30/09/2026

Som Imaginário | Som Imaginário (Álbum Completo) [1971]

 

Felicidade

As coisas não nasceram para dar certo, somos nós que fazemos as coisas acontecerem, ou não. Acredito que a gente tem que ter um foco a seguir, traçar metas, viver por elas. Ou morrer tentando. Jamais queimar etapas e saber reconhecer quando é a sua hora.
O Acaso é uma grande armadilha e destrói os sonhos fracos de pessoas que se acham fortes. Não passar do tempo nem chegar antes. Preparar o corpo, o espírito, estudar o tempo e o espaço. Não ser escravo de nenhum dos dois. Observar as coisas que interferem no seu dia e na sua noite. E saber entender que há aqueles sem sol e sem estrelas e que a vida não deve parar só por isso. Ser gentil com as pessoas e consigo mesmo. E gentileza não tem nada a ver com fraqueza, pois, assim como um bom espadachim, é preciso ter elegância para ferir seus adversários. O que adianta uma boca grande e um coração pequeno? Nunca diga que faz, se não o faz.
Ame o teu ofício como uma religião, respeite suas convicções e as pratique de verdade, mesmo quando não tiver ninguém olhando. Milagres acontecem quando a gente vai à luta. Pratique esportes como arremesso de olhar, beijo na boca, poema no ouvido dos outros, andar de mãos dadas com a pessoa amada, respirar o espaço alheio, abraçar sonhos impossíveis e elogios a distância. E, em hipótese alguma, tente chegar em primeiro. Chegar junto é melhor, até porque o universo não distribuiu medalhas nem troféus. Respeite as crianças, todas, inclusive aquela esquecida na sua memória. Sem crianças não há razão nenhuma para se acreditar num mundo melhor. As crianças não são o futuro, elas são o presente, e se ainda não aprendemos isso, somos nós, os adultos, que tiramos zero na escola. Ser feliz não quer dizer que não devemos estar revoltados com as coisas injustas que estão ao nosso redor — muito pelo contrário, ter uma causa verdadeira é uma alegria que poucos podem ter.
Por isso, sorrir enquanto luta é uma forma de confundir os inimigos. Principalmente os que habitam nossos corações. E jamais se sujeite a ser carcereiro do sorriso alheio. Não deixe que outras pessoas digam o que você deve ter, ou usar. Ter coisas é tão importante quanto não tê­-las, mas é você quem deve decidir. Ter cartão de crédito é bom, porém, ter crédito nele tem um preço.
Se possível, aprecie as coisas simples da vida, vai que no futuro... Adeus, pertences.
Esteja sempre disposto ao aprendizado, e não se esqueça de que quem já sabe tudo é porque não aprendeu nada. As ruas são excelentes professoras de filosofia, pratique andar sobre elas. Procure desvendar as máscaras do dia a dia, pois o segredo está no minúsculo, assim como um belo espetáculo do crepúsculo e o pequeno gesto das formiguinhas escondem a grandeza a ser seguida pela humanidade. Tenha amigos. Se não tem, seja. Eles virão.
Felicidade não se ensina, é uma magia, e o segredo está na disciplina de uma vida sem truques e sem fogos de artifícios. E não acreditem em poetas. São pessoas tristes que vendem alegria.

Sérgio Vaz, em Literatura, pão e poesia

Armandinho

Canção de mim mesmo

19

Esta é a refeição posta uniformemente, esta a carne para a fome natural,
É para o iníquo tanto quanto o correto, tenho compromisso com todos,
Não terei uma só pessoa insultada ou relegada, A manteúda, o filador, ladrão, são pela presente convidados;
O escravo de grosso lábio é convidado, o doente venéreo é convidado;

Não haverá diferença entre eles e os demais.
Este o premer de uma tímida mão, este o esvoaçar e o cheiro de cabelo,
Este o toque dos meus lábios nos teus, este o murmúrio de ânsia,
Esta a profundidade distante e a altura refletindo meu próprio rosto,
Esta a refletida fusão de mim mesmo, e a saída de novo.

Supões que tenho algum propósito intricado?
Bem, tenho, pois o aguaceiro de Abril tem, e a mica no lado da rocha tem.

Crês que eu espantaria?
A luz do dia espanta? e o rabo-ruivo matinal chilreando pelos bosques?
Eu espanto mais que eles?

Nesta hora conto coisas em confiança,
Talvez não conte a todos, mas te contarei.

Walt Whitman, em Folhas de Relva

A pergunta

E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?

Almeida Garrett (1799-1854), em O caderno, de José Saramago

Tirant lo Blanc



O herói do primeiro romance de cavalaria ibérico, Tirant lo Blanc, entra em cena dormitando em cima de seu cavalo. O cavalo se detém para beber numa fonte, Tirant acorda e vê, sentado ao lado da água, um eremita de barba branca que está lendo um livro. Tirant manifesta ao eremita sua intenção de entrar para a ordem da cavalaria. O eremita, que fora cavaleiro, se oferece para instruir o jovem nas regras da ordem.

— Hijo mío — dijo el ermitaño —,
toda la orden está escrita en ese
libro, que algunas veces leo para
recordar la gracia que Nuestro Señor
me ha hecho en este mundo, puesto
que honraba y mantenía la orden de
caballería con todo mi poder.

Desde suas primeiras páginas, o primeiro romance de cavalaria da Espanha parece querer nos advertir de que todo livro de cavalaria pressupõe um livro de cavalaria precedente, necessário para que o herói se torne cavaleiro. “Tot l’ordre és en aques llibre escrit.” Desse postulado podem ser extraídas muitas conclusões: inclusive a de que talvez a cavalaria não tenha nunca existido antes dos livros de cavalaria ou até que só existiu nos livros.
Assim, é possível compreender como o último depositário das virtudes cavaleirescas, Dom Quixote, será alguém que construiu a si mesmo e a seu próprio mundo exclusivamente por meio dos livros. Uma vez que Cura, Barbero, Sobrina e Ama tenham ateado fogo à biblioteca, a cavalaria terminou: Dom Quixote permanecerá como o último exemplar de uma espécie sem sucessores.
No auto de fé doméstico, o Padre salva os livros arquetípicos, Amadís de Gaula e Tirante el Blanco, bem como os poemas em versos de Boiardo e de Ariosto (no original italiano, não em tradução, em que perdem “su natural valor”). Em relação a tais livros, à diferença de outros aceitos porque considerados conformes à moral (como Palmerín de Inglaterra), parece que a indulgência tem sobretudo motivações estéticas; mas quais? Constatamos que as qualidades que valem para Cervantes (mas até que ponto estamos seguros de que as opiniões de Cervantes coincidem com as do Padre e do Barbeiro, mais do que com as de Dom Quixote?) são a originalidade literária (Amadís é definido como “único en su arte”) e a verdade humana (Tirante el Blanco é elogiado porque “aquí comen los caballeros, y duermen y mueren en sus camas, y hacen testamento antes de su muerte, con otras cosas de que los demás libros de este género carecen”). Portanto, Cervantes (aquela parte de Cervantes que se identifica etc.) respeita os livros de cavalaria quanto mais se afastem das regras do gênero; não é mais o mito da cavalaria que conta, mas o valor do livro enquanto livro. Um critério de juízo oposto ao de Dom Quixote (e do lado de Cervantes que se identifica com seu herói), o qual se recusa a distinguir entre os livros e a vida e quer encontrar o mito fora dos livros.
Qual será a sorte do mundo romanesco da cavalaria, quando o espírito analítico intervém para estabelecer os limites entre o reino do maravilhoso, o reino dos valores morais, o reino da realidade verossímil? A catástrofe repentina e grandiosa em que o mito da cavalaria se dissolve pelas desoladas estradas da Mancha é um evento de dimensão universal mas que não tem correspondência nas outras literaturas. Na Itália, e mais precisamente nas cortes da Itália setentrional, o mesmo processo ocorrera durante o século precedente de forma menos dramática, como sublimação literária da tradição. O declínio da cavalaria fora celebrado por Pulci, Boiardo, Ariosto num clima de festa renascentista, com matizes burlescos mais ou menos marcados, porém com nostalgia pela ingênua fabulação popular dos contadores de histórias; aos rudes despojos do imaginário cavaleiresco ninguém atribuía nenhum valor além de um repertório de motivos convencionais, mas o céu da poesia se abria para acolher seu espírito.
Pode ser interessante lembrar que, muitos anos antes de Cervantes, em 1526, já encontramos uma fogueira de livros de cavalaria ou, mais precisamente, uma seleção dos livros a serem condenados ao fogo e daqueles a serem salvos. Falo de um texto decididamente menor e não muito conhecido: o Orlandino, poema breve em versos italianos de Teofilo Folengo (famoso com o nome de Merlin Cocai por causa de Baldus, poema em latim macarrônico misturado com o dialeto de Mântua). No primeiro canto do Orlandino, Folengo conta ter sido levado por uma bruxa, voando na garupa de um bode, para uma caverna dos Alpes onde são conservadas as verdadeiras crônicas de Turpin, lendária matriz de todo o ciclo carolíngio. Do confronto com as fontes, resultam verdadeiros os poemas de Boiardo, Ariosto, Pulci e do “Cego de Ferrara”, embora com acréscimos arbitrários.

Mas Trebisunda, Ancroja, Spagna e Bovo
Com todo o resto ao fogo sejam dadas,
Apócrifas são todas e as reprovo
Como inimigas de quaisquer verdades;
Boiardo, Ariosto, Pulci e o Cego
Autenticados são e eu junto sigo.

“El verdadero historiador Turpin”, também lembrado por Cervantes, era um ponto de referência habitual no jogo dos poetas cavaleirescos italianos do Renascimento. Também Ariosto, quando sente que conta casos muito exagerados, se protege com a autoridade de Turpin: “O bom Turpin, que sabe dizer o vero, e vai deixar crer o que o homem ouve com agrado, conta admiráveis coisas de Ruggiero, que, só de ouvir, de mentiroso sim seria chamado” (O. F., XXVI, 23).
A função do lendário Turpin, Cervantes irá atribuí-la a um misterioso Cide Hamete Benengeli de cujo manuscrito árabe ele seria apenas o tradutor. Mas Cervantes age agora num mundo radicalmente diverso: a verdade para ele deve fazer as contas com a experiência cotidiana, com o senso comum e também com os preceitos da religião da Contrarreforma. Para os poetas italianos do Quatrocentos e do Quinhentos (até Tasso, excluído, pois com ele a questão se complica), a verdade era ainda fidelidade ao mito, como para o Cavaleiro da Mancha.
Podemos verificar isso também num epígono como Folengo, a meio caminho entre poesia popular e poesia culta: o espírito do mito, transmitido pela noite dos tempos, é simbolizado por um livro, o de Turpin, que está na origem de todos os livros, livro hipotético, só alcançável pela magia (também Boiardo, diz Folengo, era amigo das bruxas), livro mágico além de ser relato de magias.
Nos países de origem, França e Inglaterra, a tradição literária cavaleiresca se apagara antes (na Inglaterra, em 1470, recebendo uma forma definitiva no romance de Thomas Malory, exceto se considerarmos uma nova encarnação com as fadas elisabetanas de Spencer; na França, declinando lentamente após ter conhecido a consagração poética mais precoce no século XII com as obras-primas de Chrétien de Troyes). O revival cavaleiresco do século XVI envolve sobretudo Itália e Espanha. Quando Bernal Díaz del Castillo, para exprimir a maravilha dos conquistadores perante as visões de um mundo inimaginável como o do México de Montezuma, escreve: “Decíamos que parecía a las cosas de encantamiento que cuentan en el libro de Amadís”, temos a impressão de que compara a realidade mais nova com a tradição de textos antiquíssimos. Mas, se observarmos as datas, vemos que Díaz del Castillo narra fatos ocorridos em 1519, quando Amadís ainda podia ser considerado quase uma novidade editorial… Compreendemos assim que a descoberta do Novo Mundo e a Conquista foram acompanhadas, no imaginário coletivo, por aquelas histórias de gigantes e de encantamentos das quais o mercado de livros oferecia vasto sortimento, assim como a primeira difusão europeia do ciclo francês acompanhara, alguns séculos antes, a mobilização publicitária para as Cruzadas.
O milênio que está para se encerrar foi o milênio do romance. Nos séculos XI, XII e XIII, os romances de cavalaria foram os primeiros livros profanos cuja difusão marcou profundamente a vida das pessoas comuns e não somente dos doutos. Dante é testemunho disso, falando-nos de Francesca, a primeira personagem da literatura mundial que vê sua vida mudada pela leitura dos romances, antes de Dom Quixote, antes de Emma Bovary. No romance francês Lancelot, o cavaleiro de Galehaut convence Guenièvre a beijar Lancelot; na Divina comédia, o livro Lancelot assume a função que Galehaut tivera no romance, convencendo Francesca a deixar-se beijar por Paolo. Provocando uma identificação entre a personagem do livro enquanto age sobre as outras personagens e o livro enquanto age sobre seus leitores (“Galeotto foi o livro e quem o escreveu”), Dante executa uma primeira operação vertiginosa de metaliteratura. Nos versos de uma concentração e sobriedade insuperáveis, acompanhamos Francesca e Paolo que “sem nenhuma suspeita” se deixam prender pelas emoções da leitura e, de vez em quando, se olham nos olhos, empalidecem, e quando chegam ao ponto em que Lancelot beija a boca de Guenièvre (“o desejado riso”) o desejo escrito no livro torna explícito o desejo experimentado na vida e a vida toma a forma narrada no livro: “a boca me beijou toda trêmula…”.
1985

Italo Calvino, em Por que ler os clássicos

29/09/2026

Lilian Estela | Coisas da Vida

Pelada de barranco

Nada havia de mais prestante em nós senão a infância.
O mundo começava ali. Nosso campo encostava na beira
do rio. Um menino Guató chegava de canoa e embicava
no barranco. Teria remado desde cedo para vir ocupar
a posição de golquíper no Porto de Dona Emília Futebol
Clube. Nosso valoroso time. As cercas laterais do campo
eram de cansanção. Espinheiro fechado pra ninguém botar
defeito. Guató já trazia do barranco duas pedras para servir
de balizas. Os craques desciam da cidade como formigas.
José de Camos, nosso beque de espera também tinha a
incumbência de soprar as bexigas. Porque a nossa bola
era de bexiga, que às vezes caiam no rio e as piranhas
devoravam. E se caísse no cansanção os espinhos furavam.
Nosso campinho por miúdo só permitia times de sete:
O goleiro, um beque de espera, um beque de avanço e
três na linha. Chambalé nosso técnico impunha regras:
só pode mijar no rio e não pode jogar de botina.
Sabastião era centroavante. Chutava no rumo certo. Sabia
as variações da bexiga no vento e botava no grau certo.
Quando alguém enfiava as unhas na pedra abria uma vaga.
Metade de nossos craques eram filhos de lavandeiras e
outra metade de pescadores. Na aba do campo a namorada
do Sabastião torcia: quebra esse saba, destina eles pras
piranhas. Mas Chambalé não deixava destinar. Quem destina
é Deusi – falava. No fim do jogo alguns iam bater bronha,
outros iam no mato jogar o mantimento e outros iam
pelotear passarinho. Guató pegava a canoa e remava até
a aldeia a mil metros dali. A cidade onde a gente morava
foi feita em cima de uma pedra branca enorme. E o rio
paraguaio, lá embaixo, corria com suas piranhas
e os seus camalotes.

Manoel de Barros, em Memórias Inventadas – A segunda infância

Correnteza




6

Passava já da meia-noite quando Rita saiu da delegacia. Ela havia pedido a Fátima que orientasse os filhos a manterem a casa trancada, e que, em qualquer emergência, a chamassem. Rita Preta também estaria com o telefone para monitorá-los à distância. Sentou-se no mesmo canto do dia anterior — próximo à porta — e, por horas, viu uma procissão de pessoas registrarem novas ocorrências. Num dia qualquer, estaria faminta e exausta. Mas, curiosamente, não sentia fome ou fraqueza. Tinha a energia infatigável das urgências, precisava encontrar o filho, saber o que havia acontecido e prosseguir com a vida já afetada por aquele grande problema. Por fim, Rita conseguiu concluir o boletim. Também pediu para assinalarem a informação de que o filho tinha sido levado numa abordagem policial, embora não tivesse qualquer prova — a escrivã usaria um código para pontuar a questão —, e perguntou se teria como saber se a entrada de Cid constava no sistema de segurança pública.
“Não temos como verificar”, disse a atendente, sem se dirigir em nenhum momento a Rita, apenas olhando para o terminal de computador. “A senhora precisa ir até este endereço aqui”, continuou, apontando para um pequeno cartão de papel com a unidade policial de destino.

Ao chegar em casa, Rita nota que a luz está acesa. Juca dorme, mas Cainho ainda está acordado. Quer saber se a mãe tem notícia do irmão e se os comentários sobre a polícia eram verdade. Rita confirma. Ela contou, durante o registro da ocorrência, sobre a abordagem, e a atendente resistiu a anotar. A mulher sugeriu que era um boato — e, por enquanto, era somente isso mesmo —, mas orientou Rita a procurar na unidade do cartão onde poderia obter mais notícias sobre a suposta abordagem e o recolhimento.
“Não levaram seu irmão para uma delegacia ou prisão. Recolheram ele para outro lugar. Ele é menor de idade.”
“Eu vou com a senhora.”
“Não. Prefiro que você cuide do Juca. Preciso de você em casa.”
Rita Preta entende que Cainho é apenas um adolescente de catorze anos. Desajeitado, imaturo, talvez o que menos soubesse lidar com a vida para além das paredes de casa. Passava o tempo com livros e caderno na mão escrevendo anotações sem serventia — era assim que pensava —, rabiscando, e por vezes pouco atento, a cabeça no mundo da imaginação. Rita não considerava o filho do meio um jovem estudioso. Ele tirava notas medianas na escola, suficientes para ser aprovado. Ainda assim se saía melhor que os irmãos. Nem sempre ela conseguia acompanhar, mas vez ou outra procurava pelos títulos e pelos textos das capas de livros para saber o que ele andava lendo. As leituras escolhidas não tinham relação com as matérias que ele estudava. Eram romances, livros de conhecimentos gerais, além de jornais velhos e folhetos religiosos talvez úteis para outras atividades, mas não para a escola. No entanto, apesar da aparente imaturidade, Rita Preta o considerava plenamente capaz de cuidar do irmão e da casa, e ajudá-la naquele momento. Afinal, ela não tinha começado a trabalhar para uma família ainda mais nova? Rita confiava que ele pudesse desenvolver habilidades para a vida resolvendo problemas cotidianos e tomando decisões sem sua intermediação. A partir daquele dia, ele seria muitas vezes convocado a assumir o posto de responsável pela casa em sua ausência.
Rita sai cedo de casa para continuar sua busca. Decide não ir ao supermercado onde trabalha, preferindo inventar uma desculpa. Se contasse a verdade, achariam que ela era mãe de um drogado ou arruaceiro, ou que seu filho estivesse envolvido com atividades ilícitas. Precisava manter o emprego — não se imaginava procurando trabalho outra vez por meses ou mesmo anos, como via acontecer com muita gente, de todas as idades. Mas, ao mesmo tempo, Rita precisava encontrar Cid, saber o que tinha acontecido, ajudá-lo a sair de onde estivesse, trazê-lo de volta para casa, desfazer as diferenças persistentes para se perdoarem mutuamente. Sobretudo, precisava ajudá-lo a reencontrar seu caminho na vida.

Nome completo. Data de nascimento. Número do documento de identidade. Rita tenta não parecer distraída, mãe relapsa, e procura informar tudo que lhe é solicitado. Não pode falhar. Fotografia atual? Não, só a do documento e mais algumas tiradas num celular de baixa qualidade. Numa delas, Cid aparece sem camisa e com uma corrente dourada de bijuteria escurecida. Ao fundo, um muro mal-acabado de tijolos cerâmicos vermelhos à mostra e alguns pontos de limo. Os dedos em “V”, o sinal da vitória. Em outra foto, Cid esconde o rosto, não quer aparecer. Está deitado no sofá, a capa de tecido sintético verde fluorescente está desajustada. O ambiente parece escuro, embora fosse dia, Rita recorda; mas sobretudo era um dia descontraído. Ela consegue vislumbrar o sorriso do filho por trás das mãos enquanto tenta esconder o rosto. Em outra imagem, ele está de costas, o cabelo recém-cortado, desenhos nas laterais feitos a navalha. A imagem está desfocada, mas Rita se reprime e decide não mostrá-la na delegacia. Poderiam pensar o pior. Ela mesma havia censurado o filho, externara o próprio preconceito dizendo que parecia corte de malandro, bandido. Quando ele fosse trabalhar — e não faltava muito tempo —, não poderia ostentar cortes de cabelo como aquele nem tatuagens no rosto, nas mãos, no pescoço. E o serviço obrigatório do Exército? Daqui a dois anos, Cid precisaria se alistar — quem sabe não é convocado? Pode ser um bom emprego. Enquanto aguarda o atendimento, Rita seleciona as fotografias que poderá mostrar como eventual fonte de reconhecimento, porém elas começam a retroceder no tempo e já não serão tão úteis. Fato inegável: Cid era o filho que mais havia mudado nos últimos dois anos. Cresceu, o rosto parecia o de um adulto, mesmo pontilhado de acne. Já retirava os pelos ao redor da boca. Explorando os arquivos do celular, das últimas imagens para as primeiras, Rita vê a vida em retrospectiva: uma selfie com Jorge na praia, ela com o corpo bronzeado, óculos escuros e tranças afro que sempre a deixavam mais jovem; em outra imagem ela surge de olhos fechados com os filhos à sua volta. Parecem felizes, mesmo quando Cainho se mostrava sério, sem achar graça das piadas e situações em que todos riam. Em outra imagem, Juca aparece menor, um menino engraçado com uma espada de plástico nas mãos e sentado nos ombros de Cid. O mais velho está sem camisa, seu corpo adolescente à mostra, a bermuda caída abaixo da cintura. Em outra fotografia, algo escuro num canto da parede e uma vassoura ao lado caída no chão. Rita aumenta a imagem e vê o que parece ser uma ratazana morta. Mais adiante, a foto de um vestido branco e decotado na vitrine de uma loja — talvez quisesse copiar o modelo para a costureira do bairro reproduzir um igual, para dançar numa noite de encontro e festa.
A primeira vez que Cid suga seu seio para se saciar da fome mais antiga, Rita o observa com verdadeira curiosidade e sente sua alma em estado de graça. Quando a criança caiu da escada e a fez correr para a emergência de um hospital. Cinco pontos no queixo. Quando se alfabetizou, Cid passou a ler as sílabas de trás para a frente. As horas de parto quando sofreu todo tipo de violência num hospital público; um enfermeiro se sentou na sua barriga para forçar a expulsão da criança, que, por fim, foi retirada a fórceps. A criança era um sobrevivente e sorriu e correu e brincou, resistindo à sentença que toda violência carrega. Cainho escorregou como um quiabo por entre as pernas de Rita no caminho para a sala de parto, e por pouco — muito pouco — não foi ao chão. O mais novo subiu na porta do forno do fogão e derrubou o almoço quente, que poderia tê-lo ferido com gravidade. Porém essas fotografias não estão materializadas e arquivadas em seu aparelho celular. São vistas em perspectiva na memória, sem a ajuda de uma máquina, mas com o sangue correndo como rio em suas veias.

Rita Preta responde com ênfase que Cid não tem envolvimento com atividade ilícita. É um adolescente como muitos, gosta de futebol, quer namorar, quer o tênis da moda e sonha com uma vida melhor. Ela retira da bolsa a camisa encontrada no dia anterior. Afirma que pode ser do filho e mostra para quem realiza o atendimento.
“Vocês não precisam examinar?”
“Não, senhora. Não é necessário.”
“Ele estava a caminho da casa da namorada. Deve ter saído com a camisa no ombro e outra vestida por baixo. Alguém o levou, porque ele não deixaria a camisa em qualquer lugar sabendo que eu ia ficar uma fera se descobrisse.”
A mulher não está interessada na história que Rita conta e assinala que falta pouco para finalizar o atendimento. Rita Preta guarda a camisa de volta na bolsa. Pergunta se terá logo o resultado da pesquisa do sistema de segurança, se o filho foi recolhido e se está em alguma unidade de correção. A atendente diz que não, o prazo é de setenta e duas horas. Ela precisará voltar ali para saber o resultado.
Registrado o desaparecimento e feita a solicitação para tentar localizar Cid — se ele tinha sido ou não abordado por policiais, como seu Aranha havia escutado —, Rita Preta caminha até o ponto de ônibus, procura organizar as ideias em meio ao caos daqueles dias. Não consegue pensar em nada que não seja encontrar o filho mais velho, e segue sua intuição sobre quais caminhos deve continuar a trilhar.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem Medo

Teatrinho




Temos de começar pela bibliografia: Journal (1943-1945), de Julien Green; e A Volta do Gato Preto, de Érico Veríssimo.
É que os dois contam, cruzadamente, uma passagem, um caso que se deu, a 4 de agosto de 1944, no Mills College, Oakland, Califórnia, Estados Unidos. Emparelhá-los seria já de si curioso, texto e texto. Mas o próprio caso, em si, paga; veja-se que vale a pena.
Veríssimo é imparcial, jovial, sem rugosidades, entre distâncias. Aliteradamente, é um riacho: lúcido, lépido, límpido. E bom contrarregra. Tenham como traz os personagens. Diz:
De Julien Green: “... é um homem de estatura meã, construção sólida, tez dum moreno claro, cabelos e olhos escuros e um nariz gaulês, longo e fino. É retraído e tímido, dessa timidez que à primeira vista pode parecer empáfia. Só depois duma apresentação formal, durante a qual ele tirou da cabeça o panamá creme, é que passou a me cumprimentar, mas sempre cerimoniosamente.”
E de Carrera-Andrade: “Alto, corpulento, monumental, com seu bigode aparado, seus olhos de índio... Temos feito longos passeios pelo parque, a conversar sobre homens e livros, viagens e ideias. Ao cabo de dois dias começamos a divergir em quase todos os assuntos que atacamos.”
Mas, do que Veríssimo desdobra, entende-se também um Carrera-Andrade rei no intolerar, exorbitante:
“... Um dia, ao cabo de uma dissertação que lhe fiz relativamente à minha atitude diante do mundo, concluiu:
“— Mas você não é um escritor latino.
“— Por quê?
“— É um homem frio, metódico, insensível.
“— Insensível? Frio? Essa é boa...
“— Eu o tenho observado todos estes dias, tenho acompanhado as suas reações às coisas que lhe dizem, às pessoas que o cercam.”
Veríssimo sorri e desvê de mais explicar-se.
Mas Carrera-Andrade — que usa palmadas na coxa e outros jactos de impaciência — declara amor ao “povo”, tem pendores para isso. Sua má-vontade para com os norte-americanos se acende sempre. Assim:
“— Que se pode dizer dum país onde nem criados existem!
“— Mas, meu caro poeta — observo —, você não me disse que era socialista?
“— Pues si, amigo... Pero eso es diferente. Siempre habrá señores y esclavos.”
Dando a um o dado ao outro, compara-se agora. Green, no 3-V-43 de seu diário:
“Há os que deixam de repente de crer em Deus. Quanto a mim, noto que deixo, pouco a pouco, de crer na humanidade. Por muito tempo, ela se me impôs, com seus discursos, suas leis, seus livros, mas começo a vê-la sob o verdadeiro aspecto, que é triste, porque é uma velha louca, cujas crises de ferocidade alternam com sorrisos.”
Carrera-Andrade faz belos versos, será “um dos mais interessantes poetas modernos da América espanhola”. A pessoa de um homem é uma catarata de surpresas.
E Green, que convive com a Bíblia e compulsa o dicionário hebraico, ignora a existência de Carrera-Andrade, mas sabe que o Demônio existe. Green é um místico irresoluto. Passeia por si mesmo, como em claustro circular, plataforma para o invisível. Glosa a danação e a graça, o problema do mal, o destino, o pecado, o jogo entre Deus e o homem.
Mas, volta a falar Veríssimo, e a cena principia:
“... Acha Carrera-Andrade que Julien Green habita numa torre de marfim, alheio aos conflitos e inquietações sociais do momento.
“— E se promovêssemos um encontro..., por exemplo, um almoço com Green, para submetê-lo a uma sabatina? — pergunta-me ele.”
Arma-se o almoço. Julien Green vem sentar-se à mesa dos sul-americanos, sem suspeitar da cilada que lhe puseram. Veríssimo vai contando:
“... Finalmente Carrera-Andrade aproveita uma deixa e entra no assunto:
“— Mr. Green, não encontramos nos seus romances nenhuma inquietação relativa aos fenômenos sociais do nosso tempo. Não há neles nem mesmo menção desses problemas...
“Green fita no interlocutor seus olhos sombrios. O poeta continua:
“— Talvez tenha sido para evitar essa dificuldade que o senhor situou a ação de Adrienne Mesurat antes das duas Guerras...
“Todos nós esperamos a resposta com interesse. Uma expressão quase de agonia passa pela fisionomia de Julien Green. Ele olha para os lados, como a pedir socorro. Finalmente tartamudeia:
“— Problemas sociais? Como poderei escrever a respeito deles... se não os conheço? Só posso escrever sobre minha experiência humana... Essas questões sociais estão fora da minha experiência... Não é que eu não me interesse... Acontece que me sinto verdadeiramente perdido neste mundo.
“Carrera vai insistir. Isso me parece crueldade, crueldade de toureiro que, depois de farpear um touro, de vê-lo sangrando, exausto, quer ainda ir até o golpe final de espada.”
(Veríssimo é amigo de Thornton Wilder; leu o de Michael Gould, sabe que as paixões vivem de equívocos; opina:)
“Penso que um escritor da importância de Green merece não apenas admiração, mas também respeito. É, sem a menor dúvida, um romancista sério. Não falará a nossa língua, o que não quer absolutamente dizer que seja mudo. Não pertence ao nosso mundo, o que não quer dizer que deva ser votado ao inferno. Por outro lado parece-me que seus livros serão lembrados muitos anos depois que a obra de alguns dos escritores modernos de propaganda tenha sido completamente esquecida.
“Carrera-Andrade continua a atirar suas farpas. Acho melhor desviar a conversa do assunto. Vê-se claramente que Julien Green está infeliz.”
Mas — atenção — agora, à versão de Green no Journal:
“Ontem, na Casa Pan-americana, almocei em companhia de vários sul-americanos, um dos quais muito inteligente e os outros menos. Veríssimo, homem de grande modéstia apesar de seu sucesso, falou-me de meus livros. Ele é moço, com uma fisionomia agradável. À minha direita, uma espécie de bebê de bigodes pergunta-me, com voz em que já vibra a cólera, por que não escrevo romances ‘sociológicos’. Esse senhor sustenta, com efeito, que os romances devem servir para alguma coisa, que não são mais admissíveis as obras de arte que não sirvam para nada, e que seria ‘um real perigo haver escritores demais como Julien Green’. Digo-lhe então que esse perigo não é real, não é grande, e os outros todos começam a rir.”
E, pois, públicos aplausos: Não se diga que nosso patrício não se saiu excelentemente.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

Dúvida

Velha governanta do filósofo Descartes; avarenta e pechincheira, desconfia de tudo e de todos, menos dela.

Mário Quintana, em Caderno H

O cozer das pedras, o roer dos ossos



1
Do pó ao chão de terra seca


“Pai nosso que estais no céu, santificado seja o Vosso nome, venha a nós o Vosso reino, seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no céu…”, rezava em coro aquele pobre povo que velava a céu aberto o corpo de Mirtão. O aumentativo do apelido do homem fazia referência a seu já morto corpo enorme, esticado por demais desde que se entendia por gente, assustando os moradores inocentes da vila onde vivera. “[…] O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido…”, continuavam as vozes tristes. O rastro de temor deixado nas ruas pelo tamanho do homem que ali jazia era um paradoxo: mesmo bruto e assustador, não dava a ninguém razão para se esconder quando o assistia passar. Afinal, todos ali sabiam de Mirtão e sua mãe, Dona Hermina, uma senhorinha pequenina e encolhida pela idade, que amava o filho porque, acima de tudo, ele prolongara sua existência. Ora, não fosse o agora corpo morto, a velha teria sido enterrada muito antes que há quatro anos, quando morreu de morte morrida que chegara com a idade. Tinha-se esta certeza na vila: ela teria sido assassinada pelo marido bebum se o agora defunto não o tivesse arrancado a desgostosa vida depois de uma briga de bar em que os dois riscaram faca até um sucumbir de tanto sangue derramar. Mirtão era herói e vilão, assustador e salvador, filho amado e destinado pelo padre a queimar nas labaredas não celestiais, pois havia de pagar pelos pecados que cometera. “[…] E não nos deixeis cair em tentação…”, o caixão do homenzarrão estava no solo, ao lado do buraco cavado até beirar o corpo de sua amada mãe. Seguiram a tradição: o filho vai por cima. As vozes das mulheres cortavam o silêncio daquele cemitério enquanto se sobrepunham às dos homens na reza conhecida. O coro era uniforme, e uma ou duas das muitas crianças ali presentes se arriscavam a acompanhar o clamor. Estavam descalças e sem camisas, mesmo as meninas, com os cabelos desgrenhados coroando suas cabeças grandes. A maioria delas vestia apenas calcinha; e os meninos, cueca. Poucas ousaram pôr uma regatinha surrada para esconder do sol as costas. Tinham cinco ou seis anos, e demonstravam sua inocência agarradas às pernas dos que foram prestar favor ao enterro. A respeito de tudo o que as cercava naquele instante, sabiam apenas que Mirtão não voltaria, e isso as acalmava, porque ele estar nas ruas era uma das razões contadas pelos pais para segurá-las em casa o dia todo. As mulheres, mães e rezadeiras, usavam chinelos ralos, com os cabelos bem-arrumados e as unhas aparadas, mostrando respeito à figura que agora partira. Os homens, usando chapéus de palha feitos por eles mesmos, alguns esburacados e outros ainda verdes, seguravam as enxadas envelhecidas que tanto cavaram a cova quanto cobririam de terra o corpo quando fosse hora de devolver Mirtão ao pó. O conhecido calor de trinta e seis graus fazia todos suarem, e algumas das crianças, observando o momento boquiabertas, chegavam a sentir o gosto salgado que escorria por suas testas, desenhando suas bochechas e seguindo caminho para as bocas. Caramelo, adestrado pelo coveiro a se manter em silêncio nos enterros, estava ao pé do povo suado, ofegante e sem latir, deitado de bucho para baixo e pescoço erguido, atento ao corpo no caixão destampado. A cena era boa para o cão: depois daquilo, seu dono receberia uns trocados por ter enterrado mais um em seu quintal, e isso garantiria o jantar dos dois, que só tinham costume diário de almoçar. O círculo de gente fechava a cova de três palmos e meio de fundura, fazendo as sombras largas das cabeças delinearem a borda da circunferência projetada no solo. A mata da caatinga, seca e inclinada na direção da ventania, cercava à distância aquelas pessoas, rondando o terreno do coveiro e limitando a área do cemitério. Cruzes de madeira estavam entortadas e cravadas no chão, de forma desorganizada, alertando que, sob aquele solo amarelado que há muito não via chuva, descansavam outros corpos. No limite do terreno estava a cabana de taipa do proprietário, ela que com quatro paredes baixas erguidas e um teto de folhas secas de palmeira, ardia sob o sol e deixava exposta parte dos pedaços de paus sustentantes do barro que a dava forma. “[…] Mas livrai-nos do mal, amém…”, findaram o rito, enquanto o corpo era retirado do caixão e enrolado na velha rede que o envolveria sob terra até que o primeiro verme resolvesse satisfazer sua fome com as carnes de Mirto Aroeira Pereira Santino, que eternamente ali estaria, cumprindo sua parte na mais imprevisível profecia para o bicho-homem.

Patrick Torres, em O cozer das pedras, o roer dos ossos

28/09/2026

Mariana Aydar e Mestrinho | Preciso do Seu Sorriso

Hagar, o Horrível

Eu sei o que é primavera

Bem sei que é uma vaidade dizer em plena primavera que eu sei o que é primavera. Às vezes porém sou tão humilde que os outros me chamam a atenção. É uma humildade feita de gratidão talvez excessiva, é feita de um eu de criança, de susto também de criança. Mas, desta vez, quando percebi que estava humilde demais com a alegria que me era dada pela vinda da primavera chuvosa, dessa vez apossei-me do que é meu e dos outros.
Sei o que é primavera porque sinto um perfume de pólen no ar, que talvez seja o meu próprio pólen, sinto estremecimentos à toa quando um passarinho canta, e sinto que sem saber eu estou reformulando a vida. Porque estou viva. A primavera torturante, límpida e mortal que o diga, ela que me encontra cada ano tão pronta para recebê-la. Bem sei que é uma perturbação de sentidos. Mas, por que não ficar tonta? Aceito esta minha cabeça à chuva tremeluzente da primavera, aceito que eu existo, aceito que os outros existam porque é direito deles e porque sem eles eu morreria, aceito a possibilidade do grande Outro existir apesar de eu ter rezado pelo mínimo e não me ter sido dado.
Sinto que viver é inevitável. Posso na primavera ficar horas sentada fumando, apenas sendo. Ser às vezes sangra. Mas não há como não sangrar pois é no sangue que sinto a primavera. Dói. A primavera me dá coisas. Dá do que viver. E sinto que um dia na primavera é que vou morrer. De amor pungente e coração enfraquecido.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

Fé

Uma vez, da janela, vi um homem
que estava prestes a morrer,
comendo banana amassada.
A linha do seu queixo era já de fronteiras,
mas ele não sabia, ou sabia?
Como posso saber?
Comia, achando gostoso,
me oferecendo corriqueiro, todavia
inopinado perguntou
— ou perguntou comum como das outras vezes? —
como será a ressurreição da carne?
É como nós já sabemos, eu lhe disse,
tudo como é aqui, mas sem as ruindades.
‘Que mistério profundo!’ ele falou
e falou mais, graças a Deus, pousando o prato.

Adélia Prado, em Bagagem

À sociedade

Meu entendimento é ou não suficiente para este trabalho?
Se for, eu o empregarei como um instrumento fornecido pela natureza universal.
Se não, eu o delegarei para alguém mais capacitado — caso não haja um motivo para não delegar — ou farei o meu melhor com o auxílio do homem que, com o suporte da minha faculdade hegemônica, poderá fazer o que é proveitoso e adequado ao bem coletivo. Afinal, tudo o que faço, sozinho ou não, deve ser orientado somente pelo proveito e pela adequação à sociedade.

Marco Aurélio, em Meditações

O Mestre e Margarida | 12



Magia negra e sua revelação

Um homem pequeno com um chapéu-coco amarelo esburacado, nariz de batata cor-de-rosa, calça xadrez e botinas envernizadas subiu no palco do Teatro de Variedades com uma bicicleta simples de duas rodas. Ao som de um foxtrote, fez um círculo, e então soltou um grito triunfante, que fez sua bicicleta se empinar. Depois de dar uma volta sobre a roda traseira, o homenzinho ficou de pernas para o ar, deu um jeito de desparafusar a roda dianteira em movimento e a empurrou para os bastidores, e depois continuou seu caminho sobre uma roda, rodando os pedais com as mãos.
Em um selim no alto de um grande mastro metálico de uma só roda entrou uma loira roliça de maiô e uma saia curtinha coberta de estrelas prateadas e começou a pedalar em círculos. Quando cruzava com ela, o homenzinho dava gritos de saudação e tirava o chapéu-coco da cabeça com o pé.
Finalmente, surgiu uma criancinha de uns oito anos com rosto senil, ziguezagueando no meio dos adultos em um velocípede de duas rodas minúsculo, ao qual estava acoplada umaenorme buzina de automóvel.
Depois de fazer algumas acrobacias, todo o bando, ao rufar alarmante do tambor da orquestra, foi rodopiando até a ponta mais extrema do palco e os espectadores das primeiras filas soltaram gritos de admiração e pularam para trás em suas cadeiras, porque tiveram a impressão de que toda a troica ia desabar com seus veículos sobre a orquestra.
Mas as bicicletas pararam exatamente naquele momento em que as rodas dianteiras ameaçavam escorregar para o abismo sobre as cabeças dos músicos. Com um grito bem alto de “urra!”, os ciclistas saltaram de seus veículos, fazendo saudações, enquanto a loira mandava beijos no ar para o público, e a criancinha tocou sua buzina de som engraçado.
Os aplausos sacudiram o prédio e uma cortina azul veio dos dois lados e encobriu os ciclistas. As luzes verdes perto das portas com a inscrição “Saída” se apagaram, e na rede dos trapézios, sob a cúpula, bolas brancas se acenderam como o sol. Era o intervalo antes da última parte.
A única pessoa que não se interessava nem um pouco pelas maravilhas da tecnologia das bicicletas da família Giulli era Grigóri Danílovitch Rímski. Ele estava sentado em seu gabinete na mais completa solidão, mordendo os lábios finos, e volta e meia um espasmo passava por seu rosto. Ao extraordinário sumiço de Likhodiêiev, somou-se o desaparecimento completamente imprevisível do administrador Variênukha.
Rímski sabia para onde ele tinha ido, mas ele tinha ido e... não tinha voltado! Rímski dava de ombros e murmurava consigo mesmo:
— Mas por quê?
Que coisa estranha: para uma pessoa tão prática como o diretor financeiro, o mais fácil de tudo seria, é claro, telefonar para onde Variênukha tinha ido e procurar saber qual tinha sido seu fim e, no entanto, até as dez horas da noite ele não se decidira a fazer isso.
Às dez, praticando um verdadeiro ato de violência contra si mesmo, Rímski tirou o fone do gancho para então descobrir que o aparelho estava mudo. O mensageiro informou que os demais telefones do prédio também estavam com defeito. Esse acontecimento, claro, desagradável, mas não sobrenatural, sabe-se lá por que abalou definitivamente o diretor financeiro. Ao mesmo tempo, estava feliz: a necessidade de telefonar se esvaiu.
No momento em que a lâmpada vermelha sobre a cabeça do diretor financeiro acendeu e começou a piscar, anunciando o início do intervalo, o mensageiro entrou e informou que o artista estrangeiro havia chegado. O diretor financeiro, sabe-se lá por quê, estremeceu e, ficando ainda mais sombrio do que uma nuvem carregada, dirigiu-se para os bastidores para receber o artista visitante, pois não havia mais ninguém para fazer isso.
Do corredor, onde soavam campainhas de aviso, curiosos espiavam o grande camarim, sob diversos pretextos. Lá havia ilusionistas de capas vistosas e turbantes, um patinador com uma jaqueta branca de tricô, um contador de histórias pálido de tanto pó de arroz e um maquiador.
O famoso recém-chegado espantou a todos com seu fraque de comprimento sem precedentes e corte magnífico, e também por ter aparecido com uma meia-máscara negra. Mas o mais admirável era os dois companheiros do especialista em magia negra: um alto de xadrez com um pincenê rachado e um gato preto e gordo, que, quando entrou no camarim nas duas patas traseiras, sentou-se no sofá completamente à vontade, apertando os olhos para as lâmpadas de maquiagem.
Rímski se esforçou para colocar um sorriso no rosto, o que fez sua expressão ficar azeda e maldosa, e então cumprimentou o mago mudo, sentado ao lado do gato no sofá. Não houve aperto de mão. Em compensação, o atrevido sujeito de roupa xadrez se anunciou ao diretor financeiro, denominando-se “assistente do cavalheiro”. Esta circunstância deixou o diretor financeiro admirado mais uma vez: no contrato, decididamente não havia menção alguma a qualquer assistente.
Com um jeito extremamente forçado e seco, Grigóri Danílovitch quis saber do tal de xadrez que havia despencado sobre sua cabeça onde estavam os equipamentos do artista.
— Nosso diamante celestial, valiosíssimo senhor diretor — respondeu o assistente do mago, com a voz trêmula —, nosso equipamento está sempre conosco. Aqui está ele! Eins, zwei, drei! — E, depois de girar seus dedos nodosos diante dos olhos de Rímski, de repente tirou de trás da orelha do gato o próprio relógio de ouro e a correntinha de Rímski que até então estavam no bolso de seu colete sob o paletó abotoado, a correntinha trespassada em uma casa do botão.
Rímski apalpou a barriga involuntariamente, os presentes suspiraram e o maquiador que espiava pela porta grasnou, concordando.
— É seu querido relógio? Queira pegá-lo — disse o de xadrez, sorrindo casualmente e estendendo ao perplexo Rímski a palma da mão suja com seu pertence.
— Qual é a ordem, messire? — perguntou Fagot ao mascarado.
— Bom, fazer o quê? — retrucou o mago, pensativo. — São pessoas como outras quaisquer. Gostam de dinheiro, mas sempre foi assim... A humanidade gosta de dinheiro, independentemente do que seja feito: de couro, de papel, de bronze ou ouro. Bom, são levianas... fazer o quê... a misericórdia às vezes bate em seus corações... são pessoas comuns... em geral fazem lembrar as pessoas de antigamente... só que o problema habitacional as corrompeu... — E ordenou em voz alta: — Coloquem a cabeça no lugar.
Mirando com esmero, o gato enterrou a cabeça no pescoço e esta se assentou perfeitamente, como se nunca tivesse se ausentado de lá. E o principal, não ficou sequer uma cicatriz no pescoço. O gato espanou o fraque e o peitilho da camisa de Bengálski com as patas e os vestígios de sangue desapareceram. Fagot ergueu Bengálski, colocando-o de pé, enfiou em seu bolso um maço de dinheiro e o conduziu para fora do palco, com as seguintes palavras:
— Fora daqui! Sem você é mais divertido.
Olhando ao redor insanamente, e cambaleando, o mestre de cerimônias conseguiu se arrastar até o extintor de incêndio e ali se sentiu mal. Então soltou um grito penoso:
— Minha cabeça, minha cabeça!
Entre os que correram até ele, também estava Rímski. O mestre de cerimônias chorava, tentava apanhar algo no ar, balbuciava:
— Devolvam minha cabeça! Devolvam a cabeça! Peguem o apartamento, os quadros, mas devolvam a cabeça!
Um recepcionista foi correndo em busca de um médico. Tentaram acomodar Bengálski em um sofá do camarim, mas ele começou a se debater, ficou violento. Foram obrigados a chamar uma ambulância. Quando o pobre do mestre de cerimônias foi levado, Rímski correu de volta para o palco e viu que novas maravilhas estavam acontecendo ali. Ah, sim, naquele momento, ou um pouco antes, o mago, junto com sua poltrona desbotada, havia desaparecido do palco, e, a propósito, é preciso dizer que o público nem sequer notou, seduzido que estava com aquelas coisas excepcionais que Fagot desdobrava no palco.
Depois de despachar o vitimado mestre de cerimônias, Fagot anunciou ao público:
— Agorinha, depois de nos livrarmos desse chato, vamos abrir uma loja para damas!
E imediatamente o chão do palco cobriu-se com tapetes persas, surgiram enormes
espelhos, iluminados nas laterais por tubos esverdeados. Entre os espelhos, vitrines, e nelas os espectadores, alegres e aturdidos, viram vestidos parisienses, de diversas cores e cortes. Isso só em algumas vitrines. Já em outras apareceram centenas de chapéus para damas, com plumas e sem plumas, com fivelas e sem, centenas de sapatos — pretos, brancos, amarelos, de couro, de cetim, de camurça, com tiras, com pedrinhas. Entre os sapatos apareceram estojos de perfumes, montanhas de bolsas de couro de antílope, de camurça, de seda e, entre elas — verdadeiras pilhas de pequenos estojos alongados de ouro cinzelado em que se costuma colocar o batom.
Vai saber o diabo de onde saiu uma moça ruiva com uma toalete preta de gala, uma moça bonita em todos os sentidos, não fosse por uma estranha cicatriz no pescoço que a desfigurava, com um sorriso de proprietária ao lado das vitrines.
Fagot, sorrindo, malicioso e doce, anunciou que a casa estava realizando, sem cobrar nada, a troca de vestidos e calçados femininos velhos por novos modelos parisienses e novos calçados parisienses. Ele acrescentou o mesmo com relação às bolsas e ao restante.
O gato começou a arrastar a pata traseira e com a dianteira fazia uns gestos, próprios de porteiros quando abrem uma porta.
Mesmo afônica e com a língua presa, a moça começou a cantar docemente algo pouco compreensível, mas, a julgar pelos rostos femininos da plateia, muito sedutoramente:
— Guerlain, Chanel nº 5, Mitsouko, Narcisse Noir, vestidos de gala, vestidos para coquetéis...
Fagot se contorcia, o gato fazia reverências, a moça abria vitrines de vidro.
— Por favor! — vociferava Fagot. — Sem constrangimento ou cerimônia!
O público estava agitado, mas ninguém se atrevia a ir até o palco. Finalmente, uma morena saiu da décima fileira da plateia e, sorrindo, digamos, como se desse na mesma e não tivesse nenhuma importância para ela, passou pela escada lateral e subiu ao palco.
— Bravo! — gritou Fagot. — Vamos cumprimentar a primeira cliente! Uma cadeira, Behemoth! Vamos começar pelos calçados, madame!
A morena sentou-se na poltrona e imediatamente Fagot despejou um amontoado de sapatos no tapete diante dela. A morena tirou o sapato do pé direito, experimentou um lilás e pisou pelo tapete, examinando o salto.
— Será que não vai me apertar? — perguntou de forma pensativa. Ao que Fagotexclamou, ofendido:
— O que é isso, o que é isso! — e o gato miou também, ofendido.
— Vou levar esse par, monsieur — disse a morena com orgulho, calçando também o outro sapato.
Os sapatos velhos da morena foram jogados para trás da cortina, para onde também seguiu ela mesma, acompanhada da moça ruiva e de Fagot, que levava vários vestidos da última moda em cabides. O gato ajudava, atarantado, e, para dar um ar de importância, pendurou uma fita métrica no pescoço.
Um minuto depois, a morena saiu de trás da cortina com um vestido que fez um suspiro rodopiar por toda a plateia. A audaciosa mulher, admiravelmente mais bela, parou diante do espelho, moveu os ombros desnudos, tocou os cabelos na nuca e virou-se, tentando ver as próprias costas.
— A casa pede que aceite isso como recordação — disse Fagot, oferecendo à morena um estojo aberto com um frasco.
— Merci — respondeu a morena, soberanamente, e foi para a plateia pela escada. Enquanto andava, os espectadores saltavam e tocavam no estojo.
Então, de todos os lados, como uma avalanche, mulheres foram para o palco. Em meio ao rebuliço geral de vozes, risinhos e suspiros, ouviu-se uma voz masculina: “Não vou permitir uma coisa dessas!”, e outra feminina: “Seu déspota, pequeno-burguês! Assim você vai quebrar meu braço!” Mulheres desapareciam atrás da cortina, deixavam seus vestidos e saíam com novos. Toda uma fileira de damas sentada em banquinhos de pés dourados batia energicamente os calçados novos no tapete. Fagot se ajoelhava, manejando uma calçadeira de metal. O gato, atolado no meio de um monte de bolsas e sapatos, zanzava de um lado para o outro entre as vitrines e os banquinhos. A moça do pescoço deformado aparecia e desaparecia e chegou até mesmo ao ponto de ficar papeando inteiramente em francês, e o mais impressionante era que todas as mulheres a compreendiam mesmo com meias palavras, até as que não sabiam uma palavra sequer de francês.
Admiração geral foi provocada por um homem que se enfiou no palco. Ele anunciou que sua esposa estava gripada e por isso pedia que lhe dessem algo para levar-lhe. Para provar que era realmente casado, o cidadão prontificou-se em apresentar a certidão. A declaração do marido dedicado foi recebida com gargalhadas e Fagot vociferou que acreditava nele como em si próprio, mesmo sem a certidão, e entregou ao cidadão dois pares de meias de seda, e o gato incluiu de sua parte um pequeno estojo de batom.
As mulheres atrasadas irrompiam no palco, e dali transbordavam bem-aventuradas com vestidos de baile, robes com dragões, trajes sóbrios e pequenos chapéus apoiados sobre uma sobrancelha.
Então Fagot anunciou que, dali a exatamente um minuto, em função da hora tardia, a loja ficaria fechada até a noite do dia seguinte, e uma incomensurável confusão tomou conta do palco. As mulheres agarravam sapatos apressadamente, sem experimentá-los. Uma, feito um furacão, irrompeu para trás da cortina, arrancou ali mesmo seu traje e se apossou da primeira coisa que apareceu pela frente — um chambre de seda com estampa de buquês enormes de flores. Além disso, conseguiu agarrar dois estojos de perfumes.
Exatamente depois de um minuto, houve um disparo de pistola, os espelhos desapareceram, as vitrines e os banquinhos se dissiparam, o tapete evaporou no ar, assim como a cortina. A última coisa que desapareceu foi a altíssima montanha de vestidos e calçados velhos, e o palco ficou novamente austero, vazio e desnudo.
E foi aqui que um novo personagem se intrometeu.
Um barítono agradável, sonoro e muito insistente foi ouvido do camarote número dois:
— De qualquer maneira, cidadão artista, seria desejável que, sem perder mais tempo, o senhor revelasse diante dos espectadores a técnica de suas mágicas, em especial a das cédulas de dinheiro. Seria desejável, também, o retorno do mestre de cerimônias ao palco. Os espectadores estão agitados sobre o destino dele.
O barítono pertencia a ninguém menos que o convidado de honra daquela noite, Arkádi Apollônovitch Sempleiárov, presidente da Comissão de Acústica dos Teatros Moscovitas.
Arkádi Apollônovitch estava no camarote com duas damas: a mais velha usava trajes caros e da moda, e a outra — jovenzinha e bonitinha — trajes mais simples. A primeira, como se soube durante a redação do relatório, era a esposa de Arkádi Apollônovitch; a segunda, sua parente distante, atriz iniciante e promissora, que viera de Sarátov e estava morando no apartamento de Arkádi Apollônovitch e sua esposa.
— Pardon! — retrucou Fagot. — Peço desculpas, aqui não há nada a ser revelado, tudo está claro.
— Não, sinto muito! A revelação é totalmente necessária. Sem isso esses brilhantes números deixarão má impressão. A massa de espectadores exige explicações.
— Parece que a massa de espectadores — rebateu o palhaço insolente, interrompendo Sempleiárov — não tem nada a declarar. Mas, levando em consideração o seu profundo e respeitável desejo, Arkádi Apollônovitch, que assim seja, eu farei uma revelação. Porém, para isso, permita-me mais um numerozinho?
— Por que não? — respondeu Arkádi Apollônovitch, com ar condescendente. — Mas com uma revelação, sem falta!
— Sim, senhor, sim, senhor. Então permita-me perguntar, onde o senhor estava ontem à noite, Arkádi Apollônovitch?
Diante dessa pergunta descabida e, digamos, indelicada, o rosto de Arkádi Apollônovitch ficou alterado, realmente bastante alterado.
— Ontem à noite Arkádi Apollônovitch estava em uma reunião da Comissão de Acústica — declarou de forma muito arrogante sua esposa. — Mas não estou entendendo o que isso tem a ver com magia.
— Ouiii, madame! — confirmou Fagot. — É natural que a senhora não entenda. Mas, quanto à reunião, está totalmente enganada. Quando saiu para a referida reunião, que, diga-se de passagem, nem estava marcada para ontem, Arkádi Apollônovitch dispensou seu motorista perto do edifício da Comissão de Acústica em Tchístie Prudý (o teatro inteiro silenciou) e, sozinho, tomou um ônibus até a rua Ielôkhovskaia para fazer uma visita a uma atriz do teatro itinerante do distrito, Mílitsa Andrêievna Pokobátko, e com ela passou cerca de quatro horas.
— Ai! — alguém soltou uma exclamação de sofrimento em meio ao silêncio absoluto.
De repente a jovem parente de Arkádi Apollônovitch soltou uma gargalhada baixa e terrível.
— Tudo está esclarecido! — exclamou ela. — Eu já desconfiava disso fazia muito tempo. Agora está claro porque aquela besta quadrada ganhou o papel de Luisa!
E, agitando-se repentinamente, bateu na cabeça de Arkádi Apollônovitch com seu pequeno e grosso guarda-chuva lilás.
O pérfido Fagot, também chamado Korôviev, gritou:
— Vejam, veneráveis cidadãos, um dos casos de revelação que Arkádi Apollônovitch arrumou com tanta impertinência!
— Como você se atreve, sua infame, a encostar em Arkádi Apollônovitch? — perguntou a esposa com um ar terrível, levantando-se no camarote em todo seu tamanho gigante.
Um segundo e breve acesso de riso satânico tomou conta da jovem parente.
— E quem mais do que eu — respondeu ela, rindo — se atreveria a encostar nele! — E pela segunda vez o estalido seco do guarda-chuva batendo na cabeça de Arkádi Apollônovitch ressoou no teatro.
— Polícia! Prendam-na! — gritou a esposa de Sempleiárov com uma voz tão terrível que muitos sentiram o coração gelar.
Então o gato apareceu na ribalta e esbravejou para o teatro inteiro ouvir com uma voz humana:
— A sessão acabou! Maestro! Execute uma marcha!!
O enlouquecido maestro, sem se dar conta do que estava fazendo, agitou a batuta, e a orquestra não começou a tocar, nem mesmo a soar ou a retumbar, mas precisamente, seguindo a expressão repulsiva do gato, executou uma marcha incrível, de uma rudeza sem precedentes.
Por um momento pareceu que as palavras dessa marcha, pouco inteligíveis, mas muito audaciosas, tinham sido ouvidas outrora em um café-cantante, sob o brilho das estrelas do sul:

Sua excelência
De passarinhos gostava,
E para si
Belas mocinhas tomava!!!

Mas pode ser que não fosse nenhuma dessas palavras, mas outras com essa mesma música, com letras extremamente inadequadas. O importante não é isso, o importante é que, depois de tudo, algo parecido com uma babel teve início no Teatro de Variedades. A polícia correu até o camarote dos Sempleiárov, os curiosos subiam nas divisórias, ouviam-se explosões infernais de gargalhadas, gritos raivosos, abafados pelo retinir dourado dos pratos da orquestra.
[…]

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida