24/10/2026

Lazzo Matumbi | Blues da Piedade

 

Gracias A La Vida

Obrigada à vida
que me deu tanto
deu-me dois olhos
que quando os abro
perfeito distingo
o preto do branco
no alto céu seu fundo estrelado
e nas multidões o homem que eu amo.

Obrigada à vida
que me deu tanto
deu-me o ouvido
que em toda sua extensão
grava noite e dia
grilos e canários
martelos, turbinas, latidos, chuvaradas
e a voz tão terna do meu bem amado

Obrigada à vida
que me deu tanto
deu-me o som e o abecedário
com ele as palavras
que penso e declaro
“mãe, amigo, irmão”
e a luz, iluminando
o rumo da alma do que estou amando

Obrigada à vida
que me deu tanto
deu-me a marcha
dos meus pés cansados
com eles andei
cidades e charcos
praias e desertos, montanhas e planos
tua casa, tua rua e teu pátio.

Obrigada à vida
que me deu tanto
deu-me o coração
que agita seu marco
quando olho o fruto
do cérebro humano
quando olho o bom tão longe do mal
quando olho o fundo de teus olhos claros

Obrigada à vida
que me deu tanto
deu-me a risada
e deu-me o pranto
assim distingo
felicidade de fraqueza
os dois materiais que formam meu canto
o canto de todos que é o mesmo canto
o canto de todos que é meu próprio canto
Obrigada à vida!

Violeta Parra (Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

Hagar, o Horrível

 

Fama

 


Ninguém se espante com o diálogo que mantive com um bebê de quinze dias de existência. Hoje, a comunicação não conhece fronteiras espaciais ou etárias. O bebê não fala o português de Portugal nem o português brasileiro, ensinado pelo saudoso professor Stanislaw Ponte Preta. Mas fala a seu modo, desde que se saiba interrogá-lo, e eu, não é por me gabar, tenho meus macetes. Perguntei-lhe de saída:
— Então, satisfeita de vir ao mundo?
Respondeu-me com rabugem, em termos que traduzirei assim:
— Como posso estar satisfeita, se ainda bem não cheguei a este lugar, já me televisionaram e estão me entrevistando?
— É a era tecnológico-aldeiglobal-consumística, minha querida. Desde o primeiro minuto de vida extrauterina você participa da sociedade eletrônico-difusoro-cósmica ilimitada.
— É, estou vendo mas não acho graça nenhuma.
— Não é para achar graça nem desgraça, é para se integrar, entende? Você tem de aderir ao processo. O processo é irreversível. Melhor você não dar uma de contestadora, e entrar na jogada.
— Mas eu nem tive tempo de contestar, me botaram diante das câmeras, fechei os olhos para não me ofuscar com aquelas luzes, chorei em sinal de protesto, riram de mim, e agora, pelo que vejo, estou em todas.
— De fato. Seu índice de publicidade é dos mais altos. Em duas semanas você varou o Brasil, fez concorrência a Elizabeth Taylor, aos terroristas palestinos e aos não palestinos, governos que caem, governos que sobem, técnicas de exorcismo…
— E daí? Pensa que o meu Ibope me dá prazer?
— Ibope não dá prazer. Dá dividendos. Você tem o futuro garantido, se for sempre dócil às exigências do sistema. Não deve bobear. Esteja sempre perto de uma objetiva, um gravador, uma passarela.
— Preferia viver a vida, com a sensação de ter uma vida realmente minha.
— Quem tem isso hoje em dia, meus-encantos? Só os loucos, isso mesmo, apenas certos loucos, não marcados pela psicose de governar o mundo. Loucos mansos, vamos dizer assim. São raros, a maioria é agitada, e não só recebe a influência da comunicação delirante, como, por sua vez, influi sobre esta, aumentando-lhe o delírio. De sorte que é bom você renunciar ao ideal individualista e anacrônico. Vida particular da gente já era. Agora vivemos a vida dos outros, em bloco, ou melhor, a de ninguém.
— De qualquer maneira, os direitos da criança… O direito de mamar sem virar manchete, de fazer cocozinho à vontade sem ser objeto de curiosidade geral, como se eu pudesse fazê-lo de pérolas. Isso não está mais em vigor?
— Depende. Há criança e criança. Umas nascem destinadas à obscuridade total e permanente, senão mesmo a coisa mais negativa, que é não viver. Nascem para não conhecer a vida. Em pouco tempo voltam para o outro lado, onde, ao que se sabe, ainda há o aproveitamento industrial do ser. Você até que é dos bebês privilegiados. Centenas de milhares, ou milhões, de espectadores debruçam-se diante dos seus cueiros, pela circunstância feliz de que você é extensão da glória de sua mãezinha.
— Vou pedir a ela para me esconder.
— Ela não pode fazer isso. Compreenda o seu papel, ó flor reclamante. Não se pode fazer nada nesta situação, a não ser exigir que as fotos saiam caprichadas, mesmo porque se não saírem será preciso tirar outras. Sua imagem é mais importante do que você. E você não se pertence; você é a sua imagem multiplicada, em cor e som. Cresça como puder, mas apareça. Aparecer é ser, em nosso tempo. Bem, vou me despedir, já estão chegando outras equipes que naturalmente vão pedir a você que estreie na próxima novela das vinte e duas horas. Trate de se preparar para tudo. Sucesso, hem? E tchauzinho, mon amour de bebê.

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

"Precisa-se"

Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca, oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar.
P.S.: Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

Let It Be, de Paul McCartney e John Lennon




When I find myself in times of trouble
Mother Mary comes to me
Speaking words of wisdom
Let it be
And in my hour of darkness
She is standing right in front of me
Speaking words of wisdom
Let it be

Let it be, let it be
Let it be, let it be
Whisper words of wisdom
Let it be

And when the broken-hearted people
Living in the world agree
There will be an answer
Let it be
For though they may be parted
There is still a chance that they will see
There will be an answer
Let it be

Let it be, let it be
Let it be, let it be
There will be an answer
Let it be

Let it be, let it be
Let it be, let it be
Whisper words of wisdom

Let it be

Let it be, let it be
Let it be, let it be
Whisper words of wisdom
Let it be

And when the night is cloudy
There is still a light that shines on me
Shine until tomorrow
Let it be
I wake up to the sound of music
Mother Mary comes to me
Speaking words of wisdom
Let it be

Let it be, let it be
Let it be, let it be
There will be an answer
Let it be
Let it be, let it be
Let it be, let it be
There will be an answer
Let it be
Let it be, let it be
Let it be, let it be
Whisper words of wisdom
Let it be

Eu estava decidindo o que eu ia cantar no Live Aid, e Sting me disse que “Let It Be” não era uma boa escolha. Ele achava que deveríamos explicitar que ações eram necessárias e, por isso, “deixe estar” não seria uma mensagem apropriada. Na visão dele, o Live Aid pressupunha um forte apelo à ação. Mas “Let It Be” não tem a ver com ser complacente ou cúmplice. Tem a ver com obter uma noção panorâmica e render-se à visão global.
A canção foi composta num contexto de estresse. O momento era difícil porque estávamos nos encaminhando para a separação dos Beatles. Esse período de mudança aconteceu em parte porque John e Yoko se conheceram, e isso afetou a dinâmica do grupo. Yoko ficava literalmente no meio das sessões de gravação, e isso era desafiador. Mas também era algo com que precisávamos lidar. A menos que houvesse um problema muito sério – a menos que um de nós dissesse: “Não consigo cantar com ela ali” –, só tinha um jeito: deixe estar. O nosso estilo era evitar conflitos, então simplesmente reprimimos e seguimos em frente. Éramos garotos do Norte, e isso fazia parte da nossa cultura. Abra um sorriso e aguente firme.
Uma coisa interessante sobre “Let It Be” da qual me lembrei só recentemente é que, quando estudei literatura inglesa no Liverpool Institute High School for Boys com meu professor favorito, Alan Durband, eu li Hamlet. Naquela época, você tinha que decorar as falas, porque era preciso ser capaz de recordá-las e citá-las na prova. No ato final da peça temos a seguinte fala:

O, I could tell you –
But let it be. – Horatio, I am dead

Suspeito que esses versos se plantaram subconscientemente em minha memória. Quando eu estava compondo “Let It Be”, eu fazia muita coisa ao mesmo tempo, estava muito exausto e tudo isso estava cobrando seu preço. A banda, eu – todos nós estávamos passando, como diz a canção, por períodos turbulentos (“times of trouble”), e não se enxergava uma luz no fim do túnel daquela confusão. Um dia, exausto, eu caí no sono e tive um sonho em que minha mãe (que havia morrido pouco mais de dez anos antes), de fato, apareceu para mim. Quando em seu sonho aparece uma pessoa que você perdeu, mesmo que às vezes seja por breves segundos, você tem a impressão de que ela está ali com você, e é como se ela sempre tivesse estado ali. Acho que todo mundo que sofreu com a perda de alguém próximo entende isso, especialmente no período logo após a morte do ente querido. Até hoje eu tenho sonhos com John e George e converso com eles. Mas nesse sonho foi muito reconfortante enxergar o rosto lindo e gentil da minha mãe e estar com ela em um lugar tranquilo. De imediato, eu me senti à vontade, amado e protegido. A minha mãe era muito tranquilizadora, como tantas mulheres costumam ser; também era ela quem mantinha a nossa família em andamento. Ela mantinha o nosso ânimo. Ela pareceu notar que eu andava preocupado com o que se passava em minha vida e com o que poderia acontecer e me falou: “Vai ficar tudo bem. Deixe estar”.
Acordei pensando que esse seria um ótimo tema para uma canção. Resolvi começar com as circunstâncias no meu entorno – o “problema no trabalho”.
Na época em que gravamos “Let It Be”, eu estava pressionando a banda para voltarmos a tocar em clubes noturnos – voltar ao básico e nos unirmos novamente como banda, terminar a década como a havíamos começado: só tocando pelo prazer de tocar. Com os Beatles não foi possível levar essa ideia a cabo, mas isso influenciou a direção do álbum Let It Be. Não queríamos nada de truques de estúdio. Era para ser um álbum honesto, sem overdubs. Não acabou exatamente assim, mas o plano era esse.
A triste constatação é que os Beatles nunca tocaram esta canção num show. Por isso, a apresentação no Live Aid foi, para muitas pessoas, provavelmente a primeira vez que elas viram uma performance desta canção.
Hoje, “Let It Be” já está no show há um bom tempo. Ela sempre foi uma canção comunitária, sobre aceitação, e acho que esses momentos funcionam muito bem com plateias grandes. Vemos muita gente abraçando seus parceiros, amigos ou familiares e cantando junto. Antigamente, milhares de isqueiros também eram erguidos no ar durante a canção. Aí foi proibido fumar nos shows, e as luzes vinham dos celulares do público. A gente sempre percebe quando a canção é menos popular, porque os celulares são guardados. Mas saem dos bolsos para esta.
Alguns anos atrás, estávamos no Japão e tocamos no Budokan, em Tóquio. Tínhamos tocado três noites no Tokyo Dome, um enorme estádio de beisebol de 55 mil lugares. Para contrabalançar, encerramos a turnê com uma noite no Budokan, um local bem intimista em comparação. Ainda não tinham passado cinquenta anos desde que os Beatles tinham tocado lá, mas foi um show especial, em um local com muitas memórias. A minha equipe de turnê gosta de me surpreender e, dessa vez, pulseiras foram distribuídas para o público. E, durante “Let It Be”, fui pego desprevenido: o auditório inteiro se iluminou com as mãos balançando. Às vezes, é difícil continuar cantando em momentos assim.
Algumas pessoas disseram que “Let It Be” tem ligeiras conotações religiosas, e de fato ela lembra um pouco uma canção gospel, especialmente o piano e o órgão. Em essência, o termo “Mother Mary” é provavelmente interpretado como uma referência a Maria, a Virgem Mãe de Deus. Como você deve se lembrar, a minha mãe, Mary, era católica, embora meu pai fosse protestante, e meu irmão e eu fomos batizados. Por isso, no que tange à religião, obviamente sou influenciado pelo Cristianismo, mas todas as religiões nos trazem muitos ensinamentos excelentes. No sentido convencional, não sou especialmente religioso, mas acredito na ideia de que existe um tipo de força superior capaz de nos ajudar.
De modo que esta canção se torna uma prece, ou mini-prece. Há um anseio em algum lugar do âmago dela. E a própria palavra “amém” significa “assim seja” – ou “deixe estar”.
Ela sempre foi uma canção comunitária, sobre aceitação, e acho que esses momentos funcionam muito bem com plateias grandes. Vemos muita gente abraçando seus parceiros, amigos ou familiares e cantando junto.
A minha mãe era muito tranquilizadora, como tantas mulheres costumam ser; também era ela quem mantinha a nossa família em andamento. Ela mantinha o nosso ânimo. Ela pareceu notar que eu andava preocupado com o que se passava em minha vida e com o que poderia acontecer e me falou: “Vai ficar tudo bem. Deixe estar”.

Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente

23/10/2026

Don L | Tiny Desk Brasil

La Dernière Translation

(Homenagem à recém-fundada Sobrates – Sociedade Brasileira de Tradutores)

Quando morre um velho tradutor
Sua alma, anima, soul,
Já livre do cansativo ofício
De verter
Vai direta pro céu, in cielo, to the
heaven, au ciel, in caelum, zum himmel,
Ou pro inferno – Hölle – dos grandes traditori?
Ou um tradutor será considerado
In the minute hierarquia do divino (himm’lisch)
Nem peixe, nem água, ni poisson, ni l’eau,
Neither water, nor fish, nichts, assolutamente niente?
Que irá descobrir de essencial
Esse mero intermediário da semântica,
Corretor da Babel universal?
A comunicação definitiva, sem palavras?
Outra vez o verbo inicial?
Saberá, enfim!,
Se ELE fala hebraico
Ou latim?
Ou ficará infinitamente
No infinito
Até ouvir a Voz, Voix, Voce, Voice,
Stimme, Vox,
Do Supremo Mistério
Partindo do Além
Voando como um pássarobirduccelopájarovogel
Se dirigindo a ele em...
E lhe dando, afinal,
A tradução pro Amém?

Millôr Fernandes, em Poemas

O futuro

 

O mesmo assunto

Há tempos Marques Rebello esteve em Porto Alegre. Com ele, andamos uma tarde, o Telmo Vergara e eu, pelos altos de Petrópolis. Basta dizer que era outono em Porto Alegre. Eu disse ao visitante:
— Está vendo? As cores não se misturam: tudo parece recortado a tesourinha no horizonte. A paisagem de Porto Alegre é anterior ao impressionismo.
Ele agachava-se, apertava, arregalava os olhos, concordava com tudo. E, de regresso ao Rio, escreveu:
“Como eles não têm nada que mostrar; gabam os crepúsculos!”

Mário Quintana, em Caderno H

Sem tangência

 


A morte é lúgubre lorde: a ambígua. De repente, como sempre, um homem faleceu. Diziam-no mau. Entre tudo, porém, o cemitério prosseguia de decisivo quietar quem sabe o sítio mais amigo da cidade. O enterro do homem, não conhecido, ensinou-o ao forasteiro. Podia-se procurar passeio, o desexílio, em seu reduzido espaço, dos que perderam para sempre o endereço. Na dita cidade, muito longe, árdua do todo-o-dia, fatal, fabricada, enfadonha. Ali, o mar era o cemitério.
A gente perdia a abusão de estar-se em lugar danoso, de quebrantos ou assombro e apegava-se à paz, no descritivo, a paisagem especializada. A erva, consequente, permeio às tumbas, a grama urbana; um estapaflorir; zumbidos; às vezes borboletas. Sob luz reta, no ponto do meio-dia, a lousa quente. Tarde ainda mais limpa; a que não traz sombras. As casuarinas e seus instantes de vento. Queixava-se o coveiro de dores nas costas, do custo da vida; seu ajudante, descalço, fumava cigarros caros. De primeiro, temia-se a terra, aquela, havida por maléfica: limpavam-se do pó os sapatos. Mas, melhor pudesse qualquer um — no chamado campo-santo — defender sua loucura das dos outros. Dos mais outros, também, talvez. Quem morre, morreu mesmo? A morte é maior que a lógica. E, quando menos quando, vinha a moça. Viera, vários dias, trazia longas flores. Nem parecia ver ninguém ou ouvir, encerrada em costumeiro pesar. Deixava-a o vestido preto mais esvelta que as outras, da cidade; mais rara. Devia ser filha do homem falecido.
Nunca o avistara o forasteiro. Achava porém de apreender-lhe os traços nas feições da moça, a rude maldade de que o reputavam, desabrangendo sua matéria. Dele, contava-se: que mais perversos tendo sido o pai e o avô — do sujo e errado outrora. Nenhuma vida tem resumo: a tarda crosta da vida, com seu trecheio de ilusões. A gente vê só o cinzento, mas têm-se de adivinhar o branco e o preto.
O homem falecido, seu recente sepulcro, seria num dos extremos, aonde parava a moça, dali o recinto prolongando-se em emaranhado de bosque. Até onde não se devia ir, enquanto, seguida apenas a distância, por lá ela permanecesse, decerto atinadamente, lúcida lagrimada. Além, teria sido o cemitério primeiro, sua outra grande porta oculta. A antiga.
Às vezes, ela tardava em vir. Andava-se, a léu de labirinto, no quiescer de ante vazias permanências — dos de ide-vós-sós; faz-se que contra querubins em cavernas gritantes. As vozes humanas é que inventaram o silêncio. É possível um não-mais-futuro? Vive-se, e ri-se. O gênio ainda não germinou bem em nós, distraídos e fracos. Mas, na necrópole, uma mudez se move, algo que ultrapassava a mudez; pesam-se as espécies imperceptíveis, visões intermutáveis. Por maneira que as aceitávamos. Mais perto do mundo. Algo havia; pairava. — “Refuja o denso viver, pela levez da morte...” — disseram-me: voz indefinida, a minha talvez. Sim, a moça era quase prevista surpresa. Um dia, haverá sábios. E, que nos vem da vida, enfim? — com o continuitar do ar, do chão e do relógio. A morte: o inenarrável rapto.
E ela. Demorou o rosto, deu seu ser a perceber. Perto que perto. Era boa. Era bela. Amor... — palavra que sobrou de frases. Amor, o que lhe radiava da figura, na fala das fadas. Demasiado grande, que amedrontava.
Sua lembrança, ideia clara. A marca da imagem. Inafastável, como persistia, de negro vestida, a obstinada presença, nessa entreparagem, na vagação, nas horas temporárias. Adiara o forasteiro de ir à sepultura do homem falecido. Da moça, não se viam ali sinais, nenhumas flores. Murchas, em volta, apenas coroas. A arruda-dos-muros. A lápide — cais tão calmo. Só uns passarinhos em piqueniques. Mortas, só as folhas; e o sol enviava mais calor. Sim, com esquisitinho sem-sossego, os pássaros algo explicam. E o coveiro, espião. — “Ele é seu parente?” Os olhos das pessoas já são coisas de fantasmas. A meu não, ele riu. Tinha pensado; porque com o defunto em mim notara parecença. Estaria tonto, o coveiro, toupeireiro operador. — “Era homem mau?” — indaguei. — “Era homem justo. Bom, mas vagaroso.” E avancei: — “E a moça?” Teve ele forte espanto. — “Pois, não é sua conhecida? Não vem com o senhor?” — a desajuizar-me. Neutra, a relva, esparramaz, alegre no entreabrirfechar florinhas, se não há nenhum nunca. O vento, devolvedor de palavras. O homem, que falecera, não podia. Depois da vida, o que há, é mais vida... — disse-me: o que minha mais funda memória me telegrafou. Retomava o trabalho o coveiro, dolorento, sabedor de ofício. Já como fósseis os ossos que ele transplantava, naquele bom lugar universo.
Ela não voltaria mais... — pensei, subciente. O rapaz ajudante passava, ao ombro suas ferramentas. — “Acho que é uma mesma que vinha, noutra ocasião...” — e ele tinha as petulâncias da vida. — “Vinha escolher a própria cova...” — ignorava a especulação poética, o mistério esperançoso. Se o falecido se parecia comigo? —
“Todos parecem com todos.” Inegadamente. — “Homem bom, no geral...” — ele queria gratificação. Nunca mais? Um enterro chegava, entrava. Será... — doía, o despropositivo, a hipótese mais eficaz. Não. Só era o de um morto. Nunca mais.
Se a gente podia dali sair, a atento horizonte, pela porta primitiva, olvidado vislumbráculo? Não, o coveiro intransigiu, ria-se do desmotivo daquilo. Enferrujara, montões de terra entupindo o trato, o mato rijo, espessos de urtigas, roseiras bravas. Mas, informou: que não havia segredo, a moça era filha de um Seo Visneto, tinha vindo, nove dias, cumprir promessa de rezar e pôr flores, no cruzeirinho das Almas... — “Pois, senhor...” Não mais. Ainda não. Devia em seguida partir, o forasteiro, deixar a fácil, fatigadora, fingida cidade. Apanhou uma pedrinha, colocou-a no túmulo do homem falecido. A liberdade é absurda. A gente sempre sabe que podia ter sabido.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

Capítulo 105 – Equivalência das Janelas

Dona Plácida fechou a porta e caiu numa cadeira. Eu deixei imediatamente a alcova, e dei dois passos para sair à rua, com o fim de arrancar Virgília ao marido; foi o que disse, e em bem que o disse, porque Dona Plácida deteve-me por um braço. Tempo houve em que eu cheguei a supor que não dissera aquilo senão para que ela me detivesse; mas a simples reflexão basta para mostrar que, depois dos dez minutos da alcova, o gesto mais genuíno e cordial não podia ser senão esse. E isto por aquela famosa lei da equivalência das janelas, que eu tive a satisfação de descobrir e formular, no capítulo 51. Era preciso arejar a consciência. A alcova foi uma janela fechada; eu abri outra com o gesto de sair, e respirei.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

22/10/2026

Maria Bethânia | Palavras de Rita

 

A primeira vez da idade

A vez
que tive mais idade
foi aos cinco anos.

Meu pai,
com solenidade que eu desconhecia,
perante seus superiores hierárquicos,
apontou e disse:

— Este é meu filho!

E deu-me a mão
coroando-me rei.

Mia Couto, em Poemas Escolhidos

106 anos

Ann Nixon Cooper



Essa mulher de cento e seis anos, Ann Nixon Cooper, que Obama citou no seu primeiro discurso como presidente eleito dos Estados Unidos, talvez venha a ocupar um lugar na galeria das personagens literárias favoritas dos leitores norte-americanos, ao lado daquela outra que, viajando num autocarro, se recusou a levantar-se para dar o lugar a um branco. Não se tem escrito muito sobre o heroísmo das mulheres. Entre o que Obama nos contou sobre Ann Nixon Cooper não havia actos heróicos, salvo os do viver quotidiano, mas as lições do silêncio podem não ser menos poderosas que as da palavra. Cento e seis anos a ver passar o mundo, com as suas convulsões, os seus logros e os seus fracassos, a falta de piedade ou a alegria de estar vivo, apesar de tudo. Na noite passada essa mulher viu a imagem de um dos seus em mil cartazes e compreendeu, não podia deixar de compreendê-lo, que algo novo estava acontecendo. Ou então guardou simplesmente no coração a imagem repetida, à espera de que a sua alegria recebesse justificação e confirmação. Os velhos têm destas coisas, de repente abandonam os lugares-comuns e avançam contra a corrente, fazendo perguntas impertinentes e mantendo silêncios obstinados que arrefecem a festa. Ann Nixon Cooper sofreu escravidões várias, por negra, por mulher, por pobre. Viveu submetida, as leis teriam mudado no exterior, mas não nos seus diversos medos, porque olhava à sua volta e via mulheres maltratadas, usadas, humilhadas, assassinadas, sempre por homens. Via que cobravam menos que eles pelos mesmos trabalhos, que tinham de assumir responsabilidades domésticas que iam ficar na sombra, apesar de necessárias, via como lhes travavam os passos decididos, e não obstante continuam a caminhar, ou não se levantando num autocarro, contemo-lo uma vez mais, como aquela outra mulher negra, Rosa Banks, que fez história, também.
Cento e seis anos a ver passar o mundo. Talvez o veja bonito, como a minha avó, pouco antes de morrer, velha e formosa, pobre. Talvez a mulher de quem Obama nos falou ontem sentisse a serenidade da alegria perfeita, talvez o saibamos um dia. Entretanto felicitemos o presidente eleito por tê-la tirado da sua casa, por ter-lhe prestado uma homenagem que ela provavelmente não necessitaria, mas nós, sim. À medida que Obama ia falando de Ann Nixon Copper, percebemos que a cada palavra o exemplo nos tornava melhores, mais humanos, à beira de uma fraternidade total. De nós depende fazer durar este sentimento.

José Saramago, em O caderno

1645 – Potosí




História de Estefânia, pecadora mulher de Potosí (em versão abreviada da crônica de Bartolomé Arzáns de Orsúa y Vela)

Nasceu Estefânia nesta Vila imperial e cresceu em formosura a tal grau que mais não pôde subi-lo a natureza.
Aos catorze anos de idade saiu de casa a belíssima donzela, aconselhada por outras perdidas mulheres, e havendo entendido sua mãe a abominável determinação com que esta filha se afastava, cheia de pesar em breves dias acabou-se-lhe a vida.
Não por isso emendou-se a filha, que havendo já perdido o tesouro inestimável da virgindade, vestindo-se profanamente se fez pública e escandalosa pecadora.
Vendo seu irmão tanto descrédito e má fama, chamou-a à sua casa e disse: “Mesmo que te pese haverás de ouvir-me, que enquanto estiveres em pecado mortal és inimiga de Deus e escrava do demônio, e além disto degeneras tua nobreza e desonras toda a sua linhagem. Olhe, irmã, o que fazes, levanta-te deste pântano, teme a Deus e faz penitência”. Ao que Estefânia respondeu: “Que necessidade tens de mim, hipocritão”. E enquanto o irmão a repreendia, em um momento despiu ela a cortadora adaga que estava na parede pendurada e com diabólica ferocidade avançou dizendo: “Só esta resposta merecem tuas razões”. Deixou-o morto em um lago de sangue e depois disfarçou aquela maldade com fingido sentimento, vestindo-se de luto e ponderando a lástima.
Também seu ancião pai, entristecido pela morte do bom filho e o escândalo da má filha, procurou reduzi-la com boas razões que contra sua vontade escutava a despiadada. Em vez da emenda, deu ela em aborrecer o venerável velho e à meia-noite pôs fogo no telhado da casa. Saltou da cama o atordoado ancião, gritando com toda a sua voz: “Fogo, fogo!”, mas caíram as vigas que sustentavam o teto e ali mesmo abrasou-lhe o terrível elemento. Vendo-se livre Estefânia, com mais desenfreio se deu a maiores vícios e pecados.
Arribou nesses dias a esta Vila de Potosí um homem dos reinos da Espanha, mercador dos mais opulentos que naqueles galeões vieram ao Peru, e chegou a suas notícias a formosura e graça daquela pública pecadora. Solicitou-a, e quando mais gozosos se encontravam em suas torpezas, um amante antigo da dama, armado de todas as armas e com duas bravas pistolas, apareceu decidido a vingar sua ofensa.
Achou o antigo amante solitária a mulher, mas com enganosas palavras deteve ela seu airado ânimo, e quando houve controlado tão arrebatada cólera, com grande presteza tirou da manga um punhal e caiu ao chão morto o infeliz.
Referiu Estefânia o sucesso ao rico mercador. Passados alguns meses, estando ele muito atormentado pelos ciúmes, ameaçou-a com acusá-la à justiça do homicídio feito. Nesses dias foram juntos banhar-se na lagoa de Tarapaya. Arrojou ela de si seus ricos vestidos, ficando patente a neve de seu corpo salpicada de belíssimo carmin, e nua atirou-a à água. Seguiu-a o descuidado mercador e estando juntos na metade da lagoa, com toda a força de seus braços meteu ela a cabeça do desaventurado dentro da água.
Não se creia que pararam ali suas abominações. Deu um golpe de alfanje acabou com a vida de um cavalheiro de ilustre sangue; e a outros dois matou com veneno que enviou em uma merenda. Por suas intrigas transpassaram-se outros os peitos com as espadas, ficando Estefânia alegríssima de que se derramasse sangue por sua causa.
E assim foi até o ano de 1645, quando escutou a pecadora um sermão do padre Francisco Patino, servo de Deus de cujas admiráveis virtudes gozava neste tempo Potosí, e socorreu-a Deus com um raio de sua divina graça. E foi tão grande a dor de Estefânia que começou a derramar rios de lágrimas, com grandes suspiros e soluços que pareciam arrancar-lhe a alma, e quando acabou o sermão arrojou-se aos pés do sacerdote pedindo-lhe confissão.
Exortou-a o padre à penitência e absolve-a, que bem se sabe com quanta felicidade se entregam as mulheres em mãos da serpente, por coisas herdadas da que tentou Adão. Levantou-se Estefânia dos pés do confessor qual outra Madalena e quando ia a caminho de sua casa, oh feliz pecadora!, mereceu que lhe aparecesse Maria Santíssima e lhe dissesse: “Filha, já estás perdoada. Eu pedi por ti a meu Filho, porque em tua infância rezavas meu rosário”.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Acerca dos fatos

 “Não é certo se irritar com os fatos, porque eles não se importam com a sua irritação.”

Marco Aurélio, em Meditações

A Contadora de Filmes




[12]

O filme durou três horas. Chorei mais que Sara García, a veterana atriz do cinema mexicano. Eu nunca havia gostado tanto de um filme. Depois soube que, além de ser tão longo, tinha sido o filme mais caro da história. E que havia ganhado onze prêmios Oscar. E além de tudo, Charlton Heston era um dos atores de quem eu mais gostava.
Cheguei em casa com os olhos vermelhos. Todos me esperavam com grande expectativa. Tomei em silêncio a xícara de chá, me pus na frente deles, e sem que meus joelhos tremessem nem nada, comecei a minha narração.
Foi então que alguma coisa se apoderou de mim.
Enquanto contava o filme – gesticulando, dando braçadas, mudando a voz – ia como que me desdobrando, transformando, convertendo-me em cada um dos personagens. Naquela tarde fui Ben-Hur, o jovenzinho. Fui Messala, o malvado do filme. Fui as duas mulheres leprosas que Jesus curou.
Fui o mesmíssimo Jesus.
Eu não estava contando o filme, eu estava atuando o filme. Mais ainda: eu estava vivendo o filme. Meu pai e meus irmãos me ouviam e olhavam para mim de boca aberta.
“Essa menina é uma artista completa”, comentou meu pai quando, esgotada até a última gota, acabei de contar o filme.
Ele e meus irmãos pareciam estar flutuando.
E estavam com os olhos marejados.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes