sexta-feira, 29 de maio de 2026

O “verdadeiro” romance

Bem sei o que é o chamado verdadeiro romance. No entanto, ao lê-lo, com suas tramas de fatos e descrições, sinto-me apenas aborrecida. E quando escrevo não é o clássico romance. No entanto é romance mesmo. Só que o que me guia ao escrevê-lo é sempre um senso de pesquisa e de descoberta. Não, não de sintaxe pela sintaxe em si, mas de sintaxe o mais possível se aproximando e me aproximando do que estou pensando na hora de escrever. Aliás, pensando melhor nunca escolhi linguagem. O que eu fiz, apenas, foi ir me obedecendo.
Ir me obedecendo — é na verdade o que faço quando escrevo, e agora mesmo está sendo assim. Vou me seguindo, mesmo sem saber ao que me levará. Às vezes ir me seguindo é tão difícil — por estar seguindo em mim o que ainda não passa de uma nebulosa — que termino desistindo.
E os romances que escrevo que não passam do título? Porque seria muito difícil escrevê-los ou porque, já tendo uma ideia precisa do desenrolar-se da história, perco a curiosidade de escrevê-la. Embora representando grande risco, só é bom escrever quando ainda não se sabe o que acontecerá. Agora mesmo, neste próprio instante, ou melhor, há alguns instantes em que interrompi para atender ao telefone, nasceu-me um título do que seria um conto ou um romance: O montanhês. O título é sem graça, bem sei. E sei o que seria: não se trataria de um homem das montanhas, mas da subida gradual de um homem através da vida até chegar a um cume simbólico, ou não simbólico de uma montanha, de onde ele veria o seu passado e também o que lhe restava ainda a subir, isto é, um pouco mais de futuro.
E o que ele via não era bonito, nem bom, nem ruim, nem feio, era o que fatalmente a vida fizera dele e sobretudo o que fatalmente ele fizera da vida. E aí vem o problema: até que ponto fora fatal o que ele fizera na vida e esta dele? Até que ponto houvera escolha? Estou me confundindo toda com esta história que jamais escreverei.
E eu, que já viajei bastante e não quero mais viajar, como é que nunca me ocorreu nem ocorrerá jamais escrever um livro de viagens? Com perdão da palavra, sou um mistério para mim. E, ainda fazendo parte deste mistério, por que leio tão pouco? O que era de se esperar é que eu tivesse verdadeira fome de leituras. Também para ver o que os outros fazem. No entanto só consigo ler coisas que, se possível, caminhem direto ao que querem dizer. Não, positivamente, não me entendo. Bem, mas o fato é que mesmo não me entendendo, vou lentamente me encaminhando — e também para o quê, não sei. De um modo geral, para mais amor por tudo. É vago “mais amor por tudo”? Inclusive mais amor inclui uma alerteza maior para achar bonito o que nem mesmo bonito é. E, embora a palavra humano me arrepie um pouco, de tão carregada de sentidos variados e vazios essa palavra foi ficando, sinto que me encaminho para o mais humano. Ao mesmo tempo as coisas do mundo — os objetos — estão se tornando cada vez mais importantes para mim. Vejo os objetos sem quase me misturar com eles, vendo-os por eles mesmos. Então às vezes se tornam fantásticos e livres, como se fossem coisa nascida e não feita por pessoas. Se eu for me encaminhando para o mais humano não quer dizer que eu precise perder essa qualidade que tenho às vezes de enxergar a coisa pela coisa. Porque — e aí vou eu entrando com sofisma só para me defender — se sendo gente eu consigo ir, por que haveria de perder essa capacidade ao me tornar mais gente? Ah, Deus, sinto que é puro sofisma. Aliás o sofisma como forma de raciocínio sempre me atraiu um pouco, passou a ser um de meus defeitos. Explicável porque sempre tive que me defender muito, e com sofismas se consegue. Talvez, quem sabe, eu que agora me defendo menos, largue pelo caminho o raciocínio-sofisma. Talvez eu não precise mais ganhar para me defender. O sofisma faz ganhar muito em discussões — há anos que não discuto — e em explicação para si mesma das próprias ações inexplicáveis etc. De agora em diante eu gostaria de me defender assim: é porque eu quero. E que isso bastasse.
Bem, fui escrevendo ao correr do pensamento e vejo agora ter me afastado tanto do começo que o título desta coluna já não tem nada a ver com o que escrevi. Paciência.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Verônica Ferriani e Nelson Faria | Um Café Lá Em Casa

Luz e harmonia de cores de van Gogh

Vaso com Íris sobre Fundo Amarelo (1889), de Vincent van Gogh

Natureza e Arte

Nenhuma natureza é inferior à arte, pois as artes imitam as naturezas das coisas. Sendo assim, a natureza mais perfeita e abrangente não pode carecer da maestria artística. Agora, todas as artes criam o inferior em prol do superior. Portanto, a natureza universal também o faz.
Nisso está a origem da justiça, e nela as outras virtudes se fundamentam. Afinal, não é possível ser justo ao valorizar as coisas indiferentes, ao ser facilmente iludido e ao ser descuidado e instável.

Marco Aurélio, em Meditações

Terrinas




Chovia em Paris, e não tínhamos guarda-chuva. Saímos do hotel nos esgueirando. (Esgueirar-se: a arte de andar entre pingos de chuva ou sob marquises. Sua principal característica é que nunca dá certo.) Decidimos entrar no primeiro restaurante que aparecesse.
Chamava-se Oeuf à la Poche, numa clara referência ao seu tamanho. Estava vazio. Sentamo-nos, depois de sacudir a água na entrada, com aquele falso ar de habitués que deve nos acompanhar em qualquer lugar absolutamente estranho. Um cachorro veio nos examinar em silêncio e, satisfeito ou desapontado, voltou para o seu lugar perto do balcão. De trás do qual saiu um cabeludo com duas terrinas que colocou sobre a nossa mesa, silencioso como o seu cachorro. Uma terrina continha um patê pela metade. A outra era indecifrável. Dali a pouco, o cabeludo voltou com mais duas terrinas. Depois, mais duas. E mais duas!
Conseguimos identificar champignons, salames, rillettes e pouca coisa mais. Quando trouxe o pão, o cabeludo perguntou se queríamos vinho. Suspirei aliviado. Ele não nos odiava! Pedi um tinto. E como não aparecesse ninguém com um cardápio e eu é que não ia pedir explicações sobre que tipo de restaurante era aquele, afinal, atacamos as terrinas e o pão como quem não espera outra coisa.
Só de baguette foi um quilômetro, e não ficou terrina sobre terrina. Estávamos nos congratulando pela descoberta acidental do restaurante, e tentando nos lembrar de quando tínhamos comido tanto e tão bem quando surgiu uma moça, um pouco menos feminina do que o cabeludo, e perguntou que prato quente iríamos querer, depois da entrada. Tinham boeuf bourguignon, tinham... Pedimos cada um um prato quente, de pura timidez.
Estou recontando esta história sem qualquer proveito social que a redima por que mesmo? Talvez só para dizer que anos depois procuramos o “Oeuf à la Poche” e não o encontramos mais. Suas terrinas muito generosas ou, quem sabe, a melancolia do cachorro tinham derrotado a proposta. Ou talvez seja uma história inspiradora: não confunda os aperitivos que o destino lhe serve com a vida, cedo ou tarde aparecerá o prato quente. Sei lá.
E a chuva em Paris? Não parou. Choveu todos os dias, até que resolvemos tomar uma providência. Compramos guarda-chuvas. Aí ela parou.

Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora

Capítulo 54 — A Pêndula



Saí dali a saborear o beijo. Não pude dormir; estirei-me na cama, é certo, mas foi o mesmo que nada. Ouvi as horas todas da noite. Usualmente, quando eu perdia o sono, o bater da pêndula fazia-me muito mal; esse tique -taque soturno, vagaroso e seco, parecia dizer a cada golpe que eu ia ter um instante menos de vida. Imaginava então um velho diabo, sentado entre dois sacos, o da vida e da morte, a tirar as moedas da vida para dá-las à morte, e a contá-las assim:
Outra de menos...
Outra de menos...
Outra de menos...
Outra de menos...
O mais singular é que, se o relógio parava, eu dava-lhe corda, para que ele não deixasse de bater nunca, e eu pudesse contar todos os meus instantes perdidos. Invenções há, que se transformam ou acabam; as mesmas instituições morrem; o relógio é definitivo e perpétuo; o derradeiro homem, ao despedir-se do sol frio e gasto, há de ter um relógio na algibeira, para saber a hora exata em que morre.
Naquela noite não padeci essa triste sensação de enfado, mas outra, e deleitosa. As fantasias tumultuavam-me cá dentro, vinham umas sobre outras, à semelhança de devotas que se abalroam para ver o anjo-cantor das procissões. Não ouvia os instantes perdidos, mas os minutos ganhados; e de certo tempo em diante não ouvi coisa nenhuma, porque o meu pensamento, ardiloso e traquinas, saltou pela janela fora e bateu as asas na direção da casa de Virgília. Aí achou ao peitoril de uma janela o pensamento de Virgília, saudaram-se e ficaram de palestra. Nós a rolarmos na cama, talvez com frio, necessitados de repouso, e os dois vadios ali postos, a repetirem o velho diálogo de Adão e Eva.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

O Homem que Calculava — Capítulo 23




O bairro humilde em que moramos assinalou hoje o seu primeiro dia glorioso na História.
Beremiz, pela manhã, recebeu inesperadamente a honrosa visita do príncipe Cluzir Schá.
Quando a aparatosa comitiva irrompeu pela rua, terraços e varandas encheram-se de curiosos. Mulheres, velhos e crianças admiravam, mudos e estarrecidos, o maravilhoso espetáculo.
Vinham na frente cerca de trinta cavaleiros montados em soberbos corcéis árabes com arreios tauxiados e gualdrapas de veludo bordado a prata; traziam turbantes brancos com elmos metálicos reluzindo ao sol, mantos e túnicas alvadias, largas cimitarras pendentes de cintas de couro lavrado. Precediam-nos estandartes com o escudo do príncipe — um elefante branco sobre fundo azul. Seguiam-se vários arqueiros e batedores, todos a cavalo.
Encerrando o cortejo surgiu o poderoso Marajá, acompanhado de dois secretários, três médicos e dez pajens. O príncipe trajava uma túnica escarlate, toda adornada com fios de pérolas. No turbante, de uma riqueza inaudita, cintilavam incontáveis safiras e rubis.
Quando o velho Salim viu a sua hospedaria receber aquela majestosa comitiva, foi tomado por um acesso de loucura. Atirou-se ao chão e começou a gritar:
Men ein?(1)
Mandei que um aguadeiro que ali se achava, com ar de basbaque, arrastasse o alucinado amigo para o fundo do pátio, até que a calma voltasse a dominar-lhe o conturbado espírito.
A sala da hospedaria era pequena para conter os ilustres visitantes. Beremiz, maravilhado com a honrosa visita, desceu ao pátio a fim de recebê-los.
O príncipe Cluzir, ao chegar, com seu porte altamente senhoril, saudou o calculista com amistoso salã, e disse-lhe:
O pior sábio é aquele que frequenta os ricos; o maior dos ricos é o que frequenta os sábios!(2)
Bem sei, senhor! — respondeu Beremiz —, que as vossas palavras inspira-as o mais arraigado sentimento de bondade. A pequena e insignificante parcela de ciência que consegui adquirir desaparece diante da infinita generosidade de vosso coração.
A minha visita, ó Calculista — atalhou o príncipe —, é ditada mais pelo egoísmo do que pelo amor à ciência. Depois que tive o prazer de ouvi-lo em casa do poeta Iezid, pensei em oferecer-lhe algum cargo de prestígio em minha corte. Desejo nomeá-lo meu secretário ou diretor do Observatório de Délhi. Aceita? Partiremos dentro de poucas semanas para Meca e de lá para a Índia.
Infelizmente, ó Príncipe generoso — respondeu Beremiz —, não posso afastar-me, agora, de Bagdá. Prende-me a esta cidade sério compromisso. Só poderei ausentar-me daqui depois que a filha do ilustre Iezid tiver aprendido as belezas da Geometria!
Sorriu o marajá e retorquiu:
Se o motivo de sua recusa assenta nesse compromisso, creio que mui breve chegaremos a acordo.
O xeque Iezid disse-me que a jovem Telassim, dados os progressos feitos, dentro de poucos meses estará em condições de ensinar aos ulemás o famoso problema das pérolas do rajá.
Tive a impressão de que as palavras do nosso nobre visitante haviam surpreendido Beremiz. O calculista parecia meio confuso.
E eu muito folgaria — alvitrou ainda o príncipe — em conhecer esse complicado problema que vem desafiando a sagacidade dos algebristas e que remonta, sem dúvida, a um dos meus gloriosos antepassados. Refiro-me ao chamado “problema das pérolas do rajá”.
Beremiz, para atender à curiosidade do marajá, tomou da palavra e discorreu sobre o problema que interessava ao príncipe. E, no seu falar lento e seguro, disse o seguinte:
Trata-se menos de um problema do que de mera curiosidade aritmética. É o seguinte o seu enunciado:
Um rajá deixou às suas filhas certo número de pérolas e determinou que a divisão se fizesse do seguinte modo: a filha mais velha tiraria 1 pérola e um sétimo do que restasse; viria, depois, a segunda e tomaria para si 2 pérolas e um sétimo do restante; a seguir a terceira jovem receberia pérolas e um sétimo do que restasse. E assim sucessivamente.
As filhas mais moças apresentaram queixa a um juiz, alegando que, por esse sistema complicado de partilha, elas seriam fatalmente prejudicadas.
O juiz que — reza a tradição — era hábil na resolução do problema, respondeu prontamente que as reclamantes estavam enganadas e que a divisão proposta pelo velho rajá era justa e perfeita.



E tinha razão. Feita a partilha, cada uma das herdeiras recebeu o mesmo número de pérolas.”
Pergunta-se: Qual o número de pérolas? Quantas as filhas do rajá?
A solução para esse problema não oferece a menor dificuldade.
Vejamos.
As pérolas eram em número de 36 e deviam ser repartidas por 6 pessoas.
A primeira tirou uma pérola e mais um sétimo de 35, isto é, 5; logo, tirou 6 pérolas e deixou 30.
A segunda, das 30 que encontrou, tirou 2 mais um sétimo de 28, que é 4; logo, tirou 6 e deixou 24.
A terceira, das 24 que encontrou, tirou 3 mais um sétimo de 21, ou 3. Tirou, portanto 6, deixando 18 de resto.
A quarta, das 18 que encontrou, tirou 4 e mais um sétimo de 14. E um sétimo de 14 é 2. Recebeu, também, 6 pérolas.
A quinta encontrou 12 pérolas; dessas 12 tirou 5 e um sétimo de 7, isto é, 1; logo, tirou 6.
A filha mais moça recebeu, por fim, as 6 pérolas restantes.
E Beremiz concluiu:
Como vedes, o problema, embora engenhoso, nada tem de difícil. Chega-se à solução sem artifícios ou sutileza de raciocínio.
Nesse momento, a atenção do príncipe Cluzir Schá foi despertada por um número que se achava escrito cinco vezes na parede do quarto; 142.857.
Que significação tem esse número? — perguntou.
Trata-se — respondeu o calculista — de um dos números mais curiosos em Matemática. Ele apresenta, em relação aos seus múltiplos, coincidências interessantes.
Multipliquemo-lo por 2. O produto será:

142.857 × 2 = 285.714

Vemos que os algarismos constitutivos do produto são os mesmos do número dado, em outra ordem. O 14 que se achava à esquerda transportou-se para a direita.
Efetuemos o produto do número 142.857 por 3:

142.857 × 3 = 428.571

Ainda uma vez observamos a mesma singularidade: os algarismos do produto são, precisamente, os mesmo do número, alterada apenas a ordem. O 1 que se achava à esquerda passou para a direita, os outros algarismos lá ficaram, onde estavam.
A mesma coisa ocorre, ainda, quando o número é multiplicado por 4:

142.857 × 4 = 571.428

Notemos, agora, o que vai ocorrer no caso da multiplicação por 5:

142.857 × 5 = 714.285

O algarismo 7 deslocou-se da direita para a esquerda, os restantes permaneceram em seus lugares.
Observemos a multiplicação por 6:

142.857 × 6 = 857.142

Feito o produto nota-se que o grupo 142 permutou, apenas, de posição com 857.
Uma vez chegados ao fator 7, impressiona-nos outra particularidade. O número 142.857 multiplicado por 7 dá como produto o número:

999.999

formado de seis noves!
Experimentemos multiplicar o número 142.857 por 8. O produto será:

142.857 × 8 = 1.142.856

Todos os algarismos do número aparecem, ainda, no produto, com exceção do 7. O 7 do número primitivo foi decomposto em duas partes: 6 e 1. O algarismo 6 ficou à direita e o 1 foi para a esquerda completar o produto.
Vejamos agora o que acontece quando multiplicamos o número 142.857 por 9:

142.857 × 9 = 1.285.713

Observemos com atenção esse resultado. O único algarismo do multiplicando que não figura no produto é o 4. Que teria acontecido com ele? Aparece decomposto em duas parcelas 1 e 3, colocados nos extremos do produto.
Do mesmo modo poderíamos verificar as singularidades que apresenta o número 142.857 quando multiplicado por 11, 12, 13, 15, 17, 18 etc.4
Eis por que o número 142.857 se inclui entre os números cabalísticos da Matemática. Ensinou-me o dervixe Nô-Elin...
Nô-Elin! — repetiu, tomado de vivo júbilo, o príncipe Cluzir Schá. — É possível que tenha conhecido esse sábio?
Conheci-o muito bem, ó Príncipe — respondeu Beremiz. — Com ele aprendi todos os princípios que hoje aplico nas pesquisas matemáticas.
Pois o grande Nô-Elin — explicou o hindu — era amigo de meu pai. Certa vez, vencido pelo desgosto, por ter perdido um filho em combate, numa guerra injusta e cruel, afastou-se da cidade e nunca mais foi visto. Tenho feito várias pesquisas para encontrá-lo, mas até hoje não consegui obter a menor indicação sobre seu paradeiro. Cheguei, até, a admitir que ele tivesse perecido no deserto, devorado pelas panteras. Saberá, acaso, dizer-me onde poderei encontrar Nô-Elin?
Respondeu Beremiz:
Quando parti para Bagdá deixei o sábio Nô-Elin em Khói, na Pérsia, recomendado a três amigos.
Pois logo que eu regresse de Meca iremos à cidade de Khói buscar esse grande ulemá — respondeu o príncipe. — Quero levá-lo para o meu palácio! Poderá você, ó Calculista, auxiliar-me nessa grandiosa empresa?
Senhor! — apoiou Beremiz. — Se é para prestar auxílio e fazer justiça àquele que foi meu guia e mestre, pronto estou para acompanhar-vos, se for preciso, até à Índia.
E, assim, por causa de 142.857, ficou resolvida a nossa viagem à Índia, a terra dos rajás.
O tal número é realmente cabalístico!

Notas:
(1) Para onde? (Para onde me vão levar?)
(2) Verso árabe.

Malba Tahan, em O Homem que Calculava

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Ritchie feat Steve Hackett | Voo de Coração

Armandinho

Anarquia

Anarquia é apenas uma proposta social em que você dá ao palhaço a administração do circo. (E quase sempre ele é muito bem-sucedido).

Millôr Fernandes, em A bíblia do caos

1624 – Lima



A endiabrada”

Luz de lua à uma, anuncia o sino da igreja, e dom Juan de Mogrovejo de la Cerda sai da taverna e se põe a caminhar pela noite de Lima, cheirosa de flores de laranjeira.
Ao chegar no cruzamento da rua do Trato, escuta vozes estranhas ou ecos; para e estica a orelha.
Um tal de Asmodeu está dizendo que mudou várias vezes de residência desde que saiu de Sevilha Ao chegar a Portobelo habitou os corpos de vários mercadores que chamam o engano de trato, o furto de lucro e a gazua de vara de medir; e no Panamá mudou-se e passou a viver dentro de um hipócrita da cavalaria, de nome falso, que sabia de memória a cópia dos duques, o calendário dos marqueses e a ladainha los condes...
Conta uma coisa, Asmodeu. Guardava esse sujeito os mandamentos da cavalaria moderna?
Todos, Amonio. Mentia e não pagava as dívidas nem dava importância ao sexto mandamento; se levantava sempre tarde, falava na missa e sentia frio o tempo inteiro, o que dizem ser de bom gosto. E olha que é difícil sentir frio no Panamá, com aqueles calores que o inferno gostaria de ter. No Panamá as pedras suam e dizem as pessoas: “Depressa com a sopa, que vai esquentar”.
O indiscreto dom Juan de Mogrovejo de la Cerda não pode ver Asmodeu nem Amonio, que se falam de longe, mas basta saber que tais nomes não figuram no santoral e sentir o cheiro do inconfundível bafo de enxofre, que invadiu o ar, como se não bastasse o tema de conversa tão eloquente. Dom Juan esmaga suas costas contra a alta cruz da esquina do Trato, cuja sombra impede, através da rua, que Asmodeu e Amonio se aproximem; faz o sinal da cruz e imediatamente convoca toda uma esquadra de santos para sua proteção e socorro. Mas não pode rezar, porque quer escutar. Não vai perder uma palavra disto.
Asmodeu conta que saiu do corpo daquele cavaleiro para meter-se em um clérigo renegado e depois, na viagem ao Peru, encontrou pousada nas entranhas de uma beata especializada em vender donzelas.
Assim cheguei a Lima, em cujos labirintos muito norte me serão tuas advertências. Dê-me notícias destas dilatadas províncias... São bem ganhados os dinheiros?
Se o fossem, mais desocupado estaria o inferno.
Por que caminho hei de tentar os mercadores?
Procurando que o sejam, e deixando-os.
Pelos superiores, têm aqui amor ou respeito?
Medo.
Pois o que haverá de fazer o que queira prêmio?
Não merecê-lo.
Dom Juan invoca a Virgem de Atocha, busca o rosário, que esqueceu, e aperta o pomo da espada, enquanto continua o questionário sobre Lima que Amonio, depressinha, responde.
E quanto aos presumidos de gala, te pergunto se vestem bem.
Poderiam, pelo muito que todo o ano cortam.
Tanto murmuram?
De maneira que em Lima todas as horas são críticas.
Diz-me agora, por que chamam os Francisco de Panchos, os Luises de Luchos e as Isabelas de Chabelas?
Primeiro para não dizer a verdade, segundo, para não dizer os nomes dos santos.
Sofre então dom Juan um inoportuno ataque de tosse. Escuta gritar: Fujamos, fujamos!, e ao final de um longo silêncio se desgruda da cruz que o protegia. Com os joelhos tremendo, dá uma olhada na rua dos Mercadores e nos postais da Província. Dos boquirrotos, não sobra nem sombra.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Diário de Bernardo Soares

111.

Todo o homem de hoje, em quem a estatura moral e o relevo intelectual não sejam de pigmeu ou de charro, ama, quando ama, com o amor romântico.
O amor romântico é um produto extremo de séculos sobre séculos de influência cristã; e, tanto quanto à sua substância, como quanto à sequência do seu desenvolvimento, pode ser dado a conhecer a quem não o perceba comparando-o com uma veste, ou traje, que a alma ou a imaginação fabriquem para com ele vestir as criaturas, que acaso apareçam, e o espírito ache que lhes cabe.
Mas todo o traje, como não é eterno, dura tanto quanto dura; e em breve, sob a veste do ideal que formámos, que se esfacela, surge o corpo real da pessoa humana, em quem o vestimos.
O amor romântico, portanto, é um caminho de desilusão. Só o não é quando a desilusão, aceite desde o princípio, decide variar de ideal constantemente, tecer constantemente, nas oficinas da alma, novos trajes, com que constantemente se renove o aspeto da criatura, por eles vestida.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Ah, jagunço não despreza quem dá ordens diabradas.


[…]

O que na hora achei, foi que Diadorim estivesse me relembrando de Medeiro Vaz não ter conseguido cruzar a travessia do raso. Mas Diadorim, também, não adivinhou meu espírito. Pois, por aquela conta, mesma, era que eu queria. Sobre o que eu era um homem, em sim, fantasia forra, tendo em nada aqueles perigos, capaz do caso. Para vencer vitória, aonde nenhum outro antes de mim tivesse! Respinguei dessas faíscas constantes. Eu, não! o cujo do orgulho, de mim, do impossível.
Descia e subia a fumaça da noite. Esbarramos. Era numa curta vereda, duns brejos, buritizalzinho. Acendemos fogo. Aí mal dormi, fortíssimo no meu segredo. Um meu primeiro sono, sim. O resto, foi ondas. Reprazer crú dessa espiritação ― eu ardia em mim, e em satisfa contente, feito fosse véspera duma patusqueira.
As forças me amanheceram acordado.
Adiante da gente, o mangabeiral. Depois, o raso. Aí o Liso do Sussuarão ― em fundo e largo, as cinquenta léguas e as quase trinta léguas, das mais. Ninguém me fazia voltar a seco de lá. Aquela hora, eu só não me desconheci, porque bebi de mim ― esses mares. Também eu não ia naquilo sem alguma razão, mas movido merecido. Por conta do Hermógenes? Nossos dois bandos viajavam em guerra e contraguerra, e desenrolando caminhos, por esses Gerais, cães, se caçando. Só que o sertão é grande ocultado demais. Então, eu ia, varava o Liso, ia atacar a Fazenda dele, com família. Ovo é coisa esmigalhável. E a bem. Para vencer justo, o senhor não olhe e nem veja o inimigo, volte para a sua obrigação. Mas eu dava as costas à cobra e achava o ninho dela, para melhor acerto. Ao que, esse não tinha sido o arrojo de Medeiro Vaz?
O dia parava formoso, suando sol, mesmo o vento suspendido. Vi o chão mudar, com a cor de velho, e as lagartixas que percorriam de leve, por debaixo das môitas de caculucage. O pessoal meu não devia de estar com inquietação? Vi uma coruja ― mas corujinha entortadeira; e coruja só agoura mesmo é em centro de noite, quando dá para risã. E cuspi no branco leite duma maria-brava, que toda às sãs cheirosa florescia. Era a hora. Repuxei os freios, bem esbarrando. Equei os meus homens.
Aqui, gente.
Guerreiros em minha presença! Com certo reboliço, como todos vieram, para saber daquela novidade. Declarei a eles. Todos me entenderam? Em fila ― as caras todas ficando iguais. Me seguissem? Ah, nenhum não tinha ar do que ia ser, e que fazia tantos dias eu tencionava. Nem João Goanhá, Marcelino Pampa, João Concliz, nem o Alaripe. Nem Diadorim. Diadorim me olhou tremeluzentemente: de coragem, de disposto. Ele, sim. Mas, os outros? Seria que medissem meu mor atrevimento? Era feito se eu estivesse aloucado extenso.
Porque, o que eu estava mandando, nem Medeiro Vaz mesmo não teria sido capaz de crer: eu queria tudo, sem nada! Aprofundar naquele raso perverso ― o chão esturricado, solidão, chão aventêsma ― mas sem preparativos nenhuns, nem cargueiros repletos de bom mantimento, nem bois tangidos para carneação, nem bogós de couro-crú derramando de cheios, nem tropa de jegues para carregar água. Para que eu carecia de tantos embaraços? Pois os próprios antigos não sabiam que um dia virá, quando a gente pode permanecer deitada em rede ou cama, e as enxadas saindo sozinhas para capinar roça, e as fôices, para colherem por si, e o carro indo por sua lei buscar a colheita, e tudo, o que não é o homem, é sua, dele, obediência? Isso, não pensei ― mas meu coração pensava. Eu não era o do certo: eu era era o da sina! E nem enviei adiante nenhuma patrulha de farejadores ― nem Suzarte, Nelson ou o Quipes, que tapejassem; nem o Tipote para trilhar e entender, ver se divulgava os socorros: alguma grota duvidável d água.
Se o cada um que se valesse, cada um que me seguisse. ― Agora vamos entrar, para pernoitar lá dentro... ― eu determinei. Só era se aviar. Mas o menino Guirigó, mal me ouvindo, falou!
A gente? A gente.
Esse era um menino, eu não devia de mandar alguém conduzir o Guirigó de volta, para que em lugar seguro deixassem? No ar não fiz. Se não, por que era então que ele para tudo tinha vindo? Os outros, não me cumprissem, eu havia de voltar de lá, dar de mão de minha tenção? Nuncas. Só melhor sozinho eu ia. Ia, por meus brancos ossos. Transe, tempo, que esperei a resposta deles. Dei a palavra! Meus homens. Ah, jagunço não despreza quem dá ordens diabradas.
Se amanhã meu dia for, em depois-d’amanhã não me vejo.
Antes de menino nascer, hora de sua morte está marcada!
Teu destino dando em data, da meia-noite tu vivente não passa...
Os que diziam assim eram todos eles, secundando os cabecilhas. Valentes que eram, e como foram se animando. Ao que me obedeciam, ao meu melhor em redor. A gente andou no comum, até ao fim do grameal. Aí, se estava, se esbarrava, frente a frente com o Liso. Rédeas às ordens. A gente se moveu.
Sol em glória. Eu pensei em Otacília; pensei, como se um beijo mandasse. Soltando rédeas, entrei nos horizontes. Aonde entrei, na areia cinzenta, todos me acompanhando. E os cavalos, vagarosos; viajavam como dentro dum mar.
O senhor vê e vê? Alguém a alto me levou, alguém, salvo a um seguinte. Aguas não desmanchavam meu torrão de sal. Ah, nem eu não tive incerteza em mente. Assim fomos. Aí eu em frente adiante.
A fortes braços de anjos sojigado. O digo? Os outros, a em passo em passo, usufruíam quinhão da minha andraja coragem.
[...]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Lenine | Confia Em Mim

O lutador

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como um javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.
 
Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto.
 
Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.
 
Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.
 
Iludo-me às vezes,
pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras

em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
outra sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor
me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
Mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora.
 
O ciclo do dia
ora se conclui
e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.

Carlos Drummond de Andrade, em José

Calvin

Progresso

O menino moderno, familiarizado com o computador, ficou curioso sobre como eram as coisas no trabalho do seu pai no tempo em que não havia computadores. O pai, entusiasmado com a súbita curiosidade do filho, pôs-se a campo para encontrar sua velha Olivetti portátil, amante esquecida, abandonada — e ele nem sabia ao certo onde ela estava. Depois de muito procurar, encontrou-a dentro de uma mala velha cheia de tranqueiras. Tirou-a da sepultura, limpou-a, conferiu as teclas e alavancas, e também as fitas metade preta e metade vermelha, colocando-a então de novo no mesmíssimo lugar sobre a mesa onde vezes sem conta eles estiveram juntos. “Como é que funciona, pai?”, o menino perguntou. “É assim que funciona...”, respondeu o pai. A seguir, colocou uma folha de papel sulfite no rolo, ajustou as margens e começou a “daquitilografar” (era assim que o meu pai falava) umas frases soltas. Ao ver a máquina em ação, o menino fez um “oh” de espanto. “Que máquina mais adiantada, diferente dos computadores. É só digitar as letras que o texto sai impresso...” O que me fez lembrar um texto divertidíssimo de Cortázar que se chama, se não me engano, A história das invenções. Só que tudo acontece não de trás para a frente, mas da frente para trás. A história começa num voo de supersônico de Nova York a Paris. Três horas. Aí os homens, inteligentes, pensaram que o prazer da viagem poderia ser aumentado se os aviões, em vez de voarem a uma velocidade acima da velocidade do som e a uma altura de quinze quilômetros, passassem a voar a uma velocidade de 400 quilômetros por hora a uma altura de três quilômetros. Assim, poderiam ficar muito mais tempo longe do trabalho e ver os rios, bosques e vilas... E assim vai acontecendo a história das invenções, sempre ao contrário e sempre melhor... Até que, depois de muito progresso, da invenção dos navios a vela não poluentes e das bicicletas que fazem bem ao coração, os humanos inventam a mais fantástica de todas as invenções: eles inventam o “andar a pé”…

Rubem Alves, em Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo

As dores da sobrevivência: Sérgio Porto

Não, não quero mais gostar de ninguém porque dói. Não suporto mais nenhuma morte de ninguém que me é caro.
Meu mundo é feito de pessoas que são as minhas – e eu não posso perdê-las sem me perder.
Sem pudor, com lágrimas nos olhos, choro a morte de Sérgio Porto. Ele criava alegria, ele se comunicava com o mundo e fazia esta terra infernal ficar mais suave: ele nos fazia sorrir e rir. Não pude deixar de pensar: ó Deus, por que não eu em lugar dele? O povo sentirá a sua falta, vai ficar mais pobre de sorrisos, enquanto eu escrevo para poucos: então por que não eu em lugar dele? O povo precisa de pão e circo.
Sérgio Porto, perdoe eu não ter dito jamais que adorava o que você escrevia. Perdoe eu não ter procurado você para uma conversa entre amigos. Mas uma conversa mesmo: dessas em que as almas são expostas. Porque você tinha lágrimas também. Atrás do riso. Perdoe eu ter sobrevivido.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

O Apanhador no Campo de Centeio – 24



O Professor Antolini e a mulher tinham um apartamento grã-finérrimo em Sutton Place, desses que a gente tem que descer dois degrauzinhos para entrar na sala de visitas, e com um bar e tudo. Eu já tinha ido lá algumas vezes, porque depois que saí do Elkton Hills o Professor Antolini ia freqüentemente jantar lá em casa, para saber como eu estava indo. Nessa época ele ainda, era solteiro. Depois que casou, andei jogando tênis com ele e a mulher, no clube de tênis West Side, em Forest Hills, Long Island. Ela era sócia de lá, era mesmo podre de rica. Era mais velha que o Professor Antolini uns sessenta anos, mas os dois pareciam se dar muito bem. Em parte porque eram muito intelectuais, especialmente o Professor Antolini, apesar dele dar a impressão de ser mais espirituoso do que realmente intelectual quando estava com a gente, assim mais ou menos como o D.B. A mulher dele era mais séria. Sofria muito de asma. Os dois haviam lido todos os contos do D.B. – a Senhora Antolini também – e, quando o D.B. foi para Hollywood, o Professor telefonou para ele, dizendo que não fosse. Mas ele foi assim mesmo. O Professor Antolini disse que uma pessoa que escrevia como o D.B. não tinha nada que ir para Hollywood. Foi praticamente a mesma coisa que eu disse.
Eu teria ido a pé à casa dele, porque só em último caso pensava gastar o dinheiro de Natal da Phoebe, mas me senti meio esquisito quando cheguei lá fora. Meio tonto. Por isso tomei um táxi. Não queria, mas tomei. Tive um trabalhão desgraçado só para encontrar um táxi.
Quando o safado do cabineiro resolveu afinal me deixar subir, toquei a campainha e quem veio abrir foi o próprio Professor Antolini. Estava de robe e chinelos e um copo de bebida na mão. Era um cara um bocado sofisticado e também bebia pra chuchu.
Holden, meu filho! – ele disse. – Ora veja, cresceu mais uns cinco centímetros. Que prazer vê-lo por aqui.
Como vai o senhor? Como está sua senhora?
Tudo bem.
Me dê seu casaco.
Me ajudou a tirar o sobretudo e guardou.
Estava esperando vê-lo com um recém-nascido nos braços. Sem ninguém no mundo para quem apelar. Flocos de neve nas pestanas.
Ele às vezes é um camarada muito espirituoso. Virou-se e gritou para a cozinha:
Lilian! Esse café está saindo?
Lilian era o nome da mulher dele.
Está prontinho – ela gritou de lá. – É o Holden que está aí? Como vai, Holden?
Bem, e a senhora?
A gente vivia gritando naquela casa, porque os dois, nunca estavam na mesma sala ao mesmo tempo. Chegava a ser engraçado.
Sente-se, Holden – disse o professor. Via-se logo que ele estava meio alto. Pelo jeito da sala, parecia que tinham dado alguma festa. Tinha copos e pratinhos com amendoim por todo o canto.
Desculpe a desordem – ele disse. – Estivemos recebendo uns amigos de Lilian, lá de Bufallo... Uns búfalos, para falar a verdade.
Dei uma risada, e a senhora Antolini gritou qualquer coisa para mim lá da cozinha, mas não entendi.
Quê que ela disse? – perguntei ao Professor Antolini.
Disse para você não olhar para ela quando entrar, porque acabou de sair da cama. Cigarro? Você agora está fumando?
Obrigado – respondi, e tirei um cigarro da caixa que ele me estendeu. – Só de vez em quando. Sou um fumante moderado.
Acredito muito – ele falou. Acendeu meu cigarro com um baita isqueiro de mesa. – Muito bem. Quer dizer que o Pencey e você se divorciaram.
Tinha a mania de dizer as coisas assim. Às vezes me divertia um bocado, outras vezes não. Exagerava um pouquinho. Não é que não fosse espirituoso nem nada – isso ele era – mas de vez em quando a gente se irrita quando uma pessoa vive dizendo coisas assim como "Quer dizer que o Pencey e você se divorciaram". D.B. de vez em quando também exagera um pouco nesse troço.
O que é que houve? Como é que você foi em inglês? Ponho-o na rua agora mesmo se você tiver sido reprovado em inglês, seu craque na redação.
Não, passei em inglês direitinho. Mas quase que só demos literatura. Só escrevi umas duas redações durante o ano todo. Mas fui reprovado em Expressão Oral. Lá eles tinham esse curso obrigatório. Expressão Oral. Nisso fui reprovado.
Por quê?
Ah, sei lá.
Não estava com muita vontade de falar no assunto. Me sentia ainda meio tonto ou coisa parecida, e de repente fiquei com uma dor de cabeça desgraçada. Fiquei mesmo. Mas ele parecia realmente interessado, por isso resolvi contar alguma coisa.
É um curso em que cada aluno tem que se levantar na aula e fazer um discurso. Sabe como é. Com espontaneidade e tudo. E, se o sujeito sai um pouquinho do assunto, todo mundo tem que gritar: "Digressão!" o mais depressa possível. O negócio me deixava meio maluco. Tirei uma nota horrível.
Por quê?
Ah, sei lá. Aquela estória de digressão me chateava. Sei lá. O problema comigo é que eu gosto quando um sujeito sai do assunto. É mais interessante e tudo.
Você não gosta que uma pessoa seja objetiva quando conta uma estória?
Claro! Gosto que a pessoa seja objetiva e tudo. Mas não gosto que seja objetiva demais. Não sei. Acho que não gosto quando a pessoa é objetiva o tempo todo. Os garotos que conseguiam as melhores notas em Expressão Oral eram objetivos o tempo todo, isso eram. Mas tinha um garoto, o Richard Kinsella. Ele não era muito objetivo e a turma vivia gritando "Digressão !" quando ele falava. Era horrível. Primeiro porque ele era um cara muito nervoso. Isso mesmo, nervosíssimo – e, quando chegava a hora de falar, os lábios dele começavam a tremer e, do fundo da sala, a gente mal conseguia ouvir o que ele estava dizendo. Mas, quando os lábios dele paravam um pouco de tremer, eu gostava dos discursos dele mais do que os de qualquer outro sujeito. Ele também quase foi reprovado. Passou raspando, porque a turma vivia gritando "Digressão !" para ele. Por exemplo, ele fez um discurso sobre uma fazenda que o pai dele tinha comprado em Vermont. O tempo inteirinho que ele falou a turma ficou gritando "Digressão !" e o professor, um tal de Vinson, deu-lhe uma nota ruim pra diabo porque ele não contou que espécie de animais e legumes e outros troços tinha lá na fazenda e tudo. Sabe o quê que ele fazia? Começava contando essas coisas todas e aí, de repente, começava a falar de uma carta que a mãe dele tinha recebido do tio, e que o tio teve poliomielite e tudo aos quarenta e dois anos de idade, e se recusava a receber visitas no hospital porque não queria que ninguém o visse com a perna na tipoia. Não tinha muita ligação com a fazenda, concordo, mas era simpático. É um troço simpático quando alguém fala de um tio. Principalmente quando começa a falar da fazenda do pai e, de repente, fica mais interessado no tio. O negócio é que eu acho uma sujeira começarem a gritar "Digressão !" pra um sujeito quando ele está todo embalado num assunto... Não sei. É difícil de explicar.
Eu nem estava com muita vontade de tentar. Em parte por causa daquela dor de cabeça desgraçada. Pedi a Deus que a senhora Antolini chegasse com o café. Se há uma coisa que me aporrinha é isso, quando alguém diz que o café está pronto e não está pronto coisa nenhuma.
Holden... Uma perguntinha pedagógica e um pouquinho batida. Você não acha que há um tempo e um lugar para tudo na vida? Você não acha que, se alguém começa a falar sobre a fazenda do pai, deve aguentar a mão e, depois, arranjar um jeito de falar sobre a tipoia do tio? Ou, então, se a tipoia do tio é um assunto tão fascinante, ele não devia tê-lo escolhido logo como tema da exposição, em vez da fazenda?
Eu não estava com muita vontade de pensar e responder e tudo. Estava com dor de cabeça e me sentia podre. Estava até com um pouco de dor de barriga, para falar a verdade.
Acho... Sei lá. Acho que sim. Quer dizer, acho que devia ter escolhido o tio como tema, em vez da fazenda, se isso era mais interessante para ele. Mas o caso é que, muitas vezes, a gente só descobre o que interessa mais na hora que começa a falar sobre uma coisa que não interessa muito. Quer dizer, às vezes a gente não consegue evitar isso. O que eu acho é que a gente deve deixar em paz uma pessoa que começa a contar uma estória, se a estória é pelo menos interessante e o sujeito se anima todo com o assunto. Gosto de ver uma pessoa ficar toda animada com o assunto. É bonito. O senhor não conhece esse professor, o tal do Vinson. Ele às vezes deixava a gente maluco, ele e a droga da turma. Vivia dizendo à gente para unificar e simplificar. Há coisas que a gente simplesmente não pode fazer assim. O negócio é que a gente quase nunca consegue simplificar e unificar um troço, só porque alguém mandou. O senhor não conhece esse camarada, o Professor Vinson. Era muito inteligente e tudo, mas estava na cara que era meio tapado.
Café, senhores, enfim – disse a senhora Antolini. Entrou com uma bandeja com café e bolos e outros troços. – Holden, nem olhe na minha direção. Estou uma coisa.
Como vai a senhora? – falei. Fiz menção de me levantar e tudo, mas o Professor Antolini me segurou pelo paletó e me obrigou a sentar. Ela estava com a cabeça cheia desses rolos de ondular cabelo e sem um pingo de pintura. Não estava nada bonita. Parecia um bocado velha e tudo.
Vou deixar isso aqui. Sirvam-se à vontade – falou. Pôs a bandeja na mesinha do centro, empurrando para o lado um montão de copos. – Como vai sua mãe, Holden?
Muito bem, obrigado. Não a tenho visto ultimamente, mas a última vez…
Querido, se o Holden precisar de alguma coisa, está tudo no armário da roupa de cama. Prateleira de cima. Vou me deitar. Estou exausta – ela disse. E dava impressão de estar mesmo. – Será que vocês dois sabem arrumar o sofá sozinhos?
Pode ir dormir descansada que nós cuidamos de tudo – o Professor Antolini respondeu. Deu um beijo nela, ela me disse até logo e foi para o quarto. Os dois viviam se beijando em público.
Tomei meia xícara de café e comi metade de um pedaço de bolo, mais duro do que pedra. O Professor Antolini se contentou com outro drinque, e forte à beça. Se ele não tomar cuidado ainda acaba viciado.
Almocei com o seu pai há umas duas semanas – ele falou de repente. – Você sabia?
Não, não sabia.
Você não ignora, naturalmente, que ele anda muito preocupado com você.
Sei disso. Sei que anda.
Tudo indica que, antes de me telefonar, ele tinha recebido uma carta enorme e bastante perturbadora do seu último diretor, informando que você não estava fazendo o mínimo esforço. Matando aulas. Não preparando as lições. Em suma, sendo um completo...
Não matei aula nenhuma. Não havia jeito. De vez em quando eu deixava de assistir às aulas de umas duas matérias, como a tal de Expressão Oral que eu falei antes. Matar mesmo, não matei...
Não estava com a menor vontade de discutir o troço. Minha dor de barriga tinha diminuído um pouco com o café, mas aquela dor de cabeça miserável, continuava.
O Professor Antolini acendeu outro cigarro. Ele fumava como uma chaminé. Aí falou:
Francamente, Holden, não sei o que lhe dizer.
Eu sei. É difícil falar comigo. Compreendo.
Tenho a impressão de que você está caminhando para alguma espécie de queda... uma queda tremenda. Mas, honestamente, não sei de que espécie... Está me ouvindo?
Estou.
A gente via logo que ele estava procurando se concentrar e tudo.
Talvez da espécie que faz com que a gente, aos trinta anos, se sente num bar e odeie todo mundo que entra com jeito de quem jogou futebol numa universidade. Ou, então, você conseguirá instruir-se o bastante para odiar todo mundo que diz: "É um segredo entre mim e você". Ou talvez acabe em algum escritório, atirando clipes na taquígrafa mais próxima. Não sei mesmo. Mas você entende o que estou querendo dizer, não entende?
Entendo – respondi. E entendia mesmo. – Mas o senhor se engana sobre esse negócio de odiar os jogadores de futebol e tudo. O senhor se engana mesmo. Não tenho raiva de muita gente. Pode ser que, de vez em quando, eu odeie alguns sujeitos durante algum tempo, como esse cara que eu conheci no Pencey, o Stradlater, ou esse outro sujeito, o Robert Ackley. De vez em quando eu tinha ódio deles, confesso, mas isso não dura muito, esse é que é o caso. Depois de algum tempo, se eu não os visse, se não vinham ao meu quarto, ou se eu passava umas duas refeições sem encontrar com eles no refeitório – chegava a sentir falta deles. É isso mesmo, chegava a ficar com saudade deles.
O Professor Antolini ficou uns dois minutos em silêncio. Levantou-se, apanhou outro pedaço de gelo, deixou cair no copo e aí sentou de novo. Via-se que ele estava pensando. Fiquei torcendo para que ele deixasse a conversa para outro dia, em vez de continuar naquela hora, mas ele estava embalado. Em geral, as pessoas se esquentam numa discussão na hora que a gente está mais frio.
Está bem. Agora, escuta aqui um momento... Pode ser que eu não consiga expressar isso tão bem quanto eu gostaria, mas escrevo uma carta para você amanhã ou depois explicando tudo. Aí você vai entender direitinho. De qualquer maneira presta atenção agora.
Começou a se concentrar outra vez, e aí disse:
Esta queda para a qual você está caminhando é um tipo especial de queda, um tipo horrível. O homem que cai não consegue nem mesmo ouvir ou sentir o baque do seu corpo no fundo. Apenas cai e cai. A coisa toda se aplica aos homens que, num momento ou outro de suas vidas, procuram alguma coisa que seu próprio meio não lhes podia proporcionar. Ou que pensavam que seu próprio meio não lhes poderia proporcionar. Por isso, abandonam a busca. Abandonam a busca antes mesmo de começá-la de verdade. Tá me entendendo?
Sim, senhor.
Está mesmo?
Estou sim.
Levantou-se e despejou mais um pouco de bebida no copo. Aí se sentou de novo. Ficou um bocado de tempo sem dizer nada.
Não quero te assustar – ele disse – mas vejo você, com toda a clareza, morrendo nobremente, de uma forma ou de outra por uma causa qualquer absolutamente indigna.
Me olhou de um jeito engraçado.
Se eu escrever umas palavras para você, promete que vai ler cuidadosamente? E guardar?
Prometo, sim – respondi. E era verdade. Até hoje guardo o papel que ele me deu.
Foi até a escrivaninha, no outro lado da sala, e escreveu alguma coisa num pedaço de papel, sem se sentar. Aí voltou e se sentou, com o papel na mão.
Por estranho que pareça, isso não foi escrito por um poeta. Foi escrito por um psicanalista chamado Wilhelm Stekel. Aqui está o que ele... Você ainda está me ouvindo?
Claro que estou.
Aqui está o que ele disse: "A característica do homem imaturo é aspirar a morrer nobremente por uma causa, enquanto que a característica do homem maduro é querer viver humildemente por uma causa".
Inclinou-se e me passou o pedaço de papel. Li imediatamente o que estava escrito, agradeci e tudo, e guardei o papel no bolso. Foi muito simpático da parte dele incomodar-se tanto por minha causa. Foi mesmo. Mas a verdade é que eu não estava realmente com muita vontade de me concentrar. Puxa, nunca me senti tão cansado, assim de repente.
Mas ele não dava a menor impressão de cansaço. Em parte porque estava bastante alto.
- Acho que um desses dias - ele falou - você vai ter que decidir para onde quer ir. E aí vai ter que começar a ir para lá. E sem perda de tempo. No seu caso, não se pode perder um minuto que seja.
Concordei com a cabeça, porque ele estava me encarando e tudo, mas não estava entendendo muito bem o que ele disse. Eu achava que sabia o que era, mas, naquele momento, não tinha certeza absoluta. Estava cansado pra diabo.
Detesto dizer isso, mas acho que, assim que você tiver uma ideia de onde quer chegar, seu primeiro passo vai ser aplicar-se no colégio. É o que você vai ter que fazer. Você é um estudante - quer a ideia lhe agrade ou não. Você está apaixonado pelo conhecimento. E eu acho que você vai encontrar, depois que deixar para trás todos esses Professores Vineses e suas composições e...
Vinsons – falei. Ele queria dizer todos os Professores Vinsons, e não todos os Professores Vineses. Mas eu não devia ter interrompido.
Está bem... os Professores Vinsons. Na hora em que você conseguir deixar para trás todos os Professores Vinsons, você vai começar a se aproximar cada vez mais – isto é, se você quiser, e se procurar, e se tiver paciência de esperar – da espécie de conhecimento que será muito, muito importante para você. Entre outras coisas, você vai descobrir que não é a primeira pessoa a ficar confusa e assustada, e até enojada, pelo comportamento humano. Você não está de maneira nenhuma sozinho nesse terreno, e se sentirá estimulado e entusiasmado quando souber disso. Muitos homens, muitos mesmo, enfrentaram os mesmos problemas morais e espirituais que você está enfrentando agora. Felizmente, alguns deles guardaram um registro de seus problemas. Você aprenderá com eles, se quiser. Da mesma forma que, algum dia, se você tiver alguma coisa a oferecer, alguém irá aprender alguma coisa de você. É um belo arranjo recíproco. E não é instrução. É história. É poesia.
Parou e tomou um longo gole do copo. Aí recomeçou. Puxa, ele estava embalado mesmo. Fiquei feliz por não ter tentado interrompê-lo nem nada.
Não estou querendo dizer que só os homens instruídos e cultos são capazes de contribuir com algo valioso para o mundo. Não é isso. O que eu quero dizer é que os homens instruídos e cultos, se de fato tiverem brilho e capacidade criadora – o que, infelizmente, é raro – tendem a deixar registros infinitamente mais valiosos do que aqueles que apenas têm brilho e capacidade criadora. Tendem a se expressar com mais clareza e, geralmente, têm a paixão de desenvolver seu pensamento até o fim. E – o que é mais importante – na grande maioria dos casos têm mais humildade do que o pensador menos culto. Você está me acompanhando?
Sim, senhor.
Ficou outra vez sem dizer nada por um tempão. Não sei se isso acontece com todo mundo, mas é meio chato a gente ficar sentado, esperando uma pessoa dizer alguma coisa, enquanto ela está pensando. É duro mesmo. Fiquei me esforçando para não bocejar. Não que eu estivesse chateado ou coisa parecida – não estava – mas de repente me deu um sono filho da mãe.
Há outra coisa que uma educação acadêmica poderá proporcionar a você. Se você prosseguir nela por um tempo razoável, ela acabará lhe dando uma ideia das dimensões da sua mente. Do que ela comporta e, talvez, do que ela não comporta. Depois de algum tempo, você vai ter uma ideia do tipo de pensamento que sua mente deve abrigar. A vantagem disso é que talvez lhe poupe uma enormidade de tempo, que você perderia experimentando ideias que não se ajustam a você, não combinam com você. Você começará a conhecer as suas medidas exatas, e vestirá sua mente de acordo com elas.
Aí, de repente, bocejei. Era o tipo da grossura, mas não pude evitar.
Mas o Professor Antolini só fez rir.
Vamos – ele disse, e se levantou. – Vamos arrumar o sofá.
Eu o acompanhei até o armário. Ele tentou tirar alguns lençóis e cobertores da prateleira de cima, mas, com o copo na mão, não conseguia. Por isso, bebeu o que restava, pôs o copo no chão e aí tirou os troços. Ajudei-o a trazer tudo para o sofá e fizemos a cama juntos. Ele não tinha muito jeito para a coisa. Não sabia esticar e prender nada direito. Mas não me importei. Estava tão cansado que seria capaz de dormir em pé.
Como vão as suas mulheres todas?
Vão indo – respondi. Em matéria de conversa eu estava uma droga, mas não queria me esforçar.
Como vai a Sally?
Ele conhecia a Sally. Eu a tinha apresentado a ele uma vez.
Vai bem. Saí com ela hoje de tarde – falei. Puxa, até parecia que tinham passado uns vinte anos. - Quase não temos mais nada em comum.
Ela é uma garota bonita pra burro. E aquela outra menina? Aquela de quem você me falou, do Maine?
Ah, sei... a Jane Gallagher. Ela é uma boa garota. Acho até que vou dar um telefonema para ela amanhã.
A essa altura já tínhamos acabado de fazer a cama.
É toda tua – ele disse. – Não sei que diabo você vai fazer com tanta perna.
Não tem importância. Já estou acostumado a dormir em camas curtas – respondi. – Muito obrigado. O senhor e a senhora Antolini salvaram mesmo a minha vida hoje.
Você sabe onde é o banheiro. Se precisar de alguma coisa, basta dar um berro. Vou ficar ainda um bocadinho na cozinha... A luz te incomoda?
Não, nem um pouquinho. Muito obrigado.
Está bem. Boa noite, bonitão.
Boa noite, Professor. Muito obrigado.
Ele foi para a cozinha e eu tirei a roupa no banheiro. Não pude escovar os dentes porque não havia trazido escova. Também não tinha pijama, e o Professor Antolini se havia esquecido de me emprestar um. Voltei para a sala, apaguei o abajur junto do sofá e me deitei só de cuecas. O sofá era um bocado pequeno para mim, mas na verdade eu seria capaz de dormir em pé, sem pestanejar. Fiquei acordado só uns dois segundos, pensando nos troços que o Professor tinha dito. Aquela estória de descobrir o tamanho da mente e tudo. Ele era mesmo um camarada inteligente pra chuchu. Mas não consegui ficar com a droga dos olhos abertos e peguei no sono.
Aí aconteceu um troço. Não gosto nem de falar no assunto.
Acordei de repente. Não sei que horas eram nem nada, só sei que acordei. Senti uma coisa na minha cabeça, a mão de uma pessoa. Puxa, fiquei apavorado pra diabo. Num instante vi que era a mão do Professor Antolini. Sabe o quê que ele estava fazendo? Estava sentado no chão, ao lado do sofá, no escuro e tudo, e estava assim me fazendo festinha ou um carinho na cabeça. Puxa, devo ter dado um pulo duns mil metros.
Que negócio é esse?
Nada, estou sentado aqui, admirando...
Quê que , afinal? – perguntei de novo. Não sabia que droga ia falar, estava confuso pra burro.
Que tal falar um pouquinho mais baixo? Estou só sentado aqui...
Está mesmo na hora de ir embora – falei. Puxa, como eu estava nervoso. Comecei a vestir a porcaria das minhas calças no escuro. Quase não acertava, de tão nervoso. Conheço mais tarados, nas escolas e tudo, do que qualquer pessoa, e eles sempre resolvem ser tarados na hora que eu estou por perto.
Onde é que você tem que ir? – ele me perguntou. Estava tentando aparentar muita naturalidade e controle e tudo, mas não estava natural coisíssima nenhuma. No duro.
Deixei minha bagagem e tudo na estação. Acho melhor ir buscar. Todos os meus troços estão lá dentro.
As malas vão estar no mesmo lugar amanhã de manhã. Agora trata de voltar para a cama. Também vou me deitar. Quê que houve com você?
Nada. Só que todo o meu dinheiro e meus troços estão nas malas. Volto daqui a pouco. Apanho um táxi e volto num instante – falei. Puxa, estava me embaralhando todo, no escuro. - O problema é que o dinheiro não é meu, é da minha mãe, e eu...
Não seja ridículo, Holden. Volta para a cama. É o que eu vou fazer também. O dinheiro está bem seguro até de manhã...
Não, fora de brincadeira, tenho que ir. Tenho mesmo.
Tinha quase acabado de me vestir, só que não achava a gravata. Não me lembrava onde tinha deixado a droga da gravata. Vesti o paletó e tudo, sem ela mesmo. O Professor Antolini estava sentado agora na poltrona grande, um pouco afastado de mim, me espiando. Estava escuro e tudo e não dava para vê-lo direito, mas eu sabia que ele estava me olhando, sem a menor dúvida. E também continuava bebendo. Dava para ver, na mão dele, o copo de estimação.
Você é um garoto muito estranho. Muito estranho mesmo.
Sei disso – respondi. Nem me dei ao trabalho de procurar muito pela gravata. Fui embora sem ela. – Até logo, Professor. Muito obrigado. Fora de brincadeira.
Ele me acompanhou até a saída e, quando chamei o elevador, continuou parado na droga da porta. Ficou só repetindo aquela estória de que eu era "um garoto muito estranho, muito estranho mesmo". Estranho uma ova. Ele ficou esperando a titica do elevador chegar. Juro que nunca vi um elevador demorar tanto em toda a droga de minha vida. Eu não sabia que porcaria ia dizer enquanto o elevador não vinha, e ele continuava ali, em pé, por isso falei:
Vou começar a ler uns bons livros. Vou mesmo.
O negócio é que eu tinha que dizer alguma coisa.
Era uma situação embaraçosa pra burro.
Apanha tua bagagem e volta correndo pra cá. Vou deixar a porta só encostada.
Muito obrigado. Até logo!
Até que enfim o elevador tinha chegado. Entrei e desci. Puxa, eu estava tremendo feito um desgraçado. E suando também. Quando me acontece um troço assim meio tarado, começo a suar como um filho da mãe. Esse tipo de coisa já me aconteceu mais de vinte vezes, desde que eu era garotinho. Não aguento isso.

J. D. Salinger, em O Apanhador no Campo de Centeio