quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026
A Metamorfose [excerto inicial]
Numa manhã, ao despertar de sonhos
inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado num
gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que
parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça,
divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos
arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posição e
estava a ponto de escorregar. Comparadas com o resto do corpo, as
inúmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se
desesperadamente diante de seus olhos.
Que me aconteceu ? — pensou. Não
era nenhum sonho. O quarto, um vulgar quarto humano, apenas bastante
acanhado, ali estava, como de costume, entre as quatro paredes que
lhe eram familiares. Por cima da mesa, onde estava deitado,
desembrulhada e em completa desordem, uma série de amostras de
roupas: Samsa era caixeiro-viajante, estava pendurada a fotografia
que recentemente recortara de uma revista ilustrada e colocara numa
bonita moldura dourada. Mostrava uma senhora, de chapéu e estola de
peles, rigidamente sentada, a estender ao espectador um enorme regalo
de peles, onde o antebraço sumia! Gregório desviou então a vista
para a janela e deu com o céu nublado — ouviam-se os pingos de
chuva a baterem na calha da janela e isso o fez sentir-se bastante
melancólico. Não seria melhor dormir um pouco e esquecer todo este
delírio? — cogitou. Mas era impossível, estava habituado a dormir
para o lado direito e, na presente situação, não podia virar-se.
Por mais que se esforçasse por inclinar o corpo para a direita,
tornava sempre a rebolar, ficando de costas. Tentou, pelo menos, cem
vezes, fechando os olhos, para evitar ver as pernas a debaterem-se, e
só desistiu quando começou a sentir no flanco uma ligeira dor
entorpecida que nunca antes experimentara. Oh, meu Deus, pensou, que
trabalho tão cansativo escolhi! Viajar, dia sim, dia não. É um
trabalho muito mais irritante do que o trabalho do escritório
propriamente dito, e ainda por cima há ainda o desconforto de andar
sempre a viajar, preocupado com as ligações dos trens, com a cama e
com as refeições irregulares, com conhecimentos casuais, que são
sempre novos e nunca se tornam amigos íntimos. Diabos levem tudo
isto! Sentiu uma leve comichão na barriga; arrastou-se lentamente
sobre as costas, — mais para cima na cama, de modo a conseguir
mexer mais facilmente a cabeça, identificou o local da comichão,
que estava rodeado de uma série de pequenas manchas brancas cuja
natureza não compreendeu no momento, e fez menção de tocar lá com
uma perna, mas imediatamente a retirou, pois, ao seu contato,
sentiu-se percorrido por um arrepio gela- do. Voltou a deixar-se
escorregar para a posição inicial. Isto de levantar cedo, pensou,
deixa a pessoa estúpida. Um homem necessita de sono. Há outros
comerciantes que vivem como mulheres de harém. Por exemplo, quando
volto para o hotel, de manhã, para tomar nota das encomendas que
tenho, esses se limitam a sentar-se à mesa para o pequeno almoço.
Eu que tentasse sequer fazer isso com o meu patrão: era logo
despedido. De qualquer maneira, era, capaz de ser bom para mim —
quem sabe? Se não tivesse de me aguentar, por causa dos meus pais,
há muito tempo que me teria despedido; iria ter com o patrão e lhe
falar exatamente o que penso dele. Havia de cair ao comprido em cima
da secretária! Também é um hábito esquisito, esse de se sentar a
uma secretária em plano elevado e falar para baixo para os
empregados, tanto mais que eles têm de aproximar-se bastante, porque
o patrão é ruim de ouvido. Bem, ainda há uma esperança; depois de
ter economizado o suficiente para pagar o que os meus pais lhe devem
— o que deve levar outros cinco ou seis anos —, faço-o, com
certeza. Nessa altura, vou me libertar completamente. Mas, para
agora, o melhor é me levantar, porque o meu trem parte às cinco.
Olhou para o despertador, que fazia
tique-taque na cômoda. Pai do Céu! — pensou. Eram seis e meia e
os ponteiros moviam-se em silêncio, até passava da meia hora, era
quase um quarto para as sete. O despertador não teria tocado? Da
cama, via-se que estava corretamente regulado para as quatro; claro
que devia ter tocado. Sim, mas seria possível dormir sossegadamente
no meio daquele barulho que trespassava os ouvidos? Bem, ele não
tinha dormido sossegadamente; no entanto, aparentemente, se assim
era, ainda devia ter sentido mais o barulho. Mas que faria agora? o
próximo trem saía às sete; para o apanhar tinha de correr como um
doido, as amostras ainda não estavam embrulhadas e ele próprio não
se sentia particularmente fresco e ativo. E, mesmo que apanhasse o
trem, não conseguiria evitar uma reprimenda do chefe, visto que o
porteiro da firma havia de ter esperado o trem das cinco e há muito
teria comunicado a sua ausência. O porteiro era um instrumento do
patrão, invertebrado e idiota. Bem, suponhamos que dizia que estava
doente? Mas isso seria muito desagradável e pareceria suspeito,
porque, durante cinco anos de emprego, nunca tinha estado doente. O
próprio patrão certamente iria lá a casa com o médico da
Previdência, repreenderia os pais pela preguiça do filho e poria de
parte todas as desculpas, recorrendo ao médico da Previdência, que,
evidentemente, considerava toda a humanidade um bando de falsos
doentes perfeitamente saudáveis. E enganaria assim tanto desta vez?
Efetivamente, Gregório sentia-se bastante bem, à parte uma
sonolência que era perfeitamente supérflua depois de um tão longo
sono, e sentia-se mesmo esfomeado.
À medida que tudo isto lhe passava
pela mente a toda a velocidade, sem ser capaz de resolver a deixar a
cama — o despertador acabava de indicar um quarto para as sete,
ouviram-se pancadas cautelosas na porta que ficava por detrás da
cabeceira da cama.
— Gregório — disse uma voz, que
era a da mãe, é um quarto para as sete. Não tem de apanhar o trem?
Aquela voz suave! Gregório teve um
choque ao ouvir a sua própria voz responder-lhe, inequivocamente a
sua voz, é certo, mas com um horrível e persistente guincho
chilreante como fundo sonoro, que apenas conservava a forma distinta
das palavras no primeiro momento, após o que subia de tom, ecoando
em torno delas, até destruir-lhes o sentido, de tal modo que não
podia ter-se a certeza de tê-las ouvido corretamente. Gregório
queria dar uma resposta longa, explicando tudo, mas, em tais
circunstâncias, limitou-se a dizer:
— Sim, sim, obrigado, mãe, já vou
levantar.
A porta de madeira que os separava
devia ter evitado que a sua mudança de voz fosse perceptível do
lado de fora, pois a mãe contentou-se com esta afirmação,
afastando-se rapidamente. Esta breve troca de palavras tinha feito os
outros membros da família notarem que Gregório estava ainda em
casa, ao contrário do que esperavam, e agora o pai batia a uma das
portas laterais, suavemente, embora com o punho.
— Gregório, Gregório — chamou —,
o que você tem?
E, passando pouco tempo depois, tornou
a chamar, com voz mais firme:
— Gregório! Gregório!
Junto da outra porta lateral, a irmã
chamava, em tom baixo e quase lamentoso:
— Gregório? Não se sente bem?
Precisa de alguma coisa?
Respondeu a ambos ao mesmo tempo:
— Estou quase pronto — e
esforçou-se o máximo por que a voz soasse tão normal quanto
possível, pronunciando as palavras muito claramente e deixando
grandes pausas entre elas. Assim, o pai voltou ao breve almoço, mas
a irmã segredou:
— Gregório, abre esta porta, anda.
Ele não tencionava abrir a porta e
sentia-se grato ao prudente hábito que adquirira em viagem de fechar
todas as portas à chave durante a noite, mesmo em casa.
A sua intenção imediata era
levantar-se silenciosamente sem ser incomodado, vestir-se e,
sobretudo, tomar o breve almoço, e só depois estudar que mais havia
a fazer, dado que na cama, bem o sabia, as suas meditações não
levariam a qualquer conclusão sensata. Lembrava-se de muitas vezes
ter sentido pequenas dores enquanto deitado, provavelmente causadas
por posições incômodas, que se tinham revelado puramente
imaginárias ao levantar-se, e ansiava fortemente por ver as ilusões
desta manhã desfazerem-se gradualmente. Não tinha a menor dúvida
de que a alteração da sua voz outra coisa não era que o prenúncio
de um forte resfriado, doença permanente dos caixeiros-viajantes.
Libertar-se da colcha era tarefa
bastante fácil: bastava-lhe inchar um pouco o corpo e deixá-la cair
por si. Mas o movimento seguinte era complicado, especialmente devido
à sua invulgar largura. Precisaria de braços e mãos para
erguer-se; em seu lugar, tinha apenas as inúmeras perninhas, que não
cessavam de agitar-se em todas as direções e que de modo nenhum
conseguia controlar. Quando tentou dobrar uma delas, foi a primeira a
esticar-se, e, ao conseguir finalmente que fizesse o que ele queria,
todas as outras pernas abanavam selvaticamente, numa incômoda e
intensa agitação. Mas de que serve ficar na cama assim sem fazer
nada, perguntou Gregório a si próprio.
Pensou que talvez conseguisse sair da
cama deslocando em primeiro lugar a parte inferior do corpo, mas
esta, que não tinha visto ainda e da qual não podia ter uma ideia
nítida, revelou-se difícil de mover, tão lentamente se deslocava;
quando, finalmente, quase enfurecido de contrariedade, reuniu todas
as forças e deu um temerário impulso, tinha calculado mal a direção
e embateu pesadamente na extremidade inferior da cama, revelando-lhe
a dor aguda que sentiu ser provavelmente aquela, de momento, a parte
mais sensível do corpo.
[...]
Franz Kafka, em A Metamorfose
A menina de outro meio
1
A guerra com o Japão ainda não
terminara. Inesperadamente, ela foi encoberta por outros
acontecimentos. Pela Rússia passavam ondas da revolução, uma maior
que a outra e jamais vistas.
Nesta época, chegou a Moscou,
procedente dos Urais, a viúva de um engenheiro belga, uma francesa
russificada por conta própria, Amália Karlovna Guichard, com seus
dois filhos, Rodion e Larissa. O filho ela matriculou na escola de
cadetes, e a filha no ginásio feminino, coincidentemente no mesmo
ginásio e na mesma turma onde estudava Nádia Kologrivova.
Madame Guichard possuía economias do
marido em ações, que antes se valorizavam mas que agora começavam
a cair. Para interromper o desaparecimento de seus recursos e para
não ficar de braços cruzados, madame Guichard comprou, próximo ao
Arco do Triunfo, um pequeno negócio, a confecção de Levitskaia,
dos herdeiros da costureira, com o direito de manter na velha empresa
os antigos clientes e todas as estilistas e alunas.
Madame Guichard fez isso seguindo o
conselho do advogado Komarovski, amigo de seu marido e seu próprio
apoio, um negociador de sangue-frio que conhecia a vida empresarial
russa como a palma de sua mão. Ela lhe escreveu sobre a mudança.
Ele os recepcionou na estação e levou, atravessando toda Moscou,
para os quartos mobiliados do Tchernogoria, na travessa Oruzheinaia,
onde alugara um deles para madame Guichard.
Ele já havia convencido a viúva a
matricular Ródia na escola de cadetes e Lara no ginásio que
recomendou. Com descortesia, caçoava do menino e olhava para a
menina de tal maneira, que ela ruborizava.
2
Antes de se instalar no pequeno
apartamento de três quartos, anexo à confecção, eles moraram
aproximadamente três meses no Tchernogoria.
Era um dos lugares mais terríveis de
Moscou, antro de ladrões, ruas inteiras entregues à promiscuidade,
cortiços de “seres perdidos”.
Nem as pulgas e a mediocridade do
mobiliário, nem a sujeira nos quartos, impressionavam as crianças.
Depois da morte do pai delas, a mãe vivia com medo constante do
empobrecimento. Ródia e Lara cansavam-se de ouvir que estavam à
beira da ruína. Eles sabiam que não eram crianças de rua, mas
sentiam um profundo medo dos ricos, como os pupilos de orfanatos.
O exemplo vivo deste medo era
infundido neles pela própria mãe. Amália Karlovna era uma loira
roliça de uns 35 anos; nela, aos ataques do coração sucediam-se
ataques de tolices. Era uma tremenda medrosa e morria de medo dos
homens. Por isso mesmo, por susto e confusão, ela passava de mão em
mão, a toda hora.
No Tchernogoria eles ocupavam o quarto
23 e no 24, desde a inauguração do hotel, morava o violoncelista
Tichkevitch, um bonachão suado e careca que usava peruca e que
juntava as mãos como em uma oração e as apertava contra o peito,
quando tentava convencer alguém; jogava a cabeça para trás e,
inspirado, revirava os olhos ao se apresentar nos círculos sociais e
em concertos. Ele raramente estava em casa, passava dias inteiros no
teatro Bolshoi e no Conservatório. Os vizinhos se conheceram.
Favores mútuos os aproximaram.
Como a presença das crianças às
vezes intimidava Amália Karlovna durante as visitas de Komarovski,
Tichkevitch passou a deixar com ela a chave de seu quarto para que
pudesse receber seu amigo. Logo madame Guichard se acostumou tanto
com o sacrifício dele, que várias vezes bateu em sua porta, pedindo
que a defendesse do seu protetor.
3
A casa de um só andar ficava perto da
esquina com a Tverskaia. Sentia-se a proximidade da estrada de ferro
que levava para Bretsk. Ao lado, ficavam as propriedades, os
apartamentos funcionais, o depósito de locomotivas e depósitos em
geral.
Lá morava Olia Demina, uma menina
inteligente, sobrinha de um dos funcionários da ferrovia
Moscou-Tovarnaia.
Ela era uma aluna muito capaz. A velha
proprietária era atenciosa com ela e a nova, agora, começou se
aproximar. Olia gostava muito de Lara.
Tudo ficou da mesma forma, como na
administração de Levitskaia. As máquinas de costura rodavam feito
loucas debaixo dos pés que desciam e subiam ou dos braços das
costureiras que esvoaçavam. Alguém cosia calmamente, sentada à
mesa, esticando o braço com a agulha e a linha comprida. O chão
estava coberto de retalhos. Tinham que falar alto para superar o
barulho das máquinas e o gorjeio vibrante de Kirill Modestovitch, um
canário numa gaiola debaixo da abóbada da janela: o mistério de
seu nome a antiga proprietária levou consigo para o túmulo.
Na recepção, um grupo de damas
pitorescas cercava a mesa com revistas. Elas ficavam de pé, sentadas
ou semi-encostadas, nas poses que viam nas revistas, observavam os
modelos, trocavam conselhos sobre os feitios. A uma outra mesa, no
lugar da diretora, estava a auxiliar de Amália Karlovna, uma das
costureiras responsáveis, Faina Silantievna Fetisova, uma mulher
ossuda com verrugas nas cavidades das bochechas flácidas.
Ela segurava a piteira de marfim, com
o cigarro entre os dentes amarelados, apertava os olhos também
amarelados e, soltando a fumaça amarela pela boca e pelo nariz,
anotava no caderno as medidas, os números das notas fiscais, os
endereços e as solicitações das clientes.
Amália Karlovna era uma pessoa nova e
inexperiente na confecção. Ela não se sentia totalmente como dona.
Mas os funcionários eram honestos e podia confiar em Fetisova. Mesmo
assim, a época era inquieta. Amália Karlovna tinha medo de pensar
no futuro. O desespero tomava conta dela. Tudo caía de suas mãos.
Komarovski frequentemente visitava a
confecção. Quando Victor Ippolitovitch passava pela sala de
costura, dirigindo-se ao fundo e assustando à sua passagem as damas
elegantes que se trocavam e que se escondiam atrás dos biombos, de
lá acolhendo em tom brincalhão seus gracejos atrevidos, as
costureiras murmuravam pelas costas dele com maliciosa desaprovação:
“Deu o ar de sua graça”. “O dela”. “O caso da Amália”.
“Garanhão”. “Feiticeiro de mulheres”.
Objeto de grande ódio era ainda o seu
buldogue, Jack, que às vezes o acompanhava preso na coleira e que o
arrastava atrás de si com trancos tão impetuosos que Komarovski
tropeçava, corria para a frente e andava atrás do cachorro com os
braços estendidos, como um cego com o seu cão-guia.
Certa vez, na primavera, Jack
agarrou-se à perna de Lara e rasgou sua meia.
— Vou matar esse desgraçado —
murmurou Olia Demina infantilmente no ouvido de Lara.
— É realmente um cachorro nojento.
Mas como você, sua tolinha, vai fazer isso?
— Fale baixo, não grite, vou lhe
ensinar. Sabe aqueles ovos de Páscoa de pedra, como os que sua mãe
tem em cima da cômoda?
— Sei, são de mármore e cristal...
— Hã-hã, isso. Abaixe-se, vou lhe
dizer no ouvido. Tem que pegar um, deixar de molho na gordura, a
gordura vai grudar, então o cão tinhoso o engole, enche a pança e
pronto! Patas para o alto! Morreu!
Lara ria, com inveja. A menina vivia
passando necessidades, trabalhava. As crianças do povo se
desenvolvem mais cedo. No entanto, veja o quanto ainda têm de bom,
infantil, ingênuo: ovos, Jack, gordura... de onde vem isso? “Porque
meu destino quis assim”, pensava Lara, “que tudo eu veja e com
tudo sofra?”
[...]
Boris Pasternak, em Doutor Jivago
Diário de Bernardo Soares
94.
Viver é ser outro. Nem sentir é
possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo
que ontem não é sentir — é lembrar hoje o que se sentiu ontem,
ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.
Apagar tudo do quadro de um dia para o
outro, ser novo com cada nova madrugada, numa revirgindade perpétua
da emoção — isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou
ter o que imperfeitamente somos. Esta madrugada é a primeira do
mundo. Nunca esta cor rosa amarelecendo para branco quente pousou
assim na face com que a casaria de oeste encara cheia de olhos
vidrados o silêncio que vem na luz crescente. Nunca houve esta hora,
nem esta luz, nem este meu ser. Amanhã o que for será outra coisa,
e o que eu vir será visto por olhos recompostos, cheios de uma nova
visão. Altos montes da cidade! Grandes arquiteturas que as encostas
íngremes seguram e engrandecem, resvalamentos de edifícios
diversamente amontoados, que a luz tece de sombras e queimações –
sois hoje, sois eu, porque vos vejo, sois o que serei? Amanhã, e
amo-vos da amurada como um navio que passa por outro navio e há
saudades desconhecidas na passagem.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
Dr. H. A. Moynihan
Eu odiava a escola St. Joseph’s.
Aterrorizada pelas freiras, eu bati na irmã Cecilia num dia de calor
texano e fui expulsa da escola. Como punição, tive que trabalhar
todos os dias das férias de verão no consultório do meu avô
dentista. Eu sabia que o verdadeiro motivo do castigo era que eles
não queriam que eu brincasse com as crianças da vizinhança, que
eram mexicanas e sírias. Não havia negros, mas isso era só uma
questão de tempo, segundo minha mãe.
Tenho certeza de que eles também
queriam me poupar de ver Mamie morrendo, dos gemidos dela, das suas
amigas rezando, do fedor e das moscas. À noite, com a ajuda da
morfina, ela cochilava, e então minha mãe e meu avô iam beber
sozinhos em seus respectivos quartos. Eu ouvia o gorgolejo de seus
respectivos uísques da varanda onde eu dormia.
Meu avô mal falou comigo o verão
inteiro. Eu esterilizava e enfileirava os instrumentos dele, prendia
babadores em volta do pescoço dos pacientes, entregava o copinho com
antisséptico bucal e falava para eles cuspirem. Quando não havia
nenhum paciente, vovô ia para sua oficina para fazer dentes ou para
seu escritório para colar recortes. Eu não estava autorizada a
entrar em nenhum dos dois cômodos. Ele colava artigos de Ernie Pyle
e sobre Franklin Delano Roosevelt; tinha álbuns de recortes
separados para as guerras japonesa e alemã. Também tinha álbuns
sobre Crimes, Texas e Acidentes Insólitos: Homem se enfurece e joga
uma melancia pela janela de um apartamento de segundo andar. A fruta
atinge a cabeça da mulher dele e a mata, depois atinge o bebê
dentro do carrinho e o mata também, e nem sequer chega a rachar.
Todo mundo odiava o meu avô, menos
Mamie, e eu, acho. Toda noite ele ficava bêbado e mau. Era cruel,
intolerante e orgulhoso. Tinha dado um tiro no olho do meu tio John
durante uma briga e envergonhado e humilhado a minha mãe a vida dela
inteira. Ela nunca falava com ele, nunca sequer chegava perto dele
por ele ser tão sujo e porco, sempre esparramando comida e cuspindo,
deixando cigarros molhados em toda parte. Vivia coberto de pintas
brancas, do gesso dos moldes de dentes, como se fosse um pintor ou
uma estátua.
Ele era o melhor dentista do oeste do
Texas, talvez até do Texas inteiro. Muita gente dizia isso, e eu
acreditava. Não era verdade que os pacientes dele eram todos velhos
beberrões ou então amigos de Mamie, como a minha mãe dizia. Homens
respeitáveis vinham até mesmo de Dallas ou de Houston para se
tratar com o meu avô porque ele fazia dentaduras maravilhosas. As
dentaduras que ele fazia não saíam do lugar nem assobiavam, e eram
iguaizinhas a dentes de verdade. Ele tinha inventado uma fórmula
secreta para deixá-las da cor certa e às vezes fazia até dentes
lascados ou amarelados e com obturações e coroas.
Não deixava ninguém entrar na
oficina dele, a não ser os bombeiros, naquela única vez. A oficina
não via uma faxina fazia uns quarenta anos. Eu entrava lá quando
ele ia ao banheiro. As janelas estavam pretas de sujeira, gesso e
cera. A única luz vinha das chamas azuladas e tremeluzentes de dois
bicos de Bunsen. Havia enormes sacos de gesso empilhados junto às
paredes, vertendo pó num chão coberto de cacos de moldes de dentes,
e potes cheios de dentes soltos, cada pote com um tipo diferente de
dente. Bolotas de cera rosa e branca grudavam-se às paredes, com
teias de aranha penduradas. As prateleiras estavam abarrotadas de
ferramentas enferrujadas e de fileiras de dentaduras sorrindo ou
fazendo carranca, de cabeça para baixo, como máscaras de teatro.
Ele cantarolava enquanto trabalhava, suas guimbas de cigarro volta e
meia ateando fogo em bolotas de cera ou em embalagens de bombom.
Então, ele jogava café no fogo, manchando o chão coberto de gesso
de um tom escuro e cavernoso de marrom.
A oficina dava passagem para um
pequeno escritório, onde havia uma escrivaninha de tampo corrediço,
sobre a qual vovô colava recortes nos seus álbuns e preenchia
cheques. Depois de assinar, ele sempre sacudia a caneta, fazendo
pingar tinta preta sobre a assinatura e, às vezes, borrando o valor,
de modo que o banco tinha que telefonar para conferir de quanto era o
cheque.
Não havia porta entre a sala onde ele
atendia os pacientes e a sala de espera. Enquanto trabalhava, ele
virava para trás para conversar com quem estava na sala de espera,
gesticulando com a broca na mão. Os pacientes que haviam extraído
dentes se recuperavam numa espreguiçadeira; o resto se sentava nos
peitoris das janelas ou nos radiadores. Às vezes, alguém se sentava
na cabine telefônica, um cubículo de madeira com um telefone
público, um ventilador e uma placa que dizia: “Eu nunca conheci um
homem de quem não gostasse”.
Não havia nenhuma revista na sala de
espera. Se alguém trouxesse uma e a deixasse por lá, vovô a jogava
fora. Minha mãe dizia que ele só fazia isso para ser do contra. Ele
dizia que era porque ver pessoas sentadas lá folheando revistas o
deixava maluco.
Quando não estavam sentados, os
pacientes ficavam zanzando pela sala, mexendo nos objetos pousados em
cima dos dois cofres. Budas, caveiras com dentaduras presas com arame
para abrir e fechar, cobras que mordiam quando você puxava o rabo,
globos de vidro que nevavam quando virados de cabeça para baixo. No
teto havia uma placa: POR QUE RAIOS VOCÊ ESTÁ OLHANDO AQUI PARA
CIMA? Os cofres continham ouro e prata para as obturações, maços
de dinheiro e garrafas de Jack Daniel’s.
Em todas as janelas, que davam para a
rua principal de El Paso, havia grandes letras douradas que diziam:
“Dr. H. A. Moynihan. Eu não trabalho para negros”. As placas se
refletiam nos espelhos pendurados nas três paredes restantes. O
mesmo aviso estava escrito na porta que dava para o hall. Eu nunca me
sentava de frente para aquela porta, por medo de que negros passassem
ali e olhassem para dentro da sala por cima do aviso. Mas nunca vi um
único negro no edifício Caples, a não ser Jim, o ascensorista.
Quando alguém telefonava para marcar
consulta, vovô me mandava dizer que ele não estava mais aceitando
pacientes. Então, à medida que o verão passava, havia cada vez
menos coisa para fazer. Por fim, pouco antes de Mamie morrer, já não
havia mais paciente algum. Vovô simplesmente ficava trancado dentro
da oficina ou do escritório. Eu ia para o terraço às vezes. Dava
para ver a cidade de Juárez e todo o centro de El Paso lá de cima.
Eu escolhia uma pessoa na multidão e a acompanhava com os olhos até
que ela desaparecesse. Mas a maior parte do tempo eu ficava no
consultório mesmo, sentada no radiador e olhando para a Yandel Drive
lá embaixo. Passava horas decodificando cartas da seção de
correspondência do Capitão Marvel, embora isso não tivesse a menor
graça; o código era sempre A no lugar de Z, B no lugar de Y e assim
por diante.
As noites eram longas e quentes. Mesmo
quando Mamie dormia, as amigas dela ficavam lá, lendo passagens da
Bíblia, às vezes cantando. Vovô saía, ia para o clube ou para
Juárez. O motorista do táxi da companhia 8-5 o ajudava a subir a
escada. Minha mãe saía, segundo ela, para jogar bridge, mas também
voltava para casa bêbada. As crianças mexicanas brincavam na rua
até bem tarde. Eu ficava observando as meninas da varanda. Elas
jogavam o jogo das pedrinhas, agachadas no chão de concreto, à luz
do poste de iluminação. Eu morria de vontade de brincar com elas. O
som das pedrinhas parecia mágico, o arremesso delas era como uma
vassourinha arrastando num tambor ou como a chuva quando uma lufada
de vento a empurra de encontro ao vidro da janela.
Uma manhã, quando ainda estava
escuro, vovô me acordou. Era domingo. Eu me vesti enquanto ele
chamava um táxi. Para chamar um táxi, ele pediu à telefonista que
o ligasse com a 8-5 e, quando atenderam, ele perguntou: “Dá pra
fazer uma viagenzinha hoje?”. Ele não respondeu quando o motorista
do táxi perguntou por que estávamos indo para o consultório num
domingo. A portaria estava escura e assustadora. Baratas corriam
pelos ladrilhos e revistas mostravam os dentes para nós de trás de
grades. Vovô conduziu o elevador, dando um solavanco para cima e
para baixo e depois para cima de novo feito um maníaco, até que
finalmente paramos um pouco acima do quinto andar e pulamos. Tudo
ficou muito silencioso depois que paramos. Só o que se ouvia eram
sinos de igreja e o bonde de Juárez.
No início eu fiquei com medo de
entrar na oficina atrás dele, mas depois ele me puxou lá para
dentro. Estava escuro, como uma sala de cinema. Ele acendeu os bicos
de Bunsen resfolegantes. Eu continuei sem entender, sem conseguir ver
o que ele queria que eu visse. Ele pegou uma dentadura de cima de uma
prateleira, pousou-a no bloco de mármore e a empurrou para perto da
chama. Eu sacudi a cabeça.
“Continua olhando.” Vovô abriu
bem a boca e eu olhei para os dentes dele, depois para a dentadura e
para os dentes dele de novo.
“São iguais!”, eu disse.
A dentadura era uma réplica perfeita
dos dentes na boca do meu avô; até as gengivas tinham o mesmo tom
feio, pálido e doentio de rosa. Alguns dentes estavam obturados e
rachados, outros lascados ou gastos. Ele só tinha modificado um
dente, um dos da frente, no qual tinha posto uma coroa de ouro. Era
isso que a tornava uma obra de arte, ele disse.
“Como foi que você conseguiu fazer
todas essas cores?”
“Ficou bom à beça, né? Então…
é a minha obra-prima ou não é?”
“É.” Eu apertei a mão dele.
Estava muito feliz por estar ali.
“Como é que você vai encaixar a
dentadura?”, eu perguntei. “Ela vai encaixar?”
Normalmente, ele arrancava todos os
dentes, deixava as gengivas cicatrizarem, depois fazia uma impressão
da gengiva desdentada.
“Tem uns caras novos fazendo desse
jeito. Você tira a impressão antes de arrancar os dentes, faz a
dentadura e a encaixa antes que as gengivas tenham chance de
encolher.”
“Quando você vai arrancar os
dentes?”
“Agora mesmo. Somos nós que vamos
arrancar. Vai lá preparar as coisas.”
Eu liguei o esterilizador enferrujado
na tomada. O fio estava puído e soltou faíscas. Vovô correu em
direção ao fio. “Deixa para lá esse…”, mas eu protestei.
“Não. Eles têm que ser esterilizados”, e ele riu. Depois, botou
sua garrafa de uísque e seus cigarros em cima da bandeja, acendeu um
cigarro, encheu um copo de papel de Jack Daniel’s e se sentou na
cadeira. Eu ajeitei o refletor, botei um babador no meu avô e
apertei o pedal para fazer a cadeira subir e se inclinar.
“Aposto que vários pacientes seus
gostariam de estar no meu lugar.”
“Aquele troço já está fervendo?”
“Ainda não.” Enchi alguns copos
de papel com antisséptico bucal e peguei um pote de sais aromáticos.
“E se você desmaiar?”, perguntei.
“Ótimo. Aí você pode arrancar
todos. Você tem que segurar o dente o mais perto da gengiva que você
puder e depois torcer e puxar ao mesmo tempo. Me dá uma bebida.”
Eu entreguei um copo com antisséptico pra ele. “Engraçadinha.”
Servi um copo com uísque.
“Nenhum dos seus pacientes ganha
bebida.”
“Eles são meus pacientes, não
seus.”
“Pronto, está fervendo.” Esvaziei
o esterilizador dentro da cuspideira e estendi uma toalha. Usando
outra toalha, arrumei os instrumentos em arco em cima da bandeja
sobre o peito dele.
“Segura o espelhinho pra mim”, ele
disse e pegou o alicate.
Subi no apoio para os pés, entre os
joelhos do meu avô, para segurar o espelho perto do rosto dele. Os
primeiros três dentes saíram fácil. Ele os entregou para mim e eu
os joguei dentro do barril perto da parede. Os incisivos foram mais
difíceis, um deles em particular. Vovô engasgou e parou, a raiz do
dente ainda presa na gengiva. Ele fez um barulho estranho e pôs o
alicate na minha mão. “Pega!” Eu puxei o dente. “Usa a
tesoura, sua idiota!” Eu me sentei na placa de metal entre os pés
dele. “Só um instante, vô.”
Ele esticou o braço por cima de mim
para pegar a garrafa de uísque, bebeu, depois pegou outra ferramenta
da bandeja. Começou a extrair o resto dos dentes de baixo mesmo sem
o espelho. O som era como o de raízes de árvores sendo arrancadas
do solo congelado no inverno. Gotas de sangue caíam na bandeja,
ploc, ploc, e na placa de metal onde eu estava sentada.
Ele começou a rir tão alto que eu
achei que ele tinha enlouquecido. Depois, desabou em cima de mim.
Assustada, eu dei um pulo tão grande que o empurrei de volta para a
cadeira inclinada. “Arranca o resto!”, ele disse, arfando. Eu
estava com muito medo e, por um instante, fiquei me perguntando se
seria assassinato se eu arrancasse os dentes restantes e ele
morresse.
“Arranca!” Ele cuspiu uma pequena
cascata vermelha queixo abaixo.
Fiz a cadeira se inclinar totalmente.
Ele estava mole, não parecia sentir nada enquanto eu puxava os
dentes superiores de trás para o lado e para fora. Ele desmaiou,
seus lábios se fechando feito conchas cinzentas de marisco. Eu abri
a sua boca e enfiei uma toalha de papel lá no fundo, de um dos
lados, para poder arrancar os três dentes de trás que faltavam.
Não restava mais dente nenhum. Tentei
abaixar a cadeira com o pedal, mas bati na alavanca errada e acabei
fazendo meu avô girar, espalhando pingos de sangue pelo chão. Eu o
deixei lá, a cadeira rangendo lentamente até parar. Eu queria pegar
uns saquinhos de chá; meu avô costumava fazer os pacientes morderem
saquinhos de chá para estancar o sangramento. Revirei as gavetas de
Mamie: talco, santinhos, obrigado pelas flores. Os saquinhos de chá
estavam numa lata, atrás do fogão portátil.
A toalha de papel que eu tinha posto
na boca do meu avô estava encharcada de sangue agora. Joguei-a no
chão, enfiei um punhado de saquinhos de chá na boca dele e apertei
os maxilares um contra o outro. Gritei. Sem dente nenhum, o rosto
dele parecia uma caveira, ossos brancos em cima do pescoço
ensanguentado. Um monstro medonho, um bule de chá que ganhou vida,
com etiquetas amarelas e pretas de chá Lipton penduradas como
enfeites de Carnaval. Corri para telefonar para a minha mãe, mas não
tinha moeda para fazer a ligação. Não consegui virar o meu avô
para alcançar os bolsos dele. Ele tinha mijado na calça; gotas de
urina pingavam no chão. Volta e meia uma bolha de sangue aparecia na
narina dele e estourava em seguida.
O telefone tocou. Era minha mãe. Ela
estava chorando. A carne assada, um bom almoço de domingo. Com
pepino, cebola e tudo, exatamente como Mamie fazia. “Socorro! O
vovô!”, eu disse e desliguei.
Ele tinha vomitado. Ah, que bom,
pensei, e depois ri, porque era uma coisa idiota pra se pensar “ah,
que bom”. Joguei os saquinhos de chá no meio da porcaria amontoada
no chão, molhei algumas toalhas e limpei o rosto dele. Abri o pote
de sais aromáticos debaixo do nariz do meu avô, depois cheirei os
sais eu mesmo e estremeci.
“Meus dentes!”, ele berrou.
“Não tem mais dente”, eu disse,
como se estivesse falando com uma criança. “Nenhum!”
“Os novos, palerma!”
Fui buscar a dentadura. Já a conhecia
àquela altura; era exatamente como a boca do meu avô costumava ser
por dentro.
Ele estendeu a mão para pegá-la como
um mendigo de Juárez, mas estava tremendo demais.
“Eu boto pra você. Enxague a boca
primeiro.” Entreguei pra ele o antisséptico bucal. Ele bochechou e
cuspiu sem levantar a cabeça. Eu lavei a dentadura com água
oxigenada e a pus na boca dele. “Ei, olha!” Levantei o espelho de
marfim de Mamie.
“Olha xó exa gengiva!” Ele estava
rindo.
“Uma obra-prima, vovô!” Eu ri
também e dei um beijo na sua cabeça suada.
“Ai meu Deus!”, minha mãe
exclamou com uma voz estridente e veio andando na minha direção com
os braços estendidos. Escorregou no sangue e trombou com os barris
de dentes. Apoiando-se neles, recuperou o equilíbrio.
“Olha os dentes dele, mãe.”
Ela não tinha nem reparado. Disse que
não dava para notar diferença nenhuma. Ele ofereceu um copo com
Jack Daniel’s para ela. Ela aceitou, fez um brinde distraído a ele
e bebeu.
“Você é maluco, pai. Ele é
maluco. De onde veio esse monte de saquinhos de chá?”
A camisa dele fez um ruído de rasgo
quando desgrudou da pele. Eu o ajudei a lavar o peito e a barriga
enrugada. Depois me lavei também e vesti um suéter cor de coral da
Mamie. Os dois ficaram bebendo, em silêncio, enquanto esperávamos o
táxi da 8-5. Eu conduzi o elevador até lá embaixo e aterrissei bem
perto do piso. Quando nós chegamos em casa, o motorista ajudou o
vovô a subir as escadas. Ele parou em frente ao quarto de Mamie, mas
ela estava dormindo.
Na cama, o vovô dormiu também, seus
dentes à mostra num esgar de Bela Lugosi. A boca dele devia estar
doendo.
“Ele fez um bom trabalho”, minha
mãe disse.
“Você não odeia mais o vovô,
odeia, mãe?”
“Ah, odeio”, disse ela. “Odeio
sim.”
Lucia Berlin, em Manual da faxineira: Contos escolhidos
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
Poema Circense
Atirei meu coração às areias do
circo como se atira ao
mar uma âncora aflita. Ninguém bateu
palmas.
O trapezista sorriu, o leão
farejou-me desdenhosamente,
o palhaço zombou de minha sombra
fatídica.
Só a pequena bailarina compreendeu.
Em sua mãos
de opala, meu coração refletia as
nuvens de outono,
os jogos de infância, as vozes
populares.
Depois de muitas quedas, aprendi. Sei
agora vestir,
com razoável destreza, os risos da
hiena, a frágil polidez
dos elefantes, a elegância marinha
dos corcéis.
Todavia, quando as luzes se apagam,
readquiro antigos
poderes e voo. Voo para um mundo sem
espelhos falsos,
onde o sol devolve a cada coisa a
sombra natural
e onde não há aplausos,
porque tudo
é justo, porque tudo é bom.
José Paulo Paes, em Melhores poemas
Capítulo 36 – A Propósito de Botas
Meu pai, que me não esperava,
abraçou-me cheio de ternura e agradecimento. – Agora é deveras?
disse ele. Posso enfim...?
Deixei-o nessa reticência, e fui
descalçar as botas, que estavam apertadas. Uma vez aliviado,
respirei à larga, e deitei-me a fio comprido, enquanto os pés, e
todo eu atrás deles, entrávamos numa relativa bem-aventurança.
Então considerei que as botas apertadas são uma das maiores
venturas da terra, porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer
de as descalçar. Mortifica os pés, desgraçado, desmortifica-os
depois, e aí tens a felicidade barata, ao sabor dos sapateiros e de
Epicuro.
Enquanto esta ideia me trabalhava no
famoso trapézio, lançava eu os olhos para a Tijuca, e via a
aleijadinha perder-se no horizonte do pretérito, e sentia que o meu
coração não tardaria também a descalçar as suas botas. E
descalçou-as o lascivo. Quatro ou cinco dias depois, saboreava esse
rápido, inefável e incoercível momento de gozo, que sucede a uma
dor pungente, a uma preocupação, a um incômodo... Daqui inferi eu
que a vida é o mais engenhoso dos fenômenos, porque só aguça a
fome, com o fim de deparar a ocasião de comer, e não inventou os
calos, senão porque eles aperfeiçoam a felicidade terrestre. Em
verdade vos digo que toda a sabedoria humana não vale um par de
botas curtas.
Tu, minha Eugênia, é que não as
descalçaste nunca; foste aí pela estrada da vida, manquejando da
perna e do amor, triste como os enterros pobres, solitária, calada,
laboriosa, até que vieste também para esta outra margem... O que eu
não sei é se a tua existência era muito necessária ao século.
Quem sabe? Talvez um comparsa de menos fizesse patear a tragédia
humana.
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas
Loucura? Não, não é
Às vezes, passo o dia inteiro
tentando contar as folhas de uma única árvore. Para isso, preciso
subir galho por galho e anotar os números em um caderninho. Então,
suponho que, do ponto de vista deles, seja razoável que meus amigos
digam: que bobagem! Ela está com a cabeça nas nuvens de novo.
Mas não é. Claro que tenho que
desistir, mas a essa altura já estou meio louca de tanta admiração
— a abundância de folhas, a quietude dos galhos, a inutilidade do
meu esforço. E estou naquele lugar delicioso e importante,
gargalhando alto, cheia de gratidão pela Terra.
Mary Oliver, em A Thousand Mornings – Poems
Pacóvio
— Cretino!
Foi o fim de uma conversa áspera da
moça pelo seu telefone celular. Depois daquele “cretino!”, dito
com aquela força, era de se esperar que a moça jogasse o celular
longe, como se estivesse jogando fora o próprio cretino. Mas não.
Ela apenas desligou o celular e colocou ao lado da sua xícara de
café (ou seria chá?), na mesa. O homem da mesa ao lado
certificou-se de que ela estava calma e não despejaria todo o seu
ódio, que pela conversa no celular parecia incluir toda a
humanidade, sobre sua cabeça, e comentou:
— Palavra curiosa, né?
— O quê?
— Cretino.
— Por quê?
— Eu sempre pensei que tivesse
alguma coisa a ver com Creta.
— Concreta?
— Não. Creta. A ilha de Creta.
Cretino seria alguém de Creta. Que por alguma razão teria a fama de
produzir idiotas.
— E não é?
— Não. Fui ver no dicionário.
Cretino é quem sofre de cretinismo, uma condição decorrente de
problemas na tiroide.
— Não é o caso do meu cretino.
— Eu desconfiei que não era. No
dicionário diz que “cretino” também é sinônimo de lorpa,
pacóvio...
O telefone tocou. Vivaldi. Ela atendeu
rispidamente.
— Quié?
Ouviu por alguns minutos, de cara
feia. E ela era linda. Depois disse:
— Sabe o que você é? Um lorpa.
Qual é o outro?
— Pacóvio — disse o homem.
— Um pacóvio. Nunca vi um pacóvio
igual. O quê? Não, não estou com ninguém. Estou tomando um
cappuccino sozinha, pensando em como pude perder meu tempo com um
pacóvio como você. Por favor, não me ligue mais.
Ela desligou o telefone. Sorrindo. Ele
perguntou:
— Marido?
— Deus me livre.
— Namorado?
— Não é mais.
— Posso lhe pagar outro cappuccino?
Mais tarde, já na cama, ela
distraída, ele perguntou se ela estava pensando no namorado.
— Não, não. Acabou.
— O que foi que ele fez, afinal?
— Nada. Pacovice geral. Na verdade
não nos entendemos desde o início. Ele é bonito. Mas sabe aquele
tipo que tem os bíceps na cabeça? É ele. Não podia dar certo.
— Ainda mais com o Vivaldi.
— Como, Vivaldi?
— É o que toca no seu celular.
Vivaldi. Uma das quatro estações. Tenho uma tese de que se pode
saber tudo sobre uma pessoa pelo que ela escolhe para tocar no seu
celular. Uma vez rompi o namoro com uma mulher quando descobri que o
celular dela tocava Wagner. Achei que seria perigoso. Já uma mulher
que escolhe Vivaldi...
— Não é para qualquer cretino.
— Definitivamente não.
Luís Fernando Veríssimo, em Diálogos impossíveis
14. Narra o que se passou no divã real
Logo que o xeque Nuredim Zarur — o emissário do rei — partiu em busca do calígrafo que desenhara as 32 legendas do divã, deram entrada na magnífica sala do trono cinco músicos egípcios que executaram, com grande sentimento, as mais ternas canções e melodias árabes. Enquanto os músicos faziam vibrar seus alaúdes, harpas, cítaras e flautas, duas graciosas bailarinas djalicianas(1), para maior deslumbramento de todos, dançavam sobre o vasto tablado de forma circular.
Era de causar espanto a semelhança que se observava entre as duas jovens escravas.
Tinham ambas o mesmo talhe esbelto, a mesma face morena, os mesmos olhos pintados de khol negro; ostentavam brincos, pulseiras e colares exatamente iguais. E, para completar a confusão, apresentavam-se com trajes em que não se percebia a menor diferença.
Em dado momento o califa, que parecia de bom humor, dirigiu-se a Beremiz a quem disse:
— Que achas, ó Calculista, das minhas lindas adjamis? Já reparaste, com certeza, que são parecidíssimas. Uma delas chama-se Iclímia; tem a outra o mavioso nome de Tabessã(2). São gêmeas e valem um tesouro. Não encontrei, até hoje, quem fosse capaz de distinguir, com segurança, uma da outra quando elas reaparecem no tablado, depois da dança. Iclímia (repara bem!) é a que se acha agora à direita; Tabessã, à esquerda, junto à coluna, dirige-nos, neste momento, seu melhor sorriso! Pela cor de sua pele lisa, pelo perfume delicado que exala, ela se assemelha à haste odorante do aloés.
— Confesso, ó xeque do Islã(3) — respondeu Beremiz —, que as vossas bailarinas são, realmente, irresistíveis. Louvado seja Alá, o Único, que criou a Beleza para com ela modelar as sedutoras formas femininas. Da mulher formosa já disse o poeta:
E para teu luxo a teia que os poetas fabricam com o fio de ouro das imagens; e os pintores o que fazem é criar para tua formosura nova imortalidade.
Para adornar-te, para vestir-te, para fazer-te mais preciosa, o mar dá as suas pérolas, a terra o seu ouro, os jardins suas flores.
Sobre a tua mocidade o desejo do coração dos homens derramou a sua glória(4).
— Parece-me, entretanto — ponderou
o calculista —, relativamente fácil distinguir-se Iclímia de sua
irmã Tabessã. Basta reparar na feitura dos trajes de cada uma!
— Como assim? — atalhou o sultão.
— Pelos trajes não se poderá descobrir a menor diferença, pois
determinei que ambas usassem véus, blusas e mahzmas(5) rigorosamente
iguais!
— Peço perdão, ó Rei generoso —
contraveio Beremiz —, mas a vossa ordem as costureiras não a
acataram com o devido cuidado. Verifico que a mahzma de Iclímia tem,
na barra, 312 franjas, ao passo que na mahzma de Tabessã só cheguei
a contar 309 franjas. Essa diferença de 3 no número total das
franjas é suficiente para evitar qualquer confusão entre as duas
irmãs gêmeas!
Ao ouvir tais palavras o califa bateu
palmas, fez parar imediatamente o bailado, e determinou que um
haquim(6) fosse contar, uma por uma, todas as franjas que apareciam
nos saiotes das bailarinas.
O resultado veio confirmar o cálculo
de Beremiz. A formosa Iclímia tinha, no vestido, 312 franjas e
Tabessã, apenas 309!
— Mac Allah! — exclamou o califa.
— O xeque Iezid, apesar de poeta, não exagerou. Esse calculista
Beremiz é, realmente, prodigioso! Contou todas as franjas dos
saiotes enquanto as bailarinas volteavam rapidamente sobre o tablado.
Isso parece incrível! Por Alá!
A inveja quando se apodera de um homem
abre em sua alma caminho a todos os sentimentos desprezíveis e
torpes.
Havia na corte de Al-Motacém um vizir
chamado Nahum Ibn-Nahum, tipo invejoso e mau. Vendo crescer perante o
califa o prestígio de Beremiz, como onda de pó erguida pelo simum,
aguilhoado pelo despeito deliberou embaraçar o meu talentoso amigo e
colocá-lo em situação ridícula e falsa. Assim foi que se
aproximou do rei e disse-lhe destilando as palavras:
— Acabo de observar, ó Emir dos
Crentes, que o calculista persa, nosso hóspede desta tarde, é
exímio na contagem de elementos ou figuras de uma coleção. Contou
as quinhentas e tantas palavras escritas na parede do salão, citou
dois números amigos, falou da diferença (64 que é cubo e quadrado)
e acabou por contar, uma por uma, as franjas dos saiotes das lindas
bailarinas.
Mal servidos ficaríamos nós se os
nossos matemáticos se dispusessem a cuidar de coisas tão pueris,
sem utilidade prática de espécie alguma. Realmente! Que nos adianta
saber se há, nos versos que nos enlevam, 220 ou 284 palavras e se
esses números são amigos ou não? A preocupação de quantos
admiram um poeta não é contar as letras dos versos ou calcular o
número de palavras pretas ou vermelhas de um poema. Tampouco nos
interessa saber se no vestido desta bela e graciosa bailarina há
312, 309 ou 1.000 franjas. Tudo isso é ridículo e de mui escasso
interesse para os homens de sentimentos que cultivam a Beleza e a
Arte.
O engenho humano, amparado pela
ciência, deve consagrar-se à resolução dos grandes problemas da
Vida. Os sábios — inspirados por Alá, o Exaltado — não
ergueram o deslumbrante edifício da Matemática para que essa nobre
ciência viesse ter a aplicação que lhe quer atribuir o calculista
persa. Parece-me, pois, um crime reduzir a ciência de um Euclides,
de um Arquimedes ou de um maravilhoso Omar Khayya-m (Alá o tenha em
sua glória!) a essa mísera situação de avaliadora numérica de
coisas e seres. Interessa-nos, pois, ver esse calculista aplicar as
teorias (que diz possuir) na solução de problemas de serventia
real, isto é, problemas que se relacionem com as necessidades e os
reclamos da vida corrente!
— Há um pequeno engano de vossa
parte, senhor vizir — acudiu prontamente Beremiz —, e eu teria
grande honra em esclarecer esse insignificante equívoco se o
generoso califa, nosso amo e senhor, me concedesse permissão para
dirigir-lhe mais longamente a palavra, neste divã!
— Não deixa de parecer, até certo
ponto, judiciosa — replicou o rei — a censura feita pelo vizir
Nahum-Ibn-Nahum. Um esclarecimento sobre o caso torna-se
indispensável. Fala, pois! Tua palavra poderá orientar a opinião
dos que aqui se acham!
Fez-se no divã real profundo
silêncio.
O calculista assim falou:
— Os doutores e ulemás, ó Rei dos
Árabes, não ignoram que a Matemática surgiu com o despertar da
alma humana; mas não surgiu com fins utilitários. Foi a ânsia de
resolver o mistério do Universo, diante do qual o homem é simples
grão de areia, que lhe deu o primeiro impulso. Seu verdadeiro
desenvolvimento resultou, antes de tudo, do esforço em penetrar e
compreender o Infinito. E ainda hoje, depois de havermos passado
séculos a tentar, em vão, afastar o espesso velário, ainda hoje é
a busca do Infinito que nos leva para diante. O progresso material
dos homens depende das pesquisas abstratas ou científicas do
presente, e será aos homens de ciência que trabalham para fins
puramente científicos, sem nenhum intuito de aplicação de suas
doutrinas, que a humanidade ficará devedora em tempos futuros(7).
Beremiz fez uma pequena pausa, e logo
prosseguiu, com um sorriso fino e espiritual:
— Quando o matemático efetua seus
cálculos, ou procura novas relações entre os números, não busca
a verdade para fins utilitários. Cultivar a ciência pela utilidade
prática, imediata, é desvirtuar a alma da própria ciência!
A teoria estudada hoje, e que nos
parece inútil, terá aplicações no futuro? Quem poderá esclarecer
esse enigma na sua projeção através dos séculos? Quem poderá, da
equação do presente, resolver a grande incógnita dos tempos
vindouros? Só Alá sabe a verdade! É bem possível que as
investigações teóricas de hoje forneçam, dentro de mil ou dois
mil anos, recursos preciosos para a prática.
É preciso, ainda, não esquecer que a
Matemática, além do objetivo de resolver problemas, calcular áreas
e medir volumes, tem finalidades muito mais elevadas.
Por ter alto valor no desenvolvimento
da inteligência e do raciocínio, é a Matemática um dos caminhos
mais seguros por onde podemos levar o homem a sentir o poder do
pensamento, a mágica do espírito.
A Matemática é, enfim, uma das
verdades eternas e, como tal, produz a elevação do espírito — a
mesma elevação que sentimos ao contemplar os grandes espetáculos
da Natureza, através dos quais sentimos a presença de Deus, Eterno
e Onipotente! Há, pois, ó ilustre vizir Nahum Ibn-Nahum, como já
disse, um pequeno erro de vossa parte. Conto os versos de um poema,
calculo a altura de uma estrela, avalio o número de franjas, meço a
área de um país, ou a força de uma torrente — aplico, enfim,
fórmulas algébricas e princípios geométricos — sem me preocupar
com os louros que possa tirar de meus cálculos e estudos! Sem o
sonho e a fantasia a ciência se abastarda. É ciência morta!
Uassalã!
As palavras eloquentes de Beremiz
impressionaram profundamente os nobres e ulemás que rodeavam o
trono. O rei aproximou-se do calculista, ergueu-lhe a mão direita e
exclamou com decidida autoridade:
— A teoria do cientista sonhador
venceu e vencerá sempre o imediatismo grosseiro do ambicioso sem
ideal filosófico! Kelimet-Oullah(8)!
Ao ouvir tal sentença, ditada pela
justiça e pela razão, o rancoroso Nahum Ibn-Nahum inclinou-se,
dirigiu um salã ao rei, e sem dizer palavra retirou-se cabisbaixo do
divã das audiências.
Muita razão tinha o poeta ao
escrever:
“Deixa voar bem alto a Fantasia:
Sem ilusões a vida que seria?”(9)
NOTAS
(1) Escravas de origem espanhola. Em
geral eram cristãs.
(2) Adjamis significa “jovens
de outras terras”. Iclímia é o nome atribuído à filha mais
velha de Eva. Segundo a tradição árabe, ela é mais moça do que
Caim. Tabessã quer dizer pequenina.
(3) Título dado, exclusivamente, aos
descendentes de Maomé.
(4) Rabindranath Tagore, poeta
indiano.
(5) Espécie de saiote que usam as
bailarinas.
(6) Médico a quem o rei confia a
saúde de suas esposas.
(7) Já Condorcet observa: “O
marinheiro a quem a exata determinação da longitude preserva do
naufrágio deve a vida a uma teoria concebida, vinte séculos mais
cedo, por homens de gênio que tinham em vista meras especulações
geométricas.”
(8) Palavra de Deus.
(9) Esses versos são do grande poeta
lírico espanhol Ramon de Campoamor (1817-1901), em tradução de
Alípio de Figueiredo.
Malba Tahan, em O Homem que Calculava
terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
Factótum | 5
Era uma distribuidora de revistas. A
gente ficava em pé na mesa de empacotamento, verificando os pedidos
para ver se as quantidades coincidiam com as faturas. Depois,
assinávamos a nota fiscal e fazíamos a embalagem do pedido para
enviar no correio, ou separávamos as revistas para a entrega local,
que era feita de caminhão. O trabalho era fácil e sem graça, mas
os funcionários estavam em um constante estado de agitação. Se
preocupavam com os empregos. Eram uma mistura de mulheres e homens
jovens, e parecia não haver qualquer tipo de supervisão. Passaram
algumas horas e duas mulheres começaram a discutir. Alguma coisa a
ver com as revistas. Estávamos embalando gibis e algo deu errado do
outro lado da mesa. As duas mulheres ficaram violentas enquanto a
discussão avançava.
— Pessoal — falei —, não vale a
pena nem ler essas revistinhas, imagina discutir sobre elas.
— Tá bom — disse uma das mulheres
—, a gente sabe que você se acha bom demais para esse trabalho.
— Bom demais?
— Sim, esse teu jeito. Você acha
que a gente não percebe?
Foi aí que eu aprendi pela primeira
vez que não bastava fazer o trabalho, você precisava ter interesse
nele, quem sabe até ser apaixonado pela coisa.
Fiquei lá por três ou quatro dias, e
na sexta-feira recebemos o pagamento referente a todas as horas
trabalhadas. Nos deram envelopes amarelos com notas verdes e o valor
contado. Dinheiro vivo, nada de cheques.
Perto do horário de saída, o
motorista do caminhão de entrega voltou um pouco mais cedo. Sentou
em uma pilha de revistas e fumou um cigarro.
— Pois é, Harry — disse ele a um
dos funcionários —, hoje me deram um aumento. Ganhei dois dólares
a mais.
Quando saí, parei para comprar uma
garrafa de vinho, subi para o meu quarto, bebi um pouco, depois desci
e liguei para a firma. O telefone tocou bastante. Enfim, o sr.
Heathercliff atendeu. Ele ainda estava lá.
— Sr. Heathercliff?
— Sim?
— Aqui é o Chinaski.
— Pois não, sr. Chinaski?
— Eu quero um aumento de dois
dólares.
— Quê?
— Isso mesmo. O motorista do
caminhão de entrega ganhou um aumento.
— Mas ele está conosco há dois
anos.
— Eu preciso de um aumento.
— No momento estamos lhe pagando
dezessete dólares por semana, e você está pedindo dezenove?
— Isso mesmo. Vão me dar ou não?
— Nós não temos como fazer isso.
— Então eu me demito. —
Desliguei.
Charles Bukowski, em Factótum
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