Acordei com os olhos grudados de lama,
o nariz entupido de terra e a boca cheia de areia estralando nos
dentes. Alguém me enterrou. Bichos alisavam minha língua,
rastejavam pelos ouvidos e por outros caminhos para dentro das
carnes. Debaixo do chão era uma agonia gelada, molhada, fedida. Não
sentia braços e pernas no breu daquela cova. Perdi a noção do meu
corpo, achei que me transformaria em um bicho morto, me desfazendo
até virar pó. Ninguém sabe o que fazer na hora da morte.
Quando eu já suplicava pelo fim, o
buraco me apertou como uma mão gigante de terra, envolveu meu corpo
inteiro e começou a me expulsar. Os olhos lacrados, a hora do parto,
a boa hora de Nossa Senhora, as palavras se repetiam no pensamento
tomado de desespero.
Comecei a sentir os músculos, ossos,
nervos, minha pele toda invadida pelo espírito impetuoso de um
parafuso, a forma humana preservada, não virei bicho nem pó. Girava
para cima com ritmo e firmeza, sem fazer esforço, na pressão lenta
da terra, cada vez mais forte ao redor do meu eixo, apertando dos
lados, empurrando no meio das pernas, pelas plantas dos pés. O
monstro subterrâneo estava decidido sobre meu destino: queria me
expulsar dali.
Dois pares de braços surgiram
cavando, falando, abrindo espaço para a luz. Buscavam por mim. Duas
mãos encontraram meu pescoço, seguraram pelos lados e puxaram com
força. Outro par de mãos agarrou minha cabeça. Ouvia suas vozes
apressadas comentando como era pesada, cuidado para o pescoço não
quebrar e matar de uma vez, puxe o braço com jeito para não
arrancar o ombro, que pele fria, será que a criatura está viva? e
se sair morta, o que faremos? deixa de asneira, eles saem vivos
sempre, você sabe que é assim.
Os dois mudaram a estratégia e me
arrancaram pelas axilas com vigor e gemidos de esforço. Atravessei a
terra tossindo muito. É uma rapariga, ela disse. Passou um pano
molhado no meu rosto e repetia que estava tudo bem, que era preciso
calma, enquanto um homem me enrolava em duas mantas, cobria meus
peitos e minhas costas. Eu estava nua, com medo e morrendo de ódio
daquela mulher me chamando de rapariga. Um sopro gelado no rosto
esfriou as gotas na minha pele e parecia congelar. Ainda não
enxergava bem, não ouvia com clareza, achava estranhas aquelas
vozes, escutava tudo sem entender nada, delirava sobre morrer.
Voltei a enxergar graças ao zelo
dela, limpando minhas pálpebras com muita paciência. Meu corpo
estava completamente nu e sem pelos em nenhum lugar. Passei a mão na
cabeça e gritei, assustei os dois. Estava careca. Os cabelos ficam
no caminho, o chão arranca, a mulher disse, mas logo vão crescer,
não te preocupes. Falava o essencial e continuava limpando com
cuidado, as orelhas, a pele, o pescoço, o dedo enrolado em um tecido
fino cutucava os ouvidos. Suas mãos me devolviam a dignidade, seus
olhos não largavam de mim.
De vez em quando ela pedia que eu não
ficasse nervosa, que me acalmasse, que me daria sopa com pão, chá
quente e boa dormida. Todos vocês chegam com muita fome, depois
dormem uns dias, ela disse, quando acordar arranjaremos sua vida, sem
susto nem espanto. Não adiantava tentar me acalmar, tudo era puro
assombro. Perguntou se eu conseguiria ficar em pé e colocar meus
braços sobre os ombros deles. Estava fraca demais. O homem me pegou
no colo e me levou até a casa, perto da cova de onde saí.
Tentei falar, mas tossi de novo.
Entramos pela porta de trás e fomos direto para um pequeno quarto,
ao lado da cozinha. Os dois me deixaram em uma poltrona larga de
couro marrom, forrada com alguns lençóis em um local escuro e
bagunçado.
Senta-te aqui, fica parada, não sai
por enquanto. É preciso permanecer mais ou menos meia hora sentada
para que o sangue volte a correr direito pelo corpo e a pressão
regularize, o homem explicou nesses termos. Depois deveria tomar
banho. Antes de deixar o quarto ele levantou minhas duas pernas e as
apoiou em um pequeno banco, também forrado com uns trapos manchados,
dizendo que era para ajudar a ativar a circulação. Abriu uma maleta
de couro e me examinou com aparatos de médico. Respiração.
Lanterna nos olhos e ouvidos. Aperto no braço, na barriga com sua
mão fria e avermelhada. Disse que parecia estar tudo bem, por
enquanto, só muito suja por dentro, mas iria melhorar com os dias.
A mulher voltou com outra toalha,
limpando meus pés. Eu seguia atenta às temperaturas, à
benevolência dos exames do doutor, à certeza dos olhos dela. Na
parede ao lado da cama havia um batente alto de alvenaria cheio de
velas antigas, de cores e de formatos diferentes, ceras derretidas,
retorcidas, pavios dormindo. Ela acendeu algumas antes de sair,
deixou fogo e luz. Senti cheiro de estrume, passei muito tempo com
aquele fedor de enterro por dentro do meu nariz, mesmo dias depois de
estar limpa.
Um pouco de chá amargo, um prato de
sopa e um pedaço de pão. Foi a primeira refeição que fiz com
eles, enquanto me observavam.
— Deixa a chávena aqui na mesa,
assim tu tomas a sopa na bandeja com mais jeito.
Eu não sabia o que era chávena.
Quase bebi a sopa direto do prato, de tanta fome. Comi o pão de uma
vez e ainda tossia, engasgava, mas o desespero pela comida era maior.
O chá quente dissolveu a terra da garganta, um alívio.
Agora podes tomar banho, ela
autorizou, arrumando na cadeira ao lado da banheira um pijama de
flanela azul, de tamanho bem maior que o meu; um par de meias, um
vestido preto, um casaco verde, roupa de baixo, um pedaço de sabão.
Enquanto eu comia, eles encheram uma banheira com água tão quente
que fumaçava, ali dentro do quarto mesmo. Faziam tudo juntos,
sincronizados, pareciam treinados para aqueles gestos de cuidar de
uma morta-viva. A água caía na banheira de ferro antiga e de pés
elegantes. Ao lado havia uma cama e um baú.
— Demora-te no banho, lava as partes
todas, esfrega-te com esta esponja. Tenho outras, arranjei um pacote
quando soube que tu chegarias, podes usar tudo. Limpa os dentes, é
importante tirar a sujeira das gengivas também. Descansa, depois do
banho tu podes dormir, a cama está pronta.
Ela adivinhou meu desejo de falar e
avisou que não seria bom fazer muito esforço nos primeiros dias.
— Eu sou Florice. Este é o doutor
Fernando, meu marido. Ele é médico, saberá fazer o que for preciso
para recuperar tua saúde. Depois tu me dizes o teu nome.
Seria impossível descansar com tanto
nojo da minha imundície. Tirei os panos de cima de mim e entrei na
banheira para passar o frio, o corpo nu, tonto e fraco, sem
equilíbrio. Fechei os olhos dentro da água, a perfeição da
temperatura, um lago de alívio sob a luz das velas. Parecia lógico
e prudente aceitar que algo gravíssimo acontecera. Voltei a achar,
dessa vez com calma, que eu estava morta. Alguém me matou e tudo ao
meu redor era o além. Então era assim a Morte, uma senhora de olhos
azuis chamada Florice, prestimosa, racional, um pouco apreensiva, mas
jamais surpresa. Uma aberração surgiu do solo, no quintal, mas isso
não alterava sua calma, como se me conhecesse.
Se fosse uma situação real, com
pessoas vivas, não sei o que teria sido de mim, onde eu teria sido
largada, chamariam a polícia, pensava tudo isso ao mesmo tempo,
minha cabeça acelerada. Cheguei a me convencer de que talvez aquilo
fosse uma área de transição, um descanso para o que viria depois.
Vida e morte são mistérios que ninguém alcança. Tudo o que se
fala sobre nascer e morrer é mera aposta. A morte é dolorosa, mas
talvez o nascimento seja pior, e minha desgraça estava ali, entre
uma coisa e outra.
Era estranho que o corpo doesse tanto,
nos músculos, na pele, aquela dor de cabeça, sentir fome, sentir
frio, ter a carne tão viva ainda. O desligamento das sensações
viria aos poucos, devia ser assim.
Alisei meu corpo com as mãos buscando
algo que explicasse o acontecido: tiro, facada, ferida, inchaço,
costura, tumor. Achei um corte no braço esquerdo, fundo, do ombro ao
cotovelo, e outro no pescoço, e machucados, pontos roxos, arranhões,
pancadas. Os cortes maiores não sangravam, mas estavam abertos e com
terra por dentro. Ardia. Eu não estranhava minha própria pele. Fui
capaz de alguma maneira, apertei minhas coxas, achei tudo forte,
farto, os músculos, as carnes, os seios, as pistas eram só essas. A
última esperança que tinha era o corpo, minha única posse, mesmo
sem saber se eu era só uma sobra de vida que desapareceria com os
dias.
Mergulhei. A banheira era larga e
funda o suficiente para ficar uns segundos imersa. Foi quando percebi
um colar de búzios boiando, preso ao meu pescoço, cheio de areia
que saía de dentro das conchas e se dissolvia na água, e que veio
comigo não sei de onde, em testemunho de não sei o quê. Recobrei
um pouco da lucidez. Até hoje, quando estou confusa, cuido do meu
corpo, lavo a cabeça, deixo que a água me ajude a voltar para a
minha pele.
A temperatura foi baixando muito
rápido e tive de sair da banheira, me enxugar, vestir a roupa, as
meias, calçar os estranhos sapatos de esquentar pés e abrir a porta
para tentar chamá-la. Havia voz: Florice! Ela veio correndo com o
marido e perguntei se eles sabiam como eu morri, se estava mesmo
morta, onde era aquele lugar, tudo atropelado.
— Ela fala brasileiro — Fernando
disse, sorrindo, pois para ele era boa notícia.
Perguntaram meu nome. Não lembrava.
Não havia nenhum registro de resposta nos meus pensamentos para a
pergunta que coloca uma pessoa na vida de outra.
Nada aparecia na cabeça, imagem,
lembrança, nenhuma pessoa, isso me desesperou e eles disseram que
seria melhor dormir, pois a chegada confunde as ideias, no dia
seguinte eu lembraria de tudo.
— E se eu não lembrar?
— Todos lembram.