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06/01/2025

O Caçula

De volta da repartição, José pendura o chapéu no cabide, atira na mesa da sala a correspondência que retirou da caixa postal. Assim que ele entra no quarto, o velho Francisco, que estava à espreita, vem apanhar o jornal e a carta.
A mãe bate na porta e traz o prato na bandeja. Assiste ao almoço de José, sentado na cama, e põe um pouco de ordem no quarto. Antes de se afastar, a mão de leve na cabeça quase calva:
— Meu filho, por que não conversa com seu pai?
— Poxa, mãe... Nunca vai aprender?
Dez anos que não fala com o pai e faz as refeições no quarto. Até hoje os filhos, quase todos casados, não fumam na presença do velho; ai de quem esquecia de tomar a bênção pela manhã e antes de dormir! O caçula José, mimado pela mãe, único a desafiar sua prepotência.
— Esse rapaz, Cecília, tem jeito não.
— Estou velho demais, mãe, para pedir louvado.
Os filhos casaram e desertaram a família, ficou somente José. O pai, que persegue a coitada de dona Cecília, verifica antes se ele não está por perto. Envelhecem, ambos intransigentes no seu rancor, o ancião lépido aos setenta anos e José, bigode grisalho, na flor dos quarenta. Herda a roupa sovada dos irmãos e dona Cecília, escondida do marido, dá-lhe pequena mesada para cinema e cigarro.
José circulou algum tempo de pasta, com prospecto de seguro e amostra de chocolate. Não vendeu apólice alguma, suficiente a importância da pasta preta. As amostras ele mesmo comeu. Chegava em casa, o paletó nas costas, exausto. Afinal ocupava-se em recado e servicinho para a mãe.
Se lhe entregam um cheque para descontar, imediatamente aflito. Do jornal vê a página esportiva, perplexo que a Rússia é comunista. Rapaz bem mandado, embora incapaz de ganhar a vida. Romântico, duas vezes foi noivo. A primeira de uma Fagundes, gorducha e ruiva. O velho Francisco levantou o braço para o céu:
— Onde é que esse rapaz tem a cabeça?
José desfez o compromisso — como sustentar a família se nada quer com o trabalho? — e não mais se falaram. A moça casou com outro, asinha se apartou. José em voz alta que o pai ouvisse lá da sala:
— Aqui do bichão ela não esquece!
Noivado seguinte com a prima de terceiro grau, ao jeito de dona Cecília, que fez gosto no casamento. José não marcava a data e, cinco anos depois, a pobre se finou do peito. Uma tarde surgiu a tia na casa, reclamou as cartas da filha. José em dúvida se as teria ou não devolvido. Acompanhado das duas senhoras, vasculharam o quarto. Dona Cecília se desculpava das migalhas na cama. As cartas de amor perdidas no fundo de um baú…
Às festinhas de família comparece o irmão Agenor, preferido do pai. José volta bêbado de madrugada. A mãe traz-lhe a comida, ele se queixa, coçando a barba:
— O menino de ouro vem aí. Dão o carro para ele. O menino querido sai de carro. E o bichão aqui não tem nada. Depois sou eu que vivo à custa do Chiquinho.
— Respeite o seu pai, meu filho.
— Quem, o Chiquinho? Que se dê o respeito para as negras dele.
O pai espairece no jardim, braço dado com Agenor.
— Olhe a calça caída do Chiquinho. O velho vai mal, hein, mãe? Já de pescoço fino.
Bebe durante a semana. No domingo, em cueca, peito cabeludo, folheia revista antiga e beberica leite com mel. A mãe censura a falta dos dentes.
— Todos não, mãe. Veja, firme o canino. O Chiquinho quer a bênção, não é?
— Deus te ouça, meu filho.
— O canino de lhe morder a mão!
Não sossega a velha enquanto ele não chega. Muita madrugada envolve o xale na cabeça, vai brigar com o botequineiro:
— O senhor é que desgraça meu filho. Não o deixa ir para casa. Aí nessa vida de perdição.
Defende-o das insinuações da família:
— Nada como um moço em casa. Se entra um ladrão... O que pode um velhinho?
E olha dos lados, o grande Francisco não escute, ainda se considera mais homem que o filho.
— Moço é diferente. Ele enfrenta o ladrão!
Famoso no tango com passinho floreado na pensão de mulheres, lenço de seda ao pescoço, chapéu de banda esconde a calvície:
— Fiquei careca do elixir 914…
O velhinho aos beijos com uma negra! Há dez anos expulso do quarto sagrado!
— ...que deram ao Chiquinho.
Em desafio ao velho exibe-se ao sábado, no cinema, de braço não com uma, senão duas e três mulatas pintadas de ouro — por todas é amado de graça. E cada dia mais parecido com o pai, o mesmo andar de mãos cruzadas nas costas, o jeito de alisar o cabelo atrás da orelha.

Dalton Trevisan, em Cemitério de elefantes

08/09/2024

As uvas


O herói subiu pelo elevador com o velho, um a examinar o outro. Saltaram ambos no quarto andar. Ele apertou a campainha. Na porta ao lado, o velho escolhia uma chave. Nelsinho entendeu na sua careta zombeteira — Olha aí mais um...
— Como vai o doutor? — cumprimentou Ivone, cerimoniosa.
Fechou a porta e sorriu:
— Tratei você de doutor. Esse velhote não me deixa em paz.
Na mesa um vaso minúsculo de cacto. Espetada em areia, na haste negra luzia pontinho escarlate.
— Incenso indiano, querido, para roubar teu coração!
Na janela a tarde bruxuleava. Envolto na nuvem adocicada, tossiu de leve: Ai, só me falta crise de asma.
— Muito distinto!
O herói tomou-lhe as mãos e quis beijá-la, mas desviou o rosto.
— Que tanta pressa! Nem me achou bonita.
Um passo atrás, que a pudesse admirar: cetim negro, três voltas do colar dourado. Boca inchada de batom. Cabelo preto retinto, olho de sombra roxa — a última encarnação de Mata Hari.
— Está linda, meu bem.
A menina que escrevia bilhete no intervalo das aulas: Desta mujer que te quiere mucho, mucho, mucho! Travou das mãos, cruzou-lhe os braços nas costas:
— Agora não escapa.
O herói beijou o ar, galinha cega bicando às tontas. Ela sacudiu a cabeça com gritinhos de terror.
— Por que me convidou?
— Falar com você.
— Insistiu que estava sozinha. Não pensei que para conversar.
— Cruzes! Nunca imaginei você queria isso.
Afastado na ponta dos braços:
— O mesmo olhar inocente do menino. Você é inocente?
— Você bem sabe — e forcejando para atraí-la, conseguiu derrubar um brinco.
— Viu o que fez?
— Depois eu acho.
— Ai, que horror! Me solte um pouco. Que tal um cigarro?
Com dedos de ponta amarela acendeu um fósforo.
— Fuma demais.
— Tão aflita...
— Se quer, vou embora.
— Não — e segurou-lhe a mão, ainda com o fósforo. — Olhe: do lado que cair a cabeça está o meu amor.
A cabecinha negra rolou para ele.
— Gosta de mim, querido? Preciso tanto de alguém. Tão só desde que a mãezinha morreu.
— E teu marido?
— Coitado do Vivi.
Espreguiçavam-se nos cantos as primeiras sombras da noite.
— Quer umas uvinhas, querido?
Na ponta do filete ardia a brasinha — Ivone apresentou-lhe o prato com uvas geladas e um guardanapo engomado. No outro lado da mesa, o rosto em nuvem azul de fumaça. Cruzou a perna, exibiu o chinelinho de pompom vermelho.
— Nervoso?
— Nem um pouco.
— Eu sim. Nunca enganei o Vivi. Boa a uva, não é?
— Ótima. Você quer?
— Já provei.
Batia o cigarro no vasinho de cacto. Ali no ombro uma pinta de beleza.
— Um beijinho na tua pinta!
No estremeção de peixe arisco:
— Sinto cócega. Ah, se o Vivi... Nem quero pensar!
— Onde é que ele está?
— Por aí.
— É bom para você?
— Muito. Atencioso, bem educado.
Apanhou na radiola o retrato de moldura prateada.
— Se não é parecido com você. Por isso goste dele. O primeiro beijo lá na varanda?
— Eu podia esquecer? — e roçou o lábio no ombro, errou a pinta. — Você era virgem?
— Que pergunta.
— É certo o que dizem do Vivi?
— Bem que noivo diferente. Pobre de mim, chorei de alegria. Moço prendado, falava línguas.
Só beijinho de muito respeito. Uma educação inglesa. Depois você sabe. ..
— Que foi que houve?
— Abri de repente a porta: aos beijos com o filho do porteiro!
Aspirou o cigarro ao ponto de recolher as bochechas.
— Simpático teu apartamento.
— Quer conhecer?
Ivone indicou a cozinha. Abriu a porta do quarto:
— Desculpe a desarrumação.
O quarto em perfeita ordem, duas camas de solteiro. Desta vez conseguiu beijá-la, sem que retribuísse.
— Espere. Limpar os lábios.
— Mais um beijinho.
— Não quero manchar tua camisa.
Apanhou lenço de papel sobre a penteadeira.
Ele observou as costas até achar a pinta — agora deixá-la nuazinha. Junto da cama, a lâmpada no garrafão azul.
— Muito original.
Olhando-o pelo espelho:
— Não é mesmo?
Voltou-se: rubros como antes, grossos de batom. Ele começou a beijar-lhe o pescoço, uma veia pulsava forte. Correu os dedos, esquecidos na nádega — louco por vestido com botão.
— Como é que é?
— O que, meu bem?
— A gente tira?
— Que pressa, cruzes! — o biquinho de contrariedade. — Conversar um pouco.
— Tenha paciência, filha. Não é hora.
Aborrecida, afastou-se dois passos:
— Está bem. Tire a roupa.
Sacou o vestido pela cabeça, tanta prática que nem se despenteou. Ele tirou o paletó.
— Um cabide?
— Penduro aqui mesmo.
De costas, jogou a calça ao pé da cama. Virou-se e o que viu? Ela de sutiã, anágua, chinelinho de pompom. Em cueca, nosso herói investiu. Ergueu a saia, surpreendeu a coxa no espelho — a matrona é avó torta da donzela. Para se consolar, fechou o olho e fungou-lhe no pescoço. Repelão violento o fez cambalear:
— Que é? Que foi?
— Espere um pouco.
Acendeu o cigarro, apanhou no guarda-roupa uma toalha, que estendeu sobre a colcha encarnada.
Nelsinho despiu a cueca, apenas de camisa e sapato. Ela o encarou e, a mão atrás, abriu o sutiã: horrendo peito flácido. Excitadíssimo ao vê-la tirar a calcinha, só de anágua. Que se debateu aflita:
— E o brinco?
— Que brinco? Ah, depois eu acho.
— Como é apressado, que horror! Vou lavar as mãos.
— Agora não. Depois.
— Tem de ser já.
Sem se confessar deprimido, o herói exibiu-se no espelho, admirou as suas graças. De frente e de perfil, erguendo a aba da camisa — grande cadela, deixa estar, ela me paga!
Ivone saiu do banheiro, soltou a anágua, pisou sobre ela — nua, cigarro na boca! Desviou-se mais uma vez do abraço:
— Não tira o sapato?
Foi sentar-se na cama, acendeu novo cigarro na brasa do outro.
Nelsinho livrou-se do sapato. Trêmulo, beijava-lhe o braço, o pescoço, a orelha — lembra-se, querida, a noite na varanda?
— Cuidado. Eu te queimo.
Fumava sem pressa, a boca feroz, olho no teto.
— Sossega, meu bem. Olha a cinza na colcha.
Ergueu-se no cotovelo, amassou o cigarro no cinzeiro. De repente envolveu-o num abraço apertado. Sem explicação, deitou a gemer alto: Ai, ai, ai! Empurrou-o, sacudiu a cabeça:
— Bonito o teu olho esquerdo!
Agarrou-o com violência, entre ais lancinantes. O rosto afundado no cabelo, Nelsinho espirrou duas vezes.
— Que foi, bem? Resfriou?
— A velha asma.
Sem aviso, a defender-se com unha e cotovelo:
— Me machucando. Trocar de posição. Mais para baixo. De mau jeito. Não desmanche o penteado.
Ele seguia as instruções, frustrado e miserável. Ivone enlaçou-lhe o pescoço e beijou-o, a gemer fora de tom. No meio do beijo, estremeceu a pálpebra, aos poucos abrindo o olho. Fixou-o no fundo da pupila, franziu a testa. Nelsinho começou a resfolegar, lavado de suor frio.
— Nervoso, bem? — melíflua, suspirou a bela.
Em desespero, fechando o olho, tornou a beijá-la: boca escarninha, cheia de dentes. Fio de baba escorreu no queixo, ela desviou o rosto:
— Incomodou-se hoje, não foi?
Inibido pela expressão de censura, o sulco na testa acusadora, ainda pediu:
— Me beije, querida.
— Não fique nervoso. Já passa.
— Você é que sabe — a voz sumida.
— Isso acontece.
Na separação dos corpos suados um estalo obsceno. Nelsinho deixou-se rolar de costas.
— Pois é. Acontece a qualquer um — com amargura medonha na alma.
— Bem quietinho — as palavras untuosas de doçura. — Como eu e meu marido.
Compassiva, afofou o travesseiro, que descansasse a cabeça. Alcançou lencinho na gaveta, enxugou-lhe a testa em agonia. Dois cigarros na boca, acendeu-os, estendeu-lhe um.
— Primeira vez? — a menina inocente na varanda.
Não queria conversa, preocupado em não se distrair.
— Nunca me aconteceu.
— Será que das uvas? — os seios sacolejando com o risinho de pouco caso.
— Se a gente ficasse de pé?
De pé, não deu resultado: a visão medonha da nádega no espelho. Depois, sentados. E deitados retomaram os cigarros. Nelsinho de costas, ela apoiada no cotovelo, a soprar-lhe a fumaça no olho. Com a mão livre, Ivone ofereceu entre o indicador e o polegar o seio opulento; sem entusiasmo, ele sorveu o leite mais triste. O coração pulsava no travesseiro e rangia no colchão. Tornou o suor a escorrer-lhe da testa.
— Igualzinho ao Vivi.
Ivone aspirou fundo, soprou deliciada pelo nariz: uma vez com um homem. Abordada na rua. Na própria lua-de-mel. Nunca soube quem era. Em vez de indignar-se, recolheu-o no apartamento. Tristonho, Nelsinho observava o desejo afoguear-lhe as faces, rouca de perturbação. Engoliu em seco: esmagou a boca de beijos, com receio de que o empurrasse para rematar a frase. Entreabriu o olho a gozar o triunfo, notou a ruga incrédula na testa. Ai dele! a exaltação gloriosa esvaiu-se em derrota sem remédio.
— Não se canse tanto, meu bem. Pode ter uma coisa!
Concluiu em sossego a história, na verdade muito interessante.
— Com calor? Que abra a janela?
— Fique quieta. — E com humildade. — Não sei o que... A primeira vez.
— Meu maridinho é bem assim.
A vez do herói acender os cigarros. No silêncio, choro de criança no apartamento vizinho, um relógio ao longe deu as horas. Último clarão do crepúsculo na janela. Chegou até ele a fragrância enjoativa do incenso: Deus, ó Deus, por que não morri de asma aos cinco anos?
Ivone saltou da cama, os peitos bamboleantes, foi apanhar um fósforo na sala. Voltou com o pratinho:
— Não quer acabar as uvas?
Deitado, beliscou dois e três grãos. Chupou o sumo, devolveu a casca ao prato. Apanhou outro bago. Tão desconsolado, em vez de cuspir, engoliu a semente e a casca.

Dalton Trevisan, em O Vampiro de Curitiba

24/08/2024

Menino caçando passarinho


– Advogado é padre, minha senhora. Pode confiar.
– Eu sei, doutor Nelson.
– Não se acanhe. Conte a verdade. Enganava seu marido, não é?
– Deus me livre!
– Nesta citação a senhora é culpada.
Dez anos casada. Um par de filhos. Seis meses atrás, uma perda. O resguardo, descansar na casa da mãe. De volta, deu com porta e janela trancadas. Na rua, recebeu a contrafé do oficial-de-justiça: desquite, alegação de adultério.
– Quem é esse João Maria, citado como cúmplice?
– Um compadre, doutor. Esse não vai contra mim.
Luto da mãe, o vestido preto colante, broche de borboleta. O marido tinha horror da sogra. Não lhe dirigiu a palavra nos três meses em que a velha se hospedou na casa, doente da bexiga. Tenha pena dela – suplicava a mulher. E você? Tem pena de mim?
Óculo escuro: olho roxo de um murro.
– Homem fraco na cama é forte fora dela.
– Como disse, doutor?
– Conte os fatos, minha senhora.
Passeio no campo, o marido, ela e as filhas. Desde que se negava, alegando mal de mulher, o bruto queria agarrá-la à traição. Atalho no bosque, mandou as crianças na frente. Derrubou-a na grama. Com os gritos, as crianças voltaram, nele batiam com a sombrinha: Não surre a minha mãe! Não afogue a minha mãe!
– Cuidar com carinho, dona Olga, de sua defesa.
Na vez seguinte: assinatura da procuração, os preâmbulos. Tão jovem, não definhava longe do marido? A separação de corpos, morando com o pai
– A senhora anda nervosa?
– Nem queira saber, doutor.
– E antes de casar?
– Era bem calma. Agora sofro dos nervos – às vezes tenho ataque!
Ai, que beleza: ela tem ataque.
– A senhora... delirava, dona Olga? Olhinho baixo: Sim.
– Um bem que Deus lhe concedeu. Sabe, o delírio, o que há de maravilhoso. A mulher tem convulsão, dona Olga.
– É fato científico. Não se acanhe. Advogado em serviço não tem sexo.
– Eu sei, doutor.
– Aqui no escritório muita interrupção. Levo os papéis a um lugar sossegado. No hotel da estação, está bem?
– Sim.
Esperou de quinze para as quatro até quatro e meia - assustei a pombinha, essa não volta mais.
– Dona Olga. Por que não foi?
– Eu fui. O doutor não estava mais. Negaceava, a bichinha, sem dizer que não. No escritório, após o expediente, discutir a pensão do marido para os filhos. Seis em ponto, Olga entrou na sala de espera. O herói fechou a porta e investiu.
– O doutor era um ídolo. Pensa que mulher separada não é honesta?
– Um beijinho só.
– Olhe que eu grito.
Picaria – só um pouco – se abrisse a porta. Ligeiro beijo roubado, a que não correspondeu.
– Prometo me comportar.
Com a porta aberta – imagine se alguém! – insistiu no assalto. Passos na escada, o elevador ora subia, ora descia. Sentados no sofá, a bela concedeu-lhe a mãozinha, que cobriu de beijos inflamados.
– Olhe que eu saio.
Ia sentar-se na outra cadeira. Ele arrastava-a para o sofá. Luta silenciosa e feroz: os dedos arranhados pela unha afiada. Despedida cerimoniosa na porta:
– Passe bem, doutor.
– Os seus problemas eu resolvo. A senhora tenha confiança.
Surgiu-lhe o marido uma tarde no escritório:
– Mais algum papel para assinar, doutor?
– Era só.
– Desconfio dela, doutor. Falam muito. Anda enfeitada demais.
– É moça direitinha. O senhor tem prova? Sabe de fato concreto?
– Fato, não sei, doutor. Desconfiança a gente sempre tem. A mulher capricha na roupa de baixo, que o homem se cuide.
Saia preta e blusa branca de rendinha, braço à mostra – uma cicatriz de vacina meio escondida. A moça lia a petição, o doutor lhe afagava o bracinho. A fingir que lia, o rosto abrasado de excitação.
– Vamos lá?
– Lá não dá, doutor. Lá não dá certo. Que o senhor quer de mim? O homem só faz as coisas por interesse. É esse o preço do homem!
Afogueada, a penugem do braço arrepiadinha. Ele não se conteve: alisou-o de alto a baixo com as duas mãos.
O doutor era influente – não sabia de uma vaga de professora?
– Já se considere nomeada, dona Olga.
À saída, ela fez biquinho com o lábio e, estando de salto alto, forçado a se pôr na pontinha do pé.
– Se der, eu vou. Não sei se posso. Eu não devo.
– Então às cinco?
Choveu bem na hora. Esbarrou no pai dela, o velho farmacêutico.
– Eu mando ela sem falta. O doutor pode confiar.
Olga reagiu, que ele cambaleou de costas.
– Não adianta. Eu não quero.
– Então tudo acabou. O caso foi processado. Quer ir para casa, vá – e arquejava, de fôlego curto.
Entre os artigos de lei, a se lembrar do bracinho arrepiado, o olho amarelo de quem sofre do fígado – eu tenho ataque, doutor! Recado urgente pelo farmacêutico que ela o esperasse em casa, às duas da tarde.
Bateu palmas na porta dos fundos. Olga assomou à janela.
– Entre, que já desço.
Abriu a porta: estaria o diabo do velho? À espreita, quem sabe, atrás da cortina? Ela desceu a escada, repuxando a saia no joelho. O vestido caseiro, em chinelinho.
Imediatamente a agarrou aos beijos e abraços.
– Louco por você.
Abatida, sem pintura, de olheira – ai, mãe do céu, de olheira!
Que dizia ela? Não mais que balbucios:
– Sim, doutor – e revirava o olho. – Ai, doutor.
Sempre a resguardar-se das três mãos. Uma hora inteira de beijos – o dentinho perfumado.
– Sossegue. Papai entra de repente. O senhor é doido?
Iniciação ao beijo de língua. O vestido afogado no colo, ele não podia espirrar o seio. Mordiscava a ponta da orelha.
– Sabia o que eu queria?
– Sim.
– Desde quando?
– Desde a primeira vez. Da conversa que advogado é padre.
– Ai, Olga. Me beije.
– Aqui não dá. Se papai chega?
– As crianças?
– Mandei no vizinho.
– Deixe. Mais um pouco. Só um pouco.
– Onde já se viu? É loucura.
– Conhece a minha posição. Sou casado. Houvesse risco, o primeiro a não querer.
À roda da casa, fingia coçar o nariz, com a mão no rosto. Na hora combinada, surgiu pressurosa e tossindo, lencinho na boca.
Deu volta à chave. Ela caiu-lhe nos braços, toda trêmula. Nem falar podia, tão assustada. Desabotoava o casaquinho – cuidado, querido, o pregador! Ele arrancou a gravata. Aos cochichos – já era hábito. Bem o marido tinha razão: a maravilhosa roupa de baixo – sedas e rendas! Aos beijos, de pé. Aos beijos, sentados no sofá. Deitados no tapete, rolando.
– Quer que morda ou beije?
– Sim.
– Beije ou morda?
– Sim. Ai, sim. Ai, sim.
– Abra o olho.
– Gema comigo, anjo. Agora.
O herói gemeu. Ela o acompanhou em tom mais baixo.
– Ai, ai. Eu morro.
Estirada no tapete, bem quieta, a combinação azul acima do joelho.
Ele abotoou o paletó, acendeu cigarro. A bela mordia um grampo, a observá-lo no espelho:
– Mais uma para tua coleção?
– Você é a única.
Foi introduzir uma nota na bolsa.
– Não sou dessas.
Esperou-a no portão dos fundos. No quintal vizinho, um menino caçava, atiradeira em punho e olhar perdido. Gente na rua: a negra velha, um soldado discutia com o barbeiro.
Saltinhos saltitando na pedra, ele tossiu três vezes.
– Que imprudência!
De saia xadrez, blusa de lã. Fechada a porta, dela o primeiro beijo:
– Obrigada, meu amor. Pode o que quiser. Agradecida pela nomeação, despiu-se a toda pressa. Ele, em cueca e meia preta:
– Fique nua.
O seio róseo empinadinho. Já ritual:
– Morda ou beije?
– Sim – a mania de repetir sim, sim. Como é que um bruto desprezava dona tão querida?
Suspiros e, ao apertá-lo nos braços, o cheiro capitoso de égua trêmula.
– Se não corro me atrasava. Bem louca. Você me deixou assim.
– Com o João não fazia... isso?
– Credo! Isso nunca aconteceu.
O herói beliscava o biquinho do seio inchado.
– Teu marido como é?
Um apressado, procurava-a sem aviso; em seguida dava-lhe as costas. Não ficasse mal acostumada – um trapo sujo atirado no canto.
– Tem me seguido. Não é arriscado vir aqui? Estou com medo.
– Me beije. Não fale.
– Vai enjoar de mim? O homem consegue o que quer. Depois corre atrás de outra.
– Me beije. Ai, Olga. Não fale. Abra o olho. Grande olho amarelo agora bem vermelho. Acuda, Olguinha, me deu ataque.
– Fique de olho aberto.
À saída, assustou-se com o menino trepado na ameixeira.
– Tem gente aí.
– Boba. É um menino.
– Se ele me vê?
Menino caçando passarinho é cego para o que não for passarinho.

Dalton Trevisan, em O Vampiro de Curitiba

18/08/2024

Na pontinha da orelha


Nelsinho abriu o portão, equilibrou-se nos tijolos soltos e, diante da porta, conchegado no saco de estopa, onde limpava os pés, deu com o Paxá. Tarde o cachorro descobriu que era ele, havia rolado os três degraus com o pontapé. Velho e doente, nem rosnou, apenas gemeu de dor; trêmulo, arrastando a perna, perdeu-se no fundo do quintal. O rapaz bateu na porta e, sem esperar, entrou na cozinha deserta. Ouviu as vozes do rádio e, pontinha de pé, dirigiu-se para a sala.
Do corredor espiou a velha na cadeira de balanço, tigela erguida ao peito, a engolir com avidez o caldo de feijão. Imóvel à porta, ele não a tinha enganado: a velha sorvia ruidosamente a sopa, sem deixar de seguir a novela. Nada que denunciasse a atenção – nem piscar de pálpebra, nem arfar de narina, escancarada a boca quando a colher ainda na tigela –, sabia de sua presença desde que saltara do ônibus na esquina. Sob a ladainha dos atores percebia o chio do sapato na areia, o leve toque na porta. Jamais lhe deu as costas – não seria ela, velha matadora, quem se descuidasse do touro. O herói espreitava o dia em que a surpreendesse no sótão, à beira da escada...
– Boa noite, dona Gabriela. Já veio a Neusa?
– Trocando de roupa. – E segundo a regra do jogo: – Que susto, meu filho, me pregou! – e a colher raspava o fundo da tigela. – O Paxá, coitado, não tem força de latir.
Aviso de que não subestimasse as velhas matadoras: sabia do pontapé no guapeca do coração. Depositou a tigela na mesa do lado. Mão trêmula, alcançou o copo.
– Tomando sua cervejinha, dona Gabriela? Expressão obscena de gozo, bebia de olho fechado.
– Ganhei do Noca.
– A primeira?
– É, sim.
– Acabou a garrafinha de rum?
Bigode de espuma na boca encarquilhada.
– Fale baixo, a Neusa escuta.
Exibiu entre as raízes podres o último canino amarelo.
– Um restinho só.
– Que tal mais uma?
– Minha perdição é você, meu filho. Emprestada, hein? Faço questão de pagar.
– O Zezinho não aliviou a carteira?
– Nem queira saber.
Suspiro nas entranhas da velha, que emborcou o copo. Apressou-se o rapaz em servi-la.
– Bem que escondi – e deu um arrotinho. – Essa tosse. Quero ver se descobre.
– Tem muito dinheiro, não é?
A velha girou o rosto – não desvie o olho, conde Nelsinho, que está perdido.
– Ai de mim. Tivesse dinheiro, estava gemendo e sofrendo nesta cadeira? Pensa que tenho, é?
No buço da velha secavam as bolhas de espuma.
– Quer outra garrafa?
O dedinho inchado de nós catou fiapos da saia.
– Conte para ninguém, meu filho. Senão eles escondem. Não me dão um gole.
– Fique descansada. É segredinho.
– Cuidado, a Neusa.
Ele virou-se, não disfarçou a careta de desgosto.
– Que foi, meu bem?
– Esse vestido.
Até que engraçadinho, xadrez azul e preto.
– Que é que tem?
– Sabe que tenho pavor.
– A virgem há que fazê-la rastejar. Lavar meu pé, enxugá-lo no cabelo perfumado.
– Quer que mude?
Alguma vez iria enfrentá-lo, não hoje:
– Bobinha de mim.
Neusa ergueu-se para beijá-lo. Ele voltou o rosto e, franzindo a sobrancelha, designou ali a múmia, pescoço torto a fim de aproveitar a última gota. A garrafa vazia deixou a velha amarga. Mal o percebeu instalado na cadeira:
– Ai, meu filho. O que é a doença. Deus te livre sofrer como eu. Velho pode morrer, ninguém liga.
Cruz na boca, ó diaba agourenta.
– Disse bem, dona Gabriela. Cadê o pessoal?
– Lígia no cinema com o Artur.
– E o Zezinho?
– Acha que podiam ir só os dois? Afogá-la no barril de rum – ela e o chantagista do Zezinho.
– Não tem medo de ficar sozinha?
Ela reclinou-se na cadeira, à mostra o tornozelo inchado – um labirinto de grossas varizes roxas.
– O velho sempre só. Nem queira saber o que é viver assim. A ninguém desejo o que sofro. Eu que sei. Isso não é vida. Deus me perdoe. Deus não existe. Se existisse, me deixava tanto sofrer?
Faraó sentado no sarcófago, crispava no joelho pontudo a mão transparente. Ali grudadas duas, três moscas.
– Justo cada um pague os seus pecados. Não eu, que nunca desejei mal. Me matei de bater roupa no tanque. Gastei os dedos de esfregar a chapa do fogão. Perdi os olhos de costurar à noite. Se alguém devia sofrer não eu – era o Carlito. Devia ter acontecido para o Carlito.
– Ele não morreu?
– Levou uma vida feliz. E não sofreu para morrer. Os dias bebendo com as vagabundas. Me arrebentei de trabalhar, condenada a esta cadeira. Ele se regalou e morreu na força do homem.
– Morreu de quê?
– Tumor na cabeça. Sem ninguém. Pedindo o meu perdão. Que o fosse ver na hora da morte. Rezei no velório, isso sim. Perdoar é que não.
Mão no bolso, Nelsinho batia-se pela saleta, encurralado. Fingindo admirar a Santa Ceia, careta medonha para o papagaio pesteado. Apontou-lhe espingarda imaginária na nuca. Se bem não espantasse as moscas, ela coçou o alvo no pescoço. – Me ouvindo, meu filho? Não queira ficar igual a mim. Fui moça feito você.
Lá estava a praguejá-lo, rainha louca. Bem feito, castigo do céu.
Sempre a falar, dirigiu-se à escada, abriu a porta da despensa. Um passo na escuridão, dobrou a cabeça e, sem acender a luz, afastou as latas de açúcar, feijão, arroz, desentranhou outra garrafa.
– Reze por mim, meu filho. Não sei o que é dormir. Sentada na cama, à escuta... A bulha do morcego. Um grilo preto no canteiro de couve. Lá no degrau os dentes do Paxá estalando. Se não é a cervejinha...
– Não se trata com médico?
– Única esperança é um milagre.
Fez-se o milagre: Neusa assomou à porta. Num salto o rapaz agarrou-lhe a mão. Atravessando o corredor, arrastou-a para a sala vizinha; primeiro exibiu a língua para a velha, entretida em derramar a bebida sem fazer espuma.
Tirou o paletó, estendeu-se com gemido no sofá. Neusa fechou a janela – Zezinho, oito anos, era o olho da diaba. Ao erguer o braço, a blusa branca revelou nesga de carne: sei que não devo, muito magro, uma tosse feia – se não me cuido, nasce cabelo na palma da mão. A bela sentou-se na ponta do sofá, ele cruzou os pés na mesinha.
– Por favor, Neusa. Nunca me deixe só com ela. Para aguentar tua avó precisa ser santo. Por que não serve vidro moído na sopa?
– Fale baixo. Ela escuta.
– O rádio ligado.
– Ela entende através da parede.
– Bem desconfiei. Ouviu o pontapé no Paxá.
– É bruxa.
– Mudá-la para o sótão. Acaba rolando da escada.
– Não diga bobagem, querido. Chega dessa velha horrorosa.
– Que você fez?
Abriu os braços no espaldar. Neusa apoiou a cabeça no seu ombro.
– Trabalhei.
– Faz tempo que chegou?
– Pouco antes de você.
– Teu patrão paga extraordinário?
– Nem um tostão.
– Não quis se fazer de engraçadinho?
– Seja bobo, querido. É casado.
– E daí?
– Tenho noivo particular.
– Como é que ele sabe?
– Você nunca foi me esperar?
– Que foi que falou?
– Achou você muito simpático. Até pergunta quando são os doces.
Ah, os doces, e? Esses doces, quem vai comer é o Paxá. Ela aninhou-se no peito e, erguendo a cabeça, beijou-o na pontinha da orelha.
– Tenho de esperar muito, querido? Não posso com essa diaba.
– Faça isso não. Todo arrepiado.
A moça prendeu-lhe a cabeça nas mãos, deu um beijo frenético: a língua se oferecia no lábio entreaberto.
– Não para de chupar bala de hortelã.
– Quer que jogue?
– Mania essa!
A oportunidade de me salvar: fazer uma cena e adeus, beleza!
– Não fique bravo, meu bem.
Com os olhos procurou um lugar: o vaso de violetas? A janela, fechada. Fitou-o chorosa.
– Que eu engula?
– Se gosta de mim, engole.
Deglutiu a bala inteirinha. Doeu, uma lágrima saltou de cada olho. Esta não me escapa – é minha.
– Falei brincando.
– Tudo que você quiser.
– Tudo, Neusa? Tudo mesmo? Ofereceu-lhe, sim, a boca inchada de beijos.
Crisparam-se as mãos do rapaz no espaldar – sei que não devo, é loucura. A velha na saleta, assim não adianta xarope de agrião. De leve afagou o braço lisinho. Sabe o delírio de uma carne em flor? A mão escorregou – sou fraco, Senhor, não mereço – até empalmar a pêra descascada do seio. O que é prender um pintassilgo no alçapão? O herói apertou a pálpebra: o biquinho do pintassilgo beliscava a mão do dono.
Esmagada pelo abraço, a moça libertou uma das mãos e introduziu-a sob a camisa – cinco patinhas úmidas de mosca a arrepiá-lo da nuca à ponta do pé. Derretido de gozo, comprimiu segunda vez a pálpebra – uma cóceguinha no céu da boca, prestes a uivar.
Estalavam as molas do sofá. Ó Deus, se a velhota, de repente? Sentou-se penosamente, suportando o peso da moça. Ofegante, respirou de boca aberta, dedo tremente abriu a blusa. Afastou-a do sofá para desprender a blusa, espirrou o sutiã no colo da moça. Sempre nova a descoberta do pequeno seio, metade exata de limão – e precipitou-se para beijá-lo. Diante do peito alvacento de pombinha as dores do mundo perdiam o sentido.
Mal o tempo de esconjurar a velha – afogado que afunda terceira vez a cabeça – e rolou, e rolaram os dois pelo sofá, pequeno demais para os acolher. Não podiam deitar-se, suspendeu-a pela cintura, ficaram de pé.
Largou-a um instante, com repelão desfez-se da camisa. Beijou a bela que desfalecia, filhotes famintos roubando alimento um da boca do outro. Mão frenética nas prendas deliciosas, encontrou a lasca da saia, libertou o único botão. Aos poucos a saia preta devassava a calcinha rósea. Um passo atrás, a saia deslizou ao pé da moça: Neusa ai, Neusa! Cheia de aflição, gemeu baixinho – Por lavar, por favor! Desesperado – tomara a velha pense que é o Paxá –, ergueu-a com as duas mãos, que ficasse do seu tamanho. Ela entendeu, alçou-se na ponta do pé, um coube direitinho no outro.
O herói pairou a nove centímetros do chão. Ao tatalar da asa da loucura: Qual é teu nome? Responda depressa: Quem é você? Depressa – e antes que pudesse, dona Gabriela entrou na sala.
Separaram-se, cambaleando cada um de seu lado. O coração de Nelsinho disparou a mil por minuto. Uma veia, de que nunca suspeitara, latejava na testa a ponto de rebentar: Me acuda, mãe do céu.
– Que é... a senhora quer, vovó?
Da garganta de Neusa – não era a sua voz. A velha recolheu o braço estendido, balançou a cabeça em silêncio, olho bem aberto. Na teia escura de rugas lampejo azul de desconfiança.
– Por que tão quietos?
O herói estupefato diante da velha que os enfrentava sem piscar.
– Por que está de pé, menina?
– Eu... trocando a lâmpada.
– O foco queimou?
– Agora mesmo.
– Vocês se comportaram? O Nelsinho é de confiança. O que esperando, minha filha? Pegue um foco na despensa.
Neusa pisou o monte de roupa. Ao alcance da megera, junto da porta. Agora estende a mão, agarra a menina – tenho de fazer uma carnificina. Quase um grito, para que o olhasse:
– Quer que eu – a voz partiu-se, continuou sem fôlego – outra cervejinha?
– Muito gentil, meu filho. Daqui a pouco... Se soubesse. Tão só, lá na sala. Uma dor fininha no coração. Pensei que era o fim.
A moça tornou de mansinho, o seio na mão:
– Aqui o foco, vovó.
Descalçou o sapato, subiu na cadeira:
– Pronto.
Sentou-se ao lado do rapaz, que enxugava o suor frio da testa. Sempre a vigiar a velha, quase sem vê-la, óculo embaçado. Com um suspiro, a anciã afundou-se na poltrona, repuxou o xale negro polvilhado de caspa.
– Ah, minha filha, você soubesse... Contava para o Nelsinho – e o pé sacudido por tremores, um pangaré que espantasse as varejeiras. – Pagando o pecado de outro.
Ah, meus filhos, o que é sofrer como eu – e deu um arroto.
A bruxa de pilequinho.
– Mais uma garrafa, dona Gabriela? Mil garrafas não a fariam calar a boca.
– Gosto de você, Nelsinho. Como de um filho. Deus o livre e guarde da minha doença. Reze por mim.
Derrotado, baixou a cabeça, prendeu três botões da camisa,
– Não queira ficar como eu. Só eu sei. Isso não é vida.
Observando a avó cega e concordando com ela – Sim, vovó. Pois é, vovó. É sim, vovó – Neusa desabotoou um, dois, três botões e voltou a beijá-lo na pontinha da orelha.

Dalton Trevisan, em O Vampiro de Curitiba