05/08/2026

Vencendo vem Jesus | Danilo Sinna Big Band

Capítulo 77 – Entrevista



Virgília entrou risonha e sossegada. Os tempos tinham levado os sustos e vexames. Que doce que era vê-la chegar, nos primeiros dias, envergonhada e trêmula! Ia de sege, velado o rosto, envolvido numa espécie de mantéu, que lhe disfarçava as ondulações do talhe. Da primeira vez deixou-se cair no canapé, ofegante, escarlate, com os olhos no chão; e, palavra! em nenhuma outra ocasião a achei tão bela, talvez porque nunca me senti mais lisonjeado.
Agora, porém, como eu dizia, tinham acabado os sustos e vexames; as entrevistas entravam no período cronométrico.
A intensidade de amor era a mesma; a diferença é que a chama perdera o tresloucado dos primeiros dias para constituir-se um simples feixe de raios, tranquilo e constante, como nos casamentos.
– Estou muito zangada com você, disse ela sentando-se.
– Porquê?
– Porque não foi lá ontem, como me tinha dito. O Damião perguntou muitas vezes se você não iria, ao menos, tomar chá. Por que é que não foi?
Com efeito, eu havia faltado à palavra que dera, e a culpa era toda de Virgília. Questão de ciúmes. Essa mulher esplêndida sabia que o era, e gostava de o ouvir dizer, fosse em voz alta ou baixa. Na antevéspera, em casa da baronesa, valsara duas vezes com o mesmo peralta depois de lhe escutar as cortesanices, ao canto de uma janela. Estava tão alegre! tão derramada! tão cheia de si! Quando descobriu, entre as minhas sobrancelhas, a ruga interrogativa e ameaçadora, não teve nenhum sobressalto, nem ficou subitamente séria; mas deitou ao mar o peralta e as cortesanices.
Veio depois a mim, tomou-me o braço, e levou-me até outra sala, menos povoada, onde se me queixou de cansaço, e disse muitas outras coisas, com o ar pueril que costumava ter, em certas ocasiões, e eu ouvi-a quase sem responder nada.
Agora mesmo, custava-me responder alguma coisa, mas enfim contei-lhe o motivo da minha ausência... Não, eternas estrelas, nunca vi olhos mais pasmados. A boca semi-aberta, as sobrancelhas arqueadas, uma estupefação visível, tangível, que se não podia negar, tal foi a primeira réplica de Virgília; abanou a cabeça com um sorriso de piedade e ternura, que inteiramente me confundiu.
 Ora você!
E foi tirar o chapéu, lépida, jovial, como a menina que torna do colégio; depois veio a mim, que estava sentado, deu-me pancadinhas na testa, com um só dedo, a repetir: – Isto, isto; – e eu não tive remédio senão rir também, e tudo acabou em galhofa. Era claro que me enganara.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Gorjeios

Gorjeio é mais bonito do que canto porque nele se
inclui a sedução.
É quando a pássara está enamorada que ela gorjeia.
Ela se enfeita e bota novos meneios na voz.
Seria como perfumar-se a moça para ver o namorado.
É por isso que as árvores ficam loucas se estão gorjeadas.
É por isso que as árvores deliram.
Sob o efeito da sedução da pássara as árvores deliram.
E se orgulham de terem sido escolhidas para o concerto.
As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.

Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo

A contadora de Filmes

[1]

Como em casa o dinheiro andava a cavalo e a gente andava a pé, quando chegava um filme no acampamento da Mina e meu pai – só pelo nome do ator ou da atriz principal – achava que parecia ser bom, as moedas eram juntadas uma a uma, o preço exato da entrada, e me mandavam assistir.
Depois, ao voltar do cinema, eu tinha de contar o filme para a família inteira reunida na sala.

Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

O murinho


A princípio, o território neutro do edifício Jandaia era ocupado por mamães e babás, capitaneando inocentes que iam tomar a fresca da tarde; à noite, vinham empregadas em geral, providas de namorados civis e militares.
Mas impõe-se a descrição sumária do território: simples área pavimentada em frente ao edifício, separando-se da calçada por uma pequena amurada de menos de dois palmos de altura, tão lisa que convidava a pousar e repousar. Os adultos cediam ao convite, e ali ficavam praticando sobre o tempo, a diarreia infantil, a exploração nas feiras, os casamentos e descasamentos da semana. (Na parte da tarde.) Ou não conversavam, pois outros meios de comunicação se estabeleciam naturalmente na sombra, mormente se o poste da Light, que ali se alteia, falhava a seu destino iluminatório, o que era frequente. (Na parte da noite.)
Na área propriamente dita, a garotada brincava, e era esse o título de glória do Jandaia. Sem playground, oferecia entretanto a todos, de casa ou de fora, aquele salão a céu aberto, onde qualquer guri pulava, caía, chorava, tornava a pular, até que a estrela Vésper tocava gentilmente a recolher, numa sineta de cristal que só as mães escutam — as mães sentadas no “murinho”, nome dado à mureta concebida em escala de anão.
E assim corria a Idade de Ouro, quando começaram a surgir, no expediente da tarde, uns rapazinhos e brotinhos de uniforme colegial, que foram tomando posse do terreno. Esse bando tinha o dinamismo próprio da idade — e, pouco a pouco, crianças, babás e mãezinhas se eclipsaram. Os invasores falavam essa língua alta e híbrida que se forja no mundo inteiro, com raízes no cinema, no esporte, na Coca-Cola e nos gritos guturais que se desprendem — quem não os distingue? — dos quadros “mudos” de Brucutu e Steve Roper. Divertido, mas um pouco assustador. E à noite, por sua vez, fuzileiros e copeiras tiveram de ir cedendo campo à horda que se renovava.
Os moradores do Jandaia começaram a queixar-se. O porteiro saiu a parlamentar, e desacataram-no. A rua era pública. Sentavam no murinho com os pés para fora. Não faziam nada de mau, só cantar e assobiar. Os chatos que pirassem.
Ouvindo-se tratar de chatos, por trás da cortina, os moradores indignaram-se. O telefone chamou a radiopatrulha, que foi rápida, mas a turminha ainda mais: ao chegar o carro, o porteiro estava falando sozinho.
No dia seguinte, não houve concentração juvenil, mas já na outra tarde, meio cautelosos, eles reapareceram. A esse tempo a rua se dividira. Havia elementos solidários com a gente do Jandaia, e outros que defendiam a nova geração; estes argumentavam que a rapaziada era pura: em vez de bebericar nos bares, batia papo inocente à luz das estrelas. Preferível à grudação dos casais suspeitos, que antes envergonhava a rua.
Mas o Jandaia tinha moradores idosos e enfermos, aos quais aquela bulha torturava; tinha também rapazes e meninas, que preferiam estudar e não podiam. Por que os engraçadinhos não iam fazer isso diante de suas casas?
Como não houvesse condomínio, e os moradores dos fundos, livres da algazarra, se mostrassem omissos, uma senhora do segundo andar assumiu a ofensiva e txááá! um balde de água suja conspurcou a camisa esporte dos rapazes e o blue jeans das garotas. Consternação, raiva, debandada — mas no dia seguinte voltaram. E voltaram e tornaram a voltar.
Ontem pela manhã, um pedreiro começou a furar o cimento do murinho, e a colocar nele uma grade de ferro, de pontas agudas. Vaquinha dos mártires do Jandaia? Não: outra iniciativa pessoal de um deles, coronel reformado e solteirão. “Logo vi que ele não tem filho!” — comentou uma das garotas, com desprezo. Mas a turma está desoladíssima, e nunca mais ninguém ousará sentar no murinho — nem mesmo as mansuetas babás e mamães, nem mesmo os casais noturnos.

Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira

Do diário em Paris

Eu estou só. O gato está só. As árvores estão sós. Mas não o só da solidão: o só da solistência.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

04/08/2026

Rosa Passos | Recriação

 

Habitação

Muito antes do chalet
Antes do prédio
Antes mesmo da antiga
Casa bela e grave
Antes de solares palácios e castelos
No princípio
A casa foi sagrada –
Isto é, habitada
Não só por homens e por vivos
Mas também pelos mortos e por deuses.

Isso depois foi saqueado
Tudo foi reordenado e dividido
Caminhamos no trilho
De elaboradas percas.

Porém a poesia permanece
Como se a divisão não tivesse acontecido
Permanece mesmo muito depois de varrido
O sussurro de tílias junto à casa de infância.

Sophia de Mello Breyner Andresen, em Ilhas

Jeca Tatu


Os grandes gostavam de judiar dos pequenos. Havia, à distância de um grito, uma mata fechada. Nunca fui lá perto. A mata era o mistério. Escura. De dia ela estava quieta. De noite vinham os barulhos estranhos. Pios de aves noturnas. Barulhos de animais. A gente os ouvia de dentro da casa, trancados, imaginando...
Pois os grandes gostavam de me torturar dizendo que na mata morava um menino pequeno como eu. E, para provar, gritavam com mãos em concha: “Ô menino!”. Passavam-se alguns segundos e de dentro da mata vinha a resposta baixinho: “Ô menino!”. Era o eco. Eu não sabia o que era eco. E acreditava. Antes de dormir, na minha cama, eu ficava a pensar naquele menino sozinho, abandonado na mata, sem casa, sem cama. E eu ficava triste, com dó dele. Hoje sei que o menino não existia. Mas a minha tristeza existia. A solidão daquele menino me acompanha até hoje. Eu tinha medo de que a onça o comesse. Porque todo mundo jurava já ter visto onça.
Foi então que me caiu nas mãos um livrinho, Almanaque do Biotônico Fontoura. Mesmo sem saber ler, fiquei fascinado com um desenho: um homem dando um murro na cara de uma onça enquanto uma outra onça contempla a cena com cara de espanto. E o homem dizia: “Conheceu, papuda!”. Essa frase do esmurra-onças me fazia rir. Era o almanaque do Jeca Tatuzinho. Minha mãe me lia a estória do Jeca Tatuzinho todo dia. E quando chegava no “conheceu, papuda!” eu ria como se fosse a primeira vez. O Jeca Tatuzinho me fez perder o medo das onças. Decorei o livrinho e o levava comigo. E sempre que oportunidade surgia eu me oferecia para lê-lo, para quem quisesse. Minha tia Mema estava doente. Tinha tido um peripaque cardíaco. Ficava assentada o dia inteiro, com aquele sorriso manso, sem nunca se queixar. Eu me assentava num banquinho, abria no Jeca Tatuzinho e lia para ela: “Jeca-tatu era um pobre caboclo que morava no mato, numa casinha de sapé. Vivia na maior pobreza em companhia da mulher, muito magra e feia, e de vários filhinhos pálidos e tristes...” .
Dizem que os brasileiros de agora não gostam de ler. Naqueles tempos todo brasileiro, inclusive os analfabetos da roça, iam às farmácias para saber se o almanaque já havia chegado. Naqueles tempos as farmácias eram centros de irradiação da cultura. Até hoje os almanaques são fascinantes. Especialmente o Almanaque Brasil de Cultura Popular, do Elifas Andreato. Acho que todo brasileiro gosta de ler almanaque. Eu gosto.

Rubem Alves, em O Velho que Acordou Menino

Água



Por vez, na jornada,
A água não é potável.
Plante e preserve.

一度だけ、一日、
水は飲料水ではありません。
植えて保存します。

Elilson José Batista, em O Sol dá têmpera à espada-de-são-jorge

Nora Rubi



Meu nome é Nora Rubi, o Nora é verdadeiro, mas o Rubi é falso. Sou cleptomaníaca. Não vejo imoralidade nisso, seria imoral se eu não fizesse o que sinto que tenho que fazer. O poeta disse que o mundo é um palco e todos os homens e mulheres, meros atores. Eu faço o meu papel, abduzo coisas sem cometer nenhuma violência. Elas não têm utilidade ou valor monetário, se tivessem eu seria uma ladra e eu sou uma pessoa honesta. E nem me aposso das coisas dos outros para expressar um sentimento de rancor, ou de frustração, ou de vingança, nem sou impulsiva, nem delirante, nem sofro de distúrbio bipolar, anorexia ou bulimia nervosa, nem de ansiedade, sintomas que o meu psiquiatra, o doutor Paulo, erradamente atribui aos cleptomaníacos. Tenho consciência do que faço e não sinto culpa pelos meus atos. Sou uma pessoa normal. Gosto de abduzir coisas, como algumas pessoas gostam de fazer palavras cruzadas. Esses também serão doentes, por gostarem desse tipo solipsista de passatempo? Eu pelo menos sou gregária, faço abduções na companhia de outras pessoas.
Dizem que é melhor aprender com a desgraça dos outros do que com a nossa. Mas eu aprendi tudo quebrando a cara. Dizem que é mais fácil começar um namoro do que terminá-lo. Mas só aprendi que antes de começar uma aventura devemos saber a maneira de pular fora dela depois de ser esfaqueada por um amante psicótico. É um erro pensar que Deus está do nosso lado, ele não está, vi um filme em que o Diabo diz que Deus é um senhorio desleixado, deixa essa casa onde a gente mora cair de podre. Se ele realmente existe, está pensando em outras coisas e não em nós.
A primeira coisa que abduzi foi uma folha de papel cheia de garranchos. Isso mesmo, uma folha de papel cheia de nomes e números. O sujeito estava parado junto de uma dessas mesas que os bancos colocam perto dos caixas eletrônicos, com formulários de depósitos e canetas, e tirou de uma pasta uma folha de papel e tentou anotar algo nela. A caneta da mesa não funcionava. Então ele revistou os bolsos procurando uma caneta. Rapidamente, peguei a folha e a coloquei na pasta que tinha na minha mão. Saí em seguida. Não me interessava o espetáculo de perplexidade que o sujeito pudesse dar, eu já tinha feito o que tinha que ser feito, o assunto estava encerrado. Não me lembro do que fiz com a folha de papel, não sei onde ela foi parar, o que aconteceu com ela. Devia tê-la guardado como um galardão? Nada disso. Para nós, cleptomaníacos autênticos, o que foi abduzido deixa de ter valor depois que a ação é encerrada.
É claro que existem aspectos logísticos, na acepção grega original da palavra, relativa a cálculo e raciocínio, a serem observados. Tenho que avaliar, com instantaneidade, a importância concreta ou abstrata do produto a ser abduzido e os riscos possíveis, a partir das informações obteníveis.
Acho que sou a única pessoa que tem a biografia do doutor Samuel Johnson, escrita pelo James Boswell, na mesinha de cabeceira. O livro é chato, eu o uso para ficar com sono e poder dormir. Esta noite, antes da ação soporífera ter efeito, li uma frase interessante: leia os seus textos e, sempre que chegar a um trecho que considere especialmente bem escrito, risque-o e elimine-o. Reli o que escrevi até agora e verifico que não há nada a eliminar, está tudo mal escrito. Meu texto já foi melhor, talvez o fato de eu estar escrevendo à mão num papel ordinário que me forneceram aqui na prisão esteja contribuindo para essa piora. Devo contar os acontecimentos que causaram a minha prisão? Sim, mas, para que pressa? Ainda vou ficar aqui durante algum tempo. Estou numa cela isolada, com vagar para ler e escrever. Se a comida não fosse tão ruim, até que seria uma vilegiatura agradável.
A segunda coisa que abduzi foi uma espátula com a ponta quebrada. Foi na casa de uma mulher que estava vendendo os livros da biblioteca do marido, que acabara de falecer. A primeira coisa que as mulheres fazem quando o marido morre é vender os livros dele para o sebo. Então vi uma espátula quebrada sobre a mesa. Eu disse para a mulher que aquela espátula, se usada para abrir uma brochura daquelas com as páginas encadernadas, poderia rasgar o livro. Ela perguntou qual seria o problema se o livro rasgasse, se a brochura ainda não fora aberta isso significava que o marido não se interessara pelo livro. Acabei comprando a brochura. Ao chegar à rua joguei a espátula na primeira lata de lixo que encontrei. A brochura está na minha estante e não foi aberta até hoje. Uma homenagem simbólica ao marido morto.
Reconheço que, não obstante as coisas que eu abduzo não terem nenhum valor para mim e o único lucro obtido com elas ser a satisfação de ter realizado uma obra perfeita, às vezes, para o proprietário da coisa, ela pode fazer falta. Aquela folha de papel cheia de garatujas faria falta? Que informação ela poderia lhe dar? Que você está falido e deve dizer adeus ao mundo cruel jogando-se sob as rodas de um ônibus? Que está rico e pode se casar?
Aquela espátula talvez fosse usada exatamente para rasgar as páginas encadernadas dos livros que o marido comprara e não lera e que serviam apenas para encher as estantes de mais livros. Mas sei que esses são meros raciocínios especulativos sem o menor valor.
Outras abduções: uma batata-inglesa no supermercado (odeio batata). Uma calcinhaonde estavam bordadas, em lantejoulas, as palavras fuck me, de uma loja grã-fina que nem sentiria aquela perda. A calcinha era tão minúscula que não serviu para pano de limpeza, tive que jogar no lixo. Um batom vermelho brilhante, daqueles que deixam os lábios úmidos, e que também foi jogado no lixo. Uma camisinha de vênus, de dentro da bolsa de uma moça que se pintava no banheiro do cinema. Quem tem que carregar camisinha é o homem. Um livro de poesias de Carlos Drummond de Andrade, que abduzi da maior livraria da cidade. Aquele livro tinha para mim uma enorme utilidade, pois amo poesia, mas abduzir livro de poesia, mesmo para levar a vantagem de fruí-lo depois, não caracteriza furto. Se fosse de uma biblioteca pública, sim.
Abduzi ainda um adipômetro. Estava tomando um expresso no Talho quando uma mulher ao meu lado, toda paramentada para a aula de ginástica, pontificava sobre como manter a forma física. Não adianta comprar uma balança para se pesar nua em pelo, ela dizia, você tem é que medir o grau de adiposidade do seu corpo di-a-ria-men-te. Ela tirou da bolsa uma parafernália e disse, isto aqui é um adipômetro, custa uma ninharia, comprado na televenda da Polishop.
A mulher colocou o adipômetro na bolsa e, como acontece com a maioria das mulheres, deixou a bolsa aberta. Foi fácil abduzir aquela tralha enquanto ela pingava as gotinhas de adoçante artificial no café.
Durante algum tempo dediquei-me a abduzir cinzeiros ordinários, esses de botecos e churrascarias de rodízio. Passei a fumar, para facilitar a minha missão. Eu fazia a abdução, levava o cinzeiro para casa, depois voltava à churrascaria para devolver o cinzeiro que havia abduzido antes e em seguida abduzia um outro. O problema é que sou vegetariana e ficava nauseada com o espetáculo daqueles garçons carregando espetos fumegantes de carne e parando na minha mesa com um facão em punho perguntando se eu queria um pedaço da picanha enfiada naquela haste de ferro. Acabei desistindo dos cinzeiros, o que foi bom, pois deixei de fumar.
Afinal como é que vim parar na cadeia? Tudo aconteceu quando abduzi uma bijuteria. Eu havia sido convidada a ir ao aniversário de uma prima, numa dessas casas que alugam salões de festas. Entrei no banheiro junto com uma dondoca, daquelas narcisistas que ficam transtornadas ao se ver num espelho. Ela tirou o colar e começou a retocar a maquiagem do pescoço cuidadosamente. Percebendo que eu notara o colar sobre o mármore da pia, ela perguntou, não parecem brilhantes verdadeiros? Quando digo que é uma bijuteria ordinária que comprei num camelô, ninguém acredita. Mas quando é que eu teria dinheiro para comprar uma joia dessas? Meu marido ganha uma miséria, coitado.
Ela continuou retocando a maquiagem, embevecida com o seu reflexo no espelho, e eu pensei, enquanto abduzia o colar, que se fosse bonita como ela talvez me tornasse um pouco narcisista e me olhasse mais no espelho. Tranquei-me no reservado do banheiro e joguei o colar no vaso sanitário.
Quando ia saindo ouvi gritos desatinados, meu colar, meu colar de brilhantes, roubaram o meu colar de brilhantes!
Creio que ela não percebeu que eu me escondera no reservado, pois saiu do banheiro esbaforida, gritando desesperada, meu colar de brilhantes, roubaram o meu colar de brilhantes!
Enfiei a mão no vaso sanitário e consegui pegar o colar de volta. Não senti o menor nojo, não apenas porque o xixi que estava no vaso era meu, como principalmente pelo fato de que, sabendo que havia abduzido algo valioso, eu, para resgatá-lo, enfiaria a mão mesmo que o vaso estivesse cheio de fezes. Com o colar molhado com o meu xixi entre as mãos, saí do reservado e fui para o salão de festas.
O salão estava em polvorosa. Um homem sacudia pelos ombros a mulher do colar, gritava com ela, brilhantes verdadeiros?, brilhantes verdadeiros?, você jurou que comprou no camelô, que eram uma bijuteria barata.
O homem agarrou a mulher pelo pescoço e perguntou, furioso e infeliz, quem lhe deu essa joia?, anda, confessa, adúltera!
A mulher, nervosa, pegava os brincos das orelhas, para se certificar de que não haviam também desaparecido, e olhava a pulseira de diamantes que refletia com fulgor as luzes dos candelabros. O marido começou a esganá-la, gritando, essas joias são todas verdadeiras, não são?, sua puta, quem te deu essas joias?
Postei-me no meio do salão e gritei, atenção, atenção, atencão, todo mundo!
Foi um brado tão alto que até o marido parou de estrangular a mulher. Quando se fez silêncio, abri as mãos e disse, o colar está aqui, eu o abduzi, sinto muito, pensei que era uma bijuteria.
A mulher arrancou o colar da minha mão com tanta força que quebrou uma unha. Alguém havia chamado a polícia, que para prender os inocentes nunca demora a chegar.
Resumindo: fui presa. Mas fui presa por ter esquecido o conto de Maupassant que liquando era adolescente, em que a mulher de um certo Monsieur Lantin também tinha um monte de joias verdadeiras que dizia serem falsas, todas presente do amante. Eu devia ter visto que uma mulher bonita e vaidosa como aquela dona do colar que abduzi era, evidentemente, uma Madame Lantin. A gente aprende lendo, e quem não aprende com o que leu se fode, como eu.
Agora estou aqui, na prisão, escrevendo à mão com uma caneta Bic, coisa que odeio. Ainda bem que hoje, durante o almoço aqui na cadeia, consegui abduzir uma colher. Fiquei muito feliz, ela está escondida debaixo do meu colchão, mas eu não sei o que fazer com ela. Acho que logo mais, no jantar, vou devolvê-la.

Rubem Fonseca, em Ela e Outras Mulheres

Diário de Bernardo Soares

122.

A ideia de viajar nauseia-me.
Já vi tudo que nunca tinha visto.
Já vi tudo que ainda não vi.
O tédio do constantemente novo, o tédio de descobrir, sob a falsa diferença das coisas e das ideias, a perene identidade de tudo, a semelhança absoluta entre a mesquita, o templo e a igreja, a igualdade da cabana e do castelo, o mesmo corpo estrutural a ser rei vestido e selvagem nu, a eterna concordância da vida consigo mesma, a estagnação de tudo que vivo só de mexer-se está passando.
Paisagens são repetições. Numa simples viagem de comboio divido-me inútil e angustiadamente entre a inatenção à paisagem e a inatenção ao livro que me entreteria se eu fosse outro. Tenho da vida uma náusea vaga, e o movimento acentua-ma.
Só não há tédio nas paisagens que não existem, nos livros que nunca lerei. Avida, para mim, é uma sonolência que não chega ao cérebro. Esse conservo eu livre para que nele possa ser triste.
Ah, viajem os que não existem! Para quem não é nada, como um rio, o correr deve ser vida. Mas aos que pensam e sentem, aos que estão despertos, a horrorosa histeria dos comboios, dos automóveis, dos navios não os deixa dormir nem acordar.
De qualquer viagem, ainda que pequena, regresso como de um sono cheio de sonhos — uma confusão tórpida, com as sensações coladas umas às outras, bêbado do que vi.
Para o repouso falta-me a saúde da alma. Para o movimento falta-me qualquer coisa que há entre a alma e o corpo; negam-se-me, não os movimentos, mas o desejo de os ter.
Muita vez me tem sucedido querer atravessar o rio, estes dez minutos do Terreiro do Paço a Cacilhas. E quase sempre tive como que a timidez de tanta gente, de mim mesmo e do meu propósito. Uma ou outra vez tenho ido, sempre opresso, sempre pondo somente o pé em terra de quando estou de volta.
Quando se sente de mais, o Tejo é Atlântico sem número, e Cacilhas outro continente, ou até outro universo.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

03/08/2026

Peaceful Hideway | Angelo Torres e Charles Martins

1633 – Pinola


Gloria in excelsis deo

O bicho-de-pé é menor que uma pulga e mais feroz que um tigre. Se mete pelos pés e derruba quem se coça. Não ataca os índios, mas não perdoa os estrangeiros.
Dois meses passou em guerra o padre Thomas Gage, deitado em uma cama, e enquanto celebra sua vitória contra o bicho-de-pé, faz um balanço do tempo vivido na Guatemala. A não ser pelo bicho-de-pé, não pode se queixar. Nos povoados o recebem ao som das trombetas, debaixo de um pálio de ramagens e flores. Tem os criados que quer e um palafreneiro que leva seu cavalo pelo bridão.
Cobra seu salário, pontualmente, em prata, trigo, milho, cacau e galinhas. As missas que oferece aqui em Pinola e em Mixco, são pagas por separado, e por separado os batismos, matrimônios e enterros, e as orações que reza por conta para conjurar gafanhotos, pestes ou terremotos se incluem as oferendas aos santos a seus cuidados, que são muitos, e as da Noite de Natal e da Semana Santa, o padre Gage recebe mais de dois mil escudos por ano, livres, limpinhos, além do vinho e da batina grátis.
O salário do padre vem dos tributos que pagam os índios a dom Juan de Guzmán, dono desses homens e destas terras. Como só pagam tributo os casados, e os índios são rápidos no saber e na malícia, os funcionários obrigam ao casamento os meninos de doze e treze anos e o padre os casa enquanto lhes cresce o corpo.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

O impagável Laerte

Perguntas grandes

Pessoas que são leitoras de meus livros parecem ter receio de que eu, por estar escrevendo em jornal, faça o que se chama de concessões. E muitas disseram: “Seja você mesma.”
Um dia desses, ao ouvir um “seja você mesma”, de repente senti-me entre perplexa e desamparada. É que também de repente me vieram então perguntas terríveis: quem sou eu? como sou? o que ser? quem sou realmente? e eu sou?
Mas eram perguntas maiores do que eu.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Minha história


1

Passei boa parte da infância escutando o som do esforço. Chegava a mim sob a forma de música ruim, ou pelo menos amadora, atravessando as tábuas do assoalho do meu quarto — o plim-plim-plim dos alunos sentados no andar de baixo, diante do piano da minha tia-avó Robbie, aprendendo as escalas devagar e com muitos erros no caminho. Minha família vivia no bairro South Shore, em Chicago, em uma construção de tijolos que era de Robbie e de seu marido, Terry. Meus pais alugavam o apartamento do segundo andar e Robbie e Terry moravam no primeiro. Robbie era tia da minha mãe e foi muito generosa com ela ao longo dos anos, mas comigo era um terror. Empertigada e séria, ela dirigia o coro da igreja local e também era a professora de piano oficial da nossa comunidade. Usava saltos confortáveis e mantinha o par de óculos de leitura em uma correntinha em volta do pescoço. Tinha um sorriso maroto mas, ao contrário da minha mãe, não gostava de sarcasmo. Às vezes, eu a ouvia dando bronca nos alunos por não terem praticado o suficiente ou até nos pais, por chegarem atrasados com os filhos para as aulas.
Boa noite!”, exclamava ela no meio da tarde, no mesmo tom exasperado que outra pessoa diria “Ah, pelo amor de Deus!”. Parecia que poucos conseguiam corresponder às expectativas de Robbie.
Mas o som das pessoas tentando tocar piano virou a trilha sonora da nossa vida. Havia plim-plim à tarde, plim-plim à noite. As senhoras da igreja às vezes iam ensaiar os hinos, entoando a devoção através das paredes. Segundo as normas de Robbie, crianças que faziam aulas de piano só podiam trabalhar uma música por vez. Do meu quarto, eu as ouvia tentando, notas e mais notas incertas, conquistar a aprovação dela, passar da canção de ninar folclórica “Hot Cross Buns” para a de Brahms, mas só depois de inúmeras tentativas. A música nunca era irritante, apenas persistente. Galgava a escada que separava nosso espaço do de Robbie. Entrava pelas janelas abertas no verão, acompanhando meus pensamentos quando eu brincava com as minhas Barbies ou construía pequenos reinos com bloquinhos de montar. A única trégua era quando meu pai chegava do turno matinal na estação de tratamento de água da cidade e sintonizava na TV um jogo de beisebol dos Cubs, aumentando o volume o suficiente para não ouvir o piano.
Era o finzinho da década de 1960 no South Side de Chicago. Os Cubs não eram ruins, mas também não eram bons. Eu me sentava no colo do meu pai, na cadeira reclinável dele, e o ouvia contar que os Cubs estavam sofrendo uma crise de fim de temporada ou dizer que Billy Williams — que morava na Constance Avenue, esquina com a nossa rua — dava ótimas tacadas no lado esquerdo da base. Fora dos estádios de beisebol, os Estados Unidos estavam no meio de uma mudança gigantesca e duvidosa. Os Kennedy tinham morrido. Martin Luther King Jr. fora assassinado em uma sacada em Memphis, desencadeando motins país afora, inclusive em Chicago. A Convenção Nacional Democrata de 1968 se transformou em um banho de sangue quando a polícia atacou os manifestantes contrários à Guerra do Vietnã com bastões e gás lacrimogêneo em Grant Park, a uns quinze quilômetros da nossa casa. Nesse ínterim, famílias brancas deixavam a cidade aos bandos, seduzidas pelos subúrbios — a promessa de escolas melhores, mais espaço e provavelmente mais brancura também.
Na verdade, não absorvi nada disso. Eu era apenas uma criança, uma menina que brincava com Barbies e bloquinhos de montar, com os pais e com um irmão mais velho que dormia sempre com a cabeça a um metro da minha. Minha família era o meu mundo, o centro de tudo. Minha mãe me ensinou a ler cedo — me levava à biblioteca pública e se sentava a meu lado enquanto eu pronunciava as palavras em cada página. Todo dia meu pai ia trabalhar com o uniforme azul de funcionário municipal, mas à noite nos mostrava o que era amar o jazz e a arte. Quando menino, ele teve aulas no Instituto de Arte de ­Chicago, e no ensino médio pintava e esculpia. Nessa época também foi nadador e boxeador, competindo pela escola. Quando adulto, tornou-se fã de todos os esportes televisionados, de golfe profissional à Liga Nacional de Hóquei. Gostava de ver pessoas fortes se sobressaírem. Quando meu irmão, Craig, se interessou por basquete, meu pai passou a colocar moedas na moldura da porta da cozinha, incentivando-o a saltar para pegá-las.
Tudo o que tinha importância ficava a no máximo cinco quarteirões dali — meus avós e primos, a igreja na esquina onde não frequentávamos regularmente a escola dominical, o posto de gasolina onde minha mãe me mandava comprar um maço de Newports, e a loja de bebidas, que também vendia pão Wonder, bala barata e galões de leite. Nas noites quentes de verão, Craig e eu cochilávamos ao som dos jogos de softball da liga adulta que aconteciam no parque público próximo dali, o qual visitávamos de dia para subir no trepa-trepa do parquinho e brincar de pega-pega com as outras crianças.
Craig é menos de dois anos mais velho que eu. Ele tem o olhar afável e o jeito otimista do meu pai, mas a inflexibilidade da minha mãe. Sempre fomos próximos, em parte graças à dedicação inabalável e um tanto inexplicável que ele pareceu sentir pela irmã caçula desde o início. Existe uma foto antiga da família, em preto e branco, de nós quatro sentados no sofá, minha mãe sorridente ao me segurar em seu colo, meu pai sério e orgulhoso com Craig no seu. Estávamos vestidos para ir à igreja ou talvez a um casamento. Eu tinha uns oito meses, uma menina de cara fechada e rosto gorducho, de fralda e vestido branco passado, pronta para escapar das garras da minha mãe, o olhar fixo na câmera como se fosse comê-la. A meu lado está Craig, todo arrumado, de gravatinha-borboleta e paletó, a expressão séria. Ele tinha dois anos e já era o retrato da vigilância e da responsabilidade fraternal — o braço esticado até o meu, os dedos fechados em torno do meu punho gordinho em um gesto protetor.
Na época em que a foto foi tirada, morávamos no mesmo andar dos meus avós paternos em Parkway Gardens, um conjunto habitacional de prédios modernistas a preço acessível no South Side de Chicago. Construído na década de 1950 e planejado para ser um edifício em cooperativa, em que não se tem de fato a escritura da casa, apenas ações da empresa que lhe permite morar nela, tinha o intuito de amenizar a escassez de moradia para famílias negras da classe trabalhadora depois da Segunda Guerra Mundial. Mais tarde, ficaria deteriorado sob o jugo da pobreza e da violência das gangues, virando um dos lugares mais perigosos da cidade. Muito antes disso, porém, quando eu era pequena, meus pais — que se conheceram na adolescência e se casaram com vinte e poucos anos — aceitaram a oferta de se mudar alguns quilômetros mais ao sul, para a casa de Robbie e Terry, que ficava numa área mais bacana.
Na Euclid Avenue, éramos duas famílias vivendo sob um teto não muito grande. A julgar pela planta, o segundo andar provavelmente fora projetado como um anexo para uma ou duas pessoas, mas nós quatro achamos um jeito de caber ali dentro. Meus pais dormiam no único quarto, Craig e eu dividíamos uma área mais ampla que imagino ter sido concebida como sala de estar. Mais tarde, quando crescemos, meu avô — Purnell Shields, pai da minha mãe, um apaixonado por carpintaria, apesar de não muito habilidoso — levou uns painéis de madeira baratos e improvisou uma divisória que separava o ambiente em dois espaços semiprivados. Acrescentou uma porta sanfonada de plástico a cada ambiente e criou uma pequena área comum na frente, onde guardávamos brinquedos e livros.
Eu adorava meu quarto. Tinha espaço suficiente para minha cama de solteiro e uma escrivaninha estreita. Deixava meus bichinhos de pelúcia na cama, arrumando todos meticulosamente em volta da minha cabeça à noite como uma forma de ritual reconfortante. Do outro lado da parede, Craig vivia uma espécie de existência espelhada, sua cama junto ao painel, paralela à minha. A divisória era tão fina que conseguíamos conversar deitados na cama, muitas vezes jogando uma bola de meia de um lado para outro pelo vão de 25 centímetros entre a divisória e o teto.
Tia Robbie, por sua vez, fazia de sua parte da casa um mausoléu, a mobília coberta por plástico protetor, um material frio que grudava nas minhas pernas nuas quando eu tinha coragem de me sentar. As prateleiras eram cheias de bibelôs de porcelana que não podíamos tocar. Eu deixava minha mão pairar sobre um conjunto de poodles de vidro com expressões dóceis — uma mãe de aparência delicada e três filhotes minúsculos — e depois a retirava, com medo da ira de Robbie. Quando não havia aula de piano, o primeiro andar era tomado por um silêncio mortal. A TV e o rádio nunca eram ligados. Não sei nem se os dois conversavam muito ali embaixo. O nome completo do marido de Robbie era William Victor Terry, mas por alguma razão só o chamávamos pelo último sobrenome. Terry era como uma sombra, um homem de aparência distinta que usava terno completo todos os dias da semana e basicamente não falava nem uma palavra.
Passei a considerar o andar de cima e o de baixo dois universos diferentes, governados por sentimentos opostos. No andar de cima, fazíamos o maior barulho sem nos preocupar. Craig e eu jogávamos bola e corríamos pelo apartamento. Borrifávamos lustra-móveis no assoalho de madeira do corredor para deslizar com as meias, muitas vezes batendo nas paredes. Lutávamos boxe na cozinha, usando pares de luvas que meu pai nos dera de Natal junto com instruções personalizadas de como dar um jab certeiro. À noite, em família, jogávamos jogos de tabuleiro, contávamos histórias e piadas e escutávamos discos do Jackson 5. Quando ficava insuportável para Robbie, ela ia até o interruptor e ficava acendendo e apagando a luz da escada que compartilhávamos e que também controlava a lâmpada do corredor do segundo andar — era seu jeito educado de pedir que parássemos com o barulho.
Robbie e Terry eram mais velhos. Cresceram em outra época, com preocupações diferentes. Viram coisas que nossos pais não viram — coisas que Craig e eu, aquelas crianças barulhentas, nem imaginávamos. Essa é uma versão do que minha mãe dizia quando nos irritávamos com o mau humor do andar de baixo. Mesmo não conhecendo o contexto, éramos instruídos a lembrar que ele existia. Todos os habitantes da Terra, diziam-nos eles, carregavam uma história invisível, e só por isso já mereciam tolerância. Muitos anos mais tarde eu ficaria sabendo que Robbie havia processado a Universidade Northwestern por discriminação, pois se inscrevera para participar de uma oficina de coral na faculdade em 1943 e lhe negaram um quarto no dormitório feminino. Fora instruída a se hospedar em uma pensão na cidade — um lugar “para gente de cor”, lhe explicaram. Já Terry tinha sido assistente de vagões em uma das linhas férreas noturnas que chegavam e saíam de Chicago. Era uma profissão respeitável, mas não muito bem remunerada, composta totalmente de homens negros que mantinham o uniforme imaculado enquanto arrastavam malas, serviam refeições e atendiam às necessidades dos passageiros, inclusive engraxando seus sapatos.
Anos depois de se aposentar, Terry ainda vivia em um estado de formalismo entorpecido — impecavelmente vestido, levemente subserviente, nunca se afirmando de forma alguma, pelo menos até onde eu soubesse. Era como se tivesse renunciado a uma parte de si como forma de perseverar. Eu o observava aparar a grama no calor do verão calçando sapatos sociais, usando suspensório e um chapéu de feltro de aba curta, as mangas da camisa arregaçadas com zelo. Ele se permitia fumar exatamente um cigarro por dia e tomar exatamente um coquetel por mês, quando, mesmo assim, não se soltava como o meu pai e a minha mãe depois que tomavam um drinque ou uma cerveja, o que faziam algumas vezes por mês. Parte de mim queria que Terry falasse, que desabafasse os segredos que carregava. Eu imaginava que ele tinha várias histórias interessantes sobre as cidades que visitara e sobre o comportamento dos ricos nos trens, ou talvez não tivesse. Por algum motivo, ele nunca falava.
[…]

Michelle Obama, em Minha história

A minha mensagem

A minha mensagem? Nenhuma. Não sou moço de recados. Aliás por que você não se deu ao trabalho de ler os meus versos antes de entrevistar-me? Se os conhecesse, lembraria certamente aquele que diz:
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição de poema.”
Talvez dê, este claro e misterioso verso, a pensar que o poema é algo exterior ao poeta, uma realidade objetiva — e não relativa ao sujeito que a expressa.
É o que eu creio e receio.
Porque nisto de fazer poemas o que há, para mim, é uma necessidade de expressão e não de comunicação.
Tanto assim que, se eu descobrisse um dia que era a única criatura restante sobre a face da Terra, empregaria o meu longo lazer — não necessariamente a cantar a minha situação única, mas a refazer aqueles meus poemas que não me parecessem ainda ter recebido um adequado tratamento expressivo, isto é, o devido trabalho técnico, ou os que, de tão indizíveis, não me animei até agora a defrontar.
E é isto que dá um terrível sentido aos trabalhos do Poeta, uma enorme responsabilidade em face da Esfinge.

Mário Quintana, em Porta giratória

02/08/2026

Silêncio pra Escutar | Zelitto Coringa e Elilson José Batista

 

Meus arroubos pela tua conjuntura

EXTERIOR. DIA. Trocando minha pura indiscrição pela tua história bem datada. Meus arroubos pela tua conjuntura. MAR, AZUL, CAVERNAS, CAMPOS e TROVÕES. Me encosto contra a mureta do bondinho e choro. Pego um táxi que atravessa vários túneis da cidade. Canto o motorista. Driblo a minha fé. Os jornais não convocam para a guerra. Torça, filho, torça, mesmo longe, na distância de quem ama e se sabe um traidor. Tome bitter no velho pub da esquina, mas pensando em mim entre um flash e outro de felicidade. Te amo estranha, esquiva, com outras cenas mixadas ao sabor do teu amor.

Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés