quinta-feira, 23 de abril de 2026
Amor e poesia
Ela era uma mocinha. Trabalhava no
restaurante da tia. Já era noite e ela estava atrasada. A tia estava
preocupada, porque suspeitava que ela estivesse com um certo moço
que frequentava o restaurante, mesmo quando não estava nem comendo
nem bebendo. Onde estariam? Fazendo o quê?
Eles estavam na praia deserta sob o
céu estrelado. Tudo era silêncio, a luz da lua refletida no mar, a
voz distante das pessoas, o murmúrio das ondas mansas que lhes
molhavam os pés. Distantes um do outro, não se tocavam. Apenas se
olhavam. Ele tinha na mão um livro de poemas de amor de Pablo
Neruda. Abriu o livro e começou a ler. Ela parou e não se mexeu até
que a leitura terminasse.
Já era tarde quando ela chegou. O
restaurante estava vazio. Entrou como se estivesse em transe –
andava como um sonâmbulo, sem se dar conta da presença da tia.
– Onde você esteve? — a tia lhe
perguntou com severidade.
– Na praia — ela respondeu sem
acordar do transe.
A tia se alvoroçou. Praia, lugar
solitário, com um moço... E agora esse jeito sonambúlico, nunca
visto. Coisa muito grave deveria ter acontecido. E a imaginação da
tia começou a ver cenas de nudez e amor carnal na areia, sob a luz
do luar.
– O que foi que ele lhe fez? — ela
perguntou.
– Ele leu um poema — a moça
respondeu.
Aliviada de suas fantasias carnais, a
tia se deu conta de que uma coisa muito mais grave acontecera. E com
um profundo suspiro falou:
– Leu-lhe um poema... Então você
está perdida...
A tia conhecia os segredos do amor. O
amor começa com a poesia. O corpo é um instrumento. A poesia é a
música.
***
Florentino Ariza perdeu o emprego de
escriturário na companhia de navegação. Seu coração fora
dilacerado pelo casamento de sua amada, Fermina Daza, com o doutor
Urbino, o que interferiu no seu estilo literário: as cartas, que
deveria escrever dentro das frias formalidades do estilo comercial,
passaram a ser infectadas pela sua paixão — pareciam poemas. Foi
advertido, mas não adiantou. O remédio foi despedi-lo.
Sem emprego, teve de procurar um jeito
alternativo de ganhar a vida. E, vagabundeando pela praça central da
cidade, notou que jovens advogados ali montavam seus negócios.
Tinham mesas em que escreviam petições e requerimentos para quem
delas necessitasse. E assim ganhavam um dinheirinho. Florentino teve
então uma ideia brilhante: cartas de amor! Ele escreveria cartas de
amor! Tanta gente queria escrever cartas de amor e não sabia!
O negócio prosperou. E era fácil.
Quando um homem queria escrever uma carta para uma mulher, Florentino
imaginava que estava escrevendo uma carta para Fermina. E, quando era
uma mulher que desejava escrever uma carta para um homem, ele
imaginava a carta que gostaria de receber da amada.
Um jovem procurou os seus serviços.
Florentino escreveu-lhe uma carta com a paixão que sentia por
Fermina. Uma semana depois, foi uma jovem. Ela recebera uma carta tão
bonita que não sabia como respondê-la. Ato contínuo, passou a dita
carta para as mãos de Florentino – era a que ele mesmo havia
escrito uma semana antes. A partir desse momento, ele se envolveu
numa furiosa correspondência apaixonada consigo mesmo, ora no papel
de Florentino, ora no papel de Fermina.
Os dois jovens se apaixonaram e ao
final se casaram. Apaixonaram-se pelo quê? Apaixonaram-se pelas
cartas...
***
Um sultão, descobrindo-se traído
pela esposa a quem amava perdidamente, toma uma decisão cruel. Não
pode viver sem o amor de uma mulher, mas também não pode suportar a
possibilidade da traição. Resolve, então, que vai se casar com as
moças mais belas dos seus domínios, mas depois da primeira noite de
amor vai mandar decapitá-las. Assim o amor se renovaria, a cada
noite, em todo o seu vigor de fogo impetuoso, sem nenhum sopro de
infidelidade que pudesse apagá-lo.
Espalham-se rapidamente pelo reino as
notícias das coisas terríveis que aconteciam no palácio real –
as jovens desapareciam logo depois da noite de núpcias. Sherazade,
filha do vizir, procura então o pai e lhe anuncia sua espantosa
decisão: deseja tornar-se esposa do sultão. O pai, desesperado, lhe
revela o triste destino que a aguarda, pois é ele mesmo quem cuida
das execuções. Mas a jovem se mantém irredutível.
A estória descreve a jovem Sherazade
de forma reveladora. Quase nada diz sobre a sua beleza. Faz silêncio
total sobre o seu virtuosismo erótico. Mas conta que ela lera livros
de todas as espécies, que havia memorizado grande quantidade de
poemas e narrativas, que decorara provérbios populares e sentenças
de filósofos.
E Sherazade se casa com o sultão.
Realizados os atos de amor físico que acontecem nas noites de
núpcias, depois que o fogo do amor carnal se esgota o corpo do
esposo, quando só resta esperar o raiar do dia para que a jovem seja
sacrificada, ela começa a falar. Conta estórias. Suas palavras
penetram suavemente os ouvidos do sultão, como música. O ouvido é
feminino, vazio que espera e acolhe, que se permite ser penetrado. A
fala é masculina, algo que cresce e penetra os vazios da alma.
Segundo antiquíssima tradição, foi assim que o Deus humano foi
concebido: pelo sopro poético do Verbo Divino, que penetrou os
ouvidos encantados e acolhedores de uma virgem.
O corpo é um lugar maravilhoso de
delícias. Mas Sherazade sabe que todo amor construído sobre as
delícias do corpo tem vida breve. A chama se apaga tão logo o corpo
tenha se esvaziado do seu fogo. O seu triste destino é ser
decapitado pela madrugada – não é eterno, posto que é chama. E
então, quando as chamas dos corpos já se apagaram, a voz de
Sherazade sopra suavemente. Fala. Erotiza os vazios adormecidos do
sultão. Acorda o mundo mágico da fantasia. Cada estória contém
uma outra, dentro de si, infinitamente. Não há um orgasmo que ponha
fim ao desejo. E ela lhe parece bela, diferente de todas as outras
mulheres. Porque uma pessoa é bela não pela beleza dela, mas pela
nossa que aparece refletida na voz e nos olhos dela...
O sultão, encantado pelas estórias
de Sherazade, foi adiando a execução, por mil e uma noites,
eternamente e um dia mais. E, pela beleza das palavras de Sherazade,
o sultão a amou para sempre...
***
Conselho de Nietzsche: Diante da
possibilidade de casamento, só existe uma pergunta a ser feita –
terei prazer em conversar com essa pessoa até o fim dos meus dias?
Pois é com os tênues fios da conversa que se tece o amor.
Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado
O guarda-chuva preto
Esquecido na mesa,
com o cabo voltado para cima
e as bordas arrepanhadas,
é como seu dono vestido,
composto no seu caixão.
Não desdobra a dobradiça,
não pousa no braço grave
do que, sendo seu patrão,
foi pra debaixo da terra.
Ele vai para o porão.
Existe um retrato antigo
em que posou aberto,
com o senhor moço e sem óculos.
Guarda-chuva, guarda-sol,
guarda-memória pungente
de tudo que foi em nós
um pouco ridículo e inocente.
Guarda-vida, arquivo preto,
cão de luto, cão jazente.
Adélia Prado, em O Coração Disparado
Uma Paixão Laica
Nosso inquieto século seria muito
menos denso sem o testemunho de Simone de Beauvoir, sem o poder dessa
mulher prodigiosa em converter sua vida ardente numa crítica dos
sexos, da sociedade, da literatura e da política. E Hannah Arendt se
mantém como figura central na teoria política e social, e como uma
das vozes poderosas saídas das trevas totalitárias. Mas nenhuma
delas era filósofa no sentido estrito do termo. Aqui é
indispensável uma extrema precisão. O pensamento filosófico é
aquele que se detém mais nas perguntas do que nas respostas; quando
aparecem as respostas, elas revelam ser novas perguntas. A honra do
ofício é ser desinteressado, abster-se de qualquer rendimento
prático. A posição filosófica — notadamente em seu escopo
metafísico e onde toca o teológico (como deve ser, quer em
concordância, quer na negação) — é, no sentido rigoroso da
expressão, desapegada do mundo. Usualmente aloja-se na sensibilidade
filosófica certa indiferença ou mesmo um desagrado pelo corpo
humano. A essas luzes cruas, há na tradição ocidental apenas uma
filósofa de categoria: Simone Weil.
O preço que Simone Weil pagou por
essa posição chegou quase às raias do totalmente insuportável.
Ela consumiu sua saúde a ponto de sofrer uma morte prematura
deliberada. Habitou seu corpo como se fosse uma choça condenada.
Declarou detestar sua rudimentar feminilidade e sugeriu com veemência
que as realizações filosóficas e matemáticas de força duradoura
eram prerrogativas dos homens — que algum distúrbio ou fraqueza na
própria constituição feminina militava contra um exame da vida,
como o exigia Sócrates, Descartes ou Kant. (André, irmão de Simone
Weil, foi um dos mestres da geometria algébrica do século xx.) Em
tudo o que foi possível, e mesmo além, Simone Weil escolheu o
pensamento contra a vida, a lógica contra a prática, o laser da
análise e da dedução obrigatória contra a meia-luz vacilante, a
transigência e o emaranhado que permitem a nós restantes levar a
vida adiante. Como Pascal, como Kierkegaard, como Nietzsche, mas
isenta das vaidades retóricas que persistem mesmo nesses puristas,
Weil viveu sua curta vida (1909-1943) como uma provação cujo
significado — cuja única dignidade — consistia na derrota.
Os dados fatuais se fizeram conhecidos
em biografias como a de sua amiga Simone Pétrement (1973) e no
estudo minuciosamente documentado que Gabriella Fiori publicou em
1981. A edição crítica dos textos completos de Simone Weil está
em andamento, e quase todas as facetas de suas atividades —
religiosas, filosóficas, literárias, políticas, sociais — foram
ou estão sendo examinadas em detalhe. De uma maneira que ela teria
desprezado (embora ambiguamente), os acomodados do comentário e da
adulação estão se banqueteando com essa vida que tanto se emaciou
e buscou o próprio olvido.
Sabemos de sua infância no ambiente
privilegiado do judaísmo francês emancipado, das rivalidades e
intimidades conspiratórias que a uniam ao irmão. Existem análises
detalhadas do impacto formador que exerceu sobre Weil o mais
carismático e influente dos professores de liceu franceses, o
lendário “maître à penser” Émile Chartier, que
escrevia sob o nome de Alain. Simone Weil se envolveu em vários
movimentos operários marxistas, anarcomarxistas e trotskistas com a
mesma febril obsessão com que mergulhou na filosofia grega e
cartesiana. Deu aulas em várias escolas secundárias de província,
enquanto suas enxaquecas crônicas lhe permitiram. Visitou a Alemanha
para avaliar com os próprios olhos a revolução social de Hitler.
Seu engajamento na Guerra Civil espanhola terminou numa farsa
macabra. (Ela pisou sem querer dentro de uma frigideira de óleo
fervendo e teve de ser evacuada entre dores terríveis.) Durante o
regime de Vichy, Weil trabalhou em vinhedos, escreveu, se meteu a
fazer propaganda e recrutamento clandestino em Marselha e arredores.
Tendo acompanhado seus pais à segurança de Nova York (apenas o
Harlem lhe despertou alguma simpatia em seus olhos críticos), ela
mexeu todos os pauzinhos possíveis para ser aceita na França Livre
em Londres. Lá assediou De Gaulle e auxiliares com esquemas
heroicos. Pediu para ser lançada de paraquedas na França ocupada.
Insistiu num plano de enviar um grupo de moças rigorosamente
virginais para as linhas de batalha, para cuidar dos feridos e
moribundos. De Gaulle, muito impassível, considerava que Weil era
uma perturbada mental e lhe atribuiu a tarefa presumivelmente
inofensiva de fazer um planejamento social e político para a França
do pós-guerra. O volumoso projeto resultante continua a ser um
clássico de rematada inviabilidade. Esgotada física e mentalmente,
com a alma doente de ardor frustrado, Simone Weil teve um falecimento
literal num sanatório perto de Londres. Sua sepultura, embora não
se encontre em solo consagrado, se tornou local de peregrinação.
Em Simone Weil: Portrait of a
Self-Exiled Jew [Simone Weil: retrato de uma judia autoexilada]
(North Carolina, 1991), Thomas Nevin apresenta apenas um breve esboço
dessa via dolorosa. E não é sua intenção fazer uma
biografia intelectual de Simone Weil, sob qualquer forma direta. O
objetivo desse estudo denso é examinar e, até onde for possível,
validar as obsessões e a obra de Weil a partir do núcleo da
autodepreciação judaica o constante talento para o autobanimento
mostrado por judeus e judias importantes. A marca corrosiva do
antissemitismo intelectual e mesmo de orientação política na
consciência de Simone Weil, em seus textos e reflexos sociais, já
foi notada faz muito tempo. Tem sido relacionada de maneira
irrefutável com o tema geral da autopunição, e mesmo do
masoquismo, que tinge seus trabalhos e dias. Mas o exame que faz o
professor Nevin desse contexto ao mesmo tempo repulsivo e inescapável
é, até o momento, o mais exaustivo e persuasivo de que dispomos.
Além da erudição e da dúvida sensata, há neste livro coragem e
uma tristeza salutar.
As posições políticas de Simone
Weil eram extremamente peculiares. Ela procurou unir a um ideal em
parte platônico do estado orgânico o senso, ultrajado e ultrajante,
das humilhações e sofrimentos impostos ao trabalho industrial. Por
uma torção da lógica, essa jovem judia da esquerda paramarxista
francesa veio a fazer uma série de comentários favoráveis sobre
Hitler. Louvou sua grandeza romana, seu entendimento espiritual e
administrativo das esperanças e necessidades coletivas: “Ele
comanda um país tenso ao máximo, é dotado de uma vontade ardente,
incansável e implacável […] de uma imaginação que fabrica a
história em proporções grandiosas segundo uma estética
wagneriana, que se estende muito além do presente; e é um jogador
nato”. (Dostoiévski podia ter escrito isso, ou Trótski, em certos
momentos.) Para Weil, qualquer coisa era preferível às untuosas
hipocrisias, corrupções e materialismo fácil da democracia
capitalista burguesa. Suas ferocidades a respeito derivam do
radicalismo ardente de Amós e da condenação da riqueza feita por
Jesus. Vêm de Esparta e de Lênin. Mas no âmago de sua desolação
e de seus paradoxos encontra-se um texto pessoal de rara integridade.
Três vezes, entre dezembro de 1934 e final de agosto de 1935, essa
frágil intelectual trabalhou na indústria pesada, sob pressões e
humilhações que quase a levaram à loucura. Quando invocava
Robespierre, quando fantasiava uma revalorização e espiritualização
centralizada do trabalho, Weil falava por experiência própria. O
radical chique era um anátema para ela.
Como outros absolutistas do
pensamento, Simone Weil se sentia atraída pela violência. Seu
ensaio sobre a Ilíada, embora equivocado — ela simplesmente
não percebe o brilho festivo do heroísmo arcaico —, dá grande
relevo às brutalidades, ao desejo de sangue no épico. Às vezes
Weil era pacifista, às vezes ardia pela batalha. Seus planos de
intervenção feminina, de recrutamento na guerra ao grau de perigo
extremo, como uma oferenda em sacrifício, mostram a mesma
ambivalência. Quanto a seu engajamento na Espanha, ela escreveu:
“Norma: pavor e gosto pela matança. Evitar ambos — como? Na
Espanha, pareceu-me um esforço tremendo, impossível de sustentar
por muito tempo. Fazer-se tal, então, que se consiga mantê-lo”. A
possibilidade da tortura se impunha sombriamente a seu espírito.
Weil procurou se preparar para ela. Em certos momentos, era possuída
por uma inveja do sofrer. Sua “sensibilidade telescópica”
(expressão muito adequada de Nevin) isolava e ampliava a dor e o
terror em si e nos outros. Como Pascal, como alguns grandes pintores
e narradores da intensa dor (sofrida e infligida), ela imaginava
concretamente, refletia e analisava com os próprios nervos.
As posições políticas expressas em
seus últimos ensaios e em seu projeto para o renascimento da França
compõem um emaranhado assustador e, ao mesmo tempo, pungente
(“assustador” é, com efeito, o essencial). A sombra de Hegel,
que o professor Nevin tende a minimizar, está por toda parte. Ela
acreditava que a Necessidade, que é outro nome da condição humana
— dos operários da linha de montagem da história —, submete os
homens à sua finalidade despótica. Para resistir, para ter algum
acesso ao que há de divino nos processos do destino, homens e
mulheres precisam ter a oportunidade de disciplinar suas percepções,
de contemplar com a máxima concentração estoica os fatos e os
deveres de sua condição. O desiderato político-social é garantir
um espaço para essas ações e, de maneira ideal, para a
continuidade dessa concentração. (Mais de uma vez, Weil flertou
amorosamente com fantasias de encarceramento.) Ficou famoso o termo
com que ela designou essa atitude de atenção contemplativa:
l’enracinement, “o enraizamento”. Não lhe escapou, e
não deve escapar a nós, que esses critérios de reflexão enraizada
— os quais fascinaram T. S. Eliot, quando leu Weil — se
harmonizam muito facilmente com certas modalidades de autoridade
política comunitária, totalitária, sejam de esquerda ou de
direita. Em sua expressão mais lúcida, Weil aparece como um híbrido
bizarro, uma platônica anárquica que abdicaria em favor dos poderes
de Estado de tudo o que é necessário para dar alguma privacidade à
alma.
Esse mesmo híbrido determina os
ensaios e fragmentos filosóficos de Simone Weil. O objeto pelo qual
ela luta obsessivamente é um amálgama entre a Grécia antiga e a
cristologia — as lições de Sócrates e as lições de Jesus. Não
havia nada de novo nesse projeto. Desde o Evangelho de João,
defende-se e busca-se essa congruência, conhecida como
neoplatonismo, na teologia e na metafísica idealista do Ocidente.
Ainda se sonha com ela no Renascimento e entre os filósofos alemães
depois de Kant. É uma parte, talvez subconsciente, da busca e do
maravilhamento de todos os que recolhem uma concha marinha nas orlas
oceânicas sem fim (a imagem é de Coleridge) e ouvem em seu murmúrio
não só o eco físico do próprio sangue. O que havia de
tortuosamente idiossincrático era o procedimento de Weil. Ela
examinava os fragmentos filosóficos pré-socráticos, os diálogos
platônicos e os textos dos dramaturgos e poetas líricos gregos para
encontrar passagens que prefigurassem a vinda, os ensinamentos e a
Paixão de Cristo. A prefiguração dos Evangelhos no Antigo
Testamento (por exemplo nos Profetas, nos Salmos do Servo Sofredor e
mesmo no Cântico dos Cânticos), evidentemente, tem sido anunciada
pelo cristianismo desde a época dos Pais da Igreja. Mas não é aos
textos hebraicos que Simone Weil se refere em sua viagem de
peregrina; é a Pitágoras, Píndaro, Sófocles e Platão.
É uma busca ao mesmo tempo absurda e
misteriosa. Embora fosse arguta helenista, Weil não se eximia de
distorcer e quase falsificar a intenção explícita e o contexto das
palavras gregas antigas. Confunde deliberadamente o pouquíssimo que
sabemos dos cultos gregos de mistério e dos mitos órficos do
renascimento com os conceitos de batismo e ressurreição no
cristianismo. Suas leituras de Platão são tão seletivas que beiram
a caricatura. E mesmo assim suas sugestões de que existe um anseio
comum pela luz no outro lado da razão, racionalmente expresso e
transmissível de alguma maneira, dotado de sentido para o pensamento
e o discurso humano, não são de todo arbitrárias. Ela sentia na
própria medula o entrelaçamento muitas vezes tênue, subterrâneo,
de metáforas, de simbolismo, de gestos rituais que uniam a filosofia
grega arcaica e posterior, e mesmo o paganismo, ao cristianismo
nascente. Além disso, ao chegar a certos textos trágicos gregos, os
comentários de Weil são de uma imediaticidade lancinante. Ela
revive os insolúveis da justiça contraditória no matricídio de
Orestes. Identifica-se, ainda mais carnal e espiritualmente do que
Hegel e Kierkegaard, com a pessoa e o destino da Antígona de
Sófocles. Conhecia, ela também, o amor incondicional entre irmão e
irmã. Estava decidida, ela também, ao desafio ético e ao
sacrifício pessoal diante do terror político. Mas, aqui também,
não é por acaso que sua Antígona se erga com não poucos traços
de uma Joana d’Arc.
As relações de Weil com o
catolicismo romano (as conotações eróticas da palavra são
plenamente justificadas) datam pelo menos de 1935-36. Foi quando ela
começou a assistir à missa com frequência variável. Ao conhecer o
canto gregoriano, parece ter-se desencadeado um episódio de teor
místico, como uma revelação. Sob esse aspecto, Weil não é um
caso isolado. Outros judeus contemporâneos com espírito de
desenraizamento e busca se sentiram tentados pela solenidade estética
do culto católico e pela pura eloquência da mensagem católica
dentro da arte e da civilização europeias. Lembramos a imersão de
Walter Benjamin no barroco, o voltar-se para Cristo de Karl Kraus e —
mais complexo — o recurso de Proust ao mundo das catedrais e da
pintura cristã. Lembramos o papel determinante da mística católica
nas sinfonias de Mahler. Aproximando-se a devastação, era como se
muitos elementos da psique e da sensibilidade da elite judaica
europeia buscassem refúgio em algum lugar. Como sempre, Simone Weil
tomou um caminho mais profundo e mais tortuoso.
Ela se familiarizou com a liturgia,
com a Vulgata de são Jerônimo, com a doutrina e o simbolismo dos
sacramentos. Encontrou afinidades espirituais em santo Agostinho
(como, num plano totalmente diverso, ocorreu também com Hannah
Arendt). Procurou os tomistas franceses — os pensadores e
escritores que, na época, estavam renovando a abordagemcatólica da
principal fonte lógica e filosófica da Igreja, Tomás de Aquino.
Esses vários impulsos ganharam uma força quase irresistível
durante o exílio de Weil no sul da França. Seus textos mais
conhecidos e amados são as cartas ao padre dominicano quase cego
Joseph-Marie Perrin. Foi a ele que Weil, num veio confessional
apaixonado e argumentativo, ofereceu o mais íntimo de si. E Perrin
parecia destinado a receber essa alma atormentada na paz da Igreja.
Weil bateu várias vezes à porta, apenas para recuar quando a abriam
amorosamente para recebê-la. Havia a sombra de uma sombra entre seu
fervor, sua identificação constante entre as próprias dores
físicas e o sofrimento de Cristo, e aquele ato de batismo que agora
refulgia como a decisão mais natural.
Ela não deu esse passo final.
Censurava o apego católico ao mundo e a perseguição de hereges tão
inspirados como os cátaros. Considerava o catolicismo enfaticamente
romano, isto é, manchado com o imperialismo, as escravizações, a
pompa autoritária daquela civilização antiga que tanto abominava.
No final das contas, porém, Weil se vetou a conversão por razões
mais graves. Não esposaria uma Igreja cujas raízes estavam na
sinagoga.
Thomas Nevin tem razão, claro. Aqui
também o ponto crucial (imagem insidiosa) é a autonegação de
Simone Weil, o repúdio de seu próprio judaísmo. Numa atitude
nauseante, ela protestou às autoridades de Vichy que não devia ser
impedida de trabalhar sob as leis raciais — não era judia! Para
ela, o judaísmo era inaceitável. Apenas alguns judeus escapavam à
sua censura que às vezes beirava a histeria: Amós, que anuncia o
castigo sobre Israel; Jó; Spinoza, que a comunidade condenara ao
ostracismo. Os documentos correspondentes são nauseantes. Diante dos
sinais incipientes, mas inequívocos, do Holocausto em andamento, ela
se refugiou num silêncio hostil, num “olhar gélido”. Em seus
cadernos de anotações, ela refletiu sobre o desenraizamento e a
condição de pária do judeu. “A religião dita judaica é uma
idolatria nacional que perdeu qualquer realidade desde a destruição
da nação”; “É por isso que um ateu judeu é mais ateu do que
qualquer outro. É de maneira menos agressiva, porém mais profunda”.
Com raríssimas exceções, e em geral poéticas, “o Antigo
Testamento é um tecido de horrores”, celebrando uma divindade
tribal sedenta de sangue, cujos traços e atributos primitivos se
aproximam dos de uma Grande Besta satânica. Weil fincava suas garras
em qualquer coisa que achasse que havia dado esperança ao judaísmo:
“Se os hebreus, como povo, carregassem Deus dentro de si, teriam
preferido sofrer a escravidão imposta pelos egípcios — e causada
por seus próprios abusos anteriores — a ganhar a liberdade
massacrando todos os habitantes do território que deviam ocupar”.
Isso no negro auge dos crematórios.
Suas preferências em matéria de
literatura e de tonalidade teológica combinavam. Era em T. E.
Lawrence da Arábia que ela enxergava a modalidade mais autêntica do
heroísmo moderno. E era no catolicismo ascético e mendicante, que
denunciava mais brutalmente o alegado materialismo e empedernimento
dos judeus, que se sentia à vontade. De Paulo de Tarso até hoje, a
história do ódio do judeu por si mesmo é longa e desperta muita
perplexidade. É plenamente possível ler tanto o cristianismo quanto
o marxismo como grandes heresias judaicas nascidas das turvas
patologias de uma autorrejeição de tipo suicida. Embora
demonstrasse certa perturbação mental, o defensor mais engenhoso da
inferioridade e lepra racial judaica na polêmica moderna foi um
judeu, Otto Weininger. Se a contribuição de Simone Weil a esse lixo
era sintoma de alguma negação mais profunda da sexualidade e de seu
próprio sexo, se trazia elementos de auto-humilhação deliberada
diante do que julgava ser uma vida estragada, se traçava o caminho
para um lento suicídio, não há psicopatologia capaz de explicar
adequadamente. Ademais, tal explicação, pelos próprios imperativos
de integridade filosófica de Weil, seria de importância secundária.
Por que então nos incomodarmos com
isso? Simplesmente porque Simone Weil nos deixou um conjunto
fragmentado, mas substancial, de percepções teológicas,
filosóficas e políticas de raro vigor e iluminação. A resposta
gera tanta perplexidade porque nela uma inclemente honestidade mescla
o inspirado e o patológico. Afora Kierkegaard, quem mais, no momento
em que a França se rendia a Hitler, seria capaz de se sair com a
frase “Este é um grande dia para a Indochina”, na qual uma
pavorosa insensibilidade se equilibra à perfeição com uma genial
clarividência humana e política? De fato, a queda da metrópole era
uma notícia gloriosa para os povos submetidos que a França dominava
desde longa data em suas extensas colônias. Para Weil, os “crimes”
do colonialismo tinham relação direta, numa simetria religiosa e
política, com a degradação da terra natal. Constantemente um
aforismo weiliano, um marginalium a uma passagem dos clássicos ou
das Escrituras, atinge o cerne de um dilema tantas vezes mascarado
pelo tabu ou pela hipocrisia. Ela não fugia da contradição, do
insolúvel. Acreditava que a contradição “vivida até o mais
profundo recesso do ser significa laceração espiritual, significa a
Cruz”. E sem essa “crucialidade”, os debates teológicos e os
postulados filosóficos não passam de palavrório acadêmico. Levar
a sério, abordar existencialmente a questão do significado da vida
e morte humana num planeta embrutecido, devastado, examinar o valor
ou a futilidade da ação política e do desígnio social não é
apenas pôr em risco a saúde pessoal ou o consolo do amor comum: é
ameaçar a própria razão. Em nossos tempos, os dois indivíduos que
não só ensinaram, escreveram ou geraram conceitualmente intimações
filosóficas da mais alta categoria, mas também viveram esses seus
preceitos na dor, na autopunição, na rejeição do próprio
judaísmo, são Ludwig Wittgenstein e Simone Weil. Em inúmeros
pontos, caminharam nas mesmas sombras iluminadas.
Mas nenhuma analogia é suficiente.
Weil representa o que a física moderna chamaria de “singularidade”.
Alguns de seus melhores escritos — sobre Descartes, sobre a teoria
e a prática do marxismo — pertencem ao campo intelectual e
filosófico normal. Ela se debate com o mistério do amor de Deus
como faziam os santos e os doutores da Igreja, os visionários da
Idade Média e do barroco. Mas a um fio, por assim dizer, de sua
ardente retidão analítica, de sua escrupulosidade lógica, de seu
questionamento compassivo, sopram aquelas “fortes ventanias vindas
do subsolo” evocadas por Franz Kafka (outro primo espiritual).
Algum veio de loucura foi perfurado.
As indicações examinadas com extrema
paciência por Nevin neste livro perturbador apontam para um
sentimento retorcido, ao mesmo tempo agudo e fundamente enterrado. De
alguma maneira, essa “outsider eleita” sentia inveja de
Deus, de Seu infinito amor, que reconhecia mentalmente, mas não
conseguia aplicar à imagem que construíra de sua própria
identidade. Sentia inveja — como, talvez, santa Teresa d’Ávila e
são João da Cruz — das agonias que Deus sofrera na pessoa de Seu
filho supliciado. Terreno pantanoso. A isso talvez a resposta menos
inadequada venha de uma língua ao mesmo tempo triste e sardônica —
o iídiche, que ela desconhecia ou talvez desprezasse. Simone Weil
foi, sem dúvida, a primeira mulher entre os filósofos. Foi também
uma schlemiel transcendente.
2 de março de 1992
George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos
Capítulo VI – O Menino Mais Velho
Deu-se aquilo porque Sinha Vitória
não conversou um instante com o menino mais velho. Ele nunca tinha
ouvido falar em inferno. Estranhando a linguagem de Sinha Terta,
pediu informações. Sinha Vitória, distraída, aludiu vagamente a
certo lugar ruim demais, e como o filho exigisse uma descrição,
encolheu os ombros.
O menino foi à sala interrogar o pai,
encontrou-o sentado no chão, com as pernas abertas, desenrolando um
meio de sola.
– Bota o pé aqui.
A ordem se cumpriu e Fabiano tomou
medida da alpercata: deu um traço com a ponta da faca atrás do
calcanhar, outro adiante do dedo grande. Riscou em seguida a forma do
calçado e bateu palmas – Arreda.
O pequeno afastou-se um pouco, mas
ficou por ali rondando e timidamente arriscou a pergunta. Não obteve
resposta, voltou à cozinha, foi pendurar-se à saia da mãe: –
Como é?
Sinha Vitória falou em espetos
quentes e fogueiras.
– A senhora viu?
Aí Sinha Vitória se zangou, achou-o
insolente e aplicou-lhe um cocorote. O menino saiu indignado com a
injustiça, atravessou o terreiro, escondeu-se debaixo das
catingueiras murchas, à beira da lagoa vazia.
A cachorra Baleia acompanhou-o naquela
hora difícil. Repousava junto à trempe, cochilando no calor, à
espera de um osso. Provavelmente não o receberia, mas acreditava nos
ossos, e o torpor que a embalava era doce. Mexia-se de longe em
longe, punha na dona as pupilas negras onde a confiança brilhava.
Admitia a existência de um osso graúdo na panela, e ninguém lhe
tirava esta certeza, nenhuma inquietação lhe perturbava os desejos
moderados. As vezes recebia pontapés sem motivo. Os pontapés
estavam previstos e não dissipavam a imagem do osso.
Naquele dia a voz estridente de Sinha
Vitória e o cascudo no menino mais velho arrancaram Baleia da
modorra e deram-lhe a suspeita de que as coisas não iam bem. Foi
esconder-se num canto, por detrás do pilão, fazendo-se miúda entre
cumbucos e cestos. Um minuto depois levantou o focinho e procurou
orientar-se. O vento morno que soprava da lagoa fixou-lhe a
resolução: esgueirou-se ao longo da parede, transpôs a janela
baixa da cozinha, atravessou o terreiro, passou pelo pé de turco,
topou a camarada, chorando, muito infeliz, à sombra das
catingueiras. Tentou minorar-lhe o padecimento saltando em roda e
balançando a cauda. Não podia sentir dor excessiva. E como nunca se
impacientava, continuou a pular, ofegante, chamando a atenção
do amigo. Afinal convenceu-o de que o procedimento dele era inútil.
O pequeno sentou-se, acomodou nas
pernas a cabeça da cachorra, pôs-se a contar-lhe baixinho uma
história. Tinha um vocabulário quase tão minguado como o do
papagaio que morrera no tempo da seca. Valia-se, pois, de exclamações
e de gestos, Baleia respondia com o rabo, com a língua, com
movimentos fáceis de entender.
Todos o abandonavam, a cadelinha era o
único vivente que lhe mostrava simpatia. Afagou-a com os dedos
magros e sujos, e o animal encolheu-se para sentir bem o contato
agradável, experimentou uma sensação como a que lhe dava a cinza
do borralho.
Continuou a acariciá-la, aproximou do
focinho dela a cara enlameada, olhou bem no fundo os olhos
tranquilos.
Estivera metido no barreiro com o
irmão, fazendo bichos de barro, lambuzando-se. Deixara o brinquedo e
fora interrogar Sinha Vitória. Um desastre. A culpada era Sinha
Terta, que na véspera, depois de curar com reza a espinhela de
Fabiano, soltara uma palavra esquisita, chiando, o canudo do cachimbo
preso nas gengivas banguelas. Ele tinha querido que a palavra virasse
coisa o ficara desapontado quando a mãe se referira a um lugar ruim,
com espetos e fogueiras. Por isso rezingara, esperando que ela
fizesse o inferno transformar-se.
Todos os lugares conhecidos eram bons:
o chiqueiro das cabras, o curral, o barreiro, o pátio, o bebedouro -
mundo onde existiam seres reais, a família do vaqueiro e os bichos
da fazenda. Além havia uma serra distante e azulada, um monte que a
cachorra visitava, caçando preás, veredas quase imperceptíveis na
catinga, moitas o capões de mato, impenetráveis bancos de macambira
– e aí fervilhava uma população de pedras vivas e plantas que
procediam como gente. Esses mundos viviam em paz, às vezes
desapareciam as fronteiras, habitantes dos dois lados –
entendiam-se perfeitamente e auxiliavam-se. Existiam sem dúvida em
toda a parte forças maléficas, mas essas forças eram sempre
vencidas. E quando Fabiano amansava brabo, evidentemente uma entidade
protetora segurava-o na sela, indicava-lhe os caminhos menos
perigosos, livrava-o dos espinhos e dos galhos. Nem sempre as
relações entre as criaturas haviam sido amáveis. Antigamente os
homens tinham fugido à toa, cansados e famintos. Sinha Vitória, com
o filho mais novo escanchado no quarto, equilibrava o baú de folha
na cabeça; Fabiano levava no ombro a espingarda de pederneira;
Baleia mostrava as costelas através do pêlo escasso. Ele, o menino
mais velho, caíra no chão que lhe torrava os pés. Escurecera de
repente, os xiquexiques e os mandacarus haviam desaparecido. Mal
sentia as pancadas que Fabiano lhe dava com a bainha da faca de
ponta.
Naquele tempo o mundo era ruim. Mas
depois se consertara, para bem dizer as coisas ruins não tinham
existido. No jirau da cozinha arrumavam-se mantas de carne seca e
pedaços de toicinho. A sede não atormentava as pessoas, e à tarde;
aberta a porteira, o gado miúdo corria para o bebedouro. Ossos e
seixos transformavam-se às vezes nos entes que povoavam as moitas, o
morro, a serra distante e os bancos de macambira.
Como não sabia falar direito, o
menino balbuciava expressões complicadas, repetia as sílabas,
imitava os berros dos animais, o barulho do vente, o som dos galhos
que rangiam na catinga, roçando-se. Agora tinha tido a ideia de
aprender uma palavra, com certeza importante porque figurava na
conversa de Sinha Terta. Ia decorá-la e transmiti-la ao irmão e à
cachorra. Baleia permaneceria indiferente, mas o irmão se admiraria,
invejoso.
– Inferno, inferno.
Não acreditava que um nome tão
bonito servisse para designar coisa ruim. E resolvera discutir com
Sinha Vitória. Se ela houvesse dito que tinha ido ao inferno, bem.
Sinha Vitória impunha-se, autoridade visível e poderosa. Se
houvesse feito menção de qualquer autoridade invisível e mais
poderosa, muito bem. Mas tentara convencê-la dando-lhe um cocorote,
e isto lhe parecia absurdo. Achava as pancadas naturais quando as
pessoas grandes se zangavam, pensava até que a zanga delas era a
causa única dos cascudos e puxavantes de orelhas. Esta convicção
tornava-o desconfiado, fazia-o observar os pais antes de se dirigir a
eles. Animara-se a interrogar Sinha Vitória porque ela estava
bem-disposta. Explicou isto à cachorrinha com abundância de gritos
e gestos.
Baleia detestava expansões violentas:
estirou as pernas, fechou os olhos e bocejou. Para ela os pontapés
eram fatos desagradáveis e necessários Só tinha um meio de
evitá-los, a fuga. Mas às vezes apanhavam-na de surpresa, uma
extremidade de alpercata batia-lhe no traseiro – saía latindo, ia
esconder-se no mato, com desejo de morder canelas. Incapaz de
realizar o desejo, aquietava-se. Efetivamente a exaltação do amigo
era desarrazoada. Tornou a estirar as pernas e bocejou de novo. Seria
bom dormir.
O menino beijou-lhe o focinho úmido,
embalou-a. A alma dele pôs-se a fazer voltas em redor da serra
azulada e dos bancos de macambira. Fabiano dizia que na serra havia
tocas de suçuaranas. E nos bancos de macambira, rendilhados de
espinhos, surgiam cabeças chatas de jararacas.
Esfregou as mãos finas, esgaravatou
as unhas sujas. Pensou nas figurinhas abandonadas junto ao barreiro,
mas isto lhe trouxe a recordação da palavra infeliz. Diligenciou
afastar do espírito aquela curiosidade funesta, imaginou que não
fizera a pergunta, não recebera portanto o cascudo. Levantou-se. Via
a janela da cozinha, o cocó de Sinha Vitória, e isto lhe dava
pensamentos maus. Foi sentar-se debaixo de outra árvore, avistou a
serra coberta de nuvens. Ao escurecer a serra misturava-se com o
céu e as estrelas andavam em cima dela. Como era possível haver
estrelas na terra?
A cadelinha chegou-se aos pulos,
cheirou-o, lambeu-lhe as mãos e acomodou-se.
Como era possível haver estrelas na
terra? Entristeceu. Talvez Sinha Vitória dissesse a verdade. O
inferno devia estar cheio de jararacas e suçuaranas, e as pessoas
que moravam lá recebiam cocorotes, puxões de orelhas e pancadas com
bainha de faca.
Apesar de ter mudado de lugar, não
podia livrar-se da presença de Sinha Vitória. Repetiu que não
havia acontecido nada e tentou pensar nas estrelas que se acendiam na
serra. Inutilmente. Aquela hora as estrelas estavam apagadas.
Sentiu-se fraco e desamparado, olhou os braços magros, os dedos
finos, pôs-se a fazer no chão desenhos misteriosos. Para que Sinha
Vitória tinha dito aquilo?
Abraçou a cachorrinha com uma
violência que a descontentou. Não gostava de ser apertada, preferia
saltar e espojar-se. Farejando a panela, franzia as ventas e
reprovava os modos estranhos do amigo. Um osso grande subia e descia
no caldo. Esta imagem consoladora não a deixava.
O menino continuava a abraçá-la. E
Baleia encolhia-se para não magoá-lo, sofria a carícia excessiva.
O cheiro dele era bom, mas estava misturado com emanações que
vinham da cozinha. Havia ali um osso. Um osso graúdo, cheio de
tutano e com alguma carne.
Graciliano Ramos, em Vidas Secas
Encarnação involuntária
Às vezes, quando vejo uma pessoa que
nunca vi, e tenho algum tempo para observá-la, eu me encarno nela e
assim dou um grande passo para conhecê-la. E essa intrusão numa
pessoa, qualquer que seja ela, nunca termina pela sua própria
autoacusação: ao nela me encarnar, compreendo-lhe os motivos e
perdoo. Preciso é prestar atenção para não me encarnar numa vida
perigosa e atraente, e que por isso mesmo eu não queira o retorno a
mim mesma.
Um dia, no avião... ah, meu Deus –
implorei – isso não, não quero ser essa missionária!
Mas era inútil. Eu sabia que, por
causa de três horas de sua presença, eu por vários dias seria
missionária. A magreza e a delicadeza extremamente polida de
missionária já me haviam tomado. É com curiosidade, algum
deslumbramento e cansaço prévio que sucumbo à vida que vou
experimentar por uns dias viver. E com alguma apreensão, do ponto de
vista prático: ando agora muito ocupada demais com os meus deveres e
prazeres para poder arcar com o peso dessa vida que não conheço –
mas cuja tensão evangelical já começo a sentir. No avião mesmo
percebo que já comecei a andar com esse passo de santa leiga: então
compreendo como a missionária é paciente, como se apaga com esse
passo que mal quer tocar no chão, como se pisar mais forte viesse
prejudicar os outros. Agora sou pálida, sem nenhuma pintura nos
lábios, tenho o rosto fino e uso aquela espécie de chapéu de
missionária.
Quando eu saltar em terra
provavelmente já terei esse ar de
sofrimento-superado-pela-paz-de-se-ter-uma-missão. E no meu rosto
estará impressa a doçura da esperança moral. Porque sobretudo me
tornei toda moral. No entanto quando entrei no avião estava tão
sadiamente amoral. Estava, não, estou! Grito-me eu em revolta contra
os preconceitos da missionária. Inútil: toda a minha força está
sendo usada para eu conseguir ser frágil. Finjo ler uma revista,
enquanto ela lê a Bíblia.
Vamos ter uma descida curta em terra.
O aeromoço distribui chicletes. E ela cora mal o rapaz se aproxima.
Em terra sou uma missionária ao vento
do aeroporto, seguro minhas imaginárias saias longas e cinzentas
contra o despudor do vento. Entendo, entendo. Entendo-a, ah, como a
entendo e ao seu pudor de existir quando está fora das horas em que
cumpre sua missão. Acuso, como a missionariazinha, as saias curtas
das mulheres, tentação para os homens. E, quando não entendo, é
com o mesmo fanatismo depurado dessa mulher pálida que facilmente
cora à aproximação do rapaz que nos avisa que devemos prosseguir
viagem.
Já sei que só daí a dias
conseguirei recomeçar enfim integralmente a minha própria vida.
Que, quem sabe, talvez nunca tenha sido própria, senão no momento
de nascer, e o resto tenha sido encarnações. Mas não: eu sou uma
pessoa. E quando o fantasma de mim mesma me toma – então é um tal
encontro de alegria, uma tal festa, que a modo de dizer choramos uma
no ombro da outra. Depois enxugamos as lágrimas felizes, meu
fantasma se incorpora plenamente em mim, e saímos com alguma altivez
por esse mundo afora.
Uma vez, também em viagem, encontrei
uma prostituta perfumadíssima que fumava entrefechando os olhos e
estes ao mesmo tempo olhavam fixamente um homem que já estava sendo
hipnotizado. Passei imediatamente, para melhor compreender, a fumar
de olhos entrefechados para o único homem ao alcance de minha visão
intencionada. Mas o homem gordo que eu olhara para experimentar e ter
a alma da prostituta, o gordo estava mergulhado no New York Times.
E meu perfume era discreto demais. Falhou tudo.
Clarice Lispector, em Todos os contos
quarta-feira, 22 de abril de 2026
No Clos Normand
Come-se bem e caro em Nova Iorque. Num
daqueles restaurantes com nome francês ali das ruas 55 ou 56, você
põe os dois olhos no pires e o maître ainda fica esperando
você botar uma orelha de gorjeta. Nem sempre o caro é bom. Caímos
em alguns blefes memoráveis, levados por um nome promissor ou uma
fachada bonita. E nem sempre o bom é caro. O principal é a gente
abandonar alguns preconceitos sobre a comida americana padronizada.
Por exemplo: em Nova Iorque existem
cadeias de restaurantes especializados em duas ou três coisas como
hambúrgueres e saladas, e todos com o mesmo nome, a mesma decoração
e o mesmo tipo de serviço. A sua primeira reação é passar longe
deles, prevendo que tudo será robotizado e terá o mesmo gosto de
papelão. Ledo e ivo engano. O hambúrguer é grande e gostoso, a
salada é fresca e, se o serviço é um pouco automático, pelo menos
você não está pagando pela empáfia de nenhum maître nem
por um nome francês na porta. Agora, não invente de querer sair
fora do padrão. Se com o Superbúrguer nº 2 você tem direito a
salada com molho Russo ou das Mil Ilhas, não invente de pedir o
molho Roquefort que vem com o Superbúrguer nº 3. O garçom entrará
em pânico, uma luz acenderá no escritório do gerente, em dois
minutos o Presidente Ford ficará sabendo e colocará a Guarda
Nacional em alerta. Peça o que está escrito.
Outra boa saída para quem está em
Nova Iorque com um orçamento subdesenvolvido é a porcaria, a grande
porcaria americana. O sanduíche de drugstore, o
cachorro-quente de rua, os sorvetes e milk-shakes. Porcaria
boa e barata, cheia de colesterol e energia, a sustança do turista.
Grande lance, também, é o breakfast. A maior invenção
americana depois do raibã e do chiclé balão. Com um breakfast
de bacon, ovos, torradas, manteiga, geléias, laranjada e café com
leite ali pelas 9 ou 10 da manhã, você fica de pé e ativo até as
10 da noite e economiza o almoço. Há casos de brasileiros que
resolveram experimentar panquecas com melado de breakfast e
ficaram alimentados por dois dias, só que com a locomoção e o
raciocínio um pouco prejudicados. São dúzias de panquecas com
montes de manteiga em cima.
No nosso último dia em Nova Iorque,
resolvemos almoçar num dos franceses famosos. Acontece que já
tínhamos feito as malas e eu já estava com o meu uniforme de
viagem, um casaco tipo jaqueta, ou uma jaqueta tipo casaco, que —
se não fosse o protesto de familiares e de órgãos da saúde
pública — me acompanharia até o túmulo. Entramos no Clos
Normand, Rua 55, leste. Restaurante vazio — ainda não era meio-dia
— e aquele ar que diz aos sentidos: este é dos bons. O maître
vem em nossa direção do fundo do restaurante. Sorrindo. É meio
parecido com o Nestor Jost. De repente nota o meu casaco e o sorriso
vacila. É evidente o seu esforço para não se deixar dominar pela
náusea. O senhor tem reserva? É uma pergunta retórica, pois ele já
decidiu que eu só sento em restaurante em que ele seja maître
com uma ordem judicial, e mesmo assim ele dará um jeito de me
envenenar antes do primeiro prato. Não tenho reserva. Ele não
consegue tirar os olhos do meu casaco. É o fascínio do ultraje. Ele
toma o meu casaco como uma afronta pessoal. Finge que passa os olhos
pelo restaurante, como que pensando numa possibilidade de nos
acomodar, e finalmente pede desculpas. Sem reserva, infelizmente…
Agradeço e começo a me retirar, mas
ele não resiste. Pega a gola do meu casaco entre o polegar e o
indicador, e numa voz conciliadora pergunta: “Você não tem outro
casaco, não?” Como quem diz: meu jovem, você se dá conta do que
me fez? Você tem consciência do que acaba de tentar aqui, hoje?
Pensei em várias respostas para lhe dar. Mas aí já estávamos a
duas quadras de distância, e rindo muito do incidente. “Tenho,
sim, mas está no bolso de trás e é difícil tirar.” Ou “no
Lasserre, em Paris, ninguém reparou”. Ou “tenho, sim, mas este
eu não dou, não insista”. Fomos almoçar em outro francês, onde
o meu casaco, além de alguns narizes torcidos, não causou nenhum
efeito.
Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora
Brinde no banquete das musas
Poesia, marulho e náusea,
poesia, canção suicida,
poesia, que recomeças
de outro mundo, noutra vida.
Deixaste-nos mais famintos,
poesia, comida estranha,
se nenhum pão te equivale:
a mosca deglute a aranha.
Poesia, sobre os princípios
e os vagos dons do universo:
em teu regaço incestuoso,
o belo câncer do verso.
Azul, em chama, o telúrio
reintegra a essência do poeta,
e o que é perdido se salva…
Poesia, morte secreta.
Carlos Drummond de Andrade, em Fazendeiro do ar
Diário de Bernardo Soares
101.
Se a nossa vida fosse um eterno
estar-à-janela, se assim ficássemos, como um fumo parado, sempre,
tendo sempre o mesmo momento de crepúsculo dolorindo a curva dos
montes. Se assim ficássemos para além de sempre!
Se ao menos, aquém da
impossibilidade, assim pudéssemos quedar-nos, sem que cometêssemos
uma ação, sem que os nossos lábios pálidos pecassem mais
palavras!
Olha como vai escurecendo!... O
sossego positivo de tudo enche-me de raiva, de qualquer coisa que é
o travo no sabor da aspiração. Dói-me a alma... Um traço lento de
fumo ergue-se e dispersa-se lá longe... Um tédio inquieto faz-me
não pensar mais em ti...
Tão supérfluo tudo! Nós e o mundo e
o mistério de ambos.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
O Mestre e Margarida | 2
2
Pôncio Pilatos
De manto branco com a barra cor de
sangue, com movimentos gingados de um cavaleiro, na manhã do décimo
quarto dia do mês primaveril de Nissan, o procurador da Judeia,
Pôncio Pilatos, saiu para a colunata coberta entre as duas alas do
palácio de Herodes, o Grande.
Mais do que qualquer coisa no mundo, o
procurador odiava o cheiro do óleo de rosas, e agora tudo
pressagiava um dia ruim, pois esse cheiro começou a seguir o
procurador desde o amanhecer. Parecia-lhe que o odor emanava dos
ciprestes e das palmeiras do jardim e que, ao cheiro dos equipamentos
de couro e do suor do corpo das tropas, misturava-se a maldita
corrente de perfume de rosa. Desde as alas do fundo do palácio, onde
se acomodou a primeira coorte da Décima Segunda Legião Fulminata,
que chegara a Yerushalaim junto com o procurador, a colunata ao longo
da área superior do jardim cobriu-se de fumaça, e a essa amargurada
fumaça — sinal de que os cozinheiros nas centúrias haviam
começado a preparar o almoço — misturava-se aquele mesmo odor
gorduroso de rosas.
“Oh, deuses, deuses, por que estão
me castigando? É, não há dúvidas, é ela, de novo ela, essa
doença invencível e terrível... a enxaqueca, que faz metade da
cabeça doer... contra ela não há remédio, não há nenhuma
salvação... vou tentar não mexer a cabeça...”
No chão de mosaico próximo à fonte,
uma poltrona já estava preparada, e o procurador, sem olhar para
ninguém, sentou-se e estendeu a mão para o lado. Respeitosamente, o
secretário depositou nessa mão um pedaço de pergaminho. Sem
conseguir conter a careta de dor, o procurador correu os olhos pelo
escrito, devolveu o pergaminho ao secretário e articulou com
dificuldade:
— O processado é da Galileia? O
caso foi enviado ao tetrarca?
— Sim, procurador — respondeu o
secretário.
— E ele?
— Recusou-se a concluir o caso e
enviou a sentença de morte do Sinédrio para que o senhor confirme —
explicou o secretário.
O procurador contorceu o rosto e disse
baixinho:
— Tragam o acusado.
No mesmo instante, dois legionários o
trouxeram da área do jardim sob as colunas para a varanda, e
colocaram diante da poltrona do procurador um homem de uns vinte e
sete anos. Esse homem trajava um quitão azul velho e rasgado. A
cabeça estava coberta por uma faixa branca com uma tira ao redor da
testa e as mãos estavam atadas nas costas. O homem tinha um grande
hematoma no olho esquerdo e no canto da boca havia uma escoriação
com sangue pisado. O recém-chegado olhava para o procurador com
muita curiosidade.
Este estava calado, depois perguntou
baixinho em aramaico:
— Foi você que incitou o povo a
destruir o templo de Yerushalaim?
O procurador estava como uma pedra, só
seus lábios se moviam um tantinho quando pronunciava as palavras.
Ele estava como uma pedra porque temia balançar a cabeça, que ardia
com a dor infernal.
O homem com as mãos atadas
inclinou-se um pouco para frente e começou a falar:
— Bom homem! Acredite em mim...
Mas o procurador, como antes, sem se
mover e sem elevar minimamente o tom de voz, interrompeu-o no mesmo
instante:
— É a mim que você chama de bom
homem? Está cometendo um engano. Em Yerushalaim, todos cochicham
sobre mim, que sou um monstro cruel, e é a mais pura verdade. — E
acrescentou no mesmo tom monótono: — Tragam-me o centurião
Mata-ratos.
A todos pareceu que ficou escuro na
varanda, quando o centurião da primeira centúria, Marcos, chamado
de Mata-ratos, apresentou-se ao procurador. Mata-ratos era uma cabeça
mais alto do que o maior soldado da Legião e tinha ombros tão
largos que tapou completamente o sol ainda baixo.
O procurador dirigiu-se ao centurião
em latim:
— O criminoso me chama de “bom
homem”. Leve-o daqui um instante e explique-lhe como deve
referir-se a mim. Mas sem mutilação.
Então todos, menos o procurador,
imóvel, seguiram Marcos Mata-ratos com o olhar, enquanto este
acenava para o preso com a mão, indicando que deveria segui-lo.
Em geral, todo mundo seguia Mata-ratos
com o olhar, onde quer que ele surgisse, por causa do seu tamanho e,
para aqueles que o viam pela primeira vez, também porque o rosto do
centurião tinha sido deformado: em algum lugar do passado seu nariz
fora esmagado com um golpe de porrete alemão.
As botas pesadas de Marcos bateram no
mosaico e o homem amarrado o seguiu sem fazer ruído. Imperou um
silêncio absoluto na colunata e podia-se ouvir como os pombos
arrulhavam na área do jardim perto da varanda e, também, como a
água cantarolava na fonte uma intrincada e agradável canção.
O procurador teve vontade de
levantar-se, pôr a têmpora embaixo do jato e deixar-se ficar assim.
Mas ele sabia que nem isso o ajudaria.
Assim que Mata-ratos levou o preso da
colunata para o jardim, ele arrancou o chicote das mãos de um
legionário parado ao pé de uma estátua de bronze e, com um leve
impulso, açoitou o preso nos ombros. O movimento do centurião foi
displicente e fraco, mas o homem amarrado caiu instantaneamente no
chão, como se lhe tivessem arrancado as pernas, engasgou com o ar, a
cor desapareceu de seu rosto e o olhar tornou-se inexpressivo.
Só com a mão esquerda, Marcos
suspendeu no ar o homem caído, leve como um saco vazio, colocou-o de
pé e começou a falar, fanho, pronunciando de forma errada as
palavras em aramaico:
— O procurador romano deve ser
chamado de Hegemon. Não use outras palavras. Sentido! Está me
entendendo ou terei de bater novamente?
O preso cambaleou, mas recuperou o
equilíbrio. A cor voltou ao seu rosto e ele respirou fundo,
respondendo com a voz rouca:
— Eu entendi. Não me bata.
Um instante depois, estava de novo
diante do procurador.
A voz insípida e doente soou:
— Nome?
— O meu? — retrucou o preso
depressa, expressando com todo o seu ser que estava pronto para
responder com sensatez e não provocar mais ira.
O procurador disse baixinho:
— O meu eu sei. Não finja ser mais
bobo do que você é. O seu.
— Yeshua — respondeu rapidamente o
prisioneiro.
— Tem sobrenome?
— Ha-Notzri.
— Natural de onde?
— Da cidade de Gamala — respondeu
o prisioneiro, indicando com a cabeça que lá, em algum lugar
distante, à sua direita, ao norte, estava a cidade de Gamala.
— Qual é sua origem?
— Não sei ao certo — respondeu o
preso, animado. — Não me lembro dos meus pais. Disseram-me que meu
pai era sírio...
— Qual é seu endereço permanente?
— Não tenho morada permanente —
respondeu timidamente o prisioneiro. — Viajo de cidade em cidade.
— Isso pode ser resumido em uma
palavra: vadiagem — disse o procurador, e perguntou: — Tem
parentes?
— Não tenho ninguém. Sou sozinho
no mundo.
— Por acaso sabe ler e escrever?
— Sim.
— Por acaso sabe alguma outra
língua, além do aramaico?
— Sei. Grego.
A pálpebra inchada levantou-se de
leve e o olho, repuxado pela nuvem de sofrimento, parou no preso. O
outro olho permaneceu fechado.
Pilatos começou a falar em grego:
— Então era você que queria
destruir o templo e conclamava o povo a isso?
O prisioneiro reanimou-se, seus olhos
pararam de expressar medo e ele começou a falar em grego:
— Eu, bom ho... — na mesma hora o
terror brilhou nos olhos do prisioneiro porque por pouco ele não
escorregou. — Eu, Hegemon, nunca na minha vida pensaria em destruir
o templo e não incitei ninguém a cometer tal ato insano.
O rosto do secretário, que anotava o
depoimento curvado sobre uma mesa baixa, expressou admiração. Ele
ergueu a cabeça, mas imediatamente inclinou-a de volta para o
pergaminho.
— Uma multidão de pessoas
diferentes se reúne nessa cidade para a festa. Entre elas há
magos, astrólogos, videntes e assassinos — disse o procurador em
tom monótono. — E dá de aparecerem também mentirosos. Você, por
exemplo, é um mentiroso. Está anotado legivelmente: incitou a
destruição do templo. Há testemunhas.
— Essa boa gente — começou a
falar o prisioneiro e, acrescentando rapidamente: —, Hegemon —
continuou: —, não aprendeu nada e confundiu tudo o que eu disse.
Em geral, estou começando a temer que essa confusão ainda vá se
prolongar por muito, muito tempo. Tudo porque ele anota
incorretamente o que eu digo.
Fez-se o silêncio. Agora os dois
olhos doentes fitavam o prisioneiro intensamente.
— Vou repetir para você, mas será
pela última vez: pare de querer se fazer de louco, seu bandido —
pronunciou Pilatos, em tom suave e monótono. — Não há muito
anotado sobre você, mas o que foi anotado é o suficiente para
enforcá-lo.
— Não, não, Hegemon — disse o
preso, esforçando-se no desejo de convencer. — Um sujeito vive me
seguindo e escrevendo sem parar em um pergaminho de cabra. Mas, certa
vez, dei uma espiada nesse pergaminho e fiquei horrorizado.
Decididamente, eu não falei nada do que estava anotado ali. Eu lhe
supliquei: queime seu pergaminho, pelo amor de Deus! Mas ele o
arrancou de minhas mãos e fugiu.
— Quem é esse? — perguntou
Pilatos com aversão e tocou a têmpora com a mão.
— Mateus Levi — explicou o
prisioneiro com boa vontade. — Ele era coletor de impostos e o
encontrei, pela primeira vez, a caminho de Betfagé, onde se projeta
um jardim de figueiras em uma esquina, e conversei com ele. No início
foi hostil comigo e até me insultou, quer dizer, achou que me
tivesse insultado chamando-me de cachorro. — Aqui o prisioneiro deu
um sorrisinho. — Eu, pessoalmente, não vejo nada de ruim nesse
animal para me ofender com essa palavra...
O secretário parou de anotar e lançou
um admirado olhar de soslaio, não para o preso, mas para o
procurador.
— ... no entanto, depois de me
ouvir, ele ficou mais amolecido — continuou Yeshua — e,
finalmente, jogou o dinheiro na estrada e disse que seguiria
comigo...
Pilatos deu um sorrisinho torto,
arreganhando os dentes amarelos, e proferiu, virando-se de corpo
inteiro para o secretário:
— Oh, cidade de Yerushalaim! O que é
que não se ouve nela! O coletor de impostos, vejam só, jogou o
dinheiro na estrada!
Sem saber como responder a isso, o
secretário considerou necessário repetir o sorriso de Pilatos.
— E ele disse que, daquele momento
em diante, odiaria o dinheiro — afirmou Yeshua sobre o estranho
gesto de Mateus Levi, e acrescentou: — Desde então, ele se tornou
meu companheiro de viagem.
Com os dentes ainda arreganhados, o
procurador olhou para o preso de relance, depois para o sol, que não
parava de subir sobre as estátuas equestres do hipódromo, distante,
localizado abaixo, à direita, e, de repente, com algum sofrimento
nauseabundo, pensou que o mais simples seria expulsar esse estranho
bandido da varanda, pronunciando somente duas palavras:
“Enforquem-no.” Expulsar também a tropa, sair da colunata para o
interior do palácio, mandar escurecer o quarto, jogar-se no leito,
pedir água gelada, com a voz lamentosa chamar seu cachorro Banga e
reclamar com ele sobre a enxaqueca. E de repente a ideia do veneno
brilhou sedutoramente na cabeça doente do procurador.
Ele lançou os olhos opacos para o
preso e por algum tempo ficou calado, lembrando, com sofrimento, por
que, sob a impiedosa chama do sol matinal de Yerushalaim, estava a
sua frente um prisioneiro com o rosto desfigurado por surras, e quais
perguntas desnecessárias ainda lhe deveriam fazer.
— Mateus Levi? — perguntou o
doente com a voz rouca e fechou os olhos.
— Isso, Mateus Levi — chegou a ele
uma voz alta que o fazia sofrer.
— De qualquer forma, o que mesmo
você falava sobre o templo à multidão reunida no mercado?
A voz daquele que respondia parecia
perfurar a têmpora de Pilatos e, indescritivelmente dolorosa, dizia:
— Eu, Hegemon, falava que o templo
da velha crença ruirá e, em seu lugar, se erguerá o novo templo da
verdade. Disse de tal forma para que fosse mais compreensível.
— E para que você, seu vadio, foi
confundir o povo no mercado, falando-lhe da verdade da qual você
não tem ideia? O que é a verdade?
Nesse momento, o procurador pensou:
“Oh, meus Deuses! Estou lhe perguntando algo desnecessário para um
julgamento... Minha mente não me serve mais...” E novamente se
assoma uma taça com um líquido escuro. “Tragam-me veneno,
veneno...”
Então, ouviu a voz de novo:
— A verdade, antes de tudo, é que a
sua cabeça está doendo, e dói tão forte que você covardemente
pensa na morte. Está sem forças não só para falar comigo, mas tem
dificuldade até de olhar para mim. E agora eu, involuntariamente,
sou o seu carrasco, e isso me deixa aflito. Você não consegue
pensar em nada e deseja somente que venha seu cachorro, o único ser,
pelo visto, ao qual você é afeiçoado. Mas seus tormentos agora
chegarão ao fim, a dor de cabeça vai passar.
O secretário esbugalhou os olhos para
o prisioneiro e não terminou de escrever as palavras.
Pilatos levantou os olhos atormentados
para o prisioneiro e viu que o sol já estava bastante alto sobre o
hipódromo, e que um raio penetrara na colunata e se arrastava até
as sandálias gastas de Yeshua, que se afastava do sol.
O procurador levantou-se da poltrona,
apertou a cabeça com as mãos, e o rosto amarelado e escanhoado
expressou horror. Mas, na mesma hora, ele o suprimiu com sua vontade
e sentou-se de novo.
O prisioneiro, ao mesmo tempo,
continuava seu discurso, mas o secretário não anotava mais nada e,
esticando o pescoço feito um ganso, só se esforçava para não
deixar passar uma palavra sequer.
— Pronto, está tudo acabado —
dizia o preso, lançando olhares benevolentes para Pilatos. — Estou
extremamente feliz com isso. Eu o aconselharia, Hegemon, a deixar o
palácio por um tempo e a passear a pé em algum lugar dos arredores,
bem, até mesmo nos jardins do monte das Oliveiras. Um temporal se
aproxima... — o prisioneiro voltou-se e apertou os olhos contra o
sol — ... mais tarde, à noite. Um passeio seria muito proveitoso
para você e eu o acompanharia com gosto. Alguns pensamentos novos
vieram-me à cabeça, que poderiam, suponho, parecer-lhe
interessantes, e com boa vontade eu os dividiria com você,
principalmente porque você deixa a impressão de ser um homem muito
inteligente.
O secretário ficou mortalmente pálido
e deixou o rolo cair no chão.
— O ruim — continuava o homem
amarrado, que não era interrompido por ninguém — é que você é
um tanto fechado e perdeu definitivamente a fé nas pessoas. É
impossível, você há de concordar, depositar toda sua afeição num
cachorro. Sua vida é sem graça, Hegemon — aqui o orador
permitiu-se um sorriso.
O secretário pensava somente se
deveria ou não acreditar em seus ouvidos. Tinha de acreditar. Então,
tentou imaginar qual seria a forma rara da ira do explosivo
procurador diante do inédito atrevimento do preso. Mas isso o
secretário não conseguia imaginar, apesar de conhecer bem o
procurador.
Então, eclodiu a voz enrouquecida do
procurador, que disse em latim:
— Desatem suas mãos.
Um dos legionários da guarda bateu
com a lança, entregou-a ao outro, aproximou-se e retirou as cordas
do prisioneiro. O secretário apanhou o rolo e resolveu, por ora, não
anotar nada e não se impressionar com nada.
— Reconheça — perguntou baixinho,
em grego, Pilatos. — Você é um grande doutor?
— Não, procurador, não sou doutor
— respondeu o prisioneiro com alívio, esfregando a mão vincada,
inchada e vermelha.
Com os olhos severos e carranca,
Pilatos perfurava o prisioneiro e nesses olhos não havia mais
opacidade, neles surgiram as faíscas que todos conheciam.
— Eu não lhe perguntei — disse
Pilatos. — Você, por acaso, sabe também latim?
— Sei, sim — respondeu o
prisioneiro.
A cor vermelha tomou conta das
bochechas amareladas de Pilatos, que perguntou em latim:
— Como soube que eu queria chamar o
cachorro?
— É muito simples — respondeu o
prisioneiro em latim. — Você passou com a mão pelo ar — o
prisioneiro repetiu o gesto de Pilatos —, como se quisesse fazer um
afago, e os lábios...
— Isso — disse Pilatos.
Ficaram calados. Depois Pilatos fez
uma pergunta em grego:
— Quer dizer que você é doutor?
— Não, não — respondeu vivamente
o prisioneiro. — Acredite em mim, não sou doutor.
— Está bem. Caso queira manter isso
em segredo, mantenha. Isso não tem relação direta com o caso.
Então, você afirma que não conclamava a destruir... ou a
incendiar, ou, de alguma forma, a liquidar o templo?
— Eu, Hegemon, não conclamei
ninguém a tais atos, repito. Será que pareço um louco?
— Oh, não, não parece um louco —
respondeu baixinho o procurador e riu com um certo sorriso terrível.
— Então, jure que isso não aconteceu.
— Quer que jure por quem? —
perguntou o desamarrado bastante animado.
— Pode ser pela sua vida —
respondeu o procurador. — É o momento certo de jurar por ela,
pois, saiba, ela está por um fio.
— Você não está pensando que é
você que a sustenta, Hegemon? — perguntou o prisioneiro. — Caso
pense assim, está cometendo um grande engano.
Pilatos estremeceu e respondeu com os
dentes cerrados:
— Eu posso cortar esse fio.
— Também nisso você se engana —
exclamou o prisioneiro com um sorriso radiante, protegendo-se do sol
com a mão. — Você há de convir que, decerto, só poderá cortar
o fio aquele que o pendurou, não é mesmo?
— Isso, isso — disse Pilatos
sorrindo. — Agora não tenho dúvidas de que os vadios inúteis de
Yerushalaim o seguiam bem de perto. Não sei quem pendurou sua
língua, mas foi bem pendurada. A propósito, diga-me: é verdade que
você apareceu em Yerushalaim pelos portões de Susa montado num
burro e acompanhado por uma multidão da ralé que o saudava aos
gritos como se você fosse algum profeta? — Aqui o procurador
apontou para o rolo do pergaminho.
O prisioneiro lançou um olhar
perplexo para o procurador.
— Eu nem tenho burro, Hegemon —
disse ele. — Cheguei a Yerushalaim precisamente pelos portões de
Susa, mas a pé, somente na companhia de Mateus Levi, e ninguém
gritava para mim, pois até então ninguém me conhecia em
Yerushalaim.
— Você por acaso não conhece
pessoas como — continuou Pilatos sem tirar os olhos do prisioneiro
— um tal de Dismas, o outro Gestas e um terceiro Bar-Rabban?
— Não conheço essas boas pessoas —
respondeu o prisioneiro.
— Verdade?
— Verdade.
— Agora me diga, por que você usa
as palavras “boas pessoas” o tempo todo? Por acaso você chama
todo mundo assim?
— Todo mundo — respondeu o
prisioneiro. — Não existem pessoas maldosas no mundo.
— É a primeira vez que ouço isso —
disse Pilatos, dando um sorrisinho. — Mas pode ser que eu conheça
pouco a vida!... Não precisa mais anotar. — Dirigiu-se ao
secretário, embora este não estivesse anotando nada mesmo, e
continuou falando ao prisioneiro: — Você leu sobre isso em algum
livro grego?
— Não. Cheguei a isso com meu
próprio raciocínio.
— E você prega isso?
— Prego.
— Mas, por exemplo, o centurião
Marcos, apelidado de Mata-ratos, ele é bom?
— É — respondeu o prisioneiro. —
Ele, na verdade, é um homem infeliz. Desde que as boas pessoas o
deformaram, tornou-se cruel e insensível. Seria interessante saber
quem o mutilou.
— Posso informar isso com satisfação
— respondeu Pilatos. — Pois fui testemunha disso. As boas pessoas
partiam para cima dele, como cachorros para cima de um urso. Alemães
agarraram-no pelo pescoço, pelas mãos, pelas pernas. O manipulário
da infantaria caiu numa emboscada e, se não fosse uma tura da
cavalaria, comandada por mim, romper um flanco, você, filósofo, não
chegaria a conversar com o Mata-ratos. Isso ocorreu na batalha de
Idistaviso, no vale das Virgens.
— Tenho a certeza de que se pudesse
falar com ele — disse de repente o prisioneiro em tom sonhador —,
ele mudaria drasticamente.
— Suponho — respondeu Pilatos —
que você traria pouca alegria ao legado da Legião caso inventasse
de conversar com algum de seus oficiais ou soldados. Aliás, isso
está longe de acontecer, para a felicidade geral, e o primeiro a se
ocupar disso serei eu.
Nesse instante, uma andorinha voou
impetuosa na colunata, fez um círculo sob o teto dourado, desceu,
quase atingiu com a asa pontuda o rosto de uma estátua de cobre no
nicho e se escondeu atrás do capitel de uma coluna. Quem sabe teve a
ideia de fazer um ninho ali.
Durante seu voo, uma fórmula
configurou-se na lúcida e agora leve cabeça do procurador. Era a
seguinte: Hegemon examinou o processo do filósofo vadio Yeshua, de
sobrenome Ha-Notzri, e não encontrou constituição de crime algum.
Não encontrou, em particular, a mínima ligação entre as ações
de Yeshua e as desordens que ocorreram em Yerushalaim nos últimos
tempos. O filósofo vadio revelou-se doente mental. Consequentemente,
o procurador não confirmava a sentença de morte de Ha-Notzri,
pronunciada pelo Pequeno Sinédrio. Porém, tendo em vista que os
discursos utópicos e loucos de Ha-Notzri podiam ser motivo de
perturbações em Yerushalaim, o procurador expulsará Yeshua de
Yerushalaim e o submeterá à prisão na Cesareia, a de Straton, no
mar Mediterrâneo, ou seja, exatamente onde fica a residência do
procurador.
Restava ditar isso ao secretário.
As asas da andorinha rufaram
exatamente sobre a cabeça do Hegemon. O pássaro se arrojou à bacia
do chafariz e voou para a liberdade absoluta. O procurador ergueu os
olhos para o prisioneiro e viu a poeira levantar num pilar ao lado
deste.
— É tudo sobre ele? — perguntou
Pilatos ao secretário.
— Infelizmente, não — respondeu o
secretário inesperadamente e entregou a Pilatos outro pedaço de
pergaminho.
— O que mais há? — perguntou
Pilatos, franzindo a testa.
Depois de ler o que lhe foi dado, seu
rosto se alterou ainda mais. Não se sabe se foi o sangue escuro que
afluiu para seu pescoço e rosto, ou se algo diferente aconteceu, só
que sua pele perdeu o amarelado, empardeceu e os olhos como que
afundaram.
Pelo visto, de novo o culpado era o
sangue, que afluiu para as têmporas e começou a latejar, mas dessa
vez algo aconteceu com a vista do procurador. Assim, teve a impressão
de que a cabeça do prisioneiro flutuou para algum lugar e de que no
lugar dela surgiu outra. E nessa cabeça calva havia uma coroa
dourada sem dentes. Na testa havia uma chaga redonda que carcomia a
pele e que estava besuntada de pomada. Uma boca banguela sulcada com
um lábio inferior caído e caprichoso. Pareceu a Pilatos que as
colunas cor-de-rosa da varanda e os telhados de Yerushalaim sumiram,
ao longe, abaixo, além do jardim, e que tudo em volta estava
mergulhado no denso verde dos jardins de ciprestes. E aconteceu algo
estranho com seu ouvido, como se ao longe tocassem trombetas,
baixinho e ameaçadoramente, e com muita clareza se ouvisse uma voz
anasalada, que pronunciava arrastadamente as palavras soberanas: “A
lei sobre a ofensa da majestade...”
Pensamentos curtos, desconexos e
incomuns surgiram: “Estou perdido!..”, e depois: “Estamos
perdidos!..” E entre eles um pensamento totalmente absurdo sobre
uma tal de imortalidade, e a imortalidade, por algum motivo,
provocou-lhe uma tristeza insuportável.
Pilatos esforçou-se, afastou as
visões, voltou o olhar para a varanda e, novamente, surgiram diante
dele os olhos do prisioneiro.
— Ouça, Ha-Notzri — começou a
dizer o procurador, olhando para Yeshua de maneira um tanto estranha:
o rosto do procurador estava terrível, mas os olhos preocupados —,
alguma vez você disse algo sobre o grande César? Responda!
Disse?... Ou... não... disse? — Pilatos esticou a palavra “não”
um pouco mais do que deveria num tribunal e, com seu olhar, enviou a
Yeshua algum pensamento que parecia querer incutir no prisioneiro.
— Dizer a verdade é fácil e
agradável — observou o prisioneiro.
— Eu não preciso saber —
respondeu Pilatos com a voz abafada e maldosa — se para você é
agradável ou desagradável dizer a verdade. Mas você é obrigado a
dizê-la. Porém, quando falar, pese cada palavra caso não deseje
uma morte não só inevitável, como também dolorosa.
Ninguém sabe o que aconteceu com o
procurador da Judeia, mas ele se permitiu levantar a mão, como se
estivesse se defendendo de um raio de sol e, por trás dessa mão,
como atrás de um escudo, quisesse enviar ao prisioneiro algum olhar
alusivo.
— Então, responda — dizia ele. —
Por acaso você conhece um certo Judas de Kerioth e o que exatamente
lhe disse, caso tenha falado, sobre o César?
— Foi assim — começou a narrar o
prisioneiro com gosto. — Anteontem à noite, eu conheci perto do
templo um jovem que se apresentou como Judas, da cidade de Kerioth.
Ele me convidou para ir a sua casa na Cidade Baixa e me recebeu muito
cordialmente...
— Bom homem? — perguntou Pilatos,
um fogo diabólico brilhando em seus olhos.
— Bom homem e muito curioso —
confirmou o prisioneiro. — Ele demonstrou o maior interesse por
meus pensamentos e foi muito hospitaleiro comigo...
— Acendeu as luminárias... — de
dentes cerrados e no mesmo tom do prisioneiro, Pilatos pronunciou com
os olhos brilhando.
— Acendeu — continuou Yeshua, um
pouco surpreso com o conhecimento de causa do procurador. —
Pediu-me que expressasse a minha opinião sobre o poder do Estado.
Ele estava extremamente interessado por essa questão.
— E o que foi que você disse? —
perguntou Pilatos. — Ou você vai responder que esqueceu o que
disse? — Já havia desespero em seu tom.
— Entre outras coisas, eu disse —
contava o prisioneiro — que qualquer poder é uma violência contra
as pessoas e que chegará o tempo em que não haverá mais o poder
nem dos Césares, nem qualquer outro poder. O homem passará para o
reino da verdade e da justiça, onde não haverá necessidade de
poder algum.
[…]
Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida
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