10/10/2026

El Efecto e Lenine | Coragem

Capítulo 101 – A Revolução Dálmata

Foi Virgília quem me deu notícia da viravolta política do marido, certa manhã de outubro, entre onze e meio-dia; falou-me de reuniões, de conversas, de um discurso...
– De maneira que desta vez fica você baronesa, interrompi eu.
Ela derreou os cantos da boca, e moveu a cabeça a um e outro lado; mas esse gesto de indiferença era desmentido por alguma coisa menos definível, menos clara, uma expressão de gosto e de esperança. E não sei por que, imaginei que a carta imperial da nomeação podia atrai-la à virtude, não digo pela virtude em si mesma, mas por gratidão ao marido. Que ela amava cordialmente a nobreza; e um dos maiores desgostos de nossa vida foi o aparecimento de certo pelintra de legação, – da legação da Dalmácia, suponhamos, – o conde B.
V., que a namorou durante três meses. Esse homem, vero fidalgo de raça, transtornara um pouco a cabeça de Virgília, que, além do mais, possuía a vocação diplomática. Não chego a alcançar o que seria de mim, se não rebentasse na Dalmácia uma revolução, dolorosa, formidável; os jornais, a cada navio que chegava da Europa, transcreviam os horrores, mediam o sangue, contavam as cabeças; toda a gente fremia de indignação e piedade... Eu não; eu abençoava interiormente essa tragédia, que me tirara uma pedrinha do sapato. E depois a Dalmácia era tão longe!

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

10 Paezinhos

 

Tiranias

antigamente
diziam: cuidado,
as paredes têm ouvidos

então
falávamos baixo
nos policiávamos

hoje
as coisas mudaram:
os ouvidos têm paredes

de nada
adianta
gritar

Rui Proença, em Visão do térreo

Estilo

Como uma forma de depuração, eu sempre quis um dia escrever sem nem mesmo o meu estilo natural. Estilo, até próprio, é um obstáculo a ser ultrapassado. Eu não queria meu modo de dizer. Queria apenas dizer. Deus meu, eu mal queria dizer.
E o que eu escrevesse seria o destino humano na sua pungência mortal. A pungência de se ser esplendor, miséria e morte. A humilhação e a podridão perdoadas porque fazem parte da carne fatal do homem e de seu modo errado na terra. O que eu escrevesse ia ser o prazer dentro da miséria. É a minha dívida de alegria a um mundo que não me é fácil.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

Doce-Amargo




Safo foi a primeira a chamar eros de “doce-amargo”. Ninguém que já se apaixonou discorda. O que significa essa palavra?
Eros parecia a Safo uma experiência ao mesmo tempo de prazer e dor. Aqui temos contradição e talvez paradoxo. Perceber esse eros pode dividir a mente em duas. Por quê? Os componentes da contradição podem parecer, à primeira vista, óbvios. Tomamos por certo, como fez Safo, a doçura do desejo erótico; sua prazerabilidade sorri para nós. Mas a amargura é menos óbvia. Podem existir várias razões para explicar por que aquilo que é doce também deve ser amargo. Podem existir várias relações entre os dois sabores. Poetas elaboraram a questão de diferentes maneiras. A formulação da própria Safo é um bom ponto de partida para traçar as possibilidades. O fragmento relevante diz assim:

Ἔρος δηὖτέ μ᾽ ὀ λυσιμέλης δόνει,
γλυκύπικρον ἀμάχανον ὄρπετον

Eros once again limb-loosener whirls me
sweetbitter, impossible to fight off, creature stealing up

Eros mais uma vez afrouxa-membros me torce
doce-amargo, impossível de resistir, criatura a roubar
(LP, fr. 130)

É difícil de traduzir. “Doce-amargo” soa errado, a tradução padrão em inglês “bittersweet” [amargo-doce] inverte os termos do composto glukupikron de Safo. Isso deveria nos preocupar? Se a ordenação de Safo tem uma intenção descritiva, o que está sendo dito aqui é que eros traz primeiro doçura, depois amargura: a poeta classifica cronologicamente as possibilidades. A experiência de um grande número de pessoas que já se apaixonaram validaria tal cronologia, sobretudo na poesia, em que a maioria dos amores termina mal. Mas é improvável que seja isso que Safo queira dizer. Seu poema começa com uma localização dramática da situação erótica no tempo (dēute) e fixa a ação erótica no presente do indicativo (donei). Em vez da história de um caso de amor, ela registra o instante do desejo. Um momento vacila sob a pressão de eros; um estado mental se divide. O que está em questão é uma simultaneidade de prazer e dor. O aspecto aprazível é nomeado primeiro, presumimos, porque é menos surpreendente. A ênfase é colocada no outro lado do fenômeno, o lado problemático, cujos atributos avançam numa enxurrada de consoantes suaves (verso 2). Eros se move ou espreita sua vítima de algum lugar de fora: orpeton. Nenhuma resistência pode combater esse avanço: amachanon. O desejo, então, não é nem habitante nem aliado da pessoa desejante. Alheio à vontade desta, de fora, o desejo se impõe irresistivelmente sobre ela. Eros é um inimigo. Sua amargura deve ter o sabor da inimizade. Seria ódio.
“Amar os amigos e odiar os inimigos” é uma prescrição arcaica e padrão da moral responsiva. Amor e ódio constroem entre si a maquinaria do contato humano. Faz sentido localizar os dois polos desse afeto dentro de um único evento emocional que é o eros? Provavelmente, sim, se amigo e inimigo convergem dentro do ser que é a ocasião do afeto. A convergência cria um paradoxo, mas que é quase um clichê para a imaginação literária moderna. “E o ódio começa onde o amor termina…”, sussurra Anna Kariênina, enquanto caminha em direção à Estação de Moscou e a um fim do dilema do desejo. Na verdade, o paradoxo erótico é um problema anterior ao próprio Eros. Nós o encontramos encenado, pela primeira vez, na muralha de Troia, em uma cena entre Helena e Afrodite. A troca entre elas é tão certeira quanto um paradigma. Homero nos mostra Helena, encarnação do desejo, farta das imposições de eros, desafiando uma ordem dada por Afrodite para que ela servisse o leito de Páris. A deusa do amor responde com raiva, empunhando o paradoxo erótico como uma arma:

μή μ’ ἔρεθε σχετλίη, μὴ χωσαμένη σε μεθείω,
τὼς δέ σ’ ἀπεχθήρω ὡς νῦν ἔκπαγλ’ ἐφίλησα

Damn you woman, don’t provoke me—I’ll get angry
and let you drop!
I’ll come to hate you as terribly as I now love you!

Mulher maldita, não me provoque – eu vou ficar com raiva
e te abandonar!
Vou te odiar tão terrivelmente quanto agora te amo!
(Il. 3.414-15)

Helena obedece na hora; amor e ódio juntos formam um inimigo irresistível.
A simultaneidade do amargo e doce que nos surpreende no adjetivo glukupikron de Safo é construída de forma diferente no poema de Homero. A convenção épica encena estados emotivos internos de maneira dinâmica e linear, de modo que uma mente dividida possa ser lida a partir de uma sequência de ações antitéticas. Homero e Safo, contudo, concordam em apresentar a divindade do desejo como um ser ambivalente, ao mesmo tempo amigo e inimigo, que informa a experiência erótica com um paradoxo emocional.
Eros também aparece em outros gêneros e poetas como um paradoxo de amor e ódio. Aristófanes, por exemplo, nos conta que o jovem sedutor libertino Alcibíades foi capaz de inspirar um sentimento como a paixão no dēmos grego:

ποθεῖ μέν, ἐχθαίρει δέ, βούλεται δ᾽ ἔχειν.

For they love him and they hate him
and they long to possess him.

Pois eles o amam e o odeiam
e desejam possuí-lo.
(Ran. 1425)

No Agamêmnon de Ésquilo, Menelau é descrito vagando pelo palácio vazio depois da partida de Helena. Os quartos parecem assombrados por ela; Menelau chega ao quarto do casal e suplica pelos “sulcos de amor na cama” (411). É desejo que ele sente (pothos, 414), sem dúvida, mesmo assim o ódio se infiltra para preencher o vazio (echthetai):

πόθῳ δ᾽ ὑπερποντίας
φάσμα δόξει δόμων ἀνάσσειν·
εὐμόρφων δὲ κολοσσῶν
ἔχθεται χάρις ἀνδρί,
ὀμμάτων δ᾽ ἐν ἀχηνίαις
ἔρρει πᾶς Ἀφροδίτα.

Because of his longing for something gone across
the sea
a phantom seems to rule the rooms,
and the grace of statues shaped in beauty
comes to be an object of hate for the man.
In the absences of eyes
all Aphrodite is vacant, gone.

Por causa da sua ânsia por algo que atravessou
o mar
um fantasma parece governar os quartos,
e a graça das estátuas moldadas em beleza
chega a ser um objeto de ódio do homem.
Na ausência de olhos,
toda Afrodite está vazia, se foi.
(Ag. 414-19)

Amor e ódio também fornecem um tema para o epigrama helenístico. A injunção de Nicarco à amada é típica:

Εἴ με φιλεῖς, μισεῖς με· καὶ εἰ μισεῖς, σὺ φιλεῖς με·
εἰ δέ με μὴ μισεῖς, φίλτατε, μή με φίλει.

If you love me, you hate me. And if you hate me, you
love me.
Now if you don’t hate me, beloved, don’t love me.

Se você me ama, você me odeia. E se você me odeia, você
me ama.
Agora, se você não me odeia, amada, não me ame.
(Anth. Pal. 11.252)

O epigrama de Catulo talvez seja o destilado mais elegante que temos desse clichê:

Odi et amo. quare id faciam, fortasse requiris.
nescio, sed fieri sentio et excrucior.

I hate and I love. Why? you might ask.
I don’t know. But I feel it happening and I hurt.

Odeio e amo. Por quê? Você quer saber.
Não sei. Mas sinto acontecendo e me dói.
(Catulo 85)

Às vezes, poetas da tradição lírica grega conceituam a condição erótica assim de maneira contundente, mas Safo e seus sucessores geralmente preferem fisiologia a conceitos. O momento em que a alma sai de si em desejo é concebido como um dilema do corpo e dos sentidos. Na língua de Safo, como vimos, é um momento amargo e doce. Esse gosto ambivalente é desenvolvido, em poetas posteriores, em “mel amargo” (Anth. Pal. 12.81), “doce ferida” (Anth. Pal. 12.126), e “Eros de lágrimas doces” (Anth. Pal. 12.167). Eros dá um nocaute na pessoa apaixonada usando o choque entre quente e frio no poema de Anacreonte:

μεγάλῳ δηὖτέ μ’ Ἔρως ἔκοψεν ὥστε χαλκεύς
πελέκει, χειμερίῃ δ᾽ ἔλονσεν χαράδρῃ.

With his huge hammer again Eros knocked me like a
blacksmith
and doused me in a wintry ditch

De novo com seu enorme martelo Eros me derrubou como um
ferreiro
e na vala invernal me encharcou por inteiro
(PMG 413)
[…]

Anne Carson, em Eros, o doce-amargo – Um ensaio

09/10/2026

Guerreiro Coração | Emílio Santiago

 

1644 – Jamestown

Opechancanough

Antes que um soldado inglês o fulmine pelas costas, o chefe Opechancanough se pergunta: “Onde está o guardião invisível de minhas viagens? Quem roubou-me a minha sombra?”.
Aos cem anos, foi derrotado. Tinha ido ao campo de batalha em uma liteira.
Faz mais de oitenta anos que o almirante Pedro Menéndez de Avilés levou-o a Cadiz. Apresentou-o na corte de Felipe II: Eis aqui um belo príncipe índio da Florida. Puseram-lhe calças, gibão e gola. Em um convento dominicano de Sevilha ensinaram-lhe a língua e a religião dos castelhanos. Depois, no México, o vice-rei deu-lhe seu nome de presente e Opechancanough passou a chamar-se Luis de Velasco. Ao mesmo tempo regressou à terra de seus pais, como intérprete e guia dos jesuítas. Sua gente achou que ele voltava da morte. Predicou o cristianismo e depois despiu-se e degolou os jesuítas e tornou a chamar-se como antes.
Desde aquele tempo, matou muito e viu muito. Viu as chamas devorando aldeias e campos de cultivo e viu seus irmãos vendidos a quem pagava mais, nesta região que os ingleses batizaram de Virgínia em memória a uma rainha virgem de espírito. Viu a varíola engolindo homens e o tabaco, faminto, devorando terras. Viu como eram apagados do mapa dezessete das vinte e oito comunidades que existiam aqui, e como as outras recebiam a possibilidade de escolher entre a diáspora e a guerra. Trinta mil índios deram as boas-vindas aos navegantes ingleses que chegaram à baía de Chesapeake, em uma fresca manhã de 1607. Sobrevivem três mil.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Felicidade

As coisas não nasceram para dar certo, somos nós que fazemos as coisas acontecerem, ou não. Acredito que a gente tem que ter um foco a seguir, traçar metas, viver por elas. Ou morrer tentando. Jamais queimar etapas e saber reconhecer quando é a sua hora.
O Acaso é uma grande armadilha e destrói os sonhos fracos de pessoas que se acham fortes. Não passar do tempo nem chegar antes. Preparar o corpo, o espírito, estudar o tempo e o espaço. Não ser escravo de nenhum dos dois. Observar as coisas que interferem no seu dia e na sua noite. E saber entender que há aqueles sem sol e sem estrelas e que a vida não deve parar só por isso. Ser gentil com as pessoas e consigo mesmo. E gentileza não tem nada a ver com fraqueza, pois, assim como um bom espadachim, é preciso ter elegância para ferir seus adversários. O que adianta uma boca grande e um coração pequeno? Nunca diga que faz, se não o faz.
Ame o teu ofício como uma religião, respeite suas convicções e as pratique de verdade, mesmo quando não tiver ninguém olhando. Milagres acontecem quando a gente vai à luta. Pratique esportes como arremesso de olhar, beijo na boca, poema no ouvido dos outros, andar de mãos dadas com a pessoa amada, respirar o espaço alheio, abraçar sonhos impossíveis e elogios a distância. E, em hipótese alguma, tente chegar em primeiro. Chegar junto é melhor, até porque o universo não distribuiu medalhas nem troféus. Respeite as crianças, todas, inclusive aquela esquecida na sua memória. Sem crianças não há razão nenhuma para se acreditar num mundo melhor. As crianças não são o futuro, elas são o presente, e se ainda não aprendemos isso, somos nós, os adultos, que tiramos zero na escola. Ser feliz não quer dizer que não devemos estar revoltados com as coisas injustas que estão ao nosso redor — muito pelo contrário, ter uma causa verdadeira é uma alegria que poucos podem ter.
Por isso, sorrir enquanto luta é uma forma de confundir os inimigos. Principalmente os que habitam nossos corações. E jamais se sujeite a ser carcereiro do sorriso alheio. Não deixe que outras pessoas digam o que você deve ter, ou usar. Ter coisas é tão importante quanto não tê­-las, mas é você quem deve decidir. Ter cartão de crédito é bom, porém, ter crédito nele tem um preço.
Se possível, aprecie as coisas simples da vida, vai que no futuro... Adeus, pertences.
Esteja sempre disposto ao aprendizado, e não se esqueça de que quem já sabe tudo é porque não aprendeu nada. As ruas são excelentes professoras de filosofia, pratique andar sobre elas. Procure desvendar as máscaras do dia a dia, pois o segredo está no minúsculo, assim como um belo espetáculo do crepúsculo e o pequeno gesto das formiguinhas escondem a grandeza a ser seguida pela humanidade. Tenha amigos. Se não tem, seja. Eles virão.
Felicidade não se ensina, é uma magia, e o segredo está na disciplina de uma vida sem truques e sem fogos de artifícios. E não acreditem em poetas. São pessoas tristes que vendem alegria.

Sérgio Vaz, em Literatura, pão e poesia

Calvin

 

A Contadora de Filmes

[10]

Devo confessar que nunca imaginei que seria a vencedora do concurso de quem contava melhor um filme. É que meu irmão Mirto, o segundo, apelidado de Pássaro, que em casa era o responsável pelas compras, era o favorito de todo mundo. Ele sempre foi alegre e falastrão e passava o dia contando coisas que aconteciam com ele; tinha muito senso de humor.
Já meu irmão Mariano, o mais velho, que por causa de sua gagueira era chamado de Caterpillar – ele se encarregava de cozinhar, apesar de ser o mais inteligente de todos, e “mais sério que cabo de polícia”, como dizia meu pai –, não tinha nenhuma possibilidade, por causa de sua fala quebrada. O coitado tinha começado a gaguejar quando nossa mãe foi-se embora.
Meu irmão Manuel, o terceiro (era quem cuidava da limpeza), nem gostava muito de cinema. Para ele, o que mais importava no mundo era o futebol; era um peladeiro impenitente; suas partidas duravam o dia inteiro, o primeiro tempo de manhã e o segundo de tarde, com um breve intervalo para o almoço. Por causa de seu hábito de fazer um montinho de terra cada vez que ia chutar a bola, foi apelidado de Morrinho.
No deserto, todo mundo exibia com orgulho a condecoração de um apelido; quem não tinha apelido era um nonato, um zé ninguém, não existia.
Meu quarto irmão, Marcelino, o Cabeça de Livro, tinha alma de artista. Gostava de desenhar e pintar com lápis de cor. Em casa era mais para o calado, gostava mais de ouvir que de falar. E sua única tarefa era tirar o lixo.
Depois vinha eu, e, por ser mulher, ninguém dava um tostão por mim. Eles achavam que as mulheres só prestavam para fazer as camas e lavar os pratos – daí que eu cuidava da casa – e por isso não tinha a menor chance. Acontece que havia três coisas que me davam vantagem em cima deles, embora nem eu mesma soubesse. A primeira é que eu devorava os quadrinhos de Hopalong Cassidy, de Gene Autry, de Kid Colt e todos os heróis do Velho Oeste, e eles não liam nada. A segunda é que eu era louca pelas novelas de rádio, uma paixão que tinha herdado da minha mãe, que, comigo nos braços, jamais perdia um capítulo de Esmeralda, a filha do rio. E a terceira era uma coisa que até papai ignorava: quando eu era muito pequena, minha mãe me fazia dormir contando para mim filmes românticos – os seus favoritos –, coisa que não fez com nenhum dos meus irmãos.
“Essas coisas são mais nossas, das mulheres”, dizia ao me dar uma piscada de cumplicidade que eu adorava.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

Sertão-Veneza

 



Só importa a Beleza. Mas a Beleza é incapturável.
A Beleza é uma porta encruzilhada.
João Guimarães Rosa

Em 9 de outubro de 1949, João Guimarães Rosa, acompanhado da esposa Aracy, registrou em seus Diários da Itália sua partida no trem das 9h15 de Milão para Veneza. Era a primeira vez que visitaria Veneza; uma viagem de fruição, após anos de inquietações. Depois desse dia, o olhar de Rosa para a encantada Veneza – e para a Itália – nunca mais foi o mesmo. E o desejo de retornar, de visitar novamente museus, restaurantes e praças, de observar pombos, passarinhos e gatos, de passear nas gôndolas, capturar e registrar momentos, visões e sensações permaneceu latente até seus últimos dias. Walter Benjamin, no seu livro Rua de mão única, escreveu: “Por meio de Moscou se aprende a ver Berlim mais rapidamente que a própria Moscou”. Durante essa viagem pela Itália – e a partir das observações e anotações – o viaggiatore Rosa conseguiu ver mais rapidamente, e reconheceu afetivamente, outras veredas desse “sertão” insular, milenar e suspenso.

No dia 28 de maio de 1952, Rosa faria outra viagem, ainda mais sensorial e literária. Uma investigação detalhada, uma apurada pesquisa in loco, um retorno ao passado e às memórias de infância. Saindo de Sirga até Araçuaí, acompanhado de seu primo Francisco Moreira, e conduzido por Manuelzão, ele se juntaria a uma boiada de vaqueiros durante a travessia dos mais de 240 quilômetros pelo sertão de Minas Gerais. Nos diários ou cadernos de anotações – A boiada 1 e A boiada 2 –, Rosa registraria, assim como já havia feito nos Diários da

Itália e no Diário da Alemanha, casos, acasos, minúcias, detalhes, cenários, pessoas, situações, sensações, sentimentos e reminiscências. Benjamin afirmava ser possível dividir o olhar do viajante em dois grupos, o dos autóctones e o dos estrangeiros. Segundo ele, os escritos e registros do primeiro grupo são minoria, já que o motivo superficial, o exótico, o pitoresco só atrai os de fora. Para o autóctone, o importante é resgatar imagens e sensações de sua cidade. Ele tem a motivação de quem, ao invés de viajar para longe e se colocar na posição distante e fria de estrangeiro, busca viajar para o passado a fim de se encontrar consigo mesmo. O retrato produzido pelo autóctone terá afinidade com o próprio livro de memórias. Nessas travessias, Rosa, que passou sua infância no sertão, se reconectou e redescobriu sua voz. Quatro anos após essa aventura, seriam lançados Corpo de baile e Grande sertão: veredas.

Sobre o desejo de empreender essa viagem-retorno, Rosa relatou ao amigo Mário Calábria, cônsul do Brasil em Munique: “Estou-me preparando para, daqui a dias, ir acompanhar, rústica, árdua, autenticamente, uma boiada brava, em percurso de 40 léguas, lá do sertão sagarânico, da fazenda da Sirga – entre buritizais belíssimos e chapadões de matagal inviolado – até a fazenda São Francisco, de um meu primo, lá perto de Cordisburgo. Já ando nos preparativos, arrumando mochila, cantil, roupa cáqui, pois serão 15 dias no ermo, a carne seca com farinha-de-mandioca e café com rapadura, sob sol, poeira, lama e chuva. Odisseus”. Ao citar a jornada do herói grego, ele se preparava para a sua travessia/retorno ao sertão. Não era a primeira vez: em 1945, esteve em Minas, e suas observações estão em “Notas da Grande Excursão a Minas”; e, em 1947, em Nhecolândia, no Pantanal Mato-Grossense, cujo relato pode ser lido nos textos Com o vaqueiro Mariano, Sanga Puytã, Cipango, Ao pantanal e Uns índios – sua fala.

Viagem ao passado. Jornada de sonhos, mitos e místicas. Travessias e reencontros é o que também realizou Italo Calvino. No livro As cidades invisíveis, o autor italiano resgata as suas lembranças – e as lembranças, crenças e criações da cultura italiana – em relação à encantada Veneza – ou às encantadas Venezas. Esse livro canônico se tornou fundamental para sonhar as inúmeras possibilidades dessa cidade. Por meio de seu personagem-protagonista Marco Polo, Calvino transformou a geografia física e histórica em uma linguagem de símbolos, e a viagem em epifanias. Ele – criador e criatura – reconstrói as cidades visitadas elucidando o contorno brumoso e “cadavérico” de Veneza – cidade natal do viajante e coração silencioso de toda a narrativa. Cada cidade descrita ao imperador Kublai Khan funciona como um reflexo – mas também como uma distorção – da cidade-mãe-mito Veneza. Cidade-sonho insular, flutuante, aterrorizante; sempre à beira e à margem, tanto do desaparecimento quanto da eternidade.

Os mesmos detalhes e rigor, o mesmo fruir e encantamento que se percebe em A boiada também são saboreados em seus Diários da Itália. Rosa se mostra apaixonado pelas gôndolas e pelas conversas dos gondoleiros (ao chegar em Veneza, ele se deslumbra de tal forma que até a sua letra garranchada, tremida e inelegível se transforma). Em vários momentos, desenha essas embarcações venezianas, comenta seus nomes e anota também o que está ao redor. Parece não ter medo, só encanto e fascínio pelo rio e por aquele que o conduz. “(cidade de) Mestre: chegamos a Veneza às 6h40. As gondolas, no lusco-fusco, como bichos do mar. O deslumbramento. A lua aponta.”

Jacques Fux, em Sertão-Veneza – Retornos e travessias roseanas

07/10/2026

A cabeça do santo | Primeira parte

 



Traigo los ojos con que ella miró estas cosas, porque me dio sus ojos para ver.
Juan Rulfo

Caminho

Ele não tinha mais sapatos e seus pés, àquela altura, já eram outra coisa: um par de bichos disformes. Dois animais dentados e imundos. Duas bestas, presas aos tornozelos, incansáveis, avante, um depois do outro, avante, conduzindo Samuel por dezesseis longos e dolorosos dias sob o sol.
Nos primeiros dias o sangue e a água que minavam das bolhas arrebentadas nos seus pés chiavam em contato com o asfalto em brasa, inclemente. De tão secos, fizeram silêncio. Surgiu uma pele nova, quase um couro de cobra, esturricado, admirável engenho da natureza para os que não podem contar com nenhum lapso de piedade do inimigo. As pernas, gêmeos paradoxos: quanto mais magras, mais fortes. Os músculos cresceram, até nas canelas sujas que sustentavam as coxas de pouca carne. Ele, sujo como um desenterrado, andando sempre em linha reta.
Dezesseis dias. Por vezes olhava para baixo e temia que o ventre colasse de vez nas costelas, como na história do homem caído que a mãe, Mariinha, contava. Dizia que foi num dia de muito calor, pior que o sopro quente de sempre, quando ela ouviu alguém bater palmas diante de sua porta. Foi abrir, levando a alegria discreta que sempre doava aos vizinhos ou aos compradores de chapéu. O sorriso acabou-se no espanto, porque ali estava um homem esticado no chão, tão faminto que a pele da barriga colara nas costelas. O desmaiado era bonito e foi isso que o salvou. As mulheres da vizinhança não demoraram a ferver um mingau de milho, cozinhar uma galinha gorda, um quilo de arroz refogado com alho e sal, uma panela grande de farofa com carne-seca e coentro, nove copos de leite com canela e oito ovos cozidos. Não faltaram voluntárias para trazer os pratos, dar comida na boca, fazer a barba, limpar o rosto com pano perfumado de colônia. Foram dois dias de comilança para que a barriga do desinfeliz descolasse das costelas, fazendo um estalido seco e alto que se ouviu por todo o Horto. Voltou dos mortos tão cheio de desejo que não demorou para que pedisse a mão de uma das moças em casamento. Era Estelita, a que lhe trouxe mingau de milho.
Samuel também tinha o ventre quase colado nas costas e oxalá ainda fosse possível desgrudar quando chegasse a hora. Alguém ajudaria? Alguém daria comida a um desenterrado? Pensava na galinha cozida, nas bananas, nas mãos da mãe enchendo o seu prato de louça branco leitoso, com as bordas quebradas e a pinturinha de flores descascada. Das mãos da mãe ele tentava não lembrar. Era uma dor sem nome.
Sapatos, as pernas da calça, mangas da camisa, o parco dinheiro: tudo ficou pelo caminho. (Existe quem compre mangas de camisa, isso é espantoso.) Seu torso mal protegido tinha duas cores. Os braços queimados de sol não serviam para nada além de sustentar as mãos. Das coisas que um corpo exige, ele não tinha quase nenhuma, o corpo pede e pune, na mesma medida. A mala que levava quando deixou a casa ficou pelo caminho logo no quinto dia. Ou isso, ou a fome. Trocou por um prato de carne cozida e baião de dois. A dona de uma pensão aceitou, de má vontade, só porque precisava de uma mala para guardar as toalhas das mesas.
Restavam apenas os seus vinte e oito anos e o endereço de poucas palavras no bolso esquerdo. Às vezes o pequeno pedaço de papel pegava fogo e torrava a única pista do seu destino. Samuel enfiava a mão no bolso com desespero: era o pior do elenco de pesadelos daquela jornada. Ele queria chegar lá, no lugar indicado por oito palavras e um número. Chegar lá era a única coisa que tinha na vida.
Os cabelos escuros e lisos cresciam rápido e já escorriam de forma irritante sobre a testa, atrapalhando a vista. Tinha olhos pequenos, sobrancelhas fartas e juntas acima do nariz, boca carnuda e traços de índio, herdados da mãe, Mariinha.
Samuel era um corpo magro e faminto, quase uma sombra, que não parava de andar. Quase dez horas de caminhada por dia. Pouca água, comida rara, sono em cotas breves. Tudo ficou pelo caminho: juventude, alegria, pedaços de pele, mililitros de suor, quilos do corpo, e os parcos e velhos fios de esperança de que houvesse alguma coisa invisível que ajudasse os homens sobre a Terra. As esperanças nunca foram suas, eram de Mariinha, ele as usava por empréstimo em casos raros. Naquele momento, Samuel não tinha fé nenhuma nas coisas do espírito. Do outro lado da estrada, em direção contrária, caminhavam exemplares do seu extremo oposto.

Socorro Acioli, em A cabeça do santo

O Amor | Gal Costa

 

Minifesto

Ave a raiva desta noite
a baita lasca fúria abrupta
louca besta vaca solta
ruiva luz que contra o dia
tanto e tarde madrugastes

morra a calma desta tarde
morra em ouro
enfim, mais seda
a morte, essa fraude,
quando próspera

viva e morra sobretudo
este dia, metal vil,
surdo, cego e mudo,
nele tudo foi e, se ser foi tudo,
já nem tudo nem sei
se vai saber a primavera
ou se um dia saberei
que nem eu saber nem ser nem era

vim pelo caminho difícil,
a linha que nunca termina,
a linha bate na pedra,
a palavra quebra uma esquina,
mínima linha vazia,
a linha, uma vida inteira,
palavra, palavra minha.

Paulo Leminski, em Distraídos venceremos

Capítulo IX – Baleia

 



A Cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pêlo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida.
Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa na base, cheia de moscas, semelhante a uma cauda de cascavel.
Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o saca-trapo e fez tenção de carregá-la bem para a cachorra não sofrer muito.
Sinha Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que adivinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma pergunta: – Vão bulir com a Baleia?
Tinham visto o chumbeiro e o polvarinho, os modos de Fabiano afligiam-nos, davam-lhes a suspeita de que Baleia corria perigo.
Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem dizer não se diferençavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que ia subindo, ameaçava cobrir o chiqueiro das cabras.
Quiseram mexer na taramela e abrir a porta, mas Sinha Vitória levou-os para a cama de varas, deitou-os e esforçou-se por tapar-lhes os ouvidos prendeu a cabeça do mais velho entre as coxas e espalmou as mãos nas orelhas do segundo. Como os pequenos resistissem, aperreou-se e tratou de subjugá-los, resmungando com energia.
Ela também tinha o coração pesado, mas resignava-se: naturalmente a decisão de Fabiano era necessária e justa. Pobre da Baleia.
Escutou, ouviu o rumor do chumbo que se derramava no cano da arma, as pancadas surdas da vareta na bucha. Suspirou. Coitadinha da Baleia.
Os meninos começaram a gritar e a espernear. E como Sinha Vitória tinha relaxado os músculos, deixou escapar o mais taludo e soltou uma praga: – Capeta excomungado.
Na luta que travou para segurar de novo o filho rebelde, zangou-se de verdade. Safadinho. Atirou um cocorote ao crânio enrolado na coberta vermelha e na saia de ramagens.
Pouco a pouco a cólera diminuiu, e Sinha Vitória, embalando as crianças, enjoou-se da cadela achacada, gargarejou muxoxos e nomes feios. Bicho nojento, babão. Inconveniência deixar cachorro doido solto em casa. Mas compreendia que estava sendo severa demais, achava difícil Baleia endoidecer e lamentava que o marido não houvesse esperado mais um dia para ver se realmente a execução era indispensável.
Nesse momento Fabiano andava no copiar, batendo castanholas com os dedos. Sinha Vitória encolheu o pescoço e tentou encostar os ombros às orelhas. Como isto era impossível, levantou os, braços e, sem largar o filho, conseguiu ocultar um pedaço da cabeça.
Fabiano percorreu o alpendre, olhando a baraúna e as porteiras, açulando um cão invisível contra animais invisíveis: – Eco! eco!
Em seguida entrou na sala, atravessou o corredor e chegou à janela baixa da cozinha. Examinou o terreiro, viu Baleia coçando-se a esfregar as peladuras no pé de turco, levou a espingarda ao rosto. A cachorra espiou o dono desconfiada, enroscou-se no tronco e foi-se desviando, até ficar no outro lado da árvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras. Aborrecido com esta manobra, Fabiano saltou a janela, esgueirou-se ao longo da cerca do curral, deteve-se no mourão do canto e levou de novo a arma ao rosto. Como o animal estivesse de frente e não apresentasse bom alvo, adiantou-se mais alguns passos. Ao chegar as catingueiras, modificou a pontaria e puxou o gatilho. A carga alcançou os quartos traseiros e inutilizou uma perna de Baleia, que se pôs a latir desesperadamente.
Ouvindo o tiro e os latidos, Sinha Vitória pegou-se à Virgem Maria e os meninos rolaram na cama, chorando alto. Fabiano recolheu-se.
E Baleia fugiu precipitada, rodeou o barreiro, entrou no quintalzinho da esquerda, passou rente aos craveiros e às panelas de losna, meteu-se por um buraco da cerca e ganhou o pátio, correndo em três pés. Dirigiu-se ao copiar, mas temeu encontrar Fabiano e afastou-se para o chiqueiro das cabras. Demorou-se aí um instante, meio desorientada, saiu depois sem destino, aos pulos
Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira. E, perdendo muito sangue, andou como gente, em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo. Quis recuar e esconder-se debaixo do carro, mas teve medo da roda.
Encaminhou-se aos juazeiros. Sob a raiz de um deles havia uma barroca macia e funda. Gostava de espojar-se ali: cobria-se de poeira, evitava as moscas e os mosquitos, e quando se levantava, tinha folhas secas e gravetos colados as feridas, era um bicho diferente dos outros.
Caiu antes de alcançar essa cova arredada. Tentou erguer- se, endireitou a cabeça e estirou as pernas dianteiras, mas o resto do corpo ficou deitado de banda. Nesta posição torcida, mexeu-se a custo, ralando as patas, cravando as unhas no chão, agarrando-se nos seixos miúdos. Afinal esmoreceu e aquietou-se junto as pedras onde os meninos jogavam cobras mortas.
Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu: um nevoeiro impedia-lhe a visão. Pôs-se a latir e desejou morder Fabiano. Realmente não latia: uivava baixinho, e os uivos iam diminuindo, tornavam-se quase imperceptíveis.
Como o sol a encandeasse, conseguiu adiantar-se umas polegadas e escondeu-se numa nesga de sombra que ladeava a pedra.
Olhou-se de novo, aflita. Que lhe estaria acontecendo? O nevoeiro engrossava e aproximava-se. Sentiu o cheiro bom dos preás que desciam do morro, mas o cheiro vinha, fraco e havia nele partículas de outros viventes. Parecia que o morro se tinha distanciado muito. Arregaçou o focinho, aspirou o ar lentamente, com vontade de subir a ladeira e perseguir os preás, que pulavam e corriam em liberdade. Começou a arquejar penosamente, fingindo ladrar. Passou a língua pelos beiços torrados e não experimentou nenhum prazer. O olfato cada vez mais se embotava: certamente os preás tinham fugido.
Esqueceu-os e de novo lhe veio o desejo de morder Fabiano, que lhe apareceu diante dos olhos meio vidrados, com um objeto esquisito na mão. Não conhecia o objeto, mas pôs-se a tremer, convencida de que ele encerrava surpresas desagradáveis. Fez um esforço para desviar-se daquilo e encolher o rabo. Cerrou as pálpebras pesadas e julgou que o rabo estava encolhido. Não poderia morder Fabiano: tinha nascido perto dele, numa camarinha, sob a cama de varas, e consumira a existência em submissão, ladrando para juntar o gado quando o vaqueiro batia palmas.
O objeto desconhecido continuava a ameaçá-la. Conteve a respiração, cobriu os dentes, espiou o inimigo por baixo das pestanas caídas. Ficou assim algum tempo, depois sossegou. Fabiano e a coisa perigosa tinham-se sumido.
Abriu os olhos a custo. Agora havia uma grande escuridão, com certeza o sol desaparecera.
Os chocalhos das cabras tilintaram para os lados do rio, o fartum do chiqueiro espalhou-se pela vizinhança.
Baleia assustou-se. Que faziam aqueles animais soltos de noite? A obrigação dela era levantar-se, conduzi-los ao bebedouro. Franziu as ventas, procurando distinguir os meninos. Estranhou a ausência deles.
Não se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia não atribuía a esse desastre a impotência em que se achava nem percebia que estava livre de responsabilidades. Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar as cabras: àquela hora cheiros de suçuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar. as moitas afastadas. Felizmente os meninos dormiam na esteira, por baixo do caritó onde Sinha Vitória guardava o cachimbo.
Uma noite de inverno, gelada e nevoenta, cercava a criaturinha. Silêncio completo, nenhum sinal de vida nos arredores. O galo velho não cantava no poleiro, nem Fabiano roncava na cama de varas. Estes sons não interessavam Baleia, mas quando o galo batia as asas e Fabiano se virava, emanações familiares revelavam-lhe a presença deles. Agora parecia que a fazenda se tinha despovoado.
Baleia respirava depressa, a boca aberta, os queixos desgovernados, a língua pendente e insensível. Não sabia o que tinha sucedido. O estrondo, a pancada que recebera no quarto e a viagem difícil do barreiro ao fim do pátio desvaneciam-se no seu espírito.
Provavelmente estava na cozinha, entre as pedras que serviam de trempe. Antes de se deitar, Sinha Vitória retirava dali os carvões e a cinza, varria com um molho de vassourinha o chão queimado, e aquilo ficava um bom lugar para cachorro descansar. O calor afugentava as pulgas, a terra se amaciava. E, findos os cochilos, numerosos preás corriam e saltavam, um formigueiro de preás invadia a cozinha.
A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Do peito para trás era tudo insensibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo se arrepiava, espinhos de mandacaru penetravam na carne meio comida pela doença.
Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente Sinha Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo.
Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.

Graciliano Ramos, em Vidas Secas

O regresso do mestre

Desde seus primeiros anos, Migyur — este era o seu nome — havia sentido que não estava onde tinha que estar. Sentia-se forasteiro em sua família, forasteiro em seu povoado. Ao sonhar, via paisagens que não pertenciam a Ngari: solidões de areia, tendas circulares de feltro, um mosteiro na montanha; e na vigília, estas mesmas imagens cobriam ou empanavam a realidade.
Aos dezenove anos fugiu, ávido de encontrar a realidade que correspondia a essas formas. Foi vagabundo, esmoler, trabalhador e as vezes ladrão. Hoje chegou a esta pousada perto da fronteira.
Viu a casa, a cansada caravana mongol, os camelos no pátio.
Atravessou o portão e se encontrou diante do velho monge que comandava a caravana. Reconheceram-se, então: o jovem vagabundo viu-se a si mesmo como um lama ancião, e viu o monge como este era há muitos anos, quando fora seu discípulo; e o monge reconheceu no rapaz o seu velho mestre, já desaparecido. Lembraram a peregrinação que haviam feito aos santuários do Tibete e o regresso ao mosteiro da montanha. Falaram evocaram o passado e se interrompiam para intercalar detalhes precisos.
O propósito da viagem dos mongóis era buscar um novo chefe para o seu convento. Fazia vinte anos que havia morrido o antigo, e eles em vão esperavam sua reencarnação. Hoje o tinham encontrado.
Ao amanhecer a caravana empreendeu sua lenta viagem de volta. Migyur regressava às solidões de areia, às tendas circulares de feltro e ao mosteiro de sua encarnação anterior.

Alexandra David-Neel, em Mystiques el Magiciens du Tibet

Posse

Pense mais no que possui do que no que não possui. Imagine o quão ansiosamente buscaria as coisas que selecionou como as melhores caso não as possuísse. Em compensação, dado que está satisfeito com elas, tome cuidado para não as valorizar a ponto de se perturbar caso as perca.

Marco Aurélio, em Meditações

Correnteza

 


8

Rita Preta acorda se sentindo ainda pior que no dia anterior. O cansaço deixa seus pensamentos desordenados e o corpo parece se render. Está dormindo pouco e sem o descanso adequado, o sono contínuo deu vez aos cochilos intermitentes sem que lhe permitissem repousar o suficiente. Além da angústia pelo sumiço do filho, ela vê surgir um crescente sentimento de culpa, que a atormenta de maneira constante. Primeiro, pela briga que antecedeu o desaparecimento de Cid; se fosse menos impulsiva, poderia ter contornado a situação sem a agressividade cultivada ao longo da vida para se proteger, evitando assim as mágoas e o que se seguiu. Depois, porque ela não se preocupou com o fato de o filho não estar em casa quando voltou do trabalho. Tinha ido ao encontro do namorado. Bebeu, conversou, depois aceitou passar duas horas num hotel barato no centro da cidade. Por fim, esperou pela carona, no caminhão que ele dirigia, para voltar para casa. Se distraiu dos dissabores da vida, seja pelo leve torpor do álcool, pelos efeitos do orgasmo, ou ainda pela visão abrangente que tinha da cidade ao viajar num caminhão por ruas e viadutos; ou por tudo isso junto.
Aquela perspectiva de mirar a cidade de cima a fascina, e todas as vezes que Jorge a leva para qualquer lugar conduzindo o caminhão, Rita fala de seu desejo de aprender a dirigi-lo. Ele promete ensinar, quer impressioná-la, mesmo que esteja cético sobre sua capacidade de pedalar sequer uma bicicleta, que dirá manobrar um veículo pesado. Por mais que fosse incrédula em relação a um bom número de desejos, aquele em particular é alimentado com a esperança de poder realizá-lo. Mas, enquanto não aprende a dirigir, ela trafega pela noite de Salvador — com Jorge quase nunca é durante o dia —, mal ou bem iluminada, contemplando a cidade e sua gente, o traçado das ruas, o esplendor e a sobriedade convivendo nos distintos espaços. Mesmo quando a bebida lhe cai mal e o sexo não é bom, resta admirar as ruas, a chuva, a brisa, as luzes, o mar e os morros, os rios correndo como esgoto, a lua e os vales, os edifícios com vidros espelhados e os casebres com tijolos à mostra, e o concreto que macula o horizonte com elevados e passarelas suspensas para pedestres. Naquelas horas, ela não é mãe nem trabalhadora. É apenas uma mulher sentindo, de forma simples, que ama viver.

“Mãe, Cid não voltou. O que será que aconteceu?”
A pergunta esmaga o peito de Rita Preta, por ela não ter uma resposta satisfatória, por não tentar dar nenhuma outra e por ficar em silêncio quando se espera dela a verdade, mesmo que não a tenha. Para se esquivar desse vazio, ela anuncia:
“Preciso contar o que está acontecendo no trabalho. Se faltar mais um dia, corro o risco de perder o emprego. Depois, vou voltar à delegacia e procurar nos hospitais”, diz enquanto recolhe a caneca de café da mesa. “Vou pedir dinheiro a Fátima. Já não tenho mais nada para o transporte. Gastei tudo indo até a delegacia e levando vocês para não ficarem sozinhos em casa.”
“É verdade o que estão dizendo? Que ele foi levado pela polícia?”
“Quem disse?”
“Você, minha mãe”, Cainho se senta à mesa enquanto olha para Rita como se suplicasse por uma resposta. “Será que ele fugiu? Cid disse que ia embora de casa no dia em que vocês brigaram.”
“Eu repeti o que seu Aranha e dona Conceição disseram, mas nem eles têm certeza. De qualquer maneira, voltei à delegacia e dei a informação. Vão me dizer se ele fez algo errado e se está em algum lugar”, Rita responde, irritada, como se necessitasse confrontar o filho. “Ontem zanzei pelo bairro, levei a foto de Cid, perguntei a um e a outro; nada. Disseram que uns meninos que jogavam bola viram ele ser abordado. Encontrei alguns garotos depois de muito andar e eles não sabiam também”, diz sem olhar para Cainho, se movimentando entre a sala e a cozinha em busca de tarefas por fazer. “Prometi um trocado se alguém me der uma informação concreta. Se alguém aparecer aqui, mande voltar mais tarde.”
“Se ele foi embora, não foi para longe”, ela tenta minimizar a gravidade da situação enquanto enfia na bolsa pedaços de papéis com anotações difusas e um batom. “E o que você está querendo dizer? Que a culpa dele ter sumido é minha?” Rita encara Cainho com o ar grave. “O que você sabe da vida? Só me faltava essa.”
Cainho se cala, e seu rosto é a expressão do descontentamento. Não é preciso declarar nada, não é preciso dizer que, se a mãe não tivesse brigado com o irmão, isso não teria acontecido. Ele permanece sentado, olhando para a ponta dos dedos, e não se volta de novo para Rita, nem nada diz. Seus gestos descortinam um cansaço anterior ao seu tempo, àquela vida, mesmo que não saiba como expressar.
Rita Preta termina de enfiar os objetos na bolsa com gestos furiosos. No fundo, parece querer de alguma maneira retardar tudo o que tem para fazer fora de casa até que Cid apareça ou envie notícias. Ela sai para voltar segundos depois. Procura algo na mesa de vidro e em seguida no balcão que serve como divisória entre a sala e a minúscula cozinha. Ergue a chave e volta para a porta. “Cuide do seu irmão; telefone se Cid aparecer.”
Rita se dirige à casa de Fátima. Enviou uma mensagem de voz um pouco antes, perguntando se ela poderia emprestar uma quantia até a próxima semana. Elas saem juntas para o ponto de ônibus. Rita conta tudo o que fez no dia anterior e Fátima mantém sua expressão atenta. A vizinha procura confortá-la: Cid tem que aparecer, e se o que disseram sobre a polícia é verdade, ela vai descobrir. Rita Preta pergunta: se o filho fosse recolhido por algum delito, os policiais ou o juizado de menores não teriam por obrigação informar aos pais (pensando consigo mesma “eu sou ‘os pais’”)? Então conta que ligou para o pai de Cid e ele não deu a devida importância, além de tentar culpá-la pelo que aconteceu. Rita ressalva que no fundo não queria telefonar para ele, afinal havia criado os filhos sozinha, mas precisava saber se Cid o tinha procurado querendo abrigo ou mesmo pedindo algum dinheiro para ir mais longe, embora ela duvidasse que o pai fosse capaz de abrir a casa da família ou desse algo para o filho.
Elas se despedem. No trajeto, Rita viaja em pé no ônibus e segura a bolsa à sua frente. Faz uma prece em silêncio pelos filhos, embora sinta que nenhuma reza, nenhum encanto, conseguirá protegê-la dessa aflição sem nome. Aquele crescente é perturbador, uma enxurrada carregando detritos, mas ela mantém os olhos no horizonte através das janelas e se estimula para não se distrair, precisa fazer tudo ao seu alcance para que o filho volte. Rita se prepara para os próximos embates, e em seu estômago guarda apenas um copo de café preto doce, coado ainda pela manhã. Ela não contou a Cainho nem a Fátima sobre a falta de apetite. A ansiedade a fazia se sentir com o estômago cheio, como se os alimentos consumidos dias atrás não tivessem sido digeridos.

Depois de contar o que havia acontecido à supervisora e ao gerente da loja numa sala isolada e refrigerada a ponto de parecer o interior de uma câmara fria, Rita Preta deixa o supermercado evitando cruzar com os colegas para não ter que responder às perguntas sobre o desaparecimento do filho. Mais cedo ou mais tarde todos saberão, pois não há segredos nem discrição naquele ambiente. Ao entregar a bolsa para que o segurança a reviste na saída da loja, ressoam as palavras do gerente: estava liberada naquele dia, mas ele não poderia arcar com o ônus de sua ausência por muito tempo. Assim como Rita se reportava a ele como superior hierárquico, ele devia satisfação ao seu chefe, e arriscaria sua função se permitisse ausências prolongadas de qualquer funcionário sem justificativa amparada na legislação trabalhista. No entanto, como Rita havia sido uma boa colaboradora naqueles mais de dois anos em que trabalhava no supermercado, ele se empenharia junto ao setor de recursos humanos para antecipar suas férias, ajustando todo o cronograma milimetricamente desenhado de forma a não impactar as vendas de fim de ano.
Vendas, metas, bom desempenho. Rita não chega a ter aversão a essas palavras em meio à sua aflição, mas não consegue alcançar seus significados, por mais esforço que faça. São como as lembranças do fim da infância: sua avó andando sem rumo pela terra, armazenando sacas de sal na casa de paredes rachadas, trazidas durante meses da feira da cidade, junto com as compras mirradas. Faltava tudo, menos sal e loucura. Aquelas palavras ecoavam em sua memória como os murmúrios sem sentido de Carmelita repetindo como uma aparição: o rio se estreitava como sua garganta, o rio se estreitava como sua garganta, o rio morreria junto com ela. Rita, menina, acreditava que era a dor da má sorte e da insânia pela morte dos que estavam à sua volta. Durante muito tempo, seu maior temor era terminar como sua avó, amargurada, vagando pela terra e repetindo palavras sem sentido.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo