10/09/2026

Desiderato Meu | Elilson José Batista

Tem quem...

tem quem se proteja
por trás
de uma barragem
de bons dias
boas tardes
boas noites
assim não tendo
que ver o que está passando

Paulo Leminski, em Toda Poesia

Preparai-vos, por Laerte

As três experiências

Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O “amar os outros” é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.
E nasci para escrever. A palavra é o meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por que foi esta que eu segui. Talvez porque para as outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E no entanto cada vez que vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estreia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever.
Quanto a meus filhos, o nascimento deles não foi casual. Eu quis ser mãe. Meus dois filhos foram gerados voluntariamente. Os dois meninos estão aqui, ao meu lado. Eu me orgulho deles, eu me renovo neles, eu acompanho seus sofrimentos e angústias, eu lhes dou o que é possível dar. Se eu não fosse mãe, seria sozinha no mundo. Mas tenho uma descendência e para eles no futuro eu preparo meu nome dia a dia. Sei que um dia abrirão as asas para o voo necessário, e eu ficarei sozinha. É fatal, porque a gente não cria os filhos para a gente, nós os criamos para eles mesmos. Quando eu ficar sozinha estarei cumprindo o destino de todas as mulheres.
Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte mas que pode me trair e me abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que é o meu lote neste mundo e que eu devo aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma garantia.
Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse à minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.
Espero em Deus não viver do passado. Ter sempre o tempo presente e, mesmo ilusório, ter algo no futuro.
O tempo corre, o tempo é curto: preciso me apressar, mas ao mesmo tempo viver como se esta minha vida fosse eterna. E depois morrer vai ser o final de alguma coisa fulgurante: morrer será um dos atos mais importantes da minha vida. Eu tenho medo de morrer: não sei que nebulosas e vias lácteas me esperam. Quero morrer dando ênfase à vida e à morte.
Só peço uma coisa: na hora de morrer eu queria ter uma pessoa amada por mim ao meu lado para me segurar a mão. Então não terei medo, e estarei acompanhada quando atravessar a grande passagem. Eu queria que houvesse encarnação: que eu renascesse depois de morta e desse a minha alma viva para uma pessoa nova. Eu queria, no entanto, um aviso. Se é verdade que existe uma reencarnação, a vida que levo agora não é propriamente minha: uma alma me foi dada ao corpo. Eu quero renascer sempre. E na próxima encarnação vou ler meus livros como uma leitora comum e interessada, e não saberei que nesta encarnação fui eu que os escrevi.
Está-me faltando um aviso, um sinal. Virá como intuição? Virá ao abrir um livro? Virá esse sinal quando eu estiver ouvindo música?
Uma das coisas mais solitárias que eu conheço é não ter a premonição.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Antiperipléia



— E o senhor quer me levar, distante, às cidades? Delongo. Tudo, para mim, é viagem de volta. Em qualquer ofício, não; o que eu até hoje tive, de que meio entendo e gosto, é ser guia de cego: esforço destino que me praz.
E vão me deixar ir? Em dês que o meu cego seô Tomé se passou, me vexam, por mim puxam, desconfiam discorrendo. Terra de injustiças.
Aqui paramos, os meses, por causa da mulher, por conta do falecido. Então, prendam a mulher, apertem com ela, o marido ru­fião, aí esses expliquem decerto o que nem se deu. A mulher, terrível. Delegado segure a alma do meu seô Tomé cego, se for ca­paz! Ele amasiava oculto com a mulher, Sa Justa, disso alguém te­ve ar? Eu provia e governava.
Mas não cismo como foi que ele no barranco se derrubou, que rendeu a alma. Decido? Divulgo: que as coisas começam de­veras é por detrás, do que há, recurso; quando no remate acon­tecem, estão já desaparecidas. Suspiros. Declaro, agora, de­fino. O senhor não me perguntou nada. Só dou resposta é ao que ninguém me perguntou.
Mulheres dôidas por ele, feito Jesus, por ter barba. Mas ele me perguntava, antes. — “É bonita?” Eu informava que sendo. Pa­ra mim, cada mulher vive formosa: as roxas, pardas e
brancas, nas es­tradas. Dele gostavam — de um cego completo — por delas nem não poder devassar as formas nem feições? Seô Tomé se soberbava, lavava com sabão o corpo, pedia roupas de esmola. Eu, bebia.
Deandávamos, lugar a lugar, sem prevenir que já se estava no vir para aqui. Tenho culpas retapadas. A gente na rua, puxando cego, concerne que nem se avançar navegando — ao contrário de todos.
Patrão meu, não. Eu regia — ele acompanhava: pegando cada um em ponta do bordão, ocado com recheios de chumbo. Bebo, para impor em mim amores dos outros? Ralhavam, que, passado já de idade de guiar cego, à mão cuspida, mesmo eu assim, calungado, corcundado, cabeçudão. Povo sabe as ignorâncias. Então, eu, para também não ver, hei-de recordar o alheio? Bebo. Tomo, até me apagar, vejo outras coisas. Ele carecia de esperar, quando eu me perfazia bêbedo deitado. Me dava conse­lhos. Cego suplica de ver mais do que quem vê.
Tinha inveja de mim: não via que eu era defeituoso feioso. Tinha ódio, porque só eu podia ver essas inteiras mulheres, que dele gostavam! Puxar cego é feito tirar um condenado, o de ne­nhum poder, mas que adivinha mais do que a gente? Amigos. O roto só pode mesmo rir é do esfarrapado. Me dava vontade de leve nele montar, sem freio, sem espora...
A gente cá chegou, pois é. A mulher viu o cego, com modos de não-digas, com toda a força guardada. Essa era a diversa, muito fulana: feia, feia apesar dos poderes de Deus. Mas queria, fatal. Ajoelhou para me pedir, para eu ao meu Seô Cego mentir. Procedi. — “Esta é bonita, a mais!” — a ele afirmei, meus créditos. O cego amaciou a barba. Ele passeou mão nos braços dela, arro­jo de usos. Soprou, quente como o olho da brasa. Tive nenhum re­morso. Mas os dois respiravam, choraram, méis, airosos.
Se encontravam, cada noite, eu arrumando para eles antes o redor, o amodo e o acômodo, e estava de longe, tomando conta. O marido desgostava dela, druxo homem, de estrambolias, nem vinha em casa. Alguém maldou? Cego esconde mais que qualquer um, qualquer logro. E quem vigia como eu? Ela me dava cachaças, comida. Ele me fiava a féria. Me tratavam. O que podia durar, assim, às estimas fartas?
A vida não fica quieta. Até ele se despenhar no escuro, do barranco, mortal. Vinha de em-delícias. A mulher aqui persiste — para miar aos cães e latir aos gatos. Que é que eu tenho com o caso... Todos fazem questão de me chamar de ladrão. Cego não é quem morre?
Todos tendo precisão de mim, nos intervalos. A mulher, ma­luca, instando que eu a ele reproduzisse suas porvindas belezas. Seô Tomé dessas sozinhas nossas não contrárias conversas tirando ciúme, com porfias e más zangas. Mas eu reportava falseado leal: que os olhos dela permitiam brilhos, um quilate dos den­tes, aquelas chispas, a suma cor das faces. Seô Tomé, às barbas de truz, sorvia também o deleite de me descrever o que o amor, ele não desapaixonava. Só sendo cego quem não deve ver? Mas o marido, imoral, esse comigo bebia, queria mediante meus conluios pegar o dinheiro da sacola... Eu, bêbedo e franzino, ananho, tenho de emendar a doideira e cegueira de todos?
Deixassem — e eu deduzia e concertava. Mas ninguém espera a esperança. Vão ao estopim no fim, às tantas e loucas. Por mais, urjo; me entenda. Aqui, que ele se desastrou, os outros agravam de especular e me afrontar, que me deparo, de fecho para princípio, sem rio nem ponte.
Dia que deu má noite. Ele se errou, beira o precipício, caindo e breu que falecendo. Não pode ter sido só azares, cafifa? De ir solitário bravear, ciumado, boi em bufo, resvalou... e, daí, quebrado ensanguentado, terrível, da terra.
Ou o marido, ardido por matar e roubar — empuxou o ou­tro abaixo no buracão — seu propósito? Cego corre perigo maior é em noites de luares...
E seô Tomé, no derradeiro, variava: falando que começava a tornar a enxergar! Delírios, de paixão, cobiçação, por querer, demais, avistar a mulher — os traços — aquela formosura que, nós três, no desafeio, a gente tinha tanto inventado. Entrevendo que ela era real de má-figura, ele não pode, desiludido em dor, ter mesmo suicidado, em despenho? O pior cego é o que quer ver... Deu a ossada.
Ou, ela, visse que ele ia ver, havia de mais primeiro querer destruir o assombroso, empurrar o qual, de pirambeira — o visionável! Caráter de mulher é caroços e cascas. Ela, no ultimamente, já se estremecia, de pavôres de amor, às vezes em que ele, apalpador, com fortes ânsias, manuseava a cara dela, oitivo, dedudo. Ar que acontece...
Se na hora eu estava embriagado, bêbedo, quando ele se des­pencou, que é que sei? Não me entendam! Deus vê. Deus atonta e mata. A gente espera é o resto da vida.
A mulher diz que me acusa do crime, sem avermelhação, se com ela eu não for ousado... O marido, terrível, supliquento, diz que eu é que fui o barregão... Terríveis, os outros, me amea­çam, às injúrias... O senhor não diz nada. Tenho e não tenho cão, sabe? Me prendam! Me larguem! A mulher esteja quase grávida. Me chamo Prudencinhano. Agora o cego não enxerga mais... A culpa cai sempre é no guiador?
Só se inda hei outras coisas, por ter, continuadas de reco­me­çar; então Deus não é mundial? Temo que eu é que seja terrível.
E o senhor ainda quer me levar, às suas cidades, amistoso?
Decido. Pergunto por onde ando. Aceito, bem-procedidamente, no devagar de ir longe. Voltar, para fim de ida. Repenso, não penso. Dou de xingar o meu falecido, quando as sau­da­des me dão. Cidade grande, o povo lá é infinito.
Vou, para guia de cegos, servo de dono cego, vagavaz, habi­tual no diferente, com o senhor, Seô Desconhecido.

Guimarães Rosa, em Tutameia

O nível



Wilton quase engoliu a pedra de gelo do uisquinho:
– Elas querem o quê?!
– Calma, Wilton. Olha a pressão...
– Repete, Marilza. Eu não devo ter ouvido bem.
– Ai, meu Deus! Não fica assim, Tico!
– Não me chame por esse apelidinho idiota. Repete o que tu falou. Repete que é pra ver se eu não tô maluco.
– Chega de drama, Wilton! Elas são meninas normais As coleguinhas na escola falam no assunto, juram que já viram e é perfeitamente natural que elas queiram ver também, pombas!
– Eu não acho nada natural que elas, aos treze e aos quinze anos, queiram ver pombas e pembas!
– Olha o nível, Wilton, olha o nível!
– Nível? Você vem me dizer que minhas filhas querem ver um filme pornô no meu vídeo e ainda tem a coragem de falar em nível?
– Tudo bem, Wilton. Se você prefere que elas aceitem o convite de um desses jogadores de futebol do conjunto, tudo bem.
– Convite?! Eu mato um cachorro desses! Eu...
– Por favor, Wilton! Me escuta, cara! Me ouve, ao menos uma vez na vida ! Nós temos uma porrada de fitas dessas, né? É só selecionar uma menos... menos... traumatizante. Nada de chicote, vibrador, anão bem-dotado...
– Péra lá, Marilza! Que história é essa de anão bem-dotado? Eu não tenho fita com anão. Onde é que tu viu isso?
– Era só um exemplo, meu nego. A gente escolhe uma fita mais soft, faz o desejo delas, o troço perde o mistério e pronto! Elas cantam marra com as coleguinhas, também já vimos etc., e fica tudo na maior limpeza. Qualé, Wilton? Eles veem pornô até na Escola Superior de Guerra, né? É moda, querido. Feito a vizinha do 801: dá e passa!
Wilton renovou a dose e os dois partiram pra seleção:
– Hum... tô me sentindo meio Brossard...
– E daí? Eu também tô dando uma de Dona Solange, não tô? Fica frio.
A primeira fita selecionada por Wilton era uma tal de Suzy’s Centerfolds. Marilza vetou:
– Masturbação não!
– Ué, mas isso é o que elas mais fazem!
– Mas não há necessidade de aprenderem novas técnicas com essas louças. Uma coisa é a masturbação como um estágio do desenvolvimento sexual normal das minhas meninas, certo? Agora, piranha tocando siririca profissional é outro departamento.
– É a minha vez de dizer: olha o nível!
– Desculpe.
– Tem essa outra aqui: Superwoman. É uma sátira. Pode ser que o clima de gozação atenue a brabeira.
– Acontece aquela coisa horrorosa de espirrar na cara da mulher?
 Espirrar?
 Não banca o gaiato, Wilton! Você sabe de que qui eu tô falando...
 Ora, Marilza, esses lances são quase obrigatórios nesses filmecos. São o creme, rá, rá, rá!... Não precisa me olhar com essa cara...
Acabaram resolvendo botar só um trecho de um filme não muito explícito, metido a artístico, City Heat ou coisa parecida.
Marilza fez uma exposição preliminar sobre enamoramento, amor, escolhas insensatas, complexo de Cinderela, Mariazinhas, prós e contras da obra de Milan Kundera e encerrou, brilhantemente, estabelecendo um paralelo entre pornografia barata e a lavagem de roupa suja nos debates políticos.
Wilton apertou a tecla play e recolheu-se ao banheiro, acometido de avassaladora diarréia. A fita correu. Lá pelas tantas, Helô comentou com Nandinha:
– Tô achando o pau desse cara meio barro, meio tijolo.
– Podes crer. Desde o 69 que tá assim.
– Também ela mamou mal paca.
– Não sabe prender entre a língua e o céu da boca.
Não temos o resto da conversinha. Wilton tá no Miguel Couto, onde o tubarão virou boto, e a Marilza foi pro Pedro Ernesto, onde tu entra Maluf e sai honesto.

Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo

09/09/2026

Quem agradar?

Qual tipo de pessoa os homens desejam agradar? Com quais intenções? Por meio de quais atos?
O quão rápido o tempo cobrirá tudo. O quanto já cobriu.

Marco Aurélio, em Meditações

João Bosco | Sinceridade (Sinderidad)

Confia no teu corre

Confia no teu corre
e fica de boa.
Afia teu trampo
nas lâminas das incertezas,
todo mundo certo
não quer dizer
que você está errado.
Não ande com caranguejos
e sonhe com as mãos,
deixa o coração no presente
e os olhos no futuro.
Muitas vezes o sucesso fica no passado
e ser importante é para sempre.
Cuide da raiz e lapide as asas,
porque abaixo do radar também se voa.

Sérgio Vaz, em Flores da batalha

As primaveras

Os versos de Casimiro são tão nossos que gostar deles é um sinal de autenticidade — ... e, mesmo, como beber água da fonte na concha das mãos... E como ele ainda está entre nós — tão vivo — nos melhores e nos piores momentos da poesia popular!

Mário Quintana, em Caderno H

Piloto de Guerra

X

Já faz duas horas que estamos mergulhados numa pressão externa reduzida a um terço da pressão normal. A equipe se desgasta lentamente. Nós mal nos falamos. Ainda tentei, uma ou duas vezes, com prudência, agir sobre meus pedais. Não insisti. Fui duas vezes penetrado pela mesma sensação de esgotante calmaria.
Dutertre, em função das viragens que a foto exige, avisa-me muito tempo antes. Eu faço o que posso com o que me resta de comando. Inclino o avião e puxo para mim. E consigo, para Dutertre, viragens em vinte tomadas.
— Qual a altitude?
— Dez mil e duzentos…
Ainda penso em Sagon… O homem é sempre o homem. Somos homens. E, em mim, só encontrei a mim mesmo. Sagon não conheceu senão Sagon. Aquele que morre, morre como sempre foi. Na morte de um simples mineiro, é um simples mineiro que morre. Onde achamos essa demência desvairada que, para nos deslumbrar, inventam os literatos?
Vi tirarem um homem, na Espanha, depois de alguns dias de trabalho, do porão de uma casa desmoronada por um torpedo. A multidão cercava em silêncio e, parece-me, com uma súbita timidez, aquele que voltava quase do além, coberto ainda pelos destroços, um tanto embrutecido pela asfixia e pelo jejum, parecendo uma espécie de monstro extinto. Quando alguns se atreveram a interrogá-lo e ele prestou às questões uma atenção glauca, a timidez da multidão tornou-se mal-estar.
Tentavam com ele chavões desajeitados, pois a verdadeira interrogação ninguém sabia formular. Diziam-lhe: “O que o senhor está sentindo?… O que pensava?… O que
ficou fazendo?”. Lançavam assim, ao acaso, passarelas sobre um abismo como se tivessem usado uma primeira convenção para atingir, em sua escuridão, o cego surdo-mudo que tentavam socorrer.
Mas quando o homem conseguiu responder, disse:
— Ah, sim, ouvia longos desmoronamentos…
Ou ainda…
— Eu fiquei bem preocupado. Demorou…
— Ah, demorou muito…
Ou ainda…
— Eu tinha dor nas costas, muita dor…
E aquele valente homem falava-nos tão somente do valente homem. Ele nos falou principalmente de seu relógio de pulso, que perdera…
— Eu procurei… Gostava muito dele, mas no escuro…
E, decerto, a vida lhe ensinara a sensação do tempo que transcorre ou do amor pelos objetos familiares. E ele se servia do homem que era para sentir o seu universo, mesmo que fosse o universo de uma avalanche na noite. E, à questão fundamental, que ninguém soube fazer, mas que governava todas as tentativas: “Quem era o senhor? Quem surgiu no senhor?”, ele nada poderia ter respondido, senão: “Eu mesmo…”.
Nenhuma circunstância desperta em nós um estranho de que não suspeitássemos. Viver é nascer lentamente. Seria muito fácil tomar almas já prontas!
Uma iluminação repentina parece às vezes fazer bifurcar um destino. Mas a iluminação é somente a visão repentina, pelo Espírito, de uma estrada lentamente preparada. Eu aprendi lentamente a gramática. Exercitaram-me na sintaxe. Despertaram meus sentimentos. E eis que bruscamente um poema me bate ao coração.
Decerto, não sinto neste instante nenhum amor, mas se, esta noite, alguma coisa mefor tirada, é que terei levado pesadamente minhas pedras à construção invisível. Eu preparo uma festa. Eu não terei o direito de falar de aparição súbita, em mim, de outro diferente de mim, pois sou eu quem constrói esse outro.
Nada tenho a esperar da aventura de guerra, senão essa lenta preparação. Ela pagará, mais tarde, como a gramática…

Toda a vida se arrefeceu em nós por causa desse lento desgaste. Nós envelhecemos. A missão envelhece. Quanto custa a altitude? Uma hora vivida a dez mil metros equivale a uma semana, três semanas, um mês de vida orgânica, de exercício do coração, dos pulmões, das artérias? Pouco importa, aliás. Meus quase desvanecimentos me acrescentaram séculos: estou imerso na serenidade dos velhos. As emoções da preparação me parecem infinitamente longínquas, perdidas no passado. Arras infinitamente longínqua no futuro.
A aventura de guerra? Onde há aventura de guerra?
Quase morri há dez minutos e nada tenho a contar, senão a passagem das vespas minúsculas entrevistas durante três segundos. A verdadeira aventura teria durado um décimo de segundo. E em nosso grupo não voltamos jamais para contá-la.
— Um pezinho à esquerda, Capitão.
Dutertre esqueceu que meu pedal está congelado. Eu penso numa gravura que me deslumbrou na infância. Via-se, no fundo de uma aurora boreal, um extraordinário cemitério de navios perdidos, imobilizados nos mares austrais. Eles erguiam, na luz acinzentada de uma espécie de noite eterna, braços cristalizados. Numa atmosfera morta, ainda estendiam velas que conservaram a marca do vento, como um leito guarda a sutil marca de um ombro. Mas nos pareciam duras e quebradiças.
Aqui, tudo está congelado. Meus comandos estão congelados. Minhas metralhadoras estão congeladas. E quando perguntei ao artilheiro sobre as dele:
— Suas metralhadoras?
— Mais nada.
— Ah! Bom.
No tubo de expiração da minha máscara, cuspo agulhas de gelo. De tempos em tempos, preciso esmagar, através da borracha flexível, a rolha de gelo que me sufoca. Quando aperto, sinto-a estilhaçar-se na minha palma.
— Artilheiro, o oxigênio está o.k.?
— Tudo bem!
— Qual a pressão dos seus tubos?
— Hã… Setenta.
— Ah! Bom.
O tempo para nós está congelado também. Somos três velhos de barba branca. Nada é móvel. Nada é urgente. Nada é cruel.

A aventura de guerra? O comandante Alias achou um dia de me dizer:
— Tente tomar cuidado!
Cuidado com o quê, comandante Alias? O caça nos atinge como um raio. O Grupo de Caça, que sobrevoa mil e quinhentos metros de altitude acima de nós, quando nos descobre abaixo dele, fica à vontade. Ele serpenteia, orienta-se, posiciona-se. A gente ainda ignora tudo. Somos o rato fechado na sombra da ave de rapina. O rato pensa que vive. Ele ainda vagueia nos trigais. Mas já é prisioneiro da retina desse gavião, colado nela mais do que em goma, pois o gavião não o largará mais.
A gente continua, ainda assim a pilotar, a sonhar, a observar o solo, quando já está condenado pelo imperceptível ponto negro que se formou numa retina humana.
Os nove aviões do Grupo de Caça vão mergulhar para o ataque quando lhes aprouver. Eles têm todo o tempo. Eles darão a novecentos quilômetros por hora esseprodigioso tiro de arpão que não erra jamais sua presa. Uma esquadrilha de bombardeio constitui uma potência de tiro que oferece chances à defesa, mas a tripulação de Reconhecimento, isolada em pleno céu, nunca triunfa sobre setenta e duas metralhadoras que só se revelarão, aliás, pelo feixe luminoso de suas balas.
No exato instante em que se souber que há combate, o caça, depois de lançar seu veneno de uma só vez, feito uma cobra, já neutro e inacessível, nos dominará. As cobras oscilam assim, lançam a sua faísca e retomam o seu balanço.
Assim, quando o Grupo de Caça tiver desvanecido, nada ainda terá mudado. Nem mesmo os rostos mudam. Eles mudam quando o céu está vazio e a paz está feita. O caça, agora, é apenas um testemunho imparcial quando, da carótida seccionada do observador, escapa o primeiro dos jatos de sangue, quando, do capô do motor direito, filtra, hesitante, a primeira chama do fogo de forja. Assim, a cobra já se enrolou quando o veneno penetra no coração e quando o primeiro músculo do rosto se contrai. O Grupo de Caça não mata. Ele semeia a morte. Esta germina depois que ele passou.
Cuidado com o quê, comandante Alias? Quando nós cruzamos os caças, eu nada tive a decidir. Eu poderia não tê-los conhecido. Se me tivessem dominado, eu não os teria jamais conhecido!
Cuidado com o quê? O céu está vazio.
[…]

Antoine de Saint-Exupéry, em Piloto de Guerra

Cor-de-rosa

O vizinho mandou pintar de cor-de-rosa sua casa, e de azul-claro o beiral e os marcos e folhas das janelas. Esta providência dá margem a algumas divagações que aqui se transmitem ao leitor, nosso companheiro.
O ato do vizinho é muito mais importante do que lhe parece a ele. Afirma um sentimento de confiança na civilização mediterrânea, e o propósito de contribuir para que todos nós, residentes ou transeuntes, recuperemos um pouco da beatitude perdida.
Quem pinta hoje sua casa, em vez de negociar-lhe a demolição, cumpre uma cláusula do contrato social, observa a boa lição urbanística e, dentro do rito milenar, satisfaz essa velha tendência do homem a aformosear o quadro de sua existência.
De uns anos para cá as ruas passaram a ser percorridas por elementos suspeitos, que, avaliando em metros quadrados aéreos os terrenos onde se erguem as habitações humanas, logo procuram seus proprietários e lhes propõem botar aquilo no chão.
A aquiescência imediata dos interpelados revela estranha propensão ao suicídio, praticado através da destruição de algo fundamental, como é a casa em que vivemos.
Tendo destruído essa parte do ser, as pessoas transportam os remanescentes para os ossuários erguidos apressadamente no mesmo local, e que se arrumam pelo princípio da superposição de urnas. Aí aguardarão, talvez até a consumação dos séculos, o dia da ressurreição das casas.
Mas o vizinho reagiu contra essa psicose grupal, e dali sorriem pintadas de rosa as paredes de sua casa. Vale dizer que ele não atendeu o telefone, quando o chamaram para consultá-lo vagamente sobre a hipótese da derrubada, que não compareceu ao escritório onde peritos blandiciosos o convenceriam da inconveniência de morar à maneira antiga, metendo em brios o seu amor-próprio, pois se todo mundo desistiu de tal maneira, por que só ele continua teimando? Ou compareceu, foi amaciado, reagiu, tornaram a amaciá-lo, esteve a ponto de ceder, a vista se lhe turvou qual plúmbeo véu, eram tantos milhões de cruzeiros, mas cobrou ânimo e reagiu outra vez, o senhor é louco, não vê que a valorização naquela zona o proíbe de continuar a deter o surto imobiliário, isso é um crime, o senhor está perdendo dez mil cruzeiros por semana, onde é que anda o amor que devota a seus filhos, e o gabarito, e a vaga na garagem, e o fabuloso jardim de inverno, e o vizinho vai capitular, não, ainda, não; passa-lhe pela mente o frontispício cor-de-rosa, com elementos azuis, de uma antiga mansão onde a vida era feliz, ou pelo menos ficou sendo naquele tempo; depois que considerou bem, o vizinho enxuga o suor da testa, grita nããão, e sai e chama o pintor e lhe ordena: pinte tudo cor-de-rosa, com os beirais e as janelas de azul de mês de Maria, quero minha casa bem bonita, como bonito era o sobradão de 1800 e tantos onde meu bisavô nasceu, e quero ver, mas quero ver quem derruba minha casinha!
De cor-de-rosa e de azul-claro ele pintou sua casa, de azul-claro e de rosa devíamos todos revestir uma fração de nossa vida, já que não é possível pintá-la completamente de cores tão puras.

Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira

08/09/2026

Encontro histórico: Karen Carpenter and Ella Fitzgerald Medley From Music, Music, Music TV 1980

O ser em soneto

Para o Tenório Telles, ele me sabe

Mas será que viver a pena vale
da vida que não vale sem a pena?
E o que é a pena de viver senão
aceitar dissabor, de coração?

Escrevo só por gosto, se desgosto
do amanhecer amargo, permaneço.
O amor me ensina, o desamor ajuda
a saber que só ganho o que mereço.

Coragem tenho de me ver. Contudo,
construo devagar o que mais quero:
findar me vendo no meu próprio espelho.

Valeu-me a vida quando descobri
que o ser é a minha própria gravidade.
Se ela desmaia, eu me desapareço.

Thiago de Mello, em Acerto de contas

Capítulo 96 – A Carta Anônima



Senti tocar-me no ombro; era o Lobo Neves. Encaramo-nos alguns instantes, mudos, inconsoláveis. Indaguei de Virgília, depois ficamos a conversar uma meia hora. No fim desse tempo, vieram trazer-lhe uma carta; ele leu-a, empalideceu muito, e fechou-a com a mão trêmula. Creio que lhe vi fazer um gesto, como se quisesse atirar-se sobre mim; mas não me lembra bem. O que me lembra claramente é que durante os dias seguintes recebeu-me frio e taciturno. Enfim Virgília contou-me tudo, daí a dias na Gamboa.
O marido mostrou-lhe a carta, logo que ela se restabeleceu. Era anônima e denunciava-nos. Não dizia tudo; não falava, por exemplo, das nossas entrevistas externas; limitava-se a precavê-lo contra a minha intimidade, e acrescentava que a suspeita era pública. Virgília leu a carta e disse com indignação que era uma calúnia infame.
– Calúnia? perguntou Lobo Neves.
– Infame.
O marido respirou; mas, tomando à carta, parece que cada palavra dela lhe fazia com o dedo um sinal negativo, cada letra bradava contra a indignação da mulher. Esse homem, aliás intrépido, era agora a mais frágil das criaturas.
Talvez a imaginação lhe mostrou, ao longe, o famoso olho da opinião a fitá-lo sarcasticamente, com um ar de pulha; talvez uma boca invisível lhe repetiu ao ouvido as chulas que ele escutara ou dissera outrora. Instou com a mulher que lhe confessasse tudo, porque tudo lhe perdoaria. Virgília compreendeu que estava salva; mostrou-se irritada com a insistência, jurou que da minha parte só ouvira palavras de gracejo e cortesia. A carta havia de ser de algum namorado sem ventura. E citou alguns, – um que a galanteara francamente, durante algumas semanas, outro que lhe escrevera uma carta, e ainda outros e outros. Citava-os pelo nome, com circunstâncias, estudando os olhos do marido, e concluiu dizendo que, para não dar margem à calúnia, tratar-me-ia de maneira que eu não voltaria lá.
Ouvi tudo isto um pouco turbado, não pelo acréscimo de dissimulação que era preciso empregar de ora em diante, até afastar-me inteiramente da casa do Lobo Neves, mas pela tranquilidade moral de Virgília, pela falta de comoção, de susto, de saudades, e até de remorsos. Virgília notou a minha preocupação, levantou-me a cabeça, porque eu olhava então para o soalho, e disse com certa amargura:
– Você não merece os sacrifícios que lhe faço.
Não lhe disse nada; era ocioso ponderar-lhe que um pouco de desespero e terror daria à nossa situação o sabor cáustico dos primeiros dias; mas se lho dissesse, não é impossível que ela chegasse lenta e artificiosamente até esse pouco de desespero e terror. Não lhe disse nada. Ela batia nervosamente com a ponta do pé no chão; aproximei-me e beijei-a na testa.
Virgília recuou, como se fosse um beijo de defunto.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

1639 – São Miguel de Tucumán

De uma denúncia contra o bispo de Tucumán, enviada ao Tribunal de Inquisição de Lima

Com a sinceridade e verdade que a tão santo Tribunal se deve falar, denuncio da pessoa do reverendo bispo de Tucumán, dom Fr. Melchor Maldonado de Saavedra, do qual ouvi coisas gravíssimas suspeitas em nossa santa fé católica, e correm geralmente entre todo este bispado. Que em Salta, estando confirmando, chegou uma menina de bom parecer, e disse a ela: “Melhor é vossa mercê para tomada que para confirmada”; e em Córdoba este passado ano de 1638 chegou outra em presença de muita gente e erguendo-lhe a saia disse: “Zape! Que não a hei de confirmar para baixo e sim para cima”; e com a primeira amancebou-se com publicidade…

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

The Kiss of Venus | Paul McCartney

 


The Kiss of Venus, de Paul McCartney

The kiss of Venus
Has got me on the go
She scored a bullseye
In the early morning glow
Early morning glow

Packed with illusions
Our world is turned around
This golden circle has a
Most harmonic sound
Harmonic sound

And in the sunshine
When we stand alone
We came together with
Our secrets blown
Our secrets blown

Now moving slowly
We circle through the square
Two passing planets in the
Sweet, sweet summer air
Sweet summer air

And in the sunshine
When we stand alone
We came together with
Our secrets blown
Our secrets blown

Reflected mountains in a lake
Is this too much to take?
Asleep or wide awake?
And if the world begins to shake
Will something have to break?
We have to stay awake

Packed with illusions
Our world is turned around
This golden circle has a
Most harmonic sound
Harmonic sound

And in the sunshine
When we stand alone
We came together with
Our secrets blown
Our secrets blown

The kiss of Venus
Has got me on the go
She scored a bullseye
In the early morning glow
Early morning glow

The kiss of Venus
Has got me on the go

O Livro das Coincidências: a harmonia dos planetas, de John Martineau, é um minitratado sobre os planetas, suas órbitas e as revoluções do Sol e da Lua. Eu o reli faz pouco tempo. É uma leitura fascinante, pois quem concebeu esse livro visualizou essas órbitas e revoluções. Por exemplo, do ponto de vista geocêntrico, Vênus traça um pentagrama ao redor da Terra a cada oito anos.
Quando eu li o livro pela primeira vez, fiquei surpreso ao ver esses designs complexos no universo, e isso me fez pensar: “Sim, é mágico... Essa vida, a interdependência de tudo, as árvores fornecendo oxigênio; há tanta coisa mágica acontecendo”.
Falando em coisas mágicas, quando tocamos no Festival de Glastonbury em 2004, adorei a ideia de que provavelmente estávamos na confluência de linhas retas, as linhas que cruzam o globo e ao longo das quais se acredita que nossos ancestrais fundaram cidades significativas. Esse tipo de história me atrai. Glastonbury também é considerado o lugar em que o Rei Arthur está enterrado. De uma forma ou de outra, é um lugar muito especial e tem uma vibe muito vívida. Não há como negar: o local tem uma aura distinta.
Desde os anos 1960 eu me interesso por constelações, cosmologia e sons cósmicos. O livro de Martineau também aborda o som – a música das esferas –, em que cada planeta emite uma nota diferente. Isso, para mim, é muito “hippie” – toda essa ideia de apenas curtir as coisas simples da vida e de estar em harmonia com a natureza. “We came together with/ Our secrets blown” – não estamos tentando esconder nada, estamos desnudos na chuva, entramos em sintonia com nossos segredos revelados, e o cosmos cuida de seus afazeres.
Pensar nessas coisas maiores nos torna humildes. Aqui estamos nós, pequenos pontos neste planeta, ele próprio um pontinho no universo, e ao mesmo tempo no coração de tudo. E temos esse modelo da flor de lótus, que ao menos algumas religiões (budismo e hinduísmo) consideram um símbolo importante.
Outra coisa que aprendi no livro de Martineau é que de vez em quando Vênus passa bem pertinho da Terra, fenômeno conhecido como “o beijo de Vênus”. Isso bastou para incendiar a minha imaginação. Esse foi o embalo que me pôs em movimento.
Two passing planets in the/ Sweet, sweet summer air”. É como se nós, na condição de pessoas, fôssemos planetas que passam – um pouco como navios passando à noite. A sequência “Now moving slowly/ We circle through the square” me lembra de “through the fair” (“pela feira”), expressão usada em muitas baladas, inclusive na tradicional balada irlandesa, “She Moved Through the Fair”. A ideia de esquadrar o círculo (“squaring the circle”) – de fazer algo impossível – também está à espreita em algum lugar na vegetação rasteira desse verso. Em certo sentido, cada canção supera a grande chance de acabar nem sendo escrita.

Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente

07/09/2026

Spirit Fingers Trio Live | Mohini Dey, Blaque Dynamite, Greg Spero | Find

Hagar, o Horrível

Negras olimpíadas

Clementina Carolina de Jesus
Ganhamos uma rosa de ouro
Uma rosa desenhada em canção
Algodão em sorriso ex-escravo
Sua tataraneta judoca
Negra como vazio em noite escura
De cabelos lindos alvoroçados
Como se o vento os tivesse penteando
Uma redonda flor como o sol
Brilha em seu olhar escondida
A menina espantada da Cidade de Deus
Entra em portas que nunca se abriram
Dos seus olhos de espanto e fuga
Cai uma chuva que enxuga sua dor.

José Carlos Capinan, em Cancioneiro geral