28/06/2026

Guegué Medeiros e Pé de Bode Big Band | Doidinho, Doidinho

 

Um homem doente faz a oração da manhã

Pelo sinal da Santa Cruz,
chegue até Vós meu ventre dilatado
e Vos comova, Senhor, meu mal sem cura.
Inauguro o dia, eu que a meu crédito explico
que passei em claro a treva da noite.
Escutei — e é quando às vezes descanso —
vozes de há mais de trinta anos.
Vi no meio da noite nesgas claríssimas de sol.
Minha mãe falou,
enxotei gatos lambendo
o prato da minha infância.
Livrai-me de lançar contra Vós
a tristeza do meu corpo
e seu apodrecimento cuidadoso.
Mas desabafo dizendo:
que irado amor Vós tendes.
Tem piedade de mim,
tem piedade de mim
pelo sinal da Vossa Cruz,
que faço na testa, na boca, no coração.
Da ponta dos pés à cabeça,
de palma à palma da mão.

Adélia Prado, em Bagagem

Armandinho

1629 – Margens do Bío-Bío

Putapichun

Depois de pouco andar, veem chegando uma multidão da distante cordilheira. Maulicán dá com os calcanhares em seu cavalo e adianta-se ao encontro do cacique Putapichun.
Os da cordilheira também trazem um prisioneiro, que vem tropeçando entre os cavalos, com uma corda ao pescoço.
No alto de uma colina rasa, Putapichun crava sua lança de três pontas. Faz desamarrar o prisioneiro e atira um galho aos seus pés.
Diga o nome dos capitães mais valentes do teu exército.
Não os conheço – gagueja o soldado.
Diga um nome – ordenou Putapichun.
Não lembro.
Um.
E diz o nome do pai de Francisco.
Outro.
E diz outro. A cada nome, deve quebrar um ramo do galho. Francisco assiste à cena com os dentes apertados. O soldado diz o nome de doze capitães: tem doze pauzinhos na mão.
Agora, cava um buraco.
O prisioneiro atira no fundo os pauzinhos, um por um, repetindo os nomes.
Atira terra. Cobre esses paus.
Então, sentenceia Putapichun:
Já estão enterrados os doze valentes capitães.
E o verdugo faz despencar sobre o prisioneiro o bastão eriçado de pregos.
Arrancam seu coração. Oferecem a Maulicán o primeiro sorvo de sangue. A fumaça do tabaco flutua no ar, enquanto o coração passa de mão em mão.
Depois Putapichun, veloz na guerra e lento na fala, diz a Maulicán:
Viemos comprar o capitão que você leva. Sabemos que é filho de Álvaro, o grande chefe por quem nossas terras tremeram.
Oferece-lhe uma de suas filhas, cem ovelhas de Castilha, cinco lhamas, três cavalos com sela lavrada e vários colares de pedras ricas:
Com tudo isso, pode-se pagar dez espanhóis e ainda sobra.
Francisco engole saliva. Maulicán olha para o chão. Depois, diz:
Antes, devo levá-lo para que meu pai o veja, e também os outros chefes da comarca de Repocura. Quero mostrar-lhes esta prenda de meu valor.
Esperaremos – aceita Putapichun.
Anda a minha vida nascendo de morte em morte”, pensa Francisco. Zunem seus ouvidos.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Capítulo 59 – Um Encontro



Deve ser um vinho bem enérgico a política, dizia eu comigo, ao sair da casa de Lobo Neves; e fui andando, fui andando, até que na rua dos Barbonos vi uma sege, e dentro um dos ministros, meu antigo companheiro de colégio. Cortejamo-nos afetuosamente, a sege seguiu, e eu fui andando... andando... andando...
Por que não serei eu ministro?
Esta ideia, rútila e grande, – trajada ao bizarro, como diria o padre Bernardes, – esta idéia começou uma vertigem de cabriolas e eu deixei-me estar com os olhos nela, a achar-lhe graça. E não pensei mais na tristeza de Lobo Neves; senti a atração do abismo. Recordei aquele companheiro de colégio, as correrias nos morros, as alegrias e travessuras, e comparei o menino com o homem, e perguntei a mim mesmo por que não seria eu como ele. Entrava então no Passeio Público, e tudo me parecia dizer a mesma coisa. – Por que não serás ministro, Cubas? – Cubas, por que não serás ministro de Estado?
Ao ouvi-lo, uma deliciosa sensação me refrescava todo o sistema. Entrei, fui sentar-me num banco, a cavar comigo aquela ideia. E Virgília que havia de gostar! Alguns minutos depois vejo encaminhar-se para mim uma cara, que me não pareceu desconhecida. Conhecia-a, fosse donde fosse. Imaginem um homem de trinta e oito a quarenta anos, alto, magro e pálido. As roupas, salvo o feitio, pareciam ter escapado ao cativeiro de Babilônia; o chapéu era contemporâneo do de Gessler. Imaginem agora uma sobrecasaca mais larga do que pediam as carnes, – ou, literalmente, os OSSOS da pessoa; a cor preta ia cedendo o passo a um amarelo sem brilho; o pêlo desaparecia aos poucos; dos oito primitivos botões restavam três. As calças, de brim pardo, tinham duas fortes joelheiras, enquanto as bainhas eram roldas pelo tacão de um botim sem misericórdia nem graxa. Ao pescoço flutuavam as pontas de uma gravata de duas cores, ambas desmaiadas, apertando um colarinho de oito dias. Creio que trazia também colete, um colete de seda escura, roto a espaços, e desabotoado.
Aposto que me não conhece, Senhor Doutor Cubas? disse ele.
Não me lembra...
Sou o Borba, o Quincas Borba.
Recuei espantado... Quem me dera agora o verbo solene de um Bossuet ou de Vieira, para contar tamanha desolação!
Era o Quincas Borba, o gracioso menino de outro tempo, o meu companheiro de colégio, tão inteligente e abastado. O
Quincas Borba! Não; impossível; não pode ser. Não podia acabar de crer que essa figura esquálida, essa barba pintada de branco, esse maltrapilho avelhentado, que toda essa ruína fosse o Quincas Borba. E era. Os olhos tinham um resto da expressão de outro tempo, e o sorriso não perdera certo ar escarninho, que lhe era peculiar. Entretanto, ele suportava com firmeza o meu espanto. No fim de algum tempo arredei os olhos; se a figura repelia, a comparação acabrunhava.
Não é preciso contar-lhe nada, disse ele enfim; o senhor adivinha tudo. Uma via de misérias, de atribulações e de lutas. Lembra-se das nossas festas, em que eu figurava de rei? Que trambolhão! Acabo mendigo...
E alçando a mão direita e os ombros, com um ar de indiferença, parecia resignado aos golpes da fortuna, e não sei até se contente. Talvez contente. Com certeza, impassível. Não havia nele a resignação cristã, nem a conformidade filosófica.
Parece que a miséria lhe calejara a alma, a ponto de lhe tirar a sensação da lama. Arrastava os andrajos, como outrora a púrpura: com certa graça indolente.
Procure-me, disse eu, poderei arranjar-lhe alguma coisa.
Um sorriso magnífico lhe abriu os lábios.  Não é o primeiro que me promete alguma coisa, replicou, e não sei se será o último que não me fará nada. E para quê? Eu nada peço, a não ser dinheiro; dinheiro sim, porque é necessário comer, e as casas de pasto não fiam. Nem as quitandeiras. Uma coisa de nada, uns dois vinténs de angu, nem isso fiam as malditas quitandeiras... Um inferno, meu... ia dizer meu amigo... Um inferno! o diabo! todos os diabos! Olhe, ainda hoje não almocei.
Não?
Não; sai muito cedo de casa. Sabe onde moro? No terceiro degrau das escadas de São Francisco, à esquerda de quem sobe; não precisa bater na porta. Casa fresca, extremamente fresca. Pois saí cedo, e ainda não comi...
Tirei a carteira, escolhi uma nota de cinco mil-réis, – a menos limpa, – e dei-lha. Ele recebeu-ma com os olhos cintilantes de cobiça. Levantou a nota ao ar, e agitou-a entusiasmado.
In hoc signo vinces! bradou.
E depois beijou-a, com muitos ademanes de ternura, e tão ruidosa expansão, que me produziu um sentimento misto de nojo e lástima. Ele, que era arguto, entendeu-me; ficou sério, grotescamente sério, e pediu-me desculpa da alegria, dizendo que era alegria de pobre que não via, desde muitos anos, uma nota de cinco mil-réis.
Pois está em suas mãos ver outras muitas, disse eu.
Sim? acudiu ele, dando um bote para mim.
Trabalhando, conclui eu.
Fez um gesto de desdém; calou-se alguns instantes; depois disse-me positivamente que não queria trabalhar. Eu estava enjoado dessa abjeção tão cômica e tão triste, e preparei-me para sair.
Não vá sem eu lhe ensinar a minha filosofia da miséria, disse ele, escarranchando-se diante de mim.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Supersede




O acadêmico, ilustre, que me distingue com sua intimidade, estava apreensivo. Interpelei-o:
Que que há, mestre? Em dia tão fausto para a Academia, o senhor com esta cara!
Fausto? Tens certeza? Deus te ouça, meu filho. Mas tenho cá as minhas nuvens.
Nuvens?
Os meus receios.
Vamos ver se adivinho. Acha que a supersede… não vai dar renda compensadora?
Vai dar, e fantástica.
Tem medo, talvez, de que a construção, assim gigantesca, não seja bastante segura.
Aquilo? Aquilo é obra para séculos.
Então não entendo. A Academia assina contrato para levantar um senhor edifício, as firmas contratantes são as mais idôneas, o imóvel encherá de dinheiro a instituição, que tem ótimo executivo, e o mestre me sai com esse ar de quem não comeu e não gostou?
Por isso mesmo. É bondade demais, Carlos. Uma coisa assim não existe.
Não existe, como? Tem terreno de três mil e quinhentos metros quadrados, oferecido pelo marechal Castelo Branco e doado pelo Congresso Nacional, tem financiamento no valor de quinze milhões de dólares, tem projeto bacana de Maurício Roberto, o contrato será firmado hoje, e vai me dizer que isso não existe?
Existe em demasia, o que é maneira de não existir, de virar conto de Onássis e perturbar a cabeça da gente.
Desculpe, mestre, mas o senhor não estará cultivando complexo de franciscano?
Não me compreendes, estou vendo. Não é de admirar. A faculdade de compreensão vai minguando à medida que se expandem os meios de comunicação. És um, entre milhões, a prová-lo.
Perdão, eu…
Cala e escuta. A Academia atrai ou não atrai os homens e até as mulheres de letras?
Realmente.
E que é a Academia? O fardão, o espadim, o colar, a poltrona azul e ouro, a cajuada, o jeton que não dá para pagar a despesa de viver durante um mês, a sepultura e, principalmente, se não laboro em erro, e se não mentiu Machado, “a glória que fica, eleva, honra e consola”. Se com apenas isso, que não é muito, ela se faz tão cobiçada, imagina como vai ser daqui por diante, com o seu império imobiliário.
Ora!
É o que te digo. Todo mundo, mas todo mundo mesmo, querendo participar do condomínio de quarenta andares, da renda dos escritórios e dos seis andares de garagem. Noite e dia, gente de olho no reumatismo, no colesterol, no diabete da gente… É sinistro.
Não ligue. Faça figa.
Eu faço, mas adianta? E os despachos em sentido adverso? A descaridade dos que desejarão a minha vaga, sinônimo de minha morte? Cada sorriso, um punhal; cada blandícia, um pavê envenenado. É o que iremos lucrar, entrando na área da grande empresa.
Com a renda, ouço dizer, se custearão empreendimentos culturais.
Sobre as nossas campas, abertas antes da hora. E imaginas que iremos produzir mais, com a burra cheia de pecúnia? Nosso tempo será todo absorvido com pedidos de empenho para alugar a melhor loja, o escritório de vista mais panorâmica. Nossas letras serão de preferência as imobiliárias, de câmbio e do Tesouro. Manteremos um plantão na Bolsa de Valores. Outro no BNH. Cibulares e Marcelo serão nossos assessores para a avaliação das obras, perdão, dos títulos dos candidatos à imortalidade. E as leis fiscais, os problemas de Imposto de Renda e quejandos não nos deixarão dormir, quanto mais escrever ensaios ou rapsódias.
Mestre…
Em quê? Em investimentos? Em construção civil? Em juros? Não sou mestre de coisíssima alguma, sou um condenado à riqueza, uma vítima da prosperidade. O Athayde vai se ver comigo na próxima sessão! O diabo é que não consigo brigar com ele. Ninguém consegue. Leva a gente na conversa, no aveludado. E acabará me nomeando administrador do superedifício, presta atenção no que eu estou falando!
Disse, e vestiu-se com esmero para a solenidade de assinatura do contrato.

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica 

26/06/2026

Rafael Meninão e Nelson Faria | Um Café Lá Em Casa

 

Lugarzinho



Eu conheço UM lugarzinho...
Quantas vezes você já não ouviu esta frase? Dita por pessoas que conhecem todos os lugares óbvios que você também conhece mas conhecem um que você não pode conhecer, porque ninguém conhece, só elas? O curioso é que é sempre um lugarzinho, nunca é um lugar grande ou apenas um lugar. Há pessoas que ostentam lugarzinhos como outras ostentam riqueza. Especializam-se em lugarzinho, têm a volúpia do lugarzinho, só para poderem nos impressionar depois.
Nem sempre a frase é dita com a intenção de humilhar quem talvez tenha passado pelo lugarzinho — o barzinho, o restaurantezinho, o hotelzinho, a cidadezinha, às vezes até o paizinho — sem se dar conta.
Vai dizer que você esteve em Luxemburgo e não visitou Luxemburguette, o único país do mundo que é só uma esquina?!
Pode haver o sincero desejo de compartilhar uma descoberta. Devo muitos prazeres a indicações de amigos de lugarzinhos que não estão nos guias e nos caminhos normalmente percorridos, como o restaurante L’Hangar, em Paris, impossível de ser localizado por acaso, já que fica num “impasse”, uma rua que não leva a lugar nenhum. O Hangar, segundo o informante, pertence ao filho da escritora Marguerite Duras, que (uma característica de quem conhece lugarzinhos é conhecer também as fofocas exclusivas dos lugarzinhos) não se dá com a mãe. Fica no “impasse” Berthaud, que sai da avenida Beaubourg, bem perto do Centre Pompidou, também chamado de o mausoléu do Robocop. Não importa o que você pedir como prato principal no Hangar, não deixe de pedir, como sobremesa, o demi-cuit, uma espécie de pudim de chocolate cujo segredo do sucesso é vir para a mesa segundos antes de ficar pronto.
Coisas de lugarzinhos.
O melhor de conhecer lugarzinhos, no entanto, é poder dar inveja a quem não os conhece. Eu mesmo já descobri a minha cota de lugarzinhos e os ostento sem misericórdia. Vai dizer que você já andou pela região do Périgord, na França, e não foi a Collonge-la-rouge, uma cidadezinha medieval toda da mesma cor vermelha? Pobre de você. Quando for, coma omelettes com trufas negras no Relais Saint-Jacques de Compostelle, que tem este nome porque Collonge ficava na rota de peregrinação para Santiago de Compostella, no norte da Espanha. Se quiser, use o meu nome quando pedir as omelettes. Elas virão perfeitas. É verdade que se não usar o meu nome elas também estarão perfeitas, pois ninguém saberá de quem você está falando, mas que diabo.
Há casos em que o lugarzinho não é nada do que disseram. Casos em que houve mais ficção e desejo de arrasar você do que verdade na descrição do lugarzinho. Falaram do ambiente aconchegante e do garçom engraçado mas esqueceram de dizer que o bife tanto pode ser comido como usado para calçar a mesa. Ou então a sua experiência simplesmente não reproduz a experiência de quem indicou o lugarzinho, e naquele hotelzinho rústico tão elogiado e recomendado lhe botam num quarto já ocupado, por um rato, e depois ainda cobram a ocupação dupla. E existe o fato inescapável de que o mesmo lugar pode ser, para alguns, um autêntico lugarzinho, com todas as conotações de revelação e boas surpresas do termo, e para outros um lugarzinho no sentido de porcaria.
Uma versão: “Chegamos a esta cidadezinha maravilhosa que não está nem no mapa e em que nenhuma casa tinha menos de 400 anos e a Margarida perguntou para um amor de velhinho ‘dove é il vecê’ e ele não entendia, e chamou toda a família dele e ninguém entendia, depois juntou toda a cidade e ninguém entendia, até que veio o prefeito, que sabia inglês, e a Margarida perguntou ‘where is the vee cee?’ e o prefeito perguntou ‘What?’ e então a Margarida começou a fazer barulho de xixi, ‘ssshhh, ssshhh’ e o prefeito perguntou ‘What?’ de novo, só que baixinho, e aí nós caímos na risada, e a Margarida riu tanto que só continuou perguntando onde era o banheiro por farra, porque não precisava mais, foi tão simpático!”
Outra versão: “Chegamos a este lugar caindo aos pedaços, não sei por que eles gostam tanto de velharia, e imagina que ninguém sabia o que era WC, a Margarida apertada tendo que perguntar para um monte de ignorantes que não falavam língua nenhuma onde era, até que apareceu o manda-chuva, eles devem eleger o mais ignorante como prefeito, que só complicou mais as coisas e no fim não adiantava mais, coitada da Margarida. Mas o que se pode esperar de uma cidade que não está nem no mapa?”
Mortal, no entanto, é quando o lugarzinho é usado como arma numa competição de vaidades turísticas.
Nós fomos jantar no Tour D’Argent e...
Não me diga que vocês foram ao Tour D’Argent e não foram ao Petit Tour.
O quê?
O Petit Tour. Um lugarzinho que nós descobrimos. Fica do lado!
Nunca ouvi falar.
Eles não querem muita propaganda. Cabeça a minha. Devia ter avisado vocês...
É bom?
Está brincando? É onde os cozinheiros do Tour D’Argent vão comer, depois de enganarem os turistas.
Claro que o Petit Tour não existe. Pelo menos, não que eu saiba. Mas para quem usa o lugarzinho como arma, o efeito é mais importante do que a verdade.
A coisa às vezes chega ao exagero.
O Louvre é espetacular, não é?
É. Mas ao lado do Louvre tem UM museuzinho...
O que pode deixar o outro com a incômoda suspeita de que viu a Mona Lisa errada.
O lugarzinho tem que ser, antes de mais nada, desconhecido, ou só conhecido por uma minoria privilegiada, ou — para ser um lugarzinho ainda mais lugarzinho — só conhecido por uma minoria do lugar. Seu charme não pode ser intencional. Isto é, o lugarzinho não pode saber que tem charme, senão não é mais lugarzinho. E como os meteoritos, que só são detectados no céu quando se desintegram, os lugarzinhos só são descobertos pouco antes de deixarem de ser, pois a própria descoberta determina a perda das credenciais de lugarzinho. Se alguém o recomendou a você, e você, claro, não vai perder a oportunidade de também poder dizer “Eu conheço UM lugarzinho...” a outros, não demorará muito antes que o lugarzinho passe a ser frequentado só por pessoas atrás de lugarzinhos. Perderá toda a espontaneidade. Os preços aumentarão e é possível que o próprio lugar também aumente, perdendo o direito ao diminutivo. Se o encanto do lugarzinho era o menu escrito a giz num quadro-negro, e errado, na sua visita seguinte você descobrirá que eles estão errando a grafia dos pratos de propósito e em pouco tempo estarão vendendo pôsteres com “o nosso famoso menu mal escrito”. E é fácil prever o que acontecerá depois. Você dirá para alguém, convencido de que está abafando:
Eu conheço UM lugarzinho...
E ouvirá:
Não, não. Esse eu conheço. Não dá mais para ir lá. Agora, do lado dele tem UM lugarzinho…

Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora

Sobre escrever

Às vezes tenho a impressão de que escrevo por simples curiosidade intensa. É que, ao escrever, eu me dou as mais inesperadas surpresas. É na hora de escrever que muitas vezes fico consciente das coisas, das quais, sendo inconsciente, eu antes não sabia que sabia.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Factótum



14

Meu pai chegou com os trinta dólares à noite. Ao sairmos, os olhos dele estavam marejados.
Você arruinou os seus pais — disse. Parece que eles conheciam um dos policiais que lhe perguntou: “Sr. Chinaski, o que seu filho está fazendo aqui?”.
Eu fiquei tão envergonhado. Nunca poderia imaginar o meu próprio filho preso.
Fomos até o carro dele e entramos. Ele arrancou. Ainda estava chorando.
Já é ruim o suficiente você não querer servir o próprio país na guerra…
O psicólogo disse que eu era inadequado.
Meu filho, se não fosse pela Primeira Guerra Mundial, eu nunca teria conhecido sua mãe e você nunca teria nascido.
Tem cigarro?
Agora você foi preso. Uma coisa dessas poderia matar sua mãe.
Passamos por alguns bares baratos na baixa Broadway.
Vamos entrar e beber alguma coisa.
O quê? Você quer dizer que teria coragem de beber logo depois de sair da cadeia por embriaguez?
É justamente quando mais se precisa de uma bebida.
Não ouse contar para sua mãe que você queria beber logo depois de sair da cadeia — ele me alertou.
Preciso dar umazinha também.
Quê?
Eu disse que também preciso dar umazinha.
Ele quase passou o sinal vermelho. Seguimos em silêncio.
A propósito — disse ele, enfim —, acho que você sabe que a multa da prisão será adicionada ao seu quarto, comida e roupa lavada, né?

Charles Bukowski, em Factótum

Angústia



[…]

Se pudesse, abandonaria tudo e recomeçaria as minhas viagens. Esta vida monótona, agarrada à banca das nove horas ao meio-dia e das duas às cinco, é estúpida. Vida de sururu. Estúpida. Quando a repartição se fecha, arrasto-me até o relógio oficial, meto-me no primeiro bonde de Ponta-da-Terra.
Que estará fazendo Marina? Procuro afastar de mim essa criatura. Uma viagem, embriaguez, suicídio...
Penso no meu cadáver, magríssimo, com os dentes arreganhados, os olhos como duas jabuticabas sem casca, os dedos pretos do cigarro cruzados no peito fundo.
Os conhecidos dirão que eu era um bom tipo e conduzirão para o cemitério, num caixão barato, a minha carcaça meio bichada. Enquanto pegarem e soltarem as alças, revezando-se no mister piedoso e cacete de carregar defunto pobre, procurarão saber quem será o meu substituto na diretoria da fazenda.
Enxoto as imagens lúgubres. Vão e voltam, sem vergonha, e com elas a lembrança de Julião Tavares. Intolerável. Esforço-me por desviar o pensamento dessas coisas. Não sou um rato, não quero ser um rato. Tento distrair-me olhando a rua.
À medida que o carro se afasta do centro sinto que me vou desanuviando. Tenho a sensação de que viajo para muito longe e não voltarei nunca. Do lado esquerdo são as casas da gente rica, dos homens que me amedrontam, das mulheres que usam peles de contos de réis. Diante delas, Marina é uma ratuína. Do lado direito, navios. Às vezes há diversos ancorados. Rolam bondes para a cidade, que está invisível, lá em cima, distante. Vida de sururu.
Há quinze anos era diferente. O barulho dos bondes não deixava a gente ouvir o sino da igreja. O meu quarto, no primeiro andar, era um inferno de calor. Por isso, à hora em que os outros hóspedes iam para a escola, estudar medicina, eu dava um salto ao Passeio Público e lia, debaixo das árvores, o noticiário da polícia. Naturalmente a pensão se fechou e d. Aurora, que naquele tempo era velha, morreu.
O calor aqui também é grande demais. E faltam plantas. Apenas, um pouco afastados, coqueiros macambúzios, perfilados, como se esperassem ordens.
Cidade grande, falta de trabalho. O meu quarto ficava junto à escada, e à noite o cheiro do gás era insuportável. Quando escurecia, Dagoberto, estudante e repórter, vinha despejar sobre a minha cama um compêndio de anatomia e uma cesta de ossos.
O bonde chega ao fim da linha, volta. Bairro miserável, casas de palha, crianças doentes. Barcos de pescadores, as chaminés dos navios, longe.
D. Aurora, que tinha sobrenome inglês, às seis horas encostava-se ao guarda-louça e rosnava, agitava os caracóis brancos, pregava os óculos nos hóspedes que comiam demais e nos que estavam em atraso. Havia um rapaz de Minas, dispéptico, que ela adorava e queria casar com a neta. Enquanto os outros mastigavam, Dagoberto esquecia o prato e falava sobre os discursos da câmara.
Retorno à cidade. Os globos opalinos do Aterro iluminam o gramado murcho e a praia branca. Os coqueiros empertigados ficam para trás. Penso numa ditadura militar, em paradas, em disciplina. Os navios também ficam para trás. A pensão, o meu quarto abafado, o focinho de d. Aurora e a cesta de ossos de Dagoberto somem-se.
O carro passa pelos fundos do tesouro. É ali que ­trabalho. Ocupação estúpida e quinhentos mil-réis de ordenado.
Rua do Comércio. Lá estão os grupos que me desgostam. Conto as pessoas conhecidas: quase sempre até os Martírios encontro umas vinte. Distraio-me, esqueço Marina, que algumas ruas apenas separam de mim. Afasto-me outra vez da realidade, mas agora não vejo os navios, a recordação da cidade grande desapareceu completamente. O bonde roda para oeste, dirige-se ao interior. Tenho a impressão de que ele me vai levar ao meu município sertanejo. E nem percebo os casebres miseráveis que trepam o morro, à direita, os palacetes que têm os pés na lama, junto ao mangue, à esquerda. Quanto mais me aproximo de Bebedouro mais remoço. Marina, Julião Tavares, as apoquentações que tenho experimentado estes últimos tempos, nunca existiram.
Volto a ser criança, revejo a figura de meu avô, Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva, que alcancei velhíssimo. Os negócios na fazenda andavam mal. E meu pai, reduzido a Camilo Pereira da Silva, ficava dias inteiros manzanzando numa rede armada nos esteios do copiar, cortando palha de milho para cigarros, lendo o Carlos Magno, sonhando com a vitória do partido que padre Inácio chefiava. Dez ou doze reses, arrepiadas no carrapato e na varejeira, envergavam o espinhaço e comiam o mandacaru que Amaro vaqueiro cortava nos cestos. O cupim devorava os mourões do curral e as linhas da casa. No chiqueiro alguns bichos bodejavam. Um carro de bois apodrecia debaixo das catingueiras sem folhas. Tinham amarrado no pescoço da cachorra Moqueca um rosário de sabugos de milho queimados. Quitéria, na cozinha, mexia em cumbucos cheios de miudezas, escondia peles de fumo no caritó.
Eu andava no pátio, arrastando um chocalho, brincando de boi. Minha avó, sinha Germana, passava os dias falando só, xingando as escravas, que não existiam. Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva tomava pileques tremendos. Às vezes subia à vila, descomposto, um camisão vermelho por cima da ceroula de algodão encaroçado, chapéu de ouricuri, alpercatas e varapau. Nos dias santos, de volta da igreja, mestre Domingos, que havia sido escravo dele e agora possuía venda sortida, encontrava o antigo senhor escorado no balcão de Teotoninho Sabiá, bebendo cachaça e jogando três-setes com os soldados. O preto era um sujeito perfeitamente respeitável. Em horas de solenidade usava sobrecasaca de chita, correntão de ouro atravessado de um bolso a outro do colete, chinelos de trança, por causa dos calos, que não aguentavam sapatos. Por baixo do chapéu duro, a testa retinta, úmida de suor, brilhava como um espelho. Pois, apesar de tantas vantagens, mestre Domingos, quando via meu avô naquela desordem, dava-lhe o braço, levava-o para casa, curava-lhe a bebedeira com amoníaco. Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva vomitava na sobrecasaca de mestre Domingos e gritava:
Negro, tu não respeitas teu senhor não, negro!
Quando o carro para, essas sombras antigas desaparecem de supetão — e vejo coisas que não me excitam nenhum interesse: os focos da iluminação pública, espaçados, cochilando, piongos, tão piongos como luzes de cemitério; um palácio transformado em albergue de vagabundos; escuridões, capoeiras, barreiras cortadas a pique no monte; a frontaria de uma fábrica de tecidos; e, de longe em longe, através de ramagens, pedaços de mangue, cinzentos. À medida que nos aproximamos do fim da linha as paradas são menos frequentes. Os postes cintados de branco passam correndo, o carro está quase vazio, as recordações da minha infância precipitam-se. E a decadência de Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva precipita-se também.
Estava pegando um século quando entrou a caducar. Encolhido na cama de couro cru, mijava-se todo, contava os dedos dos pés e caía na madorna. De repente acordava sobressaltado:
Sinha Germana!
Meu pai largava o Carlos Magno, abria o tabaqueiro, ­deixava a rede, impaciente:
Que é que há?
Homem, você não me dirá onde está sua mãe? Aqui mais de uma hora chamando essa mulher!
Morreu.
Que está me dizendo? estranhava o velho arregalando os olhos quase cegos. Quando foi isso?
Camilo Pereira da Silva amolava-se:
Deixe de arrelia. Morreu o ano passado.
Tanto tempo! dizia Trajano. E vocês calados...
Punha-se a folgar com os dedos e pegava no sono. Quinze minutos depois estava berrando:
Sinha Germana!
Acabou-se numa agonia leve que não queria ter fim. E enterrou-se na catacumba desmantelada que nossa família tinha no cemitério da vila. Mestre Domingos pegou na alça do caixão e declarou a meu pai que a morte é um mundéu. Fomos morar na vila. Meteram-me na escola de seu Antônio Justino, para desasnar, pois, como disse Camilo quando me apresentou ao mestre, eu era um cavalo de dez anos e não conhecia a mão direita. Aprendi leitura, o catecismo, a conjugação dos verbos. O professor dormia durante as lições. E a gente bocejava olhando as paredes, esperando que uma réstia chegasse ao risco de lápis que marcava duas horas. Saíamos em algazarra. Eu ia jogar pião, sozinho, ou empinar papagaio. Sempre brinquei só.

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Graciliano Ramos, em Angústia

25/06/2026

Dominguinhos | Nossas Últimas Viagens

Livro XI | 18

I. Devo considerar o meu vínculo com os homens e que fomos feitos uns para os outros. Sob outra perspectiva, fui concebido para pastorar, como um carneiro que chefia o rebanho ou um touro que conduz a manada. Devo examinar a questão a partir das primeiras convicções: caso não existam somente átomos, a natureza ordena tudo. Assim sendo, as coisas inferiores existem para o benefício das superiores, e essas para o bem umas das outras.
II. Devo avaliar quais tipos de homens são na mesa, na cama e assim por diante. Particularmente, a quais compulsões estão sujeitos devido às suas opiniões e o quanto se orgulham das suas ações.
III. Caso os homens façam o que é certo, não devemos nos descontentar. Caso não, agem por falta de consciência e por ignorância. Nenhuma alma é voluntariamente privada da verdade ou tolhida da aptidão para lidar com os homens conforme seus méritos. Esse é o motivo de se chatearem quando são chamados de injustos, ingratos e gananciosos e, em especial, malfeitores dentre seus vizinhos.
IV. Também erro e sou um homem como qualquer outro. Embora não incorra em certas falhas, ainda estou inclinado a cometê-las — mesmo que a covardia, o apego à reputação ou outras motivações vis me previnam de falhar.
V. Nem sequer sei se os homens estão agindo errado ou não, porque muitas ações são realizadas proporcionalmente às circunstâncias. Um homem precisa saber muito para ser capaz de julgar corretamente as ações do outro.
VI.Caso esteja aborrecido ou aflito, devo ponderar: a vida do homem é um breve instante e logo estaremos todos mortos.
VII. O que nos perturba não são os atos dos homens — pois esses se fundamentam nas suas faculdades hegemônicas —, mas sim nossas próprias opiniões acerca dos atos. Portanto, remova a sua opinião. Pare de julgar um ato como doloroso e sua dor cessará.
Como, então, remover essas opiniões?”
Basta reconhecer que nenhum ato errôneo sofrido por você é vergonhoso. Afinal de contas, se o que é vergonhoso fosse apenas mau, você cometeria muitos erros, seria um ladrão e tudo mais.
VIII. A dor é causada mais pela cólera e pelo aborrecimento em resposta aos atos do que pelos atos em si.
IX. Uma boa disposição é invencível quando é genuína—quando o sorriso não é falso ou fingido. Não há nada que o homem mais violento possa fazer caso você continue tratando-o gentilmente, admoestando-o e calmamente corrigindo-o quando tentar prejudicá-lo. Diga a ele: “Não é assim, meu filho. Fomos constituídos por natureza para outro propósito. Você prejudica não a mim, mas a você mesmo.” Mostre-o, com tato e recorrendo a convicções abrangentes, que nem as abelhas nem quaisquer animais gregários agem como ele. Você deve se dirigir a ele de modo afetuoso, sem sarcasmo ou reprimenda e sem guardar rancor na sua alma. Você deve admoestá-lo não como se fosse um professor ou como se pretendesse impressionar espectadores, mas sim como se ele estivesse sozinho — ainda que outros estejam presentes.
Receba essas nove regras como se fossem dádivas das nove Musas.
Comece, enquanto ainda vive, a ser um homem. Evite, na mesma medida,tagarelar e se aborrecer com os outros, porque ambos são comportamentos antissociais e danosos. Quando encolerizado, retenha esta verdade: ser movido pela paixão não é viril. A brandura e a gentileza, por estarem mais em consonância com a natureza humana, são mais viris. Quem possui essas duas qualidades demonstra força, nervos e coragem, diferente do homem sujeito ao ímpeto da paixão e do descontentamento. Ao passo que se liberta das paixões, o homem se fortalece. A raiva é uma característica da fraqueza tanto quanto o sofrimento. Quem cede à ira está tão ferido e rendido quanto quem cede à dor.
Por fim, caso queira, receba uma décima dádiva do líder das Musas:
X. Esperar que homens maus não façam o mal é insanidade, pois significa expectar o impossível. Permitir que se comportem dessa maneira com o outro mas não com você é irracional e tirânico.

Marco Aurélio, em Meditações

Téo & O Mini Mundo

Diário de Bernardo Soares

116.

Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e o representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida — umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana.
Não é esse o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

I’m Carrying | Paul McCartney



By dawn’s first light I’ll come back to your room again
With my carnation hidden by the packages
I’m carrying
Something
I’m carrying something for you

Ah long time no see, baby, sure has been a while
And if my reappearance lacks a sense of style
I’m carrying
Something
I’m carrying something for you

I’m carrying
Can’t help it
I’m carrying something for you
I’m carrying
Something
I’m carrying something for you

Continuar a carreira após o término dos Beatles sempre seria difícil. Na cabeça de muita gente, eu estava carregando bagagem emocional. Mas, após uns lançamentos solo, eu queria voltar à camaradagem de estar numa banda, e poderia ter abordado o Wings de duas maneiras: entrar no topo como um Beatle ao lado de um ex-membro do Small Faces ou Cream e fazer o que eles costumavam chamar de “supergrupo”, ou eu poderia simplesmente começar algo que fosse agradável e tentar construir uma trajetória, como os Beatles fizeram. Escolhi a segunda opção. O único problema era que dessa vez teríamos que cometer nossos erros em público. Com os Beatles, foi tudo no privado, porque o público nos clubes de Hamburgo era reduzido, então pouca gente nos ouvia pisando na bola.
No início, a caminhada foi dura, porque o Wings não tinha sucessos e eu não queria tocar nada dos Beatles. Eu queria fazer uma divisão clara. Todos os promotores renomados da época me indagavam: “Vai tocar ‘Yesterday’?”. Era possível ver no semblante deles: era isso que eles queriam. E tínhamos que lutar contra isso. Isso dá uma ideia de quem eu sou; eu abomino duplicar qualquer coisa ou pessoa. Por isso, eu queria que o grupo Wings fosse bem-sucedido por méritos próprios. Assim, desde o começo, ficou óbvio que teríamos de nos conformar com o fato de que esse processo levaria tempo. Começamos em escala pequena, crescemos um pouquinho, excursionamos na Europa. No começo não éramos uma banda muito boa, faltava aparar as arestas. Um show aqui, outro ali, aparecendo nas universidades e pedindo para tocar nas entidades estudantis naquela noite, sem ter nenhuma canção conhecida do público. Mas então fomos melhorando e nos entrosando mais. Súbito, em meados dos anos 1970, já tínhamos sucessos como “Band on the Run”, “Silly Love Songs” e um repertório suficiente para sermos conhecidos sem depender dos Beatles.
As pessoas me indagam: “O que significa esta canção?”, e eu respondo: “Bem, depende de você”. Pode significar um milhão de coisas. O que é que estou carregando aqui? Fica claro que são pacotes. Sou como um dândi com pacotes que escondem meu cravo na lapela. Estou trazendo presentes pra você, estou carregando algo pra você, mas também, quando a mulher está grávida, ela “carrega” um neném. Talvez pudéssemos descartar outros significados. Uma pessoa carrega uma arma. E outra está carregando drogas. Um significado que pode funcionar aqui é a ideia de a pessoa “carregar” uma banda nas costas, com os outros se beneficiando do sucesso alheio. Não estou bem certo em relação a isso. Só estou brincando com a palavra “carregar”. É uma cançãozinha pra lá de ambígua, mas esse é o tipo de liberdade do Wings, de fazer algo meio ambíguo.
Já insinuaram que esta canção soa lennoniana. Eu admitiria se fosse, mas para mim soa mais mccartniana: apenas a vozinha. Não consigo imaginar John fazendo uma vozinha dessas. Mas sabe, se alguém a considerar lennoniana, não tem problema. Afinal de contas, aprendemos a compor canções juntos.

Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente

24/06/2026

Tom Ribeira | Juba

Naturalidade

Eu e o peixe no aquário temos nenhuma naturalidade.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

Último caderno de Kindzu



As páginas da terra

Depois de Euzinha já nenhuma esperança me restava. Eu voltava a Matimati sem Quintino. Perdida estava a amizade. Voltava sem trazer Gaspar. Perdido estava o amor. Farida não aceitaria a minha falta de promessa. E ela se afastaria de mim, partiria para inalcançável longe.
Subi a escura rua da vila em direcção à casa de Assane. Antoninho me recebeu às arrecuas como se visse um fantasma fora do prazo. Tinha os braços envoltos em ligaduras. Assane chegou à porta se arrastando na cadeira e, virando-se para o ajudante, perguntou:
Já lhe deu a novidade?
Que se passa? Que aconteceu com Farida?
Assane se moveu em minha direcção. Subiu-se na cadeira, esforçado para me dar um conforto, seu braço me laçando o ombro.
Não vale a pena você voltar lá.
Não vale a pena?
Farida já não te espera.
Como: vieram-lhe buscar?
De certa maneira...
Como de certa maneira?
Se acalma, Kindzu. Lhe vamos contar.
Se passara de maneira confusa. Por ordem de Assane, Antoninho se metera numa canoa e se dirigira ao barco naufragado. Quando encontrou Farida ele se exclamou. A mulher estava uma rodilha, só quase se lhe viam os olhos. O enviado se chegou com modos sossegados e se apresentou em sua função de amizade. Farida quis saber novidades de Kindzu. Disse que a demora já era demasiada. A procura do filho não iria resultar. A terra é imensa, a guerra é maior ainda.
Nunca lhe hão-de encontrar!
Então, com determinação, ela disse: não posso adiar mais. Vês aquele farol, apontou ela por entre o poente. Tenho que fazer com que aquele farol funcione.
Antoninho se dispôs a ajudar. Ela anunciou: iria lá acender aquelas luzes, reparar a escuridão. Aquelas luzes haveriam de guiar navios que a viriam tirar dali. O outro ficaria no navio naufragado vigiando se alguém chegava. Farida partiu na embarcação de Antoninho. Ele ainda a viu chegar ao pequeno ilhéu e entrar no farol. Ficou lá um tempo, saiu, voltou a entrar, carregando uns velhos bidões. De repente, a torre se sacudiu em imensa explosão. Labaredas escaparam como sôfregas línguas do edifício. Toda a ilha ficou ardendo.
Não é possível, Farida não morreu! Eu vou lá a esse farol, amanhã mesmo...
Não vale a pena, Antoninho confirmou.
Não confio neste sacana. Se calhar foi ele mesmo quem tramou a morte dela...
Virei costas e me retirei, brusco, corredor afora. Dentro do quarto de Surendra fiquei em espanto. Não chorava. Mas um tremendo cansaço me sufocava o peito. Assane entrou no quarto, suas rodas chiaram no escuro.
Kindzu, você foi injusto com esse miúdo.
Com Antoninho? Eu lhe conheço muito bem.
Mas, desta vez, se enganou. Eu posso testemunhar quanto o moço sofreu.
Assane me garantia. Antoninho tinha ido, em outro pequeno bote, tentar ajudar a mulher que eu amava. Entrara no incêndio com desprezo de sua própria vida. Seus braços arderam como tochas, quase os perdera para sempre.
Antoninho, agora, lhe respeita. Acredite, Kindzu.
A tristeza me enchia tanto que eu deitei de parte a desconfiança. Admiti ter errado. Sem convicção pedi a Assane que me desculpasse perante Antoninho.
Assane, eu preciso sair daqui.
Calha bem, meu amigo. Amanhã mesmo sai o primeiro machimbombo de nossa empresa.
Fingi nem reparar. Nossa empresa? Então, o negócio já se expandira? Afinal, em guerra se pode prosperar mais rápido que em normais tempos de paz. Levantei outra, mais leve, dúvida:
Já se pode circular na estrada?
Não temos certeza. Vamos tentar.
Está certo. Amanhã eu embarco nesse machimbombo. Me deixe agora, estou de mais cansado.
Eu queria ficar absolutamente só. Sentia na versão de Assane um sabor de falso. O paralítico estava agora unido com o administrador, lhe prestaria serviço apenas para encomendar simpatias. A morte de Farida seria um desses serviços. Antoninho seria um perfeito servente.
Durante toda a noite dormi um sonho, com sabores de autêntico. Enquanto adormecia mil perguntas me continuavam a agitar. E se não tivessem assassinado Farida, através da mão suja de Antoninho? Se o moço se tivesse realmente arriscado para a salvar? Nunca mais eu saberia o certo. No dia seguinte eu estaria de retorno à minha aldeia. Há quanto tempo eu tinha saído? O que acontecera, entretanto, a minha mãe, grávida de um impossível filho? E Junhito: será que cocoricava ainda pelos prados?
Agora era como se esses fantasmas trabalhassem em minha cabeça para me transmitirem seus segredos, revelações de um outro mundo. Vou relatar o último sonho a ver se me livro do peso de terríveis lembranças. Não quero que tais pensamentos me regressem. Preciso dormir, totalmente dormir, me emigrar deste corpo cheio de esperas e sofrências. Preciso descansar de suspeitas, esfriar meu desejo de vingança. Amanhã apanho o autocarro para regressar a minha aldeia. Não quero lembrar nada, nem Farida, nem Carolinda, nem Quintino, nem ninguém. O que queria mesmo era ir mar adentro, como Assma, empurrado num barquinho sem destino. Ou fazer como minha mãe me ensinou: ser a mais delicada sombra. É isso que desejo: me apagar, perder voz, desexistir. Ainda bem que escrevi, passo por passo, esta minha viagem. Assim escritas estas lembranças ficam presas no papel, bem longe de mim. Este é o último caderno. Depois, arrumo tudo na mala que me deu Surendra. No final, Surendra é o único de quem eu aceito companhia. O indiano mais sua nação sonhada: o oceano sem nenhum fim.
Me falta, pois, trazer o que essa noite viajou em minha cabeça. Me falta soltar o último peso que me impede ser sombra. Ponho o sonho, em sua selvagem desordem: eu estava descendo um vale molhado de tanta de luz, cheio de manhã. Aquela parecia a primeira madrugada do mundo. A luz se espantava de sua própria estreia, experimentando sua grandeza ao iluminar as mais pequenas coisas. As cores, de tanto serem novas, se cambiavam incessantemente. Foi então que vi avançar um enorme grupo de pessoas, pobres, embrulhadas em cascas e fiapos. Eram centenas de centenas. Foram-me enchendo o sono. À frente seguia o feiticeiro da minha aldeia. Envergava uma sarapilheira encardida, cujos farrapos poeiravam pelo chão. O adivinho olhou a terra como se dele dependesse o destino do universo. Pesava nos seus olhos a gravíssima decisão de criar um outro dia.
É aqui mesmo!, disse.
Escolhia o caminho parecendo procurar o centro de uma invisível paisagem. Atrás dele se arrastava a multidão, rastejando como se suas vidas se alimentassem das pegadas de seu guia. O feiticeiro subiu a um morro de muchém e contemplou a planície. Ajeitou o chapéu feito de penas e enroscou melhor a sarapilheira como se aquele calor lhe esfriasse os ossos. Então, levantando o seu cajado sentenciou:
Que morram as estradas, se apaguem os caminhos e desabem as pontes!
Depois, começou o discurso, desfiando palavras lentas, rasgando a voz de encontro ao vento:
Chorais pelos dias de hoje? Pois saibam que os dias que virão serão ainda piores. Foi por isso que fizeram esta guerra, para envenenar o ventre do tempo, para que o presente parisse monstros no lugar da esperança. Não mais procureis vossos familiares que saíram para outras terras em busca da paz. Mesmo que os reencontreis eles não vos reconhecerão. Vós vos convertêsteis em bichos, sem família, sem nação. Porque esta guerra não foi feita para vos tirar do país mas para tirar o país de dentro de vós. Agora, a arma é a vossa única alma. Roubaram-vos tanto que nem sequer os sonhos são vossos, nada de vossa terra vos pertence, e até o céu e o mar serão propriedade de estranhos. Será mil vezes pior que o passado pois não vereis o rosto dos novos donos e esses patrões se servirão de vossos irmãos para vos dar castigo. Ao invés de combaterem os inimigos, os melhores guerreiros afiarão as lanças nos ventres das suas próprias mulheres. E aqueles que vos deveriam comandar estarão entretidos a regatear migalhas no banquete da vossa própria destruição. E até os miseráveis serão donos do vosso medo pois vivereis no reino da brutalidade. Terão que esperar que os assassinos sejam mortos por suas próprias mãos pois em todos haverá medo da justiça. A terra se revolverá e os enterrados assomarão à superfície para virem buscar as orelhas que lhes foram decepadas. Outros procurarão seus narizes no vómito das hienas e escavarão nas lixeiras para resgatarem seus antigos órgãos. E há-de vir um vento que arrastará os astros pelos céus e a noite se tornará pequena para tantas luzes explodindo sobre as vossas cabeças. As areias se voltearão em remoinhos furiosos pelos ares e os pássaros tombarão extenuados e ocorrerão desastres que não têm nome, as machambas serão convertidas em cemitérios e das plantas, secas e mirradas, brotarão apenas pedras de sal. As mulheres mastigarão areia e serão tantas e tão esfaimadas que um buraco imenso tornará a terra oca e desventrada. No final, porém, restará uma manhã como esta, cheia de luz nova e se escutará uma voz longínqua como se fosse uma memória de antes de sermos gente. E surgirão os doces acordes de uma canção, o terno embalo da primeira mãe. Esse canto, sim, será nosso, a lembrança de uma raiz profunda que não foram capazes de nos arrancar. Essa voz nos dará a força de um novo princípio e, ao escutá-la, os cadáveres sossegarão nas covas e os sobreviventes abraçarão a vida com o ingénuo entusiasmo dos namorados. Tudo isso se fará se formos capazes de nos despirmos deste tempo que nos fez animais. Aceitemos morrer como gente que já não somos. Deixai que morra o animal em que esta guerra nos converteu.
O feiticeiro se calou, extenuado. A sarapilheira estava ensopada de suor. Voltando a levantar o cajado sobre a cabeça ele ainda voltou a falar. Mas se pronunciou em palavras de nenhuma língua. As gentes seguiam o restante discurso à cata de alguma compreensão. Então, o nganga se calou, ergueu uma cabaça e verteu um líquido sobre os ombros. Depois, desceu o morro e fez pingar a cabaça sobre cada um dos presentes. Então se deu o mais extraordinário dos fenómenos e todos os presentes tombaram no chão, agitando-se em espasmos e berros, e se seguiu uma orgia de convulsões, babas e espumas e, um por um, todos foram perdendo as humanas dimensões. Penugens e escamas, garras e bicos, caudas e cristas se espalharam pelos corpos e todo aquele plenário de gente se transfigurou em bicharada. A fala foi a última coisa a ser convertida e, durante um tempo, se escutaram espantos e gritos humanos proferidos pelas mais irracionais bestas. Aos poucos, porém, também o verbo se perdeu e a bicharada, em desordem, se espalhou pelos matos.
Tombado de joelhos perante tais visões, eu olhei as próprias mãos para me confirmar humano. Retirei as vestes e apalpei minhas velhas formas. Com cautela, tossiquei para me certificar da voz. A medo fui emitindo palavras simples, depois frases sem nexo. Não havia dúvida: eu me mantinha completamente gente, habitando o corpo que sempre fora o meu.
Então, por entre as brumas do sonhado, vi um galo se aproximando. Era Junhito, quase eu ia jurar. Porque no inverso dos outros, ele se humanizava, lhe caíam penas, cristas e esporões. Me olhou ainda semibicho. Seus olhos me pediam qualquer coisa, nem eu adivinhava. Que ajuda lhe podia dar, eu, simples sonhador? O que sucedeu, seguidamente, foi que surgiram o colono Romão Pinto junto com o administrador Estêvão, Shetani, Assane, Antoninho e milicianos. Vinham armados e se dirigiram para Junhito, com ganas de lhe depenar o pescoço. Cercaram o manito, dizendo:
Teu pai tinha razão: sempre te viemos buscar.
Então, Junhito me chamou. Eu me olhei, sem confiança. Mas o que em mim vi foi de dar surpresa, mesmo em sonho: porque em meus braços se exibiam lenços e enfeites. Minhas mãos seguravam uma zagaia. Me certifiquei: eu era um naparama! Ao me verem, em minha nova figura, aqueles que maltratavam o meu irmão se extinguiram num fechar de olhos. Mas Junhito ainda lutava para se desbichar, desembaraçar-se da condenação. Me veio à ideia que ele precisava de um pouco de infância e cantei os embalos de nossa mãe, sua última ponte com a família. Enquanto eu cantava ele se foi vertendo todo gente, completamente Junhito. A seu lado, como se chamada por meu canto, minha mãe apareceu segurando uma criança em seu colo. Lhes chamei mas eles nem me pareciam ouvir. Junhito colocou a mão aberta sobre o peito e depois fechou as duas mãos em concha. Me agradecia. Acenei uma despedida e ele, segurando minha mãe pelo braço, desapareceu nas infinitas folhagens.
Eu sentia que a noite chegava ao fim. Qualquer coisa me dizia que me devia apressar antes que aquele sonho se extinguisse. Porque me surgiam agora alucinadas visões de uma estrada por onde eu seguia. Mas aquela era uma muito estranha picada: não estava imóvel, esperando a viagem dos homens. Ela se deslocava, seguindo de paisagem em paisagem. A estrada me descaminhou. O destino o que é senão um embriagado conduzido por um cego? Fui sendo levado sem conta nem tempo. Até que meu coração se apertou em sombrio sobressalto. Me surgiu um machimbombo queimado. Estava derreado numa berma, a dianteira espalmada de encontro a uma árvore. De repente, a cabeça me estala em surdo baque. Parecia que o mundo inteiro rebentava, fios de sangue se desalinhavam num fundo de luz muitíssimo branca. Vacilo, vencido por súbito desfalecimento. Me apetece deitar, me anichar na terra morna. Deixo cair ali a mala onde trago os cadernos. Uma voz interior me pede para que não pare. É a voz de meu pai que me dá força. Venço o torpor e prossigo ao longo da estrada. Mais adiante segue um miúdo com passo lento. Nas suas mãos estão papéis que me parecem familiares. Me aproximo e, com sobressalto, confirmo: são os meus cadernos. Então, com o peito sufocado, chamo: Gaspar! E o menino estremece como se nascesse por uma segunda vez. De sua mão tombam os cadernos. Movidas por um vento que nascia não do ar mas do próprio chão, as folhas se espalham pela estrada. Então, as letras, uma por uma, se vão convertendo em grãos de areia e, aos poucos, todos meus escritos se vão transformando em páginas de terra.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula