Mostrando postagens com marcador escritor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador escritor. Mostrar todas as postagens

01/05/2024

Cadernos de Lanzarote | 18 de Junho de 1993

Recuperado (com alguns pequenos arranjos) de uma entrevista dada a um jornalista francês e nunca publicada: “Um livro aparece a público com o nome da pessoa que o escreveu, mas essa pessoa, o autor que assina o livro, é, e não poderia nunca deixar de ser, a par duma personalidade e duma originalidade que o distinguem dos mais, o lugar organizador de complexíssimas inter-relações linguísticas, históricas, culturais, ideológicas, quer das que são suas contemporâneas quer das que o precederam, umas e outras conjugando-se, harmónica ou conflitivamente, para nele definir o que chamarei uma pertença. Entendida a questão assim, e assumidas as consequências todas do que acabo de dizer, o primeiro ‘protagonista’ de Proust, por muito singular que pareça, é a França, e só depois dela, não obstante terem ‘principiado’ muito antes, é que vêm o Mundo e a Europa.”

José Saramago, in Cadernos de Lanzarote 

04/06/2019

16/03/92 - 00:53

Não tenho ideia do que causa isso. Aparece: uma certa ideia sobre os escritores do passado. E minhas ideias não são nem mesmo precisas, são apenas minhas, quase que totalmente inventadas. Acho que Sherwood Anderson, por exemplo, era baixinho e de ombros levemente encurvados. Provavelmente, tinha ombros retos e era alto. Não interessa. Eu o vejo do meu jeito. (Nunca vi uma foto dele.) Vejo Dostoievsky como um cara barbudo, grandão, com letárgicos olhos verde-escuros. Primeiro, ele era gordo demais, depois magro demais, depois gordo demais. Bobagem, com certeza, mas eu gosto da minha bobagem. Até vejo Dostoievsky como um cara que desejava garotinhas. Faulkner, vejo, em meio a uma certa penumbra, como um ranzinza e um cara com mau hálito. Gorky, como um cara que bebe escondido. Tolstoi, como um homem que tinha ataques de fúria por besteiras. Vejo Hemingway como um cara que dançava balé a portas fechadas. Vejo Celine como um cara que não dormia direito. Vejo e.e. cummings como um grande jogador de sinuca. Poderia continuar sem parar.
Em geral, tinha essas visões quando era um escritor faminto, meio louco, incapaz de me adaptar à sociedade. Tinha pouca comida, mas muito tempo. Quem quer que fossem os escritores, eram mágicos para mim. Abriam portas de um jeito diferente. Precisavam de uma bebida forte ao acordar. A vida era demais para eles. Cada dia era como caminhar sobre cimento fresco. Fiz deles meus heróis. Me alimentava deles. Minhas ideias sobre eles me sustentavam no meu lugar nenhum. Pensar sobre eles era muito melhor do que lê-los. Como D. H. Lawrence. Que sujeitinho perverso. Ele sabia tanto que isso fazia com que ficasse possesso o tempo todo. Sensacional, sensacional. E Aldous Huxley... poder mental de sobra. Ele sabia tanto que isso lhe dava dor de cabeça.
Me espreguiçava em minha cama de fome e pensava nesses caras.
A literatura era tão... romântica. É.
Mas os compositores e pintores também eram bons, sempre ficando loucos, se suicidando, fazendo coisas estranhas e abjetas. O suicídio parecia uma ideia tão boa. Eu mesmo tentei algumas vezes, falhei, mas cheguei perto, fiz umas boas tentativas. Agora, aqui estou com quase 72 anos. Meus heróis já se foram há muito e tive que viver com outros. Alguns dos novos criadores, alguns dos recém-famosos. Não são a mesma coisa pra mim. Olho para eles, os escuto e penso, é só isso? Quero dizer, eles parecem estar numa boa... eles reclamam... mas eles parecem estar NUMA BOA. Não há loucura. Só os que parecem loucos são os que fracassaram como artistas e acham que o fracasso é culpa de forças exteriores. E criam muito mal, de forma horrível.
Não tenho mais ninguém em quem me espelhar. Não consigo nem me espelhar em mim mesmo. Costumava entrar e sair de cadeias, costumava arrombar portas, quebrar janelas, beber 29 dias por mês. Hoje, sento em frente deste computador com o rádio ligado, ouvindo música clássica. Nem mesmo estou bebendo esta noite. Estou me resguardando. Pra quê? Será que quero viver até os 80, 90 anos? Não me importo de morrer... mas não neste ano, tá legal?
Não sei, era diferente no passado. Os escritores pareciam ser mais... escritores. Coisas eram feitas. A Black Sun Press. Os Crosby. Me lembro tanto daquela época! Caresse Crosby publicou um dos meus contos na sua revista Portfolio, junto com Sartre, acho, e Henry Miller e acho que, talvez, Camus. Não tenho mais a revista. As pessoas me roubam. Levam minhas coisas quando bebem comigo. Por isso que estou cada vez mais sozinho. De qualquer forma, outros devem ter saudades dos extraordinários anos 20, Gertrude Stein e Picasso... James Joyce, Lawrence e essa turma.
Para mim, parece que não somos mais o que éramos. É como se tivéssemos gasto as opções, como se não conseguíssemos mais fazer alguma coisa.
Sento aqui, acendo um cigarro, ouço música. Minha saúde está boa e espero estar escrevendo bem ou melhor que nunca. Mas tudo mais que leio parece tão... usado... é como um estilo reconhecido. Talvez eu tenha lido demais, talvez eu tenha lido por tempo demais. Também, depois de décadas e décadas escrevendo (e escrevi um monte), quando leio outro escritor acho que posso dizer exatamente quando ele está fingindo, a mentira salta aos olhos, as resvaladas untuosas... Posso adivinhar qual será a próxima linha, o próximo parágrafo... Não há brilho, emoção, risco. É uma tarefa que aprenderam, como consertar uma torneira que pinga.
Gostava mais quando conseguia imaginar grandeza nos outros, mesmo que nem sempre houvesse.
Na minha cabeça, via Gorki em um cortiço, pedindo tabaco para o cara ao lado. Via Robinson Jeffers falando com um cavalo. Via Faulkner olhando para o último gole da garrafa. É claro, é claro, era bobo. Os jovens são bobos e os velhos, idiotas.
Tenho que me adaptar. Mas para todos nós, mesmo agora, a próxima linha está sempre lá e pode ser a linha que finalmente consegue dar o recado, que diz tudo. Podemos dormir pensando nisso durante as lentas noites e esperar que aconteça.
Provavelmente, somos tão bons hoje quanto aqueles filhos da puta do passado. E alguns dos jovens pensam sobre mim como eu pensava sobre eles. Eu sei, recebo cartas. Eu as leio e jogo fora. Estes são os monumentais anos 90. Existe a próxima linha. E a linha depois dessa. Até não haver mais nenhuma.
É. Mais um cigarro. Depois, acho que vou tomar um banho e dormir.
Charles Bukowski, in O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio

03/10/2016

Meu dever de escritor

Tenho horror da literatura pela literatura. Por ter vivido ardentemente, pude escrever fatos concretos. Foi a profissão que delimitou meu dever de escritor”.
Antoine de Saint-Exupéry

01/08/2016

Sobre as mulheres de escritores

Para escrever, preciso isolar-me, recolher-me, concentrar-me somente no que estou escrevendo. Ou faço assim, ou a inspiração não vem. Aliás, sempre que ela me visita, encontra-me trabalhando.
Tenho as aulas, as viagens, as palestras, as feiras de livros. E não adianta. Até consigo escrever um conto ou outro em fins de semana, mas para escrever novelas e romances eu preciso de tempo ocioso, preciso não fazer nada, vagabundear, alterar os horários de dormir e levantar, almoçar e jantar.
Preciso, enfim, do que chamo de caos criativo.
Mas os conhecidos e os desconhecidos são implacáveis, querem leituras, orelhas, apresentações.
Felizmente, a Marta, minha esposa, nos últimos tempos, tem assumido o papel de cão de guarda. Sem a sua proteção, eu não conseguiria escrever nada.
Isso me fez pensar no esquecido papel das mulheres de escritores. Sem elas, muitas obras clássicas da literatura mundial não teriam sido escritas.
Sem Mafalda, Erico Verissimo, certamente, teria produzido uma bibliografia minguada.
Sem Lúcia, Luis Fernando Verissimo passaria o dia inteiro atendendo telefonemas.
Sem Valesca, Assis Brasil estaria um quarto de léguas distante do primor de suas obras.
E quando a situação se inverte e os artistas da palavra são mulheres?
Seus maridos atuam, também, como anteparos? E os filhos, deixam as mães em paz para que possam escrever?
No concurso literário da vida, nascer homem já é mais que meio caminho andado.
Charles Kiefer, in Para ser escritor

17/11/2015

Sopro vital


Às vezes, um aluno de oficina produz um texto em que todos os elementos da narrativa estão perfeitamente encaixados, todas as partes que compõem o todo se ajustam com eficiência, e, no entanto, o todo não funciona, a obra é uma marionete desconjuntada, flácida e sem vitalidade.
Nesse instante, o instrutor silencia, à espera de que alguém mais, talvez o próprio autor, se dê conta do espantalho que foi gerado. Mas este, ainda dolorido e ensimesmado pela gestação e pelo parto, não percebe. E os colegas, mais por espírito de corpo do que por ignorância, também não perceberão. Ou farão de conta que não percebem. E não adianta tentar mostrar que aquilo é um fantoche, um factoide, um espectro. O autor não se permitirá perceber o problema. Ao contrário, apelará para as mais comezinhas autoindulgências, rebaterá com argumentos teóricos aprendidos com o próprio mestre, se apegará neuroticamente a detalhes sem nenhuma significação.
Se for culto e com boa bagagem de leitura, apresentará exemplos extraídos de obras clássicas que ele julga, arrogantemente, semelhantes à sua.
O professor, se coincidir de ser também escritor e não apenas crítico ou técnico, sofrerá duplamente. Em algum momento de sua carreira terá produzido essas aberrações da natureza literária, esses fantasmas sem vida nem transcendência, e reconhecerá, sem confessar publicamente, que há uma área da criação infensa à técnica, à cultura, ao conhecimento acumulado pela tradição. E sofrerá também porque essa área é inexplicável, intransferível e inapreensível.
Se for honesto, o professor murmurará que as ideias de Platão foram contestadas, mas não destruídas. Que, por mais materialistas que possamos ser, sempre restará espaço para o mito. Que o sopro vital é um dom do Espírito.
Se for honesto, o escritor que também ensina ensinará, como ensinou Gaston Bachelard, que não é digno de ser chamado de escritor aquele que não dedicar à Fênix parte de sua produção, especialmente aquela que já nasceu morta.
E ensinará que é do fogo e das cinzas da obra desvitalizada que virá a energia necessária para outra obra possível, aquela com frescor de banho e riso de bebê, aquela que se agitará como uma serpente no gramado e que será capaz de mesmerizar até o leitor mais desatento.
Charles Kiefer, in Para ser escritor

15/11/2015

A sacralização do próprio texto

John William Waterhouse - Echo and Narcissus by John William Waterhouse
Echo and Narcissus (1903), de John William Waterhouse

A ninfa Liríope, mãe de Narciso, procurou Tirésias para saber se o filho que tivera com o rio Cefiso teria vida longa.
Sim – respondeu o vidente –, se ele jamais se conhecer.
O resto da história todos sabem. Apaixonado pela própria imagem refletida na fonte, o jovem esqueceu-se de comer e de dormir, definhou e morreu.
Se a mãe de um aluno de oficina literária me procurasse para saber se seu filho teria vida longa como escritor, eu responderia com as palavras de Sócrates e não com as de Tirésias:
Sim, se ele conhecer a si mesmo e se for capaz de compreender que sabe que nada sabe.
O aluno que sacraliza o próprio texto, que contempla demais a própria imagem, que não aceita a crítica, está fadado a ter o mesmo destino de Narciso – fenecer de inanição à beira da fonte.
Outros, menos vaidosos e mais abertos à dialética do desenvolvimento, serão capazes de ir mais longe, de produzir obra mais sólida, de construir carreira mais consistente.
Em meu já longo aprendizado como professor de escritores, vi talentos extraordinários, gênios precoces, candidatos poderosos à Grande Obra autodestruírem-se pelo amor exacerbado que devotavam a si mesmos. Suas produções, fechadas para o mundo, excessivamente coladas à própria experiência, retratos fiéis demais de sua própria subjetividade, boiarão para sempre sobre as águas da literatura como frágeis narcisos, monocromáticos, autorreferentes e desvitalizados.
Charles Kiefer, in Para ser escritor

27/10/2015

Escritores: vaidosos, egocêntricos e ociosos


Reexaminando as duas últimas páginas, mais ou menos, noto que fiz parecer que meus motivos para escrever estiveram todos voltados à causa pública. Não quero que seja essa a impressão definitiva. Todos os escritores são vaidosos, egocêntricos e ociosos, e bem no fundo de seus motivos jaz um mistério. Escrever um livro é uma luta horrível e exaustiva, como um prolongado ataque de uma enfermidade dolorosa. Ninguém jamais se incumbiria de tal coisa se não fosse impelido por um demônio ao qual não se pode resistir nem entender. Porque todo mundo sabe que esse demônio é simplesmente o mesmo instinto que faz um bebê chamar a atenção aos berros. E no entanto também é verdadeiro que é impossível escrever algo legível sem lutar constantemente para apagar a própria personalidade. A boa prosa é como uma vidraça. Não sei dizer com certeza qual de meus motivos é o mais forte, mas sei qual deles merece ser seguido. E, ao reexaminar minha obra, percebo que foi sempre onde me faltou um propósito político que escrevi livros sem vida e fui induzido a escrever passagens floreadas, frases sem significado, adjetivos decorativos e, em geral, falsidades.”
George Orwell, in Por que escrevo

23/10/2015

O perigo que ronda as oficinas literárias

Nas oficinas literárias, às vezes, alguns participantes apegam-se a detalhes do texto, inadequações semânticas e sintáticas, referências espaciais e temporais, e propõem um verdadeiro napalm corretivo. Para matar um inseto, devastam uma floresta inteira, no afã de tornar o texto “mais universal”. Como se o que constituísse a universalidade de uma obra literária fosse a pasteurização vocabular, a homogeneização estilística e a desvitalização de conteúdo.
Em geral, são alunos que não compreendem as relações sociais, políticas e econômicas que constituem a malha do discurso e do sentido. Açodados pela ansiedade de mostrar o próprio texto, preferem patinar sobre ele, apontar o óbvio e produzir toneladas de materiais que receberão da história futura uma não tão generosa recepção quanto a dos colegas de turma.
A estes, urge a leitura de Bakhtin, de Saussure, de Ducrot, de Benveniste, de Greimas, de Jakobson, de Charaudeau, de Authier-Revuz, de Bally e, por que não dizer, de Sartre. Mas, com frequência, e não por acaso, são alunos que resistem às necessárias paradas teóricas que proponho em meu método pedagógico. Por eles, as aulas seriam compostas somente de leitura e de discussão dos textos produzidos pelos próprios discentes.
Por outro lado, só avanço, teoricamente, quando percebo que meus alunos estão prontos para acompanhar os não tão simples raciocínios dialéticos da teoria linguística e literária. E para que sejam capazes disso, é preciso aprofundamento, que só virá pela ampliação da leitura, em casa, e pela discussão qualificada dos temas, em sala de aula.
Às vezes, é necessário mesmo deixar que as coisas girem em torno de vírgulas, até o momento de implodir o grupo e recomeçar com um novo. Outros alunos talvez compreendam que o texto literário de qualidade é espesso, opaco e plurivocal, e que a conquista da grande literatura só se dá pelo obstinado rigor.
Charles Kiefer, in Para ser escritor

15/06/2015

Aborrecido de estudar


Enfastiavam-me as aulas, salvo as de literatura — que aprendia de cor — e tinha nelas um protagonismo único. Aborrecido de estudar, deixava tudo à mercê da boa sorte. Tinha um instinto próprio para pressentir os pontos álgidos de cada matéria e quase adivinhar os que mais interessavam aos professores para não estudar o resto. A realidade é que não entendia por que devia sacrificar engenho e tempo em matérias que não me interessavam e, pela mesma razão, não me iam servir para nada numa vida que não era minha.
Atrevi-me a pensar que a maioria dos meus professores me classificava mais pela minha maneira de ser do que pelos meus exames. Salvavam-me as minhas respostas imprevistas, as minhãs ideias dementes, as minhas invenções irracionais. No entanto, quando acabei o quinto ano, com sobressaltos acadêmicos que não me sentia capaz de superar, tomei consciência dos meus limites. O bacharelato tinha sido até então um caminho empedrado de milagres, mas avisava-me o coração que no final do quinto me esperava uma muralha intransponível. A verdade sem adornos era que me faltava já a vontade, a vocação, a ordem, o dinheiro e a ortografia para embarcar numa carreira acadêmica. Melhor dizendo: os anos voavam e não fazia a mínima ideia do que ia fazer da minha vida, pois havia de passar ainda muito tempo antes de me aperceber de que mesmo esse estado de derrota era propício, porque não há nada deste mundo nem do outro que não seja útil para um escritor.”
Gabriel García Márquez, in Viver para Contá-la

02/12/2014

04/11/2014

Os bons livros

“Todos os bons livros assemelham-se no fato de serem mais verdadeiros do que se tivessem acontecido realmente, e que, terminada a leitura de um deles, sentimos que tudo aquilo nos aconteceu mesmo, que agora nos pertencem o bem e o mal, o êxtase, o remorso e a mágoa, as pessoas e os lugares e o tempo que fez. Se conseguires dar essa sensação às pessoas, então és um bom escritor.”
Ernest Hemingway, in Escrito de um Velho Jornalista

15/02/2014

Escritores enriquecedores

Quais são os escritores que nos enriquecem? Penso que isso é diferente para todos. Penso que lemos muito subjetivamente. Lemos aquilo de que precisamos. Há quase uma força obscura que nos guia para determinado livro numa determinada altura; depois criamos problemas quando tentamos racionalizar isso e dizemos que este escritor é bom e aquele escritor é mau. Nunca fui capaz de dizer isso. Compreende, não posso dizer que Simone de Beauvoir seja má escritora, mas posso dizer que não me enriquece. O que é uma afirmação totalmente diferente. E penso que isso varia muito. Elaborei uma lista de escritoras e dos seus livros que me enriqueceram. Mas não é uma seleção literária. É uma seleção puramente subjetiva e a sua podia ser totalmente diferente.
Perguntam-me muitas vezes o que penso acerca de Simone de Beauvoir, o que penso acerca de The Golden Notebook, e é-me sempre difícil responder. Não os considero livros enriquecedores, porque me repetem incessantemente como as coisas estão, mas nunca me mostram como posso mudá-las. Logo, quando Simone de Beauvoir escreve um livro acerca do envelhecimento, ela está a curvar-se à idade cronológica e a dizer que em determinada altura ficamos velhos. Mas nós às vezes ficamos velhos aos vinte anos. A idade é outra coisa que temos de transcender e de encarar com outra atitude. Não é cronológica. E penso o mesmo em relação à descrição de coisas tal como elas são, sem uma abertura que nos diga para onde podemos ir a partir dali ou como podemos transcendê-las, que encontro naqueles que chamo os escritores enriquecedores. É por isso que, quando não estou apaixonada por escritores, digo sempre que posso respeitar as suas ideias, mas que não me dão o sentimento que me empurra para a vida.
Anais Nin, in Fala Uma Mulher

19/01/2013

Ser firme, simples e verdadeiro

“O que pensas que foi a vida dos homens que se conseguiram erguer acima do comum? Um combate contínuo. Se se tratar de um escritor, para escrever, uma luta contra a preguiça (que ele sente tanto como o homem comum): e isto porque o seu gênio quer manifestar-se - e ele não obedece apenas ao desejo vão de se tornar célebre, mas ao apelo da sua consciência. Calem-se portanto os que trabalham com frieza: poder-se-á imaginar o que é trabalhar sob a influência da inspiração? Que medo, que hesitação sentimos em despertar esse leão adormecido, cujos rugidos fazem estremecer todo o nosso ser! Mas, voltando atrás: ser firme, simples e verdadeiro - eis o útil ensinamento de todos os momentos.”
Eugène Delacroix, in Diário

11/01/2013

“As duas coisas mais envolventes de um escritor são tornar familiares as coisas novas e tornar novas as coisas familiares.”
Samuel Johnson

01/11/2012

O poeta e o silêncio

Os poetas não são azuis nem nada, como pensam alguns supersticiosos, nem sujeitos a ataques súbitos de levitação. O de que eles mais gostam é estar em silêncio – um silêncio que subjaz a quaisquer escapes motorísticos e declamatórios. Um silêncio… Este impoluível silêncio em que escrevo e em que tu me lês.
Mário Quintana

28/10/2012

Como comecei a escrever

Aí por volta de 1910 não havia rádio nem televisão, e o cinema chegava ao interior do Brasil uma vez por semana, aos domingos. As notícias do mundo vinham pelo jornal, três dias depois de publicadas no Rio de Janeiro. Se chovia a potes, a mala do correio aparecia ensopada, uns sete dias mais tarde. Não dava para ler o papel transformado em mingau.
Papai era assinante da "Gazeta de Notícias", e antes de aprender a ler eu me sentia fascinado pelas gravuras coloridas do suplemento de domingo. Tentava decifrar o mistério das letras em redor das figuras, e mamãe me ajudava nisso. Quando fui para a escola pública, já tinha a noção vaga de um universo de palavras que era preciso conquistar.
Durante o curso, minhas professoras costumavam passar exercícios de redação. Cada um de nós tinha de escrever uma carta, narrar um passeio, coisas assim. Criei gosto por esse dever, que me permitia aplicar para determinado fim o conhecimento que ia adquirindo do poder de expressão contido nos sinais reunidos em palavras.
Daí por diante as experiências foram-se acumulando, sem que eu percebesse que estava descobrindo a literatura. Alguns elogios da professora me animavam a continuar. Ninguém falava em conto ou poesia, mas a semente dessas coisas estava germinando. Meu irmão, estudante na Capital, mandava-me revistas e livros, e me habituei a viver entre eles. Depois, já rapaz, tive a sorte de conhecer outros rapazes que também gostavam de ler e escrever.
Então, começou uma fase muito boa de troca de experiências e impressões. Na mesa do café-sentado (pois tomava-se café sentado nos bares, e podia-se conversar horas e horas sem incomodar nem ser incomodado) eu tirava do bolso o que escrevera durante o dia, e meus colegas criticavam. Eles também sacavam seus escritos, e eu tomava parte nos comentários. Tudo com naturalidade e franqueza. Aprendi muito com os amigos, e tenho pena dos jovens de hoje que não desfrutam desse tipo de amizade crítica.
Carlos Drummond de Andrade, in Para gostar de ler

21/09/2012

As pessoas, os escritores


“O escritor William Faulkner tinha boas lembranças de seu emprego num bordel. “Para um artista, é o melhor lugar”, declarou, “Têm-se liberdade econômica, um teto em cima e quase nada para fazer, salvo cuidar de umas escriturações simples e ir mensalmente pagar à polícia local. O lugar é quieto durante as manhãs, o melhor momento do dia para a literatura. E há bastante vida social à noite, o que afasta o tédio.
Hilda Hilst mudou-se para um sítio isolado, onde escrevia durante o dia, e aguardava a visita de discos voadores ao anoitecer. Para Ernest Hemingway, os melhores lugares eram os hotéis. “Basta uma cama, uma boa mesa e um quarto limpo.” Françoise Sagan exigia apenas que o lugar fosse bastante iluminado. Caio Fernando Abreu não escrevia sem uma rosa amarela e uma foto de Virginia Woolf à sua frente. Balzac escreveu a sua Comédia Humana trancado secretamente em um quarto minúsculo, fugindo de credores. Nelson Rodrigues criava seus personagens em meio ao burburinho frenético das redações de jornal. Anton Tchekhov elaborava a maior parte de seus contos entre consultas médicas e diagnósticos. Clarice Lispector escrevia com a sua Olivetti no colo, entre os filhos e os afazeres domésticos. Gustave Flaubert fazia dos corpos de suas amantes sólidos apoios para a pena e os papéis.
Dorothy Parker levava seis meses para escrever um conto. Primeiro imaginava-o do início ao fim, só depois se sentava para escrever frase a frase. Ela nunca tinha o primeiro esboço porque não conseguia escrever cinco palavras sem modificar sete, como dizia. Dorothy Canfield Fisher comparava a redação de um primeiro rascunho a uma descida de esqui por uma encosta íngreme, que ela não tinha a certeza de ser bastante hábil para realizar: “Eu escrevia tão depressa quanto o meu lápis permitia, indicando palavras inteiras com os meus rabiscos”. Frank O’Connor preferia escrever o que lhe viesse à cabeça, ou ao papel, sem julgamentos. Acreditava que no emaranhado de ideias apareceria o contorno principal da sua história. William Styron confessava ter uma necessidade neurótica de melhorar cada parágrafo, até mesmo cada frase, à medida que escrevia, o que tornava o ato de reescrever interminável. Françoise Sagan levava no máximo três dias revisando cada novela. A maior parte do tempo era dedicada a eliminar vícios literários: “Adjetivos, advérbios e toda palavra que lá estivesse apenas para produzir efeito”. Georges Simenon era da mesma opinião. “Corto tudo que for muito literário”, declarou uma vez em uma entrevista, “Se me deparo com uma bela frase, por exemplo, elimino-a”. A beleza para ele era na maioria das vezes apenas decorativa. Julio Cortázar achava por bem desconfiar sempre dos seus textos, se não “corremos o risco de nos tornarmos cegos como aquelas mães que julgam os seus filhos os mais belos e inteligentes de todos, e assim esperam que o mundo inteiro faça”. Clarice Lispector não relia os seus livros depois de entregá-los à editora. “Tenho náuseas”, dizia.
William Faulkner não era contra a técnica, mas achava que ela muitas vezes assumia em demasiado o comando da imaginação artística, antes que o próprio escritor pudesse deitar-lhe a mão. “O trabalho assim não é mais do que uma questão de ajustar os tijolos uns sobre os outros. Já que o escritor provavelmente sabe cada palavra que virá até o fim antes de escrever a primeira.” Difícil tarefa de manter a vivacidade dentro de uma forma, ele considerava. “O objetivo de todo artista é deter o movimento, que é a vida, por meios artificiais, e conservá-lo fixo, de modo que, cem anos depois quando um estranho o fitar, ele se mova novamente.” Henry Miller descobriu com o tempo que a sua melhor técnica era não ter técnica nenhuma. “Jamais achei que deveria aderir a qualquer maneira de tratar um tema. Permaneço aberto e flexível, pronto para seguir a direção dos ventos ou das correntes de pensamento.” Truman Capote buscava manter um domínio estilístico e emocional sobre o que escrevia. Para ele, uma história poderia ser arruinada por causa de um ritmo equivocado de uma frase ― principalmente se for na parte final, ou por um erro na divisão dos parágrafos ou de pontuação. “A arte de escrever possui leis de perspectiva, luz e sombra, assim como a pintura e a música. Se a gente nasce conhecendo-as, ótimo. Se não, devemos aprendê-las e depois readaptá-las para que se ajustem a nós.” Katherine Anne Porter buscava como escritora uma visão singular para os acontecimentos. “É aí que começa o trabalho, com as consequências dos atos, não com os atos em si mesmos. É nas reverberações, nas implicações que o artista trabalha.”
Henry Miller um dia cortou o cordão umbilical com a literatura. “Abandonei as influências e resolvi escrever partindo de minha experiência, daquilo que eu sabia e sentia. E isso foi a minha salvação.” Deixou de ser um literato para ser um escritor, como ele disse. “Abandonei as ideias e os conceitos em prol da vitalidade.” Em busca da pulsação vital da palavra escrita, muitos escritores equivocadamente olham mais para fora ― para aquilo que chamam de realidade ― do que para dentro ― para aquilo que chamam de sonho ou imaginação, lamentou Paul Valéry. “Lançar mão da realidade é uma espécie de embuste”, considerava Françoise Sagan, “A arte deve colher a realidade de surpresa”. Para a escritora, a arte não deveria inculcar o real como sendo uma preocupação. “Nada é mais irreal que certos romances chamados realistas ― e que não passam de pesadelos. É possível conseguir ― se num romance certa verdade sensorial ― o verdadeiro sentimento de um personagem ― eis tudo. A ilusão da arte por certo é fazer com que se acredite que a grande literatura é muito ligada à vida, mas exatamente o oposto é que é verdadeiro. A vida é amorfa; a literatura, formal.” Ernest Hemingway considerava a busca da vitalidade, e não da realidade, a sua saga literária. “De todas as coisas que se sabe e das que não se sabe, a gente faz algo através de nossa invenção, que não é uma representação, mas é algo inteiramente novo e mais verdadeiro do que qualquer coisa verdadeira e viva. A gente lhe dá vida. Pelo tempo que dura uma leitura, e pelo tempo que a leitura ressoar em alguém, lhe dá imortalidade. Eis aí por que se escreve.”
Por Cláudia Lage, No jornal Rascunho, na edição de março de 2009 (a partir do substantivoplural.com.br).

19/09/2012

Os bons livros e o escritor

“Todos os bons livros assemelham-se no fato de serem mais verdadeiros do que se tivessem acontecido realmente, e que, terminada a leitura de um deles, sentimos que tudo aquilo nos aconteceu mesmo, que agora nos pertencem o bem e o mal, o êxtase, o remorso e a mágoa, as pessoas e os lugares e o tempo que fez. Se conseguires dar essa sensação às pessoas, então és um bom escritor.”
Ernest Hemingway, in Escrito de um Velho Jornalista