15/10/2026
Diário de Bernardo Soares
138.
Há uma erudição do conhecimento,
que é propriamente o que se chama erudição, e há uma erudição
do entendimento, que é o que se chama cultura. Mas há também uma
erudição da sensibilidade.
A erudição da sensibilidade nada tem
a ver com a experiência da vida. A experiência da vida nada ensina,
como a história nada informa. A verdadeira experiência consiste em
restringir o contacto com a realidade e aumentar a análise desse
contacto. Assim a sensibilidade se alarga e aprofunda, porque em nós
está tudo; basta que o procuremos e o saibamos procurar.
Que é viajar, e para que serve
viajar? Qualquer poente é o poente; não é mister ir vê-lo a
Constantinopla. A sensação de libertação, que nasce das viagens?
Posso tê-la saindo de Lisboa até Benfica, e tê-la mais
intensamente do que quem vá de Lisboa à China, porque se a
libertação não está em mim, não está, para mim, em parte
alguma. “Qualquer estrada”, disse Carlylé, “até esta estrada
de Entepfuhl, te leva até ao fim do mundo.” Mas a estrada de
Entepfuhl, se for seguida toda, e até ao fim, volta a Entepfuhl; de
modo que o Entepfuhl, onde já estávamos, é aquele mesmo fim do
mundo que íamos a buscar.
Condillac começa o seu livro célebre,
“Por mais alto que subamos e mais baixo que desçamos, nunca saímos
das nossas sensações”. Nunca desembarcamos de nós. Nunca
chegamos a outrem, senão outrando-nos pela imaginação sensível de
nós mesmos. As verdadeiras paisagens são as que nós mesmos
criamos, porque assim, sendo deuses delas, as vemos como elas
verdadeiramente são, que é como foram criadas. Não é nenhuma das
sete partidas do mundo aquela que me interessa e posso
verdadeiramente ver; a oitava partida é a que percorro e é minha.
Quem cruzou todos os mares cruzou
somente a monotonia de si mesmo. Já cruzei mais mares do que todos.
Já vi mais montanhas que as que há na terra.
Passei já por cidades mais que as
existentes, e os grandes rios de nenhuns mundos fluíram, absolutos,
sob os meus olhos contemplativos.
Se viajasse, encontraria a cópia
débil do que já vira sem viajar.
Nos países que os outros visitam,
visitam-nos anónimos e peregrinos. Nos países que tenho visitado,
tenho sido, não só o prazer escondido do viajante incógnito, mas a
majestade do Rei que ali reina, e o povo cujo uso ali habita, e a
história inteira daquela nação e das outras. As mesmas paisagens,
as mesmas casas eu as vi porque as fui, feitas em Deus com a
substância da minha imaginação.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
Todas as vidas
Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai de santo...
Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute benfeito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai de santo...
Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute benfeito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.
Cora Coralina, em Poemas dos becos de Goiás e estórias mais
Lembra de Pearl Harbor?
Tínhamos que ir ao pátio de
exercícios duas vezes por dia, no meio da manhã e no meio da tarde.
Não havia muito o que fazer. As amizades entre os homens eram
baseadas principalmente naquilo que os havia colocado na prisão.
Como meu companheiro de cela, Taylor, disse, os molestadores de
crianças e os casos de atentado ao pudor estavam na parte mais baixa
da sociedade carcerária, enquanto os grandes trapaceiros e os
estelionatários estavam no topo.
Taylor não falava comigo no pátio de
exercícios. Caminhava com um grande trapaceiro. Eu sentava sozinho.
Alguns dos rapazes enrolavam uma camiseta para dar-lhe a forma de uma
bola e jogavam com ela. Pareciam gostar disso. As instalações para
o entretenimento dos internos não eram lá essas coisas.
Sentei por ali. Logo notei um
amontoamento de homens. Era o jogo de dados. Levantei e fui até lá.
Tinha pouco menos de um dólar em moedas. Observei alguns lances. O
homem com os dados ganhou três rodadas seguidas. Senti que a sorte
dele tinha acabado e o desafiei. Ele jogou os dados e perdeu. Ganhei
25 centavos.
Cada vez que alguém entrava numa maré
de sorte, eu esperava até que imaginasse que sua maré tivesse
recuado. Então apostava contra ele. Notei que os outros homens
apostavam em todas as rodadas. Fiz seis apostas e ganhei cinco delas.
Então nos fizeram marchar de volta para as nossas celas. Eu ganhara
um dólar.
Na manhã seguinte, entrei no jogo
mais cedo. Ganhei dois dólares e cinquenta centavos pela manhã e um
dólar e 75 centavos à tarde. Quando o jogo acabou, um jovem veio
até mim e disse:
– Parece que você está indo bem,
senhor.
Dei ao garoto quinze centavos. Ele
seguiu caminhando. Outro sujeito se aproximou de mim.
– Você deu algo para aquele filho
da puta?
– Sim. Quinze centavos.
– Ele sempre ganha uma porcentagem
da rodada. Não dê nada pra ele.
– Não tinha percebido.
– É. Ele ganha. A cada rodada, ele
ganha um pouco.
– Vou observá-lo amanhã.
– Além disso, ele é um cretino,
dos que estão aqui por atentado ao pudor. O negócio dele é mostrar
o pau pras garotinhas.
– É – eu disse –, detesto esses
otários.
A comida era muito ruim. Uma noite,
depois da janta, mencionei ao Taylor que estava ganhando nos dados.
– Sabe – ele disse –, dá para
comprar comida aqui, comida boa.
– Como?
– O cozinheiro aparece depois que
apagam as luzes. A comida do diretor, a melhor. Sobremesa, tudo o que
você quiser. O cozinheiro é bom. O diretor lhe deu o emprego por
causa disso.
– Quanto sairia alguns jantares pra
gente?
– Dê uns dez centavos pra ele. Não
mais de quinze.
– Só isso?
– Se der mais, ele vai achar que
você é um trouxa.
– Tudo bem. Quinze centavos.
Taylor combinou tudo. Na próxima
noite, após apagarem as luzes, esperamos matando os percevejos da
cama, um a um.
– Aquele cozinheiro matou dois
homens. É um tremendo filho da puta, um tipo cruel. Matou um
sujeito, cumpriu dez anos, saiu da prisão e dois ou três dias
depois matou outro. Esta é uma prisão para crimes de penas curtas,
mas o diretor o mantém aqui porque ele cozinha muito bem.
Ouvimos alguém se aproximando. Era o
cozinheiro. Levantei e ele passou a comida pela grade. Caminhei até
a mesa e depois voltei para a porta da cela. O filho da puta era
enorme, assassino de dois homens. Dei-lhe quinze centavos.
– Obrigado, camarada, quer que eu
volte amanhã à noite?
– Todas as noites.
Taylor e eu sentamos e comemos. Tudo
estava em pratos. O café estava bom e quente, a carne, um rosbife,
estava macia. Purê de batatas, ervilhas, biscoitos, molho de carne,
manteiga e torta de maçã. Havia cinco anos que não comia tão bem.
– O cozinheiro estuprou um
marinheiro outro dia. Deixou-o tão mal que o marinheiro não podia
caminhar. Tiveram que hospitalizá-lo.
Enchi a boca de purê e ervilhas.
– Você não precisa se preocupar –
disse Taylor. – Você é tão feio que ninguém o estupraria.
– Estava mais preocupado em
conseguir um pouco de sexo.
– Bem, vou apontar os putos. Alguns
têm dono e outros não.
– A comida está ótima.
– Porra, muito boa. Como eu ia
dizendo, há dois tipos de putos por aqui. Os que chegam como putos e
os que viram putos aqui dentro. Nunca tem putos suficientes para todo
mundo, então os garotos têm que criar alguns extras para satisfazer
suas necessidades.
– Isso está bem.
– Os que viraram putos na prisão
são normalmente um pouco agressivos por causa das surras que levam.
Resistem no começo.
– É mesmo?
– Sim. Até que decidem que é
melhor viver como um puto do que morrer como virgem.
Terminamos nossa janta, fomos para
nossos beliches, lutamos contra os percevejos e tentamos dormir.
Continuei a ganhar nos dados todos os
dias. Apostava mais pesado e mesmo assim ganhava. A vida na prisão
estava ficando cada vez melhor. Um dia me disseram para não ir ao
pátio de exercícios. Dois agentes do FBI vieram me visitar. Fizeram
algumas perguntas, então um deles disse:
– Nós o investigamos. Você não
precisa ir a julgamento. Será levado ao centro de alistamento. Se o
exército o aceitar, você entrará para o exército. Se o
rejeitarem, voltará à vida civil.
– Quase gosto daqui, da prisão –
eu disse.
– Sim, você parece estar se dando
bem por aqui.
– Sem tensão – eu disse –, sem
aluguel, sem contas, sem brigas com namoradas, sem impostos, sem
placas de licença, sem despesas com comida, sem ressacas...
– Continue dando uma de espertinho,
vamos dar um jeito em você.
– Ah, merda – eu disse. – Estou
só brincando. Finjam que eu sou Bob Hope.
– Bob Hope é um bom americano.
– Eu também seria se tivesse aquela
grana toda.
– Continue tagarelando. Podemos
transformar sua vida num inferno.
Não respondi. Um dos sujeitos tinha
uma maleta. Ele se levantou primeiro. O outro o seguiu e os dois
saíram.
Deram a todos nós um saco com almoço
para levar e nos colocaram em uma caminhonete. Estávamos em vinte ou
25. Os rapazes haviam acabado de tomar o café da manhã uma hora e
meia atrás, mas todos já tinham o saco com o almoço. Não era
ruim: um sanduíche com molho bolonhesa, um sanduíche com manteiga
de amendoim e uma banana podre. Dei meu almoço para os outros.
Estavam muito quietos. Nenhum deles fez piada. Olhavam reto para
frente. A maioria deles eram negros ou pardos. E todos eram grandes.
Passei no teste físico, então fui
ver o psiquiatra.
– Henry Chinaski?
– Sim.
– Sente-se.
Sentei.
– Você acredita na guerra?
– Não.
– Está disposto a ir a guerra?
– Sim.
Ele me olhou. Baixei o olhar para os
meus pés. Ele parecia estar lendo um maço de papéis à sua frente.
Demorou vários minutos. Quatro, cinco, seis, sete minutos. Então
falou:
– Escute, darei uma festa na próxima
quarta-feira à noite na minha casa. Irão médicos, advogados,
artistas, escritores, atores, toda essa gente. Posso ver que você é
um homem inteligente. Quero que vá a minha festa. Virá?
– Não.
Ele começou a escrever. Escreveu e
escreveu e escreveu. Imaginei como ele sabia tanto sobre mim. Eu
mesmo não sabia tanto sobre mim.
Deixei que continuasse escrevendo. Eu
estava indiferente. Agora que eu não podia ir à guerra, eu quase
queria ir à guerra. Ainda assim, ao mesmo tempo, estava contente por
ficar de fora. O doutor acabou de escrever. Senti que os tinha
enganado. Minha objeção à guerra não era que eu tinha que matar
alguém ou ser morto sem motivo, isso quase não me importava. O que
eu objetava era que me negassem o direito de sentar em uma pequena
sala e passar fome e beber vinho barato e ficar viajando, à minha
maneira, para meu prazer.
Não queria ser acordado por um
sujeito com um clarim. Não queria dormir em barracas com um bando de
garotos americanos saudáveis, loucos por sexo, amantes de futebol,
bem-nutridos, metidos a espertos, punheteiros, assustados, rosados,
amáveis peidorreiros, filhinhos da mamãe, modestos, jogadores de
basquete com quem eu teria de fazer amizade, com quem eu teria de me
embebedar nas folgas, que me contariam dúzias de piadas sujas,
previsíveis e sem graça quando eu deitasse de costas. Não queria
seus cobertores que pinicam ou seus uniformes que dão coceira nem a
incômoda humanidade deles. Não queria cagar no mesmo lugar nem
mijar no mesmo lugar ou compartilhar a mesma puta. Não queria ver as
unhas dos pés deles nem ler as cartas que receberiam de casa. Não
queria aquelas bundas balançando na minha frente com todos os
rapazes ombro a ombro, não queria fazer amigos, não queria fazer
inimigos, eu apenas não os queria, não queria isso nem aquilo nem
coisa nenhuma. Matar ou ser morto quase não me importava.
Depois de esperar duas horas sentado
em um banco duro, em um túnel escuro que mais parecia uma cloaca,
com um vento frio que não parava de soprar, eles me deixaram ir e eu
saí caminhando na direção norte. Parei para comprar um maço de
cigarros. Entrei no primeiro bar, sentei, pedi um uísque com água,
tirei o celofane do maço, puxei um cigarro, acendi, peguei aquela
bebida na minha mão, bebi metade do copo, traguei a fumaça, olhei
meu belo rosto no espelho. Parecia estranho estar livre. Parecia
estranho poder caminhar em qualquer direção que eu quisesse.
Só para me divertir, levantei e
caminhei até a privada. Mijei. Era outro banheiro horrível de bar.
Quase vomitei por causa do fedor. Saí, pus uma moeda no jukebox,
sentei e ouvi a última da seleção. O fato de ser a última não a
fazia nem um pouco melhor. Os caras tinham a batida, mas não tinham
alma. Mozart, Bach e Bee ainda os faziam ficar em maus lençóis. Eu
ia sentir falta daqueles jogos de dados e da boa comida. Pedi outra
bebida. Olhei ao redor do bar. Havia cinco homens no bar e nenhuma
mulher. Eu estava de volta às ruas americanas.
Charles Bukowski, em Ao Sul de Lugar Nenhum
A Contadora de Filmes
[11]
O primeiro a ir ao cinema foi meu
irmão Mariano, o Caterpillar. Sua narração foi um desastre.
Naquele dia passou um de guerra – alemães contra norte-americanos
–, e a única coisa que se entendia e saía emendado da boca do
pobrezinho era o matracar das metralhadoras. E a mímica. Sua mímica
era genial. Eu acho que nos tempos do cinema mudo ele teria sido
muito bom.
Na vez do meu irmão Mirto, o Pássaro,
passaram um de índios, com Jack Palance. Sua narração foi
extraordinária. O galope dos cavalos, os tiros, os gritos dos
índios, os sinais de fumaça. A gente até achava que estava ouvindo
o assovio das flechas passando sobre nossas cabeças, zuuuummm! A
única coisa ruim era que Mirto contava tudo na base de “babaquices”
e “cagadas”:
“Então, quando o babaca sacou do
revólver e atirou na cabeça da babacona, deu uma tremenda cagada
porque os outros babacas nem cagando iam deixar que cagassem neles
daquele jeito…”.
Manuel, que até que contava direito,
contou um filme de vampiros. Acontece que se perdeu por amor. Aos
doze anos, estava apaixonado pela filha do dono da loja mais sortida
da Mina – era o único dos irmãos que namorava –, e passou a
hora e quarenta minutos que durou o filme abraçando a menina, que
gemia de medo.
Já com meu irmão Marcelino aconteceu
o cúmulo da má sorte. Calado por natureza – “desse menino, é
preciso arrancar as palavras com um saca-rolhas”, dizia minha mãe
quando morava com a gente –, na vez dele caiu O velho e o mar,
um filme quase sem fala.
Sua narração só durou cinco
minutos.
Duas semanas mais tarde chegou, enfim,
a minha vez, a vez da irmã menor, Maria Margarita, M M, como às
vezes meu pai me chamava. Embora eu não tivesse apelido oficial,
sabia que pelas costas alguns meninos me chamavam de Maria Machona. O
apelido, é verdade, não era muito refinado, mas se observarem bem
verão que é composto por duas palavras que começam com a letra
eme.
Durante essas duas semanas chegaram
vários filmes bons, e alguns muito bons, mas não houve dinheiro
para comprar a entrada. Era meados do mês e mal dava para comer e
para a garrafinha de vinho de meu pai.
“A gente tem que esperar o pagamento
da pensão”, dizia ele. E aconteceu que justo no dia do pagamento
apareceu no anúncio do cinema nada menos que Ben-Hur, o filme
que todo mundo no povoado esperava com ansiedade.
Meus irmãos ficaram loucos.
Todos queriam ir ao cinema. Ou pelo
menos que o Mirto fosse, já que até aquele momento tinha sido quem
melhor havia contado um filme.
Mas meu pai, que era um homem justo,
se negou.
“Agora é a vez de Maria Margarita e
quem vai é a Maria Margarita. E ponto
final”.
Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes
14/10/2026
Idades
No início,
eu queria um instante.
A flor.
Depois,
nem a eternidade me bastava.
E desejava a vertigem
do incêndio partilhado.
O fruto.
Agora,
quero apenas
o que havia antes de haver vida.
A semente.
eu queria um instante.
A flor.
Depois,
nem a eternidade me bastava.
E desejava a vertigem
do incêndio partilhado.
O fruto.
Agora,
quero apenas
o que havia antes de haver vida.
A semente.
Mia Couto, em Poemas Escolhidos
A Bailarina Fantasma
1º Ato
1. Travessa do Anjo
Anabela e o pai, Marcelo, tinham
orgulho de dizer que moravam na casa mais antiga da cidade: a
Travessa do Anjo, uma ilha feita de passado no meio de um mar de
vidro e metal.
Tudo naquele lugar era exatamente
igual ao que sempre fora. Os anos e a vida de todos os familiares que
moraram ali permaneciam gravados nos cheiros, nas cores e nos
detalhes de cada canto. Uma foto na parede, uma figura colada na
porta de um armário, a xícara pintada à mão com o nome da tia
querida… tudo permanecia na casinha azul com telhado vermelho e
fachada estreita onde cabiam somente uma porta, uma janela e, lá
dentro, todos os sonhos do mundo.
O portão da entrada era de ferro e o
muro, bem baixo. Entre o muro e a porta havia um jardim com flores
que brotavam o ano todo, especialmente os pequenos e delicados
miosótis, jovens descendentes de mudas plantadas havia muito tempo.
Junto das flores, um banco com dois lugares, um convite para sentar e
conversar.
Apesar de estreita, a Travessa do Anjo
era comprida. Logo na entrada ficava o escritório de Marcelo. A
seguir, duas pequenas salas com fotografias antigas nas paredes,
estantes de livros, sofás e cadeiras para as visitas. Do lado
direito, um corredor. À esquerda, o quarto de Anabela e, logo
depois, o do pai. A cozinha, clara e espaçosa, tinha vista para o
pomar, onde Anabela colhia laranjas, limões e maracujás, suas
frutas preferidas. As laranjas eram muito doces e inacreditavelmente
suculentas. Era de lá que soprava o vento adocicado que fazia
daquela casa a mais ventilada da cidade.
O nome, Travessa do Anjo, fora
inspirado em um painel de azulejos colocado sobre a porta, bem
pertinho do telhado, com a pintura de um anjo ajudando duas crianças
a atravessar uma ponte. Os azulejos eram de Portugal e vieram com
dona Maria de Lourdes, bisavó de Marcelo, quando ela se mudara para
lá.
Definitivamente, a vida daquela
família era muito distinta da do mundo ao redor, e isso incomodava.
Quase todo dia aparecia algum curioso por ali. Tinha gente que
atravessava a cidade para ver a Travessa do Anjo de perto, todos tão
admirados, parados na frente da casa de Anabela como se estivessem
vendo uma legítima caravela portuguesa dos tempos do Descobrimento:
— Como eles vivem sem
ar-condicionado?
— Sem antenas?
— E sem micro-ondas?
— Isso é praticamente uma caverna —
diziam umas senhoras muito arrumadas, de cabelo pintado e bolsa
dourada, que passavam o tempo prestando atenção na vida dos outros.
Falavam, falavam, e o vento levava
para longe tantas palavras vazias, desnecessárias. Anabela e Marcelo
não ligavam. Estavam ocupados com outras coisas… Foi naquela casa
que Anabela nasceu, aprendeu a andar, a falar, e cresceu até se
tornar tão linda, de rosto pintado de sardas e olhos tão verdes
como as luzes do Natal dos seus catorze anos, quando a vida começou
a mudar tanto para aquela família.
Sua mãe havia morrido quando Anabela
tinha sete anos. Por causa disso ela até poderia pensar que era a
menina mais azarada do mundo, sozinha, sem mãe. Mas não — ela
preferia enxergar sua realidade com outros olhos e virar a vida ao
contrário. Então se achava a garota mais sortuda do mundo, isso
sim, por ter um pai tão incrível. A lembrança da mãe não era
sofrimento. Só dúvidas, esperança e saudade.
Quando Anabela falava sobre a mãe ou
fazia perguntas sobre a morte para Marcelo ou outro parente, o que
sempre ouvia era que Melinda partira para um lugar melhor. Anabela
imaginava, desde pequena, que aquele tão falado Lugar Melhor seria
um mundo parecido com o nosso, como um espelho, uma cópia, para onde
iria tudo o que morresse aqui: animais, plantas, flores, pessoas…
até as formigas, que podiam se afogar ao cair num copo de suco
qualquer. Tudo o que morria — talvez até a mãe de Anabela —,
chegando lá, em certo lugar, voltava a viver. De um jeito diferente
do nosso, mas viveria.
Seus momentos mais felizes eram os que
passava no quintal da Travessa do Anjo, seu lugar preferido para
ficar quando estava triste ou feliz, ou quando queria parar um pouco,
pensar e observar os pequenos e grandes mistérios da vida. Anabela
parecia ver e até tocar os segredos das coisas. Sempre que via uma
flor começando a murchar, ou uma borboleta com uma asa machucada, ou
uma formiguinha carregada pelas águas da chuva, explicava-lhes
baixinho que todos os seres vivos um dia iam para outro lugar, talvez
um lugar lindo, muito melhor do que aquela vida. E por que não? No
fundo, as pequenas mortes da natureza eram para Anabela uma esperança
de fazer contato com a mãe, especialmente quando ela via um miosótis
— a flor preferida de Melinda — com as pétalas começando a
amarelar, dando sinal de que era hora de partir.
Anabela amarrava delicados
bilhetinhos, feitos de papel recortado e letrinha miúda, nos
miosótis que morriam no quintal. Enterrava os bilhetes e as flores
com cuidado. Eram recados curtinhos, segredos, notícias, contando
que estava bem na escola, que melhorara da gripe, ou, às vezes,
breves confissões de saudade. Saudade era quase uma alegria para
ela, um jeito de eternizar as coisas. Com sua pá de jardineira,
arrumava os bilhetes e as flores, cobria-os de terra e rezava. Ela
acreditava que aconteceria algo mágico: a flor viajaria, de alguma
forma, para o Lugar Melhor. E voltaria a viver, levando o bilhete
para as mãos de Melinda.
Os pedacinhos de papel em branco ela
guardava em uma caixa de madeira forrada de tecido — forrar caixas
era um dos passatempos preferidos de Melinda, e Anabela adorava
guardar dentro delas os objetos mais especiais.
Quando soube que o avô de Luciana,
sua melhor amiga, havia morrido, aproveitou a ocasião e escreveu uma
carta de duas páginas para a mãe e deu um jeitinho de colocar o
envelope para ser enterrado com ele.
Anabela pensava que a morte era uma
cortina pesada e escura, como um veludo vermelho, que só poderia ser
aberta para quem fosse passar daqui para lá. Mas houve um dia que
mudou sua vida, quando ela compreendeu de forma definitiva que essa
cortina podia ser leve e clara como seda azul e que, com um sopro do
vento, podia se abrir para dar passagem a alguém vindo de lá…
para cá.
O motivo dessa volta nunca se sabe,
até que esse alguém diga. A razão pode ser simples. Ou
terrivelmente assustadora.
Até aquele dia ela não sabia de nada
disso. Anabela realmente acreditava que os mortos não voltavam. De
repente entendeu que isso tinha sido um tremendo engano…
Socorro Acioli, em A Bailarina Fantasma
Amor a Ele
Através de meus graves erros – que
um dia eu talvez os possa mencionar sem me vangloriar deles – é
que cheguei a poder amar. Até esta glorificação: eu amo o Nada. A
consciência de minha permanente queda me leva ao amor do Nada. E
desta queda é que começo a fazer minha vida. Com pedras ruins
levanto o horror, e com horror eu amo. Não sei o que fazer de mim,
já nascida, senão isto: Tu, Deus, que eu amo como quem cai no nada.
Clarice Lispector, em Todas as crônicas
Capítulo 103 – Distração
– Não, senhor Doutor, isto não se
faz. Perdoe-me, isto não se faz.
Tinha razão Dona Plácida. Nenhum
cavalheiro chega uma hora mais tarde ao lugar em que o espera a sua
dama. Entrei esbaforido; Virgília tinha ido embora. DonaPlácida
contou-me que ela esperara muito, que se irritara, que chorara, que
jurara votar-me ao desprezo, e outras mais coisas que a nossa caseira
dizia com lágrimas na voz, pedindo-me que não desamparasse Iaiá,
que era ser muito injusto com uma moça que me sacrificaria tudo.
Expliquei-lhe então que um equívoco...
E não era; cuido que foi simples
distração. Um dito, uma conversa, uma anedota, qualquer coisa;
simples distração.
Coitada de Dona Plácida! Estava
aflita deveras. Andava de um lado para outro, abanando a cabeça,
suspirando com estrépito, espiando pela rótula. Coitada de Dona
Plácida! Com que arte conchegava as roupas, bafejava as faces,
acalentava as manhas do nosso amor! que imaginação fértil em
tornar as horas mais aprazíveis e breves! Flores, doces, - os bons
doces de outros dias, - e muito riso, muito afago, um riso e um afago
que cresciam com o tempo, como se ela quisesse fixar a nossa
aventura; ou restituir-lhe a primeira flor. Nada esquecia a nossa
confidente e caseira; nada, nem a mentira, porque a um e outro
referia suspiros e saudades que não presenciara; nada, nem a
calúnia, porque uma vez chegou a atribuir-me uma paixão nova. –
Você sabe que não posso gostar de outra mulher, foi a minha
resposta, quando Virgília me falou em semelhante coisa. E esta só
palavra, sem nenhum protesto ou admoestação, dissipou o aleive de
Dona Plácida, que ficou triste.
– Está bem, disse-lhe eu, depois de
um quarto de hora; Virgília há de reconhecer que não tive culpa
nenhuma... Quer você levar-lhe uma carta agora mesmo?
– Ela há de estar bem triste,
coitadinha! Olhe, eu não desejo a morte de ninguém; mas, se o
senhor Doutor algum dia chegar a casar com Iaiá, então sim, é que
há de ver o anjo que ela é!
Lembra-me que desviei o rosto e baixei
os olhos ao chão.
Recomendo este gesto às pessoas que
não tiverem uma palavra pronta para responder, ou ainda as que
recearem encarar a pupila de outros olhos. Em tais casos, alguns
preferem recitar uma oitava dos Lusíadas, outros adotam o recurso de
assobiar a Norma; eu atenho-me ao gesto indicado; é mais simples,
exige menos esforço.
Três dias depois, estava tudo
explicado. Suponho que Virgília ficou um pouco admirada, quando lhe
pedi desculpa das lágrimas que derramara naquela triste ocasião.
Nem me lembra se interiormente as atribuí a Dona Plácida. Com
efeito, podia acontecer que Dona Plácida chorasse, ao vê-la
desapontada, e, por um fenômeno da visão, as lágrimas que tinha
nos próprios olhos lhe parecessem cair dos olhos de Virgília. Fosse
como fosse, tudo estava explicado, mas não perdoado, e menos ainda
esquecido. Virgília dizia-me uma porção de coisas duras,
ameaçava-me com a separação, enfim louvava o marido. Esse sim, era
um homem digno, muito superior a mim, delicado, um primor de cortesia
e afeição; é o que ela dizia, enquanto eu, sentado, com os braços
fincados nos joelhos, olhava para o chão, onde uma mosca arrastava
uma formiga que lhe mordia o pé. Pobre mosca! pobre formiga!
– Mas você não diz nada, nada?
perguntou Virgília, parando diante de mim.
– Que hei de dizer? Já expliquei
tudo; você teima em zangar-se; que hei de dizer? Sabe o que me
parece? Parece-me que você está enfastiada, que se aborrece, que
quer acabar...
– Justamente!
Foi dali pôr o chapéu, com a mão
trêmula, raivosa... – Adeus, Dona Plácida, bradou ela para
dentro. Depois foi até à porta, correu o fecho, ia sair; agarrei-a
pela cintura. – Está bom, está bom, disse-lhe. Virgília ainda
forcejou por sair. Eu retive-a, pedi-lhe que ficasse, que esquecesse;
ela afastou-se da porta e foi cair no canapé. Sentei-me ao pé dela,
disse-lhe muitas coisas meigas, outras humildes, outras graciosas.
Não afirmo se os nossos lábios chegaram à distância de um fio de
cambraia ou ainda menos; é matéria controversa. Lembra-me, sim, que
na agitação caiu um brinco de Virgília, que eu inclinei-me a
apanhá-lo, e que a mosca de há pouco trepou ao brinco, levando
sempre a formiga no pé. Então eu, com a delicadeza nativa de um
homem do nosso século, pus na palma da mão aquele casal de
mortificados; calculei toda a distância que ia da minha mão ao
planeta Saturno, e perguntei a mim mesmo que interesse podia haver
num episódio tão mofino. Se concluis daí que eu era um bárbaro,
enganas-te, porque eu pedi um grampo a Virgília, a fim de separar os
dois insetos; mas a mosca farejou a minha intenção, abriu as asas e
foi-se embora. Pobre mosca! pobre formiga! E Deus viu que isto era
bom, como se diz na Escritura.
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas
13/10/2026
Teimosia
Não adianta
quebrarem minhas pernas,
furar meus olhos
ou falar pelas costas.
O que sustenta meu corpo
são minhas ideias.
Braços descruzados,
tenho um cérebro com asas
e sou todo coração.
Se me proibirem de andar sobre a água,
nado sobre a terra.
Sérgio Vaz, em Flores da Batalha
Piloto de Guerra
XII
Exerço corretamente meu ofício. Não
impede que eu seja um tripulante em derrota. Estou embebido na
derrota. Transpira-se a derrota por todo lado, haja vista minhas
mãos.
Os manetes de potência estão
congelados. Estou condenado a manobrar em potência máxima. E eis
que essas duas sucatas me trazem problemas inextricáveis.
No avião que estou pilotando, o
aumento do passo de hélice é limitado, baixo demais. Eu não posso
pretender, picando em regime pleno, evitar uma velocidade de
aproximadamente oitocentos quilômetros por hora e o aumento de
rotação de meus motores. Todavia, o aumento de rotação de um
motor traz riscos de falha.
A rigor, me seria possível cortar os
contatos. Mas eu me infligiria assim uma pane definitiva. Essa pane
levaria ao fracasso da missão e à eventual perda do avião. Nem
todos os terrenos favorecem a aterrissagem de um aparelho que toca o
solo a cento e oitenta quilômetros por hora.
É então essencial que eu destrave os
manetes. Em consequência de um primeiro esforço, vou ao limite do
manete esquerdo. Mas o da direita continua resistindo.
Seria possível agora efetuar minha
descida numa velocidade de voo tolerável, se eu reduzisse ao mínimo
o motor sobre o qual já pude agir, o esquerdo. Mas se eu reduzir o
motor esquerdo, precisarei compensar a potência assimétrica do
motor direito — a qual tenderá, obviamente, a fazer girar o avião
para a esquerda. Terei de resistir a essa tendência. No entanto, os
pedais, dos quais dependem essas manobras, também estão
completamente congelados. Fico impossibilitado, assim, de compensar.
Se eu reduzir o motor esquerdo, caio em espiral.
O único recurso será arriscar
ultrapassar, durante a descida, o limite de regime teórico de
ruptura. Três mil e quinhentos giros: risco de falha catastrófica.
Tudo isso é absurdo. Nada está
ajustado. Nosso mundo é feito de engrenagens que não se ajustam
umas às outras. Não são os materiais que estão em questão, mas o
Relojoeiro. Falta o Relojoeiro.
Depois de nove meses de guerra, ainda
não conseguimos fazer com que as indústrias adaptassem
metralhadoras e comandos ao clima em grande altitude. E não é com a
incúria dos homens que nos deparamos. Os homens, na maioria, são
honestos e conscienciosos. Sua inércia, quase sempre, é um efeito,
e não uma causa, de sua ineficácia.
A ineficácia pesa sobre nós todos
como uma fatalidade. Pesa sobre soldados da infantaria armados de
baionetas diante de tanques. Pesa sobre os tripulantes que lutam, um
contra dez. Pesa até mesmo sobre aqueles que deveriam ter por missão
modificar as metralhadoras e os comandos.
Vivemos no ventre cego de uma
administração. Uma administração é uma máquina. Quanto mais uma
administração é aperfeiçoada, mais elimina a arbitrariedade
humana. Numa administração perfeita, onde o homem desempenha seu
papel de engrenagem, a preguiça, a desonestidade, a injustiça não
têm mais oportunidade de alastrar-se.
Mas, assim como a máquina é
construída para administrar uma sucessão de movimentos previstos de
uma só vez, a administração também não cria mais. Ela gere.
Aplica tal sanção para tal falta, tal solução a tal problema. Uma
administração não é concebida para resolver problemas novos. Se,
numa máquina de chapear, introduzirem-se peças de madeira, não vão
sair móveis. Seria preciso, a fim de adaptar a máquina, que um
homem dispusesse do direito de mexer nela. Mas numa administração,
concebida para prevenir os inconvenientes da arbitrariedade humana,
as engrenagens recusam a intervenção do homem. Recusam o
Relojoeiro.
Faço parte do Grupo 2/33 desde
novembro. Meus camaradas, assim que cheguei, avisaram:
— Você vai passear na Alemanha sem
metralhadoras nem comandos.
Depois, para me consolar:
— Fique tranquilo. Você não perde
nada. Os caças abatem sempre antes de serem vistos.
Em maio, seis meses mais tarde, as
metralhadoras e os comandos ainda congelam.
Penso numa fórmula tão velha quanto
meu país: “Na França, quando tudo parece perdido, um milagre
salva o país”. Entendi por quê. Aconteceu às vezes de um
desastre, tendo destrambelhado a bela máquina administrativa, e
tendo esta se mostrando irreparável, substituírem-na, por falta de
melhor, por simples homens. E os homens salvaram tudo.
Quando um torpedo tiver reduzido a
cinzas o Ministério da Aeronáutica, convocarão, com urgência, um
cabo qualquer, e lhe dirão:
— Você está encarregado de
descongelar os comandos. Você tem carta branca. Vire-se. Mas se em
quinze dias eles ainda gelarem, você será preso.
Os comandos, talvez, então,
descongelem.
Conheço uns cem exemplos desse vício.
As comissões de requisição de um departamento do norte, por
exemplo, requisitaram novilhas prenhes e transformaram assim os
abatedouros em cemitério de fetos. Nenhuma engrenagem da máquina,
nenhum coronel do serviço de recrutamento estava qualificado para
agir de outro modo senão como engrenagem. Eles obedeciam todos a uma
outra engrenagem, como num relógio. Qualquer revolta era inútil. É
por isso que essa máquina, uma vez que tenha começado a
destrambelhar, foi alegremente empregada em abater novilhas prenhes.
Talvez tenha sido um mal menor. Ela poderia, se mais gravemente
destrambelhada, começar a abater coronéis.
Eu me sinto desencorajado até o
pescoço por essa degradação universal. Mas como me parece inútil
dar um tranco num dos meus motores, exerço contra o manete esquerdo
um novo peso. Em meu desgosto, exagero o esforço. Depois, abandono.
Esse esforço me custou uma nova pontada no coração. Decididamente,
o homem não foi feito para o culto físico a dez mil metros de
altitude. Essa pontada é uma dor em surdina, uma espécie de
consciência local estranhamente despertada na escuridão dos órgãos.
Os motores vão estourar se quiserem.
Pouco me importa. Esforço-me para
respirar. Parece-me que não respiraria mais se me distraísse. Eu me
lembro dos foles de outrora, com a ajuda dos quais a gente reanimava
o fogo. Reanimo meu fogo. Eu queria muito convencê-lo a “pegar”.
O que estraguei de irreparável? A dez
mil metros, um esforço físico um pouco brusco pode acarretar uma
ruptura dos músculos do coração. É muito frágil um coração.
Precisa servir muito tempo. É absurdo comprometê-lo com trabalhos
tão grosseiros. É como se queimássemos diamantes para cozinhar uma
maçã.
Antoine de Saint-Exupéry, em Piloto de Guerra
As marcas do sangue azul
A importância de Lambari na minha
infância se deve a uma ação do meu irmão Ismael, em claro desafio
à autoridade de minha mãe. Mas, para chegar a esse acontecido, é
preciso começar longe.
A psicanálise ensina que, para se
descobrir segredos, é preciso prestar atenção a pequenas coisas a
que ninguém atribui importância. Por exemplo: aqui, na cidade onde
vivo, Campinas, há pessoas que falam “casa de Aurélia”, “o
livro de Pedro”, “o aniversário de Margarida”... Quando ouço
esse “de” já sei que se trata de pessoa ligada à nobreza dos
grandes barões do café. E me cubro de cerimônias por me sentir na
sala de visitas de um casarão colonial... É nesse insignificante
“de” que se encontra a revelação.
Pois as diferenças entre a família
do meu pai e a família de minha mãe se revelam no insignificante e
banalíssimo ato de chupar laranja. Ah! Vocês pensavam que uma
laranja é simplesmente uma laranja! Não é não. Laranjas do mesmo
pé podem ser nobres ou plebeias. Depende do jeito como são comidas.
A família de minha mãe chupava laranja de gomo, a família do meu
pai chupava laranja de tampa. Você pode imaginar uma senhora da alta
sociedade chupando laranja de tampa num jantar? Jamais! Chupar
laranja de tampa é coisa de plebeus: a laranja enfiada entre os
beiços e os dentes, comprimida pelas mãos para lhe extrair o caldo,
as sementes enchendo a boca para serem cuspidas para o lado. Pode-se
dizer que chupar laranja de tampa é gostoso e descontraído. Mas
elegante é que não é. Laranja de tampa pode-se chupar de pé e
mesmo andando. O que não é possível fazer quando se chupa uma
laranja de gomo. Há duas formas de se chupar uma laranja de gomo. A
primeira, plebeia, consta das seguintes operações. Descascar a
laranja. Tirar a pele branca que cobre os gomos. Abrir a laranja em
duas. Ir enfiando os gomos um a um na boca para serem mastigados, o
caldo engolido, as sementes cuspidas e o bagaço engolido ou cuspido,
conforme o gosto ou as necessidades da pessoa. Digo “necessidades”
porque há pessoas que engolem o bagaço por ordem médica, por causa
da prisão de ventre. A segunda, nobre, é diferente. É preciso
estar assentado à mesa. Primeiro é o cuidadoso ato de descascar.
Descascada a laranja segue-se a operação de retirar-lhe a película
branca que a cobre. A seguir, abre-se a mesma em duas metades e
separam-se os seus gomos. Tomam-se então os gomos, um a um, e
vagarosamente executa-se a operação cirúrgica de retirar a pele
translúcida em que vêm revestidos, o que se faz por meio de uma
incisão ao longo da linha fina do gomo. Desnudados os gomos,
retiram-se-lhes com a ponta da faca os caroços, que são colocados
num prato. Finalmente, come-se a sua carne enquanto se conversa. É
trabalhoso comer uma laranja de gomo. Trata-se de um elaborado
striptease. Todos da família da minha mãe comiam as laranjas de
gomo, do jeito nobre. Curioso sobre esse costume, procurei
explicações com a minha mãe. Ela me respondeu: “É para
aproveitar melhor”. De fato, aproveita-se melhor. Mas eu não via
razão para se aproveitar tanto, quando as laranjeiras estavam cheias
de laranjas que se perdiam, comidas pelos passarinhos e insetos e
apodrecidas no chão. Não, não fazia sentido. Essa estória de
“aproveitar melhor” só faz sentido quando laranjas são poucas e
raras, frutas nobres e caras, possivelmente importadas... Mas lá no
interior de Minas não se importavam laranjas, não eram raras nem
eram caras. Havia um descompasso entre a abundância das laranjas e a
necessidade de comê-las de sorte a aproveitar todas as suas
garrafinhas. Se você não sabe, as garrafinhas de uma laranja são
aquelas minúsculas gotas de caldo que compõem o gomo. Isso não era
costume brasileiro. Era costume que vinha das cortes reais da Europa.
Lá os nobres, ricos, comiam caras laranjas importadas, de gomo,
elegantemente. O povo pobre não comia laranjas, talvez nem soubesse
o que eram laranjas... Assim, ao comer as laranjas de gomo, os
membros da família de minha mãe anunciavam suas origens de sangue
azul.
A família do meu pai, que chupava
laranjas de tampa, nada tinha de nobreza. Era gente comum, sem
etiquetas. Mas a família da minha mãe se julgava diferente, era de
“sangue azul”, e se meu avô permitiu que minha mãe se casasse
com o meu pai, acho que foi porque meu pai era rico. O dinheiro faz
perdoar um homem que chupa laranjas de tampa... Referiam-se
desdenhosamente às pessoas da “prateleira de baixo” e, quando
uma delas tinha antecedentes negros, coçavam discretamente a
bochecha com o dedo indicador — gesto que era conhecido de todos —
para advertir quem não soubesse: “Tem sangue de preto...” .
Havia vários outros artifícios para
estabelecer com clareza sua superioridade sobre a plebe. Um deles
eram os nomes que se davam aos filhos. A plebe batizava seus filhos
de João, José, Antônio, Manuel, Maria, Conceição, Tereza, nomes
vulgares que logo eram reduzidos a apelidos. Mas, para que não
houvesse confusões, nossa diferença nobre já estava anunciada em
nossos nomes: Aloísio, Augusto, Silvestre, Jorge, Eugênio, Noêmia,
Eliza, Delminda...
Uma outra marca de nobreza estava nas
roupas que tínhamos de vestir. Os meninos da plebe muito cedo
começavam a usar calças compridas. Mas a família da minha mãe
achava que os filhos nobres tinham de usar calças curtas. Meu irmão
me contou da sua vergonha: já tinha catorze anos, suas pernas eram
peludas e tinha de usar calças curtas. Ele andava pelas ruas se
espremendo contra as paredes para que ninguém o visse. Naqueles
tempos, filho não tinha vontade. Minha mãe se justificava dizendo
que os meninos do Rio de Janeiro usavam calças curtas.
Foi muito depois, no Rio de Janeiro,
que descobri que a razão era outra. Mãe que tem filho de calças
curtas é mulher jovem. A idade de uma mulher se media pelo
comprimento das calças do filho... Eu tinha doze anos. Só usava
calças curtas. Meu pai e minha mãe me levaram para comprar um
terno. Em tudo eu era apenas um observador. Minha mãe pediu um terno
de calças curtas. O vendedor respondeu que, para um jovem da minha
idade, não havia ternos de calças curtas. Ri de felicidade!
Finalmente iria realizar o meu desejo de ter um terno de calças
compridas! Concluída a compra, minha mãe disse ao vendedor: “Por
favor, mande cortar as pernas...” . O remédio era continuar a usar
as calças compridas de brim cáqui do uniforme da escola. Ela não
podia mandar cortar as pernas das calças do uniforme...
Na família do meu pai as portas da
rua das casas tinham um buraco pelo qual se passava um barbante
amarrado ao trinco. Não era preciso bater. Bastava puxar o barbante
que a porta se abria e a pessoa podia entrar pela casa indo até a
cozinha, onde havia sempre uma cafeteira sobre a chapa do fogão de
lenha. No sobradão do meu avô ninguém passava da sala de visitas,
que ficava na frente, ao fim da escadaria. Era lá que as visitas
eram cerimoniosamente recebidas e confinadas.
Mas, de todas as marcas de nobreza,
havia uma que me humilhava mais: os meninos da plebe tinham os seus
cabelos raspados à escovinha, com uma franja na testa. Como tínhamos
de nos diferenciar dos meninos da “prateleira de baixo”, nosso
cabelo havia de ser comprido. O que era motivo de muita vergonha
porque, naqueles tempos, cabelo comprido era coisa de menina. Cabelo
comprido e calças curtas: era demais...
Aconteceu que o meu irmão Ismael, já
moço, já havendo ultrapassado a humilhação das calças curtas, já
havendo ultrapassado a humilhação do cabelo comprido, veio nos
visitar. Ele estava no internato do Instituto Gammon, em Lavras. Ele
não disse nada. Me pegou pela mão e disse: “Vamos passear!”. Ao
passar por uma barbearia, ele entrou, assentou-me na cadeira e
ordenou ao barbeiro: “Escovinha”…
Rubem Alves, em O velho que acordou menino
12/10/2026
Ninfas
Agora sei que existem ninfas
fora das estampas e dos contos.
São três.
Bebem água publicamente
servida por uma sereia,
pois que também existem as sereias
na composição de verde e mármore
e é tudo fantástico no jardim
em frente do Palácio do Governo.
Carlos Drummond de Andrade, em Boitempo – Esquecer para lembrar
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