14/08/2026

Maria Luiza Jobim | Garota de Ipanema / Girl from Ipanema

A prova do algodão

Segundo a Carta do Direitos Humanos, no seu artigo 12 “Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida, na sua família ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação”. E mais: “Contra tais intromissões ou ataques toda a pessoa tem direito à protecção da lei”. Assim está escrito. O papel exibe, entre outras, a assinatura do representante dos Estados Unidos, a qual assumiria, por via de consequência, o compromisso dos Estados Unidos no que toca ao cumprimento efectivo das disposições contidas na mesma Carta, porém, para vergonha sua e nossa, essas disposições nada valem, sobretudo quando a mesma lei que deveria proteger, não só não o faz, como homologa com a sua autoridade as maiores arbitrariedades, incluindo aquelas que o dito artigo 12 enumera para condenar. Para os Estados Unidos qualquer pessoa, seja emigrante ou simples turista, indiferentemente da sua actividade profissional, é um delinquente potencial que está obrigado, como em Kafka, a provar a sua inocência sem saber de que o acusam. Honra, dignidade, reputação, são palavras hilariantes para os cães cerberos que guardam as entradas do país. Já conhecíamos isto, já o havíamos experimentado em interrogatórios conduzidos intencionalmente de forma humilhante, já tínhamos sido olhados pelo agente de turno como se fôssemos o mais repugnante dos vermes. Enfim, já estávamos habituados a ser maltratados.
Mas agora surge algo novo, uma volta mais ao parafuso opressor. A Casa Branca, onde se hospeda o homem mais poderoso do planeta, como dizem os jornalistas em crise de inspiração, a Casa Branca, insistimos, autorizou os agentes de polícia das fronteiras a analisar e revisar documentos de qualquer cidadão estrangeiro ou norte-americano, ainda que não existam suspeitas de que essa pessoa tenha intenção de participar num atentado. Tais documentos serão conservados “por um razoável espaço de tempo” numa imensa biblioteca onde se guarda todo o tipo de dados pessoais, desde simples agendas de contactos a correios electrónicos supostamente confidenciais. Ali se irá guardando também uma quantidade incalculável de cópias de discos duros dos nossos computadores de cada vez que nos apresentarmos para entrar nos Estados Unidos por qualquer das suas fronteiras. Com todos os seus conteúdos: trabalhos de investigação científica, tecnológica, criativa, teses académicas, ou um simples poema de amor. “Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada”, diz o pobre do artigo 12. E nós dizemos: veja-se o pouco que vale a assinatura de um presidente da maior democracia do mundo.
Aqui está. Praticámos sobre os Estados Unidos a infalível prova do algodão, e eis o que verificámos: não se limitam a estar sujos, estão sujíssimos.

José Saramago, em O caderno

Sumário

Polly Kellog e o motorista Osmar.
Dramas rápidos mas intensos.
Fotogramas do meu coração conceitual.
De tomara-que-caia azul marinho.
Engulo desaforos mas com sinceridade.
Sonsa com bom-senso.
Antena da praça.
Artista da poupança.
Absolutely blind.
Tesão do talvez.
Salta-pocinhas.
Água na boca.
Anjo que registra.

Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés

A Viúva

Quando a amiga lhe apresentou o garotinho lindo dizendo que era seu filho mais novo, ela não pôde resistir e exclamou: “Mas como, seu marido não morreu há cinco anos?” “Sim, é verdade” — respondeu então a outra, cheia daquela compreensão, sabedoria e calor que fazem os seres humanos — “mas eu não”.
MORAL: Não morre a passarada quando morre um pássaro.

Millôr Fernandes, em Fábulas Fabulosas

Zé Sapé




Quando se sabe pouco se imagina muito. O Riobaldo sabia disso e advertia: “O senhor deve ficar prevenido: esse povo diverte por demais com a baboseira, dum traque de jumento formam tufão de ventania. Por gosto de rebuliço. Querem-porque-querem inventar maravilhas glorionhas, depois eles mesmos acabam temendo e crendo. Parece que todo o mundo carece disso. Eu acho...” .
Na minha roça, tão longe do sertão do Riobaldo, era assim mesmo. O que confirma o dito: todo mundo carece disso... Os homens se reuniam ao fim do dia pra contar causos. Não era pra saber. Era pra imaginar. Brincadeira que se levava a sério. As coisas inventadas têm mais força que as não inventadas. Todo mundo sabia que o contador de causos estava mentindo. Mas seria falta de educação dizer a ele que as coisas que ele contava eram invenção. Assim, todo mundo fazia de conta que ele não estava mentindo. Tinha de fazer de conta, senão não tinha graça, não dava medo, não dava assombro. Depois de um causo portentoso, a coisa certa a se dizer era: “Mas isso não é nada...” . Aí aquele que disse começava a contar as suas maravilhas inventadas. Ninguém se interessava por fatos verdadeiros. Fato verdadeiro não dá espanto. O espanto mora no inventado. Os fatos verdadeiros só servem para neles se amarrar a fantasia, feito prego pra se pendurar um quadro. O prego ninguém vê. Os homens da cidade diziam que eram mentiras. Pois eu digo que ali estava o nascedouro do realismo fantástico. Bem diz o Manoel de Barros que o que não existe é mais bonito do que o que existe. Dentre todos os contadores de “causos” lá na roça, o mais imaginoso era o Zé Sapé. Foi assim que, numa roda, depois de um ”causo”, ele disse “mas isso não é nada” e passou a relatar o que lhe acontecera. Relatou, com a gravidade que convém a uma pessoa que só diz verdades. Era depois do almoço. O sol estava no alto do céu, queimando. Deu-lhe uma dor de barriga. Procurou um lugar adequado para obrar. Não podia ter mato alto, porque o mato alto espeta e faz cócegas no traseiro. E tinha de agachar na direção da subida do morro, pra obra não escorrer na direção do pé. Apertado pela necessidade, nem olhou direito. Desafivelou o cinto, baixou as calças, agachou e desapertou-se. Terminada a obra, feita a limpeza com um chumaço de capim, levantou as calças, apertou o cinturão... Aí ele explicou: “Todo mundo gosta de vê o que feiz. Eu virei pra vê. E num é que eu tinha obrado bem na cabeça de uma urutu que tava durmino, aquentano o sor di meio-dia? E a danada num acordô...” .
Acho que, se o Zé Sapé tivesse contado o seu “causo” aos autores bíblicos, o texto sagrado seria diferente. Lá, onde se diz que a mulher pisaria na cabeça da serpente e a serpente lhe morderia o calcanhar, estaria escrito: “E o homem obrará na cabeça da urutu e a urutu não morderá o seu traseiro”...

Rubem Alves, em O Velho que Acordou Menino

Aí pelas três da tarde

Para
José Carlos Abbate

Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em ideias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares à sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo “ciao” ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pelo, mas sem ferir o pudor (o seu pudor, bem entendido), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome depois com sua nudez no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado), e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.

Raduan Nassar, em Obra completa

13/08/2026

Mari Jasca | Sotaque

Hagar, o Horrível

Horóscopo

Foto: Olga Griga | Shutterstock / Portal EdiCase


ÁRIES: Cuidado com o futuro. Ao contrário do passado, ele ainda não aconteceu. Por isso, é muito difícil saber o que pode acontecer. Cuidado.
TOURO: Entre todos os sentimentos que você pode experimentar está o amor. Talvez seja o mais perigoso deles. Talvez seja apenas um deles. Talvez não seja nem uma coisa nem outra. Cuidado.
GÊMEOS: Termine o que você começou. Desde que valha a pena terminar. Caso você não tenha terminado por ter percebido que não valia a pena terminar, não termine. Deixe como está.
CÂNCER: Más notícias. É pouco provável que o amor venha bater na sua porta. Afinal de contas, o amor é um sentimento abstrato. Quem bate nas portas são apenas seres humanos. Ou testemunhas de Jeová. Cuidado.
LEÃO: A Lua está em Saturno, ao contrário de você, que está na Terra. Isso significa que você não está na Lua, posto que ela está em Saturno, desde que Saturno não esteja na Terra, é claro. Aproveite a Terra.
VIRGEM: O mês é propício a viagens. Seja para fora do país, seja de casa pro trabalho, e do trabalho pra casa. Ou viagens de ácido. Ou talvez algum parente viaje. Ou você verá aviões no céu. Ou anúncios da Decolar.com. Cuidado.
LIBRA: O ano vai ser ótimo para a sua saúde, desde que você não fique doente. Caso fique doente, é capaz que melhore. Caso piore, não significa que você vá morrer. Mas tome cuidado.
ESCORPIÃO: Será um ano de mudanças. Tudo vai mudar. Inclusive a maneira como as coisas mudam deve mudar. Então, se as coisas sempre mudaram pra você, talvez parem de mudar. Cuidado.
SAGITÁRIO: O ano vai depender muito de você. Corra atrás do que você quer. Não espere que as coisas aconteçam sozinhas. Elas não vão acontecer. A não ser coisas que acontecem sozinhas, claro. Como a chuva, por exemplo. Não precisa correr atrás. Não vai adiantar.
CAPRICÓRNIO: Beba com moderação. Durma com moderação. Acorde com moderação. Modere com moderação. Moderação demais é um exagero. Modere menos: exagere. Com moderação.
AQUÁRIO: Esse é o primeiro ano do resto da sua vida. A não ser que seja o último. Nesse caso: esse é o primeiro resto do ano da sua vida. Ou: essa é a primeira vida do resto do seu ano.
PEIXES: Hoje, exatamente, faltam trinta e dois anos e vinte dias pra você morrer. Ou talvez faltem cinquenta e quatro anos. Ou talvez faltem doze dias. Não importa. O que importa é que agora, exatamente agora, começou uma contagem regressiva. Cuidado.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

Louvor póstumo

Como os homens agem de maneira estranha! Não elogiam aqueles com quem convivem, porém valorizam o louvor póstumo, proveniente daqueles que nunca viram nem verão. É o mesmo que se entristecer porque aqueles que viveram antes não o louvaram.

Marco Aurélio, em Meditações

Oito em um


— O seguinte. Quero fazer análise de grupo, doutor. Não se preocupe com a formação do grupo. Eu formo sozinho, compreende? Posso contar ao senhor uma pá de infâncias que eu tive, uma pá de vidas que vou levando. Até que essa multiplicidade não me encucava. Quer dizer: até. Pois Fernando Pessoa não era muitos e simultâneos? Quando morreu o Alberto Caeiro, o Álvaro de Campos e o Ricardo Reis, sem falar no Bernardo Soares, continuaram socioexistindo sem briga. Mas comecei a me aborrecer quando os meus diferentes eus entraram a exigir de mim funcionamento sincrônico em lugares distantes uns dos outros. Distantes e incompatíveis psicologicamente. O senhor não avalia o problema. Para dar um exemplo: Nunca fui a Capri mas preciso urgente ir lá, é necessidade visceral de um eu que me agrada muito, juntei uns dólares, cuidei de passaporte que não foi mole, fui à agência de turismo. Aí o meu eu tijucano, ele é de morte, não arreda pé da rua General Roca, meu domicílio global, se recusa a embarcar. Vê que papelão? Vivia discutindo com ele a conveniência de ser transigente. Capri é só um mês, nem o dinheiro daria pra mais, que é um mês na vida de um tijucano? O desgraçado empacou. Pior é que tem outro eu muito marcado também, que gostaria de viver na Paraíba criando bode. Sabe como é, fixação dos verdes anos, o bode era uma oleografia pendurada na parede lá de casa, um bode vermelho que tinha barba de apóstolo, muito sérios ele e a barba, que balançava ao vento. Juro que balançava. Por favor, não vá dizer que eu tenho complexo de bode expiatório, não odeio ninguém nem quero transferir nenhuma culpa mas o fato é que. Onde é mesmo que eu estava? Ah, meus muitos. Não é meus múltiplos, doutor, não tenho nada com essa transa da Petite Galerie, que reproduz cem vezes em acrílico um modelo único. Não sou de acrílico, sou matéria viva, pulsante… Não quer saber quantos sou? Contei oito, doutor. Dá ou não para uma análise de grupo? Faço questão de ser analisado sozinho em grupo. Mas tem um galho. Uma de minhas personalidades eu gostaria de reservar para mais tarde. É o meu lado, meu lado não, meu ser menina-de-jardim-de-infância. Por favor, me deixe continuar ligado nela, é tudo quanto há de mais virginal em meu conglomerado enroladíssimo. Bem que eu gostaria de guardá-lo para a própria Melanie Klein, não é por desmerecer do doutor, é porque eu li a tradução portuguesa de Envy and Gratitude e fiquei vidrado nela, que mulher! Não perco de jeito nenhum concerto de Jacques Klein, só porque ele deve ser parente dela. Melanie é um tremendo barato, uma glória. Mas quero ficar pelo menos uns cinco anos ainda curtindo esse euzinho infantil, que é minhas doçuras. Então, vamos combinar. Esse fica para depois. Tenho muita pena de me desfazer de minhas riquezas, doutor. Perdão: de meus problemas. O ideal seria conciliar. Complexo de castração eu tenho, mas não é medo de perder uma parte boa do corpo, é de perder este ou aquele indivíduo que me habita, e depois sentir falta dele como de uma perna amputada. Ordem! Ordem é o que eu gostaria que o senhor instituísse na minha habitação moral coletiva. O progresso eu arranjo. Mas o senhor não me diz nada. Não vejo nenhuma resposta em seus olhos, e tenho a sensação de estar falando sozinho em Brasília, numa área ainda não construída. Começo a me arrepender de estar levando este papo solitário com o senhor. Sei lá se o senhor me aceita para análise, e amanhã faz um romance, uma peça de teatro com a minha vida. Não é que esteja duvidando de sua ética profissional, mas se amanhã despertar no senhor um indivíduo novo, com fome de escrever, quem me diz que não serei eu o material de sua criação? Até que ponto me verei despido e denunciado em praça pública? Pois eu não lhe disse nada, mas ia lhe dizer sobre um eu celerado que já cometeu em mim, ou por mim, coisas bem negras. É justamente o quinto, o terrível, o pior de todos, quis estrangular a garotinha do jardim de infância… por pouco-pouco ele estrangulava. A sorte foi o meu eu da rua General Roca acudir a tempo. Daí, não tenho jeito de contrariá-lo quando ele me diz: “Capri, não. Nada além da praça Saens Peña”. O quarto, o sexto e o sétimo, bem, chega, já falei demais. Preciso guardar esses três como reserva. Não lhe dou nenhuma dica sobre eles. Por que iria abrir as comportas com o primeiro Freud que me aparece pela frente? Tem coisas que Freud não explica. Nem Jung nem Adler nem Rank nem Horney nem Chico Xavier nem… Fico por aqui. Se me derem uma explicadinha de cada um de meus problemas, se tudo fica limpo e computadorizado, que vai ser de mim, condenado à unidade integral? Não leve a mal, doutor, mas aqui me despeço e prometo nunca mais procurar o senhor, tá bom? Tchau! Hoje à noite embarco para Campina Grande e levo a patota na raça.

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

Tanta mansidão

Pois a hora escura, talvez a mais escura, em pleno dia, precedeu essa coisa que não quero sequer tentar definir. Em pleno dia era noite, e essa coisa que não quero ainda definir é uma luz tranquila dentro de mim, e a ela chamariam de alegria, alegria mansa. Estou um pouco desnorteada como se um coração me tivesse sido tirado, e em lugar dele estivesse agora a súbita ausência, uma ausência quase palpável do que era antes um órgão banhado da escuridão da dor. Não estou sentindo nada. Mas é o contrário de um torpor. É um modo mais leve e mais silencioso de existir.
Mas estou também inquieta. Eu estava organizada para me consolar da angústia e da dor. Mas como é que me arrumo com essa simples e tranquila alegria. É que não estou habituada a não precisar de meu próprio consolo. A palavra consolo aconteceu sem eu sentir, e eu não notei, e quando fui procurá-la, ela já se havia transformado em carne e espírito, já não existia mais como pensamento.
Vou então à janela, está chovendo muito. Por hábito estou procurando na chuva o que em outro momento me serviria de consolo. Mas não tenho dor a consolar.
Ah, eu sei. Estou agora procurando na chuva uma alegria tão grande que se torne aguda, e que me ponha em contato com uma agudez que se pareça a agudez da dor. Mas é inútil a procura. Estou à janela e só acontece isto: vejo com olhos benéficos a chuva, e a chuva me vê de acordo comigo. Estamos ocupadas ambas em fluir. Quanto durará esse meu estado? Percebo que, com esta pergunta, estou apalpando meu pulso para sentir onde estará o latejar dolorido de antes. E vejo que não há o latejar da dor.
Apenas isso: chove e estou vendo a chuva. Que simplicidade. Nunca pensei que o mundo e eu chegássemos a esse ponto de trigo. A chuva cai não porque está precisando de mim, e eu olho a chuva não porque preciso dela. Mas nós estamos tão juntas como a água da chuva está ligada à chuva. E eu não estou agradecendo nada. Não tivesse eu, logo depois de nascer, tomado involuntária e forçadamente o caminho que tomei – e teria sido sempre o que realmente estou sendo: uma camponesa que está num campo onde chove. Nem sequer agradecendo ao Deus ou à natureza. A chuva também não agradece nada. Não sou uma coisa que agradece ter se transformado em outra. Sou uma mulher, sou uma pessoa, sou uma atenção, sou um corpo olhando pela janela. Assim como a chuva não é grata por não ser uma pedra. Ela é uma chuva. Talvez seja isso ao que se poderia chamar de estar vivo. Não mais que isto, mas isto: vivo. E apenas vivo de uma alegria mansa.

Clarice Lispector, em Todos os Contos

12/08/2026

João Bosco — Horda | NDR Bigband

Guia

A poesia me salvará.
Falo constrangida, porque só Jesus
Cristo é o Salvador, conforme escreveu
um homem — sem coação alguma —
atrás de um crucifixo que trouxe de lembrança
de Congonhas do Campo.
No entanto, repito, a poesia me salvará.
Por ela entendo a paixão
que Ele teve por nós, morrendo na cruz.
Ela me salvará, porque o roxo
das flores debruçado na cerca
perdoa a moça do seu feio corpo.
Nela, a Virgem Maria e os santos consentem
no meu caminho apócrifo de entender a palavra
pelo seu reverso, captar a mensagem
pelo arauto, conforme sejam suas mãos e olhos.
Ela me salvará. Não falo aos quatro ventos,
porque temo os doutores, a excomunhão
e o escândalo dos fracos. A Deus não temo.
Que outra coisa ela é senão Sua Face atingida
da brutalidade das coisas?

Adélia Prado, em Bagagem

1636 – Quito



A terceira metade

Durante vinte longos anos foi o mandão do reino de Quito, presidente do governo e rei do amor, dos baralhos e da missa. Todos os outros caminham ou correm ao ritmo de sua cavalgadura.
Em Madrid, o Conselho das Índias delcarou-o culpado de cinquenta e seis malvadezas, mas a má notícia não cruzou ainda o mar. Terá de pagar multa pela loja que há vinte anos instalou na Auditoria Real, para vender as sedas e os tafetás chineses que tinha trazido de contrabando, e por infinitos escândalos com casadas, viúvas e virgens; e, também por causa do cassino que instalou na sala de bordar de sua casa, ao lado da capela privada onde comungava todos os dias. As rodas de baralho deixaram para dom Antonio de Morga duzentos mil pesos de lucro pelas entradas que cobrou, sem contar as façanhas de seus ágeis dedos depenadores. (Por dívidas de dez pesos, dom Antonio condenou muitos índios a passarem o resto de suas vidas atados aos teares nas oficinas.)
Mas a resolução do Conselho das Índias ainda não chegou a Quito. Não é isso o que o preocupa.
Está em pé na sala, despido na frente do espelho lavrado em ouro, e vê outro. Busca seu corpo de touro e não o encontra. Debaixo do adiposo ventre e entre as pernas magras balança, muda, a chave que tinha sabido abrir todas as fechaduras de mulher.
Busca a sua alma no espelho, e não a encontra. Quem roubou a metade piedosa do homem que dava sermões aos frades e era mais devoto que o bispo? E o fulgor em seus olhos de místico? Só há escuridões e rugas sobre a barba branca.
Dom Antonio de Morga dá alguns passos até roçar o espelho e pergunta por sua terceira metade. Tem que existir uma região onde buscaram refúgio os sonhos sonhados e esquecidos. Tem que existir: um lugar onde os olhos, gastos de tanto olhar, tenham guardado as cores do mundo; e os ouvidos, já quase surdos, as melodias. Busca algum sabor invicto, algum aroma que não tenha sumido, alguma calidez que persista na mão.
Não reconhece nada que esteja a salvo e mereça ficar. O espelho só lhe devolve um velho vazio que morrerá esta noite.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Diário de Bernardo Soares


123.

A renúncia é a libertação. Não querer é poder.
Que me pode dar a China que a minha alma me não tenha já dado? E, se a minha alma mo não pode dar, como mo dará a China, se é com a minha alma que verei a China, se a vir? Poderei ir buscar riqueza ao Oriente, mas não riqueza de alma, porque a riqueza da minha alma sou eu, e eu estou onde estou, sem Oriente ou com ele.
Compreendo que viaje quem é incapaz de sentir. Por isso são tão pobres sempre como livros de experiência os livros de viagens, valendo somente pela imaginação de quem os escreve. E se quem os escreve tem imaginação, tanto nos pode encantar com a descrição minuciosa, fotográfica a estandartes, de paisagens que imaginou, como com a descrição, forçosamente menos minuciosa, das paisagens que supôs ver.
Somos todos míopes, exceto para dentro. Só o sonho vê com o olhar.
No fundo, há na nossa experiência da terra duas coisas só — o universal e o particular. Descrever o universal é descrever o que é comum a toda a alma humana e a toda a experiência humana — o céu vasto, com o dia e a noite que acontecem dele e nele; o correr dos rios — todos da mesma água sororal e fresca; os mares, montanhas tremulamente extensas, guardando a majestade da altura no segredo da profundeza; os campos, as estações, as casas, as caras, os gestos; o traje e os sorrisos; o amor e as guerras; os deuses, finitos e infinitos; a Noite sem forma, mãe da origem do mundo; o Fado, o monstro intelectual que é tudo... Descrevendo isto, ou qualquer coisa universal como isto, falo com a alma a linguagem primitiva e divina, o idioma adâmico que todos entendem. Mas que linguagem estilhaçada e babélica falaria eu quando descrevesse o Elevador de Santa Justa, a Catedral de Reims, os calções dos zuavos, a maneira como o português se pronuncia em Trás-os-Montes? Estas coisas são acidentes da superfície; podem sentir-se com o andar mas não com o sentir. O que no Elevador de Santa Justa é universal é a mecânica facilitando o mundo. O que na Catedral de Reims é verdade não é a Catedral nem o Reims, mas a majestade religiosa dos edifícios consagrados ao conhecimento da profundeza da alma humana. O que nos calções dos zuavos é eterno é a ficção colorida dos trajes, linguagem humana, criando uma simplicidade social que é no seu modo uma nova nudez. O que nas pronúncias locais é universal é o timbre caseiro das vozes de gente que vive espontânea, a diversidade dos seres juntos, a sucessão multicolor das maneiras, as diferenças dos povos, e a vasta variedade das nações.
Transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem senão o que somos.
Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo? O universo não é meu: sou eu.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Lembrança da feitura de um romance

Não me lembro mais onde foi o começo, sei que não comecei pelo começo: foi por assim dizer escrito todo ao mesmo tempo. Tudo estava ali, ou parecia estar, como no espaço-temporal de um piano aberto, nas teclas simultâneas do piano.
Escrevi procurando com muita atenção o que se estava organizando em mim, e que só depois da quinta paciente cópia é que passei a perceber. Passei a entender melhor a coisa que queria ser dita.
Meu receio era de que, por impaciência com a lentidão que tenho em me compreender, eu estivesse apressando antes da hora um sentido. Tinha a impressão, ou melhor, certeza de que, mais tempo eu me desse, e a história diria sem convulsão o que ela precisava dizer.
Cada vez acho tudo uma questão de paciência, de amor criando paciência, de paciência criando amor.
O livro foi se levantando por assim dizer ao mesmo tempo, emergindo mais aqui do que ali, ou de repente mais ali do que aqui: eu interrompia uma frase no capítulo 10, digamos, para escrever o que era o capítulo dois, por sua vez interrompido durante meses porque escrevia o capítulo 18. Esta paciência eu tive: a de suportar, sem nem ao menos o consolo de uma promessa de realização, o grande incômodo da desordem. Mas também é verdade que a ordem constrange.
Como sempre, a dificuldade maior era a da espera. (Estou sentindo uma coisa estranha, diria a mulher para o médico. É que a senhora vai ter um filho. E eu pensava que estava morrendo, responderia a mulher.) A alma deformada, crescendo, se avolumando, sem nem ao menos se saber se aquilo é espera de algo que se forma e que virá à luz.
Além da espera difícil, a paciência de recompor por escrito paulatinamente a visão inicial que foi instantânea. Recuperar a visão é muito difícil.
E como se isso não bastasse, infelizmente não sei redigir, não consigo relatar uma ideia, não sei “vestir uma ideia com palavras”. O que escrevo não se refere ao passado de um pensamento, mas é o pensamento presente: o que vem à tona já vem com suas palavras adequadas e insubstituíveis, ou não existe.
Ao escrevê-lo, de novo a certeza só aparentemente paradoxal de que o que atrapalha escrever é ter de usar palavras. É incômodo. É como se eu quisesse uma comunicação mais direta, uma compreensão muda como acontece às vezes entre as pessoas. Se eu pudesse escrever por intermédio de desenhar na madeira ou de alisar uma cabeça de menino ou de passear pelo campo, jamais teria entrado pelo caminho da palavra. Faria o que tanta gente que não escreve faz, e exatamente com a mesma alegria e o mesmo tormento de quem escreve, e com as mesmas profundas decepções inconsoláveis: viveria, não usaria palavras. O que pode vir a ser a minha solução. Se for, bem-vinda.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

A Contadora de Filmes


[2]

Era lindo, depois de ver o filme, encontrar meu pai e meus irmãos me esperando ansiosos em casa, sentados enfileirados que nem no cinema, penteadinhos e de roupa limpa, recém-mudada.
Meu pai, com uma manta boliviana cobrindo as pernas, ocupava a única poltrona que a gente tinha, e assim era a plateia lá de casa. No chão, do lado da poltrona, brilhava sua garrafa de vinho tinto e o único copo que havia sobrado em casa. A galeria era aquela bancada comprida, de madeira bruta, onde meus irmãos se acomodavam em ordem, do menor ao maior. Depois, quando alguns de seus amigos começaram a aparecer na janela, a janela virou o balcão.
Eu chegava do cinema, tomava rapidinho uma xícara de chá (que deixavam pronto me esperando) e começava a minha função. De pé na frente deles, de costas para a parede pintada a cal, branca feito a tela do cinema, começava a contar o filme “de a a z”, como dizia meu pai, tratando de não esquecer nenhum detalhe, nem da história, nem dos diálogos, nem dos personagens.
Aliás, devo esclarecer aqui que não me mandavam para o cinema só por ser a única mulher da família e eles – meu pai e meus irmãos – serem cavalheiros com as damas. Não senhor. Eles me mandavam porque eu era a melhor contando filmes. Assim mesmo, como se ouve: a melhor contadora de filmes da família. Depois, passei a ser a melhor da viela e em pouco tempo a melhor do povoado. Que eu saiba, não havia ninguém no povoado da Mina que ganhasse de mim na hora de contar filmes. Do tipo que fosse: de caubóis, de terror, de guerra, de marcianos, de amor. E, claro, os filmes mexicanos, que eram os que papai, como todo mundo que tinha vindo do sul, mais gostava.
E foi justamente com um filme mexicano, desses cheios de cantorias e muito choro, que ganhei meu título. Não foi nada fácil ganhar esse título.
Ou vocês acham que fui eleita só por causa da minha fina estampa?

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes