10/09/2026
Tem quem...
tem quem se proteja
por trás
de uma barragem
de bons dias
boas tardes
boas noites
assim não tendo
que ver o que está passando
Paulo Leminski, em Toda Poesia
As três experiências
Há três coisas para as quais eu
nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros,
nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O “amar os
outros” é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o
que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é
curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso
perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a
única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido
se der amor e às vezes receber amor em troca.
E nasci para escrever. A palavra é o
meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias
vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era
escrever. E não sei por que foi esta que eu segui. Talvez porque
para as outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado,
enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se
vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para
escrever o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete
anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E no
entanto cada vez que vou escrever, é como se fosse a primeira vez.
Cada livro meu é uma estreia penosa e feliz. Essa capacidade de me
renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e
escrever.
Quanto a meus filhos, o nascimento
deles não foi casual. Eu quis ser mãe. Meus dois filhos foram
gerados voluntariamente. Os dois meninos estão aqui, ao meu lado. Eu
me orgulho deles, eu me renovo neles, eu acompanho seus sofrimentos e
angústias, eu lhes dou o que é possível dar. Se eu não fosse mãe,
seria sozinha no mundo. Mas tenho uma descendência e para eles no
futuro eu preparo meu nome dia a dia. Sei que um dia abrirão as asas
para o voo necessário, e eu ficarei sozinha. É fatal, porque a
gente não cria os filhos para a gente, nós os criamos para eles
mesmos. Quando eu ficar sozinha estarei cumprindo o destino de todas
as mulheres.
Sempre me restará amar. Escrever é
alguma coisa extremamente forte mas que pode me trair e me abandonar:
posso um dia sentir que já escrevi o que é o meu lote neste mundo e
que eu devo aprender também a parar. Em escrever eu não tenho
nenhuma garantia.
Ao passo que amar eu posso até a hora
de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse à minha
espera. E eu vou ao encontro do que me espera.
Espero em Deus não viver do passado.
Ter sempre o tempo presente e, mesmo ilusório, ter algo no futuro.
O tempo corre, o tempo é curto:
preciso me apressar, mas ao mesmo tempo viver como se esta minha vida
fosse eterna. E depois morrer vai ser o final de alguma coisa
fulgurante: morrer será um dos atos mais importantes da minha vida.
Eu tenho medo de morrer: não sei que nebulosas e vias lácteas me
esperam. Quero morrer dando ênfase à vida e à morte.
Só peço uma coisa: na hora de morrer
eu queria ter uma pessoa amada por mim ao meu lado para me segurar a
mão. Então não terei medo, e estarei acompanhada quando atravessar
a grande passagem. Eu queria que houvesse encarnação: que eu
renascesse depois de morta e desse a minha alma viva para uma pessoa
nova. Eu queria, no entanto, um aviso. Se é verdade que existe uma
reencarnação, a vida que levo agora não é propriamente minha: uma
alma me foi dada ao corpo. Eu quero renascer sempre. E na próxima
encarnação vou ler meus livros como uma leitora comum e
interessada, e não saberei que nesta encarnação fui eu que os
escrevi.
Está-me faltando um aviso, um sinal.
Virá como intuição? Virá ao abrir um livro? Virá esse sinal
quando eu estiver ouvindo música?
Uma das coisas mais solitárias que eu
conheço é não ter a premonição.
Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida
Antiperipléia
— E o senhor quer me levar,
distante, às cidades? Delongo. Tudo, para mim, é viagem de volta.
Em qualquer ofício, não; o que eu até hoje tive, de que meio
entendo e gosto, é ser guia de cego: esforço destino que me praz.
E vão me deixar ir? Em dês que o meu
cego seô Tomé se passou, me vexam, por mim puxam, desconfiam
discorrendo. Terra de injustiças.
Aqui paramos, os meses, por causa da
mulher, por conta do falecido. Então, prendam a mulher, apertem com
ela, o marido rufião, aí esses expliquem decerto o que nem se
deu. A mulher, terrível. Delegado segure a alma do meu seô Tomé
cego, se for capaz! Ele amasiava oculto com a mulher, Sa Justa,
disso alguém teve ar? Eu provia e governava.
Mas não cismo como foi que ele no
barranco se derrubou, que rendeu a alma. Decido? Divulgo: que as
coisas começam deveras é por detrás, do que há, recurso;
quando no remate acontecem, estão já desaparecidas. Suspiros.
Declaro, agora, defino. O senhor não me perguntou nada. Só dou
resposta é ao que ninguém me perguntou.
Mulheres dôidas por ele, feito Jesus,
por ter barba. Mas ele me perguntava, antes. — “É bonita?” Eu
informava que sendo. Para mim, cada mulher vive formosa: as
roxas, pardas e
brancas, nas estradas. Dele
gostavam — de um cego completo — por delas nem não poder
devassar as formas nem feições? Seô Tomé se soberbava, lavava com
sabão o corpo, pedia roupas de esmola. Eu, bebia.
Deandávamos, lugar a lugar, sem
prevenir que já se estava no vir para aqui. Tenho culpas retapadas.
A gente na rua, puxando cego, concerne que nem se avançar navegando
— ao contrário de todos.
Patrão meu, não. Eu regia — ele
acompanhava: pegando cada um em ponta do bordão, ocado com recheios
de chumbo. Bebo, para impor em mim amores dos outros? Ralhavam, que,
passado já de idade de guiar cego, à mão cuspida, mesmo eu assim,
calungado, corcundado, cabeçudão. Povo sabe as ignorâncias. Então,
eu, para também não ver, hei-de recordar o alheio? Bebo. Tomo, até
me apagar, vejo outras coisas. Ele carecia de esperar, quando eu me
perfazia bêbedo deitado. Me dava conselhos. Cego suplica de ver
mais do que quem vê.
Tinha inveja de mim: não via que eu
era defeituoso feioso. Tinha ódio, porque só eu podia ver essas
inteiras mulheres, que dele gostavam! Puxar cego é feito tirar um
condenado, o de nenhum poder, mas que adivinha mais do que a
gente? Amigos. O roto só pode mesmo rir é do esfarrapado. Me dava
vontade de leve nele montar, sem freio, sem espora...
A gente cá chegou, pois é. A mulher
viu o cego, com modos de não-digas, com toda a força guardada. Essa
era a diversa, muito fulana: feia, feia apesar dos poderes de Deus.
Mas queria, fatal. Ajoelhou para me pedir, para eu ao meu Seô Cego
mentir. Procedi. — “Esta é bonita, a mais!” — a ele
afirmei, meus créditos. O cego amaciou a barba. Ele passeou mão nos
braços dela, arrojo de usos. Soprou, quente como o olho da
brasa. Tive nenhum remorso. Mas os dois respiravam, choraram,
méis, airosos.
Se encontravam, cada noite, eu
arrumando para eles antes o redor, o amodo e o acômodo, e estava de
longe, tomando conta. O marido desgostava dela, druxo homem, de
estrambolias, nem vinha em casa. Alguém maldou? Cego esconde mais
que qualquer um, qualquer logro. E quem vigia como eu? Ela me dava
cachaças, comida. Ele me fiava a féria. Me tratavam. O que podia
durar, assim, às estimas fartas?
A vida não fica quieta. Até ele se
despenhar no escuro, do barranco, mortal. Vinha de em-delícias. A
mulher aqui persiste — para miar aos cães e latir aos gatos. Que é
que eu tenho com o caso... Todos fazem questão de me chamar de
ladrão. Cego não é quem morre?
Todos tendo precisão de mim, nos
intervalos. A mulher, maluca, instando que eu a ele reproduzisse
suas porvindas belezas. Seô Tomé dessas sozinhas nossas não
contrárias conversas tirando ciúme, com porfias e más zangas. Mas
eu reportava falseado leal: que os olhos dela permitiam brilhos, um
quilate dos dentes, aquelas chispas, a suma cor das faces. Seô
Tomé, às barbas de truz, sorvia também o deleite de me descrever o
que o amor, ele não desapaixonava. Só sendo cego quem não deve
ver? Mas o marido, imoral, esse comigo bebia, queria mediante meus
conluios pegar o dinheiro da sacola... Eu, bêbedo e franzino,
ananho, tenho de emendar a doideira e cegueira de todos?
Deixassem — e eu deduzia e
concertava. Mas ninguém espera a esperança. Vão ao estopim no fim,
às tantas e loucas. Por mais, urjo; me entenda. Aqui, que ele se
desastrou, os outros agravam de especular e me afrontar, que me
deparo, de fecho para princípio, sem rio nem ponte.
Dia que deu má noite. Ele se errou,
beira o precipício, caindo e breu que falecendo. Não pode ter sido
só azares, cafifa? De ir solitário bravear, ciumado, boi em bufo,
resvalou... e, daí, quebrado ensanguentado, terrível, da terra.
Ou o marido, ardido por matar e roubar
— empuxou o outro abaixo no buracão — seu propósito? Cego
corre perigo maior é em noites de luares...
E seô Tomé, no derradeiro, variava:
falando que começava a tornar a enxergar! Delírios, de paixão,
cobiçação, por querer, demais, avistar a mulher — os traços —
aquela formosura que, nós três, no desafeio, a gente tinha tanto
inventado. Entrevendo que ela era real de má-figura, ele não pode,
desiludido em dor, ter mesmo suicidado, em despenho? O pior cego é o
que quer ver... Deu a ossada.
Ou, ela, visse que ele ia ver, havia
de mais primeiro querer destruir o assombroso, empurrar o qual, de
pirambeira — o visionável! Caráter de mulher é caroços e
cascas. Ela, no ultimamente, já se estremecia, de pavôres de amor,
às vezes em que ele, apalpador, com fortes ânsias, manuseava a cara
dela, oitivo, dedudo. Ar que acontece...
Se na hora eu estava embriagado,
bêbedo, quando ele se despencou, que é que sei? Não me
entendam! Deus vê. Deus atonta e mata. A gente espera é o resto da
vida.
A mulher diz que me acusa do crime,
sem avermelhação, se com ela eu não for ousado... O marido,
terrível, supliquento, diz que eu é que fui o barregão...
Terríveis, os outros, me ameaçam, às injúrias... O senhor
não diz nada. Tenho e não tenho cão, sabe? Me prendam! Me larguem!
A mulher esteja quase grávida. Me chamo Prudencinhano. Agora o cego
não enxerga mais... A culpa cai sempre é no guiador?
Só se inda hei outras coisas, por
ter, continuadas de recomeçar; então Deus não é
mundial? Temo que eu é que seja terrível.
E o senhor ainda quer me levar, às
suas cidades, amistoso?
Decido. Pergunto por onde ando.
Aceito, bem-procedidamente, no devagar de ir longe. Voltar, para fim
de ida. Repenso, não penso. Dou de xingar o meu falecido, quando as
saudades me dão. Cidade grande, o povo lá é infinito.
Vou, para guia de cegos, servo de dono
cego, vagavaz, habitual no diferente, com o senhor, Seô
Desconhecido.
Guimarães Rosa, em Tutameia
O nível
Wilton quase engoliu a pedra de gelo
do uisquinho:
– Elas querem o quê?!
– Calma, Wilton. Olha a pressão...
– Repete, Marilza. Eu não devo ter
ouvido bem.
– Ai, meu Deus! Não fica assim,
Tico!
– Não me chame por esse apelidinho
idiota. Repete o que tu falou. Repete que é pra ver se eu não tô
maluco.
– Chega de drama, Wilton! Elas são
meninas normais As coleguinhas na escola falam no assunto, juram que
já viram e é perfeitamente natural que elas queiram ver também,
pombas!
– Eu não acho nada natural que
elas, aos treze e aos quinze anos, queiram ver pombas e pembas!
– Olha o nível, Wilton, olha o
nível!
– Nível? Você vem me dizer que
minhas filhas querem ver um filme pornô no meu vídeo e ainda tem a
coragem de falar em nível?
– Tudo bem, Wilton. Se você prefere
que elas aceitem o convite de um desses jogadores de futebol do
conjunto, tudo bem.
– Convite?! Eu mato um cachorro
desses! Eu...
– Por favor, Wilton! Me escuta,
cara! Me ouve, ao menos uma vez na vida ! Nós temos uma porrada de
fitas dessas, né? É só selecionar uma menos... menos...
traumatizante. Nada de chicote, vibrador, anão bem-dotado...
– Péra lá, Marilza! Que história
é essa de anão bem-dotado? Eu não tenho fita com anão. Onde é
que tu viu isso?
– Era só um exemplo, meu nego. A
gente escolhe uma fita mais soft, faz o desejo delas, o troço perde
o mistério e pronto! Elas cantam marra com as coleguinhas, também
já vimos etc., e fica tudo na maior limpeza. Qualé, Wilton? Eles
veem pornô até na Escola Superior de Guerra, né? É moda, querido.
Feito a vizinha do 801: dá e passa!
Wilton renovou a dose e os dois
partiram pra seleção:
– Hum... tô me sentindo meio
Brossard...
– E daí? Eu também tô dando uma
de Dona Solange, não tô? Fica frio.
A primeira fita selecionada por Wilton
era uma tal de Suzy’s Centerfolds. Marilza vetou:
– Masturbação não!
– Ué, mas isso é o que elas mais
fazem!
– Mas não há necessidade de
aprenderem novas técnicas com essas louças. Uma coisa é a
masturbação como um estágio do desenvolvimento sexual normal das
minhas meninas, certo? Agora, piranha tocando siririca profissional é
outro departamento.
– É a minha vez de dizer: olha o
nível!
– Desculpe.
– Tem essa outra aqui: Superwoman. É
uma sátira. Pode ser que o clima de gozação atenue a brabeira.
– Acontece aquela coisa horrorosa de
espirrar na cara da mulher?
– Espirrar?
– Não banca o gaiato, Wilton! Você
sabe de que qui eu tô falando...
– Ora, Marilza, esses lances são
quase obrigatórios nesses filmecos. São o creme, rá, rá, rá!...
Não precisa me olhar com essa cara...
Acabaram resolvendo botar só um
trecho de um filme não muito explícito, metido a artístico, City
Heat ou coisa parecida.
Marilza fez uma exposição preliminar
sobre enamoramento, amor, escolhas insensatas, complexo de
Cinderela, Mariazinhas, prós e contras da obra de Milan Kundera e
encerrou, brilhantemente, estabelecendo um paralelo entre pornografia
barata e a lavagem de roupa suja nos debates políticos.
Wilton apertou a tecla play e
recolheu-se ao banheiro, acometido de avassaladora diarréia. A fita
correu. Lá pelas tantas, Helô comentou com Nandinha:
– Tô achando o pau desse cara meio
barro, meio tijolo.
– Podes crer. Desde o 69 que tá
assim.
– Também ela mamou mal paca.
– Não sabe prender entre a língua
e o céu da boca.
Não temos o resto da conversinha.
Wilton tá no Miguel Couto, onde o tubarão virou boto, e a Marilza
foi pro Pedro Ernesto, onde tu entra Maluf e sai honesto.
Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo
09/09/2026
Quem agradar?
Qual tipo de pessoa os homens desejam
agradar? Com quais intenções? Por meio de quais atos?
O quão rápido o tempo cobrirá tudo.
O quanto já cobriu.
Marco Aurélio, em Meditações
Confia no teu corre
Confia no teu corre
e fica de boa.
Afia teu trampo
nas lâminas das incertezas,
todo mundo certo
não quer dizer
que você está errado.
Não ande com caranguejos
e sonhe com as mãos,
deixa o coração no presente
e os olhos no futuro.
Muitas vezes o sucesso fica no passado
e ser importante é para sempre.
Cuide da raiz e lapide as asas,
porque abaixo do radar também se voa.
Sérgio Vaz, em Flores da batalha
As primaveras
Os versos de Casimiro são tão nossos
que gostar deles é um sinal de autenticidade — ... e, mesmo, como
beber água da fonte na concha das mãos... E como ele ainda está
entre nós — tão vivo — nos melhores e nos piores momentos da
poesia popular!
Mário Quintana, em Caderno H
Piloto de Guerra
X
Já faz duas horas que estamos
mergulhados numa pressão externa reduzida a um terço da pressão
normal. A equipe se desgasta lentamente. Nós mal nos falamos. Ainda
tentei, uma ou duas vezes, com prudência, agir sobre meus pedais.
Não insisti. Fui duas vezes penetrado pela mesma sensação de
esgotante calmaria.
Dutertre, em função das viragens que
a foto exige, avisa-me muito tempo antes. Eu faço o que posso com o
que me resta de comando. Inclino o avião e puxo para mim. E consigo,
para Dutertre, viragens em vinte tomadas.
— Qual a altitude?
— Dez mil e duzentos…
Ainda penso em Sagon… O homem é
sempre o homem. Somos homens. E, em mim, só encontrei a mim mesmo.
Sagon não conheceu senão Sagon. Aquele que morre, morre como sempre
foi. Na morte de um simples mineiro, é um simples mineiro que morre.
Onde achamos essa demência desvairada que, para nos deslumbrar,
inventam os literatos?
Vi tirarem um homem, na Espanha,
depois de alguns dias de trabalho, do porão de uma casa desmoronada
por um torpedo. A multidão cercava em silêncio e, parece-me, com
uma súbita timidez, aquele que voltava quase do além, coberto ainda
pelos destroços, um tanto embrutecido pela asfixia e pelo jejum,
parecendo uma espécie de monstro extinto. Quando alguns se atreveram
a interrogá-lo e ele prestou às questões uma atenção glauca, a
timidez da multidão tornou-se mal-estar.
Tentavam com ele chavões
desajeitados, pois a verdadeira interrogação ninguém sabia
formular. Diziam-lhe: “O que o senhor está sentindo?… O que
pensava?… O que
ficou fazendo?”. Lançavam assim, ao
acaso, passarelas sobre um abismo como se tivessem usado uma primeira
convenção para atingir, em sua escuridão, o cego surdo-mudo que
tentavam socorrer.
Mas quando o homem conseguiu
responder, disse:
— Ah, sim, ouvia longos
desmoronamentos…
Ou ainda…
— Eu fiquei bem preocupado. Demorou…
— Ah, demorou muito…
Ou ainda…
— Eu tinha dor nas costas, muita
dor…
E aquele valente homem falava-nos tão
somente do valente homem. Ele nos falou principalmente de seu relógio
de pulso, que perdera…
— Eu procurei… Gostava muito dele,
mas no escuro…
E, decerto, a vida lhe ensinara a
sensação do tempo que transcorre ou do amor pelos objetos
familiares. E ele se servia do homem que era para sentir o seu
universo, mesmo que fosse o universo de uma avalanche na noite. E, à
questão fundamental, que ninguém soube fazer, mas que governava
todas as tentativas: “Quem era o senhor? Quem surgiu no senhor?”,
ele nada poderia ter respondido, senão: “Eu mesmo…”.
Nenhuma circunstância desperta em nós
um estranho de que não suspeitássemos. Viver é nascer lentamente.
Seria muito fácil tomar almas já prontas!
Uma iluminação repentina parece às
vezes fazer bifurcar um destino. Mas a iluminação é somente a
visão repentina, pelo Espírito, de uma estrada lentamente
preparada. Eu aprendi lentamente a gramática. Exercitaram-me na
sintaxe. Despertaram meus sentimentos. E eis que bruscamente um poema
me bate ao coração.
Decerto, não sinto neste instante
nenhum amor, mas se, esta noite, alguma coisa mefor tirada, é que
terei levado pesadamente minhas pedras à construção invisível. Eu
preparo uma festa. Eu não terei o direito de falar de aparição
súbita, em mim, de outro diferente de mim, pois sou eu quem constrói
esse outro.
Nada tenho a esperar da aventura de
guerra, senão essa lenta preparação. Ela pagará, mais tarde, como
a gramática…
Toda a vida se arrefeceu em nós por
causa desse lento desgaste. Nós envelhecemos. A missão envelhece.
Quanto custa a altitude? Uma hora vivida a dez mil metros equivale a
uma semana, três semanas, um mês de vida orgânica, de exercício
do coração, dos pulmões, das artérias? Pouco importa, aliás.
Meus quase desvanecimentos me acrescentaram séculos: estou imerso na
serenidade dos velhos. As emoções da preparação me parecem
infinitamente longínquas, perdidas no passado. Arras infinitamente
longínqua no futuro.
A aventura de guerra? Onde há
aventura de guerra?
Quase morri há dez minutos e nada
tenho a contar, senão a passagem das vespas minúsculas entrevistas
durante três segundos. A verdadeira aventura teria durado um décimo
de segundo. E em nosso grupo não voltamos jamais para contá-la.
— Um pezinho à esquerda, Capitão.
Dutertre esqueceu que meu pedal está
congelado. Eu penso numa gravura que me deslumbrou na infância.
Via-se, no fundo de uma aurora boreal, um extraordinário cemitério
de navios perdidos, imobilizados nos mares austrais. Eles erguiam, na
luz acinzentada de uma espécie de noite eterna, braços
cristalizados. Numa atmosfera morta, ainda estendiam velas que
conservaram a marca do vento, como um leito guarda a sutil marca de
um ombro. Mas nos pareciam duras e quebradiças.
Aqui, tudo está congelado. Meus
comandos estão congelados. Minhas metralhadoras estão congeladas. E
quando perguntei ao artilheiro sobre as dele:
— Suas metralhadoras?
— Mais nada.
— Ah! Bom.
No tubo de expiração da minha
máscara, cuspo agulhas de gelo. De tempos em tempos, preciso
esmagar, através da borracha flexível, a rolha de gelo que me
sufoca. Quando aperto, sinto-a estilhaçar-se na minha palma.
— Artilheiro, o oxigênio está
o.k.?
— Tudo bem!
— Qual a pressão dos seus tubos?
— Hã… Setenta.
— Ah! Bom.
O tempo para nós está congelado
também. Somos três velhos de barba branca. Nada é móvel. Nada é
urgente. Nada é cruel.
A aventura de guerra? O comandante
Alias achou um dia de me dizer:
— Tente tomar cuidado!
Cuidado com o quê, comandante Alias?
O caça nos atinge como um raio. O Grupo de Caça, que sobrevoa mil e
quinhentos metros de altitude acima de nós, quando nos descobre
abaixo dele, fica à vontade. Ele serpenteia, orienta-se,
posiciona-se. A gente ainda ignora tudo. Somos o rato fechado na
sombra da ave de rapina. O rato pensa que vive. Ele ainda vagueia nos
trigais. Mas já é prisioneiro da retina desse gavião, colado nela
mais do que em goma, pois o gavião não o largará mais.
A gente continua, ainda assim a
pilotar, a sonhar, a observar o solo, quando já está condenado pelo
imperceptível ponto negro que se formou numa retina humana.
Os nove aviões do Grupo de Caça vão
mergulhar para o ataque quando lhes aprouver. Eles têm todo o tempo.
Eles darão a novecentos quilômetros por hora esseprodigioso tiro de
arpão que não erra jamais sua presa. Uma esquadrilha de bombardeio
constitui uma potência de tiro que oferece chances à defesa, mas a
tripulação de Reconhecimento, isolada em pleno céu, nunca triunfa
sobre setenta e duas metralhadoras que só se revelarão, aliás,
pelo feixe luminoso de suas balas.
No exato instante em que se souber que
há combate, o caça, depois de lançar seu veneno de uma só vez,
feito uma cobra, já neutro e inacessível, nos dominará. As cobras
oscilam assim, lançam a sua faísca e retomam o seu balanço.
Assim, quando o Grupo de Caça tiver
desvanecido, nada ainda terá mudado. Nem mesmo os rostos mudam. Eles
mudam quando o céu está vazio e a paz está feita. O caça, agora,
é apenas um testemunho imparcial quando, da carótida seccionada do
observador, escapa o primeiro dos jatos de sangue, quando, do capô
do motor direito, filtra, hesitante, a primeira chama do fogo de
forja. Assim, a cobra já se enrolou quando o veneno penetra no
coração e quando o primeiro músculo do rosto se contrai. O Grupo
de Caça não mata. Ele semeia a morte. Esta germina depois que ele
passou.
Cuidado com o quê, comandante Alias?
Quando nós cruzamos os caças, eu nada tive a decidir. Eu poderia
não tê-los conhecido. Se me tivessem dominado, eu não os teria
jamais conhecido!
Cuidado com o quê? O céu está
vazio.
[…]
Antoine de Saint-Exupéry, em Piloto de Guerra
Cor-de-rosa
O vizinho mandou pintar de cor-de-rosa
sua casa, e de azul-claro o beiral e os marcos e folhas das janelas.
Esta providência dá margem a algumas divagações que aqui se
transmitem ao leitor, nosso companheiro.
O ato do vizinho é muito mais
importante do que lhe parece a ele. Afirma um sentimento de confiança
na civilização mediterrânea, e o propósito de contribuir para que
todos nós, residentes ou transeuntes, recuperemos um pouco da
beatitude perdida.
Quem pinta hoje sua casa, em vez de
negociar-lhe a demolição, cumpre uma cláusula do contrato social,
observa a boa lição urbanística e, dentro do rito milenar,
satisfaz essa velha tendência do homem a aformosear o quadro de sua
existência.
De uns anos para cá as ruas passaram
a ser percorridas por elementos suspeitos, que, avaliando em metros
quadrados aéreos os terrenos onde se erguem as habitações humanas,
logo procuram seus proprietários e lhes propõem botar aquilo no
chão.
A aquiescência imediata dos
interpelados revela estranha propensão ao suicídio, praticado
através da destruição de algo fundamental, como é a casa em que
vivemos.
Tendo destruído essa parte do ser, as
pessoas transportam os remanescentes para os ossuários erguidos
apressadamente no mesmo local, e que se arrumam pelo princípio da
superposição de urnas. Aí aguardarão, talvez até a consumação
dos séculos, o dia da ressurreição das casas.
Mas o vizinho reagiu contra essa
psicose grupal, e dali sorriem pintadas de rosa as paredes de sua
casa. Vale dizer que ele não atendeu o telefone, quando o chamaram
para consultá-lo vagamente sobre a hipótese da derrubada, que não
compareceu ao escritório onde peritos blandiciosos o convenceriam da
inconveniência de morar à maneira antiga, metendo em brios o seu
amor-próprio, pois se todo mundo desistiu de tal maneira, por que só
ele continua teimando? Ou compareceu, foi amaciado, reagiu, tornaram
a amaciá-lo, esteve a ponto de ceder, a vista se lhe turvou qual
plúmbeo véu, eram tantos milhões de cruzeiros, mas cobrou ânimo e
reagiu outra vez, o senhor é louco, não vê que a valorização
naquela zona o proíbe de continuar a deter o surto imobiliário,
isso é um crime, o senhor está perdendo dez mil cruzeiros por
semana, onde é que anda o amor que devota a seus filhos, e o
gabarito, e a vaga na garagem, e o fabuloso jardim de inverno, e o
vizinho vai capitular, não, ainda, não; passa-lhe pela mente o
frontispício cor-de-rosa, com elementos azuis, de uma antiga mansão
onde a vida era feliz, ou pelo menos ficou sendo naquele tempo;
depois que considerou bem, o vizinho enxuga o suor da testa, grita
nããão, e sai e chama o pintor e lhe ordena: pinte tudo
cor-de-rosa, com os beirais e as janelas de azul de mês de Maria,
quero minha casa bem bonita, como bonito era o sobradão de 1800 e
tantos onde meu bisavô nasceu, e quero ver, mas quero ver quem
derruba minha casinha!
De cor-de-rosa e de azul-claro ele
pintou sua casa, de azul-claro e de rosa devíamos todos revestir uma
fração de nossa vida, já que não é possível pintá-la
completamente de cores tão puras.
Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira
08/09/2026
O ser em soneto
Para o Tenório Telles, ele me sabe
Mas será que viver a pena vale
da vida que não vale sem a pena?
E o que é a pena de viver senão
aceitar dissabor, de coração?
Escrevo só por gosto, se desgosto
do amanhecer amargo, permaneço.
O amor me ensina, o desamor ajuda
a saber que só ganho o que mereço.
Coragem tenho de me ver. Contudo,
construo devagar o que mais quero:
findar me vendo no meu próprio
espelho.
Valeu-me a vida quando descobri
que o ser é a minha própria
gravidade.
Se ela desmaia, eu me desapareço.
Thiago de Mello, em Acerto de contas
Capítulo 96 – A Carta Anônima
Senti tocar-me no ombro; era o Lobo
Neves. Encaramo-nos alguns instantes, mudos, inconsoláveis. Indaguei
de Virgília, depois ficamos a conversar uma meia hora. No fim desse
tempo, vieram trazer-lhe uma carta; ele leu-a, empalideceu muito, e
fechou-a com a mão trêmula. Creio que lhe vi fazer um gesto, como
se quisesse atirar-se sobre mim; mas não me lembra bem. O que me
lembra claramente é que durante os dias seguintes recebeu-me frio e
taciturno. Enfim Virgília contou-me tudo, daí a dias na Gamboa.
O marido mostrou-lhe a carta, logo que
ela se restabeleceu. Era anônima e denunciava-nos. Não dizia tudo;
não falava, por exemplo, das nossas entrevistas externas;
limitava-se a precavê-lo contra a minha intimidade, e acrescentava
que a suspeita era pública. Virgília leu a carta e disse com
indignação que era uma calúnia infame.
– Calúnia? perguntou Lobo Neves.
– Infame.
O marido respirou; mas, tomando à
carta, parece que cada palavra dela lhe fazia com o dedo um sinal
negativo, cada letra bradava contra a indignação da mulher. Esse
homem, aliás intrépido, era agora a mais frágil das criaturas.
Talvez a imaginação lhe mostrou, ao
longe, o famoso olho da opinião a fitá-lo sarcasticamente, com um
ar de pulha; talvez uma boca invisível lhe repetiu ao ouvido as
chulas que ele escutara ou dissera outrora. Instou com a mulher que
lhe confessasse tudo, porque tudo lhe perdoaria. Virgília
compreendeu que estava salva; mostrou-se irritada com a insistência,
jurou que da minha parte só ouvira palavras de gracejo e cortesia. A
carta havia de ser de algum namorado sem ventura. E citou alguns, –
um que a galanteara francamente, durante algumas semanas, outro que
lhe escrevera uma carta, e ainda outros e outros. Citava-os pelo
nome, com circunstâncias, estudando os olhos do marido, e concluiu
dizendo que, para não dar margem à calúnia, tratar-me-ia de
maneira que eu não voltaria lá.
Ouvi tudo isto um pouco turbado, não
pelo acréscimo de dissimulação que era preciso empregar de ora em
diante, até afastar-me inteiramente da casa do Lobo Neves, mas pela
tranquilidade moral de Virgília, pela falta de comoção, de susto,
de saudades, e até de remorsos. Virgília notou a minha preocupação,
levantou-me a cabeça, porque eu olhava então para o soalho, e disse
com certa amargura:
– Você não merece os sacrifícios
que lhe faço.
Não lhe disse nada; era ocioso
ponderar-lhe que um pouco de desespero e terror daria à nossa
situação o sabor cáustico dos primeiros dias; mas se lho dissesse,
não é impossível que ela chegasse lenta e artificiosamente até
esse pouco de desespero e terror. Não lhe disse nada. Ela batia
nervosamente com a ponta do pé no chão; aproximei-me e beijei-a na
testa.
Virgília recuou, como se fosse um
beijo de defunto.
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas
1639 – São Miguel de Tucumán
De uma denúncia contra o bispo de
Tucumán, enviada ao Tribunal de Inquisição de Lima
Com a sinceridade e verdade que a
tão santo Tribunal se deve falar, denuncio da pessoa do reverendo
bispo de Tucumán, dom Fr. Melchor Maldonado de Saavedra, do qual
ouvi coisas gravíssimas suspeitas em nossa santa fé católica, e
correm geralmente entre todo este bispado. Que em Salta, estando
confirmando, chegou uma menina de bom parecer, e disse a ela: “Melhor
é vossa mercê para tomada que para confirmada”; e em Córdoba
este passado ano de 1638 chegou outra em presença de muita gente e
erguendo-lhe a saia disse: “Zape! Que não a hei de confirmar para
baixo e sim para cima”; e com a primeira amancebou-se com
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Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
The Kiss of Venus | Paul McCartney
The Kiss of Venus, de Paul McCartney
The kiss of Venus
Has got me on the go
She scored a bullseye
In the early morning glow
Early morning glow
Packed with illusions
Our world is turned around
This golden circle has a
Most harmonic sound
Harmonic sound
And in the sunshine
When we stand alone
We came together with
Our secrets blown
Our secrets blown
Now moving slowly
We circle through the square
Two passing planets in the
Sweet, sweet summer air
Sweet summer air
And in the sunshine
When we stand alone
We came together with
Our secrets blown
Our secrets blown
Reflected mountains in a lake
Is this too much to take?
Asleep or wide awake?
And if the world begins to shake
Will something have to break?
We have to stay awake
Packed with illusions
Our world is turned around
This golden circle has a
Most harmonic sound
Harmonic sound
And in the sunshine
When we stand alone
We came together with
Our secrets blown
Our secrets blown
The kiss of Venus
Has got me on the go
She scored a bullseye
In the early morning glow
Early morning glow
The kiss of Venus
Has got me on the go
O Livro das Coincidências:
a harmonia dos planetas, de John Martineau, é um minitratado
sobre os planetas, suas órbitas e as revoluções do Sol e da Lua.
Eu o reli faz pouco tempo. É uma leitura fascinante, pois quem
concebeu esse livro visualizou essas órbitas e revoluções. Por
exemplo, do ponto de vista geocêntrico, Vênus traça um pentagrama
ao redor da Terra a cada oito anos.
Quando eu li o livro pela primeira
vez, fiquei surpreso ao ver esses designs complexos no universo, e
isso me fez pensar: “Sim, é mágico... Essa vida, a
interdependência de tudo, as árvores fornecendo oxigênio; há
tanta coisa mágica acontecendo”.
Falando em coisas mágicas, quando
tocamos no Festival de Glastonbury em 2004, adorei a ideia de que
provavelmente estávamos na confluência de linhas retas, as linhas
que cruzam o globo e ao longo das quais se acredita que nossos
ancestrais fundaram cidades significativas. Esse tipo de história me
atrai. Glastonbury também é considerado o lugar em que o Rei Arthur
está enterrado. De uma forma ou de outra, é um lugar muito especial
e tem uma vibe muito vívida. Não há como negar: o local tem uma
aura distinta.
Desde os anos 1960 eu me interesso por
constelações, cosmologia e sons cósmicos. O livro de Martineau
também aborda o som – a música das esferas –, em que cada
planeta emite uma nota diferente. Isso, para mim, é muito “hippie”
– toda essa ideia de apenas curtir as coisas simples da vida e de
estar em harmonia com a natureza. “We came together with/ Our
secrets blown” – não estamos tentando esconder nada, estamos
desnudos na chuva, entramos em sintonia com nossos segredos
revelados, e o cosmos cuida de seus afazeres.
Pensar nessas coisas maiores nos torna
humildes. Aqui estamos nós, pequenos pontos neste planeta, ele
próprio um pontinho no universo, e ao mesmo tempo no coração de
tudo. E temos esse modelo da flor de lótus, que ao menos algumas
religiões (budismo e hinduísmo) consideram um símbolo importante.
Outra coisa que aprendi no livro de
Martineau é que de vez em quando Vênus passa bem pertinho da Terra,
fenômeno conhecido como “o beijo de Vênus”. Isso bastou para
incendiar a minha imaginação. Esse foi o embalo que me pôs em
movimento.
“Two passing planets in the/
Sweet, sweet summer air”. É como se nós, na condição de
pessoas, fôssemos planetas que passam – um pouco como navios
passando à noite. A sequência “Now moving slowly/ We circle
through the square” me lembra de “through the fair”
(“pela feira”), expressão usada em muitas baladas, inclusive na
tradicional balada irlandesa, “She Moved Through the Fair”.
A ideia de esquadrar o círculo (“squaring the circle”) –
de fazer algo impossível – também está à espreita em algum
lugar na vegetação rasteira desse verso. Em certo sentido, cada
canção supera a grande chance de acabar nem sendo escrita.
Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente
07/09/2026
Negras olimpíadas
Clementina
Carolina de Jesus
Ganhamos
uma rosa de ouro
Uma
rosa desenhada em canção
Algodão
em sorriso ex-escravo
Sua
tataraneta judoca
Negra
como vazio em noite escura
De
cabelos lindos alvoroçados
Como
se o vento os tivesse penteando
Uma
redonda flor como o sol
Brilha
em seu olhar escondida
A
menina espantada da Cidade de Deus
Entra
em portas que nunca se abriram
Dos
seus olhos de espanto e fuga
Cai
uma chuva que enxuga sua dor.
José Carlos Capinan, em Cancioneiro geral
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