quarta-feira, 29 de abril de 2026

Eliane Elias | Eu sambo mesmo

 

Entre o ser e as coisas

Onda e amor, onde amor, ando indagando
ao largo vento e à rocha imperativa,
e a tudo me arremesso, nesse quando
amanhece frescor de coisa viva.
 
Às almas, não, as almas vão pairando,
e, esquecendo a lição que já se esquiva,
tornam amor humor, e vago e brando
o que é de natureza corrosiva.
 
N’água e na pedra amor deixa gravados
seus hieróglifos e mensagens, suas
verdades mais secretas e mais nuas.
 
E nem os elementos encantados
sabem do amor que os punge e que é, pungindo,
uma fogueira a arder no dia findo.

Carlos Drummond de Andrade, em Claro Enigma

Pratos variados



O nosso garçom no Tre Scalini, na Piazza Navona de Roma, desaparecia por longos períodos. Desconfiava-se que fosse visitar a família ou jantar no restaurante ao lado. Quando reaparecia, era disputado aos gritos por diversas mesas, em diversos idiomas.
Desprezava a todos com a mesma empáfia. Mas conseguimos, finalmente, fazer o nosso pedido. Dizer que a massa estava perfeita é não dizer nada. O difícil é comer uma massa que não seja perfeita na Itália. Extraordinário estava o prato de antipasti, metade dos quais eu nem consegui identificar mas comi com igual entusiasmo. Só de azeitonas havia quatro variedades. Depois da massa pedimos — aproveitando uma das infrequentes aparições do garçom — o sorvete Tartufo, que faz a fama do restaurante. É uma espécie de torta de chocolate gelada e a fama é merecida. E a Piazza Navona fica ainda mais bonita depois do jantar.
A história de que em Paris se come bem em qualquer boteco é mito que não resiste ao primeiro boteco. Numa brasserie perto do Arco do Triunfo, à qual recorremos porque já era tarde e em Paris a gente caminha, e nunca chega ao Treviso, comi certamente a pior omelete da minha vida. Os restaurantes franceses, de qualquer categoria, estes sim raramente falham. Num restaurante da Madeleine, que por certo não receberia nem um cumprimento do Guide Michelin, quanto mais uma estrela, comi um magret de canard, que é uma espécie de bife feito de alguma misteriosa parte do pato, fantástico. Precedido de ostras e acompanhado de vinho nacional.
Na Place des Vosges, a mais antiga de Paris, descobrimos um restaurante que, pelo aspecto, antecedia a praça: Monsieur Não Sei o Que de Cocconnas. Primeiro uma terrine de canard e depois um peixe coberto com molho crocante indescritível que foi a melhor coisa que comi nesta viagem. A Lúcia pediu o pot au feu, um grande cozido no qual entrava, desconfio, até o plano qüinqüenal do Giscard D’Estaing. O vinho foi um tinto da região do Rhône, esfriado para não destoar do peixe.
Fizemos uma única extravagância alimentar em Paris, embora na verdade nada em Paris, fora a paisagem, seja muito barato. Fomos comer no Les Belles Gourmandes, cuja existência o Michelin pelo menos reconhece. Carré d’agneau para duas pessoas. Pela primeira vez compreendi o verdadeiro sentido das palavras cordeiro de Deus. Comecei a traduzir a conta para cruzeiros, mas desisti no segundo zero. Certas coisas não ajudam a digestão.
Fomos jantar com a Berenice Otero — que está ótima — no Coup Chou, que já conhecíamos mas que merece várias revisitas. O meu prato estava muito bom, mas confesso que passei todo o jantar de olho no prato da Berenice, que tinha tanta coisa para contar que nem tocava na comida. A educação foi mais forte e cheguei ao fim da noite sem avançar no prato de ninguém, no entanto. Mas estive tentado. Outra constatação parisiense: o Marco Aurélio Garcia está cozinhando cada vez melhor. E está experimentando com sobremesas!
O nosso hotel em Londres, o Cumberland, tem dois restaurantes. Um é o L’Épée d’Or, que justifica o nome de espada especializando-se em coisas no espeto, tais como o prato que os franceses chamam de brochette mas os gaúchos — tá doido — preferem chamar de xixo, uma corruptela do shisykebab, e que em certas churrascarias locais devia se chamar corruptela mesmo. O outro restaurante do Cumberland é o Carvery, onde, por um preço fixo, você pode se servir quantas vezes quiser de grandes assados de carne de rês ou porco, expostos num balcão supervisionado por chefs de chapelão. Fomos uma vez no L’Épée d’Or.
O serviço em quase todos os restaurantes ingleses a não ser os mais tradicionais é feito por imigrantes, uma variedade de raças e sotaques que só tem uma coisa em comum: o péssimo serviço. Hindus, indianos ocidentais, espanhóis, portugueses e italianos distraem-se tanto desentendendo-se, que esquecem de atender as mesas. No L’Épée d’Or a comida não justifica o caos, e ainda por cima há o perigo sempre presente de uma briga acabar com espetos voando sobre a clientela. Não voltamos lá. No Carvery, da primeira vez que tentamos entrar, o maître — português — nos informou que era impossível, o restaurante fecharia dali a pouco e ainda havia 50 pessoas esperando a vez. Tentamos na noite seguinte. Impossível, nos disse o maître. Desta vez, um espanhol. Havia 80 pessoas esperando. “Amanhã ele diz que tem 100”, apostei. Voltamos na noite seguinte só para conferir a aposta. “Impossível”, disse o italiano, “há 100 pessoas esperando para sentar.” Saí frustrado mas satisfeito. Tentamos ainda outro dia e desta vez — surpresa! — conseguimos entrar. A carne é fantástica. E a vantagem é que você é servido por brasileiros solícitos: você mesmo.
Quanto mais eu conheço restaurantes chineses por aí mais gosto do Pagoda de Porto Alegre. Com a possível exceção do Empress of China, em São Francisco, ainda não encontrei nenhum que se iguale. Em Londres, talvez tenha nos faltado sorte. Há dezenas de chineses no Soho, a gente escolhe um, entra, e depois fica pensando que o bom provavelmente é o do lado. Já sei, já sei. A solução é, da próxima vez, escolher um para entrar e entrar no do lado. Fomos a apenas um restaurante, digamos assim, mais encorpado, em Londres. O Bentley’s da Swallow Street, que já conhecíamos de outra viagem e que nos fora recomendado pelo Armando Coelho Borges. Coisas do mar. Continua bom. Também fomos na Chesa, um dos três restaurantes do centro suíço de turismo, excelente. E eu que pensei que já conhecia batatas suíças…

Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora

Diário de Bernardo Soares

103.

Cultivo o ódio à ação como uma flor de estufa. Gabo-me para comigo da minha dissidência da vida.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

O Jardim Perdido



Algumas frases no livro se tornaram desde o início objeto de lenda e paródia. Havia o começo, surpreendente numa obra de antropologia e de viagem pelo Amazonas: “Je haïs les voyages et les explorateurs” (“Odeio as viagens e os exploradores”). Havia a coda final — um monstro de uma sentença, cláusulas e mais cláusulas ornamentadas se empilhando, um sforzando barroco trinando até pousar na imagem, ao mesmo tempo cômica e mágica, do “breve relance do olhar, carregado de paciência, serenidade e perdão recíproco que um entendimento involuntário às vezes permite trocarmos com um gato” (a tradução em inglês é uma boa tentativa: “the brief glance, heavy with patience, serenity, and mutual forgiveness, that, through some involuntary understanding, one can sometimes exchange with a cat”, embora perca o páthos de “alourdi de patience” e a insinuação de uma quase graça teológica em “pardon réciproque qu’une entente involontaire permet parfois”). Tristes trópicos agora tem quase vinte anos. No intervalo, Claude Lévi-Strauss realizou em larga medida aquela revolução na antropologia, aquela renovação do vocabulário, dos rumos da argumentação própria ao “estudo do homem”, que eram pleiteadas por Tristes trópicos. Até onde alcança o clima geral da cultura letrada, ele é não só o mais celebrado antropólogo-etnógrafo vivo, mas também um escritor cujos tratados técnicos visivelmente especializados conseguiram penetrar na sensibilidade geral. O “estruturalismo” de Lévi-Strauss, termo na moda, mas não muito definido, de certa forma parece constituir o eixo dos trabalhos atuais em linguística e psicologia, em estudos sociais e estética. Mas a fama de Lévi-Strauss, a influência que ele exerce no tom de nossa cultura e de nossa palração de leitores instruídos (o reflexo pálido e suave que os meios de comunicação de massa devolvem à vida do espírito), tem uma forma paradoxal. Ela cresceu inversamente à posição dele entre seus pares profissionais. Do ponto de vista dos colegas antropólogos e etnógrafos, a curva segue mais ou menos este traçado: apesar da brevidade do trabalho de campo no Brasil nos anos 1930 e da metodologia talvez controversa, depois Lévi-Strauss produziu um estudo clássico das relações de parentesco, As estruturas elementares do parentesco, publicado em 1949. Junto com vários artigos técnicos escritos durante os anos que passou nos EUA e um pouco depois, essa opus constitui um desenvolvimento fundamental da compreensão do parentesco e da sociedade primitiva, que se iniciara com Marcel Mauss, Émile Durkheim e a escola antropológica britânica. No início dos anos 1950, em colaboração com Roman Jakobson, Lévi-Strauss começou a defender a existência de analogias fundamentais, de reciprocidades conceituais e metodológicas entre a linguística e a antropologia. Foi também um avanço estimulante. Certamente há muito a se aprender com a possível concordância entre a estrutura formal de uma língua e as estruturas sociais que ela organiza e reflete (a observação de Lévi-Strauss de que uma sociedade não pode proibir aquilo que não sabe nomear e classificar, e de que o reconhecimento do parentesco permitido ou proibido depende de uma precisão correspondente na designação linguística, é obviamente profunda e preciosa). Mas esses paralelos, quando podem ser demonstrados, precisam ser manuseados com extrema cautela. Saltar da escala monográfica para um modelo universal de funcionamento da mente humana, construir uma vasta teoria da mente e da evolução sobre uma base tão frágil, é abandonar os ideais da ciência. É isso, dizem os antropólogos, que Lévi-Strauss fez com Tristes trópicos e continua a fazer desde então. Ele pode ser um escritor de talento, um criador de mitos modernos, uma espécie de filósofo, mas não é mais um antropólogo que tem responsabilidade perante a opaca monotonia do detalhe, o “este é o caso”. Há um precedente famoso. Para poetas e dramaturgos, para o público em geral, sir James Frazer era o príncipe dos antropólogos; para os colegas de profissão e sucessores imediatos, era um fiandeiro de palavras preso no denso nevoeiro que ele mesmo tinha criado. Assim, as “Mitológicas”, a “mitologia dos mitos” em quatro volumes que tem ocupado Lévi-Strauss nos últimos quinze anos ou mais, serão — quando a tradução estiver completa — nosso Ramo de ouro.
É um tipo de constelação que reconhecemos: um especialista ultrapassa sua área técnica e adquire grande renome; os colegas que deixou para trás cerram fileiras num repúdio melindrado. É a história de Marx e os economistas acadêmicos, de Freud e os psicólogos contemporâneos, de Toynbee e os historiadores. A situação não se abranda quando o novo “astro” expressa sua impaciência com a mesquinharia, o paroquialismo corporativo de seus pares de outrora. (Lévi-Strauss, aliás, é um mestre do desdém.) Depois de um período — assim dizem a história e a hagiografia intelectual —, descobre-se que a obra do grande dissidente alterou a totalidade do campo com o qual rompera, e os detratores sobrevivem como ácidas notas de rodapé nas memórias do Mestre.
A resposta a isso precisa ser incomodamente dupla, afirmativa e negativa. Se as análises de Marx sobre o conflito social são ou não são “científicas”, se suas previsões têm ou não têm alguma força que se possa verificar, são questões que continuam controvertidas. Ninguém duvidaria da envergadura das realizações de Freud, da força moldadora de sua concepção filosófico-literária sobre o clima dominante da sensibilidade ocidental. Mas o modelo terapêutico que ele procurou universalizar e os fundamentos neurofisiológicos que tentou estabelecer para esse modelo vêm se revelando cada vez mais fugidios. As correntes “avançadas” dos estudos recentes da mente e do comportamento humano não são freudianas. O quadro que temos não é, pelo menos não inequivocamente, o do gênio individual, da rejeição invejosa dos colegas menos dotados e da apoteose subsequente. O que parece se dar é um desenvolvimento apenas dentro de uma área sensível de um campo tradicional. Esse desenvolvimento, que de início observa as convenções e a linguagem profissional do campo, logo se torna grande demais, problemático demais, para caber dentro das categorias estabelecidas. Ele rompe e arrasta consigo uma parte desse seu campo. Surgem novos ordenamentos: a “linguística antropológica”, a “semiótica” (que é a investigação sistemática dos signos e dos símbolos) surgiram da crise da antropologia clássica e do “impulso gravitacional” de Lévi-Strauss rumo a uma concepção conjunta da linguagem e da estrutura biológico-social. A querela entre o grande homem e seus colegas pragmáticos é, muitas vezes, sintoma de transição e reajuste. Em certo sentido, a relação de Lévi-Strauss com a antropologia desde o princípio foi tão ambivalente, tão intrinsecamente subversiva quanto, digamos, a relação de Marx com a teoria monetária e econômica clássica. Essa “duplicidade”, essa provocação, explica a opacidade e a importância de Tristes trópicos.
A nova tradução e edição (Atheneum, 1973) supera a versão de 1961. Por razões que nunca ficaram inteiramente claras, vários capítulos foram omitidos da edição inicial em inglês; agora estão incluídos. Foram incorporadas as alterações que Lévi-Strauss fez à edição francesa de 1968. Traduzir Lévi-Strauss é uma tarefa não só árdua, mas também feita sob a sombra exigente e rigorosa do autor. Embora tenham adotado um partido às vezes um pouco cansativo e dilatado demais, justamente com a intenção de esclarecer, de dissecar a retórica sinuosa do original, John e Doreen Weightman realizaram um trabalho admirável. Não raro, quando dificuldades especiais atrapalham a leitura, deixamos a linguagem de Lévi-Strauss e recorremos à deles. E, sendo os tradutores das “Mitológicas”, os Weightman mostram uma perspicácia inigualável ao verter a gênese do vocabulário de Lévi-Strauss, ao ver onde e como se iniciaram algumas de suas atitudes características.
Num determinado nível, Tristes trópicos é uma autobiografia intelectual, ironicamente ciente das distorções, das autodramatizações, complacentes ou críticas, inevitáveis num autorretrato. Mas as lembranças de Lévi-Strauss de sua carreira acadêmica, ao mesmo tempo brilhante e apaticamente vazia, levam a uma passagem que melhor pode fornecer a chave de sua obra. Por volta dos dezesseis anos de idade, ele conheceu as teorias de Freud e os textos fundamentais de Marx. Viu em ambos uma espécie de geologia, uma promessa da compreensão em profundidade, uma estratégia de atravessar a superfície das aparências no homem e na história social:

A passagem é difícil, mas oferece uma pista inequívoca. Combinando Marx e Freud (em relação aos quais Lévi-Strauss se mantém em certa posição de igualdade), usando o paradigma da geologia, com suas noções de superfície e estratos subjacentes e formadores — paradigma que já sugere a linguística moderna —, devemos desenvolver uma espécie de entendimento orgânico e unificador do que “significam as coisas”. Nesse estágio inicial de seu pensamento, Lévi-Strauss deu a esse entendimento da estrutura o nome de “super-racionalismo”, que não é um termo muito útil. Hoje ele poderia chama-lo de “mythologique”, uma lógica racional das maneiras (“mitos”) como o homem representa, enuncia e controla sua condição biológica, psíquica e social. Apenas tal compreensão, palavra que supõe uma apreensão completa, apenas tal understanding, palavra que, com seu prefixo under-, implica descer, se aprofundar, poderiam justificar o orgulhoso nome “antropologia”, estudo do homem. Ser um antropólogo nesse sentido total significava preencher e completar as análises socioeconômicas do marxismo com a leitura freudiana da consciência. Para isso, o jovem Lévi-Strauss estava disposto a abandonar a filosofia e aceitar um posto secundário para dar aulas em São Paulo.

O conflito entre esta concepção e a concepção normal da etnologia e do trabalho de campo é mais do que evidente. Lévi-Strauss empreendeu longas expedições, fisicamente penosas, pelo interior do Brasil. Tristes trópicos traz um relato detalhado de sua vida com vários grupos indígenas. Num dos casos, pode ter sido o primeiro contato com um homem branco desde alguns encontros casuais no século XVI. Suas anotações sobre a alimentação, os costumes sexuais e os artefatos dos índios eram disciplinadas e copiosas. Comeu comida bichada, passou sede nos grandes planaltos, percorreu entre tropeções a floresta virgem. Mas o foco, o enquadramento do diagnóstico, nunca foi o do antropólogo tradicional; diante dos elaborados desenhos faciais das mulheres kaduveu, nenhum “cientista” de campo concluiria que elas:

Nenhum psicólogo comportamental, observando as palhoças isoladas no interior brasileiro, afirmaria confiante que aqueles grupos de habitantes “desenvolveram várias formas de loucura” para conseguir enfrentar a chuva, a desnutrição e o abandono. Além disso, quando Lévi-Strauss atravessa os ermos lunares do interior, o que o fascina não é tanto a etnografia do grupo de nhambiquaras com que está viajando: é a relação do mundo ameríndio com a linha do telégrafo que se estende, semiabandonada, pelas vastidões estéreis diante deles.
O simbolismo é crucial. Como a famosa imagem de Joseph Conrad de uma canhoneira disparando tiros absurdos numa margem costeira da impenetrável floresta africana, a evocação da linha do telégrafo pelo Mato Grosso, em Lévi-Strauss, anuncia uma dúvida fundamental. Expressa as ilusões rapaces do homem branco e da tecnologia em suas relações com o mundo primitivo. Mas a rapacidade e as ilusões se estendem, e estão talvez manifestas com ironia ainda maior, na própria atividade da antropologia. A obsessiva percepção de Lévi-Strauss nesse ponto é, como ele mesmo ressalta, uma redescoberta: a natureza dúbia da abordagem antropológica, do estudo racional do homem como foi desenvolvido pelo Ocidente, já era evidente para Rousseau, o verdadeiro mestre de Lévi-Strauss. Apenas o homem ocidental — começando em Heródoto — gerou uma curiosidade sistemática sobre as outras raças e culturas; somente ele saiu para explorar os cantos mais remotos da terra em busca da classificação, da definição por contraste e comparação de sua própria superioridade. Mas essa busca, tantas vezes desinteressada e altruísta, levou consigo a conquista e a destruição. O pensamento analítico tem em si uma estranha violência. Conhecer analiticamente é reduzir o objeto de conhecimento, por mais complexo, por mais vital que possa ser, simplesmente a isto: um objeto. É desmembrar. Mais do que qualquer outro “conhecedor”, o antropólogo leva a destruição junto com ele. Nenhuma cultura primitiva sobrevive incólume à sua visitação. Mesmo os presentes que leva — medicamentosos, materiais, intelectuais — são fatais para as formas de vida, tal como as encontrou. A busca ocidental do conhecimento é, num sentido trágico, a exploração final.

É essa fatalidade que confere a Tristes trópicos seu registro elegíaco, até apocalíptico. “Uma civilização proliferante e demasiado agitada rompeu o silêncio dos mares para sempre.” Aonde quer que o viajante branco vá, ele encontra a desolação, os vestígios cruéis da pilhagem e da doença trazidas por suas conquistas anteriores. As tribos índias, as paisagens que o jovem Lévi-Strauss encontrou não eram edênicas, não eram “primitivas” em sentido puro. Encarnavam uma longa crônica de infecção, destruição ecológica e deslocamento forçado. O que tornava os povos da floresta inacessíveis não era tanto o isolamento geográfico ou o terreno acidentado. Era o fato brutal de que complexos grupos étnico-linguísticos, antes à vontade num amplo território, agora estavam reduzidos a poucos. “Até onde sei, ninguém voltou a ver os mundés desde minha visita, exceto uma missionária que encontrou um ou dois deles logo antes de 1950, no Guaporé de Cima, onde três famílias tinham procurado refúgio.” A dizimação é a culpa irreparável do homem branco. Mas não exclusivamente. Lévi-Strauss é um observador demasiado sutil, demasiado irônico para não sugerir que há na ruína das culturas primitivas um mecanismo ainda mais secreto de limitação, de uma inevitável inadequação. Os primeiros exploradores a chegar ao Brasil e à América Central encontraram civilizações que tinham “alcançado o pleno desenvolvimento e perfeição de que suas naturezas eram capazes”. A ressalva é obscura, mas vem tingida de um fatalismo quase calvinista.
Esse “calvinismo” (Lévi-Strauss, pessoalmente, preferia falar em “pessimismo schopenhaueriano”) gera sua própria alegoria punitiva. O que o etnógrafo encontrou em suas incursões amazônicas não foi o paraíso perdido, e sim uma paródia e uma destruição deliberada dos últimos pomares do Jardim do Éden. Era como se um homem, expulso do Jardim por ter colhido o fruto proibido da árvore do conhecimento — coleta essa que define sua eminência e solidão no mundo orgânico —, tivesse voltado furioso e começasse a arrancar todo e qualquer vestígio do Éden perdido que encontrasse em sua paisagem. Lévi-Strauss percebe na catástrofe ecológica, no tratamento assassino e, no entanto, também suicida que damos ao meio ambiente, muito mais do que mera ganância ou estupidez. O homem é possuído de alguma obscura fúria contra sua própria lembrança do Éden. Aonde quer que vá e encontre paisagens ou comunidades que parecem se assemelhar à sua imagem da inocência perdida, ele arremete e espalha destruição.
Assim, se Tristes trópicos é um dos primeiros clássicos da atual angústia ecológica, também é muito mais do que isso; em última análise, é uma alegoria moral-metafísica do fracasso humano. Avança numa arrogante melancolia até a imagem do globo — que se resfria, esvaziado da humanidade, purificado do lixo humano — que aparece na coda das “Mitológicas”. Há melodrama nessa antecipação, há certa pomposidade (e é uma bela e acertada coincidência que a cátedra que Lévi-Strauss irá ocupar dentro de poucas semanas na Academia Francesa seja a de Montherlant). Mas há também uma dor profunda e genuína. A “antropologia”, diz Lévi-Strauss concluindo Tristes trópicos, agora pode ser vista como “entropologia”: o estudo do homem se tornou o estudo da desintegração e da extinção certa. Não existe trocadilho mais sombrio na literatura moderna.
3 de junho de 1974

George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos

terça-feira, 28 de abril de 2026

Do rio ao mar | O Teatro Mágico

Essa não!

Lili teve conhecimento dos antípodas, na escola.
Logo que chegou em casa, começou a deitar sabença pra cima da cozinheira. Falou, falou, e, como visse que Sia Hortênsia não estava manjando nada, ergueu no ar o dedinho explicativo:
Imagine só que quando aqui é meio-dia lá na China é meia-noite!
Credo! Eu é que não morava numa terra assim...
Mas por que, Sia Hortênsia?
Uma terra onde o dia é de noite... Cruzes!

Mário Quintana, em Caderno H

Quarto capítulo — A Lição de Siqueleto




Uma vez mais Tuhair decide explorar os matos vizinhos. A estrada não traz ninguém. Enquanto a guerra não terminasse era mesmo melhor que nenhuma pessoa estradeasse por ali. O velho sempre repetia:
Alguma coisa, algum dia, há-de acontecer. Mas não aqui, emendava baixinho.
De facto, a única coisa que acontece é a consecutiva mudança da paisagem. Mas só Muidinga vê essas mudanças. Tuahir diz que são miragens, frutos do desejo de seu companheiro. Quem sabe essas visões eram resultado de tanto se confinarem ao mesmo refúgio. Por isso ele queria uma vez mais partir, tentar descobrir nem sabia o quê, uma réstia de esperança, uma saída daquele cerco.
Você quer sair, não é?
Quero, tio. Esta estrada está morta.
Esta estrada está morta!? Mas não entende que isso é muito bom, esta estrada estar morta é que nos dá boa segurança?
Mas nós, desta maneira, não vamos a lado nenhum...
Isso quer dizer que também aqui não chega ninguém.
O velho pondera: não valia a pena insistir. O melhor seria uma mentira, dessas tecidas pela bondade. Diria ao miúdo que aceitava partir. Depois fingiria afastar-se, enquanto andavam em círculos. Regressariam sempre ao machimbombo, à mesma estrada de onde haviam partido. Assim ele fizera desde a primeira vez que saíram da estrada.
Nessa tarde, o velho comanda uma dessas falsas viagens. Primeiro, seguem ao longo da picada. A estrada onde moram surge a Muidinga com novas vistas, parecendo pentear a savana, risco ao meio. Só depois derivam por atalhos e trilhos. No sossego da paisagem nenhuma coisa pedia urgência. Contudo, Muidinga não está tranquilo: sempre o susto espreita no farfalhar da folhagem, o segredar da morte, essa infatigável coscuvilheira. Vão pisando caminhos saudosos do pé de gente. Tuahir segue à frente, abrindo trilhos por onde depois o rapaz avança. De repente, o mundo desaba, o chão desaparece. Tuahir e Muidinga se abismalham, tombados numa enormíssima cova. É um desses buracos onde a noite se esconde com o rabo de fora.
Estamos onde, Tuahir?
Nem fale. Deve ser morada do sapo gigante, o tal comedor de escuro.
Ficam sentados, se acostumando ao nada. Depois, seus olhos lusco-focaram: havia uma rede cobrindo as paredes do buraco. Nenhum de ambos tem dúvida: estão dentro de uma armadilha. Só restava esperar. Conversam para distrair os maus espíritos que sempre aproveitam o silêncio para engordar intenções.
Sabe o que eu me estou a lembrar, tio? Lembro de Farida.
E quem é essa?
A mulher dos cadernos, apaixonada de Kindzu.
Tuahir sorri da confissão, cheio de idade. Sobre as mulheres ele, nos tempos, emitira opiniões que vinham do coração. Agora, nem tanto:
Há mulheres que são chuva, outras cacimbo. Essa tal Farida deve ser uma que vale a pena a gente se despentear com ela.
Muidinga vai fingindo que escuta, preocupado em estudar as paredes do buracão e avaliar modos de sair daquela prisão. O tempo passa sem solução e os dois adormecem, cada um para seu lado. Muidinga sonha, agitado. Lhe surgem, confusas, imagens de um tempo que ele nunca foi capaz de tocar. Muidinga se revê menino, saindo de uma escola. Mas nenhum rosto é legível, mesmo a escola não possui fachada. Confusas vozes lhe afluem: chamam por si! Lhe chamam um outro nome. Tenta desesperadamente entender esse nome. Mas os sons se desfocam, em eco de cacimbo. Depois, tudo se esfuma, anoitece dentro de seu sonho. Na manhã seguinte, o miúdo é o primeiro a acordar, o chão lhe doendo nas costas. Aquela noite lhe dera a certeza: os sonhos são cartas que enviamos a nossas outras, restantes vidas. Os cadernos de Kindzu não deveriam ter sido escritos por mão de carne e ossuda mas por sonhos iguais aos dele.
A manhã ainda balbucia, a luz pestaneja. Súbito, no meio do cacimbo, uma silhueta aparece. É figura de gente. Muidinga se satisfaz, chama o companheiro:
Acorda,Tuahir, nos vieram salvar!
Festejam a chegada do intruso. Dão os bons-dias mas não há resposta. O cacimbo se desfaz, ao sopro de uma brisa. O vulto então se esclarece: é um velho alto, torto, usando sobre o corpo nu uma gabardina comprida, maior que o seu tamanho. Um dos olhos permanece fechado enquanto o outro está aberto. O olho de serviço reveza-se, ora um ora outro. De vez em quando, tropeça no excesso da pouca roupa. Fica espreitando, demorado, incrédulo. Por fim, lhes lança uma rede. Ficam presos nas malhas, enredilhados como peixes. Então o velho os puxa, os dois vão ajudando com as pernas a subir, buraco acima. Saem mas ele não lhes solta. Traz a rede a arrastar pelo chão, os dois lá dentro, iguais aos bichos caçados. Quando por fim chegam a sua casa ele reforçou a rede com mais amarras. Encara os prisioneiros com um só olho enquanto fala na língua local. Tuahir traduz:
Ele diz que nos vai semear.
Semear?
Não sabe o que é semear? É isso que nos vai fazer. Ele quer companhia, quer que nasça mais gente.
O velho é doido, vai é matar a gente.
Tuahir então combina com o moço: se fingiriam doentes, estragados. Gemem, lançam feios cuspes e vómitos. Mas o velho nem se impressiona. Vai buscar uma lata, abana-a, tirando dela agudas estridências.
Meu nome é Siqueleto.
Depois ele se apresenta com sua estória. Enquanto fala vai sacudindo a lata como se acompanhasse uma canção. Daquele lugar todos se tinham ido embora, por motivo do terror. Os bandos assaltaram, mataram, queimaram. A aldeia foi ficando deserta, todos partiram, um após nenhum. A família lhe chamava o pensamento: venha connosco, já toda a gente foi embora! Assim lhe rogavam na hora da partida. Ele respondia:
Eu sou como a árvore, morro só de mentira.
E agora perante os dois inesperados visitantes ele repete as suas parecenças com as árvores que renascem cada ano. Tuahir acompanha com dificuldade, a ausência de dentes deforma as palavras do solitário aldeão.
Sou velho, já assisti muita desgraça. Mas igual como essa nunca eu vi. E abana a cabeça, pesaroso.
Estás triste, velho?, pergunta-lhe Tuahir.
Já não fico triste, só cansado.
Era por causa do cansaço que ele não abria os dois olhos de uma só vez. O idoso homem tinha, apesar de tudo, seus pensamentos futuros. Para ele só havia uma maneira de ganhar aquela guerra: era ficar vivo, teimando no mesmo lugar. Não desejava nenhuma felicidade, nem sequer se deliciar com doces lembranças. Lhe bastava sobreviver, restar como um guarda daquela aldeia em ruínas. Agora ele amaldiçoa os que tinham saído dali.
Satanhocos, hão-de comer poeira!
Fala com raiva, todo levantado. Depois, se zanga com os visitantes. Pontapina nas redes, insultando-os: vocês são fugistas, vosso mal está nos dentes. São os dentes que convidam a fome. É por isso eu tirei toda a dentaria. Estão aqui, nesta lata. Abana a lata ferrugenta, os dentes tintinam e ele sorri, satisfeito com o barulho.
É minha música, essa.
Prossegue seus lamentos: nos dias de hoje, os filhos mordem as mães quando ainda estão no ventre. Vejam a pedra em que me sento: parece morta, enquanto não, vive devagarinho, sem barulho. Como eu, conclui. Depois, se volta a zangar, manifestivo. O velho braceja, boca fora dos bofes.
Vão os dois para baixo da terra, satanhocas!
Muidinga, então, se excede. Grita. O velho aldeão se atenta para escutar, através da tradução de Tuahir. Por que motivo ele não recebia bem os visitantes como ordenavam as velhas leis hospitaleiras? De facto, responde o velho, não é assim a maneira da nossa raça. Antigamente quem chegava era em bondade de intenção. Agora quem vem traz a morte na ponta dos dedos.
O rapaz insiste em explicar seus motivos. As razões deles não eram iguais às dos que hoje cruzem os matos. Tuahir interrompe-o pedindo calma. Lento como um rosário desfia toda a estória, razão de estarem ali, requerendo tais ousadias. Nem Muidinga sabia de tais dotes em seu companheiro. Tuahir fala de um mundo que nem há, engraçando suas visões. Que a nossa terra se ia aquietar, todos se familiariam, moçambicanos. E nos visitaríamos, como nos tempos, roendo os caminhos sem nunca mais termos medo.
Verdade isso?, pergunta o desdentado.
Longe se ouvem tiros, a guerra continua a infligir seus estrondos. Tuahir prossegue, arrebatado: diz que ouviu falar de países ricos onde a gente já nem tem que cavar a terra: enterra-se a enxada, bem direito no chão. Do cabo brotam árvores, plantas cheias de verde.
Seremos assim também, sentenciou.
Mas o desdentado aldeão já anoitecera, queixo no peito. Seu mundo já era esse que Tuahir anunciara, de extensos sossegos. O próprio Muidinga está como se encantado com as palavras de Tuahir. Não é a estória que o fascina mas a alma que está nela. E ao ouvir os sonhos de Tuahir, com os ruídos da guerra por trás, ele vai pensando: “não inventaram ainda uma pólvora suave, maneirosa, capaz de explodir os homens sem lhes matar. Uma pólvora que, em avessos serviços, gerasse mais vida. E do homem explodido nascessem os infinitos homens que lhes estão por dentro”.
Tuahir se revela, por um instante, como um curandeiro amenizando o universo, seu paciente. E ali está o velho Siqueleto, sonecando em trégua de existir. Olhando o seu corpo abandonado dá vontade de sorrir como se faz ao contemplar o sono indefeso de uma criança. E os dois prisioneiros se entretêm a fabricar um tabaco, feito de folha que o velho deixara cair. Fumam com o gosto de serem eles mesmos o incenso, fumam como se em seus dedos esfumasse o tempo, como se não houvesse rede os aprisionando. Tuahir adivinhou a cabeça do rapaz:
Acreditaste em mim? Fizeste bem. Te dou um conselho: não confies em homem que não sabe mentir.
Foi então que, entre o lusco e o fusco, vêem chegar a hiena. Ao princípio, parece é nada, só um arrepio no capim, um suspiro do verde-escuro. Vai surgindo inteira, balançando as patas traseiras. Depois, se senta, sozinhando, espreitando o mundo de cá.
Sentem um aperto. Que vinha ali fazer aquele bicho sem aprumo, despromovido das traseiras? Trazer má sorte ao destino dos viventes, só podia ser esse o serviço desse animal. A hiena permanece parada, em vistoria dos cheiros. Depois, se encosta na própria sombra e, assim deitada, lambe os beiços. Faz medo ver-lhe à maneira de doméstica, nem besta se parecia. Os bichos temem o homem, desvizinham-se dele. Mas este, no entanto, deita no lugar exclusivo de gente.
O velho, entretanto, desperta. Vendo o espanto dos outros, esclarece a hiena: o bicho sentinelava sua vida. Ninguém me aproxima, sorri o velho enquanto acaricia a hiena que se enrosca, regalada. Aquele era o seu exército privado, segurança e guarda-corpo. Tuahir avisa, em segredo:
Não confia, miúdo. Aquilo nem hiena não é.
A noite vai descendo. O frio aperta enquanto se alarga um silêncio do tamanho da terra. Muidinga se queixa. Lhe dói o corpo da posição que a rede lhe obrigava, dobrado pelo umbigo. A dor, afinal, é uma janela por onde a morte nos espreita. Sucumbente, se encosta a Tuahir a buscar um quentinho. Mas o sono não lhe chega. Por um buraco da rede Muidinga consegue retirar um braço. Apanha um pau e escreve no chão.
Que desenhos são esses?, pergunta Siqueleto.
É o teu nome, responde Tuahir.
Esse é o meu nome?
O velho desdentado se levanta e roda em volta da palavra. Está arregalado. Joelha-se, limpa em volta dos rabiscos. Ficou ali por tempos, gatinhoso, sorrindo para o chão com sua boca desprovida de brancos. Depois, com voz descolorida trauteia uma canção. Parece rezar. Com aquela cantoria Muidinga acaba por adormecer. Não faz ideia quanto tempo dorme. Porque desperta em sobressalto: o brilho de uma lâmina relampeja frente a seus olhos. O velho Siqueleto armaneja uma faca.
Andam comigo!
Solta Tuahir e Muidinga das redes. São conduzidos pelo mato, para lá do longe. Então, frente a uma grande árvore, Siqueleto ordena algo que o jovem não entende.
Está mandar que escrevas o nome dele.
Passa-lhe o punhal. No tronco Muidinga grava letra por letra o nome do velho. Ele queria aquela árvore para parteira de outros Siqueletos, em fecundação de si. Embevecido, o velho passava os dedos pela casca da árvore. E ele diz:
Agora podem-se ir embora. A aldeia vai continuar, já meu nome está no sangue da árvore.
Então ele mete o dedo no ouvido, vai enfiando mais e mais fundo até que sentem o surdo som de qualquer coisa se estourando. O velho tira o dedo e um jorro de sangue repuxa da orelha. Ele se vai definhando, até se tornar do tamanho de uma semente.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

O impagável Laerte

Chuteira

Neto está amarrando suas chuteiras roxas, todo pimpão. Vê Aguinaga, do outro lado do vestiário, amarrando uma chuteira da mesma cor. Fecha o tempo. Vai falar com ele.
NETO Que porra é essa, Aguinaga?
AGUINAGA Do que é que você tá falando?
NETO Essa porra dessa chuteira roxa.
AGUINAGA Não gosta?
NETO Gosto, Aguinaga. Tanto gosto que eu venho usando chuteira roxa há um mês.
AGUINAGA Sério? Irado. Esse é o bonde da chuteira roxa, tum tchi tum tchi…
Aguinaga faz uma dancinha pra descontrair. Neto não acha a menor graça.
NETO Exatamente. É o bonde da chuteira roxa. Não é mais o cara da chuteira roxa.
Aguinaga tenta entender se Neto está falando sério.
NETO Não é mais: Neto? Qual Neto? Aquele da chuteira roxa. Ah, tá, o Neto é o da chuteira roxa. Você acha que alguém me conhece pelo nome?
AGUINAGA Nem pela chuteira roxa.
NETO Mas vai conhecer. Ou melhor, ia. Antes de eu ser só mais um chuteira roxa. Qual Neto? Aquele da chuteira roxa? Mas aquele não é o Aguinaga?
AGUINAGA Ninguém vai confundir. Eu sou do ataque. Você é da zaga.
NETO Eu sabia que isso iria surgir em algum momento.
AGUINAGA Não foi isso que eu quis dizer....
NETO É porque eu sou da zaga que eu não tenho direito de usar chuteira roxa?
AGUINAGA Você entendeu errado.
NETO Chuteira colorida é coisa de atacante! Zagueiro tem que usar chuteira preta! De preferência Kichute!
AGUINAGA Neto, ninguém repara nessas coisas!
NETO Em mim não repara. Mas em você vão reparar, porque você é o craque do time. E sabe o que é pior? Depois de reparar na sua vão reparar na minha, e achar que fui eu que copiei você, quando na verdade…
Neto ameaça chorar. Aguinaga traz ele pro abraço.
NETO … Eu já usava chuteira roxa antes de todo o mundo, antes do Cristiano Ronaldo, antes de virar moda.
AGUINAGA Virou moda?
NETO Mas ninguém reparou, sabe por quê? Porque eu sou só mais um zagueiro. E lesionado, na maior parte do tempo. Eu tô todo bichado, porra.
Neto chora.
AGUINAGA Relaxa, Neto! Passou. Tirei a chuteira, já. Tá?
NETO Não! Pode ficar. Deixa que eu tiro. Ela ficou muito melhor em você. Essa é toda a questão. Deixa que eu me viro, aqui.
AGUINAGA Sério?
NETO Vai lá! A torcida tá te chamando.
Aguinaga sai do vestiário, sob os gritos da torcida. Neto guarda sua chuteira roxa. Tira do armário um Kichute e veste, enxugando as lágrimas. Ergue a cabeça e entra em campo.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

1618 – Lima

Um porteiro de cor escura

Os amigos reviram suas capas puídas e varrem o chão com seus chapéus. Cumprida a mútua reverência, se elogiam:
Maravilha esse toco de braço!
E essa tua chaga? Está tremenda!
Atravessam junto o descampado, perseguidos pelas moscas. Conversam enquanto mijam, de costas para o vento.
Tempos sem te ver.
Corri feito mosca. Sofrendo, sofrendo.
Ai.
Laxartixa extrai do bolso uma bolacha dura, sopra, dá brilho e oferece a Pedepão. Sentados em uma pedra, contemplam as flores dos abrolhos.
Pedepão morde com todos os seus três dentes, e conta.
Na Auditoria, boas esmolas havia... O melhor lugarzinho de Lima. Me expulsaram a pontapés. Foi o porteiro.
Juan Ochoa?
Satanás, você quer dizer. Lá sabe meu Deus que eu não fiz nada.
Já não está Juan Ochoa.
Verdade?
O expulsaram feito cachorro. Já não é porteiro da Auditoria, nem nada.
Pedepão, vingado, sorri. Estica os dedos de seus pés descalços.
Por suas maldades, deve ter sido.
Não, não.
Por ser burro?
Não, não. Por ser filho de mulata e neto de negra. Por isso.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

domingo, 26 de abril de 2026

Spider-Noir | Trailer

O Guardador de Rebanhos

III

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.
Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas coisas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...
Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros…

Fernando Pessoa, em Poemas de Alberto Caeiro

A Arte de Portinari

São Francisco (1961), de Cândido Portinari

Máquina escrevendo

Sinto que já cheguei quase à liberdade. A ponto de não precisar mais escrever. Se eu pudesse, deixava meu lugar nesta página em branco: cheio do maior silêncio. E cada um que olhasse o espaço em branco, o encheria com seus próprios desejos.
Vamos falar a verdade: isto aqui não é crônica coisa nenhuma. Isto é apenas. Não entra em gênero. Gêneros não me interessam mais. Interessa-me o mistério. Preciso ter um ritual para o mistério? Acho que sim. Para me prender à matemática das coisas. No entanto, já estou de algum modo presa à terra: sou uma filha da natureza: quero pegar, sentir, tocar, ser. E tudo isso já faz parte de um todo, de um mistério. Sou uma só. Antes havia uma diferença entre escrever e eu (ou não havia? não sei). Agora mais não. Sou um ser. E deixo que você seja. Isso lhe assusta? Creio que sim. Mas vale a pena. Mesmo que doa. Dói só no começo.
Agora vou falar de umas verdades que me deixam espantada. É sobre bichos.
Uma pessoa que conheço disse que o siri, quando se lhe pega por uma perna, essa se solta para que o corpo todo não fique aprisionado pela pessoa. E que, no lugar dessa perna caída, nasce outra.
Outra pessoa que conheço estava hospedada numa casa e foi abrir a porta da geladeira para beber um pouco de água.
E viu a coisa.
A coisa era branca, muito branca. E, sem cabeça, arfava. Como um pulmão. Assim: para baixo, para cima, para baixo, para cima. A pessoa fechou depressa a geladeira. E ali perto ficou, de coração batendo.
Depois veio a saber do que se tratava. O dono da casa era perito em caça submarina. E pescara uma tartaruga. E lhe tirara o casco. E lhe cortara a cabeça. E pusera a coisa na geladeira para no dia seguinte cozinhá-la e comê-la.
Mas enquanto não era cozida, ela, sem cabeça, nua, arfava. Como um fole.
Já lhe falei aqui sobre tartarugas. Escrevi o seguinte: “Da lenta e empoeirada tartaruga carregando seu pétreo casco, não quero falar. Esse animal nos vem da Era Terciária, dinossáurico (quando escrevi dinossáurico não sabia que era mesmo, estava só adivinhando), não me interessa: é por demais estúpido, não entra em relação com ninguém, nem consigo próprio. É uma abstração. O ato de amor de duas tartarugas não deve ter calor nem vida. Sem ser cientista, aventuro-me a prognosticar que a espécie vai daqui a poucos milênios acabar.”
Esqueci-me de dizer que acho a tartaruga inteiramente imoral.
Alguém, adivinhando que era falso meu não interesse por tartarugas, emprestou-me um livrinho sobre elas, em inglês. Eis um trecho traduzido desse livrinho.
As tartarugas são répteis raros e antigos. Seus ancestrais apareceram pela primeira vez há uns 200 milhões de anos, muito antes que os dinossauros. Enquanto estes animais grandes há muito tempo se extinguiram, as tartarugas, com sua forma estranha e sem beleza, conseguiram sobreviver, e têm permanecido relativamente imutáveis pelo menos durante 150 milhões de anos.”
Sem o casco, sem a cabeça, arfando, para cima, para baixo, para cima, para baixo. Com vida.
Como compreender uma tartaruga? Como compreender Deus?
O ponto de partida deve ser: “Não sei.” O que é uma entrega total.
A máquina continua escrevendo. Por exemplo, ela vai escrever o seguinte: quem atinge um alto nível de abstração está em fronteira com a loucura. Que os grandes matemáticos e físicos o digam. Conheço um grande homem abstrato que faz de conta que é como todo mundo: come, bebe, dorme com a mulher, tem filhos. Assim ele se salva de se tornar um x ou uma raiz quadrada. Quando penso que, muito menina ainda, eu dava aulas particulares explicativas de matemática e português a ginasianos, mal acredito. Porque hoje seria incapaz de resolver uma raiz quadrada. Quanto a português, era com o maior tédio que eu dava as regras de gramática. Depois, felizmente, vim a esquecê-las. É preciso antes saber, depois esquecer. Só então se começa a respirar livremente.
Agora a máquina vai parar. Até sábado próximo.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Capítulo 46 – A Herança



Veja-nos agora o leitor, oito dias depois da morte de meu pai, – minha irmã sentada num sofá, – pouco adiante, o Cotrim, de pé, encostado a um consolo, com os braços cruzados e a morder o bigode, – eu a passear de um lado para outro, com os olhos no chão. Luto pesado. Profundo silêncio.
Mas afinal, disse Cotrim; esta casa pouco mais pode valer de trinta contos; demos que valha trinta e cinco...
Vale cinquenta, ponderei; a Sabina sabe que custou cinquenta e oito...
Podia custar até sessenta, tomou Cotrim; mas não se segue que os valesse, e menos ainda que os valha hoje. Você sabe que as casas, aqui há anos, baixaram muito. Olhe, se esta vale os cinquenta contos, quantos não vale a que você deseja para si, a do Campo?
Não fale nisso! Uma casa velha.
Velha! exclamou Sabina, levantando as mãos ao teto.
Parece-lhe nova, aposto?
Ora, mano, deixe-se dessas coisas, disse Sabina, erguendo-se do sofá; podemos arranjar tudo em boa amizade, e com lisura. Por exemplo, o Cotrim não aceita os pretos, quer só o boleeiro de papai e o Paulo...
O boleeiro não, acudi eu; fico com a sege e não hei de ir comprar outro.
Bem, fico com o Paulo e o Prudêncio.
O Prudêncio está livre.
Livre?
Há dois anos.
Livre? Como seu pai arranjava estas coisas cá por casa, sem dar parte a ninguém! Está direito. Quanto à prata... creio que não libertou a prata?
Tínhamos falado na prata, a velha prataria do tempo de Dom José I, a porção mais grave da herança, já pelo lavor, já pela vetustez, já pela origem da propriedade; dizia meu pai que o Conde da Cunha, quando vice-rei do Brasil, a dera de presente a meu bisavô Luís Cubas.
Quanto à prata, continuou o Cotrim, eu não faria questão nenhuma, se não fosse o desejo que sua irmã tem de ficar com ela; e acho-lhe razão. Sabina é casada, e precisa de uma copa digna, apresentável. Você é solteiro, não recebe, não...
Mas posso casar.
Para quê? interrompeu Sabina.
Era tão sublime esta pergunta, que por alguns instantes me fez esquecer os interesses. Sorri; peguei na mão de Sabina, bati-lhe levemente na palma, tudo isso com tão boa sombra, que o Cotrim interpretou o gesto como de aquiescência, e agradeceu-mo.
Que é lá? redargui; não cedi coisa nenhuma, nem cedo.
Nem cede?
Abanei a cabeça.
Deixa, Cotrim, disse minha irmã ao marido; vê se ele quer ficar também com a nossa roupa do corpo, é só o que falta.
Não falta mais nada. Quer a sege, quer o boleeiro, quer a prata, quer tudo. Olhe, é muito mais sumário citar-nos a juízo e provar com testemunhas que Sabina não é sua irmã, que eu não sou seu cunhado, e que Deus não é Deus. Faça isto, e não perde nada, nem uma colherinha. Ora, meu amigo, outro ofício!
Estava tão agastado, e eu não menos, que entendi oferecer um meio de conciliação: dividir a prata. Riu-se e perguntou-me a quem caberia o bule e a quem o açucareiro; e depois desta pergunta, declarou que teríamos tempo de liquidar a pretensão, quando menos em juízo. Entretanto, Sabina fora até janela que dava para a chácara, – e depois de um instante, voltou, e propôs ceder o Paulo e outro preto, com a condição de ficar com a prata; eu ia dizer que não me convinha, mas o Cotrim adiantou-se e disse a mesma coisa.
Isso nunca! não faço esmolas! disse ele.
Jantamos tristes. Meu tio cônego apareceu para sobremesa, e ainda presenciou uma pequena altercação.
Meus filhos, disse ele, lembrem-se que meu irmão deixou um pão bem grande para ser repartido por todos.
Mas o Cotrim:
Creio, creio. A questão, porém, não é de pão, é de manteiga. Pão seco é que eu não engulo.
Fizeram-se finalmente as partilhas, mas nós estávamos brigados. E digo-lhes, que ainda assim, custou-me muito a brigar com Sabina. Éramos tão amigos! Jogos pueris, fúrias de crianças, risos e tristezas da idade adulta, dividimos muita vez esse pão da alegria e da miséria, irmamente, como bons irmãos que éramos. Mas estávamos brigados. Tal qual a beleza de Marcela, que se esvaiu com as bexigas.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Homem de visão na Vila



Foi na última festa junina do 257, Rua dos Artistas.
O balão deu prego, foi escorado pelos fios (pauta musical do Orestes) e todo mundo achou que o danado se acabaria devagarinho quando o mundo estourou feito pluma, a luz apagou, as crianças gritaram... Aquele poeta que há muito tempo não dava o ar da sua graça, um que era meio maluco, misturou as lanterninhas:
Esse troço foi no meu peito.
Trouxeram o lampião de querosene. O poeta deu de mostrar um três por quatro e um papel amarrotado. Ninguém acreditava, ninguém levava a sério:
De quem será que ele roubou esse retrato?
Tão moça, de olhinho claro, não ia gostar desse traste…
Que solidão, né, menina? Ter que inventar uma namorada,tsc,tsc...
Ele ficava olhando o retrato e falava sozinho:
Tô decorando ela, tô decorando elazinha... Vou botar esse papel com os nomes pra São João decidir. O que ficar mais orvalhado...
Ceceu Rico, o cético da rua, cuspiu na fogueira:
Cada vez mais tantã. Isso que ele tá falando é samba-canção do Lupicínio.
Não cospe na fogueira que tu fica seco.
A Lua apareceu de caipira, as manchas escuras feito sorriso onde falta dente ou bigode de rolha queimada. O festival de comiseração continuou:
Dá um pouco de quentão pro coitado.
Dá não. Ele ficou assim por causa da bebida.
Que isso? Sujeito só bebe que nem ele quando sente a agonia do peru de véspera, cumpadre. Bebida só mata quando o tira-gosto é tristeza.
Isso parece frase dele.
Pô, não sei se agradeço ou se fico ofendido.
Velho dilema de quem é amigo de poeta.
Dançaram a quadrilha. Tuninho Sorvete chamuscou de novo as calças remendadas na fogueira. Meu avô Aguiar prendeu as rodinhas no cabo de vassoura. Um buscapé matreiro beijou a bunda da Isolda. Nunca se viu tanto voluntário pro Corpo de Bombeiros. Ela rebolou mais que Rainha do Bafo da Onça. Fagulha pra todo lado. Penteado deu um gole na branquinha e gozou o rescaldo:
A calça dela ficou entre dois fogos...
Lindauro não tirava a mão do hidrante e a Deysinha abriu a torneira:
O balão lambe e tu é que fica com a língua de fora, otário.
Não chacoalha, tá? Manjo teu repertório. Tás na bronca porque tua bucha anda pingando muito breu.
Tu fala de boca-cheia, Lindauro. Peraí que eu vou apanhar uns amendoins pra tua tromba. Tás precisando...
Ah, vai tomar no...
Tomate cru é na salada, teu cu é pra garotada.
Nem Santo Antônio, o casamenteiro calhorda, pacificaria aquele Oriente Médio. Mas o tal poeta, com certeza por ser meio maluco, pegou o violão e cantou como se estivesse no sonhado Papel Carbono, ao lado da inesquecível missiméri:

Tenho certas manchas no passado,
outras hei de ver no teu pescoço...
Ah,eu queria ser moço
pra dizer à mocidade
que ela brinca de “já era”
mas o que era hoje é você.
Um tremor rindo na boca de criança
que não esconde mais a fêmea e
o que ela quer.
Nada é mais profundo e verdadeiro
que o desejo solto na mulher.
Não adianta fugir desse encontro,
Não adianta evitar meu caminho
somos ambos cobra, ambos passarinho.
Meu fascínio é você que gera.
Teu olhar me enreda,
pago na mesma moeda,
minha bela fera.

Deu um branco momentâneo na festa e no texto.
O pessoal há havia virado poema do Manuel Bandeira, todos deitados dormindo profundamente, quando uma espécie de fada tocou a campainha — ninguém ouviu! —, fez carinho no bêbado — ninguém viu! — e voltou pro céu num bojo enorme, meio tangerina, meio charuto, com uma alegoria que lembrava a metade de um coração, ou a letra C, ou um pedaço de serpentina, ou uma estrela cadente, sei lá...
No meio da noite despertei, fui pra varanda olhar o céu e sou a única testemunha de tudo.
Mas acreditem, não me levem a sério, que eu também costumo beber e sonhar acordado.

Aldir Blanc, em Vila Isabel, inventário da infância