domingo, 31 de maio de 2026

Ed & Bella e os Desgramados | Fulejo de São João

 

O país e o armário

Todo ano, um milhão de mulheres fazem aborto na França. Eu sou uma dessas mulheres. Eu abortei.” O manifesto foi assinado por 343 mulheres e publicado no Nouvel Observateur, em 1971.
O Estado francês tinha duas opções: prender essas mulheres ou reconhecer que elas não fizeram nada de errado. O Estado não prenderia 343 mulheres. Ou melhor: não essas mulheres. Dentre as assinaturas, estavam as de Ariane Mnouchkine, Catherine Deneuve, Jeanne Moreau, Marguerite Duras. A redatora do manifesto era ninguém menos que Simone de Beauvoir. Não prenderam ninguém.
A esse manifesto, seguiram-se outros: 331 médicos assumiram-se a favor da causa. Na Alemanha, 374 mulheres assinaram um manifesto em que diziam: Wir haben abgetrieben. Nós abortamos. Entre as mulheres, Romy Schneider e Senta Berger. Em 1975 o aborto deixa de ser crime na França e passa a ser chamado de “interrupção voluntária de gravidez”. A interrupção passa a ser “livre e gratuita” até a décima semana de gestação.
Estamos muito longe dessa lei por aqui. Nenhum dos candidatos a presidente parece interessado em discuti-la. Tampouco a classe artística está interessada em sair do armário nesse assunto. O Brasil vai na direção oposta. É constrangedor ver os principais candidatos se estapeando pelo eleitorado conservador. Não se trata de propor mudanças, trata-se de vender apego à tradição. “Você me conhece, sabe que eu sou o que mais acredita em Deus, o que mais passou longe de dar a bunda, de cheirar pó, olhem só como minha filha é virgem, olhem só como meu filho é hétero.” Todos estão desesperados pelo voto conservador. Estranhamente, ninguém está nem aí pro voto aborteiro.
Se as eleições, como anuncia o plantão da Globo, são a festa da democracia, essa festa, Dona Globo, está meio caída — ou fui eu que bebi pouco. Na minha opinião, tem pastor demais e maconha de menos. A maioria dos candidatos não fede nem cheira — a não ser um deles, que cheira. Um amigo gay outro dia disse que “levantar bandeira é cafona e quem sai do armário é porque quer atenção”. Amigo, tudo bem, ninguém é obrigado a sair do armário. Mas você não precisa trancar a porta por dentro.
Sair do armário não é um ato exibicionista. Levantar bandeira também não. O manifesto das 343 vagabundas, como ficou conhecido, não permitiu às manifestantes que elas fizessem um aborto. Elas já o tinham feito. Permitiu às suas filhas e netas.
Ateus, maconheiros, vagabundas, pederastas, sapatões e travestis do mundo: uni-vos. Porque o lado de lá tá bem juntinho.
Agosto de 2014

Gregório Duvivier, em Put some farofa

Soneto 18

Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.

Às vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.

Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:

Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.

William Shakespeare, em Sonetos

Nono capítulo — Miragens da Solidão



Olhando as alturas, Muidinga repara nas várias raças das nuvens. Brancas, mulatas, negras. E a variedade dos sexos também nelas se encontrava. A nuvem feminina, suave: a nua-vem, nua-vai. A nuvem-macho, arrulhando com peito de pombo, em feliz ilusão de imortalidade.
E sorri: como se pode jogar com as mais longínquas coisas, trazer as nuvens para perto como pássaros que vêm comer em nossa mão. Se recorda da tristeza que o manchara na noite anterior. Lembra as palavras que trocou com Tuahir:
Tio, eu me sinto tão pequeno...
É que você está só. Foi o que fez essa guerra: agora todos estamos sozinhos, mortos e vivos. Agora já não há país.
A fala de Tuahir ainda agora remexe em seu peito. Mas ele já não parece vencido. E se levanta cheio de uma ideia. Toca nas costas do velho e lhe diz:
Estamos sozinhos, não é, tio?
Tuahir esfrega os ensonados olhos. O miúdo estaria zuca-zaruca? Se estava, era loucura convicta. Porque o moço lhe pede que se junte a ele numa estranha brincadeira.
Tio, vamos fazer um jogo. Vamos fazer de conta que eu sou Kindzu e o senhor é o meu pai!
Seu pai?
Sim, o velho Taímo.
Tuahir negou. O tal Taímo era um falecido. E com os falecidos nunca é bom brincar. Ainda por cima era um morto desconsolado.
Você não sabe o que pode fazer um morto incompleto. Não lhe contei o que sucedeu com o pescador Nipita?
Conte, tio. Se é uma estória me conte, nem importa se é verdade.
Tuahir lembra Nipita, um pescador que fora esfaquinhado pelos bandos armados. Acontecera de noite, o desgraçado voltou de madrugada, vinha buscar as tripas. Deixei-lhes aqui, esbarriguei-me num nadinha, disse num derradeiro sopro. Agora estando quase para morrer, não podia se presentar perante a cova sem estar devidamente completo. Alguém ainda lhe disse: vai que nós te levamos depois as partes que te faltam. E ele se sepultou, assim, destripado. Nunca mais ninguém lhe levou os restos de suas entranhas. O falecido pescador, agora, passava a morte a maldiçoar os viventes.
Está ver? Não se deve brincar com os falecidos.
O miúdo entende os cuidados do velho. Decide argumentar, escolhe as ideias. Mas tio, não vamos fazer pouco. Ao contrário, se esse morto está desconsolado nós vamos lhe dar sossego. Tuahir hesita. O miúdo não dá tempo, insistindo sempre. É brincar no respeito, tio. E já se vai sentando, os espantosos olhos fitando o velho.
Certo, pai?
Pai? Tuahir sacode a cabeça. E fica cismando. Depois de um tempo, porém, sua voz se abre, em fresta de riso.
Certo, Kindzu.
Muidinga, então, se deita ajeitando a cabeça no colo do velho. Seus olhos se perdem no horizonte. O miúdo não esperava que Tuahir aceitasse aquele jogo. Agora parece ser ele que está menos à vontade que o velho.
Estás a ver o monte, Kindzu?, pergunta Tuahir.
Estou. Quem sabe Gaspar anda por lá, neste momento?
Não anda, com certeza. Aquele monte é proibido, disse o velho.
E prosseguiu: aquele era o lugar onde há muito enterraram o régulo marreco. Naquela altura, não havia nenhuma elevação, tudo em volta era planície. O morto começou a crescer debaixo da terra e as suas costas se encurvaram, empurrando o chão.
Foi assim que nasceu a montanha, conclui Tuahir.
Muidinga se embala, entorpecido. À medida que aquele fingimento avança ele já não sabe se o que ali se está passando não está ser tirado do livro, como folha rasgada da própria realidade. Fecha os olhos e vê Tuahir, aliás Taímo, se banhando num lago de sura. O velho sai do charco, escorrendo vinho pelas pernas. Se admira:
Por que estás tão reduzido, filho?
É que trago um desgosto de mulher.
Isso não tem remédio, filho. Eu sei muito bem. Porque eu vivi num tempo em que o amor era uma coisa perigosa. Tu vives num tempo em que o amor é uma coisa estúpida.
E o velho desenrola seu pensamento. Nosso mundo de então era feito de miséria e fome. O que valia o amor, a amizade? O único valor, nos actuais dias, é sobreviver. Muidinga, aliás Kindzu, queria saber da felicidade; os outros queriam saber de comida. Ele procurava bondade; os outros só queriam saber quanta vantagem podiam tirar. À medida que Tuahir fala o miúdo se sente minguar, pequeno, quase sem nenhuma idade. Ele carecia de sua paterna mão. Porém, ao invés de ajudar, o velho lhe pede apoio. Estava com frio, solicitou agasalho. O miúdo lhe cobre com seu corpo. E sente pena de si. Como é que ele, tão menino, tão recém-recente, andava cuidando de seu pai? Como é que a sua mão, do tamanho de um beijo, protegia um homem tão volumoso? E lhe cresce uma grande raiva para com seu pai. Afinal, nunca ele lhe cobrira dos frios, nunca ele o empurrara para fora da tristeza. Ou seria que apenas depois da infância ele poderia ser criança?
Tio, vamos parar esta brincadeira. Já sinto a cabeça me andar à volta.
Tio? Então, Kindzu, agora você me chama de tio? Será que não respeita seu falecido pai?
Não, pai. É que...
E Muidinga se atrapalha em totais confusões. É como se qualquer coisa, lá fundo de seu peito, se estivesse rasgando. E se apercebe que, em seu rosto, desliza o frio das lágrimas. Depois, sente a mão de seu pai lhe afagando a cabeça. Olha o seu rosto e vê que, afinal, seus olhos eram sábios. Foi como se, repente, toda a bondade dele ficasse visível, redonda.
Pai, por que nunca me mostraste como eras, dentro de ti?
Tinha medo, filho. Não podia mostrar esse defeito e dizer: olha este meu coração que nunca cresceu!
Seu pai estava ali, grande, sem mentira. Pela primeira vez alguém lhe dava abrigo. O mundo se estreava, já não havia escuro, não havia frio. O autocarro incendiado, Junhito maldiçoado, os corpos carbonizados, as mãos do pastor Afonso sangrando, tudo isso ficava longe. De repente, o pai se desata a rir. Por um instante, Muidinga receia que o tio deseje quebrar aquele fingimento, cansado da ilusão. Mas não, o velho prossegue a brincriação. E começa a palhaçar, cambalhotando, para lhe fazer soltar gargalhadas. Cada riso do sobrinho lhe dá o gozo de se sentir pai. Cada disparate de Tuahir traz a Muidinga a doçura de ser filho.
Eu só sei brincar, Kindzu. Só te posso ensinar a ficares sempre criança.
Sim, pai. Me ensine.
E eles se rebolam, em folgações mútuas, alegres tresloucuras. Até que exausto, Muidinga se deita no banco do machimbombo. Fazendo de almofada, se amontoam os cadernos de Kindzu. Antes de adormecer o miúdo passa a mão por aquelas folhas, em cúmplice afago.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

Hagar, o Horrível

Banco barroco

Quer comprar o meu banco? Ele não está à venda.
Falava com superioridade de banqueiro que se sabe forte na praça, capaz de resistir à pressão de grupos econômicos poderosos. Tornou-se arrogante:
Não vendo ele de jeito nenhum. Já recusei muitas propostas. Por que havia de vender? Gosto dele, não vai mudar de proprietário enquanto eu for vivo.
Perdão, eu não queria comprar.
Queria então o quê?
Queria permissão para ver. Estou estudando mobiliário barroco, e soube que o senhor tem em casa uma peça valiosa.
Valiosa? Pra mim ele não pode ser avaliado em cruzeiros. Nem em dólar, que aliás hoje não é mais lá essas coisas. O senhor quer ver apenas?
Ver e, com sua licença, fotografar.
Ah, fotografar pra quê? Pra botar no jornal?
Não trabalho em jornal.
Então, trabalha pro governo, já vi tudo. Vem ver o meu banco, tira retrato, faz relatório, depois, pimba: o governo desapropria o meu banco por essa tal de utilidade pública. Muito bonito.
O senhor está completamente enganado. Não sou funcionário público, sou estudante e trabalho no escritório da Light. Olhe aqui as minhas carteiras.
Carteiras? Carteira não prova nada.
Bem, se não acredita…
Prefiro acreditar na sua cara, que me parece de gente de bem. Pode entrar.
A salinha era pobre, só o banco impunha sua classe, misturado a trastes sem estilo.
Século XVII, no duro. Joia.
Eu sei, eu conheço o que é meu.
O senhor permite que eu tome as medidas?
Pra que tirar medida? Não chega tirar retrato?
Para documentar bem a peça. Vou fazer um sucesso danado lá na Escola, com o trabalho sobre este banco.
A desconfiança voltou a acinzentar os olhos do dono:
Sei não. Este seu interesse pelo meu banco…
O senhor está pensando que eu vim a mando de algum antiquário? Dou minha palavra de honra que faço uma pesquisa escolar.
Bom, pode tirar as medidas.
O rapaz aproximou-se, alisou o couro lavrado, com carinho. Banco de igreja nordestina, jacarandá venerando, oito pés retorcidos, duas traves torneadas, como é que um tesouro desses foi parar naquela casinha vulgar de Madureira?
Vou dar ao senhor cópias das fotos.
Não carece, moço. Prefiro olhar pro meu banco do que olhar pro retrato dele.
O senhor… posso saber como essa coisa linda veio ter às suas mãos?
Olha só a curiosidade dele. Eu não falei? Agora tem fiscalização de móveis na casa da gente?
Não precisa responder, é claro. Está se vendo que isto é um bem de família, o senhor herdou de seu pai.
E meu pai de meu avô. Meu avô do pai dele, ou da mãe, sei lá. Negócio muito do antigório.
Mas este banco não é do tempo do seu bisavô. É muito mais antigo.
Como é que eu posso saber quem foi a primeira pessoa da minha família que possuiu este banco? Não sou adivinhão.
Bem, ele saiu duma igreja.
Isso eu sei.
Não estou duvidando de sua família, claro. Absolutamente. Mas seus pais não lhe contaram nada, nada, não lhe falaram de uma tradição da família em torno deste banco?
Ficou pensativo, coçando a testa.
Parece que tinha um padre…
Lógico que tinha um padre.
Vou confiar no senhor. Negócio perdido na fumaceira do tempo, né? a gente pode contar.
Isso.
Uma dona da nossa família era casada com ele. Naquela base, entende? O padre morreu, a comadre guardou o banco de lembrança. O senhor vê que este banco é sagrado. Não vendo ele pra Onassis nenhum. Ninguém tem o direito de sentar nele. Nem eu. Sou pobre mas sustento a honra do passado. Agora que já sabe tudo, o senhor aceita uma xicra de café coado na hora?

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

sexta-feira, 29 de maio de 2026

O “verdadeiro” romance

Bem sei o que é o chamado verdadeiro romance. No entanto, ao lê-lo, com suas tramas de fatos e descrições, sinto-me apenas aborrecida. E quando escrevo não é o clássico romance. No entanto é romance mesmo. Só que o que me guia ao escrevê-lo é sempre um senso de pesquisa e de descoberta. Não, não de sintaxe pela sintaxe em si, mas de sintaxe o mais possível se aproximando e me aproximando do que estou pensando na hora de escrever. Aliás, pensando melhor nunca escolhi linguagem. O que eu fiz, apenas, foi ir me obedecendo.
Ir me obedecendo — é na verdade o que faço quando escrevo, e agora mesmo está sendo assim. Vou me seguindo, mesmo sem saber ao que me levará. Às vezes ir me seguindo é tão difícil — por estar seguindo em mim o que ainda não passa de uma nebulosa — que termino desistindo.
E os romances que escrevo que não passam do título? Porque seria muito difícil escrevê-los ou porque, já tendo uma ideia precisa do desenrolar-se da história, perco a curiosidade de escrevê-la. Embora representando grande risco, só é bom escrever quando ainda não se sabe o que acontecerá. Agora mesmo, neste próprio instante, ou melhor, há alguns instantes em que interrompi para atender ao telefone, nasceu-me um título do que seria um conto ou um romance: O montanhês. O título é sem graça, bem sei. E sei o que seria: não se trataria de um homem das montanhas, mas da subida gradual de um homem através da vida até chegar a um cume simbólico, ou não simbólico de uma montanha, de onde ele veria o seu passado e também o que lhe restava ainda a subir, isto é, um pouco mais de futuro.
E o que ele via não era bonito, nem bom, nem ruim, nem feio, era o que fatalmente a vida fizera dele e sobretudo o que fatalmente ele fizera da vida. E aí vem o problema: até que ponto fora fatal o que ele fizera na vida e esta dele? Até que ponto houvera escolha? Estou me confundindo toda com esta história que jamais escreverei.
E eu, que já viajei bastante e não quero mais viajar, como é que nunca me ocorreu nem ocorrerá jamais escrever um livro de viagens? Com perdão da palavra, sou um mistério para mim. E, ainda fazendo parte deste mistério, por que leio tão pouco? O que era de se esperar é que eu tivesse verdadeira fome de leituras. Também para ver o que os outros fazem. No entanto só consigo ler coisas que, se possível, caminhem direto ao que querem dizer. Não, positivamente, não me entendo. Bem, mas o fato é que mesmo não me entendendo, vou lentamente me encaminhando — e também para o quê, não sei. De um modo geral, para mais amor por tudo. É vago “mais amor por tudo”? Inclusive mais amor inclui uma alerteza maior para achar bonito o que nem mesmo bonito é. E, embora a palavra humano me arrepie um pouco, de tão carregada de sentidos variados e vazios essa palavra foi ficando, sinto que me encaminho para o mais humano. Ao mesmo tempo as coisas do mundo — os objetos — estão se tornando cada vez mais importantes para mim. Vejo os objetos sem quase me misturar com eles, vendo-os por eles mesmos. Então às vezes se tornam fantásticos e livres, como se fossem coisa nascida e não feita por pessoas. Se eu for me encaminhando para o mais humano não quer dizer que eu precise perder essa qualidade que tenho às vezes de enxergar a coisa pela coisa. Porque — e aí vou eu entrando com sofisma só para me defender — se sendo gente eu consigo ir, por que haveria de perder essa capacidade ao me tornar mais gente? Ah, Deus, sinto que é puro sofisma. Aliás o sofisma como forma de raciocínio sempre me atraiu um pouco, passou a ser um de meus defeitos. Explicável porque sempre tive que me defender muito, e com sofismas se consegue. Talvez, quem sabe, eu que agora me defendo menos, largue pelo caminho o raciocínio-sofisma. Talvez eu não precise mais ganhar para me defender. O sofisma faz ganhar muito em discussões — há anos que não discuto — e em explicação para si mesma das próprias ações inexplicáveis etc. De agora em diante eu gostaria de me defender assim: é porque eu quero. E que isso bastasse.
Bem, fui escrevendo ao correr do pensamento e vejo agora ter me afastado tanto do começo que o título desta coluna já não tem nada a ver com o que escrevi. Paciência.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Verônica Ferriani e Nelson Faria | Um Café Lá Em Casa

Luz e harmonia de cores de van Gogh

Vaso com Íris sobre Fundo Amarelo (1889), de Vincent van Gogh

Natureza e Arte

Nenhuma natureza é inferior à arte, pois as artes imitam as naturezas das coisas. Sendo assim, a natureza mais perfeita e abrangente não pode carecer da maestria artística. Agora, todas as artes criam o inferior em prol do superior. Portanto, a natureza universal também o faz.
Nisso está a origem da justiça, e nela as outras virtudes se fundamentam. Afinal, não é possível ser justo ao valorizar as coisas indiferentes, ao ser facilmente iludido e ao ser descuidado e instável.

Marco Aurélio, em Meditações

Terrinas




Chovia em Paris, e não tínhamos guarda-chuva. Saímos do hotel nos esgueirando. (Esgueirar-se: a arte de andar entre pingos de chuva ou sob marquises. Sua principal característica é que nunca dá certo.) Decidimos entrar no primeiro restaurante que aparecesse.
Chamava-se Oeuf à la Poche, numa clara referência ao seu tamanho. Estava vazio. Sentamo-nos, depois de sacudir a água na entrada, com aquele falso ar de habitués que deve nos acompanhar em qualquer lugar absolutamente estranho. Um cachorro veio nos examinar em silêncio e, satisfeito ou desapontado, voltou para o seu lugar perto do balcão. De trás do qual saiu um cabeludo com duas terrinas que colocou sobre a nossa mesa, silencioso como o seu cachorro. Uma terrina continha um patê pela metade. A outra era indecifrável. Dali a pouco, o cabeludo voltou com mais duas terrinas. Depois, mais duas. E mais duas!
Conseguimos identificar champignons, salames, rillettes e pouca coisa mais. Quando trouxe o pão, o cabeludo perguntou se queríamos vinho. Suspirei aliviado. Ele não nos odiava! Pedi um tinto. E como não aparecesse ninguém com um cardápio e eu é que não ia pedir explicações sobre que tipo de restaurante era aquele, afinal, atacamos as terrinas e o pão como quem não espera outra coisa.
Só de baguette foi um quilômetro, e não ficou terrina sobre terrina. Estávamos nos congratulando pela descoberta acidental do restaurante, e tentando nos lembrar de quando tínhamos comido tanto e tão bem quando surgiu uma moça, um pouco menos feminina do que o cabeludo, e perguntou que prato quente iríamos querer, depois da entrada. Tinham boeuf bourguignon, tinham... Pedimos cada um um prato quente, de pura timidez.
Estou recontando esta história sem qualquer proveito social que a redima por que mesmo? Talvez só para dizer que anos depois procuramos o “Oeuf à la Poche” e não o encontramos mais. Suas terrinas muito generosas ou, quem sabe, a melancolia do cachorro tinham derrotado a proposta. Ou talvez seja uma história inspiradora: não confunda os aperitivos que o destino lhe serve com a vida, cedo ou tarde aparecerá o prato quente. Sei lá.
E a chuva em Paris? Não parou. Choveu todos os dias, até que resolvemos tomar uma providência. Compramos guarda-chuvas. Aí ela parou.

Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora

Capítulo 54 — A Pêndula



Saí dali a saborear o beijo. Não pude dormir; estirei-me na cama, é certo, mas foi o mesmo que nada. Ouvi as horas todas da noite. Usualmente, quando eu perdia o sono, o bater da pêndula fazia-me muito mal; esse tique -taque soturno, vagaroso e seco, parecia dizer a cada golpe que eu ia ter um instante menos de vida. Imaginava então um velho diabo, sentado entre dois sacos, o da vida e da morte, a tirar as moedas da vida para dá-las à morte, e a contá-las assim:
Outra de menos...
Outra de menos...
Outra de menos...
Outra de menos...
O mais singular é que, se o relógio parava, eu dava-lhe corda, para que ele não deixasse de bater nunca, e eu pudesse contar todos os meus instantes perdidos. Invenções há, que se transformam ou acabam; as mesmas instituições morrem; o relógio é definitivo e perpétuo; o derradeiro homem, ao despedir-se do sol frio e gasto, há de ter um relógio na algibeira, para saber a hora exata em que morre.
Naquela noite não padeci essa triste sensação de enfado, mas outra, e deleitosa. As fantasias tumultuavam-me cá dentro, vinham umas sobre outras, à semelhança de devotas que se abalroam para ver o anjo-cantor das procissões. Não ouvia os instantes perdidos, mas os minutos ganhados; e de certo tempo em diante não ouvi coisa nenhuma, porque o meu pensamento, ardiloso e traquinas, saltou pela janela fora e bateu as asas na direção da casa de Virgília. Aí achou ao peitoril de uma janela o pensamento de Virgília, saudaram-se e ficaram de palestra. Nós a rolarmos na cama, talvez com frio, necessitados de repouso, e os dois vadios ali postos, a repetirem o velho diálogo de Adão e Eva.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

O Homem que Calculava — Capítulo 23




O bairro humilde em que moramos assinalou hoje o seu primeiro dia glorioso na História.
Beremiz, pela manhã, recebeu inesperadamente a honrosa visita do príncipe Cluzir Schá.
Quando a aparatosa comitiva irrompeu pela rua, terraços e varandas encheram-se de curiosos. Mulheres, velhos e crianças admiravam, mudos e estarrecidos, o maravilhoso espetáculo.
Vinham na frente cerca de trinta cavaleiros montados em soberbos corcéis árabes com arreios tauxiados e gualdrapas de veludo bordado a prata; traziam turbantes brancos com elmos metálicos reluzindo ao sol, mantos e túnicas alvadias, largas cimitarras pendentes de cintas de couro lavrado. Precediam-nos estandartes com o escudo do príncipe — um elefante branco sobre fundo azul. Seguiam-se vários arqueiros e batedores, todos a cavalo.
Encerrando o cortejo surgiu o poderoso Marajá, acompanhado de dois secretários, três médicos e dez pajens. O príncipe trajava uma túnica escarlate, toda adornada com fios de pérolas. No turbante, de uma riqueza inaudita, cintilavam incontáveis safiras e rubis.
Quando o velho Salim viu a sua hospedaria receber aquela majestosa comitiva, foi tomado por um acesso de loucura. Atirou-se ao chão e começou a gritar:
Men ein?(1)
Mandei que um aguadeiro que ali se achava, com ar de basbaque, arrastasse o alucinado amigo para o fundo do pátio, até que a calma voltasse a dominar-lhe o conturbado espírito.
A sala da hospedaria era pequena para conter os ilustres visitantes. Beremiz, maravilhado com a honrosa visita, desceu ao pátio a fim de recebê-los.
O príncipe Cluzir, ao chegar, com seu porte altamente senhoril, saudou o calculista com amistoso salã, e disse-lhe:
O pior sábio é aquele que frequenta os ricos; o maior dos ricos é o que frequenta os sábios!(2)
Bem sei, senhor! — respondeu Beremiz —, que as vossas palavras inspira-as o mais arraigado sentimento de bondade. A pequena e insignificante parcela de ciência que consegui adquirir desaparece diante da infinita generosidade de vosso coração.
A minha visita, ó Calculista — atalhou o príncipe —, é ditada mais pelo egoísmo do que pelo amor à ciência. Depois que tive o prazer de ouvi-lo em casa do poeta Iezid, pensei em oferecer-lhe algum cargo de prestígio em minha corte. Desejo nomeá-lo meu secretário ou diretor do Observatório de Délhi. Aceita? Partiremos dentro de poucas semanas para Meca e de lá para a Índia.
Infelizmente, ó Príncipe generoso — respondeu Beremiz —, não posso afastar-me, agora, de Bagdá. Prende-me a esta cidade sério compromisso. Só poderei ausentar-me daqui depois que a filha do ilustre Iezid tiver aprendido as belezas da Geometria!
Sorriu o marajá e retorquiu:
Se o motivo de sua recusa assenta nesse compromisso, creio que mui breve chegaremos a acordo.
O xeque Iezid disse-me que a jovem Telassim, dados os progressos feitos, dentro de poucos meses estará em condições de ensinar aos ulemás o famoso problema das pérolas do rajá.
Tive a impressão de que as palavras do nosso nobre visitante haviam surpreendido Beremiz. O calculista parecia meio confuso.
E eu muito folgaria — alvitrou ainda o príncipe — em conhecer esse complicado problema que vem desafiando a sagacidade dos algebristas e que remonta, sem dúvida, a um dos meus gloriosos antepassados. Refiro-me ao chamado “problema das pérolas do rajá”.
Beremiz, para atender à curiosidade do marajá, tomou da palavra e discorreu sobre o problema que interessava ao príncipe. E, no seu falar lento e seguro, disse o seguinte:
Trata-se menos de um problema do que de mera curiosidade aritmética. É o seguinte o seu enunciado:
Um rajá deixou às suas filhas certo número de pérolas e determinou que a divisão se fizesse do seguinte modo: a filha mais velha tiraria 1 pérola e um sétimo do que restasse; viria, depois, a segunda e tomaria para si 2 pérolas e um sétimo do restante; a seguir a terceira jovem receberia pérolas e um sétimo do que restasse. E assim sucessivamente.
As filhas mais moças apresentaram queixa a um juiz, alegando que, por esse sistema complicado de partilha, elas seriam fatalmente prejudicadas.
O juiz que — reza a tradição — era hábil na resolução do problema, respondeu prontamente que as reclamantes estavam enganadas e que a divisão proposta pelo velho rajá era justa e perfeita.



E tinha razão. Feita a partilha, cada uma das herdeiras recebeu o mesmo número de pérolas.”
Pergunta-se: Qual o número de pérolas? Quantas as filhas do rajá?
A solução para esse problema não oferece a menor dificuldade.
Vejamos.
As pérolas eram em número de 36 e deviam ser repartidas por 6 pessoas.
A primeira tirou uma pérola e mais um sétimo de 35, isto é, 5; logo, tirou 6 pérolas e deixou 30.
A segunda, das 30 que encontrou, tirou 2 mais um sétimo de 28, que é 4; logo, tirou 6 e deixou 24.
A terceira, das 24 que encontrou, tirou 3 mais um sétimo de 21, ou 3. Tirou, portanto 6, deixando 18 de resto.
A quarta, das 18 que encontrou, tirou 4 e mais um sétimo de 14. E um sétimo de 14 é 2. Recebeu, também, 6 pérolas.
A quinta encontrou 12 pérolas; dessas 12 tirou 5 e um sétimo de 7, isto é, 1; logo, tirou 6.
A filha mais moça recebeu, por fim, as 6 pérolas restantes.
E Beremiz concluiu:
Como vedes, o problema, embora engenhoso, nada tem de difícil. Chega-se à solução sem artifícios ou sutileza de raciocínio.
Nesse momento, a atenção do príncipe Cluzir Schá foi despertada por um número que se achava escrito cinco vezes na parede do quarto; 142.857.
Que significação tem esse número? — perguntou.
Trata-se — respondeu o calculista — de um dos números mais curiosos em Matemática. Ele apresenta, em relação aos seus múltiplos, coincidências interessantes.
Multipliquemo-lo por 2. O produto será:

142.857 × 2 = 285.714

Vemos que os algarismos constitutivos do produto são os mesmos do número dado, em outra ordem. O 14 que se achava à esquerda transportou-se para a direita.
Efetuemos o produto do número 142.857 por 3:

142.857 × 3 = 428.571

Ainda uma vez observamos a mesma singularidade: os algarismos do produto são, precisamente, os mesmo do número, alterada apenas a ordem. O 1 que se achava à esquerda passou para a direita, os outros algarismos lá ficaram, onde estavam.
A mesma coisa ocorre, ainda, quando o número é multiplicado por 4:

142.857 × 4 = 571.428

Notemos, agora, o que vai ocorrer no caso da multiplicação por 5:

142.857 × 5 = 714.285

O algarismo 7 deslocou-se da direita para a esquerda, os restantes permaneceram em seus lugares.
Observemos a multiplicação por 6:

142.857 × 6 = 857.142

Feito o produto nota-se que o grupo 142 permutou, apenas, de posição com 857.
Uma vez chegados ao fator 7, impressiona-nos outra particularidade. O número 142.857 multiplicado por 7 dá como produto o número:

999.999

formado de seis noves!
Experimentemos multiplicar o número 142.857 por 8. O produto será:

142.857 × 8 = 1.142.856

Todos os algarismos do número aparecem, ainda, no produto, com exceção do 7. O 7 do número primitivo foi decomposto em duas partes: 6 e 1. O algarismo 6 ficou à direita e o 1 foi para a esquerda completar o produto.
Vejamos agora o que acontece quando multiplicamos o número 142.857 por 9:

142.857 × 9 = 1.285.713

Observemos com atenção esse resultado. O único algarismo do multiplicando que não figura no produto é o 4. Que teria acontecido com ele? Aparece decomposto em duas parcelas 1 e 3, colocados nos extremos do produto.
Do mesmo modo poderíamos verificar as singularidades que apresenta o número 142.857 quando multiplicado por 11, 12, 13, 15, 17, 18 etc.4
Eis por que o número 142.857 se inclui entre os números cabalísticos da Matemática. Ensinou-me o dervixe Nô-Elin...
Nô-Elin! — repetiu, tomado de vivo júbilo, o príncipe Cluzir Schá. — É possível que tenha conhecido esse sábio?
Conheci-o muito bem, ó Príncipe — respondeu Beremiz. — Com ele aprendi todos os princípios que hoje aplico nas pesquisas matemáticas.
Pois o grande Nô-Elin — explicou o hindu — era amigo de meu pai. Certa vez, vencido pelo desgosto, por ter perdido um filho em combate, numa guerra injusta e cruel, afastou-se da cidade e nunca mais foi visto. Tenho feito várias pesquisas para encontrá-lo, mas até hoje não consegui obter a menor indicação sobre seu paradeiro. Cheguei, até, a admitir que ele tivesse perecido no deserto, devorado pelas panteras. Saberá, acaso, dizer-me onde poderei encontrar Nô-Elin?
Respondeu Beremiz:
Quando parti para Bagdá deixei o sábio Nô-Elin em Khói, na Pérsia, recomendado a três amigos.
Pois logo que eu regresse de Meca iremos à cidade de Khói buscar esse grande ulemá — respondeu o príncipe. — Quero levá-lo para o meu palácio! Poderá você, ó Calculista, auxiliar-me nessa grandiosa empresa?
Senhor! — apoiou Beremiz. — Se é para prestar auxílio e fazer justiça àquele que foi meu guia e mestre, pronto estou para acompanhar-vos, se for preciso, até à Índia.
E, assim, por causa de 142.857, ficou resolvida a nossa viagem à Índia, a terra dos rajás.
O tal número é realmente cabalístico!

Notas:
(1) Para onde? (Para onde me vão levar?)
(2) Verso árabe.

Malba Tahan, em O Homem que Calculava

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Ritchie feat Steve Hackett | Voo de Coração

Armandinho

Anarquia

Anarquia é apenas uma proposta social em que você dá ao palhaço a administração do circo. (E quase sempre ele é muito bem-sucedido).

Millôr Fernandes, em A bíblia do caos

1624 – Lima



A endiabrada”

Luz de lua à uma, anuncia o sino da igreja, e dom Juan de Mogrovejo de la Cerda sai da taverna e se põe a caminhar pela noite de Lima, cheirosa de flores de laranjeira.
Ao chegar no cruzamento da rua do Trato, escuta vozes estranhas ou ecos; para e estica a orelha.
Um tal de Asmodeu está dizendo que mudou várias vezes de residência desde que saiu de Sevilha Ao chegar a Portobelo habitou os corpos de vários mercadores que chamam o engano de trato, o furto de lucro e a gazua de vara de medir; e no Panamá mudou-se e passou a viver dentro de um hipócrita da cavalaria, de nome falso, que sabia de memória a cópia dos duques, o calendário dos marqueses e a ladainha los condes...
Conta uma coisa, Asmodeu. Guardava esse sujeito os mandamentos da cavalaria moderna?
Todos, Amonio. Mentia e não pagava as dívidas nem dava importância ao sexto mandamento; se levantava sempre tarde, falava na missa e sentia frio o tempo inteiro, o que dizem ser de bom gosto. E olha que é difícil sentir frio no Panamá, com aqueles calores que o inferno gostaria de ter. No Panamá as pedras suam e dizem as pessoas: “Depressa com a sopa, que vai esquentar”.
O indiscreto dom Juan de Mogrovejo de la Cerda não pode ver Asmodeu nem Amonio, que se falam de longe, mas basta saber que tais nomes não figuram no santoral e sentir o cheiro do inconfundível bafo de enxofre, que invadiu o ar, como se não bastasse o tema de conversa tão eloquente. Dom Juan esmaga suas costas contra a alta cruz da esquina do Trato, cuja sombra impede, através da rua, que Asmodeu e Amonio se aproximem; faz o sinal da cruz e imediatamente convoca toda uma esquadra de santos para sua proteção e socorro. Mas não pode rezar, porque quer escutar. Não vai perder uma palavra disto.
Asmodeu conta que saiu do corpo daquele cavaleiro para meter-se em um clérigo renegado e depois, na viagem ao Peru, encontrou pousada nas entranhas de uma beata especializada em vender donzelas.
Assim cheguei a Lima, em cujos labirintos muito norte me serão tuas advertências. Dê-me notícias destas dilatadas províncias... São bem ganhados os dinheiros?
Se o fossem, mais desocupado estaria o inferno.
Por que caminho hei de tentar os mercadores?
Procurando que o sejam, e deixando-os.
Pelos superiores, têm aqui amor ou respeito?
Medo.
Pois o que haverá de fazer o que queira prêmio?
Não merecê-lo.
Dom Juan invoca a Virgem de Atocha, busca o rosário, que esqueceu, e aperta o pomo da espada, enquanto continua o questionário sobre Lima que Amonio, depressinha, responde.
E quanto aos presumidos de gala, te pergunto se vestem bem.
Poderiam, pelo muito que todo o ano cortam.
Tanto murmuram?
De maneira que em Lima todas as horas são críticas.
Diz-me agora, por que chamam os Francisco de Panchos, os Luises de Luchos e as Isabelas de Chabelas?
Primeiro para não dizer a verdade, segundo, para não dizer os nomes dos santos.
Sofre então dom Juan um inoportuno ataque de tosse. Escuta gritar: Fujamos, fujamos!, e ao final de um longo silêncio se desgruda da cruz que o protegia. Com os joelhos tremendo, dá uma olhada na rua dos Mercadores e nos postais da Província. Dos boquirrotos, não sobra nem sombra.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Diário de Bernardo Soares

111.

Todo o homem de hoje, em quem a estatura moral e o relevo intelectual não sejam de pigmeu ou de charro, ama, quando ama, com o amor romântico.
O amor romântico é um produto extremo de séculos sobre séculos de influência cristã; e, tanto quanto à sua substância, como quanto à sequência do seu desenvolvimento, pode ser dado a conhecer a quem não o perceba comparando-o com uma veste, ou traje, que a alma ou a imaginação fabriquem para com ele vestir as criaturas, que acaso apareçam, e o espírito ache que lhes cabe.
Mas todo o traje, como não é eterno, dura tanto quanto dura; e em breve, sob a veste do ideal que formámos, que se esfacela, surge o corpo real da pessoa humana, em quem o vestimos.
O amor romântico, portanto, é um caminho de desilusão. Só o não é quando a desilusão, aceite desde o princípio, decide variar de ideal constantemente, tecer constantemente, nas oficinas da alma, novos trajes, com que constantemente se renove o aspeto da criatura, por eles vestida.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Ah, jagunço não despreza quem dá ordens diabradas.


[…]

O que na hora achei, foi que Diadorim estivesse me relembrando de Medeiro Vaz não ter conseguido cruzar a travessia do raso. Mas Diadorim, também, não adivinhou meu espírito. Pois, por aquela conta, mesma, era que eu queria. Sobre o que eu era um homem, em sim, fantasia forra, tendo em nada aqueles perigos, capaz do caso. Para vencer vitória, aonde nenhum outro antes de mim tivesse! Respinguei dessas faíscas constantes. Eu, não! o cujo do orgulho, de mim, do impossível.
Descia e subia a fumaça da noite. Esbarramos. Era numa curta vereda, duns brejos, buritizalzinho. Acendemos fogo. Aí mal dormi, fortíssimo no meu segredo. Um meu primeiro sono, sim. O resto, foi ondas. Reprazer crú dessa espiritação ― eu ardia em mim, e em satisfa contente, feito fosse véspera duma patusqueira.
As forças me amanheceram acordado.
Adiante da gente, o mangabeiral. Depois, o raso. Aí o Liso do Sussuarão ― em fundo e largo, as cinquenta léguas e as quase trinta léguas, das mais. Ninguém me fazia voltar a seco de lá. Aquela hora, eu só não me desconheci, porque bebi de mim ― esses mares. Também eu não ia naquilo sem alguma razão, mas movido merecido. Por conta do Hermógenes? Nossos dois bandos viajavam em guerra e contraguerra, e desenrolando caminhos, por esses Gerais, cães, se caçando. Só que o sertão é grande ocultado demais. Então, eu ia, varava o Liso, ia atacar a Fazenda dele, com família. Ovo é coisa esmigalhável. E a bem. Para vencer justo, o senhor não olhe e nem veja o inimigo, volte para a sua obrigação. Mas eu dava as costas à cobra e achava o ninho dela, para melhor acerto. Ao que, esse não tinha sido o arrojo de Medeiro Vaz?
O dia parava formoso, suando sol, mesmo o vento suspendido. Vi o chão mudar, com a cor de velho, e as lagartixas que percorriam de leve, por debaixo das môitas de caculucage. O pessoal meu não devia de estar com inquietação? Vi uma coruja ― mas corujinha entortadeira; e coruja só agoura mesmo é em centro de noite, quando dá para risã. E cuspi no branco leite duma maria-brava, que toda às sãs cheirosa florescia. Era a hora. Repuxei os freios, bem esbarrando. Equei os meus homens.
Aqui, gente.
Guerreiros em minha presença! Com certo reboliço, como todos vieram, para saber daquela novidade. Declarei a eles. Todos me entenderam? Em fila ― as caras todas ficando iguais. Me seguissem? Ah, nenhum não tinha ar do que ia ser, e que fazia tantos dias eu tencionava. Nem João Goanhá, Marcelino Pampa, João Concliz, nem o Alaripe. Nem Diadorim. Diadorim me olhou tremeluzentemente: de coragem, de disposto. Ele, sim. Mas, os outros? Seria que medissem meu mor atrevimento? Era feito se eu estivesse aloucado extenso.
Porque, o que eu estava mandando, nem Medeiro Vaz mesmo não teria sido capaz de crer: eu queria tudo, sem nada! Aprofundar naquele raso perverso ― o chão esturricado, solidão, chão aventêsma ― mas sem preparativos nenhuns, nem cargueiros repletos de bom mantimento, nem bois tangidos para carneação, nem bogós de couro-crú derramando de cheios, nem tropa de jegues para carregar água. Para que eu carecia de tantos embaraços? Pois os próprios antigos não sabiam que um dia virá, quando a gente pode permanecer deitada em rede ou cama, e as enxadas saindo sozinhas para capinar roça, e as fôices, para colherem por si, e o carro indo por sua lei buscar a colheita, e tudo, o que não é o homem, é sua, dele, obediência? Isso, não pensei ― mas meu coração pensava. Eu não era o do certo: eu era era o da sina! E nem enviei adiante nenhuma patrulha de farejadores ― nem Suzarte, Nelson ou o Quipes, que tapejassem; nem o Tipote para trilhar e entender, ver se divulgava os socorros: alguma grota duvidável d água.
Se o cada um que se valesse, cada um que me seguisse. ― Agora vamos entrar, para pernoitar lá dentro... ― eu determinei. Só era se aviar. Mas o menino Guirigó, mal me ouvindo, falou!
A gente? A gente.
Esse era um menino, eu não devia de mandar alguém conduzir o Guirigó de volta, para que em lugar seguro deixassem? No ar não fiz. Se não, por que era então que ele para tudo tinha vindo? Os outros, não me cumprissem, eu havia de voltar de lá, dar de mão de minha tenção? Nuncas. Só melhor sozinho eu ia. Ia, por meus brancos ossos. Transe, tempo, que esperei a resposta deles. Dei a palavra! Meus homens. Ah, jagunço não despreza quem dá ordens diabradas.
Se amanhã meu dia for, em depois-d’amanhã não me vejo.
Antes de menino nascer, hora de sua morte está marcada!
Teu destino dando em data, da meia-noite tu vivente não passa...
Os que diziam assim eram todos eles, secundando os cabecilhas. Valentes que eram, e como foram se animando. Ao que me obedeciam, ao meu melhor em redor. A gente andou no comum, até ao fim do grameal. Aí, se estava, se esbarrava, frente a frente com o Liso. Rédeas às ordens. A gente se moveu.
Sol em glória. Eu pensei em Otacília; pensei, como se um beijo mandasse. Soltando rédeas, entrei nos horizontes. Aonde entrei, na areia cinzenta, todos me acompanhando. E os cavalos, vagarosos; viajavam como dentro dum mar.
O senhor vê e vê? Alguém a alto me levou, alguém, salvo a um seguinte. Aguas não desmanchavam meu torrão de sal. Ah, nem eu não tive incerteza em mente. Assim fomos. Aí eu em frente adiante.
A fortes braços de anjos sojigado. O digo? Os outros, a em passo em passo, usufruíam quinhão da minha andraja coragem.
[...]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas