25/10/2026

Grito Sertanejo (versão II) | Elilson José Batista e Robson Renato

 

Café




Candeia era quase nada. Não mais que vinte casas mortas, uma igrejinha velha, um resto de praça. Algumas construções nem sequer tinham telhado, outras, invadidas pelo mato, incompletas, sem paredes. Nem o ar tinha esperança de ser vento. Era custoso acreditar que morasse alguém naquele cemitério de gigantes.
O único sinal de vida vinha de um bar aberto. Duas mesas de madeira na frente, um caminhão, um homem e uma mulher na boleia ouvindo música, entre abraços, beijos e carícias ousadas. Mais desolado e triste que Juazeiro do Norte aquele povoado, muito mais. Em Juazeiro tinha gente, a cidade era viva. E no meio daquele povo todo sempre se encontrava uma alma boa como a de sua mãe, uma moça bonita, um amigo animado. Candeia era morta. Pior ainda naquela hora, quando até o sol iniciava o seu funeral de todos os dias.
Samuel ao menos ficou um pouco feliz por ouvir a música do caminhoneiro. Quase sorriu. O esboço de alegria durou até aparecer pela porta mal pintada de azul uma mulher assombrosa, praguejando com uma vassoura na mão e mandando desligar aquela música maldita. O caminhoneiro a chamou pelo nome:
— Cadê o café, Helenice? Deixa de praguejar, coisa-ruim!
Pela mesma porta saiu uma moça, bem jovem, com uma garrafa térmica vermelha e duas canecas. Foi e voltou com rapidez, agora trazendo dois pratos, quatro pães pequenos, duas bananas cozidas e um pote de margarina.
— Cinco reais — ordenou Helenice, com a mão na garrafa térmica. — Só come se pagar.
O homem pagou, sempre rindo da cara de Helenice, visivelmente bêbado, sempre tentando morder a mulher da boleia, malvestida, desgraçada, seminua, feia, bonita, feliz, e quase não era possível que isso tudo coubesse na mesma pessoa.
Samuel invejou o caminhoneiro. Não tinha tanto dinheiro para comer naquele fim de tarde, fim de vida. Lembrou-se de Mariinha, que gostava de tapioca com café. Essas lembranças de Mariinha eram assim, chegavam o tempo todo, sem palavras, eram fotos da memória, cenas apressadas. Às vezes, com cheiro. Sempre o cheiro da mãe.
Helenice entrou com a vassoura e a moça foi para a lateral da casa. Ele foi atrás, sem imaginar o quanto a sua presença era mais assustadora na penumbra.
— A senhora tem um pão, pelo amor de Deus?
Ele não se reconhecia naquele homem que pedia pão metendo o nome de Deus na frase, mas aprendeu no Horto que a única forma de comover naquele pedaço perdido de mundo era a ameaça de que Deus estava vendo tudo e não tolerava descaridades.
Sua voz foi um susto para a moça, quando viu o miserável. Primeiro porque havia tempos não chegava ninguém ali além de um ou outro caminhoneiro. Segundo porque ele era estranho, instigante. Parecia jovem, parecia bonito. Sentiu medo e pena, ao mesmo tempo. Lembrou-se do saco de pão velho que tinha mesmo que jogar fora. Disse um “espera aí” apressado e voltou logo, jogando o saco para ele.
A fome não o impediu de notar o quanto aquela moça era jeitosa, de corpo bem-feito e uns olhos de mel de jandaíra. Samuel atacou o pão com força, roeu com desespero e engasgou-se com o farelo seco. Sua cara arroxeou rápido, asfixiado, tinha disso desde pequeno, não era cena bonita de se ver. A moça pegou uma garrafa suja de qualquer coisa e encheu com água da torneira, entregando ao sufocado, que bebeu com afobação e desentalou a garganta. Ela teve pena, de novo. Talvez tivesse mesmo a sua idade. Melhor se fosse velho, bem velho, assim seria inofensivo e ela poderia ajudá-lo mais. Talvez até a mãe tivesse pena também. A moça pensou uma coisa egoísta: ele sofria mais que ela. Que bom ver alguém quesofre mais. Que bom. Aquela desgraça de destino, seja lá como tenha acontecido, tornava a sua sina um pouco mais leve. Ela sempre achou que nunca encontraria alguém que sofresse mais que ela. Encontrou, por segundos.
Helenice chegou enfurecida e enxotou o homem com a vassoura, como bicho. Ela, mais bicho que ele. Pediu à menina que tomasse a garrafa da mão do vagabundo, que ainda se recuperava da falta de ar do engasgo. A moça desobedeceu. Saiu correndo pra dentro da bodega, enquanto Helenice afugentava o homem aos gritos, empunhando a vassoura como se fosse uma espada. A Samuel, só restou sair dali correndo.
Estava em Candeia, enfim, onde ninguém o conhecia, onde mal chegou e já foi expulso a vassouradas, onde só conseguiu um saco de pão seco com água suja, onde era difícil acreditar que alguém vivesse, de onde o sol se despedia.
Dois ou três meninos barrigudos, quase nus, corriam pelas ruas daquele sábado à tarde. A poeira, os gatos magros, tudo sofrendo de falta de vida.
Sentou-se numa calçada qualquer para comer mais um pouco dos farelos secos, agora com mais cuidado. Tomou água, aos poucos, até que viu uma torneira no muro da casa ao lado de onde estava sentado. Bebeu o que quis, poderia encher novamente a garrafa, até lavar o rosto antes de procurar o endereço. Ele estava ali para procurar uma casa, encontrar uma mulher, perguntar por um homem, resolver uma dívida antiga e depois ir embora. Deveria ser rápido. Era mais fúria do que plano. Achava que saberia o que fazer quando chegasse a hora.
Aproveitou a torneira, molhou as mãos, a cara, cabelo, tentou tirar a lama preta cimentada sob suas unhas grandes e duras. Olhou-se no espelho de uma moto velha parada logo ali e viu como estava horrendo. Não era assim que gostaria de chegar àquela casa, falar com Niceia, não era a forma mais agradável de se mostrar. Também não foi assim que imaginou a própria vida e lá estava ele, transfigurado em filho do diabo, naquela cidade onde ninguém o conhecia, à procura.
Foi no caminho de Juazeiro a Candeia que o diabo apareceu pela primeira vez como seu pai. Antes era pai nenhum. Não permitia que a mãe falasse nele, portanto ele não existia. Foi uma noite qualquer, dormindo no meio do mato perto dos Inhamuns. Sonhou que Mariinha, vestida de noiva, sorria para alguém e caminhava para um homem e esse homem era um monstro, era o diabo. Parecia com ele, de alguma forma, sendo monstruoso ao mesmo tempo. Era a única imagem que Samuel guardava do pai: o retrato da besta-fera.
Lembrou-se disso enquanto sentia a água, agora escassa, cair da torneira, sem forças, um fio. Até a água parecia morrer.
A dona da casa — e da torneira — apareceu na calçada, andando com passos lentos. Vinha de braço dado com um homem decrépito, de olhar fixo como se não pudesse mais mover os olhos para nenhuma outra parte. A vida estava ali com ele na consistência de fumaça no fim da fogueira. Na calçada, duas cadeiras foram confortavelmente forradas com almofadas desbotadas de tecido florido. Primeiro, ela acomodou o velho, falava com ele, sorrindo, mostrava isso e aquilo, como se ignorasse a debilidade. Chamou um gato amarelo pelo nome, Jerimum, que atendeu e pulou no colo do homem. Talvez fosse um hábito antigo, gatos são dados ao método e à rotina, mas o velho não deu conta da sua presença. Foram amigos um dia? Seria o gato, também, um velho vivente perto da morte?
Samuel assistia a tudo parado, do meio da rua, até ser notado pela velha, já acomodada em sua cadeira. Sua figura horrenda não foi suficiente para assustá-la e tamanha bondade correspondia exatamente à descrição que Mariinha fizera de sua avó Niceia, uma mulher de bom coração. De mãos dadas com o apoplético, sorriu e desejou bom dia ao desconhecido. Sem saber o que dizer exatamente — o sorriso o deixara mais confuso que a vassourada —, Samuel tirou do bolso o endereço e perguntou se ela era Niceia. Ele queria que fosse, mas não, seu nome era Rosa. Depois perguntou onde ficava a rua da Matriz.
— É essa, que passa aqui ao lado da matriz.
Estavam ao lado da rua. Ela, sempre sorrindo.
— E a casa de Niceia Rocha Vale?
O velho resmungou alguma coisa, um barulho angustiante, gutural, quase desesperado.
— Ele quer água — ela traduziu para o forasteiro.
Ainda de mãos dadas, ficou de pé e chamou por alguém pelo muro. Ninguém veio. Ela entrou em casa para buscar água, ajudou o velho a beber, acalmou o homem, ajudou-o a levantar separando bem as pernas, puxando com força o corpo peso-pena, e os dois entraram, ela deixando um rápido aceno de despedida e evitando olhar para ele ou responder à pergunta. Samuel teve certeza de que o velho tentou responder.

Socorro Acioli, em A cabeça do santo

Alegria

 

Poema concreto de Débora Rossi Fantini

De cima

Uma bela ideia de Platão:

“Quem discorre sobre os homens deveria encarar as coisas terrenas como se as avistasse de cima. Assembleias, exércitos e lavouras; matrimônios e divórcios; mortes e nascimentos; tribunais barulhentos e locais desertos; nações bárbaras; festas, funerais e feiras. Uma mistura de tudo e uma combinação ordenada de coisas opostas.”

Marco Aurélio, em Meditações

A vingança da porta

 



A porta de vidro do chuveiro não estava funcionando bem. Fechar, fechava, mas à simples deslocação de ar provocada pela água, ela se abria mansamente. Só os americanos que, tidos por excêntricos, tomam banho no inverno, sabem o que significa uma repentina rajada de ar frio a assinar com a água quente do chuveiro um contrato de pneumonia dupla que nenhum antibiótico rescindirá. Ela, uma senhora brasileira residente em Nova York, mandou chamar o zelador do edifício.­
O zelador compareceu ao fim de três semanas e cinco gorjetas, munido do competente alicate. Depois de verificar a pro­cedência da reclamação, concluiu que o conserto fugia à sua alçada. A um zelador cabe receber os aluguéis no fim do mês, zangar com as crianças que brincam no saguão de entrada e, eventualmente, chamar à ordem os inquilinos que dependuram roupas do lado de fora do prédio. No capítulo dos consertos, cabe-lhe apenas munir-se de um alicate e percorrer regularmente os apartamentos, recolhendo gorjetas. No caso em questão era preciso chamar a companhia que montava e reparava instalações de banho. E a dona do apartamento assim fez.
Veio o homem de uma companhia dessas, contratado por hora. Como, porém, sua especialidade ficasse circunscrita aos aparelhos de banho, meteu-se a reparar o chuveiro, dando ao jato d’água uma pressão e uma direção que não forçassem a porta de vidro a abrir-se assim que se torcia a torneira. Findo o trabalho, depois de duas horas de aplicadas experimentações, que acabaram deixando o banheiro completamente inundado, teve de reconhecer que o defeito na porta persistia e que só na própria porta haveria de ser reparado. Portas, contudo, não eram a sua especialidade.
Chamou-se um serralheiro, mestre na reparação de fechaduras. A um primeiro olhar, porém, ele constatou que nada poderia fazer, desde que a porta do chuveiro não dispunha propriamente de fechadura, mas de uma simples lingueta provida­ de uma mola que cedia à pressão do batente. Além do mais, o defeito estaria talvez no excesso de folga entre este batente e a porta, o que implicava ter de aproximá-los. Depois de fazer para a dona do apartamento uma preleção sobre o funcionamento das fechaduras e os diferentes tipos de chaves, declarou que nada entendia de dobradiças, e como essas deviam ser destacadas da parede para remoção da porta, melhor seria que se chamasse um pedreiro. E um pedreiro foi chamado.
A princípio o pedreiro argumentou que as dobradiças se prendiam a um suporte de madeira embutido na parede, e que torná-lo saliente, para que a porta se ajustasse ao batente do outro lado, exigiria outra peça de madeira — serviço, pois, de um marceneiro. Mas como a mulher, já exasperada, lhe or­denasse que removesse da parede a porta com suporte e tudo, ele pôs mãos à obra. Em meia hora estava aberto na parede um rombo quase do tamanho da própria porta, e esta jazia no chão, enquanto o pedreiro tomava medidas.
— Vou encomendar do carpinteiro um suporte mais largo — explicou. — Depois volto para acabar o serviço.
E se foi, deixando a porta no chão.
Então é que se deu o inesperado. O buraco na parede não se abria para uma dependência do próprio apartamento, conforme o pedreiro, que não era arquiteto, erradamente supôs. Abria-se para o apartamento do vizinho, exatamente no lugar onde ficava o seu chuveiro. Naquela mesma tarde esse vizinho, ao regressar da cidade, foi tomar banho, e quando, já despido, transpôs a porta do chuveiro, deu com o vastíssimo buraco na parede e a caliça no chão. Sem perda de tempo meteu a cabeça no apartamento alheio como que debruçado numa janela:
— Ô madame! — pôs-se a gritar, furioso.
Madame veio correndo, pressurosa. Ao dar com aquele busto nu e cabeludo emergindo de seu chuveiro, ela não pôde deixar de se enraivecer também:
— O senhor não tem vergonha de entrar na minha casa sem roupa, desse jeito? Isso é casa de família e eu mal o conheço. Se quer falar comigo vá se vestir primeiro e passe pela porta da frente.
— Que significa isso? — berrava o homem. — Com licença de quem a senhora me abre um buraco deste tamanho na minha parede?
— Sua parede, não senhor. Abri um buraco na minha ­parede.
E ela cruzou os braços, disposta a tudo.
— Ah, sua parede? Então a senhora é dona da parede do lado de cá? Daqui a pouco vai dizer também que é dona de minha casa e quer tomar banho no meu chuveiro.
— Vá mais devagar! Dispenso a intimidade. Precisei de con­sertar a porta do meu chuveiro e não tenho culpa se as paredes daqui são tão finas. No meu país não aconteceria isso. Começa que lá nós não vivemos empilhados em caixinhas de papelão.
— Pois então volte para o seu país. Vou reclamar com o zelador.
E o homem se afastou da abertura disposto a levar até as últimas consequências o seu protesto. Mas aconteceu que, afastando-se, apareceu de corpo inteiro aos olhos da mulher, esquecendo-se de que estava pelado. Ela cobriu os olhos e botou a boca no mundo:
— Seu indecente! Atrevido! O senhor há de ajustar contas com o meu marido.
E foi-se embora, indignada. O vizinho, pensando com mais calma, viu que de nada adiantaria reclamar com o zelador. Ele haveria de prometer providências diariamente e uma semana se passaria antes que sequer viesse ver de que se tratava. Enquanto isso, o buraco ficaria aberto e ninguém poderia usar o chuveiro com tranquilidade. Vestiu o roupão e chamou de novo a mulher:
— Ô madame!
Madame gritou lá de dentro que se ele insistisse ela chamaria a polícia. Mas ao perceber que ele já se vestira, tornou a che­gar-se, mais cordata:
— O que é que o senhor quer desta vez?
— Quero ver se pelo menos chegamos a um acordo. Por quanto tempo a senhora pretende deixar esse buraco aberto?
— Não sei. Isso depende do pedreiro.
— E por quanto tempo a senhora pretende ficar sem tomar banho?
— Sou brasileira, meu senhor. Tomo banho todos os dias.
— A que horas?
Isso a brasileira achou que também era demais:
— Pergunte a meu marido, se o senhor quer saber.
— Estou perguntando só para que nossos horários não coincidam — explicou o vizinho, impaciente. — Não pense que tenho a mínima curiosidade de ver a senhora tomar banho.
A essa altura, a esposa do vizinho, ouvindo lá da sala a conversa, resolveu intervir:
— Pois fique sabendo que enquanto houver esse buraco na parede você não põe o pé no chuveiro.
E passou à ofensiva contra a outra. As duas senhoras se desavieram, discutindo meia hora, sem chegar a nenhum entendimento. Afinal, já de noite, a situação foi resolvida diploma­ticamente pelos próprios maridos. Utilizariam os respectivos chuveiros em horários diferentes e colocar-se-ia uma cortina provisória ocultando a abertura. Assim se fez, e tudo correu sem novidades naqueles dias. Às vezes coinci­dia, porém, de um marido se atrasar e o outro encontrá-lo ainda no banheiro.
— Muito trabalho hoje? — perguntava um do lado de lá, se enxugando.
— Bastante. E o frio cada vez mais forte, não? — respondia o outro, do lado de cá, se ensaboando.
Às vezes um braço molhado varava a cortina:
— Por favor, quer me passar o seu sabão? O meu acabou.
Um dia veio o pedreiro, trazendo o novo suporte da porta. Os vizinhos se despediram amistosamente, antes que a parede fosse restaurada. Recolocada a porta, foi a vez do pintor, que retocou a parede, e do vidraceiro, que substituiu o vidro, quebrado durante os consertos.
Tudo pronto, madame experimentou tomar o seu banho a portas fechadas, sem buracos na parede e sem correntes de ar. Inútil: era só abrir a torneira e a porta também se abria. Tudo como dantes. Desesperada, telefonou para a seção de informações da Biblioteca Pública:
— O senhor sabe da existência de alguma Companhia de Consertos de Trincos de Lingueta de Pressão de Portas de Chuveiro? — perguntou.
— Há uma em Pittsburgh — informaram-lhe.
Sem saber mais o que fazer, madame deu dois pontapés enraivecidos no batente da porta. E a porta ficou consertada.

Fernando Sabino, em Os melhores contos

O amor acaba

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova York; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fosse melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

Paulo Mendes Campos, em Manchete, 16/05/1964

24/10/2026

Lazzo Matumbi | Blues da Piedade

 

Gracias A La Vida

Obrigada à vida
que me deu tanto
deu-me dois olhos
que quando os abro
perfeito distingo
o preto do branco
no alto céu seu fundo estrelado
e nas multidões o homem que eu amo.

Obrigada à vida
que me deu tanto
deu-me o ouvido
que em toda sua extensão
grava noite e dia
grilos e canários
martelos, turbinas, latidos, chuvaradas
e a voz tão terna do meu bem amado

Obrigada à vida
que me deu tanto
deu-me o som e o abecedário
com ele as palavras
que penso e declaro
“mãe, amigo, irmão”
e a luz, iluminando
o rumo da alma do que estou amando

Obrigada à vida
que me deu tanto
deu-me a marcha
dos meus pés cansados
com eles andei
cidades e charcos
praias e desertos, montanhas e planos
tua casa, tua rua e teu pátio.

Obrigada à vida
que me deu tanto
deu-me o coração
que agita seu marco
quando olho o fruto
do cérebro humano
quando olho o bom tão longe do mal
quando olho o fundo de teus olhos claros

Obrigada à vida
que me deu tanto
deu-me a risada
e deu-me o pranto
assim distingo
felicidade de fraqueza
os dois materiais que formam meu canto
o canto de todos que é o mesmo canto
o canto de todos que é meu próprio canto
Obrigada à vida!

Violeta Parra (Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

Hagar, o Horrível

 

Fama

 


Ninguém se espante com o diálogo que mantive com um bebê de quinze dias de existência. Hoje, a comunicação não conhece fronteiras espaciais ou etárias. O bebê não fala o português de Portugal nem o português brasileiro, ensinado pelo saudoso professor Stanislaw Ponte Preta. Mas fala a seu modo, desde que se saiba interrogá-lo, e eu, não é por me gabar, tenho meus macetes. Perguntei-lhe de saída:
— Então, satisfeita de vir ao mundo?
Respondeu-me com rabugem, em termos que traduzirei assim:
— Como posso estar satisfeita, se ainda bem não cheguei a este lugar, já me televisionaram e estão me entrevistando?
— É a era tecnológico-aldeiglobal-consumística, minha querida. Desde o primeiro minuto de vida extrauterina você participa da sociedade eletrônico-difusoro-cósmica ilimitada.
— É, estou vendo mas não acho graça nenhuma.
— Não é para achar graça nem desgraça, é para se integrar, entende? Você tem de aderir ao processo. O processo é irreversível. Melhor você não dar uma de contestadora, e entrar na jogada.
— Mas eu nem tive tempo de contestar, me botaram diante das câmeras, fechei os olhos para não me ofuscar com aquelas luzes, chorei em sinal de protesto, riram de mim, e agora, pelo que vejo, estou em todas.
— De fato. Seu índice de publicidade é dos mais altos. Em duas semanas você varou o Brasil, fez concorrência a Elizabeth Taylor, aos terroristas palestinos e aos não palestinos, governos que caem, governos que sobem, técnicas de exorcismo…
— E daí? Pensa que o meu Ibope me dá prazer?
— Ibope não dá prazer. Dá dividendos. Você tem o futuro garantido, se for sempre dócil às exigências do sistema. Não deve bobear. Esteja sempre perto de uma objetiva, um gravador, uma passarela.
— Preferia viver a vida, com a sensação de ter uma vida realmente minha.
— Quem tem isso hoje em dia, meus-encantos? Só os loucos, isso mesmo, apenas certos loucos, não marcados pela psicose de governar o mundo. Loucos mansos, vamos dizer assim. São raros, a maioria é agitada, e não só recebe a influência da comunicação delirante, como, por sua vez, influi sobre esta, aumentando-lhe o delírio. De sorte que é bom você renunciar ao ideal individualista e anacrônico. Vida particular da gente já era. Agora vivemos a vida dos outros, em bloco, ou melhor, a de ninguém.
— De qualquer maneira, os direitos da criança… O direito de mamar sem virar manchete, de fazer cocozinho à vontade sem ser objeto de curiosidade geral, como se eu pudesse fazê-lo de pérolas. Isso não está mais em vigor?
— Depende. Há criança e criança. Umas nascem destinadas à obscuridade total e permanente, senão mesmo a coisa mais negativa, que é não viver. Nascem para não conhecer a vida. Em pouco tempo voltam para o outro lado, onde, ao que se sabe, ainda há o aproveitamento industrial do ser. Você até que é dos bebês privilegiados. Centenas de milhares, ou milhões, de espectadores debruçam-se diante dos seus cueiros, pela circunstância feliz de que você é extensão da glória de sua mãezinha.
— Vou pedir a ela para me esconder.
— Ela não pode fazer isso. Compreenda o seu papel, ó flor reclamante. Não se pode fazer nada nesta situação, a não ser exigir que as fotos saiam caprichadas, mesmo porque se não saírem será preciso tirar outras. Sua imagem é mais importante do que você. E você não se pertence; você é a sua imagem multiplicada, em cor e som. Cresça como puder, mas apareça. Aparecer é ser, em nosso tempo. Bem, vou me despedir, já estão chegando outras equipes que naturalmente vão pedir a você que estreie na próxima novela das vinte e duas horas. Trate de se preparar para tudo. Sucesso, hem? E tchauzinho, mon amour de bebê.

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

"Precisa-se"

Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca, oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar.
P.S.: Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

Let It Be, de Paul McCartney e John Lennon




When I find myself in times of trouble
Mother Mary comes to me
Speaking words of wisdom
Let it be
And in my hour of darkness
She is standing right in front of me
Speaking words of wisdom
Let it be

Let it be, let it be
Let it be, let it be
Whisper words of wisdom
Let it be

And when the broken-hearted people
Living in the world agree
There will be an answer
Let it be
For though they may be parted
There is still a chance that they will see
There will be an answer
Let it be

Let it be, let it be
Let it be, let it be
There will be an answer
Let it be

Let it be, let it be
Let it be, let it be
Whisper words of wisdom

Let it be

Let it be, let it be
Let it be, let it be
Whisper words of wisdom
Let it be

And when the night is cloudy
There is still a light that shines on me
Shine until tomorrow
Let it be
I wake up to the sound of music
Mother Mary comes to me
Speaking words of wisdom
Let it be

Let it be, let it be
Let it be, let it be
There will be an answer
Let it be
Let it be, let it be
Let it be, let it be
There will be an answer
Let it be
Let it be, let it be
Let it be, let it be
Whisper words of wisdom
Let it be

Eu estava decidindo o que eu ia cantar no Live Aid, e Sting me disse que “Let It Be” não era uma boa escolha. Ele achava que deveríamos explicitar que ações eram necessárias e, por isso, “deixe estar” não seria uma mensagem apropriada. Na visão dele, o Live Aid pressupunha um forte apelo à ação. Mas “Let It Be” não tem a ver com ser complacente ou cúmplice. Tem a ver com obter uma noção panorâmica e render-se à visão global.
A canção foi composta num contexto de estresse. O momento era difícil porque estávamos nos encaminhando para a separação dos Beatles. Esse período de mudança aconteceu em parte porque John e Yoko se conheceram, e isso afetou a dinâmica do grupo. Yoko ficava literalmente no meio das sessões de gravação, e isso era desafiador. Mas também era algo com que precisávamos lidar. A menos que houvesse um problema muito sério – a menos que um de nós dissesse: “Não consigo cantar com ela ali” –, só tinha um jeito: deixe estar. O nosso estilo era evitar conflitos, então simplesmente reprimimos e seguimos em frente. Éramos garotos do Norte, e isso fazia parte da nossa cultura. Abra um sorriso e aguente firme.
Uma coisa interessante sobre “Let It Be” da qual me lembrei só recentemente é que, quando estudei literatura inglesa no Liverpool Institute High School for Boys com meu professor favorito, Alan Durband, eu li Hamlet. Naquela época, você tinha que decorar as falas, porque era preciso ser capaz de recordá-las e citá-las na prova. No ato final da peça temos a seguinte fala:

O, I could tell you –
But let it be. – Horatio, I am dead

Suspeito que esses versos se plantaram subconscientemente em minha memória. Quando eu estava compondo “Let It Be”, eu fazia muita coisa ao mesmo tempo, estava muito exausto e tudo isso estava cobrando seu preço. A banda, eu – todos nós estávamos passando, como diz a canção, por períodos turbulentos (“times of trouble”), e não se enxergava uma luz no fim do túnel daquela confusão. Um dia, exausto, eu caí no sono e tive um sonho em que minha mãe (que havia morrido pouco mais de dez anos antes), de fato, apareceu para mim. Quando em seu sonho aparece uma pessoa que você perdeu, mesmo que às vezes seja por breves segundos, você tem a impressão de que ela está ali com você, e é como se ela sempre tivesse estado ali. Acho que todo mundo que sofreu com a perda de alguém próximo entende isso, especialmente no período logo após a morte do ente querido. Até hoje eu tenho sonhos com John e George e converso com eles. Mas nesse sonho foi muito reconfortante enxergar o rosto lindo e gentil da minha mãe e estar com ela em um lugar tranquilo. De imediato, eu me senti à vontade, amado e protegido. A minha mãe era muito tranquilizadora, como tantas mulheres costumam ser; também era ela quem mantinha a nossa família em andamento. Ela mantinha o nosso ânimo. Ela pareceu notar que eu andava preocupado com o que se passava em minha vida e com o que poderia acontecer e me falou: “Vai ficar tudo bem. Deixe estar”.
Acordei pensando que esse seria um ótimo tema para uma canção. Resolvi começar com as circunstâncias no meu entorno – o “problema no trabalho”.
Na época em que gravamos “Let It Be”, eu estava pressionando a banda para voltarmos a tocar em clubes noturnos – voltar ao básico e nos unirmos novamente como banda, terminar a década como a havíamos começado: só tocando pelo prazer de tocar. Com os Beatles não foi possível levar essa ideia a cabo, mas isso influenciou a direção do álbum Let It Be. Não queríamos nada de truques de estúdio. Era para ser um álbum honesto, sem overdubs. Não acabou exatamente assim, mas o plano era esse.
A triste constatação é que os Beatles nunca tocaram esta canção num show. Por isso, a apresentação no Live Aid foi, para muitas pessoas, provavelmente a primeira vez que elas viram uma performance desta canção.
Hoje, “Let It Be” já está no show há um bom tempo. Ela sempre foi uma canção comunitária, sobre aceitação, e acho que esses momentos funcionam muito bem com plateias grandes. Vemos muita gente abraçando seus parceiros, amigos ou familiares e cantando junto. Antigamente, milhares de isqueiros também eram erguidos no ar durante a canção. Aí foi proibido fumar nos shows, e as luzes vinham dos celulares do público. A gente sempre percebe quando a canção é menos popular, porque os celulares são guardados. Mas saem dos bolsos para esta.
Alguns anos atrás, estávamos no Japão e tocamos no Budokan, em Tóquio. Tínhamos tocado três noites no Tokyo Dome, um enorme estádio de beisebol de 55 mil lugares. Para contrabalançar, encerramos a turnê com uma noite no Budokan, um local bem intimista em comparação. Ainda não tinham passado cinquenta anos desde que os Beatles tinham tocado lá, mas foi um show especial, em um local com muitas memórias. A minha equipe de turnê gosta de me surpreender e, dessa vez, pulseiras foram distribuídas para o público. E, durante “Let It Be”, fui pego desprevenido: o auditório inteiro se iluminou com as mãos balançando. Às vezes, é difícil continuar cantando em momentos assim.
Algumas pessoas disseram que “Let It Be” tem ligeiras conotações religiosas, e de fato ela lembra um pouco uma canção gospel, especialmente o piano e o órgão. Em essência, o termo “Mother Mary” é provavelmente interpretado como uma referência a Maria, a Virgem Mãe de Deus. Como você deve se lembrar, a minha mãe, Mary, era católica, embora meu pai fosse protestante, e meu irmão e eu fomos batizados. Por isso, no que tange à religião, obviamente sou influenciado pelo Cristianismo, mas todas as religiões nos trazem muitos ensinamentos excelentes. No sentido convencional, não sou especialmente religioso, mas acredito na ideia de que existe um tipo de força superior capaz de nos ajudar.
De modo que esta canção se torna uma prece, ou mini-prece. Há um anseio em algum lugar do âmago dela. E a própria palavra “amém” significa “assim seja” – ou “deixe estar”.
Ela sempre foi uma canção comunitária, sobre aceitação, e acho que esses momentos funcionam muito bem com plateias grandes. Vemos muita gente abraçando seus parceiros, amigos ou familiares e cantando junto.
A minha mãe era muito tranquilizadora, como tantas mulheres costumam ser; também era ela quem mantinha a nossa família em andamento. Ela mantinha o nosso ânimo. Ela pareceu notar que eu andava preocupado com o que se passava em minha vida e com o que poderia acontecer e me falou: “Vai ficar tudo bem. Deixe estar”.

Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente

23/10/2026

Don L | Tiny Desk Brasil

La Dernière Translation

(Homenagem à recém-fundada Sobrates – Sociedade Brasileira de Tradutores)

Quando morre um velho tradutor
Sua alma, anima, soul,
Já livre do cansativo ofício
De verter
Vai direta pro céu, in cielo, to the
heaven, au ciel, in caelum, zum himmel,
Ou pro inferno – Hölle – dos grandes traditori?
Ou um tradutor será considerado
In the minute hierarquia do divino (himm’lisch)
Nem peixe, nem água, ni poisson, ni l’eau,
Neither water, nor fish, nichts, assolutamente niente?
Que irá descobrir de essencial
Esse mero intermediário da semântica,
Corretor da Babel universal?
A comunicação definitiva, sem palavras?
Outra vez o verbo inicial?
Saberá, enfim!,
Se ELE fala hebraico
Ou latim?
Ou ficará infinitamente
No infinito
Até ouvir a Voz, Voix, Voce, Voice,
Stimme, Vox,
Do Supremo Mistério
Partindo do Além
Voando como um pássarobirduccelopájarovogel
Se dirigindo a ele em...
E lhe dando, afinal,
A tradução pro Amém?

Millôr Fernandes, em Poemas

O futuro

 

O mesmo assunto

Há tempos Marques Rebello esteve em Porto Alegre. Com ele, andamos uma tarde, o Telmo Vergara e eu, pelos altos de Petrópolis. Basta dizer que era outono em Porto Alegre. Eu disse ao visitante:
— Está vendo? As cores não se misturam: tudo parece recortado a tesourinha no horizonte. A paisagem de Porto Alegre é anterior ao impressionismo.
Ele agachava-se, apertava, arregalava os olhos, concordava com tudo. E, de regresso ao Rio, escreveu:
“Como eles não têm nada que mostrar; gabam os crepúsculos!”

Mário Quintana, em Caderno H

Sem tangência

 


A morte é lúgubre lorde: a ambígua. De repente, como sempre, um homem faleceu. Diziam-no mau. Entre tudo, porém, o cemitério prosseguia de decisivo quietar quem sabe o sítio mais amigo da cidade. O enterro do homem, não conhecido, ensinou-o ao forasteiro. Podia-se procurar passeio, o desexílio, em seu reduzido espaço, dos que perderam para sempre o endereço. Na dita cidade, muito longe, árdua do todo-o-dia, fatal, fabricada, enfadonha. Ali, o mar era o cemitério.
A gente perdia a abusão de estar-se em lugar danoso, de quebrantos ou assombro e apegava-se à paz, no descritivo, a paisagem especializada. A erva, consequente, permeio às tumbas, a grama urbana; um estapaflorir; zumbidos; às vezes borboletas. Sob luz reta, no ponto do meio-dia, a lousa quente. Tarde ainda mais limpa; a que não traz sombras. As casuarinas e seus instantes de vento. Queixava-se o coveiro de dores nas costas, do custo da vida; seu ajudante, descalço, fumava cigarros caros. De primeiro, temia-se a terra, aquela, havida por maléfica: limpavam-se do pó os sapatos. Mas, melhor pudesse qualquer um — no chamado campo-santo — defender sua loucura das dos outros. Dos mais outros, também, talvez. Quem morre, morreu mesmo? A morte é maior que a lógica. E, quando menos quando, vinha a moça. Viera, vários dias, trazia longas flores. Nem parecia ver ninguém ou ouvir, encerrada em costumeiro pesar. Deixava-a o vestido preto mais esvelta que as outras, da cidade; mais rara. Devia ser filha do homem falecido.
Nunca o avistara o forasteiro. Achava porém de apreender-lhe os traços nas feições da moça, a rude maldade de que o reputavam, desabrangendo sua matéria. Dele, contava-se: que mais perversos tendo sido o pai e o avô — do sujo e errado outrora. Nenhuma vida tem resumo: a tarda crosta da vida, com seu trecheio de ilusões. A gente vê só o cinzento, mas têm-se de adivinhar o branco e o preto.
O homem falecido, seu recente sepulcro, seria num dos extremos, aonde parava a moça, dali o recinto prolongando-se em emaranhado de bosque. Até onde não se devia ir, enquanto, seguida apenas a distância, por lá ela permanecesse, decerto atinadamente, lúcida lagrimada. Além, teria sido o cemitério primeiro, sua outra grande porta oculta. A antiga.
Às vezes, ela tardava em vir. Andava-se, a léu de labirinto, no quiescer de ante vazias permanências — dos de ide-vós-sós; faz-se que contra querubins em cavernas gritantes. As vozes humanas é que inventaram o silêncio. É possível um não-mais-futuro? Vive-se, e ri-se. O gênio ainda não germinou bem em nós, distraídos e fracos. Mas, na necrópole, uma mudez se move, algo que ultrapassava a mudez; pesam-se as espécies imperceptíveis, visões intermutáveis. Por maneira que as aceitávamos. Mais perto do mundo. Algo havia; pairava. — “Refuja o denso viver, pela levez da morte...” — disseram-me: voz indefinida, a minha talvez. Sim, a moça era quase prevista surpresa. Um dia, haverá sábios. E, que nos vem da vida, enfim? — com o continuitar do ar, do chão e do relógio. A morte: o inenarrável rapto.
E ela. Demorou o rosto, deu seu ser a perceber. Perto que perto. Era boa. Era bela. Amor... — palavra que sobrou de frases. Amor, o que lhe radiava da figura, na fala das fadas. Demasiado grande, que amedrontava.
Sua lembrança, ideia clara. A marca da imagem. Inafastável, como persistia, de negro vestida, a obstinada presença, nessa entreparagem, na vagação, nas horas temporárias. Adiara o forasteiro de ir à sepultura do homem falecido. Da moça, não se viam ali sinais, nenhumas flores. Murchas, em volta, apenas coroas. A arruda-dos-muros. A lápide — cais tão calmo. Só uns passarinhos em piqueniques. Mortas, só as folhas; e o sol enviava mais calor. Sim, com esquisitinho sem-sossego, os pássaros algo explicam. E o coveiro, espião. — “Ele é seu parente?” Os olhos das pessoas já são coisas de fantasmas. A meu não, ele riu. Tinha pensado; porque com o defunto em mim notara parecença. Estaria tonto, o coveiro, toupeireiro operador. — “Era homem mau?” — indaguei. — “Era homem justo. Bom, mas vagaroso.” E avancei: — “E a moça?” Teve ele forte espanto. — “Pois, não é sua conhecida? Não vem com o senhor?” — a desajuizar-me. Neutra, a relva, esparramaz, alegre no entreabrirfechar florinhas, se não há nenhum nunca. O vento, devolvedor de palavras. O homem, que falecera, não podia. Depois da vida, o que há, é mais vida... — disse-me: o que minha mais funda memória me telegrafou. Retomava o trabalho o coveiro, dolorento, sabedor de ofício. Já como fósseis os ossos que ele transplantava, naquele bom lugar universo.
Ela não voltaria mais... — pensei, subciente. O rapaz ajudante passava, ao ombro suas ferramentas. — “Acho que é uma mesma que vinha, noutra ocasião...” — e ele tinha as petulâncias da vida. — “Vinha escolher a própria cova...” — ignorava a especulação poética, o mistério esperançoso. Se o falecido se parecia comigo? —
“Todos parecem com todos.” Inegadamente. — “Homem bom, no geral...” — ele queria gratificação. Nunca mais? Um enterro chegava, entrava. Será... — doía, o despropositivo, a hipótese mais eficaz. Não. Só era o de um morto. Nunca mais.
Se a gente podia dali sair, a atento horizonte, pela porta primitiva, olvidado vislumbráculo? Não, o coveiro intransigiu, ria-se do desmotivo daquilo. Enferrujara, montões de terra entupindo o trato, o mato rijo, espessos de urtigas, roseiras bravas. Mas, informou: que não havia segredo, a moça era filha de um Seo Visneto, tinha vindo, nove dias, cumprir promessa de rezar e pôr flores, no cruzeirinho das Almas... — “Pois, senhor...” Não mais. Ainda não. Devia em seguida partir, o forasteiro, deixar a fácil, fatigadora, fingida cidade. Apanhou uma pedrinha, colocou-a no túmulo do homem falecido. A liberdade é absurda. A gente sempre sabe que podia ter sabido.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

Capítulo 105 – Equivalência das Janelas

Dona Plácida fechou a porta e caiu numa cadeira. Eu deixei imediatamente a alcova, e dei dois passos para sair à rua, com o fim de arrancar Virgília ao marido; foi o que disse, e em bem que o disse, porque Dona Plácida deteve-me por um braço. Tempo houve em que eu cheguei a supor que não dissera aquilo senão para que ela me detivesse; mas a simples reflexão basta para mostrar que, depois dos dez minutos da alcova, o gesto mais genuíno e cordial não podia ser senão esse. E isto por aquela famosa lei da equivalência das janelas, que eu tive a satisfação de descobrir e formular, no capítulo 51. Era preciso arejar a consciência. A alcova foi uma janela fechada; eu abri outra com o gesto de sair, e respirei.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

22/10/2026

Maria Bethânia | Palavras de Rita

 

A primeira vez da idade

A vez
que tive mais idade
foi aos cinco anos.

Meu pai,
com solenidade que eu desconhecia,
perante seus superiores hierárquicos,
apontou e disse:

— Este é meu filho!

E deu-me a mão
coroando-me rei.

Mia Couto, em Poemas Escolhidos