quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O Lado Quente do Ser | Maria Bethânia

A Metamorfose [excerto inicial]


Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posição e estava a ponto de escorregar. Comparadas com o resto do corpo, as inúmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se desesperadamente diante de seus olhos.
Que me aconteceu ? — pensou. Não era nenhum sonho. O quarto, um vulgar quarto humano, apenas bastante acanhado, ali estava, como de costume, entre as quatro paredes que lhe eram familiares. Por cima da mesa, onde estava deitado, desembrulhada e em completa desordem, uma série de amostras de roupas: Samsa era caixeiro-viajante, estava pendurada a fotografia que recentemente recortara de uma revista ilustrada e colocara numa bonita moldura dourada. Mostrava uma senhora, de chapéu e estola de peles, rigidamente sentada, a estender ao espectador um enorme regalo de peles, onde o antebraço sumia! Gregório desviou então a vista para a janela e deu com o céu nublado — ouviam-se os pingos de chuva a baterem na calha da janela e isso o fez sentir-se bastante melancólico. Não seria melhor dormir um pouco e esquecer todo este delírio? — cogitou. Mas era impossível, estava habituado a dormir para o lado direito e, na presente situação, não podia virar-se. Por mais que se esforçasse por inclinar o corpo para a direita, tornava sempre a rebolar, ficando de costas. Tentou, pelo menos, cem vezes, fechando os olhos, para evitar ver as pernas a debaterem-se, e só desistiu quando começou a sentir no flanco uma ligeira dor entorpecida que nunca antes experimentara. Oh, meu Deus, pensou, que trabalho tão cansativo escolhi! Viajar, dia sim, dia não. É um trabalho muito mais irritante do que o trabalho do escritório propriamente dito, e ainda por cima há ainda o desconforto de andar sempre a viajar, preocupado com as ligações dos trens, com a cama e com as refeições irregulares, com conhecimentos casuais, que são sempre novos e nunca se tornam amigos íntimos. Diabos levem tudo isto! Sentiu uma leve comichão na barriga; arrastou-se lentamente sobre as costas, — mais para cima na cama, de modo a conseguir mexer mais facilmente a cabeça, identificou o local da comichão, que estava rodeado de uma série de pequenas manchas brancas cuja natureza não compreendeu no momento, e fez menção de tocar lá com uma perna, mas imediatamente a retirou, pois, ao seu contato, sentiu-se percorrido por um arrepio gela- do. Voltou a deixar-se escorregar para a posição inicial. Isto de levantar cedo, pensou, deixa a pessoa estúpida. Um homem necessita de sono. Há outros comerciantes que vivem como mulheres de harém. Por exemplo, quando volto para o hotel, de manhã, para tomar nota das encomendas que tenho, esses se limitam a sentar-se à mesa para o pequeno almoço. Eu que tentasse sequer fazer isso com o meu patrão: era logo despedido. De qualquer maneira, era, capaz de ser bom para mim — quem sabe? Se não tivesse de me aguentar, por causa dos meus pais, há muito tempo que me teria despedido; iria ter com o patrão e lhe falar exatamente o que penso dele. Havia de cair ao comprido em cima da secretária! Também é um hábito esquisito, esse de se sentar a uma secretária em plano elevado e falar para baixo para os empregados, tanto mais que eles têm de aproximar-se bastante, porque o patrão é ruim de ouvido. Bem, ainda há uma esperança; depois de ter economizado o suficiente para pagar o que os meus pais lhe devem — o que deve levar outros cinco ou seis anos —, faço-o, com certeza. Nessa altura, vou me libertar completamente. Mas, para agora, o melhor é me levantar, porque o meu trem parte às cinco.
Olhou para o despertador, que fazia tique-taque na cômoda. Pai do Céu! — pensou. Eram seis e meia e os ponteiros moviam-se em silêncio, até passava da meia hora, era quase um quarto para as sete. O despertador não teria tocado? Da cama, via-se que estava corretamente regulado para as quatro; claro que devia ter tocado. Sim, mas seria possível dormir sossegadamente no meio daquele barulho que trespassava os ouvidos? Bem, ele não tinha dormido sossegadamente; no entanto, aparentemente, se assim era, ainda devia ter sentido mais o barulho. Mas que faria agora? o próximo trem saía às sete; para o apanhar tinha de correr como um doido, as amostras ainda não estavam embrulhadas e ele próprio não se sentia particularmente fresco e ativo. E, mesmo que apanhasse o trem, não conseguiria evitar uma reprimenda do chefe, visto que o porteiro da firma havia de ter esperado o trem das cinco e há muito teria comunicado a sua ausência. O porteiro era um instrumento do patrão, invertebrado e idiota. Bem, suponhamos que dizia que estava doente? Mas isso seria muito desagradável e pareceria suspeito, porque, durante cinco anos de emprego, nunca tinha estado doente. O próprio patrão certamente iria lá a casa com o médico da Previdência, repreenderia os pais pela preguiça do filho e poria de parte todas as desculpas, recorrendo ao médico da Previdência, que, evidentemente, considerava toda a humanidade um bando de falsos doentes perfeitamente saudáveis. E enganaria assim tanto desta vez? Efetivamente, Gregório sentia-se bastante bem, à parte uma sonolência que era perfeitamente supérflua depois de um tão longo sono, e sentia-se mesmo esfomeado.
À medida que tudo isto lhe passava pela mente a toda a velocidade, sem ser capaz de resolver a deixar a cama — o despertador acabava de indicar um quarto para as sete, ouviram-se pancadas cautelosas na porta que ficava por detrás da cabeceira da cama.
Gregório — disse uma voz, que era a da mãe, é um quarto para as sete. Não tem de apanhar o trem?
Aquela voz suave! Gregório teve um choque ao ouvir a sua própria voz responder-lhe, inequivocamente a sua voz, é certo, mas com um horrível e persistente guincho chilreante como fundo sonoro, que apenas conservava a forma distinta das palavras no primeiro momento, após o que subia de tom, ecoando em torno delas, até destruir-lhes o sentido, de tal modo que não podia ter-se a certeza de tê-las ouvido corretamente. Gregório queria dar uma resposta longa, explicando tudo, mas, em tais circunstâncias, limitou-se a dizer:
Sim, sim, obrigado, mãe, já vou levantar.
A porta de madeira que os separava devia ter evitado que a sua mudança de voz fosse perceptível do lado de fora, pois a mãe contentou-se com esta afirmação, afastando-se rapidamente. Esta breve troca de palavras tinha feito os outros membros da família notarem que Gregório estava ainda em casa, ao contrário do que esperavam, e agora o pai batia a uma das portas laterais, suavemente, embora com o punho.
Gregório, Gregório — chamou —, o que você tem?
E, passando pouco tempo depois, tornou a chamar, com voz mais firme:
Gregório! Gregório!
Junto da outra porta lateral, a irmã chamava, em tom baixo e quase lamentoso:
Gregório? Não se sente bem? Precisa de alguma coisa?
Respondeu a ambos ao mesmo tempo:
Estou quase pronto — e esforçou-se o máximo por que a voz soasse tão normal quanto possível, pronunciando as palavras muito claramente e deixando grandes pausas entre elas. Assim, o pai voltou ao breve almoço, mas a irmã segredou:
Gregório, abre esta porta, anda.
Ele não tencionava abrir a porta e sentia-se grato ao prudente hábito que adquirira em viagem de fechar todas as portas à chave durante a noite, mesmo em casa.
A sua intenção imediata era levantar-se silenciosamente sem ser incomodado, vestir-se e, sobretudo, tomar o breve almoço, e só depois estudar que mais havia a fazer, dado que na cama, bem o sabia, as suas meditações não levariam a qualquer conclusão sensata. Lembrava-se de muitas vezes ter sentido pequenas dores enquanto deitado, provavelmente causadas por posições incômodas, que se tinham revelado puramente imaginárias ao levantar-se, e ansiava fortemente por ver as ilusões desta manhã desfazerem-se gradualmente. Não tinha a menor dúvida de que a alteração da sua voz outra coisa não era que o prenúncio de um forte resfriado, doença permanente dos caixeiros-viajantes.
Libertar-se da colcha era tarefa bastante fácil: bastava-lhe inchar um pouco o corpo e deixá-la cair por si. Mas o movimento seguinte era complicado, especialmente devido à sua invulgar largura. Precisaria de braços e mãos para erguer-se; em seu lugar, tinha apenas as inúmeras perninhas, que não cessavam de agitar-se em todas as direções e que de modo nenhum conseguia controlar. Quando tentou dobrar uma delas, foi a primeira a esticar-se, e, ao conseguir finalmente que fizesse o que ele queria, todas as outras pernas abanavam selvaticamente, numa incômoda e intensa agitação. Mas de que serve ficar na cama assim sem fazer nada, perguntou Gregório a si próprio.
Pensou que talvez conseguisse sair da cama deslocando em primeiro lugar a parte inferior do corpo, mas esta, que não tinha visto ainda e da qual não podia ter uma ideia nítida, revelou-se difícil de mover, tão lentamente se deslocava; quando, finalmente, quase enfurecido de contrariedade, reuniu todas as forças e deu um temerário impulso, tinha calculado mal a direção e embateu pesadamente na extremidade inferior da cama, revelando-lhe a dor aguda que sentiu ser provavelmente aquela, de momento, a parte mais sensível do corpo.
[...]

Franz Kafka, em A Metamorfose

A menina de outro meio




1

A guerra com o Japão ainda não terminara. Inesperadamente, ela foi encoberta por outros acontecimentos. Pela Rússia passavam ondas da revolução, uma maior que a outra e jamais vistas.
Nesta época, chegou a Moscou, procedente dos Urais, a viúva de um engenheiro belga, uma francesa russificada por conta própria, Amália Karlovna Guichard, com seus dois filhos, Rodion e Larissa. O filho ela matriculou na escola de cadetes, e a filha no ginásio feminino, coincidentemente no mesmo ginásio e na mesma turma onde estudava Nádia Kologrivova.
Madame Guichard possuía economias do marido em ações, que antes se valorizavam mas que agora começavam a cair. Para interromper o desaparecimento de seus recursos e para não ficar de braços cruzados, madame Guichard comprou, próximo ao Arco do Triunfo, um pequeno negócio, a confecção de Levitskaia, dos herdeiros da costureira, com o direito de manter na velha empresa os antigos clientes e todas as estilistas e alunas.
Madame Guichard fez isso seguindo o conselho do advogado Komarovski, amigo de seu marido e seu próprio apoio, um negociador de sangue-frio que conhecia a vida empresarial russa como a palma de sua mão. Ela lhe escreveu sobre a mudança. Ele os recepcionou na estação e levou, atravessando toda Moscou, para os quartos mobiliados do Tchernogoria, na travessa Oruzheinaia, onde alugara um deles para madame Guichard.
Ele já havia convencido a viúva a matricular Ródia na escola de cadetes e Lara no ginásio que recomendou. Com descortesia, caçoava do menino e olhava para a menina de tal maneira, que ela ruborizava.

2

Antes de se instalar no pequeno apartamento de três quartos, anexo à confecção, eles moraram aproximadamente três meses no Tchernogoria.
Era um dos lugares mais terríveis de Moscou, antro de ladrões, ruas inteiras entregues à promiscuidade, cortiços de “seres perdidos”.
Nem as pulgas e a mediocridade do mobiliário, nem a sujeira nos quartos, impressionavam as crianças. Depois da morte do pai delas, a mãe vivia com medo constante do empobrecimento. Ródia e Lara cansavam-se de ouvir que estavam à beira da ruína. Eles sabiam que não eram crianças de rua, mas sentiam um profundo medo dos ricos, como os pupilos de orfanatos.
O exemplo vivo deste medo era infundido neles pela própria mãe. Amália Karlovna era uma loira roliça de uns 35 anos; nela, aos ataques do coração sucediam-se ataques de tolices. Era uma tremenda medrosa e morria de medo dos homens. Por isso mesmo, por susto e confusão, ela passava de mão em mão, a toda hora.
No Tchernogoria eles ocupavam o quarto 23 e no 24, desde a inauguração do hotel, morava o violoncelista Tichkevitch, um bonachão suado e careca que usava peruca e que juntava as mãos como em uma oração e as apertava contra o peito, quando tentava convencer alguém; jogava a cabeça para trás e, inspirado, revirava os olhos ao se apresentar nos círculos sociais e em concertos. Ele raramente estava em casa, passava dias inteiros no teatro Bolshoi e no Conservatório. Os vizinhos se conheceram. Favores mútuos os aproximaram.
Como a presença das crianças às vezes intimidava Amália Karlovna durante as visitas de Komarovski, Tichkevitch passou a deixar com ela a chave de seu quarto para que pudesse receber seu amigo. Logo madame Guichard se acostumou tanto com o sacrifício dele, que várias vezes bateu em sua porta, pedindo que a defendesse do seu protetor.

3

A casa de um só andar ficava perto da esquina com a Tverskaia. Sentia-se a proximidade da estrada de ferro que levava para Bretsk. Ao lado, ficavam as propriedades, os apartamentos funcionais, o depósito de locomotivas e depósitos em geral.
Lá morava Olia Demina, uma menina inteligente, sobrinha de um dos funcionários da ferrovia Moscou-Tovarnaia.
Ela era uma aluna muito capaz. A velha proprietária era atenciosa com ela e a nova, agora, começou se aproximar. Olia gostava muito de Lara.
Tudo ficou da mesma forma, como na administração de Levitskaia. As máquinas de costura rodavam feito loucas debaixo dos pés que desciam e subiam ou dos braços das costureiras que esvoaçavam. Alguém cosia calmamente, sentada à mesa, esticando o braço com a agulha e a linha comprida. O chão estava coberto de retalhos. Tinham que falar alto para superar o barulho das máquinas e o gorjeio vibrante de Kirill Modestovitch, um canário numa gaiola debaixo da abóbada da janela: o mistério de seu nome a antiga proprietária levou consigo para o túmulo.
Na recepção, um grupo de damas pitorescas cercava a mesa com revistas. Elas ficavam de pé, sentadas ou semi-encostadas, nas poses que viam nas revistas, observavam os modelos, trocavam conselhos sobre os feitios. A uma outra mesa, no lugar da diretora, estava a auxiliar de Amália Karlovna, uma das costureiras responsáveis, Faina Silantievna Fetisova, uma mulher ossuda com verrugas nas cavidades das bochechas flácidas.
Ela segurava a piteira de marfim, com o cigarro entre os dentes amarelados, apertava os olhos também amarelados e, soltando a fumaça amarela pela boca e pelo nariz, anotava no caderno as medidas, os números das notas fiscais, os endereços e as solicitações das clientes.
Amália Karlovna era uma pessoa nova e inexperiente na confecção. Ela não se sentia totalmente como dona. Mas os funcionários eram honestos e podia confiar em Fetisova. Mesmo assim, a época era inquieta. Amália Karlovna tinha medo de pensar no futuro. O desespero tomava conta dela. Tudo caía de suas mãos.
Komarovski frequentemente visitava a confecção. Quando Victor Ippolitovitch passava pela sala de costura, dirigindo-se ao fundo e assustando à sua passagem as damas elegantes que se trocavam e que se escondiam atrás dos biombos, de lá acolhendo em tom brincalhão seus gracejos atrevidos, as costureiras murmuravam pelas costas dele com maliciosa desaprovação: “Deu o ar de sua graça”. “O dela”. “O caso da Amália”. “Garanhão”. “Feiticeiro de mulheres”.
Objeto de grande ódio era ainda o seu buldogue, Jack, que às vezes o acompanhava preso na coleira e que o arrastava atrás de si com trancos tão impetuosos que Komarovski tropeçava, corria para a frente e andava atrás do cachorro com os braços estendidos, como um cego com o seu cão-guia.
Certa vez, na primavera, Jack agarrou-se à perna de Lara e rasgou sua meia.
Vou matar esse desgraçado — murmurou Olia Demina infantilmente no ouvido de Lara.
É realmente um cachorro nojento. Mas como você, sua tolinha, vai fazer isso?
Fale baixo, não grite, vou lhe ensinar. Sabe aqueles ovos de Páscoa de pedra, como os que sua mãe tem em cima da cômoda?
Sei, são de mármore e cristal...
Hã-hã, isso. Abaixe-se, vou lhe dizer no ouvido. Tem que pegar um, deixar de molho na gordura, a gordura vai grudar, então o cão tinhoso o engole, enche a pança e pronto! Patas para o alto! Morreu!
Lara ria, com inveja. A menina vivia passando necessidades, trabalhava. As crianças do povo se desenvolvem mais cedo. No entanto, veja o quanto ainda têm de bom, infantil, ingênuo: ovos, Jack, gordura... de onde vem isso? “Porque meu destino quis assim”, pensava Lara, “que tudo eu veja e com tudo sofra?”
[...]

Boris Pasternak, em Doutor Jivago

Téo e o Mini Mundo

Diário de Bernardo Soares

94.

Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir — é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.
Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com cada nova madrugada, numa revirgindade perpétua da emoção — isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos. Esta madrugada é a primeira do mundo. Nunca esta cor rosa amarelecendo para branco quente pousou assim na face com que a casaria de oeste encara cheia de olhos vidrados o silêncio que vem na luz crescente. Nunca houve esta hora, nem esta luz, nem este meu ser. Amanhã o que for será outra coisa, e o que eu vir será visto por olhos recompostos, cheios de uma nova visão. Altos montes da cidade! Grandes arquiteturas que as encostas íngremes seguram e engrandecem, resvalamentos de edifícios diversamente amontoados, que a luz tece de sombras e queimações – sois hoje, sois eu, porque vos vejo, sois o que serei? Amanhã, e amo-vos da amurada como um navio que passa por outro navio e há saudades desconhecidas na passagem.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Dr. H. A. Moynihan



Eu odiava a escola St. Joseph’s. Aterrorizada pelas freiras, eu bati na irmã Cecilia num dia de calor texano e fui expulsa da escola. Como punição, tive que trabalhar todos os dias das férias de verão no consultório do meu avô dentista. Eu sabia que o verdadeiro motivo do castigo era que eles não queriam que eu brincasse com as crianças da vizinhança, que eram mexicanas e sírias. Não havia negros, mas isso era só uma questão de tempo, segundo minha mãe.
Tenho certeza de que eles também queriam me poupar de ver Mamie morrendo, dos gemidos dela, das suas amigas rezando, do fedor e das moscas. À noite, com a ajuda da morfina, ela cochilava, e então minha mãe e meu avô iam beber sozinhos em seus respectivos quartos. Eu ouvia o gorgolejo de seus respectivos uísques da varanda onde eu dormia.
Meu avô mal falou comigo o verão inteiro. Eu esterilizava e enfileirava os instrumentos dele, prendia babadores em volta do pescoço dos pacientes, entregava o copinho com antisséptico bucal e falava para eles cuspirem. Quando não havia nenhum paciente, vovô ia para sua oficina para fazer dentes ou para seu escritório para colar recortes. Eu não estava autorizada a entrar em nenhum dos dois cômodos. Ele colava artigos de Ernie Pyle e sobre Franklin Delano Roosevelt; tinha álbuns de recortes separados para as guerras japonesa e alemã. Também tinha álbuns sobre Crimes, Texas e Acidentes Insólitos: Homem se enfurece e joga uma melancia pela janela de um apartamento de segundo andar. A fruta atinge a cabeça da mulher dele e a mata, depois atinge o bebê dentro do carrinho e o mata também, e nem sequer chega a rachar.
Todo mundo odiava o meu avô, menos Mamie, e eu, acho. Toda noite ele ficava bêbado e mau. Era cruel, intolerante e orgulhoso. Tinha dado um tiro no olho do meu tio John durante uma briga e envergonhado e humilhado a minha mãe a vida dela inteira. Ela nunca falava com ele, nunca sequer chegava perto dele por ele ser tão sujo e porco, sempre esparramando comida e cuspindo, deixando cigarros molhados em toda parte. Vivia coberto de pintas brancas, do gesso dos moldes de dentes, como se fosse um pintor ou uma estátua.
Ele era o melhor dentista do oeste do Texas, talvez até do Texas inteiro. Muita gente dizia isso, e eu acreditava. Não era verdade que os pacientes dele eram todos velhos beberrões ou então amigos de Mamie, como a minha mãe dizia. Homens respeitáveis vinham até mesmo de Dallas ou de Houston para se tratar com o meu avô porque ele fazia dentaduras maravilhosas. As dentaduras que ele fazia não saíam do lugar nem assobiavam, e eram iguaizinhas a dentes de verdade. Ele tinha inventado uma fórmula secreta para deixá-las da cor certa e às vezes fazia até dentes lascados ou amarelados e com obturações e coroas.
Não deixava ninguém entrar na oficina dele, a não ser os bombeiros, naquela única vez. A oficina não via uma faxina fazia uns quarenta anos. Eu entrava lá quando ele ia ao banheiro. As janelas estavam pretas de sujeira, gesso e cera. A única luz vinha das chamas azuladas e tremeluzentes de dois bicos de Bunsen. Havia enormes sacos de gesso empilhados junto às paredes, vertendo pó num chão coberto de cacos de moldes de dentes, e potes cheios de dentes soltos, cada pote com um tipo diferente de dente. Bolotas de cera rosa e branca grudavam-se às paredes, com teias de aranha penduradas. As prateleiras estavam abarrotadas de ferramentas enferrujadas e de fileiras de dentaduras sorrindo ou fazendo carranca, de cabeça para baixo, como máscaras de teatro. Ele cantarolava enquanto trabalhava, suas guimbas de cigarro volta e meia ateando fogo em bolotas de cera ou em embalagens de bombom. Então, ele jogava café no fogo, manchando o chão coberto de gesso de um tom escuro e cavernoso de marrom.
A oficina dava passagem para um pequeno escritório, onde havia uma escrivaninha de tampo corrediço, sobre a qual vovô colava recortes nos seus álbuns e preenchia cheques. Depois de assinar, ele sempre sacudia a caneta, fazendo pingar tinta preta sobre a assinatura e, às vezes, borrando o valor, de modo que o banco tinha que telefonar para conferir de quanto era o cheque.
Não havia porta entre a sala onde ele atendia os pacientes e a sala de espera. Enquanto trabalhava, ele virava para trás para conversar com quem estava na sala de espera, gesticulando com a broca na mão. Os pacientes que haviam extraído dentes se recuperavam numa espreguiçadeira; o resto se sentava nos peitoris das janelas ou nos radiadores. Às vezes, alguém se sentava na cabine telefônica, um cubículo de madeira com um telefone público, um ventilador e uma placa que dizia: “Eu nunca conheci um homem de quem não gostasse”.
Não havia nenhuma revista na sala de espera. Se alguém trouxesse uma e a deixasse por lá, vovô a jogava fora. Minha mãe dizia que ele só fazia isso para ser do contra. Ele dizia que era porque ver pessoas sentadas lá folheando revistas o deixava maluco.
Quando não estavam sentados, os pacientes ficavam zanzando pela sala, mexendo nos objetos pousados em cima dos dois cofres. Budas, caveiras com dentaduras presas com arame para abrir e fechar, cobras que mordiam quando você puxava o rabo, globos de vidro que nevavam quando virados de cabeça para baixo. No teto havia uma placa: POR QUE RAIOS VOCÊ ESTÁ OLHANDO AQUI PARA CIMA? Os cofres continham ouro e prata para as obturações, maços de dinheiro e garrafas de Jack Daniel’s.
Em todas as janelas, que davam para a rua principal de El Paso, havia grandes letras douradas que diziam: “Dr. H. A. Moynihan. Eu não trabalho para negros”. As placas se refletiam nos espelhos pendurados nas três paredes restantes. O mesmo aviso estava escrito na porta que dava para o hall. Eu nunca me sentava de frente para aquela porta, por medo de que negros passassem ali e olhassem para dentro da sala por cima do aviso. Mas nunca vi um único negro no edifício Caples, a não ser Jim, o ascensorista.
Quando alguém telefonava para marcar consulta, vovô me mandava dizer que ele não estava mais aceitando pacientes. Então, à medida que o verão passava, havia cada vez menos coisa para fazer. Por fim, pouco antes de Mamie morrer, já não havia mais paciente algum. Vovô simplesmente ficava trancado dentro da oficina ou do escritório. Eu ia para o terraço às vezes. Dava para ver a cidade de Juárez e todo o centro de El Paso lá de cima. Eu escolhia uma pessoa na multidão e a acompanhava com os olhos até que ela desaparecesse. Mas a maior parte do tempo eu ficava no consultório mesmo, sentada no radiador e olhando para a Yandel Drive lá embaixo. Passava horas decodificando cartas da seção de correspondência do Capitão Marvel, embora isso não tivesse a menor graça; o código era sempre A no lugar de Z, B no lugar de Y e assim por diante.
As noites eram longas e quentes. Mesmo quando Mamie dormia, as amigas dela ficavam lá, lendo passagens da Bíblia, às vezes cantando. Vovô saía, ia para o clube ou para Juárez. O motorista do táxi da companhia 8-5 o ajudava a subir a escada. Minha mãe saía, segundo ela, para jogar bridge, mas também voltava para casa bêbada. As crianças mexicanas brincavam na rua até bem tarde. Eu ficava observando as meninas da varanda. Elas jogavam o jogo das pedrinhas, agachadas no chão de concreto, à luz do poste de iluminação. Eu morria de vontade de brincar com elas. O som das pedrinhas parecia mágico, o arremesso delas era como uma vassourinha arrastando num tambor ou como a chuva quando uma lufada de vento a empurra de encontro ao vidro da janela.
Uma manhã, quando ainda estava escuro, vovô me acordou. Era domingo. Eu me vesti enquanto ele chamava um táxi. Para chamar um táxi, ele pediu à telefonista que o ligasse com a 8-5 e, quando atenderam, ele perguntou: “Dá pra fazer uma viagenzinha hoje?”. Ele não respondeu quando o motorista do táxi perguntou por que estávamos indo para o consultório num domingo. A portaria estava escura e assustadora. Baratas corriam pelos ladrilhos e revistas mostravam os dentes para nós de trás de grades. Vovô conduziu o elevador, dando um solavanco para cima e para baixo e depois para cima de novo feito um maníaco, até que finalmente paramos um pouco acima do quinto andar e pulamos. Tudo ficou muito silencioso depois que paramos. Só o que se ouvia eram sinos de igreja e o bonde de Juárez.
No início eu fiquei com medo de entrar na oficina atrás dele, mas depois ele me puxou lá para dentro. Estava escuro, como uma sala de cinema. Ele acendeu os bicos de Bunsen resfolegantes. Eu continuei sem entender, sem conseguir ver o que ele queria que eu visse. Ele pegou uma dentadura de cima de uma prateleira, pousou-a no bloco de mármore e a empurrou para perto da chama. Eu sacudi a cabeça.
Continua olhando.” Vovô abriu bem a boca e eu olhei para os dentes dele, depois para a dentadura e para os dentes dele de novo.
São iguais!”, eu disse.
A dentadura era uma réplica perfeita dos dentes na boca do meu avô; até as gengivas tinham o mesmo tom feio, pálido e doentio de rosa. Alguns dentes estavam obturados e rachados, outros lascados ou gastos. Ele só tinha modificado um dente, um dos da frente, no qual tinha posto uma coroa de ouro. Era isso que a tornava uma obra de arte, ele disse.
Como foi que você conseguiu fazer todas essas cores?”
Ficou bom à beça, né? Então… é a minha obra-prima ou não é?”
É.” Eu apertei a mão dele. Estava muito feliz por estar ali.
Como é que você vai encaixar a dentadura?”, eu perguntei. “Ela vai encaixar?”
Normalmente, ele arrancava todos os dentes, deixava as gengivas cicatrizarem, depois fazia uma impressão da gengiva desdentada.
Tem uns caras novos fazendo desse jeito. Você tira a impressão antes de arrancar os dentes, faz a dentadura e a encaixa antes que as gengivas tenham chance de encolher.”
Quando você vai arrancar os dentes?”
Agora mesmo. Somos nós que vamos arrancar. Vai lá preparar as coisas.”
Eu liguei o esterilizador enferrujado na tomada. O fio estava puído e soltou faíscas. Vovô correu em direção ao fio. “Deixa para lá esse…”, mas eu protestei. “Não. Eles têm que ser esterilizados”, e ele riu. Depois, botou sua garrafa de uísque e seus cigarros em cima da bandeja, acendeu um cigarro, encheu um copo de papel de Jack Daniel’s e se sentou na cadeira. Eu ajeitei o refletor, botei um babador no meu avô e apertei o pedal para fazer a cadeira subir e se inclinar.
Aposto que vários pacientes seus gostariam de estar no meu lugar.”
Aquele troço já está fervendo?”
Ainda não.” Enchi alguns copos de papel com antisséptico bucal e peguei um pote de sais aromáticos.
E se você desmaiar?”, perguntei.
Ótimo. Aí você pode arrancar todos. Você tem que segurar o dente o mais perto da gengiva que você puder e depois torcer e puxar ao mesmo tempo. Me dá uma bebida.” Eu entreguei um copo com antisséptico pra ele. “Engraçadinha.” Servi um copo com uísque.
Nenhum dos seus pacientes ganha bebida.”
Eles são meus pacientes, não seus.”
Pronto, está fervendo.” Esvaziei o esterilizador dentro da cuspideira e estendi uma toalha. Usando outra toalha, arrumei os instrumentos em arco em cima da bandeja sobre o peito dele.
Segura o espelhinho pra mim”, ele disse e pegou o alicate.
Subi no apoio para os pés, entre os joelhos do meu avô, para segurar o espelho perto do rosto dele. Os primeiros três dentes saíram fácil. Ele os entregou para mim e eu os joguei dentro do barril perto da parede. Os incisivos foram mais difíceis, um deles em particular. Vovô engasgou e parou, a raiz do dente ainda presa na gengiva. Ele fez um barulho estranho e pôs o alicate na minha mão. “Pega!” Eu puxei o dente. “Usa a tesoura, sua idiota!” Eu me sentei na placa de metal entre os pés dele. “Só um instante, vô.”
Ele esticou o braço por cima de mim para pegar a garrafa de uísque, bebeu, depois pegou outra ferramenta da bandeja. Começou a extrair o resto dos dentes de baixo mesmo sem o espelho. O som era como o de raízes de árvores sendo arrancadas do solo congelado no inverno. Gotas de sangue caíam na bandeja, ploc, ploc, e na placa de metal onde eu estava sentada.
Ele começou a rir tão alto que eu achei que ele tinha enlouquecido. Depois, desabou em cima de mim. Assustada, eu dei um pulo tão grande que o empurrei de volta para a cadeira inclinada. “Arranca o resto!”, ele disse, arfando. Eu estava com muito medo e, por um instante, fiquei me perguntando se seria assassinato se eu arrancasse os dentes restantes e ele morresse.
Arranca!” Ele cuspiu uma pequena cascata vermelha queixo abaixo.
Fiz a cadeira se inclinar totalmente. Ele estava mole, não parecia sentir nada enquanto eu puxava os dentes superiores de trás para o lado e para fora. Ele desmaiou, seus lábios se fechando feito conchas cinzentas de marisco. Eu abri a sua boca e enfiei uma toalha de papel lá no fundo, de um dos lados, para poder arrancar os três dentes de trás que faltavam.
Não restava mais dente nenhum. Tentei abaixar a cadeira com o pedal, mas bati na alavanca errada e acabei fazendo meu avô girar, espalhando pingos de sangue pelo chão. Eu o deixei lá, a cadeira rangendo lentamente até parar. Eu queria pegar uns saquinhos de chá; meu avô costumava fazer os pacientes morderem saquinhos de chá para estancar o sangramento. Revirei as gavetas de Mamie: talco, santinhos, obrigado pelas flores. Os saquinhos de chá estavam numa lata, atrás do fogão portátil.
A toalha de papel que eu tinha posto na boca do meu avô estava encharcada de sangue agora. Joguei-a no chão, enfiei um punhado de saquinhos de chá na boca dele e apertei os maxilares um contra o outro. Gritei. Sem dente nenhum, o rosto dele parecia uma caveira, ossos brancos em cima do pescoço ensanguentado. Um monstro medonho, um bule de chá que ganhou vida, com etiquetas amarelas e pretas de chá Lipton penduradas como enfeites de Carnaval. Corri para telefonar para a minha mãe, mas não tinha moeda para fazer a ligação. Não consegui virar o meu avô para alcançar os bolsos dele. Ele tinha mijado na calça; gotas de urina pingavam no chão. Volta e meia uma bolha de sangue aparecia na narina dele e estourava em seguida.
O telefone tocou. Era minha mãe. Ela estava chorando. A carne assada, um bom almoço de domingo. Com pepino, cebola e tudo, exatamente como Mamie fazia. “Socorro! O vovô!”, eu disse e desliguei.
Ele tinha vomitado. Ah, que bom, pensei, e depois ri, porque era uma coisa idiota pra se pensar “ah, que bom”. Joguei os saquinhos de chá no meio da porcaria amontoada no chão, molhei algumas toalhas e limpei o rosto dele. Abri o pote de sais aromáticos debaixo do nariz do meu avô, depois cheirei os sais eu mesmo e estremeci.
Meus dentes!”, ele berrou.
Não tem mais dente”, eu disse, como se estivesse falando com uma criança. “Nenhum!”
Os novos, palerma!”
Fui buscar a dentadura. Já a conhecia àquela altura; era exatamente como a boca do meu avô costumava ser por dentro.
Ele estendeu a mão para pegá-la como um mendigo de Juárez, mas estava tremendo demais.
Eu boto pra você. Enxague a boca primeiro.” Entreguei pra ele o antisséptico bucal. Ele bochechou e cuspiu sem levantar a cabeça. Eu lavei a dentadura com água oxigenada e a pus na boca dele. “Ei, olha!” Levantei o espelho de marfim de Mamie.
Olha xó exa gengiva!” Ele estava rindo.
Uma obra-prima, vovô!” Eu ri também e dei um beijo na sua cabeça suada.
Ai meu Deus!”, minha mãe exclamou com uma voz estridente e veio andando na minha direção com os braços estendidos. Escorregou no sangue e trombou com os barris de dentes. Apoiando-se neles, recuperou o equilíbrio.
Olha os dentes dele, mãe.”
Ela não tinha nem reparado. Disse que não dava para notar diferença nenhuma. Ele ofereceu um copo com Jack Daniel’s para ela. Ela aceitou, fez um brinde distraído a ele e bebeu.
Você é maluco, pai. Ele é maluco. De onde veio esse monte de saquinhos de chá?”
A camisa dele fez um ruído de rasgo quando desgrudou da pele. Eu o ajudei a lavar o peito e a barriga enrugada. Depois me lavei também e vesti um suéter cor de coral da Mamie. Os dois ficaram bebendo, em silêncio, enquanto esperávamos o táxi da 8-5. Eu conduzi o elevador até lá embaixo e aterrissei bem perto do piso. Quando nós chegamos em casa, o motorista ajudou o vovô a subir as escadas. Ele parou em frente ao quarto de Mamie, mas ela estava dormindo.
Na cama, o vovô dormiu também, seus dentes à mostra num esgar de Bela Lugosi. A boca dele devia estar doendo.
Ele fez um bom trabalho”, minha mãe disse.
Você não odeia mais o vovô, odeia, mãe?”
Ah, odeio”, disse ela. “Odeio sim.”

Lucia Berlin, em Manual da faxineira: Contos escolhidos

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Guilherme Arantes | Lágrima de uma Mulher

 

Poema Circense

Atirei meu coração às areias do circo como se atira ao
mar uma âncora aflita. Ninguém bateu palmas.
O trapezista sorriu, o leão farejou-me desdenhosamente,
o palhaço zombou de minha sombra fatídica.

Só a pequena bailarina compreendeu. Em sua mãos
de opala, meu coração refletia as nuvens de outono,
os jogos de infância, as vozes populares.

Depois de muitas quedas, aprendi. Sei agora vestir,
com razoável destreza, os risos da hiena, a frágil polidez
dos elefantes, a elegância marinha dos corcéis.

Todavia, quando as luzes se apagam, readquiro antigos
poderes e voo. Voo para um mundo sem espelhos falsos,
onde o sol devolve a cada coisa a sombra natural
e onde não há aplausos, 
porque tudo é justo, porque tudo é bom.

José Paulo Paes, em Melhores poemas

Capítulo 36 – A Propósito de Botas




Meu pai, que me não esperava, abraçou-me cheio de ternura e agradecimento. – Agora é deveras? disse ele. Posso enfim...?
Deixei-o nessa reticência, e fui descalçar as botas, que estavam apertadas. Uma vez aliviado, respirei à larga, e deitei-me a fio comprido, enquanto os pés, e todo eu atrás deles, entrávamos numa relativa bem-aventurança. Então considerei que as botas apertadas são uma das maiores venturas da terra, porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar. Mortifica os pés, desgraçado, desmortifica-os depois, e aí tens a felicidade barata, ao sabor dos sapateiros e de Epicuro.
Enquanto esta ideia me trabalhava no famoso trapézio, lançava eu os olhos para a Tijuca, e via a aleijadinha perder-se no horizonte do pretérito, e sentia que o meu coração não tardaria também a descalçar as suas botas. E descalçou-as o lascivo. Quatro ou cinco dias depois, saboreava esse rápido, inefável e incoercível momento de gozo, que sucede a uma dor pungente, a uma preocupação, a um incômodo... Daqui inferi eu que a vida é o mais engenhoso dos fenômenos, porque só aguça a fome, com o fim de deparar a ocasião de comer, e não inventou os calos, senão porque eles aperfeiçoam a felicidade terrestre. Em verdade vos digo que toda a sabedoria humana não vale um par de botas curtas.
Tu, minha Eugênia, é que não as descalçaste nunca; foste aí pela estrada da vida, manquejando da perna e do amor, triste como os enterros pobres, solitária, calada, laboriosa, até que vieste também para esta outra margem... O que eu não sei é se a tua existência era muito necessária ao século. Quem sabe? Talvez um comparsa de menos fizesse patear a tragédia humana.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Loucura? Não, não é

Às vezes, passo o dia inteiro tentando contar as folhas de uma única árvore. Para isso, preciso subir galho por galho e anotar os números em um caderninho. Então, suponho que, do ponto de vista deles, seja razoável que meus amigos digam: que bobagem! Ela está com a cabeça nas nuvens de novo.
Mas não é. Claro que tenho que desistir, mas a essa altura já estou meio louca de tanta admiração — a abundância de folhas, a quietude dos galhos, a inutilidade do meu esforço. E estou naquele lugar delicioso e importante, gargalhando alto, cheia de gratidão pela Terra.

Mary Oliver, em A Thousand Mornings – Poems

Pacóvio

Cretino!
Foi o fim de uma conversa áspera da moça pelo seu telefone celular. Depois daquele “cretino!”, dito com aquela força, era de se esperar que a moça jogasse o celular longe, como se estivesse jogando fora o próprio cretino. Mas não. Ela apenas desligou o celular e colocou ao lado da sua xícara de café (ou seria chá?), na mesa. O homem da mesa ao lado certificou-se de que ela estava calma e não despejaria todo o seu ódio, que pela conversa no celular parecia incluir toda a humanidade, sobre sua cabeça, e comentou:
Palavra curiosa, né?
O quê?
Cretino.
Por quê?
Eu sempre pensei que tivesse alguma coisa a ver com Creta.
Concreta?
Não. Creta. A ilha de Creta. Cretino seria alguém de Creta. Que por alguma razão teria a fama de produzir idiotas.
E não é?
Não. Fui ver no dicionário. Cretino é quem sofre de cretinismo, uma condição decorrente de problemas na tiroide.
Não é o caso do meu cretino.
Eu desconfiei que não era. No dicionário diz que “cretino” também é sinônimo de lorpa, pacóvio...
O telefone tocou. Vivaldi. Ela atendeu rispidamente.
Quié?
Ouviu por alguns minutos, de cara feia. E ela era linda. Depois disse:
Sabe o que você é? Um lorpa. Qual é o outro?
Pacóvio — disse o homem.
Um pacóvio. Nunca vi um pacóvio igual. O quê? Não, não estou com ninguém. Estou tomando um cappuccino sozinha, pensando em como pude perder meu tempo com um pacóvio como você. Por favor, não me ligue mais.
Ela desligou o telefone. Sorrindo. Ele perguntou:
Marido?
Deus me livre.
Namorado?
Não é mais.
Posso lhe pagar outro cappuccino?

Mais tarde, já na cama, ela distraída, ele perguntou se ela estava pensando no namorado.
Não, não. Acabou.
O que foi que ele fez, afinal?
Nada. Pacovice geral. Na verdade não nos entendemos desde o início. Ele é bonito. Mas sabe aquele tipo que tem os bíceps na cabeça? É ele. Não podia dar certo.
Ainda mais com o Vivaldi.
Como, Vivaldi?
É o que toca no seu celular. Vivaldi. Uma das quatro estações. Tenho uma tese de que se pode saber tudo sobre uma pessoa pelo que ela escolhe para tocar no seu celular. Uma vez rompi o namoro com uma mulher quando descobri que o celular dela tocava Wagner. Achei que seria perigoso. Já uma mulher que escolhe Vivaldi...
Não é para qualquer cretino.
Definitivamente não.

Luís Fernando Veríssimo, em Diálogos impossíveis

14. Narra o que se passou no divã real



Logo que o xeque Nuredim Zarur — o emissário do rei — partiu em busca do calígrafo que desenhara as 32 legendas do divã, deram entrada na magnífica sala do trono cinco músicos egípcios que executaram, com grande sentimento, as mais ternas canções e melodias árabes. Enquanto os músicos faziam vibrar seus alaúdes, harpas, cítaras e flautas, duas graciosas bailarinas djalicianas(1), para maior deslumbramento de todos, dançavam sobre o vasto tablado de forma circular.
Era de causar espanto a semelhança que se observava entre as duas jovens escravas.
Tinham ambas o mesmo talhe esbelto, a mesma face morena, os mesmos olhos pintados de khol negro; ostentavam brincos, pulseiras e colares exatamente iguais. E, para completar a confusão, apresentavam-se com trajes em que não se percebia a menor diferença.
Em dado momento o califa, que parecia de bom humor, dirigiu-se a Beremiz a quem disse:
— Que achas, ó Calculista, das minhas lindas adjamis? Já reparaste, com certeza, que são parecidíssimas. Uma delas chama-se Iclímia; tem a outra o mavioso nome de Tabessã(2). São gêmeas e valem um tesouro. Não encontrei, até hoje, quem fosse capaz de distinguir, com segurança, uma da outra quando elas reaparecem no tablado, depois da dança. Iclímia (repara bem!) é a que se acha agora à direita; Tabessã, à esquerda, junto à coluna, dirige-nos, neste momento, seu melhor sorriso! Pela cor de sua pele lisa, pelo perfume delicado que exala, ela se assemelha à haste odorante do aloés.
— Confesso, ó xeque do Islã(3) — respondeu Beremiz —, que as vossas bailarinas são, realmente, irresistíveis. Louvado seja Alá, o Único, que criou a Beleza para com ela modelar as sedutoras formas femininas. Da mulher formosa já disse o poeta:

E para teu luxo a teia que os poetas fabricam com o fio de ouro das imagens; e os pintores o que fazem é criar para tua formosura nova imortalidade.
Para adornar-te, para vestir-te, para fazer-te mais preciosa, o mar dá as suas pérolas, a terra o seu ouro, os jardins suas flores.

Sobre a tua mocidade o desejo do coração dos homens derramou a sua glória(4).




 Parece-me, entretanto — ponderou o calculista —, relativamente fácil distinguir-se Iclímia de sua irmã Tabessã. Basta reparar na feitura dos trajes de cada uma!
Como assim? — atalhou o sultão. — Pelos trajes não se poderá descobrir a menor diferença, pois determinei que ambas usassem véus, blusas e mahzmas(5) rigorosamente iguais!
Peço perdão, ó Rei generoso — contraveio Beremiz —, mas a vossa ordem as costureiras não a acataram com o devido cuidado. Verifico que a mahzma de Iclímia tem, na barra, 312 franjas, ao passo que na mahzma de Tabessã só cheguei a contar 309 franjas. Essa diferença de 3 no número total das franjas é suficiente para evitar qualquer confusão entre as duas irmãs gêmeas!
Ao ouvir tais palavras o califa bateu palmas, fez parar imediatamente o bailado, e determinou que um haquim(6) fosse contar, uma por uma, todas as franjas que apareciam nos saiotes das bailarinas.
O resultado veio confirmar o cálculo de Beremiz. A formosa Iclímia tinha, no vestido, 312 franjas e Tabessã, apenas 309!
Mac Allah! — exclamou o califa. — O xeque Iezid, apesar de poeta, não exagerou. Esse calculista Beremiz é, realmente, prodigioso! Contou todas as franjas dos saiotes enquanto as bailarinas volteavam rapidamente sobre o tablado. Isso parece incrível! Por Alá!
A inveja quando se apodera de um homem abre em sua alma caminho a todos os sentimentos desprezíveis e torpes.
Havia na corte de Al-Motacém um vizir chamado Nahum Ibn-Nahum, tipo invejoso e mau. Vendo crescer perante o califa o prestígio de Beremiz, como onda de pó erguida pelo simum, aguilhoado pelo despeito deliberou embaraçar o meu talentoso amigo e colocá-lo em situação ridícula e falsa. Assim foi que se aproximou do rei e disse-lhe destilando as palavras:
Acabo de observar, ó Emir dos Crentes, que o calculista persa, nosso hóspede desta tarde, é exímio na contagem de elementos ou figuras de uma coleção. Contou as quinhentas e tantas palavras escritas na parede do salão, citou dois números amigos, falou da diferença (64 que é cubo e quadrado) e acabou por contar, uma por uma, as franjas dos saiotes das lindas bailarinas.
Mal servidos ficaríamos nós se os nossos matemáticos se dispusessem a cuidar de coisas tão pueris, sem utilidade prática de espécie alguma. Realmente! Que nos adianta saber se há, nos versos que nos enlevam, 220 ou 284 palavras e se esses números são amigos ou não? A preocupação de quantos admiram um poeta não é contar as letras dos versos ou calcular o número de palavras pretas ou vermelhas de um poema. Tampouco nos interessa saber se no vestido desta bela e graciosa bailarina há 312, 309 ou 1.000 franjas. Tudo isso é ridículo e de mui escasso interesse para os homens de sentimentos que cultivam a Beleza e a Arte.
O engenho humano, amparado pela ciência, deve consagrar-se à resolução dos grandes problemas da Vida. Os sábios — inspirados por Alá, o Exaltado — não ergueram o deslumbrante edifício da Matemática para que essa nobre ciência viesse ter a aplicação que lhe quer atribuir o calculista persa. Parece-me, pois, um crime reduzir a ciência de um Euclides, de um Arquimedes ou de um maravilhoso Omar Khayya-m (Alá o tenha em sua glória!) a essa mísera situação de avaliadora numérica de coisas e seres. Interessa-nos, pois, ver esse calculista aplicar as teorias (que diz possuir) na solução de problemas de serventia real, isto é, problemas que se relacionem com as necessidades e os reclamos da vida corrente!
Há um pequeno engano de vossa parte, senhor vizir — acudiu prontamente Beremiz —, e eu teria grande honra em esclarecer esse insignificante equívoco se o generoso califa, nosso amo e senhor, me concedesse permissão para dirigir-lhe mais longamente a palavra, neste divã!
Não deixa de parecer, até certo ponto, judiciosa — replicou o rei — a censura feita pelo vizir Nahum-Ibn-Nahum. Um esclarecimento sobre o caso torna-se indispensável. Fala, pois! Tua palavra poderá orientar a opinião dos que aqui se acham!
Fez-se no divã real profundo silêncio.
O calculista assim falou:
Os doutores e ulemás, ó Rei dos Árabes, não ignoram que a Matemática surgiu com o despertar da alma humana; mas não surgiu com fins utilitários. Foi a ânsia de resolver o mistério do Universo, diante do qual o homem é simples grão de areia, que lhe deu o primeiro impulso. Seu verdadeiro desenvolvimento resultou, antes de tudo, do esforço em penetrar e compreender o Infinito. E ainda hoje, depois de havermos passado séculos a tentar, em vão, afastar o espesso velário, ainda hoje é a busca do Infinito que nos leva para diante. O progresso material dos homens depende das pesquisas abstratas ou científicas do presente, e será aos homens de ciência que trabalham para fins puramente científicos, sem nenhum intuito de aplicação de suas doutrinas, que a humanidade ficará devedora em tempos futuros(7).
Beremiz fez uma pequena pausa, e logo prosseguiu, com um sorriso fino e espiritual:
Quando o matemático efetua seus cálculos, ou procura novas relações entre os números, não busca a verdade para fins utilitários. Cultivar a ciência pela utilidade prática, imediata, é desvirtuar a alma da própria ciência!
A teoria estudada hoje, e que nos parece inútil, terá aplicações no futuro? Quem poderá esclarecer esse enigma na sua projeção através dos séculos? Quem poderá, da equação do presente, resolver a grande incógnita dos tempos vindouros? Só Alá sabe a verdade! É bem possível que as investigações teóricas de hoje forneçam, dentro de mil ou dois mil anos, recursos preciosos para a prática.
É preciso, ainda, não esquecer que a Matemática, além do objetivo de resolver problemas, calcular áreas e medir volumes, tem finalidades muito mais elevadas.
Por ter alto valor no desenvolvimento da inteligência e do raciocínio, é a Matemática um dos caminhos mais seguros por onde podemos levar o homem a sentir o poder do pensamento, a mágica do espírito.
A Matemática é, enfim, uma das verdades eternas e, como tal, produz a elevação do espírito — a mesma elevação que sentimos ao contemplar os grandes espetáculos da Natureza, através dos quais sentimos a presença de Deus, Eterno e Onipotente! Há, pois, ó ilustre vizir Nahum Ibn-Nahum, como já disse, um pequeno erro de vossa parte. Conto os versos de um poema, calculo a altura de uma estrela, avalio o número de franjas, meço a área de um país, ou a força de uma torrente — aplico, enfim, fórmulas algébricas e princípios geométricos — sem me preocupar com os louros que possa tirar de meus cálculos e estudos! Sem o sonho e a fantasia a ciência se abastarda. É ciência morta! Uassalã!
As palavras eloquentes de Beremiz impressionaram profundamente os nobres e ulemás que rodeavam o trono. O rei aproximou-se do calculista, ergueu-lhe a mão direita e exclamou com decidida autoridade:
A teoria do cientista sonhador venceu e vencerá sempre o imediatismo grosseiro do ambicioso sem ideal filosófico! Kelimet-Oullah(8)!
Ao ouvir tal sentença, ditada pela justiça e pela razão, o rancoroso Nahum Ibn-Nahum inclinou-se, dirigiu um salã ao rei, e sem dizer palavra retirou-se cabisbaixo do divã das audiências.
Muita razão tinha o poeta ao escrever:

Deixa voar bem alto a Fantasia:
Sem ilusões a vida que seria?”(9)

NOTAS
(1) Escravas de origem espanhola. Em geral eram cristãs.
(2) Adjamis significa “jovens de outras terras”. Iclímia é o nome atribuído à filha mais velha de Eva. Segundo a tradição árabe, ela é mais moça do que Caim. Tabessã quer dizer pequenina.
(3) Título dado, exclusivamente, aos descendentes de Maomé.
(4) Rabindranath Tagore, poeta indiano.
(5) Espécie de saiote que usam as bailarinas.
(6) Médico a quem o rei confia a saúde de suas esposas.
(7) Já Condorcet observa: “O marinheiro a quem a exata determinação da longitude preserva do naufrágio deve a vida a uma teoria concebida, vinte séculos mais cedo, por homens de gênio que tinham em vista meras especulações geométricas.”
(8) Palavra de Deus.
(9) Esses versos são do grande poeta lírico espanhol Ramon de Campoamor (1817-1901), em tradução de Alípio de Figueiredo.

Malba Tahan, em O Homem que Calculava

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

The Dave Brubeck Quartet | Take Five

 

Factótum | 5




Era uma distribuidora de revistas. A gente ficava em pé na mesa de empacotamento, verificando os pedidos para ver se as quantidades coincidiam com as faturas. Depois, assinávamos a nota fiscal e fazíamos a embalagem do pedido para enviar no correio, ou separávamos as revistas para a entrega local, que era feita de caminhão. O trabalho era fácil e sem graça, mas os funcionários estavam em um constante estado de agitação. Se preocupavam com os empregos. Eram uma mistura de mulheres e homens jovens, e parecia não haver qualquer tipo de supervisão. Passaram algumas horas e duas mulheres começaram a discutir. Alguma coisa a ver com as revistas. Estávamos embalando gibis e algo deu errado do outro lado da mesa. As duas mulheres ficaram violentas enquanto a discussão avançava.
Pessoal — falei —, não vale a pena nem ler essas revistinhas, imagina discutir sobre elas.
Tá bom — disse uma das mulheres —, a gente sabe que você se acha bom demais para esse trabalho.
Bom demais?
Sim, esse teu jeito. Você acha que a gente não percebe?
Foi aí que eu aprendi pela primeira vez que não bastava fazer o trabalho, você precisava ter interesse nele, quem sabe até ser apaixonado pela coisa.
Fiquei lá por três ou quatro dias, e na sexta-feira recebemos o pagamento referente a todas as horas trabalhadas. Nos deram envelopes amarelos com notas verdes e o valor contado. Dinheiro vivo, nada de cheques.
Perto do horário de saída, o motorista do caminhão de entrega voltou um pouco mais cedo. Sentou em uma pilha de revistas e fumou um cigarro.
Pois é, Harry — disse ele a um dos funcionários —, hoje me deram um aumento. Ganhei dois dólares a mais.
Quando saí, parei para comprar uma garrafa de vinho, subi para o meu quarto, bebi um pouco, depois desci e liguei para a firma. O telefone tocou bastante. Enfim, o sr. Heathercliff atendeu. Ele ainda estava lá.
Sr. Heathercliff?
Sim?
Aqui é o Chinaski.
Pois não, sr. Chinaski?
Eu quero um aumento de dois dólares.
Quê?
Isso mesmo. O motorista do caminhão de entrega ganhou um aumento.
Mas ele está conosco há dois anos.
Eu preciso de um aumento.
No momento estamos lhe pagando dezessete dólares por semana, e você está pedindo dezenove?
Isso mesmo. Vão me dar ou não?
Nós não temos como fazer isso.
Então eu me demito. — Desliguei.

Charles Bukowski, em Factótum