20/08/2026
Bendito
Louvados sejas Deus meu Senhor,
porque o meu coração está cortado a
lâmina,
mas sorrio no espelho ao que,
à revelia de tudo, se promete.
Porque sou desgraçado
como um homem tangido para a forca,
mas me lembro de uma noite na roça,
o luar nos legumes e um grilo,
minha sombra na parede.
Louvado sejas, porque eu quero pecar
contra o afinal sítio aprazível dos
mortos,
violar as tumbas com o arranhão das
unhas,
mas vejo Tua cabeça pendida
e escuto o galo cantar
três vezes em meu socorro.
Louvado sejas porque a vida é
horrível,
porque mais é o tempo que eu passo
recolhendo despojos,
— velho ao fim da guerra como uma
cabra —
mas limpo os olhos e o muco do meu
nariz,
por um canteiro de grama.
Louvados sejas porque eu quero morrer,
mas tenho medo e insisto em esperar o
prometido.
Uma vez, quando eu era menino, abri a
porta de noite,
a horta estava branca de luar
e acreditei sem nenhum sofrimento.
Louvado sejas!
Adélia Prado, em Bagagem
Palavras...
Mergulhar nas palavras, surfá-las,
pegar um tubo, eternizar-se nesses instantes, nem que seja necessário
pagar o preço de um caldo.
Elilson José Batista, em Alumbramentos
O pior dos venenos
Todos os homens gostam de ser
colocados ao meu lado, nos grandes jantares que frequento. Sou
inteligente, bonita, atraente, irônica, tenho imaginação, cultura,
sou capaz de manter um diálogo expressivo com um banqueiro
importante ou com um professor de filosofia, caso convidem um
professor de filosofia para um desses jantares elegantes. Pareço uma
presunçosa egocêntrica? Devo mentir, só para aparentar modéstia?
Os homens que se aproximam de mim
querem sempre me seduzir. Uma mulher, qualquer mulher, até a mais
obtusa, percebe quando o homem tem segundas intenções. Há uns
ridiculamente óbvios, outros mais sutis, lidar com qualquer um deles
exige talento. Esquivo-me das investidas, mas sem desestimulá-los
totalmente; a atenção masculina galante, desde que respeitosa, é
muito agradável, para mim ou qualquer outra mulher. Sou virtuosa,
sei como me comportar adequadamente. O único homem que conheci, no
sentido bíblico, foi o meu marido, um homem rico, influente. Não
quero de maneira alguma prejudicar minha confortável situação
familiar.
Antes dos jantares com lugares
marcados, sempre encontro uma maneira de verificar, na mesa em que
ficarei, os nomes dos outros comensais, manuscritos com rebuscada
caligrafia nos cartões colocados em frente aos pratos. Em várias
ocasiões troquei os cartões, quase sempre de acordo com a anfitriã,
mudando de placement algum chato indicado para ficar ao meu lado. Há
homens ricos, importantes, famosos, mas insuportavelmente
aborrecidos. Meu marido, aliás, é um desses, todos o consideram
desprovido de charme, o que é verdade. Felizmente não existe o
risco de tê-lo junto a mim, nesses jantares. A etiqueta não
permite.
Dizem que eu podia ter escolhido outro
homem para casar, mais atraente e espirituoso. Em primeiro lugar, não
existem tantos homens ricos, influentes, espirituosos e,
principalmente, generosos, que sejam disponíveis. Minhas amigas se
queixam da mesquinhez dos seus maridos ricaços e eu cheguei à
conclusão de que assim é a maioria dos maridos, ricos ou pobres,
todos reclamam das despesas que as mulheres fazem. Casei-me porque de
alguma maneira gostava dele, mas reconheço que com o passar do tempo
meu marido se tornou enfadonho. Além de chato, é baixo e gorducho,
sei que não devo pensar nele dessa maneira, um homem que me dá tudo
o que peço. Mas que outro termo pode ser aplicado ao aspecto físico
dele? Rechonchudo? É pior.
Estou neste momento nua, na frente do
espelho do meu quarto, feliz, meu corpo é bonito para a minha idade,
afinal já passei dos quarenta. E a lipo, que fiz recentemente, deu
um retoque final perfeito à malhação que pratico na academia.
Relutei um pouco em fazer a lipo, mas todas as minhas amigas estavam
fazendo, e não somente lipo, mas o serviço completo, cortando com
bisturi ou enfiando silicone, inclusive algumas enchendo o lábio
superior, creio que acham esse beicinho saliente sensual, sei lá, eu
não preciso disso, tenho lábios carnudos. É verdade que uma delas
tinha o lábio superior tão fino e reto que parecia um traço feito
com uma régua.
Também faço dieta, é claro, o que
às vezes me deixa histérica, mas é importante para manter a
silhueta esbelta. É uma tortura, comer constantemente salada, peixe
cozido e coisas do gênero sem poder dar uma bicada num chocolate,
numa torta cremosa ou até mesmo numa baguete torradinha. Não
acredito em quem diz que há dietas saborosas, isso não passa de um
daqueles raciocínios que a pessoa faz para se autoenganar e sofrer
menos.
Sou uns quinze centímetros mais alta
do que meu marido. Ele não sabe dançar, não tem ritmo nem para
essas músicas em que as pessoas apenas sacodem o corpo, uma para
cada lado. Mas sempre que surge uma oportunidade ele quer bailar. Um
dia, convidou a Gabriela para dançar um tango. A infeliz, que é
argentina e dança como uma profissional, aceitou o convite. Foi uma
coisa grotesca, a Gabriela foi um anjo, depois dei um beijo nela e
pedi desculpas pelo meu marido. Coitado, eu sei, eu sei que não
devia pensar assim de um homem tão bom, que me dá tudo o que peço,
mas naquele dia eu fiquei com ódio dele.
Ideias surgem na minha cabeça
constantemente, como agora, olhando gulosamente o reflexo da minha
nudez no espelho. Mas não devemos ter medo de pensar, já tememos
tanta coisa, se tivermos medo de pensar nem sequer existimos como
pessoa. Gostaria que meu marido olhasse para o meu corpo nu, como eu
estou olhando, e dissesse, estou com vontade de te morder. Estarei me
tornando uma lésbica? Acontece com mulheres casadas. Lembro-me do
Carlinhos Varela dizendo num jantar, “você tem braços lindos,
estou me contendo para não mordê-los agora mesmo.” Um arrepio
passou pelo meu corpo. Respondi, “Carlinhos, você é muito
engraçado, mas diz muita besteira.” Usei essa palavra forte,
besteira, e acintosamente evitei conversar com ele durante o resto do
jantar. Aquela coisa da mulher de César.
Meu marido nunca me deu uma dentada.
Confesso que detesto ficar a sós com ele, e quando não consigo
evitar que isso aconteça, sou paciente, amável, sem demonstrar o
desgosto que sinto. Se ele quer ficar calado, faço o mesmo, se quer
ir a um leilão — meu marido coleciona vasos antigos —, eu o
acompanho; às vezes até assistimos juntos aos noticiários
financeiros da TV a cabo. Felizmente dormimos em quartos separados, o
que é comum entre os casais do nosso nível socioeconômico. À
noite, na cama, insone, suspiro, rolo de um lado para o outro sem
querer saber bem por quê. Na verdade sei a razão, mas não quero
falar nisso.
No jantar de hoje tenho a sorte de ser
colocada ao lado do Dudu Meirelles. Ele é engraçado, um homem
interessante mas metido a conquistador, se você der um dedo ele quer
o braço todo. Lá para as tantas ele diz no meu ouvido: “Por você
faço qualquer loucura, abandono minha mulher, vendo meus cavalos,
meu apartamento em Paris, deixo de jogar pingue-pongue.”
Tomo um gole de vinho, ganhando tempo
para achar uma boa resposta.
“Esse pingue-pongue foi uma metáfora
inconsciente? As bolas simbolizam as mulheres que, segundo dizem,
você joga de um lado para o outro?”
Ele fica indeciso, sem saber o que
dizer, surpreso por descobrir que sou inteligente e espirituosa,
talvez um pouco ofendido. Os homens são muito tolos, muito mais
vaidosos do que as mulheres. A média das mulheres é mais
inteligente do que a média dos homens, e não estou falando de
intuição, é preciso acabar com essa bobagem de que somos muito
intuitivas, com isso eles querem sugerir que pensamos com os ovários.
Minhas amigas invejam o interesse que
os homens demonstram por mim, sejam eles solteiros ou casados, os
maridos delas inclusive. O Chico Mattos Soares, considerado o melhor
partido da cidade, rico, bonito, quarentão, um solteirão
empedernido, disputado por todas, me disse à mesa, com uma ponta de
tristeza na voz “Se você não fosse mulher de um amigo meu, eu a
pediria em casamento” E olhou nos meus olhos como quem diz, “leia,
sinta o meu olhar, estou falando a verdade”. Notei, nos seus olhos
castanho-claros, que não estava mentindo. Foi um momento mágico,
que Chico tentou romper dizendo, “desculpe ter sido tão
inconveniente”. Mas essa delicadeza me deixou ainda mais comovida.
À noite sonho com Chico. Ele segura
minha mão e rimos felizes. Chico tem lábios bonitos, dentes
perfeitos, é mais alto do que eu, creio que não existe homem mais
elegante e distinto, e não é às custas do Armani, ele se veste de
maneira casual, usa camisas polo da Hering, o relógio dele é um
Seiko. Dinheiro não compra elegância, compra a sua simulação.
Eu e o meu marido estamos tomando café
juntos. Ele lê o jornal e responde a tudo o que eu digo ou pergunto
com monossilábicos hum-huns. Num impulso, que me surpreende, arranco
o jornal da mão dele.
“Quero me separar de você”, digo.
“Não acho a menor graça”, ele
responde.
Não acredita que eu esteja falando
seriamente, falta-lhe senso de humor, não sabe quando alguém está
brincando e portanto também não percebe o contrário.
“Temos que ir falar com o seu
advogado, ou o quê?”
“Que bobagem é essa?”
“Vou falar bem devagar. Não quero
mais viver com você.”
Pelo meu tom de voz ele compreende
afinal o que está acontecendo. A sua boca fica aberta, como alguém
em estado de choque.
“O que foi que eu fiz?”, pergunta.
“Nada”, respondo.
“Existe outro homem?”
“Não, é uma coisa só minha. Pode
achar que é loucura, talvez seja, mas não tem remédio, quero me
separar de você.”
Ele telefona para o escritório, avisa
que não vai trabalhar, deve ter surpreendido a secretária e os
assessores, ele nunca deixa de ir ao escritório. Sei que pretende me
dissuadir. Durante o resto do dia tenta demover-me, de maneira
extenuante, o coitado. Pede-me para esperar um pouco, deixar passar
um tempo, sugere consultarmos um psicólogo, fazermos uma viagem, ele
não pode se ausentar, a situação econômica do país exige sua
presença à frente dos negócios, mas fará uma viagem comigo para
onde eu quiser. Se eu preferir, posso fazer a viagem sozinha. Tudo
para ganhar tempo.
“Sem você, a minha vida acaba.”
Mantenho-me firme, apesar de sentir
pena do seu ar infeliz e desgraçado. Quero separar-me imediatamente.
Ele sai de casa, da nossa casa,
dizendo, “a casa é sua, e tudo o que tem nela, e mais o que você
pedir.” O infeliz, o pobre-diabo generoso e bom, me ama. Mas eu não
podia mais ficar presa a ele, sentia-me carente, irrealizada, não
queria envelhecer ao seu lado. E se ia me separar, que fosse enquanto
ainda podia recomeçar a minha vida.
É uma maravilha, a liberdade. Você
fazer o que bem entende sem ter que dar satisfações a ninguém, que
coisa boa. Estou separada há seis meses e cada dia é melhor do que
o outro. Meu marido queria tudo nos seus lugares, cadeiras, livros,
telefones sem fio, blocos de papel, copos, CDs, roupas, revistas,
cinzeiros, como se existisse um lugar certo para cada objeto. Não
gostava que eu fumasse, afirmava que fazia mal a mim e a ele, como
fumante passivo. Dizem que as mulheres têm essa mania de arrumação,
mas na minha casa o maníaco era ele. Desde pequena sou
desorganizada, minha mãe vivia brigando comigo. Reconheço que perco
meus óculos constantemente, nunca acho uma caneta quando preciso, ou
uma determinada peça de roupa, o que às vezes me leva ao desespero,
e minha irritação acaba sobrando para as empregadas.
Mas esses são ínfimos contratempos,
se comparados com os leilões de vasos antigos, o canal Bloomberg, a
chatice da presença do meu marido, que me privava da solidão sem me
fazer companhia — essa frase é de um escritor francês, não sei
onde botei o livro.
Uma mulher desquitada bonita é muito
requestada. Mas eu não queria umaaventura passageira e, fazendo uma
confissão íntima e até mesmo de mau gosto, posso afirmar que não
estava acostumada a uma vida sexual intensa e portanto não tinha
muita urgência de arranjar alguém.
Logo me vi cercada de lobos que
queriam me devorar. Eu sabia que isso ia acontecer. Rechacei todas as
investidas. Mas quando o Dudu Meirelles me procurou, eu, tolamente,
flertei um pouco com ele. Logo percebi que Dudu não iria deixar de
jogar pingue-pongue, e muito menos abandonar a sua mulherzinha por
mim. Felizmente não tivemos nenhuma intimidade, apesar da
insistência dele. Os homens só pensam em sexo. Deixei de atender
aos telefonemas do Dudu. Ele percebeu que eu não era uma mulher para
ser levada para a cama e logo descartada.
Encontro novamente o Carlinhos Varela
num jantar. Ele, como já disse, vive arrastando a asa para mim.
Sempre ouvi essa expressão “arrastar a asa”, mas só descobri a
sua origem quando vi um pombo dando em cima de uma pombinha na praça
Antero de Quental. Eu passava pela praça para ir ao cabeleireiro e
notei os pombos. Um pombo macho perseguia a fêmea arrastando a asa
pelo chão. O pombo acabou conseguindo o que queria, depois de muito
tempo. Uma coisa sem graça muito rápida, não sei se valeu a pena
ficar tanto tempo na praça olhando os pombos.
Estou usando um vestido que deixa os
meus braços inteiramente nus, meus braços são bonitos e gosto de
exibi-los. O Carlinhos se aproxima, sei que vai arrastar a asa para
mim, dirá que quer morder os meus braços, certo de que agora,
divorciada, sou mais acessível.
Estou preparada para dar um passa-fora
nele. Carlinhos, depois de me cumprimentar, diz:
“Você não acha que hoje está
sendo o dia mais quente do verão?” Respondo que sim, espero o
resto, a minha deixa. Mas não tem resto.
Carlinhos logo procura um pretexto
para se afastar. E o idiota não mais me procura, me evita o resto da
festa. Confesso que senti uma certa frustração, talvez eu não
fosse dar nenhum fora nele, não obstante o Carlinhos fosse um
cretino. O dia mais quente do verão! Imbecil.
Não tenho ido a muitos jantares.
Agora sei que muitos dos convites que recebia eram na verdade
dirigidos ao meu marido. Senhor e senhora, o senhor é que importava.
Por mais que eu enfeitasse a festa, minha contribuição era
secundária. Negócios, o mundo é assim. A princípio isso me
incomodou um pouco, mas minha amiga Lulu, uma cínica amargurada, já
me havia alertado sobre isso.
Hoje é um dia glorioso. Depois de
tanto tempo — dois, três anos? — recebo um telefonema do Chico
Mattos Soares. Ele me diz para eu ir até a janela do meu apartamento
para ver a lua. Fico tão emocionada que nem consigo falar direito,
quanto mais ver a lua. “Vamos dar uma volta ao luar, no calçadão
da praia e tomar uma água de coco?”
Rubem Fonseca, em Pequenas Criaturas
Tempestade de almas
Ah, se eu sei, não nascia, ah, se eu
sei, não nascia. A loucura é vizinha da mais cruel sensatez. Engulo
a loucura porque ela me alucina calmamente. O anel que tu me deste
era de vidro e se quebrou e o amor não acabou, mas em lugar de, o
ódio dos que amam. A cadeira me é um objeto. Inútil enquanto a
olho. Diga-me por favor que horas são para eu saber que estou
vivendo nesta hora. A criatividade é desencadeada por um germe e eu
não tenho hoje esse germe mas tenho incipiente a loucura que em si
mesma é criação válida. Nada mais tenho a ver com a validez das
coisas. Estou liberta ou perdida. Vou-lhes contar um segredo: a vida
é mortal. Nós mantemos esse segredo em mutismo cada um diante de si
mesmo porque convém, senão seria tornar cada instante mortal. O
objeto cadeira sempre me interessou. Olho esta que é antiga,
comprada num antiquário, e estilo império; não se poderia imaginar
maior simplicidade de linhas, contrastando com o assento de feltro
vermelho. Amo os objetos à medida que eles não me amam. Mas se não
compreendo o que escrevo a culpa não é minha. Tenho que falar pois
falar salva. Mas não tenho uma só palavra a dizer. As palavras já
ditas me amordaçaram a boca. O que é que uma pessoa diz à outra?
Fora “como vai?” Se desse a loucura da franqueza, que diriam as
pessoas às outras? E o pior é o que se diria uma pessoa a si mesma,
mas seria a salvação, embora a franqueza seja determinada no nível
consciente e o terror da franqueza vem da parte que tem no vastíssimo
inconsciente que me liga ao mundo e à criadora inconsciência do
mundo. Hoje é dia de muita estrela no céu, pelo menos assim promete
esta tarde triste que uma palavra humana salvaria.
Abro bem os olhos, e não adianta:
apenas vejo. Mas o segredo, este não vejo nem sinto. A eletrola está
quebrada e não viver com música é trair a condição humana que é
cercada de música. Aliás, música é uma abstração do pensamento,
falo de Bach, de Vivaldi, de Haendel. Só posso escrever se estiver
livre, e livre de censura, senão sucumbo. Olho a cadeira estilo
império e dessa vez foi como se ela também me tivesse olhado e
visto. O futuro é meu enquanto eu viver. No futuro vai-se ter mais
tempo de viver, e, de cambulhada escrever. No futuro, se diz: se eu
sei, eu não nascia. Marli de Oliveira, eu não escrevo cartas pra
você porque só sei ser íntima. Aliás eu só sei em todas as
circunstâncias ser íntima: por isso sou mais uma calada. Tudo o que
nunca se fez, far-se-á um dia? O futuro da tecnologia ameaça
destruir tudo o que é humano no homem, mas a tecnologia não atinge
a loucura; e nela então o humano do homem se refugia. Vejo as flores
na jarra: são flores do campo, nascidas sem se plantar, são lindas
e amarelas. Mas minha cozinheira disse: mas que flores feias. Só
porque é difícil compreender e amar o que é espontâneo e
franciscano. Entender o difícil não é vantagem, mas amar o que é
fácil de se amar é uma grande subida na escala humana. Quantas
mentiras sou obrigada a dar. Mas comigo mesma é que eu queria não
ser obrigada a mentir. Senão o que me resta? A verdade é o resíduo
final de todas as coisas, e no meu inconsciente está a verdade que é
a mesma do mundo. A Lua é, como diria Paul Éluard, éclatante de
silence. Hoje não sei se vamos ter Lua visível pois já se
torna tarde e não a vejo no céu. Uma vez eu olhei de noite para o
céu circunscrevendo-o com a cabeça deitada para trás, e fiquei
tonta de tantas estrelas que se veem no campo, pois, o céu do campo
é limpo. Não há lógica, se se for pensar um pouco, na ilogicidade
perfeitamente equilibrada da natureza. Da natureza humana também. O
que seria do mundo, do cosmos, se o homem não existisse. Se eu
pudesse escrever sempre assim como estou escrevendo agora eu estaria
em plena tempestade de cérebro que significa brainstorm. Quem terá
inventado a cadeira? Alguém com amor por si mesmo. Inventou então
um maior conforto para o seu corpo. Depois os séculos se seguiram e
nunca mais ninguém prestou realmente atenção a uma cadeira, pois
usá-la é apenas automático. É preciso ter coragem para fazer um
brainstorm: nunca se sabe o que pode vir a nos assustar. O
monstro sagrado morreu: em seu lugar nasceu uma menina que era
sozinha. Bem sei que terei de parar, não por causa de falta de
palavras, mas porque essas coisas, e sobretudo as que eu só pensei e
não escrevi, não se usam publicar em jornais.
Clarice Lispector, em Todos os contos
19/08/2026
Wide sargasso sea
A história está completa: wide sargasso sea, azul. azul que não me espanta, e canta como uma sereia de papel.
Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés
Diário de Bernardo Soares
124.
(Chapter on Indifference or something
like that)
Toda a alma digna de si própria
deseja viver a vida em Extremo.
Contentar-se com o que lhe dão é
próprio dos escravos. Pedir mais é próprio das crianças.
Conquistar mais é próprio dos loucos, porque toda a conquista é
Viver a vida em Extremo significa
vivê-la até ao limite, mas há três maneiras de o fazer, e a cada
alma elevada compete escolher uma das maneiras. Pode viver-se a vida
em extremo pela posse extrema dela, pela viagem Ulisseia através de
todas as sensações vividas, através de todas as formas de energia
exteriorizada. Raros, porém, são, em todas as épocas do mundo, os
que podem fechar os olhos cheios do cansaço soma de todos os
cansaços, os que possuíram tudo de todas as maneiras.
Raros podem assim exigir da vida,
conseguindo-o, que ela se lhes entregue corpo e alma; sabendo não
ser ciumentos dela por saber ter-lhe o amor inteiramente. Mas este
deve ser, sem dúvida, o desejo de toda a alma elevada e forte.
Quando essa alma, porém, verifica que lhe é impossível tal
realização, que não tem forças para a conquista de todas as
partes do Todo, tem dois outros caminhos que siga — um, a abdicação
inteira, a abstenção formal, completa, relegando para a esfera da
sensibilidade aquilo que não pode possuir integralmente na região
da atividade e da energia. Mais vale supremamente não agir que agir
inutilmente, fragmentariamente, imbastantemente, como a inúmera
supérflua maioria inane dos homens; outro, o caminho do perfeito
equilíbrio, a busca do Limite na Proporção Absoluta, por onde a
ânsia de Extremo passa da vontade e da emoção para a Inteligência,
sendo toda a ambição não de viver toda a vida, não de sentir toda
a vida, mas de ordenar toda a vida, de a cumprir em Harmonia e
Coordenação inteligente.
A ânsia de compreender, que para
tantas almas nobres substitui a de agir, pertence à esfera da
sensibilidade. Substituir a Inteligência à energia, quebrar o elo
entre a vontade e a emoção, despindo de interesse todos os gestos
da vida material, eis o que, conseguido, vale mais que a vida, tão
difícil de possuir completa, e tão triste de possuir parcial.
Diziam os argonautas que navegar é
preciso, mas que viver não é preciso.
Argonautas, nós, da sensibilidade
doentia, digamos que sentir é preciso, mas que não é preciso
viver.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
Claro como água
Como sempre sucedeu, e há-de suceder
sempre, a questão central de qualquer tipo de organização social
humana, da qual todas as outras decorrem e para a qual todas acabam
por concorrer, é a questão do poder, e o problema teórico e
prático com que nos enfrentamos é identificar quem o detém,
averiguar como chegou a ele, verificar o uso que dele faz, os meios
de que se serve e os fins a que aponta. Se a democracia fosse, de
facto, o que com autêntica ou fingida ingenuidade continuamos a
dizer que é, o governo do povo pelo povo e para o povo, qualquer
debate sobre a questão do poder perderia muito do seu sentido, uma
vez que, residindo o poder no povo, era ao povo que competiria a
administração dele, e, sendo o povo a administrar o poder, está
claro que só o deveria fazer para seu próprio bem e para sua
própria felicidade, pois a isso o estaria obrigando aquilo a que
chamo, sem nenhuma pretensão de rigor conceptual, a lei da
conservação da vida. Ora, só um espírito perverso, panglossiano
até ao cinismo, ousaria apregoar a felicidade de um mundo que, pelo
contrário, ninguém deveria pretender que o aceitemos tal qual é,
só pelo facto de ser, supostamente, o melhor dos mundos possíveis.
É a própria e concreta situação do mundo chamado democrático,
que se é verdade serem os povos governados, verdade é também que
não o são por si mesmos nem para si mesmos. Não é em democracia
que vivemos, mas sim numa plutocracia que deixou de ser local e
próxima para tornar-se universal e inacessível.
Por definição, o poder democrático
terá de ser sempre provisório e conjuntural, dependerá da
estabilidade do voto, da flutuação das ideologias ou dos interesses
de classe, e, como tal, pode ser entendido como um barómetro
orgânico que vai registando as variações da vontade política da
sociedade. Mas, ontem como hoje, e hoje com uma amplitude cada vez
maior, abundam os casos de mudanças políticas aparentemente
radicais que tiveram como efeito radicais mudanças de governo, mas a
que não se seguiram as mudanças económicas, culturais e sociais
radicais que o resultado do sufrágio havia prometido. Dizer hoje
governo “socialista”, ou “social-democrata”, ou
“conservador”, ou “liberal”, e chamar-lhe poder, é pretender
nomear algo que em realidade não está onde parece, mas em um outro
inalcançável lugar — o do poder económico e financeiro cujos
contornos podemos perceber em filigrana, mas que invariavelmente se
nos escapa quando tentamos chegar-lhe mais perto e inevitavelmente
contra-ataca se tivermos a veleidade de querer reduzir ou regular o
seu domínio, subordinando-o ao interesse geral. Por outras e mais
claras palavras, digo que os povos não elegeram os seus governos
para que eles os “levassem” ao Mercado, mas que é o Mercado que
condiciona por todos os modos os governos para que lhe “levem” os
povos. E se falo assim do Mercado é porque é ele, hoje, e mais que
nunca em cada dia que passa, o instrumento por excelência do
autêntico, único e insofismável poder, o poder económico e
financeiro mundial, esse que não é democrático porque não o
elegeu o povo, que não é democrático porque não é regido pelo
povo, que finalmente não é democrático porque não visa a
felicidade do povo.
O nosso antepassado das cavernas
diria: “É água”. Nós, um pouco mais sábios, avisamos: “Sim,
mas está contaminada”.
José Saramago, em O caderno
Piloto de Guerra — IX
Eu o revejo com precisão, deitado no
leito do hospital. Seu joelho ficou preso e foi quebrado pela
empenagem do avião durante o salto de paraquedas, mas Sagon não
sentiu o choque. Seu rosto e suas mãos estão gravemente queimados,
mas, ao final das contas, ele não sofreu nada de preocupante. Ele
nos conta lentamente sua história, com uma voz qualquer, como o
relatório de uma tarefa…
— Percebi que ele estava atirando
quando me vi envolvido em balas traçantes. Meu painel de bordo
estourou. Depois, vi um pouco de fumaça, mas não muita, que parecia
vir da frente. Pensei que era, você sabe, ali tem um tubo de junção.
Ah! Não estava chamejando muito…
Sagon faz bico. Pesa a questão. Julga
importante dizer-nos se chamejava muito ou não muito. Hesita:
— Mesmo assim era fogo… Então, eu
mandei que saltassem.
Pois o fogo, em dez segundos,
transforma o avião em tocha!
— Abri, então, o canopi. Fiz mal.
Entrou ar… O fogo… Fiquei incomodado.
Um forno de locomotiva cospe-lhe no
ventre uma torrente de chamas, a sete mil metros de altitude e você
ficou incomodado! Não trairei Sagon exaltando seu heroísmo ou seu
pudor. Ele não reconheceria nem esse heroísmo nem esse pudor. Ele
diria: “Sim, sim, fiquei incomodado…”. Ele faz, aliás,
visíveis esforços para ser exato.
E bem sei que o campo da consciência
é minúsculo. Ela só aceita um problema de cada vez. Se você
brigar de soco e a estratégia da luta o preocupar, não sofrerá
pelos socos. Quando quase me afoguei, num acidente de hidroavião, a
água, que estava gelada, pareceu-me morna. Ou, mais precisamente:
minha consciência não considerou a temperatura da água. Ela estava
absorvida por outras preocupações. A temperatura da água não
deixou nenhum traço em minha lembrança. Assim, a consciência de
Sagon foi absorvida pela técnica da partida. O universo de Sagon se
limitava à manivela que desliza o canopi para trás, à certa alça
do paraquedas cuja localização o preocupou, e o destino técnico de
sua tripulação. “Você saltou?” Nada de resposta. “Ninguém a
bordo?” Nada de resposta.
— Pensei que estava sozinho. Achei
que podia partir… (Ele já estava com o rosto e as mãos tostados).
Levantei, pulei a carlinga e me mantive primeiro sobre a asa. Ali,
debrucei à frente: não tinha visto o observador…
O observador, morto com um tiro só
dos caças, jazia no fundo da carlinga.
— Recuei então e, atrás, não vi o
artilheiro…
O artilheiro, também, havia
desmoronado.
— Pensei que estava sozinho…
Ele refletiu:
— Se eu soubesse… Podia ter
voltado a bordo… Não estava queimando tanto… Eu fiquei assim,
muito tempo, na asa… Antes de sair da carlinga, eu tinha compensado
o avião para cabrar. O voo estava estabilizado, a respiração
suportável e eu me sentia bem. Ah! Fiquei tempo demais na asa… Não
sabia o que fazer…
Não que se apresentassem a Sagon
problemas inextricáveis: ele pensava estar sozinho a bordo, o avião
em chamas e os caças repetiam suas passagens cuspindo projéteis. O
que queria nos dizer Sagon é que ele não tinha nenhum desejo. Ele
não sentia nada. Dispunha de todo o seu tempo. Imergia numa espécie
de ócio infinito. E, ponto por ponto, eu reconhecia essa
extraordinária sensação que acompanha às vezes a iminência da
morte: um ócio inesperado… Como ela é desmentida pelo real! A
imaginária da ofegante precipitação! Sagon permanecia ali, sobre a
asa, como ejetado para fora do tempo!
— E depois eu saltei — disse ele
—, saltei mal. Eu me vi turbilhonar. Tive medo de abrir cedo demais
e me enrolar no paraquedas. Esperei ficar estabilizado. Ah, esperei
muito tempo.
Sagon, assim, conserva a lembrança de
ter, do início ao fim de sua aventura, esperado. Esperou chamejar
mais forte. Depois, esperou na asa, não se sabe o quê. E, em queda
livre, na vertical para o solo, ainda esperou.
E se tratava de Sagon mesmo, e ainda
que se tratasse de um Sagon rudimentar, mais do que de costume, de um
Sagon um pouco perplexo que, à beira de um abismo, esperneava
entediado.
Antoine de Saint-Exupéry, em Piloto de Guerra
17/08/2026
Soneto do pássaro
Batem as asas? Rosa aberta, a saia
esculpe, no seu giro, o corpo leve.
Entre músculos suaves, uma alfaia,
selada, tremeluz à vista breve.
O que, mal percebido, se descreve
em termos de pelúcia ou de cambraia,
o que é fogo sutil, soprado em neve,
curva de coxa atlântica na praia,
vira mulher ou pássaro? No rosto,
essa mesma expressão aérea ou grave,
esse indeciso traço de sol-posto,
de fuga, que há no bico de uma ave.
O mais é jeito humano ou desumano,
conforme a inclinação de meu engano.
Carlos Drummond de Andrade, em Antologia Poética
1637 – Boca do rio Sucre
Dioguinho
Há poucos dias, o padre Thomas Gage
aprendeu a escapar dos jacarés. Se a gente foge em zig-zag,
os jacarés ficam desnorteados. Eles só sabem correr em linha reta.
Em compensação ninguém ensinou-o a
escapar dos piratas. Mas, será que alguém conhece a maneira de
fugir de dois bons navios holandeses em uma fragata lenta e sem
canhões?
Recém-saída ao mar Caribe, a fragata
arria as velas e se rende.
Mais desinflada que as velas, rola
pelo chão a alma do padre Gage. Viaja com ele todo o dinheiro que
juntou na América durante os doze anos que passou salvando
sacrílegos e arrancando mortos do inferno.
Os esquifes vão e vêm. Os piratas
levam o toucinho, a farinha, o mel, as galinhas, a banha e os couros.
Também quase toda a fortuna que o padre trazia em pérolas e em
ouro. Não toda, porque respeitaram a sua cama e ele tinha costurado
no colchão boa parte de seus bens.
O capitão dos piratas, um mulato
fornido, o recebe em seu camarote. Não lhe dá a mão, mas
oferece-lhe assento e um jarro de rum com pimenta. Um suor frio brota
da nuca do padre e percorre as suas costas. Toma o trago depressa. O
capitão Diogo Grillo é conhecido, o padre ouviu falar dele. Sabe
que pirateava sob as ordens do terrível Perna de Pau e que agora
rouba por conta própria, com patente de corsário dos holandeses.
Dizem que Dioguinho mata para não perder a pontaria.
O padre implora, balbucia que não lhe
deixaram nada além da batina que veste. Enquanto enche o jarro, o
pirata conta, surdo, sem pestanejar, os maus-tratos que sofreu quando
era escravo do governador de Campeche.
– Minha mãe ainda é escrava, em
Havana. Não conheces minha mãe? É tão boa, a coitada, que dá
vergonha.
– Eu não sou espanhol – geme
baixinho o padre. – Eu sou inglês – diz e repete, em vão. –
Minha nação não é inimiga da vossa. Não são boas amigas, a
Inglaterra e a Holanda?
– Hoje ganho, amanhã perco – diz
o corsário. Retém um gole de rum, o envia pouco a pouco à
garganta.
– Olhe – ordena, e arranca a
casaca. Mostra as costas, as costuras dos açoites.
Escutam-se ruídos que chegam da
coberta. O sacerdote os agradece, porque ocultam as batidas de seu
coração desbocado.
– Eu sou Inglês...
Uma veia lateja, desesperada, na testa
do padre Gage. A saliva se nega a passar por sua garganta.
– Levai-me à Holanda. Vos rogo,
senhor, levai-me à Holanda. Por favor! Não pode um homem generoso
abandonar-me assim, despido e sem...
De um puxão, o capitão solta seu
braço das mil mãos do padre no chão com uma bengala e acodem dois
homens.
– Fora com ele!
Despede-se de costas, enquanto se olha
no espelho.
– Se passas por Havana – diz –,
não deixes de visitar minha mãe. Mande-lhe lembranças. Diga-lhe...
diga-lhe que as coisas estão indo muito bem para mim.
Enquanto regressa para a sua fragata,
o padre Gage sente câimbras na barriga. Andam fortes as ondas e o
padre amaldiçoa quem lhe disse, lá em Jerez de la Frontera, há
doze anos, que a América estava com as ruas cobertas de ouro e de
prata, e que era preciso caminhar com cuidado para não tropeçar com
os diamantes.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
Complexo de inferioridade
♦ Uma coisa eu lhe garanto, amigo – o seu complexo de inferioridade não é inferior ao de ninguém.
Millôr Fernandes, em A bíblia do caos
Xenofonte, Anábase
A impressão mais forte que Xenofonte
causa para quem o lê hoje é a de estar vendo um velho documentário
de guerra, como os que são reapresentados de vez em quando no cinema
ou na televisão. O fascínio do preto e branco, do filme meio
apagado, com fortes contrastes de sombras e movimentos acelerados,
vem espontaneamente ao nosso encontro em trechos como este (capítulo
V do Livro IV):
Sempre em cima de muita neve
acumulada percorrem mais quinze parasangas em três dias. O terceiro
dia é particularmente terrível por causa do vento tramontana que
sopra no sentido contrário ao da marcha: sopra furiosamente por
todos os cantos, queimando tudo e congelando os corpos… Para
defender os olhos da reverberação da neve, os soldados, ao andar,
colocam alguma coisa negra sobre os olhos; contra o perigo de
congelamento, o remédio mais eficaz é mexer sempre os pés, não
ficar parado nunca e sobretudo desatar os sapatos à noite… Um
grupo de soldados, tendo ficado para trás por tais dificuldades,
vislumbra não muito distante, numa vala em meio ao manto de neve,
uma poça escura: é neve derretida, pensam. De fato, a neve se
desfez naquele ponto, pela presença de uma nascente que brota ali
perto, exalando vapores para o céu.
Mas citar Xenofonte não dá certo:
aquilo que conta é a sucessão contínua de detalhes visuais e de
ação; é difícil encontrar uma passagem que represente plenamente
o prazer sempre variado da leitura. Tentemos esta, duas páginas
antes:
Alguns gregos que se afastaram do
campo contam ter vislumbrado à distância algo similar à massa de
um exército e muitas fogueiras surgindo na noite. Ao ouvir isso, os
estrategos consideram pouco seguro permanecer acampados de modo
disperso e reúnem novamente o exército. Os soldados instalam-se
todos ao ar livre, pois parece que vai haver bom tempo. Como se
tivesse sido programado, durante a noite cai neve suficiente para
cobrir armas, animais e homens encolhidos no chão; as bestas têm os
membros tão enrijecidos pelo gelo que não conseguem erguer-se sobre
as pernas; os homens hesitam em levantar-se, porque a neve depositada
sobre os corpos e ainda não derretida transmite calor. Então,
Xenofonte se levanta corajosamente e, despindo-se, começa a dar
machadadas na lenha; a exemplo dele, alguém se ergue, arranca-lhe o
machado das mãos e prossegue a obra; outros mais se levantam e
acendem o fogo; todos untam braços e pernas não com óleo mas com
unguentos encontrados na aldeia, feitos com sementes de gergelim,
amêndoas amargas e almecegueira, misturados com gordura. Extraído
das mesmas substâncias existe até um tipo de unguento perfumado.
A rápida mudança de uma
representação visual para outra e daí para a anedota e de novo
para o registro de costumes exóticos: este é o tecido que serve de
fundo para um contínuo desenrolar de episódios aventurosos, de
obstáculos imprevistos na marcha de um exército errante. Cada
obstáculo é superado, em geral, mediante uma astúcia de Xenofonte:
toda cidade fortificada a ser assaltada, toda tropa inimiga que se
opõe em campo aberto, todo vau, toda intempérie exigem um achado,
uma centelha de gênio, uma invenção estratégica do
narrador-protagonista-comandante. Às vezes, Xenofonte parece uma
daquelas personagens infantis de histórias em quadrinhos que, em
cada capítulo, superam dificuldades impossíveis; ou melhor, muitas
vezes os protagonistas do episódio são dois, os dois oficiais
rivais, Xenofonte e Quirísofo, o ateniense e o espartano, e a
invenção de Xenofonte é sempre a mais astuta, generosa e decisiva.
Em si mesmo, o tema da Anábase
seria adequado a um conto picaresco ou herói-cômico: 10 mil
mercenários gregos, engajados com pretexto mentiroso por um príncipe
persa, Ciro, o jovem, numa expedição ao interior da Ásia Menor
destinada na realidade a derrubar o irmão Artaxerxes II, são
derrotados na batalha de Cunaxa e se encontram sem chefes, distantes
da pátria, tendo de forçar o caminho de retorno entre populações
inimigas. Só querem voltar para casa, mas, o que quer que façam,
eles constituem um perigo público: são 10 mil, armados, famintos,
aonde chegam depredam e destroem, como uma nuvem de gafanhotos; e
arrastam um enorme séquito de mulheres.
Xenofonte não era o tipo de deixar-se
tentar pelo estilo heroico da epopeia nem de explorar — a não ser
raramente — os aspectos truculento-grotescos de uma situação como
aquela. Escreve o memorial técnico de um oficial, um diário de
viagem com todas as distâncias e os pontos de referência
geográficos e informações sobre os recursos vegetais e animais, e
uma resenha de problemas diplomáticos, logísticos, estratégicos e
respectivas soluções.
O relato é entremeado de “atas de
reuniões” do estado-maior e dos discursos de Xenofonte às tropas
ou aos embaixadores dos bárbaros. Dessas passagens oratórias eu
conservava, desde os bancos de escola, a lembrança de um grande
tédio, mas me equivocava. O segredo, ao ler a Anábase, é
jamais pular nada, acompanhar tudo ponto por ponto. Em cada um
daqueles discursos existe um problema político: de política externa
(as tentativas de relações diplomáticas com os príncipes e os
chefes dos territórios através dos quais se pede passagem) ou de
política interna (as discussões entre os chefes helênicos, com as
habituais rivalidades entre atenienses e espartanos etc.). E como o
livro é escrito em polêmica com outros generais, sobre as
responsabilidades de cada um na condução daquela retirada, o fundo
de polêmicas abertas ou apenas referidas precisa ser extraído
daquelas páginas.
Como escritor de ação, Xenofonte é
exemplar; se o confrontarmos com o autor contemporâneo que mais lhe
corresponde — o coronel Lawrence — verificamos de que modo a
mestria do inglês consiste em suspender — subentendido à
exatidão, pura concretude, da prosa — um halo de maravilha
estética e ética ao redor das histórias e das imagens; no grego
não, a exatidão e a secura não deixam subentender nada: as duras
virtudes do soldado não pretendem ser nada além das duras virtudes
do soldado.
Existe, sim, um pathos da
Anábase: é a ânsia do retorno, a angústia do país
estrangeiro, o esforço de não se perder, pois enquanto estiverem
juntos de algum modo carregam a pátria consigo. Essa luta pela volta
de um exército conduzido à derrota numa guerra que não é sua e
abandonado a si mesmo, esse combater só para abrir uma brecha contra
ex-aliados e ex-inimigos, tudo isso aproxima a Anábase de um
filão de nossas leituras recentes: os livros de memória sobre a
retirada da Rússia dos alpinos italianos. Não é uma descoberta de
agora: em 1953, Elio Vittorini, ao apresentar aquele que viria a
tornar-se um livro exemplar no gênero, Il sergente nella neve
de Mario Rigoni Stern, o definia como “pequena anábase dialetal”.
E, de fato, os capítulos de retirada na neve da Anábase (dos quais
extraí as citações anteriores) são ricos em episódios que
poderiam ser tomados pelos do Sergente.
Característica de Rigoni Stern e de
outros dentre os melhores livros italianos sobre a retirada da Rússia
é que o narrador-protagonista é um bom soldado, tal como Xenofonte,
e fala das ações militares com empenho e competência. Para eles
como para Xenofonte as virtudes guerreiras, no desmoronamento geral
das ambições mais pomposas, voltam a ser virtudes práticas e
solidárias segundo as quais se mede a capacidade de cada um de ser
útil não apenas a si mesmo mas também aos outros. (Lembremos La
guerra dei poveri de Nuto Revelli pelo apaixonado furor do
oficial desiludido; e um outro bom livro injustamente negligenciado,
I lunghi fucili, de Cristoforo M. Negri.)
Porém, acabam aí as analogias. As
memórias dos alpinos nascem do contraste de uma Itália humilde e
sensata com as loucuras e o massacre da guerra total; nas memórias
do general do século V, o contraste se dá entre a situação de
nuvem de gafanhotos a que se reduziu o exército de mercenários
helênicos e o exercício das virtudes clássicas,
filosófico-cívico-militares, que Xenofonte e os seus tratam de
adaptar às circunstâncias. E acontece que esse contraste não
possui em absoluto a tragicidade comovente do outro: Xenofonte parece
convencido de haver conciliado os dois termos. O homem pode
reduzir-se a gafanhoto e mesmo assim aplicar a tal condição um
código de disciplina e decoro — numa palavra: um “estilo”; e
dar-se por satisfeito; não discutir nem muito nem pouco o fato de
ser gafanhoto mas somente o modo de sê-lo. Em Xenofonte, já está
bem delineada com todos os seus limites a ética moderna da perfeita
eficiência técnica, do estar “à altura da situação”, do
“fazer bem as coisas que têm de ser feitas” independentemente da
avaliação da própria ação em termos de moral universal. Continuo
a chamar de moderna essa ética porque assim era na minha juventude e
era este o sentido que se extraía de tantos filmes americanos e
também dos romances de Hemingway, e eu oscilava entre a adesão a
esta moral “técnica” e “pragmática” e a consciência do
vazio que se abria por baixo. Mas ainda hoje, quando parece tão
longe do espírito da época, creio que tinha algo de bom.
Xenofonte tem o grande mérito, no
plano moral, de não mistificar, de nunca idealizar a posição que
defende. Se em relação aos costumes dos “bárbaros” manifesta
frequentemente o distanciamento e a aversão do “homem civilizado”,
deve ser dito que a hipocrisia “colonialista” lhe era estranha.
Sabe que comanda uma horda de bandidos em terra estrangeira, sabe que
a razão não pertence a ele mas aos bárbaros invadidos. Em suas
exortações aos soldados não deixa de relembrar as razões dos
inimigos: “Uma outra consideração vocês precisam fazer. Os
inimigos terão tempo para destruir-nos e possuem boas razões para
preparar-nos ciladas, já que ocupamos suas propriedades…”. Ao
tentar conferir um estilo, uma norma, a essa movimentação biológica
de homens ávidos e violentos entre as montanhas e as planícies da
Anatólia, encontra-se toda a sua dignidade: dignidade limitada, não
trágica, no fundo burguesa. Sabemos que se pode muito bem conseguir
dar aparência de estilo e dignidade às piores ações, mesmo quando
não ditadas como essas por um estado de necessidade. O exército dos
helenos que serpenteia entre os desfiladeiros das montanhas e os
vaus, entre contínuas emboscadas e saques, não mais distinguindo
onde passa de vítima a opressor, circundado também na frieza dos
massacres pela suprema hostilidade da indiferença e do acaso,
inspira uma angústia simbólica que talvez só nós possamos
entender.
1978
Italo Calvino, em Por que ler os clássicos
16/08/2026
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