15/10/2026

Acerca do Amor | Zelitto Coringa e Elilson José Batista

10 paezinhos, de Fábio Moon e Gabriel Bá

 

Diário de Bernardo Soares

138.

Há uma erudição do conhecimento, que é propriamente o que se chama erudição, e há uma erudição do entendimento, que é o que se chama cultura. Mas há também uma erudição da sensibilidade.
A erudição da sensibilidade nada tem a ver com a experiência da vida. A experiência da vida nada ensina, como a história nada informa. A verdadeira experiência consiste em restringir o contacto com a realidade e aumentar a análise desse contacto. Assim a sensibilidade se alarga e aprofunda, porque em nós está tudo; basta que o procuremos e o saibamos procurar.
Que é viajar, e para que serve viajar? Qualquer poente é o poente; não é mister ir vê-lo a Constantinopla. A sensação de libertação, que nasce das viagens? Posso tê-la saindo de Lisboa até Benfica, e tê-la mais intensamente do que quem vá de Lisboa à China, porque se a libertação não está em mim, não está, para mim, em parte alguma. “Qualquer estrada”, disse Carlylé, “até esta estrada de Entepfuhl, te leva até ao fim do mundo.” Mas a estrada de Entepfuhl, se for seguida toda, e até ao fim, volta a Entepfuhl; de modo que o Entepfuhl, onde já estávamos, é aquele mesmo fim do mundo que íamos a buscar.
Condillac começa o seu livro célebre, “Por mais alto que subamos e mais baixo que desçamos, nunca saímos das nossas sensações”. Nunca desembarcamos de nós. Nunca chegamos a outrem, senão outrando-nos pela imaginação sensível de nós mesmos. As verdadeiras paisagens são as que nós mesmos criamos, porque assim, sendo deuses delas, as vemos como elas verdadeiramente são, que é como foram criadas. Não é nenhuma das sete partidas do mundo aquela que me interessa e posso verdadeiramente ver; a oitava partida é a que percorro e é minha.
Quem cruzou todos os mares cruzou somente a monotonia de si mesmo. Já cruzei mais mares do que todos. Já vi mais montanhas que as que há na terra.
Passei já por cidades mais que as existentes, e os grandes rios de nenhuns mundos fluíram, absolutos, sob os meus olhos contemplativos.
Se viajasse, encontraria a cópia débil do que já vira sem viajar.
Nos países que os outros visitam, visitam-nos anónimos e peregrinos. Nos países que tenho visitado, tenho sido, não só o prazer escondido do viajante incógnito, mas a majestade do Rei que ali reina, e o povo cujo uso ali habita, e a história inteira daquela nação e das outras. As mesmas paisagens, as mesmas casas eu as vi porque as fui, feitas em Deus com a substância da minha imaginação.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Todas as vidas

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau­-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai de santo...

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são­-caetano.

Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute benfeito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho­-sal.

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca­-grossa,
de chinelinha,
e filharada.

Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.

Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.

Cora Coralina, em Poemas dos becos de Goiás e estórias mais

Lembra de Pearl Harbor?



Tínhamos que ir ao pátio de exercícios duas vezes por dia, no meio da manhã e no meio da tarde. Não havia muito o que fazer. As amizades entre os homens eram baseadas principalmente naquilo que os havia colocado na prisão. Como meu companheiro de cela, Taylor, disse, os molestadores de crianças e os casos de atentado ao pudor estavam na parte mais baixa da sociedade carcerária, enquanto os grandes trapaceiros e os estelionatários estavam no topo.
Taylor não falava comigo no pátio de exercícios. Caminhava com um grande trapaceiro. Eu sentava sozinho. Alguns dos rapazes enrolavam uma camiseta para dar-lhe a forma de uma bola e jogavam com ela. Pareciam gostar disso. As instalações para o entretenimento dos internos não eram lá essas coisas.
Sentei por ali. Logo notei um amontoamento de homens. Era o jogo de dados. Levantei e fui até lá. Tinha pouco menos de um dólar em moedas. Observei alguns lances. O homem com os dados ganhou três rodadas seguidas. Senti que a sorte dele tinha acabado e o desafiei. Ele jogou os dados e perdeu. Ganhei 25 centavos.
Cada vez que alguém entrava numa maré de sorte, eu esperava até que imaginasse que sua maré tivesse recuado. Então apostava contra ele. Notei que os outros homens apostavam em todas as rodadas. Fiz seis apostas e ganhei cinco delas. Então nos fizeram marchar de volta para as nossas celas. Eu ganhara um dólar.
Na manhã seguinte, entrei no jogo mais cedo. Ganhei dois dólares e cinquenta centavos pela manhã e um dólar e 75 centavos à tarde. Quando o jogo acabou, um jovem veio até mim e disse:
– Parece que você está indo bem, senhor.
Dei ao garoto quinze centavos. Ele seguiu caminhando. Outro sujeito se aproximou de mim.
– Você deu algo para aquele filho da puta?
– Sim. Quinze centavos.
– Ele sempre ganha uma porcentagem da rodada. Não dê nada pra ele.
– Não tinha percebido.
– É. Ele ganha. A cada rodada, ele ganha um pouco.
– Vou observá-lo amanhã.
– Além disso, ele é um cretino, dos que estão aqui por atentado ao pudor. O negócio dele é mostrar o pau pras garotinhas.
– É – eu disse –, detesto esses otários.

A comida era muito ruim. Uma noite, depois da janta, mencionei ao Taylor que estava ganhando nos dados.
– Sabe – ele disse –, dá para comprar comida aqui, comida boa.
– Como?
– O cozinheiro aparece depois que apagam as luzes. A comida do diretor, a melhor. Sobremesa, tudo o que você quiser. O cozinheiro é bom. O diretor lhe deu o emprego por causa disso.
– Quanto sairia alguns jantares pra gente?
– Dê uns dez centavos pra ele. Não mais de quinze.
– Só isso?
– Se der mais, ele vai achar que você é um trouxa.
– Tudo bem. Quinze centavos.
Taylor combinou tudo. Na próxima noite, após apagarem as luzes, esperamos matando os percevejos da cama, um a um.
– Aquele cozinheiro matou dois homens. É um tremendo filho da puta, um tipo cruel. Matou um sujeito, cumpriu dez anos, saiu da prisão e dois ou três dias depois matou outro. Esta é uma prisão para crimes de penas curtas, mas o diretor o mantém aqui porque ele cozinha muito bem.
Ouvimos alguém se aproximando. Era o cozinheiro. Levantei e ele passou a comida pela grade. Caminhei até a mesa e depois voltei para a porta da cela. O filho da puta era enorme, assassino de dois homens. Dei-lhe quinze centavos.
– Obrigado, camarada, quer que eu volte amanhã à noite?
– Todas as noites.
Taylor e eu sentamos e comemos. Tudo estava em pratos. O café estava bom e quente, a carne, um rosbife, estava macia. Purê de batatas, ervilhas, biscoitos, molho de carne, manteiga e torta de maçã. Havia cinco anos que não comia tão bem.
– O cozinheiro estuprou um marinheiro outro dia. Deixou-o tão mal que o marinheiro não podia caminhar. Tiveram que hospitalizá-lo.
Enchi a boca de purê e ervilhas.
– Você não precisa se preocupar – disse Taylor. – Você é tão feio que ninguém o estupraria.
– Estava mais preocupado em conseguir um pouco de sexo.
– Bem, vou apontar os putos. Alguns têm dono e outros não.
– A comida está ótima.
– Porra, muito boa. Como eu ia dizendo, há dois tipos de putos por aqui. Os que chegam como putos e os que viram putos aqui dentro. Nunca tem putos suficientes para todo mundo, então os garotos têm que criar alguns extras para satisfazer suas necessidades.
– Isso está bem.
– Os que viraram putos na prisão são normalmente um pouco agressivos por causa das surras que levam. Resistem no começo.
– É mesmo?
– Sim. Até que decidem que é melhor viver como um puto do que morrer como virgem.
Terminamos nossa janta, fomos para nossos beliches, lutamos contra os percevejos e tentamos dormir.
Continuei a ganhar nos dados todos os dias. Apostava mais pesado e mesmo assim ganhava. A vida na prisão estava ficando cada vez melhor. Um dia me disseram para não ir ao pátio de exercícios. Dois agentes do FBI vieram me visitar. Fizeram algumas perguntas, então um deles disse:
– Nós o investigamos. Você não precisa ir a julgamento. Será levado ao centro de alistamento. Se o exército o aceitar, você entrará para o exército. Se o rejeitarem, voltará à vida civil.
– Quase gosto daqui, da prisão – eu disse.
– Sim, você parece estar se dando bem por aqui.
– Sem tensão – eu disse –, sem aluguel, sem contas, sem brigas com namoradas, sem impostos, sem placas de licença, sem despesas com comida, sem ressacas...
– Continue dando uma de espertinho, vamos dar um jeito em você.
– Ah, merda – eu disse. – Estou só brincando. Finjam que eu sou Bob Hope.
– Bob Hope é um bom americano.
– Eu também seria se tivesse aquela grana toda.
– Continue tagarelando. Podemos transformar sua vida num inferno.
Não respondi. Um dos sujeitos tinha uma maleta. Ele se levantou primeiro. O outro o seguiu e os dois saíram.

Deram a todos nós um saco com almoço para levar e nos colocaram em uma caminhonete. Estávamos em vinte ou 25. Os rapazes haviam acabado de tomar o café da manhã uma hora e meia atrás, mas todos já tinham o saco com o almoço. Não era ruim: um sanduíche com molho bolonhesa, um sanduíche com manteiga de amendoim e uma banana podre. Dei meu almoço para os outros. Estavam muito quietos. Nenhum deles fez piada. Olhavam reto para frente. A maioria deles eram negros ou pardos. E todos eram grandes.
Passei no teste físico, então fui ver o psiquiatra.
– Henry Chinaski?
– Sim.
– Sente-se.
Sentei.
– Você acredita na guerra?
– Não.
– Está disposto a ir a guerra?
– Sim.
Ele me olhou. Baixei o olhar para os meus pés. Ele parecia estar lendo um maço de papéis à sua frente. Demorou vários minutos. Quatro, cinco, seis, sete minutos. Então falou:
– Escute, darei uma festa na próxima quarta-feira à noite na minha casa. Irão médicos, advogados, artistas, escritores, atores, toda essa gente. Posso ver que você é um homem inteligente. Quero que vá a minha festa. Virá?
– Não.
Ele começou a escrever. Escreveu e escreveu e escreveu. Imaginei como ele sabia tanto sobre mim. Eu mesmo não sabia tanto sobre mim.
Deixei que continuasse escrevendo. Eu estava indiferente. Agora que eu não podia ir à guerra, eu quase queria ir à guerra. Ainda assim, ao mesmo tempo, estava contente por ficar de fora. O doutor acabou de escrever. Senti que os tinha enganado. Minha objeção à guerra não era que eu tinha que matar alguém ou ser morto sem motivo, isso quase não me importava. O que eu objetava era que me negassem o direito de sentar em uma pequena sala e passar fome e beber vinho barato e ficar viajando, à minha maneira, para meu prazer.
Não queria ser acordado por um sujeito com um clarim. Não queria dormir em barracas com um bando de garotos americanos saudáveis, loucos por sexo, amantes de futebol, bem-nutridos, metidos a espertos, punheteiros, assustados, rosados, amáveis peidorreiros, filhinhos da mamãe, modestos, jogadores de basquete com quem eu teria de fazer amizade, com quem eu teria de me embebedar nas folgas, que me contariam dúzias de piadas sujas, previsíveis e sem graça quando eu deitasse de costas. Não queria seus cobertores que pinicam ou seus uniformes que dão coceira nem a incômoda humanidade deles. Não queria cagar no mesmo lugar nem mijar no mesmo lugar ou compartilhar a mesma puta. Não queria ver as unhas dos pés deles nem ler as cartas que receberiam de casa. Não queria aquelas bundas balançando na minha frente com todos os rapazes ombro a ombro, não queria fazer amigos, não queria fazer inimigos, eu apenas não os queria, não queria isso nem aquilo nem coisa nenhuma. Matar ou ser morto quase não me importava.
Depois de esperar duas horas sentado em um banco duro, em um túnel escuro que mais parecia uma cloaca, com um vento frio que não parava de soprar, eles me deixaram ir e eu saí caminhando na direção norte. Parei para comprar um maço de cigarros. Entrei no primeiro bar, sentei, pedi um uísque com água, tirei o celofane do maço, puxei um cigarro, acendi, peguei aquela bebida na minha mão, bebi metade do copo, traguei a fumaça, olhei meu belo rosto no espelho. Parecia estranho estar livre. Parecia estranho poder caminhar em qualquer direção que eu quisesse.
Só para me divertir, levantei e caminhei até a privada. Mijei. Era outro banheiro horrível de bar. Quase vomitei por causa do fedor. Saí, pus uma moeda no jukebox, sentei e ouvi a última da seleção. O fato de ser a última não a fazia nem um pouco melhor. Os caras tinham a batida, mas não tinham alma. Mozart, Bach e Bee ainda os faziam ficar em maus lençóis. Eu ia sentir falta daqueles jogos de dados e da boa comida. Pedi outra bebida. Olhei ao redor do bar. Havia cinco homens no bar e nenhuma mulher. Eu estava de volta às ruas americanas.

Charles Bukowski, em Ao Sul de Lugar Nenhum

A Contadora de Filmes

[11]

O primeiro a ir ao cinema foi meu irmão Mariano, o Caterpillar. Sua narração foi um desastre. Naquele dia passou um de guerra – alemães contra norte-americanos –, e a única coisa que se entendia e saía emendado da boca do pobrezinho era o matracar das metralhadoras. E a mímica. Sua mímica era genial. Eu acho que nos tempos do cinema mudo ele teria sido muito bom.
Na vez do meu irmão Mirto, o Pássaro, passaram um de índios, com Jack Palance. Sua narração foi extraordinária. O galope dos cavalos, os tiros, os gritos dos índios, os sinais de fumaça. A gente até achava que estava ouvindo o assovio das flechas passando sobre nossas cabeças, zuuuummm! A única coisa ruim era que Mirto contava tudo na base de “babaquices” e “cagadas”:
“Então, quando o babaca sacou do revólver e atirou na cabeça da babacona, deu uma tremenda cagada porque os outros babacas nem cagando iam deixar que cagassem neles daquele jeito…”.
Manuel, que até que contava direito, contou um filme de vampiros. Acontece que se perdeu por amor. Aos doze anos, estava apaixonado pela filha do dono da loja mais sortida da Mina – era o único dos irmãos que namorava –, e passou a hora e quarenta minutos que durou o filme abraçando a menina, que gemia de medo.
Já com meu irmão Marcelino aconteceu o cúmulo da má sorte. Calado por natureza – “desse menino, é preciso arrancar as palavras com um saca-rolhas”, dizia minha mãe quando morava com a gente –, na vez dele caiu O velho e o mar, um filme quase sem fala.
Sua narração só durou cinco minutos.
Duas semanas mais tarde chegou, enfim, a minha vez, a vez da irmã menor, Maria Margarita, M M, como às vezes meu pai me chamava. Embora eu não tivesse apelido oficial, sabia que pelas costas alguns meninos me chamavam de Maria Machona. O apelido, é verdade, não era muito refinado, mas se observarem bem verão que é composto por duas palavras que começam com a letra eme.
Durante essas duas semanas chegaram vários filmes bons, e alguns muito bons, mas não houve dinheiro para comprar a entrada. Era meados do mês e mal dava para comer e para a garrafinha de vinho de meu pai.
“A gente tem que esperar o pagamento da pensão”, dizia ele. E aconteceu que justo no dia do pagamento apareceu no anúncio do cinema nada menos que Ben-Hur, o filme que todo mundo no povoado esperava com ansiedade.
Meus irmãos ficaram loucos.
Todos queriam ir ao cinema. Ou pelo menos que o Mirto fosse, já que até aquele momento tinha sido quem melhor havia contado um filme.
Mas meu pai, que era um homem justo, se negou.
“Agora é a vez de Maria Margarita e quem vai é a Maria Margarita. E ponto final”.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

14/10/2026

Gal Costa | Força Estranha

 

Calvin e Haroldo

 

Idades

No início,
eu queria um instante.
A flor.

Depois,
nem a eternidade me bastava.
E desejava a vertigem
do incêndio partilhado.
O fruto.

Agora,
quero apenas
o que havia antes de haver vida.
A semente.

Mia Couto, em Poemas Escolhidos

A Bailarina Fantasma




1º Ato
1. Travessa do Anjo

Anabela e o pai, Marcelo, tinham orgulho de dizer que moravam na casa mais antiga da cidade: a Travessa do Anjo, uma ilha feita de passado no meio de um mar de vidro e metal.
Tudo naquele lugar era exatamente igual ao que sempre fora. Os anos e a vida de todos os familiares que moraram ali permaneciam gravados nos cheiros, nas cores e nos detalhes de cada canto. Uma foto na parede, uma figura colada na porta de um armário, a xícara pintada à mão com o nome da tia querida… tudo permanecia na casinha azul com telhado vermelho e fachada estreita onde cabiam somente uma porta, uma janela e, lá dentro, todos os sonhos do mundo.
O portão da entrada era de ferro e o muro, bem baixo. Entre o muro e a porta havia um jardim com flores que brotavam o ano todo, especialmente os pequenos e delicados miosótis, jovens descendentes de mudas plantadas havia muito tempo. Junto das flores, um banco com dois lugares, um convite para sentar e conversar.
Apesar de estreita, a Travessa do Anjo era comprida. Logo na entrada ficava o escritório de Marcelo. A seguir, duas pequenas salas com fotografias antigas nas paredes, estantes de livros, sofás e cadeiras para as visitas. Do lado direito, um corredor. À esquerda, o quarto de Anabela e, logo depois, o do pai. A cozinha, clara e espaçosa, tinha vista para o pomar, onde Anabela colhia laranjas, limões e maracujás, suas frutas preferidas. As laranjas eram muito doces e inacreditavelmente suculentas. Era de lá que soprava o vento adocicado que fazia daquela casa a mais ventilada da cidade.
O nome, Travessa do Anjo, fora inspirado em um painel de azulejos colocado sobre a porta, bem pertinho do telhado, com a pintura de um anjo ajudando duas crianças a atravessar uma ponte. Os azulejos eram de Portugal e vieram com dona Maria de Lourdes, bisavó de Marcelo, quando ela se mudara para lá.
Definitivamente, a vida daquela família era muito distinta da do mundo ao redor, e isso incomodava. Quase todo dia aparecia algum curioso por ali. Tinha gente que atravessava a cidade para ver a Travessa do Anjo de perto, todos tão admirados, parados na frente da casa de Anabela como se estivessem vendo uma legítima caravela portuguesa dos tempos do Descobrimento:
— Como eles vivem sem ar-condicionado?
— Sem antenas?
— E sem micro-ondas?
— Isso é praticamente uma caverna — diziam umas senhoras muito arrumadas, de cabelo pintado e bolsa dourada, que passavam o tempo prestando atenção na vida dos outros.
Falavam, falavam, e o vento levava para longe tantas palavras vazias, desnecessárias. Anabela e Marcelo não ligavam. Estavam ocupados com outras coisas… Foi naquela casa que Anabela nasceu, aprendeu a andar, a falar, e cresceu até se tornar tão linda, de rosto pintado de sardas e olhos tão verdes como as luzes do Natal dos seus catorze anos, quando a vida começou a mudar tanto para aquela família.
Sua mãe havia morrido quando Anabela tinha sete anos. Por causa disso ela até poderia pensar que era a menina mais azarada do mundo, sozinha, sem mãe. Mas não — ela preferia enxergar sua realidade com outros olhos e virar a vida ao contrário. Então se achava a garota mais sortuda do mundo, isso sim, por ter um pai tão incrível. A lembrança da mãe não era sofrimento. Só dúvidas, esperança e saudade.
Quando Anabela falava sobre a mãe ou fazia perguntas sobre a morte para Marcelo ou outro parente, o que sempre ouvia era que Melinda partira para um lugar melhor. Anabela imaginava, desde pequena, que aquele tão falado Lugar Melhor seria um mundo parecido com o nosso, como um espelho, uma cópia, para onde iria tudo o que morresse aqui: animais, plantas, flores, pessoas… até as formigas, que podiam se afogar ao cair num copo de suco qualquer. Tudo o que morria — talvez até a mãe de Anabela —, chegando lá, em certo lugar, voltava a viver. De um jeito diferente do nosso, mas viveria.
Seus momentos mais felizes eram os que passava no quintal da Travessa do Anjo, seu lugar preferido para ficar quando estava triste ou feliz, ou quando queria parar um pouco, pensar e observar os pequenos e grandes mistérios da vida. Anabela parecia ver e até tocar os segredos das coisas. Sempre que via uma flor começando a murchar, ou uma borboleta com uma asa machucada, ou uma formiguinha carregada pelas águas da chuva, explicava-lhes baixinho que todos os seres vivos um dia iam para outro lugar, talvez um lugar lindo, muito melhor do que aquela vida. E por que não? No fundo, as pequenas mortes da natureza eram para Anabela uma esperança de fazer contato com a mãe, especialmente quando ela via um miosótis — a flor preferida de Melinda — com as pétalas começando a amarelar, dando sinal de que era hora de partir.
Anabela amarrava delicados bilhetinhos, feitos de papel recortado e letrinha miúda, nos miosótis que morriam no quintal. Enterrava os bilhetes e as flores com cuidado. Eram recados curtinhos, segredos, notícias, contando que estava bem na escola, que melhorara da gripe, ou, às vezes, breves confissões de saudade. Saudade era quase uma alegria para ela, um jeito de eternizar as coisas. Com sua pá de jardineira, arrumava os bilhetes e as flores, cobria-os de terra e rezava. Ela acreditava que aconteceria algo mágico: a flor viajaria, de alguma forma, para o Lugar Melhor. E voltaria a viver, levando o bilhete para as mãos de Melinda.
Os pedacinhos de papel em branco ela guardava em uma caixa de madeira forrada de tecido — forrar caixas era um dos passatempos preferidos de Melinda, e Anabela adorava guardar dentro delas os objetos mais especiais.
Quando soube que o avô de Luciana, sua melhor amiga, havia morrido, aproveitou a ocasião e escreveu uma carta de duas páginas para a mãe e deu um jeitinho de colocar o envelope para ser enterrado com ele.
Anabela pensava que a morte era uma cortina pesada e escura, como um veludo vermelho, que só poderia ser aberta para quem fosse passar daqui para lá. Mas houve um dia que mudou sua vida, quando ela compreendeu de forma definitiva que essa cortina podia ser leve e clara como seda azul e que, com um sopro do vento, podia se abrir para dar passagem a alguém vindo de lá… para cá.
O motivo dessa volta nunca se sabe, até que esse alguém diga. A razão pode ser simples. Ou terrivelmente assustadora.
Até aquele dia ela não sabia de nada disso. Anabela realmente acreditava que os mortos não voltavam. De repente entendeu que isso tinha sido um tremendo engano…

Socorro Acioli, em A Bailarina Fantasma

Amor a Ele

Através de meus graves erros – que um dia eu talvez os possa mencionar sem me vangloriar deles – é que cheguei a poder amar. Até esta glorificação: eu amo o Nada. A consciência de minha permanente queda me leva ao amor do Nada. E desta queda é que começo a fazer minha vida. Com pedras ruins levanto o horror, e com horror eu amo. Não sei o que fazer de mim, já nascida, senão isto: Tu, Deus, que eu amo como quem cai no nada.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

Capítulo 103 – Distração

 


– Não, senhor Doutor, isto não se faz. Perdoe-me, isto não se faz.
Tinha razão Dona Plácida. Nenhum cavalheiro chega uma hora mais tarde ao lugar em que o espera a sua dama. Entrei esbaforido; Virgília tinha ido embora. DonaPlácida contou-me que ela esperara muito, que se irritara, que chorara, que jurara votar-me ao desprezo, e outras mais coisas que a nossa caseira dizia com lágrimas na voz, pedindo-me que não desamparasse Iaiá, que era ser muito injusto com uma moça que me sacrificaria tudo. Expliquei-lhe então que um equívoco...
E não era; cuido que foi simples distração. Um dito, uma conversa, uma anedota, qualquer coisa; simples distração.
Coitada de Dona Plácida! Estava aflita deveras. Andava de um lado para outro, abanando a cabeça, suspirando com estrépito, espiando pela rótula. Coitada de Dona Plácida! Com que arte conchegava as roupas, bafejava as faces, acalentava as manhas do nosso amor! que imaginação fértil em tornar as horas mais aprazíveis e breves! Flores, doces, - os bons doces de outros dias, - e muito riso, muito afago, um riso e um afago que cresciam com o tempo, como se ela quisesse fixar a nossa aventura; ou restituir-lhe a primeira flor. Nada esquecia a nossa confidente e caseira; nada, nem a mentira, porque a um e outro referia suspiros e saudades que não presenciara; nada, nem a calúnia, porque uma vez chegou a atribuir-me uma paixão nova. – Você sabe que não posso gostar de outra mulher, foi a minha resposta, quando Virgília me falou em semelhante coisa. E esta só palavra, sem nenhum protesto ou admoestação, dissipou o aleive de Dona Plácida, que ficou triste.
– Está bem, disse-lhe eu, depois de um quarto de hora; Virgília há de reconhecer que não tive culpa nenhuma... Quer você levar-lhe uma carta agora mesmo?
– Ela há de estar bem triste, coitadinha! Olhe, eu não desejo a morte de ninguém; mas, se o senhor Doutor algum dia chegar a casar com Iaiá, então sim, é que há de ver o anjo que ela é!
Lembra-me que desviei o rosto e baixei os olhos ao chão.
Recomendo este gesto às pessoas que não tiverem uma palavra pronta para responder, ou ainda as que recearem encarar a pupila de outros olhos. Em tais casos, alguns preferem recitar uma oitava dos Lusíadas, outros adotam o recurso de assobiar a Norma; eu atenho-me ao gesto indicado; é mais simples, exige menos esforço.
Três dias depois, estava tudo explicado. Suponho que Virgília ficou um pouco admirada, quando lhe pedi desculpa das lágrimas que derramara naquela triste ocasião. Nem me lembra se interiormente as atribuí a Dona Plácida. Com efeito, podia acontecer que Dona Plácida chorasse, ao vê-la desapontada, e, por um fenômeno da visão, as lágrimas que tinha nos próprios olhos lhe parecessem cair dos olhos de Virgília. Fosse como fosse, tudo estava explicado, mas não perdoado, e menos ainda esquecido. Virgília dizia-me uma porção de coisas duras, ameaçava-me com a separação, enfim louvava o marido. Esse sim, era um homem digno, muito superior a mim, delicado, um primor de cortesia e afeição; é o que ela dizia, enquanto eu, sentado, com os braços fincados nos joelhos, olhava para o chão, onde uma mosca arrastava uma formiga que lhe mordia o pé. Pobre mosca! pobre formiga!
– Mas você não diz nada, nada? perguntou Virgília, parando diante de mim.
– Que hei de dizer? Já expliquei tudo; você teima em zangar-se; que hei de dizer? Sabe o que me parece? Parece-me que você está enfastiada, que se aborrece, que quer acabar...
– Justamente!
Foi dali pôr o chapéu, com a mão trêmula, raivosa... – Adeus, Dona Plácida, bradou ela para dentro. Depois foi até à porta, correu o fecho, ia sair; agarrei-a pela cintura. – Está bom, está bom, disse-lhe. Virgília ainda forcejou por sair. Eu retive-a, pedi-lhe que ficasse, que esquecesse; ela afastou-se da porta e foi cair no canapé. Sentei-me ao pé dela, disse-lhe muitas coisas meigas, outras humildes, outras graciosas. Não afirmo se os nossos lábios chegaram à distância de um fio de cambraia ou ainda menos; é matéria controversa. Lembra-me, sim, que na agitação caiu um brinco de Virgília, que eu inclinei-me a apanhá-lo, e que a mosca de há pouco trepou ao brinco, levando sempre a formiga no pé. Então eu, com a delicadeza nativa de um homem do nosso século, pus na palma da mão aquele casal de mortificados; calculei toda a distância que ia da minha mão ao planeta Saturno, e perguntei a mim mesmo que interesse podia haver num episódio tão mofino. Se concluis daí que eu era um bárbaro, enganas-te, porque eu pedi um grampo a Virgília, a fim de separar os dois insetos; mas a mosca farejou a minha intenção, abriu as asas e foi-se embora. Pobre mosca! pobre formiga! E Deus viu que isto era bom, como se diz na Escritura.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

13/10/2026

Hamilton de Holanda trio ft. Paulo Flores - Luanda (Unidos)

O Impagável Quino

 

Teimosia

Não adianta
quebrarem minhas pernas,
furar meus olhos
ou falar pelas costas.

O que sustenta meu corpo
são minhas ideias.
Braços descruzados,
tenho um cérebro com asas
e sou todo coração.

Se me proibirem de andar sobre a água,
nado sobre a terra.

Sérgio Vaz, em Flores da Batalha

Piloto de Guerra




XII

Exerço corretamente meu ofício. Não impede que eu seja um tripulante em derrota. Estou embebido na derrota. Transpira-se a derrota por todo lado, haja vista minhas mãos.
Os manetes de potência estão congelados. Estou condenado a manobrar em potência máxima. E eis que essas duas sucatas me trazem problemas inextricáveis.
No avião que estou pilotando, o aumento do passo de hélice é limitado, baixo demais. Eu não posso pretender, picando em regime pleno, evitar uma velocidade de aproximadamente oitocentos quilômetros por hora e o aumento de rotação de meus motores. Todavia, o aumento de rotação de um motor traz riscos de falha.
A rigor, me seria possível cortar os contatos. Mas eu me infligiria assim uma pane definitiva. Essa pane levaria ao fracasso da missão e à eventual perda do avião. Nem todos os terrenos favorecem a aterrissagem de um aparelho que toca o solo a cento e oitenta quilômetros por hora.
É então essencial que eu destrave os manetes. Em consequência de um primeiro esforço, vou ao limite do manete esquerdo. Mas o da direita continua resistindo.
Seria possível agora efetuar minha descida numa velocidade de voo tolerável, se eu reduzisse ao mínimo o motor sobre o qual já pude agir, o esquerdo. Mas se eu reduzir o motor esquerdo, precisarei compensar a potência assimétrica do motor direito — a qual tenderá, obviamente, a fazer girar o avião para a esquerda. Terei de resistir a essa tendência. No entanto, os pedais, dos quais dependem essas manobras, também estão completamente congelados. Fico impossibilitado, assim, de compensar. Se eu reduzir o motor esquerdo, caio em espiral.
O único recurso será arriscar ultrapassar, durante a descida, o limite de regime teórico de ruptura. Três mil e quinhentos giros: risco de falha catastrófica.
Tudo isso é absurdo. Nada está ajustado. Nosso mundo é feito de engrenagens que não se ajustam umas às outras. Não são os materiais que estão em questão, mas o Relojoeiro. Falta o Relojoeiro.
Depois de nove meses de guerra, ainda não conseguimos fazer com que as indústrias adaptassem metralhadoras e comandos ao clima em grande altitude. E não é com a incúria dos homens que nos deparamos. Os homens, na maioria, são honestos e conscienciosos. Sua inércia, quase sempre, é um efeito, e não uma causa, de sua ineficácia.
A ineficácia pesa sobre nós todos como uma fatalidade. Pesa sobre soldados da infantaria armados de baionetas diante de tanques. Pesa sobre os tripulantes que lutam, um contra dez. Pesa até mesmo sobre aqueles que deveriam ter por missão modificar as metralhadoras e os comandos.

Vivemos no ventre cego de uma administração. Uma administração é uma máquina. Quanto mais uma administração é aperfeiçoada, mais elimina a arbitrariedade humana. Numa administração perfeita, onde o homem desempenha seu papel de engrenagem, a preguiça, a desonestidade, a injustiça não têm mais oportunidade de alastrar-se.
Mas, assim como a máquina é construída para administrar uma sucessão de movimentos previstos de uma só vez, a administração também não cria mais. Ela gere. Aplica tal sanção para tal falta, tal solução a tal problema. Uma administração não é concebida para resolver problemas novos. Se, numa máquina de chapear, introduzirem-se peças de madeira, não vão sair móveis. Seria preciso, a fim de adaptar a máquina, que um homem dispusesse do direito de mexer nela. Mas numa administração, concebida para prevenir os inconvenientes da arbitrariedade humana, as engrenagens recusam a intervenção do homem. Recusam o Relojoeiro.

Faço parte do Grupo 2/33 desde novembro. Meus camaradas, assim que cheguei, avisaram:
— Você vai passear na Alemanha sem metralhadoras nem comandos.
Depois, para me consolar:
— Fique tranquilo. Você não perde nada. Os caças abatem sempre antes de serem vistos.
Em maio, seis meses mais tarde, as metralhadoras e os comandos ainda congelam.

Penso numa fórmula tão velha quanto meu país: “Na França, quando tudo parece perdido, um milagre salva o país”. Entendi por quê. Aconteceu às vezes de um desastre, tendo destrambelhado a bela máquina administrativa, e tendo esta se mostrando irreparável, substituírem-na, por falta de melhor, por simples homens. E os homens salvaram tudo.
Quando um torpedo tiver reduzido a cinzas o Ministério da Aeronáutica, convocarão, com urgência, um cabo qualquer, e lhe dirão:
— Você está encarregado de descongelar os comandos. Você tem carta branca. Vire-se. Mas se em quinze dias eles ainda gelarem, você será preso.
Os comandos, talvez, então, descongelem.

Conheço uns cem exemplos desse vício. As comissões de requisição de um departamento do norte, por exemplo, requisitaram novilhas prenhes e transformaram assim os abatedouros em cemitério de fetos. Nenhuma engrenagem da máquina, nenhum coronel do serviço de recrutamento estava qualificado para agir de outro modo senão como engrenagem. Eles obedeciam todos a uma outra engrenagem, como num relógio. Qualquer revolta era inútil. É por isso que essa máquina, uma vez que tenha começado a destrambelhar, foi alegremente empregada em abater novilhas prenhes. Talvez tenha sido um mal menor. Ela poderia, se mais gravemente destrambelhada, começar a abater coronéis.
Eu me sinto desencorajado até o pescoço por essa degradação universal. Mas como me parece inútil dar um tranco num dos meus motores, exerço contra o manete esquerdo um novo peso. Em meu desgosto, exagero o esforço. Depois, abandono. Esse esforço me custou uma nova pontada no coração. Decididamente, o homem não foi feito para o culto físico a dez mil metros de altitude. Essa pontada é uma dor em surdina, uma espécie de consciência local estranhamente despertada na escuridão dos órgãos.
Os motores vão estourar se quiserem.
Pouco me importa. Esforço-me para respirar. Parece-me que não respiraria mais se me distraísse. Eu me lembro dos foles de outrora, com a ajuda dos quais a gente reanimava o fogo. Reanimo meu fogo. Eu queria muito convencê-lo a “pegar”.
O que estraguei de irreparável? A dez mil metros, um esforço físico um pouco brusco pode acarretar uma ruptura dos músculos do coração. É muito frágil um coração. Precisa servir muito tempo. É absurdo comprometê-lo com trabalhos tão grosseiros. É como se queimássemos diamantes para cozinhar uma maçã.

Antoine de Saint-Exupéry, em Piloto de Guerra

As marcas do sangue azul

 


A importância de Lambari na minha infância se deve a uma ação do meu irmão Ismael, em claro desafio à autoridade de minha mãe. Mas, para chegar a esse acontecido, é preciso começar longe.
A psicanálise ensina que, para se descobrir segredos, é preciso prestar atenção a pequenas coisas a que ninguém atribui importância. Por exemplo: aqui, na cidade onde vivo, Campinas, há pessoas que falam “casa de Aurélia”, “o livro de Pedro”, “o aniversário de Margarida”... Quando ouço esse “de” já sei que se trata de pessoa ligada à nobreza dos grandes barões do café. E me cubro de cerimônias por me sentir na sala de visitas de um casarão colonial... É nesse insignificante “de” que se encontra a revelação.
Pois as diferenças entre a família do meu pai e a família de minha mãe se revelam no insignificante e banalíssimo ato de chupar laranja. Ah! Vocês pensavam que uma laranja é simplesmente uma laranja! Não é não. Laranjas do mesmo pé podem ser nobres ou plebeias. Depende do jeito como são comidas. A família de minha mãe chupava laranja de gomo, a família do meu pai chupava laranja de tampa. Você pode imaginar uma senhora da alta sociedade chupando laranja de tampa num jantar? Jamais! Chupar laranja de tampa é coisa de plebeus: a laranja enfiada entre os beiços e os dentes, comprimida pelas mãos para lhe extrair o caldo, as sementes enchendo a boca para serem cuspidas para o lado. Pode-se dizer que chupar laranja de tampa é gostoso e descontraído. Mas elegante é que não é. Laranja de tampa pode-se chupar de pé e mesmo andando. O que não é possível fazer quando se chupa uma laranja de gomo. Há duas formas de se chupar uma laranja de gomo. A primeira, plebeia, consta das seguintes operações. Descascar a laranja. Tirar a pele branca que cobre os gomos. Abrir a laranja em duas. Ir enfiando os gomos um a um na boca para serem mastigados, o caldo engolido, as sementes cuspidas e o bagaço engolido ou cuspido, conforme o gosto ou as necessidades da pessoa. Digo “necessidades” porque há pessoas que engolem o bagaço por ordem médica, por causa da prisão de ventre. A segunda, nobre, é diferente. É preciso estar assentado à mesa. Primeiro é o cuidadoso ato de descascar. Descascada a laranja segue-se a operação de retirar-lhe a película branca que a cobre. A seguir, abre-se a mesma em duas metades e separam-se os seus gomos. Tomam-se então os gomos, um a um, e vagarosamente executa-se a operação cirúrgica de retirar a pele translúcida em que vêm revestidos, o que se faz por meio de uma incisão ao longo da linha fina do gomo. Desnudados os gomos, retiram-se-lhes com a ponta da faca os caroços, que são colocados num prato. Finalmente, come-se a sua carne enquanto se conversa. É trabalhoso comer uma laranja de gomo. Trata-se de um elaborado striptease. Todos da família da minha mãe comiam as laranjas de gomo, do jeito nobre. Curioso sobre esse costume, procurei explicações com a minha mãe. Ela me respondeu: “É para aproveitar melhor”. De fato, aproveita-se melhor. Mas eu não via razão para se aproveitar tanto, quando as laranjeiras estavam cheias de laranjas que se perdiam, comidas pelos passarinhos e insetos e apodrecidas no chão. Não, não fazia sentido. Essa estória de “aproveitar melhor” só faz sentido quando laranjas são poucas e raras, frutas nobres e caras, possivelmente importadas... Mas lá no interior de Minas não se importavam laranjas, não eram raras nem eram caras. Havia um descompasso entre a abundância das laranjas e a necessidade de comê-las de sorte a aproveitar todas as suas garrafinhas. Se você não sabe, as garrafinhas de uma laranja são aquelas minúsculas gotas de caldo que compõem o gomo. Isso não era costume brasileiro. Era costume que vinha das cortes reais da Europa. Lá os nobres, ricos, comiam caras laranjas importadas, de gomo, elegantemente. O povo pobre não comia laranjas, talvez nem soubesse o que eram laranjas... Assim, ao comer as laranjas de gomo, os membros da família de minha mãe anunciavam suas origens de sangue azul.
A família do meu pai, que chupava laranjas de tampa, nada tinha de nobreza. Era gente comum, sem etiquetas. Mas a família da minha mãe se julgava diferente, era de “sangue azul”, e se meu avô permitiu que minha mãe se casasse com o meu pai, acho que foi porque meu pai era rico. O dinheiro faz perdoar um homem que chupa laranjas de tampa... Referiam-se desdenhosamente às pessoas da “prateleira de baixo” e, quando uma delas tinha antecedentes negros, coçavam discretamente a bochecha com o dedo indicador — gesto que era conhecido de todos — para advertir quem não soubesse: “Tem sangue de preto...” .
Havia vários outros artifícios para estabelecer com clareza sua superioridade sobre a plebe. Um deles eram os nomes que se davam aos filhos. A plebe batizava seus filhos de João, José, Antônio, Manuel, Maria, Conceição, Tereza, nomes vulgares que logo eram reduzidos a apelidos. Mas, para que não houvesse confusões, nossa diferença nobre já estava anunciada em nossos nomes: Aloísio, Augusto, Silvestre, Jorge, Eugênio, Noêmia, Eliza, Delminda...
Uma outra marca de nobreza estava nas roupas que tínhamos de vestir. Os meninos da plebe muito cedo começavam a usar calças compridas. Mas a família da minha mãe achava que os filhos nobres tinham de usar calças curtas. Meu irmão me contou da sua vergonha: já tinha catorze anos, suas pernas eram peludas e tinha de usar calças curtas. Ele andava pelas ruas se espremendo contra as paredes para que ninguém o visse. Naqueles tempos, filho não tinha vontade. Minha mãe se justificava dizendo que os meninos do Rio de Janeiro usavam calças curtas.
Foi muito depois, no Rio de Janeiro, que descobri que a razão era outra. Mãe que tem filho de calças curtas é mulher jovem. A idade de uma mulher se media pelo comprimento das calças do filho... Eu tinha doze anos. Só usava calças curtas. Meu pai e minha mãe me levaram para comprar um terno. Em tudo eu era apenas um observador. Minha mãe pediu um terno de calças curtas. O vendedor respondeu que, para um jovem da minha idade, não havia ternos de calças curtas. Ri de felicidade! Finalmente iria realizar o meu desejo de ter um terno de calças compridas! Concluída a compra, minha mãe disse ao vendedor: “Por favor, mande cortar as pernas...” . O remédio era continuar a usar as calças compridas de brim cáqui do uniforme da escola. Ela não podia mandar cortar as pernas das calças do uniforme...
Na família do meu pai as portas da rua das casas tinham um buraco pelo qual se passava um barbante amarrado ao trinco. Não era preciso bater. Bastava puxar o barbante que a porta se abria e a pessoa podia entrar pela casa indo até a cozinha, onde havia sempre uma cafeteira sobre a chapa do fogão de lenha. No sobradão do meu avô ninguém passava da sala de visitas, que ficava na frente, ao fim da escadaria. Era lá que as visitas eram cerimoniosamente recebidas e confinadas.
Mas, de todas as marcas de nobreza, havia uma que me humilhava mais: os meninos da plebe tinham os seus cabelos raspados à escovinha, com uma franja na testa. Como tínhamos de nos diferenciar dos meninos da “prateleira de baixo”, nosso cabelo havia de ser comprido. O que era motivo de muita vergonha porque, naqueles tempos, cabelo comprido era coisa de menina. Cabelo comprido e calças curtas: era demais...
Aconteceu que o meu irmão Ismael, já moço, já havendo ultrapassado a humilhação das calças curtas, já havendo ultrapassado a humilhação do cabelo comprido, veio nos visitar. Ele estava no internato do Instituto Gammon, em Lavras. Ele não disse nada. Me pegou pela mão e disse: “Vamos passear!”. Ao passar por uma barbearia, ele entrou, assentou-me na cadeira e ordenou ao barbeiro: “Escovinha”…

Rubem Alves, em O velho que acordou menino

Zoo

O dromedário apesar-de. O camelo, além-de. A girafa, sobretudo.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

12/10/2026

Djavan | A Carta

 

Ninfas

Agora sei que existem ninfas
fora das estampas e dos contos.
São três.
Bebem água publicamente
servida por uma sereia,
pois que também existem as sereias
na composição de verde e mármore
e é tudo fantástico no jardim
em frente do Palácio do Governo.

Carlos Drummond de Andrade, em Boitempo – Esquecer para lembrar