18/10/2026

Biografia

Todo o meu nascer
foi prematuro.

Agora,
em meus filhos
me vou dando às luzes.

Descendo, sim,
dos que hão de vir.

Mia Couto, em Poemas Escolhidos

João Bosco, Chico Buarque, Gonzalo Rubalcaba | Incompatibilidade de Gênios

Tudo

Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.
Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.
Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré-história já havia os monstros apocalípticos? Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos – sou eu que escrevo o que estou escrevendo. Deus é o mundo. A verdade é sempre um contato interior e inexplicável. A minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior e não tem uma só palavra que a signifique. Meu coração se esvaziou de todo desejo e reduz-se ao próprio último ou primeiro pulsar. A dor de dentes que perpassa esta história deu uma fisgada funda em plena boca nossa. Então eu canto alto agudo uma melodia sincopada e estridente – é a minha própria dor, eu que carrego o mundo e há falta de felicidade. Felicidade? Nunca vi palavra mais doida, inventada pelas nordestinas que andam por aí aos montes.
Como eu irei dizer agora, esta história será o resultado de uma visão gradual – há dois anos e meio venho aos poucos descobrindo os porquês. É visão da iminência de. De quê? Quem sabe se mais tarde saberei. Como que estou escrevendo na hora mesma em que sou lido. Só não inicio pelo fim que justificaria o começo – como a morte parece dizer sobre a vida – porque preciso registrar os fatos antecedentes.
Escrevo neste instante com algum prévio pudor por vos estar invadindo com tal narrativa tão exterior e explícita. De onde no entanto até sangue arfante de tão vivo de vida poderá quem sabe escorrer e logo se coagular em cubos de geleia trêmula. Será essa história um dia o meu coágulo? Que sei eu. Se há veracidade nela – e é claro que a história é verdadeira embora inventada – que cada um a reconheça em si mesmo porque todos nós somos um e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro – existe a quem falte o delicado essencial.
Como é que sei tudo o que vai se seguir e que ainda o desconheço, já que nunca o vivi? É que numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina. Sem falar que eu em menino me criei no Nordeste. Também sei das coisas por estar vivendo. Quem vive sabe, mesmo sem saber que sabe. Assim é que os senhores sabem mais do que imaginam e estão fingindo de sonsos.
Proponho-me a que não seja complexo o que escreverei, embora obrigado a usar as palavras que vos sustentam. A história – determino com falso livre-arbítrio – vai ter uns sete personagens e eu sou um dos mais importantes deles, é claro. Eu, Rodrigo S. M. Relato antigo, este, pois não quero ser modernoso e inventar modismos à guisa de originalidade. Assim é que experimentarei contra os meus hábitos uma história com começo, meio e “gran finale” seguido de silêncio e de chuva caindo.
História exterior e explícita, sim, mas que contém segredos – a começar por um dos títulos, “.Quanto ao futuro.”, que é precedido por um ponto final e seguido de outro ponto final. Não se trata de capricho meu – no fim talvez se entenda a necessidade do delimitado. (Mal e mal vislumbro o final que, se minha pobreza permitir, quero que seja grandioso.) Se em vez de ponto fosse seguido por reticências o título ficaria aberto a possíveis imaginações vossas, porventura até malsãs e sem piedade. Bem, é verdade que também eu não tenho piedade do meu personagem principal, a nordestina: é um relato que desejo frio. Mas tenho o direito de ser dolorosamente frio, e não vós. Por tudo isto é que não vos dou a vez. Não se trata apenas de narrativa, é antes de tudo vida primária que respira, respira, respira. Material poroso, um dia viverei aqui a vida de uma molécula com seu estrondo possível de átomos. O que escrevo é mais do que invenção, é minha obrigação contar sobre essa moça entre milhares delas. E dever meu, nem que seja de pouca arte, o de revelar-lhe a vida.
Porque há o direito ao grito.
Então eu grito.
Grito puro e sem pedir esmola. Sei que há moças que vendem o corpo, única posse real, em troca de um bom jantar em vez de um sanduíche de mortadela. Mas a pessoa de quem falarei mal tem corpo para vender, ninguém a quer, ela é virgem e inócua, não faz falta a ninguém. Aliás – descubro eu agora – também eu não faço a menor falta, e até o que escrevo um outro escreveria. Um outro escritor, sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas.
Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa. Não notam sequer que são facilmente substituíveis e que tanto existiriam como não existiriam. Poucas se queixam e ao que eu saiba nenhuma reclama por não saber a quem. Esse quem será que existe?
Estou esquentando o corpo para iniciar, esfregando as mãos uma na outra para ter coragem. Agora me lembrei de que houve um tempo em que para me esquentar o espírito eu rezava: o movimento é espírito. A reza era um meio de mudamente e escondido de todos atingir-me a mim mesmo. Quando rezava conseguia um oco de alma – e esse oco é o tudo que posso eu jamais ter. Mais do que isso, nada. Mas o vazio tem o valor e a semelhança do pleno.
Um meio de obter é não procurar, um meio de ter é o de não pedir e somente acreditar que o silêncio que eu creio em mim é resposta a meu – a meu mistério.
Pretendo, como já insinuei, escrever de modo cada vez mais simples. Aliás o material de que disponho é parco e singelo demais, as informações sobre os personagens são poucas e não muito elucidativas, informações essas que penosamente me vêm de mim para mim mesmo, é trabalho de carpintaria.
Sim, mas não esquecer que para escrever não importa o quê o meu material básico é a palavra. Assim é que esta história será feita de palavras que se agrupam em frases e destas se evola um sentido secreto que ultrapassa palavras e frases. É claro que, como todo escritor, tenho a tentação de usar termos suculentos: conheço adjetivos esplendorosos, carnudos substantivos e verbos tão esguios que atravessam agudos o ar em vias de ação, já que palavra é ação, concordais? Mas não vou enfeitar a palavra pois se eu tocar no pão da moça esse pão se tornará em ouro – e a jovem (ela tem dezenove anos) e a jovem não poderia mordê-lo, morrendo de fome. Tenho então que falar simples para captar a sua delicada e vaga existência. Limito-me a humildemente – mas sem fazer estardalhaço de minha humildade que já não seria humilde – limito-me a contar as fracas aventuras de uma moça numa cidade toda feita contra ela. Ela que deveria ter ficado no sertão de Alagoas com vestido de chita e sem nenhuma datilografia, já que escrevia tão mal, só tinha até o terceiro ano primário. Por ser ignorante era obrigada na datilografia a copiar lentamente letra por letra – a tia é que lhe dera um curso ralo de como bater à máquina. E a moça ganhara uma dignidade: era enfim datilógrafa. Embora, ao que parece, não aprovasse na linguagem duas consoantes juntas e copiava a letra linda e redonda do amado chefe a palavra “designar” de modo como em língua falada diria: “desiguinar”.
Desculpai-me mas vou continuar a falar de mim que sou meu desconhecido, e ao escrever me surpreendo um pouco pois descobri que tenho um destino. Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?
Quero antes afiançar que essa moça não se conhece senão através de ir vivendo à toa. Se tivesse a tolice de se perguntar “quem sou eu?” cairia estatelada e em cheio no chão. É que “quem sou eu?” provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto.
A pessoa de quem vou falar é tão tola que às vezes sorri para os outros na rua. Ninguém lhe responde ao sorriso porque nem ao menos a olham.
Voltando a mim: o que escreverei não pode ser absorvido por mentes que muito exijam e ávidas de requintes. Pois o que estarei dizendo será apenas nu. Embora tenha como pano de fundo – e agora mesmo – a penumbra atormentada que sempre há nos meus sonhos quando de noite atormentado durmo. Que não se esperem, então, estrelas no que se segue: nada cintilará, trata-se de matéria opaca e por sua própria natureza desprezível por todos. É que a esta história falta melodia cantabile. O seu ritmo é às vezes descompassado. E tem fatos. Apaixonei-me subitamente por fatos sem literatura – fatos são pedras duras e agir está me interessando mais do que pensar, de fatos não há como fugir.
Pergunto-me se eu deveria caminhar à frente do tempo e esboçar logo um final. Acontece porém que eu mesmo ainda não sei bem como esse isto terminará. E também porque entendo que devo caminhar passo a passo de acordo com um prazo determinado por horas: até um bicho lida com o tempo. E esta é também a minha mais primeira condição: a de caminhar paulatinamente apesar da impaciência que tenho em relação a essa moça.
Com esta história eu vou me sensibilizar, e bem sei que cada dia é um dia roubado da morte. Eu não sou um intelectual, escrevo com o corpo. E o que escrevo é uma névoa úmida. As palavras são sons transfundidos de sombras que se entrecruzam desiguais, estalactites, renda, música transfigurada de órgão. Mal ouso clamar palavras a essa rede vibrante e rica, mórbida e obscura tendo como contratom o baixo grosso da dor. Alegro com brio. Tentarei tirar ouro do carvão. Sei que estou adiando a história e que brinco de bola sem a bola. O fato é um ato? Juro que este livro é feito sem palavras. É uma fotografia muda. Este livro é um silêncio. Este livro é uma pergunta.
Mas desconfio que toda essa conversa é feita apenas para adiar a pobreza da história, pois estou com medo. Antes de ter surgido na minha vida essa datilógrafa, eu era um homem até mesmo um pouco contente, apesar do mau êxito na minha literatura. As coisas estavam de algum modo tão boas que podiam se tornar muito ruins porque o que amadurece plenamente pode apodrecer.
Transgredir, porém, os meus próprios limites me fascinou de repente. E foi quando pensei em escrever sobre a realidade, já que essa me ultrapassa. Qualquer que seja o que quer dizer “realidade”. O que narrarei será meloso? Tem tendência mas então agora mesmo seco e endureço tudo. E pelo menos o que escrevo não pede favor a ninguém e não implora socorro: aguenta-se na sua chamada dor com uma dignidade de barão.
É. Parece que estou mudando de modo de escrever. Mas acontece que só escrevo o que quero, não sou um profissional – e preciso falar dessa nordestina senão sufoco. Ela me acusa e o meio de me defender é escrever sobre ela. Escrevo em traços vivos e ríspidos de pintura. Estarei lidando com fatos como se fossem as irremediáveis pedras de que falei. Embora queira que para me animar sinos badalem enquanto adivinho a realidade. E que anjos esvoacem em vespas transparentes em torno de minha cabeça quente porque esta quer enfim se transformar em objeto-coisa, é mais fácil.
Será mesmo que a ação ultrapassa a palavra?
Mas que ao escrever – que o nome real seja dado às coisas. Cada coisa é uma palavra. E quando não se a tem, inventa-se-a. Esse vosso Deus que nos mandou inventar.
Por que escrevo? Antes de tudo porque captei o espírito da língua e assim às vezes a forma é que faz conteúdo. Escrevo portanto não por causa da nordestina mas por motivo grave de “força maior”, como se diz nos requerimentos oficiais, por “força de lei”.
[…]

Clarice Lispector, em A hora da estrela

O Impagável Quino

 

Capítulo 104 – Era Ele!

 


Restitui o grampo a Virgília, que o repregou nos cabelos, e preparou-se para sair. Era tarde; tinham dado três horas.
Tudo estava esquecido e perdoado. Dona Plácida, que espreitava a ocasião idônea para a salda, fecha subitamente a janela e exclama:
– Virgem Nossa Senhora! aí vem o marido de Iaiá!
O momento de terror foi curto, mas completo. Virgília fez-se da cor das rendas do vestido, correu até a porta da alcova; Dona Plácida, que fechara a rótula, queria fechar também a porta de dentro; eu dispus-me a esperar o Lobo Neves. Esse curto instante passou. Virgília tomou a si, empurrou-me para a alcova, disse a Dona Plácida que voltasse janela; a confidente obedeceu.
Era ele. Dona Plácida abriu-lhe a porta com muitas exclamações de pasmo: - O senhor por aqui! honrando a casa de sua velha! Entre, faça favor. Adivinhe quem está cá... Não tem que adivinhar, não veio por outra coisa... Apareça, Iaiá.
Virgília, que estava a um canto, atirou-se ao marido. Eu espreitava-os pelo buraco da fechadura. O Lobo Neves entrou lentamente, pálido, frio, quieto, sem explosão, sem arrebatamento, e circulou um olhar em volta da sala.
– Que é isto? exclamou Virgília. Você por aqui?
– Ia passando, vi Dona Plácida à janela, e vim cumprimentá-la.
– Muito obrigada, acudiu esta. E digam que as velhas não valem alguma coisa... Olhai, gentes! Iaiá parece estar com ciúmes. E acariciando-a muito: – Este anjinho é que nunca se esqueceu da velha Plácida. Coitadinha! é mesmo a cara da mãe. Sente-se, senhor Doutor...
– Não me demoro.
– Você vai para casa? disse Virgília. Vamos juntos.
– Vou.
– Dê cá o meu chapéu, Dona Plácida.
– Está aqui.
Dona Plácida foi buscar um espelho, abriu-o diante dela.
Virgília punha o chapéu, atava as fitas, arranjava os cabelos, falando ao marido, que não respondia nada. A nossa boa velha tagarelava demais; era um modo de disfarçar as tremuras do corpo. Virgília, dominado o primeiro instante, tomara à posse de si mesma.
– Pronta! disse ela. Adeus, Dona Plácida; não se esqueça de aparecer, ouviu? A outra prometeu que sim, e abriu-lhes a porta.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Coisas incríveis no céu e na terra

De uma feita, estava eu sentado sozinho num banco da Praça da Alfândega quando começaram a acontecer coisas incríveis no céu, lá para as bandas da Casa de Correção: havia uns tons de chá, que se foram avinhando e se transformaram nuns roxos de insuportável beleza. Insuportável, porque o sentimento de beleza tem de ser compartilhado. Quando me levantei, depois de findo o espetáculo, havia umas moças conhecidas, paradas à esquina da Rua da Ladeira.
— Que crepúsculo fez hoje! — disse-lhes eu, ansioso de comunicação.
— Não, não reparamos em nada — respondeu uma delas. — Nós estávamos aqui esperando o Cezimbra.
E depois ainda dizem que as mulheres não têm senso de abstração…

Mário Quintana, em Caderno H

1645 – Quito

Mariana de Jesus

Ano de catástrofes para a cidade. Uma fita negra balança em cada porta. Os invisíveis exércitos do sarampo e da difteria invadiram e estão arrasando. A noite caiu em seguida do amanhecer e o vulcão Pichincha, o rei da neve, explodiu: um grande vômito de lava e fogo caiu sobre os campos e um furacão de cinzas varreu a cidade.
– Pecadores, pecadores!
Como o vulcão, o padre Alonso de Roias jorra chamas pela boca. Do púlpito brilhante da igreja dos jesuítas, igreja de ouro, o padre Alonso golpeia o próprio peito, que soa enquanto chora, grita, clama:
– Aceita, Senhor, o sacrifício do mais humilde de teus servos! Que meu sangue e minha carne expiem os pecados de Quito!
Então uma moça se levanta aos pés do púlpito e serenamente diz:
– Eu.
Frente à multidão que lota a igreja, Mariana anuncia que é ela a escolhida. Ela acalmará a cólera de Deus. Ela será castigada por todos os castigos que a cidade merece.
Mariana jamais fez de conta que era feliz nem sonhou que era feliz, nem dormiu nunca mais do que quatro horas. A única vez que um homem roçou sua mão, ele ficou doente, com febre, durante uma semana. Desde que era menina decidiu ser a esposa de Deus e não lhe dá seu amor em um convento, e sim nas ruas e nos campos: não bordando nem fazendo doces e geleias na paz dos claustros, mas rezando de joelhos sobre os espinhos e as pedras e buscando pão para os pobres, remédio para os doentes e luz para os anoitecidos que ignoram a lei divina.
Às vezes, Mariana sente-se chamada pelo rumor da chuva ou o crepitar do fogo, mas sempre soa mais forte o trovão de Deus: esse Deus da ira, barba de serpentes, olhos de raio, que em sonhos aparece nu para colocá-la à prova.
Mariana regressa à sua casa, estende-se na cama e se dispõe a morrer no lugar de todos. Ela paga o perdão. Oferece a Deus sua carne para que coma e seu sangue e suas lágrimas para que beba até ficar tonto e esquecer.
Assim cessarão as pragas, se acalmará o vulcão e a terra deixará de tremer.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

16/10/2026

Alfredo Rodriguez and friends | The Black Room Sessions

 

O próprio homem

Está se tornando cada vez mais óbvio que não é a fome, nem os micróbios, nem o câncer, mas o próprio homem o maior perigo para a Humanidade, porque ele não dispõe de proteção adequada contra epidemias psíquicas, infinitamente mais devastadoras, em seus efeitos, do que as maiores catástrofes naturais.

C. G. Jung, em O Homem Moderno em Busca de uma Alma

Prova

Olha,
Entre um pingo e outro
A chuva não molha.

Millôr Fernandes, em Poemas

Let ’Em In | Paul McCartney e Linda McCartney

 


Let ’Em In, de Paul McCartney e Linda McCartney
Lançamento: At the Speed of Sound, 1976
Single, 1976

Someone’s knocking at the door
Somebody’s ringing the bell
Someone’s knocking at the door
Somebody’s ringing the bell
Do me a favour
Open the door and let ’em in
Let ’em in

Sister Suzy, Brother John
Martin Luther, Phil and Don
Brother Michael, Auntie Jin
Open the door and let ’em in
Oh yeah

Sister Suzy, Brother John
Martin Luther, Phil and Don
Uncle Ernie, Auntie Jin
Open the door and let ’em in
Oh yeah, yeah

Someone knocking at the door
Somebody ringing the bell
Someone’s knocking at the door
Somebody’s ringing the bell
Do me a favour
Open the door and let ’em in
Oh yeah, yeah, let ’em in now

Sister Suzy, Brother John
Martin Luther, Phil and Don
Uncle Ernie, Uncle Ian
Open the door and let ’em in
Yeah, yeah

Someone’s knocking at the door
Somebody’s ringing the bell
Someone’s knocking at the door
Somebody’s ringing the bell
Do me a favour
Open the door and let ’em in
Yeah, yeah, yeah, yeah, yeah

Um presentinho de Natal, daqueles de colocar dentro das meias natalinas. É assim que eu encaro algumas canções. É uma lembrancinha divertida, mas não é o seu principal presente de Natal. Se me bate um certo perfeccionismo e eu me pego a pensar: “Esta não é uma de minhas grandes canções”, isso muitas vezes me deixa um pouquinho decepcionado com ela. Eu me lembro de que fiquei bem deprimido com uma canção chamada “Bip Bop” e pensei: “Meu Deus, como é que eu consegui ser tão banal?”. Até que uma vez comentei isso com o produtor Trevor Horn, que produziu gente como Frankie Goes to Hollywood, Grace Jones e muitos artistas legais, e ele me disse: “Esta é uma de minhas favoritas de sua autoria!”. E assim consegui enxergar o que ele viu nela, que é o que eu vi quando a escrevi e quis gravá-la, então ele me fez sentir melhor em relação a isso.
“Someone’s knocking at the door / Somebody’s ringing the bell” – na minha imaginação isso está acontecendo em Liverpool. Algum tipo de festa. Quando estávamos na Jamaica, todos os jamaicanos chamavam Linda, só porque ela era loira: “Ei, Suzy, Suzy!”. Para eles, uma mulher loira e branca era “Suzy”. Então, Linda formou um grupo e se autodenominou Suzy and the Red Stripes, o nome da marca de cerveja. Então, “Sister Suzy” é a Linda. “Brother John” pode ser o irmão dela, John Eastman, ou John Lennon. “Martin Luther” é Martin Luther King Jr., “Phil e Don” são os Everly Brothers; e daí você tem “Brother Michael”, então esse é meu irmão, ou talvez Michael Jackson – no ano anterior, tínhamos convidado The Jackson 5 para a festa do álbum Venus and Mars no Queen Mary. E então “Auntie Jin”, que se escreve com J em vez de G porque o nome da minha tia era Jane. Mas em Liverpool isso soava muito formal, então ela dizia: “Pode me chamar de Jinny”. Em seguida temos o “Uncle Ernie” – na verdade, o nome de meu primo era Ian, mas o pessoal o chamava de Ern. E a essa altura não estou muito preocupado. Estou só brincando com as palavras.“Uncle Ian”? Ah, qual é, pessoal, vocês nem estão prestando atenção direito. Não importa. Não existe um Tio Ian... e com certeza ele não era casado com a Tia Jin.
E a bizarrice das bizarrices: avance um milhão de anos e eu me caso com Nancy Shevell, cuja irmã se chama Susie e cujo irmão se chama Jon. Então, de repente, é sobre a família de Nancy que estou cantando: “Sister Suzy, Brother John”. É uma coincidência e tanto.
Foi sugerido que o “Martin Luther” (“Martinho Lutero”) da letra está associado a bater à porta, pregar os artigos de fé numa porta. Eu não estava ciente disso quando compus a canção, mas em termos de inconsciente coletivo talvez seja possível. Sem dúvida, as canções brotam mesmo de algum lugar misterioso. Na maioria das vezes, se você tiver sorte, as palavras e a música vêm juntas. Você só se senta ali e começa. Vai esboçando coisas com vários sons até que, por fim, ouve um breve fraseado que começa a funcionar. E basta se embrenhar nessa trilha. Como artistas, meio que sabemos instintivamente: se estivermos abertos a isso e se brincarmos o suficiente com esse conjunto de palavras ou notas, isso vai dar resultado. Algo vai chegar. Sem que você nem ao menos tenha de convidar.

Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente

Do bem

 “É nobre ser difamado por praticar o bem.”

Marco Aurélio, em Meditações

Parte I | Você trouxe todas as palavras




4.

Fernando pediu que eu tentasse dormir durante a viagem para evitar certa indisposição. Disposto e indisposto eram palavras que ele usava muito para classificar o estado geral das pessoas de acordo com a saúde, o humor, a qualidade do sono, a reação dos órgãos às alterações de temperatura, a alegria, a esperança, a situação do nariz. Tu precisas sonhar para ter algum alívio, ele quase suplicava. Era sempre um assunto muito sério o tema dos sonhos, quase um tratamento para minha salvação. São os delírios do desvelo que vão te salvar, ouvi muito essa frase até decorar, delírio e desvelo. Não sei se eu sabia dessas palavras antes.
— É bonito.
— O quê?
— Delírio do desvelo. Soa familiar no meu trabalho.
— Confesso que sua profissão me impressiona, você é muito calmo para um criminoso.
— Não é tudo crime, só uma parte. E o delito bem-feito é arte, exige paciência. A frieza e o autocontrole são os segredos dos estrategistas bem-sucedidos. Continua a contar, por favor, nosso tempo é curto para tantas coisas. Então começaste o caderno de sonhos nesse dia?
— Sim. Abri o caderno pela primeira vez e não estava totalmente em branco, havia uma frase na primeira página, no meio: Livro das Visões. Não era a letra de Florice, eu tinha visto quando abriu o caderninho e passou as páginas na minha frente. Ela escrevia com ondas, curvas, uma caligrafia muito enfeitada em contraste com a dele, de linhas retas, três palavras. Livro das Visões.
Na segunda página comecei:
Saí de um buraco na terra da Almofala, em Portugal. Estava nua e careca, só usava um colar de búzios. Não sei o meu nome. Fui salva por um casal de idosos. Tenho cortes e marcas de violência no corpo. Sou brasileira. Consigo ver os mortos. Não lembro de nada. Acredito em Deus.
Anotei essas palavras e guardei o caderno, era o que eu sabia sobre mim até ali. Estávamos no carro a caminho de Lisboa, um automóvel limpo e bem cuidado que Fernando dirigia. Florice consultava o mapa de vez em quando. Eu obedeceria à ordem de dormir de qualquer maneira, estava quase sempre muito cansada no primeiro mês, outubro, disso me lembro bem, a sensação de cansaço permanente, de sono, tontura, corpo fraco.
Foi em trânsito que começou a temporada dos tais delírios do desvelo. Abrir o caderno acionou algum mecanismo, e comecei a sonhar. Na primeira vez tive um sonho que me pareceu muito longo, com cenas entrecortadas. Vi as mãos de uma mulher furando búzios pequenos, enfiando o fio por eles, organizando o universo, pois as coisas brilhantes no céu se movimentavam no ritmo dos seus braços. A mesma mão pequena abriu a barriga de um peixe morto e tirou um búzio maior lá de dentro. Lavava na água de sal, enxugava e o colocava no meio, mas o sangue das mãos não saía.
Era um rei dentre os outros, mais marrom, mais brilhante. S­e­­guiu com os búzios menores do outro lado até arrematar o arco completo. Estava pronto o colar, igual a este aqui, que veio comigo. Abaixei a cabeça e ela colocou o presente no meu pescoço, falando coisas que não entendi, eu não reconhecia aquela fala. Pude ver seu rosto, era um sonho de boa luz. Fiz esforço para identificar qualquer coisa, o lugar, a voz… O delicioso som do mar.
— O marulho.
— Sim, o marulho. Só pude descobrir que ganhei o colar de uma senhora de quem eu gosto muito. Senti amor por ela, imenso amor, quando a abracei. Ainda posso sentir, era como saber tudo, enxergar tudo, ouvir tudo, depois dali eu poderia vencer qualquer guerra insurgente, era pura força em um abraço. Chegaram outras pessoas, era ela e outra, depois outra e outra, muitas me abraçavam sem que a mulher saísse do lugar, todas sangravam, eu também, confusa, tempo embaralhado. Elas queriam falar comigo, eu afundava em muitos braços, uma festa silenciosa, voltando ou partindo, não sei se era um adeus ou se me recebiam de volta, se riam ou se choravam. Puseram o peixe morto no mar e ele voltou a viver, saiu nadando e deixando sangue na água azul. Passei muito tempo fantasiando o retorno, seria assim, mas às vezes pensava se não era a preparação de partida, o sonho trazendo uma lembrança. O vento era forte, perturbou minha vista, desligou meus ouvidos e eu acordei, dentro do carro, com a esperança de que eu voltaria, de que ainda me esperavam na praia.
Meu rosto no reflexo do vidro do carro. Acordei e vi, não pareço com ela, a mulher do outro lado da minha vida. Desejei que tivesse dito alguma coisa, o primeiro sentimento depois do sonho foi de ter perdido tudo de novo. Procurava sangue nas mãos. Tinha esperança de lembrar de mim, queria que as memórias voltassem pelo caminho certo. Talvez elas ainda estivessem atravessando o mesmo buraco sob a terra por onde viemos eu, meu corpo, minhas palavras e meu colar de búzios.
Quando Florice percebeu que acordei ficou conversando comigo, tentando mostrar mais ou menos em que ponto do mapa estávamos. Eles disseram várias vezes que queriam me levar a um lugar muito importante quando chegássemos a Lisboa. Riam um para o outro, comentavam baixinho, brincando de fazer segredo. Pelos cálculos precisos de horário e distância, ainda seria dia claro e daria tempo, sim, de ir até lá.

Cochilei várias vezes ao longo da viagem, mas foi possível perceber como estavam mais leves e bem-humorados na volta para casa. Ouviam música bem baixinho, cantarolavam de vez em quando. Meus ouvidos são sensíveis demais aos sons. Naqueles primeiros dias tive certa dificuldade com o tempo, nunca lembro bem quantas horas durava cada situação. Ainda não sou muito boa nisso, em quantificar minutos, perco rápido tudo o que passa, meus pensamentos são um labirinto infinito, eu vou e vou e vou e não sei mais nem por onde voltar. Despertei de vez chegando a Lisboa, gostaria de continuar dormindo em um canto silencioso, mas aconteceu exatamente o contrário.
Paramos o carro e precisamos andar alguns minutos. Os dois caminhavam de mãos dadas um pouco à minha frente, e aquela cidade deu ao par uma nova energia. Pareciam outras pessoas, a Morte e o Vice-Morte estavam bem vivos ali ao lado do rio.
Pelo cansaço e desconforto dos sapatos, eu estava sempre uns bons passos atrás. Usava um vestido preto, que pelo tamanho certamente não era dela, e nem sei onde ela arranjou essa roupa. Levou na mala para Almofala junto com tantas coisas, a muda de oliveira, comidas, utensílios, aquilo que me serviu. O vestido era estranho, mas ao menos o tecido grosso e o casaco verde por cima me protegiam do frio. Não me vi no espelho, não tenho um retrato desse tempo, não sei com o que eu parecia, daquele jeito, de chapéu, tão despreparada para andar em público. Olhavam para mim e dava vontade de dizer que se enxergassem, cada um mais estranho que o outro, deveriam cuidar de suas vidas.
A névoa de Lisboa cobria meus olhos, podia ser alguma doença na vista ou a perturbação normal da minha situação. Perto das pessoas apareciam sombras e massas de luz, isso me incomodava, eu gostaria de não ver nada estranho, queria descansar, parar em algum lugar tranquilo e esperar um momento, esperar até uma paz qualquer se acomodar em mim, mas nada me sossegava. Gostava de respirar o vento fresco, apesar da sensação ruim.
Eles pareciam satisfeitos com minha companhia e descobri, nas conversas posteriores, que não tiveram filhos. Estavam felizes naquele passeio, mesmo andando com uma criatura que não pertencia a nada e atraía olhares de espanto.
O lugar que eles queriam me mostrar com tanto gosto e entusiasmo era a Torre de Belém. Paramos em frente e eu não vi nada de tanta emoção, mas fingi meu melhor sorriso. Era bonito. Fernando iniciou um discurso solene ao explicar que dali partiam as caravelas que descobriram o Brasil, que dali os destinos de Brasil e de Portugal se encontraram, o nosso fado. Ele explicava tudo com detalhes, orgulhoso, professoral, tentando dar sentido ao que me aconteceu, e eu estava exausta, achando muito penoso ouvir a palestra, sem energia, cansada, querendo que tudo aquilo acabasse logo, mas fazia de conta que prestava atenção. Sou brasileira e acho que isso sempre foi a coisa mais importante a descobrir direito, o que é isso, o que trouxe comigo que só existe porque sou uma criatura do Brasil.
Olhando a torre antiga, dos homens antigos, dos países antigos e das caravelas que não existem mais, eu só pensava em restaurar a força do meu corpo. Algo naquele discurso me incomodava demais, mesmo reconhecendo a boa vontade do homem. Era um esforço para me dar algum sentido, alguma noção de ordem, mas não me agradava em nada, parecia a lógica de um castigo.
Pedi para me sentar na grama ou ir embora logo. Ele seguiu falando que era o lugar onde nossa história começou a se cruzar pela primeira vez e depois nos cruzamos de vez com minha chegada, uma Ressurrecta, tentando mostrar que devia existir alguma ligação entre as duas coisas.
Florice contou que seu pai achava que os Ressurrectos voltavam para onde deixaram um pedaço perdido da sua alma. O espírito é um só, entra e sai dos séculos, os corpos nascem e morrem e as partes da alma vão se espalhando, ela revelava. Não tive energia na hora para ir além, fazer mais perguntas. De vez em quando eu lembrava que ela me chamou de rapariga, não tinha esquecido, guardei a mágoa, ficava pensando no motivo. Para que isso? Para que chamar de rapariga logo no primeiro dia?
— Em Portugal isso não é insulto. Rapariga é o mesmo que moça, no Brasil, mulher, é um modo normal.
— Não ria, hoje eu sei, estou contando tudo da forma como aconteceu, não foi o que o senhor me pediu? Naquele dia eu estava indignada porque lembrava da palavra como insulto, a memória dos significados ficou intacta. Mas isso era o menos importante, eles me tratavam bem e tiveram responsabilidade com minha vida, não sou ingrata. Até ali o que me chocava mesmo era ter sido enterrada viva, com tanta crueldade, não sei se os outros Ressurrectos também foram. Eu tinha certeza de que algo ruim tinha acontecido antes, não parecia uma travessia para resgate de pedaço de alma, nenhuma busca espiritual, era uma tragédia violenta. Não tenho como saber quando, se faz muito tempo, se ainda estão vivas as pessoas com quem sonhei. Não sei, por exemplo, se a travessia obedeceu ao fluxo dos dias. Pode ser que eu tenha voltado no calendário.
— Pode ter sido um salto temporal para qualquer lado.
— Talvez eu nunca saiba.
— Tua vida tem sido enganar Chronos, amar a Kairós.
— Não conheço essas criaturas. Não sei quem amei ou enganei.
— Volta ao relato do passeio em Lisboa, por favor. Não te perca nos meus comentários, eu também tenho um labirinto na cabeça.
Pois, todos temos.

Ainda na Torre de Belém, fiz muito esforço para parecer interessada quando elogiavam a bravura e a inteligência dos navegantes. Contaram tudo, que o Brasil já era habitado por selvagens, que existem cartas contando a saga heroica, a descoberta da beleza dessas terras, que aconteceram lá as mortes mas é assim mesmo na história das civilizações, os povos invadem, matam por necessidade e novos mundos se descobrem, Portugal também sabe disso, foram muitas invasões.
— Eles não dizem por mal, é o que está nos livros.
Na verdade lembro quase nada do que disseram, só tontura e palavras soltas, confusão. Minha cabeça às vezes funciona como uma fábrica impiedosa de pensamentos massacrantes.
Fomos embora da Torre porque eu não me sentia bem e eles acharam que era fome, tontura, doença, precisávamos comer alguma coisa. Decidiram jantar no Bairro Alto e me apresentar ao bacalhau com migas e ao vinho da casa; fui aprendendo o nome das comidas, me ensinavam tudo ao mesmo tempo, a história de Lisboa, os pratos tradicionais, o terremoto, o que é Península Ibérica, os mouros, os azulejos, o castelo de São Jorge, as Sete Colinas, e eu só precisava de silêncio. E comida. Estar de barriga cheia me deixava bem.
Fernando me tratava como se eu fosse uma criança que nasceu adulta, pronta para capturar o mundo todo em poucos dias, porque em breve a vida me cobraria algumas coisas, foi o que eles me disseram. Eu seria portuguesa e precisava perceber Portugal. Perceber uma nova vida em Portugal.
A refeição durou muito tempo, foi decisiva. Seria necessário definir algumas coisas antes de chegarmos a Aboim da Nóbrega. A irmã de Florice já estava sabendo de tudo, já tinha conhecimento dos Ressurrectos desde criança, mas para facilitar as coisas seria bom inventar uma narrativa que fosse convincente para os outros, a casa vivia cheia de amigos, sua vida social era intensa.
Precisamos escolher seu nome, ela disse.
Perguntaram de novo se eu não lembrava de nada, uma letra, um som, se seria palavra curta ou mais longa, nada. Nada. Sobre o Livro das Visões, queriam saber se havia algo novo. Nada. Expliquei o borrão dos sonhos, comecei a chorar mais uma vez, o peso de ser uma névoa. Fernando olhou nos meus olhos:
— Eu tenho uma sugestão desde que chegaste. É o nome que meu coração diz quando olho para ti.
— E qual é?
— Cida. Não só porque tu chegaste assim, mas porque gostamos da história de Nossa Senhora Aparecida a um menino em Portugal que era mudo e começou a falar. Há outra no Brasil, acho que fica bem.
— É assim que falamos de ti entre nós. Já dissemos para minhas irmãs que tu tens cara de Cida.
Aceitei ser Cida, por puro cansaço. Fiz que sim, sorri de leve. Levaria a marca deles dois comigo, já que fizeram meu parto da cova. Não tinha por que recusar o nome novo, não me restava nada além de aceitar que as coisas teriam de seguir de alguma forma. Cida era um nome neutro, pois vinha do modo absurdo como cheguei aqui, no sentido deles, evocava milagre. E se era deles que vinha a ajuda e a salvação, muito justo o batismo, muito saudável ter um nome até que eu lembrasse do meu.
Havia uma alegria sincera naqueles gestos de proteção, mas Florice mantinha uma constante nuvem tensa sobre os olhos. Nele eu confiei desde o primeiro dia, apesar da sensação de que gostaria de me dizer mais e não tinha permissão. Quando eu perguntava inúmeras vezes aos dois sobre o esquecimento, eles respondiam que eu já deveria ter recordado algo, sim, mas que não há regra exata para nada disso, em todos os casos as pessoas acabam se lembrando logo. Depende do trauma, do tempo, do modo. Não poderiam garantir, o que tinham em mãos eram as histórias anteriores, que nunca me contaram direito. Àquela altura eu já sabia que não estava morta, pelo menos, tinha um resto de vida, precisava mesmo desse nome.
Fomos então ao apartamento deles, no Largo de São Carlos, número 4. Anotaram em um papel para que eu tivesse em mãos, caso precisasse. Decorei, de tanto medo de me perder.
Passaríamos uns dias em Lisboa para descansar e resolver alguns assuntos. Os vizinhos do quarto andar viajaram para a África do Sul e deviam tomar providências sobre o aluguel do apartamento, esse era um dos temas. Precisavam também comprar presentes para as irmãs de Florice, fazer um reparo na torneira, que estava pingando, e eu acompanhava tudo. Dormi no sofá do pequeno escritório do dr. Fernando, ali seria meu quarto.
Nessa primeira noite em Lisboa tive um sonho cego.
Eu não via o rosto, mas sabia que um homem examinava o maior búzio do meu colar com dedicada atenção. A ponta dos seus dedos era macia e mansa, alisava demoradamente o marrom estriado do búzio, salpicado como as costas de um bicho do mesmo mar de onde eu vim. Dentro do silêncio, sua respiração me contava que ele não tinha nenhuma pressa de interromper o que fazia, era o gesto mais necessário da sua vida; a ponta dos seus dedos fazia estalar faíscas na minha pele. Guardei algumas frases: corpo de areia, praia de pele morna. As lembranças são confusas nesse sonho porque eu não vi nada, tudo de que lembro está nos ouvidos e na pele, senti muitas coisas. Eu sabia que era noite porque não enxergava, estávamos suados, vivos e muito perto um do outro. Não saíamos do lugar, nada nos tiraria dali. Os dedos chegaram à cena do sonho subindo pelas conchinhas miúdas, devagar e aos poucos, as duas mãos, até que, no pescoço, escolheram destinos diferentes.
Primeiro a esquerda andou vagarosa para minha nuca até enfiar os dedos e fechar os cachos na mão forte e lentamente para não me deixar duvidar nem por um segundo do tanto que me queria. Eu estava careca, ainda, mas foi nesse sonho que fiquei sabendo sobre como seriam meus cabelos quando crescessem.
A outra mão foi para o meu lábio superior, quase sem tocar, desenhando uma onda ao lado da outra, uma boca de concha, acho que disse isso, foi um sussurro pequeno, foi quase segredo, penso que sorriu. O sonho foi seguindo, ele se aproximava e eu acendi como uma estrela de muitas pontas. Explodi, acordei como quem cai do céu. Era tudo meio avermelhado ao redor, a luz do sol, as paredes, vários cavalos-marinhos no teto que caíam, mas começavam a nadar depois, muitos, muitos, e eu caía com eles.

— Um artifício libidinoso muito sofisticado do teu inconsciente.
— Sonhei várias vezes com as estrelas-do-mar, vendo estrelas ou transformando o corpo em uma delas. Eram recortes abstratos, não informavam nada, mas as sensações me deixavam muito perturbada. Escrevi tudo no Livro das Visões. O que importa é que havia um homem na minha vida. Não tenho meu nome, nem o dele. Fico pensando se ficou lá me esperando, se chora minha morte.
— Ou se foi ele quem tentou te matar.
— Já pensei nisso.
— É um belo sonho, de qualquer forma.
— No fim eu anotei: “Quero sonhar de novo, quero que ele diga seu nome. Pedi que dissesse, pedi que voltasse. Ele tem que voltar”.
— E o que descobriste sobre ele?
— Que me amava muito e me fazia explodir como uma estrela. Nada mais.

Socorro Acioli, em Oração para Desaparecer

15/10/2026

Acerca do Amor | Zelitto Coringa e Elilson José Batista

10 paezinhos, de Fábio Moon e Gabriel Bá

 

Diário de Bernardo Soares

138.

Há uma erudição do conhecimento, que é propriamente o que se chama erudição, e há uma erudição do entendimento, que é o que se chama cultura. Mas há também uma erudição da sensibilidade.
A erudição da sensibilidade nada tem a ver com a experiência da vida. A experiência da vida nada ensina, como a história nada informa. A verdadeira experiência consiste em restringir o contacto com a realidade e aumentar a análise desse contacto. Assim a sensibilidade se alarga e aprofunda, porque em nós está tudo; basta que o procuremos e o saibamos procurar.
Que é viajar, e para que serve viajar? Qualquer poente é o poente; não é mister ir vê-lo a Constantinopla. A sensação de libertação, que nasce das viagens? Posso tê-la saindo de Lisboa até Benfica, e tê-la mais intensamente do que quem vá de Lisboa à China, porque se a libertação não está em mim, não está, para mim, em parte alguma. “Qualquer estrada”, disse Carlylé, “até esta estrada de Entepfuhl, te leva até ao fim do mundo.” Mas a estrada de Entepfuhl, se for seguida toda, e até ao fim, volta a Entepfuhl; de modo que o Entepfuhl, onde já estávamos, é aquele mesmo fim do mundo que íamos a buscar.
Condillac começa o seu livro célebre, “Por mais alto que subamos e mais baixo que desçamos, nunca saímos das nossas sensações”. Nunca desembarcamos de nós. Nunca chegamos a outrem, senão outrando-nos pela imaginação sensível de nós mesmos. As verdadeiras paisagens são as que nós mesmos criamos, porque assim, sendo deuses delas, as vemos como elas verdadeiramente são, que é como foram criadas. Não é nenhuma das sete partidas do mundo aquela que me interessa e posso verdadeiramente ver; a oitava partida é a que percorro e é minha.
Quem cruzou todos os mares cruzou somente a monotonia de si mesmo. Já cruzei mais mares do que todos. Já vi mais montanhas que as que há na terra.
Passei já por cidades mais que as existentes, e os grandes rios de nenhuns mundos fluíram, absolutos, sob os meus olhos contemplativos.
Se viajasse, encontraria a cópia débil do que já vira sem viajar.
Nos países que os outros visitam, visitam-nos anónimos e peregrinos. Nos países que tenho visitado, tenho sido, não só o prazer escondido do viajante incógnito, mas a majestade do Rei que ali reina, e o povo cujo uso ali habita, e a história inteira daquela nação e das outras. As mesmas paisagens, as mesmas casas eu as vi porque as fui, feitas em Deus com a substância da minha imaginação.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Todas as vidas

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau­-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai de santo...

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são­-caetano.

Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute benfeito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho­-sal.

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca­-grossa,
de chinelinha,
e filharada.

Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.

Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.

Cora Coralina, em Poemas dos becos de Goiás e estórias mais

Lembra de Pearl Harbor?



Tínhamos que ir ao pátio de exercícios duas vezes por dia, no meio da manhã e no meio da tarde. Não havia muito o que fazer. As amizades entre os homens eram baseadas principalmente naquilo que os havia colocado na prisão. Como meu companheiro de cela, Taylor, disse, os molestadores de crianças e os casos de atentado ao pudor estavam na parte mais baixa da sociedade carcerária, enquanto os grandes trapaceiros e os estelionatários estavam no topo.
Taylor não falava comigo no pátio de exercícios. Caminhava com um grande trapaceiro. Eu sentava sozinho. Alguns dos rapazes enrolavam uma camiseta para dar-lhe a forma de uma bola e jogavam com ela. Pareciam gostar disso. As instalações para o entretenimento dos internos não eram lá essas coisas.
Sentei por ali. Logo notei um amontoamento de homens. Era o jogo de dados. Levantei e fui até lá. Tinha pouco menos de um dólar em moedas. Observei alguns lances. O homem com os dados ganhou três rodadas seguidas. Senti que a sorte dele tinha acabado e o desafiei. Ele jogou os dados e perdeu. Ganhei 25 centavos.
Cada vez que alguém entrava numa maré de sorte, eu esperava até que imaginasse que sua maré tivesse recuado. Então apostava contra ele. Notei que os outros homens apostavam em todas as rodadas. Fiz seis apostas e ganhei cinco delas. Então nos fizeram marchar de volta para as nossas celas. Eu ganhara um dólar.
Na manhã seguinte, entrei no jogo mais cedo. Ganhei dois dólares e cinquenta centavos pela manhã e um dólar e 75 centavos à tarde. Quando o jogo acabou, um jovem veio até mim e disse:
– Parece que você está indo bem, senhor.
Dei ao garoto quinze centavos. Ele seguiu caminhando. Outro sujeito se aproximou de mim.
– Você deu algo para aquele filho da puta?
– Sim. Quinze centavos.
– Ele sempre ganha uma porcentagem da rodada. Não dê nada pra ele.
– Não tinha percebido.
– É. Ele ganha. A cada rodada, ele ganha um pouco.
– Vou observá-lo amanhã.
– Além disso, ele é um cretino, dos que estão aqui por atentado ao pudor. O negócio dele é mostrar o pau pras garotinhas.
– É – eu disse –, detesto esses otários.

A comida era muito ruim. Uma noite, depois da janta, mencionei ao Taylor que estava ganhando nos dados.
– Sabe – ele disse –, dá para comprar comida aqui, comida boa.
– Como?
– O cozinheiro aparece depois que apagam as luzes. A comida do diretor, a melhor. Sobremesa, tudo o que você quiser. O cozinheiro é bom. O diretor lhe deu o emprego por causa disso.
– Quanto sairia alguns jantares pra gente?
– Dê uns dez centavos pra ele. Não mais de quinze.
– Só isso?
– Se der mais, ele vai achar que você é um trouxa.
– Tudo bem. Quinze centavos.
Taylor combinou tudo. Na próxima noite, após apagarem as luzes, esperamos matando os percevejos da cama, um a um.
– Aquele cozinheiro matou dois homens. É um tremendo filho da puta, um tipo cruel. Matou um sujeito, cumpriu dez anos, saiu da prisão e dois ou três dias depois matou outro. Esta é uma prisão para crimes de penas curtas, mas o diretor o mantém aqui porque ele cozinha muito bem.
Ouvimos alguém se aproximando. Era o cozinheiro. Levantei e ele passou a comida pela grade. Caminhei até a mesa e depois voltei para a porta da cela. O filho da puta era enorme, assassino de dois homens. Dei-lhe quinze centavos.
– Obrigado, camarada, quer que eu volte amanhã à noite?
– Todas as noites.
Taylor e eu sentamos e comemos. Tudo estava em pratos. O café estava bom e quente, a carne, um rosbife, estava macia. Purê de batatas, ervilhas, biscoitos, molho de carne, manteiga e torta de maçã. Havia cinco anos que não comia tão bem.
– O cozinheiro estuprou um marinheiro outro dia. Deixou-o tão mal que o marinheiro não podia caminhar. Tiveram que hospitalizá-lo.
Enchi a boca de purê e ervilhas.
– Você não precisa se preocupar – disse Taylor. – Você é tão feio que ninguém o estupraria.
– Estava mais preocupado em conseguir um pouco de sexo.
– Bem, vou apontar os putos. Alguns têm dono e outros não.
– A comida está ótima.
– Porra, muito boa. Como eu ia dizendo, há dois tipos de putos por aqui. Os que chegam como putos e os que viram putos aqui dentro. Nunca tem putos suficientes para todo mundo, então os garotos têm que criar alguns extras para satisfazer suas necessidades.
– Isso está bem.
– Os que viraram putos na prisão são normalmente um pouco agressivos por causa das surras que levam. Resistem no começo.
– É mesmo?
– Sim. Até que decidem que é melhor viver como um puto do que morrer como virgem.
Terminamos nossa janta, fomos para nossos beliches, lutamos contra os percevejos e tentamos dormir.
Continuei a ganhar nos dados todos os dias. Apostava mais pesado e mesmo assim ganhava. A vida na prisão estava ficando cada vez melhor. Um dia me disseram para não ir ao pátio de exercícios. Dois agentes do FBI vieram me visitar. Fizeram algumas perguntas, então um deles disse:
– Nós o investigamos. Você não precisa ir a julgamento. Será levado ao centro de alistamento. Se o exército o aceitar, você entrará para o exército. Se o rejeitarem, voltará à vida civil.
– Quase gosto daqui, da prisão – eu disse.
– Sim, você parece estar se dando bem por aqui.
– Sem tensão – eu disse –, sem aluguel, sem contas, sem brigas com namoradas, sem impostos, sem placas de licença, sem despesas com comida, sem ressacas...
– Continue dando uma de espertinho, vamos dar um jeito em você.
– Ah, merda – eu disse. – Estou só brincando. Finjam que eu sou Bob Hope.
– Bob Hope é um bom americano.
– Eu também seria se tivesse aquela grana toda.
– Continue tagarelando. Podemos transformar sua vida num inferno.
Não respondi. Um dos sujeitos tinha uma maleta. Ele se levantou primeiro. O outro o seguiu e os dois saíram.

Deram a todos nós um saco com almoço para levar e nos colocaram em uma caminhonete. Estávamos em vinte ou 25. Os rapazes haviam acabado de tomar o café da manhã uma hora e meia atrás, mas todos já tinham o saco com o almoço. Não era ruim: um sanduíche com molho bolonhesa, um sanduíche com manteiga de amendoim e uma banana podre. Dei meu almoço para os outros. Estavam muito quietos. Nenhum deles fez piada. Olhavam reto para frente. A maioria deles eram negros ou pardos. E todos eram grandes.
Passei no teste físico, então fui ver o psiquiatra.
– Henry Chinaski?
– Sim.
– Sente-se.
Sentei.
– Você acredita na guerra?
– Não.
– Está disposto a ir a guerra?
– Sim.
Ele me olhou. Baixei o olhar para os meus pés. Ele parecia estar lendo um maço de papéis à sua frente. Demorou vários minutos. Quatro, cinco, seis, sete minutos. Então falou:
– Escute, darei uma festa na próxima quarta-feira à noite na minha casa. Irão médicos, advogados, artistas, escritores, atores, toda essa gente. Posso ver que você é um homem inteligente. Quero que vá a minha festa. Virá?
– Não.
Ele começou a escrever. Escreveu e escreveu e escreveu. Imaginei como ele sabia tanto sobre mim. Eu mesmo não sabia tanto sobre mim.
Deixei que continuasse escrevendo. Eu estava indiferente. Agora que eu não podia ir à guerra, eu quase queria ir à guerra. Ainda assim, ao mesmo tempo, estava contente por ficar de fora. O doutor acabou de escrever. Senti que os tinha enganado. Minha objeção à guerra não era que eu tinha que matar alguém ou ser morto sem motivo, isso quase não me importava. O que eu objetava era que me negassem o direito de sentar em uma pequena sala e passar fome e beber vinho barato e ficar viajando, à minha maneira, para meu prazer.
Não queria ser acordado por um sujeito com um clarim. Não queria dormir em barracas com um bando de garotos americanos saudáveis, loucos por sexo, amantes de futebol, bem-nutridos, metidos a espertos, punheteiros, assustados, rosados, amáveis peidorreiros, filhinhos da mamãe, modestos, jogadores de basquete com quem eu teria de fazer amizade, com quem eu teria de me embebedar nas folgas, que me contariam dúzias de piadas sujas, previsíveis e sem graça quando eu deitasse de costas. Não queria seus cobertores que pinicam ou seus uniformes que dão coceira nem a incômoda humanidade deles. Não queria cagar no mesmo lugar nem mijar no mesmo lugar ou compartilhar a mesma puta. Não queria ver as unhas dos pés deles nem ler as cartas que receberiam de casa. Não queria aquelas bundas balançando na minha frente com todos os rapazes ombro a ombro, não queria fazer amigos, não queria fazer inimigos, eu apenas não os queria, não queria isso nem aquilo nem coisa nenhuma. Matar ou ser morto quase não me importava.
Depois de esperar duas horas sentado em um banco duro, em um túnel escuro que mais parecia uma cloaca, com um vento frio que não parava de soprar, eles me deixaram ir e eu saí caminhando na direção norte. Parei para comprar um maço de cigarros. Entrei no primeiro bar, sentei, pedi um uísque com água, tirei o celofane do maço, puxei um cigarro, acendi, peguei aquela bebida na minha mão, bebi metade do copo, traguei a fumaça, olhei meu belo rosto no espelho. Parecia estranho estar livre. Parecia estranho poder caminhar em qualquer direção que eu quisesse.
Só para me divertir, levantei e caminhei até a privada. Mijei. Era outro banheiro horrível de bar. Quase vomitei por causa do fedor. Saí, pus uma moeda no jukebox, sentei e ouvi a última da seleção. O fato de ser a última não a fazia nem um pouco melhor. Os caras tinham a batida, mas não tinham alma. Mozart, Bach e Bee ainda os faziam ficar em maus lençóis. Eu ia sentir falta daqueles jogos de dados e da boa comida. Pedi outra bebida. Olhei ao redor do bar. Havia cinco homens no bar e nenhuma mulher. Eu estava de volta às ruas americanas.

Charles Bukowski, em Ao Sul de Lugar Nenhum