domingo, 3 de maio de 2026

O guitarrista brasileiro Andryel Jung e sua versão para Bohemian Raphsody

 

Loucura diferente

A obra de arte é um ato de loucura do criador. Só que germina como não loucura e abre caminho. É, no entanto, inútil planejar essa loucura para chegar à visão do mundo. A pré-visão desperta do sono lento da maioria dos que dormem ou da confusão dos que adivinham que alguma coisa está acontecendo ou vai acontecer. A loucura dos criadores é diferente da loucura dos que estão mentalmente doentes. Estes, entre outros motivos que desconheço, erraram no caminho da busca. São casos para médicos, enquanto os criadores se realizam com o próprio ato de loucura.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Calvin

Dois vocativos

A maravilha dá de três cores:
branca, lilás e amarela,
seu outro nome é bonina.
Eu sou de três jeitos:
alegre, triste e mofina,
meu outro nome eu não sei.
Ó mistério profundo!
Ó amor!

Adélia Prado, em O Coração Disparado

O enganado

Alguma coisa ia lhe acontecer. Trinta e sete anos, saúde perfeita, ganhando dinheiro como nunca — alguma coisa estava errada. O mundo todo em crise e ele ali, sem um problema. Ou com um problema só: a ausência de problemas.
Alguma estavam lhe preparando. Ia ter um enfarte fulminante. Perder o emprego. Perder uma perna. Estava tudo bem demais. Ele era o único homem da sua idade com os quatro avós ainda vivos! Aquilo não era natural. Alguma estavam lhe preparando. E não demoraria.
Alguém sentou ao seu lado no bar e disse:
Você não me conhece.
Era um homem bonito, mais moço do que ele. O homem estendeu a mão e se apresentou.
Eu sou o Carlos.
Muito prazer...
Sua mulher deve ter lhe falado a meu respeito.
Não, não falou.
O homem fez uma cara de desapontamento. Disse:
Ela me prometeu que lhe contaria tudo. Assim fica mais difícil...
Ele sentiu, com alívio, que sua tragédia chegava. Então era isso. Sua mulher o enganava. Era melhor do que um enfarte.
Quem sabe você mesmo me conta tudo, Carlos?
Bom, não há muito para contar. Nos conhecemos...
Onde?
Estava tomado por uma espécie de volúpia de sofrimento. Queria saber tudo. Queria ser arrasado pelos detalhes.
Num shopping.
Ele gemeu baixinho. Perfeito. Nas suas intermináveis tardes fazendo compras enquanto ele trabalhava, ela também namorava. Carlos continuou:
Aconteceu. Não pudemos evitar. Ela me ajudou a escolher uma gravata, começamos a conversar e... Aconteceu.
Há quanto tempo vem acontecendo?
Três meses.
Motéis?
Às vezes. E no meu apartamento, quando mamãe não está.
Ele tentou visualizar sua mulher num motel com aquele homem. A mãe dos seus filhos numa cama redonda e refletida no espelho do teto, com outro. O banho de óleos. Teria banho de óleos? As tardes de loucura e prazer. Era demais. Ele não aguentava! Pediu mais detalhes.
A iniciativa foi dela?
Não, minha. Ela resistiu bastante.
Não tente me consolar — suplicou ele.
Decidimos que você precisava saber. Ela lhe respeita demais. Aceita o divórcio, a separação dos filhos...
Sim, sim. Os filhos. Teria que ser pai e mãe para eles. Apoiá-los para que vencessem o trauma da separação. Sua vida seria um inferno dali para diante. Não se suicidaria para poupar as crianças e sempre protegeria o nome da mulher na frente deles. Mas por dentro estaria destruído.
A Cláudia ia lhe falar sobre nós ontem, mas acho que não teve coragem. Ela me contou que você vinha sempre a este bar por esta hora e...
Que Cláudia?
Como, que Cláudia? A sua mulher.
A mulher dele se chamava Sônia.
Que foi? — perguntou Carlos.
Nada, nada.
Escute, Raul. Você deve reagir. Não é o fim do mundo. Eu sinto muito, mas divórcios acontecem a toda hora. Vá para casa, converse com a Cláudia...
Olhe aqui. Eu não preciso dos seus conselhos, entendeu? Você já fez a sua parte, destruindo o meu lar, destruindo a minha vida. Agora é comigo. Dê o fora antes que eu...
Carlos deu o fora. Ele chamou o barman e pediu outro uísque. Duplo. Era a primeira vez que repetia o uísque desde que começara a frequentar o bar. O barman estranhou:
Problema, seu Mário?
Ele não se conteve. Quase soluçando, com os olhos cheios de lágrimas, respondeu:
Acabei de saber uma coisa terrível. Finalmente!

Luís Fernando Veríssimo, em Diálogos Impossíveis

Quinto capítulo — O fazedor de rios



Muidinga pousou os cadernos, pensageiro. A morte do velho Siqueleto o seguia, em estado de dúvida. Não era o puro falecimento do homem que lhe pesava. Não nos vamos habituando mesmo ao nosso próprio desfecho? A gente vai chegando à morte como um rio desencorpa no mar: uma parte está nascendo e, simultânea, a outra já se assombra no sem-fim. Contudo, no falecimento de Siqueleto havia um espinho excrescente. Com ele todas as aldeias morriam. Os antepassados ficavam órfãos da terra, os vivos deixavam de ter lugar para eternizar as tradições. Não era apenas um homem mas todo um mundo que desaparecia.
Tuahir parecia alheio a estas tristezas. Estavam ambos sentados na sombra de uma massaleira. Um vento soprava e os frutos se embatiam, em múltiplos batuques. Uma vez mais, a paisagem mudara seus tons e tamanhos. O arvoredo era mais baixo embora mais cheio. A humidade crescia, devia haver uma aguinha a correr perto. Tinham saído do autocarro na madrugada desse dia mas andaram apenas em círculos para não se afastarem muito da sua moradia. O velho fez sinal para retomarem caminho. Seguia à frente, suave como ave. Era seu jeito de calcorrear, pés matreiros, felinamente. Dessa vez, porém, ele se dispunha com boa qualidade, lembrando seus antigos namoros.
Se um dia se casar-se, Muidinga, escolha mulher feiona, dessas que os outros nunca invejam.
Nem que fizesse como Rafaelão, seu primo familiar, que escolheu a moça mais bela e, depois, lhe foi pondo defeito por cima de defeito. Um dia lhe riscava o rosto, outro lhe cortava os cabelos, outro ainda lhe queimava a pele. A pobre mulher era de divulgar sustos.
Deus, tanta maldade!
É, a mulher lhe dava trabalhos muito diários.
Súbitos ruídos os interrompem, mais diante. Parecem vozear de gente, nas traseiras de um pequenito monte. Sobem, com cuidado. Era um homem que, do outro lado da encosta, abria um imenso buraco, facholando com afinco. A cova era tão funda e comprida que parecia que a intenção dele era partir o mundo em dupla metade.
Gritam, pedindo-lhe atenção. Do fundo do buraco o desconhecido faz sinais com a mão, mostrando que deveriam esperar. Vai subindo com vagares, demorado como se fosse cobra procurando os pés. Ao chegar perto, se afina e, sem mais nem porquê, corre para Tuahir. Se abraçam, amistosos. Muidinga olha, sem compreensão.
Este é Nhamataca. Trabalhámos juntos, no tempo colonial.
Se cumprimentam rodando as mãos sobre os polegares, à maneira da terra. Os dois velhos amigos se sentam, fiando conversa, recordando os tempos.
Sabe, Muidinga? Nós dois éramos empregados do mesmo patrão.
Cada um puxa a sua lembrança, em suave escorrer, rindo mesmo dos mais tristes momentos. O miúdo lhes chama ao presente. Quer saber o que animava Nhamataca, covando assim.
Estou a fazer um rio, responde o outro.
Riem-se, o rapaz e Tuahir. Mas o homem insiste, no sério. Sim, por aquele leito fundo haveria de cursar um rio, fluviando até ao infinito mar. As águas haveriam de nutrir as muitas sedes, confeitar peixes e terras. Por ali viajariam esperanças, incumpridos sonhos. E seria o parto da terra, do lugar onde os homens guardariam, de novo, suas vidas.
Estava tão seguro que começara por escavar no chão da própria casa. Ruíram as paredes, desabou-se o tecto. Os seus se retiraram em dúvida da sua sanidade. Idos os próximos, irados os distantes. O sujeito desafiava os deuses que aprontaram o mundo para os viventes dele só se servirem, sem ousarem mudar a sua obra. Mas Nhamataca não desistiu, covando no dia a noite. Foi seguindo, serpenteando entre vales e colinas, suas mãos deitando e renovando mil vezes as sangradas e calejadas peles. E agora, sentado na ribanceira, guarda com vaidade a sua construção. Aponta o fundo:
Vejam: já esponta um fioziozito de água.
Tal aguinha nem se via. Havia, quando muito, um suor na areia do fundo. Mas os visitantes não contrariam.
E nome que ele vai ter?
Nome que dera ao rio: Mãe-água. Porque o rio tinha vocação para se tornar doce, arrastada criatura. Nunca subiria em fúrias, nunca se deixaria apagar no chão. Suas águas serviriam de fronteira para a guerra. Homem ou barco carregando arma iriam ao fundo, sem regresso. A morte ficaria confinada ao outro lado. O rio limparia a terra, cariciando suas feridas.
Você, Muidinga, não se admire. Afinal, Nhamataca cumpre destino igual ao pai dele.
Com a licença do outro, Tuahir recorda a estoriazinha do pai do fazedor de rios. O homem vivia só, se lamentando: antes mal acompanhado! Habitava na esteira de um rio largo, tão largo que deitava a pequeno qualquer tamanho da outra margem. Lhe doía a vida, indevida em um só indivíduo. Não haveria outra humanidade neste extenso mundo? Até que um dia, do outro lado das águas, lhe pareceu chegar uma voz. Havia um cacimbo cheio, era a estação das brumas. O velho se ergueu e espreitou a lonjura. Lá estava: do outro lado, o esbatente vulto de um gentículo. Deste lado, o pai gritou também. Não entendia rabisco que o outro dizia. Mas ripostava, com ânsia, antes que a miragem, desiludida, desaparecesse. Durante dias, se repetiu a troca de berros, até ao arrebatamento das vozes se converterem uma em outra, sem nenhuma palavra se ter tornado entendível. O velho todo o dia suspirava pelo momento de gritar. Um dia, contudo, o outro se demorou. Um estremecimento lhe arrepiou a tristeza. Ele já sofria de afeição demasiada pelo desconhecido, fosse a saudade de um irmão ainda por nascer. Manobrou, então, um pressentimento: e se, nos anteriores dias, o outro lhe tivesse tentado avisar de qualquer tragédia que estivesse por acontecer? Ou se o outro estivesse doente, necessitado de um braço amigo?
Decidiu então improvisar uma jangada, depressou-se na sua construção. E se lançou nas vagas, transversando a corrente. Em meio da jornada reparou como havia sido grande sua ousadia. E as ondas cresceram, grandes que ele nunca vira. A barcaça não resistia, o caudal do rio a ver com quantos paus se desfaz uma canoa. A água já embarcara, aos bocejos, na almadia. O pai de Nhamataca afundava, sem remédio. Nesse instante, porém, ele viu que um outro barquito avançava em sua direcção. Olhou: era o vulto da outra margem que acorria em rumo avesso, direito a o salvar. Braços fortes o puxaram e ele se anichou, encharquilhado na outra embarcação. Foi então que, desfeitas bruma e lonjura, descobriu que o personagem do outro lado era uma mulher, dona de incendiada beleza. Tudo o resto se passou em silêncio como se perto já não se escutassem. O amor que trocaram é assunto para duas vidas inteiras, abandonadas para sempre num barquito sem rumo.
Nasci num barco, sou filho das águas, sorri Nhama-taca a fechar a estória.
E adianta lição: nenhum rio separa, antes costura os destinos dos viventes. A prova era o seu nascimento. Agora, ao gerar um rio, Nhamataca paga uma dívida para com um tempo mais antigo que o passado. Talvez que um novo curso, nascido a golpes de sua vontade, traga de volta o sonho àquela terra mal amada.
Nós te ajudamos, Nhamataca.
Para Muidinga aquele é um projecto demasiado louco. Melhor é virarem costas às razões de Nhamataca, pouco importando que fossem ou não verdade. Ele e o velho tinham outras intenções, não se podiam desviar por irrealidades. Tuahir negou. Ele acha que devem juntar braços com o fazedor de rios. Tuahir tinha argumento de uma vantagem: quem sabe pudessem aproveitar o nascente rio? A viagem deles se tornaria curta, menos custosa.
Em vez de esperarmos na estrada, fazemos o nosso caminho.
Muidinga acede. Durante dias covam no consistente chão. Não avançam muito porque uma zona pedregosa se entrepõe. O miúdo já tem as palmas da mão a sangrar e lhe despontam dúvidas para um tal sacrifício. Fazer um rio? Esperto é o mar que, em vez da briga, prefere abraçar o rochedo. Muidinga volta a mudar de ideias sobre o empreendimento. Fala com Tuahir, à parte. Lhe faz ver a loucura de Nhamataca. Mas seu companheiro se nega a dar audição.
Desculpa, Muidinga. Nhamataca não está maluco, não. O homem é como a casa: deve ser visto por dentro!
Nessa noite, uma trovoada estoura, com rebentações jamais vistas. A tempestade cresce como o pão na quentura do forno. Os relâmpagos circuitam a noite, tricotando a noite com súbitos fios de luz. Começa uma chuva torrencial, parecia o universo se dissolvia. Os três se perdem em correrias a procurar a impossível direcção de um abrigo. O rapaz grita para que se juntem. Ficam, tremendo, trocando os braços, comunhando um descontrolado medo. De repente, Nhamataca se alerta, apontando o intermitente chão. Havia um sulco que se enchia.
O rio, é o rio!
Nhamataca festeja o nascimento como se fosse um fruto de sua carne. Larga o abraço dos outros, se acerca do febrilhante ribeiro. Ergue os braços ao céu, pedindo luz. Ele quer afagar sua nascente obra. Muidinga e Tuahir clamam para que preste cuidado mas ele se ocupa dando vivas ao vindouro. Seu corpo convulso é visível apenas nos breves e entrecortados instantes dos raios. A memória do acontecido se fará assim por soluços, Nhamataca tombando na torrente do furioso regato. O velho e o moço querem segurar o corpo do covador, mas a corrente, redemoníaca, cresce em fúrias desordenadas. E Nhamataca desaparece, misturado nas súplicas dos outros, o trovejar dos céus e o gorgolejar do rio, seu descendente. Tuahir ainda segue a tentar vislumbrar sua reaparição mas as margens se esboroam, fareladas. O leito se iguala ao resto da savana, as terras fugindo na torrente. Se houve obra de um homem foi apenas um rio de pouca dura.
Chove toda a manhã com tal empenho que, para não se perderem, Muidinga e Tuahir vagueiam de mãos dadas. Ao meio-dia a chuva pára. O sol se empina no céu, com tamanha vingança que, num instante, chupa os excessos de água sobre a savana. A terra sorve aquele dilúvio, enxugando o mais discreto charco. No inacreditável mudar de cenário, a seca volta a imperar. Onde a água imperara há escassas horas, a poeira agora esfuma os ares. Ouve-se o tempo raspando seus ossos sobre as pedras. Em toda a savana o chão está deitado, sem respirar. A cauda do vento se enrosca longe. Até o capim que nunca tem nenhuns pedidos, até o capim vai miserando.
Muidinga olha a paisagem e pensa. Morreu um homem que sonhava, a terra está triste como uma viúva. Tuahir vagueia em roda procurando encontrar um modo de regressar à estrada. O rapaz confia no entendimento que o velho tem sobre as pedras, em seu atento ler nas folhagens. Tuahir é capaz de saudar um carreiro onde ninguém mais descobre caminho. O mato é a sua cidade.
Agora, porém, os dois parecem vagabundear sem direcção. A fome começa a pedir deferimento. Dia após dia, avançam num círculo, rodopeões. Muidinga começa a desconfiar das certezas do seu guia.
Nos perdemos, Tuahir?
Perder? Nunca, miúdo.
Ele pensamenta, fiando conversa. O que é perder-se, ao fim ao cabo? Muita gente, acreditando ter a certeira direcção, nasce já equivocada. E continua barateando prosa. Quem sabe desejasse só distrair o jovem, para que ele não tomasse a sério o destino. O tempo passa, cai a noite. Os dois viajantes se deitam no relento. O velho não alcança o sono.
Não dorme, tio?
Não. Desconsigo de dormir.
É por causa do homem do rio.
Nada. Nem lembro isso. É que sinto falta das estórias.
Quais estórias?
Essas que você lê nesses caderninhos. Esse fidamãe desse Kindzu já vive quase connosco.
Deixei os cadernos lá no machimbombo. Mas eu já li outro caderno, mais à frente. Lhe posso contar o que diz, quase sei tudo de cabeça, palavra por palavra.
Fala devagarinho para eu compreender. Se adormecer, não pára. Eu lhe ouço mesmo dormindo.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

sábado, 2 de maio de 2026

Construção | Chico Buarque

Passarinho empalhado

Quem te empoleirou lá no alto do chapéu da contravó, tico-tico surubico? Tão triste... tão feio... tão só... Meu tico-tiquinho coberto de pó... E tu que querias fazer o teu ninho na máquina do Giovanni fotógrafo!

Mário Quintana, em Sapato Florido

Hagar, o Horrível

Diário de Bernardo Soares

104.

Nenhuma ideia brilhante consegue entrar em circulação se não agregando  a si qualquer elemento de estupidez. O pensamento coletivo é estúpido porque é coletivo: nada passa as barreiras do coletivo sem deixar nelas, como real de água, a maior parte da inteligência que traga consigo.
Na mocidade somos dois: há em nós a coexistência da nossa inteligência própria, que pode ser grande, e a da estupidez da nossa inexperiência, que forma uma segunda inteligência inferior. Só quando chegamos a outra idade se dá em nós a unificação. Daí a ação sempre fruste da juventude — devida, não à sua inexperiência, mas à sua não-unidade.
Ao homem superiormente inteligente não resta hoje outro caminho que o da abdicação.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Páginas de guarda

Carta a Paul Verlaine

Paciente como um alquimista, sempre imaginei e tentei algo diferente, e estaria disposto a sacrificar toda satisfação e vaidade por isso, da mesma forma como antigamente eles costumavam queimar os móveis e as vigas do teto para alimentar suas fornalhas em busca do magnum opus. O que é isso? Difícil dizer: apenas um livro em vários volumes, um livro que é verdadeiramente um livro, arquitetonicamente sólido e premeditado, e não uma coleção de inspirações casuais, por mais maravilhosas que possam ser. [...]
Eis aqui, meu amigo, a confissão pura desse vício que tenho rejeitado mil vezes [...] Mas ele me domina, e eu talvez ainda tenha êxito, não na conclusão dessa obra como um todo (seria preciso ser Deus sabe quem para tanto!), mas na apresentação de um fragmento bem-sucedido [...] provando através de porções terminadas que esse livro realmente existe e que eu tinha consciência do que não era capaz de realizar.
16 de novembro de 1869

Stéphane Mallarmé, em Uma História da Leitura, de Alberto Manguel

1620 – Madrid





As danças do Diabo vêm da América

Graças ao cadáver de São Isidro, que nas últimas noites dormiu ao seu lado, o rei Felipe III sente-se melhor. Este meio-dia comeu e bebeu sem se sufocar. Seus pratos favoritos acenderam seus olhos e esvaziou de um gole o copo de vinho.
Molha agora seus dedos na bacia de água que um pajem, ajoelhado, lhe oferece. O panetier estende o guardanapo ao mordomo de turno, o mordomo de turno passa o guardanapo ao mordomo principal. O mordomo principal se inclina frente ao duque de Uceda. O duque apanha o guardanapo. Inclinando a testa, o estende ao rei. Enquanto o rei seca as mãos, o trinchante sacode as migalhinhas de sua roupa e o sacerdote eleva uma oração de graças a Deus.
Felipe boceja, desabotoa o colarinho de rendas, pergunta o que há de novo.
O duque conta que vieram ao palácio os da Junta de Hospitais. Se queixam de que o público se nega a ir ao teatro desde que o rei proibiu os bailes; e os hospitais vivem dos teatros de comédias. “Senhor”, disseram os da Junta ao duque, “desde que não há bailes não há ingressos. Os doentes morrem. Não temos com que pagar as vendas ou os médicos”. Os atores recitam versos de Lope de Vega que elogiam o índio americano:

Taquitán mitanacuní,
espanhol daqui para lá...
Na Espanha não há amor,
creio-o assim:
lá reina o interesse,
e o amor reina aqui.

Mas da América o público exige cantorias salgadas e danças que põem fogo nos mais honestos. De nada vale que os atores façam as pedras chorar e os mortos rirem, nem que as artes de tramoia arranquem relâmpagos às nuvens de papelão. “Se os teatros continuam vazios”, gemem os da Junta, “os hospitais terão de fechar”.
Respondi-lhes – diz o duque – que Sua Alteza decidiria.
Felipe coça o queixo, investiga as próprias unhas.
Se Sua Majestade não mudou de parecer... O proibido, proibido está, e bem proibido.
A sarabanda e a chacona fazem brilhar os sexos na escuridão. O padre Mariana tinha denunciado estas danças, inventos de negros e de selvagens americanos, infernais nas palavras e nos gestos. Até nas procissões se escutam suas rimas de elogio ao pecado; e quando brotam seus sons lascivos dos pandeiros e castanholas, já não são donas de suas pernas as monjas dos conventos e a cócega do Diabo dispara suas cadeiras e ventres.
O olhar do rei persegue os andares de uma mosca gorda, folgazã, entre os restos do banquete.
E tu, o que opinas? – pergunta o rei à mosca.
O duque se dá por mencionado:
Estes bailes de impostores são música de festa de bruxas, como bem o disse Sua Majestade, e o lugar das bruxas está nas fogueiras da Praça Maior.
Os manjares desapareceram da mesa, mas persiste o aroma pegajoso no ar.
Balbuciante, ordena o rei à mosca:
Decida tu.
Nem o pior inimigo poderia acusar Sua Alteza de intolerância – insiste o duque. – Indulgente foi Sua Majestade. Nos tempos do rei seu pai, que o tenha Deus em sua glória...
Não és tu quem manda? – murmura Felipe.
...outros prêmios recebia quem ousasse bailar a sarabanda! Duzentos açoites e, depois, remar galeras!
Tu, digo – sussurra o rei, e fecha os olhos.
Tu – e uma bolotinha espumosa, saliva que sempre lhe sobra na boca, aparece entre seus lábios.
O duque insinua um protesto e em seguida se cala e retrocede nas pontas dos pés.
Felipe vai-se afundando em torpor, pesadas as pestanas, e sonha com uma mulher gorda e nua que devora baralhos.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

sexta-feira, 1 de maio de 2026

O Alívio | Oswaldo Montenegro

 

Brinquedos

Amigos me têm perguntado sobre as razões da minha mudança de estilo. Eu só escrevia crônicas com princípio, meio e fim. De repente, comecei a escrever fragmentos, como estes. Acontece que a cabeça é uma caixa de segredos onde se ajuntam os mais diferentes tipos de pensamentos. Alguns deles são tranqueiras mesmo e os jogo fora. (Mas já me arrependi muito de supostas tranqueiras que joguei fora para descobrir, muito mais tarde, que não eram tranqueiras...) Outros ficam lá dentro e vão ajuntando, enchendo minha canastra secreta. Não é possível transformá­-los todos em peças literárias porque o tempo é curto e o espaço também. Mas não tenho coragem de me livrar deles. Resolvi então retirá­-los da caixa em que estavam guardados e transformá­-los em brinquedos.

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

Canção de Mim Mesmo

4
 
Viajantes e inquiridores me rodeiam,
Pessoas que encontro, o efeito sobre mim de minha infância
Ou o distrito e a cidade em que vivo, ou a nação,
As últimas datas, descobertas, invenções, sociedades, autores velhos e novos,

Meu jantar, traje, parceiros, olhares, elogios, tributos,
A indiferença real ou fantasiada de algum homem ou mulher que amo,
A doença de um parente ou minha, ou malfeito ou perda ou falta de dinheiro, ou depressões ou exaltações,
Batalhas, os horrores da guerra fratricida, a febre de notícias duvidosas, os eventos incertos,
Estas coisas vêm a mim dias e noites e se vão de mim de novo, Mas elas não são o Eu mesmo.

Entre o puxar e arrastar fica o que sou,
Fica divertido, complacente, compassivo, ocioso, unitário,
Abaixa os olhos, está ereto, ou dobra um braço num certo repouso impalpável,
Olhando de lado, curioso, o que virá a seguir,
Dentro e fora do jogo e o assistindo e o admirando.

No meu próprio passado
Vejo onde transpirei pela névoa
Com linguistas e contendores,
Não tenho escárnios ou argumentos, eu presencio e espero.

Walt Whitman, em Folhas de Relva

A brasilidade no traço de Portinari

Banda de Música (1956), de Cândido Portinari

Duas histórias a meu modo

Uma vez, não tendo o que fazer, fiz uma espécie de exercício de escrever, para me divertir. E diverti-me. Tomei como tema uma dupla história de Marcel Aymé. Encontrei hoje o exercício, e é assim:
Boa história de vinho é a do homem que deste não gostava, e Félicien Guérillot, dono exatamente de vinhedos, era o seu nome – inventados nomes, homem e história por Marcel Aymé, e tão bem inventados que para ser verdade só da verdade careciam.
Viveria Félicien – se vivesse – em Arbois, terra de França, e casado com mulher que não era nem mais bonita nem mais bem-feita do que é necessário para a tranquilidade de um honesto homem. De boa família ele era, apesar de não gostar de vinho. E no entanto as melhores do lugar eram as suas vinhas. De nenhum vinho gostava, e em vão procurava aquele que o libertasse da maldição de não amar a excelência do que é excelente. Pois que mesmo na sede, que é hora de aceitar vinho, o melhor gole a ele sabia a coisa ruim. Leontina, a esposa que não era nem muito nem pouco, com ele ocultava de todos a vergonha.
A história, agora por mim inteiramente reescrita, continuaria muito bem e melhor ainda se a nós o seu núcleo pertencesse, pelas boas ideias que tenho de como terminá-la. Marcel Aymé, porém, que a começou, neste ponto da descrição do homem que não amava vinho parece que da história mesma se enojou. E ele próprio interferiu para dizer: mas de repente ela me chateia, essa história. E para desta escapar, como quem bebe vinho para esquecer, eis que o autor começa a falar de tudo o que poderia inventar a respeito de Félicien, mas que não inventará porque não quer. Lamenta muito, pois até chegaria a fazer com que Félicien fingisse tremor alcoólico a fim de esconder dos outros a falta de tremor. Bom autor, esse Marcel Aymé. Tanto que várias páginas gastou em torno do que ele mesmo inventaria se Félicien fosse pessoa que lhe interessasse. A verdade é que Aymé, enquanto vai contando o que inventaria, aproveita e conta mesmo – só que nós sabemos que não é, porque até no que se inventa não vale o que apenas seria.
E é nesse ponto que Aymé passa para outra história. Não querendo mais história de vinho triste, para Paris se muda, onde pega um homem chamado Duvilé.
E em Paris é o contrário: Etienne Duvilé, esse gostava de vinho mas não o tinha. Garrafa cara, e Etienne funcionário estadual. Bem que gostaria de se corromper mas vender ou trair o Estado não é ocasião que apareça todos os dias. A ocasião de todos os dias era uma casa cheia de filhos, e um sogro que de comer sem parar vivia. A família sonhando com mesa farta, e Duvilé com vinho.
E vai um dia Etienne sonha mesmo, com o que desejamos dizer que dessa vez enquanto sonhava dormia. Mas agora que o sonho deveríamos contar – pois que Marcel Aymé o faz e longamente – agora é a nós que ça vraiment nos chateia. Escamoteamos o que o autor quis narrar, assim como foi escamoteado pelo autor o que de Félicien queríamos ouvir.
Dir-se-á aqui apenas que Duvilé, após o sonho de um sábado, à noite, de muito piorou na sede. E o ódio pelo sogro mais uma sede parecia. E tanto foi tudo se complicando, sempre tendo como causa a falta original do vinho, que de sede quase mata o pai de sua esposa, que esta Aymé não explica se era ou não bem-feita, pelo visto nem sim nem não, só o vinho na história importa. De sonho dormido passou a sonho acordado, o que já é doença. E queria Duvilé beber todo o mundo, e no distrito policial manifestou desejo de beber o comissário.
Permanece até hoje Duvilé no asilo de alienados, e não se vê hora dele sair, já que os médicos, não lhe entendendo o espírito o submetem à cura de excelente água mineral que estanca sedes pequenas e não a grande.
Enquanto isso, Aymé, talvez de sede e piedade, ele mesmo tomado, espera que a família de Duvilé o envie à boa terra de Arbois, onde aquele primeiro homem, Félicien Guérillot, depois de aventuras que mereceriam ser contadas, o gosto pelo vinho já pegou. E, como não nos dizem de que modo, também por aqui ficamos, com duas histórias não bem contadas, nem por Aymé nem por nós, mas de vinho quer-se pouco da fala e mais do vinho.

Clarice Lispector, em Todos os contos

Capítulo 47 – O Recluso



Marcela, Sabina, Virgília... aí estou eu a fundir todos os contrastes, como se esses nomes e pessoas não fossem mais do que modos de ser da minha afeição anterior. Pena de maus costumes, ata uma gravata ao teu estilo, veste-lhe um colete menos sórdido; e depois sim, depois vem comigo, entra nessa casa, estira-te nessa rede que me embalou a melhor parte dos anos que decorreram desde o inventário de meu pai até 1842.
Vem; se te cheirar a algum aroma de toucador, não cuides que o mandei derramar para meu regalo; é um vestígio da N. ou da Z. ou da U. – Que todas essas letras maiúsculas embalaram aí a sua elegante abjeção. Mas, se além do aroma, quiseres outra coisa, fica-te com o desejo, porque eu não guardei retratos, nem cartas, nem memórias; a mesma comoção esvaiu-se e só me ficaram as letras iniciais.
Vivi meio recluso, indo de longe em longe a algum baile, ou teatro, ou palestra, mas a mor parte do tempo passei-a comigo mesmo. Vivia; deixava-me ir ao curso e recurso dos sucessos e dos dias, ora buliçoso, ora apático, entre a ambição e o desânimo. Escrevia política e fazia literatura. Mandava artigos e versos para as folhas públicas e cheguei a alcançar certa reputação de polemista e de poeta. Quando me lembrava do Lobo Neves, que era já deputado, e de Virgília, futura marquesa, perguntava a mim mesmo por que não seria melhor deputado e melhor marquês do que o Lobo Neves, – eu, que valia mais, muito mais do que ele, – e dizia isto a olhar para a ponta do nariz…

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Guilherme Arantes | Minúcias

Assembleia baiana

O sr. Presidente — Tem a palavra o sr. deputado Marta Rocha.
O sr. Marta Rocha (movimento geral de atenção; palmas no recinto e nas galerias) — Sr. Presidente, ao subir a esta tribuna…
Vários senhores deputados — Muito bem! V. ex.a está-se exprimindo com rara eloquência e felicidade.
O sr. Marciano Condeúba — Não apoiado. V. ex.a não sobe à tribuna. Esta é que, com muita honra, se alça até v. ex.a.
(Novas palmas e vivas nas galerias.)
O sr. Presidente — Atenção! Peço às galerias que não se manifestem.
O sr. Demóstenes Latino — Sr. Presidente, rogo a v. ex.a, em nome da velha Grécia e dos imortais princípios de 2 de julho, que admita, neste caso excepcional, a manifestação irreprimível das galerias.
o sr. Presidente — Atendendo às ponderações do líder da maioria, permito às galerias que se manifestem com três hurras, terminados os quais voltará a prevalecer o regimento. (Ouvem-se três hurras e muitos fius.) Prossiga o nobre orador.
O sr. Romualdo Alecrim — Um momento, sr. Presidente. O nobre líder da maioria devia ter dado uma chance à minoria para também se solidarizar com as justas expansões do povo, pois é evidente que, numa hora solar como esta, cessam as distinções partidárias. A oposição também é filha de Deus.
O sr. Marta Rocha — Como dizia, sr. Presidente…
O sr. Demóstenes Latino — V. ex.a não precisa dizer nada. Os elevados pensamentos políticos de v. ex.a estão estampados em seu rosto. Esta assembleia em peso sente-se feliz em apoiar as considerações implícitas e aurifulgentes de v. ex.a.
Outros senhores deputados — Bravo! Já disse tudo!
O sr. Noé da Anunciação (com as mãos em concha) — Deixa a mocinha falar, gente!
O sr. Marciano Condeúba — O venerando colega não escutou a música dos anjos?
O sr. Noé da Anunciação — Como, meu filho? Ando meio duro de ouvido, depois daquele acidente de tílburi, no largo da Sé, em 85…
O sr. Marta Rocha (tira da bolsa batom e espelhinho, e aplica-se meticulosamente a retificar a linha dos lábios. Terminada a operação, sorri. Um clarão celestial espalha-se pelo recinto. Os senhores deputados quedam-se em êxtase nas bancadas, as galerias fazem o mesmo; o sr. Presidente, com as mãos no queixo, tem uma particular expressão de beatitude) — Bem, sr. Presidente…
O sr. Caribé — Vá ser bonita nos quintos dos infernos, puxa!
O sr. Noé da Anunciação — O que é que esse moço aí está dizendo?
O sr. Caribé — Nada, não.
O sr. Firmino Azedo — Sr. Presidente, tudo isso está muito bem, mas lembro à casa que há quatro anos seguidos não votamos a proposta de orçamento do Estado, remetida pelo eminente governador Pedrinho Calmon. A Assembleia não aprovou sequer o projeto de aumento de subsídio. Sei que estou sendo impertinente, mas a Bahia, que a todos nos julgará…
O sr. Demóstenes Latino — Sr. Presidente, em nome da maioria protesto contra as insinuações malévolas do nobre deputado. A Bahia é testemunha de que se não foi possível produzir mais nesta legislatura é porque, sr. Presidente…
O sr. Romualdo Alecrim — Claro, claro! A minoria, por sua vez, repele a acusação inepta e infeliz. Dou testemunho de que nunca fomos tão assíduos a esta casa, e que passamos a nos reunir de janeiro a dezembro, sem parar. Se não há projetos votados, devemos atribuir o fato…
O sr. Presidente (dirigindo-se ao sr. Firmino Azedo) — O nobre deputado está expulso deste recinto! (Sensação.)
O sr. Crispim Moreno — Sr. Presidente, no dia em que for restabelecida a votação, pedirei preferência para o meu projeto que modifica o sistema métrico decimal. Esse sistema permitiu a inqualificável prevaricação do júri capitalista de Long Beach, há quatro anos, que privou a nossa pátria do título mundial a que fazia jus. Os infames trastes petrolíferos, por uma questão de poucas polegadas…
O sr. Demóstenes Latino — Malgrado a orientação doutrinária do nobre representante de Ilhéus, proponho, sr. Presidente, que o seu projeto seja votado imediatamente, de pé, e por aclamação.
(Tempestade de aplausos nas galerias.)
O sr. Presidente — Atenção, atenção, as galerias não podem votar! Bem, já votaram. Está aprovado o projeto!
O sr. Marta Rocha (sorrindo novamente) — Sr. Presidente, tenho dito.
(Delírio. O orador é carregado em triunfo.)

Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira