08/06/2026

Árvore | Mariene de Castro

Grátis!

Endecha

Embora a velha roseira insista neste agosto
e confirmem o recomeço estas mulheres grávidas,
eu sofro de um cansaço, intermitente como certas febres.
Me acontece lavar os cabelos e ir secá-los ao sol,
desavisada. Ocorre até que eu cante.
Mas pousa na canção a negra ave e eu desafino rouca,
em descompasso, uma perna mais curta,
a ausência ocupando todos os meus cômodos,
a lembrança endurecida no cristal
de uma pedra na uretra.

Adélia Prado, em Bagagem

Oito e meio



I
Sei de pessoas que julgaram artificial o 8 1/2, de Fellini, essa obra-prima do barroquismo. Elas é que devem ser artificiais, porque nossa alma é assim como ali está, com suas idades sucessivas convivendo, o acontecido e o imaginado tendo ambos o mesmo poder traumático e o mesmo pé de realidade. Parece-te que estou falando de poesia?

II
Todas as artes são manifestações diversas da poesia — inclusive, às vezes, a própria poesia.

III
Repara: todo esse atafulhamento das nossas igrejas barrocas apenas poderá significar as complicações ingênuas da fé popular... Fiquem os racionalistas com as paredes nuas e as colunas hirtas. O classicismo pode ser muito lógico, mas é antinatural.

IV
E depois, por que motivo há de a arte clássica significar perfeição? Essa Perfeição, com P maiúsculo, não seria apenas um nome que os bárbaros davam, supersticiosamente, aos padrões de beleza dos civilizados?

V
Em Picasso, em certos Picassos, a boca, a face, o perfil, as orelhas reajuntam-se, não arbitrariamente e sim para formar uma harmonia nova, de maneira que o seu arreglo final não nos amedronta como um monstro, mas tranquiliza-nos como uma obra clássica. Na poesia há muito já acontecia assim, como na montagem de imagens aparentemente heteróclitas e anacrônicas da “Salomé” de Apollinaire e que, no entanto, serviam para formar a atmosfera dançante, luxuosa, versátil e aérea daquele poema. E foi preciso quase cem anos para que o cinema, como no 8 1/2 de Fellini, se integrasse também na poesia. Em resumo: não o desprezo da lógica, mas a aceitação da lógica imagista — o que, como todo verdadeiro modernismo, é tão velho como o mundo, porque usa apenas a velha linguagem dos sonhos e das histórias de fadas.

Mário Quintana, em Caderno H

Escrever ao sabor da pena

Esta frase me ficou na memória e nem sequer sei de onde ela veio. Para começar, não se usa mais pena. E depois, sobretudo, escrever à máquina, ou com o que seja não é um sabor. Não, não estou falando de procurar em si próprio a nebulosa que aos poucos se condensa, aos poucos se concretiza, aos poucos sobe à tona — até vir como num parto a primeira palavra que a exprima.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

O Homem que Calculava | Capítulo 24



Impressão desagradável causou em meu espírito a ameaçadora presença de Tara-Tir. O rancoroso xeque, que estivera durante longo período ausente de Bagdá, tinha sido visto, ao cair da noite, em companhia de três sicários, rondando a rua em que morávamos.
Alguma cilada ele preparava, na certa, contra o incauto Beremiz.
Preocupado com seus estudos e problemas, não percebia o calculista o perigo que o acompanhava como uma sombra negra.
Falei-lhe da presença sinistra de Tara-Tir, e recordei-lhe os avisos cautelosos do xeque Iezid.
Todos os receios são infundados — respondeu-me Beremiz, sem ponderar detidamente o meu aviso. — Não posso crer nessas ameaças. O que me interessa no momento é a solução completa de um problema que constitui o epitáfio do célebre geômetra grego Diofante:
Eis o túmulo que encerra Diofante — maravilha de contemplar! Com artifício aritmético a pedra ensina a sua idade.
Deus concedeu-lhe passar a sexta parte de sua vida na juventude; um duodécimo, na adolescência; um sétimo, em seguida, foi escoado num casamento estéril. Decorreram mais cinco anos, depois do que lhe nasceu um filho. Mas este filho — desgraçado e, no entanto, bem-amado! — apenas tinha atingido a metade da idade do pai, morreu. Quatro anos ainda, mitigando a própria dor com o estudo da ciência dos números, passou-os Diofante, antes de chegar ao termo de sua existência.”(1)
É possível que Diofante, preocupado em resolver os problemas indeterminados da Aritmética, não tivesse cogitado de obter a solução perfeita para o problema do rei Hierão, que não aparece indicado em sua obra.
Que problema é este? — perguntei.
Beremiz contou-me o seguinte:
Hierão, rei de Siracusa, mandou ao seu ourives certa porção de ouro para a confecção de uma coroa que ele desejava oferecer a Júpiter. Quando o rei recebeu a obra acabada, verificou que ela tinha o peso do metal precioso fornecido, mas a cor do ouro inspirou-lhe a desconfiança de que o ourives tivesse ligado prata ao ouro. Para pôr a limpo a dúvida, consultou Arquimedes, o grande geômetra.
Arquimedes, tendo verificado que o ouro perde, na água, 52 milésimos do seu peso, e a prata 99 milésimos, procurou saber o peso da coroa mergulhada na água e achou que a perda de peso era em parte devida a certa porção de prata adicionada ao ouro.
Conta-se que Arquimedes pensou muito tempo, sem poder resolver o problema proposto pelo rei Hierão. Um dia, estando no banho, descobriu o modo de solucioná-lo, e, entusiasmado, saiu dali a correr para o palácio do monarca, gritando pelas ruas de Siracusa: Eureca! Eureca! — o que quer dizer: Achei! Achei!
No momento em que assim conversávamos, veio visitar-nos o capitão Hassã Muarique, chefe da guarda do sultão. Era um homem corpulento, muito expedito e serviçal. Ouvira narrar o caso dos trinta e cinco camelos e não parava, por isso, de exaltar o talento e a habilidade do Homem que Calculava. Todas as sextas-feiras, depois de passar pela mesquita, ia visitar-nos.
Nunca imaginei — declarou, depois de exprimir a sua profunda admiração — que a Matemática fosse tão prodigiosa. A solução do problema dos camelos deixou-me encantado.
Ao perceber o entusiasmo do turco, levei-o até a varanda da sala que dava para a rua, enquanto Beremiz procurava nova solução para o problema de Diofante, e lhe falei do perigo que corríamos sob a ameaça do odioso Tara-Tir.
Lá está ele — apontei — junto à fonte. Os homens que o acompanham são assassinos perigosos. Ao menor descuido seremos apunhalados por esses bandidos.
Pela honra de Amine!2 Que me diz?! — exclamou Hassã. — Eu não podia imaginar que tal ocorresse. Como pode um bandido perturbar a vida de um sábio geômetra? Pela glória do Profeta! Vou já resolver esse caso.
Voltei ao quarto, deitei-me e pus-me a fumar, tranquilo.
Uma hora depois recebi o seguinte recado de Hassã:
Tudo resolvido. Os três assassinos foram executados sumariamente. Tara-Tir apanhou 8 bastonadas, pagou multa de 27 cequins de ouro e foi intimado a deixar a cidade. Mandei-o, com uma escolta, para Damasco.”
Mostrei a carta do capitão turco a Beremiz. Graças à minha eficiente intervenção poderíamos, agora, viver tranquilos em Bagdá.
É interessante — sentenciou Beremiz. — É realmente curioso! Essas linhas escritas pelo nosso bom amigo Hassã fazem recordar uma curiosidade numérica relativa aos números 8 e 27.
E como eu demonstrasse surpresa ao ouvir aquela observação, ele concluiu:
Excluída a unidade, 8 e 27 são os únicos números de cubos iguais, também, à soma dos algarismos de seus cubos. Assim:

83 = 512
273 = 19.683

A soma dos algarismos de 512 é 8.
A soma dos algarismos de 19.683 é 27.3
É incrível, meu amigo! — exclamei. — Preocupado com os cubos e quadrados, esqueceste que estavas ameaçado pelo punhal de um perigoso assassino!
A Matemática, ó Bagdali — respondeu tranquilo —, prende-nos tanto a atenção que, às vezes, alheamo-nos de todos os perigos que nos rodeiam. Lembra-se de como morreu Arquimedes, o grande geômetra?
E, sem aguardar resposta, contou-me o seguinte e curioso episódio da História da Geometria:
Quando a cidade de Siracusa foi tomada de assalto pelas forças de Marcelo, general romano, achava-se o geômetra Arquimedes absorto no estudo de um problema, para cuja solução havia traçado uma figura geométrica na areia. Ali se achava o geômetra, inteiramente esquecido das lutas, das guerras e da morte. Só a pesquisa da verdade é que lhe interessava. Um legionário romano encontrou-o e intimou-o a comparecer à presença de Marcelo. O sábio pediu-lhe esperasse algum tempo, para que pudesse concluir a demonstração que estava fazendo. O soldado insistiu e puxou-o pelo braço: “Veja onde pisa” — disse-lhe o geômetra. “Não me apague a figura!” Irritado por não ser imediatamente obedecido, o sanguinário romano, com um golpe de espada, prostrou sem vida o maior sábio do tempo. Marcelo, que havia dado ordens no sentido de ser poupada a vida de Arquimedes, não ocultou o pesar que sentiu ao saber da morte do genial adversário. Sobre a laje do túmulo que erigiu, mandou gravar uma esfera inscrita num cilindro, figura que lembrava um dos teoremas do célebre geômetra.
E Beremiz concluiu, acercando-se de mim e pousando a mão sobre o meu ombro:
Não achas, ó Bagdali, que seria justo incluir o sábio siracusano entre os mártires da Geometria?
Que poderia eu responder?
O fim trágico de Arquimedes trouxe-me novamente à lembrança a figura indesejável e rancorosa de Tara-Tir, o pérfido invejoso.
Estaríamos, realmente, livres daquele sanguinário vendedor de sal? Não poderia ele voltar, mais tarde, da velha Damasco?
Junto à janela, os braços cruzados sobre o peito, Beremiz, com certo ar de tristeza, observava, descuidado, os homens que passavam apressados em direção ao mercado.
Achei interessante interferir em seus devaneios e arrancá-lo daquela nostalgia, e perguntei-lhe:
Que é isso? Está triste? Sente saudades de sua terra ou está planejando novos cálculos?
E insisti, em tom de gracejo:
Cálculos ou saudade?
Ora, Bagdali — respondeu-me Beremiz, com seu imperturbável bom humor. — A saudade e o cálculo andam sempre entrelaçados. Já disse um dos nossos mais inspirados poetas:

A Saudade é calculada
Por algarismos, também:
Distância multiplicada
Pelo fator querer-bem.(4)

Não acredito, porém, que a saudade, depois de reduzida a uma fórmula, seja calculável com algarismos. Por Alá! Quando eu era menino ouvi, muitas vezes, minha mãe, encerrada no harém de nossa casa, cantarolar:

Saudade, velha canção
Saudade, sombra de alguém,
Que os tempos só levarão
Se me levarem também!(5)

Notas:
(1) Em linguagem algébrica esse problema pode ser traduzido por uma equação do 1.º grau com uma incógnita.
(2) Mãe do profeta Maomé.
(3) Os números 17, 18 e 26 apresentam propriedades idênticas em relação aos algarismos de seus cubos, mas não são cubos.
(4) Trova de Manuel Bastos Tigre (1882-1957), poeta pernambucano de alta inspiração.
(5) Trova de Fernandes Soares, poeta paulista. Uma das figuras de maior destaque na poesia moderna do Brasil.

Malba Tahan, em O Homem que Calculava

07/06/2026

Argila | Carlinhos Brown e Orquestra Ouro Preto

Desprezo e bajulação

Os homens desprezam uns aos outros, porém se bajulam. Desejam se elevar, porém se rebaixam.

Marco Aurélio, em Meditações

O impagável Quino

Diário de Bernardo Soares

113.

Dois, três dias de semelhança de princípio de amor…
Tudo isto vale para o esteta pelas sensações que lhe causa. Avançar seria entrar no domínio onde começa o ciúme, o sofrimento, a excitação.
Nesta antecâmara da emoção há toda a suavidade do amor sem a sua profundeza — um gozo leve, portanto, aroma vago de desejos; se com isso se perde a grandeza que há na tragédia do amor, repare-se que, para o esteta, as tragédias são coisas interessantes de observar, mas incómodas de sofrer. O próprio cultivo da imaginação é prejudicado pelo da vida.
Reina quem não está entre os vulgares.
Afinal, isto bem me contentaria se eu conseguisse persuadir-me que esta teoria não é o que é, um complexo barulho que faço aos ouvidos da minha inteligência, quase para ela não perceber que, no fundo, não há senão a minha timidez, a minha incompetência para a vida.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Nono caderno de Kindzu | Apresentação de Virgínia



Minha discordância com Quintino começou antes sequer de partirmos. No dia combinado para sairmos para o mato ele não compareceu. Esperei em vão. Procurei aquele que me iria guiar e que agora parecia estar perdido. E realmente ele estava sem prestar acordo. Deitado num velho muro, ventre inchado, embriagordo. Atordoído, titupiante, Quintino se explicou:
Hoje sou cobra com cócega na barriga: não saio do lugar.
Porquê se embebou tanto, Quintino?
Estive com Romão Pinto, é por isso bebi.
Quem é esse Pinto?, perguntei.
Não lembra? É o colono, meu patrão. Aliás, meu ex-antigo.
E agora?
Agora tenho de beber mais, respondeu.
Desisti. Minha saída da vila estava adiada por uns dias. Decidi espreitar a velha Virgínia, conhecer aquela que fora a segunda mãe de Farida. Quem sabe ela teria informação sobre Gaspar? Cheguei e fiz espera, semioculto, lembrando o conselho de Quintino:
Se passar daqui não se mostre. A velha não gosta.
A manhã foi subindo até que Virgínia lá saiu e se encostou no muro do quintal. Fiquei ali horas perdidas, espreitando a uma distância, entre os verdes-escuros das mafurreiras. O que vi ali me encheu de fantasia, estórias de reaver este mundo onde não cabemos. Apresento a velha Virgínia. Como se ainda a estivesse vendo, no actual hoje. Acrescento o que dela me disseram, em pinceladas de retrato. Entre mim e a idosa senhora a estrada se espreguiça sem nenhum fazer. Na margem dessa estrada eu me sento, retiro meu caderno e escrevo ali mesmo como se receasse que seu desenho me fugisse.
Dona Virgínia Pinto. Ali estava ela, varandeando no exercício de sua última meninez. Em nenhuma data os carros por ali poeiram. As cidades agora são muito longe, a guerra rasgou os cantos da terra. A portuguesa se vai deixando em tristonhas vagações. Branca de nacionalidade, não de raça. O português é sua língua materna e o makwa, sua maternal linguagem. Ela, bidiomática. Os meninos negros lhe redondam a existência, se empoleirando, barulhosos, no muro. Ela nem zanga.
E me contam assim: que Dona Virgínia amealha fantasias, cada vez mais se infanciando. Suas únicas visitas são essas crianças que, desde a mais tenra manhã, enchem o som de muitas cores. Os pais dos meninos aplicam bondades na velha, trazem-lhe comida, bons-cumprimentos. A vida finge, a velha faz conta. No final, as duas se escapam, fugidias, ela e a vida.
Dentro do quintal, tudo é bravio, o mato em minifúndio. Silvestram-se as flores, mais espinhos que pétalas. Os capins já lhe chegam pelos ombros. Ela nem repara a urgência de aparar o capinzal.
Não é a relva que cresceu. Fui eu que adimininuí.
Também a casa lhe parece maior. Agora, ela quase se perde no inaposento. A cama de casal é uma extensão muito enorme, acrescentando solidão na viuvice dela. Seu marido, Romão Pinto, se retirou da vida vai fazer dez anos. Do defunto esposo ela não guarda senão o inverso da saudade. Um pressentimento que ele haverá ainda de chegar, fosse o falecido não um ente do passado mas do porvir. Os vizinhos se admiram com essa falha em sua lembrança. No princípio, acreditavam ser desbotura da memória dela. Coitada, o hoje é para ela mais antigo que o anteontem, diziam. Mas, depois, se convenceram de que outro problema se tratava. Porque Virgínia seguia teimando na ideia de um noivado ainda por estrear. No lugar do suspiro saudoso ela punha a ânsia do há-de vir.
Quando eu for da idade de casar esse homem me vai chegar.
Os vizinhos não variavam: a velha durava mais que a validade de seu corpo. Deixassem seu sonho enlouquecer. E perguntavam, entre risos: o grilo, quando nasce, já tem a toca feita? É assim a velhice. Virginha que trocasse passado por futuro, sonhasse não com o fim da vida mas com as nascenças que lhe faltavam. Tudo isso que importava?
Sabem o motivo das orações dela? A gaja reza para não continuar a diminuir de tamanho.
E reproduziam as longas-lengas dela: Santíssimo Padre, se eu continuar a minguar, nem o cavaleiro Romão me notará quando passar por estas bandas. E repetia, de si para si, desencostadas frases: ontem, quando eu morrer. Virgínia, Virginha, Virginhinha: o povo lhe indistinguia variedades do nome. E todos se condoíam de sua velhice como de uma orfandade se tratasse.
Uma ocupação lhe dava fazer: criava sapos no quintal. De dia deixava as moscas patinharem os vidros das janelas. À tarde, juntava-as numa caixa e lhes tirava as asas, uma a uma. Chegada a noitinha ela saía de casa e espalhava as desasadas moscas pela relva. Chamava os batráquios por nomes, sortidos de sua autoria.
Que vai ser deles quando eu morrer?
Fosse, quem sabe, essa a ideia dela: haver alguém neste mundo que lhe desse falta. O sol se vai devagarinhando, parece uma das moscas a quem a velha cortara as asas subindo pelas horas do dia. A velha se deixa ficar, misturando a sua sombra com a do velho muro, olhando a vida como um lugar que já foi seu. O certo é sabido: na seguinte manhã os meninos regressam, subitamente calados, e se envoltam nela.
Cuidado, crianças. Não me pisem os sapos.
Uns lhe penteiam as névoas, outros lhe cortam as unhas, outros ainda lhe corrigem os cuspos no queixo. Ela se deixa, dissolvida, sonambulada num fecha-te sésamo. Os meninos lhe pedem: avó, conta estória. Virgínia sorri. Eles lhe chamam de avó. Como ela se embeleza com aquela palavrinha: avó!
Qual querem, meus filhos?
Conta aquela do pai de seu pai.
Virginha sorri, grata dos meninos se introduzirem em sua família como se eles fossem tão antigos como ela. Depois, vai soltando lembranças que escorrem como lento óleo. Saltita do português para o makwa, já não distingue sua original versão.
Como chamava o mucunha, quem lembra?
Mucunha Curucho, responde a miudagem numa só voz.
Ela acena, em festa: isso, o senhor Cruz, seu avô, homem frequente em terras do outro lado da montanha. Sua única obra havia sido um farol. Os meninos se disputam, todos querendo mexer na fábula da velhinha.
Mas esse farol dele, afinal vavó? Se o mucunha vivia lá nos interiores, onde mar nem chega...
Não acreditam?
Ela amuada, se desliga. As crianças lhe entregam mimos, rogam para que prossiga. Ela, nada. Por fim, eles aceitam a verdade dela. Sim, um farol. Um, próprio. Seja perto ou longe do mar, quem proíbe os faróis de nascerem onde bem entendem? Pois, esse farol: desempregado, nem de vista conhecendo nenhum barco.
E para quê o mucunha precisava um farol dele?
Era promessa que ele jurara da vez que sobrevivera a um naufrágio. No enquanto da estória, o dito avô ia perdendo o nome, saltitando de morada e profissão. As falas de Virgínia não se acertavam. Os meninos, por vezes, corrigiam: o mucunha Curucho, não esqueça vavó. Mais Virgínia repete os contos mais a verdade se resvala: o avô Cruz de olhos louros, hoje; amanhã um negro de rosto carapinhoso. A criançada nem se importa. Verdade, em infância, é um jogo de brincar. Em redor da anciãzinha, os miúdos sempre folgam, sem desilusão. Com gesto largo, ela pede menos barulho. Deixassem chegar, audíveis, as ordens de Deus. Que Ele é quem mandava os viventes descansarem.
Vocês com vosso barulho nem me deixam ouvir a ordem Dele. Se calhar, até já me mandou descansar, nem dei por isso...
Terminadas as estoriazinhas, a velha leva a criançada ao poço. Vão em excursão, passarinhando. Chegados ao pátio vizinho, Virginha repete o mesmo ritual: pede aos meninos que lancem uma pedra no poço.
É para ver se ainda tem água, vavó Virginha?
Ela não responde. Pega numa pedra e atira na boca escura da terra. Lá, do fundo húmido, responde um lamento. Depois, sobe um canto, tche-tche-tchém. É um barulho, surdimudo, que vai crescendo.
O que é isso, vavó?
É a água chorando.
E por que chora?
A água chora com pena de uma viúva que perdeu seu marido, vítima de maldição.
E essa viúva quem é, vavó?
Não sei, meus filhos, essa mulher parece já morreu, faz conta foi há tantíssimo tempo.
Eram as palavras dela fechando o dia.
Pouso os cadernos e espreito a portuguesa. Vou refazendo a velha Virgínia enquanto ela, alheia e distante, está no outro lado da estrada, à mão de semelhar. Está tão perto que não resisto a me chegar mais, ouvir sua voz cheia de tempo. Atravesso a estrada, desobedeço das instruções de Quintino. A velha só quer ser visitada por infâncias? E se eu me mostrar criança, quem sabe ela me aceita? Estou quase junto a ela, chamo por seu nome. A velha levanta o rosto, fresteja os olhos para me enfrentar.
Quem tu és?
Sou Kindzu. Quero falar com a senhora...
Falar?
Quero saber de Gaspar. Se lembra dele, Dona Virginha?
A velha se alheia, passa os dedos pelo rosto em exame das minúcias. Toca os lábios e depois, tirando a língua de fora, pergunta:
Vês a minha língua?
Vejo. Porquê?
É que a minha língua está a aumentar de tamanho.
Ri-me, inesperado. Séria, ela argumenta: a tua língua também há-de aumentar quando fores velho. Ou será que é o resto da cara que diminui com o tempo?
Não lembra, Farida?
Com a língua assim não posso lembrar nada.
A velha brincava-me. Então me excedi, em altos tons. Falei em desordem, com pronúncia que me vinha do peito. Disse tudo. Que vinha por causa de Farida, tinha sido ela que me pedira que procurasse seu filho dela.
Não diga que não se lembra de Farida. Não posso acreditar que tenha esquecido.
Dona Virgínia bastante se admira com meus modos, me puxa pelos braços para dentro de casa. Está com nervos na flor da pele. Me ordena silêncio, enquanto segredeia:
Não posso falar aqui.
Porquê?
Senão esta minha casinha se enche de fantasmas.
Falamos onde, então?
Vamos para minha antiga casa. Me faça uma coisa, entretanto: me chama de vovó. Para eu lhe ver como uma criança.
E fomos ao passo lento de Virgínia. No caminho ela me confessa seu medo: nunca tinha regressado ao velho casarão. Por isso, quando chegamos prefere não entrar. Ficamos os dois nas escadas da moradia colonial. Sentamos nos degraus. Virgínia recorda seu cruzamento com Gaspar, o menino de Farida. Lembra uma incerta manhã, alguém batendo em sua janela:
Vavó: está um menino morto no seu quintal.
Virgínia acorreu às traseiras e viu um corpo estendido entre os capins. Não estava morto. Apenas dormia, exausto. Ela confirmou que o menino ainda estava vivo mas não o apanhou nem amparou. Foi buscar uma pá e atirou-lhe com terra, enquanto dizia:
Morre, meu menino. É melhor morrer-se, enterradinho, que ficar aqui. É que esta vida não dá acesso aos meninos.
As outras crianças chegaram e lhe viram sepultando o vivo. Se intrometem, suspendendo a intenção da velha.
Vavó, deixe ele viver! Só um bocadinho!
Para o quê?
Para ele nos contar a estória dele.
Virginha duvidou, mas concorda. E assentaram. O intruso que se mantivesse e repousasse até se recompor da palavra. Que eles andavam carecidos de novidades, dessas que vale a gente acreditar. Os meninos e a velha se conluiaram: nós lhe curamos e alimentamos e depois matamos, ninguém mais vai pôr ouvidos na narração dele. Fica estória só nossa. E se ajustaram:
Lhe guardamos no poço, amarradinho para não fugir.
O poço estava seco, devido da ausência das chuvas. Levavam-lhe comidas, lhe trocavam os trapos já molhados e fedorentos. Outro qualquer teria esvanecido. Mas Gaspar era constituído, moço de suar e ressoar. Mesmo dentro do húmido poço ele foi ganhando forças, sua pele se rebrilhou. Quando, de noite, lhe tiravam das funduras ele se mantinha calado, dobrado e vincado. Os meninos, olhos cheios, punham nele toda a expectativa. Mas ele demorava a soltar a voz.
Vão ver é mudo.
Desencadearam-se então grandes chuvadas, dessas de encher todos os mares. Virgínia pensou no poço, Gaspar-zito no fundo. Os meninos foram com ela ver se a água já cobrira o buraco do poço. Ainda não. A chuva torrenciava, quase nem se via um palmo mesmo em noite de lua plena. Espreitaram, nada viram. Escutaram: só o timbiliar das gotas no fundo. Já se retiravam quando uma voz lhes chamou. Era Gaspar que gritava. Tinha-se decidido a falar. Foi uma geral exclamação, um plenário de alegrias. A velha ordenou que juntassem forças e, no puxar-junto, retiraram o miúdo do poço. Estava encharcado, tremia dos pés aos cabelos.
Tenho frio, foi a primeira coisa que disse.
Deram-lhe um agasalho e ordenaram: conta, conta uma estória. Fizeram uma roda à volta dele. Um dos meninos endurou um dedo e avisou:
Ai de ti se não gostarmos da tua estória.
Gaspar começou a medo. Contou a sua vida, sem esconder detalhe. Desfiou prosa por tempo. Quando se calou a chuva tinha parado. Os miúdos se entreolharam. Não tinham gostado, era uma estória triste. Nos dias de hoje, quem quer fantasiar desgraças? Um coro de estridências se levantou clamando para que o contador fosse punido. E que fosse castigo de peso, para aprender no curto resto de sua vida. Relançado no poço e coberto de pedra, sugeriam uns. Outros simplificavam: seja enraizado na horta da avó, volte-se ao princípio da vontade dela. Enquanto os ânimos se enroscavam um silêncio se foi compondo. Todos esperavam a sentença de Virgínia. A velha, contudo, parecia desértica, abstasiada. Os olhos duravam mais que uma tristeza eterna, tanto que doíam de serem vistos. Com um gesto vasto mandou que a meninada se afastasse.
Deixem-me ficar sozinha com ele.
As crianças, surpresas, obedeceram. Saíram pelo escuro, pés lentos de contrariedade. A velha enfrentou o jovem, sem nada pronunciar.
Não posso ir, eu também?, perguntou Gaspar.
Não.
Porquê?
Porque tu és meu filho. Teu pai foi o meu falecido homem, tu és quase-quase do meu sangue.
A velha se ergueu e sacudiu a capulana. Passou o pano pelos ombros do miúdo e lhe disse:
Vem, vamos para nossa casa.
Sentada no degrau de sua antiga casa, Virgínia ajeita o agasalho, resguardando-se do cacimbo da noite. Parou de falar, deixa pelo meio a narrativa. Está preocupada com alguma coisa, não sei qual.
E depois, vovó, o que aconteceu?
Esse menino ficou só uns dias em minha casa. Depois, fugiu ninguém sabe para onde.
Ele sabia de tia Euzinha?
Sabia. Se calhar foi ter com essa tia.
A portuguesa aponta para uma grande mangueira. Era aquela a árvore em que ela e Farida se sentavam lendo as cartas. Seus olhos estão carregados de saudade. Súbito, Virgínia me manda calar.
Shuut, vem aí alguém.
Não ouço nada. É um espírito, diz a velha. Não. Não é alma nenhuma. É o administrador da localidade, o próprio. É ele que vem vindo, escondido pelos atalhos. Virgínia se interroga, em sussurro. O que vinha ele ali fazer, a uma hora daquelas? Resposta que só tive mais tarde quando Quintino me contou a verdade dos acontecimentos. O que se passava sem que eu nem Virgínia soubéssemos eram atribulações que agora posso descrever.
Disfarçado na escuridão dos trilhos, o administrador Estêvão Jonas desconhecia o fim da sua pressa. A mensagem lhe chegara por vias atravessadas. Fora o tal Quintino que lhe trouxera o recado. Dizia que ele, o camarada-em-chefe, se deveria conduzir para casa do falecido Romão Pinto, residência igualmente falecida por nela só habitarem as vozes dos malquistos.
Chegara ao pátio da velha casa. As árvores se sujeitavam às mágoas da ventania, que o vento nunca se levanta contente. Os cães uivaram, o administrador estremeceu. Por que razão aqueles bichos se intransigem em noites que tais? Será que o cão escuta um outro uivo na lua? Estêvão Jonas tossiu alto, mais para se confirmar, esmaltado por fora mas alcatifado de medo por dentro. Naquele instante, ele tinha mais freios que dentes. Avançava colado nas paredes, forrado nelas como o deslizar de uma sombra. Num repente, saltou em danado susto. De dentro do casarão chegaram estrondos de madeira, caixas batendo em todos os sons. Havia alguém roubando as heranças do malvado colono?
Por momentos, pensou que o atinado seria chamar o seu miliciano. Não por motivo de medo mas derivado da conceituada importância da sua sobrevivência. Nesse vai-que-vai reconsiderou. Afinal, o mensageiro tinha sido claro: ele teria que se apresentar sozinho, mais ninguém deveria saber.
Estava na soleira de um adiado passo quando as portas se abriram de chofre e eis que, visão dos infernos, apareceu o falecido Romão Pinto carregando às costas o seu próprio caixão. O administrador disparou numa correria, trepando arbustos, galgando pedras, para além das humanas velocidades. Estrumando-se numa valeta próxima ele se extinguiu, escuro no escuro. O defunto se aproximou e não esteve com medidas:
Levanta-te e ajuda-me a carregar esta merda deste caixão.
Estêvão não tinha boca para tanto espanto. Porém, ainda acumulou força para responder:
Não sou um qualquer de carregar.
Não és o quê? Deixa-te de calcinhices e agarra mas é desse lado. Vá!
Estêvão mediu as condições, aplicou as mais dialécticas análises, segundo os sábios ensinamentos do materialismo. Podia ele enfrentar um fantasma? O melhor seria aceitar o sem-remédio da circunstância. E oferecendo as costas, levantou a caixa. O colono, enquanto caminhava, lhe explicava: o caixão era para oferecer ao povo. Todos dão donativos aos pobres. Aquela era a sua solidariedade. Desperdício seria a coisa ficar ali, simples caixão-de-correio entre vida e morte.
Arrumaram o desocupado féretro na arrecadação. Com um empurrão o antigo colono fez sentar o administrador. E conversaram até madrugada. Que falaram? Ninguém sabe o certo. Mas parece que o Romão deitou muita dúvida sobre o futuro de Estêvão. Naquele regime que segurança tinha o futuro? Amanhã ele recebia o devido pontapé nas partes adequadas e ninguém mais se lembraria dele. O moçambicano ripostou, quisesse o estrangeiro ensinar o Padre-Nosso ao vigarista.
Eu tenho os meus esquemas, Romão. Não pense que somos burros, como sempre vocês insistiram.
Esquemas, qual o quê. Uns negócios de tigela furada, coisa de pouco brilho. Umas cervejitas de lata amontoadas no passeio? O colono roubava o lustro da iniciativa do administrador. Naquele solene assento, o português lhe prometia coisa grossa, choruda. A ideia sendo a seguinte: que ele mesmo, óbito reconhecido, ainda por cima carregado de raça e nacionalidade, não mais podia reaver seus antigos negócios.
Já bastava ser branco, ainda por cima portuga. Agora, tudo isso e falecido é que não vale a pena.
Necessário seria que Estêvão despachasse assinatura mais seu rosto devidamente originário à frente do empreendimento e os cordéis correriam que nem saliva em boca gulosa.
Mas e o capital?, se entusiasmava o administrador.
Esse o problema. Havia dinheiro, fora e dentro. Bastante, mais até que bastante. Mas do falecimento em diante, tudo passara para o nome de Virgínia, a tonta viuvinha. Estêvão Jonas lançou a risada:
Nós tendo-lhe pena e, afinal, a velha cheia da mola!
Romão bateu na parede: sim, a maldita estava podre de rica. A dúvida que permanecia era se ela estava mesmo esmiolada, na posse de suas plenas fraquezas? Porque havia que a convencer a assinar uns cheques, movimentar as massas de bons modos.
Mas ela está doente, Romão.
Ou faz-se?
Não sei. Uma coisa é certa: temos que cuidar dela, a velha não pode pifar-se.
Mas a gaja está assim tão velha?
Na pele dela já há lugar para mais nenhuma ruga.
E os dois se acresciam do valor da idosa senhora branca. Ela não se podia apagar, havia que proteger a assinatura das papeladas bancárias. Entretanto, se arranjaria maneira de a convencer. Combinaram as necessárias políticas: Estêvão Jonas devia seguir uma política de ofensa e ofensiva. Deveria manter aceso o assunto da raça, proclamar os privilégios da maioria racial.
Mas dessa maneira lhe prejudico, Romão.
Ao contrário, meu caro sócio.
E justifica: assim ninguém desconfiaria do pacto feito com um branco. O português parece ter meditado no assunto em sua estada pela inexistência. E desenrola mais conselhos:
Dás umas discursatas contra a brancalhada. Só para disfarçar.
Para não chocar nas vistas, até dava graça. Um regime ganha validade, caro Estêvão, é quando contra argumentos não há factos. Mas uma coisa devemos acertar: o povinho discursa lá nas banjas mas decidimos nós é aqui, neste mesmo lugar, compreendes, Estêvão Jonas? Não há mais nada para ninguém, o diabo seja bruto e cego. E falemos baixinho que as paredes têm mais orelhas que o elefante.
E o morto reentra na obscura casa. Estêvão Jonas fica a vê-lo a extinguir-se. Seu sorriso é o de um vencedor. Ainda há pouco ele se acobardava. Agora, o dirigente goza um sentimento de comando que há muito não experimentava. Lá na administração não passava nenhuma das rédeas que faz mudar o destino. E é assim, confiante que nem estátua de herói, que apanha o maior susto. Carolinda, sua bela esposa, lhe surge entre escuros arbustos.
Que veio aqui fazer, Estêvão?
O administrador, tartamudo, se desculpa: que nada, se tratava de um passeio digestivo para temperar o estômago.
Onde está a mulher com quem você se encontrou?
Estêvão Jonas ri, aliviado. Então é isso? A esposa, sempre alheia e abstraída, acredita que ele se veio encontrar com uma amante? O dignitário sente-se orgulhoso. Os inesperados ciúmes da esposa lhe levantam a crista, galo subitamente galante. E tranquiliza a esposa, lhe conta o sucedido, acordos e sociedades com o pseudofalecido. Pior foi a emenda:
Agora te apanhei, Estêvão. Você está combinado com os antigos colonos.
Combinado como?
Sempre eu dei o nome certo à tua função: você é um administraidor!
Afinal que moral era a dele? O administrador contrargumenta: ninguém vive de moral. Será, cara esposa, que a coerência lhe vai alimentar no futuro?
Você, Estêvão, é como a hiena: só tem esperteza para as coisas mortas.
Essas suas palavras já são canto de sapo.
O povo vai-te apanhar. Não voltas mais a esta casa, senão te denuncio.
Como não volto? Agora eu e Romão Pinto temos negócios, somos sócios. Tenho que vir aqui. Ou não diga, mulher, que quer que ele vá até lá na administração?
Carolinda lhe avisa: ele estava a subir a árvore pelos ramos. A bronca quando viesse era para valer. Afinal um bruxo é apanhado por outro bruxo.
Não sabe, Estêvão? Casas juntas, ardem juntas.
O administrador lhe pede que ferva baixinho, ainda vinham parar ali indevidas curiosidades. Paternal lhe aconselha bons-sensos: ela era esposa de um africano, devia beneficiar de estar calada, subordinadinha. Devia até ficar contente pois a riqueza que viesse seria para dividir pela família e os parentes dela se vantajariam também.
Não quero esse dinheiro. Nem minha família aceita dinheiro sujo. Você há-de pagar essa traição.
Mas Carolinda, se acalme. Isto são contradições no seio do povo...
Vá-se embora, Estêvão. Eu não lhe quero ouvir.
Tem que me ouvir.
Vá-se, senão eu grito, grito até isto se encher de gente.
O administrador se retira com alguma pressa. Antes de desaparecer no escuro ainda olha para trás e se admira com o tamanho da sombra de Carolinda. É uma sombra enorme que se projecta no enorme casarão. Se o administrador, antes de retirar, tivesse posto menos medo e mais atenção teria visto Virgínia se erguendo nos degraus da escada. Chamei a sua atenção. Virgínia, com um gesto, me faz sentir que não há perigo, Estêvão já ali não está. Ela anuncia sua retirada:
Já vou. É hora de dar comida aos meus sapos.
Eu vou consigo, lhe faço a companhia.
Não, eu não quero que você seja visto comigo.
E porquê?
Não esqueça eu sou uma velha tonta, não falo com gente crescida. Só mereço confiança das crianças. Sabe o que ando a adivinhar? Que o Romão quer que eu assine papéis autorizando dinheiros. Como é que posso assinar um papel? E dinheiro, eu sei o que é dinheiro? Não faço nenhuma ideia. Me entende, Kindzu?
Sim, agora eu entendia as extravagâncias da portuguesa. A dita loucura dela era seu refúgio mais seguro. E lhe fiquei a olhar enquanto ela se despedia pela estrada escura. Carolinda escutara nossas vozes. Se aproximou, desconfiada.
Afinal, é você?
Me levantei e lhe acariciei os braços. Ela se anichou, com um estremecer de ave. Mas depois, se endireitou, rectificada:
Não podemos ficar aqui. Meu marido me desconfia muito.
Vamos para onde, então?
Vamos para dentro de casa.
Me arrepiei. Neguei com tanta determinação que ela sorriu: será que eu acreditava em ressuscitação de falecidos? Eu queria justificar as presenciadas visões que tivera mas ela nem deixou que falasse. Que estava certo, disse. Ficássemos ali mesmo, em plena escadaria. Sentámos em degraus consecutivos, ela se encostou em mim. Um volume em meu bolso me chamou a atenção. Era o colar que Carolinda esquecera da primeira vez que fizéramos amor. Balancei o fio em frente de seus olhos e perguntei:
Se lembra disto?
Ela riu. Se lembra dos momentos na cadeia quando ela me libertou. E lhe chegam as palavras de despedida total, o seu desejo de que eu me tornasse inatingível. Mas eu ali estava, mais possível que nunca. E ela se esfrega com doçura no meu peito. O seu perfume me recordava o odor da sura, uma antiga embriaguez que me vinha da infância. Quando a beijei, porém, me fugiu um outro nome: Farida! Carolinda, de um golpe, se afastou de mim.
Você conhece Farida?
Farida? Não.
Mas me chamou de Farida.
Impressão sua.
Carolinda pareceu acreditar. Suas costas, contudo, ainda estavam tensas. Aquele nome lhe fazia muito mal.
De repente, você me fez lembrar meus dois maridos.
Dois?
Sim, eu já tive um outro que faleceu.
Então, ela falou de suas mágoas, arrastadas águas que encheram a noite. Estêvão vivia torturado pelos ciúmes. Juntava irrazoáveis razões para acusar Carolinda. Passavam as datas históricas, ele nem tinha tempo para lembrar a comemoração. Mas Carolinda lá ia, envergadinha de cerimónia, prestar homenagem aos heróis da luta pela Independência. O administrador interrogava: será que ela ainda lembrava o anterior, falecido marido? Ele morrera na guerra de libertação, Carolinda era ainda uma menina sem idade. Dizem foi emboscado não pelo inimigo português mas por próprios elementos da guerrilha. Deste então Carolinda ficara suspeitosa, ganhando mania de ver traições em todo lado. A mulher insistia: as palavras de um dirigente devem encostar com a sua prática, afinal onde estão os princípios, a razão que pediram aos mais jovens para dar suas vidas?
Mas aquela desconfiança, no final, tinha razão de ser. Não que houvesse um outro homem na vida dela. Não havia era nenhum. O administrador era uma simples ausência. Carolinda não lhe guardava nenhum afecto. Estêvão era hoje um homem de mando, amanhã seria um pau-mandado. Ela seria ainda sua servente, ele continuaria sem sequer a ver. Carolinda repetia: o casamento dela não fora prematuro. Fora pré-imaturo. Ela era criança, com muito medo e nenhum saber. Estêvão lhe dizia: não chora, Carolinda. Não sabes a adolescente que dorme com um homem cresce mais depressa?
Eu, Carolinda, estou a fazer a tua idade, acrescentava.
Mas ela nem queria crescer. Antes de Estêvão chegar, seu único desejo era alguém que a tirasse dali. Matimati era um abafado lugar, uma prisão para seu desejo de sonhar. Carolinda não tivera meninice que se recordasse. Ela queria casar permanecendo menina. Como acontecera, afinal, no primeiro casamento. Se untava de óleos para que a sua pele brilhasse em olhos machos. Mas, ao mesmo tempo, guardava os brinquedos da adolescência. O que ela muito mais queria era ser escolhida, levada daquela miséria. Andava na estrada para ser vista. Mas não parava em nenhuma aldeia para não ser desejada por ninguém daquelas bandas. Estêvão Jonas passou por ali, fardado de guerrilheiro, sacudu às costas. Ela acreditava que aquele homem estivesse de passagem para muito longe, para um mundo invislumbrável. Se ofereceu, dispondo-se a seu agrado. Depois da Independência, ele foi nomeado para chefe da administração de Matimati. Disseram ser coisa transitória. Mas o tempo passava e não chegava nunca a sua transferência. Estêvão nem sequer era dali, não entendia a língua nem os costumes daquela gente. Ele também se frustrava embora nada dissesse. Aceitava porque aprendera a disciplina de obedecer sem questionar. Vendo o tempo passar Carolinda começou a deitar ódio nele. Essa raiva lhe chegava em ondas. Ela queria magoá-lo para que ele despertasse. Fazia-lhe mal porque era uma maneira de ele se mostrar novo, de provar que estava vivo. No mais ele era um mortiço, acanhado de sonhar, medroso de pensar. Estêvão estava cansado de sua militância, exausto por sempre ter que se apagar. Foi então que surgiu na administração uma mulher de nome Farida.
Não era apenas bonita. Sua beleza tocava profundamente Carolinda e lhe fazia um gosto quase de ser homem, poder tocar aquele corpo. Farida vinha ali colocar o caso de seu filho, dado improvável nos matos. Havia centenas de outros casos mas Estêvão pôs naquele uma atenção muito especial. Carolinda, pela primeira vez, sentiu a vertigem do ciúme. Quando tocou o assunto o marido lhe respondeu:
Farida lhe irrita? Se calhar é porque é parecida com você.
O ciúme crescia com gosto em Carolinda. Tanto que a sua entrega na cama se passou a fazer com incendiada paixão. Estêvão se admirava: que se passa consigo, mulher? Mas a tal Farida inesperadamente se retirou de Matimati. Emigrara para um naufragado barco e ali ficara. Aquilo que era simples ciúme se converteu em ódio. O que lhe dava tanta raiva? Era perder o objecto do ciúme? Ou seria inveja da outra estar a caminho de sair daquele inferno? Sim, Farida fugia da pequeninez daquele lugar mesmo que o fizesse pela loucura de embarcar num barco encalhado. Mas sempre era uma viagem, uma saída daquele inferno. Era essa fuga que Carolinda não podia aceitar. Assim, ela se deu a conceber uma vingança contra Farida. Incitava Estêvão a tomar medidas contra o barco, inventando perigos na estada de tal mulher num tal barco. Os homens de Estêvão tinham ido ao navio recolher a melhor parte dos bens? Pois Farida assistira àquele desvio, se preparava para denunciar o caso. Estêvão fingia acreditar e dava desleixadas ordens para que a dita mulher fosse retirada do barco.
Então essa é a tal Farida?
Sim, essa é a razão por que fiquei chocada quando você me chamou com o nome dela.
Mas eu não chamei.
Acredito. É minha cabeça que está presa nessa mania.
Carolinda, de novo, amoleceu em meus braços. Ali nos incómodos degraus do fantasmado casarão, ela estendeu seu corpo com a paixão do fogo e a ternura da terra.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

Boneca triste

Galeria Stvdivs, em Laranjeiras. Hora quase sem movimento. Entra um senhor de cabelos grisalhos e percorre lentamente a exposição de bonecas do século XIX. Para mais tempo diante da peça no 14, examinando-a com atenção. Fala sozinho:
Deve ser essa.
Faz um gesto de carinho no ar, como se tivesse a boneca no colo, e repete:
Tenho quase certeza de que é essa.
Passeia os olhos em redor, à procura de alguém. Aproxima-se uma jovem, que pergunta:
O senhor deseja alguma coisa?
Desejo sim. Pode me informar se essa boneca anda?
Pois não. Embora não tenha pernas articuladas, ela anda. E tem choro.
Choro? Tem certeza de que ela chora, em vez de rir?
Olhe, cavalheiro, nunca vi boneca dando risada. E esta não é a única chorona da coleção, veja bem. A de no 7, do fabricante alemão Handwerk, também tem choro, se o senhor puxar o fio.
A vida é dura também para as bonecas, eu sei. Pois olhe, estava quase jurando que esta ria. Não estrondosamente, é claro, mas ria. É tão parecida, se não for a mesma.
Parecida com qual?
Com outra do mesmo tipo, mesmos cabelos, que comprei há muitos anos numa loja de antiguidades da rua Chile. A loja do Marques dos Santos, lembra-se?
Acho que não sou desse tempo… O professor Marques dos Santos, é?
Ele mesmo. Uma boneca francesa como essa aí, com assinatura incompleta.
Essa também tem assinatura incompleta: Paris 501.
Então é a mesma!
Perdão, esta pertence a d. Sylvie Renault, e veio diretamente da Europa.
A senhorita garante que veio diretamente?
É o que está na ficha. Não há razão para duvidar.
Não estou duvidando. Estou procurando me esclarecer.
Desculpe, mas que interesse tem o senhor nisso?
A senhorita vai zombar de mim se eu lhe disser.
Absolutamente. Pode falar à vontade.
A senhorita acredita… na alma das bonecas?
Hem?
Eu não disse que ia zombar? Estou vendo pelo seu sorriso.
Bem, achei a pergunta engraçada, mas não tive intenção de zombaria.
Todos acham a pergunta engraçada. Por isso mesmo eu não a faço mais a ninguém. Agora, no meio de tantas bonecas, e vendo o seu interesse em me ser útil, eu me animei… Desculpe, estamos conversados.
Não. Continue. Fale na alma.
Das bonecas? Aquela a que me refiro tinha alma, uma alma especial, própria de boneca, isso tinha.
O senhor a comprou para sua filha, ou era colecionador?
Nunca tive filha e nunca fui colecionador de nada.
E então?
Então, comprei a boneca exatamente porque não tinha filha nem filho. E também porque ela me pediu que a levasse.
A boneca? Pediu de que maneira?
Senti que ela me pedia, menos pelos olhos, que se moviam docemente, sem parecer mecânicos, do que pelo ar, entende? Ar muito especial, de esperança, de desejo triste. Acha que estou mentindo?
Eu não disse nada.
Não disse, mas está achando. É natural. Todos acham. Mas senti que a boneca precisava de mim, como eu, de repente, comecei a precisar dela. Levei-a para casa, minha mulher achou ridículo, fez uma cena.
Por tão pouco.
A partir daí, não nos entendemos mais, eu e minha mulher. Tentei convencê-la de que a boneca devia nos aproximar, em vez de nos dividir. Que era uma espécie de filha, representando a que não tivemos. E como filha a tratei sempre, o que mais irritava minha mulher, incapaz de nos compreender, a mim e à boneca.
Estou imaginando as consequências.
Bem, acabou em separação e desquite.
O senhor ficou com a boneca.
Eu tinha que ficar com ela, não havia outra solução. Passou a ser para mim um resumo da filha que não nasceu, da mulher que foi embora, das mulheres em geral. Sentia amor e respeito, amor e devoção. E a pobrezinha chorava.
Mas isso não é comum nas bonecas?
Nela era diferente. Era choro humano, e chorava por mim. O choro me impressionava, me doía. Eu não a fizera feliz. Comecei a reeducá-la. Levei-a a passeio, viajei, viajamos. Queria ensiná-la a sorrir. Custou, mas consegui. Esse dia foi uma festa, pulei e cantei de felicidade. Daí por diante, ela parecia outra. Sorria, ria, não estou mentindo não, que interesse tenho em mentir? Vivemos felizes algumas semanas, as mais belas de minha vida. Até que um dia…
Um dia…?
Ela também foi embora. Com seus próprios pés, com suas pernas desarticuladas.
Furtada, talvez.
Não houve furto. Nenhum sinal de ladrão. O apartamento, rigorosamente fechado. Fugiu. Tenho certeza que fugiu, talvez porque só ficara alegre para me contentar, e era uma boneca que não fora feita, melhor, que não nascera para ser alegre.
Fez uma pausa. Olhou uma última vez para a boneca no 14:
Procurei-a por toda parte. Como ia achar uma boneca fugida no Rio de Janeiro? Hoje, lendo a notícia desta exposição, vim aqui espiar, reparar. Pensei que fosse aquela. Não é. Muito obrigado, senhorita. Nunca se encontra uma boneca fugida, cuja natureza tentamos modificar.

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica