Jenny.
Ela
falava com um sotaque de Glasgow que sua mãe tentou corrigir, mas
não conseguiu. Sua mãe era o tipo de pessoa progressista, que
sempre seguia em frente na vida, seu pai era um retrógrado que
ficava para trás, e como resultado ambos permaneceram exatamente
onde sempre estiveram até um dia depois do aniversário de 18 anos
de Jenny, quando enfim se separaram para nunca mais se verem na vida.
Eu
a encontrei outra vez, na minha sétima vida.
Foi
durante uma conferência de pesquisa em Edimburgo. Meu crachá dizia
“Professor H. August, University College London”, e o dela “Dra.
J. Munroe, Cirurgiã”. Eu me sentei três fileiras atrás dela
durante uma palestra incrivelmente entediante sobre a interação dos
íons de cálcio no sistema nervoso periférico e, fascinado,
observei sua nuca. Eu ainda não havia visto seu rosto, por isso não
podia ter certeza de que era ela, mas eu sabia. À noite serviram
bebidas e uma refeição, que consistia de um frango que havia
passado do ponto e purê de batata com ervilhas empapadas. Uma banda
tocava os sucessos dos anos 1950. Esperei até que os dois homens em
sua companhia ficassem bêbados o bastante para irem para a pista de
dança e a deixassem sozinha com seus pratos imundos e a toalha de
mesa amarrotada. Sentei-me a seu lado e lhe estendi a mão.
— Harry
— apresentei-me.
— Professor
August? — corrigiu ela ao ler meu crachá.
— Doutora
Munroe, nós já nos conhecemos.
— É
mesmo? Não consigo...
— Você
cursou medicina na Universidade de Edimburgo e, no primeiro ano,
viveu numa casinha em Stockbridge com quatro garotos que tinham medo
de você. Você foi babá dos gêmeos da casa vizinha para conseguir
uns trocados e decidiu que queria ser cirurgiã ao ver um coração
ainda batendo na mesa de operação.
— É
isso mesmo — murmurou ela, virando um pouco mais o corpo na cadeira
para me olhar. — Mas sinto muito, ainda não consigo lembrar quem
você é.
— Não
tem problema. Eu era um dos garotos amedrontados demais para falar
com você. Quer dançar?
— O
quê?
— Quer
dançar comigo?
— Eu...
ah, meu Deus. Você está tentando me dar uma cantada? É isso?
— Sou
um homem muito bem-casado — menti. — Moro com minha família em
Londres e não tenho más intenções com você. Admiro seu trabalho
e não gosto de ver uma mulher ser largada sozinha. Se preferir,
durante a dança podemos conversar sobre os últimos progressos na
tecnologia de imagem e sobre se a predisposição genética é mais
importante do que os estímulos de desenvolvimento sensorial para o
crescimento do caminho neural durante a infância e a
pré-adolescência. Dança comigo?
Jenny
hesitou. Seus dedos rolaram a aliança de ouro cravejada com três
diamantes, mais espalhafatosa do que a que lhe comprei em outra vida,
uma vida que se apagara havia muito tempo. Ela olhou a pista de
dança, imaginou que no meio daquela multidão nada de ruim poderia
acontecer e ouviu a banda começar a tocar outra música ideal para
manter as barreiras do protocolo social.
— Tudo
bem — disse ela pegando minha mão. — Espero que esteja em dia
com os certificados em bioquímica.
Nós
dançamos.
Perguntei
se era difícil ser a primeira mulher em seu departamento.
Ela
riu e respondeu que só os idiotas a julgavam por ser mulher — e
ela os julgava por ser idiotas.
— A
vantagem é que eu posso ser mulher e uma cirurgiã boa pra cacete,
mas eles nunca vão passar de idiotas — explicou.
Perguntei
se ela se sentia só.
— Não
— respondeu Jenny após um instante.
Não
era. Tinha colegas de quem gostava, colegas a quem respeitava,
família, amigos.
Tinha
dois filhos.
Jenny
sempre quisera ter filhos.
Fiquei
imaginando se ela gostaria de ter um caso comigo.
Ela
perguntou quando eu parei de temê-la a ponto de ficar tão solto na
pista de dança.
Eu
disse que tinha passado uma eternidade, mas que ela ainda era linda e
eu sabia todos os seus segredos.
— Você
não ouviu a parte em que eu falei dos meus amigos e colegas de
profissão, da família e dos filhos?
Sim,
eu ouvira tudo, e tudo isso pesou dentro de mim quando falei com ela,
gritou para que eu fosse embora e a deixasse sozinha, que a vida dela
já era completa e não precisava de mais complicações.
Perguntei-lhe qual deveria ser o tamanho da minha atração para,
mesmo sabendo de tudo aquilo, sussurrar palavras sedutoras ao pé de
seu ouvido.
— Palavras
sedutoras? É assim que você chama isso?
Fuja
comigo, falei, ao menos por uma noite. O mundo vai continuar girando,
tudo vai acabar, e as pessoas vão esquecer.
Por
um instante ela pareceu tentada, então seu marido se aproximou e a
pegou pela mão, e ele era leal, amoroso, completamente são e o que
ela queria, e ela estava mais tentada pela aventura do que por mim.
Será
que eu teria feito as coisas de outra forma se soubesse o que
aconteceria com Jenny Munroe?
Talvez
não.
Parece
que, no fim das contas, o tempo não é tão sábio.
Claire North, in As primeiras quinze vidas de Harry August
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