17/06/2026
Epílogo
I am going to pass around in a
minute some lovely, glossy-blue picture postcards.
Num minuto vou passar para vocês
vários cartões postais belos e brilhantes. Esta é a mala de couro
que contém a famosa coleção.
Reparem nas minhas mãos, vazias.
Meus bolsos também estão vazios.
Meu chapéu também está vazio.
Vejam. Minhas manga.
Viro de costa, dou uma volta intena.
Como todos podem ver, não há nenhum
truque, nenhum alçapão escondido, nem jogos de luz enganadores.
A mala repousa nesta cadeira aqui.
Abro a mala com esta chave mestra em
cerimônias do tipo, e me permitem a brincadeira.
A primeira coisa que encontramos na
mala, por cima de tudo, é - adivinhem - um par de luvas.
Ei-la.
Pelica.
Coisa fina.
Visto as luvas – mão esquerda...
mão direita...
corte... perfeito.
Isso me lembra...
Um jovem artista perdido na elegante
Berlim da Belle Époque, sozinho, em vão procurando por
prazer. Passa um grupo ruidoso de patinadores, e uma mulher de branco
deixa cair a sua luva, uma luva com seis botões forrados, branca,
longa, perfumada. O jovem corre, apanha a luva, mas reluta se deve
aceitar ou não o desafio. Afinal decide ignorá-lo, guarda a luva no
bolso e volta caminhando para o seu hotel por ruas mal iluminadas.
Mas assim me desvio do meu propósito
desta noite. Depois se houver tempo concluirei esta história
fantástica, onde entra até uma carruagem de Netuno, um morcego
gigantesco que sorri e foge sempre, e um oceano de folhagens.
Quem sabe esta não é exatamente
aquela luva?
No entanto temos aqui não apenas uma,
mas o par; é muito delicado e contrasta com este terno preto.
A valise de couro conterá objetos de
toucador?
Não, meus amigos.
Como todos podem ver, mediante uma
ligeira rotação que faço na cadeira sobre a qual ela se encontra,
a valise contém apenas papel... cartões... dezenas, talvez centenas
de cartões postais.
Estranha valise!
E agora, atenção.
Com minhas mãos enluvadas – um
momento enquanto abotoo uma... e depois outra cuidadosamente... não
há fraude... ajusto os punhos, assim... – agora com estas mãos,
ao acaso, apanho o primeiro cartão postal, que contemplo por um
instante sob a luz... há um reflexo... mas vejo aqui uma moça
afogada entre os juncos... passo o primeiro cartão, por favor passem
uns para os outros... segundo cartão: a Avenida Atlântica... vão
passando... cadilaque em Acapulco... Carmem... Centro Pompidou...
igreja no Alabama... castelo visto do levante... dois cupidos de
óculos escuros... o ladrão de joias e a duquesa... e este aqui...
Fred Astaire em Lady Be Good, ou não faz arte, menina...
nostálgica... e uma Marilyn, e aqui a praia em Clacton com bingo e
fish and chips... o Boeing da Air France... bondes subindo a
ladeira em São Francisco... um urso polar no zoo de Barcelona...
Salomé‚... Londres... outra Salomé ... vão passando, vão
passando.
Meus amigos, isto é uma valise, não
é uma cartola com coelhos.
Temos cartões para a noite inteira.
Alexandria... Beirute... Praga...
Sejam misteriosas, um quadro de
Paul...
Gauguin, seguido de O que, estás com
ciúme?, uma pergunta malandra em tom capcioso, assim tomando sol na
praia.
E outros de museu aqui:
O olho, como um balão bizarro, se
dirige para o infinito;
No horizonte, o anjo das certitudes, e
no céu sombrio, um olhar interrogador;
A dama em desespero;
O sangue da Medusa;
As mães malvadas;
Tranco a porta sobre mim;
O beijo;
Outro beijo;
O ciúme novamente,
e agora o verdadeiro Morro dos
Ventos Uivantes, seguido de uma curiosa competição esportiva, e
de alguma pornografia, e de um padrinho Cícero.
Meus amigos, eu não sei onde nós
vamos parar.
Continuo a passar mais rapidamente
estes cartões. Reparem nesses bolinhos presos com elástico, e aliás
ia me esquecendo de dizer, podem e devem verificar se no verso há
palavras rabiscadas, este aqui por exemplo, “Para quando serão
nossas próximas horas exquisitas?”, esquisitas com xis, ou este
aqui, “O Posto 6, onde passei minha infância e minha adolescência,
como está mudado!”, ou este outro, ouçam só, “Fico tentando te
mandar um pedacinho de onde estou mas fica faltando sempre”. E com
uma letra bem miúda: “Acalmei bem, me distraí, não penso tanto,
penso a te”. Acho que o final está em italiano. Vão lendo, vão
lendo, a maioria está em branco mesmo, com licença.
Eu preciso sair mas volto logo.
Um cisco no olho, um pequeno cisco; na
volta continuo a tirar os cartões da mala, e quem sabe, quando o
momento for propício, conto o resto daquela história verdadeira,
mas antes de sair tiro a luva, deixo aqui no espaldar desta cadeira.
Fin
Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés
“Dói sempre na gente, alguma vez, todo amor achável, que algum dia se desprezou...”
[…]
No sirgo fio dessas recordações,
acho que eu bateava outra espécie de bondade. Devo que devia também
de ter querido outra vez os carinhos daquela moça Nhorinhá, nessas
ocasiões. Por que será que, aí, eu não formei a clareza disso, de
a-propósito? Por lá, adiante, na vastança, era rumo de onde ela
agora morava. Isso, sim, andadamente. Mas não conheci; e demos
volta. Tempos escurecidos. O que meus olhos não estão vendo hoje,
pode ser o que vou ter de sofrer no dia depois-d’amanhã.
Ao que inventei, enquanto assim se
vinha, por pobres lugares, aos poucos eu estive amaestrando os
catrumanos, o senhor está lembrado deles; ensinando aqueles
catrumanos, para as coisas de armas, do que houvesse de pior. Eles já
prometiam puxo; eh, burro só não gosta é de principiar viagens.
Aprovei, de ver o Teofrásio, principal deles, apontando em homem
malandro inocente, com a velha garrucha que era a dele, com os dois
canos encavalados. Mas, que atirasse, não consenti. Zé Bebelo havia
de admitir assim, de se fazer excessos? Ali, quem se lembrava de Zé
Bebelo eram minhas horas de muita inteligência. Assim, ele ainda
vivesse, certo havia de ter algum dia notícia do que eu estava
executando! que a gente trazia a Mulher; com ela agarrada em mãos,
se ia necessitar o Hermógenes a dar combate.
Essa mulher, conforme vinha, num
definitivo mau silêncio, a cara desaparecida pelo xale verde,
escanchada em seu cavalo. Tinham dado a ela um chapéu-de-palha de
ouricurí, por se tapar do forte sol baiano. A mais, dela não se
ouviu queixa ou reclamação; nem mesmo palavra. O que eu desentendia
nela era aquela suave calma, tão feroz; que seria aferrada em
esperar; essa capacidade. Se o ódio, só, era que dava a ela certeza
de si, o ódio então era bom, na razão desse sentido! que às vezes
é feito uma esperança já completada. Deus que dele me livrasse!
Mas, o homem em quem o catrumano
Teofrásio com sua garrucha antiquíssima apontou, era um velho.
Desse, eu digo, salvei a vida. Socorrido assim, pelo fato deu não
conseguir conhecer a intenção da existência dele, sua razão de
sua consciência. Ele morava numa burgueia, em choça muito de
solidão, entre as touças da sempre-viva-serrã e lustro das
folhagens de palmeira-pindoba.
Eu, com outros, tinha subido no tope
do môrro, que era de espalha-ventos. De lá do alto, a mente minha
era poder verificar muitos horizontes. E, mire veja: em quinze léguas
para uma banda, era o São Josezinho da Serra, terra florescida, onde
agora estava assistindo Nhorinhá, a filha de Ana Duzuza. Assunto
que, na ocasião, meu espírito me negou, digo o dito. Além, além.
Dela eu ainda não tinha podido receber a carta enviada. Para mim,
era só uma saudade a se guardar. Hoje é que penso. Nhorinhá,
namorã, que recebia todos, ficava lá, era bonita, era a que era
clara, com os olhos tão dela mesma... E os homens, porfiados,
gostavam de gozar com essa melhora de inocência. Então, se ela não
tinha valia, como é que era de tantos homens?
Mas, no vir de cimas desse morro, do
Tebá ― quero dizer: Morro dos Ofícios ― redescendo, demos com o
velho, na porta da choupã dele mesmo. Homem no sistema de
quase-dôido, que falava no tempo do Bom Imperador. Baiano, barba de
piassaba; goiano-baiano. O pobre, que não tinha as três espigas de
milho em seu paiol. Meio sarará. A barba, de capinzal sujo; e os
cabelos dele eram uma ventania. Perguntei uma coisa, que ele não
caprichou de entender, e o catrumano Teofrásio, que já queria se
mostrar jagunço decisivo, o catrumano Teofrásio bramou ― abocou a
garruchona em seus peitos dele. Mas, que não deu tujo. Esse era o
velho da paciência. Paciência de velho tem muito valor. Comigo
conversou. Com tudo que, em tão dilatado viver, ele tinha aprendido.
Deus pai, como aquele homem sabia todas as coisas práticas da
labuta, da lavoura e do mato, de tanto tudo. Mas, agora, que tanto
aforrava de saber, o derrengue da velhice tirava dele toda possança
de trabalhar; e mesmo o que tinha aprendido ficava fora dos costumes
de usos.Velhinho que apertava muito os olhos.
Seria velhacal? Não fio. E isto, que
retrato, é devido à estúrdia opinião que divulgou em mim esse
velho homem. Que, por armas de sua personalidade, só possuía ali
era uma faquinha e um facão cego, e um calabôca ― porrête esse
que em parte ocado e recheio de chumbo, por valer até para mortes. E
ele mancava estragado! por tanto que a metade do pé esquerdo
faltava, cortado ― produção por picada de cobra ― urutú
geladora, se supõe. Animado comigo, em fim me pediu um punhado de
sal grande regular, e aceitou um naco de carne-de-sol. Porque, no
comer de comum, ele aproveitava era qualquer calango sinimbú, ou
gambás, que, jogando neles certeiramente o calabôca, sempre
conseguia de caçar. Me chamou de! ― Chefão cangaceiro...
Acabando que, para me render benefício
de agradecimento, ele me indicou, muito conselhante, que, num certo
resto de tapera, de fazenda, sabia seguro de um dinheirão enterrado
fundo, quantia desproposital. Eu fosse lá... ― ele disse ―; eu
escavasse tal fortuna, que merecida, para meus companheiros e para
mim... ― Aonde, rumo? ― indaguei, por comprazer. Ele piscou para
o mato. Por lá, trinta e cinco léguas, num Riacho-das-Almas...
Toleima. Eu ia navegar assim para acolá, passar matos, furar a
caatinga por batoqueiras, por louvar loucura alheia? Minha guerra nem
não me dava tempo. E, mesmo, se ele sabia assim, e verdade fosse,
por que era que não ia, muito pessoalmente, cavacar o ouro para si?
Derri dele, brando. Por que é que se dá conselho aos outros?
Galinhas gostam de poeira de areia ― suas asas... E o velho homem ―
cujo. Ele entendia de meus dissabôres? Eu mesmo era de empréstimo.
Demos o demo... E possuía era meu caminho, nos peitos de meu cavalo.
Siruiz. Alelúia só.
E o velho, no esquipático de olhar e
ser, qualquer coisa em mim ele duvidava dela. Mas ― que é que era?
que é que era?!... Eu carecia de indagar. E, mesmo ― porque a
chefe não convém deixar os outros repararem que ele está ansiando
preocupação incerta ― tive de indagar leixo, remediando com
gracejo diversificado: ― Mano velho, tú é nado aqui, ou de donde?
Acha mesmo assim que o sertão é bom?...
Bestiaga que ele me respondeu, e
respondeu bem; e digo ao senhor:
― Sertão não é malino nem
caridoso, mano oh mano!: ― ...ele tira ou dá, ou agrada ou amarga,
ao senhor, conforme o senhor mesmo.
Respondeu com uma insensatez, ar de ir
me ferir, por tanto; jacaré já! Respondeu, apontando com o dedo
para o meu peito. Desgostou de meu debique? Dele o dito, eu não
decifrava. Sertanejo sem remanso. Mas desabandonamos aquilo, às
pressas, porque o velho assoava o nariz com todos os dedos de uma
mão, em modo que me deu nôjo. Descemos flauteando o resto do môrro.
Quando chegamos cá no acampo, as ramas dárvores já iam pegando o
pó da noite. Ermo meu?
Do que hoje sei, tiro passadas valias?
Eh ― fome de bacurau é noitezinha... Porque: o tesouro do velho
era minha razão. Tivesse querido ir lá ver, nesse Riacho-das-Almas,
em trinta e cinco léguas ― e o caminho passava pelo São Josezinho
da Serra, onde assistia Nhorinhá, lugarejo ditoso. Segunda vez com
Nhorinhá, sabível sei, então minha vida virava por entre outros
morros, seguindo para diverso desemboque. Sinto que sei. Eu havia de
me casar feliz com Nhorinhá, como o belo do azul; vir aquém-de.
Maiores vezes, ainda fico pensando. Em certo momento, se o caminho
demudasse ― se o que aconteceu não tivesse acontecido? Como havia
de ter sido a ser? Memórias que não me dão fundamento. O passado ―
é ossos em redor de ninho de coruja... E, do que digo, o senhor não
me mal creia! que eu estou bem casado de matrimônio ― amizade de
afeto por minha bondosa mulher, em mim é ouro toqueado. Mas ― se
eu tivesse permanecido no São Josezinho, e deixado por feliz a
chefia em que eu era o Urutú-Branco, quantas coisas terríveis o
vento-das-núvens havia de desmanchar, para não sucederem? Possível
o que é ― possível o que foi. O sertão não chama ninguém às
claras; mais, porém, se esconde e acena. Mas o sertão de repente se
estremece, debaixo da gente... E ― mesmo ― possível o que não
foi. O senhor talvez não acha? Mas, e o que eu estava dizendo, mas
mesmo pensando em Nhorinhá, por causa. Dói sempre na gente, alguma
vez, todo amor achável, que algum dia se desprezou... Mas, como
jagunços, que se era, a gente rompeu adiante, com bons cavalos novos
para retrôco. Sobre os gerais planos de areia, cheios de
nada. Sobre o pardo, nas areias que morreram, sem serras de
quebra-vento.
[…]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas
De acordo com a natureza
A capacidade de viver da melhor
maneira está na sua alma. Basta ser indiferente às coisas
indiferentes. Adquirirá a indiferença ao observá-las isoladas e
juntas, ao se lembrar de que nenhuma produz em nós opiniões sobre
si mesmas, e ao notar que nenhuma vêm até nós. Permanecem inertes.
Somos nós que produzimos julgamentos sobre elas e, por assim dizer,
inscrevemo-nos em nós mesmos. Todavia, está em nosso poder não os
inscrever e apagá-los, caso, porventura, invadam nossas mentes de
forma imperceptível. Lembre-se que, em breve, nossa atenção e,
logo depois, nossa vida chegarão ao fim.
Além do mais, qual é a dificuldade
de agir assim quanto a essas coisas? Caso estejam de acordo com a
natureza, alegre-se e elas serão fáceis para você. Caso estejam
contrárias, procure pelas consoantes e se esforce para achá-las,
ainda que não tragam reputação. Todo homem tem a permissão para
buscar o seu próprio bem.
Marco Aurélio, em Meditações
O Apanhador no Campo de Centeio – 25
[…]
Depois que saí do lugar onde estavam
as múmias, tive que ir ao banheiro. Para dizer a verdade, estava com
um pouco de diarreia. Não liguei muito para esse negócio da
diarreia, mas aconteceu outra coisa. Quando tinha acabado de me
levantar da privada, quase chegando na porta, acho que desmaiei. Mas
até que tive sorte. Podia ter morrido quando caí no chão, mas
aterrissei meio de lado. O mais engraçado é que me senti melhor
depois do desmaio. Verdade mesmo. Meu braço ficou um pouco doído,
onde bati com ele no chão, mas parei de sentir aquela droga daquela
tonteira.
A essa altura, já era mais ou menos
meio-dia e dez, e por isso voltei para junto da porta, para esperar
pela Phoebe. Pensei que aquela podia ser a última vez que eu ia
vê-la. Ela ou qualquer dos meus parentes. Imaginei que provavelmente
os veria outra vez, mas muitos anos depois. Poderia voltar para casa
quando tivesse uns trinta e cinco anos – pensei – caso alguém
ficasse doente e quisesse me ver antes de morrer, mas só assim eu
deixaria a cabana e voltaria. Sabia que minha mãe ia ficar nervosa
pra chuchu e ia começar a chorar e a me pedir que ficasse em casa,
que não voltasse para minha cabana, mas eu iria embora de qualquer
maneira. Ia bancar o superior. Ia acalmar minha mãe e aí
atravessava a sala, tirava a cigarreira do bolso e acendia um cigarro
– tudo isso com a maior calma. Diria a eles que me visitassem algum
dia, se tivessem vontade, mas não ia insistir nem nada. Uma coisa eu
ia fazer: ia deixar que a Phoebe fosse me visitar no verão e nas
férias da Páscoa e do Natal. E deixaria o D.B. passar algum tempo
comigo, se ele quisesse um lugar simpático e quieto para escrever.
Só que não ia poder escrever nenhum filme na minha cabana só
contos e romances. Ia estabelecer essa regra, que ninguém podia
fazer nada de falso quando me visitasse. Se alguém tentasse fazer
qualquer coisa falsa, ia ter que ir embora.
De repente, olhei para o relógio no
vestíbulo e vi que já era vinte e cinco para uma. Comecei a ficar
com medo de que talvez a velhinha na escola tivesse dito à outra
mulher para não entregar meu recado à Phoebe. Fiquei assustado,
achando que talvez ela tivesse mandado queimar o bilhete ou coisa que
o valha. Me deu mesmo um medão danado. Queria muito ver a Phoebe
antes de me largar pelo mundo. Além disso, estava com o dinheiro de
Natal dela e tudo.
Finalmente a vi, através da porta de
vidro. Logo vi que era ela porque estava usando meu chapéu de caça
maluco – dava pra se enxergar aquele chapéu a quinze quilômetros
de distância.
Saí e comecei a descer a escadaria de
pedra para encontrar-me com ela. Só não conseguia entender aquela
mala enorme que ela vinha trazendo. Estava atravessando a Quinta
Avenida e arrastando aquela baita mala. Ela quase não aguentava com
o peso. Quando cheguei mais perto, vi que era a minha mala velha, a
que eu usava no tempo do Colégio Whooton. Não conseguia imaginar
que diabo ela estava fazendo com a mala.
– Oi – ela disse, quando veio
chegando. Já nem tinha mais fôlego, por causa daquela mala doida.
– Pensei que você não vinha mais –
falei. – Que é que você pôs aí nessa mala? Não preciso de
nada. Vou assim mesmo como estou. Não vou levar nem as minhas malas
que estão na estação. Afinal de contas, quê que você enfiou aí?
Ela pôs a mala no chão.
– Minhas roupas – respondeu. –
Vou com você. Posso? Tá bem?
– O quê? – perguntei. Quase caí
duro quando ela disse aquilo. Juro por Deus. Me senti meio tonto e
pensei que ia desmaiar outra vez ou coisa parecida.
– Desci com a mala pelo elevador dos
fundos para a Charlene não me ver. Não é pesada, não. Só tem
dois vestidos, meus mocassins, minha roupa de baixo, meias e mais
umas coisinhas. Experimenta só. Não é pesada, não. Experimenta
uma vez só pra ver... Posso ir com você, Holden? Posso? Por favor.
– Não. Cala a boca.
Pensei que ia desmaiar. Eu não queria
que ela calasse a boca e tudo, não era bem isso, mas pensei mesmo
que ia desmaiar novamente.
– Por quê que eu não posso ir?
Deixa, Holden. Não vou fazer nada... Só vou com você, só isso! Se
você quiser nem levo minhas roupas. Só levo minha...
– Você não vai levar nada. Porque
nem você vai. Vou sozinho. Por isso, trata de calar a boca.
– Deixa, Holden. Deixa eu ir. Vou
ser muito, muito... Você nem vai...
– Não vou deixar nada. Agora, cala
a boca. Me dá essa mala.
Tirei a mala da mão dela. Estava
quase batendo nela. Cheguei até a pensar por um instante que ia
dar-lhe um tapa. No duro. Ela começou a chorar.
– Pensei que você ia representar no
teatro da escola e tudo. Pensei que você ia ser o Benedict Arnold
naquela peça – falei, com uma voz um bocado dura. – Que é que
você quer fazer? Sair da peça, é?
Isso fez ela chorar mais ainda. Fiquei
satisfeito. De repente eu quis que ela chorasse até arrebentar.
Quase tive ódio dela. Acho que tive mais raiva principalmente porque
ela não representaria mais na peça se fosse embora comigo.
– Vamos – eu disse. Comecei a
subir outra vez as escadas do museu. Resolvi o que ia fazer: deixava
aquela mala doida na portaria do museu e aí ela podia apanha-la às
três horas, quando saísse da escola. Sabia que ela não podia mesmo
levar a mala para a escola.
– Vamos, agora vamos – repeti.
Mas ela não subiu comigo. Não houve
jeito de faze-la ir comigo. Subi assim mesmo, deixei a mala na
portaria e saí outra vez. Ela ainda estava lá, na calçada, mas
virou as costas para mim quando me aproximei. Isso ela sabe fazer
muito bem. Quando lhe dá na veneta, ela vira as costas pra gente sem
a menor cerimônia.
– Não vou mais embora pra lugar
nenhum. Mudei de ideia. Agora para de chorar e cala a boca – falei.
O engraçado é que, quando eu disse isso, ela nem estava chorando
mais. Mas falei de qualquer maneira. – Agora vamos embora. Vou com
você até a escola. Vambora, senão você vai chegar atrasada.
Nem assim me respondeu. Tentei segurar
a mão dela, mas também não me deixou. Continuou me dando as
costas.
– Você almoçou? Já almoçou,
Phoebe?
Neca de resposta. O que ela fez foi
tirar da cabeça meu chapéu de caça vermelho – que eu tinha dado
a ela de presente – e praticamente me jogou o chapéu na cara. Aí
virou de costas outra vez. Me deu uma vontade danada de rir, mas eu
não disse nada. Só apanhei o chapéu do chão e enfiei no bolso do
meu casaco.
– Vamos, êi! Vou andando com você
até a escola.
– Não vou pra escola!
Fiquei sem saber o que dizer depois
que ela falou isso. Fiquei ali em pé uns dois minutos, sem fazer
nada.
– Você tem que voltar pra escola.
Você quer trabalhar naquela peça, não quer? Você quer ser o
Benedict Arnold, não quer?
– Não.
– É claro que você quer. É lógico
que quer. Agora vamos, vambora – repeti. – Em primeiro lugar, já
te disse que não vou mais embora. Vou voltar pra casa. Logo que você
for para a escola eu vou voltar pra casa. Primeiro vou até a estação
apanhar minhas malas, e aí vou direto...
– Já te disse que não vou voltar
pra escola. Você pode fazer o que quiser, mas eu não vou voltar pra
escola. Por isso, cala a boca.
Era a primeira vez que ela me mandava
calar a boca. Era horrível ouvir isso dito por ela. Puxa, era
horrível mesmo. Pior do que se ela tivesse dito um nome feio.
Continuava a nem me olhar e, cada vez que eu tentava pôr a mão no
ombro dela, não me deixava.
– Escuta, quer dar um passeio
comigo? – perguntei. – Quer passear comigo no Jardim Zoológico?
Se eu deixar você faltar à escola hoje de tarde e nós dermos um
passeio, você para com essa maluquice?
Não me respondeu, por isso repeti: –
Se eu deixar você matar aula hoje de tarde e dar uma voltinha, você
para com essa maluquice? Você vai amanhã à escola, como uma
menininha bem comportada?
– Talvez sim e talvez não –
respondeu. E aí saiu correndo e atravessou a rua como uma doida, sem
ao menos olhar se vinha algum carro. Às vezes ela é maluquinha.
Mas não fui atrás dela. Sabia que
ela iria atrás de mim, por isso comecei a andar na direção do
centro da cidade, a caminho do Jardim Zoológico; eu ia pela calçada
do lado do parque e ela começou a andar na mesma direção, só que
pelo outro lado da rua. Não olhava para mim nem nada, mas eu sabia
que ela provavelmente estava me espiando com o rabo do olho, para ver
onde eu ia e tudo. De qualquer maneira, fomos assim o caminho todo,
até o Jardim Zoológico. A única coisa que me chateou foi quando
passou um ônibus de dois andares e eu não pude ver o outro lado da
rua, para saber que diabo ela estava fazendo. Mas, quando chegamos ao
Jardim Zoológico, gritei para ela:
– Phoebe! Vou entrar agora! Vem!
Nem assim olhou para mim, mas eu sabia
que ela tinha me ouvido. Quando comecei a descer as escadas para o
Jardim Zoológico, virei para trás e vi que ela estava atravessando
a rua, me seguindo e tudo.
Não havia muita gente no Jardim
Zoológico, porque o tempo estava mesmo uma droga, mas havia algumas
pessoas em volta da piscina dos leões-marinhos e tudo. Eu ia seguir
direto, mas a danada da Phoebe parou e fingiu que estava vendo os
leões-marinhos serem alimentados – tinha um sujeito jogando uns
peixes para eles – por isso voltei. Imaginei que era uma boa
oportunidade para chegar perto dela e tudo. Fui até lá, parei atrás
dela e experimentei pôr-lhe as mãos no ombro, mas ela dobrou os
joelhos e escapuliu. Ela sabe ser malcriada quando quer. Continuou
ali em pé, enquanto os leões-marinhos comiam, e eu postado bem
atrás. Não tentei botar a mão outra vez no ombro dela nem nada,
porque, se tivesse tentado, ela teria certamente me dado outro fora.
As crianças são gozadas. A gente tem que se cuidar com elas.
Quando saímos da piscina dos
leões-marinhos, ela não veio andando a meu lado, mas já não
estávamos tão longe um do outro. Ela ia numa beirada do passeio e
eu na outra. Não era lá grande coisa, mas era melhor do que antes,
quando ela ficava a um quilômetro de distância. Seguimos em frente
e passamos algum tempo olhando os ursos, no alto daquela colinazinha,
mas não havia muita coisa para se ver. Só um dos ursos estava do
lado de fora, o polar. O outro, o marrom, estava metido na droga da
cova e não saía de jeito nenhum. Só dava para ver o traseiro dele.
Ao meu lado tinha um garotinho, com um chapéu de cowboy que
praticamente lhe cobria as orelhas, que ficava dizendo para o pai
dele: "Faz ele sair, pai. Chama ele, pai!" Olhei para a
Phoebe, mas ela não estava achando graça. Sabe como é criança
quando está zangada com a gente, não acha graça em nada.
Depois de ver os ursos, saímos do
Jardim Zoológico, atravessamos aquela ruazinha no parque e passamos
por baixo de um daqueles túneis pequenos que estão sempre cheirando
a mijo. Era no caminho do carrossel. A danada da Phoebe ainda não
conversava comigo nem nada, mas já estava andando meio ao meu lado
agora. Agarrei o cinto nas costas do casaco dela só de brincadeira,
mas não deixou.
– Se não é muito incômodo, guarda
tua mão pra você mesmo – ela disse.
Ainda estava zangada comigo, mas não
tão zangada quanto antes. Seja como for, estávamos chegando cada
vez mais perto do carrossel e já dava para se ouvir aquela
musiquinha maluca que toca sempre. Estava tocando Ó, Maria! Era
a mesma música que tocava há uns cinquenta anos, quando eu era
pequeno. Isso é um troço bom nos carrosséis, eles tocam sempre as
mesmas músicas.
– Pensei que o carrossel ficava
fechado no inverno – ela disse. Era praticamente a primeira vez que
ela me falava alguma coisa. Provavelmente esqueceu que estava de mal
comigo.
– Vai ver que é por causa do Natal
– falei.
Ela não falou mais nada quando eu
disse isso. Provavelmente lembrou que estava de mal comigo.
– Você quer dar uma volta no
carrossel? – perguntei. Sabia que ela devia querer. Quando
pequenininha – e o Allie, o D. B. e eu costumávamos levá-la ao
parque – ela era tarada pelo carrossel. Não havia jeito de
arrancá-la de lá.
– Já sou muito crescida – ela
falou. Pensei que não ia me responder, mas respondeu.
– Que crescida, que nada. Vai que eu
te espero, vai.
Tínhamos chegado lá. Havia uns
garotinhos andando nele, na maioria muito pequenininhos, e uns pais
esperando do lado de fora, sentados nos bancos e tudo. Fui até o
guichê onde vendem as entradas e comprei uma para a Phoebe. Aí
entreguei-a a ela. Ela estava bem ao meu lado.
– Toma. Espera um instante, toma
também o resto do teu dinheiro.
Comecei a entregar o resto do dinheiro
que ela me havia emprestado.
– Guarda. Guarda pra mim – ela
disse e, logo em seguida: – Por favor.
Isso é deprimente, quando alguém diz
“por favor” à gente. Alguém assim feito a Phoebe. Isso me
deprimiu pra burro. Mas botei o dinheiro de volta no bolso.
– Você também não vai dar uma
volta? – ela perguntou. Estava me olhando com um jeito meio
engraçado. Via-se logo que não estava mais muito zangada comigo.
– Talvez eu ande na próxima volta.
Agora vou ficar te olhando. Apanhou tua entrada?
– Apanhei.
– Então vai. Vou ficar naquele
banco ali, te olhando.
Caminhei para o banco e me sentei,
enquanto ela subia no carrossel. Deu a volta toda na plataforma e
acabou sentando num enorme cavalo castanho, velho e surrado pra
chuchu. Aí o carrossel começou a rodar e eu a fiquei vendo passar e
passar. Só havia mais uns cinco ou seis garotinhos, e a música que
o carrossel estava tocando era Smoke Gets in Your Eyes. Num
ritmo bem ligeiro e engraçado. Todos os garotos ficavam tentando
agarrar a argola dourada, e a Phoebe também, e eu cheguei a ficar
com medo de que ela acabasse caindo da droga do cavalo. Mas não
disse e nem fiz nada. O negócio com as crianças é que, se elas
querem agarrar a argola dourada, o melhor é deixar elas fazerem o
troço e não dizer nada. Se caírem, caíram, mas o errado é dizer
alguma coisa para elas.
Quando acabou a volta, ela desceu do
cavalo e veio até onde eu estava.
– Dessa vez você vai também –
ela disse.
– Não, vou só ficar te olhando.
Acho que só vou ficar olhando – respondi. Dei a ela mais alguma
grana e falei: – Toma. Compra mais umas entradas.
Ela apanhou o dinheiro e disse: –
Não tou mais de mal com você.
– Eu sei. Corre que o negócio vai
começar outra vez.
Então, de repente, ela me deu um
beijo. Aí, estendeu a mão e falou: – Tá chovendo. Está
começando a chover.
– Eu sei.
Aí ela fez um troço que me deixou
maluco: enfiou a mão no bolso do meu casaco, tirou o chapéu de caça
vermelho e botou na minha cabeça.
– Você não quer mais ele? –
perguntei.
– Pode usar ele um pouco.
– Tá bom. Mas corre agora. Você
assim vai perder essa volta. Não vai mais pegar teu cavalo nem nada.
Mas ela continuou ali.
– É verdade aquilo que você disse?
Que não vai mais embora? Vai mesmo pra casa depois?
– Vou, respondi. E era verdade
mesmo. Não estava mentindo. Fui mesmo para casa depois.
– Agora, corre. O negócio já
tá começando.
Ela correu, comprou a entrada e pulou
na droga do carrossel bem na horinha. Aí deu a volta toda, até
encontrar o cavalo dela, e montou. Acenou para mim e eu acenei de
volta.
Puxa, aí começou a chover pra burro.
Um dilúvio, juro por Deus. Todos os pais e mães, todo mundo
correu pra debaixo do teto do carrossel, para não se molhar até os
ossos, mas eu ainda fiquei ali no banco mais algum tempo. Me molhei
pra diabo, principalmente no pescoço e nas calças. Até que meu
chapéu de caça me protegeu mesmo um bocado, mas acabei ensopado de
qualquer maneira. Mas nem liguei. Me senti tão feliz de repente,
vendo a Phoebe passar e passar. Pra dizer a verdade, eu estava a
ponto de chorar de tão feliz que me sentia. Sei lá por quê. É que
ela estava tão bonita, do jeito que passava rodando e
rodando, de casaco azul e tudo. Puxa, só a gente estando lá para
ver.
J. D. Salinger, em O Apanhador no Campo de Centeio
16/06/2026
Pequenos contos da cidade pequena
I
O Poeta está deitado de sapatos sobre
a colcha de renda de bilros — relíquia de Vovozinha.
— ... e de melhores dias — suspira
o Anjo, completando-lhe o pensamento.
— Anjo, você está cada vez mais
aburguesado.
— Essa não, menino! Eu não sou
comunista...
II
Do ferro de engomar, que se assoprava
por trás, saíam faíscas como do traseiro do Diabo. As faces de
Marianinha ficavam cada vez mais afogueadas, mais lustrosas e lindas,
como as maçãs artificiais que havia no centro de mesa da sala de
jantar. Não sei por que estou evocando todos esses pormenores —
eles não levam a nenhum enredo notório, desculpem... Eu me aproximo
como um gato, por trás.
III
O auto que passa e a vitrina da
esquina trocam um duelo de reflexos.
IV
Escarrapachadas nas cadeiras da
calçada, as comadres fazem trancinha. Nada lhes escapa. Nem um
ponto. Mas para o menino quieto que ali se acha a tiracolo das tias o
grande escândalo é a Lua, que acaba de surgir, à traição,
enorme, sangrenta, assassina — ao contrário de tudo que se
esperava dela —, logo ali entre as torres da igreja.
V
Noite alta um bêbado passa cantando a
marchinha de um antigo carnaval. Tem uma voz de vidro moído. Uma voz
aguda e esfarelada de velho.
VI
Um rodar, um estrépito de patas.
Abafadamente. Mas já não se haviam sumido, há tempo, esses carros
puxados a cavalo? Sia Carolina acorda e benze-se. É a Morte! É a
Morte que passa, no seu carro fantasma, a visitar seus doentes.
Mário Quintana, em Caderno H
Diário de Bernardo Soares
115.
Assim organizar a nossa vida que ela
seja para os outros um mistério, que quem melhor nos conheça,
apenas nos desconheça de mais perto que os outros. Eu assim talhei a
minha vida, quase que sem pensar nisso, mas tanta arte instintiva pus
em fazê-lo que para mim próprio me tornei uma não de todo clara e
nítida individualidade minha.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
Cabeça do Gregorio
Um grande escritório vazio. Ou
quase: no canto, vemos uma mesa, com um computador velho. Um
funcionário está dormindo. Seu nome é Totoro. Entra um sujeito
engravatado. Totoro acorda.
FISCAL Aqui é o departamento de
ideias da cabeça do Gregorio?
TOTORO Isso.
FISCAL Vazio, né?
TOTORO Ô. Quem é você?
FISCAL Eu trabalho no outro
departamento da cabeça do Gregorio, o de fiscalização de outros
departamentos. E o pessoal tem reclamado muito lá em cima de falta
de ideias.
TOTORO É que eu tô muito pegado.
FISCAL Você não tava dormindo quando
eu cheguei?
TOTORO Não, tava olhando a mesa. Mais
de pertinho. Pra ver se era de madeira. Ou não.
FISCAL Você trabalha aqui?
TOTORO Isso. Eu sou o chefe do
departamento de ideias.
FISCAL Chefe de quem?
TOTORO Do departamento de ideias.
FISCAL Tem mais alguém trabalhando
aqui?
TOTORO Não.
FISCAL Então você é chefe de…?
TOTORO Do departamento de ideias.
FISCAL Tá explicado por que é que
não chega ideia nenhuma.
TOTORO A culpa não é minha. Eu sou
só um intermediário. Eu espero as ideias caírem e copio elas neste
computador. E elas têm chegado muito pouco.
Cai uma bolinha de papel do teto.
FISCAL O que é que é isso?
TOTORO Uma ideia.
FISCAL Você não vai pegar?
TOTORO Em geral eu espero formar um
montinho.
FISCAL Mas aqui já tem umas quatro.
Totoro respira fundo e levanta
impaciente. Pega as bolinhas.
TOTORO É que não vai prestar. Quer
ver? “Batizar um edifício de ‘Edifício é fácil’”.
FISCAL Que merda.
TOTORO Esse tipo de ideia eu nem passo
pra vocês.
FISCAL Obrigado.
TOTORO “Um brasileiro, um americano
e um japonês…” as que começam assim eu nem leio.
FISCAL Aqui tem uma que parece boa:
“Um casal de idosos descobre que eram…”.
TOTORO Isso é do Verissimo.
FISCAL Mas ele roubou do Verissimo?
TOTORO Ele leu. Daí esqueceu que leu.
Agora acha que é dele.
FISCAL “Rita Lee/ Ritalina.” Que
trocadilho merda.
TOTORO Ele não se deu ao trabalho nem
de formular uma frase.
Começa a cair um monte de bolinha.
FISCAL Caraca! Um monte de uma vez só.
TOTORO Relaxa. Isso só acontece
quando ele fuma maconha.
Gregório Duvivier, em Put some farofa
Onde estivestes de noite
“As histórias não têm
desfecho.”
Alberto Dines
“O desconhecido vicia.”
Fauzi Arap
“Sentado na poltrona, com a boca
cheia de dentes, esperando a morte.”
Raul Seixas
“O que vou anunciar é tão novo
que receio ter todos os homens por inimigos, a tal ponto se enraízam
no mundo os preconceitos e as doutrinas, uma vez aceitas.”
William Harvey
A noite era uma possibilidade
excepcional. Em plena noite fechada de um verão escaldante um galo
soltou seu grito fora de hora e uma só vez para alertar o início da
subida pela montanha. A multidão embaixo aguardava em silêncio.
Ele-ela já estava presente no alto da
montanha, e ela estava personalizada no ele e o ele estava
personalizado no ela. A mistura andrógina criava um ser tão
terrivelmente belo, tão horrorosamente estupefaciente que os
participantes não poderiam olhá-lo de uma só vez: assim como uma
pessoa vai pouco a pouco se habituando ao escuro e aos poucos
enxergando. Aos poucos enxergavam o Ela-ele e quando o Ele-ela lhes
aparecia com uma claridade que emanava dela-dele, eles paralisados
pelo que é Belo diriam: “Ah, Ah”. Era uma exclamação que era
permitida no silêncio da noite. Olhavam a assustadora beleza e seu
perigo. Mas eles haviam vindo exatamente para sofrer o perigo.
Os pântanos se exalavam. Uma estrela
de enorme densidade guiava-os. Eles eram o avesso do Bem. Subiam a
montanha misturando homens, mulheres, duendes, gnomos e anões –
como deuses extintos. O sino de ouro dobrava pelos suicidas. Fora da
estrela graúda, nenhuma estrela. E não havia mar. O que havia do
alto da montanha era escuridão. Soprava um vento noroeste. Ele-ela
era um farol? A adoração dos malditos ia se processar.
Os homens coleavam no chão como
grossos e moles vermes: subiam. Arriscavam tudo, já que fatalmente
um dia iam morrer, talvez dentro de dois meses, talvez sete anos –
fora isto que Ele-ela pensava dentro deles.
Olha o gato. Olha o que o gato viu.
Olha o que o gato pensou. Olha o que era. Enfim, enfim, não havia
símbolo, a “coisa” era! a coisa orgíaca. Os que subiam estavam
à beira da verdade. Nabucodonosor. Eles pareciam 20 nabucodonosores.
E na noite se desquitavam. Eles estão nos esperando. Era uma
ausência – a viagem fora do tempo.
Um cão dava gargalhadas no escuro.
“Tenho medo”, disse a criança. “Medo de quê?”, perguntava a
mãe. “De meu cão.” “Mas você não tem cão.” “Tenho
sim.” Mas depois a criancinha também gargalhou chorando,
misturando lágrimas de riso e de espanto.
Afinal chegaram, os malditos. E
olharam aquela sempiterna Viúva, a grande Solitária que fascinava
todos, e os homens e mulheres não podiam resistir e queriam
aproximar-se dela para amá-la morrendo mas ela com um gesto mantinha
todos a distância. Eles queriam amá-la de um amor estranho que
vibra em morte. Não se incomodavam de amá-la morrendo. O manto de
Ela-ele era de sofrida cor roxa. Mas as mercenárias do sexo em
festim procuravam imitá-la em vão.
Que horas seria? ninguém podia viver
no tempo, o tempo era indireto e por sua própria natureza sempre
inalcançável. Eles já estavam com as articulações inchadas, os
estragos roncavam nos estômagos cheios de terra, os lábios túmidos
e no entanto rachados – eles subiam a encosta. As trevas eram de um
som baixo e escuro como a nota mais escura de um violoncelo.
Chegaram. O Mal-Aventurado, o Ele-ela, diante da adoração de reis e
vassalos, refulgia como uma iluminada águia gigantesca. O silêncio
pululava de respirações ofegantes. A visão era de bocas
entreabertas pela sensualidade que quase os paralisava de tão
grossa. Eles se sentiam salvos do Grande Tédio.
O morro era de sucata. Quando a
Ela-ele parava um instante, homens e mulheres, entregues a eles
próprios por um instante, diziam-se assustados: eu não sei pensar.
Mas o Ele-ela pensava dentro deles.
Um arauto mudo de clarineta aguda
anunciava a notícia. Que notícia? a da bestialidade? Talvez no
entanto fosse o seguinte: a partir do arauto cada um deles começou a
“se sentir”, a sentir a si próprio. E não havia repressão:
livres!
Aí eles começaram a balbuciar mas
para dentro porque a Ela-ele era cáustica quanto a não disturbarem
uns aos outros na sua lenta metamorfose. “Sou Jesus! sou judeu!”,
gritava em silêncio o judeu pobre. Os anais da astronomia nunca
registraram nada como este espetacular cometa, recentemente
descoberto – sua cauda vaporosa se arrastará por milhões de
quilômetros no espaço. Sem falar no tempo.
Um anão corcunda dava pulinhos como
um sapo, de uma encruzilhada a outra – o lugar era de
encruzilhadas. De repente as estrelas apareceram e eram brilhantes e
diamantes no céu escuro. E o corcunda-anão dava pulos, os mais
altos que conseguia para alcançar os brilhantes que sua cobiça
despertava. Cristais! Cristais! gritou ele em pensamentos que eram
saltitantes como os pulos.
A latência pulsava leve, ritmada,
ininterrupta. Todos eram tudo em latência. “Não há crime que não
tenhamos cometido em pensamento”: Goethe. Uma nova e não autêntica
história brasileira era escrita no estrangeiro. Além disso, os
pesquisadores nacionais se queixavam da falta de recursos para o
trabalho.
A montanha era de origem vulcânica. E
de repente o mar: a revolta rebentação do Atlântico lhes enchia os
ouvidos. E o cheiro salgado do mar fecundava-os e triplicava-os em
monstrinhos.
O corpo humano pode voar? A levitação.
Santa Tereza d’Ávila: “Parecia que uma grande força me erguia
no ar. Isso me provocava um grande medo.” O anão levitava por
segundos mas gostava e não tinha medo.
– Como é que você se chama, disse
mudo o rapaz, para eu chamar você a vida inteira. Eu gritarei seu
nome.
– Eu não tenho nome lá embaixo.
Aqui tenho o nome de Xantipa.
– Ah, quero gritar Xantipa! Xantipa!
Olhe, eu estou gritando para dentro. E qual é o seu nome durante o
dia?
– Acho que é... é... parece que é
Maria Luísa.
E estremeceu como um cavalo se eriça.
Caiu exangue no chão. Ninguém assassinava ninguém porque já eram
assassinados. Ninguém queria morrer e não morria mesmo.
Enquanto isso – delicada, delicada –
o Ele-ela usava um timbre. A cor do timbre. Porque eu quero viver em
abundância e trairia o meu melhor amigo em troca de mais vida do que
se pode ter. Essa procura, essa ambição. Eu desprezava os preceitos
dos sábios que aconselham a moderação e a pobreza de alma – a
simplificação de alma, segundo minha própria experiência, era a
santa inocência. Mas eu lutava contra a tentação.
Sim. Sim: cair até a abjeção. Eis a
ambição deles. O som era o arauto do silêncio. Porque nenhum
poderia se deixar possuir por Aquele-aquela-sem-nome.
Eles queriam fruir o proibido. Queriam
elogiar a vida e não queriam a dor que é necessária para se viver,
para se sentir e para amar. Eles queriam sentir a imortalidade
terrífica. Pois o proibido é sempre o melhor. Eles ao mesmo tempo
não se incomodavam de talvez cair no enorme buraco da morte. E a
vida só lhes era preciosa quando gritavam e gemiam. Sentir a força
do ódio era o que eles melhor queriam. Eu me chamo povo, pensavam.
– Que é que eu faço para ser
herói? Porque nos templos só entram heróis.
E no silêncio de repente o seu grito
uivado que não se sabia se de amor ou dor mortal, o herói cheirando
mirra, incenso e benjoim.
Ele-ela cobria a sua nudez com um
manto lindo mas como uma mortalha, mortalha púrpura, agora
vermelho-catedral. Em noites sem lua Ela-ele virava coruja. Comerás
teu irmão, disse ela no pensamento dos outros, e na hora selvagem
haverá um eclipse do sol.
Para não se traírem eles ignoravam
que hoje era ontem e haveria amanhã. Soprava no ar uma transparência
como igual homem nenhum havia respirado antes. Mas eles espargiam
pimenta em pó nos próprios órgãos genitais e se contorciam de
ardor. E de repente o ódio. Eles não matavam uns aos outros mas
sentiam tão implacável ódio que era como um dardo lançado num
corpo. E se rejubilavam danados pelo que sentiam. O ódio era um
vômito que os livrava de vômito maior, o vômito da alma.
Ele-ela com as sete notas musicais
conseguia o uivo. Assim como com as mesmas sete notas podia criar
música sacra. Ouviram eles dentro deles o dó-ré-mi-fá-sol-lá-si,
o “si” macio e agudíssimo. Eles eram independentes e soberanos,
apesar de guiados pelo Ele-ela. Rugindo a morte nos porões escuros.
Fogo, grito, cor, vício, cruz. Estou vigilante no mundo: de noite
vivo e de dia durmo, esquivo. Eu, com faro de cão, orgiático.
Quanto a eles, cumpriam rituais que os
fiéis executam sem entender-lhes os mistérios. O cerimonial. Com um
gesto leve Ela-ele tocou numa criança fulminando-a e todos disseram:
amém. A mãe deu um uivo de lobo: ela toda morta, ela, também.
Mas era para ter supersensações que
para ali se subia. E era sensação tão secreta e tão profunda que
o júbilo faiscava no ar. Eles queriam a força superior que reina no
mundo através dos séculos. Tinham medo? Tinham. Nada substituía a
riqueza do silencioso pavor. Ter medo era a amaldiçoada glória da
escuridão, silente como uma Lua.
Aos poucos se habituavam ao escuro e a
Lua, antes escondida, toda redonda e pálida, tinha lhes abrandado a
subida. Eram trevas quando um por um subira “a montanha”, como
chamavam o planalto um pouco mais elevado. Tinham se apoiado no chão
para não cair, pisando em árvores secas e ásperas, pisando em
cactos espinhosos. Era um medo irresistivelmente atraente, eles
prefeririam morrer que abandoná-lo. O Ele-ela era-lhes como a
Amante. Mas se algum ousasse por ambição tocá-la era congelado na
posição em que estivesse.
Ele-ela contou-lhes dentro de seus
cérebros – e todos ouviram-na dentro de si – o que acontecia a
uma pessoa quando esta não atendia ao chamado da noite: acontecia
que na cegueira da luz do dia a pessoa vivia na carne aberta e nos
olhos ofuscados pelo pecado da luz – a pessoa vivia sem anestesia o
terror de se estar vivo. Não há nada a temer, quando não se tem
medo. Era a véspera do apocalipse. Quem era o rei da Terra? Se você
abusa do poder que você conquistou, os mestres o castigarão. Cheios
do terror de uma feroz alegria eles se abaixavam e às gargalhadas
comiam ervas daninhas do chão e as gargalhadas reboavam de
escuridões a escuridões com seus ecos. Um cheiro sufocante de rosas
enchia de peso o ar, rosas malditas na sua força de natureza doida,
a mesma natureza que inventava as cobras e os ratos e pérolas e
crianças – a natureza doida que ora era noite em trevas, ora o dia
de luz. Esta carne que se move apenas porque tem espírito.
Das bocas escorria saliva grossa,
amarga e untuosa, e eles se urinavam sem sentir. As mulheres que
haviam parido recentemente apertavam com violência os próprios
seios e dos bicos um grosso leite preto esguichava. Uma mulher cuspiu
com força na cara de um homem e o cuspe áspero escorreu-lhe da face
até a boca – avidamente ele lambeu os lábios.
Estavam todos soltos. A alegria era
frenética. Eles eram o harém do Ele-ela. Tinham caído finalmente
no impossível. O misticismo era a mais alta forma de superstição.
O milionário gritava: quero o poder!
poder! quero que até os objetos obedeçam as minhas ordens! E direi:
move-te, objeto! e ele por si só se moverá.
A mulher velha e desgrenhada disse
para o milionário: quer ver como você não é milionário? Pois vou
te dizer: você não é o dono do próximo segundo de vida, você
pode morrer sem saber. A morte te humilhará. O milionário: Eu quero
a verdade, a verdade pura!
A jornalista fazendo uma reportagem
magnífica da vida crua. Vou ganhar fama internacional como a autora
de “O exorcista” que não li para não me influenciar. Estou
vendo direto a vida crua, eu a estou vivendo.
Eu sou solitário, se disse o
masturbador.
Estou em espera, espera, nada jamais
me acontece, já desisti de esperar. Eles bebiam o amargo licor das
ervas ásperas.
– Eu sou um profeta! eu vejo o além!
se gritava um rapaz.
Padre Joaquim Jesus Jacinto – tudo
com jota porque a mãe dele gostava da letra jota.
Era dia trinta e um de dezembro de
1973. O horário astronômico seria aferido pelos relógios atômicos,
cujo atraso é de apenas um segundo a cada três mil e trezentos
anos.
A outra deu para espirrar, um espirro
atrás do outro, sem parar. Mas ela gostava. A outra se chamava J.B.
– Minha vida é um verdadeiro
romance! gritava a escritora falida.
O êxtase era reservado para o
Ele-ela. Que de repente sofreu a exaltação do corpo, longamente.
Ela-ele disse: parem! Porque ela se endemoniava por sentir o gozo do
Mal. Eles todos através dela gozavam: era a celebração da Grande
Lei. Os eunucos faziam uma coisa que era proibido olhar. Os outros,
através de Ela-ele, recebiam frementes as ondas do orgasmo – mas
só ondas porque não tinham força de, sem se destruírem, receber
tudo. As mulheres pintavam a boca de roxo como se fosse fruta
esmagada pelos afiados dentes.
O Ela-ele contou-lhes o que acontecia
quando não se iniciava na profetização da noite. Estado de choque.
Por exemplo: a moça era ruiva e como se não bastasse era vermelha
por dentro e além disso daltônica. Tanto que no seu pequeno
apartamento havia uma cruz verde sobre fundo vermelho: ela confundia
as duas cores. Como é que começara o seu terror? Ouvindo um disco
ou o silêncio reinante ou passos no andar de cima – e ei-la
aterrorizada. Com medo do espelho que a refletia. Defronte tinha um
armário e a impressão era que as roupas se mexiam dentro dele. Aos
poucos ia restringindo o apartamento. Tinha medo até de sair da
cama. A impressão de que iam agarrar o seu pé embaixo da cama. Era
magríssima. O seu nome era Psiu, nome vermelho. Tinha medo de
acender a luz no escuro e encontrar a fria lagartixa que morava com
ela. Sentia com aflição os dedinhos gelados e brancos da lagartixa.
Procurava avidamente no jornal as páginas policiais, notícias do
que estava acontecendo. Sempre aconteciam coisas apavorantes para
pessoas, como ela, que viviam só e eram assaltadas de noite. Tinha
na parede um quadro que era o de um homem que a fixava bem nos olhos,
vigiando-a. Essa figura ela imaginava que a seguia por todos os
cantos da casa. Tinha medo pânico de ratos. Preferiria morrer a
entrar em contato com eles. No entanto ouvia os guinchos deles.
Chegava a sentir-lhes as mordidas nos pés. Acordava sempre
sobressaltada, suando frio. Ela era um bicho acuado. Normalmente
dialogava consigo mesma. Dava prós e contras e sempre quem perdia
era ela. Sua vida era uma constante subtração de si mesma. Tudo
isso porque não atendeu ao chamado da sirene.
O Ele-ela só deixava mostrar o rosto
de andrógina. E dele se irradiava tal cego esplendor de doido que os
outros fruíam a própria loucura. Ela era o vaticínio e a
dissolução e já nascera tatuada. O ar todo cheirava agora a fatal
jasmim e era tão forte que alguns vomitavam as próprias entranhas.
A Lua estava plena no céu. Quinze mil adolescentes esperavam que
espécie de homem e mulher eles iriam ser.
Então Ela-ele disse:
– Comerei o teu irmão e haverá um
eclipse total e o fim do mundo.
De vez em quando ouvia-se um longo
relincho e não se via cavalo nenhum. Sabia-se apenas que com sete
notas musicais fazem-se todas as músicas que existem e que existiam
e que existirão. Da Ela-ele emanava-se forte cheiro de jasmim
esmagado porque era noite de Lua cheia. O catimbó ou a feitiçaria.
Max Ernst quando criança foi confundido com o Menino Jesus numa
procissão. Depois provocava escândalos artísticos. Tinha uma
paixão ilimitada pelos homens e uma imensa e poética liberdade. Mas
por que estou falando nisso? Não sei. “Não sei” é uma resposta
ótima.
O que fazia Thomas Edison, tão
inventor e livre, no meio deles que eram comandados por Ele-ela?
Gregotins, pensou o estudante
perfeito, era a palavra mais difícil da língua.
Escutai! os anjos anunciadores cantam!
O judeu pobre gritava mudo e ninguém
o ouviu, o mundo inteiro não o ouvia. Ele disse assim: tenho sede,
suor e lágrimas! e para saciar a minha sede bebo meu suor e minhas
próprias lágrimas salgadas. Eu não como porco! sigo a Torah! mas
dai-me alívio, Jeová, que se parece demais comigo!
Jubileu de Almeida ouvia o rádio de
pilha, sempre. “O mingau mais gostoso é feito com Cremogema.” E
depois anunciava, de Strauss, uma valsa que por incrível que
parecesse chamava-se “O pensador livre”. É verdade, existe
mesmo, eu ouvi. Jubileu era dono do “Ao Bandolim de Ouro”, loja
de instrumentos musicais quase falida, e era tarado por valsas de
Strauss. Era viúvo, ele, quer dizer, Jubileu. Seu rival era “O
Clarim”, concorrente na rua Gomes Freire ou Frei Caneca. Jubileu
era também afinador de pianos.
Todos ali estavam prestes a se
apaixonar. Sexo. Puro sexo. Eles se freavam. A Romênia era um país
perigoso: ciganos.
Faltava petróleo no mundo. E, sem
petróleo, faltava comida. Carne, sobretudo. E sem carne eles se
tornavam terrivelmente carnívoros.
“Aqui, Senhor, encomendo a minha
alma”, dissera Cristóvão Colombo ao morrer, vestido com o hábito
franciscano. Ele não comia carne. Se santificava, Cristóvão
Colombo, o descobridor das ondas, e que descobriu S. Francisco de
Assis. Hélas! ele morrera. Onde estás agora? onde? pelo amor de
Deus, responde!
De repente e bem de leve – fiat lux.
Houve uma debandada assustadiça como
de pardais.
Tudo tão rápido que mais parecia
terem se esvanecido.
Na mesma hora estavam ora deitados na
cama a dormir, ora já despertos. O que existira era silêncio. Eles
não sabiam de nada. Os anjos da guarda – que tinham tirado um
descanso já que todos estavam na cama sossegados – despertavam
frescos, bocejando ainda, mas já protegendo os seus pupilos.
Madrugada: o ovo vinha rodopiando bem
lento do horizonte para o espaço. Era de manhã: uma moça loura,
casada com rapaz rico, dá à luz um bebê preto. Filho do demônio
da noite? Não se sabe. Apuros, vergonha.
Jubileu de Almeida acordou como pão
dormido: chocho. Desde pequeno fora murcho assim. Ligou o rádio e
ouviu: “Sapataria Morena onde é proibido vender caro”. Iria lá,
estava precisando de sapatos. Jubileu era albino, negro aço com
cílios amarelos quase brancos. Ele estalou um ovo na frigideira. E
pensou: se eu pudesse algum dia ouvir “O pensador livre”, de
Strauss, eu seria recompensado na minha solidão. Só ouvira essa
valsa uma única vez, não se lembrava quando.
O poderoso queria no seu breakfast
comer caviar dinamarquês às colheradas, estalando com os dentes
agudos as bolinhas. Ele era do Rotary Club e da Maçonaria e do
Diners Club. Tinha o requinte de não comer caviar russo: era um modo
de derrotar a poderosa Rússia.
O judeu pobre acorda e bebe água da
bica sofregamente. Era a única água que tinha nos fundos da pensão
baratíssima onde morava: uma vez veio uma barata nadando no feijão
ralo. As prostitutas que lá moravam nem reclamavam.
O estudante perfeito, que não
desconfiava que era um chato, pensou: qual era a palavra mais difícil
que existia? Qual era? Uma que significava adornos, enfeites,
atavios? Ah, sim, gregotins. Decorou a palavra para escrevê-la na
próxima prova.
Quando começou a raiar o dia todos
estavam na cama sem parar de bocejar. Quando acordavam, um era
sapateiro, um estava preso por estupro, uma era dona de casa, dando
ordens à cozinheira, que nunca chegava atrasada, outro era
banqueiro, outro era secretário etc. Acordavam, pois, um pouco
cansados, satisfeitos pela noite tão profunda de sono. O sábado
tinha passado e hoje era domingo. E muitos foram à missa celebrada
por padre Jacinto que era o padre da moda: mas nenhum se confessou,
já que não tinham nada a confessar.
A escritora falida abriu o seu diário
encadernado de couro vermelho e começou a anotar assim: “7 de
julho de 1974. Eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu! Nesta bela manhã de um
sol de domingo, depois de ter dormido muito mal, eu, apesar de tudo,
aprecio as belezas maravilhosas da Natureza-mãe. Não vou à praia
porque sou gorda demais e esta é uma infelicidade para quem aprecia
tanto as ondas verdezitas do Mar! Eu me revolto! Mas não consigo
fazer regime: morro de fome. Gosto de viver perigosamente. Tua língua
viperina será cortada pela tesoura da complacência”.
De manhã: agnus dei. Bezerro de ouro?
Urubu.
O judeu pobre: livrai-me do orgulho de
ser judeu!
A jornalista de manhã bem cedo
telefona para sua amiga:
– Claudia, me desculpe telefonar num
domingo a esta hora! Mas acordei com uma inspiração fabulosa: vou
escrever um livro sobre Magia Negra! Não, não li o tal do
Exorcista, porque me disseram que é má literatura e não quero que
pensem que estou indo na onda dele. Você já pensou bem? o ser
humano sempre tentou se comunicar com o sobrenatural desde o antigo
Egito com o segredo das Pirâmides, passando pela Grécia com seus
deuses, passando por Shakespeare no Hamlet. Pois eu também vou
entrar nessa. E, por Deus, vou ganhar essa parada!
Havia em muitas casas do Rio o cheiro
de café. Era domingo. E o rapaz ainda na cama, cheio de torpor,
ainda mal-acordado, se disse: mais um domingo de tédio. Com o que
havia sonhado mesmo? Sei lá, respondeu-se, se sonhei, sonhei com
mulher.
Enfim, o ar clareia. E o dia de sempre
começa. O dia bruto. A luz era maléfica: instaurava-se o
mal-assombrado dia diário. Uma religião se fazia necessária: uma
religião que não tivesse medo do amanhã. Eu quero ser invejado. Eu
quero o estupro, o roubo, o infanticídio, e o desafio meu é forte.
Queria ouro e fama, desprezava até o sexo: amava depressa e não
sabia o que era o amor. Quero o ouro mau. Profanação. Vou ao meu
extremo. Depois da festa – que festa? noturna? – depois da festa,
desolação.
Havia o observador que escreveu assim
no caderno de notas: “O progresso e todos os fenômenos que o
cercam parecem participar intimamente dessa lei de aceleração
geral, cósmica e centrífuga que arrasta a civilização ao
‘progresso máximo’, a fim de que em seguida venha a queda. Uma
queda ininterrupta ou uma queda rapidamente contida? Aí está o
problema: não podemos saber se esta sociedade se destruirá
completamente ou se conhecerá apenas uma interrupção brusca e
depois a retomada de sua marcha”. E depois: “O Sol diminuiria
seus efeitos sobre a Terra e provocaria o início de um novo período
glacial que poderia durar no mínimo dez mil anos”. Dez mil anos
era muito e assustava. Eis o que acontece quando alguém escolhe, por
medo da noite escura, viver a superficial luz do dia. É que o
sobrenatural, divino ou demoníaco, é uma tentação desde o Egito,
passando pela Idade Média até os romances baratos de mistério.
O açougueiro, que nesse dia só
trabalhava das oito às onze horas, abriu o açougue: e parou
embriagado de prazer ao cheiro de carnes e carnes cruas, cruas e
sangrentas. Era o único que de dia continuava a noite.
Padre Jacinto estava na moda porque
ninguém como ele erguia tão limpidamente a taça e bebia com
sagrada unção e pureza, salvando todos, o sangue de Jesus, que era
o Bem. Com delicadeza as mãos pálidas num gesto de oferenda.
O padeiro como sempre acordou às
quatro horas e começou a fazer a massa de pão. De noite amassar ao
Diabo?
Um anjo pintado por Fra Angélico,
século XV, voejava pelos ares: era a clarineta anunciadora da manhã.
Os postes de luz elétrica não tinham ainda sido apagados e
lustravam-se empalidecidos. Postes. A velocidade come os postes
quando se está correndo de carro.
O masturbador de manhã: meu único
amigo fiel é meu cão. Ele não confiava em ninguém, sobretudo em
mulher.
A que bocejara a noite toda e dissera:
“t’isconjuro, mãe de santo!” começou a se coçar e a bocejar.
Diabo, disse ela.
O poderoso – que cuidava de
orquídeas, catleias, lélias e oncídios – apertou impaciente a
campainha para chamar o mordomo que lhe trouxesse o já atrasado
breakfast. O mordomo adivinhava-lhe os pensamentos e sabia quando lhe
trazer os galgos dinamarqueses para serem rapidamente acariciados.
Aquela que de noite gritava “estou
em espera, em espera, em espera”, de manhã, toda desgrenhada disse
para o leite na leiteira que estava no fogo:
– Eu te pego, seu porcaria! Quero
ver se tu te mancas e ferves na minha cara, minha vida é esperar. É
sabido que se eu desviar um instante o olhar do leite, esse
desgraçado vai aproveitar para ferver e entornar. Como a morte que
vem quando não se espera.
Ela esperou, esperou e o leite não
fervia. Então, desligou o gás.
No céu o mais leve arco-íris: era o
anúncio. A manhã como uma ovelha branca. Pomba branca era a
profecia. Manjedoura. Segredo. A manhã preestabelecida. Ave-Maria,
gratia plena, dominus tecum. Benedicta tu in mulieribus et benedictum
frutus ventri tui Jesus. Sancta Maria Mater Dei ora pro nobis
pecatoribus. Nunca et ora nostrae morte Amem.
Padre Jacinto ergueu com as duas mãos
a taça de cristal que contém o sangue escarlate de Cristo. Eta
vinho bom. E uma flor nasceu. Uma flor leve, rósea, com perfume de
Deus. Ele-ela há muito sumira no ar. A manhã estava límpida como
coisa recém-lavada.
AMÉM
Os fiéis distraídos fizeram o sinal
da Cruz.
AMÉM
DEUS
FIM
Epílogo:
Tudo o que escrevi é verdade e
existe. Existe uma mente universal que me guiou. Onde estivestes de
noite? Ninguém sabe. Não tentes responder – pelo amor de Deus.
Não quero saber da resposta. Adeus. A-Deus.
Clarice Lispector, em Onde estivestes de noite
Assinar:
Postagens (Atom)




