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31/05/2023

As primeiras quinze vidas de Harry August | Capítulo 13



Uns setenta anos depois, Phearson estava à mesa, de frente para mim, naquela mansão em Nortúmbria, irritado ao me ouvir dizer:
— A complexidade deve ser seu pretexto para não agir. A complexidade dos eventos, a complexidade do tempo... De que adianta você saber isso?
Chovia lá fora, um aguaceiro forte e incessante que chegara dois dias depois de um calor sufocante, o céu abrindo a torneira. Phearson viajara para Londres; voltara com mais perguntas e uma atitude menos dócil.
— Você está escondendo coisas! — atacou. — Diz que tudo isso vai acontecer, mas não diz como. Fala de computadores, telefones e do maldito fim da Guerra Fria, mas não diz merda nenhuma de como nada disso funciona. Nós somos os mocinhos, estamos aqui para melhorar as coisas, entendeu? Criar um mundo melhor!
Quando Phearson se enfurecia, uma veia azul como uma cobra contorcida surgia em sua têmpora esquerda, e seu rosto, em vez de vermelho, ficava pálido e acinzentado. Ponderei suas acusações e concluí que boa parte não tinha fundamento. Eu não era historiador; os eventos do futuro haviam se desdobrado como ações no presente, dando pouco tempo para análises ou análises retrospectivas, apresentando-se em matérias de sessenta segundos no noticiário da TV. A capacidade que eu tinha de explicar o funcionamento de um computador era a mesma que tinha de equilibrar um peixe na ponta do nariz.
E, sim, eu estava escondendo coisas — não todas, mas algumas. Eu havia lido sobre o Clube Cronus, e a primeira lição que tirei foi que era um lugar em que se fazia silêncio. Se seus membros fossem como eu, se sabiam o futuro, ao menos no que dizia respeito às suas trajetórias pessoais, então eles tinham o poder de afetá-la diretamente. Ainda assim, escolhiam não fazê-lo. E por quê?
— Complexidade — repeti com veemência. — Você e eu somos meros indivíduos. Não podemos controlar os grandes eventos socioeconômicos. Você até pode tentar alterar um evento, mas isso, mesmo que da forma mais insignificante possível, invalidaria todo e qualquer outro evento que eu já tenha descrito. Eu posso lhe contar que os sindicatos vão sofrer durante a Era Thatcher, mas a verdade é que não sou capaz de apontar exatamente quais as forças econômicas por trás disso, nem explicar em poucas palavras por que a sociedade permite a destruição de suas indústrias. Não sou capaz de dizer o que passa pela cabeça das pessoas que dançam durante a queda do Muro de Berlim, ou exatamente quem no Afeganistão vai se levantar um dia e dizer: “Hoje é um bom dia para a jihad.” E do que valem as minhas informações, se agir para mudar um único pedaço vai mudar o todo?
— Nomes, lugares! Diga nomes, diga lugares!
— Por quê? Você vai assassinar Yasser Arafat? Vai executar crianças por crimes que ainda não cometeram? Vai dar armas ao Talibã antes do tempo?
— Isso é uma decisão política, todas essas decisões são políticas...
— Você está tomando decisões com base em crimes que ainda não foram cometidos!
Ele jogou os braços num grande gesto de frustração.
— A humanidade está evoluindo, Harry! O mundo está mudando! Nos últimos duzentos anos a humanidade mudou de formas mais radicais do que nos dois mil anos anteriores! O ritmo da evolução está acelerando, tanto para a espécie quanto para a civilização. É o nosso trabalho, o trabalho dos bons, dos homens e das mulheres de bem, supervisionar o processo, agir como um guia para evitar mais cagadas e desastres! Você quer outra Segunda Guerra Mundial? Outro Holocausto? Nós podemos mudar as coisas, melhorar as coisas.
— Você se considera capaz de supervisionar o desenvolvimento do futuro?
— Claro que sim, porra! — rugiu ele. — Porque sou um puta defensor da democracia! Porque sou um puta liberal que acredita na liberdade, porque eu sou um cara bom pra cacete e de bom coração e, porra, porque alguém precisa fazer esse trabalho!
Eu me recostei na cadeira. A chuva caía na diagonal, batia no vidro da janela. Havia flores recém-colhidas na mesa, café frio no meu copo.
— Lamento, senhor Phearson — disse, por fim. — Não sei o que quer ouvir de mim.
Ele girou uma cadeira, sentou-se nela, aproximou-a de mim e, baixando o tom de voz de um jeito que parecia querer conspirar, esticando as mãos num gesto que parecia um pedido de desculpas, perguntou:
— Por que não ganhamos no Vietnã? O que estamos fazendo de errado?
Eu grunhi e levei as mãos à cabeça.
— Vocês não são bem-vindos! Os vietnamitas não querem vocês, os chineses não querem vocês, seu próprio povo não quer lutar no Vietnã! Não dá para ganhar uma guerra que ninguém quer lutar!
— E se jogássemos a bomba? Uma bomba, em Hanói, uma limpeza geral?
— Não sei, porque isso nunca aconteceu, e nunca aconteceu porque é absurdo! — gritei. — Você não quer conhecimento, quer afirmações, e eu... — Eu me levantei de súbito, e fui o primeiro a me surpreender com o movimento repentino. —... eu não posso lhe dar isso — concluí. — Lamento. Quando concordei em fazer isso, pensei que... que você queria outra coisa. Acho que errei. Eu preciso... preciso pensar.
Ficamos em silêncio.
Em chinês, a asma é descrita como um animal ofegante, com a respiração pesada resultado de uma enfermidade. Phearson permaneceu imóvel como uma estátua, apertando as mãos para se conter de forma civilizada, seu terno bem passado, seu rosto impassível, mas sua respiração era toda de um animal que ofegava dentro de seu peito.
— Para que você serve? — perguntou ele, do jeito típico de uma pessoa criada em meio aos valores da boa educação, do autocontrole cuidadoso, mas a respiração que acompanhou a pergunta queria rasgar meu pescoço com os dentes e beber o sangue. — Você acha que isso não importa, doutor August? Você acha que morre e fica por isso mesmo? O mundo reinicia, bum! — Ele deu um tapa na mesa, forte o bastante para fazer as xícaras pularem dos pires. — Nós, os homens insignificantes com suas vidas insignificantes estão mortos e esquecidos, e tudo isso... — ele não precisava se mexer, não precisava fazer mais do que correr os olhos ao redor do quarto — ...tudo não passa de um sonho. Você é Deus, doutor August? Você é o único ser vivo que importa? Acha que, só porque é capaz de se lembrar, a sua dor é mais intensa e importante? Acha que, porque viveu essa dor, sua vida é a única vida que conta? Acha?
Ele não gritou, não levantou a voz, mas a respiração animal se acelerou, enquanto ele contraía os dedos para conter o próprio instinto destrutivo. Eu vi que não tinha nada. Não tinha palavras, ideias, justificativas, réplicas. Ele se levantou de repente, de um jeito brusco, como uma espécie de ruptura, embora eu não soubesse dizer de quê, enquanto a veia de sua têmpora se fazia cada vez mais visível sob a pele.
— Está bem. — Ele ofegava as palavras. — Está bem, doutor August. Está bem. Nós dois estamos um pouco cansados, um pouco frustrados... Talvez precisemos de um descanso. Por que não tiramos o resto do dia, e você pensa sobre isso? Tudo bem? Tudo bem — decidiu ele antes de eu responder. — É esse o plano. Ótimo. Vejo você amanhã.
Ao dizer isso, Phearson saiu a passos largos do quarto sem dizer mais uma palavra ou olhar para trás.

Claire North, in As primeiras quinze vidas de Harry August

10/04/2023

As primeiras quinze vidas de Harry August | Capítulo 12


Já mencionei alguns dos estágios pelos quais passamos ao tentar entender o que somos. Reconheço que fui pouco original e me matei para acabar com minha segunda vida, e na terceira vida eu busquei uma resposta em Deus.
Eu já contei que, durante a Segura Guerra Mundial, dei o melhor de mim para encontrar postos escondidos e seguros. O que eu não contei foi que a guerra também me deu a oportunidade de aprender um pouco mais sobre os limites do meu aprendizado atual. Então, de um engenheiro jamaicano com o duvidoso nome de Friday Boy, ouvi a respeito das almas dos mortos e dos fantasmas furiosos que continuam vagando por não terem sido honrados. De um circunspecto oficial americano chamado Walter S. Brody aprendi os mistérios dos batistas, dos anabatistas, dos mórmons e dos luteranos, tudo isso explicado com a seguinte conclusão:
— Minha mãe foi tudo isso por um tempo, e o que ela aprendeu foi que o melhor jeito de falar com Deus é ir atrás dele da sua própria maneira.
Antes de fugir — ou ser capturado, o rumor nunca foi esclarecido —, um soldado sudanês que transportara as bagagens para os tanques de Rommel em retirada da Tunísia me mostrou o caminho para Meca. Ele me ensinou a recitar as palavras “Sou testemunha de que não há Deus senão Alá, e sou testemunha de que Maomé é servo de Deus e seu mensageiro”, primeiro em inglês, depois num árabe deficiente, por fim, em acholi, que ele declarava orgulhosamente ser um idioma incomparável, e ele, sendo muçulmano e acholi, era um homem incomparável. Recitei a frase em acholi diversas vezes tentando acertar a entonação, e quando ele ficou satisfeito me deu um tapa nas costas e disse:
— Veja só! Talvez você não precise queimar no fogo do inferno, no fim das contas!
Acho que foi este soldado, mais do que os outros, que me encorajou a viajar. Ele contou histórias fantásticas e, como acabei descobrindo na maioria das vezes, completamente inventadas de terras gloriosas do outro lado do mar Mediterrâneo, de mistérios e respostas aguardando nas areias. Quando a guerra terminou fui atrás do primeiro navio em direção a essas terras que tantos ingleses estavam deixando e, embebido pelo espírito da época, cometi uma série de delitos e acabei passando por aventuras na impetuosa ignorância digna de minha aparente juventude. No Egito, eu me converti num crente fervoroso das palavras de Alá, até que um dia, três de meus irmãos da mesquita me encurralaram num beco no Cairo, e apanhei deles até desmaiar. Alegando que era um espião judeu — embora um espião judeu ruivo —, um imperialista, um comunista, um fascista, um sionista e, acima tudo, alguém diferente deles, eles arrancaram minha barba, rasparam a minha cabeça com facas cegas, cuspiram no meu rosto e rasgaram minha túnica branca, a qual eu comprara durante um arroubo típico de um recém-convertido e que ficara do tamanho errado. Passei quatro dias no hospital e, ao ter alta, procurei meu mulá em busca de conforto. Com educação, ele me serviu chá numa tulipa e me perguntou como eu me sentia a respeito da minha vocação.
Fui embora no dia seguinte.
Eu me diverti por um tempo com o judaísmo no recém-fundado estado de Israel, mas, apesar de todas as minhas credenciais de ex-soldado ferido na guerra a serviço da espionagem hebraica, estava claro que eu não me adaptaria, e minha condição de ex-soldado dos odiados britânicos também não ajudou. Vi homens e mulheres com marcas na pele ainda azuladas das tatuagens de campos de concentração, ajoelhando-se no Muro das Lamentações e chorando de alívio ao verem as pedras que refletiam a luz do sol, e soube que não pertencia àquele universo.
No topo do monte Sinai, um padre católico me cumprimentou quando eu subi em busca de um deus que atendesse às minhas preces. Eu me ajoelhei aos seus pés, beijei sua mão, disse que sua presença ali era um sinal, um sinal de que havia um deus e que ele tinha um propósito para mim, então lhe contei a minha história. Ao final foi ele quem se ajoelhou aos meus pés, beijou minha mão e disse que eu era um sinal, um sinal enviado por Deus de que afinal sua vida tinha um propósito, que através de mim sua fé havia sido renovada, e falava sobre meus prodígios com um ar tão sincero que comecei a duvidar deles eu mesmo. Ele disse que me levaria a Roma para conhecer o papa, que eu teria uma vida de meditação e oração para decifrar os mistérios da minha existência, e três dias depois acordei e o encontrei no chão do meu quarto, nu, a não ser por um colar de contas, ajoelhado e beijando minha mão enquanto eu dormia. Disse que eu era um mensageiro e pediu desculpas por ter em algum momento nutrido qualquer dúvida, e fugi pela janela dos fundos e pulei o muro do jardim logo antes de o sol raiar.
Tendo ouvido falar do misticismo e de filosofias que talvez conseguissem explicar minha situação onde a teologia ocidental havia falhado, rumei para a Índia. Cheguei em 1953, e foi fácil conseguir um emprego de mecânico para uma sucessão de linhas aéreas comerciais fadadas ao fracasso. Os fracassos em si quase nunca me afetavam; podia acontecer de, uma segunda-feira, eu sair do trabalho empregado por um homem e chegar para trabalhar na terça e encontrar meu antigo contrato de trabalho destruído e um novo somente esperando pela minha assinatura, idêntico, com todas as cláusulas, exceto a data e o nome do empregador. A Índia vinha se recuperando de seu processo de divisão, e eu estava no sul, longe da pior parte do derramamento de sangue que manchou sua independência. Nehru era o primeiro-ministro, e eu me vi completamente apaixonado, primeiro por uma atriz cujos olhos pareciam olhar para mim e somente para mim da tela do cinema, depois por uma sósia dela que vendia frutas no aeroporto e nunca havia aberto a boca para falar uma palavra importante durante toda a vida, a quem eu idolatrava de forma humilhante e a quem cortejei de forma desastrosa. Já se observou que até os mais velhos de nós, kalachakra, são movidos por um certo incentivo biológico, não importando a idade da nossa mente. Quando criança, senti apenas o incentivo biológico para crescer e o desalento intelectual que o processo provocava. Quando adolescente, lutei contra a depressão mantendo-me ocupado e prestando atenção às conspirações da Mansão Hulne. Já homem, no auge da vida, sentia mais do que nunca o impulso, a vontade de cair no mundo e desafiá-lo como um toureiro na arena. Viajei em busca de respostas, discuti com homens que retrucavam, amei até o fundo da alma e fui rejeitado até o fundo do coração, e idolatrei Meena Kumari, deusa de Bollywood, como símbolo da perfeição, embora não falasse uma palavra de híndi quando vi seus filmes pela primeira vez.
Não encontrei respostas nem no amor nem em Deus. Falei de ressurreição e reencarnação com os brâmanes, e eles me disseram que, se eu vivesse uma vida boa e pura, poderia retornar como algo maior do que eu mesmo.
— E como eu mesmo? Posso retornar como eu mesmo?
A questão causou comoção entre os sábios do hinduísmo para os quais perguntei. Gosto de pensar que fui eu a introduzir os primeiros indícios da física relativística no discurso deles, enquanto acadêmicos debatiam com fervor se, na natureza, a ressurreição precisava se dar na mesma linha temporal. Por fim a resposta veio de um sábio barrigudo com bons hábitos alimentares, que proclamou,
— Não seja ridículo, inglês! Você melhora ou piora, mas todas as coisas mudam!
A resposta pouco me satisfez, e, com as economias de dez anos consertando o mesmo jato que tinha um nome diferente a cada semana, eu me mudei. A China era bem pouco acolhedora, e o momento não era bom para uma visita ao Tibete, então rumei para o sul, desviando de Vietnã, Tailândia, Birmânia e Nepal, tentando me movimentar por lugares que os americanos não invadiriam ou uma guerra civil não estava prestes a ser deflagrada. Raspei a cabeça e passei a comer apenas vegetais, aprendi a rezar em voz alta usando palavras incompreensíveis e perguntei a cada representação de Buda, de Gautama a suas dez mil encarnações, por que eu era daquele jeito, e se a morte seguinte seria a minha última. Ganhei certa reputação, a de inglês que sabia o discurso de todas as religiões, que era capaz de argumentar com qualquer monge ou imame, padre ou pastor, sobre qualquer questão filosófica que eles fossem capazes de levantar, contanto que se referissem à alma imortal. Em 1969, recebi a visita de um homem alegre com óculos de aro redondo que se sentou de pernas cruzadas à minha frente na minha choupana e disse:
— Boa tarde, venerado senhor. Meu nome é Shen. Venho aqui representando uma instituição interessada, e estou aqui para descobrir suas intenções.
Na época, eu morava em Bangcoc e tinha descoberto que, por mais puras que fossem minhas orações, elas não aliviavam as penúrias provocadas pelos fungos tropicais que se desenvolvem nas dobras da pele quando se vive numa selva úmida. Os jornais publicavam histórias sobre a grandeza do governo em letras garrafais e negrito, e, em letras de corpo bem menor e usando uma tinta preta melancólica, boatos a respeito de guerrilhas comunistas nas montanhas. Eu custava a crer que aquele enésimo caminho me conduziria à iluminação, mas sabia que estava ficando velho demais para acreditar em qualquer outra coisa, então dividi o tempo entre consertar carros com minha túnica laranja e meditar sobre o que faria se não fosse capaz de morrer.
Com o rosto tão reluzente quanto uma castanha-da-índia e uma camisa azul grudenta de suor nas costas e nas axilas, o senhor Shen ergueu os óculos de leve e acrescentou:
— Você está aqui para se dedicar a atividades contrarrevolucionárias?
Eu havia passado por uma fase de dar respostas místicas e sábias, mas, francamente, em certo momento ficamos velhos demais para essas coisas, então soltei:
— Você trabalha para os serviços de segurança chineses?
— É claro, venerado senhor — entoou ele, inclinando-se numa reverência mesmo sentado com as mãos juntas, do jeito que os tailandeses demonstram respeito ao tratar com um professor. — Temos pouquíssimo interesse neste país, mas algumas pessoas têm sugerido que você é, na verdade, um agente imperialista do Ocidente que pretende se aliar às forças contrarrevolucionárias com esse separatista burguês que chamam de Dalai Lama, e que seu templo é um polo de subversão capitalista criado para atacar o coração do nosso povo glorioso.
Ele respondeu de um jeito tão cordial que eu me vi forçado a perguntar:
— E isso é ruim?
— É claro que é ruim, venerado senhor! Esse tipo de atividade subversiva seria motivo para represália por parte do meu governo, embora seja claro que — um breve sorriso, brilhante e alegre —, naturalmente, você seria protegido por seus aliados imperialistas, e sem dúvida isso causaria repercussões.
— Ah! — exclamei, enfim compreendendo. — Você está ameaçando me matar?
— Eu odiaria que chegasse a esse ponto, venerado senhor, ainda mais porque acredito que você é apenas um inglês excêntrico em busca de uma vida tranquila.
— Como você me mataria? Seria rápido?
— Eu gostaria que sim! Ao contrário da propaganda do seu governo, não somos bárbaros.
— E eu precisaria saber? Seria possível, por exemplo, você me matar sem dor, enquanto eu durmo? Isso seria uma opção?
Um olhar consternado atravessou o rosto de Shen enquanto ele considerava a possibilidade.
— Imagino que seria conveniente para todos os envolvidos que sua morte parecesse indolor e natural. Se você estivesse acordado, sem dúvida haveria briga e sinais de autodefesa, o que seria inaceitável para um monge, mesmo que seja um monge porco imperialista. Você... não é um porco imperialista, é?
— Eu sou inglês — salientei.
— Existem muitos ingleses comunistas.
— Não sou comunista.
Indeciso, Shen mordeu o lábio inferior e correu os olhos pelos cantos da sala, como se esperasse encontrar uma rachadura na parede de bambus por onde um rifle pudesse aparecer. Então, abafando a voz, murmurou:
— Espero que não seja um agente imperialista, venerado senhor. Recebi ordens de compilar o dossiê contra você e não encontrei evidências de que você seja algo diferente de um louco inofensivo com crenças antiquadas. Meu trabalho ficaria bem manchado se você se revelasse um espião.
— Com certeza não sou espião — garanti.
Shen pareceu aliviado.
— Obrigado, senhor! — exclamou, enxugando a testa com a manga da camisa e logo depois pedindo desculpas por aquela suada falta de desrespeito. — De fato parecia bem pouco provável, mas, nos tempos em que vivemos, é preciso ser meticuloso.
— Aceita um chá?
— Não, obrigado. Não posso ser visto confraternizando desnecessariamente com o inimigo.
— Pensei que você havia concluído que eu não era o inimigo.
— Você é ideologicamente corrompido, mas inofensivo — corrigiu ele.
Ao dizer isso, e depois de abundantes reverências, Shen se encaminhou à porta.
— Senhor Shen — chamei-o.
Ele parou à porta, e seu rosto traía a expressão tensa de um homem que sinceramente esperava não estar prestes a ficar mais atarefado.
— Eu não consigo morrer — expliquei com educação. — Eu nasço, vivo, morro, nasço outra vez, mas é a mesma vida. Por acaso seu governo tem alguma informação a respeito disso que me possa ser útil?
Ele sorriu, dessa vez com uma verdadeira expressão de alívio tomando conta de suas feições.
— Não, venerado senhor. Obrigado pela cooperação. — Então, um adendo: — Boa sorte com esse assunto.
Shen abriu a porta e saiu.
Ele foi o primeiro espião que conheci, e Franklin Phearson foi o segundo. Dos dois, acho que preferi Shen.

Claire North, in As primeiras quinze vidas de Harry August

18/02/2023

As primeiras quinze vidas de Harry August | Capítulo 11

Um momento para refletir sobre a memória.
Os kalachakra, os ouroboranos, aqueles de nós que orbitamos eternamente a mesma série de eventos históricos embora nossas vidas possam mudar — ou seja, os membros do Clube Cronus —, esquecemos. Alguns veem o esquecimento como uma bênção, uma chance de redescobrir as coisas que já foram vividas, de preservar alguma sensação de admiração pelo universo. Uma sensação de déjà vu persegue os membros mais antigos do Clube, que sabem que já viram tudo isso antes, mas não conseguem se lembrar bem de quando. Outros veem nossa memória imperfeita como prova de que, apesar de nossa condição, ainda somos humanos. Nossos corpos envelhecem e experimentam todas as dores dos humanos, e quando morremos as gerações futuras podem encontrar o local onde estamos enterrados, exumar nossos corpos putrefatos e dizer, sim, estes aqui são mesmo os restos mortais do falecido Harry August, mas alguém sabe dizer onde sua mente foi parar? No que concerne à realidade, as implicações dessa revelação são inúmeras para discutir aqui, mas sempre, sempre voltamos à mente — é a mente que faz a jornada através do tempo enquanto a carne se decompõe. Não somos nada além de mentes, e nada mais humano para a mente que ser imperfeita e esquecer. Então, ninguém consegue se lembrar de quem fundou o Clube Cronus, embora todos tenham cumprido seu papel; talvez até o ouroborano que tenha feito essa primeira escolha já não se lembre mais de seu papel e, como todos os outros, fique imaginando quem foi o responsável. Quando morremos é como se o mundo reiniciasse, e só a memória dos nossos feitos permanecesse como evidência das nossas ações, nem mais, nem menos.
Eu me lembro de tudo, às vezes com tanta intensidade que mais parece que estou revivendo, não apenas recordando. Mesmo agora, enquanto escrevo, consigo me lembrar do sol se pondo atrás das colinas e da fumaça marrom que saía do cachimbo de Phearson ao vê-lo sentado no pátio abaixo da minha janela, olhando na direção do campo vazio de croqué. Não consigo recriar o padrão exato dos meus pensamentos, no sentido de que eles não tinham palavras, não tinham uma em que eu pudesse me agarrar; mas posso dizer o exato momento em que cheguei à minha decisão, onde estava sentado e o que estava vendo. Eu estava sentado na cama e vi uma pintura rústica de casas de campo em tons de verde e cinza, com um spaniel latindo do lado de fora, numa postura parecida com a de um coelho saltitante.
— Aceito, mas tenho uma condição — disse eu.
— E qual seria?
— Quero saber tudo o que você sabe sobre esse Clube Cronus.
— Está bem — respondeu Phearson, após pensar por um breve instante.
Assim começou minha primeira — e praticamente única — manipulação do curso dos eventos temporais. Comecei de forma mais geral, com pinceladas amplas. Phearson ficou satisfeito ao saber da queda da União Soviética, mas sua satisfação tinha toques de suspeita, como se tivesse uma leve suspeita de que eu estivesse inventando bobagens para aplacar seus desejos. Ele exigiu detalhes — detalhes — e, quando lhe contei da perestroika e da glasnost, da queda do Muro de Berlim, da abertura das fronteiras da Áustria, da morte de Ceauşescu, ele entregou anotações incessantes a seus assistentes, pedindo que verificassem os nomes que eu mencionava, para confirmar a existência de um Gorbachev no Kremlin e para saber se de fato esse homem poderia se tornar um poderoso aliado na destruição da glória de sua própria nação.
Seus interesses não eram puramente políticos. Durante a tarde, queria saber sobre ciência e economia, como se fosse um leve passatempo entre os interrogatórios políticos sérios. Meus interesses não o ajudaram. Eu sabia que o telefone celular seria criado e que uma força misteriosa chamada internet estava ganhando força, mas não conseguia dizer como nem quem inventara essas coisas, pois eu nunca havia me interessado por elas. A política nacional pouco o interessava, e perguntas se adaptavam às respostas que eu dava, tornando-se cada vez mais específicas conforme eu me esforçava para mantê-las tão genéricas quanto possível. Após suas dúvidas iniciais de que o futuro seria de fato tão auspicioso, ele começou a se ater aos detalhes mais precisos, pressionando-me cada vez mais para eu me lembrar das manchetes que eu via de passagem nas bancas de jornal ou das recordações de uma viagem de trem que partira de Kyoto em 1981.
— Meu Deus, senhor! — exclamou ele. — Ou você é o maior mentiroso do mundo ou tem uma memória de dar inveja.
— Minha memória é perfeita. Eu me lembro de tudo, desde a primeira vez que entendi o que era uma recordação. Não me lembro de nascer; talvez o cérebro não seja desenvolvido o bastante para entender esse evento. Mas me lembro de morrer. Me lembro do momento em que tudo para.
— E como é? — perguntou Phearson, com um particular brilho de entusiasmo nos olhos que eu ainda não tinha visto.
— A interrupção é delicada. Não passa disso. Uma interrupção. O chegar lá é que é difícil.
— Você viu alguma coisa?
— Não.
— Nada?
— Nada diferente da ação natural de uma mente que está se deteriorando.
— Talvez não tenha importância para você.
— “Não tenha importância”? Para você minha morte não é... — Eu me contive, depois desviei o olhar. — Bom, acho que não tenho nada com o que comparar, não é?
Não acrescentei que ele também não tinha.
Mesmo falando apenas a verdade, ele não se satisfazia.
— Mas como é possível alguém invadir o Afeganistão? Não há ninguém lá para combater!
Seu desconhecimento sobre o passado era quase tão profundo quanto sobre o futuro, mas ao menos tinha a vantagem de contar com uma equipe diferente para corroborar os fatos. Eu lhe disse para estudar o Grande Jogo, pesquisar o povo pashtun, olhar um mapa. Expliquei que poderia lhe dar datas e mencionar lugares, mas o entendimento ficaria por conta dele.
Durante meu tempo livre eu estudava. Aparentemente, Phearson era um homem de palavra. Li a respeito do Clube Cronus.
De fato, havia pouca literatura sobre o assunto. Se minha experiência não tivesse sido tão parecida com o que li, eu teria considerado toda a questão uma fraude. Em 56 d.C., uma referência a uma sociedade em Atenas famosa pela erudição e pela exclusividade, o mistério em torno de sua natureza, o que causou a expulsão de seus membros quatro anos depois, expulsão essa que, de acordo com o cronista, eles aceitaram com boa vontade e desprendimento fora do normal, despreocupados com os acontecimentos da época. No próprio diário, outro cronista escreveu que, dois dias antes do Saque de Roma, um prédio na esquina de sua rua dedicado ao culto ao deus Cronos havia sido evacuado, as damas e os cavalheiros muito bem-vestidos que compareciam ao local fizeram a mudança ao receber o alerta de que em breve não valeria mais a pena ficar ali, e eis que os bárbaros chegaram. Na Índia, um homem acusado de assassinato e que se dizia inocente cortou a própria garganta na cela, alegando antes de morrer que morrer era um tédio, mas que, assim como a serpente, engoliria o próprio rabo e renasceria. Um grupo conhecido pela discrição deixou a cidade de Nanquim em 1935, e um dos membros, uma senhora conhecida por sua riqueza — ninguém sabia como ela a conseguira —, alertou sua criada favorita para que deixasse a cidade e levasse a família para o mais longe possível, dando a ela dinheiro para isso e profetizando uma guerra em que tudo se esvairia em chamas. Alguns os chamavam de profetas; os mais supersticiosos os chamavam de demônios. Qualquer que seja a verdade, para onde quer que tenham ido, o Clube Cronus parecia ter a dupla habilidade de evitar problemas e de ficar longe das vistas.
De certa forma, o arquivo de Phearson sobre o Clube Cronus foi sua ruína. Pois, ao ler o material, pela primeira vez comecei a pensar na questão do tempo.

Claire North, in As primeiras quinze vidas de Harry August

23/01/2023

As primeiras quinze vidas de Harry August | Capítulo 10

De volta à insanidade, de volta ao lugar da devastação.
Na minha quarta vida, Franklin Phearson foi ao hospital para interromper o uso de uma série de medicamentos, não para o meu bem, mas para o dele. Era dele a voz que pairava sobre mim e dizia, enquanto eu estava deitado, imóvel, na cama do hospital:
— O que vocês têm dado a este homem? Vocês disseram que ele ficaria lúcido.
Era dele a mão que firmava a maca enquanto me passavam pela porta da frente e me colocavam na ambulância não identificada que me aguardava lá fora.
Eram dele as solas duras nos sapatos de couro que ressoavam nos degraus de mármore do grande hotel, vazio pela baixa temporada, os funcionários mandados para casa, e onde me depositaram numa cama de plumas coberta com uma manta bordô, para sonhar e vomitar até atingir algum tipo de salvação.
Interromper qualquer droga é desagradável; com antipsicóticos, então, é uma bênção, às vezes boa, às vezes ruim. Com certeza eu desejei a morte, e eles me amarraram para evitar um suicídio. Com certeza eu sabia que tudo estava perdido e eu estava nesse meio, eu sabia que estava amaldiçoado e que não havia para onde fugir, e ansiava por perder a cabeça completamente, arrancar os olhos e enlouquecer de vez. E com certeza eu não me lembro, mesmo agora, mesmo com a minha memória, dos piores momentos, mas me lembro deles como se tivessem acontecido com outro homem. E com certeza eu sei que tenho a capacidade de voltar a ser tudo aquilo, de sentir tudo de novo, e sei que, embora a porta esteja trancada agora, existe um poço negro sem fundo nas entranhas da minha alma. Dizem que a mente não consegue se lembrar da dor; mas eu digo que isso pouco importa, pois, mesmo que a sensação física se perca, a lembrança do terror que a acompanha é perfeita. Não quero morrer neste momento, mas as circunstâncias desta escrita vão ditar meu caminho. Eu me lembro de ter querido morrer, e que o sentimento foi real.
Não houve um momento de lucidez, um momento em que acordei da escuridão e me vi curado naquele lugar. Em vez disso, foi um arrastar de pés lento rumo à compreensão, algumas poucas horas de conciliação seguidas de sono, seguidas de um despertar que permanecia desperto por um pouco mais de tempo. Aos poucos fui recuperando a dignidade humana: roupas limpas, minhas mãos enfim livres, as cicatrizes em volta dos meus pulsos e tornozelos limpas de sangue ressecado. Recebi permissão para me alimentar sozinho, primeiro na cama e sob supervisão, depois na janela e sob supervisão, depois no andar inferior e sob supervisão, e por fim no pátio do outro lado de um campo de croqué e de frente para um jardim verde bem-cuidado, onde o supervisor tentava fingir que era apenas um amigo. Recebi permissão para fazer a higiene no banheiro, mas sem objetos pontiagudos no cômodo e com guardas do lado de fora, mas eu não me importava e me sentava debaixo do chuveiro até que a pele parecesse uma uva-passa e o aquecedor no andar de cima começasse a tremer em agonia. Uma barba desgrenhada começara a crescer em meu queixo, e chamaram um barbeiro que estalava a língua, fazia movimentos bruscos, borrifava óleos italianos e disse num tom de voz estridente, usado para falar com crianças,
— Seu rosto é sua riqueza! Não gaste tudo de uma vez!
Franklin Phearson estivera discretamente presente durante todo o processo, e por seu ar de indiferença só me restava imaginar que estivesse no comando. Sentou-se a duas mesas de distância enquanto eu comia, estava perto do fim do corredor quando deixei o banheiro e, concluí, era o responsável pelo espelho bidirecional no meu quarto, que permitia uma visão ininterrupta do cômodo e só se revelava quando as câmeras de segurança ajustavam o foco e emitiam um leve zumbido.
Então, durante um café da manhã, ele se sentou comigo, não mais distante, e disse,
— Você parece bem melhor.
Bebi o chá com cuidado, do mesmo jeito que bebia tudo o mais que me serviam naquele lugar, dando pequenos goles para ver se detectava toxinas, e respondi:
— Estou me sentindo bem melhor. Obrigado.
— Talvez você se alegre em saber que o doutor Abel foi demitido.
Ele disse isso de forma tão casual, com o jornal no colo, os olhos percorrendo as pistas das palavras-cruzadas, que eu não entendi exatamente o que ele acabara de contar. Mas ele havia falado, e eu disse outra vez, como o mesmo tom neutro que eu usara quando criança com meu pai,
— Obrigado.
— Eu bato palmas para as intenções do doutor Abel, mas os métodos dele eram insanos. Gostaria de ver sua esposa?
Contei mentalmente até dez antes de me atrever a responder.
— Sim. Muito.
— Ela está consternada. Não sabe do seu paradeiro, acha que fugiu. Pode escrever para ela. Para tranquilizá-la.
— Seria bom.
— Ela vai receber uma compensação financeira. Talvez haja um julgamento para o doutor Abel. Talvez uma petição, quem sabe?
— Só quero revê-la.
— Em breve. Nosso objetivo é tomar o mínimo do seu tempo.
— Quem é você?
Ao ouvir minha pergunta, ele jogou o jornal de lado com um impulso repentino, como se estivesse se contendo ao esperar essa pergunta.
— Franklin Phearson, senhor — respondeu, estendendo a mão lisa e rosada. — É uma honra finalmente conhecê-lo, doutor August.
Olhei para a mão, mas não a apertei. Phearson a recuou com um leve abano, como se sua intenção nunca tivesse sido estendê-la, e, sim, fazer um exercício de relaxamento muscular. Ele pegou o jornal e o abriu nas notícias da região, que prometiam greve. Deslizei a colher na superfície do cereal e observei o leite se agitar no fundo.
— Então, você sabe o futuro — continuou ele por fim.
Com cuidado, pousei a colher no lado da tigela, limpei os lábios, cruzei as mãos e me recostei na cadeira.
Ele olhava fixo para o jornal, e não para mim.
— Não. Foi um surto psicótico.
— Que surto.
— Eu estava doente. Preciso de ajuda.
— É — entoou, folheando as páginas do jornal com força, mexendo o pulso de repente. — Isso é bo-ba-gem.
Ele gostou tanto de dizer a palavra que esboçou uma tentativa de sorriso nos cantos da boca, e pareceu pensar em repeti-la só para saborear a experiência.
— Quem é você?
— Franklin Pearson, senhor. Já disse.
— E está aqui em nome de quem?
— Não posso estar aqui em meu próprio nome?
— Mas não está.
— Estou aqui em nome de algumas agências, organizações, nações, partidos... como preferir chamar. Os mocinhos, basicamente. E você quer ajudar os mocinhos, não quer?
— E como ajudaria, se pudesse?
— Como eu disse, doutor August, o senhor sabe o futuro.
Um silêncio passou roçando entre nós como uma teia de aranha numa casa sombria. Ele parou de fingir que estava lendo o jornal, e eu passei a estudar seu rosto descaradamente.
— Há algumas questões óbvias que eu preciso perguntar — comentei, por fim. — Suspeito que já sei as respostas, mas, já que estamos sendo tão francos um com o outro...
— É claro. Nosso relacionamento deve se basear na honestidade.
— Se eu tentasse ir embora, teria permissão?
Phearson sorriu.
— Bem, é uma pergunta interessante. Permita que eu responda com outra pergunta: se você quisesse ir embora, para onde acha que poderia ir?
Passei a língua no interior da boca e senti cicatrizes que estavam fechando e cortes recém-abertos na parte interna da bochecha e nos lábios. Então:
— Se eu tivesse esse conhecimento, e eu não tenho, que uso você faria dele?
— Isso depende do que seja. Se você me disser que o Ocidente vai sair vitorioso deste conflito, que o bem vence e o mal tomba sob a espada do justo, então, porra, vou ser o primeiro a lhe pagar uma garrafa de champanhe e um banquete na brasserie que preferir. Mas se você souber as datas de massacres, de guerras e batalhas, de assassinatos e crimes, bem, senhor, não vou mentir, talvez a gente precise conversar um pouco mais.
— Você parece muito disposto a acreditar que eu sei alguma coisa do futuro, embora todos, incluindo a minha esposa, acreditem que tudo não passa de um delírio.
Ele suspirou, dobrou o jornal e o pôs de lado, como se tivesse desistido de fingir.
— Doutor August, deixe-me perguntar uma coisa, já que estamos nesse espírito de uma conversa livre e franca — retrucou ele, inclinando-se na mesa, com as mãos cruzadas sob o queixo. — Em alguma das suas viagens, das suas muitas, muitas viagens, você já ouviu falar em Clube Cronus?
— Não — respondi sinceramente. — Nunca ouvi. O que é?
— Um mito. Uma dessas bizarras notas de rodapé acadêmicas que vão ao fim de um texto para animar uma passagem especialmente chata, um conto de fadas do tipo “por acaso, alguns dizem isso, mas não é esquisito?”, enfiado em letras minúsculas no fim de um tomo nunca lido.
— E o que dizem essas letras minúsculas?
— Dizem... — respondeu ele, bufando com a resignação típica de quem está cansado de contar histórias. — Dizem que há certas pessoas vivendo entre nós que não morrem. Dizem que elas nascem, vivem, morrem e voltam a viver a mesma vida, mil vezes. E, sendo infinitamente velhas e sábias, elas se reúnem às vezes, ninguém sabe onde, e fazem... Bem, o que eles fazem varia de acordo com o texto. Alguns dizem que eles se vestem com túnicas brancas e se encontram para reuniões conspiratórias, outros dizem que fazem orgias para criar a geração seguinte de pessoas desse tipo. Não acredito nessas hipóteses, porque o Klu Klux Klan prejudicou a moda da túnica branca no Sul, e porque todo mundo aposta nas orgias.
— E isso é o Clube Cronus?
— Sim, senhor — respondeu Phearson, radiante. — Como os Illuminati sem o glamour, ou os maçons sem as abotoaduras, uma sociedade que se autoperpetua através do tempo para o infinito e o atemporal. Precisei investigar isso porque alguém disse que os russos faziam parte, e pelo que descobri é uma fantasia criada por alguém bem entediado, mas então... então aparece alguém como você, doutor August, e joga todo o meu trabalho no lixo.
— E você acha que pode ser verdade só porque os meus delírios são iguais à história que uma velha contou?
— Meu Deus, não! De jeito nenhum! Acho que é verdade porque os seus delírios correspondem à realidade. Então — disse ele, insinuando um leve sorriso ao se acomodar na cadeira —, cá estamos.
Tempo não é sabedoria; sabedoria não é inteligência. Ainda sou capaz de me sentir oprimido; Phearson me oprimia.
— Posso ter um tempo para pensar a respeito? — perguntei.
— Claro. Pense nisso com a cabeça no travesseiro, doutor August. Responda amanhã de manhã. Você joga croqué?
— Não.
— Lá fora tem um campo lindo, se quiser aprender.

Claire North, in As primeiras quinze vidas de Harry August

03/11/2022

As primeiras quinze vidas de Harry August | Capítulo 9

Jenny.
Ela falava com um sotaque de Glasgow que sua mãe tentou corrigir, mas não conseguiu. Sua mãe era o tipo de pessoa progressista, que sempre seguia em frente na vida, seu pai era um retrógrado que ficava para trás, e como resultado ambos permaneceram exatamente onde sempre estiveram até um dia depois do aniversário de 18 anos de Jenny, quando enfim se separaram para nunca mais se verem na vida.
Eu a encontrei outra vez, na minha sétima vida.
Foi durante uma conferência de pesquisa em Edimburgo. Meu crachá dizia “Professor H. August, University College London”, e o dela “Dra. J. Munroe, Cirurgiã”. Eu me sentei três fileiras atrás dela durante uma palestra incrivelmente entediante sobre a interação dos íons de cálcio no sistema nervoso periférico e, fascinado, observei sua nuca. Eu ainda não havia visto seu rosto, por isso não podia ter certeza de que era ela, mas eu sabia. À noite serviram bebidas e uma refeição, que consistia de um frango que havia passado do ponto e purê de batata com ervilhas empapadas. Uma banda tocava os sucessos dos anos 1950. Esperei até que os dois homens em sua companhia ficassem bêbados o bastante para irem para a pista de dança e a deixassem sozinha com seus pratos imundos e a toalha de mesa amarrotada. Sentei-me a seu lado e lhe estendi a mão.
— Harry — apresentei-me.
— Professor August? — corrigiu ela ao ler meu crachá.
— Doutora Munroe, nós já nos conhecemos.
— É mesmo? Não consigo...
— Você cursou medicina na Universidade de Edimburgo e, no primeiro ano, viveu numa casinha em Stockbridge com quatro garotos que tinham medo de você. Você foi babá dos gêmeos da casa vizinha para conseguir uns trocados e decidiu que queria ser cirurgiã ao ver um coração ainda batendo na mesa de operação.
— É isso mesmo — murmurou ela, virando um pouco mais o corpo na cadeira para me olhar. — Mas sinto muito, ainda não consigo lembrar quem você é.
— Não tem problema. Eu era um dos garotos amedrontados demais para falar com você. Quer dançar?
— O quê?
— Quer dançar comigo?
— Eu... ah, meu Deus. Você está tentando me dar uma cantada? É isso?
— Sou um homem muito bem-casado — menti. — Moro com minha família em Londres e não tenho más intenções com você. Admiro seu trabalho e não gosto de ver uma mulher ser largada sozinha. Se preferir, durante a dança podemos conversar sobre os últimos progressos na tecnologia de imagem e sobre se a predisposição genética é mais importante do que os estímulos de desenvolvimento sensorial para o crescimento do caminho neural durante a infância e a pré-adolescência. Dança comigo?
Jenny hesitou. Seus dedos rolaram a aliança de ouro cravejada com três diamantes, mais espalhafatosa do que a que lhe comprei em outra vida, uma vida que se apagara havia muito tempo. Ela olhou a pista de dança, imaginou que no meio daquela multidão nada de ruim poderia acontecer e ouviu a banda começar a tocar outra música ideal para manter as barreiras do protocolo social.
— Tudo bem — disse ela pegando minha mão. — Espero que esteja em dia com os certificados em bioquímica.
Nós dançamos.
Perguntei se era difícil ser a primeira mulher em seu departamento.
Ela riu e respondeu que só os idiotas a julgavam por ser mulher — e ela os julgava por ser idiotas.
— A vantagem é que eu posso ser mulher e uma cirurgiã boa pra cacete, mas eles nunca vão passar de idiotas — explicou.
Perguntei se ela se sentia só.
— Não — respondeu Jenny após um instante.
Não era. Tinha colegas de quem gostava, colegas a quem respeitava, família, amigos.
Tinha dois filhos.
Jenny sempre quisera ter filhos.
Fiquei imaginando se ela gostaria de ter um caso comigo.
Ela perguntou quando eu parei de temê-la a ponto de ficar tão solto na pista de dança.
Eu disse que tinha passado uma eternidade, mas que ela ainda era linda e eu sabia todos os seus segredos.
— Você não ouviu a parte em que eu falei dos meus amigos e colegas de profissão, da família e dos filhos?
Sim, eu ouvira tudo, e tudo isso pesou dentro de mim quando falei com ela, gritou para que eu fosse embora e a deixasse sozinha, que a vida dela já era completa e não precisava de mais complicações. Perguntei-lhe qual deveria ser o tamanho da minha atração para, mesmo sabendo de tudo aquilo, sussurrar palavras sedutoras ao pé de seu ouvido.
— Palavras sedutoras? É assim que você chama isso?
Fuja comigo, falei, ao menos por uma noite. O mundo vai continuar girando, tudo vai acabar, e as pessoas vão esquecer.
Por um instante ela pareceu tentada, então seu marido se aproximou e a pegou pela mão, e ele era leal, amoroso, completamente são e o que ela queria, e ela estava mais tentada pela aventura do que por mim.
Será que eu teria feito as coisas de outra forma se soubesse o que aconteceria com Jenny Munroe?
Talvez não.
Parece que, no fim das contas, o tempo não é tão sábio.

Claire North, in As primeiras quinze vidas de Harry August

17/09/2022

As primeiras quinze vidas de Harry August | Capítulo 7


Na década de 1990, esperava-se que os próprios profissionais da saúde mental procurassem aconselhamento e orientação constantes para manter o bem-estar emocional e mental. Certa vez, tentei seguir carreira na psicologia, mas percebi que os problemas que precisava diagnosticar eram extremamente emocionais ou subjetivos demais para tolerar uma análise reflexiva, e as ferramentas com que eu contava eram pueris ou pretensiosas. Resumindo, eu não tinha temperamento para ser psicólogo, e, ao ser internado no Hospício St. Margot pela segunda vez na minha existência, embora pela primeira naquela vida, senti uma mistura de fúria e orgulho ao ver que minha sanidade, mantida intacta apesar de todos as provações, poderia ser mal interpretada pelos mortais ignorantes que me rodeavam.
Os profissionais da saúde mental da década de 1960 fazem suas contrapartes da década de 1990 parecerem Mozarts espezinhando as obras inferiores de Salieri. Suponho que deva me considerar sortudo pelo fato de algumas das técnicas experimentais dos anos 1960 não terem chegado à cosmopolita Nortúmbria. Não testaram LSD ou ecstasy em mim, nem me convidaram a discutir minha sexualidade, já que nosso incomparável psiquiatra, dr. Abel, considerava Freud insalubre. O primeiro a descobrir isso foi a Tique, uma mulher infeliz que na verdade se chamava Lucy, cuja síndrome de Tourette fora tratada com uma mistura de apatia e brutalidade. Se por acaso nossos vigias tivessem alguma noção sobre terapia da quebra de hábito, colocavam-na em prática ao bater na lateral da cabeça de Lucy com as palmas abertas sempre que ela era tomada por um tique ou grunhia, e, se como consequência disso ela ficasse ainda mais alterada — o que era frequente quando provocada —, dois deles se sentavam em cima dela, um nas pernas, um no peito, até que ela quase desmaiasse. Na única vez em que tentei intervir, recebi o mesmo tratamento e fui imobilizado abaixo de Bill Feio, ex-presidiário e enfermeiro-chefe do turno diurno, com a aprovação vociferante de Clara Watkins e do Novato, que trabalhara lá por seis meses e ainda não havia revelado o próprio nome. Mostrando iniciativa, o Novato ficou em cima dos meus pulsos, enquanto Bill Feio me explicava que eu estava me comportando de maneira muito impertinente e prejudicial, e só porque eu pensava que era médico não significava que sabia de qualquer coisa. Chorei por me sentir impotente e frustrado, e ele me deu um tapa, o que despertou em mim uma raiva que canalizei para tentar conter as lágrimas e converter a autopiedade em fúria, mas não consegui.
— Pênis! — gritou Tique durante nossa sessão de grupo semanal. — Pênis pênis pênis!
Com seu minúsculo bigode tremendo como um rato assustado acima do lábio superior, o doutor Abel clicou a caneta para guardar a ponta.
— Calma, Lucy... — disse.
— Vamos, me dá, me dá, vamos, vamos, vamos! — gritou ela.
Observei o progresso do rubor que se estendia pelas faces do doutor Abel. Tinha uma luminescência fascinante, quase visível nos vasos capilares, e pensei por um instante que, se a expansão daquele rubor representava a velocidade de seu fluxo sanguíneo através da derme superficial, ele deveria considerar seriamente passar a praticar mais exercícios e submeter-se a uma boa massagem. Seu bigode saíra de moda um dia depois de Hitler invadir a Tchecoslováquia, e a única coisa que o ouvi dizer e que fez sentido foi:
— Doutor August, um homem não pode vivenciar um isolamento maior do que se ver sozinho em meio a uma multidão. Ele pode acenar, sorrir e dizer a coisa certa em cada ocasião, mas esse fingimento só faz com que sua alma perca cada vez mais a afinidade com os homens.
Perguntei em que biscoito da sorte ele havia lido isso, ele me olhou confuso e perguntou o que eram biscoitos da sorte e se eram feitos com gengibre.
— Me dá, me dá! — gritava a Tique.
— Isso é uma perda de tempo — disse o doutor Abel com a voz trêmula, no momento em que Lucy levantava o avental para nos mostrar suas enormes roupas íntimas e começou a dançar, o que fez Simon, que se encontrava no pior momento de sua crise de bipolaridade, começar a chorar, o que fez Margaret começar a balançar o corpo, o que fez que Bill Feio invadir a sala com um porrete na mão e uma camisa de força a caminho, enquanto o doutor Abel corria para longe já com as pontas das orelhas queimando como luzes de freio acesas.
Tínhamos permissão para receber visitas uma vez por mês, mas ninguém apareceu.
Simon disse que era melhor assim, que não queria ser visto daquele jeito, que sentia vergonha.
Margaret gritou e arranhou as paredes até que as unhas ficassem ensanguentadas e ela tivesse de ser levada ao quarto e sedada.
Com o rosto coberto de saliva, Lucy disse que não éramos nós quem devíamos nos sentir envergonhados, mas eles. Não disse quem eram “eles”, nem precisava, porque simplesmente tinha razão.
Após dois meses, eu estava pronto para ir embora.
— Agora eu vejo que sofri um colapso nervoso — expliquei calmamente, sentado à mesa do doutor Abel. — É óbvio que eu preciso de aconselhamento, mas só me resta expressar minha profunda gratidão ao senhor por ter me ajudado a superar esse episódio.
— Doutor August, acho que o senhor sofreu mais do que um simples colapso nervoso — explicou o doutor Abel, alinhando a caneta com a borda superior de seu bloco de notas. — Você padeceu de um episódio completo de delírio, que, acredito, é sinal de problemas psicológicos mais complexos.
Olhei para o doutor Abel como se fosse pela primeira vez e me perguntei o que poderia significar sucesso para ele. Não necessariamente uma cura, concluí, contanto que o tratamento fosse interessante.
— E o que o senhor sugere? — perguntei.
— Quero manter você aqui por mais um tempo. Estão lançando alguns medicamentos fascinantes, e acho que podem ser exatamente do que você precisa...
— Medicamentos?
— As fenotiazinas têm avançado de forma bem promissora...
— Isso é inseticida.
— Não... não, doutor August, não. Entendo sua preocupação de médico, mas lhe asseguro que, quando me refiro às fenotiazinas, estou falando dos derivados...
— Acho que gostaria de uma segunda opinião, doutor Abel.
Ele hesitou, e notei um arroubo de orgulho em seu rosto ante aquele princípio de conflito.
— Eu sou um psiquiatra totalmente qualificado, doutor August.
— Então, como psiquiatra totalmente qualificado, o senhor sabe como é importante ter a confiança do paciente em qualquer tratamento.
— Sei — admitiu ele a contragosto. — Mas eu sou o único médico qualificado nesta ala...
— Isso não é verdade. Eu sou qualificado.
— Doutor August — disse ele abrindo um sorriso —, o senhor está doente. Não está apto a praticar a medicina, muito menos no senhor mesmo.
— Quero que você chame minha esposa — retruquei firmemente. — Ela tem poder legal sobre o que o senhor pode fazer comigo. Eu me recuso a tomar fenotiazinas, e, se o senhor vai me forçar, vai precisar da autorização do meu parente mais próximo. E ela é meu parente mais próximo.
— Pelo que entendi, doutor August, ela é parcialmente responsável por sugerir seu confinamento e seu tratamento.
— Ela sabe distinguir um medicamento bom de outro ruim — corrigi. — Telefone para ela.
— Vou pensar.
— Não pense, doutor Abel. Ligue.
Até hoje não sei se ele ligou.
Pessoalmente, duvido.
Quando me deram a primeira dose do medicamento, tentaram fazer de forma dissimulada. Com aparência de inocente e dona de um prazer malicioso ao exercer sua função, Clara Watkins foi enviada com uma bandeja contendo as pílulas habituais — as quais peguei na palma da mão — e uma seringa.
— Vamos lá, Harry — censurou ela ao ver minha cara. — Isto aqui é bom para você.
— O que é? — exigi saber, já suspeitando.
— É um remédio! — entoou ela, animada. — Você adora tomar seus remédios, não é?
Bill Feio estava no fundo do quarto com os olhos fixos em mim. Sua presença confirmou minhas suspeitas: ele já estava esperando para atacar.
— Eu exijo ver um termo de consentimento legal assinado pelo meu parente mais próximo.
— Tome logo isso — disse ela agarrando minha manga, a qual eu puxei.
— Eu exijo um advogado, um representante justo, imparcial.
— Isto aqui não é uma prisão, Harry! — respondeu ela em tom amigável, meneando as sobrancelhas para Bill Feio. — Aqui não tem advogados.
— Eu tenho direito a uma segunda opinião!
— O doutor Abel só está fazendo o que é melhor para você. Por que dificultar as coisas? Vamos, Harry...
Ao ouvir isso, Bill Feio me deu um abraço de urso por trás e, não pela primeira vez, eu me peguei pensando por que em mais de duzentos anos de vida eu nunca me dei ao trabalho de aprender algum tipo de arte marcial. Ele era um ex-condenado que descobriu que ser enfermeiro de hospício era como estar na prisão, mas melhor. Exercitava-se uma hora por dia no jardim particular da instituição e tomava esteroides que faziam com que sua testa reluzisse de suor a todo momento e, suspeito, também com que seus testículos encolhessem, o que ele compensava com mais exercícios e, claro, mais esteroides. Qualquer que fosse o estado de suas gônadas, seus braços eram mais musculosos que minhas pernas e me envolveram com força o bastante para me levantar da minha cadeira enquanto eu inutilmente chutava o nada.
— Não — implorei. — Por favor não faz isso por favor por favor não...
Clara estapeou meu braço para deixar uma marca avermelhada, então conseguiu perder a veia por completo. Dei um chute, e Bill Feio me apertou com tanta força que meus olhos se injetaram de sangue e comecei a perder a consciência. Senti a agulha entrar, mas não sair, então eles me largaram no chão e me disseram pra não,
— Ser tão estúpido, Harry! Por que você precisa ser sempre tão estúpido com o que é bom para você?
Eles me deixaram lá, com o peso do corpo sobre as pernas escancaradas, esperando surtir efeito. Minha mente disparou enquanto eu tentava pensar num antídoto químico facilmente disponível ao veneno que invadia meu sistema, mas eu só havia sido médico durante uma vida e ainda não tivera tempo de conhecer esses medicamentos modernos. Rastejei pelo chão até o jarro de água e bebi tudo, então me deitei de costas no meio do quarto e tentei me acalmar, desacelerar o pulso e a respiração, numa tentativa inútil de limitar a circulação do medicamento. Tive a ideia de monitorar meus próprios sintomas, então me virei no chão para manter o relógio à vista e perceber a passagem do tempo. Após dez minutos, senti uma leve tontura, mas passou. Após quinze minutos, percebi que meus pés estavam do outro lado do mundo, que alguém havia me serrado ao meio, mas mantido os nervos conectados, embora os ossos estivessem quebrados e outra pessoa controlasse meus pés. Eu sabia que aquilo era impossível, mas mesmo assim acreditei na explicação com uma resignação que me impediu de lutar contra a simples realidade da situação.
Tique chegou, se aproximou de mim e disse,
— Tá fazendo o quê?
Achei que ela não precisava de resposta, então não me dei ao trabalho.
A saliva escorria por um lado do meu rosto. Até que foi agradável, o frio do cuspe contra o calor da minha pele.
— Tá fazendo o quê tá fazendo o quê tá fazendo o quê? — gritou ela, e eu me perguntei se na Nortúmbria já haviam ouvido falar de epinefrina, ou se esse tipo de medicamento ainda seria criado.
Ela me sacudiu por um instante e foi embora, mas o efeito perdurou, porque continuei tremendo e batendo a cabeça no chão, e eu sabia que havia me molhado, mas isso também foi agradável, interessante e diferente como a saliva, a urina adotando a temperatura do meu corpo até que secou e começou a incomodar, e além disso era um longo caminho, então Bill Feio chegou lá e seu rosto havia sido destruído. Tinha se esborrachado no teto como um tomate maduro, o crânio esmagado para dentro, e só restaram um nariz, dois olhos e uma boca maliciosa flutuando nos restos de sangue e cérebro encharcado ao redor, e quando ele se inclinou sobre mim pedacinhos de seu cerebelo pingavam de sua bochecha, deslizavam para o canto da boca e formavam uma lágrima de matéria cinzenta-rosa que ficava pendurava no lábio inferior e caía, como purê de maçã da colher de um bebê, direto no meu rosto, e eu gritava sem parar até que ele me estrangulou e eu parei de gritar.
É óbvio que a essa altura eu já havia perdido a noção do tempo, e com isso parei de tentar chegar a um diagnóstico através do exercício de contagem do tempo.

Claire North, in As primeiras quinze vidas de Harry August