05/09/2026

Emílio Santiago | Calma

Tempo

Por Rafael Sica

Vassouras do tempo

Ninguém,
além do tempo,
sabe o nome daquele gari
que limpava a rua
sempre cantando uma música
e segurava a vassoura
como uma parceira
que domina o salão.
Um dia,
não sei se por amor
ou por inveja,
quando passava em frente
a uma padaria
um cliente de sorriso miúdo
ouviu sua canção e ficou indignado.
Uma voz linda
vinda de uma tão boca torta
e um rosto todo marcado,
resolveu perguntar:
"Varrendo a rua… de onde vem toda essa alegria?"
O bailarino
cheio de poeira nos olhos
em vez de olhar para ele
olhou para o tempo.
Quem já sofreu sabe,
é preciso aprender a reciclar a dor
e colocar um saco plástico
no lugar do coração
quando a vida nos esconde
pra debaixo do tapete.
Entender todo dia pela manhã
que limpar o lixo dos outros
é bem mais fácil que limpar o seu.
Até o cão sem dono sabe
que tempo é o senhor
de todas as respostas.
Mas tempo também é curto,
e assim com um sorriso
mais limpo entre os dentes,
ele respondeu:
“É que não estou varrendo a rua. Estou varrendo o passado.”

Sérgio Vaz, em Flores da batalha

Inimigos em casa

Outubro de 2008
Dia 2

Que a família está em crise ninguém se atreverá a negá-lo, por muito que a Igreja Católica tente disfarçar o desastre sob a capa de uma retórica melíflua que já nem a ela própria engana, que muitos dos denominados valores tradicionais de convivência familiar e social se foram pelo cano abaixo arrastando consigo até aqueles que deveriam ter sido defendidos dos contínuos ataques desferidos pela sociedade altamente conflitiva em que vivemos, que a escola moderna, continuadora da escola velha, aquela que, durante sucessivas gerações, foi tacitamente encarregada, à falta de melhor, de suprir as falhas educacionais dos agregados familiares, está paralisada, acumulando contradições, erros, desorientada entre métodos pedagógicos que em realidade não o são, e que, demasiadas vezes, não passam de modas passageiras ou de experimentos voluntaristas condenados ao fracasso pela própria ausência de madurez intelectual e pela dificuldade de formular e responder à pergunta, essencial em minha opinião: que cidadão estamos a querer formar? O panorama não é agradável à vista. Singularmente, os nossos mais ou menos dignos governantes não parecem preocupar-se com estes problemas tanto quanto deveriam, talvez porque pensam que, sendo os ditos problemas universais, a solução, quando vier a ser encontrada, será automática, para toda a gente.
Não estou de acordo. Vivemos numa sociedade que parece ter feito da violência um sistema de relações. A manifestação de uma agressividade que é inerente à espécie que somos, e que em tempos pensámos, pela educação, haver controlado, irrompeu brutalmente das profundidades nos últimos vinte anos em todo o espaço social, estimulada por modalidades de ócio que viraram as costas ao já simples hedonismo para se transformarem em agentes condicionadores da própria mentalidade do consumidor: a televisão, em primeiro lugar, onde imitações de sangue, cada vez mais perfeitas, saltam em jorros a todas as horas do dia e da noite, os vídeo-jogos que são como manuais de instruções para alcançar a perfeita intolerância e a perfeita crueldade, e, porque tudo isto está ligado, as avalanchas de publicidade de serviços eróticos a que os jornais, incluindo os mais bem-pensantes, dão as boas-vindas, enquanto nas páginas sérias (são-no algumas?) abundam hipocritamente em lições de boa conduta à sociedade. Que estou a exagerar? Expliquem-me então como foi que chegámos à situação de muitos pais terem medo dos filhos, desses gentis adolescentes, esperanças do amanhã, em quem um “não” do pai ou da mãe, cansados de exigências irracionais, instantaneamente desencadeia uma fúria de insultos, de vexames, de agressões. Físicas, para que não fiquem dúvidas. Muitos pais têm os seus piores inimigos em casa: são os seus próprios filhos. Ingenuamente, Ruben Darío escreveu aquilo da “juventud, divino tesoro”. Não o escreveria hoje.

José Saramago, em O caderno

Literatura socialista e comunista



O SOCIALISMO REACIONÁRIO

O SOCIALISMO FEUDAL

Devido à sua posição histórica, as aristocracias da França e da Inglaterra viram-se chamadas a lançar libelos contra a sociedade burguesa. Na revolução francesa de julho de 1830 e no movimento reformador inglês, tinham sucumbido mais uma vez sob os golpes desta odiada arrivista. Elas não podiam mais travar uma luta política séria; só Ihes restava a luta literária. Ora, também no domínio literário, tornara-se impossível a velha fraseologia da Restauração.
Para criar simpatias, era preciso que a aristocracia fingisse descurar seus próprios interesses e dirigisse sua acusação contra a burguesia, aparentando defender apenas os interesses da classe operária explorada. Desse modo, entregou-se ao prazer de cantarolar sátiras sobre os novos senhores e de lhe segredar ao ouvido profecias de mau augúrio.
Assim nasceu o socialismo feudal, onde se mesclavam jeremiadas e libelos, ecos do passado e ameaça sobre o futuro. Se por vezes a sua crítica amarga, mordaz e espirituosa feriu a burguesia no coração, sua impotência absoluta de compreender a marcha da História moderna terminou sempre por um efeito cômico.
A guisa de bandeira, estes senhores arvoraram a sacola do mendigo, a fim de atrair o povo; mas logo que este acorreu, notou suas costas ornadas com os velhos brasões feudais e dispersou-se com grandes gargalhadas irreverentes.
Uma parte dos legitimistas franceses e a "Jovem Inglaterra", ofereceram ao mundo esse espetáculo divertido .
Quando os campeões do feudalismo demonstram que o modo de exploração feudal era diferente do da burguesia, esquecem uma coisa: que o feudalismo explorava em circunstâncias e condições completamente diversas e hoje em dia caducas. Quando ressaltam que sob o regime feudal o proletariado moderno não existia, esquecem uma coisa: que a burguesia moderna é precisamente um fruto necessário de seu regime social.
Aliás, ocultam tão pouco o caráter reacionário de sua crítica, que sua principal queixa contra a burguesia consiste justamente em dizer que esta assegura sob o seu regime o desenvolvimento de uma classe que fará ir pelos ares toda a antiga ordem social,
O que reprovam à burguesia é mais o ter produzido um proletariado revolucionário, que o haver criado o proletariado em geral. Por isso, na luta política participam ativamente de todas as medidas de repressão contra a classe operária. E, na vida diária, a despeito de sua pomposa Fraseologia, conformam-se perfeitamente em colher os frutos de ouro da árvore da indústria e trocar honra, amor e fidelidade, pelo comércio de lã, açúcar de beterraba e aguardente
Do mesmo modo que o pároco e o senhor feudal marcharam sempre de mãos dadas, o socialismo clerical marcha lado a lado com o socialismo feudal. Nada é mais fácil que recobrir o ascetismo cristão com um verniz socialista. Não se ergueu também o cristianismo contra a propriedade privada, o matrimônio e o Estado? E em seu lugar não predicou a caridade e a pobreza, o celibato e a mortificação da carne, a vida monástica e a igreja? O socialismo cristão não passa de água benta com que o padre consagra o despeito da aristocracia.

O SOCIALISMO PEQUENO-BURGUÊS

Não é a aristocracia feudal a única classe arruinada pela burguesia, não é a única classe cujas condições de existência se estiolam e perecem na sociedade burguesa moderna. Os pequenos burgueses e os pequenos camponeses da Idade Média foram os precursores da burguesia moderna.. Nos países onde o comércio e a indústria são pouco desenvolvidos, esta classe continua a vegetar ao lado da burguesia em ascensão.
Nos países onde a civilização moderna está florescente forma-se uma nova classe de pequeno burgueses, que oscila entre o proletariado e a burguesia; fração complementar da sociedade burguesa, ela se reconstitui incessantemente. Mas os indivíduos que a compõem se veem constantemente precipitados no proletariado, devido à concorrência; e, com a marcha progressiva da grande indústria, sentem aproximar-se o momento em que desaparecerão completamente como fração independente da sociedade moderna e em que serão substituídos no comércio, na manufatura, na agricultura, por capatazes e empregados.
Nos países como a França, onde os camponeses constituem bem mais da metade da população, é natural que os escritores que se batiam pelo proletariado contra a burguesia, aplicassem à sua crítica do regime burguês critérios pequeno-burgueses e camponeses e defendessem a causa operária do ponto de vista da pequena burguesia. Desse modo se formou o socialismo pequeno-burguês. Sismondi é o chefe dessa literatura, não somente na França, mas também na Inglaterra.
Esse socialismo analisou com muita penetração as contradições inerentes às relações de produção modernas. Pôs a nu as hipócritas apologias dos economistas. Demonstrou de um modo irrefutável os efeitos mortíferos das máquinas e da divisão do trabalho, a concentração dos capitais e da propriedade territorial, a superprodução, as crises, a decadência inevitável dos pequenos burgueses e camponeses, a miséria do proletariado, a anarquia na produção, a clamorosa desproporção na distribuição das riquezas, a guerra industrial de extermínio entre as nações, a dissolução dos velhos costumes, das velhas relações de família, das velhas nacionalidades.
Todavia, a finalidade real desse socialismo pequeno-burguês é ou restabelecer os antigos meios de produção e de troca e, com eles, as antigas relações de propriedade e toda a sociedade antiga, ou então fazer entrar à força os meios modernos de produção e de troca no quadro estreito das antigas relações de propriedade que foram destruídas e necessariamente despedaçadas por eles. Num e noutro caso, esse socialismo é ao mesmo tempo reacionário e utópico.
Para a manufatura, o regime corporativo; para a agricultura, o regime patriarcal: eis a sua última palavra. Por fim, quando os obstinados fatos históricos lhe fizeram passar completamente a embriaguez, essa escola socialista abandonou-se a uma verdadeira prostração de espírito.

Karl Marx e Friedrich Engels, em Manifesto do Partido Comunista

Imagem

Haverá ainda, no mundo, coisas tão simples e tão puras como a água bebida na concha das mãos?

Mário Quintana, em Caderno H

04/09/2026

Esperanza Spalding | I Know You Know

Fogo no Rabo!

Charge: Thiago Silva

Cântico de júbilo

Ao meu Cony, Carlos Heitor, e a Bia do lado dele

Meu coração se aflige
quando fôlego lhe falta
para dar manhã bem cedo
o seu rubro mirantã
à voragem do meu sonho.

Sei que a qualquer momento
ele pode deixar de me valer.
Já por três vezes muito perto esteve
do desmaio, mas, fiel a seu destino,
se reergueu, não deixou que meu canto
restasse como insólita lembrança
de palavra feliz emudecida.

Como fulgor de aurora, me levanta
a alegria de ouvir meu coração
batendo firme, cântico de júbilo,
por me ver perseguir, perseverante.
Ele não sabe que algo se germina,
conspira escuro contra o seu fervor.
Nem poderá prever o instante certo
do seu silêncio. Não esteja perto.

Thiago de Mello, em Acerto de contas

A Contadora de Filmes


[5]

Alguns se perguntarão por que meu pai não ia, ele mesmo, ao cinema; pelo menos quando passassem um filme mexicano. Meu pai não conseguia andar. Tinha sofrido um acidente de trabalho que o deixou paralítico da cintura para baixo. Não trabalhava mais. Recebia uma pensão de invalidez que era uma miséria, mal dava para comer.
Nem preciso dizer que a gente não tinha nem para uma cadeira de rodas. Para levá-lo da sala para o quarto, ou do quarto para a porta da rua – onde ele gostava de beber sua garrafa de vinho tinto vendo passarem a tarde e seus amigos –, meus irmãos tinham adaptado as rodas de um velho triciclo na poltrona. O triciclo tinha sido o primeiro presente de páscoa do meu irmão mais velho e as rodas não aguentavam muito o peso do meu pai, dobravam, e era preciso ficar consertando tudo o tempo inteiro.
E a minha mãe? Bom, minha mãe, depois do acidente, abandonou meu pai. Abandonou meu pai e nos abandonou, os seus cinco filhos. Assim, num vupt! Por isso lá em casa meu pai tinha nos proibido de falar dela; da “sirigaita”, como a chamava com desdém.
“Não me falem dessa sirigaita” – dizia ele, quando algum de nós, sem querer, deixava escapar a palavra mamãe.
Depois, entrava no silêncio e a gente levava horas até conseguir tirá-lo de lá.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

Zoo

O que se passou no cercado grande: Juntos, o gamo e a ema rimam. Ovinos pastam, os carneiros valentins. Impõe-se oficialmente aberto o pavão — cauda erguida verde. O jaburu anda, meticuloso passo angular, desmeias pernas tão suas. Os carneiros são da Barbaria! A ema persegue os carneiros — a ema que come cobra. Pulam da grama os gamos deitados, branquipretos, rabicurtos: feito passarinhos. O jaburu, bico fendidamente, também corrivoa, com algo de bruxo e de aranha. Só o pavão, melindroso humilde, fica: coifado com seu buquezinho de violetas.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

Arpoador

Um itabirano que há cinquenta anos não revia a cidade natal, deixada aos quinze, voltou lá e ficou triste; e ficando triste, imprimiu um boletim de que me mandaram um exemplar. Queixa-se, entre outros males, de que acabaram com as árvores, notadamente “o encantador e quase secular coqueiro do saudoso Batistinha”. Fecho os olhos e revejo o coqueiro; junto ao tronco rugoso, lá vem a imagem do Batistinha, com o bando de gente, fatos e sensações daquele tempo; e sinto — o que é normal nesse jogo da evocação — que, destruídas lá fora, as coisas se vão recompondo cá dentro, até que, com a nossa morte, se acabem de vez esses coqueiros internos, dos quais só um ou outro sobrevive guardado em página literária ou alusão histórica.
Agora, quem quiser ver a praia do Arpoador, é fechar os olhos; e não adianta distribuir boletim, que a praia não volta, levada que foi pelo mar em fúria ou simplesmente enlunado. Quem nela se deitou domingo 8, não a encontrou mais domingo 15; sem aviso, sem consideração a tanto programa dominical que se organizava no correr da semana, a onda ferrou o dente na areia clara, e as duas lá se foram, na vertigem. Vão talvez aquietar-se em pousos longínquos, onde pedras tão nuas como as do Arpoador de hoje esperam vez. A praia nova atrairá outros corpos, a mesma areia pisada por pés gentis ou rudes sofrerá novas pressões, mas esse “momento” na história da areia, que se chamava praia do Arpoador, está arquivado em nós, tão frágil arquivo.
Não era um bem carioca, mas um bem nacional. Acendia um desejo em rapazes e moças do Norte, do Oeste, de Leste: “Quando for ao Rio vou tomar banho no Arpoador”. Mesmo em países distantes, esse nome está ligado a manhãs de vento e azul, a montanhas violeta ou cinza presidindo, a um piscar de farol, a ilhas que mesmo próximas guardam um segredo de solidão; tudo isso embutido numa sensação de torpor ou euforia, que marcou para sempre aquele lugar, e ficou sendo como um eflúvio dele.
Em suma, a praia do Arpoador era um bem dos sentidos, que são ciosos de sua fazenda. Na voluptuosidade da vista, do tato, da brisa marinha sorvida a pleno, estavam suas riquezas, logo convertidas em memórias. O amor ali fincou suas barracas, mas podia fincá-las também a simples amizade, e até a indiferença sentimental. Não era menor o prazer de banhar-se ou tostar-se, numa ou noutra situação emotiva. Todos fruíam igualmente de um mar bravo, limpo, da melhor espuma, da concha mais finamente colorida. A preferência da gente “bem”, acentuada nos últimos tempos, não impedia que o lobo solitário ali se esticasse, e revigorasse ao sol sua misantropia. A praia não tomava partido.
Mas o que tornaria o Arpoador infrangível na lembrança dos que o frequentavam era a teoria de corpos jovens a desfilar em suas areias, no cenário de uma eflorescência sempre cambiante, com a água, a nuvem e o som surdo se atando e desatando continuamente. Proust, doutor no assunto, se enlevava diante de uma rapariga em flor, pelo seu estado de forma em mudança, pois lhe trazia à mente “essa perpétua recriação dos elementos primordiais da natureza, que contemplamos diante do mar”. Mas o nosso mar soverteu a praia, e as moças já não pousam ali sua arquitetura e seu riso. Também não se verá mais, em certa noite do ano, os devotos de branco acendendo velas na areia, e envolvendo-as de flores. Sobrou apenas, na vazante, o espaço para uma ou duas pessoas depositarem sua saudade, sem barraca. Passei por lá ontem e censurei o mar, que tudo destrói; mas, no rumor que vinha das ondas, ele parecia explicar-se: “Nada disso, irmão. Estou apenas trabalhando para a refeitura”*
*O cronista exagerou. A praia continua. (n. a.)

Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira

03/09/2026

Juliana Linhares e Demarca | Canoa Canoa

1639 – Lima

Martín de Porres

Tocam fúnebres os sinos das igrejas de Santo Domingo. À luz das velas, banhado em suores gelados, Martín de Porres entregou sua alma depois de muito lutar contra o Demônio com o auxílio de Maria Santíssima e de Santa Catarina Virgem e Mártir. Morreu em sua cama, com uma pedra como travesseiro e uma caveira ao lado, enquanto o vice-rei de Lima de joelhos, beijava a sua mão e lhe rogava que intercedesse para que lhe abrissem um lugarzinho lá no Céu.
Martín de Porres tinha nascido de uma escrava negra e seu amo, cavaleiro de tradição e puro solar espanhol, que não a engravidou para dispor dela como coisa, e sim para aplicar-lhe o princípio cristão de que na cama todas são iguais perante Deus.
Aos quinze anos, Martín foi doado ao convento dos frades dominicanos. Aqui viveu seus trabalhos e milagres. Nunca o ordenaram sacerdote, por ser mulato; mas abraçando com amor a vassoura, varreu cada dia os salões, os claustros, a enfermaria e a igreja. Navalha na mão, barbeava os duzentos curas do convento; atendia os doentes e distribuía roupa limpa com aroma de alecrim.
Quando soube que o convento sofria penúrias de dinheiro, apresentou-se ao prior:
– Ave Maria.
– Gratia plena.
– Que o senhor venda este mulato cachorro – ofereceu-se.
Deitava em sua cama os mendigos ulcerosos da rua e orava de joelhos durante toda a noite. Ficava branco feito neve na luz sobrenatural; brancas almas saíam de seu rosto quando cruzava o claustro à meia-noite, voando qual divino meteoro, rumo à solidão de sua cela. Atravessava portas fechadas com cadeado e rezava, às vezes, ajoelhado no ar, longe do chão; os anjos o acompanhavam ao côro levando luzes nas mãos. Sem sair de Lima consolava os cativos em Argel e salvava almas nas Filipinas, China e Japão; sem mover-se de sua cela, tocava os sinos do angelus. Curava os moribundos com panos molhados em sangue de galo negro e pó de sapo e mediante exconjuros aprendidos com sua mãe. Com o dedo roçava um dente e suprimia a dor e convertia em cicatrizes as feridas abertas; fazia branco o açúcar escuro e apagava incêndios com o olhar. O bispo teve de proibir-lhe tantos milagres sem autorização.
Depois das matinas se despia e açoitava as próprias costas com um chicote de nervos de boi amarrados em grossos nós, e enquanto arrancava seu próprio sangue gritava:
– Vil mulato cachorro! Até quando vai durar tua vida pecadora?
Com olhos de súplica, lacrimejantes, sempre pedindo perdão, passou pelo mundo o primeiro santo de pele escura do branquíssimo santuário da Igreja católica.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Hagar, o Horrível

Sopra a falsa tempestade

A Arlinda, Hilda, Lucivone e Márcia

Sopra a falsa tempestade do ventilador e põe o quarto em movimento
Um piano circulando pássaro cego atravessando paredes
Nuvem pensamento flor
Tudo tão rápido, múltiplos momentos
Pelo espaço as pernas trôpegas gozam sem sossego
Como morcegos sem asas
Pelo firmamento voam as casas
É o amor
Ele carrega elefantes para adormecer na cama
É o amor pendurando crocodilos nos armários
E apenas ele faz possível esse improviso do provável
Instante imaginário entre ciganas atrizes
Ilusória flor, ilusória ilha, ilusório voo dos dedos tateando cicatrizes
Ardente pedra onde exploram salamandras o sal e o fogo imaginários
É o amor como planta extraindo clorofila das desertas paredes mineralizadas
E sempre o piano atravessando circunstâncias, madrugadas
Janelas sem primaveras
Verões náufragos em trópicas piscinas de soda limonada
Nada consola tua ausência, é o amor
(Ai quem dera fossem as guerras)
Em desalinho costuram o destino estrelas aquarianas
E a persistência das ervas vai fabricando musgo verde cobrindo pedras, cinzas e alguns sobreviventes
Meu coração batido pelos ventos ladra exilado ao plenilúnio do quarto
É quase um cão
Não mordeu, não lambeu, nem roeu seu derradeiro osso
Assiste em vão a própria missa numa tempestade de sarnas
Ultrapassa fronteiras sem fronteiras onde jamais se ouve o próprio ladrar das almas
O último ensaio tão previsível nos astros
Erro meu próprio salto, caio do trapézio
Nenhum beijo no espelho e nenhum beijo na sépia do retrato.

José Carlos Capinan, em Cancioneiro geral

Diário de Bernardo Soares


127.

Não me indigno, porque a indignação é para os fortes; não me resigno, porque a resignação é para os nobres; não me calo, porque o silêncio é para os grandes. E eu não sou forte, nem nobre, nem grande. Sofro e sonho. Queixo-me porque sou fraco e, porque sou artista, entretenho-me a tecer musicais as minhas queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor a minha ideia de os achar belos.
Só lamento o não ser criança, para que pudesse crer nos meus sonhos, o não ser doido para que pudesse afastar da alma de todos os que me cercam, E tomar o sonho por real, viver demasiado os sonhos deu-me este espinho à rosa falsa da minha sonhada vida: que nem os sonhos me agradam, porque lhes acho defeitos.
Nem com pintar esse vidro de sombras coloridas me oculto o rumor da vida alheia ao meu olhá-la, do outro lado.
Ditosos os fazedores de sistemas pessimistas! Não só se amparam de ter feito qualquer coisa, como também se alegram do explicado, e se incluem na dor universal.
Eu não me queixo pelo mundo. Não protesto em nome do universo. Não sou pessimista. Sofro e queixo-me, mas não sei se o que há de mal é o sofrimento nem sei se é humano sofrer. Que me importa saber se isso é certo ou não?
Eu sofro, não sei se merecidamente. (Corça perseguida.)
Eu não sou pessimista, sou triste.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Capítulo 93 – O Jantar



Que suplício que foi o jantar! Felizmente, Sabina fez-me sentar ao pé da filha do Damasceno, uma Dona Eulália, ou mais familiarmente Nhá-loló, moça bem graciosa, um tanto acanhada a princípio, mas só a princípio. Faltava-lhe elegância, mas compensava-a com os olhos, que eram soberbos e só tinham o defeito de se não arrancarem de mim, exceto quando desciam ao prato; mas Nhã-loló comia tão pouco, que quase não olhava para o prato. De noite cantou; a voz era como dizia o pai, “muito mimosa”. Não obstante, esquivei-me. Sabina veio até à porta, e perguntou-me que tal achara a filha do Damasceno.
– Assim, assim.
– Muito simpática, não é? acudiu ela; falta-lhe um pouco mais de corte. Mas que coração! é uma pérola. Bem boa noiva para você.
– Não gosto de pérolas.
– Casmurro! Para quando é que você se guarda? para quando estiver a cair de maduro, já sei. Pois, meu rico, quer você queira quer não, há de casar com Nhá-loló.
E dizia isto a bater-me na face com os dedos, meiga como uma pomba, e ao mesmo tempo intimativa e resoluta. Santo Deus! seria esse o motivo da reconciliação? Fiquei um pouco desconsolado com a ideia, mas uma voz misteriosa chamava-me à casa do Lobo Neves; disse adeus a Sabina e às suas ameaças.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas