29/09/2026
Pelada de barranco
Nada havia de mais prestante em nós
senão a infância.
O mundo começava ali. Nosso campo
encostava na beira
do rio. Um menino Guató chegava de
canoa e embicava
no barranco. Teria remado desde cedo
para vir ocupar
a posição de golquíper no Porto de
Dona Emília Futebol
Clube. Nosso valoroso time. As cercas
laterais do campo
eram de cansanção. Espinheiro
fechado pra ninguém botar
defeito. Guató já trazia do barranco
duas pedras para servir
de balizas. Os craques desciam da
cidade como formigas.
José de Camos, nosso beque de espera
também tinha a
incumbência de soprar as bexigas.
Porque a nossa bola
era de bexiga, que às vezes caiam no
rio e as piranhas
devoravam. E se caísse no cansanção
os espinhos furavam.
Nosso campinho por miúdo só permitia
times de sete:
O goleiro, um beque de espera, um
beque de avanço e
três na linha. Chambalé nosso
técnico impunha regras:
só pode mijar no rio e não pode
jogar de botina.
Sabastião era centroavante. Chutava
no rumo certo. Sabia
as variações da bexiga no vento e
botava no grau certo.
Quando alguém enfiava as unhas na
pedra abria uma vaga.
Metade de nossos craques eram filhos
de lavandeiras e
outra metade de pescadores. Na aba do
campo a namorada
do Sabastião torcia: quebra esse
saba, destina eles pras
piranhas. Mas Chambalé não deixava
destinar. Quem destina
é Deusi – falava. No fim do jogo
alguns iam bater bronha,
outros iam no mato jogar o mantimento
e outros iam
pelotear passarinho. Guató pegava a
canoa e remava até
a aldeia a mil metros dali. A cidade
onde a gente morava
foi feita em cima de uma pedra branca
enorme. E o rio
paraguaio, lá embaixo, corria com
suas piranhas
e os seus camalotes.
Manoel de Barros, em Memórias Inventadas – A segunda infância
Correnteza
6
Passava já da meia-noite quando Rita
saiu da delegacia. Ela havia pedido a Fátima que orientasse os
filhos a manterem a casa trancada, e que, em qualquer emergência, a
chamassem. Rita Preta também estaria com o telefone para
monitorá-los à distância. Sentou-se no mesmo canto do dia anterior
— próximo à porta — e, por horas, viu uma procissão de pessoas
registrarem novas ocorrências. Num dia qualquer, estaria faminta e
exausta. Mas, curiosamente, não sentia fome ou fraqueza. Tinha a
energia infatigável das urgências, precisava encontrar o filho,
saber o que havia acontecido e prosseguir com a vida já afetada por
aquele grande problema. Por fim, Rita conseguiu concluir o boletim.
Também pediu para assinalarem a informação de que o filho tinha
sido levado numa abordagem policial, embora não tivesse qualquer
prova — a escrivã usaria um código para pontuar a questão —, e
perguntou se teria como saber se a entrada de Cid constava no sistema
de segurança pública.
“Não temos como verificar”, disse
a atendente, sem se dirigir em nenhum momento a Rita, apenas olhando
para o terminal de computador. “A senhora precisa ir até este
endereço aqui”, continuou, apontando para um pequeno cartão de
papel com a unidade policial de destino.
Ao chegar em casa, Rita nota que a luz
está acesa. Juca dorme, mas Cainho ainda está acordado. Quer saber
se a mãe tem notícia do irmão e se os comentários sobre a polícia
eram verdade. Rita confirma. Ela contou, durante o registro da
ocorrência, sobre a abordagem, e a atendente resistiu a anotar. A
mulher sugeriu que era um boato — e, por enquanto, era somente isso
mesmo —, mas orientou Rita a procurar na unidade do cartão onde
poderia obter mais notícias sobre a suposta abordagem e o
recolhimento.
“Não levaram seu irmão para uma
delegacia ou prisão. Recolheram ele para outro lugar. Ele é menor
de idade.”
“Eu vou com a senhora.”
“Não. Prefiro que você cuide do
Juca. Preciso de você em casa.”
Rita Preta entende que Cainho é
apenas um adolescente de catorze anos. Desajeitado, imaturo, talvez o
que menos soubesse lidar com a vida para além das paredes de casa.
Passava o tempo com livros e caderno na mão escrevendo anotações
sem serventia — era assim que pensava —, rabiscando, e por vezes
pouco atento, a cabeça no mundo da imaginação. Rita não
considerava o filho do meio um jovem estudioso. Ele tirava notas
medianas na escola, suficientes para ser aprovado. Ainda assim se
saía melhor que os irmãos. Nem sempre ela conseguia acompanhar, mas
vez ou outra procurava pelos títulos e pelos textos das capas de
livros para saber o que ele andava lendo. As leituras escolhidas não
tinham relação com as matérias que ele estudava. Eram romances,
livros de conhecimentos gerais, além de jornais velhos e folhetos
religiosos talvez úteis para outras atividades, mas não para a
escola. No entanto, apesar da aparente imaturidade, Rita Preta o
considerava plenamente capaz de cuidar do irmão e da casa, e
ajudá-la naquele momento. Afinal, ela não tinha começado a
trabalhar para uma família ainda mais nova? Rita confiava que ele
pudesse desenvolver habilidades para a vida resolvendo problemas
cotidianos e tomando decisões sem sua intermediação. A partir
daquele dia, ele seria muitas vezes convocado a assumir o posto de
responsável pela casa em sua ausência.
Rita sai cedo de casa para continuar
sua busca. Decide não ir ao supermercado onde trabalha, preferindo
inventar uma desculpa. Se contasse a verdade, achariam que ela era
mãe de um drogado ou arruaceiro, ou que seu filho estivesse
envolvido com atividades ilícitas. Precisava manter o emprego —
não se imaginava procurando trabalho outra vez por meses ou mesmo
anos, como via acontecer com muita gente, de todas as idades. Mas, ao
mesmo tempo, Rita precisava encontrar Cid, saber o que tinha
acontecido, ajudá-lo a sair de onde estivesse, trazê-lo de volta
para casa, desfazer as diferenças persistentes para se perdoarem
mutuamente. Sobretudo, precisava ajudá-lo a reencontrar seu caminho
na vida.
Nome completo. Data de nascimento.
Número do documento de identidade.
Rita tenta não parecer distraída, mãe relapsa, e procura informar
tudo que lhe é solicitado. Não pode falhar. Fotografia atual? Não,
só a do documento e mais algumas tiradas num celular de baixa
qualidade. Numa delas, Cid aparece sem camisa e com uma corrente
dourada de bijuteria escurecida. Ao fundo, um muro mal-acabado de
tijolos cerâmicos vermelhos à mostra e alguns pontos de limo. Os
dedos em “V”, o sinal da vitória. Em outra foto, Cid esconde o
rosto, não quer aparecer. Está deitado no sofá, a capa de tecido
sintético verde fluorescente está desajustada. O ambiente parece
escuro, embora fosse dia, Rita recorda; mas sobretudo era um dia
descontraído. Ela consegue vislumbrar o sorriso do filho por trás
das mãos enquanto tenta esconder o rosto. Em outra imagem, ele está
de costas, o cabelo recém-cortado, desenhos nas laterais feitos a
navalha. A imagem está desfocada, mas Rita se reprime e decide não
mostrá-la na delegacia. Poderiam pensar o pior. Ela mesma havia
censurado o filho, externara o próprio preconceito dizendo que
parecia corte de malandro, bandido. Quando ele fosse trabalhar — e
não faltava muito tempo —, não poderia ostentar cortes de cabelo
como aquele nem tatuagens no rosto, nas mãos, no pescoço. E o
serviço obrigatório do Exército? Daqui a dois anos, Cid precisaria
se alistar — quem sabe não é convocado? Pode ser um bom emprego.
Enquanto aguarda o atendimento, Rita seleciona as fotografias que
poderá mostrar como eventual fonte de reconhecimento, porém elas
começam a retroceder no tempo e já não serão tão úteis. Fato
inegável: Cid era o filho que mais havia mudado nos últimos dois
anos. Cresceu, o rosto parecia o de um adulto, mesmo pontilhado de
acne. Já retirava os pelos ao redor da boca. Explorando os arquivos
do celular, das últimas imagens para as primeiras, Rita vê a vida
em retrospectiva: uma selfie com Jorge na praia, ela com o corpo
bronzeado, óculos escuros e tranças afro que sempre a deixavam mais
jovem; em outra imagem ela surge de olhos fechados com os filhos à
sua volta. Parecem felizes, mesmo quando Cainho se mostrava sério,
sem achar graça das piadas e situações em que todos riam. Em outra
imagem, Juca aparece menor, um menino engraçado com uma espada de
plástico nas mãos e sentado nos ombros de Cid. O mais velho está
sem camisa, seu corpo adolescente à mostra, a bermuda caída abaixo
da cintura. Em outra fotografia, algo escuro num canto da parede e
uma vassoura ao lado caída no chão. Rita aumenta a imagem e vê o
que parece ser uma ratazana morta. Mais adiante, a foto de um vestido
branco e decotado na vitrine de uma loja — talvez quisesse copiar o
modelo para a costureira do bairro reproduzir um igual, para dançar
numa noite de encontro e festa.
A primeira vez que Cid suga seu seio
para se saciar da fome mais antiga, Rita o observa com verdadeira
curiosidade e sente sua alma em estado de graça. Quando a criança
caiu da escada e a fez correr para a emergência de um hospital.
Cinco pontos no queixo. Quando se alfabetizou, Cid passou a ler as
sílabas de trás para a frente. As horas de parto quando sofreu todo
tipo de violência num hospital público; um enfermeiro se sentou na
sua barriga para forçar a expulsão da criança, que, por fim, foi
retirada a fórceps. A criança era um sobrevivente e sorriu e correu
e brincou, resistindo à sentença que toda violência carrega.
Cainho escorregou como um quiabo por entre as pernas de Rita no
caminho para a sala de parto, e por pouco — muito pouco — não
foi ao chão. O mais novo subiu na porta do forno do fogão e
derrubou o almoço quente, que poderia tê-lo ferido com gravidade.
Porém essas fotografias não estão materializadas e arquivadas em
seu aparelho celular. São vistas em perspectiva na memória, sem a
ajuda de uma máquina, mas com o sangue correndo como rio em suas
veias.
Rita Preta responde com ênfase que
Cid não tem envolvimento com atividade ilícita. É um adolescente
como muitos, gosta de futebol, quer namorar, quer o tênis da moda e
sonha com uma vida melhor. Ela retira da bolsa a camisa encontrada no
dia anterior. Afirma que pode ser do filho e mostra para quem realiza
o atendimento.
“Vocês não precisam examinar?”
“Não, senhora. Não é necessário.”
“Ele estava a caminho da casa da
namorada. Deve ter saído com a camisa no ombro e outra vestida por
baixo. Alguém o levou, porque ele não deixaria a camisa em qualquer
lugar sabendo que eu ia ficar uma fera se descobrisse.”
A mulher não está interessada na
história que Rita conta e assinala que falta pouco para finalizar o
atendimento. Rita Preta guarda a camisa de volta na bolsa. Pergunta
se terá logo o resultado da pesquisa do sistema de segurança, se o
filho foi recolhido e se está em alguma unidade de correção. A
atendente diz que não, o prazo é de setenta e duas horas. Ela
precisará voltar ali para saber o resultado.
Registrado o desaparecimento e feita a
solicitação para tentar localizar Cid — se ele tinha sido ou não
abordado por policiais, como seu Aranha havia escutado —, Rita
Preta caminha até o ponto de ônibus, procura organizar as ideias em
meio ao caos daqueles dias. Não consegue pensar em nada que não
seja encontrar o filho mais velho, e segue sua intuição sobre quais
caminhos deve continuar a trilhar.
Itamar Vieira Júnior, em Coração sem Medo
Teatrinho
Temos de começar pela bibliografia:
Journal (1943-1945), de Julien Green; e A Volta do Gato
Preto, de Érico Veríssimo.
É que os dois contam, cruzadamente,
uma passagem, um caso que se deu, a 4 de agosto de 1944, no Mills
College, Oakland, Califórnia, Estados Unidos. Emparelhá-los seria
já de si curioso, texto e texto. Mas o próprio caso, em si, paga;
veja-se que vale a pena.
Veríssimo é imparcial, jovial, sem
rugosidades, entre distâncias. Aliteradamente, é um riacho: lúcido,
lépido, límpido. E bom contrarregra. Tenham como traz os
personagens. Diz:
De Julien Green: “... é um homem de
estatura meã, construção sólida, tez dum moreno claro, cabelos e
olhos escuros e um nariz gaulês, longo e fino. É retraído e
tímido, dessa timidez que à primeira vista pode parecer empáfia.
Só depois duma apresentação formal, durante a qual ele tirou da
cabeça o panamá creme, é que passou a me cumprimentar, mas sempre
cerimoniosamente.”
E de Carrera-Andrade: “Alto,
corpulento, monumental, com seu bigode aparado, seus olhos de
índio... Temos feito longos passeios pelo parque, a conversar sobre
homens e livros, viagens e ideias. Ao cabo de dois dias começamos a
divergir em quase todos os assuntos que atacamos.”
Mas, do que Veríssimo desdobra,
entende-se também um Carrera-Andrade rei no intolerar, exorbitante:
“... Um dia, ao cabo de uma
dissertação que lhe fiz relativamente à minha atitude diante do
mundo, concluiu:
“— Mas você não é um escritor
latino.
“— Por quê?
“— É um homem frio, metódico,
insensível.
“— Insensível? Frio? Essa é
boa...
“— Eu o tenho observado todos
estes dias, tenho acompanhado as suas reações às coisas que lhe
dizem, às pessoas que o cercam.”
Veríssimo sorri e desvê de mais
explicar-se.
Mas Carrera-Andrade — que usa
palmadas na coxa e outros jactos de impaciência — declara amor ao
“povo”, tem pendores para isso. Sua má-vontade para com os
norte-americanos se acende sempre. Assim:
“— Que se pode dizer dum país
onde nem criados existem!
“— Mas, meu caro poeta — observo
—, você não me disse que era socialista?
“— Pues si, amigo... Pero eso es
diferente. Siempre habrá señores y esclavos.”
Dando a um o dado ao outro, compara-se
agora. Green, no 3-V-43 de seu diário:
“Há os que deixam de repente de
crer em Deus. Quanto a mim, noto que deixo, pouco a pouco, de crer na
humanidade. Por muito tempo, ela se me impôs, com seus discursos,
suas leis, seus livros, mas começo a vê-la sob o verdadeiro
aspecto, que é triste, porque é uma velha louca, cujas crises de
ferocidade alternam com sorrisos.”
Carrera-Andrade faz belos versos, será
“um dos mais interessantes poetas modernos da América espanhola”.
A pessoa de um homem é uma catarata de surpresas.
E Green, que convive com a Bíblia e
compulsa o dicionário hebraico, ignora a existência de
Carrera-Andrade, mas sabe que o Demônio existe. Green é um místico
irresoluto. Passeia por si mesmo, como em claustro circular,
plataforma para o invisível. Glosa a danação e a graça, o
problema do mal, o destino, o pecado, o jogo entre Deus e o homem.
Mas, volta a falar Veríssimo, e a
cena principia:
“... Acha Carrera-Andrade que Julien
Green habita numa torre de marfim, alheio aos conflitos e
inquietações sociais do momento.
“— E se promovêssemos um
encontro..., por exemplo, um almoço com Green, para submetê-lo a
uma sabatina? — pergunta-me ele.”
Arma-se o almoço. Julien Green vem
sentar-se à mesa dos sul-americanos, sem suspeitar da cilada que lhe
puseram. Veríssimo vai contando:
“... Finalmente Carrera-Andrade
aproveita uma deixa e entra no assunto:
“— Mr. Green, não encontramos nos
seus romances nenhuma inquietação relativa aos fenômenos sociais
do nosso tempo. Não há neles nem mesmo menção desses problemas...
“Green fita no interlocutor seus
olhos sombrios. O poeta continua:
“— Talvez tenha sido para evitar
essa dificuldade que o senhor situou a ação de Adrienne Mesurat
antes das duas Guerras...
“Todos nós esperamos a resposta com
interesse. Uma expressão quase de agonia passa pela fisionomia de
Julien Green. Ele olha para os lados, como a pedir socorro.
Finalmente tartamudeia:
“— Problemas sociais? Como poderei
escrever a respeito deles... se não os conheço? Só posso escrever
sobre minha experiência humana... Essas questões sociais estão
fora da minha experiência... Não é que eu não me interesse...
Acontece que me sinto verdadeiramente perdido neste mundo.
“Carrera vai insistir. Isso me
parece crueldade, crueldade de toureiro que, depois de farpear um
touro, de vê-lo sangrando, exausto, quer ainda ir até o golpe final
de espada.”
(Veríssimo é amigo de Thornton
Wilder; leu o de Michael Gould, sabe que as paixões vivem de
equívocos; opina:)
“Penso que um escritor da
importância de Green merece não apenas admiração, mas também
respeito. É, sem a menor dúvida, um romancista sério. Não falará
a nossa língua, o que não quer absolutamente dizer que seja mudo.
Não pertence ao nosso mundo, o que não quer dizer que deva ser
votado ao inferno. Por outro lado parece-me que seus livros serão
lembrados muitos anos depois que a obra de alguns dos escritores
modernos de propaganda tenha sido completamente esquecida.
“Carrera-Andrade continua a atirar
suas farpas. Acho melhor desviar a conversa do assunto. Vê-se
claramente que Julien Green está infeliz.”
Mas — atenção — agora, à versão
de Green no Journal:
“Ontem, na Casa Pan-americana,
almocei em companhia de vários sul-americanos, um dos quais muito
inteligente e os outros menos. Veríssimo, homem de grande modéstia
apesar de seu sucesso, falou-me de meus livros. Ele é moço, com uma
fisionomia agradável. À minha direita, uma espécie de bebê de
bigodes pergunta-me, com voz em que já vibra a cólera, por que não
escrevo romances ‘sociológicos’. Esse senhor sustenta, com
efeito, que os romances devem servir para alguma coisa, que não são
mais admissíveis as obras de arte que não sirvam para nada, e que
seria ‘um real perigo haver escritores demais como Julien Green’.
Digo-lhe então que esse perigo não é real, não é grande, e os
outros todos começam a rir.”
E, pois, públicos aplausos: Não se
diga que nosso patrício não se saiu excelentemente.
Guimarães Rosa, em Ave, Palavra
Dúvida
Velha governanta do filósofo Descartes; avarenta e pechincheira, desconfia de tudo e de todos, menos dela.
Mário Quintana, em Caderno H
O cozer das pedras, o roer dos ossos
1
Do pó ao chão de terra seca
“Pai nosso que estais no céu,
santificado seja o Vosso nome, venha a nós o Vosso reino, seja feita
a Vossa vontade, assim na Terra como no céu…”, rezava em coro
aquele pobre povo que velava a céu aberto o corpo de Mirtão. O
aumentativo do apelido do homem fazia referência a seu já morto
corpo enorme, esticado por demais desde que se entendia por gente,
assustando os moradores inocentes da vila onde vivera. “[…] O pão
nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai as nossas ofensas, assim como
nós perdoamos a quem nos tem ofendido…”, continuavam as vozes
tristes. O rastro de temor deixado nas ruas pelo tamanho do homem que
ali jazia era um paradoxo: mesmo bruto e assustador, não dava a
ninguém razão para se esconder quando o assistia passar. Afinal,
todos ali sabiam de Mirtão e sua mãe, Dona Hermina, uma senhorinha
pequenina e encolhida pela idade, que amava o filho porque, acima de
tudo, ele prolongara sua existência. Ora, não fosse o agora corpo
morto, a velha teria sido enterrada muito antes que há quatro anos,
quando morreu de morte morrida que chegara com a idade. Tinha-se esta
certeza na vila: ela teria sido assassinada pelo marido bebum se o
agora defunto não o tivesse arrancado a desgostosa vida depois de
uma briga de bar em que os dois riscaram faca até um sucumbir de
tanto sangue derramar. Mirtão era herói e vilão, assustador e
salvador, filho amado e destinado pelo padre a queimar nas labaredas
não celestiais, pois havia de pagar pelos pecados que cometera. “[…]
E não nos deixeis cair em tentação…”, o caixão do homenzarrão
estava no solo, ao lado do buraco cavado até beirar o corpo de sua
amada mãe. Seguiram a tradição: o filho vai por cima. As vozes das
mulheres cortavam o silêncio daquele cemitério enquanto se
sobrepunham às dos homens na reza conhecida. O coro era uniforme, e
uma ou duas das muitas crianças ali presentes se arriscavam a
acompanhar o clamor. Estavam descalças e sem camisas, mesmo as
meninas, com os cabelos desgrenhados coroando suas cabeças grandes.
A maioria delas vestia apenas calcinha; e os meninos, cueca. Poucas
ousaram pôr uma regatinha surrada para esconder do sol as costas.
Tinham cinco ou seis anos, e demonstravam sua inocência agarradas às
pernas dos que foram prestar favor ao enterro. A respeito de tudo o
que as cercava naquele instante, sabiam apenas que Mirtão não
voltaria, e isso as acalmava, porque ele estar nas ruas era uma das
razões contadas pelos pais para segurá-las em casa o dia todo. As
mulheres, mães e rezadeiras, usavam chinelos ralos, com os cabelos
bem-arrumados e as unhas aparadas, mostrando respeito à figura que
agora partira. Os homens, usando chapéus de palha feitos por eles
mesmos, alguns esburacados e outros ainda verdes, seguravam as
enxadas envelhecidas que tanto cavaram a cova quanto cobririam de
terra o corpo quando fosse hora de devolver Mirtão ao pó. O
conhecido calor de trinta e seis graus fazia todos suarem, e algumas
das crianças, observando o momento boquiabertas, chegavam a sentir o
gosto salgado que escorria por suas testas, desenhando suas bochechas
e seguindo caminho para as bocas. Caramelo, adestrado pelo coveiro a
se manter em silêncio nos enterros, estava ao pé do povo suado,
ofegante e sem latir, deitado de bucho para baixo e pescoço erguido,
atento ao corpo no caixão destampado. A cena era boa para o cão:
depois daquilo, seu dono receberia uns trocados por ter enterrado
mais um em seu quintal, e isso garantiria o jantar dos dois, que só
tinham costume diário de almoçar. O círculo de gente fechava a
cova de três palmos e meio de fundura, fazendo as sombras largas das
cabeças delinearem a borda da circunferência projetada no solo. A
mata da caatinga, seca e inclinada na direção da ventania, cercava
à distância aquelas pessoas, rondando o terreno do coveiro e
limitando a área do cemitério. Cruzes de madeira estavam entortadas
e cravadas no chão, de forma desorganizada, alertando que, sob
aquele solo amarelado que há muito não via chuva, descansavam
outros corpos. No limite do terreno estava a cabana de taipa do
proprietário, ela que com quatro paredes baixas erguidas e um teto
de folhas secas de palmeira, ardia sob o sol e deixava exposta parte
dos pedaços de paus sustentantes do barro que a dava forma. “[…]
Mas livrai-nos do mal, amém…”, findaram o rito, enquanto o corpo
era retirado do caixão e enrolado na velha rede que o envolveria sob
terra até que o primeiro verme resolvesse satisfazer sua fome com as
carnes de Mirto Aroeira Pereira Santino, que eternamente ali estaria,
cumprindo sua parte na mais imprevisível profecia para o
bicho-homem.
Patrick Torres, em O cozer das pedras, o roer dos ossos
28/09/2026
Eu sei o que é primavera
Bem sei que é uma vaidade dizer em
plena primavera que eu sei o que é primavera. Às vezes porém
sou tão humilde que os outros me chamam a atenção. É uma
humildade feita de gratidão talvez excessiva, é feita de um eu de
criança, de susto também de criança. Mas, desta vez, quando
percebi que estava humilde demais com a alegria que me era dada pela
vinda da primavera chuvosa, dessa vez apossei-me do que é meu e dos
outros.
Sei o que é primavera porque sinto um
perfume de pólen no ar, que talvez seja o meu próprio pólen, sinto
estremecimentos à toa quando um passarinho canta, e sinto que sem
saber eu estou reformulando a vida. Porque estou viva. A primavera
torturante, límpida e mortal que o diga, ela que me encontra cada
ano tão pronta para recebê-la. Bem sei que é uma perturbação de
sentidos. Mas, por que não ficar tonta? Aceito esta minha cabeça à
chuva tremeluzente da primavera, aceito que eu existo, aceito que os
outros existam porque é direito deles e porque sem eles eu morreria,
aceito a possibilidade do grande Outro existir apesar de eu ter
rezado pelo mínimo e não me ter sido dado.
Sinto que viver é inevitável. Posso
na primavera ficar horas sentada fumando, apenas sendo. Ser às vezes
sangra. Mas não há como não sangrar pois é no sangue que sinto a
primavera. Dói. A primavera me dá coisas. Dá do que viver. E sinto
que um dia na primavera é que vou morrer. De amor pungente e coração
enfraquecido.
Clarice Lispector, em Todas as crônicas
Fé
Uma vez, da janela, vi um homem
que estava prestes a morrer,
comendo banana amassada.
A linha do seu queixo era já de fronteiras,
mas ele não sabia, ou sabia?
Como posso saber?
Comia, achando gostoso,
me oferecendo corriqueiro, todavia
inopinado perguntou
— ou perguntou comum como das outras vezes? —
como será a ressurreição da carne?
É como nós já sabemos, eu lhe disse,
tudo como é aqui, mas sem as ruindades.
‘Que mistério profundo!’ ele falou
e falou mais, graças a Deus, pousando o prato.
que estava prestes a morrer,
comendo banana amassada.
A linha do seu queixo era já de fronteiras,
mas ele não sabia, ou sabia?
Como posso saber?
Comia, achando gostoso,
me oferecendo corriqueiro, todavia
inopinado perguntou
— ou perguntou comum como das outras vezes? —
como será a ressurreição da carne?
É como nós já sabemos, eu lhe disse,
tudo como é aqui, mas sem as ruindades.
‘Que mistério profundo!’ ele falou
e falou mais, graças a Deus, pousando o prato.
Adélia Prado, em Bagagem
À sociedade
Meu entendimento é ou não suficiente
para este trabalho?
Se for, eu o empregarei como um
instrumento fornecido pela natureza universal.
Se não, eu o delegarei para alguém
mais capacitado — caso não haja um motivo para não delegar — ou
farei o meu melhor com o auxílio do homem que, com o suporte da
minha faculdade hegemônica, poderá fazer o que é proveitoso e
adequado ao bem coletivo. Afinal, tudo o que faço, sozinho ou não,
deve ser orientado somente pelo proveito e pela adequação à
sociedade.
Marco Aurélio, em Meditações
O Mestre e Margarida | 12
Magia negra e sua revelação
Um homem pequeno com um chapéu-coco
amarelo esburacado, nariz de batata cor-de-rosa, calça xadrez e
botinas envernizadas subiu no palco do Teatro de Variedades com uma
bicicleta simples de duas rodas. Ao som de um foxtrote, fez um
círculo, e então soltou um grito triunfante, que fez sua bicicleta
se empinar. Depois de dar uma volta sobre a roda traseira, o
homenzinho ficou de pernas para o ar, deu um jeito de desparafusar a
roda dianteira em movimento e a empurrou para os bastidores, e depois
continuou seu caminho sobre uma roda, rodando os pedais com as mãos.
Em um selim no alto de um grande
mastro metálico de uma só roda entrou uma loira roliça de maiô e
uma saia curtinha coberta de estrelas prateadas e começou a pedalar
em círculos. Quando cruzava com ela, o homenzinho dava gritos de
saudação e tirava o chapéu-coco da cabeça com o pé.
Finalmente, surgiu uma criancinha de
uns oito anos com rosto senil, ziguezagueando no meio dos adultos em
um velocípede de duas rodas minúsculo, ao qual estava acoplada
umaenorme buzina de automóvel.
Depois de fazer algumas acrobacias,
todo o bando, ao rufar alarmante do tambor da orquestra, foi
rodopiando até a ponta mais extrema do palco e os espectadores das
primeiras filas soltaram gritos de admiração e pularam para trás
em suas cadeiras, porque tiveram a impressão de que toda a troica ia
desabar com seus veículos sobre a orquestra.
Mas as bicicletas pararam exatamente
naquele momento em que as rodas dianteiras ameaçavam escorregar para
o abismo sobre as cabeças dos músicos. Com um grito bem alto de
“urra!”, os ciclistas saltaram de seus veículos, fazendo
saudações, enquanto a loira mandava beijos no ar para o público, e
a criancinha tocou sua buzina de som engraçado.
Os aplausos sacudiram o prédio e uma
cortina azul veio dos dois lados e encobriu os ciclistas. As luzes
verdes perto das portas com a inscrição “Saída” se apagaram, e
na rede dos trapézios, sob a cúpula, bolas brancas se acenderam
como o sol. Era o intervalo antes da última parte.
A única pessoa que não se
interessava nem um pouco pelas maravilhas da tecnologia das
bicicletas da família Giulli era Grigóri Danílovitch Rímski. Ele
estava sentado em seu gabinete na mais completa solidão, mordendo os
lábios finos, e volta e meia um espasmo passava por seu rosto. Ao
extraordinário sumiço de Likhodiêiev, somou-se o desaparecimento
completamente imprevisível do administrador Variênukha.
Rímski sabia para onde ele tinha ido,
mas ele tinha ido e... não tinha voltado! Rímski dava de ombros e
murmurava consigo mesmo:
— Mas por quê?
Que coisa estranha: para uma pessoa
tão prática como o diretor financeiro, o mais fácil de tudo seria,
é claro, telefonar para onde Variênukha tinha ido e procurar saber
qual tinha sido seu fim e, no entanto, até as dez horas da noite ele
não se decidira a fazer isso.
Às dez, praticando um verdadeiro ato
de violência contra si mesmo, Rímski tirou o fone do gancho para
então descobrir que o aparelho estava mudo. O mensageiro informou
que os demais telefones do prédio também estavam com defeito. Esse
acontecimento, claro, desagradável, mas não sobrenatural, sabe-se
lá por que abalou definitivamente o diretor financeiro. Ao mesmo
tempo, estava feliz: a necessidade de telefonar se esvaiu.
No momento em que a lâmpada vermelha
sobre a cabeça do diretor financeiro acendeu e começou a piscar,
anunciando o início do intervalo, o mensageiro entrou e informou que
o artista estrangeiro havia chegado. O diretor financeiro, sabe-se lá
por quê, estremeceu e, ficando ainda mais sombrio do que uma nuvem
carregada, dirigiu-se para os bastidores para receber o artista
visitante, pois não havia mais ninguém para fazer isso.
Do corredor, onde soavam campainhas de
aviso, curiosos espiavam o grande camarim, sob diversos pretextos. Lá
havia ilusionistas de capas vistosas e turbantes, um patinador com
uma jaqueta branca de tricô, um contador de histórias pálido de
tanto pó de arroz e um maquiador.
O famoso recém-chegado espantou a
todos com seu fraque de comprimento sem precedentes e corte
magnífico, e também por ter aparecido com uma meia-máscara negra.
Mas o mais admirável era os dois companheiros do especialista em
magia negra: um alto de xadrez com um pincenê rachado e um gato
preto e gordo, que, quando entrou no camarim nas duas patas
traseiras, sentou-se no sofá completamente à vontade, apertando os
olhos para as lâmpadas de maquiagem.
Rímski se esforçou para colocar um
sorriso no rosto, o que fez sua expressão ficar azeda e maldosa, e
então cumprimentou o mago mudo, sentado ao lado do gato no sofá.
Não houve aperto de mão. Em compensação, o atrevido sujeito de
roupa xadrez se anunciou ao diretor financeiro, denominando-se
“assistente do cavalheiro”. Esta circunstância deixou o diretor
financeiro admirado mais uma vez: no contrato, decididamente não
havia menção alguma a qualquer assistente.
Com um jeito extremamente forçado e
seco, Grigóri Danílovitch quis saber do tal de xadrez que havia
despencado sobre sua cabeça onde estavam os equipamentos do artista.
— Nosso diamante celestial,
valiosíssimo senhor diretor — respondeu o assistente do mago, com
a voz trêmula —, nosso equipamento está sempre conosco. Aqui está
ele! Eins, zwei, drei! — E, depois de girar seus dedos nodosos
diante dos olhos de Rímski, de repente tirou de trás da orelha do
gato o próprio relógio de ouro e a correntinha de Rímski que até
então estavam no bolso de seu colete sob o paletó abotoado, a
correntinha trespassada em uma casa do botão.
Rímski apalpou a barriga
involuntariamente, os presentes suspiraram e o maquiador que espiava
pela porta grasnou, concordando.
— É seu querido relógio? Queira
pegá-lo — disse o de xadrez, sorrindo casualmente e estendendo ao
perplexo Rímski a palma da mão suja com seu pertence.
— Qual é a ordem, messire? —
perguntou Fagot ao mascarado.
— Bom, fazer o quê? — retrucou o
mago, pensativo. — São pessoas como outras quaisquer. Gostam de
dinheiro, mas sempre foi assim... A humanidade gosta de dinheiro,
independentemente do que seja feito: de couro, de papel, de bronze ou
ouro. Bom, são levianas... fazer o quê... a misericórdia às vezes
bate em seus corações... são pessoas comuns... em geral fazem
lembrar as pessoas de antigamente... só que o problema habitacional
as corrompeu... — E ordenou em voz alta: — Coloquem a cabeça no
lugar.
Mirando com esmero, o gato enterrou a
cabeça no pescoço e esta se assentou perfeitamente, como se nunca
tivesse se ausentado de lá. E o principal, não ficou sequer uma
cicatriz no pescoço. O gato espanou o fraque e o peitilho da camisa
de Bengálski com as patas e os vestígios de sangue desapareceram.
Fagot ergueu Bengálski, colocando-o de pé, enfiou em seu bolso um
maço de dinheiro e o conduziu para fora do palco, com as seguintes
palavras:
— Fora daqui! Sem você é mais
divertido.
Olhando ao redor insanamente, e
cambaleando, o mestre de cerimônias conseguiu se arrastar até o
extintor de incêndio e ali se sentiu mal. Então soltou um grito
penoso:
— Minha cabeça, minha cabeça!
Entre os que correram até ele, também
estava Rímski. O mestre de cerimônias chorava, tentava apanhar algo
no ar, balbuciava:
— Devolvam minha cabeça! Devolvam a
cabeça! Peguem o apartamento, os quadros, mas devolvam a cabeça!
Um recepcionista foi correndo em busca
de um médico. Tentaram acomodar Bengálski em um sofá do camarim,
mas ele começou a se debater, ficou violento. Foram obrigados a
chamar uma ambulância. Quando o pobre do mestre de cerimônias foi
levado, Rímski correu de volta para o palco e viu que novas
maravilhas estavam acontecendo ali. Ah, sim, naquele momento, ou um
pouco antes, o mago, junto com sua poltrona desbotada, havia
desaparecido do palco, e, a propósito, é preciso dizer que o
público nem sequer notou, seduzido que estava com aquelas coisas
excepcionais que Fagot desdobrava no palco.
Depois de despachar o vitimado mestre
de cerimônias, Fagot anunciou ao público:
— Agorinha, depois de nos livrarmos
desse chato, vamos abrir uma loja para damas!
E imediatamente o chão do palco
cobriu-se com tapetes persas, surgiram enormes
espelhos, iluminados nas laterais por
tubos esverdeados. Entre os espelhos, vitrines, e nelas os
espectadores, alegres e aturdidos, viram vestidos parisienses, de
diversas cores e cortes. Isso só em algumas vitrines. Já em outras
apareceram centenas de chapéus para damas, com plumas e sem plumas,
com fivelas e sem, centenas de sapatos — pretos, brancos, amarelos,
de couro, de cetim, de camurça, com tiras, com pedrinhas. Entre os
sapatos apareceram estojos de perfumes, montanhas de bolsas de couro
de antílope, de camurça, de seda e, entre elas — verdadeiras
pilhas de pequenos estojos alongados de ouro cinzelado em que se
costuma colocar o batom.
Vai saber o diabo de onde saiu uma
moça ruiva com uma toalete preta de gala, uma moça bonita em todos
os sentidos, não fosse por uma estranha cicatriz no pescoço que a
desfigurava, com um sorriso de proprietária ao lado das vitrines.
Fagot, sorrindo, malicioso e doce,
anunciou que a casa estava realizando, sem cobrar nada, a troca de
vestidos e calçados femininos velhos por novos modelos parisienses e
novos calçados parisienses. Ele acrescentou o mesmo com relação às
bolsas e ao restante.
O gato começou a arrastar a pata
traseira e com a dianteira fazia uns gestos, próprios de porteiros
quando abrem uma porta.
Mesmo afônica e com a língua presa,
a moça começou a cantar docemente algo pouco compreensível, mas, a
julgar pelos rostos femininos da plateia, muito sedutoramente:
— Guerlain, Chanel nº 5,
Mitsouko, Narcisse Noir, vestidos de gala, vestidos para
coquetéis...
Fagot se contorcia, o gato fazia
reverências, a moça abria vitrines de vidro.
— Por favor! — vociferava Fagot. —
Sem constrangimento ou cerimônia!
O público estava agitado, mas ninguém
se atrevia a ir até o palco. Finalmente, uma morena saiu da décima
fileira da plateia e, sorrindo, digamos, como se desse na mesma e não
tivesse nenhuma importância para ela, passou pela escada lateral e
subiu ao palco.
— Bravo! — gritou Fagot. — Vamos
cumprimentar a primeira cliente! Uma cadeira, Behemoth! Vamos começar
pelos calçados, madame!
A morena sentou-se na poltrona e
imediatamente Fagot despejou um amontoado de sapatos no tapete diante
dela. A morena tirou o sapato do pé direito, experimentou um lilás
e pisou pelo tapete, examinando o salto.
— Será que não vai me apertar? —
perguntou de forma pensativa. Ao que Fagotexclamou, ofendido:
— O que é isso, o que é isso! —
e o gato miou também, ofendido.
— Vou levar esse par, monsieur —
disse a morena com orgulho, calçando também o outro sapato.
Os sapatos velhos da morena foram
jogados para trás da cortina, para onde também seguiu ela mesma,
acompanhada da moça ruiva e de Fagot, que levava vários vestidos da
última moda em cabides. O gato ajudava, atarantado, e, para dar um
ar de importância, pendurou uma fita métrica no pescoço.
Um minuto depois, a morena saiu de
trás da cortina com um vestido que fez um suspiro rodopiar por toda
a plateia. A audaciosa mulher, admiravelmente mais bela, parou diante
do espelho, moveu os ombros desnudos, tocou os cabelos na nuca e
virou-se, tentando ver as próprias costas.
— A casa pede que aceite isso como
recordação — disse Fagot, oferecendo à morena um estojo aberto
com um frasco.
— Merci — respondeu a
morena, soberanamente, e foi para a plateia pela escada. Enquanto
andava, os espectadores saltavam e tocavam no estojo.
Então, de todos os lados, como uma
avalanche, mulheres foram para o palco. Em meio ao rebuliço geral de
vozes, risinhos e suspiros, ouviu-se uma voz masculina: “Não vou
permitir uma coisa dessas!”, e outra feminina: “Seu déspota,
pequeno-burguês! Assim você vai quebrar meu braço!” Mulheres
desapareciam atrás da cortina, deixavam seus vestidos e saíam com
novos. Toda uma fileira de damas sentada em banquinhos de pés
dourados batia energicamente os calçados novos no tapete. Fagot se
ajoelhava, manejando uma calçadeira de metal. O gato, atolado no
meio de um monte de bolsas e sapatos, zanzava de um lado para o outro
entre as vitrines e os banquinhos. A moça do pescoço deformado
aparecia e desaparecia e chegou até mesmo ao ponto de ficar papeando
inteiramente em francês, e o mais impressionante era que todas as
mulheres a compreendiam mesmo com meias palavras, até as que não
sabiam uma palavra sequer de francês.
Admiração geral foi provocada por um
homem que se enfiou no palco. Ele anunciou que sua esposa estava
gripada e por isso pedia que lhe dessem algo para levar-lhe. Para
provar que era realmente casado, o cidadão prontificou-se em
apresentar a certidão. A declaração do marido dedicado foi
recebida com gargalhadas e Fagot vociferou que acreditava nele como
em si próprio, mesmo sem a certidão, e entregou ao cidadão dois
pares de meias de seda, e o gato incluiu de sua parte um pequeno
estojo de batom.
As mulheres atrasadas irrompiam no
palco, e dali transbordavam bem-aventuradas com vestidos de baile,
robes com dragões, trajes sóbrios e pequenos chapéus apoiados
sobre uma sobrancelha.
Então Fagot anunciou que, dali a
exatamente um minuto, em função da hora tardia, a loja ficaria
fechada até a noite do dia seguinte, e uma incomensurável confusão
tomou conta do palco. As mulheres agarravam sapatos apressadamente,
sem experimentá-los. Uma, feito um furacão, irrompeu para trás da
cortina, arrancou ali mesmo seu traje e se apossou da primeira coisa
que apareceu pela frente — um chambre de seda com estampa de buquês
enormes de flores. Além disso, conseguiu agarrar dois estojos de
perfumes.
Exatamente depois de um minuto, houve
um disparo de pistola, os espelhos desapareceram, as vitrines e os
banquinhos se dissiparam, o tapete evaporou no ar, assim como a
cortina. A última coisa que desapareceu foi a altíssima montanha de
vestidos e calçados velhos, e o palco ficou novamente austero, vazio
e desnudo.
E foi aqui que um novo personagem se
intrometeu.
Um barítono agradável, sonoro e
muito insistente foi ouvido do camarote número dois:
— De qualquer maneira, cidadão
artista, seria desejável que, sem perder mais tempo, o senhor
revelasse diante dos espectadores a técnica de suas mágicas, em
especial a das cédulas de dinheiro. Seria desejável, também, o
retorno do mestre de cerimônias ao palco. Os espectadores estão
agitados sobre o destino dele.
O barítono pertencia a ninguém menos
que o convidado de honra daquela noite, Arkádi Apollônovitch
Sempleiárov, presidente da Comissão de Acústica dos Teatros
Moscovitas.
Arkádi Apollônovitch estava no
camarote com duas damas: a mais velha usava trajes caros e da moda, e
a outra — jovenzinha e bonitinha — trajes mais simples. A
primeira, como se soube durante a redação do relatório, era a
esposa de Arkádi Apollônovitch; a segunda, sua parente distante,
atriz iniciante e promissora, que viera de Sarátov e estava morando
no apartamento de Arkádi Apollônovitch e sua esposa.
— Pardon! — retrucou Fagot.
— Peço desculpas, aqui não há nada a ser revelado, tudo está
claro.
— Não, sinto muito! A revelação é
totalmente necessária. Sem isso esses brilhantes números deixarão
má impressão. A massa de espectadores exige explicações.
— Parece que a massa de espectadores
— rebateu o palhaço insolente, interrompendo Sempleiárov — não
tem nada a declarar. Mas, levando em consideração o seu profundo e
respeitável desejo, Arkádi Apollônovitch, que assim seja, eu farei
uma revelação. Porém, para isso, permita-me mais um numerozinho?
— Por que não? — respondeu Arkádi
Apollônovitch, com ar condescendente. — Mas com uma revelação,
sem falta!
— Sim, senhor, sim, senhor. Então
permita-me perguntar, onde o senhor estava ontem à noite, Arkádi
Apollônovitch?
Diante dessa pergunta descabida e,
digamos, indelicada, o rosto de Arkádi Apollônovitch ficou
alterado, realmente bastante alterado.
— Ontem à noite Arkádi
Apollônovitch estava em uma reunião da Comissão de Acústica —
declarou de forma muito arrogante sua esposa. — Mas não estou
entendendo o que isso tem a ver com magia.
— Ouiii, madame! —
confirmou Fagot. — É natural que a senhora não entenda. Mas,
quanto à reunião, está totalmente enganada. Quando saiu para a
referida reunião, que, diga-se de passagem, nem estava marcada para
ontem, Arkádi Apollônovitch dispensou seu motorista perto do
edifício da Comissão de Acústica em Tchístie Prudý (o teatro
inteiro silenciou) e, sozinho, tomou um ônibus até a rua
Ielôkhovskaia para fazer uma visita a uma atriz do teatro itinerante
do distrito, Mílitsa Andrêievna Pokobátko, e com ela passou cerca
de quatro horas.
— Ai! — alguém soltou uma
exclamação de sofrimento em meio ao silêncio absoluto.
De repente a jovem parente de Arkádi
Apollônovitch soltou uma gargalhada baixa e terrível.
— Tudo está esclarecido! —
exclamou ela. — Eu já desconfiava disso fazia muito tempo. Agora
está claro porque aquela besta quadrada ganhou o papel de Luisa!
E, agitando-se repentinamente, bateu
na cabeça de Arkádi Apollônovitch com seu pequeno e grosso
guarda-chuva lilás.
O pérfido Fagot, também chamado
Korôviev, gritou:
— Vejam, veneráveis cidadãos, um
dos casos de revelação que Arkádi Apollônovitch arrumou com tanta
impertinência!
— Como você se atreve, sua infame,
a encostar em Arkádi Apollônovitch? — perguntou a esposa com um
ar terrível, levantando-se no camarote em todo seu tamanho gigante.
Um segundo e breve acesso de riso
satânico tomou conta da jovem parente.
— E quem mais do que eu —
respondeu ela, rindo — se atreveria a encostar nele! — E pela
segunda vez o estalido seco do guarda-chuva batendo na cabeça de
Arkádi Apollônovitch ressoou no teatro.
— Polícia! Prendam-na! — gritou a
esposa de Sempleiárov com uma voz tão terrível que muitos sentiram
o coração gelar.
Então o gato apareceu na ribalta e
esbravejou para o teatro inteiro ouvir com uma voz humana:
— A sessão acabou! Maestro! Execute
uma marcha!!
O enlouquecido maestro, sem se dar
conta do que estava fazendo, agitou a batuta, e a orquestra não
começou a tocar, nem mesmo a soar ou a retumbar, mas precisamente,
seguindo a expressão repulsiva do gato, executou uma marcha
incrível, de uma rudeza sem precedentes.
Por um momento pareceu que as palavras
dessa marcha, pouco inteligíveis, mas muito audaciosas, tinham sido
ouvidas outrora em um café-cantante, sob o brilho das estrelas do
sul:
Sua excelência
De passarinhos gostava,
E para si
Belas mocinhas tomava!!!
Mas pode ser que não fosse nenhuma
dessas palavras, mas outras com essa mesma música, com letras
extremamente inadequadas. O importante não é isso, o importante é
que, depois de tudo, algo parecido com uma babel teve início no
Teatro de Variedades. A polícia correu até o camarote dos
Sempleiárov, os curiosos subiam nas divisórias, ouviam-se explosões
infernais de gargalhadas, gritos raivosos, abafados pelo retinir
dourado dos pratos da orquestra.
[…]
Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida
27/09/2026
1641 – Mbororé
As missões
Chegam os mamelucos da região de São
Paulo, caçadores de índios, devastadores de terras: avançam ao som
da caixa, bandeira estendida e ordem militar, troar de guerra,
vento de guerra, através do Paraguai. Trazem longas cordas com
colares para os índios que agarrarão, e venderão como escravos nas
plantações do Brasil.
Os mamelucos ou bandeirantes estão há
anos arrasando as missões dos jesuítas. Das treze missões do
Guayrá, não sobram mais que pedras e carvão. Novas comunidades
evangélicas nasceram do êxodo, águas abaixo do Paraná; mas os
ataques, incessantes, continuam. Nas missões, a serpente encontra os
passarinhos reunidos e engordados, milhares de índios treinados para
o trabalho e a inocência, sem armas, fáceis para o bote. Sob a
tutela dos sacerdotes, os guaranis partilham uma vida regulada, sem
propriedade privada nem dinheiro nem pena de morte, sem luxo nem
escassez, e caminham para o trabalho ao som das flautas. Nada podem
suas flechas de taquara contra os arcabuzes dos mamelucos, que provam
os aços de suas alfanjes fendendo em duas partes as crianças e
que como troféu levam tiras esfarrapadas de batinas e caravanas de
escravos.
Mas desta vez uma surpresa espera
pelos invasores. O rei da Espanha, assustado pela fragilidade destas
fronteiras, ordenou que entregassem armas de fogo aos guaranis. Os
mamelucos fogem em debandada.
Das casas brotam penachos de fumaça e
cantos de alabança a Deus. A fumaça, que não é de incêndio e sim
de lareiras, celebra a vitória.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
Sétimo caderno de Kindzu
Um guia embriagado
Já me cansavam aqueles dias em casa
de Assane. Que esperava? Nem Surendra nem Assane me podiam ajudar a
procurar Gaspar, o perdido filho de Farida. Se lhes pedia conselho
eles recolhiam os ombros, incapazes de responder. Para eles meu
assunto era coisa estranha, de um outro mundo.
Nesse entrequando, eles me
certificaram que a aldeia de Euzinha havia sido atacada e ninguém
nela mais residia. Euzinha devia agora estar no campo de deslocados.
Lá, com toda a certeza, residia agora a mulher que sabia do destino
de Gaspar. Porém, como chegar até ela? Os matos eram demasiado
mortais. Ninguém aceitaria me acompanhar. Antoninho, o ajudante da
loja, ao cabo de muita saliva, disse conhecer alguém que poderia me
conduzir pelos aforas. Deveríamos ir ao bar, lá se encontrava o
desditoso cujo.
Essa noite eu e Antoninho fomos ao
bar. Entrei e me deixei no balcão, escutando as vozes distantes dos
presentes, quase todos embriagados. Muitos aproveitavam as duas horas
de electricidade que o gerador da administração distribuía pelo
povoado. E se agremiavam na cervejaria, a juntar conversa, amolecendo
fraquezas em voz alta. Mais que os outros todos, dois homens se
discutiam. Antoninho identificou os tais. Um gordo, enormão,
balalaica carecendo de botões. Sendo chamado de Abacar Ruisonho. O
outro, denominado Quintino Massua, homem nervoso, tão magro que uma
ideia, só de ter peso, lhe fazia transpirar. Pois este Quintino
levantava o copo e celebrava as boas graças:
— Vou ficar rico, cheio da mola.
Os presentes se riam, sem dar outro
crédito que não fosse o de brincriação. E erguiam os copos,
festejosos. Antoninho me segredou, em rápida pincelada, o retrato de
Abacar Ruisonho. O homem era o chefe dos serviços de segurança,
vacilando entre o ruim e o perdoável. Pois ele chegava onde quer que
não fosse, abanava um cartão, nomeado que estava para intimar,
intimidar e lavrar em acta. Seu permanente serviço era contar os
viventes, conhecer quantos deslocados chegavam do campo. Passava o
dia de esquina em esguelha, numerando: um, dois, por aí avinte...
Empilhavam-se os números, baralhavam-se as pessoas. E recomeçava a
contagem. Às vezes, rebentavam-lhe as fúrias: que esta gente nunca
está quieta, grande porra! Uma coisa era certa: o gordo nem mau
seria. Pelo menos, o magro Quintino não se amedrontava com o gordo
Abacar. O magricelas se declarava, de juramentos para cima:
— Estou a dizer: amanhã sou eu
que vou distribuir favores. É bom vocês ficarem em concordâncias
comigo. Quem estiver contra mim não vai cheirar quinhenta.
Todos se descuidavam da verdade,
migrados no fumo daquele bar, longe da vida real. E aclamavam no
actual pobre o futuro falso rico. Se queria era engordar a fantasia.
Fazia-se a festa sem nenhum ingrediente que não fosse a miséria de
entrar num copo e afogar tristezas.
O único que não encontrava graça
era o gordo Abacar. Sério como uma segunda-feira, reprovava as
proclamações de Quintino Massua.
— São bebedeiras politicamente
incorrectas.
Nesse momento, entrou no bar um homem
estranho, pendurando uma pistola no vasto cinto. Ao sentir a presença
do cujo, os presentes se entrelinharam, caladinhos, metidos com seus
líquidos assuntos. Perguntei a Antoninho quem era o chegado.
— Esse é o Shetani. É melhor a
gente se emborar.
O silêncio se instalou no bar.
Contudo, naquele momento, Quintino Massua se desimportou, alheio aos
perigos. Para comprovações, subiu numa cadeira e proclamou-se autor
de feitos muito comentados em toda a vila:
— Aquelas notas de dinheiro que
apareceram na praia: quem foi que rasgou-lhes? Eu mesmo, próprio
Quintino.
O gordo Abacar ruminou cerveja,
empapou argumento. Os presentes deixaram as graças e se abotoaram
consigo mesmos. Antoninho me puxou pelo braço insistindo que
deveríamos ir embora:
— Por favor de Deus, vamos para
casa!
A brincadeira resvalava nos perigos, o
assunto das notas era matéria de muito-o-quê. Shetani já comichava
a mão sobre o cinto, deitando um nervo sobre a pistolenta. Mas o
magrinho Quintino, discursador, prosseguia:
— Vejam motivo do sofrimento de
hoje. É porquê?
Virando-se para mim me perguntou se eu
sabia o real motivo dos cajueiros não florirem. Abacar me falou,
ten-tando me tranquilizar:
— Não ligue. Isto é atraso,
ignorância bravia. Vale a pena insistir? Vale a pena esclarecer esta
gente? Eu sempre acho que sim. Do menos o mal: afinal, grão a grão
o papa se enche de galinhas.
Hospitaleiro, o volumoso Abacar me
ofereceu um espaço no balcão, a seu lado. Enquanto bebia,
desembolsava mais ditados:
— No papar é que está o ganho!
O homem aproximou-me o bafo. Pensei
que, postos os modos de confidência, fosse falar em sussurro. Mas
usou o mesmo tom de xipalapala entupido:
— Vou-lhe confessar: me irrita
esse Quintino é só por gosto que tenho nele. O gajo não compreende
que eu lhe quero proteger. Quando lhe trato assim, faz conta um
doentio, é para esses grandes pensarem ele é tonto, suas palavras
são sempre de tira-e-põe. Você sabe: em terra de cego quem tem um
olho fica sem ele.
Súbito, uma enorme explosão
estrondeou. A luz sacudiu-se, por segundos, depois desfaleceu. No
escuro, calados, aguardámos nova explosão. Apenas uma voz se fez
ouvir:
— Cabrões, foi aqui mesmo!
Quem estaria disparando? O exército
ou os bandos? Contra quem estariam disparando? Alguém riscou um
fósforo, uma vela se acendeu no balcão. Depois, vários xipefos se
iluminaram e foram distribuídos pelas mesas. Quintino foi o primeiro
a voltar às falas, retomador da folia.
— Você, então? Nada se fala?
O homem se aproximou de mim, eu já
estava sem remédio: metido na disputa. Mais queria ficar de fora,
alheio à conversa perfurada, mais eu estava com o pescoço dentro
dela. Nervoso, o homem me empastou com seu hálito:
— Você estrangeiro, escuta.
Nesta terra se passam muitas merdas, todos tem medo de falar. Eu sei
quem está a matar aqui. Não são só os bandos. Há outros, também.
Os bebedeiros se encolheram: as
palavras de Quintino soaram como a explosão de há pouco. Quintino
insistia: há coisas que todos sabem mas ninguém diz.
— Agora, em Moçambique, a guerra
é como se fosse uma machamba.
E se explicou: a guerra gerava altos
tacos, cada um semeava uma guerra particular. Cada um punha as vidas
dos outros a render. Aquele silêncio estava agora demasiado mortal.
Se escutou, então, a voz rosnante de Shetani:
— Esse gajo tem os dias
descontados!
Quintino prosseguiu destemeroso,
ignorando a presença do antigo combatente:
— É por isso essa guerra não
acaba nunca mais. É assim, exactamesmo. Este Abacar também sabe, só
não fala porque é um merda, filho de uma diarreia.
Aquilo era a gota transbordando.
Abacar ficou calado, marsupial. Nem eu notara que estivesse tão
bebido. O ex-cesso de álcool lhe dava uma aparência compenetrada.
Bambavam-lhe as pernas, a barriga toda de fora, parêntesis curvo do
peso. De repente, porém, arremessou a mão fechada contra a cara de
Quintino que caiu, instantâneo, em ruidoso chapinhar. Ficou ali,
todo inerte, esmãozinhado. Em volta, um círculo de vozes lhe
chamava:
— Quintino, acorde!
Não respondia coisa nem coisa. Seria
que ele, pessoalmente, tinha morrido? Perguntei, de inocente. Em
redor, os outros se mancharam a rir. Eu não me afligisse, aquilo era
muito costumeiro: o magrito acabava sempre assim as noites, no
encosto do chão. Abacar se chegou até mim, amaciando os nós dos
dedos.
— Tive que lhe arrear. Não tenho
gosto de bater. É só para calar o gajo.
Foi então que, naquela penumbra
ponteada de lamparinas, surgiu uma mulher acompanhada de um cão de
dimensões. Antoninho me sussurrou: aquela era Juliana Bastiana, a
prostituta cega. Olhei a dita enquanto o silêncio regressava àquele
lugar fumarento. Shetani chamou Abacar e disse-lhe qualquer coisa ao
ouvido. Os dois se riram, alto e mau som. A cega abria caminho entre
as mesas. A mão dela, ao de leve, tocava o dorso do animal: assim se
guiava.
— Estou ouvir o cheiro de um
homem de fora. Quem sabe me trazem notícia do meu brigadeiro...
Suspirava saudades que nem convinham a
uma mulher sabida e cursada em contrabandalheiras. Seu modo de ser
cega fazia que não parecesse uma dessas trampalhonas, virabazucas.
Ela se chegou, me cheirou. A saia dela se apertava no corpo, o rabo
quase nem devia respirar.
— Não tenhas medo do cão. Ele é
mais bondoso que muitos desses, disse apontando para a multidão.
Me pediu ser paga, juntou logo três
copos. Mandou o cão para fora, o bicho que esperasse por ela.
Obediente o cachorro meteu as pernas entre o rabo e saiu. Olhei em
redor, a conversa embaretecera, risos rolando em risos. Nem parecia
ter havido o tiroteiro, há segundos. Não parecia mesmo haver lá
fora, tudo se resumindo àquele barzito. A cega pareceu adivinhar
meus pensamentos.
— Graças a Deus sou cega. Lá
fora, o mundo está pior. Por causa essa guerra, já ninguém se
compaixona por ninguém.
Ela então contou sua razão de
suspirar: aguardava o brigadeiro Silvério Damião, seu amante muito
militar, exercendo patentes no exército colonial. Juliana
historiava: que o brigadeiro tinha saído em missão recente contra
os turras, na defesa da lusitana terra. A cega misturava os tempos,
fazia do passado um tempo vigente. De um brusco gesto, meteu todo um
braço dentro de sua saca e retirou um molho de envelopes.
— Tudo isso são cartas dele, não
passa nenhuma semana que não escreva. Queres ler, estrangeiro?
Segurei as cartas, hesitante. Não li
nenhuma. Aproveitei o momento para lhe explicar o motivo da minha
presença naquele bar. Quem sabe ela me poderia apontar alguém capaz
de me acompanhar em procuras no mato. Juliana Bastiana permaneceu sem
resposta, parecia nem lhe chegara meu pedido. Pensei que deveria
abrir um pouco dos motivos, lhe devia uma explicação. Mas ela me
interrompeu:
— Há um motivo de amor?
— Sim, há.
— Então, não preciso saber
mais.
Sorri, agradecido. Mantinha as cartas
na mão, com delicado respeito, como se ela me pudesse ver. Devagar
fui pousando os envelopes sobre a mesa. Os homens me olhavam,
desdenhosos. Eu, um de fora, gozava a companhia de Bastiana. Baixei a
voz e o gesto para não criar caso. As caras em volta eram de nenhuns
amigos. Antoninho, só então reparei, já tinha saído do bar.
Juliana me pareceu adivinhar o sentimento:
— Não tenha medo. Esses gajos é
que tem razão para terem medo.
Só o brigadeiro Silvério, seu
distante amante, era um homem muito inteiro, sem minhufas de ninguém.
Era por isso que os outros sempre se irritavam quando ela anunciava o
breve regresso do militar.
Voltei ao assunto da minha pergunta.
Adiantei que se tratava de procurar uma criança há muito
abandonada. Juliana lançou um terrível pressentimento: se fora há
muito tempo, então esse miúdo devia andar com os bandos,
patifaristando pelos matos, feito semeador de infernos.
— Mesmo assim lhe quero
encontrar, respondi.
Eu queria ganhar tempo, entreter a
prostituta a ver se ela se inclinava a deixar cair o nome de alguém
que me servisse de guia.
— Tens arma, estrangeiro? Não
tens? É muita pena: porque era bom que ensinasses a esse menino
maneiras de matar, bons métodos de roubar.
Da bolsa retirou um cigarro e, sem
acender, o ajeitou entre os lábios. É só para os outros verem,
nem tu sabes quanta inveja vale uma coisa dessas, disse ela
abanando o cigarro.
— Encontras o miúdo, mas ficas
proibido de lhe dar caneta ou enxada. Isso não dá vida para
ninguém. Vale a pena uma arma, estrangeiro. Nestes dias, uma arma é
que faz a vida. Rápida e boa.
Do cigarro apagado ela arrancava
invisíveis fumaças. Foi rodando a cabeça, espreitando as vozes.
Sacudiu a cadeira, para me chamar a atenção. Apontou a mesa ao lado
onde estava Shetani.
— Tu não sabes o meu perigo de
sentar aqui, sozinha consigo.
Não demorei entender. No fundo do
bar, Shetani chamou Bastiana. Usava os modos de espalhador de brasas.
— Anda-te aqui. Quero mostrar-lhe
uma coisa.
Bastiana levantou-se com ar grave,
apalpando as vozes, seus cinzentos. Ainda quis ajudar. Mas ela
rejeitou o meu braço e ordenou que me afastasse. Avançou sem chocar
em nada, postou-se diante de Shetani.
— O que é?
— Dá a tua mão, quero
oferecer-lhe um presente.
— Vai para o mato, o seu lugar é
lá.
— Estou-te a dizer, Bastiana. É
um presente, uma encomenda que fui dado por um brigadeiro colonial.
A prostituta estremeceu, seus olhos
sorriram, vagaluminosos. Deu um passo em frente, seu corpo se firmava
como um credo. Shetani afastou a mesa, ergueu-se com vagares. Segurou
a mão de Juliana Bastiana, abriu-lhe os dedos com força.
— Toma, Juliana Bastiana.
Colocou-lhe nas mãos uma qualquer
coisa, ninguém percebeu o que era. Conforme apalpou a oferenda, o
rosto dela foi abrandando o sorriso e, aos poucos, se fechou em
mágoa. Até que gritou um arregalado lamento e chorou. Veio até à
minha mesa, desta vez chocando-se nas demais cadeiras, cambaleoa.
— O que é, Juliana? Que te
fizeram, conta-me.
Ajudei a se sentasse, seu corpo estava
tenso, parecia ter tomado o freio nos nervos. Em seu rosto se
desprendiam gotas de grossa tristeza, ensopando o pó-de-arroz.
Voltei a pedir que me explicasse o que sucedera.
— Olha, vê o que fizeram com meu
cão.
E abriu as mãos. Nelas estavam duas
orelhas cortadas, ainda sangrando, inundando de vermelho a concha de
seus dedos. Eu nem me pensei. Empurrei a cadeira, avancei sobre o
milícia. Mas no caminho o braço da prostituta me travou, em
aflição.
— Onde vais?
— Ele tem que aprender, Juliana.
Alguém deve...
— Fica quieto, seu burro.
Juliana gritara aquelas palavras.
Levantou os braços no ar, balburdiando gestos, palavras de arder. Me
puxou para o assento com força, os desempregados olhos confirmavam
sua cega decisão de me reter. Por fim, vendo-me vencido, soprou
aliviada como se escapassem reticências de sua alma.
— Ele não fez por mal,
estrangeiro.
— Como não fez por mal?
— Tu não entendes. Fui eu que
pedi a Shetani para ele fazer isso. O bicho estava doente, eu que não
tinha coragem...
Desandei, incapaz de ouvir. Saí até
à porta para apanhar fresco. Passei por Shetani. Uma outra
prostituta se nichara, entretanto, sobre as suas pernas dava ternuras
merecidas pelos vencedores. Juliana permanecia sentada, bebendo em
silêncio.
As horas se foram dissolvendo, a
espuma desceu nos copos. A noite, às tantas, recebeu as despedidas,
na cervejaria foram crescendo as cadeiras. Juliana Bastiana insistiu
em pagar, retirou o dinheiro das roupas íntimas. Depois, os trocos
voltaram ao sutiã. As moedinhas tilintintaram, pareciam rir com
cócegas dos seios. Fui último a sair. Demorei a contar os pés,
quantos os legítimos meus. Sem dar conta eu tinha ultrapassado os
meus níveis.
Inspirei o ar da noite. Lá fora a
multidão se desapinhava. Alguém puxava o Quintino pelos braços.
Depositaram-lhe no passeio, ele estava destinado a dormir sob o
lençol das estrelas. Um braço me repuxou, era Juliana Bastiana.
Arrastou-me para ela, me cochichou:
— Esse que está aí, todo
entornado no passeio.
— Esse o quê?
— É ele que entende do mato,
pode andar lá mais à vontadinha que os bichos.
— Quintino?
— O próprio. Ele é que lhe pode
conduzir onde você quer.
A cega afastou-se, mão dada com uma
outra prostituta. Todos se haviam ido, me deixando só com o bêbado.
Longe, um rádio ainda machucava o silêncio. Sentei para esperar uma
pausa na inconsciência do homem. Estávamos só nós, eu e o
embriagado Quintino, relentando-nos no cacimbo da noite. Uma saudade
de Farida me inundou. Voltaria a ver aquela mulher? Ou jamais me
poderia servir daquela formosura? Afinal, em meio da vida sempre se
faz a inexistente conta: temos mais ontens ou mais amanhãs? O que eu
desejava era que o tempo se adiasse, parado como o barco naufragado.
O bêbado, entretanto, não havia
meio. O sono se descalçara na minha cabeça, tão convidançante
que, para resistir, me subiu uma agonia. Me levantei, decidido a
passear-me pelas redondezas. Nunca fui mancha-prazeres: tristeza
sempre eu tratei no remédio de uma canção. Entoei uma melodia
antiga, enquanto caminhava sob o perfume dos canhoeiros.
Decidi voltar, de madrugada, para
procurar Quintino. Ansiava em saber a sua resposta sobre o serviço
de me conduzir. Repente, um vulto saiu do escuro. Calafriorento, me
defendi, atirando o desconhecido ao chão. No meio da luta, senti no
corpo do suposto as palpitantes saliências: era uma mulher, seus
seios estavam colocados à minha disposição.
— É você, afinal?
Carolinda, a esposa do administrador,
se emancipou da penumbra, desfez-se da silhueta. Com a luta, a roupa
se havia esfarrapado. Agora, no claro da luz, ela se enfeitava com
seu próprio corpo, fosse era a abelha florindo. Atirava o pescoço
para trás, no provoco de um riso. A língua, matreira, espreitava à
soleira da boca. De passagem, Carolinda me fez lembrar Farida.
Qualquer coisa as igualava, rosto em rosto. Ou será que o fogo do
desejo faz semelhar toda a mulher? As nossas mãos se laçaram, como
se temessem a separação. Estávamos perto da igreja, procurámos um
lugar urgente.
— Na igreja não, os santos
gostam de espreitar.
Demos a volta ao pátio, entrámos no
curral da Missão. Dentro havia um xipefo de curta lumieira. Peguei
no candeeiro com a mão desocupada e andámos por ali pisando palhas,
tropeçando em pés do outro. Era uma dança para a qual ainda não
havia sido inventada nenhuma música. Despimo-nos com ânsia.
Pendurei o xipefo no chifre do boi e deitámo-nos sobre a palha.
Mia Couto, em Terra Sonâmbula
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