10/08/2026

Sinal Fechado | Paulinho da Viola

Palavra

Cartilha da cura

As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios.

Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés

Capítulo 78 – A Presidência



Certo dia, meses depois, entrou Lobo Neves em casa, dizendo que iria talvez ocupar uma presidência de província.
Olhei para Virgília, que empalideceu; ele, que a viu empalidecer, perguntou-lhe:
– A modo que não gostaste, Virgília?
Virgília abanou a cabeça.
– Não me agrada muito, foi a sua resposta.
Não se disse mais nada; mas de noite o Lobo Neves insistiu no projeto, um pouco mais resolutamente do que de tarde; e dois dias depois declarou à mulher que a presidência era coisa definitiva. Virgília não pôde dissimular a repugnância que isto lhe causava. O marido respondia a tudo com as necessidades políticas. E acrescentava:
– Não posso recusar o que me pedem; é até conveniência nossa, do nosso futuro, dos teus brasões, meu amor, porque eu prometi que serias marquesa, e nem baronesa estás.
Dirás que sou ambicioso? Sou-o deveras, mas é preciso que me não ponhas um peso nas asas da ambição.
Virgília ficou desorientada. No dia seguinte achei-a triste, na casa da Gamboa, à minha espera; tinha dito tudo a Dona Plácida, que buscava consolá-la como podia. Não fiquei menos abatido.
– Você há de ir conosco, disse-me Virgília.
– Está doida? Seria uma insensatez.
– Mas então...?
– Então, é preciso desfazer o projeto.
– É impossível.
– Já aceitou?
– Parece que sim.
Levantei-me, atirei o chapéu a uma cadeira, e entrei a passear de um lado para outro, sem saber o que faria. Cogitei largamente, e não achei nada. Enfim, cheguei-me a Virgília, que estava sentada, e travei-lhe da mão; Dona Plácida foi à janela.
– Nesta pequenina mão está toda a minha existência, disse eu; você é responsável por ela; faça o que lhe parecer.
Virgília teve um gesto aflitivo; eu fui encostar-me ao consolo fronteiro. Decorreram alguns instantes de silêncio; ouvíamos somente o latir de um cão, e não sei se o rumor da água que morria na praia. Vendo que não falava, olhei para ela.
Virgília tinha os olhos no chão, parados, sem luz, as mãos deixadas sobre os joelhos, com os dedos cruzados, na atitude de suprema desesperança. Noutra ocasião, por diferente motivo, é certo que eu me lançaria aos pés dela, e a ampararia com a minha razão e a minha ternura; agora, porém, era preciso compeli-la ao esforço de si mesma, ao sacrifício à responsabilidade da nossa vida comum, e conseguintemente desampará-la, deixá-la, e sair; foi o que fiz.
– Repito, a minha felicidade está nas tuas mãos, disse eu.
Virgília quis agarrar-me, mas eu já estava fora da porta.
Cheguei a ouvir um prorromper de lágrimas, e digo-lhes que estive a ponto de voltar, para as enxugar com um beijo; mas subjuguei-me e saí.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Angústia

♦ “Mas o horror me mata antes, pois viva ainda eu me vejo morta, e essa antecipação compensa em agonia e desfalecimento a ignorância da morte que eu terei já morta. Nunca ninguém me disse que deixar de sofrer doía tanto.” (A mãe. Duas tábuas e uma paixão. 1981)

Millôr Fernandes, em A bíblia do caos

As Odisseias na Odisseia



Quantas Odisseias contém a Odisseia? No início do poema, a “Telemaquia” é a busca de uma narrativa que não existe, aquela narrativa que será a Odisseia. No palácio de Ítaca, o cantor Fêmio já sabe os nostoi dos outros heróis; só lhe falta um, o de seu rei; por isso, Penélope não quer mais ouvi-lo cantar. E Telêmaco parte em busca dessa narrativa junto aos veteranos da Guerra de Troia: se a encontrar, termine ela bem ou mal, Ítaca sairá da situação amorfa sem tempo e sem lei em que se encontra há tantos anos.
Como todos os veteranos, também Nestor e Menelau têm muito para contar; mas não a história que Telêmaco procura. Até que Menelau aparece com uma fantástica aventura: disfarçado de foca, capturou o “velho do mar”, isto é, Proteu das infinitas metamorfoses, e obrigou-o a contar-lhe o passado e o futuro. Certamente Proteu já conhecia toda a Odisseia de ponta a ponta: começa a relatar as aventuras de Ulisses do mesmo ponto que Homero, com o herói na ilha de Calipso; depois se interrompe. Naquela altura, Homero pode substituí-lo e continuar a narração.
Tendo chegado à corte dos feacos, Ulisses ouve um aedo cego como Homero que canta as peripécias de Ulisses; o herói explode em lágrimas; depois se decide a narrar ele próprio. No relato, chega ao Hades para interrogar Tirésias e este lhe conta a sequência da história. Mais tarde, Ulisses encontra as sereias que cantam; o que cantam? Ainda a Odisseia, quem sabe igual àquela que estamos lendo, talvez muito diferente. Este retorno-narrativa é algo que já existe, antes de se completar: preexiste à própria atuação. Já na “Telemaquia”, encontramos as expressões “pensar o retorno”, “dizer o retorno”. Zeus não “pensava no retorno” dos atridas (III, 160); Menelau pede à filha de Proteu que lhe “diga o retorno” (IV, 379) e ela lhe explica como obrigar o pai a contá-lo (390), e assim o atrida pode capturar Proteu e pedir-lhe: “Diga-me o retorno, como velejarei no mar piscoso” (470).
O retorno deve ser identificado, pensado e relembrado: o perigo é que possa ser esquecido antes que ocorra. De fato, uma das primeiras etapas da viagem contada por Ulisses, aquela na terra dos lotófagos, comporta o risco de perder a memória, por ter comido o doce fruto do lótus. Que a prova do esquecimento se apresente no início do itinerário de Ulisses, e não no fim, pode parecer estranho. Se, após ter superado tantos desafios, suportado tantas travessias, aprendido tantas lições, Ulisses tivesse esquecido algo, sua perda teria sido bem mais grave: não extrair experiências do que sofrera, nenhum sentido daquilo que vivera.
Contudo, “pensando bem, a perda da memória é uma ameaça que nos cantos IX-XII se repropõe várias vezes: primeiro com o convite dos lotófagos, depois com os elixires de Circe e mais tarde com o canto das sereias. Em todas as situações Ulisses deve estar atento, se não quiser esquecer de repente… Esquecer o quê? A Guerra de Troia? O assédio? O cavalo? Não: a casa, a rota da navegação, o objetivo da viagem. A expressão que Homero usa nesses casos é “esquecer o retorno”.
Ulisses não deve esquecer o caminho que tem de percorrer, a forma de seu destino: em resumo, não pode esquecer a Odisseia. Porém, mesmo o aedo que compõe improvisando ou o rapsodo que repete de cor trechos de poemas já cantados não podem olvidar se querem “dizer o retorno”; para quem canta versos sem o apoio de um texto escrito, esquecer é o verbo mais negativo que existe; e para eles “esquecer o retorno” significa olvidar os poemas chamados nostoi, cavalo de batalha de seu repertório.
Sobre o tema “esquecer o futuro” publiquei há anos algumas considerações (Corriere della Sera, 10/8/75) que assim concluíam:

O que Ulisses salva do lótus, das drogas de Circe, do canto das sereias, não é apenas o passado e o futuro. A memória conta realmente — para os indivíduos, as coletividades, as civilizações — só se mantiver junto a marca do passado e o projeto do futuro, se permitir fazer sem esquecer aquilo que se pretendia fazer, tornar-se sem deixar de ser, ser sem deixar de tornar-se.

Ao meu texto seguia-se uma intervenção de Edoardo Sanguineti no Paese Sera (agora no Giornalino 1973-1975, Turim, Einaudi, 1976) e uma réplica de cada um, minha e dele. Sanguineti objetava:

Porque não se pode esquecer que a viagem de Ulisses não é de jeito nenhum uma viagem de ida, mas de retorno. E então é preciso interrogar-se um momento, exatamente, que tipo de futuro ele tem pela frente: pois aquele futuro que Ulisses anda procurando é de fato o seu passado. Ulisses vence as bajulações da Regressão porque se acha todo voltado para uma Restauração.

Compreende-se que um dia, por despeito, o verdadeiro Ulisses, o grande Ulisses, tenha se tornado aquele da Última viagem: para o qual o futuro não é de modo nenhum um passado, mas a Realização de uma Profecia — isto é, de uma verdadeira Utopia. Ao passo que o Ulisses homérico logra recuperar seu passado como um presente: sua sabedoria é a Repetição e isso pode ser bem reconhecido pela Cicatriz que traz e que o marca para sempre.
Em resposta a Sanguineti, lembrava eu que (Corriere della Sera, 14/10/75) “na linguagem dos mitos, bem como na das fábulas e do romance popular, toda empresa portadora de justiça, reparadora de ofensas, resgate de uma condição miserável, vem em geral representada como a restauração de uma ordem ideal anterior; o desejo de um futuro a ser conquistado é garantido pela memória de um passado perdido”.
Se examinarmos as fábulas populares, verificaremos que elas apresentam dois tipos de transformação social, sempre com final feliz: primeiro de cima para baixo e depois de novo para cima; ou então simplesmente de baixo para cima. No primeiro tipo, existe um príncipe que por alguma circunstância desastrosa se vê reduzido a guardador de porcos ou alguma outra condição miserável, para depois reconquistar sua condição real; no segundo tipo, existe um jovem que não possui nada desde o nascimento, pastor ou camponês e talvez também pobre de espírito, que por virtude própria ou ajudado por seres mágicos consegue se casar com a princesa e tornar-se rei.
Os mesmos esquemas valem para as fábulas com protagonista feminina: no primeiro tipo, a donzela de uma condição real ou pelo menos privilegiada cai numa situação despojada pela rivalidade de uma madrasta (como Branca de Neve) ou de meias-irmãs (como Cinderela) até que um príncipe se apaixona por ela e a conduz ao vértice da escala social; no segundo tipo, se encontra uma verdadeira pastora ou camponesa pobre que supera todas as desvantagens de seu humilde nascimento e realiza núpcias principescas.
Poderíamos pensar que as fábulas do segundo tipo são as que exprimem mais diretamente o desejo popular de uma reviravolta dos papéis sociais e dos destinos individuais, ao passo que as do primeiro tipo deixam aparecer tal desejo de forma mais atenuada, como restauração de uma hipotética ordem precedente. Mas, pensando bem, os destinos extraordinários do pastorzinho ou da pastorinha representam apenas uma ilusão miraculosa e consoladora que será depois largamente continuada pelo romance popular e sentimental. Todavia, os infortúnios do príncipe ou da rainha desventurada associam a imagem da pobreza com a ideia de um direito subtraído, de uma justiça a ser reivindicada, isto é, estabelecem (no plano da fantasia, onde as ideias podem deitar raízes sob a forma de figuras elementares) um ponto que será fundamental para toda a tomada de consciência social da época moderna, da Revolução Francesa em diante.
No inconsciente coletivo, o príncipe disfarçado de pobre é a prova de que cada pobre é na realidade um príncipe que sofreu uma usurpação e que deve reconquistar seu reino. Ulisses ou Guerin Meschino ou Robin Hood, reis ou filhos de reis ou nobres cavaleiros caídos em desgraça, quando triunfarem sobre seus inimigos hão de restaurar uma sociedade dos justos em que será reconhecida sua verdadeira identidade.
Mas será ainda a mesma identidade de antes? O Ulisses que desembarca em Ítaca como um velho mendigo irreconhecível a todos talvez não seja mais a mesma pessoa que o Ulisses que partiu para Troia. Não por acaso salvara a vida trocando o nome para Ninguém. O único reconhecimento imediato e espontâneo vem do cão Argos, como se a continuidade do indivíduo só se manifestasse por meio de sinais perceptíveis para um olho animal.
Para a ama de leite sua identidade é comprovada por uma cicatriz de garra de javali, o segredo da fabricação do leito nupcial com uma raiz de oliveira é a prova para a esposa e, para o pai, uma lista de árvores frutíferas; todos eles signos que não têm nada de régio, que associam o herói com um caçador, um marceneiro, um homem do campo. A esses sinais se acrescentam a força física e uma combatividade impiedosa contra os inimigos; e sobretudo o favor manifestado pelos deuses, que é aquilo que convence também Telêmaco, mas só enquanto ato de fé.
Por seu lado Ulisses, irreconhecível, despertando em Ítaca não reconhece sua pátria. Atenas terá de intervir para garantir-lhe que Ítaca é mesmo Ítaca. A crise de identidade é geral, na segunda metade da Odisseia. Só a narrativa garante que as personagens são as mesmas personagens e os lugares são os mesmos lugares. Mas também a narrativa muda. O relato que o irreconhecível Ulisses faz ao pastor Eumeu, depois ao rival Antinous e à própria Penélope é uma outra odisseia, completamente diversa; as peregrinações que levaram de Creta até ali a personagem fictícia que ele afirma ser, uma história de naufrágios e piratas muito mais verossímil do que aquela que ele mesmo fizera ao rei dos feacos. Quem nos garante que não seja esta a “verdadeira” odisseia? Mas esta nova odisseia remete a uma outra odisseia ainda: o cretense encontrara Ulisses em suas viagens; assim, eis que Ulisses narra de um Ulisses em viagem por países em que a Odisseia considerada “verdadeira” não o fizera passar.
Que Ulisses era um mistificador já se sabia antes da Odisseia. Não foi ele quem inventou o grande engodo do cavalo? E, no início da Odisseia, as primeiras evocações de sua personagem são dois flashbacks sobre a Guerra de Troia narrados um depois do outro por Helena e Menelau: duas histórias de simulação. Na primeira, ele penetra com vestimentas falsas na cidade assediada para ali introduzir a chacina; na segunda, é encerrado dentro do cavalo com seus companheiros e consegue impedir que Helena os desmascare induzindo-os a falar.
(Em ambos os episódios, Ulisses se encontra perante Helena; no primeiro como aliada, cúmplice da simulação; no segundo enquanto adversária que imita as vozes das mulheres dos aqueus para induzi-los a trair-se. O papel de Helena é contraditório, mas sempre marcado pela simulação. Do mesmo modo, Penélope também se apresenta como fingidora, com o estratagema do tecido; o bordado de Penélope é um estratagema simétrico ao do cavalo de Troia e, como ele, é um produto da habilidade manual e da contrafação: as duas principais qualidades de Ulisses são também características de Penélope.)
Se Ulisses é um simulador, todo o relato que ele faz ao rei dos feacos poderia ser mentiroso. De fato, suas aventuras marítimas, concentradas em quatro livros centrais da Odisseia, rápida sucessão de encontros com seres fantásticos (que surgem nas fábulas do folclore de todos os tempos e lugares: o ogro Polifemo, os vinte encerrados no odre, os encantos de Circe, sereias e monstros marinhos), contrastam com o restante do poema, em que dominam os tons graves, a tensão psicológica, o crescendo dramático gravitando sobre um objetivo: a reconquista do reino e da mulher cercados pelos prócios. Também aqui se encontram motivos comuns às fábulas populares, como o tecido de Penélope e a prova de arco e flecha, mas estamos num terreno mais próximo dos critérios modernos de realismo e verossimilhança: as intervenções sobrenaturais concernem somente às aparições dos deuses olímpicos, em geral encobertos por feições humanas.
Porém, é preciso recordar que as mesmas aventuras (sobretudo a de Polifemo) são evocadas igualmente em outras passagens do poema, portanto o próprio Homero vai confirmá-las; e não é só isso: os próprios deuses discutem-nas no Olimpo. E que também Menelau, na “Telemaquia”, conta uma aventura com a mesma matriz fabular que a de Ulisses: o encontro com o velho do mar. Só nos resta atribuir as diversidades de estilo fantástico àquela montagem de tradições de diferentes origens transmitidas pelos aedos e depois desembocadas na Odisseia homérica, e que no relato de Ulisses na primeira pessoa revelaria seu substrato mais arcaico.
Mais arcaico? Segundo Alfred Heubeck, as coisas poderiam ter ocorrido de maneira exatamente oposta. (Ver Homero, Odissea, Livros I-IV, introdução de A. Heubeck, texto e comentário de Stephanie West, Milão, Fundação Lorenzo Valla/Mondadori, 1981.)
Antes da Odisseia (incluindo-se a Ilíada), Ulisses sempre fora um herói épico, e os heróis épicos, como Aquiles e Heitor na Ilíada, não têm aventuras fabulares daquele tipo, na base de monstros e encantos. Mas o autor da Odisseia deve manter Ulisses longe de casa por dez anos, desaparecido, inalcançável para os familiares e para os ex-companheiros de armas. Para conseguir isso, deve fazê-lo sair do mundo conhecido, entrar em outra geografia, num mundo extra-humano, num além (não por acaso suas viagens culminam na visita aos Infernos). Para tal extrapolação dos territórios da épica, o autor da Odisseia recorre a tradições (estas, sim, mais arcaicas) como as peripécias de Jasão e dos argonautas.
Portanto, constitui a novidade da Odisseia ter colocado um herói épico como Ulisses às voltas “com bruxas e gigantes, com monstros e devoradores de homens”, isto é, em situações de um tipo de saga mais arcaico, cujas raízes devem ser buscadas “no mundo da antiga fábula e até de primitivas concepções mágicas e xamanísticas”.
É aqui que o autor da Odisseia manifesta, segundo Heubeck, sua verdadeira modernidade, aquela que o torna próximo e atual: se tradicionalmente o herói épico era um paradigma de virtudes aristocráticas e militares, Ulisses é tudo isso e ainda mais, é o homem que suporta as experiências mais duras, as fadigas, a dor e a solidão. “Certamente ele arrasta seu público a um mítico mundo de sonho, mas esse mundo de sonho se torna simultaneamente a imagem especular do mundo real em que vivemos, no qual dominam necessidades e angústia, terror e dores, e no qual o homem se acha imerso sem escapatória.”
No mesmo volume, Stephanie West, embora partindo de premissas diferentes das de Heubeck, formula uma hipótese que daria validade ao discurso dele: a hipótese de que tenha existido uma odisseia alternativa, um outro itinerário do retorno, anterior a Homero. Homero (ou quem quer que fosse o autor da Odisseia), considerando esse discurso de viagens muito pobre e pouco significativo, tê-lo-ia substituído pelas aventuras fabulosas, mas inspirando-se nas viagens do pseudocretense. De fato, no proêmio existe um verso que deveria apresentar-se como a síntese de toda a Odisseia: “De muitos homens vi as cidades e conheci os pensamentos”. Que cidades? Quais pensamentos? Tal hipótese se adaptaria melhor ao relato das viagens do pseudocretense…
Porém, assim que Penélope o reconheceu, no leito reconquistado, Ulisses volta a falar de ciclopes, sereias… Será que a Odisseia não é o mito de todas as viagens? Talvez para Ulisses-Homero a distinção mentira/verdade não existisse, talvez ele narrasse a mesma experiência ora na linguagem do vivido ora na linguagem do mito, como ainda hoje para nós cada viagem, pequena ou grande, sempre é odisseia.
1983

Italo Calvino, em Por que ler os clássicos

09/08/2026

Diamante | Elilson José Batista, Zelitto Coringa e José de Castro

 

Pelada de barranco – XVII

Nada havia de mais prestante em nós senão a infância.
O mundo começava ali. Nosso campo encostava na beira
do rio. Um menino Guató chegava de canoa e embicava
no barranco. Teria remado desde cedo para vir ocupar
a posição de golquíper no Porto de Dona Emília Futebol
Clube. Nosso valoroso time. As cercas laterais do campo
eram de cansanção. Espinheiro fechado pra ninguém botar
defeito. Guató já trazia do barranco duas pedras para servir
de balizas. Os craques desciam da cidade como formigas.
José de Camos, nosso beque de espera também tinha a
incumbência de soprar as bexigas. Porque a nossa bola
era de bexiga, que às vezes caiam no rio e as piranhas
devoravam. E se caísse no cansanção os espinhos furavam.
Nosso campinho por miúdo só permitia times de sete:
O goleiro, um beque de espera, um beque de avanço e
três na linha. Chambalé nosso técnico impunha regras:
só pode mijar no rio e não pode jogar de botina.
Sabastião era centroavante. Chutava no rumo certo. Sabia
as variações da bexiga no vento e botava no grau certo.
Quando alguém enfiava as unhas na pedra abria uma vaga.
Metade de nossos craques eram filhos de lavandeiras e
outra metade de pescadores. Na aba do campo a namorada
do Sabastião torcia: quebra esse saba, destina eles pras
piranhas. Mas Chambalé não deixava destinar. Quem destina
é Deusi – falava. No fim do jogo alguns iam bater bronha,
outros iam no mato jogar o mantimento e outros iam
pelotear passarinho. Guató pegava a canoa e remava até
a aldeia a mil metros dali. A cidade onde a gente morava
foi feita em cima de uma pedra branca enorme. E o rio
paraguaio, lá embaixo, corria com suas piranhas
e os seus camalotes.

Manoel de Barros, em Memórias Inventadas – A segunda infância

Cristo



Quando a febre do meu irmãozinho começou a subir é que tudo isso teve início.
Deixei de ir à escola tantos dias que comecei a achar que nunca tinha ido, que desde que nasci tudo que eu fizera fora cuidar do meu irmão. Eu ficava em casa enquanto ela ia trabalhar e lhe dava as colheradas do xarope cor-de-rosa de hora em hora e do xarope transparente de quatro em quatro.
Ela tinha me dado um relógio de números grandes de presente de aniversário.
O bebê era levinho, levinho. Era como carregar papel de presente amassado nos braços. Não ria. Quase nunca abria os olhos.
Certa noite, um dos amigos da minha mãe fez um buraco na porta do banheiro, cansado de ouvi-lo chorar.
— Faça o bebê ficar quieto — ele dizia à minha mãe. — Faça essa criatura de merda se calar. Faça esse monstro ficar quieto, ele saiu assim porque você é uma puta, mate essa coisa.
Repetia esses palavrões e dava golpes na porta.
Era melhor que batesse na porta do banheiro e não no meu irmãozinho. E não nela. Mas ele batia um pouco nela também.
Não voltamos a ver esse amigo da minha mãe e se tornou mais difícil comprar o xarope cor-de-rosa e o xarope transparente, e ela fazia com que durasse mais misturando-lhe um pouco de água fervida.
Ela apertava as mãos enquanto esperava para tirar o termômetro do meu irmãozinho. Elas ficavam lívidas depois. E ela fazia um barulhinho depois de sacudi-lo no ar e olhá-lo debaixo de uma lâmpada. Um barulhinho com a língua e os dentes. Quando ela não fazia isso, significava que meu irmãozinho estava num dia bom.
Em alguns finais de semana, ela me mandava ficar com meus avós.
Vovô Fernando me levava primeiro ao cemitério para visitar sua mãe morta, Rosita. Depois íamos a La Palma tomar Coca-Cola com sorvete de baunilha. Uma menina com seu avô. De vestido. Sem irmãos. Filha única. Mimada. Tudo isso acabava muito rápido e logo já era segunda-feira.
Uma tarde, enquanto eu assistia ao desenho do Pica-Pau, meu irmãozinho começou a chorar. Não fui ver. Era a hora do xarope cor-de-rosa. Não fui dar. Queria ver o Pica-Pau. Inteiro. Por uma vez vê-lo inteiro, sem olhar para o relógio de números grandes, sem medir o xarope na colherinha de plástico branco, sem lutar para que ele engolisse e sujar minha roupa e ficar fedendo, como sempre, a remédio. Queria cheirar a menina que assiste ao Pica-Pau e mais nada. Eu ria até nas partes que não eram engraçadas. Muito alto, muito alto, como o Pica-Pau, para encobrir o choro do meu irmãozinho.
Depois de um tempo, o desenho acabou e começou Os Flintstones. Também assisti inteirinho.
Quando fui ver, meu irmãozinho tinha deixado de gritar. Toquei nele. Foi como encostar os dedos numa vela quente.
Chamei a vizinha, e a vizinha chamou minha mãe.
— Você deu o xarope cor-de-rosa pra ele?
Fiz que sim com a cabeça.
O médico lhe mandou um xarope verde e supositórios.
Mamãe me ensinou a colocar os supositórios. Eu não queria. Meu irmãozinho gritava como aquele cachorro marrom que foi atropelado por um táxi na frente de casa e ficou ali estirado, com as tripas para fora, mas vivo. Ele gritava igualzinho, igualzinho.
Cor-de-rosa, transparente, verde e supositório.
No dia seguinte, deixamos meu irmão com meus avós e fomos ao Cristo do Consuelo, que era o bairro negro, o bairro proibido. Minha mãe e eu éramos, ali, como as bolinhas de sorvete de baunilha flutuando na Coca-Cola.
Uma senhora negra, muito gorda, com um turbante vermelho na cabeça, disse à minha mãe que tivesse fé.
— Tenha fé, dona. Esse Cristo é milagroso.
Depois lhe pediu dinheiro, algumas moedas. Por que ela não pedia ao Cristo? Se era tão milagroso, devia estar cheio de moedas, não como nós que, às vezes, andávamos a pé porque não tínhamos dinheiro para o ônibus.
A senhora negra do turbante vermelho vendeu à minha mãe um menininho de brinquedo para ser pendurado nas vestes de cor púrpura do Cristo. Quando entramos na igreja, havia tantos bonequinhos iguais a ele! E coraçõezinhos e perninhas e bracinhos e cabecinhas e outras partes que não reconheci. E fotos e cartas e bilhetes e desenhos. Uma das cartas dizia “me ajude, senhor, tenho só nove anos e câncer”.
— Mamãe? — perguntei. — Como Cristo vai saber qual desses é meu irmãozinho?
— Porque Ele é muito inteligente.
O cheiro lá dentro era estranho. Cheirava a coisa velha, a pó, a como quando eu não lavo o cabelo há muitos dias, a abafado, a quando a luz vai embora.
Antes de sairmos, mamãe pegou uma lata de molho de tomate Los Andes e a encheu com água de uma torneira.
— Água benta — disse. — Água do Cristinho, água santa.
Ela me deu um gole, mas não tinha gosto de santa, e sim de molho de tomate e um pouco de ferrugem e pensei que uma água de molho de tomate, como a que colocamos no arroz branco no final do mês, quando está acabando, não podia ser milagrosa. Tinha que ter gosto de doce de leite, de hambúrguer duplo. Não um gosto de pobre. Com aquela porcaria na boca, senti vontade de gritar para todo mundo que eles estavam equivocados, que aqui não havia mais milagre além da senhora do turbante vermelho recebendo moedas por vender pedacinhos de corpo e corpinhos inteiros para pregar no manto de um Cristo que tem gosto de molho de tomate insosso. Ali ficou meu irmãozinho, ou seja, um bonequinho tão deformado quanto ele, rodeado de centenas de outros bonequinhos igualmente horrorosos e cabeças e braços e pernas e corações, como se houvesse acontecido uma explosão.
— Ele tem que ficar aí — minha mãe ficou furiosa.
E eu chorei durante todo o caminho para casa porque me dei conta de que ela também não sabia o que estava fazendo.
Em casa, mamãe deu um pouco daquela água ao meu irmãozinho e jogou-a na cabeça dele. Ele abriu os olhos e mostrou sua boca, seus dentes. Finalmente. Ele nos sorria.
Assim, com aquele sorriso, nós o colocamos na semana seguinte numa caixa branca, pequenina, que o bairro fez uma vaquinha para comprar.
Voltei à escola. Outra vez à quarta série, onde sou enorme e não tenho amigos.
Quando me perguntam se tenho irmãs ou irmãos, penso no menininho que está pendurado no manto do Cristo do Consuelo e digo que não.
Eles não iam entender.

María Fernanda Ampuero, em Rinha de galos

Correndo para a existência

Algumas coisas estão correndo para a existência e outras se retirando dela apressadamente. Parte do que está surgindo já se extinguiu. O movimento e a mudança continuamente renovam o mundo, enquanto o ininterrupto curso do tempo renova as eras. Neste fluxo, no qual nada permanece, quais coisas o homem deveria precificar mais alto?
É como se apaixonar por pardais que voam e somem de vista. É como a própria vida de cada homem, a exalação do sangue e o respiro do ar. Inspiramos e expiramos a todo instante, e o mesmo ocorre com a capacidade de respiração: nós a adquirimos ao nascer ontem e anteontem e a devolvemos ao elemento de onde a aspiramos inicialmente.

Marco Aurélio, em Meditações

O inventário



Peço a um amigo que me ajude neste transe melancólico; aluguei uma casa mobiliada, e o velho casal de proprietários fez uma lista de seus trecos para eu conferir. A lista é minuciosa e, por isso, imensa; são mil grandes e pequenas coisas, duas marquesas, um quadro a carvão representando São Francisco de Assis (mas o desenho é ruim e o santo está gordo), uma horrível, incomodíssima cômoda de metal, dois “choapinos”, um espelho quadrado que agora será visitado pela minha cara e talvez por hábito me faça meio parecido com esse velho chileno que sofre do coração.
Ah, sim, o piano. O velho quer levar o antigo piano alemão; resisto; quero o piano; não sei tocar, mas me agrada ter em casa um piano; não seria possível deixar o piano? Os velhos se consultam; sim, ficará o piano. Em compensação há essa absurda mesa de pôquer que eles insistem em deixar, enorme, horrível, esses quadros a óleo detestáveis que eles elogiam tanto e que eu meterei todos dentro de um armário, um tinteiro de cobre, uma estatueta japonesa, coisas antigas como um violetero onde jamais colocarei violetas, um licoreiro que nunca verá licor, um paraguero que sonha com os guarda-chuvas dantanho, e essa feia mesita ratona, e essas coisas inúteis de metal e cristal, o relógio de cuco com o passarinho sempre cantando errado, pobre passarinho extraviado no tempo...
A lista é terrivelmente minuciosa; eu terei de apresentar, ao sair desta casa, tantos ganchos de pendurar roupa e tantos cinzeirinhos de cobre; e já que insisti pelo piano, tenho de me conformar com a presença de um enorme e sinistro mueble musiquero, onde se guardam velhos tangos e valsas.
Meu amigo confere as coisas, de lista na mão, e a velha vai repetindo os nomes e apontando os objetos, numa ladainha interminável; bocejo no meio de meu reino desordenado e precário; uma a uma terei de entregar um dia todas essas coisas de volta a esses velhos; e para eles são coisas de certo modo sagradas, com o longo contato de seus olhos e de suas mãos, coisas de suas vidas que incorporaram minutos e anos, lembranças, palavras, emoções. Bocejo, depois fumo; nego-me a examinar, como eles gostariam, o detalhe de cada coisa, e minha indiferença parece que vagamente os ofende. Creio que sentem no fundo da alma um ódio deste estranho que vai morar em sua casa, com suas coisas; sou um intruso, o mais antipático dos intrusos, o intruso que paga o direito de ser intruso. E então eles ficam mais minuciosos, gastam meia hora para acrescentar na lista algumas coisinhas sem importância que tinham omitido, são avaros do que me alugam...
Partem. Chego à janela, vejo-os que fecham com todo o cuidado o portão. E sorrio. Esses velhos são uns insensatos. Arrolaram centenas de cacarecos inúteis e se esqueceram do mais importante, do que me atraiu a esta casa, dos bens sem preço que um vândalo poderia destruir e, entretanto, não estão no inventário; daqueles bens que, se sumissem, fariam esses dois velhos desfalecer de espanto e dor; o que eles não compraram com dinheiro, mas com o longo amor, o longo, cotidiano carinho: as árvores altas, belas, ainda úmidas da chuva da noite, brilhando, muito verdes, ao sol.
Santiago, abril, 1955.

Rubem Braga, em Ai de ti, Copacabana

08/08/2026

Juliana Linhares | Futuro (Novos Erros) + Oração pro Sonho

Hagar, o Horrível

Do diário em Paris

2-X — As sete sereias do longe: si-mesmo, o céu, a felicidade, a aventura, o longo atalho chamado poesia, a esperança vendada e a saudade sem objeto.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

Bicho

Hesitei horas
antes de matar o bicho.
Afinal,
era um bicho como eu,
com direitos,
com deveres.
E, sobretudo,
incapaz de matar um bicho,
como eu.

Paulo Leminski, em Toda Poesia

Raimundinha




Só tenho duas filhas, uma de catorze anos chamada Jacqueline e outra de treze de nome Gisele, porque uma das patroas que tive era uma médica que trabalhava na prefeitura e ela me disse que ia fazer ligadura das minhas trompas mas que ninguém podia saber porque era proibido fazer aquele tipo de operação num hospital público, o governo e os padres não deixavam, se soubessem ela perdia o emprego. Então ela fez escondido fingindo que estava tratando uma infecção urinária.
O pai das meninas me deu um pontapé na bunda quando elas ainda eram pequenas, levou tudo com ele, até a televisão, e eu fiquei cuidando delas sozinha. Tive outros homens, mas eles não puderam fazer filhos em mim graças à santa da minha patroa, o nome dela era doutora Raquel.
Depois de algum tempo fiquei sem homem dentro de casa, eram todos pessoas muito ruins, teve até uns que batiam em mim, um deles quebrou esse meu dente da frente com um soco. Então, eu me desiludi de homem e decidi viver sozinha.
Tenho um patrão viúvo legal, que me paga em dia e aumenta sempre o meu salário, e nem quer saber da casa, me dá o dinheiro das compras e não confere, eu dou a nota do supermercado e ele nem olha. Também não se interessa por comida, o que eu ponho na frente dele ele come, quase sempre lendo um livro.
Então Jacqueline ficou grávida. Ela sempre foi uma menina que dava muito trabalho, não gostava de estudar, roubava dinheiro da minha bolsa, mas eu perdoava, mãe existe para perdoar. O pai era um garoto um pouco mais velho do que ela. Jacqueline disse que não queria tirar, que queria ter o filho e depois, se achasse chato, dava o bebê. O menino já fez quatro anos e ela não deu ele pra ninguém porque quem sempre cuidou dele fui eu, deixava na creche na hora do meu trabalho, e comprava tudo, fraldas, o leite da mamadeira, o talco para assadura do bumbum, remédios, tudo. Como o meu salário não dava, eu apanhava dinheiro na carteira do meu patrão, duzentos, trezentos, ele era muito distraído e nem desconfiava. Enquanto isso Jacqueline passava as noites em festas e eu disse a ela que se ela ficasse grávida de novo eu não ia cuidar do bebê, ia expulsá-la de casa.
Então conheci o Jeferson. Ele era branco, usava cabelo comprido, tinha quarenta anos. Estava se separando da mulher e perguntou se podia ir morar na minha casa. Esqueci de dizer que o meu patrão me deu uma casinha com dois quartos. Eu disse ao Jeferson que sim, é bom ter um homem dentro de casa, e o Jeferson já tinha trabalhado de bombeiro eletricista e sabia fazer essas coisas que nós mulheres não sabemos.
Jeferson estava desempregado, procurando trabalho, e assim, enquanto ele não conseguia um novo emprego, eu dava a ele uns trocados para comprar cigarro, mas eu sabia que ele fingia que fumava três maços por dia e fumava apenas um e o resto do dinheiro era para tomar uma cachacinha, só que eu fingia que não sabia. Ele era um homem forte, mas na cama era meio frouxo. No início ele me comia nos sábados, depois nem isso. Depois de seis meses sem me comer eu falei com ele, Jeferson, você não faz nada comigo tem seis meses, você tem outra mulher? Ele jurou por Deus que não tinha mulher nenhuma, aquilo que estava acontecendo com ele era porque ele estava muito preocupado por não conseguir arranjar emprego, o que deixava ele nervoso, e um homem nervoso não dá no couro. Eu disse, você passa o dia dormindo e vendo televisão, assim não vai arranjar emprego nunca. Jeferson respondeu que eu estava sendo injusta com ele, que eu não sabia o quanto ele sofria, que um homem com vergonha na cara odiava aquela situação, ser sustentado pela mulher. E fez uma cara de cachorro triste que cortou o meu coração.
Todo dia, quando saía pela manhã para ir para o trabalho, de segunda a sexta — meu patrão me dava folga no sábado e no domingo —, eu preparava tudo para o Jeferson, ele gostava de sanduíche de queijo e eu deixava os sanduíches prontos e o café na garrafa térmica para ele e para Jacqueline, ela e o Jeferson gostam de acordar tarde. Então eu levava o menino para a creche e a Gisele para o colégio e ia para o meu trabalho.
Acho que o meu patrão não dormia, pois a cama dele nunca estava desfeita e ele ficava lendo o dia inteiro ou então sentado na frente do computador e eu tinha que insistir para ele almoçar, não era fácil. Acho que é por isso que ele era tão magrelo, eu devo pesar o dobro dele, acho que era porque eu devorava biscoito o dia inteiro, e doce de leite, e chocolate, que eu comprava fingindo que era para ele, mas que ele nunca comia. Minha irmã, Severina, disse que eu estava muito gorda e que era por isso que o Jeferson não transava comigo.
No dia em que ela me disse isso pelo telefone eu saí do emprego e quando cheguei em casa o Jeferson estava vendo televisão e eu desliguei a televisão e perguntei, Jeferson, você não transa comigo é porque estou muito gorda? Ele respondeu, meu amorzinho, é aquele nervoso que eu falei, passo o dia procurando emprego e não arranjo nada, você não sabe como isso me faz sofrer. Já estou procurando emprego há mais de um ano, é duro.
Fiquei com peninha dele e liguei de novo a televisão.
O que vai ter hoje para o jantar?, Jeferson perguntou.
Respondi que ia fazer costeleta de porco com batata frita, que ele tanto gostava. Você é uma mulher maravilhosa, disse Jeferson, acendendo um cigarro e olhando para a tela da televisão.
Modéstia à parte, eu faço uma costeleta de porco melhor do que qualquer restaurante. Jeferson come umas cinco, no mínimo.

Rubem Fonseca, em Ela e Outras Mulheres

Da irresistível beleza

O leão é um animal tão belo que ser devorado por ele é melhor do que ser devorado por um crocodilo... Diante da sua arremetida, bem sei que se pode morrer de puro medo... porém nunca de horror.

Mário Quintana, em Caderno H

07/08/2026

Eu Comigo Mesmo | Renato Teixeira e Fagner

 

Bruxa, por Laerte

Um momento de desânimo

Em algum ponto deve estar havendo um erro: é que ao escrever, por mais que me expresse, tenho a sensação de nunca na verdade ter-me expressado. A tal ponto isso me desola que me parece, agora, ter passado a me concentrar mais em querer me expressar do que na expressão ela mesma. Sei que é uma mania muito passageira. Mas, de qualquer forma, tentarei o seguinte: uma espécie de silêncio. Mesmo continuando a escrever, usarei o silêncio. E, se houver o que se chama de expressão, que se exale do que sou. Não vou mais ser: “Eu me exprimo, logo sou.” Será: “Eu sou, logo sou.”

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida