29/07/2026

Gente Humilde | Luiz Melodia

O desmemoriado de Vigário Geral

Lembrava-se, como se fosse ontem, isto é, há quarenta séculos, que um exército de pirâmides o contemplava. Mas não saberia precisar onde, a que luz ou em que sol de que extinta constelação. Não obstante preferia que fosse na estrela mais branca do cinturão de Órion.
É verdade: havia uma mulher que telefonava. Mas tão distante, meu Deus, que era como se lhe faltasse a ela e para todo o sempre um atributo humano indispensável.
Se lhe propunham exemplos – o xeque do pastor, o pau de amarrar égua, o mal-assombrado de Guapi, futura cidade, ele dissimulava. Era então horrível de se ver.
Afinal um dia foi encontrado morto e quando já nem tudo era possível, uma aventura banal.

Manuel Bandeira, em Estrela da manhã

Marta



Tenho quarenta anos, sou um homem sensível, gosto de música, poesia e cinema. Sou advogado, solteiro, moro sozinho. Procuro parceira para uma relação duradoura, de amor e respeito. Romântico Incorrigível.”
Fiquei uma semana, eu, o Romântico Incorrigível, entrando em vários sites de chat, e já estava ficando cansado quando a mulher que eu procurava apareceu:
Querido Romântico Incorrigível. Como você, estou também à procura de uma relação duradoura com alguém carinhoso e digno. Também amo música e poesia e principalmente cinema. Fale mais de você. Louise Brooks.”
Querida Louise Brooks. Nunca casei, não porque não tivesse condições financeiras para isso, pelo contrário, sou um homem de recursos, não obstante leve uma vida modesta. Até hoje não me casei por não ter encontrado a mulher ideal. Dizem que isso não existe, que é uma visão romântica. Mas eu me recuso a aceitar esse pessimismo. É por isso que adotei o pseudônimo de Romântico Incorrigível. E você? Qual a razão de Louise Brooks?”
Querido Romântico. Louise Brooks era uma atriz linda, do cinema mudo. Um dia um namorado me deu uma foto dela tão parecida comigo que eu a guardo até hoje. Uma mulher com um ar misterioso, que eu, na verdade, não tenho. Sou um livro aberto. Também nunca casei e procuro o homem ideal. Sei que vou encontrá-lo. Quem sabe ele não é você? Você tem namorada? Louise Brooks.”
Querida Louise. Não, não tenho namorada. Gostaria de me encontrar com você. Você deve estar pensando, ele não me conhece, como pode querer se encontrar comigo? Mas eu tenho certeza de que vamos nos dar muito bem. Pensa nisso. Romântico.”
Querido Romântico. Sou uma pessoa tímida, moro com a minha mãe, estou fazendo essa loucura pela primeira vez na minha vida, conversar com um estranho pela internet. Não sei se devo levar isso adiante. Tenho medo. Louise.”
Eu tinha pressa de pegar aquela mulher.
Querida Louise. Também sou uma pessoa tímida como você, esta é a primeira vez que faço isso. Mas sei, numa espécie de premonição, que vamos nos dar muito bem. Posso passar na sua casa? Sei que a sua mãe vai gostar de mim. Romântico.”
Querido Romântico. Na minha casa é impossível, tem que ser na sua. Me dá o endereço. Passo aí amanhã, no início da noite. Beijos. Louise.”
Querida Louise. Meu endereço é rua Gomes Monteiro, terceiro andar. É um edifício de quatro andares, um apartamento por andar, um daqueles prédios antigos que a especulação imobiliária ainda não conseguiu destruir. Você toca o interfone que eu abro a porta. Aguardo você ansioso. Romântico.”
Fiquei tenso o dia inteiro, e à medida que a hora se aproximava eu ficava ainda mais. Eu precisava pegar aquela mulher.
Então o interfone tocou.
É a Louise.”
Apertei o controle remoto. Pouco depois a campainha do apartamento soou. Abri.
Era um mulher muito branca, de cabelos tão negros que pareciam pintados. Vestia uma minissaia que exibia lindas e longas pernas alvas.
Por favor, entre.”
Ali estava a mulher que eu procurava. Ela entrou. Pedi que se sentasse.
Bonito apartamento. É seu?”
É. Tenho outro, na Barra, que está alugado.”
Meu nome verdadeiro é Diana.”
O meu é Carlos.”
Olha aqui a foto da Louise Brooks”, ela disse.
Olhei. Uma foto em preto e branco. O cabelo também era de um negror raro e o rosto muito branco. Linda mulher.
Quer beber alguma coisa?”
Um uisquinho.”
Eu apanhei na copa uma garrafa de uísque, uma de água mineral e um balde de gelo.
Gosto do meu sem gelo, só água e uísque, mais uísque do que água”, eu disse.
O meu com gelo, por favor, e bastante água.”
Preparei as nossas bebidas. Coloquei os copos em uma bandeja.
Você tem alguma coisa para a gente beliscar?”, ela perguntou.
Vou ver lá dentro, não demoro, respondi.”
Demorei um pouco, com o saco de biscoitos na mão, sentado na copa. Queria dar tempo a ela.
Depois de uns minutos voltei. Louise ergueu o copo.
Queria fazer um brinde, desejando que o nosso relacionamento seja duradouro, como você disse no seu e-mail.”
Levei meu copo aos lábios.
Antes de beber vou apanhar também uns salgadinhos na cozinha”, falei. “Eu só trouxe biscoitos.”
Fui para a cozinha levando o meu copo. Fiz o que tinha de fazer. Voltei com um prato de salgadinhos.
Ergui o copo. “A uma relação duradoura”, eu disse.
Tim, tim”, respondeu ela, batendo com o seu copo no meu.
Bebemos enquanto conversávamos.
Ela era órfã de pai, e a mãe viúva com quem morava era muito controladora. Não tinha outros parentes.
Contei que tinha quatro irmãs, todas mais velhas do que eu. Disse que gostaria de viajar com ela, ir a Paris, ou Nova York. Eu já tinha os dólares para a viagem separados. Ela disse que queria conhecer Katmandu.
Vou buscar mais água na cozinha”, eu disse, levantando-me.
Mas assim que levantei, cambaleei, apoiando-me no espaldar da poltrona.
Estou meio tonto...”
Ela me abraçou.
Está tonto mesmo ou isso é um truque para eu abraçar você?” Segurou no meu pau, que estava mole. “Daqui a pouco eu faço ele ficar duro. Senta um pouco na poltrona”, ela disse.
Sentei-me e logo minha cabeça pendeu para a frente.
Carlos, Carlos, você está bem?”
Não obteve resposta.
Um pouco depois ela sacudiu o meu braço.
Carlos, está me ouvindo?”
Continuei mudo.
Ouvi o barulho de Diana tentando abrir o quarto fechado. Senti as mãos dela revistando meus bolsos. Em seguida ouvi a voz dela, devia estar falando num celular.
Ígor, ele colapsou. As coisas devem estar num quarto trancado. Sim, eu espero, você sabe o endereço, não sabe? Toca a campainha.”
Continuei imóvel, derreado na poltrona. Ouvi a campainha.
É o Ígor”, ouvi a voz no interfone.
Sobe”, disse Diana.
Barulho de porta sendo aberta.
Foi fácil?”, voz de homem.
Moleza. Acho que joias, dólares e o que interessa estão nesse quarto trancado. Mas não achei a chave.”
Deve estar no bolso dele.”
Já revistei. Não tem chave nenhuma. Ígor, vamos apagar o cara, fazer o serviço completo.”
Não gosto disso, Marta.”
Porra, ele viu a minha cara. Se você cortar a garganta dele o cara não vai sentir nada. Serviço completo, Ígor, pra isso você leva metade e ainda me come.”
Vamos arrombar a porta”, disse Ígor.
Mas a porta se abriu antes que a arrombassem.
Os dois tiras que trabalhavam comigo saíram do quarto com as armas apontadas para eles. Mandaram que os dois se deitassem no chão com as mãos para trás.
Enquanto os dois eram algemados eu me levantei do sofá.
Marta Castro e Ígor da Silva, vocês estão presos pelo assassinato de Edgard Gouveia”, eu disse.
Os dois começaram uma discussão acalorada em que Ígor dizia que a ideia fora de Marta, que o obrigara a matar o sujeito, e Marta dizia que tentara impedir, mas Ígor matara assim mesmo.
Quem matou foi você”, repetia Marta.
Você mandou, sua puta”, dizia Ígor.
Discutiram sem parar, até chegarmos à delegacia, onde foram autuados e a prisão preventiva solicitada ao juiz. Iam ser condenados a uma pena longa de reclusão.
Antes de ser trancafiada, Marta conversou comigo.
Você não ficou desacordado e eu coloquei uma dose cavalar de entorpecente no seu copo. Como foi isso?”
Quando fui na cozinha troquei de copo. O que eu bebi estava limpo.”
Como foi que vocês me descobriram?”
Examinando o computador da vítima de vocês, o Edgard Gouveia, que vocês mataram cortando a garganta. Estava lá inteirinho, o chat com a Louise Brooks. Você devia ter mudado o seu nome.”
Mas eu queria ser ela. Louise é parecida comigo, não é?”
Sim, muito”, respondi.
E era, realmente. Um rosto raro. Marta poderia ser modelo fotográfico ou fazer carreira no cinema. Mesmo sem mudar de nome. Mas quando saísse da cadeia seria tarde demais.

Rubem Fonseca, em Ela e Outras Mulheres

Piloto de Guerra



VIII

Artilheiro!
Capitão?
Você ouviu? Seis caças, seis, na frente, à esquerda!
Ouvi, Capitão!
Dutertre, eles nos viram?
Viram. Viraram para nós. Nós estamos quinhentos metros acima.
Artilheiro, ouviu? Acima quinhentos metros.
Dutertre! Longe ainda?
— … alguns segundos.
Artilheiro, ouviu? Estarão na cauda em alguns segundos.
Agora estou vendo! Um enxame de vespas envenenadas.
Artilheiro! Passaram no través. Você vai ver num segundo. Ali!
Eu… Não estou vendo nada. Ah! Vi!
Eu não os vejo mais!
Estão no nosso encalço?
Estão no nosso encalço!
Subindo rápido?
Não sei… Não creio…
Não!
O que o senhor decide, Capitão?
Foi Dutertre quem falou.
O que você quer que eu decida! E nos calamos.
Não há nada a decidir. Isso pertence exclusivamente a Deus. Se eu virasse, encurtaria o intervalo que nos separava. Como continuamos em frente, na direção do sol, e em grande altitude não se sobe quinhentos metros sem perder o alvo por alguns quilômetros, pode ser que antes de atingirem nossa altura, quando retomarão sua velocidade, já nos tenham perdido ao sol.
Artilheiro, ainda?
Ainda.
Passamos deles?
Hã… Não… Sim!
Pertence a Deus e ao sol.
Prevendo o eventual combate (embora um Grupo de Caça mais assassine do que combata), eu me esforço, lutando contra ele com todos os meus músculos, para desbloquear meus pedais gelados. Tenho uma estranha sensação, mas ainda tenho os caças nos olhos. E ponho todo o meu peso nos comandos rígidos.

Uma vez mais observo que estou, de fato, menos comovido nesta ação, a qual, entretanto, reduz-me a uma espera absurda, do que eu estava ao me equipar. Sinto também uma espécie de raiva. Uma cólera benfazeja.
Mas nenhuma embriaguez do sacrifício. Tenho vontade de morder.
Artilheiro, nós os alcançamos?
Alcançamos, Capitão.
Vai dar.
Dutertre… Dutertre…
Capitão?
Não… Nada.
Que foi, Capitão?
Nada… Achei que… Nada…
Eu não lhes direi nada. Não é coisa que se apronte. Se ensaiar uma espiral, eles verão. Verão que estou esboçando uma espiral…
Não é normal que eu esteja ensopado de suor com cinquenta graus de frio. Não é normal. Oh! Já entendi o que está acontecendo: desmaio devagarinho. Bem devagar…
Vejo o painel de bordo. Não vejo o painel de bordo. Minhas mãos amolecem no manche. Não tenho nem força para falar. Abandono-me. Abandonar-se…
Apertei o tubo de borracha. Recebi no nariz uma golfada que traz a vida. Então não é uma pane de oxigênio. É… Sim, claro, como fui estúpido. É o pedal. Exerci contra meus pedais esforços de estivador, de caminhoneiro. A dez mil metros de altitude, parecia um lutador de circo. Porém, meu oxigênio é limitado. Tinha de consumir com moderação. Pago pela orgia…
Respiro com sofreguidão. Meu coração bate rápido, muito rápido. É como um guizo fraco. Nada direi à minha tripulação. Se eu tentar uma espiral, eles saberão logo! Vejo o painel de bordo… Não vejo o painel de bordo… Sinto-me triste no meu suor.

A vida me voltou lentamente.
Dutertre!
Capitão?
Gostaria de lhe contar o que aconteceu.
Eu achei que…
Mas renuncio a me exprimir. As palavras consomem oxigênio demais, e meus três vocábulos já me tiraram o fôlego. Sou um fraco, fraco convalescente…
Que foi, Capitão?
Não… Nada.
Capitão, o senhor está realmente enigmático!
Estou enigmático. Mas estou vivo.
Não… não nos atingiram…
Ah! Capitão, é provisório! É provisório: tem Arras.
Assim, durante alguns minutos, eu acreditei poder voltar e, no entanto, não observei em mim essa angústia brilhante que, dizem, embranquece os cabelos. E me lembro de Sagon. Do depoimento de Sagon, a quem visitamos alguns dias depois do combate que o abateu, há dois meses, em zona francesa: o que sentira, Sagon, quando os caças o enquadraram, pregaram, de algum modo, em seu poste de execução, considerou-se morto naqueles dez segundos?

Antoine de Saint-Exupéry, em Piloto de Guerra

Faculdade hegemônica

A faculdade hegemônica desperta e dirige a si mesma. Ao passo que faz de si tal como é e como quer ser, faz das coisas que se apresentam tal como deseja.

Marco Aurélio, em Meditações

Da utilidade dos animais


Terceiro dia de aula. A professora é um amor. Na sala, estampas coloridas mostram animais de todos os feitios. É preciso querer bem a eles, diz a professora, com um sorriso que envolve toda a fauna, protegendo-a. Eles têm direito à vida, como nós, e além disso são muito úteis. Quem não sabe que o cachorro é o maior amigo da gente? Cachorro faz muita falta. Mas não é só ele não. A galinha, o peixe, a vaca… Todos ajudam.
Aquele cabeludo ali, professora, também ajuda?
Aquele? É o iaque, um boi da Ásia Central. Aquele serve de montaria e de burro de carga. Do pelo se fazem perucas bacaninhas. E a carne, dizem que é gostosa.
Mas se serve de montaria, como é que a gente vai comer ele?
Bem, primeiro serve para uma coisa, depois para outra. Vamos adiante. Este é o texugo. Se vocês quiserem pintar a parede do quarto, escolham pincel de texugo. Parece que é ótimo.
Ele faz pincel, professora?
Quem, o texugo? Não, só fornece o pelo. Para pincel de barba também, que o Arturzinho vai usar quando crescer.
Arturzinho objetou que pretende usar barbeador elétrico. Além do mais, não gostaria de pelar o texugo, uma vez que devemos gostar dele, mas a professora já explicava a utilidade do canguru:
Bolsas, malas, maletas, tudo isso o couro do canguru dá pra gente. Não falando na carne. Canguru é utilíssimo.
Vivo, fessora?
A vicunha, que vocês estão vendo aí, produz… produz é maneira de dizer, ela fornece, ou por outra, com o pelo dela nós preparamos ponchos, mantas, cobertores etc.
Depois a gente come a vicunha, né fessora?
Daniel, não é preciso comer todos os animais. Basta retirar a lã da vicunha, que torna a crescer…
E a gente torna a cortar? Ela não tem sossego, tadinha.
Vejam agora como a zebra é camarada. Trabalha no circo, e seu couro listrado serve para forro de cadeira, de almofada e para tapete. Também se aproveita a carne, sabem?
A carne também é listrada? — pergunta que desencadeia riso geral.
Não riam da Betty, ela é uma garota que quer saber direito as coisas. Querida, eu nunca vi carne de zebra no açougue, mas posso garantir que não é listrada. Se fosse, não deixaria de ser comestível por causa disto. Ah, o pinguim? Este vocês já conhecem da praia do Leblon, onde costuma aparecer, trazido pela correnteza. Pensam que só serve para brincar? Estão enganados. Vocês devem respeitar o bichinho. O excremento — não sabem o que é? O cocô do pinguim é um adubo maravilhoso: guano, rico em nitrato. O óleo feito com a gordura do pinguim…
A senhora disse que a gente deve respeitar.
Claro. Mas o óleo é bom.
Do javali, professora, duvido que a gente lucre alguma coisa.
Pois lucra. O pelo dá escovas de ótima qualidade.
E o castor?
Pois quando voltar a moda do chapéu para homens, o castor vai prestar muito serviço. Aliás, já presta, com a pele usada para agasalhos. É o que se pode chamar um bom exemplo.
Eu, hem?
Dos chifres do rinoceronte, Belá, você pode encomendar um vaso raro para o living de sua casa. Do couro da girafa, Luís Gabriel pode tirar um escudo de verdade, deixando os pelos da cauda para Teresa fazer um bracelete genial. A tartaruga-marinha, meu Deus, é de uma utilidade que vocês não calculam. Comem-se os ovos e toma-se a sopa: uma de-lí-cia. O casco serve para fabricar pentes, cigarreiras, tanta coisa… O biguá é engraçado.
Engraçado como?
Apanha peixe pra gente.
Apanha e entrega, professora?
Não é bem assim. Você bota um anel no pescoço dele, e o biguá pega o peixe mas não pode engolir. Então você tira o peixe da goela do biguá.
Bobo que ele é.
Não. É útil. Ai de nós se não fossem os animais que nos ajudam de todas as maneiras. Por isso que eu digo: devemos amar os animais, e não maltratá-los de jeito nenhum. Entendeu, Ricardo?
Entendi. A gente deve amar, respeitar, pelar e comer os animais, e aproveitar bem o pelo, o couro e os ossos.

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

28/07/2026

Gilberto Gil | Não Tenho Medo da Morte

 

O impagável Quino

Brecht revisitado

partido: o que partiu rumo ao futuro
mas no caminho esqueceu a razão da partida
(só perdemos a viagem camaradas
não a estrada nem a vida)

José Paulo Paes, em Resíduo

Olhar de criança

Poça D'água (1952), de Maurits Cornelis Escher

O senso comum identifica o “infantil” com o “pueril”. Adulto no qual mora uma criança não é digno de confiança. O ideal é o homem maduro, que abandonou as coisas de criança, que trocou o brinquedo pelo trabalho. A psicanálise concorda: o “infantil” é o regressivo, sintoma neurótico a ser analisado.
Na minha psicanálise, os desejos infantis são desejos eternos e divinos. O infantil não é o regressivo: é o eterno, o que sempre foi, o que sempre será, o objeto da saudade e da nostalgia, o objeto perdido que se espera reencontrar no futuro. É dos desejos infantis que surge a poesia. A criança e o poeta falam a mesma língua.
Lá vão pelo caminho a mãe e a criança, que vai sendo arrastada pelo braço — segurar pelo braço é mais eficiente que segurar pela mão. Vão as duas pelo mesmo caminho, mas não vão pelo mesmo caminho. Pois eu digo que o caminho por que anda a mãe não é o mesmo caminho por que anda a criança. Os olhos da criança vão como borboletas, pulando de coisa em coisa, para cima, para baixo, para os lados, tudo é espantoso, tudo é divertido. Pena que a mãe não veja nada do que a criança vê porque seus olhos desaprenderam a arte de ver como quem brinca, ela tem muita pressa, é preciso chegar, há coisas urgentes a fazer, seu pensamento está nas obrigações de dona de casa, por isso vai dando safanões nervosos na criança... Olhando fixamente para o chão, ela procura as pedras no meio do caminho, não por amor ao Drummond, mas para não dar topadas, e procura também as poças d’água, não porque tenha se comovido com o lindo desenho do Escher de nome Poça d’água, uma poça de água suja na qual se refletem o céu azul e os ramos verdes dos pinheiros; ela procura as poças para não sujar o sapato. A pedra do Drummond e a poça de água suja do Escher os adultos não veem, só as crianças e os artistas.

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

Temas que morrem

Sinto em mim que há tantas coisas sobre o que escrever. Por que não? O que me impede? A exiguidade do tema talvez, que faria com que este se esgotasse em uma palavra, em uma linha. às vezes é o horror de tocar numa palavra que desencadearia milhares de outras, não desejadas, estas. No entanto, o impulso de escrever. O impulso puro — mesmo sem tema. Como se eu tivesse a tela, os pincéis e as cores — e me faltasse o grito de libertação, ou a mudez essencial que é necessária para que se digam certas coisas. Às vezes a minha mudez faz com que eu procure pessoas que, sem elas saberem, me darão a palavra-chave. Mas quem? quem me obriga a escrever? O mistério é esse: ninguém, e no entanto a força me impelindo.
Eu já quis escrever o que se esgotaria em uma linha. Por exemplo, sobre a experiência de ser desorganizada, e de repente a pequena febre de organização que me toma como a de uma antiga formiga. É como se o meu inconsciente coletivo fosse o de uma formiga.
Eu também queria escrever, e seriam duas ou três linhas, sobre quando uma dor física passa. De como o corpo agradecido, ainda arfando, vê a que ponto a alma é também o corpo.
E é como se eu fosse escrever um livro sobre a sensação que tive uma vez que passei vários dias em casa muito gripada — e quando saí fraca pela primeira vez à rua, havia sol cálido e gente na rua. E de como me veio uma exclamação entre infantil e adulta: ah, como os outros são bonitos. É que eu vinha do escuro meu para o claro que também descobria que era meu, é que eu vinha de uma solidão de pessoas para o ser humano que movia pernas e braços e tinha expressões de rosto.
Também seria inesgotável escrever sobre beber mal. Bebo depressa demais, e não há alternativas: ou praticamente adormeço dentro de mim e fico morosa, pensativa, sem que um pensamento se esclareça como descoberta, ou fico excitada dizendo tolices de maior brilho instantâneo. Mas — mas há um instante mínimo nesse estado em que simplesmente sei como é a vida, como eu sou, como os outros são, como a arte deveria ser, como o abstracionismo por mais abstrato não é abstrato. Esse instante só não vale a pena porque esqueço tudo depois, quase na hora. É como se o pacto com Deus fosse este: ver e esquecer, para não ser fulminado pelo saber.
E às vezes, por mais absurdo, acho lícito escrever assim: nunca se inventou nada além de morrer, pois faz parte essencial da natureza humana, animal e vegetal, e também as coisas morrem. E, como se houvesse ligação com essa descoberta, vem a outra óbvia e espantosa: nunca se inventou um modo diferente de amor de corpo que é estranho e cego. Cada um vai naturalmente em direção à reinvenção da cópia, que é absolutamente original quando realmente se ama. E de novo volta o assunto morrer. E vem a ideia de que, depois de morrer, não se vai ao paraíso, morrer é que é o paraíso.
A verdade é que sempre me faltou o dom para a minha verdadeira vocação: a de desenhar. Porque eu poderia, sem finalidade nenhuma, desenhar e pintar um grupo de formigas andando ou paradas — e sentir-me inteiramente realizada nesse trabalho. Ou desenharia linhas e linhas, uma cruzando a outra, e me sentiria toda concreta nessas linhas que os outros talvez chamassem de abstratas.
Eu também poderia escrever um verdadeiro tratado sobre comer, eu que gosto de comer e no entanto não como tanto. Terminaria sendo um tratado sobre a sensualidade, não especificamente a do sexo, mas a sensualidade de “entrar em contato” íntimo com o que existe, pois comer é uma de suas modalidades — e é uma modalidade que engage de algum modo o ser inteiro.
Também escreveria sobre rir do absurdo de minha condição. E ao mesmo tempo mostrar como ela é digna, e usar a palavra digna me faz rir de novo.
Eu falaria sobre frutas e frutos. Mas como quem pintasse com palavras. Aliás, verdadeiramente, escrever não é quase sempre pintar com palavras?
Ah, estou cheia de temas que jamais abordarei. Vivo deles, no entanto.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Cerveja no bar da esquina



Não sei há quantos anos foi, quinze ou vinte. Eu estava sentado em minha casa. Era uma quente noite de verão e eu me sentia embotado.
Saí pela porta e desci a rua. Passara da hora do jantar para a maioria das famílias, e elas se sentavam vendo suas TVs. Fui até o boulevard. Do outro lado da rua tinha um bar de bairro, construção antiga, com um balcão de madeira pintado de verde e branco. Entrei.
Após quase uma vida inteira passada em bares, eu perdera inteiramente o gosto por eles. Quando queria alguma coisa para beber, geralmente pegava numa loja de bebidas, levava para casa e bebia sozinho.
Entrei e encontrei um banquinho distante da turma. Não estava constrangido, apenas me sentia deslocado. Mas se queria sair, não havia nenhum outro lugar aonde ir. Em nossa sociedade, os lugares interessantes, em sua maioria, ou são ilegais ou muito caros.
Pedi uma garrafa de cerveja e acendi um cigarro. Era mais um barzinho de bairro. Todos se conheciam. Contavam piadas pesadas e viam TV. Só havia uma mulher, velha, num vestido preto, peruca ruiva. Tinha uma dúzia de colares e acendia um cigarro atrás do outro. Comecei a desejar estar de volta ao meu quarto, e decidi ir para lá depois de acabar a cerveja.
Entrou um sujeito e pegou o banquinho junto ao meu. Não ergui o olhar, não estava interessado, mas pela voz imaginei que fosse mais ou menos da minha idade. Conheciam-no no bar. O garçom do balcão chamou-o pelo nome e uns dois fregueses o cumprimentaram. Ele ficou sentado junto a mim com sua cerveja por três ou quatro minutos; depois disse:
Oi, como vai?
Vou indo bem.
Novo no bairro?
Não.
Não vi você aqui antes.
Não respondi.
De Los Angeles? – ele perguntou.
Principalmente.
Acha que os Dodgers ganham este ano?
Não.
Não gosta dos Dodgers?
Não.
De quem você gosta?
Ninguém. Não gosto de beisebol.
De que é que gosta?
Boxe. Tourada.
Tourada é cruel.
É, tudo é cruel quando a gente perde.
Mas o touro não tem uma chance.
Nenhum de nós tem.
Você é negativo pra caralho. Acredita em Deus?
Não no seu tipo de deus.
Que tipo?
Não sei ao certo.
Eu vou à igreja desde que me lembro.
Não respondi.
Posso lhe pagar uma cerveja? – ele perguntou.
Claro.
Vieram as cervejas.
Leu os jornais hoje? – ele perguntou.
Li.
Leu sobre as cinquenta meninas que morreram queimadas naquele orfanato de Boston?
Li.
Não foi horrível?
Acho que foi.
Você acha que foi?
É.
Não sabe?
Se eu estivesse lá, acho que teria pesadelos o resto da vida. Mas é diferente quando a gente apenas lê sobre a coisa nos jornais.
Não sente pena das cinquenta meninas que morreram queimadas? Elas se penduravam das janelas gritando.
Acho que foi horrível. Mas a gente vê isso apenas como uma manchete de jornal, uma matéria de jornal. Na verdade não pensei muito nisso. Virei a página.
Quer dizer que não sentiu nada?
Na verdade, não.
Ele ficou um momento calado e tomou um gole de sua cerveja. Depois gritou:
Ei, aqui tem um cara que diz que não sentiu porra nenhuma quando leu sobre aquelas cinquenta órfãs que morreram queimadas em Boston!
Todos olharam para mim. Baixei o olhar para meu cigarro. Fez-se um minuto de silêncio. Então a mulher de peruca vermelha disse:
Se eu fosse homem, chutava a bunda dele por toda a rua acima e abaixo.
Ele também não acredita em Deus! – disse o cara junto a mim. – Odeia beisebol. Adora touradas, e gosta de ver menininhas morrerem queimadas!
Pedi outra cerveja ao garçom, para mim. Ele me empurrou a garrafa com repugnância. Dois rapazes jogavam sinuca. O mais jovem, um garotão grande de camiseta branca, largou o taco e aproximou-se de mim. Ficou atrás de mim enchendo os pulmões de ar, tentando tornar o peito maior.
Isso aqui é um bom bar. A gente não gosta de babacas por aqui, a gente cobre eles de porrada.
Eu o sentia parado às minhas costas. Peguei a garrafa, servi no copo, bebi e acendi um cigarro. A mão perfeitamente firme. Ele ficou ali parado por algum tempo, depois acabou voltando para a mesa de sinuca. O homem sentado a meu lado desceu de seu banquinho e afastou-se.
O filho da puta é negativo – ouvi-o dizer. – Odeia as pessoas.
Se eu fosse homem – disse a mulher de peruca vermelha – fazia ele pedir o penico. Não suporto esses sacanas.
É assim que falam caras tipo Hitler – disse alguém.
Verdadeiros panacas cheios de ódio.
Tomei a cerveja, pedi outra. Os dois caras jovens continuavam jogando sinuca. Algumas pessoas saíram e os comentários sobre mim começaram a morrer, exceto no caso da mulher de peruca vermelha. Ela ficava cada vez mais bêbada.
Canalha, canalha... você é um verdadeiro canalha. Fede como uma fossa! Aposto que odeia seu país também, não odeia? Seu pais, sua mãe e todo mundo mais. Ah, eu conheço vocês! Canalhas, canalhas covardes vulgares.
Acabou saindo lá pela uma e meia da manhã. Um dos garotos que jogavam sinuca saiu. O de camiseta branca sentou-se na ponta do balcão e falou com o cara que tinha pago a cerveja para mim. Às cinco para as duas, eu me levantei devagar e saí.
Ninguém me seguiu. Subi o boulevard, peguei minha rua. As luzes das casas e apartamentos estavam apagadas. Havia uma cerveja na geladeira. Abri e bebi.
Depois tirei a roupa, fui ao banheiro, mijei, escovei os dentes, apaguei a luz, fui para a cama, me deitei e dormi.

Charles Bukowski, em Numa Fria

27/07/2026

Olhai por Nós | Elilson José Batista

Tamam Shod

Ontem chegamos de Teerã. Quinhentos quilômetros de areais, povoados mortos, postos de caravanas em ruínas, as formas caprichosas da meseta iraniana. Estávamos cansados e, excitados. Um banho e um bom chá no Shah Abban, e saímos a caminhar.. Jardins, avenidas, cúpulas, minaretes. Em Isfahan a noite é feérica, o céu é perfeito.
Quando regressamos ao hotel, extenuados e felizes, conversamos até que o sono nos venceu.
Sonhei que no centro da prodigiosa cúpula da mesquita Lutfullah estava escondido um rubi de virtudes mágicas. O judicioso que pára justamente debaixo dele, guarda silêncio e prende a respiração, recebe a visão de um tesouro, assim como a indicação do lugar onde ele se encontra. Sua existência não pode ser definida nem se deve tentar sua posse, pois quem ousar se transforma em madeira, a madeira em nuvem, a nuvem em pedra e a pedra se quebra em mil pedaços. O rubi proporciona deleite ou assombro, mas não autoriza o enriquecimento.
De manha voltamos a Meidan e Shah. Visitamos o palácio Ali Qapu desde seus últimos corredores até a sala de música.
Surpreenderam-me as escadarias com degraus demasiadamente altos e incrivelmente estreitos. Alguém explicou que era para impedir o acesso aos cavalos inimigos.
Enquanto Melania se demorava no terraço que dá para a antiga quadra de pólo (a mais bela praça do mundo), não resisti mais. Cruzei até a Lutfullah, coloquei-me bem debaixo do conjunto da cúpula, fiquei em silêncio e contive a respiração. Uma luz ocre peneirava todos os matizes. Subitamente— meu Deus! — O tesouro era surpreendente, de inúmeras riquezas, perto, fácil de obter, entre as ruínas de um dos antigos mirantes ou pombais, ou casas de prazer fora da cidade. A visão me foi concedida em um segundo interminável de vertiginoso esplendor.
Regressei a Ali Qapu. Percorremos a mesquita das Sextas-Feiras, cruzamos a velha ponte de trinta e tantos arcos...
Terminarei estas notas ou me pulverizarei na pedra?

Roy Bartholomew, em Livro de Sonhos, de Jorge Luis Borges

Lendo nas entrelinhas | Gijs van Vaerenbergh










Fotos: Filip Dujardin


A obra de arte permanente "Lendo nas Entrelinhas" foi concebida como parte de uma exposição de arte no espaço público, organizada pelo museu Z33 de Hasselt. Situada na paisagem pitoresca perto da vila de Borgloon, a estrutura é formalmente baseada no arquétipo da igreja paroquial local. Ela é construída como um empilhamento de camadas horizontais, cada uma formando uma seção transversal horizontal da planta da igreja. Cerca de 2.000 pequenas colunas de sustentação mantêm essas camadas horizontais equidistantes umas das outras. De longe, a aparência leve, quase flutuante, das camadas faz com que a estrutura pareça virtualmente transparente. Com sua estrutura translúcida, a obra de arte surge quase como uma miragem.
À medida que os visitantes se aproximam e circulam a obra de arte, as linhas das camadas horizontais mudam visualmente. A obra parece tornar-se mais sólida, revelando aberturas de janelas bem definidas e uma abóbada no teto.
Ao observar o edifício, automaticamente se observa também a paisagem (tanto no sentido físico quanto cultural). A obra não se destina a um uso específico, mas funciona como um ponto de referência em seu entorno.

ENCOMENDA: Casa Z33 para Arte Contemporânea, Design e Arquitetura.
DATA: 2011 (permanente).
LOCAL: Borgloon (BE). 
Postagem original: https://www.gijsvanvaerenbergh.com/