20/10/2026

Little Thing N. 5 (Instrumental) | Elilson José Batista

 

O impagável Quino

 

Ítaca

Se partires um dia rumo à Ítaca
Faz votos de que o caminho seja longo
Repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem lestrigões, nem ciclopes,
Nem o colérico Poseidon te intimidem!
Eles no teu caminho jamais encontrarás
Se altivo for teu pensamento
Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes
Nem o bravio Poseidon hás de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
Nas quais com que prazer, com que alegria
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto
Para correr as lojas dos fenícios
E belas mercancias adquirir. Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos
E perfumes sensuais de toda espécie
Quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrinas
Para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas, não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
E fundeares na ilha velho enfim.
Rico de quanto ganhaste no caminho
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu
Se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência.
E, agora, sabes o que significam Ítacas.

Konstantinos Kavafis (Tradução de José Paulo Paes), em Pequeno Compêndio de Poemas Luminosos

Via Crucis




Maria das Dores se assustou. Mas se assustou de fato.
Começou pela menstruação que não veio. Isso a surpreendeu porque ela era muito regular.
Passaram-se mais de dois meses e nada. Foi a uma ginecologista. Esta diagnosticou uma evidente gravidez.
– Não pode ser! gritou Maria das Dores.
– Por quê? a senhora não é casada?
– Sou, mas sou virgem, meu marido nunca me tocou. Primeiro porque ele é homem paciente, segundo porque já é meio impotente.
A ginecologista tentou argumentar:
– Quem sabe se a senhora em alguma noite...
– Nunca! mas nunca mesmo!
– Então, concluiu a ginecologista, não sei como explicar. A senhora já está no fim do terceiro mês.
Maria das Dores saiu do consultório toda tonta. Teve que parar num restaurante e tomar um café. Para conseguir entender.
O que é que estava lhe acontecendo? Grande angústia tomou-a. Mas saiu do restaurante mais calma.
Na rua, de volta para casa, comprou um casaquinho para o bebê. Azul, pois tinha certeza que seria menino. Que nome lhe daria? Só podia lhe dar um nome: Jesus.
Em casa encontrou o marido lendo jornal e de chinelos. Contou-lhe o que acontecia. O homem se assustou:
– Então eu sou São José?
– É, foi a resposta lacônica.
Caíram ambos em grande meditação.
Maria das Dores mandou a empregada comprar as vitaminas que a ginecologista receitara. Eram para o benefício de seu filho.
Filho divino. Ela fora escolhida por Deus para dar ao mundo o novo Messias.
Comprou o berço azul. Começou a tricotar casaquinhos e a fazer fraldas macias.
Enquanto isso a barriga crescia. O feto era dinâmico: dava-lhe violentos pontapés. Às vezes ela chamava São José para pôr a mão na sua barriga e sentir o filho vivendo com força.
São José então ficava com os olhos molhados de lágrimas. Tratava-se de um Jesus vigoroso. Ela se sentia toda iluminada.
A uma amiga mais íntima Maria das Dores contou a história abismante. A amiga também se assustou:
– Maria das Dores, mas que destino privilegiado você tem!
– Privilegiado, sim, suspirou Maria das Dores. Mas que posso fazer para que meu filho não siga a via crucis?
– Reze, aconselhou a amiga, reze muito.
E Maria das Dores começou a acreditar em milagres. Uma vez julgou ver de pé ao seu lado a Virgem Maria que lhe sorria. Outra vez ela mesma fez o milagre: o marido estava com uma ferida aberta na perna, Maria das Dores beijou a ferida. No dia seguinte nem marca havia.
Fazia frio, era mês de julho. Em outubro nasceria a criança.
Mas onde encontrar um estábulo? Só se fosse para uma fazenda do interior de Minas Gerais. Então resolveu ir à fazenda da tia Mininha.
O que a preocupava é que a criança não nasceria em vinte e cinco de dezembro.
Ia à igreja todos os dias e, mesmo barriguda, ficava horas ajoelhada. Como madrinha do filho escolhera a Virgem Maria. E para padrinho o Cristo.
E assim foi se passando o tempo. Maria das Dores engordara brutalmente e tinha desejos estranhos. Como o de comer uvas geladas. São José foi com ela para a fazenda. E lá fazia seus trabalhos de marcenaria.
Um dia Maria das Dores empanturrou-se demais – vomitou muito e chorou. E pensou: começou a via crucis de meu sagrado filho.
Mas parecia-lhe que se desse à criança o nome de Jesus, ele seria, quando homem, crucificado. Era melhor dar-lhe o nome de Emmanuel. Nome simples. Nome bom.
Esperava Emmanuel sentada debaixo de uma jabuticabeira. E pensava:
Quando chegar a hora, não vou gritar, vou só dizer: ai Jesus!
E comia jabuticabas. Empanturrava-se a mãe de Jesus.
A tia – a par de tudo – preparava o quarto com cortinas azuis. O estábulo estava ali, com seu cheiro bom de estrume e suas vacas.
De noite Maria das Dores olhava para o céu estrelado à procura da estrela-guia. Quem seriam os três reis magos? quem lhe traria incenso e mirra?
Dava longos passeios porque a médica lhe recomendara caminhar muito. São José deixara crescer a barba grisalha e os longos cabelos chegavam-lhe aos ombros.
Era difícil esperar. O tempo não passava. A tia fazia-lhes, para o café da manhã, brevidades que se desmanchavam na boca. E o frio deixava-lhes as mãos vermelhas e duras.
De noite acendiam a lareira e ficavam sentados ali a se esquentarem. São José arranjava para si um cajado. E, como não mudava de roupa, tinha um cheiro sufocante. Sua túnica era de estopa. Ele tomava vinho junto da lareira. Maria das Dores tomava grosso leite branco, com o terço na mão.
De manhã bem cedo ia espiar as vacas no estábulo. As vacas mugiam. Maria das Dores sorria-lhes. Todos humildes: vacas e mulher. Maria das Dores a ponto de chorar. Ajeitava as palhas no chão, preparando lugar onde se deitar quando chegasse a hora. A hora da iluminação.
São José, com seu cajado, ia meditar na montanha. A tia preparava lombinho de porco e todos comiam danadamente. E a criança nada de nascer.
Até que numa noite, às três horas da madrugada, Maria das Dores sentiu a primeira dor. Acendeu a lamparina, acordou São José, acordou a tia. Vestiram-se. E com um archote iluminando-lhes o caminho, dirigiram-se através das árvores para o estábulo. Uma grossa estrela faiscava no céu negro.
As vacas, acordadas, ficaram inquietas, começaram a mugir.
Daí a pouco nova dor. Maria das Dores mordeu a própria mão para não gritar. E não amanhecia.
São José tremia de frio. Maria das Dores, deitada na palha, sob um cobertor, aguardava.
Então veio uma dor forte demais. Ai Jesus, gemeu Maria das Dores. Ai Jesus, pareciam mugir as vacas.
As estrelas no céu.
Então aconteceu.
Nasceu Emmanuel.
E o estábulo pareceu iluminar-se todo.
Era um forte e belo menino que deu um berro na madrugada.
São José cortou o cordão umbilical. E a mãe sorria. A tia chorava.
Não se sabe se essa criança teve que passar pela via crucis. Todos passam.

Clarice Lispector, em A Via Crucis do Corpo

Oração para Desaparecer




5.

Foram dias cansativos em Lisboa, sempre muitas coisas a fazer. Andei com eles por vários lugares e aos poucos gostava da cidade pelos detalhes que meus olhos capturavam no caminho. Uma predominância de azuis, amarelos e brancos, as coisas simples do cotidiano das pessoas, vasos de flores nas sacadas, desenhos nas placas, flores por todo lado, o cheiro e o gosto das comidas, isso me trazia alguma calma. De tanto encher meu coração com a beleza, esqueci de sofrer.
Os planos na cidade incluíam a compra de algumas roupas para mim, uma mala e os cuidados comigo. Na primeira noite, enquanto ajudava a arrumar a bagagem, o badalar de um sino muito perto dali me fez chorar. Compulsivamente e sem explicação. Fernando tentou ajudar:
— Não deve ser fácil, Cida, percebo que tu sofres. Além das palavras, não perdeste os sentimentos, mas é difícil sem saber de onde vêm. Infelizmente os Ressurrectos são sempre confusos. Muitos são agressivos, chegam a ser violentos. Mas és boa. Tens os olhos de uma mulher forte e boa. E por que os sinos, não é? Isso precisa ser anotado.
Por que os sinos? Ele puxou uma cadeira, sentou-se diante de mim. Florice chegou. Tive coragem de perguntar a ela, de novo, o que eles sabiam mais sobre as pessoas que saem da terra, os Ressurrectos.
— A menina não cansa de perguntar a mesma coisa? Eu não sei, essa é a resposta mais honesta que posso dar. Desde que sou pequena escuto a tal palavra, mesmo assim é uma incógnita. De vez em quando meus pais nos levavam para casas alugadas, para descansar uns dias, mudar de ares, mas hoje entendo que era para buscar Ressurrectos. Aos seis anos eu estava brincando no quintal, sozinha, e aconteceu algo que me assustou. A terra começou a remexer assim por baixo, abrindo, deslocando e foi rápido que a coisa surgiu na minha frente. Nunca esqueci daquele primeiro homem que vi saindo da terra, como se fosse uma planta, o parto de um bicho. Um homem nu, todo sujo, atordoado, agarrado a uma arma. Não tinha hora para acontecer e, se ele não estivesse no lugar para recolher a pessoa e levar para o quarto, poderia virar uma confusão. Faz parte da missão proteger o Ressurrecto, apesar do risco.
— Que risco?
— Já aconteceram coisas terríveis. Nenhum Ressurrecto chega deixando uma vida fácil para trás, é o que tenho percebido. A menina mesmo, chegou cá toda magoada de cortes e pancadas. Antes de morrer, meu pai pediu que eu não deixasse de continuar anotando o registro. Não sei o motivo, se algum dia a ciência vai chegar e nos investigar, se vai atrás de todas as pessoas, se vamos ser presos, se por um acaso isto é um crime, mas ele levava essas anotações muito a sério. Eu obedeço, por isso tenho aquele caderno com o nome, data de chegada, tudo o que podemos saber, anotados por ele e por outros membros da família.
— Essa arma me deixa intrigado, Florice. Todos que cá chegaram, dos que eu soube, trazem um objeto na mão, um pano, uma arma, qualquer coisa.
— Eu não cheguei com nada.
— Como não? Chegaste com o colar de búzios. Não recordaste nada sobre ele? — Florice lembrou, agitou-se, levantou-se do sofá, olhou para Fernando com reprovação, retomou a arrumação das coisas, mais uma vez querendo encerrar. Ela nunca deixava que o tema se prolongasse além do limite imposto por ela mesma, da necessidade daquele dia, e minhas perguntas pareciam sempre desconfortáveis.
— Não, mas sonhei. Primeiro era uma senhora fazendo o colar e me entregando. Depois era um rapaz beijando os búzios, um por um.
— Um rapaz? Então tu tens um amor! — Florice sorria, olhos mais azuis.
— Ele deve pensar que morri.
— Tu não tens nada a fazer além de anotar os sonhos e seguir a tua vida aqui. Trabalhar logo que possível, juntar um dinheiro, esperar que as memórias voltem para que tu possas retornar, é o que deve ser feito.
— O que aconteceu com eles todos, dona Florice? A sua família tem ou teve contato?
— Dos que sabemos, todos lembraram da vida anterior em alguma altura e nenhum passado era simples. Nunca é. Mas vamos voltar ao presente: o sino que badala aqui ao lado é da Igreja dos Mártires. Precisamos dormir para pegar a missa bem cedo amanhã. Talvez tu estejas precisando de Deus.

— Alguma pergunta até aqui, senhor. Félix? Acho que estou falando rápido demais.
— Gostava de voltar ao tema do rapaz. Sonhaste mais vezes com ele?
— Muitas vezes. Deitados em uma cama não sei onde, conversando, uma luz vermelha, alaranjada, sempre. Seus pensamentos e os meus eram iguais e eu lembro de rir muito. Não faço ideia do assunto. Lembro da sua voz e de uma parede onde via alguns cavalos-marinhos pendurados, pequenos, delicados, sustentando por cima e por baixo, posicionados como se estivessem em movimento. Por vezes eram imensos, já sonhei estar com eles na barriga, ou estar dentro da barriga deles, e eles voavam. Os cavalos-marinhos voltam sempre aos meus sonhos.
“Do rapaz, muitas coisas. Vi seus olhos muito perto de mim. Senti o mesmo estalo grandioso da outra vez, as estrelas caindo, estrelas-do-mar no teto do quarto terroso. Tive a certeza de que eu vim de uma praia. Pelos búzios, cavalos-marinhos, estrelas-do-mar. Durou poucos minutos, sonhar era como andar sobre uma fumaça frágil, eu caía sempre. Às vezes me iludia na esperança de ser uma cena do futuro que meu sonho mostrava.”
— Muitas vezes, sim. Existem os sonhos premonitórios, são comprovados. Salvam vidas, evitam acidentes.
— No meu caso não eram premonitórios. Se fossem eu estaria lá, não aqui.
— Ainda tens um futuro, mais prudente aguardar para ter certeza.

São sonhos borrados, não têm muito mais nitidez que isso. Abria os olhos e sentia sua falta constantemente. Ele não estaria comigo nos dias a seguir e sua existência parecia a alegria da minha. Na vida real, em Lisboa, ganhei roupas bonitas. Um vestido do meu tamanho, uma saia, duas blusas, meias-calças, para aquecer, um par de sapatos adequados, e agora andava como uma pessoa que fazia parte do mundo. Ganhei também um vidro de lavanda, um sabonete, um creme para os lábios e um par de brincos. Estava frio naquele outubro.
A falta de cabelos ainda atraía olhares, mas aos poucos eu não sabia se me olhavam mesmo por isso ou porque me achavam uma criatura exótica como um todo. O vendedor da loja de doces perguntou de onde eu era. A mesma coisa na floricultura e na conversa com sua vizinha. Meu rosto não era familiar aos portugueses. Sou brasileira, e logo confirmavam, pois sim, pensei mesmo que fosses brasileira.
Gostei de ir à missa com Florice. Na primeira vez o padre leu o Evangelho de São Marcos, sobre Jesus expulsando o Demônio do corpo de um homem. Pedi à dona Florice que me explicasse aquilo tudo e ela me contou o que aconteceu com Jesus. Nasceu de uma mãe pura, fez coisas fantásticas, morreu, depois voltou da morte e foi embora, mas continua entrenós. Basta chamar. Não acreditei que fosse tão fácil falar com ele, e realmente não é, exige fé, merecimento, bondade, persistência, oração, tudo isso ela me disse, espantada com minha ignorância cristã. Você não deve ser católica, ela disse. Acredita em Deus, mas não tem respeito pelo filho Dele.
Não é que eu desrespeitasse, ao contrário, pensei que Jesus não acharia estranho o que aconteceu comigo e certamente ele saberia explicar tudo, por isso insisti nessa tentativa de rezar. No começo Florice riu, depois teve raiva, achou que eu estava faltando com respeito, mas não era isso. Jesus morreu e viveu, foi enterrado, apareceu de novo. Era morto, mas estava vivo, também deve ter sido confuso para todos, até hoje não parece fora do normal? Quanto mais eu falava, pior ela reagia.
Diante da polêmica achei melhor não mencionar, mas também pensei muito no Diabo, se talvez não era a força dele que estava conduzindo meu enterro e meu desenterro, a cicatriz no meu braço, a maldade de quem fez isso comigo. O Demônio também fez coisas impressionantes, como ocupar o corpo alheio, o padre disse. Eu não poderia, naquela situação, negar a existência do Mal no mundo. Claro que o Mal participava da minha vida, está na vida de todos nós. Ela disse que falar comigo era como ensinar a uma criança, “mas tu pensas demasiado, tens uns entusiasmos de ideias fora de lugar”, ela reclamava, bem irritada. Por isso achei melhor interromper as perguntas.
Só tentei ficar de olhos fechados na igreja o máximo que pude, porque aconteceu de novo. Estava cheia de mortos, deitados nos bancos, andando, rezando, chorando, falando baixo, é impressionante que as pessoas não sintam e não vejam se são tantos em todos os lugares.
Eles se sentam perto, olham dentro das bolsas, puxam cabelos, ficam rindo das pessoas, ou às vezes choram, seguindo alguém que talvez conheçam. Fantasminhas de crianças brincando, empurrando pessoas que escorregam e dão topadas sem entender como. Velhos padres com roupas estranhas transitavam como se fossem os donos do lugar, eu reconheceria se soubesse a história de Portugal. Se eu tivesse a paciência de perguntar os nomes, de procurar fotos e documentos, seria a pessoa mais famosa do país. Ou seria trancada em um asilo, sempre há o risco. Aquela igreja estava especialmente lotada e por isso não notaram que eu os via, ainda bem, porque talvez eles pedissem ajuda e eu não queria me envolver com gente morta, nessas horas eu duvidada se estaria mesmo viva.
— Não tiveste medo?
— Não. Desde a primeira vez pareceu natural.
— Tanto quanto ver os vivos?
— Mesma coisa. Exatamente a mesma coisa.
— Mas eles sabem coisas que não sabemos. Já atravessaram, podem contar sobre isso. Se eu tivesse essa vantagem de falar com quem morreu, meu trabalho seria muito mais fácil.
— Disso eu tinha medo, de falar. De fazer perguntas naquela altura. Eu me sentia fraca demais nos primeiros meses. Aceitava que conduzissem a minha vida, sem pensar, por exaustão.
— Ainda vês os mortos até hoje?
— Sim.
— Nunca tiveste vontade de perguntar as coisas de tua vida?
— Não chegou nenhum fantasma conhecido. Eu não evoco, só vejo quem está.
— Eu gostava de ouvir mais sobre isso, mas me preocupo com o tempo. Preciso saber de tudo ainda hoje para começar o trabalho amanhã. Tens um prazo, não?
— Sim, uma viagem. Eu tenho uma data-limite para resolver o assunto e conto com a sua ajuda.
— Volta à convivência com Fernando e Florice, por favor.
— Tentarei ser mais direta.

Combinamos que pegaríamos um trem de Lisboa até Braga e assim chegaríamos ao Norte do país, como sempre me explicava Fernando. No caminho inteiro ele foi me localizando no mapa, explicando as cidades uma por uma e me comovi quando vi o mar, a praia deserta, ninguém além da areia e aquela água que me separa de onde eu vim.
Foi quando ele contou sobre as ondas gigantes de Nazaré. Sobre o milagre de Fátima, onde Nossa Senhora apareceu para três crianças. Portugal tão pequeno se comparado à Espanha, ali ao lado, mas na voz de Fernando parecia infinito. Sua vida de médico o levou a conhecer muita coisa, aldeias esquecidas, histórias de fé, dos santos, da tradição. Entendia da comida, das bebidas e dos cantos do povo.
Florice estava dormindo e também nos acomodamos para descansar um pouco. Adormeci e sonhei com ele de novo, o rapaz sem rosto de sempre. Foi um sonho longo.
Naquele quarto terracota, a poeira vermelha nos cercando, o teto cheio de estrelas-do-mar, os cavalinhos pelas paredes, estávamos na cama juntos. Eu ouvia o som de outro sino. Não lembro de nenhuma palavra, só do gesto de ele me entregando um cavalo-marinho. Meus fiapos de memória são minha glória e meu castigo.
No sonho eu vi seus olhos muito de perto novamente. Dessa vez não sorriu. Havia um rio passando por trás deles que desaguou. A água nos separava e isso é a nossa verdade, temos um mar de esquecimento entre nós. Pela primeira vez meu corpo aparecia inteiro e eu me via pelos olhos dele. Soube que sou bonita porque ele me disse. Soube porque ele não parava de cumprir os verbos que escrevia com as mãos na minha pele, deitava as frases e as obedecia, mas ele chorava e chamava as ondas que invadiam o quarto avermelhado, como um tsunâmi.
Acordei chorando também, pensando se ele sonha comigo, se as coisas que ele diz e faz ainda reverberam na sua pele, se ele também acorda com os estalos. Foi a primeira vez que pensei nisso, na possibilidade de fazer do sonho um fio entre nós, abuso da minha frágil consciência.
Pensar nele era uma esperança, imaginar se lembrava de mim, se sabia tudo o que esqueci. Eu acreditava no amor como um espírito que descola do peito e segue pelas ruas, entra nas casas, derruba as coisas, faz o que for preciso para dissolver todas as trapaças que separa os que se amam. Fosse correto meu desatino, os amantes sempre teriam seu dia de sorte e os amores dariam certo por lei. Nada prova que ele existe, disso parte a absoluta incerteza sobre tudo que vivo enquanto durmo. Mas eu o amava muito quando sonhava com ele. E meu corpo o encontrava nos sonhos, eu sentia tudo dos sonhos, o fogo, o desespero, a explosão e a paz.

— Ainda sentes isso tudo?
— Não. Estou lembrando como foi na época. Aos poucos parei de sonhar com ele. Parei totalmente.
— Em algum sonho soubeste algo mais sobre esse homem? Nome, traços, palavras, qualquer coisa?
— Nunca. Não tenho qualquer informação além da lembrança dessas sensações e detalhes do lugar. Há tempos eu nem sequer pensava nisso, relembrei para contar porque o senhor me disse que qualquer coisa era importante.
— Esqueceste dele por causa de Jorge?
— Por causa do que vejo nos olhos de Jorge.

Socorro Acioli, em Oração para Desaparecer

Diário de Bernardo Soares

139.

Há muito tempo que não escrevo. Têm passado meses sem que viva, e vou durando, entre o escritório e a fisiologia, numa estagnação íntima de pensar e de sentir. Isto, infelizmente, não repousa: no apodrecimento há fermentação.
Há muito tempo que não só não escrevo, mas nem sequer existo. Creio que mal sonho. As ruas são ruas para mim. Faço o trabalho do escritório com consciência só para ele, mas não direi bem sem me distrair: por detrás estou, em vez de meditando, dormindo, porém estou sempre outro por detrás do trabalho.
Há muito tempo que não existo. Estou sossegadíssimo. Ninguém me distingue de quem sou. Senti-me agora respirar como se houvesse praticado uma coisa nova, ou atrasada. Começo a ter consciência de ter consciência. Talvez amanhã desperte para mim mesmo, e reate o curso da minha existência própria. Não sei se, com isso, serei mais feliz ou menos. Não sei nada. Ergo a cabeça de passeante e vejo que, sobre a encosta do Castelo, o poente oposto arde em dezenas de janelas, num revérbero alto de fogo frio. À roda desses olhos de chama dura toda a encosta é suave do fim do dia. Posso ao menos sentir-me triste, e ter a consciência de que, com esta minha tristeza, se cruzou agora – visto com ouvido — o som súbito do elétrico que passa, a voz casual dos conversadores jovens, o sussurro esquecido da cidade viva.
Há muito tempo que não sou eu.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Diálogo feroz


— Alô, Mestre! Não repare se entrei sem me anunciar. Vi a porta aberta, e, como sabe, a juventude tem pressa.
— Está-se vendo. Posso saber por que motivo o encontro a esta hora da manhã em minha cozinha?
— Mas está na cara: o rosto da mocidade é um espelho de seus desejos. Em segundo lugar, o apartamento do Mestre só tem quarto e kitchenette, e o senhor estava nesta última.
— É, mas, de qualquer modo, a etiqueta…
— Não vamos perder tempo com esses resíduos do século xix. O senhor já foi moço, talvez…
— Mancebo, sua insolência é igual à de Alfred de Vigny ao visitar Royer-Collard, quando este não queria recebê-lo. E, ao que parece, você não é um segundo Vigny.
— Mas o senhor talvez seja o próprio Royer-Collard, de quem aliás nunca ouvi falar nem bem nem mal. Posso contar com o seu voto?
— Que voto? Não me meto em política.
— Mestre, não pense que tem à sua frente um candidato a vereador pelo Distrito. Minha ambição é mais pura. Sonho com a Academia, ou melhor, a Academia me faz cócega em sonhos.
— Continue sonhando.
— Não posso. Meu sonho é da espécie explosiva, e exige confirmação imediata na realidade. O Mestre será meu padrinho.
— Que idade você tem, meu filho?
— Vinte e dois.
— E quando chegou do Pará?
— Há duas semanas. Como vê, já perdi um tempo precioso. Duas semanas na vida de um homem, na era atômica…
— Mas não há vaga, menino.
— Como não? Há a do Filogônio e a do Mamede.
— O Filogônio baixou num terreiro e legou a vaga a um afilhado. Foi uma doação solene, e temos que respeitar a vontade dos mortos, já que ninguém respeita a dos vivos. Quanto ao Mamede, há uma combinação de escrutínios que dará a vitória, na quinta rodada, a um desembargador do Guaporé, candidato desde 1908. É justo.
— Quer dizer que não posso aspirar nem a uma vitória moral?
— São as mais difíceis, rapaz. Você está exigindo muito.
— Por isso é que o Brasil não vai adiante. Os novos são governados pelos velhos, e os velhos pelos mortos. E eu que tinha grandes planos para a Academia.
— Pode-se saber quais eram?
— Primeiro, substituir o chá com sequilhos por uísque e salgadinhos. É uma vergonha para as letras esse regime de donas de casa reunidas em confeitaria.
— Insensato, quando chegamos à Academia já renunciamos ao fígado.
— Levaríamos a literatura ao povo, através de comícios, atos públicos, manifestos contra o artipurismo, a invasão da Guatemala e os vícios da burguesia.
— Espero estar morto antes de chegar esse dia. Ofereço-lhe a minha vaga.
— Tomo nota do oferecimento, mas vai ver que o Mestre não fala isso de coração. Já a prometeu a outros.
— Cet âge est sans pitié! Vocês são capazes de matar um cristão para fazer-lhe o elogio.
— Não exagere, Mestre, o elogio não é o nosso fraco. Posso lhe garantir que nos detestamos cordialmente uns aos outros. Mas voltando à vaca-fria: nenhuma esperança para as próximas vagas?
— Insofrido, seu jeito franco merece retribuição. Saiba que as próximas vagas, a julgar pelos eletrocardiogramas e pelas informações das empregadas, serão abertas pelo Fredolindo, pelo Sesóstris, pelo Janduí e pelo Cabeção. Estão prometidas a quinhentos escritores e jornalistas, mas aposto no Fioravanti, no Pituquinha, no general Porfírio e na Violeta.
— Mas a Violeta não pode eleger-se. É mulher, e vive na Europa!
— Ser mulher não é defeito insanável. O estatuto não permite, mas dá-se um jeito. Houve um papa chamado Joana. Ela vive na Europa, mas alguns colegas nossos também vivem.
Vamos fazer uma experiência com a Violeta, e se ela promete não escrever nada, outras escritoras terão sua vez. Sou contra escrever.
— Protesto! A geração de 1954, que eu represento, e que é uma geração sacrificada, lutará nas praias, nas ruas e nas casas pela democratização da Academia! Vocês, velhotes…
— Rua!

Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira

19/10/2026

Maria Bethânia | Mares da Espanha

I. EU DEDICO ESTE LIVRO A KEATS (FOI VOCÊ QUEM ME CONTOU QUE KEATS ERA MÉDICO?) COM BASE NA IDEIA DE QUE UMA DEDICATÓRIA TEM QUE SER DEFEITUOSA PARA QUE O LIVRO SE MANTENHA LIVRE E PELA AMPLA RENDIÇÃO DO AUTOR À BELEZA

Uma ferida emite luz própria
dizem os cirurgiões.
Se todas as lâmpadas da casa fossem apagadas
você poderia fazer um curativo nessa ferida
usando a luz que dela brilha.

Cara pessoa que me lê ofereço apenas uma analogia.

Um atraso.

“Use atraso em vez de imagem ou pintura —
um atraso em vidro
do mesmo jeito que dizem um poema em prosa ou uma escarradeira em prata.”
Como Duchamp
de A noiva despida por seus celibatários, mesmo

que quebrou em oito pedaços em trânsito entre o Museu do Brooklyn

e Connecticut (1912).

O que está sendo atrasado?
O casamento parece.
Meu marido o chamava de lugar oscilante.
Veja como a palavra
brilha.

Anne Carson, em A beleza do marido – um ensaio ficcional em 29 tangos

Calvin

 

De quem?

 — “Antes um pássaro na mão, que dois voando...”
— Na mão de quem? — pergunta a raposa.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

Nutrição

Consultório de uma nutricionista.
MÉDICA Fiz uma dieta pra você seguir à risca. É muito importante não fugir disso, pelo menos na primeira semana.
Mulher lê a dieta. Não entende.
MULHER Não entendi. Pode pão à vontade?
MÉDICA Pão é ótimo. Não leu no jornal de hoje?
MULHER Saiu no jornal?
MÉDICA Deixa eu só ver no G1 se continua fazendo bem. Continua. Pode comer. Quando começar a fazer mal eu te ligo.
Mulher lê a dieta.
MULHER Tá escrito que eu preciso evitar brócolis?
MÉDICA A todo custo. Acabei de receber um inbox no Face avisando que o brócolis caiu.
MULHER Não era anticancerígeno?
MÉDICA Sim, mas parece que tá dando Alzheimer. Então tem que botar na balança.
MULHER Mas ovo pode?
MÉDICA Ovo à vontade.
MULHER Você acha que isso deve mudar?
MÉDICA Não. O ovo parece que veio pra ficar (chega um SMS). Ih não. Caiu. Por causa do colesterol. Não. É colesterol bom. Então pode. Eu tenho um grupo de WhatsApp só pro ovo.
MULHER Não tem nada que seja definitivo? Tipo a linhaça?
MÉDICA Linhaça tá superultramegaproibida a partir das duas da tarde.
MULHER Faz mal comer depois das duas?
MÉDICA Faz mal comer sempre. É que descobriram isso hoje, às duas.
MULHER E abacate?
MÉDICA Abacate mata…
MULHER Então não.
MÉDICA … os germes….
MULHER Então sim?
MÉDICA … responsáveis pela cura do câncer.
MULHER Então não.
MÉDICA Mas pela cura do câncer bom.
MULHER Tem câncer bom?
MÉDICA Não. Esse que é o problema.
MULHER Então abacate não?
MÉDICA Jamais. Não poderia. Deixar de poder. A não ser que venha a poder mesmo.
MULHER Vou botar que não.
MÉDICA Melhor.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

Capítulo X – Contas



Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça dos cabritos. Mas como não tinha roça e apenas se limitava a semear na vazante uns punhados de feijão e milho, comia da feira, desfazia-se dos animais, não chegava a ferrar um bezerro ou assinar a orelha de um cabrito.
Se pudesse economizar durante alguns meses, levantaria a cabeça. Forjara planos. Tolice, quem é do chão não se trepa. Consumidos os legumes, roídas as espigas de milho, recorria a gaveta do amo, cedia por preço baixo o produto das sortes, Resmungava, rezingava, numa aflição, tentando espichar os recursos minguados, engasgava-se, engolia em seco. Transigindo com outro, não seria roubado tão descaradamente. Mas receava ser expulso da fazenda. E rendia- se: Aceitava o cobre e ouvia conselhos. Era bom pensar no futuro, criar juízo. Ficava de boca aberta, vermelho, o pescoço inchando. De repente estourava: – Conversa. Dinheiro anda num cavalo e ninguém pode viver sem comer. Quem é do chão não se trepa.
Pouco a pouco o ferro do proprietário queimava os bichos de Fabiano. E quando não tinha mais nada para vender, o sertanejo endividava-se. Ao chegar a partilha, estava encalacrado, e na hora das contas davam-lhe uma ninharia.
Ora, daquela vez, como das outras, Fabiano ajustou o gado, arrependeu-se, enfim deixou a transação meio apalavrada e foi consultar a mulher. Sinha Vitória mandou os meninos para o barreiro, sentou-se na cozinha, concentrou-se, distribuiu no chão sementes de várias espécies, realizou somas e diminuições. No dia seguinte Fabiano voltou à cidade, mas ao fechar o negócio notou que as operações de Sinha Vitória, como de costume, diferiam das do patrão. Reclamou e obteve a explicação habitual: a diferença era proveniente de juros.
Não se conformou: devia haver engano. Ele era bruto, sim senhor, via-se perfeitamente que era bruto, mas a mulher tinha miolo. Com certeza havia um erro no papel do branco. Não se descobriu o erro, e Fabiano perdeu os estribos. Passar a vida inteira assim no toco, entregando o que era dele de mão beijada! Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria!
O patrão zangou-se, repeliu a insolência, achou bom que o vaqueiro fosse procurar serviço noutra fazenda.
Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou. Bem, bem. Não era preciso barulho não. Se havia dito palavra à-toa, pedia desculpa. Era bruto, não fora ensinado. Atrevimento não tinha, conhecia o seu lugar. Um cabra. Ia lá puxar questão com gente rica? Bruto, sim senhor, mas sabia respeitar os homens. Devia ser ignorância da mulher, provavelmente devia ser ignorância da mulher. Até estranhara as contas dela. Enfim, como não sabia ler (um bruto, sim senhor), acreditara na sua velha. Mas pedia desculpa e jurava não cair noutra.
O amo abrandou, e Fabiano saiu de costas, o chapéu varrendo o tijolo. Na porta, virando-se, enganchou as rosetas das esporas, afastou-se tropeçando, os sapatões de couro cru batendo no chão como cascos.
Foi até a esquina, parou, tomou fôlego. Não deviam tratá-lo assim. Dirigiu-se ao quadro lentamente. Diante da bodega de seu Inácio virou o rosto e fez uma curva larga. Depois que acontecera aquela miséria, temia passar ali. Sentou-se numa calçada, tirou do bolso o dinheiro, examinou-o, procurando adivinhar quanto lhe tinham furtado. Não podia dizer em voz alta que aquilo era um furto, mas era. Tomavam-lhe o gado quase de graça e ainda inventavam juro. Que juro! O que havia era safadeza.
– Ladroeira.
Nem lhe permitiam queixas. Porque reclamara, achara a coisa uma exorbitância, o branco se levantara furioso, com quatro pedras na mão. Para que tanto espalhafato?
– Hum! hum!
Recordou-se do que lhe sucedera anos atrás, antes da seca, longe. Num dia de apuro recorrera ao porco magro que não queria engordar no chiqueiro e estava reservado às despesas do Natal: matara-o antes de tempo e fora vendê-lo na cidade. Mas o cobrador da prefeitura chegara com o recibo e atrapalhara-o. Fabiano fingira-se desentendido: não compreendia nada, era bruto. Como o outro lhe explicasse que, para vender o porco, devia pagar imposto, tentara convencê-lo de que ali não havia porco, havia quartos de porco, pedaços de carne. O agente se aborrecera, insultara-o, e Fabiano se encolhera. Bem, bem. Deus o livrasse de história com o governo. Julgava que podia dispor dos seus troços. Não entendia de imposto.
– Um bruto, está percebendo?
Supunha que o cevado era dele. Agora se a prefeitura tinha uma parte, estava acabado. Pois ia voltar para casa e comer a carne. Podia comer a carne? Podia ou não podia? O funcionário batera o pé agastado e Fabiano se desculpara, o chapéu de couro na mão, o espinhaço curvo: – Quem foi que disse que eu queria brigar? O melhor é a gente acabar com isso.
Despedira-se, metera a carne no saco e fora vendê-la noutra rua, escondido. Mas, atracado pelo cobrador, gemera no imposto e na multa. Daquele dia em diante não criara mais porcos. Era perigoso criá-los.
Olhou as cédulas arrumadas na palma, os níqueis e as pratas, suspirou, mordeu os beiços. Nem lhe restava o direito de protestar. Baixava a crista. Se não baixasse, desocuparia a terra, largar-se-ia com a mulher, os filhos pequenos e os cacarecos. Para onde? Hem? Tinha para onde levar a mulher e os meninos? Tinha nada!
Espalhou a vista pelos quatro cantos. Além dos telhados, que lhe reduziam o horizonte, a campina se estendia, seca e dura. Lembrou-se da marcha penosa que fizera através dela, com a família, todos Haviam escapado, e isto lhe parecia um milagre. Nem sabia como tinham escapado.
Se pudesse mudar-se, gritaria bem alto que o roubavam. Aparentemente resignado, sentia um ódio imenso a qualquer coisa que era ao mesmo tempo a campina seca, o patrão, os soldados e os agentes da prefeitura. Tudo na verdade era contra ele. Estava acostumado, tinha a casca muito grossa, mas às vezes se arreliava. Não havia paciência que suportasse tanta coisa.
– Um dia um homem faz besteira e se desgraça.
Pois não estavam vendo que ele era de carne e osso? Tinha obrigação de trabalhar para os outros, naturalmente, conhecia o seu lugar. Bem. Nascera com esse destino, ninguém tinha culpa de ele haver nascido com um destino ruim. Que fazer? Podia mudar a sorte? Se lhe dissessem que era possível melhorar de situação, espantar-se-ia. Tinha vindo ao mundo para amansar brabo, curar feridas com rezas, consertar cercas de inverno a verão. Era sina. O pai vivera assim, o avô também. E para trás não existia família. Cortar mandacaru, ensebar látegos – aquilo estava no sangue. Conformava-se, não pretendia mais nada Se lhe dessem o que era dele, estava certo. Não davam. Era um desgraçado, era como um cachorro, só recebia ossos. Por que seria que os homens ricos ainda lhe tomavam uma parte dos ossos? Fazia até nojo pessoas importantes se ocuparem com semelhantes porcarias.
Na palma da mão as notas estavam úmidas de suor. Desejava saber o tamanho da extorsão. Da última vez que fizera contas com o amo o prejuízo parecia menor. Alarmou-se. Ouvira falar em juros e em prazos. Isto lhe dera uma impressão bastante penosa: sempre que os homens sabidos lhe diziam palavras difíceis, ele saía logrado. Sobressaltava-se escutando-as. Evidentemente só serviam para encobrir ladroeiras. Mas eram bonitas. As vezes decorava algumas e empregava-as fora do propósito. Depois esquecia-as. Para que um pobre da laia dele usar conversa de gente rica? Sinha Terta é que tinha uma ponta de língua terrível. Era: falava quase tão bem como as pessoas da cidade. Se ele soubesse falar como Sinha Terta, procuraria serviço noutra fazenda, haveria de arranjar-se. Não sabia. Nas horas de aperto dava para gaguejar, embaraçava-se como um menino, coçava os cotovelos, aperreado. Por isso esfolavam-no. Safados. Tomar as coisas de um infeliz que não tinha onde cair morto! Não viam que isso não estava certo? Que iam ganhar com semelhante procedimento? Hem? Que iam ganhar?
– An!
Agora não criava porco e queria ver o tipo da prefeitura cobrar dele imposto e multa. Arrancavam-lhe a camisa do corpo e ainda por cima davam-lhe facão e cadeia. Pois não trabalharia mais, ia descansar.
Talvez não fosse. Interrompeu o monólogo, levou uma eternidade contando e recontando mentalmente o dinheiro. Amarrotou-o com força, empurrou-o no bolso raso da calça, meteu na casa estreita o botão de osso. Porcaria.
Levantou-se, foi até a porta de uma bodega, com vontade de beber cachaça. Como havia muitas pessoas encostadas ao balcão, recuou. Não gostava de se ver no meio do povo. Falta de costume. As vezes dizia uma coisa sem intenção de ofender, entendiam outra, e lá vinham questões. Perigoso entrar na bodega. O único vivente que o compreendia era a mulher. Nem precisava falar: bastavam os gestos. Sinha Terta é que se explicava como gente da rua. Muito bom uma criatura ser assim, ter recurso para se defender. Ele não tinha. Se tivesse, não viveria naquele estado.
Um perigo entrar na bodega. Estava com desejo de beber um quarteirão de cachaça, mas lembrava-se da última visita feita à venda de seu Inácio. Se não tivesse tido a idéia de beber, não lhe haveria sucedido aquele desastre. Nem podia tomar uma pinga descansado. Bem. Ia voltar para casa e dormir.
Saiu lento, pesado, capiongo, as rosetas das esporas silenciosas. Não conseguiria dormir. Na cama de varas havia um pau com um nó, bem no meio. Só muito cansaço fazia um cristão acomodar-se em semelhante dureza. Precisava fatigar- se no lombo de um cavalo ou passar o dia consertando cercas. Derreado, bambo,, espichava-se e roncava como um porco. Agora não lhe seria possível fechar os olhos. Rolaria a noite inteira sobre as varas, matutando naquela perseguição. Desejaria imaginar o que ia fazer para o futuro. Não ia fazer nada. Matar-se-ia no serviço e moraria numa casa alheia, enquanto o deixassem ficar. Depois sairia pelo mundo, iria morrer de fome na catinga seca.
Tirou do bolso o rolo de fumo, preparou um cigarro com a faca de ponta. Se ao menos pudesse recordar-se de fatos agradáveis, a vida não seria inteiramente má.
Deixara a rua. Levantou a cabeça, viu uma estrela, depois muitas estrelas. As figuras dos inimigos esmoreceram. Pensou na mulher, nos filhos e na cachorra morta. Pobre de Baleia. Era como se ele tivesse matado uma pessoa da família.

Graciliano Ramos, em Vidas Secas

18/10/2026

Biografia

Todo o meu nascer
foi prematuro.

Agora,
em meus filhos
me vou dando às luzes.

Descendo, sim,
dos que hão de vir.

Mia Couto, em Poemas Escolhidos

João Bosco, Chico Buarque, Gonzalo Rubalcaba | Incompatibilidade de Gênios

Tudo

Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.
Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.
Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré-história já havia os monstros apocalípticos? Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos – sou eu que escrevo o que estou escrevendo. Deus é o mundo. A verdade é sempre um contato interior e inexplicável. A minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior e não tem uma só palavra que a signifique. Meu coração se esvaziou de todo desejo e reduz-se ao próprio último ou primeiro pulsar. A dor de dentes que perpassa esta história deu uma fisgada funda em plena boca nossa. Então eu canto alto agudo uma melodia sincopada e estridente – é a minha própria dor, eu que carrego o mundo e há falta de felicidade. Felicidade? Nunca vi palavra mais doida, inventada pelas nordestinas que andam por aí aos montes.
Como eu irei dizer agora, esta história será o resultado de uma visão gradual – há dois anos e meio venho aos poucos descobrindo os porquês. É visão da iminência de. De quê? Quem sabe se mais tarde saberei. Como que estou escrevendo na hora mesma em que sou lido. Só não inicio pelo fim que justificaria o começo – como a morte parece dizer sobre a vida – porque preciso registrar os fatos antecedentes.
Escrevo neste instante com algum prévio pudor por vos estar invadindo com tal narrativa tão exterior e explícita. De onde no entanto até sangue arfante de tão vivo de vida poderá quem sabe escorrer e logo se coagular em cubos de geleia trêmula. Será essa história um dia o meu coágulo? Que sei eu. Se há veracidade nela – e é claro que a história é verdadeira embora inventada – que cada um a reconheça em si mesmo porque todos nós somos um e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro – existe a quem falte o delicado essencial.
Como é que sei tudo o que vai se seguir e que ainda o desconheço, já que nunca o vivi? É que numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina. Sem falar que eu em menino me criei no Nordeste. Também sei das coisas por estar vivendo. Quem vive sabe, mesmo sem saber que sabe. Assim é que os senhores sabem mais do que imaginam e estão fingindo de sonsos.
Proponho-me a que não seja complexo o que escreverei, embora obrigado a usar as palavras que vos sustentam. A história – determino com falso livre-arbítrio – vai ter uns sete personagens e eu sou um dos mais importantes deles, é claro. Eu, Rodrigo S. M. Relato antigo, este, pois não quero ser modernoso e inventar modismos à guisa de originalidade. Assim é que experimentarei contra os meus hábitos uma história com começo, meio e “gran finale” seguido de silêncio e de chuva caindo.
História exterior e explícita, sim, mas que contém segredos – a começar por um dos títulos, “.Quanto ao futuro.”, que é precedido por um ponto final e seguido de outro ponto final. Não se trata de capricho meu – no fim talvez se entenda a necessidade do delimitado. (Mal e mal vislumbro o final que, se minha pobreza permitir, quero que seja grandioso.) Se em vez de ponto fosse seguido por reticências o título ficaria aberto a possíveis imaginações vossas, porventura até malsãs e sem piedade. Bem, é verdade que também eu não tenho piedade do meu personagem principal, a nordestina: é um relato que desejo frio. Mas tenho o direito de ser dolorosamente frio, e não vós. Por tudo isto é que não vos dou a vez. Não se trata apenas de narrativa, é antes de tudo vida primária que respira, respira, respira. Material poroso, um dia viverei aqui a vida de uma molécula com seu estrondo possível de átomos. O que escrevo é mais do que invenção, é minha obrigação contar sobre essa moça entre milhares delas. E dever meu, nem que seja de pouca arte, o de revelar-lhe a vida.
Porque há o direito ao grito.
Então eu grito.
Grito puro e sem pedir esmola. Sei que há moças que vendem o corpo, única posse real, em troca de um bom jantar em vez de um sanduíche de mortadela. Mas a pessoa de quem falarei mal tem corpo para vender, ninguém a quer, ela é virgem e inócua, não faz falta a ninguém. Aliás – descubro eu agora – também eu não faço a menor falta, e até o que escrevo um outro escreveria. Um outro escritor, sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas.
Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa. Não notam sequer que são facilmente substituíveis e que tanto existiriam como não existiriam. Poucas se queixam e ao que eu saiba nenhuma reclama por não saber a quem. Esse quem será que existe?
Estou esquentando o corpo para iniciar, esfregando as mãos uma na outra para ter coragem. Agora me lembrei de que houve um tempo em que para me esquentar o espírito eu rezava: o movimento é espírito. A reza era um meio de mudamente e escondido de todos atingir-me a mim mesmo. Quando rezava conseguia um oco de alma – e esse oco é o tudo que posso eu jamais ter. Mais do que isso, nada. Mas o vazio tem o valor e a semelhança do pleno.
Um meio de obter é não procurar, um meio de ter é o de não pedir e somente acreditar que o silêncio que eu creio em mim é resposta a meu – a meu mistério.
Pretendo, como já insinuei, escrever de modo cada vez mais simples. Aliás o material de que disponho é parco e singelo demais, as informações sobre os personagens são poucas e não muito elucidativas, informações essas que penosamente me vêm de mim para mim mesmo, é trabalho de carpintaria.
Sim, mas não esquecer que para escrever não importa o quê o meu material básico é a palavra. Assim é que esta história será feita de palavras que se agrupam em frases e destas se evola um sentido secreto que ultrapassa palavras e frases. É claro que, como todo escritor, tenho a tentação de usar termos suculentos: conheço adjetivos esplendorosos, carnudos substantivos e verbos tão esguios que atravessam agudos o ar em vias de ação, já que palavra é ação, concordais? Mas não vou enfeitar a palavra pois se eu tocar no pão da moça esse pão se tornará em ouro – e a jovem (ela tem dezenove anos) e a jovem não poderia mordê-lo, morrendo de fome. Tenho então que falar simples para captar a sua delicada e vaga existência. Limito-me a humildemente – mas sem fazer estardalhaço de minha humildade que já não seria humilde – limito-me a contar as fracas aventuras de uma moça numa cidade toda feita contra ela. Ela que deveria ter ficado no sertão de Alagoas com vestido de chita e sem nenhuma datilografia, já que escrevia tão mal, só tinha até o terceiro ano primário. Por ser ignorante era obrigada na datilografia a copiar lentamente letra por letra – a tia é que lhe dera um curso ralo de como bater à máquina. E a moça ganhara uma dignidade: era enfim datilógrafa. Embora, ao que parece, não aprovasse na linguagem duas consoantes juntas e copiava a letra linda e redonda do amado chefe a palavra “designar” de modo como em língua falada diria: “desiguinar”.
Desculpai-me mas vou continuar a falar de mim que sou meu desconhecido, e ao escrever me surpreendo um pouco pois descobri que tenho um destino. Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?
Quero antes afiançar que essa moça não se conhece senão através de ir vivendo à toa. Se tivesse a tolice de se perguntar “quem sou eu?” cairia estatelada e em cheio no chão. É que “quem sou eu?” provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto.
A pessoa de quem vou falar é tão tola que às vezes sorri para os outros na rua. Ninguém lhe responde ao sorriso porque nem ao menos a olham.
Voltando a mim: o que escreverei não pode ser absorvido por mentes que muito exijam e ávidas de requintes. Pois o que estarei dizendo será apenas nu. Embora tenha como pano de fundo – e agora mesmo – a penumbra atormentada que sempre há nos meus sonhos quando de noite atormentado durmo. Que não se esperem, então, estrelas no que se segue: nada cintilará, trata-se de matéria opaca e por sua própria natureza desprezível por todos. É que a esta história falta melodia cantabile. O seu ritmo é às vezes descompassado. E tem fatos. Apaixonei-me subitamente por fatos sem literatura – fatos são pedras duras e agir está me interessando mais do que pensar, de fatos não há como fugir.
Pergunto-me se eu deveria caminhar à frente do tempo e esboçar logo um final. Acontece porém que eu mesmo ainda não sei bem como esse isto terminará. E também porque entendo que devo caminhar passo a passo de acordo com um prazo determinado por horas: até um bicho lida com o tempo. E esta é também a minha mais primeira condição: a de caminhar paulatinamente apesar da impaciência que tenho em relação a essa moça.
Com esta história eu vou me sensibilizar, e bem sei que cada dia é um dia roubado da morte. Eu não sou um intelectual, escrevo com o corpo. E o que escrevo é uma névoa úmida. As palavras são sons transfundidos de sombras que se entrecruzam desiguais, estalactites, renda, música transfigurada de órgão. Mal ouso clamar palavras a essa rede vibrante e rica, mórbida e obscura tendo como contratom o baixo grosso da dor. Alegro com brio. Tentarei tirar ouro do carvão. Sei que estou adiando a história e que brinco de bola sem a bola. O fato é um ato? Juro que este livro é feito sem palavras. É uma fotografia muda. Este livro é um silêncio. Este livro é uma pergunta.
Mas desconfio que toda essa conversa é feita apenas para adiar a pobreza da história, pois estou com medo. Antes de ter surgido na minha vida essa datilógrafa, eu era um homem até mesmo um pouco contente, apesar do mau êxito na minha literatura. As coisas estavam de algum modo tão boas que podiam se tornar muito ruins porque o que amadurece plenamente pode apodrecer.
Transgredir, porém, os meus próprios limites me fascinou de repente. E foi quando pensei em escrever sobre a realidade, já que essa me ultrapassa. Qualquer que seja o que quer dizer “realidade”. O que narrarei será meloso? Tem tendência mas então agora mesmo seco e endureço tudo. E pelo menos o que escrevo não pede favor a ninguém e não implora socorro: aguenta-se na sua chamada dor com uma dignidade de barão.
É. Parece que estou mudando de modo de escrever. Mas acontece que só escrevo o que quero, não sou um profissional – e preciso falar dessa nordestina senão sufoco. Ela me acusa e o meio de me defender é escrever sobre ela. Escrevo em traços vivos e ríspidos de pintura. Estarei lidando com fatos como se fossem as irremediáveis pedras de que falei. Embora queira que para me animar sinos badalem enquanto adivinho a realidade. E que anjos esvoacem em vespas transparentes em torno de minha cabeça quente porque esta quer enfim se transformar em objeto-coisa, é mais fácil.
Será mesmo que a ação ultrapassa a palavra?
Mas que ao escrever – que o nome real seja dado às coisas. Cada coisa é uma palavra. E quando não se a tem, inventa-se-a. Esse vosso Deus que nos mandou inventar.
Por que escrevo? Antes de tudo porque captei o espírito da língua e assim às vezes a forma é que faz conteúdo. Escrevo portanto não por causa da nordestina mas por motivo grave de “força maior”, como se diz nos requerimentos oficiais, por “força de lei”.
[…]

Clarice Lispector, em A hora da estrela