14/06/2026

Tom Ribeira e Agnes Nunes | Vc Assim

Meninos, eu vi


Vi, sim. Ora se vi. Eu não sou o Piu-Piu e não vi um gatinho. Eu vi a luz. Calma. Não estou delirando, tenho bebido moderadamente e também não ando queimando baseados colombianos. Eu vi a Luz das cordas, CD de Marco Pereira e Hamilton de Holanda, um dos mais importantes trabalhos instrumentais brasileiros nos últimos cinquenta anos.
Tivemos durante o ano 2000 muitas manitas del plata querendo aparecer: George Benson, John Pizzarelli, Robert Cray... Mas na hora da luz, o jogo ficou todo a favor de Marco Pereira e Hamilton de Holanda. O pessoal foi saindo de fininho, ofuscado.
Fiz um teste interessante, aqui em casa. Deixava as pessoas conversando no escritório e botava, na maciota, Luz das cordas. Teve de tudo: amigo chorando feito criança, moça entrando em transe catatônico, o diabo. Podem conferir.
Eu vi as extraordinárias caixas de CDs de Noel Rosa, Dorival Caymmi e do SESC São Paulo.
Eu vi, O quinteto de Buenos Aires, de Manuel Vázquez Montalbán, reduzindo o ego maradônico dos argentinos a extrato de pó de pum da pulga do cavalo do bandido. Depois desse livro, especialmente pelos capítulos “A guerra das Malvinas” e O filho natural de Jorge Luis Borges”, aqueles tangueiros nunca mais serão os mesmos.
Eu vi Os leopardos de Kafka, de Moacyr Scliar, na mesma coleção de Borges e os orangotangos eternos, de Luis Fernando Veríssimo. A crítica pode – e deve – falar o que bem entender, mas os dois livros são excelentes.
Eu vi, de Alberto Manguel, autor de Uma história da leitura e de Stevenson sobre as palmeiras, o delicado No bosque do espelho.
Vi, arrepiado de horror, Autópsia do medo – vida e morte do delegado Sergio Paranhos Fleury, do grande repórter Percival de Souza, onde aparece logo no começo, já aprontando, o Nicolalau.
Vi a Coleção Negra, da Record, completando com Whitejazz, o Quarteto de Los Angeles, de James Ellroy.
Vi a caverna do Saramago e os crocodilos do Lobo Antunes, como o Binho, cada vez melhores, perseguidos pela paixão de Pepetela.
Vi e revi Paulo Mendes Campos. Vi Fausto Wolff, que deve estar escrevendo vinte e quatro horas por dia. Vi Pai morto, vivo, de Ricardo Gontijo e OEspelho de Egon, de Horácio Soares.
Bebi na Ipanema do Jaguar e dancei com os Atabaques, violas e bambus, do Paulo César Pinheiro.
E andei tendo umas lições sobre Do Amor ausente, do jovem e talentoso escritor Paulo Roberto Pires. Será parente do outro, que já bebeu várias vezes no cafofo?!

Aldir Blanc, em O Gabinete do Doutor Blanc

Capítulo 57 – Destino




Sim senhor, amávamos. Agora, que todas as leis sociais no-lo impediam, agora é que nos amávamos deveras. Achávamo-nos jungidos um ao outro, como as duas almas que o poeta encontrou no Purgatório:
Di pari, come buoi, che vanno a giogo; e digo mal, comparando-nos a bois, porque nós éramos outra espécie de animal menos tardo, mais velhaco e lascivo. Eis-nos a caminhar sem saber até onde, nem por que estradas escusas; problema que me assustou, durante algumas semanas, mas cuja solução entreguei ao destino. Pobre Destino!
Onde andarás agora, grande procurador dos negócios humanos? Talvez estejas a criar pele nova, outra cara, outras maneiras, outro nome, e não é impossível que... Já me não lembra onde estava... Ah! nas estradas escusas. Disse eu comigo que já agora seria o que Deus quisesse. Era a nossa sorte amar-nos; se assim não fora, como explicaríamos a valsa e o resto? Virgília pensava a mesma coisa. Um dia, depois de me confessar que tinha momentos de remorsos, como eu lhe dissesse que, se tinha remorsos, é porque me não tinha amor, Virgília cingiu-me com os seus magníficos braços, murmurando:
Amo-te, é a vontade do céu.
E esta palavra não vinha à toa; Virgília era um pouco religiosa. Não ouvia missa aos domingos, é verdade, e creio até que só ia às igrejas em dia de festa, e quando havia lugar vago em alguma tribuna. Mas rezava todas as noites, com fervor, ou pelo menos, com sono. Tinha medo às trovoadas; nessas ocasiões, tapava os ouvidos, e resmoneava todas as orações do catecismo. Na alcova dela havia um oratoriozinho de jacarandá, obra de talha, de três palmos de altura, com três imagens dentro; mas não falava dele às amigas; ao contrário, tachava de beatas as que eram só religiosas. Algum tempo desconfiei que havia nela certo vexame de crer, e que a sua religião era uma espécie de camisa de flanela preservativa e clandestina; mas evidentemente era engano meu.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Hagar, o Horrível

Sesta

O poeta tem um chapéu,
um cinto de couro,
uma camisa de malha.
O poeta é um homem comum.
Mas, quando diz:
a tarde não podia tanger
com “os bandolins e suas doces nádegas”,
eu me prostro invocando:
me explica, ó decifrador, o mistério da vida,
me ama, homem incomum.
No oeste de Minas tem um canavial,
onde as folhas se roçam ásperas,
ásperas as folhas da cana-doce roçam-se.
Como agulhas bicando em vidro liso,
o pio das andorinhas dentro da igreja deserta.
Os trinados e as folhas cortam,
entre as canas é doce, doce e fresco,
entre os bancos da igreja.
Repouso lá e cá,
um poder em círculos me dilata,
eu danço na mão de Deus.
Na hora do encantamento,
o reverso do verso dá sua luz:
os bandolins e suas doces nádegas”,
um mistério santíssimo e inteligível.

Adélia Prado, em O Coração Disparado

I’ll Get You, de Paul McCartney e John Lennon





I’ll Get You

Oh yeah, oh yeah
Oh yeah, oh yeah

Imagine I’m in love with you
It’s easy ’cause I know
I’ve imagined I’m in love with you
Many, many, many times before
It’s not like me to pretend
But I’ll get you, I’ll get you in the end
Yes I will, I’ll get you in the end
Oh yeah, oh yeah

I think about you night and day
I need you and it’s true
When I think about you, I can say
I’m never, never, never, never blue
So I’m telling you, my friend
That I’ll get you, I’ll get you in the end
Yes I will, I’ll get you in the end
Oh yeah, oh yeah
Well there’s gonna be a time
When I’m gonna change your mind
So you might as well resign yourself to me
Oh yeah

Imagine I’m in love with you
It’s easy ’cause I know
I’ve imagined I’m in love with you
Many, many, many times before
It’s not like me to pretend
But I’ll get you, I’ll get you in the end
Yes I will, I’ll get you in the end

Oh yeah, oh yeah
Oh yeah, oh yeah, oh yeah

Esta canção foi composta na Menlove Avenue, em Liverpool, onde John ainda morava com a tia dele, Mimi. Ela era uma senhora bondosa, de vontade férrea; sem dúvida, ela era decidida. O estranho nisso é que Mimi não ligava muito para a nossa música e preferia não nos ver por perto, porque ela achava que estávamos incentivando John a dedicar mais tempo ao violão dele do que aos estudos. Mimi sempre dizia: “O violão serve como hobby, John, mas você nunca vai ganhar a vida com isso!”.
Esta canção traz a palavra “imagine”, e essa ideia de “imaginar” é algo que John reaproveitaria em sua própria canção “Imagine”. Também funciona um pouco como a abertura de “Lucy in the Sky With Diamonds”, com sua exortação: “Picture yourself...”. Portanto, tem um lance cinematográfico, além de literário. Quando eu digo “literário”, estou pensando no mundo imaginário de Lewis Carroll que John e eu tanto amávamos. Carroll foi uma grande influência para nós dois. Isso pode ser mesmo percebido nos livros de John, In His Own Write e A Spaniard in the Works [no Brasil, coligidos no volume Um atrapalho no trabalho, transcriação de Paulo Leminski].
Com relação à estrutura musical, essa é uma abertura realmente eficaz – acorde de Ré maior enquanto cantamos “oh yeah” em oitava. Havíamos aprendido o tipo de sequências em Dó, Lá menor, Fá, Sol e Ré – as tradicionais tríades. Mas então você começa a justapô-las um pouco, e a abertura de “I’ll Get You” é um exemplo do que acontece. No mais, temos acordes na forma padrão até chegarmos a “It’s not like me to pretend”. Esse verso termina com um acorde esquisito. Parece que destoa um pouco, mas esse que é o segredo desta canção.
Talvez seja um pouco demais dizer que o acorde faz um comentário sobre “fingir”, sugerindo que o personagem da canção talvez não seja confiável, que ele é realmente um fingidor, mostrando um sentimento com o qual não está comprometido. Que ele pode estar só brincando. Em geral, porém, os sentimentos nessas primeiras canções são bem diretos. Sem muita ironia. E é por isso que o público gostou e ainda gosta dessas canções. Elas dizem o que elas querem dizer. “It’s not like me to pretend/ But I’ll get you, I’ll get you in the end”. Pensando bem, acho que é justo dizer que também temos uma pitada de humor escolar pairando no ar.

Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente

13/06/2026

Emílio Santiago | Um Chope pra Distrair

Mais meu Sirimim



Habito a paisagem sólida, querida. Venham ver vocês. Ainda é inverno: alegrias direitinhas.
Amanhece de neblina, todos os dias, frio com frio. Ainda escuro, de sazão, agora, a madrugada vem muito curta, chega logo a manhã. O clarear é que é curto, para se assistir ao madrugar. Depois da coruja piando: o hu-lhu-h’hú. Da coruja, o pio é sempre. Mas, às vezes, vira o gargalhar, seco, um estalado, coisa seca, parece gargalhadinha de velho. Outra, a outra, seus estalidos, meio estridentes: cla-kle-cle-klá. Seriam duas corujas, no cajueiro, atrás do meu quarto; ninho delas. Dado o dia, bem guardam-se.
Os galos — e pintinhos e galinhas se agitando. A galinha com treze pintinhos, ela dorme debaixo do balaio. Entremente, melros, dos melhores. Ou os outros. A cambaxilra, aqui tem muita, dá um trinadozinho tristris. Aparecem os sanhaços. Vige aqui uma ordem: deixar-se, em cada mamoeiro, um mamão maduro, para eles, os pássaros de uso, que rebuscam o fácil das frutas. Àquela árvore de flor amarela, enchida de lagartas, vão os anus-pretos, mais tarde, quando se bem diz que o sol já está quente. Vi, porém, o martim-pescador, pousado no fim da luz, lindo. Escuro-e-verde e bronze, que, quando bate o sol, vira verde-azulado. Esperando a companheira?
Sigo, ao arreia-pêlo da correnteza, pela margem do mimo riachinho, soliloquaz: todo o tempo nos cruzamos. Sirimim estava de água clarinha, desta vez, ainda meio cheio, pelo que se sabe do que foi o verão: de chuvas e enxurros a granel. Mesmo agora, se costuma de vir alguma.
Tão cheiroso, na horta, aquele lugar da roseira! A gente se lembra de que foi a Irene que a plantou. A Irene se foi, faz seis meses, mas dá notícias. Diz que não conseguiu até hoje ajuntar dinheiro, só deu para comprar um vestido. Mas a Irene vai vir, estes dias, para o casamento da Maria do Dudu. Agora escuto o ruído de um muçum, pelo sol: a bulha da água remexida. E já se plantaram novas pimenteiras.
Ali, cheirando a roseira, e um perfume que vem, sai do chão. Cheira a mel. Vem de baixo. Você não vê nada. Deve de ser uma ervinha, um capinzinho. É o melhor cheiro e sobe da terra. Está por volta da horta, onde tem mato, nos lugares não capinados.
Vou visitar o Pedro, bebemos da biquinha, que recita. Mais que todas, a água do Sirimim, quando se apanha e põe na folha de taioba, ela fica de prata — a película prateada, a tremer. É a água mais pura que há.
O Pedro, mesmo tendo agora outra cachorrinha, não se esquece da que foi tão boa, a Bolinha, extinta. Conta de quando ela desapareceu, fugida, com a doença. — “...Zé Rufino tinha visto: ela passar, zangada, lá. Longe... Arruinada, uai. De zanga. Porque, naquela certa época do ano, zangam.” O Pedro é grato à Bolinha, porque ela não incomodou ninguém aqui, e porque poupou-lhe o assistir ao seu fim.
Sentamo-nos no antigo banco, pegado ao corte do barranco, ali tem uma laranjeira bem em cima do barranco, metade das raízes ficaram para fora. Mas, a casinha, a casa, atrás da qual estamos, já é a nova! O Pedro exulta — de não cessar de a contemplar.
E considera, com domingueiros olhos de repouso, o “seu” arrozal, lá embaixo, lugar fresco — à passarada. Está contente com o movimento, com o que se faz: na pinguela, para transpor o carro-de-bois, taparam os vãos com tabatinga e palha de arroz; taparam também todo o caminho que vem da pinguela até aqui, à casa; assim, há sempre palha de arroz espalhada — para refrescar a terra, agasalhá-la da umidade, e produzir adubo, depois.
Derrubou-se a casa velha, que era só um ranchinho de capim. O Pedro botou fogo em tudo, sapé e madeira podre, com ideia de que ali desse escorpiões. Mas, antes, a mudança levou dias, porque havia muito mantimento. O Pedro e a Eva são muito acomodados. A casa nova é grandinhazinha, com os dois quartos, e a cozinha e o quarto-dos-guardados — despensa para o milho e o arroz. Sem se esquecer a sala — só com um banco e o oratório: parece que os santos é que estão de visita ao Pedro.
No dia em que na casa nova definitivamente se alojaram, à noitinha, o Pedro, entrando no quarto-dos-guardados, escutou um barulho se mexendo. Com susto, invocou São Bento, pensou que fosse cobra atrás de camundongos, que estão dando no milho. Mas era uma gambá, com sete filhotes, já instalada perto do cacho de bananas — também de mudada! Foi só o Pedro fechar a porta, e mandar à Eva: — “Minha filha, premeia eles, com o cacete!” Medita: — “O vivente tem pouca pena do vivente...” E come a gambá, refogada simples, com farinha pura; mas não chupa os ossos, porque “dá caxumba”.
Na maior alegria, o Pedro inaugurou a casa nova, com uma ladainha. Armou a ladainha de ação-de-graças. Fez roupas novas, de papel crepom, para os santos todos do oratório. Varreu o terreno. Adornou o terreiro e casa com bandeirolas de papel. Arquinhos de bambus, com flores de papel, toscas, espetadas. Não tinha padre. Então, chamou um vizinho. Antoniartur de Almeida — ladrão, mau caráter, dizem, mas com grande prática de ladainhas. Quando estavam todos juntos, o homem dirigiu umas palavras ao povo. Depois, tirou umas rezas e preces. Ao meio-dia, em ponto. Rezaram um terço e a Ladainha de Todos-os-Santos. E o Padre reflete: — “Não é segredo o que estou lhe contando: mas, neste mundo, há gente de todo jeito. E é o de que se carece...” 
Depois, dias, é que foi a festa — a dos quinze anos da Eva.
Da venda de ovos e galinhas, o Pedro conseguira um dinheirinho, bem escondido, que seria para se a Eva viesse a precisar, por doenças, em o caso. Graças a Deus, porém, a Eva sempre teve saúde, assim se criou. Vai daí, o Pedro, com a influência da casa nova, resolveu gastar esse cobre na alegria. Ficou muito boa, a festa dele. Teve danças. Serviram café, rosquinha redondinha, broa e pé-de-moleque. Bancou-se o manuel-manta: que é jogo de dados, num caixote com um papel com seis quadradinhos, em que as apostas se casam. — “O Pedro não tem muita valença...” — diz o Joaquim. Mesmo tão casmurro, achou que devia dar-lhe proteção, ao irmão mais novo e afilhado; por isso, ficou lá até a festa dar em fim.
Contudo, às vezes, o Joaquim parece ter inveja do Pedro, dos agrados que lhe fazem. Não pode compreender que se preze um pobre aleijadinho, assim. Tudo ele pega, pesa, mede e apreça — o Joaquim.
O Joaquim vai se mudar daqui. Ele tem setenta-e-dois-anos, e é duro, carrancudo, prepotente. O Joaquim bebe.
A Irene foi-se empregar no Rio, e ele ficou sentido com todos, e não dizia por que, agastado. Não podia brigar com o Maninho, sem razão, nem obrigar o Maninho, a se casar com a Irene. A Maria, mulher dele, então, ainda ficou mais desgostosa. Ambos, remoeram, muito, aquilo, mais e mais a se ressentir. Daí, chegaram à decisão. Ir-se embora, mesmo largando suas benfeitorias de colono — a farturinha formada naqueles anos: bananeiras, canavial, mandioca.
Donde que, vão para perto da outra filha, a Maria Doca, mulher do Manuel Doca, deles muito querida, lá têm netinhas, no Cici.
O Joaquim é homem sério, estricto e correcto demais, não gosta de natureza para os olhos. A coisa melhor, para ele, é a fartura. A coisa pior — a que ameaça a fartura — é a vadiação. Só pensa em termos de proveito. Andar bem com os outros — isto é: os outros andando bem com ele. Acha que a gente está aqui para cumprir obrigação, fazer fartura; e, depois, no Céu, apresentar contas a Deus. Contas certas, certa a vida.
Rejeita toda mercê de beleza, desocupada e que não produz. Mesmo a roseirinha que a Irene plantou, ele diz que a tolera somente porque ela serve às plantinhas, de sombra. Mas nunca reparou em que, nas rosinhas-de-cachos, as pétalas de de-dentro é que são cor-de-rosa claro, e as de fora, mais brancas, ou parecem brancas, pelo menos, se não são. Nem jamais sentiu, rosas asas, seu perfume.
O riachinho sair por aí, correndo e cantando, aborrece a ele.
Aceita-o, servo, na horta: aprisionadas, obrigadas, as aguinhas diligentes. Mas não as que se seguem, para lá, lá, em todo o depois — as das sombras matosas, e as que, soltas, na cheia, vão de afogadilho. Da ponta para baixo, o Sirimim “está com vadiação”, vale de nada, de nenhum préstimo. Presume-se que, no fundo, detestava-o o Joaquim: como à flor que flor, a borboleta andante, o passarinho e ninho, o grilo na alface, e, à noite, no negro ermo, no ar, o pirilampadário. O meu Sirimim no descuidoso imprestar-se: a lânguida água à lengalenga e a ternura em aventura.
A ida embora do Joaquim é uma luta, que o Sirimim venceu.
A casa, que foi dele, está vaga. Quem a virá ocupar? Talvez, o velho avô da Idalina.

Graciliano Ramos, em Ave, Palavra

E quando se aproximou a hora

E quando se aproximou a hora, o Anjo da Encarnação perguntou-lhe:
Que queres ser na face da Terra?
Um polígono regular estrelado.
O quê?!
Um polígono regular estrelado — repetiu imperturbavelmente a alma do nascituro.
Mais um...” — pensou o Anjo. Mas, como os anjos e os poetas são os únicos que não riem dos loucos, limitou-se a objetar:
E por que não um poliedro? Vais viver num mundo de três dimensões e bem sabes que um polígono apenas tem duas. Lá só existirias na face do papel... e não propriamente na face da Terra.
Por isso mesmo.
O Anjo desta vez não compreendeu muito bem e retirou-se, dando de asas.
E foi assim que, quando chegou a hora, veio ao mundo mais um louco.
E um “louco simétrico”!
Chamou-se, entre os homens, Edgar Allan Poe.

Mário Quintana, em Caderno H

Terra Sonâmbula — Décimo capítulo



A Doença do Pântano

Tuahir mira e admira. Há dias que não se arredam do machimbombo. No entanto, a paisagem em volta vai negando a aparente imobilidade da estrada. Agora, por exemplo, se desenrola à sua frente um imenso pantanal. O mar se escutava vizinho, a mostrar que aquelas águas lhe pertenciam. O velho se dirige ao miúdo:
Quer ver o mar, não é?
Muito, tio.
Então, vamos embora.
E se fazem por caminhos de matope onde crescem as árvores do mangal. Atrás vai ficando a residência de chapa e cinzas, posta na estrada como um monumento de guerra.
Quer ver o mar por causa do quê?
O jovem nem sabe explicar. Mas era como se o mar, com seus infinitos, lhe desse um alívio de sair daquele mundo. Sem querer ele pensava em Farida, esperando naquele barco. E parecia entender a mulher: ao menos, no navio, ainda havia espera. Por isso, ele enfrenta aquela marcha pelo pântano. Chapinham numa imensidão: lodos, lamas e argilas fedorosas. A caminhada iria durar os seguintes dias.
Logo na primeira noite os sentem. Os mosquitos. São grandes, negros, zunzumbentes. Não mordem, apenas. Entram no sangue e ficam chiando lá dentro.
Merda de mosquitos!
Muidinga vai reclamando. O velho Tuahir lhe admolesta: não se chateie, miúdo. E lhe lembra:
Foi o mosquito que construiu o pântano. Também, dentro de nós, o mosquito pantaneja, podrecendo nossas águas.
São tão picados que, ao despertar no seguinte dia, Tuahir tem as orelhas feitas num dobro. Não tarda a que lhe apareçam as febres. Seu corpo se cinzenta, os dedos se tornam asmáticos. Ele teima:
A febre não é derivada dos mosquitos. É o canto desses pássaros que me faz quenturas.
Quais pássaros?
Você não lhes viu, esvoando por aí?
Muidinga não lembra ter avistado nenhumas aves. Quer dar cuidados ao seu companheiro. Mas o velho não aceita. Tem tanta febre que, posto nos charcos, faz ferver a água. O pântano em volta, sempre igual, faz perder as direcções. Estão perdidos, cansados. Sentados num tronco, esperam nem se sabe o quê. Devíamos ter ficado no machimbombo, comenta Muidinga.
Foi você que queria ver o mar, lembra o velho.
O velho treme tanto que suas palavras se desconexam. Depois, se calam ambos. À volta, se escuta apenas o silêncio pingando. Tuahir, porém, ainda guarda algumas forças. Sobe num ramo alto e se pendura de cabeça para baixo. Muidinga se admira ao lhe ver morcegando. Mas ele lhe sossega: era hábito da infância. Seu sangue era fraco e a mãe o deixava amarrado pelos pés no tecto da casa.
Sabe o que você vai fazer agora? É. Você vai dar voltas por aí e deitar susto nas aves da má sorte, essas que me estão trazer febres.
Muidinga parte então pelo lamaçal. O mangal, afinal, não se cansa em repetida monotonia. A paisagem se vai desembrulhando em novidade, seus olhos se estreiam naquela água. As garças flutuam como lenços brancos em fundo de cinza. Suas plumas, sem outro serviço que a beleza, penteiam a alma de Muidinga, como se lhe trouxessem a carícia do sono. Por cima do voo as brancas aves parecem meditar, seu peito sério, quase petulante. Seus gestos são de ensaiado bailado. Nem a fome lhes dá pressa, a caça se cumpre sempre mediante vagares.
Na margem das águas mortas, Muidinga olha as aves se afastando. Para além se estende o rasteirinho capim, emergindo muito verde por entre o solo escuro. Por entre os arbustos lhe chega o lamento de uma xigovia, essa flautinha feita em fruto da ncuacueira. Era um pequeno pastor que se aproximava. Ao vê-lo o pastorzito se assusta. Deve pensar que Muidinga é um saltinhador do mato. Muidinga o chama e se apresenta. Timiudamente, despontam os primeiros fios de conversa e os dois se vão confiando. Muidinga pede que o pastor toque a xigovia. E fecha os olhos, pronto a ser encantado.
O senhor está dormitoso?
O pastor lhe sacode, aflito. Muidinga sorri, pedindo que comece. Mas o outro continua receoso. Diz que já tinha visto muitos adormecerem definitivos, ao som da flauta. Não quer que seu visitante vá muito longe, embalado no esvoar da mente. Em vez de xigoviar diz preferir contar uma história, verdadeira, passada consigo, naqueles mesmos pastos.
Conta lá, então.
Semana passada faleceu um boi, cujo esse boi era o maior de todos.
Assim desfia o menino seu relato. Havia, entre sua manada, um muito triste boizarrão. De manhã até de noite o bicho boiava em rasteira solidão, esquecido de si, dos capinzais e das obrigatórias ruminações. Seus olhos felpudos seguiam todas distracções. Tudo lhe era pretexto, fosse o estremecer de uma sombra, fosse o farfalinar de uma borboleta tricotando seu voo. O pastorzinho se agastava: que doença estaria a consumir o animal? E se decidiu a segui-lo, de luz a lés. Foi então reparou que o bicho se prendia na visão de uma dada e considerada garça. A ave pernalteava-se, se juntava às nuvens, suas gémeas: sempre e sempre a atenção do boi nela se centrava. O ruminante se imobilizava, impedido. O pastor chambocava o bovino a ver se ele manadeava. O varapau, vuuum-ntáá, estalava nos costados. Nem valia a pena. Pois ele sacudia os lentos cornos e seguia, de impossível, impassível.
Sem nenhum comer, o bicho definhava-se. O pastor nem sabia como explicar a seu tio, dono da criação. Certa noite, ao juntar suas migalhas, o pastor viu aquilo que duvidava de contar. Pois que o boi esticava o pescoço para a lua e declamava mugidos que nunca foram ouvidos. De repente, se agitou todo seu corpo, o bicho parecia estar em parto de si mesmo. De sua garganta se afilaram os gemidos que se foram vertendo, creia-se, num cantarinhar de ave. Às duas por uma, ele começou a minguar, pequenando-se de taurino para bezerro, de bezerro para gato chifrudo. Em violentos arrepios se sacudiu e os pêlos, aos tufos, lhe foram caindo. No igual tempo lhe surgiam plumas brancas. Em instantes, o mamífero fazia nascer de si uma ave, profundamente garça.
O recente pássaro, então, percorreu o redor, procurando não se sabe qual quê com seu olhar em seta. Até que, de súbito, se vislumbrou uma outra garça, essa mesma que lhe fazia, enquanto boi, demorar o coração. E o transfigurado mamífero acorreu em volejos, se chegando à autêntica ave. Dançou em repentinos saltos, as pernas de nervosa altura, como se estivessem ainda a soletrar os primeiros passos. A terra parecia demasiado pesada para aquele habitante dos céus. Ali ficaram os recíprocos dois, em namoros despregados, soltando brancas fulgurações.
O pastor se garantiu que assim acontecia todas as noites de luar cheio. No roçar da aurora, o boi regressava à condição de tristonho quadripedestre. Sucedeu um ano, contudo, que por meses seguidos, a lua teimou em não sair. Por tempos consecutivos, as noites se velaram, escuras, viscosas. O boi percorria as nocturnas horas se mantendo boi, mugindo como as acabrunhadas xipalapalas. Morreu na trigésima noite. O pastor assistira a sua lenta agonia e jura ter visto lágrimas deflagrando nos redondíssimos olhos do bicho.
O menino suspende o relato, uma angústia lhe prende a voz. Muidinga não sabe como reparar aquela falta em seu companheiro de ocasião. Lhe faltam palavras, lhe fogem as entrelinhas. Então, tira de si o amuleto que o protegia dos maus espíritos, prenda de Tuahir. Afinal, trocam magias. Aquela suave estória, concedendo leveza a um apaixonado bovino, soava como uma dádiva de magia.
Se faz tarde, Muidinga se despede do pastorzito, regressando ao lugar onde deixara o companheiro doente. Tuahir se desprendera da árvore e treme. Ele tinha concebido um plano: juntariam uns paus de mangal, improvisariam uma jangada para fugir pântano abaixo. O miúdo tinha razão, admitia. Talvez na praia encontrassem gente, barcos, viagens.
Mas você não tem força para nada, tio Tuahir.
Tuahir então apontou para a margem: ele já juntara os paus e os amarrara no jeito de barcaça. Nesse poente, os dois partem naquela jangada. Muidinga remava. Se recorda de Kindzu em suas aventurosas viagens. A tremeluzente voz de Tuahir se faz ouvir:
Se eu falecer aqui não me enterre no matope.
O tio não vai morrer.
Você não sabe nada. Vou-lhe dizer: quem morre enterrado no lodo se transforma em peixe.
Está bem, não lhe enterro. Se um dia o tio morrer faço como fizeram com Taímo. Lhe deitamos na água.
O velho sorri e se enrosca em si, como se procurasse um ventre. Depois adormece. À medida que a jangada avança no mangal o miúdo vai medindo o quanto afecto guarda por aquele homem. No fundo, o velho foi toda a sua família, toda a sua humanidade. A jangada escorrega pelas lisas águas até desembocar numa margem onde a areia branqueja. Nítido se escuta o rugido do mar.
Escute: é o mar, o autêntico mar. Já estamos perto, tio.
Oh, esse mar já escuto desde que chegámos lá no machimbombo.
Cada vez mais a voz de Tuahir se esfuma. Em auge de arrepios, o velho pede carinhos de mão e de peito. Não era requerer de doente mas de esposa. Muidinga lhe ajusta a manta na esperança que ele caia em sono. Porém, Tuahir lhe surpreende as mãos, juntando-as a seu rosto. Pede ao rapaz que se deite juntinho a si, para ganhar quentura. O velho levanta a sua manta, abrindo espaço para que Muidinga se ajuste. O rapaz se deita, constreito. Dois medos em si se juntam: o de tocar em Tuahir e o de se estar deitando com a morte. Maneirosa, a mão do outro lhe desvanece uma ruga que teima em seu rosto. Longe se escuta o assobio da xigovia.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

Desolados

Uma senhora carregando um pequinês, outra, mais velha, carregando a si mesma com a mesma pose. Sentaram à mesa ao lado da nossa. Não, não, o pequinês não quis fazer amor com o meu calcanhar, esta é outra história. Aristocracia francesa ao ponto da caricatura, possivelmente mãe e filha. Deixaram o peixe pedido no prato e a mais velha disse ao garçom que o ponto de cozimento estava errado. La cuisson, um daqueles parâmetros sagrados pelos quais os franceses estabelecem a justeza de tudo, não era a que ela tinha determinado. E o garçom cometeu um erro. O garçom não disse desolê.
O ponto da cuisson não serve apenas para a carne, que pode vir sangrando, rosada, ao ponto ou (há gosto para tudo) bem passada, mas também para o peixe, e neste caso sua definição requer mais tempo e um vocabulário ainda mais minucioso. E o maître obviamente não transmitira as instruções corretas ao chef, ou transmitira e o chef não ligara. Mas quando veio a madame, mulher do chef e dono do restaurante, saber o que tinha havido, nossa vizinha disse que perdoava tudo. Perdoava o peixe errado, pois afinal o chef era obrigado a pensar no gosto dos turistas (nós) e perdoava, estava subentendido, a invasão da França pelos bárbaros e o declínio generalizado de critérios num mundo em crise. Só não perdoava o garçom não ter dito, nem uma vez, desolê.
Os franceses se declaram desolê por qualquer coisa. Você os deixa desolados, desconsolados, arrasados com o menor pedido que não podem atender, ou com a menor demonstração de decepção ou desconforto. É uma declaração tão forte de contrição e empatia que, mesmo automática e distraída, deixa você sem ação. O que mais você pode pedir de quem está pensando no suicídio por sua causa? Desolê absolve tudo. Desolê encerra tudo. E o garçom negou mesmo um desolê protocolar pelo mau cozimento do peixe.
As duas recolheram as suas coisas e saíram do restaurante com mercis que eram agulhadas. O mais indignado era o pequinês.

Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora

12/06/2026

Yamandu Costa & Antoine Boyer | Preciosa

Calvin e Haroldo

Oficina irritada

Eu quero compor um soneto duro
como poeta algum ousara escrever.
Eu quero pintar um soneto escuro,
seco, abafado, difícil de ler.
 
Quero que meu soneto, no futuro,
não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo,
ao mesmo tempo saiba ser, não ser.
 
Esse meu verbo antipático e impuro
há de pungir, há de fazer sofrer,
tendão de Vênus sob o pedicuro.
 
Ninguém o lembrará: tiro no muro,
cão mijando no caos, enquanto Arcturo,
claro enigma, se deixa surpreender.

Carlos Drummond de Andrade, em Claro Enigma

Acerca do lobo e do cordeiro

Quão corrupto e falso é quem afirma: “Estou decidido a tratar você de um modo justo!” O que você está fazendo? Não há porque fazer tal afirmação. Em breve você se manifestará por meio dos seus atos. Está escrito claramente na sua testa. Qualquer que seja seu caráter, está claro no seu olhar—bem como tudo está nos olhos dos amantes, lidos por quem é amado. O homem honesto e bom é como aquele cujo cheiro é forte: quem se aproxima sente, mesmo se não quiser. Já a presunção da simplicidade é como uma vara torta. Nada é mais vergonhoso do que uma amizade entre um lobo e um cordeiro. Evite-a ao máximo. O bom, o simples e o benevolente são visíveis pelo olhar e não deixam dúvidas.

Marco Aurélio, em Meditações

Diário de Bernardo Soares

114.

Estética do artifício

A vida prejudica a expressão nunca o poderia contar da vida. Se eu vivesse um grande amor. Eu próprio não sei se este eu, que vos exponho, por estas coleantes páginas fora, realmente existe ou é apenas um conceito estético e falso que fiz de mim próprio. Sim, é assim.
Vivo-me esteticamente em outro. Esculpi a minha vida como a uma estátua de matéria alheia ao meu ser. As vezes não me reconheço, tão exterior me pus a mim, e tão de modo puramente artístico empreguei a minha consciência de mim próprio. Quem sou por detrás desta irrealidade? Não sei. Devo ser alguém. E se não busco viver, agir, sentir, é — crede-me bem — para não perturbar as linhas feitas da minha personalidade suposta.
Quero ser tal qual quis ser e não sou. Se eu cedesse destruir-me-ia.
Quero ser uma obra de arte, da alma pelo menos, já que do corpo não posso ser. Por isso me esculpi em calma e alheamento e me pus em estufa, longe dos ares frescos e das luzes francas — onde a minha artificialidade, flor absurda floresça em afastada beleza.
Penso às vezes no belo que seria poder, unificando os meus sonhos, criar-me uma vida contínua, sucedendo-se, dentro do decorrer de dias inteiros, com convivas imaginários com gente criada, e ir vivendo, sofrendo, gozando essa vida falsa. Ali me aconteceriam desgraças; grandes alegrias ali cairiam sobre mim. E nada de mim seria real. Mas teria tudo uma lógica soberba, sua; seria tudo segundo um ritmo de voluptuosa falsidade, passando tudo numa cidade feita da minha alma, perdida até ao cais à beira de um comboio calmo, muito longe dentro de mim, muito longe... E tudo nítido, inevitável, como na vida exterior, mas estética  de Morte do Sol.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Seco estudo de cavalos



DESPOJAMENTO

O cavalo é nu.

FALSA DOMESTICAÇÃO

O que é cavalo? É liberdade tão indomável que se torna inútil aprisioná-lo para que sirva ao homem: deixa-se domesticar mas com um simples movimento de safanão rebelde de cabeça – sacudindo a crina como a uma solta cabeleira – mostra que sua íntima natureza é sempre bravia e límpida e livre.

FORMA

A forma do cavalo representa o que há de melhor no ser humano. Tenho um cavalo dentro de mim que raramente se exprime. Mas quando vejo outro cavalo então o meu se expressa. Sua forma fala.

DOÇURA

O que é que faz o cavalo ser de brilhante cetim? É a doçura de quem assumiu a vida e seu arco-íris. Essa doçura se objetiva no pelo macio que deixa adivinhar os elásticos músculos ágeis e controlados.

OS OLHOS DO CAVALO

Vi uma vez um cavalo cego: a natureza errara. Era doloroso senti-lo irrequieto, atento ao menor rumor provocado pela brisa nas ervas, com os nervos prestes a se eriçarem num arrepio que lhe percorria o corpo alerta. O que é que um cavalo vê a tal ponto que não ver o seu semelhante o torna perdido como de si próprio? É que – quando enxerga – vê fora de si o que está dentro de si. É um animal que se expressa pela forma. Quando vê montanhas, relvas, gente, céu – domina homens e a própria natureza.

SENSIBILIDADE

Todo cavalo é selvagem e arisco quando mãos inseguras o tocam.

ELE E EU

Tentando pôr em frases a minha mais oculta e sutil sensação – e desobedecendo à minha necessidade exigente de veracidade – eu diria: se pudesse ter escolhido queria ter nascido cavalo. Mas – quem sabe – talvez o cavalo ele-mesmo não sinta o grande símbolo da vida livre que nós sentimos nele. Devo então concluir que o cavalo seria sobretudo para ser sentido por mim? O cavalo representa a animalidade bela e solta do ser humano? O melhor do cavalo o ente humano já tem? Então abdico de ser um cavalo e com glória passo para a minha humanidade. O cavalo me indica o que sou.

ADOLESCÊNCIA DA MENINA-POTRO

Já me relacionei de modo perfeito com cavalo. Lembro-me de mim-adolescente. De pé com a mesma altivez do cavalo e a passar a mão pelo seu pelo lustroso. Pela sua agreste crina agressiva. Eu me sentia como se algo meu nos visse de longe – Assim: “A Moça e o Cavalo”.

O ALARDE

Na fazenda o cavalo branco – rei da natureza – lançava para o alto da acuidade do ar o seu longo relincho de esplendor.

O CAVALO PERIGOSO

Na cidadezinha do interior – que se tornaria um dia uma pequena metrópole – ainda reinavam os cavalos como proeminentes habitantes. Sob a necessidade cada vez mais urgente de transporte, levas de cavalos haviam invadido o lugarejo, e nas crianças ainda selvagens nascia o secreto desejo de galopar. Um baio novo dera coice mortal num menino que ia montá-lo. E o lugar onde a criança audaciosa morrera era olhado pelas pessoas numa censura que na verdade não sabiam a quem dirigir. Com as cestas de compras nos braços, as mulheres paravam olhando. Um jornal se inteirara do caso e leu-se com certo orgulho uma nota com o título de O Crime do Cavalo. Era o Crime de um dos filhos da cidadezinha. O lugarejo então já misturava a seu cheiro de estrebaria a consciência da força contida nos cavalos.

NA RUA SECA DE SOL

Mas de repente – no silêncio do sol de duas horas da tarde e quase ninguém nas ruas do subúrbio – uma parelha de cavalos desembocou de uma esquina. Por um momento imobilizou-se de patas semierguidas. Fulgurando nas bocas como se não estivessem amordaçadas. Ali, como estátuas. Os poucos transeuntes que afrontavam o calor do sol olharam, duros, separados, sem entender em palavras o que viam. Entendiam apenas. Passado o ofuscamento da aparição – os cavalos encurvaram o pescoço, abaixaram as patas e continuaram seu caminho. Passara o instante de vislumbramento. Instante imobilizado como por uma máquina fotográfica que tivesse captado alguma coisa que jamais as palavras dirão.

NO PÔR DO SOL

Nesse dia, quando o sol já ia se pondo, o ouro se espalhou pelas nuvens e pelas pedras. Os rostos dos habitantes ficaram dourados como armaduras e assim brilhavam os cabelos desfeitos. Fábricas empoeiradas apitavam continuamente avisando o fim do dia de trabalho, a roda de uma carroça ganhou um nimbo dourado. Neste ouro pálido à brisa havia uma ascensão de espada desembainhada. Porque era assim que se erguia a estátua equestre da praça na doçura do ocaso.

NA MADRUGADA FRIA

Podia-se ver o morno bafo úmido – o bafo radioso e tranquilo que saía das narinas trêmulas extremamente vivas e frementes dos cavalos e cavalas em certas madrugadas frias.

NO MISTÉRIO DA NOITE

Mas à noite cavalos liberados das cargas e conduzidos à ervagem galopavam finos e soltos no escuro. Potros, rocins, alazões, longas éguas, cascos duros – de repente uma cabeça fria e escura de cavalo! – os cascos batendo, focinhos espumantes erguendo-se para o ar em ira e murmúrio. E às vezes uma longa respiração esfriava as ervas em tremor. Então o baio se adiantava. Andava de lado, a cabeça encurvada até o peito, cadenciado. Os outros assistiam sem olhar. Ouvindo o rumor dos cavalos, eu adivinhava os cascos secos avançando até estacarem no ponto mais alto da colina. E a cabeça a dominar a cidadezinha, lançando o longo relincho. O medo me tomava nas trevas do quarto, o terror de um rei, eu quereria responder com as gengivas à mostra em relincho. Na inveja do desejo meu rosto adquiria a nobreza inquieta de uma cabeça de cavalo. Cansada, jubilante, escutando o trote sonâmbulo. Mal eu saísse do quarto minha forma iria se avolumando e apurando, e, quando chegasse à rua, já estaria a galopar com patas sensíveis, os cascos escorregando nos últimos degraus da escada da casa. Da calçada deserta eu olharia: um canto e outro. E veria as coisas como um cavalo as vê. Essa era a minha vontade. Da casa eu procurava ao menos escutar o morro de pastagem onde nas trevas cavalos sem nome galopavam retornados ao estado de caça e guerra.
As bestas não abandonavam sua vida secreta que se processa durante a noite. E se no meio da ronda selvagem aparecia um potro branco – era um assombro no escuro. Todos estacavam. O cavalo prodigioso aparecia, era aparição. Mostrava-se empinado um instante. Imóveis os animais aguardavam sem se espiar. Mas um deles batia o casco – e a breve pancada quebrava a vigília: fustigados moviam-se de súbito álacres, entrecruzando-se sem jamais se esbarrarem e entre eles se perdia o cavalo branco. Até que um relincho de súbita cólera os advertia – por um segundo atentos, logo se espalhavam de novo em nova composição de trote, o dorso sem cavaleiros, os pescoços abaixados até o focinho tocar no peito. Eriçadas as crinas. Eles cadenciados, incultos.
Noite alta – enquanto os homens dormiam – vinha encontrá-los imóveis nas trevas. Estáveis e sem peso. Lá estavam eles invisíveis, respirando. Aguardando com a inteligência curta. Embaixo, na cidadezinha adormecida, um galo voava e empoleirava-se no bordo de uma janela. As galinhas espiavam. Além da ferrovia um rato pronto a fugir. Então o tordilho batia a pata. Não tinha boca para falar mas dava o pequeno sinal que se manifestava de espaço a espaço na escuridão. Eles espiavam. Aqueles animais que tinham um olho para ver de cada lado – nada precisava ser visto de frente por eles, e essa era a grande noite. Os flancos de uma égua percorridos por rápida contração. Nos silêncios da noite a égua esgazeava o olho como se estivesse rodeada pela eternidade. O potro mais inquieto ainda erguia a crina em surdo relincho. Enfim reinava o silêncio total.
Até que a frágil luminosidade da madrugada os revelava. Estavam separados, de pé sobre a colina. Exaustos, frescos. Tinham passado no escuro pelo mistério da natureza dos entes.

ESTUDO DO CAVALO DEMONÍACO

Nunca mais repousarei porque roubei o cavalo de caçada de um Rei. Eu sou agora pior do que eu mesma! Nunca mais repousarei: roubei o cavalo de caçada do Rei no enfeitiçado Sabath. Se adormeço um instante, o eco de um relincho me desperta. E é inútil tentar não ir. No escuro da noite o resfolegar me arrepia. Finjo que durmo mas no silêncio o ginete respira. Todos os dias será a mesma coisa: já ao entardecer começo a ficar melancólica e pensativa. Sei que o primeiro tambor na montanha do mal fará a noite, sei que o terceiro já me terá envolvido na sua trovoada. E no quinto tambor já estarei com a minha cobiça de cavalo fantasma. Até que de madrugada, aos últimos tambores levíssimos, me encontrarei sem saber como junto a um regato fresco, sem jamais saber o que fiz, ao lado da enorme cansada cabeça de cavalo.
Mas cansada de quê? Que fizemos, eu e o cavalo, nós os que trotam no inferno da alegria de vampiro? Ele, o cavalo do Rei, me chama. Tenho resistido em crise de suor e não vou. Da última vez em que desci de sua sela de prata, era tão grande a minha tristeza humana por eu ter sido o que não devia ser, que jurei que nunca mais. O trote porém continua em mim. Converso, arrumo a casa, sorrio, mas sei que o trote está em mim. Sinto falta dele como quem morre.
Não, não posso deixar de ir.
E sei que de noite, quando ele me chamar, irei. Quero que ainda uma vez o cavalo conduza o meu pensamento. Foi com ele que aprendi. Se é pensamento esta hora entre latidos. Começo a entristecer porque sei com o olho – oh sem querer! não é culpa minha! – com o olho sem querer já resplandecendo de mau regozijo – sei que irei.
Quando de noite ele me chamar para a atração do inferno, irei. Desço como um gato pelos telhados. Ninguém sabe, ninguém vê. Só os cães ladram pressentindo o sobrenatural.
E apresento-me no escuro ao cavalo que me espera, cavalo de realeza, apresento-me muda e em fulgor. Obediente à Besta.
Correm atrás de nós cinquenta e três flautas. À frente uma clarineta nos alumia, a nós, os despudorados cúmplices do enigma. E nada mais me é dado saber.
De madrugada eu nos verei exaustos junto ao regato, sem saber que crimes cometemos até chegar à inocente madrugada.
Na minha boca e nas suas patas a marca do grande sangue. O que tínhamos imolado?
De madrugada estarei de pé ao lado do ginete agora mudo, com o resto das flautas ainda escorrendo pelos cabelos. Os primeiros sinos de uma igreja ao longe nos arrepiam e nos afugentam, nós desvanecemos diante da cruz.
A noite é a minha vida com o cavalo diabólico, eu feiticeira do horror. A noite é minha vida, entardece, a noite pecadoramente feliz é a vida triste que é a minha orgia – ah rouba, rouba de mim o ginete porque de roubo em roubo até a madrugada eu já roubei para mim e para o meu parceiro fantástico, e da madrugada já fiz um pressentimento de terror de demoníaca alegria malsã.
Livra-me, rouba depressa o ginete enquanto é tempo, enquanto ainda não entardece, enquanto é dia sem trevas, se é que ainda há tempo, pois ao roubar o ginete tive que matar o Rei, e ao assassiná-lo roubei a morte do Rei. E a alegria orgíaca do nosso assassinato me consome em terrível prazer. Rouba depressa o cavalo perigoso do Rei, rouba-me antes que a noite venha e me chame.

Clarice Lispector, em Todos os Contos

11/06/2026

As canções que você fez pra mim | Maria Bethânia

Calvin

2. O menino na festa do Natal de Cristo

Como sou romancista, parece que inventei uma “história”. Porque escrevo “parece”? Sei bem que a inventei, mas afigura-se sempre que ela aconteceu num certo lugar, em certo dia, ou antes, precisamente na véspera do Natal, em certa cidade enorme e durante um frio terrível.
Imagino que havia um rapaz muito pequeno numa cave, de seis anos ou ainda mais pequeno. O rapaz, numa manhã húmida e fria, acordou na sua cave. Vestia apenas uma batinha e tremia. Saía-lhe da boca um bafo de vapor branco, e ele, sentado no canto, em cima de uma arca, aborrecia-se e soprava o vapor de propósito, divertindo-se a vê-lo sair. Mas estava com muita fome. Logo de manhã, por várias vezes, já se aproximara do catre em que a mãe doente estava deitada numa esteira e com uma trouxa debaixo da cabeça. Como veio ela parar aqui? Chegara pelos vistos de outra cidade, com o filho, e de repente adoecera. A senhoria tinha sido levada pela polícia dois dias antes; os inquilinos dispersaram-se, era a quadra das festas; só um dos do “pessoal da ganga” estava lá, prostrado de bêbado como um morto havia já vinte e quatro horas, sem dar atenção às festas. Noutro canto do quarto gemia de dores reumáticas uma velha octogenária, antiga ama-seca numa casa qualquer, deitada no leito da morte solitária, queixosa, gemebunda e a resmungar com o miúdo que já tinha medo de se aproximar muito do canto dela. Encontrou, algures no átrio, água para beber, mas não encontrou uma côdea para comer, e já era a décima vez que se aproximava para acordar a mãe. Por fim, começou a sentir pavor da escuridão: havia muito que escurecera mas ninguém acendia as velas. Ao mexer na cara da mãe, espantou-se por ela não se mexer e por estar fria como a parede. “Está muito frio aqui”, pensou ele, e ficou um pouco parado, deixando, inconscientemente, a mão esquecida no ombro da morta; depois soprou para os dedinhos, tentando aquecê-los e, de repente, tendo encontrado às apalpadelas o seu boné em cima do catre, foi devagarinho, na escuridão, para a saída da cave. Teria saído ainda antes, mas tinha medo de um cão grande que, durante todo o dia, uivava em cima, nas escadas, à porta dos vizinhos. O cão já não estava lá, e o miúdo saiu para a rua.
Meu Deus, que cidade! Nunca antes ele vira nada de parecido. Lá, donde ele viera, fazia muito escuro de noite, havia só um lampião em toda a rua. As casas de madeira baixinhas tinham as portadas fechadas; mal caía a noite, não se via ninguém, as pessoas metiam-se dentro das casas, apenas os cães uivavam, matilhas de cães, centenas, milhares deles, a uivarem e a ladrarem toda a noite. Mas, lá, havia calor e davam de comer, e aqui... meu Deus, que me apetece tanto comer alguma coisa! E há tanto barulho aqui, estrondos, tanta luz, cavalos e coches, e frio, frio! Levanta-se um vapor gélido sobre os cavalos esfalfados, dos focinhos sai-lhes bafo quente, tinem as ferraduras nas pedras cobertas de neve, anda toda a gente aos empurrões, e, meu Deus, que fome, nem que fosse um bocadinho qualquer, e de repente começaram-me a doer muito os dedos. Passou ao lado um polícia e virou a cabeça para não olhar para o miúdo.
Outra rua — ah, que larga! Aqui de certeza que atropelam a gente; como eles gritam, correm, tantos coches, tanta luz, tanta luz! E isto o que é? Oh, que vidro tão grande, e atrás do vidro uma sala, e na sala uma árvore até ao teto! É a árvore de Natal, e tantas luzes na árvore, e tantos papelinhos dourados e tantas maçãs, e por todo o lado bonequinhos, cavalinhos; e crianças a correr na sala, todas apinocadas, todas limpinhas, riem-se e brincam e comem e bebem. Eis uma menina que começou a dançar com um rapaz, que linda! E ouve-se a música através do vidro. O rapaz olha, espanta-se e ri-se, mas doem-lhe os dedos, dos pés e das mãos, ficaram roxos, já não se dobram e doem-lhe quando os mexe. O miúdo pensou então, de repente, que lhe doíam muito os dedos, e chorou, e correu mais adiante pela rua, e viu de novo, por outro vidro grande, uma sala, árvores, mas nas mesas há bolos, variados: de amêndoa, vermelhos, amarelos, e estão lá quatro ricas senhoras, e dão bolos a quem entra, e a porta abre-se a cada instante e entram muitos senhores. O rapaz aproximou-se, abriu a porta e entrou. Ui, como gritaram com ele, como abanaram as mãos! Uma senhora aproximou-se dele e meteu-lhe na mão um copeque, abriu-lhe a porta para a rua. Como se assustou! O copeque caiu e tilintou nos degraus: não podia dobrar os dedos inteiriçados e vermelhos para o segurar. Saiu e pôs-se a andar depressa, depressa, mas não sabia para onde. Apetecia-lhe outra vez chorar, mas tinha medo e corria, corria e soprava nos dedos. E ficou muito aflito, porque se sentiu de repente sozinho e assustado, e de chofre, meu Deus, o que era aquilo outra vez? Está lá uma multidão de pessoas. A admirar isto: atrás da vidraça há três bonecos pequenos, todos apinocados com roupas vermelhas e verdes, tal e qual como se estivessem vivos! Está lá um velho que toca um violino grande, há mais dois de pé que tocam violinos pequenos, e abanam todos as cabecinhas ao ritmo da música, e olham uns para os outros, e os lábios deles mexem, e falam, falam mesmo, só que não se ouve através do vidro. E o miúdo, a princípio, pensou que estavam vivos, mas, quando adivinhou que eram bonecos, riu-se de repente. Nunca na vida tinha visto bonecos assim nem sabia que existiam! Apetecia-lhe chorar, mas também era tão engraçado ver os bonecos! De repente pareceu-lhe que alguém lhe puxava pela bata, atrás dele: estava ao pé dele um rapaz grande e mau que lhe deu, sem mais nem menos, um murro na cabeça, arrancou-lhe o boné e assestou-lhe um pontapé. O miúdo rolou pelo chão, toda a gente gritava, e ele, muito aturdido, levantou-se e deitou a correr muito, e então, sem saber onde nem porquê, entrou para um pátio por baixo do arco e sentou-se atrás de uma rima de lenha: “Aqui não me encontram, é escuro.”
Sentou-se, encolheu-se, não conseguia recuperar o fôlego por causa do medo, e de repente, mesmo de repente, sentiu-se muito bem: as mãos e os pés deixaram de lhe doer, e estava ali tanto calor, tão quentinho como no catre do fogão; e estremeceu: ah, estava quase a dormir! Que bom adormecer ali: “Fico aqui um bocado e depois vou outra vez ver os bonecos — pensou e sorriu, lembrando-se —; são tal e qual como se estivessem vivos!...” Então, de súbito, ouviu a mãe a cantar-lhe uma cantiga. “Mamã, estou a dormir, é tão bom dormir aqui!”
Pequenito, vem comigo ver a minha festa da árvore de Natal — sussurrou-lhe uma voz baixinha.
Primeiro pensou que era a mãe, mas não, não era ela; quem o chamava, então? Ele não via, mas alguém se inclinou sobre ele e o abraçou na escuridão, e o miúdo estendeu-lhe a mão e... de repente — oh, que luz! Oh, que árvore! Aquilo nem é uma árvore, nunca ele tinha visto árvores assim! Onde estará? Tudo brilha, tudo é luz, por todo o lado há bonequinhos... mas não: são rapazes e raparigas, só que são tão claros, e todos giram à volta dele, e voam, e todos lhe dão beijos, e pegam nele, e levam-no, e ele também voa, e vê: a mamã a olhar para ele e a rir de felicidade.
Mamã, mamã! Ah, que bom estares aqui, mamã! — grita-lhe o miúdo, e beija de novo os outros meninos, e conta-lhes logo sobre os bonecos atrás do vidro. — Quem sois vós, rapazinhos? Quem sois vós, raparigas? — pergunta, rindo-se de amor por eles.
É a “festa do Natal de Cristo” — responderam-lhe. — Neste dia, Cristo faz sempre a festa da árvore de Natal para os pequeninos que não têm a sua própria árvore... — E soube o menino que estas crianças eram todas como ele, mas umas gelaram ainda nos cestos em que foram abandonadas nas escadas, à porta dos funcionários petersburguenses, outras asfixiaram-se quando estavam com as amas finlandesas a quem os orfanatos entregaram para serem amamentadas, outras morreram ao peito seco das mães durante a grande fome de Samara, outras sufocaram no fedor das carruagens de terceira classe, e agora estão todas aqui, como anjos, todas estão com Cristo, e o próprio Cristo está no meio delas, e estende as mãos para elas, e abençoa-as e abençoa as suas mães pecadoras... E as mães destas crianças também estão aqui, ao lado, e choram; cada mãe reconhece o seu filho, ou a sua filha, que se aproxima dela a voar e a beija, lhe limpa as lágrimas do rosto com as mãozinhas e lhe pede que não chore, porque está muito bem...
No pátio, os guarda-portões encontraram de manhã o corpo pequenino do miúdo que se escondera atrás da lenha e aí gelara; encontraram também a mãe dele... Essa morrera ainda antes do filho; encontraram-se no céu, junto a Deus.
Para que inventei esta história tão inadequada a um diário normal e razoável, ainda por cima do escritor? Eu, que prometi escrever principalmente sobre acontecimentos reais! Mas é mesmo assim, sempre me pareceu que isto poderia acontecer na realidade — ou seja, o que aconteceu na cave e por trás do monte de lenha — já que, aquilo da festa do Cristo... nem sei que vos diga. Poderia acontecer ou não? Para isto sou romancista — para inventar.

Fiodor Dostoievski, em A Submissa e Outras Histórias