21/07/2026

O Rio e O Menino | Elilson José Batista e Zelitto Coringa

Calvin e Haroldo

1630 – Lima

Maria, matrona da farândula

Cada dia tenho mais problemas e menos marido! – suspira Maria del Castillo. Aos seus pés, o tramoísta, o apontador e a primeira atriz oferecem consolos e brisas de seu leque.
No turbio crepúsculo, os guardas da Inquisição arrancaram Juan dos braços de Maria e atiraram-no ao cárcere porque línguas envenenadas dizem que ele disse, enquanto escutava o evangelho:
Eia! Que não tem outra coisa que viver e morrer!
Poucas horas antes, na praça da matriz e pelas quatro ruas que dão esquina aos mercadores, o negro Lázaro tinha apregoado as novas ordens do vice-rei sobre os teatros de comédias.
Manda o vice-rei, conde de Chinchón, que uma parede de pau a pique separe as mulheres dos homens no teatro, sob pena de cárcere e multa a quem invada o território do outro sexo. Também dispõe que acabem as comédias mais cedo, ao repicarem os sinos de oração, e que entrem e saiam homens e mulheres por portas diferentes, para que não continuem as graves ofensas contra Deus. Nosso Senhor na escuridão dos becos. E se isso fosse pouco, o vice-rei decidiu que baixem os preços das entradas.
Nunca me terá! – clama Maria – Por muita guerra que me declare, nunca me terá!
Maria del Castillo, grande chefa dos cômicos de Lima, leva intacto o ar e a beleza que a fizeram célebre, e aos sessenta longos anos ainda ri das tapadas, que com um xale cobrem um olho: como ela tem belos os dois, a cara descoberta olha, seduz e assusta. Era quase menina quando escolheu este ofício de maga; e faz meio século que enfeitiça multidões nos palcos de Lima. Mesmo que queira, explica, já não poderia mudar o teatro pelo convento, pois não gostaria Deus de tê-la como esposa, depois de três matrimônios tão desfrutados.
Por muito que agora os inquisidores a deixem sem marido e que os decretos do governo pretendam espantar seu público, Maria jura que não entrará na cama do vice-rei:
Nunca, nunca!
Contra o vento e as marés, sozinha e solitária, ela continuará oferecendo obras de capa e espada em seu teatro de comédias, atrás do mosteiro de Santo Agostinho. Daqui a pouco reporá A Monja Alferez, do notável engenho peninsular Juan Pérez de Montalbán, e estreará um par de obras bem apimentadas, para que todos dancem e cantem e tremam de emoção nesta cidade onde nunca acontece nada, tão chata que morrem todos bocejando.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Criança

As crianças ignoram os relógios. Os relógios têm a função de submeter o tempo do corpo ao tempo da máquina. Mas as crianças só reconhecem os seus próprios corpos como marcadores do seu tempo. Se as crianças usam relógios, elas os usam como se fossem brinquedos. Que maravilhosa subversão! Usar a gaiola do deus Chronos como brinquedo de Kairós, o deus do tempo da vida.
As crianças, do jeito como saem das mãos de Deus, são brinquedos inúteis, não servem para coisa alguma... Crianças não são para ser usadas como ferramentas. Elas são para ser gozadas, como brinquedos...
Os olhos, diferentemente do resto do corpo, preservam para sempre a propriedadedivina do rejuvenescimento. O sábio é um adulto com olhos de criança.
Janucz Korczak foi um dos grandes educadores do século passado. Foi mansamente com as crianças do seu orfanato para a câmara de gás de um campo de concentração nazista. Ele deu a um dos seus livros, o título Quando eu voltar a ser criança. De acordo com a Adélia Prado, que rezou: “Meu Deus, me dá cinco anos, me dá a mão, me cura de ser grande...”.
Quero voltar para as crianças. A razão? Por elas mesmas. É bom estar com elas. Crianças têm um olhar encantado. Visitando uma reserva florestal no estado do Espírito Santo, a bióloga encarregada do programa de educação ambiental me disse que é fácil lidar com as crianças. Os olhos delas se encantam com tudo: as formas das sementes, as plantas, as flores, os bichos, os riachinhos. Tudo, para elas, é motivo de assombro. E acrescentou: “Com os adolescentes é diferente. Eles não têm olhos para as coisas. Eles só têm olhos para eles mesmos...”. Eu já tinha percebido isso. Os adolescentes já aprenderam a triste lição que se ensina diariamente nas escolas. Aprender é chato. O mundo é chato. Os professores são chatos. Aprender, só sob ameaça de não passar no vestibular. Por isso quero ensinar as crianças. Ensiná­-las para que elas se encantem com o mundo. Seus olhos são dotados daquela qualidade que, para os gregos, era o início do pensamento: a capacidade de se assombrar diante do banal. Tudo é espantoso: um ovo, uma minhoca, um ninho de guaxinim, uma concha de caramujo, o voo dos urubus, o zinir das cigarras, o coaxar dos sapos, os pulos dos gafanhotos, uma pipa no céu, um pião na terra. Dessas coisas, invisíveis aos eruditos olhos dos professores universitários (eles não podem ver, coitados. A especialização os tornou cegos como toupeiras. Só veem dentro do espaço escuro de suas tocas. E como veem bem!), nasce o espanto diante da vida; desse espanto, a curiosidade; da curiosidade, a “fuçação” (essa palavra não está no Aurélio!) chamada pesquisa; dessa “fuçação”, o conhecimento; e do conhecimento, a alegria!

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

O morto no mar da Urca



Eu estava no apartamento de d. Lourdes, costureira, provando meu vestido pintado pela Olly – e dona Lourdes disse: morreu um homem no mar, olhe os bombeiros. Olhei e só vi o mar que devia ser muito salgado, mar azul, casas brancas. E o morto?
O morto em salmoura. Não quero morrer! gritei-me muda dentro de meu vestido. O vestido é amarelo e azul. E eu? morta de calor, não morta de mar azul.
Vou contar um segredo: meu vestido é lindo e não quero morrer. Na sexta-feira o vestido estará em casa, e no sábado eu o usarei. Sem morte, só mar azul. Existem nuvens amarelas? Existem douradas. Eu não tenho história. O morto tem? Tem: foi tomar banho de mar na Urca, o bobo, e morreu, quem mandou? Eu tomo banho de mar com cuidado, não sou tola, e só vou à Urca para provar vestido. E três blusas. S. foi comigo. Ela é minuciosa na prova. E o morto? minuciosamente morto?
Vou contar uma história: era uma vez um rapaz novo ainda que gostava de banho de mar. Daí, ele foi numa manhã de quarta-feira para a Urca. Na Urca, nas pedras da Urca, eu não vou porque está cheio de ratos. Mas o rapaz não ligava para os ratos. Nem os ratos ligavam para ele. O casario branco da Urca. Isso ele ligava. Então tinha uma mulher provando um vestido e que chegou tarde demais: o rapaz já estava morto. Salgado. Tinha piranha no mar? Fiz que não entendi. Não entendo mesmo a morte. Um rapaz morto?
Morto de bobo que era. Só se deve ir à Urca para provar vestido alegre. A mulher, que sou eu, só quer alegria. Mas eu me curvo diante da morte. Que virá, virá, virá. Quando? aí é que está, pode vir a qualquer momento. Mas eu, que estava provando o vestido no calor da manhã, pedi uma prova de Deus. E senti uma coisa intensíssima, um perfume intenso demais de rosas. Então tive a prova, as duas provas; de Deus e do vestido.
Só se deve morrer de morte morrida, nunca de desastre, nunca de afogação no mar. Eu peço proteção para os meus, que são muitos. E a proteção, tenho certeza, virá.
Mas e o rapaz? e sua história? Capaz de ser estudante. Nunca saberei. Fiquei apenas olhando o mar e o casario. Dona Lourdes imperturbável, perguntando se apertava mais na cintura. Eu disse que sim, que cintura é para se ver apertada. Mas estava atônita. Atônita no meu vestido lindo.

Clarice Lispector, em Onde Estivestes de Noite

20/07/2026

Capítulo 68 – O Vergalho

Tais eram as reflexões que eu vinha fazendo, por aquele Valongo fora, logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-mas um ajuntamento; era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a fugir; gemia somente estas únicas palavras: – “Não, perdão, meu senhor; meu senhor, perdão!” Mas o primeiro não fazia caso, e, a cada súplica, respondia com uma vergalhada nova.
Toma, diabo! dizia ele; toma mais perdão, bêbado!
Meu senhor! gemia o outro.
Cala a boca, besta! replicava o vergalho.
Parei, olhei... justos céus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudêncio - o que meu pai libertara alguns anos antes. Cheguei-me; ele deteve-se logo e pediu-me a bênção; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele.
E, sim, nhonhô.
Fez-te alguma coisa?
É um vadio e um bêbado muito grande. Ainda hoje deixei ele na quitanda, enquanto eu ia lá embaixo na cidade, e ele deixou a quitanda para ir na venda beber.
Está bom, perdoa-lhe, disse eu.
Pois não, nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bêbado!
Saí do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas conjeturas. Segui caminho, a cavar cá dentro uma infinidade de reflexões, que sinto haver inteiramente perdido; aliás, seria matéria para um bom capítulo, e talvez alegre.
Eu gosto dos capítulos alegres; é o meu fraco. Exteriormente, era torvo o episódio do Valongo; mas só exteriormente.
Logo que meti mais dentro a faca do raciocínio achei-lhe um miolo gaiato, fino e até profundo. Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas, – transmitindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as sutilezas do maroto!

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

"Typewriter II" | NDR Bigband feat. Panzerballett w/ Virgil Donati | NDR

 

Hagar

Pergunta inocente

Por que será que as pessoas virtuosas parece que estão sempre representando?

Mário Quintana, em Caderno H

Receitas


Não sou um gourmet mas gosto da minha sauce bernaisezinha. Alguém já disse que gourmet é o cara que se preocupa mais com a pronúncia certa que com o gosto do que come, e não é o meu caso. Acho que um caneton aux herbes de Provence com qualquer outro nome saberia o mesmo, desde que fosse bem-feito, e, que diabo, o maître geralmente é do Espírito Santo, a pronúncia dele é pior que a minha.
Só entendo de comida da boca para dentro. Na cozinha só entro para reivindicar a rapa, e a única parte de uma receita que me interessa é o “leve-se à mesa”. Na última vez que tentei fazer uma omeleta acabei, estranhamente, com purê de batata. Outra vez joguei fora o macarrão e servi a água quente. Felizmente improvisei um nome na hora — eau chaude au hasard — que me salvou do vexame. Não sei cozinhar. Mas sei comer. E assim como certas anfitriãs anunciam com antecedência o nome da autora de seus jantares — “olha, vai ser vatapá feito pela Dona Maria” — já houve casos de anunciarem a minha presença à mesa como uma atração da festa. Veja com que alegria ele limpa o prato. Delicie-se com a sua correta abordagem da lagosta. Vibre com a sua rapidez na mousse au chocolat. Você nem precisa comer, olhar para ele comendo já é um banquete. E sou cada vez mais solicitado.
Posso contar com você no dia 26? É um grupo pequeno, cavaquinhas na manteiga. Você sentaria à cabeceira com um discreto holofote em cima e gemeria um pouco depois de cada garfada.
Dia 26? Preciso consultar a minha agenda. Deixa ver... Não, infelizmente no dia 26 tenho um strogonoff. Fui contratado para repetir o strogonoff quatro vezes e no fim bater na barriga comicamente.
E se eu fizesse o meu jantar um pouco mais tarde? Você poderia comparecer aos dois.
Hmmm. Tenho que pensar no assunto. Qual é a sobremesa?
Estou planejando alugar meus serviços para restaurantes com uma clientela indecisa. Em poucos minutos, na minha mesa de canto, eu faria tais gestos e tais ruídos de satisfação com a comida que em pouco tempo transformaria o restaurante numa entusiasmada alegoria à Henrique VIII, o tal que, quando não estava decapitando esposas, estava destrinchando galinhas com os dentes.
Mas se sou um inocente na cozinha, não posso negar que há um certo fascínio na sua linguagem esotérica. Às vezes leio receitas como leio certos poetas, entendendo a metade mas cativo dos seus ritmos e ressonâncias. Todas têm aquela autoridade das poções mágicas, velhas e precisas encantações passadas de feiticeira a feiticeira desde as primeiras cavernas. É a sabedoria milenar do caldeirão. Exatamente tantas cabeças de sapo e tantas bossas de anão, deixe no fogo até borbulhar, ponha de lado e prepare o sangue de virgem Sarracena. Claro que hoje a cozinha tem recursos com os quais as feiticeiras nem sonhavam: batedeiras que só faltam brigar com as crianças, fornos verticais que caminham até você e batem no seu ombro quando o assado está pronto. Mas as receitas preservam seu ar cabalístico. As medidas devem ser estas e só estas, senão tudo desanda e o demônio rouba a alma do suflê. O fogo deve ser alto e não brando. Ou então brando mas não Marlon. E os temperos?
Os nomes dos temperos são tão fascinantes que nos inspiram até a imaginar alguns novos.

Duas pitadas de alfarrábio.
Tinhorão picadinho.
Um feixe de sandice, mas sem exagero.
Ramal, zico, samovar, sementes de oligofrenia e algumas folhas de alvará do campo.
Corrupção à vontade!

Na Guiné, o tubarão branco aux fines herbes é uma especialidade. Pegue-se um tubarão dos grandes. O tubarão deve ser jogado vivo dentro de um grande caldeirão cheio deágua salgada, sobre o fogo. Em seguida, acrescentem-se dois porcos selvagens, quatro galinhas, um missionário protestante e um cunhado do chefe que caiu em desgraça. Mexa-se lentamente até ferver a água ou até o tubarão comer a colher, o que vier primeiro. Deixe-se o tubarão de lado. Aproveite-se a água quente para dar banho nas crianças. Tempere-se o tubarão com mirtes, paranhos, ogivas do mato, usucapião e brás de pina. Sirva-se em fatias dentro de folhas de parreira com uma porção de fritas ou arroz. Guarde-se o espinhaço para bater no chef.

Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora

Todos fazem um poema a Carlos Drummond de Andrade

Enquanto punha o vestido azul com margaridas amarelas
e esticava o cabelos para trás, a mulher falou alto:
é isto, eu tenho inveja de Carlos Drummond de Andrade
apesar de nossas extraordinárias semelhanças.
E decifrou o incômodo do seu existir junto com o dele.
Vamos ambos à enciclopédia, seguiu dizendo, à cata
de constituição, e paramos em «clematite, flor lilás
de ingênuo desenho que ama desabrochar nas sebes europeias».
Temos terrores noturnos, diurnos desesperos
e dias seguidos onde nada acontece.
Comemos, bebemos e diante do nosso nome impresso
temos nenhum orgulho, porque esta lembrança não deixa:
uma vez, na avenida Afonso Pena, um bêbado gritando:
Todo mundo aqui é um saco de tripas’.
Carlos é gauche. A mim, várias vezes, disseram:
Não sabes ler a placa? É CONTRAMÃO’.
Um dia fizemos um verso tão perfeito
que as pessoas começaram a rir. No entanto persiste,
a partir de min, a raiva insopitada
quando citam seu nome, lhe dedicam poemas.
Desta maneira prezo meu caderno de versos,
que é uma pergunta só, nem ao mesmo original:
Porque não nasci eu um simples vaga-lume?’
Só à ponta de fina faca, o quisto da minha inveja,
como aos mamões maduros se tiram os olhos podres.
Eu sou poeta? Eu sou?
Qualquer resposta verdadeira
e poderei amá-lo.

Adélia Prado, em Bagagem

Bem comum

Se isto não é a minha própria maldade ou um efeito dela e o bem comum não está ferido, por que estou preocupado? Qual é o dano ao bem comum?

Marco Aurélio, em Meditações

Factótum


18


Fiquei quatro ou cinco dias andando por aí, então permaneci bêbado por mais dois. Saí de onde estava e fui para o Greenwich Village. Li na coluna do Walter Winchell que O. Henry* costumava escrever em um bar que era famoso por ser frequentado por gente que escreve. Achei o bar e entrei procurando o quê?
Era meio-dia. Apesar da coluna do Winchell, o lugar estava vazio. Fiquei ali sozinho com um grande espelho, o balcão e o atendente.
Sinto muito, senhor, não podemos atendê-lo.
Fiquei atordoado e nem consegui responder. Esperei por uma explicação.
Você está bêbado.
Era provável que eu estivesse com cara de ressaca, mas não bebia fazia já umas doze horas. Murmurei algo sobre O. Henry e saí.
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Nota:
*Walter Winchell (1897-1972) foi um jornalista e comentarista estadunidense, considerado o inventor da coluna social moderna, juntando notícias com fofocas. Na época em que a história se passa, ele tinha grande influência. Já O. Henry (1862-1920), pseudônimo de William Sydney Porter, foi um contista, também estadunidense, que influenciou muitos escritores homens da geração de Charles Bukowski — era naturalista, com boas sacadas de humor —, por isso o grande interesse de conhecer o bar que ele frequentava em Nova York. [N.T.]

Charles Bukowski, em Factótum

17/07/2026

Sertão de Metal, de Círio e Léo Batista

Marfim

A moça desceu os degraus com o robe monogramado no peito: L.M. sobre o coração. Vamos iniciar outra Correspondência, ela propõe. Você já amou alguém verdadeiramente? Os limites do romance realista. Os caminhos do conhecer. A imitação da rosa. As aparências desenganam. Estou desenganada. Não reconheço você, que é tão quieta, nessa história. Liga amanhã outra vez sem falta. Não posso interromper o trabalho agora. Gente falando por todos os lados. Palavra que não mexe mais no barril de pólvora plantado sobre a torre de marfim.

Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés

Armandinho

Diário de Bernardo Soares

119.

Foi sempre com desgosto que li no diário de Amiel as referências que lembram que ele publicou livros. A figura quebra-se ali. Se não fora isso, que grande!
O diário de Amiel doeu-me sempre pela minha causa.
Quando cheguei àquele ponto em que ele diz que sobre ele desceu o fruto do espírito como sendo “a consciência da consciência”, senti uma referência direta à minha alma.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Jenny Wren | Paul McCartney


Jenny Wren | Paul McCartney

Like so many girls
Jenny Wren could sing
But a broken heart
Took her song away

Like the other girls
Jenny Wren took wing
She could see the world
And its foolish ways

How we spend our days
Casting love aside
Losing sight of life
Day by day

She saw poverty
Breaking up a home
Wounded warriors
Took her song away

But the day will come
Jenny Wren will sing
When this broken world
Mends its foolish ways

Then we’ll spend our days
Catching up on life
All because of you
Jenny Wren
You saw who we are
Jenny Wren
Em Los Angeles, há um cânion onde eu adoro fazer caminhadas. Tem que ir de carro para chegar lá, então muitas vezes vou sozinho. No dia em que escrevi esta canção, encontrei um lugar tranquilo para estacionar à beira da estrada, em uma área bem rural e, em vez de fazer uma caminhada, pensei: “Vou compor uma canção”.
As pessoas costumam pensar que Liverpool é uma cidade industrial, mas não tive problemas para praticar a observação de pássaros quando eu era menino. Eu gostava de me desligar do corre-corre do mundo, e isso era permitido pelo simples fato de que morávamos em Speke, no sul de Liverpool, a apenas um quilômetro e meio da área rural. Eu tinha um livrinho de bolso, The Observer’s Book of Birds, e costumava sair sozinho para fazer caminhadas no campo, em busca de um pouco de solidão. Eu curtia me distanciar das coisas normais – escola, vida familiar, rádio, televisão, incumbências, seja lá o que fosse – e só ficar na minha, capaz de perambular e meditar. Logo aprendi a identificar os pássaros, e a corruíra (“wren”) provavelmente se tornou a minha ave favorita – pequenina, muito reservada, uma coisinha tão delicada. Não é fácil de avistá-la, mas súbito ela surge, pulando de arbusto em arbusto. Por isso, se o assunto é passarinho – os melros-pretos, também entre os meus favoritos, ou as cotovias, ou as Jenny Wrens –, estamos falando de uma coisa pela qual há muito tempo eu cultivo uma afeição.
Sempre é bom, quando você está escrevendo algo, escrever sobre um mundo de que você gosta. Então, quando estou falando sobre Jenny Wren, primeiro estou me lembrando da ficção, da corajosa moça de Our Mutual Friend (O amigo comum), de Dickens, cuja atitude positiva lhe permitiu superar suas deformidades dolorosas, mas num átimo me vem à mente a corruíra, e em seguida estou vendo de novo uma personagem, e nessa história ela canta como ninguém. A criançada talvez não tenha mais ouvido falar nela, mas as gerações de meus pais e avós conheciam a grande cantora de ópera sueca Jenny Lind, que tinha o cognome de “Jenny Wren”.
Na minha narrativa, eis que Jenny Wren, tendo sido privada de sua alma, parou de cantar como forma de protesto. Por isso, a canção se torna um pouco reflexiva sobre nossa sociedade – como nós colocamos as coisas a perder e como nos solidarizamos com a pessoa que protesta. Ela presenciou as nossas tolas decisões, a maneira como deixamos o amor de lado, a maneira como perdemos de perspectiva as nossas vidas – a pobreza destruindo lares, criando guerreiros feridos. Ela percebeu quem somos e, como todo mundo, só está buscando um caminho melhor. E se estivermos, digamos, num ano de eleição, e isso pode ser em qualquer lugar do mundo, você espera que a perturbação, este mundo fraturado (“this broken world”) em que estamos no momento – vá embora, assim como as pessoas que criaram isso, e alguém melhor virá para que consigamos retomar o nosso lado melhor, consertar as nossas tolas decisões (“foolish ways”). Você sabe que lá está o nosso lado melhor, mas nem sempre é tão fácil de acessá-lo.
Mesmo assim, preciso manter o otimismo – afinal de contas, eu nasci em plena Segunda
Guerra Mundial, e a Grã-Bretanha conseguiu superar aqueles dias sombrios. Por isso, ainda estou convencido de que é um bom velho mundo, de verdade, mas acho que estamos pisando na bola. Por exemplo, o oceano se enchendo de plástico é um caso óbvio; o plástico não chegou lá sozinho. Pensar que a mudança climática é uma farsa é outro vacilo, e eu espero que ainda consigamos consertar isso a tempo de beneficiar nossos filhos e os filhos de nossos filhos.
Estou ciente de que estou cantando para pessoas que podem estar passando por momentos difíceis, porque, no meio onde eu cresci, muita gente passava por momentos difíceis pela falta de dinheiro, e nunca me esqueci que há um monte de coisas que você não consegue se não tiver dinheiro. Por isso, estou sempre muito ciente do poder de uma bela canção, pois sei que quando eu ouvia uma – mesmo uma canção sobre um passarinho – na minha adolescência em Liverpool, isso me dava esperança e me deixava feliz. Compreendi o quanto aquele sentimento era valioso para mim. E agora sou eu o cara que diz: “Olha só, as coisas nem sempre são ruins”. Isso me dá um lugar para ir na canção, e também me dá um lugar onde eu gostaria de estar. Lembra muito a canção “Smile”, de Charlie Chaplin. É a SCO – Síndrome da Canção Otimista.
Muitas vezes, as canções estabelecem um diálogo com outras canções, e esta obviamente conversa com “Blackbird”. Acho que, se você está ali sentado com o violão, pode seguir alguns caminhos. Em “Blackbird”, o canto responde ao dedilhar dos acordes, e eu acho que “Jenny Wren” tem essa mesma ideia. É provável que eu estivesse revisitando “Blackbird”, talvez intencionalmente. Eu não admitiria isso pra ninguém caso eu não estivesse trabalhando neste livro, que, como diz a letra de “Jenny Wren”, está me permitindo pôr a vida em dia (“catching up on life”).

Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente

Aquário (Berlim)

Vertical, resvés, a água se enjaula.
Vítreo, aquoso, cristalino, cada compartimento abre olho: azul de filmagem ou verde-fluoresceína: os das luzes em anúncio e das pequenas ondas findantes.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra