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19/12/2018

Capítulo 15: Huck perde a balsa – No nevoeiro – Adormecido na balsa – Huck encontra a balsa – Lixo


A gente achava que mais três noites iam nos levar pra Cairo, no sul de Illinois, onde entra o rio Ohio, e era isso que a gente tava buscando. A gente ia vender a balsa e embarcar num barco a vapor, subir o Ohio entre os estados livres e então ficar livres de encrenca.
Bem, na segunda noite um nevoeiro começou a aparecer, e a gente seguiu pruma ilha de areia e vegetação pra amarrar a balsa ali, pois não ia dar pra tentar navegar no nevoeiro; mas quando fui na frente com a canoa levando a corda pra prender a balsa, não tinha nada onde amarrar, só umas arvorezinhas. Passei a corda ao redor de uma delas bem na beira da ribanceira escavada, mas tinha uma corrente forte, e a balsa veio estrondando com tanta força que arrancou a arvorezinha pequena pelas raízes e seguiu adiante. Vi o nevoeiro fechar e fiquei tão aflito e assustado que por meio minuto não consegui me mexer, assim me pareceu – e aí então não tinha mais balsa à vista, não dava pra ver nada a vinte metros. Pulei dentro da canoa, corri pra popa, agarrei o remo e dei uma remada pro bote recuar. Mas a canoa não se mexeu. Eu tava com tanta pressa que não tinha desamarrado ela. Levantei e tentei desamarrar, mas tava tão aflito e as minhas mãos tremiam tanto que eu quase não conseguia fazer nada com elas.
Assim que consegui partir, saí atrás da balsa, com muito ímpeto, seguindo pela ilha de areia e vegetação. Tudo bem até aí, mas a ilha não tinha sessenta metros de comprimento e, assim que passei voando pela ponta dela, entrei disparado no denso nevoeiro branco, e aí tinha tanta ideia do caminho que tava seguindo quanto um homem morto.
Pensei, não adianta remar; primeiro, sei que eu vou bater na ribanceira, ou numa ilha de areia e vegetação ou algo assim; tenho que ficar quieto e flutuar, só que dá muito nervoso ter que manter as mãos paradas numa hora dessas. Gritei e escutei. Bem lá longe, em algum lugar, escuto um pequeno grito, e meu ânimo levanta. Saí correndo atrás, escutando com atenção pra ouvir de novo. Na próxima vez que aparece, vejo que não tava indo na direção dele, mas me afastando pra direita. Na próxima vez, tava me afastando pra esquerda – sem chegar perto, em nenhum dos casos, pois tava andando em volta, por aqui e por ali e por lá, mas o grito tava indo pra frente em linha reta o tempo todo.
Eu queria que o idiota pensasse em bater numa panela de lata e ficasse batendo o tempo todo, mas ele não fez nada disso, e os intervalos quietos entre os gritos é que tavam criando problema pra mim. Bem, segui lutando, e pouco depois escuto o grito atrás de mim. Tava todo enrolado, agora. Era o grito de outro, ou então eu tava virado.
Baixei o remo. Ouvi o grito de novo; ainda tava atrás de mim, mas num lugar diferente; continuava vindo, e continuava mudando de lugar, e eu continuava a responder, até que dali a pouco tava de novo na minha frente e eu vi que a corrente tinha virado a proa da canoa rio abaixo e eu tava livre de perigo, se é que era Jim gritando e não algum outro balseiro. Não dá pra distinguir vozes num nevoeiro, porque nada parece natural nem soa natural num nevoeiro.
Os gritos continuaram, e quase num minuto chego de repente perto duma ribanceira escavada, coberta de fantasmas enfumaçados de grandes árvores, e a corrente me lança pra esquerda e passa em disparada, entre muitos troncos submersos que rugiram bastante, porque a corrente rompia entre eles com grande rapidez.
Mais um ou dois segundos, e tudo tava de novo parado num branco denso. Aí fiquei sem me mexer, escutando as batidas do meu coração, e acho que não respirei enquanto ele batia cem vezes.
Aí simplesmente desisti. Eu sabia qual era o problema. Aquela ribanceira escavada era uma ilha, e Jim tinha passado pelo outro lado dela. Não era ilha de areia e vegetação, que a gente podia rodear em dez minutos. Tinha a grande mata de uma ilha regular, talvez oito ou nove quilômetros de comprimento e mais de oitocentos metros de largura.
Fiquei quieto, as orelhas em alerta, uns quinze minutos, acho eu. Tava flutuando, é claro, seis ou oito quilômetros por hora, mas a gente nunca acha isso. Não, a gente sente que tá parado, totalmente parado, sobre a água. E se a gente vê uma nesga de um tronco passando por perto, não pensa em como a gente tá andando rápido, mas a gente para e pensa, meu Deus! como esse tronco submerso tá correndo a toda. Se ocê acha que não é sinistro e solitário ficar assim num nevoeiro, sozinho, de noite, experimenta uma vez – ocê vai ver.
Depois, por meia hora, gritei de vez em quando: por fim escuto a resposta bem longe e tento ir atrás da voz, mas não consegui, e dali a pouco achei que tinha me metido num ninho de ilhas de areia e vegetação, pois tinha umas visões confusas delas nos meus dois lados, e às vezes só um canal estreito no meio; e algumas que não conseguia ver, eu sabia que tavam ali, porque escutava o barulho da corrente contra os velhos galhos mortos e o lixo que ficavam pendurados nas margens. Bem, não demorei a perder os gritos, ali entre as ilhas de areia; e de qualquer modo só tentei perseguir os sons por pouco tempo, porque era pior que perseguir um fogo-fátuo. Nunca imaginei que o som podia fugir assim, trocar de lugar tão rápido e tantas vezes.
Tive que me afastar da margem fazendo muita força com as mãos, quatro ou cinco vezes, pra não bater em ilhas fora do rio; e assim achei que a balsa devia estar dando marradas na margem uma vez ou outra, porque de outro modo ia estar muito mais à frente e fora de escuta – tava flutuando um pouco mais rápido que eu.
Bem, parecia que eu tava no rio aberto de novo, aos poucos, mas não ouvia nenhum sinal de grito em lugar nenhum. Achei que Jim tinha ficado preso talvez num tronco submerso e que tava ferrado. Eu tava muito cansado, então deitei na canoa e disse que não ia me preocupar mais. Eu não queria dormir, é claro, mas tava com tanto sono que não dava pra evitar, então achei que podia tirar só um cochilo.
Mas acho que foi mais que um cochilo, porque quando acordei as estrelas tavam brilhantes, o nevoeiro tinha passado, e eu tava descendo rápido uma grande curva do rio com a popa pra frente. Primeiro não sabia onde tava; achei que tava sonhando; e quando as coisas começaram a voltar pra minha cabeça, elas pareciam sair da última semana.
Era um rio monstruoso de grande naquele ponto, com mata alta e densa nas duas margens: apenas uma parede sólida, pelo que eu conseguia ver à luz das estrelas. Olhei ao longe rio abaixo e vi uma mancha negra sobre a água. Saí atrás dela, mas quando cheguei lá, eram apenas duas grandes toras amarradas. Depois vi outra mancha e fui atrás... mais outra, e desta vez acertei. Era a balsa.
Quando cheguei perto, Jim tava sentado nela com a cabeça baixa entre os joelhos, dormindo, e o braço direito pendurado sobre o remo do leme. O outro remo tava despedaçado, e a balsa tava cheia de folhas, galhos e sujeira. Ele tinha tido portanto umas horas bem duras.
Amarrei a canoa e me deitei embaixo do nariz de Jim sobre a balsa, e comecei a bocejar e a espreguiçar os punhos contra Jim, e falei:
Alô, Jim, eu tava dormindo? Por que não me acordou?
Santo Deus, é ocê, Huck? E ocê num tá morto... num tá fogado... tá de volta de novo? Bão demais pra sê verdade, meu fio. Deixa vê ocê, deixa senti ocê. Não, ocê num tá morto! Tá de volta de novo, vivo e são, o mesmo veio Huck... o mesmo veio Huck, graça a Deus!
Qual é o problema com ocê, Jim? Andou bebendo?
Bebeno? Eu bebeno? Tive lá uma chance de andá bebeno?
Então, por que é que tá falando tanto desatino?
Que disatino?
Como ? Ora, ocê não tá falando que eu voltei, e todas essas asneiras, como se eu tivesse ido embora?
Huck... Huck Finn, ocê olha bem no meu olho, olha bem no meu olho. Ocê num foi embora?
Embora? Ora, com os diabos, o que ocê quer dizer? Não fui pra lugar nenhum. Pra onde é que eu ia ir?
Olha aqui, chefe, tem algo errado, tem. Eu sô eu, ou quem é eu? É eu aqui, ou onde tá eu? Agora é isso que eu tô quereno sabê.
Acho que ocê tá aqui, é claro, mas acho que ocê é um velho tonto e estúpido, Jim.
Eu é, hein? Bem, ocê me responde uma coisa. Ocê num jogou a corda da canoa pra amarrá na ilha de areia?
Não, não joguei. Que ilha de areia? Não vi nenhuma ilha de areia.
Num viu ninhuma ilha de areia? Olha aqui... a corda num soltô e a balsa saiu zunindo pelo rio, e deixô ocê e a canoa pra trás no nevoeiro?
Que nevoeiro?
Ora, o nevoeiro. O nevoeiro que tava por aí a noite inteira. E ocê num gritô, e eu num gritei, até que a gente se enredô nas ilha e um de nóis se perdeu e o otro também tava perdido, porque num sabia onde é que tava? E eu num bati contra muitas dessas ilha e tive uma luta terrível e quase me afoguei? Agora num é assim, chefe... num é assim? Ocê me responde isso.
Tudo isso é demais pra mim, Jim. Não vi nenhum nevoeiro, nem ilha nenhuma, nem dificuldade nenhuma, nem nada. Tava sentado aqui falando com ocê a noite inteira até que ocê dormiu uns dez minutos atrás e acho que fiz o mesmo. Ocê não podia ter se embebedado nesse tempo, então é claro que andou sonhando.
Que se dane, como é que eu ia sonhá tudo isso em deiz minuto?
Droga, ocê sonhou, porque não aconteceu nada disso.
Mas, Huck, tá tão craro pra mim como...
Não faz diferença se tá muito ou pouco claro pra ocê, não tem sentido. Eu sei disso porque estive aqui o tempo todo.
Jim não disse nada por uns cinco minutos, mas ficou ali pensando na história. Depois disse:
Então, acho que sonhei, Huck. Mas o vento me leve se num foi o sonho mais poderoso que já tive. E num tive ninhum sonho antes que me deixasse tão cansado como este.
Oh, bem, tudo bem, porque um sonho cansa de verdade o corpo como tudo mais, às vezes. Mas este foi um sonho de arromba... conta tudo, Jim.
Assim Jim começou a falar e me contou tudo tintim por tintim, assim como aconteceu, só que ele pintou com cores muito mais vivas. Depois disse que devia pensar e “interpretar” o sonho, porque foi enviado como um aviso. Disse que a primeira ilha de areia e vegetação representava um homem que queria nos fazer o bem, mas a corrente era outro homem que queria nos afastar dele. Os gritos eram avisos que nos chegavam de vez em quando, e se a gente não tentasse com todas as forças escutar pra entender o que tavam gritando, eles iam nos trazer má sorte, em vez de nos manter longe do azar. As muitas ilhas de areia eram encrencas que a gente ia enfrentar com tipos briguentos e toda espécie de sujeitos maus, mas se a gente cuidasse da nossa vida, não respondesse, nem insultasse os caras, a gente ia seguir adiante, sair do nevoeiro e entrar no grande rio aberto, que eram os estados livres, e não ia ter mais nenhum problema.
Tinha nublado e escurecido logo depois de eu subir na balsa, mas agora tava clareando de novo.
Oh, bem, tá tudo muito bem interpretado, do jeito que ocê falou, Jim – eu disse –, mas o que é que essas coisas aqui representam?
Eram as folhas e a sujeira na balsa, e o remo espatifado. Dava pra ver tudo isso bem claro, então.
Jim olhou pro lixo, e depois olhou pra mim, e de novo pra sujeira. Ele tinha fixado o sonho tão forte na cabeça que parecia que não conseguia se livrar dele e colocar os fatos de volta na realidade assim de imediato. Quando conseguiu ver as coisas direito ao redor, olhou pra mim firme, sem sorrir, e disse:
O quê elas representa? Eu vô te contá. Quando caí de cansado de tanto trabaiá e gritá procê e fui dormi, o meu coração tava quase partido porque ocê tava perdido, e eu num me importava mais com o que ia acontecê comigo e com a balsa. E quando acordo e encontro ocê de novo, são e salvo, as lágrima encheram os meus oio e eu podia cair de joeio e beijá os teus pé, de tão agradecido. E tudo que ocê tava pensano era como fazê o veio Jim de bobo com mentira. Esses troço aí é lixo, e lixo é o que é todo aquele que coloca sujeira na cabeça dos amigo e humia eles.
Então ele levantou devagar, caminhou até a barraca e entrou, sem dizer mais nada. Mas foi o bastante. Me fez sentir tão mal que eu quase beijei o pé dele pra ele retirar o que tinha dito.
Levei quinze minutos pra decidir me humilhar prum preto – mas foi o que fiz e nunca me arrependi disso mais tarde. Nunca mais preguei peças maldosas no Jim e não teria pregado aquela se soubesse que ia magoar ele desse jeito.
Mark Twain, in As aventuras de Huckleberry Finn

04/12/2018

Capítulo 14: Aproveitando a vida – O harém – Franceses

Dali a pouco, quando nos levantamos, a gente revirou as tralhas que o bando tinha roubado do vapor naufragado e encontrou botas, cobertores, roupas e todo tipo de outras coisas, um monte de livros, um óculo de alcance e três caixas de charutos. Nunca antes a gente tinha sido tão ricos, em nenhuma de nossas vidas. Os charutos eram de primeira. A gente passou toda a tarde na mata conversando, eu lendo os livros e nós aproveitando a vida. Contei a Jim tudo o que tinha acontecido dentro do vapor naufragado e na barca e disse que isso era uma aventura, mas ele disse que não queria mais aventuras. Falou que, quando entrei no tombadilho e ele se arrastou pra subir na balsa e descobriu que ela tinha desaparecido, ele quase morreu porque achou que era o ponto final pra ele. Não era nada que tivesse conserto, pois se ele não fosse salvo, ia acabar afogado; e, se fosse salvo, aquele que o salvasse ia mandar ele de volta pra casa pra receber a recompensa, e então a srta. Watson ia vender ele pro Sul, com toda certeza. Bem, ele tinha razão, ele quase sempre tinha razão, tinha uma cabeça incomum, pra um negro.
Li muito pra Jim sobre reis, duques, condes e gente desse tipo, e como eles se vestiam com roupas brilhantes, e como afetavam grande estilo, e chamavam uns aos outros de vossa majestade, vossa graça, vossa senhoria e coisa e tal, em vez de falar senhor, e os olhos de Jim saltaram pra fora, ele tava interessado. Disse:
Num sabia que tinha tantos assim. Nunca ouvi falá de ninhum deles, quase ninhum, só do veio Rei Salumão, a num sê que ocê também conta os rei que tem no baraio de carta. Quanto ganha um rei?
Ganha? – digo eu. – Ora, querendo eles ganham mil dólares por mês. Eles podem ganhar o que quiserem, tudo pertence a eles.
Num é pândega? E o que é que eles têm que fazê, Huck?
Eles não fazem nada! Ora, que jeito de falar. Eles só andam por aí.
Não... mesmo?
É claro. Só andam por aí. Menos talvez quando tem uma guerra, então eles vão pra guerra. Mas no resto do tempo eles só ficam à toa, ou vão caçar falcões e pass... ssshhh!... ouviu um barulho?
A gente saltou pra fora e olhou, mas não tinha nada a não ser o agito da roda de um vapor, que bem de longe vinha descendo ao redor do cabo. Então a gente voltou.
Sim – digo eu – e no resto do tempo, quando as coisas tão paradas, eles fazem um estardalhaço com o parlamento, e se todo mundo não faz exatamente o que eles querem, mandam cortar a cabeça de todo mundo. Mas a maior parte do tempo eles passam no harém.
Onde?
No harém.
O que é o harém?
O lugar onde eles guardam as suas mulheres. Ocê não sabe sobre o harém? Salomão tinha um, ele tinha quase um milhão de mulheres.
Ora, sim, é assim... Eu... eu tinha esquecido. Um harém é uma pensão, acho. Quase certo que eles faz algazarra no quarto das criança. E acho que as muié brigam muito e que isso aumenta o barulho. Mas eles diz que Salumão era o hômi mais sábio que já viveu. Num credito não. Por causa do seguinte: um hômi sábio ia querê vivê num vozerio desses o tempo todo? Não... num ia querê mesmo. Um hômi sábio ia armá barulho e tumulto, e então ele ia podê acabá com a algazarra quano queria descansá.
Bem, mas ele foi o mais sábio, porque foi a própria viúva quem me disse.
Num me importa o que a viúva disse, ele num foi um hômi sábio, não. Ele tinha as maneira mais estranha que eu já vi. Ocê sabe daquele menino que ele ia cortá em dois?
Sim, a viúva me contou tudo sobre isso.
Bem , então! Essa num foi a ideia mais esquisita do mundo? Pensa um minuto. Aí tá um cepo, aí... é uma das muié; aqui tá ocê... fica seno a outra; eu é o Salumão; e essa nota de um dólar aqui é o menino. As duas qué o menino. O que que eu faço? Saio a procurá entre os vizinho e descubro qual de ocês é a dona da nota, e entrego a nota pra dona certa, tudo são e salvo, tudo o que ia fazê quarqué um com valentia? Não... eu pego e rasgo a nota em dois pedaço, e dô uma metade procê, e a outra metade pra outra muié. É isso o que o Salumão ia fazê com o menino. Agora pergunto procê: que adianta metade de uma nota? Num dá pra comprá nada com ela. E que adianta metade de um menino? Eu num ia dá a menó bola nem prum milhão deles.
Mas ora, Jim, ocê não entendeu a ideia... dane-se, ocê errou o alvo por uns mil quilômetros.
Quem? Eu? Ora, vá. Num fala pra mim das tua ideia. Acho que eu enteno o sentido quano eu vejo sentido, e num tem sentido em fazê uma coisa dessa. A briga num era sobre metade de um menino, a briga era sobre um menino inteiro. E o hômi que pensa que pode resolvê uma briga sobre um menino intero cum a metade de um menino num sabe o bastante nem pra num se molhá na chuva. Num me fale desse Salumão, Huck. Conheço ele de trás pra diante.
Mas tô dizendo que ocê não entendeu a ideia.
Que se dane a ideia! Acho que sei o que sei. E olha aqui, a ideia de verdade vai mais longe... mais profundo. Tá no modo como Salumão foi criado. Ocê pega um hômi que só tem um ou dois fio, esse hômi vai esbanjá os fio? Não, num vai, num tem como. Ele sabe como dá valô a eles. Mas ocê pega um hômi que tem uns cinco milhão de fio correno pela casa, aí é diferente. Ele vai cortá um menino em dois assim como corta um gato. Tem muitos fio mais. Um fio ou dois, mais o menos, num importa pro Salumão, que se dane!
Nunca vi um negro assim. Se ele metia uma ideia na cabeça, não tinha como arrancar fora. Era o negro mais crítico de Salomão que já vi. Então continuei a falar sobre outros reis, e deixei Salomão pra lá. Contei sobre Luís XVI, que teve a cabeça cortada na França muito tempo atrás, e sobre o menino dele, o delfim, que ia ser rei, mas eles pegaram e prenderam ele na cadeia, e uns dizem que ele morreu na prisão.
Pobre menino.
Mas uns dizem que ele saiu, fugiu e veio pra América.
Inda bem! Mas ele vai se senti muito sozinho... num tem rei ninhum por aqui, né, Huck?
Não.
Então ele num vai tê uma profissão. O que é que ele vai fazê?
Ah, não sei. Uns deles vão pra polícia, e uns ensinam as pessoas a falar francês.
Ora, Huck, os francês num falam assim como a gente?
Não, Jim, ocê não ia compreender nem uma palavra do que eles dizem... nem uma única palavra.
Ora, c’o diabo! Como é que isso acontece?
Não sei, mas é assim. Peguei um pouco da parolagem deles num livro. E se um homem viesse falar com ocê e dissesse Pallê-vu-francé – o que ocê ia achar?
Num ia achá nada, eu pegava e rebentava a cabeça dele. Qué dizê, se ele num fosse branco. Eu num ia deixá ninhum preto me chamá assim.
Balela, não tá te chamando de nada. Tá só perguntando se ocê sabe falar francês.
Então por que num fala isso?
Ora, ele tá falando isso. É o jeito do francês falar isso.
É um jeito danado de ridículo, e num quero ouvi mais sobre isso. Num faz sentido.
Olha aqui, Jim: um gato fala como a gente fala?
Não, um gato não.
E uma vaca?
Não, uma vaca também não.
Um gato fala como uma vaca, ou uma vaca como um gato?
Não, num fala.
É natural e correto eles falarem diferente um do outro, não?
É craro.
E não é natural e correto um gato e uma vaca falarem diferente de nós ?
Ora, craro que é.
Bem, então, por que não é natural e correto um francês falar diferente de nós? Agora me responde isso.
Um gato é um hômi, Huck?
Não.
Então, num faz sentido um gato falá como um hômi. Uma vaca é um hômi? E uma vaca é um gato?
Não, nenhum dos dois.
Então, ela num tinha por que falá como um ou como o outro. O francês é um hômi?
Sim.
Então! Macacos me morde, por que ele num fala como um hômi? Me responde isso.
Vi que não adiantava gastar palavras... [...]. Então desisti.
Mark Twain, in As Aventuras de Huckleberry Finn

19/11/2018

Capítulo 13: Escapando dos destroços do barco a vapor – O vigia – Afundando – Um sono profundo

Parei um pouco e quase desmaiei. Encurralado nos destroços de um barco a vapor com um bando desses! Mas não era hora de ficar se sentimentalizando. Agora a gente tinha que encontrar esse bote – precisava dele pra gente. Então a gente seguiu tremendo e vacilando pelo lado de estibordo, e foi também um deslocamento lento – tive a impressão que a gente levou uma semana pra chegar na popa. Nem sinal do bote. Jim disse que achava que não podia ir adiante – tava tão assustado que não tinha mais força sobrando, disse ele. Mas eu disse vamos, se a gente fica pra trás nesse barco destruído, aí sim a gente tá numa sinuca. Então a gente foi em frente, a esmo. Começou a procurar a popa do tombadilho e encontrou, e aí seguiu tateando pra frente em cima da claraboia, nos agarrando de estore em estore, porque a beirada da claraboia tava dentro d’água. Quando a gente chegou bem perto da porta do corredor transversal, lá tava o bote, sem tirar nem pôr! Eu mal podia ver ele. Nunca me senti tão agradecido. Mais um segundo e eu já me via a bordo, mas bem nesse momento a porta se abriu. Um dos homens enfiou a cabeça pra fora, só mais ou menos a meio metro de mim, e pensei que eu tava perdido. Mas ele puxou de novo a cabeça pra dentro e disse:
Tira esta lanterna desgraçada da vista, Bill!
Atirou um saco de alguma coisa dentro do bote, depois entrou na embarcação e se sentou. Era Packard. Aí Bill ele apareceu e entrou no bote. Packard disse em voz baixa:
Tudo pronto... toca o barco!
Eu quase não conseguia me agarrar nos estores, tava fraco demais. Mas Bill diz:
Espera... ocê revistou ele?
Não. E ocê?
Não. Ele ainda tem a parte dele do dinheiro.
Bem, então, vamos lá... num adianta levar as coisas e deixar o dinheiro.
Ei... será que ele não suspeita o que tamo fazendo?
Talvez não. Mas temos que pegar o dinheiro de qualquer jeito. Vamos.
Então saíram do bote e entraram no navio.
A porta bateu, porque tava no lado adernado, e em meio segundo eu tava no bote, e Jim veio aos trambolhões atrás de mim. Tirei a minha faca e cortei a corda, e aí a gente foi embora!
A gente não tocou em nenhum remo, e a gente não falou nem sussurrou, quase nem respirou. Deslizou rápido, num silêncio mortal, passando pela ponta do tambor da roda e passando pela popa; depois, em mais alguns segundos, a gente tava cem metros além do vapor naufragado, e a escuridão tomou conta de tudo, apagou até o último sinal dos destroços. A gente tinha se safado e sabia disso.
Quando a gente já tava trezentos ou quatrocentos metros corrente abaixo, a gente viu a lanterna aparecer como um pequeno lampejo na porta do tombadilho por um segundo e ficou sabendo que os patifes tinham dado por falta do bote deles e tavam começando a entender que agora tavam numa sinuca de bico tão grande quanto a de Jim Turner.
Aí Jim tomou conta dos remos, e a gente saiu a procurar a nossa balsa. Então foi a primeira vez que eu comecei a me preocupar com os homens – acho que antes não tinha tido tempo. Comecei a pensar como ia ser terrível, mesmo pra assassinos, ficar naquela sinuca. Eu disse pra mim mesmo, não tem como saber, um dia eu ainda posso me tornar um assassino, e então qual vai ser minha reação numa encrenca dessas? Então falei pro Jim:
A primeira luz que a gente avistar, vamos pra praia uns cem metros abaixo ou acima da luz, num lugar com um bom esconderijo pra ocê e o bote, e aí eu vou e invento uma lorota e faço alguém procurar aquele bando e tirar os patifes da enrascada pra eles serem enforcados quando chegar a hora.
Mas essa ideia foi um fracasso, pois logo começou a tempestade de novo, e dessa vez pior do que nunca. A chuva caía aos borbotões, e não tinha luz nenhuma à vista; todo mundo na cama, acho eu. A gente seguia rapidamente pelo rio, procurando luzes e procurando a nossa balsa. Depois de muito tempo a chuva amainou, mas as nuvens ficaram, e os raios continuaram aparecendo de vez em quando, e daí a pouco um lampejo nos mostrou uma coisa preta na nossa frente, flutuando, e a gente foi atrás.
Era a balsa, e a gente ficou muito alegre de subir de novo a bordo. Vimos uma luz então, bem abaixo à direita, na margem. Aí eu disse que ia pra lá. O bote tava meio cheio das coisas saqueadas que o bando tinha roubado, ali no vapor naufragado. Empilhamos tudo na balsa, e eu disse a Jim pra seguir flutuando e acender uma luz quando achasse que já tinha andado uns três quilômetros e deixar ela acesa até eu voltar. Aí peguei nos remos e toquei o bote pra cima da luz. Enquanto eu me deslocava naquela direção, apareceram mais três ou quatro – lá em cima numa encosta. Era uma vila. Cheguei mais perto da luz da margem, levantei os remos e flutuei. Enquanto passava, vi que tinha uma lanterna pendurada no pequeno pau de bandeira de uma barca de casco duplo. Contornei ela deslizando, à procura do vigia, me perguntando onde é que ele dormia; dali a pouco encontrei ele empoleirado nos postes de amarrar as cordas, inclinado pra frente, a cabeça abaixada entre os joelhos. Dei uns dois ou três empurrões no seu ombro e comecei a chorar.
Ele se endireitou, com um olhar espantado, mas quando viu que era só eu, deu um bom bocejo e se espreguiçou, então disse:
Olá, que é que tá acontecendo? Não chora, garoto. Qual é o problema?
Eu disse:
O papai, a mamãe e a minha irmã, e... Aí desatei a chorar. Ele disse:
Oh, dane-se, não leva tudo tão a sério, todos temos nossos problemas, e tudo vai dar certo. O que houve com eles?
Eles tão... eles tão... ocê é o vigia do barco?
Sim – disse ele com um ar bastante satisfeito. – Sou o capitão e o dono, e o imediato, e o piloto, e o vigia e o chefe dos taifeiros: e às vezes sou a carga e os passageiros. Num sou tão rico quanto o velho Jim Hornback e num posso ser danado de generoso e bom pra Tom, Dick e Harry como ele é, nem fazer tanto barulho com o dinheiro como ele faz. Mas eu disse a ele muitas vezes que eu num ia querer trocar de lugar com ele, porque, digo eu, a vida de marinheiro é a vida pra mim, e macacos me mordam se eu ia querer viver uns três quilômetros fora da cidade, onde nunca tá acontecendo nada, nem por toda a grana dele, nem por muito mais ainda. Digo eu...
Interrompi e falei:
Eles tão num aperto terrível e...
Quem são eles?
Ora, o papai, a mamãe e a mana, e a srta. Hooker, e se ocê pegava a sua barca e subia até lá...
Até onde? Onde é que eles tão?
No vapor naufragado.
Que vapor naufragado?
Ora, só tem um.
O quê, ocê não quer dizer o Walter Scott?
Sim.
Deus do céu! O que eles tão fazendo lá, pelo amor de Deus?
Ora, eles não foram lá de propósito.
Claro! Ora, santo Deus, eles não têm chance nenhuma se não saírem de lá rapidíssimo! Ora, como diabos eles entraram numa enrascada dessas?
Fácil. A srta. Hooker tava de visita, lá em cima na cidade…
Sim, Booth’s Landing... continua.
Ela tava de visita, lá em Booth’s Landing, e bem no fim da tarde ela partiu com a criada negra dela na barca movida a cavalo, pra passar a noite na casa da sua amiga, a srta. Fulana de Tal, não lembro do nome, e eles perderam o remo do leme, rodopiaram e saíram flutuando, a popa virada pra frente, por uns três quilômetros, e bateram no vapor naufragado e a barca se dobrou ao meio como um alforje perto dos destroços, e o homem da barca, a criada negra e os cavalos tudo se perdeu, mas a srta. Hooker ela se agarrou e conseguiu subir a bordo do vapor naufragado. Bem, mais ou menos uma hora depois do anoitecer, a gente passou por ali na nossa chata, e tava tão escuro que a gente só percebeu o vapor naufragado quando já tava em cima dele, e então a gente também bateu nos destroços e a chata se dobrou no meio como um alforje perto do vapor. Mas nos safamos todos menos Bill Whipple... e oh, ele era a melhor das criaturas! Queria muito que tivesse sido eu, muito.
Por São Jorge! É a coisa mais aterradora que já me passou pela cabeça. E então o que ocês todos fizeram?
Bem, a gente gritou desesperados, mas era uma imensidão ali, a gente não conseguiu fazer ninguém ouvir. Então papai disse que alguém tinha que ir pra terra e conseguir alguma ajuda. Eu era o único que sabia nadar, então corri pra me jogar n’água, e a srta. Hooker ela disse que se eu não encontrasse ajuda antes, que era pra vir até aqui e procurar o tio dela, que ele dava um jeito. Cheguei na margem um quilômetro e meio mais adiante e andei a esmo desde então, tentando convencer as pessoas a fazer alguma coisa, mas elas diziam, “O quê? Numa noites dessas e com uma correnteza dessas? Não faz sentido, vá procurar a barca a vapor”. Ora, se ocê tá disposto a ir, e...
Por Jackson, eu gostaria, e macacos me mordam se já não decidi que vou de qualquer jeito, mas quem co’os diabos vai pagar por isso? Ocê acha que o seu papai...
Ora, isso tá resolvido. A srta. Hooker ela me disse, em particular, que o seu tio Hornback...
Minha Santa Ingrácia! Ele é tio dela? Olha aqui, ocê vai na direção daquela luz sobre aquele caminho lá adiante e vira pra oeste quando chegar lá, e andando mais ou menos meio quilômetro vai chegar na taberna. Diga aos caras pra levar ocê ventando pra casa de Jim Hornback, e ele vai pagar a conta. E não fica andando à toa por aí, porque ele vai querer saber das notícias. Diga-lhe que vou trazer a sobrinha dele sã e salva antes dele chegar na cidade. Anda, vai! Vou ali na esquina acordar meu engenheiro.
Saí na direção da luz, mas assim que ele virou a esquina eu voltei e entrei no meu bote. Baldeei a água que tinha lá dentro e depois remei costa acima na água calma uns seiscentos metros, e então me enfiei entre uns barcos de madeireiros, pois não podia ficar tranquilo até ver a barca partir. Mas, levando tudo em conta, eu tava me sentindo bastante bem por me dar todo esse trabalho por causa daquele bando, pois bem poucos iam fazer o mesmo. Queria que a viúva soubesse disso. Achava que ela ia ficar orgulhosa de mim por ajudar esses patifes, porque patifes e indesejáveis eram o tipo de caras que a viúva e as pessoas boas mais gostavam.
Bem, em pouco tempo, ali vem o barco naufragado, obscuro e meio apagado, descendo o rio! Uma espécie de calafrio passou por mim, e saí na direção da embarcação. O barco tava muito afundado, e vejo num minuto que não tinha muita chance de ter ninguém com vida lá dentro. Remei em volta e gritei um pouco, mas não tive resposta, tudo mortalmente parado. Senti um pouco de tristeza pelo bando, mas não muita, pois pensei que, se eles podiam aguentar o tranco, eu também podia.
Então ali vem a barca, por isso fui pro meio do rio num longo movimento diagonal a favor da corrente; e quando achei que tava fora do alcance dos olhos, levantei os remos, olhei pra trás e vi a barca ir investigar o barco naufragado à procura dos restos da srta. Hooker, porque o capitão sabia que o tio Hornback dela queria os restos pra si; pouco depois a barca desistiu e foi pra margem, e eu ataquei os remos e desci rápido pelo rio.
Tive a impressão de um tempo muito longo antes da luz de Jim aparecer, e quando surgiu parecia estar a mil quilômetros de distância. No momento que cheguei lá, o céu tava começando a ficar cinza no leste. A gente seguiu pruma ilha, escondeu a balsa, afundou o bote, foi pra cama e dormiu profundamente.
Mark Twain, in As Aventuras de Huckleberry Finn

08/10/2018

Capítulo 11 - Huck e a mulher – A busca – Prevaricação – Indo para Goshen – “Eles tão atrás de nós!”

Entra – disse a mulher, e eu entrei.
Ela disse:
Pega uma cadeira.
Peguei. Ela me olhou de cima a baixo, com uns olhinhos brilhantes, e disse:
Qual seria o seu nome?
Sarah Williams.
E onde você mora? Neste bairro?
Não, madame. Em Hockerville, onze quilômetros mais pra baixo. Fiz todo o caminho a pé e tô exausta.
Com fome também, imagino. Vou arrumar alguma coisa pra você.
Não, madame, não tô com fome. Eu tava com tanta fome que tive que parar uns três quilômetros mais abaixo numa fazenda, então não tô mais com fome. Foi o que me atrasou tanto. A minha mãe tá doente de cama, e sem dinheiro e tudo mais, e eu vim contar pro meu tio, Abner Moore. Ele mora na parte alta da cidade, ela diz. Nunca vi mais gordo. A senhora conhece ele?
Não, mas ainda não conheço ninguém. Não faz nem duas semanas que eu tô aqui. É uma caminhada e tanto até a parte alta da cidade. Melhor você ficar aqui a noite toda. Tira a touca.
Não – digo eu –, vou descansar um pouco, acho eu, e continuar. Não tenho medo do escuro.
Ela disse que não ia me deixar seguir sozinha, que o marido dela ia chegar dali a pouco, talvez numa hora e meia, e ela ia mandar ele junto comigo. Então começou a falar sobre o marido, e sobre os conhecidos dela rio acima, e os conhecidos dela rio abaixo, e sobre como eles antes tavam muito melhor de vida e que não sabiam que iam cometer um erro vindo pra cidade, em vez de deixar tudo como tava – e assim por diante, até que fiquei com medo que eu é que tinha cometido um erro aparecendo na casa dela pra descobrir o que tava acontecendo na cidade. Mas logo ela passou a falar do papai e do assassinato, e então eu fiquei de novo com muita vontade de deixar ela tagarelar sem parar. Ela contou a história de como eu e Tom Sawyer encontramos os seis mil dólares (só que eram dez mil na conta dela), e tudo sobre o papai e o cara difícil que ele era, e o menino difícil que eu era, e por fim começou a falar de quando fui assassinado. Eu disse:
Quem matou ele? Escutamos muita coisa sobre esse caso lá em Honkerville, mas não sabemos quem foi que matou Huck Finn.
Bem, acho que um monte de gente por aqui gostaria de saber quem matou ele. Uns acham que foi o próprio velho Finn.
Não... Mesmo?
A maioria pensou assim no início. Ele nunca vai saber como esteve perto de ser linchado. Mas logo mudaram de ideia e acharam que foi um negro fugido chamado Jim o assassino.
Ora ele...
Parei. Achei melhor ficar quieto. Ela continuou e nem notou que eu tinha começado a dizer alguma coisa.
O preto fugiu na mesma noite que Huck Finn foi morto. Tem uma recompensa pra quem encontrar ele: trezentos dólares. E tem também uma recompensa pelo velho Finn: duzentos dólares. Você vê, ele veio pra cidade na manhã depois do assassinato e contou tudo o que aconteceu, e tava presente na caçada na barca, mas logo depois foi embora e desapareceu. De imediato eles queriam linchar ele, mas ele desapareceu, sabe. Bem, no dia seguinte, descobriram que o preto tinha sumido; descobriram que ele não tinha sido visto desde as dez horas da noite que o garoto foi morto. Assim botaram a culpa nele, sabe, e quando tavam todos ocupados com isso, no dia seguinte volta o velho Finn e começa a choramingar pro juiz Thatcher pra conseguir um dinheiro pra caçar o negro por todo o Illinois. O juiz deu pra ele um pouco de dinheiro, e naquela noite ele se embebedou e andou por aí até depois da meia-noite com dois estranhos de cara amarrada e acabou partindo com eles. Não voltou desde então, e eles não tão esperando que volte até essa história amansar um pouco, porque as pessoas agora acham que foi ele que matou o filho e arrumou as coisas pra fazer todo mundo pensar que foi obra de assaltantes, porque assim ele ia pegar o dinheiro de Huck sem ter que se incomodar por muito tempo com uma ação na justiça. O povo diz que ele não armou muito bem a história. Oh, ele é matreiro, acho eu. Se não voltar durante um ano, vai se safar. Você não pode provar nada contra ele, sabe. Tudo será esquecido então, e ele vai pôr as mãos no dinheiro de Huck fácil, fácil.
Sim, imagino, madame. Não vejo nada no caminho dele. Todo mundo parou de achar que foi o preto que matou?
Oh, não, nem todo mundo. Muita gente acha que foi ele o assassino. Mas eles vão pegar o preto logo, logo, e aí vão talvez assustar o sujeito até ele confessar tudo.
Oh, ainda tão atrás dele?
Ora, você é ingênua, hein? Acha que trezentos dólares dão sopa todo dia pra qualquer um pegar? Alguns acham que o preto não tá longe daqui. Eu sou uma – mas não fico falando por aí. Uns dias atrás tava conversando com um velho casal que mora aí ao lado na cabana de toras, e eles disseram no meio da conversa que quase ninguém vai pra aquela ilha ali ao longe que eles chamam de Jackson’s Island. Ninguém mora ali?, pergunto eu. Não, ninguém, dizem eles. Eu não falei mais nada, mas pensei um bocado. Tinha quase certeza de ter visto fumaça lá no alto, perto da ponta da ilha, um dia ou dois antes, por isso digo pra mim mesma, é bem possível que o preto tá se escondendo ali. De qualquer modo, digo eu, vale a pena dar uma olhada na ilha. Não vi mais fumaça desde então, por isso imagino que vai ver ele se mandou, se é que era ele. Mas o meu marido vai até lá pra ver, ele e outro homem. Ele subiu o rio, mas voltou hoje, e eu falei com ele assim que chegou aqui duas horas atrás.
Eu tava tão nervoso que não conseguia ficar sentado quieto. Tinha que fazer alguma coisa com as minhas mãos, por isso peguei uma agulha de cima da mesa e comecei a enfiar a linha. As minhas mãos tremiam, e eu não tava conseguindo enfiar a agulha. Quando a mulher parou de falar, levantei os olhos e ela tava me olhando bem curiosa e sorrindo um pouco. Coloquei a agulha e a linha na mesa e fingi que tava interessado – e eu tava interessado de verdade – e disse:
Trezentos dólares é muito dinheiro. Queria que a minha mãe ganhasse tudo isso. O seu marido tá indo pra ilha hoje de noite?
Oh, sim. Ele foi até a cidade com o homem de que eu tava falando para você, pra arrumar um bote e ver se conseguiam emprestada uma outra espingarda. Eles vão pra ilha depois da meia-noite.
Não iam poder ver melhor, se esperassem até o amanhecer?
Sim. E o preto também não ia poder ver melhor? Depois da meia-noite decerto ele vai estar dormindo, e então eles podem entrar sorrateiros pela mata e procurar a fogueira do acampamento dele melhor no escuro, se é que ele faz fogueira.
Eu não tinha pensado nisso.
A mulher continuou a olhar pra mim muito curiosa, e eu não me senti nem um pouco à vontade. Logo ela disse:
Como você disse que era o seu nome mesmo, querida?
M... Mary Williams.
Não me parecia que eu tinha dito Mary antes, por isso não levantei os olhos; me parecia que eu tinha dito que era Sarah; então me senti meio encurralado e com medo de passar talvez essa impressão. Queria que a mulher continuasse falando. Mais ela ficava quieta, mais inquieto eu ficava. Mas então ela disse:
Querida, você não disse que era Sarah, quando chegou?
Oh, sim, madame. Falei, sim. Sarah Mary Williams. Sarah é o meu primeiro nome. Uns me chamam de Sarah, outros me chamam de Mary.
Oh, então é assim?
Sim, madame. Eu tava me sentindo melhor então, mas louco pra sair dali de qualquer jeito. Ainda não conseguia levantar os olhos.
Bem, a mulher começou a falar de como os tempos tavam difíceis, e como era pobre a vida deles, e como os ratos andavam por toda parte como se fossem os donos do lugar, e assim por diante, e mais e mais, e então fiquei de novo à vontade. Ela tinha razão sobre os ratos. Dava pra ver um botando o focinho pra fora de um buraco num canto de vez em quando. Ela disse que tinha que ter muitas coisas à mão pra jogar neles, quando ficava sozinha, senão eles não deixavam ela em paz. Ela me mostrou uma barra de chumbo, enroscada formando um nó, e disse que tinha uma boa pontaria com ela no mais das vezes, mas tinha torcido o braço um ou dois dias atrás e não sabia se podia atirar de verdade agora. Apesar disso ela esperou uma oportunidade e logo jogou o chumbo num rato, mas a barra bateu longe, bem longe do alvo, e ela disse “Ui!” porque o braço doía muito. Então ela me disse pra tentar o próximo. Eu queria ir embora antes da volta do velho, mas é claro que não demonstrei essa vontade. Peguei a barra e no primeiro rato que apontou o focinho mandei bala, e se ele tivesse ficado onde tava, ia virar um rato muito doente. Ela disse que o golpe tinha sido de primeira categoria e achava que eu ia acertar o próximo. Foi pegar o pedaço de chumbo e trouxe de volta essa coisa mais um novelo de linha, que ela queria a minha ajuda pra endireitar. Levantei as duas mãos e ela colocou o novelo sobre elas e continuou a falar dela e dos negócios do marido. Mas parou pra dizer:
Fica de olho nos ratos. Melhor ter o chumbo no seu colo, bem à mão.
Ela deixou cair o chumbo no meu colo, bem nesse momento, e eu apertei as pernas sobre a barra, e ela continuou falando. Mas só por um minuto. Aí ela tirou o novelo das minhas mãos e me olhou bem na cara, mas de um modo muito gentil, e disse:
Vamos... qual é o seu nome de verdade?
O... o quê, madame?
Qual é o seu nome verdadeiro? Bill, Tom ou Bob? Qual?
Acho que eu tremia como vara verde e não sabia o que fazer. Mas disse:
Por favor, não zombe de uma pobre menina como eu, madame. Se tô incomodando aqui, vô...
Não, não vai. Senta e fica onde você tá. Não vou lhe fazer mal nenhum, nem vou denunciar você. Apenas me conte o seu segredo e confie em mim. Vou guardar pra mim o que me contar, e mais ainda, vou ajudar você. E o meu velho também vai ajudar, se você quiser. Sabe, você é um aprendiz fugido... só isso. Coisa à toa. Não tem mal nisso. Você foi maltratado e decidiu fugir. Que Deus te abençoe, criança, eu nunca ia denunciar você. Conta tudo pra mim agora... isso, meu bom garoto.
Então eu disse que não adiantava mais tentar fingir, que eu ia só desabafar e contar tudo, mas que ela não devia quebrar a sua promessa. Então contei a ela que meu pai e minha mãe tavam mortos, que a lei me colocou como aprendiz de um velho fazendeiro malvado num campo a quarenta e oito quilômetros do rio e que ele me maltratava tanto que eu não aguentava mais. Ele saiu pra ficar fora por uns dias, e eu agarrei essa oportunidade e roubei umas roupas velhas da sua filha, dei no pé, e tinha passado três noites caminhando os quarenta e oito quilômetros. Viajava de noite, de dia eu me escondia e dormia, e o saco de pão e carne que eu trazia de casa durou todo o caminho e eu tinha bastante que comer. Eu disse que acreditava que o meu tio, Abner Moore, ia tomar conta de mim e que era por essa razão que eu tinha partido pra aquela cidade de Goshen.
Goshen, garoto? Isto aqui não é Goshen. É St. Petersburg. Goshen fica mais dezesseis quilômetros rio acima. Quem lhe disse que aqui era Goshen?
Ora, um homem que encontrei de manhã quando clareou, bem quando eu ia voltar pra mata pra pegar no sono, como de costume. Ele me disse que, quando as estradas se bifurcavam, eu devia tomar a da direita, e os oito quilômetros iam me levar até Goshen.
Ele tava bêbado, imagino. Disse pra você exatamente o contrário.
Bem, ele realmente andava como bêbado, mas não importa agora. Tenho que seguir adiante. Vou chegar a Goshen antes do amanhecer.
Espera um minuto. Vou lhe arrumar alguma coisa pra comer. Você pode precisar.
Então ela preparou um lanche pra mim e disse:
Me diz... quando uma vaca tá deitada, que parte dela levanta primeiro? Responde logo, já... não para pra pensar. Que parte levanta primeiro?
A traseira, madame.
E de um cavalo?
A dianteira, madame.
Em que parte da árvore o musgo cresce mais?
No lado norte.
Se quinze vacas tão pastando numa encosta, quantas delas comem com as cabeças apontadas na mesma direção?
Todas as quinze, madame.
Bem, acho que você viveu mesmo no campo. Achei que você tava tentando me enganar de novo. Qual é o seu nome de verdade agora?
George Peters, madame.
Bem, trata de lembrar, George. Não esquece e vem me dizer que é Elexander antes de ir embora, pra depois querer remendar dizendo que é George-Elexander quando eu pegar você mentindo. E não anda no meio de mulheres com esse velho vestido de chita. Você faz muito mal o papel de mulher, mas até que poderia enganar os homens, talvez. Deus te abençoe, garoto, mas quando resolver enfiar linha numa agulha, não segura a linha firme e aproxima a agulha; segura a agulha firme e enfia a linha nela... é assim que uma mulher quase sempre faz, mas um homem sempre faz do jeito contrário. E quando você atirar qualquer coisa num rato ou outro alvo, trata de ficar na ponta do pé, e coloca a mão acima da cabeça do modo mais desajeitado que puder, e erra o alvo do rato por uns dois metros. Atira com o braço esticado e duro desde o ombro, como se tivesse um eixo ali pra ele girar ao redor... como uma menina; e não desde o punho e o cotovelo, com o braço afastado para o lado, como um menino. E presta atenção: quando uma menina tenta apanhar qualquer coisa no seu colo, ela afasta os joelhos; ela não aperta eles, como você fez quando pegou a barra de chumbo. Ora, vi que você era um menino quando começou a enfiar a agulha e armei as outras coisas só pra ter certeza. Agora trata de caminhar até o seu tio, Sarah Mary Williams George Elexander Peters, e se você se meter numa encrenca, manda avisar a sra. Judith Loftus, que sou eu, que vou fazer o que puder pra tirar você do aperto. Segue pela estrada do rio, sempre, e, da próxima vez que sair por aí caminhando, leva sapatos e meias junto. A estrada do rio é cheia de pedras, e seus pés vão ficar em petição de miséria até chegar a Goshen, imagino.
Andei pela margem do rio uns cinquenta metros, depois voltei sobre meus passos e me esgueirei até onde tava a minha canoa, um bom pedaço além da casa. Saltei dentro do bote e parti a toda. Fui contra a corrente bem longe, até conseguir ver a ponta da ilha, e então comecei a travessia. Tirei a touca, pois não queria mais saber de viseiras. Quando tava no meio do rio, ouvi o relógio começar a soar. Parei pra escutar, o som chegava fraco sobre a água, mas é claro... onze horas. Quando cheguei na ponta da ilha, não esperei pra respirar, mesmo tando sem fôlego, mas me enfiei bem dentro da mata onde era antes o meu velho acampamento e comecei uma boa fogueira ali num ponto alto e seco.
Aí pulei na canoa e me mandei pro meu lugar a uns dois quilômetros e meio dali o mais rápido que pude. Desembarquei e chapinhei pela mata, subi o morro e entrei na caverna. Lá tava Jim, em sono profundo no chão. Acordei ele e disse:
Levanta e trata de te mexer, Jim! A gente não tem nem um minuto a perder. Tão atrás de nós!
Jim não perguntou nada, não disse uma palavra, mas o jeito como trabalhou na meia hora seguinte mostrou o quanto tava assustado. Depois dessa meia hora, tudo o que a gente tinha no mundo tava na nossa balsa e ela tava pronta pra ser empurrada pra fora do recanto de salgueiros, onde tava escondida. A gente apagou primeiro a fogueira na caverna e não mostrou nem uma vela acesa lá fora depois disso.
Levei a canoa um pouco pra fora da margem e dei uma olhada, mas se tinha um barco por perto não dava pra ver, porque as estrelas e as sombras não deixam ver muita coisa. Aí a gente levou a balsa pra fora e deslizou às pressas na sombra, passando além da outra ponta da ilha, sem se mexer, sem dizer uma palavra.
Mark Twain, in As Aventuras de Huckleberry Finn