domingo, 1 de março de 2026

Xande de Pilares | Ainda Bem

 

O poeta, ao espelho, barbeando-se

o rito
do dia
o rictus
do dia
o risco
do dia

EU?
UE?

olho
por olho
dente
por dente
ruga
por ruga

EU?
UE?

o fio
da barba
o fio
da navalha
a vida
por um fio

EU?
UE?

mas a barba
feita
a máscara
refeita
mais um dia
aceita

EU
EU

José Paulo Paes, em Antologia Poética 

Eu falando, ficava sendo


[...]

Real, mudando o propósito ― e para que isto bem se entenda. Fio que me aprovaram. Divertidos, todos; quem é que ia me contrariar? Eu era senhor dali e daqui! eu falando, ficava sendo. Do Demo, mesmo, não tirei noção. Agora eu estava com outra pressa. ― Desapeiem o homem, mandemos embora, que se vá! ― em ato ordenei. Até porque ele se cessava sem entendimento das coisas, sem ação. Transes que em instante temi! aquele homem morresse, roqueado no medo, rebaixado dessa forma ― então, ah, aí, então, o destino de lugar, para mim, estava definitivo! só sendo nas extremas do fim do Inferno... Com jeito, com asco, uns dos meus cumpriram meu mandado, desamontaram o homem, e o homem quase nem se impunha de ficar em pé. ― Tu foge fora daqui, tu te vai embora! ― eu disse, tive de gritar. Aí ele entendeu, e saíu. Por um momento, pensei que fosse correr. Mas esbarrou, sem espiar para trás. Agora era que achava pranto, com bem de choro: estava chorando soluços fortes, igual se fosse criança pequena. Aquilo não tinha nenhuma sensatez e me dava gastura, astúcia que remexia com minhas resistências. Aborrecidos, os do meu pessoal gritaram com ele, que tornou a pegar a correr, ao tom dos brados. Ainda esbarrou, outra vez, devia de estar chorando, conforme os ombros dele se sacudiam. Arrochei. Assim foi em arrebrusco: sobreveio em mim a estúrdia arfagem de chorar também ― eu nas margens do mar. Não quis e nem pude. Ânsia que meus olhos, para dentro, davam em escuro. As graças d arte ― sabe o senhor ―: na escuridão, não se chora, por não se ver, como não se pita cigarro... Com isso, desgostei de mim. Ah, no final da vez, o que ria o riso principal era ele, o demo. O Tisnado! Assim, por causa da judiação que eu, mesmo por querer salvar a vida dele, eu tinha procedido de demorar assim, com aquele homem. Antes tivesse logo matado. Como é que se podia desrespeitar tudo desse jeito, numa desgraçada pessoa, roupeada? Como é? E o homem não tinha vislumbrado de espiar para trás, para saber de sua cachorrinha. E a cachorrinha estava ali, bem amarrada na dignidade. Tanto ela não latia mais, que todos tinham se esquecido dela. Agora eu colhi em mim um estado de desânimo. A ser, que, por conta daquele homem, por meus desmandos, quem sabe eu ia ter, mais para adiante, de pagar, com graves castigos?
Algum tempo estava se passando, daí já tinham desarreado a égua, e o lombilho e os baixeiros botaram dependurados num galho de árvore de beira estrada. Ali estava aquele magro animal, preso somentemente no cabresto, que o Fafafa segurava; assim esperavam que eu desse cabo dela, eu mesmo, ou que mandasse outro fazer, segundo tinha sido a minha decisão. A cachorrinha, essa, eu pensei! eu dava para Diadorim, que perto todo o tempo tinha ficado, calado durante tudo. E, pois, era a hora de minha acertação, mesmo com a contrariedade. Ao dito, porque eu tinha começado a desastrada estória, que um final razoável carecia de ter. Suficiente sacar garrucha, e mirar o tiro na testa da égua, que se debruçava de pernas abertas, se acabando. A tanto, pois?
Ao que o Fafafa, que não teve poder em si de se consentir silêncio, virou para mim, e disse! ― Nosso Chefe, com vênia eu peço! o senhor aceite de eu pagar em dinheiro o prêço deste inocente animal, que seja poupado... A eguinha não é de todo ruim...
Aonde que ele disse, outros secundaram! eu deixasse. Repente meu foi meio irado; porque até o Fafafa me atravessava. Os demais, a ver que reprovavam minha decisão, de que a égua se matasse. A gente revoltosa? Ah, não; que, em seguida, gostei, eu mesmo. Instante em que me prazia ouvir o meu pessoal discordar daquilo, com a égua, a frio e por fria razão. Do demo era que eles discordavam! Rapaziada boa, solerte. Só que, assim, como eles queriam, não estava em meu regulamento resolver. Vender, não vendia a vida da égua ao Fafafa. Ah, não. Resumi um recurso, por aí alerta. O que foi como pronunciei!
Delibero o certo! o primeiro que eu vi, foi essa égua. Ela tinha de receber a morte... Ah, mas égua não é gente, não é pessoa que existe. E que? Ah, então, não é cabível que se mate a égua, por tanto que a minha palavra decidida era de se matar um homem! Não executo. A alçada da palavra se perdeu por si e se gastou ― pois não está dito? Acho e dou que o negócio veio ao terminado.
Verdadeiramente, com alegria, foi que todos me aprovaram. Ou seja que me admiravam em real, pela esperteza de toda solução que eu achava; e mesmo nem sabiam que essas minhas espertezas eram cobradas da manha do Tentador. Contente, tanto, e descontente, comigo, era que eu estava. Porque essas coisas, de certo modo, me tiravam o poder do chão. Mas, uma na outra, eu limpei o seco de minhas mãos.
Aí , correr alguém, em tempo de campear outra vez esse homem... ― eu disse. ― Trazer, a modo de se dar a ele dinheiro, se dar de comer e um café, e tornar a entregar a ele o que é dele…
Eu falava era por devolver a égua. E o Suzarte, José Gervásio e Jiribibe, torcendo em galope, foram pelo homem. A égua, que se soltou, caçava móitas de capim, para pastar. Com o que, já que se estava por descanso e espera, e se tinha boa aguada na vereda perto, o Jacaré armou a trempe e coou café. Sentei, na sombra dum pau-dóce, fiquei ouvindo os gabos que os em redor de mim me dessem, como arras de procedimentos maiores.
Tal a tal, o Chefe tira mais finíssimas artimanhas do que o Zé Bebelo próprio... ― um disse.
A fé, que determina com a mesma justiça que Medeiro Vaz... ― outro falou, mais aduloso.
Isso, bom louvo, sossegava a minha perturbação. Aquela hora, eu estimava meus homens, que vivessem, que falassem. Mas, para afirmar ideia e respeito de que eu estava em minha chefia independente, mandei que aquietassem, pelo que eu ia aproveitar para uma sesta de sonéques. Aprazia escutar o ventinho do chapadão, com o suave rumor que assopra e faz, nas folhas do bate-caixa. A cachorrinha, amarrada mesmo, se sujeitava de não latir: figuro que alguém estava dando a ela pedaços de carne-seca. Alembro que eu ainda podia caber nesse domingozinho de tranquilidade. O melhor ― ah, pensei, o melhor de tudo! ― era que o Anhangão não aparecesse, não se visse porfiando no meio de todos; e que mesmo o mais certo era d ele, demo, não competir, por não ter nenhuma existência.
Tirei minha madorna, a pouco. Suzarte, Jiribibe e José Gervásio já retornavam, com o vazio tido, sem o resultado algum.
...Sujeito se sumiu nesse mundo, carregando com o rastro, medo dele era medonho... Só achamos o nada dele...  ― assim rendiam explicação. Que é que se podia remediar? Seguir nossa marcha, sem mais tardanças. A gente largava a égua ali, acaso algum dia o homem voltava, ou dela por boca de outros tinha notícia. Amontamos. E a cachorrinha? ― Reinaldo, essa tu quer? ― perguntei a Diadorim. Meante o que, ele melhor respondeu! ― Só convém se soltar a coitadinha, de seguro ela vai se encontrar com onde estiver o dono... E ele mesmo desatou. Valia o senhor ver o raio de amor que tangeu a cachorrinhazinha! que latiu suas alegrias e airada correu, sem nenhuma demora, feito fosse para um pronto destino, há-de asas! Foi ela em longe desaparecer, e nós tocamos, no caminho contrário. A égua ficou lá, pastando; e o arreio do homem, como um espantalho, pendurado no ramo de árvore, até as moscas do campo já se ajuntassem nele.
Do que acontecido, me senti muito livre. Trotei, adiante. Eu ia, à meia-rédea, não me instava, não pensava. Será ― mal pergunto eu ao senhor ― que viajei este sertão com o Outro sendo meu sócio? Vá retro! Mas não tenho modo de entender como Diadorim estranhou meus semblantes. E por via disso é que tinha sido a nossa conversação ― por causa do de que agora lhe dei conta miudamente.
Do que discuti com Diadorim, do que derradeiro ele me disse, me ficou um retardo. Aquele passo me envergonhava. Como ser? Eu queria e não queria ouvir ― não queria e queria. Resto de toda resposta, que tivesse, tinha de ser acusação. E eu quis. Deu o que me deu, e eu vim, perguntar forçado; sentido, perguntei:
O recado mandado, Diadorim, tu diz.Teu falar no exato, dever de toda lealdade, é que eu a duras exijo ― o que me reverte!...
Sou teu amigo. O recado aquele, Riobaldo, pedi ao arrieiro para dar a uma mulher...
Ah, então foi para uma moça, para a filha do fazendeiro da Santa Catarina, que Otacília é, e que é minha nóiva; será?
Riobaldo, pois foi. Em que é que você malda?
Ao que, por praga, eu relutei no freio. Até o campolino meu cavalo assumiu um espanto. Porque surpreendi o mundo desequilibrado rústico, o que me pertencia e o que não me pertencia. Se a vida coisas assim às horas arranja, então que segurança de si é que a gente tem? Diadorim me olhava. Diadorim esperou, sempre com serenidade. O amor dele por mim era de todo quilate: ele não tartameava mais, de ciúme nem de medo. Disse assim:
Pedi a ela que rezasse por você, Riobaldo... Assim pela esperança de saudade que ela tivesse, que não esbarrasse de rezar, o todo tempo, por costume antigo...
No argame, no esquisito desgosto de meu espírito, vi que, mesmo antes dele falar, eu já sabia que aquilo era ― o que ele não evitava de me dizer. Rude que ainda reperguntei, mesmo assim:
Ah, não! Ah, você acha que eu careço de suas rezas orações, por minha ajuda, Diadorim?
Acho, de manhã à noite, Riobaldo... Demais. Nem sei mesmo se alguém te botou o malefício... Tua mãe, mesma, que estivesse viva, achava...
Mor, mor, aí, recebi surto de meu sangue, forte,no corpo da cara e na beira das orêlhas, e logo doeu no meu beiço o que eu estava me mordendo, assim para não insultar Diadorim com nomes que fossem da maior ofensa. Com um tapa na rédea, eu tirei de perto dele a cara de meu cavalo.
Acha tua vida, rapaz! Careço é de menos amizades... ― ainda eu maldisse, me apartando. Ao que bem pensei! ― Hás-de! Rezas essas, o contra? Atira, tu, em anta, com chumbo fino... ― e ri mamente. O que era que me transtornava, do meio para o fim, por essa fraseação?
Sendo que, depois logo, quando esbarramos a caminhada do dia, eu fiz questão de não querer prosa nem presenças de ninguém, para que vissem que eu estava pensativo de projetos, e raivoso. Tristonho. A gente parava no findar do Chapadão, longe do poente, segundo se ia indo, por meu comando. As muitas sérias coisas referi comigo, quando eu estava provando a fresca da tarde.
[…]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

Uma Dupla do Barulho





Estou em casa, depois de um jogo da Seleção Brasileira, com dor de cabeça, pensando na chatice em que o nosso futebol se transformou. Toca o relefone. É Hermínio Bello de Carvalho, diretamente de São Paulo, em companhia de Dona Neuma da Mangueira. Conheci Dona Neuma quando tive a honra de desfilar na Comissão de Frente da Mangueira, que homenageou Carlos Drummond de Andrade. A escola sagrou-se bicampeã. Sou salgueirense de enfartar, mas jamais esquecerei do abraço de Dona Neuma e de Dona Zica na pista, o dia clareando, no Desfile das Campeãs.
Hermínio já me deixou em situações dificílimas. Uma vez, também em São Paulo, estávamos Hermínio, Mello Menezes e eu meio de porre, num fim de tarde, dispostos a aprontar, quando o Mello notou três moças muito engraçadinhas (e, na aparência, nada ordinárias) na mesa em frente. Paquera vai, paquera vem, Hermínio fechou a cara:
Já vi que essas peruas vão estragar a boêmia.
Procuramos acalmá-lo: que nada, bobagem, e coisa e tal. As moças vieram pra nossa mesa. O pedaço que me coube naquele latifúndio mulherístico tinha uns dentes de fazer botar óculos escuros, uma beleza. Fiz um galanteio. Comparando os dentinhos dela com pérolas, troço muito original. A jovem agradeceu e escancarou ainda mais o anúncio luminoso. Hermínio, friamente, perguntou:
São naturais ou prótese?
E quando Mello Menezes elogiou os seios da moreninha, Hermínio repetiu a pergunta. Ora, diante desse clima, uma delas procurou brincar. Pra descontrair, entende? Disse pro Hermínio:
Ainda não sei o seu nome.
Lembram do muxoxo das novelas de antanho, aquelas bochechas de tédio e descaso e um bico assim, ó? Pois, é. Hermínio fez uma careta dessas pra coitada e respondeu:
Chamo-me Valéria.
Eu caí da cadeira e o Mello começou a chorar. Elas bateram asas, amores paulistanos que poderiam ter sido, mas não foram.
Pelo telefone, Dona Neuma me deu várias informações confidenciais sobre, digamos, atributos anatômicos de Noel Rosa, João da Baiana e de outros monstros sagrados de nossa música popular. Minha dor de cabeça passou de tanto rir. Quando o Hermínio apresentava suas despedidas misturadas com o repertório de Nora Nei fui acometido de curiosidade pouco elegante e perguntei:
Estão em São Paulo por quê?
Pra um casamento de bacana, responde Hermínio. E passou a descrever a festa: trombetas na entrada da igreja, uma orquestra enorme lá dentro, coro, viadinhos.
Viadinhos? – estranhei.
E o Hermínio, do alto de sua sabedoria:
Tem em todo lugar, meu filho. Parece criança...
E eis o fecho de ouro: na recepção, a noiva, uma verdadeira avalanche de rendas, aproximou-se da gloriosa Dona Neuma.
Dona Neuma, é uma honra ter a Mangueira aqui representada pela senhora.
A resposta:
Brigada, minha filha. Cê tá tão linda que eu tou até com saudade do meu cabaço.
God save a Estação Primeira!

Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo

Condizente com a razão

Dado esse material, o que pode ser falado ou feito da maneira mais condizente com a razão? Seja o que for, falar ou fazer depende de você. Não se justifique dizendo que foi impedido.
Não suspenderá as lamentações até que o material que lhe é submetido e apresentado seja tão valorizado pela sua mente quanto o luxo o é pelos lascivos. Até que julgue prazerosas as ações adequadas à sua constituição. O poder de julgá-las assim o acompanha para todo canto.
Perceba: a escolha de se direcionar não é dada a um cilindro, à água, ao fogo ou a quaisquer entes governados só pela natureza ou por almas irracionais. São impedidos de inúmeras maneiras. Por outro lado, a inteligência e a razão podem escolher transpor os impedimentos, pois foram constituídas para isso. Note como a razão os transpõe tão facilmente quanto o fogo ascende, a pedra cai ou um cilindro desce por um plano inclinado. Não busque mais nada.
Entraves impedem apenas o corpo — um cadáver. Exceto se assim opinar ou se renunciar à razão, não esmagam nem danificam. Se esmagassem, quem fosse danificado se tornaria pior. Mas, ao passo que os demais entes pioram quando são danificados, o homem se torna melhor e mais elogiável quando emprega esse “dano” com destreza.
Por fim, recorde-se: se não deteriora um cidadão genuíno, não deteriora o estado. Se não afeta o estado, não afeta a lei. Nenhum entrave infringe a lei. Logo, se não fere a lei, não fere o cidadão ou o estado.

Marco Aurélio, em Meditações

Factótum



6

Na segunda-feira eu estava de ressaca. Fiz a barba e fui atrás de um anúncio que vi no jornal. Me sentei, e do outro lado estava o editor, um homem de mangas curtas e depressões profundas ao redor dos olhos. Parecia que ele não dormia há uma semana. Lá dentro era frio e escuro. Era a sala de montagem de um dos dois jornais da cidade, o menor deles. Homens estavam sentados em mesas sob lâmpadas de leitura, trabalhando com cópias.
Doze dólares por semana — propôs ele.
Tudo bem — respondi —, eu topo.
Eu trabalhava com um homenzinho gordo que tinha uma barriga nada saudável. Ele usava um relógio de bolso antiquado, preso em uma corrente dourada, vestia colete e um boné verde, tinha lábios grossos e uma expressão carnosa e sombria. As linhas do rosto não eram interessantes e sequer tinham personalidade; a cara parecia ter sido dobrada várias vezes e depois alisada, como se fosse um pedaço de papelão. Usava sapatos quadrados bregas e mascava tabaco, cuspindo o sumo em uma escarradeira no chão.
O sr. Belger — disse ele sobre o homem que precisava dormir — trabalhou duro para erguer este jornal. Ele é um bom homem. Estávamos à beira da falência até ele aparecer.
Ele me deu uma olhada. — Normalmente dão esse emprego para um estagiário.
Um sapo, pensei, é o que ele é, isso, sim.
Quero dizer — explicou —, esse trabalho costuma ser dado a um estudante. Ele pode estudar enquanto espera uma ligação. Você estuda?
Não.
Esse trabalho em geral é para quem estuda.
Voltei para a minha sala e sentei. Estava abarrotada de fileiras e fileiras de gavetas de metal, e dentro delas ficavam as gravuras em zinco que tinham sido usadas nos anúncios. Muitas dessas gravuras eram usadas inúmeras vezes. Havia também muitos tipos – com nomes de clientes e logomarcas. O gordo gritava “Chinaski!”, e eu ia ver qual anúncio ou que tipo ele queria. Muitas vezes eu era enviado ao jornal concorrente para pegar emprestado alguns dos tipos. Eles também pegavam os nossos. Era uma caminhada agradável, e eu achei um lugar em um beco onde podia tomar um copo de cerveja por alguns centavos. O gordo não me chamava muito, e o lugar da cerveja barata se tornou minha distração. O gordo começou a sentir minha falta. No começo, ele só me olhava com uma cara desagradável, até que um dia me perguntou:
Onde você estava?
Lá fora, tomando uma cerveja.
Este é um trabalho para estudantes.
Eu não sou estudante.
Vou ter que ter que mandá-lo embora. Preciso de alguém que esteja aqui com total disponibilidade.
O gordo me levou até o Belger, que parecia cansado como nunca.
Este é um trabalho para estudantes, sr. Belger. Receio que esse homem não se encaixe. Precisamos de um estudante.
Está bem — disse Belger. O gordo saiu todo estufado da sala.
Quanto te devemos? — perguntou Belger.
Cinco dias.
Certo, leve isso ao RH.
Ouça, Belger, aquele velho miserável é nojento.
Belger suspirou. — Jesus, não me diga?
Desci para o RH.

Charles Bukowski, em Factótum

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Lá do Alto | André Freitas

Calvin

1613 – Londres

Shakespeare

A Companhia de Virgínia está levando a breca na costa do norte da América, sem ouro nem prata, mas por toda Inglaterra circulam seus panfletos de propaganda anunciando que lá os ingleses trocam com os índios pérolas do Céu por pérolas da terra.
Não faz muito que John Donne explorava o corpo de sua amante, em um poema, como quem descobre a América; e Virgínia, o ouro de Virgínia, é o tema central das festas da boda da princesa Isabel. Em honra da filha do rei, representa-se uma dança mascarada de George Chapman que gira ao redor de um grande rochedo de ouro, símbolo de Virgínia ou das ilusões de seus acionistas: o ouro, chave de todos os poderes, segredo da vida perseguido pelos alquimistas, filho do sol como a prata é filha da lua e o cobre nasce de Vênus. Há ouro nas zonas quentes do mundo, onde o sol semeia, generoso, seus raios.
Nas celebrações do casamento da princesa, também estreia uma obra de William Shakespeare, A Tempestade, inspirada no naufrágio de um barco da Companhia de Virgínia nas Bermudas. O grande criador de almas e maravilhas situa esta vez seu drama em uma ilha do Mediterrâneo que mais parece do mar Caribe. Ali o duque Próspero encontra Calibã, filho da bruxa Sycorax, adoradora do deus dos índios da Patagônia. Calibã é um selvagem, um desses índios que Shakespeare viu em alguma exibição de Londres: coisa da escuridão, mais animal que homem, não aprende outra coisa a não ser amaldiçoar e não tem capacidade de juízo nem sentido de responsabilidade. Só como escravo, ou atado como um macaco, poderia encontrar um lugar na sociedade humana, ou seja, a sociedade europeia, onde não tem nenhum interesse de incorporar-se.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

A palavra



Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito — como não imaginar que, sem querer, feri alguém? Às vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade surda, ou uma reticência de mágoas. Imprudente ofício é este, de viver em voz alta.
Às vezes, também a gente tem o consolo de saber que alguma coisa que se disse por acaso ajudou alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com a sua vida de cada dia; a sonhar um pouco, a sentir uma vontade de fazer alguma coisa boa.
Agora sei que outro dia eu disse uma palavra que fez bem a alguém. Nunca saberei que palavra foi; deve ter sido alguma frase espontânea e distraída que eu disse com naturalidade porque senti no momento — e depois esqueci.
Tenho uma amiga que certa vez ganhou um canário, e o canário não cantava. Deram-lhe receitas para fazer o canário cantar; que falasse com ele, cantarolasse, batesse alguma coisa ao piano; que pusesse a gaiola perto quando trabalhasse em sua máquina de costura; que arranjasse para lhe fazer companhia, algum tempo, outro canário cantador; até mesmo que ligasse o rádio um pouco alto durante uma transmissão de jogo de futebol... mas o canário não cantava.
Um dia a minha amiga estava sozinha em casa, distraída, e assobiou uma pequena frase melódica de Beethoven — e o canário começou a cantar alegremente. Haveria alguma secreta ligação entre a alma do velho artista morto e o pequeno pássaro cor de ouro?
Alguma coisa que eu disse distraído — talvez palavras de algum poeta antigo — foi despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se a gente soubesse que de repente, num reino muito distante, uma princesa muito triste tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração do povo; iluminasse um pouco as suas pobres choupanas e as suas remotas esperanças.

Rubem Braga, em Ai de ti, Copacabana

A poesia, a salvação e a vida

Seo Raul tem uma calça azul-pavão
e atravessa a rua de manhã
pra dar risada com o vizinho.
Negro bom.
O azul da calça de seo Raul
parece foi pintado por pintor;
mais é uma cor que uma calça.
Eu fico pensando:
o que é que a calça azul de seo Raul
tem que ver com o momento
em que Pilatos decide a inscrição
JESUS NAZARENUS REX JUDEORUM.
Eu não sei o que é,
mas sei que existe um grão de salvação
escondido nas coisas deste mundo.
Senão, como explicar:
o rosto de Jesus tem manchas roxas,
reluz o broche de bronze
que prende as capas nos ombros dos soldados romanos.
O raio fende o céu: amarelo-azul profundo.
Os rostos ficam pálidos, a cor da terra,
a cor do sangue pisado.
De que cor eram os olhos do centurião convertido?
A calça azul de seo Raul
pra mim
faz parte da Bíblia.

Adélia Prado, em O Coração Disparado

O autor como leitor



Uma noite, no primeiro século da era cristã, Caio Plínio Cecílio Segundo (conhecido pelos futuros leitores como Plínio, o Jovem, para distingui-lo de seu erudito tio, Plínio, o Velho, que morreu na erupção do monte Vesúvio em 79 d.C.) saiu de casa de um amigo romano cheio de justificada cólera. Assim que chegou ao seu gabinete, sentou-se e, para ordenar os pensamentos (ou talvez de olho no volume de cartas que reuniria e publicaria mais tarde), escreveu ao advogado Cláudio Restituto sobre os acontecimentos daquela noite.
Acabei de sair indignado de uma leitura na casa de um amigo meu e sinto que preciso escrever-te neste instante, já que não posso falar-te pessoalmente. O texto que leram era exatamente polido, de qualquer ângulo que se considere, mas duas ou três pessoas espirituosas – ou que assim se julgam – escutaram-no como se fossem surdos-mudos. Em nenhum momento abriram os lábios, ou moveram as mãos, ou mesmo esticaram as pernas para mudar de posição. Qual o objetivo dessa conduta e cultura sóbria, ou, antes, dessa indolência e presunção, dessa falta de tato e bom senso que leva alguém a passar o dia inteiro sem fazer outra coisa senão causar desgosto e transformar em inimigo o querido amigo que se veio ouvir?”
É um pouco difícil para nós, a uma distância de vinte séculos, compreender a consternação de Plínio. Em sua época, a leitura feita por autores tornara-se uma cerimônia social da moda, e, como em qualquer cerimônia, havia uma etiqueta estabelecida para autores e ouvintes. Dos ouvintes, esperava-se que oferecessem uma reação crítica, com base na qual o autor aperfeiçoaria o texto – motivo pelo qual Plínio ficou tão ultrajado com a impassibilidade da plateia; ele próprio apresentava às vezes uma primeira versão de um discurso a um grupo de amigos e depois fazia alterações de acordo com a reação deles. Além disso, esperava-se que os ouvintes ficassem até o fim da apresentação, independentemente do tempo que durasse, de forma a não perder nenhuma parte da obra, e Plínio julgava que quem usava as leituras como mera diversão social não valia muito mais que um desordeiro. Escreveu furioso para outro amigo: “A maioria deles senta-se na sala de espera, perdendo tempo em vez de prestar atenção e pedindo aos seus servos que lhes digam a toda hora se o leitor chegou e já leu a introdução, ou se chegou ao fim da leitura. Somente então, e com a maior relutância, arrastam-se para dentro. E não ficam muito tempo, e saem antes do fim, alguns tentando escapar despercebidos, outros saindo sem pejo. [...] Mais louvor e honra merecem aqueles cujo amor pela escrita e leitura em voz alta não se deixa afetar pelos maus modos e arrogância da plateia”.
O autor também estava obrigado a seguir certas regras se quisesse ter sucesso em suas leituras, pois havia toda espécie de obstáculo a ser superado. Antes de mais nada, era preciso encontrar um local de leitura apropriado. Homens abastados imaginavam-se poetas e, em opulentas casas de campo, recitavam suas obras para um grande número de conhecidos - no auditorium, uma sala construída especialmente com esse objetivo.
Alguns desses poetas ricos, como Ticínio Capito, eram generosos e emprestavam seus auditórios para as apresentações de outros, mas a maioria desses espaços de recital era de uso exclusivo dos proprietários. Uma vez reunidos os amigos no local designado, o autor tinha de encará-los de uma cadeira colocada sobre um tablado, usando uma toga nova e exibindo todos os seus anéis. Segundo Plínio, esse costume atrapalhava-o duplamente: “ele se encontra em grande desvantagem pelo mero fato de ficar sentado, embora possa ser tão bem-dotado quanto oradores que ficam de pé” e tem”"os dois principais auxiliares de sua elocução, isto é, olhos e mãos”, ocupados em segurar o texto.
As habilidades oratórias eram, portanto, essenciais. Ao elogiar o desempenho de um leitor, Plínio observou que “ele mostrou uma versatilidade adequada ao elevar e baixar o tom e a mesma agilidade na passagem de temas elevados para inferiores, do simples para o complexo ou de assuntos mais leves para mais graves. A voz notavelmente agradável foi outra vantagem, realçada pela modéstia, pelos rubores e pelo nervosismo, que sempre acrescentam encanto a uma leitura. Não sei por quê, mas a timidez cai melhor num autor do que a segurança”.
Aqueles que tinham dúvidas sobre suas habilidades de leitor podiam recorrer a certos estratagemas. O próprio Plínio, confiante quando lia discursos, mas inseguro sobre sua capacidade de ler versos, teve a seguinte ideia para uma noitada de suas poesias, comunicada por carta ao amigo Suetônio, o autor de Vida dos doze Césares: “Estou planejando fazer uma leitura informal para alguns amigos e penso em utilizar um de meus escravos. Não darei grandes mostras de civilidade a meus amigos, pois o homem que escolhi não é realmente um bom leitor, mas acho que será melhor do que eu, uma vez que não é tão nervoso. [...] A questão é: o que devo fazer enquanto ele estiver lendo?
Devo sentar-me quieto e silencioso como um espectador, ou comportar-me como algumas pessoas e repetir as palavras dele com meus lábios, olhos e gestos?”. Não sabemos se Plínio ofereceu naquela noite uma das primeiras apresentações de leitura labial sincronizada da história.
Muitas dessas leituras devem ter parecido intermináveis. Plínio compareceu a uma que durou três dias. (Essa leitura, em particular, não parece tê-lo aborrecido, talvez porque o leitor anunciara à plateia: “Mas que me importam os poetas do passado, se conheço Plínio?”.) Indo de várias horas à metade de uma semana, as leituras públicas tornaram-se quase inevitáveis para quem quisesse ser conhecido como autor. Horácio queixava-se de que os leitores educados já não pareciam de fato interessados nos escritos de um poeta, tendo “transferido todo o prazer do ouvido para as delícias vazias e fugazes do olho”.
Marcial ficou tão farto de aturar poetastros ansiosos por ler suas obras em voz alta que desabafou:

Pergunto-te: quem pode suportar esse afã?
Lês para mim quando estou de pé,
Lês para mim quando estou sentado,
Lês para mim quando estou correndo,
Lês para mim quando estou cagando.

Plínio, no entanto, aprovava a leitura dos autores e via nelas os sinais de uma nova idade de ouro literária. “Dificilmente tivemos um dia em abril em que não houvesse alguém fazendo uma leitura pública”, observou satisfeito. “Estou encantado por ver a literatura florescer e o talento vicejar.” As gerações futuras discordaram do veredicto de Plínio e decidiram esquecer o nome da maioria desses poetas declamadores.
Contudo, se fosse destino de alguém ficar famoso graças a essas leituras públicas, um autor não precisava mais esperar a morte para ser consagrado. Plínio escreveu a seu amigo Valério Paulino: “As opiniões divergem, mas minha ideia de um homem verdadeiramente feliz é aquele que desfruta antecipadamente de uma boa e duradoura reputação e, confiante no veredicto da posteridade, vive na certeza da fama que virá”. A fama no presente era importante para ele. Ficava encantado quando alguém nas corridas achava que o escritor Tácito (a quem admirava muito) poderia ser Plínio. “Se Demóstenes teve o direito de se deleitar quando a velha da Ática o reconheceu com as palavras ‘aquele é Demóstenes’, eu certamente posso ficar contente ao ver meu nome bem conhecido. Na verdade, estou contente e admito isso.” Sua obra foi publicada e lida, até mesmo nos confins de Lugdunum (Lyon). A outro amigo, escreveu: “Não pensei que houvesse livreiros em Lugdunum, portanto fiquei ainda mais satisfeito ao saber por sua carta que minhas obras estão à venda. Fico contente que tenham no exterior a popularidade que conquistaram em Roma e estou começando a pensar que minha obra deve ser realmente boa, ao ver que a opinião pública de lugares tão diferentes concorda sobre ela”. Porém, agradava-lhe muito mais o louvor de uma plateia de ouvintes do que a aprovação silenciosa de leitores anônimos.
Plínio sugeriu várias razões pelas quais a leitura em público constituía um exercício benéfico. A celebridade era sem dúvida um fator muito importante, mas havia também o prazer de ouvir a própria voz. Ele justificava essa autocomplacência observando que a audição de um texto levava a plateia a comprar a peça publicada, causando assim uma demanda que satisfaria tanto os autores quanto os editores-livreiros. Na sua concepção, ler em público era a melhor maneira de um autor obter público. Na verdade, a leitura pública era em si mesma uma forma rudimentar de divulgação.
Como observou corretamente Plínio, ler em público era uma representação, um ato executado por todo o corpo para que outros percebessem. O autor que lê em público - naquela época como agora recobra as palavras com certos sons e interpreta-as com certos gestos; essa performance dá ao texto um tom que (supostamente) é aquele que o autor tinha em mente no momento da criação e, portanto, concede ao ouvinte a sensação de estar perto das intenções do autor; ela dá também ao texto um selo de autenticidade.
Mas, ao mesmo tempo, a leitura do autor deturpa o texto, melhorando-o (ou empobrecendo-o) com a interpretação. O romancista canadense Robertson Davies acrescentava camadas e mais camadas de caracterização durante as leituras, antes interpretando do que recitando sua ficção. A romancista francesa Nathalie Sarraute, ao contrário, lê numa monotonia que não faz jus aos seus textos líricos. Dylan Thomas cantava sua poesia, batendo nas tônicas como gongos e deixando pausas enormes. Eliot resmungava seus poemas como se fosse um vigário rabugento amaldiçoando seu rebanho.
Ao ser lido para uma plateia, um texto não é determinado exclusivamente pela relação entre suas características intrínsecas e aquelas de seu público arbitrário, sempre diferente, uma vez que os membros desse público não têm mais a liberdade (como os leitores comuns teriam) de voltar, reler, retardar e dar ao texto sua própria entonação conotativa. Ao contrário, ele se torna dependente do autor-intérprete, que assume o papel de leitor dos leitores, a encarnação presuntiva de cada membro da plateia cativa da leitura, ensinando-lhes o modo de ler As leituras de autores podem se tornar profundamente dogmáticas.
As leituras públicas não foram exclusividade de Roma. Os gregos liam em público. Cinco séculos antes de Plínio, por exemplo, Heródoto lia sua obra nos festivais olímpicos, onde se reunia uma grande e entusiástica plateia vinda de toda a Grécia; evitava-se assim viajar de cidade em cidade. Mas, no século VI, as leituras públicas cessaram efetivamente, porque parecia não haver mais um “público educado”. A última descrição conhecida de uma platéia romana numa leitura pública está nas cartas do poeta cristão Apolinário Sidônio, escritas na segunda metade do século V. Àquela altura, como Sidônio lamenta, o latim tornara-se uma língua especializada, estrangeira, “a linguagem da liturgia, das chancelarias e de uns poucos eruditos”. Por ironia, a Igreja cristã, que adotara o latim para difundir o evangelho entre “todos os homens em todos os lugares”, percebeu que essa língua se tornara incompreensível para a vasta maioria do rebanho. O latim passou a ser parte do “mistério” da Igreja, e, no século XI, apareceu o primeiro dicionário de latim, como forma de ajudar os estudantes e noviços para quem esse idioma não era mais a língua materna.
Mas os autores continuaram precisando do estímulo de um público imediato. No final do século XIII, Daute sugeria que a “língua vulgar” – isto é, o vernáculo – era ainda mais nobre que o latim, por três motivos: era a primeira língua falada por Adão e Eva; era “natural”, enquanto o latim era “artificial”, pois aprendido apenas nas escolas; e era universal, uma vez que todos os homens falavam uma língua vulgar e somente uns poucos sabiam latim. Embora essa defesa da língua vulgar fosse escrita, paradoxalmente, em latim, é provável que, mais para o fim da vida, na corte de Guido Novel o da polenta, em Ravena, Dante tenha lido trechos de sua Comédia na “língua vulgar” que defendera de forma tão eloquente. O certo é que, nos séculos XIV e XV, as leituras por autores voltaram a ser comuns; há muitos exemplos na literatura, tanto secular quanto religiosa.
Em 1309, Jean de Joinville dedicou sua Vida de são Luís a “vós e vossos irmãos que a ouvirão ser lida”. No final do século XIV, o historiador francês Froissart enfrentou tempestades em plena noite durante seis longas semanas de inverno para ler seu romance Méliador para o insone conde du Blois. O príncipe e poeta Charles d'Orléans, aprisionado pelos ingleses em Agincourt, em 1415, escreveu numerosos poemas durante um longo cativeiro, e, após ser libertado, em 1440, leu-os para a corte de Blois em noitadas literárias para as quais outros poetas, como François Villon, eram convidados. La Celestina, de Fernando de Rojas. deixava claro em sua introdução de 1499 que a comprida peça (ou romance em forma de peça de teatro) destinava-se a ser lida em voz alta "quando umas dez pessoas se reúnem para ouvir essa comédia"; é provável que o autor (de quem sabemos muito pouco, exceto que era um judeu convertido e pouco ansioso por chamar para sua obra a atenção da Inquisição) tivesse apresentado previamente a "comédia" a seus amigos. Em janeiro de 1507, Ariosto leu seu inacabado Orlando furioso para a convalescente Isabela Gonzaga, “fazendo com que dois dias se passassem não somente sem tédio, mas com todo o prazer”. E Geoffrey Chaucer, cujos livros estão cheios de referências à literatura lida em voz alta, certamente leu sua obra para uma plateia atenta.

[…]

Alberto Manguel, em Uma História da Leitura

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O Lado Quente do Ser | Maria Bethânia

A Metamorfose [excerto inicial]


Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posição e estava a ponto de escorregar. Comparadas com o resto do corpo, as inúmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se desesperadamente diante de seus olhos.
Que me aconteceu ? — pensou. Não era nenhum sonho. O quarto, um vulgar quarto humano, apenas bastante acanhado, ali estava, como de costume, entre as quatro paredes que lhe eram familiares. Por cima da mesa, onde estava deitado, desembrulhada e em completa desordem, uma série de amostras de roupas: Samsa era caixeiro-viajante, estava pendurada a fotografia que recentemente recortara de uma revista ilustrada e colocara numa bonita moldura dourada. Mostrava uma senhora, de chapéu e estola de peles, rigidamente sentada, a estender ao espectador um enorme regalo de peles, onde o antebraço sumia! Gregório desviou então a vista para a janela e deu com o céu nublado — ouviam-se os pingos de chuva a baterem na calha da janela e isso o fez sentir-se bastante melancólico. Não seria melhor dormir um pouco e esquecer todo este delírio? — cogitou. Mas era impossível, estava habituado a dormir para o lado direito e, na presente situação, não podia virar-se. Por mais que se esforçasse por inclinar o corpo para a direita, tornava sempre a rebolar, ficando de costas. Tentou, pelo menos, cem vezes, fechando os olhos, para evitar ver as pernas a debaterem-se, e só desistiu quando começou a sentir no flanco uma ligeira dor entorpecida que nunca antes experimentara. Oh, meu Deus, pensou, que trabalho tão cansativo escolhi! Viajar, dia sim, dia não. É um trabalho muito mais irritante do que o trabalho do escritório propriamente dito, e ainda por cima há ainda o desconforto de andar sempre a viajar, preocupado com as ligações dos trens, com a cama e com as refeições irregulares, com conhecimentos casuais, que são sempre novos e nunca se tornam amigos íntimos. Diabos levem tudo isto! Sentiu uma leve comichão na barriga; arrastou-se lentamente sobre as costas, — mais para cima na cama, de modo a conseguir mexer mais facilmente a cabeça, identificou o local da comichão, que estava rodeado de uma série de pequenas manchas brancas cuja natureza não compreendeu no momento, e fez menção de tocar lá com uma perna, mas imediatamente a retirou, pois, ao seu contato, sentiu-se percorrido por um arrepio gela- do. Voltou a deixar-se escorregar para a posição inicial. Isto de levantar cedo, pensou, deixa a pessoa estúpida. Um homem necessita de sono. Há outros comerciantes que vivem como mulheres de harém. Por exemplo, quando volto para o hotel, de manhã, para tomar nota das encomendas que tenho, esses se limitam a sentar-se à mesa para o pequeno almoço. Eu que tentasse sequer fazer isso com o meu patrão: era logo despedido. De qualquer maneira, era, capaz de ser bom para mim — quem sabe? Se não tivesse de me aguentar, por causa dos meus pais, há muito tempo que me teria despedido; iria ter com o patrão e lhe falar exatamente o que penso dele. Havia de cair ao comprido em cima da secretária! Também é um hábito esquisito, esse de se sentar a uma secretária em plano elevado e falar para baixo para os empregados, tanto mais que eles têm de aproximar-se bastante, porque o patrão é ruim de ouvido. Bem, ainda há uma esperança; depois de ter economizado o suficiente para pagar o que os meus pais lhe devem — o que deve levar outros cinco ou seis anos —, faço-o, com certeza. Nessa altura, vou me libertar completamente. Mas, para agora, o melhor é me levantar, porque o meu trem parte às cinco.
Olhou para o despertador, que fazia tique-taque na cômoda. Pai do Céu! — pensou. Eram seis e meia e os ponteiros moviam-se em silêncio, até passava da meia hora, era quase um quarto para as sete. O despertador não teria tocado? Da cama, via-se que estava corretamente regulado para as quatro; claro que devia ter tocado. Sim, mas seria possível dormir sossegadamente no meio daquele barulho que trespassava os ouvidos? Bem, ele não tinha dormido sossegadamente; no entanto, aparentemente, se assim era, ainda devia ter sentido mais o barulho. Mas que faria agora? o próximo trem saía às sete; para o apanhar tinha de correr como um doido, as amostras ainda não estavam embrulhadas e ele próprio não se sentia particularmente fresco e ativo. E, mesmo que apanhasse o trem, não conseguiria evitar uma reprimenda do chefe, visto que o porteiro da firma havia de ter esperado o trem das cinco e há muito teria comunicado a sua ausência. O porteiro era um instrumento do patrão, invertebrado e idiota. Bem, suponhamos que dizia que estava doente? Mas isso seria muito desagradável e pareceria suspeito, porque, durante cinco anos de emprego, nunca tinha estado doente. O próprio patrão certamente iria lá a casa com o médico da Previdência, repreenderia os pais pela preguiça do filho e poria de parte todas as desculpas, recorrendo ao médico da Previdência, que, evidentemente, considerava toda a humanidade um bando de falsos doentes perfeitamente saudáveis. E enganaria assim tanto desta vez? Efetivamente, Gregório sentia-se bastante bem, à parte uma sonolência que era perfeitamente supérflua depois de um tão longo sono, e sentia-se mesmo esfomeado.
À medida que tudo isto lhe passava pela mente a toda a velocidade, sem ser capaz de resolver a deixar a cama — o despertador acabava de indicar um quarto para as sete, ouviram-se pancadas cautelosas na porta que ficava por detrás da cabeceira da cama.
Gregório — disse uma voz, que era a da mãe, é um quarto para as sete. Não tem de apanhar o trem?
Aquela voz suave! Gregório teve um choque ao ouvir a sua própria voz responder-lhe, inequivocamente a sua voz, é certo, mas com um horrível e persistente guincho chilreante como fundo sonoro, que apenas conservava a forma distinta das palavras no primeiro momento, após o que subia de tom, ecoando em torno delas, até destruir-lhes o sentido, de tal modo que não podia ter-se a certeza de tê-las ouvido corretamente. Gregório queria dar uma resposta longa, explicando tudo, mas, em tais circunstâncias, limitou-se a dizer:
Sim, sim, obrigado, mãe, já vou levantar.
A porta de madeira que os separava devia ter evitado que a sua mudança de voz fosse perceptível do lado de fora, pois a mãe contentou-se com esta afirmação, afastando-se rapidamente. Esta breve troca de palavras tinha feito os outros membros da família notarem que Gregório estava ainda em casa, ao contrário do que esperavam, e agora o pai batia a uma das portas laterais, suavemente, embora com o punho.
Gregório, Gregório — chamou —, o que você tem?
E, passando pouco tempo depois, tornou a chamar, com voz mais firme:
Gregório! Gregório!
Junto da outra porta lateral, a irmã chamava, em tom baixo e quase lamentoso:
Gregório? Não se sente bem? Precisa de alguma coisa?
Respondeu a ambos ao mesmo tempo:
Estou quase pronto — e esforçou-se o máximo por que a voz soasse tão normal quanto possível, pronunciando as palavras muito claramente e deixando grandes pausas entre elas. Assim, o pai voltou ao breve almoço, mas a irmã segredou:
Gregório, abre esta porta, anda.
Ele não tencionava abrir a porta e sentia-se grato ao prudente hábito que adquirira em viagem de fechar todas as portas à chave durante a noite, mesmo em casa.
A sua intenção imediata era levantar-se silenciosamente sem ser incomodado, vestir-se e, sobretudo, tomar o breve almoço, e só depois estudar que mais havia a fazer, dado que na cama, bem o sabia, as suas meditações não levariam a qualquer conclusão sensata. Lembrava-se de muitas vezes ter sentido pequenas dores enquanto deitado, provavelmente causadas por posições incômodas, que se tinham revelado puramente imaginárias ao levantar-se, e ansiava fortemente por ver as ilusões desta manhã desfazerem-se gradualmente. Não tinha a menor dúvida de que a alteração da sua voz outra coisa não era que o prenúncio de um forte resfriado, doença permanente dos caixeiros-viajantes.
Libertar-se da colcha era tarefa bastante fácil: bastava-lhe inchar um pouco o corpo e deixá-la cair por si. Mas o movimento seguinte era complicado, especialmente devido à sua invulgar largura. Precisaria de braços e mãos para erguer-se; em seu lugar, tinha apenas as inúmeras perninhas, que não cessavam de agitar-se em todas as direções e que de modo nenhum conseguia controlar. Quando tentou dobrar uma delas, foi a primeira a esticar-se, e, ao conseguir finalmente que fizesse o que ele queria, todas as outras pernas abanavam selvaticamente, numa incômoda e intensa agitação. Mas de que serve ficar na cama assim sem fazer nada, perguntou Gregório a si próprio.
Pensou que talvez conseguisse sair da cama deslocando em primeiro lugar a parte inferior do corpo, mas esta, que não tinha visto ainda e da qual não podia ter uma ideia nítida, revelou-se difícil de mover, tão lentamente se deslocava; quando, finalmente, quase enfurecido de contrariedade, reuniu todas as forças e deu um temerário impulso, tinha calculado mal a direção e embateu pesadamente na extremidade inferior da cama, revelando-lhe a dor aguda que sentiu ser provavelmente aquela, de momento, a parte mais sensível do corpo.
[...]

Franz Kafka, em A Metamorfose

A menina de outro meio




1

A guerra com o Japão ainda não terminara. Inesperadamente, ela foi encoberta por outros acontecimentos. Pela Rússia passavam ondas da revolução, uma maior que a outra e jamais vistas.
Nesta época, chegou a Moscou, procedente dos Urais, a viúva de um engenheiro belga, uma francesa russificada por conta própria, Amália Karlovna Guichard, com seus dois filhos, Rodion e Larissa. O filho ela matriculou na escola de cadetes, e a filha no ginásio feminino, coincidentemente no mesmo ginásio e na mesma turma onde estudava Nádia Kologrivova.
Madame Guichard possuía economias do marido em ações, que antes se valorizavam mas que agora começavam a cair. Para interromper o desaparecimento de seus recursos e para não ficar de braços cruzados, madame Guichard comprou, próximo ao Arco do Triunfo, um pequeno negócio, a confecção de Levitskaia, dos herdeiros da costureira, com o direito de manter na velha empresa os antigos clientes e todas as estilistas e alunas.
Madame Guichard fez isso seguindo o conselho do advogado Komarovski, amigo de seu marido e seu próprio apoio, um negociador de sangue-frio que conhecia a vida empresarial russa como a palma de sua mão. Ela lhe escreveu sobre a mudança. Ele os recepcionou na estação e levou, atravessando toda Moscou, para os quartos mobiliados do Tchernogoria, na travessa Oruzheinaia, onde alugara um deles para madame Guichard.
Ele já havia convencido a viúva a matricular Ródia na escola de cadetes e Lara no ginásio que recomendou. Com descortesia, caçoava do menino e olhava para a menina de tal maneira, que ela ruborizava.

2

Antes de se instalar no pequeno apartamento de três quartos, anexo à confecção, eles moraram aproximadamente três meses no Tchernogoria.
Era um dos lugares mais terríveis de Moscou, antro de ladrões, ruas inteiras entregues à promiscuidade, cortiços de “seres perdidos”.
Nem as pulgas e a mediocridade do mobiliário, nem a sujeira nos quartos, impressionavam as crianças. Depois da morte do pai delas, a mãe vivia com medo constante do empobrecimento. Ródia e Lara cansavam-se de ouvir que estavam à beira da ruína. Eles sabiam que não eram crianças de rua, mas sentiam um profundo medo dos ricos, como os pupilos de orfanatos.
O exemplo vivo deste medo era infundido neles pela própria mãe. Amália Karlovna era uma loira roliça de uns 35 anos; nela, aos ataques do coração sucediam-se ataques de tolices. Era uma tremenda medrosa e morria de medo dos homens. Por isso mesmo, por susto e confusão, ela passava de mão em mão, a toda hora.
No Tchernogoria eles ocupavam o quarto 23 e no 24, desde a inauguração do hotel, morava o violoncelista Tichkevitch, um bonachão suado e careca que usava peruca e que juntava as mãos como em uma oração e as apertava contra o peito, quando tentava convencer alguém; jogava a cabeça para trás e, inspirado, revirava os olhos ao se apresentar nos círculos sociais e em concertos. Ele raramente estava em casa, passava dias inteiros no teatro Bolshoi e no Conservatório. Os vizinhos se conheceram. Favores mútuos os aproximaram.
Como a presença das crianças às vezes intimidava Amália Karlovna durante as visitas de Komarovski, Tichkevitch passou a deixar com ela a chave de seu quarto para que pudesse receber seu amigo. Logo madame Guichard se acostumou tanto com o sacrifício dele, que várias vezes bateu em sua porta, pedindo que a defendesse do seu protetor.

3

A casa de um só andar ficava perto da esquina com a Tverskaia. Sentia-se a proximidade da estrada de ferro que levava para Bretsk. Ao lado, ficavam as propriedades, os apartamentos funcionais, o depósito de locomotivas e depósitos em geral.
Lá morava Olia Demina, uma menina inteligente, sobrinha de um dos funcionários da ferrovia Moscou-Tovarnaia.
Ela era uma aluna muito capaz. A velha proprietária era atenciosa com ela e a nova, agora, começou se aproximar. Olia gostava muito de Lara.
Tudo ficou da mesma forma, como na administração de Levitskaia. As máquinas de costura rodavam feito loucas debaixo dos pés que desciam e subiam ou dos braços das costureiras que esvoaçavam. Alguém cosia calmamente, sentada à mesa, esticando o braço com a agulha e a linha comprida. O chão estava coberto de retalhos. Tinham que falar alto para superar o barulho das máquinas e o gorjeio vibrante de Kirill Modestovitch, um canário numa gaiola debaixo da abóbada da janela: o mistério de seu nome a antiga proprietária levou consigo para o túmulo.
Na recepção, um grupo de damas pitorescas cercava a mesa com revistas. Elas ficavam de pé, sentadas ou semi-encostadas, nas poses que viam nas revistas, observavam os modelos, trocavam conselhos sobre os feitios. A uma outra mesa, no lugar da diretora, estava a auxiliar de Amália Karlovna, uma das costureiras responsáveis, Faina Silantievna Fetisova, uma mulher ossuda com verrugas nas cavidades das bochechas flácidas.
Ela segurava a piteira de marfim, com o cigarro entre os dentes amarelados, apertava os olhos também amarelados e, soltando a fumaça amarela pela boca e pelo nariz, anotava no caderno as medidas, os números das notas fiscais, os endereços e as solicitações das clientes.
Amália Karlovna era uma pessoa nova e inexperiente na confecção. Ela não se sentia totalmente como dona. Mas os funcionários eram honestos e podia confiar em Fetisova. Mesmo assim, a época era inquieta. Amália Karlovna tinha medo de pensar no futuro. O desespero tomava conta dela. Tudo caía de suas mãos.
Komarovski frequentemente visitava a confecção. Quando Victor Ippolitovitch passava pela sala de costura, dirigindo-se ao fundo e assustando à sua passagem as damas elegantes que se trocavam e que se escondiam atrás dos biombos, de lá acolhendo em tom brincalhão seus gracejos atrevidos, as costureiras murmuravam pelas costas dele com maliciosa desaprovação: “Deu o ar de sua graça”. “O dela”. “O caso da Amália”. “Garanhão”. “Feiticeiro de mulheres”.
Objeto de grande ódio era ainda o seu buldogue, Jack, que às vezes o acompanhava preso na coleira e que o arrastava atrás de si com trancos tão impetuosos que Komarovski tropeçava, corria para a frente e andava atrás do cachorro com os braços estendidos, como um cego com o seu cão-guia.
Certa vez, na primavera, Jack agarrou-se à perna de Lara e rasgou sua meia.
Vou matar esse desgraçado — murmurou Olia Demina infantilmente no ouvido de Lara.
É realmente um cachorro nojento. Mas como você, sua tolinha, vai fazer isso?
Fale baixo, não grite, vou lhe ensinar. Sabe aqueles ovos de Páscoa de pedra, como os que sua mãe tem em cima da cômoda?
Sei, são de mármore e cristal...
Hã-hã, isso. Abaixe-se, vou lhe dizer no ouvido. Tem que pegar um, deixar de molho na gordura, a gordura vai grudar, então o cão tinhoso o engole, enche a pança e pronto! Patas para o alto! Morreu!
Lara ria, com inveja. A menina vivia passando necessidades, trabalhava. As crianças do povo se desenvolvem mais cedo. No entanto, veja o quanto ainda têm de bom, infantil, ingênuo: ovos, Jack, gordura... de onde vem isso? “Porque meu destino quis assim”, pensava Lara, “que tudo eu veja e com tudo sofra?”
[...]

Boris Pasternak, em Doutor Jivago