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18/05/2020

Espaços não submetidos ao rendimento escolar

Cruzemos a fronteira que separa o Brasil da Argentina e ouçamos Javier Maidana, professor em um colégio de um bairro popular da grande Buenos Aires. Ele relembra o dia em que duas mulheres vieram propor a abertura de um "Centro de Leitura para Todos". Ele estava lá, do lado dos alunos, tão desconfiado quanto aqueles jovens brasileiros quando viram chegar as animadoras de A Cor da Letra. Uma das duas visitantes, Ani Siro, leu em voz alta um texto que falava da descoberta dos paraísos pessoais e perguntou se eles tinham um tal paraíso:

Aconteceu comigo uma coisa bizarra, eu redescobri o prazer de ouvir uma história, como quando eu era pequena, a voz da nossa leitora nos envolvia delicadamente e eu esquecia tudo, que era professora, que era adulta, que estava diante de meus alunos, e viajei até a minha infância. E me lembrei que meu paraíso era dentro dos banheiros precários que existiam na minha casa. Eram feitos de madeira e a umidade fazia marcas que adquiriam formas humanas, ou demoníacas, ou se transformavam em monstros mitológicos com quem eu podia conversar se quisesse ou se tivesse necessidade de fazê-lo, ou ficar ouvindo o que me diziam. Ali, quando eu tinha sete anos, me sentia protegida. [...] Não consegui resistir e tive que compartilhar essa lembrança com aqueles que participavam da reunião. Em seguida, alguma coisa mudou. O ambiente ficou mais relaxado, tudo parecia mais à vontade e todos começaram a falar de seus paraísos”.

Javier se tornou um dos animadores desse centro de leitura. E se esse centro está localizado dentro de um colégio, ele é ao mesmo tempo dotado de uma certa extraterritorialidade: como dizem seus entusiastas, é "um espaço de não obrigação no meio da obrigação", uma terra de liberdade não submetida ao rendimento escolar, e os adolescentes, meninos e meninas de doze a dezessete anos, fazem parte do projeto porque optaram por isso. Nem todos são bons alunos e a maioria não teve uma infância embalada por leituras noturnas, mas nesse centro eles desfrutam da presença calorosa e da escuta de mulheres ou homens que adoram a literatura e que se sobressaem na arte de falar de sua própria experiência como leitores.
Assim como os adolescentes brasileiros, eles aprenderam a ler em voz alta sem temer o olhar dos outros. No início, também ficavam apavorados: “Eu não tinha medo dos livros, tinha medo da rejeição das pessoas para quem eu lia”. Também eles foram reconhecidos, como Dario, que se lembra da primeira vez que leu em público: “Quando eu os olhava, via um pequeno sorriso em seus rostos que me fazia sentir como em minha casa, e o melhor momento foi quando, no final, eles me aplaudiram. Pela primeira vez na minha vida, eu me senti importante. [...] Quando leio para as crianças e elas me aplaudem, me sinto único e importante”. Aqueles que desejam vão ler para outros no colégio ou fora dele, enquanto seus companheiros são “exploradores de livros”, que renovam as leituras propostas depois de ter aprofundado os critérios de seleção. Todas as semanas eles se encontram, primeiro para momentos de especulação pessoal, de intimidade com os livros, depois comentam suas impressões, suas preferências, suas histórias singulares de leitores. Em seguida, o coordenador lê em voz alta um texto que selecionou e todos debatem as possíveis interpretações. Como na experiência brasileira, às vezes são organizadas saídas culturais que levam à descoberta de outros bairros.
Na véspera da minha chegada, eles haviam buscado na internet poemas de Jacques Prévert de que gostavam para que eu lesse em francês e eles, em espanhol. Também deram voz a outros poemas e a contos que, em sua maioria, falavam de amor e, algumas vezes, da morte; depois discutiram um deles, no caso, o conto “A dama ou o tigre?”, do americano Raymond Smullyan. Sentia-se no grupo muita amizade e, ouvindo-os, eu pensava que havia ali uma escola de atenção delicada ao outro — e ao outro sexo. Alguns leram os próprios textos e um deles contou que escrevia sempre sobre uma mulher, até o dia em que um poeta foi ao centro e lhe disse para tentar encontrar a beleza que buscava naquela mulher na natureza. “Gostei daquilo, me abriu muitas portas. Fiz uma poesia combinando a mulher com a natureza.” A partir da mulher sonhada, o mundo entrou em seus poemas. Um outro garoto, Juan Carlos, disse: “Era preciso que eu fizesse algo por minha vida. Se não tivesse encontrado o centro de leitura, não sei o que teria sido dela”. E uma jovem, Soledad: “O centro de leitura me ajuda a ser a pessoa que sou, a encontrar vida nas palavras [...] é um espaço para descobrir a si mesmo, um lugar para compartilhar, um lugar para estar com os livros, sem pudores”.
Michèle Petit, in A arte de ler: ou como resistir à adversidade

11/05/2020

Uma disponibilidade essencial

De fato, para “encontrar vida nas palavras”, é preciso “estar com os livros, sem pudores”, como essa jovem diz tão bem. Em outras palavras, esses objetos não podem constituir um monumento intimidador, enfadonho. Se o adulto impõe à criança o comportamento que ela deve ter, o bom jeito de ler, se ela se submete passivamente à autoridade de um texto, encarando-o como algo que lhe é imposto e sobre o que ela deve prestar contas, são poucas as chances de o livro entrar na experiência dela, na sua voz, no seu pensamento. Apropriar-se efetivamente de um texto pressupõe que a pessoa tenha tido contato com alguém — uma pessoa próxima para quem os livros são familiares, ou um professor, um bibliotecário, um fomentador de leitura, um amigo — que já fez com que contos, romances, ensaios, poemas, palavras agrupadas de maneira estética, inabitual, entrassem na sua própria experiência e que soube apresentar esses objetos sem esquecer isso.

Alguém que desconstruiu o monumento, fazendo com que encontrasse uma voz Singular. Alguém que manifesta à criança, ao adolescente, e também ao adulto, uma disponibilidade, uma recepção, uma presença positiva e o considera como sujeito. Os que viveram o mais distante dos livros e que puderam, um dia, considerá-los como objetos próximos, companheiros, dizem que tudo começa com encontros, situações de intersubjetividade prazerosa, que um centro cultural, social, uma ONG, ou a biblioteca, às vezes a escola, tornam possíveis. Tudo começa com uma hospitalidade.

Ouvindo-os, eu lembrava das palavras daquelas e daqueles que meus colegas e eu encontramos na França, nos bairros ditos “sensíveis”. Graças a mediações sutis, calorosas e discretas, em vários momentos do percurso deles, a leitura entrou na experiência de cada um. Eles não se tornaram necessariamente grandes leitores, mas os livros não os entediavam, não lhes botavam medo. Ajudaram a que colocassem mais palavras em suas histórias, a tornarem-se mais atores delas. Isso não seria suficiente para modificar radicalmente a linha de seus destinos sociais, mas contribuiria para que evitassem certas armadilhas.

Eles também tinham evocado a importância decisiva da hospitalidade, do lugar que lhes foi dado: “Saber que alguém está lá, que te ouve... O fato de ter um lugar determinado na biblioteca. Alguém te diz bom-dia, te chama pelo nome, ‘Tudo bem?’, ‘Tudo’, isso é suficiente... Somos reconhecidos. Temos um lugar. Estamos em casa”. Chamaram a nossa atenção para esse tempo em que um mediador está inteiramente disponível. Ao ouvi-los, compreendíamos que o que é precioso não é apenas a aptidão técnica do bibliotecário para se orientar no mundo da documentação. É que ele acolha a criança, o adolescente. E assim eles vão fazer uso dessa disponibilidade, que raramente encontram nos adultos, apoiar-se neles para a sua busca, mas também para elaborar esse lugar que lhes é oferecido, para dar novamente um movimento aos seus pensamentos, aos seus desejos, seus sonhos, suas vidas; e para ir mais longe.

É o que encontra Claire Jobert em uma experiência com crianças trabalhadoras de um bairro popular de Teerã: “Mediações individuais inscritas no tempo [podem] vencer as hesitações de uns e a inabilidade de ler de outros. Mediações simples, fundamentando-se, antes de mais nada, em uma grande disponibilidade de tempo e de espírito, na escuta dessas crianças e adolescentes tão sensíveis à atenção que lhes é dedicada”.

Para meninos e meninas estigmatizados por alguma razão — porque cresceram em uma favela ou porque seus pais imigraram, porque fazem parte de um grupo subjugado — é conhecida a importância dessa hospitalidade, de ser reconhecido em sua singularidade, chamado pelo nome, ouvido. E isso por alguém diferente de seus próximos, que é o mediador de um outro mundo.

Isso é ainda mais sensível para quem viveu um drama, uma catástrofe, algumas vezes até perdeu uma parte dos seus provedores. Quanto a esses, quem tentou identificar os elementos apropriados a uma reconstrução de si mesmo depois de tais dramas alertou para a importância dessas intersubjetividades: toda reconstrução psíquica pressupõe um acompanhamento, “toda crise demanda não uma lógica do indivíduo, mas uma lógica relacional”, escreve Kaès. Outros lembraram o papel decisivo dos “encontros significativos”, dos “adultos referentes” ou dos “tutores de desenvolvimento” ou de “resiliência”, nos quais a qualidade da presença e da escuta é um ponto fundamental.


Michèle Petit, in A arte de ler: ou como resistir à adversidade

06/05/2020

Um mecanismo aparentemente muito simples

No centro daquilo que desenvolviam aparece, com variações, um mecanismo aparentemente muito simples: o intercessor propõe alguns suportes escritos para pessoas que estão habitualmente distantes deles e os lê em voz alta; depois, entre os participantes, surgem histórias, ou algumas vezes uma discussão; ou ainda o silêncio. O que acontece nesses encontros? Dois grupos que têm uma longa experiência nesse tipo de mediação, cada um à sua maneira, dão uma ideia mais aproximada.
A Cor da Letra desenvolve desde 1998 projetos centrados na leitura e na literatura em várias regiões do Brasil. Esse centro de estudos trabalha com instituições que se dedicam a cuidar de crianças e jovens em situação de risco, ONGs, escolas públicas e privadas, hospitais, bibliotecas, centros sociais e culturais, em especial nos bairros urbanos pobres e no interior. Forma pessoas muito diferentes nessa arte das relações, da qual eu falava anteriormente, a fim de que “a leitura de histórias seja incorporada na rotina das instituições ou em diversos espaços da comunidade”, com a esperança de que essas “ilhas de expressão, de transmissão e de criação de cultura” se multipliquem. Afinal, qualquer pessoa, segundo esse grupo, pode se transformar em um mediador de leitura se for determinada, se dispuser de um pouco de tempo e de um vínculo com uma instituição ou uma comunidade locais, para garantir uma continuidade ao trabalho.
Quando parcerias institucionais são possíveis, com hospitais pediátricos, por exemplo, A Cor da Letra ensina ao pessoal (nesse caso, ao pessoal da saúde, do médico-chefe às enfermeiras e aos encarregados da limpeza) a entrar no universo das narrativas, a conhecer e respeitar a diversidade das culturas, dos tempos, das escolhas, a ler um texto em voz alta, exatamente como está escrito, e a acolher as palavras ou respeitar o silêncio das crianças. Quando os serviços públicos inexistem, a associação forma jovens ou moradores, para que assegurem essa mediação de forma militante e possam, por sua vez, iniciar outras pessoas nessa atividade.
Porém, no Brasil, assim como em vários lugares, não é fácil transmitir o gosto pela leitura aos adolescentes, especialmente quando eles cresceram nos meios populares. Quando as animadoras de A Cor da Letra chegaram nas favelas e começaram a tirar livros da mochila, muitos jovens se decepcionaram ou ficaram desconfiados. Tais objetos eram desprovidos de sentido; esses jovens só tinham conhecido a leitura na escola, o que não lhes trazia boas lembranças: “A escola foi uma experiência sem valor”, comenta Vai, “a leitura era obrigatória, imposta, aprendi apenas a memorizar os textos, o ato de ler não tinha nenhum sentido, eu só decifrava símbolos. Assim, logo anestesiei a criatividade, a possibilidade e a capacidade de descobrir. Durante vários anos, era como a Bela Adormecida, não distinguia nada, não ouvia, nem dizia nada”.
Onde habitualmente ninguém acredita na capacidade dos adolescentes, onde a atitude usual com relação a eles é a desconfiança, as mulheres que levam adiante A Cor da Letra tiveram confiança na criatividade, na audácia e na energia deles. Modificando o olhar sobre eles, “nós os mudamos de lugar”, diz Patrícia Pereira Leite. Como não havia prova final e uma vez que eles foram tocados pelas palavras, ou pela voz, ou pela energia dos adultos que vinham ler histórias e depois lhes propunham juntarem-se a eles, dezenas de jovens se mostraram abertos a receber uma formação.
A partir daí, foi sugerido que falassem da infância, por exemplo pensar em um objeto de que gostassem muito e em uma história associada a ele. “Nós refletimos juntos, a partir de temas que eles apresentam”, aponta Patrícia: "todo mundo tem histórias para contar". Vemos que o repertório cultural a partir do qual a associação trabalha não se constitui somente do que os formadores trazem, mas igualmente do que cada um propõe. Desde a idade mais tenra, todo menino, toda menina é considerado como sujeito ativo na construção de seus conhecimentos e de sua cultura.
Os adolescentes se perguntaram por que ter acesso aos livros era importante, e debateram o assunto. Vídeos que incluem crianças com livros ilustrados foram mostrados, analisados, comentados; elementos teóricos foram fornecidos sobre o desenvolvimento da linguagem na criança; estabeleceu-se a diferença entre contar e ler (o livro garante a repetição da história, a estabilidade). Se questionaram sobre o lugar que ocupavam, distinto daquele do professor ou de um amigo — muitos deles estariam na posição de dar a outros o que eles mesmos não puderam receber. As reuniões de formação também recorreram ao mecanismo e aos suportes que acabariam usando: foi-lhes proposto ler um livro ilustrado em voz alta e depois comentar essa experiência. No começo, a maioria não ousava fazê-lo, com medo de gaguejar, deformar as palavras, de serem ridicularizados. Ficaram surpresos quando alguém os ouviu com atenção, ao constatarem que a sua voz, sua palavra, tinha um valor, surpresos com a possibilidade de serem ouvidos. Aos poucos, eles se familiarizaram e a inibição que sentiam se atenuou.
Então, eles vão ler para outros, geralmente para crianças menores, diante da porta de suas casas. Foi-lhes demonstrada a necessidade de observar e depois anotar o que surgia durante as sessões: as crianças se exprimem mais do que antes, ou não?; estão mais à vontade para falar delas mesmas?; a relação delas com os outros se transforma?; o que muda para elas na escola?; etc. Tudo isso é comentado e analisado durante as supervisões que ocorrem quando das reuniões mensais.
Com o passar dos meses, a própria possibilidade de expressão linguística deles, oral e, às vezes, escrita, desenvolveu-se significativamente, fato confirmado por algumas avaliações realizadas por linguistas. Algumas dessas crianças retomaram os estudos. Outras participaram de eventos em contextos que excedem e muito o meio social a que pertencem e seu espaço de vida habitual, como de alguns Encontros Nacionais de Adolescentes ou da inauguração de uma biblioteca ligada ao Movimento dos Sem Terra. Também visitaram museus localizados em outros bairros.
O psicolinguista Evelio Cabrejo-Parra e eu encontramos alguns deles. São mediadores em favelas, em casas para meninos em situação de risco, em hospitais, ou no campo. Ficamos impressionados com a enorme capacidade deles de se exprimir e falar de sua experiência de maneira direta, engajada, e não a partir de um discurso informativo sobre os supostos benefícios da leitura; pela acuidade de suas observações, pela atenção e pelo respeito com que tratam aqueles a quem seu trabalho de mediação se destina. Assim como ficamos impressionados com a qualidade da atenção dos responsáveis pela associação, que em nenhum momento intervinham no que diziam, não substituíam as suas palavras.
É verdade que duas são profissionais da escuta: Patrícia Pereira Leite é psicanalista e Mareia Wada, psicóloga, ao passo que Cintia Carvalho tem formação literária. Todas reconhecem, pelo seu trabalho, que os rumos de um destino podem ser reorientados por meio de uma intersubjetividade, uma disponibilidade psíquica, uma atenção, e que isso, assim como a simbolização, é o cerne da construção ou da reconstrução de si mesmo. Mas elas fazem uma distinção bastante clara entre o trabalho clínico que realizam e sua atividade no interior de A Cor da Letra. Conhecem o poder da literatura por experiência e gosto pessoal e citam o crítico Antonio Cândido:

[...] assim como não é possível haver equilíbrio psíquico sem o sonho durante o sono, talvez não haja equilíbrio social sem a literatura. [...] Vista deste modo a literatura aparece claramente como manifestação universal de todos os homens em todos os tempos. Não há povo e não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contato com alguma espécie de fabulação. [...] Ora, se ninguém pode passar vinte e quatro horas sem mergulhar no universo da ficção e da poesia, a literatura concebida no sentido amplo a que me referi parece corresponder a uma necessidade universal, que precisa ser satisfeita e cuja satisfação constitui um direito”.

A atuação delas é baseada na consideração da contribuição da literatura para o desenvolvimento psíquico, com a convicção, lastreada pela experiência e por observações, de que a arte da narrativa, em particular, permite organizar a própria história e transformá-la. Foi, no início, com René Diatkine, da Unidade Noturna da Fundação Martine Lyon, integrada ao setor de Saúde Mental do 13° Arrondissement de Paris, e da associação ACCES, que Patrícia Pereira Leite se formou. Ali, ela aprendeu que um novo desdobrar das possibilidades sempre é desejável, não importa quais sejam os percalços da vida social ou psíquica do sujeito, se sabemos ouvi-lo e mudar o olhar dirigido a ele; e entendeu que o horror ao texto experimentado por certas crianças ou adolescentes, para quem a escrita havia sido sinal de exclusão, é reversível “sobretudo se não se reconstitui uma situação de avaliação formal, se não se propõem questões destinadas a verificar se o ouvinte entendeu bem o que se gostaria que ele entendesse”.
Alguns dos jovens mediadores de A Cor da Letra lembram do reconhecimento que conquistaram, particularmente junto aos moradores do lugar onde vivem, como esta jovem: “Com esse trabalho, não sou mais uma menina qualquer nessa comunidade, sou uma referência para as crianças, quando passo na rua, todos me reconhecem”. Ou esta outra: “Você sabe, as pessoas ouvem! Alguém prestou atenção em mim!”.
Outros falam do sentimento de responsabilidade, da importância do fato de se sentirem participando de uma coisa mais vasta que eles próprios, como este jovem: “Fui responsável por algo que não era apenas a minha vida, algo que fazia com que saíssemos de nós mesmos”. Ou Vai que agora trabalha na associação, depois de ter retomado os estudos: “Ao trabalhar com jovens inseridos na mesma realidade em que me encontrava anteriormente, eu sentia que tinha uma responsabilidade muito grande: abrir os caminhos que tornam a transgressão possível” — transgressão que consiste em deixar as imposições sociais e se apropriar dos lugares e dos objetos que não eram destinados a eles.
Eles não farão isso a vida inteira; consideram a participação em A Cor da Letra como um tempo, mas um tempo importante. E sempre existe a ideia de multiplicação. Por exemplo, no projeto Mudando a História, no qual 338 jovens se formaram em São Paulo, no Rio de Janeiro e em duas outras cidades. Eles transmitiram, por sua vez, o que sabiam a 2.459 novos mediadores e, ao final, cerca de 30 mil crianças e adolescentes foram beneficiados. “Abrimos clareiras, outros se apoderam desses objetos e os carregam para mais longe”, diz Patrícia.
Michèle Petit, in A arte de ler: ou como resistir à adversidade

25/04/2020

Tudo começa por uma recepção

Aquilo que é meu, eu sempre consigo de outras mãos.”
Antonio Porchia

No momento em que esboço este capítulo, alguns rostos ressurgem. Muitos são jovens — mulheres, em grande parte, mas também meninos. São bastante sorridentes, embora tenham vivido episódios difíceis em decorrência da violência ou da ditadura que seus países conheceram. Basta ouvi-los um pouco para que contem espontaneamente histórias. E contam bem. Quando penso neles, vejo-os sempre em movimento. Alguns seguem viagem mesmo com jumentos carregados de livros, tal como Luis Soriano, com Alfa e Beto, no norte da Colômbia. Ou levam livros ilustrados em barcos e navegam até as ilhas ao sul do Chile, enquanto outros atravessam o Paraná ou a Amazônia, como os jovens do grupo Vaga Lume. “Os livros adoram a errância”, diz a iraniana Noush-Afarin Ansari, e os “que ficam na biblioteca são livros tristes”.
Ainda que não sejam responsáveis por bibliotecas ambulantes, as pessoas em que penso parecem estar sempre entre duas viagens: acabam de percorrer a Patagônia, as Minas Gerais ou as Chiapas, de carro ou ônibus, onde leem durante horas, como Javier mergulhado no Quixote e morrendo de rir sozinho, rodeado de passageiros intrigados.
São os mediadores de livros: bibliotecários, fomentadores de leitura, professores que propõem experiências um pouco diferentes, poetas, ilustradores, psicanalistas. Eles também vão a pé, como as jovens em torno da biblioteca El Tunal, que sobem nos bairros mais estigmatizados de Bogotá, carregando nas costas muitas histórias que serão lidas para as crianças e para os adolescentes. E estes, com o passar do tempo, as seguem até o prédio de arquitetura futurista onde agora trabalham. Um pouco mais longe, nos jardins públicos da cidade andina, jovens montam grandes estandes onde livros (ilustrados ou não) são dispostos. Crianças se aproximam, ou seus pais; observam o que é proposto; e também aí os intercessores leem.
Um mundo que caminha e narra. Na África e na Ásia existem mediadores semelhantes a eles. Na Europa também, claro. Eles têm o desejo de transmitir, de ensinar, de dividir suas questões e percorrem também dezenas, centenas de quilômetros, para pensar suas experiências junto com os seus pares, ou com escritores, com pesquisadores.
Muitos são artistas das relações e da palavra, que exercem sua arte com talento e generosidade, aproveitando-se de sua experiência profissional, de sua intuição, de sua imaginação. Outros são menos seguros ou mais rígidos e pedem receitas que ninguém será capaz de lhes dar. A maioria, como eu disse, situa-se muito ao largo da caridade e das boas obras: estão convencidos de que todos têm o direito de se apropriar da cultura escrita e de que uma tal privação leva a uma marginalização ainda maior. Sem ingenuidade, sentem que o que fazem, pelo contrário, é em grande medida uma história de amor: com aqueles que os acompanham e com os objetos do seu trabalho. Mas, como escreve Thomas Pavel, “a inteligência do coração não exclui a do intelecto, ela a convoca”. Ela pressupõe conhecimentos, noções literárias, observação atenta, um questionamento sobre si mesmo, uma reconsideração. Tanto mais porque atravessam períodos desestimulantes, nos quais chegam a perder até o sentido do que fazem e de seu engajamento, e o futuro do seu trabalho é incerto, ameaçado por uma mudança política, a perda de uma subvenção, o capricho de uma autoridade tutelar. Dada a realidade social e política difícil enfrentam.
Michèle Petit, in A arte de ler: ou como resistir à adversidade

19/04/2020

Anos de guerra, “anos-biblioteca”

Não é apenas no momento de desarranjos internos que os livros servem de auxílio, mas também quando acontecem crises que afetam simultaneamente um grande número de pessoas. “Nos anos 1930, nos Estados Unidos, a crise, segundo várias análises, levou milhares de norte-americanos para as bibliotecas”, escreve Martine Poulain: “Às vezes, os desempregados buscavam na leitura uma oportunidade de se distanciar do real e de sua própria situação, esperando que ela lhes levasse para 'fora do mundo'. Às vezes, esperavam o contrário, que lhes mantivesse 'dentro do mundo'. A leitura de jornais e periódicos era então a mais apreciada, seja porque a leitura de 'notícias' sancionava essa necessidade de se sentir parte de uma comunidade, seja porque a consulta das ofertas de emprego assinalava mais diretamente uma busca de reintegração”.
Em muitos lugares, a Segunda Guerra Mundial suscitou igualmente um forte aumento das práticas da leitura, fato testemunhado por muitas pessoas, como Thais Nasvetnikova, na Rússia, quando recorda o inverno de 1941: “Lembro que todo mundo lia... muito... eu nunca vi isso... esgotamos a biblioteca destinada às crianças e aos adolescentes. Então nos permitiram ler os livros dos grandes”. Ou Le Clézio, que se encontrava em Nice: “Não podíamos sair, era demasiadamente perigoso. Os caminhos e os campos estavam minados. [...] Assim era impossível vadiar. Não tínhamos muitos amigos, vivíamos confinados. Era preciso ocupar aquele vazio, e os livros estavam lá para isso”. Ou Marina Colasanti, que fala da sua infância na Itália:
Mas em pleno nomadismo, uma normalidade estável foi criada pelos meus pais, para mim e para meu irmão.
Essa normalidade foi a leitura. [...]
Quando penso nesses anos, eu os vejo forrados de livros. São meus anos-biblioteca. [...]
Olhava pela janela da nossa sala, via o símbolo do fascio aposto à fachada do Duomo, e lia. Comíamos couve-flor sete dias na semana, um ovo passou a custar uma lira, dizia-se que o pão era feito de serragem, e eu lia. Deixamos a cidade, buscamos refúgio na montanha. Agora, acordando de manhã, todas as manhãs, as colunas de fumaça no horizonte nos diziam que Milão estava debaixo de bombardeios, e eu, ah! eu continuava lendo".
Mais recentemente, no dia seguinte ao 11 de setembro de 2001, em um tempo em que o audiovisual já era onipresente, uma multidão acorria às livrarias nova-iorquinas, enquanto a frequência em todos os outros comércios diminuía: “o público se volta para a leitura para compreender a crise”, relata o Le Monde de 22 de setembro de 2001. Após o primeiro impacto, as pessoas “vieram procurar os livros para superar a dificuldade”, comentou a diretora de uma grande livraria. Na França, os livreiros também constataram um movimento semelhante.
Michèle Petit, in A arte de ler: ou como resistir à adversidade

14/04/2020

A contribuição da leitura para o bem-estar


Eles tiveram que forjar para si uma arte de viver em tempos de catástrofe para nascer uma segunda vez e em seguida lutar, com o rosto descoberto, contra o instinto de morte que está ativo em nossa história.”
Albert Camus

A ideia de que a leitura pode contribuir para o bem-estar é sem dúvida tão antiga quanto a crença de que pode ser perigosa ou nefasta. Seus poderes reparadores, em particular, foram notados ao longo dos séculos. “O estudo foi para mim o remédio soberano contra os desgostos da vida, não tendo existido jamais uma dor que uma hora de leitura não afastasse de mim”, escreveu Montesquieu. Mais perto de nós, no século XX, pensemos no papel que a leitura ou a recordação de textos lidos desempenharam para tantos deportados nos campos de concentração nazistas, ou para os que resistiram ao degredo stalinista. Primo Levi recitava Dante a seu amigo Pikolo, em Auschwitz, e os companheiros de Robert Antelme se lembravam dos poemas que transcreviam em pedaços de cartão, encontrados no depósito da fábrica. Brodsky, condenado a trabalhos forçados em um lugar próximo ao círculo polar, lia Auden, de onde tirava forças para sobreviver e enfrentar os carcereiros. E a biblioteca que Chalámov encontrou depois de ter deixado o campo de Kolimá lhe pôs de pé: “A extraordinária biblioteca de Karaiev — não havia um único livro que não merecesse ser lido — me ressuscitou, me rearmou para a vida o quanto era possível”.
Nas prisões dos militares argentinos e uruguaios, vários homens e mulheres redescobrirão essa importância vital dos livros ou da recordação de textos lidos. Assim como fará Jean-Paul Kauffmann, prisioneiro durante três anos no Líbano: quando não tinha mais nada para ler, recordava os poemas ou romances “de antes”, empenhando-se em recuperar “a impregnação”:
Essa ginástica da memória não se ocupava de maneira alguma da história. Reconstituir a intriga de O vermelho e o negro, Eugénie Grandet ou Madame Bovary não era o objetivo que eu perseguia. Recriar a lembrança de uma leitura, reconhecer em mim os rastros que perduraram, recuperar a impregnação, eis a meta que estabeleci. Dar um significado àquilo que eu lia era secundário. Procurava embeber-me do texto, não a sua interpretação. [...] Eu jamais tinha devorado [um texto] com tamanha intensidade. Esquecia a cela. Enfiado no fundo da minha leitura, produzindo em mim mesmo um outro texto. Fruição estranha, equivalia a uma reconquista provisória da liberdade. [...] Encarcerado e sob a luz de uma vela, conheci a adesão absoluta ao texto, a fusão integral com os símbolos que o compunham — a questão do sentido, repito, era secundária”.
Para além dessas situações extremas, a contribuição da leitura para a reconstrução de uma pessoa após uma desilusão amorosa, um luto, uma doença etc. — toda perda que afeta a representação de si mesmo e do sentido da vida — é uma experiência corrente, e numerosos escritores a testemunharam, como Sérgio Pitol em uma entrevista que encontro na noite em que escrevo estas linhas: tendo perdido seu pai, quando era bebê, e logo depois sua mãe, com cinco anos de idade, ele fica gravemente doente; embora não pudesse mais ir à escola, a casa onde sua avó o acolheu era repleta de livros: “Minha avó lia sem parar. E eu apanhava tudo o que me caía nas mãos. [...] Com doze anos, descobri Guerra e paz e não fiquei mais doente. Continuo acreditando que Tolstói me salvou”.
De maneira semelhante, Marc Soriano contou um dia como Pinóquio o ajudara, quando criança, a sobreviver à morte de seu pai e à grave anorexia que em seguida ameaçou sua vida. Ele teria “devorado, mastigado, ingerido, regurgitado Pinóquio”, no qual teria encontrado “ao mesmo tempo o seu crime e a salutar revolta que lhe deu força para lutar contra o massacrante sentimento de culpa que a morte bastante real de seu pai ameaçava tornar irreversível e fatal”. Avaliamos aí o quanto uma obra, às vezes, nutre literalmente a vida. Em troca, Soriano dedicou a sua a estudar contos.
Tomo emprestado um último exemplo de Laure Adler, que, ao se referir à morte de seu filho, declarou: “Se eu não me matei, foi porque me deparei sem querer com Uma barragem contra o Pacífico, de Marguerite Duras”, encontrado em uma casa alugada para uma temporada de verão:
[...] sempre tive o sentimento de que ele de fato me esperava. Naquele verão eu tinha acabado de passar por uma dessas provações pessoais às quais nunca imaginamos subsistir. Posso garantir que um livro, substituindo o meu tempo pelo seu, o caos da minha vida pela ordem da narrativa, me ajudou a retomar o fôlego e a vislumbrar o amanhã. A determinação selvagem e a inteligência do amor manifestadas pela jovem de Uma barragem foram para isso, sem dúvida, influentes”.
Michèle Petit, in A arte de ler: ou como resistir à adversidade

08/04/2020

Uma oferta de espaço

Ouçamos Silvia Seoane evocar uma recordação de sua infância em Buenos Aires. Trata-se ainda do paraíso e da voz:

Quando eu era pequena, minha mãe me contava, à noite, com as luzes apagadas, a história de Alice no País das Maravilhas. Não sei se ela tinha lido o romance de Lewis Carroll; não sei se a sua mãe, um irmão mais velho ou uma freira do colégio interno onde ela estudou haviam contado a história para ela. Não sei se ela leu uma versão do romance no Tesouro da juventude, livro de cabeceira de sua infância (que eu imaginava quando criança como a fonte de todas as histórias). Quer dizer, não sei como esse clássico foi parar nas mãos, nos olhos ou nas orelhas de minha mãe.
[...] Sei que ela mantinha um pequeno comércio em nossa casa e que, provavelmente por essa razão, as aventuras daquela Alice, que me contava, aconteciam em um mundo de árvores de chocolate e de cascatas de Fanta Laranja e Coca-Cola. Sei que Alice chegava nesse paraíso depois de passar por um espelho (por isso, eu adorava o armário de remédios do banheiro) e sei que havia o Coelho e a Rainha de Copas.
[...] Eu não me lembro de muitos detalhes da história, mas lembro da voz da minha mãe na escuridão. Lembro, com bastante clareza, o que eu via enquanto ela falava. Lembro da emoção e da maravilhosa sensação alucinada. Sei que eu estava convencida de que, de certa forma, eu era Alice
[...]; todas as noites, um mundo paralelo nascia na voz da minha mãe. Com a sua narrativa, eu atravessava o espelho e entrava ritualmente na ficção. Assim como quando ela me contava a história do rei Davi ou do meu tataravô, soldado no sul da Itália; a história de Pedro e o Lobo e também a do meu tio Oreste, as histórias dos meus bisavós, professores primários na Patagônia no início do século, e a da pedra movediça de Tandil, ao lado da qual minha avó dava aulas (histórias graças às quais, tenho certeza, me tornei professora).
Tantos eram os relatos. Palavras trabalhadas artesanalmente por minha mãe para criar mundos para mim”.

Todas as noites, na escuridão, a voz da mãe de Silvia, alimentada pelo Tesouro da juventude e por algumas epopeias familiares, tecia narrações que encantavam o cotidiano, misturando-o a uma dimensão poética, com árvores de chocolate e cascatas de Fanta Laranja. Aí vemos como a leitura é uma questão de boca: tem a ver com a voz, mas também com os primeiros alimentos que a criança recebe. E sem dúvida por isso que nos hospitais na Colômbia, os mediadores de leitura intervém muito, sob solicitação médica, junto às crianças em estado de desnutrição. Pensemos também em Marc Soriano, salvando-se da anorexia graças a Pinóquio.
Porém, na cena descrita por Silvia, não é o prazer de retornar ao colo materno que predomina. Nem mesmo a fascinação recíproca da mãe e da criança. Por meio de suas palavras, sua mãe abre o lugar do Outro. O Outro são todas as pessoas das gerações passadas que se encontram na sua voz, o antepassado soldado, o tio Oreste, os bisavós professores, cujas proezas transmite, introduzindo a filha no tempo histórico do século passado como no tempo bíblico do rei Davi, e em um espaço imenso que se estende até a Patagônia e o sul da Itália. As histórias contadas fazem com que ela corra para além do espelho, atravesse outras terras; engrandecem sua vida.
Oral ou escrita, a literatura é uma oferta de espaço. As palavras não cansam de revelar paisagens, passagens, “como se a sua essência fosse bem mais espacial do que verbal, como se o seu fundamento geográfico formasse o seu alicerce de sentido”, escreve Georges-Arthur Goldschmidt. Antes de tudo, é talvez um espaço que é encontrado nas palavras lidas, de modo vital, ainda mais para quem não dispõe de nenhum lugar, nenhum território pessoal, nenhuma margem de manobra.
Michèle Petit, in A arte de ler: ou como resistir à adversidade

03/04/2020

Saltar para o outro lado

Nós estávamos sentados naquela mesa, nervosos, tristes, e descobrimos um novo mundo que nos fez esquecer aqueles sentimentos.”
Orhan Pamuk

A psique é extensa e nada sabe.”
Sigmund Freud

Portanto, no início está a recepção e a voz. Ler, apropriar-se dos livros, é reencontrar o eco longínquo de uma voz amada na infância, o apoio de sua presença sensível para atravessar a noite, enfrentar a escuridão e a separação. Como para essas crianças no hospital, que dizem ouvir, enquanto dormem, a voz da pessoa que leu histórias para elas durante o dia. Ou para Florence, em missão humanitária em Ruanda, que enfrenta, dia após dia, o sofrimento dos sobreviventes do genocídio, reacendendo o luto que ela mesma conheceu. Quando está no quarto de hotel, ou à noite, antes de dormir, ela lê: “Nunca estive tão só como então. Quando não tinha mais livros, estava perdida. Comprei um livro, retomei o prumo. Era alguém, uma presença viva, como quando à noite meus parentes me telefonavam. Uma voz humana. Era físico, uma presença. Eu estava como que com um amigo, uma amiga, e já não esperava”.
Como escreve Pascal Quignard: “Diz-se que os dois primeiros medos, pré-humanos, estão relacionados à solidão e à escuridão. Nós amamos poder fazer surgir à vontade um pouco de companhia e de luz artificial. São as histórias que lemos e que à noite trazemos entre as mãos”. Ou Variam Chalámov: “[...] os livros são também um mundo que não nos trai nunca”. Mesmo sozinhos, o interior de nós mesmos estaria ocupado; ao longo da vida inteira, é possível se fazer acompanhar.
Ler é também tornar-se autônomo: o livro é feito de signos, de linguagem, do registro simbólico que os psicanalistas situam mais do lado do pai, de uma terceira instância separadora. E o ato de chegar à leitura é, às vezes, descrito como a incorporação de algo que é próprio da mãe, em que o pai, ou o ser amado pela mãe, aquele com quem ela sonha, sem dúvida não está ausente. E dizer o quanto, para o psiquismo, aquilo que é apropriado tem um status complexo, heterogêneo.
Michèle Petit, in A arte de ler: ou como resistir à adversidade

22/11/2015

O mundo em crise

Hoje, é possível dizer que o mundo inteiro é um 'espaço em crise'. Uma crise se estabelece de fato quando transformações de caráter brutal — mesmo se preparadas há tempos —, ou ainda uma violência permanente e generalizada, tornam extensamente inoperantes os modos de regulamentação, sociais e psíquicos, que até então estavam sendo praticados. Ora, a aceleração das transformações, o crescimento das desigualdades, das disparidades, a extensão das migrações alteraram ou fizeram desaparecer os parâmetros nos quais a vida se desenvolvia, vulnerabilizando homens, mulheres e crianças, de maneira obviamente bastante distinta, de acordo com os recursos materiais, culturais, afetivos de que dispõem e segundo o lugar onde vivem.
Para boa parte deles, no entanto, tais crises se manifestam em transtornos semelhantes. Vividas como rupturas, ainda mais quando são acompanhadas da separação dos próximos, da perda da casa ou das paisagens familiares, as crises os confinam em um tempo imediato — sem projeto, sem futuro —, em um espaço sem linha de fuga. Despertam feridas antigas, reativam o medo do abandono, abalam o sentimento de continuidade de si e a autoestima. Provocam, às vezes, uma perda total de sentido, mas podem igualmente estimular a criatividade e a inventividade, contribuindo para que outros equilíbrios sejam forjados, pois em nosso psiquismo, como disse René Kaês, uma 'crise libera, ao mesmo tempo, forças de morte e forças de regeneração'. 'O desastre ou a crise são também, e sobretudo, oportunidades', escrevem Chamoiseau e Glissant, após a passagem de um ciclone. 'Quando tudo desmorona ou se vê transformado, são também os rigores ou as impossibilidades que se veem transformados. São os improváveis que, de repente, se veem esculpidos por novas luzes'.”
Michèle Petit, in A arte de ler

09/11/2015

A leitura como bem-estar

A ideia de que a leitura pode contribuir para o bem-estar é sem dúvida tão antiga quanto a crença de que pode ser perigosa ou nefasta. Seus poderes reparadores, em particular, foram notados ao longo dos séculos. “O estudo foi para mim o remédio soberano contra os desgostos da vida, não tendo existido jamais uma dor que uma hora de leitura não afastasse de mim”, escreveu Montesquieu. Mais perto de nós, no século XX, pensemos no papel que a leitura ou a recordação de textos lidos desempenharam para tantos deportados nos campos de concentração nazistas, ou para os que resistiram ao degredo stalinista. Primo Levi recitava Dante a seu amigo Pikolo, em Auschwitz, e os companheiros de Robert Antelme se lembravam dos poemas que transcreviam em pedaços de cartão, encontrados no depósito da fábrica. Brodsky, condenado a trabalhos forçados em um lugar próximo ao círculo polar, lia Auden, de onde tirava forças para sobreviver e enfrentar os carcereiros. E a biblioteca que Chalámov encontrou depois de ter deixado o campo de Kolimá lhe pôs de pé: “A extraordinária biblioteca de Karaiev — não havia um único livro que não merecesse ser lido — me ressuscitou, me rearmou para a vida o quanto era possível”.
Nas prisões dos militares argentinos e uruguaios, vários homens e mulheres redescobrirão essa importância vital dos livros ou da recordação de textos lidos. Assim como fará Jean-Paul Kauffmann, prisioneiro durante três anos no Líbano: quando não tinha mais nada para ler, recordava os poemas ou romances “de antes”, empenhando-se em recuperar “a impregnação”:
Essa ginástica da memória não se ocupava de maneira alguma da história. Reconstituir a intriga de O vermelho e o negro, Eugénie Grandet ou Madame Bovary não era o objetivo que eu perseguia. Recriar a lembrança de uma leitura, reconhecer em mim os rastros que perduraram, recuperar a impregnação, eis a meta que estabeleci. Dar um significado àquilo que eu lia era secundário. Procurava embeber-me do texto, não a sua interpretação. [...] Eu jamais tinha devorado [um texto] com tamanha intensidade. Esquecia a cela. Enfiado no fundo da minha leitura, produzindo em mim mesmo um outro texto. Fruição estranha, equivalia a uma reconquista provisória da liberdade. [...] Encarcerado e sob a luz de uma vela, conheci a adesão absoluta ao texto, a fusão integral com os símbolos que o compunham — a questão do sentido, repito, era secundária”.
Para além dessas situações extremas, a contribuição da leitura para a reconstrução de uma pessoa após uma desilusão amorosa, um luto, uma doença etc. — toda perda que afeta a representação de si mesmo e do sentido da vida — é uma experiência corrente, e numerosos escritores a testemunharam, como Sérgio Pitol em uma entrevista que encontro na noite em que escrevo estas linhas: tendo perdido seu pai, quando era bebê, e logo depois sua mãe, com cinco anos de idade, ele fica gravemente doente; embora não pudesse mais ir à escola, a casa onde sua avó o acolheu era repleta de livros: “Minha avó lia sem parar. E eu apanhava tudo o que me caía nas mãos. [...] Com doze anos, descobri Guerra e paz e não fiquei mais doente. Continuo acreditando que Tolstói me salvou”.
Michèle Petit, in A arte de ler: ou como resistir à adversidade