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24/12/2016

A religião mais verdadeira é a sua

Nunca me esquecerei do dia em que, dizendo-lhe “Mas, senhor padre Manuel, a verdade, a verdade, acima de tudo”, ele, a tremer, sussurrou-me ao ouvido - e isso apesar de estarmos sozinhos no meio do campo: - “A verdade? A verdade, Lázaro, é porventura uma coisa terrível, uma coisa intolerável, uma coisa mortal; as pessoas simples não conseguiriam viver com ela.”
E porque é que ma deixa vislumbrar agora aqui, como confissão?”, perguntei-lhe. E ele respondeu: “Porque se não atormentar-me-ia tanto, tanto, que eu acabaria por gritá-lo no meio da praça, e isso nunca, nunca, nunca. Eu estou cá para fazer viver as almas dos meus paroquianos, para os fazer felizes, para fazer com que se sonhem imortais e não para os matar.
O que aqui faz falta é que eles vivam sãmente, que vivam em unanimidade de sentido, e com a verdade, com a minha verdade, não viveriam. Que vivam. E é isto que a Igreja faz, fazer com que vivam. Religião verdadeira? Todas as religiões são verdadeiras enquanto fazem viver espiritualmente os povos que as professam, enquanto os consolam de terem tido de nascer para morrer, e para cada povo a religião mais verdadeira é a sua, a que ele fez. E a minha? A minha é consolar-me em consolar os outros, embora o consolo que eu lhes dê não seja o meu.”
Nunca esquecerei estas suas palavras.
Miguel de Unamuno, in São Manuel Bom, Mártir

10/08/2016

Qualquer coisa

Falta-nos qualquer coisa, a nós todos; a única diferença é que uns sentem, os outros não.”
Unamuno

09/11/2015

O nome e a coisa

O nome é em certo sentido a própria coisa; dar nome às coisas é conhecê-las e apropriar-se delas; a denominação é o ato da posse espiritual.”
Miguel de Unamuno

22/07/2015

Amigo

Cada novo amigo que ganhamos no decorrer da vida aperfeiçoa-nos e enriquece-nos, não tanto pelo que nos dá, mas pelo que nos revela de nós mesmos.
Miguel Unamuno

07/04/2015

Mortal ou imortal

Se a mortalidade da alma pode ser terrível, não menos terrível pode ser a sua imortalidade.”
Miguel de Unamuno

12/12/2014

O solitário e a expressão

Viajante Acima de um mar de nuvens
Viajante acima de um mar de nuvens (1818), de Casper David Friedrich

“O solitário leva uma sociedade inteira dentro de si: o solitário é multidão. E daqui deriva a sua sociedade. Ninguém tem uma personalidade tão acusada como aquele que junta em si mais generalidade, aquele que leva no seu interior mais dos outros. O gênio, foi dito e convém repeti-lo frequentemente, é uma multidão. É a multidão individualizada, e é um povo feito pessoa. Aquele que tem mais de próprio é, no fundo, aquele que tem mais de todos, é aquele em quem melhor se une e concentra o que é dos outros.
(...) O que de melhor ocorre aos homens é o que lhes ocorre quando estão sozinhos, aquilo que não se atrevem a confessar, não já ao próximo mas nem sequer, muitas vezes, a si mesmos, aquilo de que fogem, aquilo que encerram em si quando estão em puro pensamento e antes de que possa florescer em palavras. E o solitário costuma atrever-se a expressá-lo, a deixar que isso floresça, e assim acaba por dizer o que todos pensam quando estão sozinhos, sem que ninguém se atreva a publicá-lo. O solitário pensa tudo em voz alta, e surpreende os outros dizendo-lhes o que eles pensam em voz baixa, enquanto querem enganar-se uns aos outros, pretendendo acreditar que pensam outra coisa, e sem conseguir que alguém acredite.”
Miguel de Unamuno, in Solidão

17/11/2013

Acerca da verdade

“Não há verdade, nem necessidade absoluta. Chamamos verdadeiro a um conceito, que concorda com o sistema geral de todos os nossos conceitos; verdadeira a uma percepção, que não contradiz o sistema das nossas percepções; verdade é coerência. E, no que respeita a todo o sistema, ao conjunto, dado que, fora dele, não existe nada que seja para nós conhecido, não podemos dizer se é ou não verdadeiro. É imaginável que o universo seja, em si, fora de nós, muito diferente daquilo que nos parece, ainda que esta seja uma suposição que carece de todo o sentido racional. E, no que toca à necessidade, há uma necessidade absoluta? Necessário não é senão aquilo que é, e enquanto o é, pois que, noutro sentido mais transcendental, que necessidade absoluta, lógica, independente do fato de que o universo existe, há de que haja universo ou qualquer outra coisa?
O relativismo absoluto, que não é mais nem menos do que o ceticismo, no sentido mais moderno desta denominação, é o triunfo supremo da razão raciocinante.”
Miguel de Unamuno, in Do Sentimento Trágico da Vida

14/06/2011

“Falta-nos qualquer coisa, a nós todos; a única diferença é que uns sentem, outros não”.
Unamuno