terça-feira, 28 de abril de 2026

O impagável Laerte

Chuteira

Neto está amarrando suas chuteiras roxas, todo pimpão. Vê Aguinaga, do outro lado do vestiário, amarrando uma chuteira da mesma cor. Fecha o tempo. Vai falar com ele.
NETO Que porra é essa, Aguinaga?
AGUINAGA Do que é que você tá falando?
NETO Essa porra dessa chuteira roxa.
AGUINAGA Não gosta?
NETO Gosto, Aguinaga. Tanto gosto que eu venho usando chuteira roxa há um mês.
AGUINAGA Sério? Irado. Esse é o bonde da chuteira roxa, tum tchi tum tchi…
Aguinaga faz uma dancinha pra descontrair. Neto não acha a menor graça.
NETO Exatamente. É o bonde da chuteira roxa. Não é mais o cara da chuteira roxa.
Aguinaga tenta entender se Neto está falando sério.
NETO Não é mais: Neto? Qual Neto? Aquele da chuteira roxa. Ah, tá, o Neto é o da chuteira roxa. Você acha que alguém me conhece pelo nome?
AGUINAGA Nem pela chuteira roxa.
NETO Mas vai conhecer. Ou melhor, ia. Antes de eu ser só mais um chuteira roxa. Qual Neto? Aquele da chuteira roxa? Mas aquele não é o Aguinaga?
AGUINAGA Ninguém vai confundir. Eu sou do ataque. Você é da zaga.
NETO Eu sabia que isso iria surgir em algum momento.
AGUINAGA Não foi isso que eu quis dizer....
NETO É porque eu sou da zaga que eu não tenho direito de usar chuteira roxa?
AGUINAGA Você entendeu errado.
NETO Chuteira colorida é coisa de atacante! Zagueiro tem que usar chuteira preta! De preferência Kichute!
AGUINAGA Neto, ninguém repara nessas coisas!
NETO Em mim não repara. Mas em você vão reparar, porque você é o craque do time. E sabe o que é pior? Depois de reparar na sua vão reparar na minha, e achar que fui eu que copiei você, quando na verdade…
Neto ameaça chorar. Aguinaga traz ele pro abraço.
NETO … Eu já usava chuteira roxa antes de todo o mundo, antes do Cristiano Ronaldo, antes de virar moda.
AGUINAGA Virou moda?
NETO Mas ninguém reparou, sabe por quê? Porque eu sou só mais um zagueiro. E lesionado, na maior parte do tempo. Eu tô todo bichado, porra.
Neto chora.
AGUINAGA Relaxa, Neto! Passou. Tirei a chuteira, já. Tá?
NETO Não! Pode ficar. Deixa que eu tiro. Ela ficou muito melhor em você. Essa é toda a questão. Deixa que eu me viro, aqui.
AGUINAGA Sério?
NETO Vai lá! A torcida tá te chamando.
Aguinaga sai do vestiário, sob os gritos da torcida. Neto guarda sua chuteira roxa. Tira do armário um Kichute e veste, enxugando as lágrimas. Ergue a cabeça e entra em campo.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

1618 – Lima

Um porteiro de cor escura

Os amigos reviram suas capas puídas e varrem o chão com seus chapéus. Cumprida a mútua reverência, se elogiam:
Maravilha esse toco de braço!
E essa tua chaga? Está tremenda!
Atravessam junto o descampado, perseguidos pelas moscas. Conversam enquanto mijam, de costas para o vento.
Tempos sem te ver.
Corri feito mosca. Sofrendo, sofrendo.
Ai.
Laxartixa extrai do bolso uma bolacha dura, sopra, dá brilho e oferece a Pedepão. Sentados em uma pedra, contemplam as flores dos abrolhos.
Pedepão morde com todos os seus três dentes, e conta.
Na Auditoria, boas esmolas havia... O melhor lugarzinho de Lima. Me expulsaram a pontapés. Foi o porteiro.
Juan Ochoa?
Satanás, você quer dizer. Lá sabe meu Deus que eu não fiz nada.
Já não está Juan Ochoa.
Verdade?
O expulsaram feito cachorro. Já não é porteiro da Auditoria, nem nada.
Pedepão, vingado, sorri. Estica os dedos de seus pés descalços.
Por suas maldades, deve ter sido.
Não, não.
Por ser burro?
Não, não. Por ser filho de mulata e neto de negra. Por isso.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

domingo, 26 de abril de 2026

Spider-Noir | Trailer

O Guardador de Rebanhos

III

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.
Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas coisas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...
Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros…

Fernando Pessoa, em Poemas de Alberto Caeiro

A Arte de Portinari

São Francisco (1961), de Cândido Portinari

Máquina escrevendo

Sinto que já cheguei quase à liberdade. A ponto de não precisar mais escrever. Se eu pudesse, deixava meu lugar nesta página em branco: cheio do maior silêncio. E cada um que olhasse o espaço em branco, o encheria com seus próprios desejos.
Vamos falar a verdade: isto aqui não é crônica coisa nenhuma. Isto é apenas. Não entra em gênero. Gêneros não me interessam mais. Interessa-me o mistério. Preciso ter um ritual para o mistério? Acho que sim. Para me prender à matemática das coisas. No entanto, já estou de algum modo presa à terra: sou uma filha da natureza: quero pegar, sentir, tocar, ser. E tudo isso já faz parte de um todo, de um mistério. Sou uma só. Antes havia uma diferença entre escrever e eu (ou não havia? não sei). Agora mais não. Sou um ser. E deixo que você seja. Isso lhe assusta? Creio que sim. Mas vale a pena. Mesmo que doa. Dói só no começo.
Agora vou falar de umas verdades que me deixam espantada. É sobre bichos.
Uma pessoa que conheço disse que o siri, quando se lhe pega por uma perna, essa se solta para que o corpo todo não fique aprisionado pela pessoa. E que, no lugar dessa perna caída, nasce outra.
Outra pessoa que conheço estava hospedada numa casa e foi abrir a porta da geladeira para beber um pouco de água.
E viu a coisa.
A coisa era branca, muito branca. E, sem cabeça, arfava. Como um pulmão. Assim: para baixo, para cima, para baixo, para cima. A pessoa fechou depressa a geladeira. E ali perto ficou, de coração batendo.
Depois veio a saber do que se tratava. O dono da casa era perito em caça submarina. E pescara uma tartaruga. E lhe tirara o casco. E lhe cortara a cabeça. E pusera a coisa na geladeira para no dia seguinte cozinhá-la e comê-la.
Mas enquanto não era cozida, ela, sem cabeça, nua, arfava. Como um fole.
Já lhe falei aqui sobre tartarugas. Escrevi o seguinte: “Da lenta e empoeirada tartaruga carregando seu pétreo casco, não quero falar. Esse animal nos vem da Era Terciária, dinossáurico (quando escrevi dinossáurico não sabia que era mesmo, estava só adivinhando), não me interessa: é por demais estúpido, não entra em relação com ninguém, nem consigo próprio. É uma abstração. O ato de amor de duas tartarugas não deve ter calor nem vida. Sem ser cientista, aventuro-me a prognosticar que a espécie vai daqui a poucos milênios acabar.”
Esqueci-me de dizer que acho a tartaruga inteiramente imoral.
Alguém, adivinhando que era falso meu não interesse por tartarugas, emprestou-me um livrinho sobre elas, em inglês. Eis um trecho traduzido desse livrinho.
As tartarugas são répteis raros e antigos. Seus ancestrais apareceram pela primeira vez há uns 200 milhões de anos, muito antes que os dinossauros. Enquanto estes animais grandes há muito tempo se extinguiram, as tartarugas, com sua forma estranha e sem beleza, conseguiram sobreviver, e têm permanecido relativamente imutáveis pelo menos durante 150 milhões de anos.”
Sem o casco, sem a cabeça, arfando, para cima, para baixo, para cima, para baixo. Com vida.
Como compreender uma tartaruga? Como compreender Deus?
O ponto de partida deve ser: “Não sei.” O que é uma entrega total.
A máquina continua escrevendo. Por exemplo, ela vai escrever o seguinte: quem atinge um alto nível de abstração está em fronteira com a loucura. Que os grandes matemáticos e físicos o digam. Conheço um grande homem abstrato que faz de conta que é como todo mundo: come, bebe, dorme com a mulher, tem filhos. Assim ele se salva de se tornar um x ou uma raiz quadrada. Quando penso que, muito menina ainda, eu dava aulas particulares explicativas de matemática e português a ginasianos, mal acredito. Porque hoje seria incapaz de resolver uma raiz quadrada. Quanto a português, era com o maior tédio que eu dava as regras de gramática. Depois, felizmente, vim a esquecê-las. É preciso antes saber, depois esquecer. Só então se começa a respirar livremente.
Agora a máquina vai parar. Até sábado próximo.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Capítulo 46 – A Herança



Veja-nos agora o leitor, oito dias depois da morte de meu pai, – minha irmã sentada num sofá, – pouco adiante, o Cotrim, de pé, encostado a um consolo, com os braços cruzados e a morder o bigode, – eu a passear de um lado para outro, com os olhos no chão. Luto pesado. Profundo silêncio.
Mas afinal, disse Cotrim; esta casa pouco mais pode valer de trinta contos; demos que valha trinta e cinco...
Vale cinquenta, ponderei; a Sabina sabe que custou cinquenta e oito...
Podia custar até sessenta, tomou Cotrim; mas não se segue que os valesse, e menos ainda que os valha hoje. Você sabe que as casas, aqui há anos, baixaram muito. Olhe, se esta vale os cinquenta contos, quantos não vale a que você deseja para si, a do Campo?
Não fale nisso! Uma casa velha.
Velha! exclamou Sabina, levantando as mãos ao teto.
Parece-lhe nova, aposto?
Ora, mano, deixe-se dessas coisas, disse Sabina, erguendo-se do sofá; podemos arranjar tudo em boa amizade, e com lisura. Por exemplo, o Cotrim não aceita os pretos, quer só o boleeiro de papai e o Paulo...
O boleeiro não, acudi eu; fico com a sege e não hei de ir comprar outro.
Bem, fico com o Paulo e o Prudêncio.
O Prudêncio está livre.
Livre?
Há dois anos.
Livre? Como seu pai arranjava estas coisas cá por casa, sem dar parte a ninguém! Está direito. Quanto à prata... creio que não libertou a prata?
Tínhamos falado na prata, a velha prataria do tempo de Dom José I, a porção mais grave da herança, já pelo lavor, já pela vetustez, já pela origem da propriedade; dizia meu pai que o Conde da Cunha, quando vice-rei do Brasil, a dera de presente a meu bisavô Luís Cubas.
Quanto à prata, continuou o Cotrim, eu não faria questão nenhuma, se não fosse o desejo que sua irmã tem de ficar com ela; e acho-lhe razão. Sabina é casada, e precisa de uma copa digna, apresentável. Você é solteiro, não recebe, não...
Mas posso casar.
Para quê? interrompeu Sabina.
Era tão sublime esta pergunta, que por alguns instantes me fez esquecer os interesses. Sorri; peguei na mão de Sabina, bati-lhe levemente na palma, tudo isso com tão boa sombra, que o Cotrim interpretou o gesto como de aquiescência, e agradeceu-mo.
Que é lá? redargui; não cedi coisa nenhuma, nem cedo.
Nem cede?
Abanei a cabeça.
Deixa, Cotrim, disse minha irmã ao marido; vê se ele quer ficar também com a nossa roupa do corpo, é só o que falta.
Não falta mais nada. Quer a sege, quer o boleeiro, quer a prata, quer tudo. Olhe, é muito mais sumário citar-nos a juízo e provar com testemunhas que Sabina não é sua irmã, que eu não sou seu cunhado, e que Deus não é Deus. Faça isto, e não perde nada, nem uma colherinha. Ora, meu amigo, outro ofício!
Estava tão agastado, e eu não menos, que entendi oferecer um meio de conciliação: dividir a prata. Riu-se e perguntou-me a quem caberia o bule e a quem o açucareiro; e depois desta pergunta, declarou que teríamos tempo de liquidar a pretensão, quando menos em juízo. Entretanto, Sabina fora até janela que dava para a chácara, – e depois de um instante, voltou, e propôs ceder o Paulo e outro preto, com a condição de ficar com a prata; eu ia dizer que não me convinha, mas o Cotrim adiantou-se e disse a mesma coisa.
Isso nunca! não faço esmolas! disse ele.
Jantamos tristes. Meu tio cônego apareceu para sobremesa, e ainda presenciou uma pequena altercação.
Meus filhos, disse ele, lembrem-se que meu irmão deixou um pão bem grande para ser repartido por todos.
Mas o Cotrim:
Creio, creio. A questão, porém, não é de pão, é de manteiga. Pão seco é que eu não engulo.
Fizeram-se finalmente as partilhas, mas nós estávamos brigados. E digo-lhes, que ainda assim, custou-me muito a brigar com Sabina. Éramos tão amigos! Jogos pueris, fúrias de crianças, risos e tristezas da idade adulta, dividimos muita vez esse pão da alegria e da miséria, irmamente, como bons irmãos que éramos. Mas estávamos brigados. Tal qual a beleza de Marcela, que se esvaiu com as bexigas.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Homem de visão na Vila



Foi na última festa junina do 257, Rua dos Artistas.
O balão deu prego, foi escorado pelos fios (pauta musical do Orestes) e todo mundo achou que o danado se acabaria devagarinho quando o mundo estourou feito pluma, a luz apagou, as crianças gritaram... Aquele poeta que há muito tempo não dava o ar da sua graça, um que era meio maluco, misturou as lanterninhas:
Esse troço foi no meu peito.
Trouxeram o lampião de querosene. O poeta deu de mostrar um três por quatro e um papel amarrotado. Ninguém acreditava, ninguém levava a sério:
De quem será que ele roubou esse retrato?
Tão moça, de olhinho claro, não ia gostar desse traste…
Que solidão, né, menina? Ter que inventar uma namorada,tsc,tsc...
Ele ficava olhando o retrato e falava sozinho:
Tô decorando ela, tô decorando elazinha... Vou botar esse papel com os nomes pra São João decidir. O que ficar mais orvalhado...
Ceceu Rico, o cético da rua, cuspiu na fogueira:
Cada vez mais tantã. Isso que ele tá falando é samba-canção do Lupicínio.
Não cospe na fogueira que tu fica seco.
A Lua apareceu de caipira, as manchas escuras feito sorriso onde falta dente ou bigode de rolha queimada. O festival de comiseração continuou:
Dá um pouco de quentão pro coitado.
Dá não. Ele ficou assim por causa da bebida.
Que isso? Sujeito só bebe que nem ele quando sente a agonia do peru de véspera, cumpadre. Bebida só mata quando o tira-gosto é tristeza.
Isso parece frase dele.
Pô, não sei se agradeço ou se fico ofendido.
Velho dilema de quem é amigo de poeta.
Dançaram a quadrilha. Tuninho Sorvete chamuscou de novo as calças remendadas na fogueira. Meu avô Aguiar prendeu as rodinhas no cabo de vassoura. Um buscapé matreiro beijou a bunda da Isolda. Nunca se viu tanto voluntário pro Corpo de Bombeiros. Ela rebolou mais que Rainha do Bafo da Onça. Fagulha pra todo lado. Penteado deu um gole na branquinha e gozou o rescaldo:
A calça dela ficou entre dois fogos...
Lindauro não tirava a mão do hidrante e a Deysinha abriu a torneira:
O balão lambe e tu é que fica com a língua de fora, otário.
Não chacoalha, tá? Manjo teu repertório. Tás na bronca porque tua bucha anda pingando muito breu.
Tu fala de boca-cheia, Lindauro. Peraí que eu vou apanhar uns amendoins pra tua tromba. Tás precisando...
Ah, vai tomar no...
Tomate cru é na salada, teu cu é pra garotada.
Nem Santo Antônio, o casamenteiro calhorda, pacificaria aquele Oriente Médio. Mas o tal poeta, com certeza por ser meio maluco, pegou o violão e cantou como se estivesse no sonhado Papel Carbono, ao lado da inesquecível missiméri:

Tenho certas manchas no passado,
outras hei de ver no teu pescoço...
Ah,eu queria ser moço
pra dizer à mocidade
que ela brinca de “já era”
mas o que era hoje é você.
Um tremor rindo na boca de criança
que não esconde mais a fêmea e
o que ela quer.
Nada é mais profundo e verdadeiro
que o desejo solto na mulher.
Não adianta fugir desse encontro,
Não adianta evitar meu caminho
somos ambos cobra, ambos passarinho.
Meu fascínio é você que gera.
Teu olhar me enreda,
pago na mesma moeda,
minha bela fera.

Deu um branco momentâneo na festa e no texto.
O pessoal há havia virado poema do Manuel Bandeira, todos deitados dormindo profundamente, quando uma espécie de fada tocou a campainha — ninguém ouviu! —, fez carinho no bêbado — ninguém viu! — e voltou pro céu num bojo enorme, meio tangerina, meio charuto, com uma alegoria que lembrava a metade de um coração, ou a letra C, ou um pedaço de serpentina, ou uma estrela cadente, sei lá...
No meio da noite despertei, fui pra varanda olhar o céu e sou a única testemunha de tudo.
Mas acreditem, não me levem a sério, que eu também costumo beber e sonhar acordado.

Aldir Blanc, em Vila Isabel, inventário da infância

sábado, 25 de abril de 2026

Força Estranha | Gal Costa

Não é mera Coincidência

Auto-observação, autoanálise e autonomia

Estas são propriedades da alma racional: auto-observação, autoanálise e autonomia.
Goza dos frutos produzidos por si própria — diferente das plantas e dos animais, cujos produtos são desfrutados por outrem. Alcança o seu propósito particular, onde quer que o limite da sua vida seja estabelecido — diferente das danças, das peças ou das atividades semelhantes, que acabam incompletas quando encurtadas. Independentemente de em qual parte e de onde for interrompida, cumpre por completo o que lhe foi proposto, de modo que pode dizer: “Tenho o que é meu.”
Ademais, atravessa todo o universo e o vácuo circundante e examina a sua forma. Prolonga-se até a infinidade do tempo. Abraça e compreende a renovação periódica do mundo. Entende que os sucessores não encontrarão nada novo, assim como os antecessores não encontraram — quem tem quarenta anos, caso disponha de algum entendimento, observou a uniformidade prevalecente em tudo o que foi e tudo o que será.
Eis outras das suas propriedades: afeição pelos vizinhos, veracidade, modéstia e valorização suprema de si mesma — essa também é própria da lei, logo a razão correta não difere da justa.

Marco Aurélio, em Meditações

I Saw Her Standing There, de Paul McCartney e John Lennon


I Saw Her Standing There, de Paul McCartney e John Lennon

Well she was just seventeen
You know what I mean
And the way she looked was way beyond compare
So how could I dance with another
Ooh when I saw her standing there

Well she looked at me
And I, I could see
That before too long I’d fall in love with her
She wouldn’t dance with another
Ooh when I saw her standing there

Well my heart went boom
When I crossed that room
And I held her hand in mine

Oh we danced through the night
And we held each other tight
And before too long I fell in love with her
Now I’ll never dance with another
Ooh when I saw her standing there

Well my heart went boom
When I crossed that room
And I held her hand in mine

Oh we danced through the night
And we held each other tight
And before too long I fell in love with her
Now I’ll never dance with another
Ooh since I saw her standing there
Since I saw her standing there
Since I saw her standing there

Escrevi muitas canções, mas algumas delas se destacam, e se eu tivesse que escolher quais representam meus melhores trabalhos ao longo dos anos, eu provavelmente incluiria “I Saw Her Standing There”. Ou melhor: com absoluta certeza eu a incluiria.
A primeira vez que toquei esta canção para John foi quando nos reunimos para fumar chá no cachimbo do meu pai (e quando eu digo chá, eu quero dizer chá). Cantei: “She was just seventeen. She’d never been a beauty queen”. E John falou: “Tenho lá minhas dúvidas quanto a isso”. Assim, a nossa principal tarefa era nos livrarmos da parte da rainha da beleza. Após muitas tentativas, surgiu uma solução.
Ao cantá-la hoje – e isso acontece com todas as canções dos Beatles que eu toco –, percebo que estou revisitando o trabalho de um rapaz de 18, 20 anos. E eu acho isso interessantíssimo, porque tem um quê de inocência – um ar ingênuo – que é impossível de inventar.
Falando nisso, Jerry Seinfeld fez uma bela sátira com esta letra. Fomos à Casa Branca, e Jerry disparou: “Paul, estive olhando o trecho: ‘She was just seventeen/ You know what I mean’. Não sei bem se nós sabemos o que você quer dizer, Paul!”.
O fato é que já tínhamos ouvido todas essas coisas – eu tinha uns 20 anos, e estávamos compondo esta canção na casa do meu pai, na Forthlin Road –, e continuamos: “She was just seventeen/ You know what I mean/ And the way she looked was way beyond compare”. Esse ritmo vem da versão de Stanley Holloway de “The Lion and Albert”. Esse poema cômico escrito por Marriott Edgar tem uma métrica semelhante.
Eu trazia na bagagem todas as melodias que eu tinha ouvido. As composições de Hoagy Carmichael, Harold Arlen, George Gershwin e Johnny Mercer. Eu ouvia isso tudo em minha infância e adolescência. Eu não tinha feito ainda muitas composições próprias, mas tinha absorvido isso tudo. E depois, no colégio, o meu professor de inglês, Alan Durband, me ensinou sobre o dístico rimado no final dos sonetos de Shakespeare. Não sei de onde veio “nada se compara”, mas pode ter saído do Soneto 18: “Devo comparar você a um dia de verão?”. Também pode ser que eu tenha ouvido, na infância, uma tradicional canção irlandesa em que a mulher é descrita como “sem comparação”.
Mas não é bem o que você esperaria no rock’n’roll. Não sei de onde eu a resgatei, mas na grande rede de arrasto da minha juventude, essa expressão simplesmente se emaranhou como um golfinho.

Paul McCartney, em As Letras – 1956 até o presente

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
 
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
 
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
 
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
 
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade, em Claro enigma

O sertão tudo não aceita?


[…]
Tanto ouvi, muito macambúzio. Onde que então, eu varava mundo, em comando, e ainda não se prezava o meu nome. Eu ― o Urutú-Branco! Ser Chefe de jagunço era isso. Ser o que não dava realce ― qualquer um podia, fazendeiro com posses, mão em políticas. O sertão tudo não aceita? A minha pessoa era nada, glória de Zé Bebelo era nada. O que dá fama, dá desdém. O menos de me importar. O que eu carecia era de dar primeiras batalhas. Suspender a alta coragem, adiante de meus cabras. Ou será que já estavam mas era se aplicando no vagavagar? ― Cigano sou? ― eu pensei, enraivecido. Tinha o norte, para a gente. Dei ordem. Aí torcemos caminho, numa poeira danã. A reto, viemos beirando o Ribeirão da Areia, de rota abatida. O que era que eu tencionava fazer? O senhor espere.
Narro que não rendi melindres do feito de Diadorim, digo ― o recado enviado. Mas, à vez, balancei uma inquietação, daquilo, que era para eu bem estranhar, a decisão dele de tanto absurdo. Essas desordenadas da vida da gente! tudo o que estoura manso e guampa quieto, e que só tem a razoável explicação para quem está mesmo longe dos motivos. Ao meio do meio duma coisa eu tinha certeza! que Diadorim não ia me mentir. O amor só mente para dizer maior verdade. Diadorim me compassava; por força. Mas, para mandar à minha Otacília assim aquela embaixada, era porque ele soubesse, no zelo de seu coração, que então Otacília me tinha amor. E tanto igual sabia também de mim? Naqueles dias, era. Abrandei minha lembrança em Otacília, que sincera me aguardasse, em sua casa, em seu meigo estar. Agora eu ia indo às avessas de lá, da Santa Catarina, mas, de arribada, minha intenção de saudade vinha voltando.Tudo, nesta vida, é muito cantável.
Até, a seguir, por um afino de momento eu me arrepiei por trás da testa. Ato do que meio confuso imaginei, por um vão imaginar: que, me querendo-bem ― a mais de meu merecimento ― e crendo que eu enfrentava os duros riscos, ela Otacília pudesse praticar o estouvamento gentil de se fugir de casa e vir aventurada em minha cata, por todos os pousos deste sertão... Ah, ela vinha, montada num bom cavalo corcel, aparecia de repente, por meu nome perguntando. E eu declarava a grandeza real dela, definida bem do meu lado, na frente do grande bando de meus homens... Assim, de jeito tão desigual do comum, minha vida grangeava outros fortes significados. E isso variou em meu pensamento, inesperado de ligeiro supor, que, a bem notado, nem foi um pensar. Arremêdo de sonho, também, não seria de ser. Então, emendando de novo o vero juízo, tive um receio: por causa que aquilo podia ser aviso do que estivesse por vir, rumo de profecias.
Otacília ― me alembrei da luzinha de meio mel, no demorar dos olhares dela. Aquelas mãos, que ninguém tinha me contado que assim eram assim, para gozo e sentimento. O corpo ― em lei dos seios e da cintura ― todo formoso, que era de se ver e logo decorar exato. E a docice da voz: que a gente depois viajasse, viajasse, e não faltava frescura d água em nenhumas todas as léguas e chapadas... Isso tudo então não era amor? Por força que era. E pelo sim receei: será tivesse Diadorim falseado fala, e o recado na verdade fosse outro ― o para ela vir, afoitamente, que eu dela muito carecia? Divulgo o desuso disso, que era extravagâncias. Mas o senhor acreditando que alguma coisa humana é de todo impossível, então é que o senhor não pode mesmo ser chefe de jagunço, nem na menor metade só de um diazinho, nem somente nos vastos imaginados. Ora essas! ― digo. Se Otacília viesse, aparecesse lá em no meio de nós ― que seguimento de coisas havia de suceder?
A bobeia, toleima. Otacília estava guardada protegida, na casa alta da Fazenda Santa Catarina, junto com o pai e a mãe, com a família, lá naquele lugar para mim melhor, mais longe neste mundo. E eu, sem ser por motivo ou razão, cada dia tocava com a minha gente por contrárias bandas, para mais apartado de donde ela assistia. Ao cada dia mais distante, eu mais Diadorim, mire veja. O senhor saiba ― Diadorim! que, bastava ele me olhar com os olhos verdes tão em sonhos, e, por mesmo de minha vergonha, escondido de mim mesmo eu gostava do cheiro dele, do existir dele, do morno que a mão dele passava para a minha mão. O senhor vai ver. Eu era dois, diversos? O que não entendo hoje, naquele tempo eu não sabia.
Máximo me lembro é de que, na minguante, se estava no veredal das cabeceiras de um córrego, lugar de desmedidas pastagens, adonde os cavalos usufruirem descanso. A lá esbarramos e paramos, por uns dias. Me lembro, eu quis escrever uma carta.
Essa minha carta, eu podia destacar um homem, dos ligeiros, ele ia levava em mão, à Otacília, minha nôiva, trazia a resposta. O que eu cogitei de escrever era muito singelo! as notícias de minha saúde, pergunta de como era que ela e os parentes iam passando, saudações de lembranças. Admiro que achei natural de não falar coisa de minha glória de chefia, por oras. Por que? Pois. E tive vontade de traçar uns versos também; mas que a aragem não ajudava a deduzir. Era uma sinceridade muito dificultosa. Escrevi metade.
Isto é: como é que podia saber que era metade, se eu não tinha ainda ela toda pronta, para medir? Ah, viu?! Pois isto eu digo por riso, por graça; mas também para lhe indicar importante fato: que a carta, aquela, eu somente terminei de escrever, e remeti, quase em data dum ano muito depois... Digo o porquê? Próprio porque não pude. Guarde o senhor: não pude completo. Mas, guarde, por outra: o dia vindo depois da noite ― esse é o motivo dos passarinhos...
Falo por palavras tortas. Conto minha vida, que não entendi. O senhor é homem muito ladino, de instruída sensatez. Mas não se avexe, não queira chuva em mês de agosto. Já conto, já venho ― falar no assunto que o senhor está de mim esperando. E escute.
Tinha o Maligno?
Às vezes, penso. Um boneco de capim, vestido com um paletó velho e um chapéu roto, e com os braços de pau abertos em cruz, no arrozal, não é mamolengo? O passopreto vê e não vem, os passarinhos se piam de distância. Homem, é. O senhor nunca pense em cheio no demo. O mato é dos porcos-do-mato... O sertão aceita todos os nomes: aqui é o Gerais, lá é o Chapadão, lá acolá é a caatinga. Quem entende a espécie do demo? Ele não fura: rascrava. Demorar comigo ele podia. E, o que não existe de se ver, tem força completa demais, em certas ocasiões. A ele vazio assim, como é que eu ia dizer: ― Te arreda desta minha conversa!?... Ao que, pois, o que eu ia pondo, na carta, era quase que uma ordenada lembrança, a igualzinha repetição daquilo de Diadorim: ― que ela rezasse por mim, Otacília, orações rezasse... Ia. Ah, mas, aí, houve. Amoleci mão antes de coração: não pude. Não pude, diabralmente, desarrazoado ― por outras fortes ordens... ―; e então de repente tive vergonha, desgostei de estar querendo escrever aquela carta. Desisti, guardei na mochila aquela metade. Um homem é um homem, no que não vê e no que consome. Ah, não. Otacília, eu não merecia. Diadorim era um impossível. Demiti de tudo.
[...]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

sexta-feira, 24 de abril de 2026

SOBERANO SONS DA ALMA - ENTREVISTAS | EP. 4 IVAN LINS

Diário de Bernardo Soares

102.

A vida é para nós o que concebemos nela. Para o rústico cujo campo próprio lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas veem, temos que fundamentar a realidade da nossa vida.
Isto não vem a propósito de nada.
Tenho sonhado muito. Estou cansado de ter sonhado, porém não cansado de sonhar. De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos. Em sonhos consegui tudo. Também tenho despertado, mas que importa? Quantos Césares fui! E os gloriosos, que mesquinhos! César, salvo da morte pela generosidade de um pirata, manda crucificar esse pirata logo que, procurando-o bem, o consegue prender. Napoleão, seu testamento em Santa Helena, deixa um legado a um facínora que tentara assinar a Wellington. Ó grandezas iguais às da alma da vizinha vesga! Ó grandes homens da cozinheira de outro mundo! Quantos Césares fui, e sonho todavia ser.
Quantos Césares fui, mas não dos reais. Fui verdadeiramente imperial enquanto sonhei, e por isso nunca fui nada. Os meus exércitos foram derrotados, mas a derrota foi fofa, e ninguém morreu. Não perdi bandeiras. Não sonhei até ao ponto do exército, onde elas aparecessem ao meu olhar em cujo sonho há esquina. Quantos Césares fui, aqui mesmo, na Rua dos Douradores. E os Césares que fui vivem ainda na minha imaginação; mas os Césares que foram estão mortos, e a Rua dos Douradores, isto é, a Realidade, não os pode conhecer.
Atiro com a caixa de fósforos, que está vazia, para o abismo que a rua é para além do parapeito da minha janela alta sem sacada. Ergo-me na cadeira e escuto. Nitidamente, como significasse qualquer coisa, a caixa de fósforos vazia soa na rua que me declara deserta. Não há mais som nenhum, salvo os da cidade inteira. Sim, os da cidade de um domingo inteiro — tantos, sem se entenderem, e todos certos.
Quão pouco, no mundo real, forma o suporte das melhores meditações. O ter chegado tarde para almoçar, o terem-se acabado os fósforos, o ter eu atirado, individualmente, a caixa para a rua, maldisposto por ter comido fora de horas, ser domingo a promessa aérea de um poente mau, o não ser ninguém no mundo, e toda a metafísica.
Mas quantos Césares fui!

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Placas

Ah, meu pobre Coronel Emerenciano, quem sois vós? Quem sois vós, Dona Maurília, Fernando Ivo? Altamirando Barbosa da Silva? Quem sois vós, com todos esses inúteis cartões de visita deixados teimosamente em cada esquina? Que vergonha, velhinhos... Essa coisa de a gente virar rua é uma forma pública de anonimato.

Mário Quintana, em Caderno H

Filhos

1618 – Luanda

O embarque

Foram agarrados pelas redes dos caçadores e caminham até a costa, amarrados uns a outros pelo pescoço, enquanto soam os tambores da dor nas aldeias.
Na costa africana, um escravo vale quarenta colares de vidro ou um apito com correntinha ou um par de pistolas ou um punhado de balas. Os mosquetões e os facões, a aguardente, as sedas da China ou o percal da Índia são pagos com carne humana.
Um frade percorre as filas de cativos na praça principal do porto de Luanda. Cada escravo recebe uma pitada de sal na língua, uma salpicadura de água benta na cabeça e um nome cristão. Os intérpretes traduzem o sermão: Agora, sois filhos de Deus... O sacerdote manda que não pensem nas terras que abandonam e que não comam carne de cão, rato ou cavalo. Recorda a epístola de São Paulo aos efésios (Servos, servi a vossos amos!) e a maldição de Noé contra os filhos de Cam, que ficaram negros para sempre.
Veem o mar pela primeira vez e os aterroriza esse enorme animal que ruge. Creem que os brancos os levam a um matadouro distante, para comê-los e fazer óleo e banha deles. Os chicotes de pele de hipopótamo os empurram às enormes canoas que atravessam a arrebentação. Nas naus, os ameaçam os canhões de popa e proa, com as mechas acesas. Os grilhões e as correntes impedem que se atirem no mar.
Muitos morrerão na travessia. Os sobreviventes serão vendidos nos mercados da América e outra vez marcados com ferro em brasa.
Nunca esquecerão seus deus. Oxalá, ao mesmo tempo homem e mulher, se disfarçará de São Jerônimo e Santa Bárbara. Obatalá será Jesus Cristo; e Oxum, espírito da sensualidade e das águas frescas, se converterá na Virgem da Candelária, da Conceição, da Caridade ou dos Prazeres, e será Santa Ana na ilha de Trinidad. Por trás de São Jorge, Santo Antônio ou São Miguel, aparecerão os ferros de Ogum, deus da guerra; e dentro de São Lázaro cantará Babalu. Os trovões e os fogos do temível Xangô vão tirar o sossego de São João Batista ou de Santa Bárbara. Em Cuba, Elegguá continuará tendo duas caras, a vida e a morte, e no Brasil Exu terá duas cabeças, Deus e o Diabo, para oferecer a seus fiéis consolo e vingança.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos