sexta-feira, 13 de março de 2026

Antoine Boyer | Overjoyed

 

Canção sensata

Dora, que importa
O juiz que escreve
Exemplos na areia,
Se livres seguimos
O rastro dos faunos,
A voz das sereias?

Dora, que importa
A herança do avô
Sob a pedra, nua,
Se do ar colhemos
Moedas de sol,
Guirlandas de lua?

Dora, que importa
Esse frágil muro
Que defende os cautos,
Se além do pequeno
Há horizontes loucos,
De que somos arautos?

De maior beleza
É, pois, nada prever
E à fina incerteza
De amor ou viagem
Abrir nossa porta.

José Paulo Paes, em Antologia Poética

O Espelho


Esboço de uma nova teoria da alma humana

Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta transcendência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora. Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de cousas metafísicas, resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas do universo.
Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala um quinto personagem, calado, pensando, cochilando, cuja espórtula no debate não passava de um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem tinha a mesma idade dos companheiros, entre quarenta e cinquenta anos, era provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão é a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herança bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta naquela noite, contestou-lha um dos presentes, e desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante, e respondeu:
Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.
Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça, cada sentença; não só o acordo, mas a mesma discussão tornou-se difícil, senão impossível, pela multiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal e um pouco, talvez, pela inconsistência dos pareceres. Um dos argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, uma conjetura, ao menos.
Nem conjetura, nem opinião – redarguiu ele –; uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas…
Duas?
Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro... Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; – e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. Shylock, por exemplo. A alma exterior daquele judeu eram os seus ducados; perdê-los equivalia a morrer. “Nunca mais verei o meu ouro”, diz ele a Tubal; “é um punhal que me enterras no coração.” Vejam bem esta frase; a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para ele. Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma…
Não?
Não, senhor; muda de natureza e de estado. Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria, com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora enérgicas, de natureza mudável. Há cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde uma provedoria de irmandade, suponhamos. Pela minha parte, conheço uma senhora – na verdade, gentilíssima – que muda de alma exterior cinco, seis vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera; cessando a estação, a alma exterior substitui-se por outra: um concerto, um baile do Cassino, a rua do Ouvidor, Petrópolis…
Perdão; essa senhora quem é?
Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome; chama-se Legião... E assim outros mais casos. Eu mesmo tenho experimentado dessas trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao episódio de que lhes falei. Um episódio dos meus vinte e cinco anos…
Os quatro companheiros, ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia. Santa curiosidade! tu não és só a alma da civilização, és também o pomo da concórdia, fruta divina, de outro sabor que não aquele pomo da mitologia. A sala, até há pouco ruidosa de física e metafísica, é agora um mar morto; todos os olhos estão no Jacobina, que conserta a ponta do charuto, recolhendo as memórias. Eis aqui como ele começou a narração:
Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da Guarda Nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. Minha mãe ficou tão orgulhosa! tão contente! Chamava-me o seu alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura. Na vila, note-se bem, houve alguns despeitados; choro e ranger de dentes, como na Escritura; e o motivo não foi outro senão que o posto tinha muitos candidatos e que esses perderam. Suponho também que uma parte do desgosto foi inteiramente gratuita: nasceu da simples distinção. Lembra-me de alguns rapazes, que se davam comigo, e passaram a olhar-me de revés, durante algum tempo. Em compensação, tive muitas pessoas que ficaram satisfeitas com a nomeação; e a prova é que todo o fardamento me foi dado por amigos... Vai então uma das minhas tias, D. Marcolina, viúva do Capitão Peçanha, que morava a muitas léguas da vila, num sítio escuso e solitário, desejou ver-me, e pediu que fosse ter com ela e levasse a farda. Fui, acompanhado de um pajem, que daí a dias tornou à vila, porque a tia Marcolina apenas [...] me pilhou no sítio, escreveu a minha mãe dizendo que não me soltava antes de um mês, pelo menos. E abraçava-me! Chamava-me também o seu alferes. Achava-me um rapagão bonito. Como era um tanto patusca, chegou a confessar que tinha inveja da moça que houvesse de ser minha mulher. Jurava que em toda a província não havia outro que me pusesse o pé adiante. E sempre alferes; era alferes para cá, alferes para lá, alferes a toda a hora. Eu pedia-lhe que me chamasse Joãozinho, como dantes; e ela abanava a cabeça, bradando que não, que era o “senhor alferes.” Um cunhado dela, irmão do finado Peçanha, que ali morava, não me chamava de outra maneira. Era o “senhor alferes,” não por gracejo, mas a sério, e à vista dos escravos, que naturalmente foram pelo mesmo caminho. Na mesa tinha eu o melhor lugar, e era o primeiro servido. Não imaginam. Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta e simples... Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D. João VI. Não sei o que havia nisso de verdade; era a tradição. O espelho estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, uns delfins esculpidos nos ângulos superiores da moldura, uns enfeites de madrepérola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas bom…
Espelho grande?
Grande. E foi, como digo, uma enorme fineza, porque o espelho estava na sala; era a melhor peça da casa. Mas não houve forças que a demovessem do propósito; respondia que não fazia falta, que era só por algumas semanas, e finalmente que o “senhor alferes” merecia muito mais. O certo é que todas essas cousas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou. Imaginam, creio eu?
Não.
O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado. Custa-lhes acreditar, não?
Custa-me até entender – respondeu um dos ouvintes.
Vai entender. Os fatos explicarão melhor os sentimentos: os fatos são tudo. A melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada; e, se bem me lembro, um filósofo antigo demonstrou o movimento andando. Vamos aos fatos. Vamos ver como, ao tempo em que a consciência do homem se obliterava, a do alferes tornava-se viva e intensa. As dores humanas, as alegrias humanas, se eram só isso, mal obtinham de mim uma compaixão apática ou um sorriso de favor. No fim de três semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes. Ora, um dia recebeu a tia Marcolina uma notícia grave; uma de suas filhas, casada com um lavrador residente dali a cinco léguas, estava mal e à morte. Adeus, sobrinho! adeus, alferes! Era mãe extremosa, armou logo uma viagem, pediu ao cunhado que fosse com ela, e a mim que tomasse conta do sítio. Creio que, se não fosse a aflição, disporia o contrário; deixaria o cunhado e iria comigo. Mas o certo é que fiquei só, com os poucos escravos da casa. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande opressão, alguma cousa semelhante ao efeito de quatro paredes de um cárcere, subitamente levantadas em torno de mim. Era a alma exterior que se reduzia; estava agora limitada a alguns espíritos boçais. O alferes continuava a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a consciência mais débil. Os escravos punham uma nota de humildade nas suas cortesias, que de certa maneira compensava a afeição dos parentes e a intimidade doméstica interrompida. Notei mesmo, naquela noite, que eles redobravam de respeito, de alegria, de protestos. Nhô alferes, de minuto a minuto; nhô alferes é muito bonito; nhô alferes há de ser coronel; nhô alferes há de casar com moça bonita, filha de general; um concerto de louvores e profecias, que me deixou extático. Ah! pérfidos! mal podia eu suspeitar a intenção secreta dos malvados.
Matá-lo?
Antes assim fosse.
Cousa pior?
Ouçam-me. Na manhã seguinte achei-me só. Os velhacos, seduzidos por outros, ou de movimento próprio, tinham resolvido fugir durante a noite; e assim fizeram. Achei-me só, sem mais ninguém, entre quatro paredes, diante do terreiro deserto e da roça abandonada. Nenhum fôlego humano. Corri a casa toda, a senzala, tudo; ninguém, um molequinho que fosse. Galos e galinhas tão somente, um par de mulas, que filosofavam a vida, sacudindo as moscas, e três bois. Os mesmos cães foram levados pelos escravos. Nenhum ente humano. Parece-lhes que isto era melhor do que ter morrido? Era pior. Não por medo; juro-lhes que não tinha medo; era um pouco atrevidinho, tanto que não senti nada, durante as primeiras horas. Fiquei triste por causa do dano causado à tia Marcolina; fiquei também um pouco perplexo, não sabendo se devia ir ter com ela, para lhe dar a triste notícia, ou ficar tomando conta da casa. Adotei o segundo alvitre, para não desamparar a casa, e porque, se a minha prima enferma estava mal, eu ia somente aumentar a dor da mãe, sem remédio nenhum; finalmente, esperei que o irmão do tio Peçanha voltasse naquele dia ou no outro, visto que tinha saído havia já trinta e seis horas. Mas a manhã passou sem vestígio dele; à tarde comecei a sentir a sensação como de pessoa que houvesse perdido toda a ação nervosa, e não tivesse consciência da ação muscular. O irmão do tio Peçanha não voltou nesse dia, nem no outro, nem em toda aquela semana. Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa. As horas batiam de século a século no velho relógio da sala, cuja pêndula tic-tac, tic-tac, feria-me a alma interior, como um piparote contínuo da eternidade. Quando, muitos anos depois, li uma poesia americana, creio que de Longfellow, e topei este famoso estribilho: Never, for ever!For ever, never! confesso-lhes que tive um calafrio: recordei-me daqueles dias medonhos. Era justamente assim que fazia o relógio da tia Marcolina: Never, for ever! – For ever, never! Não eram golpes de pêndula, era um diálogo do abismo, um cochicho do nada. E então de noite! Não que a noite fosse mais silenciosa. O silêncio era o mesmo que de dia. Mas a noite era a sombra, era a solidão ainda mais estreita, ou mais larga. Tic-tac, tic-tac. Ninguém, nas salas, na varanda, nos corredores, no terreiro, ninguém em parte nenhuma... Riem-se?
Sim, parece que tinha um pouco de medo.
Oh! fora bom se eu pudesse ter medo! Viveria. Mas o característico daquela situação é que eu nem sequer podia ter medo, isto é, o medo vulgarmente entendido. Tinha uma sensação inexplicável. Era como um defunto andando, um sonâmbulo, um boneco mecânico. Dormindo, era outra cousa. O sono dava-me alívio, não pela razão comum de ser irmão da morte, mas por outra. Acho que posso explicar assim esse fenômeno: o sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava atuar a alma interior. Nos sonhos, fardava-me orgulhosamente, no meio da família e dos amigos, que me elogiavam o garbo, que me chamavam alferes; vinha um amigo de nossa casa, e prometia-me o posto de tenente, outro o de capitão ou major; e tudo isso fazia-me viver. Mas quando acordava, dia claro, esvaía-se com o sono a consciência do meu ser novo e único porque a alma interior perdia a ação exclusiva, e ficava dependente da outra, que teimava em não tornar... Não tornava. Eu saía fora, a um lado e outro, a ver se descobria algum sinal de regresso. Soeur Anne, soeur Anne, ne vois-tu rien venir? Nada, cousa nenhuma; tal qual como na lenda francesa. Nada mais do que a poeira da estrada e o capinzal dos morros. Voltava para casa, nervoso, desesperado, estirava-me no canapé da sala. Tic-tac, tic-tac. Levantava-me, passeava, tamborilava nos vidros das janelas, assobiava. Em certa ocasião lembrei-me de escrever alguma cousa, um artigo político, um romance, uma ode; não escolhi nada definitivamente; sentei-me e tracei no papel algumas palavras e frases soltas, para intercalar no estilo. Mas o estilo, como tia Marcolina, deixava-se estar. Soeur Anne, soeur Anne... Cousa nenhuma. Quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel.
Mas não comia?
Comia mal, frutas, farinha, conservas, algumas raízes tostadas ao fogo, mas suportaria tudo alegremente, se não fora a terrível situação moral em que me achava. Recitava versos, discursos, trechos latinos, liras de Gonzaga, oitavas de Camões, décimas, uma antologia em trinta volumes. Às vezes fazia ginástica; outras dava beliscões nas pernas; mas o efeito era só uma sensação física de dor ou de cansaço, e mais nada. Tudo silêncio, um silêncio vasto, enorme, infinito, apenas sublinhado pelo eterno tic-tac da pêndula. Tic-tac, tic-tac
Na verdade, era de enlouquecer.
Vão ouvir cousa pior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque no fim de oito dias deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois.
Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis físicas não permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação. Então tive medo; atribuí o fenômeno à excitação nervosa em que andava; receei ficar mais tempo, e enlouquecer. Vou-me embora, disse comigo. E levantei o braço com gesto de mau humor, e ao mesmo tempo de decisão, olhando para o vidro; o gesto lá estava, mas disperso, esgaçado, mutilado... Entrei a vestir-me, murmurando comigo, tossindo sem tosse, sacudindo a roupa com estrépito, afligindo-me a frio com os botões, para dizer alguma cousa. De quando em quando, olhava furtivamente para o espelho; a imagem era a mesma difusão de linhas, a mesma decomposição de contornos... Continuei a vestir-me. Subitamente por uma inspiração inexplicável, por um impulso sem cálculo, lembrou-me... Se forem capazes de adivinhar qual foi a minha ideia…
Diga.
Estava a olhar para o vidro, com uma persistência de desesperado, contemplando as próprias feições derramadas e inacabadas, uma nuvem de linhas soltas, informes, quando tive o pensamento... Não, não são capazes de adivinhar.
Mas, diga, diga.
Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e... não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas não conhece individualmente uns nem outros; enfim, sabe que este é Fulano, aquele é Sicrano; aqui está uma cadeira, ali um sofá. Tudo volta ao que era antes do sono. Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir…
Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.

Machado de Assis, em Papéis Avulsos

Hagar, o Horrível

Distância

Essas distâncias astronômicas não são tão grandes assim: basta estenderes o braço e tocar no ombro do teu vizinho.

Mário Quintana, em Caderno H

Estrelas e santos



Espera, me deixa explicar…
A vida inteira eu me vi nesse tipo de situação, como naquele dia com o psiquiatra. Ele estava hospedado no chalé atrás da minha casa enquanto a sua casa nova passava por uma reforma. Parecia muito simpático, além de bonito, e claro que eu queria causar uma boa impressão; pensei até em levar uns brownies para ele, mas não queria que ele me achasse oferecida. Uma manhã, logo depois do amanhecer, como de costume, eu estava tomando café e olhando pela janela para o meu jardim, que estava lindo naquela época, com ervilhas-de-cheiro, delfínios e cosmos. Eu estava sentindo, bem, eu estava sentindo uma enorme alegria… por que hesito em te contar isso? Não quero que você me ache boba, quero causar uma boa impressão. Enfim, eu estava feliz e joguei um punhado de alpiste no deque lá fora, depois fiquei sentada, sorrindo sozinha enquanto dezenas de rolinhas e tentilhões vinham voando para comer o alpiste. De repente, num relâmpago, dois gatos enormes saltaram para o deque e começaram a estraçalhar os passarinhos, penas voando para todo lado, justo na hora em que o psiquiatra estava saindo pela porta do chalé. Ele olhou para mim, chocado, disse “Que horror!” e foi embora. Depois daquela manhã, ele passou a me evitar completamente, e não era imaginação minha. Não havia jeito de explicar que tudo tinha acontecido rápido demais, que eu não estava sorrindo porque os gatos estavam devorando os passarinhos. É que a minha alegria com as ervilhas-de-cheiro e os tentilhões não tinha tido tempo de murchar.
Até onde me lembro, eu sempre causei uma péssima primeira impressão. Como naquela vez em Montana em que o que eu estava tentando fazer era só tirar as meias de Kent Shreve para a gente ficar descalço, mas elas estavam presas às ceroulas dele. Mas o que eu queria falar mesmo é da escola St. Joseph’s. Sabe, os psiquiatras (por favor, não me entenda mal, eu não sou obcecada por psiquiatras nem nada disso)… é só que tenho a impressão de que os psiquiatras se concentram demais na cena primária e na privação pré-edipiana e ignoram o trauma da escola e das outras crianças, que são cruéis, secas, impiedosas.
Não vou nem mencionar o que aconteceu na Vilas, a primeira escola que frequentei em El Paso. Um grande mal-entendido do início ao fim. Então, dois meses depois de iniciado o ano letivo, na terceira série, lá estava eu no pátio em frente à St. Joseph’s. Minha nova escola. Absolutamente apavorada. Eu tinha pensado que usar uniforme fosse ajudar. Só que o problema era o trambolho que eu tinha nas costas, um colete de metal para corrigir o que chamavam de curvatura, mas que era, vamos encarar os fatos, uma corcunda. Então, eu tive que comprar uma blusa branca e uma saia xadrez de um tamanho muito maior do que o meu para poder vesti-las por cima do colete, e claro que nem passou pela cabeça da minha mãe fazer pelo menos uma bainha na saia.
Outro grande mal-entendido. Meses mais tarde, a irmã Mercedes estava encarregada de monitorar o hall. Ela era aquele tipo de freira jovem e doce que devia ter tido um caso amoroso trágico. Ele provavelmente tinha morrido na guerra, num avião bombardeiro. Quando estávamos passando por ela em fila, duas a duas, ela pôs a mão na minha corcunda e disse baixinho: “Minha querida, você tem uma cruz para carregar”. Ora, como ela poderia saber que eu tinha me transformado numa fanática religiosa àquela altura, que aquelas suas palavras inocentes só iriam confirmar a minha suspeita de estar predestinada a me unir ao Nosso Salvador?
(Ah, e as mães. Outro dia mesmo, no ônibus, uma mãe entrou com o filho pequeno. Ela obviamente trabalhava fora, tinha acabado de pegar o filho na escola maternal, estava cansada, mas feliz de vê-lo, e perguntou como tinha sido o dia dele. O menino contou a ela todas as coisas que ele havia feito. “Você é tão especial!”, ela disse e o abraçou. “Especial quer dizer que eu sou retardado!”, disse o menino. Lágrimas enormes brotaram de seus olhos e ele ficou lá sentado, com uma expressão de pânico no rosto, enquanto a mãe continuava sorrindo exatamente como eu no episódio dos passarinhos.)
Aquele dia no pátio eu tive a certeza de que nunca na vida ia conseguir me enturmar. Não falo da coisa de se adequar, mas de se enturmar. Num canto do pátio, duas meninas giravam uma corda grossa e pesada e, uma a uma, lindas meninas de bochechas rosadas saíam da fila correndo para pular sob a corda, pulavam, pulavam e saíam de novo na hora exata, depois voltavam para a fila. Vapt, vapt, ninguém perdia uma única batida. No meio do pátio havia um balanço redondo, com um assento circular que girava vertiginosa e alegremente sem nunca parar, mas crianças risonhas saltavam para subir ou descer dele sem… não só sem cair, mas sem sequer titubear. Ao meu redor no pátio, em todo canto, havia simetria, sincronia. Duas freiras, as contas do rosário estalando em uníssono, os rostos lavados se virando para cumprimentar as crianças como se fossem um só. O jogo das pedrinhas. A bola quicando no cimento com um baque seco, as doze pedrinhas voando para o alto e agarradas todas de uma vez com o giro de um pequeno pulso. Tapa, tapa, tapa, outras meninas faziam complicadas brincadeiras de bater as mãos. Era uma vez um pequeno holandês. Tapa, tapa. Fiquei circulando, não só incapaz de me enturmar, mas aparentemente invisível, o que era um misto de bênção e maldição. Fugi para a lateral do edifício, onde ouvi ruídos e risos vindos da cozinha da escola. Foi ali que me escondi do pátio; os barulhos amistosos que vinham lá de dentro me tranquilizavam. Mas eu também não podia entrar lá. Pouco depois, no entanto, ouvi gritos e brados e uma freira dizendo “Ah, eu não consigo, eu simplesmente não consigo”, e concluí que eu poderia entrar, porque o que ela não conseguia fazer era tirar os ratos mortos das ratoeiras. “Eu faço isso”, eu disse. E as freiras ficaram tão contentes que não disseram nada sobre o fato de eu estar na cozinha, embora uma delas tenha cochichado “Protestante” para a outra.
E foi assim que começou. Além disso, elas me deram um pãozinho, quente e delicioso, com manteiga. Claro que eu tinha tomado café da manhã, mas o pãozinho era tão delicioso que eu o devorei num instante e elas me deram outro. Então, todo dia, em troca de esvaziar e rearmar duas ou três ratoeiras, eu ganhava não só pãezinhos, mas também uma medalha de são Cristóvão, que eu usava mais tarde como ficha para comprar lanche. Isso me poupava do embaraço de entrar na fila, antes de a aula começar, para trocar moedas pelas medalhas que serviam como fichas para o lanche.
Por causa das minhas costas, as freiras deixavam que eu ficasse na sala durante a aula de educação física e o recreio. Era só de manhã cedo que era difícil, porque o ônibus chegava lá antes da hora em que o portão do prédio era aberto. Eu me forçava a tentar fazer amizade, a puxar conversa com meninas da minha turma, mas era inútil. Todas elas eram católicas e se conheciam desde o jardim de infância. Eram, justiça seja feita, boas meninas, meninas normais. Eu estava adiantada na escola e, portanto, era bem mais nova do que elas. Além disso, só tinha morado em campos de mineração remotos antes da guerra. Não sabia dizer coisas como “Você gosta de estudar o Congo Belga?” ou “O que você gosta de fazer no seu tempo livre?”. Chegava perto delas de repente e disparava: “O meu tio tem um olho de vidro”. Ou “Uma vez eu encontrei um urso morto com a cara cheia de larvas”. Elas me ignoravam, davam risadinhas ou diziam “Quem mente o nariz cresce!”.
Então, durante algum tempo eu tive um lugar para ir antes das aulas. Eu me sentia útil e valorizada. Mas depois comecei a ouvir as meninas sussurrarem “bolsista carente” e “protestante” quando me viam e, passado um tempo, elas começaram a me chamar de “menina da ratoeira” e “Minnie Mouse”. Eu fingia não ligar e, além do mais, adorava a cozinha, o riso suave e os murmúrios das freiras cozinheiras, que usavam batinas rústicas, parecidas com camisolas, na cozinha.
Claro que a essa altura eu tinha decidido me tornar freira, não só porque elas nunca pareciam ficar nervosas, mas principalmente por causa das batinas pretas e das toucas brancas, que pareciam enormes flores de lis brancas e engomadas. Aposto que a Igreja católica perdeu uma porção de aspirantes a freiras quando elas começaram a se vestir como guardas femininas comuns. Então, a minha mãe resolveu fazer uma visita à escola para saber como eu estava me saindo. Elas disseram que o meu desempenho nos trabalhos de classe era excelente e o meu comportamento, perfeito. A irmã Cecilia disse que elas eram muito gratas a mim na cozinha e sempre zelavam para que eu tomasse um bom café da manhã. Minha mãe, a esnobe, com aquele seu casaco velho e xexelento que tinha uma gola de raposa xexelenta cujos olhos de conta tinham caído, ficou chocada, enojada com a história dos ratos e furiosa com a medalha de são Cristóvão, porque eu continuava a receber dinheiro para o lanche todas as manhãs e o gastava com balas quando saía da escola. Ladrazinha trapaceira. Vapt, vapt. Chocada!
Então, fim da história, e foi um grande mal-entendido de todos os lados. Ao que parece, as freiras achavam que eu fazia ponto na cozinha porque era uma pobre criancinha desamparada e faminta, e só me davam a tarefa de cuidar das ratoeiras por caridade, não porque de fato precisassem de mim. O problema é que até hoje eu não sei como a falsa impressão poderia ter sido evitada. Talvez se eu tivesse recusado o pãozinho?
Foi assim que eu acabei indo matar o tempo antes das aulas na igreja e decidi realmente virar freira, ou santa. O primeiro mistério que encontrei foi que as fileiras de velas em frente a cada uma das estátuas de Jesus, Maria e José ficavam bruxuleando e tremendo como se estivessem recebendo lufadas de vento, quando na verdade a enorme igreja estava toda muito bem fechada e nenhuma de suas portas pesadas estava aberta. Concluí, então, que o espírito de Deus nas estátuas era tão forte que fazia as chamas das velas se agitarem e sibilarem, trêmulas de sofrimento. Cada pequeno pique de luz iluminava o sangue coagulado nos pés brancos e ossudos de Jesus e fazia com que ele parecesse úmido.
No início, eu ficava bem no fundo da igreja, grogue, embriagada com o cheiro de incenso. Ajoelhava e rezava. Ajoelhar era muito doloroso, por causa do problema nas minhas costas e porque o colete se encravava na coluna. Eu tinha certeza de que isso me tornava santa e servia como penitência pelos meus pecados, mas doía demais e, por fim, acabei desistindo e passei a ficar só sentada lá, na igreja escura, até o sinal da entrada tocar. Geralmente não havia ninguém na igreja além de mim, salvo nas quintas-feiras, quando o padre Anselmo ia para o confessionário e se trancava lá. Algumas senhoras, meninas dos últimos anos do colegial e, de vez em quando, uma ou outra aluna do ginásio se dirigiam até lá, parando para se ajoelhar e fazer o sinal da cruz diante do altar, depois se ajoelhando e fazendo o sinal da cruz de novo antes de entrarem pelo outro lado do confessionário. O que me intrigava era o tempo variável que elas passavam rezando depois que saíam de lá. Eu teria dado qualquer coisa no mundo para saber o que acontecia lá dentro. Não sei ao certo quanto demorou até eu conseguir reunir coragem para entrar, com o coração martelando no peito. O interior do confessionário era muito mais bonito do que eu poderia ter imaginado. Enevoado pela mirra, uma almofada de veludo para ajoelhar, uma virgem abençoada olhando para mim lá do alto com infinita piedade e compaixão. Atrás da treliça trabalhada estava o padre Anselmo, que normalmente era um homenzinho ensimesmado. Mas ele estava em silhueta, como o homem de cartola na parede de Mamie. Poderia ser qualquer um… Tyrone Power, meu pai, Deus. Sua voz não parecia nem um pouco com a do padre Anselmo; era uma voz grave, com um leve eco. Como eu não conhecia a oração que me pediu para rezar, ele recitou os versos e eu os repeti, profundamente arrependida de vos ter ofendido. Então, ele me perguntou quais eram os meus pecados. Eu não estava mentindo. Realmente não tinha nenhum pecado para confessar. Nenhum mesmo. Fiquei muito envergonhada. Não era possível que eu não conseguisse pensar em alguma coisa. Procure bem no fundo do seu coração, minha filha… Nada. Aflita, querendo desesperadamente agradar, eu inventei um pecado. Tinha batido na cabeça da minha irmã com uma escova de cabelo. Você tem ciúme da sua irmã? Tenho, tenho sim, padre. O ciúme é um pecado, minha filha, reze para ficar livre dele. Três ave-marias. Enquanto rezava, ajoelhada, eu me dei conta de que tinha recebido uma penitência curta. Da próxima vez eu me sairia melhor. Mas não haveria próxima vez. Naquele dia, a irmã Cecilia quis conversar comigo depois da aula. O fato de ela ser tão gentil tornou a coisa ainda pior. Ela entendia que eu quisesse vivenciar os sacramentos e os mistérios da Igreja. Os mistérios, sim! Mas eu era protestante e não tinha sido batizada nem crismada. Podia frequentar a escola delas, e ela era grata por isso, porque eu era uma aluna estudiosa e obediente, mas não podia tomar parte na Igreja delas. Tinha que ficar no pátio com as outras crianças.
Um pensamento terrível me passou pela cabeça e eu tirei quatro santinhos de dentro do bolso. Toda vez que a gente tirava nota máxima em leitura ou aritmética, ganhava uma estrela. Nas sextas-feiras, a aluna que tivesse mais estrelas recebia um santinho, que era parecido com um card de beisebol, só que na auréola tinha purpurina. “Eu posso ficar com os meus santinhos?”, perguntei a ela, com o coração apertado.
Claro que pode. E eu espero que você ganhe vários outros.” Ela sorriu para mim e me fez outro favor. “Você ainda pode rezar, minha querida, pedindo que Deus a guie. Vamos rezar uma ave-maria juntas.” Eu fechei os olhos e rezei com fervor para Nossa Senhora, que para mim sempre vai ter o rosto da irmã Cecilia.
Sempre que uma sirene soava lá fora, na rua, perto ou longe, a irmã Cecilia nos fazia parar o que quer que estivéssemos fazendo, deitar a cabeça nas nossas mesas e rezar uma ave-maria. Eu ainda faço isso. Rezar uma ave-maria, quero dizer. Bem, às vezes eu também deito a cabeça em mesas de madeira, para ouvi-las, porque elas de fato produzem sons, como galhos ao vento, como se ainda fossem árvores. Várias coisas andavam me intrigando muito naquela época, como o que dava vida às velas ou de onde exatamente vinha o som das mesas de madeira. Se tudo o que existe no mundo de Deus tem alma, até as mesas, já que elas têm uma voz, então deve existir um céu. Eu não podia ir para o céu, porque era protestante. Ia ter que ir para o limbo. Eu preferia ir para o inferno a ir para o limbo. Que palavra feia, limbo. Parece lombo, molambo. Um lugar sem dignidade nenhuma.
Eu disse à minha mãe que queria virar católica. Ela e meu avô tiveram um ataque. Ele queria me botar de volta na escola Vilas, mas minha mãe disse que não, que lá era cheio de mexicanos e de delinquentes juvenis. Eu disse a ela que havia muitas alunas mexicanas na St. Joseph’s, mas ela disse que elas eram de boas famílias. A gente era uma boa família? Eu não sabia. Uma coisa que eu ainda faço até hoje é espiar pelas janelas o interior de salas onde famílias estão reunidas e ficar pensando o que será que aquelas pessoas fazem, como será que elas falam umas com as outras.
Uma tarde, a irmã Cecilia e outra freira foram até a nossa casa. Eu não sei por que elas foram lá e elas não tiveram a chance de dizer. Estava tudo uma bagunça. A minha mãe chorando e Mamie, a minha avó, também. Vovô estava bêbado e avançou para cima delas, chamando-as de bruxas. No dia seguinte eu estava com medo de que a irmã Cecilia tivesse ficado zangada comigo e não me dissesse mais “Até logo, minha querida” quando me deixasse sozinha na sala durante o recreio. Mas, antes de sair, ela me deu um livro chamado Understood Betsy e disse que achava que eu ia gostar. Foi o primeiro livro de verdade que eu li, o primeiro livro pelo qual me apaixonei.
Ela elogiava os meus trabalhos na escola e comentava com as outras alunas sempre que eu recebia uma estrela ou ganhava um santinho às sextas-feiras. Eu fazia tudo para agradar-lhe, escrevia A.M.D.G.* com letras cuidadosamente desenhadas no alto de todos os trabalhos, corria para apagar o quadro-negro. A minha voz era a mais alta quando rezávamos, a minha mão era a primeira a se erguer quando ela fazia uma pergunta. Ela continuou a me dar livros para ler e, uma vez, me deu um marcador de livro de papel que dizia “Rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte”. Eu mostrei o marcador para Melissa Barnes na cafeteria. Tinha posto na cabeça, tolamente, que, já que a irmã Cecilia gostava de mim, as meninas também passariam a gostar. Mas agora, em vez de rir de mim, elas me odiavam. Quando eu me levantava para responder a alguma pergunta na aula, elas sussurravam queridinha, queridinha, queridinha. Se a irmã Cecilia me escolhia para recolher as moedas e distribuir as medalhas para comprar lanche, cada uma das meninas sussurrava queridinha quando recebia a medalha de mim.
Então um dia, sem mais nem menos, a minha mãe ficou furiosa comigo porque o meu pai escrevia mais para mim do que para ela. É porque eu escrevo mais para ele. Não, é porque você é a queridinha dele. Um dia, eu cheguei tarde em casa. Tinha perdido o ônibus que passava na praça. Minha mãe apareceu no alto da escada, segurando uma carta aérea azul do meu pai numa das mãos. Com a outra, ela acendeu um fósforo na unha do polegar e queimou a carta enquanto eu corria escada acima. Aquilo sempre me assustava. Quando era pequena, eu não via o fósforo e achava que ela acendia os cigarros dela com um polegar em chamas.
Parei de falar. Não disse: agora, eu não vou mais falar. Simplesmente fui parando aos poucos e, quando sirenes passavam, eu deitava a cabeça na mesa e sussurrava a oração para mim mesma. Quando a irmã Cecilia me chamava, eu sacudia a cabeça e me sentava de novo. Parei de ganhar estrelas e santinhos. Mas já era tarde demais. Agora elas me chamavam de burralda. Um dia, a irmã Cecilia ficou na sala depois que a turma saiu para a aula de educação física. “O que há com você, minha querida? Eu posso ajudar? Por favor, fale comigo.” Eu trinquei os dentes e me recusei a olhar para ela. Ela saiu e eu fiquei lá sentada, na penumbra quente da sala de aula. Ela voltou mais tarde, com um exemplar de Beleza negra, que pousou na minha mesa. “Esse livro é maravilhoso, só que muito triste. Diga para mim, você está triste com alguma coisa?”
Eu fugi dela e do livro e corri para o pequeno vestiário de guardar casacos. Claro que não havia casaco nenhum lá, já que no Texas faz muito calor, mas sim caixas cheias de livros didáticos empoeirados, enfeites de Páscoa, enfeites de Natal. A irmã Cecilia entrou no vestiário minúsculo atrás de mim. Ela me fez virar de frente para ela e ajoelhar. “Vamos rezar”, disse.
Ave Maria, cheia de graça, o senhor é convosco. Bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus… Os olhos dela estavam cheios de lágrimas. Eu não consegui suportar a ternura que havia neles e me desvencilhei dela, derrubando-a sem querer no chão. A touca ficou presa num gancho de casaco e foi arrancada. Ela não tinha a cabeça raspada como as meninas diziam. Ela gritou e saiu de lá correndo.
Fui mandada para casa naquele dia mesmo, expulsa da Saint Joseph’s por agredir uma freira. Não sei como ela pode ter achado que eu seria capaz de bater nela. Não tinha sido nada disso.
______________________
Nota: *Ad maiorem Dei gloriam (“para maior glória de Deus”), lema dos jesuítas. (N. T.)

Lucia Berlin, em Manual da faxineira: Contos escolhidos

quinta-feira, 12 de março de 2026

Guilherme Arantes | Libido da Alma

 

Onde paira a canção recomeçada

Onde paira a canção recomeçada
No capitel de acanto de teu lar?
Onde prossegue a dança terminada
Nas lajes de meu tempo de chorar?
Rapaz, em minhas mãos cheias de areia
Conto os astros que faltam no horizonte
Da praia soluçante onde passeia
A espuma de teu fim, pranto sem fonte.
Oh juventude, um pálio de inocência
Jamais se estenderá sobre outra aurora
Mais clara que esta clara adolescência
Que o lupanar da noite hoje devora:
Que vale o lenço impuro da elegia
Sobre teu rosto, lúcida alegria?

Mário Faustino, em O homem e sua hora

Sentir-se útil

Exatamente quando eu atravessava uma fase de involuntária meditação sobre a inutilidade de minha pessoa, recebi uma carta assinada, mas só darei as iniciais: “Cada vez que me encontro com a beleza de suas contribuições literárias, vejo ainda mais fortalecida minha intensa capacidade de amar, de me dar aos outros, de existir para meu marido.” Assinada H. M.
Não fiquei contente por você, H. M., falar na beleza de minhas contribuições literárias. Primeiro porque a palavra beleza soa como enfeite, e nunca me senti tão despojada da palavra beleza. A expressão “contribuições literárias” também não adorei, porque exatamente ando numa fase em que a palavra literatura me eriça o pelo como o de um gato. Mas, H. M., como você me fez sentir útil ao dizer-me que sua capacidade intensa de amar ainda se fortaleceu mais. Então eu dei isso a você? Muito obrigada. Obrigada também pela adolescente que já fui e que desejava ser útil às pessoas, ao Brasil, à humanidade, e nem se encabulava de usar para si mesma palavras tão imponentes.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

1616 – Potosí



Retratos de uma procissão

Morro mágico de Potosí: nestes altos páramos inimigos, que só ofereciam solidão e frio, fez brotar a cidade mais povoada do mundo.
Altas cruzes de prata encabeçam a procissão, que avança entre duas fileiras de estandartes e de espadas. Sobre as ruas de prata, ferraduras de prata; soam os cavalos luxuosos de veludo e bridões cobertos de pérolas. Para confirmação dos que mandam e consolo dos que servem, a prata desfila, fulgurante, pisa forte, sabedora de que não há espaço da terra ou do céu que não possa comprar.
Vestiu-se de festa a cidade; os balcões brilham de brasões e flâmulas; de um mar de farfalhantes sedas, espumas de bordados e cataratas de pérolas, as senhoras admiram a cavalgada que avança com estrépito de trombetas, pífaros e atabaques. Uns quantos cavaleiros levam vendas negras em um dos olhos e protuberâncias e chagas na testa, que não são marcas da guerra e sim da sífilis; mas voando vão e vêm, dos balcões à rua, da rua aos balcões, os beijos e os gracejos.
Abrem caminho, mascarados, o Interesse e a Cobiça Canta a Cobiça, máscara de cobras, enquanto o cavalo faz cabriolas:

Dizem que sou dos males a raiz
mas meu troféu é
a ninguém deixar feliz.

E responde o Interesse, calças negras, gibão negro bordado de ouro, máscara negra sob o negro chapéu cheio de plumas:

Se eu venci o amor
e o amor vence a morte
sou de todos o mais forte.

Encabeça o bispo um lento e longo exército de padres e encapuçados nazarenos armados de altos círios e candelabros de prata, até que o ruído da trombeta dos heraldos se impõe sobre o repicar dos sininhos anunciando a Virgem de Guadalupe, Luz dos que esperam Espelho de justiça, Refúgio de pecadores, Consolo dos aflitos, Palma verde, Vara florescida, Pedra refulgente. Ela chega em ondas de ouro e madrepérola, nos braços de cinquenta índios; afogada por muitas joias, assiste com olhos de assombro o bulício dos querubins de asas de prata e o espetacular movimento de seus adoradores. No branco corcel irrompe o Cavaleiro da Ardente Espada, seguido por um batalhão de pajens e lacaios de librés brancas. O Cavaleiro atira longe o seu chapéu e canta à Virgem:

Em minha dama, embora morena
tal formosura se encerra
que suspende céu e terra.

Lacaios e pajens de libré roxa correm atrás do Cavaleiro do Amor Divino, que vem trotando, ginete romano, ao vento das longas casacas de seda arroxeada: frente à Virgem cai de joelhos e humilha a testa coroada de louro, mas quando incha o peito para cantar as rimas, explode uma fuzilaria de fumaça de enxofre. Invadiu a rua o carro dos Demônios, e ninguém presta a menor atenção ao Cavaleiro do Amor Divino.
O príncipe Tartáreo, adorador de Maomé, abre suas asas de morcego, e a princesa Proserpina, cabeleira e cauda de serpentes, lança do alto blasfêmias e gargalhadas que a corte dos diabos celebra. Em alguma parte soa de repente o nome de Jesus Cristo e o carro do Inferno arrebenta-se em uma explosão descomunal. O príncipe Tartáreo e a princesa Proserpina atravessam de um salto a fumaça e as chamas e rodam, prisioneiros, aos pés da Mãe de Deus.
Cobre-se a rua de anjinhos, auréolas e asas de prata cintilante, e alegram o ar o som de violões e guitarras, cítaras e flautins. Os músicos, vestidos de donzelas, festejam a chegada da Misericórdia, da Justiça, da Paz e da Verdade, quatro airosas filhas de Potosí erguidas sobre poltronas de prata e veludo. Têm cabeça e peito de índio os cavalos que puxam a carruagem.
E chega então, atropelando, a Serpente. Sobre mil pernas de índios se desliza o imenso réptil, aberta a boca flamejante, metendo medo e fogo na romaria, e aos pés da Virgem desafia e combate. Quando os soldados cortam-lhe a cabeça a golpes de machado e espada, das entranhas da Serpente emerge, com seu orgulho feito pedaços, o Inca. Arrastando suas assombrosas vestes, o filho do Sol cai de joelhos frente à Divina Luz. Exibe a Virgem manto de ouro, rubis e pérolas grandes como grãos-de-bico, e mais que nunca brilha, acima de seus olhos atônitos, a cruz de ouro da coroa imperial.
Depois, a multidão. Artesãos de todos os ofícios e malandros e mendigos capazes de arrancar lágrimas de um olho de vidro: os mestiços, filhos da violência, nem servos nem senhores, caminham a pé. Proíbe a lei que tenham cavalos ou armas, como proíbe aos mulatos o uso do guarda-sol, para que ninguém dissimule o estigma que mancha o sangue até a sexta geração. Com os mestiços e os mulatos vêm os quarterões e os cafusos e todos os misturados, as mil cores dos filhos do caçador e sua presa.
Atrás, fecha a procissão uma multidão de índios carregados de frutas e flores e travessas de comida fumegante. Frente à Virgem imploram os índios perdão e consolo.
Mais longe, alguns negros varrem o lixo deixado por todos os outros.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

A religião dos outros

Sério, gente, vocês têm que parar de rir da religião dos outros. A fé das pessoas é uma coisa sagrada. Não, macumba é diferente. Vocês têm que fazer um vídeo sobre macumba.
Macumba não é religião, macumba é magia negra. Macumba, umbanda, candomblé, vudu, tudo a mesma coisa de preto velho. Misifi põe uma galinha preta na encruzilhada que eu trago a pessoa amada em três dias.
Por favor, faz um vídeo sobre isso. Desculpa, gente, mas é que macumba é muito engraçado. Espiritismo também é uma piada pronta. Sabe o que vocês podem dizer? Que quem conversa com gente morta é esquizofrênico e tem que ser internado.
Budismo não é religião, é moda. Tem seis gatos pingados no Tibete e o resto é tudo socialite e ator em início de carreira. Fora que aqueles monges são muito gordos pra quem é vegetariano. Aposto que quando ninguém tá olhando eles comem uma bela de uma picanha.
Mas pelo menos eles não pintam a cara igual hare krishna. Aquilo não é religião, aquilo é pretexto pra não tomar banho. Vocês não entenderam: quando eu digo religião, eu tô falando das religiões sérias.
Não, islamismo já é sério demais. Aí tem que zoar. Aquelas mulheres de burca parecem um apicultor. E os terroristas que acham que vão se encontrar com trinta virgens? Isso dava um vídeo. Quando eu digo religião, eu tô falando das religiões da Bíblia.
Não, judeu pode zoar também, claro. Judeu por acaso lê Bíblia? Estranho, foram eles que mataram Jesus. Vocês têm que rir daquele bando de mão de vaca. Por que é que não fizeram nenhum vídeo de judeu? Tem que fazer.
Eu tô falando da Bíblia de verdade, completa, sem cortes. A escritura sagrada, que fala da vinda do Deus vivo à Terra.
Acho que é isso: quando eu digo religião, eu tô falando das religiões que envolvem Jesus. Não, não tô falando do Inri Cristo. Gente, eu tô falando sério. Quando eu digo religião, eu tô falando das religiões que envolvem Jesus, Maria, José, as que têm multidões de fiéis.
Tem que rir das religiões menores, as religiões de preto, de judeu. Não tem graça rir da fé da maioria do povo brasileiro. Acho que é isso: quando eu digo religião, eu tô falando da religião da maioria. Aí é que perde a graça.
Sim, por acaso essa é a minha religião. Tá bom. Quando eu digo que não pode brincar com religião, eu tô falando da minha religião. A minha religião não tem a menor graça.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

Uma receita de uma pessoa viver



[…]

Por curto! minto, se não conto que estava duvidoso. E o senhor sabe no que era que eu estava imaginando, em quem. Ele é? Ele pode? Ainda hoje eu conheço tormentos por saber isso; trastempo que agora, quando as idades me sossegam. E o demo existe? Só se existe o estilo dele, solto, sem um ente próprio ― feito remanchas nágua. A saúde da gente entra no perigo daquilo, feito num calor, num frio. Eu, então? Ao que fui, na encruzilhada, à meia-noite, nas Veredas Mortas. Atravessei meus fantasmas? Assim mais eu pensei, esse sistema, assim eu menos penso. O que era para haver, se houvesse, mas que não houve! esse negócio. Se pois o Cujo nem não me apareceu, quando esperei, chamei por ele? Vendi minha alma algum? Vendi minha alma a quem não existe? Não será o pior?... Ah, não! não declaro. Desgarrei da estrada, mas retomei meus passos. O senhor segurado não acha? Ao que tropecei, e o chão não quis minha queda. De hoje em dia, eu penso, eu purgo. Eu tive pena de minhas velhas roupas. E rezo. Para a minha reza, Deus dá as costas, mas abaixa meio ouvido. Rezo. Queria ver ainda uma igreja grande, brancas torres, reinando de alto sino, no estado do Chapadão. Como que algum santo ainda não há de vir, das beiras deste meu Urucúia? E o diabo não há! Nenhum. E o que tanto digo. Eu não vendi minha alma. Não assinei finco. Diadorim não sabia de nada. Diadorim só desconfiava de meus mesmos ares. Escuto o claro riso dele, que era raramente; quer dizer: me alembro. Compadre meu Quelemém me dá conselhos, de tranquilidade. O que ele renova é: ― ...Em presente e futuros... Eu sei.
Sempre sei, realmente. Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma só coisa ― a inteira ― cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver ― e essa pauta cada um tem ― mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que é. E que: para cada dia, e cada hora, só uma ação possível da gente é que consegue ser a certa. Aquilo está no encoberto; mas, fora dessa consequência, tudo o que eu fizer, o que o senhor fizer, o que o beltrano fizer, o que todo-o-mundo fizer, ou deixar de fazer, fica sendo falso, e é o errado. Ah, porque aquela outra é a lei, escondida e vivível mas não achável, do verdadeiro viver: que para cada pessoa, sua continuação, já foi projetada, como o que se põe, em teatro, para cada representador ― sua parte, que antes já foi inventada, num papel...
Ora, veja. Remedêio peco com pecado? Me tôrço! Com essa sonhação minha, compadre meu Quelemém concorda, eu acho. E procurar encontrar aquele caminho certo, eu quis, forcejei; só que fui demais, ou que cacei errado. Miséria em minha mão. Mas minha alma tem de ser de Deus! se não, como é que ela podia ser minha? O senhor reza comigo. A qualquer oração. Olhe! tudo o que não é oração, é maluqueira... Então, não sei se vendi? Digo ao senhor! meu medo é esse. Todos não vendem? Digo ao senhor! o diabo não existe, não há, e a ele eu vendi a alma... Meu medo é este. A quem vendi? Medo meu é este, meu senhor! então, a alma, a gente vende, só, é sem nenhum comprador...
Divulgo o meu. Essas coisas que pensei assim; mas pensei abreviado. O que era como eu tivesse de furtar uma folga nos centros de minha confusão, por amor de ter algum claro juízo ― espaço de três credos. E o resto já vinha. O senhor verá, pois.
Porém mais além.
Na serra do Tatú, o frio ali é tal, que, em madrugadas, a gente necessita de uns três cobertores. Na Serra dos Confins, meados de julho, lá já está sovertendo o laçaço dos ventos, desencontrados, de agosto; como que venta! árvores caídas. Aonde eu ia, todos achavam natural. Chefe é chefe. Será que eles não sabiam que eu não sabia aonde ia? Isto é ― digo ― isto é. Não soubessem os começos e os finais. Dalgum modo, eu estava indo e sabendo. Sobre como é que a coruja conseguiu modo de poder voar sem se escutar o rumor do voo? Ao que eu estava sofismado. Menos que não guardei raiva de Diadorim, nem sentimentos. O desar que ele tinha falado e feito, aquela ruim conversa nossa, não deixou nem nublo! melhor fugiu, de todo, de minha lembrança.
O palpite meu, primeiro, era de chegar até na Serra do Meio ― cruzar na Cachoeira-do-Urucúia. Daí, desisti. De repente, torci direto para o norte; foi no Lagamar, a travessia. Mas, fujo de dizer: que, antes, no Lugar-do-Touro, se arrecadou a exata munição. Ainda antes se dando, dias, que a gente tinha recebido uma boa surpresa. O Quipes!
Assim o Quipes, que retornava, depois de tantos meses. De desde que tinha cumprido a ordem de sair por travesso socórro, de lá ondonde estávamos cercados em combates, na Fazenda dos Tucanos ― o senhor se alembrará. Ele vinha certo e alegre. E, de ver um companheiro assim se aparecer, de ausências, a gente ganhava mais mocidade.
Lampeiro, o Quipes entrado em boas roupas, montado num bom cavalo amarelo, pitando maço de cigarros de fábrica; rico feito um Mascarenhas. Arte que puxava um burro e uma burra, adestros, e tinha comprado coisas: até trempe e caçarolas, e açúcar real e chocolate em pó. Ao fagueiro, pujante, mesmo.
Ara, veja, como passou? E dond é que soube de nós? ― eu em atiço perguntei.
Ao que pois, Tatarana: em faltas de notícia, formei meu pião por aí... Já estive em Ingazeiras, na Barra-da-Vaca, no Oi-Mãe, em Morrinhos... O Urucúia não é o meio do mundo? ― assim ele se temperou.
O que não era toda a verdade. O que ele estava era recém-chegando. E me tratou de Tatarana... O seja que tivesse vivido esses tempos tangendo urubú, adformas que vinha agora na ignorância de que eu é que era o Chefe. Indagou por Zé Bebelo; e pois de Zé Bebelo mesmo ele tudo não sabia. Nem o parar do Hermógenes. Nem não tinha nenhum sinal do Joaquim Beijú, assim como aviso de outas novidades do mundo não deu. Só, por terminar, se gabou de ter tido duas ofertas: para servir de jagunço de Dona Adelaide, no Capão Redondo, e do Coronel Rotílio Manduca ― em sua Fazenda Baluarte.
Ah, entrei, gozando de minha pessoa de paz, até nas cidades de Januária e São-Francisco... ― ainda proseou. Devia de ser verdade. Assim como verdade completa que, a burra e o burro, e a tralha, ou o dinheiro para tudo adquirir, ele devia de ter roubado tomado em terra de riquezas. Tal que disse! ― Isto eu bem comprei, na venda do José Vassalo... Desajuizado gastador, esse o Quipes.

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

quarta-feira, 11 de março de 2026

Pedro Emílio | O Novo Sempre Vem

Oração

Horizontina é gorda,
mas é com desvelo que seus pais a amam,
eles que só compram livros didáticos:
Já tomou seu leite, filhinha?’
De que vale pagar o dízimo da menta e da arruda
se meu coração não se desdobra?
Já vi um homem sofrido ficar feliz de repente
e puxar uma fumaça no pito
como se visse no céu as trombetas da parusia,
ele que não sabe dos místicos:
nem todo o que diz Senhor, Senhor,
entrará no Reino”.
Eu Vos peço perdão
por ter amado mal.

Adélia Prado, em O Coração Disparado

O impagável Laerte

Dor e esperança

Temos uma capacidade quase infinita de suportar a dor, desde que haja esperança. Diz­-se que a esperança é a última que morre. Mas o certo seria dizer: a penúltima. Há uma morte que acontece antes da morte. Quando se conclui que não há mais razões para viver. Quando ­morrem as razões para viver, entram em cena as razões para morrer.

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

Regras



Nos grandes banquetes de antigamente, no tempo em que um bom jantar durava toda a noite e um equívoco no suflê poderia custar a cabeça do chef — ou, pior, a sua reputação —, costumava-se comer um sorbet de frutas entre um prato e outro. Sorbet, no caso, não é sorvete, é quase só gelo picado e aromatizado. Segundo a tradição, um sorbet de sabor pungente limpava o paladar, apagava o gosto do prato anterior e preparava os corpúsculos da língua para a delícia a seguir. Este hábito deixou de ser hábito, desconfio, não apenas porque hoje ninguém mais tem tempo ou disposição para frescura mas também porque não devia funcionar. Seria mais uma das tantas regras da mesa que permanecem mais para honrar a etiqueta do que por qualquer lógica.
Coisa parecida acontece, até hoje, com os vinhos. Não se discute que certo tipo de comida “pede” certo tipo de vinho, e que não é só porque as cores se combinam que se deva pedir vinho branco para acompanhar a carne branca. Mas estas regras de acompanhamento também não estão gravadas em pedra e podem ser infringidas sem perigo de retribuição divina. O maître talvez faça um sorriso de desdém, mas isto não é mortal. Eu sempre achei que o vinho deve ser pedido de acordo com a nossa disposição do momento, a temperatura do lugar, o estado da alma — ou do sistema gástrico — e só em último lugar a cor ou a textura do prato que ele vai acompanhar.
Contam a história daquele famoso navegador solitário inglês (cujo nome, como de costume, me escapa) que, antes de ir para bordo do seu pequeno veleiro para uma volta ao mundo, consultava informes meteorológicos, examinava a sua provável rota no mapa, olhava para o céu, cheirava o vento e finalmente decidia: “Esta é uma viagem de gim.” Ou “uma viagem de scotch, talvez com um pouco de cerveja preta”. E estocava o seu barco de acordo com a previsão.
Da mesma maneira, você deve decidir, antes mesmo de consultar o cardápio: “esta é uma mesa de brancos” ou “é uma noite para clarete” ou “champanha para todo mundo e o que sobrar de pé paga a conta”. Venha depois a comida que vier. Claro, você não vai pedir um branco doce para beber com o steak au poivre, mas não porque seja proibido. Porque é ruim.
Uma vez o escritor americano Herman Mackienwicz foi convidado para jantar na casa de um produtor de cinema em Hollywood famoso pelo seu esnobismo. Para o produtor, as regras da mesa eram sagradas. Mackienwicz já chegou ao jantar bêbado, continuou bebendo vinho durante a refeição e, um pouco antes da sobremesa, vomitou espetacularmente em cima da mesa. Diante do escândalo geral, o escritor virou-se para o seu anfitrião e o acalmou: “Não se preocupe, meu caro. O vinho branco voltou junto com o peixe...”
Ninguém jamais disse coisa tão definitiva sobre a etiqueta.

Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora

Diário de Bernardo Soares – 96

Vejo as paisagens sonhadas com a mesma clareza com que fito as reais. Se me debruço sobre os meus sonhos é sobre qualquer coisa que me debruço.
Se vejo a vida passar, sonho qualquer coisa.
De alguém disse que para ele as figuras dos sonhos tinham o mesmo relevo e recorte que as figuras da vida. Para mim, embora compreendesse que se me aplicasse frase semelhante, não a aceitaria. As figuras dos sonhos não são para mim iguais às da vida. São paralelas. Cada vida — a dos sonhos e a do mundo — tem uma realidade igual e própria, mas diferente. Como as coisas próximas e as coisas remotas. As figuras dos sonhos estão mais próximas de mim, mas…

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

A origem do jogo de xadrez





Difícil será descobrir, dada a incerteza dos documentos antigos, a época precisa em que viveu e reinou na Índia um príncipe chamado Iadava, senhor da província da Taligana. Seria, porém, injusto ocultar que o nome desse monarca vem sendo apontado por vários historiadores hindus como dos soberanos mais ricos e generosos de seu tempo.
A guerra, com o cortejo fatal de suas calamidades, muito amargou a existência do rei Iadava, transmutando-lhe o ócio e gozo da realeza nas mais inquietantes atribulações. Adstrito ao dever, que lhe impunha a coroa, de zelar pela tranquilidade de seus súditos, viu-se o nosso bom e generoso monarca forçado a empunhar a espada para repelir, à frente de pequeno exército, um ataque insólito e brutal do aventureiro Varangul, que se dizia príncipe de Caliã.
O choque violento das forças rivais juncou de mortos os campos de Dacsina e tingiu de sangue as águas sagradas do Rio Sandhu. O rei Iadava possuía — pelo que nos revela a crítica dos historiadores — invulgar talento para a arte militar; sereno em face da invasão iminente, elaborou um plano de batalha, e tão hábil e feliz foi em executá-lo, que logrou vencer e aniquilar por completo os pérfidos perturbadores da paz do seu reino.
O triunfo sobre os fanáticos de Varangul custou-lhe, infelizmente, pesados sacrifícios; muitos jovens quichatrias(1) pagaram com a vida a segurança de um trono para prestígio de uma dinastia; e entre os mortos, com o peito varado por uma flecha, lá ficou no campo de combate o príncipe Adjamir, filho do rei Iadava, que patrioticamente se sacrificou no mais aceso da refrega, para salvar a posição que deu aos seus a vitória final.
Terminada a cruenta campanha e assegurada a nova linha de suas fronteiras, regressou o rei ao suntuoso palácio de Andra, baixando, porém, formal proibição de que se realizassem as ruidosas manifestações com que os hindus soíam festejar os grandes feitos guerreiros. Encerrado em seus aposentos, só aparecia para atender aos ministros e sábios brâmanes quando algum grave problema nacional o chamava a decidir, como chefe de Estado, no interesse e para felicidade de seus súditos.
Com o andar dos dias, longe de se apagarem as lembranças da penosa cam mais se agravaram a angústia e a tristeza que, desde então, oprimiam o coração do rei. De que lhe poderiam servir, na verdade, os ricos palácios, os elefantes de guerra, os tesouros imensos, se já não mais vivia a seu lado aquele que fora sempre a razão de ser de sua existência? Que valor poderiam ter, aos olhos de um pai inconsolável, as riquezas materiais que não apagam nunca a saudade do filho estremecido?
As peripécias da batalha em que pereceu o príncipe Adjamir não lhe saíam do pensamento. O infeliz monarca passava longas horas traçando, sobre uma grande caixa de areia, as diversas manobras executadas pelas tropas durante o assalto. Com um sulco indicava a marcha da infantaria; ao lado, paralelo ao primeiro, outro traço mostrava o avanço dos elefantes de guerra; um pouco mais abaixo, representada por pequenos círculos dispostos em simetria, perfilava a destemida cavalaria chefiada por um velho radj(2) que se dizia sob a proteção de Techandra, a deusa da Lua. Ainda por meio de gráficos esboçava o rei a posição das colunas inimigas desvantajosamente colocadas, graças à sua estratégia, no campo em que se feriu a batalha decisiva.
Uma vez completado o quadro dos combatentes, com as minudências que pudera evocar, o rei tudo apagava, para recomeçar novamente, como se sentisse íntimo gozo em reviver os momentos passados na angústia e na ansiedade.
À hora matinal em que chegavam ao palácio os velhos brâmanes para a leitura dos Vedas(3), já o rei era visto a riscar na areia os planos de uma batalha que se reproduzia interminavelmente.
Infeliz monarca! — murmuravam os sacerdotes penalizados. — Procede como um sudra(4) a quem Deus privou da luz da razão. Só Dhanoutara(5), poderosa e clemente, poderá salvá-lo!
E os brâmanes erguiam preces, queimavam raízes aromáticas, implorando à eterna zeladora dos enfermos que amparasse o soberano de Taligana.
Um dia, afinal, foi o rei informado de que um moço brâmane — pobre e modesto — solicitava uma audiência que vinha pleiteando havia já algum tempo. Como estivesse, no momento, com boa disposição de ânimo, mandou o rei que trouxessem o desconhecido à sua presença.
Conduzido à grande sala do trono, foi o brâmane interpelado, conforme as exigências da praxe, por um dos vizires do rei.
Quem és, de onde vens e que desejas daquele que, pela vontade de Vichnu(6), é rei e senhor de Taligana?
Meu nome — respondeu o jovem brâmane — é Lahur Sessa(7) e venho da aldeia de Namir, que trinta dias de marcha separam desta bela cidade. Ao recanto em que eu vivia chegou a notícia de que o nosso bondoso rei arrastava os dias em meio de profunda tristeza, amargurado pela ausência de um filho que a guerra viera roubar-lhe. Grande mal será para o país, pensei, se o nosso dedicado soberano se enclausurar, como um brâmane cego, dentro de sua própria dor. Deliberei, pois, inventar um jogo que pudesse distraí-lo e abrir em seu coração as portas de novas alegrias. É esse o desvalioso presente que desejo neste momento oferecer ao nosso rei Iadava.
Como todos os grandes príncipes citados nesta ou naquela página da História, tinha o soberano hindu o grave defeito de ser excessivamente curioso. Quando o informaram da prenda de que o moço brâmane era portador, não pôde conter o desejo de vê-la e apreciá-la sem mais demora.
O que Sessa trazia ao rei Iadava consistia num grande tabuleiro quadrado, dividido em sessenta e quatro quadradinhos, ou casas, iguais; sobre esse tabuleiro colocavam-se, não arbitrariamente, duas coleções de peças que se distinguiam, uma da outra, pelas cores branca e preta, repetindo, porém, simetricamente, os engenhosos formatos e subordinados a curiosas regras que lhes permitiam movimentar-se por vários modos.
Sessa explicou pacientemente ao rei, aos vizires e cortesãos que rodeavam o monarca em que consistia o jogo, ensinando-lhes as regras essenciais:
Cada um dos partidos dispõe de oito peças pequeninas — os peões. Representam a infantaria, que ameaça avançar sobre o inimigo para desbaratá-lo. Secundando a ação dos peões vêm os elefantes de guerra(8), representados por peças maiores e mais poderosas; a cavalaria, indispensável no combate, aparece, igualmente, no jogo, simbolizada por duas peças que podem saltar, como dois corcéis, sobre as outras; e, para intensificar o ataque, incluem-se — para representar os guerreiros cheios de nobreza e prestígio — os dois vizires(9) do rei. Outra peça, dotada de amplos movimentos, mais eficiente e poderosa do que as demais, representará o espírito de nacionalidade do povo e será chamada a rainha. Completa a coleção uma peça que isolada pouco vale, mas se torna muito forte quando amparada pelas outras. É o rei.
O rei Iadava, interessado pelas regras do jogo, não se cansava de interrogar o inventor:
E por que é a rainha mais forte e mais poderosa que o próprio rei?
É mais poderosa — argumentou Sessa — porque a rainha representa, nesse jogo, o patriotismo do povo. A maior força do trono reside, principalmente, na exaltação de seus súditos. Como poderia o rei resistir ao ataque dos adversários, se não contasse com o espírito de abnegação e sacrifício daqueles que o cercam e zelam pela integridade da pátria?
Dentro de poucas horas o monarca, que aprendera com rapidez todas as regras do jogo, já conseguia derrotar os seus dignos vizires em partidas que se desenrolavam impecáveis sobre o tabuleiro.
Sessa, de quando em quando, intervinha respeitoso, para esclarecer uma dúvida ou sugerir novo plano de ataque ou de defesa.
Em dado momento, o rei fez notar, com grande surpresa, que a posição das peças, pelas combinações resultantes dos diversos lances, parecia reproduzir exatamente a batalha de Dacsina.
Reparai — ponderou o inteligente brâmane — que para conseguirdes a vitória, indispensável se torna, de vossa parte, o sacrifício deste vizir!
E indicou precisamente a peça que o rei Iadava, no desenrolar da partida — por vários motivos —, grande empenho pusera em defender e conservar.
O judicioso Sessa demonstrava, desse modo, que o sacrifício de um príncipe é, por vezes, imposto como uma fatalidade, para que dele resultem a paz e a liberdade de um povo.
Ao ouvir tais palavras, o rei Iadava, sem ocultar o entusiasmo que lhe dominava o espírito, assim falou:
Não creio que o engenho humano possa produzir maravilha comparável a este jogo interessante e instrutivo! Movendo essas tão simples peças, aprendi que um rei nada vale sem o auxílio e a dedicação constante de seus súditos. E que, às vezes, o sacrifício de um simples peão vale mais, para a vitória, do que a perda de uma poderosa peça.
E, dirigindo-se ao jovem brâmane, disse-lhe:
Quero recompensar-te, meu amigo, por este maravilhoso presente, que de tanto me serviu para alívio de velhas angústias. Dize-me, pois, o que desejas, para que eu possa, mais uma vez, demonstrar o quanto sou grato àqueles que se mostram dignos de recompensa.
As palavras com que o rei traduziu o generoso oferecimento deixaram Sessa imperturbável. Sua fisionomia serena não traía a menor agitação, a mais insignificante mostra de alegria ou surpresa. Os vizires olhavam-no atônitos e entreolhavam-se pasmados diante da apatia de uma cobiça a que se dava o direito da mais livre expansão.
Rei poderoso! — redargüiu o jovem com doçura e altivez. — Não desejo, pelo presente que hoje vos trouxe, outra recompensa além da satisfação de ter proporcionado ao senhor de Taligana um passatempo agradável que lhe vem aligeirar as horas dantes alongadas por acabrunhante melancolia. Já estou, portanto, sobejamente aquinhoado e outra qualquer paga seria excessiva.
Sorriu, desdenhosamente, o bom soberano ao ouvir aquela resposta que refletia um desinteresse tão raro entre os ambiciosos hindus. E, não crendo na sinceridade das palavras de Sessa, insistiu:
Causa-me assombro tanto desdém e desamor aos bens materiais, ó jovem! A modéstia, quando excessiva, é como o vento que apaga o archote cegando o viandante nas trevas de uma noite interminável. Para que possa o homem vencer os múltiplos obstáculos que se lhe deparam na vida, precisa ter o espírito preso às raízes de uma ambição que o impulsione a um ideal qualquer. Exijo, portanto, que escolhas, sem mais demora, uma recompensa digna de tua valiosa oferta. Queres uma bolsa cheia de ouro? Desejas uma arca repleta de joias? Já pensaste em possuir um palácio? Almejas a administração de uma província? Aguardo a tua resposta, por isso que à minha promessa está ligada a minha palavra!
Recusar o vosso oferecimento depois de vossas últimas palavras — acudiu Sessa — seria menos descortesia do que desobediência ao rei. Vou, pois, aceitar, pelo jogo que inventei, uma recompensa que corresponde à vossa generosidade; não desejo, contudo, nem ouro, nem terras ou palácios. Peço o meu pagamento em grãos de trigo.
Grãos de trigo? — estranhou o rei, sem ocultar o espanto que lhe causava semelhante proposta. — Como poderei pagar-te com tão insignificante moeda?
Nada mais simples — elucidou Sessa. — Dar-me-eis um grão de trigo pela primeira casa do tabuleiro; dois pela segunda, quatro pela terceira, oito pela quarta, e assim dobrando sucessivamente, até a sexagésima quarta e última casa do tabuleiro. Peço-vos, ó Rei, de acordo com a vossa magnânima oferta, que autorizeis o pagamento em grãos de trigo, e assim como indiquei!
Não só o rei como os vizires e venerandos brâmanes presentes riram-se, estrepitosamente, ao ouvir a estranha solicitação do jovem. A desambição que ditara aquele pedido era, na verdade, de causar assombro a quem menos apego tivesse aos lucros materiais da vida. O moço brâmane, que bem poderia obter do rei um palácio em uma província, contentava-se com grãos de trigo!
Insensato! — clamou o rei. — Onde foste aprender tão grande desamor à fortuna? A recompensa que me pedes é ridícula. Bem sabes que há, num punhado de trigo, número incontável de grãos. Devemos compreender, portanto, que com duas ou três medidas de trigo eu te pagarei folgadamente, consoante o teu pedido, pelas sessenta e quatro casas do tabuleiro. É certo, pois, que pretendes uma recompensa que mal chegará para distrair, durante alguns dias, a fome do último pária10 do meu reino. Enfim, visto que minha palavra foi dada, vou expedir ordens para que o pagamento se faça imediatamente, conforme teu desejo.
Mandou o rei chamar os algebristas mais hábeis da corte e ordenou-lhes calculassem a porção de trigo que Sessa pretendia.
Os sábios calculistas, ao cabo de algumas horas de acurados estudos, voltaram ao salão para submeter ao rei o resultado completo de seus cálculos.
Perguntou-lhes o rei, interrompendo a partida que então jogava:
Com quantos grãos de trigo poderei, afinal, desobrigar-me da promessa que fiz ao jovem Sessa?
Rei magnânimo! — declarou o mais sábio dos matemáticos. — Calculamos o número de grãos de trigo que constituirá o pagamento pedido por Sessa, e obtivemos um número(11) cuja grandeza é inconcebível para a imaginação humana. Avaliamos, em seguida, com o maior rigor, a quantas ceiras(12) corresponderia esse número total de grãos, e chegamos à seguinte conclusão: a porção de trigo que deve ser dada a Lahur Sessa equivale a uma montanha que, tendo por base a cidade de Taligana, seria cem vezes mais alta do que o Himalaia! A Índia inteira, semeados todos os seus campos, taladas todas as suas cidades, não produziria em dois mil séculos a quantidade de trigo que, pela vossa promessa, cabe, em pleno direito, ao jovem Sessa!
Como descrever aqui a surpresa e o assombro que essas palavras causaram ao rei Iadava e a seus dignos vizires? O soberano hindu via-se, pela primeira vez, diante da impossibilidade de cumprir a palavra dada.
Lahur Sessa — rezam as crônicas do tempo —, como bom súdito, não quis deixar aflito o seu soberano. Depois de declarar publicamente que abriria mão do pedido que fizera, dirigiu-se respeitosamente ao monarca e assim falou:
Meditai, ó Rei, sobre a grande verdade que os brâmanes prudentes tantas vezes repetem: os homens mais avisados iludem-se, não só diante da aparência enganadora dos números, mas também com a falsa modéstia dos ambiciosos. Infeliz daquele que toma sobre os ombros o compromisso de uma dívida cuja grandeza não pode avaliar com a tábua de cálculo de sua própria argúcia. Mais avisado é o que muito pondera e pouco promete!
E, após ligeira pausa, acrescentou:
Menos aprendemos com a ciência vã dos brâmanes do que com a experiência direta da vida e das suas lições de todo dia, a toda hora desdenhadas! O homem que mais vive mais sujeito está às inquietações morais, mesmo que não as queira. Achar-se-á ora triste, ora alegre; hoje fervoroso, amanhã tíbio; já ativo, já preguiçoso; a compostura alternará com a leviandade. Só o verdadeiro sábio, instruído nas regras espirituais, se eleva acima dessas vicissitudes, paira por sobre todas essas alternativas!
Essas inesperadas e tão sábias palavras calaram fundo no espírito do rei. Esquecido da montanha de trigo que, sem querer, prometera ao jovem brâmane, nomeou-o seu primeiro-vizir.
E Lahur Sessa, distraindo o rei com engenhosas partidas de xadrez e orientando-o com sábios e prudentes conselhos, prestou os mais assinalados benefícios ao povo e ao país, para maior segurança do trono e maior glória de sua pátria.
Encantado ficou o califa Al-Motacém quando Beremiz concluiu a história singular do jogo de xadrez. Chamou o chefe de seus escribas e determinou que a lenda de Sessa fosse escrita em folhas especiais de algodão e conservada em valioso cofre de prata.
E, a seguir, o generoso soberano deliberou se entregasse ao calculista um manto de honra e 100 cequins de ouro.
Bem disse o filósofo:
Deus fala ao mundo pelas mãos dos generosos(13)!
A todos causou grande alegria o ato de magnanimidade do soberano de Bagdá. Os cortesãos que permaneciam no divã eram amigos do vizir Maluf e do poeta Iezid: era, pois, com simpatia que ouviam as palavras do calculista persa, por quem muito se interessavam.
Beremiz, depois de agradecer ao soberano os presentes com que acabava de ser distinguido, retirou-se do divã. O califa ia iniciar o estudo e julgamento de diversos casos, ouvir os honrados cádis(14) e proferir suas sábias sentenças.
Deixamos o palácio real ao cair da noite. Ia começar o mês de Chá-band(15).

NOTAS
(1) Militares, uma das quatro castas em que se divide o povo hindu. As demais são formadas pelos brâmanes (sacerdotes), vairkas (operários) e sudras (escravos).
(2) Chefe militar.
(3) Livro sagrado dos hindus.
(4) Escravo.
(5) Deusa.
(6) Segundo membro da trindade bramânica.
(7) Nome do inventor do jogo de xadrez. Significa “natural de Lahur”.
(8) Os elefantes foram mais tarde substituídos pelas torres.
(9) Os vizires são as peças chamadas bispos. A rainha não tinha, a princípio, movimentos tão amplos.
(10) Indivíduo pertencente a uma das castas mais ínfimas da costa de Coromandel. Corresponde, na escala social, à casta dos poleás. Na Europa emprega-se o termo no sentido de “homem expulso de sua casta ou classe”.
(11) Para se obter esse total de grãos de trigo, devemos elevar o número 2 ao expoente 64, e do resultado tirar uma unidade. Trata-se de um número verdadeiramente astronômico, de vinte algarismos, que é famoso em Matemática:

18 446 744 073 709 551 615

Chamamos especialmente a atenção dos matemáticos para a nota do Apêndice, intitulada O Problema do Jogo de Xadrez.

(12) Ceira ou cer — Unidade de capacidade e peso usada na Índia. Seu valor variava de uma localidade para outra.
(13) Esse pensamento é de Gibran Khalil Gibran.
(14) Juízes. Denominação dada aos magistrados.
(15) Um dos meses do calendário árabe.

Malba Tahan, em O Homem que Calculava