quarta-feira, 22 de abril de 2026

Benziê | O Novo Sempre Vem

 

No Clos Normand

Come-se bem e caro em Nova Iorque. Num daqueles restaurantes com nome francês ali das ruas 55 ou 56, você põe os dois olhos no pires e o maître ainda fica esperando você botar uma orelha de gorjeta. Nem sempre o caro é bom. Caímos em alguns blefes memoráveis, levados por um nome promissor ou uma fachada bonita. E nem sempre o bom é caro. O principal é a gente abandonar alguns preconceitos sobre a comida americana padronizada.
Por exemplo: em Nova Iorque existem cadeias de restaurantes especializados em duas ou três coisas como hambúrgueres e saladas, e todos com o mesmo nome, a mesma decoração e o mesmo tipo de serviço. A sua primeira reação é passar longe deles, prevendo que tudo será robotizado e terá o mesmo gosto de papelão. Ledo e ivo engano. O hambúrguer é grande e gostoso, a salada é fresca e, se o serviço é um pouco automático, pelo menos você não está pagando pela empáfia de nenhum maître nem por um nome francês na porta. Agora, não invente de querer sair fora do padrão. Se com o Superbúrguer nº 2 você tem direito a salada com molho Russo ou das Mil Ilhas, não invente de pedir o molho Roquefort que vem com o Superbúrguer nº 3. O garçom entrará em pânico, uma luz acenderá no escritório do gerente, em dois minutos o Presidente Ford ficará sabendo e colocará a Guarda Nacional em alerta. Peça o que está escrito.
Outra boa saída para quem está em Nova Iorque com um orçamento subdesenvolvido é a porcaria, a grande porcaria americana. O sanduíche de drugstore, o cachorro-quente de rua, os sorvetes e milk-shakes. Porcaria boa e barata, cheia de colesterol e energia, a sustança do turista. Grande lance, também, é o breakfast. A maior invenção americana depois do raibã e do chiclé balão. Com um breakfast de bacon, ovos, torradas, manteiga, geléias, laranjada e café com leite ali pelas 9 ou 10 da manhã, você fica de pé e ativo até as 10 da noite e economiza o almoço. Há casos de brasileiros que resolveram experimentar panquecas com melado de breakfast e ficaram alimentados por dois dias, só que com a locomoção e o raciocínio um pouco prejudicados. São dúzias de panquecas com montes de manteiga em cima.
No nosso último dia em Nova Iorque, resolvemos almoçar num dos franceses famosos. Acontece que já tínhamos feito as malas e eu já estava com o meu uniforme de viagem, um casaco tipo jaqueta, ou uma jaqueta tipo casaco, que — se não fosse o protesto de familiares e de órgãos da saúde pública — me acompanharia até o túmulo. Entramos no Clos Normand, Rua 55, leste. Restaurante vazio — ainda não era meio-dia — e aquele ar que diz aos sentidos: este é dos bons. O maître vem em nossa direção do fundo do restaurante. Sorrindo. É meio parecido com o Nestor Jost. De repente nota o meu casaco e o sorriso vacila. É evidente o seu esforço para não se deixar dominar pela náusea. O senhor tem reserva? É uma pergunta retórica, pois ele já decidiu que eu só sento em restaurante em que ele seja maître com uma ordem judicial, e mesmo assim ele dará um jeito de me envenenar antes do primeiro prato. Não tenho reserva. Ele não consegue tirar os olhos do meu casaco. É o fascínio do ultraje. Ele toma o meu casaco como uma afronta pessoal. Finge que passa os olhos pelo restaurante, como que pensando numa possibilidade de nos acomodar, e finalmente pede desculpas. Sem reserva, infelizmente…
Agradeço e começo a me retirar, mas ele não resiste. Pega a gola do meu casaco entre o polegar e o indicador, e numa voz conciliadora pergunta: “Você não tem outro casaco, não?” Como quem diz: meu jovem, você se dá conta do que me fez? Você tem consciência do que acaba de tentar aqui, hoje? Pensei em várias respostas para lhe dar. Mas aí já estávamos a duas quadras de distância, e rindo muito do incidente. “Tenho, sim, mas está no bolso de trás e é difícil tirar.” Ou “no Lasserre, em Paris, ninguém reparou”. Ou “tenho, sim, mas este eu não dou, não insista”. Fomos almoçar em outro francês, onde o meu casaco, além de alguns narizes torcidos, não causou nenhum efeito.

Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora

Jeremias, o Bom

Brinde no banquete das musas

Poesia, marulho e náusea,
poesia, canção suicida,
poesia, que recomeças
de outro mundo, noutra vida.
 
Deixaste-nos mais famintos,
poesia, comida estranha,
se nenhum pão te equivale:
a mosca deglute a aranha.
 
Poesia, sobre os princípios
e os vagos dons do universo:
em teu regaço incestuoso,
o belo câncer do verso.
 
Azul, em chama, o telúrio
reintegra a essência do poeta,
e o que é perdido se salva…
Poesia, morte secreta.

Carlos Drummond de Andrade, em Fazendeiro do ar

Diário de Bernardo Soares

101.

Se a nossa vida fosse um eterno estar-à-janela, se assim ficássemos, como um fumo parado, sempre, tendo sempre o mesmo momento de crepúsculo dolorindo a curva dos montes. Se assim ficássemos para além de sempre!
Se ao menos, aquém da impossibilidade, assim pudéssemos quedar-nos, sem que cometêssemos uma ação, sem que os nossos lábios pálidos pecassem mais palavras!
Olha como vai escurecendo!... O sossego positivo de tudo enche-me de raiva, de qualquer coisa que é o travo no sabor da aspiração. Dói-me a alma... Um traço lento de fumo ergue-se e dispersa-se lá longe... Um tédio inquieto faz-me não pensar mais em ti...
Tão supérfluo tudo! Nós e o mundo e o mistério de ambos.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

O Mestre e Margarida | 2


2
Pôncio Pilatos

De manto branco com a barra cor de sangue, com movimentos gingados de um cavaleiro, na manhã do décimo quarto dia do mês primaveril de Nissan, o procurador da Judeia, Pôncio Pilatos, saiu para a colunata coberta entre as duas alas do palácio de Herodes, o Grande.
Mais do que qualquer coisa no mundo, o procurador odiava o cheiro do óleo de rosas, e agora tudo pressagiava um dia ruim, pois esse cheiro começou a seguir o procurador desde o amanhecer. Parecia-lhe que o odor emanava dos ciprestes e das palmeiras do jardim e que, ao cheiro dos equipamentos de couro e do suor do corpo das tropas, misturava-se a maldita corrente de perfume de rosa. Desde as alas do fundo do palácio, onde se acomodou a primeira coorte da Décima Segunda Legião Fulminata, que chegara a Yerushalaim junto com o procurador, a colunata ao longo da área superior do jardim cobriu-se de fumaça, e a essa amargurada fumaça — sinal de que os cozinheiros nas centúrias haviam começado a preparar o almoço — misturava-se aquele mesmo odor gorduroso de rosas.
Oh, deuses, deuses, por que estão me castigando? É, não há dúvidas, é ela, de novo ela, essa doença invencível e terrível... a enxaqueca, que faz metade da cabeça doer... contra ela não há remédio, não há nenhuma salvação... vou tentar não mexer a cabeça...”
No chão de mosaico próximo à fonte, uma poltrona já estava preparada, e o procurador, sem olhar para ninguém, sentou-se e estendeu a mão para o lado. Respeitosamente, o secretário depositou nessa mão um pedaço de pergaminho. Sem conseguir conter a careta de dor, o procurador correu os olhos pelo escrito, devolveu o pergaminho ao secretário e articulou com dificuldade:
O processado é da Galileia? O caso foi enviado ao tetrarca?
Sim, procurador — respondeu o secretário.
E ele?
Recusou-se a concluir o caso e enviou a sentença de morte do Sinédrio para que o senhor confirme — explicou o secretário.
O procurador contorceu o rosto e disse baixinho:
Tragam o acusado.
No mesmo instante, dois legionários o trouxeram da área do jardim sob as colunas para a varanda, e colocaram diante da poltrona do procurador um homem de uns vinte e sete anos. Esse homem trajava um quitão azul velho e rasgado. A cabeça estava coberta por uma faixa branca com uma tira ao redor da testa e as mãos estavam atadas nas costas. O homem tinha um grande hematoma no olho esquerdo e no canto da boca havia uma escoriação com sangue pisado. O recém-chegado olhava para o procurador com muita curiosidade.
Este estava calado, depois perguntou baixinho em aramaico:
Foi você que incitou o povo a destruir o templo de Yerushalaim?
O procurador estava como uma pedra, só seus lábios se moviam um tantinho quando pronunciava as palavras. Ele estava como uma pedra porque temia balançar a cabeça, que ardia com a dor infernal.
O homem com as mãos atadas inclinou-se um pouco para frente e começou a falar:
Bom homem! Acredite em mim...
Mas o procurador, como antes, sem se mover e sem elevar minimamente o tom de voz, interrompeu-o no mesmo instante:
É a mim que você chama de bom homem? Está cometendo um engano. Em Yerushalaim, todos cochicham sobre mim, que sou um monstro cruel, e é a mais pura verdade. — E acrescentou no mesmo tom monótono: — Tragam-me o centurião Mata-ratos.
A todos pareceu que ficou escuro na varanda, quando o centurião da primeira centúria, Marcos, chamado de Mata-ratos, apresentou-se ao procurador. Mata-ratos era uma cabeça mais alto do que o maior soldado da Legião e tinha ombros tão largos que tapou completamente o sol ainda baixo.
O procurador dirigiu-se ao centurião em latim:
O criminoso me chama de “bom homem”. Leve-o daqui um instante e explique-lhe como deve referir-se a mim. Mas sem mutilação.
Então todos, menos o procurador, imóvel, seguiram Marcos Mata-ratos com o olhar, enquanto este acenava para o preso com a mão, indicando que deveria segui-lo.
Em geral, todo mundo seguia Mata-ratos com o olhar, onde quer que ele surgisse, por causa do seu tamanho e, para aqueles que o viam pela primeira vez, também porque o rosto do centurião tinha sido deformado: em algum lugar do passado seu nariz fora esmagado com um golpe de porrete alemão.
As botas pesadas de Marcos bateram no mosaico e o homem amarrado o seguiu sem fazer ruído. Imperou um silêncio absoluto na colunata e podia-se ouvir como os pombos arrulhavam na área do jardim perto da varanda e, também, como a água cantarolava na fonte uma intrincada e agradável canção.
O procurador teve vontade de levantar-se, pôr a têmpora embaixo do jato e deixar-se ficar assim. Mas ele sabia que nem isso o ajudaria.
Assim que Mata-ratos levou o preso da colunata para o jardim, ele arrancou o chicote das mãos de um legionário parado ao pé de uma estátua de bronze e, com um leve impulso, açoitou o preso nos ombros. O movimento do centurião foi displicente e fraco, mas o homem amarrado caiu instantaneamente no chão, como se lhe tivessem arrancado as pernas, engasgou com o ar, a cor desapareceu de seu rosto e o olhar tornou-se inexpressivo.
Só com a mão esquerda, Marcos suspendeu no ar o homem caído, leve como um saco vazio, colocou-o de pé e começou a falar, fanho, pronunciando de forma errada as palavras em aramaico:
O procurador romano deve ser chamado de Hegemon. Não use outras palavras. Sentido! Está me entendendo ou terei de bater novamente?
O preso cambaleou, mas recuperou o equilíbrio. A cor voltou ao seu rosto e ele respirou fundo, respondendo com a voz rouca:
Eu entendi. Não me bata.
Um instante depois, estava de novo diante do procurador.
A voz insípida e doente soou:
Nome?
O meu? — retrucou o preso depressa, expressando com todo o seu ser que estava pronto para responder com sensatez e não provocar mais ira.
O procurador disse baixinho:
O meu eu sei. Não finja ser mais bobo do que você é. O seu.
Yeshua — respondeu rapidamente o prisioneiro.
Tem sobrenome?
Ha-Notzri.
Natural de onde?
Da cidade de Gamala — respondeu o prisioneiro, indicando com a cabeça que lá, em algum lugar distante, à sua direita, ao norte, estava a cidade de Gamala.
Qual é sua origem?
Não sei ao certo — respondeu o preso, animado. — Não me lembro dos meus pais. Disseram-me que meu pai era sírio...
Qual é seu endereço permanente?
Não tenho morada permanente — respondeu timidamente o prisioneiro. — Viajo de cidade em cidade.
Isso pode ser resumido em uma palavra: vadiagem — disse o procurador, e perguntou: — Tem parentes?
Não tenho ninguém. Sou sozinho no mundo.
Por acaso sabe ler e escrever?
Sim.
Por acaso sabe alguma outra língua, além do aramaico?
Sei. Grego.
A pálpebra inchada levantou-se de leve e o olho, repuxado pela nuvem de sofrimento, parou no preso. O outro olho permaneceu fechado.
Pilatos começou a falar em grego:
Então era você que queria destruir o templo e conclamava o povo a isso?
O prisioneiro reanimou-se, seus olhos pararam de expressar medo e ele começou a falar em grego:
Eu, bom ho... — na mesma hora o terror brilhou nos olhos do prisioneiro porque por pouco ele não escorregou. — Eu, Hegemon, nunca na minha vida pensaria em destruir o templo e não incitei ninguém a cometer tal ato insano.
O rosto do secretário, que anotava o depoimento curvado sobre uma mesa baixa, expressou admiração. Ele ergueu a cabeça, mas imediatamente inclinou-a de volta para o pergaminho.
Uma multidão de pessoas diferentes se reúne nessa cidade para a festa. Entre elas há magos, astrólogos, videntes e assassinos — disse o procurador em tom monótono. — E dá de aparecerem também mentirosos. Você, por exemplo, é um mentiroso. Está anotado legivelmente: incitou a destruição do templo. Há testemunhas.
Essa boa gente — começou a falar o prisioneiro e, acrescentando rapidamente: —, Hegemon — continuou: —, não aprendeu nada e confundiu tudo o que eu disse. Em geral, estou começando a temer que essa confusão ainda vá se prolongar por muito, muito tempo. Tudo porque ele anota incorretamente o que eu digo.
Fez-se o silêncio. Agora os dois olhos doentes fitavam o prisioneiro intensamente.
Vou repetir para você, mas será pela última vez: pare de querer se fazer de louco, seu bandido — pronunciou Pilatos, em tom suave e monótono. — Não há muito anotado sobre você, mas o que foi anotado é o suficiente para enforcá-lo.
Não, não, Hegemon — disse o preso, esforçando-se no desejo de convencer. — Um sujeito vive me seguindo e escrevendo sem parar em um pergaminho de cabra. Mas, certa vez, dei uma espiada nesse pergaminho e fiquei horrorizado. Decididamente, eu não falei nada do que estava anotado ali. Eu lhe supliquei: queime seu pergaminho, pelo amor de Deus! Mas ele o arrancou de minhas mãos e fugiu.
Quem é esse? — perguntou Pilatos com aversão e tocou a têmpora com a mão.
Mateus Levi — explicou o prisioneiro com boa vontade. — Ele era coletor de impostos e o encontrei, pela primeira vez, a caminho de Betfagé, onde se projeta um jardim de figueiras em uma esquina, e conversei com ele. No início foi hostil comigo e até me insultou, quer dizer, achou que me tivesse insultado chamando-me de cachorro. — Aqui o prisioneiro deu um sorrisinho. — Eu, pessoalmente, não vejo nada de ruim nesse animal para me ofender com essa palavra...
O secretário parou de anotar e lançou um admirado olhar de soslaio, não para o preso, mas para o procurador.
... no entanto, depois de me ouvir, ele ficou mais amolecido — continuou Yeshua — e, finalmente, jogou o dinheiro na estrada e disse que seguiria comigo...
Pilatos deu um sorrisinho torto, arreganhando os dentes amarelos, e proferiu, virando-se de corpo inteiro para o secretário:
Oh, cidade de Yerushalaim! O que é que não se ouve nela! O coletor de impostos, vejam só, jogou o dinheiro na estrada!
Sem saber como responder a isso, o secretário considerou necessário repetir o sorriso de Pilatos.
E ele disse que, daquele momento em diante, odiaria o dinheiro — afirmou Yeshua sobre o estranho gesto de Mateus Levi, e acrescentou: — Desde então, ele se tornou meu companheiro de viagem.
Com os dentes ainda arreganhados, o procurador olhou para o preso de relance, depois para o sol, que não parava de subir sobre as estátuas equestres do hipódromo, distante, localizado abaixo, à direita, e, de repente, com algum sofrimento nauseabundo, pensou que o mais simples seria expulsar esse estranho bandido da varanda, pronunciando somente duas palavras: “Enforquem-no.” Expulsar também a tropa, sair da colunata para o interior do palácio, mandar escurecer o quarto, jogar-se no leito, pedir água gelada, com a voz lamentosa chamar seu cachorro Banga e reclamar com ele sobre a enxaqueca. E de repente a ideia do veneno brilhou sedutoramente na cabeça doente do procurador.
Ele lançou os olhos opacos para o preso e por algum tempo ficou calado, lembrando, com sofrimento, por que, sob a impiedosa chama do sol matinal de Yerushalaim, estava a sua frente um prisioneiro com o rosto desfigurado por surras, e quais perguntas desnecessárias ainda lhe deveriam fazer.
Mateus Levi? — perguntou o doente com a voz rouca e fechou os olhos.
Isso, Mateus Levi — chegou a ele uma voz alta que o fazia sofrer.
De qualquer forma, o que mesmo você falava sobre o templo à multidão reunida no mercado?
A voz daquele que respondia parecia perfurar a têmpora de Pilatos e, indescritivelmente dolorosa, dizia:
Eu, Hegemon, falava que o templo da velha crença ruirá e, em seu lugar, se erguerá o novo templo da verdade. Disse de tal forma para que fosse mais compreensível.
E para que você, seu vadio, foi confundir o povo no mercado, falando-lhe da verdade da qual você não tem ideia? O que é a verdade?
Nesse momento, o procurador pensou: “Oh, meus Deuses! Estou lhe perguntando algo desnecessário para um julgamento... Minha mente não me serve mais...” E novamente se assoma uma taça com um líquido escuro. “Tragam-me veneno, veneno...”
Então, ouviu a voz de novo:
A verdade, antes de tudo, é que a sua cabeça está doendo, e dói tão forte que você covardemente pensa na morte. Está sem forças não só para falar comigo, mas tem dificuldade até de olhar para mim. E agora eu, involuntariamente, sou o seu carrasco, e isso me deixa aflito. Você não consegue pensar em nada e deseja somente que venha seu cachorro, o único ser, pelo visto, ao qual você é afeiçoado. Mas seus tormentos agora chegarão ao fim, a dor de cabeça vai passar.
O secretário esbugalhou os olhos para o prisioneiro e não terminou de escrever as palavras.
Pilatos levantou os olhos atormentados para o prisioneiro e viu que o sol já estava bastante alto sobre o hipódromo, e que um raio penetrara na colunata e se arrastava até as sandálias gastas de Yeshua, que se afastava do sol.
O procurador levantou-se da poltrona, apertou a cabeça com as mãos, e o rosto amarelado e escanhoado expressou horror. Mas, na mesma hora, ele o suprimiu com sua vontade e sentou-se de novo.
O prisioneiro, ao mesmo tempo, continuava seu discurso, mas o secretário não anotava mais nada e, esticando o pescoço feito um ganso, só se esforçava para não deixar passar uma palavra sequer.
Pronto, está tudo acabado — dizia o preso, lançando olhares benevolentes para Pilatos. — Estou extremamente feliz com isso. Eu o aconselharia, Hegemon, a deixar o palácio por um tempo e a passear a pé em algum lugar dos arredores, bem, até mesmo nos jardins do monte das Oliveiras. Um temporal se aproxima... — o prisioneiro voltou-se e apertou os olhos contra o sol — ... mais tarde, à noite. Um passeio seria muito proveitoso para você e eu o acompanharia com gosto. Alguns pensamentos novos vieram-me à cabeça, que poderiam, suponho, parecer-lhe interessantes, e com boa vontade eu os dividiria com você, principalmente porque você deixa a impressão de ser um homem muito inteligente.
O secretário ficou mortalmente pálido e deixou o rolo cair no chão.
O ruim — continuava o homem amarrado, que não era interrompido por ninguém — é que você é um tanto fechado e perdeu definitivamente a fé nas pessoas. É impossível, você há de concordar, depositar toda sua afeição num cachorro. Sua vida é sem graça, Hegemon — aqui o orador permitiu-se um sorriso.
O secretário pensava somente se deveria ou não acreditar em seus ouvidos. Tinha de acreditar. Então, tentou imaginar qual seria a forma rara da ira do explosivo procurador diante do inédito atrevimento do preso. Mas isso o secretário não conseguia imaginar, apesar de conhecer bem o procurador.
Então, eclodiu a voz enrouquecida do procurador, que disse em latim:
Desatem suas mãos.
Um dos legionários da guarda bateu com a lança, entregou-a ao outro, aproximou-se e retirou as cordas do prisioneiro. O secretário apanhou o rolo e resolveu, por ora, não anotar nada e não se impressionar com nada.
Reconheça — perguntou baixinho, em grego, Pilatos. — Você é um grande doutor?
Não, procurador, não sou doutor — respondeu o prisioneiro com alívio, esfregando a mão vincada, inchada e vermelha.
Com os olhos severos e carranca, Pilatos perfurava o prisioneiro e nesses olhos não havia mais opacidade, neles surgiram as faíscas que todos conheciam.
Eu não lhe perguntei — disse Pilatos. — Você, por acaso, sabe também latim?
Sei, sim — respondeu o prisioneiro.
A cor vermelha tomou conta das bochechas amareladas de Pilatos, que perguntou em latim:
Como soube que eu queria chamar o cachorro?
É muito simples — respondeu o prisioneiro em latim. — Você passou com a mão pelo ar — o prisioneiro repetiu o gesto de Pilatos —, como se quisesse fazer um afago, e os lábios...
Isso — disse Pilatos.
Ficaram calados. Depois Pilatos fez uma pergunta em grego:
Quer dizer que você é doutor?
Não, não — respondeu vivamente o prisioneiro. — Acredite em mim, não sou doutor.
Está bem. Caso queira manter isso em segredo, mantenha. Isso não tem relação direta com o caso. Então, você afirma que não conclamava a destruir... ou a incendiar, ou, de alguma forma, a liquidar o templo?
Eu, Hegemon, não conclamei ninguém a tais atos, repito. Será que pareço um louco?
Oh, não, não parece um louco — respondeu baixinho o procurador e riu com um certo sorriso terrível. — Então, jure que isso não aconteceu.
Quer que jure por quem? — perguntou o desamarrado bastante animado.
Pode ser pela sua vida — respondeu o procurador. — É o momento certo de jurar por ela, pois, saiba, ela está por um fio.
Você não está pensando que é você que a sustenta, Hegemon? — perguntou o prisioneiro. — Caso pense assim, está cometendo um grande engano.
Pilatos estremeceu e respondeu com os dentes cerrados:
Eu posso cortar esse fio.
Também nisso você se engana — exclamou o prisioneiro com um sorriso radiante, protegendo-se do sol com a mão. — Você há de convir que, decerto, só poderá cortar o fio aquele que o pendurou, não é mesmo?
Isso, isso — disse Pilatos sorrindo. — Agora não tenho dúvidas de que os vadios inúteis de Yerushalaim o seguiam bem de perto. Não sei quem pendurou sua língua, mas foi bem pendurada. A propósito, diga-me: é verdade que você apareceu em Yerushalaim pelos portões de Susa montado num burro e acompanhado por uma multidão da ralé que o saudava aos gritos como se você fosse algum profeta? — Aqui o procurador apontou para o rolo do pergaminho.
O prisioneiro lançou um olhar perplexo para o procurador.
Eu nem tenho burro, Hegemon — disse ele. — Cheguei a Yerushalaim precisamente pelos portões de Susa, mas a pé, somente na companhia de Mateus Levi, e ninguém gritava para mim, pois até então ninguém me conhecia em Yerushalaim.
Você por acaso não conhece pessoas como — continuou Pilatos sem tirar os olhos do prisioneiro — um tal de Dismas, o outro Gestas e um terceiro Bar-Rabban?
Não conheço essas boas pessoas — respondeu o prisioneiro.
Verdade?
Verdade.
Agora me diga, por que você usa as palavras “boas pessoas” o tempo todo? Por acaso você chama todo mundo assim?
Todo mundo — respondeu o prisioneiro. — Não existem pessoas maldosas no mundo.
É a primeira vez que ouço isso — disse Pilatos, dando um sorrisinho. — Mas pode ser que eu conheça pouco a vida!... Não precisa mais anotar. — Dirigiu-se ao secretário, embora este não estivesse anotando nada mesmo, e continuou falando ao prisioneiro: — Você leu sobre isso em algum livro grego?
Não. Cheguei a isso com meu próprio raciocínio.
E você prega isso?
Prego.
Mas, por exemplo, o centurião Marcos, apelidado de Mata-ratos, ele é bom?
É — respondeu o prisioneiro. — Ele, na verdade, é um homem infeliz. Desde que as boas pessoas o deformaram, tornou-se cruel e insensível. Seria interessante saber quem o mutilou.
Posso informar isso com satisfação — respondeu Pilatos. — Pois fui testemunha disso. As boas pessoas partiam para cima dele, como cachorros para cima de um urso. Alemães agarraram-no pelo pescoço, pelas mãos, pelas pernas. O manipulário da infantaria caiu numa emboscada e, se não fosse uma tura da cavalaria, comandada por mim, romper um flanco, você, filósofo, não chegaria a conversar com o Mata-ratos. Isso ocorreu na batalha de Idistaviso, no vale das Virgens.
Tenho a certeza de que se pudesse falar com ele — disse de repente o prisioneiro em tom sonhador —, ele mudaria drasticamente.
Suponho — respondeu Pilatos — que você traria pouca alegria ao legado da Legião caso inventasse de conversar com algum de seus oficiais ou soldados. Aliás, isso está longe de acontecer, para a felicidade geral, e o primeiro a se ocupar disso serei eu.
Nesse instante, uma andorinha voou impetuosa na colunata, fez um círculo sob o teto dourado, desceu, quase atingiu com a asa pontuda o rosto de uma estátua de cobre no nicho e se escondeu atrás do capitel de uma coluna. Quem sabe teve a ideia de fazer um ninho ali.
Durante seu voo, uma fórmula configurou-se na lúcida e agora leve cabeça do procurador. Era a seguinte: Hegemon examinou o processo do filósofo vadio Yeshua, de sobrenome Ha-Notzri, e não encontrou constituição de crime algum. Não encontrou, em particular, a mínima ligação entre as ações de Yeshua e as desordens que ocorreram em Yerushalaim nos últimos tempos. O filósofo vadio revelou-se doente mental. Consequentemente, o procurador não confirmava a sentença de morte de Ha-Notzri, pronunciada pelo Pequeno Sinédrio. Porém, tendo em vista que os discursos utópicos e loucos de Ha-Notzri podiam ser motivo de perturbações em Yerushalaim, o procurador expulsará Yeshua de Yerushalaim e o submeterá à prisão na Cesareia, a de Straton, no mar Mediterrâneo, ou seja, exatamente onde fica a residência do procurador.
Restava ditar isso ao secretário.
As asas da andorinha rufaram exatamente sobre a cabeça do Hegemon. O pássaro se arrojou à bacia do chafariz e voou para a liberdade absoluta. O procurador ergueu os olhos para o prisioneiro e viu a poeira levantar num pilar ao lado deste.
É tudo sobre ele? — perguntou Pilatos ao secretário.
Infelizmente, não — respondeu o secretário inesperadamente e entregou a Pilatos outro pedaço de pergaminho.
O que mais há? — perguntou Pilatos, franzindo a testa.
Depois de ler o que lhe foi dado, seu rosto se alterou ainda mais. Não se sabe se foi o sangue escuro que afluiu para seu pescoço e rosto, ou se algo diferente aconteceu, só que sua pele perdeu o amarelado, empardeceu e os olhos como que afundaram.
Pelo visto, de novo o culpado era o sangue, que afluiu para as têmporas e começou a latejar, mas dessa vez algo aconteceu com a vista do procurador. Assim, teve a impressão de que a cabeça do prisioneiro flutuou para algum lugar e de que no lugar dela surgiu outra. E nessa cabeça calva havia uma coroa dourada sem dentes. Na testa havia uma chaga redonda que carcomia a pele e que estava besuntada de pomada. Uma boca banguela sulcada com um lábio inferior caído e caprichoso. Pareceu a Pilatos que as colunas cor-de-rosa da varanda e os telhados de Yerushalaim sumiram, ao longe, abaixo, além do jardim, e que tudo em volta estava mergulhado no denso verde dos jardins de ciprestes. E aconteceu algo estranho com seu ouvido, como se ao longe tocassem trombetas, baixinho e ameaçadoramente, e com muita clareza se ouvisse uma voz anasalada, que pronunciava arrastadamente as palavras soberanas: “A lei sobre a ofensa da majestade...”
Pensamentos curtos, desconexos e incomuns surgiram: “Estou perdido!..”, e depois: “Estamos perdidos!..” E entre eles um pensamento totalmente absurdo sobre uma tal de imortalidade, e a imortalidade, por algum motivo, provocou-lhe uma tristeza insuportável.
Pilatos esforçou-se, afastou as visões, voltou o olhar para a varanda e, novamente, surgiram diante dele os olhos do prisioneiro.
Ouça, Ha-Notzri — começou a dizer o procurador, olhando para Yeshua de maneira um tanto estranha: o rosto do procurador estava terrível, mas os olhos preocupados —, alguma vez você disse algo sobre o grande César? Responda! Disse?... Ou... não... disse? — Pilatos esticou a palavra “não” um pouco mais do que deveria num tribunal e, com seu olhar, enviou a Yeshua algum pensamento que parecia querer incutir no prisioneiro.
Dizer a verdade é fácil e agradável — observou o prisioneiro.
Eu não preciso saber — respondeu Pilatos com a voz abafada e maldosa — se para você é agradável ou desagradável dizer a verdade. Mas você é obrigado a dizê-la. Porém, quando falar, pese cada palavra caso não deseje uma morte não só inevitável, como também dolorosa.
Ninguém sabe o que aconteceu com o procurador da Judeia, mas ele se permitiu levantar a mão, como se estivesse se defendendo de um raio de sol e, por trás dessa mão, como atrás de um escudo, quisesse enviar ao prisioneiro algum olhar alusivo.
Então, responda — dizia ele. — Por acaso você conhece um certo Judas de Kerioth e o que exatamente lhe disse, caso tenha falado, sobre o César?
Foi assim — começou a narrar o prisioneiro com gosto. — Anteontem à noite, eu conheci perto do templo um jovem que se apresentou como Judas, da cidade de Kerioth. Ele me convidou para ir a sua casa na Cidade Baixa e me recebeu muito cordialmente...
Bom homem? — perguntou Pilatos, um fogo diabólico brilhando em seus olhos.
Bom homem e muito curioso — confirmou o prisioneiro. — Ele demonstrou o maior interesse por meus pensamentos e foi muito hospitaleiro comigo...
Acendeu as luminárias... — de dentes cerrados e no mesmo tom do prisioneiro, Pilatos pronunciou com os olhos brilhando.
Acendeu — continuou Yeshua, um pouco surpreso com o conhecimento de causa do procurador. — Pediu-me que expressasse a minha opinião sobre o poder do Estado. Ele estava extremamente interessado por essa questão.
E o que foi que você disse? — perguntou Pilatos. — Ou você vai responder que esqueceu o que disse? — Já havia desespero em seu tom.
Entre outras coisas, eu disse — contava o prisioneiro — que qualquer poder é uma violência contra as pessoas e que chegará o tempo em que não haverá mais o poder nem dos Césares, nem qualquer outro poder. O homem passará para o reino da verdade e da justiça, onde não haverá necessidade de poder algum.
[…]

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida

terça-feira, 21 de abril de 2026

Feito rio (fora do leito) | O Teatro Mágico

Atributos

Lembre-se: o atributo que puxa as cordas está escondido no interior. Trata-se da atividade, da vida e, pode-se dizer, do homem. Ao contemplá-lo, não inclua o seu invólucro circundante ou os órgãos incorporados nele. Estes são como um machado que cresceu do corpo. Não são mais úteis sem a causa que os direciona do que a lançadeira sem o tecelão, a caneta sem o escritor ou ao chicote sem o condutor.

Marco Aurélio, em Meditações

Calvin

Uns inhos engenheiros

Onde eu estava ali era um quieto. O ameno âmbito, lugar entre-as-guerras e invasto territorinho, fundo de chácara. Várias árvores. A manhã se-a-si bela: alvoradas aves. O ar andava, terso, fresco. O céu — uma blusa. Uma árvore disse quantas flores, outra respondeu dois pássaros. Esses, limpos. Tão lindos, meigos, quê? Sozinhos adeuses. E eram o amor em sua forma aérea. Juntos voaram, às alamedas frutíferas, voam com uniões e discrepâncias. Indo que mais iam, voltavam. O mundo é todo encantado. Instante estive lá, por um evo, atento apenas ao auspício.
Perto, pelo pomar, tem-se o plenário deles, que pilucam as frutas: gaturamossabiassanhaços. De seus pios e cantos respinga um pouco até aqui. Vez ou vez, qual que qual, vem um, pessoativo, se avizinha. Aonde já se despojaram as laranjeiras, do redondo de laranjas só resta uma que outra, se sim podre ou muruchuca, para se picorar. Mas há uma figueira, parrada, a grande opípara. Os figos atraem. O sabiá pulador. O sabiazinho imperturbado. Sabiá dos pés de chumbo. Os sanhaços lampejam um entrepossível azul, sacam-se oblíquos do espaço, sempre novos, sempre laivos. O gaturamo é o antes, é seu reflexo sem espelhos, minúscula imensidão, é: minuciosamente indescritível. O sabiá, só. Ou algum guaxe, brusco, que de mais fora se trouxe. Diz-se tlique — e dá-se um se dissipar de voos. Tão enfins, punhado. E mesmo os que vêm a outro esmo, que não o de frugivorar. O tico-tico, no saltitanteio, a safar-se de surpresa em surpresa, tico-te-tico no levitar preciso. Ou uma garricha, a corruir, a chilra silvestriz das hortas, de traseirinho arrebitado, que se espevita sobre a cerca, e camba — apontada, iminentíssima. De âmago: as rolas. No entre mil, porém, este par valeria diferente, vê-se de outra espécie — de rara oscilabilidade e silfidez. Quê? Qual? Sei, num certo sonho, um deles já acudiu por “o apavoradinho”, ave Maria! e há quem lhes dê o apodo de Mariquinha Tece-Seda. São os que sim sós. Podem se imiscuir com o silêncio. O ao alto. A alma arbórea. A graça sem pausas. Amavio. São mais que existe o sol, mais a mim, de outrures. Aqui entramos dentro da amizade.
Pois, plumas.
Estes têm linguagem entre si, sua aviação singulariza-se. Segue-se-lhes no meneio um intentar, e gerir, o muito modo, a atenção concêntrica — e um jeito proposituído, negocioso, de como demoram o lugar e rabiscam os momentos, mas virando sempre a um ponto, escaninho, no engalhe da árvore, sob sombra. Súbitos, sus, aos lanços, como que operam e traçam. Terão seus porfins: o porfim. Nidificam! Aqui, no avisado, preferiram, para sua ninhança, no desfrequentado. A manhã se trança de perfumes e o orvalho é um pintalgamento lúcido. O ramo a enfolhar não se conclui, nem tem a quem acariciar. O tempo não voa. Todo galhozinho é uma ponte. Ao que eles dois se aplicam, em suave açodo. Tudo é sério demais, como num brinquedo. Sem suor, às ruflas, mourejam, cumprem rotina obstinaz. Um passarinho, que faz seu ninho, tem mãos a medir?
Ambos e a alvo ao em ar, afã, e o leviano com que pousam, a amimar o chão — o chãozinho. Como corrivoam, às múltiplas mímicas cabecinhas, a acatitar-se, asas de vestir, revestir. Têm o ninho em início. Aonde vão, acham ainda o orvalho. Arre que catam a palha mínima, fio, cerda ou cílio, xepam. O mundo é cheio do que se precisa, em migalhificências: felpas, filamentos, flóculos. À vez de esmiuçar-se, nada seja nhufa ou nica: por uma ninharia, os pássaros passam, em desazo. Nem nem comem? O tempo parco, o mundo movediço e mágico. Seu dever é ver, extrair, extricar, içar, levar a lar. Sim, aqui os dois, nidulantes, não cessam, os filhos da delicadeza. Outros só estão a picoritar na figueira, meliantes, conforme ferem os figos, de vizbico. Conquanto, do ao-fundo, os mais outros, segundo as matérias: o incoativo, o repetitivo, o pio puro; tié, tietê, teiteí. O pomar é uma pequena área florestária. Bem-te-vi — monotonia aguda — seu grito de artifício. O sabiá reza: — Senhora... Senhora... — a penas um rebate de saudade. Sempre mais longe, mais fundo, mais grave. Aonde os anjos, que ainda à terra vêm, agora. Vigem disfarçados?
O ninho — que erguem — é néxil, pléxil, difícil. Já de segredo o começaram: com um bicadinho de barro, a lama mais doce, a mais terna. De barro, dos lados, à vária vez, ajuntam outros arrebiques. À muita fábrica, que se forma de ticos, estilhas, gravetos, em curtas proporções; e argueiros, crinas, cabelos, fibrilas de musgos, e hábeis ciscos, discernidas lãs, painas — por estofo. Com o travar, urdir, feltrar, enlaçar, entear, empastar, de sua simples saliva canora, e unir, com argúcia e gume, com — um atilho de amor, suas todas artes. Após, ao fim, na afofagem, forrá-lo com a própria única e algodoída penugem — do peito, a que é mais quente do coração. O ninho — que querem — é entre asas e altura. Como o pássaro voa trans abismos. A mais, num esperanceio: o grácil, o sutil, o pênsil.
Se pois, que, na estreitez do que armam, vê-se, o trabalho se parte. Ele provê os materiais; ela afadigada avia-os, a construtora dita, aos capítulos. Ele traz, ela faz; ela o manda. Ele, cabecinha principal? A irrequietá-la, certo já não avoaça, assíduo. Às vezes, porém, para, num fino de ramo se suspende, volatim prebixim — com lequebros e cochilos eventuais: belpraz-se. A mirá-la de reolho, com um trejeitar, ou repausado — tiroliro — biquiabertinho. Ela o insta, o afervoriza, increpa-o. Aí ele vivo se eclipsa. E volta à lida, subsequente ativo, ágil djim, finge-se deparador, vira, vira, bicoca e corre de lado: — Aqui... aqui... aqui... Só que o a seguir-se é que de novo se esquece, empinado se ergue, preparadinho para cantar; que todo tentar de melodia já é um ensaio do indefinido. O que sai é um tritil, pipilo pífio: um piapo — e a alegria a mais, que ele assim se adjudica.
Ela é intrínseca. Ela é muito amanhã, seu em breve ser, mãe até na raiz das penas. Toda mãe se desorbita. O que urge, urge-a, cativa de fadária servidão — um dom. O que teme é ovo anteposto. E ainda não está pronto o ninho, amorável. Donde o diligir, de afinco, de rápido coração, no mais dar. Sumiu-se a gentil trapeirinha em gandaia. Repousa-e-voa, sofridulante, o físico aflito, vã, vã. Já ali a erguitar um til de capim, que é um quindim, que é um avo. Recuida-o agora, em enlevo de cobiça, com sem biquinho tecelão. E engendra. Com pouco, estará na poesia: um pós um — o-o-o — no fofo côncavo, para o choco — com o carinho de um colecionador; prolonga um problema.
Está perfeito o nidifício, no feliz findar. Os dois vão avir-se. Ele se sobe a andares altos, plenivoa, desce em festa. Ela se faz a femeazinha, instantânea tanagrinha. São casal. Sem tris, se achegam. Simetrizam. Os outros, os trêfegos aos figos, se avistam acolá, na figogueio, de figuifo. Sem reticenciar, entoa ele então um tema, em sua flauta silbisbil. Deram-lhe outro canto? Sai do mais límpido laringe, eóa siringe, e é um alarir, um eloquir, um ironir, um alegrir-se — um cachinar com toda a razão.
Se sim, quando. Se às vezes, simplesmente. Onde um lugar — os quietos curtos horizontes, o tempo um augúrio ininterrupto — que merece demorada. A inteira alma. As várias árvores. O céu — ficção concreta. Um par de pequeninos, edificantes. O tremer de galho que um mínimo corpo deixa. E o nomezinho de Deus, no bico dos pássaros.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

Na rua, até hoje...



...e eu que saí de casa olhando a lua
até hoje estou na rua.”
[Feitiço da Vila, Noel Rosa]

Eu nasci na chamada Rua da Pedreira (Santos Rodrigues), no Estácio, num apartamentinho escuro. A rua, na época, não tinha saída. Era muito pobre, com vários terrenos baldios. Estou só dando uma ideia do cenário. Aí, com quase quatro anos, finalzinho da década de 1940, houve a mudança — e botem mudança nisso! — para a Rua dos Artistas, em Vila Isabel. Os chatos insistem em afirmar que o bairro era Aldeia Campista, mas, como meu vô português botou um papel em meu bolso com o endereço, telefone e estava escrito que o bairro era Vila Isabel, foi, é e sempre será Vila Isabel. Os que discordarem podem, em fila organizada, ir à merda.
Por mais que a amável leitora ou leitor se esforcem, acho que jamais conseguirão saber o que o menino sentiu quando, pela primeira vez, viu o quintal cheio de árvores: laranjeiras-da-terra, limoeiros, jaqueiras, mangueiras e, entre insignificantes goiabeiras vermelhas, a gigantesca, o que é incomum, goiabeira branca que se curvava até o chão para que eu subisse por seus galhos a um recanto especial, onde,recostado, lia Monteiro Lobato. E sol, sol, sol no céu remendado de pipas. O quintal também tinha uma parte cimentada para acirrados jogos de futebol em que eu, sempre chegado a ficar sozinho, enfrentava o Aldirzinho, um adversário faltoso e desleal.
Outro deslumbramento eram os almoços de domingo. Se fosse Páscoa, um dia santo especial, festas natalinas, armavam uma mesa de tábuas e cavaletes no quintal. Não raro eram 30, 40 pessoas mandando ver no garfo — e no copo, claro. Pra vocês terem uma pequena ideia, nas feijoadas, as laranjas ficavam em enormes bacias, as cervejas suavam em tinas de madeira e havia literalmente dezenas de garrafas de cachaças e batidas. Rolava de tudo: porres, brigas conjugais, concurso de charadas, alguém carregando na pimenta e se cagando em pleno repasto.
No quarto dos fundos, a estranha mesa hexagonal com centenas de lápis de cor, de cera, pincéis, tinteiros, vidros com penas, vários tipos de cadernos, carimbos, réguas, compassos e esquadros ainda de madeira, sem falar de uma tralha que eu não sabia como utilizar digna de um Harry Potter da Zona Norte. O destaque era meu imenso cavalo com rodinhas (bem maior que eu), o laboratório de química e o “cabaré”. Isso aí, ca-ba-ré. Eu fechava a janela, trancava a porta, acendia um abajur velho e dançava um treco entre o tango e o vodu com as filhas das empregadas. Bom começo, né?
Aos 11 anos, como uma punhalada, me devolveram ao Estácio, pra Rua Maia Lacerda, transversal daquela em que nasci. Um antro. A infância acabou — ou quase. É inacreditável a falta de respeito dos adultos com o que pertence às crianças. Cavalo, trem elétrico, gangorra, escorrega, patinete, rema-rema, centenas de soldadinhos e carros, sacos de bolas de gude, caixas cheias de figurinhas duplicatas de vários álbuns, milhares de gibis, tudo isso sumiu da noite para o dia. Para sobreviver à esmagadora tristeza, eu “brincava de Vila Isabel”. Lia os capa-e-espada fingindo que estava na goiabeira branca. Fazia longas e silenciosas viagens pelo rio Amazonas, espingarda e cigarros de chocolate ao alcance da mão. Acho que a necessidade de brincar com a mente me levou a escrever letras de música. Eu precisava sonhar. A realidade na Maia eram trabalhos de cartolina rasgados e atirados na sarjeta, raquetes de pingue-pongue Procópio destruídas, bolas furadas... O que um garoto de 12, 13 anos faz com maconheiros de 25, além de PMs, mecânicos e motoristas de caminhão de porre? Sonha com a infância dilacerada. Reconstrói a Vila, as árvores as chuvaradas com barquinhos de papel jogados da janela. Nesses torós, o quintal enchia tanto que apareciam peixinhos entre as árvores. Não me perguntem como.
Hoje, com 69 anos, estou escrevendo esse texto — mas não sou eu. É o menino quem lança essas garatujas no papel, o menino correndo atrás da infância, agarrado aos cacos que sobraram dela. A rua e a Vila viverão enquanto o menino viver.

Aldir Blanc, em Vila Isabel, inventário da infância

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Parábola

A imagem daqueles salgueiros n’água é mais nítida e pura que os próprios salgueiros. E tem também uma tristeza toda sua, uma tristeza que não está nos primitivos salgueiros.

Mário Quintana, em Sapato Florido

Erasmo Carlos | É preciso dar um jeito meu amigo

 

Estava lá Aquiles, que abraçava

Estava lá Aquiles, que abraçava
Enfim Heitor, secreto personagem
Do sonho que na tenda o torturava;
Estava lá Saul, tendo por pajem
Davi, que ao som da cítara cantava;
E estavam lá seteiros que pensavam
Sebastião e as chagas que o mataram.
Nesse jardim, quantos as mãos deixavam
Levar aos lábios que os atraiçoaram!
Era a cidade exata, aberta, clara:
Estava lá o arcanjo incendiado
Sentado aos pés de quem desafiara;
E estava lá um deus crucificado
Beijando uma vez mais o enforcado.

Mário Faustino, em O homem e sua hora

Dificuldade de expressão

A dificuldade de encontrar, para poder exprimir, aquilo que no entanto está ali, dá uma impressão de cegueira. É quando, então, se pede um café. Não é que o café ajude a encontrar a palavra mas representa um ato histérico-libertador, isto é, um ato gratuito que liberta.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Terceiro capítulo – O Amargo Gosto da Maquela



Muidinga acorda com a primeira claridade. Durante a noite, seu sono se estremunhara. Os escritos de Kindzu lhe começam a ocupar a fantasia. De madrugada até lhe parecera ouvir os tais cabritos embriagados de Taímo. E sorri, ao se lembrar. O velho ainda ressona. O miúdo se espreguiça ao sair do machimbombo. O cacimbo é tão cheio que mal se enxerga. A corda do cabrito permanece atada aos ramos da árvore. Muidinga puxa por ela para trazer o bicho às vistas. Então, sente que a corda está solta. O cabrito fugira? Mas, se assim tinha sido, qual a razão daquele vermelho tintando o laço?
Tio, tio! Comeram o cabrito!
O velho sai aos desengonços, tropernando pelas escadas do machimbombo. Primeiro, fica parado, perplexo, a digerir névoas. Depois vai pilando raivas, mãos à cabeça, espicaçador.
Quem disse para amarrar a merda do cabrito aqui?
Grita com superiores ganas de rachar o mundo. Segura a ponta da corda, sacode-a perante o nariz. Muidinga se admira de tais fúrias. Que lamentava o velho assim tão espalhafarto?
Deve ter sido uma hiena, tio...
O velho, ríspido, agarra a cabeça do rapaz e lhe esfrega a corda no rosto.
Veja essa corda, satanhoco. Veja!
O pobre miúdo nem que quisesse. A mão do velho lhe alicateia o pescoço, dobrando seu fracturável corpo sobre os infernos. Me largue, tio. É a súplica que ele consegue, já tombado nos joelhos.
Veja aqui, grita Tuahir. Cortaram essa corda com faca!
Muidinga se arrepinha. Quem estivera ali com tais laminosas intenções? Agora ele entende a fúria do velho. Um cabrito atado só servia para agarrar os olhos dos passeantes.
Mas, tio, não nos encontraram...
Não fala comigo.
Os azedos de Tuahir não esvanecem durante o restante dia. A noite decorre de olhos abertos, vigilantes. O matador do cabrito regressaria? O miúdo se interroga: quem seriam os nocturnos saltinhadores? Matsangas? Naparamas? Simples esfomeados? Quem era que tinha sido não voltou naquela noite. Quando amanhece Muidinga se achega ao velho e se desculpa:
Não volto a fazer sem lhe ouvir.
Tuahir está mais amolecido, respirando aliviado. Fomos salvos pelo machimbombo estar queimado, disse ele. E acrescentou:
Os que vieram não voltam mais. Podemos descansar...
De novo, a morna monotonia se instala. Para distrair o tempo, tiram o banco para fora do autocarro e colocam-no no meio da estrada. Sentam-se a apanhar sol, com mais prazo que os lagartos. Muidinga repara que a paisagem, em redor, está mudando suas feições. A terra continua seca mas já existem nos ralos capins sobras de cacimbo. Aquelas gotinhas são, para Muidinga, um quase prenúncio de verdes. Era como se a terra esperasse por aldeias, habitações para abrigar futuros e felicidades. Mas o mato selvagem não oferece alimento para quem não conhece seus segredos. E a fome começa a beliscar a barriga daqueles dois. O estômago de Muidinga ronrona. O velho lhe pede contas:
Tem fome, não é, miúdo? Quem lhe mandou poupar o cabrito?
O moço está derreado, parece ter regressado ao estado da doença. Está quase parente da estrada, parado e poeiroso. O velho Tuahir se aborrece com a apatia do jovem.
Já esqueceu falar, outra vez? É da fome isso. Sabe o que você faz? Você engole com força. É, engole saliva, faz conta está entrar comida na garganta. A fome fica confusa, assim.
O velho executa, por gestos, a sua própria sugestão. Muidinga não reage. Tuahir ganha um súbito interesse no rosto do rapaz como se estudasse ali os espelhos baços do seu interior. Se levanta, ele e a sua voz, trabalhando juntos numa fúria:
Você ainda continua com essa mania de encontrar seus pais? Está proibido! Ouviste? Nem quero lhe ver pensando nesse assunto. Nunca mais.
Vê-se que se controla para não pontapear o moço, se nota um brilho de violência como se houvessem dentes no seu olhar. Parte os ramos de um arbusto, empurra o banco onde o miúdo permanece sentado.
Olha, lhe vou dizer uma coisa: seus pais faleceram. Sim, eles foram mortos com balas de bandidos. É por causa disso eu sempre estou insistir: abandona essa merda de ideia.
Vira costas. Muidinga parece impassível, sua alma desenhada só em diagonal. Era como se já soubesse, tudo aquilo não constituísse novidade nenhuma. Ou quem sabe não acreditasse na verdade da revelação. Ali ficou, estagnado o resto da manhã. É quase meio-dia quando Tuahir o sacode para anunciar que devem partir pelas redondezas. Era urgente procurar alimento, arranjar mais água.
Vai-se ou não-se?
O moço se ergue, silencioso. E partem, o miúdo segue atrás, contrariado. Aquela era sua primeira incursão pelos matos. A ela se haveriam de seguir outras. Em nenhuma dessas visitas eles se afastariam demasiado do autocarro. Desta primeira vez, eles se descaminham pelo mato, por tempos demorados. Muidinga receia perder o caminho do regresso. E se o velho se perdesse e nunca mais dessem com o machimbombo?
Qual é o problema, Muidinga?
Estou a pensar se nos perdemos...
Se não voltarmos à estrada não perdemos nada.
Era verdade: que valores arrecadava o autocarro agora que as reservas de comida se esgotavam? Porém, para Mui-dinga, não regressar seria enorme desgosto. Ele se admira: o que o prendia àqueles destroços na estrada? Então, lhe veio a resposta clara: eram os cadernos de Kindzu, as estórias que ele vinha lendo cada noite. E sente saudade das linhas, tantas quantos os passos que agora desfia pelos atalhos.
Ao fim da tarde chegam, enfim, a uns antigos terrenos de machamba. Tudo fora abandonado, as culturas se tinham perdido, castanhamente. A terra toda se despira, esperando em vão receber o beijo do arado. Aquelas visões ainda mais os esfaimam, fazendo-os arrotar o seu próprio jejum. O velho se senta numa clareira, na margem da antiga machamba. Recolhe em seu redor secos restos de mandioca. É a única cultura que resta, a única que resistiu à seca. Sacode as raízes e nota dentadas na casca.
Merda! Os ratos chegaram primeiro.
Quando Muidinga se prepara para comer Tuahir grita:
Não comas!
O velho junta às pressas os paus de mandioca e lança--os no capinzal. Andarilha às voltas a curar os nervos. Depois, se senta junto do rapaz e lhe fala:
Vou-lhe contar, miúdo. Foi por causa de mandioca dessa que você apanhou doença.
Tuahir, me conte tudo. Me conte como me encontrou.
O velho, enfim, acede. Limpa o chão onde se vai sentar em preparativo de que se iria demorar. E conta: ele estava no campo de deslocados, vindo de sua aldeia distante. Uma noite lhe pediram para ajudar a enterrar seis crianças recém--falecidas. Os corpos estavam numa cabana, por baixo de uma velha lona. Ninguém sabia quem eram, de onde tinham vindo, a que famílias pertenciam. Estavam despidas, suas roupas tinham sido roubadas mal as crianças perderam força para se defenderem. Tuahir ajudou a arrastar os corpos para um buraco. Enquanto puxava pelas pernas frias se admirava daquele peso tão diminuto. Olhava os braços ondeantes como ramos ossudos, esqueletudos, quando reparou com espanto: os dedos de uma das crianças se cravavam no chão. Não havia dúvida, aqueles dedos se agarravam à vida, lutando contra o abismo. Aquela criança ainda respirava. Era a mais clara e a mais raquítica de todas.
Parem, aquele miúdo ainda está vivo!
Os restantes coveiros se entreolham, duvidosos. E voltam a puxar os corpos: haver um vivo nada altera. Tuahir suplica que parem, os outros se imperturbam. Aqui se enterram os moribundos em viagem sem regresso. O velho sai do grupo, não tem coragem para sepultar um vivente. Já o menino se afundava em areias que atiravam no buraco quando ele se recordou:
Deixem esse: é meu sobrinho...
E você cuida dele?
Sim, eu lhe trato.
E foi assim. Nos princípios, o miúdo só pronunciava estranhas gemências. Passaram-se dias, sem outro alimento que não fosse água. O menino permanecia dobrado em si, vomitando, dolorido da cabeça aos pés. Sem se mexer, ele já trincava seu fim. Tuhair lhe pedia que se levantasse e se mantivesse de pé, nem que fosse por breves tempos. Com ajuda, o moribundo se sustinha. O velho lhe ordenava:
Veja no chão!
Muidinga olhava para o chão, nada notava. Mas as tonturas lhe dificultavam os vistos. O que era que o velho apontava?
Não vês que perdeste a tua sombra?
Era verdade. Por mais que se inclinasse, o moço não produzia nenhuma sombra. Seu corpo parecia mergulhado em eterno meio-dia. Estremecia com o presságio. E o velho pensava: “este já não tem melhora”. Mas ainda assim, insistiu. Nessa altura, o moço ainda segurava algumas palavras. A voz lhe saía em sopro:
Mas eu... o que eu tenho?
Esta doença se chama mantakassa. Você comeu mandioca azeda, dessas amargas que fermentam venenos, dessas que chamamos de maquela.
Ah, a mandioca... eu sei.
O velho tinha consciência do que iria acontecer em seguida. O menino desconhecia, no entanto, tudo que lhe esperava.
Onde estão seus pais?
Meus pais?
O menino cada vez mais se dificultava em falar, atarantonto. Ao ver a criança assim rarefeita, Tuahir sentiu descer-lhe da cabeça o coração. Puxou Muidinga pela mão e lhe prometeu:
Não lhe vou abandonar. Não tenha medo, eu lhe tomo conta.
Tuahir cumpriu. A enfermidade trabalhava no rapaz. Seu corpo se vazava de peso. As humanas faculdades nele se esvaíam. O miúdo quase já não sabia falar, nem andar, nem sequer rir. A última pergunta que fez foi uma noite em que, contemplando seu sofrimento, Tuahir deixou escapar uma lágrima:
Está a chorar de mim?
O velho nem deu resposta, negando com um sacudir de ombros. O miúdo, a seus olhos, já não surgia humano em si, todo. Só vagamente semelhava uma criança. Sua fala se engrunhia, seu corpo se tornava bravio.
Se sabias da mandioca por que comeste então, miúdo?
O velho perguntou mas já sabia a resposta. A fome apertava de mais. Morrer por morrer mais valia ver o amanhã do sol. Muidinga nada respondeu. Apenas pediu que Tuahir chegasse pertinho. Suas forças se estavam a perder. A boca desaguava as últimas palavras, dali a pouco ele já não seria capaz de pronunciar nenhum pensamento. O velho segredou o seguinte conselho: quando morresse, para encontrar caminho do Céu, o miúdo devia escolher só os carreirinhos. Os grandes caminhos nunca lhe levariam lá. Procurasse, sim, os caminhinhos, trilhozitos entre as nuvens, feitos por pé de pouca gente. Depois, não mais falou. O peso da tristeza em sua alma o sufocava. Perder aquele menino, mesmo que desconhecido, era juntar, simultâneas, todas as variedades de dor.
Dobra as pernas, depressa. Não podes morrer de pernas esticadas.
E o velho ajudou o miúdo a dobrar as pernas. Ficou à espera que a morte viesse. Passou-se tempo sem que o moço se tornasse em pessoa concluída. E se passou ao inverso do esperado. No dia seguinte, já Muidinga despertava, fortalecido. Era uma criança a nascer, quase em estado de saúde. O velho se contenta: seus filhos já quase não deixavam memória. Sentia saudade de ser pai, era como se voltasse a ser jovem.
Te vais chamar Muidinga, decidiu.
Era o nome que tinha sido dado a seu filho mais velho, ido e esvaído nas minas do Rand.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula