131.
Não tendo que fazer, nem que pensar
em fazer, vou pôr neste papel a descrição do meu ideal —
Apontamento A sensibilidade de Mallarmé dentro do estilo de Vieira;
sonhar como Verlaine no corpo de Horácio; ser Homero ao luar.
Sentir tudo de todas as maneiras;
saber pensar com as emoções e sentir com o pensamento; não desejar
muito senão com a imaginação; sofrer com coquetterie; ver claro
para escrever justo; conhecer-se com fingimento e tática,
naturalizar-se diferente e com todos os documentos; em suma, usar por
dentro todas as sensações, descascando-as até Deus; mas embrulhar
de novo e repor na montra como aquele caixeiro que daqui estou vendo
com as latas pequenas da graxa da nova marca.
Todos estes ideais, possíveis ou
impossíveis, acabam agora. Tenho a realidade diante de mim — não
é sequer o caixeiro, é a mão dele (a ele não vejo), tentáculo
absurdo de uma alma com família e sorte, que faz trejeitos de aranha
sem teia nó esticar-se da reposição cá à frente.
E uma das latas caiu, como o Destino
de toda a gente.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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