgado por um delirante contentamento, o engenheiro distribuía gratificações, desfazia-se em gentilezas com o pessoal, vagava pelas escadas, debruçava-se nas janelas, dava pulos, enrolava nas mãos as barbas embranquecidas.
Para prolongar o sabor do triunfo, que o cansaço começava a solapar, ocorreu-lhe redigir um circunstanciado relatório aos diretores da Fundação, contando os pormenores da vitória. Demonstraria também a impossibilidade de surgirem, no futuro, outras profecias que pudessem embaraçar o prosseguimento das obras. Ultimado o memorial, ele se dirigiu à sede do Conselho, lugar em que estivera poucas vezes e em época bem remota. Em vez dos cumprimentos que julgava merecer, uma surpresa o aguardava: haviam morrido os últimos conselheiros e, de acordo com as normas estabelecidas após a desmoralização da lenda, não se preencheram as vagas abertas.
Ainda duvidando do que ouvira, o engenheiro indagou ao arquivista — único auxiliar remanescente do enorme corpo de funcionários da entidade — se lhe tinham deixado recomendações especiais para a continuação do prédio.
De nada sabia, nem mesmo por que estava ali, sem patrões e serviços a executar.
Ansiosos por descobrir documentos que os orientassem, atiraram-se à faina de revolver armários e arquivos. Nada conseguiram. Só encontraram especificações técnicas e uma frase que, amiúde, aparecia à margem de livros, relatórios e plantas: “É preciso evitar-se a confusão. Ela virá ao cabo do octingentésimo pavimento”.

7. DÚVIDA

Esvaíra-se a euforia de João Gaspar. Vago e melancólico, retornou ao edifício. Da última laje, as mãos apoiadas na cintura, teve um momento de mesquinha grandeza, julgando-se senhor absoluto do monumento que estava a seus pés. Quem mais poderia ser, desde que o Conselho se extinguira?!
Fugaz foi o seu desmedido orgulho. Ao regressar a casa, onde sempre faltara a diligência de uns dedos femininos, as dúvidas o perseguiam. Por que legavam a um mero profissional tamanho encargo? Quais os objetivos dos que tinham idealizado tão absurdo arranha-céu?
As perguntas iam e vinham, enquanto o edifício se elevava e menores se faziam as probabilidades de se tornar claro o que nascera misterioso.
Sorrateiro, o desânimo substituiu nele o primitivo entusiasmo pela obra. Queixava-se aos amigos do tédio que lhe provocava o infindável movimento de argamassa, pedra britada, formas de madeira, além da angústia que sentia, vendo o monótono subir e descer de elevadores.
Quando a ansiedade ameaçou levá-lo ao colapso, convocou os trabalhadores para uma reunião. Explicou-lhes, com enfática riqueza de detalhes, que a dissolução do Conselho obrigava-o a paralisar a construção do edifício.
Falta-nos, agora, um plano diretor. Sem este não vejo razões para se construir um prédio interminável — concluiu.
Os operários ouviram tudo com respeitoso silêncio e, em nome deles, respondeu firme e duro um especialista em concretagem:
Acatamos o senhor como chefe, mas as ordens que recebemos partiram de autoridades superiores e não foram revogadas.

8. O DESESPERO

João Gaspar, inutilmente, apelaria para a compreensão dos servidores. Usava recursos convincentes, numa linguagem branda, porque seus propósitos eram pacíficos. Igualmente corteses, os empregados repeliam a ideia de abandonar o trabalho.
Ouçam-me — pedia ele, impaciente com a obstinação dos subordinados. — É inexequível um monstro de ilimitados pavimentos! Seria necessário que as fundações fossem reforçadas à medida que se aumentasse o número de andares. Também isso é impraticável.
Apesar de ouvido sempre com atenção, não convencia a ninguém. E teve que assumir uma atitude de intransigência, demitindo todo o pessoal.
Os operários se negaram a aceitar o ato de dispensa. Alegavam a irrevogabilidade das determinações dos falecidos conselheiros. Por fim, disseram que iriam trabalhar à noite e aos domingos, independente de qualquer pagamento adicional.

9. O ENGANO

A decisão dos assalariados de aumentar o número de horas de serviço deu novo alento ao engenheiro, que esperava vê-los vencidos pela estafa, pois lhes seria impossível manter por muito tempo semelhante esforço coletivo.
Logo verificaria seu engano. Além de não apresentarem sinais de cansaço, para ajudá-los vieram das cidades vizinhas centenas de trabalhadores que se dispunham a auxiliar gratuitamente os colegas. Vinham cantando, sobraçando as ferramentas, como se preparados para longa e alegre campanha.
Pouco adiantava recusar-lhes a colaboração, eles mesmos escolhiam as tarefas e as iniciavam com entusiasmo, indiferentes à agressiva repulsa de João Gaspar.

10. OS DISCURSOS

Vendo multiplicar as levas de voluntários, o engenheiro não teve mais ânimo de enxotá-los. Passou a percorrer, um por um, os andaimes, exortando-os a abandonar o trabalho. Fazia longos discursos e, muitas vezes, caía desfalecido de tanto falar.
A princípio, os empregados se desculpavam, constrangidos por não ouvirem atentamente as suas palavras. Com o passar dos anos, habituaram-se a elas e as consideravam peça importante nas recomendações recebidas pelo engenheiro-chefe antes da dissolução do Conselho.
Não raro, entusiasmados com a beleza das imagens do orador, pediam-lhe que as repetisse. João Gaspar se enfurecia, desmandava-se em violentos insultos. Mas estes vinham vazados em tão bom estilo, que ninguém se irritava. E, risonhos, os obreiros retornavam ao serviço, enquanto o edifício continuava a ganhar altura.

Murilo Rubião, em Obra Completa

29/06/2025

A flor de vidro

E haverá um dia conhecido do Senhor que não será dia nem noite, e na tarde desse dia aparecerá a luz.
(Zacarias, XIV, 7)

Da flor de vidro restava somente uma reminiscência amarga. Mas havia a saudade de Marialice, cujos movimentos se insinuavam pelos campos — às vezes verdes, também cinzentos. O sorriso dela brincava na face tosca das mulheres dos colonos, escorria pelo verniz dos móveis, desprendia-se das paredes alvas do casarão. Acompanhava o trem de ferro que ele via passar, todas as tardes, da sede da fazenda. A máquina soltava fagulhas e o apito gritava: Marialice, Marialice, Marialice. A última nota era angustiante.
Marialice!
Foi a velha empregada que gritou e Eronides ficou sem saber se o nome brotara da garganta de Rosária ou do seu pensamento.
Sim, ela vai chegar. Ela vai chegar!
Uma realidade inesperada sacudiu-lhe o corpo com violência. Afobado, colocou uma venda negra na vista inutilizada e passou a navalha no resto do cabelo que lhe rodeava a cabeça.
Lançou-se pela escadaria abaixo, empurrado por uma alegria desvairada. Correu entre aleias de eucaliptos, atingindo a várzea.
Marialice saltou rápida do vagão e abraçou-o demoradamente:
Oh, meu general russo! Como está lindo!
Não envelhecera tanto como ele. Os seus trinta anos, ágeis e lépidos, davam a impressão de vinte e dois — sem vaidade, sem ânsia de juventude.
Antes que chegassem a casa, apertou-a nos braços, beijando-a por longo tempo. Ela não opôs resistência e Eronides compreendeu que Marialice viera para sempre.
Horas depois (as paredes conservavam a umidade dos beijos deles), indagou o que fizera na sua ausência.
Preferiu responder à sua maneira:
Ontem pensei muito em você.

A noite surpreendeu-os sorrindo. Os corpos unidos, quis falar em Dagô, mas se convenceu de que não houvera outros homens. Nem antes nem depois.

As moscas de todas as noites, que sempre velaram a sua insônia, não vieram.

Acordou cedo, vagando ainda nos limites do sonho. Olhou para o lado e, não vendo Marialice, tentou reencetar o sono interrompido. Pelo seu corpo, porém, perpassava uma seiva nova. Jogou-se fora da cama e encontrou, no espelho, os cabelos antigos. Brilhavam-lhe os olhos e a venda negra desaparecera.
Ao abrir a porta, deu com Marialice:
Seu preguiçoso, esqueceu-se do nosso passeio?
Contemplou-a maravilhado, vendo-a jovem e fresca. Dezoito anos rondavam-lhe o corpo esbelto. Agarrou-a com sofreguidão, desejando lembrar-lhe a noite anterior. Silenciou-o a convicção de que doze anos tinham se esvanecido.
O roteiro era antigo, mas algo de novo irrompia pelas suas faces. A manhã mal despontara e o orvalho passava do capim para os seus pés. Os braços dele rodeavam os ombros da namorada e, amiúde, interrompia a caminhada para beijar-lhe os cabelos. Ao se aproximarem da mata — termo de todos os seus passeios — o sol brilhava intenso. Largou-a na orla do cerrado e penetrou no bosque. Exasperada, ela acompanhava-o com dificuldade:
Bruto! Ó bruto! Me espera!
Rindo, sem voltar-se, os ramos arranhando o seu rosto, Eronides desapareceu por entre as árvores. Ouvia, a espaços, os gritos dela:
Tomara que um galho lhe fure os olhos, diabo!

De lá, trouxe-lhe uma flor azul.
Marialice chorava. Aos poucos acalmou-se, aceitou a flor e lhe deu um beijo rápido. Eronides avançou para abraçá-la, mas ela escapuliu, correndo pelo campo afora.
Mais adiante tropeçou e caiu. Ele segurou-a no chão, enquanto Marialice resistia, puxando-lhe os cabelos.
A paz não tardou a retornar, porque neles o amor se nutria da luta e do desespero.

Os passeios sucediam-se. Mudavam o horário e acabavam na mata. Às vezes, pensando ter divisado a flor de vidro no alto de uma árvore, comprimia Marialice nos braços. Ela assustava-se, olhava-o silenciosa, à espera de uma explicação. Contudo, ele guardava para si as razões do seu terror.

O final das férias coincidiu com as últimas chuvas. Debaixo de tremendo aguaceiro, Eronides levou-a à estação.
Quando o trem se pôs em movimento, a presença da flor de vidro revelou-se imediatamente. Os seus olhos se turvaram e um apelo rouco desprendeu-se dos seus lábios.
O lenço branco, sacudido da janela, foi a única resposta. Porém os trilhos, paralelos, sumindo-se ao longe, condenavam-no a irreparável solidão.
Na volta, um galho cegou-lhe a vista.

Murilo Rubião, em Obra Completa

22/04/2025

O pirotécnico Zacarias


E se levantará pela tarde sobre ti uma luz como a do meio-dia; e quando te julgares consumido, nascerás como a estrela-d’alva.
(, XI, 17)

Raras são as vezes que, nas conversas de amigos meus, ou de pessoas das minhas relações, não surja esta pergunta. Teria morrido o pirotécnico Zacarias?
A esse respeito as opiniões são divergentes. Uns acham que estou vivo — o morto tinha apenas alguma semelhança comigo. Outros, mais supersticiosos, acreditam que a minha morte pertence ao rol dos fatos consumados e o indivíduo a quem andam chamando Zacarias não passa de uma alma penada, envolvida por um pobre invólucro humano. Ainda há os que afirmam de maneira categórica o meu falecimento e não aceitam o cidadão existente como sendo Zacarias, o artista pirotécnico, mas alguém muito parecido com o finado.
Uma coisa ninguém discute: se Zacarias morreu, o seu corpo não foi enterrado.
A única pessoa que poderia dar informações certas sobre o assunto sou eu. Porém estou impedido de fazê-lo porque os meus companheiros fogem de mim, tão logo me avistam pela frente. Quando apanhados de surpresa, ficam estarrecidos e não conseguem articular uma palavra.
Em verdade morri, o que vem ao encontro da versão dos que creem na minha morte. Por outro lado, também não estou morto, pois faço tudo o que antes fazia e, devo dizer, com mais agrado do que anteriormente.
A princípio foi azul, depois verde, amarelo e negro. Um negro espesso, cheio de listras vermelhas, de um vermelho compacto, semelhante a densas fitas de sangue. Sangue pastoso com pigmentos amarelados, de um amarelo esverdeado, tênue, quase sem cor.
Quando tudo começava a ficar branco, veio um automóvel e me matou.
Simplício Santana de Alvarenga!
Presente!
Senti rodar-me a cabeça, o corpo balançar, como se me faltasse o apoio do solo. Em seguida fui arrastado por uma força poderosa, irresistível. Tentei agarrar-me às árvores, cujas ramagens retorcidas, puxadas para cima, escapavam aos meus dedos. Alcancei mais adiante, com as mãos, uma roda de fogo, que se pôs a girar com grande velocidade por entre elas, sem queimá-las, todavia.
— “Meus senhores: na luta vence o mais forte e o momento é de decisões supremas. Os que desejarem sobreviver ao tempo tirem os seus chapéus!”
(Ao meu lado dançavam fogos de artifício, logo devorados pelo arco-íris.)
Simplício Santana de Alvarenga!
Não está?
Tire a mão da boca, Zacarias!
Quantos são os continentes?
E a Oceania?
Dos mares da China não mais virão as quinquilharias.
A professora magra, esquelética, os olhos vidrados, empunhava na mão direita uma dúzia de foguetes. As varetas eram compridas, tão longas que obrigavam dona Josefina a ter os pés distanciados uns dois metros do assoalho e a cabeça, coberta por fios de barbante, quase encostada no teto.
Simplício Santana de Alvarenga!
Meninos, amai a verdade!

A noite estava escura. Melhor, negra. Os filamentos brancos não tardariam a cobrir o céu.
Caminhava pela estrada. Estrada do Acaba Mundo: algumas curvas, silêncio, mais sombras que silêncio.
O automóvel não buzinou de longe. E nem quando já se encontrava perto de mim, enxerguei os seus faróis. Simplesmente porque não seria naquela noite que o branco desceria até a terra.
As moças que vinham no carro deram gritos histéricos e não se demoraram a desmaiar. Os rapazes falaram baixo, curaram-se instantaneamente da bebedeira e se puseram a discutir qual o melhor destino a ser dado ao cadáver.

A princípio foi azul, depois verde, amarelo e negro. Um negro espesso, cheio de listras vermelhas, de um vermelho compacto, semelhante a densas fitas de sangue. Sangue pastoso, com pigmentos amarelados, de um amarelo esverdeado, quase sem cor. Sem cor jamais quis viver. Viver, cansar bem os músculos, andando pelas ruas cheias de gente, ausentes de homens.
Havia silêncio, mais sombras que silêncio, porque os rapazes não mais discutiam baixinho. Falavam com naturalidade, dosando a gíria.
Também o ambiente repousava na mesma calma e o cadáver — o meu ensanguentado cadáver — não protestava contra o fim que os moços lhe desejavam dar.
A ideia inicial, logo rejeitada, consistia em me transportar para a cidade, onde me deixariam no necrotério. Após breve discussão, todos os argumentos analisados com frieza, prevaleceu a opinião de que meu corpo poderia sujar o carro. E havia ainda o inconveniente das moças não se conformarem em viajar ao lado de um defunto. (Nesse ponto eles estavam redondamente enganados, como explicarei mais tarde.)
Um dos moços, rapazola forte e imberbe — o único que se impressionara com o acidente e permanecera calado e aflito no decorrer dos acontecimentos —, propôs que se deixassem as garotas na estrada e me levassem para o cemitério. Os companheiros não deram importância à proposta. Limitaram-se a condenar o mau gosto de Jorginho — assim lhe chamavam — e a sua insensatez em interessar-se mais pelo destino do cadáver do que pelas lindas pequenas que os acompanhavam.
O rapazola notou a bobagem que acabara de proferir e, sem encarar de frente os componentes da roda, pôs-se a assoviar, visivelmente encabulado.
Não pude evitar a minha imediata simpatia por ele, em virtude da sua razoável sugestão, debilmente formulada aos que decidiam a minha sorte. Afinal, as longas caminhadas cansam indistintamente defuntos e vivos. (Esse argumento não me ocorreu no momento.)
Discutiram em seguida outras soluções e, por fim, consideraram que me lançar ao precipício, um fundo precipício, que margeava a estrada, limpar o chão manchado de sangue, lavar cuidadosamente o carro, quando chegassem a casa, seria o alvitre mais adequado ao caso e o que melhor conviria a possíveis complicações com a polícia, sempre ávida de achar mistério onde nada existe de misterioso.
Mas aquele seria um dos poucos desfechos que não me interessavam. Ficar jogado em um buraco, no meio de pedras e ervas, tornava-se para mim uma ideia insuportável. E ainda: o meu corpo poderia, ao rolar pelo barranco abaixo, ficar escondido entre a vegetação, terra e pedregulhos. Se tal acontecesse, jamais seria descoberto no seu improvisado túmulo e o meu nome não ocuparia as manchetes dos jornais.
Não, eles não podiam roubar-me nem que fosse um pequeno necrológio no principal matutino da cidade. Precisava agir rápido e decidido:
Alto lá! Também quero ser ouvido.
Jorginho empalideceu, soltou um grito surdo, tombando desmaiado, enquanto os seus amigos, algo admirados por verem um cadáver falar, se dispunham a ouvir-me.

Sempre tive confiança na minha faculdade de convencer os adversários, em meio às discussões. Não sei se pela força da lógica ou se por um dom natural, a verdade é que, em vida, eu vencia qualquer disputa dependente de argumentação segura e irretorquível.
A morte não extinguira essa faculdade. E a ela os meus matadores fizeram justiça. Após curto debate, no qual expus com clareza os meus argumentos, os rapazes ficaram indecisos, sem encontrar uma saída que atendesse, a contento, às minhas razões e ao programa da noite, a exigir prosseguimento. Para tornar mais confusa a situação, sentiam a impossibilidade de dar rumo a um defunto que não perdera nenhum dos predicados geralmente atribuídos aos vivos.
Se a um deles não ocorresse uma sugestão, imediatamente aprovada, teríamos permanecido no impasse. Propunha incluir-me no grupo e, juntos, terminarmos a farra, interrompida com o meu atropelamento.
Entretanto, outro obstáculo nos conteve: as moças eram somente três, isto é, em número igual ao de rapazes. Faltava uma para mim e eu não aceitava fazer parte da turma desacompanhado. O mesmo rapaz que aconselhara a minha inclusão no grupo encontrou a fórmula conciliatória, sugerindo que abandonassem o colega desmaiado na estrada. Para melhorar o meu aspecto, concluiu, bastaria trocar as minhas roupas pelas de Jorginho, o que me prontifiquei a fazer rapidamente.
Depois de certa relutância em abandonar o companheiro, concordaram todos (homens e mulheres, estas já restabelecidas do primitivo desmaio) que ele fora fraco e não soubera enfrentar com dignidade a situação. Portanto, era pouco razoável que se perdesse tempo fazendo considerações sentimentais em torno da sua pessoa.

* * *

Do que aconteceu em seguida não guardo recordações muito nítidas. A bebida, que antes da minha morte pouco me afetava, teve sobre o meu corpo defunto uma ação surpreendente. Pelos meus olhos entravam estrelas, luzes cujas cores ignorava, triângulos absurdos, cones e esferas de marfim, rosas negras, cravos em forma de lírios, lírios transformados em mãos. E a ruiva, que me fora destinada, enlaçando-me o pescoço com o corpo transmudado em longo braço metálico.
Ao clarear o dia, saí da semiletargia em que me encontrava. Alguém me perguntava onde eu desejava ficar. Recordo-me que insisti em descer no cemitério, ao que me responderam ser impossível, pois àquela hora ele se encontrava fechado. Repeti diversas vezes a palavra cemitério. (Quem sabe nem chegasse a repeti-la, mas somente movesse os lábios, procurando ligar as palavras às sensações longínquas do meu delírio policrômico.)
Por muito tempo se prolongou em mim o desequilíbrio entre o mundo exterior e os meus olhos, que não se acomodavam ao colorido das paisagens estendidas na minha frente. Havia ainda o medo que sentia, desde aquela madrugada, quando constatei que a morte penetrara no meu corpo.
Não fosse o ceticismo dos homens, recusando-se aceitar-me vivo ou morto, eu poderia abrigar a ambição de construir uma nova existência.
Tinha ainda que lutar contra o desatino que, às vezes, se tornava senhor dos meus atos e obrigava-me a buscar, ansioso, nos jornais, qualquer notícia que elucidasse o mistério que cercava o meu falecimento.
Fiz várias tentativas para estabelecer contato com meus companheiros da noite fatal e o resultado foi desencorajador. E eles eram a esperança que me restava para provar quão real fora a minha morte.

No passar dos meses, tornou-se menos intenso o meu sofrimento e menor a minha frustração ante a dificuldade de convencer os amigos de que o Zacarias que anda pelas ruas da cidade é o mesmo artista pirotécnico de outros tempos, com a diferença de que aquele era vivo e este, um defunto.
Só um pensamento me oprime: que acontecimentos o destino reservará a um morto se os vivos respiram uma vida agonizante? E a minha angústia cresce ao sentir, na sua plenitude, que a minha capacidade de amar, discernir as coisas, é bem superior à dos seres que por mim passam assustados.
Amanhã o dia poderá nascer claro, o sol brilhando como nunca brilhou. Nessa hora os homens compreenderão que, mesmo à margem da vida, ainda vivo, porque a minha existência se transmudou em cores e o branco já se aproxima da terra para exclusiva ternura dos meus olhos.

Murilo Rubião, em Obra Completa

31/03/2024

Ofélia, meu cachimbo e o mar

Este mar amplo, largo de braços, nele sulcam as naus, o dragão que formaste para zombar no mar.
(Salmos, CIII, 25 e 26)

I

Gosto de conversar com Ofélia na varanda após o jantar, cachimbo entre os dentes e o oceano, enegrecido pela noite, estendendo-se à nossa frente.
Conto-lhe episódios da crônica de minha família ou do mar, esquecendo-me frequentemente de que ela só se interessa por histórias de caçadas. Quando me lembro disso, lamento a condição de Ofélia, descendente de nobre estirpe de caçadores. Mas o que posso fazer, além de lastimar? Não sinto a menor atração por esse esporte e entre os meus antepassados não sei de algum que tenha levantado a arma para exterminar animais que não fossem do gênero humano.
Se noto que a conversa vai morrendo por culpa de Ofélia, que cerrou os olhos para melhor sonhar com selvas e tiros, calo-me por instantes e me ponho a ouvir vozes soturnas que vêm do mar. Ouço as sirenes que cortam a noite como gemidos de homens que se perderam em águas distantes.
Talvez seja mera impressão minha. Os sons emitidos pelas naves, procurando ou se afastando do porto, podem simbolizar, para outros, coisa bem diferente. A Pedro, um velho marinheiro sardento, eles lembram apenas as tabernas inglesas.
Não sei de onde tirou tão estranha ligação, pois nunca toma o trabalho de explicá-la. Contenta-se, quando instado a esclarecer o motivo, em levar os olhos em direção ao oceano, como se quisesse enxergar algo encoberto pelas imensas moles d’água.
O botequineiro, que ostenta no corpo diversas tatuagens — todas alusivas a amores passados —, diz que são “artes de rabo de saia”. Discordo: marinheiro velho lembra-se de mulher somente para ter saudades do mar.

II

Seja qual for a razão, o meu amor pelas mulheres veio do mar. Não que eu seja ou tenha sido marinheiro. Nem ao menos nasci numa cidade litorânea. Sou de um vilarejo de Minas, agoniado nas fraldas da Mantiqueira. Nas minhas veias, porém, corre o melhor sangue de uma geração de valentes marujos.
Na minha infância, enquanto meus companheiros subiam nas árvores, ou caçavam passarinhos, eu me debruçava na banheira e me divertia fazendo navegar pequenos barcos de papel.
Com os anos, as minúsculas embarcações passaram a não me entreter mais, nem me contentava em imaginar, de longe, a beleza dos veleiros singrando verdes águas.
Esperei que meu pai fizesse sua última viagem, que, aliás, por pouco não foi marítima — morreu engasgado com uma espinha de peixe — para ir morar no litoral.

III

A desilusão me aguardava neste porto. Logo ao desembarcar, fraturei um dos pés e fiquei inutilizado para os trabalhos marítimos.
Após um período de denso desespero, consolei-me da frustração. Distraía-me passeando pelas praias, sempre apoiado em muletas. Conversava com pescadores ou simplesmente observava os navios, a me sugerirem longos cruzeiros por oceanos infestados de piratas malaios, semelhantes àqueles que, na adolescência, povoavam minha imaginação. E pouco faltou para convencer-me de ter sido em outros tempos experimentado marinheiro.
Despreocupado, a minha vida escorregava mansamente, sem que o tédio da inatividade me aborrecesse. Quando acabou o dinheiro que trouxera de Minas, pensei em procurar um emprego. O que poderia fazer um aleijado com a vocação de navegante, depois que lhe roubaram o mar?

IV

Do meu bisavô também roubaram o mar.
José Henrique Ruivães era capitão de navio negreiro. Estatura gigantesca, ombros largos, desde menino navegava em veleiros que buscavam na África escravos para as lavouras do Brasil.
Fisionomia dura, barba negra, a boca sem os dentes da frente compunham a sua figura bastante temida pelos marujos e escravos.
Para demonstrar a força e a coragem do meu bisavô, contavam que, certa vez, quando uma tempestade ameaçava afundar o seu barco e depois de terem caído ao mar vários marinheiros, na tentativa de baixar as velas, ele subiu sozinho, mastro acima, e as arriou. A façanha lhe custou boa parte da dentadura, pois teve que se agarrar com as mãos e dentes a panos e cordas, para evitar uma desastrosa queda.
Com a abolição da escravatura, José Henrique retirou-se para uma fazenda, onde passava os dias estirado numa rede.
Em alguns momentos, no embalo da nostalgia, decidia-se a retornar ao comando de uma nave qualquer. Agitado, compulsava mapas, ou pegava uma velha roda de leme e ia para o alto de um morro para simular ordens de comando.
Depois, os altos cumes da Mantiqueira, escondendo-lhe o oceano, e a certeza de que jamais comandaria navios negreiros, faziam com que ele retornasse à rede.
Raramente de bom humor, apenas sentia-se feliz quando, de porta-voz em punho, comandava subordinados imaginários.

V

Já o meu avô, que nascera em Minas, contentava-se em fazer barcos de madeira e colecionar estampas de navios. Desculpava-se frequentemente de não ter seguido a vocação ancestral, repetindo o velho José Henrique:
Mar? Só em navio negreiro.
Talvez desculpasse o seu horror por qualquer espécie de água: em seus oitenta anos de vida conheceu somente a que o padre lhe ministrou na cerimônia do batismo.
Ante o exemplo paterno, meu pai jamais externou o desejo de ser navegador, nem tampouco abusou dos banhos.

VI

Todavia os insucessos navais de minha família não evitaram que eu viesse para este porto e chegasse, um dia, a passar fome.
Não sofri a fome por muito tempo. Logo conheci Alzira, uma viúva, cujo marido enriquecera no contrabando de bebidas. E suicidara-se, por razões que a minha falecida esposa jamais me revelou. Sim, a minha falecida esposa, porque a desposei alguns dias após nos conhecermos.
Devo esclarecer que não a pedi em casamento por causa de sua fortuna e ainda menos pela sua beleza um tanto equívoca: tinha a cara de tainha e o odor das lagostas. Foi pelo odor e não pelo rosto que a escolhi para minha mulher.
O nosso casamento durou pouco mais de um ano e terminou com a morte de Alzira, intoxicada por umas sardinhas deterioradas que ela comera no jantar.

VII

Ofélia, que abomina meu silêncio, interrompeu agora os meus pensamentos com um ladrido forte. Olho distraído para seu lado e vou reiniciar a mesma história do mar, interrompida instantes atrás, porém me detenho diante do seu olhar desaprovador. Sei que ela espera por uma das minhas habituais fantasias e me revolto com a sua incompreensão.
Não, Ofélia. Você podia ser mais tolerante com os meus inofensivos devaneios. Neste lugarejo, espremido entre montanhas, sem divertimentos, detestando caçadas e tendo herdado a vocação do meu bisavô marinheiro...
Sinto que não fui convincente e insisto com mais vigor:
Ele existiu, juro.
Vendo que ela deixou de prestar atenção no que estou falando, desisto:
Perdoe-me, Ofélia, não sei por que insisto em proceder desta maneira. Mas gostaria tanto se aquele meu bisavô marinheiro tivesse existido!

Murilo Rubião, in Obra Completa