06/08/2026

Jacob Collier ft. Julian Lage | Like Someone In Love

Sedução

A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.

Adélia Prado, em Bagagem

Bandido bom é...

Alma racional e universal

A maioria das coisas que a multidão admira são comuns, mantidas íntegras por coesão ou por uma organização natural, como pedras, madeira, figueiras, videiras e oliveiras. Já os homens um pouco mais razoáveis admiram aquelas que são unidas por um princípio vivo, como rebanhos e manadas. Homens ainda mais instruídos apreciam as que são unificadas pela alma racional — pela racional, e não pela universal, pois ela é uma alma hábil em alguma arte e especialista em algo ou, simplesmente, porque possui uma série de escravos. Por último, aquele que valoriza a alma racional — universal e adequada para a vida política — não considera nada acima de manter sua alma em condições e atividades compatíveis com a razão e a vida social e coopera com seus semelhantes para esse fim.

Marco Aurélio, em Meditações

Siempre en la Barca pra Paquetá



1ª Faixa: Dorinda

Eu sou do tempo em que o sujeito aprendia a dançar com as primas um pouquinho mais velhas. Delícia. Claro que era coisa meio incestuosa. A família – implacável censora de qualquer atitude que sugerisse sexo – liberava o sarro com as primas. Prima, com ph e dois dês de Toddy.
Na galeria de primas inesquecíveis, Gregório Barrios ao fundo, destacava-se Dorinda. Protestante. Estrábica. O más bonito em mulher com discreto estrabismo é que parece estar sempre à beira do orgasmo.
Em Dorinda, a suave mistura entre recato e cara de vou-gozar me enlouquecia. E, além do mais, ela ostentava um pequeno buço. Eu ficava repetindo, antes de dormir: o buço da prima, o buço da Dorinda... De fato, buço é uma palavra que provoca tresloucadas associações.
Quando a austera Dorinda me ensinava a dançar, nas festinhas da Rua dos Artistas, os adultos quedavam perplexos – talvez pela voz autoritária de Dodô (começou a intimidade) caso eu errasse um passo mais elaborado, ou quiçá, quiçá, quiçá pelo escândalo de minha barraca armada em contato com aguda inflação de tafetá, organdi, babado inglês, um sutiã como deis ariétes, anágua, combinação, meias com o fio corrido, e..., e.., e... Bom, calcinhas, queridas, nem pensar. Se naquela época passasse pela minha cabeça que, debaixo daquilo tudo, uma calcinha de renda expunha mais do que velava o cabeludo tesouro da Dodô, eu soltaria um berro tremendo e dispararia em direção ao banheiro pra uma sessão-nostalgia de “contigo en la distancia” pensando na Dodô, em sua cara de gozo e, lógico, em seu buço.
Ainda hoje, quando tomo uísque com guaraná, ouço a voz de Dodô murmurando: “São dois pra lá, dois pra cá” - embora, na verdade, ela gritasse comigo feito um instrutor do CPOR.
Dodô, minha nega, enquanto cruzas outros mares de loucura, guardo nosso 78 rotações favorito, “Angustia”, com Bienvenido Granda (que buço!) e “Sonora Matancera”, um lançamento da Mocambo que juntos compramos na extinta Ótica Irany (Revelações, Cópias, Ampliações em 24 horas), lembra?
Tenho a impressão, Dodô, que esse disco vai ficar girando em minha vida hasta que tu decidas regressar…

Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo

Coração segundo

— De acrílico, de fórmica, de isopor, meticulosamente combinados, fiz meu segundo coração, para enfrentar situações a que o primeiro, o de nascença, não teria condições de resistir. Tornei-me, assim, homem de dois corações. A operação sigilosa foi ignorada pelos repórteres. Eu mesmo fabriquei meu coração novo, nos fundos da casa onde moro. Nenhum vizinho desconfiou, mesmo porque sabem que costumo fechar-me em casa, semanas inteiras, modelando bonecos de barro ou de massa, que depois ofereço às crianças. Oferecia. Meus bonecos não têm arte, representam o que eu quero. Fiz um Einstein que acharam parecido com Lampião. Para mim, era Einstein. Os garotos riam, tentando adivinhar que tipos eu interpretara. Carlito! Não era. Às vezes, não sei por quê, admitia que fosse Carlito. Nunca dei importância a leis de semelhança e verossimilhança, que sufocam toda espécie de criação.
Mas, como disse, fiz meu coração sem ninguém saber. E à noite, em perfeita lucidez, abrindo o peito mediante processo que não vou contar, pois minha descrição talvez horrorizasse o leitor, e eu não pretendo horrorizar ninguém — abrindo o peito, instalei lá dentro esse coração especial, regulado para não sofrer. Ao mesmo tempo, desliguei o outro. Como? Também prefiro não explicar. Possuo extrema habilidade manual, aguçada à noite, e sei o que geralmente se sabe dos órgãos do corpo e suas funções e reações, depois que ficou na moda tratar dessas coisas em jornais e revistas. Além disto, minha capacidade de resistir à dor física sempre foi praticamente ilimitada. Desde criança. Mas as dores morais, as dores alheias, as dores do mundo, acima de tudo, estas sempre me vulneraram. Recompus a incisão, senti que tudo estava perfeito, e fui dormir.
Na manhã seguinte, ao ler as notícias que falavam em fome no Paquistão, guerra civil na Irlanda, soldados que se drogam no Vietnã para esquecer o massacre, explosão experimental de bombas de hidrogênio, tensão permanente no canal de Suez, golpes vitoriosos ou malogrados na América Latina, bem, não senti absolutamente nada. O coração funcionava a contento. Fui para o trabalho experimentando sensação inédita de leveza. No caminho, vi um corpo de homem e outro de mulher estraçalhados entre restos de um automóvel. Pela primeira vez pude contemplar um espetáculo desses sem me crispar e sem envenenar o meu dia. Fitei-o como a objetos de uma casa expostos na calçada, em hora de mudança. E passei um dia normal. Trabalho, refeições, sono, igualmente normais, coisa que não acontecia há anos.
Meu coração fora planejado para evitar padecimento moral, e desempenhava bem a função. Assisti impassível a cenas que antes me fariam explodir em lágrimas ou protestos. Felicitei-me pela excelência. Mas aí começou a ocorrer um fenômeno desconcertante. Eu, que não sofria com as doenças que me assaltavam, passei a sentir reflexos de moléstias inexistentes. Simples corte no dedo, sem inflamação, afligia-me como chaga aberta. Dor de cabeça que passa com um comprimido ficava durante semanas. Meu corpo tornou-se frágil, exposto ao sofrimento. E eu não tinha nada. Consultei especialistas, fiz checkup, não se descobriu qualquer lesão ou distúrbio funcional. Eram penas imotivadas, gratuitas. Meu coração no 2 passava pela radiografia sem ser percebido. Irredutível à dor moral, era invisível a aparelhos de precisão.
Comecei a sofrer tanto com os meus males carnais que a vida se tornou insuportável. A dor aparecia especialmente em horas impróprias. Em reuniões sociais. Em concertos. No escritório, ao tratar de negócios. Então fazia caretas, emitia gemidos surdos, assumindo aspecto feroz. Assustavam-se, queriam chamar ambulância, eu recusava. Tinha medo de que descobrissem o coração fabricado.
Outra coisa: as crianças começaram a achar estranhos meus bonecos, não queriam aceitá-los. Sempre gostei de crianças. E elas me repeliam. Esmerei-me na feitura de peças que pudessem cativá-las, mas em vão.
Hoje vi um homem encostado a um oiti, diante do mar. Sua expressão de angústia dava ao rosto o aspecto de chão ressecado. Tive pena dele. Surpreso, ignorando tudo a seu respeito, mas participando de sua angústia e trazendo-a comigo para casa.
Agora à noite, decidi-me. Voltei a abrir o peito e examinei o coração segundo. Com pequena fissura no isopor, já não era perfeito. Ao tocá-lo, as partes se descolaram. Inútil restaurá-lo. Joguei fora os restos, liguei o antigo, e fechei o cavername. Talvez pela falta de uso, sinto que o coração velho está rateando. Que fazer? E vale a pena fazer? A manhã tarda a chegar, e não encontro resposta em mim.

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

05/08/2026

Vencendo vem Jesus | Danilo Sinna Big Band

Capítulo 77 – Entrevista



Virgília entrou risonha e sossegada. Os tempos tinham levado os sustos e vexames. Que doce que era vê-la chegar, nos primeiros dias, envergonhada e trêmula! Ia de sege, velado o rosto, envolvido numa espécie de mantéu, que lhe disfarçava as ondulações do talhe. Da primeira vez deixou-se cair no canapé, ofegante, escarlate, com os olhos no chão; e, palavra! em nenhuma outra ocasião a achei tão bela, talvez porque nunca me senti mais lisonjeado.
Agora, porém, como eu dizia, tinham acabado os sustos e vexames; as entrevistas entravam no período cronométrico.
A intensidade de amor era a mesma; a diferença é que a chama perdera o tresloucado dos primeiros dias para constituir-se um simples feixe de raios, tranquilo e constante, como nos casamentos.
– Estou muito zangada com você, disse ela sentando-se.
– Porquê?
– Porque não foi lá ontem, como me tinha dito. O Damião perguntou muitas vezes se você não iria, ao menos, tomar chá. Por que é que não foi?
Com efeito, eu havia faltado à palavra que dera, e a culpa era toda de Virgília. Questão de ciúmes. Essa mulher esplêndida sabia que o era, e gostava de o ouvir dizer, fosse em voz alta ou baixa. Na antevéspera, em casa da baronesa, valsara duas vezes com o mesmo peralta depois de lhe escutar as cortesanices, ao canto de uma janela. Estava tão alegre! tão derramada! tão cheia de si! Quando descobriu, entre as minhas sobrancelhas, a ruga interrogativa e ameaçadora, não teve nenhum sobressalto, nem ficou subitamente séria; mas deitou ao mar o peralta e as cortesanices.
Veio depois a mim, tomou-me o braço, e levou-me até outra sala, menos povoada, onde se me queixou de cansaço, e disse muitas outras coisas, com o ar pueril que costumava ter, em certas ocasiões, e eu ouvi-a quase sem responder nada.
Agora mesmo, custava-me responder alguma coisa, mas enfim contei-lhe o motivo da minha ausência... Não, eternas estrelas, nunca vi olhos mais pasmados. A boca semi-aberta, as sobrancelhas arqueadas, uma estupefação visível, tangível, que se não podia negar, tal foi a primeira réplica de Virgília; abanou a cabeça com um sorriso de piedade e ternura, que inteiramente me confundiu.
 Ora você!
E foi tirar o chapéu, lépida, jovial, como a menina que torna do colégio; depois veio a mim, que estava sentado, deu-me pancadinhas na testa, com um só dedo, a repetir: – Isto, isto; – e eu não tive remédio senão rir também, e tudo acabou em galhofa. Era claro que me enganara.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Gorjeios

Gorjeio é mais bonito do que canto porque nele se
inclui a sedução.
É quando a pássara está enamorada que ela gorjeia.
Ela se enfeita e bota novos meneios na voz.
Seria como perfumar-se a moça para ver o namorado.
É por isso que as árvores ficam loucas se estão gorjeadas.
É por isso que as árvores deliram.
Sob o efeito da sedução da pássara as árvores deliram.
E se orgulham de terem sido escolhidas para o concerto.
As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.

Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo

A contadora de Filmes

[1]

Como em casa o dinheiro andava a cavalo e a gente andava a pé, quando chegava um filme no acampamento da Mina e meu pai – só pelo nome do ator ou da atriz principal – achava que parecia ser bom, as moedas eram juntadas uma a uma, o preço exato da entrada, e me mandavam assistir.
Depois, ao voltar do cinema, eu tinha de contar o filme para a família inteira reunida na sala.

Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

O murinho


A princípio, o território neutro do edifício Jandaia era ocupado por mamães e babás, capitaneando inocentes que iam tomar a fresca da tarde; à noite, vinham empregadas em geral, providas de namorados civis e militares.
Mas impõe-se a descrição sumária do território: simples área pavimentada em frente ao edifício, separando-se da calçada por uma pequena amurada de menos de dois palmos de altura, tão lisa que convidava a pousar e repousar. Os adultos cediam ao convite, e ali ficavam praticando sobre o tempo, a diarreia infantil, a exploração nas feiras, os casamentos e descasamentos da semana. (Na parte da tarde.) Ou não conversavam, pois outros meios de comunicação se estabeleciam naturalmente na sombra, mormente se o poste da Light, que ali se alteia, falhava a seu destino iluminatório, o que era frequente. (Na parte da noite.)
Na área propriamente dita, a garotada brincava, e era esse o título de glória do Jandaia. Sem playground, oferecia entretanto a todos, de casa ou de fora, aquele salão a céu aberto, onde qualquer guri pulava, caía, chorava, tornava a pular, até que a estrela Vésper tocava gentilmente a recolher, numa sineta de cristal que só as mães escutam — as mães sentadas no “murinho”, nome dado à mureta concebida em escala de anão.
E assim corria a Idade de Ouro, quando começaram a surgir, no expediente da tarde, uns rapazinhos e brotinhos de uniforme colegial, que foram tomando posse do terreno. Esse bando tinha o dinamismo próprio da idade — e, pouco a pouco, crianças, babás e mãezinhas se eclipsaram. Os invasores falavam essa língua alta e híbrida que se forja no mundo inteiro, com raízes no cinema, no esporte, na Coca-Cola e nos gritos guturais que se desprendem — quem não os distingue? — dos quadros “mudos” de Brucutu e Steve Roper. Divertido, mas um pouco assustador. E à noite, por sua vez, fuzileiros e copeiras tiveram de ir cedendo campo à horda que se renovava.
Os moradores do Jandaia começaram a queixar-se. O porteiro saiu a parlamentar, e desacataram-no. A rua era pública. Sentavam no murinho com os pés para fora. Não faziam nada de mau, só cantar e assobiar. Os chatos que pirassem.
Ouvindo-se tratar de chatos, por trás da cortina, os moradores indignaram-se. O telefone chamou a radiopatrulha, que foi rápida, mas a turminha ainda mais: ao chegar o carro, o porteiro estava falando sozinho.
No dia seguinte, não houve concentração juvenil, mas já na outra tarde, meio cautelosos, eles reapareceram. A esse tempo a rua se dividira. Havia elementos solidários com a gente do Jandaia, e outros que defendiam a nova geração; estes argumentavam que a rapaziada era pura: em vez de bebericar nos bares, batia papo inocente à luz das estrelas. Preferível à grudação dos casais suspeitos, que antes envergonhava a rua.
Mas o Jandaia tinha moradores idosos e enfermos, aos quais aquela bulha torturava; tinha também rapazes e meninas, que preferiam estudar e não podiam. Por que os engraçadinhos não iam fazer isso diante de suas casas?
Como não houvesse condomínio, e os moradores dos fundos, livres da algazarra, se mostrassem omissos, uma senhora do segundo andar assumiu a ofensiva e txááá! um balde de água suja conspurcou a camisa esporte dos rapazes e o blue jeans das garotas. Consternação, raiva, debandada — mas no dia seguinte voltaram. E voltaram e tornaram a voltar.
Ontem pela manhã, um pedreiro começou a furar o cimento do murinho, e a colocar nele uma grade de ferro, de pontas agudas. Vaquinha dos mártires do Jandaia? Não: outra iniciativa pessoal de um deles, coronel reformado e solteirão. “Logo vi que ele não tem filho!” — comentou uma das garotas, com desprezo. Mas a turma está desoladíssima, e nunca mais ninguém ousará sentar no murinho — nem mesmo as mansuetas babás e mamães, nem mesmo os casais noturnos.

Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira

Do diário em Paris

Eu estou só. O gato está só. As árvores estão sós. Mas não o só da solidão: o só da solistência.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

04/08/2026

Rosa Passos | Recriação

 

Habitação

Muito antes do chalet
Antes do prédio
Antes mesmo da antiga
Casa bela e grave
Antes de solares palácios e castelos
No princípio
A casa foi sagrada –
Isto é, habitada
Não só por homens e por vivos
Mas também pelos mortos e por deuses.

Isso depois foi saqueado
Tudo foi reordenado e dividido
Caminhamos no trilho
De elaboradas percas.

Porém a poesia permanece
Como se a divisão não tivesse acontecido
Permanece mesmo muito depois de varrido
O sussurro de tílias junto à casa de infância.

Sophia de Mello Breyner Andresen, em Ilhas

Jeca Tatu


Os grandes gostavam de judiar dos pequenos. Havia, à distância de um grito, uma mata fechada. Nunca fui lá perto. A mata era o mistério. Escura. De dia ela estava quieta. De noite vinham os barulhos estranhos. Pios de aves noturnas. Barulhos de animais. A gente os ouvia de dentro da casa, trancados, imaginando...
Pois os grandes gostavam de me torturar dizendo que na mata morava um menino pequeno como eu. E, para provar, gritavam com mãos em concha: “Ô menino!”. Passavam-se alguns segundos e de dentro da mata vinha a resposta baixinho: “Ô menino!”. Era o eco. Eu não sabia o que era eco. E acreditava. Antes de dormir, na minha cama, eu ficava a pensar naquele menino sozinho, abandonado na mata, sem casa, sem cama. E eu ficava triste, com dó dele. Hoje sei que o menino não existia. Mas a minha tristeza existia. A solidão daquele menino me acompanha até hoje. Eu tinha medo de que a onça o comesse. Porque todo mundo jurava já ter visto onça.
Foi então que me caiu nas mãos um livrinho, Almanaque do Biotônico Fontoura. Mesmo sem saber ler, fiquei fascinado com um desenho: um homem dando um murro na cara de uma onça enquanto uma outra onça contempla a cena com cara de espanto. E o homem dizia: “Conheceu, papuda!”. Essa frase do esmurra-onças me fazia rir. Era o almanaque do Jeca Tatuzinho. Minha mãe me lia a estória do Jeca Tatuzinho todo dia. E quando chegava no “conheceu, papuda!” eu ria como se fosse a primeira vez. O Jeca Tatuzinho me fez perder o medo das onças. Decorei o livrinho e o levava comigo. E sempre que oportunidade surgia eu me oferecia para lê-lo, para quem quisesse. Minha tia Mema estava doente. Tinha tido um peripaque cardíaco. Ficava assentada o dia inteiro, com aquele sorriso manso, sem nunca se queixar. Eu me assentava num banquinho, abria no Jeca Tatuzinho e lia para ela: “Jeca-tatu era um pobre caboclo que morava no mato, numa casinha de sapé. Vivia na maior pobreza em companhia da mulher, muito magra e feia, e de vários filhinhos pálidos e tristes...” .
Dizem que os brasileiros de agora não gostam de ler. Naqueles tempos todo brasileiro, inclusive os analfabetos da roça, iam às farmácias para saber se o almanaque já havia chegado. Naqueles tempos as farmácias eram centros de irradiação da cultura. Até hoje os almanaques são fascinantes. Especialmente o Almanaque Brasil de Cultura Popular, do Elifas Andreato. Acho que todo brasileiro gosta de ler almanaque. Eu gosto.

Rubem Alves, em O Velho que Acordou Menino

Água



Por vez, na jornada,
A água não é potável.
Plante e preserve.

一度だけ、一日、
水は飲料水ではありません。
植えて保存します。

Elilson José Batista, em O Sol dá têmpera à espada-de-são-jorge

Nora Rubi



Meu nome é Nora Rubi, o Nora é verdadeiro, mas o Rubi é falso. Sou cleptomaníaca. Não vejo imoralidade nisso, seria imoral se eu não fizesse o que sinto que tenho que fazer. O poeta disse que o mundo é um palco e todos os homens e mulheres, meros atores. Eu faço o meu papel, abduzo coisas sem cometer nenhuma violência. Elas não têm utilidade ou valor monetário, se tivessem eu seria uma ladra e eu sou uma pessoa honesta. E nem me aposso das coisas dos outros para expressar um sentimento de rancor, ou de frustração, ou de vingança, nem sou impulsiva, nem delirante, nem sofro de distúrbio bipolar, anorexia ou bulimia nervosa, nem de ansiedade, sintomas que o meu psiquiatra, o doutor Paulo, erradamente atribui aos cleptomaníacos. Tenho consciência do que faço e não sinto culpa pelos meus atos. Sou uma pessoa normal. Gosto de abduzir coisas, como algumas pessoas gostam de fazer palavras cruzadas. Esses também serão doentes, por gostarem desse tipo solipsista de passatempo? Eu pelo menos sou gregária, faço abduções na companhia de outras pessoas.
Dizem que é melhor aprender com a desgraça dos outros do que com a nossa. Mas eu aprendi tudo quebrando a cara. Dizem que é mais fácil começar um namoro do que terminá-lo. Mas só aprendi que antes de começar uma aventura devemos saber a maneira de pular fora dela depois de ser esfaqueada por um amante psicótico. É um erro pensar que Deus está do nosso lado, ele não está, vi um filme em que o Diabo diz que Deus é um senhorio desleixado, deixa essa casa onde a gente mora cair de podre. Se ele realmente existe, está pensando em outras coisas e não em nós.
A primeira coisa que abduzi foi uma folha de papel cheia de garranchos. Isso mesmo, uma folha de papel cheia de nomes e números. O sujeito estava parado junto de uma dessas mesas que os bancos colocam perto dos caixas eletrônicos, com formulários de depósitos e canetas, e tirou de uma pasta uma folha de papel e tentou anotar algo nela. A caneta da mesa não funcionava. Então ele revistou os bolsos procurando uma caneta. Rapidamente, peguei a folha e a coloquei na pasta que tinha na minha mão. Saí em seguida. Não me interessava o espetáculo de perplexidade que o sujeito pudesse dar, eu já tinha feito o que tinha que ser feito, o assunto estava encerrado. Não me lembro do que fiz com a folha de papel, não sei onde ela foi parar, o que aconteceu com ela. Devia tê-la guardado como um galardão? Nada disso. Para nós, cleptomaníacos autênticos, o que foi abduzido deixa de ter valor depois que a ação é encerrada.
É claro que existem aspectos logísticos, na acepção grega original da palavra, relativa a cálculo e raciocínio, a serem observados. Tenho que avaliar, com instantaneidade, a importância concreta ou abstrata do produto a ser abduzido e os riscos possíveis, a partir das informações obteníveis.
Acho que sou a única pessoa que tem a biografia do doutor Samuel Johnson, escrita pelo James Boswell, na mesinha de cabeceira. O livro é chato, eu o uso para ficar com sono e poder dormir. Esta noite, antes da ação soporífera ter efeito, li uma frase interessante: leia os seus textos e, sempre que chegar a um trecho que considere especialmente bem escrito, risque-o e elimine-o. Reli o que escrevi até agora e verifico que não há nada a eliminar, está tudo mal escrito. Meu texto já foi melhor, talvez o fato de eu estar escrevendo à mão num papel ordinário que me forneceram aqui na prisão esteja contribuindo para essa piora. Devo contar os acontecimentos que causaram a minha prisão? Sim, mas, para que pressa? Ainda vou ficar aqui durante algum tempo. Estou numa cela isolada, com vagar para ler e escrever. Se a comida não fosse tão ruim, até que seria uma vilegiatura agradável.
A segunda coisa que abduzi foi uma espátula com a ponta quebrada. Foi na casa de uma mulher que estava vendendo os livros da biblioteca do marido, que acabara de falecer. A primeira coisa que as mulheres fazem quando o marido morre é vender os livros dele para o sebo. Então vi uma espátula quebrada sobre a mesa. Eu disse para a mulher que aquela espátula, se usada para abrir uma brochura daquelas com as páginas encadernadas, poderia rasgar o livro. Ela perguntou qual seria o problema se o livro rasgasse, se a brochura ainda não fora aberta isso significava que o marido não se interessara pelo livro. Acabei comprando a brochura. Ao chegar à rua joguei a espátula na primeira lata de lixo que encontrei. A brochura está na minha estante e não foi aberta até hoje. Uma homenagem simbólica ao marido morto.
Reconheço que, não obstante as coisas que eu abduzo não terem nenhum valor para mim e o único lucro obtido com elas ser a satisfação de ter realizado uma obra perfeita, às vezes, para o proprietário da coisa, ela pode fazer falta. Aquela folha de papel cheia de garatujas faria falta? Que informação ela poderia lhe dar? Que você está falido e deve dizer adeus ao mundo cruel jogando-se sob as rodas de um ônibus? Que está rico e pode se casar?
Aquela espátula talvez fosse usada exatamente para rasgar as páginas encadernadas dos livros que o marido comprara e não lera e que serviam apenas para encher as estantes de mais livros. Mas sei que esses são meros raciocínios especulativos sem o menor valor.
Outras abduções: uma batata-inglesa no supermercado (odeio batata). Uma calcinhaonde estavam bordadas, em lantejoulas, as palavras fuck me, de uma loja grã-fina que nem sentiria aquela perda. A calcinha era tão minúscula que não serviu para pano de limpeza, tive que jogar no lixo. Um batom vermelho brilhante, daqueles que deixam os lábios úmidos, e que também foi jogado no lixo. Uma camisinha de vênus, de dentro da bolsa de uma moça que se pintava no banheiro do cinema. Quem tem que carregar camisinha é o homem. Um livro de poesias de Carlos Drummond de Andrade, que abduzi da maior livraria da cidade. Aquele livro tinha para mim uma enorme utilidade, pois amo poesia, mas abduzir livro de poesia, mesmo para levar a vantagem de fruí-lo depois, não caracteriza furto. Se fosse de uma biblioteca pública, sim.
Abduzi ainda um adipômetro. Estava tomando um expresso no Talho quando uma mulher ao meu lado, toda paramentada para a aula de ginástica, pontificava sobre como manter a forma física. Não adianta comprar uma balança para se pesar nua em pelo, ela dizia, você tem é que medir o grau de adiposidade do seu corpo di-a-ria-men-te. Ela tirou da bolsa uma parafernália e disse, isto aqui é um adipômetro, custa uma ninharia, comprado na televenda da Polishop.
A mulher colocou o adipômetro na bolsa e, como acontece com a maioria das mulheres, deixou a bolsa aberta. Foi fácil abduzir aquela tralha enquanto ela pingava as gotinhas de adoçante artificial no café.
Durante algum tempo dediquei-me a abduzir cinzeiros ordinários, esses de botecos e churrascarias de rodízio. Passei a fumar, para facilitar a minha missão. Eu fazia a abdução, levava o cinzeiro para casa, depois voltava à churrascaria para devolver o cinzeiro que havia abduzido antes e em seguida abduzia um outro. O problema é que sou vegetariana e ficava nauseada com o espetáculo daqueles garçons carregando espetos fumegantes de carne e parando na minha mesa com um facão em punho perguntando se eu queria um pedaço da picanha enfiada naquela haste de ferro. Acabei desistindo dos cinzeiros, o que foi bom, pois deixei de fumar.
Afinal como é que vim parar na cadeia? Tudo aconteceu quando abduzi uma bijuteria. Eu havia sido convidada a ir ao aniversário de uma prima, numa dessas casas que alugam salões de festas. Entrei no banheiro junto com uma dondoca, daquelas narcisistas que ficam transtornadas ao se ver num espelho. Ela tirou o colar e começou a retocar a maquiagem do pescoço cuidadosamente. Percebendo que eu notara o colar sobre o mármore da pia, ela perguntou, não parecem brilhantes verdadeiros? Quando digo que é uma bijuteria ordinária que comprei num camelô, ninguém acredita. Mas quando é que eu teria dinheiro para comprar uma joia dessas? Meu marido ganha uma miséria, coitado.
Ela continuou retocando a maquiagem, embevecida com o seu reflexo no espelho, e eu pensei, enquanto abduzia o colar, que se fosse bonita como ela talvez me tornasse um pouco narcisista e me olhasse mais no espelho. Tranquei-me no reservado do banheiro e joguei o colar no vaso sanitário.
Quando ia saindo ouvi gritos desatinados, meu colar, meu colar de brilhantes, roubaram o meu colar de brilhantes!
Creio que ela não percebeu que eu me escondera no reservado, pois saiu do banheiro esbaforida, gritando desesperada, meu colar de brilhantes, roubaram o meu colar de brilhantes!
Enfiei a mão no vaso sanitário e consegui pegar o colar de volta. Não senti o menor nojo, não apenas porque o xixi que estava no vaso era meu, como principalmente pelo fato de que, sabendo que havia abduzido algo valioso, eu, para resgatá-lo, enfiaria a mão mesmo que o vaso estivesse cheio de fezes. Com o colar molhado com o meu xixi entre as mãos, saí do reservado e fui para o salão de festas.
O salão estava em polvorosa. Um homem sacudia pelos ombros a mulher do colar, gritava com ela, brilhantes verdadeiros?, brilhantes verdadeiros?, você jurou que comprou no camelô, que eram uma bijuteria barata.
O homem agarrou a mulher pelo pescoço e perguntou, furioso e infeliz, quem lhe deu essa joia?, anda, confessa, adúltera!
A mulher, nervosa, pegava os brincos das orelhas, para se certificar de que não haviam também desaparecido, e olhava a pulseira de diamantes que refletia com fulgor as luzes dos candelabros. O marido começou a esganá-la, gritando, essas joias são todas verdadeiras, não são?, sua puta, quem te deu essas joias?
Postei-me no meio do salão e gritei, atenção, atenção, atencão, todo mundo!
Foi um brado tão alto que até o marido parou de estrangular a mulher. Quando se fez silêncio, abri as mãos e disse, o colar está aqui, eu o abduzi, sinto muito, pensei que era uma bijuteria.
A mulher arrancou o colar da minha mão com tanta força que quebrou uma unha. Alguém havia chamado a polícia, que para prender os inocentes nunca demora a chegar.
Resumindo: fui presa. Mas fui presa por ter esquecido o conto de Maupassant que liquando era adolescente, em que a mulher de um certo Monsieur Lantin também tinha um monte de joias verdadeiras que dizia serem falsas, todas presente do amante. Eu devia ter visto que uma mulher bonita e vaidosa como aquela dona do colar que abduzi era, evidentemente, uma Madame Lantin. A gente aprende lendo, e quem não aprende com o que leu se fode, como eu.
Agora estou aqui, na prisão, escrevendo à mão com uma caneta Bic, coisa que odeio. Ainda bem que hoje, durante o almoço aqui na cadeia, consegui abduzir uma colher. Fiquei muito feliz, ela está escondida debaixo do meu colchão, mas eu não sei o que fazer com ela. Acho que logo mais, no jantar, vou devolvê-la.

Rubem Fonseca, em Ela e Outras Mulheres

Diário de Bernardo Soares

122.

A ideia de viajar nauseia-me.
Já vi tudo que nunca tinha visto.
Já vi tudo que ainda não vi.
O tédio do constantemente novo, o tédio de descobrir, sob a falsa diferença das coisas e das ideias, a perene identidade de tudo, a semelhança absoluta entre a mesquita, o templo e a igreja, a igualdade da cabana e do castelo, o mesmo corpo estrutural a ser rei vestido e selvagem nu, a eterna concordância da vida consigo mesma, a estagnação de tudo que vivo só de mexer-se está passando.
Paisagens são repetições. Numa simples viagem de comboio divido-me inútil e angustiadamente entre a inatenção à paisagem e a inatenção ao livro que me entreteria se eu fosse outro. Tenho da vida uma náusea vaga, e o movimento acentua-ma.
Só não há tédio nas paisagens que não existem, nos livros que nunca lerei. Avida, para mim, é uma sonolência que não chega ao cérebro. Esse conservo eu livre para que nele possa ser triste.
Ah, viajem os que não existem! Para quem não é nada, como um rio, o correr deve ser vida. Mas aos que pensam e sentem, aos que estão despertos, a horrorosa histeria dos comboios, dos automóveis, dos navios não os deixa dormir nem acordar.
De qualquer viagem, ainda que pequena, regresso como de um sono cheio de sonhos — uma confusão tórpida, com as sensações coladas umas às outras, bêbado do que vi.
Para o repouso falta-me a saúde da alma. Para o movimento falta-me qualquer coisa que há entre a alma e o corpo; negam-se-me, não os movimentos, mas o desejo de os ter.
Muita vez me tem sucedido querer atravessar o rio, estes dez minutos do Terreiro do Paço a Cacilhas. E quase sempre tive como que a timidez de tanta gente, de mim mesmo e do meu propósito. Uma ou outra vez tenho ido, sempre opresso, sempre pondo somente o pé em terra de quando estou de volta.
Quando se sente de mais, o Tejo é Atlântico sem número, e Cacilhas outro continente, ou até outro universo.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

03/08/2026

Peaceful Hideway | Angelo Torres e Charles Martins

1633 – Pinola


Gloria in excelsis deo

O bicho-de-pé é menor que uma pulga e mais feroz que um tigre. Se mete pelos pés e derruba quem se coça. Não ataca os índios, mas não perdoa os estrangeiros.
Dois meses passou em guerra o padre Thomas Gage, deitado em uma cama, e enquanto celebra sua vitória contra o bicho-de-pé, faz um balanço do tempo vivido na Guatemala. A não ser pelo bicho-de-pé, não pode se queixar. Nos povoados o recebem ao som das trombetas, debaixo de um pálio de ramagens e flores. Tem os criados que quer e um palafreneiro que leva seu cavalo pelo bridão.
Cobra seu salário, pontualmente, em prata, trigo, milho, cacau e galinhas. As missas que oferece aqui em Pinola e em Mixco, são pagas por separado, e por separado os batismos, matrimônios e enterros, e as orações que reza por conta para conjurar gafanhotos, pestes ou terremotos se incluem as oferendas aos santos a seus cuidados, que são muitos, e as da Noite de Natal e da Semana Santa, o padre Gage recebe mais de dois mil escudos por ano, livres, limpinhos, além do vinho e da batina grátis.
O salário do padre vem dos tributos que pagam os índios a dom Juan de Guzmán, dono desses homens e destas terras. Como só pagam tributo os casados, e os índios são rápidos no saber e na malícia, os funcionários obrigam ao casamento os meninos de doze e treze anos e o padre os casa enquanto lhes cresce o corpo.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos