terça-feira, 21 de abril de 2026

Feito rio (fora do leito) | O Teatro Mágico

Atributos

Lembre-se: o atributo que puxa as cordas está escondido no interior. Trata-se da atividade, da vida e, pode-se dizer, do homem. Ao contemplá-lo, não inclua o seu invólucro circundante ou os órgãos incorporados nele. Estes são como um machado que cresceu do corpo. Não são mais úteis sem a causa que os direciona do que a lançadeira sem o tecelão, a caneta sem o escritor ou ao chicote sem o condutor.

Marco Aurélio, em Meditações

Calvin

Uns inhos engenheiros

Onde eu estava ali era um quieto. O ameno âmbito, lugar entre-as-guerras e invasto territorinho, fundo de chácara. Várias árvores. A manhã se-a-si bela: alvoradas aves. O ar andava, terso, fresco. O céu — uma blusa. Uma árvore disse quantas flores, outra respondeu dois pássaros. Esses, limpos. Tão lindos, meigos, quê? Sozinhos adeuses. E eram o amor em sua forma aérea. Juntos voaram, às alamedas frutíferas, voam com uniões e discrepâncias. Indo que mais iam, voltavam. O mundo é todo encantado. Instante estive lá, por um evo, atento apenas ao auspício.
Perto, pelo pomar, tem-se o plenário deles, que pilucam as frutas: gaturamossabiassanhaços. De seus pios e cantos respinga um pouco até aqui. Vez ou vez, qual que qual, vem um, pessoativo, se avizinha. Aonde já se despojaram as laranjeiras, do redondo de laranjas só resta uma que outra, se sim podre ou muruchuca, para se picorar. Mas há uma figueira, parrada, a grande opípara. Os figos atraem. O sabiá pulador. O sabiazinho imperturbado. Sabiá dos pés de chumbo. Os sanhaços lampejam um entrepossível azul, sacam-se oblíquos do espaço, sempre novos, sempre laivos. O gaturamo é o antes, é seu reflexo sem espelhos, minúscula imensidão, é: minuciosamente indescritível. O sabiá, só. Ou algum guaxe, brusco, que de mais fora se trouxe. Diz-se tlique — e dá-se um se dissipar de voos. Tão enfins, punhado. E mesmo os que vêm a outro esmo, que não o de frugivorar. O tico-tico, no saltitanteio, a safar-se de surpresa em surpresa, tico-te-tico no levitar preciso. Ou uma garricha, a corruir, a chilra silvestriz das hortas, de traseirinho arrebitado, que se espevita sobre a cerca, e camba — apontada, iminentíssima. De âmago: as rolas. No entre mil, porém, este par valeria diferente, vê-se de outra espécie — de rara oscilabilidade e silfidez. Quê? Qual? Sei, num certo sonho, um deles já acudiu por “o apavoradinho”, ave Maria! e há quem lhes dê o apodo de Mariquinha Tece-Seda. São os que sim sós. Podem se imiscuir com o silêncio. O ao alto. A alma arbórea. A graça sem pausas. Amavio. São mais que existe o sol, mais a mim, de outrures. Aqui entramos dentro da amizade.
Pois, plumas.
Estes têm linguagem entre si, sua aviação singulariza-se. Segue-se-lhes no meneio um intentar, e gerir, o muito modo, a atenção concêntrica — e um jeito proposituído, negocioso, de como demoram o lugar e rabiscam os momentos, mas virando sempre a um ponto, escaninho, no engalhe da árvore, sob sombra. Súbitos, sus, aos lanços, como que operam e traçam. Terão seus porfins: o porfim. Nidificam! Aqui, no avisado, preferiram, para sua ninhança, no desfrequentado. A manhã se trança de perfumes e o orvalho é um pintalgamento lúcido. O ramo a enfolhar não se conclui, nem tem a quem acariciar. O tempo não voa. Todo galhozinho é uma ponte. Ao que eles dois se aplicam, em suave açodo. Tudo é sério demais, como num brinquedo. Sem suor, às ruflas, mourejam, cumprem rotina obstinaz. Um passarinho, que faz seu ninho, tem mãos a medir?
Ambos e a alvo ao em ar, afã, e o leviano com que pousam, a amimar o chão — o chãozinho. Como corrivoam, às múltiplas mímicas cabecinhas, a acatitar-se, asas de vestir, revestir. Têm o ninho em início. Aonde vão, acham ainda o orvalho. Arre que catam a palha mínima, fio, cerda ou cílio, xepam. O mundo é cheio do que se precisa, em migalhificências: felpas, filamentos, flóculos. À vez de esmiuçar-se, nada seja nhufa ou nica: por uma ninharia, os pássaros passam, em desazo. Nem nem comem? O tempo parco, o mundo movediço e mágico. Seu dever é ver, extrair, extricar, içar, levar a lar. Sim, aqui os dois, nidulantes, não cessam, os filhos da delicadeza. Outros só estão a picoritar na figueira, meliantes, conforme ferem os figos, de vizbico. Conquanto, do ao-fundo, os mais outros, segundo as matérias: o incoativo, o repetitivo, o pio puro; tié, tietê, teiteí. O pomar é uma pequena área florestária. Bem-te-vi — monotonia aguda — seu grito de artifício. O sabiá reza: — Senhora... Senhora... — a penas um rebate de saudade. Sempre mais longe, mais fundo, mais grave. Aonde os anjos, que ainda à terra vêm, agora. Vigem disfarçados?
O ninho — que erguem — é néxil, pléxil, difícil. Já de segredo o começaram: com um bicadinho de barro, a lama mais doce, a mais terna. De barro, dos lados, à vária vez, ajuntam outros arrebiques. À muita fábrica, que se forma de ticos, estilhas, gravetos, em curtas proporções; e argueiros, crinas, cabelos, fibrilas de musgos, e hábeis ciscos, discernidas lãs, painas — por estofo. Com o travar, urdir, feltrar, enlaçar, entear, empastar, de sua simples saliva canora, e unir, com argúcia e gume, com — um atilho de amor, suas todas artes. Após, ao fim, na afofagem, forrá-lo com a própria única e algodoída penugem — do peito, a que é mais quente do coração. O ninho — que querem — é entre asas e altura. Como o pássaro voa trans abismos. A mais, num esperanceio: o grácil, o sutil, o pênsil.
Se pois, que, na estreitez do que armam, vê-se, o trabalho se parte. Ele provê os materiais; ela afadigada avia-os, a construtora dita, aos capítulos. Ele traz, ela faz; ela o manda. Ele, cabecinha principal? A irrequietá-la, certo já não avoaça, assíduo. Às vezes, porém, para, num fino de ramo se suspende, volatim prebixim — com lequebros e cochilos eventuais: belpraz-se. A mirá-la de reolho, com um trejeitar, ou repausado — tiroliro — biquiabertinho. Ela o insta, o afervoriza, increpa-o. Aí ele vivo se eclipsa. E volta à lida, subsequente ativo, ágil djim, finge-se deparador, vira, vira, bicoca e corre de lado: — Aqui... aqui... aqui... Só que o a seguir-se é que de novo se esquece, empinado se ergue, preparadinho para cantar; que todo tentar de melodia já é um ensaio do indefinido. O que sai é um tritil, pipilo pífio: um piapo — e a alegria a mais, que ele assim se adjudica.
Ela é intrínseca. Ela é muito amanhã, seu em breve ser, mãe até na raiz das penas. Toda mãe se desorbita. O que urge, urge-a, cativa de fadária servidão — um dom. O que teme é ovo anteposto. E ainda não está pronto o ninho, amorável. Donde o diligir, de afinco, de rápido coração, no mais dar. Sumiu-se a gentil trapeirinha em gandaia. Repousa-e-voa, sofridulante, o físico aflito, vã, vã. Já ali a erguitar um til de capim, que é um quindim, que é um avo. Recuida-o agora, em enlevo de cobiça, com sem biquinho tecelão. E engendra. Com pouco, estará na poesia: um pós um — o-o-o — no fofo côncavo, para o choco — com o carinho de um colecionador; prolonga um problema.
Está perfeito o nidifício, no feliz findar. Os dois vão avir-se. Ele se sobe a andares altos, plenivoa, desce em festa. Ela se faz a femeazinha, instantânea tanagrinha. São casal. Sem tris, se achegam. Simetrizam. Os outros, os trêfegos aos figos, se avistam acolá, na figogueio, de figuifo. Sem reticenciar, entoa ele então um tema, em sua flauta silbisbil. Deram-lhe outro canto? Sai do mais límpido laringe, eóa siringe, e é um alarir, um eloquir, um ironir, um alegrir-se — um cachinar com toda a razão.
Se sim, quando. Se às vezes, simplesmente. Onde um lugar — os quietos curtos horizontes, o tempo um augúrio ininterrupto — que merece demorada. A inteira alma. As várias árvores. O céu — ficção concreta. Um par de pequeninos, edificantes. O tremer de galho que um mínimo corpo deixa. E o nomezinho de Deus, no bico dos pássaros.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

Na rua, até hoje...



...e eu que saí de casa olhando a lua
até hoje estou na rua.”
[Feitiço da Vila, Noel Rosa]

Eu nasci na chamada Rua da Pedreira (Santos Rodrigues), no Estácio, num apartamentinho escuro. A rua, na época, não tinha saída. Era muito pobre, com vários terrenos baldios. Estou só dando uma ideia do cenário. Aí, com quase quatro anos, finalzinho da década de 1940, houve a mudança — e botem mudança nisso! — para a Rua dos Artistas, em Vila Isabel. Os chatos insistem em afirmar que o bairro era Aldeia Campista, mas, como meu vô português botou um papel em meu bolso com o endereço, telefone e estava escrito que o bairro era Vila Isabel, foi, é e sempre será Vila Isabel. Os que discordarem podem, em fila organizada, ir à merda.
Por mais que a amável leitora ou leitor se esforcem, acho que jamais conseguirão saber o que o menino sentiu quando, pela primeira vez, viu o quintal cheio de árvores: laranjeiras-da-terra, limoeiros, jaqueiras, mangueiras e, entre insignificantes goiabeiras vermelhas, a gigantesca, o que é incomum, goiabeira branca que se curvava até o chão para que eu subisse por seus galhos a um recanto especial, onde,recostado, lia Monteiro Lobato. E sol, sol, sol no céu remendado de pipas. O quintal também tinha uma parte cimentada para acirrados jogos de futebol em que eu, sempre chegado a ficar sozinho, enfrentava o Aldirzinho, um adversário faltoso e desleal.
Outro deslumbramento eram os almoços de domingo. Se fosse Páscoa, um dia santo especial, festas natalinas, armavam uma mesa de tábuas e cavaletes no quintal. Não raro eram 30, 40 pessoas mandando ver no garfo — e no copo, claro. Pra vocês terem uma pequena ideia, nas feijoadas, as laranjas ficavam em enormes bacias, as cervejas suavam em tinas de madeira e havia literalmente dezenas de garrafas de cachaças e batidas. Rolava de tudo: porres, brigas conjugais, concurso de charadas, alguém carregando na pimenta e se cagando em pleno repasto.
No quarto dos fundos, a estranha mesa hexagonal com centenas de lápis de cor, de cera, pincéis, tinteiros, vidros com penas, vários tipos de cadernos, carimbos, réguas, compassos e esquadros ainda de madeira, sem falar de uma tralha que eu não sabia como utilizar digna de um Harry Potter da Zona Norte. O destaque era meu imenso cavalo com rodinhas (bem maior que eu), o laboratório de química e o “cabaré”. Isso aí, ca-ba-ré. Eu fechava a janela, trancava a porta, acendia um abajur velho e dançava um treco entre o tango e o vodu com as filhas das empregadas. Bom começo, né?
Aos 11 anos, como uma punhalada, me devolveram ao Estácio, pra Rua Maia Lacerda, transversal daquela em que nasci. Um antro. A infância acabou — ou quase. É inacreditável a falta de respeito dos adultos com o que pertence às crianças. Cavalo, trem elétrico, gangorra, escorrega, patinete, rema-rema, centenas de soldadinhos e carros, sacos de bolas de gude, caixas cheias de figurinhas duplicatas de vários álbuns, milhares de gibis, tudo isso sumiu da noite para o dia. Para sobreviver à esmagadora tristeza, eu “brincava de Vila Isabel”. Lia os capa-e-espada fingindo que estava na goiabeira branca. Fazia longas e silenciosas viagens pelo rio Amazonas, espingarda e cigarros de chocolate ao alcance da mão. Acho que a necessidade de brincar com a mente me levou a escrever letras de música. Eu precisava sonhar. A realidade na Maia eram trabalhos de cartolina rasgados e atirados na sarjeta, raquetes de pingue-pongue Procópio destruídas, bolas furadas... O que um garoto de 12, 13 anos faz com maconheiros de 25, além de PMs, mecânicos e motoristas de caminhão de porre? Sonha com a infância dilacerada. Reconstrói a Vila, as árvores as chuvaradas com barquinhos de papel jogados da janela. Nesses torós, o quintal enchia tanto que apareciam peixinhos entre as árvores. Não me perguntem como.
Hoje, com 69 anos, estou escrevendo esse texto — mas não sou eu. É o menino quem lança essas garatujas no papel, o menino correndo atrás da infância, agarrado aos cacos que sobraram dela. A rua e a Vila viverão enquanto o menino viver.

Aldir Blanc, em Vila Isabel, inventário da infância

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Parábola

A imagem daqueles salgueiros n’água é mais nítida e pura que os próprios salgueiros. E tem também uma tristeza toda sua, uma tristeza que não está nos primitivos salgueiros.

Mário Quintana, em Sapato Florido

Erasmo Carlos | É preciso dar um jeito meu amigo

 

Estava lá Aquiles, que abraçava

Estava lá Aquiles, que abraçava
Enfim Heitor, secreto personagem
Do sonho que na tenda o torturava;
Estava lá Saul, tendo por pajem
Davi, que ao som da cítara cantava;
E estavam lá seteiros que pensavam
Sebastião e as chagas que o mataram.
Nesse jardim, quantos as mãos deixavam
Levar aos lábios que os atraiçoaram!
Era a cidade exata, aberta, clara:
Estava lá o arcanjo incendiado
Sentado aos pés de quem desafiara;
E estava lá um deus crucificado
Beijando uma vez mais o enforcado.

Mário Faustino, em O homem e sua hora

Dificuldade de expressão

A dificuldade de encontrar, para poder exprimir, aquilo que no entanto está ali, dá uma impressão de cegueira. É quando, então, se pede um café. Não é que o café ajude a encontrar a palavra mas representa um ato histérico-libertador, isto é, um ato gratuito que liberta.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Terceiro capítulo – O Amargo Gosto da Maquela



Muidinga acorda com a primeira claridade. Durante a noite, seu sono se estremunhara. Os escritos de Kindzu lhe começam a ocupar a fantasia. De madrugada até lhe parecera ouvir os tais cabritos embriagados de Taímo. E sorri, ao se lembrar. O velho ainda ressona. O miúdo se espreguiça ao sair do machimbombo. O cacimbo é tão cheio que mal se enxerga. A corda do cabrito permanece atada aos ramos da árvore. Muidinga puxa por ela para trazer o bicho às vistas. Então, sente que a corda está solta. O cabrito fugira? Mas, se assim tinha sido, qual a razão daquele vermelho tintando o laço?
Tio, tio! Comeram o cabrito!
O velho sai aos desengonços, tropernando pelas escadas do machimbombo. Primeiro, fica parado, perplexo, a digerir névoas. Depois vai pilando raivas, mãos à cabeça, espicaçador.
Quem disse para amarrar a merda do cabrito aqui?
Grita com superiores ganas de rachar o mundo. Segura a ponta da corda, sacode-a perante o nariz. Muidinga se admira de tais fúrias. Que lamentava o velho assim tão espalhafarto?
Deve ter sido uma hiena, tio...
O velho, ríspido, agarra a cabeça do rapaz e lhe esfrega a corda no rosto.
Veja essa corda, satanhoco. Veja!
O pobre miúdo nem que quisesse. A mão do velho lhe alicateia o pescoço, dobrando seu fracturável corpo sobre os infernos. Me largue, tio. É a súplica que ele consegue, já tombado nos joelhos.
Veja aqui, grita Tuahir. Cortaram essa corda com faca!
Muidinga se arrepinha. Quem estivera ali com tais laminosas intenções? Agora ele entende a fúria do velho. Um cabrito atado só servia para agarrar os olhos dos passeantes.
Mas, tio, não nos encontraram...
Não fala comigo.
Os azedos de Tuahir não esvanecem durante o restante dia. A noite decorre de olhos abertos, vigilantes. O matador do cabrito regressaria? O miúdo se interroga: quem seriam os nocturnos saltinhadores? Matsangas? Naparamas? Simples esfomeados? Quem era que tinha sido não voltou naquela noite. Quando amanhece Muidinga se achega ao velho e se desculpa:
Não volto a fazer sem lhe ouvir.
Tuahir está mais amolecido, respirando aliviado. Fomos salvos pelo machimbombo estar queimado, disse ele. E acrescentou:
Os que vieram não voltam mais. Podemos descansar...
De novo, a morna monotonia se instala. Para distrair o tempo, tiram o banco para fora do autocarro e colocam-no no meio da estrada. Sentam-se a apanhar sol, com mais prazo que os lagartos. Muidinga repara que a paisagem, em redor, está mudando suas feições. A terra continua seca mas já existem nos ralos capins sobras de cacimbo. Aquelas gotinhas são, para Muidinga, um quase prenúncio de verdes. Era como se a terra esperasse por aldeias, habitações para abrigar futuros e felicidades. Mas o mato selvagem não oferece alimento para quem não conhece seus segredos. E a fome começa a beliscar a barriga daqueles dois. O estômago de Muidinga ronrona. O velho lhe pede contas:
Tem fome, não é, miúdo? Quem lhe mandou poupar o cabrito?
O moço está derreado, parece ter regressado ao estado da doença. Está quase parente da estrada, parado e poeiroso. O velho Tuahir se aborrece com a apatia do jovem.
Já esqueceu falar, outra vez? É da fome isso. Sabe o que você faz? Você engole com força. É, engole saliva, faz conta está entrar comida na garganta. A fome fica confusa, assim.
O velho executa, por gestos, a sua própria sugestão. Muidinga não reage. Tuahir ganha um súbito interesse no rosto do rapaz como se estudasse ali os espelhos baços do seu interior. Se levanta, ele e a sua voz, trabalhando juntos numa fúria:
Você ainda continua com essa mania de encontrar seus pais? Está proibido! Ouviste? Nem quero lhe ver pensando nesse assunto. Nunca mais.
Vê-se que se controla para não pontapear o moço, se nota um brilho de violência como se houvessem dentes no seu olhar. Parte os ramos de um arbusto, empurra o banco onde o miúdo permanece sentado.
Olha, lhe vou dizer uma coisa: seus pais faleceram. Sim, eles foram mortos com balas de bandidos. É por causa disso eu sempre estou insistir: abandona essa merda de ideia.
Vira costas. Muidinga parece impassível, sua alma desenhada só em diagonal. Era como se já soubesse, tudo aquilo não constituísse novidade nenhuma. Ou quem sabe não acreditasse na verdade da revelação. Ali ficou, estagnado o resto da manhã. É quase meio-dia quando Tuahir o sacode para anunciar que devem partir pelas redondezas. Era urgente procurar alimento, arranjar mais água.
Vai-se ou não-se?
O moço se ergue, silencioso. E partem, o miúdo segue atrás, contrariado. Aquela era sua primeira incursão pelos matos. A ela se haveriam de seguir outras. Em nenhuma dessas visitas eles se afastariam demasiado do autocarro. Desta primeira vez, eles se descaminham pelo mato, por tempos demorados. Muidinga receia perder o caminho do regresso. E se o velho se perdesse e nunca mais dessem com o machimbombo?
Qual é o problema, Muidinga?
Estou a pensar se nos perdemos...
Se não voltarmos à estrada não perdemos nada.
Era verdade: que valores arrecadava o autocarro agora que as reservas de comida se esgotavam? Porém, para Mui-dinga, não regressar seria enorme desgosto. Ele se admira: o que o prendia àqueles destroços na estrada? Então, lhe veio a resposta clara: eram os cadernos de Kindzu, as estórias que ele vinha lendo cada noite. E sente saudade das linhas, tantas quantos os passos que agora desfia pelos atalhos.
Ao fim da tarde chegam, enfim, a uns antigos terrenos de machamba. Tudo fora abandonado, as culturas se tinham perdido, castanhamente. A terra toda se despira, esperando em vão receber o beijo do arado. Aquelas visões ainda mais os esfaimam, fazendo-os arrotar o seu próprio jejum. O velho se senta numa clareira, na margem da antiga machamba. Recolhe em seu redor secos restos de mandioca. É a única cultura que resta, a única que resistiu à seca. Sacode as raízes e nota dentadas na casca.
Merda! Os ratos chegaram primeiro.
Quando Muidinga se prepara para comer Tuahir grita:
Não comas!
O velho junta às pressas os paus de mandioca e lança--os no capinzal. Andarilha às voltas a curar os nervos. Depois, se senta junto do rapaz e lhe fala:
Vou-lhe contar, miúdo. Foi por causa de mandioca dessa que você apanhou doença.
Tuahir, me conte tudo. Me conte como me encontrou.
O velho, enfim, acede. Limpa o chão onde se vai sentar em preparativo de que se iria demorar. E conta: ele estava no campo de deslocados, vindo de sua aldeia distante. Uma noite lhe pediram para ajudar a enterrar seis crianças recém--falecidas. Os corpos estavam numa cabana, por baixo de uma velha lona. Ninguém sabia quem eram, de onde tinham vindo, a que famílias pertenciam. Estavam despidas, suas roupas tinham sido roubadas mal as crianças perderam força para se defenderem. Tuahir ajudou a arrastar os corpos para um buraco. Enquanto puxava pelas pernas frias se admirava daquele peso tão diminuto. Olhava os braços ondeantes como ramos ossudos, esqueletudos, quando reparou com espanto: os dedos de uma das crianças se cravavam no chão. Não havia dúvida, aqueles dedos se agarravam à vida, lutando contra o abismo. Aquela criança ainda respirava. Era a mais clara e a mais raquítica de todas.
Parem, aquele miúdo ainda está vivo!
Os restantes coveiros se entreolham, duvidosos. E voltam a puxar os corpos: haver um vivo nada altera. Tuahir suplica que parem, os outros se imperturbam. Aqui se enterram os moribundos em viagem sem regresso. O velho sai do grupo, não tem coragem para sepultar um vivente. Já o menino se afundava em areias que atiravam no buraco quando ele se recordou:
Deixem esse: é meu sobrinho...
E você cuida dele?
Sim, eu lhe trato.
E foi assim. Nos princípios, o miúdo só pronunciava estranhas gemências. Passaram-se dias, sem outro alimento que não fosse água. O menino permanecia dobrado em si, vomitando, dolorido da cabeça aos pés. Sem se mexer, ele já trincava seu fim. Tuhair lhe pedia que se levantasse e se mantivesse de pé, nem que fosse por breves tempos. Com ajuda, o moribundo se sustinha. O velho lhe ordenava:
Veja no chão!
Muidinga olhava para o chão, nada notava. Mas as tonturas lhe dificultavam os vistos. O que era que o velho apontava?
Não vês que perdeste a tua sombra?
Era verdade. Por mais que se inclinasse, o moço não produzia nenhuma sombra. Seu corpo parecia mergulhado em eterno meio-dia. Estremecia com o presságio. E o velho pensava: “este já não tem melhora”. Mas ainda assim, insistiu. Nessa altura, o moço ainda segurava algumas palavras. A voz lhe saía em sopro:
Mas eu... o que eu tenho?
Esta doença se chama mantakassa. Você comeu mandioca azeda, dessas amargas que fermentam venenos, dessas que chamamos de maquela.
Ah, a mandioca... eu sei.
O velho tinha consciência do que iria acontecer em seguida. O menino desconhecia, no entanto, tudo que lhe esperava.
Onde estão seus pais?
Meus pais?
O menino cada vez mais se dificultava em falar, atarantonto. Ao ver a criança assim rarefeita, Tuahir sentiu descer-lhe da cabeça o coração. Puxou Muidinga pela mão e lhe prometeu:
Não lhe vou abandonar. Não tenha medo, eu lhe tomo conta.
Tuahir cumpriu. A enfermidade trabalhava no rapaz. Seu corpo se vazava de peso. As humanas faculdades nele se esvaíam. O miúdo quase já não sabia falar, nem andar, nem sequer rir. A última pergunta que fez foi uma noite em que, contemplando seu sofrimento, Tuahir deixou escapar uma lágrima:
Está a chorar de mim?
O velho nem deu resposta, negando com um sacudir de ombros. O miúdo, a seus olhos, já não surgia humano em si, todo. Só vagamente semelhava uma criança. Sua fala se engrunhia, seu corpo se tornava bravio.
Se sabias da mandioca por que comeste então, miúdo?
O velho perguntou mas já sabia a resposta. A fome apertava de mais. Morrer por morrer mais valia ver o amanhã do sol. Muidinga nada respondeu. Apenas pediu que Tuahir chegasse pertinho. Suas forças se estavam a perder. A boca desaguava as últimas palavras, dali a pouco ele já não seria capaz de pronunciar nenhum pensamento. O velho segredou o seguinte conselho: quando morresse, para encontrar caminho do Céu, o miúdo devia escolher só os carreirinhos. Os grandes caminhos nunca lhe levariam lá. Procurasse, sim, os caminhinhos, trilhozitos entre as nuvens, feitos por pé de pouca gente. Depois, não mais falou. O peso da tristeza em sua alma o sufocava. Perder aquele menino, mesmo que desconhecido, era juntar, simultâneas, todas as variedades de dor.
Dobra as pernas, depressa. Não podes morrer de pernas esticadas.
E o velho ajudou o miúdo a dobrar as pernas. Ficou à espera que a morte viesse. Passou-se tempo sem que o moço se tornasse em pessoa concluída. E se passou ao inverso do esperado. No dia seguinte, já Muidinga despertava, fortalecido. Era uma criança a nascer, quase em estado de saúde. O velho se contenta: seus filhos já quase não deixavam memória. Sentia saudade de ser pai, era como se voltasse a ser jovem.
Te vais chamar Muidinga, decidiu.
Era o nome que tinha sido dado a seu filho mais velho, ido e esvaído nas minas do Rand.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

1618 – Lima

Mundo pouco

O amo de Fabiana Crioula morreu. Em seu testamento, rebaixou-lhe o preço da liberdade, de duzentos a cento e cinquenta pesos.
Fabiana passou toda a noite sem dormir, perguntando-se quanto valeria a sua caixa de madeira cheia de canela em pó. Ela não sabe somar, de modo que não pode calcular as liberdades que comprou, com seu trabalho, ao longo do meio século que leva no mundo, nem o preço dos filhos que fizeram nela e depois arrancaram dela.
Nem bem desponta a alvorada, acode o pássaro a bater na janela com o bico. Cada dia, o mesmo pássaro avisa que é hora de despertar e andar.
Fabiana boceja, senta na esteira e olha os pés gastos.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

domingo, 19 de abril de 2026

YOÙN | O Novo Sempre Vem

 

Duas caixas

             “Caixa de ferramentas” e “caixa de brinquedos”. É preciso que eu explique por que esses dois conceitos são a base da minha filosofia de educação e de vida. Resumindo: são duas, apenas duas, as tarefas da educação, representadas por duas caixas que o corpo carrega. Na mão direita, mão da destreza e do trabalho, ele leva uma caixa de ferramentas. E na mão esquerda, mão do coração e da sensibilidade, ele leva uma caixa de brinquedos. Ferramentas são melhorias do corpo. Os animais não precisam de ferramentas ­porque seus corpos já são ferramentas. Seus corpos lhes dão todas a ferramentas de que necessitam para sobreviver. Como são desajeitados os seres humanos quando com­parados com os animais! Veja, por exemplo, os macacos. Sem nenhum treinamento especial, eles tirariam medalhas de ouro na ginástica olímpica. E os saltos das pulgas e dos gafanhotos! Já prestou atenção na velocidade das formigas? Mais velozes a pé, proporcionalmente, que os bóli­dos de Fórmula Um! O voo dos urubus, os buracos dos ta­tus, as teias das aranhas, as conchas dos moluscos, a língua saltadora dos sapos, o veneno das taturanas, os dentes dos castores... Nossa inteligência se desenvolveu para compensar a deficiência das ferramentas que o corpo nos dá, por nascimento. Assim, ela inventou melhorias para o corpo: porretes, pilões, facas, flechas, redes, barcos, bicicletas, casas, aviões, computadores... Disse Marshal MacLuhan corretamente que todos os “meios” são extensões do corpo. É isto que são as ferramentas: meios para se viver. Ferramentas aumentam a nossa força, nos dão poder: uma agulha, um pau de fósforo, um par de óculos... A ideia de que o corpo carrega duas caixas – uma caixa de ferramentas, na mão direita, e uma caixa de brinquedos, na mão esquerda – me apareceu quando me dedicava a entender santo Agostinho. Pois ele, resumindo o seu pensamento, disse que todas as coisas que existem se dividem em duas ordens distintas. A ordem do uti (ele escrevia em latim) e a ordem do frui. Uti, “o que é útil, utilizável, utensílio”. Usar uma coisa é utilizá­-la para se obter uma outra coisa. Frui, “fruir, usufruir, desfrutar, amar uma coisa por causa dela mesma”. A ordem do uti é o lugar do po­der. Todos os utensílios, ferramentas, são inventados para aumentar o poder do corpo. A ordem do frui, ao contrário, é a ordem do amor – coisas que não são utilizadas, que não são ferramentas, que não servem para nada. Elas não são úteis; são inúteis. Porque não são para ser usadas, mas para ser gozadas. A tradição cristã tem medo das coisas que são guardadas na caixa dos brinquedos. Nessa caixa se guarda a origem do pecado: o prazer…

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

Hagar, o Horrível

Peça nova

Estou escrevendo uma peça que suponho venha a alcançar a maior glória e bilheteria. Será facílima de montar. Dispensa cenários e até mesmo atores, pois o que há a comunicar poderá ser transmitido em fita magnética, se houver fita magnética. Se não houver, aproveitam-se os ruídos da rua, que sendo variados, tornarão o espetáculo diferente a cada apresentação. Em último caso, não havendo ruídos externos a captar, ficará por conta da inventiva de cada espectador a criação de sons, inteligíveis ou não (de preferência inin), que compõem (ou não compõem, tanto faz) a estrutura original de minha peça.
Como? Ah, sim, é o Yan Michalski perguntando o que é então que estou escrevendo, se não haverá texto, mas simplesmente sons, ou nem isto. Respondi-lhe que escrever o não escrito, escrever inescrevendo (sempre in) é básico em minha concepção cênica. Todo o meu esforço intelectual se concentra em compor uma peça que, não tendo qualquer palavra dicionarizada ou bolada na hora pelo autor, esteja isenta de mácula perante a suspicácia da Censura. Vencerá, pois, galhardamente, a etapa preliminar de todo espetáculo. A preliminar e as outras. Tem-se visto a Censura desaprovar o que aprovou, mandando retirar do cartaz aquilo que antes autorizara a ser mostrado. Dá o dito por não dito. Darei então o não dito por dito.
Ia começando a fazer o segundo ato, quando alguém de bom juízo me adverte que o melhor é não usar nem atores nem fita magnética nem rumores da rua. Nunca se sabe o que pode sair da mistura de sons urbanos — buzinas, gritos, freadas, objurgatórias (nome estilizado de palavrão), ronco de motor, vento zunindo, quedas do vigésimo andar, vendedores de porta de loja, gargalhadas, choro etc. Este material sonoro pode revestir-se de feições estranhas, consideradas suspeitas por um censor que tenha ouvido delicado, e lá se vai o dinheiro do produtor de minha peça, lá se vai minha glória, além de outros aborrecimentos, fáceis de prever.
O cauto amigo me previne ainda quanto ao que ele considera o maior risco: deixar entregue à imaginação imprevisível do espectador os sons da peça. Não há dúvida — admite — de que se trata de experiência dramática das mais sedutoras, pela instituição da autoria múltipla, ao sabor das novas tendências da arte: o sujeito fruidor-criador do objeto. Cada assistente repartirá comigo as vaidades da criação, e isto estimulará infinitas realizações no gênero, que se poderia rotular de teatro-em-ser, teatro-branco, teatro-não, teatro-sim, à vontade. Mas adviriam duas consequências desagradáveis. Primeira, o espectador reclamaria sua cota de direito autoral. Segunda (fatal para a peça), o espetáculo ficaria em cena apenas meio minuto, tempo suficiente para o censor detectar no espírito do cavalheiro da terceira fila, poltrona oito, a inadmissível formulação de um som altamente reprovável do ponto de vista do código da Censura.
Tendo na devida conta as ponderações do meu amigo, permito-me considerá-las improcedentes. Como renunciar ao puzzle de sons que será a essência de minha peça? Recorrer a palavras seria contaminá-la. Usar o silêncio seria estabelecer o teatro puro, para o qual não estamos preparados, ou talvez incorrer na condenação total do censor.
Não vejo o menor inconveniente em que a plateia compartilhe da renda, acho até que esta será a maneira de levar público ao teatro. Quem não gostará de colaborar na invenção e participar dos lucros? Por outro lado, a duração de meio minuto para o espetáculo já é bom limite de tempo, se o compararmos à não duração das peças natimortas pela proibição censória. Meio minuto é meio triunfo. O próprio censor, quem sabe? será tentado a praticar o exercício excitante da multiautoria com dividendo.
Prossigo pois no trabalho, com amor e pertinácia, animado do propósito de achar uma saída para o teatro nacional em face da Censura. Eis a fórmula: a peça que, por onde quer que se lhe pegue, não se deixa pegar. Pela supressão da linguagem e das conotações impróprias que toda palavra traz consigo, senão intrinsecamente, pelo jeito com que é pronunciada, pelo olhar que a sublinha, pelo gesto ou suspeita de gesto etc. Sentido? Deixa pra lá.

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

O poder da oração

Em certas manhãs desrezo:
a vida humana é muito miserável.
Um pequeno desencaixe nos ossinhos
faz minha espinha doer.
Sinto necessidade de bradar a Deus.
Ele está escondido, mas responde curto:
brim coringa não encolhe’.
E eu entendo comprido
e comovente esforço da humanidade
que faz roupa nova para ir na festa,
o prato esmaltado onde ela ama comer,
um prato fundo verde imenso mar cheio de estórias.
A vida humana é muito miserável.
Brim coringa não encolhe’?
Meu coração também não.
Quando em certas manhãs desrezo
é por esquecimento,
só por desatenção.

Adélia Prado, em O Coração Disparado

Capítulo 44 – Um Cubas!



Meu pai ficou atônito com o desenlace, e quer-me parecer que não morreu de outra coisa. Eram tantos os castelos que engenhara, tantos e tantíssimos os sonhos, que não podia vê-los assim esboroados, sem padecer um forte abalo no organismo. A princípio não quis crê-lo. Um Cubas! um galho da árvore ilustre dos Cubas! E dizia isto com tal convicção, que eu, já então informado da nossa tanoaria, esqueci um instante a volúvel dama, para só contemplar aquele fenômeno, não raro, mas curioso: uma imaginação graduada em consciência.
Um Cubas! repetia-me ele na seguinte manhã, ao almoço.
Não foi alegre o almoço; eu próprio estava a cair de sono.
Tinha velado uma parte da noite. De amor? Era impossível; não se ama duas vezes a mesma mulher, e eu, que tinha de amar aquela, tempos depois, não lhe estava agora preso por nenhum outro vínculo, além de uma fantasia passageira, alguma obediência e muita fatuidade. E isto basta a explicar a vigília; era despeito, um despeitozinho agudo como ponta de alfinete, o qual se desfez, com charutos, murros, leituras truncadas, até romper a aurora, a mais tranquila das auroras.
Mas eu era moço, tinha o remédio em mim mesmo. Meu pai é que não pôde suportar facilmente a pancada. Pensando bem, pode ser que não morresse precisamente do desastre; mas que o desastre lhe complicou as últimas dores, é positivo.
Morreu dai a quatro meses, – acabrunhado, triste, com uma preocupação intensa e contínua, à semelhança de remorso, um desencanto mortal que lhe substituiu os reumatismos e tosses. Teve ainda uma meia hora de alegria; foi quando um dos ministros o visitou. Vi-lhe, – lembra-me bem, – vi-lhe o grato sorriso de outro tempo, e nos olhos uma concentração de luz, que era por assim dizer, o último lampejo da alma expirante. Mas a tristeza tomou logo, a tristeza de morrer sem me ver posto em algum lugar alto, como aliás me cabia.
Um Cubas!
Morreu alguns dias depois da visita do ministro, uma manhã de maio, entre os dois filhos, Sabina e eu, e mais o tio Ildefonso e meu cunhado. Morreu sem lhe poder valer a ciência dos médicos, nem o nosso amor, nem os cuidados, que foram muitos, nem coisa nenhuma; tinha de morrer, morreu.
Um Cubas!

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

sábado, 18 de abril de 2026

Gaia Gentile e Nelson Faria | Um Café Lá Em Casa

Meia-noite, 16 de junho

Não volto às letras, que doem como uma catástrofe. Não escrevo mais. Não milito mais. Estou no meio da cena, entre quem adoro e quem me adora. Daqui do meio sinto cara afogueada, mão gelada, ardor dentro do gogó. A matilha de Londres caça minha maldade pueril, cândida sedução que dá e toma e então exige respeito, madame javali. Não suporto perfumes. Vasculho com o nariz o terno dele. Ar de Mia Farrow, translúcida. O horror dos perfumes, dos ciúmes e do sapato que era gêmea perfeita do ciúme negro brilhando no gogó. As noivas que preparei, amadas, brancas. Filhas do horror da noite, estalando de novas, tontas de buquês. Tão triste quando extermina, doce, insone, meu amor.

Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés

O impagável Laerte