quarta-feira, 6 de maio de 2026

⁠9 Linhas e 22 Toques corpo à Escolha do Diagramador | Chico César

Enguiço

Eis um amor que bate à porta
em hora imprópria.
Ousado, liga a lâmpada frouxa,
joga a trouxa de roupa ainda manchada
do sangue das costas lanhadas.
Impõe cadeado no portão,
como se não fosse sair mais,
caminha decidido sobre minha paz.
Esse temido amor de hora errada
já vem assobiando pelo corredor.
O trinco da porta é fraco
e não sustenta;
a oração é rala e pouco aguenta,
o medo é pequeno e permissivo.
A tal amor que chega inoportuno,
eu me condeno.
Porque me condeno é que me sinto vivo.

Flora Figueiredo, em Amor a céu aberto

Hagar, o Horrível

Diário de Bernardo Soares

105.

Estética da abdicação

Conformar-se é submeter-se e vencer é conformar-se, ser vencido. Por isso toda a vitória é uma grosseria. Os vencedores perdem sempre todas as qualidades de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele que se conforma, que não tem a mentalidade do vencedor. Vence só quem nunca consegue. Só é forte quem desanima sempre. O melhor e o mais púrpura é abdicar. O império supremo é o do Imperador que abdica de toda a vida normal, dos outros homens, em quem o cuidado da supremacia não pesa como um fardo de joias.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Diálogo de bar

Mas há as compreensivas.
Ah! essas são muito piores!

Mário Quintana, em Caderno H

O Homem que Calculava — Capítulo 18



No dia seguinte, à primeira hora da sobh(1), um egípcio veio, com uma carta do poeta Iezid, buscar-nos em nossa modesta hospedaria.
 Ainda é muito cedo para a aula — advertiu tranquilo Beremiz. — Receio que a minha paciente aluna não esteja avisada.
O egípcio explicou que o xeque, antes da aula de Matemática, desejava apresentar o calculista persa a um grupo de amigos. Convinha, pois, chegássemos mais cedo ao palácio do poeta.
Desta vez, por precaução, fomos acompanhados por três escravos negros, fortes e decididos, pois era muito possível que o terrível e ciumento Tara-Tir tentasse, em caminho, assaltar o nosso grupo e assassinar o calculista no qual, ao que parece, vislumbrava odiento rival.
Uma hora depois, sem que nada de anormal nos sucedesse, chegamos à deslumbrante residência do xeque Iezid. O servo egípcio conduziu-nos, através de interminável galeria, até um rico salão azul adornado com frisos dourados. Ali se encontrava o pai de Telassim, rodeado de vários letrados e poetas.

 Salam aleicum!
 Massa al-quair!
 Venda azzaiac!(2)

Trocadas as delicadas saudações, o dono da casa dirigiu-nos amistosas palavras e convidou-nos a tomar assento naquela reunião.
Sentamo-nos sobre fartos coxins de seda. Uma escrava morena, de olhos negros e vivos, trouxe-nos frutas, doces e água com rosa.
Notei uma túnica de cetim branco de Gênova, apertada por um cinto azul todo constelado de brilhantes, de onde pendia lindo punhal com o cabo marchetado de lápis-lazúli e safiras. Coroava-o vistoso turbante de seda cor-de-rosa semeado de gemas preciosas e enfeitado de fios negros. A mão trigueira e fina realçava o brilho dos valiosos anéis que lhe pesavam nos dedos esguios.
 Ilustre geômetra — disse o xeque Iezid, dirigindo-se ao calculista —, bem sei que estás surpreendido com a reunião que promovi hoje nesta modestíssima tenda. Cabe-me, portanto, dizer-te que esta reunião não envolve outra finalidade senão homenagear o nosso ilustre hóspede, o príncipe Cluzir-el-din-Mubarec-Schá, senhor de Laore e Délhi!
Beremiz, com leve inclinação do busto, fez um salã ao grande marajá de Laore, que era o jovem de cinto de brilhantes.
Já sabíamos, das palestras habituais com que nos divertiam os forasteiros na hospedaria, que o príncipe deixara os seus ricos domínios na Índia para cumprir um dos deveres do bom muçulmano — fazer a peregrinação a Meca, a Pérola do Islã. Poucos dias, portanto, ficaria entre os muros de Bagdá; muito breve partiria, com seus numerosos servos e ajudantes, para a Cidade Santa.
 Desejamos, ó Calculista — prosseguiu Iezid —, o vosso auxílio para que possamos esclarecer uma dúvida sugerida pelo príncipe Cluzir Schá. Qual foi a contribuição com que a ciência dos hindus enriqueceu a Matemática? Quais os principais geômetras que mais se destacaram, na Índia, por seus estudos e pesquisas?
 Xeque generoso! — respondeu Beremiz. — Sinto que a tarefa que acabais de lançar-me sobre os ombros é daquelas que exigem erudição e serenidade. Erudição para conhecer, com todos os pormenores, os fatos apontados pela História das Ciências e serenidade para analisá-los e julgá-los com elevação e discernimento. Os vossos menores desejos, ó Xeque, são, entretanto, ordens para mim. Vou, pois, expor nesta brilhante reunião, como tímida homenagem ao príncipe Cluzir Schá (que acabo de ter a honra de conhecer), as pequenas noções que aprendi nos livros sobre o desenvolvimento da Matemática no país do Ganges.
E o Homem que Calculava assim começou:
 Nove ou dez séculos antes de Maomé, viveu na Índia um brâmane ilustre que se chamava Apastamba. Com o intuito de esclarecer os sacerdotes sobre os processos para construir os altares e orientar os templos, elaborou esse sábio uma obra intitulada Suba-Sultra, que contém numerosos ensinamentos matemáticos. É pouco provável que essa obra tenha recebido influência dos pitagóricos(3), pois a Geometria do sacerdote hindu não segue o método dos pesquisadores gregos. Encontram-se, entretanto, nas páginas de Suba-Sultra vários teoremas de Matemática e pequenas regras sobre construções de figuras. Para ensinar a transformação conveniente de um altar, o judicioso Apastamba é levado a construir um triângulo retângulo cujos lados medem respectivamente 39, 36 e 15 polegadas. Para a solução desse curioso problema, aplicava o brâmane um princípio que era atribuído ao grego Pitágoras:




E, voltando-se para o xeque Iezid, que tudo ouvia com a maior atenção, o calculista assim falou:
Melhor poderia esclarecer, por meio de figuras, essa proposição famosa que todos devem conhecer.
O xeque Iezid ergueu a mão e fez um sinal aos seus auxiliares. Dentro de poucos instantes dois escravos trouxeram para o salão uma grande caixa com areia. Sobre a superfície clara da areia, poderia Beremiz traçar figuras e esboçar cálculos e problemas a fim de esclarecer o Príncipe de Laore.
Aqui está — explicou Beremiz, traçando na areia com o auxílio de uma haste de bambu —, aqui está um triângulo retângulo. O lado maior é denominado hipotenusa e os outros dois lados chamaremos catetos.
Vamos, agora, construir três quadrados: um sobre a hipotenusa, outro sobre o primeiro cateto e o terceiro sobre o segundo cateto. Será fácil provar que o quadrado maior (construído sobre a hipotenusa) tem a área exatamente igual à soma das áreas dos dois outros quadrados (construídos sobre os catetos).
Perguntou o príncipe se aquela relação era verdadeira para todos os triângulos.
Com ar grave, respondeu Beremiz:
Essa proposição é verdadeira para todos os triângulos retângulos. Direi, sem receio de errar, que a lei de Pitágoras exprime uma verdade eterna. Mesmo antes de brilhar o sol que os ilumina, antes de existir o ar que respiramos, já o quadrado construído sobre a hipotenusa era igual à soma dos quadrados construídos sobre os catetos.
Mostrava-se o príncipe interessadíssimo com os esclarecimentos que ouvia do calculista. E falando ao poeta Iezid, observou com simpatia:
Coisa maravilhosa, meu amigo, é a Geometria! Que ciência notável! Percebemos em seus ensinamentos duas faces que encantam o homem mais rude e mais desinteressado pelas coisas do pensamento: clareza e simplicidade.
E tocando de leve com a mão esquerda no ombro de Beremiz, interpelou o calculista com honrosa naturalidade.
E essa proposição, que os gregos estudaram, já aparece no tal livro Suba-Sultra do velho brâmane Apastamba?
Respondeu Beremiz sem hesitar:
Sim, ó Príncipe, a chamada Lei de Pitágoras pode ser lida nas folhas do Suba-Sultra sob uma forma um pouco diferente. Pela leitura dos escritos de Apastamba aprendiam, ainda, os sacerdotes, para o cálculo dos altares, a transformar um retângulo num quadrado equivalente, isto é, num quadrado que tivesse a mesma área.
E surgiram, na Índia, outras obras de cálculo dignas de destaque? — indagou o príncipe.
Várias outras — acudiu, prontamente, Beremiz. — Citarei a curiosa Suna-Sidauta, obra de autor desconhecido, mas de muito valor, pois expõe, de forma muito singela, as regras da numeração decimal e mostra que o zero é de alta importância no cálculo. Não menos notáveis, para a Ciência dos Brâmanes, foram os escritos de dois sábios que são hoje apontados pela admiração dos geômetras: Aria-Bata e Brama-Gupta. O tratado de Aria-Bata era dividido em quatro partes: Harmonias Celestes, O Tempo e suas Medidas, As Esferas e Elementos de Cálculo. Não poucos foram os erros apontados nos escritos de Aria-Bata. Esse geômetra ensinava, por exemplo, que o volume da pirâmide se obtém multiplicando-se a metade da base pela altura.
E essa regra não está certa? — interrompeu o príncipe.
Está, na verdade, errada — respondeu Beremiz. — Totalmente errada. Para o cálculo do volume de uma pirâmide devemos multiplicar não a metade, mas a terça parte da área da base (avaliada em polegadas quadradas) pela altura (avaliada em polegadas).
Achava-se ao lado do Príncipe de Laore um homem alto, magro, ricamente trajado, de barba grisalha, meio avermelhado. Tipo estranho nos meios dos hindus. Julguei que era um caçador de tigres; enganei-me. Era um astrólogo hindu que acompanhava o príncipe em sua peregrinação a Meca. Ostentava um turbante azul de três voltas, bastante escandaloso. Chamava-se Sadhu Gang e mostrava-se muito interessado em ouvir as palavras do calculista.
Em dado momento o astrólogo Sadhu resolveu intervir nos debates. Falando mal, com sotaque estrangeiro, perguntou a Beremiz:
É verdade que a Geometria, na Índia, foi cultivada por um sábio que conhecia os segredos dos astros e os altos mistérios dos céus?
Aquela pergunta não perturbou o calculista. Depois de meditar durante alguns instantes, tomou Beremiz a sua haste de bambu, desmanchou todas as figuras que se achavam no tabuleiro de areia e escreveu apenas um nome:

Bháskara, o Sábio.

E disse com certa ênfase:
Eis o nome do mais famoso geômetra da Índia. Conhecia Bháskara os segredos dos astros e estudava os altos mistérios dos céus. Nasceu esse astrônomo em Bidom, na província de Deca, cinco séculos depois de Maomé. A primeira obra de Bháskara intitulava-se Bija-ganita.
Bija-ganita? — repetiu o homem do turbante azul. — Bija quer dizer semente, e ganita, num dos nossos velhos dialetos, significa contar, avaliar, medir.
É isso mesmo — confirmou Beremiz numa sinceridade veemente. — É isso mesmo. A melhor tradução para o título dessa obra de Bháskara seria: a Arte de Contar Sementes. Mas, além do Bija-ganita, elaborou o judicioso Bháskara outra obra que se tornou famosa: Lilaváti. Sabemos que era esse o nome da filha de Bháskara.
O astrólogo do turbante azul voltou a interromper:
Dizem que há um romance, ou uma lenda, em torno de Lilaváti. Conhece, ó Calculista, esse romance ou essa lenda?
Sim, sim — acudiu Beremiz. — Conheço-o perfeitamente e, se for do agrado do nosso príncipe, poderei contá-la.
Por Alá! — interveio prontamente o Príncipe de Laore. — Vamos ouvir a lenda de Lilaváti. Ponho todo o empenho em conhecê-la! A mim, palpita-me que deve ser muito interessante.
Nesse momento, a um sinal do poeta Iezid, o dono da casa, surgiram na sala cinco ou seis escravos, oferecendo, aos seus convidados, bolos de faisão, doces de leite, bebidas e tâmaras.
Logo que terminou aquela deliciosa refeição (e feitas as abluções do ritual) foi dada, novamente, a palavra ao calculista.
Beremiz ergueu-se, correu o olhar por todos os presentes, e assim começou:
Em nome de Alá, Clemente e Misericordioso!(4) Conta-se que o famoso geômetra Bháskara, o Sábio, tinha uma filha chamada Lilaváti.
A origem do Lilaváti é muito interessante. Vou recordá-la. Bháskara tinha uma filha chamada Lilaváti. Quando essa menina nasceu, consultou ele as estrelas e verificou, pela disposição dos astros, que sua filha, condenada a permanecer solteira toda a vida, ficaria esquecida pelo amor dos jovens patrícios. Não se conformou Bháskara com essa determinação do Destino e recorreu aos ensinamentos dos astrólogos mais famosos do tempo. Como fazer para que a graciosa Lilaváti pudesse obter marido, sendo feliz no casamento?
Um astrólogo, consultado por Bháskara, aconselhou-o a levar a filha para a província de Dravira, junto ao mar. Havia em Dravira um templo escavado na pedra, no qual era venerada uma imagem de Buda, que trazia na mão uma estrela. Só em Dravira (assegurou o astrólogo) poderia Lilaváti encontrar um noivo, mas o casamento só seria feliz se a cerimônia do enlace fosse marcada, em certo dia, no cilindro do tempo.
Lilaváti foi, afinal, com agradável surpresa para seu pai, pedida em casamento por um jovem rico, trabalhador, honesto, e de boa casta. Fixado o dia, e marcada a hora, reuniram-se os amigos para assistir à cerimônia.
Os hindus mediam, calculavam e determinavam as horas do dia com auxílio de um cilindro colocado num vaso cheio d’água. Esse cilindro, aberto apenas em cima, apresentava pequeno orifício no centro da superfície da base. À proporção que a água, entrando pelo orifício da base, invadia lentamente o cilindro, este afundava no vaso e de tal modo que chegava a desaparecer por completo em hora previamente determinada.
Colocou Bháskara o cilindro das horas em posição adequada, com o máximo cuidado, e aguardou que a água chegasse ao nível marcado. A noiva, levada por irreprimível curiosidade, verdadeiramente feminina, quis observar a subida da água no cilindro. Aproximou-se para acompanhar a determinação do tempo. Uma das pérolas de seu vestido desprendeu-se e caiu no interior do vaso. Por uma fatalidade, a pérola, levada pela água, foi obstruir o pequeno orifício do cilindro, impedindo que nele pudesse entrar a água do vaso. O noivo e os convidados esperaram com paciência largo período de tempo. Passou-se a hora propícia sem que o cilindro indicasse o tempo como previra o sábio astrólogo. O noivo e os convidados retiraram-se para que fosse fixado, depois de consultados os astros, outro dia para o casamento. O jovem brâmane, que pedira Lilaváti em casamento, desapareceu semanas depois e a filha de Bháskara ficou para sempre solteira.
Reconheceu o sábio geômetra que é inútil lutar contra o Destino e disse à filha:
Escreverei um livro que perpetuará o teu nome e ficarás na lembrança dos homens mais do que viveriam os filhos que viessem a nascer do teu malogrado casamento.
A obra de Bháskara tornou-se célebre e o nome de Lilaváti, a noiva malograda, surge imortal na História da Matemática.
Pelo que se refere à Matemática, Lilaváti faz exposição metódica da numeração decimal e das operações aritméticas sobre números inteiros; estuda minuciosamente as quatro operações, o problema da elevação ao quadrado e ao cubo, ensina a extração da raiz quadrada e chega até mesmo ao estudo da raiz cúbica de um número qualquer. Aborda depois as operações sobre números fracionários, com a conhecida regra da redução das frações ao mesmo denominador.
Para os problemas, adotava Bháskara enunciados graciosos e até românticos.
Eis um dos problemas do livro de Bháskara:

Amável e querida Lilaváti, de olhos doces como os da tenra e delicada gazela, dize-me qual o número que resulta da multiplicação de 135 por 12.

Outro problema, igualmente interessante, que figura no livro de Bháskara, refere-se ao cálculo de um enxame de abelhas:

A quinta parte de um enxame de abelhas pousou na flor de Kadamba, a terça parte numa flor de Silinda, o triplo da diferença entre estes dois números voa sobre uma flor de Krutaja, e uma abelha adeja sozinha, no ar, atraída pelo perfume de um jasmim e de um pandnus. Dize-me, bela menina, qual o número de abelhas.(5)

Bháskara mostrou em seu livro que os problemas mais complicados podem ser apresentados de uma forma viva e até graciosa.
E Beremiz, sempre traçando figuras no tabuleiro de areia, apresentou ao Príncipe de Laore vários problemas curiosos, colhidos na obra Lilaváti.
Infeliz Lilaváti!
Ao repetir o nome da desditosa menina, lembrei-me do poeta.

Como o oceano rodeia a Terra, assim tu, mulher,
rodeias o coração do mundo com o abismo das tuas lágrimas.(6)

Notas:
(1) Parte da manhã.
(2) As frases citadas são formas usuais de saudação entre árabes amigos.
(3) Geômetras gregos, discípulos de Pitágoras.
(4) Essa frase faz parte do ritual. Ao iniciar uma narrativa, em público, deve o muçulmano, previamente, exaltar o nome de Deus.
(5) A solução é 15.
(6) O verso é de Tagore. Figura no livro Pássaros Perdidos.

Malba Tahan, em O Homem que Calculava

terça-feira, 5 de maio de 2026

Caetano Veloso à la Philharmonie, Paris 2021

Que dor dói mais?



Duas cenas. Na primeira, um homem chora a morte da mulher amada. Na segunda, outro homem chora a partida da mulher amada para um novo amor. Que dor dói mais?
Mais que a morte da pessoa amada, dói a partida dela para um novo amor.
A morte, ao levar a pessoa amada, retira-a do tempo, eterniza o amor e congela o abraço – como numa fotografia. Na fotografia tudo está imóvel, não há mudanças, não há tempo. Ali o amor está fixado para sempre. A mulher que morreu, morreu amando, e a morte tornou eterno esse amor. Ela continuará amando sempre na fotografia. E esse amor estará para sempre com o homem que ficou. A pessoa amada nunca o abandonará. Ele sofre, mas a alma está amando e tranquila. A amada morreu, mas na fotografia a imagem dela está inteira. A fotografia é a presença de uma ausência.
Drummond escreveu um poema em que descreve essa ausência:

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Cecília Meireles fotografou com palavras a ausência de sua avó, em “Elegia”:

Um jardineiro desconhecido se ocupará da simetria
desse pequeno mundo em que estás.
Suas mãos vivas caminharão acima das tuas, em descanso

[...]

Tua voz sem corpo estará comandando,
entre terra e água,
o aconchego das raízes tenras

[...]

Tudo em ti era uma ausência que se demorava:
uma despedida pronta a cumprir-se.

A imaginação sofre. Mas o seu sofrimento é belo. Não há esperança nem o suplício da espera. A ausência de esperança tranquiliza a alma.
Mas, quando não é a morte da pessoa amada, e sim a partida da pessoa amada para um novo amor, a imaginação enche a ausência de fantasmas.
Sei que ela está em algum lugar – onde? Que estará fazendo, livre, esquecida de mim? Quem sabe rindo nos braços de um novo amor...
A fotografia fixou o rosto de uma mulher que me amava e não me ama mais. Havendo partido para um novo amor, ela já não pode continuar lá. A morte não a pegou. Viva, ela vai por onde quer, longe de mim. Não é minha.
É preciso que o tempo faça o seu trabalho de esquecimento. Mas o amante abandonado não quer esquecer. Porque ama. Ainda não foi atingido pela graça da desesperança, que chega muito devagar... Por isso ele sofre…

Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado

O abstracionismo geométrico de Portinari

Industrialização do Brasil (1960), de Cândido Portinari

Questão de idade

Perdão, cavalheiro. O senhor não pode.
Não posso por quê? Tá aqui a entrada que eu comprei.
O filme é proibido para setenta e cinco anos, não viu na bilheteria?
Vi. Eu tenho setenta e seis.
Então me mostre a carteira de identidade, por gentileza.
A carteira de identidade está na minha cara.
Ah, é? Parece ter cinquenta e cinco, sessenta no mais tardar. Infelizmente não pode.
Este bom aspecto que o senhor achou em mim — aliás, eu lhe agradeço, viu? — é porque eu me cuido: ioga, meditação transcendental, cooper, macrobiótica.
Tá bom, mas sem documento não insista.
Espere aí, me deixe argumentar.
O gerente aproxima-se:
Que que há?
É esse jovem aí que quer entrar e não tem idade suficiente.
Jovem? O senhor me chamou de jovem? Agora está debochando de mim?
Não senhor. Se o cara não tem condição de ver o filme, eu chamo ele de jovem.
Cara! O chefe de seção aposentado de uma das mais importantes repartições federais, ser tratado de cara!
Meu amigo, calma. O rapaz está cumprindo com o dever. São ordens superiores. Compreenda a nossa posição. A frequência está baixando devido às últimas disposições sobre idade-limite. Já pensamos mesmo em transformar este estabelecimento em edifício-garagem.
E eu com isso?
Se o senhor entra, vem o fiscal e fecha o cinema por infração.
Melhor até. Facilita a mudança de ramo.
Não brinque com essas coisas. Colabore conosco. Inclusive a fila está aumentando, e o senhor bloqueou a entrada.
Se a fila aumenta, como é que diminui a frequência?
Este filme é dos raros, entende? Que ainda lotam a casa. Claro: proibido até setenta e cinco anos.
Por isso mesmo é que eu quero ver.
Mas se não atingiu a idade, se ainda não conquistou esse direito, como é que eu posso permitir essa… como direi, essa inconstitucionalidade? Seja razoável.
Seja razoável também. Sou uma pessoa respeitável, está para nascer quem tenha me visto mentir uma vez na vida. Completei setenta e seis anos em 15 de fevereiro, sou um homem de Aquário, e Aquário não é de embromar ninguém.
Acredito, mas e a carteira?
A carteira estava no carro, o carro saiu com meu neto, sei lá onde ele anda a esta hora.
A fila começa a impacientar-se. Pigarros. Tosses. Irritação sonora.
Entra ou sai logo!
Por que não deixam ele entrar? Será que veio nova portaria, proibindo até oitenta?
Aquele ali? Coitado, já passou da idade de frequentar cinema. Por isso é que foi barrado.
Só a gente criando uma associação de frequentadores de cinema, para garantir nossos direitos.
Garantir como? E quem garante a associação?
Esse velho está enchendo.
O gerente também.
Velho por quê? Quem é velho aqui? Eu não me considero velho. Velhice é estado de espírito.
Acaba com isso! Decide logo!
O gerente, nervoso:
Viu o que o senhor me arranjou? Essa turma de setenta e cinco, quando se chateia, é capaz de arrebentar o cinema. E eu não tenho nada com o peixe, eu cumpro determinações do alto, eu nem sequer posso entrar na sala de projeção, ainda não fiz quarenta! Nem eu nem o porteiro… Os vaga-lumes, um tem setenta e sete e o outro setenta e oito anos, por causa da proibição, o senhor sabia? Pelo amor de Deus, suma da minha presença!

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

Interesse geral

Agi pelo interesse geral? Bem, fui recompensado! Mantenha isso em mente, e nunca pare de realizar tais ações.

Marco Aurélio, em Meditações

“― Tu vigia, Riobaldo, não deixa o diabo te pôr sela..."



[…]

O demo, tive raiva dele? Pensei nele? Em vezes. O que era em mim valentia, não pensava; e o que pensava produzia era dúvidas de me-enleios. Repensava, no esfriar do dia. A quando é o do sol entrar, que então até é o dia mesmo, por seu remorso. Ou então, ainda melhor, no madrugal, logo no instante em que eu acordava e ainda não abria os olhos! eram só os minutos, e, ali durante, em minha rede, eu preluzia tudo claro e explicado. Assim! ― Tu vigia, Riobaldo, não deixa o diabo te pôr sela... ― isto eu divulgava. Aí eu queria fazer um projeto! como havia de escapulir dele, do Temba, que eu tinha mal chamado. Ele rondava por me governar? Mas, então, governar pudesse, eu não era o Urutú-Branco, não vinha a ser chefe de nada, coisa nenhuma! Ah, eu carecia dum jeito, dum esperto socôrro, para tentear com o Sujo em suas próprias portas, e mediante me pôr livre de fim fatal. De que modo?
Mas acontece que o instante entre o sono e o acordado era assaz curto, só perpassava, não dava pé. Eu não podia me firmar em coisa nenhuma, a clareza logo cessava. Daqueles avisos e propósitos, o montante movimento do mundo me delia, igual a um secar. E eu mesmo estava contra mim, o resto do tempo. Não estava? Todo o mundo, cada dia, me obedecia mais, e mais me exaltavam. Com o que peguei, aos poucos, o costume de pular, num átimo, da rede, feito fosse para evitar aquela inteligencinha benfazeja, que parecia se me dizer era mesmo do meio do meu coração. Num arranco, desfazia aquilo ― faísca de folga, presença de beija-flôr, que vai começa e já se apaga ― e daí já estava inteirado no comum, nas meias-alegrias! a meia-bondade misturada com maldade a meio. Agora levantava, puxava e arreava meu Siruiz, cavalo para alvoradas. Saía sozinho.
Sair na escuridão, o senhor sabe: aqueles galhos de árvores batendo na cabeça da gente. Sempre eu ia até longe; quando voltava, encontrava o pessoal se aprontando, café já coado, cavalaria em fila para a viagem. Uma vez, inda mais longe fui, do que nas outras. E dei com o lázaro.
Ele se achava como que tocaiando, no alto duma árvore, por se esconder, feito uma cobra ararambóia. Quase levei o susto. E era um homem em chagas nojentas, leproso mesmo, um terminado. Para não ver coisas assim, jogo meus olhos fora! Promovi meu revólver. Aquele de repente se encolheu, tremido; e tremeu tanto depressa, que as ramagens da árvore enroscaram um rumor de vento forte. Não gritou, não disse nada. Será que possuía sobra dalguma voz? Eu tinha de esmagalhar aquela coisa desumana.
Dum fato, na hora, me lembrei: do que tinham me contado, da vez em que Medeiro Vaz avistou um enfermo desses num goiabal. O homem tinha vindo lamber de língua as goiabas maduras, por uma e uma, no pé, com o fito de transpassar o mal para outras pessoas, que depois comessem delas. Uns assim fazem. Medeiro Vaz, que era justo e prestimoso, acabou com a vida dele. Isso contavam, já de dentro do meu ouvido. A quizília que em mim, ânsia forte: o lázaro devia de feder; onde estivesse, adonde fosse, lambuzava pior do que lesma grande, e tudo empestava da doença amaldita. Arte de que as goiabas de todo goiabal viravam fruta peçonhenta... ― e deu dar no gatilho: lei leal essa, de Medeiro Vaz...
O guaimoré! ― xinguei. E gritei pulhas. Acho que insultava era por de certo modo retardar meu dever? Ele não respondeu. Em ante mim, assim, ninguém não respondesse? Mas fincava de me olhar: ah, ele tinha dois olhos, no meio das folhas da folhagem. Muito coitado ele era ― o senhor esteja de acordo.
Mas, aí, foi que vi e repeli o quê que é ódio de leproso! Na cabeça daqueles olhos, eu armei minha pontaria.
E ouvi o vir dum cavaleiro. Esperei. Não dissessem que eu tinha baleado à traição o maldelazento, com escondidos de não ter testemunhas. Quem vinha? Em já madruga-manhã, tudo clareado, reconheci! Diadorim! Embolsei a arma, sem razão. Diadorim me perseguia? Vigia, Diadorim! tu pune por este?! ― eu havia de indagar, apontando o esconso do leproso. Estou aqui, te vejo é você mesmo, Riobaldo... ― ele ia dizer ― ...Riobaldo, tem tento! ... A imaginação dessa conversa, eu pensei de relance, como uma brasa chia em dentro de vasilha dágua. Assim estremeci, eu ente. Porque, do bafo mesmo de minha ideia vã, eu estava catando tal anúncio de acusação! ― Tu traz o Arrenegado... Eu e ele ― o Dê?! Então, num sutil, podia mesmo ser que ele quisesse estar tomando conta de mim? ― Aí, nem nunca, nem! ― eu rosnei, riso. Espinoteei na sela, feito acordado dum cochilo de cão. E Diadorim tropeava chegando. Mas eu virei rédea e roseteei, com brado, meu animal cumprindo! rompemos em galope que era um abismo...
E, diôgo! dianho!... Eh diôgo, eh dião...
Retos, fomos, desabalando, que um quarto-de-légua quase, por doidejo. Nós três? Que eu pensei. E esbarrei, por tanto; meu cavalo sacudiu o pescoço todo. Espiei em roda, até com a mão. Não vi o demo... Meu espírito era uma coceira enorme. Como eu ia poder contra esse vapor de mal, que parecia entrado dentro de mim, pesando em meu estômago e apertando minha largura de respirar? Aí eu carecia de negar pouso a ele. A nega. Eu quis! Eu quis?
Como olhei, Diadorim estava acolá, estacado parado no lugar, perto da árvore do homem. Por certo ele tinha enxergado a coisa viva, e estava desentendendo meu espaço, esses desatinos.
Contemplei Diadorim, daquela distância. Montado sempre, teso de consciência, ele me parecia mais alto de ser, e não bulia, por mim avistado. E o lázaro? Ah, esse, que se espertasse, que fugisse, para não falecer... Que é que adiantava que, àquela hora, os passarinhos cantassem, acabando de amanhecer o campo sertão? A enquanto sobejasse de viver um lázaro assim, mesmo muito longe, neste mundo, tudo restava em doente e perigoso, conforme homem tem nôjo é do humano.
Condenado de maldito, por toda lei, aquele estrago de homem estava; remarcado: seu corpo, sua culpa! Se não, então por que era que ele não dava cabo do mal, ou não deixava o mal dar logo cabo dele? Homem, ele já estava era morto. Que o que Diadorim dissesse; que dissesse. Que aquele homem leproso era meu irmão, igual, criatura de si? Eu desmentia. Como era que, sabendo de um lázaro assim, eu ia poder prezar meu amor por Diadorim, por Otacília?! E eu não era o Urutú-Branco? Chefe não era para arrecadar vantagens, mas para emendar o defeituoso. Esporeei, voltando. Não sou do demo e não sou de Deus! ― pensei bruto, que nem se exclamasse; mas exclamação que havia de ser em duas vozes, uma muito diferente da outra. Vim feito. Tornei a empunhar o revólver. Mas completei, eu mesmo, aquilo que Diadorim decerto ia me responder: Riobaldo, tu mata o pobre, mas, ao menos, por não desprezar, mata com tua mão cravando faca ― tu vê que, por trás do pôdre, o sangue do coração dele é são e quente... Encostar nele a ponta de minha franqueira de cabo prateante? ― Toma! Tu cai no chão... Agalopando assim, joguei fora meu revólver. Joguei ― ou foi um ramo de rompe-gibão que rolou arrancando a arma de meu pulso. Cheguei, esbarrei. Meu cavalo, tão airoso, batia mão, rapava; ele deu um bufo de burro.Vi Diadorim. Mas o leprento tinha ganhado para se ir, graças que não assisti à arriação dele: decerto descendo às pressas, se escapando de gatas nas môitas de feijão-bravo. Desse, tive um cansaço enorme; pode que seja por não saber se matava ou não matava, caso ele ainda estivesse lá. Do leproso.
[...]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Força Estranha | Gal Costa

O impagável Quino

Delicadeza

Nem tudo o que escrevo resulta numa realização, resulta mais numa tentativa. O que também é um prazer. Pois nem em tudo eu quero pegar. Às vezes quero apenas tocar. Depois o que toco às vezes floresce e os outros podem pegar com as duas mãos.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

Capítulo 48 – Um Primo de Virgília




Sabe quem chegou ontem de São Paulo? perguntou-me uma noite o Luís Dutra.
O Luís Dutra era um primo de Virgília, que também privava com as musas. Os versos dele agradavam e valiam mais do que os meus; mas ele tinha necessidade da sanção de alguns, que lhe confirmasse o aplauso dos outros. Como fosse acanhado, não interrogava a ninguém; mas deleitava-se com ouvir alguma palavra de apreço; então criava novas forças e arremetia juvenilmente ao trabalho.
Pobre Luís Dutra! Apenas publicava alguma coisa, corria à minha casa, e entrava a girar em volta de mim, espreita de um juízo, de uma palavra, de um gesto, que lhe aprovasse a recente produção, e eu falava-lhe de mil coisas diferentes, – do último baile do Catete, da discussão das câmaras, de berlindas e cavalos, – de tudo, menos dos seus versos ou prosas. Ele respondia-me, a principio com animação, depois mais frouxo, torcia a rédea da conversa para o assunto dele, abria um livro, perguntava-me se tinha algum trabalho novo, e eu dizia-lhe que sim ou que não, mas torcia a rédea para o outro lado, e lá ia ele atrás de mim, até que empacava de todo e sala triste. Minha intenção era fazê-lo duvidar de si mesmo, desanimá-lo, eliminá-lo. E tudo isto a olhar para a ponta do nariz…

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Xingó-Kaiapu

Congresso. Um deputado fala, em sua bancada.
DEPUTADO E para aprovar o novo código florestal e a nova demarcação de terras indígenas, nós, da bancada ruralista, chamamos aqui um cacique, que representa o seu povo e aprovou a nossa ementa.
Aparece um sujeito claramente não índio, pintado e fantasiado toscamente como índio.
PEREIRA Oi. Índio aprovar novo código florestal. Novo código florestal é bom pra índio. Novo código aprovado e tal e coisa.
2º DEPUTADO Olá. Desculpa, deputado. Mas que índio é esse?
DEPUTADO Este daqui é o menino...
PEREIRA Touro-deitado. Pé-de-mamute.
2º DEPUTADO De qual tribo o senhor é?
PEREIRA Xingó-Kaiapu. Perto da região de Guaravita.
3º DEPUTADO É impressão minha ou esse índio parece muito com o Deputado Paulo Pedreira do partido ruralista?
PEREIRA É meu primo.
2º DEPUTADO Por que é que coincidentemente seu primo não apareceu na Câmara hoje?
PEREIRA Ele veio. Tá lá dentro.
3º DEPUTADO Ele precisa assinar a lei, porque foi ele quem redigiu.
PEREIRA Vou chamar.
Índio sai. Deputados se entreolham. Índio volta como deputado, com a maquiagem borrada e o terno colocado às pressas.
PEREIRA Alguém me chamou?
2º DEPUTADO Você precisa assinar a lei.
PEREIRA Pronto. Era só isso?
3o DEPUTADO Não. O índio precisa assinar também.
PEREIRA Puta que o pariu. Não era melhor ter falado quando ele tava aqui.
3º DEPUTADO Não é só o senhor chamar?
PEREIRA Claro, é só eu chamar. Puta que o pariu, neguinho não pensa no outro.
Ele sai e volta de cacique ainda mais tosco.
PEREIRA Pronto, onde é que índio assina?
2º DEPUTADO Só um instante, antes de assinar, a gente queria adicionar um artigo à ementa e precisa consultar o deputado.
PEREIRA Caceeeeta.
Pereira vai pra debaixo da bancada pra trocar de roupa. Ressurge sem cocar.
PEREIRA O que é que foi?
2º DEPUTADO É que eu acho que é imprescindível a presença não só do índio mas do deputado, ao mesmo tempo, no momento em que for assinado o novo código.
Pereira respira fundo. Corte.
DEPUTADO E assim aprovamos a ementa parlamentar que reduz as áreas indígenas demarcadas e o novo código florestal com a presença e aprovação das lideranças indígenas.
Pereira assina com uma mão, na outra segura um fantoche de índio e fala.
PEREIRA Índio aprova.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

Capítulo VII – Inverno



A família estava reunida em torno do fogo, Fabiano sentado no pilão caído, Sinha Vitória de pernas cruzadas, as coxas servindo de travesseiros aos filhos. A cachorra Baleia, com o traseiro no chão e o resto do corpo levantado, olhava as brasas que se cobriam de cinza.
Estava um frio medonho, as goteiras pingavam lá fora, o vento sacudia os ramos das catingueiras, e o barulho do rio era como um trovão distante.
Fabiano esfregou as mãos satisfeito e empurrou os tições com a ponta da alpercata. As brasas estalaram, a cinza caiu, um círculo de luz espalhou-se em redor da trempe de pedras, clareando vagamente os pés do vaqueiro, os joelhos da mulher e os meninos deitados. – De quando em quando estes se mexiam, porque o lume era fraco e apenas aquecia pedaços deles. Outros pedaços esfriavam recebendo o ar que entrava pelas rachaduras das paredes e pelas gretas da janela. Por isso não podiam dormir. Quando iam pegando no sono, arrepiavam-se, tinham precisão de virar-se, chegavam-se à trempe e ouviam a conversa dos pais. Não era propriamente conversa, eram frases soltas, espaçadas, com repetições e incongruências. As vezes uma interjeição gutural dava energia ao discurso ambíguo. Na verdade nenhum deles prestava atenção às palavras do outro: iam exibindo as imagens que lhes vinham ao espírito, e as imagens sucediam-se, deformavam-se, não havia meio de dominá-las. Como os recursos de expressão eram minguados, tentavam remediar a deficiência falando alto.
Fabiano tornou a esfregar as mãos e iniciou uma história bastante confusa, mas como só estavam iluminadas as alpercatas dele, o gesto passou despercebido. O menino mais velho abriu os ouvidos, atento. Se pudesse ver o rosto do pai, compreenderia talvez uma parte da narração, mas assim no escuro a dificuldade era grande. Levantou-se, foi a um canto da cozinha, trouxe de lá uma braçada de lenha. Sinha Vitória aprovou este ato com um rugido, mas Fabiano condenou a interrupção, achou que o procedimento do filho revelava falta de respeito e estirou o braço para castigá-lo. O pequeno escapuliu-se, foi enrolar-se na saia da mãe, que se pôs francamente do lado dele.
Hum! hum! Que brabeza!
Aquele homem era assim mesmo, tinha o coração perto da goela.
Estourado.
Remexeu as brasas com o cabo da quenga de coco, arrumou entre as pedras achas de angico molhado, procurou acendê-las. Fabiano ajudou-a: suspendeu a tagarelice, pôs-se de quatro  pés e soprou os carvões, enchendo muito as bochechas. Uma fumarada invadiu a cozinha, as pessoas tossiram, enxugaram os olhos. Sinha Vitória manejou o abano, e passado um minuto as labaredas espirraram entre as pedras.
O círculo de luz aumentou, agora as figuras surgiam na sombra, vermelhas. Fabiano, visível da barriga para baixo, ia-se tornando indistinto daí para cima, era um negrume que vagos clarões cortavam. Desse negrume saiu novamente a parolagem mastigada.
Fabiano estava de bom humor. Dias antes a enchente havia coberto as marcas postas no fim da terra de aluvião, alcançava as catingueiras, que deviam estar submersas. Certamente só apareciam as folhas, a espuma subia, lambendo ribanceiras que se desmoronavam.
Dentro em pouco o despotismo de água ia acabar, mas Fabiano não pensava no futuro. Por enquanto a inundação crescia, matava bichos, ocupava grotas e várzeas. Tudo muito bem. E Fabiano esfregava as mãos. Não havia o perigo da seca imediata, que aterrorizara a família durante meses. A catinga amarelecera, avermelhara-se, o gado principiara a emagrecer e horríveis visões de pesadelo tinham agitado o sono das pessoas. De repente um traço ligeiro rasgara o céu para os lados da cabeceira do rio, outros surgiram mais claros, o trovão roncara perto, na escuridão da meia-noite rolaram nuvens cor de sangue. A ventania arrancara sucupiras e imburanas, houvera relâmpagos em demasia – e Sinha Vitória se escondera na camarinha com os filhos, tapando as orelhas, enrolando-se nas cobertas. Mas aquela brutalidade findara de chofre, a chuva caíra, a cabeça da cheia aparecera arrastando troncos e animais mortos. A água tinha subido, alcançado a ladeira, estava com vontade de chegar aos juazeiros do fim do pátio. Sinha Vitória andava amedrontada. Seria possível que a água topasse os juazeiros? Se isto acontecesse, a casa seria invadida, os moradores teriam de subir o morro, viver uns dias no morro, como preás.
Suspirava atiçando o fogo com o cabo da quenga de coco. Deus não permitiria que sucedesse tal desgraça.
An! A casa era forte. – An! Os esteios de aroeira estavam bem fincados no chão duro. Se o rio chegasse ali, derrubaria apenas os torrões que formavam o enchimento das paredes de taipa. Deus protegeria a família.
An!
As varas estavam bem amarradas com cipós nos esteios de aroeira. O arcabouço da casa resistiria à fúria das águas. E quando elas baixassem, a família regressaria. Sim, viveriam  todos no mato, como preás. Mas voltariam quando as águas baixassem, tirariam do barreiro terra para vestir o esqueleto da casa.
An!
Sinha Vitória moveu o abano com força para não ouvir a barulho do rio, que se aproximava. Seria que ele estava com intenção de progredir? O abano zumbia, e o rumor da enchente era um sopro, um sopro que esmorecia para lá dos juazeiros.
Fabiano contava façanhas. Começara moderadamente, mas excitara-se pouco a pouco e agora via os acontecimentos com exagero e otimismo, estava convencido de que praticara feitos notáveis. Necessitava esta convicção. Algum tempo antes acontecera aquela desgraça: o soldado amarelo provocara-o na feira, dera-lhe uma surra de facão e metera-o na cadeia. Fabiano passara semanas capiongo, fantasiando vinganças, vendo a criação definhar na catinga torrada. Se a seca chegasse, ele abandonaria mulher e filhos, coseria a facadas o soldado amarelo, depois mataria o juiz, o promotor e o delegado. Estivera uns dias assim murcho, pensando na seca e roendo a humilhação. Mas a trovoada roncara, viera a cheia, e agora as goteiras pingavam, o vento entrava pelos buracos das paredes.
Fabiano estava contente e esfregava as mãos. Como o frio era grande, aproximou-as das labaredas. Relatava um fuzuê terrível, esquecia as pancadas e a prisão, sentia-se capaz de atos importantes.
O rio subia a ladeira, estava perto dos juazeiros. Não havia notícia de que os houvesse atingido – e Fabiano, seguro, baseado nas informações dos mais velhos, narrava uma briga de que saíra vencedor. A briga era sonho, mas Fabiano acreditava nela.
As vacas vinham abrigar-se junto à parede da casa, pegada ao curral, a chuva fustigava-as, os chocalhos batiam. Iriam engordar com o pasto novo, dar crias. O pasto cresceria no campo, as árvores se enfeitariam, o gado se multiplicaria. Engordariam todos, ele Fabiano, a mulher, os dois filhos e a cachorra Baleia. Talvez Sinha Vitória adquirisse uma cama de lastro de couro. Realmente o jirau de varas onde se espichavam era incômodo.
Fabiano gesticulava. Sinha Vitória agitava o abano para sustentar as labaredas no angico molhado. Os meninos, sentindo frio numa banda e calor na outra, não podiam dormir e escutavam as lorotas do pai. Começaram a discutir em voz baixa uma passagem obscura da narrativa. Não conseguiram entender-se, arengaram azedos, iam se atracando. Fabiano zangou-se com a impertinência deles e quis puni-los. Depois  moderou-se, repisou o trecho incompreensível utilizando palavras diferentes.
O menino mais novo bateu palmas, olhou as mãos de Fabiano, que se agitavam por cima das labaredas, escuras e vermelhas. As costas ficavam na sombra, mas as palmas estavam iluminadas e cor de sangue. Era como se Fabiano tivesse esfolado um animal. A barba ruiva e emaranhada estava invisível, os olhos azulados e imóveis fixavam-se nos tições, a fala dura e rouca entrecortava-se de silêncios. Sentado no pilão, Fabiano derreava-se, feio e bruto, com aquele jeito de bicho lerdo que não se aguenta em dois pés.
O menino mais velho estava descontente. Não podendo perceber as feições do pai, cerrava os olhos para entendê-lo bem. Mas surgira uma dúvida. Fabiano modificara a história – e isto reduzia-lhe a verossimilhança. Um desencanto. Estirou-se e bocejou. Teria sido melhor a repetição das palavras. Altercaria com o irmão procurando interpretá-las. Brigaria por causa das palavras – e a sua convicção encorparia. Fabiano devia tê-las repetido. Não. Aparecera uma variante, o herói tinha-se tornado humano e contraditório. O menino mais velho recordou-se de um brinquedo antigo, presente de seu Tomás da bolandeira. Fechou os olhos, reabriu-os, sonolento. O ar que entrava pelas rachas das paredes esfriava-lhe uma perna, um braço, todo o lado direito. Virou-se, os pedaços de Fabiano sumiram-se. O brinquedo se quebrara, o pequeno entristecera vendo as peças inúteis. Lembrou-se dos currais feitos de seixos miúdos, sob as catingueiras.
Agora a lagoa estava cheia, tinha coberto os currais que ele construíra. O barreiro também se enchera, atingia a parede da cozinha, as águas dele juntavam-se às da lagoa. Para ir ao quintal onde havia craveiros e panelas de losna, Sinha Vitória saía pela porta da frente, descia o copiar e atravessava a porteira de baraúna. Atrás da casa, as cercas, o pé de turco e as catingueiras estavam dentro da água. As goteiras pingavam, os chocalhos das vacas tiniam, os sapos cantavam. O som dos chocalhos era familiar, mas a cantiga dos sapos e o rumor das goteiras causavam estranheza. Tudo estava mudado. Chovia o dia inteiro, a noite inteira. As moitas e capões de mato onde viviam seres misteriosos tinham sido violados. Havia lá sapos. E a cantiga deles subia e descia, uma toada lamentosa enchia os arredores. Tentou contar as vozes, atrapalhou-se. Eram muitas, com certeza havia uma infinidade de sapos nas moitas e nos capões. Que estariam fazendo? Por que gritavam a cantoria gorgolejada e triste? Nunca vira um deles, confundia-os com os habitantes invisíveis da terra e dos bancos de macambira. Enrolou-se,  acomodou-se, adormeceu, uma banda aquecida pelo fogo, a outra banda protegida pelas nádegas de Sinha Vitória.
O abano agitava-se, a madeira úmida chiava, o vulto de Fabiano iluminava-se e escurecia.
Baleia, imóvel, paciente, olhava os carvões e esperava que a família se recolhesse. Enfastiava-a o barulho que Fabiano fazia. No campo, seguindo uma rês, se esgoelava demais. Natural. Mas ali, a beira do fogo, para que tanto grito? Fabiano estava-se cansando à toa. Baleia se enjoava, cochilava e não podia dormir. Sinha Vitória devia retirar os carvões e a cinza, varrer o chão, deitar-se na cama de varas com Fabiano. Os meninos se arrumariam na esteira, por baixo do caritó, na sala. Era bom que a deixassem em paz. O dia todo espiava os movimentos das pessoas, tentando adivinhar coisas incompreensíveis. Agora precisava dormir, livrar-se das pulgas e daquela vigilância a que a tinham habituado. Varrido o chão com vassourinha, escorregaria entre as pedras, enroscar-se-ia, adormeceria no calor, sentindo o cheiro das cabras molhadas e ouvindo rumores desconhecidos, o tique-taque das pingueiras, a cantiga dos sapos, o sopro do rio cheio. Bichos miúdos e sem dono iriam visitá-la.

Graciliano Ramos, em Vidas Secas