18/09/2026

Atrás da Porta | Nana Caymmi

 

Novos dias (dezembro/2008)

“Este ano vai ser pior...
Pior para quem estiver no nosso caminho.”

Então, que venham os dias.
Um sorriso no rosto e os punhos cerrados que a luta não para.
Um brilho nos olhos que é para rastrear os inimigos (mesmo com medo, enfrente­-os!).
É necessário o coração em chamas para manter os sonhos aquecidos. Acenda fogueiras.
Não aceite nada de graça, nada. Até o beijo só é bom quando conquistado.
Escreva poemas, mas se te insultarem, recite palavrões. Cuidado, o acaso é traiçoeiro e o tempo é cruel, tome as rédeas do teu próprio destino.
Outra coisa, pior que a arrogância é a falsa de humildade.
As pessoas boazinhas também são perigosas, sugam energia e não dão nada em troca.
Fique esperto, amar o próximo não é abandonar a si mesmo. Para alcançar utopias é preciso enfrentar a realidade.
Quer saber quem são os outros? Pergunte quem é você.
Se não ama a tua causa, não alimente o ódio.
Por favor, gentileza gera gentileza. Obrigado!
Os erros são teus, assuma­-os. Os acertos também, divida­-os.
Ser forte não é apanhar todo dia, nem bater de vez em quando, é perdoar e pedir perdão, sempre.
Tenho más notícias: quando o bicho pegar, você vai estar sozinho. Não cultive multidões.
Qual a tua verdade? Qual a tua mentira? Teu travesseiro vai te dizer. Prepare­-se!
Se quiser realmente saber se está bonito ou bonita, pergunte aos teus inimigos, nesta hora eles serão honestos.
Quando estiver fazendo planos, não se esqueça de avisar aos teus pés, são eles que caminham.
Se vai pular sete ondinhas, recomendo que mergulhe de cabeça.
Muito amor, muito amor, mas raiva é fundamental.
Quando não tiver palavras belas, improvise. Diga a verdade.
As manhãs de sol são lindas, mas é preciso trabalhar também nos dias de chuva.
Abra os braços. Segure na mão de quem está na frente e puxe a mão de quem estiver atrás.
Não confunda briga com luta. Briga tem hora para acabar, a luta é para uma vida inteira.
O Ano­-Novo tem cara de gente boa, mas não acredite nele. Acredite em você.
Feliz todo dia!

Sérgio Vaz, em Literatura, pão e poesia

Até, tu, Quino?

Número de emergência

Balcão de companhia aérea. Cliente está sendo atendida.

ATENDENTE Senhora, eu preciso de um número de telefone, para caso aconteça alguma emergência.
CLIENTE Pode ser o meu?
ATENDENTE No caso de um acidente com a senhora, não vai adiantar muito ligar para a senhora.
CLIENTE Ah, tá. Esse número que você quer é para o caso de o avião cair?
ATENDENTE Isso.
CLIENTE É que eu não tinha nem pensado que esse avião podia cair.
ATENDENTE Não vai cair. Mas, caso caia, a gente precisa de um número…
CLIENTE Não dá pra ser o meu? É que tudo sempre acaba voltando pra mim de qualquer jeito.
ATENDENTE Desculpa, mas tem que ser o número de outra pessoa.
CLIENTE Então liga para o meu namorado.
ATENDENTE Telefone?
CLIENTE 9827… Não. Liga não. Que ele nunca atende aquilo lá, só dá caixa postal. Liga pra minha mãe. 9738… Não. Liga não. Que ela é cardíaca e vai cair dura. A não ser que você fale com jeitinho. Você já sabe como é que vai ser a abordagem?
ATENDENTE Não vou ser eu que vou ligar…
CLIENTE Então é melhor não ligar. Liga pra minha irmã. Rita. 7862… Não. Liga não. A Helena vai ficar puta que eu dei o telefone da Rita e não dei o dela. Helena é a outra irmã. Liga pra ela: 8934… Não. Mas aí a Rita é que fica puta. Liga pra Neide. É a empregada. E pede pra Neide ligar pra minha mãe, que a Neide vai saber como falar com ela. A Neide tem muito jeito com a minha mãe. E fala pra Neide pedir pra minha mãe dar a notícia pra Rita e pra Helena ao mesmo tempo, que é pra nenhuma delas ficar puta. Tá anotando?
ATENDENTE Tô tentando…
CLIENTE Não. Apaga. A Neide vai confundir tudo. Liga pro meu namorado mesmo. Ele não vai atender. Mas deixa recado. E pede pra ele ligar pra Neide e explicar pra ela tudo isso que eu te falei. Mas devagar. Não deixa ele ligar pra minha mãe antes de ligar pra Neide que ele mata ela de susto. Eles dois não se dão. Nem deixa ele ligar pra Rita nem pra Helena. E aproveita e diz pra Neide regar as plantas enquanto eu estiver morta. E apagar o meu Facebook senão o Facebook fica me sugerindo de amizade pra pessoas que sabem que eu morri e é a coisa mais constrangedora do mundo. A senha é Senha23 que é a minha Senha de tudo. E já que você tem a minha senha aproveita e libera uns amigos no Candy Crush. Entendeu?
ATENDENTE Acho que sim.
CLIENTE Então repete.
ATENDENTE Olha, vou botar o número da senhora mesmo.
CLIENTE Melhor. Que tudo sempre acaba voltando pra mim de qualquer jeito.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

Da maldade

O que é a maldade? É aquilo que observa com frequência. Em relação a tudo que vier a acontecer, lembre-se: não será distinto do que tem observado ultimamente. Em todo lugar, acima e abaixo, encontrará circunstâncias equivalentes, das quais as cidades, as casas e as velhas histórias — das eras passadas e dos nossos dias — estão repletas. Não há nada novo. Tudo é familiar e transitório.

Marco Aurélio, em Meditações

Correnteza


4

Rita Preta abre a porta de casa e encontra Cid de pé, próximo à entrada do quarto. Ela não tem oportunidade de pensar no que precisa ser dito e se deixa guiar pelo instinto. Enquanto se aproxima, diz frases como “faz dois dias que te procuro” e “você quer me enlouquecer?”. A luz do dia não parece ser suficiente para dissipar a penumbra que envolve a casa e a imagem do filho. “Sabe aonde eu fui ontem?”, continua, “fui à delegacia registrar seu sumiço.” Rita está furiosa, mas se sente ao mesmo tempo aliviada. “Seus irmãos, os vizinhos, todos estão preocupados.” Em circunstâncias normais, ela reagiria com promessas de castigos e punições. Contudo, as horas de angústia só lhe permitem repreender com moderação. Cid permanece em silêncio e, estranhamente, aparenta ser menor do que de fato é. De início, não expressa qualquer emoção. Depois, apenas parece assustado. Rita caminha em sua direção, tenta alcançá-lo, mas tem a estranha impressão de que a sala se expande ao tentar se aproximar do filho. Por fim, ao chegar perto o suficiente para constatar se ele estava bem (corpo e olhos íntegros, pôde verificar num primeiro instante), lembra-se da sacola que segura nas mãos. “Tome”, Rita a estende para o filho. Ele levanta a mão direita para recebê-la. Ela afirma que é, sim, para ele, entre uma inspiração e uma expiração mais profunda.
Ele segura o volume e pergunta: “O que é isso?”.
“Gelo”, ela responde, sorrindo, como se portasse algo realmente valioso. “Eu trouxe do trabalho.”
Cid abre a sacola e percebe que está vazia. Não há indício de gelo ou de água ou de umidade. Um volume oco e sem conteúdo. Rita arregala os olhos com espanto, tenta compreender o que aconteceu, e o vazio começa a consumir tudo ao seu redor.
Rita Preta se levanta do sofá, assustada, o coração acelerado. Acende a luz do ambiente. Após uma noite em claro e avançando noutra, ela acabou por cochilar enquanto esperava por Cid. Dirige-se ao quarto dos filhos — ele passou por aqui? — e deixa que a luz da sala o ilumine o suficiente para que seja possível ver quem está dormindo. Juca está deitado, o lençol pendendo da cama ao chão. Cainho também dorme, e um livro emprestado — reconhece a marca da biblioteca da escola — repousa sobre seu peito, subindo e descendo com o movimento de sua respiração. A cama de cima do beliche permanece vazia. Rita recolhe e fecha o livro. Retira o lençol do chão para que nenhum inseto suba na cama do mais novo.
Estavam exaustos pelas horas de espera para registrar o desaparecimento. Rita tinha a sensação de que a energia de todos se esvaiu enquanto aguardavam atendimento, de pé ou sentados, acomodados por algum tempo nas poucas cadeiras que vagavam. Isso não se devia apenas à frustração por não ter conseguido fazer o registro, mas também à forma como fora recebida pela equipe na delegacia. Ela não teve contato direto nem com o delegado nem com o escrivão, apenas com colaboradores sentados em terminais de computadores, que registravam uma infinidade de problemas enfrentados pelos que vivem numa cidade grande. Por quase uma hora e meia repetiram que o sistema estava “fora do ar”. Ainda assim, Rita continuou a aguardar sua vez. Enquanto isso, ela percebia a maresia penetrando no ambiente sempre que a porta de vidro se abria e se fechava para aqueles que procuravam respostas às suas questões. Ameaças de morte. Roubos. Violência doméstica. Em algumas ocasiões, os envolvidos estavam presentes, juntos, e era necessário que alguém levantasse a voz para apaziguar os ânimos. Aquela pequena sala representava um microcosmo de diversos planos: uma comunidade, um bairro, uma cidade.
Do outro lado da avenida, o oceano e a escuridão prevaleciam onde nada se via, por causa da parca iluminação dos postes distantes. Rita Preta sabia com exatidão os traços daquela paisagem que costumava frequentar, embora nos últimos anos as idas tivessem se tornado mais escassas. O cheiro do mar estava mais acentuado, o que a fazia imaginar que talvez fosse o sargaço acumulado na beira da praia se misturando à água salgada. Foram muitas as vezes em que ela havia se banhado naquela praia, nos dias de genuína liberdade, com ou sem os filhos, nos braços dos amantes ou não, e, certamente, umas poucas vezes com Fátima.
A cabeça de Rita Preta estava realmente ocupada com o sumiço do filho rebelde, mas, se fosse um dia comum, ela poderia ter recordado a primeira vez que avistou o mar. Foi pouco depois de chegar à baía e num dia em que ela carregava como parte do trabalho diversos utensílios com os quais gostaria de brincar: baldes, regadores e pás de plástico dos filhos de seus patrões. Naquela época, Rita ainda não tinha atingido seu pleno crescimento, aumentaria mais doze centímetros nos dois anos seguintes. Ainda não era a Rita Preta, a alcunha surgiria algum tempo depois. Enquanto tentava equilibrar tudo de que precisava cuidar, enquanto o casal à frente se ocupava das crianças que corriam em direção às ondas, sua atenção estava focada nos brinquedos que tinha nos braços para não deixá-los cair. Com os pés e as sandálias afundando na areia, ela olhava para os objetos sob sua guarda, sem perceber que se aproximava do mar. De repente, uma espuma branca cobriu seus pés e, ao olhar para o horizonte vasto, o grande rio, se sentiu mortificada com sua imensidão e sonoridade. Mais uma onda veio e ela deixou tudo cair das mãos antes de correr de volta para a calçada.
“Que idiota”, teria ouvido da patroa se o som das ondas não tivesse abafado a voz dela. A mulher lamentou que ela própria tivesse de correr para tentar impedir que os brinquedos fossem levados pelas ondas. Uma das crianças, o menino, começou a gritar ao ver o mar engolir a pá e a peneira colorida, antes que a mãe pudesse alcançar os objetos. Rita tremia dos pés à cabeça, com um gosto amargo na boca, o medo conhecido. A mulher fazia gestos para que ela voltasse para a areia e a ajudasse com as crianças, que riam e choravam ao mesmo tempo, corriam e esperneavam. Ela também começou a temer as expressões severas da patroa e então se viu obrigada a retornar pé ante pé, atenta ao horizonte, para que, diante de qualquer perigo, pudesse voltar para a calçada acima do nível das águas.
“Começou bem”, teria dito a mulher, caso a memória de Rita não a traísse anos mais tarde — e completou dizendo que precisaria descontar o prejuízo com os brinquedos de seu salário. Mas isso realmente pouco importava a Rita. Meses antes tinha sobrevivido a uma tromba-d’água que devastou a vida de todos à sua volta. Ela continuava atenta ao mar, aflita, temerosa, mas também enfeitiçada, porque passaria a guardar essa experiência íntima como um recomeço. O início de sua vida naquela cidade, para onde sua mãe tinha migrado anos antes prometendo voltar; a vida que conheceria e desbravaria ainda muito nova; e também algo além e que não conseguia explicar, mas que talvez algum dia pudesse compreender: a pedra fundamental, a primeira onda, o prelúdio de algo maior. A história que não era apenas sua, mas de todos, e que não era apenas uma retórica, mas revelava quem exatamente ela era.
Rita Preta atende ao chamado e se senta diante da escrivã responsável pelo registro. Uma mulher de meia-idade, usando óculos e camisa polo azul, com os cabelos crespos tingidos que ainda refletem o brilho do creme para pentear. Ela não dirige o olhar a Rita; está concentrada, como se o próprio corpo fosse uma extensão da máquina, e faz perguntas enquanto percorre o teclado com alguma dificuldade. Pede que se identifique e informe por que se encontra numa delegacia. “Preciso registrar o desaparecimento do meu filho.” A partir daí, inicia uma série de outras perguntas para preencher o formulário à sua frente. Há quanto tempo ele desapareceu. Local. Filiação. Data de nascimento. “A senhora trouxe seu documento? O dele?” “Trouxe a certidão de nascimento”, explica, não havia encontrado a identidade. Acredita que está com ele. “A senhora não sabe nem mesmo o número?” Rita começa a revirar os papéis na bolsa em busca de anotações que possam ajudar, mas não encontra nada. Enquanto isso, a mulher continua as perguntas: onde mora; bairro; número; casa ou apartamento; raça; cor. “Moreno”, responde Rita, e a mulher que se afirma como negra desvia o olhar da tela para encarar Rita melhor. Ela contempla seu rosto por cima dos óculos antes de voltar à tela do computador.
“A senhora poderia descrever o que sabe sobre o desaparecimento? Ele estava em casa? Tinha saído?”
Rita tenta rememorar o que sabe. Explica que estava no trabalho e chegou no início da noite, mas não o encontrou em casa. Tentou telefonar, mas a chamada caía direto na caixa postal. A mulher pergunta se ela fizera buscas pela rua, pelo bairro. Se alguém poderia ter mais informações. Rita responde que não naquele momento. “Eu tinha um compromisso e precisei sair. Achei que ele estivesse com alguém, talvez com a namorada, e que voltaria para casa como sempre fazia.” “E ele estava?”, a escrivã questiona, mantendo uma postura distante, como uma atendente de telemarketing, voz robótica, digitando as informações lentamente. “Que horas a senhora deu pela falta dele?” Rita Preta tem medo de ser censurada pela escrivã e acaba mentindo. Afirma que voltou à meia-noite, quando na realidade eram duas da manhã. “E ele não estava lá”, deduz a mulher. “Não, ele não estava.” Relata que no dia seguinte foi trabalhar preocupada, e ainda assim continuou a acreditar que ele poderia ter chegado. Quando constatou que ele não chegou, decidiu ir até a casa da namorada dele. “Namorada não, a moça com quem ele está ficando”, se corrige, “é assim que eles dizem.”
A funcionária pergunta se ele frequentou a escola naquele dia, mas Rita não tem certeza da resposta. Ela menciona que Cid vinha faltando às aulas. Depois, a moça indaga se ele fazia uso de alguma droga ou estava envolvido em atividades ilegais. Rita responde, categórica: “Nunca. Nunca soube. É respondão. Rebelde. Gosta das coisas do jeito dele. Mas nunca usou nada não, senhora”. É questionada se as pessoas com quem ele andava eram usuários. Ela revela que conhece a maioria das mães e não tinha informações sobre nada ilícito. Contou que sabia que havia tráfico em sua comunidade — “Mas eles estão lá e a gente cá. Não mexem conosco”.
“A senhora tem algo mais a acrescentar?”
Sim. Rita tinha algumas perguntas: O que a senhora acha que deve ter acontecido? A polícia vai procurar por ele?
“O boletim será enviado ao setor competente. Abrirão um processo para realizar as diligências necessárias.”
Rita Preta quer perguntar mais, mas sabe que é bastante tarde. Tem os olhos secos de cansaço e aflição.
A atendente troca um olhar com outra próxima, como se quisesse dizer: “Olha como as coisas são. Não cuidam dos filhos e ainda esperam que a polícia os procure na hora que querem”. Rita mantém o olhar firme, determinada a concluir o registro, mas não vai suportar desdém de ninguém. Ela precisa aturar a indiferença, pelo menos naquele momento, para cumprir o que tinha ido fazer. No fundo, sua vontade era dizer à mulher que ela também poderia não viver num bom lugar e que poderia ter um sobrinho, um vizinho, ou mesmo um filho perdido e conhecer uma mãe passando pelo mesmo problema. Queria expressar — e talvez tenha feito isso, já que se espera que as mães sempre confessem seu irrenunciável altruísmo — que estava sem dormir direito havia mais de vinte e quatro horas, que não podia faltar ao trabalho para procurá-lo, pois isso significaria ter descontado do salário o dinheiro do aluguel e até da alimentação da família. Queria dizer que a atendente se demonstrava pouco solidária e que não se importava com sua fadiga nem com a má sorte que a levara àquela delegacia.
“Ah, não”, um homem que também fazia um registro e estava sentado três cadeiras à frente lamenta, “o sistema caiu.”
A mulher que atende Rita ajeita os óculos e ao mesmo tempo demonstra que está aliviada com a pausa que faria, afinal a recepção está apinhada de gente — “O sistema caiu. Se a senhora precisar do boletim e do número do seu processo, é preciso aguardar”.
“Vai demorar muito?”
“Não temos previsão.”
Rita olha para os filhos e os sente impacientes com a espera. Se levanta mais uma vez e se deixa envolver de novo pela maresia invadindo o ambiente quando a porta se abre para uma mulher que segura um pano ensopado de sangue próximo à testa.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo

17/09/2026

Dark Cairo Noir ✦ 70s Egyptian Crime Jazz & Desert Espionage Grooves

Negras Olimpíadas

Clementina Carolina de Jesus
Ganhamos uma rosa de ouro
Uma rosa desenhada em canção
Algodão em sorriso ex-escravo
Sua tataraneta judoca
Negra como vazio em noite escura
De cabelos lindos alvoroçados
Como se o vento os tivesse penteando
Uma redonda flor como o sol
Brilha em seu olhar escondida
A menina espantada da Cidade de Deus
Entra em portas que nunca se abriram
Dos seus olhos de espanto e fuga
Cai uma chuva que enxuga sua dor.

José Carlos Capinan, em Cancioneiro geral

Capítulo 99 – Na Plateia



Na plateia achei o Lobo Neves, de conversa com alguns amigos; falamos por alto, a frio, constrangidos um e outro. Mas no intervalo seguinte, prestes a levantar o pano, encontramo-nos num dos corredores, em que não havia ninguém. Ele veio a mim, com muita afabilidade e riso, puxou-me a um dos óculos do teatro, e falamos muito, principalmente ele, que parecia o mais tranquilo dos homens. Cheguei a perguntar-lhe pela mulher; respondeu que estava boa, mas torceu logo a conversação para assuntos gerais, expansivo, quase risonho. Adivinhe quem quiser a causa da diferença; eu fujo ao Damasceno que me espreita ali da porta do camarote.
Não ouvi nada do seguinte ato, nem as palavras dos atores, nem as palmas do público. Reclinado na cadeira, apanhava de memória os retalhos da conversação do Lobo Neves, refazia as maneiras dele, e concluía que era muito melhor a nova situação. Bastava-nos a Gamboa. A frequência da outra casa aguçaria as invejas. E rigorosamente podíamos dispensar-nos de falar todos os dias; era até melhor, metia a saudade de permeio nos amores. Ao demais, eu galgara os quarenta anos, e não era nada, nem simples eleitor de paróquia. Urgia fazer alguma coisa, ainda por amor de Virgília, que havia de ufanar-se quando visse luzir o meu nome... Creio que nessa ocasião houve grandes aplausos, mas não juro; eu pensava em outra coisa.
Multidão, cujo amor cobicei até à morte, era assim que eu me vingava às vezes de ti; deixava burburinhar em volta do meu corpo a gente humana, sem a ouvir, como o Prometeu de Esquilo fazia aos seus verdugos. Ah! tu cuidavas encadear-me ao rochedo da tua frivolidade, da tua indiferença, ou da tua agitação? Frágeis cadeias, amiga minha; eu rompia-as de um gesto de Gulliver. Vulgar coisa é ir considerar no ermo.
O voluptuoso, o esquisito, é insular-se o homem no meio de um mar de gestos e palavras, de nervos e paixões, decretar-se alheado, inacessível, ausente. O mais que podem dizer, quando ele tomar a si, – isto é, quando toma aos outros, – é que baixa do mundo da lua; mas o mundo da lua, esse desvão luminoso e recatado do cérebro, que outra coisa é senão a afirmação desdenhosa da nossa liberdade espiritual? Vive Deus!
Eis um bom fecho de capítulo.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Mal ou mau?, por Laerte

Diário de Bernardo Soares

130.

Penso, muitas vezes, em como eu seria se, resguardado do vento da sorte pelo biombo da riqueza, nunca houvesse sido trazido, pela mão moral do meu tio, para um escritório de Lisboa, nem houvesse ascendido dele para outros, até este píncaro barato de bom ajudante de guarda-livros, com um trabalho como uma certa sesta e um ordenado que dá para estar a viver.
Sei bem que, se esse passado que não foi tivesse sido, eu não seria hoje capaz de escrever estas páginas, em todo o caso melhores, por algumas, do que as nenhumas que em melhores circunstâncias não teria feito mais que sonhar. É que a banalidade é uma inteligência e a realidade, sobretudo se é estúpida ou áspera, um complemento natural da alma.
Devo ao ser guarda-livros grande parte do que posso sentir e pensar como a negação e a fuga do cargo.
Se houvesse de inscrever, no lugar sem letras de resposta a um questionário, aque influências literárias estava grata a formação do meu espírito, abriria o espaço ponteado com o nome de Cesário Verde, mas não o fecharia sem nele inscrever os nomes do patrão Vasques, do guarda-livros Moreira, do Vieira caixeiro de praça e do António moço do escritório. E a todos poria, em letras magnas, o endereço chave LISBOA.
Vendo bem, tanto o Cesário Verde como estes foram para a minha visão do mundo coeficientes de correção. Creio que é esta a frase, cujo sentido exato evidentemente ignoro, com que os engenheiros designam o tratamento que se faz à matemática para ela poder andar até à vida. Se é, foi isso mesmo. Se não é, passe por o que poderia ser, e a intenção valha pela metáfora que falhou.
Considerando, aliás, e com a clareza que posso, o que tem sido aparentemente a minha vida, vejo-a como uma coisa colorida — capa de chocolate ou anilha de charuto — varrida, pela escova leve da criada que escuta de cima, da toalha a levantar para a pá de lixo das migalhas, entre as côdeas da realidade propriamente dita. Destaca-se das coisas cujo destino é igual por um privilégio que vai ter à pá também. E a conversa dos deuses continua por cima do escovar, indiferente a esses incidentes do serviço do mundo.
Sim, se eu tivesse sido rico, resguardado, escovado, ornamental, não teria sido nem esse breve episódio de papel bonito entre migalhas; teria ficado num prato da sorte — “não, muito obrigado” — e recolheria ao aparador para envelhecer. Assim, rejeitado depois de me comerem o miolo prático, vou com o pó do que resta do corpo de Cristo para o caixote do lixo, e nem imagino o que se segue, e entre que astros; mas sempre é seguir.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Mistério de bola


“Quando Bauer, o de pés ligeiros, se apoderou da cobiçada esfera, logo o suspeitoso Naranjo lhe partiu ao encalço, mas já Brandãozinho, semelhante à chama, lhe cortou a avançada. A tarde de olhos radiosos se fez mais clara para contemplar aquele combate, enquanto os agudos gritos e imprecações em redor animavam os contendores. A uma investida de Cárdenas, o de fera catadura, o couro inquieto quase se foi depositar no arco de Castilho, que com torva face o repeliu. Eis que Djalma, de aladas plantas, rompe entre os adversários atônitos, e conduz sua presa até o solerte Julinho, que a transfere ao valoroso Didi, e este por sua vez a comunica ao belicoso Pinga. A essa altura, já o cansaço e o suor chegam aos joelhos dos combatentes, mas o Atrida enfurecido, como o leão que, fiado na sua força, colhe no rebanho a melhor ovelha, rompendo-lhe a cerviz e despedaçando-a com fortes dentes, para em seguida sorver-lhe o sangue e as entranhas — investe contra o desprevenido Naranjo e atira-o sobre a verdejante relva calcada por tantos pés celestes. Os velozes Torres, Madri e Avellan quedam paralisados, tanto o pálido temor os domina; e é quando o divino Baltasar, a quem Zeus infundiu sua energia e destreza, arremete com a submissa pelota e vai plantá-la, como pomba mansa, entre os pés do siderado Carbajal…”
Assim gostaria eu de ouvir a descrição do jogo entre brasileiros e mexicanos, e a de todos os jogos: à maneira de Homero. Mas o estilo atual é outro, e o sentimento dramático se orna de termos técnicos. Mesmo assim, quando o cronista especializado informa que o Botafogo “não estava numa tarde de grande inspiração” ou que Zizinho “se desempenhou com o seu habitual talento”, fico imaginando que há no futebol valores transcendentes, que nós, simples curiosos, não captamos, mas que o bom torcedor vai intuindo com a argúcia apurada em uma longa educação da vista.
Confesso que o futebol me aturde, porque não sei chegar até o seu mistério. Entretanto, a criança menos informada o possui. Sua magia opera com igual eficiência sobre eruditos e simples, unifica e separa como as grandes paixões coletivas. Contudo, essa é uma paixão individual mais que todas.
Cada um tem sua maneira própria de avaliar as coisas do gramado, e onde este vê a arte mais fina, outro apenas denuncia a barbeiragem ou talvez um golpe ignominioso. Pelo nosso clube fazemos o possível, e principalmente o impossível. O jogador nos importa menos que suas cores, e se muda de camisa pode baixar em nossa estima, à revelia de toda justiça.
A estética do torcedor é inconsciente; ele ama o belo através de movimentos conjugados, astuciosos e viris, que lhe produzem uma sublime euforia, mas se lhe perguntam o que sente, exprimirá antes uma emoção política. Somos fluminenses ou vascos pela necessidade de optar, como somos liberais, socialistas ou reacionários. Apenas, se não é rara a mudança do indivíduo de um para outro partido, nunca se viu, que eu saiba, torcedor de um clube abandoná-lo em favor de outro.
Finalmente, a grande ilusão do gol confere alta dignidade à paixão popular, que não visa a um resultado positivo e duradouro no plano real, mas se satisfaz com uma abstração: vinte e dois homens se atiram uns contra outros, e era de esperar que os mais combativos ou engenhosos, saindo triunfantes, deixassem os demais no campo, arrebentados. Não. O objeto de couro transpõe uma linha convencional, e o que se chama de vitória aparece aos olhos de todos com uma evidência corporal que dispensa a imolação física. Não podemos acusar de primitivismo aos que se satisfazem com este resultado ideal.

Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira

16/09/2026

Como Explicar Imagens a uma Lebre Morta



Como Explicar Imagens a uma Lebre Morta (em alemão: Wie man dem toten Hasen die Bilder erklärt) é uma performance realizada pelo artista alemão Joseph Beuys em 26 de novembro de 1965 na Galerie Schmela em Düsseldorf. Embora tenha sido apenas a primeira exposição individual de Beuys em uma galeria privada, às vezes é referida como sua ação mais conhecida.

Processo

No início da performance, Beuys trancou as portas da galeria por dentro, deixando os visitantes do lado de fora. Eles só podiam observar a cena lá dentro através das janelas. Com a cabeça completamente coberta de mel e folha de ouro, ele começou a explicar as pinturas para uma lebre morta. Sussurrando para o animal morto em seu braço, num aparente diálogo, ele percorreu a exposição de obra em obra. Ocasionalmente, ele parava e retornava ao centro da galeria, onde passava por cima de um pinheiro morto que jazia no chão. Após três horas, o público foi autorizado a entrar na sala. Beuys sentou-se num banquinho na área de entrada com a lebre no braço e de costas para os espectadores.

Interpretação e contexto

A performance representou o ponto culminante do desenvolvimento, por Beuys, de uma definição ampliada de arte, que já havia começado em seus desenhos da década de 1950. Ele celebrou o ritual de "explicar a arte" com uma ação que, para seus espectadores, era efetivamente silenciosa.
A relação entre pensamento, fala e forma nesta performance também era característica de Beuys. Em seu último discurso Falando sobre a Alemanha (em alemão: Sprechen über Deutschland, 1985), ele enfatizou que era essencialmente um homem de palavras. Em outra ocasião, ele é citado dizendo: “Quando falo, tento guiar o impulso desse poder para que ele flua para uma linguagem mais plenamente descritiva, que é a percepção espiritual do crescimento.” A integração da fala e da conversa em suas obras visuais desempenha um papel significativo em Como Explicar Imagens a uma Lebre Morta.
A lebre é um animal com um amplo significado simbólico secular em muitas religiões. Na mitologia grega, era associada à deusa do amor, Afrodite ; para os romanos e tribos germânicas, era um símbolo de fertilidade; e no cristianismo, passou a ser ligada à Ressurreição. Essa interpretação também é corroborada pela "máscara" que Beuys usou durante sua apresentação: o ouro como símbolo do poder do sol, da sabedoria e da pureza, e o mel como símbolo germânico do renascimento.

Beuys explicou:

Para mim, a lebre é um símbolo de encarnação, que a lebre realmente encena – algo que um humano só pode fazer na imaginação. Ela cava, construindo para si uma casa na terra. Assim, ela se encarna na terra: só isso já é importante. Pelo menos, é o que me parece. O mel na minha cabeça, claro, tem a ver com o pensamento. Embora os humanos não tenham a capacidade de produzir mel, eles têm a capacidade de pensar, de produzir ideias. Portanto, a natureza obsoleta e mórbida do pensamento ganha vida novamente. O mel é, sem dúvida, uma substância viva – os pensamentos humanos também podem ganhar vida. Por outro lado, a intelectualização pode ser mortal para o pensamento: pode-se falar até a morte, seja na política ou na academia.

Esses materiais e ações tinham um valor simbólico específico para Beuys. Por exemplo, o mel era o produto das abelhas que, para Beuys (seguindo Rudolf Steiner), representavam uma sociedade ideal de calor e fraternidade. O ouro tinha sua importância na alquimia, e o ferro, o metal de Marte, representava os princípios masculinos de força e conexão com a terra. Uma fotografia da performance, na qual Beuys está sentado com a lebre, foi descrita “por alguns críticos como uma nova Mona Lisa do século XX!”, embora Beuys não concordasse com isso. 
A performance é considerada uma obra fundamental e foi recriada por Marina Abramović em 2005 no Museu Solomon R. Guggenheim, em Nova York, como parte de sua série Seven Easy Pieces.

Fonte: Wikipedia. Acesse aqui.

There Will Never Be Another You | Ilya Serov (feat Matt Cusson)

 

Balada do Festival — XX

Nós, poetas e amantes
o que sabemos do amor?
Temos o espanto na retina
diante da morte e da beleza.

Somos humanos e frágeis
mas antes de tudo, sós.
Somos inimigos.
Inimigos com muralhas
de sombra sobre os ombros.
E sonhamos. Às vezes

damos as mãos àqueles
que estão chorando.
(os que nunca choraram por nós)

Ah, meus irmãos e irmãs…
Ai daqueles que nos amam
e que por amor de nós se perdem.
Ah, pudéssemos amar um homem
ou uma mulher ou uma coisa…
Mas diante de nós, o tempo
se consome, desaparece e não para.

Ouvi: que vossos olhos se inundem
de pranto e água de todo o mundo!
Somos humanos e frágeis
mas antes de tudo, sós.

Hilda Hilst, em De amor tenho vivido  50 poemas

Arroio-das-Antas



E eu via o gado todo branco
minha alma era de donzelas.
Porandiba.

Aonde — o despovoado, o povoadozinho palustre, em feio o mau sertão — onde podia haver assombros? Trou­xe-se lá Drizilda, de nem quinze anos, que mais não chorava: firme delindo-se, terminalvelmente, sozinha viúva. Descontado que a esquecessem. Ela era quase bela; e alongavam-se-lhe os cabelos. A flor é só flor. A alegria de Deus anda vestida de amarguras.
De déu em doendo, à desvalença, para no retiramento ficar sempre vivendo, desde desengano. O irmão matara-lhe o marido, irregrado, revelde, que a desdenhava. De não ter filhos? Estranhos culpando-a, soante o costume, e o povo de parentes: fadada ao mal, nefandada. Tanto vai a nada a flor, que um dia se despetala.
Mandaram-na e quis, furtadamente, para não encarar com nin­guém, forrar-se a reprovas, dizques, piedade. Toda grande dis­tância pode ser celeste. Trás a dobrada serrania, ao último lugar do mundo, fim de som, do ido outro-lado. Arroio-das-Antas — onde só restavam velhos, mais as sobejas secas velhinhas, tristilendas. Pois era assim que era, havendo muita realidade. Que faziam essas almas?
Rodearam-na — solertes, duvidando, diversas — até ao coaxar da primeira rã. Nem achavam o acervo de perguntas, entre outroras. Seus olhos punham palavras e frases. Viera-lhes a moça, primor, mais vaga e clara que um pensamento; tinham, à fria percepção, de tê-la em mal ou em bem.
Dali — recanto agarrado e custoso, sem aconteceres — homens e mulheres cedo saíam, para tamanho longe; e, aquela, chegava? Tão não sabida nem possível, o comum não a minguando: como todo ser, coagido a calar-se, comove.
Sós, após, disputavam ainda, a bisbilhar, em roda, as candeias acesas. Nenhuma delas ganhara da vida jamais o muito — que ignoravam que queriam — feito romance, outra maneira de alma. O que a gente esperava era a noite. Mas a velhice era-lhes portentosa lanterna, arrulhavam ao Espírito-Santo.
Senão que, uma, avó Edmunda, sob mínima voz, abençoou-a: — “Meu cravinho branco...” Outra por ela puniu, afetando-se áspera: —“Gente invencioneira!” Suspiraram mor, em giro doce, enfim, entreentendidas, aguadas as vistas, com uma ternura que era quase uma saudade.
Drizilda depôs-se, sacudidos os cabelos, quisesse um parar — devagarzinho quietante — no limbo, no olvido, no não abo­lido. Fez tenção: de trabalhar, sobre só, ativa inertemente; sarado o dó de lembranças, afundando-se os dias, fora já de sobressaltos.
Sofria, sofria, enquanto a noite. Culpa capital — em escrú­pulo e recato, o delicado sofrimento, breve como uma pena de morte, peso de ninguém levantar. O marido, na cova; o irmão, preso condenado; rivais, os dois, por uma outra mulher, incerta ditosa, formosa... Deus é quem sabe o por não vir. A gente se esquece — e as coisas lembram-se da gente.
Por maiormente, o lugar — soledade, o ar, longas aves em cur­to céu — em que, múrmuras, nos fichus, sábias velhinhas se aconselhavam. Aqui, não deviam de estender notícias, o muito vulgado. Calava-se a ternura — infinito monossílabo. O que não pudera, nem soubera; não havendo um recomeçar. Pagava o mourejo, fado, sumida em si, vendo o chão, mentindo para a alma. Sem senhor, sem sombras, tão lesada; como as mais do campo, amarelas ou roxas, florzinha de má sorte? Um cachorro passava por ali, de volta para alguma infância. Desse tempo para a frente. Vigiavam-na as velhas, sem palavras.
Tramavam já com Deus, em bico de silêncio, as quantas cria­turas comedidas. De vê-la a borralheirar, doíam-se, passarinho na muda, flor, que ao fim se fana; nem podendo diverti-la, dentro em si, desse desistir. Mas, pretendiam mais. Tomavam, todas juntas, a fé de mortificadas orações, novenas, nôminas, se­têmplices. — “Deus e glória!” — adivinhavam, sérias de amor, se entusiasmavam. Elas, para o queimar e ferver de Deus, decerto prestassem — feixe de lenhazinha enxuta. Para o forçoso milagre!
Falava-se de uma ternura perfeita, ainda nem existente; o bem-querer sem descrença. Enquanto isso, o tempo, como sem­pre, fingia que passava. As velhinhas pactuavam a alegria de penar e mesmo abreviadas irem-se — a fito de que neste sertão vingassem ao menos uma vez a graça e o encanto.
Drizilda estremunhava-se, na disquietação, ainda com me­drosas pálpebras primitivas. Aqui ninguém viesse — o mundo todo invisível — só a virtude demorã, senhas de Maria e de Cristo, os cães com ternura nas narinas, borboletas terra-a-terra. Ela queria a saudade. Ora chovia ou sol, nhoso lazer, enfado­nhação, lutas luas de luar, nuvens nadas. Sua saudade — tendência secreta — sem memória. Ela, maternal com suas velhinhas, custódias, menina amante: a vovozinha... Moviam-na adiante, sob irresistíveis eflúvios, aspergiam-na, persignavam-lhe o tra­vesseiro e os cabelos. Comutava-se. Olhos de receber, a cabeça de lado feito a aceitar carinho — sorria, de dom.
Sua saudade cantava na gaiolazinha; não esperar inclui misteriosas certezas. Vinham as velhas, circulavam-na. Alguma proferia: — “Todo dia é véspera...” — e muito quando. Viam-na em rebroto — o ardente da vida — que, a tanto, um dia, ao fim, da haste se quebra. Rezavam, jejuavam, exigiam, trêmulas, po­derosas, conspiravam.
A avó Edmunda, de repente, então. — “Morreu, morreu de pe­nitências!” — a triunfar, em ordem, tão anciãs, as outras jubilavam.
Saía o enterro — Drizilda adiante, com a engrinaldada cruz — murchas, finais, as velhinhas, à manhã, mais almas.
E vinha de lá um cavalo grande, na ponta de uma flecha — entrante à estrada. Em galope curto, o Moço, que colheu rédea, recaracolando, desmontou-se, descobriu-se. Senhorizou-se: o­lhos de dar, de lado a mão feito a fazer carícia — sorria, dono. Nada; senão que a queria e amava, trespassava-se de sua vista e presença.
Ela percebeu-o puramente; levantou a beleza do rosto, reflor. Ia. E disse altinho um segredo: — “Sim”. Só o almêjo débil, entrepalpitado, que em volta as velhinhas agradeciam.
Assim são lembrados em par os dois — entreamor — Drizilda e o Moço, paixão para toda a vida. Aqui, na forte Fazenda, fe­liz que se ergueu e inda hoje há, onde o Arroio.

Guimarães Rosa, em Tutameia

Compensações

Já repararam? A má reputação sempre fez parte da fama…

Mário Quintana, em Caderno H

Cordilheira

Desde agosto não caía uma gota de chuva em Santiago. Ainda bem que nas torneiras — oh, leitor carioca, meu semelhante e meu irmão! — a água é abundante e limpa, e jorra à vontade para que à tardinha todo honesto cidadão possa regar suas plantas. Só na Inglaterra há gramados como no Chile, tão verdes, tão macios, tão perfeitos e lindos; o chileno trata o capim como se fossem flores.
Numa tarde vagabunda de sábado andei passeando pelo parque Balmaceda, cheio de árvores, crianças, flores e namorados. Não é proibido, felizmente, pisar na grama. É proibido colher flores e jogar bola, mas isso representa mais uma opinião das placas da Prefeitura que uma realidade humana. Aqui e ali três meninos jogam bola e uma garota colhe flores sem que o guarda, por esse motivo, perca seu bom humor. Também já fumei duas vezes no ônibus, ignorando o aviso, e ninguém me chamou a atenção; Chile, graças a Deus, é um bom país latino.
Mas falávamos de chuva; choveu. Choveu de tarde e a noite inteira, e o dia amanheceu enevoado. Depois o céu foi se limpando — e há três dias, enquanto a lua cresce, ele está azul, esplêndido, sem uma nuvem. Assim chegou o frio, ainda moderado, sem descer além dos 7 graus. Mas, com a chuva, o ar ficou mais fino e o alto cimo da Cordilheira se cobriu de neve.
É difícil contar esse lado da paisagem, esse alto horizonte, essa imensa muralha azul toucada de neve que brilha ao sol. Quando o sol vai morrendo do outro lado do horizonte, a Cordilheira começa a mudar de cor — a Montanha se faz violeta, a neve às vezes tem reflexos púrpuros ou róseos, o azul do céu vai se fazendo mais grave no crepúsculo alto e solene.
Santiago não tem mar; mas tem, a leste, essa presença de abismo e de infinito, essa paisagem de estranha força, pureza e paz — de uma oceânica beleza.
Santiago, abril, 1955.

Rubem Braga, em Ai de ti, Copacabana

Parte 1 — Pássaro


1.
Cristal

A neve caía esparsa.
O campo em que eu estava se estendia até uma colina. Ao longo do cume, se projetando na minha direção, havia milhares de árvores pretas sem copa ou galhos, apenas troncos nus. Como pessoas de idades diversas, eram árvores que se diferenciavam um pouco na altura e tinham espessura semelhante à de dormentes ferroviários. Contudo, não eram retas como eles, e sim inclinadas ou arqueadas. Por isso se pareciam com milhares de homens, mulheres e crianças magras, os ombros curvados cobertos de neve.
“O cemitério era aqui?”, pensei. “Essas árvores são todas lápides?”
Flocos de neve se depositavam como cristais de sal em cada copa cortada, em cada corte na transversal. Caminhei entre as árvores pretas e os túmulos em forma de monte que se prostravam atrás delas. De repente, meus pés paralisaram, pois senti que estava pisando na água. “Que estranho”, pensei, e quando me dei conta a água já havia subido até meus tornozelos. Olhei para trás. Inacreditável. Ao longe, no campo, onde achei que ficava o horizonte, na verdade estava o mar. Agora a maré subia.
Perguntei em voz alta, sem perceber: “De todos os lugares, por que usar justo este como túmulo?”.
O mar avançava cada vez mais rápido. Todos os dias a maré subia e descia assim? Os ossos já tinham sido levados, e tudo que restava eram os túmulos em forma de monte?
Não havia tempo. Eu não conseguiria alcançar os túmulos já inundados, mas as ossadas que estavam mais acima na encosta precisavam ser removidas. Naquele instante, antes que o mar avançasse mais. Mas como? Não havia ninguém ali. Eu também não tinha nenhuma pá. Como ia chegar a todos esses túmulos? Sem saber o que fazer, antes que me desse conta, a água já estava na altura dos meus joelhos, e me vi correndo, atravessando as árvores pretas.
Quando abri os olhos, o sol ainda não tinha nascido. Encarei a janela do quarto escuro, no qual não havia campo com neve caindo, nem árvores pretas, nem mar que avançava. Então fechei os olhos. Percebendo que tinha sonhado de novo com aquela cidade, cobri os olhos com as palmas das mãos geladas e permaneci deitada por mais um tempo.

***

O sonho aconteceu no verão de 2014, mais ou menos dois meses depois de eu ter publicado um livro sobre o massacre naquela cidade. No decorrer dos quatro anos seguintes, nunca duvidei da ligação do sonho com aquele local. Foi apenas no último verão que pensei pela primeira vez na possibilidade de que não se tratava só disso, e que minha conclusão rápida e intuitiva, na realidade, fora um equívoco ou um entendimento muito superficial.
As noites abafadas, de calor escaldante, já se sucediam havia três semanas. Eu, como sempre, estava tentando dormir na sala de estar, deitada sob o ar-condicionado quebrado. Já tinha tomado vários banhos gelados, mas meu corpo suado não esfriava mesmo com as costas coladas no chão de madeira. Senti a temperatura cair um pouco por volta das cinco da manhã. Era uma pequena dádiva, pois dentro de trinta minutos o sol nasceria de novo. Finalmente achei que conseguiria dormir um pouco; na verdade, senti que estava quase dormindo. De repente, aquele campo apareceu massivo detrás das minhas pálpebras fechadas. A lufada de neve se espalhando sobre os milhares de troncos pretos e os flocos de neve cintilantes que se acumulavam como sal nas copas cortadas eram quase reais.
Não sei por que meu corpo começou a tremer nesse momento. Era como o tremor de quando se desaba a chorar, mas as lágrimas não escorreram: na verdade, nem chegaram a surgir. É possível chamar isso de medo? Seria uma apreensão? Um arrepio? Uma agonia repentina? Não, era como um despertar frio, a ponto de fazer os dentes se entrechocarem. Uma faca enorme — uma lâmina de metal pesada que não poderia ser erguida com a força de uma pessoa — que flutuava no ar, parecendo mirar meu corpo. Era como se eu estivesse deitada enquanto ela e eu nos encarávamos.
Aquela foi a primeira vez que pensei que talvez o mar azul-escuro que avançava para levar os ossos sob os túmulos em forma de monte não tivesse a ver com as pessoas massacradas e a época que se seguiu. Talvez fosse apenas uma profecia pessoal. Talvez aquele lugar de sepulturas inundadas e lápides silenciosas estivesse me falando sobre o futuro da minha vida.
Ou seja, minha vida de agora.

***

No período de quatro anos entre a noite em que tive o sonho pela primeira vez e aquela madrugada de verão, vivi algumas despedidas. Algumas foram escolha minha, mas outras foram imprevisíveis, e eu só queria que parassem. Se, como dizem várias religiões antigas, existir em algum lugar — no céu ou no mundo dos mortos — um espelho gigantesco que observa e documenta cada movimento das pessoas, o registro dos meus últimos quatro anos seria como um caracol saindo da concha e avançando em cima de uma lâmina. Um corpo que deseja viver. Um corpo que é apunhalado e cortado. Um corpo que rejeita, abraça e agarra. Um corpo que se ajoelha. Um corpo que implora. Um corpo que se esvai, sem parar, em sangue, pus ou lágrimas.
No fim da primavera, quando todas as dificuldades haviam sido superadas, aluguei um apartamento perto de Seul. Eu já não tinha parentes de quem cuidar nem um emprego que me ocupasse, embora fosse difícil de aceitar. Por muito tempo, sustentei e cuidei da minha família com meu trabalho. Como essas eram as prioridades, para escrever eu reduzia minhas horas de sono, secretamente esperançosa de algum dia ter tempo para escrever o quanto quisesse; esse tipo de anseio, porém, já não existia mais.
Deixei as coisas mais ou menos nos lugares em que a empresa de mudança havia colocado e até julho passei a maior parte do tempo deitada na cama, mas quase não conseguia dormir. Não cozinhava nem saía lá fora. Eu consumia água, um pouco de arroz e kimchi branco, que pedia pela internet. Quando a enxaqueca acompanhada das cólicas estomacais começava, vomitava tudo na privada. Certa noite, escrevi um testamento. Na carta, que começava com a frase “Por favor, resolva estas questões”, eu explicava de forma breve em que gaveta estava a caixa com as cadernetas de contas bancárias, a apólice de seguro e o contrato de aluguel. Também o quanto de dinheiro eu deixava, no que gostaria que fosse empregado e para quem desejava que fosse entregue o restante. Não tinha certeza, porém, de qual seria a pessoa para quem eu deixaria um problema desses, e o espaço do destinatário ficou em branco. Tentei ainda acrescentar uma frase de agradecimento ou de desculpas, dizendo que recompensaria a pessoa que resolvesse essas questões, mas no fim não consegui preencher nome nenhum.
Foi o senso de responsabilidade por esse destinatário desconhecido que finalmente me fez levantar da cama, onde não conseguia dormir nem por um segundo, mas de onde meu corpo se recusava a sair. Comecei a limpar a casa enquanto me recordava de alguns conhecidos, um deles teria de ser a pessoa designada para resolver minhas questões. Eu precisava descartar as garrafas plásticas de água amontoadas na cozinha, minhas roupas e cobertas, que certamente se tornariam uma dor de cabeça, e os registros pessoais, como caderninhos e diários. Com sacos de lixo nas mãos, pela primeira vez em dois meses, calcei apressada meus tênis e abri a porta de entrada. A luz do sol da tarde de verão se espalhou pelo corredor voltado para o oeste, como se fosse uma revelação. Desci de elevador, passei pela portaria e, enquanto atravessava o pátio, tive a sensação de estar testemunhando algo. O mundo em que os seres humanos vivem. O tempo naquele dia. A umidade do ar e a sensação da força da gravidade.
Voltei para casa e, em vez de continuar juntando as coisas acumuladas na sala, entrei no banheiro. Sem me despir, abri a torneira de água quente do chuveiro e me sentei ali, debaixo da ducha. Eu me lembro da sensação da superfície do piso de azulejos tocando a sola curvada dos meus pés, do vapor sufocante, da camisa de algodão colada nas costas completamente encharcada, do fluxo de água quente escorrendo pela minha franja — que crescera a ponto de cobrir os olhos —, pelo queixo, pelo peito e pela barriga.
Saí do banheiro, tirei a roupa ensopada e procurei algo que pudesse usar na pilha de roupas que ainda não fora descartada. Pus no bolso duas notas de dez mil wons dobradas várias vezes e saí pela porta de entrada. Andei até o restaurante de juk localizado atrás da estação de metrô mais próxima e pedi o de pinhão, que parecia ser o mais leve. Enquanto comia devagar o prato extremamente quente, do outro lado da janela de vidro o corpo das pessoas que passavam parecia delicado, como se fosse despedaçar. Foi nesse momento que me dei conta da fragilidade da vida. De como carne, órgãos, ossos e vidas carregavam a possibilidade de ser facilmente destruídos e liquidados. Bastava uma escolha.
Foi assim que a morte se desviou de mim. Como um asteroide em rota de colisão, mas que contorna a Terra por um erro minúsculo de ângulo. Passando em velocidade violenta, sem arrependimento, sem hesitação.

***

Não me reconciliei com minha existência humana, porém tive de viver de novo.
Percebi que havia sofrido uma perda considerável de massa muscular por causa do isolamento de pouco mais de dois meses; estava num estado próximo à inanição. Necessitava comer regularmente e movimentar o corpo para acabar com a enxaqueca, a cólica estomacal, e romper o ciclo vicioso de tomar analgésico com alto teor de cafeína. Entretanto, antes de tentar fazer um esforço real, a onda de calor se iniciou. Quando a temperatura máxima do dia ultrapassou, pela primeira vez, a do corpo de uma pessoa, tentei ligar o ar-condicionado deixado pelo antigo locatário, mas ele não funcionou. As empresas de manutenção, que estavam difíceis de contatar, disseram que só poderiam atender novos chamados a partir do final de agosto, por causa da enxurrada de agendamentos ocasionada pela temperatura anormal. Mesmo se eu comprasse um novo aparelho, a situação seria a mesma.
Seria sensato procurar qualquer lugar com ar-condicionado. Todavia, eu não queria ir a locais onde as pessoas se reúnem, como cafés, bibliotecas e bancos. O que consegui fazer foi: deitar de costas no chão da sala de estar e, na medida do possível, esfriar a temperatura do corpo; tomar banhos gelados com frequência para não ficar com os poros obstruídos e não ter insolação; sair de casa por volta das oito da noite, quando o calor da rua pelo menos diminuía um pouco, comer juk e voltar. Refrescado pelo ar-condicionado, o interior do restaurante de juk era incrivelmente agradável. Por causa da diferença de temperatura interna e externa e da umidade lá fora, as janelas ficavam embaçadas como numa noite de inverno. Lá fora, uma onda de pessoas voltava para casa carregando ventiladores portáteis, preenchendo as ruas da noite tropical cujo calor não arrefece, como se fosse eterno. Depois, seria eu a caminhar por essas ruas.
Certa noite, quando tinha ido ao restaurante de juk e voltava para casa, parei em um semáforo e senti uma lufada abafada no rosto por causa do asfalto ainda quente. Nesse momento, pensei que deveria continuar escrevendo a carta. Não, que fosse outra. De novo, desde o início, deveria escrever aquele texto de destinatário ainda indeterminado, que eu tinha posto dentro de um envelope identificado, com um marcador permanente, como “Testamento”. Agora eu deveria escrever de maneira completamente diferente.

***

Tive de pensar como escreveria.
Quando tudo começou a desmoronar?
Onde estava a encruzilhada?
Qual lacuna e qual nó foram os pontos críticos?

A experiência nos mostra que certas pessoas, quando partem, pegam a faca mais afiada que possuem para cortar a parte mais sensível do outro, e elas sabem exatamente qual é, pois eram próximas.

Não quero viver como a pessoa que tomba, assim como você.
E, por querer viver, estou te deixando.
Quero viver parecendo estar viva de fato.
[…]

Han Kang, em Sem despedidas