sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Yamandu Costa e António Zambujo | Prenda Minha

A estrada

No relógio do Céu, o Sol ponteiro
Sangra a Cabra no estranho céu chumboso.
A Pedra lasca o Mundo impiedoso,
A chama da Espingarda fere o Aceiro.

No carrascal do sol, azul braseiro,
Refulge o Girassol rubro e fogoso.
Como morrer na sombra do meu Pouso?
Como enfrentar as flechas desse Arqueiro?

Lá fora, o incêndio: o roxo lampadário
das Macambiras rubras e auri-pardos
Anjos-diabos e Tronos-vai queimando.

Sopra o vento – o Sertão incendiário!
Andam monstros sombrios pela Estrada
e, pela Estrada, entre esses Monstros, ando!

Ariano Suassuna

Memórias e projetos

Sentar numa pedra e ficar quieta

Alba acabou de fazer um curso de massagem e estreou em mim. Tem talento, dormi na cama dela, eu, a rainha da vigília, uma proeza e tanto. Está emagrecida, vincos ao redor da boca, olhos de febre. De insônia, ela disse, minha vontade é sentar numa pedra e ficar quieta pelo resto da vida, não pentear nem os cabelos, errei tanto com filho, a realidade é horrorosa, não estou aguentando nada de nada. Entendo por que o Cirilo matou o cachorro da mulher a pontapé, entendo, sim. Tomei birra de apartamento novo, tudo igual, os cômodos fazem quina, o que é isso, meu deus, não tem um cômodo certo, os banheiros com o mesmo barradinho decorado, me dá vontade de gritar, que bobeira é essa que deu no mundo? Tou rasgando papel, encho saco e mais saco de papel rasgado, só deixei no armário um prato e um copo pra cada um, minha gana é desentupir o mundo, embalagem de plástico me dá tontura. A última vez que fiquei assim igual a Alba, tive de tomar remédio forte. Como a Joana, ela também não conhece o Peru e descobre coisas, só fala em horror da realidade. É mesmo paralisante pro bem ou pro mal. Num momento da minha viagem, numa capela comum, Agnes começou a cantar, ao mesmo tempo frágil e firme, como se um fio de cabelo fosse um fio de diamante, um canto para a Virgem Maria, um louvor, num tom que pedia fôlego além das forças de Agnes, mas o canto não se quebrava e suspendia o instante. Éramos quatro pessoas, Antônio, já pronto para nos fotografar, saiu da capela. Ninguém falou nada. Víramos uma realidade, fendera-se uma cortina. Víramos o quê? Existíramos no que é. Conheci um belo ídolo dos incas, ídolo de grandes olhos a que chamavam, parece, O QUE VÊ. Ao Senhor Jesus chamamos nós O VIVENTE. Pagãos e cristãos, tememos e adoramos. Cuzco à noite, a cidade mais bela que já vi, suspendida no tempo por uma luz amarela. Ficar doente é um dos preços que se paga pela graça de ver. Alba também vai melhorar.

Adélia Prado, in Quero minha mãe

Convicções corretas

Não fique enojado, desanimado ou desgostoso caso não consiga fazer tudo de acordo com as convicções corretas. Quando falhar, retorne, contente-se caso a maioria dos seus atos sejam consistentes com a natureza do homem e ame esses aos quais retorna. Não volte à filosofia como se ela fosse uma mestra. Aja como quem têm olhos doloridos e os umedece ou aplica um pouco de esponja e ovo ou emplastro. Assim, não deixará de obedecer à razão e nela repousará.
Lembre-se que a filosofia requer somente o que a sua natureza demanda. É você quem almeja algo a mais que discorda da natureza.
Ora, o que poderia ser mais harmonioso?”
Não é essa a exata dúvida por meio da qual os deleites nos iludem? Pondere se a magnanimidade, a liberdade, a simplicidade, a equanimidade e a piedade não são mais harmônicas. O que harmoniza mais do que a própria sabedoria, quando pensa na segurança e no curso feliz de tudo que depende da faculdade do entendimento e do conhecimento?

Marco Aurélio, in Meditações

Samba da bênção | Baden Powell e Vinicius de Moraes, 1963


Lançado em 1966, o álbum Os afro-sambas é um marco divisor da música popular brasileira. Mas a revolução estética sintetizada nesse disco começara em 1962, quando o virtuoso violonista fluminense nascido Baden Powell de Aquino (1937-2000) começou a compor em parceria com Vinicius de Moraes. É desse período “Samba da bênção”, obra-prima de síntese rítmica e poesia popular de alta densidade, anunciando as inovações formais de Baden e Vinicius. O samba é um dos destaques do álbum Vinicius & Odette Lara, editado em 1963, ao lado de mais onze composições da então recém-inaugurada parceria, incluindo outros pioneiros afro-sambas como “Berimbau”, “Labareda” e “Deixa”.
Com suas canções impregnadas de magia, paixão e negritude, Baden e Vinicius avançaram muito além da já esgotada fórmula da bossa nova, que saía de moda no Brasil e começava sua brilhante carreira internacional. Os afro-sambas anunciavam o futuro bebendo no passado ancestral, abrindo trilhas que logo seriam seguidas por muitos outros, reaproximando o samba de suas fontes afro-baianas e mudando o rumo da música brasileira.
Na letra autobiográfica, o poeta se apresenta (“Eu, por exemplo, o capitão do mato / Vinicius de Moraes / Poeta e diplomata / O branco mais preto do Brasil / Na linha direta de Xangô, saravá!”) com uma declaração de identidade cultural e oferece um manual de vida:
É melhor ser alegre que ser triste / Alegria é a melhor coisa que existe / é assim como a luz no coração / Mas pra fazer um samba com beleza / É preciso um bocado de tristeza / senão não se faz um samba, não.”
Tão importante quanto a melodia simples sobre dois acordes e um ritmo irresistível é a parte falada, em que, sobre a base rítmica do violão de Baden, Vinicius homenageava amigos e mestres do passado e do presente pedindo-lhes a bênção: “A bênção, Dorival Caymmi, João Gilberto, Pixinguinha, Noel Rosa, Tom Jobim, Carlos Lyra, Nelson Cavaquinho, Cartola, Ary Barroso e muitos outros”, dedicando a cada um deles uma pequena declaração de amor, respeito e amizade.
Entre eles, o maestro Moacir Santos (“que não és um só, és tantos”) merece crédito à parte. Afinal, a gravação original de “Samba da bênção”, em Vinicius & Odette Lara, tinha arranjo e regência dele. Maestro, arranjador, orquestrador, saxofonista, compositor e também professor de dezenas de músicos da época, incluindo Baden Powell, Moacir já vinha procurando essa reconexão com a África em sua música, que foi reunida em seu fundamental primeiro álbum, Coisas (1965).
Sem espaço no Brasil, Moacir (1926-2006) foi viver e ensinar nos Estados Unidos em 1967 e nunca mais voltou.
Em 1966, com a versão em francês de Pierre Barouh e o título de “Saravá”, fez grande sucesso na França, cantada por Barouh no popularíssimo filme Um homem, uma mulher, de Claude Lelouch.
Em 2000, fez sucesso internacional em uma versão electrobossa de Bebel Gilberto.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

Pensamentos em Itatiaia

Certamente ela desceu para este pomar, aventurou-se para junto da mata, ouviu cantar esses pássaros. E na varanda, de tarde, talvez tenha pensado em mim. De algum modo eu vivi aqui, eu existi um pouco nessas alturas há longos, longos anos.
Só as árvores mais antigas poderiam saber esse velho segredo triste, esse amor que se perdeu para sempre; este pensamento é tão pueril e romântico, essa coisa das árvores saberem coisas e se lembrarem das pobres coisas da gente! Sinto-me só, triste, vazio, diante da lembrança desse amor antigo que em certo momento era tudo o que existia no mundo e que, entretanto, não existe mais, e é como se não tivesse existido, vive apenas na pueril, inexistente lembrança dessas velhas árvores, dessa água fria que desce da montanha cantando.
O rapaz moreno e magro que alguém um dia entreviu em meio a esses troncos é um triste senhor, agora real, vestido de preto, sentado aqui. A imaginar histórias tolas de velhas árvores que saberiam coisas, que sentiriam e guardariam pensamentos que alguém há muito tempo, há tanto tempo, teria pensado aqui. É um triste senhor gordo, triste como um pobre menino falando sozinho.
Há pensões finlandesas com vapores de sauna e banhos de córrego, e os hotéis tradicionais perdidos no bosque. Vamos ver a cascata da Maromba, andamos para baixo e para cima, e depois passeio, solitário, num desses bosques junto de um hotel.
Ah! Creio divisar, entre os escuros troncos, ao fundo, um vulto gentil que logo se perde na espessura. Minha memória é arbitrária e ruim. Estremeço a uma lembrança tão viva, tão pungente, de algo que eu teria vivido neste lugar a que, entretanto, nunca vim.
Sento-me em um tronco, fico ali quieto, como alguém que acaba de ser ferido. O nome desse hotel de que eu jamais me lembraria, me restitui aquela cuja imagem há pouco acreditei ver. Daqui, talvez daquela pequena sala junto à entrada, há muitos e muitos anos, alguém me escreveu uma carta.
Não me lembro o que dizia; rasguei-a, depois de passar o dia inteiro na rua com esse papel no bolso, junto do coração, me queimando de ternura.
Aqui ela esteve, e estava triste. Por aquele caminho talvez tenha descido a cavalo, de manhã, os leves cabelos ao vento. Esta mesma luz do sol, coada por essas árvores, beijou-lhe as faces, na manhã de ar fino.

Rubem Braga, in A traição das elegantes

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Lari Basilio | All To You

Tem gente

tem gente que nunca andou de bicicleta
mas sabe pedalar a sua vida
tem gente quem fuma cigarro e morre de câncer
antes de quem fuma maconha
tem gente que diz bom dia
e do nada morre à tarde
tem gente que nunca foi ao cinema
e sua vida virou filme
tem gente que compra carros novos
e morre atropelado
tem gente que pensa que é moderna
e é primata até dizer bosta
tem gente que se falta luz
nem um candeeiro acende
tem gente que nem o poste suporta

tem gente que no bar fala demais
e esquece de pagar a conta
tem gente que nem a conta paga

e os dinossauros nunca souberam
que o homem existiu.

Miró da Muribeca, in O penúltimo olhar sobre as coisas

Decoração

 

106 anos

Dia 06 de novembro de 2008

Essa mulher de cento e seis anos, Ann Nixon Cooper, que Obama citou no seu primeiro discurso como presidente eleito dos Estados Unidos, talvez venha a ocupar um lugar na galeria das personagens literárias favoritas dos leitores norte-americanos, ao lado daquela outra que, viajando num autocarro, se recusou a levantar-se para dar o lugar a um branco. Não se tem escrito muito sobre o heroísmo das mulheres. Entre o que Obama nos contou sobre Ann Nixon Cooper não havia actos heróicos, salvo os do viver quotidiano, mas as lições do silêncio podem não ser menos poderosas que as da palavra. Cento e seis anos a ver passar o mundo, com as suas convulsões, os seus logros e os seus fracassos, a falta de piedade ou a alegria de estar vivo, apesar de tudo. Na noite passada essa mulher viu a imagem de um dos seus em mil cartazes e compreendeu, não podia deixar de compreendê-lo, que algo novo estava acontecendo. Ou então guardou simplesmente no coração a imagem repetida, à espera de que a sua alegria recebesse justificação e confirmação. Os velhos têm destas coisas, de repente abandonam os lugares-comuns e avançam contra a corrente, fazendo perguntas impertinentes e mantendo silêncios obstinados que arrefecem a festa. Ann Nixon Cooper sofreu escravidões várias, por negra, por mulher, por pobre. Viveu submetida, as leis teriam mudado no exterior, mas não nos seus diversos medos, porque olhava à sua volta e via mulheres maltratadas, usadas, humilhadas, assassinadas, sempre por homens. Via que cobravam menos que eles pelos mesmos trabalhos, que tinham de assumir responsabilidades domésticas que iam ficar na sombra, apesar de necessárias, via como lhes travavam os passos decididos, e não obstante continuam a caminhar, ou não se levantando num autocarro, contemo-lo uma vez mais, como aquela outra mulher negra, Rosa Banks, que fez história, também.
Cento e seis anos a ver passar o mundo. Talvez o veja bonito, como a minha avó, pouco antes de morrer, velha e formosa, pobre. Talvez a mulher de quem Obama nos falou ontem sentisse a serenidade da alegria perfeita, talvez o saibamos um dia. Entretanto felicitemos o presidente eleito por tê-la tirado da sua casa, por ter-lhe prestado uma homenagem que ela provavelmente não necessitaria, mas nós, sim. À medida que Obama ia falando de Ann Nixon Copper, percebemos que a cada palavra o exemplo nos tornava melhores, mais humanos, à beira de uma fraternidade total. De nós depende fazer durar este sentimento.

José Saramago, in O caderno

Delícias de Manaus

As mães ensinam que é feio escutar conversa dos outros, mas, com os coletivos entupidos de gente, somos forçados a isso, e acabamos nos interessando pelo que não é de nossa conta. Talvez fosse mais acertado aconselhar, hoje em dia: Tome parte na conversa alheia. Ajuda a passar o tempo, e contribui para confraternizar solitários e complexados.
Mas conversas há que se desenvolvem num círculo fechado, por mais públicas que se afigurem, e não adianta você demonstrar ânimo participante. Quem disse que o cronista era capaz de insinuar-se naquele papo amazônico, a centímetros apenas de seus ouvidos, pois estava justamente com a cabeça ao nível do diafragma da gorda, enquanto a magra se comprimia a seu lado, nessa demonstração de todos os dias, de que dois corpos podem ocupar o mesmo lugar no espaço, desde que seja num micro-ônibus?
Eram duas moças entre caboclo e índio, e prosseguiam na conversa que devia ter começado na fila, e que o incômodo da situação não afetava. Em realidade não estavam ali. Estavam comendo em Manaus, pela saudade.
Meu primo chegou ontem de avião, não trouxe muita coisa. Mas vieram uns tucumãs, ô delícia!
De tucumã eu aprecio mais é o vinho. Você tem em casa?
Não, mamãe não tem podido fazer. E você?
Pois olhe, menina, tenho ainda duas garrafas, lhe cedo uma.
Aceito, sim, e vou escrever pra lá pedindo caxiri. Quando vier, reparto com você.
Gosto menos de caxiri, sabe? De pupunha, menina, o que me interessa mesmo é o coco no melaço. Uma bondade!
Era a gorda quem exclamava. A magrinha passava a língua nos lábios. E, por sua vez:
Fruta daqui não dá gosto… Quem está acostumado a coco, hem? de tantas variedades…
É mesmo. E que mais trouxe teu primo?
Bem, trouxe jacundá fresquinho, criatura! Imagine que ele na véspera foi gapuiar no igarapé, e zuque: jacundá apareceu. Foi só embarcar no avião cedinho, o comandante é camarada, e quando meu primo desceu, a gente até que estava sem fome, mas o peixe não esperava, então corremos pra casa e de madrugada preparamos e comemos ele.
Com tucupi, é?
Evidente! De um aipim especial, que isso meu primo não esqueceu nunca de trazer, e pimenta lá de casa.
Ai, ingrata, e você não telefonou pra gente.
Àquela hora? Deixa estar, que na próxima eu chamo. E não vai demorar, meu tio vem aí.
Pede a ele pra me trazer uma língua de pirarucu, filhinha. Preciso muito de um ralador, e esse negócio de lata não vai.
É, amortece o paladar. Mudando de assunto, estou pensando agora numa tartaruguinha de forno, que comi lá nas férias do ano passado; com sal, pimenta, limão e farinha-d’água, dessa passada em gurupema bem fina…
Ai, não me fale. Esta noite sonhei que estava comendo tambaqui de cacete, depois vinham uns ovinhos de tracajá; depois…
Ai! E você já sonhou com panelada de maniçoba, aqui no Rio?
Não, bem. Mas qualquer dia eu sonho.
Houve uma pausa. Lembrei-me do estudo de Dante Costa(4). Eram dois casos — raríssimos entre nós — de sensualidade alimentar, fixada pelo nativismo. E a magra:
Você onde está almoçando agora?
Numa pensão da avenida Antônio Carlos. Cinquenta cruzeiros, mas a dona é baiana, e embora não seja a mesma coisa de Manaus, você sabe, sempre é melhor que essa danação de comidinha carioca!

(4) Trata-se provavelmente de uma referência ao livro O sensualismo alimentar em Portugal e no Brasil, de Dante Costa, publicado em 1952 pelo Ministério da Educação e Saúde, Serviço de Documentação.

Carlos Drummond de Andrade, in Fala, Amendoeira

Tabacaria, por Antônio Abujamra

Copacabana

Em conversa com Pablo Neruda num hotel da avenida Atlântica, ele me contou que o corpo de Walt Disney estava congelado em local secreto à espera da cura do câncer. Francamente, eu acreditava que Neruda fosse falar de poesia quando me dispus a lhe apresentar a noite de Copacabana. Mas ele parecia cansado de ser Pablo Neruda e, sem paciência para jornalistas e fotógrafos que o aguardavam na calçada da avenida, me pediu para sairmos por uma porta lateral. Era uma porta giratória, o que talvez me tenha desnorteado, pois sem querer o conduzi em direção oposta à beira-mar. Demos numa parte acanhada do bairro, de onde toda luz parecia sugada para resplandecer na avenida. Parecia um lado avesso de Copacabana, onde os fundos dos prédios ficavam de frente para a rua. Eram prédios cinzentos de doze ou mais andares, em cujas fachadas figuravam janelas de vidro leitoso ou canelado e roupas estendidas à guisa de cortinas. No térreo havia portas de garagem e entradas de serviço, além de botequins pés-sujos onde Neruda deve ter se desgarrado de mim sorrateiramente; em vez de tomar espumantes num terraço da orla, ele era bastante comunista para preferir uma cachaça num balcão sinistro. Rodei à sua procura de bar em bar, mas não havia sombra dele, e a caminhada foi ficando mais difícil à medida que andarilhos e indigentes se deitavam para dormir na calçada. Comecei a me afligir pela sorte do poeta, imaginei um assalto, um sequestro, um golpe do suadouro nas mãos de um proxeneta. Corri ao hotel na vã esperança de que ele tivesse voltado de táxi, e só pensava no que dizer a Jorge Luis Borges, que me incumbira de ciceronear Pablo Neruda no Rio. É possível que Borges desdenhasse a poesia de Neruda, mas não a ponto de desejar que ele desaparecesse numa cidade violenta como a minha. Agora, seus inimigos peronistas o crucificariam por confiar o poeta a mim, um menino de dezesseis anos. Neruda, de fato, não voltou ao hotel até de manhãzinha, quando adormeci numa poltrona do saguão depois de esperar por ele a noite inteira. Despertei com o dia alto, desconfiando que o passeio com Neruda fora um sonho, quando vi Ava Gardner sair do elevador.
Infelizmente, nunca estive com Neruda nem jamais falei com Borges. Copacabana, essa sim, eu conhecia de ponta a ponta, mas mesmo morando diante do mar, às vezes me sentia contaminado pelo lado sombrio do bairro. Visto de frente, eu era um adolescente de belas cores, o rosto bronzeado e uns olhos claros de fulminar as garotas que mirava na praia. Já minhas costas eram de pobre, apinhadas de cravos, espinhas, quistos e furúnculos que, para além do prejuízo estético, denunciavam minhas práticas masturbatórias. Por um tempo experimentei ir à praia de camisa, mas pegava mal, era traje de suburbano. Então fui me chegando às ruas internas de Copacabana, onde jogava futebol no asfalto com os filhos das empregadas. Ali eu podia andar de torso nu sem constrangimento, pois meus camaradas, com séculos de bordoadas no lombo, talvez não hesitassem em trocar sua pele marrom por uma vermelhenta e sebácea como a minha. De noite, contudo, eu tinha um terno bege para passear na avenida Atlântica, onde os grandes hotéis atraíam jornalistas e fotógrafos ávidos por topar com as estrelas de cinema que na época abundavam por aqui. Pablo Neruda inclusive me contou que, certa vez, Ava Gardner se encantou com o crooner do bar do Copacabana Palace e o convidou a subir à sua suíte. Ao vê-la nua, o sujeito quedou mesmerizado para sempre, levando-a a atirar copos, garrafas, jarros de flores, telefones e cadeiras pela janela. Verídico ou não, foi desse episódio que me lembrei ao ver Ava Gardner sair do elevador. O capitão porteiro nos abriu de par em par a porta nobre da avenida Atlântica, mas Ava Gardner achou excessiva a claridade do dia, mesmo usando óculos escuros. Propôs que fôssemos tomar um martíni ali mesmo, no bar a meia-luz do hotel. Depois de alguns drinques, ela me disse que não queria saber das praias, nem do Pão de Açúcar, muito menos do Cristo Redentor. Antes de deixar o Rio, no entanto, fazia questão de subir ao morro onde rodaram o filme Orfeu Negro, musical a que ela assistira inúmeras vezes. Aproveitei para cantar imitando João Gilberto, o que a levou a me levar pela mão, não à sua suíte como sonhei por um segundo, mas a um conversível rabo de peixe estacionado na avenida Atlântica. No banco traseiro com Ava, sentado com os pés no estofamento, ordenei em inglês ao motorista que nos levasse ao início da avenida, mas ao pé do morro da Babilônia ele vacilou. Disse que além daquele ponto não iria, porque era muito perigoso, e não adiantou a madame lhe acenar com o maço de dólares que trazia na bolsa. As crianças da favela já trepavam no capô do carro quando ela me convocou a acompanhá-la a pé morro acima. Logo os moradores mais crescidos reconheceram a grande estrela, começaram a lhe pedir autógrafos, e naquele empurra-empurra não faltou quem lhe beliscasse e apalpasse a bunda. Foi aí que um valentão numa Harley-Davidson, com ares de chefe do tráfico, dispersou a turba. Quando Ava montou na garupa da moto, lembrei-lhe que ela era casada com o Frank Sinatra. Como não me atendesse, avisei da sua filmagem noturna logo mais, mas o ronco da moto abafou minha voz. Voltei ao hotel sem saber como me explicar ao diretor do filme, John Huston, que deixara Ava Gardner aos meus cuidados. Encontrei-o a beber com o ator Richard Burton na piscina do Copacabana Palace, os dois aparentemente despreocupados com o sumiço da diva problemática. Aliás, já estavam de olho numa substituta, a atriz alemã Romy Schneider, que vi deitada numa espreguiçadeira lendo o roteiro de A Noite do Iguana.
Infelizmente, não tive o prazer de conhecer John Huston nem Richard Burton, ao passo que Romy Schneider nunca foi cogitada para A Noite do Iguana, rodado com Ava Gardner no México. Quanto a Pablo Neruda, morreu doze dias depois do seu amigo Salvador Allende, que se matou para não dar esse gosto a Pinochet. Com o tempo, fui perdendo a inocência de sonhar com artistas, e a vida me levou a paragens distantes de Copacabana. Nas raras ocasiões em que passava pelo bairro, evitava repisar os caminhos da infância, pois tenho a impressão que a nostalgia é um pântano. Relembrar a juventude é como olhar dentro de um poço, e da última vez em que estive numa avenida Atlântica cheia de gente esquisita, minha cabeça rodou e vi tudo preto. Busquei abrigo no Copacabana Palace, onde Pablo Neruda me contou que Romy Schneider também tinha síndrome do pânico. Tudo começou quando ela descobriu que o tio Adolfo, que a sentava no colo e beijava suas bochechas de criança, outro não era senão Adolf Hitler, íntimo de sua mãe. Daí compreendi o ar angustiado com que ela me pediu um cigarro na piscina do hotel. Ficou desolada ao saber que eu não fumava Chesterfield, e o Continental sem filtro que lhe ofereci se molhou com a chuva grossa que só chovia em cima dela. Envolvi-a num roupão felpudo com o monograma do hotel e me enfiei com ela num corredor que desembocou num salão chamado Golden Room. Para minha imensa felicidade, os bacanas pulavam e cantavam a marchinha de Carnaval que traduzi para Romy em alemão: mamãe eu quero, mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar. Falei no seu ouvido que a vida é bela, falei que nasci para ser rico, falei para ela esquecer o Alain Delon, e quando ia beijar a sua boca, fui agarrado por dois grandalhões. Disseram que eu não tinha gabarito para frequentar o Golden Room e me atiraram dentro de um elevador com um ascensorista mal-encarado. O elevador desceu a uma velocidade tal que por pouco o estômago não me saía pela boca. Quando a porta se abriu me vi cara a cara com um general de nome basco, Etchegoyen ou Etcheverría, cuja cara não me era estranha. Perguntei-lhe se não nos havíamos deparado quarenta anos antes num quartel, mas ele me informou que tal entrevista se dera com seu tio, que já na época me repreendeu por andar com comunistas. Antes que eu pudesse me defender, ele chamou seu ajudante de ordens, um tipo de bigodinho que me lembrou Walt Disney. Este me levou para um mafuá recém-instalado na praça do Lido, onde eu deveria liberar a criança que, nas palavras dele, ainda pulsava dentro de mim. Fui instado a andar no trem-fantasma, na montanha-russa, no carro de dar trombada, dei voltas na roda-gigante e tive náuseas. Pedi licença para ir embora, mas Walt Disney me apontou um rinque de patinação no gelo, a maior atração do parque. Com efeito, o rinque estava tão lotado que ninguém podia se locomover. As pessoas se acotovelavam olhando para o chão, e havia um corpo no fundo do gelo. Não deu para ver direito, mas acho que era o Pablo Neruda.

Chico Buarque, in Anos de chumbo e outros contos

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Cabelos felizes

No seu livro Literatura e os deuses, o florentino Roberto Calasso fala no prazer provocado pelo que ele chama de literatura absoluta, no sentido estrito de absolutum: sem amarras ou referências, “livre de qualquer tarefa ou causa comum e de qualquer utilidade social”, e na dificuldade em definir o que, exatamente, a faz absoluta e nos enleva. “Temos de nos resignar a isto: que a literatura não oferece qualquer sinal, nunca ofereceu qualquer sinal, pelo qual pode ser imediatamente identificada”, escreve Calasso, um daqueles italianos, como o Calvino e o Eco, que leram tudo e sabem tudo. O melhor, se não o único, teste que podemos fazer é o sugerido por Housman (A. E. Housman, poeta e latinista inglês): observar se uma sequência de palavras, silenciosamente pronunciada enquanto a navalha matinal desliza pela pele, eriça os cabelos da barba enquanto um arrepio desce pela espinha. E isto não é reducionismo fisiológico. Quem lembra uma linha de um verso ao se barbear experimenta esse arrepio, essa ‘romaharsa’, ou ‘horripilação’ como a que acometeu Arjuna no Bhagavad Gita quando deparou-se com a epifania de Krishna. E talvez 'romaharsa' seria melhor traduzido como ‘felicidade dos cabelos’, porque ‘harsa’ significa ‘felicidade’ e também ‘ereção’, inclusive no sentido sexual. Isto é típico de uma língua como o sânscrito que não gosta do explícito, mas sugere que tudo é sexual.
Viu só? O prazer estético, no fundo — ou, no caso, na superfície —, é igual ao prazer sexual, também se manifesta no homem e na mulher, com ou sem barba, por uma excitação da pele, por um movimento milimétrico de cabelos felizes. O arrepio que você sente ao ver uma frase ou uma pessoa particularmente bem torneadas é o mesmo, e é o que Arjuna sentiu diante da epifania de Krishna, só que em sânscrito. “Romaharsa”, guarde essa palavra. Quem sabe quando aparecerá a oportunidade de explorar o potencial erótico de uma citação do Bhagavad Gita dita assim no ouvido?

Luís Fernando Veríssimo, in Sexo na cabeça

Erro

The greatest error that men can commit is to attempt to jump over the gradualness and evolution of nature and attempt to realize today what nature has penned for tomorrow.
O maior erro que os homens podem cometer é tentarem saltar por cima da gradualidade e da evolução da natureza e realizar hoje aquilo que a natureza previu para amanhã.

Fernando Pessoa, in Aforismos e afins

Viciado em Adrenalina

Medo, a base da religião

A religião se baseia, acredito, em primeiro lugar e principalmente, no medo. Trata-se, em parte, do terror ao desconhecido e, em parte, como eu já disse, do desejo de sentir a existência de um tipo de irmão mais velho a proteger-nos em todos os problemas e disputas. O medo é a base de todo o problema: medo do misterioso, medo da derrota, medo da morte. O medo é o progenitor da crueldade, e portanto não é nada surpreendente o fato de a crueldade e a religião andarem lado a lado. Isso acontece porque o medo é a base de ambas as coisas. Neste mundo, agora podemos começar a compreender um pouco as coisas e a controlá-las com a ajuda da ciência, que abriu seu caminho à força, passo a passo, contra a religião cristã, contra as igrejas e contra a oposição de todos os preceitos antigos. A ciência pode nos ajudar a superar esse medo covarde no qual a humanidade vive há tantas gerações. A ciência pode nos ensinar, e acredito que também nosso próprio coração pode fazê-lo, a não mais olhar em volta em busca de apoios imaginários, a não mais inventar aliados no céu, mas, em vez disso, a olhar para os nossos próprios esforços aqui embaixo, a fim de fazer deste mundo um lugar adequado para se viver, em vez do tipo de lugar em que as igrejas ao longo desses séculos todos o transformaram.

Bertrand Russell, in Por que não sou cristão

Um doutor

Um doutor veio formado de São Paulo. Almofadinha.
Suspensórios, colete, botina preta de presilhas.
E um trejeito no andar de pomba rolinha. No verbo,
diga-se de logo, usava naftalina. Por caso, era
um pernóstico no falar. Pessoas simples da cidade
lhe admiravam a pose de doutor. Eu só via o casco.
Fomos de tarde no Bar O Ponto. Ele, meu pai e este
que vos fala. Este que vos fala era um rebelde
adolescente. De pronto o Doutor falou pra meu
pai: Meus parabéns Seo João, parece que seu filho
agora endireitou! E meu pai: Ele nunca foi torto.
Pintou um clima de urubu com mandioca entre nós.
O doutor pisou no rabo, eu pensei. Ele ainda
perguntou: E o comunismo dele? Está quarando
na beira do rio entre as capivaras, o pai respondeu.
O doutor se levantou da mesa e saiu com seu
andar de vespa magoada.

Manoel de Barros, in Memórias Inventadas – A segunda infância