01/09/2026

Todos temos um pouco



“Foi ali que mataram o filho da rainha da Inglaterra.”
“Posso tirar uma foto sua?”
“Sim, general.”
Tirei a câmera da pasta e bati uma foto de dona Romilda.
“O senhor vai ao churrasco que vou oferecer no fim de semana?”
“Se puder, vou.”
“Quantos bois devo matar? Dois?”
“Vai muita gente?”
“Umas duzentas pessoas.”
“Creio que dois é o suficiente.”
“O senhor está examinando o problema da minha casa na São Clemente? A casa é minha e eles não querem sair de lá.”
“Estou vendo. Tenho que ir.”
“Sábado. Na fazenda. Não é nesse, no outro sábado.”
“Eu irei, dona Romilda.”
Entrei no prédio do meu escritório, peguei o elevador.
Cristina estava me esperando.
“Copia esta foto, por favor.”
“O senhor está gostando dessa digital?”
“É boa, pequena, fácil de carregar. Mas não vou me desfazer da minha Leica do tempo do Onça. Nem da Pentax.”
“Tem muita coisa na sua agenda”, disse Cristina, ao sair da minha sala.
Agenda. Coisas pendentes. A agenda sempre me deixava abatido, como se eu começasse o dia fazendo uma hemodiálise. Uma maneira de aliviar esse sofrimento era abrir a gaveta e consultar o meu extrato bancário. Dava um certo alívio ver meus fundos de investimento aumentando todo mês. O problema é que eu não sabia o que fazer com aquele dinheiro todo guardado num banco. Podia comprar imóveis, ações, ouro, mandar o dinheiro para um paraíso fiscal, mas isso iria criar mais agendas. Não aguentava outra agenda.
“Quer marcar a reunião com a Ceteagá? É a única urgente”, Cristina perguntou, pelo interfone.
“Não, vê se eles podem amanhã. Ou outro dia.”
Eu precisava de umas férias.
Depois do almoço, Cristina entrou na minha sala.
“A foto está pronta, imprimi na laser nova. Ficou muito boa. É a dona Romilda, não é?”
“Você a conhece?”
“Ela me alertou outro dia para não ir ao Wagner. Cuidado, eles fazem tráfico de órgãos lá. Agora evito que a dona Romilda me veja entrando no Wagner, se ele souber o que ela anda dizendo vai ficar furioso, o senhor sabe como são os cabeleireiros. Mas eu gosto da dona Romilda, ela é a única pessoa bem-humorada que conheço. Sempre que me vê diz, bom dia, princesa.”
“Hoje ela me disse que mataram o filho da rainha da Inglaterra na frente do banco.”
“Para mim dona Romilda falou que o príncipe foi morto naquele prédio grande, com grades. Matar o príncipe na porta do banco não tem muita lógica. Mas o prédio tem muitos apartamentos, de todos os tamanhos, de quatro quartos, de dois, conjugados com kitchenette, entra e sai gente a toda hora, você se perde nos corredores, de tão grande. Um lugar melhor para matar o filho da rainha da Inglaterra. Posso dar o retrato para ela?”
“Acha uma boa ideia?”
“O retrato ficou tão bom... Quando fui almoçar, eu a encontrei e lhe disse que o meu chefe tinha tirado uma foto dela.”
“O que foi que ela disse?”
“Perguntou: uma foto nua?”
“Ela pensa que alguém ia tirar uma foto dela nua?”
“O senhor talvez fizesse uma foto dessas.”
“Dona Romilda disse isso?”
“Eu é que estou dizendo. O senhor gosta tanto de fotografia que isso não me parece impossível. E uma foto nua dela seria uma maravilha.”
“Mas eu não faço fotos de mulheres nuas.”
“A dela seria uma beleza. Um bom começo.”
“Ela iria gritar, quando eu passasse na rua: o general tirou minha foto nua.”
“Ela não grita nunca. Fala sempre num tom de voz educado. E além disso, ninguém ia acreditar. Outro dia ela me disse, estou com todas as minhas joias, meusdiamantes, rubis neste saco. O Guilherme, ao meu lado, não acreditou. Ninguém acredita nela. A dona Romilda nos levou até a praça para mostrar os escargôs que criava e iam lhe dar muito dinheiro. Moça, o Guilherme disse, isso aí são lesmas.”
“É tudo da mesma família.”
“Eram só quatro lesmas, que estavam numa caixa com alface. Não eram suficientes para fazer uma criação. Ela tem esse lado sonhador. O Guilherme disse que essa coisa de comer escargô é um modismo burguês que vai passar.”
“Esse modismo tem pelo menos dois mil anos.”
“É mesmo?”
“No mínimo.”
“O senhor já comeu?”
“Já.”
“Gostou?”
“Sim.”
“Acho que eu ia ter nojo. Mas se um dia o senhor me levar para comer essa coisa, eu como.”
Abri a agenda.
“E a foto da dona Romilda nua?” perguntou Cristina.
Não respondi logo. A foto talvez valesse a pena, seria algo novo no meu acervo de amador.
“Onde é que eu posso fazer isso? Não tenho lugar, dona Cristina. Na minha casa não pode ser.”
“Pode ser na minha.”
“Onde a senhora mora?”
“No prédio cheio de corredores onde mataram o príncipe.”
“Foi em frente ao banco.”
“Dona Romilda inventou isso, tem cisma com o gerente, ele não gosta que ela durma na porta do banco.”
“Em que dia nós vamos fazer isso?”
“No sábado. De tarde. Se o senhor puder, é claro.”
“Me dá o número do seu apartamento.”
“Não, é uma kitchenette.”
“Tem uma cama, não tem? Uma foto nua dela, para ficar boa, tem que ser deitada. Quer dizer, vou fazer uma em pé, também. A senhora leva a dona Romilda para o seu apartamento e eu encontro vocês lá. Quatro horas, está bem?”
O ideal para fazer aquela foto seria lá pelas ou 7. Eu levaria também os flashes, caso não tivesse uma janela dando uma luz boa da rua. E como garantia, a Leica, que me dava mais mobilidade. A digital não era uma máquina para fotos artísticas.
O prédio era mesmo grande e cheio de corredores, mas acabei achando o apartamento.
Cristina e dona Romilda, com o enorme saco que sempre carregava, estavam na sala me esperando.
“General, que bom ver o senhor novamente.”
“Vamos fazer a foto?”
“Pelada?”
“A senhora se incomoda?”
“Já fiz foto pelada para a Playboy. O senhor não viu?”
“Eu não leio a Playboy!
Dona Romilda tirou a roupa.
“A senhora sabe quantos quilos pesa, dona Romilda?”
“Não sei, princesa.”
“Deve ser uns cem quilos. Tenho uma balança no banheiro, vou trazer para cá.”
Pesamos dona Romilda.
“Errei por pouco. Cento e dez. Não dá uma fotografia deslumbrante, doutor?”
A cama estava arrumada, com uma colcha vermelha.
“Deita aí na cama, dona Romilda.”
“Eu não deito em colcha vermelha.”
“Por quê?”
“Não é bom. Maus espíritos atacam a gente.”
“A senhora tem outra colcha, dona Cristina?”
“Pode ser branca, dona Romilda?”
“Pode.”
“Acho que branca é até melhor, cria um bom contraste. Muda a colcha, por favor.”
Cristina trocou a colcha.
“Fico com as pernas abertas?”, perguntou dona Romilda, deitando na cama.
“Espera um pouco. Preciso colocar os filtros na máquina, fazer o enquadramento, ver a luz. Não demora muito.”
Pela janela entrava uma luz boa, de fim de tarde.
“General, eles não querem devolver a minha mansão da São Clemente. A Rosinha diz que a casa é dela. Mas a casa é minha, quem me deu a casa foi a rainha da Inglaterra, que morou lá.”
“Vou ver o que posso fazer”
“E fala com o Vítor para parar de fazer propostas indecentes para mim. Já estou com dois filhos dele na barriga.”
“Eu falo.”
Coloquei a Pentax num tripé.
“Fecha as pernas, por favor, e fica deitada quieta. Dona Cristina, põe uns travesseiros sob a cabeça e as costas dela, para o tórax ficar um pouquinho levantado. Me arranja um livro.”
“Qualquer livro?”
“A senhora tem um livro de arte?”
“Que arte?”
“Tem que ser um livro grande.”
“Este serve?”
“Serve. Põe, por favor, o livro sobre o púbis dela.”
“Para que esse livro, general?”
“É um toque artístico, dona Romilda.”
“Mas eu quero tirar uma foto com as pernas abertas.”
“As outras a gente tira como a senhora quiser. Mas primeiro esta, com o livro.”
Dona Romilda ficou imóvel na cama, pensativa, mas tranquila, com o livro sobre o púbis.
“Dá uma olhada aqui no visor, dona Cristina.”
“Que coisa linda”, disse Cristina. “Não pensei que ela tivesse tantas curvas. Vai ser uma foto de museu internacional.”
Bati outras fotos, dona Romilda de pernas abertas, de bruços, de lado, em posição fetal. Usei também a Leica.
“Está encerrada a sessão, sobrou apenas um filme. Muito obrigado, dona Romilda.”
“Vai sair na Playboy?”
“Não garanto.”
“Estou com fome.”
“Vou fazer um sanduíche para a senhora”, disse Cristina.

Rubem Fonseca, em Pequenas Criaturas

Piada

Um português, um francês e um americano estavam no deserto quando perceberam que estavam dentro de uma piada. Foi o português quem primeiro perguntou: o que é que nós estamos fazendo aqui, ó, pá? Ao que o francês respondeu, com leve sotaque: se você está falando “ó, pá” isso só pode ser uma piada, porque nenhum português de verdade fala assim.
Ao que o americano respondeu: e se nós que nem portugueses somos estamos falando português, e ainda por cima com esse sotaque tão malfeito, é porque isso só pode ser uma piada. Já estou morrendo de sede, disse o francês, precisamos sair daqui o quanto antes.
Ao que o português, que não era burro e tinha ido parar ali na piada por engano, respondeu: talvez algo de engraçado precise acontecer, talvez a gente precise encontrar a graça da piada pra conseguir sair daqui. Talvez se encontrássemos uma lâmpada, disse o americano, piadas de deserto costumam envolver gênios, lâmpadas, três pedidos, e no terceiro pedido, puf: a graça.
Os três cavaram por horas, sem qualquer vestígio de graça ou lâmpada. O francês teve uma ideia: nós só vamos sair daqui quando o português disser ou fizer uma estupidez. Ao que o português respondeu ser contra a perpetuação desse tipo de preconceito. Os outros dois pediram que ele batalhasse por essa causa depois que já tivessem saído da piada. E o português desandou a gritar estupidezes, a contragosto. Não teve graça. Partiu para o humor físico. Tropeçou, comeu areia, imitou um camelo. Nada.
Foi aí que lhe veio a ideia: talvez não fosse uma piada de português. Talvez fosse uma piada de francês. Algo relacionado ao fato dele não tomar banho. O francês disse que era limpíssimo e que o mais provável era que a piada em questão recaísse sobre o americano. Este disse que nunca tinha visto uma piada de americano, o que só torna essa piada melhor, respondeu o francês, porque ela é inesperada. O americano fez meia dúzia de americanices, sem efeito.
Eis que no horizonte surge, esbaforida, uma loura. Alguém viu meu papagaio?, ela pergunta. Perfeito!, diz o francês. É nele que mora a piada. Surge o papagaio. Mas ele é do tipo que não fala. Eles desistem. Exaustos, refestelam-se na areia, moribundos.
Talvez isso não seja uma piada, diz o português. Talvez isso seja só uma coluna de jornal, que não precisa de graça para acabar. Talvez acabe de repente, sem piada. O que é que a gente faz?, pergunta a loura. Espera, ele responde. Espera.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

11 — A duplicação de Ivan



O bosque na margem oposta do rio, ainda há uma hora iluminado pelo sol de maio, turvou-se, borrado, e se dissipou.
A água caía como uma cortina contínua do outro lado da janela. No alto, a todo instante, linhas irradiavam, o céu arrebentava, e uma luz vacilante e assustadora era derramada no quarto do doente.
Sentado na cama, Ivan chorava baixinho, olhando para o rio turvo em ebulição. A cada trovoada, ele soltava um grito penoso e cobria o rosto com as mãos. As folhas escritas por Ivan estavam largadas no chão. Tinham sido carregadas pelo vento que soprou no quarto antes de a tempestade começar.
As tentativas do poeta de escrever uma denúncia sobre o terrível consultor não deram em nada. Assim que ele recebeu um toco de lápis e papel das mãos da gorda assistente, que se chamava Praskóvia Fiódorovna, Ivan esfregou as mãos com um ar prático e depressa instalou-se à mesa. O início lhe veio com bastante facilidade:
“À polícia. Do membro da Massolit, Ivan Nikoláievitch Bezdômny. Denúncia. Ontem à noite, eu fui com o falecido M.A. Berlioz a Patriarchi Prudý...”
Mas imediatamente o poeta ficou confuso, principalmente por causa da palavra “falecido”. Logo de saída veio à tona um ponto absurdo: como assim... “fui com o falecido”? Os mortos não vão a lugar algum! Realmente, são capazes de me tomar por louco!
Pensando assim, Ivan Nikoláievitch começou a corrigir o que havia escrito. Saiu o seguinte: “... com M.A. Berlioz, posteriormente falecido...” Mas isso também não o satisfez. Ele teve de recorrer a uma terceira versão, que resultou pior do que as duas primeiras: “... Berlioz, que foi parar debaixo do bonde...” — e aqui não saía de sua cabeça aquele compositor homônimo que ninguém conhecia, e então teve que incluir: “... não o compositor...”
Depois de padecer muito com esses dois Berlioz, Ivan riscou tudo e resolveu começar de uma vez com algo bem forte para atrair a atenção do leitor imediatamente. Então escreveu que um gato pegou o bonde, e depois voltou ao episódio da cabeça decepada. A cabeça e a previsão do consultor o remeteram ao pensamento sobre Pôncio Pilatos e, para ser ainda mais convincente, Ivan resolveu expor na íntegra toda a história do procurador, desde aquele exato momento em que, de manto branco, com a barra cor de sangue, ele saiu para a colunata do palácio de Herodes.
Ivan trabalhava com afinco, riscava o que havia escrito, inseria palavras novas, e até tentou desenhar Pôncio Pilatos, e a seguir um gato nas patas traseiras. Mas os desenhos também não ajudavam e, quanto mais avançava, mais confusa e incompreensível se tornava sua denúncia.
Naquele momento em que uma nuvem assustadora com as bordas fumegantes apareceu ao longe e cobriu o bosque, e o vento soprou, Ivan sentiu que já não tinha forças, que não daria conta da denúncia, desistiu de recolher as folhas que tinham voado e pôs-se a chorar baixinho, amargurado.
Praskóvia Fiódorovna, a assistente de bom coração, que fora dar uma olhada no poeta na hora da tempestade, ficou aflita quando viu que ele chorava. Fechou a cortina para que os raios não assustassem o doente, recolheu as folhas do chão e foi correndo com elas procurar o médico.
O médico apareceu, aplicou uma injeção no braço de Ivan e garantiu que ele não iria mais chorar, que agora tudo iria passar, tudo iria mudar e tudo seria esquecido.
O médico tinha razão. Logo o bosque da outra margem do rio ficou como antes. Ele se delineava até a última árvore sob o céu, que voltara a ficar limpo e completamente azul, como antes, e o rio se acalmou. A desolação começou a deixar Ivan logo após a injeção, e agora o poeta estava deitado, calmo, olhando para o arco-íris que se estendera no céu.
Assim continuou até a noite e ele nem percebeu quando o arco-íris se dissolveu, como o céu ficou triste e desbotado e o bosque enegrecido.
Depois de beber leite morno, Ivan deitou de novo e se admirou com a mudança que se operou em seus pensamentos. O maldito gato diabólico suavizou-se em sua memória, a cabeça decepada não o assustava mais e, deixando de lado o pensamento sobre ela, Ivan começou a refletir que, no fundo, não era assim tão ruim estar na clínica, que Stravinski era muito inteligente, uma celebridade, e que era extremamente agradável lidar com ele. No fim das contas, o ar da noite ficou doce e fresco após a tempestade.
A casa da aflição estava adormecendo. Nos corredores silenciosos as lâmpadas brancas frias iam se apagando e no lugar delas foram acesas, de acordo com os regulamentos, lâmpadas de cabeceira, fracas, azuis, e cada vez mais raramente se ouviam atrás das portas os passos cuidadosos das assistentes nos tapetes de borracha do corredor.
Agora Ivan estava deitado em doce languidez, olhando ora para a pequena lâmpada sob a cúpula do lustre que derramava, do teto, uma luz atenuada, ora para a lua, que saía de trás do bosque negro, e conversava consigo mesmo.
— Realmente, por que fiquei tão alterado por Berlioz ter ido parar debaixo do bonde? — raciocinava o poeta. — No fim das contas, ele que vá para o inferno! Na verdade, o que eu sou dele, amigo do peito ou parente? Pensando melhor sobre essa questão, chegarei à conclusão de que eu, na realidade, nem sequer conhecia o falecido muito bem. Na verdade, o que eu sabia sobre ele? Nada, a não ser que era careca e extremamente eloquente. E tem mais, cidadãos — prosseguia seu discurso, dirigindo-se a uma pessoa qualquer —, vejamos qual é a questão: por que eu, expliquem, fiquei irritado com esse enigmático consultor, mago e professor com aquele olho vazio e negro? Para quê toda essa perseguição sem sentido, só de ceroulas e com uma vela nas mãos, e depois a confusão no restaurante?
— Ei, vá com calma — de repente disse, severo, o Ivan de antes, em algum lugar, de dentro ou ao pé do ouvido, ao novo Ivan. — Ele não sabia de antemão que a cabeça de Berlioz seria decepada? Como não ficar alterado?
— Que conversa é essa, camaradas! — exclamava o novo Ivan ao antigo Ivan. — Que aqui o negócio não cheira bem até uma criança pode entender. Trata-se de uma personalidade cem por cento fora do comum e misteriosa. Mas é exatamente isso o mais interessante! O homem conheceu Pôncio Pilatos pessoalmente, querem algo mais interessante do que isso? Em vez de armar o maior escândalo em Patriarchi, não teria sido mais inteligente perguntar com educação o que aconteceu depois com Pilatos e com aquele preso, Ha-Notzri? O diabo vai saber com o que fui me meter! Um acidente importante, na verdade; o editor de uma revista foi atropelado! E daí, será que a revista vai fechar por causa disso? O que é que se vai fazer? O homem é mortal e, como já foi dito com toda a propriedade, é inesperadamente mortal. Que descanse em paz! Haverá outro editor e até, quem sabe, ainda mais eloquente do que o antigo.
Depois de cochilar um pouco, o novo Ivan perguntou com escárnio ao velho Ivan:
— Então, quem sou eu nesse caso?
— Um idiota! — em algum lugar falou uma voz grave, nítida, que não pertencia a nenhum dos Ivans e que era extremamente parecida com a voz grave do consultor.
Sabe-se lá por que Ivan não se ofendeu com a palavra “idiota”, mas até ficou agradavelmente admirado, sorriu e se acalmou, semiacordado. O sono se apoderava de Ivan e ele já imaginava uma palmeira em sua perna de elefante, um gato passando em frente — não terrível, mas alegre. Resumindo, logo, logo, o sono surpreenderia Ivan, quando de repente, sem fazer barulho, a grade se moveu para o lado, e na varanda surgiu uma figura misteriosa, desviando da luz da lua e acenando com o dedo para Ivan.
Sem se assustar nem um pouco, Ivan se ergueu na cama e viu que na varanda havia um homem. E esse homem, encostando o dedo nos lábios, sussurrou:
— Shh!

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida