20/07/2026

Capítulo 68 – O Vergalho

Tais eram as reflexões que eu vinha fazendo, por aquele Valongo fora, logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-mas um ajuntamento; era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a fugir; gemia somente estas únicas palavras: – “Não, perdão, meu senhor; meu senhor, perdão!” Mas o primeiro não fazia caso, e, a cada súplica, respondia com uma vergalhada nova.
Toma, diabo! dizia ele; toma mais perdão, bêbado!
Meu senhor! gemia o outro.
Cala a boca, besta! replicava o vergalho.
Parei, olhei... justos céus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudêncio - o que meu pai libertara alguns anos antes. Cheguei-me; ele deteve-se logo e pediu-me a bênção; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele.
E, sim, nhonhô.
Fez-te alguma coisa?
É um vadio e um bêbado muito grande. Ainda hoje deixei ele na quitanda, enquanto eu ia lá embaixo na cidade, e ele deixou a quitanda para ir na venda beber.
Está bom, perdoa-lhe, disse eu.
Pois não, nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bêbado!
Saí do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas conjeturas. Segui caminho, a cavar cá dentro uma infinidade de reflexões, que sinto haver inteiramente perdido; aliás, seria matéria para um bom capítulo, e talvez alegre.
Eu gosto dos capítulos alegres; é o meu fraco. Exteriormente, era torvo o episódio do Valongo; mas só exteriormente.
Logo que meti mais dentro a faca do raciocínio achei-lhe um miolo gaiato, fino e até profundo. Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas, – transmitindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as sutilezas do maroto!

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

"Typewriter II" | NDR Bigband feat. Panzerballett w/ Virgil Donati | NDR

 

Hagar

Pergunta inocente

Por que será que as pessoas virtuosas parece que estão sempre representando?

Mário Quintana, em Caderno H

Receitas


Não sou um gourmet mas gosto da minha sauce bernaisezinha. Alguém já disse que gourmet é o cara que se preocupa mais com a pronúncia certa que com o gosto do que come, e não é o meu caso. Acho que um caneton aux herbes de Provence com qualquer outro nome saberia o mesmo, desde que fosse bem-feito, e, que diabo, o maître geralmente é do Espírito Santo, a pronúncia dele é pior que a minha.
Só entendo de comida da boca para dentro. Na cozinha só entro para reivindicar a rapa, e a única parte de uma receita que me interessa é o “leve-se à mesa”. Na última vez que tentei fazer uma omeleta acabei, estranhamente, com purê de batata. Outra vez joguei fora o macarrão e servi a água quente. Felizmente improvisei um nome na hora — eau chaude au hasard — que me salvou do vexame. Não sei cozinhar. Mas sei comer. E assim como certas anfitriãs anunciam com antecedência o nome da autora de seus jantares — “olha, vai ser vatapá feito pela Dona Maria” — já houve casos de anunciarem a minha presença à mesa como uma atração da festa. Veja com que alegria ele limpa o prato. Delicie-se com a sua correta abordagem da lagosta. Vibre com a sua rapidez na mousse au chocolat. Você nem precisa comer, olhar para ele comendo já é um banquete. E sou cada vez mais solicitado.
Posso contar com você no dia 26? É um grupo pequeno, cavaquinhas na manteiga. Você sentaria à cabeceira com um discreto holofote em cima e gemeria um pouco depois de cada garfada.
Dia 26? Preciso consultar a minha agenda. Deixa ver... Não, infelizmente no dia 26 tenho um strogonoff. Fui contratado para repetir o strogonoff quatro vezes e no fim bater na barriga comicamente.
E se eu fizesse o meu jantar um pouco mais tarde? Você poderia comparecer aos dois.
Hmmm. Tenho que pensar no assunto. Qual é a sobremesa?
Estou planejando alugar meus serviços para restaurantes com uma clientela indecisa. Em poucos minutos, na minha mesa de canto, eu faria tais gestos e tais ruídos de satisfação com a comida que em pouco tempo transformaria o restaurante numa entusiasmada alegoria à Henrique VIII, o tal que, quando não estava decapitando esposas, estava destrinchando galinhas com os dentes.
Mas se sou um inocente na cozinha, não posso negar que há um certo fascínio na sua linguagem esotérica. Às vezes leio receitas como leio certos poetas, entendendo a metade mas cativo dos seus ritmos e ressonâncias. Todas têm aquela autoridade das poções mágicas, velhas e precisas encantações passadas de feiticeira a feiticeira desde as primeiras cavernas. É a sabedoria milenar do caldeirão. Exatamente tantas cabeças de sapo e tantas bossas de anão, deixe no fogo até borbulhar, ponha de lado e prepare o sangue de virgem Sarracena. Claro que hoje a cozinha tem recursos com os quais as feiticeiras nem sonhavam: batedeiras que só faltam brigar com as crianças, fornos verticais que caminham até você e batem no seu ombro quando o assado está pronto. Mas as receitas preservam seu ar cabalístico. As medidas devem ser estas e só estas, senão tudo desanda e o demônio rouba a alma do suflê. O fogo deve ser alto e não brando. Ou então brando mas não Marlon. E os temperos?
Os nomes dos temperos são tão fascinantes que nos inspiram até a imaginar alguns novos.

Duas pitadas de alfarrábio.
Tinhorão picadinho.
Um feixe de sandice, mas sem exagero.
Ramal, zico, samovar, sementes de oligofrenia e algumas folhas de alvará do campo.
Corrupção à vontade!

Na Guiné, o tubarão branco aux fines herbes é uma especialidade. Pegue-se um tubarão dos grandes. O tubarão deve ser jogado vivo dentro de um grande caldeirão cheio deágua salgada, sobre o fogo. Em seguida, acrescentem-se dois porcos selvagens, quatro galinhas, um missionário protestante e um cunhado do chefe que caiu em desgraça. Mexa-se lentamente até ferver a água ou até o tubarão comer a colher, o que vier primeiro. Deixe-se o tubarão de lado. Aproveite-se a água quente para dar banho nas crianças. Tempere-se o tubarão com mirtes, paranhos, ogivas do mato, usucapião e brás de pina. Sirva-se em fatias dentro de folhas de parreira com uma porção de fritas ou arroz. Guarde-se o espinhaço para bater no chef.

Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora

Todos fazem um poema a Carlos Drummond de Andrade

Enquanto punha o vestido azul com margaridas amarelas
e esticava o cabelos para trás, a mulher falou alto:
é isto, eu tenho inveja de Carlos Drummond de Andrade
apesar de nossas extraordinárias semelhanças.
E decifrou o incômodo do seu existir junto com o dele.
Vamos ambos à enciclopédia, seguiu dizendo, à cata
de constituição, e paramos em «clematite, flor lilás
de ingênuo desenho que ama desabrochar nas sebes europeias».
Temos terrores noturnos, diurnos desesperos
e dias seguidos onde nada acontece.
Comemos, bebemos e diante do nosso nome impresso
temos nenhum orgulho, porque esta lembrança não deixa:
uma vez, na avenida Afonso Pena, um bêbado gritando:
Todo mundo aqui é um saco de tripas’.
Carlos é gauche. A mim, várias vezes, disseram:
Não sabes ler a placa? É CONTRAMÃO’.
Um dia fizemos um verso tão perfeito
que as pessoas começaram a rir. No entanto persiste,
a partir de min, a raiva insopitada
quando citam seu nome, lhe dedicam poemas.
Desta maneira prezo meu caderno de versos,
que é uma pergunta só, nem ao mesmo original:
Porque não nasci eu um simples vaga-lume?’
Só à ponta de fina faca, o quisto da minha inveja,
como aos mamões maduros se tiram os olhos podres.
Eu sou poeta? Eu sou?
Qualquer resposta verdadeira
e poderei amá-lo.

Adélia Prado, em Bagagem

Bem comum

Se isto não é a minha própria maldade ou um efeito dela e o bem comum não está ferido, por que estou preocupado? Qual é o dano ao bem comum?

Marco Aurélio, em Meditações

Factótum


18


Fiquei quatro ou cinco dias andando por aí, então permaneci bêbado por mais dois. Saí de onde estava e fui para o Greenwich Village. Li na coluna do Walter Winchell que O. Henry* costumava escrever em um bar que era famoso por ser frequentado por gente que escreve. Achei o bar e entrei procurando o quê?
Era meio-dia. Apesar da coluna do Winchell, o lugar estava vazio. Fiquei ali sozinho com um grande espelho, o balcão e o atendente.
Sinto muito, senhor, não podemos atendê-lo.
Fiquei atordoado e nem consegui responder. Esperei por uma explicação.
Você está bêbado.
Era provável que eu estivesse com cara de ressaca, mas não bebia fazia já umas doze horas. Murmurei algo sobre O. Henry e saí.
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Nota:
*Walter Winchell (1897-1972) foi um jornalista e comentarista estadunidense, considerado o inventor da coluna social moderna, juntando notícias com fofocas. Na época em que a história se passa, ele tinha grande influência. Já O. Henry (1862-1920), pseudônimo de William Sydney Porter, foi um contista, também estadunidense, que influenciou muitos escritores homens da geração de Charles Bukowski — era naturalista, com boas sacadas de humor —, por isso o grande interesse de conhecer o bar que ele frequentava em Nova York. [N.T.]

Charles Bukowski, em Factótum

17/07/2026

Sertão de Metal, de Círio e Léo Batista

Marfim

A moça desceu os degraus com o robe monogramado no peito: L.M. sobre o coração. Vamos iniciar outra Correspondência, ela propõe. Você já amou alguém verdadeiramente? Os limites do romance realista. Os caminhos do conhecer. A imitação da rosa. As aparências desenganam. Estou desenganada. Não reconheço você, que é tão quieta, nessa história. Liga amanhã outra vez sem falta. Não posso interromper o trabalho agora. Gente falando por todos os lados. Palavra que não mexe mais no barril de pólvora plantado sobre a torre de marfim.

Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés

Armandinho

Diário de Bernardo Soares

119.

Foi sempre com desgosto que li no diário de Amiel as referências que lembram que ele publicou livros. A figura quebra-se ali. Se não fora isso, que grande!
O diário de Amiel doeu-me sempre pela minha causa.
Quando cheguei àquele ponto em que ele diz que sobre ele desceu o fruto do espírito como sendo “a consciência da consciência”, senti uma referência direta à minha alma.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Jenny Wren | Paul McCartney


Jenny Wren | Paul McCartney

Like so many girls
Jenny Wren could sing
But a broken heart
Took her song away

Like the other girls
Jenny Wren took wing
She could see the world
And its foolish ways

How we spend our days
Casting love aside
Losing sight of life
Day by day

She saw poverty
Breaking up a home
Wounded warriors
Took her song away

But the day will come
Jenny Wren will sing
When this broken world
Mends its foolish ways

Then we’ll spend our days
Catching up on life
All because of you
Jenny Wren
You saw who we are
Jenny Wren
Em Los Angeles, há um cânion onde eu adoro fazer caminhadas. Tem que ir de carro para chegar lá, então muitas vezes vou sozinho. No dia em que escrevi esta canção, encontrei um lugar tranquilo para estacionar à beira da estrada, em uma área bem rural e, em vez de fazer uma caminhada, pensei: “Vou compor uma canção”.
As pessoas costumam pensar que Liverpool é uma cidade industrial, mas não tive problemas para praticar a observação de pássaros quando eu era menino. Eu gostava de me desligar do corre-corre do mundo, e isso era permitido pelo simples fato de que morávamos em Speke, no sul de Liverpool, a apenas um quilômetro e meio da área rural. Eu tinha um livrinho de bolso, The Observer’s Book of Birds, e costumava sair sozinho para fazer caminhadas no campo, em busca de um pouco de solidão. Eu curtia me distanciar das coisas normais – escola, vida familiar, rádio, televisão, incumbências, seja lá o que fosse – e só ficar na minha, capaz de perambular e meditar. Logo aprendi a identificar os pássaros, e a corruíra (“wren”) provavelmente se tornou a minha ave favorita – pequenina, muito reservada, uma coisinha tão delicada. Não é fácil de avistá-la, mas súbito ela surge, pulando de arbusto em arbusto. Por isso, se o assunto é passarinho – os melros-pretos, também entre os meus favoritos, ou as cotovias, ou as Jenny Wrens –, estamos falando de uma coisa pela qual há muito tempo eu cultivo uma afeição.
Sempre é bom, quando você está escrevendo algo, escrever sobre um mundo de que você gosta. Então, quando estou falando sobre Jenny Wren, primeiro estou me lembrando da ficção, da corajosa moça de Our Mutual Friend (O amigo comum), de Dickens, cuja atitude positiva lhe permitiu superar suas deformidades dolorosas, mas num átimo me vem à mente a corruíra, e em seguida estou vendo de novo uma personagem, e nessa história ela canta como ninguém. A criançada talvez não tenha mais ouvido falar nela, mas as gerações de meus pais e avós conheciam a grande cantora de ópera sueca Jenny Lind, que tinha o cognome de “Jenny Wren”.
Na minha narrativa, eis que Jenny Wren, tendo sido privada de sua alma, parou de cantar como forma de protesto. Por isso, a canção se torna um pouco reflexiva sobre nossa sociedade – como nós colocamos as coisas a perder e como nos solidarizamos com a pessoa que protesta. Ela presenciou as nossas tolas decisões, a maneira como deixamos o amor de lado, a maneira como perdemos de perspectiva as nossas vidas – a pobreza destruindo lares, criando guerreiros feridos. Ela percebeu quem somos e, como todo mundo, só está buscando um caminho melhor. E se estivermos, digamos, num ano de eleição, e isso pode ser em qualquer lugar do mundo, você espera que a perturbação, este mundo fraturado (“this broken world”) em que estamos no momento – vá embora, assim como as pessoas que criaram isso, e alguém melhor virá para que consigamos retomar o nosso lado melhor, consertar as nossas tolas decisões (“foolish ways”). Você sabe que lá está o nosso lado melhor, mas nem sempre é tão fácil de acessá-lo.
Mesmo assim, preciso manter o otimismo – afinal de contas, eu nasci em plena Segunda
Guerra Mundial, e a Grã-Bretanha conseguiu superar aqueles dias sombrios. Por isso, ainda estou convencido de que é um bom velho mundo, de verdade, mas acho que estamos pisando na bola. Por exemplo, o oceano se enchendo de plástico é um caso óbvio; o plástico não chegou lá sozinho. Pensar que a mudança climática é uma farsa é outro vacilo, e eu espero que ainda consigamos consertar isso a tempo de beneficiar nossos filhos e os filhos de nossos filhos.
Estou ciente de que estou cantando para pessoas que podem estar passando por momentos difíceis, porque, no meio onde eu cresci, muita gente passava por momentos difíceis pela falta de dinheiro, e nunca me esqueci que há um monte de coisas que você não consegue se não tiver dinheiro. Por isso, estou sempre muito ciente do poder de uma bela canção, pois sei que quando eu ouvia uma – mesmo uma canção sobre um passarinho – na minha adolescência em Liverpool, isso me dava esperança e me deixava feliz. Compreendi o quanto aquele sentimento era valioso para mim. E agora sou eu o cara que diz: “Olha só, as coisas nem sempre são ruins”. Isso me dá um lugar para ir na canção, e também me dá um lugar onde eu gostaria de estar. Lembra muito a canção “Smile”, de Charlie Chaplin. É a SCO – Síndrome da Canção Otimista.
Muitas vezes, as canções estabelecem um diálogo com outras canções, e esta obviamente conversa com “Blackbird”. Acho que, se você está ali sentado com o violão, pode seguir alguns caminhos. Em “Blackbird”, o canto responde ao dedilhar dos acordes, e eu acho que “Jenny Wren” tem essa mesma ideia. É provável que eu estivesse revisitando “Blackbird”, talvez intencionalmente. Eu não admitiria isso pra ninguém caso eu não estivesse trabalhando neste livro, que, como diz a letra de “Jenny Wren”, está me permitindo pôr a vida em dia (“catching up on life”).

Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente

Aquário (Berlim)

Vertical, resvés, a água se enjaula.
Vítreo, aquoso, cristalino, cada compartimento abre olho: azul de filmagem ou verde-fluoresceína: os das luzes em anúncio e das pequenas ondas findantes.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

16/07/2026

Igor Souza e Ian Coury – Tá Escrito | Com Xande de Pilares e Pretinho da Serrinha

Gente do bem

Gente que mantém
pássaros na gaiola
tem bom coração.
Os pássaros estão a salvo
de qualquer salvação.

Paulo Leminski, em Toda Poesia

Amor entre livros

No Canecão? Hoje não dá, meu chuchuzinho. Tou afundado no Stokoe, uma curtição tremenda. O quê? Semiotics and Human Sign Languages. É isso aí. Te telefono amanhã, tá?
Sábado passado você já não pôde sair, por causa de um tal Catichico…
Catichico, não. Katicic, com k. Eu tinha de atacar de Katicic lá no Centro. O Lopes veio pra cima de mim com o Kramsky, então eu derrubei ele com o Katicic.
Derrubou como? Você bateu no Lopes?
Não é nada disso, anjo. O Lopes apareceu muito pimpão mostrando The Word as a Linguistic Unit, do Kramsky, gabando que era a última palavra em novidade. Então eu corri à d. Vana e…
Esse cara está hospedado com d. Vana?
Que hospedado coisa nenhuma, bem. É livro, entende? Um livro do Katicic chamado A Contribution to the General Theory of Comparative Linguistic. Comprei ele na livraria de d. Vana, por sinal que ela me disse: “É tão caro, não vale a pena comprar”, d. Vana é assim, fica com pena da gente gastar o dinheiro com os livros de sua livraria. Mas isso não vem ao caso. Trouxe o Katicic e pá! Atirei na cara do Lopes a teoria do Katicic.
Deu coluna do meio?
Um a zero. O Lopes não conhecia o Katicic, a turma também não, e daí, o Kramsky já tá meio superado. Eu soube que ano passado o Magalhães já tinha citado ele em Atibaia. E o Magalhães não é lá muito atualizado. Imagine você que ele ainda cita Stratificational Grammar, do Sampson! Sampson não é mais autor que se possa citar. Sampson anda muito por baixo.
Que que ele fez para andar por baixo?
Nada. Exatamente isso. O Sampson não fez nadinha. Ficou na Stratificational Grammar. Impressionou, abafou, depois calou. É o que me garantiu o Azevedo, que foi vidrado no Sampson, depois enjoou. O Azevedo diz que no livro dele o que vale é o título.
Querido, você promete que semana que vem combina um programa comigo?
Ah, isso prometo sim. Tá prometido. Quer dizer, fica dependendo de um papo meu com o Rogério.
Que é que o Rogério tem com os nossos programas?
Ele ficou de me arranjar o Pike, de que eu preciso muito para a tese que estou preparando. A tese para aquele simpósio que vai haver em Campina Grande, já contei a você, em agosto.
E daí?
Daí, que o Rogério ainda não acabou de fichar o Pike, e se ele acabar até domingo, segunda-feira me passa o livro. Tenho de passar a semana inteira estudando o Pike.
Sábado também?
Acho que o Pike vai me absorver até sexta-feira. Você não faz ideia, é um troço da maior importância, presta atenção no título: Language in Relation to the Structure of Human Behavior. Como é que eu posso perder uma coisa dessas, coração?
Você não gosta de mim.
Gosto milhões, gosto trilhões, amor. Mas ou eu pego logo o Pike enquanto os outros não avançam nele (o Rogério é camarada, o Rogério é um cara que não existe) ou eu sacrifico minha atuação em Campina Grande. Você quer me ver desmoralizado em Campina Grande, diz, você quer?
Quero sair com você.
Eu também quero sair com você, mas será que você não percebe que os interesses da cultura sobrelevam nossos prazeres pessoais, e que o amor é sobretudo uma forma de compreensão?
Você não me gosta, você gosta é desses bichos esquisitos, sei lá.
Não diz uma coisa dessas, amorzinho. Você está em tudo que eu faço, tudo que eu penso. Ainda ontem estava lendo o Ollen, Coding Information in Natural Languages, e sua imagem aflorava em cada página, quase em cada palavra. Baralhei tudo, acabei grilado.
Mentira.
Mentira não, te juro.
Nunca hei de me esquecer de suas férias de 72…
Que eu dediquei a Lévi-Strauss? Que é que eu podia fazer, my love, se a patota gamou nele e eu tinha que entrar na jogada? Olha que eu desisti de uma semana Barthes por tua causa; que deixei de me inscrever num curso sobre Derrida e Greimas para te acompanhar no festival de cinema durante uma semana. Por você eu faço tudo. Mas deixa eu curtir o meu Stokoe, deixa!
Adeusinho, viu? Quando acabar de ler esses chatos, telefone para as Bahamas e pergunte se eu cheguei lá!

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

Capítulo 67 – A Casinha



Jantei e fui a casa. Lá achei uma caixa de charutos, que me mandara o Lobo Neves, embrulhada em papel de seda, e ornada de fitinhas cor-de-rosa. Entendi, abria-a, e tirei este bilhete:
"Meu B...
Desconfiam de nós; tudo está perdido; esqueça-me para sempre. Não nos veremos mais. Adeus; esqueça-se da infeliz V. a."
Foi um golpe esta carta; não obstante, apenas fechou a noite, corri à casa de Virgília. Era tempo; estava arrependida.
Ao vão de uma janela, contou-me o que se passara com a baronesa. A baronesa disse-lhe francamente que se falara muito, no teatro, na noite anterior, a propósito da minha ausência do camarote do Lobo Neves; tinham comentado as minhas relações na casa; em suma, éramos objeto da suspeita pública. Concluiu dizendo que não sabia que fazer.
O melhor é fugirmos, insinuei.
Nunca, respondeu ela abanando a cabeça.
Vi que era impossível separar duas coisas que no espírito dela estavam inteiramente ligadas: o nosso amor e a consideração pública. Virgília era capaz de iguais e grandes sacrifícios para conservar ambas as vantagens, e a fuga só lhe deixava uma. Talvez senti alguma coisa semelhante a despeito; mas as comoções daqueles dois dias eram já muitas, e o despeito morreu depressa. Vá lá; arranjemos a casinha.
Com efeito, achei-a, dias depois, expressamente feita em um recanto da Gamboa. Um brinco! Nova, caiada de fresco, com quatro janelas na frente e duas de cada lado – todas com venezianas cor de tijolo, – trepadeira nos cantos, jardim na frente; mistério e solidão. Um brinco!
Convencionamos que iria morar ali uma mulher, conhecida de Virgília, em cuja casa fora costureira e agregada.
Virgília exercia sobre ela verdadeira fascinação. Não se lhe diria tudo; ela aceitaria facilmente o resto.
Para mim era aquilo uma situação nova do nosso amor, uma aparência de posse exclusiva, de domínio absoluto, alguma coisa que me faria adormecer a consciência e resguardar o decoro. Já estava cansado das cortinas do outro, das cadeiras, do tapete, do canapé, de todas essas coisas, que me traziam aos olhos constantemente a nossa duplicidade. Agora podia evitar os jantares frequentes, o chá de todas as noites, enfim a presença do filho deles, meu cúmplice e meu inimigo. A casa resgatava-me tudo; o mundo vulgar terminaria à porta – dali para dentro era o infinito, um mundo eterno, superior, excepcional, nosso, somente nosso, sem leis, sem instituições, sem baronesas, sem olheiros, sem escutas, – um só mundo, um só casal, uma só vida, uma só vontade, uma só afeição – a unidade moral de todas as coisas pela exclusão das que me eram contrárias.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Verso perdido

... eu te amo a perder de vista.

Mário Quintana, em Caderno H

1630 – Motocintle


Não traem seus mortos

Durante quase dois anos tinha predicado frei Francisco Bravo neste povoado de Motocintle.
Um dia anunciou aos índios que tinha sido chamado da Espanha. Ele queria regressar à Guatemala, disse, e ficar para sempre aqui junto a seu querido rebanho, mas lá na Espanha seus superiores lhe negariam a permissão.
Somente o ouro poderá convencê-los – advertiu frei Francisco.
Ouro não temos – disseram os índios.
Sim, têm – desmentiu o padre. – Eu sei que existe um criadeiro de ouro escondido em Motocintle.
Esse ouro não nos pertence – explicaram eles. – Esse ouro é de nossos antepassados. Nós só estamos cuidando dele. Se faltar alguma coisa, o que lhes diremos quando voltem ao mundo?
Eu só sei o que dirão meus superiores na Espanha. Me dirão: Se tanto te amam os índios desse povo onde queres ficar, como estás tão pobre?”
Se reuniram os índios em assembleia para discutir o assunto.
Um domingo, depois da missa, vendaram os olhos de Frei Francisco e o fizeram dar voltas até ficar tonto. Todos foram atrás dele, dos velhos às crianças de peito. Ao chegar ao fundo de uma gruta, tiraram-lhe a venda. O padre piscava os olhos, machucados pelo fulgor do ouro, mais ouro que o de todos os tesouros das mil e uma noites, e suas mãos trêmulas não sabiam por onde começar. Transformou em saco a sua batina e carregou o que pôde. Depois jurou por Deus e os santos evangelhos que jamais revelaria o segredo e recebeu uma mula e comida para a viagem.
Com o tempo, chegou à Real Auditoria da Guatemala uma carta de frei Francisco Bravo do porto de Veracruz. Com grande dor na alma cumpria o sacerdote seu dever, no ato de serviço ao rei por tratar-se de importante e esmerado negócio. Dava notícias do possível rumo do ouro: “Creio ter andado a escassa distância da aldeia. Corria à esquerda um arroio...” Enviava algumas pepitas como amostra e prometia empregar o resto em devoções a um santo de Málaga.
Agora aparecem a cavalo em Motocintle o juiz e os soldados. Vestindo túnica vermelha e com uma vara branca pendurada no peito, o juiz Juan Maldonado trata de convencer os índios a entregar o ouro.
Promete e garante bom tratamento.
Ameaça com rigores e castigos.
Tranca uns quantos na prisão.
A outros aplica cepo e dá tormento.
Outros faz subir as escadas do patíbulo.
E não adianta.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos