16/07/2026

Igor Souza e Ian Coury – Tá Escrito | Com Xande de Pilares e Pretinho da Serrinha

Gente do bem

Gente que mantém
pássaros na gaiola
tem bom coração.
Os pássaros estão a salvo
de qualquer salvação.

Paulo Leminski, em Toda Poesia

Amor entre livros

No Canecão? Hoje não dá, meu chuchuzinho. Tou afundado no Stokoe, uma curtição tremenda. O quê? Semiotics and Human Sign Languages. É isso aí. Te telefono amanhã, tá?
Sábado passado você já não pôde sair, por causa de um tal Catichico…
Catichico, não. Katicic, com k. Eu tinha de atacar de Katicic lá no Centro. O Lopes veio pra cima de mim com o Kramsky, então eu derrubei ele com o Katicic.
Derrubou como? Você bateu no Lopes?
Não é nada disso, anjo. O Lopes apareceu muito pimpão mostrando The Word as a Linguistic Unit, do Kramsky, gabando que era a última palavra em novidade. Então eu corri à d. Vana e…
Esse cara está hospedado com d. Vana?
Que hospedado coisa nenhuma, bem. É livro, entende? Um livro do Katicic chamado A Contribution to the General Theory of Comparative Linguistic. Comprei ele na livraria de d. Vana, por sinal que ela me disse: “É tão caro, não vale a pena comprar”, d. Vana é assim, fica com pena da gente gastar o dinheiro com os livros de sua livraria. Mas isso não vem ao caso. Trouxe o Katicic e pá! Atirei na cara do Lopes a teoria do Katicic.
Deu coluna do meio?
Um a zero. O Lopes não conhecia o Katicic, a turma também não, e daí, o Kramsky já tá meio superado. Eu soube que ano passado o Magalhães já tinha citado ele em Atibaia. E o Magalhães não é lá muito atualizado. Imagine você que ele ainda cita Stratificational Grammar, do Sampson! Sampson não é mais autor que se possa citar. Sampson anda muito por baixo.
Que que ele fez para andar por baixo?
Nada. Exatamente isso. O Sampson não fez nadinha. Ficou na Stratificational Grammar. Impressionou, abafou, depois calou. É o que me garantiu o Azevedo, que foi vidrado no Sampson, depois enjoou. O Azevedo diz que no livro dele o que vale é o título.
Querido, você promete que semana que vem combina um programa comigo?
Ah, isso prometo sim. Tá prometido. Quer dizer, fica dependendo de um papo meu com o Rogério.
Que é que o Rogério tem com os nossos programas?
Ele ficou de me arranjar o Pike, de que eu preciso muito para a tese que estou preparando. A tese para aquele simpósio que vai haver em Campina Grande, já contei a você, em agosto.
E daí?
Daí, que o Rogério ainda não acabou de fichar o Pike, e se ele acabar até domingo, segunda-feira me passa o livro. Tenho de passar a semana inteira estudando o Pike.
Sábado também?
Acho que o Pike vai me absorver até sexta-feira. Você não faz ideia, é um troço da maior importância, presta atenção no título: Language in Relation to the Structure of Human Behavior. Como é que eu posso perder uma coisa dessas, coração?
Você não gosta de mim.
Gosto milhões, gosto trilhões, amor. Mas ou eu pego logo o Pike enquanto os outros não avançam nele (o Rogério é camarada, o Rogério é um cara que não existe) ou eu sacrifico minha atuação em Campina Grande. Você quer me ver desmoralizado em Campina Grande, diz, você quer?
Quero sair com você.
Eu também quero sair com você, mas será que você não percebe que os interesses da cultura sobrelevam nossos prazeres pessoais, e que o amor é sobretudo uma forma de compreensão?
Você não me gosta, você gosta é desses bichos esquisitos, sei lá.
Não diz uma coisa dessas, amorzinho. Você está em tudo que eu faço, tudo que eu penso. Ainda ontem estava lendo o Ollen, Coding Information in Natural Languages, e sua imagem aflorava em cada página, quase em cada palavra. Baralhei tudo, acabei grilado.
Mentira.
Mentira não, te juro.
Nunca hei de me esquecer de suas férias de 72…
Que eu dediquei a Lévi-Strauss? Que é que eu podia fazer, my love, se a patota gamou nele e eu tinha que entrar na jogada? Olha que eu desisti de uma semana Barthes por tua causa; que deixei de me inscrever num curso sobre Derrida e Greimas para te acompanhar no festival de cinema durante uma semana. Por você eu faço tudo. Mas deixa eu curtir o meu Stokoe, deixa!
Adeusinho, viu? Quando acabar de ler esses chatos, telefone para as Bahamas e pergunte se eu cheguei lá!

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

Capítulo 67 – A Casinha



Jantei e fui a casa. Lá achei uma caixa de charutos, que me mandara o Lobo Neves, embrulhada em papel de seda, e ornada de fitinhas cor-de-rosa. Entendi, abria-a, e tirei este bilhete:
"Meu B...
Desconfiam de nós; tudo está perdido; esqueça-me para sempre. Não nos veremos mais. Adeus; esqueça-se da infeliz V. a."
Foi um golpe esta carta; não obstante, apenas fechou a noite, corri à casa de Virgília. Era tempo; estava arrependida.
Ao vão de uma janela, contou-me o que se passara com a baronesa. A baronesa disse-lhe francamente que se falara muito, no teatro, na noite anterior, a propósito da minha ausência do camarote do Lobo Neves; tinham comentado as minhas relações na casa; em suma, éramos objeto da suspeita pública. Concluiu dizendo que não sabia que fazer.
O melhor é fugirmos, insinuei.
Nunca, respondeu ela abanando a cabeça.
Vi que era impossível separar duas coisas que no espírito dela estavam inteiramente ligadas: o nosso amor e a consideração pública. Virgília era capaz de iguais e grandes sacrifícios para conservar ambas as vantagens, e a fuga só lhe deixava uma. Talvez senti alguma coisa semelhante a despeito; mas as comoções daqueles dois dias eram já muitas, e o despeito morreu depressa. Vá lá; arranjemos a casinha.
Com efeito, achei-a, dias depois, expressamente feita em um recanto da Gamboa. Um brinco! Nova, caiada de fresco, com quatro janelas na frente e duas de cada lado – todas com venezianas cor de tijolo, – trepadeira nos cantos, jardim na frente; mistério e solidão. Um brinco!
Convencionamos que iria morar ali uma mulher, conhecida de Virgília, em cuja casa fora costureira e agregada.
Virgília exercia sobre ela verdadeira fascinação. Não se lhe diria tudo; ela aceitaria facilmente o resto.
Para mim era aquilo uma situação nova do nosso amor, uma aparência de posse exclusiva, de domínio absoluto, alguma coisa que me faria adormecer a consciência e resguardar o decoro. Já estava cansado das cortinas do outro, das cadeiras, do tapete, do canapé, de todas essas coisas, que me traziam aos olhos constantemente a nossa duplicidade. Agora podia evitar os jantares frequentes, o chá de todas as noites, enfim a presença do filho deles, meu cúmplice e meu inimigo. A casa resgatava-me tudo; o mundo vulgar terminaria à porta – dali para dentro era o infinito, um mundo eterno, superior, excepcional, nosso, somente nosso, sem leis, sem instituições, sem baronesas, sem olheiros, sem escutas, – um só mundo, um só casal, uma só vida, uma só vontade, uma só afeição – a unidade moral de todas as coisas pela exclusão das que me eram contrárias.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Verso perdido

... eu te amo a perder de vista.

Mário Quintana, em Caderno H

1630 – Motocintle


Não traem seus mortos

Durante quase dois anos tinha predicado frei Francisco Bravo neste povoado de Motocintle.
Um dia anunciou aos índios que tinha sido chamado da Espanha. Ele queria regressar à Guatemala, disse, e ficar para sempre aqui junto a seu querido rebanho, mas lá na Espanha seus superiores lhe negariam a permissão.
Somente o ouro poderá convencê-los – advertiu frei Francisco.
Ouro não temos – disseram os índios.
Sim, têm – desmentiu o padre. – Eu sei que existe um criadeiro de ouro escondido em Motocintle.
Esse ouro não nos pertence – explicaram eles. – Esse ouro é de nossos antepassados. Nós só estamos cuidando dele. Se faltar alguma coisa, o que lhes diremos quando voltem ao mundo?
Eu só sei o que dirão meus superiores na Espanha. Me dirão: Se tanto te amam os índios desse povo onde queres ficar, como estás tão pobre?”
Se reuniram os índios em assembleia para discutir o assunto.
Um domingo, depois da missa, vendaram os olhos de Frei Francisco e o fizeram dar voltas até ficar tonto. Todos foram atrás dele, dos velhos às crianças de peito. Ao chegar ao fundo de uma gruta, tiraram-lhe a venda. O padre piscava os olhos, machucados pelo fulgor do ouro, mais ouro que o de todos os tesouros das mil e uma noites, e suas mãos trêmulas não sabiam por onde começar. Transformou em saco a sua batina e carregou o que pôde. Depois jurou por Deus e os santos evangelhos que jamais revelaria o segredo e recebeu uma mula e comida para a viagem.
Com o tempo, chegou à Real Auditoria da Guatemala uma carta de frei Francisco Bravo do porto de Veracruz. Com grande dor na alma cumpria o sacerdote seu dever, no ato de serviço ao rei por tratar-se de importante e esmerado negócio. Dava notícias do possível rumo do ouro: “Creio ter andado a escassa distância da aldeia. Corria à esquerda um arroio...” Enviava algumas pepitas como amostra e prometia empregar o resto em devoções a um santo de Málaga.
Agora aparecem a cavalo em Motocintle o juiz e os soldados. Vestindo túnica vermelha e com uma vara branca pendurada no peito, o juiz Juan Maldonado trata de convencer os índios a entregar o ouro.
Promete e garante bom tratamento.
Ameaça com rigores e castigos.
Tranca uns quantos na prisão.
A outros aplica cepo e dá tormento.
Outros faz subir as escadas do patíbulo.
E não adianta.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

14/07/2026

Mono no aware | Hamilton de Holanda

Ricordanza Della Mia Gioventú

A minha ama-de-leite Guilhermina
Furtava as moedas que o Doutor me dava.
Sinhá-Mocinha, minha Mãe, ralhava...
Via naquilo a minha própria ruína!

Minha ama, então, hipócrita, afetava
Susceptibilidade de menina:
“– Não, não fora ela! –” E maldizia a sina,
Que ela absolutamente não furtava.

Vejo, entretanto, agora, em minha cama,
Que a mim somente cabe o furto feito...
Tu só furtaste a moeda, o ouro que brilha.

Furtaste a moeda só, mas eu, minha ama,
Eu furtei mais, porque furtei o peito
Que dava leite para a tua filha!

Augusto dos Anjos, em Eu e Outras Poesias

Autor não encontrado

Olá, a coluna desta segunda-feira infelizmente não foi enviada pelo autor. Quem está escrevendo agora é a editora deste caderno, que precisou preencher em cima da hora o buraco que o Gregorio deixou, por não ser um bom profissional. Todo sábado, recebemos o texto em cima do laço, e é sempre a última coisa de que precisamos para fechar a edição de segunda. Diagramadores, editores, revisores, todos sofrem. Mas quem mais sofre é Natalia, a ilustradora, que se vê obrigada a improvisar um desenho às pressas.
E toda semana é a mesma correria. Já pedimos algumas vezes que ele se programasse para mandar o texto com antecedência, mas ele ora pede desculpas e diz que está passando por maus bocados “em casa com a patroa” (sic) ora pede que “parem de encher a porra do meu saco, eu sou um artista livreeee” (sic). Às vezes diz que só precisa de um tempo para “apertar unzinho enquanto a inspiração não baixa”.
Uma vez, nos escreveu um e-mail que deixou a todos mais calmos: “Estou em frente ao computador, vou mandar agora mesmo”, mas logo abaixo estava escrito “enviado do meu iPhone”. Alguns minutos mais tarde, publicava em seu Facebook que tinha passado de fase no Candy Crush. O texto veio só no dia seguinte.
Nesta semana, foi diferente. Gregorio disse que não mandaria o texto pois estava muito “pegado de trabalho” (sic). Descobrimos através do seu Instagram que ele está na Grécia. Uma foto dos seus pés na areia revela que ele estaria “recarregando as baterias”. Em outra foto, abraçando uma estátua em Delos, ele diz: “Obrigado Apolo, continue a me iluminar”. Procurada, sua assessoria afirmou que ele está viajando em um ato de “protesto contra a Copa”.
Por isso, precisei escrever a coluna no lugar dele. Pedi à Natália que ilustrasse a coluna com um desenho bem horroroso do seu rosto, enquanto eu tento replicar seu estilo. É fácil de imitar: em geral a adversativa vem introduzida por dois pontos. A temática também é sempre a mesma: basta aproveitar este espaço pra divulgar causas pessoais e se autopromover. Seguinte: tô vendendo um Corsa 2003 sedã quatro portas única dona favor ligar para a Folha e tratar com Heloísa Helvécia.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

Pular fora!

As manigâncias de dona Frozina

Também com esse dinheiro mirrado...
Isso é o que a viúva dona Frozina diz do montepio. Mas dá para ela comprar Leite de Rosas e tomar verdadeiros banhos com o líquido leitoso. Dizem que sua pele é espetacular. Usa desde mocinha o mesmo produto e tem cheiro de mãe.
É muito católica e vive em igrejas. Tudo isso cheirando a Leite de Rosas. Como uma menina. Ficou viúva com vinte e nove anos. E de lá para cá – nada de homem. Viúva à moda antiga. Severa. Sem decote e sempre com mangas compridas.
D. Frozina, como é que a senhora arrumou sua vida sem homem?, quero lhe perguntar.
A resposta seria:
Manigâncias, minha filha, manigâncias.
Dizem dela: muita gente jovem não tem o espírito que ela tem. Está na casa dos setenta, a excelentíssima senhora dona Frozina. É sogra boa e ótima avó. Boa parideira que foi. E continuou frutificando. Eu queria ter uma conversa séria com d. Frozina.
Dona Frozina, a senhora tem qualquer coisa a ver com d. Flor e seus três maridos?
Que é isso, minha amiga, mas que pecado grande! Sou viúva virgem, minha filha.
Seu marido se chamava Epaminondas, com o apelido de Moço.
Olhe, d. Frozina, tem nomes piores do que o seu. Tem uma que se chama Flor de Lis – e como acharam ruim o nome, deram-lhe apelido pior: Minhora. Quase minhoca. E os pais que chamaram seus filhos de Brasil, Argentina, Colômbia, Bélgica e França? A senhora escapou de ser um país. A senhora e suas manigâncias. “Ganha-se pouco”, diz ela, “mas é divertido.”
Divertido como, minha senhora? A senhora não conheceu então a dor? Foi driblando a dor pela vida afora? Sim, senhora, com minhas manigâncias fui escapando.
D. Frozina não toma Coca-Cola. Acha que é moderno demais.
Mas todo o mundo toma!
Eu é que não, cruz-credo! parece até remédio contra bichas, Deus me livre e guarde.
Mas se acha o gosto de remédio é porque já provou.
D. Frozina usa o nome de Deus mais do que deveria. Não se deve usar o nome de Deus em vão. Mas com ela não cola essa lei.
E ela se agarra nos santos. Os santos já estão enjoados dela, de tanto ela abusar. De “Nossa Senhora” nem se fala; a mãe de Jesus não tem sossego. E, como vem do norte, vive dizendo: Virgem Maria! a cada espanto. E são muitos os seus espantos de viúva ingênua.
D. Frozina rezava todas as noites. Fazia uma prece para cada santo. Aí aconteceu o desastre: ela adormeceu no meio.
D. Frozina, que coisa horrível a senhora cochilar no meio da reza deixando os santos à toa!
Ela respondeu com um gesto de mão de descaso:
Ah, minha filha, que cada um pegue o dele.
Teve um sonho muito esquisitinho: sonhou que via o Cristo do Corcovado – e cadê os braços abertos? Estavam era bem cruzados, e o Cristo enjoado como se dissesse: vocês que se arranjem, estou farto. Era um pecado esse sonho.
D. Frozina, chega de manigâncias. Fique com o seu Leite de Rosas e “io me ne vado”. (É assim que se diz em italiano quando uma pessoa quer ir embora?)
Dona Frozina, excelentíssima senhora, quem está farta da senhora sou eu. Adeus, pois. Cochilei no meio da reza.
P.S. Procure no dicionário o que quer dizer manigâncias. Mas adianto-lhe o serviço: manigância – prestidigitação; manobra misteriosa, artes de berliques e berloques. (Do Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa.)
Um detalhe antes de acabar:
D. Frozina quando era pequena, lá em Sergipe, comia acocorada atrás da porta da cozinha. Não se sabe por quê.

Clarice Lispector, em Todos os Contos

Habilidade e conhecimento

Por que almas desqualificadas e ignorantes perturbam quem é hábil e conhecedor? Qual alma, então, detém habilidade e conhecimento? É aquela que identifica o início e o fim, que conhece a razão que permeia toda a substância e que, pela eternidade, administra o todo mediante períodos fixados.

Marco Aurélio, em Meditações

13/07/2026

João Bosco — Incompatibilidade de Gênios | NDR Bigband

Conclusão

Os impactos de amor não são poesia
(tentaram ser: aspiração noturna).
A memória infantil e o outono pobre
vazam no verso de nossa urna diurna.

Que é poesia, o belo? Não é poesia,
e o que não é poesia não tem fala.
N em o mistério em si nem velhos nomes
poesia são: coxa, fúria, cabala.

Então, desanimamos. Adeus, tudo!
A mala pronta, o corpo desprendido,
resta a alegria de estar só, e mudo.

De que se formam nossos poemas? Onde?
Que sonho envenenado lhes responde,
se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?

Carlos Drummond de Andrade, em Fazendeiro do Ar

O saber da cozinheira

A cozinheira: por onde se inicia o preparo do banquete?
Se me disserem que o banquete se inicia na cozinha, com as panelas, fogões, utensílios, ingredientes e tempero, eu direi que estão errados. O banquete se inicia com uma decisão de amor.
Babette, com pena das pessoas mirradas e mesquinhas que a inveja e o ressentimento tornara insensíveis, na aldeia em que vivia, prepara um banquete que lhes daria uma experiência inesquecível de prazer, beleza e generosidade.
Tita, proibida pela mãe de amar o seu amado, prepara os sabores que lhes permitissem fazer, na mesa, o amor que não podia fazer na cama.
O nutricionista, ao preparar um jantar, se pergunta sobre o equilíbrio científico dos vários componentes alimentares que irão compor a refeição. Pondera as utilidades: vitaminas, carboidratos, proteínas. Cozinha para alimentar quem come. Deseja matar a fome de quem come. Seu evangelho reza: “Bem-aventurados os que têm fome porque eles serão fartos”.
A cabeça da cozinheira funciona ao contrário. Não considera vitaminas, carboidratos e proteínas. Sua imaginação está cheia de sabores. Sonha com os efeitos que os sabores irão produzir no corpo de quem come. Não quer matar a fome. O que ela deseja é fazer amor com quem come, através dos sabores. Quando a fome está satisfeita, o festival de amor chegou ao fim. “Não quero faca nem queijo. Quero é a fome”, diz Adélia Prado. Gostaria que o texto evangélico fosse outro: “bem-aventurados os que têm fome porque eles terão mais fome”. A cozinheira deseja que o seu convidado morra de prazer!

Rubem Alves, em Variações sobre o prazer

O volante-de-contenção




De repente, não mais que de repente, como nos versos do Poetinha, surge, em nosso burocratizado, corrupto e tapetudo futebol, uma figura das Arábias, digna das atuações da seleção brasileira naquela Copa lá, nos Emirados Afegãs, Floriano Faissal, ou coisa parecida. Refiro-me ao “volante-decontenção”. Perdemos os pontas, ganhamos alas, overlaping, ponto futuro, elemento surpresa, o diabo. Na zona do agrião dessa confa, cresceu a nefasta importância do cabeça-de-área, dando carrinhos que maltratam a grama, dos quatro ou cinco defensores com um na sobra e mais quatro à frente da zaga dando proteção e dois atacantes recuados guardando aqueles que protegem a zaga e... bom, já tem onze e ninguém chuta em gol. Diante de tanta cautela defensiva, vemos, estarrecidos, a seleção tetra campeã do mundo, com seus volantes-de-contenção, não conseguir cobrar um único e escasso corner direito. Vai ver, a suprema tarefa do volante-de-contenção é ganhar a tal da segunda bola, que, como diz o Tostão, não existe, mas está quicando em todos os comentários abalizados. Eu já perguntei no Bar da Maria se volante-de-contenção é um nome bacaninha pra leão de chácara ou se traduziram mal air bag, mas são tantas as teorias e os fundamentos que ninguém soube responder. Acredito que esteja ocorrendo um fenômeno linguístico: falta criatividade em campo na proporção em que abundam terminologias abiloladas. Puxando a brasa pra minha requentada sardinha de ex-psiquiatra, aqui vão algumas posições que podem não mudar bosta nenhuma, mas gerarão o maior auê na França. Como se sabe, francês adora a parte teórica da coisa:
VOLANTE PARANOICO DELIRANTE — Arma confusão no meio de campo, recuado, gritando “Olha a segunda bola nas costas!”. Forte latência homoerótica. Quando é substituído, acusa o massagista de conspirar com antenas parabólicas para prejudicá-lo. Já sedado, refere-se a Bruno Quadros como “uma grande promessa”. Aí o médico aumenta a dose.
MÉDIO CATATÔNICO AGUDO — É muito difícil explicar a um leigo suas funções. Lembra um pouco o desempenho de Zinho em 94, passando por Jamir no Flamengo e certos lampejos de César Sampaio, na Arábia, em seus momentos mais criativos.
AUTÔMATO AMBIVALENTE — Cumpre religiosamente as determinações da comissão técnica e é Soldado de Cristo ou carrasco de alguma seita. Caracteriza-se pelo fervor com que defende sua bandeira, mas, quando menos se espera, chuta o pau da barraca e joga contra o patrimônio. Dizem que o Taffa sofre desse troço. Sei lá.
MÉDIO FIMOSE — Dá total cobertura ao cabeça de área. Um adendo: gostaria de descrever rapidamente o terrível quadro clínico conhecido como Logorréia Espamofílica seguida de Estupor — o Mal dos Técnicos. Começa com falação intensa, acrescida de rubores, fúria, desejo de ser engolido e convulsão. Quando volta a si, o técnico segura a mão do supervisor e pergunta quem ganhou: a resposta (Foi a Nigéria!) induz ao estupor.

Aldir Blanc, em Direto do Balcão

Diário de Bernardo Soares

118.

Que me pesa que ninguém leia o que escrevo? Escrevo-o para me distrair de viver, e publico-o porque o jogo tem essa regra. Se amanhã se perdessem todos os meus escritos, teria pena, mas, creio bem, não com pena violenta e louca como seria de supor, pois que em tudo ia toda a minha vida. Não é outra, pois, que a mãe, morto o filho, meses depois estar aí? E é a mesma. A grande terra que serve os mortos serviria, menos maternalmente, esses papéis. Tudo não importa e creio bem que houve quem visse a vida sem uma grande paciência para essa criança acordada e com grande desejo do sossego de quando ela, enfim, se tenha ido deitar.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Primeiras palavras




A questão da formação docente ao lado da reflexão sobre a prática educativo-progressiva em favor da autonomia do ser dos educandos é a temática central em torno de que gira este texto. Temática a que se incorpora a análise de saberes fundamentais àquela prática e aos quais espero que o leitor crítico acrescente alguns que me tenham escapado ou cuja importância não tenha percebido.
Devo esclarecer aos prováveis leitores e leitoras o seguinte: na medida mesma em que esta vem sendo uma temática sempre presente às minhas preocupações de educador, alguns dos aspectos aqui discutidos não têm sido estranhos a análises feitas em livros meus anteriores. Não creio, porém, que a retomada de problemas entre um livro e outro e no corpo de um mesmo livro enfade o leitor. Sobretudo quando a retomada do tema não é pura repetição do que já foi dito. No meu caso pessoal, retomar um assunto ou tema tem que ver principalmente com a marca oral de minha escrita. Mas tem que ver também com a relevância que o tema de que falo e a que volto tem no conjunto de objetos a que direciono minha curiosidade. Tem que ver também com a relação que certa matéria tem com outras que vêm emergindo no desenvolvimento de minha reflexão. É neste sentido, por exemplo, que me aproximo de novo da questão da inconclusão do ser humano, de sua inserção num permanente movimento de procura, que rediscuto a curiosidade ingênua e a crítica, virando epistemológica. É nesse sentido que reinsisto em que formar é muito mais do que puramente treinar o educando no desempenho de destrezas, e por que não dizer também da quase obstinação com que falo de meu interesse por tudo o que diz respeito aos homens e às mulheres, assunto de que saio e a que volto com o gosto de quem a ele se dá pela primeira vez. Daí a crítica permanentemente presente em mim à malvadez neoliberal, ao cinismo de sua ideologia fatalista e a sua recusa inflexível ao sonho e à utopia.
Daí o tom de raiva, legítima raiva, que envolve o meu discurso quando me refiro às injustiças a que são submetidos os esfarrapados do mundo. Daí o meu nenhum interesse de, não importa que ordem, assumir um ar de observador imparcial, objetivo, seguro, dos fatos e dos acontecimentos. Em tempo algum pude ser um observador “acinzentadamente” imparcial, o que, porém, jamais me afastou de uma posição rigorosamente ética. Quem observa o faz de um certo ponto de vista, o que não situa o observador em erro. O erro na verdade não é ter um certo ponto de vista, mas absolutizá-lo e desconhecer que, mesmo do acerto de seu ponto de vista, é possível que a razão ética nem sempre esteja com ele.
O meu ponto de vista é o dos “condenados da Terra”, o dos excluídos. Não aceito, porém, em nome de nada, ações terroristas, pois que delas resultam a morte de inocentes e a insegurança de seres humanos. O terrorismo nega o que venho chamando de ética universal do ser humano. Estou com os árabes na luta por seus direitos, mas não pude aceitar a malvadez do ato terrorista nas Olimpíadas de Munique.
Gostaria, por outro lado, de sublinhar a nós mesmos, professores e professoras, a nossa responsabilidade ética no exercício de nossa tarefa docente. Sublinhar esta responsabilidade igualmente àquelas e àqueles que se acham em formação para exercê-la. Este pequeno livro se encontra cortado ou permeado em sua totalidade pelo sentido da necessária eticidade que conota expressivamente a natureza da prática educativa, enquanto prática formadora. Educadores e educandos não podemos, na verdade, escapar à rigorosidade ética. Mas é preciso deixar claro que a ética de que falo não é a ética menor, restrita, do mercado, que se curva obediente aos interesses do lucro. Em escala internacional começa a aparecer uma tendência em acertar os reflexos cruciais da “nova ordem mundial” como naturais e inevitáveis. Num encontro internacional de ONGs, um dos expositores afirmou estar ouvindo com certa frequência em países do Primeiro Mundo a ideia de que crianças do Terceiro Mundo, acometidas por doenças como diarreia aguda, não deveriam ser salvas, pois tal recurso só prolongaria uma vida já destinada à miséria e ao sofrimento.1 Não falo, obviamente, desta ética. Falo, pelo contrário, da ética universal do ser humano. Da ética que condena o cinismo do discurso citado acima, que condena a exploração da força de trabalho do ser humano, que condena acusar por ouvir dizer, afirmar que alguém falou A sabendo que foi dito B, falsear a verdade, iludir o incauto, golpear o fraco e indefeso, soterrar o sonho e a utopia, prometer sabendo que não cumprirá a promessa, testemunhar mentirosamente, falar mal dos outros pelo gosto de falar mal. A ética de que falo é a que se sabe traída e negada nos comportamentos grosseiramente imorais como na perversão hipócrita da pureza em puritanismo. A ética de que falo é a que se sabe afrontada na manifestação discriminatória de raça, de gênero, de classe. É por esta ética inseparável da prática educativa, não importa se trabalhamos com crianças, jovens ou com adultos, que devemos lutar. E a melhor maneira de por ela lutar é vivê-la em nossa prática, é testemunhá-la, vivaz, aos educandos em nossas relações com eles. Na maneira como lidamos com os conteúdos que ensinamos, no modo como citamos autores de cuja obra discordamos ou com cuja obra concordamos. Não podemos basear nossa crítica a um autor na leitura feita por cima de uma ou outra de suas obras. Pior ainda, tendo lido apenas a crítica de quem só leu a contracapa de um de seus livros.
Posso não aceitar a concepção pedagógica deste ou daquela autora, e devo inclusive expor aos alunos as razões por que me oponho a ela, mas o que não posso, na minha crítica, é mentir. É dizer inverdades em torno deles. O preparo científico do professor ou da professora deve coincidir com sua retidão ética. É uma lástima qualquer descompasso entre aquela e esta. Formação científica, correção ética, respeito aos outros, coerência, capacidade de viver e de aprender com o diferente, não permitir que o nosso mal-estar pessoal ou a nossa antipatia com relação ao outro nos façam acusá-lo do que não fez são obrigações a cujo cumprimento devemos humilde, mas perseverantemente, nos dedicar.
É não só interessante mas profundamente importante que os estudantes percebam as diferenças de compreensão dos fatos; as posições às vezes antagônicas entre professores na apreciação dos problemas e no equacionamento de soluções. Mas é fundamental que percebam o respeito e a lealdade com que um professor analisa e critica as posturas dos outros.
De quando em vez, ao longo deste texto, volto a este tema. É que me acho absolutamente convencido da natureza ética da prática educativa enquanto prática especificamente humana. É que, por outro lado, nos achamos, ao nível do mundo e não apenas do Brasil, de tal maneira submetidos ao comando da malvadez da ética do mercado, que me parece ser pouco tudo o que façamos na defesa e na prática da ética universal do ser humano. Não podemos nos assumir como sujeitos da procura, da decisão, da ruptura, da opção, como sujeitos históricos, transformadores, a não ser assumindo-nos como sujeitos éticos. Neste sentido, a transgressão dos princípios éticos é uma possibilidade mas não é uma virtude. Não podemos aceitá-la.
Não é possível ao sujeito ético viver sem estar permanentemente exposto à transgressão da ética. Uma de nossas brigas na história, por isso mesmo, é exatamente esta: fazer tudo o que possamos em favor da eticidade, sem cair no moralismo hipócrita, ao gosto reconhecidamente farisaico. Mas faz parte igualmente desta luta pela eticidade recusar, com segurança, as críticas que veem na defesa da ética precisamente a expressão daquele moralismo criticado. Em mim, a defesa da ética jamais significou sua distorção ou negação.
Quando, porém, falo da ética universal do ser humano estou falando da ética enquanto marca da natureza humana, enquanto algo absolutamente indispensável à convivência humana. Ao fazê-lo estou advertido das possíveis críticas que, infiéis a meu pensamento, me apontarão como ingênuo e idealista. Na verdade, falo da ética universal do ser humano da mesma forma como falo de sua vocação ontológica para o Ser Mais, como falo de sua natureza constituindo-se social e historicamente não como um a priori da história. A natureza que a ontologia cuida se gesta socialmente na história. É uma natureza em processo de estar sendo com algumas conotações fundamentais sem as quais não teria sido possível reconhecer a própria presença humana no mundo como algo original e singular. Quer dizer, mais do que um ser no mundo, o ser humano se tornou uma presença no mundo, com o mundo e com os outros. Presença que, reconhecendo a outra presença como um “não eu” se reconhece como “si própria”. Presença que se pensa a si mesma, que se sabe presença, que intervém, que transforma, que fala do que faz mas também do que sonha, que constata, compara, avalia, valora, que decide, que rompe. E é no domínio da decisão, da avaliação, da liberdade, da ruptura, da opção, que se instaura a necessidade da ética e se impõe a responsabilidade. A ética se torna inevitável e sua transgressão possível é um desvalor, jamais uma virtude.
Na verdade, seria incompreensível se a consciência de minha presença no mundo não significasse já a impossibilidade de minha ausência na construção da própria presença. Como presença consciente no mundo não posso escapar à responsabilidade ética no meu mover-me no mundo. Se sou puro produto da determinação genética ou cultural ou de classe, sou irresponsável pelo que faço no mover-me no mundo, e se careço de responsabilidade não posso falar em ética. Isso não significa negar os condicionamentos genéticos, culturais, sociais a que estamos submetidos. Significa reconhecer que somos seres condicionados mas não determinados. Reconhecer que a história é tempo de possibilidade e não de determinismo, que o futuro, permita-se-me reiterar, é problemático e não inexorável.
Devo enfatizar também que este é um livro esperançoso, um livro otimista, mas não ingenuamente construído de otimismo falso e de esperança vã. As pessoas, porém, inclusive de esquerda, para quem o futuro perdeu sua problematicidade — o futuro é um dado dado —, dirão que ele é mais um devaneio de sonhador inveterado.
Não tenho raiva de quem assim pensa. Lamento apenas sua posição: a de quem perdeu seu endereço na história.
A ideologia fatalista, imobilizante, que anima o discurso neoliberal anda solta no mundo. Com ares de pós-modernidade, insiste em convencer-nos de que nada podemos contra a realidade social que, de histórica e cultural, passa a ser ou a virar “quase natural”. Frases como “a realidade é assim mesmo, que podemos fazer?” ou “o desemprego no mundo é uma fatalidade do fim do século” expressam bem o fatalismo desta ideologia e sua indiscutível vontade imobilizadora. Do ponto de vista de tal ideologia, só há uma saída para a prática educativa: adaptar o educando a esta realidade que não pode ser mudada. O de que se precisa, por isso mesmo, é o treino técnico indispensável à adaptação do educando, à sua sobrevivência. O livro com que volto aos leitores é um decisivo não a esta ideologia que nos nega e amesquinha como gente.
De uma coisa qualquer texto necessita: que o leitor ou a leitora a ele se entregue de forma crítica, crescentemente curiosa. É isto o que este texto espera de você, que acabou de ler estas “Primeiras palavras”.
São Paulo
Setembro de 1996

Paulo Freire, em Pedagogia da autonomia Saberes necessários à prática educativa 

11/07/2026

Clube da Esquina nº 2 | Milton Nascimento

 

Retrato do artista quando coisa

Uso um deformante para a voz.
Em mim funciona um forte encanto a tontos.
Sou capaz de inventar uma tarde a partir de
uma garça.
Sou capaz de inventar um lagarto a partir de
uma pedra.
Tenho um senso apurado de irresponsabilidades.
Não sei de tudo quase sempre quanto nunca.
Experimento o gozo de criar.
Experimento o gozo de Deus.
Faço vaginação com palavras até meu retrato
aparecer.
Apareço de costas.
Preciso de atingir a escuridão com clareza.
Tenho de laspear verbo por verbo até alcançar
o meu aspro.
Palavras têm que adoecer de mim para que se
tornem mais saudáveis.
Vou sendo incorporado pelas formas pelos
cheiros pelo som pelas cores.
Deambulo aos esgarços.
Vou deixando pedaços de mim no cisco.
O cisco tem agora para mim uma importância
de Catedral.

Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo