domingo, 26 de abril de 2026

Spider-Noir | Trailer

O Guardador de Rebanhos

III

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.
Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas coisas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...
Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros…

Fernando Pessoa, em Poemas de Alberto Caeiro

A Arte de Portinari

São Francisco (1961), de Cândido Portinari

Máquina escrevendo

Sinto que já cheguei quase à liberdade. A ponto de não precisar mais escrever. Se eu pudesse, deixava meu lugar nesta página em branco: cheio do maior silêncio. E cada um que olhasse o espaço em branco, o encheria com seus próprios desejos.
Vamos falar a verdade: isto aqui não é crônica coisa nenhuma. Isto é apenas. Não entra em gênero. Gêneros não me interessam mais. Interessa-me o mistério. Preciso ter um ritual para o mistério? Acho que sim. Para me prender à matemática das coisas. No entanto, já estou de algum modo presa à terra: sou uma filha da natureza: quero pegar, sentir, tocar, ser. E tudo isso já faz parte de um todo, de um mistério. Sou uma só. Antes havia uma diferença entre escrever e eu (ou não havia? não sei). Agora mais não. Sou um ser. E deixo que você seja. Isso lhe assusta? Creio que sim. Mas vale a pena. Mesmo que doa. Dói só no começo.
Agora vou falar de umas verdades que me deixam espantada. É sobre bichos.
Uma pessoa que conheço disse que o siri, quando se lhe pega por uma perna, essa se solta para que o corpo todo não fique aprisionado pela pessoa. E que, no lugar dessa perna caída, nasce outra.
Outra pessoa que conheço estava hospedada numa casa e foi abrir a porta da geladeira para beber um pouco de água.
E viu a coisa.
A coisa era branca, muito branca. E, sem cabeça, arfava. Como um pulmão. Assim: para baixo, para cima, para baixo, para cima. A pessoa fechou depressa a geladeira. E ali perto ficou, de coração batendo.
Depois veio a saber do que se tratava. O dono da casa era perito em caça submarina. E pescara uma tartaruga. E lhe tirara o casco. E lhe cortara a cabeça. E pusera a coisa na geladeira para no dia seguinte cozinhá-la e comê-la.
Mas enquanto não era cozida, ela, sem cabeça, nua, arfava. Como um fole.
Já lhe falei aqui sobre tartarugas. Escrevi o seguinte: “Da lenta e empoeirada tartaruga carregando seu pétreo casco, não quero falar. Esse animal nos vem da Era Terciária, dinossáurico (quando escrevi dinossáurico não sabia que era mesmo, estava só adivinhando), não me interessa: é por demais estúpido, não entra em relação com ninguém, nem consigo próprio. É uma abstração. O ato de amor de duas tartarugas não deve ter calor nem vida. Sem ser cientista, aventuro-me a prognosticar que a espécie vai daqui a poucos milênios acabar.”
Esqueci-me de dizer que acho a tartaruga inteiramente imoral.
Alguém, adivinhando que era falso meu não interesse por tartarugas, emprestou-me um livrinho sobre elas, em inglês. Eis um trecho traduzido desse livrinho.
As tartarugas são répteis raros e antigos. Seus ancestrais apareceram pela primeira vez há uns 200 milhões de anos, muito antes que os dinossauros. Enquanto estes animais grandes há muito tempo se extinguiram, as tartarugas, com sua forma estranha e sem beleza, conseguiram sobreviver, e têm permanecido relativamente imutáveis pelo menos durante 150 milhões de anos.”
Sem o casco, sem a cabeça, arfando, para cima, para baixo, para cima, para baixo. Com vida.
Como compreender uma tartaruga? Como compreender Deus?
O ponto de partida deve ser: “Não sei.” O que é uma entrega total.
A máquina continua escrevendo. Por exemplo, ela vai escrever o seguinte: quem atinge um alto nível de abstração está em fronteira com a loucura. Que os grandes matemáticos e físicos o digam. Conheço um grande homem abstrato que faz de conta que é como todo mundo: come, bebe, dorme com a mulher, tem filhos. Assim ele se salva de se tornar um x ou uma raiz quadrada. Quando penso que, muito menina ainda, eu dava aulas particulares explicativas de matemática e português a ginasianos, mal acredito. Porque hoje seria incapaz de resolver uma raiz quadrada. Quanto a português, era com o maior tédio que eu dava as regras de gramática. Depois, felizmente, vim a esquecê-las. É preciso antes saber, depois esquecer. Só então se começa a respirar livremente.
Agora a máquina vai parar. Até sábado próximo.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Capítulo 46 – A Herança



Veja-nos agora o leitor, oito dias depois da morte de meu pai, – minha irmã sentada num sofá, – pouco adiante, o Cotrim, de pé, encostado a um consolo, com os braços cruzados e a morder o bigode, – eu a passear de um lado para outro, com os olhos no chão. Luto pesado. Profundo silêncio.
Mas afinal, disse Cotrim; esta casa pouco mais pode valer de trinta contos; demos que valha trinta e cinco...
Vale cinquenta, ponderei; a Sabina sabe que custou cinquenta e oito...
Podia custar até sessenta, tomou Cotrim; mas não se segue que os valesse, e menos ainda que os valha hoje. Você sabe que as casas, aqui há anos, baixaram muito. Olhe, se esta vale os cinquenta contos, quantos não vale a que você deseja para si, a do Campo?
Não fale nisso! Uma casa velha.
Velha! exclamou Sabina, levantando as mãos ao teto.
Parece-lhe nova, aposto?
Ora, mano, deixe-se dessas coisas, disse Sabina, erguendo-se do sofá; podemos arranjar tudo em boa amizade, e com lisura. Por exemplo, o Cotrim não aceita os pretos, quer só o boleeiro de papai e o Paulo...
O boleeiro não, acudi eu; fico com a sege e não hei de ir comprar outro.
Bem, fico com o Paulo e o Prudêncio.
O Prudêncio está livre.
Livre?
Há dois anos.
Livre? Como seu pai arranjava estas coisas cá por casa, sem dar parte a ninguém! Está direito. Quanto à prata... creio que não libertou a prata?
Tínhamos falado na prata, a velha prataria do tempo de Dom José I, a porção mais grave da herança, já pelo lavor, já pela vetustez, já pela origem da propriedade; dizia meu pai que o Conde da Cunha, quando vice-rei do Brasil, a dera de presente a meu bisavô Luís Cubas.
Quanto à prata, continuou o Cotrim, eu não faria questão nenhuma, se não fosse o desejo que sua irmã tem de ficar com ela; e acho-lhe razão. Sabina é casada, e precisa de uma copa digna, apresentável. Você é solteiro, não recebe, não...
Mas posso casar.
Para quê? interrompeu Sabina.
Era tão sublime esta pergunta, que por alguns instantes me fez esquecer os interesses. Sorri; peguei na mão de Sabina, bati-lhe levemente na palma, tudo isso com tão boa sombra, que o Cotrim interpretou o gesto como de aquiescência, e agradeceu-mo.
Que é lá? redargui; não cedi coisa nenhuma, nem cedo.
Nem cede?
Abanei a cabeça.
Deixa, Cotrim, disse minha irmã ao marido; vê se ele quer ficar também com a nossa roupa do corpo, é só o que falta.
Não falta mais nada. Quer a sege, quer o boleeiro, quer a prata, quer tudo. Olhe, é muito mais sumário citar-nos a juízo e provar com testemunhas que Sabina não é sua irmã, que eu não sou seu cunhado, e que Deus não é Deus. Faça isto, e não perde nada, nem uma colherinha. Ora, meu amigo, outro ofício!
Estava tão agastado, e eu não menos, que entendi oferecer um meio de conciliação: dividir a prata. Riu-se e perguntou-me a quem caberia o bule e a quem o açucareiro; e depois desta pergunta, declarou que teríamos tempo de liquidar a pretensão, quando menos em juízo. Entretanto, Sabina fora até janela que dava para a chácara, – e depois de um instante, voltou, e propôs ceder o Paulo e outro preto, com a condição de ficar com a prata; eu ia dizer que não me convinha, mas o Cotrim adiantou-se e disse a mesma coisa.
Isso nunca! não faço esmolas! disse ele.
Jantamos tristes. Meu tio cônego apareceu para sobremesa, e ainda presenciou uma pequena altercação.
Meus filhos, disse ele, lembrem-se que meu irmão deixou um pão bem grande para ser repartido por todos.
Mas o Cotrim:
Creio, creio. A questão, porém, não é de pão, é de manteiga. Pão seco é que eu não engulo.
Fizeram-se finalmente as partilhas, mas nós estávamos brigados. E digo-lhes, que ainda assim, custou-me muito a brigar com Sabina. Éramos tão amigos! Jogos pueris, fúrias de crianças, risos e tristezas da idade adulta, dividimos muita vez esse pão da alegria e da miséria, irmamente, como bons irmãos que éramos. Mas estávamos brigados. Tal qual a beleza de Marcela, que se esvaiu com as bexigas.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Homem de visão na Vila



Foi na última festa junina do 257, Rua dos Artistas.
O balão deu prego, foi escorado pelos fios (pauta musical do Orestes) e todo mundo achou que o danado se acabaria devagarinho quando o mundo estourou feito pluma, a luz apagou, as crianças gritaram... Aquele poeta que há muito tempo não dava o ar da sua graça, um que era meio maluco, misturou as lanterninhas:
Esse troço foi no meu peito.
Trouxeram o lampião de querosene. O poeta deu de mostrar um três por quatro e um papel amarrotado. Ninguém acreditava, ninguém levava a sério:
De quem será que ele roubou esse retrato?
Tão moça, de olhinho claro, não ia gostar desse traste…
Que solidão, né, menina? Ter que inventar uma namorada,tsc,tsc...
Ele ficava olhando o retrato e falava sozinho:
Tô decorando ela, tô decorando elazinha... Vou botar esse papel com os nomes pra São João decidir. O que ficar mais orvalhado...
Ceceu Rico, o cético da rua, cuspiu na fogueira:
Cada vez mais tantã. Isso que ele tá falando é samba-canção do Lupicínio.
Não cospe na fogueira que tu fica seco.
A Lua apareceu de caipira, as manchas escuras feito sorriso onde falta dente ou bigode de rolha queimada. O festival de comiseração continuou:
Dá um pouco de quentão pro coitado.
Dá não. Ele ficou assim por causa da bebida.
Que isso? Sujeito só bebe que nem ele quando sente a agonia do peru de véspera, cumpadre. Bebida só mata quando o tira-gosto é tristeza.
Isso parece frase dele.
Pô, não sei se agradeço ou se fico ofendido.
Velho dilema de quem é amigo de poeta.
Dançaram a quadrilha. Tuninho Sorvete chamuscou de novo as calças remendadas na fogueira. Meu avô Aguiar prendeu as rodinhas no cabo de vassoura. Um buscapé matreiro beijou a bunda da Isolda. Nunca se viu tanto voluntário pro Corpo de Bombeiros. Ela rebolou mais que Rainha do Bafo da Onça. Fagulha pra todo lado. Penteado deu um gole na branquinha e gozou o rescaldo:
A calça dela ficou entre dois fogos...
Lindauro não tirava a mão do hidrante e a Deysinha abriu a torneira:
O balão lambe e tu é que fica com a língua de fora, otário.
Não chacoalha, tá? Manjo teu repertório. Tás na bronca porque tua bucha anda pingando muito breu.
Tu fala de boca-cheia, Lindauro. Peraí que eu vou apanhar uns amendoins pra tua tromba. Tás precisando...
Ah, vai tomar no...
Tomate cru é na salada, teu cu é pra garotada.
Nem Santo Antônio, o casamenteiro calhorda, pacificaria aquele Oriente Médio. Mas o tal poeta, com certeza por ser meio maluco, pegou o violão e cantou como se estivesse no sonhado Papel Carbono, ao lado da inesquecível missiméri:

Tenho certas manchas no passado,
outras hei de ver no teu pescoço...
Ah,eu queria ser moço
pra dizer à mocidade
que ela brinca de “já era”
mas o que era hoje é você.
Um tremor rindo na boca de criança
que não esconde mais a fêmea e
o que ela quer.
Nada é mais profundo e verdadeiro
que o desejo solto na mulher.
Não adianta fugir desse encontro,
Não adianta evitar meu caminho
somos ambos cobra, ambos passarinho.
Meu fascínio é você que gera.
Teu olhar me enreda,
pago na mesma moeda,
minha bela fera.

Deu um branco momentâneo na festa e no texto.
O pessoal há havia virado poema do Manuel Bandeira, todos deitados dormindo profundamente, quando uma espécie de fada tocou a campainha — ninguém ouviu! —, fez carinho no bêbado — ninguém viu! — e voltou pro céu num bojo enorme, meio tangerina, meio charuto, com uma alegoria que lembrava a metade de um coração, ou a letra C, ou um pedaço de serpentina, ou uma estrela cadente, sei lá...
No meio da noite despertei, fui pra varanda olhar o céu e sou a única testemunha de tudo.
Mas acreditem, não me levem a sério, que eu também costumo beber e sonhar acordado.

Aldir Blanc, em Vila Isabel, inventário da infância

sábado, 25 de abril de 2026

Força Estranha | Gal Costa

Não é mera Coincidência

Auto-observação, autoanálise e autonomia

Estas são propriedades da alma racional: auto-observação, autoanálise e autonomia.
Goza dos frutos produzidos por si própria — diferente das plantas e dos animais, cujos produtos são desfrutados por outrem. Alcança o seu propósito particular, onde quer que o limite da sua vida seja estabelecido — diferente das danças, das peças ou das atividades semelhantes, que acabam incompletas quando encurtadas. Independentemente de em qual parte e de onde for interrompida, cumpre por completo o que lhe foi proposto, de modo que pode dizer: “Tenho o que é meu.”
Ademais, atravessa todo o universo e o vácuo circundante e examina a sua forma. Prolonga-se até a infinidade do tempo. Abraça e compreende a renovação periódica do mundo. Entende que os sucessores não encontrarão nada novo, assim como os antecessores não encontraram — quem tem quarenta anos, caso disponha de algum entendimento, observou a uniformidade prevalecente em tudo o que foi e tudo o que será.
Eis outras das suas propriedades: afeição pelos vizinhos, veracidade, modéstia e valorização suprema de si mesma — essa também é própria da lei, logo a razão correta não difere da justa.

Marco Aurélio, em Meditações

I Saw Her Standing There, de Paul McCartney e John Lennon


I Saw Her Standing There, de Paul McCartney e John Lennon

Well she was just seventeen
You know what I mean
And the way she looked was way beyond compare
So how could I dance with another
Ooh when I saw her standing there

Well she looked at me
And I, I could see
That before too long I’d fall in love with her
She wouldn’t dance with another
Ooh when I saw her standing there

Well my heart went boom
When I crossed that room
And I held her hand in mine

Oh we danced through the night
And we held each other tight
And before too long I fell in love with her
Now I’ll never dance with another
Ooh when I saw her standing there

Well my heart went boom
When I crossed that room
And I held her hand in mine

Oh we danced through the night
And we held each other tight
And before too long I fell in love with her
Now I’ll never dance with another
Ooh since I saw her standing there
Since I saw her standing there
Since I saw her standing there

Escrevi muitas canções, mas algumas delas se destacam, e se eu tivesse que escolher quais representam meus melhores trabalhos ao longo dos anos, eu provavelmente incluiria “I Saw Her Standing There”. Ou melhor: com absoluta certeza eu a incluiria.
A primeira vez que toquei esta canção para John foi quando nos reunimos para fumar chá no cachimbo do meu pai (e quando eu digo chá, eu quero dizer chá). Cantei: “She was just seventeen. She’d never been a beauty queen”. E John falou: “Tenho lá minhas dúvidas quanto a isso”. Assim, a nossa principal tarefa era nos livrarmos da parte da rainha da beleza. Após muitas tentativas, surgiu uma solução.
Ao cantá-la hoje – e isso acontece com todas as canções dos Beatles que eu toco –, percebo que estou revisitando o trabalho de um rapaz de 18, 20 anos. E eu acho isso interessantíssimo, porque tem um quê de inocência – um ar ingênuo – que é impossível de inventar.
Falando nisso, Jerry Seinfeld fez uma bela sátira com esta letra. Fomos à Casa Branca, e Jerry disparou: “Paul, estive olhando o trecho: ‘She was just seventeen/ You know what I mean’. Não sei bem se nós sabemos o que você quer dizer, Paul!”.
O fato é que já tínhamos ouvido todas essas coisas – eu tinha uns 20 anos, e estávamos compondo esta canção na casa do meu pai, na Forthlin Road –, e continuamos: “She was just seventeen/ You know what I mean/ And the way she looked was way beyond compare”. Esse ritmo vem da versão de Stanley Holloway de “The Lion and Albert”. Esse poema cômico escrito por Marriott Edgar tem uma métrica semelhante.
Eu trazia na bagagem todas as melodias que eu tinha ouvido. As composições de Hoagy Carmichael, Harold Arlen, George Gershwin e Johnny Mercer. Eu ouvia isso tudo em minha infância e adolescência. Eu não tinha feito ainda muitas composições próprias, mas tinha absorvido isso tudo. E depois, no colégio, o meu professor de inglês, Alan Durband, me ensinou sobre o dístico rimado no final dos sonetos de Shakespeare. Não sei de onde veio “nada se compara”, mas pode ter saído do Soneto 18: “Devo comparar você a um dia de verão?”. Também pode ser que eu tenha ouvido, na infância, uma tradicional canção irlandesa em que a mulher é descrita como “sem comparação”.
Mas não é bem o que você esperaria no rock’n’roll. Não sei de onde eu a resgatei, mas na grande rede de arrasto da minha juventude, essa expressão simplesmente se emaranhou como um golfinho.

Paul McCartney, em As Letras – 1956 até o presente

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
 
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
 
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
 
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
 
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade, em Claro enigma

O sertão tudo não aceita?


[…]
Tanto ouvi, muito macambúzio. Onde que então, eu varava mundo, em comando, e ainda não se prezava o meu nome. Eu ― o Urutú-Branco! Ser Chefe de jagunço era isso. Ser o que não dava realce ― qualquer um podia, fazendeiro com posses, mão em políticas. O sertão tudo não aceita? A minha pessoa era nada, glória de Zé Bebelo era nada. O que dá fama, dá desdém. O menos de me importar. O que eu carecia era de dar primeiras batalhas. Suspender a alta coragem, adiante de meus cabras. Ou será que já estavam mas era se aplicando no vagavagar? ― Cigano sou? ― eu pensei, enraivecido. Tinha o norte, para a gente. Dei ordem. Aí torcemos caminho, numa poeira danã. A reto, viemos beirando o Ribeirão da Areia, de rota abatida. O que era que eu tencionava fazer? O senhor espere.
Narro que não rendi melindres do feito de Diadorim, digo ― o recado enviado. Mas, à vez, balancei uma inquietação, daquilo, que era para eu bem estranhar, a decisão dele de tanto absurdo. Essas desordenadas da vida da gente! tudo o que estoura manso e guampa quieto, e que só tem a razoável explicação para quem está mesmo longe dos motivos. Ao meio do meio duma coisa eu tinha certeza! que Diadorim não ia me mentir. O amor só mente para dizer maior verdade. Diadorim me compassava; por força. Mas, para mandar à minha Otacília assim aquela embaixada, era porque ele soubesse, no zelo de seu coração, que então Otacília me tinha amor. E tanto igual sabia também de mim? Naqueles dias, era. Abrandei minha lembrança em Otacília, que sincera me aguardasse, em sua casa, em seu meigo estar. Agora eu ia indo às avessas de lá, da Santa Catarina, mas, de arribada, minha intenção de saudade vinha voltando.Tudo, nesta vida, é muito cantável.
Até, a seguir, por um afino de momento eu me arrepiei por trás da testa. Ato do que meio confuso imaginei, por um vão imaginar: que, me querendo-bem ― a mais de meu merecimento ― e crendo que eu enfrentava os duros riscos, ela Otacília pudesse praticar o estouvamento gentil de se fugir de casa e vir aventurada em minha cata, por todos os pousos deste sertão... Ah, ela vinha, montada num bom cavalo corcel, aparecia de repente, por meu nome perguntando. E eu declarava a grandeza real dela, definida bem do meu lado, na frente do grande bando de meus homens... Assim, de jeito tão desigual do comum, minha vida grangeava outros fortes significados. E isso variou em meu pensamento, inesperado de ligeiro supor, que, a bem notado, nem foi um pensar. Arremêdo de sonho, também, não seria de ser. Então, emendando de novo o vero juízo, tive um receio: por causa que aquilo podia ser aviso do que estivesse por vir, rumo de profecias.
Otacília ― me alembrei da luzinha de meio mel, no demorar dos olhares dela. Aquelas mãos, que ninguém tinha me contado que assim eram assim, para gozo e sentimento. O corpo ― em lei dos seios e da cintura ― todo formoso, que era de se ver e logo decorar exato. E a docice da voz: que a gente depois viajasse, viajasse, e não faltava frescura d água em nenhumas todas as léguas e chapadas... Isso tudo então não era amor? Por força que era. E pelo sim receei: será tivesse Diadorim falseado fala, e o recado na verdade fosse outro ― o para ela vir, afoitamente, que eu dela muito carecia? Divulgo o desuso disso, que era extravagâncias. Mas o senhor acreditando que alguma coisa humana é de todo impossível, então é que o senhor não pode mesmo ser chefe de jagunço, nem na menor metade só de um diazinho, nem somente nos vastos imaginados. Ora essas! ― digo. Se Otacília viesse, aparecesse lá em no meio de nós ― que seguimento de coisas havia de suceder?
A bobeia, toleima. Otacília estava guardada protegida, na casa alta da Fazenda Santa Catarina, junto com o pai e a mãe, com a família, lá naquele lugar para mim melhor, mais longe neste mundo. E eu, sem ser por motivo ou razão, cada dia tocava com a minha gente por contrárias bandas, para mais apartado de donde ela assistia. Ao cada dia mais distante, eu mais Diadorim, mire veja. O senhor saiba ― Diadorim! que, bastava ele me olhar com os olhos verdes tão em sonhos, e, por mesmo de minha vergonha, escondido de mim mesmo eu gostava do cheiro dele, do existir dele, do morno que a mão dele passava para a minha mão. O senhor vai ver. Eu era dois, diversos? O que não entendo hoje, naquele tempo eu não sabia.
Máximo me lembro é de que, na minguante, se estava no veredal das cabeceiras de um córrego, lugar de desmedidas pastagens, adonde os cavalos usufruirem descanso. A lá esbarramos e paramos, por uns dias. Me lembro, eu quis escrever uma carta.
Essa minha carta, eu podia destacar um homem, dos ligeiros, ele ia levava em mão, à Otacília, minha nôiva, trazia a resposta. O que eu cogitei de escrever era muito singelo! as notícias de minha saúde, pergunta de como era que ela e os parentes iam passando, saudações de lembranças. Admiro que achei natural de não falar coisa de minha glória de chefia, por oras. Por que? Pois. E tive vontade de traçar uns versos também; mas que a aragem não ajudava a deduzir. Era uma sinceridade muito dificultosa. Escrevi metade.
Isto é: como é que podia saber que era metade, se eu não tinha ainda ela toda pronta, para medir? Ah, viu?! Pois isto eu digo por riso, por graça; mas também para lhe indicar importante fato: que a carta, aquela, eu somente terminei de escrever, e remeti, quase em data dum ano muito depois... Digo o porquê? Próprio porque não pude. Guarde o senhor: não pude completo. Mas, guarde, por outra: o dia vindo depois da noite ― esse é o motivo dos passarinhos...
Falo por palavras tortas. Conto minha vida, que não entendi. O senhor é homem muito ladino, de instruída sensatez. Mas não se avexe, não queira chuva em mês de agosto. Já conto, já venho ― falar no assunto que o senhor está de mim esperando. E escute.
Tinha o Maligno?
Às vezes, penso. Um boneco de capim, vestido com um paletó velho e um chapéu roto, e com os braços de pau abertos em cruz, no arrozal, não é mamolengo? O passopreto vê e não vem, os passarinhos se piam de distância. Homem, é. O senhor nunca pense em cheio no demo. O mato é dos porcos-do-mato... O sertão aceita todos os nomes: aqui é o Gerais, lá é o Chapadão, lá acolá é a caatinga. Quem entende a espécie do demo? Ele não fura: rascrava. Demorar comigo ele podia. E, o que não existe de se ver, tem força completa demais, em certas ocasiões. A ele vazio assim, como é que eu ia dizer: ― Te arreda desta minha conversa!?... Ao que, pois, o que eu ia pondo, na carta, era quase que uma ordenada lembrança, a igualzinha repetição daquilo de Diadorim: ― que ela rezasse por mim, Otacília, orações rezasse... Ia. Ah, mas, aí, houve. Amoleci mão antes de coração: não pude. Não pude, diabralmente, desarrazoado ― por outras fortes ordens... ―; e então de repente tive vergonha, desgostei de estar querendo escrever aquela carta. Desisti, guardei na mochila aquela metade. Um homem é um homem, no que não vê e no que consome. Ah, não. Otacília, eu não merecia. Diadorim era um impossível. Demiti de tudo.
[...]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

sexta-feira, 24 de abril de 2026

SOBERANO SONS DA ALMA - ENTREVISTAS | EP. 4 IVAN LINS

Diário de Bernardo Soares

102.

A vida é para nós o que concebemos nela. Para o rústico cujo campo próprio lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas veem, temos que fundamentar a realidade da nossa vida.
Isto não vem a propósito de nada.
Tenho sonhado muito. Estou cansado de ter sonhado, porém não cansado de sonhar. De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos. Em sonhos consegui tudo. Também tenho despertado, mas que importa? Quantos Césares fui! E os gloriosos, que mesquinhos! César, salvo da morte pela generosidade de um pirata, manda crucificar esse pirata logo que, procurando-o bem, o consegue prender. Napoleão, seu testamento em Santa Helena, deixa um legado a um facínora que tentara assinar a Wellington. Ó grandezas iguais às da alma da vizinha vesga! Ó grandes homens da cozinheira de outro mundo! Quantos Césares fui, e sonho todavia ser.
Quantos Césares fui, mas não dos reais. Fui verdadeiramente imperial enquanto sonhei, e por isso nunca fui nada. Os meus exércitos foram derrotados, mas a derrota foi fofa, e ninguém morreu. Não perdi bandeiras. Não sonhei até ao ponto do exército, onde elas aparecessem ao meu olhar em cujo sonho há esquina. Quantos Césares fui, aqui mesmo, na Rua dos Douradores. E os Césares que fui vivem ainda na minha imaginação; mas os Césares que foram estão mortos, e a Rua dos Douradores, isto é, a Realidade, não os pode conhecer.
Atiro com a caixa de fósforos, que está vazia, para o abismo que a rua é para além do parapeito da minha janela alta sem sacada. Ergo-me na cadeira e escuto. Nitidamente, como significasse qualquer coisa, a caixa de fósforos vazia soa na rua que me declara deserta. Não há mais som nenhum, salvo os da cidade inteira. Sim, os da cidade de um domingo inteiro — tantos, sem se entenderem, e todos certos.
Quão pouco, no mundo real, forma o suporte das melhores meditações. O ter chegado tarde para almoçar, o terem-se acabado os fósforos, o ter eu atirado, individualmente, a caixa para a rua, maldisposto por ter comido fora de horas, ser domingo a promessa aérea de um poente mau, o não ser ninguém no mundo, e toda a metafísica.
Mas quantos Césares fui!

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Placas

Ah, meu pobre Coronel Emerenciano, quem sois vós? Quem sois vós, Dona Maurília, Fernando Ivo? Altamirando Barbosa da Silva? Quem sois vós, com todos esses inúteis cartões de visita deixados teimosamente em cada esquina? Que vergonha, velhinhos... Essa coisa de a gente virar rua é uma forma pública de anonimato.

Mário Quintana, em Caderno H

Filhos

1618 – Luanda

O embarque

Foram agarrados pelas redes dos caçadores e caminham até a costa, amarrados uns a outros pelo pescoço, enquanto soam os tambores da dor nas aldeias.
Na costa africana, um escravo vale quarenta colares de vidro ou um apito com correntinha ou um par de pistolas ou um punhado de balas. Os mosquetões e os facões, a aguardente, as sedas da China ou o percal da Índia são pagos com carne humana.
Um frade percorre as filas de cativos na praça principal do porto de Luanda. Cada escravo recebe uma pitada de sal na língua, uma salpicadura de água benta na cabeça e um nome cristão. Os intérpretes traduzem o sermão: Agora, sois filhos de Deus... O sacerdote manda que não pensem nas terras que abandonam e que não comam carne de cão, rato ou cavalo. Recorda a epístola de São Paulo aos efésios (Servos, servi a vossos amos!) e a maldição de Noé contra os filhos de Cam, que ficaram negros para sempre.
Veem o mar pela primeira vez e os aterroriza esse enorme animal que ruge. Creem que os brancos os levam a um matadouro distante, para comê-los e fazer óleo e banha deles. Os chicotes de pele de hipopótamo os empurram às enormes canoas que atravessam a arrebentação. Nas naus, os ameaçam os canhões de popa e proa, com as mechas acesas. Os grilhões e as correntes impedem que se atirem no mar.
Muitos morrerão na travessia. Os sobreviventes serão vendidos nos mercados da América e outra vez marcados com ferro em brasa.
Nunca esquecerão seus deus. Oxalá, ao mesmo tempo homem e mulher, se disfarçará de São Jerônimo e Santa Bárbara. Obatalá será Jesus Cristo; e Oxum, espírito da sensualidade e das águas frescas, se converterá na Virgem da Candelária, da Conceição, da Caridade ou dos Prazeres, e será Santa Ana na ilha de Trinidad. Por trás de São Jorge, Santo Antônio ou São Miguel, aparecerão os ferros de Ogum, deus da guerra; e dentro de São Lázaro cantará Babalu. Os trovões e os fogos do temível Xangô vão tirar o sossego de São João Batista ou de Santa Bárbara. Em Cuba, Elegguá continuará tendo duas caras, a vida e a morte, e no Brasil Exu terá duas cabeças, Deus e o Diabo, para oferecer a seus fiéis consolo e vingança.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Leituras proibidas



Em 1660, Carlos II, da Inglaterra, filho do rei que tão desafortunadamente consultara o oráculo de Virgílio, conhecido entre seus súditos como o Monarca Alegre, por seu amor ao prazer e aversão aos negócios, decretou que o Conselho para as Propriedades Rurais no Exterior deveria instruir os nativos, servos e escravos das colônias britânicas nos preceitos do cristianismo. O dr. Johbnson, que da distância de um século admirava o rei, disse que ele teve o mérito de se empenhar em fazer o que julgava ser pela salvação das almas de seus súditos, até perder um grande império. O historiador Macaulay, que da distância de dois séculos não tinha a mesma admiração, afirmou que, para Carlos, o amor por Deus, o amor pela pátria, o amor pela família, o amor pelos amigos eram expressões do mesmo tipo, sinônimos delicados e convenientes do amor por si mesmo.
Não está claro por que Carlos baixou esse decreto no primeiro ano de seu reinado, exceto se imaginava que este seria um modo de estabelecer uma nova base para a tolerância religiosa, à qual o Parlamento se opunha. Carlos, que apesar de suas tendências pró- católicas proclamava-se fiel à fé protestante, acreditava (na medida em que acreditava em alguma coisa) que, como Lutero ensinara, a salvação da alma dependia da capacidade de cada um de ler a palavra de Deus por si mesmo. Mas os donos de escravos britânicos não estavam convencidos disso. Temiam a própria ideia de uma "população negra alfabetizada”, que poderia assim encontrar ideias revolucionárias perigosas nos livros.
Não acreditavam nos argumentos de que uma alfabetização restrita à Bíblia fortaleceria os laços da sociedade; percebiam que, se os escravos pudessem ler a Bíblia, poderiam ler também panfletos abolicionistas e que mesmo nas Escrituras seriam capazes de encontrar noções incendiárias de revolta e liberdade. A oposição ao decreto de Carlos foi mais forte nas colônias americanas e mais forte ainda na Carolina do Sul, onde, um século depois, criaram-se leis rigorosas proibindo todos os negros, escravos ou livres, de aprender a ler. Essas leis permaneceram em vigência até a metade do século XIX.
Durante séculos, os escravos afro-americanos aprenderam a ler em condições extraordinariamente difíceis, arriscando a vida num processo que, devido às dificuldades, levava às vezes vários anos. Os relatos desse aprendizado são muitos e heróicos.
Entrevistada aos noventa anos pelo Federal Writers' Project [Projeto Federal dos Escritores], uma comissão criada na década de 1930 para registrar, entre outras coisas, as narrativas pessoais de ex-escravos, Bel e Myers Carothers relembrou que aprendera as letras enquanto cuidava do bebê do dono da fazenda, que brincava com cubos alfabéticos. O dono, ao ver o que ela estava fazendo, chutou-a com as botas que calçava.
Myers perseverou, estudando às escondidas as letras da criança, bem como algumas palavras numa cartilha que achara. Um dia, disse ela, "achei um hinário [...] e soletrei: ‘Quando Posso Ler Meu Título Claro’. Fiquei tão contente quando vi que podia realmente ler que fui correndo contar para todos os outros escravos”. O senhor de Leonard Black, encontrando-o uma vez com um livro, açoitou-o tanto "que superou minha sede de conhecimento, e eu abandonei a busca até que fugi". Doc Daniel Dowdy lembrava que "a primeira vez que você era surpreendido tentando ler ou escrever, você era açoitado com um relho de couro cru; na segunda vez, com um chicote de nove tiras; na terceira vez cortavam a ponta do seu dedo indicador". Em todo o Sul, era comum os donos de fazendas enforcarem os escravos que tentassem ensinar os outros a soletrar.
Nessas circunstâncias, os escravos que quisessem se alfabetizar eram forçados a encontrar métodos tortuosos de aprender, ou com outros escravos, ou com professores brancos solidários, ou inventando esquemas que lhes permitissem estudar escondido. O escritor americano Frederick Douglass, que nasceu escravo e se tornou um dos mais eloqüentes abolicionistas de seu tempo, bem como fundador de vários periódicos políticos, relembra em sua autobiografia: "Ouvir minha dona sempre ler a Bíblia em voz alta [...] despertou minha curiosidade em relação a esse mistério da leitura e estimulou em mim o desejo de aprender. Até aquela época, eu não sabia nada dessa arte maravilhosa, e minha ignorância e inexperiência sobre o que ela poderia fazer por mim, bem como a confiança em minha senhora, animaram-me a lhe pedir que me ensinasse a ler [...] Num período de tempo incrivelmente curto, com seu generoso auxílio, dominei o alfabeto e consegui soletrar palavras de três ou quatro letras... [Meu senhor] proibiu-a de me dar mais instrução... [mas] a determinação que ele expressou em me manter na ignorância apenas me deixou mais decidido a buscar compreensão. No aprendizado da leitura, portanto, não sei se devo mais à oposição de meu senhor ou ao generoso auxílio de minha amável senhora". Thomas Johnson, escravo que depois se tornou um conhecido pregador missionário na Inglaterra, explicou que havia aprendido a ler estudando as letras de uma Bíblia que roubara. Como seu dono todas as noites lia em voz alta um capítulo do Novo Testamento, Johnson o persuadia a ler o mesmo capítulo repetidamente, até que o soubesse de cor e pudesse achar as mesmas palavras na página impressa. Da mesma forma, quando o filho do dono estava estudando, Johnson sugeria que o menino lesse parte de sua lição em voz alta. "Senhorzinho, leia isso de novo", dizia Johnson para encorajá-lo, e o menino repetia a leitura, achando que Johnson estava admirando seu desempenho. Por meio da repetição, aprendeu o suficiente para ler jornais quando começou a Guerra Civil e, mais tarde, abriu uma escola para ensinar os outros a ler.
Aprender a ler, para os escravos, não era um passaporte imediato para a liberdade, mas uma maneira de ter acesso a um dos instrumentos poderosos de seus opressores: o livro.
Os donos de escravos (tal como os ditadores, tiranos, monarcas absolutos e outros detentores ilícitos do poder) acreditavam firmemente no poder da palavra escrita. Sabiam, muito mais do que alguns leitores, que a leitura é uma força que requer umas poucas palavras iniciais para se tornar irresistível. Quem é capaz de ler uma frase é capaz de ler todas. Mais importante: esse leitor tem agora a possibilidade de refletir sobre a frase, de agir sobre ela, de lhe dar um significado. "Você pode se fingir de bobo com uma frase", disse o escritor austríaco Peter Handke. "Faça valer seus direitos sobre a frase contra outras frases. Nomeie tudo o que atravessar seu caminho e tire da frente. Familiarize-se com todos os objetos. Transforme todos os objetos numa frase com a frase. Você pode transformar todos os objetos numa frase sua. Com essa frase, todos os objetos lhe pertencem.” Por todos esses motivos, ler tinha de ser proibido.
Como séculos de ditadores souberam, uma multidão analfabeta é mais fácil de dominar; uma vez que a arte da leitura não pode ser desaprendida, o segundo melhor recurso é limitar seu alcance. Portanto, como nenhuma outra criação humana, os livros têm sido a maldição das ditaduras. Os poderes absolutos exigem que todas as leituras sejam leituras oficiais; em vez de bibliotecas inteiras de opiniões, a palavra do governante deve bastar.
Os livros, escreveu Voltaire no panfleto satírico "Sobre o terrível perigo da leitura", "dissipam a ignorância, a custódia e a salvaguarda dos estados bem policiados". A censura, portanto, de qualquer tipo, é o corolário de todo poder, e a história da leitura está iluminada por uma fileira interminável de fogueiras de censores, dos primeiros rolos de papiro aos livros de nossa época. As obras de Protágoras foram queimadas em 411 a.C., em Atenas. No ano de 213 a.C., o imperador chinês Chí Huang-Ti tentou acabar com a leitura queimando todos os livros de seu reino. Em 168 a.C., a biblioteca judaica de Jerusalém foi deliberadamente destruída durante o levante dos macabens. No primeiro século da era cristã, Augusto exilou os poetas Cornélio Calo e Ovídio e baniu suas obras.
O imperador Calígula mandou queimar todos os livros de Homero, Virgílio e Lívio (mas seu decreto não foi cumprido). Em 303, Diocleciano condenou todos os livros cristãos à fogueira. E isso foi apenas o começo. O jovem Goethe, testemunhando a queima de um livro em Frankfurt, sentiu que estava presenciando uma execução: "Ver um objeto inanimado ser punido é em si e por si mesmo algo realmente terrível". A ilusão acalentada por aqueles que queimam livros é a de que podem cancelar a história e abolir o passado.
Em 10 de maio de 1933, em Berlim, diante das câmeras, o ministro da propaganda Paul Joseph Goebbels discursou durante a queima de mais de 20 mil livros para uma multidão entusiasmada de mais de 100 mil pessoas: "Esta noite vocês fazem bem em jogar no fogo essas obscenidades do passado. Este é um ato poderoso, imenso e simbólico, que dirá ao mundo inteiro que o espírito velho está morto. Destas cinzas irá se erguer a fênix do espírito novo". Um menino de doze anos, Hans Pauker, mais tarde diretor do Instituto Leo Baeck de Estudos Judaicos em Londres, presenciou a queima e relembrou que, à medida que os livros eram jogados às chamas, faziam-se discursos para dar solenidade à ocasião. "Contra a exacerbação dos impulsos inconscientes baseada na análise destrutiva da psique, pela nobreza da alma humana, entrego às chamas as obras de Sigmund Freud", declamou um dos censores antes de queimar os livros de Freud, Steinbeck, Marx, Zola, Hemingway, Einstein, Proust, H. G. Wells, Heinrich Mann, Jack London, Bertold Brecht e centenas de outros receberam a homenagem de epitáfios semelhantes.
Em 1872, pouco mais de dois séculos após o decreto otimista de Carlos II, Anthony Comstock – um descendente dos antigos colonos que tinham se oposto aos impulsos pedagógicos de seu soberano – fundou em Nova York a Sociedade para a Extinção do Vício, o primeiro conselho de censura efetivo dos Estados Unidos. Pensando bem, Comstock teria preferido que a leitura jamais tivesse sido inventada ("Nosso pai Adão não podia ler no Paraíso", afirmou certa vez), mas, já que o fora, estava decidido a controlar seu uso. Comstock considerava-se um leitor dos leitores, aquele que sabia o que era boa e o que era má literatura, e fazia todo o possível para impor suas idéias aos outros. Um ano antes de fundar a sociedade, escreveu em seu diário: "Quanto a mim, estou decidido, com a força de Deus, a não ceder à opinião dos outros, e se sentir e acreditar que estou certo, hei de me manter firme. Jesus jamais foi afastado do caminho do dever, por mais duro que fosse, pela opinião pública. Por que eu o seria?"
Anthony Comstock nasceu em New Canaan, Connecticut, em 7 de março de 1844. Era um sujeito corpulento e, no decorrer da carreira de censor, utilizou muitas vezes seu tamanho para derrotar fisicamente os oponentes. Um de seus contemporâneos descreveu-o assim: "Com um metro e meio (de sapatos), carrega tão bem seus 95 quilos de músculos e ossos que você diria que não pesa mais de oitenta. Seus ombros de Atlas, de enorme circunferência, encimados por um pescoço de touro, estão de acordo com um bíceps e uma panturrilha de tamanhos excepcionais e solidez de ferro. Suas pernas são curtas e lembram troncos de árvores”.
Comstock tinha vinte e poucos anos quando chegou a Nova York com 3,45 dólares no bolso. Conseguiu emprego como vendedor de tecidos e artigos de armarinho e logo economizou os quinhentos dólares necessários para comprar uma pequena casa no Brooklyn. Poucos anos depois, casou com a filha de um ministro presbiteriano, dez anos mais velha que ele. Em Nova York, Comstock descobriu muita coisa que julgava censurável. Em 1868, depois que um amigo lhe contou como fora "desencaminhado, corrompido e pervertido" por um certo livro (o título dessa poderosa obra não chegou até nós). Comstock comprou um exemplar na loja e depois, acompanhado por um policial, fez prender seu dono e confiscar o estoque. O sucesso desse primeiro ataque foi tal que ele decidiu continuar, provocando periodicamente a prisão de editores e impressores de material excitante.
Com a ajuda de amigos da Associação Cristã de Moços, que lhe forneceram 8500 dólares, Comstock pôde fundar a sociedade pela qual ficou famoso. Dois anos antes de morrer, disse a um entrevistador em Nova York: "Nos 41 anos em que estive aqui, condenei um número suficiente de pessoas para encher um trem de passageiros de 61 vagões, sessenta vagões com sessenta passageiros cada, e o sexagésimo primeiro quase cheio. Destruí 160 toneladas de literatura obscena".
O fervor de Comstock foi também responsável no mínimo por quinze suicídios. Depois que conseguiu mandar o ex-cirurgião irlandês Wil iam Haynes para a prisão, "por publicar 165 tipos diferentes de literatura lasciva", Haynes se matou. Um pouco mais tarde, Comstock estava prestes a tomar a barca para o Brooklyn (relembrou posteriormente) quando "uma Voz" lhe disse que fosse até a casa de Haynes. Lá chegou quando a viúva estava descarregando de uma carroça as chapas de impressão de livros proibidos. Com grande agilidade, Comstock saltou para o assento do condutor e levou a carroça para a ACM, onde as chapas foram destruídas.
Que livros lia Comstock? Ele era um seguidor involuntário do conselho jocoso de Oscar Wilde: "Jamais leio um livro que devo resenhar; ele o torna muito parcial". Às vezes, porém, folheava os livros antes de destruí-los e ficava horrorizado com o que lia. Achava a literatura da França e da Itália "pouco melhor que histórias de bordéis e prostitutas nessas nações lúbricas. Com que freqüência se encontram nessas histórias torpes heroínas adoráveis, excelentes, cultivadas, ricas e encantadoras em todos os aspectos, as quais têm por amantes homens casados; ou, depois do casamento, os amantes cercam a jovem esposa, gozando de privilégios que pertencem somente ao marido!". Até mesmo os clássicos não estavam acima da exprobração. "Tome-se, por exemplo, uma obra bem conhecida de Boccaccio", escreveu em seu Traps for the young [Armadilhas para os jovens]. O livro era tão imundo que Comstock faria qualquer coisa para "evitar que ele, como uma besta selvagem, se soltasse e destruísse a juventude do país". Balzac, Rabelais, Walt Whitman, Bernard Shaw e Tolstoi estavam entre suas vitimas. A leitura cotidiana de Comstock, dizia ele, era a Bíblia.
Os métodos de Comstock eram selvagens, mas superficiais. Faltava-lhe a percepção e a paciência de censores mais sofisticados, que escavam o texto com um torturante cuidado em busca de mensagens enterradas. Em 1981, por exemplo, a junta militar liderada pelo general Pinochet baniu Dom Quixote do Chile porque o general achava (com bastante razão) que o livro continha um apelo pela liberdade individual e um ataque à autoridade instituída.
A censura de Comstock limitava-se, num ataque de ultraje, a pôr as obras suspeitas em um catálogo dos amaldiçoados. Seu acesso aos livros também era limitado: só podia caçá-los se aparecessem em público, quando muitos já tinham escapado para as mãos de leitores ávidos. A Igreja católica estava muito à frente dele. Em 1559, a Sagrada Congregação da Inquisição Romana publicara o primeiro Índice dos livros proibidos - uma lista de livros que a Igreja considerava perigosos para a fé e a moral dos católicos. O Index, que incluía livros censurados antes da publicação, bem como livros imorais já publicados, jamais pretendeu ser um catálogo completo de todos os livros banidos pela Igreja. Porém, quando foi abandonado, em junho de 1966, continha, entre centenas de obras teológicas, outras tantas obras de autores seculares, de Voltaire e Diderot a Colette e Graham Greene. Comstock certamente acharia essa lista muito útil.
"A arte não está acima da moral. A moral vem primeiro", escreveu Comstock. "A lei vem em seguida, como defensora da moral pública. A arte só entra em conflito com a lei quando sua tendência é obscena, lasciva ou indecente." Isso levou o New York World a perguntar num editorial: "Foi realmente determinado que não há nada de saudável e nem proveitoso na arte a não ser que ela esteja vestida?". A definição de Comstock de arte imoral, como a de todos os censores, foge da dificuldade. Comstock morreu em 1915. Dois anos depois, o ensaísta americano H. L. Mencken definiu a cruzada de Comstock como "o novo puritanismo", "não ascético, mas militante. Seu objetivo não é elevar santos, mas derrubar pecadores".
Comstock estava convencido de que aquilo que chamava de "literatura imoral" pervertia a mente dos jovens, que deveriam se ocupar com temas espirituais mais elevados. Essa preocupação é antiga, e não é exclusiva do Ocidente. Na China do século XV, uma coleção de contos da dinastia Ming conhecida como Histórias velhas e novas teve tanto sucesso que precisou ser incluída no index chinês, para que não distraísse os jovens do estudo de Confúcio. No mundo ocidental, uma forma mais suave dessa obsessão expressou-se como um medo generalizado da ficção - pelo menos até a época de Platão, que baniu os poetas de sua república ideal. A sogra de Madame Bovary argumentou que os romances envenenavam a alma de Emma e convenceu o filho a cancelar a assinatura que Emma mantinha junto a uma biblioteca circulante, mergulhando-a mais ainda no pântano do tédio. A mãe do escritor inglês Edmund Gosse não permitia que entrassem em sua casa romances de qualquer tipo, religiosos ou seculares. Quando era ainda uma menininha bem pequena, no início do século XIX, ela se divertira com os irmãos lendo e inventando histórias, até que sua governanta calvinista descobriu e passou-lhe um sermão, dizendo-lhe que tais prazeres eram depravados. "A partir daquele momento", escreveu a sra. Gosse em seu diário, "considerei que inventar qualquer tipo de história era pecado." Mas "o desejo de inventar histórias cresceu com violência; tudo o que ouvia ou lia tornava-se alimento para meu destempero. A simplicidade da verdade não me bastava: eu precisava enfeitá-la com a imaginação, e a insensatez, a vaidade e a perversidade que desgraçaram meu coração são maiores do que posso expressar. Ainda agora, embora vigilante, fazendo orações e empenhada contra isso, esse é o pecado que mais facilmente me persegue. Ele tem atrapalhado minhas preces e impedido meu progresso e, portanto, tem me humilhado muito. Isso ela escreveu aos 29 anos de idade.
Nessa crença criou o filho. "Nunca, na minha primeira infância, alguém se dirigiu a mim com o tocante preâmbulo ‘era uma vez ...’ Contaram-me sobre missionários, mas nunca sobre piratas. Estava familiarizado com beija-flores, mas jamais ouvira falar de fadas", relembrou Gosse. "Eles queriam que eu fosse fiel à realidade; a tendência foi tornar-me positivo e cético. Se tivessem me envolvido nas dobras suaves da fantasia sobrenatural, minha mente poderia ter ficado mais tempo satisfeita em seguir suas tradições sem questioná-las”. Os pais que levaram aos tribunais a escola pública do condado de Hawkins, no Tennessee, em 1980, não tinham obviamente lido Gosse. Eles argumentavam que toda uma série de livros da escola elementar, que incluía Cinderela, Cachinhos de ouro e O mágico de Oz, violava suas crenças religiosas fundamentalistas.
Leitores autoritários que impedem outros de aprender a ler, leitores fanáticos que decidem o que pode e o que não pode ser lido, leitores estoicos que se recusam a ler por prazer e exigem somente que se recontem fatos que julgam ser verdadeiros: todos eles tentam limitar os vastos e diversificados poderes do leitor. Mas os censores também podem adotar formas diferentes em seu trabalho, sem necessidade de fogueiras ou tribunais.
Podem reinterpretar livros para torná-los úteis apenas a eles mesmos, para justificar seus direitos autocráticos.
Em 1976 houve um golpe militar na Argentina, liderado pelo general Jorge Rafael Videla.
O que se seguiu foi uma onda de violações dos direitos humanos como o país jamais vira. A desculpa do Exército era de que estava travando uma guerra contra terroristas. Como definiu o general Videla, "um terrorista é não apenas alguém com uma arma ou uma bomba, mas também alguém que difunde idéias contrárias à civilização ocidental e cristã".
Entre os milhares que foram sequestrados e torturados estava o padre Orlando Virgílio Yorio. Um dia, o interrogador do padre Yorio disselhe que sua leitura dos Evangelhos era falsa. "Você interpreta a doutrina de Cristo de uma forma literal demais", disse o homem.
"Cristo falou dos pobres, mas quando falou dos pobres, referia-se aos pobres de espírito, e você interpretou no sentido literal e foi viver literalmente com gente pobre. Na Argentina, os pobres de espírito são os ricos, e, no futuro, você deve passar mais tempo ajudando os ricos, que são aqueles que precisam realmente de ajuda espiritual."
Assim, nem todos os poderes do leitor são iluminadores. O mesmo ato que pode dar vida ao texto, extrair suas revelações, multiplicar seus significados, espelhar nele o passado, o presente e as possibilidades do futuro pode também destruir ou tentar destruir a página viva. Todo leitor inventa leituras, o que não é a mesma coisa que mentir; mas todo leitor também pode mentir, declarando obstinadamente que o texto serve a uma doutrina, a uma lei arbitrária, a uma vantagem particular, aos direitos dos donos de escravos ou à autoridade de tiranos.

Alberto Manguel, em Uma História da Leitura