06/09/2026
Tabaréu
Vira e mexe eu penso é numa toada só.
Fiz curso de filosofia pra escovar o
pensamento,
não valeu. O mais universal a que
chego
é a recepção de Nossa Senhora de
Fátima
em Santo Antônio do Monte.
Duas mil pessoas com velas louvando
Maria
num oco de escuro, pedindo bom parto,
moço de bom gênio pra casar,
boa hora pra nascer e morrer.
O cheiro do povo espiritado,
isso eu entendo sem desatino.
Porque, mercê de Deus, o poder que eu
tenho
é de fazer poesia, quando ela insiste
feito
água no fundo da mina, levantando
morrinho de areia.
É quando clareia e refresca, abre
sol, chove,
conforme necessidades.
Às vezes dá até de escurecer de
repente
com trovoado e raio. Não desaponta
nunca.
É feito sol.
Feito amor divino.
Adélia Prado, em Bagagem
Coçando a palma da mão (alergia?), Souza observa, com fastio, a operação dos Civiltares para dominar bandidos com balas catalépticas
O ônibus chegou, a coceira
voltou. Cruzei a borboleta, não havia lugares
vagos. Normal, a essa hora. Cumprimentei pessoas que vejo aqui
todos os dias, à mesma hora. Os novos são raros. Somos parte do
S-7.58, nos permitem este, nenhum outro. É o que
dizem as fichas de tráfego.
A ficha indica onde posso andar,
os caminhos a percorrer, bairros autorizados,
por que lado de calçada circular, condução
a tomar. Assim, somos sempre os mesmos dentro do
S-7.58. Nos conhecemos todos, mas não nos falamos,
raramente nos cumprimentamos. Viajamos
em silêncio.
Sou exceção, grito meu
bom-dia, os rostos se viram aflitos, perplexos.
Depois se voltam para a paisagem, as calçadas
congestionadas. Mais um louco, pensam. Todos
têm certeza, serei apanhado ao descer. No
dia seguinte se surpreendem, sem demonstrar,
quando apareço, cumprimentando.
Três pontos antes do final (deve
ser dez e vinte) senti uma comichão insuportável.
Estava comprimido. Não podia olhar, nem levantar
a mão. Segurava a maleta com a esquerda, com a direita
me apoiava ao varão. Empurrado para a saída, me despedi.
Claro que não responderam.
Acabei de descer, ouvi os
estampidos. Secos, ocos. Tão conhecidos.
Joguei-me rápido ao chão, conforme severas
instruções. Num décimo de segundo, todos em
volta estendidos. Vivemos condicionados,
nossos reflexos aguçados. Como aqueles
ratos que vão comer ao ouvir a campainha.
Quantas vezes por dia me atiro ao chão
nesta cidade. Se alguém filmasse durante
algumas horas, sem registrar o som, veria uma daquelas
velhas comédias de Harold Loyd, o Gordo e o Magro, Mack Sennet.
Deita, levanta, deita, levanta. E os rostos? Todo
mundo apavorado, tenso.
As pessoas disputam
centímetros de calçada. Batem cabeças,
se beijam, ficam rosto a rosto, cheiram o pó, se levantam
imundas, xingam, protestam. Teve um dia que levei
duas horas para vencer duzentos metros até o escritório.
Deita, levanta. Foi tiro para tudo quanto é lado.
Hoje, um tiro só. Os Civiltares são
conhecidos e temidos pela excelente
pontaria e rapidez. O ladrãozinho, ou o que
quer que fosse, garoto ainda (nunca fui bom para determinar
idades), estava estendido, de costas. A
cápsula enterrada no meio da testa. Nenhuma gota
de sangue.
O vermelho da cápsula
me permitiu identificá-la como
Cataléptica. Provoca um estado semelhante à morte
durante duas horas. Quando o atingido acorda, já
está encerrado no Isolamento. E aí, bau-bau,
Nicolau! Nunca mais. Tem quem afirme que a Cataléptica torna a
pessoa idiota.
O Civiltar abaixou-se,
apanhou a carteira, devolveu a um senhor,
ao lado. O homem recolheu-a tranquilamente,
retirou uma nota, entregou ao policial. Os Acertos de
Taxas de Segurança são feitos no ato. Acabou-se a
burocracia, papéis, recibos, guichês, filas,
esperas.
O Civiltar acionou o
walkie-talkie, pedindo carro transportador.
Puxou o atingido para um canto da calçada e
gritou: “Podem se levantar”. Mas a gente sempre dá
um tempo. Quando ocorre um incidente assim, seguem-se
uns quatro ou cinco, os marginais aproveitam
a confusão.
Se bem que não é fácil. Para cada
homem em circulação, existe praticamente
um Civiltar ao seu lado. Eles andam girando a cabeça para
todos os lados e se assemelham a robôs. O treinamento
intensivo desperta neles, compulsivo,
o faro, o instinto. Não sei como, enxergam tudo.
Verdade.
Parece que são treinados
pelos mesmos métodos com que se ensinavam os
antigos cães pastores na polícia militar.
Ficam condicionados e são uma beleza na
eficiência. Por menos que se goste deles, é preciso
reconhecer: evitam catástrofes nesta
cidade. Pior sem eles.
Chegamos a esse ponto. Aceitar os
Civiltares como necessários, suportá-los e
chamá-los de vez em quando. Para mim, ter de fazer isso um
dia vai ser pior que tomar óleo de rícino. O quê? Óleo de
rícino? Ainda existe? Cada coisa de que me lembro de
repente. É engraçado.
A refrescante Casa dos
Vidros de Água. Chego à sua porta, todos os dias, às dez e
quarenta. Tenho meia hora para passear por dentro
dela, sentindo a tranquilidade que
existe ali. Há dois anos não consigo começar o meu dia
sem entrar e visitar a Casa. Cada dia uma seção,
vagarosamente.
Olhei a mão. A mancha estava
de um vermelho vivo e juro que me pareceu perceber
um aumento na depressão. Bem funda. Aperto, não dói.
Coça ainda, mas é uma coceira agradável, dessas
que dão prazer, me arrepia todo. Loucura, na minha idade,
ficar me arrepiando assim com coceiras.
Saio da Casa dos Vidros de Água
sempre abalado com o irreparável. Não
em relação à minha vida. Ao mundo que me cerca, ao ponto a
que as coisas chegaram. Puxa! Não é resignação
que me toma quando deixo a última sala e atravesso
o corredor, artificialmente
esverdeado.
Como se luz opaca atravessasse
floresta espessa, rompendo com
dificuldade a galharia, arbustos, ramos,
folhas, cipós. Este corredor final me acalma, me
reconcilia. Talvez o mal esteja aí. Nessa
reconciliação. Há uma interrupção
brusca quando passo do corredor para a saída.
Todo dia passeio pelo deserto,
broto no vazio de salas e corredores. A sensação
de que tudo é meu é reconfortante. Egoísmo.
Mas para mim é como se as pessoas conspurcassem
este recinto, quase igreja, catedral de nossos
tempos, com seus santos, divindades, imagens.
Certamente, do ponto de vista
prático, a Casa é inútil e o que ela exibe também.
Coisas perdidas no tempo, irrecuperáveis.
Tudo funciona em torno da utilidade,
conveniência ou não. Esta Casa talvez tenha
sido a última obra considerada sem valor
prático para a civilização.
Não devia estar na Casa. Entro aqui
me perguntando o porquê de tudo. Sem ter o que
responder. Mesmo assim, entro. Me forço a isso, acho
necessário. Se perder essa lucidez que começo
a adquirir, estarei morto. Como os calendários
inalterados que dormem no quartinho de
minha casa.
Encontrar uma saída. Se as pessoas
quisessem, haveria possibilidades.
Não há querer, ninguém vê nada. Todos tranquilos,
aceitam o inevitável. Os jornais não dizem
palavra. Calaram-se aos poucos. Mesmo que falassem,
não têm força nenhuma. A televisão está vigiada.
Ainda que não estivesse, a
ela nada interessa. Os noticiários são
inócuos. Novelas, inaugurações, planos do
governo, promessas de ministros. Como acreditar
nesses ministros, a maioria centenários?
Quase perpétuos, remanescentes da
fabulosa Época da Grande Locupletação.
O povo ainda fala desses tempos
insondáveis. Eles sobrevivem na tradição
oral. Os livros de história omitem. Quem se der a um
grande trabalho, encontrará nos arquivos
de jornais alguns elementos. Distorcidos, é claro.
Foi um período de intolerância,
amordaçamento, silêncio.
Quando eu dava aulas, os estudantes
perguntavam sobre tais tempos. Eram alunos
que as escolas reputavam incômodos e
terminavam afastados dos cursos. A
direção ouvia as gravações das aulas e me
chamava. Para que eu informasse quem tinha me
interrogado. Denunciasse.
No início, recusava.
Havia justificativas. Naquelas classes
de quinhentos alunos e grandes telões, eu
alegava, era impossível saber quem tinha feito a
Pergunta Intragável, como dizia a direção. Que tamanho
terão as classes hoje? Mil alunos? Bem que gostaria
de saber.
Depois, a situação foi ficando
mais difícil, era sempre em minhas aulas que as
perguntas intragáveis surgiam. A direção
queria saber por quê. Que tipo de coisas eu andava
dizendo fora das classes. Mandaram me seguir,
plantonaram minha casa, grampearam meu
telefone.
Solucionaram obrigando a
pessoa interessada em fazer perguntas a
se identificar antes. Muitos se calaram, outros
preferiram enfrentar punições. “Essa
época de locupletação não existiu. Foi
calúnia”, garantia a direção. “Fala-se
muito, mas onde estão os documentos? Invenções, mitos.
Isso, mitos populares. O
senhor conhece os mitos populares? O saci existe?
O caipora, a mula sem cabeça, o lobisomem?
Que esperança. São fantasias criadas que
se perpetuam para colocar medo nas pessoas. Está
vendo como a tradição oral é coisa perigosa,
traiçoeira?”
Por que os estudantes não
recorriam aos jornais, às bibliotecas públicas,
aos arquivos microfilmados? Tudo em mãos do
governo. Era (ainda é) necessário percorrer
um longo caminho burocrático, buscando
papéis, carimbos, selos. A tarefa se tornava
completamente impossível.
Impossível é o termo. Tive alunos
que gastaram anos e, quando obtiveram o
último nihil obstat, os arquivos se mudaram.
Antigos funcionários foram removidos e os
novos, avisados, não reconheceram as
autorizações. Os alunos tentavam
outra vez, a tática do governo era clara.
Quando passo pelos bairros da
Circunstancial Número 14, vejo os prédios imensos onde
está guardada a memória nacional. Ninguém sabe
que fatos estão depositados ali. Para não dizer das
pastas carimbadas: A SEREM ABERTAS DENTRO DE
DOIS SÉCULOS. São documentos da Locupletação.
– Tio.
– Dois séculos, imagine...
– O quê?
Meu sobrinho,
instintivamente, antes de me estender a
mão, ia erguendo a palma em continência. Não
aceitei, interrompi, puxei-o para mim e dei um
grande abraço. Ele se conservou rígido,
ainda que o rosto fosse sorridente e cordial.
Também sempre foi como um filho para nós.
– O que faz por aqui, tio?
– Visitava a Casa dos Vidros.
– Saudosismo?
_ Ééé, quem sabe?
– Fui promovido, tio.
Sou o primeiro do Novo Exército a atingir o posto de
capitão aos vinte e três anos.
Fiz uma continência
irônica. Ele respondeu, a sério. Sempre foi
circunspecto, compenetrado, com
noções de dever e obrigações. Desde criança.
Estava sempre em casa, Adelaide dizia: “Você deve entrar para
o Exército”. Foi quando entendi como ela estava
dentro da realidade.
Muito mais do que eu podia pensar.
Adelaide sempre foi surpresa constante.
Observando nosso relacionamento, vejo que
entendi bem pouco a mulher que tive. Quando menos se esperava,
ela fazia uma observação justa, adequada. Será
tarde demais? Diz o povo que nunca é.
Sim, porque em outros tempos,
no século XVII, ou XVIII, teria dito ao sobrinho: “Vá
ser padre”. Naquele dia, quinze anos atrás, Adelaide começou
uma surda e persistente campanha para que o
menino vestisse farda. Mas não almejava um
simples praça, queria que ele fosse Militecno.
Os melhores postos do país
se encontravam em mãos de Militecnos. Bancos,
ministérios, empresas Multis. E como era difícil
romper as barreiras para se formar um Militecno.
Além de superar toda a carreira militar, quem
suportava as fantásticas anuidades
cobradas pelas universidades?
– Passo lá para comemorar.
Com o senhor e a tia. Posso?
– Eu é que insisto. Nem vou
dizer à sua tia. Vamos fazer surpresa.
– Tem comida?
– O normal.
– Vou tentar algo na
Subsistência. Ah, quer fichas para água?
– Sempre é bom, jamais consegui
me controlar, gasto mesmo.
– E não é para gastar?
– Mas tem o racionamento,
para dividir melhor.
– Racionamento, tio? Pensa que é
para todo mundo?
No fundo, não gosto dele. Uso suas
facilidades. Penso que tenho direito a elas,
contribuo para que o Novo Exército exista com todos
os seus privilégios. Devo explorá-lo.
Afinal, ele deve a mim e a Adelaide o posto, e a carreira.
Quanta roupa ela não lavou? E as comidas?
Eu acordava todos os dias
quinze para as seis, fazia café, arrancava o
preguiçoso da cama. Foram dois anos na Escola
Superior de Integração. Os piores, até ele passar por
todas as provas, principalmente as de
fidelidade, neutralidade
ideológica e percepção sensorial.
– Sabe o que vou fazer, tio?
– Não tenho ideia.
– Vou visitar essa tal Casa dos
Vidros.
– Boa coisa.
– Quero ver como estão
aproveitando esse prédio enorme.
Desta vez correspondeu
ao abraço, soltando o corpo. Como posso gostar
desse sobrinho quando sei ao que ele pertence? Se
tenho plena consciência do que será o país na mão dele
dentro de alguns anos? Se houver alguns anos. Tenho as
cartas dele, conheço suas ideias.
Nenhuma vontade de
trabalhar. A coceira volta, fico impressionado.
O centro de minha mão está afundando. Só pode ser
delírio provocado pelo calor. Agarro o braço de
um homem, ele se assusta. Sei o risco que corro, toda reação
é admitida quando se trata da própria
segurança.
– Calma, meu senhor, calma. Olhe, me
desculpe, mas preciso saber. Olhe a minha mão.
Tem um afundamento aí?
Ele procurou se livrar. Viu
a mão e talvez tenha se apavorado mais. Ninguém
garante que isso não seja contagioso. Só não
saiu correndo porque é impossível correr
nestas calçadas atravancadas. Para
mim, a realidade é este afundamento,
sem dor, coceira. Inexplicável como tudo hoje em dia.
Ir ao médico é bobagem,
melhor esperar. Estou desmentindo Adelaide, ela
me julgava hipocondríaco. Não
acreditava em minhas dores de cabeça, nos
mal-estares do estômago. Ergui os olhos. Uma
sensação inquietante de alto a baixo. O homem
careca me olhava penetrante,
ameaçador.
Ignácio de Loyola Brandão, em Não verás país nenhum
Um degrau acima: o silêncio
Até hoje eu por assim dizer não
sabia que se pode não escrever. Gradualmente, gradualmente até que
de repente a descoberta tímida: quem sabe, também eu já poderia
não escrever. Como é infinitamente mais ambicioso. É quase
inalcançável.
Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida
Correnteza
2
Cainho atravessa a porta do quarto
para a sala e encontra a mãe desperta, uma caneca de café na mão e
a face contra a luz da janela. O rosto está marcado de maquiagem —
olhos pretos e delineados, as sobras de um batom vermelho — e, por
trás da máscara, o semblante rígido, cansado, preocupado. O filho
percebe, pela roupa, que a mãe saiu para encontrar o namorado da
vez, alguém que ele ainda não conhece porque ela é muito reservada
para comentar seus casos amorosos. Talvez ela nem tenha dormido. Deve
ter voltado na hora em que ele escutou o cachorro da casa ao lado
latir, noite alta ainda, e as grades do portão rangeram e a porta
bateu sem cuidado e a luz do quarto se acendeu para Rita Preta se
certificar de que todos estavam em casa. Cainho despertou com a
movimentação, cobriu os olhos para se proteger da luz. A mãe
recolheu o uniforme de Juca do chão, dobrou-o e o dispôs na cadeira
ao lado da cama. O caçula tinha o sono profundo, a boca aberta,
estava descoberto à mercê dos pernilongos. Ela estendeu o cobertor
sobre o corpo dele. Rita então aproveitou o movimento do filho,
Cainho, que se recobria, para perguntar por Cid. Ele não sabia.
“Seu irmão não voltou para casa”,
Rita Preta diz enquanto o filho se aproxima da janela.
Então ela retira o celular da bolsa e
verifica as mensagens. Depois, confere a hora e pergunta onde mora a
garota com quem Cid tem se encontrado. Rita se banha no chuveiro com
pressa, esfrega as mãos com força no rosto para retirar a
maquiagem. Grita que está atrasada. Deveria ter saído para o
trabalho, mas precisa saber onde o filho rebelde se encontra. Em
minutos, veste a roupa limpa, arruma a bolsa e faz promessas mentais
de castigos. Ensaia de maneira involuntária todo o desabafo que fará
quando ele voltar.
Rita pede a Cainho que, caso Cid volte
para casa enquanto ela estiver fora, lhe envie uma mensagem. Ela
estará no trabalho, mas vai conferir o celular de vez em quando para
se inteirar das notícias. Fala como uma pequena tirana, de forma
intempestiva, conferindo ao mesmo tempo se o uniforme está na bolsa,
sem olhar para o filho que se mostra entediado ao escutar a mãe.
Ele tenta dizer, durante o tempo que
ela fala sem parar, que está sem crédito para enviar mensagens.
Então Rita pergunta de maneira
genérica o que tanto eles faziam para esgotarem os créditos tão
rápido. Lembra que poucos dias atrás tinha lhes dado dinheiro.
Ele contra-argumenta dizendo que já
fazia dois meses que ela lhe dera dinheiro. O prazo dos créditos
havia expirado.
Rita Preta sabe que pode estar errada
sobre os poucos dias, mas não cede. Ela guarda aquela sensação
superficial da velocidade do tempo, embora não a externe, pelo menos
não naquele instante. Olha com ar de quem não acredita na desculpa
e pede para Cainho ligar a cobrar, caso tenha notícias do irmão.
“E se ele não chegar?”
Se ele não chegar. Essa não
parece ser uma possibilidade para Rita Preta. Ele chegará. E ela
estará preparada, com o discurso pronto, para o desabafo e as
punições que irá aplicar.
Uma hora qualquer ele chegará,
pondera, e terá de explicar o que andou aprontando. Ela contesta com
segurança, mas ao final já não se sente tão confiante. Se ele não
chegar, Rita argumenta, não é preciso telefonar. A ausência de
notícia é também uma resposta, retruca enquanto pega as chaves
para sair de casa.
“Qual o nome dela mesmo?”
“Dela quem?”
“Da moça com quem seu irmão está
ficando.”
Contudo, antes que Cainho termine de
contar o que sabe, ela o instrui para que lave os pratos e reponha as
garrafas de água na geladeira. Não havia água gelada, e o sol,
muito cedo, já se exibe abrasador.
A casa onde a garota mora fica na base
de uma ladeira íngreme, muito próxima a um córrego malcheiroso que
corta o bairro, infestado de mosquitos. Rita Preta grita — ô de
casa — para verificar se tem alguém.
Quando uma mulher surge na porta
entreaberta, Rita pergunta se Daiane está em casa. Ela se posiciona
do lado de fora, atrás do portão em uma varanda gradeada. A mulher
parece irritada. Informa que é a mãe da garota e diz que a jovem
está dormindo. Rita não se intimida com o mau humor e pergunta se
ela poderia chamar a filha. “Sou a mãe do Cid, amigo dela”, diz,
esperando assim uma boa recepção. A mulher não se demonstra muito
disposta a atendê-la. Diz não conhecê-lo, mantém-se dentro da
casa, respondendo à distância. Rita não quer prolongar a conversa,
mas repete:
“Eles são amigos”, omitindo assim
o que sabe sobre os dois. O filho não dormira em casa e por isso
imaginou que pudesse estar com alguém conhecido.
“Quando ela acordar”, a mulher
inicia a frase disposta a finalizar a importunação, “eu
pergunto.” Quer saber se Rita mora nas redondezas e se compromete a
deixar recado com alguém por lá.
Rita amaldiçoa a mulher enquanto se
afasta da casa. Sente o peso da noite perdida nos olhos irritados,
como se estivessem com grãos de areia. Está atrasada o suficiente
para receber uma advertência da supervisora. Caminha até o ponto de
ônibus sem disfarçar a preocupação, se deveria ou não faltar ao
turno no supermercado para ir à escola ou buscar por mais notícias
do filho junto aos colegas.
Enquanto espera pela condução, sente
na boca o gosto da cerveja que bebeu à noite. Nem por isso o corpo
parece mais leve, mesmo sem ter pisado no chão da seresta e ter
repousado poucas horas nos braços de Jorge. Depois desses encontros,
ela se vê tomada pelo vazio da solidão difícil de explicar —
andar sozinha pela rua onde mora, a cama deserta —, mas dessa vez
não lamenta a ausência do homem, pois o assunto “filho” domina
quase todos os seus pensamentos. Dois dias antes, eles haviam
discutido, os ânimos estavam exaltados quando Rita Preta ameaçou
dar uma surra em Cid se ele não baixasse o tom de voz.
Ela tinha ficado sabendo que Cid
estava faltando às aulas para passear na garupa das bicicletas com
os companheiros de escola. Fátima, sua comadre e vizinha, o avistou
ao voltar mais cedo do trabalho. Contou a Rita. Depois do expediente,
ela se dirigiu à escola para verificar as ausências, e se enfureceu
ao perceber que as faltas eram frequentes nos últimos meses.
A descoberta desencadeou mais uma
briga entre os dois. Gritos. Portas batidas com violência. O choro
sentido do filho mais novo, apavorado com a possibilidade de a mãe e
o irmão se agredirem, preencheu os momentos de algum silêncio no
diálogo exaltado. Rita Preta queria entender de onde Cid havia
tirado aquele vocabulário chulo, enquanto ele disparava mais
xingamentos contra todos. Com os olhos arregalados e visivelmente
furiosa, ela se mostrava perplexa. Cid percorria a casa falando mais
alto, demonstrando desdém. Para atingi-lo ainda mais, ela perguntou
se ele estava usando algo.
“Quer saber se estou usando droga?”,
ele disparou diante dos irmãos.
“Quero saber para te corrigir”,
Rita retrucou, “para saber se você está se misturando com quem
não presta.” Ela prestava atenção nos olhos indignados do filho
e falava “olha seus olhos”, insistindo em saber por que estavam
arregalados. Aquilo era fúria?
Os olhos dos dois estavam bem abertos,
um tentando intimidar o outro com expressões carregadas de uma
energia violenta, atestando que eram feitos da mesma natureza. Ela
intuía que o filho não usava nenhuma substância. Era negligente
com os estudos, parecia distante e pouco afetuoso com a mãe, mas
Rita não considerava que usasse algo, nem mesmo álcool. Contudo,
para machucar, ela trouxe de volta à discussão familiar o fantasma
que assombra as comunidades por onde passou, sobretudo os pais e as
mulheres chefes de família. Reavivou o estigma que recaía sobre
todos como uma mancha, como se fosse um problema destinado a atingir
apenas as pessoas de sua classe, as pessoas com as mesmas origens.
“E se tivesse?”, ele a desafia.
“Pelo menos não iriam te apontar pela rua, como me apontam, por
você sair com uns e outros.”
Rita gritou a palavra “repete” e
procurou por um pedaço de corda guardado estrategicamente embaixo da
pia da cozinha. Faria o malcriado engolir o que havia dito. Já fazia
tempo desde a última surra, e por isso achava que era hora de
puni-lo outra vez. Juca chorava, implorando à mãe que parasse,
enquanto Cainho continuava deitado na cama no cômodo ao lado, com o
travesseiro sobre a cabeça para abafar os sons da discussão.
Ela se aproximou segurando a corda
grossa e, diferente das outras ocasiões, Cid não correu para se
proteger. “Repete”, gritou Rita Preta. Ele olhou nos olhos da mãe
e, para surpresa dela, repetiu o que havia dito. Ela fez um único
movimento com a corda para trás e para a frente, fazendo-a vibrar
como um chicote. Quando a corda atingiu o corpo de Cid, ele a agarrou
e a transformou num cabo de guerra. Nenhum dos dois queria perder
aquela batalha; lutavam arrastando os móveis, empurrando-os para
longe até que Rita caiu no chão e Cid arremessou a corda no
quintal. Mas ele sabia que não tinha vencido. Ela estava suada,
cansada, prometeu se vingar. Não naquele momento, disse ela, mas Cid
não teria vida fácil.
“Não quer estudar”, Rita gritou,
“então vai ter que trabalhar para ajudar a pagar as contas, seu
infeliz.” Disse isso enquanto Juca a ajudava a se levantar, apesar
da recusa por puro orgulho — sentia-se humilhada de ter sido
derrubada por um dos filhos.
Então, até que desse pela ausência
do filho, dois dias se passaram sem que trocassem qualquer palavra,
ou mesmo gesto ou expressão, evitando se olharem nos olhos ou
permanecerem juntos no mesmo espaço diminuto da casa. Eles não
poderiam saber — e talvez Cid até mesmo tenha desejado, num
momento de grande raiva, não falar mais com a mãe —, mas essas
seriam as últimas palavras que trocariam antes que ele
desaparecesse.
Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo
05/09/2026
Vassouras do tempo
Ninguém,
além do tempo,
sabe o nome daquele gari
que limpava a rua
sempre cantando uma música
e segurava a vassoura
como uma parceira
que domina o salão.
Um dia,
não sei se por amor
ou por inveja,
quando passava em frente
a uma padaria
um cliente de sorriso miúdo
ouviu sua canção e ficou indignado.
Uma voz linda
vinda de uma tão boca torta
e um rosto todo marcado,
resolveu perguntar:
"Varrendo a rua… de onde vem
toda essa alegria?"
O bailarino
cheio de poeira nos olhos
em vez de olhar para ele
olhou para o tempo.
Quem já sofreu sabe,
é preciso aprender a reciclar a dor
e colocar um saco plástico
no lugar do coração
quando a vida nos esconde
pra debaixo do tapete.
Entender todo dia pela manhã
que limpar o lixo dos outros
é bem mais fácil que limpar o seu.
Até o cão sem dono sabe
que tempo é o senhor
de todas as respostas.
Mas tempo também é curto,
e assim com um sorriso
mais limpo entre os dentes,
ele respondeu:
“É que não estou varrendo a rua.
Estou varrendo o passado.”
Sérgio Vaz, em Flores da batalha
Inimigos em casa
Outubro de 2008
Dia 2
Que a família está em crise ninguém
se atreverá a negá-lo, por muito que a Igreja Católica tente
disfarçar o desastre sob a capa de uma retórica melíflua que já
nem a ela própria engana, que muitos dos denominados valores
tradicionais de convivência familiar e social se foram pelo cano
abaixo arrastando consigo até aqueles que deveriam ter sido
defendidos dos contínuos ataques desferidos pela sociedade altamente
conflitiva em que vivemos, que a escola moderna, continuadora da
escola velha, aquela que, durante sucessivas gerações, foi
tacitamente encarregada, à falta de melhor, de suprir as falhas
educacionais dos agregados familiares, está paralisada, acumulando
contradições, erros, desorientada entre métodos pedagógicos que
em realidade não o são, e que, demasiadas vezes, não passam de
modas passageiras ou de experimentos voluntaristas condenados ao
fracasso pela própria ausência de madurez intelectual e pela
dificuldade de formular e responder à pergunta, essencial em minha
opinião: que cidadão estamos a querer formar? O panorama não é
agradável à vista. Singularmente, os nossos mais ou menos dignos
governantes não parecem preocupar-se com estes problemas tanto
quanto deveriam, talvez porque pensam que, sendo os ditos problemas
universais, a solução, quando vier a ser encontrada, será
automática, para toda a gente.
Não estou de acordo. Vivemos numa
sociedade que parece ter feito da violência um sistema de relações.
A manifestação de uma agressividade que é inerente à espécie que
somos, e que em tempos pensámos, pela educação, haver controlado,
irrompeu brutalmente das profundidades nos últimos vinte anos em
todo o espaço social, estimulada por modalidades de ócio que
viraram as costas ao já simples hedonismo para se transformarem em
agentes condicionadores da própria mentalidade do consumidor: a
televisão, em primeiro lugar, onde imitações de sangue, cada vez
mais perfeitas, saltam em jorros a todas as horas do dia e da noite,
os vídeo-jogos que são como manuais de instruções para alcançar
a perfeita intolerância e a perfeita crueldade, e, porque tudo isto
está ligado, as avalanchas de publicidade de serviços eróticos a
que os jornais, incluindo os mais bem-pensantes, dão as boas-vindas,
enquanto nas páginas sérias (são-no algumas?) abundam
hipocritamente em lições de boa conduta à sociedade. Que estou a
exagerar? Expliquem-me então como foi que chegámos à situação de
muitos pais terem medo dos filhos, desses gentis adolescentes,
esperanças do amanhã, em quem um “não” do pai ou da mãe,
cansados de exigências irracionais, instantaneamente desencadeia uma
fúria de insultos, de vexames, de agressões. Físicas, para que não
fiquem dúvidas. Muitos pais têm os seus piores inimigos em casa:
são os seus próprios filhos. Ingenuamente, Ruben Darío escreveu
aquilo da “juventud, divino tesoro”. Não o escreveria hoje.
José Saramago, em O caderno
Literatura socialista e comunista
O SOCIALISMO REACIONÁRIO
O SOCIALISMO FEUDAL
Devido à sua posição histórica, as
aristocracias da França e da Inglaterra viram-se chamadas a lançar
libelos contra a sociedade burguesa. Na revolução francesa de julho
de 1830 e no movimento reformador inglês, tinham sucumbido mais uma
vez sob os golpes desta odiada arrivista. Elas não podiam mais
travar uma luta política séria; só Ihes restava a luta literária.
Ora, também no domínio literário, tornara-se impossível a velha
fraseologia da Restauração.
Para criar simpatias, era preciso que
a aristocracia fingisse descurar seus próprios interesses e
dirigisse sua acusação contra a burguesia, aparentando defender
apenas os interesses da classe operária explorada. Desse modo,
entregou-se ao prazer de cantarolar sátiras sobre os novos senhores
e de lhe segredar ao ouvido profecias de mau augúrio.
Assim nasceu o socialismo feudal, onde
se mesclavam jeremiadas e libelos, ecos do passado e ameaça sobre o
futuro. Se por vezes a sua crítica amarga, mordaz e espirituosa
feriu a burguesia no coração, sua impotência absoluta de
compreender a marcha da História moderna terminou sempre por um
efeito cômico.
A guisa de bandeira, estes senhores
arvoraram a sacola do mendigo, a fim de atrair o povo; mas logo que
este acorreu, notou suas costas ornadas com os velhos brasões
feudais e dispersou-se com grandes gargalhadas irreverentes.
Uma parte dos legitimistas franceses e
a "Jovem Inglaterra", ofereceram ao mundo esse espetáculo
divertido .
Quando os campeões do feudalismo
demonstram que o modo de exploração feudal era diferente do da
burguesia, esquecem uma coisa: que o feudalismo explorava em
circunstâncias e condições completamente diversas e hoje em dia
caducas. Quando ressaltam que sob o regime feudal o proletariado
moderno não existia, esquecem uma coisa: que a burguesia moderna é
precisamente um fruto necessário de seu regime social.
Aliás, ocultam tão pouco o caráter
reacionário de sua crítica, que sua principal queixa contra a
burguesia consiste justamente em dizer que esta assegura sob o seu
regime o desenvolvimento de uma classe que fará ir pelos ares toda a
antiga ordem social,
O que reprovam à burguesia é mais o
ter produzido um proletariado revolucionário, que o haver criado o
proletariado em geral. Por isso, na luta política participam
ativamente de todas as medidas de repressão contra a classe
operária. E, na vida diária, a despeito de sua pomposa Fraseologia,
conformam-se perfeitamente em colher os frutos de ouro da árvore da
indústria e trocar honra, amor e fidelidade, pelo comércio de lã,
açúcar de beterraba e aguardente
Do mesmo modo que o pároco e o senhor
feudal marcharam sempre de mãos dadas, o socialismo clerical marcha
lado a lado com o socialismo feudal. Nada é mais fácil que recobrir
o ascetismo cristão com um verniz socialista. Não se ergueu também
o cristianismo contra a propriedade privada, o matrimônio e o
Estado? E em seu lugar não predicou a caridade e a pobreza, o
celibato e a mortificação da carne, a vida monástica e a igreja? O
socialismo cristão não passa de água benta com que o padre
consagra o despeito da aristocracia.
O SOCIALISMO PEQUENO-BURGUÊS
Não é a aristocracia feudal a única
classe arruinada pela burguesia, não é a única classe cujas
condições de existência se estiolam e perecem na sociedade
burguesa moderna. Os pequenos burgueses e os pequenos camponeses da
Idade Média foram os precursores da burguesia moderna.. Nos países
onde o comércio e a indústria são pouco desenvolvidos, esta classe
continua a vegetar ao lado da burguesia em ascensão.
Nos países onde a civilização
moderna está florescente forma-se uma nova classe de pequeno
burgueses, que oscila entre o proletariado e a burguesia; fração
complementar da sociedade burguesa, ela se reconstitui
incessantemente. Mas os indivíduos que a compõem se veem
constantemente precipitados no proletariado, devido à concorrência;
e, com a marcha progressiva da grande indústria, sentem aproximar-se
o momento em que desaparecerão completamente como fração
independente da sociedade moderna e em que serão substituídos no
comércio, na manufatura, na agricultura, por capatazes e empregados.
Nos países como a França, onde os
camponeses constituem bem mais da metade da população, é natural
que os escritores que se batiam pelo proletariado contra a burguesia,
aplicassem à sua crítica do regime burguês critérios
pequeno-burgueses e camponeses e defendessem a causa operária do
ponto de vista da pequena burguesia. Desse modo se formou o
socialismo pequeno-burguês. Sismondi é o chefe dessa literatura,
não somente na França, mas também na Inglaterra.
Esse socialismo analisou com muita
penetração as contradições inerentes às relações de produção
modernas. Pôs a nu as hipócritas apologias dos economistas.
Demonstrou de um modo irrefutável os efeitos mortíferos das
máquinas e da divisão do trabalho, a concentração dos capitais e
da propriedade territorial, a superprodução, as crises, a
decadência inevitável dos pequenos burgueses e camponeses, a
miséria do proletariado, a anarquia na produção, a clamorosa
desproporção na distribuição das riquezas, a guerra industrial de
extermínio entre as nações, a dissolução dos velhos costumes,
das velhas relações de família, das velhas nacionalidades.
Todavia, a finalidade real desse
socialismo pequeno-burguês é ou restabelecer os antigos meios de
produção e de troca e, com eles, as antigas relações de
propriedade e toda a sociedade antiga, ou então fazer entrar à
força os meios modernos de produção e de troca no quadro estreito
das antigas relações de propriedade que foram destruídas e
necessariamente despedaçadas por eles. Num e noutro caso, esse
socialismo é ao mesmo tempo reacionário e utópico.
Para a manufatura, o regime
corporativo; para a agricultura, o regime patriarcal: eis a sua
última palavra. Por fim, quando os obstinados fatos históricos lhe
fizeram passar completamente a embriaguez, essa escola socialista
abandonou-se a uma verdadeira prostração de espírito.
Karl Marx e Friedrich Engels, em Manifesto do Partido Comunista
Imagem
Haverá ainda, no mundo, coisas tão simples e tão puras como a água bebida na concha das mãos?
Mário Quintana, em Caderno H
04/09/2026
Cântico de júbilo
Ao meu Cony, Carlos Heitor, e a Bia
do lado dele
Meu coração se aflige
quando fôlego lhe falta
para dar manhã bem cedo
o seu rubro mirantã
à voragem do meu sonho.
Sei que a qualquer momento
ele pode deixar de me valer.
Já por três vezes muito perto esteve
do desmaio, mas, fiel a seu destino,
se reergueu, não deixou que meu canto
restasse como insólita lembrança
de palavra feliz emudecida.
Como fulgor de aurora, me levanta
a alegria de ouvir meu coração
batendo firme, cântico de júbilo,
por me ver perseguir, perseverante.
Ele não sabe que algo se germina,
conspira escuro contra o seu fervor.
Nem poderá prever o instante certo
do seu silêncio. Não esteja perto.
Thiago de Mello, em Acerto de contas
A Contadora de Filmes
[5]
Alguns se perguntarão por que meu pai
não ia, ele mesmo, ao cinema; pelo menos quando passassem um filme
mexicano. Meu pai não conseguia andar. Tinha sofrido um acidente de
trabalho que o deixou paralítico da cintura para baixo. Não
trabalhava mais. Recebia uma pensão de invalidez que era uma
miséria, mal dava para comer.
Nem preciso dizer que a gente não
tinha nem para uma cadeira de rodas. Para levá-lo da sala para o
quarto, ou do quarto para a porta da rua – onde ele gostava de
beber sua garrafa de vinho tinto vendo passarem a tarde e seus amigos
–, meus irmãos tinham adaptado as rodas de um velho triciclo na
poltrona. O triciclo tinha sido o primeiro presente de páscoa do meu
irmão mais velho e as rodas não aguentavam muito o peso do meu pai,
dobravam, e era preciso ficar consertando tudo o tempo inteiro.
E a minha mãe? Bom, minha mãe,
depois do acidente, abandonou meu pai. Abandonou meu pai e nos
abandonou, os seus cinco filhos. Assim, num vupt! Por isso lá em
casa meu pai tinha nos proibido de falar dela; da “sirigaita”,
como a chamava com desdém.
“Não me falem dessa sirigaita” –
dizia ele, quando algum de nós, sem querer, deixava escapar a
palavra mamãe.
Depois, entrava no silêncio e a gente
levava horas até conseguir tirá-lo de lá.
Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes
Zoo
O que se passou no cercado grande:
Juntos, o gamo e a ema rimam. Ovinos pastam, os carneiros valentins.
Impõe-se oficialmente aberto o pavão — cauda erguida verde. O
jaburu anda, meticuloso passo angular, desmeias pernas tão suas. Os
carneiros são da Barbaria! A ema persegue os carneiros — a ema que
come cobra. Pulam da grama os gamos deitados, branquipretos,
rabicurtos: feito passarinhos. O jaburu, bico fendidamente, também
corrivoa, com algo de bruxo e de aranha. Só o pavão, melindroso
humilde, fica: coifado com seu buquezinho de violetas.
Guimarães Rosa, em Ave, Palavra
Arpoador
Um itabirano que há cinquenta anos
não revia a cidade natal, deixada aos quinze, voltou lá e ficou
triste; e ficando triste, imprimiu um boletim de que me mandaram um
exemplar. Queixa-se, entre outros males, de que acabaram com as
árvores, notadamente “o encantador e quase secular coqueiro do
saudoso Batistinha”. Fecho os olhos e revejo o coqueiro; junto ao
tronco rugoso, lá vem a imagem do Batistinha, com o bando de gente,
fatos e sensações daquele tempo; e sinto — o que é normal nesse
jogo da evocação — que, destruídas lá fora, as coisas se vão
recompondo cá dentro, até que, com a nossa morte, se acabem de vez
esses coqueiros internos, dos quais só um ou outro sobrevive
guardado em página literária ou alusão histórica.
Agora, quem quiser ver a praia do
Arpoador, é fechar os olhos; e não adianta distribuir boletim, que
a praia não volta, levada que foi pelo mar em fúria ou simplesmente
enlunado. Quem nela se deitou domingo 8, não a encontrou mais
domingo 15; sem aviso, sem consideração a tanto programa dominical
que se organizava no correr da semana, a onda ferrou o dente na areia
clara, e as duas lá se foram, na vertigem. Vão talvez aquietar-se
em pousos longínquos, onde pedras tão nuas como as do Arpoador de
hoje esperam vez. A praia nova atrairá outros corpos, a mesma areia
pisada por pés gentis ou rudes sofrerá novas pressões, mas esse
“momento” na história da areia, que se chamava praia do
Arpoador, está arquivado em nós, tão frágil arquivo.
Não era um bem carioca, mas um bem
nacional. Acendia um desejo em rapazes e moças do Norte, do Oeste,
de Leste: “Quando for ao Rio vou tomar banho no Arpoador”. Mesmo
em países distantes, esse nome está ligado a manhãs de vento e
azul, a montanhas violeta ou cinza presidindo, a um piscar de farol,
a ilhas que mesmo próximas guardam um segredo de solidão; tudo isso
embutido numa sensação de torpor ou euforia, que marcou para sempre
aquele lugar, e ficou sendo como um eflúvio dele.
Em suma, a praia do Arpoador era um
bem dos sentidos, que são ciosos de sua fazenda. Na voluptuosidade
da vista, do tato, da brisa marinha sorvida a pleno, estavam suas
riquezas, logo convertidas em memórias. O amor ali fincou suas
barracas, mas podia fincá-las também a simples amizade, e até a
indiferença sentimental. Não era menor o prazer de banhar-se ou
tostar-se, numa ou noutra situação emotiva. Todos fruíam
igualmente de um mar bravo, limpo, da melhor espuma, da concha mais
finamente colorida. A preferência da gente “bem”, acentuada nos
últimos tempos, não impedia que o lobo solitário ali se esticasse,
e revigorasse ao sol sua misantropia. A praia não tomava partido.
Mas o que tornaria o Arpoador
infrangível na lembrança dos que o frequentavam era a teoria de
corpos jovens a desfilar em suas areias, no cenário de uma
eflorescência sempre cambiante, com a água, a nuvem e o som surdo
se atando e desatando continuamente. Proust, doutor no assunto, se
enlevava diante de uma rapariga em flor, pelo seu estado de forma em
mudança, pois lhe trazia à mente “essa perpétua recriação dos
elementos primordiais da natureza, que contemplamos diante do mar”.
Mas o nosso mar soverteu a praia, e as moças já não pousam ali sua
arquitetura e seu riso. Também não se verá mais, em certa noite do
ano, os devotos de branco acendendo velas na areia, e envolvendo-as
de flores. Sobrou apenas, na vazante, o espaço para uma ou duas
pessoas depositarem sua saudade, sem barraca. Passei por lá ontem e
censurei o mar, que tudo destrói; mas, no rumor que vinha das ondas,
ele parecia explicar-se: “Nada disso, irmão. Estou apenas
trabalhando para a refeitura”*
*O cronista exagerou. A praia
continua. (n. a.)
Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira
03/09/2026
1639 – Lima
Martín de Porres
Tocam fúnebres os sinos das igrejas
de Santo Domingo. À luz das velas, banhado em suores gelados, Martín
de Porres entregou sua alma depois de muito lutar contra o Demônio
com o auxílio de Maria Santíssima e de Santa Catarina Virgem e
Mártir. Morreu em sua cama, com uma pedra como travesseiro e uma
caveira ao lado, enquanto o vice-rei de Lima de joelhos, beijava a
sua mão e lhe rogava que intercedesse para que lhe abrissem um
lugarzinho lá no Céu.
Martín de Porres tinha nascido de uma
escrava negra e seu amo, cavaleiro de tradição e puro solar
espanhol, que não a engravidou para dispor dela como coisa, e sim
para aplicar-lhe o princípio cristão de que na cama todas são
iguais perante Deus.
Aos quinze anos, Martín foi doado ao
convento dos frades dominicanos. Aqui viveu seus trabalhos e
milagres. Nunca o ordenaram sacerdote, por ser mulato; mas abraçando
com amor a vassoura, varreu cada dia os salões, os claustros, a
enfermaria e a igreja. Navalha na mão, barbeava os duzentos curas do
convento; atendia os doentes e distribuía roupa limpa com aroma de
alecrim.
Quando soube que o convento sofria
penúrias de dinheiro, apresentou-se ao prior:
– Ave Maria.
– Gratia plena.
– Que o senhor venda este mulato
cachorro – ofereceu-se.
Deitava em sua cama os mendigos
ulcerosos da rua e orava de joelhos durante toda a noite. Ficava
branco feito neve na luz sobrenatural; brancas almas saíam de seu
rosto quando cruzava o claustro à meia-noite, voando qual divino
meteoro, rumo à solidão de sua cela. Atravessava portas fechadas
com cadeado e rezava, às vezes, ajoelhado no ar, longe do chão; os
anjos o acompanhavam ao côro levando luzes nas mãos. Sem sair de
Lima consolava os cativos em Argel e salvava almas nas Filipinas,
China e Japão; sem mover-se de sua cela, tocava os sinos do angelus.
Curava os moribundos com panos molhados em sangue de galo negro e pó
de sapo e mediante exconjuros aprendidos com sua mãe. Com o dedo
roçava um dente e suprimia a dor e convertia em cicatrizes as
feridas abertas; fazia branco o açúcar escuro e apagava incêndios
com o olhar. O bispo teve de proibir-lhe tantos milagres sem
autorização.
Depois das matinas se despia e
açoitava as próprias costas com um chicote de nervos de boi
amarrados em grossos nós, e enquanto arrancava seu próprio sangue
gritava:
– Vil mulato cachorro! Até quando
vai durar tua vida pecadora?
Com olhos de súplica, lacrimejantes,
sempre pedindo perdão, passou pelo mundo o primeiro santo de pele
escura do branquíssimo santuário da Igreja católica.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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