sábado, 25 de abril de 2026

Força Estranha | Gal Costa

Não é mera Coincidência

Auto-observação, autoanálise e autonomia

Estas são propriedades da alma racional: auto-observação, autoanálise e autonomia.
Goza dos frutos produzidos por si própria — diferente das plantas e dos animais, cujos produtos são desfrutados por outrem. Alcança o seu propósito particular, onde quer que o limite da sua vida seja estabelecido — diferente das danças, das peças ou das atividades semelhantes, que acabam incompletas quando encurtadas. Independentemente de em qual parte e de onde for interrompida, cumpre por completo o que lhe foi proposto, de modo que pode dizer: “Tenho o que é meu.”
Ademais, atravessa todo o universo e o vácuo circundante e examina a sua forma. Prolonga-se até a infinidade do tempo. Abraça e compreende a renovação periódica do mundo. Entende que os sucessores não encontrarão nada novo, assim como os antecessores não encontraram — quem tem quarenta anos, caso disponha de algum entendimento, observou a uniformidade prevalecente em tudo o que foi e tudo o que será.
Eis outras das suas propriedades: afeição pelos vizinhos, veracidade, modéstia e valorização suprema de si mesma — essa também é própria da lei, logo a razão correta não difere da justa.

Marco Aurélio, em Meditações

I Saw Her Standing There, de Paul McCartney e John Lennon


I Saw Her Standing There, de Paul McCartney e John Lennon

Well she was just seventeen
You know what I mean
And the way she looked was way beyond compare
So how could I dance with another
Ooh when I saw her standing there

Well she looked at me
And I, I could see
That before too long I’d fall in love with her
She wouldn’t dance with another
Ooh when I saw her standing there

Well my heart went boom
When I crossed that room
And I held her hand in mine

Oh we danced through the night
And we held each other tight
And before too long I fell in love with her
Now I’ll never dance with another
Ooh when I saw her standing there

Well my heart went boom
When I crossed that room
And I held her hand in mine

Oh we danced through the night
And we held each other tight
And before too long I fell in love with her
Now I’ll never dance with another
Ooh since I saw her standing there
Since I saw her standing there
Since I saw her standing there

Escrevi muitas canções, mas algumas delas se destacam, e se eu tivesse que escolher quais representam meus melhores trabalhos ao longo dos anos, eu provavelmente incluiria “I Saw Her Standing There”. Ou melhor: com absoluta certeza eu a incluiria.
A primeira vez que toquei esta canção para John foi quando nos reunimos para fumar chá no cachimbo do meu pai (e quando eu digo chá, eu quero dizer chá). Cantei: “She was just seventeen. She’d never been a beauty queen”. E John falou: “Tenho lá minhas dúvidas quanto a isso”. Assim, a nossa principal tarefa era nos livrarmos da parte da rainha da beleza. Após muitas tentativas, surgiu uma solução.
Ao cantá-la hoje – e isso acontece com todas as canções dos Beatles que eu toco –, percebo que estou revisitando o trabalho de um rapaz de 18, 20 anos. E eu acho isso interessantíssimo, porque tem um quê de inocência – um ar ingênuo – que é impossível de inventar.
Falando nisso, Jerry Seinfeld fez uma bela sátira com esta letra. Fomos à Casa Branca, e Jerry disparou: “Paul, estive olhando o trecho: ‘She was just seventeen/ You know what I mean’. Não sei bem se nós sabemos o que você quer dizer, Paul!”.
O fato é que já tínhamos ouvido todas essas coisas – eu tinha uns 20 anos, e estávamos compondo esta canção na casa do meu pai, na Forthlin Road –, e continuamos: “She was just seventeen/ You know what I mean/ And the way she looked was way beyond compare”. Esse ritmo vem da versão de Stanley Holloway de “The Lion and Albert”. Esse poema cômico escrito por Marriott Edgar tem uma métrica semelhante.
Eu trazia na bagagem todas as melodias que eu tinha ouvido. As composições de Hoagy Carmichael, Harold Arlen, George Gershwin e Johnny Mercer. Eu ouvia isso tudo em minha infância e adolescência. Eu não tinha feito ainda muitas composições próprias, mas tinha absorvido isso tudo. E depois, no colégio, o meu professor de inglês, Alan Durband, me ensinou sobre o dístico rimado no final dos sonetos de Shakespeare. Não sei de onde veio “nada se compara”, mas pode ter saído do Soneto 18: “Devo comparar você a um dia de verão?”. Também pode ser que eu tenha ouvido, na infância, uma tradicional canção irlandesa em que a mulher é descrita como “sem comparação”.
Mas não é bem o que você esperaria no rock’n’roll. Não sei de onde eu a resgatei, mas na grande rede de arrasto da minha juventude, essa expressão simplesmente se emaranhou como um golfinho.

Paul McCartney, em As Letras – 1956 até o presente

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
 
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
 
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
 
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
 
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade, em Claro enigma

O sertão tudo não aceita?


[…]
Tanto ouvi, muito macambúzio. Onde que então, eu varava mundo, em comando, e ainda não se prezava o meu nome. Eu ― o Urutú-Branco! Ser Chefe de jagunço era isso. Ser o que não dava realce ― qualquer um podia, fazendeiro com posses, mão em políticas. O sertão tudo não aceita? A minha pessoa era nada, glória de Zé Bebelo era nada. O que dá fama, dá desdém. O menos de me importar. O que eu carecia era de dar primeiras batalhas. Suspender a alta coragem, adiante de meus cabras. Ou será que já estavam mas era se aplicando no vagavagar? ― Cigano sou? ― eu pensei, enraivecido. Tinha o norte, para a gente. Dei ordem. Aí torcemos caminho, numa poeira danã. A reto, viemos beirando o Ribeirão da Areia, de rota abatida. O que era que eu tencionava fazer? O senhor espere.
Narro que não rendi melindres do feito de Diadorim, digo ― o recado enviado. Mas, à vez, balancei uma inquietação, daquilo, que era para eu bem estranhar, a decisão dele de tanto absurdo. Essas desordenadas da vida da gente! tudo o que estoura manso e guampa quieto, e que só tem a razoável explicação para quem está mesmo longe dos motivos. Ao meio do meio duma coisa eu tinha certeza! que Diadorim não ia me mentir. O amor só mente para dizer maior verdade. Diadorim me compassava; por força. Mas, para mandar à minha Otacília assim aquela embaixada, era porque ele soubesse, no zelo de seu coração, que então Otacília me tinha amor. E tanto igual sabia também de mim? Naqueles dias, era. Abrandei minha lembrança em Otacília, que sincera me aguardasse, em sua casa, em seu meigo estar. Agora eu ia indo às avessas de lá, da Santa Catarina, mas, de arribada, minha intenção de saudade vinha voltando.Tudo, nesta vida, é muito cantável.
Até, a seguir, por um afino de momento eu me arrepiei por trás da testa. Ato do que meio confuso imaginei, por um vão imaginar: que, me querendo-bem ― a mais de meu merecimento ― e crendo que eu enfrentava os duros riscos, ela Otacília pudesse praticar o estouvamento gentil de se fugir de casa e vir aventurada em minha cata, por todos os pousos deste sertão... Ah, ela vinha, montada num bom cavalo corcel, aparecia de repente, por meu nome perguntando. E eu declarava a grandeza real dela, definida bem do meu lado, na frente do grande bando de meus homens... Assim, de jeito tão desigual do comum, minha vida grangeava outros fortes significados. E isso variou em meu pensamento, inesperado de ligeiro supor, que, a bem notado, nem foi um pensar. Arremêdo de sonho, também, não seria de ser. Então, emendando de novo o vero juízo, tive um receio: por causa que aquilo podia ser aviso do que estivesse por vir, rumo de profecias.
Otacília ― me alembrei da luzinha de meio mel, no demorar dos olhares dela. Aquelas mãos, que ninguém tinha me contado que assim eram assim, para gozo e sentimento. O corpo ― em lei dos seios e da cintura ― todo formoso, que era de se ver e logo decorar exato. E a docice da voz: que a gente depois viajasse, viajasse, e não faltava frescura d água em nenhumas todas as léguas e chapadas... Isso tudo então não era amor? Por força que era. E pelo sim receei: será tivesse Diadorim falseado fala, e o recado na verdade fosse outro ― o para ela vir, afoitamente, que eu dela muito carecia? Divulgo o desuso disso, que era extravagâncias. Mas o senhor acreditando que alguma coisa humana é de todo impossível, então é que o senhor não pode mesmo ser chefe de jagunço, nem na menor metade só de um diazinho, nem somente nos vastos imaginados. Ora essas! ― digo. Se Otacília viesse, aparecesse lá em no meio de nós ― que seguimento de coisas havia de suceder?
A bobeia, toleima. Otacília estava guardada protegida, na casa alta da Fazenda Santa Catarina, junto com o pai e a mãe, com a família, lá naquele lugar para mim melhor, mais longe neste mundo. E eu, sem ser por motivo ou razão, cada dia tocava com a minha gente por contrárias bandas, para mais apartado de donde ela assistia. Ao cada dia mais distante, eu mais Diadorim, mire veja. O senhor saiba ― Diadorim! que, bastava ele me olhar com os olhos verdes tão em sonhos, e, por mesmo de minha vergonha, escondido de mim mesmo eu gostava do cheiro dele, do existir dele, do morno que a mão dele passava para a minha mão. O senhor vai ver. Eu era dois, diversos? O que não entendo hoje, naquele tempo eu não sabia.
Máximo me lembro é de que, na minguante, se estava no veredal das cabeceiras de um córrego, lugar de desmedidas pastagens, adonde os cavalos usufruirem descanso. A lá esbarramos e paramos, por uns dias. Me lembro, eu quis escrever uma carta.
Essa minha carta, eu podia destacar um homem, dos ligeiros, ele ia levava em mão, à Otacília, minha nôiva, trazia a resposta. O que eu cogitei de escrever era muito singelo! as notícias de minha saúde, pergunta de como era que ela e os parentes iam passando, saudações de lembranças. Admiro que achei natural de não falar coisa de minha glória de chefia, por oras. Por que? Pois. E tive vontade de traçar uns versos também; mas que a aragem não ajudava a deduzir. Era uma sinceridade muito dificultosa. Escrevi metade.
Isto é: como é que podia saber que era metade, se eu não tinha ainda ela toda pronta, para medir? Ah, viu?! Pois isto eu digo por riso, por graça; mas também para lhe indicar importante fato: que a carta, aquela, eu somente terminei de escrever, e remeti, quase em data dum ano muito depois... Digo o porquê? Próprio porque não pude. Guarde o senhor: não pude completo. Mas, guarde, por outra: o dia vindo depois da noite ― esse é o motivo dos passarinhos...
Falo por palavras tortas. Conto minha vida, que não entendi. O senhor é homem muito ladino, de instruída sensatez. Mas não se avexe, não queira chuva em mês de agosto. Já conto, já venho ― falar no assunto que o senhor está de mim esperando. E escute.
Tinha o Maligno?
Às vezes, penso. Um boneco de capim, vestido com um paletó velho e um chapéu roto, e com os braços de pau abertos em cruz, no arrozal, não é mamolengo? O passopreto vê e não vem, os passarinhos se piam de distância. Homem, é. O senhor nunca pense em cheio no demo. O mato é dos porcos-do-mato... O sertão aceita todos os nomes: aqui é o Gerais, lá é o Chapadão, lá acolá é a caatinga. Quem entende a espécie do demo? Ele não fura: rascrava. Demorar comigo ele podia. E, o que não existe de se ver, tem força completa demais, em certas ocasiões. A ele vazio assim, como é que eu ia dizer: ― Te arreda desta minha conversa!?... Ao que, pois, o que eu ia pondo, na carta, era quase que uma ordenada lembrança, a igualzinha repetição daquilo de Diadorim: ― que ela rezasse por mim, Otacília, orações rezasse... Ia. Ah, mas, aí, houve. Amoleci mão antes de coração: não pude. Não pude, diabralmente, desarrazoado ― por outras fortes ordens... ―; e então de repente tive vergonha, desgostei de estar querendo escrever aquela carta. Desisti, guardei na mochila aquela metade. Um homem é um homem, no que não vê e no que consome. Ah, não. Otacília, eu não merecia. Diadorim era um impossível. Demiti de tudo.
[...]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

sexta-feira, 24 de abril de 2026

SOBERANO SONS DA ALMA - ENTREVISTAS | EP. 4 IVAN LINS

Diário de Bernardo Soares

102.

A vida é para nós o que concebemos nela. Para o rústico cujo campo próprio lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas veem, temos que fundamentar a realidade da nossa vida.
Isto não vem a propósito de nada.
Tenho sonhado muito. Estou cansado de ter sonhado, porém não cansado de sonhar. De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos. Em sonhos consegui tudo. Também tenho despertado, mas que importa? Quantos Césares fui! E os gloriosos, que mesquinhos! César, salvo da morte pela generosidade de um pirata, manda crucificar esse pirata logo que, procurando-o bem, o consegue prender. Napoleão, seu testamento em Santa Helena, deixa um legado a um facínora que tentara assinar a Wellington. Ó grandezas iguais às da alma da vizinha vesga! Ó grandes homens da cozinheira de outro mundo! Quantos Césares fui, e sonho todavia ser.
Quantos Césares fui, mas não dos reais. Fui verdadeiramente imperial enquanto sonhei, e por isso nunca fui nada. Os meus exércitos foram derrotados, mas a derrota foi fofa, e ninguém morreu. Não perdi bandeiras. Não sonhei até ao ponto do exército, onde elas aparecessem ao meu olhar em cujo sonho há esquina. Quantos Césares fui, aqui mesmo, na Rua dos Douradores. E os Césares que fui vivem ainda na minha imaginação; mas os Césares que foram estão mortos, e a Rua dos Douradores, isto é, a Realidade, não os pode conhecer.
Atiro com a caixa de fósforos, que está vazia, para o abismo que a rua é para além do parapeito da minha janela alta sem sacada. Ergo-me na cadeira e escuto. Nitidamente, como significasse qualquer coisa, a caixa de fósforos vazia soa na rua que me declara deserta. Não há mais som nenhum, salvo os da cidade inteira. Sim, os da cidade de um domingo inteiro — tantos, sem se entenderem, e todos certos.
Quão pouco, no mundo real, forma o suporte das melhores meditações. O ter chegado tarde para almoçar, o terem-se acabado os fósforos, o ter eu atirado, individualmente, a caixa para a rua, maldisposto por ter comido fora de horas, ser domingo a promessa aérea de um poente mau, o não ser ninguém no mundo, e toda a metafísica.
Mas quantos Césares fui!

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Placas

Ah, meu pobre Coronel Emerenciano, quem sois vós? Quem sois vós, Dona Maurília, Fernando Ivo? Altamirando Barbosa da Silva? Quem sois vós, com todos esses inúteis cartões de visita deixados teimosamente em cada esquina? Que vergonha, velhinhos... Essa coisa de a gente virar rua é uma forma pública de anonimato.

Mário Quintana, em Caderno H

Filhos

1618 – Luanda

O embarque

Foram agarrados pelas redes dos caçadores e caminham até a costa, amarrados uns a outros pelo pescoço, enquanto soam os tambores da dor nas aldeias.
Na costa africana, um escravo vale quarenta colares de vidro ou um apito com correntinha ou um par de pistolas ou um punhado de balas. Os mosquetões e os facões, a aguardente, as sedas da China ou o percal da Índia são pagos com carne humana.
Um frade percorre as filas de cativos na praça principal do porto de Luanda. Cada escravo recebe uma pitada de sal na língua, uma salpicadura de água benta na cabeça e um nome cristão. Os intérpretes traduzem o sermão: Agora, sois filhos de Deus... O sacerdote manda que não pensem nas terras que abandonam e que não comam carne de cão, rato ou cavalo. Recorda a epístola de São Paulo aos efésios (Servos, servi a vossos amos!) e a maldição de Noé contra os filhos de Cam, que ficaram negros para sempre.
Veem o mar pela primeira vez e os aterroriza esse enorme animal que ruge. Creem que os brancos os levam a um matadouro distante, para comê-los e fazer óleo e banha deles. Os chicotes de pele de hipopótamo os empurram às enormes canoas que atravessam a arrebentação. Nas naus, os ameaçam os canhões de popa e proa, com as mechas acesas. Os grilhões e as correntes impedem que se atirem no mar.
Muitos morrerão na travessia. Os sobreviventes serão vendidos nos mercados da América e outra vez marcados com ferro em brasa.
Nunca esquecerão seus deus. Oxalá, ao mesmo tempo homem e mulher, se disfarçará de São Jerônimo e Santa Bárbara. Obatalá será Jesus Cristo; e Oxum, espírito da sensualidade e das águas frescas, se converterá na Virgem da Candelária, da Conceição, da Caridade ou dos Prazeres, e será Santa Ana na ilha de Trinidad. Por trás de São Jorge, Santo Antônio ou São Miguel, aparecerão os ferros de Ogum, deus da guerra; e dentro de São Lázaro cantará Babalu. Os trovões e os fogos do temível Xangô vão tirar o sossego de São João Batista ou de Santa Bárbara. Em Cuba, Elegguá continuará tendo duas caras, a vida e a morte, e no Brasil Exu terá duas cabeças, Deus e o Diabo, para oferecer a seus fiéis consolo e vingança.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Leituras proibidas



Em 1660, Carlos II, da Inglaterra, filho do rei que tão desafortunadamente consultara o oráculo de Virgílio, conhecido entre seus súditos como o Monarca Alegre, por seu amor ao prazer e aversão aos negócios, decretou que o Conselho para as Propriedades Rurais no Exterior deveria instruir os nativos, servos e escravos das colônias britânicas nos preceitos do cristianismo. O dr. Johbnson, que da distância de um século admirava o rei, disse que ele teve o mérito de se empenhar em fazer o que julgava ser pela salvação das almas de seus súditos, até perder um grande império. O historiador Macaulay, que da distância de dois séculos não tinha a mesma admiração, afirmou que, para Carlos, o amor por Deus, o amor pela pátria, o amor pela família, o amor pelos amigos eram expressões do mesmo tipo, sinônimos delicados e convenientes do amor por si mesmo.
Não está claro por que Carlos baixou esse decreto no primeiro ano de seu reinado, exceto se imaginava que este seria um modo de estabelecer uma nova base para a tolerância religiosa, à qual o Parlamento se opunha. Carlos, que apesar de suas tendências pró- católicas proclamava-se fiel à fé protestante, acreditava (na medida em que acreditava em alguma coisa) que, como Lutero ensinara, a salvação da alma dependia da capacidade de cada um de ler a palavra de Deus por si mesmo. Mas os donos de escravos britânicos não estavam convencidos disso. Temiam a própria ideia de uma "população negra alfabetizada”, que poderia assim encontrar ideias revolucionárias perigosas nos livros.
Não acreditavam nos argumentos de que uma alfabetização restrita à Bíblia fortaleceria os laços da sociedade; percebiam que, se os escravos pudessem ler a Bíblia, poderiam ler também panfletos abolicionistas e que mesmo nas Escrituras seriam capazes de encontrar noções incendiárias de revolta e liberdade. A oposição ao decreto de Carlos foi mais forte nas colônias americanas e mais forte ainda na Carolina do Sul, onde, um século depois, criaram-se leis rigorosas proibindo todos os negros, escravos ou livres, de aprender a ler. Essas leis permaneceram em vigência até a metade do século XIX.
Durante séculos, os escravos afro-americanos aprenderam a ler em condições extraordinariamente difíceis, arriscando a vida num processo que, devido às dificuldades, levava às vezes vários anos. Os relatos desse aprendizado são muitos e heróicos.
Entrevistada aos noventa anos pelo Federal Writers' Project [Projeto Federal dos Escritores], uma comissão criada na década de 1930 para registrar, entre outras coisas, as narrativas pessoais de ex-escravos, Bel e Myers Carothers relembrou que aprendera as letras enquanto cuidava do bebê do dono da fazenda, que brincava com cubos alfabéticos. O dono, ao ver o que ela estava fazendo, chutou-a com as botas que calçava.
Myers perseverou, estudando às escondidas as letras da criança, bem como algumas palavras numa cartilha que achara. Um dia, disse ela, "achei um hinário [...] e soletrei: ‘Quando Posso Ler Meu Título Claro’. Fiquei tão contente quando vi que podia realmente ler que fui correndo contar para todos os outros escravos”. O senhor de Leonard Black, encontrando-o uma vez com um livro, açoitou-o tanto "que superou minha sede de conhecimento, e eu abandonei a busca até que fugi". Doc Daniel Dowdy lembrava que "a primeira vez que você era surpreendido tentando ler ou escrever, você era açoitado com um relho de couro cru; na segunda vez, com um chicote de nove tiras; na terceira vez cortavam a ponta do seu dedo indicador". Em todo o Sul, era comum os donos de fazendas enforcarem os escravos que tentassem ensinar os outros a soletrar.
Nessas circunstâncias, os escravos que quisessem se alfabetizar eram forçados a encontrar métodos tortuosos de aprender, ou com outros escravos, ou com professores brancos solidários, ou inventando esquemas que lhes permitissem estudar escondido. O escritor americano Frederick Douglass, que nasceu escravo e se tornou um dos mais eloqüentes abolicionistas de seu tempo, bem como fundador de vários periódicos políticos, relembra em sua autobiografia: "Ouvir minha dona sempre ler a Bíblia em voz alta [...] despertou minha curiosidade em relação a esse mistério da leitura e estimulou em mim o desejo de aprender. Até aquela época, eu não sabia nada dessa arte maravilhosa, e minha ignorância e inexperiência sobre o que ela poderia fazer por mim, bem como a confiança em minha senhora, animaram-me a lhe pedir que me ensinasse a ler [...] Num período de tempo incrivelmente curto, com seu generoso auxílio, dominei o alfabeto e consegui soletrar palavras de três ou quatro letras... [Meu senhor] proibiu-a de me dar mais instrução... [mas] a determinação que ele expressou em me manter na ignorância apenas me deixou mais decidido a buscar compreensão. No aprendizado da leitura, portanto, não sei se devo mais à oposição de meu senhor ou ao generoso auxílio de minha amável senhora". Thomas Johnson, escravo que depois se tornou um conhecido pregador missionário na Inglaterra, explicou que havia aprendido a ler estudando as letras de uma Bíblia que roubara. Como seu dono todas as noites lia em voz alta um capítulo do Novo Testamento, Johnson o persuadia a ler o mesmo capítulo repetidamente, até que o soubesse de cor e pudesse achar as mesmas palavras na página impressa. Da mesma forma, quando o filho do dono estava estudando, Johnson sugeria que o menino lesse parte de sua lição em voz alta. "Senhorzinho, leia isso de novo", dizia Johnson para encorajá-lo, e o menino repetia a leitura, achando que Johnson estava admirando seu desempenho. Por meio da repetição, aprendeu o suficiente para ler jornais quando começou a Guerra Civil e, mais tarde, abriu uma escola para ensinar os outros a ler.
Aprender a ler, para os escravos, não era um passaporte imediato para a liberdade, mas uma maneira de ter acesso a um dos instrumentos poderosos de seus opressores: o livro.
Os donos de escravos (tal como os ditadores, tiranos, monarcas absolutos e outros detentores ilícitos do poder) acreditavam firmemente no poder da palavra escrita. Sabiam, muito mais do que alguns leitores, que a leitura é uma força que requer umas poucas palavras iniciais para se tornar irresistível. Quem é capaz de ler uma frase é capaz de ler todas. Mais importante: esse leitor tem agora a possibilidade de refletir sobre a frase, de agir sobre ela, de lhe dar um significado. "Você pode se fingir de bobo com uma frase", disse o escritor austríaco Peter Handke. "Faça valer seus direitos sobre a frase contra outras frases. Nomeie tudo o que atravessar seu caminho e tire da frente. Familiarize-se com todos os objetos. Transforme todos os objetos numa frase com a frase. Você pode transformar todos os objetos numa frase sua. Com essa frase, todos os objetos lhe pertencem.” Por todos esses motivos, ler tinha de ser proibido.
Como séculos de ditadores souberam, uma multidão analfabeta é mais fácil de dominar; uma vez que a arte da leitura não pode ser desaprendida, o segundo melhor recurso é limitar seu alcance. Portanto, como nenhuma outra criação humana, os livros têm sido a maldição das ditaduras. Os poderes absolutos exigem que todas as leituras sejam leituras oficiais; em vez de bibliotecas inteiras de opiniões, a palavra do governante deve bastar.
Os livros, escreveu Voltaire no panfleto satírico "Sobre o terrível perigo da leitura", "dissipam a ignorância, a custódia e a salvaguarda dos estados bem policiados". A censura, portanto, de qualquer tipo, é o corolário de todo poder, e a história da leitura está iluminada por uma fileira interminável de fogueiras de censores, dos primeiros rolos de papiro aos livros de nossa época. As obras de Protágoras foram queimadas em 411 a.C., em Atenas. No ano de 213 a.C., o imperador chinês Chí Huang-Ti tentou acabar com a leitura queimando todos os livros de seu reino. Em 168 a.C., a biblioteca judaica de Jerusalém foi deliberadamente destruída durante o levante dos macabens. No primeiro século da era cristã, Augusto exilou os poetas Cornélio Calo e Ovídio e baniu suas obras.
O imperador Calígula mandou queimar todos os livros de Homero, Virgílio e Lívio (mas seu decreto não foi cumprido). Em 303, Diocleciano condenou todos os livros cristãos à fogueira. E isso foi apenas o começo. O jovem Goethe, testemunhando a queima de um livro em Frankfurt, sentiu que estava presenciando uma execução: "Ver um objeto inanimado ser punido é em si e por si mesmo algo realmente terrível". A ilusão acalentada por aqueles que queimam livros é a de que podem cancelar a história e abolir o passado.
Em 10 de maio de 1933, em Berlim, diante das câmeras, o ministro da propaganda Paul Joseph Goebbels discursou durante a queima de mais de 20 mil livros para uma multidão entusiasmada de mais de 100 mil pessoas: "Esta noite vocês fazem bem em jogar no fogo essas obscenidades do passado. Este é um ato poderoso, imenso e simbólico, que dirá ao mundo inteiro que o espírito velho está morto. Destas cinzas irá se erguer a fênix do espírito novo". Um menino de doze anos, Hans Pauker, mais tarde diretor do Instituto Leo Baeck de Estudos Judaicos em Londres, presenciou a queima e relembrou que, à medida que os livros eram jogados às chamas, faziam-se discursos para dar solenidade à ocasião. "Contra a exacerbação dos impulsos inconscientes baseada na análise destrutiva da psique, pela nobreza da alma humana, entrego às chamas as obras de Sigmund Freud", declamou um dos censores antes de queimar os livros de Freud, Steinbeck, Marx, Zola, Hemingway, Einstein, Proust, H. G. Wells, Heinrich Mann, Jack London, Bertold Brecht e centenas de outros receberam a homenagem de epitáfios semelhantes.
Em 1872, pouco mais de dois séculos após o decreto otimista de Carlos II, Anthony Comstock – um descendente dos antigos colonos que tinham se oposto aos impulsos pedagógicos de seu soberano – fundou em Nova York a Sociedade para a Extinção do Vício, o primeiro conselho de censura efetivo dos Estados Unidos. Pensando bem, Comstock teria preferido que a leitura jamais tivesse sido inventada ("Nosso pai Adão não podia ler no Paraíso", afirmou certa vez), mas, já que o fora, estava decidido a controlar seu uso. Comstock considerava-se um leitor dos leitores, aquele que sabia o que era boa e o que era má literatura, e fazia todo o possível para impor suas idéias aos outros. Um ano antes de fundar a sociedade, escreveu em seu diário: "Quanto a mim, estou decidido, com a força de Deus, a não ceder à opinião dos outros, e se sentir e acreditar que estou certo, hei de me manter firme. Jesus jamais foi afastado do caminho do dever, por mais duro que fosse, pela opinião pública. Por que eu o seria?"
Anthony Comstock nasceu em New Canaan, Connecticut, em 7 de março de 1844. Era um sujeito corpulento e, no decorrer da carreira de censor, utilizou muitas vezes seu tamanho para derrotar fisicamente os oponentes. Um de seus contemporâneos descreveu-o assim: "Com um metro e meio (de sapatos), carrega tão bem seus 95 quilos de músculos e ossos que você diria que não pesa mais de oitenta. Seus ombros de Atlas, de enorme circunferência, encimados por um pescoço de touro, estão de acordo com um bíceps e uma panturrilha de tamanhos excepcionais e solidez de ferro. Suas pernas são curtas e lembram troncos de árvores”.
Comstock tinha vinte e poucos anos quando chegou a Nova York com 3,45 dólares no bolso. Conseguiu emprego como vendedor de tecidos e artigos de armarinho e logo economizou os quinhentos dólares necessários para comprar uma pequena casa no Brooklyn. Poucos anos depois, casou com a filha de um ministro presbiteriano, dez anos mais velha que ele. Em Nova York, Comstock descobriu muita coisa que julgava censurável. Em 1868, depois que um amigo lhe contou como fora "desencaminhado, corrompido e pervertido" por um certo livro (o título dessa poderosa obra não chegou até nós). Comstock comprou um exemplar na loja e depois, acompanhado por um policial, fez prender seu dono e confiscar o estoque. O sucesso desse primeiro ataque foi tal que ele decidiu continuar, provocando periodicamente a prisão de editores e impressores de material excitante.
Com a ajuda de amigos da Associação Cristã de Moços, que lhe forneceram 8500 dólares, Comstock pôde fundar a sociedade pela qual ficou famoso. Dois anos antes de morrer, disse a um entrevistador em Nova York: "Nos 41 anos em que estive aqui, condenei um número suficiente de pessoas para encher um trem de passageiros de 61 vagões, sessenta vagões com sessenta passageiros cada, e o sexagésimo primeiro quase cheio. Destruí 160 toneladas de literatura obscena".
O fervor de Comstock foi também responsável no mínimo por quinze suicídios. Depois que conseguiu mandar o ex-cirurgião irlandês Wil iam Haynes para a prisão, "por publicar 165 tipos diferentes de literatura lasciva", Haynes se matou. Um pouco mais tarde, Comstock estava prestes a tomar a barca para o Brooklyn (relembrou posteriormente) quando "uma Voz" lhe disse que fosse até a casa de Haynes. Lá chegou quando a viúva estava descarregando de uma carroça as chapas de impressão de livros proibidos. Com grande agilidade, Comstock saltou para o assento do condutor e levou a carroça para a ACM, onde as chapas foram destruídas.
Que livros lia Comstock? Ele era um seguidor involuntário do conselho jocoso de Oscar Wilde: "Jamais leio um livro que devo resenhar; ele o torna muito parcial". Às vezes, porém, folheava os livros antes de destruí-los e ficava horrorizado com o que lia. Achava a literatura da França e da Itália "pouco melhor que histórias de bordéis e prostitutas nessas nações lúbricas. Com que freqüência se encontram nessas histórias torpes heroínas adoráveis, excelentes, cultivadas, ricas e encantadoras em todos os aspectos, as quais têm por amantes homens casados; ou, depois do casamento, os amantes cercam a jovem esposa, gozando de privilégios que pertencem somente ao marido!". Até mesmo os clássicos não estavam acima da exprobração. "Tome-se, por exemplo, uma obra bem conhecida de Boccaccio", escreveu em seu Traps for the young [Armadilhas para os jovens]. O livro era tão imundo que Comstock faria qualquer coisa para "evitar que ele, como uma besta selvagem, se soltasse e destruísse a juventude do país". Balzac, Rabelais, Walt Whitman, Bernard Shaw e Tolstoi estavam entre suas vitimas. A leitura cotidiana de Comstock, dizia ele, era a Bíblia.
Os métodos de Comstock eram selvagens, mas superficiais. Faltava-lhe a percepção e a paciência de censores mais sofisticados, que escavam o texto com um torturante cuidado em busca de mensagens enterradas. Em 1981, por exemplo, a junta militar liderada pelo general Pinochet baniu Dom Quixote do Chile porque o general achava (com bastante razão) que o livro continha um apelo pela liberdade individual e um ataque à autoridade instituída.
A censura de Comstock limitava-se, num ataque de ultraje, a pôr as obras suspeitas em um catálogo dos amaldiçoados. Seu acesso aos livros também era limitado: só podia caçá-los se aparecessem em público, quando muitos já tinham escapado para as mãos de leitores ávidos. A Igreja católica estava muito à frente dele. Em 1559, a Sagrada Congregação da Inquisição Romana publicara o primeiro Índice dos livros proibidos - uma lista de livros que a Igreja considerava perigosos para a fé e a moral dos católicos. O Index, que incluía livros censurados antes da publicação, bem como livros imorais já publicados, jamais pretendeu ser um catálogo completo de todos os livros banidos pela Igreja. Porém, quando foi abandonado, em junho de 1966, continha, entre centenas de obras teológicas, outras tantas obras de autores seculares, de Voltaire e Diderot a Colette e Graham Greene. Comstock certamente acharia essa lista muito útil.
"A arte não está acima da moral. A moral vem primeiro", escreveu Comstock. "A lei vem em seguida, como defensora da moral pública. A arte só entra em conflito com a lei quando sua tendência é obscena, lasciva ou indecente." Isso levou o New York World a perguntar num editorial: "Foi realmente determinado que não há nada de saudável e nem proveitoso na arte a não ser que ela esteja vestida?". A definição de Comstock de arte imoral, como a de todos os censores, foge da dificuldade. Comstock morreu em 1915. Dois anos depois, o ensaísta americano H. L. Mencken definiu a cruzada de Comstock como "o novo puritanismo", "não ascético, mas militante. Seu objetivo não é elevar santos, mas derrubar pecadores".
Comstock estava convencido de que aquilo que chamava de "literatura imoral" pervertia a mente dos jovens, que deveriam se ocupar com temas espirituais mais elevados. Essa preocupação é antiga, e não é exclusiva do Ocidente. Na China do século XV, uma coleção de contos da dinastia Ming conhecida como Histórias velhas e novas teve tanto sucesso que precisou ser incluída no index chinês, para que não distraísse os jovens do estudo de Confúcio. No mundo ocidental, uma forma mais suave dessa obsessão expressou-se como um medo generalizado da ficção - pelo menos até a época de Platão, que baniu os poetas de sua república ideal. A sogra de Madame Bovary argumentou que os romances envenenavam a alma de Emma e convenceu o filho a cancelar a assinatura que Emma mantinha junto a uma biblioteca circulante, mergulhando-a mais ainda no pântano do tédio. A mãe do escritor inglês Edmund Gosse não permitia que entrassem em sua casa romances de qualquer tipo, religiosos ou seculares. Quando era ainda uma menininha bem pequena, no início do século XIX, ela se divertira com os irmãos lendo e inventando histórias, até que sua governanta calvinista descobriu e passou-lhe um sermão, dizendo-lhe que tais prazeres eram depravados. "A partir daquele momento", escreveu a sra. Gosse em seu diário, "considerei que inventar qualquer tipo de história era pecado." Mas "o desejo de inventar histórias cresceu com violência; tudo o que ouvia ou lia tornava-se alimento para meu destempero. A simplicidade da verdade não me bastava: eu precisava enfeitá-la com a imaginação, e a insensatez, a vaidade e a perversidade que desgraçaram meu coração são maiores do que posso expressar. Ainda agora, embora vigilante, fazendo orações e empenhada contra isso, esse é o pecado que mais facilmente me persegue. Ele tem atrapalhado minhas preces e impedido meu progresso e, portanto, tem me humilhado muito. Isso ela escreveu aos 29 anos de idade.
Nessa crença criou o filho. "Nunca, na minha primeira infância, alguém se dirigiu a mim com o tocante preâmbulo ‘era uma vez ...’ Contaram-me sobre missionários, mas nunca sobre piratas. Estava familiarizado com beija-flores, mas jamais ouvira falar de fadas", relembrou Gosse. "Eles queriam que eu fosse fiel à realidade; a tendência foi tornar-me positivo e cético. Se tivessem me envolvido nas dobras suaves da fantasia sobrenatural, minha mente poderia ter ficado mais tempo satisfeita em seguir suas tradições sem questioná-las”. Os pais que levaram aos tribunais a escola pública do condado de Hawkins, no Tennessee, em 1980, não tinham obviamente lido Gosse. Eles argumentavam que toda uma série de livros da escola elementar, que incluía Cinderela, Cachinhos de ouro e O mágico de Oz, violava suas crenças religiosas fundamentalistas.
Leitores autoritários que impedem outros de aprender a ler, leitores fanáticos que decidem o que pode e o que não pode ser lido, leitores estoicos que se recusam a ler por prazer e exigem somente que se recontem fatos que julgam ser verdadeiros: todos eles tentam limitar os vastos e diversificados poderes do leitor. Mas os censores também podem adotar formas diferentes em seu trabalho, sem necessidade de fogueiras ou tribunais.
Podem reinterpretar livros para torná-los úteis apenas a eles mesmos, para justificar seus direitos autocráticos.
Em 1976 houve um golpe militar na Argentina, liderado pelo general Jorge Rafael Videla.
O que se seguiu foi uma onda de violações dos direitos humanos como o país jamais vira. A desculpa do Exército era de que estava travando uma guerra contra terroristas. Como definiu o general Videla, "um terrorista é não apenas alguém com uma arma ou uma bomba, mas também alguém que difunde idéias contrárias à civilização ocidental e cristã".
Entre os milhares que foram sequestrados e torturados estava o padre Orlando Virgílio Yorio. Um dia, o interrogador do padre Yorio disselhe que sua leitura dos Evangelhos era falsa. "Você interpreta a doutrina de Cristo de uma forma literal demais", disse o homem.
"Cristo falou dos pobres, mas quando falou dos pobres, referia-se aos pobres de espírito, e você interpretou no sentido literal e foi viver literalmente com gente pobre. Na Argentina, os pobres de espírito são os ricos, e, no futuro, você deve passar mais tempo ajudando os ricos, que são aqueles que precisam realmente de ajuda espiritual."
Assim, nem todos os poderes do leitor são iluminadores. O mesmo ato que pode dar vida ao texto, extrair suas revelações, multiplicar seus significados, espelhar nele o passado, o presente e as possibilidades do futuro pode também destruir ou tentar destruir a página viva. Todo leitor inventa leituras, o que não é a mesma coisa que mentir; mas todo leitor também pode mentir, declarando obstinadamente que o texto serve a uma doutrina, a uma lei arbitrária, a uma vantagem particular, aos direitos dos donos de escravos ou à autoridade de tiranos.

Alberto Manguel, em Uma História da Leitura

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Belchior | De Primeira Grandeza

 

Amor e poesia



Ela era uma mocinha. Trabalhava no restaurante da tia. Já era noite e ela estava atrasada. A tia estava preocupada, porque suspeitava que ela estivesse com um certo moço que frequentava o restaurante, mesmo quando não estava nem comendo nem bebendo. Onde estariam? Fazendo o quê?
Eles estavam na praia deserta sob o céu estrelado. Tudo era silêncio, a luz da lua refletida no mar, a voz distante das pessoas, o murmúrio das ondas mansas que lhes molhavam os pés. Distantes um do outro, não se tocavam. Apenas se olhavam. Ele tinha na mão um livro de poemas de amor de Pablo Neruda. Abriu o livro e começou a ler. Ela parou e não se mexeu até que a leitura terminasse.
Já era tarde quando ela chegou. O restaurante estava vazio. Entrou como se estivesse em transe – andava como um sonâmbulo, sem se dar conta da presença da tia.
Onde você esteve? — a tia lhe perguntou com severidade.
Na praia — ela respondeu sem acordar do transe.
A tia se alvoroçou. Praia, lugar solitário, com um moço... E agora esse jeito sonambúlico, nunca visto. Coisa muito grave deveria ter acontecido. E a imaginação da tia começou a ver cenas de nudez e amor carnal na areia, sob a luz do luar.
O que foi que ele lhe fez? — ela perguntou.
Ele leu um poema — a moça respondeu.
Aliviada de suas fantasias carnais, a tia se deu conta de que uma coisa muito mais grave acontecera. E com um profundo suspiro falou:
Leu-lhe um poema... Então você está perdida...
A tia conhecia os segredos do amor. O amor começa com a poesia. O corpo é um instrumento. A poesia é a música.

***

Florentino Ariza perdeu o emprego de escriturário na companhia de navegação. Seu coração fora dilacerado pelo casamento de sua amada, Fermina Daza, com o doutor Urbino, o que interferiu no seu estilo literário: as cartas, que deveria escrever dentro das frias formalidades do estilo comercial, passaram a ser infectadas pela sua paixão — pareciam poemas. Foi advertido, mas não adiantou. O remédio foi despedi-lo.
Sem emprego, teve de procurar um jeito alternativo de ganhar a vida. E, vagabundeando pela praça central da cidade, notou que jovens advogados ali montavam seus negócios. Tinham mesas em que escreviam petições e requerimentos para quem delas necessitasse. E assim ganhavam um dinheirinho. Florentino teve então uma ideia brilhante: cartas de amor! Ele escreveria cartas de amor! Tanta gente queria escrever cartas de amor e não sabia!
O negócio prosperou. E era fácil. Quando um homem queria escrever uma carta para uma mulher, Florentino imaginava que estava escrevendo uma carta para Fermina. E, quando era uma mulher que desejava escrever uma carta para um homem, ele imaginava a carta que gostaria de receber da amada.
Um jovem procurou os seus serviços. Florentino escreveu-lhe uma carta com a paixão que sentia por Fermina. Uma semana depois, foi uma jovem. Ela recebera uma carta tão bonita que não sabia como respondê-la. Ato contínuo, passou a dita carta para as mãos de Florentino – era a que ele mesmo havia escrito uma semana antes. A partir desse momento, ele se envolveu numa furiosa correspondência apaixonada consigo mesmo, ora no papel de Florentino, ora no papel de Fermina.
Os dois jovens se apaixonaram e ao final se casaram. Apaixonaram-se pelo quê? Apaixonaram-se pelas cartas...

***

Um sultão, descobrindo-se traído pela esposa a quem amava perdidamente, toma uma decisão cruel. Não pode viver sem o amor de uma mulher, mas também não pode suportar a possibilidade da traição. Resolve, então, que vai se casar com as moças mais belas dos seus domínios, mas depois da primeira noite de amor vai mandar decapitá-las. Assim o amor se renovaria, a cada noite, em todo o seu vigor de fogo impetuoso, sem nenhum sopro de infidelidade que pudesse apagá-lo.
Espalham-se rapidamente pelo reino as notícias das coisas terríveis que aconteciam no palácio real – as jovens desapareciam logo depois da noite de núpcias. Sherazade, filha do vizir, procura então o pai e lhe anuncia sua espantosa decisão: deseja tornar-se esposa do sultão. O pai, desesperado, lhe revela o triste destino que a aguarda, pois é ele mesmo quem cuida das execuções. Mas a jovem se mantém irredutível.
A estória descreve a jovem Sherazade de forma reveladora. Quase nada diz sobre a sua beleza. Faz silêncio total sobre o seu virtuosismo erótico. Mas conta que ela lera livros de todas as espécies, que havia memorizado grande quantidade de poemas e narrativas, que decorara provérbios populares e sentenças de filósofos.
E Sherazade se casa com o sultão. Realizados os atos de amor físico que acontecem nas noites de núpcias, depois que o fogo do amor carnal se esgota o corpo do esposo, quando só resta esperar o raiar do dia para que a jovem seja sacrificada, ela começa a falar. Conta estórias. Suas palavras penetram suavemente os ouvidos do sultão, como música. O ouvido é feminino, vazio que espera e acolhe, que se permite ser penetrado. A fala é masculina, algo que cresce e penetra os vazios da alma. Segundo antiquíssima tradição, foi assim que o Deus humano foi concebido: pelo sopro poético do Verbo Divino, que penetrou os ouvidos encantados e acolhedores de uma virgem.
O corpo é um lugar maravilhoso de delícias. Mas Sherazade sabe que todo amor construído sobre as delícias do corpo tem vida breve. A chama se apaga tão logo o corpo tenha se esvaziado do seu fogo. O seu triste destino é ser decapitado pela madrugada – não é eterno, posto que é chama. E então, quando as chamas dos corpos já se apagaram, a voz de Sherazade sopra suavemente. Fala. Erotiza os vazios adormecidos do sultão. Acorda o mundo mágico da fantasia. Cada estória contém uma outra, dentro de si, infinitamente. Não há um orgasmo que ponha fim ao desejo. E ela lhe parece bela, diferente de todas as outras mulheres. Porque uma pessoa é bela não pela beleza dela, mas pela nossa que aparece refletida na voz e nos olhos dela...
O sultão, encantado pelas estórias de Sherazade, foi adiando a execução, por mil e uma noites, eternamente e um dia mais. E, pela beleza das palavras de Sherazade, o sultão a amou para sempre...

***

Conselho de Nietzsche: Diante da possibilidade de casamento, só existe uma pergunta a ser feita – terei prazer em conversar com essa pessoa até o fim dos meus dias? Pois é com os tênues fios da conversa que se tece o amor.

Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado

O traço simples e genial de Portinari

Céu com Estrelas (1941), de Cândido Portinari

O guarda-chuva preto

Esquecido na mesa,
com o cabo voltado para cima
e as bordas arrepanhadas,
é como seu dono vestido,
composto no seu caixão.
Não desdobra a dobradiça,
não pousa no braço grave
do que, sendo seu patrão,
foi pra debaixo da terra.
Ele vai para o porão.
Existe um retrato antigo
em que posou aberto,
com o senhor moço e sem óculos.
Guarda-chuva, guarda-sol,
guarda-memória pungente
de tudo que foi em nós
um pouco ridículo e inocente.
Guarda-vida, arquivo preto,
cão de luto, cão jazente.

Adélia Prado, em O Coração Disparado

Uma Paixão Laica



Nosso inquieto século seria muito menos denso sem o testemunho de Simone de Beauvoir, sem o poder dessa mulher prodigiosa em converter sua vida ardente numa crítica dos sexos, da sociedade, da literatura e da política. E Hannah Arendt se mantém como figura central na teoria política e social, e como uma das vozes poderosas saídas das trevas totalitárias. Mas nenhuma delas era filósofa no sentido estrito do termo. Aqui é indispensável uma extrema precisão. O pensamento filosófico é aquele que se detém mais nas perguntas do que nas respostas; quando aparecem as respostas, elas revelam ser novas perguntas. A honra do ofício é ser desinteressado, abster-se de qualquer rendimento prático. A posição filosófica — notadamente em seu escopo metafísico e onde toca o teológico (como deve ser, quer em concordância, quer na negação) — é, no sentido rigoroso da expressão, desapegada do mundo. Usualmente aloja-se na sensibilidade filosófica certa indiferença ou mesmo um desagrado pelo corpo humano. A essas luzes cruas, há na tradição ocidental apenas uma filósofa de categoria: Simone Weil.
O preço que Simone Weil pagou por essa posição chegou quase às raias do totalmente insuportável. Ela consumiu sua saúde a ponto de sofrer uma morte prematura deliberada. Habitou seu corpo como se fosse uma choça condenada. Declarou detestar sua rudimentar feminilidade e sugeriu com veemência que as realizações filosóficas e matemáticas de força duradoura eram prerrogativas dos homens — que algum distúrbio ou fraqueza na própria constituição feminina militava contra um exame da vida, como o exigia Sócrates, Descartes ou Kant. (André, irmão de Simone Weil, foi um dos mestres da geometria algébrica do século xx.) Em tudo o que foi possível, e mesmo além, Simone Weil escolheu o pensamento contra a vida, a lógica contra a prática, o laser da análise e da dedução obrigatória contra a meia-luz vacilante, a transigência e o emaranhado que permitem a nós restantes levar a vida adiante. Como Pascal, como Kierkegaard, como Nietzsche, mas isenta das vaidades retóricas que persistem mesmo nesses puristas, Weil viveu sua curta vida (1909-1943) como uma provação cujo significado — cuja única dignidade — consistia na derrota.
Os dados fatuais se fizeram conhecidos em biografias como a de sua amiga Simone Pétrement (1973) e no estudo minuciosamente documentado que Gabriella Fiori publicou em 1981. A edição crítica dos textos completos de Simone Weil está em andamento, e quase todas as facetas de suas atividades — religiosas, filosóficas, literárias, políticas, sociais — foram ou estão sendo examinadas em detalhe. De uma maneira que ela teria desprezado (embora ambiguamente), os acomodados do comentário e da adulação estão se banqueteando com essa vida que tanto se emaciou e buscou o próprio olvido.
Sabemos de sua infância no ambiente privilegiado do judaísmo francês emancipado, das rivalidades e intimidades conspiratórias que a uniam ao irmão. Existem análises detalhadas do impacto formador que exerceu sobre Weil o mais carismático e influente dos professores de liceu franceses, o lendário “maître à penser” Émile Chartier, que escrevia sob o nome de Alain. Simone Weil se envolveu em vários movimentos operários marxistas, anarcomarxistas e trotskistas com a mesma febril obsessão com que mergulhou na filosofia grega e cartesiana. Deu aulas em várias escolas secundárias de província, enquanto suas enxaquecas crônicas lhe permitiram. Visitou a Alemanha para avaliar com os próprios olhos a revolução social de Hitler. Seu engajamento na Guerra Civil espanhola terminou numa farsa macabra. (Ela pisou sem querer dentro de uma frigideira de óleo fervendo e teve de ser evacuada entre dores terríveis.) Durante o regime de Vichy, Weil trabalhou em vinhedos, escreveu, se meteu a fazer propaganda e recrutamento clandestino em Marselha e arredores. Tendo acompanhado seus pais à segurança de Nova York (apenas o Harlem lhe despertou alguma simpatia em seus olhos críticos), ela mexeu todos os pauzinhos possíveis para ser aceita na França Livre em Londres. Lá assediou De Gaulle e auxiliares com esquemas heroicos. Pediu para ser lançada de paraquedas na França ocupada. Insistiu num plano de enviar um grupo de moças rigorosamente virginais para as linhas de batalha, para cuidar dos feridos e moribundos. De Gaulle, muito impassível, considerava que Weil era uma perturbada mental e lhe atribuiu a tarefa presumivelmente inofensiva de fazer um planejamento social e político para a França do pós-guerra. O volumoso projeto resultante continua a ser um clássico de rematada inviabilidade. Esgotada física e mentalmente, com a alma doente de ardor frustrado, Simone Weil teve um falecimento literal num sanatório perto de Londres. Sua sepultura, embora não se encontre em solo consagrado, se tornou local de peregrinação.
Em Simone Weil: Portrait of a Self-Exiled Jew [Simone Weil: retrato de uma judia autoexilada] (North Carolina, 1991), Thomas Nevin apresenta apenas um breve esboço dessa via dolorosa. E não é sua intenção fazer uma biografia intelectual de Simone Weil, sob qualquer forma direta. O objetivo desse estudo denso é examinar e, até onde for possível, validar as obsessões e a obra de Weil a partir do núcleo da autodepreciação judaica o constante talento para o autobanimento mostrado por judeus e judias importantes. A marca corrosiva do antissemitismo intelectual e mesmo de orientação política na consciência de Simone Weil, em seus textos e reflexos sociais, já foi notada faz muito tempo. Tem sido relacionada de maneira irrefutável com o tema geral da autopunição, e mesmo do masoquismo, que tinge seus trabalhos e dias. Mas o exame que faz o professor Nevin desse contexto ao mesmo tempo repulsivo e inescapável é, até o momento, o mais exaustivo e persuasivo de que dispomos. Além da erudição e da dúvida sensata, há neste livro coragem e uma tristeza salutar.
As posições políticas de Simone Weil eram extremamente peculiares. Ela procurou unir a um ideal em parte platônico do estado orgânico o senso, ultrajado e ultrajante, das humilhações e sofrimentos impostos ao trabalho industrial. Por uma torção da lógica, essa jovem judia da esquerda paramarxista francesa veio a fazer uma série de comentários favoráveis sobre Hitler. Louvou sua grandeza romana, seu entendimento espiritual e administrativo das esperanças e necessidades coletivas: “Ele comanda um país tenso ao máximo, é dotado de uma vontade ardente, incansável e implacável […] de uma imaginação que fabrica a história em proporções grandiosas segundo uma estética wagneriana, que se estende muito além do presente; e é um jogador nato”. (Dostoiévski podia ter escrito isso, ou Trótski, em certos momentos.) Para Weil, qualquer coisa era preferível às untuosas hipocrisias, corrupções e materialismo fácil da democracia capitalista burguesa. Suas ferocidades a respeito derivam do radicalismo ardente de Amós e da condenação da riqueza feita por Jesus. Vêm de Esparta e de Lênin. Mas no âmago de sua desolação e de seus paradoxos encontra-se um texto pessoal de rara integridade. Três vezes, entre dezembro de 1934 e final de agosto de 1935, essa frágil intelectual trabalhou na indústria pesada, sob pressões e humilhações que quase a levaram à loucura. Quando invocava Robespierre, quando fantasiava uma revalorização e espiritualização centralizada do trabalho, Weil falava por experiência própria. O radical chique era um anátema para ela.
Como outros absolutistas do pensamento, Simone Weil se sentia atraída pela violência. Seu ensaio sobre a Ilíada, embora equivocado — ela simplesmente não percebe o brilho festivo do heroísmo arcaico —, dá grande relevo às brutalidades, ao desejo de sangue no épico. Às vezes Weil era pacifista, às vezes ardia pela batalha. Seus planos de intervenção feminina, de recrutamento na guerra ao grau de perigo extremo, como uma oferenda em sacrifício, mostram a mesma ambivalência. Quanto a seu engajamento na Espanha, ela escreveu: “Norma: pavor e gosto pela matança. Evitar ambos — como? Na Espanha, pareceu-me um esforço tremendo, impossível de sustentar por muito tempo. Fazer-se tal, então, que se consiga mantê-lo”. A possibilidade da tortura se impunha sombriamente a seu espírito. Weil procurou se preparar para ela. Em certos momentos, era possuída por uma inveja do sofrer. Sua “sensibilidade telescópica” (expressão muito adequada de Nevin) isolava e ampliava a dor e o terror em si e nos outros. Como Pascal, como alguns grandes pintores e narradores da intensa dor (sofrida e infligida), ela imaginava concretamente, refletia e analisava com os próprios nervos.
As posições políticas expressas em seus últimos ensaios e em seu projeto para o renascimento da França compõem um emaranhado assustador e, ao mesmo tempo, pungente (“assustador” é, com efeito, o essencial). A sombra de Hegel, que o professor Nevin tende a minimizar, está por toda parte. Ela acreditava que a Necessidade, que é outro nome da condição humana — dos operários da linha de montagem da história —, submete os homens à sua finalidade despótica. Para resistir, para ter algum acesso ao que há de divino nos processos do destino, homens e mulheres precisam ter a oportunidade de disciplinar suas percepções, de contemplar com a máxima concentração estoica os fatos e os deveres de sua condição. O desiderato político-social é garantir um espaço para essas ações e, de maneira ideal, para a continuidade dessa concentração. (Mais de uma vez, Weil flertou amorosamente com fantasias de encarceramento.) Ficou famoso o termo com que ela designou essa atitude de atenção contemplativa: l’enracinement, “o enraizamento”. Não lhe escapou, e não deve escapar a nós, que esses critérios de reflexão enraizada — os quais fascinaram T. S. Eliot, quando leu Weil — se harmonizam muito facilmente com certas modalidades de autoridade política comunitária, totalitária, sejam de esquerda ou de direita. Em sua expressão mais lúcida, Weil aparece como um híbrido bizarro, uma platônica anárquica que abdicaria em favor dos poderes de Estado de tudo o que é necessário para dar alguma privacidade à alma.
Esse mesmo híbrido determina os ensaios e fragmentos filosóficos de Simone Weil. O objeto pelo qual ela luta obsessivamente é um amálgama entre a Grécia antiga e a cristologia — as lições de Sócrates e as lições de Jesus. Não havia nada de novo nesse projeto. Desde o Evangelho de João, defende-se e busca-se essa congruência, conhecida como neoplatonismo, na teologia e na metafísica idealista do Ocidente. Ainda se sonha com ela no Renascimento e entre os filósofos alemães depois de Kant. É uma parte, talvez subconsciente, da busca e do maravilhamento de todos os que recolhem uma concha marinha nas orlas oceânicas sem fim (a imagem é de Coleridge) e ouvem em seu murmúrio não só o eco físico do próprio sangue. O que havia de tortuosamente idiossincrático era o procedimento de Weil. Ela examinava os fragmentos filosóficos pré-socráticos, os diálogos platônicos e os textos dos dramaturgos e poetas líricos gregos para encontrar passagens que prefigurassem a vinda, os ensinamentos e a Paixão de Cristo. A prefiguração dos Evangelhos no Antigo Testamento (por exemplo nos Profetas, nos Salmos do Servo Sofredor e mesmo no Cântico dos Cânticos), evidentemente, tem sido anunciada pelo cristianismo desde a época dos Pais da Igreja. Mas não é aos textos hebraicos que Simone Weil se refere em sua viagem de peregrina; é a Pitágoras, Píndaro, Sófocles e Platão.
É uma busca ao mesmo tempo absurda e misteriosa. Embora fosse arguta helenista, Weil não se eximia de distorcer e quase falsificar a intenção explícita e o contexto das palavras gregas antigas. Confunde deliberadamente o pouquíssimo que sabemos dos cultos gregos de mistério e dos mitos órficos do renascimento com os conceitos de batismo e ressurreição no cristianismo. Suas leituras de Platão são tão seletivas que beiram a caricatura. E mesmo assim suas sugestões de que existe um anseio comum pela luz no outro lado da razão, racionalmente expresso e transmissível de alguma maneira, dotado de sentido para o pensamento e o discurso humano, não são de todo arbitrárias. Ela sentia na própria medula o entrelaçamento muitas vezes tênue, subterrâneo, de metáforas, de simbolismo, de gestos rituais que uniam a filosofia grega arcaica e posterior, e mesmo o paganismo, ao cristianismo nascente. Além disso, ao chegar a certos textos trágicos gregos, os comentários de Weil são de uma imediaticidade lancinante. Ela revive os insolúveis da justiça contraditória no matricídio de Orestes. Identifica-se, ainda mais carnal e espiritualmente do que Hegel e Kierkegaard, com a pessoa e o destino da Antígona de Sófocles. Conhecia, ela também, o amor incondicional entre irmão e irmã. Estava decidida, ela também, ao desafio ético e ao sacrifício pessoal diante do terror político. Mas, aqui também, não é por acaso que sua Antígona se erga com não poucos traços de uma Joana d’Arc.
As relações de Weil com o catolicismo romano (as conotações eróticas da palavra são plenamente justificadas) datam pelo menos de 1935-36. Foi quando ela começou a assistir à missa com frequência variável. Ao conhecer o canto gregoriano, parece ter-se desencadeado um episódio de teor místico, como uma revelação. Sob esse aspecto, Weil não é um caso isolado. Outros judeus contemporâneos com espírito de desenraizamento e busca se sentiram tentados pela solenidade estética do culto católico e pela pura eloquência da mensagem católica dentro da arte e da civilização europeias. Lembramos a imersão de Walter Benjamin no barroco, o voltar-se para Cristo de Karl Kraus e — mais complexo — o recurso de Proust ao mundo das catedrais e da pintura cristã. Lembramos o papel determinante da mística católica nas sinfonias de Mahler. Aproximando-se a devastação, era como se muitos elementos da psique e da sensibilidade da elite judaica europeia buscassem refúgio em algum lugar. Como sempre, Simone Weil tomou um caminho mais profundo e mais tortuoso.
Ela se familiarizou com a liturgia, com a Vulgata de são Jerônimo, com a doutrina e o simbolismo dos sacramentos. Encontrou afinidades espirituais em santo Agostinho (como, num plano totalmente diverso, ocorreu também com Hannah Arendt). Procurou os tomistas franceses — os pensadores e escritores que, na época, estavam renovando a abordagemcatólica da principal fonte lógica e filosófica da Igreja, Tomás de Aquino. Esses vários impulsos ganharam uma força quase irresistível durante o exílio de Weil no sul da França. Seus textos mais conhecidos e amados são as cartas ao padre dominicano quase cego Joseph-Marie Perrin. Foi a ele que Weil, num veio confessional apaixonado e argumentativo, ofereceu o mais íntimo de si. E Perrin parecia destinado a receber essa alma atormentada na paz da Igreja. Weil bateu várias vezes à porta, apenas para recuar quando a abriam amorosamente para recebê-la. Havia a sombra de uma sombra entre seu fervor, sua identificação constante entre as próprias dores físicas e o sofrimento de Cristo, e aquele ato de batismo que agora refulgia como a decisão mais natural.
Ela não deu esse passo final. Censurava o apego católico ao mundo e a perseguição de hereges tão inspirados como os cátaros. Considerava o catolicismo enfaticamente romano, isto é, manchado com o imperialismo, as escravizações, a pompa autoritária daquela civilização antiga que tanto abominava. No final das contas, porém, Weil se vetou a conversão por razões mais graves. Não esposaria uma Igreja cujas raízes estavam na sinagoga.
Thomas Nevin tem razão, claro. Aqui também o ponto crucial (imagem insidiosa) é a autonegação de Simone Weil, o repúdio de seu próprio judaísmo. Numa atitude nauseante, ela protestou às autoridades de Vichy que não devia ser impedida de trabalhar sob as leis raciais — não era judia! Para ela, o judaísmo era inaceitável. Apenas alguns judeus escapavam à sua censura que às vezes beirava a histeria: Amós, que anuncia o castigo sobre Israel; Jó; Spinoza, que a comunidade condenara ao ostracismo. Os documentos correspondentes são nauseantes. Diante dos sinais incipientes, mas inequívocos, do Holocausto em andamento, ela se refugiou num silêncio hostil, num “olhar gélido”. Em seus cadernos de anotações, ela refletiu sobre o desenraizamento e a condição de pária do judeu. “A religião dita judaica é uma idolatria nacional que perdeu qualquer realidade desde a destruição da nação”; “É por isso que um ateu judeu é mais ateu do que qualquer outro. É de maneira menos agressiva, porém mais profunda”. Com raríssimas exceções, e em geral poéticas, “o Antigo Testamento é um tecido de horrores”, celebrando uma divindade tribal sedenta de sangue, cujos traços e atributos primitivos se aproximam dos de uma Grande Besta satânica. Weil fincava suas garras em qualquer coisa que achasse que havia dado esperança ao judaísmo: “Se os hebreus, como povo, carregassem Deus dentro de si, teriam preferido sofrer a escravidão imposta pelos egípcios — e causada por seus próprios abusos anteriores — a ganhar a liberdade massacrando todos os habitantes do território que deviam ocupar”. Isso no negro auge dos crematórios.
Suas preferências em matéria de literatura e de tonalidade teológica combinavam. Era em T. E. Lawrence da Arábia que ela enxergava a modalidade mais autêntica do heroísmo moderno. E era no catolicismo ascético e mendicante, que denunciava mais brutalmente o alegado materialismo e empedernimento dos judeus, que se sentia à vontade. De Paulo de Tarso até hoje, a história do ódio do judeu por si mesmo é longa e desperta muita perplexidade. É plenamente possível ler tanto o cristianismo quanto o marxismo como grandes heresias judaicas nascidas das turvas patologias de uma autorrejeição de tipo suicida. Embora demonstrasse certa perturbação mental, o defensor mais engenhoso da inferioridade e lepra racial judaica na polêmica moderna foi um judeu, Otto Weininger. Se a contribuição de Simone Weil a esse lixo era sintoma de alguma negação mais profunda da sexualidade e de seu próprio sexo, se trazia elementos de auto-humilhação deliberada diante do que julgava ser uma vida estragada, se traçava o caminho para um lento suicídio, não há psicopatologia capaz de explicar adequadamente. Ademais, tal explicação, pelos próprios imperativos de integridade filosófica de Weil, seria de importância secundária.
Por que então nos incomodarmos com isso? Simplesmente porque Simone Weil nos deixou um conjunto fragmentado, mas substancial, de percepções teológicas, filosóficas e políticas de raro vigor e iluminação. A resposta gera tanta perplexidade porque nela uma inclemente honestidade mescla o inspirado e o patológico. Afora Kierkegaard, quem mais, no momento em que a França se rendia a Hitler, seria capaz de se sair com a frase “Este é um grande dia para a Indochina”, na qual uma pavorosa insensibilidade se equilibra à perfeição com uma genial clarividência humana e política? De fato, a queda da metrópole era uma notícia gloriosa para os povos submetidos que a França dominava desde longa data em suas extensas colônias. Para Weil, os “crimes” do colonialismo tinham relação direta, numa simetria religiosa e política, com a degradação da terra natal. Constantemente um aforismo weiliano, um marginalium a uma passagem dos clássicos ou das Escrituras, atinge o cerne de um dilema tantas vezes mascarado pelo tabu ou pela hipocrisia. Ela não fugia da contradição, do insolúvel. Acreditava que a contradição “vivida até o mais profundo recesso do ser significa laceração espiritual, significa a Cruz”. E sem essa “crucialidade”, os debates teológicos e os postulados filosóficos não passam de palavrório acadêmico. Levar a sério, abordar existencialmente a questão do significado da vida e morte humana num planeta embrutecido, devastado, examinar o valor ou a futilidade da ação política e do desígnio social não é apenas pôr em risco a saúde pessoal ou o consolo do amor comum: é ameaçar a própria razão. Em nossos tempos, os dois indivíduos que não só ensinaram, escreveram ou geraram conceitualmente intimações filosóficas da mais alta categoria, mas também viveram esses seus preceitos na dor, na autopunição, na rejeição do próprio judaísmo, são Ludwig Wittgenstein e Simone Weil. Em inúmeros pontos, caminharam nas mesmas sombras iluminadas.
Mas nenhuma analogia é suficiente. Weil representa o que a física moderna chamaria de “singularidade”. Alguns de seus melhores escritos — sobre Descartes, sobre a teoria e a prática do marxismo — pertencem ao campo intelectual e filosófico normal. Ela se debate com o mistério do amor de Deus como faziam os santos e os doutores da Igreja, os visionários da Idade Média e do barroco. Mas a um fio, por assim dizer, de sua ardente retidão analítica, de sua escrupulosidade lógica, de seu questionamento compassivo, sopram aquelas “fortes ventanias vindas do subsolo” evocadas por Franz Kafka (outro primo espiritual). Algum veio de loucura foi perfurado.
As indicações examinadas com extrema paciência por Nevin neste livro perturbador apontam para um sentimento retorcido, ao mesmo tempo agudo e fundamente enterrado. De alguma maneira, essa “outsider eleita” sentia inveja de Deus, de Seu infinito amor, que reconhecia mentalmente, mas não conseguia aplicar à imagem que construíra de sua própria identidade. Sentia inveja — como, talvez, santa Teresa d’Ávila e são João da Cruz — das agonias que Deus sofrera na pessoa de Seu filho supliciado. Terreno pantanoso. A isso talvez a resposta menos inadequada venha de uma língua ao mesmo tempo triste e sardônica — o iídiche, que ela desconhecia ou talvez desprezasse. Simone Weil foi, sem dúvida, a primeira mulher entre os filósofos. Foi também uma schlemiel transcendente.
2 de março de 1992

George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos