12/09/2026

Açaí | Vanessa Moreno

 

Intercâmbio, por Laerte

Zoo

O passarinho na gaiola pensa que uma árvore e o céu o prendem.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

Capítulo 98 – Suprimido



Separamo-nos alegremente. Jantei reconciliado com a situação. A carta anônima restituía à nossa aventura o sal do mistério e a pimenta do perigo; e afinal foi bem bom que Virgília não perdesse naquela crise a posse de si mesma. De noite fui ao teatro de São Pedro; representava-se uma grande peça, em que a Estela arrancava lágrimas. Entro; corro os olhos pelos camarotes; vejo em um deles o Damasceno e a família.
Trajava a filha com outra elegância e certo apuro, coisa difícil de explicar, porque o pai ganhava apenas o necessário para endividar-se; e daí, talvez fosse por isso mesmo.
No intervalo fui visitá-los. O Damasceno recebeu-me com muitas palavras, a mulher com muitos sorrisos. Quanto a Nhã-loló, não tirou mais os olhos de mim; e realmente parecia-me agora mais bonita que no dia do jantar. Achei-lhe certa suavidade etérea casada ao polido das formas terrenas:  expressão vaga, e condigna de um capítulo em que tudo há de ser vago. Realmente, não sei como lhes diga que não me senti mal, ao pé da moça, trajando garridamente um vestido fino, um vestido que me dava cócegas de Tartufo. Ao contemplá-lo, cobrindo casta e redondamente o joelho, foi que eu fiz uma descoberta sutil, a saber, que a natureza previu a vestidura humana, condição necessária ao desenvolvimento da nossa espécie. A nudez habitual, dada a multiplicação das obras e dos cuidados do indivíduo, tenderia a embotar os sentidos e a retardar os sexos, ao passo que o vestuário, negaceando a natureza, aguça e atrai as vontades, ativa-as, reprodu-las, e conseguintemente faz andar a civilização. Abençoado uso que nos deu Otelo e os paquetes transatlânticos!
Estou com vontade de suprimir este capítulo. O declive é perigoso. Mas enfim eu escrevo as minhas memórias e não as tuas, leitor pacato. Ao pé da graciosa donzela, parecia-me tomado de uma sensação dupla e indefinível. Ela exprimia inteiramente a dualidade de Pascal, l'ange er la bête, com a diferença que o jansenista não admitia a simultaneidade das duas naturezas, ao passo que elas aí estavam bem juntinhas,
L'ange, que dizia algumas coisas do céu, – e la bête, que...
Não; decididamente suprimo este capítulo.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

A Contadora de Filmes – 6

Lembro que quando minha mãe estava com a gente – antes que acontecesse a desgraça – éramos uma família completa, e lembro que meu pai trabalhava (e não bebia tanto), e que ela o recebia com um beijo quando ele chegava do trabalho, e que nos fins de semana íamos todos juntos, os sete, ao cinema.
Como eu gostava do ritual de se preparar para ir ao cinema!
Meu pai chegava dizendo “Hoje vão passar um com o Audie Murphy!” (naquele tempo, eram os astros e estrelas quem dava categoria aos filmes).
Então a gente punha as nossas melhores roupas. A gente punha até sapato. Minha mãe penteava cada um dos meus irmãos; penteava com limão, e fazia um risco que parecia feito com régua. Menos o Marcelino, o quarto dos meus irmãos, que tinha um cabelo duro feito crina e por mais que o penteassem do jeito que fosse, acabava sempre com a cabeça parecendo um livro aberto. Em mim ela fazia um rabo de cavalo, que prendia com elásticos negros, tão apertado que eu achava que os olhos iam saltar da minha cara.
A gente ia sempre à sessão vespertina.
Eu adorava, porque para mim o entardecer era a hora mais bonita do pampa. Os últimos raios de sol pintavam de ouro o óxido das chapas de zinco e as cores do crepúsculo faziam jogo com os lenços de seda que minha mãe usava.
Ela adorava lenços de seda.
Tal como era costume no deserto, nós íamos pelo meio da rua de terra, de frente para os arrebóis, aquela hora em que a cor do sol se misturava a todas as outras. Meu pai caminhava levando minha mãe pelo braço, e todos os homens que passavam o cumprimentavam.
“Boa tarde, mestre Castillo!”
“Boas, senhor fulano!”
Eu reparava que o cumprimentado era ele, mas a olhada era minha mãe. É que ela era muito linda e jovem, e ao andar movia as cadeiras como as atrizes dos filmes.
Ao chegar à esquina do cinema nós ouvíamos a música emergindo dos velhos alto-falantes e nossos corações se enchiam de júbilo. Fora da sala havia carrinhos com docinhos e essas coisas. Minha mãe comprava pastilhas Namoro para ela e para papai, e um saco de pipocas açucaradas para cada um de nós.
Éramos quase sempre dos primeiros a entrar no cinema.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

Peixe-boi



Informado de que a próxima Feira da Providência terá, entre mil atrações, um vasto peixe-boi, deliberei entrevistar esse triquequídeo, absolutamente inédito na Guanabara e adjacências.
Não foi difícil localizá-lo. Apesar de sua fama de esquivança e cautela, o peixe-boi faz um barulho dos diabos ao alimentar-se fora d’água. Ouvindo inusitado rumor à margem da piscina, onde cresce erva abundante, para lá me dirigi, e logo identifiquei o nosso hóspede, que pastava seus quarenta e cinco quilos de vegetação.
— Senhor peixe-boi, poderia atender à curiosidade dos leitores de minha coluna, respondendo a algumas perguntas?
— Não gosto de conversar na hora das refeições — resmoneou — mas seja tudo pelo amor da Feira da Providência, a que compareço como convidado especial. Fale, e responderei. Mas, antes de mais nada, eu é que vou lhe perguntar uma coisa. Já voltou a carne aos açougues?
— Veio a congelada.
— Ainda bem. Eu receava uma traição.
— Como assim?
— Sabe, esse nome, peixe-boi, pode dar margem a equívocos. Se falta o boi propriamente dito, peixe-boi deve botar as barbas de molho. Não me esqueço da mixira.
— Que que é isso?
— Mixira, meu caro desinformado, é chouriço de minha carne. Dizem que ela é insípida, e acho bom que o seja, para não atrair o apetite de vocês, mas por que faziam mixira de mim? Leia o dr. José Veríssimo, que conta o processo. Carne de peixe-boi, moqueada e cozinhada na gordura do próprio peixe-boi! Se já não se pratica mais isto, é porque a raça está acabando. Sou um dos poucos sobreviventes, e me cuido.
— De fato, parece que o senhor é mais uma originalidade que um exemplar.
— E olhe que até no Espírito Santo, nos tempos do padre Anchieta, nós circulávamos felizes, sem problemas. Depois, começou a matança. Mania de fazer óleo e azeite de cozinha com o meu toucinho. De fazer chicotes com o meu couro. Até mangueira d’água para os trens maria-fumaça tiravam de meu lombo! Não estou mentindo, ouça o que diz d. Flávia da Silveira Lobo, na sua enciclopédia animal. Tanto caçaram minha espécie que ela virou raridade, digna de ser mostrada em feira, com entrada paga.
— Louvo sua generosidade, comparecendo.
— Prezado colunista, ainda há generosidade nos peixes. Nos últimos da minha família, pelo menos. De resto, não sou propriamente peixe. Sou mamífero, como você, tenho alguma coisa de humano, como os próprios homens têm. Confesso que não vim ao Rio só por altruísmo. Vim também para saber das coisas, entende? Mamífero da Amazônia observa o comportamento dos mamíferos da Guanabara, que comem, bebem e dançam para ajudar os pobres. Peixe-boi se divertindo a olhar os que se divertem olhando o peixe-boi. Não sabem que estou achando graça neles. Meu focinho de bezerro inspira-lhes gracinhas. Também me rio dos que têm cara de macaco ou de foca. Nenhum deles tem de altura o que tenho de comprimento, nenhum pesa tanto quanto eu. Portanto, sou superior a vocês por mais de um título, e nem por isso me considero rei da natureza. Pasto minha relvinha — licença, vou papar mais um feixe, com a minha rica série de molares — e não chateio os outros, como vocês gostam de fazer.
Ouviu-se um estrondo: era o peixe-boi mastigando. Cessada a manducação, não resisti:
— Mas o senhor faz tantas restrições ao gênero humano. Por que, afinal, atendeu ao convite?
— Amigo, até peixe-boi gosta de publicidade.
E mergulhou. Só então me espantei de que ele falasse, e falasse tanto. Expliquem os sábios na escritura que segredos são estes de Natura.

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

11/09/2026

Cordas de Aço | Gal Costa

Uma flor num buraco de calçada

Quando soltaram os cachorros loucos
eu estava fazendo chá
de ervas do campo
e de repente o espanto
tremendo a chaleira
e bombeando medo

larguei as ervas e danado
precipitei-me à janela
de onde vi
enormes matilhas
com olhos cheios de negra espuma

a espuma invadia a rua
e abraçava postes, que caíam
cheios de óleo e náusea
engolia as pessoas
que alucinadas
enchiam o ar de berros

depois os cachorros foram embora
eu voltei ao meu chá
e lá fora a solidão
e uma flor quase despercebida.

Henrique do Valle, em Do lado de fora

Hagar, o Horrível

Diário de Bernardo Soares


129.

O moço atava os embrulhos de todos os dias no frio crepuscular do escritório vasto. "Que grande trovão", disse para ninguém, com um tom alto de "bons dias", o crudelíssimo bandido. O meu coração começou a bater de novo. O apocalipse tinha passado. Fez-se uma pausa.
E com que alívio — luz forte e clara, espaço, trovão duro — este troar próximo já afastado nos aliviava do que houvera. Deus cessara. Senti-me respirar com os pulmões inteiros. Reparei que estava pouco ar no escritório. Notei que havia ali outra gente, sem ser o moço. Todos tinham estado calados. Soou uma coisa trémula e crespa: era a grande folha espessa do Razão que o Moreira virara para diante, bruscamente, para verificar.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Bicho-de-pé


Todo menino tinha bicho-de-pé. Eu tive muitos. Ter um bicho-de-pé era uma felicidade...
Como é provável que a maioria dos meus leitores nem tenha tido a felicidade de ter um bicho-de-pé no dedo do pé e nem mesmo tenha ouvido falar desse minúsculo animal, trato de dar as informações devidas. Trata-se de uma espécie de pulga, nome científico Tunga penetrans, que tem especial predileção pelos dedos dos pés. Esse gosto é específico das fêmeas, que, penetrando sob a pele dos humanos, ali se põem a botar uma enorme quantidade de ovos minúsculos que formam uma bolha transparente, como se fosse de plástico, do tamanho de uma pimenta-do-reino. Essa bolha recebe vulgarmente o nome de “batata”.
A descoberta de uma ou mais batatas nos dedos era sempre um motivo de felicidade, por uma razão que explicarei depois. A extração de uma batata requeria uma habilidade protocirúrgica, ou seja, a manipulação de uma agulha de costura. Procedia-se de forma ordenada: com a ponta da agulha ia-se cortando a pele circularmente à volta da batata até que, completada a operação, espetava-se a mesma no seu centro, marcado pelo ponto negro da Tunga penetrans, para então cuidadosamente proceder-se à conclusão da cirurgia, qual seja, puxar a batata para fora. Sendo bem-sucedida a operação, a batata saía redonda e inteira, sendo exibida triunfalmente como um troféu pela cirurgiã. No seu lugar fica uma pequena cratera, cratera esta que tem uma capacidade enorme de produzir prazer, sob a forma de coceira.
Coceira é uma coisa estranha: dor que dá prazer. Todo mundo já teve frieira — prazer parecido com o da batata. A gente coça até sair sangue. É provável que o mistério do masoquismo encontre sua explicação mais profunda no prazer doloroso da coceira. Meu irmão Murilo, por medo da agulha, não deixava que suas batatas fossem extraídas. Mas tratava de obter o prazer a que tinha direito por meio de um interminável esfrega-esfrega das batatas com uma bucha.
O amor à verdade obriga-me a uma informação desagradável: o bicho-de-pé, para existir, precisa de sujeira. É nos chiqueiros que ele engorda. Há prazeres que necessitam de um ambiente suíno para existir.
O bicho-de-pé, juntamente com as pulgas, eram partes normais da vida, conviviam com os humanos. De noite as pulgas começavam a fazer cócegas, andando sobre a pele, à procura de um lugar propício à sua mordida hematófaga. Mas depois vieram os inseticidas, o BHC, o Neocid, e elas se foram. Hoje só sobrevivem em locais distantes. São animais em perigo de extinção, mas ninguém sai em sua defesa. Os bichos-de-pé mereceriam sobreviver pelo seu uso metafórico na educação sexual. A jovem, com medo da noite de núpcias, perguntou à mãe se doía muito. Ao que a mãe respondeu: “É feito bicho-de-pé. Dói um pouquinho mas depois a gente não quer parar de esfregar...”.

Rubem Alves, em O Velho que Acordou Menino

Aí pelas três da tarde

Para José Carlos Abbate

Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em ideias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares à sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo “ciao” ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pelo, mas sem ferir o pudor (o seu pudor, bem entendido), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome depois com sua nudez no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado), e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.

Raduan Nassar, em Obra completa

Coração sem medo


3

“Dona Rita!”
Rita Preta se vira para identificar quem a chamara enquanto retirava o cadeado do portão. Ela reconhece a moça, que exibe a indiferença dos adolescentes. Pela primeira vez olha de frente para Daiane. Talvez já a tenha visto circulando pelo bairro com outras garotas, com Cid. Tinha traços quase infantis, como se tivesse acabado de chegar à adolescência.
“Minha mãe me contou que a senhora esteve lá em casa procurando por mim.”
Rita Preta segura o cadeado, deixa o portão entreaberto. Confirma que tinha ido atrás de informações. Cid não havia passado a noite em casa, por isso ela a procurou, mas a mãe lhe informou que ela estava dormindo.
“Eu não estava dormindo”, revelou sem nenhum constrangimento por desmentir a mãe, “estava acordada, mas minha mãe brigou comigo e me proibiu de falar com qualquer pessoa.” Daiane conta que esteve na casa de Rita querendo notícias de Cid, mas a encontrou fechada.
“Ele esteve com você?”
“Não. Sim.” Daiane responde, tentando encontrar a melhor maneira de expressar o que tinha a dizer. Ele havia combinado de passar em sua casa.
Antes que consiga concluir a frase, Rita pergunta outra vez se ele tinha ido ao encontro da moça.
“Foi”, a garota responde, acrescentando que a mãe dissera que ela não estava. Cid foi embora e a garota continuou sem conseguir falar com ele. Ligou para o celular e as chamadas caíram todas na caixa postal. Continuou sem informar se eles flertavam ou namoravam. Manteve-se evasiva quanto ao relacionamento que tinham. “Minha mãe não quer que eu namore de jeito nenhum.”
No entanto, ela estava na casa de Rita movida pela mesma intenção que levou aquela mãe à sua: queria encontrar Cid.
O coração de Rita Preta se acelera. Uma corrente elétrica percorre seu corpo, da planta dos pés ao couro cabeludo. Ela termina de abrir o portão, convida a garota para entrar. Daiane recusa. A mãe não quer que ela entre na casa de estranhos. Rita, impaciente, percorre os poucos cômodos, abre a porta estreita do quintal, chama pelos filhos, um a um pelo nome. Somente Juca aparece.
“Seu irmão?”, pergunta, se referindo a Cid.
O menino faz sinal de que não, não tem notícias do irmão. Depois ele retorna à televisão para assistir a uma animação japonesa. Rita volta para o portão e responde. Agora são duas à procura de um rapaz, ambas contendo a frustração derivada da longa espera. Rita aproveita para perguntar se Daiane faz ideia de onde ele possa estar.
“Não”, responde, “mas se a senhora souber de algo, pede para ele falar comigo.”
Rita percebe uma verdadeira preocupação no semblante da jovem. Elas não se despedem. Enquanto Rita fecha o portão e fica pensando por onde deveria começar, Cainho atravessa a passagem, vindo para a casa. Pergunta se a mãe tem alguma notícia. Mais um dia, ele nunca ficou fora de casa por tanto tempo. Rita Preta pede a Cainho que tente ligar outra vez para o irmão.
Depois, sai em direção à casa de Fátima.
Fátima retirava as roupas penduradas num varal improvisado no pátio externo. Havia acabado de chegar, nem tinha tido tempo de abrir a casa.
“O menino sumiu”, Rita Preta dispara num tom de inquietação.
Ela deixa a vizinha a par de tudo o que fizera nas últimas horas: fala da briga que tiveram, das horas sem dormir, da descoberta da namorada, da falta de informação, do telefone que está desligado, das chamadas encaminhadas para a caixa postal, da cama intacta. Do silêncio crescente que promete enlouquecê-la.
“Não deve ter ido muito longe”, Fátima pondera. “Quando a fome apertar, ele volta correndo.”
“Eu preciso avisar à polícia sobre o desaparecimento.”
“É necessário?”, Fátima pergunta.
Ele nunca tinha ficado tanto tempo longe de casa.
Rita se aproximou de Fátima quando os filhos ainda eram pequenos, e um pouco antes de se mudarem para o endereço atual. Residiam na mesma comunidade, em ruas próximas, onde havia esgoto a céu aberto e as casas alagavam com frequência na estação das chuvas. Apesar disso, como o local era mais próximo do ponto de ônibus, o aluguel continuava a aumentar, tornando-se incompatível com o salário que recebiam. Fátima encontrou uma casa onde passou a morar, fez a mudança primeiro. Em seguida, indicou para Rita um imóvel perto do lugar em que vivia, com um valor mais acessível. As duas tinham muito em comum: eram trabalhadoras e mães solteiras: Rita, mãe de três filhos; Fátima, de dois, um homem e uma mulher. As duas trabalharam como empregadas domésticas; Rita deixou a função, mas Fátima continua trabalhando para a mesma família. Com o passar dos anos, a amizade se firmou, e Fátima se tornou a pessoa mais próxima de Rita, com quem ela compartilha os altos e baixos vividos em seus relacionamentos. Foi a amiga que a ajudou a elaborar o plano para tirar o pai de Juca de casa. Da mesma maneira, Fátima dividiu com Rita as frustrações e humilhações passadas na casa onde trabalha. Compartilhavam também os problemas relacionados aos filhos, aos preços praticados pelas mercearias do bairro, às chuvas que transtornavam a vida de todos, aos vizinhos, às companhias de abastecimento de água e energia, ao tráfico e à polícia, que aparecia de tempos em tempos para espalhar o terror.
Fátima aconselha Rita Preta a esperar um pouco mais. Cid haveria de aparecer. Era jovem, estava magoado, quantos fugiam de casa depois de uma briga para assustar a família?, pergunta. Rita conta que pensa em telefonar para o pai dele. Reluta, é verdade, mas a gravidade do ocorrido a faria deixar de lado o próprio orgulho. Quem sabe ele não tinha ido procurá-lo para não ficar na rua? Ela sabia que o ex-marido não se interessava pelo filho. Nunca oferecera qualquer ajuda para atender a suas necessidades. Mas era possível que Cid tivesse procurado pelo pai e talvez estivesse com ele? Rita sabe que Evilásio se casou outra vez, que tem uma família.
Evilásio estranha a chamada telefônica da ex-mulher e, ciente da falta de cordialidade entre eles, ela vai direto ao assunto. Antes que terminasse de contar sobre o desaparecimento do filho, ele a interrompe para perguntar se o garoto estava implicado em algo errado, se estava usando drogas.
Rita considera a pergunta ofensiva. Não responde. Repete que o telefonema era para saber se Cid estava na casa do pai. O filho sabia onde ele morava — se é que ainda residia no mesmo lugar.
Evilásio então passa a acusar Rita de ser irresponsável e permissiva, por ter deixado o garoto se envolver com “coisas erradas”. Acusou-a de telefonar só para dizer que algo tinha dado errado; ele a interrompe antes que ela própria finalize o que gostaria de responder.
Rita está tomada pela raiva, mas decide ouvir o que Evilásio tem a dizer. Em seguida, desabafa: repete que ele, o pai, a abandonou antes que a criança completasse um ano. Que nunca se preocupou com o filho. Que durante quinze anos apareceu apenas três vezes: no primeiro ano após a separação, depois aos sete e finalmente quando o menino completou dez anos. Afirma que, se o filho cruzasse com ele na rua, não o reconheceria, assim como Evilásio também não o reconheceria. Grita, se revolta, cospe todos os xingamentos que estão engasgados.
Os filhos a observam, tentam descobrir com quem ela está falando, mas Rita está tão transtornada que nem percebe quando a ligação é interrompida.
Evilásio tinha desligado.
Rita diz que telefonou para saber se o filho estava lá, justifica para os outros.
Ela passa a mão pela cabeça, retira a faixa que segura o cabelo crespo e o mantém volumoso no topo. Dá alguns passos até a cozinha para depois voltar. Ordena aos dois que se vistam. Precisam acompanhá-la até a delegacia para registrar o desaparecimento do mais velho.
O mais novo desacredita que é hora de procurar ajuda. O do meio parece assustado com a palavra delegacia, com a palavra desaparecimento. Não compreendem muito bem a gravidade da situação. Rita também não explica que aquele era o protocolo. Apenas pega a bolsa de novo e repete que não quer voltar muito tarde para casa. Está determinada a encontrar Cid, mas também sabe que é preciso acordar cedo para trabalhar na manhã seguinte.
O relógio de registro de ponto não costuma perdoar os atrasos.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo

10/09/2026

Desiderato Meu | Elilson José Batista

Tem quem...

tem quem se proteja
por trás
de uma barragem
de bons dias
boas tardes
boas noites
assim não tendo
que ver o que está passando

Paulo Leminski, em Toda Poesia

Preparai-vos, por Laerte

As três experiências

Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O “amar os outros” é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.
E nasci para escrever. A palavra é o meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por que foi esta que eu segui. Talvez porque para as outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E no entanto cada vez que vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estreia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever.
Quanto a meus filhos, o nascimento deles não foi casual. Eu quis ser mãe. Meus dois filhos foram gerados voluntariamente. Os dois meninos estão aqui, ao meu lado. Eu me orgulho deles, eu me renovo neles, eu acompanho seus sofrimentos e angústias, eu lhes dou o que é possível dar. Se eu não fosse mãe, seria sozinha no mundo. Mas tenho uma descendência e para eles no futuro eu preparo meu nome dia a dia. Sei que um dia abrirão as asas para o voo necessário, e eu ficarei sozinha. É fatal, porque a gente não cria os filhos para a gente, nós os criamos para eles mesmos. Quando eu ficar sozinha estarei cumprindo o destino de todas as mulheres.
Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte mas que pode me trair e me abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que é o meu lote neste mundo e que eu devo aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma garantia.
Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse à minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.
Espero em Deus não viver do passado. Ter sempre o tempo presente e, mesmo ilusório, ter algo no futuro.
O tempo corre, o tempo é curto: preciso me apressar, mas ao mesmo tempo viver como se esta minha vida fosse eterna. E depois morrer vai ser o final de alguma coisa fulgurante: morrer será um dos atos mais importantes da minha vida. Eu tenho medo de morrer: não sei que nebulosas e vias lácteas me esperam. Quero morrer dando ênfase à vida e à morte.
Só peço uma coisa: na hora de morrer eu queria ter uma pessoa amada por mim ao meu lado para me segurar a mão. Então não terei medo, e estarei acompanhada quando atravessar a grande passagem. Eu queria que houvesse encarnação: que eu renascesse depois de morta e desse a minha alma viva para uma pessoa nova. Eu queria, no entanto, um aviso. Se é verdade que existe uma reencarnação, a vida que levo agora não é propriamente minha: uma alma me foi dada ao corpo. Eu quero renascer sempre. E na próxima encarnação vou ler meus livros como uma leitora comum e interessada, e não saberei que nesta encarnação fui eu que os escrevi.
Está-me faltando um aviso, um sinal. Virá como intuição? Virá ao abrir um livro? Virá esse sinal quando eu estiver ouvindo música?
Uma das coisas mais solitárias que eu conheço é não ter a premonição.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Antiperipléia



— E o senhor quer me levar, distante, às cidades? Delongo. Tudo, para mim, é viagem de volta. Em qualquer ofício, não; o que eu até hoje tive, de que meio entendo e gosto, é ser guia de cego: esforço destino que me praz.
E vão me deixar ir? Em dês que o meu cego seô Tomé se passou, me vexam, por mim puxam, desconfiam discorrendo. Terra de injustiças.
Aqui paramos, os meses, por causa da mulher, por conta do falecido. Então, prendam a mulher, apertem com ela, o marido ru­fião, aí esses expliquem decerto o que nem se deu. A mulher, terrível. Delegado segure a alma do meu seô Tomé cego, se for ca­paz! Ele amasiava oculto com a mulher, Sa Justa, disso alguém te­ve ar? Eu provia e governava.
Mas não cismo como foi que ele no barranco se derrubou, que rendeu a alma. Decido? Divulgo: que as coisas começam de­veras é por detrás, do que há, recurso; quando no remate acon­tecem, estão já desaparecidas. Suspiros. Declaro, agora, de­fino. O senhor não me perguntou nada. Só dou resposta é ao que ninguém me perguntou.
Mulheres dôidas por ele, feito Jesus, por ter barba. Mas ele me perguntava, antes. — “É bonita?” Eu informava que sendo. Pa­ra mim, cada mulher vive formosa: as roxas, pardas e
brancas, nas es­tradas. Dele gostavam — de um cego completo — por delas nem não poder devassar as formas nem feições? Seô Tomé se soberbava, lavava com sabão o corpo, pedia roupas de esmola. Eu, bebia.
Deandávamos, lugar a lugar, sem prevenir que já se estava no vir para aqui. Tenho culpas retapadas. A gente na rua, puxando cego, concerne que nem se avançar navegando — ao contrário de todos.
Patrão meu, não. Eu regia — ele acompanhava: pegando cada um em ponta do bordão, ocado com recheios de chumbo. Bebo, para impor em mim amores dos outros? Ralhavam, que, passado já de idade de guiar cego, à mão cuspida, mesmo eu assim, calungado, corcundado, cabeçudão. Povo sabe as ignorâncias. Então, eu, para também não ver, hei-de recordar o alheio? Bebo. Tomo, até me apagar, vejo outras coisas. Ele carecia de esperar, quando eu me perfazia bêbedo deitado. Me dava conse­lhos. Cego suplica de ver mais do que quem vê.
Tinha inveja de mim: não via que eu era defeituoso feioso. Tinha ódio, porque só eu podia ver essas inteiras mulheres, que dele gostavam! Puxar cego é feito tirar um condenado, o de ne­nhum poder, mas que adivinha mais do que a gente? Amigos. O roto só pode mesmo rir é do esfarrapado. Me dava vontade de leve nele montar, sem freio, sem espora...
A gente cá chegou, pois é. A mulher viu o cego, com modos de não-digas, com toda a força guardada. Essa era a diversa, muito fulana: feia, feia apesar dos poderes de Deus. Mas queria, fatal. Ajoelhou para me pedir, para eu ao meu Seô Cego mentir. Procedi. — “Esta é bonita, a mais!” — a ele afirmei, meus créditos. O cego amaciou a barba. Ele passeou mão nos braços dela, arro­jo de usos. Soprou, quente como o olho da brasa. Tive nenhum re­morso. Mas os dois respiravam, choraram, méis, airosos.
Se encontravam, cada noite, eu arrumando para eles antes o redor, o amodo e o acômodo, e estava de longe, tomando conta. O marido desgostava dela, druxo homem, de estrambolias, nem vinha em casa. Alguém maldou? Cego esconde mais que qualquer um, qualquer logro. E quem vigia como eu? Ela me dava cachaças, comida. Ele me fiava a féria. Me tratavam. O que podia durar, assim, às estimas fartas?
A vida não fica quieta. Até ele se despenhar no escuro, do barranco, mortal. Vinha de em-delícias. A mulher aqui persiste — para miar aos cães e latir aos gatos. Que é que eu tenho com o caso... Todos fazem questão de me chamar de ladrão. Cego não é quem morre?
Todos tendo precisão de mim, nos intervalos. A mulher, ma­luca, instando que eu a ele reproduzisse suas porvindas belezas. Seô Tomé dessas sozinhas nossas não contrárias conversas tirando ciúme, com porfias e más zangas. Mas eu reportava falseado leal: que os olhos dela permitiam brilhos, um quilate dos den­tes, aquelas chispas, a suma cor das faces. Seô Tomé, às barbas de truz, sorvia também o deleite de me descrever o que o amor, ele não desapaixonava. Só sendo cego quem não deve ver? Mas o marido, imoral, esse comigo bebia, queria mediante meus conluios pegar o dinheiro da sacola... Eu, bêbedo e franzino, ananho, tenho de emendar a doideira e cegueira de todos?
Deixassem — e eu deduzia e concertava. Mas ninguém espera a esperança. Vão ao estopim no fim, às tantas e loucas. Por mais, urjo; me entenda. Aqui, que ele se desastrou, os outros agravam de especular e me afrontar, que me deparo, de fecho para princípio, sem rio nem ponte.
Dia que deu má noite. Ele se errou, beira o precipício, caindo e breu que falecendo. Não pode ter sido só azares, cafifa? De ir solitário bravear, ciumado, boi em bufo, resvalou... e, daí, quebrado ensanguentado, terrível, da terra.
Ou o marido, ardido por matar e roubar — empuxou o ou­tro abaixo no buracão — seu propósito? Cego corre perigo maior é em noites de luares...
E seô Tomé, no derradeiro, variava: falando que começava a tornar a enxergar! Delírios, de paixão, cobiçação, por querer, demais, avistar a mulher — os traços — aquela formosura que, nós três, no desafeio, a gente tinha tanto inventado. Entrevendo que ela era real de má-figura, ele não pode, desiludido em dor, ter mesmo suicidado, em despenho? O pior cego é o que quer ver... Deu a ossada.
Ou, ela, visse que ele ia ver, havia de mais primeiro querer destruir o assombroso, empurrar o qual, de pirambeira — o visionável! Caráter de mulher é caroços e cascas. Ela, no ultimamente, já se estremecia, de pavôres de amor, às vezes em que ele, apalpador, com fortes ânsias, manuseava a cara dela, oitivo, dedudo. Ar que acontece...
Se na hora eu estava embriagado, bêbedo, quando ele se des­pencou, que é que sei? Não me entendam! Deus vê. Deus atonta e mata. A gente espera é o resto da vida.
A mulher diz que me acusa do crime, sem avermelhação, se com ela eu não for ousado... O marido, terrível, supliquento, diz que eu é que fui o barregão... Terríveis, os outros, me amea­çam, às injúrias... O senhor não diz nada. Tenho e não tenho cão, sabe? Me prendam! Me larguem! A mulher esteja quase grávida. Me chamo Prudencinhano. Agora o cego não enxerga mais... A culpa cai sempre é no guiador?
Só se inda hei outras coisas, por ter, continuadas de reco­me­çar; então Deus não é mundial? Temo que eu é que seja terrível.
E o senhor ainda quer me levar, às suas cidades, amistoso?
Decido. Pergunto por onde ando. Aceito, bem-procedidamente, no devagar de ir longe. Voltar, para fim de ida. Repenso, não penso. Dou de xingar o meu falecido, quando as sau­da­des me dão. Cidade grande, o povo lá é infinito.
Vou, para guia de cegos, servo de dono cego, vagavaz, habi­tual no diferente, com o senhor, Seô Desconhecido.

Guimarães Rosa, em Tutameia

O nível



Wilton quase engoliu a pedra de gelo do uisquinho:
– Elas querem o quê?!
– Calma, Wilton. Olha a pressão...
– Repete, Marilza. Eu não devo ter ouvido bem.
– Ai, meu Deus! Não fica assim, Tico!
– Não me chame por esse apelidinho idiota. Repete o que tu falou. Repete que é pra ver se eu não tô maluco.
– Chega de drama, Wilton! Elas são meninas normais As coleguinhas na escola falam no assunto, juram que já viram e é perfeitamente natural que elas queiram ver também, pombas!
– Eu não acho nada natural que elas, aos treze e aos quinze anos, queiram ver pombas e pembas!
– Olha o nível, Wilton, olha o nível!
– Nível? Você vem me dizer que minhas filhas querem ver um filme pornô no meu vídeo e ainda tem a coragem de falar em nível?
– Tudo bem, Wilton. Se você prefere que elas aceitem o convite de um desses jogadores de futebol do conjunto, tudo bem.
– Convite?! Eu mato um cachorro desses! Eu...
– Por favor, Wilton! Me escuta, cara! Me ouve, ao menos uma vez na vida ! Nós temos uma porrada de fitas dessas, né? É só selecionar uma menos... menos... traumatizante. Nada de chicote, vibrador, anão bem-dotado...
– Péra lá, Marilza! Que história é essa de anão bem-dotado? Eu não tenho fita com anão. Onde é que tu viu isso?
– Era só um exemplo, meu nego. A gente escolhe uma fita mais soft, faz o desejo delas, o troço perde o mistério e pronto! Elas cantam marra com as coleguinhas, também já vimos etc., e fica tudo na maior limpeza. Qualé, Wilton? Eles veem pornô até na Escola Superior de Guerra, né? É moda, querido. Feito a vizinha do 801: dá e passa!
Wilton renovou a dose e os dois partiram pra seleção:
– Hum... tô me sentindo meio Brossard...
– E daí? Eu também tô dando uma de Dona Solange, não tô? Fica frio.
A primeira fita selecionada por Wilton era uma tal de Suzy’s Centerfolds. Marilza vetou:
– Masturbação não!
– Ué, mas isso é o que elas mais fazem!
– Mas não há necessidade de aprenderem novas técnicas com essas louças. Uma coisa é a masturbação como um estágio do desenvolvimento sexual normal das minhas meninas, certo? Agora, piranha tocando siririca profissional é outro departamento.
– É a minha vez de dizer: olha o nível!
– Desculpe.
– Tem essa outra aqui: Superwoman. É uma sátira. Pode ser que o clima de gozação atenue a brabeira.
– Acontece aquela coisa horrorosa de espirrar na cara da mulher?
 Espirrar?
 Não banca o gaiato, Wilton! Você sabe de que qui eu tô falando...
 Ora, Marilza, esses lances são quase obrigatórios nesses filmecos. São o creme, rá, rá, rá!... Não precisa me olhar com essa cara...
Acabaram resolvendo botar só um trecho de um filme não muito explícito, metido a artístico, City Heat ou coisa parecida.
Marilza fez uma exposição preliminar sobre enamoramento, amor, escolhas insensatas, complexo de Cinderela, Mariazinhas, prós e contras da obra de Milan Kundera e encerrou, brilhantemente, estabelecendo um paralelo entre pornografia barata e a lavagem de roupa suja nos debates políticos.
Wilton apertou a tecla play e recolheu-se ao banheiro, acometido de avassaladora diarréia. A fita correu. Lá pelas tantas, Helô comentou com Nandinha:
– Tô achando o pau desse cara meio barro, meio tijolo.
– Podes crer. Desde o 69 que tá assim.
– Também ela mamou mal paca.
– Não sabe prender entre a língua e o céu da boca.
Não temos o resto da conversinha. Wilton tá no Miguel Couto, onde o tubarão virou boto, e a Marilza foi pro Pedro Ernesto, onde tu entra Maluf e sai honesto.

Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo

09/09/2026

Quem agradar?

Qual tipo de pessoa os homens desejam agradar? Com quais intenções? Por meio de quais atos?
O quão rápido o tempo cobrirá tudo. O quanto já cobriu.

Marco Aurélio, em Meditações