quinta-feira, 21 de maio de 2026

Gustavo Vaz | O Novo Sempre Vem

A arte de perder

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subsequente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

Elizabeth Bishop, em Poemas escolhidos, tradução de Paulo Henriques Britto

4 – A perseguição




Os gritos histéricos das mulheres silenciaram, os apitos da polícia pararam de martelar e duas ambulâncias chegaram: uma levou o corpo decapitado e a cabeça cortada para o necrotério, e a outra, a bela motorneira ferida pelos estilhaços de vidro; varredores de aventais brancos limparam os estilhaços de vidro e cobriram as poças de sangue com areia. Já Ivan Nikoláievitch caiu no banco, sem alcançar a catraca, e do jeito que caiu, ficou.
Tentou se levantar várias vezes, mas as pernas não lhe obedeciam — algo parecido à paralisia havia atingido Bezdômny.
O poeta pusera-se a correr até a catraca assim que ouviu o primeiro berro e viu como a cabeça pulava pela calçada. Ele ficou tão enlouquecido por causa disso que caiu sentado no banco e mordeu sua mão até sangrar. É claro que já tinha esquecido o alemão louco e tentava entender só uma coisa: como era possível, agorinha mesmo ele estava falando com Berlioz e, um minuto depois, a cabeça...
Pessoas passavam alvoroçadas, correndo pela aleia diante do poeta, exclamando algo, mas Ivan Nikoláievitch não assimilava suas palavras.
No entanto, ao lado dele duas mulheres se chocaram, do nada, e uma delas, de nariz afilado e cabeça descoberta, gritou assim para a outra mulher, bem no ouvido do poeta:
Ánnuchka, foi a nossa Ánnuchka! Da Sadôvaia! Foi obra dela! Comprou óleo de girassol na mercearia, deixou cair e quebrou um litro sobre a catraca! Emporcalhou a saia toda... E xingou, nossa, xingou tanto! E ele, coitado, deve ter escorregado e caiu nos trilhos...
De tudo que a mulher gritou, só uma palavra grudou no cérebro transtornado de Ivan Nikoláievitch: “Ánnuchka”...
Ánnuchka... Ánnuchka? — balbuciou o poeta, olhando para os lados, aflito. — Espere, espere aí...
À palavra “Ánnuchka” juntaram-se as palavras “óleo de girassol” e então, sabe-se lá por quê, “Pôncio Pilatos”. O poeta descartou Pilatos e passou a fazer as conexões, passou pela palavra “Ánnuchka”. E essa rede de conexões formou-se com rapidez e, no mesmo instante, levou ao professor louco.
Espere aí. Mas foi ele mesmo que disse que não haveria reunião porque Ánnuchka derramaria óleo. E, façam-me o favor, não haverá reunião mesmo! Mas isso não é nada: ele não disse com todas as letras que uma mulher cortaria a cabeça de Berlioz?! Sim, sim, sim! A condutora era uma mulher! O que é isso? Hein?
Não restava sombra de dúvida de que o misterioso consultor sabia com antecedência de toda a cena da terrível morte de Berlioz. Dois pensamentos atravessaram o cérebro do poeta. O primeiro: “Ele não tem nada de louco! É tudo bobagem.” E o segundo: “Será que não foi ele mesmo que armou isso tudo?”
Muito bem, mas me permitam perguntar: como assim?
Ah, não! Isso é o que vamos descobrir.
Fazendo um tremendo esforço, Ivan Nikoláievitch levantou-se do banco e correu de volta, para onde conversara com o professor. Felizmente, ele ainda não havia ido embora.
As luzes na Brônnaia já estavam acesas e sobre Patriarchi a lua dourada brilhava. À luz da lua, que sempre engana, pareceu a Ivan Nikoláievitch que o professor estava de pé segurando embaixo do braço não sua bengala, mas uma espada.
O regente aposentado e embromador estava sentado no mesmíssimo lugar onde ainda há pouco estava o próprio Ivan Nikoláievitch. Agora, o regente prendeu no nariz um pincenê visivelmente desnecessário, já que faltava uma das lentes e a outra estava rachada. Com isso, o cidadão de xadrez tornou-se ainda mais torpe do que no momento em que indicou a Berlioz o caminho para os trilhos.
Com o coração gelado, Ivan aproximou-se do professor e, encarando-o bem de perto, convenceu-se de que ali não havia nem houvera nenhum sinal de loucura.
Confesse, quem é o senhor? — perguntou Ivan, inaudível.
O estrangeiro franziu o cenho, lançou um olhar como se estivesse vendo o poeta pela primeira vez e respondeu com antipatia:
Não entender... não falar russo...
Ele não entende! — intrometeu-se o regente que estava sentado no banco, apesar de ninguém ter lhe pedido para explicar as palavras do estrangeiro.
Não finja! — disse Ivan ameaçadoramente, e sentiu um frio na barriga. — Agora mesmo estava falando russo perfeitamente. O senhor não é alemão e muito menos professor! O senhor é um assassino e espião! Seus documentos! — gritou Ivan furioso.
O enigmático professor entortou a boca, que já era torta, com aversão, e deu de ombros.
Cidadão! — de novo intrometeu-se o abominável regente. — Por que é que o senhor está incomodando o turista estrangeiro? Será severamente castigado por isso! — E o suspeito professor fez cara de soberba, deu as costas para Ivan e foi embora.
Ivan sentiu que estava confuso. Sufocando, dirigiu-se para o regente:
Ei, cidadão, ajude-me a prender o criminoso! É sua obrigação!
Extremamente animado, o regente saltou e vociferou:
Que criminoso? Onde ele está? Um criminoso estrangeiro? — Seus olhinhos faiscaram, radiantes. — Este? Se ele for criminoso, em primeiro lugar deve-se gritar “Socorro!”, senão ele vai embora. Então, vamos, juntos! De uma vez! — nesse instante o falso regente escancarou a goela.
Perplexo, Ivan obedeceu ao regente espertalhão e gritou “Socorro!”, mas este o enganou e nada gritou.
O grito solitário e rouco de Ivan não trouxe bons resultados. Duas moças se afastaram dele bruscamente, saltando para o lado, e ele ouviu a palavra “bêbado”.
Ah, então é isso, vocês estão mancomunados! — gritou Ivan, afundando em ira. — O que há com você, está me ridicularizando? Deixe-me em paz!
Ivan inclinou-se para a direita, e o regente também foi para a direita. Ivan foi para a esquerda, e o desgraçado o seguiu para o mesmo lado.
Está no meu pé de propósito? — gritou Ivan, virando bicho. — Eu mesmo vou entregar você à polícia!
Ivan fez uma tentativa de agarrar o canalha pela manga, mas errou o alvo e não pegou absolutamente nada. O regente sumiu como que por encanto.
Ivan ficou boquiaberto, olhou para longe e avistou o odioso desconhecido. Ele já estava na saída para a travessa Patriarchi, e não estava só. O mais do que duvidoso regente tinha conseguido se juntar a ele. Mas isso não era tudo: o terceiro desse bando era um gato, enorme como um porco castrado, preto como fuligem ou como uma gralha, que surgiu sabe-se lá de onde, com arrojados bigodes de cavalaria. A troica marchava na travessa Patriarchi e mais: o gato se movimentava nas duas patas traseiras.
Ivan precipitou-se atrás dos miseráveis e, no mesmo instante, convenceu-se de que seria muito difícil alcançá-los.
Num átimo, a troica cruzou a travessa e apareceu na Spiridônovka. Por mais que Ivan acelerasse o passo, não diminuía em nada a distância entre ele e os perseguidos. E, antes que o poeta pudesse cair em si, logo depois da silenciosa Spiridônovka, já se encontrava em Nikítskie Vorotá, onde sua situação se agravou. Ali havia uma multidão, Ivan esbarrou em um transeunte, foi xingado. Ainda por cima, a quadrilha de facínoras resolveu aplicar o método preferido dos bandidos: separar-se durante a fuga.
Com muita astúcia, o regente pegou um ônibus em movimento, que voava para a praça Arbat, e desapareceu. Depois de perder de vista um dos perseguidos, Ivan concentrou sua atenção no gato e viu como esse estranho animal aproximou-se do estribo do bonde “A”, parado em um ponto. Afugentou de forma insolente uma mulher que gritava, agarrou-se ao corrimão e fez até mesmo uma tentativa de enfiar uma moeda de dez copeques na mão da condutora pela janela aberta.
O comportamento do gato impressionou tanto Ivan que ele ficou paralisado perto da mercearia da esquina. E se impressionou ainda mais com a reação da condutora. A mulher, assim que avistou o gato se metendo no bonde, gritou com uma perversidade que a fazia até mesmo tremer:
Proibido para gatos! Proibido entrar com gatos! Chispa! Desça, senão vou chamar a polícia!
Nem a condutora nem os passageiros ficaram impressionados com o ponto crucial da questão: o fato de que um gato estivesse subindo num bonde não era nada, mas sim que ele tivesse a intenção de pagar a passagem!
O gato revelou não só ter dinheiro, mas também ser um animal disciplinado. Ao primeiro grito da condutora, ele cessou a ofensiva, desceu do estribo, sentou-se no ponto e pôs-se a alisar os bigodes com a moeda. Mas, assim que a condutora puxou a corda e o bonde arrancou, o gato agiu como qualquer outra pessoa que era expulsa do bonde, mas tinha de fazer a viagem de qualquer jeito. Depois de deixar passar na sua frente todos os três vagões, o gato saltou no aro traseiro do último, agarrou-se com a pata num cano que saía de uma das janelas e deu o fora, economizando, assim, dez copeques.
Ocupado com o gato asqueroso, Ivan quase perdeu o principal dos três, o professor. Mas, felizmente, ele não havia conseguido escapar. Ivan avistou a boina cinza bem no meio, no início da rua Bolcháia Nikítskaia, ou rua Hertzen. Num abrir e fechar de olhos, o próprio Ivan estava lá. No entanto, não teve sorte. O poeta apressava o passo, corria a trote, empurrando os transeuntes, mas não se aproximava um centímetro sequer do professor.
Por mais que Ivan estivesse transtornado, mesmo assim ficava impressionado com a velocidade sobrenatural com a qual a perseguição transcorria. Não haviam passado nem vinte segundos após deixar Nikítskie Vorotá, e Ivan Nikoláievitch já era ofuscado pelas luzes da praça Arbat. Mais alguns segundos, e lá estava uma travessa escura com calçadas tortuosas, onde Ivan Nikoláievitch levou um tombo e arrebentou o joelho. De novo uma via iluminada — a rua Kropôtkin, depois uma travessa, depois a Ostôjenka e mais uma travessa desalentada, nojenta e mal iluminada. E foi ali que Ivan Nikoláievitch perdeu definitivamente aquele de quem tanto precisava. O professor desaparecera.
Ivan Nikoláievitch ficou perturbado, mas por pouco tempo, pois de repente percebeu que o professor deveria estar, sem dúvida, no edifício n° 13, com certeza no apartamento 47.
Ivan Nikoláievitch irrompeu na entrada, voou para o segundo andar, sem demora encontrou o apartamento e tocou a campainha, impaciente. Não precisou esperar muito: uma menina de uns cinco anos abriu-lhe a porta e, sem perguntar nada ao visitante, foi embora para algum lugar, sem demora.
A entrada, enorme e extremamente negligenciada, estava fracamente iluminada por uma lâmpada minúscula, sob um teto alto, negro de sujeira. Na parede havia uma bicicleta sem rodas pendurada, além de um enorme baú revestido de ferro e, em uma prateleira, em cima do cabideiro, um chapéu de inverno com seus longos tapa-orelhas pendentes. Por trás de uma das portas, uma voz masculina altissonante gritava algo em versos pelo rádio, enfurecida.
Ivan Nikoláievitch não ficou nem um pouco perplexo de estar naquele ambiente desconhecido e precipitou-se direto para o corredor, raciocinando: “É claro que ele se escondeu no banheiro.” O corredor estava escuro. Trombando na parede algumas vezes, Ivan avistou um feixe fraquinho de luz debaixo de uma porta, encontrou a maçaneta às apalpadelas e a puxou de leve. O trinco saltou e Ivan se viu exatamente no banheiro, pensando que havia tido sorte.
No entanto, a sorte não foi bem a que deveria ser! Um cheiro de calor úmido soprou na cara de Ivan e, sob a luz do carvão que ardia no aquecedor, ele discerniu grandes bacias penduradas na parede e uma banheira, toda coberta de terríveis manchas negras de esmalte descascado. Muito bem, nessa banheira havia uma cidadã nua, toda ensaboada e com uma esponja nas mãos. Ela apertou os olhos, míope, para o recém-chegado Ivan e, pelo visto, confundindo-se por causa da iluminação infernal, disse baixinho e alegre:
Kiriúcha! Chega de tagarelar! O que há com você, ficou maluco? Fiódor Ivánovitch voltará já, já. Saia já daqui! — E sacudiu a esponja em direção a Ivan.
Estávamos diante de um mal-entendido e o culpado era, é claro, Ivan Nikoláievitch. Mas, sem querer reconhecer isso, ele exclamou em tom de censura: “Ah, sua pervertida!...” — e na mesma hora foi parar na cozinha, sabe-se lá para quê. Lá não havia ninguém, e sobre o fogão havia quase uma dezena de fogareiros portáteis apagados, mudos, sob a penumbra. Um único raio de lua penetrou através da janela empoeirada, que não era limpa havia anos, e iluminou parcamente aquele canto onde, no meio da poeira e de uma teia de aranha, estava pendurado um ícone esquecido, as pontas de duas velas nupciais assomando atrás de seu caixilho. Debaixo do ícone grande, preso por alfinetes, estava pendurado outro menor, de papel.
Ninguém sabe qual foi o pensamento que dominou Ivan naquele instante, mas só que, antes de sair correndo para a porta dos fundos, ele se apoderou de uma das velas e também do ícone de papel. Com esses objetos, ele deixou o apartamento desconhecido, balbuciando algo, confuso com pensamentos sobre o que tinha acabado de presenciar no banheiro, tentando adivinhar involuntariamente quem era esse insolente Kiriúcha e se o repugnante chapéu com tapa-orelhas não lhe pertencia.
Na travessa deserta e desolada o poeta olhou ao redor, procurando o fugitivo, mas este não estava em lugar algum. Então, Ivan disse para si mesmo com firmeza:
Mas é claro, ele está no rio Moscou! Avante!
Seria bom, pelo visto, perguntar a Ivan Nikoláievitch por que ele supunha que o professor estava exatamente no rio Moscou, e não em qualquer outro lugar. Mas o problema era esse, não havia ninguém para perguntar. A travessa repulsiva estava completamente vazia.
Após um curtíssimo espaço de tempo, podia-se avistar Ivan Nikoláievitch nos degraus de granito do anfiteatro do rio Moscou.
Ivan tirou a roupa e confiou-a a um simpático barbudo, que fumava um cigarro enrolado a mão, de camisa típica branca rasgada e botinas gastas, desamarradas. Batendo os braços, para se aquecer, Ivan deu um salto de anjo. Ficou sem fôlego porque a água estava gelada e até chegou a pensar que pelo visto não conseguiria voltar à superfície. No entanto, conseguiu emergir e, resfolegando, bufando, com os olhos arregalados de terror, Ivan Nikoláievitch começou a nadar na água negra que cheirava a petróleo, entre os zigue-zagues entrecortados dos postes de iluminação das margens.
Quando o encharcado Ivan, pulando os degraus, chegou ao local em que deixara suas roupas sob os cuidados do barbudo, descobriu que não só elas haviam sido roubadas, mas também ele, ou seja, o próprio barbudo. Naquele exato local onde deixara o amontoado de roupas, restavam ceroulas listradas, a camisa rasgada, a vela, o pequeno ícone e uma caixa de fósforos. Ameaçando alguém ao longe com os punhos cerrados numa perversidade desastrada, Ivan se enrolou no que restava.
Então, duas considerações despertaram sua preocupação: a primeira era o desaparecimento da carteirinha da Massolit, da qual ele nunca se separava, e a segunda, será que ele conseguiria atravessar Moscou naqueles trajes? Afinal, estava de ceroulas... Na verdade, ninguém tinha nada a ver com isso, mas melhor não dar motivo para críticas ou embaraço.
Ivan arrancou os botões das ceroulas que abotoavam no tornozelo, partindo da premissa de que, quem sabe, daquele jeito poderiam passar por calças de verão, pegou o ícone, a vela, os fósforos e começou a se mexer, dizendo para si mesmo:
Para Griboiêdov! Sem dúvida alguma, ele está lá.
A cidade já vivia a vida noturna. Caminhões passavam voando, tilintando correntes, em meio à poeira, e em suas caçambas alguns homens estavam deitados sobre sacos, estirados com as barrigas para cima. Todas as janelas estavam abertas. Em cada uma delas ardia uma luzinha sob um abajur laranja, e de todas as janelas, de todas as portas, de todas as entradas, dos telhados e sótãos, dos porões e pátios escapava o rouco lamento da polonesa da ópera Ievguêni Oniêguin.
Os temores de Ivan Nikoláievitch se concretizaram por completo: os transeuntes prestavam atenção nele e riam, virando-se. Em função disso, ele resolveu deixar as ruas largas e caminhar pelas travessas, onde as pessoas não eram tão indiscretas, e havia menos chance de repararem em um homem descalço, cobrindo-o de perguntas sobre as ceroulas, que obstinadamente não desejavam ficar parecidas com calças.
E foi isso que Ivan fez. Aprofundou-se na rede misteriosa de travessas da Arbat e começou a caminhar perto dos muros, olhando assustado ao redor, de soslaio, virando-se a cada minuto, escondendo-se vez ou outra nas entradas dos prédios e fugindo dos cruzamentos com semáforos e das portas chiques das mansões das embaixadas.
E durante todo esse seu difícil caminho, sabe-se lá por quê, era indescritivelmente perturbado por uma orquestra onipresente, que acompanhava o baixo pesaroso que cantava sobre seu amor por Tatiana.

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida

Calvin

Quem nunca

Ambiente de trabalho. Três mulheres estão sentadas, cada uma em seu computador. Marta puxa papo.
MARTA Gente, eu sou uma pessoa péssima.
TELMA Eu te garanto que eu sou uma pessoa pior que você.
MARTA Não é, não. Meu vizinho ficou fazendo barulho de madrugada. Aí hoje eu acordei e liguei o som no volume máximo. Falamansa: rararará mas eu tô rindo à toa. E vim trabalhar. Deve estar rolando agora.
TATI Você é péssima!
MARTA Ué, qual é o problema? A lei do silêncio só vai até as oito da manhã!
Elas riem.
TELMA Amiga, e eu que criei um perfil falso só pra trollar a nova namorada do meu ex no Instagram.
MARTA Mentira!
TELMA Fico o dia inteiro lá: Feia. Tornozelo grosso. Não vestiu bem. Seu cabelo tá seco.
MARTA Boa! Sua escrota.
TELMA Quem nunca?
Elas riem.
TATI E eu, que roubo?
MARTA Oi?
TATI E eu, que roubo coisas que eu não preciso só pras pessoas não terem mais as coisas?
TELMA Você faz isso?
TATI Vai dizer que sou só eu? Agora vai dizer que eu sou a única que roubo coisas de mendigos que estão dormindo?
MARTA Você rouba de mendigo?
TELMA É a única coisa que eles têm!
JULIA Exatamente!
TATI Eles ficam desesperados!
MARTA Por isso é que não pode.
TATI Por isso é que tem graça!
O clima pesa.
MARTA Você é meio louca.
TATI Obrigada!
TELMA Não, louca ruim. Desculpa dizer isso, mas você é uma pessoa ruim.
TATI Gente, agora lá vêm as moralistas! Vão dizer que nunca roubaram o dinheiro da caixinha do pessoal do almoxarifado?
TELMA Nunca.
TATI Tá bom. E da academia?
MARTA Não.
TATI Aquelas moças só guardam tua bolsa. Pra que tanta caixinha? Aquilo é feito pra pessoa roubar!
TELMA Tati, é o dinheiro deles.
TATI Eles já ganham salário! Décimo terceiro, FGTS, a porra toda. Caixinha é pra quê? Pra roubar.
MARTA Isso é muito errado, Tati.
TATI Gente, se envolver com a milícia e pedir pra matar uma pessoa que falou mal de você na internet também é errado e todo o mundo faz.
TELMA Você fez isso?
MARTA Você é uma pessoa podre.
TATI Uou. Desculpa! Não sabia que eu estava lidando com a Comissão de Ética! Desculpa, Joaquim Barbosa!
MARTA Tati, tudo tem limites.
TATI A que ponto chegou essa patrulha do politicamente correto? Os Trapalhões faziam piada de preto! Hoje em dia você bate numa velha e toca uma sirene.
TELMA Você bate em velha?
TATI Gente, amiga não julga.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

A morte do pai II



Minha mãe morrera um ano antes. Uma semana após a morte de meu pai, eu estava na casa dele, sozinho. Era em Arcadia, e o mais perto que eu chegara daquela casa em algum tempo fora ao passar pela autoestrada a caminho de Santa Anita.
Eu era desconhecido para os vizinhos. O funeral acabara, e eu me dirigi à pia, enchi um copo d’água, bebi-o, depois saí.
Sem saber que outra coisa fazer, peguei a mangueira, abri a água e comecei a aguar os arbustos. Cortinas correram enquanto eu estava parado no gramado da frente. Depois eles começaram a sair de suas casas. Uma mulher veio do outro lado da rua.
Você é Henry? – ela me perguntou.
Respondi-lhe que era Henry.
Conhecíamos seu pai há anos.
Aí o marido aproximou-se.
Conhecemos sua mãe também – ele disse.
Eu me curvei e fechei a mangueira.
Não querem entrar? – perguntei.
Eles se apresentaram como Tom e Nellie Miller, e entramos em casa.
Você é a cara do seu pai.
É, é o que me dizem.
Sentamo-nos e ficamos olhando uns para os outros.
Oh – disse a mulher –, ele tinha tantos quadros. Devia gostar de quadros.
É, gostava, né?
Eu adoro aquele quadro do moinho no pôr do sol.
Pode ficar com ele.
Oh, posso?
A campainha tocou. Eram os Gibsons. Eles me disseram que também tinham sido vizinhos de meu pai durante anos.
Você é a cara do seu pai – disse a Sra. Gibson.
Henry nos deu o quadro do moinho.
Isso é ótimo. Eu adoro aquele quadro do cavalo azul.
Pode ficar com ele, Sra. Gibson.
Oh, não está falando sério.
Sim, está tudo bem.
A campainha tornou a tocar, e outro casal entrou. Deixei a porta entreaberta. Logo um homem enfiou a cabeça.
Eu sou Doug Hudson. Minha esposa está no cabeleireiro.
Entre, Sr. Hudson.
Outros chegaram, a maioria aos pares. Começaram a circular pela casa.
Vai vender a casa?
Acho que vou.
É um bairro adorável.
Estou vendo.
Oh, eu adoro aquela moldura, mas não gosto do quadro.
Leve a moldura.
Mas que vou fazer com o quadro?
Jogue no lixo. – Olhei em volta. – Se alguém vir um quadro que goste, por favor, leve.
Pegaram. Em breve as paredes estavam nuas.
Você precisa dessas cadeiras?
Não, na verdade, não.
Passantes entravam da rua, e nem todos se davam o trabalho de apresentar-se.
E o sofá? – perguntou alguém em voz muito alta. – Você quer?
Não quero o sofá – eu disse.
Levaram o sofá, depois a mesa do café da manhã e as cadeiras.
Tem uma torradeira aí, não tem, Henry?
Levaram a torradeira.
Não precisa dos pratos, precisa?
Não.
E a prataria?
Não.
E a chaleira e o liquidificador?
Levem.
Uma das senhoras abriu um armário na varanda dos fundos.
E todas essas frutas em conserva? Você jamais vai poder comer tudo isso.
Tudo bem, peguem todos um pouco. Mas tentem dividir igualmente.
Oh, eu quero os morangos!
Oh, eu quero os figos!
Oh, eu quero a geleia!
As pessoas saíam e voltavam, trazendo outras consigo.
Escuta, tem uma garrafa de uísque aqui no armário! Você bebe, Henry?
Deixe o uísque.
A casa estava ficando lotada. A descarga do banheiro funcionou. Alguém derrubou um copo da pia e quebrou-o.
É melhor ficar com esse aspirador, Henry. Pode usar ele em seu apartamento.
Tudo bem, vou ficar.
Ele tinha umas ferramentas de jardinagem na garagem. E elas?
Não, é melhor eu ficar com essas.
Dou quinze dólares pelas ferramentas de jardinagem.
Tudo bem.
Ele me deu quinze dólares e eu lhe dei a chave da garagem. Em breve se podia ouvi-lo rolando o aparador de grama para sua casa no outro lado da rua.
Você não devia ter vendido todo aquele equipamento a ele por quinze dólares, Henry. Valia muito mais.
Não respondi.
E o carro? Já tem quatro anos.
Acho que vou ficar com o carro.
Dou cinquenta dólares por ele.
Acho que vou ficar com o carro.
Alguém enrolou o tapete da sala da frente. Depois disso, começaram a perder o interesse. Em breve restavam apenas três ou quatro, depois foram-se todos. Deixaram-me a mangueira do jardim, a cama, a geladeira e o fogão, e um rolo de papel higiênico.
Saí e fechei a porta da garagem. Dois meninos passaram de patins. Pararam quando eu fechava as portas da garagem.
Está vendo aquele cara?
Estou.
O pai dele morreu.
Foram em frente. Eu peguei a mangueira, abri a torneira e comecei a aguar as rosas.

Charles Bukowski, em Numa Fria

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Anastácia | Podcast Palavra de Autor

Capítulo 52 — O Embrulho Misterioso

Foi o caso que, alguns dias depois, indo eu a Botafogo, tropecei num embrulho, que estava na praia. Não digo bem; houve menos tropeção que pontapé. Vendo um embrulho, não grande, mas limpo e corretamente feito, atado com um barbante rijo, uma coisa que parecia alguma coisa, lembrou-me bater-lhe com o pé, assim por experiência, e bati, e o embrulho resistiu. Relanceei os olhos em volta de mim; a praia estava deserta; ao longe uns meninos brincavam, — um pescador curava as redes ainda mais longe, — ninguém que pudesse ver a minha ação; inclinei-me, apanhei o embrulho e segui.
Segui, mas não sem receio. Podia ser uma pulha de rapazes. Tive ideia de devolver o achado à praia, mas apalpei-o e rejeitei a ideia. Um pouco adiante, desandei o caminho e guiei para casa.
Vejamos, disse eu ao entrar no gabinete.
E hesitei um instante, creio que por vergonha; assaltou-me outra vez o receio da pulha. E certo que não havia ali nenhuma testemunha externa; mas eu tinha dentro de mim mesmo um garoto, que havia de assobiar, guinchar, grunhir, patear, apupar, cacarejar, fazer o diabo, se me visse abrir o embrulho e achar dentro uma dúzia de lenços velhos ou duas dúzias de goiabas verdes. Era tarde; a curiosidade estava aguçada, como deve estar a do leitor; desfiz o embrulho, e vi… achei... contei... recontei nada menos de cinco contos de réis.
Nada menos. Talvez uns dez mil-réis mais. Cinco contos em boas notas e dobras, tudo asseadinho e arranjadinho, um achado raro. Embrulhei-as de novo. Ao jantar pareceu-me que um dos moleques falara a outro com os olhos. Ter-me-iam espreitado? Interroguei-os discretamente, e concluí que não. Sobre o jantar, fui outra vez ao gabinete, examinei o dinheiro, e ri-me dos meus cuidados maternais a respeito de cinco contos,
eu, que era abastado.
Para não pensar mais naquilo fui de noite à casa do Lobo Neves, que instara muito comigo não deixasse de frequentar as recepções da mulher. Lá encontrei o chefe de polícia; fui-lhe apresentado; ele lembrou-se logo da carta e da meia dobra que eu lhe remetera alguns dias antes. Aventou o caso.
Virgília pareceu saborear o meu procedimento, e cada um dos presentes acertou de contar uma anedota análoga, que eu ouvi com impaciência de mulher histérica.
De noite, no dia seguinte, em toda aquela semana pensei o menos que pude nos cinco contos, e até confesso que os deixei muito quietinhos na gaveta da secretária. Gostava de falar de todas as coisas, menos de dinheiro, e principalmente de dinheiro achado; todavia não era crime achar dinheiro, era uma felicidade, um bom acaso, era talvez um lance da Providência. Não podia ser outra coisa. Não se perdem cinco contos, como se perde um lenço de tabaco. Cinco contos levam-se com trinta mil sentidos, apalpam-se a miúdo, não se lhes tiram os olhos de cima, nem as mãos, nem o pensamento, e para se perderem assim tolamente, numa praia, é necessário que... Crime é que não podia ser o achado; nem crime, nem desonra, nem nada que embaciasse o caráter de um homem.
Era um achado, um acerto feliz, como a sorte grande, como as apostas de cavalo, como os ganhos de um jogo honesto e até direi que a minha felicidade era merecida, porque eu não me sentia mau, nem indigno dos benefícios da Providência.
Estes cinco contos, dizia eu comigo, três semanas depois, hei de empregá-los em alguma ação boa, talvez um dote a alguma menina pobre, ou outra coisa assim... hei de ver...
Nesse mesmo dia levei-os ao Banco do Brasil. Lá me receberam com muitas e delicadas alusões ao caso da meia dobra, cuja notícia andava já espalhada entre as pessoas do meu conhecimento; respondi enfadado que a coisa não valia a pena de tamanho estrondo; louvaram-me então a modéstia — e porque eu me encolerizasse, replicaram-me que era simplesmente grande.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Folhinha




A morte do escritor
não se quer resolver dentro de mim.
Mas não tenho gosto na infelicidade
e por isso busco meu caminho
como um verme sabe do seu, dentro da terra.
Muitas coisas me valem quando Deus fica estranho
e do que é mínimo, às vezes,
vem o desejado consolo.
Informativo Popular Coração de Jesus
é o nome de um calendário de parede.
ABENÇOAI ESTE LAR está escrito nele.
O coração sangra na estampa,
mas o rosto é doce, próprio a enternecer
as mulheres da cozinha, feito eu.
Toquem mal o piano, vou me deliciar
nada é mesmo perfeito —,
uma gota de mel desce em minha garganta.
No dia 8 de janeiro está escrito na folhinha:
A FÉ GUIOU OS MAGOS — LUA NOVA AMANHÃ.
Lua nova,
que nome mais bonito pra um consolo.

Adélia Prado, em O Coração Disparado

Definições




O teste é o chopinho. O chopinho é definitivo. Quem sentaria aqui com a gente pra tomar um chopinho, quem não sentaria. Vale para todas as épocas, todos os povos, todas as categorias.
Por exemplo?
Revolução Francesa. Danton sentaria para tomar um chopinho.
Robespierre, nem pensar.
Exato.
Lenin sentaria?
Nunca. Já o Trotski, sim.
E o Stalin?
Sentaria, mas ficaria um clima ruim.
De Gaulle, não.
Churchill sim.
Hitler?
Hmmm, os alemães são um problema. Em tese, nenhum alemão recusa um chope, e todos tomam com o mesmo gosto. Seja Bismark, Goethe, Nietzsche, Marx ou Marlene Dietrich.
Com alemão, então, o chopinho não prova nada.
O chopinho sozinho, não. É preciso acrescentar outro elemento definidor. Outro teste de tolerância, bom humor e simpatia.
Qual?
O bolinho de bacalhau.
No carnaval, sou Salgueiro.
Certo.
No futebol, Botafogo.
Sim. Continue.
Como, continue?
Água mineral. Com ou sem gás?
Com.
No cafezinho: açúcar ou adoçante?
Adoçante.
Prossiga.
Bom. Deixa ver. Heterossexual. Destro. Não fumante. Prefiro o inverno ao verão... Que mais?
Acende o fósforo para lá ou para cá?
Nunca notei. Acho que para lá.
Abotoa a camisa de cima para baixo ou de baixo para cima?
De cima para... Não. De baixo para cima. Não! Não sei.
Como, não sabe? É a hora das definições. Melhor Papa.
Melhor Papa?! Sei lá. João Vinte e Três.
Melhor Robin Hood.
Errol Flynn, disparado.
Gil ou Caetano?
Os dois.
Não pode. Tem que ser um ou outro.
Por quê? Eu não estou preparado. Preciso pensar!
Foi você que começou. Freud ou Jung? Bach ou Mozart? Sautées, cozidas ou fritas?
Espere, eu...
Com fivela ou sem fivela? Rápido!

Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora

Adulto

Um homem é adulto no dia em que começa a gastar mais do que ganha.

Millôr Fernandes, em A bíblia do caos

Sétimo capítulo — Mãos sonhando mulheres



A chuva timbilava no tecto do machimbombo. Os dedos molhados do céu se entretinham naquele tin-tin-tilar. Tuahir está embrulhado numa capulana. Olha o miúdo que está deitado, de olhos abertos, em sincero sonho.
Charra, faz frio. Agora, nem se pode fazer uma fogueira, a lenha toda está molhada. Você me anda a ouvir, miúdo?
Muidinga continuava absorto. Segundo a tradição, ele se devia alegrar: a chuva era um bom prenúncio, sinal de bons tempos batendo à porta do destino.
Te falta é uma mulher, disse o velho. Estiveste a ler sobre essa mulher, a tal Farida. Devia ser bonita, a gaja.
As mulheres, em instante, ficaram tema. Mulheres é bom quando não há amor, disse. Porque o amor é esquivadiço. A gente lhe monta casa, ele nasce no quintal. Vale a pena uma puta, miúdo. Gastamos o bolso, não o peito. Numa puta não pomos nunca o coração. E prossegue:
Você, miúdo, não conhece meu caso com Jorogina?
Então, o velho relata seu encontro com Jorgina, mulher que merecera suas eternas promessas. Ela parecia burrinha, metida em ideia só por biscate. Assim se querem as tipas, adianta Tuahir, que é para não avançarem fora dos serviços que Deus lhes confiou.
Me enganei dessa mulher, Muidinga.
Afinal, ela era uma dessas de joelhos arregaçados, capaz de cair em esteira alheia mais fácil que o milho se ajoelhar no pilão. Tuahir sofrera, a voz ainda lhe nuventa com a lembrança.
Agora vivo de cor e salteado.
Tuahir salivava as sílabas, sofrendo dessa indigestão de nada não comer desde há dias. Contempla o miúdo, lhe adivinha a idade de começar namoros. E sorri recordando a cena das velhas violentando o rapaz. O rapaz merecia outras iniciações.
Espera, miúdo. Deixa eu sentar perto.
Se arruma na beira no assento de Muidinga. Mete a mão entre as virilhas do rapaz. Aos poucos lhe vai desapertando a breguilha.
Agora pensa nas meninas.
Tio! Não faça isso...
Não experimenta me negar, ainda lhe despacho umas porradas. Vá, faça como te digo.
Mas, tio: assim eu não consigo...
É por causa você está pensar só com a cabeça. Pensa com todo corpo!
Não vai dar, tio.
Com certeza você está pensar Maria Bofe, aquela lá do campo. Essa nem tem tatuagem, pele dela é lisa como um homem. Pensa Joaquinha, pensa Tinita. Essas tem as próprias tatuagens, você toca a barriga delas e sente parece é uma casca.
Não é questão de pele, nem tatuagem. É que não dá, assim de pensamento.
É motivo da pele, eu sei. Você já viu peixe sem escama? Peixe sempre leva escama. Sem tatuagem a mulher que está na pessoa não acorda. Está ver, você agora? Só de falar o assunto você já está a acordar. Vá, continua, rapaz, eu lhe ajudo. Faz conta minha mão é Joaquinha.
Os dois adormecem, encostados. Despertam sentados, na mesma posição com que tinham adormecido. Com a chegada da noite a chuva tinha parado. A terra soltava ainda o seu perfume doce. Por baixo do canhoeiro, eles se levantam em alegre disposição. Sem compreenderem o motivo eles cantam em desafio. Depois, dançam, batucando nas latas. Parecem tontos.
Mas nós bebemos, tio?
Isso é bebida que estava dentro do sangue há muito tempo. Nos tempos, eu bebi tantíssimo.
E explica as urgências de beber: a urina, lá onde ela morava, dentro do corpo, lhe aquecia muito. Chegava de lhe queimar, quase a ferver. O remédio era beber, meter líquido para arrefecer aquelas águas interiores. Os dois se riem da explicação, gargalham a peitos abertos. De repente, Muidinga se inquieta:
Não é perigoso barulharmos assim?
Se rir muito alto você afasta os maus espíritos.
O velho retoma dançando. Muidinga já não o acompanha. Encosta-se numa árvore. O velho olha-o admirado.
Ria, miúdo. Rindo as alegrias acontecem.
Depois, também Tuahir abandona as danças. Desaba-se, desistido. Senta-se, abanando a cabeça.
Você tem razão, miúdo: cada vez vamos chamar atenções.
Ficam por um enquanto a respirar tristezas, o cacimbo se adensava. O miúdo, então, lhe pergunta: por que razão ele nunca consegue lembrar antigas recordações? Porquê o antigamente, todo o tempo anterior à doença lhe estava impedido, mais coberto de cacimbo que os terrenos em volta?
Aprendi tudo de novidade: andar, falar. Meus olhos se lembram das leituras, meus dedos não esqueceram as letras. Mas eu não sei lembrar nada do meu passado. Porquê, tio?
Tuahir lhe diz a verdade. O miúdo tinha sido levado ao feiticeiro. O velho lhe pedira para que tudo fosse retirado da cabeça dele.
Pedi isso por causa é melhor não ter lembrança deste tempo que passou. Ainda tiveste sorte com a doença. Pudeste esquecer tudo. Enquanto eu não, carrego esse peso...
Tuahir havia entendido: os escritos de Kindzu traziam ao jovem uma memória emprestada sobre esses impossíveis dias. Ao menos ele acreditasse tudo aquilo ser fantasia, estoriazinha que se conta para fazer de conta.
Sabe, miúdo, o que vamos fazer? Você me vai ler mais desses escritos.
Mas ler agora, com esse escuro?
Acendes o fogo lá fora.
Mas, com a chuva, a lenha toda se molhou.
Então vamos acender o fogo dentro do machimbombo. Juntamos coisa de arder lá mesmo.
Podemos, tio? Não há problema?
Problema é deixar este escuro entrar na cabeça da gente. Não podemos dançar nem rir. Então vamos para dentro desses cadernos. Lá podemos cantar, divertir.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula