28/06/2026
Um homem doente faz a oração da manhã
Pelo sinal da Santa Cruz,
chegue até Vós meu ventre dilatado
e Vos comova, Senhor, meu mal sem
cura.
Inauguro o dia, eu que a meu crédito
explico
que passei em claro a treva da noite.
Escutei — e é quando às vezes
descanso —
vozes de há mais de trinta anos.
Vi no meio da noite nesgas claríssimas
de sol.
Minha mãe falou,
enxotei gatos lambendo
o prato da minha infância.
Livrai-me de lançar contra Vós
a tristeza do meu corpo
e seu apodrecimento cuidadoso.
Mas desabafo dizendo:
que irado amor Vós tendes.
Tem piedade de mim,
tem piedade de mim
pelo sinal da Vossa Cruz,
que faço na testa, na boca, no
coração.
Da ponta dos pés à cabeça,
de palma à palma da mão.
Adélia Prado, em Bagagem
1629 – Margens do Bío-Bío
Putapichun
Depois de pouco andar, veem chegando
uma multidão da distante cordilheira. Maulicán dá com os
calcanhares em seu cavalo e adianta-se ao encontro do cacique
Putapichun.
Os da cordilheira também trazem um
prisioneiro, que vem tropeçando entre os cavalos, com uma corda ao
pescoço.
No alto de uma colina rasa, Putapichun
crava sua lança de três pontas. Faz desamarrar o prisioneiro e
atira um galho aos seus pés.
– Diga o nome dos capitães mais
valentes do teu exército.
– Não os conheço – gagueja o
soldado.
– Diga um nome – ordenou
Putapichun.
– Não lembro.
– Um.
E diz o nome do pai de Francisco.
– Outro.
E diz outro. A cada nome, deve quebrar
um ramo do galho. Francisco assiste à cena com os dentes apertados.
O soldado diz o nome de doze capitães: tem doze pauzinhos na mão.
– Agora, cava um buraco.
O prisioneiro atira no fundo os
pauzinhos, um por um, repetindo os nomes.
– Atira terra. Cobre esses paus.
Então, sentenceia Putapichun:
– Já estão enterrados os doze
valentes capitães.
E o verdugo faz despencar sobre o
prisioneiro o bastão eriçado de pregos.
Arrancam seu coração. Oferecem a
Maulicán o primeiro sorvo de sangue. A fumaça do tabaco flutua no
ar, enquanto o coração passa de mão em mão.
Depois Putapichun, veloz na guerra e
lento na fala, diz a Maulicán:
– Viemos comprar o capitão que você
leva. Sabemos que é filho de Álvaro, o grande chefe por quem nossas
terras tremeram.
Oferece-lhe uma de suas filhas, cem
ovelhas de Castilha, cinco lhamas, três cavalos com sela lavrada e
vários colares de pedras ricas:
– Com tudo isso, pode-se pagar dez
espanhóis e ainda sobra.
Francisco engole saliva. Maulicán
olha para o chão. Depois, diz:
– Antes, devo levá-lo para que meu
pai o veja, e também os outros chefes da comarca de Repocura. Quero
mostrar-lhes esta prenda de meu valor.
– Esperaremos – aceita Putapichun.
“Anda a minha vida nascendo de morte
em morte”, pensa Francisco. Zunem seus ouvidos.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
Capítulo 59 – Um Encontro
Deve ser um vinho bem enérgico a
política, dizia eu comigo, ao sair da casa de Lobo Neves; e fui
andando, fui andando, até que na rua dos Barbonos vi uma sege, e
dentro um dos ministros, meu antigo companheiro de colégio.
Cortejamo-nos afetuosamente, a sege seguiu, e eu fui andando...
andando... andando...
– Por que não serei eu ministro?
Esta ideia, rútila e grande, –
trajada ao bizarro, como diria o padre Bernardes, – esta idéia
começou uma vertigem de cabriolas e eu deixei-me estar com os olhos
nela, a achar-lhe graça. E não pensei mais na tristeza de Lobo
Neves; senti a atração do abismo. Recordei aquele companheiro de
colégio, as correrias nos morros, as alegrias e travessuras, e
comparei o menino com o homem, e perguntei a mim mesmo por que não
seria eu como ele. Entrava então no Passeio Público, e tudo me
parecia dizer a mesma coisa. – Por que não serás ministro, Cubas?
– Cubas, por que não serás ministro de Estado?
Ao ouvi-lo, uma deliciosa sensação
me refrescava todo o sistema. Entrei, fui sentar-me num banco, a
cavar comigo aquela ideia. E Virgília que havia de gostar! Alguns
minutos depois vejo encaminhar-se para mim uma cara, que me não
pareceu desconhecida. Conhecia-a, fosse donde fosse. Imaginem um
homem de trinta e oito a quarenta anos, alto, magro e pálido. As
roupas, salvo o feitio, pareciam ter escapado ao cativeiro de
Babilônia; o chapéu era contemporâneo do de Gessler. Imaginem
agora uma sobrecasaca mais larga do que pediam as carnes, – ou,
literalmente, os OSSOS da pessoa; a cor preta ia cedendo o passo a um
amarelo sem brilho; o pêlo desaparecia aos poucos; dos oito
primitivos botões restavam três. As calças, de brim pardo, tinham
duas fortes joelheiras, enquanto as bainhas eram roldas pelo tacão
de um botim sem misericórdia nem graxa. Ao pescoço flutuavam as
pontas de uma gravata de duas cores, ambas desmaiadas, apertando um
colarinho de oito dias. Creio que trazia também colete, um colete de
seda escura, roto a espaços, e desabotoado.
– Aposto que me não conhece, Senhor
Doutor Cubas? disse ele.
– Não me lembra...
– Sou o Borba, o Quincas Borba.
Recuei espantado... Quem me dera agora
o verbo solene de um Bossuet ou de Vieira, para contar tamanha
desolação!
Era o Quincas Borba, o gracioso menino
de outro tempo, o meu companheiro de colégio, tão inteligente e
abastado. O
Quincas Borba! Não; impossível; não
pode ser. Não podia acabar de crer que essa figura esquálida, essa
barba pintada de branco, esse maltrapilho avelhentado, que toda essa
ruína fosse o Quincas Borba. E era. Os olhos tinham um resto da
expressão de outro tempo, e o sorriso não perdera certo ar
escarninho, que lhe era peculiar. Entretanto, ele suportava com
firmeza o meu espanto. No fim de algum tempo arredei os olhos; se a
figura repelia, a comparação acabrunhava.
– Não é preciso contar-lhe nada,
disse ele enfim; o senhor adivinha tudo. Uma via de misérias, de
atribulações e de lutas. Lembra-se das nossas festas, em que eu
figurava de rei? Que trambolhão! Acabo mendigo...
E alçando a mão direita e os ombros,
com um ar de indiferença, parecia resignado aos golpes da fortuna, e
não sei até se contente. Talvez contente. Com certeza, impassível.
Não havia nele a resignação cristã, nem a conformidade
filosófica.
Parece que a miséria lhe calejara a
alma, a ponto de lhe tirar a sensação da lama. Arrastava os
andrajos, como outrora a púrpura: com certa graça indolente.
– Procure-me, disse eu, poderei
arranjar-lhe alguma coisa.
Um sorriso magnífico lhe abriu os
lábios. – Não é o primeiro que me promete alguma coisa, replicou,
e não sei se será o último que não me fará nada. E para quê? Eu
nada peço, a não ser dinheiro; dinheiro sim, porque é necessário
comer, e as casas de pasto não fiam. Nem as quitandeiras. Uma coisa
de nada, uns dois vinténs de angu, nem isso fiam as malditas
quitandeiras... Um inferno, meu... ia dizer meu amigo... Um inferno!
o diabo! todos os diabos! Olhe, ainda hoje não almocei.
– Não?
– Não; sai muito cedo de casa. Sabe
onde moro? No terceiro degrau das escadas de São Francisco, à
esquerda de quem sobe; não precisa bater na porta. Casa fresca,
extremamente fresca. Pois saí cedo, e ainda não comi...
Tirei a carteira, escolhi uma nota de
cinco mil-réis, – a menos limpa, – e dei-lha. Ele recebeu-ma com
os olhos cintilantes de cobiça. Levantou a nota ao ar, e agitou-a
entusiasmado.
– In hoc signo vinces!
bradou.
E depois beijou-a, com muitos ademanes
de ternura, e tão ruidosa expansão, que me produziu um sentimento
misto de nojo e lástima. Ele, que era arguto, entendeu-me; ficou
sério, grotescamente sério, e pediu-me desculpa da alegria, dizendo
que era alegria de pobre que não via, desde muitos anos, uma nota de
cinco mil-réis.
– Pois está em suas mãos ver
outras muitas, disse eu.
– Sim? acudiu ele, dando um bote
para mim.
– Trabalhando, conclui eu.
Fez um gesto de desdém; calou-se
alguns instantes; depois disse-me positivamente que não queria
trabalhar. Eu estava enjoado dessa abjeção tão cômica e tão
triste, e preparei-me para sair.
– Não vá sem eu lhe ensinar a
minha filosofia da miséria, disse ele, escarranchando-se diante de
mim.
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas
Supersede
O acadêmico, ilustre, que me
distingue com sua intimidade, estava apreensivo. Interpelei-o:
— Que que há, mestre? Em dia tão
fausto para a Academia, o senhor com esta cara!
— Fausto? Tens certeza? Deus te
ouça, meu filho. Mas tenho cá as minhas nuvens.
— Nuvens?
— Os meus receios.
— Vamos ver se adivinho. Acha que a
supersede… não vai dar renda compensadora?
— Vai dar, e fantástica.
— Tem medo, talvez, de que a
construção, assim gigantesca, não seja bastante segura.
— Aquilo? Aquilo é obra para
séculos.
— Então não entendo. A Academia
assina contrato para levantar um senhor edifício, as firmas
contratantes são as mais idôneas, o imóvel encherá de dinheiro a
instituição, que tem ótimo executivo, e o mestre me sai com esse
ar de quem não comeu e não gostou?
— Por isso mesmo. É bondade demais,
Carlos. Uma coisa assim não existe.
— Não existe, como? Tem terreno de
três mil e quinhentos metros quadrados, oferecido pelo marechal
Castelo Branco e doado pelo Congresso Nacional, tem financiamento no
valor de quinze milhões de dólares, tem projeto bacana de Maurício
Roberto, o contrato será firmado hoje, e vai me dizer que isso não
existe?
— Existe em demasia, o que é
maneira de não existir, de virar conto de Onássis e perturbar a
cabeça da gente.
— Desculpe, mestre, mas o senhor não
estará cultivando complexo de franciscano?
— Não me compreendes, estou vendo.
Não é de admirar. A faculdade de compreensão vai minguando à
medida que se expandem os meios de comunicação. És um, entre
milhões, a prová-lo.
— Perdão, eu…
— Cala e escuta. A Academia atrai ou
não atrai os homens e até as mulheres de letras?
— Realmente.
— E que é a Academia? O fardão, o
espadim, o colar, a poltrona azul e ouro, a cajuada, o jeton que não
dá para pagar a despesa de viver durante um mês, a sepultura e,
principalmente, se não laboro em erro, e se não mentiu Machado, “a
glória que fica, eleva, honra e consola”. Se com apenas isso, que
não é muito, ela se faz tão cobiçada, imagina como vai ser daqui
por diante, com o seu império imobiliário.
— Ora!
— É o que te digo. Todo mundo, mas
todo mundo mesmo, querendo participar do condomínio de quarenta
andares, da renda dos escritórios e dos seis andares de garagem.
Noite e dia, gente de olho no reumatismo, no colesterol, no diabete
da gente… É sinistro.
— Não ligue. Faça figa.
— Eu faço, mas adianta? E os
despachos em sentido adverso? A descaridade dos que desejarão a
minha vaga, sinônimo de minha morte? Cada sorriso, um punhal; cada
blandícia, um pavê envenenado. É o que iremos lucrar, entrando na
área da grande empresa.
— Com a renda, ouço dizer, se
custearão empreendimentos culturais.
— Sobre as nossas campas, abertas
antes da hora. E imaginas que iremos produzir mais, com a burra cheia
de pecúnia? Nosso tempo será todo absorvido com pedidos de empenho
para alugar a melhor loja, o escritório de vista mais panorâmica.
Nossas letras serão de preferência as imobiliárias, de câmbio e
do Tesouro. Manteremos um plantão na Bolsa de Valores. Outro no BNH.
Cibulares e Marcelo serão nossos assessores para a avaliação das
obras, perdão, dos títulos dos candidatos à imortalidade. E as
leis fiscais, os problemas de Imposto de Renda e quejandos não nos
deixarão dormir, quanto mais escrever ensaios ou rapsódias.
— Mestre…
— Em quê? Em investimentos? Em
construção civil? Em juros? Não sou mestre de coisíssima alguma,
sou um condenado à riqueza, uma vítima da prosperidade. O Athayde
vai se ver comigo na próxima sessão! O diabo é que não consigo
brigar com ele. Ninguém consegue. Leva a gente na conversa, no
aveludado. E acabará me nomeando administrador do superedifício,
presta atenção no que eu estou falando!
Disse, e vestiu-se com esmero para a
solenidade de assinatura do contrato.
Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica
26/06/2026
Lugarzinho
Eu conheço UM lugarzinho...
Quantas vezes você já não ouviu
esta frase? Dita por pessoas que conhecem todos os lugares óbvios
que você também conhece mas conhecem um que você não pode
conhecer, porque ninguém conhece, só elas? O curioso é que é
sempre um lugarzinho, nunca é um lugar grande ou apenas um lugar. Há
pessoas que ostentam lugarzinhos como outras ostentam riqueza.
Especializam-se em lugarzinho, têm a volúpia do lugarzinho, só
para poderem nos impressionar depois.
Nem sempre a frase é dita com a
intenção de humilhar quem talvez tenha passado pelo lugarzinho —
o barzinho, o restaurantezinho, o hotelzinho, a cidadezinha, às
vezes até o paizinho — sem se dar conta.
— Vai dizer que você esteve em
Luxemburgo e não visitou Luxemburguette, o único país do mundo que
é só uma esquina?!
Pode haver o sincero desejo de
compartilhar uma descoberta. Devo muitos prazeres a indicações de
amigos de lugarzinhos que não estão nos guias e nos caminhos
normalmente percorridos, como o restaurante L’Hangar, em Paris,
impossível de ser localizado por acaso, já que fica num “impasse”,
uma rua que não leva a lugar nenhum. O Hangar, segundo o informante,
pertence ao filho da escritora Marguerite Duras, que (uma
característica de quem conhece lugarzinhos é conhecer também as
fofocas exclusivas dos lugarzinhos) não se dá com a mãe. Fica no
“impasse” Berthaud, que sai da avenida Beaubourg, bem perto do
Centre Pompidou, também chamado de o mausoléu do Robocop. Não
importa o que você pedir como prato principal no Hangar, não deixe
de pedir, como sobremesa, o demi-cuit, uma espécie de pudim de
chocolate cujo segredo do sucesso é vir para a mesa segundos antes
de ficar pronto.
Coisas de lugarzinhos.
O melhor de conhecer lugarzinhos, no
entanto, é poder dar inveja a quem não os conhece. Eu mesmo já
descobri a minha cota de lugarzinhos e os ostento sem misericórdia.
Vai dizer que você já andou pela região do Périgord, na França,
e não foi a Collonge-la-rouge, uma cidadezinha medieval toda da
mesma cor vermelha? Pobre de você. Quando for, coma omelettes com
trufas negras no Relais Saint-Jacques de Compostelle, que tem este
nome porque Collonge ficava na rota de peregrinação para Santiago
de Compostella, no norte da Espanha. Se quiser, use o meu nome quando
pedir as omelettes. Elas virão perfeitas. É verdade que se não
usar o meu nome elas também estarão perfeitas, pois ninguém saberá
de quem você está falando, mas que diabo.
Há casos em que o lugarzinho não é
nada do que disseram. Casos em que houve mais ficção e desejo de
arrasar você do que verdade na descrição do lugarzinho. Falaram do
ambiente aconchegante e do garçom engraçado mas esqueceram de dizer
que o bife tanto pode ser comido como usado para calçar a mesa. Ou
então a sua experiência simplesmente não reproduz a experiência
de quem indicou o lugarzinho, e naquele hotelzinho rústico tão
elogiado e recomendado lhe botam num quarto já ocupado, por um rato,
e depois ainda cobram a ocupação dupla. E existe o fato inescapável
de que o mesmo lugar pode ser, para alguns, um autêntico lugarzinho,
com todas as conotações de revelação e boas surpresas do termo, e
para outros um lugarzinho no sentido de porcaria.
Uma versão: “Chegamos a esta
cidadezinha maravilhosa que não está nem no mapa e em que nenhuma
casa tinha menos de 400 anos e a Margarida perguntou para um amor de
velhinho ‘dove é il vecê’ e ele não entendia, e chamou toda a
família dele e ninguém entendia, depois juntou toda a cidade e
ninguém entendia, até que veio o prefeito, que sabia inglês, e a
Margarida perguntou ‘where is the vee cee?’ e o prefeito
perguntou ‘What?’ e então a Margarida começou a fazer barulho
de xixi, ‘ssshhh, ssshhh’ e o prefeito perguntou ‘What?’ de
novo, só que baixinho, e aí nós caímos na risada, e a Margarida
riu tanto que só continuou perguntando onde era o banheiro por
farra, porque não precisava mais, foi tão simpático!”
Outra versão: “Chegamos a este
lugar caindo aos pedaços, não sei por que eles gostam tanto de
velharia, e imagina que ninguém sabia o que era WC, a Margarida
apertada tendo que perguntar para um monte de ignorantes que não
falavam língua nenhuma onde era, até que apareceu o manda-chuva,
eles devem eleger o mais ignorante como prefeito, que só complicou
mais as coisas e no fim não adiantava mais, coitada da Margarida.
Mas o que se pode esperar de uma cidade que não está nem no mapa?”
Mortal, no entanto, é quando o
lugarzinho é usado como arma numa competição de vaidades
turísticas.
— Nós fomos jantar no Tour D’Argent
e...
— Não me diga que vocês foram ao
Tour D’Argent e não foram ao Petit Tour.
— O quê?
— O Petit Tour. Um lugarzinho que
nós descobrimos. Fica do lado!
— Nunca ouvi falar.
— Eles não querem muita propaganda.
Cabeça a minha. Devia ter avisado vocês...
— É bom?
— Está brincando? É onde os
cozinheiros do Tour D’Argent vão comer, depois de enganarem os
turistas.
Claro que o Petit Tour não existe.
Pelo menos, não que eu saiba. Mas para quem usa o lugarzinho como
arma, o efeito é mais importante do que a verdade.
A coisa às vezes chega ao exagero.
— O Louvre é espetacular, não é?
— É. Mas ao lado do Louvre tem UM
museuzinho...
O que pode deixar o outro com a
incômoda suspeita de que viu a Mona Lisa errada.
O lugarzinho tem que ser, antes de
mais nada, desconhecido, ou só conhecido por uma minoria
privilegiada, ou — para ser um lugarzinho ainda mais lugarzinho —
só conhecido por uma minoria do lugar. Seu charme não pode ser
intencional. Isto é, o lugarzinho não pode saber que tem charme,
senão não é mais lugarzinho. E como os meteoritos, que só são
detectados no céu quando se desintegram, os lugarzinhos só são
descobertos pouco antes de deixarem de ser, pois a própria
descoberta determina a perda das credenciais de lugarzinho. Se alguém
o recomendou a você, e você, claro, não vai perder a oportunidade
de também poder dizer “Eu conheço UM lugarzinho...” a outros,
não demorará muito antes que o lugarzinho passe a ser frequentado
só por pessoas atrás de lugarzinhos. Perderá toda a
espontaneidade. Os preços aumentarão e é possível que o próprio
lugar também aumente, perdendo o direito ao diminutivo. Se o encanto
do lugarzinho era o menu escrito a giz num quadro-negro, e errado, na
sua visita seguinte você descobrirá que eles estão errando a
grafia dos pratos de propósito e em pouco tempo estarão vendendo
pôsteres com “o nosso famoso menu mal escrito”. E é
fácil prever o que acontecerá depois. Você dirá para alguém,
convencido de que está abafando:
— Eu conheço UM lugarzinho...
E ouvirá:
— Não, não. Esse eu conheço. Não
dá mais para ir lá. Agora, do lado dele tem UM lugarzinho…
Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora
Sobre escrever
Às vezes tenho a impressão de que
escrevo por simples curiosidade intensa. É que, ao escrever, eu me
dou as mais inesperadas surpresas. É na hora de escrever que muitas
vezes fico consciente das coisas, das quais, sendo inconsciente, eu
antes não sabia que sabia.
Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida
Factótum
14
Meu pai chegou com os trinta dólares
à noite. Ao sairmos, os olhos dele estavam marejados.
— Você arruinou os seus pais —
disse. Parece que eles conheciam um dos policiais que lhe perguntou:
“Sr. Chinaski, o que seu filho está fazendo aqui?”.
— Eu fiquei tão envergonhado. Nunca
poderia imaginar o meu próprio filho preso.
Fomos até o carro dele e entramos.
Ele arrancou. Ainda estava chorando.
— Já é ruim o suficiente você não
querer servir o próprio país na guerra…
— O psicólogo disse que eu era
inadequado.
— Meu filho, se não fosse pela
Primeira Guerra Mundial, eu nunca teria conhecido sua mãe e você
nunca teria nascido.
— Tem cigarro?
— Agora você foi preso. Uma coisa
dessas poderia matar sua mãe.
Passamos por alguns bares baratos na
baixa Broadway.
— Vamos entrar e beber alguma coisa.
— O quê? Você quer dizer que teria
coragem de beber logo depois de sair da cadeia por embriaguez?
— É justamente quando mais se
precisa de uma bebida.
— Não ouse contar para sua mãe que
você queria beber logo depois de sair da cadeia — ele me alertou.
— Preciso dar umazinha também.
— Quê?
— Eu disse que também preciso dar
umazinha.
Ele quase passou o sinal vermelho.
Seguimos em silêncio.
— A propósito — disse ele, enfim
—, acho que você sabe que a multa da prisão será adicionada ao
seu quarto, comida e roupa lavada, né?
Charles Bukowski, em Factótum
Angústia
[…]
Se pudesse, abandonaria tudo e
recomeçaria as minhas viagens. Esta vida monótona, agarrada à
banca das nove horas ao meio-dia e das duas às cinco, é estúpida.
Vida de sururu. Estúpida. Quando a repartição se fecha, arrasto-me
até o relógio oficial, meto-me no primeiro bonde de Ponta-da-Terra.
Que estará fazendo Marina? Procuro
afastar de mim essa criatura. Uma viagem, embriaguez, suicídio...
Penso no meu cadáver, magríssimo,
com os dentes arreganhados, os olhos como duas jabuticabas sem casca,
os dedos pretos do cigarro cruzados no peito fundo.
Os conhecidos dirão que eu era um bom
tipo e conduzirão para o cemitério, num caixão barato, a minha
carcaça meio bichada. Enquanto pegarem e soltarem as alças,
revezando-se no mister piedoso e cacete de carregar defunto pobre,
procurarão saber quem será o meu substituto na diretoria da
fazenda.
Enxoto as imagens lúgubres. Vão e
voltam, sem vergonha, e com elas a lembrança de Julião Tavares.
Intolerável. Esforço-me por desviar o pensamento dessas coisas. Não
sou um rato, não quero ser um rato. Tento distrair-me olhando a rua.
À medida que o carro se afasta do
centro sinto que me vou desanuviando. Tenho a sensação de que viajo
para muito longe e não voltarei nunca. Do lado esquerdo são as
casas da gente rica, dos homens que me amedrontam, das mulheres que
usam peles de contos de réis. Diante delas, Marina é uma ratuína.
Do lado direito, navios. Às vezes há diversos ancorados. Rolam
bondes para a cidade, que está invisível, lá em cima, distante.
Vida de sururu.
Há quinze anos era diferente. O
barulho dos bondes não deixava a gente ouvir o sino da igreja. O meu
quarto, no primeiro andar, era um inferno de calor. Por isso, à hora
em que os outros hóspedes iam para a escola, estudar medicina, eu
dava um salto ao Passeio Público e lia, debaixo das árvores, o
noticiário da polícia. Naturalmente a pensão se fechou e d.
Aurora, que naquele tempo era velha, morreu.
O calor aqui também é grande demais.
E faltam plantas. Apenas, um pouco afastados, coqueiros macambúzios,
perfilados, como se esperassem ordens.
Cidade grande, falta de trabalho. O
meu quarto ficava junto à escada, e à noite o cheiro do gás era
insuportável. Quando escurecia, Dagoberto, estudante e repórter,
vinha despejar sobre a minha cama um compêndio de anatomia e uma
cesta de ossos.
O bonde chega ao fim da linha, volta.
Bairro miserável, casas de palha, crianças doentes. Barcos de
pescadores, as chaminés dos navios, longe.
D. Aurora, que tinha sobrenome inglês,
às seis horas encostava-se ao guarda-louça e rosnava, agitava os
caracóis brancos, pregava os óculos nos hóspedes que comiam demais
e nos que estavam em atraso. Havia um rapaz de Minas, dispéptico,
que ela adorava e queria casar com a neta. Enquanto os outros
mastigavam, Dagoberto esquecia o prato e falava sobre os discursos da
câmara.
Retorno à cidade. Os globos opalinos
do Aterro iluminam o gramado murcho e a praia branca. Os coqueiros
empertigados ficam para trás. Penso numa ditadura militar, em
paradas, em disciplina. Os navios também ficam para trás. A pensão,
o meu quarto abafado, o focinho de d. Aurora e a cesta de ossos de
Dagoberto somem-se.
O carro passa pelos fundos do tesouro.
É ali que trabalho. Ocupação estúpida e quinhentos mil-réis
de ordenado.
Rua do Comércio. Lá estão os grupos
que me desgostam. Conto as pessoas conhecidas: quase sempre até os
Martírios encontro umas vinte. Distraio-me, esqueço Marina, que
algumas ruas apenas separam de mim. Afasto-me outra vez da realidade,
mas agora não vejo os navios, a recordação da cidade grande
desapareceu completamente. O bonde roda para oeste, dirige-se ao
interior. Tenho a impressão de que ele me vai levar ao meu município
sertanejo. E nem percebo os casebres miseráveis que trepam o morro,
à direita, os palacetes que têm os pés na lama, junto ao mangue, à
esquerda. Quanto mais me aproximo de Bebedouro mais remoço. Marina,
Julião Tavares, as apoquentações que tenho experimentado estes
últimos tempos, nunca existiram.
Volto a ser criança, revejo a figura
de meu avô, Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva, que
alcancei velhíssimo. Os negócios na fazenda andavam mal. E meu pai,
reduzido a Camilo Pereira da Silva, ficava dias inteiros manzanzando
numa rede armada nos esteios do copiar, cortando palha de milho para
cigarros, lendo o Carlos Magno, sonhando com a vitória do partido
que padre Inácio chefiava. Dez ou doze reses, arrepiadas no
carrapato e na varejeira, envergavam o espinhaço e comiam o
mandacaru que Amaro vaqueiro cortava nos cestos. O cupim devorava os
mourões do curral e as linhas da casa. No chiqueiro alguns bichos
bodejavam. Um carro de bois apodrecia debaixo das catingueiras sem
folhas. Tinham amarrado no pescoço da cachorra Moqueca um rosário
de sabugos de milho queimados. Quitéria, na cozinha, mexia em
cumbucos cheios de miudezas, escondia peles de fumo no caritó.
Eu andava no pátio, arrastando um
chocalho, brincando de boi. Minha avó, sinha Germana, passava os
dias falando só, xingando as escravas, que não existiam. Trajano
Pereira de Aquino Cavalcante e Silva tomava pileques tremendos. Às
vezes subia à vila, descomposto, um camisão vermelho por cima da
ceroula de algodão encaroçado, chapéu de ouricuri, alpercatas e
varapau. Nos dias santos, de volta da igreja, mestre Domingos, que
havia sido escravo dele e agora possuía venda sortida, encontrava o
antigo senhor escorado no balcão de Teotoninho Sabiá, bebendo
cachaça e jogando três-setes com os soldados. O preto era um
sujeito perfeitamente respeitável. Em horas de solenidade usava
sobrecasaca de chita, correntão de ouro atravessado de um bolso a
outro do colete, chinelos de trança, por causa dos calos, que não
aguentavam sapatos. Por baixo do chapéu duro, a testa retinta, úmida
de suor, brilhava como um espelho. Pois, apesar de tantas vantagens,
mestre Domingos, quando via meu avô naquela desordem, dava-lhe o
braço, levava-o para casa, curava-lhe a bebedeira com amoníaco.
Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva vomitava na sobrecasaca
de mestre Domingos e gritava:
— Negro, tu não respeitas teu
senhor não, negro!
Quando o carro para, essas sombras
antigas desaparecem de supetão — e vejo coisas que não me excitam
nenhum interesse: os focos da iluminação pública, espaçados,
cochilando, piongos, tão piongos como luzes de cemitério; um
palácio transformado em albergue de vagabundos; escuridões,
capoeiras, barreiras cortadas a pique no monte; a frontaria de uma
fábrica de tecidos; e, de longe em longe, através de ramagens,
pedaços de mangue, cinzentos. À medida que nos aproximamos do fim
da linha as paradas são menos frequentes. Os postes cintados de
branco passam correndo, o carro está quase vazio, as recordações
da minha infância precipitam-se. E a decadência de Trajano Pereira
de Aquino Cavalcante e Silva precipita-se também.
Estava pegando um século quando
entrou a caducar. Encolhido na cama de couro cru, mijava-se todo,
contava os dedos dos pés e caía na madorna. De repente acordava
sobressaltado:
— Sinha Germana!
Meu pai largava o Carlos Magno, abria
o tabaqueiro, deixava a rede, impaciente:
— Que é que há?
— Homem, você não me dirá onde
está sua mãe? Aqui mais de uma hora chamando essa mulher!
— Morreu.
— Que está me dizendo? estranhava o
velho arregalando os olhos quase cegos. Quando foi isso?
Camilo Pereira da Silva amolava-se:
— Deixe de arrelia. Morreu o ano
passado.
— Tanto tempo! dizia Trajano. E
vocês calados...
Punha-se a folgar com os dedos e
pegava no sono. Quinze minutos depois estava berrando:
— Sinha Germana!
Acabou-se numa agonia leve que não
queria ter fim. E enterrou-se na catacumba desmantelada que nossa
família tinha no cemitério da vila. Mestre Domingos pegou na alça
do caixão e declarou a meu pai que a morte é um mundéu. Fomos
morar na vila. Meteram-me na escola de seu Antônio Justino, para
desasnar, pois, como disse Camilo quando me apresentou ao mestre, eu
era um cavalo de dez anos e não conhecia a mão direita. Aprendi
leitura, o catecismo, a conjugação dos verbos. O professor dormia
durante as lições. E a gente bocejava olhando as paredes, esperando
que uma réstia chegasse ao risco de lápis que marcava duas horas.
Saíamos em algazarra. Eu ia jogar pião, sozinho, ou empinar
papagaio. Sempre brinquei só.
•
• •
Graciliano Ramos, em Angústia
25/06/2026
Livro XI | 18
I. Devo considerar o meu vínculo com
os homens e que fomos feitos uns para os outros. Sob outra
perspectiva, fui concebido para pastorar, como um carneiro que chefia
o rebanho ou um touro que conduz a manada. Devo examinar a questão a
partir das primeiras convicções: caso não existam somente átomos,
a natureza ordena tudo. Assim sendo, as coisas inferiores existem
para o benefício das superiores, e essas para o bem umas das outras.
II. Devo avaliar quais tipos de homens
são na mesa, na cama e assim por diante. Particularmente, a quais
compulsões estão sujeitos devido às suas opiniões e o quanto se
orgulham das suas ações.
III. Caso os homens façam o que é
certo, não devemos nos descontentar. Caso não, agem por falta de
consciência e por ignorância. Nenhuma alma é voluntariamente
privada da verdade ou tolhida da aptidão para lidar com os homens
conforme seus méritos. Esse é o motivo de se chatearem quando são
chamados de injustos, ingratos e gananciosos e, em especial,
malfeitores dentre seus vizinhos.
IV. Também erro e sou um homem como
qualquer outro. Embora não incorra em certas falhas, ainda estou
inclinado a cometê-las — mesmo que a covardia, o apego à
reputação ou outras motivações vis me previnam de falhar.
V. Nem sequer sei se os homens estão
agindo errado ou não, porque muitas ações são realizadas
proporcionalmente às circunstâncias. Um homem precisa saber muito
para ser capaz de julgar corretamente as ações do outro.
VI.Caso esteja aborrecido ou aflito,
devo ponderar: a vida do homem é um breve instante e logo estaremos
todos mortos.
VII. O que nos perturba não são os
atos dos homens — pois esses se fundamentam nas suas faculdades
hegemônicas —, mas sim nossas próprias opiniões acerca dos atos.
Portanto, remova a sua opinião. Pare de julgar um ato como doloroso
e sua dor cessará.
“Como, então, remover essas
opiniões?”
Basta reconhecer que nenhum ato
errôneo sofrido por você é vergonhoso. Afinal de contas, se o que
é vergonhoso fosse apenas mau, você cometeria muitos erros, seria
um ladrão e tudo mais.
VIII. A dor é causada mais pela
cólera e pelo aborrecimento em resposta aos atos do que pelos atos
em si.
IX. Uma boa disposição é invencível
quando é genuína—quando o sorriso não é falso ou fingido. Não
há nada que o homem mais violento possa fazer caso você continue
tratando-o gentilmente, admoestando-o e calmamente corrigindo-o
quando tentar prejudicá-lo. Diga a ele: “Não é assim, meu filho.
Fomos constituídos por natureza para outro propósito. Você
prejudica não a mim, mas a você mesmo.” Mostre-o, com tato e
recorrendo a convicções abrangentes, que nem as abelhas nem
quaisquer animais gregários agem como ele. Você deve se dirigir a
ele de modo afetuoso, sem sarcasmo ou reprimenda e sem guardar rancor
na sua alma. Você deve admoestá-lo não como se fosse um professor
ou como se pretendesse impressionar espectadores, mas sim como se ele
estivesse sozinho — ainda que outros estejam presentes.
Receba essas nove regras como se
fossem dádivas das nove Musas.
Comece, enquanto ainda vive, a ser um
homem. Evite, na mesma medida,tagarelar e se aborrecer com os outros,
porque ambos são comportamentos antissociais e danosos. Quando
encolerizado, retenha esta verdade: ser movido pela paixão não é
viril. A brandura e a gentileza, por estarem mais em consonância com
a natureza humana, são mais viris. Quem possui essas duas qualidades
demonstra força, nervos e coragem, diferente do homem sujeito ao
ímpeto da paixão e do descontentamento. Ao passo que se liberta das
paixões, o homem se fortalece. A raiva é uma característica da
fraqueza tanto quanto o sofrimento. Quem cede à ira está tão
ferido e rendido quanto quem cede à dor.
Por fim, caso queira, receba uma
décima dádiva do líder das Musas:
X. Esperar que homens maus não façam
o mal é insanidade, pois significa expectar o impossível. Permitir
que se comportem dessa maneira com o outro mas não com você é
irracional e tirânico.
Marco Aurélio, em Meditações
Diário de Bernardo Soares
116.
Escrever é esquecer. A literatura é
a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as
artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e o representar)
entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um
sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida — umas porque
usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da
mesma vida humana.
Não é esse o caso da literatura.
Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um
drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de
ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que
ninguém fala em verso.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
I’m Carrying | Paul McCartney
By dawn’s first light I’ll come
back to your room again
With my carnation hidden by the
packages
I’m carrying
Something
I’m carrying something for you
Ah long time no see, baby, sure has
been a while
And if my reappearance lacks a
sense of style
I’m carrying
Something
I’m carrying something for you
I’m carrying
Can’t help it
I’m carrying something for you
I’m carrying
Something
I’m carrying something for you
Continuar a carreira após o término
dos Beatles sempre seria difícil. Na cabeça de muita gente, eu
estava carregando bagagem emocional. Mas, após uns lançamentos
solo, eu queria voltar à camaradagem de estar numa banda, e poderia
ter abordado o Wings de duas maneiras: entrar no topo como um Beatle
ao lado de um ex-membro do Small Faces ou Cream e fazer o que eles
costumavam chamar de “supergrupo”, ou eu poderia simplesmente
começar algo que fosse agradável e tentar construir uma trajetória,
como os Beatles fizeram. Escolhi a segunda opção. O único problema
era que dessa vez teríamos que cometer nossos erros em público. Com
os Beatles, foi tudo no privado, porque o público nos clubes de
Hamburgo era reduzido, então pouca gente nos ouvia pisando na bola.
No início, a caminhada foi dura,
porque o Wings não tinha sucessos e eu não queria tocar nada dos
Beatles. Eu queria fazer uma divisão clara. Todos os promotores
renomados da época me indagavam: “Vai tocar ‘Yesterday’?”.
Era possível ver no semblante deles: era isso que eles queriam. E
tínhamos que lutar contra isso. Isso dá uma ideia de quem eu sou;
eu abomino duplicar qualquer coisa ou pessoa. Por isso, eu queria que
o grupo Wings fosse bem-sucedido por méritos próprios. Assim, desde
o começo, ficou óbvio que teríamos de nos conformar com o fato de
que esse processo levaria tempo. Começamos em escala pequena,
crescemos um pouquinho, excursionamos na Europa. No começo não
éramos uma banda muito boa, faltava aparar as arestas. Um show aqui,
outro ali, aparecendo nas universidades e pedindo para tocar nas
entidades estudantis naquela noite, sem ter nenhuma canção
conhecida do público. Mas então fomos melhorando e nos entrosando
mais. Súbito, em meados dos anos 1970, já tínhamos sucessos como
“Band on the Run”, “Silly Love Songs” e um repertório
suficiente para sermos conhecidos sem depender dos Beatles.
As pessoas me indagam: “O que
significa esta canção?”, e eu respondo: “Bem, depende de você”.
Pode significar um milhão de coisas. O que é que estou carregando
aqui? Fica claro que são pacotes. Sou como um dândi com pacotes que
escondem meu cravo na lapela. Estou trazendo presentes pra você,
estou carregando algo pra você, mas também, quando a mulher está
grávida, ela “carrega” um neném. Talvez pudéssemos descartar
outros significados. Uma pessoa carrega uma arma. E outra está
carregando drogas. Um significado que pode funcionar aqui é a ideia
de a pessoa “carregar” uma banda nas costas, com os outros se
beneficiando do sucesso alheio. Não estou bem certo em relação a
isso. Só estou brincando com a palavra “carregar”. É uma
cançãozinha pra lá de ambígua, mas esse é o tipo de liberdade do
Wings, de fazer algo meio ambíguo.
Já insinuaram que esta canção soa
lennoniana. Eu admitiria se fosse, mas para mim soa mais mccartniana:
apenas a vozinha. Não consigo imaginar John fazendo uma vozinha
dessas. Mas sabe, se alguém a considerar lennoniana, não tem
problema. Afinal de contas, aprendemos a compor canções juntos.
Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente
24/06/2026
Último caderno de Kindzu
As páginas da terra
Depois de Euzinha já nenhuma
esperança me restava. Eu voltava a Matimati sem Quintino. Perdida
estava a amizade. Voltava sem trazer Gaspar. Perdido estava o amor.
Farida não aceitaria a minha falta de promessa. E ela se afastaria
de mim, partiria para inalcançável longe.
Subi a escura rua da vila em direcção
à casa de Assane. Antoninho me recebeu às arrecuas como se visse um
fantasma fora do prazo. Tinha os braços envoltos em ligaduras.
Assane chegou à porta se arrastando na cadeira e, virando-se para o
ajudante, perguntou:
— Já lhe deu a novidade?
— Que se passa? Que aconteceu com
Farida?
Assane se moveu em minha direcção.
Subiu-se na cadeira, esforçado para me dar um conforto, seu braço
me laçando o ombro.
— Não vale a pena você voltar
lá.
— Não vale a pena?
— Farida já não te espera.
— Como: vieram-lhe buscar?
— De certa maneira...
— Como de certa maneira?
— Se acalma, Kindzu. Lhe vamos
contar.
Se passara de maneira confusa. Por
ordem de Assane, Antoninho se metera numa canoa e se dirigira ao
barco naufragado. Quando encontrou Farida ele se exclamou. A mulher
estava uma rodilha, só quase se lhe viam os olhos. O enviado se
chegou com modos sossegados e se apresentou em sua função de
amizade. Farida quis saber novidades de Kindzu. Disse que a demora já
era demasiada. A procura do filho não iria resultar. A terra é
imensa, a guerra é maior ainda.
— Nunca lhe hão-de encontrar!
Então, com determinação, ela disse:
não posso adiar mais. Vês aquele farol, apontou ela por
entre o poente. Tenho que fazer com que aquele farol funcione.
Antoninho se dispôs a ajudar. Ela
anunciou: iria lá acender aquelas luzes, reparar a escuridão.
Aquelas luzes haveriam de guiar navios que a viriam tirar dali. O
outro ficaria no navio naufragado vigiando se alguém chegava. Farida
partiu na embarcação de Antoninho. Ele ainda a viu chegar ao
pequeno ilhéu e entrar no farol. Ficou lá um tempo, saiu, voltou a
entrar, carregando uns velhos bidões. De repente, a torre se sacudiu
em imensa explosão. Labaredas escaparam como sôfregas línguas do
edifício. Toda a ilha ficou ardendo.
— Não é possível, Farida não
morreu! Eu vou lá a esse farol, amanhã mesmo...
— Não vale a pena, Antoninho
confirmou.
— Não confio neste sacana. Se
calhar foi ele mesmo quem tramou a morte dela...
Virei costas e me retirei, brusco,
corredor afora. Dentro do quarto de Surendra fiquei em espanto. Não
chorava. Mas um tremendo cansaço me sufocava o peito. Assane entrou
no quarto, suas rodas chiaram no escuro.
— Kindzu, você foi injusto com
esse miúdo.
— Com Antoninho? Eu lhe conheço
muito bem.
— Mas, desta vez, se enganou. Eu
posso testemunhar quanto o moço sofreu.
Assane me garantia. Antoninho tinha
ido, em outro pequeno bote, tentar ajudar a mulher que eu amava.
Entrara no incêndio com desprezo de sua própria vida. Seus braços
arderam como tochas, quase os perdera para sempre.
— Antoninho, agora, lhe respeita.
Acredite, Kindzu.
A tristeza me enchia tanto que eu
deitei de parte a desconfiança. Admiti ter errado. Sem convicção
pedi a Assane que me desculpasse perante Antoninho.
— Assane, eu preciso sair daqui.
— Calha bem, meu amigo. Amanhã
mesmo sai o primeiro machimbombo de nossa empresa.
Fingi nem reparar. Nossa empresa?
Então, o negócio já se expandira? Afinal, em guerra se pode
prosperar mais rápido que em normais tempos de paz. Levantei outra,
mais leve, dúvida:
— Já se pode circular na
estrada?
— Não temos certeza. Vamos
tentar.
— Está certo. Amanhã eu embarco
nesse machimbombo. Me deixe agora, estou de mais cansado.
Eu queria ficar absolutamente só.
Sentia na versão de Assane um sabor de falso. O paralítico estava
agora unido com o administrador, lhe prestaria serviço apenas para
encomendar simpatias. A morte de Farida seria um desses serviços.
Antoninho seria um perfeito servente.
Durante toda a noite dormi um sonho,
com sabores de autêntico. Enquanto adormecia mil perguntas me
continuavam a agitar. E se não tivessem assassinado Farida, através
da mão suja de Antoninho? Se o moço se tivesse realmente arriscado
para a salvar? Nunca mais eu saberia o certo. No dia seguinte eu
estaria de retorno à minha aldeia. Há quanto tempo eu tinha saído?
O que acontecera, entretanto, a minha mãe, grávida de um impossível
filho? E Junhito: será que cocoricava ainda pelos prados?
Agora era como se esses fantasmas
trabalhassem em minha cabeça para me transmitirem seus segredos,
revelações de um outro mundo. Vou relatar o último sonho a ver se
me livro do peso de terríveis lembranças. Não quero que tais
pensamentos me regressem. Preciso dormir, totalmente dormir, me
emigrar deste corpo cheio de esperas e sofrências. Preciso descansar
de suspeitas, esfriar meu desejo de vingança. Amanhã apanho o
autocarro para regressar a minha aldeia. Não quero lembrar nada, nem
Farida, nem Carolinda, nem Quintino, nem ninguém. O que queria mesmo
era ir mar adentro, como Assma, empurrado num barquinho sem destino.
Ou fazer como minha mãe me ensinou: ser a mais delicada sombra. É
isso que desejo: me apagar, perder voz, desexistir. Ainda bem que
escrevi, passo por passo, esta minha viagem. Assim escritas estas
lembranças ficam presas no papel, bem longe de mim. Este é o último
caderno. Depois, arrumo tudo na mala que me deu Surendra. No final,
Surendra é o único de quem eu aceito companhia. O indiano mais sua
nação sonhada: o oceano sem nenhum fim.
Me falta, pois, trazer o que essa
noite viajou em minha cabeça. Me falta soltar o último peso que me
impede ser sombra. Ponho o sonho, em sua selvagem desordem: eu estava
descendo um vale molhado de tanta de luz, cheio de manhã. Aquela
parecia a primeira madrugada do mundo. A luz se espantava de sua
própria estreia, experimentando sua grandeza ao iluminar as mais
pequenas coisas. As cores, de tanto serem novas, se cambiavam
incessantemente. Foi então que vi avançar um enorme grupo de
pessoas, pobres, embrulhadas em cascas e fiapos. Eram centenas de
centenas. Foram-me enchendo o sono. À frente seguia o feiticeiro da
minha aldeia. Envergava uma sarapilheira encardida, cujos farrapos
poeiravam pelo chão. O adivinho olhou a terra como se dele
dependesse o destino do universo. Pesava nos seus olhos a gravíssima
decisão de criar um outro dia.
— É aqui mesmo!, disse.
Escolhia o caminho parecendo procurar
o centro de uma invisível paisagem. Atrás dele se arrastava a
multidão, rastejando como se suas vidas se alimentassem das pegadas
de seu guia. O feiticeiro subiu a um morro de muchém e contemplou a
planície. Ajeitou o chapéu feito de penas e enroscou melhor a
sarapilheira como se aquele calor lhe esfriasse os ossos. Então,
levantando o seu cajado sentenciou:
— Que morram as estradas, se
apaguem os caminhos e desabem as pontes!
Depois, começou o discurso, desfiando
palavras lentas, rasgando a voz de encontro ao vento:
— Chorais pelos dias de hoje?
Pois saibam que os dias que virão serão ainda piores. Foi por isso
que fizeram esta guerra, para envenenar o ventre do tempo, para que o
presente parisse monstros no lugar da esperança. Não mais procureis
vossos familiares que saíram para outras terras em busca da paz.
Mesmo que os reencontreis eles não vos reconhecerão. Vós vos
convertêsteis em bichos, sem família, sem nação. Porque esta
guerra não foi feita para vos tirar do país mas para tirar o país
de dentro de vós. Agora, a arma é a vossa única alma. Roubaram-vos
tanto que nem sequer os sonhos são vossos, nada de vossa terra vos
pertence, e até o céu e o mar serão propriedade de estranhos. Será
mil vezes pior que o passado pois não vereis o rosto dos novos donos
e esses patrões se servirão de vossos irmãos para vos dar castigo.
Ao invés de combaterem os inimigos, os melhores guerreiros afiarão
as lanças nos ventres das suas próprias mulheres. E aqueles que vos
deveriam comandar estarão entretidos a regatear migalhas no banquete
da vossa própria destruição. E até os miseráveis serão donos do
vosso medo pois vivereis no reino da brutalidade. Terão que esperar
que os assassinos sejam mortos por suas próprias mãos pois em todos
haverá medo da justiça. A terra se revolverá e os enterrados
assomarão à superfície para virem buscar as orelhas que lhes foram
decepadas. Outros procurarão seus narizes no vómito das hienas e
escavarão nas lixeiras para resgatarem seus antigos órgãos. E
há-de vir um vento que arrastará os astros pelos céus e a noite se
tornará pequena para tantas luzes explodindo sobre as vossas
cabeças. As areias se voltearão em remoinhos furiosos pelos ares e
os pássaros tombarão extenuados e ocorrerão desastres que não têm
nome, as machambas serão convertidas em cemitérios e das plantas,
secas e mirradas, brotarão apenas pedras de sal. As mulheres
mastigarão areia e serão tantas e tão esfaimadas que um buraco
imenso tornará a terra oca e desventrada. No final, porém, restará
uma manhã como esta, cheia de luz nova e se escutará uma voz
longínqua como se fosse uma memória de antes de sermos gente. E
surgirão os doces acordes de uma canção, o terno embalo da
primeira mãe. Esse canto, sim, será nosso, a lembrança de uma raiz
profunda que não foram capazes de nos arrancar. Essa voz nos dará a
força de um novo princípio e, ao escutá-la, os cadáveres
sossegarão nas covas e os sobreviventes abraçarão a vida com o
ingénuo entusiasmo dos namorados. Tudo isso se fará se formos
capazes de nos despirmos deste tempo que nos fez animais. Aceitemos
morrer como gente que já não somos. Deixai que morra o animal em
que esta guerra nos converteu.
O feiticeiro se calou, extenuado. A
sarapilheira estava ensopada de suor. Voltando a levantar o cajado
sobre a cabeça ele ainda voltou a falar. Mas se pronunciou em
palavras de nenhuma língua. As gentes seguiam o restante discurso à
cata de alguma compreensão. Então, o nganga se calou, ergueu uma
cabaça e verteu um líquido sobre os ombros. Depois, desceu o morro
e fez pingar a cabaça sobre cada um dos presentes. Então se deu o
mais extraordinário dos fenómenos e todos os presentes tombaram no
chão, agitando-se em espasmos e berros, e se seguiu uma orgia de
convulsões, babas e espumas e, um por um, todos foram perdendo as
humanas dimensões. Penugens e escamas, garras e bicos, caudas e
cristas se espalharam pelos corpos e todo aquele plenário de gente
se transfigurou em bicharada. A fala foi a última coisa a ser
convertida e, durante um tempo, se escutaram espantos e gritos
humanos proferidos pelas mais irracionais bestas. Aos poucos, porém,
também o verbo se perdeu e a bicharada, em desordem, se espalhou
pelos matos.
Tombado de joelhos perante tais
visões, eu olhei as próprias mãos para me confirmar humano.
Retirei as vestes e apalpei minhas velhas formas. Com cautela,
tossiquei para me certificar da voz. A medo fui emitindo palavras
simples, depois frases sem nexo. Não havia dúvida: eu me mantinha
completamente gente, habitando o corpo que sempre fora o meu.
Então, por entre as brumas do
sonhado, vi um galo se aproximando. Era Junhito, quase eu ia jurar.
Porque no inverso dos outros, ele se humanizava, lhe caíam penas,
cristas e esporões. Me olhou ainda semibicho. Seus olhos me pediam
qualquer coisa, nem eu adivinhava. Que ajuda lhe podia dar, eu,
simples sonhador? O que sucedeu, seguidamente, foi que surgiram o
colono Romão Pinto junto com o administrador Estêvão, Shetani,
Assane, Antoninho e milicianos. Vinham armados e se dirigiram para
Junhito, com ganas de lhe depenar o pescoço. Cercaram o manito,
dizendo:
— Teu pai tinha razão: sempre te
viemos buscar.
Então, Junhito me chamou. Eu me
olhei, sem confiança. Mas o que em mim vi foi de dar surpresa, mesmo
em sonho: porque em meus braços se exibiam lenços e enfeites.
Minhas mãos seguravam uma zagaia. Me certifiquei: eu era um
naparama! Ao me verem, em minha nova figura, aqueles que maltratavam
o meu irmão se extinguiram num fechar de olhos. Mas Junhito ainda
lutava para se desbichar, desembaraçar-se da condenação. Me veio à
ideia que ele precisava de um pouco de infância e cantei os embalos
de nossa mãe, sua última ponte com a família. Enquanto eu cantava
ele se foi vertendo todo gente, completamente Junhito. A seu lado,
como se chamada por meu canto, minha mãe apareceu segurando uma
criança em seu colo. Lhes chamei mas eles nem me pareciam ouvir.
Junhito colocou a mão aberta sobre o peito e depois fechou as duas
mãos em concha. Me agradecia. Acenei uma despedida e ele, segurando
minha mãe pelo braço, desapareceu nas infinitas folhagens.
Eu sentia que a noite chegava ao fim.
Qualquer coisa me dizia que me devia apressar antes que aquele sonho
se extinguisse. Porque me surgiam agora alucinadas visões de uma
estrada por onde eu seguia. Mas aquela era uma muito estranha picada:
não estava imóvel, esperando a viagem dos homens. Ela se deslocava,
seguindo de paisagem em paisagem. A estrada me descaminhou. O destino
o que é senão um embriagado conduzido por um cego? Fui sendo levado
sem conta nem tempo. Até que meu coração se apertou em sombrio
sobressalto. Me surgiu um machimbombo queimado. Estava derreado numa
berma, a dianteira espalmada de encontro a uma árvore. De repente, a
cabeça me estala em surdo baque. Parecia que o mundo inteiro
rebentava, fios de sangue se desalinhavam num fundo de luz muitíssimo
branca. Vacilo, vencido por súbito desfalecimento. Me apetece
deitar, me anichar na terra morna. Deixo cair ali a mala onde trago
os cadernos. Uma voz interior me pede para que não pare. É a voz de
meu pai que me dá força. Venço o torpor e prossigo ao longo da
estrada. Mais adiante segue um miúdo com passo lento. Nas suas mãos
estão papéis que me parecem familiares. Me aproximo e, com
sobressalto, confirmo: são os meus cadernos. Então, com o peito
sufocado, chamo: Gaspar! E o menino estremece como se nascesse
por uma segunda vez. De sua mão tombam os cadernos. Movidas por um
vento que nascia não do ar mas do próprio chão, as folhas se
espalham pela estrada. Então, as letras, uma por uma, se vão
convertendo em grãos de areia e, aos poucos, todos meus escritos se
vão transformando em páginas de terra.
Mia Couto, em Terra Sonâmbula
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