28/08/2026

Marina Sena | Taiobeiras

 

isso?

isso?
aqui?
já?
assim?

Paulo Leminski, em Toda Poesia

Ponto de vista



Imagine o conto “Angústia” de Tchékhov narrado na primeira pessoa. Um velho nos contando que seu filho acabou de morrer. Nós nos sentiríamos constrangidos, desconfortáveis, até mesmo enfadados, e reagiríamos exatamente como os passageiros do cocheiro reagem na história. Mas a voz imparcial de Tchékhov imbui o velho de dignidade. Nós absorvemos a compaixão do autor por ele e ficamos profundamente comovidos, se não com a morte do filho do velho, certamente com o velho falando com sua égua.
Acho que é porque somos todos muito inseguros.
Quer dizer, se eu só apresentasse a você essa mulher sobre a qual eu estou escrevendo agora…
“Sou uma mulher solteira de quase sessenta anos. Trabalho no consultório de um médico. Volto para casa de ônibus. Todo sábado, lavo minhas roupas na lavanderia, depois faço compras no supermercado Lucky, compro o San Francisco Chronicle de domingo e volto para casa.” Você diria: “Ah, tenha a santa paciência”.
Mas o meu conto abre com “Todo sábado, depois de lavar suas roupas na lavanderia e fazer compras no mercado, ela comprava o Chronicle de domingo”. Você vai dar atenção a todos os detalhezinhos enfadonhos, obsessivos e compulsivos da vida dessa mulher, Henrietta, só porque ele está escrito na terceira pessoa. Vai pensar, bom, se o narrador acha que há alguma coisa nessa criatura melancólica sobre a qual vale a pena escrever, então deve haver mesmo. E vai continuar a ler para ver o que acontece.
Só que não acontece nada. Na verdade, a história ainda nem foi escrita. O que eu espero conseguir fazer é, por meio da utilização de detalhes intricados, tornar essa mulher tão verossímil que você não tenha como deixar de se compadecer dela.
A maioria dos escritores usa acessórios e cenários retirados de sua própria vida. Por exemplo, a minha Henrietta come toda noite seu jantarzinho magro sobre um jogo americano azul, usando belíssimos talheres italianos de inox. Um detalhe estranho, que pode parecer incoerente com essa mulher que corta cupons de desconto de toalhas de papel Brawny, mas que desperta a curiosidade do leitor. Pelo menos eu espero que desperte.
Não creio que eu vá dar nenhuma explicação para isso no conto. Eu mesma como com talheres elegantes desse tipo. Ano passado eu encomendei seis jogos de talheres do catálogo de Natal do Museum of Modern Art. Bem caros, cem dólares, mas valiam. Eu tenho seis pratos e seis cadeiras. Talvez eu possa dar um jantar para seis pessoas, pensei na época. Só que, na verdade, eram cem dólares por seis peças. Dois garfos, duas facas, duas colheres. Um jogo de talheres. Fiquei com vergonha de devolver o jogo; pensei: quem sabe o ano que vem eu compro outro?
Henrietta come com seus talheres bonitos e toma vinho californiano numa taça. Come salada numa tigela de madeira e comida congelada de baixa caloria num prato raso. Enquanto come, lê a seção “Mundo” do Chronicle, onde todos os artigos parecem ter sido escritos pela mesma primeira pessoa.
Henrietta mal pode esperar pela segunda-feira. Está apaixonada pelo dr. B., o nefrologista. Muitas secretárias/enfermeiras se apaixonam pelos “seus” médicos. É uma espécie de síndrome de Della Street.
O dr. B. é baseado no nefrologista para o qual trabalhei. Eu certamente não estava apaixonada por ele. Às vezes brincava dizendo que nós tínhamos uma relação de amor e ódio. Eu o achava tão detestável que isso devia me fazer lembrar o ponto a que relacionamentos amorosos às vezes chegam.
Já Shirley, a minha antecessora, era apaixonada por ele. Ela me mostrou todos os presentes de aniversário que tinha lhe dado. A jardineira com a trepadeira e a pequena bicicleta de latão. O espelho decorado com um coala em vidro fosco. O conjunto de canetas. Ela disse que ele tinha adorado todos os presentes, menos a capa de banco de bicicleta de pele de carneiro felpuda. Ela teve que trocá-la por luvas de ciclista.
Na minha história, o dr. B. ri de Henrietta por causa da capa felpuda, é muito debochado e cruel, como sem dúvida nenhuma era capaz de ser. Na verdade, esse vai ser o clímax do conto, quando Henrietta se dá conta do desprezo que ele sente por ela, de como é patético o amor que ela sente.
No dia em que comecei a trabalhar lá, encomendei aventais de papel. Shirley usava aventais de tecido: “Xadrez azul para os meninos, rosas cor-de-rosa para as meninas”. (Muitos dos nossos pacientes eram tão velhos que usavam andadores.) Todo fim de semana, ela levava os aventais sujos para casa no ônibus e não só os lavava como engomava e passava a ferro. A minha Henrietta vai fazer isso também… passar a ferro aos domingos, depois de fazer faxina no apartamento.
Claro que boa parte da minha história é sobre os hábitos de Henrietta. Hábitos. Não é nem que eles em si sejam tão ruins, é que já duraram tempo demais. Todo sábado, ano após ano.
Todo domingo, Henrietta lê a seção rosa do jornal. O horóscopo primeiro, sempre na página 16, o hábito do jornal. Geralmente as estrelas têm coisas picantes a dizer para Henrietta. “Lua cheia, escorpiana sexy, e você sabe o que isso quer dizer! Prepare-se para arder!”
Aos domingos, depois de fazer faxina e passar a ferro, Henrietta prepara alguma coisa especial para o jantar. Um frango assado, com recheio instantâneo e molho de frutas vermelhas. Purê de ervilha. Uma barra de chocolate Forever Yours de sobremesa.
Depois de lavar a louça, ela assiste ao programa de notícias 60 Minutes. Não é que ela se interesse particularmente pelo programa. Ela gosta mesmo é da equipe de apresentadores. Diana Sawyer, tão bonita e bem-educada, e os homens são todos sensatos, confiáveis e solidários. Ela gosta quando eles se mostram preocupados e balançam a cabeça ou quando é uma matéria engraçada e eles sorriem e balançam a cabeça. Gosta principalmente das imagens do enorme relógio. Do ponteiro dos minutos e do tique-tique-taque do tempo.
Depois ela assiste à série Assassinato por escrito, da qual não gosta, mas não tem mais nada passando.
Estou tendo dificuldade de escrever sobre o domingo. De captar a longa sensação de vazio dos domingos. Nada de correio, roncos distantes de cortadores de grama, o desamparo.
E de descrever a ansiedade de Henrietta pela segunda de manhã. O tique-tique dos pedais da bicicleta dele e o clique quando ele tranca a porta da sua sala para trocar de roupa e vestir o jaleco azul.
“O fim de semana foi bom?”, ela pergunta. Ele nunca responde. Nunca diz oi nem tchau.
À noite ela segura a porta aberta para ele, quando ele está saindo a pé puxando a bicicleta.
“Até amanhã! Vai pela sombra!”, ela diz, sorrindo.
“Que raios isso quer dizer, ir pela sombra? Pelo amor de Deus, para de dizer isso.”
Mas, por mais que ele seja grosseiro com ela, Henrietta acredita que exista um vínculo entre eles. Ele tem um pé torto e manca muito, enquanto ela tem escoliose, uma curvatura na coluna. Uma corcunda, na verdade. Ela é tímida e insegura, mas entende o que o faz ser tão cáustico. Uma vez ele disse que ela tinha as duas qualificações necessárias para ser enfermeira… era “burra e servil”.
Depois de Assassinato por escrito, Henrietta toma um banho, paparicando a si mesma com sais de banho de perfume floral.
Assiste ao noticiário enquanto passa creme no rosto e nas mãos. Já botou água no fogo para fazer chá. Gosta de ver o boletim meteorológico. Os pequenos sóis sobre Nebraska e Dakota do Norte. Nuvens de chuva sobre Flórida e Louisiana.
Recostada na cama, ela beberica seu chazinho de ervas Sleepytime. Sente falta do antigo cobertor elétrico, que tinha um seletor de temperatura com as opções baixa, média ou alta. O cobertor novo era anunciado como o Cobertor Elétrico Inteligente. Ele sabe que não está frio e, então, não fica quente. Ela queria que ele ficasse quente e confortável. Ele é inteligente demais para o gosto dela! Ela ri alto. O som assusta um pouco no quarto pequeno.
Ela desliga a televisão e toma um gole de chá, ouvindo o barulho dos carros que entram e saem do posto de gasolina Arco do outro lado da rua. De vez em quando um carro para em frente à cabine telefônica com uma freada brusca, cantando pneu. Uma porta bate com força e logo o carro arranca e vai embora.
Ela ouve um carro se aproximando devagar da cabine telefônica. Um som alto de jazz vem de dentro do carro. Henrietta apaga a luz e levanta a persiana que fica ao lado da sua cama, só um pouquinho. A janela está embaçada. O rádio do carro toca Lester Young. O homem que está falando ao telefone segura o fone com o queixo. Seca a testa com um lenço. Eu me apoio no peitoril frio da janela e fico observando o homem. Ouço o saxofone melodioso tocar “Polka Dots and Moonbeams”. No vidro embaçado, escrevo alguma coisa. O quê? O meu nome? O nome de um homem? Henrietta? Amor? Seja o que for, eu apago rápido, antes que alguém veja.

Lucia Berlin, em Manual da faxineira: Contos escolhidos

Remédios

A farmácia na roça era simples. Para dor de barriga, chá-de-bico. Para tosse, especialmente tosse de cachorro, chá de poejo e angu quente enrolado em pano aplicado no peito. Para estômago embrulhado, chá de losna. Vômito instantâneo. Para bronquite, inalação: água fervendo com folhas de eucalipto numa caneca sobre a qual se aplicava um funil invertido feito com papel. Para dor de dentes, bochechos com água morna. Os grandes bochechavam com pinga. Se houvesse maiores recursos da ciência, cera Doutor Lustosa, com que se enchia o buraco do dente. Para dor de garganta, gargarejo de água morna e sal. Para espantar os pernilongos, folhas de eucalipto queimadas numa lata, dentro do quarto. Pra picadura de cobra ouvi dizer que duas colheres de querosene é remédio bom. Mas não posso confirmar.

Rubem Alves, em O Velho que Acordou Menino

Bagé



Certas cidades não conseguem se livrar da reputação injusta que, por alguma razão, possuem. Algumas das pessoas mais sensíveis e menos grossas que eu conheço vêm de Bagé, assim como algumas das menos afetadas são de Pelotas.
Mas não adianta. Estas histórias do psicanalista de Bagé são provavelmente apócrifas (como diria o próprio analista de Bagé, história apócrifa é mentira bem-educada), mas, pensando bem, ele não poderia vir de outro lugar.
Pues, diz que o divã no consultório do analista de Bagé é forrado com um pelego. Ele recebe os pacientes de bombacha e pé no chão.
– Buenas. Vá entrando e se abanque, índio velho.
– O senhor quer que eu deite logo no divã?
– Bom, se o amigo quiser dançar uma marca antes, esteja a gosto. Mas eu prefiro ver o vivente estendido e charlando que nem china da fronteira, pra não perder tempo nem dinheiro.
– Certo, certo. Eu...
– Aceita um mate?
– Um quê? Ah, não. Obrigado.
– Pos desembucha.
– Antes, eu queria saber. O senhor é freudiano?
– Sou e sustento. Mais ortodoxo que reclame de xarope.
– Certo. Bem. Acho que o meu problema é com a minha mãe.
– Outro...
– Outro?
– Complexo de Édipo. Dá mais que pereba em moleque.
– E o senhor acha...
– Eu acho uma poca vergonha.
– Mas...
– Vai te metê na zona e deixa a velha em paz, tchê!
Contam que outra vez um casal pediu para consultar, juntos, o analista de Bagé.
Ele, a princípio, não achou muito ortodoxo.
– Quem gosta de aglomeramento é mosca em bicheira...
Mas acabou concordando.
– Se abanquem, se abanquem no más. Mas que parelha buenacha, tchê. Qual é o causo?
– Bem – disse o homem –, é que nós tivemos um desentendimento...
– Mas tu também é um bagual. Tu não sabe que em mulher e cavalo novo não se mete a espora?
– Eu não meti a espora. Não é, meu bem?
– Não fala comigo!
– Mas essa alta mais nervosa que gato em dia de faxina.
– Ela tem um problema de carência afetiva...
– Eu não sou de muita frescura. Lá de onde eu venho, carência afetiva é falta de homem.
– Nós estamos justamente atravessando uma cris e de relacionamento parque ela tem procurado experiências extraconjugais e…
– Epa. Opa. Quer dizer que a negra velha é que nem luva de maquinista? Tão folgada que qualquer um bota a mão?
– Nós somos pessoas modernas. Ela está tentando encontrar o verdadeiro eu, entende?
– Ela ta procurando o verdadeiro tu nos outros?
– O verdadeiro eu, não. O verdadeiro eu dela.
– Mas isto ta ficando mais enrolado que linguiça de venda. Te deita no pelego.
– Eu?
– Ela. Tu espera na salinha.

Luís Fernando Veríssimo, em O Analista de Bagé

27/08/2026

Janelas Abertas | Gal Costa

Hagar, o Horrível

A casa



Passei uma última vez pela livraria José Olympio, na rua do Ouvidor, para conferir minhas recordações com os objetos que a elas estão ligados. Daqui a um mês, esses objetos quedarão guardados em nós, numa caixa invisível, que abrange prateleiras, balcão, vozes, pensamentos, pessoas. Bem sei que a vida é “duração” e mobilidade, como ensina o filósofo, e não há razão de melancolia: a loja será desmanchada para se recompor em edifício novo, nós mesmos, com o tempo, seremos recompostos sob novas espécies, e o fato de não termos consciência física da permanência na transformação não impede o seu alegre desenvolvimento. Olhei para o velho Castilho e o Altamir, procurei o rapazinho Athos, que hoje é homem-feito, perguntei pelo Daniel, que defende outro setor, por todos da velha guarda, e verifiquei de súbito que a própria saudade é dinâmica; eu estava ali há vinte anos passados, desembarcado de Minas, como o próprio José Olympio, de São Paulo. Se alguns “viciados” da casa, como Graciliano Ramos, aparentemente tinham morrido, a glória do nome provava a mentira do desaparecimento. J. O. criara uma coisa que não acaba mais.
A livraria, a princípio, não tinha aquele lugarzinho nos fundos, com o banco para os escritores se sentarem e baterem papo (uma ou duas vezes, trocaram sopapo), esse banco preto que viera da biblioteca de Alfredo Pujol e está agora recolhido à sala de trabalho do editor, como “o banco do Graciliano”. Lá era o escritório de José Olympio, que depois passou ao andar superior. Os literatos foram chegando, José Lins do Rego, Hermes Lima, Jorge Amado, Murilo Mendes, que acabara de converter-se ao catolicismo ortodoxo, Marques Rebelo, a formosura de Adalgisa Nery, o pessimismo de Graciliano, Eneida cordial e sua gargalhada, a ironia de Tarquínio, os derrames de um, as mentiras de outro, e o local foi-se convertendo no que se chama um foco. Rapazes que desembarcassem de um “ita” do Norte ou do trenzinho fumacento de Minas tinham de ir, correndo, respirar aqueles ares ilustres.
Com esse colorido de vanguarda, não havia outra casa no Rio. Mesmo tendo o hábito de percorrer livrarias, era naquela que o escritor pousava para confrontar suas ideias com as dos confrades, para se sentir, não um consumidor de livros, mas um ser caracterizado e participante, às voltas com as dúvidas e complicações inerentes à sua natureza imaginativa e hipersensível, e desejoso de apoio e comunicação.
Por outro lado, não se tratava apenas de uma loja simpática. Era também uma editora revolucionária, que lançava com ímpeto nomes conhecidos de pouca gente ou de ninguém.
Apresentava um livro diferente e elegante, formato padronizado, capa desenhada por Santa Rosa (o que nem sempre era fácil de conseguir, pois o Santa, como a felicidade, não estava onde o procurassem, ou nunca o procuravam onde poderia estar), e o aspecto gráfico e o prestígio da casa acendiam nos escritores o desejo de figurar em seu catálogo. José Olympio editou com o mesmo espírito autores da direita, do centro, da esquerda e do planeta Sírio, e se aos de determinado matiz tocou um papel mais saliente durante certo tempo, isto se deve à tendência da época, aos rumos da sensibilidade, tangida pelos acontecimentos mundiais. J. O. logo se revelou excelente praça, pois não editava apenas, ficava querendo bem aos editados, interessava-se por eles junto a quem de direito, ajudava-os em silêncio, criava em torno da materialidade das relações profissionais uma coisa abstrata mas imperante, a que ele chamou a Casa. J. O. em geral não emprega a primeira pessoa; diz: a Casa. A Casa não pode editar um livro nessas condições, a Casa ficou magoada, a Casa está feliz… O fato é que não se pode compreender a efervescência de ideias, de planos, o sentido socializante da literatura por volta de 35 a 37, sem a presença da Casa. O romance sofrido do Nordeste, situado em 30, ganhou ali direitos de cidade. O modernismo, então ainda ridicularizado por jornais e salões, começou a funcionar como produto editorial, que o público julgaria diretamente. Os “Documentos Brasileiros” se converteram num laboratório de crítica, pesquisa social e interpretação histórica do Brasil. De modo que aquilo era uma loja de livros, à primeira vista; mas tinha alma.
A Casa continua.

Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira

Zoo

Prova-se que a ideia da galinha nasceu muito antes do primeiro ovo.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

A Contadora de Filmes


[4]

Quando papai teve a ideia do concurso, eu tinha dez anos e estava no terceiro ano do primário. Sua ideia consistiu em mandar a gente, um por um, para o cinema, e depois nos fazer contar o filme. Quem contasse melhor iria toda vez que passasse um dos bons. Ou um mexicano. O mexicano podia ser bom ou ruim, para meu pai isso não importava. Desde, é claro, que houvesse dinheiro para a entrada.
Os outros iam ter de se conformar em ouvir, depois, o filme ser contado em casa. Nós todos gostamos da ideia; todos nós nos sentíamos capazes de ganhar. Não era em vão que, como todas as outras crianças do povoado, cada vez que íamos ao cinema saíamos imitando os mocinhos do filme em suas melhores cenas.
Meus irmãos sabiam imitar perfeitamente o caminhar cambaio e o olhar oblíquo de John Wayne, o gesto de desprezo de Humphrey Bogart e as incríveis caretas de Jerry Lewis.
Eu os matava de rir ao tratar de piscar as pestanas feito Marilyn Monroe, ou de imitar as boquinhas de menina inocente – voluptuosamente inocente – de Brigitte Bardot.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

Leitura

Ler significa aproximar-se de algo que acaba de ganhar existência.

Ítalo Calvino, em Se um viajante numa noite de inverno

26/08/2026

João Bosco – Horda | NDR Bigband

Duas maneiras

De dentro da geometria
Deus me olha e me causa terror.
Faz descer sobra mim o íncubo hemiplégico.
Eu chamo por minha mãe,
me escondo atrás da porta,
onde meu pai pendura sua camisa suja,
bebo água doce e falo as palavras das rezas.
Mas há outro modo:
se vejo que Ele me espreita,
penso em marca de cigarros,
penso num homem saindo de madrugada pra adorar o Santíssimo,
penso em fumo de rolo, em apito, em mulher da roça
com o balaio de pequi, fruta feita de cheiro e amarelo.
Quando Ele dá fé, já estou no colo d’Ele,
pego Sua barba branca,
Ele joga pra mim a bola do mundo,
eu jogo pra Ele.

Adélia Prado, em Bagagem

Siempre en la Barca pra Paquetá



4ª Faixa: Pupurri
(Arranjo – Gilson Peranzetta)

A negra lingerie, a sobrancelha feita a lápis, e olhos tais minúsculos aquários de peixinhos tropicais... Eu conheci tantas assim, dessas mulheres que um homem não esquece. E, no entanto, que coisa incrível, esqueci tanto começo inesquecível. Mas sou sincero: tenho alma de artista e tremores nas mãos. Na idade que estou aparecem os tiques, as manias, transparentes feito bijuterias pelas vitrines da Sloper da alma. Vou desligar a vitrola. No lado B só tem tango. Obrigado minhas fãs. Cheguei aqui, ao apogeu, com o auxílio de vocês. Guardem o livro, pra que os olhos relembrem quando o coração infiel esquecer.

Um beijo, Aldir

Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo

Esperanças e utopias

Sobre as virtudes da esperança tem-se escrito muito e parolado muito mais. Tal como sucedeu e continuará a suceder com as utopias, a esperança foi sempre, ao longo dos tempos, uma espécie de paraíso sonhado dos cépticos. E não só dos cépticos. Crentes fervorosos, dos de missa e comunhão, desses que estão convencidos de que levam por cima das suas cabeças a mão compassiva de Deus a defendê-los da chuva e do calor, não se esquecem de lhe rogar que cumpra nesta vida ao menos uma pequena parte das bem-aventuranças que prometeu para a outra. Por isso, quem não está satisfeito com o que lhe coube na desigual distribuição dos bens do planeta, sobretudo os materiais, agarra-se à esperança de que o diabo nem sempre estará atrás da porta e de que a riqueza lhe entrará um dia, antes cedo que tarde, pela janela dentro. Quem tudo perdeu, mas teve a sorte de conservar ao menos a triste vida, considera que lhe assiste o humaníssimo direito de esperar que o dia de amanhã não seja tão desgraçado como o está sendo o dia de hoje. Supondo, claro, que haja justiça neste mundo. Ora, se nestes lugares e nestes tempos existisse algo que merecesse semelhante nome, não a miragem do costume com que se iludem os olhos e a mente, mas uma realidade que se pudesse tocar com as mãos, é evidente que não precisaríamos de andar todos os dias com a esperança ao colo, a embalá-la, ou embalados nós ao colo dela. A simples justiça (não a dos tribunais, mas a daquele fundamental respeito que deveria presidir às relações entre os humanos) se encarregaria de pôr todas as coisas nos seus justos lugares. Dantes, ao pobre de pedir a quem se tinha acabado de negar a esmola, acrescentava-se hipocritamente que “tivesse paciência”. Penso que, na prática, aconselhar alguém a que tenha esperança não é muito diferente de aconselhá-lo a ter paciência. É muito comum ouvir-se dizer da boca de políticos recém-instalados que a impaciência é contra-revolucionária. Talvez seja, talvez, mas eu inclino-me a pensar que, pelo contrário, muitas revoluções se perderam por demasiada paciência. Obviamente, nada tenho de pessoal contra a esperança, mas prefiro a impaciência. Já é tempo de que ela se note no mundo para que alguma coisa aprendam aqueles que preferem que nos alimentemos de esperanças. Ou de utopias.

José Saramago, em O caderno

Capítulo 81 – A Reconciliação



E contudo, ao sair de lá, tive umas sombras de dúvida; cogitei se não ia expor insanamente a reputação de Virgília, se não haveria outro meio razoável de combinar o Estado e a Gamboa. Não achei nada. No dia seguinte, ao levantar-me da cama, trazia o espírito feito e resoluto a aceitar a nomeação.
Ao meio-dia, veio o criado dizer-me que estava na sala uma senhora, coberta com um véu. Corro; era minha irmã Sabina.
– Isto não pode continuar assim, disse ela; é preciso que, de uma vez por todas, façamos as pazes. Nossa família está acabando; não havemos de ficar como dois inimigos.
– Mas se eu não te peço outra coisa, mana! bradei eu estendendo-lhe os braços.
Sentei-a ao pé de mim, e falei-lhe do marido, da filha, dos negócios, de tudo. Tudo ia bem; a filha estava linda como os amores. O marido viria mostrar-ma, se eu consentisse.
– Ora essa! irei eu mesmo vê-la.
– Sim?
– Palavra.
– Tanto melhor! respirou Sabina. É tempo de acabar com isto.
Achei-a mais gorda, e talvez mais moça. Parecia ter vinte anos, e contava mais de trinta. Graciosa, afável, nenhum acanhamento, nenhum ressentimento. Olhávamos um para o outro, com as mãos seguras, falando de tudo e de nada, como dois namorados. Era a minha infância que ressurgia, fresca, travessa e loura; os anos iam caindo como as fileiras de cartas de jogar encurvadas, com que eu brincava em pequeno, e deixavam-me ver a nossa casa, a nossa família, as nossas festas.
Suportei a recordação com algum esforço; mas um barbeiro da vizinhança lembrou-se de zangarrear na clássica rabeca, e essa voz – porque até então a recordação era muda, – essa voz do passado, fanhosa e saudosa, a tal ponto me comoveu, que...
Os olhos dela estavam secos. Sabina não herdara a flor amarela e mórbida. Que importa? Era minha irmã, meu sangue, um pedaço de minha mãe, e eu disse-lho com ternura, com sinceridade... Súbito, ouço bater à porta da sala; vou abrir; era um anjinho de cinco anos.
– Entra, Sara, disse Sabina.
Era minha sobrinha. Apanhei-a do chão, beijei-a muitas vezes; a pequena, espantada, empurrava-me o ombro com a mãozinha, quebrando o corpo para descer... Nisto, aparece-me porta um chapéu, e logo um homem, o Cotrim, nada menos que o Cotrim. Eu estava tão comovido, que deixei a filha e lancei-me aos braços do pai. Talvez essa efusão o desconcertou um pouco; é certo que me pareceu acanhado. Simples prólogo. Daí a pouco falávamos como bons amigos velhos. Nenhuma alusão ao passado, muitos planos de futuro, promessa de jantarmos em casa um do outro. E não deixei de dizer que essa troca de jantares podia ser que tivesse uma curta interrupção, porque eu andava com ideias de uma viagem ao Norte. Sabina olhou para o Cotrim, o Cotrim para Sabina; ambos concordaram que essas ideias não tinham senso comum. Que diacho podia eu achar no Norte? Pois não era na corte, em plena corte, que devia continuar a luzir, a meter num chinelo os rapazes do tempo?
Que, na verdade, nenhum havia que se me comparasse; ele, Cotrim, acompanhava-me de longe, e, não obstante uma briga ridícula, teve sempre interesse, orgulho, vaidade nos meus triunfos. Ouvia o que se dizia a meu respeito, nas ruas e nas salas; era um concerto de louvores e admirações. E deixa-se isso para ir passar alguns meses na província, sem necessidade, sem motivo sério? A menos que não fosse política...
– Justamente política, disse eu.
– Nem assim, replicou ele dai a um instante. - E depois de outro silêncio: - Seja como for, venha jantar hoje conosco.
– Certamente que vou; mas, amanhã ou depois, hão de vir jantar comigo.
– Não sei, não sei, objetou Sabina; em casa de homem solteiro... Você precisa casar, mano. Também eu quero uma sobrinha, ouviu?
Cotrim reprimiu-a com um gesto, que não entendi bem.
Não importa; a reconciliação de uma família vale bem um gesto enigmático.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

25/08/2026

Robertinho de Recife | Revelação

Diário de Bernardo Soares

125.

Não fizeram, Senhor, as vossas naus viagem mais primeira que a que o meu pensamento, no desastre deste livro, conseguiu. Cabo não dobraram, nem Draia viram mais afastada, tanto da audácia dos audazes como da imaginação dos por ousar, igual aos cabos que dobrei com a minha meditação, e às praias a que, com o meu El, fiz aportar o meu esforço.
Por vosso início, Senhor, se descobriu o Mundo Real; pelo meu o Mundo Intelectual se descobrirá.
Arcaram os vossos argonautas com monstros e medos. Também, na viagem do meu pensamento, tive monstros e medos com que arcar. No caminho para o abismo abstrato, que está no fundo das coisas, há horrores, que passar, que os homens do mundo não imaginam e medos que ter que a experiência humana não conhece; é mais humano talvez o cabo para o lugar indefinido do mar comum do que a senda abstrata para o vácuo do mundo.
Apartados do uso dos seus lares, êxuis do caminho das suas casas, viúvos para sempre da brandura de a vida ser a mesma, chegaram por fim os vossos emissários, vós já morto, ao extremo oceânico da Terra. Viram, no material, um novo céu e uma terra nova.
Eu, longe dos caminhos de mim próprio, cego da visão da vida que amo, cheguei por fim, também, ao extremo vazio das coisas, à borda imponderável do limite dos entes, à porta sem lugar do abismo abstrato do Mundo.
Entrei, senhor, essa Porta. Vaguei, senhor, por esse mar. Contemplei, senhor, esse invisível abismo.
Ponho esta obra de Descoberta suprema na invocação do vosso nome português, criador de argonautas.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Ida e volta

Máximo de atenção

Acostume-se a prestar o máximo de atenção àquilo que alguém diz e, na medida do possível, esteja na mente de quem fala.

Marco Aurélio, em Meditações