quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Intimidade | Liniker e Agnes Nunes

Não estamos mais

uma carta uma brasa através
por dentro do texto
nuvem cheia da minha chuva
cruza o deserto por mim
a montanha caminha
o mar entre os dois
uma sílaba um soluço
um sim um não um ai
sinais dizendo nós
quando não estamos mais.

Paulo Leminski

Dor fantasma

Eu tinha cinco anos na época, na mina Deuces Wild, em Montana. De tantos em tantos meses, antes de nevar, meu pai e eu escalávamos as montanhas, seguindo marcas que o velho Hancock tinha feito nas árvores nos idos de 1890. Meu pai carregava um saco de lona com café, fubá, carne-seca e outras coisas assim. Eu carregava uma pilha de Saturday Evening Posts, durante boa parte do caminho pelo menos. A cabana de Hancock ficava na beira de uma campina em forma de cratera, bem no alto da montanha. Céu azul em cima e ao redor dela. O cachorro dele se chamava Blue. O capim que crescia no telhado caía como uma franja arrojada sobre a varanda onde eles tomavam café e conversavam, passando minérios um para o outro, apertando os olhos detrás da fumaça de cigarro. Eu brincava com Blue e com as cabras ou colava folhas do Post nas paredes da cabana, já cobertas de uma grossa camada de jornais velhos. Dispostas uniformemente, umas em cima das outras em retângulos bem organizados, as folhas de jornal revestiam o pequeno cômodo inteiro. Aprisionado pela neve durante o longo inverno, Hancock lia suas paredes, página por página. Se encontrava o final de um artigo, tentava imaginar o que tinha vindo antes, ou procurava outras partes dele nas páginas ao redor da cabana. Quando acabava de ler as paredes todas, passava dias e dias colando mais jornal e depois começava tudo de novo. Eu não tinha ido com o meu pai na primeira escalada daquela primavera, quando ele encontrou o velho morto. As cabras e o cachorro também, todos na cama dele. “Quando fico com frio, eu puxo outra cabra pra cima de mim e pronto”, ele costumava dizer.
Vai, Lu, só me leva até lá em cima e me deixa lá.” Era o que o meu pai vivia implorando que eu fizesse quando eu o internei numa casa de repouso. Ele só falava disso nessa época, das várias minas em que tinha trabalhado, das várias montanhas. Idaho, Arizona, Colorado, Bolívia, Chile. Ele estava começando a perder a lucidez então. Não se limitava a se lembrar desses lugares, mas acreditava realmente estar lá, naquela época. Achava que eu ainda era criança e falava comigo como se eu tivesse a idade que eu tinha quando morávamos nesses lugares. Dizia para as enfermeiras coisas como: “A Lu sabe ler Nossos ajudantes camaradas inteirinho e ela só tem quatro anos”. Ou “Ajude a moça a tirar a mesa, Lu. Boa menina”.
Eu levava café com leite para ele todas as manhãs. Fazia a sua barba e o penteava, andava com ele para cima e para baixo pelos corredores fedorentos. A maior parte dos pacientes ainda estava na cama, chamando, sacudindo as grades de proteção, apertando campainhas. Velhinhas senis se masturbam. Depois de andar com ele, eu o amarrava na sua cadeira de rodas, para que ele não tentasse fugir e caísse. E eu fazia isso também. Quer dizer, não fingia nem concordava só para agradar-lhe — eu de fato ia com ele para algum lugar. Para a mina Trench nas montanhas acima da cidadezinha de Patagonia, no Arizona: eu tinha oito anos e estava toda pintada com violeta de genciana por causa de uma micose. À noitinha, nós todos íamos até o penhasco para jogar latas fora e queimar o lixo. Um cervo, um antílope ou até mesmo um puma às vezes chegavam perto de nós, sem medo dos nossos cachorros. Bacuraus planavam diante do paredão escarpado de rocha dos penhascos à nossa frente, ainda mais avermelhados à luz do pôr do sol.
A única vez em que o meu pai disse que me amava foi logo antes de eu voltar para os Estados Unidos para fazer faculdade. Estávamos numa praia na Terra do Fogo. Um frio antártico. “Nós trilhamos este continente inteiro juntos… as mesmas montanhas, o mesmo oceano, de alto a baixo.” Eu nasci no Alasca, mas não me lembro de lá. Ele vivia dizendo que eu devia me lembrar, na casa de repouso, então acabei fingindo que conhecia Gabe Carter, que me lembrava de Nome, do urso que apareceu no acampamento.
No início ele volta e meia perguntava da minha mãe, onde ela estava, quando ela vinha. Ou então pensava que ela estava lá, conversava com ela, me fazia dar uma garfada de comida para ela para cada garfada que ele comia. Eu despistava. Dizia que ela estava fazendo as malas, que ela já vinha. Quando ele melhorasse, todos nós íamos morar juntos numa casa bem grande em Berkeley. Ele fazia que sim com a cabeça, reconfortado, a não ser num dia, quando se virou para mim e disse: “Você está mentindo descaradamente”. E depois começou a falar de outra coisa.
Um dia ele simplesmente a matou. Quando eu cheguei, ele estava deitado na cama, chorando, encolhidinho feito um bebê. Ele me contou a história como se estivesse em choque, com detalhes irrelevantes, como quem testemunhou um acidente horrível. Eles estavam num barco a vapor no Mississippi; minha mãe estava jogando pôquer na coberta. Pessoas de cor agora tinham permissão para jogar e Florida (a enfermeira dele) tinha ganhado o dinheiro deles todo, até o último centavo. Minha mãe tinha apostado tudo, todas as economias que eles haviam juntado a vida inteira, numa última mão de pôquer fechado. Valetes de ouros e de espadas como coringas. “Eu já devia ter desconfiado quando vi aquela safada rindo sem parar com aqueles dentes de ouro dela, contando todo aquele dinheiro”, disse ele. “Ela deu pelo menos uns quatro mil aqui para o John.”
Cala a boca, seu esnobe”, disse John da cama ao lado da do meu pai. Ele tirou um tablete de Hershey de trás da sua Bíblia. John não tinha permissão para comer doces; o tablete de chocolate era o que eu tinha trazido para o meu pai no dia anterior. Os óculos de leitura do meu pai estavam parcialmente escondidos debaixo do travesseiro de John. Eu os resgatei. John começou a gemer e se queixar: “As minhas pernas! As minhas pernas doem!”. Ele não tinha mais pernas. Era diabético e elas tinham sido amputadas acima dos joelhos.
No barco a vapor, meu pai estava no bar com Bruce Sasse (um operador de sonda a diamante de Bisbee). Eles ouviram o tiro e, um bom tempo depois, um chape na água. “Eu não tinha trocado para a gorjeta, mas não queria deixar um dólar.” “Esnobe e pão-duro! É típico! Típico!”, John resmungou da cama dele. Meu pai e Bruce Sasse saíram correndo pelo barco e chegaram a boreste ainda a tempo de ver a minha mãe boiando e ficando para trás. O sangue na esteira do barco.
Ele só chorou por ela naquele dia, mas passou semanas falando do funeral. Milhares de pessoas tinham ido ao enterro. Nenhum dos meus filhos tinha usado terno, mas eu estava muito bonita e fui gentil com todos. Ed Titman, o embaixador americano no Peru, esteve lá; Domingo, o mordomo, também; e até Charlie Bloom, o velho sueco que morava em Mullan, Idaho. Charlie uma vez me disse que sempre botava açúcar no mingau de aveia dele. Mas e se não tiver? Eu perguntei, metida. Eu bota azim mesma.
O dia em que meu pai matou minha mãe foi também o dia em que ele parou de me reconhecer. Daí em diante ele passou a me dar ordens como se eu fosse uma secretária ou uma criada. Um dia eu finalmente perguntei a ele onde eu estava. Eu tinha fugido. Sangue ruim, uma Moynihan que nem a minha mãe e o tio John. Eu simplesmente tinha me mandado uma tarde, bem em frente à casa de repouso, e subido a Ashby Avenue com um chicano inútil num Buick. O homem que ele descreveu era, na verdade, um tipo moreno com pinta de malandro que eu acho atraente.
Nessa época, ele começou a ter alucinações a maior parte do tempo. Cestos de lixo se transformavam em cachorros que falavam, sombras de folhas de árvores nas paredes viravam soldados em marcha, enfermeiras parrudas agora eram espiões travestidos. Ele falava incessantemente sobre um tal de Eddie e um tal de pequeno Joe; nenhum dos dois parecia ser ninguém que ele pudesse ter conhecido. Toda noite eles viviam alguma aventura maluca e temerária num navio-auxiliar estacionado ao largo de Nagasaki, em helicópteros que sobrevoavam a Bolívia. Meu pai ria, descontraído e à vontade como eu nunca o tinha visto.
Eu chegava a rezar para que ele continuasse assim, mas ele estava ficando cada vez mais racional, “orientado em relação a tempo e lugar”. Falava muito de dinheiro. Dinheiro que ele tinha ganhado, dinheiro que ele tinha perdido, dinheiro que ele ia ganhar. Ele me via então como uma corretora, talvez, e tagarelava sem parar sobre opções e porcentagens, rabiscando números na caixa de Kleenex inteira. Margens e opções, notas do Tesouro, ações, títulos, fusões. Condenava rancorosamente a filha (eu) por ter matado a mulher dele e o trancafiado, só para ficar com o dinheiro dele. Florida era a única enfermeira negra do hospital que ainda cuidava dele. Ele acusava todas elas de roubarem, xingava-as de crioulinhas ou de putas. Usava o urinol para chamar a polícia. Florida e John tinham roubado todo o dinheiro dele. John o ignorava, lendo sua Bíblia ou simplesmente deitado na cama, se contorcendo e gritando “As minhas pernas! Senhor Jesus, faça as minhas pernas pararem de doer!”.
Shhh, John”, disse Florida. “Isso é só dor fantasma.”
Mas é dor de verdade?”, eu perguntei a ela.
Ela deu de ombros. “Toda dor é de verdade.”
Ele conversava com Florida sobre mim. Ela ria, piscando para mim, concordando. “Ela não vale nada mesmo.” Ele nos falou de todas as maneiras como eu tinha sido uma decepção para ele, desde os campeonatos de ortografia até os meus casamentos fracassados.
Isso está começando a mexer com você”, disse Florida. “Você parou de passar as camisas dele a ferro. Daqui a pouco vai parar de vir aqui também.”
Mas eu me sentia mais próxima dele. Nunca tinha visto o meu pai demonstrar rancor, preconceito nem obsessão por dinheiro. Aquele era o homem cujos ídolos tinham sido Thoreau, Jefferson e Thomas Paine. Eu não estava desiludida. O medo e a admiração reverente que eu costumava sentir por ele estavam começando a desaparecer.
A outra coisa de que eu gostava era que agora eu podia tocar nele. Abraçá-lo e dar banho nele, cortar as unhas dos seus pés e segurar a sua mão. Não dava mais trela para nada do que ele dizia. Ficava abraçada com ele, ouvindo Florida e as outras enfermeiras cantarem e rirem, enquanto Days of Our Lives bradava da sala de recreação. Eu lhe dava gelatina e ouvia John ler passagens do Deuteronômio. Nunca consegui entender como tanta gente que mal sabe ler lê tanto a Bíblia. É difícil. Da mesma forma, me espanta que costureiras do mundo inteiro consigam descobrir como pregar mangas e zíperes.
Ele comia no quarto dele e não se aproximava de forma nenhuma dos outros pacientes. Eu sim, só para me distrair ou para não chorar. No quadro de avisos havia um cartaz bem grande que dizia: Hoje é ________. O tempo hoje está ________. A próxima refeição é ________. O próximo feriado é ________. Durante dois meses ficou sendo uma terça-feira chuvosa antes do almoço e da Páscoa, mas depois disso os espaços passaram a ficar sempre em branco.
Uma voluntária chamada Ada lia o jornal todas as manhãs. Virando uma página atrás da outra, evitando crimes e violência. A maior parte dos dias só o que sobrava para ela ler eram acidentes de ônibus no Paquistão, Dennis, o Pimentinha e o horóscopo. Furacões em Galveston. (Eu também não consigo entender como as pessoas ainda continuam morando em Galveston depois de todos esses anos.) Comecei a gostar dos outros pacientes. A maioria era mais senil ainda que o meu pai, mas eles ficavam contentes de me ver, se agarravam a mim com dedos minúsculos. Todos eles me reconheciam e cada um me chamava de um nome diferente.
Continuei a visitá-lo. Talvez por culpa, como Florida dizia, mas também com esperança. Ficava esperando que ele me elogiasse, me perdoasse. Por favor me reconheça, papai, diga que me ama. Ele nunca disse, e eu só vou lá agora para levar apetrechos de barba, pijamas ou doces. Ele não consegue mais andar. Como fica violento, eles o mantêm num colete de contenção dia e noite.
A última vez em que estive com ele de verdade foi no piquenique no lago Merritt. Dez pacientes foram, com Ada, Florida, Sam e eu. Sam é o zelador. (Chimpanzé, meu pai o chamava.) Nós levamos uma hora para botá-los na van, as cadeiras de rodas subindo num ascensor que rangia. Era o dia seguinte ao Memorial Day e estava muito calor. Ainda nem tínhamos saído do lugar e a maioria deles já tinha feito xixi; as janelas ficaram embaçadas. Os velhinhos riam, entusiasmados, mas cheios de medo também, se encolhendo quando ônibus passavam por nós, sirenes, motocicletas. Meu pai estava bonito com um terno de algodão listrado, mas depois a parte da frente ficou azul com a baba do Parkinson e uma mancha azul-escura se espalhou por uma das pernas abaixo.
Eu tinha imaginado que ficaríamos embaixo das árvores, na margem do lago, mas Ada nos fez dispor as cadeiras de rodas num semicírculo virado para a rua, perto do lago dos patos. Também imaginei que os bêbados iriam sair de perto de nós, mas eles simplesmente continuaram onde estavam, nos bancos em frente aos velhos. Alguns dos pacientes sentiram cheiro de cigarro e pediram para fumar. Um dos bêbados deu um cigarro para John, mas Ada tirou o cigarro dele e o esmagou com o pé. Fumaça dos canos de descarga, rádios de carros de cafetão, carros rebaixados e motocicletas. O chão vibrava com as passadas dos corredores, que se amontoavam quando chegavam perto de nós, correndo sem sair do lugar enquanto tentavam nos contornar. Nós estávamos passando comida uns para os outros, dando de comer a quem não conseguia comer sozinho. Salada de batata e galinha frita. Beterraba em conserva e Ki-Suco. Florida e eu demos pratos de comida para os quatro bêbados que estavam nos bancos, e Ada ficou furiosa. Mas tinha comida de sobra. Sorvete napolitano derretido pingava nos babadores. Lula e Mae só misturavam as cores do sorvete, brincando com ele em seus colos. Meu pai era muito asseado quando comia, sempre tinha sido meticuloso. Eu lavei cada um dos seus dedos. Ele tem mãos lindas. Não sei por que eles vivem beliscando e puxando as próprias roupas e cobertas. Isso é chamado de “carfologia”.
Depois do almoço, uma mulher grande, com uniforme de guarda-florestal, trouxe um filhote de guaxinim para nos mostrar e o passou entre nós. Ele era macio, tinha um cheiro doce e todo mundo gostou dele, ou melhor, todo mundo ficou apaixonado por ele, segurando-o no colo e fazendo carinho, mas Lula o apertou tanto que ele acabou dando uma unhada no rosto dela. “Raivoso!”, disse meu pai. “Minhas pernas!”, John reclamou. O homem deu outro cigarro para John. Ada não viu, porque estava guardando as travessas de comida na van. A guarda-florestal entregou o guaxinim para os bêbados. O bichinho obviamente já os conhecia, pois se enroscou em volta do pescoço de um e de outro, calmo. Ada avisou que nós tínhamos vinte minutos para levar os pacientes para dar uma volta pelo lago dos patos, ver as gaiolas dos pássaros e subir a colina para ver a vista do lago lá de cima.
Meu pai sempre tinha tido paixão por pássaros. Estacionei a cadeira dele em frente às corujas desgrenhadas e fiquei falando sobre os vários pássaros e animais que tínhamos visto. O porco-espinho-de-pelo-verde. O pica-pau-de-penacho-vermelho num choupo-branco. Uma fragata ao largo de Antofagasta. Papa-léguas cruzando, majestosos. Meu pai ficou sentado lá simplesmente, de olhos baços. As corujas estavam dormindo ou então eram empalhadas. Eu fui em frente, empurrando a cadeira. Todos os outros estavam animadíssimos, gritando e acenando para nós. John estava se divertindo a valer. Florida tinha feito amizade com um corredor, que havia lhe emprestado o gravador dele. Lula segurava o gravador e cantava, enquanto eles davam comida para os patos.
Era difícil empurrar a cadeira colina acima. Estava quente e barulhento, com os carros, os rádios e o constante tum-tum-tum das passadas dos corredores. Estava tão enevoado e enfumaçado que mal dava para ver a outra margem. Lixo e entulho do Memorial Day. Copos de papel flutuavam no lago marrom e espumoso, serenos como cisnes. No topo da colina eu puxei os freios da cadeira do meu pai e acendi um cigarro. Ele estava rindo, um riso feio.
É horrível, não é, papai?”
Se é, Lu.”
Ele afrouxou os freios e a cadeira começou a deslizar pelo caminho de lajotas. Eu hesitei, fiquei parada olhando, mas depois joguei o cigarro fora e segurei a cadeira dele bem na hora em que ela estava pegando velocidade.

Lucia Berlin, in Manual da faxineira: Contos escolhidos

O genial Quino

Ovo frito

Gosto muito de ovo. Ovo frito, ovo cozido, ovo escaldado, com pão torrado. Coisa boba, comecei a pensar sobre as razões por que gosto de ovo. Lembrei-me... Viajante, meu pai voltava às sextas-feiras, no trem das oito. Noite escura, nós esperando na porta; primeiro era o apito rouco, depois ele aparecia expelindo enxames de vespas vermelhas, passava debaixo da paineira, entrava na reta, e passava a quinze metros da nossa casa, o pai com a cabeça de fora do vagão, sorrindo, e todos corríamos para a estação. Ele vinha sempre alegre, com fome e sujo. Água quente não havia. Mas não tinha importância. Da leitura do Evangelho havíamos aprendido de Jesus no lava-pés que quem está com os pés limpos tem o corpo inteiro limpo. A coisa, então, era lavar os pés. E esse era o costume geral lá em Minas, lavar os pés antes de dormir. Minha mãe esquentava água no fogão de lenha, punha numa bacia e eu lavava os pés do meu pai. Depois de limpo, ele se assentava à mesa e o que tinha para comer era sempre a mesma coisa: arroz, feijão, molho de tomate e cebola, ovo frito e pão. Ele me punha assentado ao joelho e eu comia junto. Hoje, quando como pão ensopado no molho de tomate, pão lambuzado no amarelo mole do ovo, eu volto àquelas noites. Há comidas que são só comidas. Mas há comidas que são sacramentos. Estão misturadas com memórias. Fosse Jesus Cristo que estivesse escrevendo este livro, ele diria: “Nem só de ovo frito vive o homem mas das memórias que moram nele...” . Somente os poetas sabem que um ovo frito é muito mais que um ovo frito…

Rubem Alves, in O velho que acordou menino

Um só livro

Cave ab homine unius libri.

[Cuidado com o homem de um livro só]

Sidney Vieira, in 500 Provérbios em Latim

Jorge Luis Borges

Imagem: Revista Estante

O sucesso de Jorge Luis Borges na Itália já tem uma história de trinta anos: começa de fato em 1955, data da primeira tradução de Ficciones, sob o título La biblioteca di Babele, nas edições Einaudi, e culmina hoje com a edição completa das obras nos “Meridiani” Mondadori. Se bem me lembro foi Sergio Solmi que, depois de ter lido os contos de Borges em tradução francesa, deles falou com entusiasmo a Elio Vittorini, o qual propôs imediatamente a edição italiana, descobrindo um tradutor apaixonado e com total empatia em Franco Lucentini. A partir de então os editores italianos passaram a disputar a publicação dos livros do escritor argentino, em traduções que agora Mondadori reúne a outros textos que ainda não haviam sido traduzidos; dessa que será a mais completa edição da sua opera omnia hoje existente, vem à luz exatamente nestes dias o primeiro volume, sob a responsabilidade de um fidelíssimo amigo como Domenico Porzio.
O êxito editorial foi acompanhado de um êxito literário que é ao mesmo tempo causa e efeito do primeiro. Penso nas manifestações de admiração por parte de escritores italianos, incluindo aqueles cuja poética mais se distancia dele; penso nas abordagens profundas para uma definição crítica de seu mundo; e penso também e sobretudo na influência que ele teve sobre a criação literária italiana, sobre o gosto e sobre a própria ideia de literatura: podemos dizer que muitos daqueles que escreveram nestes últimos vinte anos, a partir dos que pertencem à minha geração, foram profundamente marcados por ele.
O que determinou esse encontro entre a nossa cultura e uma obra que encerra em si um conjunto de heranças literárias e filosóficas, em parte familiares a nós, em parte insólitas, e as traduz numa chave que certamente era bastante distante das nossas? (Falo de uma distância de então, em relação aos caminhos percorridos pela cultura italiana nos anos 50.)
Só posso responder apelando para minha memória, tratando de reconstruir o que significou para mim a experiência Borges desde o início até hoje. Experiência que tem como ponto de partida e como fulcro dois livros, Ficções e O Aleph, isto é, aquele gênero literário particular que é o conto borgiano, para depois passar ao Borges ensaísta, nem sempre bem distinguível do narrador, e ao Borges poeta, que contém muitas vezes núcleos de conto e em todo caso um núcleo de pensamento, um desenho de ideias.
Começarei pelo motivo de adesão mais geral, isto é, ter reconhecido em Borges uma ideia de literatura como mundo construído e governado pelo intelecto. Esta é uma ideia-contracorrente em relação ao curso principal da literatura mundial do século XX que, todavia, tende para o sentido oposto, ou seja, quer dar-nos o equivalente do acúmulo magmático da existência, na linguagem, no tecido dos eventos, na exploração do inconsciente. Mas existe também uma tendência da literatura do século XX, certamente minoritária, que teve seu defensor mais ilustre em Paul Valéry — e penso sobretudo no Valéry prosador e pensador —, que aponta para uma revanche da ordem mental sobre o caos do mundo. Poderia tentar identificar os traços de uma vocação italiana nesta direção, do Duzentos ao Renascimento, ao Seiscentos, ao Novecentos, para explicar como descobrir Borges para nós foi ver realizada uma potencialidade almejada desde sempre: ver tomar forma um mundo à imagem e semelhança dos espaços do intelecto, habitado por um zodíaco de signos que correspondem a uma geometria rigorosa.
Mas talvez para explicar a adesão que um autor suscita em cada um de nós, ao invés de partir de grandes classificações gerais, é preciso partir de razões mais precisamente conexas com a arte de escrever. Dentre estas colocarei à frente a economia da expressão: Borges é um mestre do escrever breve. Ele consegue condensar em textos sempre de pouquíssimas páginas uma riqueza extraordinária de sugestões poéticas e de pensamento: fatos narrados ou sugeridos, aberturas vertiginosas para o infinito, e ideias, ideias, ideias. Como tal densidade se realiza sem a mínima congestão, no período mais cristalino, sóbrio e arejado; como o narrar sinteticamente e enviesado conduz a uma linguagem toda precisão e concretude, cuja inventiva se manifesta na variedade dos ritmos, dos movimentos sintáticos, dos adjetivos sempre inesperados e surpreendentes, isso é um milagre estilístico, sem igual na língua espanhola, de que só Borges tem o segredo.
Lendo Borges, me veio repetidas vezes a tentação de formular uma poética do escrever breve, louvando suas vantagens em relação ao escrever longo, contrapondo as duas ordens mentais que a inclinação para um ou para o outro pressupõe, por temperamento, por ideia da forma, por substância dos conteúdos. Por enquanto me limitarei a dizer que a verdadeira vocação da literatura italiana, como aquela que custodia os seus valores no verso ou na frase em que cada palavra é insubstituível, se reconhece mais no escrever breve que no escrever longo.
Para escrever breve, a invenção fundamental de Borges, que foi também a invenção de si mesmo como narrador, o ovo de Colombo que lhe permitiu superar o bloqueio que o impedia, até cerca dos quarenta anos, de passar da prosa ensaística para a prosa narrativa, fingiu que o livro que desejava escrever já estivesse escrito, escrito por um outro, por um hipotético autor desconhecido, um autor de uma outra língua, de uma outra cultura, e descreveu, resumiu, resenhou esse livro hipotético. Faz parte da lenda de Borges a anedota de que o primeiro extraordinário conto escrito com essa fórmula, “El acercamiento a Almotásim”, quando apareceu na revista Sur, foi encarado de fato como uma recensão de um livro de autor indiano. Assim como faz parte das passagens obrigatórias da crítica sobre Borges observar que cada texto dele duplica ou multiplica o próprio espaço através de outros livros de uma biblioteca imaginária ou real, leituras clássicas, eruditas ou simplesmente inventadas. O que mais me interessa anotar aqui é que nasce com Borges uma literatura elevada ao quadrado e ao mesmo tempo uma literatura como extração da raiz quadrada de si mesma: uma “literatura potencial”, para usar um termo que será desenvolvido mais tarde na França, mas cujos prenúncios podem ser encontrados em Ficciones, nos estímulos e formas daquelas que poderiam ter sido as obras de um hipotético Herbert Quain.
Que para Borges só a palavra escrita tenha plena realidade ontológica e que as coisas do mundo existam para ele somente enquanto remetem a coisas escritas, foi dito muitas vezes; o que desejo sublinhar aqui é o circuito de valores que caracteriza essa relação entre mundo da literatura e mundo da experiência. O vivido é valorizado por quanto ele irá inspirar na literatura ou por quanto, a seu modo, repete arquétipos literários: por exemplo, entre uma empresa heroica ou temerária num poema épico e uma empresa análoga vivida na história antiga ou contemporânea existe uma troca que conduz a identificar e comparar episódios e valores do tempo escrito e do tempo real. Nesse quadro se situa o problema moral, sempre presente em Borges como um núcleo sólido na fluidez e potencial de intercâmbio dos cenários metafísicos. Para esse cético que parece degustar equanimemente filosofias e teologias só por seu valor espetacular e estético, o problema moral se representa tal e qual de um universo a outro em suas alternativas elementares de coragem e de vileza, de violência provocada ou sofrida, de busca da verdade. Na perspectiva borgiana, que exclui qualquer espessura psicológica, o problema moral aflora simplificado quase nos termos de um teorema geométrico, em que os destinos individuais formam um desenho geral que toca a cada um reconhecer menos ainda que escolher. Mas é no tempo rápido da vida real, não no tempo flutuante do sonho, não no tempo cíclico ou eterno do mito, que as sortes se decidem.
E aqui convém lembrar que do epos de Borges não faz parte somente aquilo que se lê nos clássicos, mas também a história argentina, que em alguns episódios se identifica com a sua história familiar, com os feitos de armas de seus antepassados militares nas guerras da jovem nação. No “Poema conjectural”, Borges imagina dantescamente os pensamentos de um ancestral seu na linha materna, Francisco Laprida, enquanto jaz num pântano, ferido após uma batalha, caçado pelos gauchos do tirano Rosas, e reconhece o próprio destino na morte de Buonconte da Montefeltro assim como a relembra Dante no canto V do Purgatório. Observou Roberto Paoli, numa pontual análise dessa poesia, que Borges bebe, mais ainda que no episódio de Buonconte explicitamente citado, num episódio contíguo do mesmo canto V do Purgatório, o de Jacopo del Cassero. A osmose entre fatos escritos e fatos reais não poderia ter uma exemplificação melhor: o modelo ideal não é um evento mítico anterior à expressão verbal, e sim o texto como tecido de palavras, imagens e significados, composição de motivos que se respondem, espaço musical em que um tema desenvolve as suas variações.
Existe uma poesia ainda mais significativa para definir essa continuidade borgiana entre acontecimentos históricos, epos, transfiguração poética, sucesso dos motivos poéticos e sua influência sobre o imaginário coletivo. E é também essa uma poesia que nos toca de perto porque nela se fala do outro poema italiano que Borges frequentou intensamente, o de Ariosto. A poesia se intitula “Ariosto e os árabes”. Aqui, Borges passa em revista o epos carolíngio e o bretão que confluem no poema de Ariosto, o qual sobrevoa esses motivos da tradição montado no hipogrifo, isto é, dele apresenta uma transfiguração fantástica, ao mesmo tempo irônica e cheia de pathos. O êxito do Orlando furioso propaga os sonhos das lendas heroicas medievais na cultura europeia (Borges cita Milton como leitor de Ariosto), até o momento em que aqueles que tinham sido os sonhos dos exércitos adversários de Carlos Magno, isto é, do mundo árabe, não passam a predominar: As mil e uma noites conquistam os leitores europeus, ocupando o lugar que Orlando furioso tinha no imaginário coletivo. Existe portanto uma guerra entre os mundos fantásticos do Ocidente e do Oriente que prolonga a guerra histórica entre Carlos Magno e os sarracenos, e é ali que o Oriente encontra a sua revanche.
Assim, o poder da palavra escrita se liga ao vivido como origem e como fim. Como origem porque se torna o equivalente de um acontecimento que de outra maneira ficaria como não tendo ocorrido; como fim porque para Borges a palavra escrita que conta é aquela que tem um forte impacto sobre a imaginação, enquanto figura emblemática ou conceitual, feita para ser lembrada e reconhecida em qualquer aparição passada ou futura.
Esses núcleos míticos ou arquetípicos, que provavelmente podem ser reduzidos a um número finito, se destacam contra o fundo desmesurado dos temas metafísicos mais caros a Borges. Em cada texto, por todos os meios, Borges fala do infinito, do inumerável, do tempo, da eternidade ou da presença simultânea ou da dimensão cíclica dos tempos. E aqui retomo o que dizia antes sobre a máxima concentração dos significados na brevidade dos seus textos. Consideremos um exemplo clássico da arte borgiana: seu conto mais famoso, “El jardín de senderos que se bifurcan”. O enredo evidente é o de um conto de espionagem convencional, um enredo aventuroso condensado numa dúzia de páginas e um pouco forçado para chegar a um final surpresa. (O epos que Borges utiliza compreende também as formas da narrativa popular.) Esse conto de espionagem inclui um outro conto, em que o suspense é de tipo lógico-metafísico e o ambiente é chinês: trata-se da pesquisa de um labirinto. Nesse conto está incluída, por sua vez, a descrição de um interminável romance chinês. Porém, aquilo que mais conta nesse novelo narrativo compósito é a meditação filosófica sobre o tempo em que se desenrola, ou melhor, as definições das concepções do tempo que aí são sucessivamente enunciadas. Percebemos no final que, sob a aparência de um thriller, é um conto filosófico, ou melhor, um ensaio sobre a ideia do tempo aquilo que acabamos de ler.
As hipóteses sobre o tempo que são formuladas no “Jardim de caminhos que se bifurcam”, cada uma contida (e quase oculta) em poucas linhas, são: uma ideia de tempo pontual, como um presente subjetivo absoluto (“…refleti que todas as coisas, a cada um, acontecem precisamente, precisamente agora. Séculos e séculos, e só no presente acontecem os fatos; inumeráveis homens no ar, na terra e no mar, e tudo isso que realmente acontece, acontece comigo…”); depois uma ideia de tempo determinado pela vontade, o tempo de uma ação decidida de uma vez por todas, em que o futuro se apresente irrevogável como o passado; e enfim a ideia central do conto: um tempo plural e ramificado em que cada presente se bifurca em dois futuros, de modo a formar “uma rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos”. Essa ideia de infinitos universos contemporâneos em que todas as possibilidades sejam realizadas em todas as combinações possíveis não é uma digressão do conto, mas a própria condição para que o protagonista se sinta autorizado a executar o crime absurdo e abominável que a sua missão de espionagem lhe impõe, certo de que isso ocorre só num dos universos mas não nos outros, ou melhor, que, executando-o aqui e agora, ele e a sua vítima possam reconhecer-se amigos e irmãos em outros universos.
Uma tal concepção do tempo múltiplo é cara a Borges porque é aquela que reina na literatura, ou melhor, é a condição que torna a literatura possível. O exemplo que estou a ponto de apresentar nos leva de novo a Dante, e é um ensaio de Borges sobre Ugolino della Gherardesca, e mais precisamente sobre o verso “Porcia, più che il dolor, poté il digiuno” [Depois, mais que a dor, pôde o jejum], e sobre aquela que foi definida a “inútil controvérsia” sobre o possível canibalismo do conde Ugolino. Após passar em revista a opinião de muitos dos comentadores, Borges concorda com a maioria deles de que o verso deve ser entendido no sentido da morte de Ugolino por inanição. Mas ele acrescenta: de que Ugolino pudesse devorar os próprios filhos, Dante, mesmo sem querer que acreditássemos nisso para valer, pretendeu provocar a suspeita “com incerteza e tremor”. E Borges arrola todas as alusões canibalescas que se sucedem no canto XXXIII do Inferno, a começar pela visão inicial de Ugolino roendo o crânio do arcebispo Ruggieri.
O ensaio é importante pelas considerações gerais com que se encerra. Em particular aquela (que é uma das afirmações de Borges que mais coincidem com o método estruturalista) sobre o texto literário que consiste exclusivamente na sucessão de palavras que o compõem, razão pela qual “de Ugolino devemos dizer que é um tecido verbal, que consiste em cerca de trinta tercetos”. Depois, aquela que se liga às ideias muitas vezes sustentadas por Borges sobre a impessoalidade da literatura para argumentar que “Dante não soube de Ugolino muito mais do que os seus tercetos registram”. E finalmente a ideia à qual desejava chegar, que é a do tempo múltiplo:

No tempo real, na história, toda vez que um homem se encontra perante diversas alternativas, opta por uma e elimina e perde as outras; não é assim no tempo ambíguo da arte, que se assemelha ao da esperança e do esquecimento. Hamlet, em tal tempo, é são da cabeça e é doido. Nas trevas da torre da Fome, Ugolino devora e não devora os corpos dos filhos amados, e esta imprecisão ondulante, esta incerteza é a estranha matéria de que ele é feito. Assim, em duas agonias possíveis, foi sonhado por Dante, e assim o sonham as gerações vindouras.

Esse ensaio está contido num livro publicado em Madri há dois anos e ainda não traduzido na Itália, reunindo os ensaios e as conferências de Borges sobre Dante: Nueve ensayos dantescos. O estudo assíduo e apaixonado do texto capital de nossa literatura, a participação umbilical com que ele fez frutificar a herança dantesca na meditação crítica e na originalidade da obra criativa é uma das razões, certamente não a última, pela qual Borges é festejado aqui e por que lhe exprimimos ainda uma vez comovidamente e com afeto o nosso reconhecimento pelo maná que continua a dar-nos.

Italo Calvino, in Por que ler os clássicos

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Silva | Prova dos Nove

Flores silvestres

O que estão dizendo? Que querem
vida eterna? Seus pensamentos são mesmo
tão arrebatadores assim? Com certeza
não olham para nós, não nos ouvem,
em sua pele
mancha de sol, pó
de botões-de-ouro: estou falando
com vocês, vocês que olham fixamente por entre
os talos de grama alta agitando
o pequeno guizo — Ó
alma! alma! Basta
olhar para dentro? Desdém
pela humanidade é uma coisa, mas por que
desprezar o vasto
campo, seu olhar elevando-se acima das nítidas cabeças
dos botões-de-ouro silvestres em direção a quê? Sua pobre
ideia de céu: ausência
de mudança. Melhor que a terra? Como
saberiam, se não estão nem
aqui nem lá, eretas entre nós?

Louise Glück (Tradução de Maria Lúcia Milléo Martins)

Banhos de mar

Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda, Recife.
Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes do sol nascer. Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde vazio que nos levaria para Olinda ainda na escuridão?
De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço, eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamo-nos depressa e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.
Saíamos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando.
Eu me sentava bem na ponta do banco: e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos banhava e banhava o mundo.
Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos de pé: “Olhe um porco de verdade!” gritei uma vez, e a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras de minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe um porco de verdade.”
Passávamos por cavalos belos que esperavam de pé pelo amanhecer.
Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me agarrava, dentro de uma infância muito infeliz, a essa ilha encantada que era a viagem diária.
No bonde mesmo começava a amanhecer. Meu coração batia forte ao nos aproximarmos de Olinda. Finalmente saltávamos e íamos andando para as cabinas pisando em terreno já de areia misturada com plantas. Mudávamos de roupa nas cabinas. E nunca um corpo desabrochou como o meu quando eu saía da cabina e sabia o que me esperava.
O mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente caía-se num fundo de dois metros, calculo.
Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva-vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: abria os dois braços, e as senhoras, em cada um dos braços, agarravam o banhista para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.
O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever. O mar de Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em concha, eu as mergulhava nas águas, e trazia um pouco do mar até minha boca: eu bebia diariamente o mar, de tal modo queria me unir a ele.
Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo. Mudávamos de roupa, e a roupa ficava impregnada de sal. Meus cabelos salgados me colavam na cabeça.
Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ia secando meus cabelos duros de sal. Eu às vezes lambia meu braço para sentir sua grossura de sal e iodo.
Chegávamos em casa e só então tomávamos café. E quando eu me lembrava de que no dia seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura.
Meu pai acreditava que não se devia tomar logo banho de água doce: o mar devia ficar na nossa pele por algumas horas. Era contra a minha vontade que eu tomava um chuveiro que me deixava límpida e sem o mar.
A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar? Nunca mais?
Nunca mais.
Nunca.

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

A caneta do avô e o cheiro da tangerina

Gustavo, desde os tempos de escola, tinha um estojo preto, magricelo como ele. Nunca houve grande coisa lá dentro: uma borracha encardida, um lápis de ponta quebrada, duas canetas Bic (uma sem tampa, outra mordida na ponta), uns clipes alheios, pedaços de papel. Mas, quando passou no vestibular de História naquela universidade pública tão respeitada, o rapaz ganhou um presente do avô: uma caneta preta, simples e bonita, de marca boa. Daquelas pra durar a vida toda.
No primeiro ano, deixou-a em casa, tinha medo de perder. Foi nesse mesmo primeiro ano que conheceu Joana, que tinha cara de tarde de sol na praia e cheiro de tangerina. Estudavam em dupla: abriam os livros sentados nos degraus da faculdade e iam parar na Mesopotâmia, em Machu Picchu, em Mianmar. Estavam juntos, estavam felizes.
No fim do tal primeiro ano, o avô foi dormir e não acordou mais. Quando conseguiu voltar para o mundo, Gustavo levou a caneta: abriu o estojo velho, colocou-a lá dentro como quem coloca um filho no berço.
Dois anos depois do primeiro ano, Joana criou coragem. Disse que nada mais fazia sentido: o curso de História, as batas floridas, os abraços do rapaz de tronco magro. Ela estava indo embora de tudo, inclusive dele. Pediu que não mais a procurasse, trancou a matrícula, sumiu do mapa. Ele chorou uma semana, comeu mal durante duas, andou cabisbaixo durante três. Na quarta, vivia. Os anos passaram, outras garotas sorridentes vieram, mas a lembrança e a dúvida martelavam. Ele nunca deixou de imaginá-la voltando, contando viagens e equívocos.
Terminou o curso, entrou no mestrado. Quatro anos depois, no doutorado. Mais de dez anos perambulando pelos tempos do mundo. Uma noite, preocupado com a banca, com a revisora que não dava notícias, com o preço da impressão de doze exemplares da tese, deu-se conta de que estava sem o estojo. Voltou correndo à biblioteca de silêncio mórbido. Nada. Passou no banheiro, na lanchonete, na mureta onde fumava seu cigarrinho. O achados e perdidos já estava fechado. Com o coração apertado, foi para casa, tentando se convencer de que no dia seguinte o estojo estaria lá, esperando-o como criança na saída da escola.
Acordou na manhã seguinte, colocou a camisa xadrez, os sapatos de couro marrom e foi apressado ao necessário reencontro. Quando o careca de farto bigode saiu de trás do biombo com o estojo preto nas mãos, Gustavo suspirou aliviado. Quando encostou as mãos naquela quase relíquia, ouviu seu nome pronunciado por uma voz mais do que conhecida.
Depois de tantos anos, de tantas laudas, de tantas tardes, era ela. Ela, que continuava permeando seus dias com lembranças doces.
Virou-se, por esperança ou teimosia, esperando a menina de tantos anos atrás. É claro que não era ela. Era outra Joana, com calças estranhamente largas, salto assustadoramente fino, lenço de estampa de bicho no pescoço e uma bolsa com iniciais repetidas, espalhadas, insistentes.
Sorriram desnorteados, deram um abraço forçado, conversaram o óbvio: quanto tempo – verdade – tá fazendo o que aqui? – vim buscar meu histórico – você tá diferente – você não mudou nada – um café? – um café.
Sentaram-se de frente. Ele ainda queria acreditar que num dado momento ela ia começar a se parecer com a velha Joana. Mas a cara de tarde de sol estava encoberta por uma nuvem de base, pó e pó bronzeador. Enquanto ela começava a contar sobre a agência de publicidade onde trabalhava, ele só se perguntava por que ela começou a tentar se pintar de tarde de sol que não dava certo se ela já era uma tarde de sol tão certa. Ou será que não era mais? Talvez não fosse mais.
Ela falava de outro jeito. A voz vinha da boca, não mais do peito como antes. Contava de grandes projetos, grandes clientes, grandes cifras. Gesticulava, franzia a testa, ria de um jeito falso e alto, jogando a cabeça pra trás. Estava preocupada em parecer sei lá o quê. Ele ouviu muito, depois contou rapidamente sobre a dissertação de mestrado que tratava dos impactos da Revolução Industrial na América Latina e sobre a tese de doutorado, que, como toda boa tese de doutorado, era absolutamente inexplicável em menos de três dias.
Havia um milhão de coisas sobre as quais ela poderia perguntar. Família, opinião, literatura, sonhos, caneta. Mas ela começou a perguntar sobre como ele estava se sustentando. Sobre o valor da bolsa da Capes. Sobre perspectivas profissionais. Um papo atravessado e raso. Ele tentou desconversar. Perguntou se ela ainda adorava Janis Joplin. Ela riu. Não um riso de memória. Aquele riso estranho.
Ele percebeu que precisava parar logo com aquilo. Precisava parar, antes que as boas lembranças fossem mais massacradas. Antes que a memória fosse soterrada por um presente tão fora do previsto. Pediu mil desculpas, disse que tinha uma reunião com o orientador, que, como todo bom orientador, estava num congresso em Recife, uma conferência em Assunção, uma temporada na Libéria ou em qualquer local fora do mapa.
Levantaram-se. Abraçaram-se, mais sem sentido ainda. Não trocaram telefones. Desejaram-se “tudo de bom”.
Ele subiu até o quarto andar. Sentou-se num banco, colocou o estojo no colo, foi invadido por memórias e outros perigos. Abriu o estojo calmamente e… estava tudo lá. Exceto a caneta do avô. Tudo, menos ela. Parou. Um súbito misto de dor e de raiva. Subiu pelas narinas o cheiro do abraço da moça que havia ficado represado pela repulsa. Sentiu-se violado. Tanto pelo sujeito que abriu o estojo, analisou o conteúdo e escolheu a dedo o que levar, quanto pela vida que veio sem freio e levou aquela Joana de cheiro de tangerina para os submundos da lembrança remota e deixou no lugar aquela mulher de gestos programados e perfume doce todo errado.
Percebeu que existem coisas que é melhor a gente não encontrar nunca mais. Porque viver de lembranças costuma ser menos ruim do que os novos ares que muitas vezes o presente traz.

Ruth Manus, in Pega lá uma chave de fenda: e outras divagações sobre o amor

Armandinho

 

Pesquisa

Dá licença, cavalheiro? Permite que eu roube dois minutos de sua preciosa atenção? É assunto de interesse geral, esteja certo. Do contrário, não seria eu que viria importuná-lo. Sou muito respeitador do tempo dos outros, lá isto sou. Negócio seguinte. Quer colaborar comigo na pesquisa sociocultural sobre o dia do morador da Guanabara, no tocante à mobilidade? Não se molesta se eu lhe fizer umas perguntinhas ligeiras? Vai responder direitinho, pois não? Ótimo. Bem, a que horas o amigo habitualmente sai de casa? Todos os dias úteis? Ah, depende da noite anterior? Compreendo, mas sai almoçado ou almoça na cidade? Tem carro, é claro? Onde é a garagem? Quantos minutos até lá, para pegá-lo? Se ele está na oficina, vai de táxi, é lógico? Sempre o mesmo, já combinado, ou qualquer um que passe na esquina? E qual o itinerário, se não é indiscrição? Sozinho? Então dá carona aos amigos? E, se não for indagar demais: a moças conhecidas ou desconhecidas? Como? Onde costuma acontecer isso? Uma garota só, mais de uma, como é? Costuma desviar o rumo para ser gentil? Compreendo, compreendo. Quanto tempo leva no percurso normal? E no anormal, o máximo até agora qual foi? Na cidade, onde estaciona? Só a três quilômetros de distância do escritório? Em que rua fica esse edifício? Barão de quê? Das Calças Largas? E o andar, qual é? Os elevadores enguiçam muito? O quê? já subiu a pé vinte andares? E depois foi atendido onde: no Sousa Aguiar ou no Prontocor? Trabalha firme até a hora do almoço? E a que hora é o almoço? Desce para almoçar? O restaurante fica onde? Sempre o mesmo, ou gosta de variar? Sozinho, é? Ah, sim, mas sempre com a mesma pessoa? Como? Varia? Claro, claro. Depois do almoço dá uma voltinha? A que hora está de novo no trabalho? E seu lanche, quando é? Lá em cima mesmo? Quanto tempo leva isso? Costuma descer outras vezes, durante a jornada de trabalho? Para fazer o quê, hem? Sozinho? Mas lojas de que ruas? Demora muito? E o banco, onde é? Outros escritórios também? No mesmo perímetro, é? Pode cronometrar essas atividades externas? Digamos, aproximadamente? Nesses casos, o senhor ainda volta ao escritório, ou? Há outras interrupções de ritmo, que obriguem deslocamento de sua pessoa? Outras, sei lá? O senhor é que deve saber. Fecha a que hora, meu amigo? Sempre, sempre? Mesmo em ocasião de balanço? Balanço no sentido verdadeiro, essa é boazinha, não? Resumindo, acabado o serviço vai direto ao carro, provavelmente? Já sei, passa talvez no bar? Onde fica isso? É bacana? Sozinho, desta vez? Mas é questão de muito tempo? De lá segue para onde, meu caro? Não ouvi bem, faz o obséquio de repetir? Coisa de meia, uma hora no máximo? Como? Nem perto nem longe? Então é prático, hem? Mas de lá até o estacionamento, quantos minutos? Ah, já estava no carro? Não entendi nada. Será que temos de refazer esta parte do roteiro, para ficar mais claro? Acha que não precisa? Tá bom, deixa. E após, como dizem os puristas? Direto pra casa, adivinhei? Aproveita para passar no posto de gasolina, é? A que altura? Mas então, a que hora consegue chegar em casa, se é que chega? Digamos, o mais tardar? Guardou o carro em que fração de tempo? O jantar é servido sempre à mesma hora? Qual? Depois, vê televisão com a família, ou sai para um cineminha? Acompanhado? É no bairro, ou vai aonde tiver um bom lançamento por aí? No que tiver menos pulga? Boa, essa. E onde é que tem menos? eu também quero ir lá. No seu carro, num de praça, ou no de um amigo? Duas, três vezes por mês ou por semana? Só? E boate? A mesma sempre, ou estica em outras? Em que ruas? Qual o tempo de permanência habitual? E quantas vezes por mês, felizardo? Será que me esqueci de algum detalhe, alguma faixa do seu dia que… Não pode me ajudar, lembrando? Vamos, lembre, lembre, é tão simples. Bem, agora o seu fim de semana. Quais os movimentos do meu amigo, a partir do instante em que põe o pé na rua, no sábado? Falta pouco para terminar, mas que é isso? Está se sentindo mal? Aborrecido comigo? Porventura acha que fui indiscreto, eu que tive o maior cuidado em não devassar o que quer que fosse de sua vida particular, dos refolhos de sua privacy? Não, isso não, espere lá, não precisa me dar bolacha, eu saio imediatamente, até logo, socorro, socorro!

Carlos Drummond de Andrade, in De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

O som do rugido da onça | X

A travessia do mar para os prisioneiros era uma coisa totalmente diferente do que era para os cientistas, muito embora para uns e outros fosse conflitiva. Para Spix e Martius, se transportava um jardim de maravilhas, um terrário preparado com cuidado e que transplantavam, fervorosos, reverentes, para deleite dos homens e das mulheres e crianças do seu povo. Para regalo próprio, de outros estudiosos e do seu rei. Para as crianças e os animais, levados contra a vontade, ao contrário, tudo aquilo era um rasgo profundo, inflamado. Gritos aflitos pareciam ecoar nos trovões que despencavam bolas impossíveis de fogo e água por sobre a embarcação. Adoeciam. Passavam fome e sede. Por ordens expressas do capitão, toda água e toda ração eram restritas a porções ínfimas, muito embora as provisões dos cientistas tivessem sido pagas e levadas por eles mesmos para seu próprio consumo, das crianças, dos animais vivos e das plantas.
O capitão, um bruto. Homem ruim. Yurupari o cegue com o seu raio, Yurupari o devore e o vomite, desejava a menina, e não apenas ela.
O capitão gritava com Martius, que reclamava do severo racionamento. Martius gritava com o capitão e teria ímpetos de matá-lo, se isso não custasse a sua própria vida. Com Spix mais enfraquecido do que ele, era seu o dissabor do embate com aquele sujeito tosco, que definitivamente não alcançava a importância de preservar o tesouro que tinha sob seus cuidados. Ao capitão, por feroz e desalmado que fosse, e era, só interessava chegar, sem motins, sem homens com facão em seu pescoço ou sua carne dada de comer aos monstros do mar. Se para isso fosse necessário deitar fora o que considerasse excedente, paciência. Entre dedos e anéis, preferia os dedos.
Os bichos foram os primeiros a morrer. Em seguida, as crianças. O caminho do mar transformado em uma vala comum e inconstante. Crianças e bichos, todos tombados na água sem nenhum ritual, como duras tábuas de madeira despencadas em túmulo semovente. Longe de suas famílias, nunca encontrariam o caminho para qualquer terra sem males onde pudessem se reunir com seus ancestrais.
Yurupari encontraria seus espíritos e os resgataria daquelas águas estranhas e vorazes? Iñe-e não sabia responder àquilo, apenas esperava o dia em que fosse também jogada já sem vida àquele pasto de peixes e criaturas assombrosas, e sentia que morria em cada morte que testemunhava. Perdia o chão deste mundo, aquele chão instável do assoalho do navio, em cada companheiro seu que expirava. Morreu com a menina pequena que murchou em dois dias, o sangue saindo em jatos de sua boca. Morreu também com o menino do seu tamanho que se foi agarrado ao irmão menorzinho, os dois gemendo e se contorcendo de dor por toda a noite até que, mal raiando o dia, se fez silêncio e frio dentro e fora deles. Morreu com todos, porque lhe faltava a palavra. E embora respirasse e sentisse o tum-tum do coração dentro da caixa do peito, a certeza era de que morta estava. E uma a uma as crianças foram falecendo, até que sobrassem de pé apenas ela e o menino Juri. E, ao sobreviverem, tanto ela quanto ele sabiam que estava lançada a sua falta de futuro e esperavam, desse modo, apenas a sua hora de também tombar e serem jogados na impiedosa e voraz boca da grande água.
O que, no entanto, só ela sabia, é que no momento em que crianças e bichos morriam, seus espíritos começavam a se desprender dos corpos, como uma lagarta que lentamente deixava para trás o casulo que até pouco tempo antes a continha. Mas, diferente das borboletas, que, tão logo secam suas asas, partem para sua vida de borboleta, os espíritos dos mortos daquelas embarcações passaram a pairar no alto, azulados, como pandorgas que estivessem de algum modo presas aos mastros. Ou como os balões de gás que, atados a fios muito finos e delicados, eram impedidos de ganhar o céu. E assim os espíritos continuaram acompanhando o comboio. Não eram Desencantados, porque neles não havia rigidez, imobilidade; eram matéria fina, inflada, com olhos enormes e a tudo atentos. Muito embora parecesse, não era aos barcos, galeras e escunas que aqueles espíritos estavam presos. Eles estavam mesmo atados aos cientistas, que, sem saber, arrastavam os fios daquelas almas aonde quer que fossem ou estivessem. Iñe-e não os via, mas os pressentia espreitando os dias dos vivos, se esforçando para pedir alguma coisa que ela não sabia o que era ao certo, mas imaginava.
Quando a caravana aportou em Lisboa, os espíritos dos mortos continuaram a segui-los, e se alguém pudesse de fato vê-los talvez se espantasse de que acima do adormecido Spix, que descansava em uma cama de madeira escura, em um quarto cheio de móveis e bibelôs, na noite do dia 6 de outubro de 1820, havia ao menos uma menina, um menino, três serpentes e um macaco a observar seu sono, todos colados ao teto, todos com seus grandes olhos que nunca se fechavam.
Sobre Martius pairavam uns outros tantos, como se dividissem entre si a função de vigiá-los. E assim seguiam, mortos e vivos dia após dia, noite após noite, pelos corredores, pelas salas de jantar dos palacetes, pelos gabinetes, pelas ruas da cidade, os espíritos observando os modos como aqueles homens andavam, como se despiam, como suavam à noite entre febres por baixo das cobertas. Incansáveis, não abandonavam seus postos, e continuaram atados aos homens quando a caravana seguiu seu rumo, saindo da capital portuguesa para Madri, de lá para Valência, Tarragona, Barcelona, por entre os Pirineus, Perpignan, Lyon, Alsácia, entrando em Estrasburgo pelo Reno até que chegassem, finalmente, à capital da Baviera, a cidade dos monges.

Micheliny Verunschk, in O som do rugido da onça

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Alfredo Del-Penho, João Cavalcanti, Moyseis Marques e Pedro Miranda | Desengaiola

Janela

Imagem: Martiniano Ferraz


Janela, palavra linda.
Janela é o bater das asas da borboleta amarela.
Abre pra fora as duas folhas de madeira à-toa pintada,
janela jeca, de azul.
Eu pulo você pra dentro e pra fora, monto a cavalo em você,
meu pé esbarra no chão.
Janela sobre o mundo aberta, por onde vi
o casamento da Anita esperando neném, a mãe
do Pedro Cisterna urinando na chuva, por onde vi
meu bem chegar de bicicleta e dizer a meu pai:
minhas intenções com sua filha são as melhores possíveis.
Ô janela com tramela, brincadeira de ladrão,
claraboia na minha alma,
olho no meu coração.

Adélia Prado

O traço marcante de Portinari

Cabeça de menina (1956), de Cândido Portinari

Histórias

 “As histórias tornam os homens sábios; poetas espirituosos; a matemática, lenda; filosofia natural profunda; moral, grave; lógica e retórica, capaz de argumentar.”

Francis Bacon, in 1001 frases de grandes pensadores

Um trago num navio de guerra

Poucos dias depois de nossa partida do porto de Callao, disseminou-se um rumor que aterrorizou muitos marinheiros. Eis do que se tratava: por algum inédito descuido do almoxarife ou alguma igualmente desconhecida negligência do responsável pela despensa da fragata em Callao, o suprimento a bordo daquela deliciosa bebida conhecida como grogue estava próximo do fim.
Na Marinha americana, a lei permite um quarto de pinta95 de bebida por dia a cada marinheiro. Em duas doses, ela é servida antes do desjejum e do jantar. Ao rufar da caixa, a marujada se reúne ao redor de uma enorme selha ou barril repleto do líquido; e, à medida que seus nomes são chamados por um aspirante, cada homem dá um passo à frente e se regala com um pequeno medidor de lata, que chamam de “dedo”. Nenhum bon-vivant servindo-se de um tokay num aparador bem polido estala os lábios com mais viva satisfação do que um marinheiro com seu “dedo” de grogue. Para muitos, o pensamento em seus “dedos” diários propicia um perpétuo panorama de extasiantes paisagens que se afastam para todo o sempre no horizonte. É seu grande “plano de vida”. Tire-lhe o grogue, e a vida lhes perde todo o encanto. Parece evidente demais para ser refutável que a razão dominante para que muitos homens se mantenham na Marinha é a confiança irrestrita no poder do governo dos Estados Unidos de supri-los, de forma regular e infalível, de sua dose diária da dita bebida. Conheci muitos desgraçados embarcados sem qualquer experiência a bordo de um navio que me confessaram que, tendo contraído um amor incontinente pela bebida, à qual não eram capazes de renunciar, e tendo por suas débeis trajetórias chegado à mais abjeta pobreza — a ponto de não poderem mais satisfazer a própria sede em terra firme —, engajaram-se desesperadamente na Marinha; entendendo-a como um refúgio de todos os bêbados, que ali poderiam prolongar suas vidas mediante exercício e disciplina e matar a sede duas vezes por dia com constantes e moderadas doses de bebida.
Quando certa feita ralhei com um gajeiro ébrio sobre a tal dose diária de bebida; quando lhe disse que ela estava acabando consigo e aconselhei-o a parar com o grogue e receber o dinheiro por ele, adicional a seu salário, tal como previsto por lei, ele voltou-se a mim com um olhar irresistivelmente ardiloso e disse: “Largar o meu grogue? Por quê? Porque está acabando comigo? Não, não; eu sou um bom cristão, Jaqueta Branca, e amo demais o meu inimigo para cortar relações com ele”.
Pode-se prontamente imaginar, portanto, a consternação e o horror que tomaram conta da coberta dos canhões aos primeiros boatos de que o grogue se acabara.
Cabou o grogue!”, gritou um veterano da âncora d’esperança.
Ai, Deus! Que dor no estômago!”, exclamou um gajeiro do mastro principal.
Pior que o cólera!”, exclamou um homem da guarda de popa.
Era melhor que a água tivesse acabado primeiro!”, disse o capitão do porão.
Desde quando a gente é ganso pra viver sem grogue?”, perguntou um cabo do regimento de fuzileiros.
Isso, agora a gente vai matar a sede com os patos!”, concluiu um quartel-mestre.
Sobrou nenhum ‘dedo’?”, grunhiu um poceiro.
Nadinha!”, suspirou um fiel do porão, do fundo de suas botas.
Sim, a informação fatal provou-se verdadeira. Não se ouviu mais o rufar da caixa que levava os homens à selha, e um profundo abatimento e depressão desceram ao convés como uma nuvem. O navio parecia uma grande cidade tomada de uma terrível calamidade. Os homens permaneciam em grupos, uns distantes dos outros, discutindo sua dor e consolando-se. Nas noites tranquilas de luar já não se ouviam as canções das altas gáveas; e poucas e espaçadas eram as histórias contadas. Foi durante esse intervalo de tempo, tão pavoroso para tantos, que, para a estupefação da marujada, denunciou-se ao mestre-d’armas dez homens embriagados. Eles foram levados ao mastro, e sua aparência dissipou mesmo as dúvidas dos mais céticos; entretanto, onde tinham encontrado bebida, isso nenhum deles dizia. Observou-se, porém, que os contraventores todos cheiravam a lavanda, como muitos dândis.
Depois de serem examinados, foram todos levados ao brigue, a cadeia instalada entre dois canhões no convés principal onde são mantidos os prisioneiros. Ali permaneceram por algum tempo, estirados, hirtos e impassíveis, com os braços cruzados sobre o peito como as muitas efígies do Príncipe Negro em seu monumento na catedral da Cantuária.
Findos os primeiros cochilos, a sentinela que permaneceu a vigiá-los fez o que estava a seu alcance para manter à distância a multidão ávida de descobrir como, em tempo de tamanha carência, os prisioneiros tinham conseguido bebida o bastante para esquecerem-se de si mesmos. A seu tempo, todos acabaram liberados, e o segredo logo vazou.
Ao que tudo indica, de súbito ocorrera a um empreendedor dentre seus pares, a quem a privação compartilhada causava terríveis padecimentos, uma brilhante ideia. Tornara-se de seu conhecimento que o comissário do almoxarife trazia consigo um grande suprimento de eau-de-cologne, clandestinamente embarcada no navio com o objetivo de vendê-la por conta própria onde aportasse; porém, provando-se o suprimento maior do que a demanda e não conhecendo outros consumidores a bordo da fragata além do lugar-tenente Michelo, ele então levava de volta no retorno para casa mais de um terço do carregamento inicial. Para encurtar o caso, tal funcionário, convidado a uma conversa sigilosa, foi prontamente convencido a partilhar uma dúzia de garrafas, com cujo conteúdo o grupo embriagado se regalara.
As notícias correram amplamente entre a marinhagem, mantendo-se o segredo apenas em relação a oficiais e subalternos; e naquela noite as longas garrafas de água-de-colônia, com seu pescoço comprido, tilintaram por cantos e recantos dos conveses, sendo esvaziadas e de pronto lançadas ao mar. Com o açúcar mascavo tomado às caixas de rancho e a água quente implorada aos cozinheiros do navio, os marinheiros produziram toda sorte de ponche, coquetel e mistura, às quais se acrescia uma gota de alcatrão, como se faz com pão torrado, à guisa de se obter sabor. Claro que tudo se administrou no mais absoluto sigilo; enquanto transcorreu a noite que lhes cobria os festins, os farristas permaneceram, em grande medida, livres de detenção; e os que tinham se entregado amplamente à orgia tinham doze longas horas para retornarem à sobriedade antes que a luz do sol irrompesse.
No dia seguinte, a fragata cheirava a quarto de donzela de uma ponta a outra; mesmo os barris de alcatrão recendiam a fragrância; e da boca de não poucos dentre os encanecidos e carrancudos subchefes de artilharia emanava o mais delicioso aroma. Assombrados, os lugares-tenentes iam de um lado ao outro farejando a essência do vendaval; e, pela primeira vez, Michelo não precisou agitar seu lenço perfumado. Era como se estivéssemos navegando nas imediações de uma costa odorífera numa primavera repleta de violetas. Perfumes de Sabá!

Encontrando por léguas dilatadas,
Risonho e perfumado, o velho Oceano.

Mas, ai!, todo esse perfume não podia ter sido desperdiçado por nada; e o mestre-d’armas e os cabos navais, reunindo informações aqui e ali, logo desvendaram o mistério. O comissário do almoxarife foi convocado a dar explicações, e ponches de lavanda e drinques de água-de-colônia não foram mais bebidos a bordo do Neversink.

Herman Melville, in Jaqueta Branca