26/07/2026

O Homem que Calculava


27. No qual um sábio historiador interroga Beremiz. O geômetra que não podia olhar para o céu. A Matemática na Grécia. Elogio de Eratóstenes.

Solucionado o primeiro caso com todas as suas minúcias, o segundo sábio foi convidado a interrogar Beremiz. Esse ulemá era um historiador famoso: lecionara, durante vinte anos, em Córdova, e, mais tarde, por questões políticas, transferira-se para o Cairo, onde passou a residir sob a proteção do califa. Era um homem baixo, cujo rosto bronzeado parecia emoldurado por uma barba elíptica. Tinha os olhos nevoados, mortiços.
Eis como o sábio historiador se dirigiu ao calculista:
Em nome de Alá, Clemente e Misericordioso! Enganam-se aqueles que apreciam o valor de um matemático pela maior ou menor habilidade com que efetua as operações e aplica as regras banais do cálculo! A meu ver, o verdadeiro geômetra é o que conhece, com absoluta segurança, o desenvolvimento e o progresso da Matemática através dos séculos. Estudar a História da Matemática é prestar homenagem aos engenhos maravilhosos que enalteceram e dignificaram as antigas civilizações, e que, pelo labor e pelo seu gênio, puderam desvendar alguns dos mistérios profundos da imensa natureza, conseguindo, pela ciência, elevar e melhorar a miserável condição humana. Cumpre-nos ainda, pelas páginas da História, honrar os gloriosos antepassados que trabalharam para a formação da matemática e apontar as obras que deixaram. Quero, pois, ó Calculista, interrogar-vos sobre um fato interessante da História da Matemática: “Qual foi o geômetra célebre que se suicidou de desgosto por não poder olhar para o céu?”
Beremiz susteve-se instantes e exclamou de golpe:
Foi Eratóstenes, matemático oriundo da Cirenaica e educado, a princípio, em Alexandria e, mais tarde, na Escola de Atenas. Onde aprendeu as doutrinas de Platão!
E, completando a resposta, prosseguiu:
Eratóstenes foi escolhido para dirigir a grande biblioteca da Universidade de Alexandria, cargo que exerceu até o termo de seus dias. Além de possuir invejáveis conhecimentos científicos e literários que o distinguiram entre os maiores sábios de seu tempo, era Eratóstenes poeta, orador, filósofo e — ainda mais — atleta completo. Basta dizer que conquistou o título excepcional de vencedor do pentatlo, as cinco provas máximas dos jogos olímpicos. A Grécia achava-se, nesse tempo, no período áureo de seu desenvolvimento científico e literário. Era a pátria dos aedos, poetas que declamavam, com acompanhamento musical, nas refeições e nas reuniões dos reis e dos chefes.
Não seria prolixidade dizer que entre os gregos de maior cultura e valor, era o sábio Eratóstenes considerado como o homem extraordinário que atirava o dardo,escrevia poemas, vencia os grandes corredores e resolvia problema de Astronomia. Eratóstenes legou à posteridade várias obras. Ao rei Ptolomeu III, do Egito, apresentou uma tábua de números primos feitos sobre uma prancha metálica, na qual os números múltiplos eram marcados por um pequeno furo. Deu-se, por isso, o nome de “Crivo de Eratóstenes” ao processo de que se utilizara o astrônomo grego para formar sua tábua. Em consequência de uma oftalmia, adquirida nas margens do Nilo, durante uma viagem, Eratóstenes ficou cego. Ele, que cultivava a Astronomia, achava-se impedido de olhar para o céu e de admirar a beleza incomparável do firmamento nas noites estreladas. A luz azulada de Al-Schira(1) jamais poderia vencer aquela nuvem negra que lhe encobria os olhos. Esmagado por tão grande desgraça e não podendo resistir aos desgostos que lhe causava a cegueira, o sábio e atleta suicidou-se, deixando-se morrer de fome, fechado em sua biblioteca!
O sábio historiador dos olhos mortiços voltou-se para o califa e declarou, depois de rápido silêncio.
Considero-me plenamente satisfeito com a brilhante exposição histórica feita pelo jovem calculista persa. O único geômetra célebre levado ao suicídio foi, realmente, o grego Eratóstenes, poeta, astrônomo e atleta, amigo fraterno do famosíssimo Arquimedes de Siracusa. Iallah!(2)
Pela beleza de Selsebit!(3) — exclamou o califa com entusiasmo. — Quanta coisa acabo de aprender! Esse grego notável que estudava os astros, escrevia poemas e cultivava o atletismo, merece a nossa sincera admiração. De hoje em diante, sempre que olhar para o céu, em noite estrelada, e avistar a incomparável Al-Schira, pensarei no fim trágico desse sábio geômetra que foi escrever o poema de sua morte no meio de um tesouro de livros que ele já não podia ler!
E pousando, com extrema cortesia, a sua mão larga sobre o ombro do príncipe, ajuntou com cativante naturalidade:
Vamos ver, agora, se o terceiro arguidor conseguirá vencer o nosso calculista!

Notas:
(1) Sirius. Alfa do Cão Maior. A estrela mais brilhante do céu. A Estrela Polar é denominada Dsjudde. (Nota de Malba Tahan.)
(2) Deus seja louvado.
(3) Fonte do Paraíso. Citada no Alcorão.

Malba Tahan, em O Homem que Calculava

25/07/2026

Aos pés da letra, de Gregorio Duvivier

Os dançarinos do arame

Dentro das atuais coordenadas do espaço e do tempo, aqui nos vamos equilibrando sobre este fio de vida...
Que rede de segurança, pensamos nós, cheios de esperança e medo, que rede de segurança nos aparará?

Mário Quintana, em Caderno H

1631 – Guatemala Antiga




Uma tarde de música no convento da Conceição

No jardim do convento, Juana canta e tange o alaúde. Luz verde, troncos verdes, verde brisa: estava morto o ar até que ela o tocou com as palavras e a música.
Juana é filha do juiz Maldonado, que distribui os índios da Guatemala em lavouras, minas e oficinas. De mil ducados foi o seu dote para o casamento com Jesus, e no convento seis escravas negras a servem. Enquanto Juana canta letras próprias ou alheias, as escravas, paradas à distância, escutam e esperam.
O bispo, sentado na frente da monja, não pode conter as caretas. Olha a cabeça de Juana inclinada sobre o mastro do alaúde, o pescoço nu, a boca que se abre, iluminada, e dá a si mesmo a ordem de ficar quieto. Tem fama de jamais mudar de expressão quando dá beijos ou os pêsames, mas agora franze essa cara imutável: sua boca se torce e batem asas, rebeldes, as suas pálpebras. Seu pulso firme parece alheio a essa mão que segura, trêmula, um cálice.
As melodias, alabanças a Deus ou melancolias profanas, se elevam na folhagem. Longe, ergue-se o verde vulcão de água e o bispo gostaria de concentrar-se naquelas plantações de milho e trigo e nos mananciais que brilham na ladeira.
O vulcão tem a água presa. Quem se aproxima escuta fervores de marmita. A última vez que vomitou, faz menos de um século, afogou a cidade que Pedro de Alvarado tinha fundado aos seus pés. Aqui, a cada verão treme a terra, prometendo fúrias; e vive a cidade em pânico, entre dois vulcões que cortam a sua respiração. Este a ameaça com o dilúvio. O outro, com o inferno.
Nas costas do bispo, frente ao vulcão de água, ergue-se o vulcão de fogo. As chamas que aparecem pela boca permitem ler cartas a uma légua, em plena noite. De tempos em tempos soa um troar de canhões e o vulcão bombardeia o mundo a pedradas: dispara pedras tão grandes que não as moveriam vinte mulas e enche o céu de cinza e o ar de um enxofre que fede.
Voa a voz da moça.
O bispo olha para o chão, querendo contar formigas, mas seus olhos deslizam até os pés de Juana, que os sapatos ocultam e delatam, e o olhar percorre este corpo bem lavrado que palpita debaixo do hábito branco, enquanto a memória desperta de repente e viaja até a infância. O bispo recorda aquelas vontades que sentia, incontíveis, de morder a hóstia em plena missa, e o pânico de que a hóstia sangrasse; e depois navega por um mar de palavras não ditas e cartas não escritas e sonhos não contados.
De tanto calar, o silêncio soa. O bispo percebe de repente que faz um bom tempo que Juana deixou de cantar e tocar. O alaúde repousa sobre seus joelhos e olha para o bispo, sorrindo muito, com esses olhos que nem ela merece ter. Uma auréola verde flutua ao redor.
O bispo sofre um ataque de tosse. O anis cai no chão e suas mãos ficam com bolhas-d’água de tanto aplaudir.
Farei de ti superiora! – geme. – Farei de ti abadessa!

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Silêncio

É tão vasto o silêncio da noite na montanha. É tão despovoado. Tenta-se em vão trabalhar para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo. Ou inventar um programa, frágil ponto que mal nos liga ao subitamente improvável dia de amanhã. Como ultrapassar essa paz que nos espreita. Silêncio tão grande que o desespero tem pudor. Montanhas tão altas que o desespero tem pudor. Os ouvidos se afiam, a cabeça se inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor. Nenhum galo. Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembrança de palavras. Se és morte, como te alcançar.
É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível – sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é a vida. Ou neve. Que é muda mas deixa rastro – tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. Não se pode dizer a ninguém como se diria da neve: sentiu o silêncio desta noite? Quem ouviu não diz.
A noite desce com suas pequenas alegrias de quem acende lâmpadas com o cansaço que tanto justifica o dia. As crianças de Berna adormecem, fecham-se as últimas portas. As ruas brilham nas pedras do chão e brilham já vazias. E afinal apagam-se as luzes as mais distantes.
Mas este primeiro silêncio ainda não é o silêncio. Que se espere, pois as folhas das árvores ainda se ajeitarão melhor, algum passo tardio talvez se ouça com esperança pelas escadas.
Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da terra a lua alta. Então ele, o silêncio, aparece.
O coração bate ao reconhecê-lo.
Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam. Mas é inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar uma resposta – como ardemos por ser chamados a responder – cedo se descobre que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu silêncio. Quantas horas se perdem na escuridão supondo que o silêncio te julga – como esperamos em vão por ser julgados pelo Deus. Surgem as justificações, trágicas justificações forjadas, humildes desculpas até a indignidade. Tão suave é para o ser humano enfim mostrar sua indignidade e ser perdoado com a justificativa de que se é um ser humano humilhado de nascença.
Até que se descobre – nem a sua indignidade ele quer. Ele é o silêncio.
Pode-se tentar enganá-lo também. Deixa-se como por acaso o livro de cabeceira cair no chão. Mas, horror – o livro cai dentro do silêncio e se perde na muda e parada voragem deste. E se um pássaro enlouquecido cantasse? Esperança inútil. O canto apenas atravessaria como uma leve flauta o silêncio.
Então, se há coragem, não se luta mais. Entra-se nele, vai-se com ele, nós os únicos fantasmas de uma noite em Berna. Que se entre. Que não se espere o resto da escuridão diante dele, só ele próprio. Será como se estivéssemos num navio tão descomunalmente enorme que ignorássemos estar num navio. E este singrasse tão largamente que ignorássemos estar indo. Mais do que isso um homem não pode. Viver na orla da morte e das estrelas é vibração mais tensa do que as veias podem suportar. Não há sequer um filho de astro e de mulher como intermediário piedoso. O coração tem que se apresentar diante do nada sozinho e sozinho bater alto nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão. Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio.
Se não há coragem, que não se entre. Que se espere o resto da escuridão diante do silêncio, só os pés molhados pela espuma de algo que se espraia de dentro de nós. Que se espere. Um insolúvel pelo outro. Um ao lado do outro, duas coisas que não se veem na escuridão. Que se espere. Não o fim do silêncio mas o auxílio bendito de um terceiro elemento, a luz da aurora.
Depois nunca mais se esquece. Inútil até fugir para outra cidade. Pois quando menos se espera pode-se reconhecê-lo – de repente. Ao atravessar a rua no meio das buzinas dos carros. Entre uma gargalhada fantasmagórica e outra. Depois de uma palavra dita. Às vezes no próprio coração da palavra. Os ouvidos se assombram, o olhar se esgazeia – ei-lo. E dessa vez ele é fantasma.

Clarice Lispector, em Todos os Contos

Factótum


19

Parecia uma loja abandonada. Tinha um letreiro na janela: “Precisa-se de ajudante”. Entrei. Um homem com um bigode fino sorriu para mim.
Sente-se. — Ele me deu uma caneta e um formulário. Preenchi o formulário.
Humm, faculdade?
Não exatamente.
Somos do ramo da publicidade.
Ah, é?
Não está interessado?
Bom, olha, eu tenho pintado. Sou pintor, sabe? Acabei ficando sem dinheiro. Não consigo vender o meu material.
Recebemos muita gente assim por aqui.
Eu também não gosto delas.
Anime-se. Talvez você fique famoso depois de morto.
Ele continuou falando que era um trabalho noturno no começo, mas que sempre havia uma chance de progredir na carreira.
Falei que gostava de trabalhar à noite. Ele disse que eu poderia começar no metrô.

Charles Bukowski, em Factótum

Órfã na janela

Estou com saudade de Deus,
uma saudade tão funda que me seca.
Estou como palha e nada me conforta.
O amor hoje está tão pobre, tem gripe,
meu hálito não está para salões.
Fico em casa esperando Deus,
cavacando a unha, fungando meu nariz choroso,
querendo um pôster dele no meu quarto,
gostando igual antigamente
da palavra crepúsculo.
Que o mundo é desterro eu toda vida soube.
Quando o sol vai-se embora é pra casa de Deus que vai,
pra casa onde está meu pai.

Adélia Prado, em O Coração Disparado

24/07/2026

João Bosco – Sinhá | NDR Bigband

O Misterioso Dom da Leitura de Mãos

Substância do universo

A substância do universo é obediente e complacente. A razão que o governa não tem motivo para fazer o mal, pois não tem malícia. Não prejudica, nem é prejudicada. É responsável pela criação e pelo aperfeiçoamento de tudo.

Marco Aurélio, em Meditações

Capítulo 71 – O Senão do Livro




Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...
E caem! – Folhas misérrimas do meu cipreste, heis de cair, como quaisquer outras belas e vistosas; e, se eu tivesse olhos, dar-vos-ia uma lágrima de saudade. Esta é a grande vantagem da morte, que, se não deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar... Heis de cair. Turvo é o ar que respirais, amadas folhas. O sol que vos alumia, com ser de toda gente, é um sol opaco e reles, de cemitério e carnaval.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Nobre rua São José

A rua é ainda egrégia e simpática. Tudo se vem fazendo por transformá-la em ponto de estacionamento de automóveis, mas a sombra de Rui Barbosa, a de João Ribeiro, de poetas antigos, sábios, professores, bibliófilos, estudantes, gente rica e gente pobre, com amor à leitura, que por lá buquinou durante anos e anos, parece frequentá-la ao jeito das sombras: discretamente, na memória dos que gostam de evocar, na saudade de alguns sobreviventes da velha geração de caixeiros, um pouco na poeira das estantes, que as estantes veneráveis não devem ser luzidias. Há também, esparsas, memórias de leiloeiros e antiquários.
Os “sebos” foram rareando, frequentadores assíduos se despediram para o Caju e o São João Batista, a cidade ensaiou novos hábitos, ou simplesmente perdeu velhos e não teve jeito de adquirir outros. Onde reinava o velho Quaresma e depois o velho Matos, há hoje latas de comestíveis. A “Principal”, a “Acadêmica”, o J. Leite saíram da paisagem, emigrando ou desvanecendo-se. Um lado inteiro da rua desapareceu, e foi como se arrancassem metade do tronco a um corpo vivo. Mas, no outro meio-fio, o sobrado da velha Briguiet se mantém fiel a seu destino de casa de livros. Com outro nome e outros ocupantes, o espírito literário não desertou aquelas paragens. Um menino, por assim dizer crescido na rua São José, ali está hoje, homem-feito, e a este não é possível demolir nem convencer de que deve negociar em política, importações ou apartamentos. Carlos Ribeiro mantém e revigora, quase sozinho, o espírito da gloriosa rua São José, que é uma universidade a seu modo: junto às pilhas de livros, sabedores de coisas filosofam ou pontificam; mocinhas supõem comprar romances, quando na realidade estão se provendo de noções da eterna e tenebrosa ciência de amar; o vice-presidente da Câmara, José Augusto, foge à barafunda parlamentar e mergulha nos clássicos; amadores contemplam estampas; o cônego Monteiro seleciona obras para a biblioteca do Círculo Operário de São José dos Campos, criada com o seu suor; não faltam nem as presses universitaires, pois a rua edita desde manuais de macumba até estudos eruditos; e há sempre uma ideia, um projeto, um traço intelectual no ar, um traço que não quer perder-se e reage contra a burrificação geral da vida carioca.
Mas essa rua é também uma praia, aonde vão dar os volumes de bibliotecas que naufragaram. Vêm de mistura os mestres do pensamento e aquelas tímidas obrinhas de principiantes, que o destinatário nem chegou a abrir. O livreiro recolhe esses destroços e os reanima, pondo-os de novo em circulação. Só na aparência é triste o comércio de livros usados. Realmente, ele assegura, dans un tumulte au silence pareil, uma vibração contínua, uma rotação infatigável aos produtos do espírito, que espírito também são, e não se sentiriam bem se agrilhoados eternamente à mesma prateleira imóvel.
O grande poeta estrangeiro oferece seu cântico ao grande poeta nacional e este, de alma doadora por natureza, o passa a um terceiro poeta, que, premido pela dura circunstância (e quem ainda não desfez ou pensou em desfazer sua biblioteca, num dia negro?), o lança à correnteza da rua São José, onde um quarto poeta o resgata — por quanto tempo? Assim a poesia circula como um facho levado por mãos que a prezam, e alguma coisa, no abismo, se salvará.

Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira

Jet | Paul McCartney e Linda McCartney



Jet
Jet
Jet, I can almost remember their funny faces
That time you told them that you were going to be marrying soon
And Jet, I thought the only lonely place was on the moon
Jet
Jet

Jet, was your father as bold as the sergeant major
How come he told you that you were hardly old enough yet
And Jet, I thought the major was a lady suffragette
Jet
Jet

Ah Mater
Want Jet to always love me
Ah Mater
Want Jet to always love me
Ah Mater
Much later
Jet

And Jet, I thought the major was a lady suffragette
Jet
Jet
Ah Mater
Want Jet to always love me
Ah Mater
Want Jet to always love me
Ah Mater
Much later

Jet, with the wind in your hair of a thousand laces
Climb on the back and we’ll go for a ride in the sky
And Jet, I thought that the major was a little lady suffragette

Jet
Jet
And Jet, you know I thought you was a little lady suffragette
Jet
A little lady
My little lady, yes

Quando estávamos nos Beatles, aprendemos a compor canções de sucesso. Afinal de contas, éramos os Beatles, então tínhamos que fazer isso. Não podíamos compor fracassos. Isso não seria adequado para os Beatles.
Por isso, desenvolvi um talento para escrever uma canção popular ou um hit. Naquela época, eu estava tentando intencionalmente fazer o Wings soar diferente dos Beatles, mas os truques do ramo ainda se aplicavam. Então, quando se trata de “Jet”, eu lancei mão de um monte de truques. Um deles é gritar; isso funciona. Um grito é sempre uma boa maneira de abrir uma canção.
Na verdade, “Jet” é o nome de um pônei, um poneizinho Shetland que tínhamos na
fazenda para a criançada. Minha filha Mary nasceu em 1969, por isso, em 1973, quando a canção foi escrita, ela estava com quatro anos. Stella tinha uns dois anos, então elas eram pequenas. Mas saber que Jet é um pônei é tão importante ou desimportante quanto saber que Martha, de “Martha My Dear”, é um cão pastor inglês.
Eu me lembro exatamente o que me fez começar a canção. Estávamos na Escócia, e adivinha só! Eu tinha o meu violão. No alto de uma grande colina havia uma fortaleza, um antigo forte celta. Hoje serve principalmente como um marco da agência de mapeamento Ordnance Survey. É um local com uma vista extraordinária. O tipo de lugar em que você pode imaginar os vikings tentando subir a colina enquanto derramávamos óleo quente em cima deles ou, senão, caso isso não funcionasse, arremessávamos uma chuva de lanças sobre eles. Na encosta da colina havia uns locais adoráveis, onde todos nós gostávamos de passear.
Eu disse a Linda que eu ia ficar um tempo no campo e me deitei ali, naquele lindo dia de verão, e deixei a mente vagar. Algumas das imagens são extraídas do relacionamento entre Linda e seu pai. Ele era um cara legal – muito bem- -sucedido –, mas um pouco patriarcal demais para o meu gosto. Eu me dava bem com ele, mas ele era um pouco severo. É meio daí que vem o “sargento-mor”. Em parte, é uma referência à canção de Gilbert e Sullivan “I Am the Very Model of a Modern Major-General”. Parcialmente, também, uma citação de Bootsie and Snudge, seriado de televisão do Reino Unido, que tinha um personagem chamado Sargento-mor Claude Snudge.
Mater”, que significa “mãe”, remonta às minhas aulas de latim na escola. Essa é uma figura materna imaginária, embora eu ache justo dizer que, ao fundo, o fantasma de minha mãe verdadeira sempre assoma em algum lugar.
O fato é que inventei tudo, toquei no violão, voltei à casa da fazenda e toquei para Linda. Perguntei o que ela achava. Ela gostou! E foi esse o resultado de minha tarde no alto da colina. Não era o Monte Sinai e não voltei com as Tábuas da Lei, mas voltei com “Jet”.

Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente

23/07/2026

Não devo nada a ninguém | O Cachorrão do Brega

Mocidade independente

Pela primeira vez infringi a regra de ouro e voei pra cima sem medir mais as consequências. Por que recusamos ser proféticas? E que dialeto é esse para a pequena audiência de serão? Voei pra cima e agora, coração, no carro em fogo pelos ares, sem uma graça atravessando o Estado de São Paulo de madrugada, por você, e furiosa: é agora, nesta contramão.

Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés

Garçom vegetariano

Restaurante chique. Um casal está sentado. Garçom vem atendê-los.
GARÇOM Posso anotar o pedido de vocês?
HOMEM Eu tô pensando em pedir esse filé à Oswaldo Aranha. Como é que ele vem?
GARÇOM Vem morto.
HOMEM Não entendi.
GARÇOM O filé, senhor, é um boi, né? E ele é servido, invariavelmente, morto.
Garçom fica triste. Quase chora.
GARÇOM Desculpa, é que eu soube disso agora há pouco.
MULHER Sim, mas ele quer saber da parte Oswaldo Aranha.
GARÇOM Ah. Isso devia ser o nome de uma pessoa. Provavelmente um homem. Também morto. Que deu nome ao filé.
HOMEM Mas como é que ele é servido? O filé?
GARÇOM Morto. Invariavelmente. Isso daí infelizmente não tem como mudar.
MULHER Sim, mas vem com quê?
GARÇOM Ah. Alho. Por cima. Do cadáver. Do boi morto. Abatido brutalmente, com uma pancada na cabeça.
MULHER Acho que eu vou de frango. Como é que é esse supremo de frango?
GARÇOM Isso daí é um pintinho que eles entupiram de hormônio pra crescer bem rápido. Daí criaram com mais mil pintinhos entulhados dentro de uma caixa de sapato. D…
MULHER Sim, mas depois…
GARÇOM Mataram ele. Invariavelmente. É uma coisa horrível.
HOMEM Mas e a parte do Supremo…
GARÇOM Creme de leite. Por cima do cadáver. Do frango morto.
HOMEM Acho que a gente vai de saladinha mesmo.
Garçom sorri. Anota o pedido.
MULHER Tem salada de atum?
Garçom volta a chorar, inconsolável.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

Da lua

O que é da lua são os gobelins, as borboletas bruxas, os rostos depois do amor, a tua pele…

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

O impagável Quino

Diário de Bernardo Soares

120.

Aquela malícia incerta e quase imponderável que alegra qualquer coração humano ante a dor dos outros, e o desconforto alheio, ponho-a eu no exame das minhas próprias dores, levo-a tão longe que nas ocasiões em que me sinto ridículo ou mesquinho, gozo-a como se fosse outro que o estivesse sendo. Por uma estranha e fantástica transformação de sentimentos, acontece que não sinto essa alegria maldosa e humaníssima perante a dor e o ridículo alheio. Sinto perante o rebaixamento dos outros não uma dor, mas um desconforto estético e uma irritação sinuosa. Não é por bondade que isto acontece, mas sim porque quem se torna ridículo não é só para mim que se torna ridículo, mas para os outros também, e irrita-me que alguém esteja sendo ridículo para os outros, dói-me que qualquer animal da espécie humana ria à custa de outro, quando não tem direito de o fazer. De os outros se rirem à minha custa não me importo, porque de mim para fora há um desprezo profícuo e blindado.
Mais terrível de que qualquer muro, pus grades altíssimas a demarcar o jardim do meu ser, de modo que, vendo perfeitamente os outros, perfeitissimamente eu os excluo e mantenho outros.
Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida.
Não me submeto ao estado nem aos homens; resisto inertemente. O estado só me pode querer para uma ação qualquer. Não agindo eu, ele nada de mim consegue. Hoje já não se mata, e ele apenas me pode incomodar; se isso acontecer, terei que blindar mais o meu espírito e viver mais longe adentro dos meus sonhos. Mas isso não aconteceu nunca. Nunca me apoquentou o estado. Creio que a sorte soube providenciar.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego