04/07/2026

Gonzaguinha | Pacato Cidadão

Reza para as quatro almas de Fernando Pessoa

Da belíssima “Ode à noite antiga”
resulta que eu entendo, limpo de esforço
e vaidade, se nos fosse possível:
da oração verdadeira nasce a força.
Ninguém se cansa de bondade e avencas.
Os rebanhos guardados guardam o homem.
Todos que estamos vivos morreremos.
Não é para entender que nós pensamos,
é para sermos perdoados.
Pai nosso, criador da noite, do sonho,
do meu poder sobre os bois,
eis-me, eis-me.

Adélia Prado, em Bagagem

Capítulo 65 – Olheiros e Escutas



Interrompeu-nos o rumor de um carro na chácara. Veio um escravo dizer que era a baronesa X. Virgília consultou-me com os olhos.
Se a senhora está assim com dor de cabeça, disse eu, parece que o melhor é não receber.
Já se apeou? perguntou Virgília ao escravo.
Já se apeou; diz que precisa muito de falar com sinhá!
Que entre!
A baronesa entrou daí a pouco. Não sei se contava comigo na sala; mas era impossível mostrar maior alvoroço.
Bons olhos o vejam! explodiu ela. Onde se mete o senhor que não aparece em parte nenhuma? Pois olhe, ontem admirou-me não o ver no teatro. A Candiani esteve deliciosa. Que mulher! Gosta da Candiani? E natural. Os senhores são todos os mesmos. O barão dizia ontem, no camarote, que uma só italiana vale por cinco brasileiras. Que desaforo! e desaforo de velho, que é pior. Mas por que é que o senhor não foi ontem ao teatro?
Uma enxaqueca.
Qual! Algum namoro; não acha, Virgília? Pois, meu amigo, apresse-se, porque o senhor deve estar com quarenta anos... ou perto disso... Não tem quarenta anos?
Não lhe posso dizer com certeza, respondi eu; mas se me dá licença vou consultar a certidão de batismo.
Vá, vá... E estendendo-me a mão: – Até quando?
Sábado ficamos em casa; o barão está com umas saudades suas...
Chegando à rua, arrependi-me de ter saído. A baronesa era uma das pessoas que mais desconfiavam de nós. Cinquenta e cinco anos, que pareciam quarenta, macia, risonha, vestígios de beleza, porte elegante e maneiras finas. Não falava muito nem sempre; possuía a grande arte de escutar os outros, espiando-os; reclinava-se então na cadeira, desembainhava um olhar afiado e comprido, e deixava-se estar. Os outros, não sabendo o que era, falavam, olhavam, gesticulavam, ao tempo que ela olhava só, ora fixa, ora móbil, levando a astúcia ao ponto de olhar às vezes para dentro de si, porque deixava cair as pálpebras; mas, como as pestanas eram rótulas, o olhar continuava o seu oficio, remexendo a alma e a vida dos outros.
A segunda pessoa era um parente de Virgília, o Viegas, um cangalho de setenta invernos, chupado e amarelado, que padecia de um reumatismo teimoso, de uma asma não menos teimosa e de uma lesão do coração: era um hospital concentrado. Os olhos porém luziam de muita vida e saúde. Virgília, nas primeiras semanas, não lhe tinha medo nenhum; dizia-me que, quando o Viegas parecia espreitar, com o olhar fixo, estava simplesmente contando dinheiro. Com efeito, era um grande avaro.
Havia ainda o primo de Virgília, o Luís Dutra, que eu, entretanto, agora desarmava à força de lhe falar nos versos e prosas, e de o apresentar aos conhecidos. Quando estes, ligando o nome à pessoa, se mostravam contentes da apresentação, não há dúvida que Luís Dutra exultava de felicidade; mas eu curava-me da felicidade com a esperança de que ele nos não de-nunciasse nunca. Havia, enfim, umas duas ou três senhoras, vários gamenhos, e os fâmulos, que naturalmente se desforravam assim da condição servil, e tudo isso constituía uma verdadeira floresta de olheiros e escutas, por entre os quais tínhamos de resvalar com a tática e maciez das cobras.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

O insofismável Laerte

Forma e conteúdo

Fala-se da dificuldade entre a forma e o conteúdo, em matéria de escrever; até se diz: o conteúdo é bom, mas a forma não etc. Mas, por Deus, o problema é que não há de um lado um conteúdo e de outro a forma. Assim seria fácil: seria como relatar através de uma forma o que já existisse livre, o conteúdo. Mas a luta entre a forma e o conteúdo está no próprio pensamento: o conteúdo luta por se formar. Para falar a verdade, não se pode pensar num conteúdo sem sua forma. Só a intuição toca na verdade sem precisar nem de conteúdo nem de forma. A intuição é a funda reflexão inconsciente que prescinde de forma enquanto ela própria, antes de subir à tona, se trabalha. Parece-me que a forma já aparece quando o ser todo está com o conteúdo maduro, já que se quer dividir o pensar ou escrever em duas fases. A dificuldade de forma está no próprio constituir-se do conteúdo, no próprio pensar ou sentir, que não saberiam existir sem sua forma adequada e às vezes única.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

O Mestre e Margarida | 9



Truques de Korôviev

Nikanor Ivânovitch Bossôi, presidente da associação de moradores do prédio nº 302-bis, à rua Sadôvaia, em Moscou, onde morava o finado Berlioz, estava terrivelmente atribulado, começando pela noite precedente, de quarta para quinta-feira.
À meia-noite, como já sabemos, uma comissão da qual Jeldýbin fazia parte chegou ao prédio, chamou Nikanor Ivânovitch, informou-o sobre a morte de Berlioz e, junto com ele, dirigiu-se para o apartamento número 50.
Ali, lacraram os manuscritos e os pertences do finado. Nem Grúnia, a empregada, que não morava lá, nem o leviano Stepán Bogdánovitch estavam no apartamento naquele momento. A comissão declarou a Nikanor Ivânovitch que os manuscritos do finado seriam levados para verificação, que sua parte da casa, ou seja, três cômodos (os antigos escritório, sala de visita e sala de jantar da mulher do joalheiro), ficaria à disposição da associação de moradores e que seus pertences deveriam ser guardados nessa área do apartamento até a reclamação dos herdeiros.
A notícia sobre o falecimento de Berlioz espalhou-se por todo o prédio com uma rapidez sobrenatural e, a partir de sete horas da manhã de quinta-feira, começaram a telefonar para Bossôi, e depois também a aparecer pessoalmente com declarações que continham a intenção de ocupar a parte da casa do finado. Em duas horas, Nikanor Ivânovitch recebeu trinta e duas declarações desse tipo.
Nelas, havia súplicas, ameaças, intrigas, denúncias, promessas de realizar reforma por conta própria, reclamações sobre o aperto insuportável e sobre a impossibilidade de viver num mesmo apartamento com bandidos. Entre outras coisas, havia uma descrição, estupenda por sua força artística, do roubo de pelmiêni1 do apartamento número trinta e um, que haviam sido colocados, como se fosse a coisa mais natural do mundo, no bolso de um paletó; havia duas promessas de acabarem com suas vidas por meio de suicídio e uma confissão de gravidez secreta.
Chamavam Nikanor Ivânovitch até a entrada do seu apartamento, agarravam-no pela manga, cochichavam-lhe alguma coisa, piscavam e prometiam pagar pelo favor.
Esse tormento prolongou-se até o meio-dia, quando Nikanor Ivânovitch simplesmente fugiu de seu apartamento para a sala de administração, próxima do portão, mas quando percebeu que também ali o espreitavam, fugiu de lá também. Mal conseguindo se livrar daquelas pessoas que estavam ao seu encalço pelo pátio de asfalto, Nikanor Ivânovitch escondeu-se na sexta entrada e subiu até o quinto andar, exatamente onde se localizava aquele asqueroso apartamento de número cinquenta.
Depois de conseguir se recompor, o gorducho Nikanor Ivânovitch tocou a campainha, mas ninguém lhe abriu a porta. Tocou de novo e de novo, e começou a resmungar e a xingar baixinho. Mesmo assim, não lhe abriram a porta. A paciência de Nikanor Ivânovitch se esgotou e, tirando do bolso um molho de cópias das chaves que pertenciam à administração do prédio, abriu a porta com uma mão soberana e entrou.
Ei, empregada! — gritou Nikanor Ivânovitch na penumbra da entrada do apartamento. — Como é mesmo seu nome? Grúnia, ou o quê? Você não está?
Ninguém respondeu.
Então, Nikanor Ivânovitch tirou da maleta uma trena dobrável, em seguida tirou o lacre da porta do escritório e avançou. Entrar, ele entrou, mas parou estupefato na soleira da porta e até estremeceu.
À mesa do finado, estava sentado um cidadão desconhecido, magricela e comprido, de paletozinho xadrez, bonezinho de jóquei e pincenê... bom, em resumo, aquele mesmo.
Quem seria o senhor, cidadão? — perguntou Nikanor Ivânovitch, assustado.
Ah! Nikanor Ivânovitch! — vociferou em um tenor de taquara rachada o inusitado cidadão e, levantando-se de um salto, cumprimentou o presidente com um aperto de mão forçado e súbito. Nikanor Ivânovitch não ficou nada contente com esse cumprimento.
Perdão — começou a falar ele, desconfiado —, quem seria o senhor? O senhor é representante oficial?
Oh, Nikanor Ivânovitch! — exclamou o desconhecido, afetuoso. — O que significa ser representante oficial ou não oficial? Tudo isso depende de que ponto de vista você olha para o objeto. Tudo isso, Nikanor Ivânovitch, é relativo e instável. Hoje sou um representante não oficial, mas amanhã, quem sabe, um oficial! Mas acontece também o contrário, e como acontece!
Esse argumento não satisfez de forma alguma o presidente da administração do prédio. Sendo em geral uma pessoa desconfiada por natureza, ele concluiu que o cidadão verborrágico que estava diante dele era justamente um representante não oficial, e talvez até um desocupado.
Mas quem seria o senhor? Qual é o seu sobrenome? — perguntava o presidente, de forma cada vez mais severa e começando a avançar em direção ao desconhecido.
Meu sobrenome — respondeu o cidadão, sem se intimidar com o tom severo —, bom, digamos que seja Korôviev. Mas não quer um tira-gosto, Nikanor Ivânovitch? Não faça cerimônia, hein?
Perdão — disse Nikanor Ivânovitch, agora indignado —, mas que tira-gosto que nada! — É preciso reconhecer, mesmo que isso seja desagradável, que Nikanor Ivânovitch era um pouco grosseiro por natureza. — É proibido ficar nos aposentos do finado! O que o senhor está fazendo aqui?
Queira se sentar, Nikanor Ivânovitch — vociferou o cidadão, sem ficar nem um pouquinho perplexo, e começou a rodopiar, oferecendo uma poltrona ao presidente.
Tomado de fúria, Nikanor Ivânovitch recusou a poltrona e berrou:
Mas quem é o senhor?
Permita-me que eu me apresente. Estou aqui na qualidade de intérprete de um senhor estrangeiro, que reside nesse apartamento — apresentou-se aquele que dizia se chamar Korôviev, e bateu com o salto de sua botina castanho-avermelhada, toda suja.
Nikanor Ivânovitch ficou boquiaberto. A presença de um estrangeiro, ainda mais com um intérprete, naquele apartamento era para ele uma verdadeira surpresa que exigia explicações.
O intérprete explicou-se de bom grado. O senhor Woland, artista estrangeiro, fora gentilmente convidado pelo diretor do Teatro de Variedades, Stepán Bogdánovitch Likhodiêiev, a passar o tempo de sua turnê, por volta de uma semana, em seu apartamento, sobre o qual o mesmo havia escrito a Nikanor Ivânovitch ainda ontem, com a solicitação de registrar o estrangeiro como morador temporário, enquanto o próprio Likhodiêiev estivesse em viagem a Ialta.
Ele não me escreveu nada — disse o presidente, admirado.
E se o senhor procurar bem em sua pasta, Nikanor Ivânovitch? — propôs Korôviev, docemente.
Nikanor Ivânovitch deu de ombros, abriu a pasta e encontrou uma carta de Likhodiêiev.
Mas como é que pude me esquecer dela? — balbuciou Nikanor Ivânovitch, olhando para o envelope aberto, abobalhado.
Isso acontece, Nikanor Ivânovitch, isso acontece! — pôs-se a tagarelar Korôviev. — Distração, distração, estafa, hipertensão arterial, meu querido Nikanor Ivânovitch! Eu mesmo sou terrivelmente distraído. Um dia desses, a gente toma umas e contarei alguns fatos de minha biografia, o senhor vai morrer de rir!
Quando é mesmo que ele viaja para Ialta?
Ele já foi, foi embora! — gritou o intérprete. — Sabe, ele já está a caminho! Só o diabo sabe onde ele está! — Então o intérprete começou a agitar os braços como se fossem as asas de um moinho.
Nikanor Ivânovitch alegou que precisava ver o estrangeiro pessoalmente, mas recebeu uma resposta negativa do intérprete: era totalmente impossível. Ele está ocupado. Amestrando o gato.
Posso mostrar o gato, caso deseje — propôs Korôviev.
Foi a vez de Nikanor Ivânovitch recusar, e imediatamente o intérprete fez uma proposta inusitada mas bem interessante ao presidente.
Visto que o senhor Woland não desejava se hospedar em um hotel de jeito nenhum, e estava acostumado a viver em lugares espaçosos, será que a associação de moradores não poderia alugar para Woland o apartamento todo, ou seja, incluindo os cômodos do finado, por uma semaninha, enquanto durasse sua turnê em Moscou?
Afinal, para o finado é indiferente — sibilou Korôviev, sussurrando. — O senhor há de concordar, Nikanor Ivânovitch, de que serve esse apartamento para ele agora?
Nikanor Ivânovitch retrucou, com certa perplexidade, que os estrangeiros deveriam se hospedar no Metropol, nunca em apartamentos particulares...
Estou lhe dizendo, ele é teimoso como o diabo! — pôs-se a sussurrar Korôviev. — Não quer e pronto! Não gosta de hotéis! Estou por aqui desses turistas estrangeiros! — queixou-se Korôviev, em tom íntimo, cutucando seu pescoço nodoso com o dedo. — Acredite, encheram minha paciência! Eles vêm e ficam espionando como o pior filho da puta, ou amolando com seus caprichos: não faz assim, não é assado!.. Mas, para sua associação, Nikanor Ivânovitch, é uma verdadeira vantagem e lucro certo. Dinheiro não é problema para ele. — Korôviev olhou para os lados e em seguida cochichou no ouvido do presidente: — É milionário!
Na proposta do intérprete, havia um sentido prático claro, a proposta era muito concreta, mas havia algo incrivelmente inconcreto na sua maneira de falar, em sua roupa, e naquele pincenê repulsivo e que não servia para nada. Por conta disso, algo nebuloso angustiava o espírito do presidente, mas mesmo assim ele resolveu aceitar a proposta. A questão é que a associação de moradores enfrentava, que coisa, um deficit considerável. Até o outono seria necessário comprar combustível para a calefação a vapor e ninguém sabia com que grana. Mas com o dinheiro do turista estrangeiro, quem sabe, daria para sobreviver. Porém, Nikanor Ivânovitch, homem de negócio precavido, alegou que, antes de tudo, teria de acertar a questão com a agência de turistas estrangeiros.
Eu compreendo! — gritou Korôviev. — Como não dar um jeitinho? Claro! Aqui está o telefone, Nikanor Ivânovitch, e veja se dá esse jeitinho imediatamente! Quanto ao dinheiro, não faça cerimônia — acrescentou, sussurrando, arrastando o presidente até o telefone, na entrada. — Se não dele, de quem mais pegar dinheiro? Se o senhor visse que vila ele tem em Nice! No próximo verão, se o senhor for para o exterior, faça-lhe uma visitinha, e ficará boquiaberto!
O negócio com a agência de turistas estrangeiros foi resolvido por telefone com extraordinária rapidez, o que deixou o presidente admirado. Revelou-se que lá já sabiam das intenções do senhor Woland de hospedar-se no apartamento particular de Likhodiêiev e não se manifestaram nem um pouco contra a ideia.
Maravilha! — vociferava Korôviev.
Um pouco aturdido com o estardalhaço do outro, o presidente alegou que a associação de moradores concordava em alugar o apartamento número cinquenta ao artista Woland por uma semana pelo preço de... Nikanor Ivânovitch hesitou um pouco e disse:
De quinhentos rublos por dia.
Então Korôviev deixou o presidente extremamente espantado. Piscando com ar de ladrão em direção ao quarto, de onde se ouviram os pulos leves de um gato pesado, ele sibilou:
Assim sendo, uma semana sai por três mil e quinhentos?
Nikanor Ivânovitch pensou que a isso ele acrescentaria: “Nossa, que ambição do senhor, Nikanor Ivânovitch!”, mas Korôviev falou algo totalmente diferente:
Mas até parece que isso é quantia que se peça! Peça cinco, e ele dará.
Perplexo, com um sorriso malicioso, Nikanor Ivânovitch, sem saber como, encontrava-se do lado da mesa do finado, onde Korôviev, com a maior rapidez e esperteza, redigiu um contrato em duas vias. Depois disso, foi voando com ele até o quarto, e quando voltou a assinatura corrida do estrangeiro constava em ambas as vias. O presidente também assinou o contrato. Então Korôviev pediu um recibo de cinco...
Por extenso, por extenso, Nikanor Ivânovitch! ... Mil rublos... — E, usando palavras que não combinam com um negócio sério, disse: — Eins, zwei, drei! — E entregou ao presidente cinco maços de cédulas novinhas.
A contagem foi feita, entremeada com piadinhas e ditos de Korôviev, como “negócio é negócio”, “o meu olho é mais esperto” e outras coisas do gênero.
Depois de contar o dinheiro, o presidente recebeu de Korôviev o passaporte do estrangeiro para o registro temporário, colocou-o na pasta junto com o contrato e o dinheiro, e não se conteve, pediu uma entrada gratuita, envergonhado...
Mas que pergunta! — rugiu Korôviev. — Quantos ingressos o senhor quer, Nikanor Ivânovitch? Doze, quinze?
Aturdido, o presidente explicou que ele só precisava de um par de entradas gratuitas, para ele e Pelagueia Antônovna, sua esposa.
Korôviev sacou um bloquinho e, num vapt-vupt, criou para Nikanor Ivânovitch uma entrada gratuita, na primeira fileira, para duas pessoas. Esperto, com a mão esquerda, o intérprete enfiou essa entrada em uma das mãos de Nikanor Ivânovitch e, com a direita, colocou na outra mão do presidente, com um estalo, um maço volumoso. Nikanor Ivânovitch deu uma olhada para o maço, ficou muito ruborizado e começou a afastá-lo.
Não está certo... — balbuciou ele.
Não vou nem ouvir — cochichou Korôviev bem no seu ouvido. — Para nós, não está certo, mas para os estrangeiros, está. O senhor vai ofendê-lo, Nikanor Ivânovitch, não fica bem. Afinal, o senhor fez o seu trabalho...
A punição é severa — cochichou o presidente, em voz baixinha, baixinha, e olhou à sua volta.
Mas onde estão as testemunhas? — cochichou Korôviev na outra orelha. — Estou perguntando, onde estão? O que há com o senhor?
Então aconteceu, como afirmava posteriormente o presidente, um milagre: o maço deslizou por si só e entrou na sua pasta. Depois, o presidente, um tanto debilitado e até esfacelado, encontrou-se na escada. Um turbilhão de pensamentos fervilhava em sua cabeça. Giravam pela vila em Nice, o gato amestrado e a ideia de que realmente não havia testemunhas e de que Pelagueia Antônovna ficaria feliz com as entradas. Eram pensamentos desconexos, mas, de um modo geral, agradáveis. No entanto, uma agulha cutucava o presidente em algum lugar no fundo de sua alma. Era uma agulha de desassossego. Além disso, ali mesmo na escada, um pensamento o apanhou de surpresa, como um golpe: “Como é que o intérprete foi parar no escritório se a porta estava lacrada? E como ele, Nikanor Ivânovitch, não perguntou sobre isso?” Nikanor Ivânovitch ficou olhando para os degraus da escada um tempo, com cara de tacho, mas depois resolveu deixar tudo isso pra lá e não se atormentar mais com essa questão tão complicada...
Assim que o presidente deixou o apartamento, uma voz grave veio voando do quarto:
Não gostei desse Nikanor Ivânovitch. É um tratante e vigarista. Seria possível fazer com que não volte mais?
Meu senhor, basta ordenar! — retorquiu Korôviev de algum lugar, não com a voz trêmula, mas sim clara e sonora.
No mesmo instante o maldito intérprete viu-se na entrada, discou um número e começou, sabe-se lá por quê, a falar muito choroso para o fone:
Alô! Considero um dever informar que o presidente da nossa associação de moradores do prédio nº 302-bis, na rua Sadôvaia, Nikanor Ivânovitch Bossôi, anda especulando com moeda estrangeira. Nesse exato momento, em seu apartamento, número trinta e cinco, no duto de ventilação do banheiro, há quatrocentos dólares embrulhados em jornal. Quem fala é o inquilino do prédio citado, do apartamento número onze, Timofiêi Kvastsôv. Mas suplico que mantenham o meu nome em segredo. Temo vingança por parte do presidente acima referido.
E o desgraçado desligou o aparelho!
O que mais ocorreu no apartamento número cinquenta não se sabe, mas sabe-se o que ocorreu no apartamento de Nikanor Ivânovitch. Ele se trancou no banheiro, puxou o maço que o intérprete lhe impingiu e se certificou de que havia quatrocentos rublos. Nikanor Ivânovitch embrulhou esse maço num pedaço de jornal e escondeu no duto da ventilação.
Dali a cinco minutos, o presidente estava à mesa em sua pequena sala de jantar. Sua esposa trouxe da cozinha arenque em conserva, cuidadosamente cortado e salpicado com muita cebolinha. Nikanor Ivânovitch serviu uma tacinha de vodca, bebeu, serviu uma segunda, bebeu, espetou com o garfo três pedaços de arenque... e, nesse momento, tocaram a campainha. Pelagueia Antônovna trouxe uma panela fumegante e bastava um só olhar para imediatamente adivinhar que, dentro dela, bem no meio de um borsch pegando fogo, havia aquilo que era a coisa mais deliciosa do mundo: osso com tutano.
Com água na boca, Nikanor Ivânovitch começou a rosnar como um cão:
Sumam daqui! Não me deixam comer em paz. Não deixe ninguém entrar, eu não estou, não estou. Quanto ao apartamento, diga que parem de bisbilhotar. Daqui a uma semana haverá reunião...
A esposa correu até a entrada; com uma concha, Nikanor Ivânovitch retirou-o do lago que cuspia fogo — ele, o osso, rachado no sentido do comprimento. Nesse instante, dois cidadãos entraram na sala de jantar, e com eles Pelagueia Antônovna, sabe-se lá por quê, muito pálida. Quando olhou para os cidadãos, Nikanor Ivânovitch também embranqueceu e levantou-se.
Onde fica a privada? — perguntou, com um ar apreensivo, o primeiro, que estava de kossovorôtka branca.
Alguma coisa caiu sobre a mesa da sala de jantar (foi Nikanor Ivânovitch que deixou a concha cair sobre o oleado).
Aqui, aqui — respondeu Pelagueia Antônovna, falando como uma metralhadora.
Os recém-chegados dirigiram-se imediatamente para o corredor.
Qual é o problema? — perguntou, baixinho, Nikanor Ivânovitch, e os seguiu. — Não pode haver nada de mais em nosso apartamento... Seus documentos... Perdão…
O primeiro mostrou os documentos a Nikanor Ivânovitch, sem parar, e o segundo, no mesmo instante, já estava de pé em um banquinho dentro do banheiro, com o braço enfiado no duto da ventilação. Tudo se turvou diante dos olhos de Nikanor Ivânovitch. Tiraram o jornal, mas no maço encontravam-se não rublos, e sim um dinheiro desconhecido, azul ou verde, com a imagem de um velho. No entanto, Nikanor Ivânovitch não viu nada disso direito, diante de seus olhos flutuavam umas manchas.
Dólares na ventilação — disse o primeiro, pensativo, e perguntou a Nikanor Ivânovitch, doce e gentilmente: — Seu pacotinho?
Não! — respondeu Nikanor Ivânovitch, com uma voz terrível. — Inimigos plantaram isso aí!
Isso acontece — concordou aquele, e acrescentou novamente, do mesmo jeito doce: — Bom, precisa entregar o resto.
Não tenho nada! Não tenho, juro por Deus, nunca esteve nas minhas mãos! — gritou o presidente desesperadamente.
Ele se precipitou até a cômoda, com estrondo puxou a gaveta e dela a pasta, gritando de forma desconexa:
Aqui está o contrato... o intérprete nojento que tramou... Korôviev, de pincenê!
Ele abriu a maleta, olhou dentro, enfiou a mão, seu rosto ficou lívido e ele deixou a maleta cair no borsch. Não havia nada na maleta: nem a carta de Stiôpa, nem o contrato, nem o passaporte do estrangeiro, nem o dinheiro, nem as entradas gratuitas. Resumindo, nada além de uma trena dobrável.
Camaradas! — gritou o presidente, exaltado. — Peguem-nos! Espíritos impuros estão no nosso prédio!
Então não se sabe o que deu em Pelagueia Antônovna, mas ela ergueu as mãos e gritou:
Confesse, Iványtch! Você terá redução da pena!
Com os olhos injetados de sangue, Nikanor Ivânovitch ergueu os punhos sobre a cabeça da mulher, rouquejando:
Oh, maldita idiota!
Então ele se sentiu fraco e deixou-se cair em uma cadeira, pelo visto resolvido a aceitar o inevitável.
Nesse momento, no patamar da escada, Timofêi Kondrátievitch Kvastsôv punha às vezes uma orelha, às vezes um olho, no buraco da fechadura da porta do apartamento do presidente, não se aguentando de tanta curiosidade.
Dali a cinco minutos, os inquilinos do prédio, que estavam no pátio, viram quando o presidente, na companhia de mais dois tipos, foi direto até o portão do prédio. Dizem que Nikanor Ivânovitch estava mais pálido do que um defunto, que cambaleava, como um bêbado, quando passou, e que balbuciava algo.
E, dali a uma hora, um cidadão desconhecido apareceu no apartamento número onze, no mesmo momento em que Timofêi Kondrátievitch contava a outros inquilinos, exultando de prazer, como deram uma rasteira no presidente e, com o dedo, chamou a atenção de Timofêi Kondrátievitch da cozinha até a entrada, disse-lhe algo e sumiu junto com ele.

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida

03/07/2026

Milo J e Mon Laferte | Mi Jardin

 

Ignorar o céu

چگونه میتواند زیست
سنگ پشت پیر
سیصد سال
بی خبر از آسمان.

Como pode viver
a velha tartaruga
trezentos anos
ignorando o céu.

Abbas Kiarostami, em Nuvens de algodão

O evangelho segundo Jesus Cristo [Excerto inicial]



Viviam José e Maria num lugarejo chamado Nazaré, terra de pouco e de poucos, na região de Galileia, em uma casa igual a quase todas, como um cubo torto feito de tijolos e barro, pobre entre pobres. Invenções de arte arquitectónica, nenhumas, apenas a banalidade uniforme de um modelo incansavelmente repetido. Com o propósito de poupar alguma coisa nos materiais, tinham-na construído na encosta da colina, apoiada ao declive, escavado pelo lado de dentro, deste modo se criando uma parede completa, a fundeira, com a vantagem adicional de ficar facilitado o acesso à açoteia que formava o tecto. Já sabemos ser José carpinteiro de ofício, regularmente hábil no mester, porém sem talento para perfeições sempre que lhe encomendem obra de mais finura. Estas insuficiências não deveriam escandalizar os impacientes, pois o tempo e a experiência, cada um com seu vagar, ainda não são bastantes para acrescentar, ao ponto de dar-se por isso no trabalho de todos os dias, o saber oficinal e a sensibilidade estética de um homem que mal passou dos vinte anos e vive em terra de tão escassos recursos e ainda menores necessidades. Contudo, não se devendo medir os méritos dos homens apenas pela bitola das suas competências profissionais, convém dizer que, apesar da sua pouca idade, é este José do mais piedoso e justo que em Nazaré se pode encontrar, exacto na sinagoga, pontual no cumprimento dos deveres, e não tendo sido a sua fortuna tanta que o tivesse dotado Deus duma facúndia capaz de o distinguir dos mortais comuns, sabe discorrer com propriedade e comentar com acerto, mormente se vem a propósito introduzir no discurso alguma imagem ou metáfora relacionadas com o seu ofício, por exemplo, a carpintaria do universo. Porém, porque lhe tivesse faltado na origem o golpe de asa duma imaginação verdadeiramente criadora, nunca na sua breve vida será capaz de produzir parábola que se recorde, dito que merecesse ter ficado na memória das gentes de Nazaré e ser legado aos vindouros, menos ainda um daqueles certeiros remates em que a exemplaridade da lição se percebe logo à transparência das palavras, tão luminosa que no futuro rejeitará qualquer intrometida glosa, ou, pelo contrário, suficientemente obscura, ou ambígua, para tornar-se nos dias de amanhã em prato favorito de eruditos e outros especialistas.
Sobre os dotes de Maria, por enquanto, só procurando muito, e mesmo assim não acharíamos mais do que é legítimo esperar de quem não fez sequer dezasseis anos e, embora mulher casada, não passa duma rapariguinha frágil, por assim dizer dez--réis de gente, que também naquele tempo, sendo outros os dinheiros, não faltavam destas moedas. Apesar da fraca figura, Maria trabalha como as mais mulheres, cardando, fiando e tecendo as roupas da casa, cozendo todos os santos dias o pão da família no forno doméstico, descendo à fonte para acarretar a água, depois encosta acima, pelos íngremes carreiros, um gordo cântaro à cabeça, uma infusa apoiada no quadril, e indo depois, ao cair da tarde, por esses caminhos e descampados do Senhor, a apanhar gravetos de lenha e a rapar restolhos, levando por acrescento um cesto com que recolherá as bostas secas do gado, e também esses cardos e espinhosas que abundam nas declivosas alturas de Nazaré, do melhor que Deus foi capaz de inventar para acender um lume e entrançar uma coroa. Todo este arsenal reunido daria uma carga mais própria para ser trazida a casa no lombo do burro, não fosse a poderosa circunstância de estar a besta adstrita ao serviço de José e ao transporte das madeiras. Descalça vai Maria à fonte, descalça vai ao campo, com os seus vestidos pobres que no trabalho mais se sujam e gastam, e que é preciso estar sempre a lavar e remendar, para o marido vão os panos novos e os cuidados maiores, mulheres destas com qualquer coisa se contentam. Maria vai à sinagoga, entra pela porta lateral, que a lei impõe às mulheres, e se, é um supor, lá se encontram ela e trinta companheiras, ou mesmo todas as fêmeas de Nazaré, ou toda a população feminina de Galileia, ainda assim terão de esperar que cheguem ao menos dez homens para que o serviço do culto, em que só como passivas assistentes participarão, possa ser celebrado. Ao contrário de José, seu marido, Maria não é piedosa nem justa, porém não é sua a culpa dessas mazelas morais, a culpa é da língua que fala, senão dos homens que a inventaram, pois nela as palavras justo e piedoso, simplesmente, não têm feminino.
Ora, aconteceu que um belo dia, passadas umas quatro semanas sobre aquela inesquecível madrugada em que as nuvens do céu, de modo extraordinário, apareceram tingidas de violeta, estava José em casa, era isto pela hora do sol-pôr, e estava comendo o seu jantar, sentado no chão e metendo a mão no prato como então era geral costume, e Maria, de pé, esperava que ele acabasse para depois comer ela, e ambos calados, um porque não tinha nada que dizer, outro porque não sabia como dizer o que tinha em mente, aconteceu vir bater à cancela do pátio um pobre desses de pedir, o que, não sendo raridade absoluta, era ali pouco frequente, tendo em vista a humildade do lugar e do comum dos habitantes, sem contar com a argúcia e a experiência da gente pedinchante, sempre que é preciso recorrer ao cálculo de probabilidades, mínimas neste caso. Contudo, das lentilhas com cebola picada e das papas de grão-de-bico que estavam para ser o seu jantar, tirou Maria uma boa porção para uma tigela e foi levá-la ao mendigo, que se sentou no chão, a comer, de fora da porta, donde não passara. Não tinha precisado Maria de pedir licença ao marido de viva voz, ele foi quem lho permitiu ou ordenou com um aceno de cabeça, que já se sabe serem supérfluas as palavras nestes tempos em que um simples gesto basta para matar ou deixar viver, como nos jogos do circo se move o polegar dos césares, apontando para baixo ou para cima. Embora em diferente, também este crepúsculo estava que era uma beleza, com os seus mil fiapos de nuvem esparsos pela amplidão, rosa, nácar, salmão, cereja, são maneiras de falar da terra para que possamos entender-nos, pois estas cores, e todas as outras, não têm, que se saiba, nomes do céu. Sem dúvida estaria o mendigo com fome de três dias, que essa, sim, é fome autêntica, para em tão poucos minutos ter rapado e lambido o prato, e eis que já está batendo à porta para devolver a escudela e agradecer a caridade. Maria veio abrir, o pedinte ali estava, de pé, mas inesperadamente grande, muito mais alto do que antes lhe tinha parecido, afinal é certo o que se diz, que há uma enormíssima diferença entre comer e não ter comido, porquanto a este homem era como se lhe resplandecesse a cara e faiscassem os olhos, ao mesmo tempo que as roupas que vestia, velhas e esfarrapadas, se agitavam sacudidas por um vento que não se sabia donde vinha, e com esse contínuo movimento se nos confundia a vista, a ponto de, em um instante, parecerem os farrapos finas e sumptuosas telas, o que só estando presente se acredita. Estendeu Maria as mãos para receber a tigela de barro, a qual, em consequência duma ilusão de óptica em verdade assombrosa, porventura gerada pelas cambiantes luzes do céu, era como se a tivessem transformado em vaso do mais puro ouro, e, no mesmo instante em que a tigela passava dumas mãos para as outras, disse o mendigo com poderosíssima voz, que até nisto o pobre de Cristo tinha mudado, Que o Senhor te abençoe, mulher, e te dê todos os filhos que a teu marido aprouver, mas não permita o mesmo Senhor que os vejas como a mim me podes ver agora, que não tenho, ó vida mil vezes dolorosa, onde descansar a cabeça. Maria segurava a escudela no côncavo das duas mãos, taça sobre taça, como quem esperava que o mendigo lhe depositasse algo dentro, e ele sem explicação assim fez, que se baixou até ao chão e tomou um punhado de terra, e depois erguendo a mão deixou-a escorregar lentamente por entre os dedos, enquanto dizia em surda e ressoante voz, O barro ao barro, o pó ao pó, a terra à terra, nada começa que não tenha de acabar, tudo o que começa nasce do que acabou. Turbou-se Maria e perguntou, Isso que quer dizer, e o mendigo respondeu apenas, Mulher, tens um filho na barriga, e esse é o único destino dos homens, começar e acabar, acabar e começar, Como soubeste que estou grávida, Ainda a barriga não cresceu e já os filhos brilham nos olhos das mães, Se assim é, deveria meu marido ter visto nos meus olhos o filho que em mim gerou, Acaso não olha ele para ti quando o olhas tu, E tu quem és, para não teres precisado de ouvi-lo da minha boca, Sou um anjo, mas não o digas a ninguém.
Naquele mesmo instante, as roupas resplandecentes voltaram a ser farrapos, o que era figura de titânico gigante encolheu-se e mirrou como se o tivesse lambido uma súbita língua de fogo, e a prodigiosa transformação foi mesmo a tempo, graças a Deus, e logo a seguir a prudente retirada, que do portal já vinha acercando-se José, atraído pelo rumor das vozes, mais abafadas do que o natural duma conversação lícita, mas sobretudo pela exagerada demora da mulher, Que mais te queria o pobre, perguntou, e Maria, sem saber que palavras suas poderia dizer, só soube responder, Do barro ao barro, do pó ao pó, da terra à terra, nada começa que não acabe, nada acaba que não comece, Foi isso que ele disse, Sim, e também disse que os filhos dos homens brilham nos olhos das mulheres, Olha para mim, Estou a olhar, Parece-me ver um brilho nos teus olhos, foram palavras de José, e Maria respondeu, Será o teu filho. O crepúsculo tornara-se azulado, ia tomando já a primeira cor da noite, agora via-se que de dentro da tigela irradiava como uma luz negra que desenhava sobre o rosto de Maria feições que nunca haviam sido dela, os olhos pareciam pertencer a alguém muito mais velho. Estás grávida, perguntou enfim José, Sim, estou, respondeu Maria, Por que não mo disseste antes, Ia dizer-to hoje, esperava que acabasses de comer, E então chegou esse pedinte, Sim, De que mais falou, que o tempo deu sem dúvida para mais, Que o Senhor me conceda todos os filhos que tu quiseres, Que tens aí na tigela, para que dessa maneira brilhe, Terra tenho, O húmus é negro, a argila verde, a areia branca, dos três só a areia brilha se lhe dá o sol, e agora é noite, Sou mulher, não sei explicar, ele tomou a terra do chão e lançou-a dentro, ao mesmo tempo disse as palavras, A terra à terra, Sim.
José foi abrir a cancela, olhou a um lado e a outro. Já não o vejo, sumiu-se, disse, mas Maria afastava-se tranquila em direcção à casa, sabia que o mendigo, se era realmente quem anunciara ser, só se quisesse é que deixaria que o vissem. Pousou a tigela no poial do forno, tirou do borralho uma brasa com que acendeu a candeia, soprando-a até levantar uma pequena chama. José entrou, vinha com uma expressão interrogativa, uma mirada perplexa e desconfiada que tentava disfarçar movendo-se com vagares e solenidade de patriarca que não lhe assentavam bem, sendo tão jovem. Discretamente, fazendo por não dar nas vistas, foi espreitar a tigela, a terra luminosa, compondo na cara um ar de cepticismo irónico, porém, se era uma demonstração de varonia o que pretendia, não lhe valeu a pena, Maria tinha os olhos baixos, estava como ausente. José, com um pauzito, remexeu a terra, intrigado por vê-la escurecer quando a movia e depois retomar o brilho, sobre a luz constante, como mortiça, serpenteavam rápidas cintilações, Não compreendo, decerto há um mistério nisto, ou então a terra trazia-a já ele consigo e tu julgaste que a apanhou do chão, são embelecos de mágico, ninguém viu nunca brilhar a terra de Nazaré. Maria não respondeu, comia o pouco que lhe restara das lentilhas com cebola e das papas de grão-de-bico, acompanhando-as com um pedaço de pão untado de azeite. Ao parti-lo, dissera, como está escrito na lei, porém no tom modesto que convém à mulher, Louvado sejas tu, Adonai, nosso Deus, rei do universo, que fazes sair o pão da terra. Calada, comia, enquanto José, deixando discorrer os pensamentos como se estivesse comentando na sinagoga um versículo da Tora ou a palavra dos profetas, reconsiderava a frase que acabara de ouvir à mulher, a que ele próprio recitara no mesmo acto de partir o pão, e tentava imaginar que cevada seria a que nascesse e frutificasse duma terra que brilhava, que pão daria ela, que luz levaríamos dentro de nós se dele fizéssemos alimento. Tens a certeza de que o mendigo apanhou a terra do chão, tornou a perguntar, e Maria respondeu, Sim, tenho a certeza, E não brilhava antes, No chão não brilhava. Tanta firmeza teria de abalar a postura de desconfiança sistemática que deve ser a de qualquer homem quando confrontado com os ditos e feitos das mulheres em geral e da sua em particular, mas, para José, como para qualquer varão daqueles tempos e lugares, era doutrina muito pertinente a que definia o mais sábio dos homens como aquele que melhor saiba pôr-se a coberto das artes e artimanhas femininas. Falar-lhes pouco e ouvi-las ainda menos é a divisa de todo o homem prudente que não tenha esquecido os avisos do rabi Josephat ben Yohanán, palavras sábias entre as que mais o sejam, À hora da morte se hão-de pedir contas ao varão por cada conversa desnecessária que tiver tido com sua mulher. Interrogou-se José sobre se esta conversa com Maria poderia ser contada no número das necessárias, e, tendo concluído que sim, tomando em consideração a singularidade do acontecimento, jurou no entanto a si mesmo não esquecer nunca as santas palavras do rabi seu homónimo, convém dizer que Josephat é o mesmo que José, para não ter de estar com remorsos tardios à hora da morte, praza a Deus seja ela descansada. E, derradeiramente, tendo-se perguntado se deveria levar ao conhecimento dos anciãos da sinagoga o suspeito caso de mendigo desconhecido e terra luminosa, assentou que deveria fazê-lo, para sossego da sua consciência e defesa da paz do lar.
Maria acabou de comer. Levou fora as tigelas para as lavar, porém não, escusado seria dizê-lo, a que tinha servido ao mendigo. Na casa havia agora duas luzes, a da candeia, lutando trabalhosamente contra a noite que se instalara de vez, e aquela aura luminescente, vibrátil mas constante, como de um sol que não se decidisse a nascer. Sentada no chão, Maria esperava ainda que o marido tornasse a dirigir-lhe a palavra, mas José já não tem mais que dizer-lhe, agora está ocupado a compor mentalmente as frases do discurso que amanhã irá fazer perante o conselho dos anciãos. Aborrece-o não saber exactamente o que se passou entre a mulher e o pedinte, que outras coisas teriam dito um ao outro, mas não quer voltar a perguntar-lhe, porquanto, não sendo de esperar que ela acrescente algo de novo ao que contou já, ele teria de aceitar como verdadeiro o relato duas vezes feito, e se ela, afinal, está a mentir, não o poderá ele saber, mas ela, sim, saberá que mente e mentiu, e rir-se-á dele por baixo do manto, como há boas razões para crer que riu Eva de Adão, de modo mais disfarçado, claro está, pois nessa altura ainda não tinha um manto que a tapasse. Tendo chegado a este ponto, o pensamento de José deu o seguinte e inevitável passo, e eis que lhe está representando agora o misterioso mendigo como um emissário do Tentador, o qual, tendo mudado tanto os tempos e sendo as pessoas hoje mais avisadas, não caiu na ingenuidade de repetir o oferecimento dum simples fruto natural, antes parece que veio trazer a promessa duma terra diferente, luminosa, para isso se servindo, como de costume, da credulidade e da malícia das mulheres. José tem a cabeça em fogo, mas está contente consigo mesmo e com as conclusões a que chegou. Por seu lado, nada sabendo dos meandros de análise demonológica em que se embrenhou a mente do marido, e outro tanto das responsabilidades que lhe estão sendo atribuídas, Maria tenta compreender a estranha sensação de carência que vem experimentando desde que anunciou ao marido a sua gravidez. Não uma ausência interior, por certo, porque de mais sabe ela que se encontra, a partir de agora, e no sentido mais exacto do termo, ocupada, mas precisamente uma ausência exterior, como se o mundo, de um momento para outro, se tivesse apagado ou posto à distância. Recorda, mas é como se estivesse recordando uma outra vida, que depois desta última refeição, e antes de estender as esteiras para dormir, sempre tinha algum trabalho para adiantar, com ele passava o tempo, e agora o que está pensando é que não deveria mover-se do lugar onde se encontra, sentada no chão, olhando a luz que a olha por cima do rebordo da tigela e esperando que o filho nasça. Digamos agora, por respeito à verdade, que o seu pensar não foi assim tão claro, o pensamento, afinal de contas, já por outros, ou o mesmo, foi dito, é como um grosso novelo de fio enrolado sobre si mesmo, frouxo nuns pontos, noutros apertado até à sufocação e ao estrangulamento, está aqui, dentro da cabeça, mas é impossível conhecer-lhe a extensão toda, seria preciso desenrolá-lo, estendê-lo, e finalmente medi-lo, mas isto, por mais que se intente, ou finja intentar, parece que não o pode fazer o próprio sem ajudas, alguém tem de vir um dia dizer por onde se deve cortar o cordão que liga o homem ao seu umbigo, atar o pensamento à sua causa.
Na manhã seguinte, depois duma noite mal dormida, sempre a acordar por obra de um pesadelo em que se via a si mesmo caindo e tornando a cair para dentro de uma imensa tigela invertida que era como o céu estrelado, José foi à sinagoga, a pedir conselho e remédio aos anciãos. O seu insólito caso era de tal maneira extraordinário, ainda que não pudesse imaginar até que ponto, faltando-lhe, como sabemos, o melhor da história, isto é, o conhecimento do essencial, que se não fosse a excelente opinião que dele têm os veteranos de Nazaré, quiçá tivesse de voltar pelo mesmo caminho, corrido, com as orelhas a arder, ouvindo, como um ressoante som de bronze, a sentença do Eclesiástico com que o teriam fulminado, Quem acredita levianamente, tem um coração leviano, e ele, coitado, sem presença de espírito para retorquir, armado do mesmo Eclesiástico, e a propósito do sonho que o perseguira a noite inteira, O espelho e os sonhos são coisas semelhantes, é como a imagem do homem diante de si próprio. Terminado, pois, o relato, olharam os anciãos uns para os outros e depois todos juntos para José, e o mais velho deles, traduzindo numa pergunta directa a discreta suspicácia do conselho, disse, É verdade, inteira verdade e só verdade o que acabas de contar-nos, e o carpinteiro respondeu, Verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade, seja o Senhor minha testemunha. Debateram os anciãos longamente entre eles, enquanto José esperava à parte, e ao fim chamaram-no para anunciar-lhe que, por via de diferenças que persistiam sobre os procedimentos mais convenientes, haviam decidido enviar três emissários a interrogar Maria, directamente, sobre os estranhos acontecimentos, averiguar quem era afinal esse pedinte que ninguém mais vira, a figura que tinha, que exactas palavras pronunciara, se aparecia regularmente por Nazaré a pedir esmola, apurando-se, de passagem, que outras notícias poderia dar a vizinhança acerca do misterioso personagem. Alegrou-se José em seu coração porque, não querendo confessá-lo, intimidava-o a ideia de ter de ir enfrentar-se sozinho com a mulher, por aquele seu modo particular de estar agora, de olhos baixos, é certo, segundo manda a discrição, mas também com uma indisfarçável expressão provocadora, a expressão de quem sabe mais do que tenciona dizer, mas quer que se note. Em verdade, em verdade vos digo, não há limites para a malícia das mulheres, sobretudo as mais inocentes.
Saíram pois os emissários, com José à frente, a indicar o caminho, e eram eles Abiatar, Dotaim e Zaquias, nomes que aqui se deixam registados para estorvar qualquer suspeita de fraude histórica que possa, acaso, perdurar no espírito de todas aquelas pessoas que destes factos e suas versões tenham obtido conhecimento através doutras fontes, porventura mais acreditadas pela tradição, mas não por isso mais autênticas. Enunciados os nomes, provada a existência efectiva de personagens que os usaram, as dúvidas que restem perdem muito da sua força, embora não a legitimidade. Não sendo isto de todos os dias, saírem à rua três anciãos emissários, como se lhes descobria pela dignidade particular da marcha, com as túnicas e as barbas ao vento, em pouco se juntaram ao redor deles alguns garotos, que, cometendo os excessos próprios da sua idade, uns risos, uns gritos, umas correrias, acompanharam os delegados da sinagoga até à casa de José, a quem o ruidoso e denunciador cortejo muito viera enfadando. Atraídas pelo ruído, as mulheres das casas próximas apareceram às portas e, pressentindo novidade, disseram aos filhos que fossem ver que ajuntamento era aquele à porta da vizinha Maria. Penas perdidas foram, que entraram só os homens. A porta fechou-se com autoridade, nenhuma curiosa mulher de Nazaré veio a saber o que em casa do carpinteiro José se passou, até aos dias de hoje.
[…]

José Saramago, em O evangelho segundo Jesus Cristo

Da incompreensão

O primeiro sinal da incompreensão é o riso; o segundo, a seriedade.

Mário Quintana, em Caderno H

1629 – Margens do rio Imperial




Maulicán

Te banhaste no rio? Aproxima-te do fogo. Estás tremendo. Senta-se e bebe. Vamos, capitão. Estás mudo? Se falas a nossa língua como se fosses um de nós... Come, bebe. Nos espera uma longa viagem. Não gostas de nossa chicha? Não gostas de nossa carne sem sal? Nossos tambores fazem teus pés bailarem. Tens boa sorte, menino capitão. Vocês queimam as caras dos cativos com o ferro que não se apaga. Tens má sorte, menino capitão. Agora tua liberdade é minha. Sinto dor por ti. Bebe, bebe, tira o medo de teu coração. Não te terão os que te buscam com ira. Te esconderei. Nunca te venderei. Teu destino está nas mãos do Dono do mundo e dos homens. Ele é justo. Assim. Toma Mais? Antes de que chegue o sol partiremos para Repocura. Quero ver meu pai, e celebrá-lo. Meu pai é muito velho. Logo seu espírito irá comer batatas negras lá, além dos picos de neve. Escutas os passos da noite caminhando? Nossos corpos estão limpos e vigorosos para iniciar a caminhada. Nos esperam os cavalos. Meu coração bate forte, menino capitão. Escutas os tambores de meu coração? Escutas a música da minha alegria?

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

O império das formigas




2.

Na manhã seguinte, Holroyd ficou sabendo que já estavam a quarenta quilômetros de Badama, e isto aumentou sua atenção para o que acontecia nas margens. Ele não perdia nenhuma oportunidade de examinar as redondezas. Não se via qualquer sinal de ocupação humana, com exceção das ruínas de uma casa, tomadas pelo mato bravio, e da fachada manchada de verde do mosteiro de Moju, abandonado havia muitos anos, no qual uma árvore brotava através da abertura de uma janela, e pesadas lianas se entrecruzavam diante dos portais. Revoadas de estranhas borboletas de asas amarelas, semitransparentes, cruzaram o rio naquela manhã; muitas pousaram no barco e foram mortas pelos homens. Foi apenas à tarde que se aproximaram da cuberta abandonada.
À primeira vista não parecia abandonada, pois ambas as suas velas estavam içadas e pendiam frouxas no ar imóvel daquela tarde; e via-se um homem sentado nas pranchas da parte dianteira, ao lado dos pesados remos. Outro homem parecia adormecido, deitado de bruços numa espécie de ponte longitudinal que esses barcos têm na parte do meio. Mas logo ficou aparente, pelo modo como o leme oscilava à toa e o barco parecia vagar de encontro à canhoneira, que alguma coisa ali estava errada. Gerilleau examinou o barco com o binóculo, e pareceu especialmente interessado no rosto escurecido do homem sentado, um indivíduo de pele avermelhada que parecia não ter nariz; estava mais agachado do que sentado, e quanto mais o capitão o examinava menos gostava do que estava vendo, e mais aplicava o olho às lentes.
Mas por fim ele conseguiu afastar a vista e caminhou até Holroyd. Depois voltou à proa e gritou na direção do barco. Gritou algumas vezes sem resposta até que as duas embarcações se cruzaram. Santa Rosa era o nome da cuberta que vinha à deriva, claramente visível.
Quando ela passou, oscilou um pouco ao ser atingida pelas ondas do barco maior, e nesse momento o homem agachado desmoronou no chão como se todas as suas juntas tivessem se desfeito ao mesmo tempo. Seu chapéu tombou, e sua cabeça não era algo agradável de se ver; o corpo descaiu, frouxo, e rolou pelo chão até ficar oculto pelo parapeito.
Caramba! — gritou Gerilleau, e apressou-se a chamar Holroyd, que já tinha ido ao seu encontro. — Viu aquela coisa? — disse o capitão.
Está morto! — exclamou Holroyd. — Claro que sim. É melhor mandar um bote com alguém para subir a bordo. Alguma coisa está errada.
Você por acaso viu o rosto dele?
Como era?
Era... ugh... não tenho palavras.
E o capitão, dando as costas a Holroyd, assumiu o papel estridente e atarefado de comandante.
A canhoneira se aproximou, resfolegando, até emparelhar com a cuberta, e desceu à água um bote com o tenente Da Cunha e três marujos para a abordagem. A curiosidade do capitão o fez levar a canhoneira mais para perto enquanto o tenente subia a bordo, de modo que todo o convés do Santa Rosa e a parte inferior eram visíveis a Holroyd.
Agora ele podia ver claramente que os únicos tripulantes do barco abandonado eram os dois homens mortos, e embora não conseguisse ver seus rostos, podia perceber, vendo suas mãos abertas, com as carnes dilaceradas, que os dois pareciam ter passado por algum excepcional processo de apodrecimento. Por um instante sua atenção se concentrou naqueles dois montes enigmáticos de roupas sujas e membros desconjuntados. Então, seu olhar percebeu o porão escancarado, revelando as pilhas de caixas e de baús, e logo adiante a cabine, inexplicavelmente vazia. Percebeu a seguir que as tábuas do meio do convés estavam cheias de pequenos pontos negros que se moviam.
Sua atenção se fixou nesses pontos. Todos se movimentavam em diferentes direções a partir do corpo do homem caído, parecendo — a imagem lhe veio à mente de maneira desconfortável — uma multidão que se dispersa depois de assistir a uma tourada.
Percebeu que Gerilleau estava ao seu lado, e pediu:
Capitão, tem seu binóculo aí? Pode focalizar aquelas tábuas, ali no meio?
Gerilleau obedeceu, soltou um grunhido, e passou-lhe o binóculo. Seguiu-se um longo momento de escrutínio.
Formigas — disse o inglês, e devolveu o binóculo, devidamente focado, a Gerilleau.
A impressão que tivera fora a de uma multidão de grandes formigas negras, muito parecidas com as formigas comuns a não ser pelo tamanho, e pelo fato de que algumas das maiores entre elas pareciam envoltas numa espécie de tecido cinza. Mas o exame que fizera tinha sido muito rápido para estudar esses detalhes, e já a cabeça do tenente Da Cunha aparecia sobre o parapeito, para um breve diálogo.
É preciso subir a bordo — disse Gerilleau.
O tenente objetou que o barco estava coberto de formigas.
Você está de botas — disse Gerilleau.
O tenente mudou de assunto.
Como foi que morreram esses homens? — perguntou.
O capitão Gerilleau enveredou por uma especulação que Holroyd não conseguiu acompanhar, e os dois começaram a discutir com certa veemência. Holroyd pegou de volta o binóculo e retomou seu escrutínio, primeiro das formigas, e depois do corpo tombado no convés.
Ele me fez uma descrição bastante precisa das formigas.
Disse que eram tão grandes quanto as maiores que ele já tinha visto; eram negras, e moviam-se com uma firme deliberação, não da maneira mecânica e confusa como se movem as formigas comuns. Cerca de uma em cada vinte era bem maior que as demais, e tinha uma cabeça excepcionalmente volumosa. Elas lhe lembraram as formigas líderes que supervisionam o trabalho das operárias, nas espécies cortadoras de folhas; tal como aquelas, pareciam estar dirigindo e coordenando o movimento coletivo do grupo. Empinavam o corpo para trás de modo singular, como se estivessem usando as patas da frente para algum outro propósito. E ele teve a impressão, mesmo estando demasiado distante para comprovar, que a maioria dessas formigas, de ambos os tipos, estava usando equipamentos, ou seja, trazia algumas coisas amarradas ao corpo com o que lhe pareceu serem fios brancos de metal.
Holroyd abaixou o binóculo de repente, ao perceber que a relação disciplinar entre o capitão e seu subordinado estava chegando a um ponto perigoso.
O seu dever — dizia o capitão — é subir a bordo. Minhas instruções são essas.
O tenente parecia a ponto de recusar-se. A cabeça de um dos marinheiros mulatos apareceu ao lado dele.
Acho que esses homens foram mortos pelas formigas — disse Holroyd abruptamente em inglês.
O capitão teve uma explosão de raiva. Não se dignou responder a Holroyd.
Eu lhe ordenei para ir a bordo! — gritou em seu português na direção do subordinado. — Se não for para bordo agora mesmo considerarei um motim, motim da tropa. Motim e covardia! Onde está a coragem que deveria nos inspirar?! Vou colocar vocês a ferros, vou matá-los a tiros como cachorros!
E prorrompeu numa saraivada de insultos e maldições, movendo-se de um lado para o outro. Brandiu os punhos, e comportou-se como se estivesse possesso de raiva, enquanto o tenente o olhava, muito pálido e tenso. A tripulação aproximou-se, com os rostos cheios de espanto.
De repente, numa pausa do desabafo, o tenente tomou uma decisão heroica e, reunindo todas as suas forças, içou-se por cima do parapeito do barco.
Ah! — exclamou Gerilleau; e sua boca fechou-se como um alçapão.
Holroyd viu as formigas recuando diante das botas de Da Cunha. O português caminhou devagar até o corpo do homem caído, inclinou-se, hesitou, agarrou o capote do morto e virou-o de rosto para cima. Uma multidão fervilhante de formigas saiu de dentro das roupas, e Da Cunha recuou às pressas, batendo com os pés nas tábuas do convés.
Holroyd ergueu o binóculo. Viu as formigas espalhadas em torno dos pés do invasor, e fazendo o que ele nunca antes tinha visto formigas fazerem. Elas não tinham nada dos movimentos cegos da formiga comum; olhavam para o homem, assim como uma multidão humana fitaria um monstro gigantesco que acabasse de dispersá-la.
Como foi que ele morreu? — gritou o capitão.
Holroyd entendeu, na resposta do português, que o homem estava muito devorado e não havia como saber.
O que há ali na frente? — perguntou Gerilleau.
O tenente caminhou alguns passos, e começou a responder em português. Parou de súbito e deu algumas batidas no lado da perna. Depois deu uns passos esquisitos, como se estivesse tentando pisar em alguma coisa invisível, e caminhou depressa para a lateral do barco. Em seguida pareceu controlar-se, deu meia-volta, caminhou com firmeza na direção da abertura do porão, e subiu para a parte superior do convés, no lugar onde são manejados os remos; inclinou-se por alguns instantes sobre o segundo cadáver, soltou um grunhido bastante audível, e depois voltou até a cabine, movendo-se com alguma rigidez. Virou-se e começou uma conversa com o capitão, num tom frio e respeitoso de parte a parte, num vívido contraste com a raiva e os insultos de pouco antes. Holroyd captou apenas fragmentos do conteúdo da conversa.
Voltou a concentrar a atenção no binóculo, e surpreendeu-se ao ver que as formigas tinham desaparecido de todas as áreas expostas do convés. Apontou as lentes para a parte escura por baixo da coberta, e teve a impressão de que ela estava cheia de olhos vigilantes.
Todos concordaram que o barco estava de fato abandonado, mas demasiadamente cheio de formigas para que alguns homens pudessem ocupá-lo e dormir dentro dele; teriam que rebocá-lo. O tenente foi até a proa para receber e ajustar o cabo, e os homens no bote ficaram prontos para ajudá-lo quando necessário. O binóculo de Holroyd continuou investigando o barco.
Ele tinha a impressão, cada vez mais forte, de que uma grande atividade, ainda que minúscula e furtiva, estava ocorrendo ali. Viu certo número de formigas enormes, que parecem ter umas duas polegadas de comprimento, carregando pacotes de formato esquisito — cuja utilidade ele não conseguia imaginar — de uma zona mergulhada na escuridão até outra. Não se moviam em colunas ao longo dos trechos iluminados, mas em linhas abertas, espaçadas, que sugeriam estranhamente as linhas de avanço de uma infantaria moderna sob fogo inimigo. Muitas das formigas estavam se abrigando por baixo das roupas do homem morto, e uma grande quantidade delas estava se aglomerando justamente no lado para onde Da Cunha se dirigia.
Ele não as viu avançar para o tenente quando ele voltou para lá, mas não teve a menor dúvida de que tinha acontecido um ataque planejado. De repente o tenente estava gritando e soltando maldições e dando pancadas nas pernas.
Fui picado! — gritou ele, voltando para Gerilleau um rosto cheio de ódio e de acusação.
Depois saltou por sobre a lateral do barco, caiu dentro do bote, e dali pulou para dentro d’água. Holroyd ouviu o espadanar da queda.
Os três homens conseguiram puxá-lo para dentro do bote e o trouxeram de volta para bordo; e na mesma noite ele morreu.

[...]

H. G. Wells, em O país dos cegos e outras histórias