17/08/2026

Moacir Santos, 100

Hagar, o Horrível

 

Soneto do pássaro

Batem as asas? Rosa aberta, a saia
esculpe, no seu giro, o corpo leve.
Entre músculos suaves, uma alfaia,
selada, tremeluz à vista breve.

O que, mal percebido, se descreve
em termos de pelúcia ou de cambraia,
o que é fogo sutil, soprado em neve,
curva de coxa atlântica na praia,

vira mulher ou pássaro? No rosto,
essa mesma expressão aérea ou grave,
esse indeciso traço de sol-posto,

de fuga, que há no bico de uma ave.
O mais é jeito humano ou desumano,
conforme a inclinação de meu engano.

Carlos Drummond de Andrade, em Antologia Poética

1637 – Boca do rio Sucre

Dioguinho

Há poucos dias, o padre Thomas Gage aprendeu a escapar dos jacarés. Se a gente foge em zig-zag, os jacarés ficam desnorteados. Eles só sabem correr em linha reta.
Em compensação ninguém ensinou-o a escapar dos piratas. Mas, será que alguém conhece a maneira de fugir de dois bons navios holandeses em uma fragata lenta e sem canhões?
Recém-saída ao mar Caribe, a fragata arria as velas e se rende.
Mais desinflada que as velas, rola pelo chão a alma do padre Gage. Viaja com ele todo o dinheiro que juntou na América durante os doze anos que passou salvando sacrílegos e arrancando mortos do inferno.
Os esquifes vão e vêm. Os piratas levam o toucinho, a farinha, o mel, as galinhas, a banha e os couros. Também quase toda a fortuna que o padre trazia em pérolas e em ouro. Não toda, porque respeitaram a sua cama e ele tinha costurado no colchão boa parte de seus bens.
O capitão dos piratas, um mulato fornido, o recebe em seu camarote. Não lhe dá a mão, mas oferece-lhe assento e um jarro de rum com pimenta. Um suor frio brota da nuca do padre e percorre as suas costas. Toma o trago depressa. O capitão Diogo Grillo é conhecido, o padre ouviu falar dele. Sabe que pirateava sob as ordens do terrível Perna de Pau e que agora rouba por conta própria, com patente de corsário dos holandeses. Dizem que Dioguinho mata para não perder a pontaria.
O padre implora, balbucia que não lhe deixaram nada além da batina que veste. Enquanto enche o jarro, o pirata conta, surdo, sem pestanejar, os maus-tratos que sofreu quando era escravo do governador de Campeche.
– Minha mãe ainda é escrava, em Havana. Não conheces minha mãe? É tão boa, a coitada, que dá vergonha.
– Eu não sou espanhol – geme baixinho o padre. – Eu sou inglês – diz e repete, em vão. – Minha nação não é inimiga da vossa. Não são boas amigas, a Inglaterra e a Holanda?
– Hoje ganho, amanhã perco – diz o corsário. Retém um gole de rum, o envia pouco a pouco à garganta.
– Olhe – ordena, e arranca a casaca. Mostra as costas, as costuras dos açoites.
Escutam-se ruídos que chegam da coberta. O sacerdote os agradece, porque ocultam as batidas de seu coração desbocado.
– Eu sou Inglês...
Uma veia lateja, desesperada, na testa do padre Gage. A saliva se nega a passar por sua garganta.
– Levai-me à Holanda. Vos rogo, senhor, levai-me à Holanda. Por favor! Não pode um homem generoso abandonar-me assim, despido e sem...
De um puxão, o capitão solta seu braço das mil mãos do padre no chão com uma bengala e acodem dois homens.
– Fora com ele!
Despede-se de costas, enquanto se olha no espelho.
– Se passas por Havana – diz –, não deixes de visitar minha mãe. Mande-lhe lembranças. Diga-lhe... diga-lhe que as coisas estão indo muito bem para mim.
Enquanto regressa para a sua fragata, o padre Gage sente câimbras na barriga. Andam fortes as ondas e o padre amaldiçoa quem lhe disse, lá em Jerez de la Frontera, há doze anos, que a América estava com as ruas cobertas de ouro e de prata, e que era preciso caminhar com cuidado para não tropeçar com os diamantes.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Complexo de inferioridade

♦ Uma coisa eu lhe garanto, amigo – o seu complexo de inferioridade não é inferior ao de ninguém.

Millôr Fernandes, em A bíblia do caos

Xenofonte, Anábase



A impressão mais forte que Xenofonte causa para quem o lê hoje é a de estar vendo um velho documentário de guerra, como os que são reapresentados de vez em quando no cinema ou na televisão. O fascínio do preto e branco, do filme meio apagado, com fortes contrastes de sombras e movimentos acelerados, vem espontaneamente ao nosso encontro em trechos como este (capítulo V do Livro IV):

Sempre em cima de muita neve acumulada percorrem mais quinze parasangas em três dias. O terceiro dia é particularmente terrível por causa do vento tramontana que sopra no sentido contrário ao da marcha: sopra furiosamente por todos os cantos, queimando tudo e congelando os corpos… Para defender os olhos da reverberação da neve, os soldados, ao andar, colocam alguma coisa negra sobre os olhos; contra o perigo de congelamento, o remédio mais eficaz é mexer sempre os pés, não ficar parado nunca e sobretudo desatar os sapatos à noite… Um grupo de soldados, tendo ficado para trás por tais dificuldades, vislumbra não muito distante, numa vala em meio ao manto de neve, uma poça escura: é neve derretida, pensam. De fato, a neve se desfez naquele ponto, pela presença de uma nascente que brota ali perto, exalando vapores para o céu.

Mas citar Xenofonte não dá certo: aquilo que conta é a sucessão contínua de detalhes visuais e de ação; é difícil encontrar uma passagem que represente plenamente o prazer sempre variado da leitura. Tentemos esta, duas páginas antes:

Alguns gregos que se afastaram do campo contam ter vislumbrado à distância algo similar à massa de um exército e muitas fogueiras surgindo na noite. Ao ouvir isso, os estrategos consideram pouco seguro permanecer acampados de modo disperso e reúnem novamente o exército. Os soldados instalam-se todos ao ar livre, pois parece que vai haver bom tempo. Como se tivesse sido programado, durante a noite cai neve suficiente para cobrir armas, animais e homens encolhidos no chão; as bestas têm os membros tão enrijecidos pelo gelo que não conseguem erguer-se sobre as pernas; os homens hesitam em levantar-se, porque a neve depositada sobre os corpos e ainda não derretida transmite calor. Então, Xenofonte se levanta corajosamente e, despindo-se, começa a dar machadadas na lenha; a exemplo dele, alguém se ergue, arranca-lhe o machado das mãos e prossegue a obra; outros mais se levantam e acendem o fogo; todos untam braços e pernas não com óleo mas com unguentos encontrados na aldeia, feitos com sementes de gergelim, amêndoas amargas e almecegueira, misturados com gordura. Extraído das mesmas substâncias existe até um tipo de unguento perfumado.

A rápida mudança de uma representação visual para outra e daí para a anedota e de novo para o registro de costumes exóticos: este é o tecido que serve de fundo para um contínuo desenrolar de episódios aventurosos, de obstáculos imprevistos na marcha de um exército errante. Cada obstáculo é superado, em geral, mediante uma astúcia de Xenofonte: toda cidade fortificada a ser assaltada, toda tropa inimiga que se opõe em campo aberto, todo vau, toda intempérie exigem um achado, uma centelha de gênio, uma invenção estratégica do narrador-protagonista-comandante. Às vezes, Xenofonte parece uma daquelas personagens infantis de histórias em quadrinhos que, em cada capítulo, superam dificuldades impossíveis; ou melhor, muitas vezes os protagonistas do episódio são dois, os dois oficiais rivais, Xenofonte e Quirísofo, o ateniense e o espartano, e a invenção de Xenofonte é sempre a mais astuta, generosa e decisiva.
Em si mesmo, o tema da Anábase seria adequado a um conto picaresco ou herói-cômico: 10 mil mercenários gregos, engajados com pretexto mentiroso por um príncipe persa, Ciro, o jovem, numa expedição ao interior da Ásia Menor destinada na realidade a derrubar o irmão Artaxerxes II, são derrotados na batalha de Cunaxa e se encontram sem chefes, distantes da pátria, tendo de forçar o caminho de retorno entre populações inimigas. Só querem voltar para casa, mas, o que quer que façam, eles constituem um perigo público: são 10 mil, armados, famintos, aonde chegam depredam e destroem, como uma nuvem de gafanhotos; e arrastam um enorme séquito de mulheres.
Xenofonte não era o tipo de deixar-se tentar pelo estilo heroico da epopeia nem de explorar — a não ser raramente — os aspectos truculento-grotescos de uma situação como aquela. Escreve o memorial técnico de um oficial, um diário de viagem com todas as distâncias e os pontos de referência geográficos e informações sobre os recursos vegetais e animais, e uma resenha de problemas diplomáticos, logísticos, estratégicos e respectivas soluções.
O relato é entremeado de “atas de reuniões” do estado-maior e dos discursos de Xenofonte às tropas ou aos embaixadores dos bárbaros. Dessas passagens oratórias eu conservava, desde os bancos de escola, a lembrança de um grande tédio, mas me equivocava. O segredo, ao ler a Anábase, é jamais pular nada, acompanhar tudo ponto por ponto. Em cada um daqueles discursos existe um problema político: de política externa (as tentativas de relações diplomáticas com os príncipes e os chefes dos territórios através dos quais se pede passagem) ou de política interna (as discussões entre os chefes helênicos, com as habituais rivalidades entre atenienses e espartanos etc.). E como o livro é escrito em polêmica com outros generais, sobre as responsabilidades de cada um na condução daquela retirada, o fundo de polêmicas abertas ou apenas referidas precisa ser extraído daquelas páginas.
Como escritor de ação, Xenofonte é exemplar; se o confrontarmos com o autor contemporâneo que mais lhe corresponde — o coronel Lawrence — verificamos de que modo a mestria do inglês consiste em suspender — subentendido à exatidão, pura concretude, da prosa — um halo de maravilha estética e ética ao redor das histórias e das imagens; no grego não, a exatidão e a secura não deixam subentender nada: as duras virtudes do soldado não pretendem ser nada além das duras virtudes do soldado.
Existe, sim, um pathos da Anábase: é a ânsia do retorno, a angústia do país estrangeiro, o esforço de não se perder, pois enquanto estiverem juntos de algum modo carregam a pátria consigo. Essa luta pela volta de um exército conduzido à derrota numa guerra que não é sua e abandonado a si mesmo, esse combater só para abrir uma brecha contra ex-aliados e ex-inimigos, tudo isso aproxima a Anábase de um filão de nossas leituras recentes: os livros de memória sobre a retirada da Rússia dos alpinos italianos. Não é uma descoberta de agora: em 1953, Elio Vittorini, ao apresentar aquele que viria a tornar-se um livro exemplar no gênero, Il sergente nella neve de Mario Rigoni Stern, o definia como “pequena anábase dialetal”. E, de fato, os capítulos de retirada na neve da Anábase (dos quais extraí as citações anteriores) são ricos em episódios que poderiam ser tomados pelos do Sergente.
Característica de Rigoni Stern e de outros dentre os melhores livros italianos sobre a retirada da Rússia é que o narrador-protagonista é um bom soldado, tal como Xenofonte, e fala das ações militares com empenho e competência. Para eles como para Xenofonte as virtudes guerreiras, no desmoronamento geral das ambições mais pomposas, voltam a ser virtudes práticas e solidárias segundo as quais se mede a capacidade de cada um de ser útil não apenas a si mesmo mas também aos outros. (Lembremos La guerra dei poveri de Nuto Revelli pelo apaixonado furor do oficial desiludido; e um outro bom livro injustamente negligenciado, I lunghi fucili, de Cristoforo M. Negri.)
Porém, acabam aí as analogias. As memórias dos alpinos nascem do contraste de uma Itália humilde e sensata com as loucuras e o massacre da guerra total; nas memórias do general do século V, o contraste se dá entre a situação de nuvem de gafanhotos a que se reduziu o exército de mercenários helênicos e o exercício das virtudes clássicas, filosófico-cívico-militares, que Xenofonte e os seus tratam de adaptar às circunstâncias. E acontece que esse contraste não possui em absoluto a tragicidade comovente do outro: Xenofonte parece convencido de haver conciliado os dois termos. O homem pode reduzir-se a gafanhoto e mesmo assim aplicar a tal condição um código de disciplina e decoro — numa palavra: um “estilo”; e dar-se por satisfeito; não discutir nem muito nem pouco o fato de ser gafanhoto mas somente o modo de sê-lo. Em Xenofonte, já está bem delineada com todos os seus limites a ética moderna da perfeita eficiência técnica, do estar “à altura da situação”, do “fazer bem as coisas que têm de ser feitas” independentemente da avaliação da própria ação em termos de moral universal. Continuo a chamar de moderna essa ética porque assim era na minha juventude e era este o sentido que se extraía de tantos filmes americanos e também dos romances de Hemingway, e eu oscilava entre a adesão a esta moral “técnica” e “pragmática” e a consciência do vazio que se abria por baixo. Mas ainda hoje, quando parece tão longe do espírito da época, creio que tinha algo de bom.
Xenofonte tem o grande mérito, no plano moral, de não mistificar, de nunca idealizar a posição que defende. Se em relação aos costumes dos “bárbaros” manifesta frequentemente o distanciamento e a aversão do “homem civilizado”, deve ser dito que a hipocrisia “colonialista” lhe era estranha. Sabe que comanda uma horda de bandidos em terra estrangeira, sabe que a razão não pertence a ele mas aos bárbaros invadidos. Em suas exortações aos soldados não deixa de relembrar as razões dos inimigos: “Uma outra consideração vocês precisam fazer. Os inimigos terão tempo para destruir-nos e possuem boas razões para preparar-nos ciladas, já que ocupamos suas propriedades…”. Ao tentar conferir um estilo, uma norma, a essa movimentação biológica de homens ávidos e violentos entre as montanhas e as planícies da Anatólia, encontra-se toda a sua dignidade: dignidade limitada, não trágica, no fundo burguesa. Sabemos que se pode muito bem conseguir dar aparência de estilo e dignidade às piores ações, mesmo quando não ditadas como essas por um estado de necessidade. O exército dos helenos que serpenteia entre os desfiladeiros das montanhas e os vaus, entre contínuas emboscadas e saques, não mais distinguindo onde passa de vítima a opressor, circundado também na frieza dos massacres pela suprema hostilidade da indiferença e do acaso, inspira uma angústia simbólica que talvez só nós possamos entender.
1978

Italo Calvino, em Por que ler os clássicos

16/08/2026

Rafa Bernardes | Garçom

Moinhos

Fonte: riptapparel.com

Mistério

Quando comecei a escrever, que desejava eu atingir? Queria escrever alguma coisa que fosse tranquila e sem modas, alguma coisa como a lembrança de um alto monumento que parece mais alto porque é lembrança. Mas queria, de passagem, ter realmente tocado no monumento. Sinceramente não sei o que simbolizava para mim a palavra monumento. E terminei escrevendo coisas inteiramente diferentes.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Capítulo 79 – Compromisso de gato




Não acabaria se houvesse de contar pelo miúdo o que padeci nas primeiras horas. Vacilava entre um querer e um não querer, entre a piedade que me empuxava à casa de Virgília e outro sentimento, – egoísmo, suponhamos, – que me dizia: – Fica; deixa-a a sós com o problema, deixa-a que ela o resolverá no sentido do amor. Creio que essas duas forças tinham igual intensidade, investiam e resistiam ao mesmo tempo, com ardor, com tenacidade, e nenhuma cedia definitivamente. As vezes sentia um dentezinho de remorso; parecia-me que abusava da fraqueza de uma mulher amante e culpa-da, sem nada sacrificar nem arriscar de mim próprio; e, quando ia capitular, vinha outra vez o amor, e me repetia o conselho egoísta, e eu ficava irresoluto e inquieto, desejoso de a ver, e receoso de que a vista me levasse a compartir a responsabilidade da solução.
Por fim interveio um compromisso entre o egoísmo e a piedade; eu iria vê-la em casa, e só em casa, em presença do marido, para lhe não dizer nada, à espera do efeito da minha intimação. Deste modo poderia conciliar as duas forças. Agora, que isto escrevo, quer-me parecer que o compromisso era uma burla, que essa piedade era ainda uma forma de egoísmo, e que a resolução de ir consolar Virgília não passava de uma sugestão de meu próprio padecimento. Ocorre-me a este propósito um naturalista, – não me lembra qual, – mas era um naturalista, – em que li esta observação curiosa: “O gato não nos afaga, afaga-se em nós.” Vejo que eu fazia um compromisso de gato.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Siempre en la Barca pra Paquetá



2ª Faixa: Dolores

Bem que eu não queria ir naquele baile de gala no Clube de Regatas Vasco da Gama. Bacalhau de smoking fica mais deslocado que pinguim de chuteira. Mas o Dininho insistiu e eu acabei indo. Mal-humorado, ancorei o cotovelo no balcão do bar e comecei a encher a cara de cerveja. Já estava chamando urubu de meu louro quando a Aparição me cegou. Instantes depois, refeito do choque, recomecei a beber – só que, humildemente, pra tomar coragem.
Eu me contentaria em ser rato na abóbora daquela Cinderela. O medó fazia meus sovacos destilarem essências dignas de um desastre ecológico em Cubatão. Minha cabeça rodando, girava mais que os casais, fazia perguntas irrespondíveis: e se ela cuspir na minha cara?, será que ela vai reparar que minha faixa é uma adaptação do xale da tia Nicinha?, e se ela disser que essa merda de gravata parece mais mariposa que borboleta?, e se eu pisar no pezinho dela?, e se me der vontade de soltar um pum?, e se além de feder, fizer um barulhão?, e se eu vomitar o ensopadinho, meu Deus?!?
Ela era linda. Estava com uma gargantilha de pérolas de três voltas – minha forca – combinando com o sorriso. E luvas. Luvas. E a ponta de um torturante bandeide no calcanhar. Se ela entrasse em meu quarto, numa noite de lua cheia, só de gargantilha e luvas, mais os bandeides afrodisíacos, eu confesso que seria capaz de cometer uma loucura: dilacerar meu pijama verde de listrinhas, uivando como um lobo; estraçalhar suas luvas brancas com meus cariados caninos; romper a gargantilha com unhas roídas ávidas, deitá-la sobre as pérolas derramadas e, no clímax do surto psicótico, broxar. Tsk, isso acontece!
A orquestra foi fundo em La Puerta. E meu amor, como que hipnotizado, foi atrás da Cinderela. Quando a timidez ameaçava me paralisar, eu pensava no Garrincha driblando os adversários e ia em frente. Cheguei na mesa dela como se tivesse cruzado o Amazonas por debaixo d’água: molhado e sem fôlego.
O suor escorria pelas pernas de tal modo que temi ter feito xixi nas calças. O coroa com pinta de pai devia ser médico porque me fitou longamente, enquanto mordiscava um palito de fósforo. Uma eternidade depois, colocou o que restava do pauzinho no cinzeiro e perguntou:
– Quer um Valium?
Sou do Estácio, qual é?
Não perdi a pose. Esse babaca não me conhece, não sabe com quem tá falando,pomba. Respondi à altura:
– Se o senhor tiver Maracujina, sem querer abusar, eu aceito.
Justo nessa hora, a letra do bolero falava em padecer. Respirei fundo, tive uma rápida crise de choro, e dei a volta por cima:
– Terminei o científico no Externato São José.
Até hoje não entendo a razão daquelas gargalhadas.
Armei um ar entediado, tipo James Dean em Nilópolis, acendi a lapela esquerda do paletó com meu isqueiro Zippo e disse:
– Adoro bolero.
Engasguei com a fumaça e ela não ouviu nada. Ela ficava mais bonita ainda gritando: “Hein? Hein?". Tropecei no cadarço desamarrado do meu insólito sapato social de lona (que eu também usava pra futebol e basquete), e caí nos braços do pai dela, que era um cara até bem-humorado:
– É comigo que você quer dançar?
Ela colocou água na fervura:
– Euclides, vai com calma, meu bem.
Euclides? Meu bem? Hiii.
Mas o cara era realmente compreensivo.
– Dá uma dançada com esse palhaço, Dolores, antes que eu arrebente ele todinho.
Dolores! Fiz careta pra ele. Não levo desaforo pra casa. Ela me arrastou pro salão como quem puxa um poodle.
Dolores! Enlacei a cinturinha dela e dei uma rodopiada pra esquerda. Atingimos em cheio um garçon, e vários cuba-libres afluíram da bandeja para o vértice do decote de Dolores. Ela revelou verve e distinção:
– Bom, gelado tá, mas eu costumo tomar um de cada vez.
Procurei levar um papo descontraído, bacana, pra que a gafe anterior não provocasse efeitos colaterais.
– Minha vó Noêmia sabe fazer pavê de chocolate.
E ela, ardilosa e criativa:
– Pa vê ou pa comê?
Meu gogó fez crunch, de paixão contida.
Continuei a conversa com a maior naturalidade.
– Você costuma ter cólica menstrual?
– Olha, eu...
– Mamãe prefere Regulador Gesteira.
– É mesmo?
– Você tem cabelos sedosos e ondulados. Deve ser graças ao legítimo Óleo de Ovo!
– Pra ser sincera...
– Vacinosan estimula a vida da epiderme. O melhor medicamento pra cútis.
– Quem sabe...
– Para uma dama, extrato, loção e pó-de-arroz, de Myrurgia.
Ela me censurou ternamente:
– Tira a outra mão do bolso que não fica bem...
Disfarcei, cantarolando no ouvidinho dela o Hino do Expedicionário. Tentei cativá-la com uma última cartada.
– Tu lembra do Coronel?
– Coronel?
– Hum, hum. Laerte, Orlando e Coronel. Do time do Vasco, campeão de 56.
Ela riu, brincou com meu topete emplastrado de gumex, beijou meu queixo de levinho e me chamou de maluco.
Voltei a mim na enfermaria do clube, mais do que nunca a Cruz de Malta cravada em meu peito. A turma é boa, é mesmo da fuzarca. Vasco, Vasco, Vas-cô!
Dolores, mesmo não sendo Sierra nem nascida em Salamanca, deixaste abandonada a ilusão que havia em meu coração por ti.

Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo

Finalidades supremas

[...]

Em Oreanda, sentaram-se num banco perto da igreja e ficaram calados, olhando o mar embaixo. Mal se avistava Ialta através da névoa matutina, e nos cumes das montanhas nuvens brancas pairavam imóveis. A folhagem das árvores estava quieta, cigarras cantavam e o ruído surdo e monótono do mar, vindo de baixo, falava de repouso, do sono eterno que nos espera. Esse barulho já se fazia ouvir ali quando não havia nem Ialta, nem Oreanda; ele se faz ouvir agora e será assim também no futuro, surdo e indiferente, quando nós não mais existirmos. E nessa constância, nessa completa indiferença em relação à vida e à morte de cada um de nós, esconde-se, talvez, a garantia de nossa salvação eterna, do incessante movimento da vida na terra, do seu contínuo aperfeiçoamento. Sentado ao lado de uma jovem mulher, que no amanhecer parecia tão bela, tranquilizado e enfeitiçado pela visão desse panorama fantástico – o mar, as montanhas, as nuvens, o amplo céu –, Gúrov pensava que, no fundo, se refletirmos bem, tudo neste mundo é maravilhoso; tudo, exceto aquilo que nós mesmos pensamos e fazemos quando esquecemos das finalidades supremas da existência e da nossa dignidade como homens.
[…]

Anton Tchekhov, em A dama do cachorrinho

15/08/2026

Arnaldo Antunes e Vandal | Novo Mundo (citação: Mundanoh)

Canção de Mim Mesmo

17

Esses são realmente os pensamentos de todos os homens em todos os tempos e terras, não são originais comigo,

Se não são seus tanto quanto meus eles são nada, ou quase nada,
Se não são a charada e a solução da charada eles são nada,
Se não estão perto tanto quanto distantes são nada,

Esta é a relva que cresce onde houver terra e houver água,
Este o ar comum que banha o globo.

Walt Whitman, em Folhas de Relva

Factótum


21

O expediente na fábrica de biscoitos para cachorro era das quatro e meia da tarde até uma da manhã.
Me deram um avental branco encardido e luvas de lona pesadas. As luvas estavam queimadas e tinham buracos, eu conseguia ver meus dedos aparecendo. Recebi instruções de um elfo banguela com uma película sobre o olho esquerdo, branca e verde, com linhas azuis parecendo teias de aranha.
Ele fazia aquele trabalho há uns dezenove anos.
Fui até o meu lugar. Um apito soou e a maquinaria entrou em ação. Os biscoitos para cachorro começaram a se mover. A massa era moldada com uma prensa e depois colocada em telas de metal pesado com bordas de ferro.
Eu peguei uma tela e a coloquei no forno atrás de mim. Me virei. Lá estava a próxima. Não tinha como diminuir a velocidade. A única hora que elas paravam era quando algo enguiçava a máquina. Isso não acontecia com frequência. Quando acontecia, o Elfo resolvia rapidinho.
As chamas saltavam uns cinco metros de altura. O interior do forno era como uma roda-gigante. Cada plataforma aguentava doze telas. Quando o homem do forno (eu) preenchia uma plataforma, chutava uma alavanca que fazia da roda girar um nível, trazendo a próxima saliência vazia para baixo.
As telas eram pesadas. Levantar uma já deixava o cara cansado. Se você pensasse que devia fazer aquilo por oito horas, levantando centenas de telas, nunca ia conseguir. Biscoitos verdes, biscoitos vermelhos, biscoitos amarelos, biscoitos marrons, biscoitos roxos, biscoitos azuis, biscoitos de vitamina, biscoitos de vegetais.
Nesse tipo de emprego a gente fica cansado. Sofremos de um cansaço que ultrapassa a fadiga. Dizemos coisas loucas e brilhantes. Eu soltei palavrões, conversei, contei piadas e cantei. O inferno fervia de risadas. Até o Elfo riu de mim.
Trabalhei lá por algumas semanas. Eu chegava bêbado todas as noites. Não importava; eu tinha o emprego que ninguém queria. Depois de uma hora no forno eu ficava sóbrio. Minhas mãos estavam cheias de bolhas e queimaduras. Todos os dias eu sentava no quarto com dores e estourava as bolhas com alfinetes, que eu primeiro esterilizava com fósforos.

Uma noite, cheguei mais bêbado do que o normal e me recusei a bater o ponto.
— Chega — disse a eles.
O Elfo ficou em choque.
— Como vamos conseguir, Chinaski?
— Ah.
Só mais uma noite!
Coloquei a cabeça dele no meu braço e apertei; as orelhas dele ficaram rosadas.
— Seu merdinha — falei. Depois o soltei.

Charles Bukowski, em Factótum

O impagável Quino

Luz por dentro

Mas há uma beleza interior, de dentro para fora, a transluzir de certas avozinhas trêmulas, de certos velhos nodosos e graves como troncos. De que será ela feita, que nem notamos como a erosão dos anos os terá deformado. Deviam ser caricaturas mas não fazem rir, uns aleijões mas não causam pena. O mesmo não nos acontece ante o penoso espetáculo de um animal velho. Eu gostaria de acreditar que essa inexplicável beleza dos velhos talvez fosse uma prova da existência da alma.

Mário Quintana, em Caderno H

Selma




Eu detestava ler essas entrevistas em que o jornalista perguntava quando e como fora a primeira experiência sexual do entrevistado. E elas, eram sempre mulheres, atrizes ou modelos, respondiam sem hesitar, eu tinha dezesseis anos, foi na escada do prédio onde eu morava, quinze, no banheiro da boate, treze, na capela mortuária velando o corpo da mãe morta, catorze, no motel. As idades variavam de doze a dezessete.
Eu tinha vinte e três anos e ainda não tivera a minha primeira experiência sexual. Todos os amigos da minha idade começaram cedo, com putas. Um deles foi levado pelo pai, entrou no quarto da puta e contou a verdade para ela, que era veado, e pediu à puta para dizer ao pai que ele tinha comido ela, e quando saíram do quarto a puta disse, o seu filho é uma fera, e o pai ficou feliz da vida e até hoje não sabe da verdadeira inclinação sexual do filho.
Eu não tive experiência sexual com puta nem com nenhuma outra mulher. Não que me faltasse vontade. Era coragem o que me faltava. Eu tinha uma fimose que impedia o recuo do prepúcio que cobria a glande, e a cabeça do meu pau era coberta por uma pele que parecia uma pequena tromba de elefante. Essa era uma das desvantagens de não ser judeu. Meus pais teriam me operado quando eu era criança. Que bobagem eu estava dizendo, não tive pai nem mãe, eles morreram quando eu tinha dois anos. Fui criado por uma tia solteirona que não estava interessada no meu pau.
Por isso eu evitava todas as mulheres, putas e também moças de família e empregadinhas mulatinhas, e essas últimas viviam dando bola para mim e quanto mais bola me davam mais infeliz eu ficava.
No meu prédio morava uma moça que era da minha idade, Selma, quase sempre vestida de branco. Um dia subíamos só nós dois no elevador e ela me deu um beijo, mas foi um beijo muito estranho, ela enfiou a língua na minha boca e aquilo me deixou perplexo. Era o primeiro beijo que eu recebia na boca, minha tia me beijava no rosto e eu não esperava que um beijo fosse tão perturbador. Quando o elevador chegou no andar dela a garota de branco disse, o meu nome é Selma e eu quero namorar você.
Eu não disse nada. Estava muito perturbado com aquele beijo. Aquilo não saía da minha cabeça. Normalmente eu gostava de ficar em casa lendo, na verdade eu não gostava de sair de casa a não ser para trabalhar, porque era obrigado, e voltava correndo, tinha a impressão de que as pessoas olhavam para mim e viam o meu pau coberto pela trombinha de elefante. Fiquei em casa mas não consegui ler, aquele beijo da Selma me deixou abalado, desassossegado.
Passei a vigiar a entrada do meu prédio, se eu a visse esperando o elevador dava meia-volta e sumia. Tinha medo de subir com Selma e ela me beijar novamente e querer fazer coisas comigo, o que seria impossível. Que desculpa eu ia inventar, que não fosse vergonhosa ou humilhante? Meu pau é uma tromba de elefante?
Selma era muito esperta. Um dia saltei no meu andar e ela estava esperando na minha porta. Está com medo de mim?, perguntou. Abri a minha porta, disse, com licença, e fechei a porta na cara dela sem fazer barulho.
Dias depois ela me escorou de novo na porta do meu apartamento. Então? Quando vamos tomar um cafezinho juntos?, ela perguntou. Fiquei ruborizado e fugi covardemente, entrando no meu apartamento.
Eu sabia que aquele meu problema de fimose podia ser resolvido cirurgicamente, mas sempre ouvi dizer que em criança era fácil mas que em adulto era muito perigoso. Me contaram a história de um adolescente que foi operar a fimose e teve tantos problemas com essa operação que tiveram que cortar o pau dele.
Fui na internet. Fimose, dizia o site, é a dificuldade, ou mesmo a impossibilidade de expor a glande (“cabeça” do pênis) porque o prepúcio (“pele” que recobre a glande, a cabeça do pênis) tem um anel muito estreito. Havia um desenho que mostrava o prepúcio cobrindo a glande e o denominado anel prepucial, a minha tromba de elefante. Dizia um especialista que o prepúcio tinha como função proteger a glande contra traumatismos diversos, pois os mesmos eram frequentes no homem primitivo que vivia nas florestas. Uma informação importante: a fimose não prejudicava o crescimento do pênis.
Quis saber mais sobre essa operação. A postectomia — postium: prepúcio e tomia: secção —, dizia o site, devia ser feita com anestesia local. O próprio cirurgião realizava um bloqueio no tecido subcutâneo da base peniana, geralmente com lidocaína, sem vasoconstritor. O ato cirúrgico tinha uma duração média de trinta minutos. As complicações pós-operatórias eram raras, mas podiam acontecer hematomas e excepcionais infecções, entre outras coisas. Tardiamente alguns pacientes queixavam-se de alterações da sensibilidade e dores, sendo na grande maioria distúrbios psicogênicos, somatizados na genitália.
Vou fazer essa cirurgia, decidi. Procurei um médico no livro do meu plano de saúde e marquei uma consulta.
Eu estava deitado na mesa operatória quando chegaram o cirurgião e uma enfermeira, ambos com aquela máscara cirúrgica. A enfermeira segurou o meu pênis delicadamemte e aplicou a injeção.
Fechei os olhos durante todo o procedimento cirúrgico.
Pronto, ouvi o médico dizer.
Abri os olhos. Ele havia tirado a máscara.
Foi tudo bem, não foi, doutor?, disse a enfermeira, também tirando a máscara.
Perfeito, dona Selma.
A enfermeira era a Selma, a minha vizinha que andava vestida de branco.
Ela olhou para mim enquanto acariciava a minha mão.
Você está indo para casa daqui a pouco. Mais tarde eu passo lá para ver se está tudo bem. Agora você não vai mais fugir de mim, vai?

Rubem Fonseca, em Ela e Outras Mulheres

14/08/2026

Maria Luiza Jobim | Garota de Ipanema / Girl from Ipanema

A prova do algodão

Segundo a Carta do Direitos Humanos, no seu artigo 12 “Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida, na sua família ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação”. E mais: “Contra tais intromissões ou ataques toda a pessoa tem direito à protecção da lei”. Assim está escrito. O papel exibe, entre outras, a assinatura do representante dos Estados Unidos, a qual assumiria, por via de consequência, o compromisso dos Estados Unidos no que toca ao cumprimento efectivo das disposições contidas na mesma Carta, porém, para vergonha sua e nossa, essas disposições nada valem, sobretudo quando a mesma lei que deveria proteger, não só não o faz, como homologa com a sua autoridade as maiores arbitrariedades, incluindo aquelas que o dito artigo 12 enumera para condenar. Para os Estados Unidos qualquer pessoa, seja emigrante ou simples turista, indiferentemente da sua actividade profissional, é um delinquente potencial que está obrigado, como em Kafka, a provar a sua inocência sem saber de que o acusam. Honra, dignidade, reputação, são palavras hilariantes para os cães cerberos que guardam as entradas do país. Já conhecíamos isto, já o havíamos experimentado em interrogatórios conduzidos intencionalmente de forma humilhante, já tínhamos sido olhados pelo agente de turno como se fôssemos o mais repugnante dos vermes. Enfim, já estávamos habituados a ser maltratados.
Mas agora surge algo novo, uma volta mais ao parafuso opressor. A Casa Branca, onde se hospeda o homem mais poderoso do planeta, como dizem os jornalistas em crise de inspiração, a Casa Branca, insistimos, autorizou os agentes de polícia das fronteiras a analisar e revisar documentos de qualquer cidadão estrangeiro ou norte-americano, ainda que não existam suspeitas de que essa pessoa tenha intenção de participar num atentado. Tais documentos serão conservados “por um razoável espaço de tempo” numa imensa biblioteca onde se guarda todo o tipo de dados pessoais, desde simples agendas de contactos a correios electrónicos supostamente confidenciais. Ali se irá guardando também uma quantidade incalculável de cópias de discos duros dos nossos computadores de cada vez que nos apresentarmos para entrar nos Estados Unidos por qualquer das suas fronteiras. Com todos os seus conteúdos: trabalhos de investigação científica, tecnológica, criativa, teses académicas, ou um simples poema de amor. “Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada”, diz o pobre do artigo 12. E nós dizemos: veja-se o pouco que vale a assinatura de um presidente da maior democracia do mundo.
Aqui está. Praticámos sobre os Estados Unidos a infalível prova do algodão, e eis o que verificámos: não se limitam a estar sujos, estão sujíssimos.

José Saramago, em O caderno