“Hoje,
é possível dizer que o mundo inteiro é um 'espaço em crise'. Uma
crise se estabelece de fato quando transformações de caráter
brutal — mesmo se preparadas há tempos —, ou ainda uma violência
permanente e generalizada, tornam extensamente inoperantes os modos
de regulamentação, sociais e psíquicos, que até então estavam
sendo praticados. Ora, a aceleração das transformações, o
crescimento das desigualdades, das disparidades, a extensão das
migrações alteraram ou fizeram desaparecer os parâmetros nos quais
a vida se desenvolvia, vulnerabilizando homens, mulheres e crianças,
de maneira obviamente bastante distinta, de acordo com os recursos
materiais, culturais, afetivos de que dispõem e segundo o lugar onde
vivem.
Para
boa parte deles, no entanto, tais crises se manifestam em transtornos
semelhantes. Vividas como rupturas, ainda mais quando são
acompanhadas da separação dos próximos, da perda da casa ou das
paisagens familiares, as crises os confinam em um tempo imediato —
sem projeto, sem futuro —, em um espaço sem linha de fuga.
Despertam feridas antigas, reativam o medo do abandono, abalam o
sentimento de continuidade de si e a autoestima. Provocam, às vezes,
uma perda total de sentido, mas podem igualmente estimular a
criatividade e a inventividade, contribuindo para que outros
equilíbrios sejam forjados, pois em nosso psiquismo, como disse René
Kaês, uma 'crise libera, ao mesmo tempo, forças de morte e forças
de regeneração'. 'O desastre ou a crise são também, e sobretudo,
oportunidades', escrevem Chamoiseau e Glissant, após a passagem de
um ciclone. 'Quando tudo desmorona ou se vê transformado, são
também os rigores ou as impossibilidades que se veem transformados.
São os improváveis que, de repente, se veem esculpidos por novas
luzes'.”
Michèle
Petit, in A arte de ler
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