sábado, 9 de maio de 2026
Revolta na Vila
Aquele oiti cresceu junto comigo.
Enchi, muitas vezes, meu pequeno regador verde na bica do jardim pra
dar de beber ao meu amigo. Fiz, é verdade, um ou outro xixizinho
nele. Mas tudo na maior camaradagem. Sempre repartiu comigo a terra
que o alimentava, pra que eu enchesse o balde e as forminhas de praia
nas tardes em que batia a saudade da ilha de Paquetá. Nunca me deu
esporro nos momentos que gravei meu nome, a canivete, em sua pele.
Sabíamos que era uma coisa dolorosa e difícil de explicar, mas,
quase sempre, são assim as grandes amizades. Salvou muitos gols dos
inimigos nos jogos-contra, trave heroica. Jamais enredou em seus
ramos honestos a linha da minha pipa. Nunca mais vou esquecer sua
alegria no supercampeonato de 58, Vasco doente, balançava os galhos
com a conquista do título, e eu repetia,todo emocionado:
— Casaca, oiti. Mais uma estrela na
nossa bandeira.
Tinha o dia em que as árvores da Rua
dos Artistas cortavam seus cabelos verdes. Vinham os cadetes da L.U.
e deixavam as calçadas cobertas de galhos, que nem ficava, assim de
cabelo, o chão da barbearia do Seu Teófilo. Meu amigo oiti usava um
corte parecido com o meu, “Príncipe Danilo”, e eu mandava selo,
carimbo, estampilha nele. Coração que não cabia no tronco, se
preocupava muito com os ninhos que sustentava e, nos dias de vento,
eu ficava tranquilizando da janela:
— Calma que tá tudo bem.
Esse negoço de elogiar muito um amigo
costuma acontecer quando o cara empacota e é sempre a maior
xaropada. Meus prezados leitores vão me desculpar, mas é que no
caso do oiti não foi morte natural. Ele foi assassinado covardemente
por uma imobiliária sem escrúpulos, sem mãe, em nome do pogresso.
Pogresso é que nem, nos apartamentos que eles mesmos constroem, o
que acontece nos tais respiradouros do banheiro: Você ouve o
barulho, mas não sente o cheiro. Fica aí a sugestão para slogan do
SérgioDourado.
Pois é, meu amigo dançou. Mas vai
ter forra. Em cada morador da Vila cresce, prodigiosa, a revolta.
Protestaremos sempre contra mais esse crime, nós, os sanhaços, os
bem-te-vis, os coleiros, as tímidas juritis a quem ele abrigou; nós,
os vira-latas, que urinamos em seu tronco amistoso; nós, os bêbados,
que vomitamos amparados em seu ombro compreensivo; nós, os
varredores das ruas, que limpamos a testa à sua sombra; nós, as
crianças que nos escondemos atrás de seu corpo, trinta e um de
janeiro, lá vou eu; nós, goiabeiras, avencas, samambaias, pequenas
ervas sem nome, protestaremos contra essa covardia, irmãozinho.
E traremos, aliadas, as cigarras, com
seu otimismo, e elas convidarão os decididos grilos de Vila Isabel,
os mais boêmios da cidade.
Virão sabiás e pintassilgos, cágados
e cabritos, gatos vadios e papagaios que falam palavrão. A denúncia
desse crime estará nas pipas pastorinhas dos carneiros do céu;
estará nos balões — do mais humilde balão japonês passando
pelos grandes balões-tangerina cheios de lanterninhas até o balão
visto pelo Zeca em Cachambi retratando, com cento e trinta e um
figurantes, a Queda da Bastilha. A denúncia desse crime estará nas
estrelas e na lua — na lua, que vezes incontáveis mascarou-se,
linda, com teus galhos. Criaremos códigos e senhas. O apito do
guarda-noturno contará que te mataram. Contará que te mataram o
assovio das facas do amolador. O grito do garrafeiro falará dessa
covardia, assim como os livros de histórias, os gibis e as
figurinhas. Leremos mensagens no desenho das nuvens, conspiraremos
com os botões e as pétalas da primavera, ouviremos os conselhos das
sábias folhas de outono. Seguirão notícias em gaivotas nas salas
de aula e em barcos de jornal nas enchentes provocadas pelas chuvas
de verão. O Penteado, tremendo gozador, inventará lorotas sobre o
passado dos donos de imobiliárias atrás da bananeira. E o Esmeraldo
passará, uma por uma, as mulheres deles na cara.
Porque sabemos que deve haver um
pedaço teu, meu amigo, vivo. Embaixo da terra, em algum lugar, há
um pedaço teu. E vivo.
E nós, que com nossos olhos secos e
amargurados, com nossos galhos cobertos de fuligem, com nossas
plumagens descoloridas, nós que, testemunhando mais esse crime, não
deixamos que morresses de todo, nós vamo partir pra briga.
Volta logo. Combateremos à tua
sombra, e que não falte cachaça e cervejinha pros nossos rapazes.
Volta logo, que nós vamos botar de
novo as cadeiras na calçada e distribuir maços de Lincoln e chupar
rebuçado e vestir pijamas de listras e usar chapéu panamá.
E cada vez que ouvirmos burrices do
tipo “é preciso assumir” ou “o senso deve prevalecer”,
responderemos, orgulhosos do que somos: dá o pé, louro! E mais: uma
aqui pro nossa-amizade!
E, como golpe de misericórdia, a
terrível sentença: conheceu, papudo?
Volta logo, e traz com você muitos
bondes, bondes cheios de passarinhos e cachorros, mariolas, petecas e
sonhadores. Faremos subir novas pipas com a forma dos nossos sonhos,
novos balões que derramam lágrimas de ouro barato, e depois virá a
lua, e desfilarão os ranchos e seremos todos palhaços, índios,
piratas, e todos usaremos sutiã de casquinha de sorvete e nos
apaixonaremos pela mesma deslumbrante odalisca, arrumadeira do 257.
As crianças baterão nos postes, como
nas antigas noites de Ano-Novo. Acenderemos fogueiras e brincaremos
de roda, nós, pássaros, nós, árvores, nós, homens, ao som da
flauta inesquecível do Benedito Lacerda, do violão de Noel.
Vovó Noemia fará uma feijoada, coisa
simples, e convidaremos Cosme e Damião pra ouvir as piadas do Waldyr
Iapetec, a Maria da Ave pra ajudar minha vó, Papai Noel pra levar um
esporro e parar de ficar feito prostituta em porta de loja;
convidaremos o coelho da Páscoa (ô cara chato!), o santo
casamenteiro pra tomar umas batidas feitas pelo Lindauro, o Pena
Branca,
todos os avôs do mundo, que é tão
difícil a alegria sem avô, o lago da Quinta da Boa Vista, os
brinquedos do Parque Shangai, os personagens do presépio, o time
supercampeão do glorioso Vasco da Gama, os ciganos do carro-preto, o
Armindo, que também foi assassinado, a turma toda, até o Ceceu
Rico, que não gosta de festa. Que participem da nossa conjura
abilolada, da nossa inconfidência delirante.
Pode ser que os sicários do verde, os
carrascos da esperança, os verdugos da alegria — em nome do
pogresso — tentem nos dispersar a cacetada, imponham o toque de
silêncio a nossas flautas e violões e declarem estado de sítio nos
fios,telhados e copas verdes onde zoneiam nossos passarinhos.
Será inútil, imobiliárias sem
escrúpulos, sem mãe: a Vila avisa que resistirá até o último
pardal, até o último oiti, até o último sonhador embriagado.
Aldir Blanc, em Pasquim, nº 362
Borboletas
Desde menino as borboletas me
encantam. E acho que elas gostam de mim. Certa vez, na casa do
Brandão, lá em Pocinhos do Rio Verde, uma borboleta assentou-se no
meu rosto e lá ficou, imóvel e tranquila. Não me mexi, com medo de
assustá-la. Ela ficou tanto tempo em meu rosto que deu tempo de o
Brandão ir buscar sua câmera e tirar uma foto.
Penso que borboletas, seres alados,
diáfanos e coloridos, devem ser emissários dos deuses, anjos que
anunciam coisas do amor. Imaginei então que aquela borboleta era um
anjo disfarçado que os deuses me enviavam com uma promessa de
felicidade.
O imaginário mítico e poético
sempre gostou de borboletas. Os gregos, por exemplo, imaginavam a
alma como uma borboleta com corpo de menina. E Fernando Pessoa
dedicou-lhes um maravilhoso poema: Eros e Psique.
Cecília Meireles também brincou com
elas. Compôs um poema em que colocou uma pequenina borboleta
equilibrando a pesadíssima grandeza cósmica:
No mistério do Sem-Fim
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de uma borboleta.
Podem imaginar isso, que uma borboleta
com suas levíssimas asas possa equilibrar um planeta? E numa cena do
filme Sonhos, de Kurosawa, há uma revoada de milhares,
milhões de borboletas.
Isso aconteceu faz muitos anos. A
cena da borboleta pousada no meu rosto estava no esquecimento. Aí
sonhei e a cena se tornou viva de novo.
Os sonhos são um mundo mágico. No
mundo dos sonhos, não há nem antes nem depois, nem lá nem aqui.
Tempo e espaço se misturam.
Aí, sonhando, ouvi o cantarolar de
uma valsinha velha de que ninguém mais se lembra. Era só um
cantarolar, sem palavras. Depois de acordar, fui ao Google e lá
estava ela – “Linda borboleta”:
Certa manhã
Destas manhãs cheias de luz
Por entre as rosas do jardim
Eu vi passar
Gentil borboleta
De asas azuis
E o seu voo incerto
Me fez pensar
Que os namorados
Que passeiam por aí
São borboletas que a voar
De flor em flor
Procuram daqui
E procuram dali
Encontrar um novo amor
Voa, minha linda borboleta
Voa procurando a ilusão
Voa pois a vida é tão boa
Quando se tem
Um amor no coração
Sonhei com a borboleta que pousara no
meu rosto. Mas de repente ela bateu asas e voou em meio às árvores
da mata. Corri atrás, mas ela era mais rápida que eu.
A cena se alterou. A borboleta estava
agora num shopping, voando, voando, e entrou numa joalheria. Fiquei
confuso diante de tantas joias nas vitrines, até que vi a borboleta
pousada num fino cordão de ouro. Mas foi só tocá-la para que ela
se transformasse numa borboleta de vidro, as asas feitas com pedras
coloridas.
Fiquei triste com essa transformação,
porque eu preferia a borboleta viva, aquela que se assentara no meu
rosto. De qualquer maneira, resolvi comprá-la. Era uma joia que eu
poderia dar a alguém que se parecesse com a minha borboleta.
Pus a borboleta de pedras coloridas no
bolso e me fui. Mas aí aconteceu o que eu não imaginara: como no
filme de Kurosawa, milhares de borboletas começaram a sair do meu
bolso e encheram de cores o espaço do shopping. E foi em meio a esse
encantamento onírico que uma das borboletas não voou. Ela se
assentou sobre o meu rosto e ali ficou...
Aí eu acordei...
***
Nestes jardins – há vinte anos –
andaram os nossos muitos passos,
e aqueles que então éramos se
contemplaram nestes lagos.
Se algum de nós avistasse o que
seríamos com o tempo, todos nós choraríamos,
de mútua pena e susto imenso.
E assim nos separamos, suspirando dias
futuros, nenhum se atrevia a desvelar
seus próprios mundos.
E agora que separados vivemos o que
foi vivido, com doce amor choramos quem
fomos nesse tempo antigo.
Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado
Capítulo 49 – A Ponta do Nariz
Nariz, consciência sem remorsos, tu
me valeste muito na vida... Já meditaste alguma vez no destino do
nariz, amado leitor? A explicação do Doutor Pangloss é que o nariz
foi criado para uso dos óculos, – e tal explicação confesso que
até certo tempo me pareceu definitiva; mas veio um dia, em que,
estando a ruminar esse e outros pontos obscuros de filosofia, atinei
com a única, verdadeira e definitiva explicação.
Com efeito, bastou-me atentar no
costume do faquir. Sabe o leitor que o faquir gasta longas horas a
olhar para a ponta do nariz, com o fim único de ver a luz celeste.
Quando ele finca os olhos na ponta do nariz, perde o sentimento das
coisas externas, embeleza-se no invisível, apreende o impalpável,
desvincula-se da terra, dissolve-se, eteriza-se. Essa sublimação do
ser pela ponta do nariz é o fenômeno mais excelso do espírito, e a
faculdade de a obter não pertence ao faquir somente: é universal.
Cada homem tem necessidade e poder de contemplar o seu próprio
nariz, para o fim de ver a luz celeste, e tal contemplação, cujo
efeito é a subordinação do universo a um nariz somente, constitui
o equilíbrio das sociedades. Se os narizes se contemplassem
exclusivamente uns aos outros, o gênero humano não chegaria a durar
dois séculos: extinguia-se com as primeiras tribos.
Ouço daqui uma objeção do leitor: –
Como pode ser assim, diz ele, se nunca jamais ninguém não viu
estarem os homens a contemplar o seu próprio nariz?
Leitor obtuso, isso prova que nunca
entraste no cérebro de um chapeleiro. Um chapeleiro passa por uma
loja de chapéus; é a loja de um rival, que a abriu há dois anos;
tinha então duas portas, hoje tem quatro; promete ter seis e oito.
Nas vidraças ostentam-se os chapéus do rival; pelas portas entram
os fregueses do rival; o chapeleiro compara aquela loja com a sua,
que é mais antiga e tem só duas portas, e aqueles chapéus com os
seus, menos buscados, ainda que de igual preço. Mortifica-se
naturalmente; mas vai andando, concentrado, com os olhos para baixo
ou para a frente, a indagar as causas da prosperidade do outro e do
seu próprio atraso, quando ele chapeleiro é muito melhor chapeleiro
do que o outro chapeleiro... Nesse instante é que os olhos se fixam
na ponta do nariz.
A conclusão, portanto, é que há
duas forças capitais: o amor, que multiplica a espécie, e o nariz,
que a subordina ao indivíduo. Procriação, equilíbrio.
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas
Ser bom
Qual é a sua arte? Ser bom. Como essa é bem realizada, senão mediante teoremas gerais — alguns referentes à natureza universal e outros à constituição típica do homem?
Marco Aurélio, em Meditações
sexta-feira, 8 de maio de 2026
Piloto de Guerra
V
A angústia se deve à perda de uma
verdadeira identidade. Se espero uma mensagem da qual depende minha
felicidade ou o meu desespero, sou como que lançado no nada.
Enquanto a incerteza me mantém em suspense, meus sentimentos e
minhas atitudes não passam de um disfarce provisório. O tempo cessa
de fundar, segundo por segundo, como constrói a árvore, o
personagem verdadeiro que me habitará em uma hora. Esse eu
desconhecido vem ao meu encontro, de fora, como um fantasma. Então
tenho uma sensação de angústia. A má notícia provoca não a
angústia, mas o sofrimento: é completamente diferente.
Entretanto, eis que o tempo deixou de
correr no vazio. Estou enfim instalado na minha função. Não me
projeto mais num futuro sem rosto. Não sou mais aquele que esboçará,
talvez, uma espiral no turbilhão do incêndio. O futuro não me
assombra mais, como uma estranha aparição. Meus atos, doravante,
uns após os outros, o compõem. Sou aquele que controla a bússola
para mantê-la a 313 graus. Que regula a rotação das hélices e o
aquecimento do óleo. São as preocupações imediatas e sãs. São
preocupações da casa, os pequenos deveres do dia que suavizam o
gosto do envelhecer. O dia se torna casa bem lustrada, assoalho bem
encerado, oxigênio bem gasto. Eu controlo, com efeito, o consumo de
oxigênio, pois subimos rápido: seis mil e setecentos metros.
— Tudo bem com o oxigênio,
Dutertre? Está se sentindo bem?
— Tudo bem, Capitão.
— Ei, Artilheiro, o oxigênio está
bem?
— Eu… Sim… Tudo bem, Capitão…
— Você ainda não achou seu lápis?
Torno-me também aquele que aperta o
botão S e o botão A para controlar minhas metralhadoras. A
propósito…
— Ei, Artilheiro, não tem uma
cidade grande, atrás, em seu campo de tiro?
— Hã… Não, Capitão.
— Vai. Teste as suas metralhadoras.
Ouço suas rajadas.
— Funcionaram?
— Funcionaram.
— Todas as metralhadoras?
— Hã… Sim… Todas.
Eu também atiro. Pergunto-me aonde
vão essas balas que lançamos sem escrúpulo ao longo dos campos
amigos. Nunca matam ninguém. A terra é grande.
Cada minuto assim me alimenta de seu
conteúdo. Eu sou alguma coisa tão pouco angustiada quanto um fruto
amadurecendo. Decerto, as condições do voo mudarão à minha volta.
As condições e os problemas. Mas estou inserido na fabricação
desse futuro. O tempo me molda aos poucos. A criança não se assusta
por pacientemente transformar-se num velhinho. É criança e brinca
suas brincadeiras de criança. Eu brinco também. Conto os
mostradores, os manetes, os botões, os manches de meu reino. Conto
cento e três objetos a verificar, puxar, virar ou empurrar. (Só
blefei ao contar como dois o comando de minhas metralhadoras: ele tem
um pino de segurança.) Vou divertir o fazendeiro que me hospeda esta
noite. Vou lhe dizer:
— O senhor sabe quantos instrumentos
um piloto hoje em dia precisa controlar?
— Como é que você quer que eu
saiba?
— Não faz mal. Diga um número.
— Que número você quer que eu
diga?
Pois meu fazendeiro não tem nenhum
tato.
— Diga qualquer número!
— Sete!
— Cento e três!
E ficarei contente.
Minha paz está feita também porque
todos os instrumentos de que estava atulhado tomaram seus lugares e
receberam seu significado. Essas tripas de tubos e cabos viraram rede
de circulação. Eu sou um organismo contíguo ao avião. O avião
fabrica meu bem-estar, quando giro determinado botão que aquece,
progressivamente, minhas roupas e meu oxigênio. O oxigênio, aliás,
está quente demais e está me queimando o nariz. Esse oxigênio é
consumido proporcionalmente à altitude, através de um instrumento
complicado. E é o avião que me alimenta. Isso me parecia desumano
antes do voo; e agora, amamentado pelo próprio avião, sinto por ele
uma espécie de ternura filial. Uma espécie de ternura de lactente.
Quanto a meu peso, distribuiu-se em
pontos de apoio. Minha tripla espessura de roupas superpostas, meu
pesado paraquedas dorsal pesam contra o assento. Minhas botas enormes
se apoiam nos pedais. Minhas mãos espessamente enluvadas e duras,
tão desajeitadas no solo, manobram o manche facilmente. Manobram o
manche… Manobram o manche…
— Dutertre?
— … pitão?
— Verifique primeiro seus contatos.
Está picotando. Você está me ouvindo?
— Sim…, Capi…
— Sacode essa porcaria! Está me
ouvindo?
A voz de Dutertre volta a ficar clara:
— Estou ouvindo muito bem, Capitão.
— Bom. Ainda hoje em dia os comandos
gelam: o manche está duro; quanto aos pedais, estão completamente
emperrados!
— “É uma beleza.” Qual
altitude?
— Nove mil e sete.
— E o frio?
— Quarenta e oito graus.
— E o seu oxigênio, tudo bem?
— Tudo bem, Capitão.
— Artilheiro, o oxigênio está
o.k.?
Nada de resposta.
— Ei, Artilheiro!
Nada de resposta.
— Você está ouvindo o artilheiro,
Dutertre?
— Não estou ouvindo nada, Capitão.
— Chame-o!
— Ei, Artilheiro! Artilheiro!
Nada de resposta.
Mas antes de mergulhar, sacudo
brutalmente o avião para acordar o outro, caso estivesse dormindo.
— Capitão?
— É você, Artilheiro?
— Eu… Hã… Sim.
— Você não tem certeza?
— Tenho.
— Por que não respondia?
— Estava fazendo um teste de rádio.
Tinha desligado!
— Você é um canalha! Tem que
avisar! Quase mergulhei: achei que estivesse morto!
— Eu… Não.
— Acredito na sua palavra. Mas não
me apronte mais uma dessas! Avise-me, pelo amor de Deus, antes de
desligar.
— Perdão, Capitão. Entendido,
Capitão. Avisarei.
Pois a pane de oxigênio não é
sensível ao organismo. Ela se traduz por uma euforia vaga que
termina, em alguns segundos, com o desmaio e, em alguns minutos, na
morte. O controle permanente do consumo desse oxigênio é então
indispensável, tanto quanto o controle, pelo piloto, do estado de
seus passageiros.
Aperto um pouquinho, então, o tubo de
alimentação de minha máscara, a fim de sentir no nariz as golfadas
quentes que trazem a vida.
Em suma, executo meu trabalho. Não
experimento nada além do prazer físico de atos nutridos de sentido
que bastam por si mesmos. Eu não tenho nem o sentimento de um grande
perigo (estava, ao contrário, preocupado, quando me vestia), nem o
sentimento de um grande dever. O combate entre o Ocidente e o nazismo
se torna, dessa vez, na escala de meus atos, uma ação por manetes,
alavancas e torneiras. É bem assim. O amor por seu Deus, no
sacristão, faz-se amor pelo acendimento das velas. O sacristão anda
com passo indiferente, numa igreja que não vê, e ele fica
satisfeito em fazer florir, um a um, os candelabros. Quando todos
estão acesos, ele esfrega as mãos. Está orgulhoso de si.
Eu regulei admiravelmente a rotação
das minhas hélices, e mantenho o cabo a quase um grau. Isso deve
maravilhar Dutertre, se, todavia, ele observar um pouco a bússola…
— Dutertre… Eu… A agulha da
bússola… Tudo bem?
— Não, Capitão. Muita deriva.
Incline à direita.
Paciência!
— Capitão, estamos passando as
linhas de contato.
Começo minhas fotos.
— Qual a altitude em seu altímetro?
— Dez mil.
Antoine de Saint-Exupéry, em Piloto de Guerra
Analfabeto
Quem não lê é mais analfabeto do
que quem não sabe ler.
Millôr Fernandes, em A bíblia do caos
Declaração de Males
Ilmo. Sr. Diretor do Imposto de Renda.
Antes de tudo devo declarar que já
estou, parceladamente, à venda.
Não sou rico nem pobre, como o
Brasil, que também precisa de boa parte do meu dinheirinho.
Pago imposto de renda na fonte e no
pelourinho.
Marchei em colégio interno durante
seis anos mas nunca cheguei ao fim de nada, a não ser dos meus
enganos.
Fui caixeiro. Fui redator. Fui
bibliotecário.
Fui roteirista e vilão de cinema. Fui
pegador de operário.
Já estive, sem diagnóstico, bem
doente.
Fui acabando confuso e
autocomplacente.
Deixei o futebol por causa do joelho.
Viver foi virando dever e entrei aos
poucos no vermelho.
No Rio, que eu amava, o saldo devedor
já há algum tempo que supera o saldo do meu amor.
Não posso beber tanto quanto mereço,
pela fadiga do fígado e a contusão do preço.
Sou órfão de mãe excelente.
Outras doces amigas morreram de
repente.
Não sei cantar. Não sei dançar.
A morte há de me dar o que fazer até
chegar.
Uma vez quis viver em Paris até o
fim, mas não sei grego nem latim.
Acho que devia ter estudado anatomia
patológica ou pelo menos anatomia filológica.
Escrevo aos trancos e sem querer e há
contudo orgulhos humilhantes no meu ser.
Será do avesso dos meus traços que
faço o meu retrato?
Sou um insensato a buscar o concreto
no abstrato.
Minha cosmovisão é míope, baça,
impura, mas nada odiei, a não ser a injustiça e a impostura.
Não bebi os vinhos crespos que
desejara, não me deitei sobre os sossegos verdes que acalentara.
Sou um narciso malcontente da minha
imagem e jamais deixei de saber que vou de torna-viagem.
Não acredito nos relógios… the
pule cast of throught… sou o que não sou (all that I am I
am not).
Podia ter sido talvez um bom corredor
de distância: correr até morrer era a euforia da minha infância.
O medo do inferno torceu as raízes
gregas do meu psiquismo e só vi que as mãos prolongam a cabeça
quando me perdera no egotismo.
Não creio contudo em myself.
Nem creio mais que possa revelar-me em
other self.
Não soube buscar (em que céu?) o
peso leve dos anjos e da divina medida.
Sou o próprio síndico de minha massa
falida.
Não amei com suficiência o espaço e
a cor.
Comi muita terra antes de abrir-me à
flor.
Gosto dos peixes da Noruega, do caviar
russo, das uvas de outra terra; meus amores pela minha são legião,
mas vivem em guerra.
Fatigante é o ofício para quem
oscila entre ferir e remir.
A onça montou em mim sem dizer aonde
queria ir.
A burocracia e o barulho do mercado me
exasperam num instante.
Decerto sou crucificado por ter amado
mal meu semelhante.
Algum deus em mim persiste
mas não soube decidir entre a lua que
vemos e a lua que existe.
Lobisomem, sou arrogante às
sextas-feiras, menos quando é lua cheia.
Persistirá talvez também, ao rumor
da tormenta, algum canto da sereia.
Deixei de subir ao que me faz falta,
mas não por virtude: meu ouvido é fino e dói à menor mudança de
altitude.
Não sei muito dos modernos e tenho
receios da caverna de Platão: vivo num mundo de mentiras captadas
pela minha televisão.
Jamais compreendi os estatutos da
mente.
O mundo não é divertido,
afortunadamente.
E mesmo o desengano talvez seja um
engano.
Paulo Mendes Campos, em O amor acaba: crônicas líricas e existenciais
A morte do pai – I
O velório de meu pai foi um
hambúrguer frio. Eu me sentei defronte da casa mortuária, no
Alhambra, e tomei um café. Seria um pulo de carro até o hipódromo
depois que acabasse. Um homem com um rosto esfolado terrível, óculos
muito redondos com lentes grossas, entrou.
– Henry – me disse, e sentou-se e
pediu um café.
– Oi, Bert.
– Seu pai e eu nos tornamos grandes
amigos. A gente falava muito de você.
– Eu não gostava do meu velho –
eu disse.
– Seu pai amava você, Henry.
Esperava que você se casasse com Rita. – Era a filha dele. – Ela
está saindo com o cara mais legal agora, mas ele não excita ela.
Ela parece ter uma queda por impostores. Eu não entendo. Mas deve
gostar dele um pouco – disse, animando-se –, porque esconde o
filho no armário quando ele chega.
– Vamos, Bert, vamos embora.
Atravessamos a rua e entramos na casa
mortuária. Alguém dizia que meu pai tinha sido um bom homem. Me deu
vontade de contar a eles o outro lado. Depois alguém cantou. Nós
desfilamos diante do caixão. Talvez eu cuspa nele, pensei.
Minha mãe morrera. Eu a enterrara um
ano antes, fora às corridas e depois trepara. A fila andou. Aí uma
mulher gritou:
– Não, não, não! Ele não pode
estar morto!
Enfiou a mão no caixão, ergueu a
cabeça dele e beijou-o. Ninguém a deteve. Ela pôs os lábios nos
dele. Peguei meu pai e a mulher pelo pescoço e separei-os. Meu pai
caiu de volta no caixão e a mulher foi levada para fora, tremendo.
– Era a namorada de seu pai –
disse Bert.
– Nada mal – eu disse.
Quando desci os degraus após o
serviço, a mulher estava à espera. Correu para mim.
– Você se parece exatamente
com ele! Você é ele!
– Não – eu disse –, ele está
morto, e eu sou mais jovem e melhor.
Ela me abraçou e beijou. Enfiei a
língua entre os lábios dela. E recuei.
– Pronto, pronto – disse em voz
alta –, se contenha!
Ela tornou a me beijar e desta vez eu
enfiei a língua mais fundo. O pênis começou a ficar duro. Vieram
uns homens e umas mulheres para levá-la.
– Não – ela disse –, eu quero
ir com ele. Preciso conversar com o filho dele!
– Vamos, Maria, por favor, venha
conosco!
– Não, não, preciso falar com o
filho dele!
– Você se incomoda? – perguntou
um homem.
– Tudo bem – eu disse.
Maria entrou em meu carro e fomos para
a casa de meu pai. Abri a porta e entramos.
– Dê uma olhada – eu disse. –
Pode pegar qualquer coisa dele que queira. Eu vou tomar um banho.
Velórios me fazem suar.
Quando voltei, Maria estava sentada na
beira da cama de meu pai.
– Oh, está usando o roupão dele!
– Agora é meu.
– Ele simplesmente adorava esse
roupão. Dei a ele no Natal. Ele tinha tanto orgulho dele! Disse que
ia vestir e andar pelo quarteirão pra todos os vizinhos verem.
– Fez isso?
– Não.
– É um ótimo roupão. Agora é
meu.
Peguei um maço de cigarros da mesinha
de cabeceira.
– Oh, são os cigarros dele!
– Quer um?
– Não.
Acendi um.
– Há quanto tempo conhecia ele?
– Cerca de um ano.
– E não descobriu?
– Descobriu o quê?
– Que ele era um homem ignorante.
Cruel. Patriótico. Com fome de dinheiro. Mentiroso. Covarde. Um
impostor.
– Não.
– Estou surpreso. Você parece uma
mulher inteligente.
– Eu amava seu pai, Henry.
– Quantos anos você tem?
– Quarenta e três.
– Está bem conservada. Tem belas
pernas.
– Obrigada.
– Pernas sexy.
Fui à cozinha, peguei uma garrafa de
vinho do armário, saquei a rolha, peguei duas taças e voltei. Servi
um drinque para ela e entreguei-lhe a taça.
– Seu pai falava muito de você.
– É?
– Dizia que você não tinha
ambição.
– Tinha razão.
– É mesmo?
– Minha única ambição é não ser
nada, parece a coisa mais sensata.
– Você é estranho.
– Não, meu pai é que era. Me deixa
servir outro drinque pra você. É um bom vinho.
– Ele disse que você era um bebum.
– Está vendo, consegui
alguma coisa.
– Você se parece muito com ele.
– Só na superfície. Ele gostava de
ovos moles, eu gosto duros. Ele gostava de companhia, eu gosto de
solidão. Ele gostava de dormir à noite, eu gosto de dormir de dia.
Ele gostava de cachorros, eu puxava as orelhas deles e enfiava
fósforos no rabo deles. Ele gostava do emprego, eu gosto de
vagabundar.
Estendi os braços e agarrei-a. Abri
os lábios, enfiei a boca na dela e comecei a sugar o ar dos pulmões
dela. Cuspi pela garganta dela abaixo e passei o dedo pelo rego da
bunda dela. Separamo-nos.
– Ele me beijava com delicadeza –
disse Maria. – Me amava.
– Merda – eu disse –, minha mãe
só estava há um mês debaixo do chão e ele já estava chupando
seus peitos e dividindo o papel higiênico com você.
– Ele me amava.
– Bolas. O medo de ficar só levou
ele pra sua vagina.
– Ele dizia que você era um jovem
amargo.
– Diabos, sim. Veja o que eu tive
como pai.
Suspendi o vestido dela e comecei a
beijar as pernas. Comecei nos joelhos. Cheguei à parte interna da
coxa e ela se abriu para mim. Mordi-a com força, e ela saltou e
soltou um peido.
– Oh, desculpe.
– Está tudo bem – eu disse.
Servi outro drinque para ela, acendi
um dos cigarros de meu pai morto e fui à cozinha buscar outra
garrafa de vinho. Bebemos por mais uma hora ou duas. A tarde se
tornava noite, mas eu estava cansado. A morte era tão chata. Isso
era o pior sobre a morte. Era chata. Assim que acontecia, não se
podia fazer nada. Não se podia jogar tênis com ela nem
transformá-la numa caixa de bombons. Estava ali, como um pneu
furado. A morte era estúpida. Enfiei-me na cama. Ouvi Maria tirar os
sapatos, a roupa, depois a senti na cama a meu lado. Ela pôs a
cabeça em meu peito e senti meus dedos esfregando atrás das orelhas
dela. Depois meu pênis começou a subir. Ergui a cabeça dela e pus
a boca na dela. Pus delicadamente. Depois peguei a mão dela e a pus
em meu pau.
Eu tinha bebido vinho demais. Montei
nela. Meti e meti. Chegava na beirinha, mas não conseguia. Estava
dando a ela uma longa, suada e interminável foda. A cama rangia e
saltava, rebolava e gemia. Maria gemia. Eu a beijava e beijava. Ela
abria a boca em busca de ar.
– Deus do céu – disse –, você
está me FODENDO MESMO!
Eu só queria acabar, mas o vinho
embotara o mecanismo. Acabei rolando para o lado.
– Deus – ela disse. – Deus.
Começamos a nos beijar e começou
tudo de novo. Tornei a montar. Desta vez, senti o clímax chegando
devagar.
– Oh – eu disse. – Oh, deus!
Finalmente consegui, me levantei, fui
ao banheiro, saí fumando um cigarro e voltei à cama. Ela estava
quase dormindo.
– Meu deus – ela disse –, você
me FODEU mesmo!
Dormimos.
De manhã me levantei, vomitei,
escovei os dentes, gargarejei e abri uma garrafa de cerveja. Maria
acordou e me olhou.
– A gente fodeu? – perguntou.
– Está falando sério?
– Não. Estou querendo saber. A
gente fodeu?
– Não – eu disse. – Não
aconteceu nada.
Maria foi ao banheiro e tomou um
chuveiro. Cantava. Depois se enxugou e saiu. Me olhou.
– Estou me sentindo como uma mulher
que foi fodida.
– Não aconteceu nada, Maria.
Nós nos vestimos e eu a levei a um
café na esquina. Ela comeu linguiça com ovos mexidos, torrada de
pão de trigo, café. Eu tomei um copo de suco de tomate e comi um
bolinho.
– Eu não consigo superar isso. Você
se parece com ele.
– Esta manhã, não, Maria, por
favor.
Enquanto a observava enfiar os ovos
mexidos, linguiça e torrada (coberta de geleia de morango) na boca,
percebi que tínhamos perdido o enterro. Tínhamos esquecido de ir ao
cemitério ver o velho jogado no buraco. Eu queria ter visto isso.
Era a única parte boa da coisa. Não tínhamos nos juntado ao
préstito fúnebre, e em vez disso tínhamos ido à casa de meu pai e
fumado seus cigarros e bebido seu vinho.
Maria levou um bocado particularmente
grande de ovos mexidos amarelo vivo à boca e disse:
– Você deve ter me fodido. Estou
sentindo seu sêmen escorrendo pelas minhas pernas.
– Oh, é apenas suor. Está quente
esta manhã.
Vi-a enfiar a mão embaixo da mesa e
embaixo do vestido. Um dedo voltou. Ela cheirou-o.
– Isso não é suor, é sêmen.
Maria acabou de comer e saímos. Ela
me deu seu endereço e eu a levei lá de carro. Estacionei no
meio-fio.
– Gostaria de entrar?
– Agora, não. Preciso cuidar das
coisas. A herança.
Maria curvou-se e me beijou. Tinha os
olhos muito grandes, assustados, azedos.
– Eu sei que você é muito mais
jovem, mas eu podia amar você – ela disse. – Tenho certeza de
que podia.
Quando chegou à porta, ela se virou.
Ambos acenamos. Eu fui à primeira loja de bebidas, peguei meio litro
e o Formulário das Corridas. Previa um bom dia no hipódromo. Eu
sempre me saía melhor depois de um dia de folga.
Charles Bukowski, em Numa Fria
quinta-feira, 7 de maio de 2026
Mãe-gentil
Por um tempo atrás meus filhos
andaram me descobrindo. Quero dizer como pessoa, pois como mãe me
haviam descoberto desde que nasceram, assim como eu os descobri até
antes de eles nascerem. Foi tão curioso como, na descoberta, além
de mãe, eles me consideravam uma pessoa com quem conversar. Quando
eu ia escovar os cabelos no espelho do banheiro, eles me seguiam para
continuar a conversa. Um deles desconfiou do que estava acontecendo e
perguntou-me com franqueza: você não estará se fazendo de
interessante para nós? Respondi que não, que eles é que estavam
interessados em mim. Faziam-me perguntas, respondia o que podia. Um
deles um dia desses me pediu: me dê o nome de alguns escritores
profundos que eu queria ler. Ah, então ele já estava sentindo
necessidade? Fiquei contente, e mais contente ainda de lhe dar nomes
de escritores profundos brasileiros. Ele andou lendo uns contos de
Tchekhov e gostou. O livro era Contos da velha Rússia, que
recomendo aos leitores. É livro de bolso.
Clarice Lispector, em Todas as crônicas
1622 – Sevilha
Os ratos
O padre Antônio Vázquez de Espinosa,
recém-chegado da América, é o convidado de honra.
Enquanto os criados servem os pedaços
de peru com molho explode no ar a espuma das ondas, alto e branco mar
enlouquecido pela tempestade; e quando chegam os frangos recheados
desaba sobre a mesa a chuva dos trópicos. Conta o padre Antônio que
na costa do mar Caribe chove de tal maneira que esperando que acabe a
chuva ficam grávidas as mulheres e nascem os filhos: quando vem a
bonança, já são homens.
Os demais convidados, atentos ao
relato e ao banquete, comem e calam; o padre tem a boca cheia de
palavras e se esquece dos pratos. No chão, sentados sobre
almofadões, as crianças e as mulheres escutam como se fosse missa.
Foi uma façanha a travessia entre o
porto hondurenho de Trujillo e Sanlúcar e Barrameda. Navegaram as
naus aos trambolhões, atormentadas pela borrasca; várias
embarcações foram tragadas pelo mar e vários marinheiros pelos
tubarões. Mas nada pior, e baixa a voz o padre Antônio, nada pior
que os ratos.
Como castigo pelos muitos pecados
cometidos na América, e porque ninguém embarca confessado e
comungado como é devido, Deus semeou os ratos nos navios. Meteu
ratos nos paióis, entre os víveres, e debaixo do castelo da proa;
na câmara de popa, nos camarotes e até na cadeira do piloto: temos
ratos, e tão grandes, que causavam espanto e admiração. Dezesseis
arrobas de pão roubaram os ratos do quarto onde o padre dormia, e os
bolos que estavam debaixo da escotilha. Devoraram os presuntos e os
toucinhos do tombadilho da popa. Quando iam os sedentos buscar água,
encontravam ratos afogados, flutuando nas pipas. Quando iam os
famintos ao galinheiro, não encontravam mais que ossos e penas e uma
ou outra galinha caída com as patas roídas. Nem os papagaios, em
suas gaiolas, se salvaram dos ataques. Os marinheiros vigiavam os
restos de água e comida dia e noite, armados de paus e facas, e os
ratos atacavam e mordiam mãos e se devoraram entre si.
Entre as azeitonas e as frutas,
chegaram os ratos. Estão intactas as sobremesas. Ninguém prova nem
uma gota de vinho.
– Querem escutar as orações novas
que inventei? Como as velhas ladainhas não aplacavam as iras do
Senhor...
Ninguém responde.
Tossem os homens, levando o guardanapo
à boca. Das mulheres que perambulavam dando ordens ao serviço, não
resta nenhuma. As que escutavam sentadas no chão, estão vesgas e
boquiabertas. As crianças veem no padre Antônio uma tromba longa,
tremendos dentes e bigodes, e torcem o pescoço buscando sua cauda
debaixo da mesa.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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