23/09/2026

Arnaldo Antunes | Debaixo D'Água

 

Metamorfose, por Laerte

Anonimato

Tantos querem a projeção. Sem saber como esta limita a vida. Minha pequena projeção fere o meu pudor. Inclusive o que eu queria dizer já não posso mais. O anonimato é suave como um sonho. Eu estou precisando desse sonho. Aliás eu não queria mais escrever. Escrevo agora porque estou precisando de dinheiro. Eu queria ficar calada. Há coisas que nunca escrevi, e morrerei sem tê-las escrito. Essas por dinheiro nenhum. Há um grande silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras. E do silêncio tem vindo o que é mais precioso que tudo: o próprio silêncio.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Capítulo 97 – Entre a Boca e a Testa

Sinto que o leitor estremeceu, – ou devia estremecer.
Naturalmente a última palavra sugeriu-lhe três ou quatro reflexões. Veja bem o quadro: numa casinha da Gamboa, duas pessoas que se amam há muito tempo, uma inclinada para a outra, a dar-lhe um beijo na testa, e a outra a recuar, como se sentisse o contato de uma boca de cadáver. Há aí, no breve intervalo, entre a boca e a testa antes do beijo e depois do beijo, há aí largo espaço para muita coisa, – a contração de um ressentimento –, a ruga da desconfiança – ou enfim o nariz pálido e sonolento da saciedade…

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Barata



Aberto o envelope, susto: a barata dentro dele, imóvel, expectante, sobre o cartão!
Quem foi que teve ideia dessa brincadeira repulsiva? E como conseguiu que passasse pelo Correio sem esmagar a barata? Por que ela está viva, vivinha da silva & santos. Não se mexe é de sabida.
— Joga fora essa imundície! Ou antes, não jogue…
Esta é uma barata de lei, com cerca de cento e cinquenta anos de existência. Criação verista de Debret, sua reprodução da capa do convite para a exposição de inéditos do artista é de tal modo convincente que engana qualquer um.
Ou não engana, é a barata mesmo, e mesma. As outras, que circulam entre farelos e sombras, têm existência miseravelmente curta. Desprezadas e combatidas, que ninguém quer saber de barata em casa. Mas se foi Debret que a viu, assuntou, desenhou, coloriu, vale uma nota firme, e a esta hora está alegrando a vista do colecionador que a comprou do marchand Luís Buarque de Holanda:
— Barata linda!
— Amor de barata!
— Que barato de barata!
E a baratinha, iaiá, a baratinha, ioiô, está se rindo por dentro, se é que barata ri, por dentro ou por fora, da vária fortuna dos seres (e das coisas) no plano real e no plano ideal. Barata ao vivo é nojenta, chinele-se a bicha. Barata pintada é arte. Maçã na casa de frutas, ferra-se o dente ou açucara-se em torta, vita brevis, e não se fala mais nisso. A maçã de Cézanne, mas para que a maçã? as cebolas de Cézanne, e mais a garrafa de rouge, o copo com vinho pela metade, a rolha, a faca, a toalha embolada, em Nature Morte aux Oignons, refutam o princípio de destruição inevitável das formas, pelo menos enquanto o quadro existir.
Ideia velha, barata nova. Debret foi mais documentarista do que criador, mas nem por isto sua barata é menos criação. Porque Debret pegou do bicho imundo e disse:
— Agora vou te dar vida longa, maior que a minha, vou te representar. Representar é ser outra vez, e mais. Tudo quanto posso fazer por mim, e por nós, é fazer-te e fazer-me. Representando-me, e aos objetos e cenas a que assisto (coroação, feira, inseto), asseguro a tudo a mais-valia de uma vida suplementar, que se chama vida das figuras, das aparências, que são mais do que as essências, pois estas se evolam, e aquelas persistem. Entendeste?
— Não — baratifalou a barata.
Nem era para entender: conversa de pintor ou de grafômano com o mundo em redor não tem sentido não, pois ele pergunta e ele mesmo responde, ou prossegue:
— Pensando melhor, a essência está na aparência, que nos propicia o conhecimento imediato do cosmo. O resto é imaginação ou confirmação. És habitante vil de um planeta confuso, que adotou padrões de classificação baseados em nada. Vil por quê? Por que assim te rotularam? Que achas das criaturas que te rotularam, ó barata minha?
A barata ia responder que por sua vez as achava asquerosas, mas silenciou, por medo ao chinelo, que é sempre argumento contrário às baratas, e fortíssimo. Preferível que esse cara (foi o seu raciocínio) continue a dizer bobagens e, dizendo-as, se esqueça de me aplastar. Quanto a ele me imortalizar, mesmo discretamente, isto é, por cento e cinquenta ou quinhentos anos, pouco se me dá. Eu sou aqui e agora, minha finitude me cerca por todos os lados, e tenho que curti-la. No papel, em imagem, não dá pé. Com licença, M. Debret — e escafedeu-se.
— Espera um pouco, falta só completar uma perninha!
Não sei se esperou. Sei que a representação é completa e fiel, tão fiel, tão vera, que a representação da representação, no convite, fez uma senhorita jogar fora papel e envelope, e correr para lavar as mãos:
— Ui, que horror! Uma baratona.
— Calma, ela é pintada.
— E daí? Parece mais real que uma verdadeira!
O maior elogio a Debret que já ouvi.

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

Diário de Bernardo Soares

131.

Não tendo que fazer, nem que pensar em fazer, vou pôr neste papel a descrição do meu ideal — Apontamento A sensibilidade de Mallarmé dentro do estilo de Vieira; sonhar como Verlaine no corpo de Horácio; ser Homero ao luar.
Sentir tudo de todas as maneiras; saber pensar com as emoções e sentir com o pensamento; não desejar muito senão com a imaginação; sofrer com coquetterie; ver claro para escrever justo; conhecer-se com fingimento e tática, naturalizar-se diferente e com todos os documentos; em suma, usar por dentro todas as sensações, descascando-as até Deus; mas embrulhar de novo e repor na montra como aquele caixeiro que daqui estou vendo com as latas pequenas da graxa da nova marca.
Todos estes ideais, possíveis ou impossíveis, acabam agora. Tenho a realidade diante de mim — não é sequer o caixeiro, é a mão dele (a ele não vejo), tentáculo absurdo de uma alma com família e sorte, que faz trejeitos de aranha sem teia nó esticar-se da reposição cá à frente.
E uma das latas caiu, como o Destino de toda a gente.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

22/09/2026

A Lua e Eu | Emílio Santiago

Confia no teu corre

Confia no teu corre
e fica de boa.
Afia teu trampo
nas lâminas das incertezas,
todo mundo certo
não quer dizer
que você está errado.
Não ande com caranguejos
e sonhe com as mãos,
deixa o coração no presente
e os olhos no futuro.
Muitas vezes o sucesso fica no passado
e ser importante é para sempre.
Cuide da raiz e lapide as asas,
porque abaixo do radar também se voa.

Sérgio Vaz, em Flores da batalha

O regresso do mestre

Desde seus primeiros anos, Migyur — este era o seu nome — havia sentido que não estava onde tinha que estar. Sentia-se forasteiro em sua família, forasteiro em seu povoado. Ao sonhar, via paisagens que não pertenciam a Ngari: solidões de areia, tendas circulares de feltro, um mosteiro na montanha; e na vigília, estas mesmas imagens cobriam ou empanavam a realidade.
Aos dezenove anos fugiu, ávido de encontrar a realidade que correspondia a essas formas. Foi vagabundo, esmoler, trabalhador e as vezes ladrão. Hoje chegou a esta pousada perto da fronteira.
Viu a casa, a cansada caravana mongol, os camelos no pátio.
Atravessou o portão e se encontrou diante do velho monge que comandava a caravana. Reconheceram-se, então: o jovem vagabundo viu-se a si mesmo como um lama ancião, e viu o monge como este era há muitos anos, quando fora seu discípulo; e o monge reconheceu no rapaz o seu velho mestre, já desaparecido. Lembraram a peregrinação que haviam feito aos santuários do Tibete e o regresso ao mosteiro da montanha. Falaram evocaram o passado e se interrompiam para intercalar detalhes precisos.
O propósito da viagem dos mongóis era buscar um novo chefe para o seu convento. Fazia vinte anos que havia morrido o antigo, e eles em vão esperavam sua reencarnação. Hoje o tinham encontrado.
Ao amanhecer a caravana empreendeu sua lenta viagem de volta. Migyur regressava às solidões de areia, às tendas circulares de feltro e ao mosteiro de sua encarnação anterior.

Alexandra David-Neel, em Mystiques el Magiciens du Tibet

Mafalda

Antecipação

♦ Dizem que tento derrubar as coisas firmemente assentadas. Mas o que gosto mesmo é de puxar a cadeira dos que ainda nem sentaram.

Millôr Fernandes, em A bíblia do caos

Capítulo VIII – Festa



Fabiano, Sinha Vitória e os meninos iam à festa de Natal na cidade. Eram três horas, fazia grande calor, redemoinhos espalhavam por cima das árvores amarelas nuvens de poeira e folhas secas.
Tinham fechado a casa, atravessado o pátio, descido a ladeira, e pezunhavam nos seixos como bois doentes dos cascos. Fabiano, apertado na roupa de brim branco feita por Sinha Terta, com chapéu de beata, colarinho, gravata, botinas de vaqueta e elástico, procurava erguer o espinhaço, o que ordinariamente não fazia. Sinha Vitória,enfronhada no vestido vermelho de ramagens, equilibrava-se mal nos sapatos de salto enorme. Teimava em calçar-se como as moças da rua – e dava topadas no caminho. Os meninos estreavam calça e paletó. Em casa sempre usavam camisinhas de riscado ou andavam nus. Mas Fabiano tinha comprado dez varas de pano branco na loja e incumbira Sinha Terta de arranjar farpelas para ele e para os filhos. Sinha Terta achara pouca a fazenda, e Fabiano se mostrara desentendido, certo de que a velha pretendia furtar-lhe os retalhos. Em consequência as roupas tinham saído curtas, estreitas e cheias de emendas.
Fabiano tentava não perceber essas desvantagens. Marchava direito, a barriga para fora, as costas aprumadas, olhando a serra distante. De ordinário olhava o chão, evitando as pedras, os tocos, os buracos e as cobras. A posição forçada cansou-o. E ao pisar a areia do rio, notou que assim não poderia vencer as três léguas que o separavam da cidade. Descalçou-se, meteu as meias no bolso, tirou o paletó, a gravata e o colarinho, roncou aliviado. Sinha Vitória decidiu imitá-lo: arrancou os sapatos e as meias, que amarrou no lenço. Os meninos puseram as chinelinhas debaixo do braço e sentiram-se à vontade.
A cachorra Baleia, que vinha atrás, incorporou-se ao grupo. Se ela tivesse chegado antes provavelmente Fabiano a teria enxotado. E Baleia passaria a festa junto às cabras que sujavam o copiar. Mas com a gravata e o colarinho machucados no bolso, o paletó no ombro e as botinas enfiadas num pau, o vaqueiro achou-se perto dela e acolheu-a.
Retomou a posição natural: andou cambaio, a cabeça inclinada. Sinha Vitória, os dois meninos e Baleia acompanharam-no. A tarde foi comida facilmente e ao cair da noite estavam na beira do riacho, à entrada da rua.
Aí Fabiano parou, sentou-se, lavou os pés duros, procurando retirar das gretas fundas o barro que lá havia. Sem se enxugar, tentou calçar-se – e foi uma dificuldade: os calcanhares das meias de algodão formaram bolos nos peitos dos pés e as botinas de vaqueta resistiram como virgens. Sinha Vitória levantou a saia, sentou-se no chão e limpou-se também. Os dois meninos entraram no riacho, esfregaram os pés, saíram, calçaram as chinelinhas e ficaram espiando os movimentos dos pais. Sinha Vitória aprontava-se e erguia-se, mas Fabiano soprava arreliado. Tinha vencido a obstinação de uma daquelas amaldiçoadas botinas; a outra emperrava, e ele, com os dedos nas alças, fazia esforços inúteis. Sinha Vitória dava palpites que irritavam o marido. Não havia meio de introduzir o diabo do calcanhar no tacão. A um arranco mais forte, a alça de trás rebentou-se, e o vaqueiro meteu as mãos pela borracha, energicamente. Nada conseguindo, levantou-se resolvido a entrar na rua assim mesmo, coxeando, uma perna mais comprida que a outra. Com raiva excessiva, a que se misturava alguma esperança, deu uma patada violenta no chão. A carne comprimiu-se, os ossos estalaram, a meia molhada rasgou-se e o pé amarrotado se encaixou entre as paredes de vaqueta. Fabiano soltou um suspiro largo de satisfação e dor. Em seguida tentou prender o colarinho duro ao pescoço, mas os dedos trêmulos não realizaram a tarefa. Sinha Vitória auxiliou-o: o botão entrou na casa estreita e a gravata amarrou-se. As mãos sujas, suadas, deixaram no colarinho manchas escuras.
– Está certo, grunhiu Fabiano.
Atravessaram a pinguela e alcançaram a vila. Sinha Vitória caminhava aos tombos, por causa dos saltos dos sapatos, e conservava o guarda-chuva suspenso, com o castão para baixo e a biqueira para cima, enrolada no lenço. Impossível dizer porque Sinha Vitória levava o guarda-chuva com biqueira para cima e o castão para baixo. Ela própria não saberia explicar- se, mas sempre vira as outras matutas procederem assim e adotava o costume.
Fabiano marchava teso. Os dois meninos espiavam os lampiões e adivinhavam casos extraordinários. Não sentiam curiosidade, sentiam medo, e por isso pisavam devagar, receando chamar a atenção das pessoas. Supunham que existiam mundos diferentes da fazenda, mundos maravilhosos na serra azulada. Aquilo, porém, era esquisito. Como podia haver tantas casas e tanta gente? Com certeza os, homens iriam brigar. Seria que o povo ali era brabo e não consentia que eles andassem entre as barracas? Estavam acostumados a aguentar cascudos e puxões de orelhas. Talvez as criaturas desconhecidas não se comportassem como Sinha Vitória, mas os pequenos retraíam-se, encostavam-se às paredes, meio encandeados, os ouvidos cheios de rumores estranhos.
Chegaram à igreja, entraram. Baleia ficou passeando na calçada, olhando a rua, inquieta. Na opinião dela, tudo devia estar no escuro, porque era noite, e a gente que andava no quadro precisava deitar-se. Levantou o focinho, sentiu um cheiro que lhe deu vontade de tossir. Gritavam demais ali perto e havia luzes em abundância, mas o que a incomodava era aquele cheiro de fumaça.
Os meninos também se espantavam. No mundo, subitamente alargado, viam Fabiano e Sinha Vitória muito reduzidos, menores que as figuras dos altares. Não conheciam altares, mas presumiam que aqueles objetos deviam ser preciosos. As luzes e os cantos extasiavam-nos. De luz havia, na fazenda, o fogo entre as pedras da cozinha e o candeeiro de querosene pendurado pela asa numa vara que saía da taipa; de canto, o bendito de Sinha Vitória e o aboio de Fabiano. O aboio era triste, uma cantiga monótona e sem palavras que entorpecia o gado. Fabiano estava silencioso, olhando as imagens e as velas acesas, constrangido na roupa nova, o pescoço esticado, pisando, em brasas. A multidão apertava-o mais que a roupa, embaraçava-o. De perneiras, gibão e guarda-peito, andava metido numa caixa, como tatu, mas saltava no lombo de um bicho e voava na catinga. Agora não podia virar-se: mãos e braços roçavam-lhe o corpo. Lembrou-se da surra que levara e da noite passada na cadeia. A sensação que experimentava não diferia muito da que tinha tido ao ser preso. Era como se as mãos e os braços da multidão fossem agarrá-lo, subjugá-lo, espremê-lo num canto de parede. Olhou as caras em redor. Evidentemente as criaturas que se juntavam ali não o viam, mas Fabiano sentia-se rodeado de inimigos, temia envolver-se em questões e acabar mal a noite. Soprava e esforçava-se inutilmente por abanar-se com o chapéu. Difícil mover-se, estava amarrado. Lentamente conseguiu abrir caminho no povaréu, esgueirou-se até junto da pia de água benta, onde se deteve, receoso de perder de vista a mulher e os filhos. Ergueu-se nas pontas dos pés, mas isto lhe arrancou um grunhido: os calcanhares esfolados começavam a afligi-lo. Distinguiu o cocó de Sinha Vitória, que se escondia atrás de uma coluna. Provavelmente os meninos estavam com ela. A igreja cada vez mais se enchia. Para avistar a cabeça da mulher, Fabiano precisava estirar-se, voltar o rosto. E o colarinho furava-lhe o pescoço. As botinas e o colarinho eram indispensáveis. Não poderia assistir à novena calçado em alpercatas, a camisa de algodão aberta, mostrando o peito cabeludo. Seria desrespeito. Como tinha religião, entrava na igreja uma vez por ano.
E sempre vira, desde que se entendera, roupas de festa assim: calça e paletó engomados, batinas de elástico, chapéu de baeta, colarinho e gravata. Não se arriscaria a prejudicar a tradição, embora sofresse com ela. Supunha cumprir um dever, tentava aprumar-se. Mas a disposição esmorecia: o espinhaço vergava, naturalmente, os braços mexiam-se desengonçados.
Comparando-se aos tipos da cidade, Fabiano reconhecia-se inferior. Por isso desconfiava que os outros mangavam dele. Fazia-se carrancudo e evitava conversas. Só lhe falavam com o fim de tirar-lhe qualquer coisa. Os negociantes furtavam na medida, no preço e na conta. O patrão realizava com pena e tinta cálculos incompreensíveis. Da última vez que se tinham encontrado houvera uma confusão de números, e Fabiano, com os miolos ardendo, deixara indignado o escritório do branco, certo de que fora enganado. Todos lhe davam prejuízo. Os caixeiros, os comerciantes e o proprietário tiravam-lhe o couro, e os que não tinham negócio com ele riam vendo-o passar nas ruas, tropeçando. Por isso Fabiano se desviava daqueles viventes. Sabia que a roupa nova cortada e cosida por Sinha Terta, o colarinho, a gravata, as botinas e o chapéu de baeta o tornavam ridículo, mas não queria pensar nisto.
– Preguiçosos, ladrões, faladores, mofinos.
Estava convencido de que todos os habitantes da cidade eram ruins. Mordeu os beiços. Não poderia dizer semelhante coisa. Por falta menor aguentara facão e dormira na cadeia. Ora, o soldado amarelo... Sacudiu a cabeça, livrou-se da recordação desagradável e procurou uma cara amiga na multidão. Se encontrasse um conhecido, iria chamá-lo para a calçada, abraçá-lo, sorrir, bater palmas. Depois falaria sobre gado. Estremeceu, tentou ver o cocó de Sinha Vitória. Precisava ter cuidado para não se distanciar da mulher e dos filhos. Aproximou-se deles, alcançou-os no momento em que a igreja começava a esvaziar-se.
Saíram aos encontrões, desceram os degraus. Empurrado, machucado, Fabiano tornou a pensar no soldado amarelo. No quadro, ao passar pelo jatobá, virou o rosto. Sem motivo nenhum, o desgraçado tinha ido provocá-lo, pisar-lhe o pé. Ele se desviara, com bons modos. Como o outro insistisse, perdera a paciência, tivera um rompante. Consequência: facão no lombo e uma noite de cadeia.
Convidou a mulher e os filhos para os cavalinhos, arrumou-os, distraiu-se um pouco vendo-os rodar. Em seguida encaminhou-os as barracas de jogo. Coçou-se, puxou o lenço, desatou-o, contou o dinheiro, com a tentação de arriscá-lo no bozó. Se fosse feliz, poderia comprar a cama de couro cru, sonho de Sinha Vitória. Foi beber cachaça numa tolda, voltou, pôs-se a rondar indeciso, pedindo com os olhos a opinião da mulher. Sinha Vitória fez um gesto de reprovação, e Fabiano retirou-se, lembrando-se do jogo que tivera em casa de seu Inácio, com o soldado amarelo. Fora roubado, com certeza fora roubado. Avizinhou-se da tolda e bebeu mais cachaça. Pouca a pouco ficou sem-vergonha.
– Festa é festa.
Bebeu ainda uma vez e empertigou-se, olhou as pessoas desafiando-as. Estava resolvido a fazer uma asneira. Se topasse o soldado amarelo, esbodegava-se com ele. Andou entre as barracas, emproado, atirando coices no chão, insensível às esfoladuras dos pés. Queria era desgraçar-se, dar um pano de amostra àquele safado. Não ligava importância à mulher e aos filhos, que o seguiam.
– Apareça um homem! berrou.
No barulho que enchia a praça ninguém notou a provocação. E Fabiano foi esconder-se por detrás das barracas, para lá dos tabuleiros de doces. Estava disposto a esbagaçar-se, mas havia nele um resto de prudência. Ali podia irritar- se, dirigir ameaças e desaforos a inimigos invisíveis. Impelido por forças acautelava-se. Sabia que aquela explosão era perigosa, temia que o soldado amarelo surgisse de repente, viesse plantar-lhe no pé a reiúna. O soldado amarelo, falto de substância, ganhava fumaça na companhia dos parceiros. Era bom evitá-lo. Mas a lembrança dele tornava-se às vezes horrível. E Fabiano estava tirando uma desforra. Estimulado pela cachaça, fortalecia-se: – Cadê o valente? Quem é que tem coragem de dizer que eu sou feio? Apareça um homem.
Lançava o desafio numa fala atrapalhada, com o vago receio de ser ouvido. Ninguém apareceu. E Fabiano roncou alto, gritou que eram todos uns frouxos, uns capados, sim senhor. Depois de muitos berros, supôs que havia ali perto homens escondidos, com medo dele. Insultou-os:
– Cambada de...
Parou agoniado, suando frio, a boca cheia de água, sem atinar com a palavra. Cambada de quê? Tinha o nome debaixo da língua., E a língua engrossava, perra, Fabiano cuspia, fixava na mulher e nos filhos uns olhos vidrados. Recuou alguns passos, entrou a engulhar. Em seguida aproximou-se – figura novamente das luzes, capengando, foi sentar-se na calçada de uma loja. Betava desanimado, bambo; o entusiasmo arrefecera. Cambada de que? Repetia a pergunta sem saber o que procurava. Olhou de perto a cara da mulher, não conseguiu distinguir-lhe os traços. Sinha Vitória perceberia a atrapalhação dele?
[...]

Graciliano Ramos, em Vidas Secas

21/09/2026

Gal Costa | Errática

O outro lado

Como serão as coisas quando não estamos a olhar para elas? Esta pergunta, que cada dia me vem parecendo menos disparatada, fi-la eu muitas vezes em criança, mas só a fazia a mim próprio, não a pais nem professores porque adivinhava que eles sorririam da minha ingenuidade (ou da minha estupidez, segundo alguma opinião mais radical) e me dariam a única resposta que nunca me poderia convencer: “As coisas, quando olhamos para elas, são iguais ao que parecem quando não estamos a olhar”. Sempre achei que as coisas, quando estavam sozinhas, eram outras coisas. Mais tarde, quando já havia entrado naquele período da adolescência que se caracteriza pela desdenhosa presunção com que julga a infância donde proveio, acreditei ter a resposta definitiva à inquietação metafísica que atormentara os meus tenros anos: pensei que se regulasse uma máquina fotográfica de modo a que ela disparasse automaticamente numa habitação em que não houvesse quaisquer presenças humanas, conseguiria apanhar as coisas desprevenidas, e desta maneira ficar a conhecer o aspecto real que têm. Esqueci-me de que as coisas são mais espertas do que parecem e não se deixam enganar com essa facilidade: elas sabem muito bem que no interior de cada máquina fotográfica há um olho humano escondido... Além disso, ainda que o aparelho, por astúcia, tivesse podido captar a imagem frontal de uma coisa, sempre o outro lado dela ficaria fora do alcance do sistema óptico, mecânico, químico ou digital do registo fotográfico. Aquele lado oculto para onde, no derradeiro instante, ironicamente, a coisa fotografada teria feito passar a sua face secreta, essa irmã gémea da escuridão. Quando numa habitação imersa em total obscuridade acendemos uma luz, a escuridão desaparece. Então não é raro perguntarmo-nos: “Para onde foi ela?”. E a resposta só pode ser uma: “Não foi para nenhum lugar, a escuridão é simplesmente o outro lado da luz, a sua face secreta”. Foi pena que não mo tivessem dito antes, quando eu era criança. Hoje saberia tudo sobre a escuridão e a luz, sobre a luz e a escuridão.

José Saramago, em O caderno

Gosto de água pura

A meu Pai

Vem do tempo de menino
seu gosto por água pura.
Sempre junto do cardume,
mas sem perder a postura.
Cuidando de procurar
nas coisas que já deixou
num mundo que está por vir
um viver com mais perfume.

O tempo é o que ele possui
para voar dentro do nada.
Vai levar a sua vida
da maneira que lhe caiba.

O seu rio é a sua casa,
sua fonte e aconchego.
Onde mora todos cantam
para amortecer o peso.

No futuro quando pensa,
é o passado o que ele tem.
E ao final de tudo, imune,
algo vai ficar pro bem.

Porém veio a se afoitar
e rumou para um oceano.
Novas águas que lhe sabem
vão lavar seu desengano.

A vontade e o bem-querer
não ficaram no caminho.
Os seus frutos já colheu
e não segue mais sozinho.

Thiago de Mello, em Acerto de contas

Subles




Foi que, uma noite, sozinho em casa e avançando as horas, tomado de sono, deu-me entretanto de telefonar a um ou outro conhecido, ainda que sem assunto e contra meu costume.
Como em duas, três tentativas, a linha estivesse sempre ocupada, comecei, nem sei, a discar a esmo, do modo por que a mão da gente num vazio desses se distrai, tamborilando dedos, por exemplo, ou rabiscando letras e garatujas. Suponho ter formado, de curto, um número impossível e imprevisto, principiado por 7, 9 ou 8. E somenos cochilava, se por metade não dormia.
Despertou-me um apelo brusco:
— Quer falar com Subles?
Que sim, respondi, com presteza que ainda hoje não me explico. Verdade que eu conhecia o Subles, um único Subles, sujeito de raras palavras e riso nenhum ao guichê, funcionário bancário. Aquela hora, se bem o disse, eu não esquivaria interlocutor, aceitava qualquer conversa. Também o torpor que me nublava tirou-me de estranhar o acaso. Guardei o fone ao ouvido.
Sobre pausa normal — convém minuciar — soaram, fim de fio, confusas campainhas, e percebi vozes, como as que no comum se entremetem para as ligações interurbanas. Por uma vez admiti que a chamada partira do próprio Subles, surpreendendo-me por coincidência enquanto eu usava o aparelho; e quis imaginar de que lugar, e que motivo ou erro o trazia a mim. Em tão contadas ocasiões o vira e por último fazia tanto tempo, que nem poderia em rigor evocar-lhe a fala e as feições.
Momento e outro, alteou-se, não entendido, o retalho de colóquio das telefonistas; depois borbulhou no receptor apenas um gorgolejo morto, como o de dentro de um búzio. Demoravam, quase entrei em dúvida. Só silêncio. Enfim, porém, acertaram conexão linha adiante, onde regia voz oficial — crassa, espessa:
— Aão?
— Alô, alô... — me apressei.
Do outro extremo, insistiu, autônomo, o interrogador:
— Quer falar com Subles?
Concordei, sem fazer espantos, posto sabendo que telefonava de moto alheio. Digo que por então eu me lestara, livre da sonolência. Subles — sua memória — vinha palpando. O contínuo quotidiar é que relega as impressões, desmembra-as. Portanto, eu o tinha na lembrança, um pouco mais do que antes achava: a cabeça grande, grisalha, um desmedir-se de orelhas, as mãos, que muito se viam, hábeis no manipular recibos e maços de dinheiro, e o vezo grave, polido, de cumprimentar perguntando-nos: se toda a família passava bem?...
O fone captava simples estalidos, em meio de sussurros, voo menos que o de morcegos, outramente seguidos de rumores de arrasto, como se mudassem um cenário. Tinia com intervalos, mais remoto, o toque de campainhas. E bem o diálogo de telefonistas reescutava-se indistinto, ora uma frase se acentuando, em idioma extraordinariamente estrangeiro. Dei que, pelo melhor, arrumavam uma ligação mais que longínqua. Então, onde estaria Subles? Telefonar-me, ele a mim, dividia-se em ridículo e absurdo. De agora creio que me vi na maior suspensão. Continuei esperando.
Tornaram a chamar, e um ruído regular se estabeleceu, transferindo-nos de circuito. Mas a voz que saltou se distendia de ninguém, falseando timbre, tanto podia ser de homem ou mulher, de um velho, de uma menina.
— Que quer? Que quer? — pareceu-me perguntavam.
— Subles?! — exigi.
— Pode esperar Subles.
Por primeiro suspeitei estar sendo usado num gracejo. Mas a mesma dicção incarnal se seguia acolá, peremptória, por certo reclamando urgência. Teriam posto Subles numa prisão, num manicômio? Dava-me pena imaginar: ele trajado de preto, estragado, distante de todo o mundo. Devia ter naquele instante uma inadiável comunicação a fazer-me, talvez um pedido. Impacientei-me, bradei no bocal: — Alô! Alô!...
— Pode esperar Subles...
Pelo modo, através de engrenagem, trocavam de sistema, aprofundando-me para outro âmbito: pensei na possibilidade de uma rede clandestina. Tudo é tão clandestino, tanta coisa é possível, que a vida é o não-resumo de um milagre. Subles me chamava, de algum ponto perdido naquela trama.
— Alô?
Seria ele? Não o conhecia mais que acauteladamente. Nunca me ocorrera dar-lhe uma palavra desnecessária. Nunca o olhara de verdade.
Já aqui eu estava demasiadamente acordado, atento, lúcido. Ápices de vozes se erguiam, trazidas e levadas, feixe de murmúrios. A espaços, uma entressistia mais forte, renovava o nome de Subles. E alguém chorava, seguro estou, a um canto: emitia insuportável soluço, manso, em decrescendo; podia ser também um mecanismo.
Precisei de fechar os olhos e haver apenas o telefone; perto mesmo de mim, eu temia de repente qualquer coisa. Para acalmar-me, seria bem-vinda a própria fala inumana, já sabida, de séculos há pouco.
E, Subles, eu carecia de ouvi-lo. Compreendi que lhe queria bem, que seria meu amigo. Seus olhos podiam oferecer um raro entendimento profundo, principalmente só seu. Subia-me, de muito, uma tensa calma, algo para além do medo, inconcebível serenidade. Tentei entendê-la, substância evasiva, notar seu espaço de sonho. Foi porém imensamente breve, sem definição.
— Subles... — pedi, talvez só com arrancado pensamento.
— Sabemos. Subles.
— Sim!
— Subles ainda não chegou.
— Aguardo?
— Subles chegará dentro em pouco...
Não sei dizer se círculos de silêncio lançavam-me em seu centro, ou se um mar de música corroía em mim o que não fosse apenas alma — isto é, o intimamente estranho7. Esperei Subles, cujo recado urgia decifrar, de quem eu tinha de ouvir uma revelação. Se não, se não a recebesse, talvez o simples sentido da vida ficaria para mim para sempre incompreendido. Um fio devia unir-nos, e não funcionara. Ou sim? Mas aquela ausência humana tendia a desordenar-se, minha lembrança não a deteve. Sucedeu outra vez a voz, tênue, silabuciada, movitiva:
— Subles acaba de chegar.
— Subles! Pode falar?
Falar?! Mas ele já chegou!
Era outra coisa que uma voz, só, sem respondibilidade, infixa. A orla do fone comprimia-me as cartilagens, impunha-se sobre meu sangue — máquina, em tumulto. Senti que meus cabelos eternamente subiam, num arrepio.
— Alô! Alô! Subles?! — supliquei.
— Como poder ele falar, se já chegou?! Como quer que ele fale?!
Não mais.
— Subles... — gemi.
Ele já chegou.
Tremi de morte, glacial, eu suava. Sem senso, surdo, meu corpo se contraía, e pulsou, num repugno à vertigem, como um cavalo espavorido se rebela refugando. Que me importava o bancário Subles?
Larguei o fone — eu me devolvia a mim, ao quotidiano, ao normal, que nem uma pedra a um poço: descendo, caindo, voltando. Durante um tempo, o telefone não tocava outra vez, não chamou.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

O assunto

E nunca me perguntes o assunto de um poema: um poema sempre fala de outra coisa.

Mário Quintana, em Caderno H

11 | A duplicação de Ivan



O bosque na margem oposta do rio, ainda há uma hora iluminado pelo sol de maio, turvou-se, borrado, e se dissipou.
A água caía como uma cortina contínua do outro lado da janela. No alto, a todo instante, linhas irradiavam, o céu arrebentava, e uma luz vacilante e assustadora era derramada no quarto do doente.
Sentado na cama, Ivan chorava baixinho, olhando para o rio turvo em ebulição. A cada trovoada, ele soltava um grito penoso e cobria o rosto com as mãos. As folhas escritas por Ivan estavam largadas no chão. Tinham sido carregadas pelo vento que soprou no quarto antes de a tempestade começar.
As tentativas do poeta de escrever uma denúncia sobre o terrível consultor não deram em nada. Assim que ele recebeu um toco de lápis e papel das mãos da gorda assistente, que se chamava Praskóvia Fiódorovna, Ivan esfregou as mãos com um ar prático e depressa instalou-se à mesa. O início lhe veio com bastante facilidade:
“À polícia. Do membro da Massolit, Ivan Nikoláievitch Bezdômny. Denúncia. Ontem à noite, eu fui com o falecido M.A. Berlioz a Patriarchi Prudý...”
Mas imediatamente o poeta ficou confuso, principalmente por causa da palavra “falecido”. Logo de saída veio à tona um ponto absurdo: como assim... “fui com o falecido”? Os mortos não vão a lugar algum! Realmente, são capazes de me tomar por louco!
Pensando assim, Ivan Nikoláievitch começou a corrigir o que havia escrito. Saiu o seguinte: “... com M.A. Berlioz, posteriormente falecido...” Mas isso também não o satisfez. Ele teve de recorrer a uma terceira versão, que resultou pior do que as duas primeiras: “... Berlioz, que foi parar debaixo do bonde...” — e aqui não saía de sua cabeça aquele compositor homônimo que ninguém conhecia, e então teve que incluir: “... não o compositor...”
Depois de padecer muito com esses dois Berlioz, Ivan riscou tudo e resolveu começar de uma vez com algo bem forte para atrair a atenção do leitor imediatamente. Então escreveu que um gato pegou o bonde, e depois voltou ao episódio da cabeça decepada. A cabeça e a previsão do consultor o remeteram ao pensamento sobre Pôncio Pilatos e, para ser ainda mais convincente, Ivan resolveu expor na íntegra toda a história do procurador, desde aquele exato momento em que, de manto branco, com a barra cor de sangue, ele saiu para a colunata do palácio de Herodes.
Ivan trabalhava com afinco, riscava o que havia escrito, inseria palavras novas, e até tentou desenhar Pôncio Pilatos, e a seguir um gato nas patas traseiras. Mas os desenhos também não ajudavam e, quanto mais avançava, mais confusa e incompreensível se tornava sua denúncia.
Naquele momento em que uma nuvem assustadora com as bordas fumegantes apareceu ao longe e cobriu o bosque, e o vento soprou, Ivan sentiu que já não tinha forças, que não daria conta da denúncia, desistiu de recolher as folhas que tinham voado e pôs-se a chorar baixinho, amargurado.
Praskóvia Fiódorovna, a assistente de bom coração, que fora dar uma olhada no poeta na hora da tempestade, ficou aflita quando viu que ele chorava. Fechou a cortina para que os raios não assustassem o doente, recolheu as folhas do chão e foi correndo com elas procurar o médico.
O médico apareceu, aplicou uma injeção no braço de Ivan e garantiu que ele não iria mais chorar, que agora tudo iria passar, tudo iria mudar e tudo seria esquecido.
O médico tinha razão. Logo o bosque da outra margem do rio ficou como antes. Ele se delineava até a última árvore sob o céu, que voltara a ficar limpo e completamente azul, como antes, e o rio se acalmou. A desolação começou a deixar Ivan logo após a injeção, e agora o poeta estava deitado, calmo, olhando para o arco-íris que se estendera no céu.
Assim continuou até a noite e ele nem percebeu quando o arco-íris se dissolveu, como o céu ficou triste e desbotado e o bosque enegrecido.
Depois de beber leite morno, Ivan deitou de novo e se admirou com a mudança que se operou em seus pensamentos. O maldito gato diabólico suavizou-se em sua memória, a cabeça decepada não o assustava mais e, deixando de lado o pensamento sobre ela, Ivan começou a refletir que, no fundo, não era assim tão ruim estar na clínica, que Stravinski era muito inteligente, uma celebridade, e que era extremamente agradável lidar com ele. No fim das contas, o ar da noite ficou doce e fresco após a tempestade.
A casa da aflição estava adormecendo. Nos corredores silenciosos as lâmpadas brancas frias iam se apagando e no lugar delas foram acesas, de acordo com os regulamentos, lâmpadas de cabeceira, fracas, azuis, e cada vez mais raramente se ouviam atrás das portas os passos cuidadosos das assistentes nos tapetes de borracha do corredor.
Agora Ivan estava deitado em doce languidez, olhando ora para a pequena lâmpada sob a cúpula do lustre que derramava, do teto, uma luz atenuada, ora para a lua, que saía de trás do bosque negro, e conversava consigo mesmo.
— Realmente, por que fiquei tão alterado por Berlioz ter ido parar debaixo do bonde? — raciocinava o poeta. — No fim das contas, ele que vá para o inferno! Na verdade, o que eu sou dele, amigo do peito ou parente? Pensando melhor sobre essa questão, chegarei à conclusão de que eu, na realidade, nem sequer conhecia o falecido muito bem. Na verdade, o que eu sabia sobre ele? Nada, a não ser que era careca e extremamente eloquente. E tem mais, cidadãos — prosseguia seu discurso, dirigindo-se a uma pessoa qualquer —, vejamos qual é a questão: por que eu, expliquem, fiquei irritado com esse enigmático consultor, mago e professor com aquele olho vazio e negro? Para quê toda essa perseguição sem sentido, só de ceroulas e com uma vela nas mãos, e depois a confusão no restaurante?
— Ei, vá com calma — de repente disse, severo, o Ivan de antes, em algum lugar, de dentro ou ao pé do ouvido, ao novo Ivan. — Ele não sabia de antemão que a cabeça de Berlioz seria decepada? Como não ficar alterado?
— Que conversa é essa, camaradas! — exclamava o novo Ivan ao antigo Ivan. — Que aqui o negócio não cheira bem até uma criança pode entender. Trata-se de uma personalidade cem por cento fora do comum e misteriosa. Mas é exatamente isso o mais interessante! O homem conheceu Pôncio Pilatos pessoalmente, querem algo mais interessante do que isso? Em vez de armar o maior escândalo em Patriarchi, não teria sido mais inteligente perguntar com educação o que aconteceu depois com Pilatos e com aquele preso, Ha-Notzri? O diabo vai saber com o que fui me meter! Um acidente importante, na verdade; o editor de uma revista foi atropelado! E daí, será que a revista vai fechar por causa disso? O que é que se vai fazer? O homem é mortal e, como já foi dito com toda a propriedade, é inesperadamente mortal. Que descanse em paz! Haverá outro editor e até, quem sabe, ainda mais eloquente do que o antigo.
Depois de cochilar um pouco, o novo Ivan perguntou com escárnio ao velho Ivan:
— Então, quem sou eu nesse caso?
— Um idiota! — em algum lugar falou uma voz grave, nítida, que não pertencia a nenhum dos Ivans e que era extremamente parecida com a voz grave do consultor.
Sabe-se lá por que Ivan não se ofendeu com a palavra “idiota”, mas até ficou agradavelmente admirado, sorriu e se acalmou, semiacordado. O sono se apoderava de Ivan e ele já imaginava uma palmeira em sua perna de elefante, um gato passando em frente — não terrível, mas alegre. Resumindo, logo, logo, o sono surpreenderia Ivan, quando de repente, sem fazer barulho, a grade se moveu para o lado, e na varanda surgiu uma figura misteriosa, desviando da luz da lua e acenando com o dedo para Ivan.
Sem se assustar nem um pouco, Ivan se ergueu na cama e viu que na varanda havia um homem. E esse homem, encostando o dedo nos lábios, sussurrou:
— Shh!

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida

20/09/2026

Little Thing No. 4 (Instrumental ) | Elilson José Batista

Calvin e Haroldo

 

Insônia

O homem vigia.
Dentro dele, estumados,
uivam os cães da memória.
Aquela noite, o luar
e o vento no cipó-prata e ele,
o medo a cavalo nele,
ele a cavalo em fuga
das folhas do cipó-prata.
A mãe no fogão cantando,
os zangões, a poeira, o ar anímico.
Ladra seu sonho insone,
em saudade, vinagre e doçura.

Adélia Prado, em Bagagem

1640 – São Salvador, Bahia




Vieira

Cintila a boca enquanto lança palavras armadas como exércitos. O orador mais perigoso do Brasil é um sacerdote português criado na Bahia, baiano de alma.
Os holandeses invadiram estas terras e o jesuíta Antônio Vieira pergunta aos senhores coloniais se não somos tão pretos para eles como os índios para nós. Do púlpito, o dono da palavra desafia os donos da terra e das pessoas:
“Não pode haver maior inconsideração do entendimento nem maior erro de juízo entre homens, que cuidar em que hei de ser vosso senhor porque nasci mais longe do sol, e que vos haveis de ser meu escravo porque nascestes mais perto”.
Na igrejinha da Ajuda, a mais antiga do Brasil, Antônio Vieira acusa também Deus, culpado de ajudar os invasores holandeses:
Ainda que nós somos os pecadores, Deus meu, vós haveis de ser, hoje, o arrependido.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

A Contadora de Filmes

[7]

Nós não fazíamos como as outras pessoas, que esperavam os acordes da marcha que indicava o começo da sessão para entrar feito manada na sala. A gente gostava de chegar cedo e esperar o filme lá dentro.
Eu ficava fascinada com o vazio da sala do cinema na penumbra; parecia uma espécie de caverna misteriosa, secreta, sempre inexplorada. Ao atravessar as pesadas cortinas de veludo me dava a sensação de passar da crueza do mundo real a um maravilhoso mundo mágico.
Nós nos sentávamos na primeira fila, quase grudados naquela enorme telona branca que para mim era como o altar-mor de uma igreja. O auge daquele ritual todo acontecia no maravilhoso instante em que as luzes se apagavam, as cortinas da entrada eram fechadas, a música silenciava e a tela se enchia de vida e de movimento.
Eu ficava como suspensa no ar.
Era esse o clímax do estranho sortilégio que o cinema exercia em mim. Em mim e na minha mãe. Agora eu sei disso. A diferença entre nós duas e meu pai e meus irmãos era que eles apenas gostavam de cinema; nós ficávamos enlouquecidas.
Ao apagar das luzes todos se endireitavam e ficavam duros na frente da tela. Eu não. Eu virava a cabeça para ver aparecer o raio de luz que saía pelas janelinhas do quartinho de projeção e percorria o espaço sobre nós até se chocar com a tela e explodir em imagens e sons. E muitas vezes, quando o filme não era interessante de verdade do jeito que eu esperava (muita conversa e pouca ação), eu deixava de ver a tela para contemplar, encantada, aquele feixe mágico de pó luminoso. Eu achava um prodígio que aquele jorro de luz pudesse transportar coisas tão impressionantes como trens perseguidos por índios a cavalo, barcos de piratas em mares de tormenta e dragões verdes exalando fogo por suas sete cabeças.
E naquele tempo eu pensava que por ali fluía também a voz, o estampido dos tiros, as canções tão bonitas dos mariachis dos filmes mexicanos. Depois, aprendi que não. Também aprendi muitas outras coisas, algumas assim mais técnicas, como, por exemplo, que eram 24 quadros por segundo – ou fotogramas – aquilo que passava diante dos olhos dos espectadores para dar a ilusão de movimento.
Não sabia para quê aquele tipo de sabedoria iria me servir, mas eu queria saber tudo de cinema. Isso aconteceu quando dei para ler as revistas Écran que descobri na biblioteca do povoado da Mina.
Eu lia feito uma desmiolada.
Mas não quero me antecipar, porque isso foi depois que me transformei em contadora de filmes.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

Miss Algrave



Ela era sujeita a julgamento. Por isso não contou nada a ninguém. Se contasse, não acreditariam porque não acreditavam na realidade. Mas ela, que morava em Londres, onde os fantasmas existem nos becos escuros, sabia da verdade.
Seu dia, sexta-feira, fora igual aos outros. Só aconteceu sábado de noite. Mas na sexta fez tudo igual como sempre. Embora a atormentasse uma lembrança horrível: quando era pequena, com uns sete anos de idade, brincava de marido e mulher com seu primo Jack, na cama grande da vovó. E ambos faziam tudo para ter filhinhos sem conseguir. Nunca mais vira Jack nem queria vê-lo. Se era culpada, ele também o era.
Solteira, é claro, virgem, é claro. Morava sozinha numa cobertura em Soho. Nesse dia tinha feito suas compras de comida: legumes e frutas. Porque comer carne ela considerava pecado.
Quando passava pela Piccadilly Circus e via as mulheres esperando homens nas esquinas, só faltava vomitar. Ainda mais por dinheiro! Era demais para se suportar. E aquela estátua de Eros, ali, indecente.
Foi depois do almoço ao trabalho: era datilógrafa perfeita. Seu chefe nunca olhava para ela e tratava-a felizmente com respeito, chamando-a de Miss Algrave. Seu primeiro nome era Ruth. E descendia de irlandeses. Era ruiva, usava os cabelos enrolados na nuca em coque severo. Tinha muitas sardas e pele tão clara e fina que parecia uma seda branca. Os cílios também eram ruivos. Era uma mulher bonita.
Orgulhava-se muito de seu físico: cheia de corpo e alta. Mas nunca ninguém havia tocado nos seus seios.
Costumava jantar num restaurante barato em Soho mesmo. Comia macarrão com molho de tomate. E nunca entrara num pub: nauseava-a o cheiro de álcool, quando passava por um. Sentia-se ofendida pela humanidade.
Cultivava gerânios vermelhos que eram uma glória na primavera. Seu pai fora pastor protestante e a mãe ainda morava em Dublin com o filho casado. Seu irmão era casado com uma verdadeira cadela chamada Tootzi.
De vez em quando Miss Algrave escrevia uma carta de protesto para o Time. E eles publicavam. Via com muito gosto o seu nome: sincerely Ruth Algrave.
Tomava banho só uma vez por semana, no sábado. Para não ver o seu corpo nu, não tirava nem as calcinhas nem o sutiã.
No dia em que aconteceu era sábado e não tinha portanto trabalho. Acordou muito cedo e tomou chá de jasmim. Depois rezou. Depois saiu para tomar ar.
Perto do Savoy Hotel quase foi atropelada. Se isso acontecesse e ela morresse teria sido horrível porque nada lhe aconteceria de noite.
Foi ao ensaio do canto coral. Tinha voz maviosa. Sim, era uma pessoa privilegiada.
Depois foi almoçar e permitiu-se comer camarão: estava tão bom que até parecia pecado.
Então dirigiu-se ao Hyde Park e sentou-se na grama. Levara uma Bíblia para ler. Mas – que Deus a perdoasse – o sol estava tão guerrilheiro, tão bom, tão quente, que não leu nada, ficou só sentada no chão sem coragem de se deitar. Procurou não olhar os casais que se beijavam e se acariciavam sem a menor vergonha.
Depois foi para casa, regou as begônias e tomou banho. Então visitou Mrs. Cabot que tinha noventa e sete anos. Levou-lhe um pedaço de bolo com passas e tomaram chá. Miss Algrave sentia-se muito feliz, embora... Bem, embora.
Às sete horas voltou para casa. Nada tinha a fazer. Então tricotou uma suéter para o inverno. De cor esplendorosa: amarela como o sol.
Antes de dormir tomou mais chá de jasmim com biscoitos, escovou os dentes, mudou de roupa e meteu-se na cama. Suas cortinas de gaze ela mesma fizera e pendurara.
Era maio. As cortinas se balançavam à brisa dessa noite tão singular. Singular por quê? Não sabia.
Leu um pouco o jornal da manhã e fechou a luz da cabeceira. Pela janela aberta via o luar. Era noite de lua cheia.
Suspirou muito porque era difícil viver só. A solidão a esmagava. Terrível não ter uma só pessoa para conversar. Era a criatura mais solitária que conhecia. Até Mrs. Cabot tinha um gato. Ruth Algrave não tinha bicho nenhum: eram bestiais demais para o seu gosto. Nem tinha televisão. Por dois motivos: faltava-lhe dinheiro e não queria ficar vendo as imoralidades que apareciam na tela. Na televisão de Mrs. Cabot vira um homem beijando uma mulher na boca. E isso sem falar no perigo da transmissão de micróbios. Ah, se pudesse escreveria todos os dias uma carta de protesto para o Time. Mas não adiantava protestar, ao que parecia. A falta de vergonha estava no ar. Até já vira um cachorro com uma cadela. Ficou impressionada. Mas se assim Deus queria, que então assim fosse. Mas ninguém a tocaria jamais, pensou. Ficava curtindo a solidão.
Até as crianças eram imorais. Evitava-as. E lamentava muito ter nascido da incontinência de seu pai e de sua mãe. Sentia pudor deles não terem tido pudor.
Como deixava arroz cru na janela, os pombos vinham visitá-la. Às vezes entravam-lhe no quarto. Eram enviados por Deus. Tão inocentes. Arrulhando. Mas era meio imoral o arrulho deles, embora menos do que ver mulher quase nua na televisão. Ia amanhã sem falta escrever uma carta protestando contra os maus costumes daquela cidade maldita que era Londres. Chegara uma vez a ver uma fila de viciados junto de uma farmácia, esperando a vez de tomarem uma aplicação. Como é que a Rainha permitia? Mistério. Escreveria mais uma carta denunciando a própria Rainha. Escrevia bem, sem erros de gramática e batia as cartas na máquina do escritório quando tinha um instante de folga. Mr. Clairson, seu chefe, elogiava muito as suas cartas publicadas. Até dissera que ela poderia um dia vir a ser escritora. Ficara orgulhosa e agradecera muito.
Estava assim deitada na cama com a sua solidão. O embora.
Foi então que aconteceu.
Sentiu que pela janela entrava uma coisa que não era um pombo. Teve medo. Falou bem alto:
– Quem é?
E a resposta veio em forma de vento:
– Eu sou um eu.
– Quem é você? perguntou trêmula.
– Vim de Saturno para amar você.
– Mas eu não estou vendo ninguém! gritou.
– O que importa é que você está me sentindo.
E sentia-o mesmo. Teve um frisson eletrônico.
– Como é que você se chama? perguntou com medo.
– Pouco importa.
– Mas quero chamar seu nome!
– Chame-me de Ixtlan.
Eles se entendiam em sânscrito. Seu contato era frio como o de uma lagartixa, dava-lhe calafrios.
Ixtlan tinha sobre a cabeça uma coroa de cobras entrelaçadas, mansas pelo terror de poder morrer. O manto que cobria o seu corpo era da mais sofrida cor roxa, era ouro mau e púrpura coagulada.
Ele disse:
– Tire a roupa.
Ela tirou a camisola. A lua estava enorme dentro do quarto. Ixtlan era branco e pequeno. Deitou-se ao seu lado na cama de ferro. E passou as mãos pelos seus seios. Rosas negras.
Ela nunca tinha sentido o que sentiu. Era bom demais. Tinha medo que acabasse. Era como se um aleijado jogasse no ar o seu cajado.
Começou a suspirar e disse para Ixtlan:
– Eu te amo, meu amor! meu grande amor!
E – é, sim. Aconteceu. Ela queria que não acabasse nunca. Como era bom, meu Deus. Tinha vontade de mais, mais e mais.
Ela pensava: aceitai-me! Ou então: “Eu me vos oferto.” Era o domínio do “aqui e agora”.
Perguntou-lhe: quando é que você volta?
Ixtlan respondeu:
– Na próxima lua cheia.
– Mas eu não posso esperar tanto!
– É o jeito, disse ele até friamente.
– Vou ficar esperando bebê?
– Não.
– Mas vou morrer de saudade de você! como é que eu faço?
– Use-se.
Ele se levantou, beijou-a castamente na testa. E saiu pela janela.
Começou a chorar baixinho. Parecia um triste violino sem arco. A prova de que tudo isso acontecera mesmo era o lençol manchado de sangue. Guardou-o sem lavá-lo e poderia mostrá-lo a quem não acreditasse nela.
Viu a madrugada nascer toda cor-de-rosa. No fog os primeiros passarinhos começavam a pipilar com doçura, ainda sem alvoroço.
Deus iluminava seu corpo.
Mas, como uma baronesa Von Blich, nostalgicamente recostada no dossel de cetim de seu leito, fingiu tocar a campainha para chamar o mordomo que lhe traria café quente, forte, forte.
Ela o amava e ia esperar ardentemente pela nova lua cheia. Não quis tomar banho para não tirar de si o gosto de Ixtlan. Com ele não fora pecado e sim uma delícia. Não queria mais escrever nenhuma carta de protesto: não protestava mais.
E não foi à igreja. Era mulher realizada. Tinha marido.
Então, no domingo, na hora do almoço, comeu filet mignon com purê de batata. A carne sangrenta era ótima. E tomou vinho tinto italiano. Era mesmo privilegiada. Fora escolhida por um ser de Saturno.
Tinha lhe perguntado por que a havia escolhido. Ele dissera que era por ela ser ruiva e virgem. Sentia-se bestial. Não tinha mais nojo de bichos. Eles que se amassem, era a melhor coisa do mundo. E ela esperaria por Ixtlan. Ele voltaria: eu sei, eu sei, eu sei, pensava ela. Também não tinha mais repulsa pelos casais do Hyde Park. Sabia como eles se sentiam.
Como era bom viver. Como era bom comer carne sangrenta. Como era bom tomar vinho italiano bem adstringente, meio amargando e restringindo a língua.
Era agora imprópria para menores de dezoito anos. E se deleitava, babava-se de gosto nisso.
Como era domingo, foi ao canto coral. Cantou melhor do que nunca e não se surpreendeu quando a escolheram para solista. Cantou a sua aleluia. Assim: Aleluia! Aleluia! Aleluia!
Depois foi ao Hyde Park e deitou-se na grama quente, abriu um pouco as pernas para o sol entrar. Ser mulher era uma coisa soberba. Só quem era mulher sabia. Mas pensou: será que vou ter que pagar um preço muito caro pela minha felicidade? Não se incomodava. Pagaria tudo o que tivesse de pagar. Sempre pagara e sempre fora infeliz. E agora acabara-se a infelicidade. Ixtlan! Volte logo! Não posso mais esperar! Venha! Venha! Venha!
Pensou: será que ele gostara de mim porque sou um pouco estrábica? Na próxima lua cheia perguntaria a ele. Se fosse por isso, não tinha dúvida: forçaria a mão e se tornaria completamente vesga. Ixtlan, tudo o que você quiser que eu faça,eu faço. Só que morria de saudade. Volte, my love.
Sim. Mas fez uma coisa que era traição. Ixtlan a compreenderia e perdoaria. Afinal de contas, a pessoa tinha que dar um jeito, não tinha?
Foi o seguinte: não aguentando mais,encaminhou-se para Piccadilly Circuse achegou-se a um homem cabeludo. Levou-o ao seu quarto. Disse-lhe que não precisava pagar. Masele fez questão e antes de ir embora deixou na mesa de cabeceira uma libra inteira! Bem que estava precisada de dinheiro. Ficou furiosa, porém, quando ele não quis acreditar na sua história. Mostrou-lhe, quase até o seu nariz, o lençol manchado de sangue. Ele riu-se dela.
Na segunda-feira de manhã resolveu-se: não ia mais trabalhar como datilógrafa, tinha outros dons. Mr. Clairson que se danasse. Ia era ficar mesmo nas ruas e levar homens para o quarto. Como era boa de cama, pagar-lhe-iam muito bem. Poderia beber vinho italiano todos os dias. Tinha vontade de comprar um vestido bem vermelho com o dinheiro que o cabeludo lhe deixara. Soltara os cabelos bastos que eram uma beleza de ruivos. Ela parecia um uivo.
Aprendera que valia muito. Se Mr. Clairson, o sonso, quisesse que ela trabalhasse para ele, teria que ser de outro bom modo.
Antes compraria o vestido vermelho decotado e depois iria ao escritório chegando de propósito, pela primeira vez na vida, bem atrasada. E falaria assim com o chefe:
– Chega de datilografia! Você que não me venha com uma de sonso! Quer saber de uma coisa? deite-se comigo na cama, seu desgraçado!e tem mais: me pague um salário alto por mês, seu sovina!
Tinha certeza de que ele aceitaria. Era casado com uma mulher pálida e insignificante, a Joan, e tinha uma filha anêmica, a Lucy. Vai é se deliciar comigo, o filho de uma cadela.
E quando chegasse a lua cheia – tomaria um banho purificador de todos os homens para estar pronta para o festim com Ixtlan.

Clarice Lispector, em Todos os contos