23/10/2026

Don L | Tiny Desk Brasil

La Dernière Translation

(Homenagem à recém-fundada Sobrates – Sociedade Brasileira de Tradutores)

Quando morre um velho tradutor
Sua alma, anima, soul,
Já livre do cansativo ofício
De verter
Vai direta pro céu, in cielo, to the
heaven, au ciel, in caelum, zum himmel,
Ou pro inferno – Hölle – dos grandes traditori?
Ou um tradutor será considerado
In the minute hierarquia do divino (himm’lisch)
Nem peixe, nem água, ni poisson, ni l’eau,
Neither water, nor fish, nichts, assolutamente niente?
Que irá descobrir de essencial
Esse mero intermediário da semântica,
Corretor da Babel universal?
A comunicação definitiva, sem palavras?
Outra vez o verbo inicial?
Saberá, enfim!,
Se ELE fala hebraico
Ou latim?
Ou ficará infinitamente
No infinito
Até ouvir a Voz, Voix, Voce, Voice,
Stimme, Vox,
Do Supremo Mistério
Partindo do Além
Voando como um pássarobirduccelopájarovogel
Se dirigindo a ele em...
E lhe dando, afinal,
A tradução pro Amém?

Millôr Fernandes, em Poemas

O futuro

 

O mesmo assunto

Há tempos Marques Rebello esteve em Porto Alegre. Com ele, andamos uma tarde, o Telmo Vergara e eu, pelos altos de Petrópolis. Basta dizer que era outono em Porto Alegre. Eu disse ao visitante:
— Está vendo? As cores não se misturam: tudo parece recortado a tesourinha no horizonte. A paisagem de Porto Alegre é anterior ao impressionismo.
Ele agachava-se, apertava, arregalava os olhos, concordava com tudo. E, de regresso ao Rio, escreveu:
“Como eles não têm nada que mostrar; gabam os crepúsculos!”

Mário Quintana, em Caderno H

Sem tangência

 


A morte é lúgubre lorde: a ambígua. De repente, como sempre, um homem faleceu. Diziam-no mau. Entre tudo, porém, o cemitério prosseguia de decisivo quietar quem sabe o sítio mais amigo da cidade. O enterro do homem, não conhecido, ensinou-o ao forasteiro. Podia-se procurar passeio, o desexílio, em seu reduzido espaço, dos que perderam para sempre o endereço. Na dita cidade, muito longe, árdua do todo-o-dia, fatal, fabricada, enfadonha. Ali, o mar era o cemitério.
A gente perdia a abusão de estar-se em lugar danoso, de quebrantos ou assombro e apegava-se à paz, no descritivo, a paisagem especializada. A erva, consequente, permeio às tumbas, a grama urbana; um estapaflorir; zumbidos; às vezes borboletas. Sob luz reta, no ponto do meio-dia, a lousa quente. Tarde ainda mais limpa; a que não traz sombras. As casuarinas e seus instantes de vento. Queixava-se o coveiro de dores nas costas, do custo da vida; seu ajudante, descalço, fumava cigarros caros. De primeiro, temia-se a terra, aquela, havida por maléfica: limpavam-se do pó os sapatos. Mas, melhor pudesse qualquer um — no chamado campo-santo — defender sua loucura das dos outros. Dos mais outros, também, talvez. Quem morre, morreu mesmo? A morte é maior que a lógica. E, quando menos quando, vinha a moça. Viera, vários dias, trazia longas flores. Nem parecia ver ninguém ou ouvir, encerrada em costumeiro pesar. Deixava-a o vestido preto mais esvelta que as outras, da cidade; mais rara. Devia ser filha do homem falecido.
Nunca o avistara o forasteiro. Achava porém de apreender-lhe os traços nas feições da moça, a rude maldade de que o reputavam, desabrangendo sua matéria. Dele, contava-se: que mais perversos tendo sido o pai e o avô — do sujo e errado outrora. Nenhuma vida tem resumo: a tarda crosta da vida, com seu trecheio de ilusões. A gente vê só o cinzento, mas têm-se de adivinhar o branco e o preto.
O homem falecido, seu recente sepulcro, seria num dos extremos, aonde parava a moça, dali o recinto prolongando-se em emaranhado de bosque. Até onde não se devia ir, enquanto, seguida apenas a distância, por lá ela permanecesse, decerto atinadamente, lúcida lagrimada. Além, teria sido o cemitério primeiro, sua outra grande porta oculta. A antiga.
Às vezes, ela tardava em vir. Andava-se, a léu de labirinto, no quiescer de ante vazias permanências — dos de ide-vós-sós; faz-se que contra querubins em cavernas gritantes. As vozes humanas é que inventaram o silêncio. É possível um não-mais-futuro? Vive-se, e ri-se. O gênio ainda não germinou bem em nós, distraídos e fracos. Mas, na necrópole, uma mudez se move, algo que ultrapassava a mudez; pesam-se as espécies imperceptíveis, visões intermutáveis. Por maneira que as aceitávamos. Mais perto do mundo. Algo havia; pairava. — “Refuja o denso viver, pela levez da morte...” — disseram-me: voz indefinida, a minha talvez. Sim, a moça era quase prevista surpresa. Um dia, haverá sábios. E, que nos vem da vida, enfim? — com o continuitar do ar, do chão e do relógio. A morte: o inenarrável rapto.
E ela. Demorou o rosto, deu seu ser a perceber. Perto que perto. Era boa. Era bela. Amor... — palavra que sobrou de frases. Amor, o que lhe radiava da figura, na fala das fadas. Demasiado grande, que amedrontava.
Sua lembrança, ideia clara. A marca da imagem. Inafastável, como persistia, de negro vestida, a obstinada presença, nessa entreparagem, na vagação, nas horas temporárias. Adiara o forasteiro de ir à sepultura do homem falecido. Da moça, não se viam ali sinais, nenhumas flores. Murchas, em volta, apenas coroas. A arruda-dos-muros. A lápide — cais tão calmo. Só uns passarinhos em piqueniques. Mortas, só as folhas; e o sol enviava mais calor. Sim, com esquisitinho sem-sossego, os pássaros algo explicam. E o coveiro, espião. — “Ele é seu parente?” Os olhos das pessoas já são coisas de fantasmas. A meu não, ele riu. Tinha pensado; porque com o defunto em mim notara parecença. Estaria tonto, o coveiro, toupeireiro operador. — “Era homem mau?” — indaguei. — “Era homem justo. Bom, mas vagaroso.” E avancei: — “E a moça?” Teve ele forte espanto. — “Pois, não é sua conhecida? Não vem com o senhor?” — a desajuizar-me. Neutra, a relva, esparramaz, alegre no entreabrirfechar florinhas, se não há nenhum nunca. O vento, devolvedor de palavras. O homem, que falecera, não podia. Depois da vida, o que há, é mais vida... — disse-me: o que minha mais funda memória me telegrafou. Retomava o trabalho o coveiro, dolorento, sabedor de ofício. Já como fósseis os ossos que ele transplantava, naquele bom lugar universo.
Ela não voltaria mais... — pensei, subciente. O rapaz ajudante passava, ao ombro suas ferramentas. — “Acho que é uma mesma que vinha, noutra ocasião...” — e ele tinha as petulâncias da vida. — “Vinha escolher a própria cova...” — ignorava a especulação poética, o mistério esperançoso. Se o falecido se parecia comigo? —
“Todos parecem com todos.” Inegadamente. — “Homem bom, no geral...” — ele queria gratificação. Nunca mais? Um enterro chegava, entrava. Será... — doía, o despropositivo, a hipótese mais eficaz. Não. Só era o de um morto. Nunca mais.
Se a gente podia dali sair, a atento horizonte, pela porta primitiva, olvidado vislumbráculo? Não, o coveiro intransigiu, ria-se do desmotivo daquilo. Enferrujara, montões de terra entupindo o trato, o mato rijo, espessos de urtigas, roseiras bravas. Mas, informou: que não havia segredo, a moça era filha de um Seo Visneto, tinha vindo, nove dias, cumprir promessa de rezar e pôr flores, no cruzeirinho das Almas... — “Pois, senhor...” Não mais. Ainda não. Devia em seguida partir, o forasteiro, deixar a fácil, fatigadora, fingida cidade. Apanhou uma pedrinha, colocou-a no túmulo do homem falecido. A liberdade é absurda. A gente sempre sabe que podia ter sabido.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

Capítulo 105 – Equivalência das Janelas

Dona Plácida fechou a porta e caiu numa cadeira. Eu deixei imediatamente a alcova, e dei dois passos para sair à rua, com o fim de arrancar Virgília ao marido; foi o que disse, e em bem que o disse, porque Dona Plácida deteve-me por um braço. Tempo houve em que eu cheguei a supor que não dissera aquilo senão para que ela me detivesse; mas a simples reflexão basta para mostrar que, depois dos dez minutos da alcova, o gesto mais genuíno e cordial não podia ser senão esse. E isto por aquela famosa lei da equivalência das janelas, que eu tive a satisfação de descobrir e formular, no capítulo 51. Era preciso arejar a consciência. A alcova foi uma janela fechada; eu abri outra com o gesto de sair, e respirei.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

22/10/2026

Maria Bethânia | Palavras de Rita

 

A primeira vez da idade

A vez
que tive mais idade
foi aos cinco anos.

Meu pai,
com solenidade que eu desconhecia,
perante seus superiores hierárquicos,
apontou e disse:

— Este é meu filho!

E deu-me a mão
coroando-me rei.

Mia Couto, em Poemas Escolhidos

106 anos

Ann Nixon Cooper



Essa mulher de cento e seis anos, Ann Nixon Cooper, que Obama citou no seu primeiro discurso como presidente eleito dos Estados Unidos, talvez venha a ocupar um lugar na galeria das personagens literárias favoritas dos leitores norte-americanos, ao lado daquela outra que, viajando num autocarro, se recusou a levantar-se para dar o lugar a um branco. Não se tem escrito muito sobre o heroísmo das mulheres. Entre o que Obama nos contou sobre Ann Nixon Cooper não havia actos heróicos, salvo os do viver quotidiano, mas as lições do silêncio podem não ser menos poderosas que as da palavra. Cento e seis anos a ver passar o mundo, com as suas convulsões, os seus logros e os seus fracassos, a falta de piedade ou a alegria de estar vivo, apesar de tudo. Na noite passada essa mulher viu a imagem de um dos seus em mil cartazes e compreendeu, não podia deixar de compreendê-lo, que algo novo estava acontecendo. Ou então guardou simplesmente no coração a imagem repetida, à espera de que a sua alegria recebesse justificação e confirmação. Os velhos têm destas coisas, de repente abandonam os lugares-comuns e avançam contra a corrente, fazendo perguntas impertinentes e mantendo silêncios obstinados que arrefecem a festa. Ann Nixon Cooper sofreu escravidões várias, por negra, por mulher, por pobre. Viveu submetida, as leis teriam mudado no exterior, mas não nos seus diversos medos, porque olhava à sua volta e via mulheres maltratadas, usadas, humilhadas, assassinadas, sempre por homens. Via que cobravam menos que eles pelos mesmos trabalhos, que tinham de assumir responsabilidades domésticas que iam ficar na sombra, apesar de necessárias, via como lhes travavam os passos decididos, e não obstante continuam a caminhar, ou não se levantando num autocarro, contemo-lo uma vez mais, como aquela outra mulher negra, Rosa Banks, que fez história, também.
Cento e seis anos a ver passar o mundo. Talvez o veja bonito, como a minha avó, pouco antes de morrer, velha e formosa, pobre. Talvez a mulher de quem Obama nos falou ontem sentisse a serenidade da alegria perfeita, talvez o saibamos um dia. Entretanto felicitemos o presidente eleito por tê-la tirado da sua casa, por ter-lhe prestado uma homenagem que ela provavelmente não necessitaria, mas nós, sim. À medida que Obama ia falando de Ann Nixon Copper, percebemos que a cada palavra o exemplo nos tornava melhores, mais humanos, à beira de uma fraternidade total. De nós depende fazer durar este sentimento.

José Saramago, em O caderno

1645 – Potosí




História de Estefânia, pecadora mulher de Potosí (em versão abreviada da crônica de Bartolomé Arzáns de Orsúa y Vela)

Nasceu Estefânia nesta Vila imperial e cresceu em formosura a tal grau que mais não pôde subi-lo a natureza.
Aos catorze anos de idade saiu de casa a belíssima donzela, aconselhada por outras perdidas mulheres, e havendo entendido sua mãe a abominável determinação com que esta filha se afastava, cheia de pesar em breves dias acabou-se-lhe a vida.
Não por isso emendou-se a filha, que havendo já perdido o tesouro inestimável da virgindade, vestindo-se profanamente se fez pública e escandalosa pecadora.
Vendo seu irmão tanto descrédito e má fama, chamou-a à sua casa e disse: “Mesmo que te pese haverás de ouvir-me, que enquanto estiveres em pecado mortal és inimiga de Deus e escrava do demônio, e além disto degeneras tua nobreza e desonras toda a sua linhagem. Olhe, irmã, o que fazes, levanta-te deste pântano, teme a Deus e faz penitência”. Ao que Estefânia respondeu: “Que necessidade tens de mim, hipocritão”. E enquanto o irmão a repreendia, em um momento despiu ela a cortadora adaga que estava na parede pendurada e com diabólica ferocidade avançou dizendo: “Só esta resposta merecem tuas razões”. Deixou-o morto em um lago de sangue e depois disfarçou aquela maldade com fingido sentimento, vestindo-se de luto e ponderando a lástima.
Também seu ancião pai, entristecido pela morte do bom filho e o escândalo da má filha, procurou reduzi-la com boas razões que contra sua vontade escutava a despiadada. Em vez da emenda, deu ela em aborrecer o venerável velho e à meia-noite pôs fogo no telhado da casa. Saltou da cama o atordoado ancião, gritando com toda a sua voz: “Fogo, fogo!”, mas caíram as vigas que sustentavam o teto e ali mesmo abrasou-lhe o terrível elemento. Vendo-se livre Estefânia, com mais desenfreio se deu a maiores vícios e pecados.
Arribou nesses dias a esta Vila de Potosí um homem dos reinos da Espanha, mercador dos mais opulentos que naqueles galeões vieram ao Peru, e chegou a suas notícias a formosura e graça daquela pública pecadora. Solicitou-a, e quando mais gozosos se encontravam em suas torpezas, um amante antigo da dama, armado de todas as armas e com duas bravas pistolas, apareceu decidido a vingar sua ofensa.
Achou o antigo amante solitária a mulher, mas com enganosas palavras deteve ela seu airado ânimo, e quando houve controlado tão arrebatada cólera, com grande presteza tirou da manga um punhal e caiu ao chão morto o infeliz.
Referiu Estefânia o sucesso ao rico mercador. Passados alguns meses, estando ele muito atormentado pelos ciúmes, ameaçou-a com acusá-la à justiça do homicídio feito. Nesses dias foram juntos banhar-se na lagoa de Tarapaya. Arrojou ela de si seus ricos vestidos, ficando patente a neve de seu corpo salpicada de belíssimo carmin, e nua atirou-a à água. Seguiu-a o descuidado mercador e estando juntos na metade da lagoa, com toda a força de seus braços meteu ela a cabeça do desaventurado dentro da água.
Não se creia que pararam ali suas abominações. Deu um golpe de alfanje acabou com a vida de um cavalheiro de ilustre sangue; e a outros dois matou com veneno que enviou em uma merenda. Por suas intrigas transpassaram-se outros os peitos com as espadas, ficando Estefânia alegríssima de que se derramasse sangue por sua causa.
E assim foi até o ano de 1645, quando escutou a pecadora um sermão do padre Francisco Patino, servo de Deus de cujas admiráveis virtudes gozava neste tempo Potosí, e socorreu-a Deus com um raio de sua divina graça. E foi tão grande a dor de Estefânia que começou a derramar rios de lágrimas, com grandes suspiros e soluços que pareciam arrancar-lhe a alma, e quando acabou o sermão arrojou-se aos pés do sacerdote pedindo-lhe confissão.
Exortou-a o padre à penitência e absolve-a, que bem se sabe com quanta felicidade se entregam as mulheres em mãos da serpente, por coisas herdadas da que tentou Adão. Levantou-se Estefânia dos pés do confessor qual outra Madalena e quando ia a caminho de sua casa, oh feliz pecadora!, mereceu que lhe aparecesse Maria Santíssima e lhe dissesse: “Filha, já estás perdoada. Eu pedi por ti a meu Filho, porque em tua infância rezavas meu rosário”.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Acerca dos fatos

 “Não é certo se irritar com os fatos, porque eles não se importam com a sua irritação.”

Marco Aurélio, em Meditações

A Contadora de Filmes




[12]

O filme durou três horas. Chorei mais que Sara García, a veterana atriz do cinema mexicano. Eu nunca havia gostado tanto de um filme. Depois soube que, além de ser tão longo, tinha sido o filme mais caro da história. E que havia ganhado onze prêmios Oscar. E além de tudo, Charlton Heston era um dos atores de quem eu mais gostava.
Cheguei em casa com os olhos vermelhos. Todos me esperavam com grande expectativa. Tomei em silêncio a xícara de chá, me pus na frente deles, e sem que meus joelhos tremessem nem nada, comecei a minha narração.
Foi então que alguma coisa se apoderou de mim.
Enquanto contava o filme – gesticulando, dando braçadas, mudando a voz – ia como que me desdobrando, transformando, convertendo-me em cada um dos personagens. Naquela tarde fui Ben-Hur, o jovenzinho. Fui Messala, o malvado do filme. Fui as duas mulheres leprosas que Jesus curou.
Fui o mesmíssimo Jesus.
Eu não estava contando o filme, eu estava atuando o filme. Mais ainda: eu estava vivendo o filme. Meu pai e meus irmãos me ouviam e olhavam para mim de boca aberta.
“Essa menina é uma artista completa”, comentou meu pai quando, esgotada até a última gota, acabei de contar o filme.
Ele e meus irmãos pareciam estar flutuando.
E estavam com os olhos marejados.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

21/10/2026

Criolo | Não Existe Amor em SP

 

10 Paezinhos

 

Vintém de Cobre (Freudiana)

Eu vestia um antigo mandrião
de uma saia velha de minha bisavó.
Eu vestia um timão feio
de pedaços, de restos de baeta.

Vintém de cobre:
ainda o vejo
ainda o sinto
ainda o tenho
na mão fechada.

Vintém de cobre:
dinheiro antigo.
Moeda escura,
recolhida, desusada.
Feia, triste, pesada.

Corenta. Vintém. Derréis.
Dinheiro curto, escasso.
Parco. Parcimonioso
de gente pobre,
da minha terra,
da minha casa,
da minha infância.

Vintém de cobre:
Economia. Poupança.
A casa pobre.

Mandrião de saias velhas.
Timão de restos de baeta.
Colchas de retalhos desbotados.
Panos grosseiros, encardidos, remendados.
Vida sedentária.
Velhos preconceitos.
Orgulho e grandeza do passado.

Pé­-de­-meia sempre vazio.
E o sonho de ajuntar.
Melhorar de vida, prosperar,
num esforço inútil e tardio.

Corenta, vintém, derréis...
Eu ajuntando.
Mudando de caixinha, mudando de lugar.
Diziam, caçoando, as meninas da escola:
“– Muda de lugar que ele aumenta...”
Eu acreditava.
Guardava cinquinho a cinquinho
na esperança irrealizada
de inteirar quinhentos réis.
Fui criança do tempo do cinquinho,
do tempo do vintém.
Do antigo mandrião
de saias velhas da vovó.
De cobertas de retalho,
de panos grosseiros encardidos,
remendados.
De velhos preconceitos
– orgulho e grandeza do passado.
Opulência. Posição social.
Sesmarias. Escravatura.
Caixas de lavrado.

Parentes emproados.
Brigadeiros. Comendadores,
visitando a Corte,
recebidos no Paço.
Decadência...
Tempos anacrônicos, superados.

Fui menina do tempo do vintém.
Do timão de restos de baeta.
Fiquei sempre no tempo do cinquinho.

No tempo dos adágios que os velhos
sentenciavam
enfáticos e solenes:
“– Quem nasce pra derréis não chega a vintém”.
Pessimismo recalcando
aquele que pensava evoluir.
“Vintém poupado, vintém ganhado.”
Estatuto econômico. Mote gravado
no corpo de algumas emissões.
“Na pataca da miséria o diabo tem sempre um vintém.”
Isto se dizia, quando moça pobre se perdia.
“Quem compra o extraordinário
vê­-se obrigado a vender o necessário.”
Doía... impressionava.
Era a Sabedoria que falava.

E a gente sentia até uma lagrimazinha de remorso
no canto do olho.
E se via mesmo de trouxinha na cabeça,
andando de déu em déu,
perseguida dos credores.
A casinha penhorada.
Os trenzinhos dados à praça.
Tudo irrecuperado, perdido,
porque tinha comprado o extraordinário:
um vestido de chita cor­-de­-rosa
pintadinho de azul.

O tempo foi passando, foi levando:
minha bisavó, meu avô, minha mãe, minhas irmãs.
A velha casa.
Os velhos preconceitos
de cor, de classe, de família.
O tempo, velho tempo que passou,
nivelou muros e monturos.
Remarcou dentro de mim
a menina magricela, amarela,
inassimilada,
do tempo do cinquinho.

Eu tinha um timão de restos de baeta.
Eu tinha um mandrião de uma saia velha
de minha bisavó.

Vintém de cobre:
Ainda o vejo
ainda o sinto
ainda o tenho
na mão fechada.
Moeda triste,
escura, pesada,
da minha infância,
da casa pobre.

Cora Coralina, em Poemas dos becos de Goiás e estórias mais

Candeia




Oito pessoas feitas de fé: três homens, duas mulheres, três crianças. Todos usando a túnica marrom de pano grosso exatamente igual à que são Francisco usava — eles tinham o direito de acreditar nisso. Surrão amarrado na cintura, algumas provisões. Poucas: eram sacos murchos no fim da jornada, pois dali já se enxergava a imagem de são Francisco de Canindé, marrom, gigantesco, de mãos espalmadas.
Andavam devagar. O homem mais jovem de joelhos, os outros ao redor, por perto. As crianças menores iam nos braços, a maior ia a pé e aceitava a penitência, talvez sem saber que ainda não devia nada a santo algum. Balbuciavam o tempo todo, não deixavam de rezar, o santo estava ouvindo. Caminhavam para que os visse, olhasse para o seu sacrifício e fosse benevolente com os pedidos que carregavam.
Não demorou para que percebessem o rapaz seminu e solitário do outro lado da estrada. Uma das mulheres se apressou a tirar do saco de pano uma garrafa de água, um trapo, um vidro com álcool, um pedaço de pão seco. Estavam ali para ajudar como são Francisco ajudou. Junto com o outro homem, o seu marido, correu para cuidar do suposto jovem romeiro. Quanto mais perto, mais doía o seu estado de miséria.
— Não vai te faltar caridade, irmão, são Francisco está te vendo! — disse a mulher, com fé e prontidão.
Samuel tomou a garrafa, bebeu a água com desespero, deixando cair pelos cantos da boca, pescoço, pelo peito.
— São Francisco vai te dar força, irmão! Você vai anoitecer nas bênçãos dele — disse o homem, sorrindo.
— Não sou romeiro, não, senhor — disse o hálito podre de Samuel, com algum deboche. — Só queria saber se Candeia ainda tá longe, mas se tiverem mais comida, também fico agradecido.
A mulher foi tomada de fúria. Não era romeiro, era um moleque malandro qualquer, um ladrão, estuprador, assassino, salafrário… Coisa boa não poderia ser. Um rapaz de bem não anda imundo pela estrada nem responde daquela maneira à caridade de quem tenta diminuir seu flagelo. Era uma mulher que partia, em segundos, de um extremo a outro da sua escala particular de análise do caráter alheio. Jogou o pão seco no chão e atravessou a pista de volta para os seus. O romeiro que ia com ela ainda ficou, sabia um pouco mais da vida e sobre a paciência com as fraquezas humanas. Já vira muita gente de bem enlouquecer na Estrada das Chagas, isso sempre foi comum. Naqueles anos de romaria vira de tudo no caminho e teve piedade, porque às vezes nem Deus livra o homem de enlouquecer. O demônio é artista. Poucos escapam dos enganos do Satanás.
Apontou a estátua de são Francisco e mostrou para Samuel o quanto já estava perto de chegar aos pés do santo.
— Ao menos pintaram a roupa desse desinfeliz — debochou. — O padre Cícero parece alma do outro mundo, todo branco. Candeia fica desse lado da pista, depois de Canindé. Vá com Deus, irmão.
Samuel não respondeu nada. O romeiro sorriu, muito levemente. Seu olhar dizia alguma coisa, talvez uma ou duas palavras de fé e força.
Samuel sentia-se muito mais forte depois de beber água e encontrar o homem, que ainda o observava do outro lado da pista. Acelerou o passo e constatou que estava mesmo perto de Candeia, agora sabia. Para isso o homem serviu, ele pensou. Já avistava algumas casas ao longe, à direita. Olhou o papel no bolso: “Niceia Rocha Vale, Manoel Vale, rua da Matriz, 52”.

Socorro Acioli, em A cabeça do santo

Três Corações

 


“Vamos mudar para Três Corações”, disse o pai. Os negócios estavam melhorando. Três Corações era entroncamento ferroviário. Facilitava a vida de um viajante de caderneta quilométrica, boné e guarda-pó.

Em Três Corações passava o rio Verde.
Em Três Corações estavam soldados que andavam a cavalo...

Lembro-me do meu pai, assentado à escrivaninha, fazendo um inventário da sua riqueza: a Encyclopaedia e Diccionario Internacional, a Biblioteca Internacional de Obras Célebres, dois quadros a óleo, sem moldura, um navio a velas em meio a um mar agitado, um veado galheiro soltando vapor pelas narinas, o atlas francês, uma máquina de escrever Smith-Corona portátil, um relógio de bolso, de ouro. Nada mais.
Minha mãe vivia na tristeza. Saudades do sobrado. Eu não tinha um passado de riqueza para comparar com o presente de pobreza. Por isso era feliz na pobreza. Acho que foi a sua memória do sobrado que fez com que ela nunca reconhecesse a casa onde morávamos como a sua casa. Quando ela dizia “lá em casa” era ao sobrado que ela estava se referindo. Ela vivia com saudades do sobrado. Daí a sua depressão.
Os deprimidos querem dormir. No sono não há tristeza. Minha mãe ia cedo para a cama. Se pudesse dormiria sempre. Mas eu e o Ivan, meu irmão, estávamos alegres. Não queríamos dormir. Íamos para a cozinha para um “concerto” de leitura: a Astolfina nos lia, soletrando, as Histórias do arco da velha. O suspense era máximo e nos arrepiávamos de terror quando ela lia que o herói, dentro de um quarto, ouvia uma voz lúgubre que dizia: “Eu caio, eu caio...”. Ao que ele, sem se perturbar, respondia: “Pois caia com Deus...”. E uma perna caía. E ia assim, a cada “eu caio, eu caio”, caíam braços, mãos, pernas, pés, cabeça, até que o corpo inteiro estava deitado no chão. Íamos para a cama com medo de que pernas nos caíssem na cabeça.
Na cama ouvíamos o relógio da matriz tocar oito badaladas. Eu ainda vivia o tempo da roça. Valia que já o sol se pusera, a noite chegara e as galinhas estavam dormindo nos poleiros. Noite profunda, a cidade adormecida, todos nas suas camas, as ruas vazias, os monstros da noite correndo soltos pela cidade, tal como acontecia na roça.
A Tofa fazia bonecas de pano para mim. Eu gostava de brincar com bonecas. Mais tarde os homens me disseram que era vergonhoso para um menino brincar com bonecas: “Quem brinca com boneca são as meninas”. Troquei então as bonecas por um ursinho. Com ursinhos os meninos podem brincar. Não é vergonhoso.

Rubem Alves, em O Velho que Acordou Menino

Faz de conta

Faz de conta que ela era uma princesa azul pelo crepúsculo que viria, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que sangue escarlate não estava em silêncio branco escorrendo e que ela não estivesse pálida de morte, estava pálida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz de conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz de conta verde cintilante de olhos que veem, faz de conta que ela amava e era amada, faz de conta que não precisava morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente da mão de Deus, faz de conta que vivia e não que estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, faz de conta que ela não ficava de braços caídos quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio, faz de conta que era sábia bastante para desfazer os nós de marinheiro que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua, faz de conta que ela fechasse os olhos e os seres amados surgissem quando abrisse os olhos úmidos da gratidão mais límpida, faz de conta que tudo o que tinha não era de faz de conta, faz de conta que se descontraíra o peito e a luz dourada a guiava pela floresta de açudes e tranquilidades, faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando.

Clarice Lispector, em Todos as crônicas