Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
Conversa telefônica
Uma grande amiga minha se deu ao
trabalho de ir anotando numa folha de papel o que eu lhe dizia numa
conversa telefônica. Deu-me depois a folha e eu me estranhei,
reconhecendo-me ao mesmo tempo. Estava escrito: “Eu às vezes tenho
a sensação de que estou procurando às cegas uma coisa; eu quero
continuar, eu me sinto obrigada a continuar. Sinto até uma certa
coragem de fazê-lo. O meu temor é de que seja tudo muito novo para
mim, que eu talvez possa encontrar o que não quero. Essa coragem eu
teria, mas o preço é muito alto, o preço é muito caro, e eu estou
cansada. Sempre paguei e de repente não quero mais. Sinto que tenho
que ir para um lado ou para outro. Ou para uma desistência: levar
uma vida mais humilde de espírito, ou então não sei em que ramo a
desistência, não sei em que lugar encontrar a tarefa, a doçura, a
coisa. Estou viciada em viver nessa extrema intensidade. A hora de
escrever é o reflexo de uma situação toda minha. É quando sinto o
maior desamparo.”
O jardineiro
Vivi o suficiente?
Amei o
suficiente?
Refleti o suficiente sobre a Ação Correta,
cheguei
a alguma conclusão?
Experimentei a felicidade com gratidão
suficiente?
Suportei a solidão com serenidade?
Digo
isso, ou talvez esteja apenas pensando.
Na verdade,
provavelmente penso demais.
Então saio para o
jardim,
onde o jardineiro, que dizem ser um homem simples,
cuida
de seus filhos, as rosas.
Mary Oliver, em A Thousand Mornings – Poems
1611 – Yarutini
O extirpador de idolatrias
A golpes de picareta estão quebrando
Cápac Huanca.
O sacerdote Francisco de Ávila grita
com seus índios para que se apressem. Ainda restam muitos ídolos
para serem descobertos e triturados nestas terras do Peru, onde ele
não conhece ninguém que não incorra no pecado da idolatria. Jamais
descansa a cólera divina. Ávila, açoite dos feiticeiros, vive sem
sentar-se.
Mas para seus servos, que sabem, cada
golpe dói. Esta pedra grande é um homem escolhido e salvo pelo deus
Pariacaca. Cápac Huanca foi o único que partilhou com ele sua
chicha de milho e suas folhas de coca, quando Pariacaca se disfarçou
com trapos e veio a Yarutini e aqui suplicou que lhe dessem de beber
e mascar. Esta grande pedra é um homem generoso. Cápac Huanca foi
esfriado e convertido em pedra, para que não fosse levado pelo
furacão de castigo que levou, em um sopro, todos os outros.
Ávila faz com que joguem seus pedaços
em um abismo. Em seu lugar, finca uma cruz.
Depois pergunta aos índios a história
de Cápac Huanca; e a escreve.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
Pão nosso
Típica padaria. Fiscal da Receita
entra, acompanhado de dois policiais.
FISCAL Quem é o dono do
estabelecimento?
DONO Sou eu mesmo, senhor.
FISCAL Eu sou fiscal da receita e
percebi que a padaria do senhor já existe há dez anos e nunca pagou
nenhum imposto. Infelizmente a gente vai ter que fechar isto aqui até
que o senhor pague a quantia de um milhão e trezentos mil reais
relativos a…
DONO Desculpa, acho que aconteceu
algum engano.
FISCAL Que engano?
DONO Isso aqui não é uma padaria, é
uma igreja.
FISCAL Como?
DONO Pode olhar aí a nossa razão
social: Igreja Universal do Pão Em Cristo. Ia chamar de Pãotecostal,
mas achei meio forçado.
FISCAL Mas vocês fazem pão, vocês
cobram pelo pão, isso é uma padaria.
DONO A gente não cobrou um centavo
por nada, senhor.
FISCAL Ali não tem o preço de cada
unidade?
DONO O que a gente faz é que a gente
aceita doações e oferece um brinde proporcional à doação. Doou
dois reais e trinta centavos? Ganhou um quibe abençoado. Doou quatro
e cinquenta? Ganhou uma ciabata cristã com direito a sagrado
refresco. Doou doze e cinquenta? Almoço episcopal.
CLIENTE Amigo, qual é o prato hoje?
DONO É frango benzido.
CLIENTE Vê um, por favor.
O dono pega o frango e faz uma
cerimônia de batismo. Joga uns temperos, sal.
DONO Jesus Cristo, esse é o vosso
corpo, esse é o vosso sangue. Pelo mistério do frango, esse é o
Corpo de Cristo.
CLIENTE O Corpo de Cristo.
DONO Não, você só fala Amém.
CLIENTE Amém.
O cliente vai embora, levando o
frango.
FISCAL Você acabou de benzer um
frango?
DONO Que deixou de ser um frango
quando foi abençoado e passou a carregar simbolicamente o corpo de
cristo que morreu pelos nossos pecados.
FISCAL Você vai me desculpar mas essa
religião não existe e ninguém vai me convencer de que um frango
pode ser sagrado.
DONO Mas um pedaço de papel pode? Uma
santa de madeira toda carcomida de cupim? Um elefante que na verdade
é uma mulher e tem seis braços?
FISCAL A diferença é que a sua
religião é uma palhaçada que o senhor inventou pra não pagar
imposto.
DONO O senhor é que está
escarnecendo do meu objeto de culto e isso caracteriza intolerância
religiosa, pode pegar de três a cinco anos de cadeia.
Os policiais sacam as algemas.
FISCAL Melhor deixar pra lá. Me vê
uma esfiha cristã.
DONO Três e trinta.
Gregório Duvivier, em Put some farofa
I Don’t Know – Paul McCartney
I Don’t Know – Paul
McCartney
I got crows at my window
Dogs at my door
I don’t think I can take any more
What am I doing wrong?
I don’t know
My brother told me
Life’s not a pain
That was right when it started to
rain
Where am I going wrong?
I don’t know
But it’s alright, sleep tight
I will take the strain
You’re fine, love of mine
You will feel no pain
Well I see trouble
At every turn
I’ve got so many lessons to learn
What am I doing wrong?
I don’t know
Now what’s the matter with me?
Am I right, am I wrong?
Now I’ve started to see
I must try to be strong
I tried to love you
Best as I can
But you know that I’m only a man
Why am I going wrong?
I don’t know
But it’s alright, sleep tight
I will take the strain
You’re fine, little love of mine
You will feel no pain
I got crows at my window
Dogs at my door
But I don’t think I can take any
more
What am I doing wrong?
I don’t know
Now what’s the matter with me?
I don’t know, I don’t know
What’s the matter with me?
I don’t know, I don’t know
What’s the matter with me?
I don’t know, I don’t know
Ser pai ou mãe é um negócio
interessante. Fazemos nenéns pela pura alegria de trazer uma
criaturinha ao mundo e tudo o que vem com ela. Mas, às vezes, a
gente se esquece de que um dia elas vão crescer. Conheço gente que
diz: “Ah, eu não gosto delas quando são nenéns. Gosto delas
quando ficam um pouco mais velhas”. Não concordo. Eu gosto delas
quando são nenéns, mas digamos que vai ficando mais interessante à
medida que crescem, porque entram na conversa outras coisas além de
“gu-gu-dá-dá” e “mamã”. Aos poucos, o vocabulário vai se
expandindo. Às vezes, é “desafiador”, como se diz, e esse foi
um desses momentos.
Andei uns dias um pouco frenético com
o que estava acontecendo em casa – o tipo de coisa que acontece com
todos nós. É por isso que a canção começa assim: “I got
crows at my window/ Dogs at my door”; porque era assim que eu
estava me sentindo, com corvos na minha janela e cachorros na minha
porta, e meio que transbordou, como quem diz: “Nossa, estou tão
mal, preciso desabafar”. Assim que a terminei, senti como se
estivesse saindo de uma sessão de terapia.
Não é sempre que eu me sinto tão
deprimido, mas, nessa ocasião, eu parecia estar carregando um
verdadeiro fardo. Após uma ou duas estrofes gemendo comigo mesmo,
tendo a chuva como símbolo de tristeza, então penso: “Qual é o
outro lado disso? Não vai dar certo ou ainda posso encontrar um
consolo?”. Imagino que, na condição de pai, eu queria dizer:
“Está tudo bem, vai dar certo, não se preocupe”. Em seguida,
temos esta seção de ponte: “But it’s alright, sleep tight/ I
will take the strain/ You’re fine, love of mine/ You will feel no
pain”.
Portanto, isso define a ideia básica.
Estou falando sobre os meus problemas, como eu faria numa canção de
blues. “Well I see trouble/ At every turn/ I’ve got so many
lessons to learn”. Quando você está triste, está triste. Se
eu vou cantar uma música sobre tristeza, levando em conta os meus
gostos musicais ao longo dos anos, a coisa tende a se inclinar para o
blues, a forma que serviu de base ao rock’n’roll. É uma sensação
boa cantar naqueles termos. É uma sensação boa incorporar a
tristeza em vez de só dizer: “Tô muito triste hoje”.
Em muitos aspectos, a poesia e a
música têm a ver com isso – a capacidade de projetar ou mostrar
algo por meio da própria arte, de elevar todos esses tipos de
emoções a um nível mais alto, exatamente como um bom professor de
redação às vezes pede a você para “mostrar” em vez de apenas
“contar”.
Esta é uma canção que ainda não
tocamos em shows, porque é um pouco complicada, e eu ando na linha
tênue entre fazer música que é muito simples – rock’n’roll
com três, quatro acordes, no máximo, muito minimalista – ou a
música da época do meu pai, por causa das melodias e das harmonias
e da sagacidade dessas canções. Eu penso nos grandes compositores
dos sucessos da época de papai, como Harold Arlen, Cole Porter, os
Gershwin, todos egressos dessa tradição. Nessa época, a Broadway
estava no auge, e Hollywood estava no auge, então esse pessoal que
se tornou adepto de inventar pequenas rimas inteligentes transformou
isso numa grande tradição estadunidense.
Sempre me interessei muito por esse
período, a época que talvez tenha durado até pouco depois de eu
nascer, quando havia um piano em cada casa, quando existia, em muitos
lares, a tradição generalizada de compor pequenas cantigas para o
aniversário de alguém. Todo mundo se arriscava como compositor. Por
isso, às vezes, eu me afasto dos três ou quatro acordes e tento
explorar outras formações.
“I Don’t Know” é uma daquelas
canções em que eu acabo saindo de minha zona de conforto. Não se
restringe a Dó, Fá, Sol. Também tem Lá bemol e Mi bemol. Tem um
pouco mais de colorido. Se tem uma coisa de que eu gosto é tentar
coisas diferentes e experimentar.
Costumo dizer que compor uma canção
é como falar com um psicoterapeuta, e esta canção é exatamente
isso. Sou eu expondo meus problemas e pensamentos e me perguntando o
que é que estou fazendo de errado. Mas a resposta é: “Não sei”.
Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente
domingo, 15 de fevereiro de 2026
Desclassificados
1. Minha vida de cachorro –
Tenho bassês, dobermans, galgos, cokers e dois ou três vira-latas
para sua inteira satisfação na cadeirinha sem fundos. O
são-bernardo não quer participar por motivos religiosos e vai ficar
sem Papita.
2. A escorregadia alpina –
Loura cremosa, corpinho de garota todo untado de margarina. Venha
ficar preso no elevador comigo. Elevador enguiçado dá uma vontade
de comer Alpina, não dá? Atendo domic., hotéis, motéis, Sendas,
Paes Mendonça e demais tendinhas.
3. Zuleica e seu acordeón –
Páginas imortais de nosso cancioneiro. Relax e bom-gosto. Pagamento
cash na mão de meu digno esposo, Dr. Acordeón Tavares, o Mágico de
Ozzzz... waldo Cruz!
4. Kirie eleison – Núncio
Apostólico aposentado, mas com a bundinha bem arrebitada, fogoso,
tudo nos lugares santos. Venha comungar comigo a divina lambada. Fé
no Sumaré.
5. Corneteiros em fogo – Se
você tem problemas de embocadura, não relute em procurar-nos.
Ambiente discreto para seu lazer. Venha acampar conosco após o toque
de recolher. Batalhão de Guarda.
6. Sereia rejeitada – Não
fui aproveitada na minissérie sobre o canto de minhas irmãs porque
meu rabo tem algumas polegadas a mais, tal como a Marta Rocha, a
eterna miss Brasil. Afie o arpão em minhas escamas e fique
enfeitiçado com meu canto: ’’Óóóóóóóaaaaaaaiiiiiiiikhoooourrrrr.
Desculpe. Tô um pouquinho rouca. Contatos em F. de Noronha ou F.
Mesquita.
7. Bérgamo – Sou um tremendo
armário, mas sua mala, com bastante cuspe e jeito, cabe direitinho
em meus compartimentos. Venha conferir em uma de nossas filiais.
8. Antigo da onça – Chileno
foragido e radicado em Itaboraí, ideal para swing, tango, chácháchá
e outros ritmos fora de moda. Por uma babinha a mais, se veste de
coroinha sonso ou de la Violetera. Barra da Tijuca.
10. Gueixa oriental – Venha e
comprove que meus grandes lábios fazem bilu-bilu no corrimão.
Banhos típicos, massagens, do-in, tai-chi-chuan, xo-ta,
Ku-shai-shang e, caso meu samurai apareça voltando de viagem,
harakiri e kakerada na kara. Banzai.
11. Turquinho tímido – Eu
zer munto zenzual mas ter vergonhe do minha ligerro zutaque. Mas,
zuperadas inibizons iniziaiz, convisco teu popanza bra eu. Dou joque
orto e heterodoxo. Eu fazo gontrato com teu risco mas tiro o meu do
reta.
12. Garanhão sindical – Nóis
conseguiu chegar a Ministro e tudo fazeremos para não ser
reconhecido. Assim como cafetão de gravata não é capitão de
fragata, Ministério do Trabalho também não é climatério do
caralho. Puxa, essa quase me traiu-me. Rasgo catálogo telefônico e
posso ser mais sem escrúpulos que a Febraban.
13. Pequenos cantores da Guanabara
– Já estão grandinhos e bem-dotados. Experimentem nosso sarau de
loucuras, sexo oral com trinados, gorjeios e solfejos. Inesquecível
imitação de pássaros no cio. Oferecemos também Curso de
Introdução à Batuta do Maestro Isaac Karabitchevski. Não tenha dó
de si e venha dar ré lá com a gente. Não querendo, vá fá. Caixa
Postal FUC/69.
14. Virgem elétrica – cpo,
vdo, tco fin Telerj carnê pref pufqq linha est quit Pabx telex
hiiii, meu Deus, é primeira vez que eu faço isso. Errei tudo.
Esquece.
15. Imelda filipina – Se você
está a fim de fazer melda grossa, procure a Imelda. Toda a
sem-vergonhice da verdadeira rainha da sucata ao seu alcance. Só pra
olhar. Meu patrimônio é imexível. Canalhice e podridão only for
your eyes. Mais sujos do que eu só os tribunais que me absolvem.
USA.
16. letrista careca –
Letrista carinhoso, fica inventando desclassificados, enquanto você
não sai do trabalho. Venha sentar em cima da minha Olivetti Lettera.
Muda. Rio.
Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo
Tic-tac
Mera ilusão auditiva graças à qual a gente ouve sempre “tic-tac” e nunca “tac-tic”... Depois disso, como acreditar nos relógios? Ou na gente?
Mário Quintana, em Caderno H
Capítulo 15 – O Despertar
Garota, acorde! Garota, volte para
a sua luta! Garota, recupere o seu poder! Garota, comece a agir como
se fosse a filha de um Rei e houvesse sempre uma coroa na sua cabeça.
Mesmo doente, eu ainda era Dele! Mesmo morta, eu ainda era Dele. Você
sabe quem eu sou?
— SARAH JAKES ROBERTS
Todo mundo tem segredos. Todo mundo.
Acho que a diferença é que ou morremos com eles e deixamos que nos
devorem, ou os colocamos para fora, lutamos com eles (ou eles lutam
conosco) até que… nos reconciliamos. Segredos são o que nos
engole.
Sempre houve um segredo que era como o
prego no caixão para mim… É uma memória que está fresca na
minha mente, como se tivesse acontecido ontem, mas mesmo assim…
está bem distante.
Duas semanas antes da formatura,
acordei enjoada e ali eu já soube. Estava grávida do homem que
namorava havia sete anos. Eu me lembro de tirar minhas fotos
profissionais naquela semana e de ir assistir ao filme A Bela e a
Fera no cinema e tudo o que pensava era: Estou grávida.
Não sabia que diabos fazer a respeito daquilo. Era uma emoção
muito mais forte que o medo. Foi como se todas as decisões
irresponsáveis que tomei tivessem culminado naquilo. Desde que tinha
iniciado minha vida sexual, o que aconteceu tarde, não sabia o que
estava fazendo. Sim, você pode aprender a prevenir uma gravidez,
mas… e a amar? Como ser regrada e responsável, estar no controle,
estabelecer limites? Meu Deus, até mesmo garantir que teremos
dinheiro para comprar camisinha ou pílula anticoncepcional? Sentia
que o único compromisso inegociável que eu tinha era com a minha
carreira, e ela sugava TODA a minha energia. Os demais aspectos da
minha vida me sufocavam. E agora… estava grávida.
Lembro-me de ir a uma clínica perto
da Juilliard. Fui bem cedinho e tive que cancelar a primeira consulta
porque tinha comido. Voltei no dia seguinte. Lembro-me de entrar em
várias salas. Uma para me cadastrar e pagar. Uma para fazer outro
teste de gravidez. Outra para vestir a roupa cirúrgica. Cada sala
parecia uma cena saída de um filme de Stanley Kubrick na qual você
está muito perto da morte. Houve alguns médicos muito gentis que me
colocaram na mesa cirúrgica, e então eu apaguei.
Acordei aterrorizada. Acordei como se
tivesse sido atacada. A dor era enorme! Maior do que qualquer dor que
já tinha sentido na vida. Eles tinham me avisado que eu poderia
sentir dor, mas, cara… Existe “o que é dito”, “o que você
ouviu” e como é de verdade, e aquela dor NÃO ERA o que pensei que
seria. A sala de recuperação tinha um monte de poltronas
reclináveis posicionadas em círculo. Havia almofadas enormes em
cada poltrona para conter o sangramento da cirurgia. Cada uma delas
era ocupada por uma mulher e havia pelo menos umas 12 dessas
poltronas. Eles nos deram suco de maçã e biscoitos. Ao meu redor,
mulheres vomitavam em baldes e gritavam ou gemiam de dor. Uma mulher
gritava: “Eu não podia ficar com esse! Eu não podia! Já tenho
cinco e não tenho dinheiro nenhum!” Outra garota, que parecia ter
uns 15 anos, gritava: “MAMÃE!!!! MAMÃE!! Eu quero minha MAMÃE!!!”
E quanto a mim? Eu só chorei… e vomitei… e chorei até que a dor
passasse. Fui para casa e sangrei muito por duas semanas. Caí em uma
depressão que mudou a minha vida.
Minha nossa, lembro-me de ligar para o
meu namorado, gritando com ele: “Onde você está? Por que não
está aqui?” Para ele, o que eu tinha feito fora errado, e mesmo
assim a chance de que ele não desse apoio para o bebê ou para mim
era enorme. Não havia recursos financeiros ou emocionais — nada.
Mais uma vez, tive que contar com um milagre para passar por
obstáculos imensos e impactantes. A vida sempre pediu que eu
contasse com milagres. Meu namorado enfim foi para Nova York ficar
comigo por um dia, e depois foi embora. Foi um lembrete perfeito de
que, por mais que eu tivesse pensado que havia evoluído e me tornado
uma mulher madura, ainda não tinha chegado lá. Não havia como
escapar dos acidentes terríveis da vida que podem fazer você
paralisar por completo.
Os grandes coágulos de sangue me
lembravam o tempo todo de que eu acabara com uma vida, e eu
definitivamente, sem dúvidas, sabia que era uma vida… que eu
trocara pela minha. Tente lidar com o peso dessa merda!!!
Minha mãe teve o primeiro filho aos
15 anos, e eu queria que minha vida fosse diferente. Aquele bebê não
se encaixava nos meus sonhos. E quem eu era sem eles? Quanto maior o
sonho, mais rapidamente a vergonha daquela pequena Viola do terceiro
ano desapareceria. Quanto maior o sonho, mais pessoas não me
chamariam daqueles nomes dos quais eu fugia. Quanto maior o sonho…
mais digna eu poderia ser.
Eu me sentia quase desesperada para
explicar isso a Deus e receber seu perdão… para ser expurgada.
Tenho um amigo judeu ortodoxo moderno.
Ele me contou que um de seus rabinos disse o seguinte: “É inútil
procurar um sentido. Em vez disso, pergunte-se: O que aprendi com
isso?”
O que aprendi com tudo isso? É
impossível passar pela vida livre de cicatrizes. Impossível!! É
como um ringue de boxe emocional, e você passa por um round, quatro
rounds ou quarenta rounds, dependendo do seu oponente. E, caramba, se
seu oponente for você mesmo… você passará por quarenta. Se for
Deus, mal passará por um, porque Papai do Céu vai vencer você pelo
cansaço! Ele muda de forma. Você acha que está lutando com ele,
gritando, dando socos, implorando por ajuda. E então ele o deixa
frente a frente com… VOCÊ mesmo.
Anton Tchekhov, o grande dramaturgo
russo, disse uma vez: “Enquanto você ri histericamente, sua vida
está desmoronando.” É a definição do que é viver.
Meu jantar de formatura, quando
terminei o curso na Juilliard, foi alegre e animado. Cedric, um dos
meus melhores amigos, que se formou também, se sentou comigo no chão
do quarto dele e comemos pés de porco em conserva bebendo cerveja.
Chupamos até a cartilagem, os ossos de porco ricos e gordurosos
cheios de vinagre. Em voz alta, proclamamos aos risos que nunca
contaríamos a ninguém sobre esse jantar. Tínhamos acabado! Vencido
uma guerra artística, emocional e esmagadora de egos e almas.
Eu me formei na Juilliard. E vou dizer
o seguinte. Eu fora uma criança pobre e agora era uma adulta pobre.
Tinha um agente figurão e… nada aconteceu. Fazia testes, recebia
ligações, e então outra pessoa conseguia o trabalho. Ou eu sequer
chegava a fazer testes, porque era jovem demais, velha demais,
retinta demais, pouco sexy. Enquanto isso, a vida continuava. Tinha
aluguel para pagar. Conta de telefone, passagem de metrô, comida,
empréstimos estudantis. Toda a dura realidade sobre a qual não
havia pensado. Bem, eu havia, sim, mas não entendia o peso disso
tudo. A essa altura, dividia um apartamento com seis outros
estudantes da Juilliard, e eles também estavam penando. Por fim, um
conseguiu muitos comerciais e uma novela. Outro foi chamado para um
trabalho importante fora da faculdade, mas, quando acabou voltou a
fazer testes. Um saiu de Nova York, e o outro ainda estava na
faculdade.
Tive dois grandes momentos de
epifania. O primeiro foi que estávamos vivendo a realidade dos
artistas. A mentalidade dominante nas redes sociais é a de que você
precisa ser uma mulher segura e empoderada. Tem que ligar para o seu
agente e dizer a ELE quais papéis você quer ou, diabos, escrevê-los
para si mesma. Imploro a jovens atores que não façam isso.
Os atores privilegiados são aqueles
que falam e são ouvidos. Eles são entrevistados porque chegaram ao
topo da carreira e seus depoimentos são o tempo todo compartilhados
nas redes sociais. Nós os consumimos e, sem ter a possibilidade de
observar a realidade do ramo da atuação, aceitamos essas
informações como verdadeiras. Se você chegar ao auge quando jovem
e receber um salário de seis dígitos: Você. É. Privilegiado. Isso
não é uma crítica. Meu Deus, todo mundo adoraria viver essa
realidade. Mas a batalha é definida pela falta de escolhas, e o
ator que faz o comercial de uma seguradora de carros para ter um
plano de saúde tem tanta integridade quanto alguém que não aceita
esse trabalho para esperar pelo papel que lhe trará um Oscar.
Uma atriz já me ligou eufórica
porque o comercial dela foi selecionado e ela se qualificou para ter
um plano de saúde básico para si e para toda a família. Ela tem
dois filhos, um com problemas de saúde. A vida acontece enquanto sua
carreira acontece. A vida é difícil. Percebi que minha felicidade
não está atrelada apenas à satisfação artística, mas à
satisfação com a vida. Eu devia 56 mil dólares em empréstimo
estudantil. Meus miomas estavam crescendo. Eu sangrava por semanas a
fio. Estava muito anêmica. Tive alopecia areata. Acordei e o cabelo
do lado direito da minha cabeça tinha caído. Meu couro cabeludo
estava liso como bumbum de bebê. A reação imediata seria ir ao
médico. E eu teria ido, se tivesse plano de saúde. Eu ia a clínicas
baratas, mas miomas, anemia e alopecia requeriam cuidado
especializado. Tratamento com ginecologistas e dermatologistas.
Levaria anos para eu ter dinheiro para pagar um plano de saúde.
Meu outro momento de epifania foi
perceber o poder, a potência e a força vital provenientes da
combinação tóxica entre colorismo e machismo. Quase todos os
papéis para os quais fiz teste eram de mães que sofrem com
dependência química. Fiz testes para alguns papéis em produções
de baixo orçamento que pediam uma mulher negra, mas sempre descrita
como tendo pele clara. Sempre! Outros testes eram para novelas; e eu
me via sentada na sala de espera junto com modelos.
Comédias românticas negras estavam
sendo produzidas. Havia programas incríveis na TV que mostravam a
garota negra bonita que tinha autonomia e era rica. Mas nenhuma
daquelas mulheres se parecia comigo. Um agente me disse qual era a
palavra que todos os produtores de elenco usavam no telefone:
“intercambiável”. Isso significava que, mesmo que você fosse um
pouquinho retinta, precisava ter o corpo menos curvilíneo, traços
mais clássicos (leia-se: mais brancos). E eu não era assim.
O que torna isso ainda pior é que
esse tipo de declaração não era feito apenas por executivos
brancos, mas também por artistas e produtores negros. Você começa
a adotar a ideologia do “opressor”. Isso vira a chave para o
sucesso. Culturalmente falando, muitos acreditam nessa ideologia e
adotam a crença de que se você for negra, é mais feia, mais
difícil, mais masculina e mais maternal do que suas colegas de pele
clara. É a mentalidade racista do colorismo, a qual muitos ainda se
recusam a reconhecer.
Na minha jornada para encontrar meu
caminho, o melhor papel não era o maior objetivo. Ser garçonete
para pagar as contas até que aquele papel incrível surgisse não
era o objetivo. Eu precisava viver: esse era o objetivo. Isso foi
antes dos serviços de streaming. Os estúdios não estavam
produzindo grandes papéis para atores negros, pelo menos não para
atores com o meu tom de pele. As probabilidades eram: um papel
incrível, ou um bom cachê, ou um bom perfil, ou apenas um trabalho.
Você não ganha destaque se não trabalhar.
Eis a verdade: se você pode escolher
entre fazer um teste para um excelente papel e para um ruim, você é
privilegiado. Isso significa não só que você tem um ótimo agente
que pode lhe abrir portas, mas também que preenche os requisitos
para ser considerado para o papel. Nossa profissão, a qualquer
momento, tem uma taxa de 95% de desemprego. Apenas 1% dos atores
ganha 50 mil dólares ou mais por ano, e apenas quatro em cada 10 mil
são famosos, e nem vamos definir o que é fama aqui. Esses quatro
entre os 10 mil são as histórias que chegam à mídia. Escolher
papéis, largar agentes, ganhar bem menos do que colegas do sexo
masculino. Nunca se arrepender dos papéis que aceitou. E por aí
vai.
Quem tem escolhas tem recursos. E as
necessidades de um ator de pouco mais de 20 anos não são as
necessidades das outras pessoas. Plano de saúde, hipoteca e filhos
não são a prioridade da maioria dos jovens de pouco mais de 20
anos. Mesmo assim, há pessoas que almejam ser atores e não sabem
que não devem dar ouvidos aos depoimentos dos privilegiados.
Daqueles que são extremamente talentosos, mas também
extraordinariamente sortudos. A sorte é um monstro esquivo, que
escolhe quando sair de sua caverna e atacar seu alvo. É um negócio
de privação.
Para cada ator que alcança a fama,
existem milhares que fizeram exatamente a mesma coisa e não
conseguiram chegar lá. A maioria dos atores que conheci na
Juilliard, na Rhode Island College, no Circle in the Square Theatre e
na competição Arts Recognition Talent Search não está mais no
ramo. Acho que posso citar seis que continuaram, e a maioria você
não conheceria. Isso não tem a ver com o talento deles, é a
natureza desse meio. Acredite em mim quando digo que a maioria era
bonita e talentosa, e alguns tinham agentes incríveis. É um jogo de
uni-duni-tê que envolve sorte, networking, destino, tempo de
carreira e, às vezes, talento.
Você faz testes de acordo com o nível
em que está. É difícil perceber em que momento sua jornada para o
topo foi mais fácil, mas a verdade é que não há facilidade. Mesmo
que você faça o que a pessoa sortuda fez, há 99% de chance de as
coisas não darem certo para você. Apenas mais ou menos 4% dos
atores filiados ao sindicato Screen Actors Guild and American
Federation of Television and Radio Artists (SAG-AFTRA) ganham o
suficiente para ter direito a um plano de saúde, e isso significa
que precisam ganhar pelo menos 20 mil dólares por ano. Essa é a
nossa realidade.Em nossa sociedade, há o pensamento muito difundido
de não aceitar nada que esteja “abaixo” de você. Essa
mentalidade é algo difícil de se manter nesse ramo. Aqui está uma
pergunta melhor: você quer ser ator ou quer ser um ator famoso? Se
quer ser famoso, como o grande Alan Arkin disse, terá dificuldades.
Se quiser ser ator, dará um jeito. Tome cuidado com atores que dizem
que vivem recusando trabalhos e nunca escolheram fazer uma temporada
de teatro recebendo apenas 250 dólares por semana para se sentirem
realizados. A fama é inebriante.
Aos 28 anos eu estava acordando para a
realidade. Estava me conscientizando do que significava ser uma
mulher adulta, cuidando de mim mesma, mas também explorando como era
me sentir realizada no meu ofício. Eram coisas completamente
opostas. Eu também era uma grande farsa em alguns aspectos. Por um
lado, estava paralisada. Tinha muito medo de procurar pela cidade e
acabar encontrando um trabalho “só para pagar as contas”. Tivera
tantos trabalhos assim no passado, e a ideia de ter que equilibrar
isso com os testes estava pesando demais. Além disso, como eu fazia
testes para teatro, cinema e TV, precisava de espaço para ensaiar.
Passei anos me preparando no ônibus, no metrô e em pórticos de
entrada de prédios. Eu precisava de espaço apenas para me
concentrar no trabalho. Naquele primeiro ano, tudo era difícil e
claustrofóbico. Tive momentos não de fome propriamente dita, mas de
dificuldades. Era a realidade de ser uma atriz profissional.
Meu aluguel custava apenas 250
dólares, e às vezes era difícil conseguir até mesmo esse
dinheiro. Mas eu queria ser excelente no que fazia, apesar de não
saber como pagaria as contas. E por falar nelas, eu usava muito o
telefone, gastava centenas de dólares e tinha contas altíssimas.
Isso foi antes do celular, quando era necessário pagar por ligações
de longa distância. Comia asinhas de frango todos os dias. Três
xícaras de arroz branco no restaurante chinês custavam um dólar e
vinte centavos. Metade disso custava sessenta centavos. As asinhas de
frango custavam três dólares, e eu as comprava quando podia. Do
contrário, minha proteína era arenque seco, salgado e defumado, que
eu comprava nos mercados espanhóis. Dormia em um futon no chão do
quarto que dividia com minha amiga Pilar. Toda a minha vida tinha
sido de dificuldade e sobrevivência. Eu me sustentava desde os 17
anos. O fato de ser difícil, uma merda, não era novidade, mas o
maior problema era conseguir manter a esperança e continuar
acreditando em mim. Depois, encontrar uma comunidade artística que
me apoiasse, enquanto eu lutava com todas as forças para sobreviver.
Atuar era uma escolha, talvez uma escolha masoquista.
Meu primeiro trabalho quando saí da
faculdade foi como atriz substituta de Danitra Vance, que
interpretava a personagem Marisol em uma peça de José Rivera no
Public Theater, fundado por Joseph Papp. Danitra foi a primeira
mulher negra no Saturday Night Live e criou uma esquete famosa
chamada “That Black Girl”. Era uma paródia do programa de Marlo
Thomas nos anos 1970, That Girl. Danitra era extraordinária.
Ela escrevia, cantava, atuava. Quando cheguei para ser sua
substituta, ela tratava um câncer de mama em metástase.
Danitra ia à quimioterapia durante o
dia e à noite fazia o espetáculo. Os tumores haviam se espalhado
para a coluna. Eu não sabia disso até conversarmos um dia no
camarim, e ela tirou a blusa. Foi a primeira vez que vi uma cicatriz
de mastectomia.
Eu ganhava 250 dólares por semana e
adorava. Nunca atuei ao longo das quatro ou cinco semanas em que
trabalhei, mas tive uma conexão com Danitra. Lembro-me de ajudá-la
a se mudar e de ouvir suas histórias. Eu adorava ouvir histórias.
Quando soube que ela estava morrendo, liguei para ela e sua voz
estava muito fraca.
— Como você está? — perguntou
ela.
— Estou bem — respondi.
Eu ia reclamar sobre conseguir papéis
e manter um fluxo de trabalho estável, mas tudo parecia irrelevante
naquele momento.
— Como você está? — perguntei.
— Com raiva.
Silêncio.
— Do que você está com raiva,
Danitra? Eu só queria que ela falasse. A voz dela estava muito fraca
e rouca. O câncer havia se espalhado e não havia nada que os
médicos pudessem fazer. Ela estava morrendo.
— Estou com raiva disso. Estou com
raiva de estar morrendo.
— Danitra, eu sinto muito.
— Eu sei. Eu te amo. Estou cansada.
Preciso desligar.
Um amigo em comum, Tommy Hollis, me
contou uma história sobre Danitra. Ele disse que assistiu a uma
performance dela chamada “The Feminist Stripper”. Elasubia no
palco e começava a se despir. Havia música tocando, e ela fazia
piadas enquanto tirava a roupa. Todo mundo rolava no chão de tanto
rir e a aplaudia. Ela chegava às roupas de baixo e ficava de costas
para a plateia, provocante, antes de tirar o sutiã. Então se virava
e revelava a cicatriz da mastectomia; um grande X feito de fita a
cobria. A reação era de silêncio coletivo, uma quietude implacável
no ambiente. Todos foram forçados a encarar a mulher que estava
naquele corpo, e não apenas o corpo em si. Tommy contou que seu
coração quis sair pela boca e que nunca esqueceria aquela
experiência.Ela morreu mais ou menos dois meses depois. Suas últimas
palavras foram: “Vão pra rua festejar.”
[...]
Viola Davis, in Em busca de mim
A decadência do Ocidente
O doutor ganhou uma galinha viva e
chegou em casa com ela, para alegria de toda a família. O filho mais
moço, inclusive, nunca tinha visto uma galinha viva de perto. Já
tinha até um nome para ela — Margarete — e planos para adotá-la,
quando ouviu do pai que a galinha seria, obviamente, comida.
— Comida?!
— Sim, senhor.
— Mas se come ela?
— Ué. Você está cansado de comer
galinha.
— Mas a galinha que a gente come é
igual a esta aqui?
— Claro.
Na verdade o guri gostava muito de
peito, de coxa e de asa, mas nunca tinha ligado as partes ao animal.
Ainda mais aquele animal vivo ali no meio do apartamento.
O doutor disse que queria a galinha ao
molho pardo. Há anos que não comia uma galinha ao molho pardo. A
empregada sabia como se preparava galinha ao molho pardo? A mulher
foi consultar a empregada. Dali a pouco o doutor ouviu um grito de
horror vindo da cozinha. Depois veio a mulher dizer que ele
esquecesse a galinha ao molho pardo.
— A empregada não sabe fazer?
— Não só não sabe fazer, como
quase desmaiou quando eu disse que precisava cortar o pescoço da
galinha. Nunca cortou um pescoço de galinha.
Era o cúmulo. Então a mulher que
cortasse o pescoço da galinha.
— Eu?! Não mesmo!
O doutor lembrou-se de uma velha
empregada da sua mãe.
A Dona Noca. Não só cortava pescoços
de galinha, como fazia isto com uma certa alegria assassina. A
solução era a Dona Noca.
— A Dona Noca já morreu — disse a
mulher.
— O quê?!
— Há dez anos.
— Não é possível! A última
galinha ao molho pardo que eu comi foi feita por ela.
— Então faz mais de dez anos que
você não come galinha ao molho pardo.
Alguém no edifício se disporia a
degolar a galinha. Fizeram uma rápida enquete entre os vizinhos.
Ninguém se animava a cortar o pescoço da galinha. Nem o Rogerinho
do 701, que fazia coisas inomináveis com gatos.
— Somos uma civilização de
frouxos! — sentenciou o doutor.
Foi para o poço do edifício e
repetiu:
— Frouxos! Perdemos o contato com o
barro da vida!
E a Margarete só olhando.
Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora
Mas o significado real de iniciação... – T
Oc.
Mas o significado real da iniciação
é que este mundo visível em que vivemos é um símbolo e uma
sombra, que esta vida que conhecemos através dos sentidos é uma
morte e um sono, ou, por outras palavras, que o que vemos é uma
ilusão. A iniciação é o dissipar — um dissipar gradual, parcial
— dessa ilusão. A razão do seu segredo é que a maior parte dos
homens não está adaptada a compreendê-lo e, portanto,
compreendê-lo-á mal e confundi-lo-á, se for tornado público. A
razão de ele ser simbólico é que a iniciação não é um
conhecimento, mas uma vida, e o homem deve, portanto, descobrir por
si o que mostram os símbolos, porque, assim, viverá a vida deles,
não se limitando a aprender as palavras em que são mostrados.
Dizer que Cristo é um símbolo do Sol
é pôr o processo iniciatório ao invés. É o Sol que é o símbolo
de Cristo. Por outras palavras, Cristo é a realidade e o Sol a
ilusão, Cristo é a luz, e o Sol a sombra. (O Inefável é a luz; o
GA, corpo; o mundo, sombra — a sombra projectada pelo denso quando
iluminado pelo subtil. A luz está na circunferência e a sombra
lançada para o centro. Isto tem alguma coisa a ver com o pt. dentro
do c.?) (Cf. a ideia cabalística do En Soph retirando-se para
dentro, manifestando-se dentro e não fora).
Iniciar um homem por um ritual
complicado e mais ou menos impressivo e depois confiar-lhe, sob
promessas de segredo e juras mais ou menos terríveis, que a
Primavera vem depois do Inverno — isto nunca podia ter sido o plano
de qualquer corpo ou sistema iniciático. Mas tê-lo-ia sido ensinar
o contrário — que a Primavera, seguindo-se ao Inverno, é um
símbolo de coisas maiores, que o natural é uma figuração do
sobrenatural.
Isto, feito com mais ou menos
pormenor, em símbolo, depois em doutrina, depois em revelação, é
a essência de todas as verdadeiras iniciações, de Eleusis a
Kilwinning.
Ordens de inic.: (I) através de
símbolos e (mais tarde) explicações em si próprias simbólicas—cf.
Pike; (2) através de doutrina simbólica, verdadeira ao seu nível,
e explicações, já não simbólicas; (3) através de comunicação
directa, embora não necessariamente falada ou expressa.
Não digo que estas coisas representem
uma verdade e não digo que o não façam. Digo que este é o
significado da iniciação, que é assim que a iniciação existe e
que é para estes fins que ela existe.
Fernando Pessoa, em Escritos Ocultistas – O Caminho da Serpente e outros textos esotéricos
sábado, 14 de fevereiro de 2026
Fluência
Eu fiz um livro, mas oh, meu Deus,
não perdi a poesia.
Hoje depois da festa,
quando me levantei para fazer café,
uma densa neblina acinzentava os
pastos,
as casas, as pessoas com embrulho de
pão.
O fio indesmanchável da vida tecia
seu curso.
Persistindo, a necessidade dos
relógios,
dos descongestionantes nasais.
Meu livro sobre a mesa contraponteava
exato
com os pardais, os urinóis pela
metade,
o antigo e intenso desejar de um
verso.
O relógio bateu sem assustar os
farelos sobre a mesa.
Como antes, graças a Deus.
Adélia Prado, em O Coração Disparado
Factótum
1
Cheguei em Nova Orleans, debaixo de
chuva, às cinco da manhã. Fiquei sentado na rodoviária por um
tempo, mas aquela gente me deprimiu, então peguei minha mala e
comecei a andar na chuva mesmo. Eu não sabia onde ficavam as
pensões, nem onde era a parte pobre.
A minha mala era de papelão e estava
caindo aos pedaços. Ela já tinha sido preta, mas o verniz descascou
e só aparecia o papelão amarelo. Eu tentei resolver passando pasta
de sapato preto por cima do papelão exposto. Conforme eu andava na
chuva, a pasta escorria e, sem perceber, fiquei com umas listras
pretas nas duas pernas da calça porque trocava a mala de uma mão
para a outra.
Bom, era uma cidade nova. Quem sabe eu
daria sorte.
Parou de chover e o sol saiu. Eu
estava no bairro negro. Caminhei mais devagar.
— Ei, branquelo de merda!*
Coloquei a mala no chão. Uma mulher
negra de pele clara** estava sentada nas escadas da varanda,
balançando as pernas. Era uma mulher bonita.
— Olá, seu branquelo de merda!
Não respondi, só fiquei ali parado,
olhando para ela.
— Quer dar umazinha, branquelo de
merda?
Ela ria da minha cara. Estava com as
pernas cruzadas e dava chutinhos com os pés; tinha umas pernas
bonitas, estava montada em um salto, esperneava e ria. Peguei a mala
e me aproximei dela pela calçada. Quando fiz isso, notei uma cortina
lateral se mexer um pouco na janela à minha esquerda. Vi o rosto de
um homem negro. Ele era a cara do Jersey Joe Wolcott***. Recuei o
passo. A risada da mulher me seguiu pela rua.
Notas:
* Em inglês, “white trash”
é um termo pejorativo usado para se referir a pessoas brancas e
pobres. Segundo a historiadora Nancy Isenberg, no livro White
Trash: The 400-Year Untold History of Class in America (2017)
[Lixo branco: os 400 anos de história não contada sobre classe na
América, em tradução livre], o termo apareceu, pela primeira vez,
em um jornal estadunidense na década de 1820. Porém, o termo teria
origem ainda na época da colonização britânica, com a ideia de
que as colônias eram lugares que funcionavam como depósitos de
pessoas indesejáveis, ou seja, presidiários, pobres, desempregados
etc.. [N.T.]
** O termo usado pelo autor é “high
yellow” e, segundo o dicionário Collins, é usado de forma
pejorativa para denominar uma pessoa negra de pele clara ou, ainda,
uma pessoa negra que seja filha de casal birracial. Optou-se, de
forma deliberada, por uma expressão que não fosse racista em
português brasileiro. [N.T.]
*** Jersey Joe Walcott (1914-1994),
também grafado como Wolcott, como no livro, foi um pugilista
estadunidense. Filho de imigrantes do Barbados, foi campeão várias
vezes na categoria peso-pesado. [N.T.]
Charles Bukowski, em Factótum
Namorados públicos
Da mesma forma que os monumentos
históricos ou artísticos, as belezas naturais, os bailes e cafés,
os parques e jardins – os casais de namorados são coisa que
pertencem ao patrimônio de uma cidade. Uma cidade sem namorados
públicos não é uma verdadeira cidade. Os cicerones de Paris
costumam mostrá-los aos turistas, inteiramente despreocupados em
suas ternuras, como típicas curiosidades locais. No Hyde Park, em
Londres, é possível vê-los às centenas, sobre o gramado esmeralda
desse parque inexcedível como se estivessem em casa. O transeunte
margeia beijos intermináveis, abraços infinitos, olhares abissais,
namorados que leem romances, namorados que dormem, namorados que
brigam, a um passo uns dos outros, perfeitamente indiferentes ao que
lhes vai em torno, – e o que é formidável – guardados da
curiosidade, ou malícia alheias, por um passante constable, cuja
função é zelar pela perfeita consecução de seus carinhos, com
uma imparticipação e fidelidade dignas de todos os aplausos. É
claro que os namorados não abusam. Mas nessa questão de carinhos de
superfície eles se permitem um uso inumerável. Estrafegam-se em
beijos que fariam a inveja de John Gilbert ao tempo da sua paixão
por Greta Garbo. Dão-se abraços de não se saber mais quem é o
outro. Fazem-se cafunés maravilhosos, esfregam-se os narizes,
acarinham-se os rostos, enfim: tudo isso que faz a deliciosa cozinha
dos que se amam e que vem sendo a mesma desde os tempos mais recuados
no tempo.
Ninguém pode dizer que o Rio não
seja uma cidade de namorados: ela o é. Seria difícil, aliás,
compreender-se uma cidade tão pródiga em beleza, sem namorados. Mas
são namorados, meu Deus, ou tão ousados ou tão tímidos que
parecem uma contrafação da natureza humana diante da Natureza.
Grande culpada disso foi, até certo tempo, a nossa polícia de
costumes, que arrolava todas as carícias de namorados dentro de um
mesmo código moral, chegando até ao abuso de prender gente casada
que saía para namorar fora de casa. Não. Há carícias e carícias.
Que mal existe em se beijarem os namorados em praça pública ou nos
cantos de rua? Em que uma coisa dessas ofende a moral? Por que não
se poderão eles abraçar ternamente, quando tiverem vontade? Pois
parece incrível: outro dia um amigo meu contou que foi “apitado”
várias vezes por um guarda do Jardim Botânico, por estar dando um
“peguinha” na namorada. De fato: é justo, mais do que justo, que
se moralizem os costumes. Nada mais certo. Mas perseguir os
namorados, da mesma forma que arrancar as plantas dos parques, ou
maltratar os animais, é indício de mau caráter. Que os namorados
se beijem à vontade nesta linda Rio de Janeiro. Nada há de mal no
beijo dos namorados, como no amor dos pássaros. Deixai-os nos seus
parques, nas suas ruas escuras, nos seus portões de casa. Deixai-os
namorar, Senhor Prefeito, Senhor Diretor do Jardim Botânico,
deixai-os namorar, porque eles têm cada dia menos lugares onde ir
esconder seus anseios. Deixai-os se beijarem à vontade, porque o que
em seus beijos irrita os burgueses moralizantes é justamente essa
liberdade, essa beleza, essa poesia, esse voo que há num beijo de
amor. Tréguas aos namorados!
Vinicius de Moraes, em Para viver um grande amor
O mistério do telegrama
Há tanta história horrivelmente
triste sobre interrogatórios e prisões, que acho que vale a pena
contar uma, verdadeira e engraçada, acontecida há algum tempo.
Altero apenas os nomes dos personagens, mas garanto a autenticidade
do caso, que está registrado em cartório.
Uma senhora (por sinal bem bonita)
passou um telegrama a um cavalheiro, com quem andava de amores. O
telegrama era um tanto estranho; foi retido, e a sua remetente,
detida, passou toda uma noite na polícia. Eis o relato de seu
interrogatório: "Aos dez dias do mês de outubro de mil
novecentos e... às vinte e três horas e trinta minutos, na
Delegacia de Ordem Política e Social, compareceu Maria da Silva,
brasileira, desquitada, com 33 anos, residente na rua tal, número
tal, apartamento tal, em Copacabana, a fim de esclarecer um telegrama
que fora passado e interceptado na Agência Telegráfica do Galeão.
Tendo a declarante sido inquirida,
DISSE: A propósito de um telegrama que fora interceptado na Agência
Telegráfica do Galeão, expedido pela declarante no dia 9 do
corrente mês, aproximadamente às 13 horas, em que figurava como
destinatário o sr. Dr. João Silveira, residente na rua tal, número
tal, em Belo Horizonte, vazado nos seguintes termos: Tombai —
Igreja — Arco-íris — Borboleta — Camelo — Pressão baixa —
Rosas vermelhas — Pianista — Vitória — Bahia — Recife —
Aeroporto — Eu te amo — Saudades — Maria', esclareceu a
declarante: POMBAL — se refere a um pombal existente no Parque de
Florianópolis, que, visto ao entardecer, causou a ambos grande
impressão; IGREJA — templo católico no Recife onde ambos fizeram
um pedido; ARCO-ÍRIS — sensação visual experimentada pela
declarante, quando viajava de avião, a baixa altura, em companhia do
Dr. João Silveira, ao verem eles, por cinco vezes consecutivas, a
aparição de um arco-íris, no trajeto entre Rio e Ilhéus;
BORBOLETA — sendo a declarante supersticiosa e acreditando que
borboleta amarela traz sorte, e tendo visto uma no início e outra no
fim da viagem, ficou impressionada; CAMELO — que a declarante, ao
visitar o Parque de Florianópolis em companhia do Dr. João
Silveira, teve a oportunidade de se dirigir a um camelo nos seguintes
termos: 'Senhor camelo, o senhor não preferia estar agora no
deserto, a estar aqui neste parque com todo o conforto?' Que o
camelo, com um gesto afirmativo de cabeça, confirmou. Que a
declarante fez questão de esclarecer que, tendo sido assistente de
Zoologia no Jardim Zoológico do Rio de Janeiro de mil novecentos e
sessenta a mil novecentos e sessenta e dois, devotava grande afeição
aos animais, especialmente ao camelo, pela sua solidão; PRESSÃO
BAIXA — que o Dr. João Silveira, ao se despedir, frequentemente,
da declarante, demonstrava a sua tristeza ao se separar com a sua
forte queda de pressão; ROSAS VERMELHAS — que a declarante sempre
se acha cercada de rosas vermelhas e, quando obsequiada pelo Dr. João
com essas flores, dá a isso enorme valor; PIANISTA — esclareceu
que se refere a um pianista que toca maravilhosamente, apesar de
cego, num restaurante em Recife, de nome Restaurante Leite, e que
nessa viagem teve a oportunidade de distinguir o casal, com a música
de sua predileção: O Amor É a Coisa Mais Esplêndida do Mundo;
VITÓRIA — BAHIA — RECIFE — localidades onde o casal esteve e
sobretudo onde teve a ocasião de experimentar essas sensações;
AEROPORTO — local das despedidas do casal, onde sempre um levava
saudades do que ficava; EU TE AMO — que a declarante acha
desnecessário, digo, que a frase em si dispensa maiores
esclarecimentos; e finalmente: SAUDADES — que a declarante afirma
que só quem a sente é quem sabe, e que só usou essa frase como
despedida; que, perguntado à declarante sobre a razão da expedição
do referido telegrama, esclareceu que o mesmo tinha o objetivo de
reviver momentos felizes que viveram em comum, dando a ele uma
surpresa agradável no meio de sua vida atribulada de homem de
negócios; que a declarante faz questão de esclarecer que não havia
nenhuma intenção subversiva e que essa declaração e esses
incidentes referidos poderão ser confirmados pelo dr. João; que a
declarante, no ato de suas declarações, se compromete a comparecer
a esta delegacia a qualquer momento, a respeito do referido assunto.
E mais não disse nem lhe foi
perguntado. E como nada mais houvesse a lavrar, mandou a autoridade
encerrar o presente, o qual, depois de lido e achado conforme, assina
com a declarante. Eu, Fulano de Tal, escrivão, o datilografei e
assino.
Dezembro, 1969
Rubem Braga, em Recado de primavera
Leitura intramuros
[...]
***
Pelo menos dois tipos diferentes de
leitura parecem ocorrer dentro de um grupo segregado.
No primeiro, as leitoras, como
arqueólogas imaginativas, abrem caminho através da literatura
oficial para resgatar das entrelinhas a presença de suas colegas
proscritas, para encontrar espelhos de si mesmas nas histórias de
Clitemnestra, de Gertrude, das cortesãs de Balzac. No segundo tipo,
as leitoras tornam-se escritoras, inventando para si mesmas novas
maneiras de contar histórias, a fim de redimir sobre a página as
crônicas cotidianas de suas vidas confinadas ao laboratório da
cozinha, ao estúdio da saleta de costura, às selvas do quarto das
crianças.
Há talvez uma terceira categoria, em
algum ponto entre essas duas. Muitos séculos depois de Sei Shonagon
e Murasaki Shikibu, do outro lado do globo, a escritora inglesa
George Eliot, escrevendo sobre a literatura de sua época, descreveu
o que chamou “romances tolos de Senhoras Romancistas [...] um
gênero com muitas espécies, determinado pela qualidade particular
de tolice que predomina neles – o frívolo, o prosaico, o devoto ou
o pedante. Mas é uma mistura de todos – uma ordem compósita de
fatuidade feminina responsável pela produção da maior parte de
tais romances, que deveremos distinguir como sendo da espécie
cérebro-e-chapelaria.” [...] A desculpa habitual para as
mulheres que se tornam escritoras sem nenhuma qualificação especial
é que a sociedade as segrega de outras esferas de ocupação. A
sociedade é uma entidade que tem uma boa dose de culpa, devendo
responder pela manufatura de muitas mercadorias insalubres, de picles
ruins a má poesia. Mas, como “assunto”, a sociedade, o Governo
de Sua Majestade e outras abstrações grandiosas têm uma fatia
excessiva de acusação, bem como de elogio”. E concluía ela: ‘Em
toda labuta há proveito’; mas os romances tolos das senhoras,
imaginamos, resultam menos da labuta do que da ociosidade atarefada”.
O que George Eliot descrevia era uma ficção que, embora escrita
dentro do grupo, limita-se praticamente a repetir os estereótipos e
preconceitos oficiais que, antes de mais nada, conduziram à criação
do grupo.
Tolice era também a falha que a
senhora Murasald, como leitora, via na escrita de Sei Shonagon.
Porém, a diferença óbvia era que Sei Shonagon não oferecia a suas
leitoras uma versão ridicularizada da imagem delas tal como
consagrada pelos homens. O que Murasaki achava frívolo era o tema: o
mundo cotidiano dentro do qual ela mesma vivia, um mundo cuja
trivialidade Sei Shonagon documentara com tanta atenção como se
fora o mundo cintilante de Genji. Apesar das críticas de sua colega,
o estilo de literatura íntimo e aparentemente banal de Sei Shonagon
floresceu entre as mulheres leitoras da época. O exemplo mais antigo
desse período é o diário de uma senhora da corte conhecida apenas
como a "Mãe de Michitsuna" – o Diário do fim do
verão ou Diário fugaz. Nele a autora tentou fazer a
crônica, tão fiel quanto possível, da realidade de sua existência.
Falando em si mesma na terceira pessoa, escreveu: "Enquanto os
dias arrastavam-se monotonamente, ela lia os velhos romances e achava
a maioria deles uma coleção de invenções grosseiras. Talvez,
disse para si mesma, a história de sua existência enfadonha, na
forma de um diário, pudesse provocar algum grau de interesse. Talvez
pudesse até ser capaz de responder: isto é vida apropriada para uma
dama bem-nascida?".
Apesar das críticas da senhora
Murasaki, é fácil entender por que a forma confessional, a página
em que uma mulher podia parecer estar dando “rédeas soltas às
emoções”, tornou-se o material de leitura favorito das mulheres
do período Heian. Genji apresentava algo da vida das mulheres
nas personagens que cercavam o príncipe, mas O livro de
travesseiro dava espaço para que as leitoras se tornassem suas
próprias historiadoras.
“Há quatro maneiras de escrever a
vida de uma mulher”, sustenta a crítica americana Carolyn G.
Heilbrun. “A própria mulher pode contá-la, no que ela escolhe
chamar autobiografia; pode contá-la no que escolhe chamar ficção;
um(a) biógrafo(a) pode escrever a vida de uma mulher no que é
chamado de biografia; ou a mulher pode escrever sua própria vida
antes de vivê-la, inconscientemente, sem reconhecer ou nomear o
processo.”
A rotulagem cuidadosa que Carolyn
Heilbrun faz das formas também corresponde vagamente às distintas
literaturas que as escritoras do período Heian produziram:
monogatari (romances), livros de travesseiro e outros. Nesses
textos, as leitoras encontravam suas próprias vidas vividas ou não
vividas, idealizadas ou fantasiadas, ou expostas com prolixidade e
fidelidade documentais. Essa costuma ser a norma em se tratando de
leitores segregados: a literatura que exigem é confessional,
autobiográfica e até didática, porque leitores cujas identidades
são negadas não têm outro lugar onde encontrar suas histórias
exceto na literatura que eles mesmos produzem. No século XVII, em
Portugal, sóror Mariana Alcoforado (ou, com maior probabilidade, um
autor anônimo que usou seu nome) encontrou nas cartas de amor
proibidas um meio de atravessar as paredes do claustro. Essas famosas
Cartas portuguesas, que inspiraram o romance de Diderot La
religieuse, se tornam, na verdade, material de leitura para a
própria freira, como substituição do amante ausente e remédio
para seu desejo insatisfeito, um lugar onde pode encenar sua vida
erótica, um recinto dentro do qual palavras, em vez de ações,
encarnam os eventos de sua paixão, dando um relato factual de seu
amor impossível. Num argumento aplicado à leitura homossexual - e
que pode ser perfeitamente aplicado à leitura feminina, à leitura
de qualquer grupo excluído do reino do poder -, o escritor americano
Edmund White observa que tão logo alguém nota que ele (podemos
acrescentar – “ou ela”) é diferente, essa pessoa deve
responder por isso, e que tais prestações de contas são um tipo
primitivo de ficção, “as narrativas orais contadas e recontadas
como conversa de travesseiro, ou em bares, ou no divã do
psicanalista”. Ao contar “uns para os outros - ou para o mundo
hostil em torno deles - as histórias de suas vidas, não estão
apenas registrando o passado, mas também dando forma ao futuro,
forjando uma identidade e, ao mesmo tempo, revelando-a”. Em Sei
Shonagon, bem como na sra. Murasaki, encontram-se as sombras da
literatura feminina que lemos hoje.
Uma geração depois de George Eliot,
na Inglaterra vitoriana, a Gwendolen de Oscar Wilde, em A
importância de ser sério, declarava que jamais viajava sem seu
diário porque “deve-se sempre ter algo sensacional para ler no
trem”; ela não estava exagerando. Na definição de Cecily,
réplica de Gwendolen, um diário era “simplesmente um registro,
feito por uma moça muito jovem, de seus pensamentos e impressões e,
consequentemente, destinado a publicação”. A publicação – ou
seja, a reprodução de um texto a fim de multiplicar seus leitores
através de cópias manuscritas, da leitura em voz alta ou da
imprensa – permitiu às mulheres encontrar vozes similares às
suas, descobrir que seu fardo não era único, descobrir na
confirmação da experiência uma base sólida sobre a qual construir
uma imagem autêntica de si mesmas. Isso foi verdade tanto para as
mulheres do período Heian como para George Eliot.
Diferentes das papelarias da minha
infância, as livrarias de hoje não têm somente os livros para
mulheres distribuídos no mercado por interesses comerciais alheios
ao negócio, para determinar e limitar o que uma mulher deve ler, mas
também os livros criados de dentro do grupo, nos quais mulheres
escrevem para elas mesmas aquilo que está ausente dos textos
oficiais. Isso estabelece a tarefa da leitora, talvez prevista pelas
escritoras do período Heian: escalar as paredes: pegar qualquer
livro que pareça atraente, despi-lo daquelas coloridas capas
codificadas e arrumá-lo entre os volumes que o acaso e a experiência
puseram na sua mesinha-de-cabeceira.
Alberto Manguel, em Uma História da Leitura
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