05/09/2026
Vassouras do tempo
Ninguém,
além do tempo,
sabe o nome daquele gari
que limpava a rua
sempre cantando uma música
e segurava a vassoura
como uma parceira
que domina o salão.
Um dia,
não sei se por amor
ou por inveja,
quando passava em frente
a uma padaria
um cliente de sorriso miúdo
ouviu sua canção e ficou indignado.
Uma voz linda
vinda de uma tão boca torta
e um rosto todo marcado,
resolveu perguntar:
"Varrendo a rua… de onde vem
toda essa alegria?"
O bailarino
cheio de poeira nos olhos
em vez de olhar para ele
olhou para o tempo.
Quem já sofreu sabe,
é preciso aprender a reciclar a dor
e colocar um saco plástico
no lugar do coração
quando a vida nos esconde
pra debaixo do tapete.
Entender todo dia pela manhã
que limpar o lixo dos outros
é bem mais fácil que limpar o seu.
Até o cão sem dono sabe
que tempo é o senhor
de todas as respostas.
Mas tempo também é curto,
e assim com um sorriso
mais limpo entre os dentes,
ele respondeu:
“É que não estou varrendo a rua.
Estou varrendo o passado.”
Sérgio Vaz, em Flores da batalha
Inimigos em casa
Outubro de 2008
Dia 2
Que a família está em crise ninguém
se atreverá a negá-lo, por muito que a Igreja Católica tente
disfarçar o desastre sob a capa de uma retórica melíflua que já
nem a ela própria engana, que muitos dos denominados valores
tradicionais de convivência familiar e social se foram pelo cano
abaixo arrastando consigo até aqueles que deveriam ter sido
defendidos dos contínuos ataques desferidos pela sociedade altamente
conflitiva em que vivemos, que a escola moderna, continuadora da
escola velha, aquela que, durante sucessivas gerações, foi
tacitamente encarregada, à falta de melhor, de suprir as falhas
educacionais dos agregados familiares, está paralisada, acumulando
contradições, erros, desorientada entre métodos pedagógicos que
em realidade não o são, e que, demasiadas vezes, não passam de
modas passageiras ou de experimentos voluntaristas condenados ao
fracasso pela própria ausência de madurez intelectual e pela
dificuldade de formular e responder à pergunta, essencial em minha
opinião: que cidadão estamos a querer formar? O panorama não é
agradável à vista. Singularmente, os nossos mais ou menos dignos
governantes não parecem preocupar-se com estes problemas tanto
quanto deveriam, talvez porque pensam que, sendo os ditos problemas
universais, a solução, quando vier a ser encontrada, será
automática, para toda a gente.
Não estou de acordo. Vivemos numa
sociedade que parece ter feito da violência um sistema de relações.
A manifestação de uma agressividade que é inerente à espécie que
somos, e que em tempos pensámos, pela educação, haver controlado,
irrompeu brutalmente das profundidades nos últimos vinte anos em
todo o espaço social, estimulada por modalidades de ócio que
viraram as costas ao já simples hedonismo para se transformarem em
agentes condicionadores da própria mentalidade do consumidor: a
televisão, em primeiro lugar, onde imitações de sangue, cada vez
mais perfeitas, saltam em jorros a todas as horas do dia e da noite,
os vídeo-jogos que são como manuais de instruções para alcançar
a perfeita intolerância e a perfeita crueldade, e, porque tudo isto
está ligado, as avalanchas de publicidade de serviços eróticos a
que os jornais, incluindo os mais bem-pensantes, dão as boas-vindas,
enquanto nas páginas sérias (são-no algumas?) abundam
hipocritamente em lições de boa conduta à sociedade. Que estou a
exagerar? Expliquem-me então como foi que chegámos à situação de
muitos pais terem medo dos filhos, desses gentis adolescentes,
esperanças do amanhã, em quem um “não” do pai ou da mãe,
cansados de exigências irracionais, instantaneamente desencadeia uma
fúria de insultos, de vexames, de agressões. Físicas, para que não
fiquem dúvidas. Muitos pais têm os seus piores inimigos em casa:
são os seus próprios filhos. Ingenuamente, Ruben Darío escreveu
aquilo da “juventud, divino tesoro”. Não o escreveria hoje.
José Saramago, em O caderno
Literatura socialista e comunista
O SOCIALISMO REACIONÁRIO
O SOCIALISMO FEUDAL
Devido à sua posição histórica, as
aristocracias da França e da Inglaterra viram-se chamadas a lançar
libelos contra a sociedade burguesa. Na revolução francesa de julho
de 1830 e no movimento reformador inglês, tinham sucumbido mais uma
vez sob os golpes desta odiada arrivista. Elas não podiam mais
travar uma luta política séria; só Ihes restava a luta literária.
Ora, também no domínio literário, tornara-se impossível a velha
fraseologia da Restauração.
Para criar simpatias, era preciso que
a aristocracia fingisse descurar seus próprios interesses e
dirigisse sua acusação contra a burguesia, aparentando defender
apenas os interesses da classe operária explorada. Desse modo,
entregou-se ao prazer de cantarolar sátiras sobre os novos senhores
e de lhe segredar ao ouvido profecias de mau augúrio.
Assim nasceu o socialismo feudal, onde
se mesclavam jeremiadas e libelos, ecos do passado e ameaça sobre o
futuro. Se por vezes a sua crítica amarga, mordaz e espirituosa
feriu a burguesia no coração, sua impotência absoluta de
compreender a marcha da História moderna terminou sempre por um
efeito cômico.
A guisa de bandeira, estes senhores
arvoraram a sacola do mendigo, a fim de atrair o povo; mas logo que
este acorreu, notou suas costas ornadas com os velhos brasões
feudais e dispersou-se com grandes gargalhadas irreverentes.
Uma parte dos legitimistas franceses e
a "Jovem Inglaterra", ofereceram ao mundo esse espetáculo
divertido .
Quando os campeões do feudalismo
demonstram que o modo de exploração feudal era diferente do da
burguesia, esquecem uma coisa: que o feudalismo explorava em
circunstâncias e condições completamente diversas e hoje em dia
caducas. Quando ressaltam que sob o regime feudal o proletariado
moderno não existia, esquecem uma coisa: que a burguesia moderna é
precisamente um fruto necessário de seu regime social.
Aliás, ocultam tão pouco o caráter
reacionário de sua crítica, que sua principal queixa contra a
burguesia consiste justamente em dizer que esta assegura sob o seu
regime o desenvolvimento de uma classe que fará ir pelos ares toda a
antiga ordem social,
O que reprovam à burguesia é mais o
ter produzido um proletariado revolucionário, que o haver criado o
proletariado em geral. Por isso, na luta política participam
ativamente de todas as medidas de repressão contra a classe
operária. E, na vida diária, a despeito de sua pomposa Fraseologia,
conformam-se perfeitamente em colher os frutos de ouro da árvore da
indústria e trocar honra, amor e fidelidade, pelo comércio de lã,
açúcar de beterraba e aguardente
Do mesmo modo que o pároco e o senhor
feudal marcharam sempre de mãos dadas, o socialismo clerical marcha
lado a lado com o socialismo feudal. Nada é mais fácil que recobrir
o ascetismo cristão com um verniz socialista. Não se ergueu também
o cristianismo contra a propriedade privada, o matrimônio e o
Estado? E em seu lugar não predicou a caridade e a pobreza, o
celibato e a mortificação da carne, a vida monástica e a igreja? O
socialismo cristão não passa de água benta com que o padre
consagra o despeito da aristocracia.
O SOCIALISMO PEQUENO-BURGUÊS
Não é a aristocracia feudal a única
classe arruinada pela burguesia, não é a única classe cujas
condições de existência se estiolam e perecem na sociedade
burguesa moderna. Os pequenos burgueses e os pequenos camponeses da
Idade Média foram os precursores da burguesia moderna.. Nos países
onde o comércio e a indústria são pouco desenvolvidos, esta classe
continua a vegetar ao lado da burguesia em ascensão.
Nos países onde a civilização
moderna está florescente forma-se uma nova classe de pequeno
burgueses, que oscila entre o proletariado e a burguesia; fração
complementar da sociedade burguesa, ela se reconstitui
incessantemente. Mas os indivíduos que a compõem se veem
constantemente precipitados no proletariado, devido à concorrência;
e, com a marcha progressiva da grande indústria, sentem aproximar-se
o momento em que desaparecerão completamente como fração
independente da sociedade moderna e em que serão substituídos no
comércio, na manufatura, na agricultura, por capatazes e empregados.
Nos países como a França, onde os
camponeses constituem bem mais da metade da população, é natural
que os escritores que se batiam pelo proletariado contra a burguesia,
aplicassem à sua crítica do regime burguês critérios
pequeno-burgueses e camponeses e defendessem a causa operária do
ponto de vista da pequena burguesia. Desse modo se formou o
socialismo pequeno-burguês. Sismondi é o chefe dessa literatura,
não somente na França, mas também na Inglaterra.
Esse socialismo analisou com muita
penetração as contradições inerentes às relações de produção
modernas. Pôs a nu as hipócritas apologias dos economistas.
Demonstrou de um modo irrefutável os efeitos mortíferos das
máquinas e da divisão do trabalho, a concentração dos capitais e
da propriedade territorial, a superprodução, as crises, a
decadência inevitável dos pequenos burgueses e camponeses, a
miséria do proletariado, a anarquia na produção, a clamorosa
desproporção na distribuição das riquezas, a guerra industrial de
extermínio entre as nações, a dissolução dos velhos costumes,
das velhas relações de família, das velhas nacionalidades.
Todavia, a finalidade real desse
socialismo pequeno-burguês é ou restabelecer os antigos meios de
produção e de troca e, com eles, as antigas relações de
propriedade e toda a sociedade antiga, ou então fazer entrar à
força os meios modernos de produção e de troca no quadro estreito
das antigas relações de propriedade que foram destruídas e
necessariamente despedaçadas por eles. Num e noutro caso, esse
socialismo é ao mesmo tempo reacionário e utópico.
Para a manufatura, o regime
corporativo; para a agricultura, o regime patriarcal: eis a sua
última palavra. Por fim, quando os obstinados fatos históricos lhe
fizeram passar completamente a embriaguez, essa escola socialista
abandonou-se a uma verdadeira prostração de espírito.
Karl Marx e Friedrich Engels, em Manifesto do Partido Comunista
Imagem
Haverá ainda, no mundo, coisas tão simples e tão puras como a água bebida na concha das mãos?
Mário Quintana, em Caderno H
04/09/2026
Cântico de júbilo
Ao meu Cony, Carlos Heitor, e a Bia
do lado dele
Meu coração se aflige
quando fôlego lhe falta
para dar manhã bem cedo
o seu rubro mirantã
à voragem do meu sonho.
Sei que a qualquer momento
ele pode deixar de me valer.
Já por três vezes muito perto esteve
do desmaio, mas, fiel a seu destino,
se reergueu, não deixou que meu canto
restasse como insólita lembrança
de palavra feliz emudecida.
Como fulgor de aurora, me levanta
a alegria de ouvir meu coração
batendo firme, cântico de júbilo,
por me ver perseguir, perseverante.
Ele não sabe que algo se germina,
conspira escuro contra o seu fervor.
Nem poderá prever o instante certo
do seu silêncio. Não esteja perto.
Thiago de Mello, em Acerto de contas
A Contadora de Filmes
[5]
Alguns se perguntarão por que meu pai
não ia, ele mesmo, ao cinema; pelo menos quando passassem um filme
mexicano. Meu pai não conseguia andar. Tinha sofrido um acidente de
trabalho que o deixou paralítico da cintura para baixo. Não
trabalhava mais. Recebia uma pensão de invalidez que era uma
miséria, mal dava para comer.
Nem preciso dizer que a gente não
tinha nem para uma cadeira de rodas. Para levá-lo da sala para o
quarto, ou do quarto para a porta da rua – onde ele gostava de
beber sua garrafa de vinho tinto vendo passarem a tarde e seus amigos
–, meus irmãos tinham adaptado as rodas de um velho triciclo na
poltrona. O triciclo tinha sido o primeiro presente de páscoa do meu
irmão mais velho e as rodas não aguentavam muito o peso do meu pai,
dobravam, e era preciso ficar consertando tudo o tempo inteiro.
E a minha mãe? Bom, minha mãe,
depois do acidente, abandonou meu pai. Abandonou meu pai e nos
abandonou, os seus cinco filhos. Assim, num vupt! Por isso lá em
casa meu pai tinha nos proibido de falar dela; da “sirigaita”,
como a chamava com desdém.
“Não me falem dessa sirigaita” –
dizia ele, quando algum de nós, sem querer, deixava escapar a
palavra mamãe.
Depois, entrava no silêncio e a gente
levava horas até conseguir tirá-lo de lá.
Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes
Zoo
O que se passou no cercado grande:
Juntos, o gamo e a ema rimam. Ovinos pastam, os carneiros valentins.
Impõe-se oficialmente aberto o pavão — cauda erguida verde. O
jaburu anda, meticuloso passo angular, desmeias pernas tão suas. Os
carneiros são da Barbaria! A ema persegue os carneiros — a ema que
come cobra. Pulam da grama os gamos deitados, branquipretos,
rabicurtos: feito passarinhos. O jaburu, bico fendidamente, também
corrivoa, com algo de bruxo e de aranha. Só o pavão, melindroso
humilde, fica: coifado com seu buquezinho de violetas.
Guimarães Rosa, em Ave, Palavra
Arpoador
Um itabirano que há cinquenta anos
não revia a cidade natal, deixada aos quinze, voltou lá e ficou
triste; e ficando triste, imprimiu um boletim de que me mandaram um
exemplar. Queixa-se, entre outros males, de que acabaram com as
árvores, notadamente “o encantador e quase secular coqueiro do
saudoso Batistinha”. Fecho os olhos e revejo o coqueiro; junto ao
tronco rugoso, lá vem a imagem do Batistinha, com o bando de gente,
fatos e sensações daquele tempo; e sinto — o que é normal nesse
jogo da evocação — que, destruídas lá fora, as coisas se vão
recompondo cá dentro, até que, com a nossa morte, se acabem de vez
esses coqueiros internos, dos quais só um ou outro sobrevive
guardado em página literária ou alusão histórica.
Agora, quem quiser ver a praia do
Arpoador, é fechar os olhos; e não adianta distribuir boletim, que
a praia não volta, levada que foi pelo mar em fúria ou simplesmente
enlunado. Quem nela se deitou domingo 8, não a encontrou mais
domingo 15; sem aviso, sem consideração a tanto programa dominical
que se organizava no correr da semana, a onda ferrou o dente na areia
clara, e as duas lá se foram, na vertigem. Vão talvez aquietar-se
em pousos longínquos, onde pedras tão nuas como as do Arpoador de
hoje esperam vez. A praia nova atrairá outros corpos, a mesma areia
pisada por pés gentis ou rudes sofrerá novas pressões, mas esse
“momento” na história da areia, que se chamava praia do
Arpoador, está arquivado em nós, tão frágil arquivo.
Não era um bem carioca, mas um bem
nacional. Acendia um desejo em rapazes e moças do Norte, do Oeste,
de Leste: “Quando for ao Rio vou tomar banho no Arpoador”. Mesmo
em países distantes, esse nome está ligado a manhãs de vento e
azul, a montanhas violeta ou cinza presidindo, a um piscar de farol,
a ilhas que mesmo próximas guardam um segredo de solidão; tudo isso
embutido numa sensação de torpor ou euforia, que marcou para sempre
aquele lugar, e ficou sendo como um eflúvio dele.
Em suma, a praia do Arpoador era um
bem dos sentidos, que são ciosos de sua fazenda. Na voluptuosidade
da vista, do tato, da brisa marinha sorvida a pleno, estavam suas
riquezas, logo convertidas em memórias. O amor ali fincou suas
barracas, mas podia fincá-las também a simples amizade, e até a
indiferença sentimental. Não era menor o prazer de banhar-se ou
tostar-se, numa ou noutra situação emotiva. Todos fruíam
igualmente de um mar bravo, limpo, da melhor espuma, da concha mais
finamente colorida. A preferência da gente “bem”, acentuada nos
últimos tempos, não impedia que o lobo solitário ali se esticasse,
e revigorasse ao sol sua misantropia. A praia não tomava partido.
Mas o que tornaria o Arpoador
infrangível na lembrança dos que o frequentavam era a teoria de
corpos jovens a desfilar em suas areias, no cenário de uma
eflorescência sempre cambiante, com a água, a nuvem e o som surdo
se atando e desatando continuamente. Proust, doutor no assunto, se
enlevava diante de uma rapariga em flor, pelo seu estado de forma em
mudança, pois lhe trazia à mente “essa perpétua recriação dos
elementos primordiais da natureza, que contemplamos diante do mar”.
Mas o nosso mar soverteu a praia, e as moças já não pousam ali sua
arquitetura e seu riso. Também não se verá mais, em certa noite do
ano, os devotos de branco acendendo velas na areia, e envolvendo-as
de flores. Sobrou apenas, na vazante, o espaço para uma ou duas
pessoas depositarem sua saudade, sem barraca. Passei por lá ontem e
censurei o mar, que tudo destrói; mas, no rumor que vinha das ondas,
ele parecia explicar-se: “Nada disso, irmão. Estou apenas
trabalhando para a refeitura”*
*O cronista exagerou. A praia
continua. (n. a.)
Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira
03/09/2026
1639 – Lima
Martín de Porres
Tocam fúnebres os sinos das igrejas
de Santo Domingo. À luz das velas, banhado em suores gelados, Martín
de Porres entregou sua alma depois de muito lutar contra o Demônio
com o auxílio de Maria Santíssima e de Santa Catarina Virgem e
Mártir. Morreu em sua cama, com uma pedra como travesseiro e uma
caveira ao lado, enquanto o vice-rei de Lima de joelhos, beijava a
sua mão e lhe rogava que intercedesse para que lhe abrissem um
lugarzinho lá no Céu.
Martín de Porres tinha nascido de uma
escrava negra e seu amo, cavaleiro de tradição e puro solar
espanhol, que não a engravidou para dispor dela como coisa, e sim
para aplicar-lhe o princípio cristão de que na cama todas são
iguais perante Deus.
Aos quinze anos, Martín foi doado ao
convento dos frades dominicanos. Aqui viveu seus trabalhos e
milagres. Nunca o ordenaram sacerdote, por ser mulato; mas abraçando
com amor a vassoura, varreu cada dia os salões, os claustros, a
enfermaria e a igreja. Navalha na mão, barbeava os duzentos curas do
convento; atendia os doentes e distribuía roupa limpa com aroma de
alecrim.
Quando soube que o convento sofria
penúrias de dinheiro, apresentou-se ao prior:
– Ave Maria.
– Gratia plena.
– Que o senhor venda este mulato
cachorro – ofereceu-se.
Deitava em sua cama os mendigos
ulcerosos da rua e orava de joelhos durante toda a noite. Ficava
branco feito neve na luz sobrenatural; brancas almas saíam de seu
rosto quando cruzava o claustro à meia-noite, voando qual divino
meteoro, rumo à solidão de sua cela. Atravessava portas fechadas
com cadeado e rezava, às vezes, ajoelhado no ar, longe do chão; os
anjos o acompanhavam ao côro levando luzes nas mãos. Sem sair de
Lima consolava os cativos em Argel e salvava almas nas Filipinas,
China e Japão; sem mover-se de sua cela, tocava os sinos do angelus.
Curava os moribundos com panos molhados em sangue de galo negro e pó
de sapo e mediante exconjuros aprendidos com sua mãe. Com o dedo
roçava um dente e suprimia a dor e convertia em cicatrizes as
feridas abertas; fazia branco o açúcar escuro e apagava incêndios
com o olhar. O bispo teve de proibir-lhe tantos milagres sem
autorização.
Depois das matinas se despia e
açoitava as próprias costas com um chicote de nervos de boi
amarrados em grossos nós, e enquanto arrancava seu próprio sangue
gritava:
– Vil mulato cachorro! Até quando
vai durar tua vida pecadora?
Com olhos de súplica, lacrimejantes,
sempre pedindo perdão, passou pelo mundo o primeiro santo de pele
escura do branquíssimo santuário da Igreja católica.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
Sopra a falsa tempestade
A
Arlinda, Hilda, Lucivone e Márcia
Sopra
a falsa tempestade do ventilador e põe o quarto em movimento
Um
piano circulando pássaro cego atravessando paredes
Nuvem
pensamento flor
Tudo
tão rápido, múltiplos momentos
Pelo
espaço as pernas trôpegas gozam sem sossego
Como
morcegos sem asas
Pelo
firmamento voam as casas
É o
amor
Ele
carrega elefantes para adormecer na cama
É o
amor pendurando crocodilos nos armários
E
apenas ele faz possível esse improviso do provável
Instante
imaginário entre ciganas atrizes
Ilusória
flor, ilusória ilha, ilusório voo dos dedos tateando cicatrizes
Ardente
pedra onde exploram salamandras o sal e o fogo imaginários
É o
amor como planta extraindo clorofila das desertas paredes
mineralizadas
E
sempre o piano atravessando circunstâncias, madrugadas
Janelas
sem primaveras
Verões
náufragos em trópicas piscinas de soda limonada
Nada
consola tua ausência, é o amor
(Ai
quem dera fossem as guerras)
Em
desalinho costuram o destino estrelas aquarianas
E a
persistência das ervas vai fabricando musgo verde cobrindo pedras,
cinzas e alguns sobreviventes
Meu
coração batido pelos ventos ladra exilado ao plenilúnio do quarto
É
quase um cão
Não
mordeu, não lambeu, nem roeu seu derradeiro osso
Assiste
em vão a própria missa numa tempestade de sarnas
Ultrapassa
fronteiras sem fronteiras onde jamais se ouve o próprio ladrar das
almas
O
último ensaio tão previsível nos astros
Erro
meu próprio salto, caio do trapézio
Nenhum
beijo no espelho e nenhum beijo na sépia do retrato.
José Carlos Capinan, em Cancioneiro geral
Diário de Bernardo Soares
127.
Não me indigno, porque a indignação
é para os fortes; não me resigno, porque a resignação é para os
nobres; não me calo, porque o silêncio é para os grandes. E eu não
sou forte, nem nobre, nem grande. Sofro e sonho. Queixo-me porque sou
fraco e, porque sou artista, entretenho-me a tecer musicais as minhas
queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor a minha
ideia de os achar belos.
Só lamento o não ser criança, para
que pudesse crer nos meus sonhos, o não ser doido para que pudesse
afastar da alma de todos os que me cercam, E tomar o sonho por real,
viver demasiado os sonhos deu-me este espinho à rosa falsa da minha
sonhada vida: que nem os sonhos me agradam, porque lhes acho
defeitos.
Nem com pintar esse vidro de sombras
coloridas me oculto o rumor da vida alheia ao meu olhá-la, do outro
lado.
Ditosos os fazedores de sistemas
pessimistas! Não só se amparam de ter feito qualquer coisa, como
também se alegram do explicado, e se incluem na dor universal.
Eu não me queixo pelo mundo. Não
protesto em nome do universo. Não sou pessimista. Sofro e queixo-me,
mas não sei se o que há de mal é o sofrimento nem sei se é humano
sofrer. Que me importa saber se isso é certo ou não?
Eu sofro, não sei se merecidamente.
(Corça perseguida.)
Eu não sou pessimista, sou triste.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
Capítulo 93 – O Jantar
Que suplício que foi o jantar!
Felizmente, Sabina fez-me sentar ao pé da filha do Damasceno, uma
Dona Eulália, ou mais familiarmente Nhá-loló, moça bem graciosa,
um tanto acanhada a princípio, mas só a princípio. Faltava-lhe
elegância, mas compensava-a com os olhos, que eram soberbos e só
tinham o defeito de se não arrancarem de mim, exceto quando desciam
ao prato; mas Nhã-loló comia tão pouco, que quase não olhava para
o prato. De noite cantou; a voz era como dizia o pai, “muito
mimosa”. Não obstante, esquivei-me. Sabina veio até à porta, e
perguntou-me que tal achara a filha do Damasceno.
– Assim, assim.
– Muito simpática, não é? acudiu
ela; falta-lhe um pouco mais de corte. Mas que coração! é uma
pérola. Bem boa noiva para você.
– Não gosto de pérolas.
– Casmurro! Para quando é que você
se guarda? para quando estiver a cair de maduro, já sei. Pois, meu
rico, quer você queira quer não, há de casar com Nhá-loló.
E dizia isto a bater-me na face com os
dedos, meiga como uma pomba, e ao mesmo tempo intimativa e resoluta.
Santo Deus! seria esse o motivo da reconciliação? Fiquei um pouco
desconsolado com a ideia, mas uma voz misteriosa chamava-me à casa
do Lobo Neves; disse adeus a Sabina e às suas ameaças.
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas
02/09/2026
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