30/08/2026

Construção | João Ventura

Tanta coisa...

Por @lucasgehre-blog

Momento num café

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.

Manuel Bandeira, em Estrela da manhã

Capítulo Terceiro – Todo trem é uma rua que caminha




•••

Chegara o sábado. Ricardo e Roberto só trabalhavam meio expediente e aproveitavam um pedaço da tarde para ver a beleza do Rio. Aquela beleza que nunca antes os entusiasmara tanto. Mas o Rio, quando os ardores de verão desapareciam, quando o céu se vestia daquele azul de fim de abril e que aumentava ainda mais de azul saudando o mês de maio... Ah! O Rio de Janeiro em toda a sua beleza e esplendor. O mar emborcando de verde nas bordas da cidade. O verde mais verde e luminoso das montanhas. O encantamento dos jardins. A delícia suave da Gávea guardando a umidade das suas matas e dos seus parques. A elegância de Laranjeiras com os seus solares tradicionais. E por cima de tudo a dignidade do Pão de Açúcar, levando turistas e gente dos outros estados (dos outros estados porque eles como bons cariocas nunca tinham subido nem sequer até à Urca) para descortinar a magia da Guanabara, espojando-se aos revérberos do sol. E ainda por cima o Cristo de braços abertos, como se fosse uma grande pomba da paz, abençoando e se extasiando ante tanta maravilha.
Almoçaram quietamente em um restaurante agradável na rua São José e retornavam, como Ricardo dizia, à realidade do nosso mundo. Um mundo que começava na Central do Brasil. Na estação D. Pedro Segundo, coroado pela singularidade da favela e pela pedreira de São Diogo. Depois caminharia até a ponte de Lauro Miller, onde rezava a lenda que o engenheiro se suicidara com medo que a ponte desabasse com o correr dos trens e do tempo. Ele se fora, mas a ponte continuava viva e continuaria ainda por muitos anos...
Aos sábados até os trens pareciam conhecer o dia. Não enchiam tanto. Ou porque o regresso era mais cedo ou porque muita gente continuasse com o mesmo horário de trabalho. Para eles não, eram uns favorecidos pela sorte.
Conseguiram sentar-se calmamente num Campo Grande. Pena que não fosse horário do Mangaratiba, que ia direto a Deodoro e de lá até Bangu.
Vinha a invasão dos vendedores de tudo.
– Sorte grande, minha gente. Cobra, jacaré, elefante.
A mulher caminhava entre os bancos, pelo corredor vazio. Falara sardonicamente para um rapazola:
– Veado, moço?
Mas ouvira a resposta que não esperava.
– Vaca, dona.
Disfarçava ante o riso dos outros e procurava entre os bilhetes.
– Vaca não tem.
– Pensei que tinha.
Os jornais apareciam aos borbotões. Os menos afamados no meio dos outros, os mais baratos também no meio dos outros.
– O Globo, A Noite e O Diário.
Mas a voz do homem forçava o Radical, porque os grandes crimes vinham cheirando a sangue no Radical e na Vanguarda.
– Pentes, agulhas, carretel de linhas e espelhos.
Até santinhos e santões apareciam nessa hora antes de o trem apitar a partida. São Jorge no seu cavalo matando o seu dragão, pequeno. Santa Luzia carregando a travessa com os olhos, grande. São João com os seus cabelos bem encaracolados e com o carneirinho no ombro, pequeno. Santa Terezinha do Menino Jesus carregando rosas, bem grande...
– Cosme e Damião a senhora tem?
– Puxa, com o diabo de tanto santo a senhora vem procurar logo um que não tem.
Ricardo falou, olhando a paisagem humana, e sorriu com bondade.
– Essa gente é gente, Roberto. Essa gente sabe viver e sabe sofrer. É gente de carne mesmo. E eu gosto da vida deles. A verdade é essa.
Seu olhar adquiriu um tom melancólico e ao mesmo tempo profundamente cismativo.
– Sei. Mas hoje é o dia. Não se esqueça, sábado. Nós combinamos que uma resposta será dada.
– Eu sei. Eles vão embora na segunda-feira. Voltarão segunda-feira...
O trem apitou e foi uma correria de gente que vendia procurando as plataformas para descer.
Mal as rodas deram aquele canto de viagem, um menino de três anos, feinho de doer, vestido grotescamente, imitando o trajar de menino rico, abriu num berreiro danado.
– Água, mamãe. Tou cum sede...
A humanidade se comoveu. Sede já é uma coisa horrível em gente grande, quanto mais numa criancinha.
O menino esganiçava.
Alguém perguntou piedosamente.
– Por que não foi no varejo, dona? Lá, se não dessem água, tinha refresco de limão, laranja, groselha e tamarindo.
– Não deu nem tempo. Eu não podia perder esse trem. Já vinha numa agonia danada, quando saltei na Praça Quinze. Nunca que chegava um bonde “Barcas”. Cheguei aqui estrebuchando. Esse meu filho pesava como chumbo.
A criança aumentava o berreiro. Todo mundo tentava consolar a criança. Que esperasse um pouquinho. Quando chegasse em Engenho de Dentro, pediriam ao fiscalpara demorar a apitar. Teriam tempo de correr no varejo e trazer um copo de qualquer coisa.
Mas o menino arroxeava de gritar. A mãe não sabia que fazer com a criança no colo. Ninava-a, falava doçura, prometia, mas nada. O barulho era de desenvolver ao máximo qualquer pequena dor de cabeça provocada pelo abafamento.
Conseguiram falar com o cobrador, combinaram demorar dois minutos a mais em Engenho de Dentro. Todo mundo se ligando naquela infelicidade comum.
O trem parou. O fiscal combinou. O apito atrasou dois minutos e um voluntário correu até o varejo e veio voando com um copo de refresco de tamarindo. Aproximou-se ofegante e quis ser ele mesmo o intérprete da sua boa ação. Levou o copo à boca da criança e surpresa imensa apareceu: o menino bateu no copo, empurrou a mão e vociferou:
– Num quero.
Aí a coisa mudou.
– Ah!, você não quer? Pois bebo eu.
Virou o copo goela abaixo. Correu a devolver no varejo e só teve tempo de escutar o trem apitar e começar a andar. Pulou na plataforma e foi ajudado por mãos de boa vontade.
O menino chorava ainda.
Um bombeiro gordo e moreno, que devia pelo menos ter vinte anos de serviços prestados à coletividade, inclinou-se para a mulher e aconselhou:
– Tenho visto de tudo na vida, dona. Incêndio, afogamento e naufrágio, mas... mas... se fosse meu filho...
Foi o que fez a mãe. Debruçou o menino feio no colo e sapecou-lhe duas imorredouras palmadas. Naquelas palmadas se traduzia a vontade de pelo menos duzentas mãos naquele carro.
Aí o menino choramingou, choramingou, foi fechando os olhos e, para alívio de todos, adormeceu.
– Ricardo, você prometeu. Hoje é sábado.
Ricardo riu e bateu de leve nos ombros de Roberto, acalmando-o.
– Você vai se espantar com a minha decisão. Eu não voltarei com eles. Eu vou permanecer.
– Mas como? Nós seremos ricos de novo, Ricardo.
– Não. Não irei. Eu descobri a verdade e vou trabalhar para essa gente.
– Mas de que maneira?
– Não sei. Na hora Deus me indicará um jeito.
– Você está brincando, Ricardo. E eu?
Ricardo olhou estranhamente para o irmão, mas mesmo assim nos seus olhos existiam um mundo de ternura e compreensão.
– Pois você volta com eles. Só isso.
– Você vai preferir ficar nesse mundo de sacrifícios? Nesse mundo de viagens intermináveis, num universo de uma casinha modesta e apertada, em vez de...
– Certo. Em vez de um mundo egoísta e falso. Cínico e de desamor. Vou ficar. E quando vocês partirem, claro que sentirei a sua falta.
– E Mabel? Mabel é nossa mãe.
– Mabel será feliz. Vai esquecer tudo que passou e voltar ao seu modo de olhar a felicidade. O tempo milagroso tudo apaga, menos as rugas da velhice.
– Você crê, Ricardo?
– Mas o tempo ameniza as rugas da velhice.
Fez uma pausa e foi tomado de uma certa emoção.
– E quando todos partirem, deixarei até o emprego. Não vou mais trabalhar. Só minha alma trabalhará. Vou viver mais próximo dessa gente e ajudá-la.
– De que modo?
– Na hora resolveremos: Deus e eu.
– Ricardo, Ricardo! Como poderá você viver sem nada?
– É suficiente a base. Pedirei que me deixem a casa em troca do bem a que terei direito. Tendo essa base tudo se resolverá.
– E se eu quiser ficar? Eu não o deixarei por nada. Você foi a única pessoa naminha vida que significou carinho para mim. E se eu quiser ficar?
Ricardo sentiu um nó na garganta.
– Não exigiria tanto de você. Mas se você ficasse seria uma festa no meu coração.
– E não sentiremos falta de nada do que já tivemos?
– Eu nunca mais senti falta. Desde o primeiro dia que fugi obrigatoriamente daquela fatuidade. Nunca mais eu voltaria a defrontar-me com aquela que foi o meu amor. Você sabe que estou falando a verdade...
Roberto meneou a cabeça, incrédulo.
– Estranho deixar o mundo de ricos para experimentar um mundo, ao que me parece, de renúncias.
– Estranho, por que, meu irmão? Faz muito tempo um homem chamado Gotama, o Buda, abandonou as pompas e riquezas do seu palácio para viver entre os pobres... e foi feliz. Mais tarde outro homem, Francisco de Assis, também deixou o mundo do luxo para conviver com os menos favorecidos, não é verdade?
– Mas eles eram santos!
– Em suas épocas não o foram considerados como tal. Pelo menos no princípio.
Calaram-se. Entretanto, Ricardo fez renascer a conversa.
– Enquanto sobrar o resto do nosso último ordenado, já que a família não precisará dispor dele agora, viveremos humildemente. E quando acabar Deus nos ajudará. Creia. “Os lírios não tecem, nem bordam. Os pássaros do Senhor enchem o mundo apenas com a beleza dos seus cantos...”
Roberto decidira.
– Juro que eu ficarei com você, meu irmão. Será o meu acompanhamento na mais estranha de todas as aventuras.
– Você verá que não. Que tudo é tão simples. Vamos deixar que cresçam nossos cabelos e nossas barbas. Andaremos como dois velhinhos, na calma absoluta. Eu terei noventa e seis e você oitenta e seis. Só isso. E na maior ternura nos aproximaremos da bondade do coração humano. E essa bondade só existe nas mãos de Deus. E todos podem tocar nas mãos de Deus, contanto que haja a sinceridade no âmago do coração.

José Mauro de Vasconcelos, em Rua Descalça

1637 – Mystic Fort




Da descrição de John Underhill, puritano de Connecticut, sobre uma matança de índios pequot.

Eles não sabiam nada de nossa chegada. Estando perto do forte, nos encomendamos a Deus e suplicamos Sua assistência em tão pesada empresa...
Não pudemos outra coisa além de admirar a Divina Providência quando nossos soldados, inexperientes no uso das armas, lançaram uma carga tão cerrada que parecia que o dedo de Deus tivesse posto fogo na mecha. Ao romper do dia, a andanada provocou terror nos índios, que estavam profundamente adormecidos, e escutamos os gritos mais cheios de lamento. Se Deus não tivesse preparado os corações nossos para o Seu serviço, teríamos sido movidos à comiseração. Mas havendo Deus nos despojado de piedade, nos dispusemos a cumprir nosso trabalho sem compaixão considerando o sangue que os índios tinham derramado quando trataram barbaramente e assassinaram a uns trinta de nossos compatriotas. Com nossas espadas na mão direita e nossas carabinas ou mosquetões na mão esquerda, atacamos...
Muitos morreram queimados no forte... Outros foram forçados a sair e nossos saldados os recebiam com as pontas das espadas. Caíram homens, mulheres e crianças; os que escapavam de nós, caíam nas mãos de nossos índios aliados, que esperavam na retaguarda. Segundo os índios pequot havia umas quatrocentas almas nesse forte, e nem mesmo cinco conseguiram escapar de nossas mãos. Grande e lastimável foi a visão do sangue para os jovens soldados que nunca tinham estado na guerra, vendo tanta almas que jaziam de boca arfante no chão e tão amontoadas que em algumas partes não se podia passar.
Se poderia perguntar: por que tanta fúria? (Como alguém disse.) Não deveriam os cristãos ter mais clemência e compaixão? E eu respondo recordando a guerra de David. Quando um povo chegou a tal ponto de sangue e pecado contra Deus e o homem, David não respeita as pessoas, e sim as rasga e destroça com sua espada e lhes dá a morte mais terrível. Às vezes as escrituras declaram que as mulheres e as crianças devem perecer junto a seus pais. As vezes se dão casos diferentes, mas não vamos discutir isso agora. Suficiente luz recebemos da Palavra de Deus, para nossos procederes.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Colmeia

O que não é bom para a colmeia não é bom para a abelha.

Marco Aurélio, em Os Nascimentos

29/08/2026

Mari Jasca | No me llores

 

Fragmento de uma elegia

Naquela face, redonda e cálida,
Corriam livres, em claro friso
De força e graça, de terno e turvo,
Os jogos deleitosos de Jacinto
E as aventuras de Jasão.
Era uma face redonda e cálida
Que transformara em carne e dança
A pedra obscura que a contemplasse,
Tão criadora essa medusa
Fora, ostentada pelos cabelos,
Pelas serpentes que deitariam
Semente sempre, veneno nunca...

Naquele corpo, bizarro e tenro,
Hermes se via, quando Afrodite
Lhe dava forma. E a terra, amante
Dos pés dormentes
Que lhe deixavam nas rochas-ubres,
Nas praias-colos, nos campos-ventres
Marcas de macho de asas cortadas,
Abriu-lhe as coxas de pedra ao tenro
Bizarro corpo que gera em sonho
Que, morto, engendra: nada se perde
Na natureza —
alas!
Transforma-se.

Mário Faustino, em O homem e sua hora

Ainda não!

Aparência

As coisas nem sempre são tão ruins quanto parecem. Mas quase sempre são.

Millôr Fernandes, em A bíblia do caos

Diário de Bernardo Soares


126.

Tenho grandes estagnações. Não é que, como toda a gente, esteja dias sobre dias para responder num postal à carta urgente que me escreveram. Não é que, como ninguém, adie indefinidamente o fácil que me é útil, ou o útil que me é agradável. Há mais subtileza na minha desinteligência comigo. Estagno na mesma alma. Dá-se em mim uma suspensão da vontade, da emoção, do pensamento, e esta suspensão dura magnos dias; só a vida vegetativa da alma — a palavra, o gesto, o hábito — me exprimem eu para os outros, e, através deles, para mim.
Nesses períodos da sombra, sou incapaz de pensar, de sentir, de querer. Não sei escrever mais que algarismos, ou riscos. Não sinto, e a morte de quem amasse far-me-ia a impressão de ter sido realizada numa língua estrangeira. Não posso; é como se dormisse e os meus gestos, as minhas palavras, os meus actos certos, não fossem mais que uma respiração periférica, instinto rítmico de um organismo qualquer.
Assim se passam dias sobre dias, nem sei dizer quanto da minha vida, se somasse, se não haveria passado assim. As vezes ocorre-me que, quando dispo esta paragem de mim, talvez não esteja na nudez que suponho, e haja ainda vestes impalpáveis a cobrir a eterna ausência da minha alma verdadeira; ocorre-me que pensar, sentir, querer também podem ser estagnações, perante um mais íntimo pensar, um sentir mais meu, uma vontade perdida algures no labirinto do que realmente sou.
Seja como for deixo que seja. E ao deus, ou aos deuses, que haja, largo da mão o que sou, conforme a sorte manda e o acaso faz, fiel a um compromisso esquecido.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Vida ao natural

Pois no Rio tinha um lugar com uma lareira. E quando ela percebeu que, além do frio, chovia nas árvores, não pôde acreditar que tanto lhe fosse dado. O acordo do mundo com aquilo que ela nem sequer sabia que precisava como numa fome. Chovia, chovia. O fogo aceso pisca para ela e para o homem. Ele, o homem, se ocupa do que ela nem sequer lhe agradece; ele atiça o fogo na lareira, o que não lhe é senão dever de nascimento. E ela – que é sempre inquieta, fazedora de coisas e experimentadora de curiosidades – pois ela nem se lembra sequer de atiçar o fogo: não é seu papel, pois se tem o seu homem para isso. Não sendo donzela, que o homem então cumpra a sua missão. O mais que ela faz é às vezes instigá-lo: “aquela acha”, diz-lhe, “aquela ainda não pegou.” E ele, um instante antes que ela acabe a frase que o esclareceria, ele por ele mesmo já notara a acha, homem seu que é, e já está atiçando a acha. Não a comando seu, que é a mulher de um homem e que perderia seu estado se lhe desse ordem. A outra mão dele, a livre, está ao alcance dela. Ela sabe, e não a toma. Quer a mão dele, sabe que quer, e não a toma. Tem exatamente o que precisa: pode ter.
Ah, e dizer que isto vai acabar, que por si mesmo não pode durar. Não, ela não está se referindo ao fogo, refere-se ao que sente. O que sente nunca dura, o que sente sempre acaba, e pode nunca mais voltar. Encarniça-se então sobre o momento, come-lhe o fogo, e o fogo doce arde, arde, flameja. Então, ela que sabe que tudo vai acabar, pega a mão livre do homem, e ao prendê-la nas suas, ela doce arde, arde, flameja.

Clarice Lispector, em Todos os contos

28/08/2026

Marina Sena | Taiobeiras

 

isso?

isso?
aqui?
já?
assim?

Paulo Leminski, em Toda Poesia

Ponto de vista



Imagine o conto “Angústia” de Tchékhov narrado na primeira pessoa. Um velho nos contando que seu filho acabou de morrer. Nós nos sentiríamos constrangidos, desconfortáveis, até mesmo enfadados, e reagiríamos exatamente como os passageiros do cocheiro reagem na história. Mas a voz imparcial de Tchékhov imbui o velho de dignidade. Nós absorvemos a compaixão do autor por ele e ficamos profundamente comovidos, se não com a morte do filho do velho, certamente com o velho falando com sua égua.
Acho que é porque somos todos muito inseguros.
Quer dizer, se eu só apresentasse a você essa mulher sobre a qual eu estou escrevendo agora…
“Sou uma mulher solteira de quase sessenta anos. Trabalho no consultório de um médico. Volto para casa de ônibus. Todo sábado, lavo minhas roupas na lavanderia, depois faço compras no supermercado Lucky, compro o San Francisco Chronicle de domingo e volto para casa.” Você diria: “Ah, tenha a santa paciência”.
Mas o meu conto abre com “Todo sábado, depois de lavar suas roupas na lavanderia e fazer compras no mercado, ela comprava o Chronicle de domingo”. Você vai dar atenção a todos os detalhezinhos enfadonhos, obsessivos e compulsivos da vida dessa mulher, Henrietta, só porque ele está escrito na terceira pessoa. Vai pensar, bom, se o narrador acha que há alguma coisa nessa criatura melancólica sobre a qual vale a pena escrever, então deve haver mesmo. E vai continuar a ler para ver o que acontece.
Só que não acontece nada. Na verdade, a história ainda nem foi escrita. O que eu espero conseguir fazer é, por meio da utilização de detalhes intricados, tornar essa mulher tão verossímil que você não tenha como deixar de se compadecer dela.
A maioria dos escritores usa acessórios e cenários retirados de sua própria vida. Por exemplo, a minha Henrietta come toda noite seu jantarzinho magro sobre um jogo americano azul, usando belíssimos talheres italianos de inox. Um detalhe estranho, que pode parecer incoerente com essa mulher que corta cupons de desconto de toalhas de papel Brawny, mas que desperta a curiosidade do leitor. Pelo menos eu espero que desperte.
Não creio que eu vá dar nenhuma explicação para isso no conto. Eu mesma como com talheres elegantes desse tipo. Ano passado eu encomendei seis jogos de talheres do catálogo de Natal do Museum of Modern Art. Bem caros, cem dólares, mas valiam. Eu tenho seis pratos e seis cadeiras. Talvez eu possa dar um jantar para seis pessoas, pensei na época. Só que, na verdade, eram cem dólares por seis peças. Dois garfos, duas facas, duas colheres. Um jogo de talheres. Fiquei com vergonha de devolver o jogo; pensei: quem sabe o ano que vem eu compro outro?
Henrietta come com seus talheres bonitos e toma vinho californiano numa taça. Come salada numa tigela de madeira e comida congelada de baixa caloria num prato raso. Enquanto come, lê a seção “Mundo” do Chronicle, onde todos os artigos parecem ter sido escritos pela mesma primeira pessoa.
Henrietta mal pode esperar pela segunda-feira. Está apaixonada pelo dr. B., o nefrologista. Muitas secretárias/enfermeiras se apaixonam pelos “seus” médicos. É uma espécie de síndrome de Della Street.
O dr. B. é baseado no nefrologista para o qual trabalhei. Eu certamente não estava apaixonada por ele. Às vezes brincava dizendo que nós tínhamos uma relação de amor e ódio. Eu o achava tão detestável que isso devia me fazer lembrar o ponto a que relacionamentos amorosos às vezes chegam.
Já Shirley, a minha antecessora, era apaixonada por ele. Ela me mostrou todos os presentes de aniversário que tinha lhe dado. A jardineira com a trepadeira e a pequena bicicleta de latão. O espelho decorado com um coala em vidro fosco. O conjunto de canetas. Ela disse que ele tinha adorado todos os presentes, menos a capa de banco de bicicleta de pele de carneiro felpuda. Ela teve que trocá-la por luvas de ciclista.
Na minha história, o dr. B. ri de Henrietta por causa da capa felpuda, é muito debochado e cruel, como sem dúvida nenhuma era capaz de ser. Na verdade, esse vai ser o clímax do conto, quando Henrietta se dá conta do desprezo que ele sente por ela, de como é patético o amor que ela sente.
No dia em que comecei a trabalhar lá, encomendei aventais de papel. Shirley usava aventais de tecido: “Xadrez azul para os meninos, rosas cor-de-rosa para as meninas”. (Muitos dos nossos pacientes eram tão velhos que usavam andadores.) Todo fim de semana, ela levava os aventais sujos para casa no ônibus e não só os lavava como engomava e passava a ferro. A minha Henrietta vai fazer isso também… passar a ferro aos domingos, depois de fazer faxina no apartamento.
Claro que boa parte da minha história é sobre os hábitos de Henrietta. Hábitos. Não é nem que eles em si sejam tão ruins, é que já duraram tempo demais. Todo sábado, ano após ano.
Todo domingo, Henrietta lê a seção rosa do jornal. O horóscopo primeiro, sempre na página 16, o hábito do jornal. Geralmente as estrelas têm coisas picantes a dizer para Henrietta. “Lua cheia, escorpiana sexy, e você sabe o que isso quer dizer! Prepare-se para arder!”
Aos domingos, depois de fazer faxina e passar a ferro, Henrietta prepara alguma coisa especial para o jantar. Um frango assado, com recheio instantâneo e molho de frutas vermelhas. Purê de ervilha. Uma barra de chocolate Forever Yours de sobremesa.
Depois de lavar a louça, ela assiste ao programa de notícias 60 Minutes. Não é que ela se interesse particularmente pelo programa. Ela gosta mesmo é da equipe de apresentadores. Diana Sawyer, tão bonita e bem-educada, e os homens são todos sensatos, confiáveis e solidários. Ela gosta quando eles se mostram preocupados e balançam a cabeça ou quando é uma matéria engraçada e eles sorriem e balançam a cabeça. Gosta principalmente das imagens do enorme relógio. Do ponteiro dos minutos e do tique-tique-taque do tempo.
Depois ela assiste à série Assassinato por escrito, da qual não gosta, mas não tem mais nada passando.
Estou tendo dificuldade de escrever sobre o domingo. De captar a longa sensação de vazio dos domingos. Nada de correio, roncos distantes de cortadores de grama, o desamparo.
E de descrever a ansiedade de Henrietta pela segunda de manhã. O tique-tique dos pedais da bicicleta dele e o clique quando ele tranca a porta da sua sala para trocar de roupa e vestir o jaleco azul.
“O fim de semana foi bom?”, ela pergunta. Ele nunca responde. Nunca diz oi nem tchau.
À noite ela segura a porta aberta para ele, quando ele está saindo a pé puxando a bicicleta.
“Até amanhã! Vai pela sombra!”, ela diz, sorrindo.
“Que raios isso quer dizer, ir pela sombra? Pelo amor de Deus, para de dizer isso.”
Mas, por mais que ele seja grosseiro com ela, Henrietta acredita que exista um vínculo entre eles. Ele tem um pé torto e manca muito, enquanto ela tem escoliose, uma curvatura na coluna. Uma corcunda, na verdade. Ela é tímida e insegura, mas entende o que o faz ser tão cáustico. Uma vez ele disse que ela tinha as duas qualificações necessárias para ser enfermeira… era “burra e servil”.
Depois de Assassinato por escrito, Henrietta toma um banho, paparicando a si mesma com sais de banho de perfume floral.
Assiste ao noticiário enquanto passa creme no rosto e nas mãos. Já botou água no fogo para fazer chá. Gosta de ver o boletim meteorológico. Os pequenos sóis sobre Nebraska e Dakota do Norte. Nuvens de chuva sobre Flórida e Louisiana.
Recostada na cama, ela beberica seu chazinho de ervas Sleepytime. Sente falta do antigo cobertor elétrico, que tinha um seletor de temperatura com as opções baixa, média ou alta. O cobertor novo era anunciado como o Cobertor Elétrico Inteligente. Ele sabe que não está frio e, então, não fica quente. Ela queria que ele ficasse quente e confortável. Ele é inteligente demais para o gosto dela! Ela ri alto. O som assusta um pouco no quarto pequeno.
Ela desliga a televisão e toma um gole de chá, ouvindo o barulho dos carros que entram e saem do posto de gasolina Arco do outro lado da rua. De vez em quando um carro para em frente à cabine telefônica com uma freada brusca, cantando pneu. Uma porta bate com força e logo o carro arranca e vai embora.
Ela ouve um carro se aproximando devagar da cabine telefônica. Um som alto de jazz vem de dentro do carro. Henrietta apaga a luz e levanta a persiana que fica ao lado da sua cama, só um pouquinho. A janela está embaçada. O rádio do carro toca Lester Young. O homem que está falando ao telefone segura o fone com o queixo. Seca a testa com um lenço. Eu me apoio no peitoril frio da janela e fico observando o homem. Ouço o saxofone melodioso tocar “Polka Dots and Moonbeams”. No vidro embaçado, escrevo alguma coisa. O quê? O meu nome? O nome de um homem? Henrietta? Amor? Seja o que for, eu apago rápido, antes que alguém veja.

Lucia Berlin, em Manual da faxineira: Contos escolhidos

Remédios

A farmácia na roça era simples. Para dor de barriga, chá-de-bico. Para tosse, especialmente tosse de cachorro, chá de poejo e angu quente enrolado em pano aplicado no peito. Para estômago embrulhado, chá de losna. Vômito instantâneo. Para bronquite, inalação: água fervendo com folhas de eucalipto numa caneca sobre a qual se aplicava um funil invertido feito com papel. Para dor de dentes, bochechos com água morna. Os grandes bochechavam com pinga. Se houvesse maiores recursos da ciência, cera Doutor Lustosa, com que se enchia o buraco do dente. Para dor de garganta, gargarejo de água morna e sal. Para espantar os pernilongos, folhas de eucalipto queimadas numa lata, dentro do quarto. Pra picadura de cobra ouvi dizer que duas colheres de querosene é remédio bom. Mas não posso confirmar.

Rubem Alves, em O Velho que Acordou Menino

Bagé



Certas cidades não conseguem se livrar da reputação injusta que, por alguma razão, possuem. Algumas das pessoas mais sensíveis e menos grossas que eu conheço vêm de Bagé, assim como algumas das menos afetadas são de Pelotas.
Mas não adianta. Estas histórias do psicanalista de Bagé são provavelmente apócrifas (como diria o próprio analista de Bagé, história apócrifa é mentira bem-educada), mas, pensando bem, ele não poderia vir de outro lugar.
Pues, diz que o divã no consultório do analista de Bagé é forrado com um pelego. Ele recebe os pacientes de bombacha e pé no chão.
– Buenas. Vá entrando e se abanque, índio velho.
– O senhor quer que eu deite logo no divã?
– Bom, se o amigo quiser dançar uma marca antes, esteja a gosto. Mas eu prefiro ver o vivente estendido e charlando que nem china da fronteira, pra não perder tempo nem dinheiro.
– Certo, certo. Eu...
– Aceita um mate?
– Um quê? Ah, não. Obrigado.
– Pos desembucha.
– Antes, eu queria saber. O senhor é freudiano?
– Sou e sustento. Mais ortodoxo que reclame de xarope.
– Certo. Bem. Acho que o meu problema é com a minha mãe.
– Outro...
– Outro?
– Complexo de Édipo. Dá mais que pereba em moleque.
– E o senhor acha...
– Eu acho uma poca vergonha.
– Mas...
– Vai te metê na zona e deixa a velha em paz, tchê!
Contam que outra vez um casal pediu para consultar, juntos, o analista de Bagé.
Ele, a princípio, não achou muito ortodoxo.
– Quem gosta de aglomeramento é mosca em bicheira...
Mas acabou concordando.
– Se abanquem, se abanquem no más. Mas que parelha buenacha, tchê. Qual é o causo?
– Bem – disse o homem –, é que nós tivemos um desentendimento...
– Mas tu também é um bagual. Tu não sabe que em mulher e cavalo novo não se mete a espora?
– Eu não meti a espora. Não é, meu bem?
– Não fala comigo!
– Mas essa alta mais nervosa que gato em dia de faxina.
– Ela tem um problema de carência afetiva...
– Eu não sou de muita frescura. Lá de onde eu venho, carência afetiva é falta de homem.
– Nós estamos justamente atravessando uma cris e de relacionamento parque ela tem procurado experiências extraconjugais e…
– Epa. Opa. Quer dizer que a negra velha é que nem luva de maquinista? Tão folgada que qualquer um bota a mão?
– Nós somos pessoas modernas. Ela está tentando encontrar o verdadeiro eu, entende?
– Ela ta procurando o verdadeiro tu nos outros?
– O verdadeiro eu, não. O verdadeiro eu dela.
– Mas isto ta ficando mais enrolado que linguiça de venda. Te deita no pelego.
– Eu?
– Ela. Tu espera na salinha.

Luís Fernando Veríssimo, em O Analista de Bagé

27/08/2026

Janelas Abertas | Gal Costa

Hagar, o Horrível

A casa



Passei uma última vez pela livraria José Olympio, na rua do Ouvidor, para conferir minhas recordações com os objetos que a elas estão ligados. Daqui a um mês, esses objetos quedarão guardados em nós, numa caixa invisível, que abrange prateleiras, balcão, vozes, pensamentos, pessoas. Bem sei que a vida é “duração” e mobilidade, como ensina o filósofo, e não há razão de melancolia: a loja será desmanchada para se recompor em edifício novo, nós mesmos, com o tempo, seremos recompostos sob novas espécies, e o fato de não termos consciência física da permanência na transformação não impede o seu alegre desenvolvimento. Olhei para o velho Castilho e o Altamir, procurei o rapazinho Athos, que hoje é homem-feito, perguntei pelo Daniel, que defende outro setor, por todos da velha guarda, e verifiquei de súbito que a própria saudade é dinâmica; eu estava ali há vinte anos passados, desembarcado de Minas, como o próprio José Olympio, de São Paulo. Se alguns “viciados” da casa, como Graciliano Ramos, aparentemente tinham morrido, a glória do nome provava a mentira do desaparecimento. J. O. criara uma coisa que não acaba mais.
A livraria, a princípio, não tinha aquele lugarzinho nos fundos, com o banco para os escritores se sentarem e baterem papo (uma ou duas vezes, trocaram sopapo), esse banco preto que viera da biblioteca de Alfredo Pujol e está agora recolhido à sala de trabalho do editor, como “o banco do Graciliano”. Lá era o escritório de José Olympio, que depois passou ao andar superior. Os literatos foram chegando, José Lins do Rego, Hermes Lima, Jorge Amado, Murilo Mendes, que acabara de converter-se ao catolicismo ortodoxo, Marques Rebelo, a formosura de Adalgisa Nery, o pessimismo de Graciliano, Eneida cordial e sua gargalhada, a ironia de Tarquínio, os derrames de um, as mentiras de outro, e o local foi-se convertendo no que se chama um foco. Rapazes que desembarcassem de um “ita” do Norte ou do trenzinho fumacento de Minas tinham de ir, correndo, respirar aqueles ares ilustres.
Com esse colorido de vanguarda, não havia outra casa no Rio. Mesmo tendo o hábito de percorrer livrarias, era naquela que o escritor pousava para confrontar suas ideias com as dos confrades, para se sentir, não um consumidor de livros, mas um ser caracterizado e participante, às voltas com as dúvidas e complicações inerentes à sua natureza imaginativa e hipersensível, e desejoso de apoio e comunicação.
Por outro lado, não se tratava apenas de uma loja simpática. Era também uma editora revolucionária, que lançava com ímpeto nomes conhecidos de pouca gente ou de ninguém.
Apresentava um livro diferente e elegante, formato padronizado, capa desenhada por Santa Rosa (o que nem sempre era fácil de conseguir, pois o Santa, como a felicidade, não estava onde o procurassem, ou nunca o procuravam onde poderia estar), e o aspecto gráfico e o prestígio da casa acendiam nos escritores o desejo de figurar em seu catálogo. José Olympio editou com o mesmo espírito autores da direita, do centro, da esquerda e do planeta Sírio, e se aos de determinado matiz tocou um papel mais saliente durante certo tempo, isto se deve à tendência da época, aos rumos da sensibilidade, tangida pelos acontecimentos mundiais. J. O. logo se revelou excelente praça, pois não editava apenas, ficava querendo bem aos editados, interessava-se por eles junto a quem de direito, ajudava-os em silêncio, criava em torno da materialidade das relações profissionais uma coisa abstrata mas imperante, a que ele chamou a Casa. J. O. em geral não emprega a primeira pessoa; diz: a Casa. A Casa não pode editar um livro nessas condições, a Casa ficou magoada, a Casa está feliz… O fato é que não se pode compreender a efervescência de ideias, de planos, o sentido socializante da literatura por volta de 35 a 37, sem a presença da Casa. O romance sofrido do Nordeste, situado em 30, ganhou ali direitos de cidade. O modernismo, então ainda ridicularizado por jornais e salões, começou a funcionar como produto editorial, que o público julgaria diretamente. Os “Documentos Brasileiros” se converteram num laboratório de crítica, pesquisa social e interpretação histórica do Brasil. De modo que aquilo era uma loja de livros, à primeira vista; mas tinha alma.
A Casa continua.

Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira