segunda-feira, 20 de abril de 2026

Parábola

A imagem daqueles salgueiros n’água é mais nítida e pura que os próprios salgueiros. E tem também uma tristeza toda sua, uma tristeza que não está nos primitivos salgueiros.

Mário Quintana, em Sapato Florido

Erasmo Carlos | É preciso dar um jeito meu amigo

 

Estava lá Aquiles, que abraçava

Estava lá Aquiles, que abraçava
Enfim Heitor, secreto personagem
Do sonho que na tenda o torturava;
Estava lá Saul, tendo por pajem
Davi, que ao som da cítara cantava;
E estavam lá seteiros que pensavam
Sebastião e as chagas que o mataram.
Nesse jardim, quantos as mãos deixavam
Levar aos lábios que os atraiçoaram!
Era a cidade exata, aberta, clara:
Estava lá o arcanjo incendiado
Sentado aos pés de quem desafiara;
E estava lá um deus crucificado
Beijando uma vez mais o enforcado.

Mário Faustino, em O homem e sua hora

Dificuldade de expressão

A dificuldade de encontrar, para poder exprimir, aquilo que no entanto está ali, dá uma impressão de cegueira. É quando, então, se pede um café. Não é que o café ajude a encontrar a palavra mas representa um ato histérico-libertador, isto é, um ato gratuito que liberta.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Terceiro capítulo – O Amargo Gosto da Maquela



Muidinga acorda com a primeira claridade. Durante a noite, seu sono se estremunhara. Os escritos de Kindzu lhe começam a ocupar a fantasia. De madrugada até lhe parecera ouvir os tais cabritos embriagados de Taímo. E sorri, ao se lembrar. O velho ainda ressona. O miúdo se espreguiça ao sair do machimbombo. O cacimbo é tão cheio que mal se enxerga. A corda do cabrito permanece atada aos ramos da árvore. Muidinga puxa por ela para trazer o bicho às vistas. Então, sente que a corda está solta. O cabrito fugira? Mas, se assim tinha sido, qual a razão daquele vermelho tintando o laço?
Tio, tio! Comeram o cabrito!
O velho sai aos desengonços, tropernando pelas escadas do machimbombo. Primeiro, fica parado, perplexo, a digerir névoas. Depois vai pilando raivas, mãos à cabeça, espicaçador.
Quem disse para amarrar a merda do cabrito aqui?
Grita com superiores ganas de rachar o mundo. Segura a ponta da corda, sacode-a perante o nariz. Muidinga se admira de tais fúrias. Que lamentava o velho assim tão espalhafarto?
Deve ter sido uma hiena, tio...
O velho, ríspido, agarra a cabeça do rapaz e lhe esfrega a corda no rosto.
Veja essa corda, satanhoco. Veja!
O pobre miúdo nem que quisesse. A mão do velho lhe alicateia o pescoço, dobrando seu fracturável corpo sobre os infernos. Me largue, tio. É a súplica que ele consegue, já tombado nos joelhos.
Veja aqui, grita Tuahir. Cortaram essa corda com faca!
Muidinga se arrepinha. Quem estivera ali com tais laminosas intenções? Agora ele entende a fúria do velho. Um cabrito atado só servia para agarrar os olhos dos passeantes.
Mas, tio, não nos encontraram...
Não fala comigo.
Os azedos de Tuahir não esvanecem durante o restante dia. A noite decorre de olhos abertos, vigilantes. O matador do cabrito regressaria? O miúdo se interroga: quem seriam os nocturnos saltinhadores? Matsangas? Naparamas? Simples esfomeados? Quem era que tinha sido não voltou naquela noite. Quando amanhece Muidinga se achega ao velho e se desculpa:
Não volto a fazer sem lhe ouvir.
Tuahir está mais amolecido, respirando aliviado. Fomos salvos pelo machimbombo estar queimado, disse ele. E acrescentou:
Os que vieram não voltam mais. Podemos descansar...
De novo, a morna monotonia se instala. Para distrair o tempo, tiram o banco para fora do autocarro e colocam-no no meio da estrada. Sentam-se a apanhar sol, com mais prazo que os lagartos. Muidinga repara que a paisagem, em redor, está mudando suas feições. A terra continua seca mas já existem nos ralos capins sobras de cacimbo. Aquelas gotinhas são, para Muidinga, um quase prenúncio de verdes. Era como se a terra esperasse por aldeias, habitações para abrigar futuros e felicidades. Mas o mato selvagem não oferece alimento para quem não conhece seus segredos. E a fome começa a beliscar a barriga daqueles dois. O estômago de Muidinga ronrona. O velho lhe pede contas:
Tem fome, não é, miúdo? Quem lhe mandou poupar o cabrito?
O moço está derreado, parece ter regressado ao estado da doença. Está quase parente da estrada, parado e poeiroso. O velho Tuahir se aborrece com a apatia do jovem.
Já esqueceu falar, outra vez? É da fome isso. Sabe o que você faz? Você engole com força. É, engole saliva, faz conta está entrar comida na garganta. A fome fica confusa, assim.
O velho executa, por gestos, a sua própria sugestão. Muidinga não reage. Tuahir ganha um súbito interesse no rosto do rapaz como se estudasse ali os espelhos baços do seu interior. Se levanta, ele e a sua voz, trabalhando juntos numa fúria:
Você ainda continua com essa mania de encontrar seus pais? Está proibido! Ouviste? Nem quero lhe ver pensando nesse assunto. Nunca mais.
Vê-se que se controla para não pontapear o moço, se nota um brilho de violência como se houvessem dentes no seu olhar. Parte os ramos de um arbusto, empurra o banco onde o miúdo permanece sentado.
Olha, lhe vou dizer uma coisa: seus pais faleceram. Sim, eles foram mortos com balas de bandidos. É por causa disso eu sempre estou insistir: abandona essa merda de ideia.
Vira costas. Muidinga parece impassível, sua alma desenhada só em diagonal. Era como se já soubesse, tudo aquilo não constituísse novidade nenhuma. Ou quem sabe não acreditasse na verdade da revelação. Ali ficou, estagnado o resto da manhã. É quase meio-dia quando Tuahir o sacode para anunciar que devem partir pelas redondezas. Era urgente procurar alimento, arranjar mais água.
Vai-se ou não-se?
O moço se ergue, silencioso. E partem, o miúdo segue atrás, contrariado. Aquela era sua primeira incursão pelos matos. A ela se haveriam de seguir outras. Em nenhuma dessas visitas eles se afastariam demasiado do autocarro. Desta primeira vez, eles se descaminham pelo mato, por tempos demorados. Muidinga receia perder o caminho do regresso. E se o velho se perdesse e nunca mais dessem com o machimbombo?
Qual é o problema, Muidinga?
Estou a pensar se nos perdemos...
Se não voltarmos à estrada não perdemos nada.
Era verdade: que valores arrecadava o autocarro agora que as reservas de comida se esgotavam? Porém, para Mui-dinga, não regressar seria enorme desgosto. Ele se admira: o que o prendia àqueles destroços na estrada? Então, lhe veio a resposta clara: eram os cadernos de Kindzu, as estórias que ele vinha lendo cada noite. E sente saudade das linhas, tantas quantos os passos que agora desfia pelos atalhos.
Ao fim da tarde chegam, enfim, a uns antigos terrenos de machamba. Tudo fora abandonado, as culturas se tinham perdido, castanhamente. A terra toda se despira, esperando em vão receber o beijo do arado. Aquelas visões ainda mais os esfaimam, fazendo-os arrotar o seu próprio jejum. O velho se senta numa clareira, na margem da antiga machamba. Recolhe em seu redor secos restos de mandioca. É a única cultura que resta, a única que resistiu à seca. Sacode as raízes e nota dentadas na casca.
Merda! Os ratos chegaram primeiro.
Quando Muidinga se prepara para comer Tuahir grita:
Não comas!
O velho junta às pressas os paus de mandioca e lança--os no capinzal. Andarilha às voltas a curar os nervos. Depois, se senta junto do rapaz e lhe fala:
Vou-lhe contar, miúdo. Foi por causa de mandioca dessa que você apanhou doença.
Tuahir, me conte tudo. Me conte como me encontrou.
O velho, enfim, acede. Limpa o chão onde se vai sentar em preparativo de que se iria demorar. E conta: ele estava no campo de deslocados, vindo de sua aldeia distante. Uma noite lhe pediram para ajudar a enterrar seis crianças recém--falecidas. Os corpos estavam numa cabana, por baixo de uma velha lona. Ninguém sabia quem eram, de onde tinham vindo, a que famílias pertenciam. Estavam despidas, suas roupas tinham sido roubadas mal as crianças perderam força para se defenderem. Tuahir ajudou a arrastar os corpos para um buraco. Enquanto puxava pelas pernas frias se admirava daquele peso tão diminuto. Olhava os braços ondeantes como ramos ossudos, esqueletudos, quando reparou com espanto: os dedos de uma das crianças se cravavam no chão. Não havia dúvida, aqueles dedos se agarravam à vida, lutando contra o abismo. Aquela criança ainda respirava. Era a mais clara e a mais raquítica de todas.
Parem, aquele miúdo ainda está vivo!
Os restantes coveiros se entreolham, duvidosos. E voltam a puxar os corpos: haver um vivo nada altera. Tuahir suplica que parem, os outros se imperturbam. Aqui se enterram os moribundos em viagem sem regresso. O velho sai do grupo, não tem coragem para sepultar um vivente. Já o menino se afundava em areias que atiravam no buraco quando ele se recordou:
Deixem esse: é meu sobrinho...
E você cuida dele?
Sim, eu lhe trato.
E foi assim. Nos princípios, o miúdo só pronunciava estranhas gemências. Passaram-se dias, sem outro alimento que não fosse água. O menino permanecia dobrado em si, vomitando, dolorido da cabeça aos pés. Sem se mexer, ele já trincava seu fim. Tuhair lhe pedia que se levantasse e se mantivesse de pé, nem que fosse por breves tempos. Com ajuda, o moribundo se sustinha. O velho lhe ordenava:
Veja no chão!
Muidinga olhava para o chão, nada notava. Mas as tonturas lhe dificultavam os vistos. O que era que o velho apontava?
Não vês que perdeste a tua sombra?
Era verdade. Por mais que se inclinasse, o moço não produzia nenhuma sombra. Seu corpo parecia mergulhado em eterno meio-dia. Estremecia com o presságio. E o velho pensava: “este já não tem melhora”. Mas ainda assim, insistiu. Nessa altura, o moço ainda segurava algumas palavras. A voz lhe saía em sopro:
Mas eu... o que eu tenho?
Esta doença se chama mantakassa. Você comeu mandioca azeda, dessas amargas que fermentam venenos, dessas que chamamos de maquela.
Ah, a mandioca... eu sei.
O velho tinha consciência do que iria acontecer em seguida. O menino desconhecia, no entanto, tudo que lhe esperava.
Onde estão seus pais?
Meus pais?
O menino cada vez mais se dificultava em falar, atarantonto. Ao ver a criança assim rarefeita, Tuahir sentiu descer-lhe da cabeça o coração. Puxou Muidinga pela mão e lhe prometeu:
Não lhe vou abandonar. Não tenha medo, eu lhe tomo conta.
Tuahir cumpriu. A enfermidade trabalhava no rapaz. Seu corpo se vazava de peso. As humanas faculdades nele se esvaíam. O miúdo quase já não sabia falar, nem andar, nem sequer rir. A última pergunta que fez foi uma noite em que, contemplando seu sofrimento, Tuahir deixou escapar uma lágrima:
Está a chorar de mim?
O velho nem deu resposta, negando com um sacudir de ombros. O miúdo, a seus olhos, já não surgia humano em si, todo. Só vagamente semelhava uma criança. Sua fala se engrunhia, seu corpo se tornava bravio.
Se sabias da mandioca por que comeste então, miúdo?
O velho perguntou mas já sabia a resposta. A fome apertava de mais. Morrer por morrer mais valia ver o amanhã do sol. Muidinga nada respondeu. Apenas pediu que Tuahir chegasse pertinho. Suas forças se estavam a perder. A boca desaguava as últimas palavras, dali a pouco ele já não seria capaz de pronunciar nenhum pensamento. O velho segredou o seguinte conselho: quando morresse, para encontrar caminho do Céu, o miúdo devia escolher só os carreirinhos. Os grandes caminhos nunca lhe levariam lá. Procurasse, sim, os caminhinhos, trilhozitos entre as nuvens, feitos por pé de pouca gente. Depois, não mais falou. O peso da tristeza em sua alma o sufocava. Perder aquele menino, mesmo que desconhecido, era juntar, simultâneas, todas as variedades de dor.
Dobra as pernas, depressa. Não podes morrer de pernas esticadas.
E o velho ajudou o miúdo a dobrar as pernas. Ficou à espera que a morte viesse. Passou-se tempo sem que o moço se tornasse em pessoa concluída. E se passou ao inverso do esperado. No dia seguinte, já Muidinga despertava, fortalecido. Era uma criança a nascer, quase em estado de saúde. O velho se contenta: seus filhos já quase não deixavam memória. Sentia saudade de ser pai, era como se voltasse a ser jovem.
Te vais chamar Muidinga, decidiu.
Era o nome que tinha sido dado a seu filho mais velho, ido e esvaído nas minas do Rand.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

1618 – Lima

Mundo pouco

O amo de Fabiana Crioula morreu. Em seu testamento, rebaixou-lhe o preço da liberdade, de duzentos a cento e cinquenta pesos.
Fabiana passou toda a noite sem dormir, perguntando-se quanto valeria a sua caixa de madeira cheia de canela em pó. Ela não sabe somar, de modo que não pode calcular as liberdades que comprou, com seu trabalho, ao longo do meio século que leva no mundo, nem o preço dos filhos que fizeram nela e depois arrancaram dela.
Nem bem desponta a alvorada, acode o pássaro a bater na janela com o bico. Cada dia, o mesmo pássaro avisa que é hora de despertar e andar.
Fabiana boceja, senta na esteira e olha os pés gastos.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

domingo, 19 de abril de 2026

YOÙN | O Novo Sempre Vem

 

Duas caixas

             “Caixa de ferramentas” e “caixa de brinquedos”. É preciso que eu explique por que esses dois conceitos são a base da minha filosofia de educação e de vida. Resumindo: são duas, apenas duas, as tarefas da educação, representadas por duas caixas que o corpo carrega. Na mão direita, mão da destreza e do trabalho, ele leva uma caixa de ferramentas. E na mão esquerda, mão do coração e da sensibilidade, ele leva uma caixa de brinquedos. Ferramentas são melhorias do corpo. Os animais não precisam de ferramentas ­porque seus corpos já são ferramentas. Seus corpos lhes dão todas a ferramentas de que necessitam para sobreviver. Como são desajeitados os seres humanos quando com­parados com os animais! Veja, por exemplo, os macacos. Sem nenhum treinamento especial, eles tirariam medalhas de ouro na ginástica olímpica. E os saltos das pulgas e dos gafanhotos! Já prestou atenção na velocidade das formigas? Mais velozes a pé, proporcionalmente, que os bóli­dos de Fórmula Um! O voo dos urubus, os buracos dos ta­tus, as teias das aranhas, as conchas dos moluscos, a língua saltadora dos sapos, o veneno das taturanas, os dentes dos castores... Nossa inteligência se desenvolveu para compensar a deficiência das ferramentas que o corpo nos dá, por nascimento. Assim, ela inventou melhorias para o corpo: porretes, pilões, facas, flechas, redes, barcos, bicicletas, casas, aviões, computadores... Disse Marshal MacLuhan corretamente que todos os “meios” são extensões do corpo. É isto que são as ferramentas: meios para se viver. Ferramentas aumentam a nossa força, nos dão poder: uma agulha, um pau de fósforo, um par de óculos... A ideia de que o corpo carrega duas caixas – uma caixa de ferramentas, na mão direita, e uma caixa de brinquedos, na mão esquerda – me apareceu quando me dedicava a entender santo Agostinho. Pois ele, resumindo o seu pensamento, disse que todas as coisas que existem se dividem em duas ordens distintas. A ordem do uti (ele escrevia em latim) e a ordem do frui. Uti, “o que é útil, utilizável, utensílio”. Usar uma coisa é utilizá­-la para se obter uma outra coisa. Frui, “fruir, usufruir, desfrutar, amar uma coisa por causa dela mesma”. A ordem do uti é o lugar do po­der. Todos os utensílios, ferramentas, são inventados para aumentar o poder do corpo. A ordem do frui, ao contrário, é a ordem do amor – coisas que não são utilizadas, que não são ferramentas, que não servem para nada. Elas não são úteis; são inúteis. Porque não são para ser usadas, mas para ser gozadas. A tradição cristã tem medo das coisas que são guardadas na caixa dos brinquedos. Nessa caixa se guarda a origem do pecado: o prazer…

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

Hagar, o Horrível

Peça nova

Estou escrevendo uma peça que suponho venha a alcançar a maior glória e bilheteria. Será facílima de montar. Dispensa cenários e até mesmo atores, pois o que há a comunicar poderá ser transmitido em fita magnética, se houver fita magnética. Se não houver, aproveitam-se os ruídos da rua, que sendo variados, tornarão o espetáculo diferente a cada apresentação. Em último caso, não havendo ruídos externos a captar, ficará por conta da inventiva de cada espectador a criação de sons, inteligíveis ou não (de preferência inin), que compõem (ou não compõem, tanto faz) a estrutura original de minha peça.
Como? Ah, sim, é o Yan Michalski perguntando o que é então que estou escrevendo, se não haverá texto, mas simplesmente sons, ou nem isto. Respondi-lhe que escrever o não escrito, escrever inescrevendo (sempre in) é básico em minha concepção cênica. Todo o meu esforço intelectual se concentra em compor uma peça que, não tendo qualquer palavra dicionarizada ou bolada na hora pelo autor, esteja isenta de mácula perante a suspicácia da Censura. Vencerá, pois, galhardamente, a etapa preliminar de todo espetáculo. A preliminar e as outras. Tem-se visto a Censura desaprovar o que aprovou, mandando retirar do cartaz aquilo que antes autorizara a ser mostrado. Dá o dito por não dito. Darei então o não dito por dito.
Ia começando a fazer o segundo ato, quando alguém de bom juízo me adverte que o melhor é não usar nem atores nem fita magnética nem rumores da rua. Nunca se sabe o que pode sair da mistura de sons urbanos — buzinas, gritos, freadas, objurgatórias (nome estilizado de palavrão), ronco de motor, vento zunindo, quedas do vigésimo andar, vendedores de porta de loja, gargalhadas, choro etc. Este material sonoro pode revestir-se de feições estranhas, consideradas suspeitas por um censor que tenha ouvido delicado, e lá se vai o dinheiro do produtor de minha peça, lá se vai minha glória, além de outros aborrecimentos, fáceis de prever.
O cauto amigo me previne ainda quanto ao que ele considera o maior risco: deixar entregue à imaginação imprevisível do espectador os sons da peça. Não há dúvida — admite — de que se trata de experiência dramática das mais sedutoras, pela instituição da autoria múltipla, ao sabor das novas tendências da arte: o sujeito fruidor-criador do objeto. Cada assistente repartirá comigo as vaidades da criação, e isto estimulará infinitas realizações no gênero, que se poderia rotular de teatro-em-ser, teatro-branco, teatro-não, teatro-sim, à vontade. Mas adviriam duas consequências desagradáveis. Primeira, o espectador reclamaria sua cota de direito autoral. Segunda (fatal para a peça), o espetáculo ficaria em cena apenas meio minuto, tempo suficiente para o censor detectar no espírito do cavalheiro da terceira fila, poltrona oito, a inadmissível formulação de um som altamente reprovável do ponto de vista do código da Censura.
Tendo na devida conta as ponderações do meu amigo, permito-me considerá-las improcedentes. Como renunciar ao puzzle de sons que será a essência de minha peça? Recorrer a palavras seria contaminá-la. Usar o silêncio seria estabelecer o teatro puro, para o qual não estamos preparados, ou talvez incorrer na condenação total do censor.
Não vejo o menor inconveniente em que a plateia compartilhe da renda, acho até que esta será a maneira de levar público ao teatro. Quem não gostará de colaborar na invenção e participar dos lucros? Por outro lado, a duração de meio minuto para o espetáculo já é bom limite de tempo, se o compararmos à não duração das peças natimortas pela proibição censória. Meio minuto é meio triunfo. O próprio censor, quem sabe? será tentado a praticar o exercício excitante da multiautoria com dividendo.
Prossigo pois no trabalho, com amor e pertinácia, animado do propósito de achar uma saída para o teatro nacional em face da Censura. Eis a fórmula: a peça que, por onde quer que se lhe pegue, não se deixa pegar. Pela supressão da linguagem e das conotações impróprias que toda palavra traz consigo, senão intrinsecamente, pelo jeito com que é pronunciada, pelo olhar que a sublinha, pelo gesto ou suspeita de gesto etc. Sentido? Deixa pra lá.

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

O poder da oração

Em certas manhãs desrezo:
a vida humana é muito miserável.
Um pequeno desencaixe nos ossinhos
faz minha espinha doer.
Sinto necessidade de bradar a Deus.
Ele está escondido, mas responde curto:
brim coringa não encolhe’.
E eu entendo comprido
e comovente esforço da humanidade
que faz roupa nova para ir na festa,
o prato esmaltado onde ela ama comer,
um prato fundo verde imenso mar cheio de estórias.
A vida humana é muito miserável.
Brim coringa não encolhe’?
Meu coração também não.
Quando em certas manhãs desrezo
é por esquecimento,
só por desatenção.

Adélia Prado, em O Coração Disparado

Capítulo 44 – Um Cubas!



Meu pai ficou atônito com o desenlace, e quer-me parecer que não morreu de outra coisa. Eram tantos os castelos que engenhara, tantos e tantíssimos os sonhos, que não podia vê-los assim esboroados, sem padecer um forte abalo no organismo. A princípio não quis crê-lo. Um Cubas! um galho da árvore ilustre dos Cubas! E dizia isto com tal convicção, que eu, já então informado da nossa tanoaria, esqueci um instante a volúvel dama, para só contemplar aquele fenômeno, não raro, mas curioso: uma imaginação graduada em consciência.
Um Cubas! repetia-me ele na seguinte manhã, ao almoço.
Não foi alegre o almoço; eu próprio estava a cair de sono.
Tinha velado uma parte da noite. De amor? Era impossível; não se ama duas vezes a mesma mulher, e eu, que tinha de amar aquela, tempos depois, não lhe estava agora preso por nenhum outro vínculo, além de uma fantasia passageira, alguma obediência e muita fatuidade. E isto basta a explicar a vigília; era despeito, um despeitozinho agudo como ponta de alfinete, o qual se desfez, com charutos, murros, leituras truncadas, até romper a aurora, a mais tranquila das auroras.
Mas eu era moço, tinha o remédio em mim mesmo. Meu pai é que não pôde suportar facilmente a pancada. Pensando bem, pode ser que não morresse precisamente do desastre; mas que o desastre lhe complicou as últimas dores, é positivo.
Morreu dai a quatro meses, – acabrunhado, triste, com uma preocupação intensa e contínua, à semelhança de remorso, um desencanto mortal que lhe substituiu os reumatismos e tosses. Teve ainda uma meia hora de alegria; foi quando um dos ministros o visitou. Vi-lhe, – lembra-me bem, – vi-lhe o grato sorriso de outro tempo, e nos olhos uma concentração de luz, que era por assim dizer, o último lampejo da alma expirante. Mas a tristeza tomou logo, a tristeza de morrer sem me ver posto em algum lugar alto, como aliás me cabia.
Um Cubas!
Morreu alguns dias depois da visita do ministro, uma manhã de maio, entre os dois filhos, Sabina e eu, e mais o tio Ildefonso e meu cunhado. Morreu sem lhe poder valer a ciência dos médicos, nem o nosso amor, nem os cuidados, que foram muitos, nem coisa nenhuma; tinha de morrer, morreu.
Um Cubas!

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

sábado, 18 de abril de 2026

Gaia Gentile e Nelson Faria | Um Café Lá Em Casa

Meia-noite, 16 de junho

Não volto às letras, que doem como uma catástrofe. Não escrevo mais. Não milito mais. Estou no meio da cena, entre quem adoro e quem me adora. Daqui do meio sinto cara afogueada, mão gelada, ardor dentro do gogó. A matilha de Londres caça minha maldade pueril, cândida sedução que dá e toma e então exige respeito, madame javali. Não suporto perfumes. Vasculho com o nariz o terno dele. Ar de Mia Farrow, translúcida. O horror dos perfumes, dos ciúmes e do sapato que era gêmea perfeita do ciúme negro brilhando no gogó. As noivas que preparei, amadas, brancas. Filhas do horror da noite, estalando de novas, tontas de buquês. Tão triste quando extermina, doce, insone, meu amor.

Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés

O impagável Laerte

Diário de Bernardo Soares

100.

Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não tenho esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até hoje — tantas vezes e em tanto o contrário do que eu a desejara , que posso presumir da minha vida de amanhã senão que será o que não presumo, o que não quero, o que me acontece de fora, até através da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história contínua, mas não o texto.
Breve sombra escura de uma árvore citadina, leve som de água caindo no tanque triste, verde da relva regular — jardim público ao quase crepúsculo , sois, neste momento, o universo inteiro para mim, porque sois o conteúdo pleno da minha sensação consciente. Não quero mais da vida do que senti-la perder-se nestas tardes imprevistas, ao som de crianças alheias que brincam nestes jardins engradados pela melancolia das ruas que os cercam, e copados, para além dos ramos altos das árvores, pelo céu velho onde as estrelas recomeçam.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Contradições?

... mas o que eles não sabem levar em conta é que o poeta é uma criatura essencialmente dramática, isto é, contraditória, isto é, verdadeira.
E por isso é que o bom de escrever teatro é que se pode dizer, com toda a sinceridade, as coisas mais opostas.
Sim, um autor que nunca se contradiz deve estar mentindo.

Mário Quintana, em Caderno H

O mestre e Margarida



... quem és, afinal?
Sou parte da força que eternamente
deseja o mal e eternamente faz o bem.
Fausto, Goethe

Primeira parte

1
Nunca falem com estranhos

Na hora de um quente pôr do sol primaveril, surgiram dois cidadãos em Patriarchi Prudý. O primeiro, com aproximadamente quarenta anos, trajava um costume cinza de verão, era de estatura baixa, cabelos escuros, rechonchudo, careca, na mão seu respeitável chapéu Fedora. Óculos de tamanho sobrenatural de armação preta de chifre ornavam seu rosto cuidadosamente escanhoado. O segundo era um jovem de ombros largos, arruivado, hirsuto, com um boné xadrez caído na nuca, camisa de caubói, calças brancas amarrotadas e tênis pretos.
O primeiro era nada mais nada menos que Mikhail Aleksándrovitch Berlioz, editor de uma volumosa revista de arte e presidente do conselho administrativo de uma das maiores associações literárias de Moscou, abreviadamente denominada Massolit. Já seu jovem acompanhante era o poeta Ivan Nikoláievitch Ponyriov, que escrevia sob o pseudônimo de Bezdômny.
Assim que entraram na sombra das tílias verdejantes, os escritores se precipitaram para um quiosque multicolorido com a placa “Cerveja e refrescos”.
Sim, convém destacar a primeira esquisitice desse terrível entardecer de maio. Não só perto do quiosque, mas também em toda a aleia paralela à rua Málaia Brônnaia, não havia vivalma. Naquela hora, quando não se tinha forças nem para respirar, quando o sol, após incandescer Moscou, mergulhava numa neblina seca em algum lugar de Sadôvoie Koltsô, ninguém viera para a sombra das tílias, ninguém se sentara no banco, a aleia estava vazia.
Uma água com gás — pediu Berlioz.
Não tem — respondeu a mulher do quiosque, e sabe-se lá por que se ofendeu.
Tem cerveja? — quis saber Bezdômny, com a voz rouca.
Vão trazer mais tarde — respondeu a mulher.
Então tem o quê? — perguntou Berlioz.
Refresco de damasco, e só quente — disse a mulher.
Então vai, pode ser, pode ser!...
O refresco de damasco formou uma espuma densa e amarela, surgiu no ar um cheiro de cabeleireiro. Depois de beberem, os literatos imediatamente começaram a soluçar, pagaram e sentaram-se no banco, de frente para o lago e de costas para a Brônnaia.
Nesse momento, ocorreu a segunda esquisitice, que só tinha a ver com Berlioz. Ele parou de soluçar repentinamente, seu coração bateu e, num rufo, sentiu como se tivesse despencado para algum lugar e depois voltado, mas com uma agulha cega cravada nele. Além disso, Berlioz foi tomado por um medo infundado, mas tão forte, que teve vontade de sair correndo imediatamente de Patriarchi, sem olhar para trás.
Berlioz olhou em volta angustiado, sem entender o que o assustara tanto. Empalideceu, enxugou a testa com um lenço e pensou: “O que está acontecendo comigo? Nunca senti isso... o coração está falhando... estou esgotado... Acho que está na hora de mandar tudo para o inferno e ir para Kislovôdsk...”
Na mesma hora, o ar tórrido condensou-se diante dele e desse ar fez-se um cidadão transparente, de aspecto estranhíssimo. Na pequena cabeça, um boné de jóquei, um paletó xadrez apertado e também vaporoso... Um cidadão de estatura colossal, mas de ombros estreitos, incrivelmente magro e de fisionomia, quero destacar, zombeteira.
A vida de Berlioz transcorria de tal modo que ele não estava acostumado a fenômenos extraordinários. Empalidecendo ainda mais, ele esbugalhou os olhos e pensou, confuso: “Isso não pode ser real!”
Mas infelizmente era real, e através daquilo se via um cidadão alongado e transparente, que balançava diante dele, ora para a esquerda ora para a direita, sem tocar no chão.
Nesse instante, o pavor tomou conta de Berlioz de tal forma que ele fechou os olhos. Quando os abriu, viu que tudo tinha acabado, a miragem evaporara, o xadrez desaparecera e, a propósito, a agulha cega se desprendera de seu coração.
Ê, diabo! — exclamou o editor. — Sabe, Ivan, quase tive um ataque cardíaco por causa do calor! Tive até mesmo um tipo de alucinação... — tentou sorrir, mas a aflição ainda saltava aos olhos e as mãos tremiam. Acalmou-se aos poucos, abanou-se com o lenço e pronunciou bastante animado: — Bem, então... — retomou a conversa interrompida pelo refresco de damasco.
A conversa, como descobriram posteriormente, era sobre Jesus Cristo. É que o editor havia encomendado ao poeta um grande poema antirreligioso para o próximo número da revista. Ivan Nikoláievitch escrevera o poema, e até num prazo bastante curto, mas, infelizmente, o resultado não satisfizera o editor. Bezdômny esboçou o personagem principal de seu poema, ou seja, Jesus, com tintas muito escuras e, no entanto, o poema todo deveria, na opinião do editor, ser reescrito. E agora o editor dava ao poeta uma espécie de aula sobre Jesus, para destacar o principal erro que ele havia cometido.
Difícil dizer o que exatamente traiu Ivan Nikoláievitch — se foi a força figurativa de seu talento ou a total ignorância do tema sobre o qual escreveu —, mas seu Jesus saiu assim, perfeitamente verdadeiro, um Jesus que havia realmente existido, só que, na verdade, um Jesus provido de todos os traços negativos.
Berlioz, por sua vez, queria provar ao poeta que o importante não eram as qualidades de Jesus, boas ou ruins, mas que esse Jesus, como personalidade, jamais existira no mundo e que todas as histórias sobre ele eram simples invenções, o mito mais comum.
É necessário observar que o editor era uma pessoa culta e, com muita desenvoltura, referia-se aos antigos historiadores em sua fala, por exemplo, ao famoso Fílon de Alexandria e ao brilhantemente educado Flávio Josefo, que nunca haviam dito sequer uma palavra sobre a existência de Jesus. Demonstrando uma erudição sólida, Mikhail Aleksándrovitch informou ao poeta, entre outras coisas, que aquele trecho, no quadragésimo quarto capítulo do décimo quinto livro dos famosos Anais de Tácito, no qual se relata a execução de Jesus, era nada mais, nada menos, que uma falsa e tardia inserção.
O poeta, para quem tudo o que estava sendo informado pelo editor era novidade, ouvia atentamente Mikhail Aleksándrovitch, cravando nele seus olhos verdes e vivos, e soluçando, volta e meia xingando baixinho o refresco de damasco.
Não há nenhuma religião oriental — dizia Berlioz — na qual, por via de regra, uma virgem não dê à luz um deus. Os cristãos, sem inventar nada de novo, criaram da mesma forma seu Jesus que, na realidade, nunca esteve entre os vivos. É a isso que você deve dar mais ênfase.
O tenor alto de Berlioz ecoava na aleia deserta e, à medida que Mikhail Aleksándrovitch se embrenhava mais e mais no assunto, o que somente um homem culto poderia se permitir sem quebrar a cara, o poeta descobria mais e mais coisas interessantes e úteis sobre o Osíris egípcio, o deus e filho benevolente do Céu e da Terra, sobre o deus fenício Tamuz, sobre Marduque da Babilônia e, até mesmo, sobre o menos famoso e terrível deus Vitzliputzli, muito referenciado outrora no México pelos astecas.
No exato momento em que Mikhail Aleksándrovitch contava ao poeta como os astecas esculpiram a figura de Vitzliputzli de massa, surgiu a primeira pessoa na aleia.
Posteriormente, quando, falando francamente, já era tarde demais, diferentes instituições apresentaram seus informes com a descrição dessa pessoa. A comparação dos informes não pôde deixar de causar admiração. O primeiro dizia que ela era de estatura baixa, dentes de ouro e que mancava da perna direita. O segundo, que tinha um tamanho enorme, as coroas dos dentes de platina e que mancava da perna esquerda. O terceiro informava laconicamente que essa pessoa não possuía quaisquer sinais especiais.
Deve-se reconhecer que nenhum desses informes valia coisa alguma.
Ou seja: a pessoa descrita não mancava de nenhuma das pernas, sua estatura não era nem baixa nem enorme, mas simplesmente alta. Em relação aos dentes, do lado esquerdo as coroas eram de platina e, do lado direito, de ouro. Trajava um terno caro, cinza, e sapatos estrangeiros, da mesma cor que o terno. Usava uma boina cinza, colocada à banda em uma das orelhas, e embaixo do braço trazia uma bengala com um castão preto em forma de cabeça de poodle. Aparentava uns quarenta e poucos anos. A boca era meio torta. Bem escanhoado. Moreno. O olho direito era preto, e o esquerdo, sabe-se lá por quê, verde. As sobrancelhas negras, uma mais alta do que a outra. Numa palavra, era estrangeiro.
Ao passar em frente ao banco em que se encontravam o editor e o poeta, o estrangeiro olhou-os de soslaio, parou e de repente sentou-se no banco vizinho, a dois passos dos colegas.
Alemão...”, pensou Berlioz.
Inglês...”, pensou Bezdômny. “Hum, e mesmo de luvas não está com calor.”
O estrangeiro lançou um olhar para os prédios altos, que, em forma de quadrado, margeavam o lago, e notou-se que ele via esse lugar pela primeira vez e que isso despertava seu interesse.
Ele deteve seu olhar nos andares superiores que, ofuscantes, refletiam em seus vidros o sol partido, que para sempre deixaria Mikhail Aleksándrovitch, e logo voltou o olhar para baixo, onde os vidros começavam a escurecer, crepusculares. Sorriu indulgente por causa de algo, apertou os olhos, pousou as mãos no castão e o queixo sobre as mãos.
Você, Ivan — dizia Berlioz —, representou muito bem e satiricamente, por exemplo, o nascimento de Jesus, o filho de Deus, mas o que importa é que, antes de Jesus, houve uma série de filhos de Deus, como, digamos, o Adônis fenício, o Átis frígio e o Mitra persa. Em suma, nenhum deles nunca nasceu nem nunca existiu, inclusive Jesus, e é necessário que você, no lugar do nascimento ou, suponhamos, da chegada dos Reis Magos, escreva sobre os boatos disparatados dessa chegada. Senão, pelo que você conta, parece que ele realmente nasceu!...
Então Bezdômny prendeu a respiração numa tentativa de cessar o soluço que o torturava, o que fez o soluço ficar ainda mais alto e torturante, e nesse mesmo momento Berlioz interrompeu sua fala porque o estrangeiro havia se levantado repentinamente e caminhava em direção aos escritores.
Os dois olharam para ele admirados.
Desculpem-me, por favor — falou o recém-chegado, com um forte sotaque estrangeiro, mas sem estropiar as palavras —, que eu, sendo um estranho, tome a liberdade... mas o assunto de sua conversa erudita é tão interessante que...
Então ele tirou a boina de maneira educada e aos amigos não restava mais nada a não ser se erguer e cumprimentá-lo.
Não, está mais para francês...”, pensou Berlioz.
Polaco?...”, pensou Bezdômny.
É preciso acrescentar que, desde as primeiras palavras, o estrangeiro causou uma impressão abominável no poeta, enquanto Berlioz parecia ter gostado dele, ou melhor, não que tivesse gostado, mas... como se diz... ele havia despertado seu interesse, ou algo do gênero.
Permitam-me sentar? — pediu o estrangeiro de forma educada, e os colegas, como que involuntariamente, abriram um espaço; o estrangeiro sentou-se comodamente entre os dois e, no mesmo instante, tomou parte na conversa: — Se não ouvi mal, o senhor disse que Jesus não existiu neste mundo? — perguntou o estrangeiro, voltando para Berlioz seu olho esquerdo, verde.
Não, o senhor não ouviu mal — respondeu Berlioz com cortesia. — Falei exatamente isso.
Ah, que interessante! — exclamou o estrangeiro.
O que diabos ele quer?”, pensou Bezdômny, franzindo a testa.
E o senhor concordava com seu interlocutor? — quis saber o desconhecido, virando-se para a direita, para Bezdômny.
Cem por cento! — confirmou Bezdômny, que gostava de se expressar de forma afetada.
Incrível! — exclamou o interlocutor intrometido e, sabe-se lá por quê, olhou furtivamente ao redor e, abafando sua voz grave, disse: — Desculpem a minha impertinência, mas eu entendi de tal forma que, além de tudo, não acreditam em Deus? — Ele fez um olhar assustado e acrescentou: — Juro que não direi a ninguém.
É, não acreditamos em Deus — respondeu Berlioz sorrindo de leve diante do susto do turista estrangeiro —, mas pode falar disso com total liberdade.
O estrangeiro reclinou-se no encosto do banco e perguntou com voz esganiçada pela curiosidade:
São ateus?!
É, somos ateus — respondeu Berlioz, sorrindo, e Bezdômny, enfurecido, pensou: “Pronto, esse estrangeiro já está querendo armar confusão!”
Oh, que graça! — gritou o estrangeiro, surpreendido, e pôs-se a mover a cabeça, olhando ora para um, ora para o outro beletrista.
Em nosso país o ateísmo não surpreende ninguém — disse Berlioz, diplomático e educado. — A maioria da nossa população deixou de crer, conscientemente, nos contos de fada sobre Deus há muito tempo.
Então o estrangeiro aprontou a seguinte peça: pôs-se de pé e apertou a mão do editor pasmo, pronunciando as seguintes palavras:
Permita-me agradecer-lhe de todo o coração!
Por que o senhor lhe agradece? — quis saber Bezdômny, piscando.
Pela informação muito importante, que, para mim, um viajante, é interessante demais — explicou o estrangeiro esquisitão, levantando o dedo de forma significativa.
A informação importante, pelo visto, realmente provocou no viajante impressões fortes, tanto que ele lançou um olhar para os prédios, assustado, como se temesse avistar em cada janela um ateu.
Não, não é inglês, não...”, pensou Berlioz, e Bezdômny pensou: “Onde ele aprendeu a falar russo assim? Isso é o interessante!”, e franziu a testa novamente.
Mas permitam-me perguntar — começou a dizer o visitante estrangeiro depois de uma reflexão inquietante —, o que fazer com as provas da existência de Deus que, como se sabe, são precisamente cinco?
Oh, céus! — respondeu Berlioz com desgosto. — Nenhuma dessas provas vale nada e a humanidade há muito tempo as deixou de lado. O senhor há de convir que, à luz da razão, não pode haver nenhuma prova da existência de Deus.
Bravo! — bradou o estrangeiro. — Bravo! O senhor repetiu na íntegra a ideia do preocupado e velho Immanuel sobre o assunto. Mas veja o curioso: ele destruiu definitivamente as cinco provas e depois, como que zombando de si mesmo, criou sua própria sexta prova!
A prova de Kant — exclamou o culto editor com sorriso fino — é também inconsistente. Não é à toa que Schiller dizia que os argumentos kantianos sobre essa questão podem satisfazer somente escravos, e Strauss simplesmente riu dessa prova.
Berlioz falava e pensava consigo: “Quem será ele? E por que fala russo tão bem?”
Tinham de pegar esse Kant e prender uns três anos em Solôvki por causa dessas provas! — Ivan deixou escapar de repente.
Ivan! — sussurrou Berlioz sem jeito.
Mas a proposta de enviar Kant a Solôvki não apenas não espantou o estrangeiro, como também o levou ao êxtase.
Isso, isso mesmo — gritou ele, e seu olho esquerdo, verde, virado para Berlioz, começou a brilhar —, o lugar dele é lá! Pois eu disse a ele uma vez, durante o café da manhã: “O senhor é o mestre, a vontade é sua, mas inventou algo disparatado. Pode ser que seja inteligente, mas é incompreensível demais. Vão gozar da sua cara.”
Berlioz esbugalhou os olhos. “Durante o café da manhã... falou com Kant? O que ele estará tramando?”, pensou.
Porém — prosseguiu o forasteiro, sem se incomodar com o assombro de Berlioz e virando-se para o poeta —, é impossível enviá-lo a Solôvki, pelo simples fato de que ele, já há cento e poucos anos, se acha em lugares muito mais distantes do que Solôvki, e não dá para tirá-lo de lá de jeito nenhum, garanto ao senhor!
Uma pena! — replicou o poeta encrenqueiro.
Também acho uma pena — confirmou o desconhecido com o olhar cintilante, e prosseguiu: — Mas eis a questão que me preocupa: se não há Deus, então pergunta-se, quem administra a vida humana e, em geral, toda a ordem na terra?
O próprio ser humano — o enfurecido Bezdômny apressou-se em responder essa questão admitidamente não muito clara.
Perdão — replicou docilmente o desconhecido —, mas para governar, queira ou não queira, é necessário possuir um plano preciso com alguns prazos estabelecidos, nem que seja o mínimo. Permita-me perguntar: como é que pode o ser humano governar, se não apenas não tem condições de fazer qualquer plano, mesmo que seja com um prazo ridiculamente curto de, digamos, uns mil anos, como também é incapaz de garantir sequer seu dia de amanhã? E realmente — o desconhecido virou-se para Berlioz — imagine, por exemplo, que o senhor comece a governar, dispondo de sua vida e da vida de outras pessoas, e então passe a tomar gosto pela coisa e, de repente, o senhor... hum... hum... descobre que está com câncer de pulmão... — o estrangeiro sorriu docemente, parecia que a ideia do câncer lhe dava prazer —, é, câncer — repetiu a palavra sonora e apertou os olhos feito um gato —, pronto, seu governo chegou ao fim! Não lhe interessa o destino de mais ninguém, somente o seu.
Os parentes começam a mentir para o senhor. Pressentindo algo errado, o senhor recorre a médicos formados, depois a charlatões e até mesmo a videntes. Assim como o primeiro e o segundo, o terceiro não ajuda em nada. Tudo termina tragicamente: aquele que, ainda há pouco, acreditava administrar algo de repente se vê imóvel deitado numa caixa de madeira, e as pessoas que o cercam, compreendendo que não há mais nenhuma utilidade naquele que está deitado, o queimam no forno. E existem casos piores: o sujeito pode decidir ir a Kislovôdsk”, o estrangeiro olhou para Berlioz com os olhos apertados, “uma coisinha de nada, pode-se pensar, mas nem isso ele consegue realizar, assim como não se sabe por que ele de repente resolve escorregar e vai parar debaixo de um bonde! Será que o senhor dirá que foi ele quem planejou isso para si mesmo? Não seria mais razoável pensar que ele foi governado por alguém?” E aqui o desconhecido desatou a soltar estranhas gargalhadas.
Berlioz ouvia com muita atenção a desagradável história do câncer e do bonde, e pensamentos angustiantes começaram a atormentá-lo. “Ele não é estrangeiro... não é estrangeiro...”, pensava, “é um sujeito estranhíssimo... perdão, mas quem é ele?...”
Estou vendo que o senhor quer fumar, não é? — o desconhecido virou-se de repente para Bezdômny. — Quais prefere?
O senhor tem diferentes marcas, por acaso? — perguntou sombrio o poeta, que estava sem cigarros.
Quais prefere? — repetiu o desconhecido.
Ah, “Nossa Marca”, vai — respondeu Bezdômny, perverso.
O desconhecido retirou imediatamente o porta-cigarros do bolso e ofereceu a Bezdômny:
— “Nossa Marca.”
O editor e o poeta não se impressionaram tanto com o fato de o porta-cigarros conter precisamente cigarros “Nossa Marca”, mas sim com o próprio porta-cigarros. De proporções enormes e ouro de lei, ao ser aberto, sua tampa brilhou com uma luz azul e branca de um triângulo de brilhantes.
Nesse instante, os escritores pensaram diferente. Berlioz: “Não, não é estrangeiro!”, e Bezdômny: “Ah, o diabo que o carregue!...”
O poeta e o dono do porta-cigarros puseram-se a fumar, e o não fumante Berlioz recusou.
Tenho que retrucar da seguinte forma”, resolveu Berlioz, “é, o ser humano é mortal, ninguém discute isso. Mas a questão é que...”
Só que ele não conseguiu pronunciar essas palavras, pois o estrangeiro começou a dizer:
É, o ser humano é mortal, mas isso ainda seria só metade da desgraça. O ruim é que às vezes ele é mortal de repente, aí é que mora o perigo! E em geral ele não pode nem dizer o que fará na tarde de hoje.
Que maneira mais disparatada de apresentar o problema...”, raciocinou Berlioz, e retrucou:
Ah, vá lá, existe um certo exagero nisso. Sei mais ou menos com certeza como será a tarde de hoje. Mas é claro que, se um tijolo cair na minha cabeça no meio da Brônnaia...
Um tijolo — interrompeu sério o desconhecido — não cai nunca sem mais nem menos na cabeça de ninguém. E eu lhe garanto que isso, particularmente, não o ameaça de jeito nenhum. O senhor morrerá de morte diferente.
Será que o senhor sabe como? — quis saber Berlioz com uma ironia natural, envolvendo-se pela conversa totalmente disparatada. — E vai me dizer?
Com satisfação — replicou o desconhecido. Ele mediu Berlioz com o olhar, como se pretendesse confeccionar um terno, balbuciou por entre os dentes algo como “um, dois... Mercúrio na segunda casa... a lua saiu... seis, desgraça... entardecer, sete...” e anunciou em voz alegre e alta: — Vão cortar sua cabeça!
Bezdômny esbugalhou os olhos selvagens e perversos para o atrevido desconhecido e Berlioz perguntou com um sorriso amarelo:
Quem exatamente? Os inimigos? Os invasores?
Não — respondeu o interlocutor — uma mulher russa, uma komsomôlka.
Hum... — rosnou Berlioz, irritado com a brincadeira do desconhecido. — Ah, calma lá, me desculpe, mas isso é pouco provável.
Desculpe-me também — respondeu o estrangeiro —, mas é verdade. Ah, será que eu poderia perguntar o que o senhor vai fazer hoje à tarde, se não é segredo?
Segredo algum. Agora vou até minha casa na Sadôvaia e depois, às dez da noite, haverá uma reunião na Massolit e eu vou presidi-la.
Não, isso não pode ser, de jeito nenhum — retrucou o estrangeiro com firmeza.
Por quê?
Porque — respondeu o estrangeiro e, com os olhos franzidos, fitou o céu, sulcado por silenciosos pássaros negros, pressentindo o frescor da noite — Ánnuchka já comprou o óleo de girassol, e não só comprou como já o derramou. Não haverá reunião.
Nesse instante, é bastante compreensível, o silêncio caiu sob as tílias.
Desculpe — falou Berlioz após uma pausa, olhando para o estrangeiro que balbuciava coisas sem sentido —, mas o que o óleo de girassol tem a ver com isso... e de qual Ánnuchka você está falando?
O óleo de girassol tem a ver pelo seguinte motivo — disse de repente Bezdômny, que, pelo visto, resolveu declarar guerra ao interlocutor intrometido —, o senhor, cidadão, não esteve em algum sanatório para doentes mentais?
Ivan! — exclamou baixinho Mikhail Aleksándrovitch.
Mas o estrangeiro não se ofendeu nem um pouco e deu uma bela gargalhada.
Estive, estive, sim, várias vezes! — gritou ele, rindo, mas sem tirar os olhos nada risonhos do poeta. — E onde é que eu não estive! Pena que não tive tempo de perguntar ao doutor o que é esquizofrenia. Por isso, o senhor terá de perguntar-lhe pessoalmente, Ivan Nikoláievitch!
Como sabe meu nome?
Perdão, Ivan Nikoláievitch, mas quem não o conhece? — Nesse momento o estrangeiro tirou do bolso o exemplar do jornal Literatúrnaia Gaziêta do dia anterior e Ivan Nikoláievitch viu na primeira página o seu retrato com seus poemas embaixo. Mas a prova de fama e popularidade, que ainda ontem o alegrava, dessa vez não proporcionou sentimento de felicidade ao poeta.
Desculpe — disse ele, e seu rosto ficou sombrio —, mas o senhor poderia aguardar um minuto? Quero trocar duas palavrinhas com o camarada.
Oh, com prazer! — exclamou o desconhecido. — Está tão bom aqui, sob as tílias, e eu, aliás, não estou com pressa.
É o seguinte, Micha —6 pôs-se a cochichar o poeta, arrastando Berlioz para o canto —, ele não é turista estrangeiro coisa nenhuma, mas sim espião. É um emigrante russo que conseguiu entrar aqui. Pergunte por seus documentos, senão vai fugir...
Você acha? — cochichou Berlioz agitado, e pensou: “De fato, ele está certo...”
Acredite em mim — sibilou o poeta em seu ouvido —, ele está se fazendo de bobo para pedir algo. Viu como fala russo? — o poeta falava e olhava de soslaio, cuidando para que o desconhecido não escapasse. — Vamos prendê-lo, senão vai fugir...
O poeta puxou Berlioz pelo braço até o banco.
O desconhecido não estava sentado, mas parado perto do banco, segurando nas mãos um livro com encadernação cinza-escura, um envelope de papel bom e grosso e um cartão de visita.
Desculpem-me, mas no ardor de nosso debate esqueci de me apresentar. Aqui está o meu cartão de visita, o passaporte e o convite para vir a Moscou7 para dar consultoria — disse o desconhecido de forma convincente, lançando um olhar penetrante para os dois literatos.
Estes, por sua vez, ficaram sem jeito. “Diabo, ele ouviu tudo...”, pensou Berlioz, e com um gesto educado indicou que não havia necessidade de apresentar documentos. Enquanto o estrangeiro empurrava os papéis para o editor, o poeta conseguiu divisar no cartão a palavra “professor”, impressa com letras estrangeiras e a letra inicial do sobrenome — “W”.
Muito prazer — balbuciava o editor, sem graça, enquanto o estrangeiro guardava os documentos no bolso.
Assim, as relações foram restabelecidas e os três se sentaram novamente no banco.
O senhor foi convidado na qualidade de consultor, professor? — perguntou Berlioz.
É, como consultor.
É alemão? — quis saber Bezdômny.
Eu? — respondeu o doutor em forma de pergunta e de repente ficou pensativo. — Sim, provavelmente alemão... — disse ele.
O senhor fala russo muito bem — observou Bezdômny.
Oh, sou poliglota e domino um grande número de idiomas — respondeu o doutor.
E o senhor tem alguma especialidade? — quis saber Berlioz.
Sou especialista em magia negra.
Pronto!”, pensou Mikhail Aleksándrovitch.
E... e o senhor foi convidado por causa dessa especialidade? — perguntou ele, gaguejando.
Sim, por causa dela — confirmou o doutor, e esclareceu: — Aqui, na biblioteca estatal, foram descobertos manuscritos originais do necromante Gerbert D’Aurillac,8 do século X. Pois bem, é preciso que eu os decifre. Sou o único especialista do mundo.
A-há! É historiador? — perguntou Berlioz, com grande alívio e respeito.
Sou historiador — confirmou o cientista e acrescentou sem mais nem menos: — Hoje à noite, em Patriarchi Prudý, acontecerá uma história interessante!
Novamente o editor e o poeta se surpreenderam muito. O professor chamou ambos para perto de si e, quando eles se inclinaram, cochichou:
Saibam que Jesus existiu.
Veja bem, doutor — replicou Berlioz com um sorriso forçado —, respeitamos seus grandes conhecimentos, mas, sobre esse assunto, temos pontos de vista diferentes.
Não precisa de ponto de vista coisa nenhuma — respondeu o estranho professor —, ele simplesmente existiu e pronto.
Mas é preciso ter alguma prova... — começou Berlioz.
Não precisa de prova nenhuma — respondeu o doutor, que se pôs a falar baixo e, sabe-se lá por quê, seu sotaque desapareceu: — É tudo simples: de manto branco com a barra cor de sangue, com movimentos gingados de um cavaleiro, na manhã do décimo quarto dia do mês primaveril de Nissan…

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida