domingo, 15 de fevereiro de 2026

Desclassificados



1. Minha vida de cachorro Tenho bassês, dobermans, galgos, cokers e dois ou três vira-latas para sua inteira satisfação na cadeirinha sem fundos. O são-bernardo não quer participar por motivos religiosos e vai ficar sem Papita.
2. A escorregadia alpinaLoura cremosa, corpinho de garota todo untado de margarina. Venha ficar preso no elevador comigo. Elevador enguiçado dá uma vontade de comer Alpina, não dá? Atendo domic., hotéis, motéis, Sendas, Paes Mendonça e demais tendinhas.
3. Zuleica e seu acordeónPáginas imortais de nosso cancioneiro. Relax e bom-gosto. Pagamento cash na mão de meu digno esposo, Dr. Acordeón Tavares, o Mágico de Ozzzz... waldo Cruz!
4. Kirie eleisonNúncio Apostólico aposentado, mas com a bundinha bem arrebitada, fogoso, tudo nos lugares santos. Venha comungar comigo a divina lambada. Fé no Sumaré.
5. Corneteiros em fogoSe você tem problemas de embocadura, não relute em procurar-nos. Ambiente discreto para seu lazer. Venha acampar conosco após o toque de recolher. Batalhão de Guarda.
6. Sereia rejeitadaNão fui aproveitada na minissérie sobre o canto de minhas irmãs porque meu rabo tem algumas polegadas a mais, tal como a Marta Rocha, a eterna miss Brasil. Afie o arpão em minhas escamas e fique enfeitiçado com meu canto: ’’Óóóóóóóaaaaaaaiiiiiiiikhoooourrrrr. Desculpe. Tô um pouquinho rouca. Contatos em F. de Noronha ou F. Mesquita.
7. BérgamoSou um tremendo armário, mas sua mala, com bastante cuspe e jeito, cabe direitinho em meus compartimentos. Venha conferir em uma de nossas filiais.
8. Antigo da onçaChileno foragido e radicado em Itaboraí, ideal para swing, tango, chácháchá e outros ritmos fora de moda. Por uma babinha a mais, se veste de coroinha sonso ou de la Violetera. Barra da Tijuca.
10. Gueixa orientalVenha e comprove que meus grandes lábios fazem bilu-bilu no corrimão. Banhos típicos, massagens, do-in, tai-chi-chuan, xo-ta, Ku-shai-shang e, caso meu samurai apareça voltando de viagem, harakiri e kakerada na kara. Banzai.
11. Turquinho tímidoEu zer munto zenzual mas ter vergonhe do minha ligerro zutaque. Mas, zuperadas inibizons iniziaiz, convisco teu popanza bra eu. Dou joque orto e heterodoxo. Eu fazo gontrato com teu risco mas tiro o meu do reta.
12. Garanhão sindicalNóis conseguiu chegar a Ministro e tudo fazeremos para não ser reconhecido. Assim como cafetão de gravata não é capitão de fragata, Ministério do Trabalho também não é climatério do caralho. Puxa, essa quase me traiu-me. Rasgo catálogo telefônico e posso ser mais sem escrúpulos que a Febraban.
13. Pequenos cantores da GuanabaraJá estão grandinhos e bem-dotados. Experimentem nosso sarau de loucuras, sexo oral com trinados, gorjeios e solfejos. Inesquecível imitação de pássaros no cio. Oferecemos também Curso de Introdução à Batuta do Maestro Isaac Karabitchevski. Não tenha dó de si e venha dar ré lá com a gente. Não querendo, vá fá. Caixa Postal FUC/69.
14. Virgem elétricacpo, vdo, tco fin Telerj carnê pref pufqq linha est quit Pabx telex hiiii, meu Deus, é primeira vez que eu faço isso. Errei tudo. Esquece.
15. Imelda filipinaSe você está a fim de fazer melda grossa, procure a Imelda. Toda a sem-vergonhice da verdadeira rainha da sucata ao seu alcance. Só pra olhar. Meu patrimônio é imexível. Canalhice e podridão only for your eyes. Mais sujos do que eu só os tribunais que me absolvem. USA.
16. letrista carecaLetrista carinhoso, fica inventando desclassificados, enquanto você não sai do trabalho. Venha sentar em cima da minha Olivetti Lettera. Muda. Rio.

Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo

Chico César & Nova Orquestra

Tic-tac

Mera ilusão auditiva graças à qual a gente ouve sempre “tic-tac” e nunca “tac-tic”... Depois disso, como acreditar nos relógios? Ou na gente?

Mário Quintana, em Caderno H

Capítulo 15 – O Despertar





Garota, acorde! Garota, volte para a sua luta! Garota, recupere o seu poder! Garota, comece a agir como se fosse a filha de um Rei e houvesse sempre uma coroa na sua cabeça. Mesmo doente, eu ainda era Dele! Mesmo morta, eu ainda era Dele. Você sabe quem eu sou?
SARAH JAKES ROBERTS

Todo mundo tem segredos. Todo mundo. Acho que a diferença é que ou morremos com eles e deixamos que nos devorem, ou os colocamos para fora, lutamos com eles (ou eles lutam conosco) até que… nos reconciliamos. Segredos são o que nos engole.
Sempre houve um segredo que era como o prego no caixão para mim… É uma memória que está fresca na minha mente, como se tivesse acontecido ontem, mas mesmo assim… está bem distante.
Duas semanas antes da formatura, acordei enjoada e ali eu já soube. Estava grávida do homem que namorava havia sete anos. Eu me lembro de tirar minhas fotos profissionais naquela semana e de ir assistir ao filme A Bela e a Fera no cinema e tudo o que pensava era: Estou grávida. Não sabia que diabos fazer a respeito daquilo. Era uma emoção muito mais forte que o medo. Foi como se todas as decisões irresponsáveis que tomei tivessem culminado naquilo. Desde que tinha iniciado minha vida sexual, o que aconteceu tarde, não sabia o que estava fazendo. Sim, você pode aprender a prevenir uma gravidez, mas… e a amar? Como ser regrada e responsável, estar no controle, estabelecer limites? Meu Deus, até mesmo garantir que teremos dinheiro para comprar camisinha ou pílula anticoncepcional? Sentia que o único compromisso inegociável que eu tinha era com a minha carreira, e ela sugava TODA a minha energia. Os demais aspectos da minha vida me sufocavam. E agora… estava grávida.
Lembro-me de ir a uma clínica perto da Juilliard. Fui bem cedinho e tive que cancelar a primeira consulta porque tinha comido. Voltei no dia seguinte. Lembro-me de entrar em várias salas. Uma para me cadastrar e pagar. Uma para fazer outro teste de gravidez. Outra para vestir a roupa cirúrgica. Cada sala parecia uma cena saída de um filme de Stanley Kubrick na qual você está muito perto da morte. Houve alguns médicos muito gentis que me colocaram na mesa cirúrgica, e então eu apaguei.
Acordei aterrorizada. Acordei como se tivesse sido atacada. A dor era enorme! Maior do que qualquer dor que já tinha sentido na vida. Eles tinham me avisado que eu poderia sentir dor, mas, cara… Existe “o que é dito”, “o que você ouviu” e como é de verdade, e aquela dor NÃO ERA o que pensei que seria. A sala de recuperação tinha um monte de poltronas reclináveis posicionadas em círculo. Havia almofadas enormes em cada poltrona para conter o sangramento da cirurgia. Cada uma delas era ocupada por uma mulher e havia pelo menos umas 12 dessas poltronas. Eles nos deram suco de maçã e biscoitos. Ao meu redor, mulheres vomitavam em baldes e gritavam ou gemiam de dor. Uma mulher gritava: “Eu não podia ficar com esse! Eu não podia! Já tenho cinco e não tenho dinheiro nenhum!” Outra garota, que parecia ter uns 15 anos, gritava: “MAMÃE!!!! MAMÃE!! Eu quero minha MAMÃE!!!” E quanto a mim? Eu só chorei… e vomitei… e chorei até que a dor passasse. Fui para casa e sangrei muito por duas semanas. Caí em uma depressão que mudou a minha vida.
Minha nossa, lembro-me de ligar para o meu namorado, gritando com ele: “Onde você está? Por que não está aqui?” Para ele, o que eu tinha feito fora errado, e mesmo assim a chance de que ele não desse apoio para o bebê ou para mim era enorme. Não havia recursos financeiros ou emocionais — nada. Mais uma vez, tive que contar com um milagre para passar por obstáculos imensos e impactantes. A vida sempre pediu que eu contasse com milagres. Meu namorado enfim foi para Nova York ficar comigo por um dia, e depois foi embora. Foi um lembrete perfeito de que, por mais que eu tivesse pensado que havia evoluído e me tornado uma mulher madura, ainda não tinha chegado lá. Não havia como escapar dos acidentes terríveis da vida que podem fazer você paralisar por completo.
Os grandes coágulos de sangue me lembravam o tempo todo de que eu acabara com uma vida, e eu definitivamente, sem dúvidas, sabia que era uma vida… que eu trocara pela minha. Tente lidar com o peso dessa merda!!!
Minha mãe teve o primeiro filho aos 15 anos, e eu queria que minha vida fosse diferente. Aquele bebê não se encaixava nos meus sonhos. E quem eu era sem eles? Quanto maior o sonho, mais rapidamente a vergonha daquela pequena Viola do terceiro ano desapareceria. Quanto maior o sonho, mais pessoas não me chamariam daqueles nomes dos quais eu fugia. Quanto maior o sonho… mais digna eu poderia ser.
Eu me sentia quase desesperada para explicar isso a Deus e receber seu perdão… para ser expurgada.
Tenho um amigo judeu ortodoxo moderno. Ele me contou que um de seus rabinos disse o seguinte: “É inútil procurar um sentido. Em vez disso, pergunte-se: O que aprendi com isso?”
O que aprendi com tudo isso? É impossível passar pela vida livre de cicatrizes. Impossível!! É como um ringue de boxe emocional, e você passa por um round, quatro rounds ou quarenta rounds, dependendo do seu oponente. E, caramba, se seu oponente for você mesmo… você passará por quarenta. Se for Deus, mal passará por um, porque Papai do Céu vai vencer você pelo cansaço! Ele muda de forma. Você acha que está lutando com ele, gritando, dando socos, implorando por ajuda. E então ele o deixa frente a frente com… VOCÊ mesmo.
Anton Tchekhov, o grande dramaturgo russo, disse uma vez: “Enquanto você ri histericamente, sua vida está desmoronando.” É a definição do que é viver.
Meu jantar de formatura, quando terminei o curso na Juilliard, foi alegre e animado. Cedric, um dos meus melhores amigos, que se formou também, se sentou comigo no chão do quarto dele e comemos pés de porco em conserva bebendo cerveja. Chupamos até a cartilagem, os ossos de porco ricos e gordurosos cheios de vinagre. Em voz alta, proclamamos aos risos que nunca contaríamos a ninguém sobre esse jantar. Tínhamos acabado! Vencido uma guerra artística, emocional e esmagadora de egos e almas.
Eu me formei na Juilliard. E vou dizer o seguinte. Eu fora uma criança pobre e agora era uma adulta pobre. Tinha um agente figurão e… nada aconteceu. Fazia testes, recebia ligações, e então outra pessoa conseguia o trabalho. Ou eu sequer chegava a fazer testes, porque era jovem demais, velha demais, retinta demais, pouco sexy. Enquanto isso, a vida continuava. Tinha aluguel para pagar. Conta de telefone, passagem de metrô, comida, empréstimos estudantis. Toda a dura realidade sobre a qual não havia pensado. Bem, eu havia, sim, mas não entendia o peso disso tudo. A essa altura, dividia um apartamento com seis outros estudantes da Juilliard, e eles também estavam penando. Por fim, um conseguiu muitos comerciais e uma novela. Outro foi chamado para um trabalho importante fora da faculdade, mas, quando acabou voltou a fazer testes. Um saiu de Nova York, e o outro ainda estava na faculdade.
Tive dois grandes momentos de epifania. O primeiro foi que estávamos vivendo a realidade dos artistas. A mentalidade dominante nas redes sociais é a de que você precisa ser uma mulher segura e empoderada. Tem que ligar para o seu agente e dizer a ELE quais papéis você quer ou, diabos, escrevê-los para si mesma. Imploro a jovens atores que não façam isso.
Os atores privilegiados são aqueles que falam e são ouvidos. Eles são entrevistados porque chegaram ao topo da carreira e seus depoimentos são o tempo todo compartilhados nas redes sociais. Nós os consumimos e, sem ter a possibilidade de observar a realidade do ramo da atuação, aceitamos essas informações como verdadeiras. Se você chegar ao auge quando jovem e receber um salário de seis dígitos: Você. É. Privilegiado. Isso não é uma crítica. Meu Deus, todo mundo adoraria viver essa rea­lidade. Mas a batalha é definida pela falta de escolhas, e o ator que faz o comercial de uma seguradora de carros para ter um plano de saúde tem tanta integridade quanto alguém que não aceita esse trabalho para esperar pelo papel que lhe trará um Oscar.
Uma atriz já me ligou eufórica porque o comercial dela foi selecionado e ela se qualificou para ter um plano de saúde básico para si e para toda a família. Ela tem dois filhos, um com problemas de saúde. A vida acontece enquanto sua carreira acontece. A vida é difícil. Percebi que minha felicidade não está atrelada apenas à satisfação artística, mas à satisfação com a vida. Eu devia 56 mil dólares em empréstimo estudantil. Meus miomas estavam crescendo. Eu sangrava por semanas a fio. Estava muito anêmica. Tive alopecia areata. Acordei e o cabelo do lado direito da minha cabeça tinha caído. Meu couro cabeludo estava liso como bumbum de bebê. A reação imediata seria ir ao médico. E eu teria ido, se tivesse plano de saúde. Eu ia a clínicas baratas, mas miomas, anemia e alopecia requeriam cuidado especializado. Tratamento com ginecologistas e dermatologistas. Levaria anos para eu ter dinheiro para pagar um plano de saúde.
Meu outro momento de epifania foi perceber o poder, a potência e a força vital provenientes da combinação tóxica entre colorismo e machismo. Quase todos os papéis para os quais fiz teste eram de mães que sofrem com dependência química. Fiz testes para alguns papéis em produções de baixo orçamento que pediam uma mulher negra, mas sempre descrita como tendo pele clara. Sempre! Outros testes eram para novelas; e eu me via sentada na sala de espera junto com modelos.
Comédias românticas negras estavam sendo produzidas. Havia programas incríveis na TV que mostravam a garota negra bonita que tinha autonomia e era rica. Mas nenhuma daquelas mulheres se parecia comigo. Um agente me disse qual era a palavra que todos os produtores de elenco usavam no telefone: “intercambiável”. Isso significava que, mesmo que você fosse um pouquinho retinta, precisava ter o corpo menos curvilíneo, traços mais clássicos (leia-se: mais brancos). E eu não era assim.
O que torna isso ainda pior é que esse tipo de declaração não era feito apenas por executivos brancos, mas também por artistas e produtores negros. Você começa a adotar a ideologia do “opressor”. Isso vira a chave para o sucesso. Culturalmente falando, muitos acreditam nessa ideologia e adotam a crença de que se você for negra, é mais feia, mais difícil, mais masculina e mais maternal do que suas colegas de pele clara. É a mentalidade racista do colorismo, a qual muitos ainda se recusam a reconhecer.
Na minha jornada para encontrar meu caminho, o melhor papel não era o maior objetivo. Ser garçonete para pagar as contas até que aquele papel incrível surgisse não era o objetivo. Eu precisava viver: esse era o objetivo. Isso foi antes dos serviços de streaming. Os estúdios não estavam produzindo grandes papéis para atores negros, pelo menos não para atores com o meu tom de pele. As probabilidades eram: um papel incrível, ou um bom cachê, ou um bom perfil, ou apenas um trabalho. Você não ganha destaque se não trabalhar.
Eis a verdade: se você pode escolher entre fazer um teste para um excelente papel e para um ruim, você é privilegiado. Isso significa não só que você tem um ótimo agente que pode lhe abrir portas, mas também que preenche os requisitos para ser considerado para o papel. Nossa profissão, a qualquer momento, tem uma taxa de 95% de desemprego. Apenas 1% dos atores ganha 50 mil dólares ou mais por ano, e apenas quatro em cada 10 mil são famosos, e nem vamos definir o que é fama aqui. Esses quatro entre os 10 mil são as histórias que chegam à mídia. Escolher papéis, largar agentes, ganhar bem menos do que colegas do sexo masculino. Nunca se arrepender dos papéis que aceitou. E por aí vai.
Quem tem escolhas tem recursos. E as necessidades de um ator de pouco mais de 20 anos não são as necessidades das outras pessoas. Plano de saúde, hipoteca e filhos não são a prioridade da maioria dos jovens de pouco mais de 20 anos. Mesmo assim, há pessoas que almejam ser atores e não sabem que não devem dar ouvidos aos depoimentos dos privilegiados. Daqueles que são extremamente talentosos, mas também extraordinariamente sortudos. A sorte é um monstro esquivo, que escolhe quando sair de sua caverna e atacar seu alvo. É um negócio de privação.
Para cada ator que alcança a fama, existem milhares que fizeram exatamente a mesma coisa e não conseguiram chegar lá. A maioria dos atores que conheci na Juilliard, na Rhode Island College, no Circle in the Square Theatre e na competição Arts Recognition Talent Search não está mais no ramo. Acho que posso citar seis que continuaram, e a maioria você não conheceria. Isso não tem a ver com o talento deles, é a natureza desse meio. Acredite em mim quando digo que a maioria era bonita e talentosa, e alguns tinham agentes incríveis. É um jogo de uni-duni-tê que envolve sorte, networking, destino, tempo de carreira e, às vezes, talento.
Você faz testes de acordo com o nível em que está. É difícil perceber em que momento sua jornada para o topo foi mais fácil, mas a verdade é que não há facilidade. Mesmo que você faça o que a pessoa sortuda fez, há 99% de chance de as coisas não darem certo para você. Apenas mais ou menos 4% dos atores filiados ao sindicato Screen Actors Guild and American Federation of Television and Radio Artists (SAG-AFTRA) ganham o suficiente para ter direito a um plano de saúde, e isso significa que precisam ganhar pelo menos 20 mil dólares por ano. Essa é a nossa realidade.Em nossa sociedade, há o pensamento muito difundido de não aceitar nada que esteja “abaixo” de você. Essa mentalidade é algo difícil de se manter nesse ramo. Aqui está uma pergunta melhor: você quer ser ator ou quer ser um ator famoso? Se quer ser famoso, como o grande Alan Arkin disse, terá dificuldades. Se quiser ser ator, dará um jeito. Tome cuidado com atores que dizem que vivem recusando trabalhos e nunca escolheram fazer uma temporada de teatro recebendo apenas 250 dólares por semana para se sentirem realizados. A fama é inebriante.
Aos 28 anos eu estava acordando para a realidade. Estava me conscientizando do que significava ser uma mulher adulta, cuidando de mim mesma, mas também explorando como era me sentir realizada no meu ofício. Eram coisas completamente opostas. Eu também era uma grande farsa em alguns aspectos. Por um lado, estava paralisada. Tinha muito medo de procurar pela cidade e acabar encontrando um trabalho “só para pagar as contas”. Tivera tantos trabalhos assim no passado, e a ideia de ter que equilibrar isso com os testes estava pesando demais. Além disso, como eu fazia testes para teatro, cinema e TV, precisava de espaço para ensaiar. Passei anos me preparando no ônibus, no metrô e em pórticos de entrada de prédios. Eu precisava de espaço apenas para me concentrar no trabalho. Naquele primeiro ano, tudo era difícil e claustrofóbico. Tive momentos não de fome propriamente dita, mas de dificuldades. Era a realidade de ser uma atriz profissional.
Meu aluguel custava apenas 250 dólares, e às vezes era difícil conseguir até mesmo esse dinheiro. Mas eu queria ser excelente no que fazia, apesar de não saber como pagaria as contas. E por falar nelas, eu usava muito o telefone, gastava centenas de dólares e tinha contas altíssimas. Isso foi antes do celular, quando era necessário pagar por ligações de longa distância. Comia asinhas de frango todos os dias. Três xícaras de arroz branco no restaurante chinês custavam um dólar e vinte centavos. Metade disso custava sessenta centavos. As asinhas de frango custavam três dólares, e eu as comprava quando podia. Do contrário, minha proteína era arenque seco, salgado e defumado, que eu comprava nos mercados espanhóis. Dormia em um futon no chão do quarto que dividia com minha amiga Pilar. Toda a minha vida tinha sido de dificuldade e sobrevivência. Eu me sustentava desde os 17 anos. O fato de ser difícil, uma merda, não era novidade, mas o maior problema era conseguir manter a esperança e continuar acreditando em mim. Depois, encontrar uma comunidade artística que me apoiasse, enquanto eu lutava com todas as forças para sobreviver. Atuar era uma escolha, talvez uma escolha masoquista.
Meu primeiro trabalho quando saí da faculdade foi como atriz substituta de Danitra Vance, que interpretava a personagem Marisol em uma peça de José Rivera no Public Theater, fundado por Joseph Papp. Danitra foi a primeira mulher negra no Saturday Night Live e criou uma esquete famosa chamada “That Black Girl”. Era uma paródia do programa de Marlo Thomas nos anos 1970, That Girl. Danitra era extraordinária. Ela escrevia, cantava, atuava. Quando cheguei para ser sua substituta, ela tratava um câncer de mama em metástase.
Danitra ia à quimioterapia durante o dia e à noite fazia o espetáculo. Os tumores haviam se espalhado para a coluna. Eu não sabia disso até conversarmos um dia no camarim, e ela tirou a blusa. Foi a primeira vez que vi uma cicatriz de mastectomia.
Eu ganhava 250 dólares por semana e adorava. Nunca atuei ao longo das quatro ou cinco semanas em que trabalhei, mas tive uma conexão com Danitra. Lembro-me de ajudá-la a se mudar e de ouvir suas histórias. Eu adorava ouvir histórias. Quando soube que ela estava morrendo, liguei para ela e sua voz estava muito fraca.
Como você está? — perguntou ela.
Estou bem — respondi.
Eu ia reclamar sobre conseguir papéis e manter um fluxo de trabalho estável, mas tudo parecia irrelevante naquele momento.
Como você está? — perguntei.
Com raiva.
Silêncio.
Do que você está com raiva, Danitra? Eu só queria que ela falasse. A voz dela estava muito fraca e rouca. O câncer havia se espalhado e não havia nada que os médicos pudessem fazer. Ela estava morrendo.
Estou com raiva disso. Estou com raiva de estar morrendo.
Danitra, eu sinto muito.
Eu sei. Eu te amo. Estou cansada. Preciso desligar.
Um amigo em comum, Tommy Hollis, me contou uma história sobre Danitra. Ele disse que assistiu a uma performance dela chamada “The Feminist Stripper”. Elasubia no palco e começava a se despir. Havia música tocando, e ela fazia piadas enquanto tirava a roupa. Todo mundo rolava no chão de tanto rir e a aplaudia. Ela chegava às roupas de baixo e ficava de costas para a plateia, provocante, antes de tirar o sutiã. Então se virava e revelava a cicatriz da mastectomia; um grande X feito de fita a cobria. A reação era de silêncio coletivo, uma quietude implacável no ambiente. Todos foram forçados a encarar a mulher que estava naquele corpo, e não apenas o corpo em si. Tommy contou que seu coração quis sair pela boca e que nunca esqueceria aquela experiência.Ela morreu mais ou menos dois meses depois. Suas últimas palavras foram: “Vão pra rua festejar.”
[...]

Viola Davis, in Em busca de mim

A decadência do Ocidente

O doutor ganhou uma galinha viva e chegou em casa com ela, para alegria de toda a família. O filho mais moço, inclusive, nunca tinha visto uma galinha viva de perto. Já tinha até um nome para ela — Margarete — e planos para adotá-la, quando ouviu do pai que a galinha seria, obviamente, comida.
Comida?!
Sim, senhor.
Mas se come ela?
Ué. Você está cansado de comer galinha.
Mas a galinha que a gente come é igual a esta aqui?
Claro.
Na verdade o guri gostava muito de peito, de coxa e de asa, mas nunca tinha ligado as partes ao animal. Ainda mais aquele animal vivo ali no meio do apartamento.
O doutor disse que queria a galinha ao molho pardo. Há anos que não comia uma galinha ao molho pardo. A empregada sabia como se preparava galinha ao molho pardo? A mulher foi consultar a empregada. Dali a pouco o doutor ouviu um grito de horror vindo da cozinha. Depois veio a mulher dizer que ele esquecesse a galinha ao molho pardo.
A empregada não sabe fazer?
Não só não sabe fazer, como quase desmaiou quando eu disse que precisava cortar o pescoço da galinha. Nunca cortou um pescoço de galinha.
Era o cúmulo. Então a mulher que cortasse o pescoço da galinha.
Eu?! Não mesmo!
O doutor lembrou-se de uma velha empregada da sua mãe.
A Dona Noca. Não só cortava pescoços de galinha, como fazia isto com uma certa alegria assassina. A solução era a Dona Noca.
A Dona Noca já morreu — disse a mulher.
O quê?!
Há dez anos.
Não é possível! A última galinha ao molho pardo que eu comi foi feita por ela.
Então faz mais de dez anos que você não come galinha ao molho pardo.
Alguém no edifício se disporia a degolar a galinha. Fizeram uma rápida enquete entre os vizinhos. Ninguém se animava a cortar o pescoço da galinha. Nem o Rogerinho do 701, que fazia coisas inomináveis com gatos.
Somos uma civilização de frouxos! — sentenciou o doutor.
Foi para o poço do edifício e repetiu:
Frouxos! Perdemos o contato com o barro da vida!
E a Margarete só olhando.

Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora

Mas o significado real de iniciação... – T



Oc.
Mas o significado real da iniciação é que este mundo visível em que vivemos é um símbolo e uma sombra, que esta vida que conhecemos através dos sentidos é uma morte e um sono, ou, por outras palavras, que o que vemos é uma ilusão. A iniciação é o dissipar — um dissipar gradual, parcial — dessa ilusão. A razão do seu segredo é que a maior parte dos homens não está adaptada a compreendê-lo e, portanto, compreendê-lo-á mal e confundi-lo-á, se for tornado público. A razão de ele ser simbólico é que a iniciação não é um conhecimento, mas uma vida, e o homem deve, portanto, descobrir por si o que mostram os símbolos, porque, assim, viverá a vida deles, não se limitando a aprender as palavras em que são mostrados.
Dizer que Cristo é um símbolo do Sol é pôr o processo iniciatório ao invés. É o Sol que é o símbolo de Cristo. Por outras palavras, Cristo é a realidade e o Sol a ilusão, Cristo é a luz, e o Sol a sombra. (O Inefável é a luz; o GA, corpo; o mundo, sombra — a sombra projectada pelo denso quando iluminado pelo subtil. A luz está na circunferência e a sombra lançada para o centro. Isto tem alguma coisa a ver com o pt. dentro do c.?) (Cf. a ideia cabalística do En Soph retirando-se para dentro, manifestando-se dentro e não fora).
Iniciar um homem por um ritual complicado e mais ou menos impressivo e depois confiar-lhe, sob promessas de segredo e juras mais ou menos terríveis, que a Primavera vem depois do Inverno — isto nunca podia ter sido o plano de qualquer corpo ou sistema iniciático. Mas tê-lo-ia sido ensinar o contrário — que a Primavera, seguindo-se ao Inverno, é um símbolo de coisas maiores, que o natural é uma figuração do sobrenatural.
Isto, feito com mais ou menos pormenor, em símbolo, depois em doutrina, depois em revelação, é a essência de todas as verdadeiras iniciações, de Eleusis a Kilwinning.
Ordens de inic.: (I) através de símbolos e (mais tarde) explicações em si próprias simbólicas—cf. Pike; (2) através de doutrina simbólica, verdadeira ao seu nível, e explicações, já não simbólicas; (3) através de comunicação directa, embora não necessariamente falada ou expressa.
Não digo que estas coisas representem uma verdade e não digo que o não façam. Digo que este é o significado da iniciação, que é assim que a iniciação existe e que é para estes fins que ela existe.

Fernando Pessoa, em Escritos Ocultistas – O Caminho da Serpente e outros textos esotéricos

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Fluência

Eu fiz um livro, mas oh, meu Deus,
não perdi a poesia.
Hoje depois da festa,
quando me levantei para fazer café,
uma densa neblina acinzentava os pastos,
as casas, as pessoas com embrulho de pão.
O fio indesmanchável da vida tecia seu curso.
Persistindo, a necessidade dos relógios,
dos descongestionantes nasais.
Meu livro sobre a mesa contraponteava exato
com os pardais, os urinóis pela metade,
o antigo e intenso desejar de um verso.
O relógio bateu sem assustar os farelos sobre a mesa.
Como antes, graças a Deus.

Adélia Prado, em O Coração Disparado

Factótum


1

Cheguei em Nova Orleans, debaixo de chuva, às cinco da manhã. Fiquei sentado na rodoviária por um tempo, mas aquela gente me deprimiu, então peguei minha mala e comecei a andar na chuva mesmo. Eu não sabia onde ficavam as pensões, nem onde era a parte pobre.
A minha mala era de papelão e estava caindo aos pedaços. Ela já tinha sido preta, mas o verniz descascou e só aparecia o papelão amarelo. Eu tentei resolver passando pasta de sapato preto por cima do papelão exposto. Conforme eu andava na chuva, a pasta escorria e, sem perceber, fiquei com umas listras pretas nas duas pernas da calça porque trocava a mala de uma mão para a outra.
Bom, era uma cidade nova. Quem sabe eu daria sorte.
Parou de chover e o sol saiu. Eu estava no bairro negro. Caminhei mais devagar.
Ei, branquelo de merda!*
Coloquei a mala no chão. Uma mulher negra de pele clara** estava sentada nas escadas da varanda, balançando as pernas. Era uma mulher bonita.
Olá, seu branquelo de merda!
Não respondi, só fiquei ali parado, olhando para ela.
Quer dar umazinha, branquelo de merda?
Ela ria da minha cara. Estava com as pernas cruzadas e dava chutinhos com os pés; tinha umas pernas bonitas, estava montada em um salto, esperneava e ria. Peguei a mala e me aproximei dela pela calçada. Quando fiz isso, notei uma cortina lateral se mexer um pouco na janela à minha esquerda. Vi o rosto de um homem negro. Ele era a cara do Jersey Joe Wolcott***. Recuei o passo. A risada da mulher me seguiu pela rua.

Notas:
* Em inglês, “white trash” é um termo pejorativo usado para se referir a pessoas brancas e pobres. Segundo a historiadora Nancy Isenberg, no livro White Trash: The 400-Year Untold History of Class in America (2017) [Lixo branco: os 400 anos de história não contada sobre classe na América, em tradução livre], o termo apareceu, pela primeira vez, em um jornal estadunidense na década de 1820. Porém, o termo teria origem ainda na época da colonização britânica, com a ideia de que as colônias eram lugares que funcionavam como depósitos de pessoas indesejáveis, ou seja, presidiários, pobres, desempregados etc.. [N.T.]
** O termo usado pelo autor é “high yellow” e, segundo o dicionário Collins, é usado de forma pejorativa para denominar uma pessoa negra de pele clara ou, ainda, uma pessoa negra que seja filha de casal birracial. Optou-se, de forma deliberada, por uma expressão que não fosse racista em português brasileiro. [N.T.]
*** Jersey Joe Walcott (1914-1994), também grafado como Wolcott, como no livro, foi um pugilista estadunidense. Filho de imigrantes do Barbados, foi campeão várias vezes na categoria peso-pesado. [N.T.]

Charles Bukowski, em Factótum

Namorados públicos

Da mesma forma que os monumentos históricos ou artísticos, as belezas naturais, os bailes e cafés, os parques e jardins – os casais de namorados são coisa que pertencem ao patrimônio de uma cidade. Uma cidade sem namorados públicos não é uma verdadeira cidade. Os cicerones de Paris costumam mostrá-los aos turistas, inteiramente despreocupados em suas ternuras, como típicas curiosidades locais. No Hyde Park, em Londres, é possível vê-los às centenas, sobre o gramado esmeralda desse parque inexcedível como se estivessem em casa. O transeunte margeia beijos intermináveis, abraços infinitos, olhares abissais, namorados que leem romances, namorados que dormem, namorados que brigam, a um passo uns dos outros, perfeitamente indiferentes ao que lhes vai em torno, – e o que é formidável – guardados da curiosidade, ou malícia alheias, por um passante constable, cuja função é zelar pela perfeita consecução de seus carinhos, com uma imparticipação e fidelidade dignas de todos os aplausos. É claro que os namorados não abusam. Mas nessa questão de carinhos de superfície eles se permitem um uso inumerável. Estrafegam-se em beijos que fariam a inveja de John Gilbert ao tempo da sua paixão por Greta Garbo. Dão-se abraços de não se saber mais quem é o outro. Fazem-se cafunés maravilhosos, esfregam-se os narizes, acarinham-se os rostos, enfim: tudo isso que faz a deliciosa cozinha dos que se amam e que vem sendo a mesma desde os tempos mais recuados no tempo.
Ninguém pode dizer que o Rio não seja uma cidade de namorados: ela o é. Seria difícil, aliás, compreender-se uma cidade tão pródiga em beleza, sem namorados. Mas são namorados, meu Deus, ou tão ousados ou tão tímidos que parecem uma contrafação da natureza humana diante da Natureza. Grande culpada disso foi, até certo tempo, a nossa polícia de costumes, que arrolava todas as carícias de namorados dentro de um mesmo código moral, chegando até ao abuso de prender gente casada que saía para namorar fora de casa. Não. Há carícias e carícias. Que mal existe em se beijarem os namorados em praça pública ou nos cantos de rua? Em que uma coisa dessas ofende a moral? Por que não se poderão eles abraçar ternamente, quando tiverem vontade? Pois parece incrível: outro dia um amigo meu contou que foi “apitado” várias vezes por um guarda do Jardim Botânico, por estar dando um “peguinha” na namorada. De fato: é justo, mais do que justo, que se moralizem os costumes. Nada mais certo. Mas perseguir os namorados, da mesma forma que arrancar as plantas dos parques, ou maltratar os animais, é indício de mau caráter. Que os namorados se beijem à vontade nesta linda Rio de Janeiro. Nada há de mal no beijo dos namorados, como no amor dos pássaros. Deixai-os nos seus parques, nas suas ruas escuras, nos seus portões de casa. Deixai-os namorar, Senhor Prefeito, Senhor Diretor do Jardim Botânico, deixai-os namorar, porque eles têm cada dia menos lugares onde ir esconder seus anseios. Deixai-os se beijarem à vontade, porque o que em seus beijos irrita os burgueses moralizantes é justamente essa liberdade, essa beleza, essa poesia, esse voo que há num beijo de amor. Tréguas aos namorados!

Vinicius de Moraes, em Para viver um grande amor

Chico Buarque | Paratodos

O mistério do telegrama

Há tanta história horrivelmente triste sobre interrogatórios e prisões, que acho que vale a pena contar uma, verdadeira e engraçada, acontecida há algum tempo. Altero apenas os nomes dos personagens, mas garanto a autenticidade do caso, que está registrado em cartório.
Uma senhora (por sinal bem bonita) passou um telegrama a um cavalheiro, com quem andava de amores. O telegrama era um tanto estranho; foi retido, e a sua remetente, detida, passou toda uma noite na polícia. Eis o relato de seu interrogatório: "Aos dez dias do mês de outubro de mil novecentos e... às vinte e três horas e trinta minutos, na Delegacia de Ordem Política e Social, compareceu Maria da Silva, brasileira, desquitada, com 33 anos, residente na rua tal, número tal, apartamento tal, em Copacabana, a fim de esclarecer um telegrama que fora passado e interceptado na Agência Telegráfica do Galeão.
Tendo a declarante sido inquirida, DISSE: A propósito de um telegrama que fora interceptado na Agência Telegráfica do Galeão, expedido pela declarante no dia 9 do corrente mês, aproximadamente às 13 horas, em que figurava como destinatário o sr. Dr. João Silveira, residente na rua tal, número tal, em Belo Horizonte, vazado nos seguintes termos: Tombai — Igreja — Arco-íris — Borboleta — Camelo — Pressão baixa — Rosas vermelhas — Pianista — Vitória — Bahia — Recife — Aeroporto — Eu te amo — Saudades — Maria', esclareceu a declarante: POMBAL — se refere a um pombal existente no Parque de Florianópolis, que, visto ao entardecer, causou a ambos grande impressão; IGREJA — templo católico no Recife onde ambos fizeram um pedido; ARCO-ÍRIS — sensação visual experimentada pela declarante, quando viajava de avião, a baixa altura, em companhia do Dr. João Silveira, ao verem eles, por cinco vezes consecutivas, a aparição de um arco-íris, no trajeto entre Rio e Ilhéus; BORBOLETA — sendo a declarante supersticiosa e acreditando que borboleta amarela traz sorte, e tendo visto uma no início e outra no fim da viagem, ficou impressionada; CAMELO — que a declarante, ao visitar o Parque de Florianópolis em companhia do Dr. João Silveira, teve a oportunidade de se dirigir a um camelo nos seguintes termos: 'Senhor camelo, o senhor não preferia estar agora no deserto, a estar aqui neste parque com todo o conforto?' Que o camelo, com um gesto afirmativo de cabeça, confirmou. Que a declarante fez questão de esclarecer que, tendo sido assistente de Zoologia no Jardim Zoológico do Rio de Janeiro de mil novecentos e sessenta a mil novecentos e sessenta e dois, devotava grande afeição aos animais, especialmente ao camelo, pela sua solidão; PRESSÃO BAIXA — que o Dr. João Silveira, ao se despedir, frequentemente, da declarante, demonstrava a sua tristeza ao se separar com a sua forte queda de pressão; ROSAS VERMELHAS — que a declarante sempre se acha cercada de rosas vermelhas e, quando obsequiada pelo Dr. João com essas flores, dá a isso enorme valor; PIANISTA — esclareceu que se refere a um pianista que toca maravilhosamente, apesar de cego, num restaurante em Recife, de nome Restaurante Leite, e que nessa viagem teve a oportunidade de distinguir o casal, com a música de sua predileção: O Amor É a Coisa Mais Esplêndida do Mundo; VITÓRIA — BAHIA — RECIFE — localidades onde o casal esteve e sobretudo onde teve a ocasião de experimentar essas sensações; AEROPORTO — local das despedidas do casal, onde sempre um levava saudades do que ficava; EU TE AMO — que a declarante acha desnecessário, digo, que a frase em si dispensa maiores esclarecimentos; e finalmente: SAUDADES — que a declarante afirma que só quem a sente é quem sabe, e que só usou essa frase como despedida; que, perguntado à declarante sobre a razão da expedição do referido telegrama, esclareceu que o mesmo tinha o objetivo de reviver momentos felizes que viveram em comum, dando a ele uma surpresa agradável no meio de sua vida atribulada de homem de negócios; que a declarante faz questão de esclarecer que não havia nenhuma intenção subversiva e que essa declaração e esses incidentes referidos poderão ser confirmados pelo dr. João; que a declarante, no ato de suas declarações, se compromete a comparecer a esta delegacia a qualquer momento, a respeito do referido assunto.
E mais não disse nem lhe foi perguntado. E como nada mais houvesse a lavrar, mandou a autoridade encerrar o presente, o qual, depois de lido e achado conforme, assina com a declarante. Eu, Fulano de Tal, escrivão, o datilografei e assino.
Dezembro, 1969

Rubem Braga, em Recado de primavera

Leitura intramuros



[...]
***

Pelo menos dois tipos diferentes de leitura parecem ocorrer dentro de um grupo segregado.
No primeiro, as leitoras, como arqueólogas imaginativas, abrem caminho através da literatura oficial para resgatar das entrelinhas a presença de suas colegas proscritas, para encontrar espelhos de si mesmas nas histórias de Clitemnestra, de Gertrude, das cortesãs de Balzac. No segundo tipo, as leitoras tornam-se escritoras, inventando para si mesmas novas maneiras de contar histórias, a fim de redimir sobre a página as crônicas cotidianas de suas vidas confinadas ao laboratório da cozinha, ao estúdio da saleta de costura, às selvas do quarto das crianças.
Há talvez uma terceira categoria, em algum ponto entre essas duas. Muitos séculos depois de Sei Shonagon e Murasaki Shikibu, do outro lado do globo, a escritora inglesa George Eliot, escrevendo sobre a literatura de sua época, descreveu o que chamou “romances tolos de Senhoras Romancistas [...] um gênero com muitas espécies, determinado pela qualidade particular de tolice que predomina neles – o frívolo, o prosaico, o devoto ou o pedante. Mas é uma mistura de todos – uma ordem compósita de fatuidade feminina responsável pela produção da maior parte de tais romances, que deveremos distinguir como sendo da espécie cérebro-e-chapelaria.” [...] A desculpa habitual para as mulheres que se tornam escritoras sem nenhuma qualificação especial é que a sociedade as segrega de outras esferas de ocupação. A sociedade é uma entidade que tem uma boa dose de culpa, devendo responder pela manufatura de muitas mercadorias insalubres, de picles ruins a má poesia. Mas, como “assunto”, a sociedade, o Governo de Sua Majestade e outras abstrações grandiosas têm uma fatia excessiva de acusação, bem como de elogio”. E concluía ela: ‘Em toda labuta há proveito’; mas os romances tolos das senhoras, imaginamos, resultam menos da labuta do que da ociosidade atarefada”. O que George Eliot descrevia era uma ficção que, embora escrita dentro do grupo, limita-se praticamente a repetir os estereótipos e preconceitos oficiais que, antes de mais nada, conduziram à criação do grupo.
Tolice era também a falha que a senhora Murasald, como leitora, via na escrita de Sei Shonagon. Porém, a diferença óbvia era que Sei Shonagon não oferecia a suas leitoras uma versão ridicularizada da imagem delas tal como consagrada pelos homens. O que Murasaki achava frívolo era o tema: o mundo cotidiano dentro do qual ela mesma vivia, um mundo cuja trivialidade Sei Shonagon documentara com tanta atenção como se fora o mundo cintilante de Genji. Apesar das críticas de sua colega, o estilo de literatura íntimo e aparentemente banal de Sei Shonagon floresceu entre as mulheres leitoras da época. O exemplo mais antigo desse período é o diário de uma senhora da corte conhecida apenas como a "Mãe de Michitsuna" – o Diário do fim do verão ou Diário fugaz. Nele a autora tentou fazer a crônica, tão fiel quanto possível, da realidade de sua existência. Falando em si mesma na terceira pessoa, escreveu: "Enquanto os dias arrastavam-se monotonamente, ela lia os velhos romances e achava a maioria deles uma coleção de invenções grosseiras. Talvez, disse para si mesma, a história de sua existência enfadonha, na forma de um diário, pudesse provocar algum grau de interesse. Talvez pudesse até ser capaz de responder: isto é vida apropriada para uma dama bem-nascida?".
Apesar das críticas da senhora Murasaki, é fácil entender por que a forma confessional, a página em que uma mulher podia parecer estar dando “rédeas soltas às emoções”, tornou-se o material de leitura favorito das mulheres do período Heian. Genji apresentava algo da vida das mulheres nas personagens que cercavam o príncipe, mas O livro de travesseiro dava espaço para que as leitoras se tornassem suas próprias historiadoras.
Há quatro maneiras de escrever a vida de uma mulher”, sustenta a crítica americana Carolyn G. Heilbrun. “A própria mulher pode contá-la, no que ela escolhe chamar autobiografia; pode contá-la no que escolhe chamar ficção; um(a) biógrafo(a) pode escrever a vida de uma mulher no que é chamado de biografia; ou a mulher pode escrever sua própria vida antes de vivê-la, inconscientemente, sem reconhecer ou nomear o processo.”
A rotulagem cuidadosa que Carolyn Heilbrun faz das formas também corresponde vagamente às distintas literaturas que as escritoras do período Heian produziram: monogatari (romances), livros de travesseiro e outros. Nesses textos, as leitoras encontravam suas próprias vidas vividas ou não vividas, idealizadas ou fantasiadas, ou expostas com prolixidade e fidelidade documentais. Essa costuma ser a norma em se tratando de leitores segregados: a literatura que exigem é confessional, autobiográfica e até didática, porque leitores cujas identidades são negadas não têm outro lugar onde encontrar suas histórias exceto na literatura que eles mesmos produzem. No século XVII, em Portugal, sóror Mariana Alcoforado (ou, com maior probabilidade, um autor anônimo que usou seu nome) encontrou nas cartas de amor proibidas um meio de atravessar as paredes do claustro. Essas famosas Cartas portuguesas, que inspiraram o romance de Diderot La religieuse, se tornam, na verdade, material de leitura para a própria freira, como substituição do amante ausente e remédio para seu desejo insatisfeito, um lugar onde pode encenar sua vida erótica, um recinto dentro do qual palavras, em vez de ações, encarnam os eventos de sua paixão, dando um relato factual de seu amor impossível. Num argumento aplicado à leitura homossexual - e que pode ser perfeitamente aplicado à leitura feminina, à leitura de qualquer grupo excluído do reino do poder -, o escritor americano Edmund White observa que tão logo alguém nota que ele (podemos acrescentar – “ou ela”) é diferente, essa pessoa deve responder por isso, e que tais prestações de contas são um tipo primitivo de ficção, “as narrativas orais contadas e recontadas como conversa de travesseiro, ou em bares, ou no divã do psicanalista”. Ao contar “uns para os outros - ou para o mundo hostil em torno deles - as histórias de suas vidas, não estão apenas registrando o passado, mas também dando forma ao futuro, forjando uma identidade e, ao mesmo tempo, revelando-a”. Em Sei Shonagon, bem como na sra. Murasaki, encontram-se as sombras da literatura feminina que lemos hoje.
Uma geração depois de George Eliot, na Inglaterra vitoriana, a Gwendolen de Oscar Wilde, em A importância de ser sério, declarava que jamais viajava sem seu diário porque “deve-se sempre ter algo sensacional para ler no trem”; ela não estava exagerando. Na definição de Cecily, réplica de Gwendolen, um diário era “simplesmente um registro, feito por uma moça muito jovem, de seus pensamentos e impressões e, consequentemente, destinado a publicação”. A publicação – ou seja, a reprodução de um texto a fim de multiplicar seus leitores através de cópias manuscritas, da leitura em voz alta ou da imprensa – permitiu às mulheres encontrar vozes similares às suas, descobrir que seu fardo não era único, descobrir na confirmação da experiência uma base sólida sobre a qual construir uma imagem autêntica de si mesmas. Isso foi verdade tanto para as mulheres do período Heian como para George Eliot.
Diferentes das papelarias da minha infância, as livrarias de hoje não têm somente os livros para mulheres distribuídos no mercado por interesses comerciais alheios ao negócio, para determinar e limitar o que uma mulher deve ler, mas também os livros criados de dentro do grupo, nos quais mulheres escrevem para elas mesmas aquilo que está ausente dos textos oficiais. Isso estabelece a tarefa da leitora, talvez prevista pelas escritoras do período Heian: escalar as paredes: pegar qualquer livro que pareça atraente, despi-lo daquelas coloridas capas codificadas e arrumá-lo entre os volumes que o acaso e a experiência puseram na sua mesinha-de-cabeceira.

Alberto Manguel, em Uma História da Leitura

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Calvin e Haroldo

Intelectual? Não.

Outra coisa que não parece ser entendida pelos outros é quando me chamam de intelectual e eu digo que não sou. De novo, não se trata de modéstia e sim de uma realidade que nem de longe me fere. Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto. Ser intelectual é também ter cultura, e eu sou tão má leitora que agora já sem pudor, digo que não tenho mesmo cultura. Nem sequer li as obras importantes da humanidade. Além do que leio pouco: só li muito, e lia avidamente o que me caísse nas mãos, entre os treze e quinze anos de idade. Depois passei a ler esporadicamente, sem ter a orientação de ninguém. Isto sem confessar que — dessa vez digo-o com alguma vergonha — durante anos só lia romance policial. Hoje em dia, apesar de ter muitas vezes preguiça de escrever, chego de vez em quando a ter mais preguiça de ler do que de escrever.
Literata também não sou porque não tornei o fato de escrever livros “uma profissão”, nem uma “carreira”. Escrevi-os só quando espontaneamente me vieram, e só quando eu realmente quis. Sou uma amadora?
O que sou então? Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável. Sobretudo uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Sonha Alonso Quijano

O homem acorda de um não definido 
Sonho de alfanges e de plano chão 
E tocando sua barba com a mão 
Se pergunta se está morto ou está ferido.
Não o perseguiram os feiticeiros 
Que juraram seu fim à luz da lua?
Nada. Só o frio. Somente a sua 
Doença dos anos derradeiros.
O fidalgo foi um sonho de Cervantes 
E Dom Quixote, um sonho do fidalgo.
O duplo sonho os confunde, e algo 
está ocorrendo, e ocorreu já antes.
Quijano dorme e sonha. Uma batalha: 
Os mares de Lepanto e a metralha.

Jorge Luis Borges, em Livro de Sonhos

Diário de Bernardo Soares

92.

(a child hand's playing with cotton-reels, etc.)

Eu nunca fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida. Nunca tive outra preocupação verdadeira senão a minha vida interior. As maiores dores da minha vida esbatem-se-me quando, abrindo a janela para dentro de mim, pude esquecer-me na visão do seu movimento.
Nunca pretendi ser senão um sonhador. A quem me falou de viver nunca prestei atenção. Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser. Tudo o que não é meu, por baixo que seja, teve sempre poesia para mim. Nunca amei senão coisa nenhuma. Nunca desejei senão o que nem podia imaginar. À vida nunca pedi senão que passasse por mim sem que eu a sentisse. Do amor apenas exigi que nunca deixasse de ser um sonho longínquo. Nas minhas próprias paisagens interiores, irreais todas elas, foi sempre o longínquo que me atraiu, e os aquedutos que se esfumavam — quase na distância das minhas paisagens sonhadas, tinham uma doçura de sonho em relação às outras partes da paisagem — uma doçura que fazia com que eu as pudesse amar.
A minha mania de criar um mundo falso acompanha-me ainda, e só na minha morte me abandonará. Não alinho hoje nas minhas gavetas carros de linha e peões de xadrez — com um bispo ou um cavalo acaso sobressaindo – mas tenho pena de o não fazer.., e alinho na minha imaginação, confortavelmente, como quem no inverno se aquece a uma lareira, figuras que habitam, e são constantes e vivas, na minha vida interior. Tenho um mundo de amigos dentro de mim, com vidas próprias, reais, definidas e imperfeitas.
Alguns passam dificuldades, outros têm uma vida boémia, pitoresca e humilde. Há outros que são caixeiros-viajantes. (Poder sonhar-me caixeiro-viajante foi sempre uma das minhas grandes ambições – irrealizável infelizmente!) Outros moram em aldeias e vilas lá para as vizinhanças de um Portugal dentro de mim; vêm à cidade, onde por acaso os encontro e reconheço, abrindo-lhes os braços, numa atração ... E quando sonho isto, passeando no meu quarto, falando alto, gesticulando.., quando sonho isto, e me visiono encontrando-os, todo eu me alegro, me realizo, me pulo, brilham-me os olhos, abro os braços e tenho uma felicidade enorme, real.
Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!
O que eu sinto quando penso no passado que tive no tempo real, quando choro sobre o cadáver da vida da minha infância ida,... Isso mesmo não atinge o fervor doloroso e trémulo com que choro sobre não serem reais as figuras humildes dos meus sonhos, as próprias figuras secundárias que me recordo de ter visto uma só vez, por acaso, na minha pseudovida, ao virar uma esquina da minha visionação, ao passar por um portão numa rua que subi e percorri por esse sonho fora.
A raiva de a saudade não poder reavivar e reerguer nunca é tão lacrimosa contra Deus, que criou impossibilidades, do que quando medito que os meus amigos de sonho, com quem passei tantos detalhes de uma vida suposta, com quem tantas conversas iluminadas, em cafés imaginários, tenho tido, não pertenceram, afinal, a nenhum espaço onde pudessem ser, realmente, independentes da minha consciência deles!
Oh, o passado morto que eu trago comigo e nunca esteve senão comigo! As flores do jardim da pequena casa de campo e que não existiu senão em mim. As hortas, os pomares, o pinhal, da quinta que foi só um meu sonho! As minhas vilegiaturas supostas, os meus passeios por um campo que nunca existiu! As árvores de à beira da estrada, os atalhos, as pedras, os camponeses que passam... Tudo isto, que nunca passou de um sonho, está guardado na minha memória a fazer de dor e eu, que passei horas a sonhá-los, passo horas depois a recordar tê-los sonhado e é, na verdade, saudade que eu tenho, um passado que eu choro, uma vida-real morta que fito, solene no seu caixão.
Há também as paisagens e as vidas que não foram inteiramente interiores. Certos quadros, sem subido relevo artístico, certas oleogravuras que havia em paredes com que convivi muitas horas — passam a realidade dentro de mim. Aqui a sensação era outra, mais pungente e triste. Ardia-me não poder estar ali, quer eles fossem reais ou não. Não ser eu, ao menos, uma figura a mais desenhada ao pé daquele bosque ao luar que havia numa pequena gravura de um quarto onde dormi já não em pequeno!
Não poder eu pensar que estava ali oculto, no bosque à beira do rio, por aquele luar eterno (embora mal desenhado), vendo o homem que passa num barco por baixo do debruçar-se de um salgueiro! Aqui o não poder sonhar inteiramente doía-me. As feições da minha saudade eram outras. Os gestos do meu desespero eram diferentes. A impossibilidade que me torturava era de outra ordem de angústia. Ah, não ter tudo isto um sentido em Deus, uma realização conforme o espírito dos nossos desejos, não sei onde, por um tempo vertical, consubstanciado com a direção das minhas saudades e dos meus devaneios! Não haver, pelo menos só para mim, um paraíso feito disto! Não poder eu encontrar os amigos que sonhei, passear pelas ruas que criei, acordar, entre o ruído dos galos e das galinhas e o rumorejar matutino da casa, na casa de campo em que eu me supus... E tudo isto mais perfeitamente arranjado por Deus, posto naquela perfeita ordem para existir, na precisa forma para eu o ter que nem os meus próprios sonhos atingem senão na falta de uma dimensão do espaço intimo que entretém essas pobres realidades...
Ergo a cabeça de sobre o papel em que escrevo... E cedo ainda. Mal passa o meio-dia e é domingo. O mal da vida, a doença de ser consciente, entra com o meu próprio corpo e perturba-me. Não haver ilhas para os inconfortáveis, alamedas vetustas, inencontráveis de antes, para os isolados no sonhar! Ter de viver e, por pouco que seja, de agir; ter de roçar pelo facto de haver outra gente, real também, na vida! Ter de estar aqui escrevendo isto, por me ser preciso à alma fazê-lo, e, mesmo isto, não poder sonhá-lo apenas, exprimi-Lo sem palavras, sem consciência mesmo, por uma construção de mim próprio em música e esbatimento, de modo que me subissem as lágrimas aos olhos só de me sentir expressar-me, e eu fluísse, como um rio encantado, por lentos declives de mim próprio, cada vez mais para o inconsciente e o Distante, sem sentido nenhum exceto Deus.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Michael Pipoquinha | Lugar Comum

Tem cada um...

Tem, por exemplo, o Victor, que não perde oportunidade de ostentar sua cultura, para divertimento e, às vezes, irritação da turma. Como na vez em que houve um silêncio na mesa do bar em que eles se reuniam e o Victor disse:
Eu conheço este silêncio de um filme do Bergman.
O Marcão não aguentou.
Como, de um filme do Bergman? Como um silêncio pode ser igual a outro silêncio, que não tem nada a ver?
O Victor apenas sorriu. Não poderia esperar que o Marcão, logo o Marcão, entendesse. O que mais irritava o Marcão era aquele sorriso do Victor.

Mas a melhor do Victor quem contou foi o Mendonça, médico, que também frequentava a turma. O Victor andava tossindo muito, e expectorando, e procurara o Mendonça no seu consultório.
Acho que peguei a gripe.
Você tem muito catarro? — perguntara o médico.
Tenho.
De que cor é o catarro?
E então o Victor pensara um pouco e respondera:
Sabe o verde daquele afresco do Tiepolo no Palazzo Clerici, em Milão?
O Victor estava presente na mesa quando o dr. Mendonça contou o fato e apenas sorriu diante da gargalhada geral da turma. Depois deu de ombros e disse:
O que eu vou fazer se vocês não viajam?
O Marcão ficou pra morrer.

E tem o Pinheiro, também chamado Pinho, cujo sono é lendário. Contam que o Pinho não pode ir ao cinema porque dorme no começo do filme, sempre. Filme de caubói, filme de guerra, inclusive intergalática... Não via nem os créditos completos.
Você chegou a ver o nome do diretor, Pinho?
Não, fui só até o produtor.
Mas não deve ser verdade o que contam sobre a separação do Pinho.

Contam que o casamento do Pinho e da Eneida não estava dando certo — em grande parte porque o Pinho invariavelmente dormia quando a Eneida começava a lhe dizer alguma coisa, às vezes no meio de uma frase. E que um dia a Eneida levantara da cama do casal, saíra à rua, contratara uma empresa de mudança e voltara com três carregadores, que passaram a tirar tudo de dentro do apartamento. Tudo. Geladeira, fogão, móveis da sala, televisão, mesa de jantar...
Este armário também vai, dona?
Tudo.
Deixaram o quarto de dormir, onde o Pinho ainda roncava em cima da cama, para o fim. E o quarto também foi esvaziado.
E a cama, dona?
Eneida hesitou. Levava ou deixava a cama? Decidiu:
A cama vai.
E o doutor?
Fica. Deixem o colchão pra ele.

Aqui as versões divergem. Há quem diga que a Eneida voltou atrás e mandou carregarem o colchão também, deixando o Pinho dormindo no chão. Outros dizem que o colchão, misericordiosamente, ficou. Mas todos concordam que, como não havia mais nada no apartamento onde colocar o bilhete de despedida que escrevera para o marido, a Eneida o colocara entre dois dedos do seu pé. Para o Pinho ler quando acordasse.

Luís Fernando Veríssimo, em Diálogos Impossíveis