17/06/2026

Marcelo Dai | O Novo Sempre Vem

Téo & O Mini Mundo

Epílogo

I am going to pass around in a minute some lovely, glossy-blue picture postcards.
Num minuto vou passar para vocês vários cartões postais belos e brilhantes. Esta é a mala de couro que contém a famosa coleção.
Reparem nas minhas mãos, vazias.
Meus bolsos também estão vazios.
Meu chapéu também está vazio. Vejam. Minhas manga.
Viro de costa, dou uma volta intena.
Como todos podem ver, não há nenhum truque, nenhum alçapão escondido, nem jogos de luz enganadores.
A mala repousa nesta cadeira aqui.
Abro a mala com esta chave mestra em cerimônias do tipo, e me permitem a brincadeira.
A primeira coisa que encontramos na mala, por cima de tudo, é - adivinhem - um par de luvas.
Ei-la.
Pelica.
Coisa fina.
Visto as luvas – mão esquerda... mão direita...
corte... perfeito.
Isso me lembra...
Um jovem artista perdido na elegante Berlim da Belle Époque, sozinho, em vão procurando por prazer. Passa um grupo ruidoso de patinadores, e uma mulher de branco deixa cair a sua luva, uma luva com seis botões forrados, branca, longa, perfumada. O jovem corre, apanha a luva, mas reluta se deve aceitar ou não o desafio. Afinal decide ignorá-lo, guarda a luva no bolso e volta caminhando para o seu hotel por ruas mal iluminadas.
Mas assim me desvio do meu propósito desta noite. Depois se houver tempo concluirei esta história fantástica, onde entra até uma carruagem de Netuno, um morcego gigantesco que sorri e foge sempre, e um oceano de folhagens.
Quem sabe esta não é exatamente aquela luva?
No entanto temos aqui não apenas uma, mas o par; é muito delicado e contrasta com este terno preto.
A valise de couro conterá objetos de toucador?
Não, meus amigos.
Como todos podem ver, mediante uma ligeira rotação que faço na cadeira sobre a qual ela se encontra, a valise contém apenas papel... cartões... dezenas, talvez centenas de cartões postais.
Estranha valise!
E agora, atenção.
Com minhas mãos enluvadas – um momento enquanto abotoo uma... e depois outra cuidadosamente... não há fraude... ajusto os punhos, assim... – agora com estas mãos, ao acaso, apanho o primeiro cartão postal, que contemplo por um instante sob a luz... há um reflexo... mas vejo aqui uma moça afogada entre os juncos... passo o primeiro cartão, por favor passem uns para os outros... segundo cartão: a Avenida Atlântica... vão passando... cadilaque em Acapulco... Carmem... Centro Pompidou... igreja no Alabama... castelo visto do levante... dois cupidos de óculos escuros... o ladrão de joias e a duquesa... e este aqui... Fred Astaire em Lady Be Good, ou não faz arte, menina... nostálgica... e uma Marilyn, e aqui a praia em Clacton com bingo e fish and chips... o Boeing da Air France... bondes subindo a ladeira em São Francisco... um urso polar no zoo de Barcelona... Salomé‚... Londres... outra Salomé ... vão passando, vão passando.
Meus amigos, isto é uma valise, não é uma cartola com coelhos.
Temos cartões para a noite inteira. Alexandria... Beirute... Praga...
Sejam misteriosas, um quadro de Paul...
Gauguin, seguido de O que, estás com ciúme?, uma pergunta malandra em tom capcioso, assim tomando sol na praia.
E outros de museu aqui:
O olho, como um balão bizarro, se dirige para o infinito;
No horizonte, o anjo das certitudes, e no céu sombrio, um olhar interrogador;
A dama em desespero;
O sangue da Medusa;
As mães malvadas;
Tranco a porta sobre mim;
O beijo;
Outro beijo;
O ciúme novamente,
e agora o verdadeiro Morro dos Ventos Uivantes, seguido de uma curiosa competição esportiva, e de alguma pornografia, e de um padrinho Cícero.
Meus amigos, eu não sei onde nós vamos parar.
Continuo a passar mais rapidamente estes cartões. Reparem nesses bolinhos presos com elástico, e aliás ia me esquecendo de dizer, podem e devem verificar se no verso há palavras rabiscadas, este aqui por exemplo, “Para quando serão nossas próximas horas exquisitas?”, esquisitas com xis, ou este aqui, “O Posto 6, onde passei minha infância e minha adolescência, como está mudado!”, ou este outro, ouçam só, “Fico tentando te mandar um pedacinho de onde estou mas fica faltando sempre”. E com uma letra bem miúda: “Acalmei bem, me distraí, não penso tanto, penso a te”. Acho que o final está em italiano. Vão lendo, vão lendo, a maioria está em branco mesmo, com licença.
Eu preciso sair mas volto logo.
Um cisco no olho, um pequeno cisco; na volta continuo a tirar os cartões da mala, e quem sabe, quando o momento for propício, conto o resto daquela história verdadeira, mas antes de sair tiro a luva, deixo aqui no espaldar desta cadeira.
Fin

Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés

“Dói sempre na gente, alguma vez, todo amor achável, que algum dia se desprezou...”



[…]

No sirgo fio dessas recordações, acho que eu bateava outra espécie de bondade. Devo que devia também de ter querido outra vez os carinhos daquela moça Nhorinhá, nessas ocasiões. Por que será que, aí, eu não formei a clareza disso, de a-propósito? Por lá, adiante, na vastança, era rumo de onde ela agora morava. Isso, sim, andadamente. Mas não conheci; e demos volta. Tempos escurecidos. O que meus olhos não estão vendo hoje, pode ser o que vou ter de sofrer no dia depois-d’amanhã.
Ao que inventei, enquanto assim se vinha, por pobres lugares, aos poucos eu estive amaestrando os catrumanos, o senhor está lembrado deles; ensinando aqueles catrumanos, para as coisas de armas, do que houvesse de pior. Eles já prometiam puxo; eh, burro só não gosta é de principiar viagens. Aprovei, de ver o Teofrásio, principal deles, apontando em homem malandro inocente, com a velha garrucha que era a dele, com os dois canos encavalados. Mas, que atirasse, não consenti. Zé Bebelo havia de admitir assim, de se fazer excessos? Ali, quem se lembrava de Zé Bebelo eram minhas horas de muita inteligência. Assim, ele ainda vivesse, certo havia de ter algum dia notícia do que eu estava executando! que a gente trazia a Mulher; com ela agarrada em mãos, se ia necessitar o Hermógenes a dar combate.
Essa mulher, conforme vinha, num definitivo mau silêncio, a cara desaparecida pelo xale verde, escanchada em seu cavalo. Tinham dado a ela um chapéu-de-palha de ouricurí, por se tapar do forte sol baiano. A mais, dela não se ouviu queixa ou reclamação; nem mesmo palavra. O que eu desentendia nela era aquela suave calma, tão feroz; que seria aferrada em esperar; essa capacidade. Se o ódio, só, era que dava a ela certeza de si, o ódio então era bom, na razão desse sentido! que às vezes é feito uma esperança já completada. Deus que dele me livrasse!
Mas, o homem em quem o catrumano Teofrásio com sua garrucha antiquíssima apontou, era um velho. Desse, eu digo, salvei a vida. Socorrido assim, pelo fato deu não conseguir conhecer a intenção da existência dele, sua razão de sua consciência. Ele morava numa burgueia, em choça muito de solidão, entre as touças da sempre-viva-serrã e lustro das folhagens de palmeira-pindoba.
Eu, com outros, tinha subido no tope do môrro, que era de espalha-ventos. De lá do alto, a mente minha era poder verificar muitos horizontes. E, mire veja: em quinze léguas para uma banda, era o São Josezinho da Serra, terra florescida, onde agora estava assistindo Nhorinhá, a filha de Ana Duzuza. Assunto que, na ocasião, meu espírito me negou, digo o dito. Além, além. Dela eu ainda não tinha podido receber a carta enviada. Para mim, era só uma saudade a se guardar. Hoje é que penso. Nhorinhá, namorã, que recebia todos, ficava lá, era bonita, era a que era clara, com os olhos tão dela mesma... E os homens, porfiados, gostavam de gozar com essa melhora de inocência. Então, se ela não tinha valia, como é que era de tantos homens?
Mas, no vir de cimas desse morro, do Tebá ― quero dizer: Morro dos Ofícios ― redescendo, demos com o velho, na porta da choupã dele mesmo. Homem no sistema de quase-dôido, que falava no tempo do Bom Imperador. Baiano, barba de piassaba; goiano-baiano. O pobre, que não tinha as três espigas de milho em seu paiol. Meio sarará. A barba, de capinzal sujo; e os cabelos dele eram uma ventania. Perguntei uma coisa, que ele não caprichou de entender, e o catrumano Teofrásio, que já queria se mostrar jagunço decisivo, o catrumano Teofrásio bramou ― abocou a garruchona em seus peitos dele. Mas, que não deu tujo. Esse era o velho da paciência. Paciência de velho tem muito valor. Comigo conversou. Com tudo que, em tão dilatado viver, ele tinha aprendido. Deus pai, como aquele homem sabia todas as coisas práticas da labuta, da lavoura e do mato, de tanto tudo. Mas, agora, que tanto aforrava de saber, o derrengue da velhice tirava dele toda possança de trabalhar; e mesmo o que tinha aprendido ficava fora dos costumes de usos.Velhinho que apertava muito os olhos.
Seria velhacal? Não fio. E isto, que retrato, é devido à estúrdia opinião que divulgou em mim esse velho homem. Que, por armas de sua personalidade, só possuía ali era uma faquinha e um facão cego, e um calabôca ― porrête esse que em parte ocado e recheio de chumbo, por valer até para mortes. E ele mancava estragado! por tanto que a metade do pé esquerdo faltava, cortado ― produção por picada de cobra ― urutú geladora, se supõe. Animado comigo, em fim me pediu um punhado de sal grande regular, e aceitou um naco de carne-de-sol. Porque, no comer de comum, ele aproveitava era qualquer calango sinimbú, ou gambás, que, jogando neles certeiramente o calabôca, sempre conseguia de caçar. Me chamou de! ― Chefão cangaceiro...
Acabando que, para me render benefício de agradecimento, ele me indicou, muito conselhante, que, num certo resto de tapera, de fazenda, sabia seguro de um dinheirão enterrado fundo, quantia desproposital. Eu fosse lá... ― ele disse ―; eu escavasse tal fortuna, que merecida, para meus companheiros e para mim... ― Aonde, rumo? ― indaguei, por comprazer. Ele piscou para o mato. Por lá, trinta e cinco léguas, num Riacho-das-Almas... Toleima. Eu ia navegar assim para acolá, passar matos, furar a caatinga por batoqueiras, por louvar loucura alheia? Minha guerra nem não me dava tempo. E, mesmo, se ele sabia assim, e verdade fosse, por que era que não ia, muito pessoalmente, cavacar o ouro para si? Derri dele, brando. Por que é que se dá conselho aos outros? Galinhas gostam de poeira de areia ― suas asas... E o velho homem ― cujo. Ele entendia de meus dissabôres? Eu mesmo era de empréstimo. Demos o demo... E possuía era meu caminho, nos peitos de meu cavalo. Siruiz. Alelúia só.
E o velho, no esquipático de olhar e ser, qualquer coisa em mim ele duvidava dela. Mas ― que é que era? que é que era?!... Eu carecia de indagar. E, mesmo ― porque a chefe não convém deixar os outros repararem que ele está ansiando preocupação incerta ― tive de indagar leixo, remediando com gracejo diversificado: ― Mano velho, tú é nado aqui, ou de donde? Acha mesmo assim que o sertão é bom?...
Bestiaga que ele me respondeu, e respondeu bem; e digo ao senhor:
Sertão não é malino nem caridoso, mano oh mano!: ― ...ele tira ou dá, ou agrada ou amarga, ao senhor, conforme o senhor mesmo.
Respondeu com uma insensatez, ar de ir me ferir, por tanto; jacaré já! Respondeu, apontando com o dedo para o meu peito. Desgostou de meu debique? Dele o dito, eu não decifrava. Sertanejo sem remanso. Mas desabandonamos aquilo, às pressas, porque o velho assoava o nariz com todos os dedos de uma mão, em modo que me deu nôjo. Descemos flauteando o resto do môrro. Quando chegamos cá no acampo, as ramas dárvores já iam pegando o pó da noite. Ermo meu?
Do que hoje sei, tiro passadas valias? Eh ― fome de bacurau é noitezinha... Porque: o tesouro do velho era minha razão. Tivesse querido ir lá ver, nesse Riacho-das-Almas, em trinta e cinco léguas ― e o caminho passava pelo São Josezinho da Serra, onde assistia Nhorinhá, lugarejo ditoso. Segunda vez com Nhorinhá, sabível sei, então minha vida virava por entre outros morros, seguindo para diverso desemboque. Sinto que sei. Eu havia de me casar feliz com Nhorinhá, como o belo do azul; vir aquém-de. Maiores vezes, ainda fico pensando. Em certo momento, se o caminho demudasse ― se o que aconteceu não tivesse acontecido? Como havia de ter sido a ser? Memórias que não me dão fundamento. O passado ― é ossos em redor de ninho de coruja... E, do que digo, o senhor não me mal creia! que eu estou bem casado de matrimônio ― amizade de afeto por minha bondosa mulher, em mim é ouro toqueado. Mas ― se eu tivesse permanecido no São Josezinho, e deixado por feliz a chefia em que eu era o Urutú-Branco, quantas coisas terríveis o vento-das-núvens havia de desmanchar, para não sucederem? Possível o que é ― possível o que foi. O sertão não chama ninguém às claras; mais, porém, se esconde e acena. Mas o sertão de repente se estremece, debaixo da gente... E ― mesmo ― possível o que não foi. O senhor talvez não acha? Mas, e o que eu estava dizendo, mas mesmo pensando em Nhorinhá, por causa. Dói sempre na gente, alguma vez, todo amor achável, que algum dia se desprezou... Mas, como jagunços, que se era, a gente rompeu adiante, com bons cavalos novos para retrôco. Sobre os gerais planos de areia, cheios de nada. Sobre o pardo, nas areias que morreram, sem serras de quebra-vento.
[…]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

De acordo com a natureza

A capacidade de viver da melhor maneira está na sua alma. Basta ser indiferente às coisas indiferentes. Adquirirá a indiferença ao observá-las isoladas e juntas, ao se lembrar de que nenhuma produz em nós opiniões sobre si mesmas, e ao notar que nenhuma vêm até nós. Permanecem inertes. Somos nós que produzimos julgamentos sobre elas e, por assim dizer, inscrevemo-nos em nós mesmos. Todavia, está em nosso poder não os inscrever e apagá-los, caso, porventura, invadam nossas mentes de forma imperceptível. Lembre-se que, em breve, nossa atenção e, logo depois, nossa vida chegarão ao fim.
Além do mais, qual é a dificuldade de agir assim quanto a essas coisas? Caso estejam de acordo com a natureza, alegre-se e elas serão fáceis para você. Caso estejam contrárias, procure pelas consoantes e se esforce para achá-las, ainda que não tragam reputação. Todo homem tem a permissão para buscar o seu próprio bem.

Marco Aurélio, em Meditações

O Apanhador no Campo de Centeio – 25




[…]

Depois que saí do lugar onde estavam as múmias, tive que ir ao banheiro. Para dizer a verdade, estava com um pouco de diarreia. Não liguei muito para esse negócio da diarreia, mas aconteceu outra coisa. Quando tinha acabado de me levantar da privada, quase chegando na porta, acho que desmaiei. Mas até que tive sorte. Podia ter morrido quando caí no chão, mas aterrissei meio de lado. O mais engraçado é que me senti melhor depois do desmaio. Verdade mesmo. Meu braço ficou um pouco doído, onde bati com ele no chão, mas parei de sentir aquela droga daquela tonteira.
A essa altura, já era mais ou menos meio-dia e dez, e por isso voltei para junto da porta, para esperar pela Phoebe. Pensei que aquela podia ser a última vez que eu ia vê-la. Ela ou qualquer dos meus parentes. Imaginei que provavelmente os veria outra vez, mas muitos anos depois. Poderia voltar para casa quando tivesse uns trinta e cinco anos – pensei – caso alguém ficasse doente e quisesse me ver antes de morrer, mas só assim eu deixaria a cabana e voltaria. Sabia que minha mãe ia ficar nervosa pra chuchu e ia começar a chorar e a me pedir que ficasse em casa, que não voltasse para minha cabana, mas eu iria embora de qualquer maneira. Ia bancar o superior. Ia acalmar minha mãe e aí atravessava a sala, tirava a cigarreira do bolso e acendia um cigarro – tudo isso com a maior calma. Diria a eles que me visitassem algum dia, se tivessem vontade, mas não ia insistir nem nada. Uma coisa eu ia fazer: ia deixar que a Phoebe fosse me visitar no verão e nas férias da Páscoa e do Natal. E deixaria o D.B. passar algum tempo comigo, se ele quisesse um lugar simpático e quieto para escrever. Só que não ia poder escrever nenhum filme na minha cabana só contos e romances. Ia estabelecer essa regra, que ninguém podia fazer nada de falso quando me visitasse. Se alguém tentasse fazer qualquer coisa falsa, ia ter que ir embora.
De repente, olhei para o relógio no vestíbulo e vi que já era vinte e cinco para uma. Comecei a ficar com medo de que talvez a velhinha na escola tivesse dito à outra mulher para não entregar meu recado à Phoebe. Fiquei assustado, achando que talvez ela tivesse mandado queimar o bilhete ou coisa que o valha. Me deu mesmo um medão danado. Queria muito ver a Phoebe antes de me largar pelo mundo. Além disso, estava com o dinheiro de Natal dela e tudo.
Finalmente a vi, através da porta de vidro. Logo vi que era ela porque estava usando meu chapéu de caça maluco – dava pra se enxergar aquele chapéu a quinze quilômetros de distância.
Saí e comecei a descer a escadaria de pedra para encontrar-me com ela. Só não conseguia entender aquela mala enorme que ela vinha trazendo. Estava atravessando a Quinta Avenida e arrastando aquela baita mala. Ela quase não aguentava com o peso. Quando cheguei mais perto, vi que era a minha mala velha, a que eu usava no tempo do Colégio Whooton. Não conseguia imaginar que diabo ela estava fazendo com a mala.
Oi – ela disse, quando veio chegando. Já nem tinha mais fôlego, por causa daquela mala doida.
Pensei que você não vinha mais – falei. – Que é que você pôs aí nessa mala? Não preciso de nada. Vou assim mesmo como estou. Não vou levar nem as minhas malas que estão na estação. Afinal de contas, quê que você enfiou aí?
Ela pôs a mala no chão.
Minhas roupas – respondeu. – Vou com você. Posso? Tá bem?
O quê? – perguntei. Quase caí duro quando ela disse aquilo. Juro por Deus. Me senti meio tonto e pensei que ia desmaiar outra vez ou coisa parecida.
Desci com a mala pelo elevador dos fundos para a Charlene não me ver. Não é pesada, não. Só tem dois vestidos, meus mocassins, minha roupa de baixo, meias e mais umas coisinhas. Experimenta só. Não é pesada, não. Experimenta uma vez só pra ver... Posso ir com você, Holden? Posso? Por favor.
Não. Cala a boca.
Pensei que ia desmaiar. Eu não queria que ela calasse a boca e tudo, não era bem isso, mas pensei mesmo que ia desmaiar novamente.
Por quê que eu não posso ir? Deixa, Holden. Não vou fazer nada... Só vou com você, só isso! Se você quiser nem levo minhas roupas. Só levo minha...
Você não vai levar nada. Porque nem você vai. Vou sozinho. Por isso, trata de calar a boca.
Deixa, Holden. Deixa eu ir. Vou ser muito, muito... Você nem vai...
Não vou deixar nada. Agora, cala a boca. Me dá essa mala.
Tirei a mala da mão dela. Estava quase batendo nela. Cheguei até a pensar por um instante que ia dar-lhe um tapa. No duro. Ela começou a chorar.
Pensei que você ia representar no teatro da escola e tudo. Pensei que você ia ser o Benedict Arnold naquela peça – falei, com uma voz um bocado dura. – Que é que você quer fazer? Sair da peça, é?
Isso fez ela chorar mais ainda. Fiquei satisfeito. De repente eu quis que ela chorasse até arrebentar. Quase tive ódio dela. Acho que tive mais raiva principalmente porque ela não representaria mais na peça se fosse embora comigo.
Vamos – eu disse. Comecei a subir outra vez as escadas do museu. Resolvi o que ia fazer: deixava aquela mala doida na portaria do museu e aí ela podia apanha-la às três horas, quando saísse da escola. Sabia que ela não podia mesmo levar a mala para a escola.
Vamos, agora vamos – repeti.
Mas ela não subiu comigo. Não houve jeito de faze-la ir comigo. Subi assim mesmo, deixei a mala na portaria e saí outra vez. Ela ainda estava lá, na calçada, mas virou as costas para mim quando me aproximei. Isso ela sabe fazer muito bem. Quando lhe dá na veneta, ela vira as costas pra gente sem a menor cerimônia.
Não vou mais embora pra lugar nenhum. Mudei de ideia. Agora para de chorar e cala a boca – falei. O engraçado é que, quando eu disse isso, ela nem estava chorando mais. Mas falei de qualquer maneira. – Agora vamos embora. Vou com você até a escola. Vambora, senão você vai chegar atrasada.
Nem assim me respondeu. Tentei segurar a mão dela, mas também não me deixou. Continuou me dando as costas.
Você almoçou? Já almoçou, Phoebe?
Neca de resposta. O que ela fez foi tirar da cabeça meu chapéu de caça vermelho – que eu tinha dado a ela de presente – e praticamente me jogou o chapéu na cara. Aí virou de costas outra vez. Me deu uma vontade danada de rir, mas eu não disse nada. Só apanhei o chapéu do chão e enfiei no bolso do meu casaco.
Vamos, êi! Vou andando com você até a escola.
Não vou pra escola!
Fiquei sem saber o que dizer depois que ela falou isso. Fiquei ali em pé uns dois minutos, sem fazer nada.
Você tem que voltar pra escola. Você quer trabalhar naquela peça, não quer? Você quer ser o Benedict Arnold, não quer?
Não.
É claro que você quer. É lógico que quer. Agora vamos, vambora – repeti. – Em primeiro lugar, já te disse que não vou mais embora. Vou voltar pra casa. Logo que você for para a escola eu vou voltar pra casa. Primeiro vou até a estação apanhar minhas malas, e aí vou direto...
Já te disse que não vou voltar pra escola. Você pode fazer o que quiser, mas eu não vou voltar pra escola. Por isso, cala a boca.
Era a primeira vez que ela me mandava calar a boca. Era horrível ouvir isso dito por ela. Puxa, era horrível mesmo. Pior do que se ela tivesse dito um nome feio. Continuava a nem me olhar e, cada vez que eu tentava pôr a mão no ombro dela, não me deixava.
Escuta, quer dar um passeio comigo? – perguntei. – Quer passear comigo no Jardim Zoológico? Se eu deixar você faltar à escola hoje de tarde e nós dermos um passeio, você para com essa maluquice?
Não me respondeu, por isso repeti: – Se eu deixar você matar aula hoje de tarde e dar uma voltinha, você para com essa maluquice? Você vai amanhã à escola, como uma menininha bem comportada?
Talvez sim e talvez não – respondeu. E aí saiu correndo e atravessou a rua como uma doida, sem ao menos olhar se vinha algum carro. Às vezes ela é maluquinha.
Mas não fui atrás dela. Sabia que ela iria atrás de mim, por isso comecei a andar na direção do centro da cidade, a caminho do Jardim Zoológico; eu ia pela calçada do lado do parque e ela começou a andar na mesma direção, só que pelo outro lado da rua. Não olhava para mim nem nada, mas eu sabia que ela provavelmente estava me espiando com o rabo do olho, para ver onde eu ia e tudo. De qualquer maneira, fomos assim o caminho todo, até o Jardim Zoológico. A única coisa que me chateou foi quando passou um ônibus de dois andares e eu não pude ver o outro lado da rua, para saber que diabo ela estava fazendo. Mas, quando chegamos ao Jardim Zoológico, gritei para ela:
Phoebe! Vou entrar agora! Vem!
Nem assim olhou para mim, mas eu sabia que ela tinha me ouvido. Quando comecei a descer as escadas para o Jardim Zoológico, virei para trás e vi que ela estava atravessando a rua, me seguindo e tudo.
Não havia muita gente no Jardim Zoológico, porque o tempo estava mesmo uma droga, mas havia algumas pessoas em volta da piscina dos leões-marinhos e tudo. Eu ia seguir direto, mas a danada da Phoebe parou e fingiu que estava vendo os leões-marinhos serem alimentados – tinha um sujeito jogando uns peixes para eles – por isso voltei. Imaginei que era uma boa oportunidade para chegar perto dela e tudo. Fui até lá, parei atrás dela e experimentei pôr-lhe as mãos no ombro, mas ela dobrou os joelhos e escapuliu. Ela sabe ser malcriada quando quer. Continuou ali em pé, enquanto os leões-marinhos comiam, e eu postado bem atrás. Não tentei botar a mão outra vez no ombro dela nem nada, porque, se tivesse tentado, ela teria certamente me dado outro fora. As crianças são gozadas. A gente tem que se cuidar com elas.
Quando saímos da piscina dos leões-marinhos, ela não veio andando a meu lado, mas já não estávamos tão longe um do outro. Ela ia numa beirada do passeio e eu na outra. Não era lá grande coisa, mas era melhor do que antes, quando ela ficava a um quilômetro de distância. Seguimos em frente e passamos algum tempo olhando os ursos, no alto daquela colinazinha, mas não havia muita coisa para se ver. Só um dos ursos estava do lado de fora, o polar. O outro, o marrom, estava metido na droga da cova e não saía de jeito nenhum. Só dava para ver o traseiro dele. Ao meu lado tinha um garotinho, com um chapéu de cowboy que praticamente lhe cobria as orelhas, que ficava dizendo para o pai dele: "Faz ele sair, pai. Chama ele, pai!" Olhei para a Phoebe, mas ela não estava achando graça. Sabe como é criança quando está zangada com a gente, não acha graça em nada.
Depois de ver os ursos, saímos do Jardim Zoológico, atravessamos aquela ruazinha no parque e passamos por baixo de um daqueles túneis pequenos que estão sempre cheirando a mijo. Era no caminho do carrossel. A danada da Phoebe ainda não conversava comigo nem nada, mas já estava andando meio ao meu lado agora. Agarrei o cinto nas costas do casaco dela só de brincadeira, mas não deixou.
Se não é muito incômodo, guarda tua mão pra você mesmo – ela disse.
Ainda estava zangada comigo, mas não tão zangada quanto antes. Seja como for, estávamos chegando cada vez mais perto do carrossel e já dava para se ouvir aquela musiquinha maluca que toca sempre. Estava tocando Ó, Maria! Era a mesma música que tocava há uns cinquenta anos, quando eu era pequeno. Isso é um troço bom nos carrosséis, eles tocam sempre as mesmas músicas.
Pensei que o carrossel ficava fechado no inverno – ela disse. Era praticamente a primeira vez que ela me falava alguma coisa. Provavelmente esqueceu que estava de mal comigo.
Vai ver que é por causa do Natal – falei.
Ela não falou mais nada quando eu disse isso. Provavelmente lembrou que estava de mal comigo.
Você quer dar uma volta no carrossel? – perguntei. Sabia que ela devia querer. Quando pequenininha – e o Allie, o D. B. e eu costumávamos levá-la ao parque – ela era tarada pelo carrossel. Não havia jeito de arrancá-la de lá.
Já sou muito crescida – ela falou. Pensei que não ia me responder, mas respondeu.
Que crescida, que nada. Vai que eu te espero, vai.
Tínhamos chegado lá. Havia uns garotinhos andando nele, na maioria muito pequenininhos, e uns pais esperando do lado de fora, sentados nos bancos e tudo. Fui até o guichê onde vendem as entradas e comprei uma para a Phoebe. Aí entreguei-a a ela. Ela estava bem ao meu lado.
Toma. Espera um instante, toma também o resto do teu dinheiro.
Comecei a entregar o resto do dinheiro que ela me havia emprestado.
Guarda. Guarda pra mim – ela disse e, logo em seguida: – Por favor.
Isso é deprimente, quando alguém diz “por favor” à gente. Alguém assim feito a Phoebe. Isso me deprimiu pra burro. Mas botei o dinheiro de volta no bolso.
Você também não vai dar uma volta? – ela perguntou. Estava me olhando com um jeito meio engraçado. Via-se logo que não estava mais muito zangada comigo.
Talvez eu ande na próxima volta. Agora vou ficar te olhando. Apanhou tua entrada?
Apanhei.
Então vai. Vou ficar naquele banco ali, te olhando.
Caminhei para o banco e me sentei, enquanto ela subia no carrossel. Deu a volta toda na plataforma e acabou sentando num enorme cavalo castanho, velho e surrado pra chuchu. Aí o carrossel começou a rodar e eu a fiquei vendo passar e passar. Só havia mais uns cinco ou seis garotinhos, e a música que o carrossel estava tocando era Smoke Gets in Your Eyes. Num ritmo bem ligeiro e engraçado. Todos os garotos ficavam tentando agarrar a argola dourada, e a Phoebe também, e eu cheguei a ficar com medo de que ela acabasse caindo da droga do cavalo. Mas não disse e nem fiz nada. O negócio com as crianças é que, se elas querem agarrar a argola dourada, o melhor é deixar elas fazerem o troço e não dizer nada. Se caírem, caíram, mas o errado é dizer alguma coisa para elas.
Quando acabou a volta, ela desceu do cavalo e veio até onde eu estava.
Dessa vez você vai também – ela disse.
Não, vou só ficar te olhando. Acho que só vou ficar olhando – respondi. Dei a ela mais alguma grana e falei: – Toma. Compra mais umas entradas.
Ela apanhou o dinheiro e disse: – Não tou mais de mal com você.
Eu sei. Corre que o negócio vai começar outra vez.
Então, de repente, ela me deu um beijo. Aí, estendeu a mão e falou: – Tá chovendo. Está começando a chover.
Eu sei.
Aí ela fez um troço que me deixou maluco: enfiou a mão no bolso do meu casaco, tirou o chapéu de caça vermelho e botou na minha cabeça.
Você não quer mais ele? – perguntei.
Pode usar ele um pouco.
Tá bom. Mas corre agora. Você assim vai perder essa volta. Não vai mais pegar teu cavalo nem nada.
Mas ela continuou ali.
É verdade aquilo que você disse? Que não vai mais embora? Vai mesmo pra casa depois?
Vou, respondi. E era verdade mesmo. Não estava mentindo. Fui mesmo para casa depois.
Agora, corre. O negócio já tá começando.
Ela correu, comprou a entrada e pulou na droga do carrossel bem na horinha. Aí deu a volta toda, até encontrar o cavalo dela, e montou. Acenou para mim e eu acenei de volta.
Puxa, aí começou a chover pra burro. Um dilúvio, juro por Deus. Todos os pais e mães, todo mundo correu pra debaixo do teto do carrossel, para não se molhar até os ossos, mas eu ainda fiquei ali no banco mais algum tempo. Me molhei pra diabo, principalmente no pescoço e nas calças. Até que meu chapéu de caça me protegeu mesmo um bocado, mas acabei ensopado de qualquer maneira. Mas nem liguei. Me senti tão feliz de repente, vendo a Phoebe passar e passar. Pra dizer a verdade, eu estava a ponto de chorar de tão feliz que me sentia. Sei lá por quê. É que ela estava tão bonita, do jeito que passava rodando e rodando, de casaco azul e tudo. Puxa, só a gente estando lá para ver.

J. D. Salinger, em O Apanhador no Campo de Centeio 

16/06/2026

Chico Chico | Ribanceira

Pequenos contos da cidade pequena

I
O Poeta está deitado de sapatos sobre a colcha de renda de bilros — relíquia de Vovozinha.
... e de melhores dias — suspira o Anjo, completando-lhe o pensamento.
Anjo, você está cada vez mais aburguesado.
Essa não, menino! Eu não sou comunista...

II
Do ferro de engomar, que se assoprava por trás, saíam faíscas como do traseiro do Diabo. As faces de Marianinha ficavam cada vez mais afogueadas, mais lustrosas e lindas, como as maçãs artificiais que havia no centro de mesa da sala de jantar. Não sei por que estou evocando todos esses pormenores — eles não levam a nenhum enredo notório, desculpem... Eu me aproximo como um gato, por trás.

III
O auto que passa e a vitrina da esquina trocam um duelo de reflexos.

IV
Escarrapachadas nas cadeiras da calçada, as comadres fazem trancinha. Nada lhes escapa. Nem um ponto. Mas para o menino quieto que ali se acha a tiracolo das tias o grande escândalo é a Lua, que acaba de surgir, à traição, enorme, sangrenta, assassina — ao contrário de tudo que se esperava dela —, logo ali entre as torres da igreja.

V
Noite alta um bêbado passa cantando a marchinha de um antigo carnaval. Tem uma voz de vidro moído. Uma voz aguda e esfarelada de velho.

VI
Um rodar, um estrépito de patas. Abafadamente. Mas já não se haviam sumido, há tempo, esses carros puxados a cavalo? Sia Carolina acorda e benze-se. É a Morte! É a Morte que passa, no seu carro fantasma, a visitar seus doentes.

Mário Quintana, em Caderno H

Hagar, o Horrível

Diário de Bernardo Soares

115.

Assim organizar a nossa vida que ela seja para os outros um mistério, que quem melhor nos conheça, apenas nos desconheça de mais perto que os outros. Eu assim talhei a minha vida, quase que sem pensar nisso, mas tanta arte instintiva pus em fazê-lo que para mim próprio me tornei uma não de todo clara e nítida individualidade minha.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Cabeça do Gregorio

Um grande escritório vazio. Ou quase: no canto, vemos uma mesa, com um computador velho. Um funcionário está dormindo. Seu nome é Totoro. Entra um sujeito engravatado. Totoro acorda.
FISCAL Aqui é o departamento de ideias da cabeça do Gregorio?
TOTORO Isso.
FISCAL Vazio, né?
TOTORO Ô. Quem é você?
FISCAL Eu trabalho no outro departamento da cabeça do Gregorio, o de fiscalização de outros departamentos. E o pessoal tem reclamado muito lá em cima de falta de ideias.
TOTORO É que eu tô muito pegado.
FISCAL Você não tava dormindo quando eu cheguei?
TOTORO Não, tava olhando a mesa. Mais de pertinho. Pra ver se era de madeira. Ou não.
FISCAL Você trabalha aqui?
TOTORO Isso. Eu sou o chefe do departamento de ideias.
FISCAL Chefe de quem?
TOTORO Do departamento de ideias.
FISCAL Tem mais alguém trabalhando aqui?
TOTORO Não.
FISCAL Então você é chefe de…?
TOTORO Do departamento de ideias.
FISCAL Tá explicado por que é que não chega ideia nenhuma.
TOTORO A culpa não é minha. Eu sou só um intermediário. Eu espero as ideias caírem e copio elas neste computador. E elas têm chegado muito pouco.
Cai uma bolinha de papel do teto.
FISCAL O que é que é isso?
TOTORO Uma ideia.
FISCAL Você não vai pegar?
TOTORO Em geral eu espero formar um montinho.
FISCAL Mas aqui já tem umas quatro.
Totoro respira fundo e levanta impaciente. Pega as bolinhas.
TOTORO É que não vai prestar. Quer ver? “Batizar um edifício de ‘Edifício é fácil’”.
FISCAL Que merda.
TOTORO Esse tipo de ideia eu nem passo pra vocês.
FISCAL Obrigado.
TOTORO “Um brasileiro, um americano e um japonês…” as que começam assim eu nem leio.
FISCAL Aqui tem uma que parece boa: “Um casal de idosos descobre que eram…”.
TOTORO Isso é do Verissimo.
FISCAL Mas ele roubou do Verissimo?
TOTORO Ele leu. Daí esqueceu que leu. Agora acha que é dele.
FISCAL “Rita Lee/ Ritalina.” Que trocadilho merda.
TOTORO Ele não se deu ao trabalho nem de formular uma frase.
Começa a cair um monte de bolinha.
FISCAL Caraca! Um monte de uma vez só.
TOTORO Relaxa. Isso só acontece quando ele fuma maconha.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

Onde estivestes de noite



As histórias não têm desfecho.”
Alberto Dines

O desconhecido vicia.”
Fauzi Arap

Sentado na poltrona, com a boca cheia de dentes, esperando a morte.”
Raul Seixas

O que vou anunciar é tão novo que receio ter todos os homens por inimigos, a tal ponto se enraízam no mundo os preconceitos e as doutrinas, uma vez aceitas.”
William Harvey

A noite era uma possibilidade excepcional. Em plena noite fechada de um verão escaldante um galo soltou seu grito fora de hora e uma só vez para alertar o início da subida pela montanha. A multidão embaixo aguardava em silêncio.
Ele-ela já estava presente no alto da montanha, e ela estava personalizada no ele e o ele estava personalizado no ela. A mistura andrógina criava um ser tão terrivelmente belo, tão horrorosamente estupefaciente que os participantes não poderiam olhá-lo de uma só vez: assim como uma pessoa vai pouco a pouco se habituando ao escuro e aos poucos enxergando. Aos poucos enxergavam o Ela-ele e quando o Ele-ela lhes aparecia com uma claridade que emanava dela-dele, eles paralisados pelo que é Belo diriam: “Ah, Ah”. Era uma exclamação que era permitida no silêncio da noite. Olhavam a assustadora beleza e seu perigo. Mas eles haviam vindo exatamente para sofrer o perigo.
Os pântanos se exalavam. Uma estrela de enorme densidade guiava-os. Eles eram o avesso do Bem. Subiam a montanha misturando homens, mulheres, duendes, gnomos e anões – como deuses extintos. O sino de ouro dobrava pelos suicidas. Fora da estrela graúda, nenhuma estrela. E não havia mar. O que havia do alto da montanha era escuridão. Soprava um vento noroeste. Ele-ela era um farol? A adoração dos malditos ia se processar.
Os homens coleavam no chão como grossos e moles vermes: subiam. Arriscavam tudo, já que fatalmente um dia iam morrer, talvez dentro de dois meses, talvez sete anos – fora isto que Ele-ela pensava dentro deles.
Olha o gato. Olha o que o gato viu. Olha o que o gato pensou. Olha o que era. Enfim, enfim, não havia símbolo, a “coisa” era! a coisa orgíaca. Os que subiam estavam à beira da verdade. Nabucodonosor. Eles pareciam 20 nabucodonosores. E na noite se desquitavam. Eles estão nos esperando. Era uma ausência – a viagem fora do tempo.
Um cão dava gargalhadas no escuro. “Tenho medo”, disse a criança. “Medo de quê?”, perguntava a mãe. “De meu cão.” “Mas você não tem cão.” “Tenho sim.” Mas depois a criancinha também gargalhou chorando, misturando lágrimas de riso e de espanto.
Afinal chegaram, os malditos. E olharam aquela sempiterna Viúva, a grande Solitária que fascinava todos, e os homens e mulheres não podiam resistir e queriam aproximar-se dela para amá-la morrendo mas ela com um gesto mantinha todos a distância. Eles queriam amá-la de um amor estranho que vibra em morte. Não se incomodavam de amá-la morrendo. O manto de Ela-ele era de sofrida cor roxa. Mas as mercenárias do sexo em festim procuravam imitá-la em vão.
Que horas seria? ninguém podia viver no tempo, o tempo era indireto e por sua própria natureza sempre inalcançável. Eles já estavam com as articulações inchadas, os estragos roncavam nos estômagos cheios de terra, os lábios túmidos e no entanto rachados – eles subiam a encosta. As trevas eram de um som baixo e escuro como a nota mais escura de um violoncelo. Chegaram. O Mal-Aventurado, o Ele-ela, diante da adoração de reis e vassalos, refulgia como uma iluminada águia gigantesca. O silêncio pululava de respirações ofegantes. A visão era de bocas entreabertas pela sensualidade que quase os paralisava de tão grossa. Eles se sentiam salvos do Grande Tédio.
O morro era de sucata. Quando a Ela-ele parava um instante, homens e mulheres, entregues a eles próprios por um instante, diziam-se assustados: eu não sei pensar. Mas o Ele-ela pensava dentro deles.
Um arauto mudo de clarineta aguda anunciava a notícia. Que notícia? a da bestialidade? Talvez no entanto fosse o seguinte: a partir do arauto cada um deles começou a “se sentir”, a sentir a si próprio. E não havia repressão: livres!
Aí eles começaram a balbuciar mas para dentro porque a Ela-ele era cáustica quanto a não disturbarem uns aos outros na sua lenta metamorfose. “Sou Jesus! sou judeu!”, gritava em silêncio o judeu pobre. Os anais da astronomia nunca registraram nada como este espetacular cometa, recentemente descoberto – sua cauda vaporosa se arrastará por milhões de quilômetros no espaço. Sem falar no tempo.
Um anão corcunda dava pulinhos como um sapo, de uma encruzilhada a outra – o lugar era de encruzilhadas. De repente as estrelas apareceram e eram brilhantes e diamantes no céu escuro. E o corcunda-anão dava pulos, os mais altos que conseguia para alcançar os brilhantes que sua cobiça despertava. Cristais! Cristais! gritou ele em pensamentos que eram saltitantes como os pulos.
A latência pulsava leve, ritmada, ininterrupta. Todos eram tudo em latência. “Não há crime que não tenhamos cometido em pensamento”: Goethe. Uma nova e não autêntica história brasileira era escrita no estrangeiro. Além disso, os pesquisadores nacionais se queixavam da falta de recursos para o trabalho.
A montanha era de origem vulcânica. E de repente o mar: a revolta rebentação do Atlântico lhes enchia os ouvidos. E o cheiro salgado do mar fecundava-os e triplicava-os em monstrinhos.
O corpo humano pode voar? A levitação. Santa Tereza d’Ávila: “Parecia que uma grande força me erguia no ar. Isso me provocava um grande medo.” O anão levitava por segundos mas gostava e não tinha medo.
Como é que você se chama, disse mudo o rapaz, para eu chamar você a vida inteira. Eu gritarei seu nome.
Eu não tenho nome lá embaixo. Aqui tenho o nome de Xantipa.
Ah, quero gritar Xantipa! Xantipa! Olhe, eu estou gritando para dentro. E qual é o seu nome durante o dia?
Acho que é... é... parece que é Maria Luísa.
E estremeceu como um cavalo se eriça. Caiu exangue no chão. Ninguém assassinava ninguém porque já eram assassinados. Ninguém queria morrer e não morria mesmo.
Enquanto isso – delicada, delicada – o Ele-ela usava um timbre. A cor do timbre. Porque eu quero viver em abundância e trairia o meu melhor amigo em troca de mais vida do que se pode ter. Essa procura, essa ambição. Eu desprezava os preceitos dos sábios que aconselham a moderação e a pobreza de alma – a simplificação de alma, segundo minha própria experiência, era a santa inocência. Mas eu lutava contra a tentação.
Sim. Sim: cair até a abjeção. Eis a ambição deles. O som era o arauto do silêncio. Porque nenhum poderia se deixar possuir por Aquele-aquela-sem-nome.
Eles queriam fruir o proibido. Queriam elogiar a vida e não queriam a dor que é necessária para se viver, para se sentir e para amar. Eles queriam sentir a imortalidade terrífica. Pois o proibido é sempre o melhor. Eles ao mesmo tempo não se incomodavam de talvez cair no enorme buraco da morte. E a vida só lhes era preciosa quando gritavam e gemiam. Sentir a força do ódio era o que eles melhor queriam. Eu me chamo povo, pensavam.
Que é que eu faço para ser herói? Porque nos templos só entram heróis.
E no silêncio de repente o seu grito uivado que não se sabia se de amor ou dor mortal, o herói cheirando mirra, incenso e benjoim.
Ele-ela cobria a sua nudez com um manto lindo mas como uma mortalha, mortalha púrpura, agora vermelho-catedral. Em noites sem lua Ela-ele virava coruja. Comerás teu irmão, disse ela no pensamento dos outros, e na hora selvagem haverá um eclipse do sol.
Para não se traírem eles ignoravam que hoje era ontem e haveria amanhã. Soprava no ar uma transparência como igual homem nenhum havia respirado antes. Mas eles espargiam pimenta em pó nos próprios órgãos genitais e se contorciam de ardor. E de repente o ódio. Eles não matavam uns aos outros mas sentiam tão implacável ódio que era como um dardo lançado num corpo. E se rejubilavam danados pelo que sentiam. O ódio era um vômito que os livrava de vômito maior, o vômito da alma.
Ele-ela com as sete notas musicais conseguia o uivo. Assim como com as mesmas sete notas podia criar música sacra. Ouviram eles dentro deles o dó-ré-mi-fá-sol-lá-si, o “si” macio e agudíssimo. Eles eram independentes e soberanos, apesar de guiados pelo Ele-ela. Rugindo a morte nos porões escuros. Fogo, grito, cor, vício, cruz. Estou vigilante no mundo: de noite vivo e de dia durmo, esquivo. Eu, com faro de cão, orgiático.
Quanto a eles, cumpriam rituais que os fiéis executam sem entender-lhes os mistérios. O cerimonial. Com um gesto leve Ela-ele tocou numa criança fulminando-a e todos disseram: amém. A mãe deu um uivo de lobo: ela toda morta, ela, também.
Mas era para ter supersensações que para ali se subia. E era sensação tão secreta e tão profunda que o júbilo faiscava no ar. Eles queriam a força superior que reina no mundo através dos séculos. Tinham medo? Tinham. Nada substituía a riqueza do silencioso pavor. Ter medo era a amaldiçoada glória da escuridão, silente como uma Lua.
Aos poucos se habituavam ao escuro e a Lua, antes escondida, toda redonda e pálida, tinha lhes abrandado a subida. Eram trevas quando um por um subira “a montanha”, como chamavam o planalto um pouco mais elevado. Tinham se apoiado no chão para não cair, pisando em árvores secas e ásperas, pisando em cactos espinhosos. Era um medo irresistivelmente atraente, eles prefeririam morrer que abandoná-lo. O Ele-ela era-lhes como a Amante. Mas se algum ousasse por ambição tocá-la era congelado na posição em que estivesse.
Ele-ela contou-lhes dentro de seus cérebros – e todos ouviram-na dentro de si – o que acontecia a uma pessoa quando esta não atendia ao chamado da noite: acontecia que na cegueira da luz do dia a pessoa vivia na carne aberta e nos olhos ofuscados pelo pecado da luz – a pessoa vivia sem anestesia o terror de se estar vivo. Não há nada a temer, quando não se tem medo. Era a véspera do apocalipse. Quem era o rei da Terra? Se você abusa do poder que você conquistou, os mestres o castigarão. Cheios do terror de uma feroz alegria eles se abaixavam e às gargalhadas comiam ervas daninhas do chão e as gargalhadas reboavam de escuridões a escuridões com seus ecos. Um cheiro sufocante de rosas enchia de peso o ar, rosas malditas na sua força de natureza doida, a mesma natureza que inventava as cobras e os ratos e pérolas e crianças – a natureza doida que ora era noite em trevas, ora o dia de luz. Esta carne que se move apenas porque tem espírito.
Das bocas escorria saliva grossa, amarga e untuosa, e eles se urinavam sem sentir. As mulheres que haviam parido recentemente apertavam com violência os próprios seios e dos bicos um grosso leite preto esguichava. Uma mulher cuspiu com força na cara de um homem e o cuspe áspero escorreu-lhe da face até a boca – avidamente ele lambeu os lábios.
Estavam todos soltos. A alegria era frenética. Eles eram o harém do Ele-ela. Tinham caído finalmente no impossível. O misticismo era a mais alta forma de superstição.
O milionário gritava: quero o poder! poder! quero que até os objetos obedeçam as minhas ordens! E direi: move-te, objeto! e ele por si só se moverá.
A mulher velha e desgrenhada disse para o milionário: quer ver como você não é milionário? Pois vou te dizer: você não é o dono do próximo segundo de vida, você pode morrer sem saber. A morte te humilhará. O milionário: Eu quero a verdade, a verdade pura!
A jornalista fazendo uma reportagem magnífica da vida crua. Vou ganhar fama internacional como a autora de “O exorcista” que não li para não me influenciar. Estou vendo direto a vida crua, eu a estou vivendo.
Eu sou solitário, se disse o masturbador.
Estou em espera, espera, nada jamais me acontece, já desisti de esperar. Eles bebiam o amargo licor das ervas ásperas.
Eu sou um profeta! eu vejo o além! se gritava um rapaz.
Padre Joaquim Jesus Jacinto – tudo com jota porque a mãe dele gostava da letra jota.
Era dia trinta e um de dezembro de 1973. O horário astronômico seria aferido pelos relógios atômicos, cujo atraso é de apenas um segundo a cada três mil e trezentos anos.
A outra deu para espirrar, um espirro atrás do outro, sem parar. Mas ela gostava. A outra se chamava J.B.
Minha vida é um verdadeiro romance! gritava a escritora falida.
O êxtase era reservado para o Ele-ela. Que de repente sofreu a exaltação do corpo, longamente. Ela-ele disse: parem! Porque ela se endemoniava por sentir o gozo do Mal. Eles todos através dela gozavam: era a celebração da Grande Lei. Os eunucos faziam uma coisa que era proibido olhar. Os outros, através de Ela-ele, recebiam frementes as ondas do orgasmo – mas só ondas porque não tinham força de, sem se destruírem, receber tudo. As mulheres pintavam a boca de roxo como se fosse fruta esmagada pelos afiados dentes.
O Ela-ele contou-lhes o que acontecia quando não se iniciava na profetização da noite. Estado de choque. Por exemplo: a moça era ruiva e como se não bastasse era vermelha por dentro e além disso daltônica. Tanto que no seu pequeno apartamento havia uma cruz verde sobre fundo vermelho: ela confundia as duas cores. Como é que começara o seu terror? Ouvindo um disco ou o silêncio reinante ou passos no andar de cima – e ei-la aterrorizada. Com medo do espelho que a refletia. Defronte tinha um armário e a impressão era que as roupas se mexiam dentro dele. Aos poucos ia restringindo o apartamento. Tinha medo até de sair da cama. A impressão de que iam agarrar o seu pé embaixo da cama. Era magríssima. O seu nome era Psiu, nome vermelho. Tinha medo de acender a luz no escuro e encontrar a fria lagartixa que morava com ela. Sentia com aflição os dedinhos gelados e brancos da lagartixa. Procurava avidamente no jornal as páginas policiais, notícias do que estava acontecendo. Sempre aconteciam coisas apavorantes para pessoas, como ela, que viviam só e eram assaltadas de noite. Tinha na parede um quadro que era o de um homem que a fixava bem nos olhos, vigiando-a. Essa figura ela imaginava que a seguia por todos os cantos da casa. Tinha medo pânico de ratos. Preferiria morrer a entrar em contato com eles. No entanto ouvia os guinchos deles. Chegava a sentir-lhes as mordidas nos pés. Acordava sempre sobressaltada, suando frio. Ela era um bicho acuado. Normalmente dialogava consigo mesma. Dava prós e contras e sempre quem perdia era ela. Sua vida era uma constante subtração de si mesma. Tudo isso porque não atendeu ao chamado da sirene.
O Ele-ela só deixava mostrar o rosto de andrógina. E dele se irradiava tal cego esplendor de doido que os outros fruíam a própria loucura. Ela era o vaticínio e a dissolução e já nascera tatuada. O ar todo cheirava agora a fatal jasmim e era tão forte que alguns vomitavam as próprias entranhas. A Lua estava plena no céu. Quinze mil adolescentes esperavam que espécie de homem e mulher eles iriam ser.
Então Ela-ele disse:
Comerei o teu irmão e haverá um eclipse total e o fim do mundo.
De vez em quando ouvia-se um longo relincho e não se via cavalo nenhum. Sabia-se apenas que com sete notas musicais fazem-se todas as músicas que existem e que existiam e que existirão. Da Ela-ele emanava-se forte cheiro de jasmim esmagado porque era noite de Lua cheia. O catimbó ou a feitiçaria. Max Ernst quando criança foi confundido com o Menino Jesus numa procissão. Depois provocava escândalos artísticos. Tinha uma paixão ilimitada pelos homens e uma imensa e poética liberdade. Mas por que estou falando nisso? Não sei. “Não sei” é uma resposta ótima.
O que fazia Thomas Edison, tão inventor e livre, no meio deles que eram comandados por Ele-ela?
Gregotins, pensou o estudante perfeito, era a palavra mais difícil da língua.
Escutai! os anjos anunciadores cantam!
O judeu pobre gritava mudo e ninguém o ouviu, o mundo inteiro não o ouvia. Ele disse assim: tenho sede, suor e lágrimas! e para saciar a minha sede bebo meu suor e minhas próprias lágrimas salgadas. Eu não como porco! sigo a Torah! mas dai-me alívio, Jeová, que se parece demais comigo!
Jubileu de Almeida ouvia o rádio de pilha, sempre. “O mingau mais gostoso é feito com Cremogema.” E depois anunciava, de Strauss, uma valsa que por incrível que parecesse chamava-se “O pensador livre”. É verdade, existe mesmo, eu ouvi. Jubileu era dono do “Ao Bandolim de Ouro”, loja de instrumentos musicais quase falida, e era tarado por valsas de Strauss. Era viúvo, ele, quer dizer, Jubileu. Seu rival era “O Clarim”, concorrente na rua Gomes Freire ou Frei Caneca. Jubileu era também afinador de pianos.
Todos ali estavam prestes a se apaixonar. Sexo. Puro sexo. Eles se freavam. A Romênia era um país perigoso: ciganos.
Faltava petróleo no mundo. E, sem petróleo, faltava comida. Carne, sobretudo. E sem carne eles se tornavam terrivelmente carnívoros.
Aqui, Senhor, encomendo a minha alma”, dissera Cristóvão Colombo ao morrer, vestido com o hábito franciscano. Ele não comia carne. Se santificava, Cristóvão Colombo, o descobridor das ondas, e que descobriu S. Francisco de Assis. Hélas! ele morrera. Onde estás agora? onde? pelo amor de Deus, responde!
De repente e bem de leve – fiat lux.
Houve uma debandada assustadiça como de pardais.
Tudo tão rápido que mais parecia terem se esvanecido.
Na mesma hora estavam ora deitados na cama a dormir, ora já despertos. O que existira era silêncio. Eles não sabiam de nada. Os anjos da guarda – que tinham tirado um descanso já que todos estavam na cama sossegados – despertavam frescos, bocejando ainda, mas já protegendo os seus pupilos.
Madrugada: o ovo vinha rodopiando bem lento do horizonte para o espaço. Era de manhã: uma moça loura, casada com rapaz rico, dá à luz um bebê preto. Filho do demônio da noite? Não se sabe. Apuros, vergonha.
Jubileu de Almeida acordou como pão dormido: chocho. Desde pequeno fora murcho assim. Ligou o rádio e ouviu: “Sapataria Morena onde é proibido vender caro”. Iria lá, estava precisando de sapatos. Jubileu era albino, negro aço com cílios amarelos quase brancos. Ele estalou um ovo na frigideira. E pensou: se eu pudesse algum dia ouvir “O pensador livre”, de Strauss, eu seria recompensado na minha solidão. Só ouvira essa valsa uma única vez, não se lembrava quando.
O poderoso queria no seu breakfast comer caviar dinamarquês às colheradas, estalando com os dentes agudos as bolinhas. Ele era do Rotary Club e da Maçonaria e do Diners Club. Tinha o requinte de não comer caviar russo: era um modo de derrotar a poderosa Rússia.
O judeu pobre acorda e bebe água da bica sofregamente. Era a única água que tinha nos fundos da pensão baratíssima onde morava: uma vez veio uma barata nadando no feijão ralo. As prostitutas que lá moravam nem reclamavam.
O estudante perfeito, que não desconfiava que era um chato, pensou: qual era a palavra mais difícil que existia? Qual era? Uma que significava adornos, enfeites, atavios? Ah, sim, gregotins. Decorou a palavra para escrevê-la na próxima prova.
Quando começou a raiar o dia todos estavam na cama sem parar de bocejar. Quando acordavam, um era sapateiro, um estava preso por estupro, uma era dona de casa, dando ordens à cozinheira, que nunca chegava atrasada, outro era banqueiro, outro era secretário etc. Acordavam, pois, um pouco cansados, satisfeitos pela noite tão profunda de sono. O sábado tinha passado e hoje era domingo. E muitos foram à missa celebrada por padre Jacinto que era o padre da moda: mas nenhum se confessou, já que não tinham nada a confessar.
A escritora falida abriu o seu diário encadernado de couro vermelho e começou a anotar assim: “7 de julho de 1974. Eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu! Nesta bela manhã de um sol de domingo, depois de ter dormido muito mal, eu, apesar de tudo, aprecio as belezas maravilhosas da Natureza-mãe. Não vou à praia porque sou gorda demais e esta é uma infelicidade para quem aprecia tanto as ondas verdezitas do Mar! Eu me revolto! Mas não consigo fazer regime: morro de fome. Gosto de viver perigosamente. Tua língua viperina será cortada pela tesoura da complacência”.
De manhã: agnus dei. Bezerro de ouro? Urubu.
O judeu pobre: livrai-me do orgulho de ser judeu!
A jornalista de manhã bem cedo telefona para sua amiga:
Claudia, me desculpe telefonar num domingo a esta hora! Mas acordei com uma inspiração fabulosa: vou escrever um livro sobre Magia Negra! Não, não li o tal do Exorcista, porque me disseram que é má literatura e não quero que pensem que estou indo na onda dele. Você já pensou bem? o ser humano sempre tentou se comunicar com o sobrenatural desde o antigo Egito com o segredo das Pirâmides, passando pela Grécia com seus deuses, passando por Shakespeare no Hamlet. Pois eu também vou entrar nessa. E, por Deus, vou ganhar essa parada!
Havia em muitas casas do Rio o cheiro de café. Era domingo. E o rapaz ainda na cama, cheio de torpor, ainda mal-acordado, se disse: mais um domingo de tédio. Com o que havia sonhado mesmo? Sei lá, respondeu-se, se sonhei, sonhei com mulher.
Enfim, o ar clareia. E o dia de sempre começa. O dia bruto. A luz era maléfica: instaurava-se o mal-assombrado dia diário. Uma religião se fazia necessária: uma religião que não tivesse medo do amanhã. Eu quero ser invejado. Eu quero o estupro, o roubo, o infanticídio, e o desafio meu é forte. Queria ouro e fama, desprezava até o sexo: amava depressa e não sabia o que era o amor. Quero o ouro mau. Profanação. Vou ao meu extremo. Depois da festa – que festa? noturna? – depois da festa, desolação.
Havia o observador que escreveu assim no caderno de notas: “O progresso e todos os fenômenos que o cercam parecem participar intimamente dessa lei de aceleração geral, cósmica e centrífuga que arrasta a civilização ao ‘progresso máximo’, a fim de que em seguida venha a queda. Uma queda ininterrupta ou uma queda rapidamente contida? Aí está o problema: não podemos saber se esta sociedade se destruirá completamente ou se conhecerá apenas uma interrupção brusca e depois a retomada de sua marcha”. E depois: “O Sol diminuiria seus efeitos sobre a Terra e provocaria o início de um novo período glacial que poderia durar no mínimo dez mil anos”. Dez mil anos era muito e assustava. Eis o que acontece quando alguém escolhe, por medo da noite escura, viver a superficial luz do dia. É que o sobrenatural, divino ou demoníaco, é uma tentação desde o Egito, passando pela Idade Média até os romances baratos de mistério.
O açougueiro, que nesse dia só trabalhava das oito às onze horas, abriu o açougue: e parou embriagado de prazer ao cheiro de carnes e carnes cruas, cruas e sangrentas. Era o único que de dia continuava a noite.
Padre Jacinto estava na moda porque ninguém como ele erguia tão limpidamente a taça e bebia com sagrada unção e pureza, salvando todos, o sangue de Jesus, que era o Bem. Com delicadeza as mãos pálidas num gesto de oferenda.
O padeiro como sempre acordou às quatro horas e começou a fazer a massa de pão. De noite amassar ao Diabo?
Um anjo pintado por Fra Angélico, século XV, voejava pelos ares: era a clarineta anunciadora da manhã. Os postes de luz elétrica não tinham ainda sido apagados e lustravam-se empalidecidos. Postes. A velocidade come os postes quando se está correndo de carro.
O masturbador de manhã: meu único amigo fiel é meu cão. Ele não confiava em ninguém, sobretudo em mulher.
A que bocejara a noite toda e dissera: “t’isconjuro, mãe de santo!” começou a se coçar e a bocejar. Diabo, disse ela.
O poderoso – que cuidava de orquídeas, catleias, lélias e oncídios – apertou impaciente a campainha para chamar o mordomo que lhe trouxesse o já atrasado breakfast. O mordomo adivinhava-lhe os pensamentos e sabia quando lhe trazer os galgos dinamarqueses para serem rapidamente acariciados.
Aquela que de noite gritava “estou em espera, em espera, em espera”, de manhã, toda desgrenhada disse para o leite na leiteira que estava no fogo:
Eu te pego, seu porcaria! Quero ver se tu te mancas e ferves na minha cara, minha vida é esperar. É sabido que se eu desviar um instante o olhar do leite, esse desgraçado vai aproveitar para ferver e entornar. Como a morte que vem quando não se espera.
Ela esperou, esperou e o leite não fervia. Então, desligou o gás.
No céu o mais leve arco-íris: era o anúncio. A manhã como uma ovelha branca. Pomba branca era a profecia. Manjedoura. Segredo. A manhã preestabelecida. Ave-Maria, gratia plena, dominus tecum. Benedicta tu in mulieribus et benedictum frutus ventri tui Jesus. Sancta Maria Mater Dei ora pro nobis pecatoribus. Nunca et ora nostrae morte Amem.
Padre Jacinto ergueu com as duas mãos a taça de cristal que contém o sangue escarlate de Cristo. Eta vinho bom. E uma flor nasceu. Uma flor leve, rósea, com perfume de Deus. Ele-ela há muito sumira no ar. A manhã estava límpida como coisa recém-lavada.

AMÉM

Os fiéis distraídos fizeram o sinal da Cruz.

AMÉM
DEUS
FIM

Epílogo:
Tudo o que escrevi é verdade e existe. Existe uma mente universal que me guiou. Onde estivestes de noite? Ninguém sabe. Não tentes responder – pelo amor de Deus. Não quero saber da resposta. Adeus. A-Deus.

Clarice Lispector, em Onde estivestes de noite