08/09/2026

Encontro histórico: Karen Carpenter and Ella Fitzgerald Medley From Music, Music, Music TV 1980

O ser em soneto

Para o Tenório Telles, ele me sabe

Mas será que viver a pena vale
da vida que não vale sem a pena?
E o que é a pena de viver senão
aceitar dissabor, de coração?

Escrevo só por gosto, se desgosto
do amanhecer amargo, permaneço.
O amor me ensina, o desamor ajuda
a saber que só ganho o que mereço.

Coragem tenho de me ver. Contudo,
construo devagar o que mais quero:
findar me vendo no meu próprio espelho.

Valeu-me a vida quando descobri
que o ser é a minha própria gravidade.
Se ela desmaia, eu me desapareço.

Thiago de Mello, em Acerto de contas

Capítulo 96 – A Carta Anônima



Senti tocar-me no ombro; era o Lobo Neves. Encaramo-nos alguns instantes, mudos, inconsoláveis. Indaguei de Virgília, depois ficamos a conversar uma meia hora. No fim desse tempo, vieram trazer-lhe uma carta; ele leu-a, empalideceu muito, e fechou-a com a mão trêmula. Creio que lhe vi fazer um gesto, como se quisesse atirar-se sobre mim; mas não me lembra bem. O que me lembra claramente é que durante os dias seguintes recebeu-me frio e taciturno. Enfim Virgília contou-me tudo, daí a dias na Gamboa.
O marido mostrou-lhe a carta, logo que ela se restabeleceu. Era anônima e denunciava-nos. Não dizia tudo; não falava, por exemplo, das nossas entrevistas externas; limitava-se a precavê-lo contra a minha intimidade, e acrescentava que a suspeita era pública. Virgília leu a carta e disse com indignação que era uma calúnia infame.
– Calúnia? perguntou Lobo Neves.
– Infame.
O marido respirou; mas, tomando à carta, parece que cada palavra dela lhe fazia com o dedo um sinal negativo, cada letra bradava contra a indignação da mulher. Esse homem, aliás intrépido, era agora a mais frágil das criaturas.
Talvez a imaginação lhe mostrou, ao longe, o famoso olho da opinião a fitá-lo sarcasticamente, com um ar de pulha; talvez uma boca invisível lhe repetiu ao ouvido as chulas que ele escutara ou dissera outrora. Instou com a mulher que lhe confessasse tudo, porque tudo lhe perdoaria. Virgília compreendeu que estava salva; mostrou-se irritada com a insistência, jurou que da minha parte só ouvira palavras de gracejo e cortesia. A carta havia de ser de algum namorado sem ventura. E citou alguns, – um que a galanteara francamente, durante algumas semanas, outro que lhe escrevera uma carta, e ainda outros e outros. Citava-os pelo nome, com circunstâncias, estudando os olhos do marido, e concluiu dizendo que, para não dar margem à calúnia, tratar-me-ia de maneira que eu não voltaria lá.
Ouvi tudo isto um pouco turbado, não pelo acréscimo de dissimulação que era preciso empregar de ora em diante, até afastar-me inteiramente da casa do Lobo Neves, mas pela tranquilidade moral de Virgília, pela falta de comoção, de susto, de saudades, e até de remorsos. Virgília notou a minha preocupação, levantou-me a cabeça, porque eu olhava então para o soalho, e disse com certa amargura:
– Você não merece os sacrifícios que lhe faço.
Não lhe disse nada; era ocioso ponderar-lhe que um pouco de desespero e terror daria à nossa situação o sabor cáustico dos primeiros dias; mas se lho dissesse, não é impossível que ela chegasse lenta e artificiosamente até esse pouco de desespero e terror. Não lhe disse nada. Ela batia nervosamente com a ponta do pé no chão; aproximei-me e beijei-a na testa.
Virgília recuou, como se fosse um beijo de defunto.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

1639 – São Miguel de Tucumán

De uma denúncia contra o bispo de Tucumán, enviada ao Tribunal de Inquisição de Lima

Com a sinceridade e verdade que a tão santo Tribunal se deve falar, denuncio da pessoa do reverendo bispo de Tucumán, dom Fr. Melchor Maldonado de Saavedra, do qual ouvi coisas gravíssimas suspeitas em nossa santa fé católica, e correm geralmente entre todo este bispado. Que em Salta, estando confirmando, chegou uma menina de bom parecer, e disse a ela: “Melhor é vossa mercê para tomada que para confirmada”; e em Córdoba este passado ano de 1638 chegou outra em presença de muita gente e erguendo-lhe a saia disse: “Zape! Que não a hei de confirmar para baixo e sim para cima”; e com a primeira amancebou-se com publicidade…

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

The Kiss of Venus | Paul McCartney

 


The Kiss of Venus, de Paul McCartney

The kiss of Venus
Has got me on the go
She scored a bullseye
In the early morning glow
Early morning glow

Packed with illusions
Our world is turned around
This golden circle has a
Most harmonic sound
Harmonic sound

And in the sunshine
When we stand alone
We came together with
Our secrets blown
Our secrets blown

Now moving slowly
We circle through the square
Two passing planets in the
Sweet, sweet summer air
Sweet summer air

And in the sunshine
When we stand alone
We came together with
Our secrets blown
Our secrets blown

Reflected mountains in a lake
Is this too much to take?
Asleep or wide awake?
And if the world begins to shake
Will something have to break?
We have to stay awake

Packed with illusions
Our world is turned around
This golden circle has a
Most harmonic sound
Harmonic sound

And in the sunshine
When we stand alone
We came together with
Our secrets blown
Our secrets blown

The kiss of Venus
Has got me on the go
She scored a bullseye
In the early morning glow
Early morning glow

The kiss of Venus
Has got me on the go

O Livro das Coincidências: a harmonia dos planetas, de John Martineau, é um minitratado sobre os planetas, suas órbitas e as revoluções do Sol e da Lua. Eu o reli faz pouco tempo. É uma leitura fascinante, pois quem concebeu esse livro visualizou essas órbitas e revoluções. Por exemplo, do ponto de vista geocêntrico, Vênus traça um pentagrama ao redor da Terra a cada oito anos.
Quando eu li o livro pela primeira vez, fiquei surpreso ao ver esses designs complexos no universo, e isso me fez pensar: “Sim, é mágico... Essa vida, a interdependência de tudo, as árvores fornecendo oxigênio; há tanta coisa mágica acontecendo”.
Falando em coisas mágicas, quando tocamos no Festival de Glastonbury em 2004, adorei a ideia de que provavelmente estávamos na confluência de linhas retas, as linhas que cruzam o globo e ao longo das quais se acredita que nossos ancestrais fundaram cidades significativas. Esse tipo de história me atrai. Glastonbury também é considerado o lugar em que o Rei Arthur está enterrado. De uma forma ou de outra, é um lugar muito especial e tem uma vibe muito vívida. Não há como negar: o local tem uma aura distinta.
Desde os anos 1960 eu me interesso por constelações, cosmologia e sons cósmicos. O livro de Martineau também aborda o som – a música das esferas –, em que cada planeta emite uma nota diferente. Isso, para mim, é muito “hippie” – toda essa ideia de apenas curtir as coisas simples da vida e de estar em harmonia com a natureza. “We came together with/ Our secrets blown” – não estamos tentando esconder nada, estamos desnudos na chuva, entramos em sintonia com nossos segredos revelados, e o cosmos cuida de seus afazeres.
Pensar nessas coisas maiores nos torna humildes. Aqui estamos nós, pequenos pontos neste planeta, ele próprio um pontinho no universo, e ao mesmo tempo no coração de tudo. E temos esse modelo da flor de lótus, que ao menos algumas religiões (budismo e hinduísmo) consideram um símbolo importante.
Outra coisa que aprendi no livro de Martineau é que de vez em quando Vênus passa bem pertinho da Terra, fenômeno conhecido como “o beijo de Vênus”. Isso bastou para incendiar a minha imaginação. Esse foi o embalo que me pôs em movimento.
Two passing planets in the/ Sweet, sweet summer air”. É como se nós, na condição de pessoas, fôssemos planetas que passam – um pouco como navios passando à noite. A sequência “Now moving slowly/ We circle through the square” me lembra de “through the fair” (“pela feira”), expressão usada em muitas baladas, inclusive na tradicional balada irlandesa, “She Moved Through the Fair”. A ideia de esquadrar o círculo (“squaring the circle”) – de fazer algo impossível – também está à espreita em algum lugar na vegetação rasteira desse verso. Em certo sentido, cada canção supera a grande chance de acabar nem sendo escrita.

Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente

07/09/2026

Spirit Fingers Trio Live | Mohini Dey, Blaque Dynamite, Greg Spero | Find

Hagar, o Horrível

Negras olimpíadas

Clementina Carolina de Jesus
Ganhamos uma rosa de ouro
Uma rosa desenhada em canção
Algodão em sorriso ex-escravo
Sua tataraneta judoca
Negra como vazio em noite escura
De cabelos lindos alvoroçados
Como se o vento os tivesse penteando
Uma redonda flor como o sol
Brilha em seu olhar escondida
A menina espantada da Cidade de Deus
Entra em portas que nunca se abriram
Dos seus olhos de espanto e fuga
Cai uma chuva que enxuga sua dor.

José Carlos Capinan, em Cancioneiro geral

Diário de Bernardo Soares



128.

Repudiei sempre que me compreendessem. Ser compreendido é prostituir-se. Prefiro ser tomado a sério como o que não sou, ignorado humanamente, com decência e naturalidade.
Nada poderia indignar-me tanto como se no escritório me estranhassem.
Quero gozar comigo a ironia de me não estranharem. Quero o cilício de me julgarem igual a eles. Quero a crucifixão de me não distinguirem. Há martírios mais subtis que aqueles que se registam dos santos e dos eremitas. Há suplícios da inteligência como os há do corpo e do desejo.
E desses, como dos outros, suplícios há uma volúpia.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Pardon anything

Hello, Gringo! Welcome to Brazil. Não repara a bagunça. Don’t repair the mess. In Brazil we give two beijinhos. Em São Paulo, just one beijinho. If you are em Minas, it’s three beijinhos, pra casar. It’s a tradition. If you don’t give three kisses, you don’t marry in Minas. In the other places of Brazil, you can give how many beijinhos you want. In Rio, the beijinho is in the shoulder.
The house is yours. Fica à vontade. Qualquer coisa é só gritar. Shout. Mas keep calm. Como é que se fala keep calm em inglês? Here the things demoram. It’s better to wait seated. Everything is atrasado, it’s like subentendido that the person will be atrasada. For a meeting, it’s meia hora. For a party, it’s two hours. For a stadium, it’s one year. For the metrô, it’s forever.
Never say you are a gringo. Yes, people love gringos but people also love money and gringos have money so people vai cobrar de você mais money because you are gringo. Say you are from Florianópolis. People de Florianópolis look like gringo and they have a strange sotaque igual like you. People will believe you are from Florianópolis.
Politics is complicated. We don’t like Dilma because of corruption but I think she don’t rob but people from PT rob and Dilma don’t do nothing to stop people robbing but politics is complicated.
Try this moqueca. Put some farofa. Try this açaí. Put some farofa. Try this chicken we call à passarinho because it looks like a little bird. Now put some farofa. Now put some ovo inside the farofa. Mix with some banana. Delicious. You don’t have farofa in your country? You know nothing, you innocent.
I’m catholic but I’m also budista and I am son of Oxóssi. How do you say Oxóssi in english? It’s the brother of Ogum. You don’t know Ogum? They are guerreiros. And my moon is in Áries. Ou seja. Imagine the mess.
Try this xiboquinha. It’s cachaça with canela and honey. Try this Jurupinga. It’s cachaça with wine. Or maybe it’s wine and sugar. Nobody knows. It’s delicious. Try this soltinho da Bahia. It’s organic. I only smoke when I drink. But the problem is I drink a lot. Try this brigadeiro. This is called larica. Now put some farofa. Delicious.
This cup passed really fast. Volte sempre. Come back always! Fica lá em casa. We are family now. You like that? You can keep it. It’s yours. Faço questão. I make question. Go with god and desculpa qualquer coisa. Pardon anything.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

O Homem que Calculava — Capítulo 34


34. — Segue-me — disse Jesus. — Eu sou o caminho que deves trilhar, a verdade em que deves crer, a vida que deves esperar. Eu sou o caminho sem perigo; a verdade sem erro e a vida sem morte.

Na terceira lua do mês de Rhegeb, do ano de 1258, uma horda de tártaros e mongóis atacou a cidade de Bagdá. Os assaltantes eram comandados por um príncipe mongol, neto de Gêngis Khan.
O xeque Iezid (Alá o tenha em sua glória!) morreu combatendo junto à ponte de Solimã; o califa Al-Motacém entregou-se prisioneiro e foi degolado pelos mongóis(1).
A cidade foi saqueada e cruelmente arrasada.
A gloriosa Bagdá, que durante quinhentos anos fora um centro de ciências, letras e artes, ficou reduzida a um montão de ruínas.
Felizmente não assisti a esse crime que os bárbaros conquistadores praticaram contra a civilização. Três anos antes, logo depois da morte do generoso príncipe Cluzir Schá (Alá o tenha em sua paz!), segui para Constantinopla com Beremiz e Telassim.
Devo dizer que Telassim, antes de seu casamento, já era cristã, e ao cabo de poucos meses fez com que Beremiz repudiasse a religião de Maomé e adotasse integralmente o Evangelho de Jesus, o Salvador.
Beremiz fez questão de ser batizado por um bispo que soubesse a Geometria de Euclides.
Todas as semanas vou visitá-lo. Chego às vezes a invejar-lhe a felicidade em que vive em companhia dos três filhinhos e da carinhosa esposa.
Ao ver Telassim, lembro-me das palavras do poeta:

“Pela tua graça, mulher, conquistaste todos os corações. Tu és a obra sem mácula, saída das mãos do Criador.”

E mais:

“Esposa de pura origem, ó perfumada! Sob as notas de tua voz as pedras levantam-se dançando e vêm, em ordem, erguer um edifício harmonioso!(2)
Cantai, ó aves, as vossas cantigas mais puras! Brilhai, ó Sol, com a vossa mais doce luz!
Deixai voar as vossas flechas, ó Deus do Amor!
Mulher! É grande a tua felicidade: bendito seja o teu amor(3)”

Não resta dúvida. De todos os problemas, o que Beremiz melhor resolveu foi o da Vida e do Amor.
E aqui termino, sem fórmulas e sem números, a história simples da vida do Homem que Calculava.
A verdadeira felicidade — segundo afirma Beremiz — só pode existir à sombra da religião cristã.
Louvado seja Deus! Cheios estão o Céu e a Terra da majestade de sua obra(4).

Notas:
(1) A conquista de Bagdá, pelas hordas impiedosas de Houlagou, é descrita por vários historiadores. A cidade foi cruelmente saqueada pelos bárbaros invasores. Tudo foi arrasado e destruído: o fogo consumiu os grandes palácios e as mais ricas mesquitas. O sangue dos mortos inundou as ruas e as praças. Os mongóis atiraram ao Tigre todos os livros das grandes bibliotecas, e os preciosos manuscritos, misturados na lama, formaram uma ponte sobre a qual os conquistadores passavam a cavalo.
(2) Os versos citados são transcritos das Mil e Uma Noites, tradução de Nair Lacerda e de Domingos Carvalho da Silva.
(3) Cf. Tagore, A Alma das Paisagens, pág. 260.

(4) Dos Salmos de Davi.

Malba Tahan, em O Homem que Calculava

06/09/2026

Arnaldo Antunes | Socorro

 

O impagável Laerte

Tabaréu

Vira e mexe eu penso é numa toada só.
Fiz curso de filosofia pra escovar o pensamento,
não valeu. O mais universal a que chego
é a recepção de Nossa Senhora de Fátima
em Santo Antônio do Monte.
Duas mil pessoas com velas louvando Maria
num oco de escuro, pedindo bom parto,
moço de bom gênio pra casar,
boa hora pra nascer e morrer.
O cheiro do povo espiritado,
isso eu entendo sem desatino.
Porque, mercê de Deus, o poder que eu tenho
é de fazer poesia, quando ela insiste feito
água no fundo da mina, levantando morrinho de areia.
É quando clareia e refresca, abre sol, chove,
conforme necessidades.
Às vezes dá até de escurecer de repente
com trovoado e raio. Não desaponta nunca.
É feito sol.
Feito amor divino.

Adélia Prado, em Bagagem 

Coçando a palma da mão (aler­gia?), Souza obser­va, com fas­tio, a ope­ra­ção dos Civiltares para domi­nar ban­di­dos com balas cata­lép­ti­cas



O ôni­bus che­gou, a cocei­ra vol­tou. Cruzei a bor­bo­le­ta, não havia luga­res vagos. Normal, a essa hora. Cumprimentei pes­soas que vejo aqui todos os dias, à mesma hora. Os novos são raros. Somos parte do S­-7.58, nos per­mi­tem este, nenhum outro. É o que dizem as fichas de trá­fe­go.
A ficha indi­ca onde posso andar, os cami­nhos a per­cor­rer, bair­ros auto­ri­za­dos, por que lado de cal­ça­da cir­cu­lar, con­du­ção a tomar. Assim, somos sem­pre os mes­mos den­tro do S­-7.58. Nos conhe­ce­mos todos, mas não nos fala­mos, rara­men­te nos cum­pri­men­ta­mos. Viajamos em silên­cio.
Sou exce­ção, grito meu bom­-dia, os ros­tos se viram afli­tos, per­ple­xos. Depois se vol­tam para a pai­sa­gem, as cal­ça­das con­ges­tio­na­das. Mais um louco, pen­sam. Todos têm cer­te­za, serei apa­nha­do ao des­cer. No dia seguin­te se sur­preen­dem, sem demons­trar, quan­do apa­re­ço, cum­pri­men­tan­do.
Três pon­tos antes do final (deve ser dez e vinte) senti uma comi­chão insu­por­tá­vel. Estava com­pri­mi­do. Não podia olhar, nem levan­tar a mão. Segurava a male­ta com a esquer­da, com a direi­ta me apoia­va ao varão. Empurrado para a saída, me des­pe­di. Claro que não res­pon­de­ram.
Acabei de des­cer, ouvi os estam­pi­dos. Secos, ocos. Tão conhe­­ci­dos. Joguei­-me rápi­do ao chão, con­for­me seve­ras ins­tru­ções. Num déci­mo de segun­do, todos em volta esten­di­dos. Vivemos con­di­cio­na­dos, nos­sos refle­xos agu­ça­dos. Como aque­les ratos que vão comer ao ouvir a cam­pai­nha.
Quantas vezes por dia me atiro ao chão nesta cida­de. Se alguém fil­mas­se duran­te algu­mas horas, sem regis­trar o som, veria uma daque­las velhas comé­dias de Harold Loyd, o Gordo e o Magro, Mack Sennet. Deita, levan­ta, deita, levan­ta. E os ros­tos? Todo mundo apa­vo­ra­do, tenso.
As pes­soas dis­pu­tam cen­tí­me­tros de cal­ça­da. Batem cabe­ças, se bei­jam, ficam rosto a rosto, chei­ram o pó, se levan­tam imun­das, xin­gam, pro­tes­tam. Teve um dia que levei duas horas para ven­cer duzen­tos metros até o escri­tó­rio. Deita, levan­ta. Foi tiro para tudo quan­to é lado.
Hoje, um tiro só. Os Civiltares são conhe­ci­dos e temi­dos pela exce­len­te pon­ta­ria e rapi­dez. O ladrão­zi­nho, ou o que quer que fosse, garo­to ainda (nunca fui bom para deter­mi­nar ida­des), esta­va esten­di­do, de cos­tas. A cáp­su­la enter­ra­da no meio da testa. Nenhuma gota de san­gue.
O ver­me­lho da cáp­su­la me per­mi­tiu iden­ti­fi­cá­-la como Cataléptica. Provoca um esta­do seme­lhan­te à morte duran­te duas horas. Quando o atin­gi­do acor­da, já está encer­ra­do no Isolamento. E aí, bau­-bau, Nicolau! Nunca mais. Tem quem afir­me que a Cataléptica torna a pes­soa idio­ta.
O Civiltar abai­xou­-se, apa­nhou a car­tei­ra, devol­veu a um se­­nhor, ao lado. O homem reco­lheu­-a tran­qui­la­men­te, reti­rou uma nota, entre­gou ao poli­cial. Os Acertos de Taxas de Segurança são fei­tos no ato. Acabou­-se a buro­cra­cia, papéis, reci­bos, gui­chês, filas, espe­ras.
O Civiltar acio­nou o wal­kie­-tal­kie, pedin­do carro trans­por­ta­dor. Puxou o atin­gi­do para um canto da cal­ça­da e gri­tou: “Podem se levan­tar”. Mas a gente sem­pre dá um tempo. Quando ocor­re um inci­den­te assim, seguem­-se uns qua­tro ou cinco, os mar­gi­nais apro­vei­tam a con­fu­são.
Se bem que não é fácil. Para cada homem em cir­cu­la­ção, exis­te pra­ti­ca­men­te um Civiltar ao seu lado. Eles andam giran­do a cabe­ça para todos os lados e se asse­me­lham a robôs. O trei­na­men­to inten­si­vo des­per­ta neles, com­pul­si­vo, o faro, o ins­tin­to. Não sei como, enxer­gam tudo. Verdade.
Parece que são trei­na­dos pelos mes­mos méto­dos com que se ensi­na­vam os anti­gos cães pas­to­res na polí­cia mili­tar. Ficam con­di­cio­na­dos e são uma bele­za na efi­ciên­cia. Por menos que se goste deles, é pre­ci­so reco­nhe­cer: evi­tam catás­tro­fes nesta cida­de. Pior sem eles.
Chegamos a esse ponto. Aceitar os Civiltares como neces­sá­rios, supor­tá­-los e chamá­-los de vez em quan­do. Para mim, ter de fazer isso um dia vai ser pior que tomar óleo de ríci­no. O quê? Óleo de ríci­no? Ainda exis­te? Cada coisa de que me lem­bro de repen­te. É engra­ça­do.
A refres­can­te Casa dos Vidros de Água. Chego à sua porta, todos os dias, às dez e qua­ren­ta. Tenho meia hora para pas­sear por den­tro dela, sen­tin­do a tran­qui­li­da­de que exis­te ali. Há dois anos não consigo come­çar o meu dia sem entrar e visi­tar a Casa. Cada dia uma seção, vaga­ro­sa­men­te.
Olhei a mão. A man­cha esta­va de um ver­me­lho vivo e juro que me pare­ceu per­ce­ber um aumen­to na depres­são. Bem funda. Aperto, não dói. Coça ainda, mas é uma cocei­ra agra­dá­vel, des­sas que dão pra­zer, me arre­pia todo. Loucura, na minha idade, ficar me arre­pian­do assim com cocei­ras.
Saio da Casa dos Vidros de Água sem­pre aba­la­do com o irre­pa­rá­vel. Não em rela­ção à minha vida. Ao mundo que me cerca, ao ponto a que as coi­sas che­ga­ram. Puxa! Não é resig­na­ção que me toma quan­do deixo a últi­ma sala e atra­ves­so o cor­re­dor, arti­fi­cial­men­te esver­dea­do.
Como se luz opaca atra­ves­sas­se flo­res­ta espes­sa, rom­pen­do com difi­cul­da­de a galha­ria, arbus­tos, ramos, folhas, cipós. Este cor­re­dor final me acal­ma, me recon­ci­lia. Talvez o mal este­ja aí. Nessa recon­ci­lia­ção. Há uma inter­rup­ção brus­ca quan­do passo do cor­re­dor para a saída.
Todo dia pas­seio pelo deser­to, broto no vazio de salas e cor­re­do­res. A sen­sa­ção de que tudo é meu é recon­for­tan­te. Egoís­­mo. Mas para mim é como se as pes­soas cons­pur­cas­sem este recin­to, quase igre­ja, cate­dral de nos­sos tem­pos, com seus san­tos, divin­da­des, ima­gens.
Certamente, do ponto de vista prá­ti­co, a Casa é inú­til e o que ela exibe tam­bém. Coisas per­di­das no tempo, irre­cu­pe­rá­veis. Tudo fun­cio­na em torno da uti­li­da­de, con­ve­niên­cia ou não. Esta Casa tal­vez tenha sido a últi­ma obra con­si­de­ra­da sem valor prá­ti­co para a civi­li­za­ção.
Não devia estar na Casa. Entro aqui me per­gun­tan­do o porquê de tudo. Sem ter o que res­pon­der. Mesmo assim, entro. Me forço a isso, acho neces­sá­rio. Se per­der essa luci­dez que come­ço a adqui­rir, esta­rei morto. Como os calen­dá­rios inal­te­ra­dos que dor­mem no quar­ti­nho de minha casa.
Encontrar uma saída. Se as pes­soas qui­ses­sem, have­ria pos­si­bi­li­da­des. Não há que­rer, nin­guém vê nada. Todos tran­qui­los, acei­tam o ine­vi­tá­vel. Os jor­nais não dizem pala­vra. Calaram­-se aos pou­cos. Mesmo que falas­sem, não têm força nenhu­ma. A tele­vi­são está vigia­da.
Ainda que não esti­ves­se, a ela nada inte­res­sa. Os noti­ciá­rios são inó­cuos. Novelas, inau­gu­ra­ções, pla­nos do gover­no, pro­mes­sas de minis­tros. Como acre­di­tar nes­ses minis­tros, a maio­ria cen­te­ná­rios? Quase per­pé­tuos, rema­nes­cen­tes da fabu­lo­sa Época da Grande Locupletação.
O povo ainda fala des­ses tem­pos inson­dá­veis. Eles sobre­vi­vem na tra­di­ção oral. Os livros de his­tó­ria omi­tem. Quem se der a um gran­de tra­ba­lho, encon­tra­rá nos arqui­vos de jor­nais alguns ele­men­tos. Distorcidos, é claro. Foi um perío­do de into­le­rân­cia, amor­da­ça­men­to, silên­cio.
Quando eu dava aulas, os estu­dan­tes per­gun­ta­vam sobre tais tem­pos. Eram alu­nos que as esco­las repu­ta­vam incô­mo­dos e ter­mi­na­vam afas­ta­dos dos cur­sos. A dire­ção ouvia as gra­va­ções das aulas e me cha­ma­va. Para que eu infor­mas­se quem tinha me inter­ro­ga­do. Denunciasse.
No iní­cio, recu­sa­va. Havia jus­ti­fi­ca­ti­vas. Naquelas clas­ses de qui­nhen­tos alu­nos e gran­des telões, eu ale­ga­va, era impos­sí­vel saber quem tinha feito a Pergunta Intragável, como dizia a dire­ção. Que tama­nho terão as clas­ses hoje? Mil alu­nos? Bem que gos­ta­ria de saber.
Depois, a situa­ção foi fican­do mais difí­cil, era sem­pre em minhas aulas que as per­gun­tas intra­gá­veis sur­giam. A dire­ção que­ria saber por quê. Que tipo de coi­sas eu anda­va dizen­do fora das clas­ses. Mandaram me seguir, plan­to­na­ram minha casa, gram­pea­ram meu tele­fo­ne.
Solucionaram obri­gan­do a pes­soa inte­res­sa­da em fazer per­gun­tas a se iden­ti­fi­car antes. Muitos se cala­ram, outros pre­fe­ri­ram enfren­tar puni­ções. “Essa época de locu­ple­ta­ção não exis­tiu. Foi calú­nia”, garan­tia a dire­ção. “Fala­-se muito, mas onde estão os docu­men­tos? Invenções, mitos.
Isso, mitos popu­la­res. O senhor conhe­ce os mitos popu­la­res? O saci exis­te? O cai­po­ra, a mula sem cabe­ça, o lobi­so­mem? Que espe­ran­ça. São fan­ta­sias cria­das que se per­pe­tuam para colo­car medo nas pes­soas. Está vendo como a tra­di­ção oral é coisa peri­go­sa, trai­çoei­ra?”
Por que os estu­dan­tes não recor­riam aos jor­nais, às biblio­te­cas públi­cas, aos arqui­vos micro­fil­ma­dos? Tudo em mãos do gover­no. Era (ainda é) neces­sá­rio per­cor­rer um longo cami­nho buro­crá­ti­co, bus­can­do papéis, carim­bos, selos. A tare­fa se tor­na­va com­ple­ta­men­te impos­sí­vel.
Impossível é o termo. Tive alu­nos que gas­ta­ram anos e, quan­do obti­ve­ram o últi­mo nihil obs­tat, os arqui­vos se muda­ram. Antigos fun­cio­ná­rios foram remo­vi­dos e os novos, avi­sa­dos, não reco­nhe­ce­ram as auto­ri­za­ções. Os alu­nos ten­ta­vam outra vez, a táti­ca do gover­no era clara.
Quando passo pelos bair­ros da Circunstancial Número 14, vejo os pré­dios imen­sos onde está guar­da­da a memó­ria nacio­nal. Ninguém sabe que fatos estão depo­si­ta­dos ali. Para não dizer das pas­tas carim­ba­das: A SEREM ABER­TAS DEN­TRO DE DOIS SÉCU­LOS. São docu­men­tos da Locupletação.
– Tio.
– Dois sécu­los, ima­gi­ne...
– O quê?
Meu sobri­nho, ins­tin­ti­va­men­te, antes de me esten­der a mão, ia erguen­do a palma em con­ti­nên­cia. Não acei­tei, inter­rom­pi, puxei­-o para mim e dei um gran­de abra­ço. Ele se con­ser­vou rígi­do, ainda que o rosto fosse sor­ri­den­te e cor­dial. Também sem­pre foi como um filho para nós.
– O que faz por aqui, tio?
– Visitava a Casa dos Vidros.
– Saudosismo?
_ Ééé, quem sabe?
– Fui pro­mo­vi­do, tio. Sou o pri­mei­ro do Novo Exército a atin­gir o posto de capi­tão aos vinte e três anos.
Fiz uma con­ti­nên­cia irô­ni­ca. Ele res­pon­deu, a sério. Sempre foi cir­cuns­pec­to, com­pe­ne­tra­do, com noções de dever e obri­ga­ções. Desde crian­ça. Estava sem­pre em casa, Adelaide dizia: “Você deve entrar para o Exército”. Foi quan­do enten­di como ela esta­va den­tro da rea­li­da­de.
Muito mais do que eu podia pen­sar. Adelaide sem­pre foi sur­pre­sa cons­tan­te. Observando nosso rela­cio­na­men­to, vejo que enten­di bem pouco a mulher que tive. Quando menos se espe­ra­va, ela fazia uma obser­va­ção justa, ade­qua­da. Será tarde demais? Diz o povo que nunca é.
Sim, por­que em outros tem­pos, no sécu­lo XVII, ou XVIII, teria dito ao sobri­nho: “Vá ser padre”. Naquele dia, quin­ze anos atrás, Adelaide come­çou uma surda e per­sis­ten­te cam­pa­nha para que o meni­no ves­tis­se farda. Mas não alme­ja­va um sim­ples praça, que­ria que ele fosse Militecno.
Os melho­res pos­tos do país se encon­tra­vam em mãos de Militecnos. Bancos, minis­té­rios, empre­sas Multis. E como era difí­cil rom­per as bar­rei­ras para se for­mar um Militecno. Além de supe­rar toda a car­rei­ra mili­tar, quem supor­ta­va as fan­tás­ti­cas anui­da­des cobra­das pelas uni­ver­si­da­des?
– Passo lá para come­mo­rar. Com o senhor e a tia. Posso?
– Eu é que insis­to. Nem vou dizer à sua tia. Vamos fazer sur­pre­sa.
– Tem comi­da?
– O nor­mal.
– Vou ten­tar algo na Subsistência. Ah, quer fichas para água?
– Sempre é bom, jamais con­se­gui me con­tro­lar, gasto mesmo.
– E não é para gas­tar?
– Mas tem o racio­na­men­to, para divi­dir melhor.
– Racionamento, tio? Pensa que é para todo mundo?
No fundo, não gosto dele. Uso suas faci­li­da­des. Penso que tenho direi­to a elas, con­tri­buo para que o Novo Exército exis­ta com todos os seus pri­vi­lé­gios. Devo explo­rá­-lo. Afinal, ele deve a mim e a Adelaide o posto, e a car­rei­ra. Quanta roupa ela não lavou? E as comi­das?
Eu acor­da­va todos os dias quin­ze para as seis, fazia café, arran­ca­va o pre­gui­ço­so da cama. Foram dois anos na Escola Superior de Integração. Os pio­res, até ele pas­sar por todas as pro­vas, prin­ci­pal­men­te as de fide­li­da­de, neu­tra­li­da­de ideo­ló­gi­ca e per­cep­ção sen­so­rial.
– Sabe o que vou fazer, tio?
– Não tenho ideia.
– Vou visi­tar essa tal Casa dos Vidros.
– Boa coisa.
– Quero ver como estão apro­vei­tan­do esse pré­dio enor­me.
Desta vez cor­res­pon­deu ao abra­ço, sol­tan­do o corpo. Como posso gos­tar desse sobri­nho quan­do sei ao que ele per­ten­ce? Se tenho plena cons­ciên­cia do que será o país na mão dele den­tro de alguns anos? Se hou­ver alguns anos. Tenho as car­tas dele, conhe­ço suas ideias.
Nenhuma von­ta­de de tra­ba­lhar. A cocei­ra volta, fico impres­sio­na­do. O cen­tro de minha mão está afun­dan­do. Só pode ser delí­rio pro­vo­ca­do pelo calor. Agarro o braço de um homem, ele se assus­ta. Sei o risco que corro, toda rea­ção é admi­ti­da quan­do se trata da pró­pria segu­ran­ça.
– Calma, meu senhor, calma. Olhe, me des­cul­pe, mas pre­ci­so saber. Olhe a minha mão. Tem um afun­da­men­to aí?
Ele pro­cu­rou se livrar. Viu a mão e tal­vez tenha se apa­vo­ra­do mais. Ninguém garan­te que isso não seja con­ta­gio­so. Só não saiu cor­ren­do por­que é impos­sí­vel cor­rer nes­tas cal­ça­das atra­van­ca­das. Para mim, a rea­li­da­de é este afun­da­men­to, sem dor, cocei­ra. Inexplicável como tudo hoje em dia.
Ir ao médi­co é boba­gem, melhor espe­rar. Estou des­men­tin­do Adelaide, ela me jul­ga­va hipo­con­dría­co. Não acre­di­ta­va em minhas dores de cabe­ça, nos mal­-esta­res do estô­ma­go. Ergui os olhos. Uma sen­sa­ção inquie­tan­te de alto a baixo. O homem ca­­re­­ca me olha­va penetran­te, amea­ça­dor.

Ignácio de Loyola Brandão, em Não verás país nenhum

Um degrau acima: o silêncio

Até hoje eu por assim dizer não sabia que se pode não escrever. Gradualmente, gradualmente até que de repente a descoberta tímida: quem sabe, também eu já poderia não escrever. Como é infinitamente mais ambicioso. É quase inalcançável.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Correnteza




2

Cainho atravessa a porta do quarto para a sala e encontra a mãe desperta, uma caneca de café na mão e a face contra a luz da janela. O rosto está marcado de maquiagem — olhos pretos e delineados, as sobras de um batom vermelho — e, por trás da máscara, o semblante rígido, cansado, preocupado. O filho percebe, pela roupa, que a mãe saiu para encontrar o namorado da vez, alguém que ele ainda não conhece porque ela é muito reservada para comentar seus casos amorosos. Talvez ela nem tenha dormido. Deve ter voltado na hora em que ele escutou o cachorro da casa ao lado latir, noite alta ainda, e as grades do portão rangeram e a porta bateu sem cuidado e a luz do quarto se acendeu para Rita Preta se certificar de que todos estavam em casa. Cainho despertou com a movimentação, cobriu os olhos para se proteger da luz. A mãe recolheu o uniforme de Juca do chão, dobrou-o e o dispôs na cadeira ao lado da cama. O caçula tinha o sono profundo, a boca aberta, estava descoberto à mercê dos pernilongos. Ela estendeu o cobertor sobre o corpo dele. Rita então aproveitou o movimento do filho, Cainho, que se recobria, para perguntar por Cid. Ele não sabia.
“Seu irmão não voltou para casa”, Rita Preta diz enquanto o filho se aproxima da janela.
Então ela retira o celular da bolsa e verifica as mensagens. Depois, confere a hora e pergunta onde mora a garota com quem Cid tem se encontrado. Rita se banha no chuveiro com pressa, esfrega as mãos com força no rosto para retirar a maquiagem. Grita que está atrasada. Deveria ter saído para o trabalho, mas precisa saber onde o filho rebelde se encontra. Em minutos, veste a roupa limpa, arruma a bolsa e faz promessas mentais de castigos. Ensaia de maneira involuntária todo o desabafo que fará quando ele voltar.
Rita pede a Cainho que, caso Cid volte para casa enquanto ela estiver fora, lhe envie uma mensagem. Ela estará no trabalho, mas vai conferir o celular de vez em quando para se inteirar das notícias. Fala como uma pequena tirana, de forma intempestiva, conferindo ao mesmo tempo se o uniforme está na bolsa, sem olhar para o filho que se mostra entediado ao escutar a mãe.
Ele tenta dizer, durante o tempo que ela fala sem parar, que está sem crédito para enviar mensagens.
Então Rita pergunta de maneira genérica o que tanto eles faziam para esgotarem os créditos tão rápido. Lembra que poucos dias atrás tinha lhes dado dinheiro.

Ele contra-argumenta dizendo que já fazia dois meses que ela lhe dera dinheiro. O prazo dos créditos havia expirado.
Rita Preta sabe que pode estar errada sobre os poucos dias, mas não cede. Ela guarda aquela sensação superficial da velocidade do tempo, embora não a externe, pelo menos não naquele instante. Olha com ar de quem não acredita na desculpa e pede para Cainho ligar a cobrar, caso tenha notícias do irmão.
“E se ele não chegar?”
Se ele não chegar. Essa não parece ser uma possibilidade para Rita Preta. Ele chegará. E ela estará preparada, com o discurso pronto, para o desabafo e as punições que irá aplicar.
Uma hora qualquer ele chegará, pondera, e terá de explicar o que andou aprontando. Ela contesta com segurança, mas ao final já não se sente tão confiante. Se ele não chegar, Rita argumenta, não é preciso telefonar. A ausência de notícia é também uma resposta, retruca enquanto pega as chaves para sair de casa.
“Qual o nome dela mesmo?”
“Dela quem?”
“Da moça com quem seu irmão está ficando.”
Contudo, antes que Cainho termine de contar o que sabe, ela o instrui para que lave os pratos e reponha as garrafas de água na geladeira. Não havia água gelada, e o sol, muito cedo, já se exibe abrasador.

A casa onde a garota mora fica na base de uma ladeira íngreme, muito próxima a um córrego malcheiroso que corta o bairro, infestado de mosquitos. Rita Preta grita — ô de casa — para verificar se tem alguém.
Quando uma mulher surge na porta entreaberta, Rita pergunta se Daiane está em casa. Ela se posiciona do lado de fora, atrás do portão em uma varanda gradeada. A mulher parece irritada. Informa que é a mãe da garota e diz que a jovem está dormindo. Rita não se intimida com o mau humor e pergunta se ela poderia chamar a filha. “Sou a mãe do Cid, amigo dela”, diz, esperando assim uma boa recepção. A mulher não se demonstra muito disposta a atendê-la. Diz não conhecê-lo, mantém-se dentro da casa, respondendo à distância. Rita não quer prolongar a conversa, mas repete:
“Eles são amigos”, omitindo assim o que sabe sobre os dois. O filho não dormira em casa e por isso imaginou que pudesse estar com alguém conhecido.
“Quando ela acordar”, a mulher inicia a frase disposta a finalizar a importunação, “eu pergunto.” Quer saber se Rita mora nas redondezas e se compromete a deixar recado com alguém por lá.
Rita amaldiçoa a mulher enquanto se afasta da casa. Sente o peso da noite perdida nos olhos irritados, como se estivessem com grãos de areia. Está atrasada o suficiente para receber uma advertência da supervisora. Caminha até o ponto de ônibus sem disfarçar a preocupação, se deveria ou não faltar ao turno no supermercado para ir à escola ou buscar por mais notícias do filho junto aos colegas.

Enquanto espera pela condução, sente na boca o gosto da cerveja que bebeu à noite. Nem por isso o corpo parece mais leve, mesmo sem ter pisado no chão da seresta e ter repousado poucas horas nos braços de Jorge. Depois desses encontros, ela se vê tomada pelo vazio da solidão difícil de explicar — andar sozinha pela rua onde mora, a cama deserta —, mas dessa vez não lamenta a ausência do homem, pois o assunto “filho” domina quase todos os seus pensamentos. Dois dias antes, eles haviam discutido, os ânimos estavam exaltados quando Rita Preta ameaçou dar uma surra em Cid se ele não baixasse o tom de voz.
Ela tinha ficado sabendo que Cid estava faltando às aulas para passear na garupa das bicicletas com os companheiros de escola. Fátima, sua comadre e vizinha, o avistou ao voltar mais cedo do trabalho. Contou a Rita. Depois do expediente, ela se dirigiu à escola para verificar as ausências, e se enfureceu ao perceber que as faltas eram frequentes nos últimos meses.
A descoberta desencadeou mais uma briga entre os dois. Gritos. Portas batidas com violência. O choro sentido do filho mais novo, apavorado com a possibilidade de a mãe e o irmão se agredirem, preencheu os momentos de algum silêncio no diálogo exaltado. Rita Preta queria entender de onde Cid havia tirado aquele vocabulário chulo, enquanto ele disparava mais xingamentos contra todos. Com os olhos arregalados e visivelmente furiosa, ela se mostrava perplexa. Cid percorria a casa falando mais alto, demonstrando desdém. Para atingi-lo ainda mais, ela perguntou se ele estava usando algo.
“Quer saber se estou usando droga?”, ele disparou diante dos irmãos.
“Quero saber para te corrigir”, Rita retrucou, “para saber se você está se misturando com quem não presta.” Ela prestava atenção nos olhos indignados do filho e falava “olha seus olhos”, insistindo em saber por que estavam arregalados. Aquilo era fúria?
Os olhos dos dois estavam bem abertos, um tentando intimidar o outro com expressões carregadas de uma energia violenta, atestando que eram feitos da mesma natureza. Ela intuía que o filho não usava nenhuma substância. Era negligente com os estudos, parecia distante e pouco afetuoso com a mãe, mas Rita não considerava que usasse algo, nem mesmo álcool. Contudo, para machucar, ela trouxe de volta à discussão familiar o fantasma que assombra as comunidades por onde passou, sobretudo os pais e as mulheres chefes de família. Reavivou o estigma que recaía sobre todos como uma mancha, como se fosse um problema destinado a atingir apenas as pessoas de sua classe, as pessoas com as mesmas origens.
“E se tivesse?”, ele a desafia. “Pelo menos não iriam te apontar pela rua, como me apontam, por você sair com uns e outros.”
Rita gritou a palavra “repete” e procurou por um pedaço de corda guardado estrategicamente embaixo da pia da cozinha. Faria o malcriado engolir o que havia dito. Já fazia tempo desde a última surra, e por isso achava que era hora de puni-lo outra vez. Juca chorava, implorando à mãe que parasse, enquanto Cainho continuava deitado na cama no cômodo ao lado, com o travesseiro sobre a cabeça para abafar os sons da discussão.
Ela se aproximou segurando a corda grossa e, diferente das outras ocasiões, Cid não correu para se proteger. “Repete”, gritou Rita Preta. Ele olhou nos olhos da mãe e, para surpresa dela, repetiu o que havia dito. Ela fez um único movimento com a corda para trás e para a frente, fazendo-a vibrar como um chicote. Quando a corda atingiu o corpo de Cid, ele a agarrou e a transformou num cabo de guerra. Nenhum dos dois queria perder aquela batalha; lutavam arrastando os móveis, empurrando-os para longe até que Rita caiu no chão e Cid arremessou a corda no quintal. Mas ele sabia que não tinha vencido. Ela estava suada, cansada, prometeu se vingar. Não naquele momento, disse ela, mas Cid não teria vida fácil.
“Não quer estudar”, Rita gritou, “então vai ter que trabalhar para ajudar a pagar as contas, seu infeliz.” Disse isso enquanto Juca a ajudava a se levantar, apesar da recusa por puro orgulho — sentia-se humilhada de ter sido derrubada por um dos filhos.
Então, até que desse pela ausência do filho, dois dias se passaram sem que trocassem qualquer palavra, ou mesmo gesto ou expressão, evitando se olharem nos olhos ou permanecerem juntos no mesmo espaço diminuto da casa. Eles não poderiam saber — e talvez Cid até mesmo tenha desejado, num momento de grande raiva, não falar mais com a mãe —, mas essas seriam as últimas palavras que trocariam antes que ele desaparecesse.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo

05/09/2026

Emílio Santiago | Calma

Tempo

Por Rafael Sica

Vassouras do tempo

Ninguém,
além do tempo,
sabe o nome daquele gari
que limpava a rua
sempre cantando uma música
e segurava a vassoura
como uma parceira
que domina o salão.
Um dia,
não sei se por amor
ou por inveja,
quando passava em frente
a uma padaria
um cliente de sorriso miúdo
ouviu sua canção e ficou indignado.
Uma voz linda
vinda de uma tão boca torta
e um rosto todo marcado,
resolveu perguntar:
"Varrendo a rua… de onde vem toda essa alegria?"
O bailarino
cheio de poeira nos olhos
em vez de olhar para ele
olhou para o tempo.
Quem já sofreu sabe,
é preciso aprender a reciclar a dor
e colocar um saco plástico
no lugar do coração
quando a vida nos esconde
pra debaixo do tapete.
Entender todo dia pela manhã
que limpar o lixo dos outros
é bem mais fácil que limpar o seu.
Até o cão sem dono sabe
que tempo é o senhor
de todas as respostas.
Mas tempo também é curto,
e assim com um sorriso
mais limpo entre os dentes,
ele respondeu:
“É que não estou varrendo a rua. Estou varrendo o passado.”

Sérgio Vaz, em Flores da batalha