13/10/2026

Hamilton de Holanda trio ft. Paulo Flores - Luanda (Unidos)

O Impagável Quino

 

Teimosia

Não adianta
quebrarem minhas pernas,
furar meus olhos
ou falar pelas costas.

O que sustenta meu corpo
são minhas ideias.
Braços descruzados,
tenho um cérebro com asas
e sou todo coração.

Se me proibirem de andar sobre a água,
nado sobre a terra.

Sérgio Vaz, em Flores da Batalha

Piloto de Guerra




XII

Exerço corretamente meu ofício. Não impede que eu seja um tripulante em derrota. Estou embebido na derrota. Transpira-se a derrota por todo lado, haja vista minhas mãos.
Os manetes de potência estão congelados. Estou condenado a manobrar em potência máxima. E eis que essas duas sucatas me trazem problemas inextricáveis.
No avião que estou pilotando, o aumento do passo de hélice é limitado, baixo demais. Eu não posso pretender, picando em regime pleno, evitar uma velocidade de aproximadamente oitocentos quilômetros por hora e o aumento de rotação de meus motores. Todavia, o aumento de rotação de um motor traz riscos de falha.
A rigor, me seria possível cortar os contatos. Mas eu me infligiria assim uma pane definitiva. Essa pane levaria ao fracasso da missão e à eventual perda do avião. Nem todos os terrenos favorecem a aterrissagem de um aparelho que toca o solo a cento e oitenta quilômetros por hora.
É então essencial que eu destrave os manetes. Em consequência de um primeiro esforço, vou ao limite do manete esquerdo. Mas o da direita continua resistindo.
Seria possível agora efetuar minha descida numa velocidade de voo tolerável, se eu reduzisse ao mínimo o motor sobre o qual já pude agir, o esquerdo. Mas se eu reduzir o motor esquerdo, precisarei compensar a potência assimétrica do motor direito — a qual tenderá, obviamente, a fazer girar o avião para a esquerda. Terei de resistir a essa tendência. No entanto, os pedais, dos quais dependem essas manobras, também estão completamente congelados. Fico impossibilitado, assim, de compensar. Se eu reduzir o motor esquerdo, caio em espiral.
O único recurso será arriscar ultrapassar, durante a descida, o limite de regime teórico de ruptura. Três mil e quinhentos giros: risco de falha catastrófica.
Tudo isso é absurdo. Nada está ajustado. Nosso mundo é feito de engrenagens que não se ajustam umas às outras. Não são os materiais que estão em questão, mas o Relojoeiro. Falta o Relojoeiro.
Depois de nove meses de guerra, ainda não conseguimos fazer com que as indústrias adaptassem metralhadoras e comandos ao clima em grande altitude. E não é com a incúria dos homens que nos deparamos. Os homens, na maioria, são honestos e conscienciosos. Sua inércia, quase sempre, é um efeito, e não uma causa, de sua ineficácia.
A ineficácia pesa sobre nós todos como uma fatalidade. Pesa sobre soldados da infantaria armados de baionetas diante de tanques. Pesa sobre os tripulantes que lutam, um contra dez. Pesa até mesmo sobre aqueles que deveriam ter por missão modificar as metralhadoras e os comandos.

Vivemos no ventre cego de uma administração. Uma administração é uma máquina. Quanto mais uma administração é aperfeiçoada, mais elimina a arbitrariedade humana. Numa administração perfeita, onde o homem desempenha seu papel de engrenagem, a preguiça, a desonestidade, a injustiça não têm mais oportunidade de alastrar-se.
Mas, assim como a máquina é construída para administrar uma sucessão de movimentos previstos de uma só vez, a administração também não cria mais. Ela gere. Aplica tal sanção para tal falta, tal solução a tal problema. Uma administração não é concebida para resolver problemas novos. Se, numa máquina de chapear, introduzirem-se peças de madeira, não vão sair móveis. Seria preciso, a fim de adaptar a máquina, que um homem dispusesse do direito de mexer nela. Mas numa administração, concebida para prevenir os inconvenientes da arbitrariedade humana, as engrenagens recusam a intervenção do homem. Recusam o Relojoeiro.

Faço parte do Grupo 2/33 desde novembro. Meus camaradas, assim que cheguei, avisaram:
— Você vai passear na Alemanha sem metralhadoras nem comandos.
Depois, para me consolar:
— Fique tranquilo. Você não perde nada. Os caças abatem sempre antes de serem vistos.
Em maio, seis meses mais tarde, as metralhadoras e os comandos ainda congelam.

Penso numa fórmula tão velha quanto meu país: “Na França, quando tudo parece perdido, um milagre salva o país”. Entendi por quê. Aconteceu às vezes de um desastre, tendo destrambelhado a bela máquina administrativa, e tendo esta se mostrando irreparável, substituírem-na, por falta de melhor, por simples homens. E os homens salvaram tudo.
Quando um torpedo tiver reduzido a cinzas o Ministério da Aeronáutica, convocarão, com urgência, um cabo qualquer, e lhe dirão:
— Você está encarregado de descongelar os comandos. Você tem carta branca. Vire-se. Mas se em quinze dias eles ainda gelarem, você será preso.
Os comandos, talvez, então, descongelem.

Conheço uns cem exemplos desse vício. As comissões de requisição de um departamento do norte, por exemplo, requisitaram novilhas prenhes e transformaram assim os abatedouros em cemitério de fetos. Nenhuma engrenagem da máquina, nenhum coronel do serviço de recrutamento estava qualificado para agir de outro modo senão como engrenagem. Eles obedeciam todos a uma outra engrenagem, como num relógio. Qualquer revolta era inútil. É por isso que essa máquina, uma vez que tenha começado a destrambelhar, foi alegremente empregada em abater novilhas prenhes. Talvez tenha sido um mal menor. Ela poderia, se mais gravemente destrambelhada, começar a abater coronéis.
Eu me sinto desencorajado até o pescoço por essa degradação universal. Mas como me parece inútil dar um tranco num dos meus motores, exerço contra o manete esquerdo um novo peso. Em meu desgosto, exagero o esforço. Depois, abandono. Esse esforço me custou uma nova pontada no coração. Decididamente, o homem não foi feito para o culto físico a dez mil metros de altitude. Essa pontada é uma dor em surdina, uma espécie de consciência local estranhamente despertada na escuridão dos órgãos.
Os motores vão estourar se quiserem.
Pouco me importa. Esforço-me para respirar. Parece-me que não respiraria mais se me distraísse. Eu me lembro dos foles de outrora, com a ajuda dos quais a gente reanimava o fogo. Reanimo meu fogo. Eu queria muito convencê-lo a “pegar”.
O que estraguei de irreparável? A dez mil metros, um esforço físico um pouco brusco pode acarretar uma ruptura dos músculos do coração. É muito frágil um coração. Precisa servir muito tempo. É absurdo comprometê-lo com trabalhos tão grosseiros. É como se queimássemos diamantes para cozinhar uma maçã.

Antoine de Saint-Exupéry, em Piloto de Guerra

As marcas do sangue azul

 


A importância de Lambari na minha infância se deve a uma ação do meu irmão Ismael, em claro desafio à autoridade de minha mãe. Mas, para chegar a esse acontecido, é preciso começar longe.
A psicanálise ensina que, para se descobrir segredos, é preciso prestar atenção a pequenas coisas a que ninguém atribui importância. Por exemplo: aqui, na cidade onde vivo, Campinas, há pessoas que falam “casa de Aurélia”, “o livro de Pedro”, “o aniversário de Margarida”... Quando ouço esse “de” já sei que se trata de pessoa ligada à nobreza dos grandes barões do café. E me cubro de cerimônias por me sentir na sala de visitas de um casarão colonial... É nesse insignificante “de” que se encontra a revelação.
Pois as diferenças entre a família do meu pai e a família de minha mãe se revelam no insignificante e banalíssimo ato de chupar laranja. Ah! Vocês pensavam que uma laranja é simplesmente uma laranja! Não é não. Laranjas do mesmo pé podem ser nobres ou plebeias. Depende do jeito como são comidas. A família de minha mãe chupava laranja de gomo, a família do meu pai chupava laranja de tampa. Você pode imaginar uma senhora da alta sociedade chupando laranja de tampa num jantar? Jamais! Chupar laranja de tampa é coisa de plebeus: a laranja enfiada entre os beiços e os dentes, comprimida pelas mãos para lhe extrair o caldo, as sementes enchendo a boca para serem cuspidas para o lado. Pode-se dizer que chupar laranja de tampa é gostoso e descontraído. Mas elegante é que não é. Laranja de tampa pode-se chupar de pé e mesmo andando. O que não é possível fazer quando se chupa uma laranja de gomo. Há duas formas de se chupar uma laranja de gomo. A primeira, plebeia, consta das seguintes operações. Descascar a laranja. Tirar a pele branca que cobre os gomos. Abrir a laranja em duas. Ir enfiando os gomos um a um na boca para serem mastigados, o caldo engolido, as sementes cuspidas e o bagaço engolido ou cuspido, conforme o gosto ou as necessidades da pessoa. Digo “necessidades” porque há pessoas que engolem o bagaço por ordem médica, por causa da prisão de ventre. A segunda, nobre, é diferente. É preciso estar assentado à mesa. Primeiro é o cuidadoso ato de descascar. Descascada a laranja segue-se a operação de retirar-lhe a película branca que a cobre. A seguir, abre-se a mesma em duas metades e separam-se os seus gomos. Tomam-se então os gomos, um a um, e vagarosamente executa-se a operação cirúrgica de retirar a pele translúcida em que vêm revestidos, o que se faz por meio de uma incisão ao longo da linha fina do gomo. Desnudados os gomos, retiram-se-lhes com a ponta da faca os caroços, que são colocados num prato. Finalmente, come-se a sua carne enquanto se conversa. É trabalhoso comer uma laranja de gomo. Trata-se de um elaborado striptease. Todos da família da minha mãe comiam as laranjas de gomo, do jeito nobre. Curioso sobre esse costume, procurei explicações com a minha mãe. Ela me respondeu: “É para aproveitar melhor”. De fato, aproveita-se melhor. Mas eu não via razão para se aproveitar tanto, quando as laranjeiras estavam cheias de laranjas que se perdiam, comidas pelos passarinhos e insetos e apodrecidas no chão. Não, não fazia sentido. Essa estória de “aproveitar melhor” só faz sentido quando laranjas são poucas e raras, frutas nobres e caras, possivelmente importadas... Mas lá no interior de Minas não se importavam laranjas, não eram raras nem eram caras. Havia um descompasso entre a abundância das laranjas e a necessidade de comê-las de sorte a aproveitar todas as suas garrafinhas. Se você não sabe, as garrafinhas de uma laranja são aquelas minúsculas gotas de caldo que compõem o gomo. Isso não era costume brasileiro. Era costume que vinha das cortes reais da Europa. Lá os nobres, ricos, comiam caras laranjas importadas, de gomo, elegantemente. O povo pobre não comia laranjas, talvez nem soubesse o que eram laranjas... Assim, ao comer as laranjas de gomo, os membros da família de minha mãe anunciavam suas origens de sangue azul.
A família do meu pai, que chupava laranjas de tampa, nada tinha de nobreza. Era gente comum, sem etiquetas. Mas a família da minha mãe se julgava diferente, era de “sangue azul”, e se meu avô permitiu que minha mãe se casasse com o meu pai, acho que foi porque meu pai era rico. O dinheiro faz perdoar um homem que chupa laranjas de tampa... Referiam-se desdenhosamente às pessoas da “prateleira de baixo” e, quando uma delas tinha antecedentes negros, coçavam discretamente a bochecha com o dedo indicador — gesto que era conhecido de todos — para advertir quem não soubesse: “Tem sangue de preto...” .
Havia vários outros artifícios para estabelecer com clareza sua superioridade sobre a plebe. Um deles eram os nomes que se davam aos filhos. A plebe batizava seus filhos de João, José, Antônio, Manuel, Maria, Conceição, Tereza, nomes vulgares que logo eram reduzidos a apelidos. Mas, para que não houvesse confusões, nossa diferença nobre já estava anunciada em nossos nomes: Aloísio, Augusto, Silvestre, Jorge, Eugênio, Noêmia, Eliza, Delminda...
Uma outra marca de nobreza estava nas roupas que tínhamos de vestir. Os meninos da plebe muito cedo começavam a usar calças compridas. Mas a família da minha mãe achava que os filhos nobres tinham de usar calças curtas. Meu irmão me contou da sua vergonha: já tinha catorze anos, suas pernas eram peludas e tinha de usar calças curtas. Ele andava pelas ruas se espremendo contra as paredes para que ninguém o visse. Naqueles tempos, filho não tinha vontade. Minha mãe se justificava dizendo que os meninos do Rio de Janeiro usavam calças curtas.
Foi muito depois, no Rio de Janeiro, que descobri que a razão era outra. Mãe que tem filho de calças curtas é mulher jovem. A idade de uma mulher se media pelo comprimento das calças do filho... Eu tinha doze anos. Só usava calças curtas. Meu pai e minha mãe me levaram para comprar um terno. Em tudo eu era apenas um observador. Minha mãe pediu um terno de calças curtas. O vendedor respondeu que, para um jovem da minha idade, não havia ternos de calças curtas. Ri de felicidade! Finalmente iria realizar o meu desejo de ter um terno de calças compridas! Concluída a compra, minha mãe disse ao vendedor: “Por favor, mande cortar as pernas...” . O remédio era continuar a usar as calças compridas de brim cáqui do uniforme da escola. Ela não podia mandar cortar as pernas das calças do uniforme...
Na família do meu pai as portas da rua das casas tinham um buraco pelo qual se passava um barbante amarrado ao trinco. Não era preciso bater. Bastava puxar o barbante que a porta se abria e a pessoa podia entrar pela casa indo até a cozinha, onde havia sempre uma cafeteira sobre a chapa do fogão de lenha. No sobradão do meu avô ninguém passava da sala de visitas, que ficava na frente, ao fim da escadaria. Era lá que as visitas eram cerimoniosamente recebidas e confinadas.
Mas, de todas as marcas de nobreza, havia uma que me humilhava mais: os meninos da plebe tinham os seus cabelos raspados à escovinha, com uma franja na testa. Como tínhamos de nos diferenciar dos meninos da “prateleira de baixo”, nosso cabelo havia de ser comprido. O que era motivo de muita vergonha porque, naqueles tempos, cabelo comprido era coisa de menina. Cabelo comprido e calças curtas: era demais...
Aconteceu que o meu irmão Ismael, já moço, já havendo ultrapassado a humilhação das calças curtas, já havendo ultrapassado a humilhação do cabelo comprido, veio nos visitar. Ele estava no internato do Instituto Gammon, em Lavras. Ele não disse nada. Me pegou pela mão e disse: “Vamos passear!”. Ao passar por uma barbearia, ele entrou, assentou-me na cadeira e ordenou ao barbeiro: “Escovinha”…

Rubem Alves, em O velho que acordou menino

Zoo

O dromedário apesar-de. O camelo, além-de. A girafa, sobretudo.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

12/10/2026

Djavan | A Carta

 

Ninfas

Agora sei que existem ninfas
fora das estampas e dos contos.
São três.
Bebem água publicamente
servida por uma sereia,
pois que também existem as sereias
na composição de verde e mármore
e é tudo fantástico no jardim
em frente do Palácio do Governo.

Carlos Drummond de Andrade, em Boitempo – Esquecer para lembrar

O Impressionismo de Renoir

 

Rosas e Jasmins em um Vaso Delft (1881), de Pierre-Auguste Renoir

Limite-se ao presente

Limpe as suas impressões. Interrompa o puxar das cordas. Limite-se ao presente. Entenda bem o que se passa com você e com o próximo. Divida e distribua cada objeto em causal e material. Pense na sua última hora. Deixe o mal cometido por um homem perdurar com ele.

Marco Aurélio, em Meditações

Se eu morresse...

Se eu atravessasse a rua agora, eu morria atropelado por aquele carro preto. Era bom que eu não precisava entregar o texto dessa semana. Mas ia ser um drama fodido.
O dono do carro preto ia ficar bem puto. Depois ia ficar bem mal. Depois ia ficar bem puto, de novo, porque o sinal tava aberto pra ele. E o carro preto ia ficar bem estraçalhado. Dei uma engordada que ia ser fatal pro carro preto. O dono do carro preto ia sair me xingando, só depois ia perceber que eu já morri. Aí ele ia ficar mal de novo. As pessoas iam ficar putas com ele, porque ninguém fica puto com quem já morreu. Mas o sinal tava aberto pra mim, ele ia dizer. Talvez alguém me reconhecesse: esse cara faz uns vídeos pra internet. Talvez virasse uma comoção.
A Folha ia publicar uma homenagem no lugar onde é a coluna, o Porta dos Fundos talvez lançasse um vídeo-homenagem, com meus melhores momentos editados, uma música emocionante. Fora que vinte e sete anos é uma idade ótima pra morrer, tem um monte de gente legal que morreu com vinte e sete anos e as pessoas iam me botar no meio dessa lista. Ia parecer que eu faço parte de um grupo: “Nós, que morremos com vinte e sete”. Ia parecer que eu tinha levado uma vida muito mais maldita e muito mais interessante.
Talvez eu virasse nome de rua. A rua em que eu morri. A própria Marquês de São Vicente talvez passasse a se chamar rua Gregorio Duvivier, com a legenda: mártir dos atropelados. Se bem que o sinal tava vermelho pra mim. Nunca iam homenagear um cara que atravessou no sinal fechado. E a Marquês é uma rua muito grande.
Talvez valesse mais a pena eu ser atropelado numa rua menor. Na rua das Acácias, por exemplo, eu tinha mais chance. Aí sim, rolava meu nome. Ou não. Rua das Acácias é um nome bonito, os moradores iam preferir manter. E ninguém atropela ninguém por ali. As pessoas iam achar suspeito. Iam pensar: esse daí se jogou na frente do carro só pra virar nome de rua.
Talvez aqui na Marquês seja mais fácil. Talvez aqui eu consiga emplacar um canteiro. Canteiro Gregorio Duvivier. Não. Canteiro não costuma ter nome. Talvez, no máximo, uma plaquinha: aqui morreu Gregorio Duvivier, que fazia vídeos pra internet e escreveu um livro de poemas. Que ninguém leu. Não. Melhor não atravessar, não. Por enquanto, morrer não tá valendo muito a pena pra mim. Nota mental: fazer alguma coisa que preste. Puta que o pariu, tenho que entregar o texto dessa semana.

Gregorio Duvivier, em Put some farofa

Você não consegue escrever uma história de amor




Margie ia sair com um sujeito, mas, no caminho, esse sujeito encontrou com outro que vestia um casaco de couro e o sujeito com casaco de couro abriu o casaco de couro e mostrou as tetas e o outro sujeito foi até a casa de Margie e disse que não poderia mais ir ao encontro, porque esse sujeito, vestindo um casaco de couro, havia lhe mostrado as tetas e ele iria trepar com esse sujeito. Então Margie foi até a casa de Carl. Carl estava em casa e ela se sentou e disse para Carl:
– Um sujeito ia me levar para um café com mesas na calçada e íamos beber vinho e conversar, só beber vinho e conversar, só isso, nada mais, mas no caminho para me encontrar, esse sujeito encontrou outro com um casaco de couro e o sujeito com casaco de couro lhe mostrou as tetas e agora esse sujeito vai trepar com o sujeito com casaco de couro e eu fico sem minha mesa e meu vinho e minha conversa.
– Não consigo escrever – disse Carl. – Acabou-se.
Então ele se levantou e foi até o banheiro, fechou a porta e deu uma cagada. Carl cagava quatro ou cinco vezes por dia. Não havia mais nada a fazer. Ele tomava cinco ou seis banhos por dia. Não havia mais nada a fazer. Ficava bêbado pela mesma razão.
Margie ouviu a descarga da privada. Então Carl saiu do banheiro.
– Um homem simplesmente não consegue escrever oito horas por dia. Nem mesmo consegue escrever todo dia ou toda semana. É uma situação péssima. Não há nada a fazer além de esperar.
Carl foi até a geladeira e voltou com um pacote de seis garrafas de cerveja Michelob. Abriu uma garrafa.
– Sou o maior escritor do mundo – ele disse. – Você sabe como isso é difícil?
Margie não respondeu.
– Posso sentir a dor rastejando por todo o meu corpo. É como uma segunda pele. Queria poder me livrar dessa pele como uma cobra.
– Bem, por que você não se deita no tapete e tenta?
– Escute – ele perguntou –, onde foi que a conheci?
– Na Bodega do Barney.
– Bem, isso explica um pouco as coisas. Beba uma cerveja.
Carl abriu uma garrafa e lhe entregou.
– É... – disse Margie – eu sei. Você precisa do seu isolamento. Você precisa ficar sozinho. Exceto quando quer trepar, ou exceto quando nos separamos, então você me liga. Diz que precisa de mim. Diz que está morrendo por causa de uma ressaca. Você enfraquece rápido.
– Enfraqueço rápido.
– E fica tão inerte quando estou por perto, nunca se excita. Vocês escritores são tão... preciosos... não suportam pessoas. A humanidade fede, certo?
– Certo.
– Mas toda vez que nos separamos você começa a fazer festas gigantes que duram quatro dias. E de repente você acorda, começa a FALAR! De repente fica cheio de vida, falando, dançando, cantando, dança em cima da mesa de café, joga garrafas pela janela, encena trechos de Shakespeare. De repente, você está vivo... quando estou longe. Ah, fiquei sabendo de tudo!
– Não faço festas. Odeio ainda mais as pessoas nas festas.
– Para um sujeito que não gosta de festas, certamente você organiza um bocado delas.
– Escute, Margie, você não entende. Não consigo mais escrever. Estou acabado. Em algum lugar tomei uma trajetória errada. Em algum momento, morri durante a noite.
– O único jeito de você morrer é numa dessas suas ressacas gigantescas.
– Jeffers diz que até mesmo o mais forte dos homens fica encurralado.
– Quem foi Jeffers?
– Foi o sujeito que transformou Big Sur numa armadilha para turistas.
– O que você ia fazer essa noite?
– Ia ouvir as músicas de Rachmaninoff.
– Quem é?
– Um russo que já morreu.
– Olha para você. Fica aí sentado.
– Estou esperando. Alguns sujeitos esperam por dois anos. Às vezes a coisa nunca volta.
– E se nunca voltar?
– Apenas vestirei meus sapatos e descerei até a rua principal.
– Por que não arranja um emprego decente?
– Não existem empregos decentes. Se um escritor não consegue sucesso através da criação, está morto.
– Ah, para com isso, Carl! Existem bilhões de pessoas no mundo que não atingem o sucesso pela criação. Quer me dizer que elas estão mortas?
– Sim.
– E você tem uma alma? Você é um dos poucos que tem uma alma?
– Diria que sim.
– Diria que sim! Você e a sua maquininha de escrever! Você e os seus cheques mirrados! Minha avó ganha mais dinheiro do que você!
Carl abriu outra garrafa de cerveja.
– Cerveja! Cerveja! Você e a porra da sua cerveja! Isso está nas suas histórias também. “Marty ergueu sua cerveja. Quando levantou os olhos, uma tremenda loira entrou no bar e sentou ao seu lado...” Você está certo. Está acabado. Seu material é limitado, muito limitado. Você não consegue escrever uma história decente de amor.
– Você está certa, Margie.
– Se um homem não consegue escrever uma história de amor, ele é um inútil.
– Quantas você já escreveu?
– Não digo que sou uma escritora.
– Mas – disse Carl – você parece posar como uma crítica literária infernal.
Margie, depois disso, foi logo embora. Carl ficou sentado e bebeu o resto das cervejas. Era verdade, a escrita o havia deixado. Isso deixaria algum de seus inimigos do subsolo felizes. Eles poderiam aumentar em um tento a marca dos inimigos abatidos. A morte os agradava, em cima ou embaixo da terra. Lembrou-se de Endicott, Endicott sentado, dizendo:
– Bem, Hemingway se foi, Dos Passos se foi, Patchen se foi, Pound se foi, Berryman pulou daquela ponte... as coisas estão parecendo cada vez melhores.
O telefone tocou. Carl atendeu.
– Sr. Gantling?
– Sim – ele respondeu.
– Gostaríamos de saber se você estaria interessado em uma leitura de algum dos seus trabalhos na Faculdade Fairmount.
– Bem, sim, qual a data?
– No dia 30 do próximo mês.
– Acho que não tenho nada marcado para esse dia.
– Nosso pagamento geralmente é de cem dólares.
– Geralmente recebo 150. Ginsberg ganha mil.
– Mas ele é Ginsberg. Podemos oferecer apenas cem.
– Tudo bem.
– Bom, sr. Gantling. Enviaremos os detalhes para você.
– E o transporte? Dirigir até aí não é pouca coisa.
– Ok, 25 dólares pela viagem.
– Ok.
– Gostaria de falar com os estudantes em suas classes?
– Não.
– Oferecemos um almoço grátis.
– Vou aceitar o almoço.
– Bom, sr. Gantling, estaremos esperando para vê-lo em nosso campus.
– Nos falamos.
Carl foi até o quarto. Olhou para a máquina de escrever. Colocou uma folha de papel no rolo, então observou uma garota com uma minissaia surpreendentemente curta cruzar pela frente de sua janela. Depois começou a escrever:
“Margie ia sair com um sujeito, mas, no caminho, esse sujeito encontrou com outro que vestia um casaco de couro e o sujeito com casaco de couro abriu o casaco de couro e mostrou as tetas e o outro sujeito foi até a casa de Margie e disse que não poderia mais ir ao encontro, porque esse sujeito, vestindo um casaco de couro, havia lhe mostrado as tetas...”
Carl ergueu sua cerveja. Era bom voltar a escrever.

Charles Bukowski, em Ao Sul de Lugar Nenhum

11/10/2026

Soberano Sons da Alma - Entrevistas | César Camargo Mariano

A uma senhora

Na idade em que eu brincando entre os pastores,
Andava pela mão e mal andava,
Uma ninfa comigo então brincava
Da mesma idade e bela como as flores.

Eu com vê-la sentia mil ardores;
Ela punha-se a olhar e não falava;
Qualquer de nós podia ver que amava,
Mas quem sabia então que eram amores?

Mudar de sítio à ninfa já convinha,
Foi-se a outra ribeira; e eu só, naquela
Fiquei sentindo a dor que n’alma tinha,

Eu cada vez mais firme, ela mais bela;
Não se lembra ela já de que foi minha,
Eu ainda me lembro que sou dela!…

Basílio da Gama, em A poesia é necessária

Mafalda

 

Frases que matam

 — Mas como você está bem conservado!

Mário Quintana, em Caderno H

Diário de Bernardo Soares

135.

As coisas mais simples, mais realmente simples, que nada pode tornar semi-simples, torna-mas complexas o eu vivê-las. Dar a alguém os bons-dias por vezes intimida-me. Seca-se-me a voz, como se houvesse uma audácia estranha em ter essas palavras em voz alta. É uma espécie de pudor de existir — não tem outro nome!
A análise constante das nossas sensações cria um modo novo de sentir, que parece artificial a quem analise só com a inteligência, que não com a própria sensação.
Toda a vida fui fútil metafisicamente, sério a brincar. Nada fiz a sério, por mais que quisesse. Divertiu-se em mim comigo um Destino malin.
Ter emoções de chita, ou de seda, ou de brocado! Ter emoções descritíveis assim! Ter emoções descritíveis!
Sobe por mim na alma um arrependimento que é de Deus por tudo, uma paixão surda de lágrimas pela condenação dos sonhos na carne dos que os sonharam... E odeio sem ódio todos os poetas que escreveram versos, todos os idealistas que fizeram ver o seu ideal, todos os que conseguiram o que queriam.
Vagueio indefinidamente nas ruas sossegadas, ando até cansar o corpo em acordo com a alma, dói-me até aquele extremo da dor conhecida que tem um gozo em sentir-se, uma compaixão materna por si-mesma, que é musicada e indefinível.
Dormir! Adormecer! Sossegar! Ser uma consciência abstrata de respirar sossegadamente, sem mundo, sem astros, sem alma — mar morto de emoção refletindo uma ausência de estrelas!

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Parte I: Você trouxe todas as palavras


3.

Despertei quando Florice bateu na porta e me chamou para tomar um chá de tília, prometendo que acalmaria minhas ideias, sem que ela mesma estivesse tranquila. Lembrei de sonhos confusos que tive, cenas cortadas com facas, um homem muito perto de mim, falando alto. Acordei assustada com os gritos dele, furioso dentro do sonho, misturados às batidas dela, suaves.
Enquanto demos quatro passos lentos até a mesa, contou-me que descobriu um pé de tília no quintal e estava contente por isso, era seu chá preferido. Tomamos muito em Portugal, ela explicou, abrindo espaço para esse assunto sem qualquer interesse ou relação com a tragédia que eu vivia, como se estivesse tudo bem.
Fernando me aguardava à mesa, com um caderno e uma caneta em mãos. Florice também. O dela era gasto, velho, uma capa de papelão azul-marinho dobrado e desdobrado, com as pontas já se desfazendo. O dele, um caderninho novo, de capa vermelha. Sua fala foi um percurso de coisas numeradas, organizadas, a única ordem que meus pensamentos conseguiram obedecer. Combinaram aquela conversa. Decidiram sobre o que cada um falaria e até que ponto poderiam me dizer coisas, um evento ensaiado.
Primeiro ele repetiu que não perdi as palavras, voltou a esse ponto com insistência, olhando nos meus olhos, pausando a voz para que eu entendesse que aquilo era sério e importante, poderia compor meu tempo, determinaria o meu futuro, eu não tinha percebido ainda. Alguns chegam mudos aqui e só voltam a falar meses depois, meu caso era um intercurso improvável e milagroso. Ele me pediu para acreditar, pois só isso me ajudaria a resolver tudo mais rápido, lembrar quem sou, voltar para casa. Estava viva, não morri, sobrevivi ao insólito.
Segundo: meu passado poderia aparecer nos sonhos e eu precisaria anotar com muita dedicação, em detalhes, mesmo que parecesse uma coisa sem sentido ou sem importância. Eu iria lembrar de tudo em algum momento. Os sonhos guardam o que é nosso e nos devolvem quando precisamos, ele disse, contando que pelos caminhos de dentro as memórias voltaram da viagem escura.
— Escreve tudo no caderno. Sabemos que é difícil para ti não lembrar nada da tua vida nem das pessoas. Não perceber o que te aconteceu é devastador, mas os outros chegaram quase sempre mudos, soltando grunhidos que ninguém entende, latem, miam, um festival de horrores. As palavras vieram, isso é muito bom, mas tem paciência. É como reconstruir uma cidade depois de um terramoto. Tu te desfizeste, foi uma categoria de morte, mas não daquelas que encerram a vida. É uma ressurreição, entendes?
Claro que eu não entendia. Eu acreditava nele, havia um esforço sincero para me fazer perceber, muito profundamente, que me entregava uma chave importante para seguir, mas eu me revoltava.
— Quem são os outros todos?
Florice ouvia tudo de cabeça baixa, olhando seu caderno, prestes a explodir com minha irritação, apertando os lábios, controlando o ânimo, apressando os gestos e a ponta dos dedos contornando a borda da capa, com unhas pintadas e bem cortadas. Fernando sustentava o olhar em mim. As tarefas entre os dois estavam bem divididas: ela cuidava do meu corpo por obrigação e ele, dos pedaços de alma que levei, por caridade.
Perguntei também o que achavam que aconteceu na igrejinha da aldeia, ela disse que pode ter sido alguma confusão mental, é comum no meu estado. Além de rapariga, sou louca, era isso que ela pensava de mim, essa égua do meu ódio. Não havia nada lá, as portas estavam imóveis, ele garantiu, olhou com atenção, não escutou coisa nenhuma. Tive certeza de que muitas pessoas queriam sair de lá de dentro, mas eles disseram que eu não me importasse, que os primeiros dias e meses eram assim mesmo, aconteciam fatos inexplicáveis.
— Ou eu posso ser louca. Se não sabemos de nada, posso ser qualquer coisa.
— Os Ressurrectos chegam sempre confusos. Eu conheci muitos loucos na vida e os piores estavam sempre convencidos de que eram ótimas pessoas — Florice resolveu falar.
— O que é ser Ressurrecto, afinal? Por que isso aconteceu comigo?
— Já te disse antes. Significa quem morre sem morrer, enterrados que saem da terra. Não é qualquer morto, são os escolhidos para isso. Quem começa uma vida nova. Meu avô repetia exatamente isso quando tocávamos no assunto. O que aconteceu contigo é parte da história da minha família há anos, um absurdo que nunca entendemos, quase um delírio, não contamos para ninguém, sempre foi nosso segredo. Tu não podes falar nada, percebes? Nunca poderás falar. Os que chegaram para nós estão registrados neste caderno. Cada um com uma origem diferente.
— Sempre saem da terra?
— Os que chegam para minha família, sim. Tu és a vigésima oitava e a primeira mulher. Mas meu avô falava que havia outras formas de chegar.
— Esse corte no meu braço, no pescoço, essas marcas e pancadas, vocês sabem o que foi? Estou muito ferida. Quem me enterrou, quem fez isso comigo?
Não sabiam. Fernando quis dizer algo, mas Florice tocou sua mão e o interrompeu. A sensação se repetiria muitas vezes: ele ficava prestes a dizer qualquer coisa que ela não permitia. Ela abriu o caderno e passou as páginas. Nome, data de chegada, data de saída, algumas linhas a mais. Mostrou muito rapidamente. Na página vinte e oito havia a data e a hora do meu desenterro, descrição física, pouca coisa.
Recebi o caderno vermelho em branco e prometi me esforçar. Eu saberia anotar? Se dependia de mim, garanti que iria fazer o certo: escrever os sonhos.
— Não sei se isso vai ajudar em alguma coisa, meus sonhos são ilusões de cabeça confusa.
— É o contrário. Só o sonho é real.
Ele explicou mais uma vez, com paciência, que alguns dos Ressurrectos que conseguiram voltar para as suas casas de origem, seus países, foram os que perseguiram as pistas dos sonhos, de forma consciente ou vaga, mas era o único jeito de voltar. Os Ressurrectos sempre têm fortes motivos para fazer a viagem, ele disse.
— E qual teria sido meu motivo?
— Deve ter alguma relação com as tuas cicatrizes. Foram cortes fundos, quem fez isso queria o teu mal. Tu lutaste uma batalha violenta, isso é certo.
— Eu morri e recebi outra chance por qual motivo?
— Não sabemos, realmente, mas aconteceram absurdos, era o pai de Florice quem contava os casos. A esta altura da minha vida sei que qualquer coisa é possível. Não sou mais ingênuo de acreditar que uma ordem única rege tudo, ou que nossa cabeça pode entender os desígnios do mundo. Não pode. Só nos resta aceitar e seguir vivendo porque estamos nessa aventura às cegas. Todos nós. Quando a gente acha que entendeu tudo, o caos aparece para relembrar que não somos coisa nenhuma.
Depois dessa conversa eles não queriam dizer mais nada, mudaram o tema, entramos no modo prático da vida: arrumar objetos, organizar a bagagem, estudar a rota da viagem pelo mapa. Partiríamos para a casa de dona Fátima, cunhada de Fernando, mas antes iríamos passar uns dias em Lisboa. Mostraram o mapa de Portugal, a travessia que faríamos até lá, onosso lugar naquele país, pequeno e estreito na Europa, o nome do continente, ele explicava como se eu fosse criança. Pediram desculpas por não mostrar o mapa do Brasil, não o tinham em mãos. Levavam o de Portugal pela necessidade.
A rota de saída de Almofala passaria por São Clemente, Venda da Costa, Venda da Natária, Cumeira da Cruz, Chões, Alvorninha, Chiote, Zambujal, Vila Nova, Outeiro, Casal do Rei, Casais da Boavista, Ribeira de Crastos, Carrasqueira, Vidais, Mosteiros, Trabalhia, Matoeiro, Imaginário, Caldas da Rainha. Eu guardei esse papel, deixei dentro do caderno, por isso sei os nomes até hoje.
Os dois tinham gosto de apontar no mapa os lugares onde nasceram, onde viveram, onde estão seus parentes, os sítios mais bonitos, as viagens, as paisagens. Falaram da muralha de Óbidos, da casa que alugaram com uma laranjeira cuja copa invadia a janela do quarto quando eram jovens e comemoravam o terceiro ano de casamento. Adoravam o Porto, Coimbra, Sintra, Mafra, Aveiro, Braga, decorei alguns nomes mas estava cansada, não era um bom momento. Eu não estava ali porque escolhi. Desejaram que eu aproveitasse a sorte de renascer em Portugal. Não conseguia ter essa ideia tão bem-acabada de renascimento, mas gostava do esforço para me alegrar.
Antes de ir embora fui ver de onde saí. O buraco estava coberto e Florice plantou uma muda de oliveira em cima, contou que trouxe de casa, era um ritual de chegada dos Ressurrectos que seu avô ensinou. Aninhou a mudinha na terra enquanto eu me recuperava na primeira noite, diz ela que isso me ajudou e eu nem sei. A árvore absorveria o que ficou de mim pelo caminho.
Deixamos a casa de carro e vimos que o movimento nas poucas ruas estava diferente. A igrejinha de Almofala só abria uma vez a cada três meses. Um padre de Caldas da Rainha passava o fim de semana na aldeia, atendia aos pedidos de batismo, confissão, extrema-unção, exorcismos e casamentos, tudo junto, os sacramentos, as ilusões da vida, a certeza do fim. Já estávamos de saída, todos no carro, mas Florice pediu para descer e rezar um pouco.
Era um padre jovem. Sentia-se bem porque Deus o escolheu como pároco de Almofala, aquela terra de sofrimentos, e ali ele percebia com mais força que sua vocação se cumpria, ele disse. Engraçado, de Deus eu lembrava. É preciso ter muita fé para achar que foi Deus que cuidou dos detalhes banais da vida terrena, mas era o que eu sentia naqueles dias, a crença também veio comigo, mesmo que depois tenha se perdido.
De portas abertas e cheia de gente, a minúscula igrejinha encrustada em um triângulo trazia Almofala de volta à vida. A missa já estava em andamento quando entramos e nos sentamos no penúltimo banco, do lado esquerdo. A pequena interrupção gaguejante e o olhar do padre fizeram com que todos virassem para nos ver, um trio estranho. Um casal elegante, uma moça careca e malvestida olhando o mundo com visível perturbação.
Minha audição alcançava os sussurros desde a primeira fila e ouvi os comentários:
— É essa aí a rapariga.
— O aluguel da casa foi pago por um mês, mas só ficaram alguns dias.
— Disseram que iriam embora pelo agravamento do estado de saúde da enferma.
— Será que é cancro?
— Não, parece lunática, minha mãe tem uma prima assim, eu percebo de longe.
— Pobrezinha, é jovem ainda. Não sabemos que tipo de doença.
— Estou convencida de que é lunática.

Fiquei na ponta do banco, de cabeça baixa, fechei um pouco os olhos para ouvir o canto, a música em coro improvisado, a voz do padre em destaque, aquilo era familiar e me trouxe conforto. Meu transe de paz só foi interrompido por uma mulher que chegou perto de mim, com um menino. O povo todo cantava olhando para o padre, já tinham esquecido de nós, menos eles. A mulher e o menino. Menos aquele outro homem na janela. Menos o jovem, na outra janela. E as duas idosas, gêmeas, muito magras e com fiapos de cabelos brancos e longos, quase um emaranhado de teias e poeira da cabeça até os ombros, uma cabeleira só para duas pessoas. A mulher com o menino olhava muito séria e, enquanto eu a observava, não percebi que chegou ao meu lado uma menina de uns sete anos, tão junto de mim que falou baixo, no meu ouvido com um movimento discreto:
— Já vais?
Sorri para ela e disse sim. Sorri para as outras pessoas em pé, nas janelas. Não responderam o cumprimento, apenas olharam para mim. A cor e a forma as distinguiam dos outros da igreja e então entendi.
Não sei o que fui antes de esquecer tudo, mas no momento em que me concentrava naqueles corpos descobri que era capaz de ver os mortos. Não era espantoso, deve ter sido sempre assim, a ideia não me deu medo, mas era angustiante. A menina continuava ali e disse que iria comigo.
É difícil lembrar dessa cena, tenho vontade de chorar. Isso tudo, os primeiros dias. Eu retomo a sensação de sufocamento. Se você não se importar, eu gostaria de fazer uma pausa agora para beber água. Estou contando muito rápido?
— Não te preocupa, estou a gravar. Aceitas um sumo de laranja?
— Só água, obrigada. E talvez uma taça de vinho. Mas veja: dos primeiros dias lembro algumas coisas com detalhes, mas depois da saída de Almofala os acontecimentos foram diferentes. Não sei se vou conseguir continuar da mesma maneira, quase minuto a minuto.
— Talvez o caderno ajude. Anotaste os sonhos, certamente.
— Sim, anotei o que foi possível, aos poucos tive sonhos mais longos, mais claros, em alguns tive certa lucidez. Aqui está o caderno.
— Gostaria de ver, quando for possível. Será importante para o meu trabalho.
— O senhor não tem perguntas?
— Sim, mas o correto é sempre escutar primeiro.

Socorro Acioli, em Oração para Desaparecer

10/10/2026

El Efecto e Lenine | Coragem

Capítulo 101 – A Revolução Dálmata

Foi Virgília quem me deu notícia da viravolta política do marido, certa manhã de outubro, entre onze e meio-dia; falou-me de reuniões, de conversas, de um discurso...
– De maneira que desta vez fica você baronesa, interrompi eu.
Ela derreou os cantos da boca, e moveu a cabeça a um e outro lado; mas esse gesto de indiferença era desmentido por alguma coisa menos definível, menos clara, uma expressão de gosto e de esperança. E não sei por que, imaginei que a carta imperial da nomeação podia atrai-la à virtude, não digo pela virtude em si mesma, mas por gratidão ao marido. Que ela amava cordialmente a nobreza; e um dos maiores desgostos de nossa vida foi o aparecimento de certo pelintra de legação, – da legação da Dalmácia, suponhamos, – o conde B.
V., que a namorou durante três meses. Esse homem, vero fidalgo de raça, transtornara um pouco a cabeça de Virgília, que, além do mais, possuía a vocação diplomática. Não chego a alcançar o que seria de mim, se não rebentasse na Dalmácia uma revolução, dolorosa, formidável; os jornais, a cada navio que chegava da Europa, transcreviam os horrores, mediam o sangue, contavam as cabeças; toda a gente fremia de indignação e piedade... Eu não; eu abençoava interiormente essa tragédia, que me tirara uma pedrinha do sapato. E depois a Dalmácia era tão longe!

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas