07/10/2026

A cabeça do santo | Primeira parte

 



Traigo los ojos con que ella miró estas cosas, porque me dio sus ojos para ver.
Juan Rulfo

Caminho

Ele não tinha mais sapatos e seus pés, àquela altura, já eram outra coisa: um par de bichos disformes. Dois animais dentados e imundos. Duas bestas, presas aos tornozelos, incansáveis, avante, um depois do outro, avante, conduzindo Samuel por dezesseis longos e dolorosos dias sob o sol.
Nos primeiros dias o sangue e a água que minavam das bolhas arrebentadas nos seus pés chiavam em contato com o asfalto em brasa, inclemente. De tão secos, fizeram silêncio. Surgiu uma pele nova, quase um couro de cobra, esturricado, admirável engenho da natureza para os que não podem contar com nenhum lapso de piedade do inimigo. As pernas, gêmeos paradoxos: quanto mais magras, mais fortes. Os músculos cresceram, até nas canelas sujas que sustentavam as coxas de pouca carne. Ele, sujo como um desenterrado, andando sempre em linha reta.
Dezesseis dias. Por vezes olhava para baixo e temia que o ventre colasse de vez nas costelas, como na história do homem caído que a mãe, Mariinha, contava. Dizia que foi num dia de muito calor, pior que o sopro quente de sempre, quando ela ouviu alguém bater palmas diante de sua porta. Foi abrir, levando a alegria discreta que sempre doava aos vizinhos ou aos compradores de chapéu. O sorriso acabou-se no espanto, porque ali estava um homem esticado no chão, tão faminto que a pele da barriga colara nas costelas. O desmaiado era bonito e foi isso que o salvou. As mulheres da vizinhança não demoraram a ferver um mingau de milho, cozinhar uma galinha gorda, um quilo de arroz refogado com alho e sal, uma panela grande de farofa com carne-seca e coentro, nove copos de leite com canela e oito ovos cozidos. Não faltaram voluntárias para trazer os pratos, dar comida na boca, fazer a barba, limpar o rosto com pano perfumado de colônia. Foram dois dias de comilança para que a barriga do desinfeliz descolasse das costelas, fazendo um estalido seco e alto que se ouviu por todo o Horto. Voltou dos mortos tão cheio de desejo que não demorou para que pedisse a mão de uma das moças em casamento. Era Estelita, a que lhe trouxe mingau de milho.
Samuel também tinha o ventre quase colado nas costas e oxalá ainda fosse possível desgrudar quando chegasse a hora. Alguém ajudaria? Alguém daria comida a um desenterrado? Pensava na galinha cozida, nas bananas, nas mãos da mãe enchendo o seu prato de louça branco leitoso, com as bordas quebradas e a pinturinha de flores descascada. Das mãos da mãe ele tentava não lembrar. Era uma dor sem nome.
Sapatos, as pernas da calça, mangas da camisa, o parco dinheiro: tudo ficou pelo caminho. (Existe quem compre mangas de camisa, isso é espantoso.) Seu torso mal protegido tinha duas cores. Os braços queimados de sol não serviam para nada além de sustentar as mãos. Das coisas que um corpo exige, ele não tinha quase nenhuma, o corpo pede e pune, na mesma medida. A mala que levava quando deixou a casa ficou pelo caminho logo no quinto dia. Ou isso, ou a fome. Trocou por um prato de carne cozida e baião de dois. A dona de uma pensão aceitou, de má vontade, só porque precisava de uma mala para guardar as toalhas das mesas.
Restavam apenas os seus vinte e oito anos e o endereço de poucas palavras no bolso esquerdo. Às vezes o pequeno pedaço de papel pegava fogo e torrava a única pista do seu destino. Samuel enfiava a mão no bolso com desespero: era o pior do elenco de pesadelos daquela jornada. Ele queria chegar lá, no lugar indicado por oito palavras e um número. Chegar lá era a única coisa que tinha na vida.
Os cabelos escuros e lisos cresciam rápido e já escorriam de forma irritante sobre a testa, atrapalhando a vista. Tinha olhos pequenos, sobrancelhas fartas e juntas acima do nariz, boca carnuda e traços de índio, herdados da mãe, Mariinha.
Samuel era um corpo magro e faminto, quase uma sombra, que não parava de andar. Quase dez horas de caminhada por dia. Pouca água, comida rara, sono em cotas breves. Tudo ficou pelo caminho: juventude, alegria, pedaços de pele, mililitros de suor, quilos do corpo, e os parcos e velhos fios de esperança de que houvesse alguma coisa invisível que ajudasse os homens sobre a Terra. As esperanças nunca foram suas, eram de Mariinha, ele as usava por empréstimo em casos raros. Naquele momento, Samuel não tinha fé nenhuma nas coisas do espírito. Do outro lado da estrada, em direção contrária, caminhavam exemplares do seu extremo oposto.

Socorro Acioli, em A cabeça do santo

O Amor | Gal Costa

 

Minifesto

Ave a raiva desta noite
a baita lasca fúria abrupta
louca besta vaca solta
ruiva luz que contra o dia
tanto e tarde madrugastes

morra a calma desta tarde
morra em ouro
enfim, mais seda
a morte, essa fraude,
quando próspera

viva e morra sobretudo
este dia, metal vil,
surdo, cego e mudo,
nele tudo foi e, se ser foi tudo,
já nem tudo nem sei
se vai saber a primavera
ou se um dia saberei
que nem eu saber nem ser nem era

vim pelo caminho difícil,
a linha que nunca termina,
a linha bate na pedra,
a palavra quebra uma esquina,
mínima linha vazia,
a linha, uma vida inteira,
palavra, palavra minha.

Paulo Leminski, em Distraídos venceremos

Capítulo IX – Baleia

 



A Cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pêlo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida.
Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa na base, cheia de moscas, semelhante a uma cauda de cascavel.
Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o saca-trapo e fez tenção de carregá-la bem para a cachorra não sofrer muito.
Sinha Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que adivinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma pergunta: – Vão bulir com a Baleia?
Tinham visto o chumbeiro e o polvarinho, os modos de Fabiano afligiam-nos, davam-lhes a suspeita de que Baleia corria perigo.
Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem dizer não se diferençavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que ia subindo, ameaçava cobrir o chiqueiro das cabras.
Quiseram mexer na taramela e abrir a porta, mas Sinha Vitória levou-os para a cama de varas, deitou-os e esforçou-se por tapar-lhes os ouvidos prendeu a cabeça do mais velho entre as coxas e espalmou as mãos nas orelhas do segundo. Como os pequenos resistissem, aperreou-se e tratou de subjugá-los, resmungando com energia.
Ela também tinha o coração pesado, mas resignava-se: naturalmente a decisão de Fabiano era necessária e justa. Pobre da Baleia.
Escutou, ouviu o rumor do chumbo que se derramava no cano da arma, as pancadas surdas da vareta na bucha. Suspirou. Coitadinha da Baleia.
Os meninos começaram a gritar e a espernear. E como Sinha Vitória tinha relaxado os músculos, deixou escapar o mais taludo e soltou uma praga: – Capeta excomungado.
Na luta que travou para segurar de novo o filho rebelde, zangou-se de verdade. Safadinho. Atirou um cocorote ao crânio enrolado na coberta vermelha e na saia de ramagens.
Pouco a pouco a cólera diminuiu, e Sinha Vitória, embalando as crianças, enjoou-se da cadela achacada, gargarejou muxoxos e nomes feios. Bicho nojento, babão. Inconveniência deixar cachorro doido solto em casa. Mas compreendia que estava sendo severa demais, achava difícil Baleia endoidecer e lamentava que o marido não houvesse esperado mais um dia para ver se realmente a execução era indispensável.
Nesse momento Fabiano andava no copiar, batendo castanholas com os dedos. Sinha Vitória encolheu o pescoço e tentou encostar os ombros às orelhas. Como isto era impossível, levantou os, braços e, sem largar o filho, conseguiu ocultar um pedaço da cabeça.
Fabiano percorreu o alpendre, olhando a baraúna e as porteiras, açulando um cão invisível contra animais invisíveis: – Eco! eco!
Em seguida entrou na sala, atravessou o corredor e chegou à janela baixa da cozinha. Examinou o terreiro, viu Baleia coçando-se a esfregar as peladuras no pé de turco, levou a espingarda ao rosto. A cachorra espiou o dono desconfiada, enroscou-se no tronco e foi-se desviando, até ficar no outro lado da árvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras. Aborrecido com esta manobra, Fabiano saltou a janela, esgueirou-se ao longo da cerca do curral, deteve-se no mourão do canto e levou de novo a arma ao rosto. Como o animal estivesse de frente e não apresentasse bom alvo, adiantou-se mais alguns passos. Ao chegar as catingueiras, modificou a pontaria e puxou o gatilho. A carga alcançou os quartos traseiros e inutilizou uma perna de Baleia, que se pôs a latir desesperadamente.
Ouvindo o tiro e os latidos, Sinha Vitória pegou-se à Virgem Maria e os meninos rolaram na cama, chorando alto. Fabiano recolheu-se.
E Baleia fugiu precipitada, rodeou o barreiro, entrou no quintalzinho da esquerda, passou rente aos craveiros e às panelas de losna, meteu-se por um buraco da cerca e ganhou o pátio, correndo em três pés. Dirigiu-se ao copiar, mas temeu encontrar Fabiano e afastou-se para o chiqueiro das cabras. Demorou-se aí um instante, meio desorientada, saiu depois sem destino, aos pulos
Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira. E, perdendo muito sangue, andou como gente, em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo. Quis recuar e esconder-se debaixo do carro, mas teve medo da roda.
Encaminhou-se aos juazeiros. Sob a raiz de um deles havia uma barroca macia e funda. Gostava de espojar-se ali: cobria-se de poeira, evitava as moscas e os mosquitos, e quando se levantava, tinha folhas secas e gravetos colados as feridas, era um bicho diferente dos outros.
Caiu antes de alcançar essa cova arredada. Tentou erguer- se, endireitou a cabeça e estirou as pernas dianteiras, mas o resto do corpo ficou deitado de banda. Nesta posição torcida, mexeu-se a custo, ralando as patas, cravando as unhas no chão, agarrando-se nos seixos miúdos. Afinal esmoreceu e aquietou-se junto as pedras onde os meninos jogavam cobras mortas.
Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu: um nevoeiro impedia-lhe a visão. Pôs-se a latir e desejou morder Fabiano. Realmente não latia: uivava baixinho, e os uivos iam diminuindo, tornavam-se quase imperceptíveis.
Como o sol a encandeasse, conseguiu adiantar-se umas polegadas e escondeu-se numa nesga de sombra que ladeava a pedra.
Olhou-se de novo, aflita. Que lhe estaria acontecendo? O nevoeiro engrossava e aproximava-se. Sentiu o cheiro bom dos preás que desciam do morro, mas o cheiro vinha, fraco e havia nele partículas de outros viventes. Parecia que o morro se tinha distanciado muito. Arregaçou o focinho, aspirou o ar lentamente, com vontade de subir a ladeira e perseguir os preás, que pulavam e corriam em liberdade. Começou a arquejar penosamente, fingindo ladrar. Passou a língua pelos beiços torrados e não experimentou nenhum prazer. O olfato cada vez mais se embotava: certamente os preás tinham fugido.
Esqueceu-os e de novo lhe veio o desejo de morder Fabiano, que lhe apareceu diante dos olhos meio vidrados, com um objeto esquisito na mão. Não conhecia o objeto, mas pôs-se a tremer, convencida de que ele encerrava surpresas desagradáveis. Fez um esforço para desviar-se daquilo e encolher o rabo. Cerrou as pálpebras pesadas e julgou que o rabo estava encolhido. Não poderia morder Fabiano: tinha nascido perto dele, numa camarinha, sob a cama de varas, e consumira a existência em submissão, ladrando para juntar o gado quando o vaqueiro batia palmas.
O objeto desconhecido continuava a ameaçá-la. Conteve a respiração, cobriu os dentes, espiou o inimigo por baixo das pestanas caídas. Ficou assim algum tempo, depois sossegou. Fabiano e a coisa perigosa tinham-se sumido.
Abriu os olhos a custo. Agora havia uma grande escuridão, com certeza o sol desaparecera.
Os chocalhos das cabras tilintaram para os lados do rio, o fartum do chiqueiro espalhou-se pela vizinhança.
Baleia assustou-se. Que faziam aqueles animais soltos de noite? A obrigação dela era levantar-se, conduzi-los ao bebedouro. Franziu as ventas, procurando distinguir os meninos. Estranhou a ausência deles.
Não se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia não atribuía a esse desastre a impotência em que se achava nem percebia que estava livre de responsabilidades. Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar as cabras: àquela hora cheiros de suçuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar. as moitas afastadas. Felizmente os meninos dormiam na esteira, por baixo do caritó onde Sinha Vitória guardava o cachimbo.
Uma noite de inverno, gelada e nevoenta, cercava a criaturinha. Silêncio completo, nenhum sinal de vida nos arredores. O galo velho não cantava no poleiro, nem Fabiano roncava na cama de varas. Estes sons não interessavam Baleia, mas quando o galo batia as asas e Fabiano se virava, emanações familiares revelavam-lhe a presença deles. Agora parecia que a fazenda se tinha despovoado.
Baleia respirava depressa, a boca aberta, os queixos desgovernados, a língua pendente e insensível. Não sabia o que tinha sucedido. O estrondo, a pancada que recebera no quarto e a viagem difícil do barreiro ao fim do pátio desvaneciam-se no seu espírito.
Provavelmente estava na cozinha, entre as pedras que serviam de trempe. Antes de se deitar, Sinha Vitória retirava dali os carvões e a cinza, varria com um molho de vassourinha o chão queimado, e aquilo ficava um bom lugar para cachorro descansar. O calor afugentava as pulgas, a terra se amaciava. E, findos os cochilos, numerosos preás corriam e saltavam, um formigueiro de preás invadia a cozinha.
A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Do peito para trás era tudo insensibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo se arrepiava, espinhos de mandacaru penetravam na carne meio comida pela doença.
Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente Sinha Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo.
Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.

Graciliano Ramos, em Vidas Secas

O regresso do mestre

Desde seus primeiros anos, Migyur — este era o seu nome — havia sentido que não estava onde tinha que estar. Sentia-se forasteiro em sua família, forasteiro em seu povoado. Ao sonhar, via paisagens que não pertenciam a Ngari: solidões de areia, tendas circulares de feltro, um mosteiro na montanha; e na vigília, estas mesmas imagens cobriam ou empanavam a realidade.
Aos dezenove anos fugiu, ávido de encontrar a realidade que correspondia a essas formas. Foi vagabundo, esmoler, trabalhador e as vezes ladrão. Hoje chegou a esta pousada perto da fronteira.
Viu a casa, a cansada caravana mongol, os camelos no pátio.
Atravessou o portão e se encontrou diante do velho monge que comandava a caravana. Reconheceram-se, então: o jovem vagabundo viu-se a si mesmo como um lama ancião, e viu o monge como este era há muitos anos, quando fora seu discípulo; e o monge reconheceu no rapaz o seu velho mestre, já desaparecido. Lembraram a peregrinação que haviam feito aos santuários do Tibete e o regresso ao mosteiro da montanha. Falaram evocaram o passado e se interrompiam para intercalar detalhes precisos.
O propósito da viagem dos mongóis era buscar um novo chefe para o seu convento. Fazia vinte anos que havia morrido o antigo, e eles em vão esperavam sua reencarnação. Hoje o tinham encontrado.
Ao amanhecer a caravana empreendeu sua lenta viagem de volta. Migyur regressava às solidões de areia, às tendas circulares de feltro e ao mosteiro de sua encarnação anterior.

Alexandra David-Neel, em Mystiques el Magiciens du Tibet

Posse

Pense mais no que possui do que no que não possui. Imagine o quão ansiosamente buscaria as coisas que selecionou como as melhores caso não as possuísse. Em compensação, dado que está satisfeito com elas, tome cuidado para não as valorizar a ponto de se perturbar caso as perca.

Marco Aurélio, em Meditações

Correnteza

 


8

Rita Preta acorda se sentindo ainda pior que no dia anterior. O cansaço deixa seus pensamentos desordenados e o corpo parece se render. Está dormindo pouco e sem o descanso adequado, o sono contínuo deu vez aos cochilos intermitentes sem que lhe permitissem repousar o suficiente. Além da angústia pelo sumiço do filho, ela vê surgir um crescente sentimento de culpa, que a atormenta de maneira constante. Primeiro, pela briga que antecedeu o desaparecimento de Cid; se fosse menos impulsiva, poderia ter contornado a situação sem a agressividade cultivada ao longo da vida para se proteger, evitando assim as mágoas e o que se seguiu. Depois, porque ela não se preocupou com o fato de o filho não estar em casa quando voltou do trabalho. Tinha ido ao encontro do namorado. Bebeu, conversou, depois aceitou passar duas horas num hotel barato no centro da cidade. Por fim, esperou pela carona, no caminhão que ele dirigia, para voltar para casa. Se distraiu dos dissabores da vida, seja pelo leve torpor do álcool, pelos efeitos do orgasmo, ou ainda pela visão abrangente que tinha da cidade ao viajar num caminhão por ruas e viadutos; ou por tudo isso junto.
Aquela perspectiva de mirar a cidade de cima a fascina, e todas as vezes que Jorge a leva para qualquer lugar conduzindo o caminhão, Rita fala de seu desejo de aprender a dirigi-lo. Ele promete ensinar, quer impressioná-la, mesmo que esteja cético sobre sua capacidade de pedalar sequer uma bicicleta, que dirá manobrar um veículo pesado. Por mais que fosse incrédula em relação a um bom número de desejos, aquele em particular é alimentado com a esperança de poder realizá-lo. Mas, enquanto não aprende a dirigir, ela trafega pela noite de Salvador — com Jorge quase nunca é durante o dia —, mal ou bem iluminada, contemplando a cidade e sua gente, o traçado das ruas, o esplendor e a sobriedade convivendo nos distintos espaços. Mesmo quando a bebida lhe cai mal e o sexo não é bom, resta admirar as ruas, a chuva, a brisa, as luzes, o mar e os morros, os rios correndo como esgoto, a lua e os vales, os edifícios com vidros espelhados e os casebres com tijolos à mostra, e o concreto que macula o horizonte com elevados e passarelas suspensas para pedestres. Naquelas horas, ela não é mãe nem trabalhadora. É apenas uma mulher sentindo, de forma simples, que ama viver.

“Mãe, Cid não voltou. O que será que aconteceu?”
A pergunta esmaga o peito de Rita Preta, por ela não ter uma resposta satisfatória, por não tentar dar nenhuma outra e por ficar em silêncio quando se espera dela a verdade, mesmo que não a tenha. Para se esquivar desse vazio, ela anuncia:
“Preciso contar o que está acontecendo no trabalho. Se faltar mais um dia, corro o risco de perder o emprego. Depois, vou voltar à delegacia e procurar nos hospitais”, diz enquanto recolhe a caneca de café da mesa. “Vou pedir dinheiro a Fátima. Já não tenho mais nada para o transporte. Gastei tudo indo até a delegacia e levando vocês para não ficarem sozinhos em casa.”
“É verdade o que estão dizendo? Que ele foi levado pela polícia?”
“Quem disse?”
“Você, minha mãe”, Cainho se senta à mesa enquanto olha para Rita como se suplicasse por uma resposta. “Será que ele fugiu? Cid disse que ia embora de casa no dia em que vocês brigaram.”
“Eu repeti o que seu Aranha e dona Conceição disseram, mas nem eles têm certeza. De qualquer maneira, voltei à delegacia e dei a informação. Vão me dizer se ele fez algo errado e se está em algum lugar”, Rita responde, irritada, como se necessitasse confrontar o filho. “Ontem zanzei pelo bairro, levei a foto de Cid, perguntei a um e a outro; nada. Disseram que uns meninos que jogavam bola viram ele ser abordado. Encontrei alguns garotos depois de muito andar e eles não sabiam também”, diz sem olhar para Cainho, se movimentando entre a sala e a cozinha em busca de tarefas por fazer. “Prometi um trocado se alguém me der uma informação concreta. Se alguém aparecer aqui, mande voltar mais tarde.”
“Se ele foi embora, não foi para longe”, ela tenta minimizar a gravidade da situação enquanto enfia na bolsa pedaços de papéis com anotações difusas e um batom. “E o que você está querendo dizer? Que a culpa dele ter sumido é minha?” Rita encara Cainho com o ar grave. “O que você sabe da vida? Só me faltava essa.”
Cainho se cala, e seu rosto é a expressão do descontentamento. Não é preciso declarar nada, não é preciso dizer que, se a mãe não tivesse brigado com o irmão, isso não teria acontecido. Ele permanece sentado, olhando para a ponta dos dedos, e não se volta de novo para Rita, nem nada diz. Seus gestos descortinam um cansaço anterior ao seu tempo, àquela vida, mesmo que não saiba como expressar.
Rita Preta termina de enfiar os objetos na bolsa com gestos furiosos. No fundo, parece querer de alguma maneira retardar tudo o que tem para fazer fora de casa até que Cid apareça ou envie notícias. Ela sai para voltar segundos depois. Procura algo na mesa de vidro e em seguida no balcão que serve como divisória entre a sala e a minúscula cozinha. Ergue a chave e volta para a porta. “Cuide do seu irmão; telefone se Cid aparecer.”
Rita se dirige à casa de Fátima. Enviou uma mensagem de voz um pouco antes, perguntando se ela poderia emprestar uma quantia até a próxima semana. Elas saem juntas para o ponto de ônibus. Rita conta tudo o que fez no dia anterior e Fátima mantém sua expressão atenta. A vizinha procura confortá-la: Cid tem que aparecer, e se o que disseram sobre a polícia é verdade, ela vai descobrir. Rita Preta pergunta: se o filho fosse recolhido por algum delito, os policiais ou o juizado de menores não teriam por obrigação informar aos pais (pensando consigo mesma “eu sou ‘os pais’”)? Então conta que ligou para o pai de Cid e ele não deu a devida importância, além de tentar culpá-la pelo que aconteceu. Rita ressalva que no fundo não queria telefonar para ele, afinal havia criado os filhos sozinha, mas precisava saber se Cid o tinha procurado querendo abrigo ou mesmo pedindo algum dinheiro para ir mais longe, embora ela duvidasse que o pai fosse capaz de abrir a casa da família ou desse algo para o filho.
Elas se despedem. No trajeto, Rita viaja em pé no ônibus e segura a bolsa à sua frente. Faz uma prece em silêncio pelos filhos, embora sinta que nenhuma reza, nenhum encanto, conseguirá protegê-la dessa aflição sem nome. Aquele crescente é perturbador, uma enxurrada carregando detritos, mas ela mantém os olhos no horizonte através das janelas e se estimula para não se distrair, precisa fazer tudo ao seu alcance para que o filho volte. Rita se prepara para os próximos embates, e em seu estômago guarda apenas um copo de café preto doce, coado ainda pela manhã. Ela não contou a Cainho nem a Fátima sobre a falta de apetite. A ansiedade a fazia se sentir com o estômago cheio, como se os alimentos consumidos dias atrás não tivessem sido digeridos.

Depois de contar o que havia acontecido à supervisora e ao gerente da loja numa sala isolada e refrigerada a ponto de parecer o interior de uma câmara fria, Rita Preta deixa o supermercado evitando cruzar com os colegas para não ter que responder às perguntas sobre o desaparecimento do filho. Mais cedo ou mais tarde todos saberão, pois não há segredos nem discrição naquele ambiente. Ao entregar a bolsa para que o segurança a reviste na saída da loja, ressoam as palavras do gerente: estava liberada naquele dia, mas ele não poderia arcar com o ônus de sua ausência por muito tempo. Assim como Rita se reportava a ele como superior hierárquico, ele devia satisfação ao seu chefe, e arriscaria sua função se permitisse ausências prolongadas de qualquer funcionário sem justificativa amparada na legislação trabalhista. No entanto, como Rita havia sido uma boa colaboradora naqueles mais de dois anos em que trabalhava no supermercado, ele se empenharia junto ao setor de recursos humanos para antecipar suas férias, ajustando todo o cronograma milimetricamente desenhado de forma a não impactar as vendas de fim de ano.
Vendas, metas, bom desempenho. Rita não chega a ter aversão a essas palavras em meio à sua aflição, mas não consegue alcançar seus significados, por mais esforço que faça. São como as lembranças do fim da infância: sua avó andando sem rumo pela terra, armazenando sacas de sal na casa de paredes rachadas, trazidas durante meses da feira da cidade, junto com as compras mirradas. Faltava tudo, menos sal e loucura. Aquelas palavras ecoavam em sua memória como os murmúrios sem sentido de Carmelita repetindo como uma aparição: o rio se estreitava como sua garganta, o rio se estreitava como sua garganta, o rio morreria junto com ela. Rita, menina, acreditava que era a dor da má sorte e da insânia pela morte dos que estavam à sua volta. Durante muito tempo, seu maior temor era terminar como sua avó, amargurada, vagando pela terra e repetindo palavras sem sentido.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo

06/10/2026

Roberta Sá | Nem

 

O impagável Quino

Resistir

Resistir ao lado das pessoas que a gente gosta
deixa a luta mais suave,
a gente não quebra, entorta.
As lágrimas ficam filtradas,
o suor mais doce e o sangue mais quente.
E sem que a gente perceba, percebendo,
as coisas começam a mudar à nossa volta.
E aquele sonho que parecia impossível,
acaba virando festa, enquanto a gente revolta.

Sérgio Vaz, em Flores da batalha

Cujas canções

É costume cada um colocar sua profissão ou títulos nos cartões de visita.
Ora, quem escreve estas linhas já recebeu alguns títulos da generosidade de seus conterrâneos; escolher um só seria indelicadeza com os outros proponentes.
Quanto a mim, sempre fui de opinião que bastava o nome da pessoa, sem a vaidade de títulos secundários. Mas eis que a minha camareira fez-me cair em tentação: dá-se o caso que saiu a edição de meu livro Canções, ilustrado por Noêmia e que, ao ser noticiado por Nilo Tapecoara no “Bric-à-brac da Vida”, este o publicou com o meu retrato em duas colunas, e, abaixo do mesmo, uma notícia que assim principiava, com a primeira linha impressa em letras maiúsculas:
MARIO QUINTANA, CUJAS CANÇÕES etc. etc... Ora, na manhã daquele dia, ao servir-me o café na cama, sia Balbina não podia ocultar o orgulho que lhe causava o seu hóspede e repetia:
“Cujas canções, hein, cujas canções!”
O seu maior respeito era devido, sem dúvida, à misteriosa palavra “cujas”...
E não sei se resistirei à ideia que me inspirou sia Balbina: imprimir meu cartão de visitas assim:

MARIO QUINTANA
Cujas Canções

Mario Quintana, em Porta Giratória

Outra barata

 



Boto o papel na máquina, para alinhavar estas mal traçadas, e eis que na ponta da mesa surge silenciosa baratinha, e…
— Que nojo! — Exclama, em alguma parte do país, minha leitora.
— E, sabe? fica me contemplando.
— Gostou de sua cara. Meus cumprimentos.
— Então decidi: vou escrever sobre a baratinha.
— Mas você não podia inventar assunto mais cronicável? Esse é de morte.
— Sei que é de morte, e certamente vou matá-la antes de fazer a crônica. Narrarei a contemplação e morte da baratinha.
— O que você devia fazer, antes de mais nada, era dedetizar sua casa, viu?
— Pensa que não dedetizei? Este é o primeiro motivo de meu interesse pela baratinha. Não por todas, ou por qualquer. Por esta. Resistiu à dedetização, veio me olhar face a face. Tem alguma coisa a me dizer.
— Veio desafiá-lo, é isso.
— É possível. Mas também é possível que tenha vindo em missão de paz. Quer talvez explicar-me que as baratas, pelo menos as baratinhas, não são aquilo que a gente está pensando delas há milênios.
— Você é um boboca.
— Obrigado. Mas Oswaldo Goeldi era um grande artista, e simpatizava com a barata sem uma perna que todas as noites circulava no seu ateliê, ceando restos de cola. Fazia companhia ao gravador, madrugada alta.
— Bem, o Goeldi…
— E Manuel Bandeira me contou, um dia, que Joanita Blank, flor de pessoa, absolutamente limpa de corpo e hábitos, chamava de amiga uma baratona frequentadora de sua mesa de trabalho. Queriam que ela a esmagasse com uma chinelada. “Eu, matar uma amiga?!”, protestou Joanita.
— Mas você disse que vai matar a sua.
— Disse que vou matar, mas não estou bem certo disso. Ela começou a me cativar, como se diz no Principezinho. Não é todos os dias que uma barata fica parada diante de um homem, tranquila, tranquila.
— Nem todos os dias que um homem fica parado diante de uma barata, tranquilo, tranquilo.
— Me encara com tanta confiança que seria uma sujeira matá-la.
— Sujeira é a própria barata, você não desconfia?
— Sei que eu e ela não vamos nos entender por palavras, como eu e você não estamos nos entendendo neste momento. A comunicação tem de ser de outro jeito. Estou me esforçando por entender a barata, você não vê logo?
— Francamente: se você começa por não se entender comigo, como é que vai se entender com uma porcaria dessa?
— De qualquer modo, tento. A iniciativa é dela. Você me garante que sou superior a esse bicho. Como então vou recusar o diálogo, tornando-me inferior a uma baratinha?
— Esse orgulho, essa falsa humildade…
— Ora, você está cultivando preconceitos femininos com relação à barata. Joanita deve ser a única exceção. Todas as outras mulheres do planeta não admitem que se tente lançar uma ponte entre a barata e o homem, pelo menos para troca de pontos de vista.
— Não ataque as mulheres em bloco. É demagogia. Pensa que eu não tenho sensibilidade? Se alguém me provasse que barata sofre como a gente, e se ela não fosse tão repugnante…
— Aí está. Para você ter pena da barata, era preciso que ela não fosse barata. Fosse um inseto encantador, como a borboleta.
— Talvez você tenha razão. Gostar do que é bonito não tem valor. O Goeldi…
— Viu? Você passou a compreender a primeira letra da barata. Não é “i” de imunda, é “m” de miséria. Pobre ser miserável, condenado a destruir e ser destruído. Criação triste da natureza.
— Começo a ter pena da baratinha.
— Mas agora é tarde. Ela está se movendo, não parece mais disposta a uma aliança comigo. Retomou o ar dissimulado. Vou matá-la.
— Não faça isso, espere…
— Pronto. Matei.
— Monstro!
Ah, mulheres, mulheres!

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

A guerra que não chegou a ser

E esta? Em Março de 1975, e mais acentuadamente no mês seguinte, chegaram-nos rumores a Portugal do desagrado do governo espanhol, então presidido por Carlos Arias Navarro, quanto aos caminhos, perigosos em seu entender, que a revolução portuguesa estava tomando. A derrota do golpe militar direitista de 11 de Março, de que o general Spínola havia sido inspirador e chefe, teve como imediata consequência o revigoramento das forças políticas de esquerda, incluindo as organizações sindicais. Ao que parece, Arias Navarro entrou em pânico, a tal ponto que, num encontro com o vice-secretário de Estado norte-americano Robert Ingersoll, manifestou a ideia de que Portugal era uma séria ameaça para Espanha, não só pelo desenvolvimento que a situação ali estava tomando mas também pelo apoio exterior que poderia obter e que seria hostil a Espanha. O passo seguinte, segundo Arias Navarro, poderia ser a guerra. Da informação que, acto contínuo, Ingersoll transmitiu ao secretário de Estado Henry Kissinger, consta o seguinte: “Espanha estaria disposta a lançar sozinha o combate anticomunista se necessário. É um país forte e próspero. Não quer pedir ajuda, mas confia em que terá a cooperação e a compreensão dos seus amigos, não só no interesse de Espanha, mas também de todos aqueles que pensam da mesma maneira”. Numa outra conversação em 9 de Abril com Wells Stabler, embaixador dos Estados Unidos, Arias Navarro disse que “o Exército espanhol conhece os perigos do comunismo pela experiência da Guerra Civil e está totalmente unido”.
E esta? Nós, aqui, preocupados em pôr de pé, contra os mil ventos e marés de dentro e os que estavam a ser preparados de fora, um futuro mais digno para Portugal, e os nossos vizinhos, nuestros hermanos, a tramarem com os Estados Unidos uma guerra que provavelmente nos deixaria destruídos e, não duvidemos, malferida a própria Espanha. Depois das conversações que Franco manteve no passado com a Alemanha de Hitler com vista à partilha, pataca a mim, pataca a ti, das colónias portuguesas, pairava agora sobre as nossas cabeças a ameaça explícita de uma invasão à qual talvez só tenha faltado o sim dos Estados Unidos.
Terei de dizer que não foi para isto que escrevi A jangada de pedra?

José Saramago, em O caderno

05/10/2026

Mundo Velho-Novo

 

Armandinho

 

1641 – Madrid

A eternidade contra a história

O conde-duque de Olivares morde os punhos e amaldiçoa baixinho.
É muito o que manda, depois de vinte anos de tanto fazer e desfazer na corte, mas mais forte pisa Deus.
A Junta de Teólogos acaba de rejeitar o projeto de canalização dos rios Tejo e Manzanares, que tanto bem faria para os páramos de Castilha. Os rios ficarão como os fez Deus, e ao arquivo irão os projetos dos engenheiros Carducci e Martelli.
Na França anunciam que logo se abrirá o grande canal do Languedoc, para unir o Mediterrâneo com o vale do Garona. Enquanto isso, nesta Espanha que conquistou a América, a Junta de Teólogos decide que atenta contra a Divina Providência quem tenta melhorar o que ela, por motivos inescrutáveis, quis que seja imperfeito. Se Deus quisesse que os rios fossem navegáveis, os teria feito navegáveis.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Classe

 



Não estou certo da localização. Algum lugar a nordeste da Califórnia. Hemingway recém acabara um romance, vinha da Europa ou de lá sei onde e estava no ringue lutando contra alguém. Havia jornalistas, críticos, escritores – aquela tribo – e também algumas jovens senhoritas sentadas nas cadeiras próximas ao ringue. Sentei na última fileira de cadeiras. A maioria das pessoas não estava observando Hemingway. Estavam conversando umas com as outras e rindo.
O sol estava alto. Era alguma das horas do início da tarde. Eu observava o Ernie. Já tinha derrotado o adversário, estava brincando com ele. Distribuía jabs e cruzados à vontade. Então colocou o adversário no chão. As pessoas os olhavam. O oponente de Hemingway levantou-se quando a contagem chegou ao oito. Hemingway foi na direção dele, então parou. Ernie tirou seu protetor bucal, riu e despachou o oponente com um aceno de mão. Foi uma vitória fácil. Ernie caminhou para o seu corner. Reclinou a cabeça para trás e alguém espremeu água em sua boca.
Levantei da minha cadeira e caminhei lentamente pelo corredor entre os assentos. Aproximei-me, espichei a mão e chamei-o com um cutucão.
– Sr. Hemingway?
– Sim, o que é?
– Gostaria de lutar com senhor.
– Você tem alguma experiência no boxe?
– Não.
– Então vá arranjar alguma.
– Estou aqui para quebrar a sua cara.
Ernie riu. Disse para o sujeito no corner:
– Arranje calções e luvas para o garoto.
O sujeito pulou para fora do ringue, e eu o segui pelo corredor entre as cadeiras até o vestiário.
– Você está louco, garoto? – me perguntou.
– Não sei. Acho que não.
– Aqui. Experimente esses calções.
– Ok.
– Ih... está muito grande.
– Foda-se. Vai assim mesmo.
– Ok, deixe-me colocar a faixa nas suas mãos.
– Sem faixas.
– Sem faixas?
– Sem faixas.
– Que tal um protetor bucal?
– Sem protetor.
– Vai lutar com ele usando esses sapatos?
– Lutarei de sapato.
Acendi um charuto e o segui até o ringue. Caminhei pelo corredor fumando o charuto. Hemingway subiu novamente no ringue e colocaram as luvas nele. Não havia ninguém no meu corner. Finalmente alguém chegou e colocou as luvas em mim. Fomos chamados ao centro do ringue para receber instruções.
– Quando você partir para um clinch – disse o juiz –, eu vou...
– Não uso o clinch – eu disse ao juiz.
Ele seguiu dando outras instruções.
– Ok. Voltem para seus corners. Quando o gongo soar, lutem. Que vença o melhor homem. E – ele me disse – é melhor você tirar o cigarro da boca.
Quando o gongo soou, comecei com o charuto ainda na boca. Puxando uma boa baforada, soprei a fumaça na cara de Ernest Hemingway. A multidão riu.
Hem avançou, soltou um jab e um gancho e errou os dois. Eu tinha os pés rápidos. Ginguei um pouco, avancei, tap tap tap tap tap, cinco jabs de esquerda no nariz do papai. Dei uma olhada em uma garota da primeira fila, uma coisinha muito bonita, e então Hem acertou uma direita, tirando o charuto de minha boca. Senti minha boca e minha bochecha queimarem e tirei as cinzas quentes. Cuspi a bagana e acertei um gancho na barriga de Ernie. Ele soltou um gancho com a direita e me pegou na orelha com uma esquerda. Abaixou-se para se esquivar da minha direita e me acertou uma saraivada, levando-me até as cordas. Justo quando soou o gongo, ele soltou uma sólida direita no meu queixo. Levantei e caminhei para o meu corner.
Um sujeito apareceu com um balde.
– O sr. Hemingway quer saber se você gostaria de lutar mais um round – o sujeito me perguntou.
– Diga ao sr. Hemingway que ele teve sorte. Entrou fumaça nos meus olhos. Mais um assalto é só do que preciso para terminar o serviço.
O sujeito com o balde foi até lá e eu podia ver Hemingway rindo.
O gongo soou e eu saí rapidamente. Comecei soltando a mão, não com muita força, mas com boas combinações. Ernie recuou, errando seus socos. Pela primeira vez vi dúvida em seus olhos.
“Quem é esse garoto?”, ele devia estar pensando. Encurtei meus golpes, acertei-o com mais força. Acertei cada golpe. Cabeça e corpo. Combinações variadas. Boxeei como Sugar Ray e bati como Dempsey.
Coloquei Hemingway contra as cordas. Ele não tinha como cair. Cada vez que ele começava a cair para frente, eu o endireitava com outro soco. Era assassinato. Morte na tarde.
Dei uma passo para trás e o sr. Ernest Hemingway caiu para frente, nocauteado.
Desamarrei minhas luvas com os dentes, tirei-as e saltei para fora do ringue. Caminhei para o meu vestiário, quero dizer, o vestiário de Hemingway, e tomei um banho. Bebi uma garrafa de cerveja, acendi um charuto e sentei na ponta da mesa de massagem. Trouxeram Ernie carregado e o colocaram na outra mesa. Ele ainda estava fora do ar. Continuei sentado ali, pelado, observando-os enquanto se preocupavam com Ernie. Havia mulheres na sala, mas não dei atenção. Então um sujeito veio até mim.
– Quem é você? – perguntou. – Qual o seu nome?
– Henry Chinaski.
– Nunca ouvi falar – ele disse.
– Vai ouvir – eu disse.
Todos vieram me cercar. Ernie foi deixado sozinho. Pobre Ernie. Todos ao redor de mim. As mulheres também. Nenhuma em especial me chamava a atenção, com exceção de uma delas. Uma mulher muito classuda me olhava de cima a baixo. Parecia ser uma mulher da sociedade, rica, educada e todo o resto... bom corpo, boa cara, boas roupas, tudo aquilo.
– O que você faz? – alguém me perguntou.
– Trepo e bebo.
– Não, não, quero saber qual a sua ocupação?
– Lavador de pratos.
– Lavador de pratos?
– Sim.
– Você tem algum passatempo?
– Bem, não sei se dá para chamar de passatempo. Escrevo.
– Escreve?
– É.
– O quê?
– Contos. Coisa fina.
– Já foi publicado?
– Não.
– Por quê?
– Não mandei para ninguém.
– Onde estão seus contos?
– Ali – apontei para uma pasta rasgada.
– Escute, sou um crítico do New York Times. Você se importa se eu levar suas histórias para casa e as ler? Vou devolver.
– Por mim tudo bem, cara, mas não sei onde estarei.
A mulher de classe deu um passo à frente.
– Ele estará comigo.
Então ela disse:
– Vamos, Henry, vista suas roupas. É uma longa viagem e temos algumas coisas para... conversar.
Vesti-me e então Ernie voltou a si.
– O que raios aconteceu? – ele perguntou.
– Você encontrou um sujeito muito bom, sr. Hemingway – alguém lhe disse.
Acabei de me vestir e fui até onde ele estava.
– Você é bom, papai, ninguém ganha todas – apertei sua mão. – Não vá estourar os miolos.
Saí com a grã-fina, e entramos em um carro conversível amarelo que tinha o comprimento de meio quarteirão. Ela dirigia com o pé no fundo e fazia as curvas derrapando e cantando os pneus e sem nenhuma expressão no rosto. Isso era classe. Se ela amasse como dirigia, seria uma noite e tanto.
O lugar ficava em cima das colinas, afastado de tudo. Um mordomo abriu a porta.
– George – ela lhe disse –, tire a noite de folga. Não, pensando melhor, tire a semana de folga.
Entramos, e havia um sujeito grande sentado em uma cadeira com uma bebida na mão.
– Tommy – ela disse –, desapareça.
Seguimos pela casa.
– Quem era o grandão? – perguntei a ela.
– Thomas Wolfe – ela disse. – Um tédio.
Ela parou na cozinha para pegar uma garrafa de uísque e dois copos. Então disse:
– Vamos.
Segui-a para o quarto.
Na manhã seguinte o telefone nos acordou. Era para mim. Ela me alcançou o telefone, e me sentei ao lado dela na cama.
– Sr. Chinaski?
– Sim?
– Li suas histórias. Fiquei tão entusiasmado que não pude dormir de noite. Você é certamente o maior gênio da nossa década!
– Só da década?
– Bem, talvez do século.
– Assim está melhor.
– Os editores da Harper’s e da Atlantic estão aqui comigo. Você pode não acreditar, mas cada um dele aceitou cinco histórias para publicação futura.
– Acredito – eu disse.
O crítico desligou. Deitei. A mulher de classe e eu fizemos amor mais uma vez.

Charles Bukowski, em Ao Sul de Lugar Nenhum

O terror

E havia luz demais para seus olhos. De repente um repuxão; ajeitavam-no, mas ele não sabia: só tinha mesmo era o terror de rostos inclinados para o seu. E ele não sabia de nada. E não podia se mexer livremente. As vozes que para ele eram trovões, só uma voz era cantante: ele se banhava nela. Mas logo em seguida era depositado e vinha o terror e ele gritava entre as grades e viu cores que depois ele entendeu que eram azuis. O azul o molestava e ele chorava. E o terror das cólicas. Abriam-lhe a boca e depositavam coisas ruins na boca, ele engolia. Quando era a voz cantante que lhe dava coisas ruins, ele suportava melhor. Mas era logo depositado entre as grades. Sombras gigantescas rodeavam-no. E então ele gritava. A mínima luz de tudo isso é que ele acabara de nascer. Tinha cinco dias de nascido.
Depois de mais velho ouviu sem entender: “Este menino já não dá trabalho mas quando nasceu dava choros e urros. Agora felizmente é mais fácil de criá-lo.” Não, não era fácil, nunca seria fácil. O nascimento era a morte de um ser uno se dividindo em dois solitários. Agora parecia fácil porque ele aprendera a manejar o seu terror secreto que duraria até a morte. Terror de estar na terra, como uma saudade do céu.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

Parte I – Você trouxe todas as palavras

 


2.

A casa era um depósito dos vestígios de muitas vidas. Diante da porta do quarto, havia uma sala pequena. Das marcas retangulares nas paredes imaginei os quadros. Uma máquina de costura em silêncio, uma cadeira sem assento e uma espessa camada de poeira, que denunciava abandono. Um piano de madeira escura servia agora apenas como a prateleira de retratos desbotados de casais, mulheres, homens, crianças que partiram deste mundo muitos anos antes.
Ao lado vi outra sala, um pouco menos suja. E vi Fernando. A mesa posta contrastava com o cenário ao redor porque, no meio dela, havia uma flor. Uma garrafa branca com água e uma rosa amarela de Almofala, como eu saberia depois. Um dos dois saiu no frio para buscá-la e dar outra ordem ao lugar do nosso pequeno-almoço.
Florice estava cozinhando enquanto uma mulher cantava no rádio. Fernando puxou uma cadeira para mim. A menina conseguiu descansar? Sentiste alguma dor na cabeça, no corpo, estás bem? O sono foi reparador, sim, mas não resgatou nenhum traço de memória. Ele perguntaria isso a seguir e já adiantei que não recuperei nada.
Interrompeu o exame, mudou de assunto, alinhou a colher com a mão direita, o garfo com a esquerda e contou que o capricho da mesa era graças a uma mala de apetrechos trazidos pela esposa. Toalha de mesa, copos, chávenas, pratos, talheres, tudo era deles. Florice só sabe estar cercada de beleza, ele disse, só anda com as coisinhas dela. Os dois perfumados, penteados, bem-vestidos. Especialmente ele, Fernando, e sua inabalável elegância e olhar sempre atento a todos os meus gestos. Não era só cuidado; havia curiosidade e um pouco de medo, um sentido de alerta.
As bagagens estavam no chão, uma mala aberta e outra fechada. Perto delas, um pacote enrolado com plástico preto e barbante, em cima de um cobertor dobrado, parecia um bebê morto e preparado para um enterro. Não tive tempo de perguntar o que era, nunca esqueci a sensação que me causou aquele embrulho, aterrorizante como um choque frio. Durou segundos minha vista ali, logo Florice encheu minha xícara de café e o cheiro me acordou. Só depois de tomar metade e de comer algo comecei a falar e a fazer perguntas: como fui parar naquele lugar, o que aconteceu, se eu estava morta, se ela era a Morte e ele era Deus, ou a Morte e seu auxiliar. Os dois riam, achavam divertida a minha confusão. Até que veio a sentença:
— Você trouxe todas as palavras.
Foi Fernando quem disse. Perguntei de novo o que tinha acontecido comigo e Florice foi direta: sabemos muito pouco sobre isso, só recebemos o aviso de que alguém chegaria no chão deste lugar, e foi preciso correr para o teu resgate. De repente estávamos concentrados em falar a sério sobre todo aquele absurdo.
— E como vocês souberam?
— Recebemos um telefonema.
— E o que disseram de mim? Não explicaram nada?
— Nada. Foi uma conversa breve. Mandaram que viéssemos à Almofala, esta aldeia, buscar uma mulher e desligaram o telefone. Nós já sabíamos que iria acontecer um dia conosco, mas demorou muito. Abrimos o mapa de Portugal, eu e Florice, e vimos seis aldeias com o mesmo nome, cada uma menor que a outra, seria um código? Almofala é uma palavra árabe, significa acampamento temporário. Al mohala. Os mouros foram deixando muitos pelo caminho. Ficamos sem saber o que fazer, imaginamos mil sentidos, uma senha, um enigma. Estávamos perdidos.
— E como descobriram?
— Recebemos outra ligação pedindo desculpas pela confusão e explicando que era a Almofala perto de Caldas da Rainha.
— E só?
— Só. Falou do pó de café, mas disso eu já sabia.
— O que pó de café tem a ver com isso?
— Quando se recebe o aviso da chegada do Ressurrecto a gente joga pó de café no lugar onde quer que a terra se abra, ajuda no caminho. Meu avô fazia assim porque alguém disse a ele.
— Ressurrecto? Eu sou isso?
— É como meu pai chamava. Pessoas que iam morrer, mas por um triz escaparam e voltaram à vida em outro lugar.
— E qual o sentido disso?
— A menina ainda não percebeu que quase nada na vida faz sentido? Algumas coisas são obrigatórias, é preciso fazer e já está. Desde pequena eu sei que temos de jogar o pó de café no terreno e aguardar a criatura que vai chegar, receber, cuidar de todas as maneiras até que a pessoa vá embora por decisão própria, são as regras. E entre um acontecimento e outro, rezar para que nada de mal nos ocorra. Achei que não aconteceria mais, que por algum motivo eu poderia estar livre, mas tu vieste. Se a gente começar com isso de entender ninguém termina mais essa conversa e temos muito a fazer.
— Quem ligou, era homem ou mulher?
— Mulher. Apresentou-se como Regina, nada mais.
— Quem é essa Regina? Por que ela sabe de mim?
— Não faço ideia, menina, nunca a vi na vida. Ela só disse essas coisas e desligou. Falava rápido demais, um entusiasmo de ideias, mas consegui entender e cá estamos. Chegamos semana passada e arranjamos esta casa. Fizemos vigília para esperar teu desenterro, obedecendo à ordem da razão mística que nunca entenderemos, como dizia meu pai.
— Mas por quê? O que vocês querem comigo?
— Queremos nada. É uma obrigação a cumprir, só isso. Salvamos a tua vida, a menina deveria agradecer.
Florice tentou encerrar a conversa, aborrecida, irritada, resmungando. Ficou me perguntando se eu queria algo mais, que era bom comer bastante pois devia ter perdido vitaminas. Da bruma ao corpo, de novo. Fernando retomou a conversa:
— Lembraste teu nome, uma letra, um som?
— Não.
— Vais lembrar. Mas escuta: esta casa não é nossa, como já expliquei. Não somosdaqui, alugamos só para te receber e já vamos embora amanhã. Ainda dá tempo de passear um pouco pela aldeia, tu precisas andar para reequilibrar a circulação, funções vitais. É necessário.
— Eu vou ficar aqui?
— Não, claro que não. Vamos te levar para a casa da irmã de Florice, no Norte. De lá seguimos a nossa vida, tu segues a tua e não estarás desamparada nesse começo. Moramos em um apartamento em Lisboa, na casa de minha cunhada tu terás mais conforto. Ela vive sozinha, vai gostar da tua companhia, já falamos com ela. Depois tu decides teu destino, quando lembrar. Alguns voltam para casa, outros ficam, é escolha tua, mas por enquanto é nossa responsabilidade cuidar de ti até que essa fase de confusão passe.
Então eles cuidariam de mim, mas eu deveria seguir a minha vida em breve. Eu, que não sabia que vida tive, sem pistas daquilo que fui e não sei. Voltei para o quarto, peguei um dos casacos, o verde, de veludo, e calcei um par de botas que cabiam três pés dentro de cada uma.
Na porta, Fernando disse que iria comigo caminhar, mas que seria rápido para não despertar a curiosidade das pessoas. Almofala era uma aldeia pequena, uma e outra casa habitada, com roseiras no jardim, flores saindo dos muros, datas antigas sobre as portas, tomada por gatos peludos de todos os tipos.
A maioria das construções estava abandonada. O som das pedras sob nossos sapatos quebrava o silêncio frio e triste. Estávamos no alto de uma montanha, o cume do mundo, o mais perto possível do céu.
Dobrando à esquerda da casa vimos uma igrejinha no alto, em formato triangular, vazia e de portas fechadas. Um homem que arrancava mato das pedras do muro veio falar com Fernando. Entendi que se conheciam do primeiro dia, trataram do aluguel, ele perguntou se estava tudo bem na casa, acho que tentava entender o que fazíamos ali, porque metralhava as perguntas olhando para mim. Fernando explicou que procurou uma aldeia tranquila e alta para uns dias de descanso com a sobrinha doente.
Para evitar seu olhar estupefato, achei prudente subir os degraus, entrar na igreja e me sentar um pouco, mas estava trancada. Havia uma rosa vermelha no batente, fresca, recém-colhida. Talvez deixada por alguém que iria levá-la para algum santo e deu com a porta fechada.
Os dois conversavam e o homem falava de Almofala, contava que os idosos foram morrendo e que as famílias nunca voltaram para reclamar as casas, que tudo morria junto com quem partia e talvez fosse culpa das almas do fosso, os mortos da Santa Inquisição. Os enforcamentos aconteciam ali, os corpos eram jogados lá — ele apontava com precisão, colocando seus olhos nas palavras para explicar a geografia do desterro, sem precisar a data, parecia um ato de sempre, enforcar, jogar no buraco da morte.
Dei a volta para não ouvir mais. Encontrei uma portinha lateral, talvez estivesse aberta. Quando subi os degraus, todas as portas começaram a sacudir, várias mãos ao mesmo tempo, um movimento orquestrado pelo vento. Continuei subindo e com mais um passo, mais de perto, estavam sacolejando a madeira com violência, implorando para sair, mais forte e mais alto. Isso acontecia com a porta principal, a lateral e as janelas, sincronizadas, e teria de ser, então, trabalho de umas tantas pessoas. Eu ouvia um murmurar de longe, confuso, tive medo, mas os homens conversavam normalmente, não pareciam ouvir nada. Desci correndo e escorreguei na areia.
Fernando olhou para mim espantado, ajudou-me a levantar e adiantou nosso retorno, sem entender meu susto, minhas palavras desconexas, em voz bem alta, repetindo que estavam tentando abrir as portas e as janelas, que era preciso salvar as almas presas dos enforcados. Alguns moradores começaram a aparecer pelas ruelas, e o rumor da forasteira louca já estava se espalhando, pelo visto, coisa fácil de acontecer em um lugar morto, onde nunca há novidades e são tão poucos os vivos. Despediu-se explicando ao homem que precisava cuidar da sobrinha doente, que já iríamos embora. Voltei para casa chorando e amaldiçoando o fosso vazio da minha memória.

Socorro Acioli, em Oração para Desaparecer