quinta-feira, 23 de abril de 2026

Belchior | De Primeira Grandeza

 

Amor e poesia



Ela era uma mocinha. Trabalhava no restaurante da tia. Já era noite e ela estava atrasada. A tia estava preocupada, porque suspeitava que ela estivesse com um certo moço que frequentava o restaurante, mesmo quando não estava nem comendo nem bebendo. Onde estariam? Fazendo o quê?
Eles estavam na praia deserta sob o céu estrelado. Tudo era silêncio, a luz da lua refletida no mar, a voz distante das pessoas, o murmúrio das ondas mansas que lhes molhavam os pés. Distantes um do outro, não se tocavam. Apenas se olhavam. Ele tinha na mão um livro de poemas de amor de Pablo Neruda. Abriu o livro e começou a ler. Ela parou e não se mexeu até que a leitura terminasse.
Já era tarde quando ela chegou. O restaurante estava vazio. Entrou como se estivesse em transe – andava como um sonâmbulo, sem se dar conta da presença da tia.
Onde você esteve? — a tia lhe perguntou com severidade.
Na praia — ela respondeu sem acordar do transe.
A tia se alvoroçou. Praia, lugar solitário, com um moço... E agora esse jeito sonambúlico, nunca visto. Coisa muito grave deveria ter acontecido. E a imaginação da tia começou a ver cenas de nudez e amor carnal na areia, sob a luz do luar.
O que foi que ele lhe fez? — ela perguntou.
Ele leu um poema — a moça respondeu.
Aliviada de suas fantasias carnais, a tia se deu conta de que uma coisa muito mais grave acontecera. E com um profundo suspiro falou:
Leu-lhe um poema... Então você está perdida...
A tia conhecia os segredos do amor. O amor começa com a poesia. O corpo é um instrumento. A poesia é a música.

***

Florentino Ariza perdeu o emprego de escriturário na companhia de navegação. Seu coração fora dilacerado pelo casamento de sua amada, Fermina Daza, com o doutor Urbino, o que interferiu no seu estilo literário: as cartas, que deveria escrever dentro das frias formalidades do estilo comercial, passaram a ser infectadas pela sua paixão — pareciam poemas. Foi advertido, mas não adiantou. O remédio foi despedi-lo.
Sem emprego, teve de procurar um jeito alternativo de ganhar a vida. E, vagabundeando pela praça central da cidade, notou que jovens advogados ali montavam seus negócios. Tinham mesas em que escreviam petições e requerimentos para quem delas necessitasse. E assim ganhavam um dinheirinho. Florentino teve então uma ideia brilhante: cartas de amor! Ele escreveria cartas de amor! Tanta gente queria escrever cartas de amor e não sabia!
O negócio prosperou. E era fácil. Quando um homem queria escrever uma carta para uma mulher, Florentino imaginava que estava escrevendo uma carta para Fermina. E, quando era uma mulher que desejava escrever uma carta para um homem, ele imaginava a carta que gostaria de receber da amada.
Um jovem procurou os seus serviços. Florentino escreveu-lhe uma carta com a paixão que sentia por Fermina. Uma semana depois, foi uma jovem. Ela recebera uma carta tão bonita que não sabia como respondê-la. Ato contínuo, passou a dita carta para as mãos de Florentino – era a que ele mesmo havia escrito uma semana antes. A partir desse momento, ele se envolveu numa furiosa correspondência apaixonada consigo mesmo, ora no papel de Florentino, ora no papel de Fermina.
Os dois jovens se apaixonaram e ao final se casaram. Apaixonaram-se pelo quê? Apaixonaram-se pelas cartas...

***

Um sultão, descobrindo-se traído pela esposa a quem amava perdidamente, toma uma decisão cruel. Não pode viver sem o amor de uma mulher, mas também não pode suportar a possibilidade da traição. Resolve, então, que vai se casar com as moças mais belas dos seus domínios, mas depois da primeira noite de amor vai mandar decapitá-las. Assim o amor se renovaria, a cada noite, em todo o seu vigor de fogo impetuoso, sem nenhum sopro de infidelidade que pudesse apagá-lo.
Espalham-se rapidamente pelo reino as notícias das coisas terríveis que aconteciam no palácio real – as jovens desapareciam logo depois da noite de núpcias. Sherazade, filha do vizir, procura então o pai e lhe anuncia sua espantosa decisão: deseja tornar-se esposa do sultão. O pai, desesperado, lhe revela o triste destino que a aguarda, pois é ele mesmo quem cuida das execuções. Mas a jovem se mantém irredutível.
A estória descreve a jovem Sherazade de forma reveladora. Quase nada diz sobre a sua beleza. Faz silêncio total sobre o seu virtuosismo erótico. Mas conta que ela lera livros de todas as espécies, que havia memorizado grande quantidade de poemas e narrativas, que decorara provérbios populares e sentenças de filósofos.
E Sherazade se casa com o sultão. Realizados os atos de amor físico que acontecem nas noites de núpcias, depois que o fogo do amor carnal se esgota o corpo do esposo, quando só resta esperar o raiar do dia para que a jovem seja sacrificada, ela começa a falar. Conta estórias. Suas palavras penetram suavemente os ouvidos do sultão, como música. O ouvido é feminino, vazio que espera e acolhe, que se permite ser penetrado. A fala é masculina, algo que cresce e penetra os vazios da alma. Segundo antiquíssima tradição, foi assim que o Deus humano foi concebido: pelo sopro poético do Verbo Divino, que penetrou os ouvidos encantados e acolhedores de uma virgem.
O corpo é um lugar maravilhoso de delícias. Mas Sherazade sabe que todo amor construído sobre as delícias do corpo tem vida breve. A chama se apaga tão logo o corpo tenha se esvaziado do seu fogo. O seu triste destino é ser decapitado pela madrugada – não é eterno, posto que é chama. E então, quando as chamas dos corpos já se apagaram, a voz de Sherazade sopra suavemente. Fala. Erotiza os vazios adormecidos do sultão. Acorda o mundo mágico da fantasia. Cada estória contém uma outra, dentro de si, infinitamente. Não há um orgasmo que ponha fim ao desejo. E ela lhe parece bela, diferente de todas as outras mulheres. Porque uma pessoa é bela não pela beleza dela, mas pela nossa que aparece refletida na voz e nos olhos dela...
O sultão, encantado pelas estórias de Sherazade, foi adiando a execução, por mil e uma noites, eternamente e um dia mais. E, pela beleza das palavras de Sherazade, o sultão a amou para sempre...

***

Conselho de Nietzsche: Diante da possibilidade de casamento, só existe uma pergunta a ser feita – terei prazer em conversar com essa pessoa até o fim dos meus dias? Pois é com os tênues fios da conversa que se tece o amor.

Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado

O traço simples e genial de Portinari

Céu com Estrelas (1941), de Cândido Portinari

O guarda-chuva preto

Esquecido na mesa,
com o cabo voltado para cima
e as bordas arrepanhadas,
é como seu dono vestido,
composto no seu caixão.
Não desdobra a dobradiça,
não pousa no braço grave
do que, sendo seu patrão,
foi pra debaixo da terra.
Ele vai para o porão.
Existe um retrato antigo
em que posou aberto,
com o senhor moço e sem óculos.
Guarda-chuva, guarda-sol,
guarda-memória pungente
de tudo que foi em nós
um pouco ridículo e inocente.
Guarda-vida, arquivo preto,
cão de luto, cão jazente.

Adélia Prado, em O Coração Disparado

Uma Paixão Laica



Nosso inquieto século seria muito menos denso sem o testemunho de Simone de Beauvoir, sem o poder dessa mulher prodigiosa em converter sua vida ardente numa crítica dos sexos, da sociedade, da literatura e da política. E Hannah Arendt se mantém como figura central na teoria política e social, e como uma das vozes poderosas saídas das trevas totalitárias. Mas nenhuma delas era filósofa no sentido estrito do termo. Aqui é indispensável uma extrema precisão. O pensamento filosófico é aquele que se detém mais nas perguntas do que nas respostas; quando aparecem as respostas, elas revelam ser novas perguntas. A honra do ofício é ser desinteressado, abster-se de qualquer rendimento prático. A posição filosófica — notadamente em seu escopo metafísico e onde toca o teológico (como deve ser, quer em concordância, quer na negação) — é, no sentido rigoroso da expressão, desapegada do mundo. Usualmente aloja-se na sensibilidade filosófica certa indiferença ou mesmo um desagrado pelo corpo humano. A essas luzes cruas, há na tradição ocidental apenas uma filósofa de categoria: Simone Weil.
O preço que Simone Weil pagou por essa posição chegou quase às raias do totalmente insuportável. Ela consumiu sua saúde a ponto de sofrer uma morte prematura deliberada. Habitou seu corpo como se fosse uma choça condenada. Declarou detestar sua rudimentar feminilidade e sugeriu com veemência que as realizações filosóficas e matemáticas de força duradoura eram prerrogativas dos homens — que algum distúrbio ou fraqueza na própria constituição feminina militava contra um exame da vida, como o exigia Sócrates, Descartes ou Kant. (André, irmão de Simone Weil, foi um dos mestres da geometria algébrica do século xx.) Em tudo o que foi possível, e mesmo além, Simone Weil escolheu o pensamento contra a vida, a lógica contra a prática, o laser da análise e da dedução obrigatória contra a meia-luz vacilante, a transigência e o emaranhado que permitem a nós restantes levar a vida adiante. Como Pascal, como Kierkegaard, como Nietzsche, mas isenta das vaidades retóricas que persistem mesmo nesses puristas, Weil viveu sua curta vida (1909-1943) como uma provação cujo significado — cuja única dignidade — consistia na derrota.
Os dados fatuais se fizeram conhecidos em biografias como a de sua amiga Simone Pétrement (1973) e no estudo minuciosamente documentado que Gabriella Fiori publicou em 1981. A edição crítica dos textos completos de Simone Weil está em andamento, e quase todas as facetas de suas atividades — religiosas, filosóficas, literárias, políticas, sociais — foram ou estão sendo examinadas em detalhe. De uma maneira que ela teria desprezado (embora ambiguamente), os acomodados do comentário e da adulação estão se banqueteando com essa vida que tanto se emaciou e buscou o próprio olvido.
Sabemos de sua infância no ambiente privilegiado do judaísmo francês emancipado, das rivalidades e intimidades conspiratórias que a uniam ao irmão. Existem análises detalhadas do impacto formador que exerceu sobre Weil o mais carismático e influente dos professores de liceu franceses, o lendário “maître à penser” Émile Chartier, que escrevia sob o nome de Alain. Simone Weil se envolveu em vários movimentos operários marxistas, anarcomarxistas e trotskistas com a mesma febril obsessão com que mergulhou na filosofia grega e cartesiana. Deu aulas em várias escolas secundárias de província, enquanto suas enxaquecas crônicas lhe permitiram. Visitou a Alemanha para avaliar com os próprios olhos a revolução social de Hitler. Seu engajamento na Guerra Civil espanhola terminou numa farsa macabra. (Ela pisou sem querer dentro de uma frigideira de óleo fervendo e teve de ser evacuada entre dores terríveis.) Durante o regime de Vichy, Weil trabalhou em vinhedos, escreveu, se meteu a fazer propaganda e recrutamento clandestino em Marselha e arredores. Tendo acompanhado seus pais à segurança de Nova York (apenas o Harlem lhe despertou alguma simpatia em seus olhos críticos), ela mexeu todos os pauzinhos possíveis para ser aceita na França Livre em Londres. Lá assediou De Gaulle e auxiliares com esquemas heroicos. Pediu para ser lançada de paraquedas na França ocupada. Insistiu num plano de enviar um grupo de moças rigorosamente virginais para as linhas de batalha, para cuidar dos feridos e moribundos. De Gaulle, muito impassível, considerava que Weil era uma perturbada mental e lhe atribuiu a tarefa presumivelmente inofensiva de fazer um planejamento social e político para a França do pós-guerra. O volumoso projeto resultante continua a ser um clássico de rematada inviabilidade. Esgotada física e mentalmente, com a alma doente de ardor frustrado, Simone Weil teve um falecimento literal num sanatório perto de Londres. Sua sepultura, embora não se encontre em solo consagrado, se tornou local de peregrinação.
Em Simone Weil: Portrait of a Self-Exiled Jew [Simone Weil: retrato de uma judia autoexilada] (North Carolina, 1991), Thomas Nevin apresenta apenas um breve esboço dessa via dolorosa. E não é sua intenção fazer uma biografia intelectual de Simone Weil, sob qualquer forma direta. O objetivo desse estudo denso é examinar e, até onde for possível, validar as obsessões e a obra de Weil a partir do núcleo da autodepreciação judaica o constante talento para o autobanimento mostrado por judeus e judias importantes. A marca corrosiva do antissemitismo intelectual e mesmo de orientação política na consciência de Simone Weil, em seus textos e reflexos sociais, já foi notada faz muito tempo. Tem sido relacionada de maneira irrefutável com o tema geral da autopunição, e mesmo do masoquismo, que tinge seus trabalhos e dias. Mas o exame que faz o professor Nevin desse contexto ao mesmo tempo repulsivo e inescapável é, até o momento, o mais exaustivo e persuasivo de que dispomos. Além da erudição e da dúvida sensata, há neste livro coragem e uma tristeza salutar.
As posições políticas de Simone Weil eram extremamente peculiares. Ela procurou unir a um ideal em parte platônico do estado orgânico o senso, ultrajado e ultrajante, das humilhações e sofrimentos impostos ao trabalho industrial. Por uma torção da lógica, essa jovem judia da esquerda paramarxista francesa veio a fazer uma série de comentários favoráveis sobre Hitler. Louvou sua grandeza romana, seu entendimento espiritual e administrativo das esperanças e necessidades coletivas: “Ele comanda um país tenso ao máximo, é dotado de uma vontade ardente, incansável e implacável […] de uma imaginação que fabrica a história em proporções grandiosas segundo uma estética wagneriana, que se estende muito além do presente; e é um jogador nato”. (Dostoiévski podia ter escrito isso, ou Trótski, em certos momentos.) Para Weil, qualquer coisa era preferível às untuosas hipocrisias, corrupções e materialismo fácil da democracia capitalista burguesa. Suas ferocidades a respeito derivam do radicalismo ardente de Amós e da condenação da riqueza feita por Jesus. Vêm de Esparta e de Lênin. Mas no âmago de sua desolação e de seus paradoxos encontra-se um texto pessoal de rara integridade. Três vezes, entre dezembro de 1934 e final de agosto de 1935, essa frágil intelectual trabalhou na indústria pesada, sob pressões e humilhações que quase a levaram à loucura. Quando invocava Robespierre, quando fantasiava uma revalorização e espiritualização centralizada do trabalho, Weil falava por experiência própria. O radical chique era um anátema para ela.
Como outros absolutistas do pensamento, Simone Weil se sentia atraída pela violência. Seu ensaio sobre a Ilíada, embora equivocado — ela simplesmente não percebe o brilho festivo do heroísmo arcaico —, dá grande relevo às brutalidades, ao desejo de sangue no épico. Às vezes Weil era pacifista, às vezes ardia pela batalha. Seus planos de intervenção feminina, de recrutamento na guerra ao grau de perigo extremo, como uma oferenda em sacrifício, mostram a mesma ambivalência. Quanto a seu engajamento na Espanha, ela escreveu: “Norma: pavor e gosto pela matança. Evitar ambos — como? Na Espanha, pareceu-me um esforço tremendo, impossível de sustentar por muito tempo. Fazer-se tal, então, que se consiga mantê-lo”. A possibilidade da tortura se impunha sombriamente a seu espírito. Weil procurou se preparar para ela. Em certos momentos, era possuída por uma inveja do sofrer. Sua “sensibilidade telescópica” (expressão muito adequada de Nevin) isolava e ampliava a dor e o terror em si e nos outros. Como Pascal, como alguns grandes pintores e narradores da intensa dor (sofrida e infligida), ela imaginava concretamente, refletia e analisava com os próprios nervos.
As posições políticas expressas em seus últimos ensaios e em seu projeto para o renascimento da França compõem um emaranhado assustador e, ao mesmo tempo, pungente (“assustador” é, com efeito, o essencial). A sombra de Hegel, que o professor Nevin tende a minimizar, está por toda parte. Ela acreditava que a Necessidade, que é outro nome da condição humana — dos operários da linha de montagem da história —, submete os homens à sua finalidade despótica. Para resistir, para ter algum acesso ao que há de divino nos processos do destino, homens e mulheres precisam ter a oportunidade de disciplinar suas percepções, de contemplar com a máxima concentração estoica os fatos e os deveres de sua condição. O desiderato político-social é garantir um espaço para essas ações e, de maneira ideal, para a continuidade dessa concentração. (Mais de uma vez, Weil flertou amorosamente com fantasias de encarceramento.) Ficou famoso o termo com que ela designou essa atitude de atenção contemplativa: l’enracinement, “o enraizamento”. Não lhe escapou, e não deve escapar a nós, que esses critérios de reflexão enraizada — os quais fascinaram T. S. Eliot, quando leu Weil — se harmonizam muito facilmente com certas modalidades de autoridade política comunitária, totalitária, sejam de esquerda ou de direita. Em sua expressão mais lúcida, Weil aparece como um híbrido bizarro, uma platônica anárquica que abdicaria em favor dos poderes de Estado de tudo o que é necessário para dar alguma privacidade à alma.
Esse mesmo híbrido determina os ensaios e fragmentos filosóficos de Simone Weil. O objeto pelo qual ela luta obsessivamente é um amálgama entre a Grécia antiga e a cristologia — as lições de Sócrates e as lições de Jesus. Não havia nada de novo nesse projeto. Desde o Evangelho de João, defende-se e busca-se essa congruência, conhecida como neoplatonismo, na teologia e na metafísica idealista do Ocidente. Ainda se sonha com ela no Renascimento e entre os filósofos alemães depois de Kant. É uma parte, talvez subconsciente, da busca e do maravilhamento de todos os que recolhem uma concha marinha nas orlas oceânicas sem fim (a imagem é de Coleridge) e ouvem em seu murmúrio não só o eco físico do próprio sangue. O que havia de tortuosamente idiossincrático era o procedimento de Weil. Ela examinava os fragmentos filosóficos pré-socráticos, os diálogos platônicos e os textos dos dramaturgos e poetas líricos gregos para encontrar passagens que prefigurassem a vinda, os ensinamentos e a Paixão de Cristo. A prefiguração dos Evangelhos no Antigo Testamento (por exemplo nos Profetas, nos Salmos do Servo Sofredor e mesmo no Cântico dos Cânticos), evidentemente, tem sido anunciada pelo cristianismo desde a época dos Pais da Igreja. Mas não é aos textos hebraicos que Simone Weil se refere em sua viagem de peregrina; é a Pitágoras, Píndaro, Sófocles e Platão.
É uma busca ao mesmo tempo absurda e misteriosa. Embora fosse arguta helenista, Weil não se eximia de distorcer e quase falsificar a intenção explícita e o contexto das palavras gregas antigas. Confunde deliberadamente o pouquíssimo que sabemos dos cultos gregos de mistério e dos mitos órficos do renascimento com os conceitos de batismo e ressurreição no cristianismo. Suas leituras de Platão são tão seletivas que beiram a caricatura. E mesmo assim suas sugestões de que existe um anseio comum pela luz no outro lado da razão, racionalmente expresso e transmissível de alguma maneira, dotado de sentido para o pensamento e o discurso humano, não são de todo arbitrárias. Ela sentia na própria medula o entrelaçamento muitas vezes tênue, subterrâneo, de metáforas, de simbolismo, de gestos rituais que uniam a filosofia grega arcaica e posterior, e mesmo o paganismo, ao cristianismo nascente. Além disso, ao chegar a certos textos trágicos gregos, os comentários de Weil são de uma imediaticidade lancinante. Ela revive os insolúveis da justiça contraditória no matricídio de Orestes. Identifica-se, ainda mais carnal e espiritualmente do que Hegel e Kierkegaard, com a pessoa e o destino da Antígona de Sófocles. Conhecia, ela também, o amor incondicional entre irmão e irmã. Estava decidida, ela também, ao desafio ético e ao sacrifício pessoal diante do terror político. Mas, aqui também, não é por acaso que sua Antígona se erga com não poucos traços de uma Joana d’Arc.
As relações de Weil com o catolicismo romano (as conotações eróticas da palavra são plenamente justificadas) datam pelo menos de 1935-36. Foi quando ela começou a assistir à missa com frequência variável. Ao conhecer o canto gregoriano, parece ter-se desencadeado um episódio de teor místico, como uma revelação. Sob esse aspecto, Weil não é um caso isolado. Outros judeus contemporâneos com espírito de desenraizamento e busca se sentiram tentados pela solenidade estética do culto católico e pela pura eloquência da mensagem católica dentro da arte e da civilização europeias. Lembramos a imersão de Walter Benjamin no barroco, o voltar-se para Cristo de Karl Kraus e — mais complexo — o recurso de Proust ao mundo das catedrais e da pintura cristã. Lembramos o papel determinante da mística católica nas sinfonias de Mahler. Aproximando-se a devastação, era como se muitos elementos da psique e da sensibilidade da elite judaica europeia buscassem refúgio em algum lugar. Como sempre, Simone Weil tomou um caminho mais profundo e mais tortuoso.
Ela se familiarizou com a liturgia, com a Vulgata de são Jerônimo, com a doutrina e o simbolismo dos sacramentos. Encontrou afinidades espirituais em santo Agostinho (como, num plano totalmente diverso, ocorreu também com Hannah Arendt). Procurou os tomistas franceses — os pensadores e escritores que, na época, estavam renovando a abordagemcatólica da principal fonte lógica e filosófica da Igreja, Tomás de Aquino. Esses vários impulsos ganharam uma força quase irresistível durante o exílio de Weil no sul da França. Seus textos mais conhecidos e amados são as cartas ao padre dominicano quase cego Joseph-Marie Perrin. Foi a ele que Weil, num veio confessional apaixonado e argumentativo, ofereceu o mais íntimo de si. E Perrin parecia destinado a receber essa alma atormentada na paz da Igreja. Weil bateu várias vezes à porta, apenas para recuar quando a abriam amorosamente para recebê-la. Havia a sombra de uma sombra entre seu fervor, sua identificação constante entre as próprias dores físicas e o sofrimento de Cristo, e aquele ato de batismo que agora refulgia como a decisão mais natural.
Ela não deu esse passo final. Censurava o apego católico ao mundo e a perseguição de hereges tão inspirados como os cátaros. Considerava o catolicismo enfaticamente romano, isto é, manchado com o imperialismo, as escravizações, a pompa autoritária daquela civilização antiga que tanto abominava. No final das contas, porém, Weil se vetou a conversão por razões mais graves. Não esposaria uma Igreja cujas raízes estavam na sinagoga.
Thomas Nevin tem razão, claro. Aqui também o ponto crucial (imagem insidiosa) é a autonegação de Simone Weil, o repúdio de seu próprio judaísmo. Numa atitude nauseante, ela protestou às autoridades de Vichy que não devia ser impedida de trabalhar sob as leis raciais — não era judia! Para ela, o judaísmo era inaceitável. Apenas alguns judeus escapavam à sua censura que às vezes beirava a histeria: Amós, que anuncia o castigo sobre Israel; Jó; Spinoza, que a comunidade condenara ao ostracismo. Os documentos correspondentes são nauseantes. Diante dos sinais incipientes, mas inequívocos, do Holocausto em andamento, ela se refugiou num silêncio hostil, num “olhar gélido”. Em seus cadernos de anotações, ela refletiu sobre o desenraizamento e a condição de pária do judeu. “A religião dita judaica é uma idolatria nacional que perdeu qualquer realidade desde a destruição da nação”; “É por isso que um ateu judeu é mais ateu do que qualquer outro. É de maneira menos agressiva, porém mais profunda”. Com raríssimas exceções, e em geral poéticas, “o Antigo Testamento é um tecido de horrores”, celebrando uma divindade tribal sedenta de sangue, cujos traços e atributos primitivos se aproximam dos de uma Grande Besta satânica. Weil fincava suas garras em qualquer coisa que achasse que havia dado esperança ao judaísmo: “Se os hebreus, como povo, carregassem Deus dentro de si, teriam preferido sofrer a escravidão imposta pelos egípcios — e causada por seus próprios abusos anteriores — a ganhar a liberdade massacrando todos os habitantes do território que deviam ocupar”. Isso no negro auge dos crematórios.
Suas preferências em matéria de literatura e de tonalidade teológica combinavam. Era em T. E. Lawrence da Arábia que ela enxergava a modalidade mais autêntica do heroísmo moderno. E era no catolicismo ascético e mendicante, que denunciava mais brutalmente o alegado materialismo e empedernimento dos judeus, que se sentia à vontade. De Paulo de Tarso até hoje, a história do ódio do judeu por si mesmo é longa e desperta muita perplexidade. É plenamente possível ler tanto o cristianismo quanto o marxismo como grandes heresias judaicas nascidas das turvas patologias de uma autorrejeição de tipo suicida. Embora demonstrasse certa perturbação mental, o defensor mais engenhoso da inferioridade e lepra racial judaica na polêmica moderna foi um judeu, Otto Weininger. Se a contribuição de Simone Weil a esse lixo era sintoma de alguma negação mais profunda da sexualidade e de seu próprio sexo, se trazia elementos de auto-humilhação deliberada diante do que julgava ser uma vida estragada, se traçava o caminho para um lento suicídio, não há psicopatologia capaz de explicar adequadamente. Ademais, tal explicação, pelos próprios imperativos de integridade filosófica de Weil, seria de importância secundária.
Por que então nos incomodarmos com isso? Simplesmente porque Simone Weil nos deixou um conjunto fragmentado, mas substancial, de percepções teológicas, filosóficas e políticas de raro vigor e iluminação. A resposta gera tanta perplexidade porque nela uma inclemente honestidade mescla o inspirado e o patológico. Afora Kierkegaard, quem mais, no momento em que a França se rendia a Hitler, seria capaz de se sair com a frase “Este é um grande dia para a Indochina”, na qual uma pavorosa insensibilidade se equilibra à perfeição com uma genial clarividência humana e política? De fato, a queda da metrópole era uma notícia gloriosa para os povos submetidos que a França dominava desde longa data em suas extensas colônias. Para Weil, os “crimes” do colonialismo tinham relação direta, numa simetria religiosa e política, com a degradação da terra natal. Constantemente um aforismo weiliano, um marginalium a uma passagem dos clássicos ou das Escrituras, atinge o cerne de um dilema tantas vezes mascarado pelo tabu ou pela hipocrisia. Ela não fugia da contradição, do insolúvel. Acreditava que a contradição “vivida até o mais profundo recesso do ser significa laceração espiritual, significa a Cruz”. E sem essa “crucialidade”, os debates teológicos e os postulados filosóficos não passam de palavrório acadêmico. Levar a sério, abordar existencialmente a questão do significado da vida e morte humana num planeta embrutecido, devastado, examinar o valor ou a futilidade da ação política e do desígnio social não é apenas pôr em risco a saúde pessoal ou o consolo do amor comum: é ameaçar a própria razão. Em nossos tempos, os dois indivíduos que não só ensinaram, escreveram ou geraram conceitualmente intimações filosóficas da mais alta categoria, mas também viveram esses seus preceitos na dor, na autopunição, na rejeição do próprio judaísmo, são Ludwig Wittgenstein e Simone Weil. Em inúmeros pontos, caminharam nas mesmas sombras iluminadas.
Mas nenhuma analogia é suficiente. Weil representa o que a física moderna chamaria de “singularidade”. Alguns de seus melhores escritos — sobre Descartes, sobre a teoria e a prática do marxismo — pertencem ao campo intelectual e filosófico normal. Ela se debate com o mistério do amor de Deus como faziam os santos e os doutores da Igreja, os visionários da Idade Média e do barroco. Mas a um fio, por assim dizer, de sua ardente retidão analítica, de sua escrupulosidade lógica, de seu questionamento compassivo, sopram aquelas “fortes ventanias vindas do subsolo” evocadas por Franz Kafka (outro primo espiritual). Algum veio de loucura foi perfurado.
As indicações examinadas com extrema paciência por Nevin neste livro perturbador apontam para um sentimento retorcido, ao mesmo tempo agudo e fundamente enterrado. De alguma maneira, essa “outsider eleita” sentia inveja de Deus, de Seu infinito amor, que reconhecia mentalmente, mas não conseguia aplicar à imagem que construíra de sua própria identidade. Sentia inveja — como, talvez, santa Teresa d’Ávila e são João da Cruz — das agonias que Deus sofrera na pessoa de Seu filho supliciado. Terreno pantanoso. A isso talvez a resposta menos inadequada venha de uma língua ao mesmo tempo triste e sardônica — o iídiche, que ela desconhecia ou talvez desprezasse. Simone Weil foi, sem dúvida, a primeira mulher entre os filósofos. Foi também uma schlemiel transcendente.
2 de março de 1992

George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos

Capítulo VI – O Menino Mais Velho



Deu-se aquilo porque Sinha Vitória não conversou um instante com o menino mais velho. Ele nunca tinha ouvido falar em inferno. Estranhando a linguagem de Sinha Terta, pediu informações. Sinha Vitória, distraída, aludiu vagamente a certo lugar ruim demais, e como o filho exigisse uma descrição, encolheu os ombros.
O menino foi à sala interrogar o pai, encontrou-o sentado no chão, com as pernas abertas, desenrolando um meio de sola.
Bota o pé aqui.
A ordem se cumpriu e Fabiano tomou medida da alpercata: deu um traço com a ponta da faca atrás do calcanhar, outro adiante do dedo grande. Riscou em seguida a forma do calçado e bateu palmas – Arreda.
O pequeno afastou-se um pouco, mas ficou por ali rondando e timidamente arriscou a pergunta. Não obteve resposta, voltou à cozinha, foi pendurar-se à saia da mãe: – Como é?
Sinha Vitória falou em espetos quentes e fogueiras.
A senhora viu?
Aí Sinha Vitória se zangou, achou-o insolente e aplicou-lhe um cocorote. O menino saiu indignado com a injustiça, atravessou o terreiro, escondeu-se debaixo das catingueiras murchas, à beira da lagoa vazia.
A cachorra Baleia acompanhou-o naquela hora difícil. Repousava junto à trempe, cochilando no calor, à espera de um osso. Provavelmente não o receberia, mas acreditava nos ossos, e o torpor que a embalava era doce. Mexia-se de longe em longe, punha na dona as pupilas negras onde a confiança brilhava. Admitia a existência de um osso graúdo na panela, e ninguém lhe tirava esta certeza, nenhuma inquietação lhe perturbava os desejos moderados. As vezes recebia pontapés sem motivo. Os pontapés estavam previstos e não dissipavam a imagem do osso.
Naquele dia a voz estridente de Sinha Vitória e o cascudo no menino mais velho arrancaram Baleia da modorra e deram-lhe a suspeita de que as coisas não iam bem. Foi esconder-se num canto, por detrás do pilão, fazendo-se miúda entre cumbucos e cestos. Um minuto depois levantou o focinho e procurou orientar-se. O vento morno que soprava da lagoa fixou-lhe a resolução: esgueirou-se ao longo da parede, transpôs a janela baixa da cozinha, atravessou o terreiro, passou pelo pé de turco, topou a camarada, chorando, muito infeliz, à sombra das catingueiras. Tentou minorar-lhe o padecimento saltando em roda e balançando a cauda. Não podia sentir dor excessiva. E como nunca se impacientava, continuou a pular, ofegante,  chamando a atenção do amigo. Afinal convenceu-o de que o procedimento dele era inútil.
O pequeno sentou-se, acomodou nas pernas a cabeça da cachorra, pôs-se a contar-lhe baixinho uma história. Tinha um vocabulário quase tão minguado como o do papagaio que morrera no tempo da seca. Valia-se, pois, de exclamações e de gestos, Baleia respondia com o rabo, com a língua, com movimentos fáceis de entender.
Todos o abandonavam, a cadelinha era o único vivente que lhe mostrava simpatia. Afagou-a com os dedos magros e sujos, e o animal encolheu-se para sentir bem o contato agradável, experimentou uma sensação como a que lhe dava a cinza do borralho.
Continuou a acariciá-la, aproximou do focinho dela a cara enlameada, olhou bem no fundo os olhos tranquilos.
Estivera metido no barreiro com o irmão, fazendo bichos de barro, lambuzando-se. Deixara o brinquedo e fora interrogar Sinha Vitória. Um desastre. A culpada era Sinha Terta, que na véspera, depois de curar com reza a espinhela de Fabiano, soltara uma palavra esquisita, chiando, o canudo do cachimbo preso nas gengivas banguelas. Ele tinha querido que a palavra virasse coisa o ficara desapontado quando a mãe se referira a um lugar ruim, com espetos e fogueiras. Por isso rezingara, esperando que ela fizesse o inferno transformar-se.
Todos os lugares conhecidos eram bons: o chiqueiro das cabras, o curral, o barreiro, o pátio, o bebedouro - mundo onde existiam seres reais, a família do vaqueiro e os bichos da fazenda. Além havia uma serra distante e azulada, um monte que a cachorra visitava, caçando preás, veredas quase imperceptíveis na catinga, moitas o capões de mato, impenetráveis bancos de macambira – e aí fervilhava uma população de pedras vivas e plantas que procediam como gente. Esses mundos viviam em paz, às vezes desapareciam as fronteiras, habitantes dos dois lados – entendiam-se perfeitamente e auxiliavam-se. Existiam sem dúvida em toda a parte forças maléficas, mas essas forças eram sempre vencidas. E quando Fabiano amansava brabo, evidentemente uma entidade protetora segurava-o na sela, indicava-lhe os caminhos menos perigosos, livrava-o dos espinhos e dos galhos. Nem sempre as relações entre as criaturas haviam sido amáveis. Antigamente os homens tinham fugido à toa, cansados e famintos. Sinha Vitória, com o filho mais novo escanchado no quarto, equilibrava o baú de folha na cabeça; Fabiano levava no ombro a espingarda de pederneira; Baleia mostrava as costelas através do pêlo escasso. Ele, o menino mais velho, caíra no chão que lhe torrava os pés. Escurecera de repente, os xiquexiques e os mandacarus haviam desaparecido. Mal sentia as pancadas que Fabiano lhe dava com a bainha da faca de ponta.
Naquele tempo o mundo era ruim. Mas depois se consertara, para bem dizer as coisas ruins não tinham existido. No jirau da cozinha arrumavam-se mantas de carne seca e pedaços de toicinho. A sede não atormentava as pessoas, e à tarde; aberta a porteira, o gado miúdo corria para o bebedouro. Ossos e seixos transformavam-se às vezes nos entes que povoavam as moitas, o morro, a serra distante e os bancos de macambira.
Como não sabia falar direito, o menino balbuciava expressões complicadas, repetia as sílabas, imitava os berros dos animais, o barulho do vente, o som dos galhos que rangiam na catinga, roçando-se. Agora tinha tido a ideia de aprender uma palavra, com certeza importante porque figurava na conversa de Sinha Terta. Ia decorá-la e transmiti-la ao irmão e à cachorra. Baleia permaneceria indiferente, mas o irmão se admiraria, invejoso.
Inferno, inferno.
Não acreditava que um nome tão bonito servisse para designar coisa ruim. E resolvera discutir com Sinha Vitória. Se ela houvesse dito que tinha ido ao inferno, bem. Sinha Vitória impunha-se, autoridade visível e poderosa. Se houvesse feito menção de qualquer autoridade invisível e mais poderosa, muito bem. Mas tentara convencê-la dando-lhe um cocorote, e isto lhe parecia absurdo. Achava as pancadas naturais quando as pessoas grandes se zangavam, pensava até que a zanga delas era a causa única dos cascudos e puxavantes de orelhas. Esta convicção tornava-o desconfiado, fazia-o observar os pais antes de se dirigir a eles. Animara-se a interrogar Sinha Vitória porque ela estava bem-disposta. Explicou isto à cachorrinha com abundância de gritos e gestos.
Baleia detestava expansões violentas: estirou as pernas, fechou os olhos e bocejou. Para ela os pontapés eram fatos desagradáveis e necessários Só tinha um meio de evitá-los, a fuga. Mas às vezes apanhavam-na de surpresa, uma extremidade de alpercata batia-lhe no traseiro – saía latindo, ia esconder-se no mato, com desejo de morder canelas. Incapaz de realizar o desejo, aquietava-se. Efetivamente a exaltação do amigo era desarrazoada. Tornou a estirar as pernas e bocejou de novo. Seria bom dormir.
O menino beijou-lhe o focinho úmido, embalou-a. A alma dele pôs-se a fazer voltas em redor da serra azulada e dos bancos de macambira. Fabiano dizia que na serra havia tocas de  suçuaranas. E nos bancos de macambira, rendilhados de espinhos, surgiam cabeças chatas de jararacas.
Esfregou as mãos finas, esgaravatou as unhas sujas. Pensou nas figurinhas abandonadas junto ao barreiro, mas isto lhe trouxe a recordação da palavra infeliz. Diligenciou afastar do espírito aquela curiosidade funesta, imaginou que não fizera a pergunta, não recebera portanto o cascudo. Levantou-se. Via a janela da cozinha, o cocó de Sinha Vitória, e isto lhe dava pensamentos maus. Foi sentar-se debaixo de outra árvore, avistou a serra coberta de nuvens. Ao escurecer a serra misturava-se com o céu e as estrelas andavam em cima dela. Como era possível haver estrelas na terra?
A cadelinha chegou-se aos pulos, cheirou-o, lambeu-lhe as mãos e acomodou-se.
Como era possível haver estrelas na terra? Entristeceu. Talvez Sinha Vitória dissesse a verdade. O inferno devia estar cheio de jararacas e suçuaranas, e as pessoas que moravam lá recebiam cocorotes, puxões de orelhas e pancadas com bainha de faca.
Apesar de ter mudado de lugar, não podia livrar-se da presença de Sinha Vitória. Repetiu que não havia acontecido nada e tentou pensar nas estrelas que se acendiam na serra. Inutilmente. Aquela hora as estrelas estavam apagadas. Sentiu-se fraco e desamparado, olhou os braços magros, os dedos finos, pôs-se a fazer no chão desenhos misteriosos. Para que Sinha Vitória tinha dito aquilo?
Abraçou a cachorrinha com uma violência que a descontentou. Não gostava de ser apertada, preferia saltar e espojar-se. Farejando a panela, franzia as ventas e reprovava os modos estranhos do amigo. Um osso grande subia e descia no caldo. Esta imagem consoladora não a deixava.
O menino continuava a abraçá-la. E Baleia encolhia-se para não magoá-lo, sofria a carícia excessiva. O cheiro dele era bom, mas estava misturado com emanações que vinham da cozinha. Havia ali um osso. Um osso graúdo, cheio de tutano e com alguma carne.

Graciliano Ramos, em Vidas Secas

Encarnação involuntária

Às vezes, quando vejo uma pessoa que nunca vi, e tenho algum tempo para observá-la, eu me encarno nela e assim dou um grande passo para conhecê-la. E essa intrusão numa pessoa, qualquer que seja ela, nunca termina pela sua própria autoacusação: ao nela me encarnar, compreendo-lhe os motivos e perdoo. Preciso é prestar atenção para não me encarnar numa vida perigosa e atraente, e que por isso mesmo eu não queira o retorno a mim mesma.
Um dia, no avião... ah, meu Deus – implorei – isso não, não quero ser essa missionária!
Mas era inútil. Eu sabia que, por causa de três horas de sua presença, eu por vários dias seria missionária. A magreza e a delicadeza extremamente polida de missionária já me haviam tomado. É com curiosidade, algum deslumbramento e cansaço prévio que sucumbo à vida que vou experimentar por uns dias viver. E com alguma apreensão, do ponto de vista prático: ando agora muito ocupada demais com os meus deveres e prazeres para poder arcar com o peso dessa vida que não conheço – mas cuja tensão evangelical já começo a sentir. No avião mesmo percebo que já comecei a andar com esse passo de santa leiga: então compreendo como a missionária é paciente, como se apaga com esse passo que mal quer tocar no chão, como se pisar mais forte viesse prejudicar os outros. Agora sou pálida, sem nenhuma pintura nos lábios, tenho o rosto fino e uso aquela espécie de chapéu de missionária.
Quando eu saltar em terra provavelmente já terei esse ar de sofrimento-superado-pela-paz-de-se-ter-uma-missão. E no meu rosto estará impressa a doçura da esperança moral. Porque sobretudo me tornei toda moral. No entanto quando entrei no avião estava tão sadiamente amoral. Estava, não, estou! Grito-me eu em revolta contra os preconceitos da missionária. Inútil: toda a minha força está sendo usada para eu conseguir ser frágil. Finjo ler uma revista, enquanto ela lê a Bíblia.
Vamos ter uma descida curta em terra. O aeromoço distribui chicletes. E ela cora mal o rapaz se aproxima.
Em terra sou uma missionária ao vento do aeroporto, seguro minhas imaginárias saias longas e cinzentas contra o despudor do vento. Entendo, entendo. Entendo-a, ah, como a entendo e ao seu pudor de existir quando está fora das horas em que cumpre sua missão. Acuso, como a missionariazinha, as saias curtas das mulheres, tentação para os homens. E, quando não entendo, é com o mesmo fanatismo depurado dessa mulher pálida que facilmente cora à aproximação do rapaz que nos avisa que devemos prosseguir viagem.
Já sei que só daí a dias conseguirei recomeçar enfim integralmente a minha própria vida. Que, quem sabe, talvez nunca tenha sido própria, senão no momento de nascer, e o resto tenha sido encarnações. Mas não: eu sou uma pessoa. E quando o fantasma de mim mesma me toma – então é um tal encontro de alegria, uma tal festa, que a modo de dizer choramos uma no ombro da outra. Depois enxugamos as lágrimas felizes, meu fantasma se incorpora plenamente em mim, e saímos com alguma altivez por esse mundo afora.
Uma vez, também em viagem, encontrei uma prostituta perfumadíssima que fumava entrefechando os olhos e estes ao mesmo tempo olhavam fixamente um homem que já estava sendo hipnotizado. Passei imediatamente, para melhor compreender, a fumar de olhos entrefechados para o único homem ao alcance de minha visão intencionada. Mas o homem gordo que eu olhara para experimentar e ter a alma da prostituta, o gordo estava mergulhado no New York Times. E meu perfume era discreto demais. Falhou tudo.

Clarice Lispector, em Todos os contos

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Benziê | O Novo Sempre Vem

 

No Clos Normand

Come-se bem e caro em Nova Iorque. Num daqueles restaurantes com nome francês ali das ruas 55 ou 56, você põe os dois olhos no pires e o maître ainda fica esperando você botar uma orelha de gorjeta. Nem sempre o caro é bom. Caímos em alguns blefes memoráveis, levados por um nome promissor ou uma fachada bonita. E nem sempre o bom é caro. O principal é a gente abandonar alguns preconceitos sobre a comida americana padronizada.
Por exemplo: em Nova Iorque existem cadeias de restaurantes especializados em duas ou três coisas como hambúrgueres e saladas, e todos com o mesmo nome, a mesma decoração e o mesmo tipo de serviço. A sua primeira reação é passar longe deles, prevendo que tudo será robotizado e terá o mesmo gosto de papelão. Ledo e ivo engano. O hambúrguer é grande e gostoso, a salada é fresca e, se o serviço é um pouco automático, pelo menos você não está pagando pela empáfia de nenhum maître nem por um nome francês na porta. Agora, não invente de querer sair fora do padrão. Se com o Superbúrguer nº 2 você tem direito a salada com molho Russo ou das Mil Ilhas, não invente de pedir o molho Roquefort que vem com o Superbúrguer nº 3. O garçom entrará em pânico, uma luz acenderá no escritório do gerente, em dois minutos o Presidente Ford ficará sabendo e colocará a Guarda Nacional em alerta. Peça o que está escrito.
Outra boa saída para quem está em Nova Iorque com um orçamento subdesenvolvido é a porcaria, a grande porcaria americana. O sanduíche de drugstore, o cachorro-quente de rua, os sorvetes e milk-shakes. Porcaria boa e barata, cheia de colesterol e energia, a sustança do turista. Grande lance, também, é o breakfast. A maior invenção americana depois do raibã e do chiclé balão. Com um breakfast de bacon, ovos, torradas, manteiga, geléias, laranjada e café com leite ali pelas 9 ou 10 da manhã, você fica de pé e ativo até as 10 da noite e economiza o almoço. Há casos de brasileiros que resolveram experimentar panquecas com melado de breakfast e ficaram alimentados por dois dias, só que com a locomoção e o raciocínio um pouco prejudicados. São dúzias de panquecas com montes de manteiga em cima.
No nosso último dia em Nova Iorque, resolvemos almoçar num dos franceses famosos. Acontece que já tínhamos feito as malas e eu já estava com o meu uniforme de viagem, um casaco tipo jaqueta, ou uma jaqueta tipo casaco, que — se não fosse o protesto de familiares e de órgãos da saúde pública — me acompanharia até o túmulo. Entramos no Clos Normand, Rua 55, leste. Restaurante vazio — ainda não era meio-dia — e aquele ar que diz aos sentidos: este é dos bons. O maître vem em nossa direção do fundo do restaurante. Sorrindo. É meio parecido com o Nestor Jost. De repente nota o meu casaco e o sorriso vacila. É evidente o seu esforço para não se deixar dominar pela náusea. O senhor tem reserva? É uma pergunta retórica, pois ele já decidiu que eu só sento em restaurante em que ele seja maître com uma ordem judicial, e mesmo assim ele dará um jeito de me envenenar antes do primeiro prato. Não tenho reserva. Ele não consegue tirar os olhos do meu casaco. É o fascínio do ultraje. Ele toma o meu casaco como uma afronta pessoal. Finge que passa os olhos pelo restaurante, como que pensando numa possibilidade de nos acomodar, e finalmente pede desculpas. Sem reserva, infelizmente…
Agradeço e começo a me retirar, mas ele não resiste. Pega a gola do meu casaco entre o polegar e o indicador, e numa voz conciliadora pergunta: “Você não tem outro casaco, não?” Como quem diz: meu jovem, você se dá conta do que me fez? Você tem consciência do que acaba de tentar aqui, hoje? Pensei em várias respostas para lhe dar. Mas aí já estávamos a duas quadras de distância, e rindo muito do incidente. “Tenho, sim, mas está no bolso de trás e é difícil tirar.” Ou “no Lasserre, em Paris, ninguém reparou”. Ou “tenho, sim, mas este eu não dou, não insista”. Fomos almoçar em outro francês, onde o meu casaco, além de alguns narizes torcidos, não causou nenhum efeito.

Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora

Jeremias, o Bom

Brinde no banquete das musas

Poesia, marulho e náusea,
poesia, canção suicida,
poesia, que recomeças
de outro mundo, noutra vida.
 
Deixaste-nos mais famintos,
poesia, comida estranha,
se nenhum pão te equivale:
a mosca deglute a aranha.
 
Poesia, sobre os princípios
e os vagos dons do universo:
em teu regaço incestuoso,
o belo câncer do verso.
 
Azul, em chama, o telúrio
reintegra a essência do poeta,
e o que é perdido se salva…
Poesia, morte secreta.

Carlos Drummond de Andrade, em Fazendeiro do ar

Diário de Bernardo Soares

101.

Se a nossa vida fosse um eterno estar-à-janela, se assim ficássemos, como um fumo parado, sempre, tendo sempre o mesmo momento de crepúsculo dolorindo a curva dos montes. Se assim ficássemos para além de sempre!
Se ao menos, aquém da impossibilidade, assim pudéssemos quedar-nos, sem que cometêssemos uma ação, sem que os nossos lábios pálidos pecassem mais palavras!
Olha como vai escurecendo!... O sossego positivo de tudo enche-me de raiva, de qualquer coisa que é o travo no sabor da aspiração. Dói-me a alma... Um traço lento de fumo ergue-se e dispersa-se lá longe... Um tédio inquieto faz-me não pensar mais em ti...
Tão supérfluo tudo! Nós e o mundo e o mistério de ambos.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

O Mestre e Margarida | 2


2
Pôncio Pilatos

De manto branco com a barra cor de sangue, com movimentos gingados de um cavaleiro, na manhã do décimo quarto dia do mês primaveril de Nissan, o procurador da Judeia, Pôncio Pilatos, saiu para a colunata coberta entre as duas alas do palácio de Herodes, o Grande.
Mais do que qualquer coisa no mundo, o procurador odiava o cheiro do óleo de rosas, e agora tudo pressagiava um dia ruim, pois esse cheiro começou a seguir o procurador desde o amanhecer. Parecia-lhe que o odor emanava dos ciprestes e das palmeiras do jardim e que, ao cheiro dos equipamentos de couro e do suor do corpo das tropas, misturava-se a maldita corrente de perfume de rosa. Desde as alas do fundo do palácio, onde se acomodou a primeira coorte da Décima Segunda Legião Fulminata, que chegara a Yerushalaim junto com o procurador, a colunata ao longo da área superior do jardim cobriu-se de fumaça, e a essa amargurada fumaça — sinal de que os cozinheiros nas centúrias haviam começado a preparar o almoço — misturava-se aquele mesmo odor gorduroso de rosas.
Oh, deuses, deuses, por que estão me castigando? É, não há dúvidas, é ela, de novo ela, essa doença invencível e terrível... a enxaqueca, que faz metade da cabeça doer... contra ela não há remédio, não há nenhuma salvação... vou tentar não mexer a cabeça...”
No chão de mosaico próximo à fonte, uma poltrona já estava preparada, e o procurador, sem olhar para ninguém, sentou-se e estendeu a mão para o lado. Respeitosamente, o secretário depositou nessa mão um pedaço de pergaminho. Sem conseguir conter a careta de dor, o procurador correu os olhos pelo escrito, devolveu o pergaminho ao secretário e articulou com dificuldade:
O processado é da Galileia? O caso foi enviado ao tetrarca?
Sim, procurador — respondeu o secretário.
E ele?
Recusou-se a concluir o caso e enviou a sentença de morte do Sinédrio para que o senhor confirme — explicou o secretário.
O procurador contorceu o rosto e disse baixinho:
Tragam o acusado.
No mesmo instante, dois legionários o trouxeram da área do jardim sob as colunas para a varanda, e colocaram diante da poltrona do procurador um homem de uns vinte e sete anos. Esse homem trajava um quitão azul velho e rasgado. A cabeça estava coberta por uma faixa branca com uma tira ao redor da testa e as mãos estavam atadas nas costas. O homem tinha um grande hematoma no olho esquerdo e no canto da boca havia uma escoriação com sangue pisado. O recém-chegado olhava para o procurador com muita curiosidade.
Este estava calado, depois perguntou baixinho em aramaico:
Foi você que incitou o povo a destruir o templo de Yerushalaim?
O procurador estava como uma pedra, só seus lábios se moviam um tantinho quando pronunciava as palavras. Ele estava como uma pedra porque temia balançar a cabeça, que ardia com a dor infernal.
O homem com as mãos atadas inclinou-se um pouco para frente e começou a falar:
Bom homem! Acredite em mim...
Mas o procurador, como antes, sem se mover e sem elevar minimamente o tom de voz, interrompeu-o no mesmo instante:
É a mim que você chama de bom homem? Está cometendo um engano. Em Yerushalaim, todos cochicham sobre mim, que sou um monstro cruel, e é a mais pura verdade. — E acrescentou no mesmo tom monótono: — Tragam-me o centurião Mata-ratos.
A todos pareceu que ficou escuro na varanda, quando o centurião da primeira centúria, Marcos, chamado de Mata-ratos, apresentou-se ao procurador. Mata-ratos era uma cabeça mais alto do que o maior soldado da Legião e tinha ombros tão largos que tapou completamente o sol ainda baixo.
O procurador dirigiu-se ao centurião em latim:
O criminoso me chama de “bom homem”. Leve-o daqui um instante e explique-lhe como deve referir-se a mim. Mas sem mutilação.
Então todos, menos o procurador, imóvel, seguiram Marcos Mata-ratos com o olhar, enquanto este acenava para o preso com a mão, indicando que deveria segui-lo.
Em geral, todo mundo seguia Mata-ratos com o olhar, onde quer que ele surgisse, por causa do seu tamanho e, para aqueles que o viam pela primeira vez, também porque o rosto do centurião tinha sido deformado: em algum lugar do passado seu nariz fora esmagado com um golpe de porrete alemão.
As botas pesadas de Marcos bateram no mosaico e o homem amarrado o seguiu sem fazer ruído. Imperou um silêncio absoluto na colunata e podia-se ouvir como os pombos arrulhavam na área do jardim perto da varanda e, também, como a água cantarolava na fonte uma intrincada e agradável canção.
O procurador teve vontade de levantar-se, pôr a têmpora embaixo do jato e deixar-se ficar assim. Mas ele sabia que nem isso o ajudaria.
Assim que Mata-ratos levou o preso da colunata para o jardim, ele arrancou o chicote das mãos de um legionário parado ao pé de uma estátua de bronze e, com um leve impulso, açoitou o preso nos ombros. O movimento do centurião foi displicente e fraco, mas o homem amarrado caiu instantaneamente no chão, como se lhe tivessem arrancado as pernas, engasgou com o ar, a cor desapareceu de seu rosto e o olhar tornou-se inexpressivo.
Só com a mão esquerda, Marcos suspendeu no ar o homem caído, leve como um saco vazio, colocou-o de pé e começou a falar, fanho, pronunciando de forma errada as palavras em aramaico:
O procurador romano deve ser chamado de Hegemon. Não use outras palavras. Sentido! Está me entendendo ou terei de bater novamente?
O preso cambaleou, mas recuperou o equilíbrio. A cor voltou ao seu rosto e ele respirou fundo, respondendo com a voz rouca:
Eu entendi. Não me bata.
Um instante depois, estava de novo diante do procurador.
A voz insípida e doente soou:
Nome?
O meu? — retrucou o preso depressa, expressando com todo o seu ser que estava pronto para responder com sensatez e não provocar mais ira.
O procurador disse baixinho:
O meu eu sei. Não finja ser mais bobo do que você é. O seu.
Yeshua — respondeu rapidamente o prisioneiro.
Tem sobrenome?
Ha-Notzri.
Natural de onde?
Da cidade de Gamala — respondeu o prisioneiro, indicando com a cabeça que lá, em algum lugar distante, à sua direita, ao norte, estava a cidade de Gamala.
Qual é sua origem?
Não sei ao certo — respondeu o preso, animado. — Não me lembro dos meus pais. Disseram-me que meu pai era sírio...
Qual é seu endereço permanente?
Não tenho morada permanente — respondeu timidamente o prisioneiro. — Viajo de cidade em cidade.
Isso pode ser resumido em uma palavra: vadiagem — disse o procurador, e perguntou: — Tem parentes?
Não tenho ninguém. Sou sozinho no mundo.
Por acaso sabe ler e escrever?
Sim.
Por acaso sabe alguma outra língua, além do aramaico?
Sei. Grego.
A pálpebra inchada levantou-se de leve e o olho, repuxado pela nuvem de sofrimento, parou no preso. O outro olho permaneceu fechado.
Pilatos começou a falar em grego:
Então era você que queria destruir o templo e conclamava o povo a isso?
O prisioneiro reanimou-se, seus olhos pararam de expressar medo e ele começou a falar em grego:
Eu, bom ho... — na mesma hora o terror brilhou nos olhos do prisioneiro porque por pouco ele não escorregou. — Eu, Hegemon, nunca na minha vida pensaria em destruir o templo e não incitei ninguém a cometer tal ato insano.
O rosto do secretário, que anotava o depoimento curvado sobre uma mesa baixa, expressou admiração. Ele ergueu a cabeça, mas imediatamente inclinou-a de volta para o pergaminho.
Uma multidão de pessoas diferentes se reúne nessa cidade para a festa. Entre elas há magos, astrólogos, videntes e assassinos — disse o procurador em tom monótono. — E dá de aparecerem também mentirosos. Você, por exemplo, é um mentiroso. Está anotado legivelmente: incitou a destruição do templo. Há testemunhas.
Essa boa gente — começou a falar o prisioneiro e, acrescentando rapidamente: —, Hegemon — continuou: —, não aprendeu nada e confundiu tudo o que eu disse. Em geral, estou começando a temer que essa confusão ainda vá se prolongar por muito, muito tempo. Tudo porque ele anota incorretamente o que eu digo.
Fez-se o silêncio. Agora os dois olhos doentes fitavam o prisioneiro intensamente.
Vou repetir para você, mas será pela última vez: pare de querer se fazer de louco, seu bandido — pronunciou Pilatos, em tom suave e monótono. — Não há muito anotado sobre você, mas o que foi anotado é o suficiente para enforcá-lo.
Não, não, Hegemon — disse o preso, esforçando-se no desejo de convencer. — Um sujeito vive me seguindo e escrevendo sem parar em um pergaminho de cabra. Mas, certa vez, dei uma espiada nesse pergaminho e fiquei horrorizado. Decididamente, eu não falei nada do que estava anotado ali. Eu lhe supliquei: queime seu pergaminho, pelo amor de Deus! Mas ele o arrancou de minhas mãos e fugiu.
Quem é esse? — perguntou Pilatos com aversão e tocou a têmpora com a mão.
Mateus Levi — explicou o prisioneiro com boa vontade. — Ele era coletor de impostos e o encontrei, pela primeira vez, a caminho de Betfagé, onde se projeta um jardim de figueiras em uma esquina, e conversei com ele. No início foi hostil comigo e até me insultou, quer dizer, achou que me tivesse insultado chamando-me de cachorro. — Aqui o prisioneiro deu um sorrisinho. — Eu, pessoalmente, não vejo nada de ruim nesse animal para me ofender com essa palavra...
O secretário parou de anotar e lançou um admirado olhar de soslaio, não para o preso, mas para o procurador.
... no entanto, depois de me ouvir, ele ficou mais amolecido — continuou Yeshua — e, finalmente, jogou o dinheiro na estrada e disse que seguiria comigo...
Pilatos deu um sorrisinho torto, arreganhando os dentes amarelos, e proferiu, virando-se de corpo inteiro para o secretário:
Oh, cidade de Yerushalaim! O que é que não se ouve nela! O coletor de impostos, vejam só, jogou o dinheiro na estrada!
Sem saber como responder a isso, o secretário considerou necessário repetir o sorriso de Pilatos.
E ele disse que, daquele momento em diante, odiaria o dinheiro — afirmou Yeshua sobre o estranho gesto de Mateus Levi, e acrescentou: — Desde então, ele se tornou meu companheiro de viagem.
Com os dentes ainda arreganhados, o procurador olhou para o preso de relance, depois para o sol, que não parava de subir sobre as estátuas equestres do hipódromo, distante, localizado abaixo, à direita, e, de repente, com algum sofrimento nauseabundo, pensou que o mais simples seria expulsar esse estranho bandido da varanda, pronunciando somente duas palavras: “Enforquem-no.” Expulsar também a tropa, sair da colunata para o interior do palácio, mandar escurecer o quarto, jogar-se no leito, pedir água gelada, com a voz lamentosa chamar seu cachorro Banga e reclamar com ele sobre a enxaqueca. E de repente a ideia do veneno brilhou sedutoramente na cabeça doente do procurador.
Ele lançou os olhos opacos para o preso e por algum tempo ficou calado, lembrando, com sofrimento, por que, sob a impiedosa chama do sol matinal de Yerushalaim, estava a sua frente um prisioneiro com o rosto desfigurado por surras, e quais perguntas desnecessárias ainda lhe deveriam fazer.
Mateus Levi? — perguntou o doente com a voz rouca e fechou os olhos.
Isso, Mateus Levi — chegou a ele uma voz alta que o fazia sofrer.
De qualquer forma, o que mesmo você falava sobre o templo à multidão reunida no mercado?
A voz daquele que respondia parecia perfurar a têmpora de Pilatos e, indescritivelmente dolorosa, dizia:
Eu, Hegemon, falava que o templo da velha crença ruirá e, em seu lugar, se erguerá o novo templo da verdade. Disse de tal forma para que fosse mais compreensível.
E para que você, seu vadio, foi confundir o povo no mercado, falando-lhe da verdade da qual você não tem ideia? O que é a verdade?
Nesse momento, o procurador pensou: “Oh, meus Deuses! Estou lhe perguntando algo desnecessário para um julgamento... Minha mente não me serve mais...” E novamente se assoma uma taça com um líquido escuro. “Tragam-me veneno, veneno...”
Então, ouviu a voz de novo:
A verdade, antes de tudo, é que a sua cabeça está doendo, e dói tão forte que você covardemente pensa na morte. Está sem forças não só para falar comigo, mas tem dificuldade até de olhar para mim. E agora eu, involuntariamente, sou o seu carrasco, e isso me deixa aflito. Você não consegue pensar em nada e deseja somente que venha seu cachorro, o único ser, pelo visto, ao qual você é afeiçoado. Mas seus tormentos agora chegarão ao fim, a dor de cabeça vai passar.
O secretário esbugalhou os olhos para o prisioneiro e não terminou de escrever as palavras.
Pilatos levantou os olhos atormentados para o prisioneiro e viu que o sol já estava bastante alto sobre o hipódromo, e que um raio penetrara na colunata e se arrastava até as sandálias gastas de Yeshua, que se afastava do sol.
O procurador levantou-se da poltrona, apertou a cabeça com as mãos, e o rosto amarelado e escanhoado expressou horror. Mas, na mesma hora, ele o suprimiu com sua vontade e sentou-se de novo.
O prisioneiro, ao mesmo tempo, continuava seu discurso, mas o secretário não anotava mais nada e, esticando o pescoço feito um ganso, só se esforçava para não deixar passar uma palavra sequer.
Pronto, está tudo acabado — dizia o preso, lançando olhares benevolentes para Pilatos. — Estou extremamente feliz com isso. Eu o aconselharia, Hegemon, a deixar o palácio por um tempo e a passear a pé em algum lugar dos arredores, bem, até mesmo nos jardins do monte das Oliveiras. Um temporal se aproxima... — o prisioneiro voltou-se e apertou os olhos contra o sol — ... mais tarde, à noite. Um passeio seria muito proveitoso para você e eu o acompanharia com gosto. Alguns pensamentos novos vieram-me à cabeça, que poderiam, suponho, parecer-lhe interessantes, e com boa vontade eu os dividiria com você, principalmente porque você deixa a impressão de ser um homem muito inteligente.
O secretário ficou mortalmente pálido e deixou o rolo cair no chão.
O ruim — continuava o homem amarrado, que não era interrompido por ninguém — é que você é um tanto fechado e perdeu definitivamente a fé nas pessoas. É impossível, você há de concordar, depositar toda sua afeição num cachorro. Sua vida é sem graça, Hegemon — aqui o orador permitiu-se um sorriso.
O secretário pensava somente se deveria ou não acreditar em seus ouvidos. Tinha de acreditar. Então, tentou imaginar qual seria a forma rara da ira do explosivo procurador diante do inédito atrevimento do preso. Mas isso o secretário não conseguia imaginar, apesar de conhecer bem o procurador.
Então, eclodiu a voz enrouquecida do procurador, que disse em latim:
Desatem suas mãos.
Um dos legionários da guarda bateu com a lança, entregou-a ao outro, aproximou-se e retirou as cordas do prisioneiro. O secretário apanhou o rolo e resolveu, por ora, não anotar nada e não se impressionar com nada.
Reconheça — perguntou baixinho, em grego, Pilatos. — Você é um grande doutor?
Não, procurador, não sou doutor — respondeu o prisioneiro com alívio, esfregando a mão vincada, inchada e vermelha.
Com os olhos severos e carranca, Pilatos perfurava o prisioneiro e nesses olhos não havia mais opacidade, neles surgiram as faíscas que todos conheciam.
Eu não lhe perguntei — disse Pilatos. — Você, por acaso, sabe também latim?
Sei, sim — respondeu o prisioneiro.
A cor vermelha tomou conta das bochechas amareladas de Pilatos, que perguntou em latim:
Como soube que eu queria chamar o cachorro?
É muito simples — respondeu o prisioneiro em latim. — Você passou com a mão pelo ar — o prisioneiro repetiu o gesto de Pilatos —, como se quisesse fazer um afago, e os lábios...
Isso — disse Pilatos.
Ficaram calados. Depois Pilatos fez uma pergunta em grego:
Quer dizer que você é doutor?
Não, não — respondeu vivamente o prisioneiro. — Acredite em mim, não sou doutor.
Está bem. Caso queira manter isso em segredo, mantenha. Isso não tem relação direta com o caso. Então, você afirma que não conclamava a destruir... ou a incendiar, ou, de alguma forma, a liquidar o templo?
Eu, Hegemon, não conclamei ninguém a tais atos, repito. Será que pareço um louco?
Oh, não, não parece um louco — respondeu baixinho o procurador e riu com um certo sorriso terrível. — Então, jure que isso não aconteceu.
Quer que jure por quem? — perguntou o desamarrado bastante animado.
Pode ser pela sua vida — respondeu o procurador. — É o momento certo de jurar por ela, pois, saiba, ela está por um fio.
Você não está pensando que é você que a sustenta, Hegemon? — perguntou o prisioneiro. — Caso pense assim, está cometendo um grande engano.
Pilatos estremeceu e respondeu com os dentes cerrados:
Eu posso cortar esse fio.
Também nisso você se engana — exclamou o prisioneiro com um sorriso radiante, protegendo-se do sol com a mão. — Você há de convir que, decerto, só poderá cortar o fio aquele que o pendurou, não é mesmo?
Isso, isso — disse Pilatos sorrindo. — Agora não tenho dúvidas de que os vadios inúteis de Yerushalaim o seguiam bem de perto. Não sei quem pendurou sua língua, mas foi bem pendurada. A propósito, diga-me: é verdade que você apareceu em Yerushalaim pelos portões de Susa montado num burro e acompanhado por uma multidão da ralé que o saudava aos gritos como se você fosse algum profeta? — Aqui o procurador apontou para o rolo do pergaminho.
O prisioneiro lançou um olhar perplexo para o procurador.
Eu nem tenho burro, Hegemon — disse ele. — Cheguei a Yerushalaim precisamente pelos portões de Susa, mas a pé, somente na companhia de Mateus Levi, e ninguém gritava para mim, pois até então ninguém me conhecia em Yerushalaim.
Você por acaso não conhece pessoas como — continuou Pilatos sem tirar os olhos do prisioneiro — um tal de Dismas, o outro Gestas e um terceiro Bar-Rabban?
Não conheço essas boas pessoas — respondeu o prisioneiro.
Verdade?
Verdade.
Agora me diga, por que você usa as palavras “boas pessoas” o tempo todo? Por acaso você chama todo mundo assim?
Todo mundo — respondeu o prisioneiro. — Não existem pessoas maldosas no mundo.
É a primeira vez que ouço isso — disse Pilatos, dando um sorrisinho. — Mas pode ser que eu conheça pouco a vida!... Não precisa mais anotar. — Dirigiu-se ao secretário, embora este não estivesse anotando nada mesmo, e continuou falando ao prisioneiro: — Você leu sobre isso em algum livro grego?
Não. Cheguei a isso com meu próprio raciocínio.
E você prega isso?
Prego.
Mas, por exemplo, o centurião Marcos, apelidado de Mata-ratos, ele é bom?
É — respondeu o prisioneiro. — Ele, na verdade, é um homem infeliz. Desde que as boas pessoas o deformaram, tornou-se cruel e insensível. Seria interessante saber quem o mutilou.
Posso informar isso com satisfação — respondeu Pilatos. — Pois fui testemunha disso. As boas pessoas partiam para cima dele, como cachorros para cima de um urso. Alemães agarraram-no pelo pescoço, pelas mãos, pelas pernas. O manipulário da infantaria caiu numa emboscada e, se não fosse uma tura da cavalaria, comandada por mim, romper um flanco, você, filósofo, não chegaria a conversar com o Mata-ratos. Isso ocorreu na batalha de Idistaviso, no vale das Virgens.
Tenho a certeza de que se pudesse falar com ele — disse de repente o prisioneiro em tom sonhador —, ele mudaria drasticamente.
Suponho — respondeu Pilatos — que você traria pouca alegria ao legado da Legião caso inventasse de conversar com algum de seus oficiais ou soldados. Aliás, isso está longe de acontecer, para a felicidade geral, e o primeiro a se ocupar disso serei eu.
Nesse instante, uma andorinha voou impetuosa na colunata, fez um círculo sob o teto dourado, desceu, quase atingiu com a asa pontuda o rosto de uma estátua de cobre no nicho e se escondeu atrás do capitel de uma coluna. Quem sabe teve a ideia de fazer um ninho ali.
Durante seu voo, uma fórmula configurou-se na lúcida e agora leve cabeça do procurador. Era a seguinte: Hegemon examinou o processo do filósofo vadio Yeshua, de sobrenome Ha-Notzri, e não encontrou constituição de crime algum. Não encontrou, em particular, a mínima ligação entre as ações de Yeshua e as desordens que ocorreram em Yerushalaim nos últimos tempos. O filósofo vadio revelou-se doente mental. Consequentemente, o procurador não confirmava a sentença de morte de Ha-Notzri, pronunciada pelo Pequeno Sinédrio. Porém, tendo em vista que os discursos utópicos e loucos de Ha-Notzri podiam ser motivo de perturbações em Yerushalaim, o procurador expulsará Yeshua de Yerushalaim e o submeterá à prisão na Cesareia, a de Straton, no mar Mediterrâneo, ou seja, exatamente onde fica a residência do procurador.
Restava ditar isso ao secretário.
As asas da andorinha rufaram exatamente sobre a cabeça do Hegemon. O pássaro se arrojou à bacia do chafariz e voou para a liberdade absoluta. O procurador ergueu os olhos para o prisioneiro e viu a poeira levantar num pilar ao lado deste.
É tudo sobre ele? — perguntou Pilatos ao secretário.
Infelizmente, não — respondeu o secretário inesperadamente e entregou a Pilatos outro pedaço de pergaminho.
O que mais há? — perguntou Pilatos, franzindo a testa.
Depois de ler o que lhe foi dado, seu rosto se alterou ainda mais. Não se sabe se foi o sangue escuro que afluiu para seu pescoço e rosto, ou se algo diferente aconteceu, só que sua pele perdeu o amarelado, empardeceu e os olhos como que afundaram.
Pelo visto, de novo o culpado era o sangue, que afluiu para as têmporas e começou a latejar, mas dessa vez algo aconteceu com a vista do procurador. Assim, teve a impressão de que a cabeça do prisioneiro flutuou para algum lugar e de que no lugar dela surgiu outra. E nessa cabeça calva havia uma coroa dourada sem dentes. Na testa havia uma chaga redonda que carcomia a pele e que estava besuntada de pomada. Uma boca banguela sulcada com um lábio inferior caído e caprichoso. Pareceu a Pilatos que as colunas cor-de-rosa da varanda e os telhados de Yerushalaim sumiram, ao longe, abaixo, além do jardim, e que tudo em volta estava mergulhado no denso verde dos jardins de ciprestes. E aconteceu algo estranho com seu ouvido, como se ao longe tocassem trombetas, baixinho e ameaçadoramente, e com muita clareza se ouvisse uma voz anasalada, que pronunciava arrastadamente as palavras soberanas: “A lei sobre a ofensa da majestade...”
Pensamentos curtos, desconexos e incomuns surgiram: “Estou perdido!..”, e depois: “Estamos perdidos!..” E entre eles um pensamento totalmente absurdo sobre uma tal de imortalidade, e a imortalidade, por algum motivo, provocou-lhe uma tristeza insuportável.
Pilatos esforçou-se, afastou as visões, voltou o olhar para a varanda e, novamente, surgiram diante dele os olhos do prisioneiro.
Ouça, Ha-Notzri — começou a dizer o procurador, olhando para Yeshua de maneira um tanto estranha: o rosto do procurador estava terrível, mas os olhos preocupados —, alguma vez você disse algo sobre o grande César? Responda! Disse?... Ou... não... disse? — Pilatos esticou a palavra “não” um pouco mais do que deveria num tribunal e, com seu olhar, enviou a Yeshua algum pensamento que parecia querer incutir no prisioneiro.
Dizer a verdade é fácil e agradável — observou o prisioneiro.
Eu não preciso saber — respondeu Pilatos com a voz abafada e maldosa — se para você é agradável ou desagradável dizer a verdade. Mas você é obrigado a dizê-la. Porém, quando falar, pese cada palavra caso não deseje uma morte não só inevitável, como também dolorosa.
Ninguém sabe o que aconteceu com o procurador da Judeia, mas ele se permitiu levantar a mão, como se estivesse se defendendo de um raio de sol e, por trás dessa mão, como atrás de um escudo, quisesse enviar ao prisioneiro algum olhar alusivo.
Então, responda — dizia ele. — Por acaso você conhece um certo Judas de Kerioth e o que exatamente lhe disse, caso tenha falado, sobre o César?
Foi assim — começou a narrar o prisioneiro com gosto. — Anteontem à noite, eu conheci perto do templo um jovem que se apresentou como Judas, da cidade de Kerioth. Ele me convidou para ir a sua casa na Cidade Baixa e me recebeu muito cordialmente...
Bom homem? — perguntou Pilatos, um fogo diabólico brilhando em seus olhos.
Bom homem e muito curioso — confirmou o prisioneiro. — Ele demonstrou o maior interesse por meus pensamentos e foi muito hospitaleiro comigo...
Acendeu as luminárias... — de dentes cerrados e no mesmo tom do prisioneiro, Pilatos pronunciou com os olhos brilhando.
Acendeu — continuou Yeshua, um pouco surpreso com o conhecimento de causa do procurador. — Pediu-me que expressasse a minha opinião sobre o poder do Estado. Ele estava extremamente interessado por essa questão.
E o que foi que você disse? — perguntou Pilatos. — Ou você vai responder que esqueceu o que disse? — Já havia desespero em seu tom.
Entre outras coisas, eu disse — contava o prisioneiro — que qualquer poder é uma violência contra as pessoas e que chegará o tempo em que não haverá mais o poder nem dos Césares, nem qualquer outro poder. O homem passará para o reino da verdade e da justiça, onde não haverá necessidade de poder algum.
[…]

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida