sexta-feira, 15 de maio de 2026
Talvez assim seja
Por outro lado, estou hoje um pouco
cansada e é sobre o prazer do cansaço dolorido que vou falar. Todo
prazer intenso toca no limiar da dor. Isso é bom. O sono, quando
vem, é como um leve desmaio, um desmaio de amor.
Morrer deve ser assim: por algum
motivo estar-se tão cansado que só o sono da morte compensa. Morrer
às vezes parece um egoísmo. Mas quem morre às vezes precisa muito.
Será que morrer é o último prazer
terreno?
Clarice Lispector, em Todas as crônicas
O caso do trocador silencioso
O trocador é um modelo de instituição
brasileira. Porque, fazendo jus ao título, não troca absolutamente
coisa nenhuma. E quando troca, exemplifica de maneira esplêndida a
expressão “dar o troco” atirando moedas e caraminguás nos
cornes do freguês.
Aproveitando o rebote dos dias do
mestre, do médico, da criança e outros bichos, eu, na qualidade de
defensor dos fracos e oprimidos (por preços módicos e com direito a
pechincha), sugiro aos nossos atarefados políticos a criação do
Dia do Trocador. Nesta data querida, o citado profissional teria o
direito de revidar, com um soco na cara, qualquer atrevimento do tipo
nota de cinco, de dez etc... Bom etc. aí é meio sobre a retórica
porque pobre quando vê nota de cinquenta pra cima, trata logo de se
livrar dela, antes que os hôme arranjem alguma acusação em seu
vasto repertório.
— Onde tu arranjou essa nota? Canta
logo!
— Conceiçãããão...
PÔU!
Mas, como diz o Penteado, toda regra
tem exceção e toda exceção caga regra.
O Tinoco, lá do Estácio, foi o único
trocador que eu conheci que não só cumpria rigorosamente seu dever
como, de quebra, distribuía agradecimentos e sorrisos. Aqui entre
nós, o motivo dessa conduta insólita era a Janete. Platinada, graça
ao conhecido tônico capilar Louramil, Janete lembrava um pouco a
Marilim Monrôu — como gostava de dizer o Tinoco, o que, é bom
frisar de passagem (já que falamos em trocador), engrandece a
Janete. Tinoco detestava referências a coisas “do estrangeiro. O
Brasil dá de zero em tudo”.
Toda sexta-feira, dia de folga do
Tinoco, Janete melhorava o astral da
casa com o defumadorIndiano, e nosso
herói andava atrás dela, de cueca, na maior bolinação.
— Peraí, Cocô! Parece que tem
bicho-carpinteiro. Isso aqui é coisa séria...
Ah, o encanto de certos apelidos
íntimos!
Acabavam na cama. Durante os chamados
folguedos eróticos, Tinoco era silencioso e compenetrado, e Janete
era penetrada com a maior gritaria.
— Agora, meu amor! Fala!Diz uma
coisa daquelas no meu ouvidinho.
E o Tinoco hum, ai, hum, ai, hum, ai,
e mais nada.
Depois, Janete ficava um pouquinho
triste. Bem que disfarçava, mas seu rosto traía um pensamento
oculto parecido com o dos compositores ao receberem direitos autorais
do ECAD:(é como se faltasse alguma coisa).
Tinoco reparava na tristeza da Janete
e, fazendo cafuné, prometia:
— Da próxima vez eu falo. Fica
triste não, neguinha. Juro que da próxima vez eu falo.
E Ihufas. Na hora do lesco-lesco,
Tinoco, que nem as Otoridades, não tinha nada a declarar.
Perturbada por esse silêncio, Janete
decidiu ir a um afamado Centro Espírita na Travessa do Carneiro, a
Tenda “Esperança e Ray-O-Vac” — a coisa tá tão preta que até
os espíritos da luz estão de lanterna.
No tal centro, Janete contou o
problema ao caboclo Pena Poluída, que, após prescrever o Pó
Solta-a-Língua, deu-lhe uns passes contra mau-olhado e repetiu três
vezes:
— O negoço tá mais pra palmito que
pra beija-flor.
Em casa, Janete preparou a beberagem
amaciada com a cachaça “Insumos Básicos” e explicou pro Tinoco:
— Bebe de uma vez só. O caboclo
disse que é tiro e queda.
De fato, porém mais pra queda do que
pra tiro. Entre huns e ais, o Tinoco deixou cair:
— Meus concidadãos! Ai... numa
conjuntura econômica que... hum... se define por um aperto... ai...
os elementos divisionistas... hum...
E por aí afora. Ou adentro.
Janete chorou a noite inteira,
enquanto o Tinoco, desolado, fumava na sala, andando pra lá e pra
cá.
Sexta-feira seguinte, Janete voltou ao
centro com o Tinoco a tiracolo. O caboclo Pena Poluída ouviu tudo,
recomendou que a dosagem do remédio fosse triplicada, e pediu que o
casal repetisse com ele a exortação:
— Se falar não fosse fácil, onde
estaria o José Bonifácio? Boca abre à toa que nem janela. Vide
Petrônio Portela.
Pra encerrar, Pena Poluída
ajoelhou-se, bateu três vezes com a testa no cimento e foi levado
com fratura do frontal pro Souza Aguiar, saravá!
De alma lavada, os pombinhos
esvoaçaram pro ninho no maior agarramento. A preliminar foi
tremenda. Tinoco disse coisa de ruborizar a própria torcida do
Curintia. Mas no jogo principal ficou ruço. Já tava na prorrogação
e só pintava hum, ai, hum, ai, hum, ai... Janete, desesperada,
sabendo que essas coisas não se resolvem em cobrança de pênalti,
apelou pro patriotismo do Tinoco:
— Fala, desgraçado! Me xinga! Honra
o trocador brasileiro!
Tinoco avermelhou como se fosse
explodir e:
— F... f... f...
— Isso querido! Diz!
— F... f... favor dar um passinho a
frente que o meio do carro tá vazio!
Aldir Blanc, em Rua dos Artista e Arredores
Viagem a Paris
— Ouvi dizer que vai a Paris.
— Exato.
— A negócio?
— Não.
— Turista?
— Não.
— Missão política reservada?
— Não.
— Tão secreta assim?
— Não.
— Se não sou indiscreto… transa
de amor?
— Não.
— Está muito misterioso.
— Não.
— Como não? Saúde, talvez.
— Não.
— Compreendo que não queira
alarmar…
— Não.
— Busca apenas repouso.
— Não.
— Fugir a esse calorão dos
infernos.
— Não.
— Fugir do trabalho, então.
— Não.
— Capricho do momento.
— Não.
— Tantos nãos devem significar um
sim.
— Não.
— Significam sim. Vou repetir as
hipóteses.
— Não.
— Temos pela frente uma indústria
nova, de vulto.
— Não.
— De qualquer maneira, é
financiamento internacional.
— Não.
— Então a coisa está ficando
preta.
— Não.
— Está preta, e há jogadas que só
em Paris.
— Não.
— Percebe-se alguma coisa no ar.
— Não.
— Não dá para perceber, mas há.
— Não.
— Mas pode haver a qualquer momento.
— Não.
— Nem por hipótese?
— Não.
— Nenhuma nuvem distante, muito
distante mesmo?
— Não.
— No ano que vem?
— Não.
— Ouvi mal?
— Não.
— Sendo assim, é segredo pessoal?
— Não.
— O coração é quem dita a viagem…
eu sei.
— Não.
— Sim, sim. Pode confessar.
— Não.
— Hoje em dia essas coisas são
públicas. Dão até cartaz.
— Não.
— Sei que não precisa disso, mas…
— Não.
— Por que não? Está com medo da
imprensa?
— Não.
— Receia perder a situação social?
— Não.
— A situação financeira?
— Não.
— Política?
— Não.
— Pois olhe, melhor é preparar o
ambiente.
— Não.
— Claro que sim. Insinuar mudança
em sua vida.
— Não.
— Discretamente.
— Não.
— De leve, só uma pincelada. Deixe
comigo.
— Não.
— Não abro manchete nem boto aquela
foto em duas colunas, aquela bacana, lembra?
— Não.
— Só cinco linhas.
— Não.
— Duas.
— Não.
— Mas tenho de dizer alguma coisa.
— Não.
— O senhor é notícia.
— Não.
— Pode dizer que não, mas é sim.
— Não.
— Puxa vida, o senhor hoje está
medonho. Resolveu responder não a tudo que é pergunta minha?
— Não.
— Ah, é? Então vamos recomeçar: o
senhor vai a Paris?
— Vou.
— E que é que vai fazer em Paris?
— Ver.
— Ver o quê?
— O último tango em Paris.
— E por que é que não me disse
isso logo, homem de Deus?
— Você não me perguntou, por que
eu havia de responder?
Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica
Sexto capítulo – As idosas profanadoras
À volta do machimbombo Muidinga
quase já não reconhece nada. A paisagem prossegue suas infatigáveis
mudanças. Será que a terra, ela sozinha, deambula em errâncias? De
uma coisa Muidinga está certo: não é o arruinado autocarro que se
desloca. Outra certeza ele tem: nem sempre a estrada se movimenta.
Apenas de cada vez que ele lê os cadernos de Kindzu. No dia seguinte
à leitura, seus olhos desembocam em outras visões.
Muidinga já não reclama para
passear pelas cercanias. Apenas Tuahir deseja sair, se espraiar pelos
matos. Seu pretexto é a água: é preciso ir buscá-la, armazenar
uma boa porção. Aconteceu nessa manhã mais cedo que o habitual:
— Vamos!
— Eu fico, tio.
— Nem pense. Aqui ninguém
fica. Se não quer me acompanhar então siga noutra direcção. Mas
aqui é que não fica.
Valia a pena discutir? Muidinga
se resigna, pois, a ir sozinho pelos carreiros dos bichos. Tuahir
segue em oposta direcção. Por onde seguia o moço os capins se
infindavam, num moçambique de verdes. Os olhos de Muidinga se
meninam a ver as árvores. Em redor, já nada faz recordar a savana
empobrecida. Agora a floresta floresce. Os caminhitos com a guerra se
desabituaram de servir. E os capins ganharam confianças, cobrindo
tudo. De repente, as árvores se suspendem em clareira. Um campo se
abre, de cultivos pobres: milho, meixoeira, pouca mapira.
Muidinga pára a olhar. Ali
estava, mesmo que indigente, uma extensão da vontade humana. Fica
por instantes a inspirar aquele perfume da terra lavrada até que
escuta vozes, vindas do fundo da paisagem. Eram mulheres que se
aproximavam, cantando. Traziam ramos nas mãos e com eles iam batendo
no chão. Da terra se levantavam nuvens e talvez fosse a poeira que
não as deixava ver o miúdo. À frente, vem uma velha, corcunda,
esbafurada. Muidinga grita para que seja notado. Há um alvoroço.
Elas primeiro se alarmam, depois fazem uma roda, bichanando. Muidinga
vai chegando perto, curioso. Súbito, elas correm para ele. O moço
fica parado. Uma voz dentro o avisa:
— Foge, Muidinga!
Mas ele nem dá entendimento.
Fugir de um grupo de tão avançadas senhoras? As velhas já estavam
junto, cercando-lhe. Gritam em língua que ele desconhece, parecem
dedicar--lhe azedos insultos.
A mais velha se acerca e, com
insuspeita força, lhe bate na cara. Muidinga fica dominando
fervuras, entre receio e rancor. O seu medo estava preparado para as
demais situações mas não para enfrentar tão idosa e feminina
violência. Uma por uma, todas as outras dão um passo em frente e
lhe atiram pancadarias. Lhe batem com paus, ramos secos, lhe atiravam
areia, pedras, torrões.
— Porquê me batem, mães?
Mas elas não entendem a sua
língua. E desse desencontro se enchameia mais a zanga daquela gente.
Braços e pernas se cruzam na azáfama de lhe golpejar, gritos e
risos se enroscam na fúria de lhe ofender. O miúdo se humilha,
olhos prestes a se aguarem, indefeso como bicho fora da toca.
— Não me batam mais, por
favor!
Então, a mais velha se coloca de
pernas abertas sobre seu corpo derrubado e, num puxão, se desfaz da
capulana. Aparecem as usadas carnes, enrugadas até aos ossos, os
seios pendentes como sacos mortos. Ela grita, se lambe a si mesma, em
inesperadas volúpias. Sobe a mão por entre as pernas e se deixa
cair sobre o rapaz. E se desata a esfregar de encontro ao prostrado
Muidinga, mais ciosa que ansiosa. As outras acompanham
xiculunguelando, palmando. Uma por uma, todas restantes vão tirando
as roupas, trapos e sacos com que se cobriam. Estão nuas, dançando
frenéticas à sua volta. A mais idosa dá mais avanço a seus
intentos, puxando as íntimas partes do rapaz, abraçada como se lhe
quisesse arrancar a alma. Muidinga nem se quer inteirar da
sucedência: estava a ser violentado, em flagrante abuso. A primeira
se sacia, abusa e lambuza. Depois, as outras se seguem, num
amontanhado de corpos, gorduras e pernas.
O pobre moço nem sabe se perdeu
o consenso ou se o mundo rodou mais rápido que as mulheres
endoidadas. Sabe apenas que está saindo de um escuro e as luzes
pirilampejam, abrindo soluços no céu. No recorte da visão está
Tuahir, lhe puxando para uma sombra.
— O que aconteceu?,
pergunta Muidinga.
Tuahir sorri. E lhe explica com
modos paternos. O que aconteceu foi que aquelas mulheres estavam em
sagrada cerimónia, afastando os gafanhotos que assaltaram as
plantações. Elas estavam a enxotá-los, a esconjurar a maldição.
A chegada de um intruso quebrou os mandamentos da tradição. Nenhum
homem pode assistir a esta cerimónia. Nenhum, nunca.
— É que esses não são
gafanhotos próprios. São gafanhotos de alguém.
Tuahir fala apontando os campos
onde cardumes de gafanhotos, em nuventanias, mastigavam o mundo.
Aquele escasso verde desaparece dentada por dentada.
— Vamos para o machimbombo.
Muidinga se deixa levar nos
braços do velho. Lhe sabe bem aquele abandono, as marcas dos brutais
apertos lhe parecem nem existir. E é assim dorido que Tuahir o deixa
tombar no banco do velho machimbombo. O miúdo geme enquanto o velho
lhe aquece um chá.
— Vá, beba. Fique forte que
é para, mais logo, atacar aqueles caderninhos que você sabe.
— Mas, tio. Nem sei se vou
conseguir.
— Consegue. Leia como o
velho Siqueleto, um olho aberto de cada turno.
Mia Couto, em Terra Sonâmbula
quinta-feira, 14 de maio de 2026
Hora do Ângelus
A poesia é pura compaixão.
Até grávida posso ficar,
se lhe aprouver um filho apelidado Francisco.
Tem mesmo alguma coisa no mundo
que obriga o mundo a esperar.
O carroceiro pragueja: ô deus,
a minha lida é mais dura
que a lida de um retireiro.
Sem paciência, a beleza turva-se,
esta que sobre as tardes se inclina
e faz defensáveis
areias, ervas, insetos,
este homem que jamais disse a palavra crepúsculo.
Até grávida posso ficar,
se lhe aprouver um filho apelidado Francisco.
Tem mesmo alguma coisa no mundo
que obriga o mundo a esperar.
O carroceiro pragueja: ô deus,
a minha lida é mais dura
que a lida de um retireiro.
Sem paciência, a beleza turva-se,
esta que sobre as tardes se inclina
e faz defensáveis
areias, ervas, insetos,
este homem que jamais disse a palavra crepúsculo.
Adélia Prado, em O Coração Disparado
Poesia & lenço
E essas que enxugam as lágrimas em nossos poemas como defluxos em lenços... Oh! tenham paciência, velhinhas... A poesia não é uma coisa idiota: a poesia é uma coisa louca!
Mário Quintana, em Caderno H
De stella et adventu magorum
No presépio onde tudo se perfazia
estático — simultâneo repetir-se de matérias belas, retidas em
arte de pequena eternidade — os Três Reis introduziam o tempo. O
mais parava ali, desde a véspera da Noite, sob o fino brilho
suspenso das bolas de cores e ao vivo cheiro de ananás, musgo, cera
nobre e serragens: o Menino na manjedoura, José e a Virgem, o
burrinho e o boi, os pastores com seus surrões, dentro da gruta; e
avessa gente e objetos, confusas faunas, floras, provendo a
muitíssima paisagem, geografia miudamente construída, que
deslumbrava, à alma, os olhos do menino míope.
Em coisa alguma podia tocar-se, que
Vovó Chiquinha, de coração exato e austera, e Chiquitinha, mamãe,
proibiam. Eles, porém, regulavam-se à parte, com a duração de
personagens: o idoso e em barbas Melchior, Gaspar menos avelhado e
ruivo, Baltasar o preto — diversos mesmo naquele extraordinário
orbe, com túnicas e turbantes e sobraçando as dádivas — um atrás
do outro. Dia em dia, deviam avançar um tanto, em sua estrada,
branca na montanha. Cada um de nós, pequenos, queria o direito de
pegar neles e mudá-los dos quotidianos centímetros; a tarefa tinha
de ser repartida. Então, à uma, preferíamos todos o Negro, ou o
ancião Brechó, ou el-rei Galgalaad; preferíamos era a briga. Mas
Vovó Chiquinha ralhava que não nós, por nossas mãos, os mexíamos,
senão a luz da estrela, o cometa ignoto ou milagroso meteoro, rastro
sideral dos movimentos de Deus. E Chiquitinha, para restituir-nos à
paz dos homens concordiosos, mostrava a fita com a frase em douradas
letras — Gloria in excelsis... — clara de campainhas no
latim assurdado e umbroso.
No prazo de seu dia, à Lapinha iam
chegar, o que nos alvoroçava, como todas as chegadas — escalas
para o último enfim, a que se aspira. Mas, de repente, muito antes,
apareciam e eram outros, com acompanhamento de vozes em falsete:
Boa noite, oh de casa,
a quem nesta casa mora...
A Folia de Reis — bando exótico de
homens, que sempre se apresentavam engraçadamente sérios e
excessivamente magros, tinham o imprevisto decoro dos pedintes das
estradas, a impressiva hombridade esmoler. Alguns traziam
instrumentos: rabecas, sanfonas, caixa-de-bater, violas. Entravam,
mantinham-se de pé, em roda, unidos, mais altos, não atentavam para
as pessoas, mas apenas à sua função, de venerar em festa o
Menino-Deus. Pareciam-me todos cegos. Será, só eles veriam ainda a
Estrela? Porém, no centro, para nossa raptada admiração, dançavam
os dois Máscaras, vestidos de alegria e pompa, ao enquanto das vozes
dos companheiros vindos só para cantar:
Eis chegados a esta casa
os Três Reis do Oriente...
De onde — oásis de Arábia, Pérsia
de Zaratustra, Caldeia astrológica — da parte do Oriente ficava
sua pátria incerta, além Jordão, descambado o morro do Bento
Velho, por cujo caminho, banda de cá, costumavam descer os viajantes
do Araçá e da Lagoa, e, sobre, na vista-alegre a gente se divertia
com inteiros arco-íris, no espaço das chuvas, seduzidamente,
conforme vinham, balançando-se em seus camelos, para adorar o Rei
dos Judeus, fantasiados assim, e Herodes a Belém os enviava: o
Guarda-Mor e o Bastião.
Dois, só? Respondiam: que por estilos
de virtude, porque, os Magos, mesmo, não remedavam de ser. E por que
os chamavam, com respeito embora, de “os palhaços”? Bastião, o
acólito, de feriada roupa vermelha, gorro, espelho na testa, e que
bazofiava, curvando-se para os lados, fazendo sempre símias e
facécias, representasse de sandeu. Mas o “mascarado velho”, o
Guarda-Mor, esse trajava de truz, seu capacete na cabeça era de
papelão preto, imponente, e sérios o enorme nariz e o bigode de
pêlos de cauda de boi. Dele, a gente, a gente teria até medo.
Pulavam, batendo no chão os bastões enfeitados de fitas e com
rodelas de lata, de grave chocalhar. Um dos outros homens alteava o
pau com a bandeira, estampa em pano. Entoavam: ...“A lapinha era
pequena, não cabiam todos três... Cada um por sua vez, adoraram
todos três...” Prestigiava-se ao irreal o presépio, à grossa
e humana homenagem, velas acesas; a dança e música e canto rezando
mesmo por nós, forçoso demais, em fé acima da nossa vontade;
pasmavam-nos.
Depois, recebiam uma espórtula, fino
recantando agradeciam: “Deus lhe pague a bela esmola...” —
e saíam, saudando sem prosa, só o sagrado visitavam. Mas a gente
queria acompanhá-los era para poder ver o que se contava tanto —
que, onde não lhes dessem entrada, então, de fora, bradavam
cantoria torta, a de amaldiçoar: “Esta casa fede a breu...”
— e, que dentro dela morava incréu, a zangação continuava. Em
vão, porém, esperava-se turra de violências. Avisados por um anjo,
voltavam por outro caminho, seguiam se alontanando.
Se às vezes chegavam outras, folias
de maiores distâncias, sucedia-se o em tudo por tudo. Só que, os
homens, mais desconhecidos, sempre, diferentes mesmo dos iguais. Nem
paravam — no vindo, ido e referido. Duas folias se encontrassem,
deviam disputar o uso desafio: a vencedora, de mais arte em
luzimento, ganhando em paz, da outra, a sacola com o dinheiro. Os
estúrdios, que agora no sertão navegavam! A gente repetia de os
esquecer.
Celebrava-se o dia 6, Vovó Chiquinha
desmanchava o presépio, estiava o tempo em veranico entes do São
Sebastião frechado. Por quanto, tornavam a falar nos foliões, deles
não sendo boas, nem de casta lembrança, as notícias aportadas.
Sabia-se que, por adiante, facilitavam aos poucos de receber no grupo
aparasitados e vadios, pegavam desrumo, o Canto sacro dava mais praça
a poracé e lundu, perdiam o conselho. Já mal podiam trocar as
fardas, vez em quando, desfeitos do suor e das poeiras e chuvaradas.
Passavam fome, quando não entravam em pantagruomérico comer,
dormiam irrepousadamente, bebiam do tonel das danadas; pintavam o
caneco. Nem honravam mais as praxes de preceito. Uma folia topava
outra, e, sem nem um mal-entendimento, em vez de avença
desapoderavam-se logo, à acossa, enfrentemente: batiam à força
aberta, a bastão, a pau de bandeira, a cacete, espatifavam-se nas
cabeças os tampos de rabecas e violas.
Só que não podiam tão cedo parar,
no ímpeto de zelo, e iam, iam, à conta inteira, de lugar em lugar,
fazenda em fazenda, ultrapassavam seu prazo de cessação, a
Epifania, queriam os tantos quantos são nos presépios e os
meninos-de-jesus do mundo. Mas, era como se, ao passo com que se
distanciavam do Natal, no tempo, fossem perdendo sua mágica
realidade e a eficácia devota, o furor de fervor não dava para
tanta lonjura, e de tão esticado se estragava. Assim naufragavam por
aí, espandongados, adoentados, exaustos, caindo abaixo de sono, em
pé mesmo se dormiam. Derrotados, recuavam então, retornando,
debandando — se coitados, se danados — não raro sob ameaça e
apupos, num remate da santa desordem, na matéria merencória.
A gente se entristecia, de saber,
receávamos não voltassem, mais nunca, não houvesse a valente Festa
de Reis, beleza de piedade, com o Bastião truão e o
Guarda-Mor destronado.
— “Mas, sim, eles voltam. Para o
ano, se Deus quiser, todos voltam. Sempre, mesmo. Hão de
recomeçar...” Os meninos se sorriam. — “... Eles são homens
de boa-vontade...” — repetia Chiquitinha.
Guimarães Rosa, em Ave, Palavra
Róssini
Restaurante fino. Maître
extremamente elegante, ar superior, grande linha. Sotaque nordestino.
Turnedô à Rossini ele pronunciava “Róssini”.
— Rossi-ní — corrigiu a madame.
A empáfia do maître era
inabalável.
— Madame quer saber mais do que eu?
— A pronúncia certa é Rossini.
— O original é Róssini.
— Na Europa se diz Rossiní.
— Eu estou falando do Ceará,
madame.
— Ceará?
— Inclusive, conheço Róssini
pessoalmente.
— O Rossini do turnedô é do
Ceará?
— Fortaleza.
— O Rossini não era um compositor
italiano?
— Esse é outro. O Róssini
que eu estou falando é cearense. Amigo do — Bechamel.
— Bechamel?
— Paulinho Bechamel.
— O do molho?
— Esse. Também conheço o Gratiné.
— Quem?
— Severino Gratiné. Inventor
da supe a lóion.
— Certo...
— Madame vai de turnedô?
— Não, não. Acho que vou pedir
camarões flambê.
— Flambé.
— Flambê.
— Flambé.
— Você conhece pessoalmente...
— O Luizão Flambé?
Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora
Menino numa festa de Natal
1
O miúdo que andava à mãozinha
As crianças são gente estranha que
nos aparece nos sonhos e nas visões. Antes da quadra natalícia e na
própria véspera de Natal, eu encontrava muitas vezes na rua, a uma
esquina, um rapazinho dos seus sete anos, não mais. Fazia um frio de
rachar, terrível, mas o garoto vestia quase como no verão, apenas
embrulhando à volta do pescoço uns farrapos quaisquer; portanto,
alguém o agasalhava para o mandar para a rua. Andava “à mãozinha”,
termo técnico que significa pedir esmola. O termo foi inventado
pelos próprios rapazes. Há muitíssimos como ele, que se nos metem
à frente do caminho e uivam qualquer coisa decorada; mas este não
uivava, falava de maneira inocente e natural e olhava-me nos olhos
com confiança; portanto, estava em início de carreira. Às minhas
perguntas, respondeu que tinha uma irmã, desempregada e doente;
talvez fosse verdade. Mais tarde vim a saber que estes meninos são
aos bandos e que são postos “à mãozinha”, nem que o frio seja
terrível, e que, se não conseguirem arranjar nada espera-os com
certeza o espancamento. Depois de juntar uns copeques, o rapazinho
volta, de mãos vermelhas e enregeladas, para uma cave qualquer onde
está a embebedar-se uma corja de “pessoal da ganga”, desses que
“tendo largado o trabalho no sábado, não voltam a ele antes de
quarta-feira à tarde”. Ali, nesses covis, embebedam-se com eles as
suas mulheres famintas e espancadas, ao lado piam as suas crianças
de peito também esfomeadas. Vodca, imundície, depravação, mas
sobretudo vodca. O garoto, quando chega com os copeques da pedincha,
é logo mandado à taberna buscar mais álcool. Por divertimento,
também a ele lhe vertem às vezes alguma vodca na boca e riem-se
quando ele, de respiração entrecortada, tomba no chão quase
desmaiado.
... e impiedoso vertia-me
na boca a vodca abominável...
Quando o miúdo cresce um pouco,
metem-no rapidamente nalguma fábrica, mas tudo o que ganhar será
obrigatoriamente entregue ao mesmo “pessoal da ganga” para a
bebedeira. Porém, ainda antes da fábrica, essas crianças tornam-se
verdadeiros delinquentes. Vagueiam pela cidade e conhecem os lugares
nas caves onde podem penetrar e pernoitar sem serem vistos. Um deles
dormiu várias noites no cubículo de um guarda-portão, dentro de um
cesto, e o guarda nem chegou a reparar nele. Tornam-se ladrões,
evidentemente. O roubo já é uma paixão mesmo para crianças de
oito anos, às vezes sem terem a consciência de que cometem um ato
criminoso. Acabam por suportar tudo — o frio, a fome, os
espancamentos — apenas com o fito numa coisa, a liberdade, e fogem
do seu “pessoal da ganga” para enveredarem por uma vagabundagem
já independente. Esta criatura selvagem, às vezes, não compreende
nada — onde vive, a que nação pertence, se Deus existe, se o czar
existe; contam-se coisas inacreditáveis destes miúdos, contudo são
factos reais.
2
O menino na festa do Natal de Cristo
Como sou romancista, parece que
inventei uma «história». Porque escrevo “parece”? Sei bem que
a inventei, mas afigura-se sempre que ela aconteceu num certo lugar,
em certo dia, ou antes, precisamente na véspera do Natal, em certa
cidade enorme e durante um frio terrível.
Imagino que havia um rapaz muito
pequeno numa cave, de seis anos ou ainda mais pequeno. O rapaz, numa
manhã húmida e fria, acordou na sua cave. Vestia apenas uma batinha
e tremia. Saía-lhe da boca um bafo de vapor branco, e ele, sentado
no canto, em cima de uma arca, aborrecia-se e soprava o vapor de
propósito, divertindo-se a vê-lo sair. Mas estava com muita fome.
Logo de manhã, por várias vezes, já se aproximara do catre em que
a mãe doente estava deitada numa esteira e com uma trouxa debaixo da
cabeça. Como veio ela parar aqui? Chegara pelos vistos de outra
cidade, com o filho, e de repente adoecera. A senhoria tinha sido
levada pela polícia dois dias antes; os inquilinos dispersaram-se,
era a quadra das festas; só um dos do “pessoal da ganga” estava
lá, prostrado de bêbado como um morto havia já vinte e quatro
horas, sem dar atenção às festas. Noutro canto do quarto gemia de
dores reumáticas uma velha octogenária, antiga ama-seca numa casa
qualquer, deitada no leito da morte solitária, queixosa, gemebunda e
a resmungar com o miúdo que já tinha medo de se aproximar muito do
canto dela. Encontrou, algures no átrio, água para beber, mas não
encontrou uma côdea para comer, e já era a décima vez que se
aproximava para acordar a mãe. Por fim, começou a sentir pavor da
escuridão: havia muito que escurecera mas ninguém acendia as velas.
Ao mexer na cara da mãe, espantou-se por ela não se mexer e por
estar fria como a parede. “Está muito frio aqui”, pensou ele, e
ficou um pouco parado, deixando, inconscientemente, a mão esquecida
no ombro da morta; depois soprou para os dedinhos, tentando
aquecê-los e, de repente, tendo encontrado às apalpadelas o seu
boné em cima do catre, foi devagarinho, na escuridão, para a saída
da cave. Teria saído ainda antes, mas tinha medo de um cão grande
que, durante todo o dia, uivava em cima, nas escadas, à porta dos
vizinhos. O cão já não estava lá, e o miúdo saiu para a rua.
Meu Deus, que cidade! Nunca antes ele
vira nada de parecido. Lá, donde ele viera, fazia muito escuro de
noite, havia só um lampião em toda a rua. As casas de madeira
baixinhas tinham as portadas fechadas; mal caía a noite, não se via
ninguém, as pessoas metiam-se dentro das casas, apenas os cães
uivavam, matilhas de cães, centenas, milhares deles, a uivarem e a
ladrarem toda a noite. Mas, lá, havia calor e davam de comer, e
aqui... meu Deus, que me apetece tanto comer alguma coisa! E há
tanto barulho aqui, estrondos, tanta luz, cavalos e coches, e frio,
frio! Levanta-se um vapor gélido sobre os cavalos esfalfados, dos
focinhos sai-lhes bafo quente, tinem as ferraduras nas pedras
cobertas de neve, anda toda a gente aos empurrões, e, meu Deus, que
fome, nem que fosse um bocadinho qualquer, e de repente começaram-me
a doer muito os dedos. Passou ao lado um polícia e virou a cabeça
para não olhar para o miúdo.
Outra rua — ah, que larga! Aqui de
certeza que atropelam a gente; como eles gritam, correm, tantos
coches, tanta luz, tanta luz! E isto o que é? Oh, que vidro tão
grande, e atrás do vidro uma sala, e na sala uma árvore até ao
teto! É a árvore de Natal, e tantas luzes na árvore, e tantos
papelinhos dourados e tantas maçãs, e por todo o lado bonequinhos,
cavalinhos; e crianças a correr na sala, todas apinocadas, todas
limpinhas, riem-se e brincam e comem e bebem. Eis uma menina que
começou a dançar com um rapaz, que linda! E ouve-se a música
através do vidro. O rapaz olha, espanta-se e ri-se, mas doem-lhe os
dedos, dos pés e das mãos, ficaram roxos, já não se dobram e
doem-lhe quando os mexe. O miúdo pensou então, de repente, que lhe
doíam muito os dedos, e chorou, e correu mais adiante pela rua, e
viu de novo, por outro vidro grande, uma sala, árvores, mas nas
mesas há bolos, variados: de amêndoa, vermelhos, amarelos, e estão
lá quatro ricas senhoras, e dão bolos a quem entra, e a porta
abre-se a cada instante e entram muitos senhores. O rapaz
aproximou-se, abriu a porta e entrou. Ui, como gritaram com ele, como
abanaram as mãos! Uma senhora aproximou-se dele e meteu-lhe na mão
um copeque, abriu-lhe a porta para a rua. Como se assustou! O copeque
caiu e tilintou nos degraus: não podia dobrar os dedos inteiriçados
e vermelhos para o segurar. Saiu e pôs-se a andar depressa,
depressa, mas não sabia para onde. Apetecia-lhe outra vez chorar,
mas tinha medo e corria, corria e soprava nos dedos. E ficou muito
aflito, porque se sentiu de repente sozinho e assustado, e de chofre,
meu Deus, o que era aquilo outra vez? Está lá uma multidão de
pessoas. A admirar isto: atrás da vidraça há três bonecos
pequenos, todos apinocados com roupas vermelhas e verdes, tal e qual
como se estivessem vivos! Está lá um velho que toca um violino
grande, há mais dois de pé que tocam violinos pequenos, e abanam
todos as cabecinhas ao ritmo da música, e olham uns para os outros,
e os lábios deles mexem, e falam, falam mesmo, só que não se ouve
através do vidro. E o miúdo, a princípio, pensou que estavam
vivos, mas, quando adivinhou que eram bonecos, riu-se de repente.
Nunca na vida tinha visto bonecos assim nem sabia que existiam!
Apetecia-lhe chorar, mas também era tão engraçado ver os bonecos!
De repente pareceu-lhe que alguém lhe puxava pela bata, atrás dele:
estava ao pé dele um rapaz grande e mau que lhe deu, sem mais nem
menos, um murro na cabeça, arrancou-lhe o boné e assestou-lhe um
pontapé. O miúdo rolou pelo chão, toda a gente gritava, e ele,
muito aturdido, levantou-se e deitou a correr muito, e então, sem
saber onde nem porquê, entrou para um pátio por baixo do arco e
sentou-se atrás de uma rima de lenha: “Aqui não me encontram, é
escuro.”
Sentou-se, encolheu-se, não conseguia
recuperar o fôlego por causa do medo, e de repente, mesmo de
repente, sentiu-se muito bem: as mãos e os pés deixaram de lhe
doer, e estava ali tanto calor, tão quentinho como no catre do
fogão; e estremeceu: ah, estava quase a dormir! Que bom adormecer
ali: “Fico aqui um bocado e depois vou outra vez ver os bonecos —
pensou e sorriu, lembrando-se —; são tal e qual como se estivessem
vivos!...” Então, de súbito, ouviu a mãe a cantar-lhe uma
cantiga. “Mamã, estou a dormir, é tão bom dormir aqui!”
— Pequenito, vem comigo ver a minha
festa da árvore de Natal — sussurrou-lhe uma voz baixinha.
Primeiro pensou que era a mãe, mas
não, não era ela; quem o chamava, então? Ele não via, mas alguém
se inclinou sobre ele e o abraçou na escuridão, e o miúdo
estendeu-lhe a mão e... de repente — oh, que luz! Oh, que árvore!
Aquilo nem é uma árvore, nunca ele tinha visto árvores assim! Onde
estará? Tudo brilha, tudo é luz, por todo o lado há bonequinhos...
mas não: são rapazes e raparigas, só que são tão claros, e todos
giram à volta dele, e voam, e todos lhe dão beijos, e pegam nele, e
levam-no, e ele também voa, e vê: a mamã a olhar para ele e a rir
de felicidade.
— Mamã, mamã! Ah, que bom estares
aqui, mamã! — grita-lhe o miúdo, e beija de novo os outros
meninos, e conta-lhes logo sobre os bonecos atrás do vidro. — Quem
sois vós, rapazinhos? Quem sois vós, raparigas? — pergunta,
rindo-se de amor por eles.
— É a “festa do Natal de Cristo”
— responderam-lhe. — Neste dia, Cristo faz sempre a festa da
árvore de Natal para os pequeninos que não têm a sua própria
árvore... — E soube o menino que estas crianças eram todas como
ele, mas umas gelaram ainda nos cestos em que foram abandonadas nas
escadas, à porta dos funcionários petersburguenses, outras
asfixiaram-se quando estavam com as amas finlandesas a quem os
orfanatos entregaram para serem amamentadas, outras morreram ao peito
seco das mães durante a grande fome de Samara, outras sufocaram no
fedor das carruagens de terceira classe, e agora estão todas aqui,
como anjos, todas estão com Cristo, e o próprio Cristo está no
meio delas, e estende as mãos para elas, e abençoa-as e abençoa as
suas mães pecadoras... E as mães destas crianças também estão
aqui, ao lado, e choram; cada mãe reconhece o seu filho, ou a sua
filha, que se aproxima dela a voar e a beija, lhe limpa as lágrimas
do rosto com as mãozinhas e lhe pede que não chore, porque está
muito bem...
No pátio, os guarda-portões
encontraram de manhã o corpo pequenino do miúdo que se escondera
atrás da lenha e aí gelara; encontraram também a mãe dele... Essa
morrera ainda antes do filho; encontraram-se no céu, junto a Deus.
Para que inventei esta história tão
inadequada a um diário normal e razoável, ainda por cima do
escritor? Eu, que prometi escrever principalmente sobre
acontecimentos reais! Mas é mesmo assim, sempre me pareceu que isto
poderia acontecer na realidade — ou seja, o que aconteceu na cave e
por trás do monte de lenha — já que, aquilo da festa do Cristo...
nem sei que vos diga. Poderia acontecer ou não? Para isto sou
romancista — para inventar.
Fíodor Dostoiévski, em A Submissa e Outras Histórias
quarta-feira, 13 de maio de 2026
“Ó Citéron!”
No início, as tragédias foram
trazidas para os palcos como um meio para lembrar os homens dos
acontecimentos, da naturalidade dos fatos e de que, caso os episódios
sejam encantadores naquele estreito palco, não devem ser
preocupantes neste vasto. Diante disso, você observou a necessidade
de tudo ocorrer como ocorre e de tudo precisar ser suportado
inclusive por quem clama: “Ó Citéron!”
De fato, certas sentenças foram bem
redigidas pelos dramaturgos. Alguns exemplos, dentre vários outros:
“Se eu e os meus filhos os deuses
negligenciam,
Também há uma razão.”
“Não devemos nos irritar e nos
desgastar com os eventos.”
“A colheita da vida deve ser como
ceifar uma frutífera espiga de trigo.”
Depois da tragédia, foi introduzida a
comédia antiga, caracterizada pela magistral liberdade de expressão.
Devido à franqueza, era um útil lembrete de precaução contra a
insolência. Tal peculiaridade foi adotada por Diógenes para fins
similares.
Em seguida, veio a comédia
intermediária. Identifique a sua essência. Por último, a nova.
Repare a sua finalidade inicial, eventualmente reduzida a um mero
artifício de mímica. Todos reconhecem a existência de boas
passagens até mesmo desses escritores. Contudo, considerando a
abordagem geral, para qual objetivo mirava toda a poesia e a
dramaturgia?
Marco Aurélio, em Meditações
Diário de Bernardo Soares
107.
Sou daquelas almas que as mulheres
dizem que amam, e nunca reconhecem quando encontram; daquelas que, se
elas as reconhecessem, mesmo assim não as reconheceriam. Sofro a
delicadeza dos meus sentimentos com uma atenção desdenhosa. Tenho
todas as qualidades, pelas quais são admirados os poetas românticos,
mesmo aquela falta dessas qualidades, pela qual se é realmente poeta
romântico. Encontro-me descrito (em parte) em vários romances como
protagonista de vários enredos; mas o essencial da minha vida, como
da minha alma, é não ser nunca protagonista.
Não tenho uma ideia de mim próprio;
nem aquela que consiste num a falta de ideia de mim próprio. Sou um
nómada da consciência de mim. Tresmalharam-se à primeira guarda os
rebanhos da minha riqueza íntima.
A única tragédia é não nos
podermos conceber trágicos. Vi sempre nitidamente a minha
coexistência com o mundo. Nunca senti nitidamente a minha falta de
coexistir com ele; por isso nunca fui um normal.
Agir é repousar.
Todos os problemas são insolúveis. A
essência de haver um problema é não haver uma solução. Procurar
um facto significa não haver um facto.
Pensar é não saber existir.
Passo horas, às vezes, no Terreiro do
Paço, à beira do rio, meditando em vão. A minha impaciência
constantemente me quer arrancar desse sossego, e a minha inércia
constantemente me detém nele. Medito, então, num a modorra de
físico, que se parece com a volúpia apenas como o sussurro de vento
lembra vozes, na eterna insaciabilidade dos meus desejos vagos, na
perene instabilidade das minhas ânsias impossíveis. Sofro,
principalmente, do mal de poder sofrer. Falta-me qualquer coisa que
não desejo e sofro por isso não ser propriamente sofrer.
O cais, a tarde, a maresia entram
todos, e entram juntos, na composição da minha angústia. As
flautas dos pastores impossíveis não são mais suaves que o não
haver aqui flautas e isso lembrar-mas. Os idílios longínquos, ao pé
de riachos, doem-me esta hora análoga por dentro.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
Fábula
Minha pátria é minha infância.
Por isso vivo no exílio.
Talvez o barco contasse
deste percurso no tempo.
De como seria o escafandro
isento de tal mergulho.
Minha pátria é sob a pele:
Cargueiro no mar de névoa.
Antigamente os conflitos
não aspiravam a ser.
De como fiquei trancado
na torre em que era dono.
E a certeza como faca
engolindo a própria lâmina.
De como se libertaram
os mitos presos na forca,
e o exato espanto vindo da terra,
dos gestos do imperador.
Cacaso, em Poesia completa
Capítulo 50 – Virgília Casada
– Quem chegou de São Paulo foi
minha prima Virgília, casada com o Lobo Neves, continuou Luís
Dutra.
– Ah!
– E só hoje é que eu soube uma
coisa, seu maganão...
– Que foi?
– Que você quis casar com ela.
– Ideias de meu pai. Quem lhe disse
isso?
– Ela mesma. Falei-lhe muito em
você, e ela então contou-me tudo.
No dia seguinte, estando na rua do
Ouvidor, porta da tipografia do Plancher, vi assomar, a distância,
uma mulher esplêndida. Era ela; só a reconheci a poucos passos, tão
outra estava, a tal ponto a natureza e a arte lhe haviam dado o
último apuro. Cortejamo-nos; ela seguiu; entrou com o marido na
carruagem, que os esperava um pouco acima; eu fiquei atônito.
Oito dias depois, encontrei-a num
baile; creio que chegamos a trocar duas ou três palavras. Mas noutro
baile, dado dai a um mês, em casa de uma senhora, que ornara os
salões do primeiro reinado, e não desornava então os do segundo, a
aproximação foi maior e mais longa, porque conversamos e valsamos.
A valsa é uma deliciosa coisa. Valsamos; e não nego que, ao
conchegar ao meu corpo aquele corpo flexível e magnífico, tive uma
singular sensação, uma sensação de homem roubado.
– Está muito calor, disse ela, logo
que acabamos. Vamos ao terraço?
– Não; pode constipar-se. Vamos a
outra sala.
Na outra sala estava o Lobo Neves, que
me fez muitos cumprimentos, acerca dos meus escritos políticos,
acrescentando que nada dizia dos literários, por não entender
deles; mas os políticos eram excelentes, bem pensados e bem
escritos. Respondi-lhe com iguais esmeros de cortesia, e separamo-nos
contentes um com o outro.
Cerca de três semanas depois recebi
um convite dele para uma reunião intima. Fui; Virgília recebeu-me
com esta graciosa palavra: – O senhor hoje há de valsar comigo.
– Na verdade, eu tinha fama e era
valsista emérito; não admira que ela me preferisse. Valsamos uma
vez, e mais outra vez. Um livro perdeu Francesca; cá foi a valsa que
nos perdeu. Creio que nessa noite apertei-lhe a mão com muita força,
e ela deixou-a ficar, como esquecida, e eu a abraçá-la e todos com
os olhos em nós, e nos outros que também se abraçavam e giravam…
Um delírio.
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas
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