29/09/2026

Lilian Estela | Coisas da Vida

Pelada de barranco

Nada havia de mais prestante em nós senão a infância.
O mundo começava ali. Nosso campo encostava na beira
do rio. Um menino Guató chegava de canoa e embicava
no barranco. Teria remado desde cedo para vir ocupar
a posição de golquíper no Porto de Dona Emília Futebol
Clube. Nosso valoroso time. As cercas laterais do campo
eram de cansanção. Espinheiro fechado pra ninguém botar
defeito. Guató já trazia do barranco duas pedras para servir
de balizas. Os craques desciam da cidade como formigas.
José de Camos, nosso beque de espera também tinha a
incumbência de soprar as bexigas. Porque a nossa bola
era de bexiga, que às vezes caiam no rio e as piranhas
devoravam. E se caísse no cansanção os espinhos furavam.
Nosso campinho por miúdo só permitia times de sete:
O goleiro, um beque de espera, um beque de avanço e
três na linha. Chambalé nosso técnico impunha regras:
só pode mijar no rio e não pode jogar de botina.
Sabastião era centroavante. Chutava no rumo certo. Sabia
as variações da bexiga no vento e botava no grau certo.
Quando alguém enfiava as unhas na pedra abria uma vaga.
Metade de nossos craques eram filhos de lavandeiras e
outra metade de pescadores. Na aba do campo a namorada
do Sabastião torcia: quebra esse saba, destina eles pras
piranhas. Mas Chambalé não deixava destinar. Quem destina
é Deusi – falava. No fim do jogo alguns iam bater bronha,
outros iam no mato jogar o mantimento e outros iam
pelotear passarinho. Guató pegava a canoa e remava até
a aldeia a mil metros dali. A cidade onde a gente morava
foi feita em cima de uma pedra branca enorme. E o rio
paraguaio, lá embaixo, corria com suas piranhas
e os seus camalotes.

Manoel de Barros, em Memórias Inventadas – A segunda infância

Correnteza




6

Passava já da meia-noite quando Rita saiu da delegacia. Ela havia pedido a Fátima que orientasse os filhos a manterem a casa trancada, e que, em qualquer emergência, a chamassem. Rita Preta também estaria com o telefone para monitorá-los à distância. Sentou-se no mesmo canto do dia anterior — próximo à porta — e, por horas, viu uma procissão de pessoas registrarem novas ocorrências. Num dia qualquer, estaria faminta e exausta. Mas, curiosamente, não sentia fome ou fraqueza. Tinha a energia infatigável das urgências, precisava encontrar o filho, saber o que havia acontecido e prosseguir com a vida já afetada por aquele grande problema. Por fim, Rita conseguiu concluir o boletim. Também pediu para assinalarem a informação de que o filho tinha sido levado numa abordagem policial, embora não tivesse qualquer prova — a escrivã usaria um código para pontuar a questão —, e perguntou se teria como saber se a entrada de Cid constava no sistema de segurança pública.
“Não temos como verificar”, disse a atendente, sem se dirigir em nenhum momento a Rita, apenas olhando para o terminal de computador. “A senhora precisa ir até este endereço aqui”, continuou, apontando para um pequeno cartão de papel com a unidade policial de destino.

Ao chegar em casa, Rita nota que a luz está acesa. Juca dorme, mas Cainho ainda está acordado. Quer saber se a mãe tem notícia do irmão e se os comentários sobre a polícia eram verdade. Rita confirma. Ela contou, durante o registro da ocorrência, sobre a abordagem, e a atendente resistiu a anotar. A mulher sugeriu que era um boato — e, por enquanto, era somente isso mesmo —, mas orientou Rita a procurar na unidade do cartão onde poderia obter mais notícias sobre a suposta abordagem e o recolhimento.
“Não levaram seu irmão para uma delegacia ou prisão. Recolheram ele para outro lugar. Ele é menor de idade.”
“Eu vou com a senhora.”
“Não. Prefiro que você cuide do Juca. Preciso de você em casa.”
Rita Preta entende que Cainho é apenas um adolescente de catorze anos. Desajeitado, imaturo, talvez o que menos soubesse lidar com a vida para além das paredes de casa. Passava o tempo com livros e caderno na mão escrevendo anotações sem serventia — era assim que pensava —, rabiscando, e por vezes pouco atento, a cabeça no mundo da imaginação. Rita não considerava o filho do meio um jovem estudioso. Ele tirava notas medianas na escola, suficientes para ser aprovado. Ainda assim se saía melhor que os irmãos. Nem sempre ela conseguia acompanhar, mas vez ou outra procurava pelos títulos e pelos textos das capas de livros para saber o que ele andava lendo. As leituras escolhidas não tinham relação com as matérias que ele estudava. Eram romances, livros de conhecimentos gerais, além de jornais velhos e folhetos religiosos talvez úteis para outras atividades, mas não para a escola. No entanto, apesar da aparente imaturidade, Rita Preta o considerava plenamente capaz de cuidar do irmão e da casa, e ajudá-la naquele momento. Afinal, ela não tinha começado a trabalhar para uma família ainda mais nova? Rita confiava que ele pudesse desenvolver habilidades para a vida resolvendo problemas cotidianos e tomando decisões sem sua intermediação. A partir daquele dia, ele seria muitas vezes convocado a assumir o posto de responsável pela casa em sua ausência.
Rita sai cedo de casa para continuar sua busca. Decide não ir ao supermercado onde trabalha, preferindo inventar uma desculpa. Se contasse a verdade, achariam que ela era mãe de um drogado ou arruaceiro, ou que seu filho estivesse envolvido com atividades ilícitas. Precisava manter o emprego — não se imaginava procurando trabalho outra vez por meses ou mesmo anos, como via acontecer com muita gente, de todas as idades. Mas, ao mesmo tempo, Rita precisava encontrar Cid, saber o que tinha acontecido, ajudá-lo a sair de onde estivesse, trazê-lo de volta para casa, desfazer as diferenças persistentes para se perdoarem mutuamente. Sobretudo, precisava ajudá-lo a reencontrar seu caminho na vida.

Nome completo. Data de nascimento. Número do documento de identidade. Rita tenta não parecer distraída, mãe relapsa, e procura informar tudo que lhe é solicitado. Não pode falhar. Fotografia atual? Não, só a do documento e mais algumas tiradas num celular de baixa qualidade. Numa delas, Cid aparece sem camisa e com uma corrente dourada de bijuteria escurecida. Ao fundo, um muro mal-acabado de tijolos cerâmicos vermelhos à mostra e alguns pontos de limo. Os dedos em “V”, o sinal da vitória. Em outra foto, Cid esconde o rosto, não quer aparecer. Está deitado no sofá, a capa de tecido sintético verde fluorescente está desajustada. O ambiente parece escuro, embora fosse dia, Rita recorda; mas sobretudo era um dia descontraído. Ela consegue vislumbrar o sorriso do filho por trás das mãos enquanto tenta esconder o rosto. Em outra imagem, ele está de costas, o cabelo recém-cortado, desenhos nas laterais feitos a navalha. A imagem está desfocada, mas Rita se reprime e decide não mostrá-la na delegacia. Poderiam pensar o pior. Ela mesma havia censurado o filho, externara o próprio preconceito dizendo que parecia corte de malandro, bandido. Quando ele fosse trabalhar — e não faltava muito tempo —, não poderia ostentar cortes de cabelo como aquele nem tatuagens no rosto, nas mãos, no pescoço. E o serviço obrigatório do Exército? Daqui a dois anos, Cid precisaria se alistar — quem sabe não é convocado? Pode ser um bom emprego. Enquanto aguarda o atendimento, Rita seleciona as fotografias que poderá mostrar como eventual fonte de reconhecimento, porém elas começam a retroceder no tempo e já não serão tão úteis. Fato inegável: Cid era o filho que mais havia mudado nos últimos dois anos. Cresceu, o rosto parecia o de um adulto, mesmo pontilhado de acne. Já retirava os pelos ao redor da boca. Explorando os arquivos do celular, das últimas imagens para as primeiras, Rita vê a vida em retrospectiva: uma selfie com Jorge na praia, ela com o corpo bronzeado, óculos escuros e tranças afro que sempre a deixavam mais jovem; em outra imagem ela surge de olhos fechados com os filhos à sua volta. Parecem felizes, mesmo quando Cainho se mostrava sério, sem achar graça das piadas e situações em que todos riam. Em outra imagem, Juca aparece menor, um menino engraçado com uma espada de plástico nas mãos e sentado nos ombros de Cid. O mais velho está sem camisa, seu corpo adolescente à mostra, a bermuda caída abaixo da cintura. Em outra fotografia, algo escuro num canto da parede e uma vassoura ao lado caída no chão. Rita aumenta a imagem e vê o que parece ser uma ratazana morta. Mais adiante, a foto de um vestido branco e decotado na vitrine de uma loja — talvez quisesse copiar o modelo para a costureira do bairro reproduzir um igual, para dançar numa noite de encontro e festa.
A primeira vez que Cid suga seu seio para se saciar da fome mais antiga, Rita o observa com verdadeira curiosidade e sente sua alma em estado de graça. Quando a criança caiu da escada e a fez correr para a emergência de um hospital. Cinco pontos no queixo. Quando se alfabetizou, Cid passou a ler as sílabas de trás para a frente. As horas de parto quando sofreu todo tipo de violência num hospital público; um enfermeiro se sentou na sua barriga para forçar a expulsão da criança, que, por fim, foi retirada a fórceps. A criança era um sobrevivente e sorriu e correu e brincou, resistindo à sentença que toda violência carrega. Cainho escorregou como um quiabo por entre as pernas de Rita no caminho para a sala de parto, e por pouco — muito pouco — não foi ao chão. O mais novo subiu na porta do forno do fogão e derrubou o almoço quente, que poderia tê-lo ferido com gravidade. Porém essas fotografias não estão materializadas e arquivadas em seu aparelho celular. São vistas em perspectiva na memória, sem a ajuda de uma máquina, mas com o sangue correndo como rio em suas veias.

Rita Preta responde com ênfase que Cid não tem envolvimento com atividade ilícita. É um adolescente como muitos, gosta de futebol, quer namorar, quer o tênis da moda e sonha com uma vida melhor. Ela retira da bolsa a camisa encontrada no dia anterior. Afirma que pode ser do filho e mostra para quem realiza o atendimento.
“Vocês não precisam examinar?”
“Não, senhora. Não é necessário.”
“Ele estava a caminho da casa da namorada. Deve ter saído com a camisa no ombro e outra vestida por baixo. Alguém o levou, porque ele não deixaria a camisa em qualquer lugar sabendo que eu ia ficar uma fera se descobrisse.”
A mulher não está interessada na história que Rita conta e assinala que falta pouco para finalizar o atendimento. Rita Preta guarda a camisa de volta na bolsa. Pergunta se terá logo o resultado da pesquisa do sistema de segurança, se o filho foi recolhido e se está em alguma unidade de correção. A atendente diz que não, o prazo é de setenta e duas horas. Ela precisará voltar ali para saber o resultado.
Registrado o desaparecimento e feita a solicitação para tentar localizar Cid — se ele tinha sido ou não abordado por policiais, como seu Aranha havia escutado —, Rita Preta caminha até o ponto de ônibus, procura organizar as ideias em meio ao caos daqueles dias. Não consegue pensar em nada que não seja encontrar o filho mais velho, e segue sua intuição sobre quais caminhos deve continuar a trilhar.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem Medo

Teatrinho




Temos de começar pela bibliografia: Journal (1943-1945), de Julien Green; e A Volta do Gato Preto, de Érico Veríssimo.
É que os dois contam, cruzadamente, uma passagem, um caso que se deu, a 4 de agosto de 1944, no Mills College, Oakland, Califórnia, Estados Unidos. Emparelhá-los seria já de si curioso, texto e texto. Mas o próprio caso, em si, paga; veja-se que vale a pena.
Veríssimo é imparcial, jovial, sem rugosidades, entre distâncias. Aliteradamente, é um riacho: lúcido, lépido, límpido. E bom contrarregra. Tenham como traz os personagens. Diz:
De Julien Green: “... é um homem de estatura meã, construção sólida, tez dum moreno claro, cabelos e olhos escuros e um nariz gaulês, longo e fino. É retraído e tímido, dessa timidez que à primeira vista pode parecer empáfia. Só depois duma apresentação formal, durante a qual ele tirou da cabeça o panamá creme, é que passou a me cumprimentar, mas sempre cerimoniosamente.”
E de Carrera-Andrade: “Alto, corpulento, monumental, com seu bigode aparado, seus olhos de índio... Temos feito longos passeios pelo parque, a conversar sobre homens e livros, viagens e ideias. Ao cabo de dois dias começamos a divergir em quase todos os assuntos que atacamos.”
Mas, do que Veríssimo desdobra, entende-se também um Carrera-Andrade rei no intolerar, exorbitante:
“... Um dia, ao cabo de uma dissertação que lhe fiz relativamente à minha atitude diante do mundo, concluiu:
“— Mas você não é um escritor latino.
“— Por quê?
“— É um homem frio, metódico, insensível.
“— Insensível? Frio? Essa é boa...
“— Eu o tenho observado todos estes dias, tenho acompanhado as suas reações às coisas que lhe dizem, às pessoas que o cercam.”
Veríssimo sorri e desvê de mais explicar-se.
Mas Carrera-Andrade — que usa palmadas na coxa e outros jactos de impaciência — declara amor ao “povo”, tem pendores para isso. Sua má-vontade para com os norte-americanos se acende sempre. Assim:
“— Que se pode dizer dum país onde nem criados existem!
“— Mas, meu caro poeta — observo —, você não me disse que era socialista?
“— Pues si, amigo... Pero eso es diferente. Siempre habrá señores y esclavos.”
Dando a um o dado ao outro, compara-se agora. Green, no 3-V-43 de seu diário:
“Há os que deixam de repente de crer em Deus. Quanto a mim, noto que deixo, pouco a pouco, de crer na humanidade. Por muito tempo, ela se me impôs, com seus discursos, suas leis, seus livros, mas começo a vê-la sob o verdadeiro aspecto, que é triste, porque é uma velha louca, cujas crises de ferocidade alternam com sorrisos.”
Carrera-Andrade faz belos versos, será “um dos mais interessantes poetas modernos da América espanhola”. A pessoa de um homem é uma catarata de surpresas.
E Green, que convive com a Bíblia e compulsa o dicionário hebraico, ignora a existência de Carrera-Andrade, mas sabe que o Demônio existe. Green é um místico irresoluto. Passeia por si mesmo, como em claustro circular, plataforma para o invisível. Glosa a danação e a graça, o problema do mal, o destino, o pecado, o jogo entre Deus e o homem.
Mas, volta a falar Veríssimo, e a cena principia:
“... Acha Carrera-Andrade que Julien Green habita numa torre de marfim, alheio aos conflitos e inquietações sociais do momento.
“— E se promovêssemos um encontro..., por exemplo, um almoço com Green, para submetê-lo a uma sabatina? — pergunta-me ele.”
Arma-se o almoço. Julien Green vem sentar-se à mesa dos sul-americanos, sem suspeitar da cilada que lhe puseram. Veríssimo vai contando:
“... Finalmente Carrera-Andrade aproveita uma deixa e entra no assunto:
“— Mr. Green, não encontramos nos seus romances nenhuma inquietação relativa aos fenômenos sociais do nosso tempo. Não há neles nem mesmo menção desses problemas...
“Green fita no interlocutor seus olhos sombrios. O poeta continua:
“— Talvez tenha sido para evitar essa dificuldade que o senhor situou a ação de Adrienne Mesurat antes das duas Guerras...
“Todos nós esperamos a resposta com interesse. Uma expressão quase de agonia passa pela fisionomia de Julien Green. Ele olha para os lados, como a pedir socorro. Finalmente tartamudeia:
“— Problemas sociais? Como poderei escrever a respeito deles... se não os conheço? Só posso escrever sobre minha experiência humana... Essas questões sociais estão fora da minha experiência... Não é que eu não me interesse... Acontece que me sinto verdadeiramente perdido neste mundo.
“Carrera vai insistir. Isso me parece crueldade, crueldade de toureiro que, depois de farpear um touro, de vê-lo sangrando, exausto, quer ainda ir até o golpe final de espada.”
(Veríssimo é amigo de Thornton Wilder; leu o de Michael Gould, sabe que as paixões vivem de equívocos; opina:)
“Penso que um escritor da importância de Green merece não apenas admiração, mas também respeito. É, sem a menor dúvida, um romancista sério. Não falará a nossa língua, o que não quer absolutamente dizer que seja mudo. Não pertence ao nosso mundo, o que não quer dizer que deva ser votado ao inferno. Por outro lado parece-me que seus livros serão lembrados muitos anos depois que a obra de alguns dos escritores modernos de propaganda tenha sido completamente esquecida.
“Carrera-Andrade continua a atirar suas farpas. Acho melhor desviar a conversa do assunto. Vê-se claramente que Julien Green está infeliz.”
Mas — atenção — agora, à versão de Green no Journal:
“Ontem, na Casa Pan-americana, almocei em companhia de vários sul-americanos, um dos quais muito inteligente e os outros menos. Veríssimo, homem de grande modéstia apesar de seu sucesso, falou-me de meus livros. Ele é moço, com uma fisionomia agradável. À minha direita, uma espécie de bebê de bigodes pergunta-me, com voz em que já vibra a cólera, por que não escrevo romances ‘sociológicos’. Esse senhor sustenta, com efeito, que os romances devem servir para alguma coisa, que não são mais admissíveis as obras de arte que não sirvam para nada, e que seria ‘um real perigo haver escritores demais como Julien Green’. Digo-lhe então que esse perigo não é real, não é grande, e os outros todos começam a rir.”
E, pois, públicos aplausos: Não se diga que nosso patrício não se saiu excelentemente.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

Dúvida

Velha governanta do filósofo Descartes; avarenta e pechincheira, desconfia de tudo e de todos, menos dela.

Mário Quintana, em Caderno H

O cozer das pedras, o roer dos ossos



1
Do pó ao chão de terra seca


“Pai nosso que estais no céu, santificado seja o Vosso nome, venha a nós o Vosso reino, seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no céu…”, rezava em coro aquele pobre povo que velava a céu aberto o corpo de Mirtão. O aumentativo do apelido do homem fazia referência a seu já morto corpo enorme, esticado por demais desde que se entendia por gente, assustando os moradores inocentes da vila onde vivera. “[…] O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido…”, continuavam as vozes tristes. O rastro de temor deixado nas ruas pelo tamanho do homem que ali jazia era um paradoxo: mesmo bruto e assustador, não dava a ninguém razão para se esconder quando o assistia passar. Afinal, todos ali sabiam de Mirtão e sua mãe, Dona Hermina, uma senhorinha pequenina e encolhida pela idade, que amava o filho porque, acima de tudo, ele prolongara sua existência. Ora, não fosse o agora corpo morto, a velha teria sido enterrada muito antes que há quatro anos, quando morreu de morte morrida que chegara com a idade. Tinha-se esta certeza na vila: ela teria sido assassinada pelo marido bebum se o agora defunto não o tivesse arrancado a desgostosa vida depois de uma briga de bar em que os dois riscaram faca até um sucumbir de tanto sangue derramar. Mirtão era herói e vilão, assustador e salvador, filho amado e destinado pelo padre a queimar nas labaredas não celestiais, pois havia de pagar pelos pecados que cometera. “[…] E não nos deixeis cair em tentação…”, o caixão do homenzarrão estava no solo, ao lado do buraco cavado até beirar o corpo de sua amada mãe. Seguiram a tradição: o filho vai por cima. As vozes das mulheres cortavam o silêncio daquele cemitério enquanto se sobrepunham às dos homens na reza conhecida. O coro era uniforme, e uma ou duas das muitas crianças ali presentes se arriscavam a acompanhar o clamor. Estavam descalças e sem camisas, mesmo as meninas, com os cabelos desgrenhados coroando suas cabeças grandes. A maioria delas vestia apenas calcinha; e os meninos, cueca. Poucas ousaram pôr uma regatinha surrada para esconder do sol as costas. Tinham cinco ou seis anos, e demonstravam sua inocência agarradas às pernas dos que foram prestar favor ao enterro. A respeito de tudo o que as cercava naquele instante, sabiam apenas que Mirtão não voltaria, e isso as acalmava, porque ele estar nas ruas era uma das razões contadas pelos pais para segurá-las em casa o dia todo. As mulheres, mães e rezadeiras, usavam chinelos ralos, com os cabelos bem-arrumados e as unhas aparadas, mostrando respeito à figura que agora partira. Os homens, usando chapéus de palha feitos por eles mesmos, alguns esburacados e outros ainda verdes, seguravam as enxadas envelhecidas que tanto cavaram a cova quanto cobririam de terra o corpo quando fosse hora de devolver Mirtão ao pó. O conhecido calor de trinta e seis graus fazia todos suarem, e algumas das crianças, observando o momento boquiabertas, chegavam a sentir o gosto salgado que escorria por suas testas, desenhando suas bochechas e seguindo caminho para as bocas. Caramelo, adestrado pelo coveiro a se manter em silêncio nos enterros, estava ao pé do povo suado, ofegante e sem latir, deitado de bucho para baixo e pescoço erguido, atento ao corpo no caixão destampado. A cena era boa para o cão: depois daquilo, seu dono receberia uns trocados por ter enterrado mais um em seu quintal, e isso garantiria o jantar dos dois, que só tinham costume diário de almoçar. O círculo de gente fechava a cova de três palmos e meio de fundura, fazendo as sombras largas das cabeças delinearem a borda da circunferência projetada no solo. A mata da caatinga, seca e inclinada na direção da ventania, cercava à distância aquelas pessoas, rondando o terreno do coveiro e limitando a área do cemitério. Cruzes de madeira estavam entortadas e cravadas no chão, de forma desorganizada, alertando que, sob aquele solo amarelado que há muito não via chuva, descansavam outros corpos. No limite do terreno estava a cabana de taipa do proprietário, ela que com quatro paredes baixas erguidas e um teto de folhas secas de palmeira, ardia sob o sol e deixava exposta parte dos pedaços de paus sustentantes do barro que a dava forma. “[…] Mas livrai-nos do mal, amém…”, findaram o rito, enquanto o corpo era retirado do caixão e enrolado na velha rede que o envolveria sob terra até que o primeiro verme resolvesse satisfazer sua fome com as carnes de Mirto Aroeira Pereira Santino, que eternamente ali estaria, cumprindo sua parte na mais imprevisível profecia para o bicho-homem.

Patrick Torres, em O cozer das pedras, o roer dos ossos

28/09/2026

Mariana Aydar e Mestrinho | Preciso do Seu Sorriso

Hagar, o Horrível

Eu sei o que é primavera

Bem sei que é uma vaidade dizer em plena primavera que eu sei o que é primavera. Às vezes porém sou tão humilde que os outros me chamam a atenção. É uma humildade feita de gratidão talvez excessiva, é feita de um eu de criança, de susto também de criança. Mas, desta vez, quando percebi que estava humilde demais com a alegria que me era dada pela vinda da primavera chuvosa, dessa vez apossei-me do que é meu e dos outros.
Sei o que é primavera porque sinto um perfume de pólen no ar, que talvez seja o meu próprio pólen, sinto estremecimentos à toa quando um passarinho canta, e sinto que sem saber eu estou reformulando a vida. Porque estou viva. A primavera torturante, límpida e mortal que o diga, ela que me encontra cada ano tão pronta para recebê-la. Bem sei que é uma perturbação de sentidos. Mas, por que não ficar tonta? Aceito esta minha cabeça à chuva tremeluzente da primavera, aceito que eu existo, aceito que os outros existam porque é direito deles e porque sem eles eu morreria, aceito a possibilidade do grande Outro existir apesar de eu ter rezado pelo mínimo e não me ter sido dado.
Sinto que viver é inevitável. Posso na primavera ficar horas sentada fumando, apenas sendo. Ser às vezes sangra. Mas não há como não sangrar pois é no sangue que sinto a primavera. Dói. A primavera me dá coisas. Dá do que viver. E sinto que um dia na primavera é que vou morrer. De amor pungente e coração enfraquecido.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

Fé

Uma vez, da janela, vi um homem
que estava prestes a morrer,
comendo banana amassada.
A linha do seu queixo era já de fronteiras,
mas ele não sabia, ou sabia?
Como posso saber?
Comia, achando gostoso,
me oferecendo corriqueiro, todavia
inopinado perguntou
— ou perguntou comum como das outras vezes? —
como será a ressurreição da carne?
É como nós já sabemos, eu lhe disse,
tudo como é aqui, mas sem as ruindades.
‘Que mistério profundo!’ ele falou
e falou mais, graças a Deus, pousando o prato.

Adélia Prado, em Bagagem

À sociedade

Meu entendimento é ou não suficiente para este trabalho?
Se for, eu o empregarei como um instrumento fornecido pela natureza universal.
Se não, eu o delegarei para alguém mais capacitado — caso não haja um motivo para não delegar — ou farei o meu melhor com o auxílio do homem que, com o suporte da minha faculdade hegemônica, poderá fazer o que é proveitoso e adequado ao bem coletivo. Afinal, tudo o que faço, sozinho ou não, deve ser orientado somente pelo proveito e pela adequação à sociedade.

Marco Aurélio, em Meditações

O Mestre e Margarida | 12



Magia negra e sua revelação

Um homem pequeno com um chapéu-coco amarelo esburacado, nariz de batata cor-de-rosa, calça xadrez e botinas envernizadas subiu no palco do Teatro de Variedades com uma bicicleta simples de duas rodas. Ao som de um foxtrote, fez um círculo, e então soltou um grito triunfante, que fez sua bicicleta se empinar. Depois de dar uma volta sobre a roda traseira, o homenzinho ficou de pernas para o ar, deu um jeito de desparafusar a roda dianteira em movimento e a empurrou para os bastidores, e depois continuou seu caminho sobre uma roda, rodando os pedais com as mãos.
Em um selim no alto de um grande mastro metálico de uma só roda entrou uma loira roliça de maiô e uma saia curtinha coberta de estrelas prateadas e começou a pedalar em círculos. Quando cruzava com ela, o homenzinho dava gritos de saudação e tirava o chapéu-coco da cabeça com o pé.
Finalmente, surgiu uma criancinha de uns oito anos com rosto senil, ziguezagueando no meio dos adultos em um velocípede de duas rodas minúsculo, ao qual estava acoplada umaenorme buzina de automóvel.
Depois de fazer algumas acrobacias, todo o bando, ao rufar alarmante do tambor da orquestra, foi rodopiando até a ponta mais extrema do palco e os espectadores das primeiras filas soltaram gritos de admiração e pularam para trás em suas cadeiras, porque tiveram a impressão de que toda a troica ia desabar com seus veículos sobre a orquestra.
Mas as bicicletas pararam exatamente naquele momento em que as rodas dianteiras ameaçavam escorregar para o abismo sobre as cabeças dos músicos. Com um grito bem alto de “urra!”, os ciclistas saltaram de seus veículos, fazendo saudações, enquanto a loira mandava beijos no ar para o público, e a criancinha tocou sua buzina de som engraçado.
Os aplausos sacudiram o prédio e uma cortina azul veio dos dois lados e encobriu os ciclistas. As luzes verdes perto das portas com a inscrição “Saída” se apagaram, e na rede dos trapézios, sob a cúpula, bolas brancas se acenderam como o sol. Era o intervalo antes da última parte.
A única pessoa que não se interessava nem um pouco pelas maravilhas da tecnologia das bicicletas da família Giulli era Grigóri Danílovitch Rímski. Ele estava sentado em seu gabinete na mais completa solidão, mordendo os lábios finos, e volta e meia um espasmo passava por seu rosto. Ao extraordinário sumiço de Likhodiêiev, somou-se o desaparecimento completamente imprevisível do administrador Variênukha.
Rímski sabia para onde ele tinha ido, mas ele tinha ido e... não tinha voltado! Rímski dava de ombros e murmurava consigo mesmo:
— Mas por quê?
Que coisa estranha: para uma pessoa tão prática como o diretor financeiro, o mais fácil de tudo seria, é claro, telefonar para onde Variênukha tinha ido e procurar saber qual tinha sido seu fim e, no entanto, até as dez horas da noite ele não se decidira a fazer isso.
Às dez, praticando um verdadeiro ato de violência contra si mesmo, Rímski tirou o fone do gancho para então descobrir que o aparelho estava mudo. O mensageiro informou que os demais telefones do prédio também estavam com defeito. Esse acontecimento, claro, desagradável, mas não sobrenatural, sabe-se lá por que abalou definitivamente o diretor financeiro. Ao mesmo tempo, estava feliz: a necessidade de telefonar se esvaiu.
No momento em que a lâmpada vermelha sobre a cabeça do diretor financeiro acendeu e começou a piscar, anunciando o início do intervalo, o mensageiro entrou e informou que o artista estrangeiro havia chegado. O diretor financeiro, sabe-se lá por quê, estremeceu e, ficando ainda mais sombrio do que uma nuvem carregada, dirigiu-se para os bastidores para receber o artista visitante, pois não havia mais ninguém para fazer isso.
Do corredor, onde soavam campainhas de aviso, curiosos espiavam o grande camarim, sob diversos pretextos. Lá havia ilusionistas de capas vistosas e turbantes, um patinador com uma jaqueta branca de tricô, um contador de histórias pálido de tanto pó de arroz e um maquiador.
O famoso recém-chegado espantou a todos com seu fraque de comprimento sem precedentes e corte magnífico, e também por ter aparecido com uma meia-máscara negra. Mas o mais admirável era os dois companheiros do especialista em magia negra: um alto de xadrez com um pincenê rachado e um gato preto e gordo, que, quando entrou no camarim nas duas patas traseiras, sentou-se no sofá completamente à vontade, apertando os olhos para as lâmpadas de maquiagem.
Rímski se esforçou para colocar um sorriso no rosto, o que fez sua expressão ficar azeda e maldosa, e então cumprimentou o mago mudo, sentado ao lado do gato no sofá. Não houve aperto de mão. Em compensação, o atrevido sujeito de roupa xadrez se anunciou ao diretor financeiro, denominando-se “assistente do cavalheiro”. Esta circunstância deixou o diretor financeiro admirado mais uma vez: no contrato, decididamente não havia menção alguma a qualquer assistente.
Com um jeito extremamente forçado e seco, Grigóri Danílovitch quis saber do tal de xadrez que havia despencado sobre sua cabeça onde estavam os equipamentos do artista.
— Nosso diamante celestial, valiosíssimo senhor diretor — respondeu o assistente do mago, com a voz trêmula —, nosso equipamento está sempre conosco. Aqui está ele! Eins, zwei, drei! — E, depois de girar seus dedos nodosos diante dos olhos de Rímski, de repente tirou de trás da orelha do gato o próprio relógio de ouro e a correntinha de Rímski que até então estavam no bolso de seu colete sob o paletó abotoado, a correntinha trespassada em uma casa do botão.
Rímski apalpou a barriga involuntariamente, os presentes suspiraram e o maquiador que espiava pela porta grasnou, concordando.
— É seu querido relógio? Queira pegá-lo — disse o de xadrez, sorrindo casualmente e estendendo ao perplexo Rímski a palma da mão suja com seu pertence.
— Qual é a ordem, messire? — perguntou Fagot ao mascarado.
— Bom, fazer o quê? — retrucou o mago, pensativo. — São pessoas como outras quaisquer. Gostam de dinheiro, mas sempre foi assim... A humanidade gosta de dinheiro, independentemente do que seja feito: de couro, de papel, de bronze ou ouro. Bom, são levianas... fazer o quê... a misericórdia às vezes bate em seus corações... são pessoas comuns... em geral fazem lembrar as pessoas de antigamente... só que o problema habitacional as corrompeu... — E ordenou em voz alta: — Coloquem a cabeça no lugar.
Mirando com esmero, o gato enterrou a cabeça no pescoço e esta se assentou perfeitamente, como se nunca tivesse se ausentado de lá. E o principal, não ficou sequer uma cicatriz no pescoço. O gato espanou o fraque e o peitilho da camisa de Bengálski com as patas e os vestígios de sangue desapareceram. Fagot ergueu Bengálski, colocando-o de pé, enfiou em seu bolso um maço de dinheiro e o conduziu para fora do palco, com as seguintes palavras:
— Fora daqui! Sem você é mais divertido.
Olhando ao redor insanamente, e cambaleando, o mestre de cerimônias conseguiu se arrastar até o extintor de incêndio e ali se sentiu mal. Então soltou um grito penoso:
— Minha cabeça, minha cabeça!
Entre os que correram até ele, também estava Rímski. O mestre de cerimônias chorava, tentava apanhar algo no ar, balbuciava:
— Devolvam minha cabeça! Devolvam a cabeça! Peguem o apartamento, os quadros, mas devolvam a cabeça!
Um recepcionista foi correndo em busca de um médico. Tentaram acomodar Bengálski em um sofá do camarim, mas ele começou a se debater, ficou violento. Foram obrigados a chamar uma ambulância. Quando o pobre do mestre de cerimônias foi levado, Rímski correu de volta para o palco e viu que novas maravilhas estavam acontecendo ali. Ah, sim, naquele momento, ou um pouco antes, o mago, junto com sua poltrona desbotada, havia desaparecido do palco, e, a propósito, é preciso dizer que o público nem sequer notou, seduzido que estava com aquelas coisas excepcionais que Fagot desdobrava no palco.
Depois de despachar o vitimado mestre de cerimônias, Fagot anunciou ao público:
— Agorinha, depois de nos livrarmos desse chato, vamos abrir uma loja para damas!
E imediatamente o chão do palco cobriu-se com tapetes persas, surgiram enormes
espelhos, iluminados nas laterais por tubos esverdeados. Entre os espelhos, vitrines, e nelas os espectadores, alegres e aturdidos, viram vestidos parisienses, de diversas cores e cortes. Isso só em algumas vitrines. Já em outras apareceram centenas de chapéus para damas, com plumas e sem plumas, com fivelas e sem, centenas de sapatos — pretos, brancos, amarelos, de couro, de cetim, de camurça, com tiras, com pedrinhas. Entre os sapatos apareceram estojos de perfumes, montanhas de bolsas de couro de antílope, de camurça, de seda e, entre elas — verdadeiras pilhas de pequenos estojos alongados de ouro cinzelado em que se costuma colocar o batom.
Vai saber o diabo de onde saiu uma moça ruiva com uma toalete preta de gala, uma moça bonita em todos os sentidos, não fosse por uma estranha cicatriz no pescoço que a desfigurava, com um sorriso de proprietária ao lado das vitrines.
Fagot, sorrindo, malicioso e doce, anunciou que a casa estava realizando, sem cobrar nada, a troca de vestidos e calçados femininos velhos por novos modelos parisienses e novos calçados parisienses. Ele acrescentou o mesmo com relação às bolsas e ao restante.
O gato começou a arrastar a pata traseira e com a dianteira fazia uns gestos, próprios de porteiros quando abrem uma porta.
Mesmo afônica e com a língua presa, a moça começou a cantar docemente algo pouco compreensível, mas, a julgar pelos rostos femininos da plateia, muito sedutoramente:
— Guerlain, Chanel nº 5, Mitsouko, Narcisse Noir, vestidos de gala, vestidos para coquetéis...
Fagot se contorcia, o gato fazia reverências, a moça abria vitrines de vidro.
— Por favor! — vociferava Fagot. — Sem constrangimento ou cerimônia!
O público estava agitado, mas ninguém se atrevia a ir até o palco. Finalmente, uma morena saiu da décima fileira da plateia e, sorrindo, digamos, como se desse na mesma e não tivesse nenhuma importância para ela, passou pela escada lateral e subiu ao palco.
— Bravo! — gritou Fagot. — Vamos cumprimentar a primeira cliente! Uma cadeira, Behemoth! Vamos começar pelos calçados, madame!
A morena sentou-se na poltrona e imediatamente Fagot despejou um amontoado de sapatos no tapete diante dela. A morena tirou o sapato do pé direito, experimentou um lilás e pisou pelo tapete, examinando o salto.
— Será que não vai me apertar? — perguntou de forma pensativa. Ao que Fagotexclamou, ofendido:
— O que é isso, o que é isso! — e o gato miou também, ofendido.
— Vou levar esse par, monsieur — disse a morena com orgulho, calçando também o outro sapato.
Os sapatos velhos da morena foram jogados para trás da cortina, para onde também seguiu ela mesma, acompanhada da moça ruiva e de Fagot, que levava vários vestidos da última moda em cabides. O gato ajudava, atarantado, e, para dar um ar de importância, pendurou uma fita métrica no pescoço.
Um minuto depois, a morena saiu de trás da cortina com um vestido que fez um suspiro rodopiar por toda a plateia. A audaciosa mulher, admiravelmente mais bela, parou diante do espelho, moveu os ombros desnudos, tocou os cabelos na nuca e virou-se, tentando ver as próprias costas.
— A casa pede que aceite isso como recordação — disse Fagot, oferecendo à morena um estojo aberto com um frasco.
— Merci — respondeu a morena, soberanamente, e foi para a plateia pela escada. Enquanto andava, os espectadores saltavam e tocavam no estojo.
Então, de todos os lados, como uma avalanche, mulheres foram para o palco. Em meio ao rebuliço geral de vozes, risinhos e suspiros, ouviu-se uma voz masculina: “Não vou permitir uma coisa dessas!”, e outra feminina: “Seu déspota, pequeno-burguês! Assim você vai quebrar meu braço!” Mulheres desapareciam atrás da cortina, deixavam seus vestidos e saíam com novos. Toda uma fileira de damas sentada em banquinhos de pés dourados batia energicamente os calçados novos no tapete. Fagot se ajoelhava, manejando uma calçadeira de metal. O gato, atolado no meio de um monte de bolsas e sapatos, zanzava de um lado para o outro entre as vitrines e os banquinhos. A moça do pescoço deformado aparecia e desaparecia e chegou até mesmo ao ponto de ficar papeando inteiramente em francês, e o mais impressionante era que todas as mulheres a compreendiam mesmo com meias palavras, até as que não sabiam uma palavra sequer de francês.
Admiração geral foi provocada por um homem que se enfiou no palco. Ele anunciou que sua esposa estava gripada e por isso pedia que lhe dessem algo para levar-lhe. Para provar que era realmente casado, o cidadão prontificou-se em apresentar a certidão. A declaração do marido dedicado foi recebida com gargalhadas e Fagot vociferou que acreditava nele como em si próprio, mesmo sem a certidão, e entregou ao cidadão dois pares de meias de seda, e o gato incluiu de sua parte um pequeno estojo de batom.
As mulheres atrasadas irrompiam no palco, e dali transbordavam bem-aventuradas com vestidos de baile, robes com dragões, trajes sóbrios e pequenos chapéus apoiados sobre uma sobrancelha.
Então Fagot anunciou que, dali a exatamente um minuto, em função da hora tardia, a loja ficaria fechada até a noite do dia seguinte, e uma incomensurável confusão tomou conta do palco. As mulheres agarravam sapatos apressadamente, sem experimentá-los. Uma, feito um furacão, irrompeu para trás da cortina, arrancou ali mesmo seu traje e se apossou da primeira coisa que apareceu pela frente — um chambre de seda com estampa de buquês enormes de flores. Além disso, conseguiu agarrar dois estojos de perfumes.
Exatamente depois de um minuto, houve um disparo de pistola, os espelhos desapareceram, as vitrines e os banquinhos se dissiparam, o tapete evaporou no ar, assim como a cortina. A última coisa que desapareceu foi a altíssima montanha de vestidos e calçados velhos, e o palco ficou novamente austero, vazio e desnudo.
E foi aqui que um novo personagem se intrometeu.
Um barítono agradável, sonoro e muito insistente foi ouvido do camarote número dois:
— De qualquer maneira, cidadão artista, seria desejável que, sem perder mais tempo, o senhor revelasse diante dos espectadores a técnica de suas mágicas, em especial a das cédulas de dinheiro. Seria desejável, também, o retorno do mestre de cerimônias ao palco. Os espectadores estão agitados sobre o destino dele.
O barítono pertencia a ninguém menos que o convidado de honra daquela noite, Arkádi Apollônovitch Sempleiárov, presidente da Comissão de Acústica dos Teatros Moscovitas.
Arkádi Apollônovitch estava no camarote com duas damas: a mais velha usava trajes caros e da moda, e a outra — jovenzinha e bonitinha — trajes mais simples. A primeira, como se soube durante a redação do relatório, era a esposa de Arkádi Apollônovitch; a segunda, sua parente distante, atriz iniciante e promissora, que viera de Sarátov e estava morando no apartamento de Arkádi Apollônovitch e sua esposa.
— Pardon! — retrucou Fagot. — Peço desculpas, aqui não há nada a ser revelado, tudo está claro.
— Não, sinto muito! A revelação é totalmente necessária. Sem isso esses brilhantes números deixarão má impressão. A massa de espectadores exige explicações.
— Parece que a massa de espectadores — rebateu o palhaço insolente, interrompendo Sempleiárov — não tem nada a declarar. Mas, levando em consideração o seu profundo e respeitável desejo, Arkádi Apollônovitch, que assim seja, eu farei uma revelação. Porém, para isso, permita-me mais um numerozinho?
— Por que não? — respondeu Arkádi Apollônovitch, com ar condescendente. — Mas com uma revelação, sem falta!
— Sim, senhor, sim, senhor. Então permita-me perguntar, onde o senhor estava ontem à noite, Arkádi Apollônovitch?
Diante dessa pergunta descabida e, digamos, indelicada, o rosto de Arkádi Apollônovitch ficou alterado, realmente bastante alterado.
— Ontem à noite Arkádi Apollônovitch estava em uma reunião da Comissão de Acústica — declarou de forma muito arrogante sua esposa. — Mas não estou entendendo o que isso tem a ver com magia.
— Ouiii, madame! — confirmou Fagot. — É natural que a senhora não entenda. Mas, quanto à reunião, está totalmente enganada. Quando saiu para a referida reunião, que, diga-se de passagem, nem estava marcada para ontem, Arkádi Apollônovitch dispensou seu motorista perto do edifício da Comissão de Acústica em Tchístie Prudý (o teatro inteiro silenciou) e, sozinho, tomou um ônibus até a rua Ielôkhovskaia para fazer uma visita a uma atriz do teatro itinerante do distrito, Mílitsa Andrêievna Pokobátko, e com ela passou cerca de quatro horas.
— Ai! — alguém soltou uma exclamação de sofrimento em meio ao silêncio absoluto.
De repente a jovem parente de Arkádi Apollônovitch soltou uma gargalhada baixa e terrível.
— Tudo está esclarecido! — exclamou ela. — Eu já desconfiava disso fazia muito tempo. Agora está claro porque aquela besta quadrada ganhou o papel de Luisa!
E, agitando-se repentinamente, bateu na cabeça de Arkádi Apollônovitch com seu pequeno e grosso guarda-chuva lilás.
O pérfido Fagot, também chamado Korôviev, gritou:
— Vejam, veneráveis cidadãos, um dos casos de revelação que Arkádi Apollônovitch arrumou com tanta impertinência!
— Como você se atreve, sua infame, a encostar em Arkádi Apollônovitch? — perguntou a esposa com um ar terrível, levantando-se no camarote em todo seu tamanho gigante.
Um segundo e breve acesso de riso satânico tomou conta da jovem parente.
— E quem mais do que eu — respondeu ela, rindo — se atreveria a encostar nele! — E pela segunda vez o estalido seco do guarda-chuva batendo na cabeça de Arkádi Apollônovitch ressoou no teatro.
— Polícia! Prendam-na! — gritou a esposa de Sempleiárov com uma voz tão terrível que muitos sentiram o coração gelar.
Então o gato apareceu na ribalta e esbravejou para o teatro inteiro ouvir com uma voz humana:
— A sessão acabou! Maestro! Execute uma marcha!!
O enlouquecido maestro, sem se dar conta do que estava fazendo, agitou a batuta, e a orquestra não começou a tocar, nem mesmo a soar ou a retumbar, mas precisamente, seguindo a expressão repulsiva do gato, executou uma marcha incrível, de uma rudeza sem precedentes.
Por um momento pareceu que as palavras dessa marcha, pouco inteligíveis, mas muito audaciosas, tinham sido ouvidas outrora em um café-cantante, sob o brilho das estrelas do sul:

Sua excelência
De passarinhos gostava,
E para si
Belas mocinhas tomava!!!

Mas pode ser que não fosse nenhuma dessas palavras, mas outras com essa mesma música, com letras extremamente inadequadas. O importante não é isso, o importante é que, depois de tudo, algo parecido com uma babel teve início no Teatro de Variedades. A polícia correu até o camarote dos Sempleiárov, os curiosos subiam nas divisórias, ouviam-se explosões infernais de gargalhadas, gritos raivosos, abafados pelo retinir dourado dos pratos da orquestra.
[…]

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida

27/09/2026

Caetano Veloso e Cézar Mendes | João

Pulando a cerca!

1641 – Mbororé

As missões

Chegam os mamelucos da região de São Paulo, caçadores de índios, devastadores de terras: avançam ao som da caixa, bandeira estendida e ordem militar, troar de guerra, vento de guerra, através do Paraguai. Trazem longas cordas com colares para os índios que agarrarão, e venderão como escravos nas plantações do Brasil.
Os mamelucos ou bandeirantes estão há anos arrasando as missões dos jesuítas. Das treze missões do Guayrá, não sobram mais que pedras e carvão. Novas comunidades evangélicas nasceram do êxodo, águas abaixo do Paraná; mas os ataques, incessantes, continuam. Nas missões, a serpente encontra os passarinhos reunidos e engordados, milhares de índios treinados para o trabalho e a inocência, sem armas, fáceis para o bote. Sob a tutela dos sacerdotes, os guaranis partilham uma vida regulada, sem propriedade privada nem dinheiro nem pena de morte, sem luxo nem escassez, e caminham para o trabalho ao som das flautas. Nada podem suas flechas de taquara contra os arcabuzes dos mamelucos, que provam os aços de suas alfanjes fendendo em duas partes as crianças e que como troféu levam tiras esfarrapadas de batinas e caravanas de escravos.
Mas desta vez uma surpresa espera pelos invasores. O rei da Espanha, assustado pela fragilidade destas fronteiras, ordenou que entregassem armas de fogo aos guaranis. Os mamelucos fogem em debandada.
Das casas brotam penachos de fumaça e cantos de alabança a Deus. A fumaça, que não é de incêndio e sim de lareiras, celebra a vitória.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Sétimo caderno de Kindzu



Um guia embriagado

Já me cansavam aqueles dias em casa de Assane. Que esperava? Nem Surendra nem Assane me podiam ajudar a procurar Gaspar, o perdido filho de Farida. Se lhes pedia conselho eles recolhiam os ombros, incapazes de responder. Para eles meu assunto era coisa estranha, de um outro mundo.
Nesse entrequando, eles me certificaram que a aldeia de Euzinha havia sido atacada e ninguém nela mais residia. Euzinha devia agora estar no campo de deslocados. Lá, com toda a certeza, residia agora a mulher que sabia do destino de Gaspar. Porém, como chegar até ela? Os matos eram demasiado mortais. Ninguém aceitaria me acompanhar. Antoninho, o ajudante da loja, ao cabo de muita saliva, disse conhecer alguém que poderia me conduzir pelos aforas. Deveríamos ir ao bar, lá se encontrava o desditoso cujo.
Essa noite eu e Antoninho fomos ao bar. Entrei e me deixei no balcão, escutando as vozes distantes dos presentes, quase todos embriagados. Muitos aproveitavam as duas horas de electricidade que o gerador da administração distribuía pelo povoado. E se agremiavam na cervejaria, a juntar conversa, amolecendo fraquezas em voz alta. Mais que os outros todos, dois homens se discutiam. Antoninho identificou os tais. Um gordo, enormão, balalaica carecendo de botões. Sendo chamado de Abacar Ruisonho. O outro, denominado Quintino Massua, homem nervoso, tão magro que uma ideia, só de ter peso, lhe fazia transpirar. Pois este Quintino levantava o copo e celebrava as boas graças:
— Vou ficar rico, cheio da mola.
Os presentes se riam, sem dar outro crédito que não fosse o de brincriação. E erguiam os copos, festejosos. Antoninho me segredou, em rápida pincelada, o retrato de Abacar Ruisonho. O homem era o chefe dos serviços de segurança, vacilando entre o ruim e o perdoável. Pois ele chegava onde quer que não fosse, abanava um cartão, nomeado que estava para intimar, intimidar e lavrar em acta. Seu permanente serviço era contar os viventes, conhecer quantos deslocados chegavam do campo. Passava o dia de esquina em esguelha, numerando: um, dois, por aí avinte... Empilhavam-se os números, baralhavam-se as pessoas. E recomeçava a contagem. Às vezes, rebentavam-lhe as fúrias: que esta gente nunca está quieta, grande porra! Uma coisa era certa: o gordo nem mau seria. Pelo menos, o magro Quintino não se amedrontava com o gordo Abacar. O magricelas se declarava, de juramentos para cima:
— Estou a dizer: amanhã sou eu que vou distribuir favores. É bom vocês ficarem em concordâncias comigo. Quem estiver contra mim não vai cheirar quinhenta.
Todos se descuidavam da verdade, migrados no fumo daquele bar, longe da vida real. E aclamavam no actual pobre o futuro falso rico. Se queria era engordar a fantasia. Fazia-se a festa sem nenhum ingrediente que não fosse a miséria de entrar num copo e afogar tristezas.
O único que não encontrava graça era o gordo Abacar. Sério como uma segunda-feira, reprovava as proclamações de Quintino Massua.
— São bebedeiras politicamente incorrectas.
Nesse momento, entrou no bar um homem estranho, pendurando uma pistola no vasto cinto. Ao sentir a presença do cujo, os presentes se entrelinharam, caladinhos, metidos com seus líquidos assuntos. Perguntei a Antoninho quem era o chegado.
— Esse é o Shetani. É melhor a gente se emborar.
O silêncio se instalou no bar. Contudo, naquele momento, Quintino Massua se desimportou, alheio aos perigos. Para comprovações, subiu numa cadeira e proclamou-se autor de feitos muito comentados em toda a vila:
— Aquelas notas de dinheiro que apareceram na praia: quem foi que rasgou-lhes? Eu mesmo, próprio Quintino.
O gordo Abacar ruminou cerveja, empapou argumento. Os presentes deixaram as graças e se abotoaram consigo mesmos. Antoninho me puxou pelo braço insistindo que deveríamos ir embora:
— Por favor de Deus, vamos para casa!
A brincadeira resvalava nos perigos, o assunto das notas era matéria de muito-o-quê. Shetani já comichava a mão sobre o cinto, deitando um nervo sobre a pistolenta. Mas o magrinho Quintino, discursador, prosseguia:
— Vejam motivo do sofrimento de hoje. É porquê?
Virando-se para mim me perguntou se eu sabia o real motivo dos cajueiros não florirem. Abacar me falou, ten-tando me tranquilizar:
— Não ligue. Isto é atraso, ignorância bravia. Vale a pena insistir? Vale a pena esclarecer esta gente? Eu sempre acho que sim. Do menos o mal: afinal, grão a grão o papa se enche de galinhas.
Hospitaleiro, o volumoso Abacar me ofereceu um espaço no balcão, a seu lado. Enquanto bebia, desembolsava mais ditados:
— No papar é que está o ganho!
O homem aproximou-me o bafo. Pensei que, postos os modos de confidência, fosse falar em sussurro. Mas usou o mesmo tom de xipalapala entupido:
— Vou-lhe confessar: me irrita esse Quintino é só por gosto que tenho nele. O gajo não compreende que eu lhe quero proteger. Quando lhe trato assim, faz conta um doentio, é para esses grandes pensarem ele é tonto, suas palavras são sempre de tira-e-põe. Você sabe: em terra de cego quem tem um olho fica sem ele.
Súbito, uma enorme explosão estrondeou. A luz sacudiu-se, por segundos, depois desfaleceu. No escuro, calados, aguardámos nova explosão. Apenas uma voz se fez ouvir:
— Cabrões, foi aqui mesmo!
Quem estaria disparando? O exército ou os bandos? Contra quem estariam disparando? Alguém riscou um fósforo, uma vela se acendeu no balcão. Depois, vários xipefos se iluminaram e foram distribuídos pelas mesas. Quintino foi o primeiro a voltar às falas, retomador da folia.
— Você, então? Nada se fala?
O homem se aproximou de mim, eu já estava sem remédio: metido na disputa. Mais queria ficar de fora, alheio à conversa perfurada, mais eu estava com o pescoço dentro dela. Nervoso, o homem me empastou com seu hálito:
— Você estrangeiro, escuta. Nesta terra se passam muitas merdas, todos tem medo de falar. Eu sei quem está a matar aqui. Não são só os bandos. Há outros, também.
Os bebedeiros se encolheram: as palavras de Quintino soaram como a explosão de há pouco. Quintino insistia: há coisas que todos sabem mas ninguém diz.
— Agora, em Moçambique, a guerra é como se fosse uma machamba.
E se explicou: a guerra gerava altos tacos, cada um semeava uma guerra particular. Cada um punha as vidas dos outros a render. Aquele silêncio estava agora demasiado mortal. Se escutou, então, a voz rosnante de Shetani:
— Esse gajo tem os dias descontados!
Quintino prosseguiu destemeroso, ignorando a presença do antigo combatente:
— É por isso essa guerra não acaba nunca mais. É assim, exactamesmo. Este Abacar também sabe, só não fala porque é um merda, filho de uma diarreia.
Aquilo era a gota transbordando. Abacar ficou calado, marsupial. Nem eu notara que estivesse tão bebido. O ex-cesso de álcool lhe dava uma aparência compenetrada. Bambavam-lhe as pernas, a barriga toda de fora, parêntesis curvo do peso. De repente, porém, arremessou a mão fechada contra a cara de Quintino que caiu, instantâneo, em ruidoso chapinhar. Ficou ali, todo inerte, esmãozinhado. Em volta, um círculo de vozes lhe chamava:
— Quintino, acorde!
Não respondia coisa nem coisa. Seria que ele, pessoalmente, tinha morrido? Perguntei, de inocente. Em redor, os outros se mancharam a rir. Eu não me afligisse, aquilo era muito costumeiro: o magrito acabava sempre assim as noites, no encosto do chão. Abacar se chegou até mim, amaciando os nós dos dedos.
— Tive que lhe arrear. Não tenho gosto de bater. É só para calar o gajo.
Foi então que, naquela penumbra ponteada de lamparinas, surgiu uma mulher acompanhada de um cão de dimensões. Antoninho me sussurrou: aquela era Juliana Bastiana, a prostituta cega. Olhei a dita enquanto o silêncio regressava àquele lugar fumarento. Shetani chamou Abacar e disse-lhe qualquer coisa ao ouvido. Os dois se riram, alto e mau som. A cega abria caminho entre as mesas. A mão dela, ao de leve, tocava o dorso do animal: assim se guiava.
— Estou ouvir o cheiro de um homem de fora. Quem sabe me trazem notícia do meu brigadeiro...
Suspirava saudades que nem convinham a uma mulher sabida e cursada em contrabandalheiras. Seu modo de ser cega fazia que não parecesse uma dessas trampalhonas, virabazucas. Ela se chegou, me cheirou. A saia dela se apertava no corpo, o rabo quase nem devia respirar.
— Não tenhas medo do cão. Ele é mais bondoso que muitos desses, disse apontando para a multidão.
Me pediu ser paga, juntou logo três copos. Mandou o cão para fora, o bicho que esperasse por ela. Obediente o cachorro meteu as pernas entre o rabo e saiu. Olhei em redor, a conversa embaretecera, risos rolando em risos. Nem parecia ter havido o tiroteiro, há segundos. Não parecia mesmo haver lá fora, tudo se resumindo àquele barzito. A cega pareceu adivinhar meus pensamentos.
— Graças a Deus sou cega. Lá fora, o mundo está pior. Por causa essa guerra, já ninguém se compaixona por ninguém.
Ela então contou sua razão de suspirar: aguardava o brigadeiro Silvério Damião, seu amante muito militar, exercendo patentes no exército colonial. Juliana historiava: que o brigadeiro tinha saído em missão recente contra os turras, na defesa da lusitana terra. A cega misturava os tempos, fazia do passado um tempo vigente. De um brusco gesto, meteu todo um braço dentro de sua saca e retirou um molho de envelopes.
— Tudo isso são cartas dele, não passa nenhuma semana que não escreva. Queres ler, estrangeiro?
Segurei as cartas, hesitante. Não li nenhuma. Aproveitei o momento para lhe explicar o motivo da minha presença naquele bar. Quem sabe ela me poderia apontar alguém capaz de me acompanhar em procuras no mato. Juliana Bastiana permaneceu sem resposta, parecia nem lhe chegara meu pedido. Pensei que deveria abrir um pouco dos motivos, lhe devia uma explicação. Mas ela me interrompeu:
— Há um motivo de amor?
— Sim, há.
— Então, não preciso saber mais.
Sorri, agradecido. Mantinha as cartas na mão, com delicado respeito, como se ela me pudesse ver. Devagar fui pousando os envelopes sobre a mesa. Os homens me olhavam, desdenhosos. Eu, um de fora, gozava a companhia de Bastiana. Baixei a voz e o gesto para não criar caso. As caras em volta eram de nenhuns amigos. Antoninho, só então reparei, já tinha saído do bar. Juliana me pareceu adivinhar o sentimento:
— Não tenha medo. Esses gajos é que tem razão para terem medo.
Só o brigadeiro Silvério, seu distante amante, era um homem muito inteiro, sem minhufas de ninguém. Era por isso que os outros sempre se irritavam quando ela anunciava o breve regresso do militar.
Voltei ao assunto da minha pergunta. Adiantei que se tratava de procurar uma criança há muito abandonada. Juliana lançou um terrível pressentimento: se fora há muito tempo, então esse miúdo devia andar com os bandos, patifaristando pelos matos, feito semeador de infernos.
— Mesmo assim lhe quero encontrar, respondi.
Eu queria ganhar tempo, entreter a prostituta a ver se ela se inclinava a deixar cair o nome de alguém que me servisse de guia.
— Tens arma, estrangeiro? Não tens? É muita pena: porque era bom que ensinasses a esse menino maneiras de matar, bons métodos de roubar.
Da bolsa retirou um cigarro e, sem acender, o ajeitou entre os lábios. É só para os outros verem, nem tu sabes quanta inveja vale uma coisa dessas, disse ela abanando o cigarro.
— Encontras o miúdo, mas ficas proibido de lhe dar caneta ou enxada. Isso não dá vida para ninguém. Vale a pena uma arma, estrangeiro. Nestes dias, uma arma é que faz a vida. Rápida e boa.
Do cigarro apagado ela arrancava invisíveis fumaças. Foi rodando a cabeça, espreitando as vozes. Sacudiu a cadeira, para me chamar a atenção. Apontou a mesa ao lado onde estava Shetani.
— Tu não sabes o meu perigo de sentar aqui, sozinha consigo.
Não demorei entender. No fundo do bar, Shetani chamou Bastiana. Usava os modos de espalhador de brasas.
— Anda-te aqui. Quero mostrar-lhe uma coisa.
Bastiana levantou-se com ar grave, apalpando as vozes, seus cinzentos. Ainda quis ajudar. Mas ela rejeitou o meu braço e ordenou que me afastasse. Avançou sem chocar em nada, postou-se diante de Shetani.
— O que é?
— Dá a tua mão, quero oferecer-lhe um presente.
— Vai para o mato, o seu lugar é lá.
— Estou-te a dizer, Bastiana. É um presente, uma encomenda que fui dado por um brigadeiro colonial.
A prostituta estremeceu, seus olhos sorriram, vagaluminosos. Deu um passo em frente, seu corpo se firmava como um credo. Shetani afastou a mesa, ergueu-se com vagares. Segurou a mão de Juliana Bastiana, abriu-lhe os dedos com força.
— Toma, Juliana Bastiana.
Colocou-lhe nas mãos uma qualquer coisa, ninguém percebeu o que era. Conforme apalpou a oferenda, o rosto dela foi abrandando o sorriso e, aos poucos, se fechou em mágoa. Até que gritou um arregalado lamento e chorou. Veio até à minha mesa, desta vez chocando-se nas demais cadeiras, cambaleoa.
— O que é, Juliana? Que te fizeram, conta-me.
Ajudei a se sentasse, seu corpo estava tenso, parecia ter tomado o freio nos nervos. Em seu rosto se desprendiam gotas de grossa tristeza, ensopando o pó-de-arroz. Voltei a pedir que me explicasse o que sucedera.
— Olha, vê o que fizeram com meu cão.
E abriu as mãos. Nelas estavam duas orelhas cortadas, ainda sangrando, inundando de vermelho a concha de seus dedos. Eu nem me pensei. Empurrei a cadeira, avancei sobre o milícia. Mas no caminho o braço da prostituta me travou, em aflição.
— Onde vais?
— Ele tem que aprender, Juliana. Alguém deve...
— Fica quieto, seu burro.
Juliana gritara aquelas palavras. Levantou os braços no ar, balburdiando gestos, palavras de arder. Me puxou para o assento com força, os desempregados olhos confirmavam sua cega decisão de me reter. Por fim, vendo-me vencido, soprou aliviada como se escapassem reticências de sua alma.
— Ele não fez por mal, estrangeiro.
— Como não fez por mal?
— Tu não entendes. Fui eu que pedi a Shetani para ele fazer isso. O bicho estava doente, eu que não tinha coragem...
Desandei, incapaz de ouvir. Saí até à porta para apanhar fresco. Passei por Shetani. Uma outra prostituta se nichara, entretanto, sobre as suas pernas dava ternuras merecidas pelos vencedores. Juliana permanecia sentada, bebendo em silêncio.
As horas se foram dissolvendo, a espuma desceu nos copos. A noite, às tantas, recebeu as despedidas, na cervejaria foram crescendo as cadeiras. Juliana Bastiana insistiu em pagar, retirou o dinheiro das roupas íntimas. Depois, os trocos voltaram ao sutiã. As moedinhas tilintintaram, pareciam rir com cócegas dos seios. Fui último a sair. Demorei a contar os pés, quantos os legítimos meus. Sem dar conta eu tinha ultrapassado os meus níveis.
Inspirei o ar da noite. Lá fora a multidão se desapinhava. Alguém puxava o Quintino pelos braços. Depositaram-lhe no passeio, ele estava destinado a dormir sob o lençol das estrelas. Um braço me repuxou, era Juliana Bastiana. Arrastou-me para ela, me cochichou:
— Esse que está aí, todo entornado no passeio.
— Esse o quê?
— É ele que entende do mato, pode andar lá mais à vontadinha que os bichos.
— Quintino?
— O próprio. Ele é que lhe pode conduzir onde você quer.
A cega afastou-se, mão dada com uma outra prostituta. Todos se haviam ido, me deixando só com o bêbado. Longe, um rádio ainda machucava o silêncio. Sentei para esperar uma pausa na inconsciência do homem. Estávamos só nós, eu e o embriagado Quintino, relentando-nos no cacimbo da noite. Uma saudade de Farida me inundou. Voltaria a ver aquela mulher? Ou jamais me poderia servir daquela formosura? Afinal, em meio da vida sempre se faz a inexistente conta: temos mais ontens ou mais amanhãs? O que eu desejava era que o tempo se adiasse, parado como o barco naufragado.
O bêbado, entretanto, não havia meio. O sono se descalçara na minha cabeça, tão convidançante que, para resistir, me subiu uma agonia. Me levantei, decidido a passear-me pelas redondezas. Nunca fui mancha-prazeres: tristeza sempre eu tratei no remédio de uma canção. Entoei uma melodia antiga, enquanto caminhava sob o perfume dos canhoeiros.
Decidi voltar, de madrugada, para procurar Quintino. Ansiava em saber a sua resposta sobre o serviço de me conduzir. Repente, um vulto saiu do escuro. Calafriorento, me defendi, atirando o desconhecido ao chão. No meio da luta, senti no corpo do suposto as palpitantes saliências: era uma mulher, seus seios estavam colocados à minha disposição.
— É você, afinal?
Carolinda, a esposa do administrador, se emancipou da penumbra, desfez-se da silhueta. Com a luta, a roupa se havia esfarrapado. Agora, no claro da luz, ela se enfeitava com seu próprio corpo, fosse era a abelha florindo. Atirava o pescoço para trás, no provoco de um riso. A língua, matreira, espreitava à soleira da boca. De passagem, Carolinda me fez lembrar Farida. Qualquer coisa as igualava, rosto em rosto. Ou será que o fogo do desejo faz semelhar toda a mulher? As nossas mãos se laçaram, como se temessem a separação. Estávamos perto da igreja, procurámos um lugar urgente.
— Na igreja não, os santos gostam de espreitar.
Demos a volta ao pátio, entrámos no curral da Missão. Dentro havia um xipefo de curta lumieira. Peguei no candeeiro com a mão desocupada e andámos por ali pisando palhas, tropeçando em pés do outro. Era uma dança para a qual ainda não havia sido inventada nenhuma música. Despimo-nos com ânsia. Pendurei o xipefo no chifre do boi e deitámo-nos sobre a palha.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula