sábado, 18 de abril de 2026
Meia-noite, 16 de junho
Não volto às letras, que doem como
uma catástrofe. Não escrevo mais. Não milito mais. Estou no meio
da cena, entre quem adoro e quem me adora. Daqui do meio sinto cara
afogueada, mão gelada, ardor dentro do gogó. A matilha de Londres
caça minha maldade pueril, cândida sedução que dá e toma e então
exige respeito, madame javali. Não suporto perfumes. Vasculho com o
nariz o terno dele. Ar de Mia Farrow, translúcida. O horror dos
perfumes, dos ciúmes e do sapato que era gêmea perfeita do ciúme
negro brilhando no gogó. As noivas que preparei, amadas, brancas.
Filhas do horror da noite, estalando de novas, tontas de buquês. Tão
triste quando extermina, doce, insone, meu amor.
Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés
Diário de Bernardo Soares
100.
Vivo sempre no presente. O futuro, não
o conheço. O passado, já o não tenho. Pesa-me um como a
possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não tenho
esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até
hoje — tantas vezes e em tanto o contrário do que eu a desejara —,
que posso presumir da minha vida de amanhã senão que será o que
não presumo, o que não quero, o que me acontece de fora, até
através da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que relembre
com o desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um
simulacro de mim. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem
as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente
exige o momento; passado este, há um virar de página e a história
contínua, mas não o texto.
Breve sombra escura de uma árvore
citadina, leve som de água caindo no tanque triste, verde da relva
regular — jardim público ao quase crepúsculo —, sois, neste
momento, o universo inteiro para mim, porque sois o conteúdo pleno
da minha sensação consciente. Não quero mais da vida do que
senti-la perder-se nestas tardes imprevistas, ao som de crianças
alheias que brincam nestes jardins engradados pela melancolia das
ruas que os cercam, e copados, para além dos ramos altos das
árvores, pelo céu velho onde as estrelas recomeçam.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
sexta-feira, 17 de abril de 2026
Contradições?
... mas o que eles não sabem levar em
conta é que o poeta é uma criatura essencialmente dramática, isto
é, contraditória, isto é, verdadeira.
E por isso é que o bom de escrever
teatro é que se pode dizer, com toda a sinceridade, as coisas mais
opostas.
Sim, um autor que nunca se contradiz
deve estar mentindo.
Mário Quintana, em Caderno H
O mestre e Margarida
... quem és, afinal?
— Sou parte da força que
eternamente
deseja o mal e eternamente faz o
bem.
Fausto, Goethe
Primeira parte
1
Nunca falem com estranhos
Na hora de um quente pôr do sol
primaveril, surgiram dois cidadãos em Patriarchi Prudý. O primeiro,
com aproximadamente quarenta anos, trajava um costume cinza de verão,
era de estatura baixa, cabelos escuros, rechonchudo, careca, na mão
seu respeitável chapéu Fedora. Óculos de tamanho sobrenatural de
armação preta de chifre ornavam seu rosto cuidadosamente
escanhoado. O segundo era um jovem de ombros largos, arruivado,
hirsuto, com um boné xadrez caído na nuca, camisa de caubói,
calças brancas amarrotadas e tênis pretos.
O primeiro era nada mais nada menos
que Mikhail Aleksándrovitch Berlioz, editor de uma volumosa revista
de arte e presidente do conselho administrativo de uma das maiores
associações literárias de Moscou, abreviadamente denominada
Massolit. Já seu jovem acompanhante era o poeta Ivan Nikoláievitch
Ponyriov, que escrevia sob o pseudônimo de Bezdômny.
Assim que entraram na sombra das
tílias verdejantes, os escritores se precipitaram para um quiosque
multicolorido com a placa “Cerveja e refrescos”.
Sim, convém destacar a primeira
esquisitice desse terrível entardecer de maio. Não só perto do
quiosque, mas também em toda a aleia paralela à rua Málaia
Brônnaia, não havia vivalma. Naquela hora, quando não se tinha
forças nem para respirar, quando o sol, após incandescer Moscou,
mergulhava numa neblina seca em algum lugar de Sadôvoie Koltsô,
ninguém viera para a sombra das tílias, ninguém se sentara no
banco, a aleia estava vazia.
— Uma água com gás — pediu
Berlioz.
— Não tem — respondeu a mulher do
quiosque, e sabe-se lá por que se ofendeu.
— Tem cerveja? — quis saber
Bezdômny, com a voz rouca.
— Vão trazer mais tarde —
respondeu a mulher.
— Então tem o quê? — perguntou
Berlioz.
— Refresco de damasco, e só quente
— disse a mulher.
— Então vai, pode ser, pode ser!...
O refresco de damasco formou uma
espuma densa e amarela, surgiu no ar um cheiro de cabeleireiro.
Depois de beberem, os literatos imediatamente começaram a soluçar,
pagaram e sentaram-se no banco, de frente para o lago e de costas
para a Brônnaia.
Nesse momento, ocorreu a segunda
esquisitice, que só tinha a ver com Berlioz. Ele parou de soluçar
repentinamente, seu coração bateu e, num rufo, sentiu como se
tivesse despencado para algum lugar e depois voltado, mas com uma
agulha cega cravada nele. Além disso, Berlioz foi tomado por um medo
infundado, mas tão forte, que teve vontade de sair correndo
imediatamente de Patriarchi, sem olhar para trás.
Berlioz olhou em volta angustiado, sem
entender o que o assustara tanto. Empalideceu, enxugou a testa com um
lenço e pensou: “O que está acontecendo comigo? Nunca senti
isso... o coração está falhando... estou esgotado... Acho que está
na hora de mandar tudo para o inferno e ir para Kislovôdsk...”
Na mesma hora, o ar tórrido
condensou-se diante dele e desse ar fez-se um cidadão transparente,
de aspecto estranhíssimo. Na pequena cabeça, um boné de jóquei,
um paletó xadrez apertado e também vaporoso... Um cidadão de
estatura colossal, mas de ombros estreitos, incrivelmente magro e de
fisionomia, quero destacar, zombeteira.
A vida de Berlioz transcorria de tal
modo que ele não estava acostumado a fenômenos extraordinários.
Empalidecendo ainda mais, ele esbugalhou os olhos e pensou, confuso:
“Isso não pode ser real!”
Mas infelizmente era real, e através
daquilo se via um cidadão alongado e transparente, que balançava
diante dele, ora para a esquerda ora para a direita, sem tocar no
chão.
Nesse instante, o pavor tomou conta de
Berlioz de tal forma que ele fechou os olhos. Quando os abriu, viu
que tudo tinha acabado, a miragem evaporara, o xadrez desaparecera e,
a propósito, a agulha cega se desprendera de seu coração.
— Ê, diabo! — exclamou o editor.
— Sabe, Ivan, quase tive um ataque cardíaco por causa do calor!
Tive até mesmo um tipo de alucinação... — tentou sorrir, mas a
aflição ainda saltava aos olhos e as mãos tremiam. Acalmou-se aos
poucos, abanou-se com o lenço e pronunciou bastante animado: —
Bem, então... — retomou a conversa interrompida pelo refresco de
damasco.
A conversa, como descobriram
posteriormente, era sobre Jesus Cristo. É que o editor havia
encomendado ao poeta um grande poema antirreligioso para o próximo
número da revista. Ivan Nikoláievitch escrevera o poema, e até num
prazo bastante curto, mas, infelizmente, o resultado não satisfizera
o editor. Bezdômny esboçou o personagem principal de seu poema, ou
seja, Jesus, com tintas muito escuras e, no entanto, o poema todo
deveria, na opinião do editor, ser reescrito. E agora o editor dava
ao poeta uma espécie de aula sobre Jesus, para destacar o principal
erro que ele havia cometido.
Difícil dizer o que exatamente traiu
Ivan Nikoláievitch — se foi a força figurativa de seu talento ou
a total ignorância do tema sobre o qual escreveu —, mas seu Jesus
saiu assim, perfeitamente verdadeiro, um Jesus que havia realmente
existido, só que, na verdade, um Jesus provido de todos os traços
negativos.
Berlioz, por sua vez, queria provar ao
poeta que o importante não eram as qualidades de Jesus, boas ou
ruins, mas que esse Jesus, como personalidade, jamais existira no
mundo e que todas as histórias sobre ele eram simples invenções, o
mito mais comum.
É necessário observar que o editor
era uma pessoa culta e, com muita desenvoltura, referia-se aos
antigos historiadores em sua fala, por exemplo, ao famoso Fílon de
Alexandria e ao brilhantemente educado Flávio Josefo, que nunca
haviam dito sequer uma palavra sobre a existência de Jesus.
Demonstrando uma erudição sólida, Mikhail Aleksándrovitch
informou ao poeta, entre outras coisas, que aquele trecho, no
quadragésimo quarto capítulo do décimo quinto livro dos famosos
Anais de Tácito, no qual se relata a execução de Jesus, era
nada mais, nada menos, que uma falsa e tardia inserção.
O poeta, para quem tudo o que estava
sendo informado pelo editor era novidade, ouvia atentamente Mikhail
Aleksándrovitch, cravando nele seus olhos verdes e vivos, e
soluçando, volta e meia xingando baixinho o refresco de damasco.
— Não há nenhuma religião
oriental — dizia Berlioz — na qual, por via de regra, uma virgem
não dê à luz um deus. Os cristãos, sem inventar nada de novo,
criaram da mesma forma seu Jesus que, na realidade, nunca esteve
entre os vivos. É a isso que você deve dar mais ênfase.
O tenor alto de Berlioz ecoava na
aleia deserta e, à medida que Mikhail Aleksándrovitch se embrenhava
mais e mais no assunto, o que somente um homem culto poderia se
permitir sem quebrar a cara, o poeta descobria mais e mais coisas
interessantes e úteis sobre o Osíris egípcio, o deus e filho
benevolente do Céu e da Terra, sobre o deus fenício Tamuz, sobre
Marduque da Babilônia e, até mesmo, sobre o menos famoso e terrível
deus Vitzliputzli, muito referenciado outrora no México pelos
astecas.
No exato momento em que Mikhail
Aleksándrovitch contava ao poeta como os astecas esculpiram a figura
de Vitzliputzli de massa, surgiu a primeira pessoa na aleia.
Posteriormente, quando, falando
francamente, já era tarde demais, diferentes instituições
apresentaram seus informes com a descrição dessa pessoa. A
comparação dos informes não pôde deixar de causar admiração. O
primeiro dizia que ela era de estatura baixa, dentes de ouro e que
mancava da perna direita. O segundo, que tinha um tamanho enorme, as
coroas dos dentes de platina e que mancava da perna esquerda. O
terceiro informava laconicamente que essa pessoa não possuía
quaisquer sinais especiais.
Deve-se reconhecer que nenhum desses
informes valia coisa alguma.
Ou seja: a pessoa descrita não
mancava de nenhuma das pernas, sua estatura não era nem baixa nem
enorme, mas simplesmente alta. Em relação aos dentes, do lado
esquerdo as coroas eram de platina e, do lado direito, de ouro.
Trajava um terno caro, cinza, e sapatos estrangeiros, da mesma cor
que o terno. Usava uma boina cinza, colocada à banda em uma das
orelhas, e embaixo do braço trazia uma bengala com um castão preto
em forma de cabeça de poodle. Aparentava uns quarenta e poucos anos.
A boca era meio torta. Bem escanhoado. Moreno. O olho direito era
preto, e o esquerdo, sabe-se lá por quê, verde. As sobrancelhas
negras, uma mais alta do que a outra. Numa palavra, era estrangeiro.
Ao passar em frente ao banco em que se
encontravam o editor e o poeta, o estrangeiro olhou-os de soslaio,
parou e de repente sentou-se no banco vizinho, a dois passos dos
colegas.
“Alemão...”, pensou Berlioz.
“Inglês...”, pensou Bezdômny.
“Hum, e mesmo de luvas não está com calor.”
O estrangeiro lançou um olhar para os
prédios altos, que, em forma de quadrado, margeavam o lago, e
notou-se que ele via esse lugar pela primeira vez e que isso
despertava seu interesse.
Ele deteve seu olhar nos andares
superiores que, ofuscantes, refletiam em seus vidros o sol partido,
que para sempre deixaria Mikhail Aleksándrovitch, e logo voltou o
olhar para baixo, onde os vidros começavam a escurecer,
crepusculares. Sorriu indulgente por causa de algo, apertou os olhos,
pousou as mãos no castão e o queixo sobre as mãos.
— Você, Ivan — dizia Berlioz —,
representou muito bem e satiricamente, por exemplo, o nascimento de
Jesus, o filho de Deus, mas o que importa é que, antes de Jesus,
houve uma série de filhos de Deus, como, digamos, o Adônis fenício,
o Átis frígio e o Mitra persa. Em suma, nenhum deles nunca nasceu
nem nunca existiu, inclusive Jesus, e é necessário que você, no
lugar do nascimento ou, suponhamos, da chegada dos Reis Magos,
escreva sobre os boatos disparatados dessa chegada. Senão, pelo que
você conta, parece que ele realmente nasceu!...
Então Bezdômny prendeu a respiração
numa tentativa de cessar o soluço que o torturava, o que fez o
soluço ficar ainda mais alto e torturante, e nesse mesmo momento
Berlioz interrompeu sua fala porque o estrangeiro havia se levantado
repentinamente e caminhava em direção aos escritores.
Os dois olharam para ele admirados.
— Desculpem-me, por favor — falou
o recém-chegado, com um forte sotaque estrangeiro, mas sem estropiar
as palavras —, que eu, sendo um estranho, tome a liberdade... mas o
assunto de sua conversa erudita é tão interessante que...
Então ele tirou a boina de maneira
educada e aos amigos não restava mais nada a não ser se erguer e
cumprimentá-lo.
“Não, está mais para francês...”,
pensou Berlioz.
“Polaco?...”, pensou Bezdômny.
É preciso acrescentar que, desde as
primeiras palavras, o estrangeiro causou uma impressão abominável
no poeta, enquanto Berlioz parecia ter gostado dele, ou melhor, não
que tivesse gostado, mas... como se diz... ele havia despertado seu
interesse, ou algo do gênero.
— Permitam-me sentar? — pediu o
estrangeiro de forma educada, e os colegas, como que
involuntariamente, abriram um espaço; o estrangeiro sentou-se
comodamente entre os dois e, no mesmo instante, tomou parte na
conversa: — Se não ouvi mal, o senhor disse que Jesus não existiu
neste mundo? — perguntou o estrangeiro, voltando para Berlioz seu
olho esquerdo, verde.
— Não, o senhor não ouviu mal —
respondeu Berlioz com cortesia. — Falei exatamente isso.
— Ah, que interessante! — exclamou
o estrangeiro.
“O que diabos ele quer?”, pensou
Bezdômny, franzindo a testa.
— E o senhor concordava com seu
interlocutor? — quis saber o desconhecido, virando-se para a
direita, para Bezdômny.
— Cem por cento! — confirmou
Bezdômny, que gostava de se expressar de forma afetada.
— Incrível! — exclamou o
interlocutor intrometido e, sabe-se lá por quê, olhou furtivamente
ao redor e, abafando sua voz grave, disse: — Desculpem a minha
impertinência, mas eu entendi de tal forma que, além de tudo, não
acreditam em Deus? — Ele fez um olhar assustado e acrescentou: —
Juro que não direi a ninguém.
— É, não acreditamos em Deus —
respondeu Berlioz sorrindo de leve diante do susto do turista
estrangeiro —, mas pode falar disso com total liberdade.
O estrangeiro reclinou-se no encosto
do banco e perguntou com voz esganiçada pela curiosidade:
— São ateus?!
— É, somos ateus — respondeu
Berlioz, sorrindo, e Bezdômny, enfurecido, pensou: “Pronto, esse
estrangeiro já está querendo armar confusão!”
— Oh, que graça! — gritou o
estrangeiro, surpreendido, e pôs-se a mover a cabeça, olhando ora
para um, ora para o outro beletrista.
— Em nosso país o ateísmo não
surpreende ninguém — disse Berlioz, diplomático e educado. — A
maioria da nossa população deixou de crer, conscientemente, nos
contos de fada sobre Deus há muito tempo.
Então o estrangeiro aprontou a
seguinte peça: pôs-se de pé e apertou a mão do editor pasmo,
pronunciando as seguintes palavras:
— Permita-me agradecer-lhe de todo o
coração!
— Por que o senhor lhe agradece? —
quis saber Bezdômny, piscando.
— Pela informação muito
importante, que, para mim, um viajante, é interessante demais —
explicou o estrangeiro esquisitão, levantando o dedo de forma
significativa.
A informação importante, pelo visto,
realmente provocou no viajante impressões fortes, tanto que ele
lançou um olhar para os prédios, assustado, como se temesse avistar
em cada janela um ateu.
“Não, não é inglês, não...”,
pensou Berlioz, e Bezdômny pensou: “Onde ele aprendeu a falar
russo assim? Isso é o interessante!”, e franziu a testa novamente.
— Mas permitam-me perguntar —
começou a dizer o visitante estrangeiro depois de uma reflexão
inquietante —, o que fazer com as provas da existência de Deus
que, como se sabe, são precisamente cinco?
— Oh, céus! — respondeu Berlioz
com desgosto. — Nenhuma dessas provas vale nada e a humanidade há
muito tempo as deixou de lado. O senhor há de convir que, à luz da
razão, não pode haver nenhuma prova da existência de Deus.
— Bravo! — bradou o estrangeiro. —
Bravo! O senhor repetiu na íntegra a ideia do preocupado e velho
Immanuel sobre o assunto. Mas veja o curioso: ele destruiu
definitivamente as cinco provas e depois, como que zombando de si
mesmo, criou sua própria sexta prova!
— A prova de Kant — exclamou o
culto editor com sorriso fino — é também inconsistente. Não é à
toa que Schiller dizia que os argumentos kantianos sobre essa questão
podem satisfazer somente escravos, e Strauss simplesmente riu dessa
prova.
Berlioz falava e pensava consigo:
“Quem será ele? E por que fala russo tão bem?”
— Tinham de pegar esse Kant e
prender uns três anos em Solôvki por causa dessas provas! — Ivan
deixou escapar de repente.
— Ivan! — sussurrou Berlioz sem
jeito.
Mas a proposta de enviar Kant a
Solôvki não apenas não espantou o estrangeiro, como também o
levou ao êxtase.
— Isso, isso mesmo — gritou ele, e
seu olho esquerdo, verde, virado para Berlioz, começou a brilhar —,
o lugar dele é lá! Pois eu disse a ele uma vez, durante o café da
manhã: “O senhor é o mestre, a vontade é sua, mas inventou algo
disparatado. Pode ser que seja inteligente, mas é incompreensível
demais. Vão gozar da sua cara.”
Berlioz esbugalhou os olhos. “Durante
o café da manhã... falou com Kant? O que ele estará tramando?”,
pensou.
— Porém — prosseguiu o
forasteiro, sem se incomodar com o assombro de Berlioz e virando-se
para o poeta —, é impossível enviá-lo a Solôvki, pelo simples
fato de que ele, já há cento e poucos anos, se acha em lugares
muito mais distantes do que Solôvki, e não dá para tirá-lo de lá
de jeito nenhum, garanto ao senhor!
— Uma pena! — replicou o poeta
encrenqueiro.
— Também acho uma pena —
confirmou o desconhecido com o olhar cintilante, e prosseguiu: —
Mas eis a questão que me preocupa: se não há Deus, então
pergunta-se, quem administra a vida humana e, em geral, toda a ordem
na terra?
— O próprio ser humano — o
enfurecido Bezdômny apressou-se em responder essa questão
admitidamente não muito clara.
— Perdão — replicou docilmente o
desconhecido —, mas para governar, queira ou não queira, é
necessário possuir um plano preciso com alguns prazos estabelecidos,
nem que seja o mínimo. Permita-me perguntar: como é que pode o ser
humano governar, se não apenas não tem condições de fazer
qualquer plano, mesmo que seja com um prazo ridiculamente curto de,
digamos, uns mil anos, como também é incapaz de garantir sequer seu
dia de amanhã? E realmente — o desconhecido virou-se para Berlioz
— imagine, por exemplo, que o senhor comece a governar, dispondo de
sua vida e da vida de outras pessoas, e então passe a tomar gosto
pela coisa e, de repente, o senhor... hum... hum... descobre que está
com câncer de pulmão... — o estrangeiro sorriu docemente, parecia
que a ideia do câncer lhe dava prazer —, é, câncer — repetiu a
palavra sonora e apertou os olhos feito um gato —, pronto, seu
governo chegou ao fim! Não lhe interessa o destino de mais ninguém,
somente o seu.
“Os parentes começam a mentir para
o senhor. Pressentindo algo errado, o senhor recorre a médicos
formados, depois a charlatões e até mesmo a videntes. Assim como o
primeiro e o segundo, o terceiro não ajuda em nada. Tudo termina
tragicamente: aquele que, ainda há pouco, acreditava administrar
algo de repente se vê imóvel deitado numa caixa de madeira, e as
pessoas que o cercam, compreendendo que não há mais nenhuma
utilidade naquele que está deitado, o queimam no forno. E existem
casos piores: o sujeito pode decidir ir a Kislovôdsk”, o
estrangeiro olhou para Berlioz com os olhos apertados, “uma
coisinha de nada, pode-se pensar, mas nem isso ele consegue realizar,
assim como não se sabe por que ele de repente resolve escorregar e
vai parar debaixo de um bonde! Será que o senhor dirá que foi ele
quem planejou isso para si mesmo? Não seria mais razoável pensar
que ele foi governado por alguém?” E aqui o desconhecido desatou a
soltar estranhas gargalhadas.
Berlioz ouvia com muita atenção a
desagradável história do câncer e do bonde, e pensamentos
angustiantes começaram a atormentá-lo. “Ele não é
estrangeiro... não é estrangeiro...”, pensava, “é um sujeito
estranhíssimo... perdão, mas quem é ele?...”
— Estou vendo que o senhor quer
fumar, não é? — o desconhecido virou-se de repente para Bezdômny.
— Quais prefere?
— O senhor tem diferentes marcas,
por acaso? — perguntou sombrio o poeta, que estava sem cigarros.
— Quais prefere? — repetiu o
desconhecido.
— Ah, “Nossa Marca”, vai —
respondeu Bezdômny, perverso.
O desconhecido retirou imediatamente o
porta-cigarros do bolso e ofereceu a Bezdômny:
— “Nossa Marca.”
O editor e o poeta não se
impressionaram tanto com o fato de o porta-cigarros conter
precisamente cigarros “Nossa Marca”, mas sim com o próprio
porta-cigarros. De proporções enormes e ouro de lei, ao ser aberto,
sua tampa brilhou com uma luz azul e branca de um triângulo de
brilhantes.
Nesse instante, os escritores pensaram
diferente. Berlioz: “Não, não é estrangeiro!”, e Bezdômny:
“Ah, o diabo que o carregue!...”
O poeta e o dono do porta-cigarros
puseram-se a fumar, e o não fumante Berlioz recusou.
“Tenho que retrucar da seguinte
forma”, resolveu Berlioz, “é, o ser humano é mortal, ninguém
discute isso. Mas a questão é que...”
Só que ele não conseguiu pronunciar
essas palavras, pois o estrangeiro começou a dizer:
— É, o ser humano é mortal, mas
isso ainda seria só metade da desgraça. O ruim é que às vezes ele
é mortal de repente, aí é que mora o perigo! E em geral ele não
pode nem dizer o que fará na tarde de hoje.
“Que maneira mais disparatada de
apresentar o problema...”, raciocinou Berlioz, e retrucou:
— Ah, vá lá, existe um certo
exagero nisso. Sei mais ou menos com certeza como será a tarde de
hoje. Mas é claro que, se um tijolo cair na minha cabeça no meio da
Brônnaia...
— Um tijolo — interrompeu sério o
desconhecido — não cai nunca sem mais nem menos na cabeça de
ninguém. E eu lhe garanto que isso, particularmente, não o ameaça
de jeito nenhum. O senhor morrerá de morte diferente.
— Será que o senhor sabe como? —
quis saber Berlioz com uma ironia natural, envolvendo-se pela
conversa totalmente disparatada. — E vai me dizer?
— Com satisfação — replicou o
desconhecido. Ele mediu Berlioz com o olhar, como se pretendesse
confeccionar um terno, balbuciou por entre os dentes algo como “um,
dois... Mercúrio na segunda casa... a lua saiu... seis, desgraça...
entardecer, sete...” e anunciou em voz alegre e alta: — Vão
cortar sua cabeça!
Bezdômny esbugalhou os olhos
selvagens e perversos para o atrevido desconhecido e Berlioz
perguntou com um sorriso amarelo:
— Quem exatamente? Os inimigos? Os
invasores?
— Não — respondeu o interlocutor
— uma mulher russa, uma komsomôlka.
— Hum... — rosnou Berlioz,
irritado com a brincadeira do desconhecido. — Ah, calma lá, me
desculpe, mas isso é pouco provável.
— Desculpe-me também — respondeu
o estrangeiro —, mas é verdade. Ah, será que eu poderia perguntar
o que o senhor vai fazer hoje à tarde, se não é segredo?
— Segredo algum. Agora vou até
minha casa na Sadôvaia e depois, às dez da noite, haverá uma
reunião na Massolit e eu vou presidi-la.
— Não, isso não pode ser, de jeito
nenhum — retrucou o estrangeiro com firmeza.
— Por quê?
— Porque — respondeu o estrangeiro
e, com os olhos franzidos, fitou o céu, sulcado por silenciosos
pássaros negros, pressentindo o frescor da noite — Ánnuchka já
comprou o óleo de girassol, e não só comprou como já o derramou.
Não haverá reunião.
Nesse instante, é bastante
compreensível, o silêncio caiu sob as tílias.
— Desculpe — falou Berlioz após
uma pausa, olhando para o estrangeiro que balbuciava coisas sem
sentido —, mas o que o óleo de girassol tem a ver com isso... e de
qual Ánnuchka você está falando?
— O óleo de girassol tem a ver pelo
seguinte motivo — disse de repente Bezdômny, que, pelo visto,
resolveu declarar guerra ao interlocutor intrometido —, o senhor,
cidadão, não esteve em algum sanatório para doentes mentais?
— Ivan! — exclamou baixinho
Mikhail Aleksándrovitch.
Mas o estrangeiro não se ofendeu nem
um pouco e deu uma bela gargalhada.
— Estive, estive, sim, várias
vezes! — gritou ele, rindo, mas sem tirar os olhos nada risonhos do
poeta. — E onde é que eu não estive! Pena que não tive tempo de
perguntar ao doutor o que é esquizofrenia. Por isso, o senhor terá
de perguntar-lhe pessoalmente, Ivan Nikoláievitch!
— Como sabe meu nome?
— Perdão, Ivan Nikoláievitch, mas
quem não o conhece? — Nesse momento o estrangeiro tirou do bolso o
exemplar do jornal Literatúrnaia Gaziêta do dia anterior e
Ivan Nikoláievitch viu na primeira página o seu retrato com seus
poemas embaixo. Mas a prova de fama e popularidade, que ainda ontem o
alegrava, dessa vez não proporcionou sentimento de felicidade ao
poeta.
— Desculpe — disse ele, e seu
rosto ficou sombrio —, mas o senhor poderia aguardar um minuto?
Quero trocar duas palavrinhas com o camarada.
— Oh, com prazer! — exclamou o
desconhecido. — Está tão bom aqui, sob as tílias, e eu, aliás,
não estou com pressa.
— É o seguinte, Micha —6 pôs-se
a cochichar o poeta, arrastando Berlioz para o canto —, ele não é
turista estrangeiro coisa nenhuma, mas sim espião. É um emigrante
russo que conseguiu entrar aqui. Pergunte por seus documentos, senão
vai fugir...
— Você acha? — cochichou Berlioz
agitado, e pensou: “De fato, ele está certo...”
— Acredite em mim — sibilou o
poeta em seu ouvido —, ele está se fazendo de bobo para pedir
algo. Viu como fala russo? — o poeta falava e olhava de soslaio,
cuidando para que o desconhecido não escapasse. — Vamos prendê-lo,
senão vai fugir...
O poeta puxou Berlioz pelo braço até
o banco.
O desconhecido não estava sentado,
mas parado perto do banco, segurando nas mãos um livro com
encadernação cinza-escura, um envelope de papel bom e grosso e um
cartão de visita.
— Desculpem-me, mas no ardor de
nosso debate esqueci de me apresentar. Aqui está o meu cartão de
visita, o passaporte e o convite para vir a Moscou7 para dar
consultoria — disse o desconhecido de forma convincente, lançando
um olhar penetrante para os dois literatos.
Estes, por sua vez, ficaram sem jeito.
“Diabo, ele ouviu tudo...”, pensou Berlioz, e com um gesto
educado indicou que não havia necessidade de apresentar documentos.
Enquanto o estrangeiro empurrava os papéis para o editor, o poeta
conseguiu divisar no cartão a palavra “professor”, impressa com
letras estrangeiras e a letra inicial do sobrenome — “W”.
— Muito prazer — balbuciava o
editor, sem graça, enquanto o estrangeiro guardava os documentos no
bolso.
Assim, as relações foram
restabelecidas e os três se sentaram novamente no banco.
— O senhor foi convidado na
qualidade de consultor, professor? — perguntou Berlioz.
— É, como consultor.
— É alemão? — quis saber
Bezdômny.
— Eu? — respondeu o doutor em
forma de pergunta e de repente ficou pensativo. — Sim,
provavelmente alemão... — disse ele.
— O senhor fala russo muito bem —
observou Bezdômny.
— Oh, sou poliglota e domino um
grande número de idiomas — respondeu o doutor.
— E o senhor tem alguma
especialidade? — quis saber Berlioz.
— Sou especialista em magia negra.
“Pronto!”, pensou Mikhail
Aleksándrovitch.
— E... e o senhor foi convidado por
causa dessa especialidade? — perguntou ele, gaguejando.
— Sim, por causa dela — confirmou
o doutor, e esclareceu: — Aqui, na biblioteca estatal, foram
descobertos manuscritos originais do necromante Gerbert D’Aurillac,8
do século X. Pois bem, é preciso que eu os decifre. Sou o único
especialista do mundo.
— A-há! É historiador? —
perguntou Berlioz, com grande alívio e respeito.
— Sou historiador — confirmou o
cientista e acrescentou sem mais nem menos: — Hoje à noite, em
Patriarchi Prudý, acontecerá uma história interessante!
Novamente o editor e o poeta se
surpreenderam muito. O professor chamou ambos para perto de si e,
quando eles se inclinaram, cochichou:
— Saibam que Jesus existiu.
— Veja bem, doutor — replicou
Berlioz com um sorriso forçado —, respeitamos seus grandes
conhecimentos, mas, sobre esse assunto, temos pontos de vista
diferentes.
— Não precisa de ponto de vista
coisa nenhuma — respondeu o estranho professor —, ele
simplesmente existiu e pronto.
— Mas é preciso ter alguma prova...
— começou Berlioz.
— Não precisa de prova nenhuma —
respondeu o doutor, que se pôs a falar baixo e, sabe-se lá por quê,
seu sotaque desapareceu: — É tudo simples: de manto branco com a
barra cor de sangue, com movimentos gingados de um cavaleiro, na
manhã do décimo quarto dia do mês primaveril de Nissan…
Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida
sábado, 11 de abril de 2026
As águas do mundo
Aí está ele, o mar, a mais
ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher,
de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como ser
humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais
ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar.
Só poderia haver um encontro de seus
mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos
incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas
compreensões.
Ela olha o mar, é o que pode fazer.
Ele só lhe é delimitado pela linha do horizonte, isto é, pela sua
incapacidade humana de ver a curvatura da terra.
São seis horas da manhã. Só um cão
livre hesita na praia, um cão negro. Por que é que um cão é tão
livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga. A mulher
hesita porque vai entrar.
Seu corpo se consola com sua própria
exiguidade em relação à vastidão do mar porque é a exiguidade do
corpo que o permite manter-se quente e é essa exiguidade que a torna
pobre e livre gente, com sua parte de liberdade de cão nas areias.
Esse corpo entrará no ilimitado frio que sem raiva ruge no silêncio
das seis horas. A mulher não está sabendo: mas está cumprindo uma
coragem. Com a praia vazia nessa hora da manhã, ela não tem o
exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples
jogo leviano de viver. Ela está sozinha. O mar salgado não é
sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização. Nessa
hora ela se conhece menos ainda do que conhece o mar. Sua coragem é
a de, não se conhecendo, no entanto prosseguir. É fatal não se
conhecer, e não se conhecer exige coragem.
Vai entrando. A água salgada é de um
frio que lhe arrepia em ritual as pernas. Mas uma alegria fatal – a
alegria é uma fatalidade – já a tomou, embora nem lhe ocorra
sorrir. Pelo contrário, está muito séria. O cheiro é de uma
maresia tonteante que a desperta de seus mais adormecidos sonos
seculares. E agora ela está alerta, mesmo sem pensar, como um
caçador está alerta sem pensar. A mulher é agora uma compacta e
uma leve e uma aguda – e abre caminho na gelidez que, líquida, se
põe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que a
oposição pode ser um pedido.
O caminho lento aumenta sua coragem
secreta. E de repente ela se deixa cobrir pela primeira onda. O sal,
o iodo, tudo líquido, deixam-na por uns instantes cega, toda
escorrendo – espantada de pé, fertilizada.
Agora o frio se transforma em frígido.
Avançando, ela abre o mar pelo meio. Já não precisa da coragem,
agora já é antiga no ritual. Abaixa a cabeça dentro do brilho do
mar, e retira uma cabeleira que sai escorrendo toda sobre os olhos
salgados que ardem. Brinca com a mão na água, pausada, os cabelos
ao sol quase imediatamente já estão se endurecendo de sal. Com a
concha das mãos faz o que sempre fez no mar, e com a altivez dos que
nunca darão explicação nem a eles mesmos: com a concha das mãos
cheia de água, bebe em goles grandes, bons.
E era isso o que lhe estava faltando:
o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. Agora ela está
toda igual a si mesma. A garganta alimentada se constringe pelo sal,
os olhos avermelham-se pelo sal secado pelo sol, as ondas suaves lhe
batem e voltam pois ela é um anteparo compacto.
Mergulha de novo, de novo bebe mais
água, agora sem sofreguidão pois não precisa mais. Ela é a amante
que sabe que terá tudo de novo. O sol se abre mais e arrepia-a ao
secá-la, ela mergulha de novo: está cada vez menos sôfrega e menos
aguda. Agora sabe o que quer. Quer ficar de pé parada no mar. Assim
fica, pois. Como contra os costados de um navio, a água bate, volta,
bate. A mulher não recebe transmissões. Não precisa de
comunicação.
Depois caminha dentro da água de
volta à praia. Não está caminhando sobre as águas – ah nunca
faria isso depois que há milênios já andaram sobre as águas –
mas ninguém lhe tira isso: caminhar dentro das águas. Às vezes o
mar lhe opõe resistência puxando-a com força para trás, mas então
a proa da mulher avança um pouco mais dura e áspera.
E agora pisa na areia. Sabe que está
brilhando de água, e sal e sol. Mesmo que o esqueça daqui a uns
minutos, nunca poderá perder tudo isso. E sabe de algum modo obscuro
que seus cabelos escorridos são de um náufrago. Porque sabe –
sabe que fez um perigo. Um perigo tão antigo quanto o ser humano.
Clarice Lispector, em Todos os contos
A religião dos outros
Sério, gente, vocês têm que parar
de rir da religião dos outros. A fé das pessoas é uma coisa
sagrada. Não, macumba é diferente. Vocês têm que fazer um vídeo
sobre macumba.
Macumba não é religião, macumba é
magia negra. Macumba, umbanda, candomblé, vudu, tudo a mesma coisa
de preto velho. Misifi põe uma galinha preta na encruzilhada que eu
trago a pessoa amada em três dias.
Por favor, faz um vídeo sobre isso.
Desculpa, gente, mas é que macumba é muito engraçado. Espiritismo
também é uma piada pronta. Sabe o que vocês podem dizer? Que quem
conversa com gente morta é esquizofrênico e tem que ser internado.
Budismo não é religião, é moda.
Tem seis gatos pingados no Tibete e o resto é tudo socialite e ator
em início de carreira. Fora que aqueles monges são muito gordos pra
quem é vegetariano. Aposto que quando ninguém tá olhando eles
comem uma bela de uma picanha.
Mas pelo menos eles não pintam a cara
igual hare krishna. Aquilo não é religião, aquilo é pretexto pra
não tomar banho. Vocês não entenderam: quando eu digo religião,
eu tô falando das religiões sérias.
Não, islamismo já é sério demais.
Aí tem que zoar. Aquelas mulheres de burca parecem um apicultor. E
os terroristas que acham que vão se encontrar com trinta virgens?
Isso dava um vídeo. Quando eu digo religião, eu tô falando das
religiões da Bíblia.
Não, judeu pode zoar também, claro.
Judeu por acaso lê Bíblia? Estranho, foram eles que mataram Jesus.
Vocês têm que rir daquele bando de mão de vaca. Por que é que não
fizeram nenhum vídeo de judeu? Tem que fazer.
Eu tô falando da Bíblia de verdade,
completa, sem cortes. A escritura sagrada, que fala da vinda do Deus
vivo à Terra.
Acho que é isso: quando eu digo
religião, eu tô falando das religiões que envolvem Jesus. Não,
não tô falando do Inri Cristo. Gente, eu tô falando sério. Quando
eu digo religião, eu tô falando das religiões que envolvem Jesus,
Maria, José, as que têm multidões de fiéis.
Tem que rir das religiões menores, as
religiões de preto, de judeu. Não tem graça rir da fé da maioria
do povo brasileiro. Acho que é isso: quando eu digo religião, eu tô
falando da religião da maioria. Aí é que perde a graça.
Sim, por acaso essa é a minha
religião. Tá bom. Quando eu digo que não pode brincar com
religião, eu tô falando da minha religião. A minha religião não
tem a menor graça.
Gregório Duvivier, em Put some farofa
quinta-feira, 9 de abril de 2026
Livro Sobre Nada
À mesa o doutor perorou: Vocês é
que são felizes
porque moram neste Empíreo.
Meu pai cuspiu o empíreo de lado.
O doutor falava bobagens conspícuas.
Mano Preto aproveitou: Grilo é um ser
imprestável
para o silêncio.
Mano Preto não tinha entidade
pessoal, só coisal.
(Seria um defeito de Deus?)
A gente falava bobagens de à brinca,
mas o doutor
falava de à vera.
O pai desbrincou de nós:
Só o obscuro nos cintila.
Bugrinha boquiabriu-se.
Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo
A gorjeta é livre
Confesso que sou um constrangido
diante do garçom, qualquer garçom. Se for garção, então, é
pior. Garçom é uma coisa pouco natural. Uma coisa antiga. Aquele
homem ali, de gravatinha, nos servindo. Às vezes com idade bastante
para ser nosso pai... É embaraçoso, para ele e para nós. A gorjeta
voluntária é uma espécie de taxa-vexame que você paga ao garçom
por ainda existir. Um suborno para ele esquecer tudo e você aplacar
sua consciência. É como dizer “eu sei, eu mesmo devia me levantar
e ir à cozinha buscar meu prato como mamãe me ensinou, sou uma
besta, o mundo é injusto, toma aí para uma cervejinha”. Quanto
mais servil o garçom, mais você se constrange e maior a gorjeta. É
o remorso. Ou a consciência social, que é a mesma coisa.
A gorjeta obrigatória desobriga as
duas partes, o garçom de babar no seu pescoço e você de ter
remorso. Mas também leva a exageros, como a desatenção completa do
garçom pelo mundo em geral e pela sua mesa em particular. Quer
dizer, somos pela igualdade universal, o fim do servilismo e a
fraternidade entre os homens, mas olha o serviço, pô! E quem nunca
teve que passar pelo vexame de atrair a atenção de um garçom que
insiste em não olhar para cá? É dos piores momentos da humanidade.
Você levanta o braço para um aceno,
o garçom não olha e você tem que improvisar: passa a mão no
cabelo, coça a nuca, finge que está espantando uma mosca ou que viu
um conhecido lá no fundo. “Oi, tudo certinho?” Tenta outra vez,
o garçom continua não olhando, e é outro conhecido que você
descobre no restaurante. Até que:
— Qual é?
— Qual é o que, cavalheiro?
— É a terceira vez que você abana
para a minha mulher e ela jura que nunca viu você na vida.
— Sua mulher? Não, não, por amor
de Deus, eu estava espantando uma mosca.
— Tou sabendo. Que não aconteça
outra vez.
— Pode deixar. E me faça um favor.
Na volta para a sua mesa, diga ao garçom que preciso falar com ele.
É urgente. Espero ele aqui mesmo, mais ou menos a esta hora, com o
braço levantado que é para ele me identificar. Diz para ele trazer
a nota. A nota. Ele compreenderá.
Pior é quando você chama e ele não
ouve. Você tenta o tom jovial — “ó comandante” — depois o
falso íntimo — “meu chapinha!” — depois o formal com alguma
autoridade — “quer fazer o favor?” — e finalmente a linguagem
internacional do “psiu!”. Se tudo falhar, atira um garfo na
cabeça dele. Mas tem que pagar a gorjeta, está incluída.
E o maître? O maître é
o terror. O maître já foi garçom, já passou por tudo que
um garçom passa, e hoje é um ressentido no poder. Trata os garçons
como uma subespécie e você como um garçom. Não sei se sou só eu,
mas sempre tenho a impressão de que o maître desaprova o meu
pedido, o vinho que escolhi, o jeito que pego na faca e o tom dos
meus sapatos. E também não está muito entusiasmado com a minha
existência.
— Mesa para quantos?
— Do-dois... Se o senhor não se
importar. Mas se preferir, eu vou embora. E desculpe qualquer coisa!
Na primeira vez em que pedi ostras num
restaurante em Paris, conta ele só para dizer que já esteve em
Paris, encarei o maître pronto para exorcizar de uma vez
todos os meus terrores. Se conseguisse enfrentar um maître de
Montparnasse, na língua dele (cada vez que eu falo francês, Racine
morre mais um pouco), estaria salvo. Olhei o maître nos olhos
e disse, a voz firme como a saúde do Pompidou, que estava à morte
na ocasião:
— Des huîtres.
— Monsieur?
— Des huîtres — repeti, já
pensando em abandonar a ideia, a mesa e a cidade.
— Sim, monsieur, mas de
qualidade? Que número?
Ele me mostrou o cardápio. Havia 17
categorias diferentes de ostras, e cada categoria tinha vários
números, correspondentes ao tamanho.
— A claire número 3,
evidentemente — disse eu, dando a entender que um bom maître
veria na minha cara que eu era um homem de claire número 3.
Mais tarde, consumidas as ostras, ele
trouxe uma tigela de prata com água morna e uma rodela de limão. E
ficou por perto, na certa antecipando que eu beberia a água em vez
de lavar os dedos. Mas não lhe dei esse prazer.
O diabo é que depois disso, em
qualquer restaurante do mundo em que entro, noto um brilho de
divertido reconhecimento nos olhos do maître. Ah, esse é o
tal das ostras em Paris... Uma alucinação, claro. É o terror.
Sempre dou gorjeta para o garçom,
apesar do constrangimento. Mas para o maître nunca. Conheço os meus
inimigos.
Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora
segunda-feira, 6 de abril de 2026
Conserve o seu próprio caráter
Não há homem afortunado a ponto de
ninguém festejar seu falecimento. Ainda que seja benfeitor e sábio,
alguém comentará: “Respiro aliviado agora que me livrei desse
pedante. De fato não foi áspero conosco, mas percebi que nos
reprovava tacitamente.”
Comentam isso sobre os bons! Já no
nosso caso, por quantos outros motivos querem livrar-se de nós? Ao
mensurá-los, morrerá bem-aventurado: “Estou deixando uma vida em
que até os meus companheiros — para os quais direcionei atenção,
orações e cuidado — esperam pelo meu óbito na esperança de,
porventura, obter vantagens. Nessa situação, por que me agarraria a
uma estadia mais longa?”
Entretanto, não saia indisposto com
eles ou como se estivesse sendo arrancado. Conserve o seu próprio
caráter. Continue amigável, benevolente e compassivo. Quando morre
tranquilo, a pobre alma se separa do corpo com facilidade. Deixe-os
desse modo, pois a natureza os uniu e os associou e agora os desune.
Desassocio-me dos meus parentes conforme a natureza: sem ser
arrastado ou empurrado.
Marco Aurélio, em Meditações
1617 – Londres
Fumaças de Virgínia na névoa de
Londres
Dramatis personae:
O REI Jacó I da Inglaterra, VI da
Escócia. Escreveu: O tabaco converte em uma cozinha as partes
interiores do homem, sujando-as ou infetando-as com uma espécie de
fuligem untuosa e gordurosa. Também escreveu que quem fuma imita
as bárbaras e bestiais maneiras dos selvagens e servis índios
sem Deus.
JOHN ROLFE. Colono inglês de
Virgínia. Um dos membros mais distintos deste povo apontado e
escolhido pelo dedo de Deus – segundo o próprio Rolfe define
aos seus. Com sementes levadas da ilha de Trinidad à Virginia, fez
boas misturas de tabaco em suas plantações. Há três anos
despachou para Londres, nos porões do Elizabeth, quatro tonéis
cheios de folhas, que iniciaram o recente, mas já frutífero,
comércio de tabaco com a Inglaterra. Bem se pode dizer que John
Rolfe colocou o tabaco no trono de Virgínia, como planta-rainha de
poder absoluto. No ano passado veio a Londres com o governador Dale,
buscando novos colonos e novos investimentos para a Companhia de
Virgínia e prometendo lucros fabulosos a seus acionistas, porque o
tabaco será para a Virgínia o que a prata é para o Peru. Também
veio para apresentar ante o rei Jacó sua esposa, a princesa índia
Pocahontas, batizada Rebeca.
SIR THOMAS DALE. Governador de
Virgínia até o ano passado. Autorizou a boda de John Rolfe e a
princesa Pocahontas, primeiro matrimônio anglo-índio da história
de Virgínia, por entender que era um ato de alta conveniência
política, que contribuiria ao pacífico subministro de grãos e
braços por parte da população indígena. Entretanto, em sua
solicitação de permissão, John Rolfe não mencionava este aspecto
do assunto. Tampouco mencionava o amor, embora se ocupasse de negar
terminantemente qualquer desenfreado desejo em relação à sua bela
noiva de dezoito anos de idade. Dizia Rolfe que queria casar-se com
essa pagã de rude educação, bárbaras maneiras e geração
condenada, pelo bem desta plantação, pela honra de nosso país,
pela glória de Deus, por minha própria salvação e para converter
ao verdadeiro conhecimento de Deus e Jesus Cristo uma criatura
incrédula.
POCAHONTAS. Também chamada Matoaka
enquanto viveu com os índios. Filha predileta do grande chefe
Powhatan. Desde que se casou com John Rolfe, Pocahontas renunciou à
idolatria, passou a chamar-se Rebeca e cobriu com roupa inglesa sua
nudez. Usando chapéu de copa e bordados altos no pescoço, chegou a
Londres e foi recebida na corte. Falava como inglesa e pensava como
inglesa; devotamente partilhava a fé calvinista de seu esposo e o
tabaco de Virgínia encontrou nela a mais hábil e exótica
propaganda que necessitava para se impor em Londres. De doença
inglesa morreu. Navegando pelo Tâmisa de regresso a Virgínia, e
enquanto o barco esperava ventos favoráveis, Pocahontas exalou seu
último suspiro nos braços de John Rolfe, em Gravesend no mês de
março deste ano de 1617. Não tinha cumprido vinte e um anos.
OPECHANCANOUGH. Tio de Pocahontas,
irmão mais velho do grande chefe Powhatan. Foi Opechancanough quem
entregou a noiva na igreja protestante de Jamestown, igreja nua, de
troncos, há três anos. Não disse uma palavra durante a cerimônia,
nem antes, nem depois, mas Pocahontas contou a John Rolfe a história
de seu tio. Opechancanough viveu em outros tempos na Espanha e no
México, foi cristão e se chamou Luis de Velasco, mas nem bem o
devolveram à sua terra e atirou ao fogo o crucifixo e a capa e a
gola, degolou os padres que o acompanhavam e recuperou seu nome de
Opechancanough, que na língua dos algonquins significa o que tem
a alma limpa.
Alguém que foi ator do Globe Theatre
nos anos de Shakespeare reuniu os dados desta história e se pergunta
agora, frente a uma jarra de cerveja, o que fará com eles. Escreverá
uma tragédia de amor ou um drama moralizante sobre o tabaco e seus
poderes maléficos? Ou talvez uma mascarada que tenha por tema a
conquista da América? A obra seria um êxito certo, porque toda
Londres fala da princesa Pocahontas e sua passagem fugaz por aqui.
Essa mulher... Ela sozinha era um harém. Toda Londres sonha com ela
nua entre as árvores, com flores cheirosas nos cabelos. Que anjo
vingador atravessou-a com sua espada invisível? Expiou ela os
pecados de seu povo pagão? Ou foi essa morte uma advertência de
Deus a seu marido? O tabaco, filho ilegítimo de Proserpina e Baco...
Não ampara Satanás o misterioso pacto entre essa erva e o fogo? Não
sopra Satanás a fumaça que deixa os virtuosos tontos? E a escondida
lascívia do puritano John Rolfe... E o passado de Opechancanough,
antes chamado Luis de Velasco, traidor ou vingador... Opechancanough
entrando na igreja com a princesa no braço... Alto, erguido, mudo...
– Não, não – conclui o
indiscreto caçador de histórias, enquanto paga suas cervejas e sai
à rua – Esta história é boa demais para ser escrita. Como
costuma dizer o galeno Silva, poeta das Índias: “Se a escrevo, o
que me sobrará para contar aos amigos?”
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
Capítulo V – O Menino Mais Novo
A ideia surgiu-lhe na tarde em que
Fabiano botou os arreios na égua alazã e entrou a amansá-la. Não
era propriamente ideia: era o desejo vago de realizar qualquer ação
notável que espantasse o irmão e a cachorra Baleia.
Naquele momento Fabiano lhe causava
grande admiração. Metido nos couros, de perneiras, gibão e
guarda-peito, era a criatura mais importante do mundo. As rosetas das
esporas dele tilintavam no pátio; as abas do chapéu, jogado para
trás, preso debaixo do queixo pela correia, aumentavam-lhe o rosto
queimado, faziam-lhe um círculo enorme em torno da cabeça.
O animal estava selado, os estribos
amarrados na garupa, e Sinha Vitória subjugava-o agarrando-lhe os
beiços. O vaqueiro apertou a cilha e posse a andar em redor,
fiscalizando os arranjos, lento. Sem se apressar, livrou-se de um
coice: virou o corpo, os cascos da égua passaram-lhe rente ao peito,
raspando o gibão. Em seguida Fabiano subiu ao copiar, saltou na
sela, a mulher recuou – e foi um redemoinho na catinga.
Trepado na porteira do curral, o
menino mais novo torcia as mãos suadas, estirava-se para ver a nuvem
de poeira que toldava as imburanas. Ficou assim uma eternidade, cheio
de alegria e medo, até que a égua voltou e começou a pular
furiosamente no pátio, como se tivesse o diabo no corpo. De repente
a cilha rebentou e houve um desmoronamento. O pequeno deu um grito,
ia tombar da porteira. Mas sossegou logo. Fabiano tinha caído em pé
e recolhia-se banzeiro e cambaio, os arreios no braço. Os estribos,
soltos na carreira desesperada, batiam um no outro, as rosetas das
esporas tiniam.
Sinha Vitória cachimbava tranquila no
banco do copiar, catando lêndeas no filho mais velho. Não se
conformando com semelhante indiferença depois da façanha do pai, o
menino foi acordar Baleia, que preguiçava, a barriguinha vermelha
descoberta, sem-vergonha. A cachorra abriu um olho, encostou a cabeça
à pedra de amolar, bocejou e pegou no sono de novo.
Julgou-a estúpida e egoísta,
deixou-a, indignado, foi puxar a manga do vestido da mãe, desejando
comunicar-se com ela. Sinha Vitória soltou uma exclamação de
aborrecimento, e, como o pirralho insistisse, deu-lhe um cascudo.
Retirou-se zangado, encostou-se num
esteio do alpendre, achando o mundo todo ruim e insensato. Dirigiu-se
ao chiqueiro, onde os bichos bodejavam, fungando, erguendo os
focinhos franzidos. Aquilo era tão engraçado que o egoísmo de
Baleia e o mau humor de Sinha Vitória desapareceram. A admiração a
Fabiano é que ia ficando maior.
Esqueceu desentendimentos e
grosserias, um entusiasmo verdadeiro encheu-lhe a alma pequenina.
Apesar de ter medo do pai, chegou-se a ele devagar, esfregou-se nas
perneiras, tocou as abas do gibão. As perneiras, o gibão, o guarda-
peito, as esporas e o barbicacho do chapéu maravilhavam-no.
Fabiano desviou-o desatento, entrou na
sala e foi despojar-se daquela grandeza.
O menino deitou-se na esteira,
enrolou-se e fechou os olhos. Fabiano era terrível. No chão,
despidos os couros, reduzia-se bastante, mas no lombo da égua alazã
era terrível.
Dormiu e sonhou. Um pé-de-vento
cobria de poeira a folhagem das imburanas, Sinha Vitória catava
piolhos no filho mais velho. Baleia descansava a cabeça na pedra de
amolar.
No dia seguinte essas imagens se
varreram completamente. Os juazeiros do fim do pátio estavam
escuros, destoavam das outras árvores. Porque seria?
Aproximou-se do chiqueiro das cabras,
viu o bode velho fazendo um barulho feio com as ventas arregaçadas,
lembrou-se do acontecimento da véspera. Encaminhou-se aos juazeiros,
curvado, espiando os rastos da égua alazã.
A hora do almoço Sinha Vitória
repreendeu-o: – Este capeta anda leso.
Ergueu-se, deixou a cozinha, foi
contemplar as perneiras, o guarda-peito e o gibão pendurados num
torno da sala. Daí marchou para o chiqueiro – e o projeto nasceu.
Arredou-se, fez tenção de
entender-se com alguém, mas ignorava o que pretendia dizer. A égua
alazã e o bode misturavam-se, ele e o pai misturavam-se também.
Rodeou o chiqueiro, mexendo-se como um urubu, arremedando Fabiano.
A necessidade de consultar o irmão
apareceu e desapareceu. O outro iria rir-se, mangar dele, avisar
Sinha Vitória. Teve medo do riso e da mangação. Se falasse
naquilo, Sinha Vitória lhe puxaria as orelhas.
Evidentemente ele não era Fabiano.
Mas se fosse? Precisava mostrar que podia ser Fabiano. Conversando,
talvez conseguisse explicar-se.
Pôs-se a caminhar, banzeiro, até que
o irmão e Baleia levaram as cabras ao bebedouro. A porteira
abriu-se, um fartum espalhou-se pelos arredores, os chocalhos soaram,
a camisinha de algodão atravessou o pátio, contornou as pedras onde
se atiravam cobras mortas, passou os juazeiros, desceu a ladeira,
alcançou a margem do rio.
Agora as cabras se empurravam metendo
os focinhos na água, os cornos entrechocavam-se. Baleia, atarefada,
latia correndo.
Trepado na ribanceira, o coração aos
baques, o menino mais novo esperava que o bode chegasse ao bebedouro.
Certamente aquilo era arriscado, mas parecia-lhe que ali em cima
tinha crescido e podia virar Fabiano.
Sentou-se indeciso. O bode ia saltar e
derrubá-lo. Ergueu-se, afastou-se, quase livre da tentação, viu um
bando de periquitos que voava sobre as catingueiras. Desejou possuir
um deles, amarrá-lo com uma embira, dar-lhe comida. Sumiram-se todos
chiando, e o pequeno ficou triste, espiando o céu cheio de nuvens
brancas. Algumas eram carneirinhos, mas desmanchavam-se e tornavam-se
bichos diferentes. Duas grandes se juntaram - e uma tinha a figura da
égua alazã, a outra representava Fabiano.
Baixou os olhos encandeados,
esfregou-os, aproximou-se novamente da ribanceira, distinguiu a massa
confusa do rebanho, ouviu as pancadas dos chifres. Se o bode já
tivesse bebido, ele experimentaria decepção. Examinou as pernas
finas, a camisinha encardida e rasgada. Enxergara viventes no céu,
considerava-se protegido, convencia-se de que forças misteriosas iam
ampará-lo. Boiaria no ar, como um periquito.
Pôs-se a berrar, imitando as cabras,
chamando o irmão e a cachorra. Não obtendo resultado, indignou-se.
Ia mostrar aos dois uma proeza, voltariam para casa espantados.
Aí o bode se avizinhou e meteu o
focinho na água. O menino despenhou-se da ribanceira, escanchou-se
no espinhaço dele.
Mergulhou no pelame fofo, escorregou,
tentou em vão segurar-se com os calcanhares, foi atirado para a
frente, voltou, achou-se montado na garupa do animal, que saltava
demais e provavelmente se distanciava do bebedouro. Inclinou-se para
um lado, mas fortemente sacudido, retomou a posição vertical,
entrou a dançar desengonçado, as pernas abertas, os braços
inúteis. Outra vez impelido para a frente, deu um salto mortal,
passou por cima da cabeça do bode, aumentou o rasgão da camisa numa
das pontas e estirou-se na areia. Ficou ali estatelado, quietinho, um
zunzum nos ouvidos, percebendo vagamente que escapara sem honra da
aventura.
Viu as nuvens que se desmanchavam no
céu azul, embirrou com elas. Interessou-se pelo voo dos urubus.
Debaixo dos couros, Fabiano andava banzeiro, pesado, direitinho um
urubu.
Sentou-se, apalpou as juntas doídas.
Fora sacolejado violentamente, parecia-lhe que os ossos estavam
deslocados.
Olhou com raiva o irmão e a cachorra.
Deviam tê-lo prevenido. Não descobriu neles nenhum sinal de
solidariedade: o irmão ria como um doido, Baleia, séria,
desaprovava tudo aquilo. Achou-se abandonado e mesquinho, exposto a
quedas, coices e marradas.
Ergueu-se, arrastou-se com desânimo
até a cerca do bebedouro, encostou-se a ela, o rosto virado para a
água barrenta, o coração esmorecido. Meteu os dedos finos pelo
rasgão, coçou o peito magro. O tropel das cabras perdeu-se na
ladeira, a cachorrinha ladrou longe. Como estariam as nuvens?
Provavelmente algumas se transformavam em carneirinhos, outras eram
como bichos desconhecidos.
Lembrou-se de Fabiano e procurou
esquecê-lo. Com certeza Fabiano e Sinha Vitória iam castigá-lo por
causa do acidente. Levantou os olhos tímidos. A lua tinha aparecido,
engrossava, acompanhada por uma estrelinha quase invisível. Aquela
hora os Periquitos descansavam na vazante, nas touceiras secas de
milho. Se possuísse um daqueles periquitos, seria feliz.
Baixou a cabeça, tornou a olhar a
poça escura que o gado esvaziara. Uns riachos miúdos marejavam na
areia como artérias abertas de animais. Recordou-se das cabras
abatidas a mão de pilão, penduradas de cabeça para baixo num
caibro do copiar, sangrando.
Retirou-se. A humilhação atenuou-se
pouco a pouco e morreu. Precisava entrar em casa, jantar, dormir. E
precisava crescer, ficar tão grande como Fabiano, matar cabras a mão
de pilão, trazer uma faca de ponta à cintura. Ia crescer,
espichar-se numa cama de varas, fumar cigarros de palha, calçar
sapatos de couro cru.
Subiu a ladeira, chegou-se a casa
devagar, entortando as pernas, banzeiro. Quando fosse homem,
caminharia assim, pesado, cambaio, importante, as rosetas das esporas
tilintando. Saltaria no lombo de um cavalo brabo e voaria na catinga
como pé-de-vento, levantando poeira. Ao regressar, apear-se-ia num
pulo e andaria no pátio assim torto, de perneiras, gibão,
guarda-peito e chapéu de couro com barbicacho. O menino mais velho e
Baleia ficariam admirados.
Graciliano Ramos, em Vidas Secas
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