Meu nome é Nora Rubi, o Nora é
verdadeiro, mas o Rubi é falso. Sou cleptomaníaca. Não vejo
imoralidade nisso, seria imoral se eu não fizesse o que sinto que
tenho que fazer. O poeta disse que o mundo é um palco e todos os
homens e mulheres, meros atores. Eu faço o meu papel, abduzo coisas
sem cometer nenhuma violência. Elas não têm utilidade ou valor
monetário, se tivessem eu seria uma ladra e eu sou uma pessoa
honesta. E nem me aposso das coisas dos outros para expressar um
sentimento de rancor, ou de frustração, ou de vingança, nem sou
impulsiva, nem delirante, nem sofro de distúrbio bipolar, anorexia
ou bulimia nervosa, nem de ansiedade, sintomas que o meu psiquiatra,
o doutor Paulo, erradamente atribui aos cleptomaníacos. Tenho
consciência do que faço e não sinto culpa pelos meus atos. Sou uma
pessoa normal. Gosto de abduzir coisas, como algumas pessoas gostam
de fazer palavras cruzadas. Esses também serão doentes, por
gostarem desse tipo solipsista de passatempo? Eu pelo menos sou
gregária, faço abduções na companhia de outras pessoas.
Dizem que é melhor aprender com a
desgraça dos outros do que com a nossa. Mas eu aprendi tudo
quebrando a cara. Dizem que é mais fácil começar um namoro do que
terminá-lo. Mas só aprendi que antes de começar uma aventura
devemos saber a maneira de pular fora dela depois de ser esfaqueada
por um amante psicótico. É um erro pensar que Deus está do nosso
lado, ele não está, vi um filme em que o Diabo diz que Deus é um
senhorio desleixado, deixa essa casa onde a gente mora cair de podre.
Se ele realmente existe, está pensando em outras coisas e não em
nós.
A primeira coisa que abduzi foi uma
folha de papel cheia de garranchos. Isso mesmo, uma folha de papel
cheia de nomes e números. O sujeito estava parado junto de uma
dessas mesas que os bancos colocam perto dos caixas eletrônicos, com
formulários de depósitos e canetas, e tirou de uma pasta uma folha
de papel e tentou anotar algo nela. A caneta da mesa não funcionava.
Então ele revistou os bolsos procurando uma caneta. Rapidamente,
peguei a folha e a coloquei na pasta que tinha na minha mão. Saí em
seguida. Não me interessava o espetáculo de perplexidade que o
sujeito pudesse dar, eu já tinha feito o que tinha que ser feito, o
assunto estava encerrado. Não me lembro do que fiz com a folha de
papel, não sei onde ela foi parar, o que aconteceu com ela. Devia
tê-la guardado como um galardão? Nada disso. Para nós,
cleptomaníacos autênticos, o que foi abduzido deixa de ter valor
depois que a ação é encerrada.
É claro que existem aspectos
logísticos, na acepção grega original da palavra, relativa a
cálculo e raciocínio, a serem observados. Tenho que avaliar, com
instantaneidade, a importância concreta ou abstrata do produto a ser
abduzido e os riscos possíveis, a partir das informações
obteníveis.
Acho que sou a única pessoa que tem a
biografia do doutor Samuel Johnson, escrita pelo James Boswell, na
mesinha de cabeceira. O livro é chato, eu o uso para ficar com sono
e poder dormir. Esta noite, antes da ação soporífera ter efeito,
li uma frase interessante: leia os seus textos e, sempre que
chegar a um trecho que considere especialmente bem escrito, risque-o
e elimine-o. Reli o que escrevi até agora e verifico que não há
nada a eliminar, está tudo mal escrito. Meu texto já foi melhor,
talvez o fato de eu estar escrevendo à mão num papel ordinário que
me forneceram aqui na prisão esteja contribuindo para essa piora.
Devo contar os acontecimentos que causaram a minha prisão? Sim, mas,
para que pressa? Ainda vou ficar aqui durante algum tempo. Estou numa
cela isolada, com vagar para ler e escrever. Se a comida não fosse
tão ruim, até que seria uma vilegiatura agradável.
A segunda coisa que abduzi foi uma
espátula com a ponta quebrada. Foi na casa de uma mulher que estava
vendendo os livros da biblioteca do marido, que acabara de falecer. A
primeira coisa que as mulheres fazem quando o marido morre é vender
os livros dele para o sebo. Então vi uma espátula quebrada sobre a
mesa. Eu disse para a mulher que aquela espátula, se usada para
abrir uma brochura daquelas com as páginas encadernadas, poderia
rasgar o livro. Ela perguntou qual seria o problema se o livro
rasgasse, se a brochura ainda não fora aberta isso significava que o
marido não se interessara pelo livro. Acabei comprando a brochura.
Ao chegar à rua joguei a espátula na primeira lata de lixo que
encontrei. A brochura está na minha estante e não foi aberta até
hoje. Uma homenagem simbólica ao marido morto.
Reconheço que, não obstante as
coisas que eu abduzo não terem nenhum valor para mim e o único
lucro obtido com elas ser a satisfação de ter realizado uma obra
perfeita, às vezes, para o proprietário da coisa, ela pode fazer
falta. Aquela folha de papel cheia de garatujas faria falta? Que
informação ela poderia lhe dar? Que você está falido e deve dizer
adeus ao mundo cruel jogando-se sob as rodas de um ônibus? Que está
rico e pode se casar?
Aquela espátula talvez fosse usada
exatamente para rasgar as páginas encadernadas dos livros que o
marido comprara e não lera e que serviam apenas para encher as
estantes de mais livros. Mas sei que esses são meros raciocínios
especulativos sem o menor valor.
Outras abduções: uma batata-inglesa
no supermercado (odeio batata). Uma calcinhaonde estavam bordadas, em
lantejoulas, as palavras fuck me, de uma loja grã-fina que
nem sentiria aquela perda. A calcinha era tão minúscula que não
serviu para pano de limpeza, tive que jogar no lixo. Um batom
vermelho brilhante, daqueles que deixam os lábios úmidos, e que
também foi jogado no lixo. Uma camisinha de vênus, de dentro da
bolsa de uma moça que se pintava no banheiro do cinema. Quem tem que
carregar camisinha é o homem. Um livro de poesias de Carlos Drummond
de Andrade, que abduzi da maior livraria da cidade. Aquele livro
tinha para mim uma enorme utilidade, pois amo poesia, mas abduzir
livro de poesia, mesmo para levar a vantagem de fruí-lo depois, não
caracteriza furto. Se fosse de uma biblioteca pública, sim.
Abduzi ainda um adipômetro. Estava
tomando um expresso no Talho quando uma mulher ao meu lado, toda
paramentada para a aula de ginástica, pontificava sobre como manter
a forma física. Não adianta comprar uma balança para se pesar nua
em pelo, ela dizia, você tem é que medir o grau de adiposidade do
seu corpo di-a-ria-men-te. Ela tirou da bolsa uma parafernália e
disse, isto aqui é um adipômetro, custa uma ninharia, comprado na
televenda da Polishop.
A mulher colocou o adipômetro na
bolsa e, como acontece com a maioria das mulheres, deixou a bolsa
aberta. Foi fácil abduzir aquela tralha enquanto ela pingava as
gotinhas de adoçante artificial no café.
Durante algum tempo dediquei-me a
abduzir cinzeiros ordinários, esses de botecos e churrascarias de
rodízio. Passei a fumar, para facilitar a minha missão. Eu fazia a
abdução, levava o cinzeiro para casa, depois voltava à
churrascaria para devolver o cinzeiro que havia abduzido antes e em
seguida abduzia um outro. O problema é que sou vegetariana e ficava
nauseada com o espetáculo daqueles garçons carregando espetos
fumegantes de carne e parando na minha mesa com um facão em punho
perguntando se eu queria um pedaço da picanha enfiada naquela haste
de ferro. Acabei desistindo dos cinzeiros, o que foi bom, pois deixei
de fumar.
Afinal como é que vim parar na
cadeia? Tudo aconteceu quando abduzi uma bijuteria. Eu havia sido
convidada a ir ao aniversário de uma prima, numa dessas casas que
alugam salões de festas. Entrei no banheiro junto com uma dondoca,
daquelas narcisistas que ficam transtornadas ao se ver num espelho.
Ela tirou o colar e começou a retocar a maquiagem do pescoço
cuidadosamente. Percebendo que eu notara o colar sobre o mármore da
pia, ela perguntou, não parecem brilhantes verdadeiros? Quando digo
que é uma bijuteria ordinária que comprei num camelô, ninguém
acredita. Mas quando é que eu teria dinheiro para comprar uma joia
dessas? Meu marido ganha uma miséria, coitado.
Ela continuou retocando a maquiagem,
embevecida com o seu reflexo no espelho, e eu pensei, enquanto
abduzia o colar, que se fosse bonita como ela talvez me tornasse um
pouco narcisista e me olhasse mais no espelho. Tranquei-me no
reservado do banheiro e joguei o colar no vaso sanitário.
Quando ia saindo ouvi gritos
desatinados, meu colar, meu colar de brilhantes, roubaram o meu colar
de brilhantes!
Creio que ela não percebeu que eu me
escondera no reservado, pois saiu do banheiro esbaforida, gritando
desesperada, meu colar de brilhantes, roubaram o meu colar de
brilhantes!
Enfiei a mão no vaso sanitário e
consegui pegar o colar de volta. Não senti o menor nojo, não apenas
porque o xixi que estava no vaso era meu, como principalmente pelo
fato de que, sabendo que havia abduzido algo valioso, eu, para
resgatá-lo, enfiaria a mão mesmo que o vaso estivesse cheio de
fezes. Com o colar molhado com o meu xixi entre as mãos, saí do
reservado e fui para o salão de festas.
O salão estava em polvorosa. Um homem
sacudia pelos ombros a mulher do colar, gritava com ela, brilhantes
verdadeiros?, brilhantes verdadeiros?, você jurou que comprou no
camelô, que eram uma bijuteria barata.
O homem agarrou a mulher pelo pescoço
e perguntou, furioso e infeliz, quem lhe deu essa joia?, anda,
confessa, adúltera!
A mulher, nervosa, pegava os brincos
das orelhas, para se certificar de que não haviam também
desaparecido, e olhava a pulseira de diamantes que refletia com
fulgor as luzes dos candelabros. O marido começou a esganá-la,
gritando, essas joias são todas verdadeiras, não são?, sua puta,
quem te deu essas joias?
Postei-me no meio do salão e gritei,
atenção, atenção, atencão, todo mundo!
Foi um brado tão alto que até o
marido parou de estrangular a mulher. Quando se fez silêncio, abri
as mãos e disse, o colar está aqui, eu o abduzi, sinto muito,
pensei que era uma bijuteria.
A mulher arrancou o colar da minha mão
com tanta força que quebrou uma unha. Alguém havia chamado a
polícia, que para prender os inocentes nunca demora a chegar.
Resumindo: fui presa. Mas fui presa
por ter esquecido o conto de Maupassant que liquando era adolescente,
em que a mulher de um certo Monsieur Lantin também tinha um monte de
joias verdadeiras que dizia serem falsas, todas presente do amante.
Eu devia ter visto que uma mulher bonita e vaidosa como aquela dona
do colar que abduzi era, evidentemente, uma Madame Lantin. A gente
aprende lendo, e quem não aprende com o que leu se fode, como eu.
Agora estou aqui, na prisão,
escrevendo à mão com uma caneta Bic, coisa que odeio. Ainda bem que
hoje, durante o almoço aqui na cadeia, consegui abduzir uma colher.
Fiquei muito feliz, ela está escondida debaixo do meu colchão, mas
eu não sei o que fazer com ela. Acho que logo mais, no jantar, vou
devolvê-la.