quinta-feira, 3 de novembro de 2022

As primeiras quinze vidas de Harry August | Capítulo 9

Jenny.
Ela falava com um sotaque de Glasgow que sua mãe tentou corrigir, mas não conseguiu. Sua mãe era o tipo de pessoa progressista, que sempre seguia em frente na vida, seu pai era um retrógrado que ficava para trás, e como resultado ambos permaneceram exatamente onde sempre estiveram até um dia depois do aniversário de 18 anos de Jenny, quando enfim se separaram para nunca mais se verem na vida.
Eu a encontrei outra vez, na minha sétima vida.
Foi durante uma conferência de pesquisa em Edimburgo. Meu crachá dizia “Professor H. August, University College London”, e o dela “Dra. J. Munroe, Cirurgiã”. Eu me sentei três fileiras atrás dela durante uma palestra incrivelmente entediante sobre a interação dos íons de cálcio no sistema nervoso periférico e, fascinado, observei sua nuca. Eu ainda não havia visto seu rosto, por isso não podia ter certeza de que era ela, mas eu sabia. À noite serviram bebidas e uma refeição, que consistia de um frango que havia passado do ponto e purê de batata com ervilhas empapadas. Uma banda tocava os sucessos dos anos 1950. Esperei até que os dois homens em sua companhia ficassem bêbados o bastante para irem para a pista de dança e a deixassem sozinha com seus pratos imundos e a toalha de mesa amarrotada. Sentei-me a seu lado e lhe estendi a mão.
Harry — apresentei-me.
Professor August? — corrigiu ela ao ler meu crachá.
Doutora Munroe, nós já nos conhecemos.
É mesmo? Não consigo...
Você cursou medicina na Universidade de Edimburgo e, no primeiro ano, viveu numa casinha em Stockbridge com quatro garotos que tinham medo de você. Você foi babá dos gêmeos da casa vizinha para conseguir uns trocados e decidiu que queria ser cirurgiã ao ver um coração ainda batendo na mesa de operação.
É isso mesmo — murmurou ela, virando um pouco mais o corpo na cadeira para me olhar. — Mas sinto muito, ainda não consigo lembrar quem você é.
Não tem problema. Eu era um dos garotos amedrontados demais para falar com você. Quer dançar?
O quê?
Quer dançar comigo?
Eu... ah, meu Deus. Você está tentando me dar uma cantada? É isso?
Sou um homem muito bem-casado — menti. — Moro com minha família em Londres e não tenho más intenções com você. Admiro seu trabalho e não gosto de ver uma mulher ser largada sozinha. Se preferir, durante a dança podemos conversar sobre os últimos progressos na tecnologia de imagem e sobre se a predisposição genética é mais importante do que os estímulos de desenvolvimento sensorial para o crescimento do caminho neural durante a infância e a pré-adolescência. Dança comigo?
Jenny hesitou. Seus dedos rolaram a aliança de ouro cravejada com três diamantes, mais espalhafatosa do que a que lhe comprei em outra vida, uma vida que se apagara havia muito tempo. Ela olhou a pista de dança, imaginou que no meio daquela multidão nada de ruim poderia acontecer e ouviu a banda começar a tocar outra música ideal para manter as barreiras do protocolo social.
Tudo bem — disse ela pegando minha mão. — Espero que esteja em dia com os certificados em bioquímica.
Nós dançamos.
Perguntei se era difícil ser a primeira mulher em seu departamento.
Ela riu e respondeu que só os idiotas a julgavam por ser mulher — e ela os julgava por ser idiotas.
A vantagem é que eu posso ser mulher e uma cirurgiã boa pra cacete, mas eles nunca vão passar de idiotas — explicou.
Perguntei se ela se sentia só.
Não — respondeu Jenny após um instante.
Não era. Tinha colegas de quem gostava, colegas a quem respeitava, família, amigos.
Tinha dois filhos.
Jenny sempre quisera ter filhos.
Fiquei imaginando se ela gostaria de ter um caso comigo.
Ela perguntou quando eu parei de temê-la a ponto de ficar tão solto na pista de dança.
Eu disse que tinha passado uma eternidade, mas que ela ainda era linda e eu sabia todos os seus segredos.
Você não ouviu a parte em que eu falei dos meus amigos e colegas de profissão, da família e dos filhos?
Sim, eu ouvira tudo, e tudo isso pesou dentro de mim quando falei com ela, gritou para que eu fosse embora e a deixasse sozinha, que a vida dela já era completa e não precisava de mais complicações. Perguntei-lhe qual deveria ser o tamanho da minha atração para, mesmo sabendo de tudo aquilo, sussurrar palavras sedutoras ao pé de seu ouvido.
Palavras sedutoras? É assim que você chama isso?
Fuja comigo, falei, ao menos por uma noite. O mundo vai continuar girando, tudo vai acabar, e as pessoas vão esquecer.
Por um instante ela pareceu tentada, então seu marido se aproximou e a pegou pela mão, e ele era leal, amoroso, completamente são e o que ela queria, e ela estava mais tentada pela aventura do que por mim.
Será que eu teria feito as coisas de outra forma se soubesse o que aconteceria com Jenny Munroe?
Talvez não.
Parece que, no fim das contas, o tempo não é tão sábio.

Claire North, in As primeiras quinze vidas de Harry August

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