domingo, 22 de novembro de 2015

O mundo em crise

Hoje, é possível dizer que o mundo inteiro é um 'espaço em crise'. Uma crise se estabelece de fato quando transformações de caráter brutal — mesmo se preparadas há tempos —, ou ainda uma violência permanente e generalizada, tornam extensamente inoperantes os modos de regulamentação, sociais e psíquicos, que até então estavam sendo praticados. Ora, a aceleração das transformações, o crescimento das desigualdades, das disparidades, a extensão das migrações alteraram ou fizeram desaparecer os parâmetros nos quais a vida se desenvolvia, vulnerabilizando homens, mulheres e crianças, de maneira obviamente bastante distinta, de acordo com os recursos materiais, culturais, afetivos de que dispõem e segundo o lugar onde vivem.
Para boa parte deles, no entanto, tais crises se manifestam em transtornos semelhantes. Vividas como rupturas, ainda mais quando são acompanhadas da separação dos próximos, da perda da casa ou das paisagens familiares, as crises os confinam em um tempo imediato — sem projeto, sem futuro —, em um espaço sem linha de fuga. Despertam feridas antigas, reativam o medo do abandono, abalam o sentimento de continuidade de si e a autoestima. Provocam, às vezes, uma perda total de sentido, mas podem igualmente estimular a criatividade e a inventividade, contribuindo para que outros equilíbrios sejam forjados, pois em nosso psiquismo, como disse René Kaês, uma 'crise libera, ao mesmo tempo, forças de morte e forças de regeneração'. 'O desastre ou a crise são também, e sobretudo, oportunidades', escrevem Chamoiseau e Glissant, após a passagem de um ciclone. 'Quando tudo desmorona ou se vê transformado, são também os rigores ou as impossibilidades que se veem transformados. São os improváveis que, de repente, se veem esculpidos por novas luzes'.”
Michèle Petit, in A arte de ler

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