08/08/2026

Juliana Linhares | Futuro (Novos Erros) + Oração pro Sonho

Hagar, o Horrível

Do diário em Paris

2-X — As sete sereias do longe: si-mesmo, o céu, a felicidade, a aventura, o longo atalho chamado poesia, a esperança vendada e a saudade sem objeto.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

Bicho

Hesitei horas
antes de matar o bicho.
Afinal,
era um bicho como eu,
com direitos,
com deveres.
E, sobretudo,
incapaz de matar um bicho,
como eu.

Paulo Leminski, em Toda Poesia

Raimundinha




Só tenho duas filhas, uma de catorze anos chamada Jacqueline e outra de treze de nome Gisele, porque uma das patroas que tive era uma médica que trabalhava na prefeitura e ela me disse que ia fazer ligadura das minhas trompas mas que ninguém podia saber porque era proibido fazer aquele tipo de operação num hospital público, o governo e os padres não deixavam, se soubessem ela perdia o emprego. Então ela fez escondido fingindo que estava tratando uma infecção urinária.
O pai das meninas me deu um pontapé na bunda quando elas ainda eram pequenas, levou tudo com ele, até a televisão, e eu fiquei cuidando delas sozinha. Tive outros homens, mas eles não puderam fazer filhos em mim graças à santa da minha patroa, o nome dela era doutora Raquel.
Depois de algum tempo fiquei sem homem dentro de casa, eram todos pessoas muito ruins, teve até uns que batiam em mim, um deles quebrou esse meu dente da frente com um soco. Então, eu me desiludi de homem e decidi viver sozinha.
Tenho um patrão viúvo legal, que me paga em dia e aumenta sempre o meu salário, e nem quer saber da casa, me dá o dinheiro das compras e não confere, eu dou a nota do supermercado e ele nem olha. Também não se interessa por comida, o que eu ponho na frente dele ele come, quase sempre lendo um livro.
Então Jacqueline ficou grávida. Ela sempre foi uma menina que dava muito trabalho, não gostava de estudar, roubava dinheiro da minha bolsa, mas eu perdoava, mãe existe para perdoar. O pai era um garoto um pouco mais velho do que ela. Jacqueline disse que não queria tirar, que queria ter o filho e depois, se achasse chato, dava o bebê. O menino já fez quatro anos e ela não deu ele pra ninguém porque quem sempre cuidou dele fui eu, deixava na creche na hora do meu trabalho, e comprava tudo, fraldas, o leite da mamadeira, o talco para assadura do bumbum, remédios, tudo. Como o meu salário não dava, eu apanhava dinheiro na carteira do meu patrão, duzentos, trezentos, ele era muito distraído e nem desconfiava. Enquanto isso Jacqueline passava as noites em festas e eu disse a ela que se ela ficasse grávida de novo eu não ia cuidar do bebê, ia expulsá-la de casa.
Então conheci o Jeferson. Ele era branco, usava cabelo comprido, tinha quarenta anos. Estava se separando da mulher e perguntou se podia ir morar na minha casa. Esqueci de dizer que o meu patrão me deu uma casinha com dois quartos. Eu disse ao Jeferson que sim, é bom ter um homem dentro de casa, e o Jeferson já tinha trabalhado de bombeiro eletricista e sabia fazer essas coisas que nós mulheres não sabemos.
Jeferson estava desempregado, procurando trabalho, e assim, enquanto ele não conseguia um novo emprego, eu dava a ele uns trocados para comprar cigarro, mas eu sabia que ele fingia que fumava três maços por dia e fumava apenas um e o resto do dinheiro era para tomar uma cachacinha, só que eu fingia que não sabia. Ele era um homem forte, mas na cama era meio frouxo. No início ele me comia nos sábados, depois nem isso. Depois de seis meses sem me comer eu falei com ele, Jeferson, você não faz nada comigo tem seis meses, você tem outra mulher? Ele jurou por Deus que não tinha mulher nenhuma, aquilo que estava acontecendo com ele era porque ele estava muito preocupado por não conseguir arranjar emprego, o que deixava ele nervoso, e um homem nervoso não dá no couro. Eu disse, você passa o dia dormindo e vendo televisão, assim não vai arranjar emprego nunca. Jeferson respondeu que eu estava sendo injusta com ele, que eu não sabia o quanto ele sofria, que um homem com vergonha na cara odiava aquela situação, ser sustentado pela mulher. E fez uma cara de cachorro triste que cortou o meu coração.
Todo dia, quando saía pela manhã para ir para o trabalho, de segunda a sexta — meu patrão me dava folga no sábado e no domingo —, eu preparava tudo para o Jeferson, ele gostava de sanduíche de queijo e eu deixava os sanduíches prontos e o café na garrafa térmica para ele e para Jacqueline, ela e o Jeferson gostam de acordar tarde. Então eu levava o menino para a creche e a Gisele para o colégio e ia para o meu trabalho.
Acho que o meu patrão não dormia, pois a cama dele nunca estava desfeita e ele ficava lendo o dia inteiro ou então sentado na frente do computador e eu tinha que insistir para ele almoçar, não era fácil. Acho que é por isso que ele era tão magrelo, eu devo pesar o dobro dele, acho que era porque eu devorava biscoito o dia inteiro, e doce de leite, e chocolate, que eu comprava fingindo que era para ele, mas que ele nunca comia. Minha irmã, Severina, disse que eu estava muito gorda e que era por isso que o Jeferson não transava comigo.
No dia em que ela me disse isso pelo telefone eu saí do emprego e quando cheguei em casa o Jeferson estava vendo televisão e eu desliguei a televisão e perguntei, Jeferson, você não transa comigo é porque estou muito gorda? Ele respondeu, meu amorzinho, é aquele nervoso que eu falei, passo o dia procurando emprego e não arranjo nada, você não sabe como isso me faz sofrer. Já estou procurando emprego há mais de um ano, é duro.
Fiquei com peninha dele e liguei de novo a televisão.
O que vai ter hoje para o jantar?, Jeferson perguntou.
Respondi que ia fazer costeleta de porco com batata frita, que ele tanto gostava. Você é uma mulher maravilhosa, disse Jeferson, acendendo um cigarro e olhando para a tela da televisão.
Modéstia à parte, eu faço uma costeleta de porco melhor do que qualquer restaurante. Jeferson come umas cinco, no mínimo.

Rubem Fonseca, em Ela e Outras Mulheres

Da irresistível beleza

O leão é um animal tão belo que ser devorado por ele é melhor do que ser devorado por um crocodilo... Diante da sua arremetida, bem sei que se pode morrer de puro medo... porém nunca de horror.

Mário Quintana, em Caderno H

07/08/2026

Eu Comigo Mesmo | Renato Teixeira e Fagner

 

Bruxa, por Laerte

Um momento de desânimo

Em algum ponto deve estar havendo um erro: é que ao escrever, por mais que me expresse, tenho a sensação de nunca na verdade ter-me expressado. A tal ponto isso me desola que me parece, agora, ter passado a me concentrar mais em querer me expressar do que na expressão ela mesma. Sei que é uma mania muito passageira. Mas, de qualquer forma, tentarei o seguinte: uma espécie de silêncio. Mesmo continuando a escrever, usarei o silêncio. E, se houver o que se chama de expressão, que se exale do que sou. Não vou mais ser: “Eu me exprimo, logo sou.” Será: “Eu sou, logo sou.”

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

1634 – Madrid



Quem se escondia no berço da tua mulher?

O Conselho Supremo do Santo Ofício da Inquisição, velando pela limpeza do sangue, decide que de agora em diante se fará cuidadosa investigação antes que seus funcionários contraiam matrimônio.
Todos os que trabalham para a Inquisição, o porteiro e o fiscal, o torturador e o verdugo, o médico e o ajudante de cozinha, deverão apresentar a genealogia de dois séculos da mulher que escolheram, para evitar que se casem com pessoas infectas.
Pessoas infectas, ou seja: com litros ou gotas de sangue índio e ou sangue negro, ou com tataravós de fé judia ou cultura islâmica ou devoção a qualquer heresia.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

História dos dois que sonharam

O historiador árabe El Ixaqui narra este acontecimento: Contam os homens dignos de fé (porém somente Alá é onisciente e poderoso e misericordioso e não dorme), que existiu no Cairo um homem possuidor de riquezas, porém tão magnânimo e liberal que perdeu-as todas, menos a casa de seu pai. Diante disso, se viu forçado a trabalhar para ganhar seu pão. Trabalhou tanto, que o sono venceu-o uma noite sob uma figueira de seu jardim, e ele viu no sonho um homem empanturrado que tirou da boca uma moeda de ouro e lhe disse: “Tua fortuna está na Pérsia, em Isfahan; vai buscá-la”. Na madrugada seguinte acordou e empreendeu a longa viagem, afrontando os perigos dos desertos, dos navios, dos piratas, dos idolatras, dos rios, das feras e dos homens. Chegou finalmente a Isfahan, e no centro da cidade, no pátio de uma mesquita, deitou-se para dormir. Junto a mesquita havia uma casa, e por vontade de Deus Todo Poderoso, um bando de ladrões atravessou a mesquita, e meteu-se na casa, e as pessoas que aí dormiam, despertando com o barulho, pediram socorro.
Os vizinhos também gritaram, até que o capitão dos guardas noturnos daquele distrito acudiu com seus homens e os bandoleiros, fugiram pelo terraço. O capitão quis revistar a mesquita e lá deram com o homem do Cairo; açoitaram-no de tal maneira com varas de bambu que ele quase morreu. Dois dias depois recobrou os sentidos na cadeia. O capitão mandou buscá-lo e disse: “Quem és tu e qual é a tua pátria?” O outro declarou: “Sou da famosa cidade do Cairo e meu nome é Mohamed El Magrebi”. O capitão perguntou-lhe: "O que te trouxe à Pérsia?"
O outro optou pela verdade e disse: “Um homem ordenou-me, em sonho, que eu viesse a Isfahan porque aí estava a minha fortuna. Já estou em Isfahan e vejo que essa fortuna que prometeu devem ser as vergastadas que tão generosamente me deste”.
Diante de tais palavras o capitão riu tanto que se viam seus dentes de siso e, finalmente, lhe disse: “Homem desajuizado e crédulo, eu já sonhei três vezes com uma casa no Cairo no fundo da qual há um jardim, e nesse jardim um relógio de sol, e depois do relógio, uma figueira, e logo depois da figueira, uma fonte, e sob a fonte, um tesouro.
Não dei o menor crédito a essa mentira e tu, produto de uma mula com um demônio, não obstante, vens errando de cidade em cidade baseado unicamente na fé no teu sonho. Que eu não volte a ver-te em Isfaham.
Toma estas moedas e desaparece”.
O homem pegou as moedas e regressou a sua pátria. Sob a fonte de seu jardim (que era a mesma do sonho do capitão) desenterrou o tesouro. Assim Deus lhe deu sua bênção, recompensou-o e enalteceu-o.
Deus é o Generoso, o Oculto.

Do Livro das Mil e Uma Noites (noite 351), em Livro de Sonhos, de Jorge Luis Borges

Junior’s Farm | Paul McCartney e Linda McCartney



You should have seen me with the poker man
I had a honey and I bet a grand
Just in the nick of time I looked at his hand
I was talking to an Eskimo
Said he was hoping for a fall of snow
When up popped a sea lion ready to go

Let’s go, let’s go, let’s go, let’s go
Down to Junior’s Farm where I want to lay low
Low life, high life, oh let’s go
Take me down to Junior’s Farm

At the Houses of Parliament
Everybody’s talking ’bout the President
We all chip in for a bag of cement
Ollie Hardy should have had more sense
He bought a gee-gee and he jumped the fence
All for the sake of a couple of pence

Let’s go, let’s go, let’s go, let’s go
Down to Junior’s Farm where I want to lay low
Low life, high life, oh let’s go
Take me down to Junior’s Farm
Let’s go, let’s go
Down to Junior’s Farm where I want to lay low
Low life, high life, oh let’s go
Take me down to Junior’s Farm
Everybody tag along

I took my bag into a grocer’s store
The price is higher than the time before
Old man asked me, why is it more?
I said, you should have seen me with the poker man
I had a honey and I bet a grand
Just in the nick of time I looked at his hand

Let’s go, let’s go, let’s go, let’s go
Down to Junior’s Farm where I want to lay low
Low life, high life, oh let’s go
Take me down to Junior’s Farm
Let’s go, let’s go
Down to Junior’s Farm where I want to lay low
Low life, high life, oh let’s go

Take me down to Junior’s Farm
Everybody tag along
Take me down to Junior’s Farm

Take me back
Take me back
I want to go back
Yeah, yeah, yeah

Linda e eu fugimos – fronteira escocesa adentro, passando reto por Gretna Green, que na verdade fica no caminho – e fomos morar na fazenda que eu tinha comprado uns anos antes. Para ser sincero, eu não estava muito convicto disso, mas Linda sim. Ela abriu meus olhos para ver como o local era lindo.
Passamos um bom tempo na fazenda, só criando os filhos e trabalhando na agropecuária. Tornou-se uma espécie de refúgio, e era bom se afastar de Londres e da cidade – mas tudo tem seus prós e contras. Eu pilotava um trator Massey Ferguson 315 para segar o feno, e adorava isso porque quando criança sempre fui um fanático pela natureza e, em meio a toda essa liberdade, não me faltava tempo para pensar – “Down to Junior’s Farm where I want to lay low”. Era um alívio sair daquelas reuniões de negócios com esse pessoal de terno, o tempo inteiro falando tão sério, e ir à Escócia e poder ficar à vontade, só de camiseta e calça de veludo cotelê. Era essa a mentalidade que me dominava quando fui compor esta canção. A mensagem básica é: vamos dar o fora daqui. Você pode dizer que é minha canção pós-Beatles sobre “dar-o-fora-da-cidade”.
O Wings se bandeou para Nashville para se aglutinar como banda. Tínhamos perdido um guitarrista e um baterista antes de gravar Band on the Run, e agora tínhamos dois novos membros. Então a ideia era ensaiar e gravar umas canções, e uma delas era esta. Ficamos na casa de um compositor chamado Curly Putman, que compôs “The Green, Green Grass of Home”. Acho que ele e a esposa tinham saído de férias, e o lugar ficou só para nós.
Minha própria fazenda ficava bem retirada, mas ali estávamos numa espécie de rancho, muito estadunidense e muito diferente da Escócia. Vastas planícies em vez de colinas onduladas. Cadeiras de balanço na varanda. Então decidi entrar numa fantasia para criar as estrofes. A canção “Maggie’s Farm”, de Bob Dylan, tinha sido lançada quase uma década antes, em 1965, e sem dúvida foi uma influência para esta canção. E o “esquimó” é provavelmente o Mighty Quinn da canção de Dylan, “Quinn the Eskimo”. A estrofe que começa com “I took my bag into a grocer’s store/ The price is higher than the time before” – bem, isso é sempre muito relevante, porque muita gente precisou apertar o cinto, já que o começo dos anos 1970 foi um período financeiro difícil para o povo, e a grana andava curta. Por que tudo está bem mais caro do que de costume?
Agora, aquela segunda estrofe. Nem sempre eu canto essa estrofe quando tocamos esta canção ao vivo, por isso, às vezes ela não aparece na letra: “At the Houses of Parliament/Everybody’s talking ’bout the President/ We all chip in for a bag of cement”. Esta canção foi gravada no verão de 1974 e lançada em outubro do mesmo ano. Por volta da mesma época, Richard Nixon teve sua audiência de impeachment; na verdade, acho que ele teve que renunciar em desonra naquele verão. A ideia da canção era dar a ele a chamada despedida da Máfia. Não acho que exista um motivo para não cantarmos essa estrofe hoje. Pode ser apenas que isso torne a canção muito longa e já temos quarenta canções em nosso set list.
Existem modismos na música e nas canções, e na época do álbum Band on the Run, que esta canção seguiu, a moda era essa ideia do bandido, parcialmente um reflexo da canção “Desperado”, dos Eagles – sem falar na popularidade de Butch Cassidy e Sundance Kid. Apenas levamos isso a um nível mais amplo e pessoal. A ideia era que todos estávamos fugindo da lei. Quando você está fumando maconha, os policiais se tornam uma preocupação, caso perguntem: “Que cheiro é esse?”. Você sabe que não é culpado, mas se sente culpado porque acha que será acusado de uma contravenção, e eles podem prendê-lo por isso. Na minha infância era diferente; naquela época, um policial para mim era só um velho e amigável guardinha fazendo sua ronda, e não havia muitas associações negativas com a polícia. Uma vez, porém – uma ou duas vezes –, me fizeram parar quando eu estava ao volante de meu carro novo, o meu primeiro carro, um Ford Consul Classic. Eu era um pouco novinho demais para ter um carro tão reluzente, e o policial me parou: “Onde é que você conseguiu este carro?”. Sabe, eu era um garoto de Liverpool e parecia que eu tinha acabado de roubá-lo. Respondi: “É meu. Eu o comprei”.
“Junior’s Farm” continua funcionando ao vivo, e em geral a colocamos no início do set. Tem muitos elementos que funcionam bem – uma introdução reconhecível, uma boa e constante levada rock’n’roll, sem falar na letra interessante e ligeiramente surreal e no refrão empolgante de “Let’s go, let’s go”. Isso insufla nas pessoas a vontade de espairecer e, bem na hora H (“just in the nick of time”), escapulir para sua própria variante da “Junior’s Farm”, seja lá qual for o seu refúgio – seja onde for, um lugar para sumir, se esconder e só se enfurnar.

Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente

06/08/2026

Jacob Collier ft. Julian Lage | Like Someone In Love

Sedução

A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.

Adélia Prado, em Bagagem

Bandido bom é...

Alma racional e universal

A maioria das coisas que a multidão admira são comuns, mantidas íntegras por coesão ou por uma organização natural, como pedras, madeira, figueiras, videiras e oliveiras. Já os homens um pouco mais razoáveis admiram aquelas que são unidas por um princípio vivo, como rebanhos e manadas. Homens ainda mais instruídos apreciam as que são unificadas pela alma racional — pela racional, e não pela universal, pois ela é uma alma hábil em alguma arte e especialista em algo ou, simplesmente, porque possui uma série de escravos. Por último, aquele que valoriza a alma racional — universal e adequada para a vida política — não considera nada acima de manter sua alma em condições e atividades compatíveis com a razão e a vida social e coopera com seus semelhantes para esse fim.

Marco Aurélio, em Meditações

Siempre en la Barca pra Paquetá



1ª Faixa: Dorinda

Eu sou do tempo em que o sujeito aprendia a dançar com as primas um pouquinho mais velhas. Delícia. Claro que era coisa meio incestuosa. A família – implacável censora de qualquer atitude que sugerisse sexo – liberava o sarro com as primas. Prima, com ph e dois dês de Toddy.
Na galeria de primas inesquecíveis, Gregório Barrios ao fundo, destacava-se Dorinda. Protestante. Estrábica. O más bonito em mulher com discreto estrabismo é que parece estar sempre à beira do orgasmo.
Em Dorinda, a suave mistura entre recato e cara de vou-gozar me enlouquecia. E, além do mais, ela ostentava um pequeno buço. Eu ficava repetindo, antes de dormir: o buço da prima, o buço da Dorinda... De fato, buço é uma palavra que provoca tresloucadas associações.
Quando a austera Dorinda me ensinava a dançar, nas festinhas da Rua dos Artistas, os adultos quedavam perplexos – talvez pela voz autoritária de Dodô (começou a intimidade) caso eu errasse um passo mais elaborado, ou quiçá, quiçá, quiçá pelo escândalo de minha barraca armada em contato com aguda inflação de tafetá, organdi, babado inglês, um sutiã como deis ariétes, anágua, combinação, meias com o fio corrido, e..., e.., e... Bom, calcinhas, queridas, nem pensar. Se naquela época passasse pela minha cabeça que, debaixo daquilo tudo, uma calcinha de renda expunha mais do que velava o cabeludo tesouro da Dodô, eu soltaria um berro tremendo e dispararia em direção ao banheiro pra uma sessão-nostalgia de “contigo en la distancia” pensando na Dodô, em sua cara de gozo e, lógico, em seu buço.
Ainda hoje, quando tomo uísque com guaraná, ouço a voz de Dodô murmurando: “São dois pra lá, dois pra cá” - embora, na verdade, ela gritasse comigo feito um instrutor do CPOR.
Dodô, minha nega, enquanto cruzas outros mares de loucura, guardo nosso 78 rotações favorito, “Angustia”, com Bienvenido Granda (que buço!) e “Sonora Matancera”, um lançamento da Mocambo que juntos compramos na extinta Ótica Irany (Revelações, Cópias, Ampliações em 24 horas), lembra?
Tenho a impressão, Dodô, que esse disco vai ficar girando em minha vida hasta que tu decidas regressar…

Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo

Coração segundo

— De acrílico, de fórmica, de isopor, meticulosamente combinados, fiz meu segundo coração, para enfrentar situações a que o primeiro, o de nascença, não teria condições de resistir. Tornei-me, assim, homem de dois corações. A operação sigilosa foi ignorada pelos repórteres. Eu mesmo fabriquei meu coração novo, nos fundos da casa onde moro. Nenhum vizinho desconfiou, mesmo porque sabem que costumo fechar-me em casa, semanas inteiras, modelando bonecos de barro ou de massa, que depois ofereço às crianças. Oferecia. Meus bonecos não têm arte, representam o que eu quero. Fiz um Einstein que acharam parecido com Lampião. Para mim, era Einstein. Os garotos riam, tentando adivinhar que tipos eu interpretara. Carlito! Não era. Às vezes, não sei por quê, admitia que fosse Carlito. Nunca dei importância a leis de semelhança e verossimilhança, que sufocam toda espécie de criação.
Mas, como disse, fiz meu coração sem ninguém saber. E à noite, em perfeita lucidez, abrindo o peito mediante processo que não vou contar, pois minha descrição talvez horrorizasse o leitor, e eu não pretendo horrorizar ninguém — abrindo o peito, instalei lá dentro esse coração especial, regulado para não sofrer. Ao mesmo tempo, desliguei o outro. Como? Também prefiro não explicar. Possuo extrema habilidade manual, aguçada à noite, e sei o que geralmente se sabe dos órgãos do corpo e suas funções e reações, depois que ficou na moda tratar dessas coisas em jornais e revistas. Além disto, minha capacidade de resistir à dor física sempre foi praticamente ilimitada. Desde criança. Mas as dores morais, as dores alheias, as dores do mundo, acima de tudo, estas sempre me vulneraram. Recompus a incisão, senti que tudo estava perfeito, e fui dormir.
Na manhã seguinte, ao ler as notícias que falavam em fome no Paquistão, guerra civil na Irlanda, soldados que se drogam no Vietnã para esquecer o massacre, explosão experimental de bombas de hidrogênio, tensão permanente no canal de Suez, golpes vitoriosos ou malogrados na América Latina, bem, não senti absolutamente nada. O coração funcionava a contento. Fui para o trabalho experimentando sensação inédita de leveza. No caminho, vi um corpo de homem e outro de mulher estraçalhados entre restos de um automóvel. Pela primeira vez pude contemplar um espetáculo desses sem me crispar e sem envenenar o meu dia. Fitei-o como a objetos de uma casa expostos na calçada, em hora de mudança. E passei um dia normal. Trabalho, refeições, sono, igualmente normais, coisa que não acontecia há anos.
Meu coração fora planejado para evitar padecimento moral, e desempenhava bem a função. Assisti impassível a cenas que antes me fariam explodir em lágrimas ou protestos. Felicitei-me pela excelência. Mas aí começou a ocorrer um fenômeno desconcertante. Eu, que não sofria com as doenças que me assaltavam, passei a sentir reflexos de moléstias inexistentes. Simples corte no dedo, sem inflamação, afligia-me como chaga aberta. Dor de cabeça que passa com um comprimido ficava durante semanas. Meu corpo tornou-se frágil, exposto ao sofrimento. E eu não tinha nada. Consultei especialistas, fiz checkup, não se descobriu qualquer lesão ou distúrbio funcional. Eram penas imotivadas, gratuitas. Meu coração no 2 passava pela radiografia sem ser percebido. Irredutível à dor moral, era invisível a aparelhos de precisão.
Comecei a sofrer tanto com os meus males carnais que a vida se tornou insuportável. A dor aparecia especialmente em horas impróprias. Em reuniões sociais. Em concertos. No escritório, ao tratar de negócios. Então fazia caretas, emitia gemidos surdos, assumindo aspecto feroz. Assustavam-se, queriam chamar ambulância, eu recusava. Tinha medo de que descobrissem o coração fabricado.
Outra coisa: as crianças começaram a achar estranhos meus bonecos, não queriam aceitá-los. Sempre gostei de crianças. E elas me repeliam. Esmerei-me na feitura de peças que pudessem cativá-las, mas em vão.
Hoje vi um homem encostado a um oiti, diante do mar. Sua expressão de angústia dava ao rosto o aspecto de chão ressecado. Tive pena dele. Surpreso, ignorando tudo a seu respeito, mas participando de sua angústia e trazendo-a comigo para casa.
Agora à noite, decidi-me. Voltei a abrir o peito e examinei o coração segundo. Com pequena fissura no isopor, já não era perfeito. Ao tocá-lo, as partes se descolaram. Inútil restaurá-lo. Joguei fora os restos, liguei o antigo, e fechei o cavername. Talvez pela falta de uso, sinto que o coração velho está rateando. Que fazer? E vale a pena fazer? A manhã tarda a chegar, e não encontro resposta em mim.

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

05/08/2026

Vencendo vem Jesus | Danilo Sinna Big Band

Capítulo 77 – Entrevista



Virgília entrou risonha e sossegada. Os tempos tinham levado os sustos e vexames. Que doce que era vê-la chegar, nos primeiros dias, envergonhada e trêmula! Ia de sege, velado o rosto, envolvido numa espécie de mantéu, que lhe disfarçava as ondulações do talhe. Da primeira vez deixou-se cair no canapé, ofegante, escarlate, com os olhos no chão; e, palavra! em nenhuma outra ocasião a achei tão bela, talvez porque nunca me senti mais lisonjeado.
Agora, porém, como eu dizia, tinham acabado os sustos e vexames; as entrevistas entravam no período cronométrico.
A intensidade de amor era a mesma; a diferença é que a chama perdera o tresloucado dos primeiros dias para constituir-se um simples feixe de raios, tranquilo e constante, como nos casamentos.
– Estou muito zangada com você, disse ela sentando-se.
– Porquê?
– Porque não foi lá ontem, como me tinha dito. O Damião perguntou muitas vezes se você não iria, ao menos, tomar chá. Por que é que não foi?
Com efeito, eu havia faltado à palavra que dera, e a culpa era toda de Virgília. Questão de ciúmes. Essa mulher esplêndida sabia que o era, e gostava de o ouvir dizer, fosse em voz alta ou baixa. Na antevéspera, em casa da baronesa, valsara duas vezes com o mesmo peralta depois de lhe escutar as cortesanices, ao canto de uma janela. Estava tão alegre! tão derramada! tão cheia de si! Quando descobriu, entre as minhas sobrancelhas, a ruga interrogativa e ameaçadora, não teve nenhum sobressalto, nem ficou subitamente séria; mas deitou ao mar o peralta e as cortesanices.
Veio depois a mim, tomou-me o braço, e levou-me até outra sala, menos povoada, onde se me queixou de cansaço, e disse muitas outras coisas, com o ar pueril que costumava ter, em certas ocasiões, e eu ouvi-a quase sem responder nada.
Agora mesmo, custava-me responder alguma coisa, mas enfim contei-lhe o motivo da minha ausência... Não, eternas estrelas, nunca vi olhos mais pasmados. A boca semi-aberta, as sobrancelhas arqueadas, uma estupefação visível, tangível, que se não podia negar, tal foi a primeira réplica de Virgília; abanou a cabeça com um sorriso de piedade e ternura, que inteiramente me confundiu.
 Ora você!
E foi tirar o chapéu, lépida, jovial, como a menina que torna do colégio; depois veio a mim, que estava sentado, deu-me pancadinhas na testa, com um só dedo, a repetir: – Isto, isto; – e eu não tive remédio senão rir também, e tudo acabou em galhofa. Era claro que me enganara.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas