06/09/2026

Arnaldo Antunes | Socorro

 

O impagável Laerte

Tabaréu

Vira e mexe eu penso é numa toada só.
Fiz curso de filosofia pra escovar o pensamento,
não valeu. O mais universal a que chego
é a recepção de Nossa Senhora de Fátima
em Santo Antônio do Monte.
Duas mil pessoas com velas louvando Maria
num oco de escuro, pedindo bom parto,
moço de bom gênio pra casar,
boa hora pra nascer e morrer.
O cheiro do povo espiritado,
isso eu entendo sem desatino.
Porque, mercê de Deus, o poder que eu tenho
é de fazer poesia, quando ela insiste feito
água no fundo da mina, levantando morrinho de areia.
É quando clareia e refresca, abre sol, chove,
conforme necessidades.
Às vezes dá até de escurecer de repente
com trovoado e raio. Não desaponta nunca.
É feito sol.
Feito amor divino.

Adélia Prado, em Bagagem 

Coçando a palma da mão (aler­gia?), Souza obser­va, com fas­tio, a ope­ra­ção dos Civiltares para domi­nar ban­di­dos com balas cata­lép­ti­cas



O ôni­bus che­gou, a cocei­ra vol­tou. Cruzei a bor­bo­le­ta, não havia luga­res vagos. Normal, a essa hora. Cumprimentei pes­soas que vejo aqui todos os dias, à mesma hora. Os novos são raros. Somos parte do S­-7.58, nos per­mi­tem este, nenhum outro. É o que dizem as fichas de trá­fe­go.
A ficha indi­ca onde posso andar, os cami­nhos a per­cor­rer, bair­ros auto­ri­za­dos, por que lado de cal­ça­da cir­cu­lar, con­du­ção a tomar. Assim, somos sem­pre os mes­mos den­tro do S­-7.58. Nos conhe­ce­mos todos, mas não nos fala­mos, rara­men­te nos cum­pri­men­ta­mos. Viajamos em silên­cio.
Sou exce­ção, grito meu bom­-dia, os ros­tos se viram afli­tos, per­ple­xos. Depois se vol­tam para a pai­sa­gem, as cal­ça­das con­ges­tio­na­das. Mais um louco, pen­sam. Todos têm cer­te­za, serei apa­nha­do ao des­cer. No dia seguin­te se sur­preen­dem, sem demons­trar, quan­do apa­re­ço, cum­pri­men­tan­do.
Três pon­tos antes do final (deve ser dez e vinte) senti uma comi­chão insu­por­tá­vel. Estava com­pri­mi­do. Não podia olhar, nem levan­tar a mão. Segurava a male­ta com a esquer­da, com a direi­ta me apoia­va ao varão. Empurrado para a saída, me des­pe­di. Claro que não res­pon­de­ram.
Acabei de des­cer, ouvi os estam­pi­dos. Secos, ocos. Tão conhe­­ci­dos. Joguei­-me rápi­do ao chão, con­for­me seve­ras ins­tru­ções. Num déci­mo de segun­do, todos em volta esten­di­dos. Vivemos con­di­cio­na­dos, nos­sos refle­xos agu­ça­dos. Como aque­les ratos que vão comer ao ouvir a cam­pai­nha.
Quantas vezes por dia me atiro ao chão nesta cida­de. Se alguém fil­mas­se duran­te algu­mas horas, sem regis­trar o som, veria uma daque­las velhas comé­dias de Harold Loyd, o Gordo e o Magro, Mack Sennet. Deita, levan­ta, deita, levan­ta. E os ros­tos? Todo mundo apa­vo­ra­do, tenso.
As pes­soas dis­pu­tam cen­tí­me­tros de cal­ça­da. Batem cabe­ças, se bei­jam, ficam rosto a rosto, chei­ram o pó, se levan­tam imun­das, xin­gam, pro­tes­tam. Teve um dia que levei duas horas para ven­cer duzen­tos metros até o escri­tó­rio. Deita, levan­ta. Foi tiro para tudo quan­to é lado.
Hoje, um tiro só. Os Civiltares são conhe­ci­dos e temi­dos pela exce­len­te pon­ta­ria e rapi­dez. O ladrão­zi­nho, ou o que quer que fosse, garo­to ainda (nunca fui bom para deter­mi­nar ida­des), esta­va esten­di­do, de cos­tas. A cáp­su­la enter­ra­da no meio da testa. Nenhuma gota de san­gue.
O ver­me­lho da cáp­su­la me per­mi­tiu iden­ti­fi­cá­-la como Cataléptica. Provoca um esta­do seme­lhan­te à morte duran­te duas horas. Quando o atin­gi­do acor­da, já está encer­ra­do no Isolamento. E aí, bau­-bau, Nicolau! Nunca mais. Tem quem afir­me que a Cataléptica torna a pes­soa idio­ta.
O Civiltar abai­xou­-se, apa­nhou a car­tei­ra, devol­veu a um se­­nhor, ao lado. O homem reco­lheu­-a tran­qui­la­men­te, reti­rou uma nota, entre­gou ao poli­cial. Os Acertos de Taxas de Segurança são fei­tos no ato. Acabou­-se a buro­cra­cia, papéis, reci­bos, gui­chês, filas, espe­ras.
O Civiltar acio­nou o wal­kie­-tal­kie, pedin­do carro trans­por­ta­dor. Puxou o atin­gi­do para um canto da cal­ça­da e gri­tou: “Podem se levan­tar”. Mas a gente sem­pre dá um tempo. Quando ocor­re um inci­den­te assim, seguem­-se uns qua­tro ou cinco, os mar­gi­nais apro­vei­tam a con­fu­são.
Se bem que não é fácil. Para cada homem em cir­cu­la­ção, exis­te pra­ti­ca­men­te um Civiltar ao seu lado. Eles andam giran­do a cabe­ça para todos os lados e se asse­me­lham a robôs. O trei­na­men­to inten­si­vo des­per­ta neles, com­pul­si­vo, o faro, o ins­tin­to. Não sei como, enxer­gam tudo. Verdade.
Parece que são trei­na­dos pelos mes­mos méto­dos com que se ensi­na­vam os anti­gos cães pas­to­res na polí­cia mili­tar. Ficam con­di­cio­na­dos e são uma bele­za na efi­ciên­cia. Por menos que se goste deles, é pre­ci­so reco­nhe­cer: evi­tam catás­tro­fes nesta cida­de. Pior sem eles.
Chegamos a esse ponto. Aceitar os Civiltares como neces­sá­rios, supor­tá­-los e chamá­-los de vez em quan­do. Para mim, ter de fazer isso um dia vai ser pior que tomar óleo de ríci­no. O quê? Óleo de ríci­no? Ainda exis­te? Cada coisa de que me lem­bro de repen­te. É engra­ça­do.
A refres­can­te Casa dos Vidros de Água. Chego à sua porta, todos os dias, às dez e qua­ren­ta. Tenho meia hora para pas­sear por den­tro dela, sen­tin­do a tran­qui­li­da­de que exis­te ali. Há dois anos não consigo come­çar o meu dia sem entrar e visi­tar a Casa. Cada dia uma seção, vaga­ro­sa­men­te.
Olhei a mão. A man­cha esta­va de um ver­me­lho vivo e juro que me pare­ceu per­ce­ber um aumen­to na depres­são. Bem funda. Aperto, não dói. Coça ainda, mas é uma cocei­ra agra­dá­vel, des­sas que dão pra­zer, me arre­pia todo. Loucura, na minha idade, ficar me arre­pian­do assim com cocei­ras.
Saio da Casa dos Vidros de Água sem­pre aba­la­do com o irre­pa­rá­vel. Não em rela­ção à minha vida. Ao mundo que me cerca, ao ponto a que as coi­sas che­ga­ram. Puxa! Não é resig­na­ção que me toma quan­do deixo a últi­ma sala e atra­ves­so o cor­re­dor, arti­fi­cial­men­te esver­dea­do.
Como se luz opaca atra­ves­sas­se flo­res­ta espes­sa, rom­pen­do com difi­cul­da­de a galha­ria, arbus­tos, ramos, folhas, cipós. Este cor­re­dor final me acal­ma, me recon­ci­lia. Talvez o mal este­ja aí. Nessa recon­ci­lia­ção. Há uma inter­rup­ção brus­ca quan­do passo do cor­re­dor para a saída.
Todo dia pas­seio pelo deser­to, broto no vazio de salas e cor­re­do­res. A sen­sa­ção de que tudo é meu é recon­for­tan­te. Egoís­­mo. Mas para mim é como se as pes­soas cons­pur­cas­sem este recin­to, quase igre­ja, cate­dral de nos­sos tem­pos, com seus san­tos, divin­da­des, ima­gens.
Certamente, do ponto de vista prá­ti­co, a Casa é inú­til e o que ela exibe tam­bém. Coisas per­di­das no tempo, irre­cu­pe­rá­veis. Tudo fun­cio­na em torno da uti­li­da­de, con­ve­niên­cia ou não. Esta Casa tal­vez tenha sido a últi­ma obra con­si­de­ra­da sem valor prá­ti­co para a civi­li­za­ção.
Não devia estar na Casa. Entro aqui me per­gun­tan­do o porquê de tudo. Sem ter o que res­pon­der. Mesmo assim, entro. Me forço a isso, acho neces­sá­rio. Se per­der essa luci­dez que come­ço a adqui­rir, esta­rei morto. Como os calen­dá­rios inal­te­ra­dos que dor­mem no quar­ti­nho de minha casa.
Encontrar uma saída. Se as pes­soas qui­ses­sem, have­ria pos­si­bi­li­da­des. Não há que­rer, nin­guém vê nada. Todos tran­qui­los, acei­tam o ine­vi­tá­vel. Os jor­nais não dizem pala­vra. Calaram­-se aos pou­cos. Mesmo que falas­sem, não têm força nenhu­ma. A tele­vi­são está vigia­da.
Ainda que não esti­ves­se, a ela nada inte­res­sa. Os noti­ciá­rios são inó­cuos. Novelas, inau­gu­ra­ções, pla­nos do gover­no, pro­mes­sas de minis­tros. Como acre­di­tar nes­ses minis­tros, a maio­ria cen­te­ná­rios? Quase per­pé­tuos, rema­nes­cen­tes da fabu­lo­sa Época da Grande Locupletação.
O povo ainda fala des­ses tem­pos inson­dá­veis. Eles sobre­vi­vem na tra­di­ção oral. Os livros de his­tó­ria omi­tem. Quem se der a um gran­de tra­ba­lho, encon­tra­rá nos arqui­vos de jor­nais alguns ele­men­tos. Distorcidos, é claro. Foi um perío­do de into­le­rân­cia, amor­da­ça­men­to, silên­cio.
Quando eu dava aulas, os estu­dan­tes per­gun­ta­vam sobre tais tem­pos. Eram alu­nos que as esco­las repu­ta­vam incô­mo­dos e ter­mi­na­vam afas­ta­dos dos cur­sos. A dire­ção ouvia as gra­va­ções das aulas e me cha­ma­va. Para que eu infor­mas­se quem tinha me inter­ro­ga­do. Denunciasse.
No iní­cio, recu­sa­va. Havia jus­ti­fi­ca­ti­vas. Naquelas clas­ses de qui­nhen­tos alu­nos e gran­des telões, eu ale­ga­va, era impos­sí­vel saber quem tinha feito a Pergunta Intragável, como dizia a dire­ção. Que tama­nho terão as clas­ses hoje? Mil alu­nos? Bem que gos­ta­ria de saber.
Depois, a situa­ção foi fican­do mais difí­cil, era sem­pre em minhas aulas que as per­gun­tas intra­gá­veis sur­giam. A dire­ção que­ria saber por quê. Que tipo de coi­sas eu anda­va dizen­do fora das clas­ses. Mandaram me seguir, plan­to­na­ram minha casa, gram­pea­ram meu tele­fo­ne.
Solucionaram obri­gan­do a pes­soa inte­res­sa­da em fazer per­gun­tas a se iden­ti­fi­car antes. Muitos se cala­ram, outros pre­fe­ri­ram enfren­tar puni­ções. “Essa época de locu­ple­ta­ção não exis­tiu. Foi calú­nia”, garan­tia a dire­ção. “Fala­-se muito, mas onde estão os docu­men­tos? Invenções, mitos.
Isso, mitos popu­la­res. O senhor conhe­ce os mitos popu­la­res? O saci exis­te? O cai­po­ra, a mula sem cabe­ça, o lobi­so­mem? Que espe­ran­ça. São fan­ta­sias cria­das que se per­pe­tuam para colo­car medo nas pes­soas. Está vendo como a tra­di­ção oral é coisa peri­go­sa, trai­çoei­ra?”
Por que os estu­dan­tes não recor­riam aos jor­nais, às biblio­te­cas públi­cas, aos arqui­vos micro­fil­ma­dos? Tudo em mãos do gover­no. Era (ainda é) neces­sá­rio per­cor­rer um longo cami­nho buro­crá­ti­co, bus­can­do papéis, carim­bos, selos. A tare­fa se tor­na­va com­ple­ta­men­te impos­sí­vel.
Impossível é o termo. Tive alu­nos que gas­ta­ram anos e, quan­do obti­ve­ram o últi­mo nihil obs­tat, os arqui­vos se muda­ram. Antigos fun­cio­ná­rios foram remo­vi­dos e os novos, avi­sa­dos, não reco­nhe­ce­ram as auto­ri­za­ções. Os alu­nos ten­ta­vam outra vez, a táti­ca do gover­no era clara.
Quando passo pelos bair­ros da Circunstancial Número 14, vejo os pré­dios imen­sos onde está guar­da­da a memó­ria nacio­nal. Ninguém sabe que fatos estão depo­si­ta­dos ali. Para não dizer das pas­tas carim­ba­das: A SEREM ABER­TAS DEN­TRO DE DOIS SÉCU­LOS. São docu­men­tos da Locupletação.
– Tio.
– Dois sécu­los, ima­gi­ne...
– O quê?
Meu sobri­nho, ins­tin­ti­va­men­te, antes de me esten­der a mão, ia erguen­do a palma em con­ti­nên­cia. Não acei­tei, inter­rom­pi, puxei­-o para mim e dei um gran­de abra­ço. Ele se con­ser­vou rígi­do, ainda que o rosto fosse sor­ri­den­te e cor­dial. Também sem­pre foi como um filho para nós.
– O que faz por aqui, tio?
– Visitava a Casa dos Vidros.
– Saudosismo?
_ Ééé, quem sabe?
– Fui pro­mo­vi­do, tio. Sou o pri­mei­ro do Novo Exército a atin­gir o posto de capi­tão aos vinte e três anos.
Fiz uma con­ti­nên­cia irô­ni­ca. Ele res­pon­deu, a sério. Sempre foi cir­cuns­pec­to, com­pe­ne­tra­do, com noções de dever e obri­ga­ções. Desde crian­ça. Estava sem­pre em casa, Adelaide dizia: “Você deve entrar para o Exército”. Foi quan­do enten­di como ela esta­va den­tro da rea­li­da­de.
Muito mais do que eu podia pen­sar. Adelaide sem­pre foi sur­pre­sa cons­tan­te. Observando nosso rela­cio­na­men­to, vejo que enten­di bem pouco a mulher que tive. Quando menos se espe­ra­va, ela fazia uma obser­va­ção justa, ade­qua­da. Será tarde demais? Diz o povo que nunca é.
Sim, por­que em outros tem­pos, no sécu­lo XVII, ou XVIII, teria dito ao sobri­nho: “Vá ser padre”. Naquele dia, quin­ze anos atrás, Adelaide come­çou uma surda e per­sis­ten­te cam­pa­nha para que o meni­no ves­tis­se farda. Mas não alme­ja­va um sim­ples praça, que­ria que ele fosse Militecno.
Os melho­res pos­tos do país se encon­tra­vam em mãos de Militecnos. Bancos, minis­té­rios, empre­sas Multis. E como era difí­cil rom­per as bar­rei­ras para se for­mar um Militecno. Além de supe­rar toda a car­rei­ra mili­tar, quem supor­ta­va as fan­tás­ti­cas anui­da­des cobra­das pelas uni­ver­si­da­des?
– Passo lá para come­mo­rar. Com o senhor e a tia. Posso?
– Eu é que insis­to. Nem vou dizer à sua tia. Vamos fazer sur­pre­sa.
– Tem comi­da?
– O nor­mal.
– Vou ten­tar algo na Subsistência. Ah, quer fichas para água?
– Sempre é bom, jamais con­se­gui me con­tro­lar, gasto mesmo.
– E não é para gas­tar?
– Mas tem o racio­na­men­to, para divi­dir melhor.
– Racionamento, tio? Pensa que é para todo mundo?
No fundo, não gosto dele. Uso suas faci­li­da­des. Penso que tenho direi­to a elas, con­tri­buo para que o Novo Exército exis­ta com todos os seus pri­vi­lé­gios. Devo explo­rá­-lo. Afinal, ele deve a mim e a Adelaide o posto, e a car­rei­ra. Quanta roupa ela não lavou? E as comi­das?
Eu acor­da­va todos os dias quin­ze para as seis, fazia café, arran­ca­va o pre­gui­ço­so da cama. Foram dois anos na Escola Superior de Integração. Os pio­res, até ele pas­sar por todas as pro­vas, prin­ci­pal­men­te as de fide­li­da­de, neu­tra­li­da­de ideo­ló­gi­ca e per­cep­ção sen­so­rial.
– Sabe o que vou fazer, tio?
– Não tenho ideia.
– Vou visi­tar essa tal Casa dos Vidros.
– Boa coisa.
– Quero ver como estão apro­vei­tan­do esse pré­dio enor­me.
Desta vez cor­res­pon­deu ao abra­ço, sol­tan­do o corpo. Como posso gos­tar desse sobri­nho quan­do sei ao que ele per­ten­ce? Se tenho plena cons­ciên­cia do que será o país na mão dele den­tro de alguns anos? Se hou­ver alguns anos. Tenho as car­tas dele, conhe­ço suas ideias.
Nenhuma von­ta­de de tra­ba­lhar. A cocei­ra volta, fico impres­sio­na­do. O cen­tro de minha mão está afun­dan­do. Só pode ser delí­rio pro­vo­ca­do pelo calor. Agarro o braço de um homem, ele se assus­ta. Sei o risco que corro, toda rea­ção é admi­ti­da quan­do se trata da pró­pria segu­ran­ça.
– Calma, meu senhor, calma. Olhe, me des­cul­pe, mas pre­ci­so saber. Olhe a minha mão. Tem um afun­da­men­to aí?
Ele pro­cu­rou se livrar. Viu a mão e tal­vez tenha se apa­vo­ra­do mais. Ninguém garan­te que isso não seja con­ta­gio­so. Só não saiu cor­ren­do por­que é impos­sí­vel cor­rer nes­tas cal­ça­das atra­van­ca­das. Para mim, a rea­li­da­de é este afun­da­men­to, sem dor, cocei­ra. Inexplicável como tudo hoje em dia.
Ir ao médi­co é boba­gem, melhor espe­rar. Estou des­men­tin­do Adelaide, ela me jul­ga­va hipo­con­dría­co. Não acre­di­ta­va em minhas dores de cabe­ça, nos mal­-esta­res do estô­ma­go. Ergui os olhos. Uma sen­sa­ção inquie­tan­te de alto a baixo. O homem ca­­re­­ca me olha­va penetran­te, amea­ça­dor.

Ignácio de Loyola Brandão, em Não verás país nenhum

Um degrau acima: o silêncio

Até hoje eu por assim dizer não sabia que se pode não escrever. Gradualmente, gradualmente até que de repente a descoberta tímida: quem sabe, também eu já poderia não escrever. Como é infinitamente mais ambicioso. É quase inalcançável.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Correnteza




2

Cainho atravessa a porta do quarto para a sala e encontra a mãe desperta, uma caneca de café na mão e a face contra a luz da janela. O rosto está marcado de maquiagem — olhos pretos e delineados, as sobras de um batom vermelho — e, por trás da máscara, o semblante rígido, cansado, preocupado. O filho percebe, pela roupa, que a mãe saiu para encontrar o namorado da vez, alguém que ele ainda não conhece porque ela é muito reservada para comentar seus casos amorosos. Talvez ela nem tenha dormido. Deve ter voltado na hora em que ele escutou o cachorro da casa ao lado latir, noite alta ainda, e as grades do portão rangeram e a porta bateu sem cuidado e a luz do quarto se acendeu para Rita Preta se certificar de que todos estavam em casa. Cainho despertou com a movimentação, cobriu os olhos para se proteger da luz. A mãe recolheu o uniforme de Juca do chão, dobrou-o e o dispôs na cadeira ao lado da cama. O caçula tinha o sono profundo, a boca aberta, estava descoberto à mercê dos pernilongos. Ela estendeu o cobertor sobre o corpo dele. Rita então aproveitou o movimento do filho, Cainho, que se recobria, para perguntar por Cid. Ele não sabia.
“Seu irmão não voltou para casa”, Rita Preta diz enquanto o filho se aproxima da janela.
Então ela retira o celular da bolsa e verifica as mensagens. Depois, confere a hora e pergunta onde mora a garota com quem Cid tem se encontrado. Rita se banha no chuveiro com pressa, esfrega as mãos com força no rosto para retirar a maquiagem. Grita que está atrasada. Deveria ter saído para o trabalho, mas precisa saber onde o filho rebelde se encontra. Em minutos, veste a roupa limpa, arruma a bolsa e faz promessas mentais de castigos. Ensaia de maneira involuntária todo o desabafo que fará quando ele voltar.
Rita pede a Cainho que, caso Cid volte para casa enquanto ela estiver fora, lhe envie uma mensagem. Ela estará no trabalho, mas vai conferir o celular de vez em quando para se inteirar das notícias. Fala como uma pequena tirana, de forma intempestiva, conferindo ao mesmo tempo se o uniforme está na bolsa, sem olhar para o filho que se mostra entediado ao escutar a mãe.
Ele tenta dizer, durante o tempo que ela fala sem parar, que está sem crédito para enviar mensagens.
Então Rita pergunta de maneira genérica o que tanto eles faziam para esgotarem os créditos tão rápido. Lembra que poucos dias atrás tinha lhes dado dinheiro.

Ele contra-argumenta dizendo que já fazia dois meses que ela lhe dera dinheiro. O prazo dos créditos havia expirado.
Rita Preta sabe que pode estar errada sobre os poucos dias, mas não cede. Ela guarda aquela sensação superficial da velocidade do tempo, embora não a externe, pelo menos não naquele instante. Olha com ar de quem não acredita na desculpa e pede para Cainho ligar a cobrar, caso tenha notícias do irmão.
“E se ele não chegar?”
Se ele não chegar. Essa não parece ser uma possibilidade para Rita Preta. Ele chegará. E ela estará preparada, com o discurso pronto, para o desabafo e as punições que irá aplicar.
Uma hora qualquer ele chegará, pondera, e terá de explicar o que andou aprontando. Ela contesta com segurança, mas ao final já não se sente tão confiante. Se ele não chegar, Rita argumenta, não é preciso telefonar. A ausência de notícia é também uma resposta, retruca enquanto pega as chaves para sair de casa.
“Qual o nome dela mesmo?”
“Dela quem?”
“Da moça com quem seu irmão está ficando.”
Contudo, antes que Cainho termine de contar o que sabe, ela o instrui para que lave os pratos e reponha as garrafas de água na geladeira. Não havia água gelada, e o sol, muito cedo, já se exibe abrasador.

A casa onde a garota mora fica na base de uma ladeira íngreme, muito próxima a um córrego malcheiroso que corta o bairro, infestado de mosquitos. Rita Preta grita — ô de casa — para verificar se tem alguém.
Quando uma mulher surge na porta entreaberta, Rita pergunta se Daiane está em casa. Ela se posiciona do lado de fora, atrás do portão em uma varanda gradeada. A mulher parece irritada. Informa que é a mãe da garota e diz que a jovem está dormindo. Rita não se intimida com o mau humor e pergunta se ela poderia chamar a filha. “Sou a mãe do Cid, amigo dela”, diz, esperando assim uma boa recepção. A mulher não se demonstra muito disposta a atendê-la. Diz não conhecê-lo, mantém-se dentro da casa, respondendo à distância. Rita não quer prolongar a conversa, mas repete:
“Eles são amigos”, omitindo assim o que sabe sobre os dois. O filho não dormira em casa e por isso imaginou que pudesse estar com alguém conhecido.
“Quando ela acordar”, a mulher inicia a frase disposta a finalizar a importunação, “eu pergunto.” Quer saber se Rita mora nas redondezas e se compromete a deixar recado com alguém por lá.
Rita amaldiçoa a mulher enquanto se afasta da casa. Sente o peso da noite perdida nos olhos irritados, como se estivessem com grãos de areia. Está atrasada o suficiente para receber uma advertência da supervisora. Caminha até o ponto de ônibus sem disfarçar a preocupação, se deveria ou não faltar ao turno no supermercado para ir à escola ou buscar por mais notícias do filho junto aos colegas.

Enquanto espera pela condução, sente na boca o gosto da cerveja que bebeu à noite. Nem por isso o corpo parece mais leve, mesmo sem ter pisado no chão da seresta e ter repousado poucas horas nos braços de Jorge. Depois desses encontros, ela se vê tomada pelo vazio da solidão difícil de explicar — andar sozinha pela rua onde mora, a cama deserta —, mas dessa vez não lamenta a ausência do homem, pois o assunto “filho” domina quase todos os seus pensamentos. Dois dias antes, eles haviam discutido, os ânimos estavam exaltados quando Rita Preta ameaçou dar uma surra em Cid se ele não baixasse o tom de voz.
Ela tinha ficado sabendo que Cid estava faltando às aulas para passear na garupa das bicicletas com os companheiros de escola. Fátima, sua comadre e vizinha, o avistou ao voltar mais cedo do trabalho. Contou a Rita. Depois do expediente, ela se dirigiu à escola para verificar as ausências, e se enfureceu ao perceber que as faltas eram frequentes nos últimos meses.
A descoberta desencadeou mais uma briga entre os dois. Gritos. Portas batidas com violência. O choro sentido do filho mais novo, apavorado com a possibilidade de a mãe e o irmão se agredirem, preencheu os momentos de algum silêncio no diálogo exaltado. Rita Preta queria entender de onde Cid havia tirado aquele vocabulário chulo, enquanto ele disparava mais xingamentos contra todos. Com os olhos arregalados e visivelmente furiosa, ela se mostrava perplexa. Cid percorria a casa falando mais alto, demonstrando desdém. Para atingi-lo ainda mais, ela perguntou se ele estava usando algo.
“Quer saber se estou usando droga?”, ele disparou diante dos irmãos.
“Quero saber para te corrigir”, Rita retrucou, “para saber se você está se misturando com quem não presta.” Ela prestava atenção nos olhos indignados do filho e falava “olha seus olhos”, insistindo em saber por que estavam arregalados. Aquilo era fúria?
Os olhos dos dois estavam bem abertos, um tentando intimidar o outro com expressões carregadas de uma energia violenta, atestando que eram feitos da mesma natureza. Ela intuía que o filho não usava nenhuma substância. Era negligente com os estudos, parecia distante e pouco afetuoso com a mãe, mas Rita não considerava que usasse algo, nem mesmo álcool. Contudo, para machucar, ela trouxe de volta à discussão familiar o fantasma que assombra as comunidades por onde passou, sobretudo os pais e as mulheres chefes de família. Reavivou o estigma que recaía sobre todos como uma mancha, como se fosse um problema destinado a atingir apenas as pessoas de sua classe, as pessoas com as mesmas origens.
“E se tivesse?”, ele a desafia. “Pelo menos não iriam te apontar pela rua, como me apontam, por você sair com uns e outros.”
Rita gritou a palavra “repete” e procurou por um pedaço de corda guardado estrategicamente embaixo da pia da cozinha. Faria o malcriado engolir o que havia dito. Já fazia tempo desde a última surra, e por isso achava que era hora de puni-lo outra vez. Juca chorava, implorando à mãe que parasse, enquanto Cainho continuava deitado na cama no cômodo ao lado, com o travesseiro sobre a cabeça para abafar os sons da discussão.
Ela se aproximou segurando a corda grossa e, diferente das outras ocasiões, Cid não correu para se proteger. “Repete”, gritou Rita Preta. Ele olhou nos olhos da mãe e, para surpresa dela, repetiu o que havia dito. Ela fez um único movimento com a corda para trás e para a frente, fazendo-a vibrar como um chicote. Quando a corda atingiu o corpo de Cid, ele a agarrou e a transformou num cabo de guerra. Nenhum dos dois queria perder aquela batalha; lutavam arrastando os móveis, empurrando-os para longe até que Rita caiu no chão e Cid arremessou a corda no quintal. Mas ele sabia que não tinha vencido. Ela estava suada, cansada, prometeu se vingar. Não naquele momento, disse ela, mas Cid não teria vida fácil.
“Não quer estudar”, Rita gritou, “então vai ter que trabalhar para ajudar a pagar as contas, seu infeliz.” Disse isso enquanto Juca a ajudava a se levantar, apesar da recusa por puro orgulho — sentia-se humilhada de ter sido derrubada por um dos filhos.
Então, até que desse pela ausência do filho, dois dias se passaram sem que trocassem qualquer palavra, ou mesmo gesto ou expressão, evitando se olharem nos olhos ou permanecerem juntos no mesmo espaço diminuto da casa. Eles não poderiam saber — e talvez Cid até mesmo tenha desejado, num momento de grande raiva, não falar mais com a mãe —, mas essas seriam as últimas palavras que trocariam antes que ele desaparecesse.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo

05/09/2026

Emílio Santiago | Calma

Tempo

Por Rafael Sica

Vassouras do tempo

Ninguém,
além do tempo,
sabe o nome daquele gari
que limpava a rua
sempre cantando uma música
e segurava a vassoura
como uma parceira
que domina o salão.
Um dia,
não sei se por amor
ou por inveja,
quando passava em frente
a uma padaria
um cliente de sorriso miúdo
ouviu sua canção e ficou indignado.
Uma voz linda
vinda de uma tão boca torta
e um rosto todo marcado,
resolveu perguntar:
"Varrendo a rua… de onde vem toda essa alegria?"
O bailarino
cheio de poeira nos olhos
em vez de olhar para ele
olhou para o tempo.
Quem já sofreu sabe,
é preciso aprender a reciclar a dor
e colocar um saco plástico
no lugar do coração
quando a vida nos esconde
pra debaixo do tapete.
Entender todo dia pela manhã
que limpar o lixo dos outros
é bem mais fácil que limpar o seu.
Até o cão sem dono sabe
que tempo é o senhor
de todas as respostas.
Mas tempo também é curto,
e assim com um sorriso
mais limpo entre os dentes,
ele respondeu:
“É que não estou varrendo a rua. Estou varrendo o passado.”

Sérgio Vaz, em Flores da batalha

Inimigos em casa

Outubro de 2008
Dia 2

Que a família está em crise ninguém se atreverá a negá-lo, por muito que a Igreja Católica tente disfarçar o desastre sob a capa de uma retórica melíflua que já nem a ela própria engana, que muitos dos denominados valores tradicionais de convivência familiar e social se foram pelo cano abaixo arrastando consigo até aqueles que deveriam ter sido defendidos dos contínuos ataques desferidos pela sociedade altamente conflitiva em que vivemos, que a escola moderna, continuadora da escola velha, aquela que, durante sucessivas gerações, foi tacitamente encarregada, à falta de melhor, de suprir as falhas educacionais dos agregados familiares, está paralisada, acumulando contradições, erros, desorientada entre métodos pedagógicos que em realidade não o são, e que, demasiadas vezes, não passam de modas passageiras ou de experimentos voluntaristas condenados ao fracasso pela própria ausência de madurez intelectual e pela dificuldade de formular e responder à pergunta, essencial em minha opinião: que cidadão estamos a querer formar? O panorama não é agradável à vista. Singularmente, os nossos mais ou menos dignos governantes não parecem preocupar-se com estes problemas tanto quanto deveriam, talvez porque pensam que, sendo os ditos problemas universais, a solução, quando vier a ser encontrada, será automática, para toda a gente.
Não estou de acordo. Vivemos numa sociedade que parece ter feito da violência um sistema de relações. A manifestação de uma agressividade que é inerente à espécie que somos, e que em tempos pensámos, pela educação, haver controlado, irrompeu brutalmente das profundidades nos últimos vinte anos em todo o espaço social, estimulada por modalidades de ócio que viraram as costas ao já simples hedonismo para se transformarem em agentes condicionadores da própria mentalidade do consumidor: a televisão, em primeiro lugar, onde imitações de sangue, cada vez mais perfeitas, saltam em jorros a todas as horas do dia e da noite, os vídeo-jogos que são como manuais de instruções para alcançar a perfeita intolerância e a perfeita crueldade, e, porque tudo isto está ligado, as avalanchas de publicidade de serviços eróticos a que os jornais, incluindo os mais bem-pensantes, dão as boas-vindas, enquanto nas páginas sérias (são-no algumas?) abundam hipocritamente em lições de boa conduta à sociedade. Que estou a exagerar? Expliquem-me então como foi que chegámos à situação de muitos pais terem medo dos filhos, desses gentis adolescentes, esperanças do amanhã, em quem um “não” do pai ou da mãe, cansados de exigências irracionais, instantaneamente desencadeia uma fúria de insultos, de vexames, de agressões. Físicas, para que não fiquem dúvidas. Muitos pais têm os seus piores inimigos em casa: são os seus próprios filhos. Ingenuamente, Ruben Darío escreveu aquilo da “juventud, divino tesoro”. Não o escreveria hoje.

José Saramago, em O caderno

Literatura socialista e comunista



O SOCIALISMO REACIONÁRIO

O SOCIALISMO FEUDAL

Devido à sua posição histórica, as aristocracias da França e da Inglaterra viram-se chamadas a lançar libelos contra a sociedade burguesa. Na revolução francesa de julho de 1830 e no movimento reformador inglês, tinham sucumbido mais uma vez sob os golpes desta odiada arrivista. Elas não podiam mais travar uma luta política séria; só Ihes restava a luta literária. Ora, também no domínio literário, tornara-se impossível a velha fraseologia da Restauração.
Para criar simpatias, era preciso que a aristocracia fingisse descurar seus próprios interesses e dirigisse sua acusação contra a burguesia, aparentando defender apenas os interesses da classe operária explorada. Desse modo, entregou-se ao prazer de cantarolar sátiras sobre os novos senhores e de lhe segredar ao ouvido profecias de mau augúrio.
Assim nasceu o socialismo feudal, onde se mesclavam jeremiadas e libelos, ecos do passado e ameaça sobre o futuro. Se por vezes a sua crítica amarga, mordaz e espirituosa feriu a burguesia no coração, sua impotência absoluta de compreender a marcha da História moderna terminou sempre por um efeito cômico.
A guisa de bandeira, estes senhores arvoraram a sacola do mendigo, a fim de atrair o povo; mas logo que este acorreu, notou suas costas ornadas com os velhos brasões feudais e dispersou-se com grandes gargalhadas irreverentes.
Uma parte dos legitimistas franceses e a "Jovem Inglaterra", ofereceram ao mundo esse espetáculo divertido .
Quando os campeões do feudalismo demonstram que o modo de exploração feudal era diferente do da burguesia, esquecem uma coisa: que o feudalismo explorava em circunstâncias e condições completamente diversas e hoje em dia caducas. Quando ressaltam que sob o regime feudal o proletariado moderno não existia, esquecem uma coisa: que a burguesia moderna é precisamente um fruto necessário de seu regime social.
Aliás, ocultam tão pouco o caráter reacionário de sua crítica, que sua principal queixa contra a burguesia consiste justamente em dizer que esta assegura sob o seu regime o desenvolvimento de uma classe que fará ir pelos ares toda a antiga ordem social,
O que reprovam à burguesia é mais o ter produzido um proletariado revolucionário, que o haver criado o proletariado em geral. Por isso, na luta política participam ativamente de todas as medidas de repressão contra a classe operária. E, na vida diária, a despeito de sua pomposa Fraseologia, conformam-se perfeitamente em colher os frutos de ouro da árvore da indústria e trocar honra, amor e fidelidade, pelo comércio de lã, açúcar de beterraba e aguardente
Do mesmo modo que o pároco e o senhor feudal marcharam sempre de mãos dadas, o socialismo clerical marcha lado a lado com o socialismo feudal. Nada é mais fácil que recobrir o ascetismo cristão com um verniz socialista. Não se ergueu também o cristianismo contra a propriedade privada, o matrimônio e o Estado? E em seu lugar não predicou a caridade e a pobreza, o celibato e a mortificação da carne, a vida monástica e a igreja? O socialismo cristão não passa de água benta com que o padre consagra o despeito da aristocracia.

O SOCIALISMO PEQUENO-BURGUÊS

Não é a aristocracia feudal a única classe arruinada pela burguesia, não é a única classe cujas condições de existência se estiolam e perecem na sociedade burguesa moderna. Os pequenos burgueses e os pequenos camponeses da Idade Média foram os precursores da burguesia moderna.. Nos países onde o comércio e a indústria são pouco desenvolvidos, esta classe continua a vegetar ao lado da burguesia em ascensão.
Nos países onde a civilização moderna está florescente forma-se uma nova classe de pequeno burgueses, que oscila entre o proletariado e a burguesia; fração complementar da sociedade burguesa, ela se reconstitui incessantemente. Mas os indivíduos que a compõem se veem constantemente precipitados no proletariado, devido à concorrência; e, com a marcha progressiva da grande indústria, sentem aproximar-se o momento em que desaparecerão completamente como fração independente da sociedade moderna e em que serão substituídos no comércio, na manufatura, na agricultura, por capatazes e empregados.
Nos países como a França, onde os camponeses constituem bem mais da metade da população, é natural que os escritores que se batiam pelo proletariado contra a burguesia, aplicassem à sua crítica do regime burguês critérios pequeno-burgueses e camponeses e defendessem a causa operária do ponto de vista da pequena burguesia. Desse modo se formou o socialismo pequeno-burguês. Sismondi é o chefe dessa literatura, não somente na França, mas também na Inglaterra.
Esse socialismo analisou com muita penetração as contradições inerentes às relações de produção modernas. Pôs a nu as hipócritas apologias dos economistas. Demonstrou de um modo irrefutável os efeitos mortíferos das máquinas e da divisão do trabalho, a concentração dos capitais e da propriedade territorial, a superprodução, as crises, a decadência inevitável dos pequenos burgueses e camponeses, a miséria do proletariado, a anarquia na produção, a clamorosa desproporção na distribuição das riquezas, a guerra industrial de extermínio entre as nações, a dissolução dos velhos costumes, das velhas relações de família, das velhas nacionalidades.
Todavia, a finalidade real desse socialismo pequeno-burguês é ou restabelecer os antigos meios de produção e de troca e, com eles, as antigas relações de propriedade e toda a sociedade antiga, ou então fazer entrar à força os meios modernos de produção e de troca no quadro estreito das antigas relações de propriedade que foram destruídas e necessariamente despedaçadas por eles. Num e noutro caso, esse socialismo é ao mesmo tempo reacionário e utópico.
Para a manufatura, o regime corporativo; para a agricultura, o regime patriarcal: eis a sua última palavra. Por fim, quando os obstinados fatos históricos lhe fizeram passar completamente a embriaguez, essa escola socialista abandonou-se a uma verdadeira prostração de espírito.

Karl Marx e Friedrich Engels, em Manifesto do Partido Comunista

Imagem

Haverá ainda, no mundo, coisas tão simples e tão puras como a água bebida na concha das mãos?

Mário Quintana, em Caderno H

04/09/2026

Esperanza Spalding | I Know You Know

Fogo no Rabo!

Charge: Thiago Silva

Cântico de júbilo

Ao meu Cony, Carlos Heitor, e a Bia do lado dele

Meu coração se aflige
quando fôlego lhe falta
para dar manhã bem cedo
o seu rubro mirantã
à voragem do meu sonho.

Sei que a qualquer momento
ele pode deixar de me valer.
Já por três vezes muito perto esteve
do desmaio, mas, fiel a seu destino,
se reergueu, não deixou que meu canto
restasse como insólita lembrança
de palavra feliz emudecida.

Como fulgor de aurora, me levanta
a alegria de ouvir meu coração
batendo firme, cântico de júbilo,
por me ver perseguir, perseverante.
Ele não sabe que algo se germina,
conspira escuro contra o seu fervor.
Nem poderá prever o instante certo
do seu silêncio. Não esteja perto.

Thiago de Mello, em Acerto de contas

A Contadora de Filmes


[5]

Alguns se perguntarão por que meu pai não ia, ele mesmo, ao cinema; pelo menos quando passassem um filme mexicano. Meu pai não conseguia andar. Tinha sofrido um acidente de trabalho que o deixou paralítico da cintura para baixo. Não trabalhava mais. Recebia uma pensão de invalidez que era uma miséria, mal dava para comer.
Nem preciso dizer que a gente não tinha nem para uma cadeira de rodas. Para levá-lo da sala para o quarto, ou do quarto para a porta da rua – onde ele gostava de beber sua garrafa de vinho tinto vendo passarem a tarde e seus amigos –, meus irmãos tinham adaptado as rodas de um velho triciclo na poltrona. O triciclo tinha sido o primeiro presente de páscoa do meu irmão mais velho e as rodas não aguentavam muito o peso do meu pai, dobravam, e era preciso ficar consertando tudo o tempo inteiro.
E a minha mãe? Bom, minha mãe, depois do acidente, abandonou meu pai. Abandonou meu pai e nos abandonou, os seus cinco filhos. Assim, num vupt! Por isso lá em casa meu pai tinha nos proibido de falar dela; da “sirigaita”, como a chamava com desdém.
“Não me falem dessa sirigaita” – dizia ele, quando algum de nós, sem querer, deixava escapar a palavra mamãe.
Depois, entrava no silêncio e a gente levava horas até conseguir tirá-lo de lá.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

Zoo

O que se passou no cercado grande: Juntos, o gamo e a ema rimam. Ovinos pastam, os carneiros valentins. Impõe-se oficialmente aberto o pavão — cauda erguida verde. O jaburu anda, meticuloso passo angular, desmeias pernas tão suas. Os carneiros são da Barbaria! A ema persegue os carneiros — a ema que come cobra. Pulam da grama os gamos deitados, branquipretos, rabicurtos: feito passarinhos. O jaburu, bico fendidamente, também corrivoa, com algo de bruxo e de aranha. Só o pavão, melindroso humilde, fica: coifado com seu buquezinho de violetas.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

Arpoador

Um itabirano que há cinquenta anos não revia a cidade natal, deixada aos quinze, voltou lá e ficou triste; e ficando triste, imprimiu um boletim de que me mandaram um exemplar. Queixa-se, entre outros males, de que acabaram com as árvores, notadamente “o encantador e quase secular coqueiro do saudoso Batistinha”. Fecho os olhos e revejo o coqueiro; junto ao tronco rugoso, lá vem a imagem do Batistinha, com o bando de gente, fatos e sensações daquele tempo; e sinto — o que é normal nesse jogo da evocação — que, destruídas lá fora, as coisas se vão recompondo cá dentro, até que, com a nossa morte, se acabem de vez esses coqueiros internos, dos quais só um ou outro sobrevive guardado em página literária ou alusão histórica.
Agora, quem quiser ver a praia do Arpoador, é fechar os olhos; e não adianta distribuir boletim, que a praia não volta, levada que foi pelo mar em fúria ou simplesmente enlunado. Quem nela se deitou domingo 8, não a encontrou mais domingo 15; sem aviso, sem consideração a tanto programa dominical que se organizava no correr da semana, a onda ferrou o dente na areia clara, e as duas lá se foram, na vertigem. Vão talvez aquietar-se em pousos longínquos, onde pedras tão nuas como as do Arpoador de hoje esperam vez. A praia nova atrairá outros corpos, a mesma areia pisada por pés gentis ou rudes sofrerá novas pressões, mas esse “momento” na história da areia, que se chamava praia do Arpoador, está arquivado em nós, tão frágil arquivo.
Não era um bem carioca, mas um bem nacional. Acendia um desejo em rapazes e moças do Norte, do Oeste, de Leste: “Quando for ao Rio vou tomar banho no Arpoador”. Mesmo em países distantes, esse nome está ligado a manhãs de vento e azul, a montanhas violeta ou cinza presidindo, a um piscar de farol, a ilhas que mesmo próximas guardam um segredo de solidão; tudo isso embutido numa sensação de torpor ou euforia, que marcou para sempre aquele lugar, e ficou sendo como um eflúvio dele.
Em suma, a praia do Arpoador era um bem dos sentidos, que são ciosos de sua fazenda. Na voluptuosidade da vista, do tato, da brisa marinha sorvida a pleno, estavam suas riquezas, logo convertidas em memórias. O amor ali fincou suas barracas, mas podia fincá-las também a simples amizade, e até a indiferença sentimental. Não era menor o prazer de banhar-se ou tostar-se, numa ou noutra situação emotiva. Todos fruíam igualmente de um mar bravo, limpo, da melhor espuma, da concha mais finamente colorida. A preferência da gente “bem”, acentuada nos últimos tempos, não impedia que o lobo solitário ali se esticasse, e revigorasse ao sol sua misantropia. A praia não tomava partido.
Mas o que tornaria o Arpoador infrangível na lembrança dos que o frequentavam era a teoria de corpos jovens a desfilar em suas areias, no cenário de uma eflorescência sempre cambiante, com a água, a nuvem e o som surdo se atando e desatando continuamente. Proust, doutor no assunto, se enlevava diante de uma rapariga em flor, pelo seu estado de forma em mudança, pois lhe trazia à mente “essa perpétua recriação dos elementos primordiais da natureza, que contemplamos diante do mar”. Mas o nosso mar soverteu a praia, e as moças já não pousam ali sua arquitetura e seu riso. Também não se verá mais, em certa noite do ano, os devotos de branco acendendo velas na areia, e envolvendo-as de flores. Sobrou apenas, na vazante, o espaço para uma ou duas pessoas depositarem sua saudade, sem barraca. Passei por lá ontem e censurei o mar, que tudo destrói; mas, no rumor que vinha das ondas, ele parecia explicar-se: “Nada disso, irmão. Estou apenas trabalhando para a refeitura”*
*O cronista exagerou. A praia continua. (n. a.)

Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira

03/09/2026

Juliana Linhares e Demarca | Canoa Canoa

1639 – Lima

Martín de Porres

Tocam fúnebres os sinos das igrejas de Santo Domingo. À luz das velas, banhado em suores gelados, Martín de Porres entregou sua alma depois de muito lutar contra o Demônio com o auxílio de Maria Santíssima e de Santa Catarina Virgem e Mártir. Morreu em sua cama, com uma pedra como travesseiro e uma caveira ao lado, enquanto o vice-rei de Lima de joelhos, beijava a sua mão e lhe rogava que intercedesse para que lhe abrissem um lugarzinho lá no Céu.
Martín de Porres tinha nascido de uma escrava negra e seu amo, cavaleiro de tradição e puro solar espanhol, que não a engravidou para dispor dela como coisa, e sim para aplicar-lhe o princípio cristão de que na cama todas são iguais perante Deus.
Aos quinze anos, Martín foi doado ao convento dos frades dominicanos. Aqui viveu seus trabalhos e milagres. Nunca o ordenaram sacerdote, por ser mulato; mas abraçando com amor a vassoura, varreu cada dia os salões, os claustros, a enfermaria e a igreja. Navalha na mão, barbeava os duzentos curas do convento; atendia os doentes e distribuía roupa limpa com aroma de alecrim.
Quando soube que o convento sofria penúrias de dinheiro, apresentou-se ao prior:
– Ave Maria.
– Gratia plena.
– Que o senhor venda este mulato cachorro – ofereceu-se.
Deitava em sua cama os mendigos ulcerosos da rua e orava de joelhos durante toda a noite. Ficava branco feito neve na luz sobrenatural; brancas almas saíam de seu rosto quando cruzava o claustro à meia-noite, voando qual divino meteoro, rumo à solidão de sua cela. Atravessava portas fechadas com cadeado e rezava, às vezes, ajoelhado no ar, longe do chão; os anjos o acompanhavam ao côro levando luzes nas mãos. Sem sair de Lima consolava os cativos em Argel e salvava almas nas Filipinas, China e Japão; sem mover-se de sua cela, tocava os sinos do angelus. Curava os moribundos com panos molhados em sangue de galo negro e pó de sapo e mediante exconjuros aprendidos com sua mãe. Com o dedo roçava um dente e suprimia a dor e convertia em cicatrizes as feridas abertas; fazia branco o açúcar escuro e apagava incêndios com o olhar. O bispo teve de proibir-lhe tantos milagres sem autorização.
Depois das matinas se despia e açoitava as próprias costas com um chicote de nervos de boi amarrados em grossos nós, e enquanto arrancava seu próprio sangue gritava:
– Vil mulato cachorro! Até quando vai durar tua vida pecadora?
Com olhos de súplica, lacrimejantes, sempre pedindo perdão, passou pelo mundo o primeiro santo de pele escura do branquíssimo santuário da Igreja católica.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos