04/06/2026
O homem e a cidade
Agora, que não preciso mais ir à
cidade todo dia, descubro um prazer novo em andar por essas velhas
ruas do centro onde tanto vaguei outrora.
E pego um estranho dia de verão: há
um alto nevoeiro aéreo sob o céu azul, mas o vento espanta
alegremente as nuvens esgotadas de chover; o ar é fino, a luz é
clara, a manhã é assanhada, com uma alegria de convalescente que
pela primeira vez, depois de longa doença, sai a passear entre as
árvores, o mar e as montanhas azuis.
Parece que estamos em maio ou
setembro, num desses dias cambiantes e leves em que as folhas têm um
brilho mais feliz. E sinto prazer em andar pela calçada larga da Rua
do Passeio, em espiar as grandes vitrinas coloridas de presentes de
Natal. (Não quero comprar nada, não preciso ganhar mais nada, não
é verdade que recebi na minha porta a graça juvenil de uma rosa
amarela?)
A calçada está cheia de gente, e é
doce a gente se deixar ir andando à toa. Na Rua Senador Dantas vejo
livros, camisas, aparelhos elétricos, discos, fuzis submarinos,
gravatas; e os cartazes dizem que tudo é muito barato e fácil de
comprar, os cartazes me fazem ofertas especiais para levar agora e só
começar a pagar em fevereiro... Muito obrigado, muito obrigado, mas
não preciso de nada. Entretanto, gosto de ver essa fartura de
coisas: fico parado numa porta de mercearia contemplando reluzentes
goiabadas e frascos de vinho, bebidas e gulodices de toda a espécie
que vieram de terras longes se oferecerem a mim.
Mas de repente houve alguma coisa —
a visão de um muro, o som de uma vitrola distante, algum rosto no
meio da multidão? —, alguma coisa que me devolveu ao meu ser
antigo. Sou um rapaz magro nesta mesma rua, sou o verdadeiro
estudante de 1929 e talvez cruze numa esquina, sem conhecê-la ainda,
aquela que há de ser a minha amada, e tire do bolso a minha
carteirinha da Faculdade para ter direito ao abatimento no cinema.
Mas logo, por um instante, sou o homem dramático e silencioso de
1938, e caminho carregado de angústia por essa calçada que,
entretanto, é a mesma de hoje — há o vento palpitando nos
vestidos coloridos de mulheres finas que sorriem com dentes muito
brancos entre os lábios úmidos. E vou andando, tomo um café, sinto
uma grande ternura pela cidade grande onde outrora te amei tanto,
tanto, oh! para sempre perdida Lenora.
Lenora... E me dá uma humildade entre
o povo, completo o dinheiro da entrada de um menino que quer ir ao
cinema, espero um bonde, ajudo uma senhora gorda a subir com seu
embrulho, ela agradece e sorri, é cinquentona e pobre, mas seu
sorriso é bom, ela e eu somos cidadãos da mesma cidade e antes de
saltar ela me desejará boas-entradas. Vem o condutor, tem cara de
alemão e é gordo, mas ágil e paciente, todos pagam sua passagem na
boa ordem civil e cordial. Um homem conduz uma gaiola dentro do
bonde, todos querem ver o passarinho — é um pintassilgo, diz ele.
Quieto, vou repetindo sem voz, para
mim mesmo, teu nome, Lenora — perdida, para sempre perdida, mas tão
viva, tão linda, batendo os saltos na calçada, andando de cabelos
ao vento dentro da minha cidade e de minha saudade, Lenora.
Rio, janeiro, 1960.
Rubem Braga, em Ai de ti, Copacabana
Especiarias
No fim, tudo se deve à comida
insossa. Quando os mongóis e os turcos interromperam o suprimento
por terra dos condimentos do Oriente, a era dos descobrimentos
começou. A Europa descobriu que não podia viver sem tempero e
lançou-se ao mar e à conquista de rotas alternativas para o cominho
e, por acidente, outros mundos.
A América é um produto do paladar
europeu. Toda a grande aventura imperial foi aromática, tangida pela
pimenta e o gengibre, a hortelã e a noz-moscada. Homens rudes
lançavam-se contra o desconhecido e a morte pelo rosmaninho. Navios
inteiros eram tragados pelo mar e deixavam, na superfície, irônicas
sopas de ervas. Até a poluição era inocente: se se rompesse um
porão de navio, as praias se cobriam de grãos de mostarda, as
gaivotas se intoxicavam com favos de baunilha. Desastre ecológico
era quando os peixes engoliam alho, cebola e alcaparras e já vinham
à tona prontos para a panela.
Outras fomes eram servidas, claro. A
de ouro, a de prata, a de espaço. E a de sexo, pois as mulheres
europeias também eram sem sal. Descobriu-se que o comércio de
escravos era mais rentável do que o comércio de especiarias e não
houve nenhum escrúpulo, ou reticência poética, em fazer a
adaptação. Mas os novos mundos continuaram a ser governados pelo
paladar da Europa. Não dá para calcular quanta gente morreu nos
navios negreiros ou no trabalho escravo para que a classe operária
inglesa tivesse açúcar no seu chá todos os dias, por exemplo. E é
por falta de condimentos parecidos onde eles vivem que turistas
europeus continuam desembarcando no Nordeste do Brasil para comer
adolescentes.
A especiaria de hoje é a droga e não
deixa de ser apropriado que cocaína pareça açúcar. O apetite
servido é pelo delírio, não mais pela noz-moscada, e a carga viaja
escondida. Quem transporta drogas é chamado de “mula” e há no
apelido uma vaga evocação das caravanas do Oriente que enfrentavam
bárbaros e ursos — em vez de fiscais na alfândega — só para
dar uma sensação à Europa.
Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora
Treciziano, o bruto
[…]
Rasgamos sertão. Só o real. Se
passou como se passou, nem refiro que fosse difícil-ah; essa vez não
podia ser! Sobrelégios? Tudo ajudou a gente, o caminho mesmo se
economizava. As estrelas pareciam muito quentes. Nos nove dias,
atravessamos. Todos; bem, todos, tirante um. Que conto.
O que era ― que o raso não
era tão terrível? Ou foi por graças que achamos todo o carecido,
nãostante no ir em rumos incertos, sem mesmo se percurar? De melhor
em bom, sem os maiores notáveis sofrimentos, sem em-errar ponto. O
que era, no cujo interior, o Liso do Sussuarão? ― era um feio
mundo, por si, exagerado. O chão sem se vestir, que quase sem seus
tufos de capim seco em apraz e apraz, e que se ia e ia, até não-onde
a vista não se achava e se perdia. Com tudo, que tinha de tudo. Os
trechos de plano calçado rijo: casco que fere faíscas ― cavalo
repisa em pedra azul. Depois, o frouxo, palmo de areia de cinza
em-sobre pedras. E até barrancos e morretes. A gente estava
encostada no sol. Mas, com a sorte nos mandada, o céu enuveou, o que
deu pronto mormaço, e refresco. Tudo de bom socôrro, em az. A uns
lugares estranhos. Ali tinha carrapato... Que é que chupavam, por
seu miudinho viver? Eh, achamos rêses bravas ― gado escorraçado
fugido, que se acostumaram por lá, ou que de lá não sabiam sair;
um gado que assiste por aqueles fins, e que como veados se matava.
Mas também dois veados a gente caçou ― e tinham achado jeito de
estarem gordos... Ali, então, tinha de tudo? Afiguro que tinha.
Sempre ouvi zum de abêlha. O dar de aranhas, formigas, abêlhas do
mato que indicavam flores.
Todo o tanto, que de sede não se
penou demais. Porque, solerte subitamente, pra um mistério do ar,
sobrechegamos assim, em paragens. No que nem o senhor nem ninguém
não crê: em paragens, com plantas.
De justiça, digo, também! uma regra
se teve, sem se saber de quem foi que veio a ideia dessa combinação.
Qual foi que a gente se apartou, em grupos de poucos, jornadeando com
a maior distância aberta. Mas que, assim, quando um avistasse
qualquer coisa diversa, podia dar sinal, chamando os outros para
novidade boa.
Eu que digo. Mesmo, não era só capim
áspero, ou planta peluda como um gambá morto, o cabeça-de-frade
pintarrôxa, um mandacarú que assustava. Ou o xique-xique
espinharol, cobrejando com suas lagartonas, aquilo que, em chuvas, de
flôr dói em branco. Ou cacto preto, cacto azul, bicho
luiz-cacheiro. Ah , não. Cavalos iam pisando no quipá, que até
rebaixado, esgarço no chão, e começavam as folhagens ― que eram
urtigão e assa-peixe, e o neves, mas depois a tinta-dos-gentíos de
flôr belazul, que é o anil-trepador, e até essas sertaneja-assim e
a maria-zipe, amarelas, pespingue de orvalhosas, e a sinhazinha,
muito melindrosa flôr, que também guarda muito orvalho, orvalho
pesa tanto! parece que as folhas vão murchar. E herva-curraleira...
E a quixabeira que dava quixabas.
Digo ― se achava água. O que não
em-apenas água de touceira de gravatá, conservada. Mas, em lugar
onde foi córrego morto, cacimba d água, viável, para os cavalos.
Então, alegria. E tinha até uns embrejados, onde só faltava o
burití! palmeira alalã ― pelas veredas. E buraco-pôço, água
que dava prazer em se olhar. Devido que, nas beiras ― o senhor crê?
― se via a coragem de árvores, árvores de mata, indas que pouco
altaneiras! simaruba, o aniz, canela-do-brejo, pau-amarante, o pombo;
e gameleira. A gameleira branca! Como outro-tempo se cantava!
Sombra, só de gameleira,
na beira do riachão…
Assim achado, tudo, e o mais, sem
sobranço nem desgosto, eu apalpei os cheios. O respeito que tinham
por mim ia crescendo no bom entendido dos meus homens. Os jagunços
meus, os riobaldos, raça de Urutú-Branco. Além! Mas, daí, um
pensamento ― que raro já era que ainda me vinha, de fugida, esse
pensamento ― então tive. O senhor sabe. O que me mortifica, de
tanto nele falar, o senhor sabe. O demo! Que tanto me ajudasse, que
quanto de mim ia tirar cobro? ― Deixa, no fim me ajeito... ― que
eu disse comigo. Triste engano. Do que não lembrei ou não
conhecesse, que a bula dele é esta! aos poucos o senhor vai,
crescendo e se esquecendo...
Daí, mesmo, que, certa hora, Diadorim
se chegou, com uma avença. Para meu sofrer, muito me lembro.
Diadorim, todo formosura.
― Riobaldo, escuta! vamos na
estreitez deste passo... ― ele disse; e de medo não tremia, que
era de amor ― hoje sei.
― ...Riobaldo, o cumprir de nossa
vingança vem perto... Daí, quando tudo estiver repago e refeito, um
segredo, uma coisa, vou contar a você...
Ele disse, com o amor no fato das
palavras. Eu ouvi. Ouvi, mas mentido. Eu estava longe de mim e dele.
Do que Diadorim mais me disse, desentendi metade.
Só sei que, no meio reino do sol, era
feito parássemos numa noite demais clareada. Assim figuro. Dentro de
muito sol, eu estava reparando uma cena! que era um jumentinho, um
jegue já selvagem caatingano, no limpo do campo caçando o que roer,
assaz pelos cardos.
Eu não tinha de tomar tento em coisas
mais graves? Mire veja o senhor. Picapau vôa é duvidando do ar. Que
tal Zé Bebelo ― na hora me lembrei ― quando mal irado, ou quando
conforme querendo impôr medo a todos! ― Norte de Minas! Norte de
Minas...! ― o que bramava. E ele estava com a razão. Mas Zé
Bebelo era projetista. Eu, eu ia por meu constante palpite. Usando de
toda ajuda que me vinha, mas prevenido sempre contra o Maligno: que o
que rança, o que azéda. As traças dele são novas sempre, e
povoadas tantas, são que nem os tins de areia grãoindo em areal.
Então eu não sabia?!
Ah, quase que eu estava cogitando
nisso, quando o homem rosnou. Quem ele era, digo, em qualidade: um,
troncudo, pardaz, genista, filho não sei de que terra. Assim, casta
de gente?
Ah, não. Por meu bem, eu estava em
todo o meu siso. Até mais. Não faço caso! ― eu disse, isto é:
pensei dizendo. Eu não queria somar com aquilo nenhum; porque
cheirava ao Cujo: esses estratagemas. Era do demo... ― eu tirei um
enredo. Pois, então, paz... ― eu falei, me falei. ...Não faço
conta... ― me prometi. Eu estava em manhas. Estive que estive no
embalançar, em equilibrável. Tico tanto pensei. Mas tudo era
frisado ligeiro, ligeiro, feito cavalo que pressente fúria de boi.
Aí escutei a voz ― a voz dele
tremia nervosa, como de cabrito; da maneira que gritou ― à briga.
Um desfeliz. Levei os olhos.
Ah, quem o homem era, eu já sabia,
ele se chamava Treciziano. O bruto; para falar com ele, só a cajado.
Eu sabia. Rebém, que desconfiei do demo. Ali esse Treciziano era
fraco de paciências; ou será que estivesse curtindo mais sede do
que os outros segundo esse tremor das ventas ― e pegou a malucar?
Diziam que ele criava dôr-de-cabeça, e padecia de erupções e
dartros. Estava falando contra comigo, reclamando, gritou uma ofensa.
Homem zuretado, esbrasêia os olhos. Eu, senhor de minhas
inteligências, como fica dito. Eu estava podendo refleitir, em passo
de jumento. ― Siô, deixa o padre ofrecer missa... ― falei para
mim mesmo. Eu queria tolerar, primeiro: porque o demo não era homem
para mandar em mim e me pôr em raiva. Aí, era só eu forçar calma,
tenteador; depois, com palavras de energia boa, eu acautelava
evitando a jerimbamba, e daí repreendia esse Treciziano, revoltoso,
próprio por autoridade minha, mas sem pau nem pedra. Que dessa ―
chefe eu ― o O não me pilhava…
Mas ― ah! ― quem diga! um faz, mas
não estipula. O que houve, que se deu. Que vi. Com a sede sofrida,
um incha, padece nas vistas, chega fica cego. Mas vi. Foi num átimo.
Como que por distraído! num dividido de minuto, a gente perde o tino
por dez anos. Vi! ele ― o chapéu que não quebrava bem, o punhal
que sobressaía muito na cintura, o monho, o mudar das caras... Ele
era o demo, de mim diante... O Demo!... Fez uma careta, que sei que
brilhava. Era o Demo, por escarnir, próprio pessoa!
E ele endireitou pontudo para sobre
mim, jogou o cavalo... O demo? Em mim, danou-se! Como vinha,
terrível, naquele agredimento de boi bravo. Levantei nos estribos. ―
E-hê!... Esse luzluziu a faca, afiafe, e urrou de ódio de enfiar e
cravar, se debruçando, para diante todo. Tirou uma estocada. Cerrei
com ele... A ponta daquela pegou, por um mau movimento, nas coisas e
trens que eu tinha na cintura e a tiracol! se prendeu ali, um mero.
Às asas que eu com a minha quicé, a lambe leal ― pajeuzeira ―
em dura mão, peguei por baixo o outro, encortei-recortei desde o
princípio da nuca ― ferro ringiu rodeando em ossos, deu o assovião
esguichado, no se lesar o cano-do-ar, e mijou alto o sangue dele.
Cortei por cima do adão... Ele Outro caíu do cavalo, já veio antes
do chão com os olhos duros apagados... Morreu maldito, morreu com a
goela roncando na garganta!
E o que olhei? Sangue na minha faca ―
bonito brilho, feito um verniz veludo... E ele! estava rente aos
espinhos dum mandacarú-quadrado. Conforme tinha sido. Ah-oh! Aoh,
mas ninguém não vê o demônio morto... O defunto, que estava ali,
era mesmo o do Treciziano!
A morte dele deu certo. E era, segundo
tinha de ser? E tinha de ser, por tanto que o demo não existe! As
tramóias, armadilhas... Nem nunca mais, daí por diante, eu queria
pensar nele. Nem no pobre do Treciziano, que estava ali, degolal, que
eu tinha... Um frio profundíssimo me tremeu. Sofri os pavôres disso
da mão da gente ser capaz de ato sem o pensamento ter tempo. Somente
todos me gabaram, com elogios e palavras prezáveis, porque a minha
chefia era com presteza. Fosse de tiro, tanto não admiravam a tanto,
porque a minha fama no gatilho já era a qual; à faca, eh, fiz! E do
outro grupo, longe mas que era o mais perto, da banda da mão
esquerda, um escutou ou viu, e veio. Era o Jiribibe, mocinho
Jiribibe, num cavalo preto galopeiro. Diadorim tinha disparado tiro,
só esmo; de nervosia. Dentro de pouco, todos iam ficar cientes da
proeza daquele homem tão morto: das beiras do corte ― lá nele ―
a pele subia repuxada, a outra para baixo tinha descaído
tamanhamente, quase nas maminhas até; deixavam formado o buraco
medonho horrendo, se aparecendo a toda carnança. Aí Alaripe
esclareceu: ― Ao que sei, este era da Serra dUmã... O de tão
longe, o sapo leiteiro! Uns estavam remexendo nele ― não tinha um
pêlo nos peitos. Assim queriam desaliviar aquele corpo, das coisas
de valor principais. Do que alguém disse que ele guardava: um dixe,
joiazinha de prata; e as esporas eram as excelentes, de bom metal.
Não turveei. Morte daquela cabra era
em ramo de suicídios.
― A modo que morreu? Ele foi para os
infernos? ― indagou em verdade o menino Guirigó. Antes o que era
que eu tinha com isso, como todos me louvaram? Sendo minha a culpa ―
a morte, isto sei; mas o senhor me diga, meussenhor: a horinha em que
foi, a horinha? Como que o cego Borromeu garrou um fanhoso recitar,
pelos terços e responsos. Medo de cego não é o medo real. Diadorim
me olhava ― eu estivesse para trás da lua. Só aí, revi o sangue.
Aquele, em minha roupa, a plasta vermelha fétida. Do sangue alheio
que grosso me breava, mal me alimpei o queixo; eu, desgostoso de
sangue, mas deixava, de sinal? Ah, não, pois ali me salteou o horror
maior. Sangue... Sangue é a coisa para restar sempre em entranhas
escondida, a espécie para nunca se ver. Será por isso também que
imensa mais é a oculta glória de grandeza da hóstia de Deus no
ouro do sacrário ― toda alvíssima! ― e que mais venero, com
meus joelhos no duro chão.
Por mais, o corpo ali ficava, para o
ar do raso. Sumimos de lá, há-de que tocávamos, adiante. À
viajadamente eu ia, desconversei meu espírito. Até às alelúias!
Que, como conto. Aquele Treciziano
tinha redobrado destino de triste-fim de louco. Pois nem bem três
léguas andadas, daí depois, a gente saía do Liso, como que a
ponto! dávamos com uma varzeazinha e um esporão de serra; chapadas,
digo. Apeei na terra cristã. Se estava no para ver esses campos
crondeubais da Bahia.
[…]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas
03/06/2026
Benefício comum
Algum homem sentirá desprezo por mim?
Deixe-o cuidar disso sozinho. Enquanto isso, cuidarei para não fazer
ou dizer nada desprezível.
Alguém me odiará? Deixe-o ser
responsável por isso. Em oposição, serei brando e benevolente com
todos. Caso não assuma o erro, eu me prontificarei para apontá-lo,
não visando reprimir ou exibir a minha tolerância, mas, sim, ser
nobre e honesto — como o grande Focion, na hipótese de que ele não
dissimulava. O interior do homem deve ser assim, e os deuses não
devem encontrá-lo insatisfeito ou reclamando.
Quais males podem o atingir caso você
aja conforme a sua natureza e se satisfaça com o que é apropriado à
natureza universal — considerando que é um ser humano encarregado
de agir em favor do benefício comum?
Marco Aurélio, em Meditações
Solo de clarineta
As pétalas da flor-seca, a
sempre-viva,
do que mais gosto em flor.
Do seu grego existir de boniteza,
sua certa alegria.
É preciso ter morrido uma vez e
desejado
o que sobre as lápides está escrito
de repouso e descanso, pra amar seu
duro odor
de retrato longínquo, seu humano
conter-se.
As severas.
Adélia Prado, em Bagagem
Minha mãe
Todo mundo gosta de beleza. Até os
pobres. A pobreza também se enfeita. Primeiro era preciso limpar a
casa abandonada. Varrer. Tirar as teias de aranha e os picumãs.
Picumãs eram estalactites que ficavam pendurados sobre o fogão de
lenha, formados pela combinação de teias de aranha e gordura e que,
segundo as benzedeiras, tinham extraordinários poderes medicinais
para a cicatrização de umbigos. O fogão tinha de ser limpo, cheio
que estava com as cinzas deixadas por moradores anteriores. Era
preciso caçar os ovos de baratas escondidos nas gretas.
Havia as prateleiras de tábua que o
tempo, o pó, a fumaça das lamparinas e do fogão haviam pretejado.
As mulheres da cidade enfeitavam suas prateleiras com pano bordado. A
Adélia Prado, numa declaração de amor, escreveu ao seu amado:
“Você me espicaça como o desenho do peixe na guarnição da
cozinha”... Nunca me passou pela cabeça que guarnição de
cozinha pudesse entrar em declaração de amor... Quando não tinha
pano bordado o jeito era comprar papel cor-de-rosa para fazer os
enfeites. Se não tinha nem pano com peixe bordado nem papel comprado
o jeito era usar jornal. Minha mãe repicava jornal pra dar uma
alegria pobre às prateleiras. E plantava roseiras. Uma roseira
florida era sinal de nobreza! Com as rosas brancas trepadeiras se
fazia chá pra pôr nos olhos, como colírio. Havia uma coisa que não
tinha jeito: os ratos. De noite ficavam correndo entre os caibros
redondos e as telhas. Ninguém se assustava. Ninguém gritava.
Ninguém corria. Sabia-se que era inútil. O jeito era conviver com
eles.
Eu não tinha brinquedos. Acho que nem
sabia o que eram brinquedos, desses que se compram em lojas. Minha
mãe me fazia uns brinquedos. Ela era uma artesã consumada em
petecas de palha com penas de galinha. E fazia-me corrupios com
botões grandes e barbante. E ensinou-me a fazer barquinhos e chapéus
de papel, e a dobrar jornal para recortar dezenas de bonequinhos de
mãos dadas. O livro que mais me encantava tinha sido dela, quando
criança. Eram gravuras que faziam sonhar. Um negro arrastando-se na
direção de um jacaré de boca aberta para enfiar verticalmente
dentro de sua boca um pau pontudo. Quando ele fechasse a boca estaria
preso. Eu pensava: “Será que ele conseguiu?”. Uma gravura de um
prédio em Nova York com a seguinte explicação: “Nos Estados
Unidos há casas com dez andares”. Uma família de esquimós, pais
e filhos vestidos com peles, saudando o sol que aparecia depois de
seis meses de noite. E a mais querida: um menino e uma menina fazendo
um minijardim com árvores, riachinhos, pontes, cachoeiras. Brincava
com pedras, bichos, sabugos de milho, arcos de barril. Da minha mãe
recebi minha primeira lição de teologia, embora ela o fizesse com
boas intenções. De noite, antes de dormir, ela me fazia repetir:
“Agora me deito para dormir. Guarda-me o Deus em teu amor. Se eu
morrer sem acordar, recebe a minhalma, ó Senhor, amém”. Essa
reza me ensinou que é perigoso dormir. A gente está distraído,
guarda baixa, e é possível que a morte ataque. Aprendi que a gente
morre. Por isso é preciso Deus, por causa da morte. O sono é uma
morte da qual se acorda. Toda noite eu repetia a lição. E aprendi
que, morrendo, a alma, uma coisa que mora no corpo, volta para Deus.
Eu não queria voltar para Deus. Preferia a terra ao céu. Deus, que
pode tudo, bem que poderia me proteger da morte, dando-lhe ordens ao
contrário...
Ela também me contava estórias. Uma
delas tinha um refrão: “Jingue-le-jingue que eu vou para a
Angola...” . Eu não sabia o que era Angola. Depois ela me disse
que essa estória fora a Iaiá que lhe contara. A Iaiá era uma
escrava que permanecera na casa do meu avô mesmo depois da Lei
Áurea. Ficara porque não tinha para onde ir. Aí entendi o que era
Angola. Era a Iaiá que cuidava da minha mãe quando menina. Uma
outra estória era a da madrasta que enterrara a enteada como castigo
por não haver impedido que os passarinhos bicassem os figos da
figueira. Mas seus cabelos brotaram do fundo da terra. O jardineiro,
ao tentar capiná-los, ouviu um canto melancólico: “Jardineiro
do meu pai não capine meus cabelos. Minha mãe me penteava. Minha
madrasta me enterrou pelo figo da figueira que o passarinho buscou”.
Ao final o pai salva a filha da sepultura onde a madrasta a
enterrara. Que maravilhoso tema para uma meditação psicanalítica!
E cantava para me fazer dormir: “Tatu subiu no pau, é mentira
de você. Lagarto, lagartixa, isso sim que pode ser...” .
Rubem Alves, em O Velho que Acordou Menino
1624 – Sevilha
O último capítulo de “A vida do
buscão”
O rio reflete o homem que o interroga.
– Aonde mando o malandro? Hei de
mandá-lo à morte?
Dançam sobre o Guadalquivir, lá no
cais de pedra, as botas tortas. Este homem tem o costume de agitar os
pés enquanto pensa.
– Eu decido. Fui eu quem o fez
nascer filho de barbeiro e bruxa e sobrinho de verdugo. Eu o coroei
príncipe da vida buscona no reino dos piolhos, mendigos e
enforcados.
Brilham os óculos nas águas
esverdeadas, cravados nas profundidades, perguntando, perguntadores:
– Que faço? Eu o ensinei a roubar
frangos e implorar esmola pelas chagas de Cristo. De mim aprendeu
maestrias em dados, baralhos e espadas. Com minhas artes foi gala de
monjas e ator.
Francisco de Quevedo franze o nariz
para acomodar os óculos.
– Eu decido. Que mais remédio
tenho? Jamais se viu novela, na história das letras, que não tenha
capítulo final.
Estica o pescoço entre os galeões
que vêm, arriando as velas rumo ao cais.
– Ninguém sofreu como eu. Não fiz
minhas as suas fomes, quando rangiam suas tripas e nem os
exploradores encontravam seus olhos? Se dom Pablos deve morrer, devo
matá-lo. Ele é cinza, como eu, que sobrou da chama.
De longe, um menino esfarrapado olha o
cavaleiro que coça a cabeça, inclinado sobre o rio. “Uma coruja”,
pensa o menino. E pensa: “A coruja está louca. Quer pescar sem
anzol”.
E Quevedo pensa.
– Matá-lo? Não é fama, então,
que traz má sorte quebrar espelhos? Matá-lo. E se tomassem o crime
por justo castigo ao seu mau viver? Tremenda alegria para
inquisidores e censores! Só de imaginar sua felicidade, me dá
voltas na tripa.
Explode, então, uma gritaria de
gaivotas. Um navio da América está ancorando. De um pulo, Quevedo
se põe a caminhar. O menino o persegue, imitando o andar bambo.
Resplandece a cara do escritor. No
cais encontrou o destino que seu personagem merece. Enviará dom
Pablos, o buscão, às Índias. Onde, a não ser na América, poderia
terminar seus dias? Já tem desembocadura a sua novela e Quevedo se
afunda alucinado, nesta cidade de Sevilha, onde sonham os homens com
navegações, e as mulheres, com regressos.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
I’ll Follow the Sun | Paul McCartney e John Lennon
I’ll Follow the Sun, de Paul
McCartney e John Lennon
One day you’ll look
To see I’ve gone
For tomorrow may rain, so
I’ll follow the sun
Some day you’ll know
I was the one
But tomorrow may rain, so
I’ll follow the sun
And now the time has come
And so, my love, I must go
And though I lose a friend
In the end you will know, oh
One day you’ll find
That I have gone
But tomorrow may rain, so
I’ll follow the sun
Yes tomorrow may rain, so
I’ll follow the sun
And now the time has come
And so, my love, I must go
And though I lose a friend
In the end you will know, oh
One day you’ll find
That I have gone
But tomorrow may rain, so
I’ll follow the sun
A última casa em que morei em
Liverpool fica no endereço 20 Forthlin Road. A essa altura, já
tínhamos melhorado de vida. A minha mãe tinha grandes aspirações
para nós e encontrou essa casa numa área relativamente agradável.
As cortinas eram de renda, talvez por isso eu ainda faça questão de
ter cortinas de renda em todos os lugares. Um hábito irlandês, acho
eu. Assim, o pessoal não consegue espiar lá dentro. Eu me lembro de
tocar esta canção na sala de estar com meu violão. Se você for
analisar, é uma canção sobre “deixar Liverpool”. Estou
deixando esta cidade chuvosa nortista e indo a um lugar onde as
coisas acontecem.
A melodia é interessante também. Eu
estava procurando novas combinações de notas marcantes. Tem algo de
muito original nela. Uma das minhas canções favoritas da época do
meu pai era “Cheek to Cheek”, a canção de Fred Astaire, e eu
gosto que o verso “Heaven, I’m in heaven” aparece em
duas estrofes e, depois do contraste, o “céu” volta na última
estrofe. É uma frase que resume tudo. Era como a nossa casa na
Forthlin Road. Você entra pela porta da frente, passa na sala de
estar, na sala de jantar, cozinha, corredor e está de volta ao ponto
de partida. “I’ll Follow the Sun” também faz isso.
Mesmo se estivéssemos abertos a
receber influências, uma das melhores coisas nos Beatles era nossa
aversão a nos repetirmos. Éramos moços inteligentes; tédio não
era conosco. Quando tocamos em Hamburgo, às vezes tínhamos que
preencher um período de oito horas. Tentamos aprender canções
suficientes para não precisarmos repeti-las. Algumas bandas tinham
só um set de uma hora, folgavam uma hora e depois repetiam o mesmo
set. Tentávamos variar, porque decidimos que, caso contrário,
simplesmente não sobreviveríamos. Quando voltamos à Inglaterra,
tínhamos um vasto repertório, e acho que, quando começamos a fazer
discos, essa ideia persistiu. Por que ficar nos repetindo? Por que
fazer duas vezes o mesmo disco?
É verdade que, como já falei,
existia uma certa fórmula para algumas das primeiras canções – a
recorrência de pronomes como “eu”, “você”, “mim”,
“dele”, “dela”, “meu”, “ela” –, mas isso era porque
queríamos estabelecer contato com os fãs. Criar um vínculo com
eles. Mas não eram padronizadas. O que fez dos Beatles uma banda tão
sensacional foi a diversidade do repertório: não há duas músicas
iguais. É incrível quando você pensa nessa produção. E tem outra
coisa. John e eu escrevemos cerca de trezentas canções em sessões
que duravam poucas horas ou um só dia, e nunca – nunca mesmo –
saímos de uma sessão dessas sem terminar uma canção. Sempre que
nos sentávamos para compor, só saíamos dali quando tínhamos uma
canção.
Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente
02/06/2026
A coincidência
Conheceram-se na feira. Jorge estava
apoiado no cabo do velho guarda-chuva tentando tirar alguma coisa
agarrada à sola do sapato, quando teve sua atenção atraída por
uma reclamação:
— Puxa, mas o preço do tomate tá
uma indecência!
Por uma dessas caraminholas da mente,
a soma de tomate e indecência deu, na cuca do Jorge, um resultado
bastante diverso do real. Jorge procurou a dona da voz e constatou
que todas as besteiras esboçadas no bestunto eram poucas diante
daquele — sentiu o cheiro de outra barraca — peixão. Forçando a
abordagem, Jorge, que detestava tomate, juntou seus mais veementes
protestos aos dela, chegando a fazer uma ridícula imitação de um
personagem de tevê:
— O tomatal tem que tomatar!
A moça achou graça e Jorge completou
com um galanteio na medida:
— Mas meu negócio não é número.
Meu negócio é me apaixonar de repente — numa feira, por exemplo —
e levar meu novo amor pra conhecer meu apartamento, aqui pertinho.
Todas ficam amarradas em minha vista pro mar.
A moça, que normalmente repeliria uma
entrada de sola, caiu na esparrela:
— Seu apartamento tem vista pro mar?
Aqui?
— Meu apartamento dá pra um terreno
baldio. Eu é que dou vista pro mar. Espia bem nos meus olhos:
verdinhos, né?
Uma expressão de carinho surgiu no
rosto da moça e Jorge sentiu que era só dar mais um pouco de linha
antes de usar o cerol. Ficou propenso a utilizar a tática aprendida
com a edificante leitura de O Último Tango em Paris: nada de
nomes.
A verdade é que o Jorge tinha certa
bronca do seu nome:
Jorge Goulart Cauby Peixoto da Silva.
O da Silva era de sua mãe, assídua frequentadora da Rádio Nacional
nos áureos tempos dos grandes programas de auditório. Mãe
solteira, colocara no filho seu modesto sobrenome coroando a fusão
dos nomes de seus maiores ídolos. Jorge achava tudo isso meio
ridículo e só declarava o nome completo em caso de absoluta
necessidade.
E a necessidade surgiu quando a moça,
já devidamente cantada, teve um capricho maluco:
— Vou, mas quero ver tua carteira de
identidade. Você tá escondendo alguma coisa de mim.
— Mas, minha flor...
— Não tem mas-mas. Ou mostra a
carteira ou fica na saudade.
Jorge cedeu. A moça, ao contrário do
que Jorge esperava, não riu:
— Que estranho! Imagina você que
meu pai era assíduo frequentador da Rádio Nacional e...
Aterrorizado, Jorge interrompeu a
moça:
— Como é teu nome?
— Jezebel Conceição de Souza.
Ô mundinho danado de pequeno —
pensou o Jorge, de pau, quer dizer, de guarda-chuva na mão.
Aldir Blanc, em Rua dos Artistas e Arredores
Nabucodonosor
O nome de Nabucodonosor é belo como um cortejo religioso. O triste é que os seus súditos, para abreviar, chamavam-no simplesmente de Bubu.
Mário Quintana, em Caderno H
Diário de Bernardo Soares
112.
Nunca amamos alguém. Amamos,
tão-somente, a ideia que fazemos de alguém.
É um conceito nosso — em suma, é a
nós mesmos — que amamos.
Isto é verdade em toda a escala do
amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de
um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer
nosso dado por intermédio de uma ideia nossa. O onanista é abjeto,
mas, em exata verdade, o onanista é a perfeita expressão lógica do
amoroso. É o único que não disfarça nem se engana.
As relações entre uma alma e outra,
através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras
comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha’
complexidade. No próprio acto em que nos conhecemos, nos
desconhecemos. Dizem os dois “amo-te" ou pensam-no e sentem-no
por troca, e cada um quer dizer uma ideia diferente, uma vida
diferente, até, porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma
abstrata de impressões que constitui a atividade da alma.
Estou hoje lúcido como se não
existisse. O meu pensamento é em claro como um esqueleto, sem os
trapos carnais da ilusão de exprimir. E estas considerações, que
formo e abandono, não nasceram de coisa alguma – de coisa alguma,
pelo menos, que me esteja na plateia da consciência.
Talvez aquela desilusão do caixeiro
de praça com a rapariga que tinha, talvez qualquer frase lida nos
casos amorosos que os jornais transcrevem dos estrangeiros, talvez
até uma vaga náusea que trago comigo e me não expeli fisicamente…
Disse mal o escoliasta de Virgílio. É
de compreender que sobretudo nos cansamos. Viver é não pensar.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
O Mestre e Margarida — 7
7
Um apartamento sinistro
Se, na manhã seguinte, alguém
dissesse a Stiôpa Likhodiêiev: “Stiôpa! Se você não se
levantar nesse instante, será fuzilado!”, Stiôpa responderia com
uma voz sombria, quase inaudível: “Podem me fuzilar, façam o que
quiserem comigo, mas não vou me levantar.”
O problema não era se levantar, mas
parecia-lhe que não conseguiria abrir os olhos, porque só de fazer
isso um raio cairia e sua cabeça seria dilacerada em vários
pedaços. Um sino pesado badalava naquela cabeça, manchas cor de
café com bordas verdes e flamejantes flutuavam pelos globos oculares
e pelas pálpebras fechadas e, para coroar, ele estava enjoado, e
parecia que esse enjoo estava ligado ao som inconveniente de um
gramofone.
Stiôpa esforçava-se para lembrar
algo, mas só uma coisa vinha à sua mente — aparentemente, ontem,
em um lugar desconhecido, ele estava parado com um guardanapo na mão
e tentava beijar uma senhora, prometendo-lhe que no dia seguinte, ao
meio-dia em ponto, iria visitá-la. A senhora se recusava, dizendo:
“Não, não, não estarei em casa!”, mas Stiôpa insistia na sua
decisão, obstinado: “Mas eu vou e pronto!”
Stiôpa decididamente não sabia nem
quem era a senhora, nem que horas eram agora, nem que dia, nem de que
mês, e o pior é que não conseguia sequer reconhecer onde estava.
Ele procurou esclarecer pelo menos a última questão, e para isso
desgrudou as pálpebras pregadas do olho esquerdo. Algo reluzia
levemente na penumbra. Stiôpa finalmente reconheceu o espelho e
entendeu que estava deitado de costas em sua cama, quer dizer, na
antiga cama da mulher do joalheiro, no quarto. Então sentiu uma dor
tão forte na cabeça que fechou os olhos e começou a gemer.
Expliquemos melhor: Stiôpa
Likhodiêiev, diretor do Teatro de Variedades, voltou a si de manhã
em seu apartamento, aquele mesmo que ele dividia com o falecido
Berlioz, num grande prédio de seis andares, localizado na santa paz
da rua Sadôvaia.
Deve-se dizer que esse apartamento —
o de número 50 — já havia muito gozava de uma reputação, se não
má, no mínimo estranha. Dois anos atrás, sua proprietária era a
viúva do joalheiro De Fougère. Ánna Frantsiêievna de Fougère,
uma senhora honrada de cinquenta anos, muito eficiente, alugava três
dos cinco cômodos para inquilinos: um cujo sobrenome, parece, era
Bielomút, e outro que tinha perdido o sobrenome.
E então dois anos atrás começaram a
ocorrer fatos inexplicáveis no apartamento: as pessoas passaram a
desaparecer dali sem deixar vestígios.
Certa vez, num dia de folga, um
policial apareceu no apartamento, chamou o segundo inquilino (o que
perdeu o sobrenome) até a entrada e disse que ele deveria comparecer
à delegacia um minutinho para assinar alguma coisa. O inquilino
mandou Anfissa, fiel e antiga empregada de Ánna Frantsiêievna,
explicar, caso ele recebesse algum telefonema, que retornaria dali a
dez minutos e saiu acompanhado do policial civil de luvas brancas.
Porém, ele não só não retornou em dez minutos, como não retornou
nunca mais. O mais surpreendente de tudo é que, pelo visto, junto
com ele desapareceu também o policial.
Devota ou, para dizer mais
francamente, supersticiosa, Anfissa foi correndo contar para a já
muito transtornada Ánna Frantsiêievna que aquilo era feitiçaria e
que ela sabia muito bem quem tinha levado o inquilino e o policial,
só que não queria falar sobre isso na calada da noite.
Bom, com bruxaria é assim, como se
sabe; basta começar que depois nada pode detê-la. O segundo
inquilino desapareceu, ao que parece, na segunda-feira, e na quarta
quem desapareceu como se a terra o tivesse engolido foi Bielomút.
Mas isso, na verdade, ocorreu em outras circunstâncias. Pela manhã,
como de costume, um carro veio buscá-lo para levá-lo ao trabalho, e
de fato o levou, mas não trouxe ninguém de volta, e o próprio
carro não apareceu mais.
A aflição e o terror de madame
Bielomút eram indescritíveis. Mas, que pena!, tanto um como o outro
duraram pouco. Naquela mesma noite, após retornar com Anfissa da
datcha, para a qual sabe-se lá por que saiu às pressas, Ánna
Frantsiêievna não encontrou mais a cidadã Bielomút no
apartamento. E não era só isso: as portas dos dois quartos ocupados
pelo casal Bielomút estavam lacradas!
Dois dias se passaram com dificuldade.
No terceiro dia, Ánna Frantsiêievna, que estava sofrendo de
insônia, foi mais uma vez às pressas para a datcha... e é inútil
dizer que ela nunca mais voltou!
Anfissa, que tinha ficado sozinha e
chorado tudo o que tinha para chorar, deitou-se para dormir depois da
uma da madrugada. Não se sabe ao certo o que aconteceu com ela dali
em diante, mas os inquilinos dos outros apartamentos contavam que,
durante a noite inteira, teriam ouvido umas batidas no número 50 e
que até de manhã teriam visto nas janelas a luz elétrica acesa.
Pela manhã, soube-se que Anfissa também havia sumido!
Durante muito tempo, contavam no
prédio diversas lendas sobre os desaparecidos e sobre o apartamento
maldito, como, por exemplo, que aquela sequinha e beata da Anfissa
carregava em seu peito murcho, em um saquinho de couro cru, vinte e
cinco diamantes graúdos pertencentes a Ánna Frantsiêievna. Que no
depósito de lenha daquela mesma datcha para onde Ánna Frantsiêievna
ia às pressas, teriam sido localizados por si só tesouros
inestimáveis, na forma daqueles mesmos diamantes, assim como moedas
de ouro cunhadas na época do tzar... E outras coisas do mesmo
gênero. Bom, não podemos colocar nossa mão no fogo por aquilo que
não sabemos.
Seja como for, o apartamento
permaneceu vazio e lacrado apenas uma semana, e então mudaram-se
para lá o finado Berlioz com a esposa e esse mesmo Stiôpa, também
com a esposa. É totalmente natural que, assim que foram parar no
apartamento execrado, só o diabo sabe o que é que começou a
acontecer com eles. Isto é, num único mês sumiram as duas esposas.
Mas elas não se foram sem deixar vestígios. Sobre a esposa de
Berlioz contavam que teria sido vista em Khárkov com um certo
professor de balé, e a esposa de Stiôpa teria supostamente sido
localizada na rua Bojedômka onde, falavam as más línguas, o
diretor do Teatro de Variedades, fazendo uso de seus inúmeros
contatos, dera um jeito de arranjar-lhe um quarto, mas com a condição
de que não pusesse o pé na rua Sadôvaia...
Então Stiôpa começou a gemer.
Queria chamar a empregada Grúnia e pedir analgésico, mas sabia que
era bobagem. Grúnia não teria analgésico algum, é claro. Tentou
pedir ajuda a Berlioz e disse duas vezes, gemendo: “Micha...
Micha...”, mas, como vocês já devem ter deduzido, não recebeu
resposta. No apartamento reinava um silêncio absoluto.
Mexeu um pouco os dedos dos pés e
concluiu que estava deitado de meias; passou a mão trêmula pelo
quadril para verificar se estava ou não de calças e não conseguiu.
Finalmente, percebendo que estava abandonado e sozinho, que ninguém
viria socorrê-lo, resolveu levantar-se, por mais que isso lhe
custasse forças sobre-humanas.
Stiôpa desgrudou as pálpebras
coladas e viu que se refletia no espelho como um homem de cabelos
arrepiados para todos os lados, uma cara inchada e coberta por uma
barba preta por fazer, olhos inchados, camisa de colarinho suja,
gravata, ceroulas e meias.
Foi assim que ele se viu no espelho e
ao lado do espelho viu um homem desconhecido, vestido de preto e de
boina preta.
Stiôpa sentou-se na cama e arregalou
o quanto pôde os olhos injetados de sangue para o desconhecido.
O silêncio foi quebrado pelo tal
desconhecido, que pronunciou as seguintes palavras em voz baixa,
pesada e com sotaque estrangeiro:
— Bom dia, simpaticíssimo Stepán
Bogdánovitch!
Houve uma pausa e depois, com um
enorme sacrifício, Stiôpa disse:
— O que o senhor deseja? — e
surpreendeu-se, pois não reconheceu a própria voz. As palavras “o
que”, ele pronunciou em soprano, “o senhor”, em baixo, e
“deseja” não saiu de jeito nenhum.
O estranho sorriu, maliciosa e
amavelmente, tirou um grande relógio de ouro com um triângulo de
diamante na tampa, bateu onze vezes e disse:
— Onze! E faz exatamente uma hora
que estou sentado esperando o senhor despertar, já que marcou comigo
às dez. Aqui estou eu!
Stiôpa procurou as calças tateando a
cadeira ao lado da cama e cochichou:
— Desculpe... — Vestiu as calças
e perguntou, rouco: — Diga-me, por favor, qual é o seu sobrenome?
Estava com dificuldade para falar. A
cada palavra alguém enfiava uma agulha em seu cérebro, provocando
uma dor infernal.
— Como? O senhor esqueceu também o
meu sobrenome? — E então o desconhecido sorriu.
— Perdão... — rouquejou Stiôpa,
sentindo que a ressaca o presenteava com um novo sintoma: pareceu-lhe
que o chão ao lado da cama tinha se evaporado e que naquele exato
momento ele iria direto para o inferno, para a casa do diabo.
— Querido Stepán Bogdánovitch —
falou o visitante, com um sorriso perspicaz —, nenhum analgésico
ajudará. Siga o velho e sábio conselho: curar o mal com o mesmo
mal. A única coisa que o fará voltar à vida são duas doses de
vodca com algum tira-gosto picante e quente.
Stiôpa era uma pessoa esperta e, por
mais doente que pudesse estar, percebeu que uma vez que o pegassem
nesse estado, teria de confessar tudo.
— Para dizer a verdade, ontem eu —
começou ele, mal conseguindo mover a língua — exagerei um
pouco...
— Nem mais uma palavra! —
respondeu o visitante e afastou-se com a poltrona até o canto.
Stiôpa arregalou os olhos e viu uma
pequena mesa posta com uma bandeja, na qual havia pão branco
fatiado, caviar prensado em um potinho, cogumelos brancos em conserva
em um prato, alguma coisa em uma panelinha e, finalmente, vodca em
uma decantadeira robusta que pertencera à mulher do joalheiro. O que
mais impressionou Stiôpa foi que a garrafa estava suada por causa do
frio. Porém, isso era compreensível, afinal ela estava em uma bacia
cheia de gelo. Resumindo, tudo havia sido preparado com asseio e
eficiência.
O estranho não deixou a admiração
de Stiôpa se desenvolver até um grau doentio e, esperto, serviu-lhe
meia dose de vodca.
— E o senhor? — piou Stiôpa.
— Com prazer!
Stiôpa levou o copinho até os lábios
com a mão trêmula, enquanto o estranho engoliu o conteúdo do copo
num gole só. Mastigando com vontade um pouco de caviar, Stiôpa
arrancou as seguintes palavras de sua boca:
— E o senhor, por que não pega...
um tira-gosto?
— Obrigado, eu nunca belisco —
respondeu o estranho e serviu uma segunda dose. Abriram a panelinha e
nela havia salsichas com molho de tomate.
Então, o maldito verde diante dos
olhos evaporou, as palavras começaram a se articular e, o mais
importante, Stiôpa lembrou-se de alguma coisa. Justamente que ontem
algo tinha acontecido em Skhôdnia, na datcha de Khustov,
autor de esquetes, para onde esse mesmo Khustov levara Stiôpa de
táxi. Até lhe veio à mente que, quando pegaram esse táxi perto do
Metropol, também estava com eles um ator que não era de
meia-tigela... com um gramofone dentro de uma maleta. Isso, isso,
isso, foi na datcha! Parecia lembrar, ainda, que cachorros
uivavam por causa desse gramofone. Só a senhora que Stiôpa queria
tanto beijar continuou sem explicação... vai saber quem diabos era
ela... vai ver trabalha na rádio, mas também pode ser que não.
Assim, o dia anterior ia aos poucos se
esclarecendo, mas agora Stiôpa estava muito mais interessado no dia
de hoje e, em particular, no aparecimento daquele desconhecido em seu
quarto e, ainda por cima, com tira-gostos e vodca. Isso sim seria bom
explicar!
— E então, espero que agora o
senhor tenha se lembrado de meu sobrenome?
Mas Stiôpa só sorria, envergonhado,
sem saber o que dizer.
— Não me diga! Tenho a impressão
de que depois da vodca o senhor andou bebendo vinho do Porto! Por
favor, é possível uma coisa dessas!
— Gostaria de pedir que isso fique
só entre nós — disse Stiôpa, com um tom adulador.
— Oh, é claro, claro! Mas não
preciso nem dizer que não respondo por Khustov!
— Mas o senhor por acaso conhece
Khustov?
— Ontem eu vi esse indivíduo passar
rapidamente no seu gabinete, mas basta olhar seu rosto de relance
para compreender que ele é um canalha, um fofoqueiro, um oportunista
e um puxa-saco.
“Exatamente”, pensou Stiôpa,
espantado com uma definição tão exata, precisa e concisa de
Khustov.
É, os pedaços do dia anterior iam se
modelando pouco a pouco, mas mesmo assim a aflição não dava uma
trégua ao diretor do Teatro de Variedades. O problema era que um
enorme buraco negro se abria nesse dia anterior. Esse estranho de
boina, seja como for, Stiôpa realmente não o vira ontem em seu
gabinete.
— Mestre em magia negra, Woland —
disse o visitante com autoridade, percebendo as dificuldades de
Stiôpa, e contou tudo em ordem.
Ontem, durante a tarde, ele chegara a
Moscou do exterior e, sem demora, surgiu diante de Stiôpa e ofereceu
apresentar sua turnê no Teatro de Variedades. Stiôpa telefonou para
a comissão de lazer da região de Moscou e resolveu a questão
(Stiôpa empalideceu e começou a piscar os olhos), assinou com o
professor Woland um contrato que previa sete apresentações (Stiôpa
abriu a boca), combinou que Woland viria até seu apartamento às dez
horas da manhã de hoje para acertar os detalhes. E então Woland
veio. Quando chegou, foi recebido pela empregada Grúnia, que lhe
explicou que ela mesma acabara de chegar, que não morava lá, que
Berlioz não estava em casa e que se o visitante quisesse ver Stepán
Bogdánovitch que fosse ele mesmo até seu quarto. Stepán
Bogdánovitch dorme tão profundamente, que ela não se atreve a
despertá-lo. Quando percebeu o estado de Stepán Bogdánovitch, o
artista mandou Grúnia ao mercado mais próximo atrás de vodca e
tira-gostos, à farmácia atrás de gelo e…
— Permita-me acertar as contas com o
senhor — choramingou Stiôpa, abatido, e começou a procurar a
carteira.
— Oh, que absurdo! — exclamou o
apresentador, e não queria mais nem ouvir falar sobre o assunto.
Então a vodca e os tira-gostos foram
esclarecidos, mas mesmo assim dava pena olhar para Stiôpa:
decididamente ele não lembrava nada sobre o contrato e podia jurar
que não tinha visto esse Woland ontem. Khustov, sim, estava lá, mas
Woland, não.
— Com sua licença, gostaria de dar
uma olhada no contrato — pediu baixinho Stiôpa.
— Claro, claro...
Stiôpa deu uma olhada no papel e
gelou. Estava tudo certo. Primeiro, a autêntica assinatura
espirituosa de Stiôpa! Ao lado, à mão, o endosso torto do diretor
financeiro, Rímski, com autorização para liberar ao artista
Woland, por conta das sete apresentações, a soma de dez mil rublos
do total que lhe é devido de trinta e cinco mil rublos. E tem mais:
ali estava o visto de Woland por ele já ter recebido esses dez mil!
“Mas o que isso significa?”,
pensou o infeliz Stiôpa, e sua cabeça começou a girar. Será que
estava começando a ter funestos lapsos de memória?! Mas nem precisa
dizer que, depois de o contrato ser apresentado, novas manifestações
de admiração seriam simplesmente inadequadas. Stiôpa pediu licença
à visita para se retirar por um minuto e, como estava, de meias,
correu até o telefone, na antessala. Pelo caminho ele gritou em
direção à cozinha:
— Grúnia!
Mas ninguém retorquiu. Então, ele
deu uma olhada para a porta do gabinete de Berlioz, que ficava ao
lado da antessala, e ali mesmo, como se costuma dizer, ficou
estarrecido. Ele viu um enorme lacre de cera pendurado na maçaneta
da porta. “Pronto!”, rugiu alguém na cabeça de Stiôpa. “Era
só o que faltava!” Então os pensamentos de Stiôpa bifurcaram-se
por dois caminhos, mas, como sempre acontece no momento de uma
catástrofe, em uma única direção, e na realidade, só o diabo
sabe para onde. Até mesmo descrever a salada da cabeça de Stiôpa é
difícil. Ali estava aquele diabrete de boina preta, a vodca gelada e
o incrível contrato e, para completar, faça-me o favor, um selo na
porta! Ou seja, se quiserem dizer para alguém que Berlioz andou
aprontando, não vão acreditar, juro, não vão acreditar, não! Mas
o selo estava lá!
Sim, senhor...
Então começaram a pulular no cérebro
de Stiôpa uns pensamentos muito desagradáveis sobre um artigo que,
por azar, ele havia pouco impingira a Mikhail Aleksándrovitch para
ser publicado na revista. O artigo, cá entre nós, era estúpido!
Sem propósito, e o dinheiro, uma mixaria...
Logo depois da lembrança do artigo,
pairou a de uma conversa duvidosa, que acontecera, como recordava, no
dia vinte e quatro de abril à noite, ali mesmo, na sala de jantar,
enquanto Stiôpa jantava com Mikhail Aleksándrovitch. Ou seja, é
claro, aquela conversa não podia nunca ser chamada de duvidosa no
pleno sentido da palavra (Stiôpa nem começaria uma conversa
dessas), mas sim uma conversa sobre algum tema desnecessário. Ele
era totalmente livre, cidadãos, para não iniciá-la. Até o selo,
sem dúvida, a conversa poderia ser considerada uma verdadeira
bobagem, mas depois do lacre...
“Ah, Berlioz, Berlioz!”, o sangue
subia à cabeça de Stiôpa. “Isso é demais para minha cabeça!”
Mas não havia muito tempo para se
lamentar e Stiôpa discou o número do gabinete do diretor financeiro
do Teatro de Variedades, Rímski. A situação de Stiôpa era
delicada: primeiro, o estrangeiro poderia se ofender porque Stiôpa
iria investigá-lo, depois de ter sido mostrado o contrato, além de
ser extremamente difícil falar com o diretor financeiro. De fato,
não dava mesmo para perguntar desse jeito: “Diga-me, por acaso
fechei ontem um contrato de trinta e cinco mil rublos com um
professor de magia negra?” Perguntar assim não leva a lugar algum!
— Pronto! — soou no fone a voz
aguda e desagradável de Rímski.
— Olá, Grigóri Danílovitch —
começou baixinho Stiôpa —, é o Likhodiêiev. É o seguinte...
hum... hum... estou aqui em casa com esse... é... artista, Woland...
Então... Bom... eu queria perguntar, e hoje à noite?
— Ah, o da magia negra? — retrucou
no fone Rímski. — Os cartazes já vão ficar prontos.
— A-hã — disse Stiôpa com uma
voz fraca —, então até mais...
— E o senhor vem logo? — perguntou
Rímski.
— Daqui a meia hora — respondeu
Stiôpa e, pondo o fone no gancho, apertou a cabeça quente com as
mãos. Ah, que piada de mau gosto! O que está acontecendo com sua
memória, cidadãos? Hein?
No entanto, não convinha permanecer
por muito tempo na antessala e Stiôpa na mesma hora traçou um
plano: esconder a sua incrível falta de memória de qualquer jeito
e, agora, antes de mais nada, como quem não quer nada, arrancar do
estrangeiro o que exatamente ele pretende mostrar hoje no Teatro de
Variedades, entregue aos cuidados de Stiôpa.
Então Stiôpa virou-se de costas para
o aparelho e, no espelho que ficava na antessala e havia muito tempo
não era limpo pela preguiçosa Grúnia, viu nitidamente um sujeito
estranho — comprido como uma vara, de pincenê (ah, se Ivan
Nikoláievitch estivesse aqui! Ele reconheceria esse sujeito de
cara!). Ele foi refletido, mas sumiu no mesmo instante. Stiôpa,
aflito, olhou melhor para a entrada e perdeu o equilíbrio uma
segunda vez, pois um enorme gato preto passou diante do espelho e
também sumiu.
Stiôpa ficou com o coração na mão
e cambaleou.
“Mas o que é isso?”, pensou.
“Será que estou enlouquecendo? De onde vêm esses reflexos?” Ele
olhou para a entrada e gritou, assustado:
— Grúnia! Por que esse gato está
perambulando aqui? De onde ele veio? E ainda tem alguém com ele?!
— Não se preocupe, Stepán
Bogdánovitch — retrucou uma voz, mas não de Grúnia e sim da
visita, que vinha do quarto —, esse gato é meu. Não fique
nervoso. E a Grúnia não está, despachei-a para Vorônej. Ela
reclamou que o senhor se apropriou de suas férias.
Aquelas palavras eram tão inesperadas
e disparatadas que Stiôpa achou que estava ouvindo demais.
Totalmente transtornado, correu a trote curto até o quarto e
postou-se imóvel à soleira da porta. Ficou de cabelos em pé e na
testa surgiram pequenas gotas de suor.
O visitante já não estava sozinho no
quarto, mas acompanhado. Na segunda poltrona estava sentado aquele
mesmo indivíduo que imaginara na entrada. Agora ele estava
claramente visível: o bigode-penugem, um vidro do pincenê
cintilava, o outro era inexistente. Mas as coisas no quarto se
mostraram bem piores: no pufe da mulher do joalheiro, com uma pose
petulante, estava estirado um terceiro, justamente — um gato preto
de proporções espantosas, com uma dose de vodca em uma das patas e
na outra um garfo, com o qual ele conseguira fisgar um cogumelo em
conserva.
A luz já fraca do quarto começou a
ficar ainda mais lívida aos olhos de Stiôpa. “Então é assim que
se enlouquece!”, pensou ele e agarrou-se ao batente da porta.
— Estou vendo que o senhor está um
pouco surpreso, meu caríssimo Stepán Bogdánovitch? — quis saber
Woland de Stiôpa, que estava tiritando os dentes. — No entanto,
não há com o que se assombrar. Essa é a minha comitiva.
Então o gato tomou a vodca e a mão
de Stiôpa deslizou batente abaixo.
— E essa comitiva demanda espaço —
continuou Woland. — Por isso, algum de nós está sobrando aqui
nesse apartamento. E me parece que é justamente o senhor quem está
sobrando!
— Eles, eles! — entoou o alto de
xadrez com voz de bode, usando o plural para falar de Stiôpa. — De
modo geral, eles andam se emporcalhando de maneira espantosa nos
últimos tempos. Ficam se embebedando, têm casos com mulheres,
valendo-se de sua posição, não fazem absolutamente nada e nem
podem fazer nada mesmo, porque não entendem patavina sobre suas
responsabilidades. Só sabem deitar terra nos olhos dos seus
superiores!
— Usa o carro oficial para assuntos
particulares! — denunciou o gato, mastigando um cogumelo.
E então aconteceu uma quarta e última
aparição no apartamento, enquanto Stiôpa, já deslizando
totalmente até o chão, arranhava o batente com a mão enfraquecida.
Diretamente do espelho do aparador
saiu um homem pequeno, mas de ombros extraordinariamente largos, de
chapéu-coco na cabeça e um canino à mostra, desfigurando sua
fisionomia que já era execrável mesmo sem isso, algo sem
precedentes. E ainda por cima ruivo, vermelho-fogo.
— Eu — entrou na conversa esse
novo visitante — de modo geral nem consigo entender como ele foi
parar no lugar de diretor — o ruivo ficava cada vez mais fanho. —
Se ele é diretor, então eu sou bispo!
— Você não se parece com um bispo,
Azazello — observou o gato, servindo-se de salsichas.
— Mas é isso mesmo que estou
falando — esganiçou o ruivo e voltou-se para Woland, com
deferência: — Permita-me, meu senhor, expulsá-lo de Moscou e
mandá-lo para os diabos?
— Chispa!! — rosnou o gato de
repente, eriçando o pelo.
Então o quarto começou girar ao
redor de Stiôpa e ele bateu a cabeça contra o batente, perdendo os
sentidos, e pensou: “Estou morrendo...”
Mas não morreu. Entreabriu os olhos
de leve e se viu sentado em cima de algo parecido com uma pedra. Ao
seu redor algo marulhava. Quando abriu os olhos devidamente, entendeu
que era o mar e que, além disso, as ondas quebravam nos seus
próprios pés e que, resumindo, ele estava sentado bem na
extremidade de um dique, e que acima dele havia um céu azul
reluzente e atrás uma cidade branca nas montanhas.
Sem saber como proceder em tais casos,
Stiôpa levantou-se sobre as pernas bambas e caminhou pelo dique até
a beira do mar.
No dique havia um homem, fumando,
cuspindo na água. Ele olhou para Stiôpa com olhos selvagens e parou
de cuspir.
Então Stiôpa fez uma cena daquelas:
pôs-se de joelhos diante do fumante desconhecido e pronunciou:
— Eu lhe imploro, diga-me, que
cidade é essa?
— Francamente! — disse o fumante,
insensível.
— Não estou bêbado — respondeu
Stiôpa, rouco. — Aconteceu alguma coisa comigo... estou doente...
Onde estou? Que cidade é essa?
— Ialta, ora...
Stiôpa suspirou baixinho, caiu de
lado, bateu a cabeça contra a pedra quente do dique. A consciência
o abandonou.
Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida
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