sexta-feira, 8 de maio de 2026
Piloto de Guerra
V
A angústia se deve à perda de uma
verdadeira identidade. Se espero uma mensagem da qual depende minha
felicidade ou o meu desespero, sou como que lançado no nada.
Enquanto a incerteza me mantém em suspense, meus sentimentos e
minhas atitudes não passam de um disfarce provisório. O tempo cessa
de fundar, segundo por segundo, como constrói a árvore, o
personagem verdadeiro que me habitará em uma hora. Esse eu
desconhecido vem ao meu encontro, de fora, como um fantasma. Então
tenho uma sensação de angústia. A má notícia provoca não a
angústia, mas o sofrimento: é completamente diferente.
Entretanto, eis que o tempo deixou de
correr no vazio. Estou enfim instalado na minha função. Não me
projeto mais num futuro sem rosto. Não sou mais aquele que esboçará,
talvez, uma espiral no turbilhão do incêndio. O futuro não me
assombra mais, como uma estranha aparição. Meus atos, doravante,
uns após os outros, o compõem. Sou aquele que controla a bússola
para mantê-la a 313 graus. Que regula a rotação das hélices e o
aquecimento do óleo. São as preocupações imediatas e sãs. São
preocupações da casa, os pequenos deveres do dia que suavizam o
gosto do envelhecer. O dia se torna casa bem lustrada, assoalho bem
encerado, oxigênio bem gasto. Eu controlo, com efeito, o consumo de
oxigênio, pois subimos rápido: seis mil e setecentos metros.
— Tudo bem com o oxigênio,
Dutertre? Está se sentindo bem?
— Tudo bem, Capitão.
— Ei, Artilheiro, o oxigênio está
bem?
— Eu… Sim… Tudo bem, Capitão…
— Você ainda não achou seu lápis?
Torno-me também aquele que aperta o
botão S e o botão A para controlar minhas metralhadoras. A
propósito…
— Ei, Artilheiro, não tem uma
cidade grande, atrás, em seu campo de tiro?
— Hã… Não, Capitão.
— Vai. Teste as suas metralhadoras.
Ouço suas rajadas.
— Funcionaram?
— Funcionaram.
— Todas as metralhadoras?
— Hã… Sim… Todas.
Eu também atiro. Pergunto-me aonde
vão essas balas que lançamos sem escrúpulo ao longo dos campos
amigos. Nunca matam ninguém. A terra é grande.
Cada minuto assim me alimenta de seu
conteúdo. Eu sou alguma coisa tão pouco angustiada quanto um fruto
amadurecendo. Decerto, as condições do voo mudarão à minha volta.
As condições e os problemas. Mas estou inserido na fabricação
desse futuro. O tempo me molda aos poucos. A criança não se assusta
por pacientemente transformar-se num velhinho. É criança e brinca
suas brincadeiras de criança. Eu brinco também. Conto os
mostradores, os manetes, os botões, os manches de meu reino. Conto
cento e três objetos a verificar, puxar, virar ou empurrar. (Só
blefei ao contar como dois o comando de minhas metralhadoras: ele tem
um pino de segurança.) Vou divertir o fazendeiro que me hospeda esta
noite. Vou lhe dizer:
— O senhor sabe quantos instrumentos
um piloto hoje em dia precisa controlar?
— Como é que você quer que eu
saiba?
— Não faz mal. Diga um número.
— Que número você quer que eu
diga?
Pois meu fazendeiro não tem nenhum
tato.
— Diga qualquer número!
— Sete!
— Cento e três!
E ficarei contente.
Minha paz está feita também porque
todos os instrumentos de que estava atulhado tomaram seus lugares e
receberam seu significado. Essas tripas de tubos e cabos viraram rede
de circulação. Eu sou um organismo contíguo ao avião. O avião
fabrica meu bem-estar, quando giro determinado botão que aquece,
progressivamente, minhas roupas e meu oxigênio. O oxigênio, aliás,
está quente demais e está me queimando o nariz. Esse oxigênio é
consumido proporcionalmente à altitude, através de um instrumento
complicado. E é o avião que me alimenta. Isso me parecia desumano
antes do voo; e agora, amamentado pelo próprio avião, sinto por ele
uma espécie de ternura filial. Uma espécie de ternura de lactente.
Quanto a meu peso, distribuiu-se em
pontos de apoio. Minha tripla espessura de roupas superpostas, meu
pesado paraquedas dorsal pesam contra o assento. Minhas botas enormes
se apoiam nos pedais. Minhas mãos espessamente enluvadas e duras,
tão desajeitadas no solo, manobram o manche facilmente. Manobram o
manche… Manobram o manche…
— Dutertre?
— … pitão?
— Verifique primeiro seus contatos.
Está picotando. Você está me ouvindo?
— Sim…, Capi…
— Sacode essa porcaria! Está me
ouvindo?
A voz de Dutertre volta a ficar clara:
— Estou ouvindo muito bem, Capitão.
— Bom. Ainda hoje em dia os comandos
gelam: o manche está duro; quanto aos pedais, estão completamente
emperrados!
— “É uma beleza.” Qual
altitude?
— Nove mil e sete.
— E o frio?
— Quarenta e oito graus.
— E o seu oxigênio, tudo bem?
— Tudo bem, Capitão.
— Artilheiro, o oxigênio está
o.k.?
Nada de resposta.
— Ei, Artilheiro!
Nada de resposta.
— Você está ouvindo o artilheiro,
Dutertre?
— Não estou ouvindo nada, Capitão.
— Chame-o!
— Ei, Artilheiro! Artilheiro!
Nada de resposta.
Mas antes de mergulhar, sacudo
brutalmente o avião para acordar o outro, caso estivesse dormindo.
— Capitão?
— É você, Artilheiro?
— Eu… Hã… Sim.
— Você não tem certeza?
— Tenho.
— Por que não respondia?
— Estava fazendo um teste de rádio.
Tinha desligado!
— Você é um canalha! Tem que
avisar! Quase mergulhei: achei que estivesse morto!
— Eu… Não.
— Acredito na sua palavra. Mas não
me apronte mais uma dessas! Avise-me, pelo amor de Deus, antes de
desligar.
— Perdão, Capitão. Entendido,
Capitão. Avisarei.
Pois a pane de oxigênio não é
sensível ao organismo. Ela se traduz por uma euforia vaga que
termina, em alguns segundos, com o desmaio e, em alguns minutos, na
morte. O controle permanente do consumo desse oxigênio é então
indispensável, tanto quanto o controle, pelo piloto, do estado de
seus passageiros.
Aperto um pouquinho, então, o tubo de
alimentação de minha máscara, a fim de sentir no nariz as golfadas
quentes que trazem a vida.
Em suma, executo meu trabalho. Não
experimento nada além do prazer físico de atos nutridos de sentido
que bastam por si mesmos. Eu não tenho nem o sentimento de um grande
perigo (estava, ao contrário, preocupado, quando me vestia), nem o
sentimento de um grande dever. O combate entre o Ocidente e o nazismo
se torna, dessa vez, na escala de meus atos, uma ação por manetes,
alavancas e torneiras. É bem assim. O amor por seu Deus, no
sacristão, faz-se amor pelo acendimento das velas. O sacristão anda
com passo indiferente, numa igreja que não vê, e ele fica
satisfeito em fazer florir, um a um, os candelabros. Quando todos
estão acesos, ele esfrega as mãos. Está orgulhoso de si.
Eu regulei admiravelmente a rotação
das minhas hélices, e mantenho o cabo a quase um grau. Isso deve
maravilhar Dutertre, se, todavia, ele observar um pouco a bússola…
— Dutertre… Eu… A agulha da
bússola… Tudo bem?
— Não, Capitão. Muita deriva.
Incline à direita.
Paciência!
— Capitão, estamos passando as
linhas de contato.
Começo minhas fotos.
— Qual a altitude em seu altímetro?
— Dez mil.
Antoine de Saint-Exupéry, em Piloto de Guerra
Analfabeto
Quem não lê é mais analfabeto do
que quem não sabe ler.
Millôr Fernandes, em A bíblia do caos
Declaração de Males
Ilmo. Sr. Diretor do Imposto de Renda.
Antes de tudo devo declarar que já
estou, parceladamente, à venda.
Não sou rico nem pobre, como o
Brasil, que também precisa de boa parte do meu dinheirinho.
Pago imposto de renda na fonte e no
pelourinho.
Marchei em colégio interno durante
seis anos mas nunca cheguei ao fim de nada, a não ser dos meus
enganos.
Fui caixeiro. Fui redator. Fui
bibliotecário.
Fui roteirista e vilão de cinema. Fui
pegador de operário.
Já estive, sem diagnóstico, bem
doente.
Fui acabando confuso e
autocomplacente.
Deixei o futebol por causa do joelho.
Viver foi virando dever e entrei aos
poucos no vermelho.
No Rio, que eu amava, o saldo devedor
já há algum tempo que supera o saldo do meu amor.
Não posso beber tanto quanto mereço,
pela fadiga do fígado e a contusão do preço.
Sou órfão de mãe excelente.
Outras doces amigas morreram de
repente.
Não sei cantar. Não sei dançar.
A morte há de me dar o que fazer até
chegar.
Uma vez quis viver em Paris até o
fim, mas não sei grego nem latim.
Acho que devia ter estudado anatomia
patológica ou pelo menos anatomia filológica.
Escrevo aos trancos e sem querer e há
contudo orgulhos humilhantes no meu ser.
Será do avesso dos meus traços que
faço o meu retrato?
Sou um insensato a buscar o concreto
no abstrato.
Minha cosmovisão é míope, baça,
impura, mas nada odiei, a não ser a injustiça e a impostura.
Não bebi os vinhos crespos que
desejara, não me deitei sobre os sossegos verdes que acalentara.
Sou um narciso malcontente da minha
imagem e jamais deixei de saber que vou de torna-viagem.
Não acredito nos relógios… the
pule cast of throught… sou o que não sou (all that I am I
am not).
Podia ter sido talvez um bom corredor
de distância: correr até morrer era a euforia da minha infância.
O medo do inferno torceu as raízes
gregas do meu psiquismo e só vi que as mãos prolongam a cabeça
quando me perdera no egotismo.
Não creio contudo em myself.
Nem creio mais que possa revelar-me em
other self.
Não soube buscar (em que céu?) o
peso leve dos anjos e da divina medida.
Sou o próprio síndico de minha massa
falida.
Não amei com suficiência o espaço e
a cor.
Comi muita terra antes de abrir-me à
flor.
Gosto dos peixes da Noruega, do caviar
russo, das uvas de outra terra; meus amores pela minha são legião,
mas vivem em guerra.
Fatigante é o ofício para quem
oscila entre ferir e remir.
A onça montou em mim sem dizer aonde
queria ir.
A burocracia e o barulho do mercado me
exasperam num instante.
Decerto sou crucificado por ter amado
mal meu semelhante.
Algum deus em mim persiste
mas não soube decidir entre a lua que
vemos e a lua que existe.
Lobisomem, sou arrogante às
sextas-feiras, menos quando é lua cheia.
Persistirá talvez também, ao rumor
da tormenta, algum canto da sereia.
Deixei de subir ao que me faz falta,
mas não por virtude: meu ouvido é fino e dói à menor mudança de
altitude.
Não sei muito dos modernos e tenho
receios da caverna de Platão: vivo num mundo de mentiras captadas
pela minha televisão.
Jamais compreendi os estatutos da
mente.
O mundo não é divertido,
afortunadamente.
E mesmo o desengano talvez seja um
engano.
Paulo Mendes Campos, em O amor acaba: crônicas líricas e existenciais
A morte do pai – I
O velório de meu pai foi um
hambúrguer frio. Eu me sentei defronte da casa mortuária, no
Alhambra, e tomei um café. Seria um pulo de carro até o hipódromo
depois que acabasse. Um homem com um rosto esfolado terrível, óculos
muito redondos com lentes grossas, entrou.
– Henry – me disse, e sentou-se e
pediu um café.
– Oi, Bert.
– Seu pai e eu nos tornamos grandes
amigos. A gente falava muito de você.
– Eu não gostava do meu velho –
eu disse.
– Seu pai amava você, Henry.
Esperava que você se casasse com Rita. – Era a filha dele. – Ela
está saindo com o cara mais legal agora, mas ele não excita ela.
Ela parece ter uma queda por impostores. Eu não entendo. Mas deve
gostar dele um pouco – disse, animando-se –, porque esconde o
filho no armário quando ele chega.
– Vamos, Bert, vamos embora.
Atravessamos a rua e entramos na casa
mortuária. Alguém dizia que meu pai tinha sido um bom homem. Me deu
vontade de contar a eles o outro lado. Depois alguém cantou. Nós
desfilamos diante do caixão. Talvez eu cuspa nele, pensei.
Minha mãe morrera. Eu a enterrara um
ano antes, fora às corridas e depois trepara. A fila andou. Aí uma
mulher gritou:
– Não, não, não! Ele não pode
estar morto!
Enfiou a mão no caixão, ergueu a
cabeça dele e beijou-o. Ninguém a deteve. Ela pôs os lábios nos
dele. Peguei meu pai e a mulher pelo pescoço e separei-os. Meu pai
caiu de volta no caixão e a mulher foi levada para fora, tremendo.
– Era a namorada de seu pai –
disse Bert.
– Nada mal – eu disse.
Quando desci os degraus após o
serviço, a mulher estava à espera. Correu para mim.
– Você se parece exatamente
com ele! Você é ele!
– Não – eu disse –, ele está
morto, e eu sou mais jovem e melhor.
Ela me abraçou e beijou. Enfiei a
língua entre os lábios dela. E recuei.
– Pronto, pronto – disse em voz
alta –, se contenha!
Ela tornou a me beijar e desta vez eu
enfiei a língua mais fundo. O pênis começou a ficar duro. Vieram
uns homens e umas mulheres para levá-la.
– Não – ela disse –, eu quero
ir com ele. Preciso conversar com o filho dele!
– Vamos, Maria, por favor, venha
conosco!
– Não, não, preciso falar com o
filho dele!
– Você se incomoda? – perguntou
um homem.
– Tudo bem – eu disse.
Maria entrou em meu carro e fomos para
a casa de meu pai. Abri a porta e entramos.
– Dê uma olhada – eu disse. –
Pode pegar qualquer coisa dele que queira. Eu vou tomar um banho.
Velórios me fazem suar.
Quando voltei, Maria estava sentada na
beira da cama de meu pai.
– Oh, está usando o roupão dele!
– Agora é meu.
– Ele simplesmente adorava esse
roupão. Dei a ele no Natal. Ele tinha tanto orgulho dele! Disse que
ia vestir e andar pelo quarteirão pra todos os vizinhos verem.
– Fez isso?
– Não.
– É um ótimo roupão. Agora é
meu.
Peguei um maço de cigarros da mesinha
de cabeceira.
– Oh, são os cigarros dele!
– Quer um?
– Não.
Acendi um.
– Há quanto tempo conhecia ele?
– Cerca de um ano.
– E não descobriu?
– Descobriu o quê?
– Que ele era um homem ignorante.
Cruel. Patriótico. Com fome de dinheiro. Mentiroso. Covarde. Um
impostor.
– Não.
– Estou surpreso. Você parece uma
mulher inteligente.
– Eu amava seu pai, Henry.
– Quantos anos você tem?
– Quarenta e três.
– Está bem conservada. Tem belas
pernas.
– Obrigada.
– Pernas sexy.
Fui à cozinha, peguei uma garrafa de
vinho do armário, saquei a rolha, peguei duas taças e voltei. Servi
um drinque para ela e entreguei-lhe a taça.
– Seu pai falava muito de você.
– É?
– Dizia que você não tinha
ambição.
– Tinha razão.
– É mesmo?
– Minha única ambição é não ser
nada, parece a coisa mais sensata.
– Você é estranho.
– Não, meu pai é que era. Me deixa
servir outro drinque pra você. É um bom vinho.
– Ele disse que você era um bebum.
– Está vendo, consegui
alguma coisa.
– Você se parece muito com ele.
– Só na superfície. Ele gostava de
ovos moles, eu gosto duros. Ele gostava de companhia, eu gosto de
solidão. Ele gostava de dormir à noite, eu gosto de dormir de dia.
Ele gostava de cachorros, eu puxava as orelhas deles e enfiava
fósforos no rabo deles. Ele gostava do emprego, eu gosto de
vagabundar.
Estendi os braços e agarrei-a. Abri
os lábios, enfiei a boca na dela e comecei a sugar o ar dos pulmões
dela. Cuspi pela garganta dela abaixo e passei o dedo pelo rego da
bunda dela. Separamo-nos.
– Ele me beijava com delicadeza –
disse Maria. – Me amava.
– Merda – eu disse –, minha mãe
só estava há um mês debaixo do chão e ele já estava chupando
seus peitos e dividindo o papel higiênico com você.
– Ele me amava.
– Bolas. O medo de ficar só levou
ele pra sua vagina.
– Ele dizia que você era um jovem
amargo.
– Diabos, sim. Veja o que eu tive
como pai.
Suspendi o vestido dela e comecei a
beijar as pernas. Comecei nos joelhos. Cheguei à parte interna da
coxa e ela se abriu para mim. Mordi-a com força, e ela saltou e
soltou um peido.
– Oh, desculpe.
– Está tudo bem – eu disse.
Servi outro drinque para ela, acendi
um dos cigarros de meu pai morto e fui à cozinha buscar outra
garrafa de vinho. Bebemos por mais uma hora ou duas. A tarde se
tornava noite, mas eu estava cansado. A morte era tão chata. Isso
era o pior sobre a morte. Era chata. Assim que acontecia, não se
podia fazer nada. Não se podia jogar tênis com ela nem
transformá-la numa caixa de bombons. Estava ali, como um pneu
furado. A morte era estúpida. Enfiei-me na cama. Ouvi Maria tirar os
sapatos, a roupa, depois a senti na cama a meu lado. Ela pôs a
cabeça em meu peito e senti meus dedos esfregando atrás das orelhas
dela. Depois meu pênis começou a subir. Ergui a cabeça dela e pus
a boca na dela. Pus delicadamente. Depois peguei a mão dela e a pus
em meu pau.
Eu tinha bebido vinho demais. Montei
nela. Meti e meti. Chegava na beirinha, mas não conseguia. Estava
dando a ela uma longa, suada e interminável foda. A cama rangia e
saltava, rebolava e gemia. Maria gemia. Eu a beijava e beijava. Ela
abria a boca em busca de ar.
– Deus do céu – disse –, você
está me FODENDO MESMO!
Eu só queria acabar, mas o vinho
embotara o mecanismo. Acabei rolando para o lado.
– Deus – ela disse. – Deus.
Começamos a nos beijar e começou
tudo de novo. Tornei a montar. Desta vez, senti o clímax chegando
devagar.
– Oh – eu disse. – Oh, deus!
Finalmente consegui, me levantei, fui
ao banheiro, saí fumando um cigarro e voltei à cama. Ela estava
quase dormindo.
– Meu deus – ela disse –, você
me FODEU mesmo!
Dormimos.
De manhã me levantei, vomitei,
escovei os dentes, gargarejei e abri uma garrafa de cerveja. Maria
acordou e me olhou.
– A gente fodeu? – perguntou.
– Está falando sério?
– Não. Estou querendo saber. A
gente fodeu?
– Não – eu disse. – Não
aconteceu nada.
Maria foi ao banheiro e tomou um
chuveiro. Cantava. Depois se enxugou e saiu. Me olhou.
– Estou me sentindo como uma mulher
que foi fodida.
– Não aconteceu nada, Maria.
Nós nos vestimos e eu a levei a um
café na esquina. Ela comeu linguiça com ovos mexidos, torrada de
pão de trigo, café. Eu tomei um copo de suco de tomate e comi um
bolinho.
– Eu não consigo superar isso. Você
se parece com ele.
– Esta manhã, não, Maria, por
favor.
Enquanto a observava enfiar os ovos
mexidos, linguiça e torrada (coberta de geleia de morango) na boca,
percebi que tínhamos perdido o enterro. Tínhamos esquecido de ir ao
cemitério ver o velho jogado no buraco. Eu queria ter visto isso.
Era a única parte boa da coisa. Não tínhamos nos juntado ao
préstito fúnebre, e em vez disso tínhamos ido à casa de meu pai e
fumado seus cigarros e bebido seu vinho.
Maria levou um bocado particularmente
grande de ovos mexidos amarelo vivo à boca e disse:
– Você deve ter me fodido. Estou
sentindo seu sêmen escorrendo pelas minhas pernas.
– Oh, é apenas suor. Está quente
esta manhã.
Vi-a enfiar a mão embaixo da mesa e
embaixo do vestido. Um dedo voltou. Ela cheirou-o.
– Isso não é suor, é sêmen.
Maria acabou de comer e saímos. Ela
me deu seu endereço e eu a levei lá de carro. Estacionei no
meio-fio.
– Gostaria de entrar?
– Agora, não. Preciso cuidar das
coisas. A herança.
Maria curvou-se e me beijou. Tinha os
olhos muito grandes, assustados, azedos.
– Eu sei que você é muito mais
jovem, mas eu podia amar você – ela disse. – Tenho certeza de
que podia.
Quando chegou à porta, ela se virou.
Ambos acenamos. Eu fui à primeira loja de bebidas, peguei meio litro
e o Formulário das Corridas. Previa um bom dia no hipódromo. Eu
sempre me saía melhor depois de um dia de folga.
Charles Bukowski, em Numa Fria
quinta-feira, 7 de maio de 2026
Mãe-gentil
Por um tempo atrás meus filhos
andaram me descobrindo. Quero dizer como pessoa, pois como mãe me
haviam descoberto desde que nasceram, assim como eu os descobri até
antes de eles nascerem. Foi tão curioso como, na descoberta, além
de mãe, eles me consideravam uma pessoa com quem conversar. Quando
eu ia escovar os cabelos no espelho do banheiro, eles me seguiam para
continuar a conversa. Um deles desconfiou do que estava acontecendo e
perguntou-me com franqueza: você não estará se fazendo de
interessante para nós? Respondi que não, que eles é que estavam
interessados em mim. Faziam-me perguntas, respondia o que podia. Um
deles um dia desses me pediu: me dê o nome de alguns escritores
profundos que eu queria ler. Ah, então ele já estava sentindo
necessidade? Fiquei contente, e mais contente ainda de lhe dar nomes
de escritores profundos brasileiros. Ele andou lendo uns contos de
Tchekhov e gostou. O livro era Contos da velha Rússia, que
recomendo aos leitores. É livro de bolso.
Clarice Lispector, em Todas as crônicas
1622 – Sevilha
Os ratos
O padre Antônio Vázquez de Espinosa,
recém-chegado da América, é o convidado de honra.
Enquanto os criados servem os pedaços
de peru com molho explode no ar a espuma das ondas, alto e branco mar
enlouquecido pela tempestade; e quando chegam os frangos recheados
desaba sobre a mesa a chuva dos trópicos. Conta o padre Antônio que
na costa do mar Caribe chove de tal maneira que esperando que acabe a
chuva ficam grávidas as mulheres e nascem os filhos: quando vem a
bonança, já são homens.
Os demais convidados, atentos ao
relato e ao banquete, comem e calam; o padre tem a boca cheia de
palavras e se esquece dos pratos. No chão, sentados sobre
almofadões, as crianças e as mulheres escutam como se fosse missa.
Foi uma façanha a travessia entre o
porto hondurenho de Trujillo e Sanlúcar e Barrameda. Navegaram as
naus aos trambolhões, atormentadas pela borrasca; várias
embarcações foram tragadas pelo mar e vários marinheiros pelos
tubarões. Mas nada pior, e baixa a voz o padre Antônio, nada pior
que os ratos.
Como castigo pelos muitos pecados
cometidos na América, e porque ninguém embarca confessado e
comungado como é devido, Deus semeou os ratos nos navios. Meteu
ratos nos paióis, entre os víveres, e debaixo do castelo da proa;
na câmara de popa, nos camarotes e até na cadeira do piloto: temos
ratos, e tão grandes, que causavam espanto e admiração. Dezesseis
arrobas de pão roubaram os ratos do quarto onde o padre dormia, e os
bolos que estavam debaixo da escotilha. Devoraram os presuntos e os
toucinhos do tombadilho da popa. Quando iam os sedentos buscar água,
encontravam ratos afogados, flutuando nas pipas. Quando iam os
famintos ao galinheiro, não encontravam mais que ossos e penas e uma
ou outra galinha caída com as patas roídas. Nem os papagaios, em
suas gaiolas, se salvaram dos ataques. Os marinheiros vigiavam os
restos de água e comida dia e noite, armados de paus e facas, e os
ratos atacavam e mordiam mãos e se devoraram entre si.
Entre as azeitonas e as frutas,
chegaram os ratos. Estão intactas as sobremesas. Ninguém prova nem
uma gota de vinho.
– Querem escutar as orações novas
que inventei? Como as velhas ladainhas não aplacavam as iras do
Senhor...
Ninguém responde.
Tossem os homens, levando o guardanapo
à boca. Das mulheres que perambulavam dando ordens ao serviço, não
resta nenhuma. As que escutavam sentadas no chão, estão vesgas e
boquiabertas. As crianças veem no padre Antônio uma tromba longa,
tremendos dentes e bigodes, e torcem o pescoço buscando sua cauda
debaixo da mesa.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
Cachorro Vai para o Céu?
Tenho um amigo que é pastor de uma
igreja presbiteriana no Rio de Janeiro. Parte da missão de um pastor
é esclarecer as dúvidas espirituais que porventura possam advir da
leitura confusa das Sagradas Escrituras. Pois ele foi procurado por
uma senhora já bem velha, solitária, que morava sozinha e tinha
como amigo de todas as horas o seu cãozinho, também já velhinho. A
aflição da senhora tinha a ver com o fato de que ela acreditava na
Bíblia e lia a Bíblia como consolo. Pois houve um texto que a
apunhalou: o escrito no livro de Apocalipse, capítulo 22, versículo
15. Nenhuma das passagens terríveis das Sagradas Escrituras a havia
abalado. Ela as lera e ficara em paz... Mas esse mínimo versículo
havia abalado o seu mundo. Porque esse versículo enumera aqueles que
não poderão entrar no Paraíso: “... Fora ficam os cães, os
feiticeiros, os impuros...”. “Reverendo, então o meu cãozinho,
meu único amigo, não entrará comigo no Paraíso?” Não foi fácil
convencer a velhinha. Aí o pastor teve a ideia de invocar a imagem
dos rebanhos de ovelhas. Centenas de ovelhas pastando, os lobos à
espreita, o pastor sozinho não dá conta, mas os cães estão sempre
atentos. Eles são bons. Eles guardam as ovelhas. Por isso os
pastores amam os cães. Pastores, ovelhas e cães entrarão todos
juntos no Paraíso…
Rubem Alves, em Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo
O louco dos livros
São todos gestos comuns: tirar os
óculos da caixa, limpá-los com papel ou tecido, com a bainha da
blusa ou a ponta da gravata, empoleirá-los no nariz e firmá-los
atrás das orelhas antes de olhar para a página agora lúcida diante
de nós. Então, ajustá-los para cima ou para baixo sobre o nariz,
para colocar as letras em foco, e, depois de algum tempo, levantá-los
e esfregar a pele entre as sobrancelhas, apertando os olhos fechados
para manter afastado o texto-sereia. E o ato final: tirá-los,
dobrá-los, e inseri-los entre as páginas do livro para marcar o
lugar onde paramos a leitura. Na iconografia cristã, Santa Luzia é
representada carregando um par de óculos numa bandeja; os óculos
são, com efeito, olhos que os leitores de visão ruim podem pôr e
tirar à vontade. São uma função destacável do corpo, uma máscara
através da qual o mundo pode ser observado, uma criatura semelhante
a um inseto, carregada como um animal de estimação à caça de um
louva-deus. Discretos, sentados de pernas cruzadas sobre uma pilha de
livros ou em pé, em expectativa, num canto atravancado da
escrivaninha, eles se tornaram o emblema do leitor, a marca da
presença do leitor, um símbolo do ofício do leitor.
É desnorteante imaginar os muitos
séculos anteriores a invenção dos óculos, séculos durante os
quais os leitores se envesgaram para penetrar nas linhas nebulosas de
um texto, e é emocionante imaginar se o alívio extraordinário,
quando surgiram os óculos, ao ver subtamente, quase sem esforço,
uma página escrita. Um sexto de toda a humanidade é míope; entre
os leitores, a proporção é muito maior, perto de 24%. Aristóteles,
Lutero, Samuel Pepys, Schopenhauer, Goethe, Schil er, Keats,
Tennyson, o dr. Johnson, Alexander Pope, Quevedo, Wordsworth, Daute
Gabriel Rossetti, Elizabeth Barrett Browning, Kipling, Edward Lear,
Dorothy L. Sayers, Yeats, Unamuno, Rabindranath Tagore, James Joyce -
todos tinham visão fraca. Em muitas pessoas essa condição piora, e
um notável número de leitores famosos ficou cego na velhice, de
Homero a Milton, James Thurber e Jorge Luis Borges. O escritor
argentino, que começou a perder a visão no início da década de
1930 e foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires em
1955, quando não enxergava mais, comentou o destino peculiar do
leitor debilitado a quem um dia concedem o reino dos livros:
Que ninguém avilte com lágrimas
ou reprove
Esta declaração da habilidade de
Deus
Que em sua ironia magnífica
Deu-me escuridão e livros ao mesmo
tempo.
Borges comparava o destino desse
leitor no mundo borrado de “vagas cinzas pálidas semelhantes a
olvido e sono" ao destino do rei Midas, condenado a morrer de
fome e sede cercado por comida e bebida. Um episódio da série de
televisão Além da imaginação, trata de um Midas assim, um leitor
voraz que é o único homem a sobreviver a um desastre nuclear. Todos
os livros do mundo estão agora à sua disposição; então,
acidentalmente, ele quebra seus óculos.
Antes da invenção dos óculos, pelo
menos um quarto de todos os leitores teria precisado de letras
estradas-grandes para decifrar um texto. As tensões sobre os olhos
dos leitores medievais eram grandes: as salas em que tentavam ler
eram escurecidas no verão para protegê-las do calor; no inverno,
mergulhavam numa escuridão natural, porque as janelas,
necessariamente pequenas para proteger das correntes de ar gelado,
deixavam entrar pouca luz. Os escribas medievais queixavam-se
constantemente das condições em que tinham de trabalhar e
rabiscavam amiúde notas sobre suas dificuldades nas margens dos
livros. Na metade do século XIII, um certo Florêncio, do qual não
sabemos mais nada, exceto o primeiro nome, rabiscou esta descrição
lúgubre de seu ofício: "É uma tarefa penosa. Extingue a luz
dos olhos, encurva as costas, esmaga as vísceras e as costelas,
provoca dor nos rins e cansaço em todo o corpo". Para os
leitores com deficiência visual, o trabalho deveria ser ainda pior.
Patrick Trevor-Roper sugeriu que eles provavelmente se sentiam mais
confortáveis à noite, "porque a escuridão é uma grande
igualadora".
Na Babilônia, em Roma e na Grécia,
os leitores cuja visão era fraca não dispunham de outro recurso
senão ter alguém, geralmente um escravo, que lesse os livros para
eles.
Uns poucos descobriram que olhar
através de um disco de pedra transparente ajudava.
Escrevendo sobre as propriedades das
esmeraldas, Plínio,o Velho, observou de passagem que o imperador
Nero, míope, costumava assistir às lutas de gladiadores através de
uma esmeralda. Não sabemos se isso amplificava os detalhes
sanguinolentos ou se apenas lhes dava uma coloração esverdeada, mas
a história sobreviveu ao longo da Idade Média e eruditos como Roger
Bacon e seu professor Robert Grosseteste comentaram a notável
propriedade da jóia.
Entretanto, poucos leitores tinham
acesso a pedras preciosas. A maioria era condenada a passar suas
horas de leitura na dependência de leituras vicárias, ou fazendo
progressos lentos e dolorosos enquanto os músculos de seus olhos se
esforçavam para remediar o defeito. Então, em algum momento do
final do século XIII, mudou a sina dos leitores que enxergavam mal.
Não sabemos exatamente quando a
mudança ocorreu, mas em 23 de fevereiro de 1306, do púlpito da
igreja de Santa Maria Novela, em Florença, Giordano da Rivalto, de
Pisa, fez um sermão no qual lembrou a seu rebanho que a invenção
dos óculos, "um dos dispositivos mais úteis do mundo", já
tinha vinte anos. E acrescentou: "Eu vi o homem que, antes de
qualquer outro, descobriu e fez um par de óculos, e falei com ele?”
Nada se sabe desse notável inventor.
Talvez tenha sido um contemporâneo de Giordano, um monge chamado
Spina, do qual se diz que "fazia óculos e ensinava de graça a
arte para os outros". Ou quem sabe tenha sido um membro da
Guilda dos Trabalhadores em Cristal de Veneza, onde a arte de fazer
óculos já era conhecida em 1301, pois uma das regras da guilda
naquele ano explicava o procedimento a ser seguido por quem quisesse
"fazer óculos para leitura". Ou quem sabe o inventor não
foi um certo Salvino degli Armati, cuja lápide, ainda visível na
igreja de Santa Maria Maggiore, em Florença, chama-o de "inventor
dos óculos", e acrescenta: "Que Deus perdoe seus pecados.
A. D. 1317". Outro candidato é Roger Bacon, a quem já
encontramos como mestre catalogador e que Kipling, em um de seus
contos, tornou testemunha do uso de um primeiro microscópio árabe
contrabandeado para a Inglaterra por um iluminador. No ano de 1268,
Bacon escreveu: "Se alguém examinar letras ou objetos pequenos
olhando através do meio de um cristal ou vidro no formato do menor
segmento de uma esfera, com todos os lados convexos voltados para o
olho, verá as letras muito melhor e maiores. Tal instrumento é útil
a todas as pessoas . Quatro séculos depois, Descartes ainda louvava
a invenção dos óculos: "Toda a administração de nossas
vidas depende dos sentidos, e, uma vez que a visão é o mais
abrangente e o mais nobre deles, não há dúvida de que as invenções
que servem para aumentar seu poder estão entre as mais úteis que
possa haver".
A representação mais antiga que se
conhece de um par de óculos está num retrato do cardeal Hugo de St.
Cher. na Provença, feita por Tommaso da Modena. Mostra o cardeal em
traje completo, sentado à sua mesa, copiando de um livro aberto
apoiado numa estante um pouco acima dele, à direita. Os óculos,
conhecidos como "óculos de rebite", semelhantes a um
pincenê, consistem de duas lentes redondas presas em armação
grossa articulada acima do cavalete do nariz, de forma que a pressão
possa ser regulada.
Até boa parte do século XV, os
óculos de leitura eram um luxo: custavam caro e, em termos
comparativos, poucas pessoas precisavam deles, uma vez que os livros
estavam nas mãos de uma seleta minoria. Depois da invenção da
imprensa e da relativa popularização dos livros, a demanda por
óculos aumentou; na Inglaterra, por exemplo, mascates iam de vila em
vila vendendo "óculos continentais baratos". Em 1466,
apenas onze anos depois da publicação da primeira Bíblia de
Gutenberg, fabricantes de óculos ficaram conhecidos em Estrasburgo,
em Nuremberg, no ano de 1478 e em Frankfurt, em 1540. É possível
que óculos melhores e em maior quantidade tenham permitido que mais
leitores se tornassem leitores melhores e comprassem mais livros, e
que por esse motivo os óculos tenham sido associados ao intelectual,
ao bibliotecário, ao erudito.
A partir do século XIV, os óculos
foram acrescentados a numerosas pinturas, para marcar a natureza
estudiosa e sábia de uma personagem. Em muitas representações do
Adormecimento ou Morte da Virgem, vários dos médicos e magos em
torno de seu leito mortuário acham-se usando óculos de vários
tipos. No quadro anônimo que se encontra no mosteiro de Neuberg, em
Viena, um par de óculos foi acrescentado séculos depois ao sábio
de barbas brancas, a quem um jovem desconsolado mostra um grosso
volume. A implicação parece ser a de que nem o mais sábio dos
eruditos possui sabedoria suficiente para curar a Virgem e mudar seu
destino.
Na Grécia, em Roma e Bizâncio, o
poeta-erudito - o doctus poeta, representado segurando uma
tabuleta ou um rolo - foi considerado um modelo, mas esse papel
estava confinado aos mortais. Os deuses jamais se ocupavam de
literatura; as divindades gregas e latinas jamais eram mostradas
segurando um livro. O cristianismo foi a primeira religião a pôr um
livro nas mãos de seu deus, e, a partir da metade do século XIV, o
livro emblemático cristão passou a ser acompanhado por outra
imagem, a dos óculos. A perfeição de Cristo e de Deus Pai não
justificaria representá-los como míopes, mas os Pais da Igreja -
são Tomás de Aquino, santo Agostinho - e os autores antigos
admitidos no cânone católico - Cícero, Aristóteles - às vezes
foram representados carregando um douto volume e usando os sábios
óculos do conhecimento.
No final do século XV, os óculos já
eram suficientemente conhecidos para simbolizar não somente o
prestígio da leitura, mas também seus excessos. A maioria dos
leitores, naquele tempo como agora, passou em algum momento pela
humilhação de ouvir que sua ocupação é repreensível. Lembro que
riram de mim, durante um recreio na sexta ou sétima série, por eu
ter ficado dentro do prédio lendo, e lembro que no fim do escárnio
eu estava estatelado no chão, meus óculos chutados para um lado,
meu livro para o outro.
"Você não vai gostar do filme",
foi o veredicto de uns primos que, tendo visto meu quarto cheio de
livros, acharam que eu não gostaria de assistir a um faroeste com
eles. Minha avó, vendo-me ler nas tardes de domingo, dizia
suspirando: "Você sonha acordado" - porque minha
inatividade parecia-lhe um ócio inútil e um pecado contra a alegria
de viver.
Preguiçoso, débil, pretensioso,
pedante, elitista, estes são alguns dos epítetos que acabaram
associados ao intelectual distraído, ao leitor míope, ao rato de
biblioteca, ao nerd. Enterrado nos livros, isolado do mundo
dos fatos, do mundo de carne e osso, sentindo-se superior aos
não-familiarizados com as palavras preservadas entre capas
poeirentas, o leitor de óculos que pretendia saber o que Deus, em
sua sabedoria, havia escondido, era considerado um louco, e os óculos
tornaram-se emblemas da arrogância intelectual.
Em fevereiro de 1494, durante o famoso
carnaval da Basiléia, o jovem doutor em leis Sebastião Brant
publicou um pequeno volume de versos alegóricos em alemão,
intitulado Das Narrenschiff ou A nau dos insensatos. O
sucesso foi imediato: no primeiro ano houve três reimpressões, e em
Estrasburgo, terra natal de Brant, um editor empreendedor, ansioso
por participar dos lucros, encomendou a um poeta desconhecido um
acréscimo de quatrocentas linhas ao livro. Brant se queixou
dessaforma de plágio, mas em vão.
Dois anos depois, pediu a seu amigo
Jacques Locher, professor de poesia na Universidade de Freiburg, que
traduzisse o livro para o latim. Locher assim o fez, mas alterou a
ordem dos capítulos e incluiu variações de sua lavra. Por mais que
o texto original de Brant mudasse, o número de leitores continuou
aumentando até o século XVII.
Seu sucesso era devido, em parte, às
xilogravuras que o ilustravam, muitas feitas por um Albrecht Dürer
de 22 anos de idade. Mas, em larga medida, o sucesso era do próprio
Brant. Ele fizera um levantamento meticuloso das loucuras ou pecados
de sua sociedade, do adultério e do jogo à falta de fé e à
ingratidão, em termos precisos e atualizados. Por exemplo, a
descoberta do Novo Mundo, que acontecera menos de dois anos antes, é
mencionada no livro para exemplificar as loucuras da curiosidade
invejosa. Dürer e outros artistas ofereceram aos leitores de Brant
imagens comuns desses novos pecadores, reconhecíveis de imediato por
seus pares na vida cotidiana, mas foi o próprio Brant quem rascunhou
as ilustrações destinadas a acompanhar o texto.
Uma dessas imagens, a primeira depois
do frontispício, ilustra a loucura do intelectual. O leitor que
abrisse o livro de Brant seria confrontado com a própria imagem: um
homem em seu escritório, cercado por livros. Há livros por toda
parte: nas estantes atrás dele, em ambos os lados da mesa de
leitura, dentro de compartimentos da própria escrivaninha. O homem
veste um gorro de dormir (para esconder suas orelhas de asno) e,
atrás dele, pende uma carapuça de bufão com sinos, enquanto a mão
direita segura um espanador para espantar as moscas que tentam pousar
nos livros. Ele é o Büchernarr, "o louco dos livros”,
o homem cuja loucura consiste em se enterrar nos livros. Sobre seu
nariz repousa um par de óculos.
Esses óculos o acusam: eis um homem
que não vê o mundo diretamente, preferindo espiar as palavras
mortas numa página impressa. Diz o leitor insensato de Brant: "É
por uma razão muito boa que sou o primeiro a subir ao barco. Para
mim, o livro é tudo, mais precioso ainda que o ouro. / Tenho grandes
tesouros aqui, dos quais não entendo patavina". Ele confessa
que, na companhia de homens cultos que citam livros sábios, adora
poder dizer:
"Tenho todos esses volumes em
casa"; ele se compara a Ptolomeu II de Alexandria, que acumulou
livros, mas não conhecimento. Graças ao livro de Brant, a imagem do
erudito idiota de óculos logo se tornou um ícone comum; já em
1505, no De fide concubinarum de Olearius, um asno está
sentado numa escrivaninha idêntica, óculos sobre o nariz e
espanta-moscas na pata, lendo um grande livro aberto para uma turma
de alunos-bestas.
A popularidade do livro de Brant foi
tanta que, em 1509, o humanista Geiler von Kaysersberg começou a
pregar uma série de sermões baseados no elenco de loucos de Brant,
um para cada domingo. O primeiro sermão, correspondente ao primeiro
capítulo do livro de Brant, foi sobre o louco dos livros, é claro.
Brant emprestara ao idiota palavras para que ele se autodescrevesse:
Geiler usou a descrição para dividir seu maluco livresco em sete
tipos, cada um deles reconhecível pelo tilintar de um dos sinos do
bufão.
Segundo Geiler, o primeiro sino
anuncia o louco que coleciona livros por ostentação, como se fossem
uma mobília cara. No primeiro século da era cristã, O filósofo
latino Sêneca (que Geiler gostava de citar) já denunciava o acumulo
exibicionista de livros: Muita gente sem educação escolar usa
livros não como instrumento de estudo, mas como decoração para a
sala de jantar". Geiler insiste: Aquele que quer livros para
ganhar fama deve aprender algo com eles; não deve armazená-los em
sua biblioteca, mas na cabeça.
Mas este primeiro louco pôs seus
livros em correntes e fez deles prisioneiros; se pudessem se libertar
e falar; arrastariam-no até o juiz. exigindo que ele, e não eles,
fosse encarcerado". O segundo sino chama o idiota que deseja
ficar sábio consumindo livros em demasia. Geiler compara-o a um
estômago embrulhado por excesso de comida e a um general embaraçado
num cerco por ter soldados demais. "Que devo fazer? -
perguntais. Devo jogar todos os meus livros fora?" Podemos
imaginar Geiler apontando o dedo para determinado paroquiano entre
seu público dominical. "Não, isso não deveis fazer. Mas
deveis selecionar aqueles que vos são úteis e usá-los no momento
certo." O terceiro sino tilinta para o idiota que coleciona
livros sem realmente lê-los, apenas borboleteando por eles para
satisfazer sua curiosidade ociosa. Geiler o compara a um louco que
corre pela cidade e, enquanto passa voando, tenta observar em detalhe
os signos e emblemas nas fachadas das casas. Isso, diz ele, é não
só impossível, mas também um lamentável desperdício de tempo.
O quarto sino chama o louco que ama
livros suntuosamente iluminados. Pergunta Geiler: "Não é uma
loucura pecaminosa banquetear os olhos com ouro e prata quando tantos
filhos de Deus passam fome? Não têm os vossos olhos o sol, a lua,
as estrelas, as muitas flores e outras coisas para vos agradar?".
Que necessidade temos de figuras humanas ou flores em um livro? As
que Deus provê não são suficientes? E Geiler conclui que esse amor
por imagens pintadas "é um insulto à sabedoria". O quinto
sino anuncia o idiota que encaderna seus livros com panos suntuosos.
(Aqui novamente Geiler faz um empréstimo silencioso junto a Sêneca,
que protestava contra o colecionador que "tira seu prazer de
encadernações e rótulos" e em cujo lar analfabeto "podem-se
ver as obras completas de oradores e historiadores em estantes que
vão até o teto, porque, como os banheiros, a biblioteca tornou-se
ornamento essencial numa casa rica".) O sexto sino chama o
idiota que escreve e produz livros mal escritos sem ter lido os
clássicos e sem nenhum conhecimento de ortografia, gramática ou
retórica. É o leitor que se torna escritor, seduzido pela ideia de
colocar seus pensamentos garatujados ao lado das obras dos grandes
escritores. Por fim - numa mudança paradoxal que os futuros
anti-intelectuais ignorariam - o sétimo e último louco dos livros é
aquele que despreza completamente os livros e zomba da sabedoria que
se pode obter deles.
Por meio da imaginação intelectual
de Brant, Geiler, o intelectual, forneceu argumentos para os
anti-intelectuais de seu tempo que viviam na incerteza de uma época
em que as estruturas civis e religiosas da sociedade europeia
romperam-se com guerras dinásticas que alteraram seus conceitos de
história, com explorações geográficas que mudaram seus conceitos
de espaço e comércio, com cismas religiosos que mudaram para sempre
seu conceito de quem eram, por que eram e do que faziam na terra.
Geiler armou-os com um catálogo inteiro de acusações que lhes
permitiu, como sociedade, ver erros não em suas ações, mas nos
pensamentos sobre suas ações, em suas fantasias, suas ideias, suas
leituras.
Muitos daqueles que frequentavam a
catedral de Estrasburgo todos os domingos, ouvindo as diatribes de
Geiler contra as loucuras do leitor desorientado, acreditavam
provavelmente que ele estava fazendo eco ao rancor popular contra o
homem lido. Posso imaginar a sensação de desconforto daqueles que,
como eu, usavam óculos, talvez tirando-os sub-repticiamente no
momento em que esses ajudantes se tornavam de súbito uma insígnia
de desonra. Mas Geiler não estava atacando o leitor e seus óculos.
Longe disso: seus argumentos eram os do clérigo humanista, crítico
da competição intelectual vazia e amadorística, porém defensor da
necessidade de conhecimento letrado e do valor dos livros. Ele não
compartilhava do ressentimento crescente entre a população em
geral, que considerava os intelectuais indevidamente privilegiados,
sofrendo do que John Donne descreveu como "defeitos da solidão"
escondendo-se da verdadeira labuta do mundo naquilo que vários
séculos depois Gérard de Nerval, seguindo Sainte-Beuve, chamaria de
torre de marfim, o refúgio "para onde subimos cada vez
mais alto para nos isolarmos da multidão", longe das ocupações
gregárias da gente comum. Três séculos depois de Geiler, Thomas
Carlyle, falando em defesa do erudito-leitor, emprestou-lhe traços
heróicos: "Ele, com seus direitos e erros autorais, em sua
esquálida água-furtada, em seu paletó desbotado, governando (pois
é isso que faz) de seu túmulo, após a morte, nações e gerações
inteiras que lhe deram, ou não, pão enquanto vivia”. Mas
persistia a visão preconceituosa do leitor como um intelectualoide
distraído, um trânsfuga do mundo, um sonhador de olhos abertos, de
óculos, enfiado no livro num canto recluso.
O escritor espanhol Jorge Manrique,
contemporâneo de Geiler, dividia a humanidade entre "aqueles
que vivem de seu próprio esforço e os ricos". Logo essa
divisão passou para "os que vivem de seu próprio esforço"
e "o louco dos livros", o leitor de quatro olhos.
É curioso que os óculos nunca tenham
perdido essa associação não mundana. Mesmo aqueles que querem
parecer sábios (ou pelo menos livrescos) em nosso tempo
aproveitam-se dos símbolos; um par de óculos, de grau ou não,
prejudica a sensualidade do rosto e sugere preocupações
intelectuais. Tony Curtis usa óculos roubados enquanto tenta
convencer Marilyn Monroe de que não passa de um milionário ingênuo
em Quanto mais quente melhor. E, nas palavras famosas de Dorothy
Parker, Men seldom make passes / At girls who wear glasses [Os
homens raramente cantam / garotas que usam óculos]. Mas no século
XVIII, Antônio José da Silva faz seu diabinho chamar a atenção do
aventuroso soldado Peralta dizendo-lhe que as belas e sensuais
mulheres que o Diabo quer que ele seduza se tornaram, na verdade,
vítimas do pecado da Preguiça graças "às leituras em
excesso": os livros as corromperam. Opor a força do corpo ao
poder da mente, separar o homme moyen sensuel do intelectual,
isso exige argumentos elaborados. De um lado estão os trabalhadores,
os escravos sem acesso a livros, as criaturas de ossos e nervos, a
maioria da humanidade; do outro, a minoria, os pensadores, a elite
dos escribas, os intelectuais supostamente aliados às autoridades,
ou, ao contrário, que conspiram contra elas. Durante o regime do
Khmer Vermelho de Pol Pot, no Camboja, as pessoas que usavam óculos
eram mortas porque se supunha que podiam ler e, portanto, teriam
acesso a informações que lhes permitiriam criticar o governo.
Discutindo o significado da felicidade, Sêneca concedeu à minoria a
fortaleza da sabedoria e desprezou a opinião da maioria: "O
melhor deveria ser escolhido pela maioria, mas, ao contrário, o
populacho prefere o pior [...] Nada é tão nocivo quanto ouvir o que
o povo diz, considerar certo o que é aprovado pela maioria e tomar
como modelo o comportamento das massas, que vivem não conforme a
razão, mas para se conformar".
O erudito inglês John Carey,
analisando a relação entre os intelectuais e as massas na virada do
século, descobriu que a opinião de Sêneca encontrava eco em muitos
dos mais famosos escritores britânicos dos períodos vitoriano
tardio e eduardiano. Carey concluiu: "Tendo em vista as
multidões pelas quais o indivíduo é cercado, é praticamente
impossível considerar que todos os outros têm uma individualidade
equivalente à nossa.
A massa, como conceito redutivo e
excludente, é inventada para aliviar essa dificuldade".
O argumento que opõe aqueles com
direito a ler, porque podem ler "bem" (como os temíveis
óculos parecem indicar), e aqueles a quem a leitura deve ser negada,
porque "não entenderiam", é tão antigo quanto especioso.
"Depois que uma coisa é escrita,"
Sócrates argumentava, “o texto,
qualquer que seja, é levado de lugar para lugar e cai nas mãos não
apenas daqueles que o compreendem, mas também nas de quem não tem
nada a ver com ele [grifo meu]. O texto não sabe como se dirigir
às pessoas certas e como não se dirigir às pessoas erradas. E
quando é mal tratado e abusado, precisa sempre que seu pai venha
socorrê-lo, sendo incapaz de se defender ou de se ajudar por si
mesmo." Leitores certos e errados: para Sócrates parece haver
uma interpretação "correta" do texto, disponível apenas
para uns poucos especialistas ínformados. Na Inglaterra vitoriana,
Matthew Arnold repetiria essa opinião esplendidamente arrogante:
"Somos [...] a favor de não transmitir a herança nem aos
bárbaros, nem aos filisteus, nem ao populacho". Tentando
entender o que era exatamente a herança, Aldous Huxley definiu-a
como o conhecimento especial acumulado de qualquer família unida, a
propriedade comum de todos os seus membros: "Quando nós, da
grande Família Cultural, nos reunimos, trocamos reminiscências a
respeito do vovô Homero, daquele terrível dr. Johnson, da tia Safo
e do pobre John Keats.
E você lembra daquela coisa
absolutamente preciosa que o tio Virgílio disse? Sabe?
Timeo Danaos. [...] Precioso;
nunca vou esquecer.' Não, jamais esqueceremos. E mais: tomaremos
todo o cuidado para que aquela gente horrível que teve a
impertinência de nos invocar, para que aqueles intrusos desgraçados
que nunca conheceram o querido e doce e velho tio V. nunca esqueçam
também. Faremos com que se lembrem constantemente de sua condição
de intrusos".
O que veio primeiro? A invenção das
massas - que Thomas Hardy descreveu como "uma aglomeração de
gente [...] contendo uma certa minoria dotada de almas sensíveis;
estes, e os aspectos destes, sendo o que vale a pena observar" -
ou a invenção do louco dos livros de quatro olhos, que se julga
superior ao resto do mundo e por quem o mundo passa dando risada?
A cronologia não importa. Ambos os
estereótipos são ficções e ambos são perigosos, porque sob a
capa de crítica moral ou social eles são utilizados na tentativa de
restringir um oficio que, em sua essência, não é limitado nem
limitador. A realidade da leitura está em outro lugar. Tentando
descobrir nos mortais comuns uma atividade afim à escrita criadora,
Sigmund Freud sugeriu que se poderia fazer uma comparação entre as
invenções da ficção e as da fantasia, pois ao ler ficção "nossa
fruição real de uma obra de imaginação vem da liberação de
tensões em nossa mente [...] permitindo-nos daí por diante fruir de
nossas fantasias sem auto-recriminação ou vergonha". Mas essa
não é certamente a experiência da maioria dos leitores. Dependendo
do tempo e do lugar, de nosso humor e nossa memória, de nossa
experiência e nosso desejo, a fruição da leitura, na melhor das
hipóteses, aumenta, em vez de liberar, as tensões de nossa mente,
retesando-as para que se manifestem, tornando-nos mais, e não menos,
conscientes de sua presença. É verdade que às vezes o mundo da
página passa para o nosso consciente imaginaire - nosso vocabulário
cotidiano de imagens - e então vagamos a esmo naquelas paisagens
ficcionais, perdidos de admiração, como dom Quixote. Mas, na maior
parte do tempo, pisamos em terra firme. Sabemos que estamos lendo,
mesmo quando suspendemos a descrença; sabemos porque lemos mesmo
quando não sabemos como, mantendo em nossa mente, a um só tempo, o
texto ilusivo e o ato de ler Lemos para descobrir o final, pelo
prazer da história, não pelo prazer da leitura em si. Lemos
buscando, como rastreadores, esquecidos de onde estamos. Lemos
distraidamente, pulando páginas. Lemos com desprezo, admiração,
negligência, raiva, paixão, inveja, anelo. Lemos em lufadas de
súbito prazer, sem saber o que provocou esse prazer "O que é,
no fim das contas, essa emoção?" - pergunta Rebecca West
depois de ler o Rei Lear.
"Que poder têm as grandes obras
de arte sobre minha vida para fazer com que eu me sinta tão
contente?" Não sabemos: lemos ignorantemente. Lemos em
movimentos longos, lentos, como que pairando no espaço, sem peso.
Lemos cheios de preconceitos, com malignidade. Lemos generosamente,
arranjando desculpas para o texto, preenchendo lacunas, corrigindo
erros. E às vezes, quando as estrelas são favoráveis, lemos de um
único fôlego, com um arrepio, como se alguém ou algo tivesse
"caminhado sobre nosso túmulo", como se uma memória
tivesse subitamente sido resgatada de um lugar no fundo de nós
mesmos - o reconhecimento de algo que nunca soubemos que estava lá,
ou de algo que sentimos vagamente, como um bruxuleio ou uma sombra,
cuja forma fantasmagórica ergue-se e instala-se em nós sem que
possamos ver o que é, deixando-nos mais velhos e sábios.
Essa leitura tem uma imagem. Uma
fotografia tirada em 1940, durante o bombardeio de Londres na Segunda
Guerra Mundial, mostra os restos de uma biblioteca desmoronada.
Pelo teto destruído veem-se prédios
fantasmagóricos do lado de fora, e, no centro da peça, há uma
pilha de vigas e móveis em pedaços. Mas as estantes na parede
ficaram firmes e os livros parecem inteiros. Três homens
encontram-se no meio dos destroços: um, como se hesitasse sobre qual
livro escolher, está aparentemente lendo os títulos nas lombadas;
outro, de óculos, está pegando um volume; o terceiro está lendo,
segurando um livro aberto nas mãos. Eles não estão dando as costas
para a guerra, nem ignorando a destruição. Não estão escolhendo
os livros em vez da vida lá fora. Estão tentando persistir contra
as adversidades óbvias; estão afirmando um direito comum de
perguntar; estão tentando encontrar uma vez mais - entre as ruínas,
no reconhecimento surpreendente que a leitura às vezes concede –
uma compreensão.
Alberto Manguel, em Uma História da Leitura
Assinar:
Postagens (Atom)




