04/11/2026
Sociável e modesto
Ele pode ser melhor em derrubar seus oponentes. Contudo, não é mais sociável, modesto, disciplinado para abraçar as ocorrências ou indulgente com as falhas dos vizinhos.
Marco Aurélio, em Meditações
Pé-duro, chapéu-de-couro
— Qué buscades, los vaqueros.
— Una, ay, novilleja, una...
Góngora
Reunindo redondo mais de meio milhar
de vaqueiros, na cidade baiana de Cipó, no São João deste ano,
para desfile, guarda-de-honra, jogos de vaquejada e homenagem
recíproca entre o Chefe da Nação e os simples cavaleiros do Sertão
Ulterior, o que Assis Chateaubriand moveu — além de colocar sob
tantos olhos os homens de um ofício grave e arcaico, precisado de
amparo, e de desferir admodo um comando de poesia — foi algo
de coração e garra, intento amplo, temero, indiminuível: a
inauguração dinâmica de um símbolo.
I
Antigo veio o tema: o de estrênuos
pegureiros, que lutavam com anjos, levantavam suas tendas e vadeavam
os desertos — Caldeia a Canaã um rastro de rebanhos, e o
itinerário do espírito.
E velho o idílio — “... eleláthei
boúkos...” — retente, trescantado: o ruro, o zagal, as
faias, um vão amor e a queixa, de “quanto gado vacum pastava e
tinha...”
Sem embargo, o epos, e por bem
que cedo, aqui, em ciclo e gestas se fizesse no folclore, emergiu só
mais tarde na literatura.
De começo, nossa volumosa lida
pastoril, subalterna e bronca, desacertava das medidas clássicas,
segundo se sente do árcade:
Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado,
De tosco trato, de expressões
grosseiro...
II
Mas o boi e o povo do boi, enquanto
tudo, iam em avanço, horizontal e vertical, riscando roteiros e
pondo arraiais no país novo.
No Centro, no Sul, ao Norte, a Oeste,
por mão de trechos do interior fechado e aberto, e na beira das
fronteiras, na paz e na guerra, se aviava o gado, com sua preia, sua
cria, sua riqueza, seu negócio — léu de bando, contrabando,
abactores e abigeatos — e as peripécias de um trato animado e
primitivo, obrigador de gente apta e fundador de longa tradição
rusticana.
Gaúchos meridionais, peões
mato-grossenses, pastoreadores marajoaras, e outros de muita parte
para dentro desses extremos geográficos; mais obtidos, porém, e
contados como vaqueiros propriamente, os do rugoso sertão que ajunta
o Norte de Minas, porção da Bahia, de Sergipe, Pernambuco, Paraíba,
Rio Grande, Ceará, Piauí, Maranhão, Goiás.
Através dessa quantidade de cerrados,
gerais, carrascos campos, caatingas, serras sempre ou avaras várzeas,
planaltos, chapadas e agrestes, regiões pouco fáceis,
espalharam-se, na translação das boiadas, os gadeiros
são-franciscanos com querência de espaço, sertanistas subidores,
barões do couro, e seus servos campeiros, mais ou menos curibocas,
herdeiros idealmente do índio no sentido de acomodação ao ruim da
terra e da invenção de técnicas para paliá-lo. Nossos, os
vaqueiros.
III
Assim a apanhou Alencar — a figura
afirmativa do boieiro sertanejo — passando-a na arte como avatar
romântico, daí tomado, bem ou mal, por outros, à maneira regional
ou realista, mais indesviado da sugestão sã de epopeia, porquanto
sua presença — esportiva, equestre, viril, virtualmente marcial —
influi esse tom maior romanceável, aqui como nos países de perto,
de vulto pecuário análogo, valendo ver em exemplos, tais o “rodeo”
e a “vaqueria general” no Doña Bárbara, como respondem,
em si e no modus novelístico de seu emprego, aos mesmos
episódios postos pelos nossos autores: sentido de refletir, no herói
que a supera, a violência da natureza circundante.
[...]
Guimarães Rosa, em Ave, palavra
O homem no quarto
Teu protesto inútil,
tuas flores murchas,
teu violino fácil,
tua vontade escassa,
São frutos humildes,
são folhas perdidas
que um sapato esmaga
nascendo da sombra.
Caminhas sem rumo
por todas as ruas,
não rasgas um livro
nem matas o amigo.
Cumprimentas mesmo
com a garganta seca,
gestos tão longe
que ninguém esboça.
Meu coitado amigo...
prende a tua mão
antes que ela entorne
a copa de sangue.
Teus irmãos constroem
no ar atmosférico
com pedras e luzes
um berço pouco a pouco.
Não podes manchá-los
de sangue hesitante
nem deves turbar
o ritmo da aurora.
Acende o cachimbo,
eis uma poltrona.
Começa a vigília
sem impaciência,
Até que outros braços,
redentoras asas,
venham colocar
um lírio muito branco
na página e no verso
do teu melhor poeta…
tuas flores murchas,
teu violino fácil,
tua vontade escassa,
São frutos humildes,
são folhas perdidas
que um sapato esmaga
nascendo da sombra.
Caminhas sem rumo
por todas as ruas,
não rasgas um livro
nem matas o amigo.
Cumprimentas mesmo
com a garganta seca,
gestos tão longe
que ninguém esboça.
Meu coitado amigo...
prende a tua mão
antes que ela entorne
a copa de sangue.
Teus irmãos constroem
no ar atmosférico
com pedras e luzes
um berço pouco a pouco.
Não podes manchá-los
de sangue hesitante
nem deves turbar
o ritmo da aurora.
Acende o cachimbo,
eis uma poltrona.
Começa a vigília
sem impaciência,
Até que outros braços,
redentoras asas,
venham colocar
um lírio muito branco
na página e no verso
do teu melhor poeta…
José Paulo Paes, em Poesia completa
Vinho de missa
Era domingo e o navio prosseguia
viagem. Os passageiros iam sendo convocados para a missa de bordo.
— Vamos à missa? — convidou
Ovalle.
O passageiro a seu lado no convés
recusou-se com inesperada veemência:
— Missa, eu? Deus me livre de missa.
— Não entendo — tornou Ovalle,
intrigado: — O senhor pede justamente a Deus que o livre da missa?
— No meu tempo de menino eu ia à
missa. Mas deixei de ir por causa de um episódio no colégio
interno, há mais de trinta anos. Colégio de padre — isso explica
tudo, o senhor não acha?
Ele achou que não explicava nada e
pediu ao homem que contasse.
— Pois olha, vou lhe contar: imagine
o senhor que havia no colégio um barbeiro, para fazer a barba dos
padres e o cabelo dos alunos. Vai um dia o barbeiro me seduz com a
ideia de furtar o vinho de missa, que era guardado numa adega. Me
ensinou um jeito de entrar na adega — e um dia eu fiz uma incursão
ao tonel de vinho. Mas fui infeliz: deixei a torneira pingando,
descobriram a travessura e no dia seguinte o padre-diretor reunia
todos os alunos do colégio, intimando o culpado a se denunciar. Ia
haver comunhão geral e quem comungasse com tão horrenda culpa
mereceria danação eterna. Está visto que não me denunciei:
busquei um confessor, tendo o cuidado de escolher um padre que gozava
entre nós da fama de ser mais camarada: “Padre, como é que eu
saio desta? Eu pequei, fui eu que bebi o vinho. Mas se deixar de
comungar, o padre-diretor descobre tudo, vou ser castigado.” Ele
então me tranquilizou, invocando o segredo confessional, me absolveu
e pude receber comunhão. Pois muito bem: no mesmo dia todo mundo
sabia que tinha sido eu e eu era suspenso do colégio.
O homem respirou fundo e acrescentou,
irritado:
— Como é que o senhor quer que eu
ainda tenha fé nessa espécie de gente?
Ovalle ouvia calado, os olhos perdidos
na amplidão do mar. Sem se voltar para o outro, comentou:
— O senhor, certamente, achou que o
confessor saiu dali e foi diretinho contar ao diretor.
— Isso mesmo. Foi o que aconteceu.
— O vinho era bom?
— Como?
— Pergunto se o senhor achou o vinho
bom.
O homem sorriu, intrigado:
— Creio que sim. Tanto tempo, não
me lembro mais... Mas devia ser: vinho de missa!
Então Ovalle se voltou para o homem,
ergueu o punho com veemência:
— E o senhor, depois de beber o seu
bom vinho de missa, me passa trinta anos acreditando nessa asneira?
O homem o olhava, boquiaberto:
— Asneira? Que asneira?
— Será possível que ainda não
percebeu? Foi o barbeiro, idiota!
— O barbeiro? — balbuciou o outro:
— É verdade... O barbeiro! Como é que na época não me
ocorreu...
— Vamos para a missa — ordenou
Ovalle, tomando-o pelo braço.
Fernando Sabino, em Os melhores contos
O que eu queria ter sido
Um nome para o que eu sou, importa
muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser.
O que eu gostaria de ser era uma
lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso
desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o
que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de
lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira
chamava-me de “a protetora dos animais”. Porque bastava acusarem
uma pessoa para eu imediatamente defendê-la. E eu sentia o drama
social com tanta intensidade que vivia de coração perplexo diante
das grandes injustiças a que são submetidas as chamadas classes
menos privilegiadas. Em Recife eu ia aos domingos visitar a casa de
nossa empregada nos mocambos. E o que eu via me fazia como que me
prometer que não deixaria aquilo continuar. Eu queria agir. Em
Recife, onde morei até doze anos de idade, havia muitas vezes nas
ruas um aglomerado de pessoas diante das quais alguém discursava
ardorosamente sobre a tragédia social. E lembro-me de como eu
vibrava e de como eu me prometia que um dia esta seria a minha
tarefa: a de defender os direitos dos outros.
No entanto, o que terminei sendo, e
tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente
se sente e usa a palavra que o exprima.
É pouco, é muito pouco.
Clarice Lispector, em Todas as crônicas
03/11/2026
Diário de Bernardo Soares
143.
Tenho mais pena dos que sonham o
provável, o legítimo e o próximo, do que dos que devaneiam sobre o
longínquo e o estranho. Os que sonham grandemente, ou são doidos e
acreditam no que sonham e são felizes, ou são devaneadores simples,
para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes
dizer nada. Mas o que sonha o possível tem a possibilidade real da
verdadeira desilusão. Não me pode pesar muito o ter deixado de ser
imperador romano, mas pode doer-me o nunca ter sequer falado à
costureira que, cerca das nove horas, volta sempre a esquina da
direita. O sonho que nos promete o impossível já nisso nos priva
dele, mas o sonho que nos promete o possível intromete-se com a
própria vida e delega nela a sua solução. Um vive exclusivo e
independente; o outro submisso das contingências do que acontece.
Por isso amo as paisagens impossíveis
e as grandes áreas desertas dos piamos onde nunca estarei. As épocas
históricas passadas são de pura maravilha, pois desde logo não
posso supor que se realizarão comigo. Durmo quando sonho o que não
há; vou despertar quando sonho o que pode haver.
Debruço-me, de uma das janelas de
sacada do escritório abandonado ao meio-dia, sobre a rua onde a
minha distração sente movimentos de gente nos olhos, e os não vê,
da distância da meditação. Durmo sobre os cotovelos onde o
corrimão me dói, e sei de nada com um grande prometimento. Os
pormenores da rua parada onde muitos andam destacam-se-me com um
afastamento mental: os caixotes apinhados na carroça, os sacos à
porta do armazém do outro, e, na montra mais afastada da mercearia
da esquina, o vislumbre das garrafas daquele vinho do Porto que sonho
que ninguém pode comprar. Isola-se-me o espírito de metade da
matéria. Investigo com a imaginação. A gente que passa na rua é
sempre a mesma que passou há pouco, é sempre o aspeto flutuante de
alguém, nódoas de movimento, vozes de incerteza, coisas que passam
e não chegam a acontecer.
Anotação com a consciência dos
sentidos, antes que com os mesmos sentidos…
A possibilidade de outras coisas... E,
de repente, soa, de detrás de mim no escritório, a vinda
metafisicamente abrupta do moço.
Sinto que o poderia matar por me
interromper o que eu não estava pensando. Olho-o, voltando-me, com
um silêncio cheio de ódio, escuto antecipadamente, numa tensão de
homicídio latente, a voz que ele vai usar para me dizer qualquer
coisa. Ele sorri do fundo da casa e dá-me as boas-tardes em voz
alta. Odeio-o como ao universo. Tenho os olhos pesados de supor.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
O espelho
Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.
Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me, a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.
A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.
Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me, a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.
A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.
Mia Couto, em Poemas Escolhidos
Elegia de baby
Tinha sete anos, e ainda era mais
criança do que qualquer menina de sua idade. Pesava mil e quinhentos
quilos, e chegaria a pesar quatro mil, se vivesse. Não viveu.
Nascida na Índia, veio morrer no Leblon, sob a lona de um circo
devastado pelo temporal — e essa madrugada de vento furioso, que
ameaçava acabar com o mundo, terá sido um dos “fatos” de sua
pequena vida sem acontecimentos.
Já se sabe que o necrológio é de
Baby, a elefantinha que morreu de infecção na garganta. Esses
animais são rústicos e delicados, e se no meio nativo se alimentam
de plantas espinhentas, de cujo contato fugimos, padecem entretanto
dos mesmos males que padecemos, e têm, quanto a nós, a desvantagem
de uma sensibilidade que se ajustaria melhor ao nosso corpo que ao
deles, ao passo que a nossa poderia chamar-se mais precisamente
elefantina.
Vão rareando os elefantes, e com eles
a doçura e a paciência na face da terra. Que a espécie caminha
para o fim, os zoólogos já o têm prevenido. O lábio superior
alongado e endurecido em tromba, e outros pormenores de estrutura —
observa o professor Coutière — revelam a tendência primitiva ao
gigantismo e à ancilose, que certos animais traziam consigo, e de
que essas deformações representam justamente uma correção,
grosseira, mas indispensável. Os traços subsistiram, mas a espécie
nasceu, por assim dizer, errada, e tende a acabar. Por sua vez, os
economistas lhe vaticinam o fim. O mesmo autor sério escreveu que
basta olhar o elefante para concluir que ele é um “motor bárbaro”
e de mínimo rendimento. Consome por dia uma ração bem mais cara
que o óleo ou a eletricidade de um aparelho comum, enquanto este
produz trabalho incomparavelmente mais precioso que o seu humilde
ofício de transportador. Resta o valor econômico do seu marfim, mas
talvez se torne menos dispendioso explorar jazidas fósseis desse
material, como as que os mamutes deixaram na Sibéria. Há uma última
utilidade do elefante, e essa retarda o seu desaparecimento: divertir
meninos no circo. Baby não conheceu outra, pois que viveu realmente,
para um elefante, l’espace d’un matin, isto é, o tempo de uma
rosa.
Reduzido à condição circense, que
pode o elefante pretender, como remédio a suas melancolias,
agravadas na espessa convivência do homem? Fugir, é claro. Mas a
fuga se reduz também a um passeio tonto pela cidade, entre bichos
muito mais ferozes, que são os ônibus e os automóveis, num dédalo
de ruas que não tem a lei e a simplicidade da floresta. Logo se
organizam os homens para prendê-lo e restituí-lo ao seu mesquinho
picadeiro. Se se recusa a voltar, os homens, considerando-se
ameaçados, dispõem-se a fulminá-lo a tiro. Nunca nenhum escapou.
André Demaison, no Livro dos
animais chamados selvagens, conta a história de Pupá, pequeno
elefante pego numa colônia alemã da África, ocupada mais tarde
pelos franceses. Sua alimentação onerosa, a leite condensado, se
fazia à custa do governo; quando os residentes estrangeiros se
retiraram, ele quedou abandonado, e andava a esmo pela cidade,
mendigando comida, principalmente açúcar. Num Catorze de Julho,
aproximou-se do clube francês em plena festa. Os homens, já
bêbados, quiseram que ele também comemorasse a Queda da Bastilha, e
deram-lhe um balde cheio de champanha, curaçau, anis e outros
licores misturados. Pupá esvaziou-o com tamanha beatitude que daí
por diante se tornou ébrio contumaz, e não podia compreender por
que todos os dias não eram de festa, como aquele. Decadente, e sem
comer, porque apenas lhe davam álcool, sentiu a nostalgia da selva,
e fugiu para o interior, mas o meio natal o repeliu: estava demasiado
marcado pela companhia do homem, para voltar a ser um bicho. Morreu,
sobre os trilhos da via férrea, paralisando o tráfego.
Baby não viveu tais aventuras, nem
teria muito que contar. Trabalhou, ainda criança, para comer,
divertiu os outros e morreu sem ter compreendido (embora os elefantes
sejam inteligentíssimos) a razão de ser de sua viagem da Índia ao
Leblon, encerrada tão cedo, quando a outros de sua estirpe a
natureza concede uma permanência de cem a cento e cinquenta anos
sobre a terra. Mas imagine-se o que seria uma prisão de século e
meio, mesmo no circo, e já não sentiremos tanto a morte de Baby.
Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira
Revelações
A posteridade não é mais um lugar
seguro. Com a nova liberalidade, principalmente em matéria de sexo,
as biografias agora contam tudo. Biografia sem uma revelação antes
desconhecida ou suprimida não tem graça, ou não é biografia. Até
as autobiografias precisam incluir confissões reveladoras, para
serem confiáveis.
Existe um livro que diz explicitamente
o que todos já desconfiavam: que J. Edgar Hoover, eterno diretor do
FBI, defensor da lei, da ordem e dos bons costumes, caçador de
comunistas e um notório durão, ia a festas vestindo um tutu rodado.
John Kennedy, sabe-se agora, jamais perguntava a americanas o que seu
país poderia fazer por elas, mas o que elas poderiam fazer pelo seu
país ali mesmo, em cima da mesa do Gabinete Oval. Durante os anos
Kennedy a maior ameaça à segurança dos Estados Unidos era alguma
moça disparar foguetes nucleares contra a União Soviética com sua
bunda, sem querer. (E quando os mísseis soviéticos começassem a
cair sobre Washington em retaliação, se ouviria da Casa Branca a
voz de Kennedy gritando “My God, isto é o que eu chamo de
orgasmo!”.)
Em breve saberemos que Cristóvão
Colombo desembarcou no Novo Mundo de mãos dadas com um marinheiro.
Que Átila, o Flagelo de Deus, era secretamente chamado pelos seus
comandados de Rainha dos Hunos e vivia maritalmente com seu cavalo.
Que mesmo durante a guerra Winston Churchill continuou reunindo-se
todas as quintas com ex-colegas de escola para relembrarem as festas
no dormitório, inclusive com as ligas pretas. E que certa vez
Charles de Gaulle foi convidado para a reunião, chocou-se com o que
viu, mas no meio da noite já estava só de combinação.
Alguns detalhes históricos serão
esclarecidos. Napoleão enfiava a mão dentro da túnica seguidamente
para ajeitar o soutien. Stalin tinha um bigode cor-de-rosa para usar
em ocasiões especiais. Monsieur e Madame Curie eram a mesma pessoa.
O doutor Frankenstein inventou a história do monstro criado no seu
laboratório para justificar aquele halterofilista morando com ele.
Etc. Etc.
Luís Fernando Veríssimo, em Diálogos Impossíveis
02/11/2026
Já foi
Talvez existam várias maneiras de
responder. A mais evidente vem do grego. A palavra grega eros denota
“querer”, “falta”, “desejo pelo que não está lá”. Quem
ama quer o que não tem. É, por definição, impossível para o
amante ter o que deseja se, assim que ele tem, não quer mais. É
mais do que um jogo de palavras. Há um dilema dentro de eros que tem
sido considerado crucial por pensadores desde Safo até hoje. Platão
vira e mexe volta para ele. Quatro de seus diálogos exploram o que
significa dizer que o desejo só pode ser por aquilo que falta, não
pelo que está à mão, não pelo que está presente, não por algo
que alguém possua nem que esteja em seu ser: eros implica
endeia. Como Diotima coloca no Simpósio, Eros é um
bastardo capturado pela Riqueza na Pobreza e seu lar é uma vida de
carência (203b-e). A fome é a analogia escolhida por Simone Weil
para esse impasse:
Todos os nossos desejos são
contraditórios, como o desejo por comida. Eu quero que a pessoa que
eu amo me ame. No entanto, se ele é totalmente devotado a mim, ele
para de existir e eu deixo de amá-lo. E enquanto ele não for
totalmente devotado a mim, ele não me ama o suficiente. Fome e
saciedade.(1)
Emily Dickinson formula a questão de
maneira mais atrevida em “I Had Been Hungry”
[“Tenho estado com fome”]:
Então pensei
que a fome é o modo de ver
de quem está fora das janelas
entrar põe tudo a perder(2)
Petrarca interpreta o problema com
termos da antiga fisiologia do fogo e do gelo:
Sei seguir enquanto fujo do meu
fogo
congelo quando presente; quando
ausente, quente é o meu desejo.
(“Trionfo d’Amore”)
Sartre tem menos paciência com o
ideal contraditório do desejo, esse “duplo engano”. Ele enxerga
nas relações eróticas um sistema de reflexões infinitas, um jogo
de espelhos enganador que carrega dentro de si a própria
frustração.(3) Para Simone de Beauvoir, o jogo é uma tortura: “O
cavalheiro que parte para novas aventuras ofende a dama, mas ela não
sente nada além de desprezo se ele permanecer a seus pés. Esta é a
tortura do amor impossível…”.(4) Jacques Lacan elabora a questão
de maneira um pouco mais enigmática quando diz que “o desejo...
evoca a falta do ser sob as três figuras do nada, que constitui a
base da demanda por amor, do ódio que chega a negar o ser do outro e
do elemento indizível que se ignora em seu pedido”.(5)
Parece que todas essas vozes estão
buscando uma percepção comum. Todo desejo humano está posicionado
em um eixo de paradoxo, ausência e presença são seus polos, amor e
ódio, suas energias motivadoras. Vamos voltar mais uma vez àquele
poema de Safo que já vimos. Esse fragmento (LP, fr. 130), conforme
foi preservado no texto e escólios de Heféstion,
Ἄτθι. σοὶ δ᾽ ἔμεθεν
μὲν ἀπήχθετο
φροντίσδην, ἐπί δ᾽
Ἀνδρομέδαν πόται
Atthis, your care for me stirred
hatred in you
and you flew to Andromeda.
Átis, seu carinho por mim despertou
ódio em você
então você voou para Andrômeda.
(LP, fr. 131)
Quem deseja o que não foi embora?
Ninguém. Os gregos deixaram isso bem claro. Inventaram eros para
expressar isso.
-----------------------------------------------------
(1) S. Weil, The Simone Weil Reader.
Ed. G. A. Panichas, 1977, p. 364. (N.A.)
(2) E. Dickinson, The Complete Poems.
Ed. T. H. Johnson, 1960. (N.A.) [Ed. bras.: Poesia completa, volume
1: os fascículos. Brasília/Campinas: UnB/Unicamp, 2020, p. 313.] A
formatação do texto difere da fonte e acompanha o uso de Carson.
(N.T.)
(3) J.-P. Sartre, Being and
Nothingness, Trad. M. E. Barnes, 1956, pp. 444-45. (N.A.)
(4) S. De Beauvoir, The Second Sex.
Trad. H. M. Parshley, 1953, p. 619. (N.A.)
(5) J. Lacan, Écrits. Paris, 1966, p.
28. (N.A.)
Anne Carson, em Eros, o doce-amargo: Um ensaio
Os centauros
O barulho de ferro batendo nas pedras
me acordava de madrugada. O ruído das ferraduras se misturava com o
relinchar dos cavalos. Eu me levantava e abria a única bandeira da
janela. Só um pouquinho porque tinha medo de que me vissem. Eram
seres misteriosos, misturas de homens e cavalos que, na bruma da
manhã, me faziam imaginar centauros. Das ventas dos cavalos saía
fumaça quando relinchavam. Como se fossem dragões. Do ângulo pelo
qual os observava, através da fresta da janela, não me era possível
ver os rostos dos soldados. Via-os pelas costas, inumeráveis, iam
vagarosamente, a passo. Um exército inteiro de soldados dotados de
força descomunal, a caminho de uma batalha. Que iam para uma batalha
era certo: os fuzis pendentes dos coldres, ao lado direito das selas,
esperavam a hora do fogo. Passado o último centauro, eu fechava a
janela, voltava para a cama e ficava a imaginar a batalha, até
dormir.
Rubem Alves, em O velho que acordou menino
Palavras
Felizmente há palavras para tudo.
Felizmente que existem algumas que não se esquecerão de recomendar
que quem dá deve dar com as duas mãos para que em nenhuma delas
fique o que a outras deveria pertencer. Assim como a bondade não tem
por que se envergonhar de ser bondade, também a justiça não deverá
esquecer-se de que é, acima de tudo, restituição, restituição de
direitos. Todos eles, começando pelo direito elementar de viver
dignamente. Se a mim me mandassem dispor por ordem de precedência a
caridade, a justiça e a bondade, daria o primeiro lugar à bondade,
o segundo à justiça e o terceiro à caridade. Porque a bondade, por
si só, já dispensa a justiça e a caridade, porque a justiça justa
já contém em si caridade suficiente. A caridade é o que resta
quando não há bondade nem justiça.
José Saramago, em O caderno
Casa
Não tinha nem uma hora que chegara a
Candeia e Samuel já estava na rua da Matriz, segundo a referência
da velha. Tudo rápido demais. Achou que levaria mais algum tempo
para, enfim, estar diante de sua avó e de seu pai. O que diria? Não
pensou em palavras para dizer, mas lembrava da voz de Mariinha, letra
por letra, pedindo que fosse encontrá-los.
Se pudesse, mataria o pai. Nunca
matou, não tinha arma, não tinha ideia do tamanho do homem. Eram
anos de motivos, especialmente pelos últimos quinze dias, o rosto de
Mariinha, o fio de voz, os quatro pedidos. Respirou fundo e foi.
Não demorou a achar a casa, era a
maior da rua, perto da igreja. Tudo continuava morto. Olhou ao redor
antes de chamar por alguém naquele portão. Portas e janelas
fechadas com tijolos. Mato crescendo por cima das telhas, saindo das
frestas, raízes quebrando o piso das calçadas e varandas, vencendo
a pedra. As casas distribuídas acompanhando o desenho da praça. Em
muitas delas ainda era possível ler as palavras escritas com tinta
velha e descascada. “Barbearia Santo Antônio”. “Lanches Santo
Antônio”. “Pousada Santo Antônio”. “Restaurante Santo
Antônio”. Marcas borradas de um passado que ele não compreendia.
Uma coragem súbita tomou conta dos
seus pés novamente. Era a besta-fera, ele acreditava. A vida que
levara nos últimos dias fazia parecer mais possível acreditar no
Mal. Puxou o papel do bolso, precisava ler mais uma vez as oito
palavras e o número já cravados na memória e fazer o que tinha de
ser feito ali.
Bateu palmas com a barriga encostada
no portão de ferro, fechado com corrente e cadeado. Um jardim na
frente, o mato tomando conta de tudo. O mato e os gatos. Coisa de
oito, nove, e cada vez chegava mais. As duas janelas estavam fechadas
com tijolos. Era uma casa grande, com alpendre, cadeira de balanço
enferrujada. Havia uma grade na frente da porta de madeira e não
demorou duas palmas para que a porta de dentro se abrisse e surgisse
uma mulher de dificílima descrição.
— A senhora é d. Niceia?
— E você é Samuel.
Não era uma pergunta. Não era um
sorriso. Não era uma acolhida.
— A senhora me conhece?
— Não. E nem você. Mas sei quem
você é.
Tinha cara e conversa de louca.
— Está com fome? — perguntou a
velha.
— Muita.
— Tá se vendo pela cara.
…
— Veio do Juazeiro?
— Foi.
— E não trouxe nada pra mim?
— Não.
— Sua mãe mandou.
— Mandou, mas eu não trouxe.
…
— Veio como?
— A pé.
— O caminho todo?
— Foi.
— Quantos dias?
— Uns quinze.
— Dezesseis.
— Como a senhora sabe?
— Eu sei.
…
— E o Manoel?
— Que Manoel?
— O seu filho.
— Ah, sim. Meu Manoel… — fez
nuvem de choro em seu rosto, baixou a cabeça, deixando à mostra os
cabelos raros e brancos.
— Ele mora aqui na cidade?
— Isso não é mais uma cidade.
— Mora onde?
— É mistério de Deus. Ele tem
muitos.
— Ele se mudou daqui faz tempo?
— …
Não houve resposta. Ela olhava para
Samuel, somente.
— Então ele mora aqui?
— Não adianta tentar entrar. —
Segurou a porta com as duas mãos, mudou o rosto, agora tinha raiva.
— Ele está vivo?
— Tá com fome?
— Muita.
A mudança de assunto foi
bem-sucedida.
— Tá se vendo. E sujo, carecido de
banho.
Samuel tinha certeza de que ela o
chamaria para entrar e depois, talvez mais tarde ou no dia seguinte,
poderia perguntar os detalhes do que aconteceu com Manoel, seu pai.
Se estivesse morto, pouparia o seu trabalho. Talvez ficasse lá uns
tempos, a ideia de uma casa para dormir era tudo de que ele precisava
depois de dezesseis dias como um cão de rua. Se ela notou que ele
estava carecido de banho, o convite viria a seguir, ele pensou. Mas
não veio. Algo dizia que Manoel morava lá e estava escondido,
talvez pressentindo que o filho não o buscara para pedir a bênção.
Niceia voltou a falar:
— Já escureceu e daqui a pouco vai
chover. Você saia daqui, vá andando pelo mato. Segue aqui na rua,
passa da matriz e do cemitério, entra nos matos mesmo, sempre reto,
sem dobrar. Quando avistar um pé de goiaba, aí dobra pro rumo da
direita, que tem um canto coberto pra dormir. Entra correndo e dorme,
o temporal vem forte.
Bateu a madeira velha da porta com
força e sumiu. Nenhum rastro de som lá por dentro. Por todo esse
tempo Samuel permanecia com a barriga colada no portão de ferro e a
mulher de cabelos desgrenhados do outro lado. Não foi assim que
Mariinha descreveu a velha Niceia. Não foi assim que ele imaginou o
encontro com sua avó.
Ela chamou a chuva, pediu que viesse.
Antes, pouco antes, o céu estava limpo, sem dar sinal nenhum de que
as nuvens estavam para chorar. Todas as nuvens do céu choraram ao
mesmo tempo.
Socorro Acioli, em A cabeça do santo
Poeminha social
Mesmo
dito com cuidado
Sem qualquer provocação
“De gosto não se discute”
Traz logo uma discussão.
Sem qualquer provocação
“De gosto não se discute”
Traz logo uma discussão.
Millôr Fernandes, em Poemas
01/11/2026
Drédito
Garçom traz a conta.
CLIENTE Traz a maquininha, por favor?
Garçom traz a máquina. Cliente dá o
cartão.
GARÇOM É débito ou crédito?
CLIENTE Drédito.
GARÇOM Oi?
CLIENTE Crébito.
GARÇOM Não entendi.
CLIENTE Clérbito.
GARÇOM Débito?
CLIENTE Clérigo.
GARÇOM Crédito?
CLIENTE Drécimo.
O cliente começa a suar frio e a
passar mal.
CLIENTE Lépido. Périplo.
GARÇOM Senhor, a pergunta é simples.
Ou é drédito ou… Quérdito.
CLIENTE Quérdito?
GARÇOM Péricles.
CLIENTE Cérebro.
GARÇOM Mérito.
CLIENTE Derby.
GARÇOM (grita por ajuda)
Josias!
Gregório Duvivier, em Put some farofa
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