18/06/2026

Tom Ribeira | Marroquina

 

Adultos em excesso

Guimarães Rosa, escrevendo sobre a infância: “Não gosto de falar da infância. É um tempo de coisas boas, mas sempre com pessoas grandes incomodando a gente, intervindo, estragando os prazeres. Recordando o tempo de criança, vejo por lá um excesso de adultos, todos eles, mesmo os mais queridos, ao modo de soldados e policiais do invasor, em pátria ocupada. Fui rancoroso e revolucionário permanente, então. Já era míope e nem mesmo eu, ninguém sabia disso. Gostava de estudar sozinho e de brincar de geografia. Mas, tempo bom de verdade, só começou com a conquista de algum isolamento, com a segurança de poder fechar­-me num quarto e trancar a porta. Deitar no chão e imaginar estórias, poemas, romances, botando todo mundo conhecido como personagem, misturando as melhores coisas vistas e ouvidas! [Algumas de minhas distrações eram] armar alçapões para pegar sanhaços – e depois tornar a soltá­-los. Que maravilha! Puxar sabugos de espigas de milho, feito boizinhos de carro, brinquedo saudoso; atrelar um sabugo branco com outro vermelho, e mais uma junta de bois pretos – sabugos enegrecidos pelo fogo. Prender formiguinhas em ilhas, que eram pedras postas num tanque raso, e unidas por pauzinhos, pontes para as formiguinhas passar. Aproveitar um fiozinho d’água, que vinha do posto das lavadeiras, e mudar­-lhes duas vezes por dia a curso, fazendo­-o de Denúbio ou de São Francisco, ou de Sapakral­-lar (nome inventado), com todas as curvas dos ditos, com as cidades marginais marcadas por grupos de pedrinhas, tudo isso sob o voo matinal das maitacas de Nhô Augusto Matraca, no quintal.”

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas —
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas —,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno — não concebo bem o quê —,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.

Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa), em Revista Literária Presença, ed. 39

Ah, a democracia!

Propaganda de graça

Escrevendo praticamente a vida toda, a máquina de escrever ganha uma importância enorme. Irrito-me com esta auxiliar ou então agradeço-lhe fazer o papel de reproduzir bem o que sinto: humanizo-a.
Quando, há muito tempo, comecei a ser uma profissional de imprensa, tive uma máquina Underwood semiportátil. Essa máquina eu amei mesmo: ela durou tanto que aguentou eu escrever sete livros. Não esquecendo que tirei cópias e cópias do que escrevi. E que um livro meu, por exemplo, que deu em datiloscrito perto de 400 páginas, eu copiei 11 vezes porque, para esclarecer a mim mesma o que quero dizer, faço cópias e cópias. Ao final de sete livros, que valem 20 na máquina, esta começou a ter uma espécie de reumatismo. Comprei então uma Olympia portátil. Essa escreveu cinco livros, fora todas as muitas outras coisas que escrevi. Depois pareceu cansada e adoecia de vez em quando, precisando de um mecânico para auxiliá-la a continuar. Continuou bem mas me cansei de seu tipo pequeno demais.
Tive depois uma Remington portátil mas fazia ao bater dos dedos um barulho de lata-velha que me cansava. Troquei-a com Tati de Morais por uma Olivetti que é uma beleza em matéria de som: abafado, leve, discreto. Posso bater máquina à noite porque ela não acorda ninguém. Não me ofende com um som agudo que outras máquinas têm. Acho que de agora em diante só vou escrever nela. E se ela cansar, compro outra igual. Como máquina é parecida com uma pessoa e às vezes de puro cansaço enguiça, o ideal era comprar outra Olivetti como máquina suplente porque não posso me dar ao luxo de parar de escrever. Máquinas, qualquer uma, são um mistério para mim. Respeito-lhes o mistério.
E voltei, agora, não sei por quê, à velhinha Olympia portátil. Sou volúvel em matéria de máquinas.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Um Conto de Três Cidades



No ano passado, como já aconteceu tantas vezes, o Prêmio Nobel de Literatura foi uma bênção ambígua. Os escritos de Elias Canetti são extremamente pessoais e fragmentários. Brotam de recessos ocultos e se desdobram com cautelosa paciência. Devido ao Prêmio de 1981, muitas coisas suas que são menores têm sido reeditadas e traduzidas às pressas, perdendo-se o foco do conjunto da obra, que nasce e retorna a uma obra-prima, Auto de fé, seu primeiro e único romance. O próprio Canetti, além disso, reagiu à abrupta notoriedade que lhe foi concedida em seu 77o ano de vida com típica irascibilidade e hauteur. Tem criticado ferozmente, e não com toda justiça, aqueles que — em especial na Inglaterra, aos quais se dirigira como refugiado — não mantiveram seus livros em catálogo ou deixaram de lhes conceder atenção crítica durante os longos anos de (relativa) obscuridade antes do Nobel. Com tanto mais razão é importante que a autobiografia desse mestre da intransigência esteja agora disponível fora do alemão incisivo e marmóreo (Canetti é herdeiro de Kleist) em que foi escrita. Uma luz em meu ouvido é o segundo volume, traduzido por Joachim Neugroschel (Farrar, Straus & Giroux, 1982). Cobre a década — absolutamente decisiva para o desenvolvimento de Canetti como escritor e pensador — de 1921 a 1931. Começa quando Elias Canetti é um aluno de dezesseis anos de idade num Gymnasium de Frankfurt e termina quando dr. Canetti abandona a química, que havia cursado na Universidade de Viena, para se dedicar à alquimia mais poderosa de sua grande ficção. Mas o relato não se resume às memórias de uma testemunha excepcionalmente observadora e original; é uma imagem vívida da alta civilização centro-europeia à beira do abismo. Foi um risco e uma sorte que Canetti atingisse a maioridade interior numa era crepuscular.
Os leitores do primeiro volume, A língua absolvida, hão de lembrar a temível mãe viúva do escritor e as intimidades e tensões que uniam mãe e filho. A insensibilidade de madame Canetti podia ser uma tática, friamente estratégica como suas adivinhações. Na Frankfurt dos anos 1920, a inflação galopante estava levando à loucura e à ruína. Elias via a seu redor sintomas constantes de miséria e desespero humano. Diante de uma mulher desmaiando de fome na rua, o menino pediu à mãe alguma explicação, alguma centelha de compaixão. “Você está vivo?”, replicou madame Canetti, cáustica, e advertiu o filho que seria melhor ir se acostumando a tais visões se fosse virar médico e ganhar o dinheiro burguês que o protegeria de tais desgraças. Como o menino alucinado do conto de D. H. Lawrence “The Rocking-Horse Winner” [O ganhador do cavalo de balanço], o jovem Canetti ouvia em cada esquina as expectativas maternas bradando por dinheiro. Numa reação que em parte era astúcia, em parte histeria, o próprio Elias, alguns anos depois em Viena, cobriu páginas e páginas de papel com a palavra “dinheiro”. O susto que esse exercício causou a uma mãe já sempre dada a procurar conselhos médicos iria ajudar na libertação do filho, que saiu de casa.
Mas os últimos anos de escola trouxeram também outras emancipações. O ator Carl Ebert, que Canetti tinha admirado em papéis clássicos interpretados na Schauspielhaus de Frankfurt, apresentou uma leitura dominical de um épico babilônico mais antigo do que a Bíblia: “Descobri Gilgamesh, que teve um impacto em minha vida e em seu significado mais íntimo, em minha fé, minha força e expectativa, mais decisivo do que qualquer outra coisa no mundo”. De fato, o resumo que Canetti fez desse impacto pode servir de epígrafe à sua obra:

Senti o efeito de um mito: algo em que tenho pensado sob vários ângulos neste meio século que se seguiu, algo em que tenho refletido com muita frequência, mas de que nunca duvidei a sério, nenhuma vez. Absorvi como uma unidade algo que permaneceu em mim como unidade. Não consigo encontrar nenhuma falha nela. A questão de se eu acredito neste conto não me afeta; como poderia, dada minha substância intrínseca, decidir se acredito ou não? A questão não é repetir a banalidade de que todos os seres humanos morrem: o ponto é decidir aceitar a morte de boa vontade ou se revoltar contra ela. Com minha indignação contra a morte, adquiro direito à glória, à riqueza, à infelicidade… Tenho vivido nesta revolta sem fim. E se minha dor pelos entes queridos que perdi ao longo do tempo não foi menor do que a de Gilgamesh por seu amigo Enkidu, pelo menos tenho uma coisa, uma única coisa, de vantagem sobre o herói: eu me importo com a vida de todos os seres humanos, e não apenas com a de meu vizinho.

A segunda grande descoberta foi mais cáustica. Canetti encontrou em Aristófanes uma pista vital: “Como cada comédia sua é dominada vigorosamente, sistematicamente, por uma única ideia fundamental e surpreendente, da qual ela deriva”. Essa ideia, concluiu Canetti, deveria ser sempre de ordem pública e, em sentido mais profundo, política. Uma imaginação radical deve tentar transpor a esfera privada. E poderia existir algo mais aristofânico do que o espetáculo da vida alemã sob o domínio da dissolução fiscal, social e erótica?
O analista supremo dessa dissolução estava trabalhando em Viena. À distância, vem se tornando cada vez mais evidente que os traços essenciais da sensibilidade e do estilo expressivo no Ocidente no século XX derivam do exemplo de Karl Kraus. O legado desse satirista apocalíptico se faz constantemente visível, desde a concepção da linguagem e da sociedade em Kafka ao humor negro e autodestrutivo do filão urbano americano dos anos 1950 e 1960. Canetti apresenta um relato memorável dos célebres recitais de leitura de Kraus, um daqueles tours de force miméticos em que o autor-editor de Die Fackel — a tocha que também arde no título de Canetti — instruiu toda uma geração nas artes envolventes do ódio ao outro e do ódio a si próprio. Foi uma boa coincidência que tenha sido num recital de Kraus que Canetti viu pela primeira vez — sentada na primeira fila, como sempre fazia — Venetia Toubner-Calderon, a bela e enigmática Veza, com quem iria se casar em 1934. Em termos mais imediatos, o efeito hipnótico de Kraus sugeriu a Canetti aquilo que se tornaria o eixo de seu questionamento: o poder do indivíduo em relação ao poder das massas. Relembrando o fantástico registro vocal de Kraus, Canetti observa: “As cadeiras e as pessoas pareciam se render sob aquela vibração; não ficaria surpreso se as cadeiras cedessem. A dinâmica de um auditório tão acossado ao impacto daquela voz — um impacto que persistia mesmo quando a voz silenciava — é tão impossível de descrever quanto a Caçada Selvagem”. (Quantos leitores, principalmente no mundo anglo-saxão, identificarão essa penetrante referência ao mito, provavelmente de origem celta, dos cães e caçadores espectrais cruzando o firmamento noturno numa perseguição demoníaca? Mas essa edição não traz notas de rodapé, e muitas vezes a tradução é engenhosamente inútil.)
Tão essenciais quanto Karl Kraus para a educação de Elias Canetti foram as pinturas que ele viu nas grandes coleções de Viena, e sobre as quais muito refletiu. Duas em especial vieram a ocupar seu espírito, embora com efeitos contrários. O Triunfo da morte, de Brueghel, parecia confirmar a mensagem de Gilgamesh. A vigorosa resistência à morte pulsando nas inúmeras figuras da multidão na tela se infiltrou na consciência de Canetti. Embora a morte triunfe, a luta é pintada como atitude de eminente valor e faz a união de todos os homens. O outro quadro era o colossal Cegamento de Sansão, de Rembrandt: “Contemplei muitas vezes essa pintura, e com ela aprendi o que é o ódio”. Ademais, embora ainda não pudesse saber disso, o cegamento e a cegueira viriam a ser motivos constantes na literatura, nas notas de viagem e nos aforismos filosóficos de Canetti. O título alemão de Auto de fé é Die Blendung, que significa tanto o ato de cegar quanto ficar ofuscado ou aturdido ao ponto da cegueira. A leitura canettiana da Dalila de Rembrandt parece reverberar em quase todas as figuras femininas de suas criações posteriores: “Ela tirou a força de Sansão; retém sua força mas ainda o teme e irá odiá-lo enquanto se lembrar do cegamento e, para odiá-lo, irá sempre se lembrar desse cegamento”.
No verão de 1925, Canetti rompeu com seu monstre sacré, a mãe. Continuou a estudar ciências na Universidade de Viena, mas agora tinha uma intensa sensibilidade aos chamados da experiência — àquilo que, se fizesse o apelo correto, iria despertar os poderes adormecidos dentro de si como um sinal luminoso dentro da noite. Em 15 de julho de 1927, esse sinal veio, literalmente. Atendendo a seus líderes social-democratas, os operários mais radicais de Viena, enfurecidos com um recente erro judicial (alguns operários tinham sido mortos em Burgenland e os assassinos foram absolvidos), marcharam sobre o Palácio da Justiça. Atearam-lhe fogo. Naquele dia, Elias Canetti, o metafísico lírico, o alegorista da violência, ganhou sua independência: “Tornei-me parte da multidão, dissolvi-me inteiramente nela”. Essa imersão — a expressão francesa bain de foule transmite exatamente a experiência de Canetti — firmou sua decisão de analisar, como Gustave Le Bon começara a fazer nos anos 1890, a estrutura interna, as energias exponenciais e a aura contagiosa das multidões. Apenas em 1960 veio a sair Massas e poder, obra truncada, brilhante e fragmentária. Mas a multidão e os sentimentos da multidão em que ele mergulhou naquele dia escaldante de verão iriam ocupá-lo desde aquele momento. Obsessões pessoais e fato público se fundiram:

O fogo era o que mantinha a situação coesa. Você sentia o fogo, sua presença era avassaladora; mesmo que não o visse, você o tinha em mente, sua atração e a atração exercida pela multidão eram uma só. […] E você era atraído outra vez para o local do fogo — dando uma volta, pois não havia outro caminho possível.

Tanto em suas reflexões sobre as multidões quanto em suas apropriações metafóricas do fogo, Canetti não viu nenhum proveito em Freud. A Psicologia das massas e análise do eu, de Freud, lhe causou aversão “desde a primeira palavra, e ainda me causa aversão 55 anos depois”. Canetti via em Freud a própria encarnação da coisa de segunda mão — a construção de abstrações dogmáticas sobre as bases incertas das ações e vivências de outras pessoas. Essa rejeição teve ressonância mais ampla. Canetti pertence à pequena constelação de intelectos e sensibilidades de primeira categoria, em nossa época, que têm rejeitado Freud e a teoria psicanalítica como uma mitologia artificial, anti-histórica, cuja metodologia é, na melhor das hipóteses, estética, e cujos materiais de prova — os sonhos, os atos de fala, os estilos de gestos fin-de-siècle, basicamente uma Europa Central judaica de classe média e feminina — são de uma estreiteza quase absurda. Além de Canetti, essa constelação inclui Kraus, Wittgenstein e Heidegger. É marcada por um senso trágico da vida, por uma aguda atenção à natureza temporal, histórica, do discurso humano e por um grande ceticismo em relação aos ideais ou às pretensões da psicanálise. Com o atual desaparecimento das suposições psicanalíticas, pode ser que sejam esses “negadores” de Freud que se demonstrem duradouros.
A revolta de julho tinha definido a vocação de Canetti. Procurando as multidões “na história, nas histórias de todas as civilizações”, ele se deparou e ficou fascinado com a história e a filosofia antiga da China (fascínio este que iria inspirar o romance). Os sons das ruas adquiriram um significado rico, diferente. Os colegas de universidade com simpatias nacional-socialistas que Canetti encontrava no laboratório serviram para que ele concentrasse ainda mais o foco de sua atenção nos fenômenos de massa e na possibilidade de que a política de manipulação das massas levasse ao transe coletivo da guerra. Canetti agora estava escrevendo poesia “frenética e desenfreada”. Entregava cada poema novo a Veza. E Veza começava a ver como era profundo o amor de Canetti por ela. Em 15 de julho de 1928, um ano depois do incêndio no Palácio da Justiça, Canetti saiu de Viena e foi passar o resto do verão em Berlim. Depois de Frankfurt e Viena, Berlim seria a terceira cidade essencial para suas descobertas pessoais.
Naquele momento, Berlim era o centro nevrálgico da modernidade. Embora os “camisas pardas” estivessem assumindo cada vez mais o comando das correntes e movimentos na vida das ruas, a esquerda ainda estava presente, tanto a comunista quanto a socialista. No ambiente implosivo da cidade ensaiavam-se os confrontos, as agressões físicas e psicológicas que logo seriam praticadas em escala global. A descrição de Canetti é perspicaz:

A qualidade animal e a qualidade intelectual, desnudadas e intensificadas ao máximo, estavam mutuamente entrelaçadas, numa espécie de corrente alternada. Se você tivesse despertado para sua animalidade antes de chegar aqui, tinha de aumentá-la para enfrentar a animalidade dos outros: e se não fosse muito forte, logo seria vencido. Mas, se você se guiasse por seu intelecto e não tivesse se entregado quase nada à sua animalidade, fatalmente se renderia à riqueza do que era oferecido à sua mente. Essas coisas o alvejavam, versáteis, contraditórias, incessantes; você não tinha tempo de entender coisa alguma, não recebia nada a não ser pancadas, e não tinha sequer se recuperado das pancadas de ontem e as novas pancadas já lhe choviam em cima. Você andava por Berlim como se fosse um pedaço macio de carne, e sentia como se ainda não estivesse macio o suficiente e ficasse esperando novas pancadas.

A imagem de “um pedaço macio de carne” andando por Berlim sob uma chuva de pancadas é expressionismo puro. George Grosz, que Canetti veio a conhecer e admirar, acharia muito engraçado. Os desenhos ferozes de Grosz lançaram Canetti em um mundo de exploração e brutalidade sexual. Ele nunca duvidou da veracidade de Grosz, o que viria a influenciar profundamente o drama do eros tirânico em Auto de fé. Brecht também causou impressão no jovem visitante, e Canetti vislumbrou algo em seu profissionalismo frio e altaneiro. Mas o grande encontro foi com Isaac Bábel. Aqui havia uma evidente pureza, como a que Canetti iria conhecer mais tarde na verdade icônica de Kafka. A literatura era sacrossanta para Bábel. Ele tinha sondado as profundezas da barbárie humana, mas sua visão da literatura o protegia do cinismo. “Se ele via que alguma coisa era boa, nunca iria usá-la como outras pessoas, que, torcendo o nariz para o que estava em volta, davam a entender que se consideravam o ponto culminante de todo o passado. Sabendo o que era a literatura, ele nunca se sentiu superior aos demais.” Isaac Bábel, diz Canetti, o impediu de ser “devorado” pela cidade voraz.
Agora o aprendizado de Canetti estava quase completo. Voltando a Viena no outono de 1929, pôs de lado os sonhos de respeitabilidade médica ou comercial em que se obstinava a mãe. Ganharia a vida como tradutor, com suas línguas “postas em liberdade”, e começaria a trabalhar numa ficção em várias partes extensas, que levava o título provisório de A comédia humana dos loucos. Mais um encontro se revelou fundamental: este com um jovem filósofo, aleijado de corpo, mas com uma percepção dos seres humanos que às vezes o assemelhava a “um Cristo num ícone oriental”. Embora a dissolução do indivíduo na multidão continuasse a ser “o enigma dos enigmas” para Canetti, a condição desolada, mas luminosa, de seu amigo colocou o tema da morte entre seus principais interesses. Voltando a pensar nas chamas que tinham envolvido o Palácio da Justiça, vendo diante de si um ser humano possuído, nutrido pelo pensamento abstrato e pelas energias de uma percepção ilimitada, Canetti encontrou seu grande tema: o “Homem Livro” em sua quintessência, o qual, num êxtase derradeiro de clarividência ensandecida, arderia junto com todos os seus livros. De início, o personagem ia se chamar Brand [fogo, incêndio], refletindo o próprio termo “fogo” e, talvez, o espírito ferozmente absolutista da peça de Ibsen, de mesmo nome. Depois passou a se chamar Kant, pedra de toque dos metafísicos e arquétipo da rotina acadêmica. Por fim, o personagem central de Auto de fé se tornou Kien, monossílabo que combina o termo alemão para a madeira resinosa dos pinheiros com uma leve sugestão de tom chinês. Aos 24 anos, Elias Canetti estava compondo um dos romances de maior maturidade intelectual e domínio estilístico de nosso século.
Grande parte do que publicou a partir de então é de alta qualidade: a engenhosa peça filosófica Os que têm a hora marcada, as reflexões sobre as cartas de Kafka a Felice Bauer (O outro processo, de 1969), os aforismos e anotações líricas de As vozes de Marrakech e, como sugeri, algumas seções de Massas e poder – aquela, por exemplo, sobre o papel da inflação monetária na destruição da identidade social e do discernimento ético na Alemanha de Weimar. A autobiografia de Canetti nos faz aguardar esperançosamente uma continuação. Apesar disso, seria difícil encontrar algo nos escritos posteriores de Canetti capaz de se equiparar à força da Opus I. Uma luz em meu ouvido oferece um relance fascinante da gênese de um clássico.
Embora ainda seja prematuro, é inevitável relacionarmos Canetti com toda a configuração do gênio judaico e centro-europeu que determinou tão amplamente o clima da sensibilidade moderna. Em Canetti não há a imediaticidade da criação mítica, o acesso livre a formas simbólicas específicas, porém universais, que fazem das ficções e parábolas de Kafka o coroamento e o ápice da imaginação do século XX — sendo Kafka para sua época, como disse Auden, o que Dante e Shakespeare foram para as suas. E também sentimos que, perante a natureza física e os mistérios da psique humana, Canetti não fornece a resposta que confere a paciente autoridade aos romances — e aqui o plural é importante — de Hermann Broch. Mas é por esses critérios que Canetti quer — na verdade requer — um julgamento. Sua exigente presença honra a literatura.
22 de novembro de 1982

George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos

17/06/2026

Marcelo Dai | O Novo Sempre Vem

Téo & O Mini Mundo

Epílogo

I am going to pass around in a minute some lovely, glossy-blue picture postcards.
Num minuto vou passar para vocês vários cartões postais belos e brilhantes. Esta é a mala de couro que contém a famosa coleção.
Reparem nas minhas mãos, vazias.
Meus bolsos também estão vazios.
Meu chapéu também está vazio. Vejam. Minhas manga.
Viro de costa, dou uma volta intena.
Como todos podem ver, não há nenhum truque, nenhum alçapão escondido, nem jogos de luz enganadores.
A mala repousa nesta cadeira aqui.
Abro a mala com esta chave mestra em cerimônias do tipo, e me permitem a brincadeira.
A primeira coisa que encontramos na mala, por cima de tudo, é - adivinhem - um par de luvas.
Ei-la.
Pelica.
Coisa fina.
Visto as luvas – mão esquerda... mão direita...
corte... perfeito.
Isso me lembra...
Um jovem artista perdido na elegante Berlim da Belle Époque, sozinho, em vão procurando por prazer. Passa um grupo ruidoso de patinadores, e uma mulher de branco deixa cair a sua luva, uma luva com seis botões forrados, branca, longa, perfumada. O jovem corre, apanha a luva, mas reluta se deve aceitar ou não o desafio. Afinal decide ignorá-lo, guarda a luva no bolso e volta caminhando para o seu hotel por ruas mal iluminadas.
Mas assim me desvio do meu propósito desta noite. Depois se houver tempo concluirei esta história fantástica, onde entra até uma carruagem de Netuno, um morcego gigantesco que sorri e foge sempre, e um oceano de folhagens.
Quem sabe esta não é exatamente aquela luva?
No entanto temos aqui não apenas uma, mas o par; é muito delicado e contrasta com este terno preto.
A valise de couro conterá objetos de toucador?
Não, meus amigos.
Como todos podem ver, mediante uma ligeira rotação que faço na cadeira sobre a qual ela se encontra, a valise contém apenas papel... cartões... dezenas, talvez centenas de cartões postais.
Estranha valise!
E agora, atenção.
Com minhas mãos enluvadas – um momento enquanto abotoo uma... e depois outra cuidadosamente... não há fraude... ajusto os punhos, assim... – agora com estas mãos, ao acaso, apanho o primeiro cartão postal, que contemplo por um instante sob a luz... há um reflexo... mas vejo aqui uma moça afogada entre os juncos... passo o primeiro cartão, por favor passem uns para os outros... segundo cartão: a Avenida Atlântica... vão passando... cadilaque em Acapulco... Carmem... Centro Pompidou... igreja no Alabama... castelo visto do levante... dois cupidos de óculos escuros... o ladrão de joias e a duquesa... e este aqui... Fred Astaire em Lady Be Good, ou não faz arte, menina... nostálgica... e uma Marilyn, e aqui a praia em Clacton com bingo e fish and chips... o Boeing da Air France... bondes subindo a ladeira em São Francisco... um urso polar no zoo de Barcelona... Salomé‚... Londres... outra Salomé ... vão passando, vão passando.
Meus amigos, isto é uma valise, não é uma cartola com coelhos.
Temos cartões para a noite inteira. Alexandria... Beirute... Praga...
Sejam misteriosas, um quadro de Paul...
Gauguin, seguido de O que, estás com ciúme?, uma pergunta malandra em tom capcioso, assim tomando sol na praia.
E outros de museu aqui:
O olho, como um balão bizarro, se dirige para o infinito;
No horizonte, o anjo das certitudes, e no céu sombrio, um olhar interrogador;
A dama em desespero;
O sangue da Medusa;
As mães malvadas;
Tranco a porta sobre mim;
O beijo;
Outro beijo;
O ciúme novamente,
e agora o verdadeiro Morro dos Ventos Uivantes, seguido de uma curiosa competição esportiva, e de alguma pornografia, e de um padrinho Cícero.
Meus amigos, eu não sei onde nós vamos parar.
Continuo a passar mais rapidamente estes cartões. Reparem nesses bolinhos presos com elástico, e aliás ia me esquecendo de dizer, podem e devem verificar se no verso há palavras rabiscadas, este aqui por exemplo, “Para quando serão nossas próximas horas exquisitas?”, esquisitas com xis, ou este aqui, “O Posto 6, onde passei minha infância e minha adolescência, como está mudado!”, ou este outro, ouçam só, “Fico tentando te mandar um pedacinho de onde estou mas fica faltando sempre”. E com uma letra bem miúda: “Acalmei bem, me distraí, não penso tanto, penso a te”. Acho que o final está em italiano. Vão lendo, vão lendo, a maioria está em branco mesmo, com licença.
Eu preciso sair mas volto logo.
Um cisco no olho, um pequeno cisco; na volta continuo a tirar os cartões da mala, e quem sabe, quando o momento for propício, conto o resto daquela história verdadeira, mas antes de sair tiro a luva, deixo aqui no espaldar desta cadeira.
Fin

Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés

“Dói sempre na gente, alguma vez, todo amor achável, que algum dia se desprezou...”



[…]

No sirgo fio dessas recordações, acho que eu bateava outra espécie de bondade. Devo que devia também de ter querido outra vez os carinhos daquela moça Nhorinhá, nessas ocasiões. Por que será que, aí, eu não formei a clareza disso, de a-propósito? Por lá, adiante, na vastança, era rumo de onde ela agora morava. Isso, sim, andadamente. Mas não conheci; e demos volta. Tempos escurecidos. O que meus olhos não estão vendo hoje, pode ser o que vou ter de sofrer no dia depois-d’amanhã.
Ao que inventei, enquanto assim se vinha, por pobres lugares, aos poucos eu estive amaestrando os catrumanos, o senhor está lembrado deles; ensinando aqueles catrumanos, para as coisas de armas, do que houvesse de pior. Eles já prometiam puxo; eh, burro só não gosta é de principiar viagens. Aprovei, de ver o Teofrásio, principal deles, apontando em homem malandro inocente, com a velha garrucha que era a dele, com os dois canos encavalados. Mas, que atirasse, não consenti. Zé Bebelo havia de admitir assim, de se fazer excessos? Ali, quem se lembrava de Zé Bebelo eram minhas horas de muita inteligência. Assim, ele ainda vivesse, certo havia de ter algum dia notícia do que eu estava executando! que a gente trazia a Mulher; com ela agarrada em mãos, se ia necessitar o Hermógenes a dar combate.
Essa mulher, conforme vinha, num definitivo mau silêncio, a cara desaparecida pelo xale verde, escanchada em seu cavalo. Tinham dado a ela um chapéu-de-palha de ouricurí, por se tapar do forte sol baiano. A mais, dela não se ouviu queixa ou reclamação; nem mesmo palavra. O que eu desentendia nela era aquela suave calma, tão feroz; que seria aferrada em esperar; essa capacidade. Se o ódio, só, era que dava a ela certeza de si, o ódio então era bom, na razão desse sentido! que às vezes é feito uma esperança já completada. Deus que dele me livrasse!
Mas, o homem em quem o catrumano Teofrásio com sua garrucha antiquíssima apontou, era um velho. Desse, eu digo, salvei a vida. Socorrido assim, pelo fato deu não conseguir conhecer a intenção da existência dele, sua razão de sua consciência. Ele morava numa burgueia, em choça muito de solidão, entre as touças da sempre-viva-serrã e lustro das folhagens de palmeira-pindoba.
Eu, com outros, tinha subido no tope do môrro, que era de espalha-ventos. De lá do alto, a mente minha era poder verificar muitos horizontes. E, mire veja: em quinze léguas para uma banda, era o São Josezinho da Serra, terra florescida, onde agora estava assistindo Nhorinhá, a filha de Ana Duzuza. Assunto que, na ocasião, meu espírito me negou, digo o dito. Além, além. Dela eu ainda não tinha podido receber a carta enviada. Para mim, era só uma saudade a se guardar. Hoje é que penso. Nhorinhá, namorã, que recebia todos, ficava lá, era bonita, era a que era clara, com os olhos tão dela mesma... E os homens, porfiados, gostavam de gozar com essa melhora de inocência. Então, se ela não tinha valia, como é que era de tantos homens?
Mas, no vir de cimas desse morro, do Tebá ― quero dizer: Morro dos Ofícios ― redescendo, demos com o velho, na porta da choupã dele mesmo. Homem no sistema de quase-dôido, que falava no tempo do Bom Imperador. Baiano, barba de piassaba; goiano-baiano. O pobre, que não tinha as três espigas de milho em seu paiol. Meio sarará. A barba, de capinzal sujo; e os cabelos dele eram uma ventania. Perguntei uma coisa, que ele não caprichou de entender, e o catrumano Teofrásio, que já queria se mostrar jagunço decisivo, o catrumano Teofrásio bramou ― abocou a garruchona em seus peitos dele. Mas, que não deu tujo. Esse era o velho da paciência. Paciência de velho tem muito valor. Comigo conversou. Com tudo que, em tão dilatado viver, ele tinha aprendido. Deus pai, como aquele homem sabia todas as coisas práticas da labuta, da lavoura e do mato, de tanto tudo. Mas, agora, que tanto aforrava de saber, o derrengue da velhice tirava dele toda possança de trabalhar; e mesmo o que tinha aprendido ficava fora dos costumes de usos.Velhinho que apertava muito os olhos.
Seria velhacal? Não fio. E isto, que retrato, é devido à estúrdia opinião que divulgou em mim esse velho homem. Que, por armas de sua personalidade, só possuía ali era uma faquinha e um facão cego, e um calabôca ― porrête esse que em parte ocado e recheio de chumbo, por valer até para mortes. E ele mancava estragado! por tanto que a metade do pé esquerdo faltava, cortado ― produção por picada de cobra ― urutú geladora, se supõe. Animado comigo, em fim me pediu um punhado de sal grande regular, e aceitou um naco de carne-de-sol. Porque, no comer de comum, ele aproveitava era qualquer calango sinimbú, ou gambás, que, jogando neles certeiramente o calabôca, sempre conseguia de caçar. Me chamou de! ― Chefão cangaceiro...
Acabando que, para me render benefício de agradecimento, ele me indicou, muito conselhante, que, num certo resto de tapera, de fazenda, sabia seguro de um dinheirão enterrado fundo, quantia desproposital. Eu fosse lá... ― ele disse ―; eu escavasse tal fortuna, que merecida, para meus companheiros e para mim... ― Aonde, rumo? ― indaguei, por comprazer. Ele piscou para o mato. Por lá, trinta e cinco léguas, num Riacho-das-Almas... Toleima. Eu ia navegar assim para acolá, passar matos, furar a caatinga por batoqueiras, por louvar loucura alheia? Minha guerra nem não me dava tempo. E, mesmo, se ele sabia assim, e verdade fosse, por que era que não ia, muito pessoalmente, cavacar o ouro para si? Derri dele, brando. Por que é que se dá conselho aos outros? Galinhas gostam de poeira de areia ― suas asas... E o velho homem ― cujo. Ele entendia de meus dissabôres? Eu mesmo era de empréstimo. Demos o demo... E possuía era meu caminho, nos peitos de meu cavalo. Siruiz. Alelúia só.
E o velho, no esquipático de olhar e ser, qualquer coisa em mim ele duvidava dela. Mas ― que é que era? que é que era?!... Eu carecia de indagar. E, mesmo ― porque a chefe não convém deixar os outros repararem que ele está ansiando preocupação incerta ― tive de indagar leixo, remediando com gracejo diversificado: ― Mano velho, tú é nado aqui, ou de donde? Acha mesmo assim que o sertão é bom?...
Bestiaga que ele me respondeu, e respondeu bem; e digo ao senhor:
Sertão não é malino nem caridoso, mano oh mano!: ― ...ele tira ou dá, ou agrada ou amarga, ao senhor, conforme o senhor mesmo.
Respondeu com uma insensatez, ar de ir me ferir, por tanto; jacaré já! Respondeu, apontando com o dedo para o meu peito. Desgostou de meu debique? Dele o dito, eu não decifrava. Sertanejo sem remanso. Mas desabandonamos aquilo, às pressas, porque o velho assoava o nariz com todos os dedos de uma mão, em modo que me deu nôjo. Descemos flauteando o resto do môrro. Quando chegamos cá no acampo, as ramas dárvores já iam pegando o pó da noite. Ermo meu?
Do que hoje sei, tiro passadas valias? Eh ― fome de bacurau é noitezinha... Porque: o tesouro do velho era minha razão. Tivesse querido ir lá ver, nesse Riacho-das-Almas, em trinta e cinco léguas ― e o caminho passava pelo São Josezinho da Serra, onde assistia Nhorinhá, lugarejo ditoso. Segunda vez com Nhorinhá, sabível sei, então minha vida virava por entre outros morros, seguindo para diverso desemboque. Sinto que sei. Eu havia de me casar feliz com Nhorinhá, como o belo do azul; vir aquém-de. Maiores vezes, ainda fico pensando. Em certo momento, se o caminho demudasse ― se o que aconteceu não tivesse acontecido? Como havia de ter sido a ser? Memórias que não me dão fundamento. O passado ― é ossos em redor de ninho de coruja... E, do que digo, o senhor não me mal creia! que eu estou bem casado de matrimônio ― amizade de afeto por minha bondosa mulher, em mim é ouro toqueado. Mas ― se eu tivesse permanecido no São Josezinho, e deixado por feliz a chefia em que eu era o Urutú-Branco, quantas coisas terríveis o vento-das-núvens havia de desmanchar, para não sucederem? Possível o que é ― possível o que foi. O sertão não chama ninguém às claras; mais, porém, se esconde e acena. Mas o sertão de repente se estremece, debaixo da gente... E ― mesmo ― possível o que não foi. O senhor talvez não acha? Mas, e o que eu estava dizendo, mas mesmo pensando em Nhorinhá, por causa. Dói sempre na gente, alguma vez, todo amor achável, que algum dia se desprezou... Mas, como jagunços, que se era, a gente rompeu adiante, com bons cavalos novos para retrôco. Sobre os gerais planos de areia, cheios de nada. Sobre o pardo, nas areias que morreram, sem serras de quebra-vento.
[…]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

De acordo com a natureza

A capacidade de viver da melhor maneira está na sua alma. Basta ser indiferente às coisas indiferentes. Adquirirá a indiferença ao observá-las isoladas e juntas, ao se lembrar de que nenhuma produz em nós opiniões sobre si mesmas, e ao notar que nenhuma vêm até nós. Permanecem inertes. Somos nós que produzimos julgamentos sobre elas e, por assim dizer, inscrevemo-nos em nós mesmos. Todavia, está em nosso poder não os inscrever e apagá-los, caso, porventura, invadam nossas mentes de forma imperceptível. Lembre-se que, em breve, nossa atenção e, logo depois, nossa vida chegarão ao fim.
Além do mais, qual é a dificuldade de agir assim quanto a essas coisas? Caso estejam de acordo com a natureza, alegre-se e elas serão fáceis para você. Caso estejam contrárias, procure pelas consoantes e se esforce para achá-las, ainda que não tragam reputação. Todo homem tem a permissão para buscar o seu próprio bem.

Marco Aurélio, em Meditações

O Apanhador no Campo de Centeio – 25




[…]

Depois que saí do lugar onde estavam as múmias, tive que ir ao banheiro. Para dizer a verdade, estava com um pouco de diarreia. Não liguei muito para esse negócio da diarreia, mas aconteceu outra coisa. Quando tinha acabado de me levantar da privada, quase chegando na porta, acho que desmaiei. Mas até que tive sorte. Podia ter morrido quando caí no chão, mas aterrissei meio de lado. O mais engraçado é que me senti melhor depois do desmaio. Verdade mesmo. Meu braço ficou um pouco doído, onde bati com ele no chão, mas parei de sentir aquela droga daquela tonteira.
A essa altura, já era mais ou menos meio-dia e dez, e por isso voltei para junto da porta, para esperar pela Phoebe. Pensei que aquela podia ser a última vez que eu ia vê-la. Ela ou qualquer dos meus parentes. Imaginei que provavelmente os veria outra vez, mas muitos anos depois. Poderia voltar para casa quando tivesse uns trinta e cinco anos – pensei – caso alguém ficasse doente e quisesse me ver antes de morrer, mas só assim eu deixaria a cabana e voltaria. Sabia que minha mãe ia ficar nervosa pra chuchu e ia começar a chorar e a me pedir que ficasse em casa, que não voltasse para minha cabana, mas eu iria embora de qualquer maneira. Ia bancar o superior. Ia acalmar minha mãe e aí atravessava a sala, tirava a cigarreira do bolso e acendia um cigarro – tudo isso com a maior calma. Diria a eles que me visitassem algum dia, se tivessem vontade, mas não ia insistir nem nada. Uma coisa eu ia fazer: ia deixar que a Phoebe fosse me visitar no verão e nas férias da Páscoa e do Natal. E deixaria o D.B. passar algum tempo comigo, se ele quisesse um lugar simpático e quieto para escrever. Só que não ia poder escrever nenhum filme na minha cabana só contos e romances. Ia estabelecer essa regra, que ninguém podia fazer nada de falso quando me visitasse. Se alguém tentasse fazer qualquer coisa falsa, ia ter que ir embora.
De repente, olhei para o relógio no vestíbulo e vi que já era vinte e cinco para uma. Comecei a ficar com medo de que talvez a velhinha na escola tivesse dito à outra mulher para não entregar meu recado à Phoebe. Fiquei assustado, achando que talvez ela tivesse mandado queimar o bilhete ou coisa que o valha. Me deu mesmo um medão danado. Queria muito ver a Phoebe antes de me largar pelo mundo. Além disso, estava com o dinheiro de Natal dela e tudo.
Finalmente a vi, através da porta de vidro. Logo vi que era ela porque estava usando meu chapéu de caça maluco – dava pra se enxergar aquele chapéu a quinze quilômetros de distância.
Saí e comecei a descer a escadaria de pedra para encontrar-me com ela. Só não conseguia entender aquela mala enorme que ela vinha trazendo. Estava atravessando a Quinta Avenida e arrastando aquela baita mala. Ela quase não aguentava com o peso. Quando cheguei mais perto, vi que era a minha mala velha, a que eu usava no tempo do Colégio Whooton. Não conseguia imaginar que diabo ela estava fazendo com a mala.
Oi – ela disse, quando veio chegando. Já nem tinha mais fôlego, por causa daquela mala doida.
Pensei que você não vinha mais – falei. – Que é que você pôs aí nessa mala? Não preciso de nada. Vou assim mesmo como estou. Não vou levar nem as minhas malas que estão na estação. Afinal de contas, quê que você enfiou aí?
Ela pôs a mala no chão.
Minhas roupas – respondeu. – Vou com você. Posso? Tá bem?
O quê? – perguntei. Quase caí duro quando ela disse aquilo. Juro por Deus. Me senti meio tonto e pensei que ia desmaiar outra vez ou coisa parecida.
Desci com a mala pelo elevador dos fundos para a Charlene não me ver. Não é pesada, não. Só tem dois vestidos, meus mocassins, minha roupa de baixo, meias e mais umas coisinhas. Experimenta só. Não é pesada, não. Experimenta uma vez só pra ver... Posso ir com você, Holden? Posso? Por favor.
Não. Cala a boca.
Pensei que ia desmaiar. Eu não queria que ela calasse a boca e tudo, não era bem isso, mas pensei mesmo que ia desmaiar novamente.
Por quê que eu não posso ir? Deixa, Holden. Não vou fazer nada... Só vou com você, só isso! Se você quiser nem levo minhas roupas. Só levo minha...
Você não vai levar nada. Porque nem você vai. Vou sozinho. Por isso, trata de calar a boca.
Deixa, Holden. Deixa eu ir. Vou ser muito, muito... Você nem vai...
Não vou deixar nada. Agora, cala a boca. Me dá essa mala.
Tirei a mala da mão dela. Estava quase batendo nela. Cheguei até a pensar por um instante que ia dar-lhe um tapa. No duro. Ela começou a chorar.
Pensei que você ia representar no teatro da escola e tudo. Pensei que você ia ser o Benedict Arnold naquela peça – falei, com uma voz um bocado dura. – Que é que você quer fazer? Sair da peça, é?
Isso fez ela chorar mais ainda. Fiquei satisfeito. De repente eu quis que ela chorasse até arrebentar. Quase tive ódio dela. Acho que tive mais raiva principalmente porque ela não representaria mais na peça se fosse embora comigo.
Vamos – eu disse. Comecei a subir outra vez as escadas do museu. Resolvi o que ia fazer: deixava aquela mala doida na portaria do museu e aí ela podia apanha-la às três horas, quando saísse da escola. Sabia que ela não podia mesmo levar a mala para a escola.
Vamos, agora vamos – repeti.
Mas ela não subiu comigo. Não houve jeito de faze-la ir comigo. Subi assim mesmo, deixei a mala na portaria e saí outra vez. Ela ainda estava lá, na calçada, mas virou as costas para mim quando me aproximei. Isso ela sabe fazer muito bem. Quando lhe dá na veneta, ela vira as costas pra gente sem a menor cerimônia.
Não vou mais embora pra lugar nenhum. Mudei de ideia. Agora para de chorar e cala a boca – falei. O engraçado é que, quando eu disse isso, ela nem estava chorando mais. Mas falei de qualquer maneira. – Agora vamos embora. Vou com você até a escola. Vambora, senão você vai chegar atrasada.
Nem assim me respondeu. Tentei segurar a mão dela, mas também não me deixou. Continuou me dando as costas.
Você almoçou? Já almoçou, Phoebe?
Neca de resposta. O que ela fez foi tirar da cabeça meu chapéu de caça vermelho – que eu tinha dado a ela de presente – e praticamente me jogou o chapéu na cara. Aí virou de costas outra vez. Me deu uma vontade danada de rir, mas eu não disse nada. Só apanhei o chapéu do chão e enfiei no bolso do meu casaco.
Vamos, êi! Vou andando com você até a escola.
Não vou pra escola!
Fiquei sem saber o que dizer depois que ela falou isso. Fiquei ali em pé uns dois minutos, sem fazer nada.
Você tem que voltar pra escola. Você quer trabalhar naquela peça, não quer? Você quer ser o Benedict Arnold, não quer?
Não.
É claro que você quer. É lógico que quer. Agora vamos, vambora – repeti. – Em primeiro lugar, já te disse que não vou mais embora. Vou voltar pra casa. Logo que você for para a escola eu vou voltar pra casa. Primeiro vou até a estação apanhar minhas malas, e aí vou direto...
Já te disse que não vou voltar pra escola. Você pode fazer o que quiser, mas eu não vou voltar pra escola. Por isso, cala a boca.
Era a primeira vez que ela me mandava calar a boca. Era horrível ouvir isso dito por ela. Puxa, era horrível mesmo. Pior do que se ela tivesse dito um nome feio. Continuava a nem me olhar e, cada vez que eu tentava pôr a mão no ombro dela, não me deixava.
Escuta, quer dar um passeio comigo? – perguntei. – Quer passear comigo no Jardim Zoológico? Se eu deixar você faltar à escola hoje de tarde e nós dermos um passeio, você para com essa maluquice?
Não me respondeu, por isso repeti: – Se eu deixar você matar aula hoje de tarde e dar uma voltinha, você para com essa maluquice? Você vai amanhã à escola, como uma menininha bem comportada?
Talvez sim e talvez não – respondeu. E aí saiu correndo e atravessou a rua como uma doida, sem ao menos olhar se vinha algum carro. Às vezes ela é maluquinha.
Mas não fui atrás dela. Sabia que ela iria atrás de mim, por isso comecei a andar na direção do centro da cidade, a caminho do Jardim Zoológico; eu ia pela calçada do lado do parque e ela começou a andar na mesma direção, só que pelo outro lado da rua. Não olhava para mim nem nada, mas eu sabia que ela provavelmente estava me espiando com o rabo do olho, para ver onde eu ia e tudo. De qualquer maneira, fomos assim o caminho todo, até o Jardim Zoológico. A única coisa que me chateou foi quando passou um ônibus de dois andares e eu não pude ver o outro lado da rua, para saber que diabo ela estava fazendo. Mas, quando chegamos ao Jardim Zoológico, gritei para ela:
Phoebe! Vou entrar agora! Vem!
Nem assim olhou para mim, mas eu sabia que ela tinha me ouvido. Quando comecei a descer as escadas para o Jardim Zoológico, virei para trás e vi que ela estava atravessando a rua, me seguindo e tudo.
Não havia muita gente no Jardim Zoológico, porque o tempo estava mesmo uma droga, mas havia algumas pessoas em volta da piscina dos leões-marinhos e tudo. Eu ia seguir direto, mas a danada da Phoebe parou e fingiu que estava vendo os leões-marinhos serem alimentados – tinha um sujeito jogando uns peixes para eles – por isso voltei. Imaginei que era uma boa oportunidade para chegar perto dela e tudo. Fui até lá, parei atrás dela e experimentei pôr-lhe as mãos no ombro, mas ela dobrou os joelhos e escapuliu. Ela sabe ser malcriada quando quer. Continuou ali em pé, enquanto os leões-marinhos comiam, e eu postado bem atrás. Não tentei botar a mão outra vez no ombro dela nem nada, porque, se tivesse tentado, ela teria certamente me dado outro fora. As crianças são gozadas. A gente tem que se cuidar com elas.
Quando saímos da piscina dos leões-marinhos, ela não veio andando a meu lado, mas já não estávamos tão longe um do outro. Ela ia numa beirada do passeio e eu na outra. Não era lá grande coisa, mas era melhor do que antes, quando ela ficava a um quilômetro de distância. Seguimos em frente e passamos algum tempo olhando os ursos, no alto daquela colinazinha, mas não havia muita coisa para se ver. Só um dos ursos estava do lado de fora, o polar. O outro, o marrom, estava metido na droga da cova e não saía de jeito nenhum. Só dava para ver o traseiro dele. Ao meu lado tinha um garotinho, com um chapéu de cowboy que praticamente lhe cobria as orelhas, que ficava dizendo para o pai dele: "Faz ele sair, pai. Chama ele, pai!" Olhei para a Phoebe, mas ela não estava achando graça. Sabe como é criança quando está zangada com a gente, não acha graça em nada.
Depois de ver os ursos, saímos do Jardim Zoológico, atravessamos aquela ruazinha no parque e passamos por baixo de um daqueles túneis pequenos que estão sempre cheirando a mijo. Era no caminho do carrossel. A danada da Phoebe ainda não conversava comigo nem nada, mas já estava andando meio ao meu lado agora. Agarrei o cinto nas costas do casaco dela só de brincadeira, mas não deixou.
Se não é muito incômodo, guarda tua mão pra você mesmo – ela disse.
Ainda estava zangada comigo, mas não tão zangada quanto antes. Seja como for, estávamos chegando cada vez mais perto do carrossel e já dava para se ouvir aquela musiquinha maluca que toca sempre. Estava tocando Ó, Maria! Era a mesma música que tocava há uns cinquenta anos, quando eu era pequeno. Isso é um troço bom nos carrosséis, eles tocam sempre as mesmas músicas.
Pensei que o carrossel ficava fechado no inverno – ela disse. Era praticamente a primeira vez que ela me falava alguma coisa. Provavelmente esqueceu que estava de mal comigo.
Vai ver que é por causa do Natal – falei.
Ela não falou mais nada quando eu disse isso. Provavelmente lembrou que estava de mal comigo.
Você quer dar uma volta no carrossel? – perguntei. Sabia que ela devia querer. Quando pequenininha – e o Allie, o D. B. e eu costumávamos levá-la ao parque – ela era tarada pelo carrossel. Não havia jeito de arrancá-la de lá.
Já sou muito crescida – ela falou. Pensei que não ia me responder, mas respondeu.
Que crescida, que nada. Vai que eu te espero, vai.
Tínhamos chegado lá. Havia uns garotinhos andando nele, na maioria muito pequenininhos, e uns pais esperando do lado de fora, sentados nos bancos e tudo. Fui até o guichê onde vendem as entradas e comprei uma para a Phoebe. Aí entreguei-a a ela. Ela estava bem ao meu lado.
Toma. Espera um instante, toma também o resto do teu dinheiro.
Comecei a entregar o resto do dinheiro que ela me havia emprestado.
Guarda. Guarda pra mim – ela disse e, logo em seguida: – Por favor.
Isso é deprimente, quando alguém diz “por favor” à gente. Alguém assim feito a Phoebe. Isso me deprimiu pra burro. Mas botei o dinheiro de volta no bolso.
Você também não vai dar uma volta? – ela perguntou. Estava me olhando com um jeito meio engraçado. Via-se logo que não estava mais muito zangada comigo.
Talvez eu ande na próxima volta. Agora vou ficar te olhando. Apanhou tua entrada?
Apanhei.
Então vai. Vou ficar naquele banco ali, te olhando.
Caminhei para o banco e me sentei, enquanto ela subia no carrossel. Deu a volta toda na plataforma e acabou sentando num enorme cavalo castanho, velho e surrado pra chuchu. Aí o carrossel começou a rodar e eu a fiquei vendo passar e passar. Só havia mais uns cinco ou seis garotinhos, e a música que o carrossel estava tocando era Smoke Gets in Your Eyes. Num ritmo bem ligeiro e engraçado. Todos os garotos ficavam tentando agarrar a argola dourada, e a Phoebe também, e eu cheguei a ficar com medo de que ela acabasse caindo da droga do cavalo. Mas não disse e nem fiz nada. O negócio com as crianças é que, se elas querem agarrar a argola dourada, o melhor é deixar elas fazerem o troço e não dizer nada. Se caírem, caíram, mas o errado é dizer alguma coisa para elas.
Quando acabou a volta, ela desceu do cavalo e veio até onde eu estava.
Dessa vez você vai também – ela disse.
Não, vou só ficar te olhando. Acho que só vou ficar olhando – respondi. Dei a ela mais alguma grana e falei: – Toma. Compra mais umas entradas.
Ela apanhou o dinheiro e disse: – Não tou mais de mal com você.
Eu sei. Corre que o negócio vai começar outra vez.
Então, de repente, ela me deu um beijo. Aí, estendeu a mão e falou: – Tá chovendo. Está começando a chover.
Eu sei.
Aí ela fez um troço que me deixou maluco: enfiou a mão no bolso do meu casaco, tirou o chapéu de caça vermelho e botou na minha cabeça.
Você não quer mais ele? – perguntei.
Pode usar ele um pouco.
Tá bom. Mas corre agora. Você assim vai perder essa volta. Não vai mais pegar teu cavalo nem nada.
Mas ela continuou ali.
É verdade aquilo que você disse? Que não vai mais embora? Vai mesmo pra casa depois?
Vou, respondi. E era verdade mesmo. Não estava mentindo. Fui mesmo para casa depois.
Agora, corre. O negócio já tá começando.
Ela correu, comprou a entrada e pulou na droga do carrossel bem na horinha. Aí deu a volta toda, até encontrar o cavalo dela, e montou. Acenou para mim e eu acenei de volta.
Puxa, aí começou a chover pra burro. Um dilúvio, juro por Deus. Todos os pais e mães, todo mundo correu pra debaixo do teto do carrossel, para não se molhar até os ossos, mas eu ainda fiquei ali no banco mais algum tempo. Me molhei pra diabo, principalmente no pescoço e nas calças. Até que meu chapéu de caça me protegeu mesmo um bocado, mas acabei ensopado de qualquer maneira. Mas nem liguei. Me senti tão feliz de repente, vendo a Phoebe passar e passar. Pra dizer a verdade, eu estava a ponto de chorar de tão feliz que me sentia. Sei lá por quê. É que ela estava tão bonita, do jeito que passava rodando e rodando, de casaco azul e tudo. Puxa, só a gente estando lá para ver.

J. D. Salinger, em O Apanhador no Campo de Centeio