segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Oração

Horizontina é gorda,
mas é com desvelo que seus pais a amam,
eles que só compram livros didáticos:
Já tomou seu leite, filhinha?’
De que vale pagar o dízimo da menta e da arruda
se meu coração não se desdobra?
Já vi um homem sofrido ficar feliz de repente
e puxar uma fumaça no pito
como se visse no céu as trombetas da parusia,
ele que não sabe dos místicos:
nem todo o que diz Senhor, Senhor,
entrará no Reino”.
Eu Vos peço perdão
por ter amado mal.
Adélia Prado

O amor que move o sol e outras estrelas

Foi no cruzamento de São José com a Avenida, depois na Cinelândia, depois em Copacabana. Elas atravessavam a rua, entravam em lojas, saíam de automóveis, paravam para admirar vitrinas e aí seguiam num novo impulso, quais jovens barcos, os barcos a se agitarem como remos de incerta parlamenta, ganhando devagar e sempre os mares azuis da tarde carioca fresca e fagueira. Saias pretas, batinas brancas, sapatinhos de balé, os cabelos graciosamente curtos ou atacados no alto, lá iam elas bamboleando a sua doce carga, com os veludosos olhos atentos aos mostruários. Surgiam às dezenas, de todos os lados, como obedecendo a um sinal convencionado e ao se cruzarem miravam-se de soslaio, a se medirem como embarcações rivais. Às vezes, numa esquina, paravam por um momento, ligeiramente resfolegantes, para descansar um pouco do esforço feito dentro do mar picado da multidão. Mas nada que denunciasse nelas uma grande estafa ou um sentimento de derrota. As barriguinhas pandas, os corpos equilibrados à nova distribuição de peso, a pele esticada, a nuca fresca, súbito punham elas de novo a funcionar o motorzinho de popa e saíam empinadinhas em frente, um enxame de mulherzinhas grávidas a penetrar a vida urbana de uma nova vida, uma nova graça e uma certa gravidade.
Como explicar a emoção que senti? Talvez essa que provocaria a vista de um quadrinho de regata feito por Guignard, com os ioles e esquifes distendidos na puxada e por ali tudo, em meio ao esvoaçar multicor de bandeirinhas, um mundo de serenas baleeiras a se balançarem suaves ao sabor das ondas. Sei que fiquei lírico, possuído do sentimento da fecundidade da vida, sentindo a brisa farfalhar em meus cabelos e arder em minha pele o sol claro do dia. Soube que o tempo tinha cumprido a sua missão, e todas aquelas mulherzinhas fecundadas, a berçar no movimento de seus passos a gestação dos filhos, constituíam em seu gracioso desenho convexo uma maravilhosa afirmação de vida e um caminho positivo para o amor. Soube que o amor é uma missão a cumprir por nós, homens, e que é a nós de constantemente querer, zelar e defender essas que, tão frágeis, fazem a nossa força e miséria e cuja existência é um contínuo sofrer, se alegrar e se extinguir por nós. Soube que homem e mulher são, em sua constante atração e repúdio, a imagem mesma da vida em movimento, e que sua longa jornada de mãos juntas, a se afastar cada vez mais do Paraíso Perdido, tende a uma alfombra cada vez menos distante, onde se aninharão melhor e onde fecundarão seres cada vez mais próximos da terra.
Vinicius de Moraes, in Prosa

O sapo verde

Origami de Satoshi Kamiya

Aquele amarelo que apareceu um dia em nossa terra, ou por outra, aquele japonês, pois não sei se um chim daria o mesmo desfecho ao caso, dedicava-se a trabalhos de papel. Com incrível celeridade, dobrava, redobrava, multidobrava, premia aqui, puxava dali, e pronto: saía um pato, uma cesta, um avião, um urso, um homem sentado, uma mulher dançando, um navio, todas as coisas que há no mundo. Algumas dessas habilidades, ele as fazia às vezes em câmara lenta, para que a gente pudesse aprender. Mas era impossível guardar de memória o segredo do sapo verde, o maravilhoso sapo verde que comportava nada menos de sessenta e quatro dobras e que dava um salto quando lhe tocavam no lombo. Comprei um e fui para casa desmanchá-lo. Ficou-me nas mãos um quadrado de papel, inextrincavelmente entrecruzado de vincos. Como não consegui fazer a operação contrária, isto é, rearmar o sapo, dali a dias encomendei outro.
-Hoje não poder - disse ele.
-Por quê?
-Por acabar papel verde.
-E por que não faz um sapo branco?... ou um sapo azul... ou um sapo vermelho... ou...
Mas o seu quase imperceptível sorriso de comiseração cortou-me a linda seqüência colorida.
Mário Quintana, in Sapato florido

Severina - Trailer

Fraude

Tão mais opressiva que a convicção implacável de nosso presente estado pecaminoso é a mais frágil convicção da antiga, eterna justificação de nossa existência temporal. Só a capacidade de suportar desta segunda convicção, que em sua pureza abrange completamente a primeira, é a medida da fé.
Muitos consideram que, ao lado da grande fraude primitiva, existe em cada caso particular uma pequena fraude especial, encenada em proveito próprio, do mesmo modo como, por exemplo, numa intriga amorosa, representada no palco, a atriz, além do falso sorriso para o seu amante, tem ainda outro, particularmente pérfido, dirigido a um espectador determinado na última fileira da galeria. Isso significa ir longe demais.
Franz Kafka, in Aforismos reunidos

domingo, 16 de setembro de 2018

A máscara do Anonymous: origem e história


É bem provável que em algum momento você tenha ouvido falar do Anonymous, um grupo ativista que busca estabelecer uma liberdade online e também no mundo real, através de ações que buscam incentivar as pessoas a lutarem por interesses coletivos. O grupo tem como uma de suas marcas uma máscara que transparece certo ar de mistério, e que foi vista por muitos no filme “V de Vingança”, que foi produzido e roteirizado por Andy Wachowski e Lana Wachowski, (os irmãos que criaram MATRIX e a suruba do Sense8). Claramente o Anonymous se inspira em muitas ideias apresentadas no longa-metragem, mas o que muitos não sabem é que a máscara não foi criada nesse filme e que há um grande contexto histórico por trás da imagem daquele rosto.



O filme dos irmãos Wachowsky é uma adaptação do romance homônimo “V FOR VENDETTA”, a graphic novel (HQ para os bons entendedores) escrita por Alan Moore e desenhada por David Lloyd, e que foi publicada entre 1982 e 1988, no Reino Unido. A história do romance se passa em um futuro distópico (1997 – agora passado futurista alternativo), onde um partido com fortes tendências totalitárias consegue chegar ao poder após uma guerra nuclear, e inicia um regime fascista sobre todo o Reino Unido; a mídia é controlada, campos de concentração para minorias sexuais e raciais são criados, e agentes especiais são recrutados para fiscalizar o cumprimento de um toque de recolher. Nesse cenário opressor, surge um homem vestido de preto e usando uma máscara estilizada de Guy Fawkes, que inicia várias ações anarquistas a fim de desestabilizar o governo…


A Dama de Ferro

Uma das maiores fontes de inspiração dos autores, foi o governo conservador da primeira-ministra Margaret Thatcher (1979 a 1990), que ficou conhecida como “Dama de Ferro”, por conta de suas rígidas posições em relação aos sindicatos dos trabalhadores, por suas opiniões sobre a União Soviética, e pelas várias privatizações de empresas realizadas nos primeiros anos de seu governo. À propósito: foi no governo dela que ocorreu a “Guerra das Malvinas”, em que a Argentina saiu derrotada.


No entanto, fica evidente também a inspiração da HQ em outra figura histórica: Guy Fawkes. Esse é o nome. A máscara usada pelo personagem V é uma representação estilizada do rosto de Fawkes, fato que é citado em diversas passagens da Graphic Novel e do filme. Mas quem foi este homem a final?

O homem que inspirou a máscara: quem foi Guy Fawkes?

Guy Fawkes (também conhecido como Guido) foi um soldado inglês católico que participou da “Conspiração da Pólvora (Gunpowder Plot), que tinha como objetivo explodir o parlamento britânico durante uma sessão, em 5 de novembro de 1605. A intenção da conspiração liderada por Robert Catesby, era iniciar um levante católico contra a repressão do rei protestante Jaime I, matando-o junto de outros parlamentares protestantes, através da explosão que fora planejada. Guy Fawkes, que era um perito em explosivos, foi colocado para detonar os 36 barris de pólvora colocados sob o prédio do parlamento, mas por conta de uma informação vazada Fawkes acabou sendo descoberto e preso antes que o plano fosse posto em prática.

Retrato de Guy Fawkes, o rosto que inspirou a máscara.


Guy Fawkes foi preso, torturado, interrogado e então condenado à forca, acusado de traição e tentativa de assassinato dos parlamentares e do rei. A conspiração da Pólvora havia fracassado.
A captura de Fawkes é celebrada até os dias de hoje pelo povo inglês, na chamada “Noite das Fogueiras” (Bonfire Night), realizada em todo dia 5 de novembro. Nesse dia o rei ou a rainha participa de uma sessão especial no parlamento, e o subsolo do prédio é tradicionalmente revistado; costuma-se soltar muitos fogos de artifício e nas ruas as pessoas fazem bonecos representando a figura de Fawkes e ao fim da noite o queimam.

O anti-herói

Tido como um “traidor” aos olhos do povo inglês, Moore e Lloyd não tiveram receio de colocar um personagem inspirado na figura histórica de Fawkes para protagonizar sua obra. Mesmo sendo vista com maus olhos por alguns, aquela figura representa a luta do povo contra o totalitarismo e a opressão de governos e instituições. E justamente por conta da trama, que envolve a retomada do poder pela população, que o Anonymous decidiu utilizar a máscara estilizada de Fawkes para representar seus ideais de liberdade, que por ironia, são também tidos (por alguns) como atos terroristas – assim como ocorreu na ficção.
Da próxima vez que você ver aquele rosto misterioso com bigodes e um sorriso sutilmente sarcástico, lembre-se que por trás dela não existe apenas a inspiração vinda de um filme de ficção… Por trás dela há história, há ideias, há conceitos, e, sobretudo, pensamentos sobre liberdade e justiça. Uma máscara além do V de Vingança; uma máscara além do Anonymous.

Fonte da matéria: Neurônio Nerd

Pouca sombra no chão

Quando Olímpico lhe dissera que terminaria deputado pelo Estado da Paraíba, ela ficou boquiaberta e pensou: quando nos casarmos então serei uma deputada? Não queria, pois deputada parecia nome feio. (Como eu disse, essa não é uma história de pensamentos. Depois provavelmente voltarei para as inominadas sensações, até sensações de Deus. Mas a história de Macabéa tem que sair senão eu estouro.)
As poucas conversas entre os namorados versavam sobre farinha, carne-de-sol, carne-seca, rapadura, melado. Pois esse era o passado de ambos e eles esqueciam o amargor da infância porque esta, já que passou, é sempre acre-doce e dá até nostalgia. Pareciam por demais irmãos, coisa que — só agora estou percebendo — não dá para casar. Mas eu não sei se eles sabiam disso. Casariam ou não?
Ainda não sei, só sei que eram de algum modo inocentes e pouca sombra faziam no chão.
Não, menti, agora vi tudo: ele não era inocente coisa alguma, apesar de ser uma vítima geral do mundo. Tinha, descobri agora, dentro de si a dura semente do mal, gostava de se vingar, este era o seu grande prazer e o que lhe dava força de vida. Mais do que ela que não tinha anjo da guarda.
Enfim o que fosse acontecer, aconteceria. E por enquanto nada acontecia, os dois não sabiam inventar acontecimentos. Sentavam-se no que é de graça: banco de praça pública. E ali acomodados, nada os distinguia do resto do nada. Para a grande glória de Deus. 
Ele: – Pois é.
Ela: – Pois é o quê?
Ele: – Eu só disse pois é!
Ela: – Mas “pois é” o quê?
Ele: – Melhor mudar de conversa porque você não me entende. 
Ela: – Entender o quê?
Ele: – Santa Virgem, Macabéa, vamos mudar de assunto e já!
Ela: – Falar então de quê?
Ele: – Por exemplo, de você.
Ela: – Eu?!
Ele: – Por que esse espanto? Você não é gente? Gente fala de gente.
Ela: – Desculpe mas não acho que sou muito gente.
Ele: – Mas todo mundo é gente, meu Deus!
Ela: – É que não me habituei.
Ele: – Não se habituou com quê?
Ela: – Ah, não sei explicar.
Ele: – E então?
Ela: – Então o quê?
Ele: – Olhe, eu vou embora porque você é impossível!
Ela: – É que só sei ser impossível, não sei mais nada. Que é que eu faço para conseguir ser possível?
Ele: – Pare de falar porque você só diz besteira! Diga o que é do teu agrado.
Ela: – Acho que não sei dizer.
Ele: – Não sabe o quê?
Ela: – Hein?
Ele: – Olhe, até estou suspirando de agonia. Vamos não falar em nada, está bem?
Ela: – Sim, está bem, como você quiser.
Ele: – É, você não tem solução. Quanto a mim, de tanto me chamarem, eu virei eu. No sertão da Paraíba não há quem não saiba quem é Olímpico. E um dia o mundo todo vai saber de mim.
É?
Pois se eu estou dizendo! Você não acredita?
Acredito sim, acredito, acredito, não quero lhe ofender. Em pequena ela vira uma casa pintada de rosa e branco com um quintal onde havia um poço com cacimba e tudo. Era bom olhar para dentro. Então seu ideal se transformara nisso: em vir a ter um poço só para ela. Mas não sabia como fazer e então perguntou a Olímpico:
Você sabe se a gente pode comprar um buraco?
Olhe, você não reparou até agora, não desconfiou que tudo que você pergunta não tem resposta?
Ela ficou de cabeça inclinada para o ombro assim como uma pomba fica triste.
Quando ele falava em ficar rico, uma vez ela lhe disse:
Não será somente visão?
Vá para o inferno, você só sabe desconfiar. Eu só não digo palavrões grossos porque você é moça-donzela.
Cuidado com suas preocupações, dizem que dá ferida no estômago.
Preocupações coisa nenhuma, pois eu sei no certo que vou vencer. Bem, e você tem preocupações?
Não, não tenho nenhuma. Acho que não preciso vencer na vida.
Foi a única vez em que falou de si própria para Olímpico de Jesus. Estava habituada a se esquecer de si mesma. Nunca quebrava seus hábitos, tinha medo de inventar.
Clarice Lispector, in A hora da estrela

Street Art, de DALeast, em Dunedin, Nova Zelândia


Capítulo 51 - É minha

- É minha! disse eu comigo, logo que a passei a outro cavalheiro; e confesso que durante o resto da noite, foi-se-me a ideia entranhando no espírito, não à força de martelo, mas de verruma, que é mais insinuativa.
- É minha! dizia eu ao chegar à porta de casa.
Mas aí, como se o destino ou o acaso, ou o que quer que fosse, se lembrasse de dar algum pasto aos meus arroubos possessórios, luziu-me no chão uma coisa redonda e amarela.
Abaixei-me; era uma moeda de ouro, uma meia dobra.
- É minha! repeti eu a rir-me, e meti-a no bolso.
Nessa noite não pensei mais na moeda; mas no dia seguinte, recordando o caso, senti uns repelões da consciência, e uma voz que me perguntava por que diabo seria minha uma moeda que eu não herdara nem ganhara, mas somente achara na rua. Evidentemente não era minha; era de outro, daquele que a perdera, rico ou pobre, e talvez fosse pobre, algum operário que não teria com que dar de comer à mulher e aos filhos; mas se fosse rico, o meu dever ficava o mesmo. Cumpria restituir a moeda e o melhor meio, o único meio, era fazê-lo por intermédio de um anúncio ou da polícia. Enviei um carta ao chefe de polícia, remetendo-lhe o achado, e rogando-lhe que, pelos meios a seu alcance, fizesse devolvê-lo às mãos do verdadeiro dono.
Mandei a carta e almocei tranquilo, posso até dizer que jubiloso. Minha consciência valsara tanto na véspera, que chegou a ficar sufocada, sem respiração; mas a restituição da meia dobra foi uma janela que se abriu para o outro lado da moral; entrou uma onda de ar puro, e a pobre dama respirou à larga. Ventilai as consciências! não vos digo mais nada. Todavia, despido de quaisquer outras circunstâncias, o meu ato era bonito, porque exprimia um justo escrúpulo, um sentimento de alma delicada. Era o que me dizia a minha dama interior, com um modo austero e meigo a um tempo; é o que ela me dizia, reclinada ao peitoril da janela aberta.
- Fizeste bem, Cubas; andaste perfeitamente. Este ar não é só puro, é balsâmico, é uma transpiração dos eternos jardins. Queres ver o que fizeste, Cubas?
E a boa dama sacou um espelho e abriu-mo diante dos olhos. Vi, claramente vista, a meia dobra da véspera, redonda, brilhante, nítida, multiplicando-se por si mesma, - ser dez - depois trinta - depois quinhentas, - exprimindo assim o benefício que me daria na vida e na morte o simples ato da restituição. E eu espraiava todo o meu ser na contemplação daquele ato, revia-me nele, achava-me bom, talvez grande. Uma simples moeda, hem? Vejam o que é ter valsado um pouquinho mais.
Assim, eu, Brás Cubas, descobri uma lei sublime, a lei da equivalência das janelas, e estabeleci que o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência. Talvez não entendas o que ai fica; talvez queiras uma coisa mais concreta, um embrulho, por exemplo, um embrulho misterioso. Pois toma lá o embrulho misterioso.
Machado de Assis, in Memórias póstumas de Brás Cubas

E daí que acaba

Não aguento mais ouvir de uma voz feminina com amargura e rancor que não quer mais casar. Seguidoras de Paulo Mendes Campos acreditam que, se o amor acaba, pra que começar outro?
São aquelas que se casaram de branco no dia mais feliz de suas vidas, apaixonadas e entregues, e que depois enfrentaram a ira de um ciumento, as neuras de um obcecado, as fraquezas de um viciado, se envolveram com famílias alheias intolerantes, conheceram a frigidez na rotina, a traição injusta seguida por mentiras incabíveis, e decidiram pôr um fim no sonho de eternizar aquele instante em que tudo parecia fazer sentido, em que os pombinhos nasceram um para o outro e morreriam grudados num fio eletrocutado ou numa praça poluída, na alegria e na desgraça.
Para aquelas que já passaram por um ou dois casamentos e tropeçaram no degrau da separação, em que a decepção trocou de lugar com o amor, e o futuro virou poeira, não aguento mais replicar:
Se o amor nos enlouquece, imagine a loucura que é ficar sem ele.”
Para aquelas que dizem não acreditar mais no amor, proponho então experimentar outros amores e apostar nesse bilhete só de ida.
Uma noite de prazer acaba.
Um banquete acaba.
Uma viagem inesquecível acaba.
O fim de semana na ilha paradisíaca, um campeonato, o dia, o ano, o gozo, um livro, um disco, um banho de banheira e uma nhá benta acabam.
Como Sísifo, não por isso evitamos outros.
Os homens?
Vou lhes dizer: amamos tanto as que nos deram à luz, nos deram intuição, formas alternativas de pensar, mostraram detalhes que passavam despercebidos, exigiram atenção, dedicação, carinho, nos fizeram ser românticos, vencer a vergonha, e nos inspiraram músicas, poesias, até guerras, e nos ensinaram os diversos tipos de chocolate…
Se vocês não acreditam mais, quem acreditará? Lembrem-se de Nietzsche, que nos últimos dias numa vila italiana, com o calor na pele, viu alegria no niilismo e esperança no desamparo: “Cada passo mínimo dado no campo do pensamento livre, da vida moldada no seu formato pessoal, foi desde sempre conquistado com martírios espirituais ou corporais.”
Trégua.
Que venham os clichês. Cá está o ombro para o choro da mudança de humor inexplicável e inesperada. Quer que eu apague a luz na enxaqueca? Explico com toda a paciência a regra do impedimento, quem joga contra quem, e o que significa aquele quadro no alto da tela, em que três letras, COR, vencem por 2 X 1 as três letras PAL.
Fique na cama na TPM. Trarei uma bolsa de água quente e o jantar. Sim, vamos comprar sapatos. Eu espero. Levo um livro, enquanto você experimenta a loja.
Adorei a cor do esmalte, o corte do cabelo. Batom vermelho te deixa mais bonita. Não, a calcinha não está marcando. Ah, põe o tubinho preto, se bem que gosto quando você coloca aquele vestidinho colorido. Não, o sutiã não está aparecendo.
Eu ligo para o despachante, faço um rodízio nos pneus, troco a bateria, reconfiguro seu computador, mando lavar o tapete, o forro do sofá, também adoro ele com almofadas indianas em cima.
Cuido de você na velhice, não te trocarei por uma adolescente que cheira a tutti frutti, nem pela secretária vulgar da firma, amarei a sua pele um pouco mais flácida, seus seios naturalmente instáveis, seu corpo maduro, seus joelhos frágeis. E tomaremos vinho tinto todas as noites. Prefere branco? Que celulite?
Porém a maioria de vocês conhece agora as teclas de atalho, a pressão nos pneus, sabe chamar o seguro para uma pane elétrica, e que carrinho por trás dá cartão vermelho. Tornaram-se independentes.
Pesquisa da Serasa Experian mostrou que as mulheres são a maioria entre os mais ricos do país — segundo o estudo, cerca de 4,9 milhões de mulheres e 4,7 milhões de homens participam do grupo dos mais prósperos do Brasil, as classes A e B, e que as mulheres “ricas” somam cerca de um milhão, e 611 mil mulheres são executivas bem-sucedidas.
E nós. Último censo do IBGE: o número de divórcios triplicou, enquanto o de casamentos formais de papel passado caiu 12%.
O amor se tornou líquido, não é, Zygmunt Bauman? “Se hoje vivemos em redes virtuais, que aproximam e afastam as pessoas, somos capazes de manter laços fortes e relações verticais?”, pergunta.
Entendi, deixamos de preservar o passado e começamos a viver um presente perpétuo, a era do hedonismo e do consumo desenfreado, vazio difícil de saciar.
Desistimos da sede pelo amor?
Não, as mulheres não são o apêndice do homem, mas a fonte original da vida e a nossa razão de ser. Não nos deixem desamparados. E aprendam com as nossas fraquezas e com todos os erros.
Amar ainda é a única maneira de convivermos com a sua delicadeza e de alimentarmos nossa vocação de proteger e cuidar. Não façam do homem uma noite sem vento, um mundo sem gravidade. Parecemos tolos e infantis, controladores e insensíveis. Mas nós as amamos tanto…
Acaba mesmo?
Comece outro.
Antes que a amargura substitua o brilho dos seus olhos.
E a pieguice, a rima e as metáforas sejam extintas.
Marcelo Rubens Paiva, in As verdades que ela não diz

sábado, 15 de setembro de 2018

Quantas Mais - O Teatro Mágico

Noci

Certa vez, Noci entrou em casa a meio da manhã. Esgueirou-se, furtiva pelos aposentos. Perguntou por Aproximado.
A esta hora, Dona Noci? — respondi eu. — A esta hora, a senhora bem sabe, o Tio está a trabalhar.
A moça se meteu na casa de banho e, sem fechar a porta, foi lançando no chão as suas roupas. De repente, me assaltou uma espécie de cegueira e sacudi a cabeça com receio de nunca mais voltar a ver. Escutei, então, o barulho da água no chuveiro e fiquei imaginando o seu corpo molhado, acariciado por suas próprias mãos.
Estás aí, Mwanito?
O embaraço não me deixou responder. Ela adivinhava que eu me grudara na porta, incapaz de espreitar, mas não tendo força para me afastar.
Entra.
Como?
Quero que procures uma caixa que está na minha bolsa. Trouxe essa caixa para ti.
Entrei, a medo. Noci estava-se limpando na toalha e eu podia entrever ora o seu peito ora as suas longas pernas. Retirei uma caixa de metal e a ergui, tremendo. Ela entendeu o meu gesto.
É essa mesma. Lá dentro está dinheiro. É todo teu.
E ela foi explicando a origem daquele pequeno tesouro. Noci fazia parte de uma associação de mulheres que lutava contra a violênica doméstica. Há uns meses Silvestre interrompeu uma dessas sessões e atravessou a sala, em silêncio.
Foi muito estranho o que ele fez — lembrou Noci.
Não leve a mal — acudi eu. — Meu pai sempre teve uma ideia negativa sobre as mulheres, peço que lhe perdoe...
Ao contrário, eu... aliás, todas nós ficámos muito gratas.
O que sucedera fora o seguinte: Silvestre cruzara a sala e deixara sobre a mesa uma caixa com dinheiro. Era a sua contribuição para a causa daquelas mulheres.
A associação, entretanto, fechara. Ameaças diversas semearam o medo entre as associadas. O que Noci fazia era devolver o gesto solidário de meu pai.
Agora, tu vais esconder esse taco das vistas de Aproximado, ouviste? Esse dinheiro é teu, só teu.
Só meu, Dona Noci?
Sim. Como eu, neste momento, sou apenas tua.
A toalha dela tombou a meus pés. E, de novo, como da primeira vez em Jesusalém, a presença de uma mulher fez dissolver o chão. Nesse abismo, nos lançámos, eu e ela. No final, quando os nossos corpos, esgotados, pousaram entrelaçados no pavimento, ela passou os dedos no meu rosto e murmurou:
Estás a chorar...
Neguei, convicto. Noci parecia comovida com a minha fragilidade e, me olhando fundo nos olhos, perguntou:
Quem te ensinou a amar as mulheres?
Devia ter respondido: foi a falta de amor. Mas nenhuma palavra me acudiu. Desarmado, vi Noci abotoando o vestido em preparos de despedida. No último botão ela se deteve e disse:
Quando nos entregou a caixa de dinheiro o teu pai não sabia que, no meio das notas, havia um bilhete com ordens.
Ordens? De quem?
De tua mãe.
Meu pai nunca percebera mas a falecida esposa deixara um bilhete explicando a origem e o propósito daquele dinheiro. Eram poupanças de Dordalma e ela legava essa herança para que nada faltasse aos seus filhos.
Foi a tua mãe. Foi ela quem te ensinou a amar. Dordalma esteve sempre aqui.
E a sua mão aberta pousou sobre o meu peito.
Mia Couto, in Antes de nascer o mundo

Meditação do Duque de Gandía sobre a morte de Isabel de Portugal

Nunca mais
A tua face será pura limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
Sophia de Mello Breyner Andresen

Mafalda


Papa-jerimum

O norte-rio-grandense é denominado papa-jerimum (abóbora) porque dizem ter sido com essa cucurbitácea que pagavam aos funcionários da Capitania. Ainda hoje, o papa-jerimum não os produz suficientemente. Compra-os na Paraíba e Pernambuco. Jamais fora alimento característico.
Não seria assombro que tal ocorresse nos velhos bons tempos, pela escassez do numerário metálico e sua demora no envio das repartições competentes no Recife.
Na segunda metade do século XVIII, a moeda comum e corrente no Maranhão e Ceará era o novelo de algodão fiado. Em 1768, um alvará mandava pagar aos mestre-escolas em alqueires de farinha. Em dezembro de 1712, a Câmara da Vila de São José de Ribamar, no Ceará, queixava-se ao Rei de Portugal que o Capitão-Mor Francisco Duarte de Vasconcelos estava pagando em gêneros e não em dinheiro a infantaria do presídio. No Pará, a moeda era mais curiosa. Circulava o pacote de ovas de tainha e os serventuários públicos recebiam tantos pacotes como ordenados. Raimundo Morais (Meu dicionário de coisas da Amazônia, II, Rio de Janeiro, 1931) pergunta se não provirá daí o dizer-se pacote para o conto de réis, ou porção de dinheiro. O papa-jerimum nasceria na desastrada administração de Lopo Joaquim de Almeida Henriques, de 30 de agosto de 1802 a 19 de fevereiro de 1806, quando foi exonerado e mandado retirar imediatamente pelo Capitão-General de Pernambuco, Caetano Pinto de Miranda Montenegro.
Tudo quanto se sabe, documentadamente, é que Lopo Joaquim “mandou fazer roçados de mandioca pela tropa em lugares por onde hoje se estende a cidade, e plantações de melancia, de que tirava a parte do leão” (Gonçalves Dias). Não se fala em jerimum e menos ainda que o governador pagasse tropa e funcionários com os produtos de sua lavoura compulsória. Não há outra oportunidade para a criação da lenda e não existe um único documento oficial em que esse episódio seja mencionado. Nem se registra em qualquer outra fonte histórica. Puro folclore!...
A tradição oral, porém, guarda a origem desse mito nos finais do século XIX. Armou-o, com todas as peças hilariantes, o Dr. Joaquim Maria Carneiro Vilela (1848-1913), poeta, escritor, jornalista, e que em 1868 era juiz municipal em Natal. Temperamento inquieto, buliçoso, zangou-se com luzias (Liberais) e saquaremas (Conservadores), deixando a Província sem licença legal, desajustado e furioso. Houve mesmo uma pretensão matrimonial vetada pela família da futura noiva, irmã do Padre João Manuel de Carvalho, e que irritou profundamente a Carneiro Vilela. Montou a estória do jerimum, divulgando-a com a feitiçaria do seu estilo sedutor. Era uma mentira, mas deliciosamente contada no sabor de anedota. E a invenção pegou e viveu até hoje, como visgo em solado de sapato.
Tanto assim que Francisco Gomes da Rocha Fagundes (1827-1901), senador pelo Rio Grande do Norte em 1899, ouviu em pleno Senado a pilhéria do jerimum fiduciário.
O Senador Chico Gordo, como o chamavam, deu uma resposta feliz:
Paga com jerimum, mas paga! E o Estado de V. Ex. a fica devendo!…
Luís da Câmara Cascudo, in Coisas que o povo diz

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Bilhões de anos

Onde estive eu, durante esse tempo imenso, bilhões de anos, que vão do big bang até o meu nascimento? Os religiosos vão dizer que estive no céu, alma desencarnada, à espera do meu nascimento. Eles não entenderam a minha pergunta. Quando digo “eu” estou me referindo a uma memória que esse bolso chamado “eu” guarda dentro de si. O fato é que, desses bilhões de anos, não tenho a menor memória. Se tivesse, eu teria memória também da enorme espera – eu, esperando durante bilhões de anos... Mas não. Para mim, o mundo foi criado quando eu nasci. O big bang aconteceu para mim quando minha mãe me pariu. Foi grande a demora? Custou-me esperar bilhões de anos? Não. Foi menos que um segundo. E agora, que a morte se aproxima, sei que vou voltar para o lugar onde estive. De novo, a espera vai ser grande? Não. Não esperarei mais que um segundo... Como disse o poeta ao Menino Jesus: “Até que nasça qualquer dia que tu sabes qual é...”.
Rubem Alves, in Do universo à jabuticaba

Homens: vãos, ignorantes, ávidos, inquietos

Não desprezo os homens. Se o fizesse, não teria direito algum nem razão alguma para tentar governá-los. Sei que são vãos, ignorantes, ávidos, inquietos, capazes de quase tudo para triunfar, para se fazer valer, mesmo aos seus próprios olhos, ou simplesmente para evitar o sofrimento. Sei muito bem: sou como eles, pelo menos momentaneamente, ou poderia tê-lo sido. Entre outrem e eu, as diferenças que distingo são demasiado insignificantes para que a minha atitude se afaste tanto da fria superioridade do filósofo como da arrogância de César. Os mais opacos dos homens também têm os seus clarões: este assassino toca corretamente flauta; este contramestre que dilacera o dorso dos escravos com chicotadas é talvez um bom filho; este idiota partilharia comigo o seu último bocado de pão. Há poucos a quem não possa ensinar-se convenientemente alguma coisa. O nosso grande erro é querer encontrar em cada um, em especial, as virtudes que ele não tem e desinteressarmo-nos de cultivar as que ele possui.”
Marguerite Yourcenar, in Memórias de Adriano

Um Café Lá em Casa com Rafael Vernet e Nelson Faria

Capítulo 9: A caverna – A casa flutuante – Um belo saque

Eu queria dar uma olhada num lugar bem no meio da ilha, que eu tinha encontrado quando tava explorando. Então a gente partiu e logo chegou lá, porque a ilha tinha só cinco quilômetros de comprimento e quatrocentos metros de largura.
Esse lugar era um morro ou serrania escarpado bem comprido, com mais ou menos doze metros de altura. A gente teve muito trabalho pra chegar no topo, porque os lados eram muito íngremes e os arbustos muito densos. A gente andou com dificuldade e subiu todo o morro, e daí a pouco encontrou uma caverna bem grande na rocha, quase no topo, no lado virado pra Illinois. A caverna era grande do tamanho de duas ou três salas ajuntadas, e Jim conseguia ficar de pé dentro dela. Era frio lá dentro. Jim queria trazer as nossas tralhas logo em seguida, mas eu disse que a gente não ia gostar de subir e descer o morro a toda hora.
Jim disse que, se a canoa ficasse escondida num lugar bom, e todos os nossos trapos dentro da caverna, a gente podia correr pra lá se alguém aparecesse na ilha, e sem os cachorros eles nunca iam nos encontrar. E além do mais, ele disse que os passarinhos tinham dito que ia chover, e eu queria as coisas todas molhadas?
Então a gente voltou, pegou a canoa e remou até a frente da caverna e arrastou todas as nossas coisas pra lá. Depois saiu procurando um lugar perto pra esconder a canoa, entre os salgueiros densos. A gente pegou uns peixes das linhas e montou elas de novo e começou a se preparar pro jantar.
A porta da caverna era bem grande, dava pra rolar um barril por ela, e num lado da porta o chão tava um pouco saliente e chato, um bom lugar pra fazer o fogo. Então a gente fez o fogo e cozinhou o jantar.
Estendemos os cobertores lá dentro como tapete, e ali a gente comeu o jantar. Colocamos todas as outras coisas bem à mão no fundo da caverna. Logo escureceu e começou a trovejar e relampejar, os passarinhos tavam certos. Imediatamente começou a chover, e choveu com toda a fúria, nunca vi o vento soprar daquele jeito. Uma dessas tempestades normais de verão. Ficou tão escuro que tudo parecia azul-negro lá fora, e bonito; e a chuva batia tão forte que as árvores ali perto pareciam borradas e finas como teias de aranha; e aqui vinha um pé de vento que dobrava as árvores e virava pra cima a parte debaixo mais clara das folhas; e depois vinha uma rajada rasgando tudo e fazendo os ramos agitarem os braços como se tivessem endoidado; aí, quando tava quase o mais azul e o mais negro – fst! clareava tudo como a glória, e a gente via uma nesga de topos de árvores mergulhando ao redor, bem longe na tempestade, centenas de metros além do que a gente podia ver antes; num segundo, tudo escuro de novo como o pecado, então a gente escutava o trovão disparar com uma batida terrível e depois sair ribombando, roncando, tombando do céu para a parte de baixo do mundo, como barris vazios rolando pela escada, quando a escada é comprida e eles quicam bastante, sabe.
Jim, é bonito – digo. – Não queria tá em nenhum outro lugar. Me passa outro naco de peixe e um pouco de pão de milho quente.
Bem, ocê num ia tá aqui, se num fosse pelo Jim. Ocê ia tá lá embaixo na mata sem jantá, e ficano todo encharcado, com toda certeza, meu fio. Os pinto sabe quando vai chuvê, e os passarinho também, menino.
O rio continuou subindo e subindo por dez ou doze dias, até que passou por cima das margens. A água subiu na ilha até um metro ou um metro e vinte nos lugares baixos e nas margens de Illinois. Naquele lado, o rio ficou com muitos quilômetros de largura, mas no lado do Missouri era a mesma velha distância na travessia – oitocentos metros – porque a margem do Missouri era só uma parede de barrancos altos.
De dia a gente remava por toda a ilha na canoa. Era muito frio e cheio de sombras na mata profunda, mesmo que o sol tivesse ardendo lá fora. A gente entrava e saía ziguezagueando entre as árvores, e às vezes as trepadeiras caíam tão grossas que a gente tinha que voltar e procurar outro caminho. Em toda árvore derrubada a gente via coelhos, cobras e coisas assim; e quando a ilha ficou inundada um dia ou dois, eles tavam tão mansos, porque tavam com fome, que a gente podia remar até bem junto deles e pôr a mão neles se quisesse, mas não nas cobras e nas tartarugas – elas entravam deslizando na água. A serrania onde ficava a nossa caverna tava cheia desses bichos. A gente podia ter muitos animais de estimação se quisesse.
Uma noite a gente pegou uma pequena parte de uma balsa de tábuas – belas pranchas de pinho. Tinha três metros e meio de largura e de quatro e meio a cinco metros de comprimento, e o topo ficava uns quinze centímetros acima da água, um chão plano bem sólido. A gente via toras passando na luz do dia, às vezes, mas deixava elas passar, porque a gente não se mostrava na luz do dia.
Outra noite, quando a gente tava na ponta da ilha, pouco antes da luz do dia, aparece descendo uma casa com vigas de madeira, no lado oeste. Tinha dois andares e tava bem inclinada. A gente remou até ela e subiu a bordo – subiu até uma janela no andar de cima. Mas ainda tava muito escuro pra ver, por isso a gente amarrou a canoa e sentou dentro dela pra esperar a luz do dia.
A luz começou a aparecer antes da gente chegar na outra ponta da ilha. Aí a gente olhou pela janela. Dava pra ver uma cama, uma mesa, duas cadeiras velhas e muitas coisas no chão; e tinha roupas dependuradas na parede. Alguma coisa tava deitada no chão no canto mais distante e parecia um homem. Jim disse:
Ei, ocê!
Mas nada se moveu. Então gritei de novo, e aí Jim disse:
O hômi num tá dormindo... tá morto. Ocê fica quieto aqui... vô lá vê.
Ele foi, se inclinou e olhou, depois disse:
É um morto. Sim, de verdade, e tá pelado. Levô um tiro nas costa. Acho que tá morto faiz uns dois ou treis dia. Vem, Huck, mas num olha na cara dele... tá midonho.
Não olhei pro homem. Jim atirou uns trapos velhos sobre o corpo, mas nem precisava fazer isso, eu não queria ver o homem. Tinha montes de cartas velhas engorduradas espalhadas pelo chão, velhas garrafas de uísque e duas máscaras feitas com pano preto; e por todas as paredes dava pra ver palavras e imagens das mais ignorantes, feitas com carvão. Tinha dois vestidos de chita velhos e bem sujos, uma touca de sol e umas roupas de baixo de mulher, penduradas na parede, e umas roupas de homem também. Colocamos tudo na canoa, podia servir pra alguma coisa. No chão tinha um velho chapéu caipira de palha, de menino, peguei esse também. E uma garrafa que antes tinha guardado leite, com uma rolha de trapo pra bebê chupar. A gente ia levar a garrafa, mas tava quebrada. Tinha uma arca velha e surrada, e um baú velho de pelo de animal com as dobradiças quebradas. Tavam abertos, mas não tinha sobrado nada de importante dentro deles. Pelo jeito como as coisas tavam espalhadas, imaginamos que as pessoas saíram com pressa, não tavam preparadas pra carregar a maior parte dos seus badulaques.
Pegamos uma velha lanterna de lata, uma faca grande sem cabo e um canivete de duas lâminas bem novo que valia dois centavos em qualquer armazém, e muitas velas de sebo, e um castiçal de lata, e uma cuia, e uma xícara de lata, e uma velha colcha esfarrapada perto da cama, e um estojinho com agulhas, alfinetes e cera de abelha, botões e linha e todos esses troços, e uma machadinha e uns pregos, e uma linha de pesca tão grossa como o meu dedo mindinho, com uns anzóis monstruosos já presos nela, e um rolo de pele de gamo, e uma coleira de couro pra cachorros, e uma ferradura e uns frascos de remédios sem etiqueta; e bem quando a gente tava indo embora, encontrei uma escova bem boa, e Jim ele encontrou um velho arco de rabeca estropiado, e uma perna de madeira. As tiras tavam arrebentadas, mas fora isso, era uma perna bastante aproveitável, só que era comprida demais pra mim e curta demais pro Jim, e não conseguimos achar a outra, apesar da gente procurar muito por ali.
E assim, levando em conta tudo, fizemos um belo saque. Quando a gente tava pronto pra ir embora, já tinha descido uns quatrocentos metros ao longo da ilha, e era dia claro. Então fiz Jim deitar na canoa e cobrir-se com a colcha, porque se ficasse sentado as pessoas podiam ver que ele era negro de muito longe. Remei pra margem de Illinois e desci quase uns oitocentos metros desse jeito. Entrei na água parada embaixo da margem, sem acidentes e sem ver ninguém. Chegamos em casa a salvo.
Mark Twain, in As Aventuras de Huckleberry Finn