segunda-feira, 25 de maio de 2026

Djavan | Alumbramento

O coração risonho

Sua vida é sua vida
Não deixe que ela seja esmagada na fria submissão.
Esteja atento.
Existem outros caminhos.
E em algum lugar, ainda existe luz.
Pode não ser muita luz, mas
ela vence a escuridão
Esteja atento.
Os deuses vão lhe oferecer oportunidades.
Reconheça-as.
Agarre-as.
Você não pode vencer a morte,
mas você pode vencer a morte durante a vida, às vezes.
E quanto mais você aprender a fazer isso,
mais luz vai existir.
Sua vida é sua vida.
Conheça-a enquanto ela ainda é sua.
Você é maravilhoso.
Os deuses esperam para se deliciar
em você.

Charles Bukowski, em Antologia Poética

O cervo escondido

Um lenhador de Cheng encontrou-se na campo com um cervo assustado e o matou. Para evitar que outros o descobrissem, enterrou-o na floresta, cobrindo a cova com f olhas e ramos. Pouco tempo depois esqueceu o local onde o havia escondido, e pensou que tudo não passara de um sonho. Assim, contou o fato a toda a gente como se fosse um sonho. Entre os ouvintes, houve um que foi procurar o cervo enterrado e o encontrou. Levou-o a sua casa e disse à sua mulher:
Um lenhador sonhou que havia matado um cervo e esqueceu onde o tinha escondido, e agora eu o encontrei. Este homem sim, é que é um sonhador...
Na certa sonhaste que viste um lenhador que havia matado um cervo. Crês realmente que existiu, o lenhador? Mas como o cervo está aqui, teu sonho deve ser verdadeiro — disse a mulher.
Ainda que suponhamos que eu tenha encontrado o cervo graças a um sonho — respondeu ò marido — por que nos preocuparemos em saber qual dos dois sonhou?
Naquela noite o lenhador voltou para casa pensando ainda no cervo, e realmente sonhou, e neste sonho sonhou o lugar onde havia escondido o cervo e sonhou também quem o havia encontrado. Ao amanhecer foi a casa do outro e encontrou o cervo. Os dois discutiram e terminaram diante de um juiz para que este resolvesse o assunto. O juiz disse ao lenhador:
Realmente mataste um cervo e pensaste que era um sonho. Em seguida sonhaste realmente, e então pensaste que era a realidade. O outro encontrou o cervo e agora o disputa, porém sua mulher pensa que ele sonhou que havia encontrado um cervo que outro havia matado. Logo, ninguém matou o cervo. Porém como aqui está o cervo, o melhor que os dois podem fazer é reparti-lo.
O caso chegou aos ouvidos do rei de Cheng e o rei de Cheng disse: 
E esse juiz? Não estará ele sonhando que reparte um cervo? 

Lieh-tsé (c. 300 a.C.), em Livro de Sonhos, de Jorge Luís Borges

Hagar, o Horrível

Capítulo 53 — . . . . . . . . . .

Virgília é que já se não lembrava da meia dobra; toda ela estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha vida, no meu pensamento; era o que dizia, e era verdade.
Há umas plantas que nascem e crescem depressa; outras são tardias e pecas. O nosso amor era daquelas; brotou com tal ímpeto e tanta seiva, que, dentro em pouco, era a mais vasta, folhuda e exuberante criatura dos bosques. Não lhes poderei dizer, ao certo, os dias que durou esse crescimento.
Lembra-me, sim, que, em certa noite, abotoou-se a flor, ou o beijo, se assim lhe quiserem chamar, um beijo que ela me deu, trêmula, coitadinha, trêmula de medo, porque era ao portão da chácara, à vista das estrelas, das castas estrelas de Otelo, you chaste starts! Uniu-nos esse beijo único, breve como a ocasião, ardente como o amor, prólogo de uma vida de delícias, de terrores, de remorsos, de prazeres que re-matavam em dor, de aflições que desabrochavam em alegria, uma hipocrisia paciente e sistemática, único freio de uma paixão sem freio, vida de agitações, de cóleras, de desesperos e de ciúmes, que uma hora pagava à farta e de sobra; mas outra hora vinha e engolia aquela, com tudo mais, para deixar à tona as agitações e o resto, e o resto do resto, que é o fastio e a saciedade: tal foi o livro daquele prólogo.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

6 — Esquizofrenia, como foi dito



Era uma e meia da madrugada quando um homem de jaleco branco com um cavanhaque pontudo entrou no consultório da famosa clínica psiquiátrica, recentemente construída às margens do rio nos arredores de Moscou. Três enfermeiros não despregavam os olhos de Ivan Nikoláievitch, sentado em um sofá. Ali mesmo também se encontrava o poeta Riúkhin, extremamente alvoroçado. As toalhas com as quais Ivan Nikoláievitch fora amarrado estavam amontoadas no mesmo sofá. Os braços e as pernas de Ivan Nikoláievitch estavam livres.
Quando Riúkhin avistou o homem, empalideceu, deu uma tossidinha e disse timidamente:
Olá, doutor.
O doutor curvou-se a Riúkhin, mas, quando se inclinou, não olhou para ele, mas sim para Ivan Nikoláievitch. Este, sentado, totalmente imóvel, de cara amarrada, sobrancelhas carregadas, não mexeu um fio de cabelo quando o médico entrou.
É isso, doutor — cochichou Riúkhin, sabe-se lá por quê, de forma misteriosa, olhando assustado ao redor, para Ivan Nikoláievitch —, o famoso poeta Ivan Bezdômny... é isso, o senhor está vendo... tememos que seja delirium tremens...
Andava bebendo muito? — o doutor perguntou entre os dentes.
Não, até tomava uns tragos, mas não tanto assim...
Ficava correndo atrás de baratas, ratazanas, diabinhos ou cachorros aloprados?
Não — respondeu Riúkhin, estremecendo. — Eu o vi ontem e hoje de manhã. Estava totalmente são...
E por que está de ceroulas? Vocês o tiraram da cama?
Ele apareceu no restaurante desse jeito, doutor...
A-hã, a-hã — disse o doutor, com muita satisfação. — E por que ele está com escoriações? Brigou com alguém?
Caiu de uma cerca e no restaurante bateu em um... e depois em outro...
Certo, certo, certo — disse o doutor e, voltando-se para Ivan, acrescentou: — Olá!
Saudações, traidor! — respondeu Ivan bem alto, perverso. Riúkhin ficou tão sem graça que não teve coragem de erguer os olhos para o educado doutor. Mas este não ficou nem um pouco ofendido e, com um gesto corriqueiro e esperto, tirou os óculos, levantou a barra do jaleco, escondeu-os no bolso traseiro da calça e depois perguntou a Ivan:
Quantos anos você tem?
Saiam todos vocês da minha frente, vão para o diabo! — gritou Ivan, grosso, e deu-lhes as costas.
Mas por que tanta fúria? Por acaso eu disse algo desagradável?
Tenho vinte e três anos — falou Ivan, exaltado — e vou dar queixa contra todos vocês. Sobretudo contra você, seu porco! — referindo-se só a Riúkhin.
Ah, é? E do que é que o senhor deseja se queixar?
De que eu, homem são, fui agarrado à força e arrastado para um hospício! — respondeu Ivan, tomado de ira.
Riúkhin olhou para Ivan e gelou: decididamente, não havia nenhum sinal de demência nos olhos dele. De turvos, como estavam na Griboiêdov, voltaram a ser os de antes, límpidos.
Pai do céu!”, pensou Riúkhin, assustado. “Será que ele é realmente normal? Que bobagem! Para que fomos arrastá-lo para cá? Ele é normal, normal, só está com a cara esfolada...”
O senhor se encontra — disse o médico, com calma, sentando-se em uma banqueta branca cujo pé brilhava — em uma clínica, e não em um hospício, e ninguém vai detê-lo aqui se não for necessário.
Ivan Nikoláievitch olhou de soslaio, desconfiado, mas assim mesmo resmungou:
Graças a Deus! Até que enfim apareceu um normal entre os idiotas, e o primeiro deles é essa besta quadrada do Sáchka!1
E quem é esse Sáchka besta quadrada? — quis saber o médico.
Esse daí, Riúkhin! — respondeu Ivan e apontou para Riúkhin com o dedo sujo.
O outro se inflamou, indignado.
É assim que ele me agradece”, pensou amargamente, “por eu ter me preocupado com ele! Realmente, é um traste!”
Tem a mentalidade de um típico cúlaque2 de nada — começou Ivan Nikoláievitch, que, pelo visto, desandou a acusar Riúkhin — e ainda por cima é um cúlaque de nada que tem o cuidado de se disfarçar de proletário. Olhem só para seu ar de carola e comparem com os poemas grandiloquentes que ele compôs para o primeiro de maio! He, he, he... “Icem!” e “Abram!”... mas sondem o seu íntimo... e o que ele pensa... e ficarão boquiabertos! — Então Ivan Nikoláievitch desandou a soltar gargalhadas sinistras.
Riúkhin estava ofegante, todo vermelho, e só pensava em uma coisa, que ele tinha acalentado uma víbora em seu seio, tinha se preocupado com alguém que na realidade tinha se revelado um inimigo perverso. E o pior, não podia fazer nada: não há discussões com doentes mentais!
E, no fundo, por que trouxeram o senhor para cá? — perguntou o médico, depois de ouvir com atenção as acusações de Bezdômny.
Ah, o diabo que os carregue, aqueles imbecis. Agarraram-me, amarraram-me com uns trapos e me arrastaram para cá em um caminhão!
Permita-me que eu lhe pergunte, mas por que o senhor apareceu no restaurante só com a roupa de baixo?
Isso não tem nada de extraordinário — respondeu Ivan. — Fui nadar no rio Moscou, aí surrupiaram minha roupa e deixaram esses trastes! Eu não podia andar por Moscou nu! Vesti o que havia à mão porque tinha pressa para chegar ao restaurante de Griboiêdov.
O médico lançou um olhar interrogativo para Riúkhin, que balbuciou sobriamente:
É assim mesmo que se chama o restaurante.
A-hã — disse o médico —, e por que tinha tanta pressa? Algum encontro de negócios?
Estou correndo atrás de um consultor — respondeu Ivan Nikoláievitch e olhou ao redor, aflito.
Que consultor?
O senhor conhece Berlioz? — perguntou Ivan, com ar de importância.
O… compositor?
Ivan ficou transtornado.
Que compositor o quê? Ah, tá... Nada disso! O compositor tem o mesmo sobrenome de Micha Berlioz.
Riúkhin não tinha vontade de dizer nada, mas sentiu-se obrigado a explicar:
Berlioz, secretário da Massolit, foi esmagado por um bonde hoje à noite, em Patriarchi.
Pare de mentir, você não sabe de nada! — Ivan ficou furioso com Riúkhin. — Eu estava lá quando tudo aconteceu, e não você! Ele o meteu debaixo do bonde de propósito!
Empurrou?
Mas o que é que “empurrou” tem a ver com isso? — exclamou Ivan, furioso com a estupidez geral. — Pessoas desse tipo não precisam nem empurrar! São capazes de aprontar cada uma que sai de baixo! Ele já sabia que Berlioz ia parar debaixo de um bonde de antemão!
E mais alguém, além do senhor, viu esse consultor?
Aí é que está o problema. Só eu e Berlioz o vimos.
Está bem. E quais foram as medidas que o senhor tomou para capturar esse assassino? — Nesse instante, o médico virou-se e lançou um olhar para uma mulher de jaleco branco, sentada em frente a uma mesa, ao lado. Ela, por sua vez, pegou uma folha e começou a preencher os espaços em branco de uma tabela.
As medidas... foram as seguintes. Peguei uma vela na cozinha...
Aquela ali? — perguntou o médico, indicando a vela partida, ao lado do ícone, em cima da mesa diante da mulher.
Essa mesma, e...
E o ícone era para quê?
Ah, é, o ícone... — Ivan ficou ruborizado. — Foi o ícone que os assustou, mais do que qualquer outra coisa. — E de novo apontou Riúkhin com o dedo. — Mas o problema é que ele, o consultor, ele... vamos direto ao assunto... está envolvido com forças impuras... não é tão simples capturá-lo.
Os enfermeiros, sabe-se lá por quê, estenderam as mãos em posição de sentido e não desgrudavam os olhos de Ivan.
É — continuava Ivan —, está mesmo! É um fato irreversível. Ele falou com Pôncio Pilatos pessoalmente. Não tem por que me olhar desse jeito! Estou dizendo a verdade! Ele viu tudo: a varanda, as palmeiras. Resumindo, ele esteve com Pôncio Pilatos, eu garanto.
Jura...
É isso. Aí eu pendurei o ícone no peito com um alfinete e comecei a correr...
De repente o relógio bateu duas vezes.
Oh-oh! — exclamou Ivan, e levantou-se do sofá. — São duas horas, e eu aqui perdendo tempo com vocês! Desculpem-me, mas onde fica o telefone?
Podem deixar ele usar o telefone — determinou o médico aos enfermeiros.
Ivan agarrou-se ao fone, e a mulher, a essa altura, perguntou baixinho a Riúkhin:
Ele é casado?
Solteiro — respondeu Riúkhin, assustado.
É membro de algum sindicato?
É.
É da polícia? — gritou Ivan para o fone. — É da polícia? Camarada plantonista, ordene agora mesmo que enviem cinco motocicletas com metralhadoras para capturar o consultor estrangeiro. O quê? Venham me buscar, eu vou com vocês... Quem fala é o poeta Bezdômny, do hospício... Qual é o endereço de vocês aqui? — perguntou Bezdômny ao doutor, cochichando, tapando o fone com a palma da mão, e depois gritou de novo para o fone: — Está me ouvindo? Alô!... Que desaforo! — berrou Ivan de repente e arremessou o fone contra a parede. Depois, virou-se para o médico, estendeu-lhe a mão, disse um seco “até logo” e preparou-se para sair.
Perdão, para onde o senhor quer ir? — falou o médico, olhando Ivan bem nos olhos. — Altas horas da noite, com a roupa de baixo... está se sentindo mal, fique aqui!
Deixem-me passar — disse Ivan aos enfermeiros, que barraram a porta. — Vão me deixar ou não? — gritou o poeta com uma voz horrível.
Riúkhin começou a tremer, a mulher apertou um botão na mesa e sob a superfície de vidro irrompeu uma caixinha brilhante com uma ampola lacrada.
Ah, então é assim?! — proferiu Ivan, olhando ao redor como um selvagem encurralado. — Então está bem. Adeus!! — e atirou-se de cabeça contra a cortina que encobria a janela.
O estrondo foi bem forte, mas o vidro atrás da cortina não chegou nem a rachar e, um instante depois, Ivan Nikoláievitch estava se estrebuchando nas mãos dos enfermeiros. Ele urrava, tentava morder, gritava:
Então é esse tipo de vidro que vocês arranjaram para suas janelas!... Soltem-me! Soltem-me!
Uma seringa brilhou nas mãos do médico, e em um só golpe a mulher rasgou a manga puída da camisa e agarrou-se ao braço de Ivan com uma força nada feminina. Um cheiro de éter invadiu o ar, Ivan fraquejou nas mãos de quatro pessoas e o médico, esperto, aproveitou o momento para enfiar a agulha em seu braço. Seguraram-no mais alguns segundos e depois o deixaram no sofá.
Bandidos! — gritou Ivan e levantou-se do sofá num salto, mas fizeram com que voltasse a se deitar. Mal o deixaram, ele tentou saltar de novo, mas sentou-se mais uma vez, só que sozinho. Ficou calado, olhando ao redor como um selvagem, depois, do nada, bocejou e sorriu, perverso.
Conseguiram me enclausurar — disse ele. Bocejou mais uma vez e, de repente, deitou-se, pôs a cabeça no travesseiro, o punho embaixo da bochecha como uma criança, e começou a balbuciar já com a voz sonolenta, nada perversa: — Então, que bom... vocês mesmos vão pagar caro por tudo isso. Eu avisei, façam como bem entenderem... Agora, mais do que tudo, estou interessado em Pôncio Pilatos... Pilatos... — E fechou os olhos.
Um banho, quarto individual 117 e olho nele — ordenou o médico, colocando os óculos. Riúkhin estremeceu de novo: silenciosamente, as portas brancas se abriram, atrás delas um corredor, iluminado por lâmpadas noturnas azuis. Do corredor saiu uma maca com rodinhas de borracha, para a qual Ivan, aplacado, foi transferido, e assim ele saiu pelo corredor, as portas se fechando atrás dele.
Doutor — perguntou Riúkhin, abalado, cochichando —, quer dizer que ele está realmente doente?
Oh, está — respondeu o médico.
E o que há com ele? — perguntou Riúkhin, tímido.
O médico, cansado, olhou para Riúkhin e respondeu desanimadamente:
Excitação motora e verbal... interpretações delirantes... um caso complexo, pelo visto... Esquizofrenia, deve-se supor. E, ainda por cima, o alcoolismo...
Riúkhin não entendeu uma palavra do que o doutor disse; apenas que a situação de Ivan Nikoláievitch, claro, não era nada boa. Então perguntou, suspirando:
E por que ele só fala de um tal consultor?
Decerto viu alguém que impressionou sua imaginação transtornada. Mas pode ser uma alucinação...
Alguns minutos depois, o caminhão levava Riúkhin de volta a Moscou. Estava amanhecendo, e as luzes ainda acesas na estrada eram já desnecessárias e incômodas. O motorista, irritado por ter perdido a noite, pisava fundo, derrapando nas curvas.
A floresta se deitou, ficou em algum lugar atrás, o rio desviou-se para algum lado, as coisas mais variadas se esparramavam ao encontro do caminhão: cercas com guaritas, pilhas de lenha, postes altíssimos, polos com bobinas enfiadas, montes de cascalhos, terra sulcada por canais — em resumo, sentia-se que, logo, logo, lá estaria ela, Moscou, que depois de uma curva irromperia e o engoliria.
Riúkhin chacoalhava e balançava; o toco no qual ele se instalara volta e meia queria escorregar debaixo dele. As toalhas do restaurante, jogadas ali pelo policial e por Panteliêi, que tinham ido embora mais cedo, de trólebus, rolavam por toda a caçamba. Riúkhin estava tentando recolhê-las, mas, sabe-se lá por quê, sibilou, perverso: “O diabo que as carregue! Francamente, por que estou zanzando como um idiota?” Chutou-as e parou de olhar.
O estado de espírito do viajante era terrível. Ficava claro que a visita à casa da aflição deixara nele uma marca profunda. Riúkhin tentava entender o que o atormentava. Aquele corredor com lâmpadas azuis, que não desgrudava da sua memória? O pensamento de que não havia no mundo desgraça pior do que a perda da razão? Claro, claro, isso também. Mas esse, veja bem, é um pensamento comum. Só que havia algo mais. E o que será? Uma ofensa, é isso. Isso mesmo, palavras ofensivas que Bezdômny jogou na sua cara. O problema não é que sejam ofensivas, e sim que encerram a verdade.
O poeta não olhava mais ao redor; com o olhar fixo no chão sujo, que chacoalhava, começou a balbuciar, lamuriar-se, atormentando-se.
É, a poesia... Tinha trinta e dois anos! Realmente, e agora? Agora continuaria a escrever uns quantos poemas por ano. Até ficar velho? É, até ficar velho. E o que esses poemas lhe trarão de bom? A glória? “Que absurdo! Não engane a si mesmo, pelo menos. A glória nunca chegará àquele que escreve poemas ruins. E por que são ruins? A verdade, ele disse a verdade!”, Riúkhin referia-se a si mesmo, impiedoso. “Não acredito em uma palavra do que escrevo...”
Envenenado por uma explosão de neurastenia, o poeta balançou e o chão sob ele parou de chacoalhar. Riúkhin ergueu a cabeça e percebeu que havia muito estava em Moscou e, mais do que isso, viu que Moscou estava tomada pelo amanhecer, que uma nuvem carregava uma luz dourada, que o caminhão estava parado, preso em uma coluna de carros numa curva para o bulevar, e que bem pertinho dele, em um pedestal, havia um homem de metal, com a cabeça um pouco inclinada, olhando, indiferente, para o bulevar.
Alguns pensamentos estranhos invadiram a cabeça do poeta adoecido. “Veja um exemplo de verdadeira sorte...” Então, Riúkhin levantou-se de corpo inteiro na caçamba e suspendeu o braço, lançando-se, sabe-se lá por quê, contra o homem de ferro fundido, que não incomodava ninguém. “Todos os passos que deu na vida, acontecesse o que acontecesse com ele, tudo lhe favoreceu, tudo se voltou para sua glória. Mas o que ele fez? Não consigo conceber... Há algo de especial nestas palavras? ‘A tempestade com a bruma’... Não entendo... Foi sorte, sorte!”, concluiu Riúkhin, de repente, e sentiu que o caminhão se mexeu debaixo dele. “Aquele soldado branco atirou nele, atirou sim, esfacelou sua bacia e garantiu-lhe a imortalidade...”
A coluna pôs-se em movimento. Totalmente doente e até mesmo envelhecido, não mais do que dois minutos depois o poeta entrou na varanda de Griboiêdov. Já estava vazia. Em um canto um grupo terminava uma garrafa e, na área central, agitava-se um famoso animador, de solidéu e com uma taça de vinho Abrau-Durso5 na mão.
Riúkhin, sobrecarregado de toalhas, foi recebido afavelmente por Artchibald Artchibáldovitch e na mesma hora livrado dos malditos panos. Se Riúkhin não estivesse tão exacerbado pela clínica e pelo caminhão, decerto sentiria prazer ao contar como tudo ocorreu na clínica, enfeitando a história com detalhes inventados. Porém, agora não podia com isso e, por mais observador que fosse, depois da tortura no caminhão ele pela primeira vez olhou fixamente nos olhos do pirata e entendeu que, apesar de ele fazer perguntas sobre Bezdômny e até exclamar “ai, ai, ai!”, na realidade o destino de Bezdômny lhe era totalmente indiferente, e não tinha a mínima pena dele. “Muito bem! Está certo!”, pensou Riúkhin, com uma perversidade cínica e autodestrutiva e, interrompendo o relato sobre a esquizofrenia, pediu:
Artchibald Artchibáldovitch, uma vodcazinha para mim...
O pirata fez cara de compaixão e cochichou:
Entendo... agorinha mesmo... — E acenou para o garçom.
Quinze minutos depois, Riúkhin, em completa solidão, estava sentado, debruçado sobre um peixe, bebendo um cálice atrás do outro, entendendo e reconhecendo que não poderia corrigir mais nada em sua vida, e que agora só restava esquecer.
O poeta perdeu sua noite, enquanto os outros comemoravam, e agora entendia que não podia fazê-la voltar. Bastava erguer a cabeça para o céu por cima da lâmpada para compreender que a noite estava perdida, sem volta. Os garçons arrancavam as toalhas das mesas às pressas. Os gatos que perambulavam em volta da varanda tinham um ar matinal. O dia caía impetuosamente sobre o poeta.

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida

domingo, 24 de maio de 2026

Sami Yusuf | We Love Life

Explicação de poesia sem ninguém pedir

Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento.

Adélia Prado, em Bagagem

Diário de Bernardo Soares – 110

Quando durmo muitos sonhos, venho para a rua, de olhos abertos, ainda com o rastro e a segurança deles. E pasmo do automatismo meu com que os outros me desconhecem. Porque atravesso a vida quotidiana sem largar a mão da ama astral, e os meus passos na rua vão concordes e consoantes com obscuros desígnios da imaginação de dormir. E na rua vou certo; não cambaleio; respondo bem; existo.
Mas, quando há um intervalo, e não tenho que vigiar o curso da minha marcha, para evitar veículos ou não estorvar peões, quando não tenho que falar a alguém, nem me pesa a entrada para uma porta próxima, largo-me de novo nas águas do sonho, como um barco de papel dobrado em bicos, e de novo regresso à ilusão mortiça que me acalentara a vaga consciência da manhã nascendo entre o som dos carros que hortaliçam.
E então, em plena vida, é que o sonho tem grandes cinemas. Desço uma rua irreal da Baixa e a realidade das vidas que não são ata-me, com carinho, a cabeça num trapo branco de reminiscências falsas. Sou navegador num desconhecimento de mim. Venci tudo onde nunca estive. E é uma brisa nova esta sonolência com que posso andar, curvado para a frente numa marcha sobre o impossível.
Cada qual tem o seu álcool. Tenho álcool bastante em existir. Bêbado de me sentir, vagueio e ando certo. Se são horas, recolho ao escritório como qualquer outro. Se não são horas, vou até ao rio fitar o rio, como qualquer outro. Sou igual. E por detrás de isso, céu meu, constelo-me às escondidas e tenho o meu infinito.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Oitavo capítulo — O Suspiro dos Comboios



Lhe vou confessar miúdo. Eu sei que é verdade: não somos nós que estamos a andar. É a estrada.
Isso eu disse desde há muito tempo.
Você disse, não. Eu é que digo.
E Tuahir revela: de todas as vezes que ele lhe guiara pelos caminhos era só fingimento. Porque nenhuma das vezes que saíram pelos matos eles se tinham afastado por reais distâncias.
Sempre estávamos aqui pertinho, a reduzidos metros.
Tudo acontecera na vizinhança do autocarro. Era o país que desfilava por ali, sonhambulante. Siqueleto esvaindo, Nhamataca fazendo rios, as velhas caçando gafanhotos, tudo o que se passara tinha sucedido em plena estrada.
É miúdo, estamos a viajar. Nesse machimbombo parado nós não paramos de viajar. Me faz lembrar quando andava no comboio.
O velho se lembrava, olhos quiméricos. Recordava o trem resfolegando pela savana, trazendo as boas simpatias de muito longe, os mineiros que chegavam carregados de mil ofertas. Sua memória se inundava de vapores e fumos, esses que cacimbam as sonolentas estações. Há quanto tempo os comboios tinham parado de espalhar seus fumos mágicos?
Você alguma vez escutou a fala do comboio?
Nunca, tio.
É bonito de se ouvir. Túúúúúú-úú.
Tuahir se recorda. Seu serviço tinha sido numa estaçãozinha. Quando a guerra chegou, os comboios deixaram de passar. Mas ele ficou em seu posto, com sua lanterna, sua atenta bandeira. Aquela lanterna tinha restado como única luz entre tanto mato como se fosse uma lâmpada não dos homens mas da terra. Pontualmente Tuahir madrugava na gare, varria o patamar, reparava as tábuas da casinha. Aplicava seu princípio: há-de vir, um dia o comboio virá. Quando chegasse a data ele estaria à frente da ocasião, todo fardado, todo organizado. Como sempre fizera, saudaria a locomotiva em solene continência. As carruagens arrastariam seu suspiro de ferros, as meninas correriam com seus cestos vendendo frutas e a vida se banharia de luzes e vozes.
Às vezes me apetece arrumar este machimbombo como eu fazia com a estação. Mas agora não vale a pena.
Não vale a pena porquê?
Também não vale a pena responder. Vê esse apito?
E retira do bolso um velho apito. Era um amuleto que o tinha acompanhado todos aqueles anos.
Leve. Para lhe dar sorte.
Muidinga, de princípio, não aceita. O apito tem valores sentimentais que só o velho conhece. Mas Tuahir insiste e ele acaba por recolher o pequeno objecto. Em sua alma, porém, há uma pedrinha. Por que motivo não mereceria a pena cuidarem do autocarro? Porquê aquela desistência do tio? E lhe fala, com devoção. Lhe fala de risos futuros, o mundo brincando em suas mãos. Voltariam os dois a cuidar da estação, lanternas e bandeiras a ordenar o trânsito das carruagens.
Não é o tio que sempre repete: qualquer coisa vai acontecer?
Digo isso porque já perdi a esperança.
Mentira. Se tivesse perdido por que razão me havia de oferecer esse apito?
O velho pede então que o miúdo dê voz aos cadernos. Dividissem aquele encanto como sempre repartiram a comida. Ainda bem você sabe ler, comenta o velho. Não fossem as leituras eles estariam condenados à solidão. Seus devaneios caminhavam agora pelas letrinhas daqueles escritos.
Me lê, miúdo. Vai lendo enquanto eu faço um serviço.
Então, o velho improvisa um xipefo, solta um pano vermelho. Apanha um ramo de palmeira e inventa uma vassoura. Varre o interior do machimbombo enquanto canta. O miúdo desfolha os cadernos sorridente. O velho se recriava, igual ao seu antigo emprego. E é como se o próprio Muidinga estivesse sentado na estação, aguardando o próximo comboio. Tuahir vai juntando os resíduos do queimado numa velha tampa. Depois, sai do autocarro e espalha as cinzas pelas terras em volta.
O que está a fazer, tio?
Estou semear este adubo. É para amanhã quando chover. Continue, filho. Não pare de ler.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

1624 – Lima

O negro açoita o negro

Três escravos africanos percorreram as ruas de Lima com as mãos amarradas e uma corda no pescoço. Os verdugos negros também, caminhavam atrás. A cada poucos passos, uma chicotada, até somar cem; e quando caíam, os açoites eram de presente.
O alcaide tinha dado a ordem. Os escravos tinham levado baralhos ao cemitério da catedral, convertendo-o em sala de jogo usando as lápides como mesa; e bem sabia o alcaide que não vinha mal a lição para os negros em geral, de tão insolentes e numerosos que são, e tão amigos de um alvoroço.
Agora jazem, os castigados, no pátio da casa de seu amo. Têm as costas em carne viva. Uivam enquanto lavam as suas chagas com urina e aguardente.
O amo amaldiçoa o alcaide, agita o punho, jura vingança. Não se brinca assim com a propriedade alheia.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

I Will | Paul McCartney e John Lennon




Who knows how long I’ve loved you
You know I love you still
Will I wait a lonely lifetime
If you want me to I will

For if I ever saw you
I didn’t catch your name
But it never really mattered
I will always feel the same

Love you forever and forever
Love you with all my heart
Love you whenever we’re together
Love you when we’re apart

And when at last I find you
Your song will fill the air
Sing it loud so I can hear you
Make it easy to be near you
For the things you do endear you to me
You know I will
I will

Alan-a-Dale. O trovador vagando pela Floresta de Sherwood na lenda de Robin Hood. Sou eu mesmo. Nesta canção ativei o meu modo menestrel.
Existe uma tese de que as canções de amor mais interessantes são aquelas sobre um amor que deu errado. Não concordo com isso. Esta canção é sobre a alegria do amor. Às vezes, essas canções são rotuladas de piegas, doces ou açucaradas. Sim, eu compreendo isso. Mas o amor pode ser a força mais poderosa e intensa do planeta. Agora mesmo, no Vietnã ou no Brasil, pessoas se apaixonam. Muitas vezes, querem ter filhos. É uma força universal e profunda. Não tem nada de piegas.
Quando eu me sento para tentar compor uma canção, é comum eu pensar: “Ah, como eu gostaria de capturar aquele sentimento de estar apaixonado pela primeira vez”. Esta canção foi iniciada em fevereiro de 1968, quando eu estava na Índia com Jane Asher. Pelo que eu me lembro, a melodia já existia havia um tempo e a música ganhou forma bem rápido. Continua sendo uma de minhas melodias favoritas que eu compus. Escrever a letra levou mais tempo. Sei que parece estranho, porque é um conjunto de ideias bem básico. O cantor folk Donovan, que passou algum tempo conosco em nossa viagem para visitar o Maharishi Mahesh Yogi, contribuiu com uma versão inicial da letra, mas não foi aproveitada. Era mais básica ainda, com rimas do tipo “moon/June”.
De novo, só porque eu estava envolvido com Jane na época, isso não significa que esta canção seja dedicada a Jane ou sobre ela. Quando estou compondo, é como se eu definisse o texto e a música para o filme que estou assistindo em minha cabeça. É uma declaração de amor, sim, mas nem sempre para alguém em especial. A menos que seja para a pessoa que estiver ouvindo a canção. E ela tem que estar pronta para isso. Com certeza quase absoluta não é para a pessoa que disser: “Lá vem ele de novo com aquelas canções de amor bobinhas”. Então, este sou eu no meu modo menestrel.

Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente

sábado, 23 de maio de 2026

Emílio Santiago | Dindi

 

Calvin e Haroldo

PdF II

Cada um
tem
a Macondo
que merece:
regojiza
ou enlouquece.

Elilson José Batista, em Alumbramentos

A procura de uma dignidade



A Sra. Jorge B. Xavier simplesmente não saberia dizer como entrara. Por algum portão principal não fora. Pareceu-lhe vagamente sonhadora ter entrado por uma espécie de estreita abertura em meio a escombros de construção em obras, como se tivesse entrado de esguelha por um buraco feito só para ela. O fato é que quando viu já estava dentro.
E quando viu, percebeu que estava muito, muito dentro. Andava interminavelmente pelos subterrâneos do Estádio do Maracanã ou pelo menos pareceram-lhe cavernas estreitas que davam para salas fechadas e quando se abriam as salas só havia uma janela dando para o estádio. Este, àquela hora torradamente deserto, reverberava ao extremo sol de um calor inusitado que estava acontecendo naquele dia de pleno inverno.
Então a senhora seguiu por um corredor sombrio. Este a levou igualmente a outro mais sombrio. Pareceu-lhe que o teto dos subterrâneos eram baixos.
E aí este corredor a levou a outro que a levou por sua vez a outro.
Dobrou o corredor deserto. E aí caiu em outra esquina. Que a levou a outro corredor que desembocou em outra esquina.
Então continuou automaticamente a entrar pelos corredores que sempre davam para outros corredores. Onde seria a sala da aula inaugural? Pois junto desta encontraria as pessoas com quem marcara encontro. A conferência era capaz de já ter começado. Ia perdê-la, ela que se forçava a não perder nada de cultural porque assim se mantinha jovem por dentro, já que até por fora ninguém adivinhava que tinha quase 70 anos, todos lhe davam uns 57.
Mas agora, perdida nos meandros internos e escuros do Maracanã, a senhora já arrastava pés pesados de velha.
Foi então que subitamente encontrou num corredor um homem surgido do nada e perguntou-lhe pela conferência que o homem disse ignorar. Mas esse homem pediu informações a um segundo homem que também surgira repentinamente ao dobramento do corredor.
Então este segundo homem informou que havia visto perto da arquibancada da direita, em pleno estádio aberto, “duas damas e um cavalheiro, uma de vermelho”. A Sra. Xavier tinha dúvida de que essas pessoas fossem o grupo com quem devia se encontrar antes da conferência, e na verdade já perdera de vista o motivo pelo qual caminhava sem nunca mais parar. De qualquer modo seguiu o homem para o estádio, onde parou ofuscada no espaço oco de luz escancarada e mudez aberta, o estádio nu desventrado, sem bola nem futebol. Sobretudo sem multidão. Havia uma multidão que existia pelo vazio de sua ausência absoluta.
As duas damas e o cavalheiro já haviam sumido por algum corredor?
Então o homem disse com desafio exagerado: “Pois vou procurar para a senhora e vou encontrar de qualquer jeito essa gente, eles não podem ter sumido no ar.”
E de fato de muito longe ambos os viram. Mas um segundo depois tornaram a desaparecer. Parecia um jogo infantil onde gargalhadas amordaçadas riam da Sra. Jorge B. Xavier.
Então entrou com o homem por outros corredores. Aí este homem também sumiu numa esquina.
A senhora já desistira da conferência que no fundo pouco lhe importava. Contanto que saísse daquele emaranhado de caminhos sem fim. Não haveria porta de saída? Então sentiu como se estivesse dentro de um elevador enguiçado entre um andar e outro. Não haveria porta de saída?
Então eis que subitamente lembrou-se das palavras de informação da amiga pelo telefone: “fica mais ou menos perto do Estádio do Maracanã.” Diante dessa lembrança entendeu o seu engano de pessoa avoada e distraída que só ouvia as coisas pela metade, a outra ficando submersa. A Sra. Xavier era muito desatenta. Então, pois, não era no Maracanã o encontro, era apenas perto dali. No entanto o seu pequeno destino quisera-a perdida no labirinto.
Sim, então a luta recomeçou pior ainda: queria por força sair de lá e não sabia como nem por onde. E de novo apareceu no corredor aquele homem que procurava as pessoas e que de novo lhe garantiu que as acharia porque não podiam ter sumido no ar. Ele disse assim mesmo:
As pessoas não podem ter sumido no ar!
A senhora informou:
Não precisa mais se incomodar de procurar, sim? Muito obrigada, sim? Porque o lugar onde preciso encontrar as pessoas não é no Maracanã.
O homem parou imediatamente de andar para olhá-la perplexo:
Então que é que a senhora está fazendo aqui?
Ela quis explicar que sua vida era assim mesmo, mas nem sequer sabia o que queria dizer com o “assim mesmo” nem com “sua vida”, nada respondeu. O homem insistiu na pergunta, entre desconfiado e cauteloso: que é que ela estava fazendo ali? Nada, respondeu apenas em pensamento a senhora, já então prestes a cair de cansaço. Mas não lhe respondeu, deixou-o pensar que era louca. Além do mais ela nunca se explicava. Sabia que o homem a julgava louca – e quem dissera que não? pois não sentia aquela coisa que ela chamava de “aquilo” por vergonha? Se bem que soubesse ter a chamada saúde mental tão boa que só podia se comparar com sua saúde física. Saúde física já agora arrebentada pois rastejava os pés de muitos anos de caminho pelo labirinto. Sua via crucis. Estava vestida de lã muito grossa e sufocava suada ao inesperado calor de um auge de verão, esse dia de verão que era um aleijão do inverno. As pernas lhe doíam, doíam ao peso da velha cruz. Já se resignara de algum modo a nunca mais sair do Maracanã e a morrer ali de coração exangue.
Então, e como sempre, era só depois de desistir das coisas desejadas que elas aconteciam. O que lhe ocorreu de repente foi uma ideia: “mas que velha maluca eu sou”. Por que em vez de continuar a perguntar pelas pessoas que não estavam lá, não procurava o homem e indagava dele como se saía dos corredores? Pois o que queria era apenas sair e não encontrar-se com ninguém.
Achou finalmente o homem, ao dobrar de uma esquina. E falou-lhe com voz um pouco trêmula e rouca por cansaço e medo de ter vã esperança. O homem desconfiado concordou mais do que depressa que era melhor mesmo que ela fosse embora para casa e disse-lhe com cuidado: “A senhora parece que não está muito bem da cabeça, talvez seja esse calor esquisito”.
Dito isto, então simplesmente o homem entrou com ela no primeiro corredor e na esquina avistavam-se os dois largos portões abertos. Apenas assim? tão fácil assim?
Apenas assim.
Então a senhora pensou sem nada concluir que só para ela é que se havia tornado impossível achar a saída. A Sra. Xavier estava apenas um pouco espantada e ao mesmo tempo habituada. Na certa cada um tinha o próprio caminho a percorrer interminavelmente, fazendo isto parte do destino, no qual ela não sabia se acreditava ou não.
E havia o táxi passando. Mandou-o parar e disse-lhe controlando a voz que estava cada vez mais velha e cansada:
Moço, não sei bem o endereço, esqueci. Mas o que sei é que a casa fica numa rua – não-me-lembro-mais-o-quê mas que fala em “Gusmão” e faz esquina com uma rua se não me engano chamada Coronel-não-sei-quê.
O chofer foi paciente como com uma criança: “Pois então não se afobe, vamos procurar calmamente uma rua que tenha Gusmão no meio e Coronel no fim”, disse virando-se para trás num sorriso e aí piscou-lhe um olho de conivência que parecia indecente. Partiram aos solavancos que lhe sacudiam as entranhas.
Então de repente reconheceu as pessoas que procurava e que se achavam na calçada defronte de uma casa grande. Era porém como se a finalidade fosse chegar e não a de ouvir a palestra que a essa hora estava totalmente esquecida, pois a Sra. Xavier se perdera de seu objetivo. E não sabia em nome de que caminhara tanto. Então viu que se cansara para além das próprias forças e quis ir embora, a conferência era um pesadelo. Então pediu a uma senhora importante e vagamente conhecida e que tinha carro com chofer para levá-la em casa porque não estava se sentindo bem com o calor estranho. O chofer só viria daí a uma hora. Então a Sra. Xavier sentou-se numa cadeira que tinham posto para ela no corredor, sentou-se empertigada na sua cinta apertada, fora da cultura que se processava defronte na sala fechada. De onde não se ouvia som algum. Pouco lhe importava a cultura. E ali estava nos labirintos de 60 segundos e de 60 minutos que a encaminhariam a uma hora.
Então a senhora importante veio e disse assim: que a condução estava à porta mas que lhe informava que, como o chofer avisara que ia demorar muito, em vista da senhora não estar passando bem, mandara parar o primeiro táxi que vira. Por que a Sra. Xavier não tivera ela própria a ideia de chamar um táxi, em vez de dispor-se a se submeter aos meandros do tempo de espera? Então a Sra. Jorge B. Xavier agradeceu-lhe com extrema delicadeza. A senhora era sempre muito delicada e educada. Entrou no táxi e disse:
Leblon, por obséquio.
Tinha o cérebro oco, parecia-lhe que sua cabeça estava em jejum.
Daí a pouco notou que rodavam e rodavam mas que de novo terminavam por voltar para uma mesma praça. Por que não saíam de lá? Não havia de novo caminho de saída? O chofer acabou confessando que não conhecia a zona Sul, que só trabalhava na zona Norte. E ela não sabia como ensinar-lhe o caminho. Cada vez mais a cruz dos anos pesava-lhe e a nova falta de saída apenas renovava a magia negra dos corredores do Maracanã. Não havia meio de se livrarem da praça! Então o chofer disse-lhe que tomasse outro táxi, e chegou mesmo a fazer sinal para um que passara ao lado. Ela agradeceu comedidamente, fazia cerimônia com as pessoas, mesmo com as conhecidas. Além do que era muito gentil. No novo táxi disse a medo:
Se o senhor não se incomodar, vamos para o Leblon.
E simplesmente saíram logo da praça e entraram por novas ruas.
Foi ao abrir com a chave a porta do apartamento que teve vontade apenas mental e fantasiada de soluçar bem alto. Mas ela não era de soluçar nem de reclamar. De passagem avisou à empregada que não atenderia telefonema. Foi direto ao quarto, tirou toda a roupa, engoliu sem água uma pílula e então esperou que esta desse resultado.
Enquanto isso, fumava. Lembrou-se de que era mês de agosto e diziam que agosto dava azar. Mas setembro viria um dia como porta de saída. E setembro era por algum motivo o mês de maio: um mês mais leve e mais transparente. Foi vagamente pensando nisso que a sonolência finalmente veio e ela adormeceu.
Quando acordou horas depois então viu que chovia uma chuva fina e gelada, fazia um frio de lâmina de faca. Nua na cama ela enregelava. Então achou muito curioso uma velha nua. Lembrou-se de que planejara a compra de uma echarpe de lã. Olhou o relógio: ainda encontraria o comércio aberto. Tomou um táxi e disse:
Ipanema, por obséquio.
O homem disse:
Como é que é? É para o Jardim Botânico?
Ipanema, por favor – repetiu a senhora, bastante surpreendida. Era o absurdo do desencontro total: pois, que havia em comum entre as palavras Ipanema e Jardim Botânico? Mas de novo pensou vagamente que “era assim mesmo a sua vida”.
Fez rapidamente a compra e viu-se na rua já escurecida sem ter o que fazer. Pois o Sr. Jorge B. Xavier viajara para São Paulo no dia anterior e só voltaria no dia seguinte.
Então, de novo em casa, entre tomar nova pílula para dormir ou fazer alguma outra coisa, optou pela segunda hipótese, pois lembrou-se de que agora poderia voltar a procurar a letra de câmbio perdida. O pouco que entendia era que aquele papel representava dinheiro. Há dois dias procurara minuciosamente pela casa toda, e até pela cozinha, mas em vão. Agora lhe ocorria: e por que não embaixo da cama? Talvez. Então ajoelhou-se no chão. Mas logo cansou-se de só estar apoiada nos joelhos e apoiou-se também nas duas mãos.
Então percebeu que estava de quatro.
Assim ficou um tempo, talvez meditativa, talvez não. Quem sabe, a Sra. Xavier estivesse cansada de ser um ente humano. Estava sendo uma cadela de quatro. Sem nobreza nenhuma. Perdida a altivez última. De quatro, um pouco pensativa talvez. Mas embaixo da cama só havia poeira.
Levantou-se com bastante esforço das juntas desarticuladas e viu que nada mais havia a fazer senão considerar com realismo – e era com um esforço penoso que via a realidade – considerar com realismo que a letra estava perdida e que continuar a procurá-la seria nunca sair do Maracanã.
E como sempre, já que desistira de procurar, ao abrir a gavetinha de lenços para tirar um – lá estava a letra de câmbio.
Então a senhora, cansada pelo esforço de ter ficado de quatro, sentou-se na cama e começou muito à toa a chorar de manso. Parecia mais uma lenga-lenga árabe. Há 30 anos não chorava, mas agora estava tão cansada. Se é que aquilo era choro. Não era. Era alguma coisa. Finalmente assoou o nariz. Então pensou o seguinte: que ela forçaria o “destino” e teria um destino maior. Com força de vontade se consegue tudo, pensou sem a menor convicção. E isso de estar presa a um destino ocorrera-lhe porque já começara sem querer a pensar em “aquilo”.
Mas aconteceu então que a senhora também pensou o seguinte: era tarde demais para ter um destino. Ela pensou que bem faria qualquer tipo de permuta com outro ser. Foi então que lhe ocorreu que não havia com quem se permutar: que quer que ela fosse, ela era ela e não podia se transformar numa outra única. Cada um era único. A Sra. Jorge B. Xavier também era.
Mas tudo o que lhe acontecera ainda era preferível a sentir “aquilo”. E aquilo veio com seus longos corredores sem saída. “Aquilo”, agora sem nenhum pudor, era a fome dolorosa de suas entranhas, fome de ser possuída pelo inalcançável ídolo de televisão. Não perdia um só programa dele. Então, já que não pudera se impedir de pensar nele, o jeito era deixar-se pensar e relembrar o rosto de menina-moça de Roberto Carlos, meu amor.
Foi lavar as mãos sujas de poeira e viu-se no espelho da pia. Então a Sra. Xavier pensou assim: “Se eu quiser muito, mas muito mesmo, ele será meu por ao menos uma noite.” Acreditava vagamente na força de vontade. De novo se emaranhou no desejo que era retorcido e estrangulado.
Mas, quem sabe? Se desistisse de Roberto Carlos, então é que as coisas entre ele e ela aconteceriam. A Sra. Xavier meditou um pouco sobre o assunto. Então espertamente fingiu que desistia de Roberto Carlos. Mas bem sabia que a desistência mágica só dava resultados positivos quando era real, e não apenas um truque como modo de conseguir. A realidade exigia muito da senhora. Examinou-se ao espelho para ver se o rosto se tornaria bestial sob a influência de seus sentimentos. Mas era um rosto quieto que já deixara há muito de representar o que sentia. Aliás, seu rosto nunca exprimira senão boa educação. E agora era apenas a máscara de uma mulher de 70 anos. Então sua cara levemente maquilada pareceu-lhe a de um palhaço. A senhora forçou sem vontade um sorriso para ver se melhorava. Não melhorou.
Por fora – viu no espelho – ela era uma coisa seca como um figo seco. Mas por dentro não era esturricada. Pelo contrário. Parecia por dentro uma gengiva úmida, mole assim como gengiva desdentada.
Então procurou um pensamento que a espiritualizasse ou que a esturricasse de vez. Mas nunca fora espiritual. E por causa de Roberto Carlos a senhora estava envolta nas trevas da matéria onde ela era profundamente anônima.
De pé no banheiro era tão anônima quanto uma galinha.
Numa fração de fugitivo segundo quase inconsciente vislumbrou que todas as pessoas são anônimas. Porque ninguém é o outro e o outro não conhecia o outro. Então – então a pessoa é anônima. E agora estava emaranhada naquele poço fundo e mortal, na revolução do corpo. Corpo cujo fundo não se via e que era a escuridão das trevas malignas de seus instintos vivos como lagartos e ratos. E tudo fora de época, fruto fora de estação? Por que as outras velhas nunca lhe tinham avisado que até o fim isso podia acontecer? Nos homens velhos bem vira olhares lúbricos. Mas nas velhas não. Fora de estação. E ela viva como se ainda fosse alguém, ela que não era ninguém.
A Sra. Jorge B. Xavier era ninguém.
Então quis ter sentimentos bonitos e românticos em relação à delicadeza de rosto de Roberto Carlos. Mas não conseguiu: a delicadeza dele apenas a levava a um corredor escuro de sensualidade. E a danação era a lascívia. Era fome baixa: ela queria comer a boca de Roberto Carlos. Não era romântica, ela era grosseira em matéria de amor. Ali no banheiro, defronte do espelho da pia.
Com sua idade indelevelmente maculada.
Sem ao menos um pensamento sublime que lhe servisse de leme e que enobrecesse a sua existência.
Então começou a desmanchar o coque dos cabelos e a penteá-los devagar. Estavam precisando de nova tintura, as raízes brancas já apareciam. Então a senhora pensou o seguinte: na minha vida nunca houve um clímax como nas histórias que se leem. O clímax era Roberto Carlos. Meditativa, concluiu que iria morrer secretamente assim como secretamente vivera. Mas também sabia que toda morte é secreta.
Do fundo de sua futura morte imaginou ver no espelho a figura cobiçada de Roberto Carlos, com aqueles macios cabelos encaracolados que ele tinha. Ali estava, presa ao desejo fora de estação assim como o dia de verão em pleno inverno. Presa no emaranhado dos corredores do Maracanã. Presa ao segredo mortal das velhas. Só que ela não estava habituada a ter quase 70 anos, faltava-lhe prática e não tinha a menor experiência.
Então disse alto e bem sozinha:
Robertinho Carlinhos.
E acrescentou ainda: meu amor. Ouviu sua voz com estranheza como se estivesse pela primeira vez fazendo, sem nenhum pudor ou sentimento de culpa, a confissão que no entanto deveria ser vergonhosa. A senhora devaneou que era capaz de Robertinho não querer aceitar o seu amor porque tinha ela própria consciência de que este amor era muito piegas, melosamente voluptuoso e guloso. E Roberto Carlos parecia tão casto, tão assexuado.
Seus lábios levemente pintados ainda seriam beijáveis? Ou por acaso era nojento beijar boca de velha? Examinou bem de perto e inexpressivamente os próprios lábios. E ainda inexpressivamente cantou baixo o estribilho da canção mais famosa de Roberto Carlos: “Quero que você me aqueça neste inverno e que tudo o mais vá para o inferno.”
Foi então que a Sra. Jorge B. Xavier bruscamente dobrou-se sobre a pia como se fosse vomitar as vísceras e interrompeu sua vida com uma mudez estraçalhante: tem! que! haver! uma! porta! de saiiiiiída!

Clarice Lispector, em Todos os Contos