domingo, 17 de maio de 2026

Desejosa

Uma palavra abriu o roupão para mim. Ela deseja que eu a seja.

Manoel de Barros, em Livro sobre nada

Cássia Eller e Renato Russo | Vento no Litoral

O chalé da praça Quinze

O chalé fazia parte da gente. Me lembro do Bilu, com o seu perfil perpendicular de cegonho sábio, o longo bico mergulhado — não no gargalo do gomil da fábula, não propriamente no canecão de chope, que era de fato o que estava acontecendo —, mas no poço artesiano de si mesmo.
Me lembro do Reynaldo, redondo, pacato, amável, tão amável, pacato e redondo que parecia um desses personagens de romance policial que ninguém desconfia que seja o autor do último crime da mala.
Me lembro do Cavalcanti, com a sua cara silenciosa e receptiva de mata-borrão.
Me lembro de mim, silencioso. Sim, a determinada hora éramos todos silenciosos... essa hora em que não é preciso dizer nada, nem mesmo o verso inesquecível de Valéry: “Oh mon bon compagnon de silence!”
Este silêncio era apenas quebrado quando chegava o Athos, o Athos centrífugo e pirotécnico. Mas isto não perturbava o nosso silêncio, nem o próprio silêncio do Athos... Pois havia um profundo e misterioso rio de silêncio que corria subterraneamente a todas as nossas palavras.
Era o rio da poesia?
O rio da harmoniosa confusão das almas?
Agora é apenas o rio do tempo que passou.

Mário Quintana, em Caderno H

O Mestre e Margarida — 3




3

A sétima prova

É, eram aproximadamente dez horas da manhã, respeitável Ivan Nikoláievitch — disse o professor.
O poeta passou a mão pelo rosto como faz uma pessoa que acaba de voltar a si e viu que a noite havia caído em Patriarchi.
A água do lago havia escurecido, agora um barquinho leve deslizava por ela e ouvia-se o bater dos remos e as risadinhas de alguma cidadã a bordo. Apareceu gente nos bancos das aleias, mas novamente nos outros três lados do quadrado, e não naquele em que estavam nossos interlocutores.
O céu sob Moscou parecia ter desbotado, e no alto via-se a lua cheia totalmente nítida, só que ainda não estava dourada, mas sim branca. Era bem mais fácil respirar, e as vozes sob as tílias soavam agora mais suaves, noturnais.
Como é possível que eu não tenha percebido que ele conseguiu engendrar toda uma história?”, pensou Bezdômny admirado. “Já é noite! Ou será que não foi ele que contou, e eu simplesmente adormeci e sonhei com tudo isso?”
No entanto, deve-se supor que o professor contou mesmo tudo aquilo. Caso contrário, seríamos obrigados a admitir que Berlioz teve o mesmo sonho, pois ele disse, examinando atento o rosto do estrangeiro:
Sua história é extremamente interessante, professor, apesar de não coincidir em nada com o Evangelho.
Perdão — replicou o professor, sorrindo indulgente —, mas ninguém mais do que o senhor deveria saber que absolutamente nada do que está escrito no Evangelho jamais aconteceu na realidade, e se começarmos a aludir ao Evangelho como fonte histórica... — Ele sorriu uma vez mais, e Berlioz engasgou, pois ele dissera o mesmo, palavra por palavra, a Bezdômny, quando caminhavam pela Brônnaia em direção a Patriarchi Prudý.
Isso mesmo — observou Berlioz. — Mas temo que ninguém poderá comprovar que o que o senhor nos contou aconteceu de verdade.
Oh, não! Há quem possa comprovar! — retrucou o professor extremamente convencido, começando a falar num russo macarrônico. E, do nada, misterioso, fez um gesto para que os dois colegas se aproximassem dele.
Ambos se inclinaram para ele, cada um de um lado, e ele disse, mas já sem nenhum sotaque, que, sabe-se lá por quê, ora sumia, ora aparecia:
É o seguinte... — Então o professor olhou ao redor receoso e começou a cochichar. — Eu presenciei tudo isso pessoalmente. Estive na varanda com Pôncio Pilatos, no jardim, quando ele conversou com Caifás, estive também no palanque, só que às escondidas, incógnito, por assim dizer, então peço aos senhores, nem uma palavra a ninguém, segredo total! Shh!
Caiu o silêncio e Berlioz empalideceu.
O senhor... há quanto tempo o senhor está em Moscou? — perguntou ele, com a voz trêmula.
Acabei de chegar, neste instante, a Moscou — respondeu o professor, perplexo, e só então os colegas resolveram olhar bem em seus olhos e se convenceram de que o olho esquerdo, o verde, era totalmente demente e o direito era vazio, negro e morto.
Pronto, está tudo explicado”, pensou Berlioz, confuso. “Chegou um alemão louco ou acabou de ficar pinel em Patriarchi. Que história!”
É, realmente, tudo estava explicado: o estranhíssimo café da manhã com o falecido filósofo Kant, o papo-furado sobre óleo de girassol e Ánnuchka, as profecias sobre como a cabeça seria cortada e tudo mais — o professor era louco.
Imediatamente Berlioz percebeu o que deveria fazer. Reclinando-se no encosto do banco, ele começou a piscar para Bezdômny, pelas costas do professor — querendo dizer que era melhor não o contrariar, mas o poeta, perplexo, não entendeu os sinais.
Sim, sim, sim — dizia Berlioz, exaltado. — Aliás, tudo isso é possível! Muito provável, até, tanto Pôncio Pilatos, como a varanda e todo o resto... Mas o senhor veio sozinho ou com a esposa?
Sozinho, sozinho, estou sempre só — respondeu o professor amargamente.
E onde estão suas coisas, professor? — perguntou Berlioz de forma insinuante. — No Metropol? Onde se hospedou?
Eu? Em lugar nenhum — respondeu o alemão maluco, enquanto seu olho verde triste e selvagem vagava por Patriarchi Prudý.
Como assim? Mas... onde é que o senhor vai ficar?
Em seu apartamento — respondeu de repente o louco de forma atrevida, depois piscou.
Eu... eu fico muito feliz — balbuciou Berlioz. — Mas, na verdade, na minha casa o senhor não ficará muito bem acomodado... No Metropol há quartos maravilhosos, é um hotel de primeira...
E o diabo, também não existe? — de repente quis saber o doente, alegre, de Ivan Nikoláievitch.
Nem o diabo...
Melhor não contrariar! — cochichou Berlioz apenas com os lábios, despencando sobre as costas do professor e fazendo caretas.
Não existe diabo algum! — gritou Ivan Nikoláievitch imprudentemente, perplexo com todo aquele lero-lero. — Que castigo! Pare de bancar o biruta!
O demente soltou uma gargalhada tão forte que um pardal alçou voo da tília acima deles.
Bom, isso é realmente interessante — pronunciou o professor, sacudindo-se de tanto rir. — O que há com vocês? Vocês não se agarram a nada, nada existe para vocês! — Inesperadamente ele parou de gargalhar e, de forma bem compreensível quando se trata de doença mental, depois da gargalhada caiu no outro extremo. Enfurecido, gritou rispidamente: — Então quer dizer que é isso aí, que o diabo não existe?
Calma, calma, calma, professor — balbuciava Berlioz, temendo alvoroçar o doente. — Fique um minutinho aqui sentado com o camarada Bezdômny que eu vou correndo até a esquina dar um telefonema e depois nós o acompanhamos aonde o senhor desejar. Afinal, o senhor não conhece a cidade...
Deve-se reconhecer que o plano de Berlioz estava correto: ele tinha de correr até o telefone público mais próximo e informar ao departamento de estrangeiros que um consultor havia chegado do exterior e estava em Patriarchi Prudý em estado visivelmente anormal. Então seria necessário tomar algumas medidas, ou o resultado seria louco e desagradável.
Dar um telefonema? Está bem, telefone — concordou o doente com tristeza e, de repente, pediu, ávido: — Mas suplico, antes de se despedir, acredite pelo menos que o diabo existe! Não estou pedindo nada além disso. Saiba que quanto a isso, existe a sétima prova, que é a mais certa! E ela será apresentada ao senhor agora mesmo.
Está bem, está bem — dizia Berlioz em tom falso e carinhoso, e, piscando para o transtornado poeta, que não estava nem um pouco contente com a ideia de ficar vigiando o alemão louco, precipitou-se para aquela saída de Patriarchi que ficava na esquina da Brônnaia e da travessa Iermoláievski.
Então era como se o professor tivesse se restabelecido e se reavivado imediatamente.
Mikhail Aleksándrovitch! — gritou ele, atrás de Berlioz.
Este estremeceu, virou-se, mas acalmou-se com a ideia de que o professor soubera de seu nome e patronímico também por meio de algum jornal. Então o professor gritou, com as mãos ao redor da boca:
O senhor não deseja que eu mande enviar agora mesmo um telegrama a seu tio em Kíev?
De novo Berlioz sentiu um sobressalto. Como o louco sabia da existência de um tio em Kíev? Afinal, com certeza nunca havia saído nada sobre isso em jornal algum. Oh-oh, será que Bezdômny não tem razão? Mas e esses documentos, são falsos? Ah, que sujeito mais estranho... Telefonar, telefonar! Telefonar imediatamente! Vão esclarecer tudo rapidamente!
E sem ouvir mais nada, Berlioz continuou correndo.
Então, na própria saída para a Brônnaia, exatamente aquele mesmo cidadão, que havia sido formado a partir do denso bafo sob a luz do sol, levantou-se de um banco ao encontro do editor. Só que agora ele já não era vaporoso, mas comum, corpóreo e, no lusco-fusco incipiente, Berlioz discerniu nitidamente que ele tinha bigodinhos feito penas de galinha, olhos miudinhos, irônicos e meio embriagados e calças xadrez tão puxadas para cima que as meias brancas encardidas apareciam.
Mikhail Aleksándrovitch recuou, mas se consolou, percebendo que era uma coincidência boba e que agora não tinha tempo para refletir sobre isso.
Está procurando a catraca, cidadão? — quis saber o tipo de xadrez com uma voz de taquara rachada. — Por aqui, por favor! Vá em frente e sairá onde precisa. Pela indicação poderia cobrar do senhor um quartinho de litro... para emendar... um ex-regente! — gesticulando, o sujeito tirou o boné de jóquei com o dorso da mão.
Berlioz não parou para dar ouvidos ao regente pedinte e afetado, correu até a catraca e agarrou-a. Contornando-a ele quase pisou em cima dos trilhos, quando uma luz vermelha e branca jorrou em seu rosto: uma inscrição se acendeu numa caixa de vidro — “Cuidado com o bonde”.
Imediatamente, o tal bonde chegou voando, virando pela linha recém-inaugurada, da Iermoláievski para a Brônnaia. Depois de contornar e seguir em frente, inesperadamente, o bonde iluminou-se por dentro com eletricidade, sinalizou e acelerou.
O precavido Berlioz, mesmo estando em um lugar fora de perigo, resolveu voltar para trás da barreira, pousou a mão no molinete e deu um passo para trás. Imediatamente, sua mão escorregou e escapuliu. Uma perna incontrolável, como se estivesse no gelo, escorregou pela pedra do calçamento, inclinada até os trilhos, a outra ficou suspensa e Berlioz foi jogado para frente.
Tentando segurar-se em algo, Berlioz caiu de costas, bateu de leve com a nuca contra o calçamento e conseguiu avistar, no alto, a lua dourada, mas se era à direita, ou à esquerda, ele já não conseguia mais raciocinar. Conseguiu virar-se de lado e, com um movimento desvairado, no mesmo átimo encolheu as pernas até a barriga e, virando-se, discerniu o rosto completamente pálido de horror da motorneira com seu lenço vermelho escarlate que vinha em sua direção numa velocidade incontrolável. Berlioz não gritou, mas ao seu redor, com vozes femininas desesperadas, a rua inteira berrou. A motorneira acionou o freio elétrico, o vagão afundou o nariz no chão e, depois disso, pulou instantaneamente e de suas janelas voaram estilhaços com estrondo. Na cabeça de Berlioz, alguém gritou em desespero: “Será?...” Uma vez mais, pela última vez, a lua cintilou, mas ela já se despedaçava, e então ficou escuro.
O bonde passou por cima de Berlioz e um objeto redondo e escuro foi lançado para o declive de pedras por baixo da cerca da aleia de Patriarchi. Depois de descer por esse declive, o objeto saltou pelo calçamento da Brônnaia.
Era a cabeça decepada de Berlioz.

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida

Saudade pueril

Uma das facetas da saudade da infância é o cheiro da terra e das plantas molhadas após as chuvas.

Elilson José Batista, em Alumbramentos

Capítulo 51 – É Minha




E minha! disse eu comigo, logo que a passei a outro cavalheiro; e confesso que durante o resto da noite, foi-se-me a ideia entranhando no espírito, não à força de martelo, mas de verruma, que é mais insinuativa.
E minha! dizia eu ao chegar à porta de casa.
Mas aí, como se o destino ou o acaso, ou o que quer que fosse, se lembrasse de dar algum pasto aos meus arroubos possessórios, luziu-me no chão uma coisa redonda e amarela.
Abaixei-me; era uma moeda de ouro, uma meia dobra.
E minha! repeti eu a rir-me, e meti-a no bolso.
Nessa noite não pensei mais na moeda; mas no dia seguinte, recordando o caso, senti uns repelões da consciência, e uma voz que me perguntava por que diabo seria minha uma moeda que eu não herdara nem ganhara, mas somente achara na rua. Evidentemente não era minha; era de outro, daquele que a perdera, rico ou pobre, e talvez fosse pobre, algum operário que não teria com que dar de comer à mulher e aos filhos; mas se fosse rico, o meu dever ficava o mesmo. Cumpria restituir a moeda e o melhor meio, o único meio, era fazê-lo por intermédio de um anúncio ou da polícia. Enviei um carta ao chefe de polícia, remetendo-lhe o achado, e rogando-lhe que, pelos meios a seu alcance, fizesse devolvê-lo às mãos do verdadeiro dono.
Mandei a carta e almocei tranquilo, posso até dizer que jubiloso. Minha consciência valsara tanto na véspera, que chegou a ficar sufocada, sem respiração; mas a restituição da meia dobra foi uma janela que se abriu para o outro lado da moral; entrou uma onda de ar puro, e a pobre dama respirou à larga. Ventilai as consciências! não vos digo mais nada. Todavia, despido de quaisquer outras circunstâncias, o meu ato era bonito, porque exprimia um justo escrúpulo, um sentimento de alma delicada. Era o que me dizia a minha dama interior, com um modo austero e meigo a um tempo; é o que ela me dizia, reclinada ao peitoril da janela aberta.
Fizeste bem, Cubas; andaste perfeitamente. Este ar não é só puro, é balsâmico, é uma transpiração dos eternos jardins. Queres ver o que fizeste, Cubas?
E a boa dama sacou um espelho e abriu-mo diante dos olhos. Vi, claramente vista, a meia dobra da véspera, redonda, brilhante, nítida, multiplicando-se por si mesma, – ser dez – depois trinta – depois quinhentas, – exprimindo assim o benefício que me daria na vida e na morte o simples ato da restituição. E eu espraiava todo o meu ser na contemplação daquele ato, revia-me nele, achava-me bom, talvez grande. Uma simples moeda, hem? Vejam o que é ter valsado um pouquinho mais.
Assim, eu, Brás Cubas, descobri uma lei sublime, a lei da equivalência das janelas, e estabeleci que o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência. Talvez não entendas o que ai fica; talvez queiras uma coisa mais concreta, um embrulho, por exemplo, um embrulho misterioso. Pois toma lá o embrulho misterioso.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

sábado, 16 de maio de 2026

Moda reaça

Aproveitando essa onda reaça que tá supermegatendência, a gente está lançando toda uma coleção pra você, jovem reacionário, que quer gastar o dinheiro que herdou honestamente na nossa sociedade tão meritocrática — tirando os impostos, é claro. Pode guardar a camiseta fedida do Che Guevara e raspar essa barba de Fidel. A moda guerrilheira é muito 2002. Quem tá com tudo neste outono é o jovem reaça. A moda é cíclica, gatinhos! Nesta estação, vamos aproveitar o aniversário da revolução democrática e tirar do armário a fardinha verde-oliva do vovô. E o melhor: não precisa nem limpar as manchas de sangue. Superorna.
O último grito do outono fascistão é defender os valores tradicionais e ressuscitar velhos chavões: direitos humanos para humanos direitos, bandido bom é bandido morto, Deus não fez Adão e Ivo. Nossa coleção — que será lançada amanhã, no prédio do DOI-Codi — foi feita pensando em você, cidadão de bem, branco, católico, heterossexual, rico, com as pernas no lugar, funcionando direitinho. Você é o homem da minha coleção. Olha só este soco inglês: é a sua cara. Vestiu bem, homem da minha coleção. Combina com sua correntinha.
O homem da minha coleção anda armado e se algum veado vier dar em cima ele diz que atira na testa. O homem da minha coleção transa com travesti mas se arrepende logo em seguida e enche a bicha de porrada. O homem da minha coleção casou na igreja com a mulher da minha coleção num casamento celebrado pelo padre da minha coleção, homofóbico, racista e com um sotaque ininteligível, apesar de nunca ter saído do Brasil.
A mulher da minha coleção critica periguetes porque elas não se dão valor — chama isso de feminismo. Saia curta, nem pensar. “Depois reclama quando é estuprada…” A mulher da minha coleção acha que mulher gorda devia evitar sair de casa. “Ninguém é obrigado a ver gente obesa.” A mulher da minha coleção finge que não sabe que é traída pelo homem da minha coleção e se vinga estourando o limite do cartão de crédito do homem da minha coleção, que por sua vez finge que não sabe e se vinga saindo com outras mulheres da minha coleção.
Nosso it boy, claro, é o coronel Paulo Malhães, torturador chiquetésimo que deu depoimento à Comissão da Verdade usando uns puta óculos escuros Prada de aro dourado e assumiu ter perdido a conta de quantos cadáveres ocultou. Divo. Viva a revolução — democrática.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

Poema de aniversário

Porque fizeste anos, Bem-Amada, e a asa do tempo roçou teus cabelos negros, e teus grandes olhos calmos miraram por um momento o inescrutável Norte...
Eu quisera dar-te, ademais dos beijos e das rosas, tudo o que nunca foi dado por um homem à sua Amada, eu que tão pouco te posso ofertar. Quisera dar-te, por exemplo, o instante em que nasci, marcado pela fatalidade de tua vinda. Verias, então, em mim, na transparência do meu peito, a sombra de tua forma anterior a ti mesma.
Quisera dar-te também o mar onde nadei menino, o tranqüilo mar de ilha em que perdia e em que mergulhava, e de onde trazia a forma elementar de tudo o que existe no espaço acima – estrelas mortas, meteoritos submersos, o plancto das galáxias, a placenta do Infinito.
E mais, quisera dar-te as minhas loucas carreiras à toa, por certo em premonitória busca de teus braços, e a vontade de grimpar tudo de alto, e transpor tudo de proibido, e os elásticos saltos dançarinos para alcançar folhas, aves, estrelas – e a ti mesma, luminosa Lucina, e derramar claridade em mim menino.
Ah, pudesse eu dar-te o meu primeiro medo e a minha primeira coragem; o meu primeiro medo à treva e a minha primeira coragem de enfrentá-la, e o primeiro arrepio sentido ao ser tocado de leve pela mão invisível da Morte.
E o que não daria eu para ofertar-te o instante em que, jazente e sozinho no mundo, enquanto soava em prece o cantochão da noite, vi tua forma emergir do meu flanco, e se esforçar, imensa ondina arquejante, para se desprender de mim; e eu te pari gritando, em meio a temporais desencadeados, roto e imundo do pó da terra.
Gostaria de dar-te, Namorada, aquela madrugada em que, pela primeira vez, as brancas moléculas do papel diante de mim dilataram-se ante o mistério da poesia subitamente incorporada; e dá-la com tudo o que nela havia de silencioso e inefável - o pasmo das estrelas, o mudo assombro das casas, o murmúrio místico das árvores a se tocarem sob a Lua.
E também o instante anterior à tua vinda, quando, esperando-te chegar, relembrei-te adolescente naquela mesma cidade em que te reencontrava anos depois; e a certeza que tive, ao te olhar, da fatalidade insigne do nosso encontro, e de que eu estava, de um só golpe, perdido e salvo.
Quisera dar-te, sobretudo, Amada minha, o instante da minha morte; e que ele fosse também o instante da tua morte, de modo que nós, por tanto tempo em vida separados, vivêssemos em nosso decesso uma só eternidade; e que nossos corpos fossem embalsamados e sepultados juntos e acima da terra; e que todos aqueles que ainda se vão amar pudessem ir mirar-nos em nosso último leito; e que sobre nossa lápide comum jazesse a estátua de um homem parindo uma mulher do seu flanco; e que nela houvesse apenas, como epitáfio, estes versos finais de uma canção que te dediquei:

... dorme, que assim
dormirás um dia
na minha poesia
de um sono sem fim…

Vinicius de Moraes, em Para viver um grande amor

Flávio Venturini e Vanessa da Mata | Noites com Sol

 

Me gritaram negra

Tinha sete anos apenas,
apenas sete anos,
Que sete anos!
Não chegava nem a cinco!
De repente umas vozes na rua
me gritaram Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra!
Por acaso sou negra?” – me disse
SIM!
Que coisa é ser negra?”
Negra!
E eu não sabia a triste verdade que aquilo escondia.
Negra!
E me senti negra,
Negra!
Como eles diziam
Negra!
E retrocedi
Negra!
Como eles queriam
Negra!
E odiei meus cabelos e meus lábios grossos
e mirei apenada minha carne tostada
E retrocedi
Negra!
E retrocedi . . .
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Neeegra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
E passava o tempo,
e sempre amargurada
Continuava levando nas minhas costas
minha pesada carga
E como pesava!…
Alisei o cabelo,
Passei pó na cara,
e entre minhas entranhas sempre ressoava a mesma palavra
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Neeegra!
Até que um dia que retrocedia , retrocedia e que ia cair
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra!
E daí?
E daí?
Negra!
Sim
Negra!
Sou
Negra!
Negra
Negra!
Negra sou
Negra!
Sim
Negra!
Sou
Negra!
Negra
Negra!
Negra sou
De hoje em diante não quero
alisar meu cabelo
Não quero
E vou rir daqueles,
que por evitar – segundo eles –
que por evitar-nos algum disabor
Chamam aos negros de gente de cor
E de que cor!
NEGRA
E como soa lindo!
NEGRO
E que ritmo tem!
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro
Afinal
Afinal compreendi
AFINAL
Já não retrocedo
AFINAL
E avanço segura
AFINAL
Avanço e espero
AFINAL
E bendigo aos céus porque quis Deus
que negro azeviche fosse minha cor
E já compreendi
AFINAL
Já tenho a chave!
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO
Negra sou!

Victoria Santa Cruz, poetisa peruana

Diário de Bernardo Soares

108.

A vida pode ser sentida como uma náusea no estômago, a existência da própria alma como um incómodo dos músculos. A desolação do espírito, quando agudamente sentida, faz marés, de longe, no corpo, e dói por delegação.
Estou consciente de mim num dia, em que a dor de ser consciente é, como diz o poeta,

Languidez, mareo
Y angustioso afán.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

O Homem que Calculava — Capítulo 21





Nossa vida, na bela cidade dos califas, tornava-se, dia a dia, cada vez mais agitada e trabalhosa. O vizir Maluf encarregou-me de copiar dois livros do filósofo Rhazer(1). São livros que encerram conhecimentos de Medicina. Leio em suas páginas indicações de alto valor sobre o tratamento do sarampo, a cura das enfermidades da infância, dos rins, das articulações e de mil outros males que afligem os homens. Preso por esse trabalho, fiquei impossibilitado de continuar a assistir às aulas de Beremiz em casa do cheique Iezid.
Pelas informações que ouvi do meu amigo calculista, a “aluna invisível”, nas últimas semanas, fizera extraordinários progressos na ciência de Bháskara. Já conhecia quatro operações com os números, os três primeiros livros de Euclides e calculava as frações com numerador 1, 2 ou 3(2).
Certo dia, ao cair da tarde, íamos iniciar a nossa modesta refeição, que consistia apenas em meia dúzia de pastéis de carneiro com cebolas, mel, farinha e azeitonas, quando ouvimos na rua grande tropel de cavalos e, em seguida, gritos, vozes de comando e pragas de soldados turcos.
Levantei-me um pouco assustado. Que teria acontecido? Tive a impressão de que a hospedaria fora cercada por tropa e que outra violência ia ser levada a efeito por ordem do intolerante chefe de Polícia.
A algazarra inesperada não perturbou Beremiz. Inteiramente alheio aos acontecimentos da rua, continuou, como se achava, a traçar, com um pedaço de carvão, figuras geométricas numa grande prancha de madeira. Extraordinário, aquele homem! As agitações mais graves, o perigo, as ameaças dos poderosos não conseguiam desviá-lo de seus estudos matemáticos. Se Asrail, o Anjo da Morte, surgisse ali, de repente, trazendo na lâmina do candjar a sentença do Irremediável, ele continuaria impassível a traçar curvas, ângulos e a estudar as propriedades das figuras, das relações e dos números.
O pequeno aposento em que nos achávamos foi invadido pelo velho Salim, que se fazia acompanhar de dois servos negros e um cameleiro. Mostravam-se todos assustadíssimos, como se algo muito grave tivesse ocorrido.
Por Alá! — gritei impaciente. — Não perturbem o nosso calculista! Que algazarra é essa? Temos nova revolta em Bagdá? Desabou a mesquita de Colimã?
Senhor — gaguejou o velho Salim, com voz trêmula de susto —, a escolta... Uma escolta de soldados turcos acaba de chegar!
Pelo santo nome de Maomé! Que escolta é essa, ó Salim?
É a escolta do poderoso grão-vizir Ibraim Maluf el Barad (que Alá o cubra de benefícios!). Os soldados vieram com ordem de levar, imediatamente, o calculista Beremiz Samir!
Para que tanta bulha, ó chacais! — bradei, exaltado. — Isso não tem importância alguma! Naturalmente o vizir, nosso bom amigo e protetor, deseja resolver, com urgência, um problema de matemática, e precisa do valioso auxílio do nosso sábio calculista!
As minha previsões saíram certas como os cálculos mais perfeitos de Beremiz.
Momentos depois, levados pelos oficiais da escolta, chegamos ao palácio do vizir Maluf.
Encontramos o poderoso ministro no rico salão das audiências, acompanhado de três auxiliares de sua confiança. Tinha na mão uma folha cheia de números e cálculos.
Que novo problema seria aquele que viera perturbar tão profundamente o espírito do digno auxiliar do califa?
O caso é grave, ó Calculista! — começou o vizir, dirigindo-se a Beremiz. — Acho-me, no momento, embaraçado com um dos mais complicados problemas que tenha visto em toda a minha vida. Quero informar-vos minuciosamente dos antecedentes do caso, pois só com vosso auxílio poderemos, talvez, descobrir uma solução.
E o vizir narrou o seguinte:
Anteontem, poucas horas antes de nosso glorioso califa Al-Motacém, Emir dos Crentes, partir para Báçora (onde vai ficar três semanas), houve um incêndio na prisão. Durante muitas horas a violência do fogo ameaçou destruir tudo. Os detentos, fechados em suas celas, sofreram, por muito tempo, tremendo suplício, torturados por indizíveis angústias. Diante disso, o nosso generoso soberano determinou fosse reduzida à metade a pena de todos os condenados! A princípio não demos importância alguma ao caso, pois parecia muito simples ordenar se cumprisse, com todo o rigor, a sentença do rei. No dia seguinte, porém, quando a caravana do Príncipe dos Crentes já se achava longe, verificamos que a tal sentença de última hora envolvia problema extremamente delicado, sem a solução do qual não poderia ter perfeita execução.
Entre os detentos — prosseguiu o ministro — beneficiados pela lei, existe um contrabandista de Báçora, chamado Sanadique, preso há quatro anos, condenado a prisão perpétua. A pena desse homem deve ser reduzida à metade. Ora, como ele foi condenado à prisão por toda a vida, segue-se que deverá agora, em virtude da lei, ser perdoado da metade da pena, ou melhor, da metade do tempo que ainda lhe resta viver. Viverá ele, ainda, certo tempo “x”, desconhecido! Como dividir por dois um período de tempo que ignoramos? Como calcular a metade do “x” da vida?
Depois de meditar alguns minutos, Beremiz respondeu:
Esse problema parece-me extremamente delicado, por envolver questão de pura Matemática e interpretação de lei. É um caso que interessa à justiça dos homens e à verdade dos números. Não posso discuti-lo, com os prodigiosos recursos da Álgebra e da Análise, antes de visitar a cela em que se acha o condenado Sanadique. É possível que o “x” da vida esteja calculado pelo Destino, na parede da cela do próprio condenado.
Julgo infinitamente estranho o vosso alvitre — observou o vizir. — Não me entra na cabeça a relação que possa existir entre as pragas com que os loucos e os condenados adornam os muros das prisões e a resolução algébrica de tão delicado problema.
Sidi! — atalhou Beremiz. — Encontram-se, muitas vezes, nas paredes das prisões, legendas interessantes, fórmulas, versos e inscrições que nos esclarecem o espírito e nos orientam os sentimentos de bondade e clemência. Conta-se que, certa vez, o rei Mazim, senhor da rica província de Korassã, foi informado de que um presidiário hindu escrevera palavras mágicas na parede de sua cela. O rei Mazim chamou um escriba diligente e hábil e determinou-lhe copiasse todas as letras, figuras, versos ou números que encontrasse nas paredes sombrias da prisão. Muitas semanas gastou o escriba para cumprir, na íntegra, a ordem extravagante do rei. Afinal, depois de pacientes esforços, levou ao soberano dezenas de folhas cheias de símbolos, palavras ininteligíveis, figuras disparatadas, blasfêmias de loucos e números inexpressivos. Como traduzir ou decifrar aquelas páginas repletas de coisas incompreensíveis? Um dos sábios do país, consultado pelo monarca, disse: “Rei! Essas folhas contêm maldições, pragas, heresias, palavras cabalísticas, lendas e até um problema de Matemática com cálculos e figuras.”
Respondeu o rei: “As maldições, pragas e heresias não acordam a curiosidade que me vive no espírito. As palavras cabalísticas deixam-me indiferente; não acredito no poder oculto das letras nem na força misteriosa dos símbolos humanos. Interessa-me, entretanto, conhecer o verso, o problema e a lenda, pois são produções que nobilitam o homem e podem trazer consolo ao aflito, ensinamento ao leigo e advertência ao poderoso.”
Diante do pedido do monarca, disse o ulemá:
Eis os versos escritos por um dos condenados:

A felicidade é difícil porque somos muito difíceis em matéria de felicidade.
Não fales da tua felicidade a alguém menos feliz do que tu.
Quando não se tem o que se ama é preciso amar o que se tem.(3)

Eis agora o problema escrito a carvão na cela de um condenado.

Colocar 10 soldados em cinco filas, tendo cada fila 4 soldados.




Esse problema, aparentemente impossível, tem solução muito simples, indicada pela figura, na qual aparecem cinco filas com 4 soldados em cada.
E a seguir o ulemá, para atender ao pedido do rei, leu a seguinte lenda:
Conta-se que o jovem Tzu-Chang dirigiu-se um dia ao grande Confúcio e perguntou-lhe:
Quantas vezes, ó esclarecido filósofo, deve um juiz refletir antes de sentenciar?
Respondeu Confúcio:
Uma vez hoje; dez vezes amanhã.
Assombrou-se o príncipe Tzu-Chang ao ouvir as palavras do sábio. O conceito era obscuro e enigmático.
Uma vez será suficiente — elucidou com paciência o Mestre — quando o juiz, pelo exame da causa, concluir pelo perdão. Dez vezes, porém, deverá o magistrado pensar, sempre que se sentir inclinado a lavrar sentença condenatória.
E concluiu, com sua incomparável sabedoria:
Erra, por certo, gravemente, aquele que hesita em perdoar; erra, entretanto, muito mais ainda aos olhos de Deus, aquele que condena sem hesitar.”
Admirou-se o rei Mazim ao saber que havia, nas paredes úmidas das enxovias, escrita pelos míseros detentos, tanta coisa cheia de beleza e curiosidade. Naturalmente, em meio de quantos amarguravam seus dias no fundo das celas, havia inteligentes e cultos. Determinou, pois, o rei, fossem revistos todos os processos de julgamento e verificou que inúmeras sentenças traduziam clamorosas injustiças. E assim, em consequência da descoberta feita pelo escriba, viram-se restituídos à liberdade muitos inocentes e foram reparadas dezenas de erros judiciários.
Tudo isso pode ser muito interessante — retorquiu o vizir Maluf. — Mas é bem possível que nas prisões de Bagdá não se possa encontrar figuras geométricas, versos ou lendas morais. Quero ver, porém, o resultado a que pretendeis chegar. Vou permitir, portanto, a vossa visita à prisão.

Notas:
(1) O maior vulto da antiga ciência muçulmana. Em seus livros muitas gerações estudaram Medicina.
(2) Os matemáticos árabes não dispunham de nomes para designar os termos das frações.
(3) Mme. de Staël; Pitágoras; Corneille.

Malba Tahan, em O Homem que Calculava

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Hagar, o Horrível

Talvez assim seja

Por outro lado, estou hoje um pouco cansada e é sobre o prazer do cansaço dolorido que vou falar. Todo prazer intenso toca no limiar da dor. Isso é bom. O sono, quando vem, é como um leve desmaio, um desmaio de amor.
Morrer deve ser assim: por algum motivo estar-se tão cansado que só o sono da morte compensa. Morrer às vezes parece um egoísmo. Mas quem morre às vezes precisa muito.
Será que morrer é o último prazer terreno?

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

O caso do trocador silencioso




O trocador é um modelo de instituição brasileira. Porque, fazendo jus ao título, não troca absolutamente coisa nenhuma. E quando troca, exemplifica de maneira esplêndida a expressão “dar o troco” atirando moedas e caraminguás nos cornes do freguês.
Aproveitando o rebote dos dias do mestre, do médico, da criança e outros bichos, eu, na qualidade de defensor dos fracos e oprimidos (por preços módicos e com direito a pechincha), sugiro aos nossos atarefados políticos a criação do Dia do Trocador. Nesta data querida, o citado profissional teria o direito de revidar, com um soco na cara, qualquer atrevimento do tipo nota de cinco, de dez etc... Bom etc. aí é meio sobre a retórica porque pobre quando vê nota de cinquenta pra cima, trata logo de se livrar dela, antes que os hôme arranjem alguma acusação em seu vasto repertório.
Onde tu arranjou essa nota? Canta logo!
Conceiçãããão...
PÔU!
Mas, como diz o Penteado, toda regra tem exceção e toda exceção caga regra.
O Tinoco, lá do Estácio, foi o único trocador que eu conheci que não só cumpria rigorosamente seu dever como, de quebra, distribuía agradecimentos e sorrisos. Aqui entre nós, o motivo dessa conduta insólita era a Janete. Platinada, graça ao conhecido tônico capilar Louramil, Janete lembrava um pouco a Marilim Monrôu — como gostava de dizer o Tinoco, o que, é bom frisar de passagem (já que falamos em trocador), engrandece a Janete. Tinoco detestava referências a coisas “do estrangeiro. O Brasil dá de zero em tudo”.
Toda sexta-feira, dia de folga do Tinoco, Janete melhorava o astral da
casa com o defumadorIndiano, e nosso herói andava atrás dela, de cueca, na maior bolinação.
Peraí, Cocô! Parece que tem bicho-carpinteiro. Isso aqui é coisa séria...
Ah, o encanto de certos apelidos íntimos!
Acabavam na cama. Durante os chamados folguedos eróticos, Tinoco era silencioso e compenetrado, e Janete era penetrada com a maior gritaria.
Agora, meu amor! Fala!Diz uma coisa daquelas no meu ouvidinho.
E o Tinoco hum, ai, hum, ai, hum, ai, e mais nada.
Depois, Janete ficava um pouquinho triste. Bem que disfarçava, mas seu rosto traía um pensamento oculto parecido com o dos compositores ao receberem direitos autorais do ECAD:(é como se faltasse alguma coisa).
Tinoco reparava na tristeza da Janete e, fazendo cafuné, prometia:
Da próxima vez eu falo. Fica triste não, neguinha. Juro que da próxima vez eu falo.
E Ihufas. Na hora do lesco-lesco, Tinoco, que nem as Otoridades, não tinha nada a declarar.
Perturbada por esse silêncio, Janete decidiu ir a um afamado Centro Espírita na Travessa do Carneiro, a Tenda “Esperança e Ray-O-Vac” — a coisa tá tão preta que até os espíritos da luz estão de lanterna.
No tal centro, Janete contou o problema ao caboclo Pena Poluída, que, após prescrever o Pó Solta-a-Língua, deu-lhe uns passes contra mau-olhado e repetiu três vezes:
O negoço tá mais pra palmito que pra beija-flor.
Em casa, Janete preparou a beberagem amaciada com a cachaça “Insumos Básicos” e explicou pro Tinoco:
Bebe de uma vez só. O caboclo disse que é tiro e queda.
De fato, porém mais pra queda do que pra tiro. Entre huns e ais, o Tinoco deixou cair:
Meus concidadãos! Ai... numa conjuntura econômica que... hum... se define por um aperto... ai... os elementos divisionistas... hum...
E por aí afora. Ou adentro.
Janete chorou a noite inteira, enquanto o Tinoco, desolado, fumava na sala, andando pra lá e pra cá.
Sexta-feira seguinte, Janete voltou ao centro com o Tinoco a tiracolo. O caboclo Pena Poluída ouviu tudo, recomendou que a dosagem do remédio fosse triplicada, e pediu que o casal repetisse com ele a exortação:
Se falar não fosse fácil, onde estaria o José Bonifácio? Boca abre à toa que nem janela. Vide Petrônio Portela.
Pra encerrar, Pena Poluída ajoelhou-se, bateu três vezes com a testa no cimento e foi levado com fratura do frontal pro Souza Aguiar, saravá!
De alma lavada, os pombinhos esvoaçaram pro ninho no maior agarramento. A preliminar foi tremenda. Tinoco disse coisa de ruborizar a própria torcida do Curintia. Mas no jogo principal ficou ruço. Já tava na prorrogação e só pintava hum, ai, hum, ai, hum, ai... Janete, desesperada, sabendo que essas coisas não se resolvem em cobrança de pênalti, apelou pro patriotismo do Tinoco:
Fala, desgraçado! Me xinga! Honra o trocador brasileiro!
Tinoco avermelhou como se fosse explodir e:
F... f... f...
Isso querido! Diz!
F... f... favor dar um passinho a frente que o meio do carro tá vazio!

Aldir Blanc, em Rua dos Artista e Arredores

Viagem a Paris

Ouvi dizer que vai a Paris.
Exato.
A negócio?
Não.
Turista?
Não.
Missão política reservada?
Não.
Tão secreta assim?
Não.
Se não sou indiscreto… transa de amor?
Não.
Está muito misterioso.
Não.
Como não? Saúde, talvez.
Não.
Compreendo que não queira alarmar…
Não.
Busca apenas repouso.
Não.
Fugir a esse calorão dos infernos.
Não.
Fugir do trabalho, então.
Não.
Capricho do momento.
Não.
Tantos nãos devem significar um sim.
Não.
Significam sim. Vou repetir as hipóteses.
Não.
Temos pela frente uma indústria nova, de vulto.
Não.
De qualquer maneira, é financiamento internacional.
Não.
Então a coisa está ficando preta.
Não.
Está preta, e há jogadas que só em Paris.
Não.
Percebe-se alguma coisa no ar.
Não.
Não dá para perceber, mas há.
Não.
Mas pode haver a qualquer momento.
Não.
Nem por hipótese?
Não.
Nenhuma nuvem distante, muito distante mesmo?
Não.
No ano que vem?
Não.
Ouvi mal?
Não.
Sendo assim, é segredo pessoal?
Não.
O coração é quem dita a viagem… eu sei.
Não.
Sim, sim. Pode confessar.
Não.
Hoje em dia essas coisas são públicas. Dão até cartaz.
Não.
Sei que não precisa disso, mas…
Não.
Por que não? Está com medo da imprensa?
Não.
Receia perder a situação social?
Não.
A situação financeira?
Não.
Política?
Não.
Pois olhe, melhor é preparar o ambiente.
Não.
Claro que sim. Insinuar mudança em sua vida.
Não.
Discretamente.
Não.
De leve, só uma pincelada. Deixe comigo.
Não.
Não abro manchete nem boto aquela foto em duas colunas, aquela bacana, lembra?
Não.
Só cinco linhas.
Não.
Duas.
Não.
Mas tenho de dizer alguma coisa.
Não.
O senhor é notícia.
Não.
Pode dizer que não, mas é sim.
Não.
Puxa vida, o senhor hoje está medonho. Resolveu responder não a tudo que é pergunta minha?
Não.
Ah, é? Então vamos recomeçar: o senhor vai a Paris?
Vou.
E que é que vai fazer em Paris?
Ver.
Ver o quê?
O último tango em Paris.
E por que é que não me disse isso logo, homem de Deus?
Você não me perguntou, por que eu havia de responder?

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica