09/06/2026

Gal Costa | Quase Um Segundo

Juízo Final, por Laerte

Canção de mim mesmo

5

Creio em ti minha alma,
O outro que sou não deve se rebaixar a ti,
E não deves ser rebaixada ao outro.
Vagueia comigo na relva, solta a trava da garganta,

Nem palavras, nem música ou rima quero,
Nem hábito ou palestra,
Nem mesmo os melhores,
Somente o sossego me agrada, o rumor de tua voz valvulada.

Recordo como uma vez deitamos certa manhã transparente de verão,
Como assentaste tua cabeça transversalmente em meus quadris e gentilmente giraste sobre mim,
E abriste a camisa em meu peito e lançaste tua língua em meu coração desnudo,
E tateaste até sentir minha barba e tateaste até pegar meus pés.

De súbito te ergueste e espalhaste ao meu redor a paz e o conhecimento que passam todo o argumento da terra,
E sei que a mão de Deus é a promessa da minha,
E sei que o espírito de Deus é irmão do meu,
E todos os homens já nascidos são também meus irmãos, e as mulheres minhas irmãs e amantes,

E que uma sobrequilha da criação é o amor,
E ilimitadas são as folhas rijas ou pendentes nos campos,
E formigas marrons nos miúdos vãos sob elas,
E crostas musgosas da cerca serpeante, pedras empilhadas, sabugueiro, verbasco e erva-dos-cachos.

Walt Whitman, em Folhas de Relva

Capítulo 56 – O Momento Oportuno



Mas, com a breca! quem me explicará a razão desta diferença?
Um dia vimo-nos, tratamos o casamento, desfizemo-lo e separamo-nos, a frio, sem dor, porque não houvera paixão nenhuma; mordeu-me apenas algum despeito e nada mais.
Correm anos, torno a vê-la, damos três ou quatro giros de valsa, e eis-nos a amar um ao outro com delírio. A beleza de Virgília chegara, é certo, a um alto grau de apuro, mas nós éramos substancialmente os mesmos, e eu, à minha parte, não me tornara mais bonito nem mais elegante. Quem me explicará a razão dessa diferença?
A razão não podia ser outra senão o momento oportuno. Não era oportuno o primeiro momento, porque, se nenhum de nós estava verde para o amor, ambos o estávamos para o nosso amor; distinção fundamental. Não há amor possível sem a oportunidade dos sujeitos. Esta explicação achei-a eu mesmo, dois anos depois do beijo, um dia que Virgília se me queixava de um pintalegrete que lá ia e tenazmente a galanteava.
Que importuno! dizia ela fazendo uma careta de raiva.
Estremeci, fitei-a, vi que a indignação era sincera; então ocorreu-me que talvez eu tivesse provocado alguma vez aquela mesma careta, e compreendi logo toda a grandeza da minha evolução. Tinha vindo de importuno a oportuno.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

1624 – Cidade do México

O rio da cólera

A multidão, que cobre toda a praça maior e as ruas vizinhas, lança maldições e pedras ao palácio do vice-rei. As pedradas e os gritos, traidor, ladrão, cachorro, Judas, se arrebentam contra os portais e os portões, fechados a pedra e cal. Os insultos ao vice-rei se misturam com os vivas ao bispo, que o excomungou por ter especulado com o pão desta cidade. Há tempos que o vice-rei vinha estocando todo o milho e o trigo em seus celeiros privados; e assim brinca, a seu bel-prazer, com os preços. A multidão está em brasa. Enforquem ele! Paulada! Matem ele a pauladas! Uns pedem a cabeça do oficial que profanou a igreja, arrastando para fora dela o arcebispo; outros exigem linchar Mejía, testa de ferro do vice-rei em seus negócios; e dois querem fritar em azeite o vice-rei estocador.
Aparecem picaretas, chuços, alabardas; ouvem-se tiros de pistolas e mosquetões. Mãos invisíveis hasteiam o pendão do rei, no teto do palácio, e pedem auxílio os gritos das trombetas; mas ninguém acode para defender o vice-rei encurralado. Os principais do reino fecharam-se em seus palácios e juízes e oficiais escorreram pelos buracos. Nenhum soldado obedece ordens.
As paredes da prisão da esquina não aguentam o ataque. Os presos se incorporam à maré furiosa. Caem os portões do palácio, o fogo devora as portas e a multidão invade os salões, furacão que arranca cortinas, arrebenta baús e devora o que encontra.
O vice rei, disfarçado de frade, fugiu por um túnel secreto, rumo ao convento de São Francisco.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos 

Antigos Olhos Faiscantes



No octogésimo aniversário de Winston Churchill, um jornal inglês de opinião enviou felicitações ao “segundo maior inglês vivo”. A petulância e a impertinência do elogio residiam na premissa oculta. Mas, para os lógicos e os radicais, o nome omitido ressoou distintamente: era o de Bertrand Russell. E essa avaliação implícita pode ser duradoura. Na verdade, pode se estender muito além da vida inglesa. É possível que a presença de Russell, mais do que qualquer outro, tenha moldado a história da inteligência e da sensibilidade na civilização europeia entre os anos 1890 e 1950. Mais do que qualquer outro, talvez, desde Voltaire.
O paralelo é óbvio e profundo. Vem da capa deste belo livro, The Autobiography of Bertrand Russell (Little, Brown, 1967), com o retrato de Russell em 1916. Seu cabelo é ondulado como uma peruca do século XVIII, o nariz é aquilino e voltairiano, os lábios são sensuais, mas levemente trocistas. Como Voltaire, Russell teve vida longeva e fez desse fato uma afirmação de valores ao mesmo tempo alegres e estoicos. Sua obra publicada é imensa, um insulto à frugalidade do estilo moderno; são cerca de 45 livros. A correspondência é ainda mais extensa. Como a de Voltaire, ela toca diretamente em todos os pontos nevrálgicos de seu século. Russell discutiu filosofia com Wittgenstein e literatura com Conrad e D. H. Lawrence; debateu economia com Keynes e desobediência civil com Gandhi; suas cartas abertas geraram uma resposta de Stálin e a exasperação de Lyndon Johnson. E, como Voltaire, Russell procurou fazer da linguagem — sua prosa é maleável e translúcida como as mais refinadas da época clássica — uma salvaguarda contra as brutalidades e mentiras da cultura de massa.
Pode ser que o leque de Russell seja mais amplo do que o de Voltaire, mesmo que não tenha escrito nenhuma obra que, por si só, cristalize toda uma percepção do mundo como faz Cândido. Apenas os lógicos e os filósofos da ciência estão capacitados para avaliar a contribuição de Introdução à filosofia matemática e dos Principles of Mathematics, que Russell concluiu em 1903. Junto com os Principia Mathematica, publicados em colaboração com Whitehead entre 1910 e 1913, esses livros conservam uma imponente vitalidade na história da investigação lógica moderna. Antecipam várias das noções que têm se mostrado muito fecundas na lógica simbólica e na teoria da informação contemporâneas. Os lógicos puros constituem uma espécie rara. Russell, em sua capacidade de profundo cálculo analítico, em sua habilidade de utilizar códigos de ordem significante não tão sobrecarregados com as opacidades e desgastes da vida corrente quanto a linguagem comum, se emparelha com Descartes e Kurt Gödel.
A História da filosofia ocidental, de Russell, que estava em grande destaque quando ele recebeu um Prêmio Nobel de Literatura em 1950, é haute vulgarisation no melhor sentido. Avança rapidamente de Anaxágoras até Bergson. Transborda de implícita confiança na mortalidade do absurdo. O livro de Russell sobre Leibniz é datado, mas continua interessante pois mostra as semelhanças entre seu próprio desejo de onisciência e o do grande polímata e rival de Newton. Nosso conhecimento do mundo exterior, baseado nas palestras Lowell que Russell deu em Boston em 1914, continua a ser talvez a melhor introdução a seu estilo filosófico e a seu sinuoso empirismo. Os problemas levantados são antigos como Platão; isso significa que as soluções propostas são menos vulneráveis a modismos do que em outros ramos da filosofia. Somos animais epistemológicos, perguntando de onde viemos e para onde vamos, mas jamais sabendo as respostas, incapazes de provar se esta vida não é um longo sonho. Russell faz um belo mapeamento de nossa estranha condição. E faz isso de novo, mas menos incisivamente, em A análise da mente. Se tivesse escrito apenas esses livros de filosofia e história das ideias, já teria um lugar de destaque.
Mas o choque da guerra mundial e as mudanças profundas em sua própria personalidade ampliaram e complexificaram muito o campo de suas reflexões. Desde 1914, foram poucas as áreas de política social, das relações internacionais, da ética pessoal que ele não abordou. Sua crítica a nossos costumes se inicia no mundo de William Morris e Tolstói; sobrevive ao de Shaw e Freud; continua ativa e mais contundente do que nunca no de Stokely Carmichael. Queria planejar “A conquista da felicidade” — qualquer que fosse o título do discurso ou do ensaio específico. Foi tão caloroso em seu “Elogio ao ócio” quanto Montaigne, e voltou várias vezes, com a sensação de um enigma não solucionado, a “O casamento e a moral”. Contou ao mundo “Por que não sou cristão”, mas escreveu com uma delicadeza poética estranha a Voltaire sobre as pretensões do misticismo, daquela abrupta lógica do espírito humano quando se encontra num estado de êxtase. Seus estudos e ensaios mais imediatamente políticos encheriam toda uma prateleira. Desde cedo examinou “A prática e a teoria do bolchevismo” e demonstrou simpatia e preocupação pelo “Problema da China” (outro interesse que partilhava com Voltaire) muito antes da crise atual. Seu estudo das “Perspectivas da civilização industrial” o aproxima do pensamento de R. H. Tawney, ao passo que seus apelos constantes à resistência passiva e ao desarmamento universal o aliam a Danilo Dolci. O sonhador e o engenheiro também estão presentes na personalidade de Russell. É um utopista do curto prazo, um homem que, mesmo aos 95 anos de idade, desperta das simplicidades de seus sonhos e acredita convictamente que elas seriam capazes de trazer uma melhora imediata, na mesma manhã. O título de um dos ensaios de Russell, Tem futuro o homem?, sintetiza suas buscas. O ponto de interrogação representa um ceticismo persistente, um filão de tristeza resignada. Mas a vida inteira da velha raposa, maravilhosa em sua diversidade e capacidade de criação, tem sido uma luta constante para alcançar uma resposta afirmativa.
Ao que parece, Russell mantém registros detalhados dessa vida desde o começo — certamente desde que foi para Cambridge, em outubro de 1890, e percebeu que era dotado de talentos extraordinários. Como Voltaire, Russell presenciou o ingresso da própria pessoa na luz da história; o tempo e a eminência lhe deram certa distância de si mesmo, e ele tem observado esse processo com ironia e precisão. Meu desenvolvimento filosófico, de leitura muito agradável, é o registro de sua passagem do idealismo kantiano para uma espécie de empirismo transcendental que eu chamaria de pitagórico (“Tenho tentado entender o poder pitagórico que faz o número flutuar acima do fluxo”). “Retratos de memória”, que se assemelha e às vezes complementa os Essays in Biography [Ensaios de biografia], de Keynes, narra alguns dos encontros mais luminosos na carreira de Russell e reconstitui, até onde é possível para um livro, a formalidade descontraída da vida intelectual na Cambridge de G. M. Trevelyan e lorde Rutherford, de G. E. Moore e E. M. Forster. A rede formal da autobiografia se desenvolve naturalmente a partir desse exame tão constante da própria vida. Algumas partes do volume foram reunidas e ditadas em 1949, e outras provavelmente no começo dos anos 1950. O material tratado se estende de fevereiro de 1876, quando o filho mais novo de lorde e lady Amberley chegou órfão, aos quatro anos de idade, a Pembroke Lodge, casa dos avós, até agosto de 1914, quando o lógico matemático de 42 anos, docente do Trinity College e membro da Royal Society, estava prestes a optar por um pacifismo intransigente e romper com grande parte do mundo a que pertencia. A narrativa consiste em sete capítulos, cada qual acompanhado por uma seleção de cartas relacionadas com aquele momento. Esse recurso vitoriano funciona admiravelmente bem. Não raro as cartas seguem com sutileza um rumo contrário à lembrança muito posterior, e o diálogo entre carta e recordação às vezes rende alguma nota de rodapé mordaz. Assim, Russell escrevia a Lucy Martin Donnelly em 22 de abril de 1906, comentando alguns de seus esforços mais abstrusos, mais tremendamente exigentes em lógica matemática: “Meu trabalho avança a um ritmo fantástico, e sinto intenso prazer com ele”, ao que, 45 anos depois, o conde Russell, O. M., diria: “Acabou se mostrando uma asneira rematada”.
Bertrand Russell nasceu e foi criado na aristocracia. Era neto de um primeiro-ministro, primo ou sobrinho de toda uma linhagem de dignitários militares, diplomáticos e eclesiásticos. As sombras de antepassados que tinham visitado Napoleão em Elba ou defendido Gibraltar durante as guerras americanas povoavam o quarto de brincar. Era a Inglaterra de alamedas arborizadas e aveludadas, de senhores e servos. Nas páginas de abertura, os panoramas temporais são vertiginosos. O autor e o leitor desta resenha somos contemporâneos, no sentido possível da palavra, de um homem que silenciou Browning durante um jantar e, quando ficou a sós com William Gladstone, ouviu cascatear sobre si um pronunciamento fatal: “É muito bom este porto que me deram, mas por que me deram num cálice de clarete?”. Nós, os vivos, temos aqui um homem, ainda lúcido e alerta, cujos criados e primeiros conhecidos tinham frescas na lembrança as notícias de Waterloo. Isso em si já é bastante assustador. Mas, no caso de Russell, o fato de ter crescido num mundo quase totalmente extinto para nós, de ter pertencido à elite mais confiante da história moderna (a aristocracia whig da Inglaterra vitoriana), é mais do que um artifício estilístico permitido pela longevidade. Russell traz as marcas de suas origens nos próprios limites de seu radicalismo posterior.
Essas memórias não se preocupam em atenuar sua altivez de nascença. “Mas o que pode uma faxineira saber dos espíritos dos grandes homens, ou dos anais dos impérios desaparecidos, ou das visões assediantes da arte e da razão?”, perguntou a Gilbert Murray em 1902. E prosseguia: “Não vamos nos iludir com a esperança de que o melhor está ao alcance de todos, ou que a emoção não moldada pelo pensamento pode algum dia alcançar os níveis mais elevados”. Em fevereiro de 1904, Russell se aventurou “em uma parte distante de Londres” para dar uma palestra numa seccional da Sociedade Unida dos Engenheiros. Seu comentário na época foi típico: “Pareciam pessoas excelentes, muito respeitáveis — na verdade, eu nem imaginaria que eram trabalhadores”. Russell se converteu num dos autênticos revoltosos da história moderna; suas fuzilarias contra o capitalismo, contra a política da grande potência e a hipocrisia do sistema são ferozes e se sucedem faz tempo. A piedade pela condição humana arde nele até quase consumir a razão: “Crianças passando fome, vítimas torturadas pelos opressores, velhos desamparados e fardos odiados pelos filhos, e o mundo inteiro de solidão, pobreza e dor escarnecem do que deveria ser a vida humana”. Ele foi preso, perdeu cargos acadêmicos, enfrentou o risco do ostracismo por causa de sua profunda compaixão. Mas o jacobinismo de Russell é um alto conservadorismo; nasce da certeza de que o berço e o talento impõem o direito e o dever do preceito moral. “Os ecos dos gritos de dor reverberam em meu coração”, diz Russell. Fica a dúvida se ele não está enganando a si mesmo; a câmara de ressonância fica mais acima: a piedade, como em Voltaire, é cerebral. Na essência, a política de protesto de Russell quer materializar a esperança, manifesta com tanta clareza no pequeno e entusiástico grupo dos Apóstolos ao qual ele pertencia em Cambridge, de que a humanidade possa ser elevada a um plano justo de saúde e bem-estar social, para que os eleitos, os amantes da beleza e da verdade, possam se realizar na vida sem má consciência. A democracia americana, afirma Russell, é igualitária e filistina. Assim, não abre espaço nem para a intensidade, nem para a elevação dos sentimentos: “Na verdade, a elevação do sentimento parece depender essencialmente de uma consciência reflexiva do passado e de seu terrível poderio”. A verdadeira política é a arte de assegurar espaço para os melhores; ela afastará a miséria do mundo em geral que estorva ou dissipa a vida do espírito. A piedade de Russell muitas vezes é afiada, uma arma para afastar os que poderiam se aglomerar perto demais de sua sensibilidade.
Essa misericórdia aristocrática e uma reveladora preferência pelo abstrato em detrimentoda desordem do pessoal estão por trás do tom geral da Autobiografia. Elas ficam explícitas em dois episódios que logo se tornaram os mais notórios. “Procuro o amor, em primeiro lugar, porque traz êxtase”, escreve Russell, “um êxtase tão grande que muitas vezes eu teria sacrificado todo o resto da vida por algumas horas desta alegria. Procuro-o, em segundo lugar, porque alivia a solidão, aquela solidão terrível na qual uma consciência tiritante fita na borda do mundo o frio abismo insondável e sem vida.” Mas essa procura parece ter acarretado, algumas vezes, a ruína de outrem. O primeiro casamento de Russell com Alys, irmã de Logan Pearsall Smith, começou entre arroubos. A lembrança de uma de suas primeiras visitas à amada, em janeiro de 1894, quando Londres estava coberta de neve e “quase tão silenciosa como o topo de uma colina solitária”, tem a força e a suavidade da narrativa autobiográfica de Tolstói, quando Levin visita Kitty no começo de Anna Kariênina. Mas o casamento se construiu sobre um estranho código de reticência sexual que logo gerou tensões dolorosas. Em março de 1911, Russell se apaixonou por lady Ottoline Morrell, mulher celebrada na vida e na carreira de toda uma geração de poetas e políticos ingleses. “Por uma noite” com ela, Russell se sentiu disposto a pagar o preço do escândalo e mesmo da morte. Assim ele conta o final de seu casamento com Alys:

Eu disse a Alys que ela poderia ter o divórcio no momento em que quisesse, mas que não deveria envolver o nome de Ottoline. Mesmo assim, ela insistiu que iria envolver o nome de Ottoline. Com isso, disse-lhe com calma, mas com firmeza, ela veria que era impossível, pois, caso desse algum passo nesse sentido, eu me suicidaria para impedi-la. Falei a sério, e ela viu. Com isso sua fúria se tornou insuportável. Depois de ficar enfurecida durante algumas horas, dei uma aula sobre a filosofia de Locke à sua sobrinha, Karin Costelloe, que estava para fazer seu exame de bacharelado. Então saí em minha bicicleta, e assim terminou meu primeiro casamento. Não voltei a ver Alys até 1950, quando nos encontramos como bons conhecidos.

Depois de terminar o período letivo em Harvard, Russell foi para Chicago, para ficar na casa de um eminente ginecologista. Ele tinha conhecido rapidamente uma de suas filhas em Oxford. “Passei duas noites sob o teto de seus pais, e a segunda passei com ela.” Combinaram em segredo que a moça iria se juntar a Russell na Inglaterra. Quando ela chegou, em agosto de 1914, tinha estourado a guerra mundial. Aqui também cabe citar na íntegra o relato de Russell:

Eu não conseguia pensar em nada além da guerra, e, como tinha decidido me manifestar publicamente contra ela, não quis complicar minha posição com um escândalo privado, que tiraria qualquer peso do que eu pudesse dizer. Portanto, achei impossível fazer o que havíamos planejado. Ela ficou na Inglaterra e mantive relações com ela de tempos em tempos, mas o choque da guerra matou minha paixão e parti seu coração. Por fim, ela caiu vítima de uma doença rara, que a deixou primeiro paralisada e depois demente. Em sua demência, ela contou ao pai tudo o que havia acontecido. A última vez que a vi foi em 1924. […] Se a guerra não tivesse intervindo, o plano que fizemos em Chicago poderia ter trazido grande felicidade para nós dois. Ainda sinto a dor dessa tragédia.

Há uma terrível frieza tanto no estilo quanto nos sentimentos expressos — uma lucidez gélida, descartando o assunto, ao estilo augusto clássico. Em certa medida, pode ser por causa da velhice e do distanciamento das lembranças. Mas certamente o problema tem raízes mais fundas. Como Voltaire ou talvez Tolstói em seus anos finais, Bertrand Russell é um homem que tem mais amor pela verdade ou pela apresentação clara de uma possível verdade do que pelos seres humanos individuais. Tem um ego de tanta riqueza e turbulência que o egocentrismo constitui todo um mundo. A ele, qualquer outro ser humano, por mais íntimo que seja, tem um acesso apenas provisório. Russell registrou pelo menos uma experiência mística definitiva. Ocorreu em 1901, depois de ouvir Gilbert Murray ler uma parte de sua tradução de Hipólito, de Eurípides. Ele reconstitui o tremendo momento da iluminação, do claro transe, que resultou algumas horas depois nas posições sobre a guerra, a educação e a insuportabilidade da solidão humana que iria manter ao longo da vida. Russell saiu do transe convencido de “que nas relações humanas é preciso penetrar e falar ao próprio âmago da solidão que existe em cada um”. Sem dúvida era uma convicção sincera, mas não transparece muito nesta Autobiografia. Mais pertinente parece ser o capítulo sobre “O ideal” nos Principia Ethica, de G. E. Moore, obra que exerceu profunda influência no desenvolvimento inicial de Russell; é “o amor ao amor” que Moore recomenda “como o bem mais valioso que conhecemos”. Ao lado dessa vívida percepção, o amor pelo ser amado concreto parece uma alegria bastante pálida.
Mas seria injusto considerar apenas o que há de altivo e inquietante nesse livro. Os “antigos olhos faiscantes são alegres”. Russell rememora sua leitura dos Eminent Victorians [Vitorianos célebres], de Lytton Strachey, na cadeia: “Ele me fez rir tão alto que o guarda veio até minha cela, dizendo que eu devia lembrar que a prisão é um lugar de castigo”. Multiplicam-se extravagâncias e rudezas de outra era, numa linguagem quase extinta:

Quando o vice-diretor da faculdade, um clérigo que violentou a filha pequena e ficou paralisado pela sífilis, teve de ser afastado em consequência disso, o diretor se aprestou a declarar na Reunião da Congregação que aqueles dentre nós que não frequentavam regularmente a capela não faziam ideia de como tinham sido excelentes os sermões desse dignitário.

Russell, como muitos ingleses distintos, é exímio nas estocadas. Uma vinheta cômica das pomposidades filosóficas e pessoais em Cambridge, Massachusetts, de 1914, vem coroada com um polido arremate: “Havia limitações na cultura de Harvard. Schofield, o professor de belas-artes, considerava Alfred Noyes um ótimo poeta”. Keynes aparece em rápidas pinceladas, “carregando por toda parte o sentimento de um bispo in partibus”.
Além disso, as ironias não são apenas apuradas. Elas cavam o leito de uma correnteza de dúvidas, cuja força de erosão é tão grande que solapa os próprios valores iniciais de Russell e arrasta em sua passagem a ciência na qual ele alcançara a grandeza e o mundo onde se sentia mais à vontade. Essa demolição interna é a grande aventura do primeiro volume (Russell está trabalhando no segundo). O árduo trabalho de argumentação abstrusa exigido pelos Principia Mathematica esgotou Russell. Ele conta com toda a franqueza que sua capacidade de raciocínio matemático denso se enfraqueceu depois de 1913. Mas não foi somente a lógica matemática que se debilitou. Em fevereiro de 1913, Russell escreveu a Lowes Dickinson a efetiva sentença de condenação aos critérios da sensibilidade requintada, da comunhão acadêmica que havia dominado sua vida até aquele momento: “Mas o intelecto, exceto no momento de efervescência, é muito propenso a ser trivial”. Por trás dessa declaração estão o malogro do casamento e o exemplo de Tolstói. Mas há também uma circunstância imediata precisa. Na mesma carta, Russell se refere a outra pessoa, que o superava na filosofia e na análise do significado. Ele conta que Ludwig Wittgenstein, recém-chegado de Viena e Manchester, fora admitido entre os Apóstolos, “mas achou que era perda de tempo. […] Penso que ele estava coberto de razão, embora tenha tentado dissuadi-lo”. Essa admissão era importante. Quando o longo verão da civilização europeia chegou ao fim, Russell abandonou os luxos do espírito que mais valorizara. Sairia da guerra abrindo o caminho que, mais à frente, resultou no Tribunal Internacional Russell em Estocolmo.
A miopia, a malícia frívola de muitos pronunciamentos políticos recentes de lorde Russell são revoltantes. As mudanças de posição — era Bertrand Russell que, não muito tempo atrás, defendia um ataque nuclear preventivo contra a União Soviética — são risíveis. Mas mesmo no erro e na gárrula simplificação há um enorme gosto pela vida, uma entrega total de si aos chamados das ideias e às demandas do conflito humano. Quando tiver sido escrita toda a estória, provavelmente se evidenciará que poucos indivíduos na história, e certamente poucos em nossa era de gritante vulgaridade, contribuíram mais para dignificar a imagem da vida apresentada por Russell 64 anos atrás:

Muitas vezes sinto que a religião, como o sol, extinguiu as estrelas de menos brilho, mas não menos beleza, que cintilam sobre nós na escuridão de um universo sem deus. O esplendor da vida humana, tenho certeza, é maior para os que não estão ofuscados pela irradiação divina; e a camaradagem humana parece se tornar mais íntima e mais terna com a percepção de que somos todos exilados numa margem inóspita.
19 de agosto de 1967

George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos

08/06/2026

Árvore | Mariene de Castro

Grátis!

Endecha

Embora a velha roseira insista neste agosto
e confirmem o recomeço estas mulheres grávidas,
eu sofro de um cansaço, intermitente como certas febres.
Me acontece lavar os cabelos e ir secá-los ao sol,
desavisada. Ocorre até que eu cante.
Mas pousa na canção a negra ave e eu desafino rouca,
em descompasso, uma perna mais curta,
a ausência ocupando todos os meus cômodos,
a lembrança endurecida no cristal
de uma pedra na uretra.

Adélia Prado, em Bagagem

Oito e meio



I
Sei de pessoas que julgaram artificial o 8 1/2, de Fellini, essa obra-prima do barroquismo. Elas é que devem ser artificiais, porque nossa alma é assim como ali está, com suas idades sucessivas convivendo, o acontecido e o imaginado tendo ambos o mesmo poder traumático e o mesmo pé de realidade. Parece-te que estou falando de poesia?

II
Todas as artes são manifestações diversas da poesia — inclusive, às vezes, a própria poesia.

III
Repara: todo esse atafulhamento das nossas igrejas barrocas apenas poderá significar as complicações ingênuas da fé popular... Fiquem os racionalistas com as paredes nuas e as colunas hirtas. O classicismo pode ser muito lógico, mas é antinatural.

IV
E depois, por que motivo há de a arte clássica significar perfeição? Essa Perfeição, com P maiúsculo, não seria apenas um nome que os bárbaros davam, supersticiosamente, aos padrões de beleza dos civilizados?

V
Em Picasso, em certos Picassos, a boca, a face, o perfil, as orelhas reajuntam-se, não arbitrariamente e sim para formar uma harmonia nova, de maneira que o seu arreglo final não nos amedronta como um monstro, mas tranquiliza-nos como uma obra clássica. Na poesia há muito já acontecia assim, como na montagem de imagens aparentemente heteróclitas e anacrônicas da “Salomé” de Apollinaire e que, no entanto, serviam para formar a atmosfera dançante, luxuosa, versátil e aérea daquele poema. E foi preciso quase cem anos para que o cinema, como no 8 1/2 de Fellini, se integrasse também na poesia. Em resumo: não o desprezo da lógica, mas a aceitação da lógica imagista — o que, como todo verdadeiro modernismo, é tão velho como o mundo, porque usa apenas a velha linguagem dos sonhos e das histórias de fadas.

Mário Quintana, em Caderno H

Escrever ao sabor da pena

Esta frase me ficou na memória e nem sequer sei de onde ela veio. Para começar, não se usa mais pena. E depois, sobretudo, escrever à máquina, ou com o que seja não é um sabor. Não, não estou falando de procurar em si próprio a nebulosa que aos poucos se condensa, aos poucos se concretiza, aos poucos sobe à tona — até vir como num parto a primeira palavra que a exprima.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

O Homem que Calculava | Capítulo 24



Impressão desagradável causou em meu espírito a ameaçadora presença de Tara-Tir. O rancoroso xeque, que estivera durante longo período ausente de Bagdá, tinha sido visto, ao cair da noite, em companhia de três sicários, rondando a rua em que morávamos.
Alguma cilada ele preparava, na certa, contra o incauto Beremiz.
Preocupado com seus estudos e problemas, não percebia o calculista o perigo que o acompanhava como uma sombra negra.
Falei-lhe da presença sinistra de Tara-Tir, e recordei-lhe os avisos cautelosos do xeque Iezid.
Todos os receios são infundados — respondeu-me Beremiz, sem ponderar detidamente o meu aviso. — Não posso crer nessas ameaças. O que me interessa no momento é a solução completa de um problema que constitui o epitáfio do célebre geômetra grego Diofante:
Eis o túmulo que encerra Diofante — maravilha de contemplar! Com artifício aritmético a pedra ensina a sua idade.
Deus concedeu-lhe passar a sexta parte de sua vida na juventude; um duodécimo, na adolescência; um sétimo, em seguida, foi escoado num casamento estéril. Decorreram mais cinco anos, depois do que lhe nasceu um filho. Mas este filho — desgraçado e, no entanto, bem-amado! — apenas tinha atingido a metade da idade do pai, morreu. Quatro anos ainda, mitigando a própria dor com o estudo da ciência dos números, passou-os Diofante, antes de chegar ao termo de sua existência.”(1)
É possível que Diofante, preocupado em resolver os problemas indeterminados da Aritmética, não tivesse cogitado de obter a solução perfeita para o problema do rei Hierão, que não aparece indicado em sua obra.
Que problema é este? — perguntei.
Beremiz contou-me o seguinte:
Hierão, rei de Siracusa, mandou ao seu ourives certa porção de ouro para a confecção de uma coroa que ele desejava oferecer a Júpiter. Quando o rei recebeu a obra acabada, verificou que ela tinha o peso do metal precioso fornecido, mas a cor do ouro inspirou-lhe a desconfiança de que o ourives tivesse ligado prata ao ouro. Para pôr a limpo a dúvida, consultou Arquimedes, o grande geômetra.
Arquimedes, tendo verificado que o ouro perde, na água, 52 milésimos do seu peso, e a prata 99 milésimos, procurou saber o peso da coroa mergulhada na água e achou que a perda de peso era em parte devida a certa porção de prata adicionada ao ouro.
Conta-se que Arquimedes pensou muito tempo, sem poder resolver o problema proposto pelo rei Hierão. Um dia, estando no banho, descobriu o modo de solucioná-lo, e, entusiasmado, saiu dali a correr para o palácio do monarca, gritando pelas ruas de Siracusa: Eureca! Eureca! — o que quer dizer: Achei! Achei!
No momento em que assim conversávamos, veio visitar-nos o capitão Hassã Muarique, chefe da guarda do sultão. Era um homem corpulento, muito expedito e serviçal. Ouvira narrar o caso dos trinta e cinco camelos e não parava, por isso, de exaltar o talento e a habilidade do Homem que Calculava. Todas as sextas-feiras, depois de passar pela mesquita, ia visitar-nos.
Nunca imaginei — declarou, depois de exprimir a sua profunda admiração — que a Matemática fosse tão prodigiosa. A solução do problema dos camelos deixou-me encantado.
Ao perceber o entusiasmo do turco, levei-o até a varanda da sala que dava para a rua, enquanto Beremiz procurava nova solução para o problema de Diofante, e lhe falei do perigo que corríamos sob a ameaça do odioso Tara-Tir.
Lá está ele — apontei — junto à fonte. Os homens que o acompanham são assassinos perigosos. Ao menor descuido seremos apunhalados por esses bandidos.
Pela honra de Amine!2 Que me diz?! — exclamou Hassã. — Eu não podia imaginar que tal ocorresse. Como pode um bandido perturbar a vida de um sábio geômetra? Pela glória do Profeta! Vou já resolver esse caso.
Voltei ao quarto, deitei-me e pus-me a fumar, tranquilo.
Uma hora depois recebi o seguinte recado de Hassã:
Tudo resolvido. Os três assassinos foram executados sumariamente. Tara-Tir apanhou 8 bastonadas, pagou multa de 27 cequins de ouro e foi intimado a deixar a cidade. Mandei-o, com uma escolta, para Damasco.”
Mostrei a carta do capitão turco a Beremiz. Graças à minha eficiente intervenção poderíamos, agora, viver tranquilos em Bagdá.
É interessante — sentenciou Beremiz. — É realmente curioso! Essas linhas escritas pelo nosso bom amigo Hassã fazem recordar uma curiosidade numérica relativa aos números 8 e 27.
E como eu demonstrasse surpresa ao ouvir aquela observação, ele concluiu:
Excluída a unidade, 8 e 27 são os únicos números de cubos iguais, também, à soma dos algarismos de seus cubos. Assim:

83 = 512
273 = 19.683

A soma dos algarismos de 512 é 8.
A soma dos algarismos de 19.683 é 27.3
É incrível, meu amigo! — exclamei. — Preocupado com os cubos e quadrados, esqueceste que estavas ameaçado pelo punhal de um perigoso assassino!
A Matemática, ó Bagdali — respondeu tranquilo —, prende-nos tanto a atenção que, às vezes, alheamo-nos de todos os perigos que nos rodeiam. Lembra-se de como morreu Arquimedes, o grande geômetra?
E, sem aguardar resposta, contou-me o seguinte e curioso episódio da História da Geometria:
Quando a cidade de Siracusa foi tomada de assalto pelas forças de Marcelo, general romano, achava-se o geômetra Arquimedes absorto no estudo de um problema, para cuja solução havia traçado uma figura geométrica na areia. Ali se achava o geômetra, inteiramente esquecido das lutas, das guerras e da morte. Só a pesquisa da verdade é que lhe interessava. Um legionário romano encontrou-o e intimou-o a comparecer à presença de Marcelo. O sábio pediu-lhe esperasse algum tempo, para que pudesse concluir a demonstração que estava fazendo. O soldado insistiu e puxou-o pelo braço: “Veja onde pisa” — disse-lhe o geômetra. “Não me apague a figura!” Irritado por não ser imediatamente obedecido, o sanguinário romano, com um golpe de espada, prostrou sem vida o maior sábio do tempo. Marcelo, que havia dado ordens no sentido de ser poupada a vida de Arquimedes, não ocultou o pesar que sentiu ao saber da morte do genial adversário. Sobre a laje do túmulo que erigiu, mandou gravar uma esfera inscrita num cilindro, figura que lembrava um dos teoremas do célebre geômetra.
E Beremiz concluiu, acercando-se de mim e pousando a mão sobre o meu ombro:
Não achas, ó Bagdali, que seria justo incluir o sábio siracusano entre os mártires da Geometria?
Que poderia eu responder?
O fim trágico de Arquimedes trouxe-me novamente à lembrança a figura indesejável e rancorosa de Tara-Tir, o pérfido invejoso.
Estaríamos, realmente, livres daquele sanguinário vendedor de sal? Não poderia ele voltar, mais tarde, da velha Damasco?
Junto à janela, os braços cruzados sobre o peito, Beremiz, com certo ar de tristeza, observava, descuidado, os homens que passavam apressados em direção ao mercado.
Achei interessante interferir em seus devaneios e arrancá-lo daquela nostalgia, e perguntei-lhe:
Que é isso? Está triste? Sente saudades de sua terra ou está planejando novos cálculos?
E insisti, em tom de gracejo:
Cálculos ou saudade?
Ora, Bagdali — respondeu-me Beremiz, com seu imperturbável bom humor. — A saudade e o cálculo andam sempre entrelaçados. Já disse um dos nossos mais inspirados poetas:

A Saudade é calculada
Por algarismos, também:
Distância multiplicada
Pelo fator querer-bem.(4)

Não acredito, porém, que a saudade, depois de reduzida a uma fórmula, seja calculável com algarismos. Por Alá! Quando eu era menino ouvi, muitas vezes, minha mãe, encerrada no harém de nossa casa, cantarolar:

Saudade, velha canção
Saudade, sombra de alguém,
Que os tempos só levarão
Se me levarem também!(5)

Notas:
(1) Em linguagem algébrica esse problema pode ser traduzido por uma equação do 1.º grau com uma incógnita.
(2) Mãe do profeta Maomé.
(3) Os números 17, 18 e 26 apresentam propriedades idênticas em relação aos algarismos de seus cubos, mas não são cubos.
(4) Trova de Manuel Bastos Tigre (1882-1957), poeta pernambucano de alta inspiração.
(5) Trova de Fernandes Soares, poeta paulista. Uma das figuras de maior destaque na poesia moderna do Brasil.

Malba Tahan, em O Homem que Calculava

07/06/2026

Argila | Carlinhos Brown e Orquestra Ouro Preto

Desprezo e bajulação

Os homens desprezam uns aos outros, porém se bajulam. Desejam se elevar, porém se rebaixam.

Marco Aurélio, em Meditações

O impagável Quino

Diário de Bernardo Soares

113.

Dois, três dias de semelhança de princípio de amor…
Tudo isto vale para o esteta pelas sensações que lhe causa. Avançar seria entrar no domínio onde começa o ciúme, o sofrimento, a excitação.
Nesta antecâmara da emoção há toda a suavidade do amor sem a sua profundeza — um gozo leve, portanto, aroma vago de desejos; se com isso se perde a grandeza que há na tragédia do amor, repare-se que, para o esteta, as tragédias são coisas interessantes de observar, mas incómodas de sofrer. O próprio cultivo da imaginação é prejudicado pelo da vida.
Reina quem não está entre os vulgares.
Afinal, isto bem me contentaria se eu conseguisse persuadir-me que esta teoria não é o que é, um complexo barulho que faço aos ouvidos da minha inteligência, quase para ela não perceber que, no fundo, não há senão a minha timidez, a minha incompetência para a vida.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Nono caderno de Kindzu | Apresentação de Virgínia



Minha discordância com Quintino começou antes sequer de partirmos. No dia combinado para sairmos para o mato ele não compareceu. Esperei em vão. Procurei aquele que me iria guiar e que agora parecia estar perdido. E realmente ele estava sem prestar acordo. Deitado num velho muro, ventre inchado, embriagordo. Atordoído, titupiante, Quintino se explicou:
Hoje sou cobra com cócega na barriga: não saio do lugar.
Porquê se embebou tanto, Quintino?
Estive com Romão Pinto, é por isso bebi.
Quem é esse Pinto?, perguntei.
Não lembra? É o colono, meu patrão. Aliás, meu ex-antigo.
E agora?
Agora tenho de beber mais, respondeu.
Desisti. Minha saída da vila estava adiada por uns dias. Decidi espreitar a velha Virgínia, conhecer aquela que fora a segunda mãe de Farida. Quem sabe ela teria informação sobre Gaspar? Cheguei e fiz espera, semioculto, lembrando o conselho de Quintino:
Se passar daqui não se mostre. A velha não gosta.
A manhã foi subindo até que Virgínia lá saiu e se encostou no muro do quintal. Fiquei ali horas perdidas, espreitando a uma distância, entre os verdes-escuros das mafurreiras. O que vi ali me encheu de fantasia, estórias de reaver este mundo onde não cabemos. Apresento a velha Virgínia. Como se ainda a estivesse vendo, no actual hoje. Acrescento o que dela me disseram, em pinceladas de retrato. Entre mim e a idosa senhora a estrada se espreguiça sem nenhum fazer. Na margem dessa estrada eu me sento, retiro meu caderno e escrevo ali mesmo como se receasse que seu desenho me fugisse.
Dona Virgínia Pinto. Ali estava ela, varandeando no exercício de sua última meninez. Em nenhuma data os carros por ali poeiram. As cidades agora são muito longe, a guerra rasgou os cantos da terra. A portuguesa se vai deixando em tristonhas vagações. Branca de nacionalidade, não de raça. O português é sua língua materna e o makwa, sua maternal linguagem. Ela, bidiomática. Os meninos negros lhe redondam a existência, se empoleirando, barulhosos, no muro. Ela nem zanga.
E me contam assim: que Dona Virgínia amealha fantasias, cada vez mais se infanciando. Suas únicas visitas são essas crianças que, desde a mais tenra manhã, enchem o som de muitas cores. Os pais dos meninos aplicam bondades na velha, trazem-lhe comida, bons-cumprimentos. A vida finge, a velha faz conta. No final, as duas se escapam, fugidias, ela e a vida.
Dentro do quintal, tudo é bravio, o mato em minifúndio. Silvestram-se as flores, mais espinhos que pétalas. Os capins já lhe chegam pelos ombros. Ela nem repara a urgência de aparar o capinzal.
Não é a relva que cresceu. Fui eu que adimininuí.
Também a casa lhe parece maior. Agora, ela quase se perde no inaposento. A cama de casal é uma extensão muito enorme, acrescentando solidão na viuvice dela. Seu marido, Romão Pinto, se retirou da vida vai fazer dez anos. Do defunto esposo ela não guarda senão o inverso da saudade. Um pressentimento que ele haverá ainda de chegar, fosse o falecido não um ente do passado mas do porvir. Os vizinhos se admiram com essa falha em sua lembrança. No princípio, acreditavam ser desbotura da memória dela. Coitada, o hoje é para ela mais antigo que o anteontem, diziam. Mas, depois, se convenceram de que outro problema se tratava. Porque Virgínia seguia teimando na ideia de um noivado ainda por estrear. No lugar do suspiro saudoso ela punha a ânsia do há-de vir.
Quando eu for da idade de casar esse homem me vai chegar.
Os vizinhos não variavam: a velha durava mais que a validade de seu corpo. Deixassem seu sonho enlouquecer. E perguntavam, entre risos: o grilo, quando nasce, já tem a toca feita? É assim a velhice. Virginha que trocasse passado por futuro, sonhasse não com o fim da vida mas com as nascenças que lhe faltavam. Tudo isso que importava?
Sabem o motivo das orações dela? A gaja reza para não continuar a diminuir de tamanho.
E reproduziam as longas-lengas dela: Santíssimo Padre, se eu continuar a minguar, nem o cavaleiro Romão me notará quando passar por estas bandas. E repetia, de si para si, desencostadas frases: ontem, quando eu morrer. Virgínia, Virginha, Virginhinha: o povo lhe indistinguia variedades do nome. E todos se condoíam de sua velhice como de uma orfandade se tratasse.
Uma ocupação lhe dava fazer: criava sapos no quintal. De dia deixava as moscas patinharem os vidros das janelas. À tarde, juntava-as numa caixa e lhes tirava as asas, uma a uma. Chegada a noitinha ela saía de casa e espalhava as desasadas moscas pela relva. Chamava os batráquios por nomes, sortidos de sua autoria.
Que vai ser deles quando eu morrer?
Fosse, quem sabe, essa a ideia dela: haver alguém neste mundo que lhe desse falta. O sol se vai devagarinhando, parece uma das moscas a quem a velha cortara as asas subindo pelas horas do dia. A velha se deixa ficar, misturando a sua sombra com a do velho muro, olhando a vida como um lugar que já foi seu. O certo é sabido: na seguinte manhã os meninos regressam, subitamente calados, e se envoltam nela.
Cuidado, crianças. Não me pisem os sapos.
Uns lhe penteiam as névoas, outros lhe cortam as unhas, outros ainda lhe corrigem os cuspos no queixo. Ela se deixa, dissolvida, sonambulada num fecha-te sésamo. Os meninos lhe pedem: avó, conta estória. Virgínia sorri. Eles lhe chamam de avó. Como ela se embeleza com aquela palavrinha: avó!
Qual querem, meus filhos?
Conta aquela do pai de seu pai.
Virginha sorri, grata dos meninos se introduzirem em sua família como se eles fossem tão antigos como ela. Depois, vai soltando lembranças que escorrem como lento óleo. Saltita do português para o makwa, já não distingue sua original versão.
Como chamava o mucunha, quem lembra?
Mucunha Curucho, responde a miudagem numa só voz.
Ela acena, em festa: isso, o senhor Cruz, seu avô, homem frequente em terras do outro lado da montanha. Sua única obra havia sido um farol. Os meninos se disputam, todos querendo mexer na fábula da velhinha.
Mas esse farol dele, afinal vavó? Se o mucunha vivia lá nos interiores, onde mar nem chega...
Não acreditam?
Ela amuada, se desliga. As crianças lhe entregam mimos, rogam para que prossiga. Ela, nada. Por fim, eles aceitam a verdade dela. Sim, um farol. Um, próprio. Seja perto ou longe do mar, quem proíbe os faróis de nascerem onde bem entendem? Pois, esse farol: desempregado, nem de vista conhecendo nenhum barco.
E para quê o mucunha precisava um farol dele?
Era promessa que ele jurara da vez que sobrevivera a um naufrágio. No enquanto da estória, o dito avô ia perdendo o nome, saltitando de morada e profissão. As falas de Virgínia não se acertavam. Os meninos, por vezes, corrigiam: o mucunha Curucho, não esqueça vavó. Mais Virgínia repete os contos mais a verdade se resvala: o avô Cruz de olhos louros, hoje; amanhã um negro de rosto carapinhoso. A criançada nem se importa. Verdade, em infância, é um jogo de brincar. Em redor da anciãzinha, os miúdos sempre folgam, sem desilusão. Com gesto largo, ela pede menos barulho. Deixassem chegar, audíveis, as ordens de Deus. Que Ele é quem mandava os viventes descansarem.
Vocês com vosso barulho nem me deixam ouvir a ordem Dele. Se calhar, até já me mandou descansar, nem dei por isso...
Terminadas as estoriazinhas, a velha leva a criançada ao poço. Vão em excursão, passarinhando. Chegados ao pátio vizinho, Virginha repete o mesmo ritual: pede aos meninos que lancem uma pedra no poço.
É para ver se ainda tem água, vavó Virginha?
Ela não responde. Pega numa pedra e atira na boca escura da terra. Lá, do fundo húmido, responde um lamento. Depois, sobe um canto, tche-tche-tchém. É um barulho, surdimudo, que vai crescendo.
O que é isso, vavó?
É a água chorando.
E por que chora?
A água chora com pena de uma viúva que perdeu seu marido, vítima de maldição.
E essa viúva quem é, vavó?
Não sei, meus filhos, essa mulher parece já morreu, faz conta foi há tantíssimo tempo.
Eram as palavras dela fechando o dia.
Pouso os cadernos e espreito a portuguesa. Vou refazendo a velha Virgínia enquanto ela, alheia e distante, está no outro lado da estrada, à mão de semelhar. Está tão perto que não resisto a me chegar mais, ouvir sua voz cheia de tempo. Atravesso a estrada, desobedeço das instruções de Quintino. A velha só quer ser visitada por infâncias? E se eu me mostrar criança, quem sabe ela me aceita? Estou quase junto a ela, chamo por seu nome. A velha levanta o rosto, fresteja os olhos para me enfrentar.
Quem tu és?
Sou Kindzu. Quero falar com a senhora...
Falar?
Quero saber de Gaspar. Se lembra dele, Dona Virginha?
A velha se alheia, passa os dedos pelo rosto em exame das minúcias. Toca os lábios e depois, tirando a língua de fora, pergunta:
Vês a minha língua?
Vejo. Porquê?
É que a minha língua está a aumentar de tamanho.
Ri-me, inesperado. Séria, ela argumenta: a tua língua também há-de aumentar quando fores velho. Ou será que é o resto da cara que diminui com o tempo?
Não lembra, Farida?
Com a língua assim não posso lembrar nada.
A velha brincava-me. Então me excedi, em altos tons. Falei em desordem, com pronúncia que me vinha do peito. Disse tudo. Que vinha por causa de Farida, tinha sido ela que me pedira que procurasse seu filho dela.
Não diga que não se lembra de Farida. Não posso acreditar que tenha esquecido.
Dona Virgínia bastante se admira com meus modos, me puxa pelos braços para dentro de casa. Está com nervos na flor da pele. Me ordena silêncio, enquanto segredeia:
Não posso falar aqui.
Porquê?
Senão esta minha casinha se enche de fantasmas.
Falamos onde, então?
Vamos para minha antiga casa. Me faça uma coisa, entretanto: me chama de vovó. Para eu lhe ver como uma criança.
E fomos ao passo lento de Virgínia. No caminho ela me confessa seu medo: nunca tinha regressado ao velho casarão. Por isso, quando chegamos prefere não entrar. Ficamos os dois nas escadas da moradia colonial. Sentamos nos degraus. Virgínia recorda seu cruzamento com Gaspar, o menino de Farida. Lembra uma incerta manhã, alguém batendo em sua janela:
Vavó: está um menino morto no seu quintal.
Virgínia acorreu às traseiras e viu um corpo estendido entre os capins. Não estava morto. Apenas dormia, exausto. Ela confirmou que o menino ainda estava vivo mas não o apanhou nem amparou. Foi buscar uma pá e atirou-lhe com terra, enquanto dizia:
Morre, meu menino. É melhor morrer-se, enterradinho, que ficar aqui. É que esta vida não dá acesso aos meninos.
As outras crianças chegaram e lhe viram sepultando o vivo. Se intrometem, suspendendo a intenção da velha.
Vavó, deixe ele viver! Só um bocadinho!
Para o quê?
Para ele nos contar a estória dele.
Virginha duvidou, mas concorda. E assentaram. O intruso que se mantivesse e repousasse até se recompor da palavra. Que eles andavam carecidos de novidades, dessas que vale a gente acreditar. Os meninos e a velha se conluiaram: nós lhe curamos e alimentamos e depois matamos, ninguém mais vai pôr ouvidos na narração dele. Fica estória só nossa. E se ajustaram:
Lhe guardamos no poço, amarradinho para não fugir.
O poço estava seco, devido da ausência das chuvas. Levavam-lhe comidas, lhe trocavam os trapos já molhados e fedorentos. Outro qualquer teria esvanecido. Mas Gaspar era constituído, moço de suar e ressoar. Mesmo dentro do húmido poço ele foi ganhando forças, sua pele se rebrilhou. Quando, de noite, lhe tiravam das funduras ele se mantinha calado, dobrado e vincado. Os meninos, olhos cheios, punham nele toda a expectativa. Mas ele demorava a soltar a voz.
Vão ver é mudo.
Desencadearam-se então grandes chuvadas, dessas de encher todos os mares. Virgínia pensou no poço, Gaspar-zito no fundo. Os meninos foram com ela ver se a água já cobrira o buraco do poço. Ainda não. A chuva torrenciava, quase nem se via um palmo mesmo em noite de lua plena. Espreitaram, nada viram. Escutaram: só o timbiliar das gotas no fundo. Já se retiravam quando uma voz lhes chamou. Era Gaspar que gritava. Tinha-se decidido a falar. Foi uma geral exclamação, um plenário de alegrias. A velha ordenou que juntassem forças e, no puxar-junto, retiraram o miúdo do poço. Estava encharcado, tremia dos pés aos cabelos.
Tenho frio, foi a primeira coisa que disse.
Deram-lhe um agasalho e ordenaram: conta, conta uma estória. Fizeram uma roda à volta dele. Um dos meninos endurou um dedo e avisou:
Ai de ti se não gostarmos da tua estória.
Gaspar começou a medo. Contou a sua vida, sem esconder detalhe. Desfiou prosa por tempo. Quando se calou a chuva tinha parado. Os miúdos se entreolharam. Não tinham gostado, era uma estória triste. Nos dias de hoje, quem quer fantasiar desgraças? Um coro de estridências se levantou clamando para que o contador fosse punido. E que fosse castigo de peso, para aprender no curto resto de sua vida. Relançado no poço e coberto de pedra, sugeriam uns. Outros simplificavam: seja enraizado na horta da avó, volte-se ao princípio da vontade dela. Enquanto os ânimos se enroscavam um silêncio se foi compondo. Todos esperavam a sentença de Virgínia. A velha, contudo, parecia desértica, abstasiada. Os olhos duravam mais que uma tristeza eterna, tanto que doíam de serem vistos. Com um gesto vasto mandou que a meninada se afastasse.
Deixem-me ficar sozinha com ele.
As crianças, surpresas, obedeceram. Saíram pelo escuro, pés lentos de contrariedade. A velha enfrentou o jovem, sem nada pronunciar.
Não posso ir, eu também?, perguntou Gaspar.
Não.
Porquê?
Porque tu és meu filho. Teu pai foi o meu falecido homem, tu és quase-quase do meu sangue.
A velha se ergueu e sacudiu a capulana. Passou o pano pelos ombros do miúdo e lhe disse:
Vem, vamos para nossa casa.
Sentada no degrau de sua antiga casa, Virgínia ajeita o agasalho, resguardando-se do cacimbo da noite. Parou de falar, deixa pelo meio a narrativa. Está preocupada com alguma coisa, não sei qual.
E depois, vovó, o que aconteceu?
Esse menino ficou só uns dias em minha casa. Depois, fugiu ninguém sabe para onde.
Ele sabia de tia Euzinha?
Sabia. Se calhar foi ter com essa tia.
A portuguesa aponta para uma grande mangueira. Era aquela a árvore em que ela e Farida se sentavam lendo as cartas. Seus olhos estão carregados de saudade. Súbito, Virgínia me manda calar.
Shuut, vem aí alguém.
Não ouço nada. É um espírito, diz a velha. Não. Não é alma nenhuma. É o administrador da localidade, o próprio. É ele que vem vindo, escondido pelos atalhos. Virgínia se interroga, em sussurro. O que vinha ele ali fazer, a uma hora daquelas? Resposta que só tive mais tarde quando Quintino me contou a verdade dos acontecimentos. O que se passava sem que eu nem Virgínia soubéssemos eram atribulações que agora posso descrever.
Disfarçado na escuridão dos trilhos, o administrador Estêvão Jonas desconhecia o fim da sua pressa. A mensagem lhe chegara por vias atravessadas. Fora o tal Quintino que lhe trouxera o recado. Dizia que ele, o camarada-em-chefe, se deveria conduzir para casa do falecido Romão Pinto, residência igualmente falecida por nela só habitarem as vozes dos malquistos.
Chegara ao pátio da velha casa. As árvores se sujeitavam às mágoas da ventania, que o vento nunca se levanta contente. Os cães uivaram, o administrador estremeceu. Por que razão aqueles bichos se intransigem em noites que tais? Será que o cão escuta um outro uivo na lua? Estêvão Jonas tossiu alto, mais para se confirmar, esmaltado por fora mas alcatifado de medo por dentro. Naquele instante, ele tinha mais freios que dentes. Avançava colado nas paredes, forrado nelas como o deslizar de uma sombra. Num repente, saltou em danado susto. De dentro do casarão chegaram estrondos de madeira, caixas batendo em todos os sons. Havia alguém roubando as heranças do malvado colono?
Por momentos, pensou que o atinado seria chamar o seu miliciano. Não por motivo de medo mas derivado da conceituada importância da sua sobrevivência. Nesse vai-que-vai reconsiderou. Afinal, o mensageiro tinha sido claro: ele teria que se apresentar sozinho, mais ninguém deveria saber.
Estava na soleira de um adiado passo quando as portas se abriram de chofre e eis que, visão dos infernos, apareceu o falecido Romão Pinto carregando às costas o seu próprio caixão. O administrador disparou numa correria, trepando arbustos, galgando pedras, para além das humanas velocidades. Estrumando-se numa valeta próxima ele se extinguiu, escuro no escuro. O defunto se aproximou e não esteve com medidas:
Levanta-te e ajuda-me a carregar esta merda deste caixão.
Estêvão não tinha boca para tanto espanto. Porém, ainda acumulou força para responder:
Não sou um qualquer de carregar.
Não és o quê? Deixa-te de calcinhices e agarra mas é desse lado. Vá!
Estêvão mediu as condições, aplicou as mais dialécticas análises, segundo os sábios ensinamentos do materialismo. Podia ele enfrentar um fantasma? O melhor seria aceitar o sem-remédio da circunstância. E oferecendo as costas, levantou a caixa. O colono, enquanto caminhava, lhe explicava: o caixão era para oferecer ao povo. Todos dão donativos aos pobres. Aquela era a sua solidariedade. Desperdício seria a coisa ficar ali, simples caixão-de-correio entre vida e morte.
Arrumaram o desocupado féretro na arrecadação. Com um empurrão o antigo colono fez sentar o administrador. E conversaram até madrugada. Que falaram? Ninguém sabe o certo. Mas parece que o Romão deitou muita dúvida sobre o futuro de Estêvão. Naquele regime que segurança tinha o futuro? Amanhã ele recebia o devido pontapé nas partes adequadas e ninguém mais se lembraria dele. O moçambicano ripostou, quisesse o estrangeiro ensinar o Padre-Nosso ao vigarista.
Eu tenho os meus esquemas, Romão. Não pense que somos burros, como sempre vocês insistiram.
Esquemas, qual o quê. Uns negócios de tigela furada, coisa de pouco brilho. Umas cervejitas de lata amontoadas no passeio? O colono roubava o lustro da iniciativa do administrador. Naquele solene assento, o português lhe prometia coisa grossa, choruda. A ideia sendo a seguinte: que ele mesmo, óbito reconhecido, ainda por cima carregado de raça e nacionalidade, não mais podia reaver seus antigos negócios.
Já bastava ser branco, ainda por cima portuga. Agora, tudo isso e falecido é que não vale a pena.
Necessário seria que Estêvão despachasse assinatura mais seu rosto devidamente originário à frente do empreendimento e os cordéis correriam que nem saliva em boca gulosa.
Mas e o capital?, se entusiasmava o administrador.
Esse o problema. Havia dinheiro, fora e dentro. Bastante, mais até que bastante. Mas do falecimento em diante, tudo passara para o nome de Virgínia, a tonta viuvinha. Estêvão Jonas lançou a risada:
Nós tendo-lhe pena e, afinal, a velha cheia da mola!
Romão bateu na parede: sim, a maldita estava podre de rica. A dúvida que permanecia era se ela estava mesmo esmiolada, na posse de suas plenas fraquezas? Porque havia que a convencer a assinar uns cheques, movimentar as massas de bons modos.
Mas ela está doente, Romão.
Ou faz-se?
Não sei. Uma coisa é certa: temos que cuidar dela, a velha não pode pifar-se.
Mas a gaja está assim tão velha?
Na pele dela já há lugar para mais nenhuma ruga.
E os dois se acresciam do valor da idosa senhora branca. Ela não se podia apagar, havia que proteger a assinatura das papeladas bancárias. Entretanto, se arranjaria maneira de a convencer. Combinaram as necessárias políticas: Estêvão Jonas devia seguir uma política de ofensa e ofensiva. Deveria manter aceso o assunto da raça, proclamar os privilégios da maioria racial.
Mas dessa maneira lhe prejudico, Romão.
Ao contrário, meu caro sócio.
E justifica: assim ninguém desconfiaria do pacto feito com um branco. O português parece ter meditado no assunto em sua estada pela inexistência. E desenrola mais conselhos:
Dás umas discursatas contra a brancalhada. Só para disfarçar.
Para não chocar nas vistas, até dava graça. Um regime ganha validade, caro Estêvão, é quando contra argumentos não há factos. Mas uma coisa devemos acertar: o povinho discursa lá nas banjas mas decidimos nós é aqui, neste mesmo lugar, compreendes, Estêvão Jonas? Não há mais nada para ninguém, o diabo seja bruto e cego. E falemos baixinho que as paredes têm mais orelhas que o elefante.
E o morto reentra na obscura casa. Estêvão Jonas fica a vê-lo a extinguir-se. Seu sorriso é o de um vencedor. Ainda há pouco ele se acobardava. Agora, o dirigente goza um sentimento de comando que há muito não experimentava. Lá na administração não passava nenhuma das rédeas que faz mudar o destino. E é assim, confiante que nem estátua de herói, que apanha o maior susto. Carolinda, sua bela esposa, lhe surge entre escuros arbustos.
Que veio aqui fazer, Estêvão?
O administrador, tartamudo, se desculpa: que nada, se tratava de um passeio digestivo para temperar o estômago.
Onde está a mulher com quem você se encontrou?
Estêvão Jonas ri, aliviado. Então é isso? A esposa, sempre alheia e abstraída, acredita que ele se veio encontrar com uma amante? O dignitário sente-se orgulhoso. Os inesperados ciúmes da esposa lhe levantam a crista, galo subitamente galante. E tranquiliza a esposa, lhe conta o sucedido, acordos e sociedades com o pseudofalecido. Pior foi a emenda:
Agora te apanhei, Estêvão. Você está combinado com os antigos colonos.
Combinado como?
Sempre eu dei o nome certo à tua função: você é um administraidor!
Afinal que moral era a dele? O administrador contrargumenta: ninguém vive de moral. Será, cara esposa, que a coerência lhe vai alimentar no futuro?
Você, Estêvão, é como a hiena: só tem esperteza para as coisas mortas.
Essas suas palavras já são canto de sapo.
O povo vai-te apanhar. Não voltas mais a esta casa, senão te denuncio.
Como não volto? Agora eu e Romão Pinto temos negócios, somos sócios. Tenho que vir aqui. Ou não diga, mulher, que quer que ele vá até lá na administração?
Carolinda lhe avisa: ele estava a subir a árvore pelos ramos. A bronca quando viesse era para valer. Afinal um bruxo é apanhado por outro bruxo.
Não sabe, Estêvão? Casas juntas, ardem juntas.
O administrador lhe pede que ferva baixinho, ainda vinham parar ali indevidas curiosidades. Paternal lhe aconselha bons-sensos: ela era esposa de um africano, devia beneficiar de estar calada, subordinadinha. Devia até ficar contente pois a riqueza que viesse seria para dividir pela família e os parentes dela se vantajariam também.
Não quero esse dinheiro. Nem minha família aceita dinheiro sujo. Você há-de pagar essa traição.
Mas Carolinda, se acalme. Isto são contradições no seio do povo...
Vá-se embora, Estêvão. Eu não lhe quero ouvir.
Tem que me ouvir.
Vá-se, senão eu grito, grito até isto se encher de gente.
O administrador se retira com alguma pressa. Antes de desaparecer no escuro ainda olha para trás e se admira com o tamanho da sombra de Carolinda. É uma sombra enorme que se projecta no enorme casarão. Se o administrador, antes de retirar, tivesse posto menos medo e mais atenção teria visto Virgínia se erguendo nos degraus da escada. Chamei a sua atenção. Virgínia, com um gesto, me faz sentir que não há perigo, Estêvão já ali não está. Ela anuncia sua retirada:
Já vou. É hora de dar comida aos meus sapos.
Eu vou consigo, lhe faço a companhia.
Não, eu não quero que você seja visto comigo.
E porquê?
Não esqueça eu sou uma velha tonta, não falo com gente crescida. Só mereço confiança das crianças. Sabe o que ando a adivinhar? Que o Romão quer que eu assine papéis autorizando dinheiros. Como é que posso assinar um papel? E dinheiro, eu sei o que é dinheiro? Não faço nenhuma ideia. Me entende, Kindzu?
Sim, agora eu entendia as extravagâncias da portuguesa. A dita loucura dela era seu refúgio mais seguro. E lhe fiquei a olhar enquanto ela se despedia pela estrada escura. Carolinda escutara nossas vozes. Se aproximou, desconfiada.
Afinal, é você?
Me levantei e lhe acariciei os braços. Ela se anichou, com um estremecer de ave. Mas depois, se endireitou, rectificada:
Não podemos ficar aqui. Meu marido me desconfia muito.
Vamos para onde, então?
Vamos para dentro de casa.
Me arrepiei. Neguei com tanta determinação que ela sorriu: será que eu acreditava em ressuscitação de falecidos? Eu queria justificar as presenciadas visões que tivera mas ela nem deixou que falasse. Que estava certo, disse. Ficássemos ali mesmo, em plena escadaria. Sentámos em degraus consecutivos, ela se encostou em mim. Um volume em meu bolso me chamou a atenção. Era o colar que Carolinda esquecera da primeira vez que fizéramos amor. Balancei o fio em frente de seus olhos e perguntei:
Se lembra disto?
Ela riu. Se lembra dos momentos na cadeia quando ela me libertou. E lhe chegam as palavras de despedida total, o seu desejo de que eu me tornasse inatingível. Mas eu ali estava, mais possível que nunca. E ela se esfrega com doçura no meu peito. O seu perfume me recordava o odor da sura, uma antiga embriaguez que me vinha da infância. Quando a beijei, porém, me fugiu um outro nome: Farida! Carolinda, de um golpe, se afastou de mim.
Você conhece Farida?
Farida? Não.
Mas me chamou de Farida.
Impressão sua.
Carolinda pareceu acreditar. Suas costas, contudo, ainda estavam tensas. Aquele nome lhe fazia muito mal.
De repente, você me fez lembrar meus dois maridos.
Dois?
Sim, eu já tive um outro que faleceu.
Então, ela falou de suas mágoas, arrastadas águas que encheram a noite. Estêvão vivia torturado pelos ciúmes. Juntava irrazoáveis razões para acusar Carolinda. Passavam as datas históricas, ele nem tinha tempo para lembrar a comemoração. Mas Carolinda lá ia, envergadinha de cerimónia, prestar homenagem aos heróis da luta pela Independência. O administrador interrogava: será que ela ainda lembrava o anterior, falecido marido? Ele morrera na guerra de libertação, Carolinda era ainda uma menina sem idade. Dizem foi emboscado não pelo inimigo português mas por próprios elementos da guerrilha. Deste então Carolinda ficara suspeitosa, ganhando mania de ver traições em todo lado. A mulher insistia: as palavras de um dirigente devem encostar com a sua prática, afinal onde estão os princípios, a razão que pediram aos mais jovens para dar suas vidas?
Mas aquela desconfiança, no final, tinha razão de ser. Não que houvesse um outro homem na vida dela. Não havia era nenhum. O administrador era uma simples ausência. Carolinda não lhe guardava nenhum afecto. Estêvão era hoje um homem de mando, amanhã seria um pau-mandado. Ela seria ainda sua servente, ele continuaria sem sequer a ver. Carolinda repetia: o casamento dela não fora prematuro. Fora pré-imaturo. Ela era criança, com muito medo e nenhum saber. Estêvão lhe dizia: não chora, Carolinda. Não sabes a adolescente que dorme com um homem cresce mais depressa?
Eu, Carolinda, estou a fazer a tua idade, acrescentava.
Mas ela nem queria crescer. Antes de Estêvão chegar, seu único desejo era alguém que a tirasse dali. Matimati era um abafado lugar, uma prisão para seu desejo de sonhar. Carolinda não tivera meninice que se recordasse. Ela queria casar permanecendo menina. Como acontecera, afinal, no primeiro casamento. Se untava de óleos para que a sua pele brilhasse em olhos machos. Mas, ao mesmo tempo, guardava os brinquedos da adolescência. O que ela muito mais queria era ser escolhida, levada daquela miséria. Andava na estrada para ser vista. Mas não parava em nenhuma aldeia para não ser desejada por ninguém daquelas bandas. Estêvão Jonas passou por ali, fardado de guerrilheiro, sacudu às costas. Ela acreditava que aquele homem estivesse de passagem para muito longe, para um mundo invislumbrável. Se ofereceu, dispondo-se a seu agrado. Depois da Independência, ele foi nomeado para chefe da administração de Matimati. Disseram ser coisa transitória. Mas o tempo passava e não chegava nunca a sua transferência. Estêvão nem sequer era dali, não entendia a língua nem os costumes daquela gente. Ele também se frustrava embora nada dissesse. Aceitava porque aprendera a disciplina de obedecer sem questionar. Vendo o tempo passar Carolinda começou a deitar ódio nele. Essa raiva lhe chegava em ondas. Ela queria magoá-lo para que ele despertasse. Fazia-lhe mal porque era uma maneira de ele se mostrar novo, de provar que estava vivo. No mais ele era um mortiço, acanhado de sonhar, medroso de pensar. Estêvão estava cansado de sua militância, exausto por sempre ter que se apagar. Foi então que surgiu na administração uma mulher de nome Farida.
Não era apenas bonita. Sua beleza tocava profundamente Carolinda e lhe fazia um gosto quase de ser homem, poder tocar aquele corpo. Farida vinha ali colocar o caso de seu filho, dado improvável nos matos. Havia centenas de outros casos mas Estêvão pôs naquele uma atenção muito especial. Carolinda, pela primeira vez, sentiu a vertigem do ciúme. Quando tocou o assunto o marido lhe respondeu:
Farida lhe irrita? Se calhar é porque é parecida com você.
O ciúme crescia com gosto em Carolinda. Tanto que a sua entrega na cama se passou a fazer com incendiada paixão. Estêvão se admirava: que se passa consigo, mulher? Mas a tal Farida inesperadamente se retirou de Matimati. Emigrara para um naufragado barco e ali ficara. Aquilo que era simples ciúme se converteu em ódio. O que lhe dava tanta raiva? Era perder o objecto do ciúme? Ou seria inveja da outra estar a caminho de sair daquele inferno? Sim, Farida fugia da pequeninez daquele lugar mesmo que o fizesse pela loucura de embarcar num barco encalhado. Mas sempre era uma viagem, uma saída daquele inferno. Era essa fuga que Carolinda não podia aceitar. Assim, ela se deu a conceber uma vingança contra Farida. Incitava Estêvão a tomar medidas contra o barco, inventando perigos na estada de tal mulher num tal barco. Os homens de Estêvão tinham ido ao navio recolher a melhor parte dos bens? Pois Farida assistira àquele desvio, se preparava para denunciar o caso. Estêvão fingia acreditar e dava desleixadas ordens para que a dita mulher fosse retirada do barco.
Então essa é a tal Farida?
Sim, essa é a razão por que fiquei chocada quando você me chamou com o nome dela.
Mas eu não chamei.
Acredito. É minha cabeça que está presa nessa mania.
Carolinda, de novo, amoleceu em meus braços. Ali nos incómodos degraus do fantasmado casarão, ela estendeu seu corpo com a paixão do fogo e a ternura da terra.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula