29/07/2026
O desmemoriado de Vigário Geral
Lembrava-se, como se fosse ontem, isto
é, há quarenta séculos, que um exército de pirâmides o
contemplava. Mas não saberia precisar onde, a que luz ou em que sol
de que extinta constelação. Não obstante preferia que fosse na
estrela mais branca do cinturão de Órion.
É verdade: havia uma mulher que
telefonava. Mas tão distante, meu Deus, que era como se lhe faltasse
a ela e para todo o sempre um atributo humano indispensável.
Se lhe propunham exemplos – o xeque
do pastor, o pau de amarrar égua, o mal-assombrado de Guapi, futura
cidade, ele dissimulava. Era então horrível de se ver.
Afinal um dia foi encontrado morto e
quando já nem tudo era possível, uma aventura banal.
Manuel Bandeira, em Estrela da manhã
Marta
“Tenho quarenta anos, sou um homem
sensível, gosto de música, poesia e cinema. Sou advogado, solteiro,
moro sozinho. Procuro parceira para uma relação duradoura, de amor
e respeito. Romântico Incorrigível.”
Fiquei uma semana, eu, o Romântico
Incorrigível, entrando em vários sites de chat, e já estava
ficando cansado quando a mulher que eu procurava apareceu:
“Querido Romântico Incorrigível.
Como você, estou também à procura de uma relação duradoura com
alguém carinhoso e digno. Também amo música e poesia e
principalmente cinema. Fale mais de você. Louise Brooks.”
“Querida Louise Brooks. Nunca casei,
não porque não tivesse condições financeiras para isso, pelo
contrário, sou um homem de recursos, não obstante leve uma vida
modesta. Até hoje não me casei por não ter encontrado a mulher
ideal. Dizem que isso não existe, que é uma visão romântica. Mas
eu me recuso a aceitar esse pessimismo. É por isso que adotei o
pseudônimo de Romântico Incorrigível. E você? Qual a razão de
Louise Brooks?”
“Querido Romântico. Louise Brooks
era uma atriz linda, do cinema mudo. Um dia um namorado me deu uma
foto dela tão parecida comigo que eu a guardo até hoje. Uma mulher
com um ar misterioso, que eu, na verdade, não tenho. Sou um livro
aberto. Também nunca casei e procuro o homem ideal. Sei que vou
encontrá-lo. Quem sabe ele não é você? Você tem namorada? Louise
Brooks.”
“Querida Louise. Não, não tenho
namorada. Gostaria de me encontrar com você. Você deve estar
pensando, ele não me conhece, como pode querer se encontrar comigo?
Mas eu tenho certeza de que vamos nos dar muito bem. Pensa nisso.
Romântico.”
“Querido Romântico. Sou uma pessoa
tímida, moro com a minha mãe, estou fazendo essa loucura pela
primeira vez na minha vida, conversar com um estranho pela internet.
Não sei se devo levar isso adiante. Tenho medo. Louise.”
Eu tinha pressa de pegar aquela
mulher.
“Querida Louise. Também sou uma
pessoa tímida como você, esta é a primeira vez que faço isso. Mas
sei, numa espécie de premonição, que vamos nos dar muito bem.
Posso passar na sua casa? Sei que a sua mãe vai gostar de mim.
Romântico.”
“Querido Romântico. Na minha casa é
impossível, tem que ser na sua. Me dá o endereço. Passo aí
amanhã, no início da noite. Beijos. Louise.”
“Querida Louise. Meu endereço é
rua Gomes Monteiro, terceiro andar. É um edifício de quatro
andares, um apartamento por andar, um daqueles prédios antigos que a
especulação imobiliária ainda não conseguiu destruir. Você toca
o interfone que eu abro a porta. Aguardo você ansioso. Romântico.”
Fiquei tenso o dia inteiro, e à
medida que a hora se aproximava eu ficava ainda mais. Eu precisava
pegar aquela mulher.
Então o interfone tocou.
“É a Louise.”
Apertei o controle remoto. Pouco
depois a campainha do apartamento soou. Abri.
Era um mulher muito branca, de cabelos
tão negros que pareciam pintados. Vestia uma minissaia que exibia
lindas e longas pernas alvas.
“Por favor, entre.”
Ali estava a mulher que eu procurava.
Ela entrou. Pedi que se sentasse.
“Bonito apartamento. É seu?”
“É. Tenho outro, na Barra, que está
alugado.”
“Meu nome verdadeiro é Diana.”
“O meu é Carlos.”
“Olha aqui a foto da Louise Brooks”,
ela disse.
Olhei. Uma foto em preto e branco. O
cabelo também era de um negror raro e o rosto muito branco. Linda
mulher.
“Quer beber alguma coisa?”
“Um uisquinho.”
Eu apanhei na copa uma garrafa de
uísque, uma de água mineral e um balde de gelo.
“Gosto do meu sem gelo, só água e
uísque, mais uísque do que água”, eu disse.
“O meu com gelo, por favor, e
bastante água.”
Preparei as nossas bebidas. Coloquei
os copos em uma bandeja.
“Você tem alguma coisa para a gente
beliscar?”, ela perguntou.
“Vou ver lá dentro, não demoro,
respondi.”
Demorei um pouco, com o saco de
biscoitos na mão, sentado na copa. Queria dar tempo a ela.
Depois de uns minutos voltei. Louise
ergueu o copo.
“Queria fazer um brinde, desejando
que o nosso relacionamento seja duradouro, como você disse no seu
e-mail.”
Levei meu copo aos lábios.
“Antes de beber vou apanhar também
uns salgadinhos na cozinha”, falei. “Eu só trouxe biscoitos.”
Fui para a cozinha levando o meu copo.
Fiz o que tinha de fazer. Voltei com um prato de salgadinhos.
Ergui o copo. “A uma relação
duradoura”, eu disse.
“Tim, tim”, respondeu ela, batendo
com o seu copo no meu.
Bebemos enquanto conversávamos.
Ela era órfã de pai, e a mãe viúva
com quem morava era muito controladora. Não tinha outros parentes.
Contei que tinha quatro irmãs, todas
mais velhas do que eu. Disse que gostaria de viajar com ela, ir a
Paris, ou Nova York. Eu já tinha os dólares para a viagem
separados. Ela disse que queria conhecer Katmandu.
“Vou buscar mais água na cozinha”,
eu disse, levantando-me.
Mas assim que levantei, cambaleei,
apoiando-me no espaldar da poltrona.
“Estou meio tonto...”
Ela me abraçou.
“Está tonto mesmo ou isso é um
truque para eu abraçar você?” Segurou no meu pau, que estava
mole. “Daqui a pouco eu faço ele ficar duro. Senta um pouco na
poltrona”, ela disse.
Sentei-me e logo minha cabeça pendeu
para a frente.
“Carlos, Carlos, você está bem?”
Não obteve resposta.
Um pouco depois ela sacudiu o meu
braço.
“Carlos, está me ouvindo?”
Continuei mudo.
Ouvi o barulho de Diana tentando abrir
o quarto fechado. Senti as mãos dela revistando meus bolsos. Em
seguida ouvi a voz dela, devia estar falando num celular.
“Ígor, ele colapsou. As coisas
devem estar num quarto trancado. Sim, eu espero, você sabe o
endereço, não sabe? Toca a campainha.”
Continuei imóvel, derreado na
poltrona. Ouvi a campainha.
“É o Ígor”, ouvi a voz no
interfone.
“Sobe”, disse Diana.
Barulho de porta sendo aberta.
“Foi fácil?”, voz de homem.
“Moleza. Acho que joias, dólares e
o que interessa estão nesse quarto trancado. Mas não achei a
chave.”
“Deve estar no bolso dele.”
“Já revistei. Não tem chave
nenhuma. Ígor, vamos apagar o cara, fazer o serviço completo.”
“Não gosto disso, Marta.”
“Porra, ele viu a minha cara. Se
você cortar a garganta dele o cara não vai sentir nada. Serviço
completo, Ígor, pra isso você leva metade e ainda me come.”
“Vamos arrombar a porta”, disse
Ígor.
Mas a porta se abriu antes que a
arrombassem.
Os dois tiras que trabalhavam comigo
saíram do quarto com as armas apontadas para eles. Mandaram que os
dois se deitassem no chão com as mãos para trás.
Enquanto os dois eram algemados eu me
levantei do sofá.
“Marta Castro e Ígor da Silva,
vocês estão presos pelo assassinato de Edgard Gouveia”, eu disse.
Os dois começaram uma discussão
acalorada em que Ígor dizia que a ideia fora de Marta, que o
obrigara a matar o sujeito, e Marta dizia que tentara impedir, mas
Ígor matara assim mesmo.
“Quem matou foi você”, repetia
Marta.
“Você mandou, sua puta”, dizia
Ígor.
Discutiram sem parar, até chegarmos à
delegacia, onde foram autuados e a prisão preventiva solicitada ao
juiz. Iam ser condenados a uma pena longa de reclusão.
Antes de ser trancafiada, Marta
conversou comigo.
“Você não ficou desacordado e eu
coloquei uma dose cavalar de entorpecente no seu copo. Como foi
isso?”
“Quando fui na cozinha troquei de
copo. O que eu bebi estava limpo.”
“Como foi que vocês me
descobriram?”
“Examinando o computador da vítima
de vocês, o Edgard Gouveia, que vocês mataram cortando a garganta.
Estava lá inteirinho, o chat com a Louise Brooks. Você devia ter
mudado o seu nome.”
“Mas eu queria ser ela. Louise é
parecida comigo, não é?”
“Sim, muito”, respondi.
E era, realmente. Um rosto raro. Marta
poderia ser modelo fotográfico ou fazer carreira no cinema. Mesmo
sem mudar de nome. Mas quando saísse da cadeia seria tarde demais.
Rubem Fonseca, em Ela e Outras Mulheres
Piloto de Guerra
VIII
— Artilheiro!
— Capitão?
— Você ouviu? Seis caças, seis, na
frente, à esquerda!
— Ouvi, Capitão!
— Dutertre, eles nos viram?
— Viram. Viraram para nós. Nós
estamos quinhentos metros acima.
— Artilheiro, ouviu? Acima
quinhentos metros.
— Dutertre! Longe ainda?
— … alguns segundos.
— Artilheiro, ouviu? Estarão na
cauda em alguns segundos.
— Agora estou vendo! Um enxame de
vespas envenenadas.
— Artilheiro! Passaram no través.
Você vai ver num segundo. Ali!
— Eu… Não estou vendo nada. Ah!
Vi!
— Eu não os vejo mais!
— Estão no nosso encalço?
— Estão no nosso encalço!
— Subindo rápido?
— Não sei… Não creio…
— Não!
— O que o senhor decide, Capitão?
Foi Dutertre quem falou.
— O que você quer que eu decida! E
nos calamos.
Não há nada a decidir. Isso pertence
exclusivamente a Deus. Se eu virasse, encurtaria o intervalo que nos
separava. Como continuamos em frente, na direção do sol, e em
grande altitude não se sobe quinhentos metros sem perder o alvo por
alguns quilômetros, pode ser que antes de atingirem nossa altura,
quando retomarão sua velocidade, já nos tenham perdido ao sol.
— Artilheiro, ainda?
— Ainda.
— Passamos deles?
— Hã… Não… Sim!
Pertence a Deus e ao sol.
Prevendo o eventual combate (embora um
Grupo de Caça mais assassine do que combata), eu me esforço,
lutando contra ele com todos os meus músculos, para desbloquear meus
pedais gelados. Tenho uma estranha sensação, mas ainda tenho os
caças nos olhos. E ponho todo o meu peso nos comandos rígidos.
Uma vez mais observo que estou, de
fato, menos comovido nesta ação, a qual, entretanto, reduz-me a uma
espera absurda, do que eu estava ao me equipar. Sinto também uma
espécie de raiva. Uma cólera benfazeja.
Mas nenhuma embriaguez do sacrifício.
Tenho vontade de morder.
— Artilheiro, nós os alcançamos?
— Alcançamos, Capitão.
Vai dar.
— Dutertre… Dutertre…
— Capitão?
— Não… Nada.
— Que foi, Capitão?
— Nada… Achei que… Nada…
Eu não lhes direi nada. Não é coisa
que se apronte. Se ensaiar uma espiral, eles verão. Verão que estou
esboçando uma espiral…
Não é normal que eu esteja ensopado
de suor com cinquenta graus de frio. Não é normal. Oh! Já entendi
o que está acontecendo: desmaio devagarinho. Bem devagar…
Vejo o painel de bordo. Não vejo o
painel de bordo. Minhas mãos amolecem no manche. Não tenho nem
força para falar. Abandono-me. Abandonar-se…
Apertei o tubo de borracha. Recebi no
nariz uma golfada que traz a vida. Então não é uma pane de
oxigênio. É… Sim, claro, como fui estúpido. É o pedal. Exerci
contra meus pedais esforços de estivador, de caminhoneiro. A dez mil
metros de altitude, parecia um lutador de circo. Porém, meu oxigênio
é limitado. Tinha de consumir com moderação. Pago pela orgia…
Respiro com sofreguidão. Meu coração
bate rápido, muito rápido. É como um guizo fraco. Nada direi à
minha tripulação. Se eu tentar uma espiral, eles saberão logo!
Vejo o painel de bordo… Não vejo o painel de bordo… Sinto-me
triste no meu suor.
A vida me voltou lentamente.
— Dutertre!
— Capitão?
Gostaria de lhe contar o que
aconteceu.
— Eu achei que…
Mas renuncio a me exprimir. As
palavras consomem oxigênio demais, e meus três vocábulos já me
tiraram o fôlego. Sou um fraco, fraco convalescente…
— Que foi, Capitão?
— Não… Nada.
— Capitão, o senhor está realmente
enigmático!
Estou enigmático. Mas estou vivo.
— Não… não nos atingiram…
— Ah! Capitão, é provisório! É
provisório: tem Arras.
Assim, durante alguns minutos, eu
acreditei poder voltar e, no entanto, não observei em mim essa
angústia brilhante que, dizem, embranquece os cabelos. E me lembro
de Sagon. Do depoimento de Sagon, a quem visitamos alguns dias depois
do combate que o abateu, há dois meses, em zona francesa: o que
sentira, Sagon, quando os caças o enquadraram, pregaram, de algum
modo, em seu poste de execução, considerou-se morto naqueles dez
segundos?
Antoine de Saint-Exupéry, em Piloto de Guerra
Faculdade hegemônica
A faculdade hegemônica desperta e dirige a si mesma. Ao passo que faz de si tal como é e como quer ser, faz das coisas que se apresentam tal como deseja.
Marco Aurélio, em Meditações
Da utilidade dos animais
Terceiro dia de aula. A professora é
um amor. Na sala, estampas coloridas mostram animais de todos os
feitios. É preciso querer bem a eles, diz a professora, com um
sorriso que envolve toda a fauna, protegendo-a. Eles têm direito à
vida, como nós, e além disso são muito úteis. Quem não sabe que
o cachorro é o maior amigo da gente? Cachorro faz muita falta. Mas
não é só ele não. A galinha, o peixe, a vaca… Todos ajudam.
— Aquele cabeludo ali, professora,
também ajuda?
— Aquele? É o iaque, um boi da Ásia
Central. Aquele serve de montaria e de burro de carga. Do pelo se
fazem perucas bacaninhas. E a carne, dizem que é gostosa.
— Mas se serve de montaria, como é
que a gente vai comer ele?
— Bem, primeiro serve para uma
coisa, depois para outra. Vamos adiante. Este é o texugo. Se vocês
quiserem pintar a parede do quarto, escolham pincel de texugo. Parece
que é ótimo.
— Ele faz pincel, professora?
— Quem, o texugo? Não, só fornece
o pelo. Para pincel de barba também, que o Arturzinho vai usar
quando crescer.
Arturzinho objetou que pretende usar
barbeador elétrico. Além do mais, não gostaria de pelar o texugo,
uma vez que devemos gostar dele, mas a professora já explicava a
utilidade do canguru:
— Bolsas, malas, maletas, tudo isso
o couro do canguru dá pra gente. Não falando na carne. Canguru é
utilíssimo.
— Vivo, fessora?
— A vicunha, que vocês estão vendo
aí, produz… produz é maneira de dizer, ela fornece, ou por outra,
com o pelo dela nós preparamos ponchos, mantas, cobertores etc.
— Depois a gente come a vicunha, né
fessora?
— Daniel, não é preciso comer
todos os animais. Basta retirar a lã da vicunha, que torna a
crescer…
— E a gente torna a cortar? Ela não
tem sossego, tadinha.
— Vejam agora como a zebra é
camarada. Trabalha no circo, e seu couro listrado serve para forro de
cadeira, de almofada e para tapete. Também se aproveita a carne,
sabem?
— A carne também é listrada? —
pergunta que desencadeia riso geral.
— Não riam da Betty, ela é uma
garota que quer saber direito as coisas. Querida, eu nunca vi carne
de zebra no açougue, mas posso garantir que não é listrada. Se
fosse, não deixaria de ser comestível por causa disto. Ah, o
pinguim? Este vocês já conhecem da praia do Leblon, onde costuma
aparecer, trazido pela correnteza. Pensam que só serve para brincar?
Estão enganados. Vocês devem respeitar o bichinho. O excremento —
não sabem o que é? O cocô do pinguim é um adubo maravilhoso:
guano, rico em nitrato. O óleo feito com a gordura do pinguim…
— A senhora disse que a gente deve
respeitar.
— Claro. Mas o óleo é bom.
— Do javali, professora, duvido que
a gente lucre alguma coisa.
— Pois lucra. O pelo dá escovas de
ótima qualidade.
— E o castor?
— Pois quando voltar a moda do
chapéu para homens, o castor vai prestar muito serviço. Aliás, já
presta, com a pele usada para agasalhos. É o que se pode chamar um
bom exemplo.
— Eu, hem?
— Dos chifres do rinoceronte, Belá,
você pode encomendar um vaso raro para o living de sua casa. Do
couro da girafa, Luís Gabriel pode tirar um escudo de verdade,
deixando os pelos da cauda para Teresa fazer um bracelete genial. A
tartaruga-marinha, meu Deus, é de uma utilidade que vocês não
calculam. Comem-se os ovos e toma-se a sopa: uma de-lí-cia. O casco
serve para fabricar pentes, cigarreiras, tanta coisa… O biguá é
engraçado.
— Engraçado como?
— Apanha peixe pra gente.
— Apanha e entrega, professora?
— Não é bem assim. Você bota um
anel no pescoço dele, e o biguá pega o peixe mas não pode engolir.
Então você tira o peixe da goela do biguá.
— Bobo que ele é.
— Não. É útil. Ai de nós se não
fossem os animais que nos ajudam de todas as maneiras. Por isso que
eu digo: devemos amar os animais, e não maltratá-los de jeito
nenhum. Entendeu, Ricardo?
— Entendi. A gente deve amar,
respeitar, pelar e comer os animais, e aproveitar bem o pelo, o couro
e os ossos.
Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica
28/07/2026
Brecht revisitado
partido: o que partiu rumo ao futuro
mas no caminho esqueceu a razão da
partida
(só perdemos a viagem camaradas
não a estrada nem a vida)
José Paulo Paes, em Resíduo
Olhar de criança
Poça D'água (1952), de Maurits Cornelis Escher
O senso comum identifica o “infantil”
com o “pueril”. Adulto no qual mora uma criança não é digno de
confiança. O ideal é o homem maduro, que abandonou as coisas de
criança, que trocou o brinquedo pelo trabalho. A psicanálise
concorda: o “infantil” é o regressivo, sintoma neurótico a ser
analisado.
Na minha psicanálise, os desejos
infantis são desejos eternos e divinos. O infantil não é o
regressivo: é o eterno, o que sempre foi, o que sempre será, o
objeto da saudade e da nostalgia, o objeto perdido que se espera
reencontrar no futuro. É dos desejos infantis que surge a poesia. A
criança e o poeta falam a mesma língua.
Lá vão pelo caminho a mãe e a
criança, que vai sendo arrastada pelo braço — segurar pelo braço
é mais eficiente que segurar pela mão. Vão as duas pelo mesmo
caminho, mas não vão pelo mesmo caminho. Pois eu digo que o caminho
por que anda a mãe não é o mesmo caminho por que anda a criança.
Os olhos da criança vão como borboletas, pulando de coisa em coisa,
para cima, para baixo, para os lados, tudo é espantoso, tudo é
divertido. Pena que a mãe não veja nada do que a criança vê
porque seus olhos desaprenderam a arte de ver como quem brinca, ela
tem muita pressa, é preciso chegar, há coisas urgentes a fazer, seu
pensamento está nas obrigações de dona de casa, por isso vai dando
safanões nervosos na criança... Olhando fixamente para o chão, ela
procura as pedras no meio do caminho, não por amor ao Drummond, mas
para não dar topadas, e procura também as poças d’água, não
porque tenha se comovido com o lindo desenho do Escher de nome Poça
d’água, uma poça de água suja na qual se refletem o céu
azul e os ramos verdes dos pinheiros; ela procura as poças para não
sujar o sapato. A pedra do Drummond e a poça de água suja do Escher
os adultos não veem, só as crianças e os artistas.
Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba
Temas que morrem
Sinto em mim que há tantas coisas
sobre o que escrever. Por que não? O que me impede? A exiguidade do
tema talvez, que faria com que este se esgotasse em uma palavra, em
uma linha. às vezes é o horror de tocar numa palavra que
desencadearia milhares de outras, não desejadas, estas. No entanto,
o impulso de escrever. O impulso puro — mesmo sem tema. Como se eu
tivesse a tela, os pincéis e as cores — e me faltasse o grito de
libertação, ou a mudez essencial que é necessária para que se
digam certas coisas. Às vezes a minha mudez faz com que eu procure
pessoas que, sem elas saberem, me darão a palavra-chave. Mas quem?
quem me obriga a escrever? O mistério é esse: ninguém, e no
entanto a força me impelindo.
Eu já quis escrever o que se
esgotaria em uma linha. Por exemplo, sobre a experiência de ser
desorganizada, e de repente a pequena febre de organização que me
toma como a de uma antiga formiga. É como se o meu inconsciente
coletivo fosse o de uma formiga.
Eu também queria escrever, e seriam
duas ou três linhas, sobre quando uma dor física passa. De como o
corpo agradecido, ainda arfando, vê a que ponto a alma é
também o corpo.
E é como se eu fosse escrever um
livro sobre a sensação que tive uma vez que passei vários dias em
casa muito gripada — e quando saí fraca pela primeira vez à rua,
havia sol cálido e gente na rua. E de como me veio uma exclamação
entre infantil e adulta: ah, como os outros são bonitos. É que eu
vinha do escuro meu para o claro que também descobria que era meu, é
que eu vinha de uma solidão de pessoas para o ser humano que movia
pernas e braços e tinha expressões de rosto.
Também seria inesgotável escrever
sobre beber mal. Bebo depressa demais, e não há alternativas: ou
praticamente adormeço dentro de mim e fico morosa, pensativa, sem
que um pensamento se esclareça como descoberta, ou fico excitada
dizendo tolices de maior brilho instantâneo. Mas — mas há um
instante mínimo nesse estado em que simplesmente sei como é a vida,
como eu sou, como os outros são, como a arte deveria ser, como o
abstracionismo por mais abstrato não é abstrato. Esse instante só
não vale a pena porque esqueço tudo depois, quase na hora. É como
se o pacto com Deus fosse este: ver e esquecer, para não ser
fulminado pelo saber.
E às vezes, por mais absurdo, acho
lícito escrever assim: nunca se inventou nada além de morrer, pois
faz parte essencial da natureza humana, animal e vegetal, e também
as coisas morrem. E, como se houvesse ligação com essa descoberta,
vem a outra óbvia e espantosa: nunca se inventou um modo diferente
de amor de corpo que é estranho e cego. Cada um vai naturalmente em
direção à reinvenção da cópia, que é absolutamente original
quando realmente se ama. E de novo volta o assunto morrer. E vem a
ideia de que, depois de morrer, não se vai ao paraíso,
morrer é que é o paraíso.
A verdade é que sempre me faltou o
dom para a minha verdadeira vocação: a de desenhar. Porque eu
poderia, sem finalidade nenhuma, desenhar e pintar um grupo de
formigas andando ou paradas — e sentir-me inteiramente realizada
nesse trabalho. Ou desenharia linhas e linhas, uma cruzando a outra,
e me sentiria toda concreta nessas linhas que os outros talvez
chamassem de abstratas.
Eu também poderia escrever um
verdadeiro tratado sobre comer, eu que gosto de comer e no entanto
não como tanto. Terminaria sendo um tratado sobre a sensualidade,
não especificamente a do sexo, mas a sensualidade de “entrar em
contato” íntimo com o que existe, pois comer é uma de suas
modalidades — e é uma modalidade que engage de algum modo o
ser inteiro.
Também escreveria sobre rir do
absurdo de minha condição. E ao mesmo tempo mostrar como ela é
digna, e usar a palavra digna me faz rir de novo.
Eu falaria sobre frutas e frutos. Mas
como quem pintasse com palavras. Aliás, verdadeiramente, escrever
não é quase sempre pintar com palavras?
Ah, estou cheia de temas que jamais
abordarei. Vivo deles, no entanto.
Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida
Cerveja no bar da esquina
Não sei há quantos anos foi, quinze
ou vinte. Eu estava sentado em minha casa. Era uma quente noite de
verão e eu me sentia embotado.
Saí pela porta e desci a rua. Passara
da hora do jantar para a maioria das famílias, e elas se sentavam
vendo suas TVs. Fui até o boulevard. Do outro lado da rua tinha um
bar de bairro, construção antiga, com um balcão de madeira pintado
de verde e branco. Entrei.
Após quase uma vida inteira passada
em bares, eu perdera inteiramente o gosto por eles. Quando queria
alguma coisa para beber, geralmente pegava numa loja de bebidas,
levava para casa e bebia sozinho.
Entrei e encontrei um banquinho
distante da turma. Não estava constrangido, apenas me sentia
deslocado. Mas se queria sair, não havia nenhum outro lugar aonde
ir. Em nossa sociedade, os lugares interessantes, em sua maioria, ou
são ilegais ou muito caros.
Pedi uma garrafa de cerveja e acendi
um cigarro. Era mais um barzinho de bairro. Todos se conheciam.
Contavam piadas pesadas e viam TV. Só havia uma mulher, velha, num
vestido preto, peruca ruiva. Tinha uma dúzia de colares e acendia um
cigarro atrás do outro. Comecei a desejar estar de volta ao meu
quarto, e decidi ir para lá depois de acabar a cerveja.
Entrou um sujeito e pegou o banquinho
junto ao meu. Não ergui o olhar, não estava interessado, mas pela
voz imaginei que fosse mais ou menos da minha idade. Conheciam-no no
bar. O garçom do balcão chamou-o pelo nome e uns dois fregueses o
cumprimentaram. Ele ficou sentado junto a mim com sua cerveja por
três ou quatro minutos; depois disse:
– Oi, como vai?
– Vou indo bem.
– Novo no bairro?
– Não.
– Não vi você aqui antes.
Não respondi.
– De Los Angeles? – ele perguntou.
– Principalmente.
– Acha que os Dodgers ganham este
ano?
– Não.
– Não gosta dos Dodgers?
– Não.
– De quem você gosta?
– Ninguém. Não gosto de beisebol.
– De que é que gosta?
– Boxe. Tourada.
– Tourada é cruel.
– É, tudo é cruel quando a gente
perde.
– Mas o touro não tem uma chance.
– Nenhum de nós tem.
– Você é negativo pra caralho.
Acredita em Deus?
– Não no seu tipo de deus.
– Que tipo?
– Não sei ao certo.
– Eu vou à igreja desde que me
lembro.
Não respondi.
– Posso lhe pagar uma cerveja? –
ele perguntou.
– Claro.
Vieram as cervejas.
– Leu os jornais hoje? – ele
perguntou.
– Li.
– Leu sobre as cinquenta meninas que
morreram queimadas naquele orfanato de Boston?
– Li.
– Não foi horrível?
– Acho que foi.
– Você acha que foi?
– É.
– Não sabe?
– Se eu estivesse lá, acho que
teria pesadelos o resto da vida. Mas é diferente quando a gente
apenas lê sobre a coisa nos jornais.
– Não sente pena das cinquenta
meninas que morreram queimadas? Elas se penduravam das janelas
gritando.
– Acho que foi horrível. Mas a
gente vê isso apenas como uma manchete de jornal, uma matéria de
jornal. Na verdade não pensei muito nisso. Virei a página.
– Quer dizer que não sentiu nada?
– Na verdade, não.
Ele ficou um momento calado e tomou um
gole de sua cerveja. Depois gritou:
– Ei, aqui tem um cara que diz que
não sentiu porra nenhuma quando leu sobre aquelas cinquenta órfãs
que morreram queimadas em Boston!
Todos olharam para mim. Baixei o olhar
para meu cigarro. Fez-se um minuto de silêncio. Então a mulher de
peruca vermelha disse:
– Se eu fosse homem, chutava a bunda
dele por toda a rua acima e abaixo.
– Ele também não acredita em
Deus! – disse o cara junto a mim. – Odeia beisebol. Adora
touradas, e gosta de ver menininhas morrerem queimadas!
Pedi outra cerveja ao garçom, para
mim. Ele me empurrou a garrafa com repugnância. Dois rapazes jogavam
sinuca. O mais jovem, um garotão grande de camiseta branca, largou o
taco e aproximou-se de mim. Ficou atrás de mim enchendo os pulmões
de ar, tentando tornar o peito maior.
– Isso aqui é um bom bar. A gente
não gosta de babacas por aqui, a gente cobre eles de porrada.
Eu o sentia parado às minhas costas.
Peguei a garrafa, servi no copo, bebi e acendi um cigarro. A mão
perfeitamente firme. Ele ficou ali parado por algum tempo, depois
acabou voltando para a mesa de sinuca. O homem sentado a meu lado
desceu de seu banquinho e afastou-se.
– O filho da puta é negativo –
ouvi-o dizer. – Odeia as pessoas.
– Se eu fosse homem – disse a
mulher de peruca vermelha – fazia ele pedir o penico. Não suporto
esses sacanas.
– É assim que falam caras tipo
Hitler – disse alguém.
– Verdadeiros panacas cheios de
ódio.
Tomei a cerveja, pedi outra. Os dois
caras jovens continuavam jogando sinuca. Algumas pessoas saíram e os
comentários sobre mim começaram a morrer, exceto no caso da mulher
de peruca vermelha. Ela ficava cada vez mais bêbada.
– Canalha, canalha... você é um
verdadeiro canalha. Fede como uma fossa! Aposto que odeia seu país
também, não odeia? Seu pais, sua mãe e todo mundo mais. Ah, eu
conheço vocês! Canalhas, canalhas covardes vulgares.
Acabou saindo lá pela uma e meia da
manhã. Um dos garotos que jogavam sinuca saiu. O de camiseta branca
sentou-se na ponta do balcão e falou com o cara que tinha pago a
cerveja para mim. Às cinco para as duas, eu me levantei devagar e
saí.
Ninguém me seguiu. Subi o boulevard,
peguei minha rua. As luzes das casas e apartamentos estavam apagadas.
Havia uma cerveja na geladeira. Abri e bebi.
Depois tirei a roupa, fui ao banheiro,
mijei, escovei os dentes, apaguei a luz, fui para a cama, me deitei e
dormi.
Charles Bukowski, em Numa Fria
27/07/2026
Tamam Shod
Ontem chegamos de Teerã. Quinhentos
quilômetros de areais, povoados mortos, postos de caravanas em
ruínas, as formas caprichosas da meseta iraniana. Estávamos
cansados e, excitados. Um banho e um bom chá no Shah Abban, e saímos
a caminhar.. Jardins, avenidas, cúpulas, minaretes. Em Isfahan a
noite é feérica, o céu é perfeito.
Quando regressamos ao hotel,
extenuados e felizes, conversamos até que o sono nos venceu.
Sonhei que no centro da prodigiosa
cúpula da mesquita Lutfullah estava escondido um rubi de virtudes
mágicas. O judicioso que pára justamente debaixo dele, guarda
silêncio e prende a respiração, recebe a visão de um tesouro,
assim como a indicação do lugar onde ele se encontra. Sua
existência não pode ser definida nem se deve tentar sua posse, pois
quem ousar se transforma em madeira, a madeira em nuvem, a nuvem em
pedra e a pedra se quebra em mil pedaços. O rubi proporciona deleite
ou assombro, mas não autoriza o enriquecimento.
De manha voltamos a Meidan e Shah.
Visitamos o palácio Ali Qapu desde seus últimos corredores até a
sala de música.
Surpreenderam-me as escadarias com
degraus demasiadamente altos e incrivelmente estreitos. Alguém
explicou que era para impedir o acesso aos cavalos inimigos.
Enquanto Melania se demorava no
terraço que dá para a antiga quadra de pólo (a mais bela praça do
mundo), não resisti mais. Cruzei até a Lutfullah, coloquei-me bem
debaixo do conjunto da cúpula, fiquei em silêncio e contive a
respiração. Uma luz ocre peneirava todos os matizes. Subitamente—
meu Deus! — O tesouro era surpreendente, de inúmeras riquezas,
perto, fácil de obter, entre as ruínas de um dos antigos mirantes
ou pombais, ou casas de prazer fora da cidade. A visão me foi
concedida em um segundo interminável de vertiginoso esplendor.
Regressei a Ali Qapu. Percorremos a
mesquita das Sextas-Feiras, cruzamos a velha ponte de trinta e tantos
arcos...
Terminarei estas notas ou me
pulverizarei na pedra?
Roy Bartholomew, em Livro de Sonhos, de Jorge Luis Borges
Lendo nas entrelinhas | Gijs van Vaerenbergh
A obra de arte permanente "Lendo
nas Entrelinhas" foi concebida como parte de uma exposição de
arte no espaço público, organizada pelo museu Z33 de Hasselt.
Situada na paisagem pitoresca perto da vila de Borgloon, a estrutura
é formalmente baseada no arquétipo da igreja paroquial local. Ela é
construída como um empilhamento de camadas horizontais, cada uma
formando uma seção transversal horizontal da planta da igreja.
Cerca de 2.000 pequenas colunas de sustentação mantêm essas
camadas horizontais equidistantes umas das outras. De longe, a
aparência leve, quase flutuante, das camadas faz com que a estrutura
pareça virtualmente transparente. Com sua estrutura translúcida, a
obra de arte surge quase como uma miragem.
À medida que os visitantes se
aproximam e circulam a obra de arte, as linhas das camadas
horizontais mudam visualmente. A obra parece tornar-se mais sólida,
revelando aberturas de janelas bem definidas e uma abóbada no teto.
Ao observar o edifício,
automaticamente se observa também a paisagem (tanto no sentido
físico quanto cultural). A obra não se destina a um uso específico,
mas funciona como um ponto de referência em seu entorno.
ENCOMENDA: Casa Z33 para Arte Contemporânea,
Design e Arquitetura.
DATA: 2011 (permanente).
LOCAL: Borgloon (BE).
Postagem original: https://www.gijsvanvaerenbergh.com/
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