O
quadro
El
3 de mayo en Madrid
foi
pintado pelo
artista espanhol Francisco
Goya em 1814, referente à invasão napoleônica na Espanha. Quando o
pintor foi questionado sobre a razão de haver pintado uma tela como
essa, ele respondeu: “Para ter o gosto de dizer eternamente aos
homens que não sejam bárbaros”. E foi inspirado por esse quadro
que outro grande artista, Jorge de Sena, escreveu “Carta a meus
filhos sobre os fuzilamentos de Goya”, a qual mesmo havendo sido
escrita a mais de 40 anos, permanece atual e soa como um belo
manifesto pra os dias de hoje. Eis
a Carta:
Não
sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque
tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós.
Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que
advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um
mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o
vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o
respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto,
nem sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é
possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por
quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que
qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um
dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número
dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha
de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram
sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente
à secular justiça,
para que os liquidasse com suma piedade e
sem efusão de sangue.
Por
serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma
esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía
as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados,
gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto
haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não
restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por
serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham
cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas
também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve
sempre infinitas maneiras de prevalecer
aniquilando mansamente,
delicadamente
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios
os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi
uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um
século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um
pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio
de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas
um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um
elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sêmen
a
caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que
nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É
isto o que mais importa – essa alegria.
Acreditai que a
dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa
alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma
vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um
só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e
virá.
Que
tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem
terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou
indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor,
tanta angústia, um dia
– mesmo que o tédio de um mundo feliz
vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que,
muitas
vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e
crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge
inconsolável.
Serão
ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita
esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que
lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode
dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objeto
que
não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam “amanhã”.
E,
por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com
cuidado, como coisa
que não é só nossa, que nos é
cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do
sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do
amor que
outros não amaram porque lho roubaram.
Jorge
de Sena