terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

The Dave Brubeck Quartet | Take Five

 

Factótum | 5




Era uma distribuidora de revistas. A gente ficava em pé na mesa de empacotamento, verificando os pedidos para ver se as quantidades coincidiam com as faturas. Depois, assinávamos a nota fiscal e fazíamos a embalagem do pedido para enviar no correio, ou separávamos as revistas para a entrega local, que era feita de caminhão. O trabalho era fácil e sem graça, mas os funcionários estavam em um constante estado de agitação. Se preocupavam com os empregos. Eram uma mistura de mulheres e homens jovens, e parecia não haver qualquer tipo de supervisão. Passaram algumas horas e duas mulheres começaram a discutir. Alguma coisa a ver com as revistas. Estávamos embalando gibis e algo deu errado do outro lado da mesa. As duas mulheres ficaram violentas enquanto a discussão avançava.
Pessoal — falei —, não vale a pena nem ler essas revistinhas, imagina discutir sobre elas.
Tá bom — disse uma das mulheres —, a gente sabe que você se acha bom demais para esse trabalho.
Bom demais?
Sim, esse teu jeito. Você acha que a gente não percebe?
Foi aí que eu aprendi pela primeira vez que não bastava fazer o trabalho, você precisava ter interesse nele, quem sabe até ser apaixonado pela coisa.
Fiquei lá por três ou quatro dias, e na sexta-feira recebemos o pagamento referente a todas as horas trabalhadas. Nos deram envelopes amarelos com notas verdes e o valor contado. Dinheiro vivo, nada de cheques.
Perto do horário de saída, o motorista do caminhão de entrega voltou um pouco mais cedo. Sentou em uma pilha de revistas e fumou um cigarro.
Pois é, Harry — disse ele a um dos funcionários —, hoje me deram um aumento. Ganhei dois dólares a mais.
Quando saí, parei para comprar uma garrafa de vinho, subi para o meu quarto, bebi um pouco, depois desci e liguei para a firma. O telefone tocou bastante. Enfim, o sr. Heathercliff atendeu. Ele ainda estava lá.
Sr. Heathercliff?
Sim?
Aqui é o Chinaski.
Pois não, sr. Chinaski?
Eu quero um aumento de dois dólares.
Quê?
Isso mesmo. O motorista do caminhão de entrega ganhou um aumento.
Mas ele está conosco há dois anos.
Eu preciso de um aumento.
No momento estamos lhe pagando dezessete dólares por semana, e você está pedindo dezenove?
Isso mesmo. Vão me dar ou não?
Nós não temos como fazer isso.
Então eu me demito. — Desliguei.

Charles Bukowski, em Factótum

A criada

Seu nome era Eremita. Tinha dezenove anos. Rosto confiante, algumas espinhas. Onde estava a sua beleza? Havia beleza nesse corpo que não era feio nem bonito, nesse rosto onde uma doçura ansiosa de doçuras maiores era o sinal da vida.
Beleza, não sei. Possivelmente não havia, se bem que os traços indecisos atraíssem como água atrai. Havia, sim, substância viva, unhas, carnes, dentes, mistura de resistências e fraquezas, constituindo vaga presença que se concretizava porém imediatamente numa cabeça interrogativa e já prestimosa, mal se pronunciava um nome: Eremita. Os olhos castanhos eram intraduzíveis, sem correspondência com o conjunto do rosto. Tão independentes como se fossem plantados na carne de um braço, e de lá nos olhassem – abertos, úmidos. Ela toda era de uma doçura próxima a lágrimas.
Às vezes respondia com má-criação de criada mesmo. Desde pequena fora assim, explicou. Sem que isso viesse de seu caráter. Pois não havia no seu espírito nenhum endurecimento, nenhuma lei perceptível. “Eu tive medo”, dizia com naturalidade. “Me deu uma fome”, dizia, e era sempre incontestável o que dizia, não se sabe por quê. “Ele me respeita muito”, dizia do noivo e, apesar da expressão emprestada e convencional, a pessoa que ouvia entrava num mundo delicado de bichos e aves, onde todos se respeitam. “Eu tenho vergonha”, dizia, e sorria enredada nas próprias sombras. Se a fome era de pão – que ela comia depressa como se pudessem tirá-lo – o medo era de trovoadas, a vergonha era de falar. Ela era gentil, honesta. “Deus me livre, não é?”, dizia ausente.
Porque tinha suas ausências. O rosto se perdia numa tristeza impessoal e sem rugas. Uma tristeza mais antiga que o seu espírito. Os olhos paravam vazios; diria mesmo um pouco ásperos. A pessoa que estivesse a seu lado sofria e nada podia fazer. Só esperar.
Pois ela estava entregue a alguma coisa, a misteriosa infante. Ninguém ousaria tocá-la nesse momento. Esperava-se um pouco grave, de coração apertado, velando-a. Nada se poderia fazer por ela senão desejar que o perigo passasse. Até que num movimento sem pressa, quase um suspiro, ela acordava como um cabrito recém-nascido se ergue sobre as pernas. Voltara de seu repouso na tristeza.
Voltava, não se pode dizer mais rica, porém mais garantida depois de ter bebido em não se sabe que fonte. O que se sabe é que a fonte devia ser antiga e pura. Sim, havia profundeza nela. Mas ninguém encontraria nada se descesse nas suas profundezas – senão a própria profundeza, como na escuridão se acha a escuridão. É possível que, se alguém prosseguisse mais, encontrasse, depois de andar léguas nas trevas, um indício de caminho, guiado talvez por um bater de asas, por algum rastro de bicho. E – de repente – a floresta.
Ah, então devia ser esse o seu mistério: ela descobrira um atalho para a floresta. Decerto nas suas ausências era para lá que ia. Regressando com os olhos cheios de brandura e ignorância, olhos completos. Ignorância tão vasta que nela caberia e se perderia toda a sabedoria do mundo.
Assim era Eremita. Que se subisse à tona com tudo o que encontrara na floresta seria queimada em fogueira. Mas o que vira – em que raízes mordera, com que espinhos sangrara, em que águas banhara os pés, que escuridão de ouro fora a luz que a envolvera – tudo isso ela não contava porque ignorava: fora percebido num só olhar, rápido demais para não ser senão um mistério.
Assim, quando emergia, era uma criada. A quem chamavam constantemente da escuridão de seu atalho para funções menores, para lavar roupa, enxugar o chão, servir a uns e outros.
Mas serviria mesmo? Pois se alguém prestasse atenção veria que ela lavava roupa – ao sol; que enxugava o chão – molhado pela chuva; que estendia lençóis – ao vento. Ela se arranjava para servir muito mais remotamente, e a outros deuses. Sempre com a inteireza de espírito que trouxera da floresta. Sem um pensamento: apenas corpo se movimentando calmo, rosto pleno de uma suave esperança que ninguém dá e ninguém tira.
A única marca do perigo por que passara era o seu modo fugitivo de comer pão. No resto era serena. Mesmo quando tirava o dinheiro que a patroa esquecera sobre a mesa, mesmo quando levava para o noivo em embrulho discreto alguns gêneros da despensa. A roubar de leve ela também aprendera nas suas florestas.

Clarice Lispector, em Todos os contos

Calvin e Haroldo

O amigo

Amigo é a criatura que escuta todas as nossas coisas sem aquela cara que parece estar dizendo: — E eu com isso?

Mário Quintana, em Caderno H

Sob os Olhos do Oriente



Existe uma contradição na índole da literatura russa. De Púchkin a Pasternak, os mestres da ficção e poesia russas pertencem ao mundo como um todo. Mesmo em traduções medíocres, seus poemas, contos e romances são indispensáveis. Não conseguimos imaginar o repertório de nossa humanidade e de nossos sentimentos sem eles. A literatura russa, historicamente breve e estreita em termos do gênero, compartilha essa universalidade obrigatória com a da Grécia antiga. E no entanto o leitor não russo de Púchkin, de Gogol, de Dostoiévski ou de Mandelstam sempre será um forasteiro. Em certo sentido fundamental, ele está bisbilhotando um discurso interior que, por mais óbvias que sejam sua força de comunicação e sua aplicabilidade universal, nem mesmo os mais perspicazes estudiosos e críticos ocidentais entendem direito. O significado se mantém obstinadamente nacional e refratário a exportações. É claro que, em parte, trata-se de uma questão de linguagem ou, para ser mais exato, da gama desconcertante de linguagens que vão desde a regional e a demótica até a altamente literária e mesmo europeizada em que se movem os autores russos. Os obstáculos postos por um Púchkin, um Gogol, uma Akhmátova a uma plena tradução são incontáveis. Mas o mesmo se pode dizer dos clássicos de muitas outras línguas e, afinal, há um nível — na verdade, um nível imensamente amplo e transformador — em que os grandes textos russos realmente se permitem traduzir. (Imagine-se nossa paisagem sem Pais e filhos, Guerra e paz, Os irmãos Karamázov ou As três irmãs.) Mas, se ainda assim a pessoa tem a impressão de não entender bem, de que o foco ocidental distorce seriamente o que o escritor russo está dizendo, não pode ser apenas por uma razão de distância linguística.
É uma observação corriqueira — os russos são os primeiros a fazê-la — que toda a literatura russa (à óbvia exceção dos textos litúrgicos) é essencialmente política. Ela é escrita e publicada, até onde é possível, sob os olhos de uma censura ubíqua. Mal se consegue contar um ano durante o qual poetas, romancistas ou dramaturgos russos tenham trabalhado em algo minimamente próximo das condições normais, e quem dirá positivas, de liberdade intelectual. Uma obra-prima russa existe apesar do regime. Ela realiza uma subversão, uma circunlocução irônica, uma contestação direta ou uma concessão ambígua ao aparato dominante da opressão, seja czarista e eclesiástica ortodoxa ou leninista-stalinista. Como diz a expressão russa, o grande escritor é “o estado alternativo”. Seus livros são o principal e, em muitos aspectos, o único gesto de oposição política. Num complicado jogo de gato e rato, que se mantém inalterado na prática desde o século XVIII, o Kremlin permite a criação e até a divulgação de obras literárias de cuja natureza essencialmente rebelde tem plena ciência. Com o decorrer das gerações, essas obras — de Púchkin, Turguêniev, Tchecov — passam a ser clássicos nacionais: são válvulas de escape que liberam no campo do imaginário algumas daquelas enormes pressões pela reforma, pela mudança política responsável, que a realidade não permitiria. A perseguição, o encarceramento, a expulsão de escritores faz parte da negociação.
Até aí o estrangeiro pode entender. Olha os tormentos de Púchkin, o desespero de Gogol, o período de Dostoiévski na Sibéria, a luta gigantesca de Tolstói contra a censura ou o longo catálogo dos mortos e desaparecidos que compõe o registro da história literária russa no século XX, e capta o mecanismo subjacente. O escritor russo tem enorme importância. Muito maior do que a de seu equivalente no Ocidente tolerante e entediado. Muitas vezes a totalidade da consciência russa parece aflorar em seu poema. Em troca, ele percorre seu caminho por entre um astuto inferno. Mas essa inflexível dialética não contém toda a verdade, ou melhor, esconde dentro de si outra verdade instintivamente evidente para o artista russo e seu público, mas quase impossível de avaliar de forma correta do lado de fora.
A história russa tem sido de sofrimentos e humilhações quase inconcebíveis. Mas o tormento e a degradação alimentam as raízes de uma visão messiânica, de um sentimento de exclusividade ou de um destino radiante. Esse sentimento pode se traduzir no idioma do eslavófilo ortodoxo, com sua convicção de que a terra russa é sagrada de uma maneira absolutamente concreta, de que apenas ela Cristo palmilhará em seu retorno. Ou pode se metamorfosear no secularismo messiânico da pretensão comunista a uma sociedade perfeita, ao alvorecer milenar da absoluta justiça e igualdade humanas. Há um sentimento de eleição pela dor e para a dor comum aos mais variados matizes da sensibilidade russa. E isso significa que existe uma cumplicidade fundamental na relação triangular entre o escritor russo, seus leitores e o Estado onipresente. Tive meu primeiro relance disso quando visitei a União Soviética algum tempo depois da morte de Stálin. As pessoas comentavam sua sobrevivência com um estupor e um assombro que nenhum estrangeiro conseguiria realmente partilhar. Mas, ao mesmo tempo, havia em suas reflexões sobre Stálin uma estranha, uma sutil nostalgia. Nostalgia, com quase toda a certeza, é uma palavra errada. Eles não sentiam falta dos horrores insanos pelos quais tinham passado. Mas insinuavam que esses horrores, ao menos, tinham sido perpetrados por uma figura portentosa, não por essa ralé desprezível que agora estava no governo. E sugeriam que o mero fato da sobrevivência da Rússia sob um Stálin, tal como sob um Ivan, o Terrível, demonstrava alguma magnificência apocalíptica ou uma criativa excentricidade do destino. A discussão entre eles e o terror era interna, privada. Um estrangeiro, ouvindo por cima e respondendo rápido demais, aviltava as questões.
E assim é com os grandes escritores russos. Seus brados de libertação, seus apelos à consciência letárgica do Ocidente são estridentes e genuínos. Mas nem sempre esperam ser ouvidos ou respondidos de maneira direta. As soluções só podem vir de dentro, de uma interioridade de dimensões étnicas e visionárias únicas. O poeta russo odeia seu censor, despreza os informantes e os rufiões da polícia que o perseguem. Mas sua posição em relação a eles é de angustiada necessidade, seja ela de fúria ou de compaixão. O perigoso conceito de que existe um vínculo magnético entre torturador e vítima é grosseiro demais para caracterizar o ambiente espiritual-literário russo. Mas é mais adequado do que a inocência liberal. E ajuda a explicar por que o pior destino que pode caber a um escritor russo não é a prisão e nem mesmo a morte, mas o exílio para o limbo ocidental da mera sobrevivência.
É exatamente esse exílio, esse ostracismo longe da compactação da dor, que agora obceca Soljenítsin. Para esse homem forte e perseguido, sob certo aspecto é verdade que o reencarceramento no gulag seria preferível à glória e à imunidade no Ocidente. Soljenítsin detesta o Ocidente, e as bobagens de tipo oracular que ele declarou sobre o Ocidente indicam não só ignorância, mas também indiferença. Sua interpretação teocrático-eslavófila da história é perfeitamente clara. A Revolução Francesa de 1789 cristalizou as ilusões seculares do homem, sua revolta frívola contra Cristo e contra uma escatologia messiânica. O marxismo é a consequência inevitável do liberalismo agnóstico. É um bacilo caracteristicamente ocidental que foi inoculado por intelectuais sem raízes, em sua maioria judeus, na corrente sanguínea da Santa Rússia. A infecção ocorreu devido às condições de terrível vulnerabilidade e desordem em que se encontrava a Rússia depois dos primeiros grandes desastres militares de 1914. O comunismo é um arremedo dos verdadeiros ideais de sofrimento e fraternidade que fizeram da Rússia a eleita de Cristo. Mas 1914 encontrou a Mãe Rússia fatalmente despreparada e indefesa contra a praga do racionalismo ateu. Daí a tremenda importância que Soljenítsin atribui ao primeiro ano da guerra mundial, e sua decisão de explorar todos os aspectos materiais e espirituais de 1914 e dos acontecimentos que levaram a março de 1917 numa sequência de volumosos “romances verídicos”.
Mas Lênin coloca um problema para essa demonologia, do qual Soljenítsin está ciente faz muito tempo. O marxismo pode ter sido uma enfermidade ocidental e hebraica, mas Lênin é uma figura eminentemente russa e a vitória bolchevique foi em essência obra sua. Já em textos anteriores de Soljenítsin, havia traços de certa identificação antagônica do autor com a figura de Lênin. Num sentido que apenas em parte é alegórico, Soljenítsin parece ter sentido que sua misteriosa força de vontade e de visão era similar à de Lênin e que a luta pela alma e pelo futuro da Rússia se desenrolava entre ele e o criador do regime soviético. Então, numa guinada do destino ao mesmo tempo irônica e simbolicamente inevitável, Soljenítsin se viu em Zurique, na mesma arcádia afetada e protegida do exílio onde Lênin, exasperado, sentia desperdiçar seu tempo antes do apocalipse de 1917. Ele tinha escrito um capítulo sobre Lênin em “Agosto de 1914” e dispunha de muito material sobre Lênin para outros volumes — ou “nódulos”, como diz agora. Mas a coincidência de Zurique era rica demais para ser deixada de lado. Por isso surge neste ínterim a trama de Lenin in Zurich (Farrar, Straus & Giroux, 1976).
O resultado não é um romance nem um ensaio político, e sim um conjunto de vinhetas trabalhadas em profundidade. Soljenítsin pretende demonstrar a falibilidade de Lênin. A notícia da Revolução Russa toma o líder bolchevique totalmente de surpresa. Ele vinha concentrando seu gênio conspirador num projeto loucamente tortuoso e temerário para envolver a Suíça na guerra e criar insatisfação social. Lênin fica preocupado com seu desjejum. Intromete-se de maneira detalhista em todo e qualquer artifício que possa assegurar fundos para seu movimento em embrião. Suspira pela outra mulher em sua vida austera, a fascinante Inessa Armand, e aceita desvios ideológicos da parte dela que acarretariam anátema para qualquer outro discípulo. Acima de tudo, a tolerância antisséptica de seus anfitriões suíços lhe parece, como também ao próprio Soljenítsin, enlouquecedora:

Toda Zurique, provavelmente um quarto de milhão de pessoas, locais ou vindas de outras partes da Europa, se aglomerava ali, trabalhando, fazendo negócios, trocando câmbio, vendendo, comprando, comendo em restaurantes, comparecendo a reuniões, andando a pé ou de carro pelas ruas, cada qual seguindo seu caminho, todos com a cabeça cheia de pensamentos sem disciplina nem rumo. E lá ficava ele na montanha, sabendo como seria capaz de guiá-los e unir todas as suas vontades.

Só que lhe faltava o poder necessário. Podia continuar ali no alto de Zurique ou estendido naquele túmulo, mas não podia mudar Zurique. Estava morando aqui fazia mais de um ano, e todos os seus esforços tinham sido inúteis, não se fizera nada.
E, para piorar as coisas, os respeitáveis moradores da cidade estão prestes a realizar mais um daqueles seus carnavais idiotas.
Lênin voltará à Rússia na famosa “carruagem selada”, com a conivência do governo imperial e do comando-maior alemão (ansioso em manter a Rússia fora da guerra). Mas essa fuga gloriosamente ambígua não resulta dos meios políticos ou da astúcia de Lênin. Ela brota do cérebro fervilhante de Parvus, aliás dr. Auxílio, aliás Alexander Israel Lazarévitch. Apesar de uma extensa biografia de Z. A. Zeman e W. B. Scharlau, The Merchant of Revolution [O mercador da revolução], muitas coisas sobre Parvus continuam obscuras. Era um revolucionário diletante às vezes mais clarividente do que Lênin. Foi grande arrecadador de fundos para os bolcheviques, mas também era um agente duplo ou triplo, atuando como intermediário para os turcos, os alemães e os russos. Era um dândi e um cosmopolita, que se sentia fascinado por Lênin, mas também se divertia com o ascetismo fanático de suas atitudes. A mansão luxuosa que Parvus construiu para si em Berlim, e onde morreu em 1924, foi mais tarde usada por Himmler para planejar “a solução final”.
O encontro entre Parvus e Lênin é o ponto central do livro de Soljenítsin. Tem algumas pinceladas primorosas, ao descrever dois tipos de corrupção, o da intriga mundana e o de uma vontade agnóstica de poder, rodeando-se e dando voltas um no outro. Há também sugestões dissonantes. Parvus é o judeu errante encarnado, o supremo mestre em dar jeito nas coisas. Investe no caos como investe na bolsa. Sem Parvus, insinua Soljenítsin, talvez Lênin não tivesse conseguido êxito. Lênin, com seu vigor tártaro, se converte no portador de um vírus estrangeiro. No original, essas alusões étnico-simbólicas são ressaltadas, imagino eu, pelas analogias entre o diálogo de Lênin e Parvus e os grandes diálogos sobre a metafísica do mal em Os irmãos Karamázov, de Dostoiévski. Com efeito, se podemos dizer que “Agosto de 1914” ilustra, embora não com plena coerência, o lado tolstoiano de Soljenítsin, seu veio épico, Lenin in Zurich é uma obra francamente dostoievskiana, abeberando-se tanto na política eslavófila de Dostoiévski quanto em seu estilo intensamente panfletário. É muito interessante, mas um tanto incongruente e, sob vários aspectos, muito pessoal.
O caráter pessoal de A Voice from the Chorus [Uma voz do coro], de Abram Tertz (Farrar, Straus & Giroux, 1976), é de ordem totalmente diversa. Tertz é o pseudônimo literário de Andrei Siniávski, que ficou famoso com a publicação no Ocidente de uma série de contos fantásticos e ensaios críticos, mesclando surrealismo e uma corrosiva sátira sociopolítica, entre 1959 e 1966. Foi a obra e o exemplo de Pasternak, de cujo enterro em maio de 1960 ele participou com destaque, que parecem ter levado Siniávski para a oposição e a arriscada via da publicação no estrangeiro. Como muitos de sua geração, ele tinha começado como um idealista comunista ou mesmo utópico. Doutor Jivago, as revelações sobre a verdadeira natureza do stalinismo no discurso de Kruschev durante o xx Congresso do Partido e suas próprias observações pessoais da realidade soviética, com um olhar arguto, desiludiram Siniávski. Pela análise crítica e pela invenção poética, ele procurou outro sentido da existência russa.
Por algum tempo, “Abram Tertz” — é o nome do herói de uma balada do submundo, no bairro dos ladrões judeus de Odessa — protegeu Andrei Siniávski. Mas o segredo transpirou, e Siniávski, junto com seu colega dissidente, o escritor Yuli Daniel, foi preso em setembro de 1965. O julgamento, em fevereiro de 1966, foi ao mesmo tempo farsesco e de extrema importância. O crime dos acusados consistia em seus escritos. Esse fato, somado ao rigor brutal das sentenças impostas, desencadeou uma onda de protestos internacionais. Mais importante, deu impulso à ampla dissidência intelectual e à distribuição clandestina de textos proibidos (samizdat) que agora são elementos tão vitais do cenário soviético.
De 1966 a 1971, Siniávski cumpriu sua pena numa série de campos de trabalhos forçados. Duas vezes por mês, ele tinha autorização de escrever uma carta à esposa. Curiosamente, as cartas podiam ser de qualquer tamanho (tendo o prisioneiro de usar toda a astúcia e a boa vontade alheia para conseguir papel). Referências a temas políticos ou aos horrores literais da vida no campo seriam imediatamente punidas. Mas, dentro desses limites, o prisioneiro podia escrever à vontade. A Voice from the Chorus se baseia nas cartas de Siniávski escritas na casa dos mortos.
Mas não é um diário da prisão. São poucas as datas ou os pormenores circunstanciais. O que Siniávski reservou para nós é uma grinalda de reflexões pessoais sobre a arte, a literatura, o significado do sexo e, principalmente, a teologia. O alcance literário de Siniávski é prodigioso: ele faz suas reflexões sobre muitas das grandes figuras da literatura russa, mas também sobre Defoe, cujo Robinson Crusoé adquire uma relação evidente e direta com sua condição pessoal, e sobre Swift. Com os olhos de uma afetuosa memória, ele invoca o Retorno do filho pródigo, de Rembrandt, e os ícones sagrados, cujos reflexos mágicos do sofrimento se tornam cada vez mais claros para ele. Embora os detalhes concretos da peça já se confundam um pouco em sua lembrança, Siniávski escreve um ensaio em miniatura sobre o que considera o cerne de Hamlet — o que ele chama de “a música interior de sua imagem”. Reflete incessantemente sobre a natureza criativa e ficcional da fala humana, sobre sua capacidade de criar mundos.
Nos campos, Siniávski encontra membros de várias seitas religiosas perseguidas e quase exterminadas pela repressão soviética. Vão desde a ortodoxia estrita até o fundamentalismo cristão (ele registra a fala dos prisioneiros em suas línguas) e a fé islâmica praticada entre os tchetchenos da Crimeia. Esses contatos e sua sensibilidade pessoal levam Siniávski a uma religiosidade crescente. Estuda as crônicas dos mártires e da Igreja eslava; reflete sobre o lugar único que a ortodoxia atribui à Assunção da Mãe do Senhor; procura entender as possíveis relações entre o caráter nacional russo e o foco especial da teologia ortodoxa sobre o Espírito Santo. Mais do que tudo, Siniávski afirma:

O texto dos Evangelhos explode de sentidos. Irradia significado e, se deixamos de ver alguma coisa, não é porque seja obscuro, mas porque é excessivo e o sentido é fulgurante demais — ele nos cega. Pode-se voltar a ele durante toda a vida. Sua luz nunca diminui. Como a do sol. Seu brilho assombrou os gentios e eles acreditaram.

Sem dúvida, foi essa devoção arrebatada e seu sabor especificamente russo ortodoxo de aceitação do sofrimento que permitiram a Siniávski cumprir sua sentença com algo que se assemelha a um deleite. Ele vem a apreciar a lentidão da vida no campo: ali, “a existência abre ainda mais seus olhos azuis”. O esplendor da revelação espiritual é tal que, “ao fim e ao cabo, um campo dá o sentimento de máxima liberdade”. Onde mais as matas, vistas adiante do arame farpado, cintilam com tal chama pentecostal ou as estrelas arremessam seus dardos antecedendo Sua vinda?
Pontuam essas homilias as literais “vozes do coro” — breves interjeições, trechos de canções, juras e pragas, anedotas, malapropismos escolhidos entre a balbúrdia de falas na linguagem do campo. Max Hayward, que com Kyril Fitzlyon realizou uma tradução que é visivelmente brilhante, conta que esses fragmentos são dos mais fascinantes entre os existentes na Rússia moderna. Acrescenta que apenas um ouvido russo é capaz de captar a qualidade deles. Sem dúvida é a impressão que temos. Há exceções memoráveis (“Compre um belo par de sapatos — e você vai se sentir o rei Lear” ou “Até o dia da morte de nossos filhos!”), mas, na maioria, as expressões são de uma banalidade confrangedora.
É o testemunho profundamente comovente de um homem de força, sutileza, compaixão, fé excepcionais. Talvez de modo intencional, ele deixa uma impressão um tanto vaga, como um sonho. Siniávski leu muito nos campos. De fato, enquanto estava preso, escreveu um estudo deslumbrante sobre Púchkin. Como foi possível? Teria lido os textos proibidos de Pasternak, de Akhmátova e de Mandelstam, aos quais faz longas referências? Um apontamento menciona o que deve ter sido uma discussão ideológica entre um comandante do campo e os condenados. Terá sido um lapso excepcional na disciplina vigente? Uma das vozes do coro faz um comentário extremamente significativo: “Nos velhos tempos o campo costumava ser mais divertido. Sempre tinha alguém sendo espancado ou enforcado. Todos os dias havia um acontecimento especial”. Quais são as metamorfoses na política do inferno? São tantas as coisas que gostaríamos que uma testemunha da estatura de Siniávski nos contasse… Mas, aqui também, sua mensagem se destina a ouvidos russos. Bisbilhotamos. E o exílio de Siniávski — ele agora mora em Paris — torna esse processo ainda mais desconfortável.
O romance Going Under [Indo para baixo], de Lidia Tchukovskaia (Quadrangle, 1972), é muito mais acessível ao leitor ocidental do que o fragmento polêmico de Soljenítsin ou as memórias de Siniávski. O paradoxo é que Tchukovskaia ainda está “dentro”, na zona de penumbra destinada aos escritores, artistas e pensadores que ofenderam o regime e estão impedidos de levar uma vida profissional normal. Na União Soviética, os escritos de Tchukovskaia circulam, quando circulam, em cópias mimeografadas clandestinas. Assim, em certo sentido Going Under — cristalinamente traduzido por Peter Weston — se destina ao exterior. Somos nós que temos de abrir a garrafa e tirar a mensagem.
A época é fevereiro de 1949, e está se iniciando a zhdanovshchina ou zdanovismo, o expurgo dos intelectuais por obra de Andrei Zdánov, o capanga brutal de Stálin. A ação transcorre numa casa de descanso para escritores na Finlândia russa. A tradutora Nina Sergeievna é uma das raras afortunadas que foi agraciada pela União dos Escritores com um mês de idílico repouso longe das tensões de Moscou. Para todos os efeitos, ela está lá para descansar ou dar andamento a suas traduções. Na verdade, o que Nina pretende fazer é escrever um relato do desaparecimento do marido durante as caçadas humanas de Stálin em 1938, e se libertar, pelo menos em parte, de um longo pesadelo. Não acontece muita coisa em Litvinovka. Nina se envolve um pouco com a vida de Bilibin, um escritor que tenta se reconciliar com as exigências de seus senhores stalinistas depois de um período de trabalhos forçados, e de Veksler, poeta judeu e herói de guerra. Os intelectuais entram e saem da sala de estar, destilam veneno contra Pasternak, vibram suas narinas ao último boato de repressão em Moscou. A neve cintila entre as bétulas, e logo além dos limites ordeiros da casa de descanso estendem-se a miséria desumana e o profundo atraso da Rússia camponesa após a guerra total. Os sonhos inquietos reconduzem Nina às terríveis filas dos anos 1930, dezenas de milhares de mulheres esperando em vão na frente das delegacias para ter alguma notícia sobre os maridos, filhos, irmãos desaparecidos. (Aqui há ressonâncias do grande poema de Akhmátova, “Réquiem”.) Bilibin, triste e gentil, faz amor com ela. A nkvd vem buscar Veksler. Os heróis de guerra — em particular os heróis de guerra judeus — não são mais necessários. Logo chega março e é hora de voltar para Moscou.
Em chave menor, esse breve romance soa e ressoa na mente do leitor. Todo incidente é totalmente natural e, ao mesmo tempo, carregado de conotações. Passeando pelos bosques brancos, Nina percebe que os alemães estiveram ali, que a neve disfarça um ossuário literal. Combater os nazistas para salvar e consolidar o stalinismo — as ironias são insolúveis. Quando o afável escriba de aluguel Klokov critica a obscuridade de Pasternak, o espírito de Nina se convulsiona. Mas, na solidão, ela sente melancolicamente que a grande arte só pode pertencer a uma pequena minoria, que às vezes há na mais excelsa poesia uma exigência que aparta o indivíduo das necessidades e do andamento normal da humanidade. A narrativa é despojada e ao mesmo tempo ressonante. Púchkin, Akhmátova, Mandelstam, Pasternak e Turguêniev estão indiretamente presentes — em especial Turguêniev, cuja peça Um mês no campo parece ser o contraponto das cenas de Tchukovskaia. É um clássico.
Sob os olhos do Oriente — Soljenítsin insiste incansavelmente neste ponto —, grande parte de nossas preocupações e de nossa literatura parece trivial. Vistas do gulag, nossas desordens urbanas, nossas tensões raciais ou oscilações econômicas parecem edênicas. As dimensões de crueldade e resistência em que trabalha a imaginação russa são, para a maioria de nós, quase inconcebíveis. Igualmente inconcebíveis, e de maneira ainda mais admirável, são os mecanismos de esperança, de refinada percepção moral, de encantamento vital que criam obras como as memórias de Nadeja Mandelstam ou os contos de Tchukovskaia. De fato, não entendemos o hálito diário do terror, e não entendemos a alegria. Isso porque, para nós, a ligação indissolúvel entre eles é, na melhor das hipóteses, uma abstração filosófica. “Encerrada numa jaula”, escreve Siniávski, “a mente é obrigada a fugir para os espaços abertos mais amplos do universo pela porta dos fundos. Mas, para que isso aconteça, primeiro ela precisa ser perseguida e acuada.” A “jaula” vem a ser o nome do compartimento com barras de ferro nos vagões dos trens russos que levam os prisioneiros aos campos. Dentro dela, os Soljenítsins, os Siniávskis, as Tchukovskaias parecem encontrar a liberdade, como Púchkin, Dostoiévski e Mandelstam antes deles. Não gostariam, somos levados a imaginar, de trocar de lugar conosco. E tampouco nós conseguiríamos nos imaginar capazes de entrar, e quem dirá romper, na prisão dos dias deles.
11 de outubro de 1976

George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O Silêncio das Estrelas | Vanessa Moreno

O guardador de águas — VII

Roupa-Grande aparece no trecho.
(Crianças não o diferenciam do ave joão-grande.)
Com seu enorme casaco ele encarde o crepúsculo.
Sabe os atalhos do chão.
Caminha espaceado, de metro em metro, como quem planta mandioca na roça.
(Quem anda curto é carancho — ele diz; mas também excreta curto.
Pato que guspe longínquo…)
Roupa-Grande alcandora mosca.
Com as mãos endireita Deus para ele.
O rio conta com os seus cuidados para descer as grotas — conta
Com as suas bênçãos, com os seus escapulários…
Ele mexe com planta e com épocas.
Usa o Livro de São Cipriano contra lascívia, mal de grotas, ferroadas de arraia etc.
(Ferroada de arraia é só encostar o lugar ofendido em vaso de moça que o ferrão escurece…)
Um menino escaleno o acompanha.
Dorme no ombro dele um tordo arino.
Roupa-Grande fala de manso — como quem vai passando por dentro de uma nuvem…
Sangue de anta bebe por mês: serve na guampa o cor-de-rosa espumoso —
a língua tomando espécie…
Conta que sangue de anta desempena traste de velho.
Tresconta. Ri sobre as gengivas.
É homem proposto ao escárnio.
Arremeda que vai esperar o crepúsculo mais adiante
E se equipa.
Uma árvore espera filhos dele.
Espessura de estrela o transparenta.

Manoel de Barros, em O guardador de águas

Acerca da sinceridade e bondade

Impossibilite-os de acusarem-no corretamente de falta de sinceridade e bondade. É possível fazer com que as acusações sejam mentirosas. Afinal, quem poderá impedi-lo de ser sincero e benévolo? Não admita viver se não for. A razão não admite.

Marco Aurélio, em Meditações

Capítulo II – Fabiano

Fotograma do filme Vidas Secas (1963), de Nélson Pereira dos Santos


Fabiano curou no rasto a bicheira da novilha raposa. Levava no aió um frasco de creolina, e se houvesse achado o animal, teria feito o curativo ordinário. Não o encontrou, mas supôs distinguir as pisadas dele na areia, baixou-se, cruzou dois gravetos no chão e rezou. Se o bicho não estivesse morto, voltaria para o curral, que a oração era forte.
Cumprida a obrigação, Fabiano levantou-se com a consciência tranquila e marchou para casa. Chegou-se a beira do rio. A areia fofa cansava-o, mas ali, na lama seca, as alpercatas dele faziam chape-chape, os badalos dos chocalhos que lhe pesavam no ombro, pendurados em correias, batiam surdos. A cabeça inclinada, o espinhaço curvo, agitava os braços para a direita e para a esquerda. Esses movimentos eram inúteis, mas o vaqueiro, o pai do vaqueiro, o avô e outros antepassados mais antigos haviam-se acostumado a percorrer veredas, afastando o mato com as mãos. E os filhos já começavam a reproduzir o gesto hereditário.
Chape-chape. Os três pares de alpercatas batiam na lama rachada, seca e branca por cima, preta e mole por baixo. A lama da beira do rio, calcada pelas alpercatas, balançava.
A cachorra Baleia corria na frente, o focinho arregaçado, procurando na catinga a novilha raposa.
Fabiano ia satisfeito. Sim senhor, arrumara-se. Chegara naquele estado, com a família morrendo de fome, comendo raízes. Caíra no fim do pátio, debaixo de um juazeiro, depois tomara conta da casa deserta. Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado à camarinha escura, pareciam ratos – e a lembrança dos sofrimentos passados esmorecera.
Pisou com firmeza no chão gretado, puxou a faca de ponta, esgaravatou as unhas sujas. Tirou do aió um pedaço de fumo, picou-o, fez um cigarro com palha de milho, acendeu-o ao binga, pôs-se a fumar regalado.
Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta.
Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra.
Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando: – Você é um bicho, Fabiano.
Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades.
Chegara naquela situação medonha - e ali estava, forte, até gordo, fumando o seu cigarro de palha.
Um bicho, Fabiano.
Era. Apossara-se da casa porque não tinha onde cair morto, passara uns dias mastigando raiz de imbu e sementes de mucunã. Viera a trovoada.
E, com ela, o fazendeiro, que o expulsara. Fabiano fizera-se desentendido e oferecera os seus préstimos, resmungando, coçando os cotovelos, sorrindo aflito. O jeito que tinha era ficar. E o patrão aceitara-o, entregara-lhe as marcas de ferro.
Agora Fabiano era vaqueiro, e ninguém o tiraria dali. Aparecera como um bicho, entocara-se como um bicho, mas criara raízes, estava plantado. Olhou as quipás, os mandacarus e os xiquexiques. Era mais forte que tudo isso, era como as catingueiras e as baraúnas. Ele, Sinha Vitória, os dois filhos e a cachorra Baleia estavam agarrados à terra.
Chape-chape. As alpercatas batiam no chão rachado. O corpo do vaqueiro derreava-se, as pernas faziam dois arcos, os braços moviam-se desengonçados. Parecia um macaco.
Entristeceu. Considerar-se plantado em terra alheia! Engano. A sina dele era correr mundo, andar para cima e para baixo, à toa, como judeu errante. Um vagabundo empurrado pela seca. Achava-se ali de passagem, era hóspede. Sim senhor, hóspede que demorava demais, tomava amizade à casa, ao curral, ao chiqueiro das cabras, ao juazeiro que os tinha abrigado uma noite.
Deu estalos com os dedos. A cachorra Baleia, aos saltos, veio lamber-lhe as mãos grossas e cabeludas. Fabiano recebeu a carícia, enterneceu-se: – Você é um bicho, Baleia.
Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado, confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia. A pé, não se aguentava bem. Pendia para um lado, para o outro lado, cambaio, torto e feio. As vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos – exclamações, onomatopeias. Na verdade falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas.
Uma das crianças aproximou-se, perguntou-lhe qualquer coisa. Fabiano parou, franziu a testa, esperou de boca aberta a repetição da pergunta. Não percebendo o que o filho  desejava, repreendeu-o. O menino estava ficando muito curioso, muito enxerido. Se continuasse assim, metido com o que não era da conta dele, como iria acabar? Repeliu-o, vexado: – Esses capetas têm ideias...
Não completou o pensamento, mas achou que aquilo estava errado. Tentou recordar o seu tempo de infância, viu-se miúdo, enfezado, a camisinha encardida e rota acompanhando o pai no serviço do campo, interrogando-o debalde. Chamou os filhos, falou de coisas imediatas, procurou interessá-los. Bateu palmas: – Ecô! ecô!
A cachorra Baleia saiu correndo entre os alastrados e quipás, farejando a novilha raposa. Depois de alguns minutos voltou desanimada, triste, o rabo murcho. Fabiano consolou-a, afagou-a. Queria apenas dar um ensinamento aos meninos. Era bom eles saberem que deviam proceder assim.
Alargou o passo, deixou a lama seca da beira do rio, chegou à ladeira que levava ao pátio. Ia inquieto, uma sombra no olho azulado. Era como se na sua vida houvesse aparecido um buraco. Necessitava falar com a mulher, afastar aquela perturbação, encher os cestos, dar pedaços de mandacaru ao gado. Felizmente a novilha estava curada com reza. Se morresse, não seria por culpa dele.
Eco! ecô!
Baleia voou de novo entre as macambiras, inutilmente. As crianças divertiram-se, animaram-se, e o espírito de Fabiano se destoldou. Aquilo é que estava certo. Baleia não podia achar a novilha num banco de macambira, mas era conveniente que os meninos se acostumassem ao exercício fácil – bater palmas, expandir-se em gritaria, seguindo os movimentos do animal. A cachorra tornou a voltar, a língua pendurada, arquejando. Fabiano tomou a frente do grupo, satisfeito com a lição, pensando na égua que ia montar, uma égua que não fora ferrada nem levara sela. Haveria na catinga um barulho medonho.
Agora queria entender-se com Sinha Vitória a respeito da educação dos pequenos. Certamente ela não era culpada. Entregue aos arranjos da casa, regando os craveiros e as panelas de losna, descendo ao bebedouro com o pote vazio e regressando com o pote cheio, deixava os filhos soltos no barreiro, enlameados como porcos. E eles estavam perguntadores, insuportáveis. Fabiano dava-se bem com a ignorância. Tinha o direito de saber? Tinha? Não tinha.
Está aí.
Se aprendesse qualquer coisa, necessitaria aprender mais, e nunca ficaria satisfeito.
Lembrou-se de seu Tomás da bolandeira. Dos homens do sertão o mais arrasado era seu Tomás da bolandeira. Porquê? Só se era porque lia demais.
Ele, Fabiano, muitas vezes dissera: – “seu Tomás, vossemecê não regula. Para que tanto papel? Quando a desgraça chegar, seu Tomás se estrepa, igualzinho aos outros.” Pois viera a seca, o pobre do velho, tão bom e tão lido, perdera tudo, andava por aí, mole. Talvez já tivesse dado o couro às varas, que pessoa como ele não podia aguentar verão puxado.
Certamente aquela sabedoria inspirava respeito. Quando seu Tomás da bolandeira passava, amarelo, sisudo, corcunda, montado num cavalo cego, pé aqui, pé acolá, Fabiano e outros semelhantes descobriam-se. E seu Tomás respondia tocando na beira do chapéu de palha, virava-se para um lado e para outro, abrindo muito as pernas calçadas em botas pretas com remendos vermelhos.
Em horas de maluqueira Fabiano desejava imitá-lo: dizia palavras difíceis, truncando tudo, o convencia-se de que melhorava. Tolice. Via-se perfeitamente que um sujeito como ele não tinha nascido para falar certo.
Seu Tomás da bolandeira falava bem, estragava os olhos em cima de jornais e livros, mas não sabia mandar: pedia. Esquisitice um homem remediado ser cortês. Até o povo censurava aquelas maneiras. Mas todos obedeciam a ele. Ah! Quem disse que não obedeciam?
Os outros brancos eram diferentes. O patrão atual, por exemplo, berrava sem precisão. Quase nunca vinha à fazenda, só botava os pés nela para achar tudo ruim. O gado aumentava, o serviço ia bem, mas o proprietário descompunha o vaqueiro. Natural. Descompunha porque podia descompor, o Fabiano ouvia as descomposturas com o chapéu de couro debaixo do braço, desculpava-se e prometia emendar-se. Mentalmente jurava não emendar nada, porque estava tudo em ordem, e o amo só queria mostrar autoridade, gritar que era dono. Quem tinha dúvida?
Fabiano, uma coisa da fazenda, um traste, seria despedido quando menos esperasse. Ao ser contratado, recebera o cavalo de fábrica, perneiras, gibão, guarda-peito e sapatões de couro cru, mas ao sair largaria tudo ao vaqueiro que o substituísse.
Sinha Vitória desejava possuir uma cama igual à de seu Tomás da bolandeira. Doidice. Não dizia nada para não contrariá-la, mas sabia que era doidice. Cambembes podiam ter luxo? E estavam ali de passagem. Qualquer dia o patrão os botaria fora, e eles ganhariam o mundo, sem rumo, nem teriam  meio de conduzir os cacarecos. Viviam de trouxa arrumada, dormiriam bem debaixo de um pau.
Olhou a catinga amarela, que o poente avermelhava. Se a seca chegasse, não ficaria planta verde. Arrepiou-se. Chegaria, naturalmente. Sempre tinha sido assim, desde que ele se entendera. E antes de se entender, antes de nascer, sucedera o mesmo - anos bons misturados com anos ruins. A desgraça estava em caminho, talvez andasse perto. Nem valia a pena trabalhar.
Ele marchando para casa, trepando a ladeira, espalhando seixos com as alpercatas - ela se avizinhando a galope, com vontade de matá-lo.
Virou o rosto para fugir à curiosidade dos filhos, benzeu- se. Não queria morrer. Ainda tencionava correr mundo, ver terras, conhecer genteimportante como seu Tomás da bolandeira. Era uma sorte ruim, mas Fabiano desejava brigar com ela, sentir-se com força para brigar com ela e vencê-la. Não queria morrer. Estava escondido no mato como tatu. Duro, lerdo como tatu. Mas um dia sairia da toca, andaria com a cabeça levantada, seria homem.
Um homem, Fabiano.
Coçou o queixo cabeludo, parou, reacendeu o cigarro. Não, provavelmente não seria homem: seria aquilo mesmo a vida inteira, cabra, governado pelos brancos, quase uma rês na fazenda alheia.
Mas depois? Fabiano tinha a certeza de que não se acabaria tão cedo. Passara dias sem comer, apertando o cinturão, encolhendo o estômago. Viveria muitos anos, viveria um século,. Mas se morresse de fome ou nas pontas de um touro, deixaria filhos robustos, que gerariam outros filhos.
Tudo seco em redor. E o patrão era seco também, arreliado, exigente e ladrão, espinhoso como um pé de mandacaru.
Indispensável os meninos entrarem no bom caminho, saberem cortar mandacaru para o gado, consertar cercas, amansar brabos. Precisavam ser duros, virar tatus. Se não calejassem, teriam o fim de seu Tomás da bolandeira. Coitado. Para que lhe servira tanto livro, tanto jornal? Morrera por causa do, estômago doente e das pernas fracas.
Um dia... Sim, quando as secas desaparecessem e tudo andasse direito... Seria que as secas iriam desaparecer e tudo andar certo? Não sabia. Seu Tomás da bolandeira é que devia ter lido isso. Livres daquele perigo, os meninos poderiam falar, perguntar, encher-se de caprichos.
Agora tinham obrigação de comportar-se como gente da laia deles.
Alcançou o pátio, enxergou a casa baixa e escura, de telhas pretas, deixou atrás os juazeiros, as pedras onde se jogavam  cobras mortas, o carro de bois. As alpercatas dos pequenos batiam no chão branco e liso. A cachorra Baleia trotava arquejando, a boca aberta.
Aquela hora Sinha Vitória devia estar na cozinha, acocorada junto à trempe, a saia de ramagens entalada entre as coxas, preparando a janta. Fabiano sentiu vontade de comer. Depois da comida, falaria com Sinha Vitória a respeito da educação dos meninos.

Guimarães Rosa, em Vidas Secas

1612 – São Pedro de Omapacha

O que apanha bate

O símbolo da autoridade, trança de couro, ponta de corda, assovia no ar e morde. Arranca em tiras a pele e rasga a carne.
Despido, amarrado à pedra do suplício, aguenta o castigo Cristóbal de León Mullohuamani, cacique da comunidade de Omapacha. Os gemidos se sucedem no ritmo do chicote.
Da cela ao cepo, do cepo ao açoite, vive o cacique em agonia. Ele ousou protestar ante o vice-rei de Lima e não entregou os índios que devia: por sua culpa faltaram braços para levar vinho das planícies a Cuzco e para fiar e tecer roupa como o corregedor mandou.
O verdugo, um escravo negro, descarrega o chicote com vontade. Essas costas não são piores nem melhores que qualquer outra.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Cash



Então, quando paramos lá para pedir as pás emprestadas ouvimos o gramofone tocando na casa, e quando terminamos com as pás o Pai disse, “melhor eu devolver as pás”.
Então nós voltamos à casa. “Nós devíamos levar Cash ao Peabody”, Jewel disse.
Não vai levar um minuto”, o Pai disse. Ele desceu da carroça. A música não estava tocando.
Deixe Vardaman fazer isso”, Jewel disse. “Ele levaria a metade do tempo. Ou então deixe eu...”
Melhor eu” disse Pai. “Foi a mim que emprestaram.”
Então nós esperamos na carroça. A música não estava tocando.
Não acho que fosse bom termos um gramofone. Nunca terminaríamos um serviço. Mas talvez um pouco de música seria bom no descanso. Chegar à noite cansado e descansar ouvindo um pouco de música. E desliga, e fecha a caixa e tem uma alça, pode carregar para onde quiser.
O que acha que ele está fazendo”, Jewel disse. “Eu devolveria dez vezes as pás nesse tempo...”
Deixa ele. Ele não é tão ágil como você, lembre-se”, eu disse.
Por que ele não me deixou ir? Temos que consertar sua perna a tempo de partir amanhã para casa”, Jewel disse.
Temos bastante tempo”, eu disse. “Eu me pergunto de quanto seria a prestação de uma dessas...”
Prestação de quê? O que você compraria a prestação?”
Acho que se pode comprar no Suratt por 5 dólares.”
Então o Pai voltou e fomos ao Peabody. Enquanto estávamos lá o Pai disse que iria à barbearia fazer a barba. E então à noite ele disse que tinha negócios para tratar, meio sem olhar para nós enquanto falava isso, o cabelo molhado e arrumado, cheirando a um perfume doce, mas eu disse, deixa ele. Eu não me importaria de ouvir também um pouco mais de música.
E então na manhã seguinte ele saiu outra vez, depois voltou e disse que nos aprontássemos para partir. 
Acho que você não tem dinheiro.”
Peabody me deu só para pagar o hotel”, eu disse. “Não é preciso mais nada, não é?”
Não”, ele disse. “Não é preciso mais nada. Esperem por mim na esquina.”
Assim, Jewel trouxe a parelha e me apanhou e arranjaram um colchão na carroça para mim, e atravessamos a praça até a esquina que Pai havia indicado, e ficamos esperando ali, sentados na carroça, com Dewey Dell e Vardaman comendo bananas, quando nós os vimos subindo a rua. Pai tinha aquele jeito característico, a um tempo humilhado e orgulhoso, que assumia sempre ao fazer uma coisa que tinha a certeza de desgostar Mãe. Tinha uma maleta na mão, e Jewel perguntou: “O que é?”.
Então, vimos que não era a maleta que o fazia parecer diferente; era sua cara, e Jewel disse: “Ele mandou pôr os dentes.”
Era verdade. Parecia ter agora mais uns trinta centímetros de altura, mantinha a cabeça aprumada, humilhado e ao mesmo tempo orgulhoso, e então nós a vimos atrás dele, carregando a outra maleta — uma mulher com jeito de pato, toda embonecada, com olhos saltados e duros, como se desafiassem todo mundo a dizer-lhe alguma coisa. Sentados, nós os observamos; Dewey Dell e Vardaman ficaram com as bocas meio-abertas e com as bananas meio comidas nas mãos, e ela se aproximando, atrás de Pat, olhando-nos como se nos desafiasse. E então eu vi que a maleta que ela trazia era um dos pequenos gramofones, Não havia dúvida: fechado como estava, parecia tão bonito quanto um quadro, e sempre que um novo disco chegasse pelo correio e a gente se sentasse, no inverno, para ouvi-lo, eu pensaria: "Que pena Darl não estar aqui para apreciá-lo também. Mas assim é melhor para ele. Este não e o seu mundo; sua vida é outra."
Apresento-lhe Cash e Jewel e Vardaman e Dewey Dell”, diz Pai, com aquele seu jeito entre humilhado e orgulhoso, de dentadura nova e todo o resto, mas sem se atrever a nos olhar de frente. 
Esta é Mrs. Bundren.”
FIM

William Faulkner, em Enquanto Agonizo

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Roberto Carlos | Canzone Per Te

 

Choro a capela

O poder que eu quisera é dominar meu medo.
Por este grande dom troco meu verso, meu dedo,
meus anéis e colar.
Só meu colo não ponho no machado,
porque a vida não é minha.
Com um braço só, uma só perna,
ou sem os dois de cada um, vivo e canto.
Mas com todos e medo, choro tanto
que temo dar escândalo a meus irmãos.
Mas venho e vou,
os ‘lobos tristes’ a seu modo louvam.
Nasci vacum, berro meu
era só por montar, parir, a boa fome,
os júbilos ferozes.
As vacas velhas têm os olhos tristes?
Tristeza é o nome do castigo de Deus
e virar santo é reter a alegria.
Isto eu quero.

Adélia Prado, em O Coração Disparado

Armandinho

Maria chorando ao telefone

O telefone toca aqui em casa, atendo, uma voz de mulher estranhíssima pergunta por mim, e antes que eu tome providências para dizer que é minha irmã que fala, ela me diz: é você mesma. O jeito foi eu ficar sendo eu própria. Mas... ela chorava? ou o quê? Pois a voz era claramente de choro contido. “Porque você escreveu dizendo que não ia mais escrever romances.” “Não se preocupe, meu bem, talvez eu escreva mais uns dois ou três, mas é preciso saber parar. Que é que você já leu de mim?” “Quase tudo, só faltam A cidade sitiada e A legião estrangeira.” “Não chore, venha aqui buscar os dois livros.” “Não vou não, vou comprar.” “Você está bobeando, eu estou oferecendo de graça dois livros autografados e mais um cafezinho ou um uísque.” “Então você pode fazer uma coisa por mim — autografe os dois livros e entregue-os ao seu cunhado, dizendo que é para Maria.” “Maria de quê?” “Só Maria.” “Está bem, não chore mais e cuide dessa gripe.” Pois é, meu Deus. Depois, através de meu cunhado, soube que é uma médica (ginecologista) chamada Dra. Maria B. Que depois me mandou as rosas mais lindas do mundo, que eu misturei com as vermelho-sangue mandadas por H. M. Minha casa está linda e perfumada, tenho o prazer de ter feito, com o auxílio dos outros e de minha amiga S. M., um verdadeiro lar para mim e para os meus filhos.
Quanto às rosas de H. M., que me telefonou depois para desejar que eu dormisse bem, vieram com um bilhete muito bonito: “Aqui é a casa de flores. Era só para confirmar que dona Clarice não está viajando. Não, está aqui em casa. Obrigado, disse eu vermelho e mal suportando tanto amor sozinho. (É que acabara de ler A legião estrangeira.) Obrigado, Clarice Lispector. No momento só preciso que você me sobreviva. Obrigado também pela minha convicção quanto ao seu amor por rosas. Agradeço-lhe ainda a certeza que me vem dando de que existo. Tanto que posso me lembrar de você, sem remorso por ter mentido ao telefone. A necessidade de oferecer rosas foi minha mas quero que a alegria seja inteirinha sua.”
Obrigada, H. M. Minha alegria foi tão completa e tenho tanta confiança na sua. Que vou lhe pedir um favor: ando atrás de rosas brancas em botão para dar a uma amiguinha que nasceu há dias e cujo nome é Letícia, o que quer dizer, Alegria. Se você souber onde se encontram, me dê um telefonema, eu agradeço.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Diário de Bernardo Soares

93.

Em mim foi sempre menor a intensidade das sensações que a intensidade da consciência  delas. Sofri sempre mais com a consciência de estar sofrendo que com o sofrimento de que tinha consciência.
A vida das minhas emoções mudou-se, de origem, para as salas do pensamento, e ali vivi sempre mais amplamente o conhecimento emotivo da vida.
E como o pensamento, quando alberga a emoção, se torna mais exigente que ela, o regime de consciência, em que passei a viver o que sentia, tornava-me mais quotidiana, mais epidérmica, mais titilante a maneira como sentia.
Criei-me eco e abismo, pensando. Multipliquei-me aprofundando-me. O mais pequeno episódio — uma alteração saindo da luz, a queda enrolada de uma folha seca, a pétala que se despega amarelecida, a voz do outro lado do muro ou os passos de quem a diz juntos aos de quem a deve escutar, o portão entreaberto da quinta velha, o pátio abrindo com um arco das casas aglomeradas ao luar — todas estas coisas, que me não pertencem, prendem-me a meditação sensível com laços de ressonância e de saudade. Em cada uma dessas sensações sou outro, renovo-me dolorosamente em cada impressão indefinida. Vivo de impressões que me não pertencem, perdulário de renúncias, outro no modo como sou eu.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Roubo de livros



Estou prestes a me mudar novamente. Em torno de mim, na poeira secreta de cantos insuspeitos, revelados agora pelo deslocamento dos móveis, elevam-se pilhas instáveis de livros, como rochas desgastadas pelo vento numa paisagem desértica. Enquanto ergo pilha após pilha de volumes familiares (reconheço alguns pela cor, outros pela forma, muitos por detalhes nas capas, cujos títulos tento ler de cabeça para baixo ou de um ângulo esquisito), pergunto-me, como já fiz tantas vezes, por que guardo tantos livros que sei que não lerei novamente. Digo a mim mesmo que, sempre que me desfaço de um livro, descubro dias depois que era exatamente aquele que estava procurando. Digo a mim mesmo que, não existem livros (ou poucos, muito poucos) em que eu não tenha achado alguma coisa que me interessasse. Digo a mim mesmo que os trouxe para dentro de casa por algum motivo e que esse motivo pode surgir novamente no futuro. Invoco desculpas: meticulosidade, raridade, uma vaga erudição. Mas sei que a razão principal de me apegar a esse tesouro sempre crescente é uma espécie de ganância voluptuosa.
Adoro olhar para minhas prateleiras lotadas, cheias de nomes mais ou menos familiares.
Delicio-me ao saber que estou cercado por uma espécie de inventário da minha vida, com indicações do meu futuro. Gosto de descobrir, em volumes quase esquecidos, traços do leitor que já fui – rabiscos, passagens de ônibus, pedaços de papel com nomes e números misteriosos, às vezes uma data e um local na guarda do livro, levando-me de volta a um certo café, a um quarto de hotel distante, a um verão longínquo. Eu poderia, se precisasse, abandonar esses livros e começar de novo, em outro lugar; já fiz isso antes, várias vezes, por necessidade. Mas então tive de reconhecer também uma perda grave, irreparável. Sei que algo morre quando abandono meus livros e que minha memória insiste em voltar a eles com uma nostalgia pesarosa. E agora, com os anos, minha memória relembra cada vez menos e parece-me uma biblioteca saqueada: muitas das salas foram fechadas, e, nas que ainda continuam abertas para consulta, há enormes vazios nas estantes. Pego um dos livros remanescentes e percebo que várias páginas foram arrancadas por vândalos. Quanto mais decrépita minha memória, mais quero proteger esse repositório do que li, essa coleção de texturas, vozes e odores. A posse desses livros tornou-se fundamental para mim, porque agora sinto ciúme do passado.
A Revolução Francesa tentou abolir a noção de que o passado era propriedade de uma única classe. Teve sucesso pelo menos em um aspecto: de divertimento aristocrático, colecionar coisas antigas tornou-se um passatempo burguês, primeiro com Napoleão e seu amor pelos adornos da Roma Antiga, depois com a república. Na tirada do século XIX, a exibição de bricabraques bolorentos, de pinturas de mestres antigos, dos primeiros livros tornou-se uma moda europeia. Floresceram as lojas de curiosidades. Negociantes de antiguidades acumularam pilhas de tesouros pré-revolucionários que eram comprados e depois exibidos nos museus caseiros dos nouveaux riches. "O colecionador", escreveu Walter Benjamin, "sonha que está não apenas em um mundo distante ou passado, mas também, ao mesmo tempo, em um mundo melhor, onde os homens se acham tão desprovidos daquilo que necessitam quanto no mundo cotidiano, mas onde as coisas estão livres da obrigação de ser úteis".
Em 1792, o palácio do Louvre foi transformado em museu para o povo. Dando voz a uma arrogante queixa contra a noção de um passado comum, o romancista visconde François-René de Chateaubriand protestou que as obras de arte assim reunidas "não tinham mais nada a dizer à imaginação nem ao coração". Quando, poucos anos depois, o artista e antiquário Alexandre Lenoir fundou o Museu dos Monumentos Franceses para preservar as estátuas e as pedras de mansões, mosteiros, palácios e igrejas que a revolução saqueara, Chateaubriand descreveu-o com desprezo, como “uma coleção de ruínas e túmulos de todos os séculos, reunidos sem rima ou razão no claustro dos Petits-Augustins”. Tanto no mundo oficial como no mundo privado dos colecionadores de ruínas do passado, as críticas de Chateaubriand foram solenemente ignoradas.
Os livros estavam entre os restos mais copiosos deixados para trás pela Revolução. As bibliotecas particulares da França no século XVIII eram tesouros familiares que a nobreza preservara e ampliara de geração em geração, e os livros que continham eram tanto símbolos de posição social quanto de refinamento e postura. Pode-se imaginar o conde d'Hoym, um dos mais famosos bibliófilos de sua época (morreu aos quarenta anos, em 1736), tirando de uma de suas estantes abarrotadas um volume das Orações de Cícero, que ele olharia não como mais um entre as centenas ou milhares de exemplares idênticos impressos e espalhados por numerosas bibliotecas, mas como um objeto único, encadernado segundo suas especificações, anotado por seu próprio punho e marcado pelo brasão da família gravado em ouro.
A partir do final do século XII, os livros tornaram-se reconhecidos como objetos de comércio, e na Europa o valor comercial deles estava suficientemente estabelecido para que os emprestadores de dinheiro os aceitassem como caução; encontram-se notas registrando tais garantias em numerosos livros medievais, em especial os pertencentes a estudantes. No século XV, o negócio tornara-se importante a ponto de os livros serem incluídos no rol de bens vendidos nas feiras comerciais de Frankfurt e Nördligen.
Devido à sua raridade, alguns livros evidentemente eram únicos e alcançavam preços exorbitantes (o raro Epistolae de Petrus Delphinus, de 1524, foi vendido por mil livres em 1719 cerca de 30 mil dólares em moeda de hoje), mas a maioria tinha o valor de objeto pessoal - heranças familiares, objetos que somente as mãos do dono e de seus filhos jamais tocariam. Por esse motivo, as bibliotecas tornaram-se um dos alvos automáticos da Revolução.
As bibliotecas pilhadas do clero e da aristocracia, símbolos dos “inimigos da república”, acabaram em enormes depósitos em várias cidades francesas – Paris, Lyon, Dijon e outras, onde esperavam, sob o ataque da umidade, da poeira, de insetos e outras pragas, que as autoridades revolucionárias decidissem seus destinos. O problema de armazenar tamanha quantidade de livros tornou-se tão sério que as autoridades começaram a organizar vendas para se livrar de parte do butim. Porém, pelo menos até a criação do Banco da França como instituição privada, em 1800, a maioria dos bibliófilos franceses (os que não se encontravam mortos ou exilados) estava empobrecida demais para comprar os livros e somente estrangeiros, sobretudo ingleses e alemães, puderam lucrar com a situação.
Para satisfazer essa clientela de fora, os livreiros começaram a atuar como exploradores e agentes. Em uma das últimas vendas expurgatórias, feita em Paris em 1816, o livreiro e editor Jacques-Simon Merlin comprou livros suficientes para encher do porão ao sótão as duas casas de cinco andares que adquirira especialmente com esse objetivo. Os volumes, em muitos casos preciosos e raros, foram vendidos por peso, numa época em que os livros novos ainda eram muito caros. Por exemplo, nas primeiras décadas do século XIX, um romance recém-publicado custava um terço do salário mensal de um trabalhador rural, enquanto uma primeira edição de Le roman comique, de Paul Scarron (1651), poderia ser obtida por um décimo dessa quantia.
Os livros que a Revolução confiscara e que não foram destruídos ou vendidos no exterior acabaram distribuídos pelas bibliotecas públicas, mas poucos leitores faziam uso deles.
Durante a primeira metade do século XIX, as horas de acesso a essas bibliothèques publiques eram restritas, havia exigências quanto à maneira de trajar de seus frequentadores – e os livros preciosos novamente acumularam poeira nas estantes," esquecidos e fechados.
Mas não por muito tempo.
Guglielmo Bruto Icilio Timoleone, conde Libri-Carucci del a Sommaia, nasceu em Florença, em 1803, numa antiga e nobre família toscana. Estudou direito e matemática e tornou-se tão bem-sucedido nessa última matéria que, quando tinha vinte anos, ofereceram-lhe a cadeira de matemática na Universidade de Pisa. Em 1830, supostamente sob ameaças da organização nacionalista dos carbonários, emigrou para Paris e, pouco depois, tornou-se cidadão francês. Com seu nome retumbante reduzido então para conde Libri, foi recebido pelos acadêmicos franceses, eleito membro do Instituto da França, indicado como professor de ciências na Universidade de Paris e distinguido com a Legião de Honra por suas credenciais eruditas e intelectuais. Mas Libri tinha outros interesses além da ciência: desenvolvera uma paixão por livros; em 1840, já possuía uma coleção notável e comerciava com manuscritos e livros raros impressos.
Duas vezes tentou sem sucesso obter um cargo na Biblioteca Real. Então, em 1841, foi nomeado secretário de uma comissão encarregada de supervisionar oficialmente o “catálogo geral e detalhado de todos os manuscritos, em idiomas antigos e modernos, existentes hoje em todas as bibliotecas públicas departamentais”.
Sir Frederic Madden, curador do Departamento de Manuscritos do Museu Britânico, descreveu assim seu primeiro encontro com Libri, a 6 de maio de 1846, em Paris: “Pela aparência externa [ele], parecia jamais ter usado água, sabão ou escova. A sala na qual fomos introduzidos não tinha mais de cinco metros de largura, mas estava repleta de manuscritos em prateleiras que subiam até o teto. As janelas tinham vidraças duplas e um fogo de carvão e coque queimava na lareira, cujo calor, acrescentado ao cheiro das pilhas de pergaminhos em volta, era tão insuportável que me deixou ofegante. O sr. Libri percebeu o incômodo que sofríamos e abriu uma das janelas, mas dava para perceber que um sopro de ar lhe era desagradável, e seus ouvidos estavam cheios de algodão, como para protegê-los dele! O sr. Líbri é uma pessoa um tanto corpulenta, de feições bem-humoradas mas largas”. O que sir Frederic não sabia – na época – é que o conde Libri era um dos mais rematados ladrões de livros de todos os tempos.
De acordo com o mexeriqueiro do século XVII Tallemant des Réaux, roubar livros não é um crime, exceto se os livros forem vendidos. O prazer de segurar um volume raro nas mãos, de virar as páginas que ninguém virará sem nossa permissão, com certeza movia Libri até certo ponto. Se foi a visão de tantos livros lindos que inesperadamente tentou o culto bibliófilo, ou se foi antes o desejo incontrolável por livros que o levou a almejar o cargo, jamais saberemos. Armado das credenciais oficiais, vestindo uma enorme capa sob a qual escondia seus tesouros, Libri ganhou acesso a bibliotecas de toda a França, onde seu conhecimento especializado lhe permitia descobrir e colher as maravilhas escondidas. Em Carpentras, Dijon, Grenoble, Lyon, Montpellier, Orléans, Poitiers e Tours, não somente roubou volumes inteiros, como cortou páginas que depois exibiu e, às vezes, vendeu. Somente em Auxerre não concretizou a pilhagem. O obsequioso bibliotecário, ansioso por agradar o funcionário cujos documentos anunciavam-no como Monsieur le Secrétaire e Monsieur l'Inspecteur Général, autorizou de bom grado que Libri trabalhasse à noite na biblioteca, mas insistiu em colocar um guarda ao seu lado para atender a qualquer necessidade do cavalheiro.
As primeiras acusações contra Libri datam de 1846, mas – talvez porque parecessem tão improváveis – foram ignoradas, e Libri continuou a atacar as bibliotecas. Começou também a organizar vendas importantes de alguns dos livros roubados, vendas para as quais preparava catálogos excelentes e detalhados. Por que esse bibliófilo apaixonado vendia os livros que roubara correndo tantos riscos? Talvez acreditasse, como Proust, que “o desejo faz todas as coisas florescerem, a posse as faz murchar”. Talvez precisasse apenas de alguns poucos e preciosos, selecionados como as pérolas raras de seu butim. Talvez os tenha vendido por pura ganância – mas essa é uma suposição muito menos interessante. Quaisquer que fossem seus motivos, a venda de livros roubados não podia mais ser ignorada. As acusações acumularam-se e, um ano depois, o promotor público iniciou investigações discretas - que foram abafadas pelo presidente do Conselho Ministerial, o sr Guizot, amigo de Libri e testemunha de seu casamento. É provável que o assunto tivesse morrido se a Revolução de 1848, que acabou com a Monarquia de Julho e proclamou a Segunda República, não tivesse descoberto o dossiê de Libri escondido na escrivaninha de Guizot. Libri foi avisado e fugiu com a esposa para a Inglaterra, não sem levar consigo dezoito caixas de livros avaliados em 25 mil francos. Na época, um trabalhador especializado ganhava cerca de quatro francos por dia.
Muitos políticos, artistas e escritores manifestaram-se (em vão) em defesa de Libri.
Alguns haviam lucrado com suas maquinações e não queriam se comprometer no escândalo; outros tinham reconhecido nele um estudioso honrado e não queriam passar por bobos. O escritor Prosper Mérimée, em particular, foi um defensor ardente de Libri. O conde mostrara-lhe, no apartamento de um amigo, o famoso Pentateuco de Tours, um volume iluminado do século VII; Mérimée, que viajara muito pela França e visitara inúmeras bibliotecas, observou que viu aquele Pentateuco em Tours; Libri mais que depressa explicou ao escritor que o que vira fora uma cópia francesa do original adquirido por ele na Itália. Mérimée acreditou; escrevendo a Edouard Delessert em 5 de junho de 1848, insistiu: "Para mim, que sempre disse que o amor por colecionar leva as pessoas ao crime, Libri é o mais honesto dos colecionadores, e não conheço ninguém, exceto Libri, que devolveria às bibliotecas os livros que outros roubaram.” Por fim, dois anos depois que Libri foi julgado culpado, Mérimée publicou na Revue des Deux Mondes, uma defesa tão ruidosa de seu amigo que o tribunal o convocou, acusando-o de desacato.
Sob o peso das provas, Libri foi condenado in absentia a dez anos de prisão e à perda de seus cargos públicos. Lorde Ashburnham, que comprara de Libri, por intermédio do livreiro Joseph Barrois, outro raro Pentateuco iluminado (este roubado da biblioteca pública de Lyon), aceitou as provas da culpa de Libri e devolveu o livro ao embaixador francês em Londres. O Pentateuco foi o único livro que lorde Ashburnham devolveu.
Porém, os cumprimentos que chegaram de todos os lados ao autor de ato tão liberal não o impeliram a repetir a experiência com outros manuscritos de sua biblioteca”, comentou Léopold Delisle, que em 1888 organizou um catálogo do espólio de Libri.
Mas então Libri já virara havia muito tempo a página final de seu último livro roubado. Da Inglaterra foi para a Itália e instalou-se em Fiesole, onde morreu em 28 de setembro de 1869, não reabilitado e pobre. Contudo, no final, teve sua vingança contra os que o acusavam. No ano de sua morte, o matemático Michel Chasles, que fora eleito para ocupar a cadeira de Libri no Instituto, comprou uma incrível coleção de autógrafos que, não tinha dúvida, causariam inveja e lhe dariam fama. Ela incluía cartas de Júlio César.
Pitágoras, Nero, Cleópatra e da esquiva Maria Madalena – todas falsas, revelou-se mais tarde: eram obra do famoso falsificador Vrain-Lucas, a quem Libri pedira que fizesse uma visita ao seu sucessor.
O roubo de livros não era novidade na época de Libri. Escreve Lawrence S. Thompson: “A história da bibliocleptomania remonta aos primórdios das bibliotecas na Europa ocidental e indiscutivelmente pode ser aprofundada no tempo até as bibliotecas gregas e orientais.”
As primeiras bibliotecas romanas eram compostas em larga medida por volumes gregos, pois os romanos haviam saqueado totalmente a Grécia. A Biblioteca Real Macedônia, a biblioteca de Mitridates do Ponto, a de Apelicão de Teos (mais tarde usada por Cícero) foram todas pilhadas pelos romanos e transferidas para solo romano. Os primeiros séculos cristãos não foram poupados: o monge copta Pacômio, que montara uma biblioteca em seu mosteiro de Tabennisi, no Egito, nas primeiras décadas do século III, fazia um inventário todas as noites para conferir se todos os livros tinham sido devolvidos.
Em seus ataques à Inglaterra anglo-saxônica, os vikings roubavam manuscritos iluminados dos monges, provavelmente por causa do ouro nas encadernações. Um desses volumes, o Codex aureus, roubado em algum momento do século XI, foi resgatado pelos seus donos originais porque os ladrões não encontraram mercado para aquela preciosidade. Ladrões de livros eram uma praga na Idade Média e na Renascença; em 1752, o papa Benedito XIV lançou uma bula segundo a qual os ladrões de livros seriam excomungados.
Outras ameaças eram mais correntes, como prova esta advertência inscrita num valioso tomo renascentista:

O nome de meu senhor acima vês,
Cuida portanto para que não me roubes;
Pois, se o fizeres, sem demora
Teu pescoço... me pagará.
Olha para abaixo e verás
A figura da árvore da forca;
Cuida-te portanto em tempo,
Ou nesta árvore subiras!

Ou esta, inscrita na biblioteca do mosteiro de São Pedro, em Barcelona.

Para aquele que rouba ou toma emprestado e não devolve um livro de seu dono, que o livro se transforme em semente em suas mãos e o envenene.
Que seja atingido por paralisia e todos os seus membros murchem. Que definhe de dor, chorando alto por demência, e que não haja descanso em sua agonia até que mergulhe na desintegração. Que as traças corroam suas entranhas como sinal do Verme que não morreu. E quando finalmente for ao julgamento final, que as chamas do Inferno o sumam para sempre.

Contudo, nenhuma praga parece deter aqueles leitores que, como amantes enlouquecidos, estão decididos a se apropriar de certo livro. A ânsia de possuir um livro, ser seu único dono, é uma espécie de cobiça diferente de todas as outras. “Lemos melhor”, confessou Charles Lamb, contemporâneo de Libri, “um livro que é nosso e que nos é conhecido há tanto tempo que sabemos a topografia de suas manchas e de suas orelhas, e lembramos que ele se sujou quando o lemos durante o chá com bolinhos amanteigados.”
O ato de ler estabelece uma relação íntima, física, da qual todos os sentidos participam: os olhos colhendo as palavras na página, os ouvidos ecoando os sons que estão sendo lidos, o nariz inalando o cheiro familiar de papel, cola, tinta, papelão ou couro, o tato acariciando a página áspera ou suave, a encadernação macia ou dura, às vezes até mesmo o paladar, quando os dedos do leitor são umedecidos na língua (que é como o assassino envenena suas vítimas em O nome da rosa, de Umberto Eco). Tudo isso, muitos leitores não estão dispostos a compartilhar – e se o livro que desejam ler está em posse de outra pessoa, as leis da propriedade tornam-se difíceis de obedecer, assim como as da fidelidade no amor. Ocorre também que a posse física torna-se às vezes sinônimo de um sentimento de apreensão intelectual. Acabamos achando que os livros que possuímos são os livros que conhecemos, como se a posse fosse, em bibliotecas como nas cortes, nove décimos da lei; acabamos achando que olhar para a lombada dos livros que chamamos de nossos, os quais obedientemente montam guarda nas paredes de nossa sala, prontos a falar conosco e somente conosco ao mero adejar das páginas, nos permitisse dizer “tudo isso é meu”, como se a simples presença deles já nos enchesse de sabedoria, sem que precisássemos abrir caminho por seus conteúdos.
Nisso, tenho sido tão culpado quanto o conde Libri. Ainda hoje, afogados como somos em dezenas de edições e milhares de exemplares idênticos do mesmo livro, sei que o volume que tenho nas mãos, aquele volume e nenhum outro, torna-se o Livro. Anotações, manchas, marcas de um tipo ou de outro, um certo momento e lugar caracterizam aquele volume como se fosse um manuscrito inestimável. Podemos relutar em justificar os roubos de Libri, mas o desejo subjacente, o anseio de ser, ao menos por um momento, o único capaz de chamar um livro de meu, é comum a mais homens e mulheres honestos do que talvez estejamos dispostos a reconhecer.

Alberto Manguel, em Uma História da Leitura