27/10/2026

Poema do Aviso Final

É preciso que haja alguma coisa
alimentando meu povo:
uma vontade
uma certeza
uma qualquer esperança
É preciso que alguma coisa atraia
a vida ou a morte:
ou tudo será posto de lado
e na procura da vida
a morte virá na frente
e abrirá caminho

É preciso que haja algum respeito
ao menos um esboço:
ou a dignidade humana
se firmará a machadadas.

Torquato Neto, em O fato e a coisa

Benito di Paula | Ah!, Como Eu Amei

 

Hagar, o Horrível

Poeminho do contra

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!

Mário Quintana, em Caderno H

1647 – Santiago do Chile

Se proíbe o jogo dos índios do Chile

O capitão-geral, dom Marin de Mujica, proclama por caixa e pendão a proibição do jogo da chueca, que os araucanos praticam, segundo a tradição, golpeando uma bola com paus de ponta encurvada, em campo rodeado de ramagens verdes.
Com cem chibatadas serão castigados os índios que não obedeçam; e com multa os demais, porque muito se difundiu a infame chueca entre a soldadesca criolla.
Diz a ordem do capitão-geral que se dita a proibição para que se evitem pecados tão contra a honra de Deus Nosso Senhor e porque correndo a bola os índios treinam para a guerra: do jogo nascem alvoroços e assim depois corre a flecha entre eles. É uma indecência, diz, que na chueca se juntem homens e mulheres quase nus, vestidos apenas de plumas e peles nos quais fundamentam a ventura de ganhar. No começo invocam aos deuses para que a bola seja favorável às suas proezas e corridas e no fim, todos abraçados, bebem mares de chicha.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Capítulo 106 – Jogo Perigoso

 



Respirei e sentei-me. Dona Plácida atroava a sala com exclamações e lástimas. Eu ouvia, sem lhe dizer coisa nenhuma; refletia comigo se não era melhor ter fechado Virgília na alcova e ficado na sala; mas adverti logo que seria pior; confirmaria a suspeita, chegaria o fogo à pólvora, e uma cena de sangue... Foi muito melhor assim. Mas depois? que ia acontecer em casa de Virgília? matá-la-ia o marido? Espancá-la-ia? encerrá-la-ia? expulsá-la-ia? Estas interrogações percorriam lentamente o meu cérebro, como os pontinhos e vírgulas escuras percorrem o campo visual dos olhos enfermos ou cansados. Iam e vinham, com o seu aspecto seco e trágico, e eu não podia agarrar um deles e dizer: és tu, tu e não outro.
De repente vejo um vulto negro; era Dona Plácida, que fora dentro, enfiara a mantilha, e vinha oferecer-se-me para ir casa do Lobo Neves. Ponderei-lhe que era arriscado, porque ele desconfiaria da visita tão próxima.
– Sossegue, interrompeu ela; eu saberei arranjar as coisas. Se ele estiver em casa não entro.
Saiu; eu fiquei a ruminar o sucesso e as consequências possíveis. Ao cabo, parecia-me jogar um jogo perigoso, e perguntava a mim mesmo se não era tempo de levantar e espairecer como um parceiro do Whist. E então sentia-me tomado de uma saudade do casamento, de um desejo de canalizar a vida. Por que não? Meu coração tinha ainda que explorar; não me sentia incapaz de um amor casto, severo e puro. Na verdade, as aventuras são parte torrencial e vertiginosa da vida, isto é, a exceção; eu estava enfarado delas; não sei até se me pungia algum remorso. Mal pensei naquilo, deixei-me ir atrás da imaginação; vi-me logo casado, ao pé de uma mulher adorável, diante de um baby, que dormia no regaço da ama, todos nós no fundo de uma chácara sombria e verde, a espiarmos através das árvores uma nesga do céu azul, extremamente azul…

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

São Paulo

De São Paulo recebi uma carta de Fernanda Montenegro. Telefonei-lhe pedindo licença para publicá-la. Foi dada:

“Clarice
é com emoção que lhe escrevo pois tudo o que você propõe tem sempre essa explosão dolorosa. É uma angústia terrivelmente feminina, dolorosa, abafada, educada, desesperada e guardada.
Ao ler meu nome, escrito por você, recebi um choque não por vaidade mas por comunhão. Ando muito deprimida, o que não é comum. Atualmente em São Paulo se representa de arma no bolso. Polícia nas portas dos teatros. Telefonemas ameaçam o terror para cada um de nós em nossas casas de gente de teatro. É o nosso mundo.
E o nosso mundo, Clarice?
Não este, pelas circunstâncias obrigatoriamente político, polêmico, contundente. Mas aquele mundo de que nos fala Tchekhov: onde repousaremos, onde nos descontrairemos? Ai, Clarice, a nossa geração não o verá. Quando eu tinha quinze anos pensava alucinadamente que minha geração desfaria o nó. Nossa geração falhou, numa melancolia de ‘canção sem palavra’, tão comum no século XIX. O amor no século XXI é a justiça social. E Cristo que nos entenda.
Estamos aprendendo a lição seguinte: amor é ter. Na miséria não está a salvação.
Quem não tem, não dá. Quem tem fome não tem dignidade (Brecht). Clarice, estou pedindo desculpas por este palavrório todo. Mas deixe que eu mantenha com você esta sintonia dolorosa dos que percebem alguns mundos, não apenas este ou aquele, porém até mesmo aquele outro, embora linearmente – como é o caso.
Nossa geração sofre da frustração do repouso. É isso, Clarice? A luta que fizermos, não o faremos pra nós. E temos uma pena enorme de nós por isso. É assim que explico pra mim estas frases que você põe no seu artigo: ‘Eu que dei pra mentir. E com isso estou dizendo uma verdade. Mas mentir já não era sem tempo. Engano a quem devo enganar, e, como sei que estou enganando, digo por dentro verdades duras.’ A luta, a que me refiro lá no alto, seria aquela luta bíblica, a grande luta, a que engloba tudo.
Voltando às ‘verdades duras’ de que você fala: na minha profissão o enganar é a minha verdade. É isso mesmo, Clarice, como profissão. Mas na minha intimidade toda particular, sinto, sem enganos, que nossa geração está começando a comungar com a barata. A nossa barata (Fernanda se refere a um livro meu). Nós sabemos o que significa esta comunhão, Clarice. Juro que não vou afastá-la de mim, a barata. Eu o farei. Preciso já organicamente fazê-lo. Dê-me a calma e a luz de um momento de repouso interior, só um momento.
Com intensa comoção.
Fernanda”

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

Pittsburgh Phill & Cia

 



Um cara chamado Summerfield estava de folga, bebendo uma garrafa de vinho. Era um tipo meio bobo, eu tentava evitá-lo, mas ele estava sempre meio bêbado e pendurado na janela. Sempre me via saindo da minha casa e sempre dizia a mesma coisa:
– Hey, Hank, que tal me levar às corridas?
E eu sempre dizia:
– Uma hora dessas, Joe, hoje não.
Bem, ele continuava insistindo, pendurado na janela e meio bêbado, então um dia eu disse:
– Tudo bem, diabos, vamos...
E lá fomos nós.
Estávamos em janeiro. Em Santa Anita, e se você conhece bem aquela pista sabe do que estou falando, pode ficar realmente frio lá fora quando se está perdendo. O vento sopra vindo da neve das montanhas e nossos bolsos estão vazios e você treme e pensa na morte e nos tempos difíceis e no aluguel e em todo o resto. É um lugar bastante desagradável para perder. Pelo menos em Hollywood Park dá para voltar com um bronzeado.
Então fomos os dois. Ele tagarelou durante todo o caminho. Ele nunca tinha ido a um hipódromo. Tive de ensiná-lo a diferença entre apostar no vencedor, na posição e nos três primeiros colocados. Ele não sabia nem onde ficava a posição de largada, muito menos sobre os programas. Quando chegamos lá, ele usou o meu programa. Tive que ensiná-lo a ler as informações. Paguei sua entrada e comprei um programa das corridas para ele. Tudo que ele tinha era dois dólares. O suficiente para uma aposta.
Ficamos em pé por lá antes da primeira corrida, olhando as mulheres. Joe me contou que ele não pegava uma mulher havia cinco anos. Ele era um sujeito com uma aparência rota, um verdadeiro perdedor. Passávamos o panfleto um para o outro e olhávamos as mulheres, e então Joe disse:
– Por que o cavalo número seis paga catorze para um? Me parece o melhor.
Tentei explicar a ele por que dizia ali que o cavalo pagava quatorze para um e que o número tinha relação com os outros cavalos, mas ele não me ouvia.
– Realmente me parece o melhor. Não consigo entender. Tenho que apostar nesse animal.
– Os dois dólares são seus, Joe – eu disse –, e eu não vou emprestar nenhum dinheiro depois que você perder esse.
O nome do cavalo era Red Charley e se tratava de um animal com uma aparência realmente muito triste. Veio para o desfile de apresentação com quatro ataduras. Seu valor pulou para dezoito para um, quando olharam para ele. Apostei dez dólares na vitória do cavalo que logicamente seria o melhor candidato, Bold Latrine[2], que sofrera uma pequena queda na classificação, mas com bons resultados anteriores, um jóquei esperto e o segundo melhor treinador. Achei que sete para dois era uma boa cotação para esse cavalo.
Era uma corrida de uma milha e um quarto. Red Charley estava cotado em vinte para um quando foi dada largada, e ele saiu em primeiro, era impossível confundi-lo com os outros devido às suas ataduras, e o garoto abriu quatro corpos de diferença para o segundo colocado na primeira volta. Deve ter pensado que estava em uma corrida de quarto de milha. O jóquei tinha apenas duas vitórias em quarenta corridas e podia se ver por quê. Ele tinha seis corpos de diferença na reta. A espuma escorria pelo pescoço de Red Charley e se parecia muito com creme de barbear.
No começo da última curva, os seis corpos de vantagem tinham diminuído para três e todo o grupo estava se aproximando dele. No começo da reta final, Red Charley tinha apenas um corpo e meio de vantagem sobre o meu cavalo, Bold Latrine se aproximava por fora. Parecia que eu ia ganhar. Na metade da reta final eu estava a um pescoço de ganhar. Mais um ataque eu ganharia. Mas correram todo o resto do caminho até a linha de chegada dessa forma. Red Charley ainda tinha um pescoço de vantagem na chegada. Pagou 42,80.
– Tive a impressão de que ele era o melhor – disse Joe, afastando-se em direção ao guichê para receber seu dinheiro.
Quando ele voltou, pediu mais uma vez o programa. Olhou os competidores.
– Por que o Big H paga seis para um? – me perguntou. – Parece o melhor.
– Pode parecer o melhor para você – eu disse –, mas no entendimento dos apostadores e dos estatísticos experientes, profissionais de verdade, ele paga seis para um.
– Não se irrite, Hank. Sei que não sei nada sobre esse jogo. Só quero dizer que, para mim, ele deveria ser o favorito. Vou apostar nele de qualquer forma. Também posso apostar na vitória do dez.
– É o seu dinheiro, Joe. Você teve sorte na primeira corrida, o jogo não é fácil.
Bem, Big H ganhou e pagou 14,40. Joe começou a se pavonear. Lemos o programa no bar e ele nos pagou umas bebidas e deu um dólar de gorjeta ao barman. Enquanto saíamos do bar, ele piscou para o barman e disse:
– O próximo páreo já é de Barney’s Mole.
Barney’s Mole estava cotado em seis para cinco, então não imaginei que esse fosse um anúncio tão significativo. Ao fim do páreo, Barney’s Mole ainda rendeu algum dinheiro. Pagou quatro dólares e vinte centavos e Joe saiu com um lucro de vinte dólares na vitória.
– Dessa vez – ele me falou – acertaram o cavalo favorito.
De nove corridas, Joe acertou oito vencedores. Na viagem de volta, ele ficou se perguntando como havia perdido a sétima corrida.
– Blue Truck parecia de longe o melhor. Não entendo como chegou apenas em terceiro.
– Joe, você ganhou oito de nove corridas. Isso é sorte de principiante. Você não faz ideia de como esse jogo é difícil.
– Me parece fácil. Basta escolher o vencedor e receber o dinheiro.
Não falei com ele durante o resto do percurso. Naquela noite ele bateu à minha porta e trazia uma garrafa de uísque e o boletim de apostas. Ajudei-o com a garrafa, enquanto ele lia o programa e me dizia todos os nove vencedores das corridas do dia seguinte e por que ganhariam. Tínhamos entre nós um verdadeiro especialista. Sei como as corridas sobem à cabeça de um homem. Uma vez acertei dezessete vezes seguidas e estava prestes a comprar casas ao longo da costa e começar um negócio de escravas brancas para proteger meus lucros da receita federal. Veja a que grau de loucura esse negócio pode chegar.
Mal podia esperar para levar Joe às corridas no dia seguinte. Queria ver a sua cara quando todas as suas previsões falhassem. Cavalos eram animais feitos de carne. Eram falíveis. Como diziam os velhos apostadores:
– Há doze maneiras de perder e apenas uma de ganhar.
Tudo bem, não foi assim que aconteceu. Joe ganhou sete de nove... favoritos, azarões, alguns com preços médios. E ele resmungou durante todo o caminho de volta sobre as duas corridas que perdera. Ele não podia entender. Não falei com ele. O filho da puta podia fazer tudo certo, mas as probabilidades o pegariam. Começou a me falar de como eu estava apostando errado e qual era a maneira certa de apostar. Dois dias nas pistas e ele era um especialista. Eu apostava há vinte anos e ele me dizendo que eu não sabia nada sobre o assunto.
Fomos às corridas toda a semana e Joe continuava ganhando. Tornou-se tão insuportável que eu não o tolerava mais. Comprou um terno novo e um quepe, camisa nova e sapatos e começou a fumar cigarros de cinquenta centavos. Disse ao pessoal da assistência social que agora ele era um autônomo e que não precisava mais do dinheiro deles. Joe enlouquecera. Deixou um bigode crescer e comprou um relógio de pulso e um anel muito caro. Na terça-feira seguinte, vi-o dirigir seu próprio carro até o hipódromo, um Caddie preto, modelo 69. Abanou para mim de seu carro e bateu as cinzas de seu cigarro. Não falei com ele durante aquele dia no hipódromo. Ele estava no clube. Quando ele bateu em minha porta naquela noite, tinha a garrafa de uísque de sempre e uma loira alta. Uma loira jovem, bem-vestida, bem-arrumada, tinha um belo corpo e um belo rosto. Entraram juntos.
– Quem é esse velho vagabundo? – ela perguntou a Joe.
– Esse é o meu velho amigo, Hank – ele lhe disse. – A gente se conheceu quando eu era pobre. Ele me levou ao hipódromo um dia.
– Ele não tem mulher?
– O velho Hank não vê uma mulher desde 1965. Escuta, que tal arranjarmos a Big Gertie para ele?
– Nem fodendo, Joe, Big Gertie não ficaria com ele! Olha, ele está coberto de trapos.
– Tenha compaixão, querida, ele é meu amigo. Sei que ele não parece muita coisa, mas nós dois começamos juntos. Sou um sujeito sentimental.
– Bem, Big Gertie não é sentimental, ela gosta de classe.
– Olha, Joe – eu disse –, esqueça a mulher. Apenas sente-se com o boletim das corridas e vamos beber um pouco e depois me dê alguns vencedores para amanhã.
Foi isso que Joe fez. Bebemos e ele disse quais seriam os vencedores. Escreveu nove cavalos para mim em um pedaço de papel. Sua mulher, Big Thelma... bem, Big Thelma apenas me olhava como se eu fosse um cagalhão de cachorro no gramado de alguém.
Aqueles nove cavalos renderam oito vitórias no dia seguinte. Um pagou 62,60 dólares. Não podia entender. Naquela noite, Joe veio com uma outra mulher. Era ainda mais bonita. Sentou com a garrafa e o boletim e escreveu em um papel mais nove cavalos.
Então ele me disse:
– Escuta, Hank, vou me mudar. Encontrei um bom apartamento de luxo bem ao lado do hipódromo. O tempo de deslocamento de ida e de volta às corridas é mínimo. Vamos, querida. A gente se vê por aí, meu velho.
Sabia que esse era o fim. Meu amigo estava me despachando. No dia seguinte, apostei pesado naqueles nove cavalos. Ganhei sete. Reli o programa mais uma vez, quando cheguei em casa, tentando entender por que ele escolhera os cavalos que escolheu, mas parecia não haver nenhum método compreensível. Algumas das escolhas eram realmente intrigantes.
Não voltei a ver Joe pelo resto da temporada, exceto uma vez. Vi-o entrar no clube com duas mulheres. Joe estava gordo e rindo. Vestia um terno de duzentos dólares e usava um anel de diamante no dedo. Perdi em todas as nove corridas daquele dia.
Passaram-se dois anos. Eu estava em Hollywood Park e era um dia particularmente quente, uma quinta-feira e, na sexta corrida eu, por acaso, acertei um vencedor que pagou 26,80. Enquanto eu caminhava para o guichê para receber o dinheiro, ouvi sua voz atrás de mim:
– Ei, Hank! Hank!
Era Joe.
– Jesus Cristo, homem – ele disse –, como é bom ver você!
– Olá, Joe...
Ainda usava seu terno de duzentos dólares em todo aquele calor. O resto de nós estava em camisas de manga. Ele precisava barbear-se e seus sapatos estavam gastos e o terno estava amassado e sujo. O diamante se fora, e seu relógio de pulso também.
– Me dê um cigarro, Hank.
Dei-lhe um cigarro e quando ele o acendeu, notei que suas mãos tremiam.
– Preciso de uma bebida, cara – ele me disse.
Levei-o para o bar e bebemos alguns copos de uísque. Joe estudou o programa.
– Escute, parceiro, já apontei vários vencedores para você, não é mesmo?
– Claro, Joe.
Ficamos ali, olhando o programa.
– Agora, veja essa corrida – disse Joe. – Presta atenção ao Black Monkey. Vai ser uma vitória fácil, Hank. É garantido. E paga oito pra um.
– Gosta das probabilidades dele, Joe?
– Ele vai ganhar, parceiro. Vai ganhar frouxo.
Fizemos nossas apostas no Black Monkey e fomos assistir a corrida. Ele acabou em sétimo.
– Não entendo – disse Joe. – Olha, me empreste mais dois dólares, Hank. Siren Call na próxima, não tem como perder. De jeito nenhum.
Siren Call chegou em quinto, mas isso não ajuda muito quando se está apostando no vencedor. Joe conseguiu mais dois dólares de mim para a nona corrida e seu cavalo perdeu também. Joe me disse que não tinha mais carro e perguntou se eu me importava em lhe dar uma carona para casa.
– Você não vai acreditar nisso – ele me disse –, mas estou de volta à assistência social.
– Acredito, Joe.
– Mas vou dar a volta por cima. Sabe, Pittsburgh Phill faliu pelo menos meia dúzia de vezes. Ele sempre dava a volta por cima. Seus amigos tinham fé nele. Emprestavam dinheiro.
Quando o deixei em casa, descobri que ele morava em uma pensão a quatro quarteirões de onde eu morava. Nunca me mudei. Quando Joe desceu do carro ele disse:
– Tenho uma excelente carta na manga para amanhã. Você vai?
– Não tenho certeza, Joe.
– Se for, me avisa.
– Claro, Joe.
Naquela noite ouvi uma batida em minha porta. Eu conhecia a batida de Joe. Não atendi. A televisão estava ligada, mas não atendi. Segui deitado na cama, bem parado. Ele continuou batendo.
– Hank! Hank! Está aí? EI, HANK!
Então ele realmente bateu com força na porta, o filho da puta. Parecia fora de si. Bateu e bateu. Finalmente parou. Escutei-o se afastar pelo corredor. Então ouvi a porta de entrada do prédio se fechar. Levantei, desliguei a televisão e fui até a geladeira, fiz um sanduíche de presunto e queijo, abri uma cerveja. Então me sentei com a comida, abri o programa do dia seguinte e comecei a olhar a primeira corrida, um prêmio de cinco mil dólares para potros e capões com mais de três anos. Gostei do cavalo número oito. O boletim o dava como cinco para um. Apostaria nele até de olhos fechados.

Charles Bukowski, em Ao Sul de Lugar Nenhum

26/10/2026

Coragem, Mulher | Juliane Gamboa e Ivan Lins

 

Um menino perdido na noite

Já meio adormecido, eu ouvia uma voz que vinha da rua. Voz de menino. “Olha os pastéis, de carne e de queijo...” . Sozinho na rua vazia ele vendia pastéis que sua mãe fizera. Para quem, se nas ruas não havia ninguém? Era como nas estórias: havia sempre um bom menino perdido. Ele me fazia lembrar o menino da mata. Imaginava-me no seu lugar, anunciando pastéis a um mundo adormecido. E toda noite acontecia o mesmo, ele passava com o mesmo anúncio triste: “Olha os pastéis, de carne e de queijo...” . A voz triste daquele menino me marcou. Continuo a ouvi-la.

Rubem Alves, em O velho que acordou menino

A luz da dor

O meu modo de saber é adoecendo.

A uns, a ideia surge em luz.
A mim, se declara
uma pontada no peito.

O advento da dor,
o deflagrar da súbita febre
e eu sei que o meu corpo sabe.

Um dia destes
me desconhecerei vivo
desfalecido de aguda sapiência.

Até lá
repartirei com um anjo
o doce milagre da refeição.

Mia Couto, em Poemas Escolhidos

O ovo

“Carlos acordou e fritou um ovo.” — Anônimo

“N’aquele outomno de 1875, Carlos abriu as pálpebras esguedelhadas — tinha acordado macilento. Trazia-lhe tranquillidade contar as dezoito velas do lustre de ouro, presenteado pelo tio Affonso havia trinta e dois anos. ‘Somente para dar-me esse lustre serviu o tio Affonso’, pensou. Levantou-se da cama com uma fadiga langorosa, arrastando consigo os lençóis de seda indiana e esticou-se num fato de xadrezinho inglês. Cobriu-se com um cache-nez de seda clara e abriu um telegramma, indolente e poseur, em frente ao espelho de Veneza — resvalava, através das árvores, uma luz esverdinhada. Ordenou à criada:
— Frite-me ovos.” — Eça de Queiroz

“Carlos acordou com uma súbita vontade de fritar um ovo, hei de fritar um ovo, pensou, agora mesmo, posto que se não fritá-lo, não poderei comê-lo frito, e terei de me contentar com ele cru, o que não seria do meu agrado. Tendo pensado nisso, fritou o ovo, e não está ruim, pensou, o ovo, frito.” — José Saramago

“Acordei libertado da angústia de não estar acordado. Não estar acordado é enorme: viver é isso. Fritei um ovo.” — Clarice Lispector

“Sonado: Carlos abriu o olho. Bisbilhava-se. A galinha desovou um ovo, disse Migué.
— Larga de afoiteza, gritou tio Janjório. É muita ambicionice comer a galinha que ainda não galinhou.
Carlos nem orelhou. Quando o tio viu, o ovo já não era.” — Guimarães Rosa

“Acordei ao lado de Vânia, que ainda dormia. Seus seios eram rosados e sua pentelheira era vasta e negra. Levantei e acendi um cigarro naquele fogão de bacana. Na cozinha, Branca me esperava, nua, com uma Magnum na mão, tapando-lhe a boceta. Eu disse alguma coisa e ela não gostou. Apontou a arma para os meus testículos.
— Frita, Carlos. Seus ovos vão ser a porra do meu café da manhã.
Alguém bateu na porta. Era Frida, nua. Fodemos.” — Rubem Fonseca

“Carlos acordou com a perna meia dormente. Para ficar com menas dor, recorreu a uma simpatia. Foi até a cozinha e fez um ovo estralado.” — Paulo Coelho

Gregório Duvivier, em Put some farofa

O impagável Quino

 

Diário De Bernardo Soares

140.

Acontece-me às vezes, e sempre que acontece é quase de repente, surgir-me no meio das sensações um cansaço tão terrível da vida que não há sequer hipótese de acto com que dominá-lo. Para o remediar o suicídio parece incerto, a morte, mesmo suposta a inconsciência, ainda pouco. É um cansaço que ambiciona, não o deixar de existir — o que pode ser ou pode não ser possível —, mas uma coisa muito mais horrorosa e profunda, o deixar de sequer ter existido, o que não há maneira de poder ser.
Creio entrever, por vezes, nas especulações, em geral confusas, dos índios, qualquer coisa desta ambição mais negativa do que o nada. Mas ou lhes falta a agudeza de sensação para relatar assim o que pensam, ou lhes falta a acuidade de pensamento para sentir assim o que sentem. O facto é que o que neles entrevejo não vejo. O facto é que me creio o primeiro a entregar a palavras o absurdo sinistro desta sensação sem remédio.
E curo-a com o escrevê-la. Sim, não há desolação, se é profunda deveras, desde que não seja puro sentimento, mas nela participe a inteligência, para que não haja o remédio irónico de a dizer. Quando a literatura não tivesse outra utilidade, esta, embora para poucos, teria.
Os males da inteligência, infelizmente, doem menos que os do sentimento, e os do sentimento, infelizmente, menos que os do corpo. Digo “infelizmente” porque a dignidade humana exigiria o avesso. Não há sensação angustiada do mistério que possa doer como o amor, o ciúme, a saudade, que possa sufocar como o medo físico intenso, que possa transformar como a cólera ou a ambição. Mas também nenhuma dor das que esfacelam a alma consegue ser tão realmente dor como a dor de dentes, ou a das cólicas, ou (suponho) a dor de parto.
De tal modo somos constituídos que a inteligência que enobrece certas emoções ou sensações, e as eleva acima das outras, as deprime também se estende a sua análise à comparação entre todas.
Escrevo como quem dorme, e toda a minha vida é um recibo por assinar.
Dentro da capoeira de onde irá a matar, o galo canta hinos à liberdade porque lhe deram dois poleiros.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

25/10/2026

Grito Sertanejo (versão II) | Elilson José Batista e Robson Renato

 

Café




Candeia era quase nada. Não mais que vinte casas mortas, uma igrejinha velha, um resto de praça. Algumas construções nem sequer tinham telhado, outras, invadidas pelo mato, incompletas, sem paredes. Nem o ar tinha esperança de ser vento. Era custoso acreditar que morasse alguém naquele cemitério de gigantes.
O único sinal de vida vinha de um bar aberto. Duas mesas de madeira na frente, um caminhão, um homem e uma mulher na boleia ouvindo música, entre abraços, beijos e carícias ousadas. Mais desolado e triste que Juazeiro do Norte aquele povoado, muito mais. Em Juazeiro tinha gente, a cidade era viva. E no meio daquele povo todo sempre se encontrava uma alma boa como a de sua mãe, uma moça bonita, um amigo animado. Candeia era morta. Pior ainda naquela hora, quando até o sol iniciava o seu funeral de todos os dias.
Samuel ao menos ficou um pouco feliz por ouvir a música do caminhoneiro. Quase sorriu. O esboço de alegria durou até aparecer pela porta mal pintada de azul uma mulher assombrosa, praguejando com uma vassoura na mão e mandando desligar aquela música maldita. O caminhoneiro a chamou pelo nome:
— Cadê o café, Helenice? Deixa de praguejar, coisa-ruim!
Pela mesma porta saiu uma moça, bem jovem, com uma garrafa térmica vermelha e duas canecas. Foi e voltou com rapidez, agora trazendo dois pratos, quatro pães pequenos, duas bananas cozidas e um pote de margarina.
— Cinco reais — ordenou Helenice, com a mão na garrafa térmica. — Só come se pagar.
O homem pagou, sempre rindo da cara de Helenice, visivelmente bêbado, sempre tentando morder a mulher da boleia, malvestida, desgraçada, seminua, feia, bonita, feliz, e quase não era possível que isso tudo coubesse na mesma pessoa.
Samuel invejou o caminhoneiro. Não tinha tanto dinheiro para comer naquele fim de tarde, fim de vida. Lembrou-se de Mariinha, que gostava de tapioca com café. Essas lembranças de Mariinha eram assim, chegavam o tempo todo, sem palavras, eram fotos da memória, cenas apressadas. Às vezes, com cheiro. Sempre o cheiro da mãe.
Helenice entrou com a vassoura e a moça foi para a lateral da casa. Ele foi atrás, sem imaginar o quanto a sua presença era mais assustadora na penumbra.
— A senhora tem um pão, pelo amor de Deus?
Ele não se reconhecia naquele homem que pedia pão metendo o nome de Deus na frase, mas aprendeu no Horto que a única forma de comover naquele pedaço perdido de mundo era a ameaça de que Deus estava vendo tudo e não tolerava descaridades.
Sua voz foi um susto para a moça, quando viu o miserável. Primeiro porque havia tempos não chegava ninguém ali além de um ou outro caminhoneiro. Segundo porque ele era estranho, instigante. Parecia jovem, parecia bonito. Sentiu medo e pena, ao mesmo tempo. Lembrou-se do saco de pão velho que tinha mesmo que jogar fora. Disse um “espera aí” apressado e voltou logo, jogando o saco para ele.
A fome não o impediu de notar o quanto aquela moça era jeitosa, de corpo bem-feito e uns olhos de mel de jandaíra. Samuel atacou o pão com força, roeu com desespero e engasgou-se com o farelo seco. Sua cara arroxeou rápido, asfixiado, tinha disso desde pequeno, não era cena bonita de se ver. A moça pegou uma garrafa suja de qualquer coisa e encheu com água da torneira, entregando ao sufocado, que bebeu com afobação e desentalou a garganta. Ela teve pena, de novo. Talvez tivesse mesmo a sua idade. Melhor se fosse velho, bem velho, assim seria inofensivo e ela poderia ajudá-lo mais. Talvez até a mãe tivesse pena também. A moça pensou uma coisa egoísta: ele sofria mais que ela. Que bom ver alguém quesofre mais. Que bom. Aquela desgraça de destino, seja lá como tenha acontecido, tornava a sua sina um pouco mais leve. Ela sempre achou que nunca encontraria alguém que sofresse mais que ela. Encontrou, por segundos.
Helenice chegou enfurecida e enxotou o homem com a vassoura, como bicho. Ela, mais bicho que ele. Pediu à menina que tomasse a garrafa da mão do vagabundo, que ainda se recuperava da falta de ar do engasgo. A moça desobedeceu. Saiu correndo pra dentro da bodega, enquanto Helenice afugentava o homem aos gritos, empunhando a vassoura como se fosse uma espada. A Samuel, só restou sair dali correndo.
Estava em Candeia, enfim, onde ninguém o conhecia, onde mal chegou e já foi expulso a vassouradas, onde só conseguiu um saco de pão seco com água suja, onde era difícil acreditar que alguém vivesse, de onde o sol se despedia.
Dois ou três meninos barrigudos, quase nus, corriam pelas ruas daquele sábado à tarde. A poeira, os gatos magros, tudo sofrendo de falta de vida.
Sentou-se numa calçada qualquer para comer mais um pouco dos farelos secos, agora com mais cuidado. Tomou água, aos poucos, até que viu uma torneira no muro da casa ao lado de onde estava sentado. Bebeu o que quis, poderia encher novamente a garrafa, até lavar o rosto antes de procurar o endereço. Ele estava ali para procurar uma casa, encontrar uma mulher, perguntar por um homem, resolver uma dívida antiga e depois ir embora. Deveria ser rápido. Era mais fúria do que plano. Achava que saberia o que fazer quando chegasse a hora.
Aproveitou a torneira, molhou as mãos, a cara, cabelo, tentou tirar a lama preta cimentada sob suas unhas grandes e duras. Olhou-se no espelho de uma moto velha parada logo ali e viu como estava horrendo. Não era assim que gostaria de chegar àquela casa, falar com Niceia, não era a forma mais agradável de se mostrar. Também não foi assim que imaginou a própria vida e lá estava ele, transfigurado em filho do diabo, naquela cidade onde ninguém o conhecia, à procura.
Foi no caminho de Juazeiro a Candeia que o diabo apareceu pela primeira vez como seu pai. Antes era pai nenhum. Não permitia que a mãe falasse nele, portanto ele não existia. Foi uma noite qualquer, dormindo no meio do mato perto dos Inhamuns. Sonhou que Mariinha, vestida de noiva, sorria para alguém e caminhava para um homem e esse homem era um monstro, era o diabo. Parecia com ele, de alguma forma, sendo monstruoso ao mesmo tempo. Era a única imagem que Samuel guardava do pai: o retrato da besta-fera.
Lembrou-se disso enquanto sentia a água, agora escassa, cair da torneira, sem forças, um fio. Até a água parecia morrer.
A dona da casa — e da torneira — apareceu na calçada, andando com passos lentos. Vinha de braço dado com um homem decrépito, de olhar fixo como se não pudesse mais mover os olhos para nenhuma outra parte. A vida estava ali com ele na consistência de fumaça no fim da fogueira. Na calçada, duas cadeiras foram confortavelmente forradas com almofadas desbotadas de tecido florido. Primeiro, ela acomodou o velho, falava com ele, sorrindo, mostrava isso e aquilo, como se ignorasse a debilidade. Chamou um gato amarelo pelo nome, Jerimum, que atendeu e pulou no colo do homem. Talvez fosse um hábito antigo, gatos são dados ao método e à rotina, mas o velho não deu conta da sua presença. Foram amigos um dia? Seria o gato, também, um velho vivente perto da morte?
Samuel assistia a tudo parado, do meio da rua, até ser notado pela velha, já acomodada em sua cadeira. Sua figura horrenda não foi suficiente para assustá-la e tamanha bondade correspondia exatamente à descrição que Mariinha fizera de sua avó Niceia, uma mulher de bom coração. De mãos dadas com o apoplético, sorriu e desejou bom dia ao desconhecido. Sem saber o que dizer exatamente — o sorriso o deixara mais confuso que a vassourada —, Samuel tirou do bolso o endereço e perguntou se ela era Niceia. Ele queria que fosse, mas não, seu nome era Rosa. Depois perguntou onde ficava a rua da Matriz.
— É essa, que passa aqui ao lado da matriz.
Estavam ao lado da rua. Ela, sempre sorrindo.
— E a casa de Niceia Rocha Vale?
O velho resmungou alguma coisa, um barulho angustiante, gutural, quase desesperado.
— Ele quer água — ela traduziu para o forasteiro.
Ainda de mãos dadas, ficou de pé e chamou por alguém pelo muro. Ninguém veio. Ela entrou em casa para buscar água, ajudou o velho a beber, acalmou o homem, ajudou-o a levantar separando bem as pernas, puxando com força o corpo peso-pena, e os dois entraram, ela deixando um rápido aceno de despedida e evitando olhar para ele ou responder à pergunta. Samuel teve certeza de que o velho tentou responder.

Socorro Acioli, em A cabeça do santo

Alegria

 

Poema concreto de Débora Rossi Fantini

De cima

Uma bela ideia de Platão:

“Quem discorre sobre os homens deveria encarar as coisas terrenas como se as avistasse de cima. Assembleias, exércitos e lavouras; matrimônios e divórcios; mortes e nascimentos; tribunais barulhentos e locais desertos; nações bárbaras; festas, funerais e feiras. Uma mistura de tudo e uma combinação ordenada de coisas opostas.”

Marco Aurélio, em Meditações

A vingança da porta

 



A porta de vidro do chuveiro não estava funcionando bem. Fechar, fechava, mas à simples deslocação de ar provocada pela água, ela se abria mansamente. Só os americanos que, tidos por excêntricos, tomam banho no inverno, sabem o que significa uma repentina rajada de ar frio a assinar com a água quente do chuveiro um contrato de pneumonia dupla que nenhum antibiótico rescindirá. Ela, uma senhora brasileira residente em Nova York, mandou chamar o zelador do edifício.­
O zelador compareceu ao fim de três semanas e cinco gorjetas, munido do competente alicate. Depois de verificar a pro­cedência da reclamação, concluiu que o conserto fugia à sua alçada. A um zelador cabe receber os aluguéis no fim do mês, zangar com as crianças que brincam no saguão de entrada e, eventualmente, chamar à ordem os inquilinos que dependuram roupas do lado de fora do prédio. No capítulo dos consertos, cabe-lhe apenas munir-se de um alicate e percorrer regularmente os apartamentos, recolhendo gorjetas. No caso em questão era preciso chamar a companhia que montava e reparava instalações de banho. E a dona do apartamento assim fez.
Veio o homem de uma companhia dessas, contratado por hora. Como, porém, sua especialidade ficasse circunscrita aos aparelhos de banho, meteu-se a reparar o chuveiro, dando ao jato d’água uma pressão e uma direção que não forçassem a porta de vidro a abrir-se assim que se torcia a torneira. Findo o trabalho, depois de duas horas de aplicadas experimentações, que acabaram deixando o banheiro completamente inundado, teve de reconhecer que o defeito na porta persistia e que só na própria porta haveria de ser reparado. Portas, contudo, não eram a sua especialidade.
Chamou-se um serralheiro, mestre na reparação de fechaduras. A um primeiro olhar, porém, ele constatou que nada poderia fazer, desde que a porta do chuveiro não dispunha propriamente de fechadura, mas de uma simples lingueta provida­ de uma mola que cedia à pressão do batente. Além do mais, o defeito estaria talvez no excesso de folga entre este batente e a porta, o que implicava ter de aproximá-los. Depois de fazer para a dona do apartamento uma preleção sobre o funcionamento das fechaduras e os diferentes tipos de chaves, declarou que nada entendia de dobradiças, e como essas deviam ser destacadas da parede para remoção da porta, melhor seria que se chamasse um pedreiro. E um pedreiro foi chamado.
A princípio o pedreiro argumentou que as dobradiças se prendiam a um suporte de madeira embutido na parede, e que torná-lo saliente, para que a porta se ajustasse ao batente do outro lado, exigiria outra peça de madeira — serviço, pois, de um marceneiro. Mas como a mulher, já exasperada, lhe or­denasse que removesse da parede a porta com suporte e tudo, ele pôs mãos à obra. Em meia hora estava aberto na parede um rombo quase do tamanho da própria porta, e esta jazia no chão, enquanto o pedreiro tomava medidas.
— Vou encomendar do carpinteiro um suporte mais largo — explicou. — Depois volto para acabar o serviço.
E se foi, deixando a porta no chão.
Então é que se deu o inesperado. O buraco na parede não se abria para uma dependência do próprio apartamento, conforme o pedreiro, que não era arquiteto, erradamente supôs. Abria-se para o apartamento do vizinho, exatamente no lugar onde ficava o seu chuveiro. Naquela mesma tarde esse vizinho, ao regressar da cidade, foi tomar banho, e quando, já despido, transpôs a porta do chuveiro, deu com o vastíssimo buraco na parede e a caliça no chão. Sem perda de tempo meteu a cabeça no apartamento alheio como que debruçado numa janela:
— Ô madame! — pôs-se a gritar, furioso.
Madame veio correndo, pressurosa. Ao dar com aquele busto nu e cabeludo emergindo de seu chuveiro, ela não pôde deixar de se enraivecer também:
— O senhor não tem vergonha de entrar na minha casa sem roupa, desse jeito? Isso é casa de família e eu mal o conheço. Se quer falar comigo vá se vestir primeiro e passe pela porta da frente.
— Que significa isso? — berrava o homem. — Com licença de quem a senhora me abre um buraco deste tamanho na minha parede?
— Sua parede, não senhor. Abri um buraco na minha ­parede.
E ela cruzou os braços, disposta a tudo.
— Ah, sua parede? Então a senhora é dona da parede do lado de cá? Daqui a pouco vai dizer também que é dona de minha casa e quer tomar banho no meu chuveiro.
— Vá mais devagar! Dispenso a intimidade. Precisei de con­sertar a porta do meu chuveiro e não tenho culpa se as paredes daqui são tão finas. No meu país não aconteceria isso. Começa que lá nós não vivemos empilhados em caixinhas de papelão.
— Pois então volte para o seu país. Vou reclamar com o zelador.
E o homem se afastou da abertura disposto a levar até as últimas consequências o seu protesto. Mas aconteceu que, afastando-se, apareceu de corpo inteiro aos olhos da mulher, esquecendo-se de que estava pelado. Ela cobriu os olhos e botou a boca no mundo:
— Seu indecente! Atrevido! O senhor há de ajustar contas com o meu marido.
E foi-se embora, indignada. O vizinho, pensando com mais calma, viu que de nada adiantaria reclamar com o zelador. Ele haveria de prometer providências diariamente e uma semana se passaria antes que sequer viesse ver de que se tratava. Enquanto isso, o buraco ficaria aberto e ninguém poderia usar o chuveiro com tranquilidade. Vestiu o roupão e chamou de novo a mulher:
— Ô madame!
Madame gritou lá de dentro que se ele insistisse ela chamaria a polícia. Mas ao perceber que ele já se vestira, tornou a che­gar-se, mais cordata:
— O que é que o senhor quer desta vez?
— Quero ver se pelo menos chegamos a um acordo. Por quanto tempo a senhora pretende deixar esse buraco aberto?
— Não sei. Isso depende do pedreiro.
— E por quanto tempo a senhora pretende ficar sem tomar banho?
— Sou brasileira, meu senhor. Tomo banho todos os dias.
— A que horas?
Isso a brasileira achou que também era demais:
— Pergunte a meu marido, se o senhor quer saber.
— Estou perguntando só para que nossos horários não coincidam — explicou o vizinho, impaciente. — Não pense que tenho a mínima curiosidade de ver a senhora tomar banho.
A essa altura, a esposa do vizinho, ouvindo lá da sala a conversa, resolveu intervir:
— Pois fique sabendo que enquanto houver esse buraco na parede você não põe o pé no chuveiro.
E passou à ofensiva contra a outra. As duas senhoras se desavieram, discutindo meia hora, sem chegar a nenhum entendimento. Afinal, já de noite, a situação foi resolvida diploma­ticamente pelos próprios maridos. Utilizariam os respectivos chuveiros em horários diferentes e colocar-se-ia uma cortina provisória ocultando a abertura. Assim se fez, e tudo correu sem novidades naqueles dias. Às vezes coinci­dia, porém, de um marido se atrasar e o outro encontrá-lo ainda no banheiro.
— Muito trabalho hoje? — perguntava um do lado de lá, se enxugando.
— Bastante. E o frio cada vez mais forte, não? — respondia o outro, do lado de cá, se ensaboando.
Às vezes um braço molhado varava a cortina:
— Por favor, quer me passar o seu sabão? O meu acabou.
Um dia veio o pedreiro, trazendo o novo suporte da porta. Os vizinhos se despediram amistosamente, antes que a parede fosse restaurada. Recolocada a porta, foi a vez do pintor, que retocou a parede, e do vidraceiro, que substituiu o vidro, quebrado durante os consertos.
Tudo pronto, madame experimentou tomar o seu banho a portas fechadas, sem buracos na parede e sem correntes de ar. Inútil: era só abrir a torneira e a porta também se abria. Tudo como dantes. Desesperada, telefonou para a seção de informações da Biblioteca Pública:
— O senhor sabe da existência de alguma Companhia de Consertos de Trincos de Lingueta de Pressão de Portas de Chuveiro? — perguntou.
— Há uma em Pittsburgh — informaram-lhe.
Sem saber mais o que fazer, madame deu dois pontapés enraivecidos no batente da porta. E a porta ficou consertada.

Fernando Sabino, em Os melhores contos

O amor acaba

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova York; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fosse melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

Paulo Mendes Campos, em Manchete, 16/05/1964