16/06/2026
Pequenos contos da cidade pequena
I
O Poeta está deitado de sapatos sobre
a colcha de renda de bilros — relíquia de Vovozinha.
— ... e de melhores dias — suspira
o Anjo, completando-lhe o pensamento.
— Anjo, você está cada vez mais
aburguesado.
— Essa não, menino! Eu não sou
comunista...
II
Do ferro de engomar, que se assoprava
por trás, saíam faíscas como do traseiro do Diabo. As faces de
Marianinha ficavam cada vez mais afogueadas, mais lustrosas e lindas,
como as maçãs artificiais que havia no centro de mesa da sala de
jantar. Não sei por que estou evocando todos esses pormenores —
eles não levam a nenhum enredo notório, desculpem... Eu me aproximo
como um gato, por trás.
III
O auto que passa e a vitrina da
esquina trocam um duelo de reflexos.
IV
Escarrapachadas nas cadeiras da
calçada, as comadres fazem trancinha. Nada lhes escapa. Nem um
ponto. Mas para o menino quieto que ali se acha a tiracolo das tias o
grande escândalo é a Lua, que acaba de surgir, à traição,
enorme, sangrenta, assassina — ao contrário de tudo que se
esperava dela —, logo ali entre as torres da igreja.
V
Noite alta um bêbado passa cantando a
marchinha de um antigo carnaval. Tem uma voz de vidro moído. Uma voz
aguda e esfarelada de velho.
VI
Um rodar, um estrépito de patas.
Abafadamente. Mas já não se haviam sumido, há tempo, esses carros
puxados a cavalo? Sia Carolina acorda e benze-se. É a Morte! É a
Morte que passa, no seu carro fantasma, a visitar seus doentes.
Mário Quintana, em Caderno H
Diário de Bernardo Soares
115.
Assim organizar a nossa vida que ela
seja para os outros um mistério, que quem melhor nos conheça,
apenas nos desconheça de mais perto que os outros. Eu assim talhei a
minha vida, quase que sem pensar nisso, mas tanta arte instintiva pus
em fazê-lo que para mim próprio me tornei uma não de todo clara e
nítida individualidade minha.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
Cabeça do Gregorio
Um grande escritório vazio. Ou
quase: no canto, vemos uma mesa, com um computador velho. Um
funcionário está dormindo. Seu nome é Totoro. Entra um sujeito
engravatado. Totoro acorda.
FISCAL Aqui é o departamento de
ideias da cabeça do Gregorio?
TOTORO Isso.
FISCAL Vazio, né?
TOTORO Ô. Quem é você?
FISCAL Eu trabalho no outro
departamento da cabeça do Gregorio, o de fiscalização de outros
departamentos. E o pessoal tem reclamado muito lá em cima de falta
de ideias.
TOTORO É que eu tô muito pegado.
FISCAL Você não tava dormindo quando
eu cheguei?
TOTORO Não, tava olhando a mesa. Mais
de pertinho. Pra ver se era de madeira. Ou não.
FISCAL Você trabalha aqui?
TOTORO Isso. Eu sou o chefe do
departamento de ideias.
FISCAL Chefe de quem?
TOTORO Do departamento de ideias.
FISCAL Tem mais alguém trabalhando
aqui?
TOTORO Não.
FISCAL Então você é chefe de…?
TOTORO Do departamento de ideias.
FISCAL Tá explicado por que é que
não chega ideia nenhuma.
TOTORO A culpa não é minha. Eu sou
só um intermediário. Eu espero as ideias caírem e copio elas neste
computador. E elas têm chegado muito pouco.
Cai uma bolinha de papel do teto.
FISCAL O que é que é isso?
TOTORO Uma ideia.
FISCAL Você não vai pegar?
TOTORO Em geral eu espero formar um
montinho.
FISCAL Mas aqui já tem umas quatro.
Totoro respira fundo e levanta
impaciente. Pega as bolinhas.
TOTORO É que não vai prestar. Quer
ver? “Batizar um edifício de ‘Edifício é fácil’”.
FISCAL Que merda.
TOTORO Esse tipo de ideia eu nem passo
pra vocês.
FISCAL Obrigado.
TOTORO “Um brasileiro, um americano
e um japonês…” as que começam assim eu nem leio.
FISCAL Aqui tem uma que parece boa:
“Um casal de idosos descobre que eram…”.
TOTORO Isso é do Verissimo.
FISCAL Mas ele roubou do Verissimo?
TOTORO Ele leu. Daí esqueceu que leu.
Agora acha que é dele.
FISCAL “Rita Lee/ Ritalina.” Que
trocadilho merda.
TOTORO Ele não se deu ao trabalho nem
de formular uma frase.
Começa a cair um monte de bolinha.
FISCAL Caraca! Um monte de uma vez só.
TOTORO Relaxa. Isso só acontece
quando ele fuma maconha.
Gregório Duvivier, em Put some farofa
Onde estivestes de noite
“As histórias não têm
desfecho.”
Alberto Dines
“O desconhecido vicia.”
Fauzi Arap
“Sentado na poltrona, com a boca
cheia de dentes, esperando a morte.”
Raul Seixas
“O que vou anunciar é tão novo
que receio ter todos os homens por inimigos, a tal ponto se enraízam
no mundo os preconceitos e as doutrinas, uma vez aceitas.”
William Harvey
A noite era uma possibilidade
excepcional. Em plena noite fechada de um verão escaldante um galo
soltou seu grito fora de hora e uma só vez para alertar o início da
subida pela montanha. A multidão embaixo aguardava em silêncio.
Ele-ela já estava presente no alto da
montanha, e ela estava personalizada no ele e o ele estava
personalizado no ela. A mistura andrógina criava um ser tão
terrivelmente belo, tão horrorosamente estupefaciente que os
participantes não poderiam olhá-lo de uma só vez: assim como uma
pessoa vai pouco a pouco se habituando ao escuro e aos poucos
enxergando. Aos poucos enxergavam o Ela-ele e quando o Ele-ela lhes
aparecia com uma claridade que emanava dela-dele, eles paralisados
pelo que é Belo diriam: “Ah, Ah”. Era uma exclamação que era
permitida no silêncio da noite. Olhavam a assustadora beleza e seu
perigo. Mas eles haviam vindo exatamente para sofrer o perigo.
Os pântanos se exalavam. Uma estrela
de enorme densidade guiava-os. Eles eram o avesso do Bem. Subiam a
montanha misturando homens, mulheres, duendes, gnomos e anões –
como deuses extintos. O sino de ouro dobrava pelos suicidas. Fora da
estrela graúda, nenhuma estrela. E não havia mar. O que havia do
alto da montanha era escuridão. Soprava um vento noroeste. Ele-ela
era um farol? A adoração dos malditos ia se processar.
Os homens coleavam no chão como
grossos e moles vermes: subiam. Arriscavam tudo, já que fatalmente
um dia iam morrer, talvez dentro de dois meses, talvez sete anos –
fora isto que Ele-ela pensava dentro deles.
Olha o gato. Olha o que o gato viu.
Olha o que o gato pensou. Olha o que era. Enfim, enfim, não havia
símbolo, a “coisa” era! a coisa orgíaca. Os que subiam estavam
à beira da verdade. Nabucodonosor. Eles pareciam 20 nabucodonosores.
E na noite se desquitavam. Eles estão nos esperando. Era uma
ausência – a viagem fora do tempo.
Um cão dava gargalhadas no escuro.
“Tenho medo”, disse a criança. “Medo de quê?”, perguntava a
mãe. “De meu cão.” “Mas você não tem cão.” “Tenho
sim.” Mas depois a criancinha também gargalhou chorando,
misturando lágrimas de riso e de espanto.
Afinal chegaram, os malditos. E
olharam aquela sempiterna Viúva, a grande Solitária que fascinava
todos, e os homens e mulheres não podiam resistir e queriam
aproximar-se dela para amá-la morrendo mas ela com um gesto mantinha
todos a distância. Eles queriam amá-la de um amor estranho que
vibra em morte. Não se incomodavam de amá-la morrendo. O manto de
Ela-ele era de sofrida cor roxa. Mas as mercenárias do sexo em
festim procuravam imitá-la em vão.
Que horas seria? ninguém podia viver
no tempo, o tempo era indireto e por sua própria natureza sempre
inalcançável. Eles já estavam com as articulações inchadas, os
estragos roncavam nos estômagos cheios de terra, os lábios túmidos
e no entanto rachados – eles subiam a encosta. As trevas eram de um
som baixo e escuro como a nota mais escura de um violoncelo.
Chegaram. O Mal-Aventurado, o Ele-ela, diante da adoração de reis e
vassalos, refulgia como uma iluminada águia gigantesca. O silêncio
pululava de respirações ofegantes. A visão era de bocas
entreabertas pela sensualidade que quase os paralisava de tão
grossa. Eles se sentiam salvos do Grande Tédio.
O morro era de sucata. Quando a
Ela-ele parava um instante, homens e mulheres, entregues a eles
próprios por um instante, diziam-se assustados: eu não sei pensar.
Mas o Ele-ela pensava dentro deles.
Um arauto mudo de clarineta aguda
anunciava a notícia. Que notícia? a da bestialidade? Talvez no
entanto fosse o seguinte: a partir do arauto cada um deles começou a
“se sentir”, a sentir a si próprio. E não havia repressão:
livres!
Aí eles começaram a balbuciar mas
para dentro porque a Ela-ele era cáustica quanto a não disturbarem
uns aos outros na sua lenta metamorfose. “Sou Jesus! sou judeu!”,
gritava em silêncio o judeu pobre. Os anais da astronomia nunca
registraram nada como este espetacular cometa, recentemente
descoberto – sua cauda vaporosa se arrastará por milhões de
quilômetros no espaço. Sem falar no tempo.
Um anão corcunda dava pulinhos como
um sapo, de uma encruzilhada a outra – o lugar era de
encruzilhadas. De repente as estrelas apareceram e eram brilhantes e
diamantes no céu escuro. E o corcunda-anão dava pulos, os mais
altos que conseguia para alcançar os brilhantes que sua cobiça
despertava. Cristais! Cristais! gritou ele em pensamentos que eram
saltitantes como os pulos.
A latência pulsava leve, ritmada,
ininterrupta. Todos eram tudo em latência. “Não há crime que não
tenhamos cometido em pensamento”: Goethe. Uma nova e não autêntica
história brasileira era escrita no estrangeiro. Além disso, os
pesquisadores nacionais se queixavam da falta de recursos para o
trabalho.
A montanha era de origem vulcânica. E
de repente o mar: a revolta rebentação do Atlântico lhes enchia os
ouvidos. E o cheiro salgado do mar fecundava-os e triplicava-os em
monstrinhos.
O corpo humano pode voar? A levitação.
Santa Tereza d’Ávila: “Parecia que uma grande força me erguia
no ar. Isso me provocava um grande medo.” O anão levitava por
segundos mas gostava e não tinha medo.
– Como é que você se chama, disse
mudo o rapaz, para eu chamar você a vida inteira. Eu gritarei seu
nome.
– Eu não tenho nome lá embaixo.
Aqui tenho o nome de Xantipa.
– Ah, quero gritar Xantipa! Xantipa!
Olhe, eu estou gritando para dentro. E qual é o seu nome durante o
dia?
– Acho que é... é... parece que é
Maria Luísa.
E estremeceu como um cavalo se eriça.
Caiu exangue no chão. Ninguém assassinava ninguém porque já eram
assassinados. Ninguém queria morrer e não morria mesmo.
Enquanto isso – delicada, delicada –
o Ele-ela usava um timbre. A cor do timbre. Porque eu quero viver em
abundância e trairia o meu melhor amigo em troca de mais vida do que
se pode ter. Essa procura, essa ambição. Eu desprezava os preceitos
dos sábios que aconselham a moderação e a pobreza de alma – a
simplificação de alma, segundo minha própria experiência, era a
santa inocência. Mas eu lutava contra a tentação.
Sim. Sim: cair até a abjeção. Eis a
ambição deles. O som era o arauto do silêncio. Porque nenhum
poderia se deixar possuir por Aquele-aquela-sem-nome.
Eles queriam fruir o proibido. Queriam
elogiar a vida e não queriam a dor que é necessária para se viver,
para se sentir e para amar. Eles queriam sentir a imortalidade
terrífica. Pois o proibido é sempre o melhor. Eles ao mesmo tempo
não se incomodavam de talvez cair no enorme buraco da morte. E a
vida só lhes era preciosa quando gritavam e gemiam. Sentir a força
do ódio era o que eles melhor queriam. Eu me chamo povo, pensavam.
– Que é que eu faço para ser
herói? Porque nos templos só entram heróis.
E no silêncio de repente o seu grito
uivado que não se sabia se de amor ou dor mortal, o herói cheirando
mirra, incenso e benjoim.
Ele-ela cobria a sua nudez com um
manto lindo mas como uma mortalha, mortalha púrpura, agora
vermelho-catedral. Em noites sem lua Ela-ele virava coruja. Comerás
teu irmão, disse ela no pensamento dos outros, e na hora selvagem
haverá um eclipse do sol.
Para não se traírem eles ignoravam
que hoje era ontem e haveria amanhã. Soprava no ar uma transparência
como igual homem nenhum havia respirado antes. Mas eles espargiam
pimenta em pó nos próprios órgãos genitais e se contorciam de
ardor. E de repente o ódio. Eles não matavam uns aos outros mas
sentiam tão implacável ódio que era como um dardo lançado num
corpo. E se rejubilavam danados pelo que sentiam. O ódio era um
vômito que os livrava de vômito maior, o vômito da alma.
Ele-ela com as sete notas musicais
conseguia o uivo. Assim como com as mesmas sete notas podia criar
música sacra. Ouviram eles dentro deles o dó-ré-mi-fá-sol-lá-si,
o “si” macio e agudíssimo. Eles eram independentes e soberanos,
apesar de guiados pelo Ele-ela. Rugindo a morte nos porões escuros.
Fogo, grito, cor, vício, cruz. Estou vigilante no mundo: de noite
vivo e de dia durmo, esquivo. Eu, com faro de cão, orgiático.
Quanto a eles, cumpriam rituais que os
fiéis executam sem entender-lhes os mistérios. O cerimonial. Com um
gesto leve Ela-ele tocou numa criança fulminando-a e todos disseram:
amém. A mãe deu um uivo de lobo: ela toda morta, ela, também.
Mas era para ter supersensações que
para ali se subia. E era sensação tão secreta e tão profunda que
o júbilo faiscava no ar. Eles queriam a força superior que reina no
mundo através dos séculos. Tinham medo? Tinham. Nada substituía a
riqueza do silencioso pavor. Ter medo era a amaldiçoada glória da
escuridão, silente como uma Lua.
Aos poucos se habituavam ao escuro e a
Lua, antes escondida, toda redonda e pálida, tinha lhes abrandado a
subida. Eram trevas quando um por um subira “a montanha”, como
chamavam o planalto um pouco mais elevado. Tinham se apoiado no chão
para não cair, pisando em árvores secas e ásperas, pisando em
cactos espinhosos. Era um medo irresistivelmente atraente, eles
prefeririam morrer que abandoná-lo. O Ele-ela era-lhes como a
Amante. Mas se algum ousasse por ambição tocá-la era congelado na
posição em que estivesse.
Ele-ela contou-lhes dentro de seus
cérebros – e todos ouviram-na dentro de si – o que acontecia a
uma pessoa quando esta não atendia ao chamado da noite: acontecia
que na cegueira da luz do dia a pessoa vivia na carne aberta e nos
olhos ofuscados pelo pecado da luz – a pessoa vivia sem anestesia o
terror de se estar vivo. Não há nada a temer, quando não se tem
medo. Era a véspera do apocalipse. Quem era o rei da Terra? Se você
abusa do poder que você conquistou, os mestres o castigarão. Cheios
do terror de uma feroz alegria eles se abaixavam e às gargalhadas
comiam ervas daninhas do chão e as gargalhadas reboavam de
escuridões a escuridões com seus ecos. Um cheiro sufocante de rosas
enchia de peso o ar, rosas malditas na sua força de natureza doida,
a mesma natureza que inventava as cobras e os ratos e pérolas e
crianças – a natureza doida que ora era noite em trevas, ora o dia
de luz. Esta carne que se move apenas porque tem espírito.
Das bocas escorria saliva grossa,
amarga e untuosa, e eles se urinavam sem sentir. As mulheres que
haviam parido recentemente apertavam com violência os próprios
seios e dos bicos um grosso leite preto esguichava. Uma mulher cuspiu
com força na cara de um homem e o cuspe áspero escorreu-lhe da face
até a boca – avidamente ele lambeu os lábios.
Estavam todos soltos. A alegria era
frenética. Eles eram o harém do Ele-ela. Tinham caído finalmente
no impossível. O misticismo era a mais alta forma de superstição.
O milionário gritava: quero o poder!
poder! quero que até os objetos obedeçam as minhas ordens! E direi:
move-te, objeto! e ele por si só se moverá.
A mulher velha e desgrenhada disse
para o milionário: quer ver como você não é milionário? Pois vou
te dizer: você não é o dono do próximo segundo de vida, você
pode morrer sem saber. A morte te humilhará. O milionário: Eu quero
a verdade, a verdade pura!
A jornalista fazendo uma reportagem
magnífica da vida crua. Vou ganhar fama internacional como a autora
de “O exorcista” que não li para não me influenciar. Estou
vendo direto a vida crua, eu a estou vivendo.
Eu sou solitário, se disse o
masturbador.
Estou em espera, espera, nada jamais
me acontece, já desisti de esperar. Eles bebiam o amargo licor das
ervas ásperas.
– Eu sou um profeta! eu vejo o além!
se gritava um rapaz.
Padre Joaquim Jesus Jacinto – tudo
com jota porque a mãe dele gostava da letra jota.
Era dia trinta e um de dezembro de
1973. O horário astronômico seria aferido pelos relógios atômicos,
cujo atraso é de apenas um segundo a cada três mil e trezentos
anos.
A outra deu para espirrar, um espirro
atrás do outro, sem parar. Mas ela gostava. A outra se chamava J.B.
– Minha vida é um verdadeiro
romance! gritava a escritora falida.
O êxtase era reservado para o
Ele-ela. Que de repente sofreu a exaltação do corpo, longamente.
Ela-ele disse: parem! Porque ela se endemoniava por sentir o gozo do
Mal. Eles todos através dela gozavam: era a celebração da Grande
Lei. Os eunucos faziam uma coisa que era proibido olhar. Os outros,
através de Ela-ele, recebiam frementes as ondas do orgasmo – mas
só ondas porque não tinham força de, sem se destruírem, receber
tudo. As mulheres pintavam a boca de roxo como se fosse fruta
esmagada pelos afiados dentes.
O Ela-ele contou-lhes o que acontecia
quando não se iniciava na profetização da noite. Estado de choque.
Por exemplo: a moça era ruiva e como se não bastasse era vermelha
por dentro e além disso daltônica. Tanto que no seu pequeno
apartamento havia uma cruz verde sobre fundo vermelho: ela confundia
as duas cores. Como é que começara o seu terror? Ouvindo um disco
ou o silêncio reinante ou passos no andar de cima – e ei-la
aterrorizada. Com medo do espelho que a refletia. Defronte tinha um
armário e a impressão era que as roupas se mexiam dentro dele. Aos
poucos ia restringindo o apartamento. Tinha medo até de sair da
cama. A impressão de que iam agarrar o seu pé embaixo da cama. Era
magríssima. O seu nome era Psiu, nome vermelho. Tinha medo de
acender a luz no escuro e encontrar a fria lagartixa que morava com
ela. Sentia com aflição os dedinhos gelados e brancos da lagartixa.
Procurava avidamente no jornal as páginas policiais, notícias do
que estava acontecendo. Sempre aconteciam coisas apavorantes para
pessoas, como ela, que viviam só e eram assaltadas de noite. Tinha
na parede um quadro que era o de um homem que a fixava bem nos olhos,
vigiando-a. Essa figura ela imaginava que a seguia por todos os
cantos da casa. Tinha medo pânico de ratos. Preferiria morrer a
entrar em contato com eles. No entanto ouvia os guinchos deles.
Chegava a sentir-lhes as mordidas nos pés. Acordava sempre
sobressaltada, suando frio. Ela era um bicho acuado. Normalmente
dialogava consigo mesma. Dava prós e contras e sempre quem perdia
era ela. Sua vida era uma constante subtração de si mesma. Tudo
isso porque não atendeu ao chamado da sirene.
O Ele-ela só deixava mostrar o rosto
de andrógina. E dele se irradiava tal cego esplendor de doido que os
outros fruíam a própria loucura. Ela era o vaticínio e a
dissolução e já nascera tatuada. O ar todo cheirava agora a fatal
jasmim e era tão forte que alguns vomitavam as próprias entranhas.
A Lua estava plena no céu. Quinze mil adolescentes esperavam que
espécie de homem e mulher eles iriam ser.
Então Ela-ele disse:
– Comerei o teu irmão e haverá um
eclipse total e o fim do mundo.
De vez em quando ouvia-se um longo
relincho e não se via cavalo nenhum. Sabia-se apenas que com sete
notas musicais fazem-se todas as músicas que existem e que existiam
e que existirão. Da Ela-ele emanava-se forte cheiro de jasmim
esmagado porque era noite de Lua cheia. O catimbó ou a feitiçaria.
Max Ernst quando criança foi confundido com o Menino Jesus numa
procissão. Depois provocava escândalos artísticos. Tinha uma
paixão ilimitada pelos homens e uma imensa e poética liberdade. Mas
por que estou falando nisso? Não sei. “Não sei” é uma resposta
ótima.
O que fazia Thomas Edison, tão
inventor e livre, no meio deles que eram comandados por Ele-ela?
Gregotins, pensou o estudante
perfeito, era a palavra mais difícil da língua.
Escutai! os anjos anunciadores cantam!
O judeu pobre gritava mudo e ninguém
o ouviu, o mundo inteiro não o ouvia. Ele disse assim: tenho sede,
suor e lágrimas! e para saciar a minha sede bebo meu suor e minhas
próprias lágrimas salgadas. Eu não como porco! sigo a Torah! mas
dai-me alívio, Jeová, que se parece demais comigo!
Jubileu de Almeida ouvia o rádio de
pilha, sempre. “O mingau mais gostoso é feito com Cremogema.” E
depois anunciava, de Strauss, uma valsa que por incrível que
parecesse chamava-se “O pensador livre”. É verdade, existe
mesmo, eu ouvi. Jubileu era dono do “Ao Bandolim de Ouro”, loja
de instrumentos musicais quase falida, e era tarado por valsas de
Strauss. Era viúvo, ele, quer dizer, Jubileu. Seu rival era “O
Clarim”, concorrente na rua Gomes Freire ou Frei Caneca. Jubileu
era também afinador de pianos.
Todos ali estavam prestes a se
apaixonar. Sexo. Puro sexo. Eles se freavam. A Romênia era um país
perigoso: ciganos.
Faltava petróleo no mundo. E, sem
petróleo, faltava comida. Carne, sobretudo. E sem carne eles se
tornavam terrivelmente carnívoros.
“Aqui, Senhor, encomendo a minha
alma”, dissera Cristóvão Colombo ao morrer, vestido com o hábito
franciscano. Ele não comia carne. Se santificava, Cristóvão
Colombo, o descobridor das ondas, e que descobriu S. Francisco de
Assis. Hélas! ele morrera. Onde estás agora? onde? pelo amor de
Deus, responde!
De repente e bem de leve – fiat lux.
Houve uma debandada assustadiça como
de pardais.
Tudo tão rápido que mais parecia
terem se esvanecido.
Na mesma hora estavam ora deitados na
cama a dormir, ora já despertos. O que existira era silêncio. Eles
não sabiam de nada. Os anjos da guarda – que tinham tirado um
descanso já que todos estavam na cama sossegados – despertavam
frescos, bocejando ainda, mas já protegendo os seus pupilos.
Madrugada: o ovo vinha rodopiando bem
lento do horizonte para o espaço. Era de manhã: uma moça loura,
casada com rapaz rico, dá à luz um bebê preto. Filho do demônio
da noite? Não se sabe. Apuros, vergonha.
Jubileu de Almeida acordou como pão
dormido: chocho. Desde pequeno fora murcho assim. Ligou o rádio e
ouviu: “Sapataria Morena onde é proibido vender caro”. Iria lá,
estava precisando de sapatos. Jubileu era albino, negro aço com
cílios amarelos quase brancos. Ele estalou um ovo na frigideira. E
pensou: se eu pudesse algum dia ouvir “O pensador livre”, de
Strauss, eu seria recompensado na minha solidão. Só ouvira essa
valsa uma única vez, não se lembrava quando.
O poderoso queria no seu breakfast
comer caviar dinamarquês às colheradas, estalando com os dentes
agudos as bolinhas. Ele era do Rotary Club e da Maçonaria e do
Diners Club. Tinha o requinte de não comer caviar russo: era um modo
de derrotar a poderosa Rússia.
O judeu pobre acorda e bebe água da
bica sofregamente. Era a única água que tinha nos fundos da pensão
baratíssima onde morava: uma vez veio uma barata nadando no feijão
ralo. As prostitutas que lá moravam nem reclamavam.
O estudante perfeito, que não
desconfiava que era um chato, pensou: qual era a palavra mais difícil
que existia? Qual era? Uma que significava adornos, enfeites,
atavios? Ah, sim, gregotins. Decorou a palavra para escrevê-la na
próxima prova.
Quando começou a raiar o dia todos
estavam na cama sem parar de bocejar. Quando acordavam, um era
sapateiro, um estava preso por estupro, uma era dona de casa, dando
ordens à cozinheira, que nunca chegava atrasada, outro era
banqueiro, outro era secretário etc. Acordavam, pois, um pouco
cansados, satisfeitos pela noite tão profunda de sono. O sábado
tinha passado e hoje era domingo. E muitos foram à missa celebrada
por padre Jacinto que era o padre da moda: mas nenhum se confessou,
já que não tinham nada a confessar.
A escritora falida abriu o seu diário
encadernado de couro vermelho e começou a anotar assim: “7 de
julho de 1974. Eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu! Nesta bela manhã de um
sol de domingo, depois de ter dormido muito mal, eu, apesar de tudo,
aprecio as belezas maravilhosas da Natureza-mãe. Não vou à praia
porque sou gorda demais e esta é uma infelicidade para quem aprecia
tanto as ondas verdezitas do Mar! Eu me revolto! Mas não consigo
fazer regime: morro de fome. Gosto de viver perigosamente. Tua língua
viperina será cortada pela tesoura da complacência”.
De manhã: agnus dei. Bezerro de ouro?
Urubu.
O judeu pobre: livrai-me do orgulho de
ser judeu!
A jornalista de manhã bem cedo
telefona para sua amiga:
– Claudia, me desculpe telefonar num
domingo a esta hora! Mas acordei com uma inspiração fabulosa: vou
escrever um livro sobre Magia Negra! Não, não li o tal do
Exorcista, porque me disseram que é má literatura e não quero que
pensem que estou indo na onda dele. Você já pensou bem? o ser
humano sempre tentou se comunicar com o sobrenatural desde o antigo
Egito com o segredo das Pirâmides, passando pela Grécia com seus
deuses, passando por Shakespeare no Hamlet. Pois eu também vou
entrar nessa. E, por Deus, vou ganhar essa parada!
Havia em muitas casas do Rio o cheiro
de café. Era domingo. E o rapaz ainda na cama, cheio de torpor,
ainda mal-acordado, se disse: mais um domingo de tédio. Com o que
havia sonhado mesmo? Sei lá, respondeu-se, se sonhei, sonhei com
mulher.
Enfim, o ar clareia. E o dia de sempre
começa. O dia bruto. A luz era maléfica: instaurava-se o
mal-assombrado dia diário. Uma religião se fazia necessária: uma
religião que não tivesse medo do amanhã. Eu quero ser invejado. Eu
quero o estupro, o roubo, o infanticídio, e o desafio meu é forte.
Queria ouro e fama, desprezava até o sexo: amava depressa e não
sabia o que era o amor. Quero o ouro mau. Profanação. Vou ao meu
extremo. Depois da festa – que festa? noturna? – depois da festa,
desolação.
Havia o observador que escreveu assim
no caderno de notas: “O progresso e todos os fenômenos que o
cercam parecem participar intimamente dessa lei de aceleração
geral, cósmica e centrífuga que arrasta a civilização ao
‘progresso máximo’, a fim de que em seguida venha a queda. Uma
queda ininterrupta ou uma queda rapidamente contida? Aí está o
problema: não podemos saber se esta sociedade se destruirá
completamente ou se conhecerá apenas uma interrupção brusca e
depois a retomada de sua marcha”. E depois: “O Sol diminuiria
seus efeitos sobre a Terra e provocaria o início de um novo período
glacial que poderia durar no mínimo dez mil anos”. Dez mil anos
era muito e assustava. Eis o que acontece quando alguém escolhe, por
medo da noite escura, viver a superficial luz do dia. É que o
sobrenatural, divino ou demoníaco, é uma tentação desde o Egito,
passando pela Idade Média até os romances baratos de mistério.
O açougueiro, que nesse dia só
trabalhava das oito às onze horas, abriu o açougue: e parou
embriagado de prazer ao cheiro de carnes e carnes cruas, cruas e
sangrentas. Era o único que de dia continuava a noite.
Padre Jacinto estava na moda porque
ninguém como ele erguia tão limpidamente a taça e bebia com
sagrada unção e pureza, salvando todos, o sangue de Jesus, que era
o Bem. Com delicadeza as mãos pálidas num gesto de oferenda.
O padeiro como sempre acordou às
quatro horas e começou a fazer a massa de pão. De noite amassar ao
Diabo?
Um anjo pintado por Fra Angélico,
século XV, voejava pelos ares: era a clarineta anunciadora da manhã.
Os postes de luz elétrica não tinham ainda sido apagados e
lustravam-se empalidecidos. Postes. A velocidade come os postes
quando se está correndo de carro.
O masturbador de manhã: meu único
amigo fiel é meu cão. Ele não confiava em ninguém, sobretudo em
mulher.
A que bocejara a noite toda e dissera:
“t’isconjuro, mãe de santo!” começou a se coçar e a bocejar.
Diabo, disse ela.
O poderoso – que cuidava de
orquídeas, catleias, lélias e oncídios – apertou impaciente a
campainha para chamar o mordomo que lhe trouxesse o já atrasado
breakfast. O mordomo adivinhava-lhe os pensamentos e sabia quando lhe
trazer os galgos dinamarqueses para serem rapidamente acariciados.
Aquela que de noite gritava “estou
em espera, em espera, em espera”, de manhã, toda desgrenhada disse
para o leite na leiteira que estava no fogo:
– Eu te pego, seu porcaria! Quero
ver se tu te mancas e ferves na minha cara, minha vida é esperar. É
sabido que se eu desviar um instante o olhar do leite, esse
desgraçado vai aproveitar para ferver e entornar. Como a morte que
vem quando não se espera.
Ela esperou, esperou e o leite não
fervia. Então, desligou o gás.
No céu o mais leve arco-íris: era o
anúncio. A manhã como uma ovelha branca. Pomba branca era a
profecia. Manjedoura. Segredo. A manhã preestabelecida. Ave-Maria,
gratia plena, dominus tecum. Benedicta tu in mulieribus et benedictum
frutus ventri tui Jesus. Sancta Maria Mater Dei ora pro nobis
pecatoribus. Nunca et ora nostrae morte Amem.
Padre Jacinto ergueu com as duas mãos
a taça de cristal que contém o sangue escarlate de Cristo. Eta
vinho bom. E uma flor nasceu. Uma flor leve, rósea, com perfume de
Deus. Ele-ela há muito sumira no ar. A manhã estava límpida como
coisa recém-lavada.
AMÉM
Os fiéis distraídos fizeram o sinal
da Cruz.
AMÉM
DEUS
FIM
Epílogo:
Tudo o que escrevi é verdade e
existe. Existe uma mente universal que me guiou. Onde estivestes de
noite? Ninguém sabe. Não tentes responder – pelo amor de Deus.
Não quero saber da resposta. Adeus. A-Deus.
Clarice Lispector, em Onde estivestes de noite
15/06/2026
Retrato do artista quando coisa
Retrato do artista quando coisa:
borboletas
Já trocam as árvores por mim.
Insetos me desempenham.
Já posso amar as moscas como a mim
mesmo.
Os silêncios me praticam.
De tarde um dom de latas velhas se
atraca em meu olho
Mas eu tenho predomínio por lírios.
Plantas desejam a minha boca para
crescer por de cima.
Sou livre para o desfrute das aves.
Dou meiguice aos urubus.
Sapos desejam ser-me.
Quero cristianizar as águas.
Já enxergo o cheiro do sol.
Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo
Anarquia
Na escola eu já sentia minha atração para o contrário – adorava o máximo divisor comum, as frações ordinárias e as palavras epicenas ou promíscuas.
Millôr Fernandes, em A bíblia do caos
O Mestre e Margarida — 8
O duelo entre o professor e o poeta
No exato momento em que a consciência
abandonou Stiôpa em Ialta, ou seja, por voltas das onze e meia da
manhã, ela retornou a Ivan Nikoláievitch Bezdômny, que havia
despertado depois de um sono longo e profundo. Durante algum tempo
tentou raciocinar sobre o fato de ter ido parar naquele quarto
desconhecido com paredes brancas, uma surpreendente mesinha de
cabeceira de algum metal leve e uma persiana branca, por trás da
qual se podia sentir o sol.
Ivan balançou a cabeça,
certificou-se de que não estava doendo e lembrou-se de que estava em
uma clínica. Esse pensamento trazia a lembrança da morte de
Berlioz, mas hoje isso já não o abalava tanto. Depois de pôr o
sono em dia, Ivan Nikoláievitch ficou mais tranquilo e começou a
raciocinar com mais clareza. Após ficar algum tempo deitado, imóvel,
naquela cama de molas bem limpa, macia e confortável, Ivan viu o
botão de uma campainha ao seu lado. Como tinha o hábito de tocar em
objetos mesmo sem necessidade, apertou o botão. Esperava que algum
retinir ou alguma aparição viriam depois de apertá-lo, mas
aconteceu algo totalmente diferente.
Aos pés da cama de Ivan acendeu-se um
cilindro translúcido no qual estava escrito a palavra “Beber”. O
cilindro ficou algum tempo parado, mas logo começou a girar até que
surgiu a inscrição “Enfermeira”. Não é preciso dizer que Ivan
ficou espantado com esse esperto cilindro. A inscrição “Enfermeira”
foi substituída por “Chamem o doutor”.
— Hum... — proferiu Ivan, sem
saber o que mais fazer com aquele cilindro. Mas por acaso deu sorte:
apertou o botão uma segunda vez na palavra “Assistente”. Em
resposta o cilindro soou baixinho, parou, apagou-se e no quarto
entrou uma simpática senhora roliça de jaleco branco, limpo, que
disse a Ivan:
— Bom dia!
Ivan não respondeu, pois considerou a
saudação descabida diante das circunstâncias em que se encontrava.
Realmente, trancafiaram um homem saudável em uma clínica e ainda
fazem de conta que era assim mesmo que tinha de ser!
A mulher, no entanto, sem perder a
expressão benevolente do rosto, levantou as cortinas com a ajuda de
um apertão em um botão e o quarto foi invadido pelo sol através de
uma grade larga, tortuosa e leve que descia até o chão. Do outro
lado se abria uma varanda, e atrás dela se avistava a margem de um
rio sinuoso e, na outra margem do rio, um alegre bosque de pinheiros.
— Hora de tomar um banho —
convidou a mulher e, ao alcance de suas mãos, abriu-se uma parede
interna e atrás dela surgiu um banheiro maravilhosamente equipado.
Apesar de ter decidido não falar com
a mulher, Ivan não resistiu e, quando viu como a água jorrava forte
de uma torneira reluzente para a banheira, disse, com ironia:
— Nossa! É como no Metropol!
— Oh, não — respondeu a mulher,
com orgulho —, é bem melhor. Esse equipamento não existe em lugar
algum, nem no exterior. Cientistas e médicos vêm especialmente para
inspecionar a nossa clínica. Turistas estrangeiros nos visitam todos
os dias.
Ao ouvir as palavras “turistas
estrangeiros”, Ivan lembrou-se imediatamente do consultor do dia
anterior. Ficou taciturno, deu uma olhada, carrancudo, e disse:
— Turistas estrangeiros... Como
vocês todos adoram turistas estrangeiros, não? Mas no meio deles,
entre outras coisas, encontra-se tudo quanto é tipo de gente. Eu,
por exemplo, ontem conheci um, precisa ver!
Por pouco não começou a contar sobre
Pôncio Pilatos, mas se segurou, entendendo que para a mulher aquelas
histórias de nada serviriam, e que tanto fazia, ela não poderia
ajudá-lo mesmo.
De banho tomado, imediatamente deram a
Ivan Nikoláievitch tudo que um homem de fato precisava depois de um
banho: uma camisa passada, ceroulas, meias. Mas isso ainda não era
nada: abrindo a porta de um pequeno armário, a mulher apontou para
dentro e perguntou:
— O que o senhor deseja vestir, um
roupão ou um pijama?
Vinculado à nova moradia à força,
Ivan quase ergueu os braços por causa do atrevimento da mulher, mas,
calado, indicou com o dedo um pijama de flanela cor de papoula.
Depois disso, Ivan Nikoláievitch foi
conduzido pelo corredor vazio e silencioso até um consultório de
proporções enormes. Ivan resolveu tratar com ironia tudo o que
havia naquele prédio equipado às mil maravilhas e logo batizou
mentalmente o gabinete de “cozinha industrial”.
E tinha motivo para tanto. Ali havia
gaveteiros e pequenos armários de vidro com instrumentos reluzentes
e niquelados. Havia poltronas de construção extraordinariamente
complexa, luminárias abauladas com cúpulas brilhantes, uma
infinidade de frascos, bicos de gás, fios elétricos e aparelhos
totalmente desconhecidos para todo mundo.
No consultório, três pessoas tomavam
conta de Ivan — duas mulheres e um homem, todos de branco. Antes de
mais nada, levaram Ivan para um canto e sentaram-no diante de uma
pequena mesa, com a visível intenção de fazê-lo falar.
Ivan começou a examinar a situação.
Tinha três caminhos diante de si. O primeiro era extremamente
fascinante: lançar-se sobre aquelas lâmpadas e coisas intrincadas e
destroçá-las, mandá-las para o espaço; assim expressaria seu
protesto por ter sido preso à toa. Porém, o Ivan de hoje se
distinguia significativamente do Ivan de ontem, e o primeiro caminho
pareceu-lhe duvidoso: se optasse por ele, o pensamento de que ele era
um louco desgovernado se enraizaria neles. Por isso, Ivan descartou o
primeiro caminho. Havia o segundo: começar o relato sobre o
consultor e Pôncio Pilatos imediatamente. No entanto, a experiência
do dia anterior demonstrara que não acreditavam em sua história ou
a entendiam de maneira distorcida. Por isso Ivan também desistiu
desse caminho e resolveu eleger o terceiro: trancafiar-se em um
silêncio majestoso.
Não conseguiu realizar isso por
completo e, querendo ou não, viu-se obrigado a responder, embora
taciturno e carrancudo, uma série de perguntas. E arrancaram dele
definitivamente tudo sobre seu passado, chegando ao ponto de
perguntar como e quando teve escarlatina, uns quinze anos antes.
Depois de preencherem uma página inteira com suas respostas, viraram
a folha e a mulher de branco passou a indagar sobre os parentes de
Ivan. Iniciou-se uma verdadeira ladainha: quem morreu, quando, por
quê, se bebia, se teve doenças venéreas e coisas do gênero. Para
concluir, pediram que contasse sobre o acontecimento, desgraça,
evento, incidente, infortúnio do dia anterior em Patriarchi Prudý,
mas não insistiram muito e não se espantaram com a informação
sobre Pôncio Pilatos.
Em seguida a mulher passou Ivan para o
homem, que se ocupou dele de maneira diferente e já não perguntou
mais nada. Ele tirou sua temperatura, tomou o pulso, examinou seus
olhos, iluminando-os com uma espécie de lâmpada. Depois, a outra
mulher veio ajudar o homem e furaram as costas de Ivan com alguma
coisa, mas não doeu nada; com o cabo de um martelinho desenharam
sobre a pele de seu peito alguns sinais; bateram nos joelhos com o
martelinho, o que fez as pernas de Ivan pularem; furaram seu dedo e
tiraram sangue, furaram a dobra interna do braço na altura do
cotovelo e colocaram uma espécie de braceletes emborrachados nos
braços…
Ivan apenas sorria para si, malicioso
e amargo, e remoía como tudo aquilo acontecera de maneira tola e
estranha. Imaginem só! Queria precaver todo mundo contra o perigo
que representava aquele consultor desconhecido, pretendia agarrá-lo,
mas tudo o que conseguiu foi parar em um misterioso consultório para
contar tudo quanto é tipo de asneira sobre o tio Fiôdor, que bebia
até cair em Vôlogda. Insuportavelmente tolo!
Finalmente o soltaram. Ele foi
acompanhado de volta para seu quarto, onde recebeu uma xícara de
café, dois ovos cozidos moles e pão branco com manteiga.
Depois de comer e beber o que lhe foi
oferecido, Ivan resolveu esperar algum chefe daquela instituição
chegar e tentar conseguir tanto atenção como justiça.
E ele chegou, logo depois do café da
manhã. A porta do quarto de Ivan abriu-se de maneira inesperada e
por ela entrou uma infinidade de pessoas de jaleco branco. À frente
de todos, caminhava um homem de uns quarenta e cinco anos,
meticuloso, barbeado à maneira dos artistas de cinema, olhos
agradáveis, mas muito penetrantes, e maneiras educadas. A comitiva
inteira lhe dispensava sinais de atenção e respeito e, por isso,
sua entrada acabou sendo muito solene. “Como Pôncio Pilatos!”,
pensou Ivan.
É, sem dúvida, esse era o chefe. Ele
se sentou em um banco, enquanto os outros ficaram de pé.
— Doutor Stravinski — o homem
apresentou-se a Ivan enquanto se sentava e olhou para ele com
afabilidade.
— Aqui está, Aleksandr
Nikoláievitch — disse em voz baixa alguém com uma barbicha bem
cuidada e entregou ao chefe uma folha toda preenchida.
“Arranjaram um verdadeiro dossiê!”,
pensou Ivan. O chefe percorreu a folha com olhos acostumados,
balbuciou “uh-hum, uh-hum...” e trocou algumas frases com os que
estavam ao redor em uma língua pouco conhecida.
“E fala latim, como Pilatos...”,
pensou Ivan, triste. Então uma palavra o fez estremecer, e essa
palavra era “esquizofrenia”, que coisa, que já tinha sido
pronunciada ontem pelo maldito estrangeiro em Patriarchi Prudý, e
hoje era repetida aqui pelo doutor Stravinski.
“Também disso ele sabia!”, pensou
Ivan, aflito.
O chefe, pelo visto, tinha como regra
concordar e contentar-se com tudo que lhe dissessem os que estavam ao
redor, expressando isso com as palavras “muito bem, muito bem...”.
— Muito bem! — disse Stravinski,
devolvendo a folha para alguém, e dirigiu-se a Ivan: — O senhor é
poeta?
— Sou poeta — respondeu Ivan,
sombrio, e de repente sentiu pela primeira vez uma inexplicável
aversão à poesia, e seus próprios poemas, que súbito lhe vieram à
memória, sabe-se lá por que lhe pareceram desagradáveis.
Por sua vez, ele perguntou a
Stravinski, franzindo o rosto:
— O senhor é doutor?
Ao que Stravinski inclinou a cabeça,
precavido e respeitoso.
— E o senhor é o chefe daqui? —
continuou Ivan.
Stravinski também fez uma reverência.
— Preciso falar com o senhor —
disse Ivan Nikoláievitch, com ar de importância.
— É para isso que estou aqui —
retorquiu Stravinski.
— A questão é a seguinte —
começou Ivan, sentindo que tinha chegado a sua hora. — Tomaram-me
por louco e ninguém deseja me ouvir!
— Oh, não, vamos escutá-lo com
muita atenção — disse Stravinski, em tom sério e tranquilizador
— e não permitiremos que o tomem por louco em hipótese alguma.
— Então, ouça: ontem à noite,
conheci em Patriarchi Prudý um indivíduo misterioso, um estrangeiro
de meia-tigela, que sabia da morte de Berlioz de antemão e viu
Pôncio Pilatos pessoalmente.
A comitiva ouvia o poeta muda, imóvel.
— Pilatos? Pilatos, aquele que viveu
na época de Jesus Cristo? — perguntou Stravinski, apertando os
olhos para Ivan.
— Esse mesmo.
— A-hã — disse Stravinski. — E
esse Berlioz morreu debaixo de um bonde?
— Justamente, ele foi degolado por
um bonde ontem, em Patriarchi, diante de meus olhos, e esse mesmo
cidadão enigmático...
— O conhecido de Pôncio Pilatos? —
perguntou Stravinski, que, pelo visto, se distinguia por sua grande
compreensão.
— Justamente ele — confirmou Ivan,
estudando Stravinski. — Então, ele disse, de antemão, que
Ánnuchka derramaria o óleo de girassol... E Berlioz escorregou bem
naquele lugar! O que o senhor acha disso? — quis saber Ivan, com ar
de importância, esperando causar grande efeito com suas palavras.
Mas esse efeito não se deu e
Stravinski simplesmente fez a próxima pergunta:
— E quem é essa Ánnuchka?
A pergunta deixou Ivan um pouco
transtornado, seu rosto contorceu-se.
— Ánnuchka não tem nenhuma
importância aqui — disse ele, fora de si. — Vai saber diabo quem
é ela! Só uma idiota qualquer da Sadôvaia. O importante é que ele
sabia de antemão, entende, do óleo de girassol! O senhor está me
entendendo?
— Entendo perfeitamente —
respondeu Stravinski seriamente, e, tocando os joelhos do poeta,
acrescentou: — Não se inquiete, continue.
— Vou continuar — disse Ivan,
tentando acompanhar o tom de Stravinski; já sabia, por sua amarga
experiência, que somente a tranquilidade o ajudaria. — Então,
esse tipo horroroso, e ele mente que é consultor, é dotado de uma
força extraordinária... Por exemplo, você o persegue, mas não há
possibilidade de alcançá-lo. E ele anda com mais dois sujeitinhos,
também dos bons, mas cada um no seu estilo: um alto de lentes
quebradas, e, além desse daí, há também um gato de proporções
incríveis, que anda de bonde sozinho. Além disso — sem ser
interrompido por ninguém, Ivan falava com cada vez mais ardor e
convicção —, ele esteve na varanda de Pôncio Pilatos
pessoalmente, sem sombra de dúvida. O que significa isso? Hein? Ele
precisa ser preso imediatamente, do contrário causará desgraças
indescritíveis.
— Então o senhor está tentando
prendê-lo? Entendi bem?
“Ele é inteligente”, pensou Ivan.
“Deve-se reconhecer que em meio aos membros da intelligentsia1
também é possível encontrar uns de inteligência rara. Não dá
para negar isso.” E respondeu:
— Muito bem! E como não tentar,
pense bem! Enquanto isso, detiveram-me aqui à força, enfiaram uma
lâmpada nos olhos, dão banho de banheira e fazem perguntas sobre o
tio Fiêdia!... Mas já faz tempo que ele não está nesse mundo!
Exijo que me soltem imediatamente.
— Bom, muito bem, muito bem! —
retorquiu Stravinski. — Então, tudo foi esclarecido. Realmente,
que sentido tem deter um homem saudável em uma clínica? Tudo bem.
Eu lhe darei alta daqui agora mesmo, se o senhor me disser que é
normal. Não precisa provar, é só dizer. Então, o senhor é
normal?
Fez-se silêncio absoluto. A mulher
gorda, que cuidara de Ivan de manhã, olhou para o doutor com
devoção, e Ivan pensou mais uma vez: “Definitivamente
inteligente.”
Ele gostou muito da proposta do
doutor, mas, antes de responder, pensou e repensou, franzindo a
testa, e, finalmente, disse, com firmeza:
— Eu sou normal.
— Então muito bem — exclamou
Stravinski, aliviado. — Se é assim, vamos raciocinar logicamente.
Tomemos o seu dia de ontem. — Ele se virou e imediatamente lhe
entregaram a folha de Ivan. — Em busca de um homem desconhecido,
que se apresentou como conhecido de Pôncio Pilatos, o senhor
realizou as seguintes ações ontem — Stravinski começou a dobrar
seus dedos compridos, olhando ora para a folha, ora para Ivan. —
Pendurou um ícone no peito. Não foi?
— Foi — concordou Ivan,
carrancudo.
— Despencou de uma cerca e feriu o
rosto. Certo? Apareceu em um restaurante com uma vela acesa na mão,
só de roupa de baixo e lá bateu em alguém. Foi trazido para cá
amarrado. Uma vez aqui, o senhor ligou para a polícia e pediu que
enviassem metralhadoras. Depois, fez uma tentativa de se atirar pela
janela. Certo? Pergunta-se: será que é possível, agindo dessa
maneira, agarrar ou prender alguém? Se é uma pessoa normal, o
senhor mesmo vai responder: de maneira alguma. O senhor quer sair
daqui? À vontade. Mas me permita lhe perguntar, para onde o senhor
pretende ir?
— Até a polícia, claro —
respondeu Ivan, já sem a mesma firmeza e se perdendo um pouco diante
do olhar do doutor.
— Direto daqui?
— A-hã.
— E não vai passar no seu
apartamento? — perguntou rapidamente Stravinski.
— Não há tempo para passar lá!
Enquanto eu ficar dando voltas pelo apartamento, ele vai escapulir!
— Certo. E o que dirá à polícia,
antes de mais nada?
— Sobre Pôncio Pilatos —
respondeu Ivan Nikoláievitch, e seus olhos cobriram-se com uma névoa
sombria.
— Então, muito bem! — exclamou
Stravinski, resignado, virando-se para aquele de barbicha, e ordenou:
— Fiódor Vassílievitch, dê alta, por favor, ao cidadão
Bezdômny, para que ele vá à cidade. Mas não coloque ninguém
naquele quarto e não precisa trocar a roupa de cama. Daqui a duas
horas o cidadão Bezdômny estará aqui de novo. Bom — voltou-se
ele para o poeta —, não vou desejar-lhe êxito, porque não
acredito nem um bocado nessa sorte. Até daqui a pouco! — Ele se
levantou e sua comitiva se movimentou.
— Por que razão estarei aqui de
novo? — perguntou Ivan, aflito.
Stravinski parecia esperar essa
pergunta e sentou-se imediatamente, dizendo:
— Porque, assim que o senhor
aparecer na polícia de ceroulas e disser que viu um homem que
conheceu Pôncio Pilatos pessoalmente, será trazido para cá no
mesmo instante, e de novo se encontrará naquele mesmo quarto.
— O que as ceroulas têm a ver com
isso? — perguntou Ivan, olhando ao redor, perplexo.
— A razão principal é Pôncio
Pilatos. Mas as ceroulas também. Veja bem, nós vamos recolher a
roupa emprestada do Estado e devolveremos a roupa que você trajava
ao chegar aqui. Mais precisamente, ceroulas. Entretanto, o senhor não
pretende ir até o seu apartamento de jeito o nenhum, apesar de eu
ter lhe sugerido isso. A seguir, vem Pilatos... e o negócio está
fechado!
Então aconteceu algo estranho com
Ivan Nikoláievitch. Sua vontade pareceu se fender e ele se sentiu
fraco, precisava de um conselho.
— Mas o que fazer? — perguntou
ele, dessa vez tímido.
— Então muito bem! — retorquiu
Stravinski. — É uma pergunta muito razoável. Agora, vou lhe dizer
o que aconteceu com o senhor de verdade. Ontem, alguém o deixou
muito assustado e transtornado com uma história sobre Pôncio
Pilatos e outras coisas. Então, o senhor, um homem muito nervoso e
irritadiço, saiu pela cidade falando sobre Pôncio Pilatos. É
totalmente natural que o tomem por louco. O senhor só tem uma
salvação agora: repouso absoluto. É imprescindível que o senhor
fique aqui.
— Mas ele precisa ser agarrado! —
exclamou Ivan, agora implorando.
— Tudo bem, mas por que você mesmo
precisa persegui-lo? Ponha no papel todas as suas suspeitas e
acusações contra essa pessoa. Não há nada mais simples do que
enviar sua declaração para o local apropriado, e caso se trate,
como o senhor supõe, de estarmos lidando com um criminoso, tudo isso
será esclarecido muito rapidamente. Mas com uma condição: não vá
quebrar a cabeça e procure pensar menos em Pôncio Pilatos. Sabe-se
lá o que contam por aí! Não se deve acreditar em tudo.
— Entendi! — declarou Ivan,
decidido. — Peço que me deem papel e caneta.
— Dê-lhe papel e um lápis pequeno
— ordenou Stravinski à mulher gorda, e a Ivan disse o seguinte: —
Mas eu o aconselho a não escrever hoje.
— Não, não, tem que ser hoje,
hoje, é imprescindível — gritou Ivan, com aflição.
— Tudo bem. Só que não vá fundir
o cérebro. Se não der certo hoje, vai dar amanhã.
— Ele vai fugir!
— Oh, não — retrucou Stravinski
com segurança —, ele não fugirá para lugar algum, isso eu lhe
garanto. Lembre-se que aqui ajudarão o senhor com tudo que for
possível, e sem isso nada vai dar certo para o senhor. Está me
ouvindo? — perguntou Stravinski de repente, com ar de importância,
e tomou as duas mãos de Ivan Nikoláievitch. Segurando-as nas suas,
e fixando um olhar demorado em Ivan, ele repetiu: — Aqui o
ajudarão... está me ouvindo?... Aqui o ajudarão... O senhor se
sentirá aliviado. É silencioso e tranquilo aqui... Aqui o
ajudarão...
Inesperadamente, Ivan Nikoláievitch
bocejou, a expressão de seu rosto se aplacou.
— Isso, isso — disse ele em voz
baixa.
— Então muito bem! — Stravinski
concluiu a conversa como estava acostumado e levantou-se. — Até
logo! — Apertou a mão de Ivan e, já de saída, virou-se para
aquele de barbicha e disse: — Isso, experimente oxigênio... e
banhos.
Alguns instantes depois, diante de
Ivan não havia mais nem Stravinski, nem a comitiva. Do outro lado da
tela da janela, sob o sol do meio-dia, o bosque alegre e primaveril
resplandecia às margens do rio, que brilhava um pouco mais próximo.
Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida
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