quinta-feira, 30 de abril de 2026
Assembleia baiana
O sr. Presidente — Tem a palavra o
sr. deputado Marta Rocha.
O sr. Marta Rocha (movimento geral
de atenção; palmas no recinto e nas galerias) — Sr.
Presidente, ao subir a esta tribuna…
Vários senhores deputados — Muito
bem! V. ex.a está-se exprimindo com rara eloquência e felicidade.
O sr. Marciano Condeúba — Não
apoiado. V. ex.a não sobe à tribuna. Esta é que, com muita honra,
se alça até v. ex.a.
(Novas palmas e vivas nas
galerias.)
O sr. Presidente — Atenção! Peço
às galerias que não se manifestem.
O sr. Demóstenes Latino — Sr.
Presidente, rogo a v. ex.a, em nome da velha Grécia e dos imortais
princípios de 2 de julho, que admita, neste caso excepcional, a
manifestação irreprimível das galerias.
o sr. Presidente — Atendendo às
ponderações do líder da maioria, permito às galerias que se
manifestem com três hurras, terminados os quais voltará a
prevalecer o regimento. (Ouvem-se três hurras e muitos fius.)
Prossiga o nobre orador.
O sr. Romualdo Alecrim — Um momento,
sr. Presidente. O nobre líder da maioria devia ter dado uma chance à
minoria para também se solidarizar com as justas expansões do povo,
pois é evidente que, numa hora solar como esta, cessam as distinções
partidárias. A oposição também é filha de Deus.
O sr. Marta Rocha — Como dizia, sr.
Presidente…
O sr. Demóstenes Latino — V. ex.a
não precisa dizer nada. Os elevados pensamentos políticos de v.
ex.a estão estampados em seu rosto. Esta assembleia em peso sente-se
feliz em apoiar as considerações implícitas e aurifulgentes de v.
ex.a.
Outros senhores deputados — Bravo!
Já disse tudo!
O sr. Noé da Anunciação (com as
mãos em concha) — Deixa a mocinha falar, gente!
O sr. Marciano Condeúba — O
venerando colega não escutou a música dos anjos?
O sr. Noé da Anunciação — Como,
meu filho? Ando meio duro de ouvido, depois daquele acidente de
tílburi, no largo da Sé, em 85…
O sr. Marta Rocha (tira da bolsa
batom e espelhinho, e aplica-se meticulosamente a retificar a linha
dos lábios. Terminada a operação, sorri. Um clarão celestial
espalha-se pelo recinto. Os senhores deputados quedam-se em êxtase
nas bancadas, as galerias fazem o mesmo; o sr. Presidente, com as
mãos no queixo, tem uma particular expressão de beatitude) —
Bem, sr. Presidente…
O sr. Caribé — Vá ser bonita nos
quintos dos infernos, puxa!
O sr. Noé da Anunciação — O que é
que esse moço aí está dizendo?
O sr. Caribé — Nada, não.
O sr. Firmino Azedo — Sr.
Presidente, tudo isso está muito bem, mas lembro à casa que há
quatro anos seguidos não votamos a proposta de orçamento do Estado,
remetida pelo eminente governador Pedrinho Calmon. A Assembleia não
aprovou sequer o projeto de aumento de subsídio. Sei que estou sendo
impertinente, mas a Bahia, que a todos nos julgará…
O sr. Demóstenes Latino — Sr.
Presidente, em nome da maioria protesto contra as insinuações
malévolas do nobre deputado. A Bahia é testemunha de que se não
foi possível produzir mais nesta legislatura é porque, sr.
Presidente…
O sr. Romualdo Alecrim — Claro,
claro! A minoria, por sua vez, repele a acusação inepta e infeliz.
Dou testemunho de que nunca fomos tão assíduos a esta casa, e que
passamos a nos reunir de janeiro a dezembro, sem parar. Se não há
projetos votados, devemos atribuir o fato…
O sr. Presidente (dirigindo-se ao
sr. Firmino Azedo) — O nobre deputado está expulso deste
recinto! (Sensação.)
O sr. Crispim Moreno — Sr.
Presidente, no dia em que for restabelecida a votação, pedirei
preferência para o meu projeto que modifica o sistema métrico
decimal. Esse sistema permitiu a inqualificável prevaricação do
júri capitalista de Long Beach, há quatro anos, que privou a nossa
pátria do título mundial a que fazia jus. Os infames trastes
petrolíferos, por uma questão de poucas polegadas…
O sr. Demóstenes Latino — Malgrado
a orientação doutrinária do nobre representante de Ilhéus,
proponho, sr. Presidente, que o seu projeto seja votado
imediatamente, de pé, e por aclamação.
(Tempestade de aplausos nas
galerias.)
O sr. Presidente — Atenção,
atenção, as galerias não podem votar! Bem, já votaram. Está
aprovado o projeto!
O sr. Marta Rocha (sorrindo
novamente) — Sr. Presidente, tenho dito.
(Delírio. O orador é carregado em
triunfo.)
Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira
Alongo-me
O rio nasce
toda a vida.
Dá-se
ao mar a alma vivida.
A água amadurecida,
a face
ida.
O rio sempre renasce
A morte é vida.
Guimarães Rosa, em Ave, Palavra
Alma pronta
Uma alma pronta está preparada para se extinguir, dispersar-se ou subsistir caso seja, a qualquer altura, separada do corpo. Essa prontidão precisa resultar do próprio julgamento do homem, não da mera obstinação — feito os cristãos. Precisa ser ponderada, digna e persuasiva, mas não dramática.
Marco Aurélio, em Meditações
2 — Pôncio Pilatos
[…]
— Prossiga!
— Não houve mais nada — disse o
prisioneiro. — Depois uns homens entraram correndo e começaram a
me amarrar e me levaram para a prisão.
O secretário, tentando não perder
uma palavra sequer, traçava as palavras no pergaminho rapidamente.
— Nunca houve, não há e não
haverá no mundo poder mais grandioso e maravilhoso para as pessoas
do que o poder do imperador Tiberius! — cresceu a voz rasgada e
doente de Pilatos.
O procurador, por algum motivo, olhava
com ódio para o secretário e para o corpo de guardas.
— E não é você, um criminoso
demente, que deve discutir sobre ele! — Então Pilatos gritou: —
Retirem o corpo de guardas da varanda! — E, voltando-se para o
secretário, acrescentou: — Deixem-me a sós com o criminoso. É um
assunto de Estado.
O corpo de guardas levantou as lanças
e, batendo ritmicamente com as cáligas no chão, saiu da varanda
para o jardim, e atrás dele saiu também o secretário.
O silêncio na varanda, durante algum
tempo, só era interrompido pela canção da água do chafariz.
Pilatos via como a água jorrava no prato sobre o tubo, deslizando
pelas bordas e caindo em filetes.
O prisioneiro falou primeiro:
— Vejo que ocorreu alguma desgraça
por causa de minha conversa com esse jovem de Kerioth. Eu, Hegemon,
tenho um pressentimento de que com ele acontecerá algum infortúnio,
e tenho muita pena.
— Eu acho — respondeu o
procurador, sorrindo de forma irônica e estranha — que existe mais
gente no mundo de quem você deveria sentir mais pena do que de Judas
de Kerioth e que deve sofrer bem mais do que Judas! Então, Marcos
Mata-ratos, um carrasco frio e convencido, as pessoas, que, como vejo
— o procurador apontou para o rosto deformado de Yeshua —,
bateram em você por causa de sua pregação, os bandidos Dismas e
Gestas, que com seus comparsas mataram quatro soldados, e,
finalmente, o sujo traidor Judas... todos eles são bons homens?
— São — respondeu o prisioneiro.
— E virá o reino da verdade?
— Virá, Hegemon — respondeu
Yeshua com firmeza.
— Ele nunca virá! — Pilatos
começou a gritar de repente, com uma voz tão terrível que Yeshua
se afastou. Havia muitos anos, no vale das Virgens, Pilatos gritara
as seguintes palavras a seus soldados: “Degolem-nos! Degolem-nos! O
grandioso Mata-ratos foi preso!” Ele aumentou ainda mais a voz
rasgada por causa das ordens, chamando de maneira que suas palavras
fossem ouvidas no jardim: — Criminoso! Criminoso! Criminoso!
Depois, diminuindo o tom de voz,
perguntou:
— Yeshua Ha-Notzri, você acredita
em deuses?
— Existe apenas um Deus —
respondeu Yeshua. — Acredito nele.
— Então reze para ele! Reze muito!
Aliás... — a voz de Pilatos falseou — isso não o ajudará. Você
não tem mulher? — Pilatos perguntou, por alguma razão, com
tristeza, sem entender o que lhe estava passando.
— Não, sou sozinho.
— Cidade odiosa... — o procurador,
por alguma razão, balbuciou de repente, encolhendo os ombros. — Se
o tivessem matado antes de seu encontro com Judas de Kerioth,
realmente, teria sido melhor.
— E você poderia me soltar, Hegemon
— pediu o prisioneiro inesperadamente, e sua voz pareceu
preocupada. — Vejo que querem me matar.
O rosto de Pilatos desfigurou-se em
uma convulsão, e ele voltou para Yeshua seus olhos irritados e
cobertos de veias vermelhas, dizendo:
— Você supõe, seu infeliz, que o
procurador romano soltará um homem que disse o que você disse? Oh,
deuses, deuses! Ou você pensa que estou pronto para ocupar o seu
lugar? Eu não partilho de seus pensamentos! E ouça: se, a partir
desse minuto, você pronunciar uma palavra sequer, se começar a
falar com alguém, tome cuidado comigo! Repito: tome cuidado!
— Hegemon...
— Calado! — gritou Pilatos e, com
um olhar desvairado, acompanhou a andorinha que sobrevoou de novo a
varanda. — Venham aqui! — gritou Pilatos.
E quando o secretário e o corpo de
tropas retornaram para seus lugares, Pilatos declarou que confirmava
a sentença de morte, pronunciada na reunião do Pequeno Sinédrio,
ao criminoso Yeshua Ha-Notzri, e o secretário anotou o que foi dito
por Pilatos.
Um minuto depois, Marcos Mata-ratos
estava diante do procurador. Pilatos ordenou-lhe que entregasse o
criminoso ao chefe do serviço secreto, transmitindo-lhe a ordem do
procurador para que Yeshua Ha-Notzri fosse separado dos outros
condenados e também que o comando do serviço secreto, sob a ameaça
de pena severa, estava proibido de conversar sobre qualquer coisa com
Yeshua ou de responder a qualquer uma de suas perguntas.
Ao sinal de Marcos, o corpo de tropas
cercou Yeshua e o levou para fora da varanda.
Depois, diante do procurador,
apresentou-se um belo rapaz de barba loura com penas de águia no
penacho do capacete, cabeças de leões douradas brilhando no peito,
chapinhas douradas no cinturão da espada, os calçados de três
solas amarrados até os joelhos e a capa púrpura jogada no ombro
esquerdo. Era o legado que comandava a Legião.
O procurador lhe perguntou onde se
encontrava a coorte de Sebastião naquele momento. O legado comunicou
que os seguidores de Sebastião mantinham o cerco à praça em frente
ao hipódromo, onde seria anunciada ao povo a sentença dos
criminosos.
Então, o procurador ordenou que o
legado separasse duas centúrias da coorte romana. Uma delas, sob o
comando de Mata-ratos, deveria fazer a guarda dos criminosos e dos
carros com os mecanismos para a execução e com os carrascos a
caminho do monte Gólgota e, ao chegar lá, cercar a área por cima.
A outra centúria deveria ser enviada imediatamente para o Gólgota e
começar a fazer o cerco no mesmo instante. Para isso, ou seja, para
a guarda do monte, o procurador pediu ao legado que enviasse um
regimento auxiliar da cavalaria — a ala síria.
Quando o legado deixou a varanda, o
procurador mandou o secretário chamar ao palácio o presidente do
Sinédrio, dois de seus membros e o chefe da guarda do templo de
Yerushalaim, acrescentando, porém, que tudo se desse de tal maneira
que, antes da reunião com todas essas pessoas, pudesse falar com o
presidente mais cedo e a sós.
A ordem do procurador foi cumprida
rápida e precisamente, e o sol, que queimava Yerushalaim com uma
severidade incomum nesses dias, ainda não conseguira se aproximar de
seu ponto mais alto quando, no terraço superior do jardim, ao lado
dos dois leões brancos de mármore que guardavam a escada,
encontravam-se o procurador e o presidente interino do Sinédrio, o
sumo sacerdote da Judeia, José Caifás.
Fazia silêncio no jardim. Mas, ao
sair da colunata para a área superior do jardim, banhada pelo sol,
com palmeiras sobre monstruosas patas de elefantes, Yerushalaim, que
o procurador tanto odiava, se descortinava diante dele, com suas
pontes suspensas, fortalezas e, principalmente, o indescritível
bloco de mármore com escamas douradas de dragão como telhado. Era o
templo de Yerushalaim, ao longe, abaixo, lá onde o muro de pedra
separava os terraços inferiores do jardim do palácio da praça da
cidade e de onde o procurador captou com o ouvido apurado resmungos
baixos, sob os quais soavam, às vezes, ora gemidos, ora gritos,
fracos e agudos.
O procurador compreendeu que uma
multidão inumerável de habitantes de Yerushalaim, preocupada com as
últimas desordens, já estava reunida na praça, e que essa multidão
aguardava impacientemente o anúncio da sentença, e vendedores de
água gritavam aflitos.
O procurador convidou o sumo sacerdote
para a varanda para se proteger do calor impiedoso, mas Caifás
desculpou-se educadamente e explicou que não poderia fazer isso na
véspera da festa. Pilatos pôs o capuz em sua cabeça um pouco calva
e começou a conversa. A conversa era em grego.
Pilatos disse que tinha examinado o
caso de Yeshua Ha-Notzri e confirmara a sentença de morte.
Assim, três bandidos estavam
condenados à pena de morte, que deveria ser executada naquele dia:
Dismas, Gestas, Bar-Raban, e, além destes, esse Yeshua Ha-Notzri. Os
dois primeiros, pela intenção de incitar o povo a se rebelar contra
César, foram presos pelo poder romano em batalha e estavam na conta
do procurador; consequentemente, não iriam falar deles. Os dois
últimos, Bar-Raban e Ha-Notzri, foram capturados pelo poder local e
julgados pelo Sinédrio. De acordo com a lei, de acordo com a
tradição, um desses dois criminosos deveria ser posto em liberdade
em homenagem à grande festa da Páscoa que se aproximava.
Então, o procurador queria saber qual
dos dois criminosos o Sinédrio pretendia soltar: Bar-Raban ou
Ha-Notzri?
Caifás inclinou a cabeça em sinal de
que para ele a questão estava clara e respondeu:
— O Sinédrio pede que soltem
Bar-Raban.
O procurador sabia muito bem que o
sumo sacerdote lhe responderia exatamente assim, mas sua tarefa era
demonstrar que tal resposta lhe causava espanto.
E foi isso que Pilatos fez com grande
habilidade. As sobrancelhas em seu rosto soberbo se suspenderam, o
procurador olhou com admiração diretamente nos olhos do sumo
sacerdote.
Reconheço que essa resposta me
surpreendeu — disse o procurador suavemente. — Temo se não há
algum mal-entendido.
Pilatos explicou-se. O poder romano
não respeitava em nada os direitos do poder espiritual local, e o
sumo sacerdote sabia muito bem disso. No entanto, nesse caso havia um
erro evidente. E o poder romano, é claro, estava interessado na
correção desse erro.
De fato, os crimes de Bar-Raban e
Ha-Notzri eram de gravidade incomparável. Se o segundo era
evidentemente um doente mental, acusado de pronunciar discursos
absurdos que intimidavam o povo de Yerushalaim e de algumas outras
localidades, o primeiro tinha mais agravantes. Além de realizar
incitações diretas a rebeliões, também matou um soldado durante
as tentativas de capturá-lo. Bar-Raban era incomparavelmente mais
perigoso do que Ha-Notzri.
Pelo exposto, o procurador pedia ao
sumo sacerdote que revisse a decisão e pusesse em liberdade o menos
nocivo dos dois condenados, ou seja, sem dúvida, Ha-Notzri.
Então?...
Caifás disse com voz baixa, mas
firme, que o Sinédrio analisara atentamente o processo e que
comunicava, pela segunda vez, que estava disposto a libertar
Bar-Raban.
— Como? Mesmo depois da minha
intercessão? Intercessão daquele que representa o poder romano?
Repita pela terceira vez, sacerdote.
— Pela terceira vez comunico que
libertaremos Bar-Raban — disse Caifás baixinho.
Tudo estava terminado e não havia
mais sobre o que falar. Ha-Notzri partia para sempre, e as dores
terríveis e malditas do procurador ninguém mais curaria; não há
remédio para elas além da morte. Mas não foi esse pensamento que
impressionou Pilatos. Toda aquela mesma tristeza incompreensível,
que sentira na varanda, tomava conta de todo o seu ser.
Imediatamente, esforçou-se para explicá-la, e a explicação era
estranha: parecia-lhe vagamente que não terminara sua conversa com o
condenado, ou, quem sabe, que não ouvira bem alguma coisa.
Pilatos afastou esse pensamento, que
se foi tão rapidamente quanto veio. O pensamento voou, mas a
tristeza permaneceu inexplicável, pois não podia ser explicada por
outro breve pensamento que brilhou feito um raio e logo se apagou:
“Imortalidade... chegou a imortalidade...” A imortalidade de quem
chegou? Isso o procurador não entendeu, mas o pensamento sobre essa
imortalidade enigmática o fez gelar sob o sol quente.
— Tudo bem — disse Pilatos. —
Que assim seja.
Aqui ele olhou ao redor e lançou seu
olhar para o mundo que lhe era visível e admirou-se com a mudança
ocorrida. O arbusto inclinado sob o peso das rosas sumiu, sumiram os
ciprestes, que orlavam o terraço superior, também a árvore de
romãs, assim como a estátua branca no verde, e o próprio verde. No
lugar disso tudo, flutuava uma massa púrpura e nela balançavam
algas que se moviam para algum lugar, e junto com tudo isso se movia
o próprio Pilatos. Agora era o mais terrível ódio que o levava,
sufocando-o e queimando-o — o ódio da impotência.
— Sufocado — disse Pilatos. —
Sinto-me sufocado!
Com a mão úmida e fria, ele arrancou
a fivela da gola da capa e a deixou cair na areia.
— Hoje está abafado, está caindo
uma tempestade em algum lugar — exclamou Caifás sem tirar os olhos
do rosto avermelhado do procurador e, prevendo todos os sofrimentos
que ainda teria de enfrentar, pensou. “Oh, Nissan está sendo um
mês terrível esse ano!”
— Não — disse Pilatos —, não é
o tempo abafado, é a sua presença, Caifás, que me deixa sufocado.
— Apertando os olhos, Pilatos sorriu e acrescentou: — Cuide-se,
sumo sacerdote.
Os olhos escuros do sacerdote
brilharam e ele expressou admiração em seu rosto, não menos
habilmente que o procurador fizera antes.
— O que estou ouvindo, procurador? —
respondeu Caifás, tranquilo e soberano. — Você está me ameaçando
após a sentença pronunciada e confirmada por você mesmo? Seria
possível? Estamos acostumados com o procurador romano que escolhe
palavras antes de dizer alguma coisa. Será que ninguém está nos
ouvindo, Hegemon?
Pilatos lançou um olhar mortífero
para o sumo sacerdote e, arreganhando os dentes, mostrou um sorriso.
— O que é isso, sumo sacerdote!
Quem poderia nos ouvir agora? Será que pareço o jovem vadio e
vidente que será executado hoje? Por acaso sou um menino, Caifás?
Sei o que digo e onde digo. O jardim está cercado, o palácio está
cercado de tal forma que nem um rato passará por uma fresta! Não só
rato, não passará nem mesmo aquele, como é mesmo... da cidade de
Kerioth. A propósito, você o conhece, sumo sacerdote? É... se um
desses entrasse aqui sentiria amarga pena de si mesmo, nisso, claro,
você acredita em mim, não é mesmo? Então, saiba que a partir de
hoje você não terá mais sossego! Nem você, nem seu povo. —
Pilatos apontou para o horizonte, à direita, onde no alto o templo
ardia em chamas. — Sou eu, Pôncio Pilatos, o cavaleiro da Lança
Dourada, que estou lhe dizendo isso!
— Sei, sei! — sem medo, respondeu
Caifás, de barba preta, e seus olhos brilharam. Ele elevou o braço
para o céu e prosseguiu: — O povo judeu sabe que você o odeia com
um ódio severo e que vai lhe causar muitos sofrimentos, mas não
conseguirá destruí-lo! Deus o protegerá! Ele nos ouvirá, o César
todo-poderoso nos ouvirá e nos protegerá de Pilatos, o gênio do
mal!
— Oh, não! — exclamou Pilatos, e
a cada palavra se sentia mais e mais leve: não precisava mais
disfarçar, nem escolher palavras. — Você reclamou muito de mim a
César e agora chegou a minha hora, Caifás! Uma notícia minha
partirá, não para o chefe da Antióquia, nem para Roma, mas
diretamente para Capri, ao imperador, a notícia de como vocês
deixam escapar da morte os notórios rebeldes de Yerushalaim. E não
será da água do lago de Salomão, como era o meu desejo pensando em
vocês, que eu darei de beber a Yerushalaim! Não, não será com
água, lembre-se, como, por causa de vocês, tive de tirar os escudos
com as insígnias do imperador das paredes, tive de mover o Exército
e vir em pessoa para ver o que estava acontecendo! Lembre-se de
minhas palavras: o que verá aqui, sumo sacerdote, não será apenas
uma coorte em Yerushalaim, não! Chegará aos muros da cidade toda a
Legião Fulminata, a cavalaria arábica se aproximará e então você
ouvirá o choro amargo e as lamentações! E então se lembrará do
Bar-Raban que salvou e lamentará ter mandado para a morte um
filósofo com sua pregação pacífica!
O rosto do sumo sacerdote cobriu-se de
manchas, os olhos ardiam. Como o procurador, ele sorriu por entre os
dentes e respondeu:
— Será que você mesmo, procurador,
acredita nisso que está dizendo? Não, não acredita! Não foi paz,
não foi paz que o sedutor do povo nos trouxe para Yerushalaim, e
você, cavaleiro, entende isso muito bem. Você queria libertá-lo
para que perturbasse o povo, para que achincalhasse a fé e levasse o
povo contra as espadas romanas! Porém eu, sumo sacerdote judeu,
enquanto estiver vivo, não deixarei que achincalhem a fé e
protegerei o povo! Está ouvindo, Pilatos? — Nesse instante, Caifás
suspendeu o braço ameaçadoramente: — Ouça, procurador!
Caifás calou-se, e o procurador ouviu
novamente como o barulho, parecido com o do mar, aproximava-se dos
muros do jardim de Herodes, o Grande. O barulho subia de baixo dos
pés até o rosto do procurador. Pelas costas, lá atrás das alas do
palácio, ouviam-se toques de alerta das trombetas, o estalido pesado
de centenas de pés, o tinido metálico — então o procurador
compreendeu que a infantaria romana já estava saindo, conforme sua
ordem, e dirigindo-se para a terrível parada pre-mortem dos rebeldes
e bandidos.
— Está ouvindo, procurador? —
repetiu baixinho o sacerdote. — Será que vai me dizer que tudo
isso — nesse momento, o sacerdote elevou os dois braços, e o capuz
escuro escorregou de sua cabeça — foi provocado pelo pobre bandido
Bar-Raban?
O procurador enxugou a testa molhada e
fria com as costas da mão, olhou para o chão e depois apertou os
olhos para o céu e viu a bola incandescente quase sobre sua cabeça.
A sombra de Caifás havia encolhido totalmente perto do rabo do leão
e o procurador disse baixinho e indiferente:
— É quase meio-dia. Ficamos
entretidos com a conversa e, no entanto, é preciso prosseguir.
Com expressões sofisticadas, o
procurador desculpou-se diante do sacerdote, pediu que sentasse em um
banco à sombra de uma magnólia e que aguardasse enquanto ele
chamava as outras pessoas, necessárias para a última e breve
reunião, e dava ainda uma ordem, relacionada à execução.
Caifás agradeceu educadamente, pôs a
mão no peito e permaneceu no jardim, enquanto Pilatos voltou para a
varanda. Lá mandou o secretário, que o esperava, chamar para o
jardim o legado da Legião, o tribuno da coorte e, também, dois
membros do Sinédrio e o chefe da guarda do templo, que aguardavam o
chamado no coreto redondo com chafariz no terraço inferior. Pilatos
acrescentou que logo sairia para o jardim, mas se retirou para dentro
do palácio.
Enquanto o secretário reunia o
conselho, o procurador, dentro do quarto protegido do sol pelas
cortinas, encontrava-se com um homem que tinha o rosto coberto pela
metade com o capuz, embora dentro do quarto os raios de sol não
pudessem incomodá-lo. O encontro foi extremamente breve. O
procurador disse baixinho ao homem algumas palavras, após as quais
este se retirou e Pilatos dirigiu-se, através da colunata, para o
jardim.
Lá, na presença de todos que queria
ver, o procurador confirmou solene e secamente que ele aprovava a
sentença de morte de Yeshua Ha-Notzri e que, oficialmente, havia
tomado conhecimento pelos membros do Sinédrio sobre qual dos
prisioneiros deveria ficar vivo. Ao receber a resposta de que era
Bar-Raban, o procurador disse:
— Muito bem. — Mandou o secretário
anotar isso no protocolo no mesmo instante, apertou na mão a fivela
encontrada na areia pelo secretário e disse solenemente: — Está
na hora!
Nesse instante, todos os presentes
puseram-se em movimento, desceram pela larga escada de mármore entre
os muros de rosas que exalavam um aroma nauseabundo, descendo mais e
mais até o muro do palácio, até os portões que levavam à grande
praça, pavimentada com pedras, no fim da qual se avistavam as
colunas e estátuas da liça de Yerushalaim.
Assim que o grupo saiu do jardim para
a praça e subiu no amplo palanque de pedra que ali reinava, Pilatos,
olhando através das pálpebras semicerradas, tomou ciência da
situação. O espaço pelo qual havia passado, ou seja, o espaço
entre o muro do palácio até o palanque, estava vazio, porém, à
sua frente, Pilatos já não via a praça — a multidão a tomara. A
multidão também teria tomado o próprio palanque e aquele espaço
aberto, se não fosse retida pelas fileiras triplas dos soldados de
Sebastião, à esquerda de Pilatos, e pelos soldados da coorte
auxiliar da Itureia, à sua direita.
Então, Pilatos subiu ao palanque,
apertando mecanicamente no punho a dispensável fivela e franzindo os
olhos. Não era por causa do sol que o procurador estava franzindo os
olhos, não! Por algum motivo, ele não queria ver o grupo de
condenados que, como sabia perfeitamente, subiria atrás dele no
palanque.
Assim que o manto branco com
aplicações púrpuras surgiu no alto do penhasco de pedra sobre a
beirada do mar humano, uma onda sonora bateu nos ouvidos do invisível
Pilatos: “Aaahh...” Ela começou baixinho, nasceu ao longe, perto
do hipódromo, depois se tornou retumbante e, sustentando-se por
alguns segundos, começou a diminuir. “Eles me viram”, pensou o
procurador. A onda não chegou ao ponto mais baixo e,
inesperadamente, começou a crescer novamente, oscilando, aumentou
ainda mais alto do que a primeira. E, na segunda onda, como fervilha
a espuma numa vala marítima, ferveu um assobio e diversos gemidos
femininos isolados foram ouvidos através das trovoadas. “Eles
subiram ao palanque...”, pensou Pilatos, “e os gemidos são de
algumas mulheres pisoteadas quando a multidão avançou”.
Ele aguardou um tempo, sabendo que
nenhuma força jamais faria a multidão se calar, enquanto ela não
extravasasse tudo aquilo que havia acumulado dentro dela e que não
se calaria sozinha.
E, quando esse momento chegou, o
procurador estendeu o braço direito para o alto e o último ruído
soprou da multidão.
Então, Pilatos encheu o peito o
quanto pôde de ar quente e gritou, e sua voz rouca soou sobre
milhares de cabeças:
— Em nome do imperador César!
Nesse instante, um grito metálico e
entrecortado bateu algumas vezes em seus ouvidos — nas coortes,
erguendo as lanças e os estandartes para o alto, os soldados deram
um terrível grito:
— Viva César!
Pilatos levantou a cabeça e a expôs
diretamente ao sol. Sob as pálpebras explodiu um fogo verde, dele
seu cérebro ardeu e, sob a multidão, voaram as palavras roucas em
aramaico:
— Quatro criminosos, presos em
Yerushalaim por assassinato, incitação à rebelião e desrespeito
às leis e à fé, foram sentenciados à vergonhosa execução, ao
enforcamento em postes! E essa execução será no monte Gólgota! Os
nomes dos criminosos são: Dismas, Gestas, Bar-Raban e Ha-Notzri.
Ei-los diante de vocês!
Pilatos apontou com a mão direita sem
ver nenhum dos criminosos, mas sabia que estavam lá, no lugar onde
deveriam estar.
A multidão respondeu com um longo
rumor de admiração ou alívio. Depois que ela cessou, Pilatos
prosseguiu:
— Porém, serão executados somente
três deles, pois, de acordo com a lei e a tradição, em homenagem à
festa da Páscoa, a um dos condenados, escolhido pelo Pequeno
Sinédrio e com a aprovação do poder romano, o benevolente César
imperador devolve a vida miserável!
Pilatos gritava as palavras e, ao
mesmo tempo, ouvia como o rumor era substituído por grande silêncio.
Agora, não se ouvia uma respiração sequer, nenhum barulho chegava
a seus ouvidos e houve um instante em que pareceu que tudo ao seu
redor havia sumido. A cidade odiada por ele tinha morrido e somente
ele estava lá, queimado pelos raios verticais, com o rosto voltado
diretamente para o céu. Pilatos ainda manteve o silêncio e depois
começou a gritar:
— O nome daquele que agora será
libertado na presença de vocês...
Ele fez mais uma pausa, segurando o
nome, conferindo se havia dito tudo, pois sabia que a cidade morta
iria ressuscitar depois de anunciado o nome do felizardo e que mais
nenhuma palavra seria ouvida.
“Pronto?”, sem pronunciar um som
sequer, Pilatos cochichou para si mesmo. — Pronto. O nome!
E, esticando a letra “r” sobre a
cidade calada, ele gritou:
— Bar-Raban!
Nesse instante, pareceu-lhe que o sol,
tilintando, explodira sobre ele e encharcara seus ouvidos com fogo.
Nesse fogo esbravejavam berros, gritos, gemidos, gargalhadas e
assobios.
Pilatos virou-se e caminhou para trás
pelo palanque até os degraus, sem olhar para nada, além dos sabres
coloridos sob seus pés para não tropeçar. Ele sabia que agora, ao
virar as costas, eram atiradas ao palanque, feito granizo, moedas de
bronze e tâmaras; que, na multidão rumorosa, as pessoas, pisoteando
umas às outras, subiam nos ombros para ver o milagre com seus
próprios olhos: como uma pessoa que já estava nas mãos da morte
escapara dessas mãos! Como os legionários lhe retiravam as cordas,
causando-lhe involuntariamente uma dor ardente nas mãos torcidas
durante os interrogatórios, como ele, fazendo careta e suspirando,
ainda sorria com um sorriso insensato e louco.
Ele sabia que, nesse momento, o corpo
de tropas estava levando para os degraus laterais os três com as
mãos amarradas, para levá-los até a estrada para o ocidente, para
fora da cidade, até o monte Gólgota. Somente quando se viu atrás
do palanque, no fundo, Pilatos abriu os olhos, sabendo que agora
estava seguro, não podia mais ver os condenados.
Ao gemido da multidão, que começava
a se acalmar, misturavam-se, e eram perceptíveis, os estridentes
gritos dos arautos que repetiam o que o procurador gritara do
palanque, uns em aramaico, outros em grego. Além disso, aos seus
ouvidos, voou o som que se aproximava, fragmentado e matraqueado, do
tropel dos cavalos e da trombeta, que tocou algo curto e alegre. A
esses sons respondeu um assobio estridente de meninos sentados nos
telhados das casas da rua que saía do mercado e terminava na praça
do hipódromo, e os gritos de “Cuidado!”.
Um soldado, que estava parado sozinho
no espaço liberado da praça com um estandarte na mão, agitou-o
preocupado. Então o procurador, o legado da Legião, o secretário e
o corpo de tropas pararam.
A ala da cavalaria, trotando cada vez
mais rápido, voou pela praça para atravessá-la pela lateral,
passando diante do amontoado de gente e a seguir pela travessa sob o
muro de pedra, no qual se estendia uma parreira, que levava à
estrada mais curta para o Gólgota.
Voando a trote, quando o comandante da
ala, pequeno como um menino e escuro como um mulato — um sírio —,
alcançou Pilatos, gritou algo forte e puxou a espada da bainha. O
maldoso cavalo murzelo, transpirando, afastou-se bruscamente e
empinou-se. Embainhando a espada, o comandante chicoteou o cavalo no
pescoço, acertou o passo e trotou para a travessa, começando a
galopar. Seguindo-o, os três cavaleiros lado a lado voaram numa
nuvem de poeira, as pontas das lanças leves de bambu começaram a
pular e eles passaram diante do procurador, parecendo ainda mais
mulatos sob os turbantes brancos, com os rostos alegres e dentes
brilhantes e arreganhados.
Levantando poeira até o céu, a ala
irrompeu na travessa, e o último a passar a galope diante de Pilatos
foi um soldado com uma trombeta nas costas que brilhava ao sol.
Protegendo o rosto da poeira com a mão
e fazendo careta involuntariamente, Pilatos continuou a andar,
dirigindo-se aos portões do jardim do palácio, e atrás dele
caminhavam o legado, o secretário e o corpo de guardas.
Eram aproximadamente dez horas da
manhã.
Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida
quarta-feira, 29 de abril de 2026
Entre o ser e as coisas
Onda e amor, onde amor, ando indagando
ao largo vento e à rocha imperativa,
e a tudo me arremesso, nesse quando
amanhece frescor de coisa viva.
Às almas, não, as almas vão
pairando,
e, esquecendo a lição que já se
esquiva,
tornam amor humor, e vago e brando
o que é de natureza corrosiva.
N’água e na pedra amor deixa
gravados
seus hieróglifos e mensagens, suas
verdades mais secretas e mais nuas.
E nem os elementos encantados
sabem do amor que os punge e que é,
pungindo,
uma fogueira a arder no dia findo.
Carlos Drummond de Andrade, em Claro Enigma
Pratos variados
O nosso garçom no Tre Scalini, na
Piazza Navona de Roma, desaparecia por longos períodos.
Desconfiava-se que fosse visitar a família ou jantar no restaurante
ao lado. Quando reaparecia, era disputado aos gritos por diversas
mesas, em diversos idiomas.
Desprezava a todos com a mesma
empáfia. Mas conseguimos, finalmente, fazer o nosso pedido. Dizer
que a massa estava perfeita é não dizer nada. O difícil é comer
uma massa que não seja perfeita na Itália. Extraordinário estava o
prato de antipasti, metade dos quais eu nem consegui
identificar mas comi com igual entusiasmo. Só de azeitonas havia
quatro variedades. Depois da massa pedimos — aproveitando uma das
infrequentes aparições do garçom — o sorvete Tartufo, que faz a
fama do restaurante. É uma espécie de torta de chocolate gelada e a
fama é merecida. E a Piazza Navona fica ainda mais bonita depois do
jantar.
A história de que em Paris se come
bem em qualquer boteco é mito que não resiste ao primeiro boteco.
Numa brasserie perto do Arco do Triunfo, à qual recorremos
porque já era tarde e em Paris a gente caminha, e nunca chega ao
Treviso, comi certamente a pior omelete da minha vida. Os
restaurantes franceses, de qualquer categoria, estes sim raramente
falham. Num restaurante da Madeleine, que por certo não receberia
nem um cumprimento do Guide Michelin, quanto mais uma estrela, comi
um magret de canard, que é uma espécie de bife feito de
alguma misteriosa parte do pato, fantástico. Precedido de ostras e
acompanhado de vinho nacional.
Na Place des Vosges, a mais antiga de
Paris, descobrimos um restaurante que, pelo aspecto, antecedia a
praça: Monsieur Não Sei o Que de Cocconnas. Primeiro uma terrine
de canard e depois um peixe coberto com molho crocante
indescritível que foi a melhor coisa que comi nesta viagem. A Lúcia
pediu o pot au feu, um grande cozido no qual entrava,
desconfio, até o plano qüinqüenal do Giscard D’Estaing. O vinho
foi um tinto da região do Rhône, esfriado para não destoar do
peixe.
Fizemos uma única extravagância
alimentar em Paris, embora na verdade nada em Paris, fora a paisagem,
seja muito barato. Fomos comer no Les Belles Gourmandes, cuja
existência o Michelin pelo menos reconhece. Carré d’agneau
para duas pessoas. Pela primeira vez compreendi o verdadeiro sentido
das palavras cordeiro de Deus. Comecei a traduzir a conta para
cruzeiros, mas desisti no segundo zero. Certas coisas não ajudam a
digestão.
Fomos jantar com a Berenice Otero —
que está ótima — no Coup Chou, que já conhecíamos mas que
merece várias revisitas. O meu prato estava muito bom, mas confesso
que passei todo o jantar de olho no prato da Berenice, que tinha
tanta coisa para contar que nem tocava na comida. A educação foi
mais forte e cheguei ao fim da noite sem avançar no prato de
ninguém, no entanto. Mas estive tentado. Outra constatação
parisiense: o Marco Aurélio Garcia está cozinhando cada vez melhor.
E está experimentando com sobremesas!
O nosso hotel em Londres, o
Cumberland, tem dois restaurantes. Um é o L’Épée d’Or, que
justifica o nome de espada especializando-se em coisas no espeto,
tais como o prato que os franceses chamam de brochette mas os
gaúchos — tá doido — preferem chamar de xixo, uma
corruptela do shisykebab, e que em certas churrascarias locais
devia se chamar corruptela mesmo. O outro restaurante do Cumberland é
o Carvery, onde, por um preço fixo, você pode se servir quantas
vezes quiser de grandes assados de carne de rês ou porco, expostos
num balcão supervisionado por chefs de chapelão. Fomos uma
vez no L’Épée d’Or.
O serviço em quase todos os
restaurantes ingleses a não ser os mais tradicionais é feito por
imigrantes, uma variedade de raças e sotaques que só tem uma coisa
em comum: o péssimo serviço. Hindus, indianos ocidentais,
espanhóis, portugueses e italianos distraem-se tanto
desentendendo-se, que esquecem de atender as mesas. No L’Épée
d’Or a comida não justifica o caos, e ainda por cima há o perigo
sempre presente de uma briga acabar com espetos voando sobre a
clientela. Não voltamos lá. No Carvery, da primeira vez que
tentamos entrar, o maître — português — nos informou que
era impossível, o restaurante fecharia dali a pouco e ainda havia 50
pessoas esperando a vez. Tentamos na noite seguinte. Impossível, nos
disse o maître. Desta vez, um espanhol. Havia 80 pessoas
esperando. “Amanhã ele diz que tem 100”, apostei. Voltamos na
noite seguinte só para conferir a aposta. “Impossível”, disse o
italiano, “há 100 pessoas esperando para sentar.” Saí frustrado
mas satisfeito. Tentamos ainda outro dia e desta vez — surpresa! —
conseguimos entrar. A carne é fantástica. E a vantagem é que você
é servido por brasileiros solícitos: você mesmo.
Quanto mais eu conheço restaurantes
chineses por aí mais gosto do Pagoda de Porto Alegre. Com a possível
exceção do Empress of China, em São Francisco, ainda não
encontrei nenhum que se iguale. Em Londres, talvez tenha nos faltado
sorte. Há dezenas de chineses no Soho, a gente escolhe um, entra, e
depois fica pensando que o bom provavelmente é o do lado. Já sei,
já sei. A solução é, da próxima vez, escolher um para entrar e
entrar no do lado. Fomos a apenas um restaurante, digamos assim, mais
encorpado, em Londres. O Bentley’s da Swallow Street, que já
conhecíamos de outra viagem e que nos fora recomendado pelo Armando
Coelho Borges. Coisas do mar. Continua bom. Também fomos na Chesa,
um dos três restaurantes do centro suíço de turismo, excelente. E
eu que pensei que já conhecia batatas suíças…
Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora
Diário de Bernardo Soares
103.
Cultivo o ódio à ação como uma
flor de estufa. Gabo-me para comigo da minha dissidência da vida.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
O Jardim Perdido
Algumas frases no livro se tornaram
desde o início objeto de lenda e paródia. Havia o começo,
surpreendente numa obra de antropologia e de viagem pelo Amazonas:
“Je haïs les voyages et les explorateurs” (“Odeio as
viagens e os exploradores”). Havia a coda final — um monstro de
uma sentença, cláusulas e mais cláusulas ornamentadas se
empilhando, um sforzando barroco trinando até pousar na
imagem, ao mesmo tempo cômica e mágica, do “breve relance do
olhar, carregado de paciência, serenidade e perdão recíproco que
um entendimento involuntário às vezes permite trocarmos com um
gato” (a tradução em inglês é uma boa tentativa: “the
brief glance, heavy with patience, serenity, and mutual forgiveness,
that, through some involuntary understanding, one can sometimes
exchange with a cat”, embora perca o páthos de “alourdi
de patience” e a insinuação de uma quase graça teológica em
“pardon réciproque qu’une entente involontaire permet
parfois”). Tristes trópicos agora tem quase vinte anos.
No intervalo, Claude Lévi-Strauss realizou em larga medida aquela
revolução na antropologia, aquela renovação do vocabulário, dos
rumos da argumentação própria ao “estudo do homem”, que eram
pleiteadas por Tristes trópicos. Até onde alcança o clima
geral da cultura letrada, ele é não só o mais celebrado
antropólogo-etnógrafo vivo, mas também um escritor cujos tratados
técnicos visivelmente especializados conseguiram penetrar na
sensibilidade geral. O “estruturalismo” de Lévi-Strauss, termo
na moda, mas não muito definido, de certa forma parece constituir o
eixo dos trabalhos atuais em linguística e psicologia, em estudos
sociais e estética. Mas a fama de Lévi-Strauss, a influência que
ele exerce no tom de nossa cultura e de nossa palração de leitores
instruídos (o reflexo pálido e suave que os meios de comunicação
de massa devolvem à vida do espírito), tem uma forma paradoxal. Ela
cresceu inversamente à posição dele entre seus pares
profissionais. Do ponto de vista dos colegas antropólogos e
etnógrafos, a curva segue mais ou menos este traçado: apesar da
brevidade do trabalho de campo no Brasil nos anos 1930 e da
metodologia talvez controversa, depois Lévi-Strauss produziu um
estudo clássico das relações de parentesco, As estruturas
elementares do parentesco, publicado em 1949. Junto com vários
artigos técnicos escritos durante os anos que passou nos EUA e um
pouco depois, essa opus constitui um desenvolvimento
fundamental da compreensão do parentesco e da sociedade primitiva,
que se iniciara com Marcel Mauss, Émile Durkheim e a escola
antropológica britânica. No início dos anos 1950, em colaboração
com Roman Jakobson, Lévi-Strauss começou a defender a existência
de analogias fundamentais, de reciprocidades conceituais e
metodológicas entre a linguística e a antropologia. Foi também um
avanço estimulante. Certamente há muito a se aprender com a
possível concordância entre a estrutura formal de uma língua e as
estruturas sociais que ela organiza e reflete (a observação de
Lévi-Strauss de que uma sociedade não pode proibir aquilo que não
sabe nomear e classificar, e de que o reconhecimento do parentesco
permitido ou proibido depende de uma precisão correspondente na
designação linguística, é obviamente profunda e preciosa). Mas
esses paralelos, quando podem ser demonstrados, precisam ser
manuseados com extrema cautela. Saltar da escala monográfica para um
modelo universal de funcionamento da mente humana, construir uma
vasta teoria da mente e da evolução sobre uma base tão frágil, é
abandonar os ideais da ciência. É isso, dizem os antropólogos, que
Lévi-Strauss fez com Tristes trópicos e continua a fazer
desde então. Ele pode ser um escritor de talento, um criador de
mitos modernos, uma espécie de filósofo, mas não é mais um
antropólogo que tem responsabilidade perante a opaca monotonia do
detalhe, o “este é o caso”. Há um precedente famoso. Para
poetas e dramaturgos, para o público em geral, sir James Frazer era
o príncipe dos antropólogos; para os colegas de profissão e
sucessores imediatos, era um fiandeiro de palavras preso no denso
nevoeiro que ele mesmo tinha criado. Assim, as “Mitológicas”, a
“mitologia dos mitos” em quatro volumes que tem ocupado
Lévi-Strauss nos últimos quinze anos ou mais, serão — quando a
tradução estiver completa — nosso Ramo de ouro.
É um tipo de constelação que
reconhecemos: um especialista ultrapassa sua área técnica e adquire
grande renome; os colegas que deixou para trás cerram fileiras num
repúdio melindrado. É a história de Marx e os economistas
acadêmicos, de Freud e os psicólogos contemporâneos, de Toynbee e
os historiadores. A situação não se abranda quando o novo “astro”
expressa sua impaciência com a mesquinharia, o paroquialismo
corporativo de seus pares de outrora. (Lévi-Strauss, aliás, é um
mestre do desdém.) Depois de um período — assim dizem a história
e a hagiografia intelectual —, descobre-se que a obra do grande
dissidente alterou a totalidade do campo com o qual rompera, e os
detratores sobrevivem como ácidas notas de rodapé nas memórias do
Mestre.
A resposta a isso precisa ser
incomodamente dupla, afirmativa e negativa. Se as análises de Marx
sobre o conflito social são ou não são “científicas”, se suas
previsões têm ou não têm alguma força que se possa verificar,
são questões que continuam controvertidas. Ninguém duvidaria da
envergadura das realizações de Freud, da força moldadora de sua
concepção filosófico-literária sobre o clima dominante da
sensibilidade ocidental. Mas o modelo terapêutico que ele procurou
universalizar e os fundamentos neurofisiológicos que tentou
estabelecer para esse modelo vêm se revelando cada vez mais
fugidios. As correntes “avançadas” dos estudos recentes da mente
e do comportamento humano não são freudianas. O quadro que temos
não é, pelo menos não inequivocamente, o do gênio individual, da
rejeição invejosa dos colegas menos dotados e da apoteose
subsequente. O que parece se dar é um desenvolvimento apenas dentro
de uma área sensível de um campo tradicional. Esse desenvolvimento,
que de início observa as convenções e a linguagem profissional do
campo, logo se torna grande demais, problemático demais, para caber
dentro das categorias estabelecidas. Ele rompe e arrasta consigo uma
parte desse seu campo. Surgem novos ordenamentos: a “linguística
antropológica”, a “semiótica” (que é a investigação
sistemática dos signos e dos símbolos) surgiram da crise da
antropologia clássica e do “impulso gravitacional” de
Lévi-Strauss rumo a uma concepção conjunta da linguagem e da
estrutura biológico-social. A querela entre o grande homem e seus
colegas pragmáticos é, muitas vezes, sintoma de transição e
reajuste. Em certo sentido, a relação de Lévi-Strauss com a
antropologia desde o princípio foi tão ambivalente, tão
intrinsecamente subversiva quanto, digamos, a relação de Marx com a
teoria monetária e econômica clássica. Essa “duplicidade”,
essa provocação, explica a opacidade e a importância de Tristes
trópicos.
A nova tradução e edição
(Atheneum, 1973) supera a versão de 1961. Por razões que nunca
ficaram inteiramente claras, vários capítulos foram omitidos da
edição inicial em inglês; agora estão incluídos. Foram
incorporadas as alterações que Lévi-Strauss fez à edição
francesa de 1968. Traduzir Lévi-Strauss é uma tarefa não só
árdua, mas também feita sob a sombra exigente e rigorosa do autor.
Embora tenham adotado um partido às vezes um pouco cansativo e
dilatado demais, justamente com a intenção de esclarecer, de
dissecar a retórica sinuosa do original, John e Doreen Weightman
realizaram um trabalho admirável. Não raro, quando dificuldades
especiais atrapalham a leitura, deixamos a linguagem de Lévi-Strauss
e recorremos à deles. E, sendo os tradutores das “Mitológicas”,
os Weightman mostram uma perspicácia inigualável ao verter a gênese
do vocabulário de Lévi-Strauss, ao ver onde e como se iniciaram
algumas de suas atitudes características.
Num determinado nível, Tristes
trópicos é uma autobiografia intelectual, ironicamente ciente das
distorções, das autodramatizações, complacentes ou críticas,
inevitáveis num autorretrato. Mas as lembranças de Lévi-Strauss de
sua carreira acadêmica, ao mesmo tempo brilhante e apaticamente
vazia, levam a uma passagem que melhor pode fornecer a chave de sua
obra. Por volta dos dezesseis anos de idade, ele conheceu as teorias
de Freud e os textos fundamentais de Marx. Viu em ambos uma espécie
de geologia, uma promessa da compreensão em profundidade, uma
estratégia de atravessar a superfície das aparências no homem e na
história social:
A passagem é difícil, mas oferece
uma pista inequívoca. Combinando Marx e Freud (em relação aos
quais Lévi-Strauss se mantém em certa posição de igualdade),
usando o paradigma da geologia, com suas noções de superfície e
estratos subjacentes e formadores — paradigma que já sugere a
linguística moderna —, devemos desenvolver uma espécie de
entendimento orgânico e unificador do que “significam as coisas”.
Nesse estágio inicial de seu pensamento, Lévi-Strauss deu a esse
entendimento da estrutura o nome de “super-racionalismo”, que não
é um termo muito útil. Hoje ele poderia chama-lo de “mythologique”,
uma lógica racional das maneiras (“mitos”) como o homem
representa, enuncia e controla sua condição biológica, psíquica e
social. Apenas tal compreensão, palavra que supõe uma apreensão
completa, apenas tal understanding,
palavra que, com seu prefixo under-,
implica descer, se aprofundar, poderiam justificar o orgulhoso nome
“antropologia”, estudo do
homem. Ser um antropólogo nesse sentido total significava
preencher e completar as análises socioeconômicas do marxismo com a
leitura freudiana da consciência. Para isso, o jovem Lévi-Strauss
estava disposto a abandonar a filosofia e aceitar um posto secundário
para dar aulas em São Paulo.
O conflito entre esta concepção e a
concepção normal da etnologia e do trabalho de campo é mais do que
evidente. Lévi-Strauss empreendeu longas expedições, fisicamente
penosas, pelo interior do Brasil. Tristes trópicos traz um
relato detalhado de sua vida com vários grupos indígenas. Num dos
casos, pode ter sido o primeiro contato com um homem branco desde
alguns encontros casuais no século XVI. Suas anotações sobre a
alimentação, os costumes sexuais e os artefatos dos índios eram
disciplinadas e copiosas. Comeu comida bichada, passou sede nos
grandes planaltos, percorreu entre tropeções a floresta virgem. Mas
o foco, o enquadramento do diagnóstico, nunca foi o do antropólogo
tradicional; diante dos elaborados desenhos faciais das mulheres
kaduveu, nenhum “cientista” de campo concluiria que elas:
Nenhum psicólogo comportamental,
observando as palhoças isoladas no interior brasileiro, afirmaria
confiante que aqueles grupos de habitantes “desenvolveram várias
formas de loucura” para conseguir enfrentar a chuva, a desnutrição
e o abandono. Além disso, quando Lévi-Strauss atravessa os ermos
lunares do interior, o que o fascina não é tanto a etnografia do
grupo de nhambiquaras com que está viajando: é a relação do mundo
ameríndio com a linha do telégrafo que se estende, semiabandonada,
pelas vastidões estéreis diante deles.
O simbolismo é crucial. Como a
famosa imagem de Joseph Conrad de uma canhoneira disparando tiros
absurdos numa margem costeira da impenetrável floresta africana, a
evocação da linha do telégrafo pelo Mato Grosso, em Lévi-Strauss,
anuncia uma dúvida fundamental. Expressa as ilusões rapaces do
homem branco e da tecnologia em suas relações com o mundo
primitivo. Mas a rapacidade e as ilusões se estendem, e estão
talvez manifestas com ironia ainda maior, na própria atividade da
antropologia. A obsessiva percepção de Lévi-Strauss nesse ponto é,
como ele mesmo ressalta, uma redescoberta: a natureza dúbia da
abordagem antropológica, do estudo racional do homem como foi
desenvolvido pelo Ocidente, já era evidente para Rousseau, o
verdadeiro mestre de Lévi-Strauss. Apenas o homem ocidental —
começando em Heródoto — gerou uma curiosidade sistemática sobre
as outras raças e culturas; somente ele saiu para explorar os cantos
mais remotos da terra em busca da classificação, da definição por
contraste e comparação de sua própria superioridade. Mas essa
busca, tantas vezes desinteressada e altruísta, levou consigo a
conquista e a destruição. O pensamento analítico tem em si uma
estranha violência. Conhecer analiticamente é reduzir o objeto de
conhecimento, por mais complexo, por mais vital que possa ser,
simplesmente a isto: um objeto. É desmembrar. Mais do que qualquer
outro “conhecedor”, o antropólogo leva a destruição junto com
ele. Nenhuma cultura primitiva sobrevive incólume à sua visitação.
Mesmo os presentes que leva — medicamentosos, materiais,
intelectuais — são fatais para as formas de vida, tal como as
encontrou. A busca ocidental do conhecimento é, num sentido trágico,
a exploração final.
É essa fatalidade que confere a
Tristes trópicos seu registro elegíaco, até apocalíptico.
“Uma civilização proliferante e demasiado agitada rompeu o
silêncio dos mares para sempre.” Aonde quer que o viajante branco
vá, ele encontra a desolação, os vestígios cruéis da pilhagem e
da doença trazidas por suas conquistas anteriores. As tribos índias,
as paisagens que o jovem Lévi-Strauss encontrou não eram edênicas,
não eram “primitivas” em sentido puro. Encarnavam uma longa
crônica de infecção, destruição ecológica e deslocamento
forçado. O que tornava os povos da floresta inacessíveis não era
tanto o isolamento geográfico ou o terreno acidentado. Era o fato
brutal de que complexos grupos étnico-linguísticos, antes à
vontade num amplo território, agora estavam reduzidos a poucos. “Até
onde sei, ninguém voltou a ver os mundés desde minha visita, exceto
uma missionária que encontrou um ou dois deles logo antes de 1950,
no Guaporé de Cima, onde três famílias tinham procurado refúgio.”
A dizimação é a culpa irreparável do homem branco. Mas não
exclusivamente. Lévi-Strauss é um observador demasiado sutil,
demasiado irônico para não sugerir que há na ruína das culturas
primitivas um mecanismo ainda mais secreto de limitação, de uma
inevitável inadequação. Os primeiros exploradores a chegar ao
Brasil e à América Central encontraram civilizações que tinham
“alcançado o pleno desenvolvimento e perfeição de que suas
naturezas eram capazes”. A ressalva é obscura, mas vem tingida de
um fatalismo quase calvinista.
Esse “calvinismo” (Lévi-Strauss,
pessoalmente, preferia falar em “pessimismo schopenhaueriano”)
gera sua própria alegoria punitiva. O que o etnógrafo encontrou em
suas incursões amazônicas não foi o paraíso perdido, e sim uma
paródia e uma destruição deliberada dos últimos pomares do Jardim
do Éden. Era como se um homem, expulso do Jardim por ter colhido o
fruto proibido da árvore do conhecimento — coleta essa que define
sua eminência e solidão no mundo orgânico —, tivesse voltado
furioso e começasse a arrancar todo e qualquer vestígio do Éden
perdido que encontrasse em sua paisagem. Lévi-Strauss percebe na
catástrofe ecológica, no tratamento assassino e, no entanto, também
suicida que damos ao meio ambiente, muito mais do que mera ganância
ou estupidez. O homem é possuído de alguma obscura fúria contra
sua própria lembrança do Éden. Aonde quer que vá e encontre
paisagens ou comunidades que parecem se assemelhar à sua imagem da
inocência perdida, ele arremete e espalha destruição.
Assim, se Tristes trópicos é
um dos primeiros clássicos da atual angústia ecológica, também é
muito mais do que isso; em última análise, é uma alegoria
moral-metafísica do fracasso humano. Avança numa arrogante
melancolia até a imagem do globo — que se resfria, esvaziado da
humanidade, purificado do lixo humano — que aparece na coda das
“Mitológicas”. Há melodrama nessa antecipação, há certa
pomposidade (e é uma bela e acertada coincidência que a cátedra
que Lévi-Strauss irá ocupar dentro de poucas semanas na Academia
Francesa seja a de Montherlant). Mas há também uma dor profunda e
genuína. A “antropologia”, diz Lévi-Strauss concluindo Tristes
trópicos, agora pode ser vista como “entropologia”: o estudo
do homem se tornou o estudo da desintegração e da extinção certa.
Não existe trocadilho mais sombrio na literatura moderna.
3 de junho de 1974
George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos
terça-feira, 28 de abril de 2026
Essa não!
Lili teve conhecimento dos antípodas,
na escola.
Logo que chegou em casa, começou a
deitar sabença pra cima da cozinheira. Falou, falou, e, como visse
que Sia Hortênsia não estava manjando nada, ergueu no ar o dedinho
explicativo:
— Imagine só que quando aqui é
meio-dia lá na China é meia-noite!
— Credo! Eu é que não morava numa
terra assim...
— Mas por que, Sia Hortênsia?
— Uma terra onde o dia é de
noite... Cruzes!
Mário Quintana, em Caderno H
Quarto capítulo — A Lição de Siqueleto
Uma vez mais Tuhair decide explorar os
matos vizinhos. A estrada não traz ninguém. Enquanto a guerra não
terminasse era mesmo melhor que nenhuma pessoa estradeasse por ali. O
velho sempre repetia:
— Alguma coisa, algum dia, há-de
acontecer. Mas não aqui, emendava baixinho.
De facto, a única coisa que acontece
é a consecutiva mudança da paisagem. Mas só Muidinga vê essas
mudanças. Tuahir diz que são miragens, frutos do desejo de seu
companheiro. Quem sabe essas visões eram resultado de tanto se
confinarem ao mesmo refúgio. Por isso ele queria uma vez mais
partir, tentar descobrir nem sabia o quê, uma réstia de esperança,
uma saída daquele cerco.
— Você quer sair, não é?
— Quero, tio. Esta estrada está
morta.
— Esta estrada está morta!? Mas
não entende que isso é muito bom, esta estrada estar morta é que
nos dá boa segurança?
— Mas nós, desta maneira, não
vamos a lado nenhum...
— Isso quer dizer que também
aqui não chega ninguém.
O velho pondera: não valia a pena
insistir. O melhor seria uma mentira, dessas tecidas pela bondade.
Diria ao miúdo que aceitava partir. Depois fingiria afastar-se,
enquanto andavam em círculos. Regressariam sempre ao machimbombo, à
mesma estrada de onde haviam partido. Assim ele fizera desde a
primeira vez que saíram da estrada.
Nessa tarde, o velho comanda uma
dessas falsas viagens. Primeiro, seguem ao longo da picada. A estrada
onde moram surge a Muidinga com novas vistas, parecendo pentear a
savana, risco ao meio. Só depois derivam por atalhos e trilhos. No
sossego da paisagem nenhuma coisa pedia urgência. Contudo, Muidinga
não está tranquilo: sempre o susto espreita no farfalhar da
folhagem, o segredar da morte, essa infatigável coscuvilheira. Vão
pisando caminhos saudosos do pé de gente. Tuahir segue à frente,
abrindo trilhos por onde depois o rapaz avança. De repente, o mundo
desaba, o chão desaparece. Tuahir e Muidinga se abismalham, tombados
numa enormíssima cova. É um desses buracos onde a noite se esconde
com o rabo de fora.
— Estamos onde, Tuahir?
— Nem fale. Deve ser morada do
sapo gigante, o tal comedor de escuro.
Ficam sentados, se acostumando ao
nada. Depois, seus olhos lusco-focaram: havia uma rede cobrindo as
paredes do buraco. Nenhum de ambos tem dúvida: estão dentro de uma
armadilha. Só restava esperar. Conversam para distrair os maus
espíritos que sempre aproveitam o silêncio para engordar intenções.
— Sabe o que eu me estou a
lembrar, tio? Lembro de Farida.
— E quem é essa?
— A mulher dos cadernos,
apaixonada de Kindzu.
Tuahir sorri da confissão, cheio de
idade. Sobre as mulheres ele, nos tempos, emitira opiniões que
vinham do coração. Agora, nem tanto:
— Há mulheres que são chuva,
outras cacimbo. Essa tal Farida deve ser uma que vale a pena a gente
se despentear com ela.
Muidinga vai fingindo que escuta,
preocupado em estudar as paredes do buracão e avaliar modos de sair
daquela prisão. O tempo passa sem solução e os dois adormecem,
cada um para seu lado. Muidinga sonha, agitado. Lhe surgem, confusas,
imagens de um tempo que ele nunca foi capaz de tocar. Muidinga se
revê menino, saindo de uma escola. Mas nenhum rosto é legível,
mesmo a escola não possui fachada. Confusas vozes lhe afluem: chamam
por si! Lhe chamam um outro nome. Tenta desesperadamente entender
esse nome. Mas os sons se desfocam, em eco de cacimbo. Depois, tudo
se esfuma, anoitece dentro de seu sonho. Na manhã seguinte, o miúdo
é o primeiro a acordar, o chão lhe doendo nas costas. Aquela noite
lhe dera a certeza: os sonhos são cartas que enviamos a nossas
outras, restantes vidas. Os cadernos de Kindzu não deveriam ter sido
escritos por mão de carne e ossuda mas por sonhos iguais aos dele.
A manhã ainda balbucia, a luz
pestaneja. Súbito, no meio do cacimbo, uma silhueta aparece. É
figura de gente. Muidinga se satisfaz, chama o companheiro:
— Acorda,Tuahir, nos vieram
salvar!
Festejam a chegada do intruso. Dão os
bons-dias mas não há resposta. O cacimbo se desfaz, ao sopro de uma
brisa. O vulto então se esclarece: é um velho alto, torto, usando
sobre o corpo nu uma gabardina comprida, maior que o seu tamanho. Um
dos olhos permanece fechado enquanto o outro está aberto. O olho de
serviço reveza-se, ora um ora outro. De vez em quando, tropeça no
excesso da pouca roupa. Fica espreitando, demorado, incrédulo. Por
fim, lhes lança uma rede. Ficam presos nas malhas, enredilhados como
peixes. Então o velho os puxa, os dois vão ajudando com as pernas a
subir, buraco acima. Saem mas ele não lhes solta. Traz a rede a
arrastar pelo chão, os dois lá dentro, iguais aos bichos caçados.
Quando por fim chegam a sua casa ele reforçou a rede com mais
amarras. Encara os prisioneiros com um só olho enquanto fala na
língua local. Tuahir traduz:
— Ele diz que nos vai semear.
— Semear?
— Não sabe o que é semear? É
isso que nos vai fazer. Ele quer companhia, quer que nasça mais
gente.
— O velho é doido, vai é matar
a gente.
Tuahir então combina com o moço: se
fingiriam doentes, estragados. Gemem, lançam feios cuspes e vómitos.
Mas o velho nem se impressiona. Vai buscar uma lata, abana-a, tirando
dela agudas estridências.
— Meu nome é Siqueleto.
Depois ele se apresenta com sua
estória. Enquanto fala vai sacudindo a lata como se acompanhasse uma
canção. Daquele lugar todos se tinham ido embora, por motivo do
terror. Os bandos assaltaram, mataram, queimaram. A aldeia foi
ficando deserta, todos partiram, um após nenhum. A família lhe
chamava o pensamento: venha connosco, já toda a gente foi embora!
Assim lhe rogavam na hora da partida. Ele respondia:
— Eu sou como a árvore, morro só
de mentira.
E agora perante os dois inesperados
visitantes ele repete as suas parecenças com as árvores que
renascem cada ano. Tuahir acompanha com dificuldade, a ausência de
dentes deforma as palavras do solitário aldeão.
— Sou velho, já assisti muita
desgraça. Mas igual como essa nunca eu vi. E abana a cabeça,
pesaroso.
— Estás triste, velho?,
pergunta-lhe Tuahir.
— Já não fico triste, só
cansado.
Era por causa do cansaço que ele não
abria os dois olhos de uma só vez. O idoso homem tinha, apesar de
tudo, seus pensamentos futuros. Para ele só havia uma maneira de
ganhar aquela guerra: era ficar vivo, teimando no mesmo lugar. Não
desejava nenhuma felicidade, nem sequer se deliciar com doces
lembranças. Lhe bastava sobreviver, restar como um guarda daquela
aldeia em ruínas. Agora ele amaldiçoa os que tinham saído dali.
— Satanhocos, hão-de comer
poeira!
Fala com raiva, todo levantado.
Depois, se zanga com os visitantes. Pontapina nas redes,
insultando-os: vocês são fugistas, vosso mal está nos dentes.
São os dentes que convidam a fome. É por isso eu tirei toda a
dentaria. Estão aqui, nesta lata. Abana a lata ferrugenta, os
dentes tintinam e ele sorri, satisfeito com o barulho.
— É minha música, essa.
Prossegue seus lamentos: nos dias
de hoje, os filhos mordem as mães quando ainda estão no ventre.
Vejam a pedra em que me sento: parece morta, enquanto não, vive
devagarinho, sem barulho. Como eu, conclui. Depois, se volta a
zangar, manifestivo. O velho braceja, boca fora dos bofes.
— Vão os dois para baixo da
terra, satanhocas!
Muidinga, então, se excede. Grita. O
velho aldeão se atenta para escutar, através da tradução de
Tuahir. Por que motivo ele não recebia bem os visitantes como
ordenavam as velhas leis hospitaleiras? De facto, responde o velho,
não é assim a maneira da nossa raça. Antigamente quem chegava era
em bondade de intenção. Agora quem vem traz a morte na ponta dos
dedos.
O rapaz insiste em explicar seus
motivos. As razões deles não eram iguais às dos que hoje cruzem os
matos. Tuahir interrompe-o pedindo calma. Lento como um rosário
desfia toda a estória, razão de estarem ali, requerendo tais
ousadias. Nem Muidinga sabia de tais dotes em seu companheiro. Tuahir
fala de um mundo que nem há, engraçando suas visões. Que a
nossa terra se ia aquietar, todos se familiariam, moçambicanos. E
nos visitaríamos, como nos tempos, roendo os caminhos sem nunca mais
termos medo.
— Verdade isso?, pergunta o
desdentado.
Longe se ouvem tiros, a guerra
continua a infligir seus estrondos. Tuahir prossegue, arrebatado: diz
que ouviu falar de países ricos onde a gente já nem tem que cavar a
terra: enterra-se a enxada, bem direito no chão. Do cabo brotam
árvores, plantas cheias de verde.
— Seremos assim também,
sentenciou.
Mas o desdentado aldeão já
anoitecera, queixo no peito. Seu mundo já era esse que Tuahir
anunciara, de extensos sossegos. O próprio Muidinga está como se
encantado com as palavras de Tuahir. Não é a estória que o fascina
mas a alma que está nela. E ao ouvir os sonhos de Tuahir, com os
ruídos da guerra por trás, ele vai pensando: “não inventaram
ainda uma pólvora suave, maneirosa, capaz de explodir os homens sem
lhes matar. Uma pólvora que, em avessos serviços, gerasse mais
vida. E do homem explodido nascessem os infinitos homens que lhes
estão por dentro”.
Tuahir se revela, por um instante,
como um curandeiro amenizando o universo, seu paciente. E ali está o
velho Siqueleto, sonecando em trégua de existir. Olhando o seu corpo
abandonado dá vontade de sorrir como se faz ao contemplar o sono
indefeso de uma criança. E os dois prisioneiros se entretêm a
fabricar um tabaco, feito de folha que o velho deixara cair. Fumam
com o gosto de serem eles mesmos o incenso, fumam como se em seus
dedos esfumasse o tempo, como se não houvesse rede os aprisionando.
Tuahir adivinhou a cabeça do rapaz:
— Acreditaste em mim? Fizeste
bem. Te dou um conselho: não confies em homem que não sabe mentir.
Foi então que, entre o lusco e o
fusco, vêem chegar a hiena. Ao princípio, parece é nada, só um
arrepio no capim, um suspiro do verde-escuro. Vai surgindo inteira,
balançando as patas traseiras. Depois, se senta, sozinhando,
espreitando o mundo de cá.
Sentem um aperto. Que vinha ali fazer
aquele bicho sem aprumo, despromovido das traseiras? Trazer má sorte
ao destino dos viventes, só podia ser esse o serviço desse animal.
A hiena permanece parada, em vistoria dos cheiros. Depois, se encosta
na própria sombra e, assim deitada, lambe os beiços. Faz medo
ver-lhe à maneira de doméstica, nem besta se parecia. Os bichos
temem o homem, desvizinham-se dele. Mas este, no entanto, deita no
lugar exclusivo de gente.
O velho, entretanto, desperta. Vendo o
espanto dos outros, esclarece a hiena: o bicho sentinelava sua vida.
Ninguém me aproxima, sorri o velho enquanto acaricia a hiena
que se enrosca, regalada. Aquele era o seu exército privado,
segurança e guarda-corpo. Tuahir avisa, em segredo:
— Não confia, miúdo. Aquilo nem
hiena não é.
A noite vai descendo. O frio aperta
enquanto se alarga um silêncio do tamanho da terra. Muidinga se
queixa. Lhe dói o corpo da posição que a rede lhe obrigava,
dobrado pelo umbigo. A dor, afinal, é uma janela por onde a morte
nos espreita. Sucumbente, se encosta a Tuahir a buscar um quentinho.
Mas o sono não lhe chega. Por um buraco da rede Muidinga consegue
retirar um braço. Apanha um pau e escreve no chão.
— Que desenhos são esses?,
pergunta Siqueleto.
— É o teu nome, responde Tuahir.
— Esse é o meu nome?
O velho desdentado se levanta e roda
em volta da palavra. Está arregalado. Joelha-se, limpa em volta dos
rabiscos. Ficou ali por tempos, gatinhoso, sorrindo para o chão com
sua boca desprovida de brancos. Depois, com voz descolorida trauteia
uma canção. Parece rezar. Com aquela cantoria Muidinga acaba por
adormecer. Não faz ideia quanto tempo dorme. Porque desperta em
sobressalto: o brilho de uma lâmina relampeja frente a seus olhos. O
velho Siqueleto armaneja uma faca.
— Andam comigo!
Solta Tuahir e Muidinga das redes. São
conduzidos pelo mato, para lá do longe. Então, frente a uma grande
árvore, Siqueleto ordena algo que o jovem não entende.
— Está mandar que escrevas o
nome dele.
Passa-lhe o punhal. No tronco Muidinga
grava letra por letra o nome do velho. Ele queria aquela árvore para
parteira de outros Siqueletos, em fecundação de si. Embevecido, o
velho passava os dedos pela casca da árvore. E ele diz:
— Agora podem-se ir embora. A
aldeia vai continuar, já meu nome está no sangue da árvore.
Então ele mete o dedo no ouvido, vai
enfiando mais e mais fundo até que sentem o surdo som de qualquer
coisa se estourando. O velho tira o dedo e um jorro de sangue repuxa
da orelha. Ele se vai definhando, até se tornar do tamanho de uma
semente.
Mia Couto, em Terra Sonâmbula
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