03/10/2026

Niño Josele & Marisa Monte – Nem Um Passo Atrás

Episódio

Ele tinha o costume de gesticular seu pensamento,
de sorte que estar parado era já ter compreendido
ou não ter dúvidas. Foi um abalo enorme quando se deu o que conto,
porque ultimamente ocupava a compreensão em tomar os remédios,
não comer sal, medir cor e volume de sua urina difícil.
Sem que ninguém suspeitasse ficou em pé na sala
e começou a cantar, pondo e tirando da jarra o galhinho de flor,
a voz como antes, firme, alta, grossa, anterior
a qualquer debilidade do seu corpo.
Um susto às avessas do susto foi o nosso,
porque a barriga dele continuava altíssima e alagava a mina
rompida de sua perna. Fugimos como nas guerras.
Um de nós foi chorar na privada, outro no quintal,
eu inventei uma barata pra matar com um chinelo.
A alegria dele desertava, quase, do que fosse
uma alegria humana e não estávamos à altura de entendê-la.
Sofrer era muito mais fácil.

Adélia Prado, em Bagagem

A velha



Sua primeira menção, um tanto confusa, foi em qualquer manhã, pelo telefone. Uma senhora, muito velha e doente, pedia que o Cônsul lhe fosse à casa, para assunto de testamento. Frau Wetterhuse.
O recado se perdia, obrigação abstrata, no tumulto diário de casos, o Consulado invadindo-se de judeus, sob mó de angústias, famintos de partir, sofridos imenso, em desengano, público pranto e longo estremecer, quase cada rosto prometendo-se a coativa esperança final do suicídio. Vê-los, vinha à mente a voz de Hitler ao rádio — rouco, raivoso. Contra esses, desde novembro, se implacara mais desbordada e atroz a perseguição, dosada brutal. Viesse a guerra, a primeira ordem seria matá-los?
O nome Wetterhuse extinguia-se num zumbido, com o que o Norte tem de mais brumoso. Mas, seguinte, na semana, voltava, a súplica, embaixada-de-jó, apelo insistido. Prometi-me de ir lá. Fazia todo o frio.
Sumia-se no dia noturno a bela, grande cidade hanseática, nem se avistavam seu céu de ferro molhado e as silhuetas das cinco igrejas, suas torres de cobre em azinhavre. Dava-se, que nem caudas de cobras, delgados glaciais chicotes — nevando, fortes flocos — o vento mordaz. Saindo para o Glockengiesserwall, se bem que abafado em roupas, eu tivera que me enregemer, ao resfrio cravador e à umidade, que transia. Via-se, a cada canto, o emblema: pousada num círculo, onde cabia oblíqua a suástica, a águia de abertas asas. A fora, as sombras dos troncos de árvores, na neve, e as curvas dos corvos, o corvo da desdita. Dizia-se que, este, muitos anos faz, seria o mais duro inverno, de concumulados gelos: morriam muitos pássaros. O coração daquela natureza era manso, era mau? Sentia-se um, ao meio de tal ponte, à face do caos e espírito de catástrofe, em tempo tão ingeneroso, ante o critério último — o pecado de nascer — na tese anaximândrica. Todos pertencíamos, assim, mesmo, à vida.
A casa era no Harvesterhude, umbrosa, meio a um jardim que no verão teria sido amável, com seus olmos e os maciços de tuias e rododendros. Toquei e levaram-me ao salão — como se subterrâneo. Havia lá uma invernia de austeridade, o cheiro de irrenovável mofo e de humanidade macerada. Tapeçarias, reposteiros de falbalás, muito antigos móveis, tudo se unia num esfumado: as cinzas da neve. Assustava a esdruxularia daquele ambiente solífugo e antimundano, de sopor e semiviver, o sentido de solidão; circunstando um ar frio. Tinham acendido lareira. Dos lustres descia uma luz, de velas, era luz em cemitério. Esperava-se encontrar, em torno, duendes e lêmures. Encontravam-se criaturas — ao todo cinco mulheres, todas velhas, que se retraíam, estafermáticas, estornicadas nas vestes de veludo ou gorgorão de lã, de golas altas, longas mangas, terrível decoro.
Ao centro, numa poltrona em estrado — deveria ficar mais alta que nós, segundo um rito — a mais anciã. Era extraordinária de velha, exaustamente o rosto, todo angulado, cavado de sulcos, e em cujo esqualor olhos havia, ex-azuis, sem íris, de despupilada estátua. Passaria dos noventa, parecia centenária. Desde as aparências, porém, sabia-se que a gentil-dama, feita às sociais sobrancerias e ao comando íntimo, e a quem o recato levara a levantar-se do leito de semiparalítica, e ser vestida e colocada ali, em elevado assento, de mágoa hirta, de sua lívida vontade. E precisava de ser ouvida. Beijei-lhe a mão, os trêmulos dedos definhados.
Era a Dame Verônika. Dame Angélika, sua filha, e três parentas, as outras, ressemblantes, com, que nem que perucas, os tão brancos cabelos, que teriam sido amarelo-palha. Ordenadamente se sentavam, cada qual com mal pegado sorriso, prontas a conservar-se de parte, sentindo-se demasiado presentes ao versar do assunto conspirável. O qual, a justo ver, elas desconheciam.
Desfez-se um silêncio. Dame Verônika tomou a voz. Dissesse tão-só frases de polidez; repetia-as, balbuz, sob algum afrontamento, com um arrulha de asma. Ora fechava os olhos, sacudia, levíssima, a cabeça em frinas, reprincipiava. Devia de estar repassando-se de algo, muito passado, trazido de um túnel, relutante na resistência à evocação, fato de estrangulada memória. Confundia-se; eu tinha de prestar ouvidos. De repente, encarou-me mais, dava-me o todo gris dos olhos. E começara a falar em português.
Falava-o, tão perfeitamente, e não mais naquela dicção fosca, mas ressurgida, anos d’ora-atrás. E vi — que a voz pertence às estâncias da idade: que, bem assim, nesse teor de tom, que eu jamais ouvira, conversar-se-ia, outro tempo, em solar e saraus, em tertúlias, merendas e cavacos. Era como se falasse figura, de um álbum desbotado.
— “Vivi em vosso país, vossa pequena formosa cidade de Petropolyís... Conheci vosso bom Imperador — ele estudava o hebraico. Vosso Imperador estimava meu marido, Káspar... Dr. Káspar Eswepp, sabeis? Vosso Imperador nos convidava ao paço...”
Relembrava — revocava — sorriu-se a um persistir de imagens? E estremeceu. Voltava às brumas do presente, à sua gélida pátria. Só então entrou a falar sob força de fatos: dos campos-de-prisão, as hitlerocidades, as trágicas técnicas, o ódio abismático, os judeus trateados. Olhávamos, ali, na parede, de corpo inteiro, o marido. — “Ele era judeu, sabeis?”
E — o retamente, o raso: a filha, também tão idosa Dame Angélika, seria teuto-hebreia uma mischling, “mestiça do primeiro grau”, segundo o código hediondo. Dona Verônica o disse, de soçobro. A filha, por sua eiva aboriginal, corria grave perigo. Ela, a Mãe, tinha de solicitar-se daquilo.
Sofria, seca. Preparava-se? Para desvendar-me seu motivo: o drama, sobreestranho, o coração da coisa, vagarosíssima verdade:
— “Minha filha não é filha do meu marido. Nem ela, nem ele jamais o souberam... Foi em vosso país... O pai da minha filha era um amigo nosso, que nos frequentava... O pai de minha filha não era de sangue judeu...”
Teve um sorrisinho titânico. Endireitou o busto, alisava-se o rosto, num ademã de extrema dignidade, fizera-se altiva. Num momento, ela precisara de profundar um poço, arrancar em si o que tanto sepultara à força do tempo, desistir do longo benefício do olvido. E já era a dor de dar, à fé, uma sua turpitude secreta, exsuscitar um negrego, a fementira. Seu coração não pesava um miligrama?
Ali, as outras quatro mulheres permaneciam, salvaguardadas, em circunstância de surda sociedade, sem participação emotiva. Aquelas meditavam o que não podiam entender — Dame Angélika, damas Filippa, Osna e Alwyna.
Dona Verônica não se voltara para a filha; só a mim encarava, ávida. Não sem intuito descobrira-me o inarrável. Tinha de satisfazer o problema, intentar o sarcimento. Sanar o obviável. — “Não? Sim?” E queria reforçar-se com minha opinião, tomar conselho. A filha não tinha sangue da outra raça. —“Por que, pois?” Pertencia-lhe, fidedigna,declarar aquilo, fatal como o sol, verifazer o real, renegar o inautêntico. Tomaria o grave passo. A tanto preço — o de se inquinar e malsinar-se, para o pouco restante da vida. Em dizer, porém, que não lhe era possível prestar fatos, produzir testemunhas, recorrer no caso à prova de sangue, nem ao menos apelar para a razão pública. Tão longe, tantos anos... Mas, quem sabe, poderia ter o apoio de um grande, forte país, de gente tão fidalga, de tanta ponderância! — “Sim. E?” Pegou o lenço, tivera um jacto de tosse. Ansiosa, querulante: — “Foi em vossa formosa, pequena cidade de Petropolyís...”
Não, em fato. Não. Tive de sacudir a cabeça. Dame Angélika nem mesmo era brasileira. Tudo indeterminado, sem fundamento certo, apenas o citar de um romance perdido no antigo, tão esfiapável, pátina, voz para memória. Quem iria querer crer? Ela mesma, Dona Verônica, não se lograva de ilusões. Ah, vivera demasiado tempo, distanciara-se das possibilidades manejáveis das coisas. Teve o chluque de um soluço. Ofegou. Ia abater-se. Súbito, porém, rompendo-se do desalento, algo flamejou nela, que nem um rebrilho de alma — uma glória — e exclamou:
— “Ele foi um vosso compatriota, um homem nobre... O amor de minha vida!...”
Sopitou-se, desopressa. Como poder pagar sua dívida dourada? Levantei-me; eu nem era um cooperador passivo do destino. Também aquelas senhoras presentes se levantaram, em sincera, distinta cortesia. Ali, borbulhavam pensamentos. Desfalecidos espíritos. Só silêncio. Dona Verônica mostrava-nos seu comprido rosto, escalavrado, blafardo, diáfano pergaminho. Dona Angélica passava-lhe meiga a mão por trás da cabeça. Todos nós jazíamos de pé, em volta dela. A longa mulher. O sistema do mundo. A velha vida.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

O impagável Quino

Fama

Quantos, depois de serem celebrados pela fama, foram entregues ao esquecimento. Quantos, após celebrarem a fama alheia, estão mortos há tempos.

Marco Aurélio, em Meditações

O corpo



Xavier era um homem truculento e sanguíneo. Muito forte esse homem. Adorava tangos. Foi ver O último tango em Paris e excitou-se terrivelmente. Não compreendeu o filme: achava que se tratava de filme de sexo. Não descobriu que aquela era a história de um homem desesperado.
Na noite em que viu O último tango em Paris foram os três para cama: Xavier, Carmem e Beatriz. Todo o mundo sabia que Xavier era bígamo: vivia com duas mulheres.
Cada noite era uma. Às vezes duas vezes por noite. A que sobrava ficava assistindo. Uma não tinha ciúme da outra.
Beatriz comia que não era vida: era gorda e enxundiosa. Já Carmem era alta e magra.
A noite do último tango em Paris foi memorável para os três. De madrugada estavam exaustos. Mas Carmem se levantou de manhã, preparou um lautíssimo desjejum – com gordas colheres de grosso creme de leite – e levou-o para Beatriz e Xavier. Estava estremunhada. Precisou tomar um banho de chuveiro gelado para se pôr em forma de novo.
Nesse dia – domingo – almoçaram às três horas da tarde. Quem cozinhou foi Beatriz, a gorda. Xavier bebeu vinho francês. E comeu sozinho um frango inteiro. As duas comeram o outro frango. Os frangos eram recheados de farofa de passas e ameixas, tudo úmido e bom.
Às seis horas da tarde foram os três para a igreja. Pareciam um bolero. O bolero de Ravel.
E de noite ficaram em casa vendo televisão e comendo. Nessa noite não aconteceu nada: os três estavam muito cansados.
E assim era, dia após dia.
Xavier trabalhava muito para sustentar as duas e a si mesmo, as grandes comidas. E às vezes enganava a ambas com uma prostituta ótima. Mas nada contava em casa pois não era doido.
Passavam-se dias, meses, anos. Ninguém morria. Xavier tinha quarenta e sete anos. Carmem tinha trinta e nove. E Beatriz já completara os cinquenta.
A vida lhes era boa. Às vezes Carmem e Beatriz saíam a fim de comprar camisolas cheias de sexo. E comprar perfume. Carmem era mais elegante. Beatriz, com suas banhas, escolhia biquíni e um sutiã mínimo para os enormes seios que tinha.
Um dia Xavier só chegou de noite bem tarde: as duas desesperadas. Mal sabiam que ele estava com a sua prostituta. Os três na verdade eram quatro, como os três mosqueteiros.
Xavier chegou com uma fome que não acabava mais. E abriu uma garrafa de champanha. Estava em pleno vigor. Conversou animadamente com as duas, contou-lhes que a indústria farmacêutica que lhe pertencia ia bem de finanças. E propôs às duas irem os três a Montevidéu, para um hotel de luxo.
Foi uma tal azáfama a preparação das três malas.
Carmem levou toda a sua complicada maquilagem. Beatriz saiu e comprou uma minissaia. Foram de avião. Sentaram-se em banco de três lugares: ele no meio das duas.
Em Montevidéu compraram tudo o que quiseram. Inclusive uma máquina de costura para Beatriz e uma máquina de escrever que Carmem quis para aprender a manipulá-la. Na verdade não precisava de nada, era uma pobre desgraçada. Mantinha um diário: anotava nas páginas do grosso caderno encadernado de vermelho as datas em que Xavier a procurava. Dava o diário a Beatriz para ler.
Em Montevidéu compraram um livro de receitas culinárias. Só que era em francês e elas nada entendiam. As palavras mais pareciam palavrões.
Então compraram um receituário em castelhano. E se esmeraram nos molhos e nas sopas. Aprenderam a fazer rosbife. Xavier engordou três quilos e sua força de touro acresceu-se.
Às vezes as duas se deitavam na cama. Longo era o dia. E, apesar de não serem homossexuais, se excitavam uma à outra e faziam amor. Amor triste.
Um dia contaram esse fato a Xavier.
Xavier vibrou. E quis que nessa noite as duas se amassem na frente dele. Mas, assim encomendado, terminou tudo em nada. As duas choraram e Xavier encolerizou-se danadamente.
Durante três dias ele não disse nenhuma palavra às duas.
Mas, nesse intervalo, e sem encomenda, as duas foram para a cama e com sucesso.
Ao teatro os três não iam. Preferiam ver televisão. Ou jantar fora.
Xavier comia com maus modos: pegava a comida com as mãos, fazia muito barulho para mastigar, além de comer com a boca aberta. Carmem, que era mais fina, ficava com nojo e vergonha. Sem-vergonha mesmo era Beatriz que até nua andava pela casa.
Não se sabe como começou. Mas começou.
Um dia Xavier veio do trabalho com marcas de batom na camisa. Não pôde negar que estivera com a sua prostituta preferida. Carmem e Beatriz pegaram cada uma um pedaço de pau e correram pela casa toda atrás de Xavier. Este corria feito um desesperado, gritando: perdão! perdão! perdão!
As duas, também cansadas, afinal deixaram de persegui-lo.
Às três horas da manhã Xavier teve vontade de ter mulher. Chamou Beatriz porque ela era menos rancorosa. Beatriz, mole e cansada, prestou-se aos desejos do homem que parecia um super-homem.
Mas no dia seguinte avisaram-lhe que não cozinhariam mais para ele. Que se arranjasse com a terceira mulher.
As duas de vez em quando choravam e Beatriz preparou para ambas uma salada de batata com maionese.
De tarde foram ao cinema. Jantaram fora e só voltaram para casa à meia-noite. Encontrando um Xavier abatido, triste e com fome. Ele tentou explicar:
– É porque às vezes tenho vontade durante o dia!
– Então, disse-lhe Carmem, então por que não volta para casa?
Ele prometeu que assim faria. E chorou. Quando chorou, Carmem e Beatriz ficaram de coração partido. Nessa noite as duas fizeram amor na sua frente e ele roeu-se de inveja.
Como é que começou o desejo de vingança? As duas cada vez mais amigas e desprezando-o.
Ele não cumpriu a promessa e procurou a prostituta. Esta excitava-o porque dizia muito palavrão. E chamava-o de filho da puta. Ele aceitava tudo.
Até que veio um certo dia.
Ou melhor, uma noite. Xavier dormia placidamente como um bom cidadão que era. As duas ficaram sentadas junto de uma mesa, pensativas. Cada uma pensava na infância perdida. E pensaram na morte. Carmem disse:
– Um dia nós três morreremos.
Beatriz retrucou:
– E à toa.
Tinham que esperar pacientemente pelo dia em que fechariam os olhos para sempre. E Xavier? O que fariam com Xavier? Este parecia uma criança dormindo.
– Vamos esperar que Xavier morra de morte morrida? perguntou Beatriz.
Carmem pensou, pensou e disse:
– Acho que devemos as duas dar um jeito.
– Que jeito?
– Ainda não sei.
– Mas temos que resolver.
– Pode deixar por minha conta, eu sei o que faço.
E nada de fazerem nada. Daqui a pouco seria madrugada e nada teria acontecido. Carmem fez para as duas um café bem forte. E comeram chocolate até à náusea. E nada, nada mesmo.
Ligaram o rádio de pilha e ouviram uma lancinante música de Schubert. Era piano puro. Carmem disse:
– Tem que ser hoje.
Carmem liderava e Beatriz obedecia. Era uma noite especial: cheia de estrelas que as olhavam faiscantes e tranquilas. Que silêncio. Mas que silêncio. Foram as duas para perto de Xavier para ver se se inspiravam. Xavier roncava. Carmem realmente inspirou-se.
Disse para Beatriz:
– Na cozinha há dois facões.
– E daí?
– E daí nós somos duas e temos dois facões.
– E daí?
– E daí, sua burra, nós duas temos armas e poderemos fazer o que precisamos fazer. Deus manda.
– Não é melhor não falar em Deus nessa hora?
– Você quer que eu fale no Diabo? Não, falo em Deus que é dono de tudo. Do espaço e do tempo.
Então foram à cozinha. Os dois facões eram amolados, de fino aço polido. Teriam força?
Teriam, sim.
Foram armadas. O quarto estava escuro. Elas faquejaram erradamente, apunhalando o cobertor. Era noite fria. Então conseguiram distinguir o corpo adormecido de Xavier.
O rico sangue de Xavier escorria pela cama, pelo chão, um desperdício.
Carmem e Beatriz sentaram-se junto à mesa da sala de jantar, sob a luz amarela da lâmpada nua, estavam exaustas. Matar requer força. Força humana. Força divina. As duas estavam suadas, mudas, abatidas. Se tivessem podido, não teriam matado o seu grande amor.
E agora? Agora tinham que se desfazer do corpo. O corpo era grande. O corpo pesava.
Então as duas foram ao jardim e com auxílio de duas pás abriram no chão uma cova.
E, no escuro da noite – carregaram o corpo pelo jardim afora. Era difícil porque Xavier morto parecia pesar mais do que quando vivo, pois escapara-lhe o espírito. Enquanto o carregavam, gemiam de cansaço e de dor. Beatriz chorava.
Puseram o grande corpo dentro da cova, cobriram-na com a terra úmida e cheirosa do jardim, terra de bom plantio. Depois entraram em casa, fizeram de novo café, e revigoraram-se um pouco.
Beatriz, muito romântica que era – vivia lendo fotonovelas onde acontecia amor contrariado ou perdido – Beatriz teve a ideia de plantarem rosas naquela terra fértil.
Então foram de novo ao jardim, pegaram uma muda de rosas vermelhas e plantaram-na na sepultura do pranteado Xavier. Amanhecia. O jardim orvalhado. O orvalho era uma bênção ao assassinato. Assim elas pensaram, sentadas no banco branco que lá havia.
Passaram-se dias. As duas mulheres compraram vestidos pretos. E mal comiam. Quando anoitecia a tristeza caía sobre elas. Não tinham mais gosto de cozinhar. De raiva, Carmem, a colérica, rasgou o livro de receitas em francês. Guardou o castelhano: nunca sabia se ainda não seria necessário.
Beatriz passou a ocupar-se da cozinha. Ambas comiam e bebiam em silêncio. O pé de rosas vermelhas parecia ter pegado. Boa mão de plantio, boa terra próspera. Tudo resolvido.
E assim ficaria encerrado o problema.
Mas acontece que o secretário de Xavier estranhou a longa ausência. Havia papéis urgentes a assinar. Como a casa de Xavier não tinha telefone, foi até lá. A casa parecia banhada de mala suerte. As duas mulheres disseram-lhe que Xavier viajara, que fora a Montevidéu. O secretário não acreditou muito mas pareceu engolir a história.
Na semana seguinte o secretário foi à Polícia. Com Polícia não se brinca. Antes os policiais não quiseram dar crédito à história. Mas, diante da insistência do secretário, resolveram preguiçosamente dar ordem de busca na casa do polígamo. Tudo em vão: nada de Xavier.
Então Carmem falou assim:
— Xavier está no jardim.
— No jardim? fazendo o quê?
— Só Deus sabe o quê.
— Mas nós não vimos nada nem ninguém.
Foram ao jardim: Carmem, Beatriz, o secretário de nome Alberto, dois policiais, e mais dois homens que não se sabia quem eram. Sete pessoas. Então Beatriz, sem uma lágrima nos olhos, mostrou-lhes a cova florida. Três homens abriram a cova, destroçando o pé de rosas que sofriam à toa a brutalidade humana.
E viram Xavier. Estava horrível, deformado, já meio roído, de olhos abertos.
— E agora? disse um dos policiais.
— E agora é prender as duas mulheres.
— Mas, disse Carmem, que seja numa mesma cela.
— Olhe, disse um dos policiais diante do secretário atônito, o melhor é fingir que nada aconteceu senão vai dar muito barulho, muito papel escrito, muita falação.
— Vocês duas, disse o outro policial, arrumem as malas e vão viver em Montevidéu. Não nos deem maior amolação.
As duas disseram: muito obrigada.
E Xavier não disse nada. Nada havia mesmo a dizer.

Clarice Lispector, em A Via Crucis do Corpo

02/10/2026

Coragem | Triêtu

Correnteza



7

Começa por procurar entre os meninos que jogam bola nas ruas do bairro. Os relatos indicavam que eles teriam visto Cid ser abordado e levado por policiais. Rita Preta segue de novo até a casa de dona Conceição, faz a mulher repetir o que já havia contado, tentando retirar alguma informação que pudesse ter passado despercebida. Mas tudo o que ela sabe já tinha sido dito: os meninos viram Cid ser parado por um grupo de policiais — Quantos? Dois? Três? Quatro? — e depois desaparecer. “Mas quem são esses meninos?”, Rita insiste. A mulher não os conhece. Confessa que vive sozinha naquela casa, evitando conversar com qualquer pessoa. Bastavam os vizinhos barulhentos com o aparelho de som nas alturas nos fins de semana.
“Só quero paz”, dona Conceição diz. “Recebo o benefício do meu marido. Sou viúva. Não conheço quase ninguém por aqui. É só bom dia e boa tarde para essa gente porque não quero intimidade. Conheço seu Aranha porque de vez em quando preciso de serviço de conserto de casa. Sabe como é.” Havia um certo exagero em sua recusa, uma distorção no que contava. Os vizinhos sabiam que dona Conceição é intrometida, espalha boatos, fala da vida alheia.
Rita sai pelas ruas do bairro. Ela veio viver na vila depois que o deslizamento de uma encosta condenou a casa onde morava, e a defesa civil da cidade interditou os imóveis situados na área de risco. Coube a ela procurar um aluguel que pudesse ser pago com o salário da loja de móveis, onde começou cuidando da limpeza e depois, como era curiosa e proativa, aprendeu a montar e desmontar armários. Só deixou esse emprego porque o proprietário ficou inválido após um acidente vascular e a família se desfez do negócio. Três filhos para criar e o imprestável do pai do Juca, Wilson, atormentando sua vida. Como ele não se mexia para resolver os problemas da casa, Rita Preta teve que se virar sozinha para encontrar outra casa. Em dias de chuva forte, a sirene tocava pedindo que os moradores se dirigissem a um local seguro — na comunidade onde morava era uma escola municipal —, mas Rita nunca deixou a casa, sempre com medo de perder para os bandidos o pouco que tinha. Não queria se sentir miserável em meio a colchões e cobertores mofados, uma multidão que gritava e se desesperava, enquanto outras pessoas aguardavam resilientes o tempo melhorar. Naquela hora, ela se apegava aos santos e encantados, pedia misericórdia por sua família. Não conseguia dormir e atravessava a noite em claro. Vez ou outra conseguia escutar o ruído da terra deslizando em pequenas porções, levando arbustos e mato e tudo que encontrava pelo caminho. Outras vezes as coisas permaneciam inalteradas, apenas a chuva caía sem interrupções, embora os sons ecoassem incessantes em seu corpo.
Então, ela se sentiu aliviada quando por fim encontrou a casa atual. Poderia pagar o aluguel, mesmo que o valor continuasse alto para seu orçamento. Estava muito longe de ter a dignidade das casas onde havia trabalhado ou mesmo da casa simples de sua avó na roça. Mofo em alguns pontos das paredes, o banheiro acessado depois de atravessar a cozinha, o teto baixo que tornava o ambiente ainda mais quente. A vizinhança barulhenta e o medo quando relatavam que o tráfico estava em guerra. Não era muito diferente da comunidade onde tinha morado, mas a constância da vida na casa anterior criara o hábito, e o fato de estar lá havia algum tempo a deixava segura. Quando olhava para Wilson deitado no sofá assistindo televisão, enquanto ela precisava sair com uma caixa de ferramentas para armar os móveis baratos de fibra de madeira — os recém-chegados e os vendidos —, além de limpar a loja, se enchia de raiva. Considerava que a exploração não estava apenas com os superiores, mas também habitava as quatro paredes de uma casa.
Rita conhecia de forma razoável o bairro, os pequenos comércios, boa parte das mudanças vividas nos últimos anos. Aquela era a quarta casa em que morava na comunidade — e quando contava as quase três décadas em Salvador, as casas onde residiu haviam passado de dez, sendo a primeira moradia a dependência de empregada no apartamento dos patrões.
Então ela anda por calçadas estreitas, desviando dos postes de energia elétrica instalados no meio do caminho, a rede elétrica sobrecarregada de fios, poluindo o horizonte daquela paisagem. Rita não consegue encontrar nenhuma criança capaz de responder à sua pergunta e que talvez estivesse brincando na rua quando Cid desapareceu. Somente mulheres carregando sacolas, estudantes passeando de uniforme escolar — matando aula —, bicicletas com cestos de pão, motocicletas, trabalhadores entrando e saindo do bairro, descendo e subindo dos poucos ônibus que fazem rotas nas vias estreitas.
Rita Preta precisa perguntar e parece não sentir vergonha, mesmo ciente de que as pessoas podem julgá-la. Retira a foto três por quatro da bolsa — não tem certeza de que era a mais recente, apesar de achar que, nela, Cid está sem as expressões do rosto quase adulto que tem agora. Ela entra num bar. O proprietário para de secar o balcão, fita a fotografia para repetir com paciência que não o vira. Rita entra numa mercearia, pergunta outra vez. A fotografia está levemente úmida, suas mãos estão suadas pela combinação de ansiedade e calor. Não, ninguém tinha visto. Ela aborda duas testemunhas de Jeová paradas na esquina ofertando publicações, com sombrinhas nas mãos para se proteger do sol. Também não tinham visto. Antes que a convidassem para um estudo bíblico, Rita se põe a caminhar sem encontrar sombra onde possa se proteger do calor difícil de suportar.
Encontra uma borracharia funcionando num barraco de madeira tão pequeno quanto uma cabine de banheiro químico. Faz a mesma pergunta ao homem de macacão azul-marinho sujo e puído. Ele não examina a foto, como Rita gostaria que tivesse feito. Está ocupado com a reparação de um pneu furado, mergulhando-o na água imunda armazenada numa banheira velha à procura de sinais de bolhas de ar para saber se a força foi feita. Ela espera mais um pouco e pergunta sobre os meninos que brincam de futebol. “É para o lado de lá”, o homem aponta sem olhar, na “travessa Maravilha.” Perto da casa de Daiane, Rita pensa, e agradece ao borracheiro pela informação.
Enxuga o suor que lhe escorre do rosto e se põe a caminhar. Naquela primeira hora não há crianças ou adolescentes brincando de futebol. Rita resolve voltar para casa por caminhos alternativos, adentrando áreas novas, becos, casebres, algumas casas melhores, perguntando a um e outro. Encontra carros abandonados, pequenos montes de lixo, vasos de plantas. Está disposta a perguntar a quem atravessar seu caminho, do pastor ao traficante. Rita verifica o celular: chamadas perdidas do supermercado — querem a justificativa de sua ausência naquele turno e, pelo número, deve ser da sala de recursos humanos; aviso de cobrança do novo cartão de crédito com fatura em atraso; nenhuma chamada dos filhos. Ela telefona de novo para o celular de Cid — a chamada é encaminhada para a caixa postal. Olha para a tela do aparelho com os olhos marcados pelas noites maldormidas, o semblante envelhecido. Guarda-o na bolsa e continua a caminhar.

Antes do pôr do sol, Rita sai outra vez. Anda de novo pelo bairro. Mesmo morando há anos naquela fração da cidade, sente-se agora conhecendo-a um pouco mais pela exploração realizada nos últimos dias, em particular nas últimas horas. Continua a mostrar a fotografia e tem certeza de que àquela altura todos sabem de quem ela está falando. Todos sabem que Cid, filho mais velho de Rita Preta, moradora da travessa Angélica, desapareceu. Todos têm repetido entre si que ele foi levado pela polícia, mas as mesmas pessoas têm sonegado informações reiteradas vezes a Rita por medo, e o medo parece servir à autoproteção. Não porque a conheçam bem. Eles não sabem de sua determinação. Os vizinhos mais próximos até a acham um tanto descuidada com os filhos por passar longos períodos do dia fora de casa, seja trabalhando, seja na companhia de seus amantes.
Ela se cansa daquela caminhada sem rumo. Cansada não é bem a palavra, mas o corpo pede que se deixe sentar no meio-fio quente de fim de tarde para recuperar a energia despendida entre o estado de tensão permanente, o calor, as caminhadas e as noites sem dormir. Rita reflete sobre o tempo passado naquela busca. Ansiosa por natureza, sente-se como se estivesse perto de gritar. Está magoada e com raiva do filho por fazê-la padecer de preocupação. Se a história da polícia for verdadeira, ela se sentirá ainda pior. Mas não quer supor nada que não seja encontrá-lo. As diferenças serão acertadas depois.
Levanta-se e segue adiante. Está vestida com uma blusa sem mangas para suportar a umidade e, com um pouco de dificuldade, volta a colocar o celular no bolso da bermuda jeans. Nos últimos meses seu corpo se tornou mais volumoso — gorda é a palavra que quer evitar por puro preconceito. Não se sente mal por isso, pelo contrário, acha que atrai olhares para suas formas, o que não é nada ruim para alguém que chegou aos quarenta anos.
Desviando do caminho mais curto para a entrada da vila, ela encontra crianças jogando futebol no asfalto, e espera com certa ingenuidade que sejam “os meninos” do relato de dona Conceição. As sandálias se transformaram em marcações das traves e eles correm descalços, sem camisa, colidindo uns com os outros na disputa pela bola. Rita espera paciente por uma interrupção do jogo. Quando por fim param para discutir uma penalidade, ela se aproxima sem cumprimentá-los, mostra a fotografia do filho.
Embora todos aparentem ter uma idade próxima à de Juca, alguns dizem que conhecem Cid — assim como conhecem o mais novo —, por estudarem na mesma escola. Os garotos se olham, como se não estivessem entendendo do que Rita fala. Ela compreende que não queiram dizer nada, a família deve ter incutido medo neles. Alguns daqueles meninos viviam com o pai e a mãe. Outros, apenas com as mães. Alguns, na ausência dos pais, moravam com as avós. Ela pergunta se viram um carro da polícia alguns dias atrás. Uns confirmam, outros não. Uns dizem que estavam presentes, outros permanecem em silêncio.
Rita percebe que o interrogatório dirigido aos garotos pode não resultar em nada. Resolve não insistir. Ela se despede pedindo que, se alguém souber de informações sobre Cid, por favor a avise, ela tem uma recompensa em dinheiro — mente, não tem um centavo no bolso, e o salário a ser creditado na conta bancária no começo da próxima semana está comprometido com pagamentos. Dois garotos se entreolham. A troca de olhares, depois de tantas horas de perguntas e buscas, soa como um sinal de esperança.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo

Confia no teu corre

Confia no teu corre
e fica de boa.
Afia teu trampo
nas lâminas das incertezas,
todo mundo certo
não quer dizer
que você está errado.
Não ande com caranguejos
e sonhe com as mãos,
deixa o coração no presente
e os olhos no futuro.
Muitas vezes o sucesso fica no passado
e ser importante é para sempre.
Cuide da raiz e lapide as asas,
porque abaixo do radar também se voa.

Sérgio Vaz, em Flores da batalha

Leng Jun, o pintor chinês do hiper-realismo que impressiona com obras que parecem fotografias

 







Fonte: acesse aqui

Janela sobre uma mulher (I)

Essa mulher é uma casa secreta.
Em seus cantos, guarda vozes e esconde fantasmas.
Nas noites de inverno, jorra fumaça.
Quem entra nela, dizem, não sai nunca mais.
Eu atravesso o fosso profundo que a rodeia. Nessa casa serei habitado. Nela me espera o vinho que me beberá. Muito suavemente bato na porta, e espero.

Eduardo Galeano, em As Palavras Andantes

A Contadora de Filmes


[9]

Meu pai sempre dizia, quando falava do sortilégio dos nomes com eme, que esse era o segredo dos maiores artistas de cinema. Se não, bastava olhar para Norma Jean: não passava de uma empregadinha de loja até se rebatizar como Marilyn Monroe. Ou, se preferissem o exemplo ao contrário, aí estava Cantinflas, o maior dos cômicos do cinema hispânico, e que tinha triunfado graças a se chamar na vida real Mario Moreno. Era simples assim. Não acredita? Meu pai fazia uma pausa, olhava para o interlocutor como o verdugo olharia para o condenado antes do golpe, e acrescentava aquilo que uma vez tinha ouvido por aí e que para ele vinha a ser a confirmação indesmentível de sua teoria, uma espécie de machadada mortal.
“A senhorita sabia, paisaninha” – dizia ele, saboreando as palavras – “que no começo, quando era apenas um artista de circo, Mario Moreno atuava fazendo dupla com um cômico que se chamava Manuel Medel?”
Agora chego a acreditar que gostava mais de Marilyn Monroe pelos emes de seu nome que por qualquer outra coisa. Ele sempre quis ter uma “filha mulher” para batizar desse jeito. Minha mãe dizia que nem morta. Ela garantia detestar “essa loura oxigenada que nem sabe trabalhar direito nos filmes”. E, no entanto, era a atriz que ela imitava ao caminhar. E quando, pouco antes de nos abandonar, ouviu a notícia da sua morte, chorou a noite inteira, inconsolavelmente.
Como em casa, para decepção de meu pai, começou a nascer um homem atrás de outro, não houve maiores problemas na hora de escolher os nomes, a não ser quando chegou o quarto filho. Foi quando ele não aguentou mais e quis batizá-lo como Marilyno.
Minha mãe se opôs com uma faca de cozinha na mão.
A grande guerra, porém, foi quando eu nasci. Diziam que meu pai flutuava de alegria quando soube que enfim tinha nascido uma princesinha. Agora sim, ele ia ter uma Marilyn em casa. Mas minha mãe se negou e até ameaçou com divórcio. No fim meu pai se conformou com o par de emes, e passei a me chamar Maria Margarita, um nome que, para dizer a verdade, jamais gostei muito: me soava a mansidão, a conformismo, a mãe submissa.
E eu queria ser outra coisa na vida.
Não sabia o quê, mas outra coisa.
Nisso eu me parecia com a minha mãe. Ela nunca estava conformada com nada, andava sempre mudando o penteado, provando maquiagens novas, ensaiando beicinhos e poses na frente do espelho, repetindo uma coisa que a menina que eu era naquele tempo mal atinava a entender:
“Por que se conformar com ser vaga-lume, digo eu, podendo ser estrela?”
E se requebrava feito louca na frente do espelho.
Por isso, quando me tornei conhecida como contadora de filmes, procurei um nome mais de acordo com a minha arte. Mas continuo adiantando a história.
Paciência, essa parte vem depois.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

01/10/2026

Marina Sena, Mari Jasca e Zélia Duncan | Voltei pra Mim

 

O impagável Quino

Diário de Bernardo Soares

133.


O mundo, monturo de forças instintivas, que em todo o caso brilha ao sol com tons palhetados de ouro claro e escuro.
Para mim, se considero, pestes, tormentas, guerras, são produtos da mesma força cega, operando uma vez através de micróbios inconscientes, outra vez através de raios e águas inconscientes, outra vez através de homens inconscientes. Um terramoto e um massacre não têm para mim diferença senão a que há entre assassinar com uma faca e assassinar com um punhal. O monstro imanente nas coisas tanto se serve — para o seu bem ou o seu mal, que, ao que parece, lhe são indiferentes – da deslocação de um pedregulho na altura ou da deslocação do ciúme ou da cobiça num coração. O pedregulho cai, e mata um homem; a cobiça ou o ciúme armam um braço, e o braço mata um homem. Assim é o mundo, monturo de forças instintivas, que todavia brilha ao sol com tons palhetados de ouro claro e escuro.
Para fazer face à brutalidade de indiferença, que constitui o fundo visível das coisas, descobriram os místicos que o melhor era repudiar.
Negar o mundo, virar-se dele como de um pântano a cuja beira nos encontrássemos. Negar como o Buda, negando-lhe a realidade absoluta; negar como o Cristo, negando-lhe a realidade relativa; negar.
Não pedi à vida mais do que ela me não exigisse nada. À porta da cabana que não tive sentei-me ao sol que nunca houve, e gozei a velhice futura da minha realidade cansada (com o prazer de a não ter ainda).
Não ter morrido ainda basta para os pobres da vida, e ter ainda a esperança para contente com o sonho só quando não estou sonhando, contente com o mundo só quando sonho longe dele. Pêndulo oscilante, sempre movendo-se para não chegar, indo só para voltar, preso eternamente à dupla fatalidade de um centro e de um movimento inútil.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

1. Folguedos da Libertação



“Todos respiravam felicidade, tudo era delírio.”
Machado de Assis,
sobre o Treze de Maio de 1888

O projeto era singelo, brevíssimo, de apenas duas linhas, um dos mais curtos já votados no parlamento brasileiro. Sua disposição principal, no artigo primeiro, continha só doze palavras. Em seguida vinha uma determinação complementar e usual nos dispositivos legais, com mais cinco vocábulos. Nada além disso. Assim era o texto da lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888, mais conhecida como Lei Áurea, talvez a mais importante de toda a história do Brasil:[1]

Art. 1º É declarada extinta desde a data desta Lei a escravidão no Brasil.
Art. 2º Revogam-se as disposições em contrário.

Apesar de sua aparente simplicidade, nunca um projeto de lei mobilizou tanto a atenção dos brasileiros. Nunca tantos interesses se viram contrariados. Nunca os destinos nacionais estiveram tão em jogo. Nunca haveria uma ruptura tão drástica na realidade do país. A votação não foi tranquila nem teve aprovação unânime ou fácil. Entre a apresentação da proposta, no dia 3 de maio, e a votação final, no dia 13, os debates foram acirrados. Concentrada nas galerias e nas imediações do parlamento, a multidão ansiosa acompanhava as notícias. “A Câmara permaneceu cercada, como em estado de sítio”, relatou o advogado e historiador Antônio Evaristo de Moraes, testemunha dos acontecimentos. “Tudo quanto lá dentro se fazia irradiava cá fora.” Os jornais reproduziam discursos e decisões em manchetes garrafais, retransmitidas às regiões distantes pelo telégrafo e pelo telefone, novidades tecnológicas ainda recentes no país.
Dois brasis com visões diametralmente opostas em relação ao futuro se confrontaram naqueles memoráveis e tensos dez dias de maio. De um lado, havia os que sonhavam com uma nação livre do cativeiro, em que nenhum homem ou mulher jamais voltasse a ser vendido em leilões em praça pública, tratado como mercadoria qualquer, em que a lei do chicote deixasse de mediar as relações entre um grupo de brasileiros e outro, em que ninguém fosse discriminado devido à cor da pele ou à origem étnica. De outro, uma aristocracia rural predatória e escravista, que nos quatro séculos anteriores construíra seu poder e sua fortuna pelo uso da violência e da exploração indigna do trabalho alheio, sem nenhum reconhecimento ou contrapartida.
Em 1888, restavam ainda cerca de 750 mil homens e mulheres escravizados no Império brasileiro. Eram os remanescentes de uma história brutal. Nos três séculos anteriores, o Brasil tinha sido o maior território escravista do hemisfério ocidental. E o mais avesso a qualquer proposta de mudança. Viciado em escravidão desde o início da colonização portuguesa, resistira a todas as pressões e a todos os esforços feitos até então para se tornar uma nação livre. Fora o último país da América a acabar com o tráfico de africanos escravizados, pela Lei Eusébio de Queirós de 1850. Naquele momento, já quase no alvorecer do século XX, era também o último a discutir a abolição.
Os primeiros africanos escravizados chegaram ao Brasil por volta de 1538 para saciar a fome de mão de obra das lavouras e engenhos de açúcar que já então se multiplicavam pelas regiões litorâneas. Nos 350 anos seguintes, o total alcançaria 4,9 milhões, cerca de 46% dos 10,7 milhões desembarcados em cerca de 37 mil viagens de navios negreiros para todo o continente americano no mesmo período. Antes de negra e africana, porém, a escravidão brasileira havia sido indígena. Os mais antigos registros de compra e venda de pessoas cativas datavam de 1511, apenas uma década após a chegada da esquadra de Pedro Álvares Cabral à Bahia. Naquele ano, a nau Bretoa, de propriedade do florentino Bartolomeu Marchionni, financiador das grandes navegações portuguesas, e do cristão novo Fernando de Noronha, que hoje dá nome ao famoso arquipélago na costa pernambucana, partiu de Salvador levando uma carga de peles de onças-pintadas, papagaios, toras de pau-brasil e um grupo de 35 índios que seriam leiloados em Lisboa. Submetidos desde aquela época à escravidão e expostos às inúmeras doenças trazidas pelos europeus, contra as quais não tinham imunidade, os indígenas acabaram vítimas de um massacre de proporções bíblicas. De uma população estimada entre três milhões e cinco milhões em 1500, estavam reduzidos a menos de meio milhão por volta de 1888.
A escravidão sustentou todos os ciclos econômicos responsáveis pela riqueza da colônia portuguesa nos trópicos, da exploração do pau-brasil às lavouras de café, passando pelo açúcar, pelo ouro, pelo diamante, pelo tabaco e pelo algodão, entre outras atividades. Ser dono de terras e de pessoas escravizadas era o principal indicador de prestígio e riqueza no Brasil. “Os escravos são as mãos e os pés do senhor do engenho”, afirmava o padre jesuíta André João Antonil, ao descrever o Brasil em 1711. Era esse o grupo que tinha acesso às posições de mando, governava, recebia títulos de nobreza, fazia as leis e usufruía de seus benefícios.
Por isso havia tanta expectativa e tanta ansiedade ao redor daquele brevíssimo projeto de lei em maio de 1888. O Brasil fora construído com sangue e suor de homens e mulheres escravizados. Conseguiria sobreviver e progredir sem eles? Poderia o Brasil mergulhar no caos testemunhado nas décadas anteriores em outras regiões do continente? Como nos Estados Unidos, em que a abolição só foi possível ao fim de uma violentíssima guerra civil na qual cerca de 750 mil pessoas haviam morrido? Os senhores escravocratas, que até então dependiam da mão de obra cativa, aceitariam passivamente as mudanças? E se os próprios escravos decidissem reagir à opressão e pegar em armas em busca da liberdade? Notícias ainda recentes chegadas do interior do país davam conta de fugas em massa nas fazendas, enquanto os proprietários armavam milícias com o objetivo de caçar os fugitivos e reprimir manifestações abolicionistas. Como seria possível fazer a abolição sem que o país mergulhasse num banho de sangue?
Além dessas preocupações relacionadas à escravidão, o Brasil enfrentava outras graves incertezas de natureza política naquela 20ª Legislatura da Assembleia, como se denominava então o Congresso Nacional. Cansado, doente e precocemente envelhecido aos 62 anos, o imperador Pedro ii estava na Europa, em tratamento de saúde. Sua filha mais velha, a princesa Isabel, ocupava a regência do Império pela terceira vez, com a missão de orientar as decisões do ministério, inspirar e organizar os debates no parlamento. Era, porém, uma mulher sem carisma e imatura, com enormes dificuldades no diálogo com os partidos e forças políticas, o que lançava sérias dúvidas a respeito da viabilidade de um terceiro reinado, na hipótese da morte do soberano. Nas ruas, na imprensa e nos salões sociais a agitação republicana era crescente. Um grupo cada vez maior e mais ruidoso defendia que a única saída possível estava na mudança do regime. A complicar o cenário, havia, ainda, um enorme descontentamento nos quartéis a respeito do tratamento dado às Forças Armadas pelas autoridades imperiais. O cheiro de golpe era perceptível no ar.
Como era tradição na monarquia brasileira, coube à princesa abrir o ano parlamentar de 1888, no dia 3 de maio, com a Fala do Trono, pronunciamento em que o governo imperial fazia um balanço da situação nacional e delineava suas prioridades para aquele momento. Diante dos deputados e senadores, Isabel anunciou que dentre os desafios a serem enfrentados naquele ano estava “a extinção do elemento servil” — para bom entendedor, o fim da escravidão. Conclamou os parlamentares a apagar do direito pátrio o que, segundo suas palavras, seria uma “exceção”, contrária ao espírito cristão e liberal das instituições do país. Reagia desse modo à pressão do movimento abolicionista que, nos anos anteriores, mobilizara milhares de pessoas em todo o país, até se converter na primeira grande campanha popular de rua na história do Brasil. Havia, contudo, na fala da princesa, palavras e expressões dúbias, que de algum modo drenavam da mensagem a força e o senso de urgência que a conjuntura parecia exigir.
A proposta poderia ser resumida nestas poucas linhas da Fala do Trono:
A extinção do elemento servil, pelo influxo do sentimento nacional e das liberalidades particulares, em honra do Brasil, adiantou-se pacificamente de tal modo que é hoje aspiração aclamada por todas as classes, com admiráveis exemplos de abnegação da parte dos proprietários. Quando o próprio interesse privado vem espontaneamente colaborar para que o Brasil se desfaça da infeliz herança, que as necessidades da lavoura haviam mantido, confio que não hesitareis em apagar do direito pátrio a única exceção que nele figura em antagonismo com o espírito cristão e liberal das nossas instituições. Mediante providências que acautelem a ordem nas transformações do trabalho, apressem pela imigração o povoamento do país, facilitem as comunicações, utilizem as terras devolutas, desenvolvam o crédito agrícola e aviventem a indústria nacional, pode-se asseverar que a produção sempre crescente tomará forte impulso e nos habilitará a chegar mais rapidamente aos nossos auspiciosos destinos.
Uma análise mais cuidadosa deste trecho do discurso ajuda a explicar o quanto era precário o equilíbrio do trono brasileiro entre os interesses dos fazendeiros e a maré abolicionista. Em momento algum a princesa usou duas palavras cruciais: “escravidão” e “abolição”. Em vez disso, refugiou-se em algo mais suave e genérico: “a extinção do elemento servil”. O tom era de elogio aos fazendeiros, alicerces da monarquia desde a independência em 1822. A julgar pelas palavras de Isabel, a abolição não seria uma conquista dos abolicionistas e dos próprios escravos que, nos anos anteriores, passaram a se rebelar e promover fugas em massa. Era, na verdade, resultado de “admiráveis exemplos de abnegação da parte dos proprietários”, em especial os barões do café, nata da aristocracia escravista que até então o Império recompensava com títulos de nobreza e outros privilégios. Isabel apressava-se ainda em justificar a “escravidão”, mantida por tanto tempo em razão das “necessidades da lavoura”. Assumia por fim que a abolição era uma aspiração nacional, um desejo generalizado no Brasil. Não era. Os fazendeiros e senhores de escravos resistiram até onde foi possível à mudança.
Em vez de abnegados abolicionistas subitamente convertidos a uma causa humanitária que contrariava seus interesses, como sugeria o pronunciamento da princesa, os fazendeiros exigiam que o Estado brasileiro os indenizasse pelo fim da escravatura. Alegavam que os cativos representavam um valioso patrimônio, no qual tinham investido muito dinheiro, tempo e sacrifícios pessoais, que não lhes poderiam ser retirados sem a devida compensação. Abolir a escravidão, diziam, seria atropelar o direito à propriedade, desde sempre garantido nas leis portuguesas e brasileiras. Por isso, reivindicavam uma indenização equivalente a cerca de 20 milhões de libras esterlinas, dez vezes o valor que o imperador Pedro i havia se comprometido a pagar a Portugal, em 1826, em troca do reconhecimento da Independência do Brasil. Por coincidência, era a mesma quantia que o governo britânico pagara aos fazendeiros cinquenta anos antes como compensação pela libertação de cerca de 750 mil cativos em seus domínios.
Apesar do desconforto dos fazendeiros, a tramitação do projeto da Lei Áurea, sem a indenização reivindicada por eles, foi surpreendentemente rápida no parlamento. A proposta chegou à Câmara na terça-feira, 8 de maio, pelas mãos do ministro da Agricultura, deputado Rodrigo Augusto da Silva, presbiteriano e maçom, filho de um grande fazendeiro paulista, o Barão de Tietê, e genro do senador Eusébio de Queirós, responsável pela lei que aboliu o tráfico em 1850. No mesmo dia, foi discutida e aprovada, sem qualquer alteração, por uma comissão composta pelo deputado abolicionista pernambucano Joaquim Nabuco, líder do Partido Liberal. “Há neste momento uma manhã mais clara em torno dos berços, uma tarde mais serena em torno dos túmulos, uma atmosfera mais pura no interior do lar”, discursou Nabuco. “Os navios levarão amanhã por todos os mares a bandeira lavada de uma grande nódoa que a manchava”.
Uma pequena e insignificante modificação na proposta viria só no dia seguinte, 9 de maio, data da segunda discussão do projeto. O deputado Araújo Góes Júnior inseriu “desde a data desta lei” após a frase “é declarada extinta”, sugestão logo aceita por todos. Na quinta-feira, 10 de maio, terceiro e último dia de tramitação na Câmara, o presidente da casa, desembargador Henrique Pereira de Lucena, de Pernambuco, cedeu aos apelos dos abolicionistas e franqueou a entrada do público nas galerias, para contrariedade do deputado Andrade Figueira, representante dos fazendeiros escravistas, que classificou o local como um “circo de cavalinhos”. Colocada em votação, a proposta recebeu os votos favoráveis de 83 deputados. Nove foram contra. Outros 33 preferiram ficar em casa, alegando variados problemas para não se expor perante seus eleitores naquele momento decisivo.
A lista dos nove votos contrários na Câmara fornecia um retrato preciso do Brasil que resistira até a última hora aos ventos abolicionistas. Francisco de Caldas Lins, Barão de Araçagi, representava a província de Pernambuco, a mais antiga região escravista do Brasil, cujos engenhos de açúcar tinham sido os precursores no uso de mão de obra cativa ainda no longínquo século xvi. Todos os demais — Bulhões de Carvalho, Carlos Frederico Castrioto, Pedro Luís Soares de Sousa, Alberto Bezamat, Alfredo Chaves, Lacerda Werneck, Domingos de Andrade Figueira e Antônio Cândido da Cunha Leitão — eram da província do Rio de Janeiro, porta-vozes da chamada “lavoura arcaica” do Vale do Paraíba, onde se situavam as já decadentes e exauridas fazendas de café. O último da lista, o advogado Cunha Leitão, ex-presidente da província de Sergipe, morreria jovem, aos 42 anos, no dia 11 de maio, apenas 24 horas depois de entrar para a história como um dos últimos e mais renitentes escravocratas brasileiros.
No mesmo dia 11, após passar pelo crivo dos deputados, o projeto foi remetido ao Senado, sob a presidência do mineiro Antônio Cândido da Cruz Machado, Visconde de Serro Frio. A câmara alta do parlamento era o templo da elite escravocrata brasileira. Nomeados em caráter vitalício pelo imperador em uma lista tríplice dos candidatos mais votados em cada província, os senadores eram, em sua maioria, barões do café, senhores de engenho, fazendeiros e outros homens de prestígio, aos quais a monarquia prestava favores em troca de apoio político. Durante o primeiro e o segundo reinados, 40% dos senadores receberam títulos de nobreza. Entre os presidentes do Senado, a proporção de nobres era ainda maior, 80% do total.
No ano da Lei Áurea, cinco senadores exerciam mandato já havia quatro décadas. O Visconde de Queirós, mais antigo de todos, fora nomeado em 1848. “O apoio desses homens era decisivo para obter-se um empréstimo bancário, um posto na burocracia, uma pensão no governo, a aprovação de uma empresa ou companhia por ações, ou para o êxito numa carreira política”, observou a historiadora Emilia Viotti da Costa. “A sociedade brasileira estava permeada de alto a baixo pela prática e pela ética da patronagem.” Ou seja, pela política do toma lá dá cá. As eleições para o Senado (como, de regra, para qualquer cargo eletivo no país) eram de fachada, feitas com urnas e cédulas de papel e pautadas pela fraude e pela perseguição aos opositores. Em geral, o partido que estivesse no poder na época do sufrágio, saía vencedor.
O pensamento dessa gente poderia ser resumido no pronunciamento contrário à Lei Áurea feito no Senado pelo baiano João Maurício Wanderley, Barão de Cotegipe, no dia 12 de maio, véspera da Abolição. Segundo ele, os escravos eram itens do patrimônio dos fazendeiros tanto quanto os animais e os objetos inanimados. Dizia que o fim do cativeiro representaria um confisco de bens, abriria caminho para uma reforma agrária, mediante a redistribuição das terras, e seria o primeiro passo para a república no Brasil:
A propriedade sobre o escravo, como sobre os objetos inanimados, é uma criação do direito civil. Enfim, senhores, decreta-se que neste país não há propriedade, que tudo pode ser destruído por meio de uma lei, sem atenção nem a direitos adquiridos, nem a inconvenientes futuros. [...] Daqui a pouco se pedirá a divisão das terras, do que há exemplos em diversas nações, seja de graça ou por preço mínimo, e o Estado poderá decretar a expropriação sem indenização. […] Há de haver uma perturbação enorme no país. […] A crise será medonha. [...] Por ora, tudo é festa, tudo é alegria, tudo são flores, o prazer é unânime, universal, por esse grande ato de extinção da escravidão. Estão, porém, persuadidos de que o negócio fica aí? Não, senhores. Este ato cria muitos descontentes, as instituições perdem apoio com a irritação de uns e a indiferença de outros. Secas as flores, dissipadas as nuvens, […] vereis surgir mais de uma questão grave. […] Vê pouco quem não percebe o golpe republicano. Eis aqui, senhores, o que nos espera. Preparem-se para esses novos combates.
Vaticínio semelhante sobre o futuro da monarquia foi lançado por outro baluarte dos interesses escravistas, o senador e conselheiro Paulino de Souza, do Partido Conservador. Fluminense de Itaboraí, filho do Visconde do Uruguai, um dos grandes expoentes do Segundo Reinado, Paulino de Souza acusava o imperador Pedro ii e a princesa Isabel de se deixarem seduzir por uma ideia populista, a de libertar os escravos, e que o preço a pagar seria perder a Coroa:
A história e a experiência política atestam que todas as vezes que a realeza, por amor da população, por motivos de sentimentalismo, ou por cálculo político, acorda-se, ainda que em pensamento, com qualquer propaganda popular, [...] pode-se contar que está fatalmente derrocada, e com ela sacrificada a classe ou as classes interessadas na sua manutenção.
Coube ao baiano Manuel Pinto de Sousa Dantas, do Partido Liberal, abolicionista e ex-ministro do Império, responder às ameaças, dizendo que, ao contrário, valeria a pena acabar com a escravidão no Brasil, mesmo que o preço a ser pago pelo imperador e pela princesa fosse eventualmente o fim da monarquia:
Mais vale cingir uma coroa por algumas horas, contando que se tenha a imensa fortuna de colaborar para com uma lei como esta, que vai tirar da escravidão a tantas criaturas humanas, do que possuir essa mesma coroa por longos e dilatados anos, com a condição de conservar e sustentar a maldita instituição do cativeiro.
Os discursos de Cotegipe e Paulino de Souza se revelariam parcialmente proféticos. No ano seguinte, o próprio Império brasileiro sucumbiria, abrindo caminho para a Proclamação da República, apoiada por muitos fazendeiros que se sentiriam traídos pela assinatura da Lei Áurea. A tão temida reforma agrária, porém, jamais aconteceria. O Brasil permaneceria como um santuário do latifúndio até os dias atuais. A Abolição viria sem distribuição de terras, como desejavam muitos dos abolicionistas do século XIX. Essa era e continuaria a ser uma questão de honra para a classe proprietária.
A votação final no Senado, na manhã do dia 13, um domingo, repetiu a proporção observada na Câmara. Foram quarenta e seis votos favoráveis, seis contrários e oito ausentes, sem contar mais uma dezena de assentos vagos pela morte recente de seus ocupantes — entre esses, o Barão de Leopoldina, José Rezende Monteiro, falecido no dia 10 de maio, enquanto as discussões se processavam na Câmara. A aprovação era dada como tão certa que, no mesmo dia 13, antes de saber o resultado final, os jornais já traziam manchetes comemorando a nova lei e convocando seus leitores a irem às ruas à espera de uma sanção pela princesa Isabel.
O ato da princesa sacramentou-se com uma pena de ouro e pedras preciosas que lhe foi presenteada em uma subscrição pública promovida por Luiz Pedro Drago, professor de matemática do Colégio Pedro II, com o apoio de alguns jornais do Rio de Janeiro. Hoje em exibição no Museu Imperial de Petrópolis, o pequeno objeto de treze gramas exibe no dorso 48 pequenos brilhantes.[10] Na base da nervura principal, se engasta uma esmeralda circundada também de brilhantes, formando o nó de um laço ornamentado pela coroa imperial e pelo brasão de armas da casa de Orleans. No corpo da pena, vê-se ainda um dragão todo cravejado de diamantes e pedras vermelhas, emblema da casa de Bragança, e a seguinte inscrição: “À D. Isabel, a redentora, o povo agradecido”. Do lado oposto aparecem o número e a data da lei.
As doações para a compra da pena de ouro, no valor de 500 réis por pessoa, haviam sido enviadas à sede do jornal O País, que se encarregara de contabilizar e publicar nas edições que acompanharam a votação da Lei Áurea a soma apurada diariamente. Dentre os primeiros doadores, ainda no dia 10 de maio, estavam o abolicionista José do Patrocínio, o jornalista Ernesto Senna, o escritor Coelho Neto e o jovem poeta Osório Duque-Estrada, autor da letra do atual Hino Nacional Brasileiro. As listas foram crescendo nos dias seguintes e incluíam gente de todas as idades e estratos sociais, homens e mulheres, docentes do Ginásio Fluminense, empregados do Asilo dos Meninos Desvalidos, foguistas do encouraçado Javary, pessoal do Imperial Observatório, operários do Arsenal da Marinha e da oficina de ferreiro do Arsenal de Guerra da Corte, chefes e empregados do escritório da Societê Anonyme du Gaz, carpinteiros da Diretoria das Obras Civis, empregados da fábrica de instrumentos de música Rabeca de Ouro, moradores dos subúrbios de Cascadura, Penha, Irajá, e mesmo de lugares mais afastados como Barra do Piraí e Macuco. Uma das contribuições vinha do Quilombo do Leblon, refúgio de escravos que contava com o apoio dos abolicionistas.
[…]

Laurentino Gomes, em Escravidão – Volume 3, Da Independência do Brasil à Lei Áurea