terça-feira, 26 de maio de 2026

Soberano Sons da Alma — Entrevistas | Edu Lobo

Filhos

Vigie

Quem tenta obstruir o seu caminho quando você prossegue em concordância com a razão reta é incapaz de desviá-lo da ação apropriada. Por conseguinte, impeça-o de distanciá-lo da sua benevolência em relação a ele.
Vigie não apenas a firmeza dos seus julgamentos e das suas ações, como também a sua gentileza com quem tenta obstrui-lo ou impedi-lo de qualquer jeito. Aborrecer-se é uma fraqueza tanto quanto se desviar da ação adequada e ceder ao medo. Enfim, ambos são igualmente desertores dos seus cargos: o homem motivado pelo temor e o afastado de quem é, por natureza, um parente e amigo.

Marco Aurélio, em Meditações

Amor de mãe



Dona Lucélia.Taí uma coroa que eu admiro. Sua luta pra educar as três filhas é matéria obrigatória nos papos de Paquetá. Viúva desde muito moça, Dona Lucélia batalhou que não foi brincadeira, mas conseguiu seu intento: Helena Lúcia, Lúcia Helena e Lúcia Lucélia terminaram brilhantemente os estudos, ganham muito bem, são prendadas e, ainda por cima, bonitas. E nem pensem que o trabalho de uma vida inteira bitolou a visão de Dona Lucélia. Nada disso. Suas preocupações abrangem um campo vasto e complexo:
Só vou me realizar mesmo como mãe no dia em que souber que as meninas são felizes na cama como eu fui com o falecido.
E depois de um longo suspiro:
O falecido era, como se diz por aí, um homem muito bem-dotado. De caráter também.
O grande sarro é que Dona Lucélia acabou inventando um “teste” que asseguraria noites felizes pra sua ninhada: o Teste da Lâmpada.
Toda vez que uma das meninas entrava em casa com um pinta e contava que havia noivado à vista, Dona Lucélia aplicava o infalível teste da lâmpada, de forma a deixar também à vista dela certas qualidades do pretendente que o decoro impedia a exibição.
Casalzinho arrulhando doçuras no sofá da sala e Dona Lucélia aparecia com um velho calção do falecido Vivaldo — que Deus o tenha! — nas mãos. O referido calção, uma peça de museu, era guardado exclusivamente pro teste.
Meu filho, não repara eu interromper assim o namoro de vocês, mas é que eu tô precisando com urgência trocar a lâmpada do banheiro de empregada.
O pretendente, geralmente interessado em cair nas boas graças da coroa, se oferecia de cara. E aí é que a bola era lançada em profundidade:
Faz o seguinte: lá tá meio empoeirado e vai sujar tua roupa. Tem aqui esse calção do falecido...
Neguim tentava escapar:
Precisa não. Minha calça é velha mesmo e...
Mas Dona Lucélia não cedia um milímetro. Fechava a cara e deixava bem claro que a cotação do noivo tava caindo de cabeça:
Olha aqui, meu chapa: não há nada de errado com o calção do falecido. Ele não morreu de nenhum treco contagioso e eu considero sua atitude um insulto à memória dele.
O quase noivo perdia o rebolado:
Não! Por favor, não se ofenda! A senhora interpretou mal as minhas palavras. Eu... eu até simpatizei com o calção e...
Então veste!
Ficava, pra variar, meio largo.
A própria Dona Lucélia armava a escada e ficava embaixo.
Pode subir sem susto que eu seguro.
Bom, o calção era estilo vista-pro-mar e o suporte tinha sido cortado por Dona Lucélia. Pra facilitar a observação do objetivo.
Tudo bem, meu filho?
Ué, a lâmpada tá perfeita,Dona Lucélia.
Neste exato momento da peleja, a filha interessada dava a senha:
Não há perigo de curto, mãe?
Dona Lucélia olhava de novo pela perna do calção e garantia:
De jeito nenhum. É filamento pra ninguém botar defeito. Tás numa boa. Quer dizer, tamos todos numa boa contra a falta de luz, hi, hi, hi...
E assim, queridas leitoras, Helena Lúcia ficou noiva. Logo depois foi a vez de Lúcia Helena. Os rapazes eram tipos comuns: nem altos nem baixos, boas-praças, salários médios, por aí. E Dona Lucélia em paz com o sucesso do teste.
Na vez da caçula, Lúcia Lucélia, apareceu um tal de Renatão, de Mercedes esporte, boa-pinta pra burro, cheio da nota. Mas, infelizmente, o teste da lâmpada foi um redondo fracasso. Quando a garota perguntou pelo perigo de curto, a coroa perdeu as estribeiras e foi definitiva:
Curto? Pra mim esse pavio já pegou fogo e não sabe. Até um recém-nascido tem mais argumento. Lúcia Lucélia, saiba que eu desaprovo essa união. E o senhor aí, faça o favor de devolver o calção do falecido.

Aldir Blanc, em Rua dos Artistas e Arredores

“A poesia é necessária”

Título de uma antiga seção do velho Braga na Manchete. Pois eu vou mais longe ainda do que ele. Eu acho que todos deveriam fazer versos. Ainda que saiam maus, não tem importância. É preferível, para a alma humana, fazer maus versos a não fazer nenhum. O exercício da arte poética representaria, no caso, como que um esforço de autossuperação.
É fato consabido que esse refinamento do estilo acaba trazendo necessariamente o refinamento da alma.
Sim, todos devem fazer versos. Contanto que não venham mostrar-me.

Mário Quintana, em Caderno H

Uns índios (sua fala)



Refiro-me, em Mato Grosso, aos Terenos, povo meridional dos Aruaques. Logo desde Campo Grande eles aparecem. Porém, se mal não me informo, suas principais reservas ou aglomerações situam-se em Bananal, em Miranda, em Lalima e em Ipegue, e perto de Nioaque. Urbanizados, vestidos como nós, calçando meias e sapatos, saem de uma tribo secularmente ganha para o civil. Na Guerra do Paraguai, aliás, serviram, se afirmaram; deles e de seu comandante, Chico das Chagas, conta A Retirada da Laguna
Conversei primeiro com dois, moços e binominados: um se chamava U-la-lá, e também Pedrinho; o outro era Hó-ye-nó, isto é, Cecílio. Conversa pouca.
A surpresa que me deram foi ao escutá-los coloquiar entre si, em seu rápido, ríspido idioma. Uma língua não propriamente gutural, não guarani, não nasal, não cantada; mas firme, contida, oclusiva e sem molezas — língua para gente enérgica e terra fria. Entrava-me e saía-me pelos ouvidos aquela individida extensão de som, fio crespo, em articulação soprada; e espantava-me sua gama de fricativas palatais e velares, e as vogais surdas. Respeitei-a, pronto respeitei seus falantes, como se representassem alguma cultura velhíssima.
Deram-me o sentido de um punhado de palavras, que perguntei. Soltas, essas abriam sua escandida silabação, que antes desaparecia, no natural da entrefala. Eis, pois:

frio — kás-sa-tí
onça — sí-i-ní
peixe — khró-é
rio — khú-uê-ó
Deus — íkhái-van-n-u-kê
cobra — kóe-ch’oé
passarinho — hê-o-pen’n-o (h aspirado).

A notação, árdua, resultou arbitrária. Só para uma ideia. E, óbvio, as palavras trazidas assim são remortas, sem velocidade, sem queimo. Mas, ainda quando, fere seu forte arrevesso.
Depois, no arraial do Limão-Verde, 18 km de Aquidauana, pé da serra de Amambai, visitei-os: um arranchamento de “dissidentes” — 60 famílias, 300 e tantas almas índias, sob o cacicado do naa-ti Tani, ou Daniel, capitão.
O lugar, o Limão-Verde, era mágico e a-parte, quase de mentira, com excessivo espesso e esmalte na verdura, como a do Oxfordshire em julho; capim intacto e montanhas mangueiras, e o poente de Itália, aberto, infim, pura cor.
Quase conosco, adiante, chegava também uma terena, a cavalo. Com sapatos anabela e com seu indiozinho ao colo. Quisemos conversar, mas ela nem deixou. Convenceu o cavalo a volver garupa, dando-nos as costas, e assim giraram, e desgiraram, quanto foi preciso.
Mas, ao avistar-nos, o capitão Daniel rompeu de lá, com todos os seus súbditos. E ele era positivo um chefe, por cara e coroa. Sua personalidade bradava baixinho. Em qualquer parte, sem impo, só de chegar, seria respeitado. O descalabro, a indigência, o aciganamento sonso de seu pessoal, não lhe tolhiam o ar espaçoso, de patriarca e pompa. Ele representava; e, com ritual vazio e simples palavras, deu-nos, num momento, o esquema de uma grande hospitalidade.
Enquanto podia, entretive-me também com um grupo: Re-pi-pí (“o cipó”), I-li-hú, Mó-o-tchó, Pi-têu, E-me-a-ka-uê e Bertulino Divino Quaauagas. Eu fazia perguntas a um — como é isso, em língua terena? como é aquilo? — e ele se esforçava em ensinar-me; mas os outros o caçoavam: — Na-kó-i-kó? Na-kó-i-kó? (— “Como é que vamos? Como é que vamos?” — K’mok’wam’mo? — quer dizer: — Como que Você se sai desta?…)
Apenas tive tempo de ir anotando meu pequeno vocabulário, por lembrança. Mais tarde, de volta a Aquidauana, relendo-o, dei conta de uma coisa, que era uma descoberta. As cores. Eram:

vermelho — a-ra-ra-i’ti
verde — ho-no-no-i’ti
amarelo — he-ya-i’ti
branco — ho-po-i’ti
preto — ha-ha-i’ti

Sim, sim, claro: o elemento i’ti devia significar “cor” — um substantivo que se sufixara; daí, a-ra-ra-i’ti seria “cor de arara”; e por diante. Então gastei horas, na cidade, querendo averiguar. Valia. Toda língua são rastros de velho mistério. Fui buscando os terenos moradores em Aquidauana: uma cozinheira, um vagabundo, um pedreiro, outra cozinheira — que me sussurraram longas coisas, em sua fala abafada, de tanto finco. Mas i’ti não era aquilo.
Isto é, era não era. I’ti queria dizer apenas “sangue”. Ainda mais vero e belo. Porque, logo fui imaginando, vermelho seria “sangue de arara”; verde, “sangue de folha”, por exemplo; azul, “sangue do céu”; amarelo, “sangue do sol”; etc. Daí, meu afã de poder saber exato o sentido de hó-no-nó, hó-pô, h-há e hê-yá
Porém não achei. Nenhum — diziam-me — significava mais coisa nenhuma, fugida pelos fundos da lógica. Zero nada, zero. E eu não podia deixar lá minha cabeça, sozinha especulando. Na-kó i-kó? Uma tristeza.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Djavan | Alumbramento

O coração risonho

Sua vida é sua vida
Não deixe que ela seja esmagada na fria submissão.
Esteja atento.
Existem outros caminhos.
E em algum lugar, ainda existe luz.
Pode não ser muita luz, mas
ela vence a escuridão
Esteja atento.
Os deuses vão lhe oferecer oportunidades.
Reconheça-as.
Agarre-as.
Você não pode vencer a morte,
mas você pode vencer a morte durante a vida, às vezes.
E quanto mais você aprender a fazer isso,
mais luz vai existir.
Sua vida é sua vida.
Conheça-a enquanto ela ainda é sua.
Você é maravilhoso.
Os deuses esperam para se deliciar
em você.

Charles Bukowski, em Antologia Poética

O cervo escondido

Um lenhador de Cheng encontrou-se na campo com um cervo assustado e o matou. Para evitar que outros o descobrissem, enterrou-o na floresta, cobrindo a cova com f olhas e ramos. Pouco tempo depois esqueceu o local onde o havia escondido, e pensou que tudo não passara de um sonho. Assim, contou o fato a toda a gente como se fosse um sonho. Entre os ouvintes, houve um que foi procurar o cervo enterrado e o encontrou. Levou-o a sua casa e disse à sua mulher:
Um lenhador sonhou que havia matado um cervo e esqueceu onde o tinha escondido, e agora eu o encontrei. Este homem sim, é que é um sonhador...
Na certa sonhaste que viste um lenhador que havia matado um cervo. Crês realmente que existiu, o lenhador? Mas como o cervo está aqui, teu sonho deve ser verdadeiro — disse a mulher.
Ainda que suponhamos que eu tenha encontrado o cervo graças a um sonho — respondeu ò marido — por que nos preocuparemos em saber qual dos dois sonhou?
Naquela noite o lenhador voltou para casa pensando ainda no cervo, e realmente sonhou, e neste sonho sonhou o lugar onde havia escondido o cervo e sonhou também quem o havia encontrado. Ao amanhecer foi a casa do outro e encontrou o cervo. Os dois discutiram e terminaram diante de um juiz para que este resolvesse o assunto. O juiz disse ao lenhador:
Realmente mataste um cervo e pensaste que era um sonho. Em seguida sonhaste realmente, e então pensaste que era a realidade. O outro encontrou o cervo e agora o disputa, porém sua mulher pensa que ele sonhou que havia encontrado um cervo que outro havia matado. Logo, ninguém matou o cervo. Porém como aqui está o cervo, o melhor que os dois podem fazer é reparti-lo.
O caso chegou aos ouvidos do rei de Cheng e o rei de Cheng disse: 
E esse juiz? Não estará ele sonhando que reparte um cervo? 

Lieh-tsé (c. 300 a.C.), em Livro de Sonhos, de Jorge Luís Borges

Hagar, o Horrível

Capítulo 53 — . . . . . . . . . .

Virgília é que já se não lembrava da meia dobra; toda ela estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha vida, no meu pensamento; era o que dizia, e era verdade.
Há umas plantas que nascem e crescem depressa; outras são tardias e pecas. O nosso amor era daquelas; brotou com tal ímpeto e tanta seiva, que, dentro em pouco, era a mais vasta, folhuda e exuberante criatura dos bosques. Não lhes poderei dizer, ao certo, os dias que durou esse crescimento.
Lembra-me, sim, que, em certa noite, abotoou-se a flor, ou o beijo, se assim lhe quiserem chamar, um beijo que ela me deu, trêmula, coitadinha, trêmula de medo, porque era ao portão da chácara, à vista das estrelas, das castas estrelas de Otelo, you chaste starts! Uniu-nos esse beijo único, breve como a ocasião, ardente como o amor, prólogo de uma vida de delícias, de terrores, de remorsos, de prazeres que re-matavam em dor, de aflições que desabrochavam em alegria, uma hipocrisia paciente e sistemática, único freio de uma paixão sem freio, vida de agitações, de cóleras, de desesperos e de ciúmes, que uma hora pagava à farta e de sobra; mas outra hora vinha e engolia aquela, com tudo mais, para deixar à tona as agitações e o resto, e o resto do resto, que é o fastio e a saciedade: tal foi o livro daquele prólogo.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

6 — Esquizofrenia, como foi dito



Era uma e meia da madrugada quando um homem de jaleco branco com um cavanhaque pontudo entrou no consultório da famosa clínica psiquiátrica, recentemente construída às margens do rio nos arredores de Moscou. Três enfermeiros não despregavam os olhos de Ivan Nikoláievitch, sentado em um sofá. Ali mesmo também se encontrava o poeta Riúkhin, extremamente alvoroçado. As toalhas com as quais Ivan Nikoláievitch fora amarrado estavam amontoadas no mesmo sofá. Os braços e as pernas de Ivan Nikoláievitch estavam livres.
Quando Riúkhin avistou o homem, empalideceu, deu uma tossidinha e disse timidamente:
Olá, doutor.
O doutor curvou-se a Riúkhin, mas, quando se inclinou, não olhou para ele, mas sim para Ivan Nikoláievitch. Este, sentado, totalmente imóvel, de cara amarrada, sobrancelhas carregadas, não mexeu um fio de cabelo quando o médico entrou.
É isso, doutor — cochichou Riúkhin, sabe-se lá por quê, de forma misteriosa, olhando assustado ao redor, para Ivan Nikoláievitch —, o famoso poeta Ivan Bezdômny... é isso, o senhor está vendo... tememos que seja delirium tremens...
Andava bebendo muito? — o doutor perguntou entre os dentes.
Não, até tomava uns tragos, mas não tanto assim...
Ficava correndo atrás de baratas, ratazanas, diabinhos ou cachorros aloprados?
Não — respondeu Riúkhin, estremecendo. — Eu o vi ontem e hoje de manhã. Estava totalmente são...
E por que está de ceroulas? Vocês o tiraram da cama?
Ele apareceu no restaurante desse jeito, doutor...
A-hã, a-hã — disse o doutor, com muita satisfação. — E por que ele está com escoriações? Brigou com alguém?
Caiu de uma cerca e no restaurante bateu em um... e depois em outro...
Certo, certo, certo — disse o doutor e, voltando-se para Ivan, acrescentou: — Olá!
Saudações, traidor! — respondeu Ivan bem alto, perverso. Riúkhin ficou tão sem graça que não teve coragem de erguer os olhos para o educado doutor. Mas este não ficou nem um pouco ofendido e, com um gesto corriqueiro e esperto, tirou os óculos, levantou a barra do jaleco, escondeu-os no bolso traseiro da calça e depois perguntou a Ivan:
Quantos anos você tem?
Saiam todos vocês da minha frente, vão para o diabo! — gritou Ivan, grosso, e deu-lhes as costas.
Mas por que tanta fúria? Por acaso eu disse algo desagradável?
Tenho vinte e três anos — falou Ivan, exaltado — e vou dar queixa contra todos vocês. Sobretudo contra você, seu porco! — referindo-se só a Riúkhin.
Ah, é? E do que é que o senhor deseja se queixar?
De que eu, homem são, fui agarrado à força e arrastado para um hospício! — respondeu Ivan, tomado de ira.
Riúkhin olhou para Ivan e gelou: decididamente, não havia nenhum sinal de demência nos olhos dele. De turvos, como estavam na Griboiêdov, voltaram a ser os de antes, límpidos.
Pai do céu!”, pensou Riúkhin, assustado. “Será que ele é realmente normal? Que bobagem! Para que fomos arrastá-lo para cá? Ele é normal, normal, só está com a cara esfolada...”
O senhor se encontra — disse o médico, com calma, sentando-se em uma banqueta branca cujo pé brilhava — em uma clínica, e não em um hospício, e ninguém vai detê-lo aqui se não for necessário.
Ivan Nikoláievitch olhou de soslaio, desconfiado, mas assim mesmo resmungou:
Graças a Deus! Até que enfim apareceu um normal entre os idiotas, e o primeiro deles é essa besta quadrada do Sáchka!1
E quem é esse Sáchka besta quadrada? — quis saber o médico.
Esse daí, Riúkhin! — respondeu Ivan e apontou para Riúkhin com o dedo sujo.
O outro se inflamou, indignado.
É assim que ele me agradece”, pensou amargamente, “por eu ter me preocupado com ele! Realmente, é um traste!”
Tem a mentalidade de um típico cúlaque2 de nada — começou Ivan Nikoláievitch, que, pelo visto, desandou a acusar Riúkhin — e ainda por cima é um cúlaque de nada que tem o cuidado de se disfarçar de proletário. Olhem só para seu ar de carola e comparem com os poemas grandiloquentes que ele compôs para o primeiro de maio! He, he, he... “Icem!” e “Abram!”... mas sondem o seu íntimo... e o que ele pensa... e ficarão boquiabertos! — Então Ivan Nikoláievitch desandou a soltar gargalhadas sinistras.
Riúkhin estava ofegante, todo vermelho, e só pensava em uma coisa, que ele tinha acalentado uma víbora em seu seio, tinha se preocupado com alguém que na realidade tinha se revelado um inimigo perverso. E o pior, não podia fazer nada: não há discussões com doentes mentais!
E, no fundo, por que trouxeram o senhor para cá? — perguntou o médico, depois de ouvir com atenção as acusações de Bezdômny.
Ah, o diabo que os carregue, aqueles imbecis. Agarraram-me, amarraram-me com uns trapos e me arrastaram para cá em um caminhão!
Permita-me que eu lhe pergunte, mas por que o senhor apareceu no restaurante só com a roupa de baixo?
Isso não tem nada de extraordinário — respondeu Ivan. — Fui nadar no rio Moscou, aí surrupiaram minha roupa e deixaram esses trastes! Eu não podia andar por Moscou nu! Vesti o que havia à mão porque tinha pressa para chegar ao restaurante de Griboiêdov.
O médico lançou um olhar interrogativo para Riúkhin, que balbuciou sobriamente:
É assim mesmo que se chama o restaurante.
A-hã — disse o médico —, e por que tinha tanta pressa? Algum encontro de negócios?
Estou correndo atrás de um consultor — respondeu Ivan Nikoláievitch e olhou ao redor, aflito.
Que consultor?
O senhor conhece Berlioz? — perguntou Ivan, com ar de importância.
O… compositor?
Ivan ficou transtornado.
Que compositor o quê? Ah, tá... Nada disso! O compositor tem o mesmo sobrenome de Micha Berlioz.
Riúkhin não tinha vontade de dizer nada, mas sentiu-se obrigado a explicar:
Berlioz, secretário da Massolit, foi esmagado por um bonde hoje à noite, em Patriarchi.
Pare de mentir, você não sabe de nada! — Ivan ficou furioso com Riúkhin. — Eu estava lá quando tudo aconteceu, e não você! Ele o meteu debaixo do bonde de propósito!
Empurrou?
Mas o que é que “empurrou” tem a ver com isso? — exclamou Ivan, furioso com a estupidez geral. — Pessoas desse tipo não precisam nem empurrar! São capazes de aprontar cada uma que sai de baixo! Ele já sabia que Berlioz ia parar debaixo de um bonde de antemão!
E mais alguém, além do senhor, viu esse consultor?
Aí é que está o problema. Só eu e Berlioz o vimos.
Está bem. E quais foram as medidas que o senhor tomou para capturar esse assassino? — Nesse instante, o médico virou-se e lançou um olhar para uma mulher de jaleco branco, sentada em frente a uma mesa, ao lado. Ela, por sua vez, pegou uma folha e começou a preencher os espaços em branco de uma tabela.
As medidas... foram as seguintes. Peguei uma vela na cozinha...
Aquela ali? — perguntou o médico, indicando a vela partida, ao lado do ícone, em cima da mesa diante da mulher.
Essa mesma, e...
E o ícone era para quê?
Ah, é, o ícone... — Ivan ficou ruborizado. — Foi o ícone que os assustou, mais do que qualquer outra coisa. — E de novo apontou Riúkhin com o dedo. — Mas o problema é que ele, o consultor, ele... vamos direto ao assunto... está envolvido com forças impuras... não é tão simples capturá-lo.
Os enfermeiros, sabe-se lá por quê, estenderam as mãos em posição de sentido e não desgrudavam os olhos de Ivan.
É — continuava Ivan —, está mesmo! É um fato irreversível. Ele falou com Pôncio Pilatos pessoalmente. Não tem por que me olhar desse jeito! Estou dizendo a verdade! Ele viu tudo: a varanda, as palmeiras. Resumindo, ele esteve com Pôncio Pilatos, eu garanto.
Jura...
É isso. Aí eu pendurei o ícone no peito com um alfinete e comecei a correr...
De repente o relógio bateu duas vezes.
Oh-oh! — exclamou Ivan, e levantou-se do sofá. — São duas horas, e eu aqui perdendo tempo com vocês! Desculpem-me, mas onde fica o telefone?
Podem deixar ele usar o telefone — determinou o médico aos enfermeiros.
Ivan agarrou-se ao fone, e a mulher, a essa altura, perguntou baixinho a Riúkhin:
Ele é casado?
Solteiro — respondeu Riúkhin, assustado.
É membro de algum sindicato?
É.
É da polícia? — gritou Ivan para o fone. — É da polícia? Camarada plantonista, ordene agora mesmo que enviem cinco motocicletas com metralhadoras para capturar o consultor estrangeiro. O quê? Venham me buscar, eu vou com vocês... Quem fala é o poeta Bezdômny, do hospício... Qual é o endereço de vocês aqui? — perguntou Bezdômny ao doutor, cochichando, tapando o fone com a palma da mão, e depois gritou de novo para o fone: — Está me ouvindo? Alô!... Que desaforo! — berrou Ivan de repente e arremessou o fone contra a parede. Depois, virou-se para o médico, estendeu-lhe a mão, disse um seco “até logo” e preparou-se para sair.
Perdão, para onde o senhor quer ir? — falou o médico, olhando Ivan bem nos olhos. — Altas horas da noite, com a roupa de baixo... está se sentindo mal, fique aqui!
Deixem-me passar — disse Ivan aos enfermeiros, que barraram a porta. — Vão me deixar ou não? — gritou o poeta com uma voz horrível.
Riúkhin começou a tremer, a mulher apertou um botão na mesa e sob a superfície de vidro irrompeu uma caixinha brilhante com uma ampola lacrada.
Ah, então é assim?! — proferiu Ivan, olhando ao redor como um selvagem encurralado. — Então está bem. Adeus!! — e atirou-se de cabeça contra a cortina que encobria a janela.
O estrondo foi bem forte, mas o vidro atrás da cortina não chegou nem a rachar e, um instante depois, Ivan Nikoláievitch estava se estrebuchando nas mãos dos enfermeiros. Ele urrava, tentava morder, gritava:
Então é esse tipo de vidro que vocês arranjaram para suas janelas!... Soltem-me! Soltem-me!
Uma seringa brilhou nas mãos do médico, e em um só golpe a mulher rasgou a manga puída da camisa e agarrou-se ao braço de Ivan com uma força nada feminina. Um cheiro de éter invadiu o ar, Ivan fraquejou nas mãos de quatro pessoas e o médico, esperto, aproveitou o momento para enfiar a agulha em seu braço. Seguraram-no mais alguns segundos e depois o deixaram no sofá.
Bandidos! — gritou Ivan e levantou-se do sofá num salto, mas fizeram com que voltasse a se deitar. Mal o deixaram, ele tentou saltar de novo, mas sentou-se mais uma vez, só que sozinho. Ficou calado, olhando ao redor como um selvagem, depois, do nada, bocejou e sorriu, perverso.
Conseguiram me enclausurar — disse ele. Bocejou mais uma vez e, de repente, deitou-se, pôs a cabeça no travesseiro, o punho embaixo da bochecha como uma criança, e começou a balbuciar já com a voz sonolenta, nada perversa: — Então, que bom... vocês mesmos vão pagar caro por tudo isso. Eu avisei, façam como bem entenderem... Agora, mais do que tudo, estou interessado em Pôncio Pilatos... Pilatos... — E fechou os olhos.
Um banho, quarto individual 117 e olho nele — ordenou o médico, colocando os óculos. Riúkhin estremeceu de novo: silenciosamente, as portas brancas se abriram, atrás delas um corredor, iluminado por lâmpadas noturnas azuis. Do corredor saiu uma maca com rodinhas de borracha, para a qual Ivan, aplacado, foi transferido, e assim ele saiu pelo corredor, as portas se fechando atrás dele.
Doutor — perguntou Riúkhin, abalado, cochichando —, quer dizer que ele está realmente doente?
Oh, está — respondeu o médico.
E o que há com ele? — perguntou Riúkhin, tímido.
O médico, cansado, olhou para Riúkhin e respondeu desanimadamente:
Excitação motora e verbal... interpretações delirantes... um caso complexo, pelo visto... Esquizofrenia, deve-se supor. E, ainda por cima, o alcoolismo...
Riúkhin não entendeu uma palavra do que o doutor disse; apenas que a situação de Ivan Nikoláievitch, claro, não era nada boa. Então perguntou, suspirando:
E por que ele só fala de um tal consultor?
Decerto viu alguém que impressionou sua imaginação transtornada. Mas pode ser uma alucinação...
Alguns minutos depois, o caminhão levava Riúkhin de volta a Moscou. Estava amanhecendo, e as luzes ainda acesas na estrada eram já desnecessárias e incômodas. O motorista, irritado por ter perdido a noite, pisava fundo, derrapando nas curvas.
A floresta se deitou, ficou em algum lugar atrás, o rio desviou-se para algum lado, as coisas mais variadas se esparramavam ao encontro do caminhão: cercas com guaritas, pilhas de lenha, postes altíssimos, polos com bobinas enfiadas, montes de cascalhos, terra sulcada por canais — em resumo, sentia-se que, logo, logo, lá estaria ela, Moscou, que depois de uma curva irromperia e o engoliria.
Riúkhin chacoalhava e balançava; o toco no qual ele se instalara volta e meia queria escorregar debaixo dele. As toalhas do restaurante, jogadas ali pelo policial e por Panteliêi, que tinham ido embora mais cedo, de trólebus, rolavam por toda a caçamba. Riúkhin estava tentando recolhê-las, mas, sabe-se lá por quê, sibilou, perverso: “O diabo que as carregue! Francamente, por que estou zanzando como um idiota?” Chutou-as e parou de olhar.
O estado de espírito do viajante era terrível. Ficava claro que a visita à casa da aflição deixara nele uma marca profunda. Riúkhin tentava entender o que o atormentava. Aquele corredor com lâmpadas azuis, que não desgrudava da sua memória? O pensamento de que não havia no mundo desgraça pior do que a perda da razão? Claro, claro, isso também. Mas esse, veja bem, é um pensamento comum. Só que havia algo mais. E o que será? Uma ofensa, é isso. Isso mesmo, palavras ofensivas que Bezdômny jogou na sua cara. O problema não é que sejam ofensivas, e sim que encerram a verdade.
O poeta não olhava mais ao redor; com o olhar fixo no chão sujo, que chacoalhava, começou a balbuciar, lamuriar-se, atormentando-se.
É, a poesia... Tinha trinta e dois anos! Realmente, e agora? Agora continuaria a escrever uns quantos poemas por ano. Até ficar velho? É, até ficar velho. E o que esses poemas lhe trarão de bom? A glória? “Que absurdo! Não engane a si mesmo, pelo menos. A glória nunca chegará àquele que escreve poemas ruins. E por que são ruins? A verdade, ele disse a verdade!”, Riúkhin referia-se a si mesmo, impiedoso. “Não acredito em uma palavra do que escrevo...”
Envenenado por uma explosão de neurastenia, o poeta balançou e o chão sob ele parou de chacoalhar. Riúkhin ergueu a cabeça e percebeu que havia muito estava em Moscou e, mais do que isso, viu que Moscou estava tomada pelo amanhecer, que uma nuvem carregava uma luz dourada, que o caminhão estava parado, preso em uma coluna de carros numa curva para o bulevar, e que bem pertinho dele, em um pedestal, havia um homem de metal, com a cabeça um pouco inclinada, olhando, indiferente, para o bulevar.
Alguns pensamentos estranhos invadiram a cabeça do poeta adoecido. “Veja um exemplo de verdadeira sorte...” Então, Riúkhin levantou-se de corpo inteiro na caçamba e suspendeu o braço, lançando-se, sabe-se lá por quê, contra o homem de ferro fundido, que não incomodava ninguém. “Todos os passos que deu na vida, acontecesse o que acontecesse com ele, tudo lhe favoreceu, tudo se voltou para sua glória. Mas o que ele fez? Não consigo conceber... Há algo de especial nestas palavras? ‘A tempestade com a bruma’... Não entendo... Foi sorte, sorte!”, concluiu Riúkhin, de repente, e sentiu que o caminhão se mexeu debaixo dele. “Aquele soldado branco atirou nele, atirou sim, esfacelou sua bacia e garantiu-lhe a imortalidade...”
A coluna pôs-se em movimento. Totalmente doente e até mesmo envelhecido, não mais do que dois minutos depois o poeta entrou na varanda de Griboiêdov. Já estava vazia. Em um canto um grupo terminava uma garrafa e, na área central, agitava-se um famoso animador, de solidéu e com uma taça de vinho Abrau-Durso5 na mão.
Riúkhin, sobrecarregado de toalhas, foi recebido afavelmente por Artchibald Artchibáldovitch e na mesma hora livrado dos malditos panos. Se Riúkhin não estivesse tão exacerbado pela clínica e pelo caminhão, decerto sentiria prazer ao contar como tudo ocorreu na clínica, enfeitando a história com detalhes inventados. Porém, agora não podia com isso e, por mais observador que fosse, depois da tortura no caminhão ele pela primeira vez olhou fixamente nos olhos do pirata e entendeu que, apesar de ele fazer perguntas sobre Bezdômny e até exclamar “ai, ai, ai!”, na realidade o destino de Bezdômny lhe era totalmente indiferente, e não tinha a mínima pena dele. “Muito bem! Está certo!”, pensou Riúkhin, com uma perversidade cínica e autodestrutiva e, interrompendo o relato sobre a esquizofrenia, pediu:
Artchibald Artchibáldovitch, uma vodcazinha para mim...
O pirata fez cara de compaixão e cochichou:
Entendo... agorinha mesmo... — E acenou para o garçom.
Quinze minutos depois, Riúkhin, em completa solidão, estava sentado, debruçado sobre um peixe, bebendo um cálice atrás do outro, entendendo e reconhecendo que não poderia corrigir mais nada em sua vida, e que agora só restava esquecer.
O poeta perdeu sua noite, enquanto os outros comemoravam, e agora entendia que não podia fazê-la voltar. Bastava erguer a cabeça para o céu por cima da lâmpada para compreender que a noite estava perdida, sem volta. Os garçons arrancavam as toalhas das mesas às pressas. Os gatos que perambulavam em volta da varanda tinham um ar matinal. O dia caía impetuosamente sobre o poeta.

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida

domingo, 24 de maio de 2026

Sami Yusuf | We Love Life

Explicação de poesia sem ninguém pedir

Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento.

Adélia Prado, em Bagagem

Diário de Bernardo Soares – 110

Quando durmo muitos sonhos, venho para a rua, de olhos abertos, ainda com o rastro e a segurança deles. E pasmo do automatismo meu com que os outros me desconhecem. Porque atravesso a vida quotidiana sem largar a mão da ama astral, e os meus passos na rua vão concordes e consoantes com obscuros desígnios da imaginação de dormir. E na rua vou certo; não cambaleio; respondo bem; existo.
Mas, quando há um intervalo, e não tenho que vigiar o curso da minha marcha, para evitar veículos ou não estorvar peões, quando não tenho que falar a alguém, nem me pesa a entrada para uma porta próxima, largo-me de novo nas águas do sonho, como um barco de papel dobrado em bicos, e de novo regresso à ilusão mortiça que me acalentara a vaga consciência da manhã nascendo entre o som dos carros que hortaliçam.
E então, em plena vida, é que o sonho tem grandes cinemas. Desço uma rua irreal da Baixa e a realidade das vidas que não são ata-me, com carinho, a cabeça num trapo branco de reminiscências falsas. Sou navegador num desconhecimento de mim. Venci tudo onde nunca estive. E é uma brisa nova esta sonolência com que posso andar, curvado para a frente numa marcha sobre o impossível.
Cada qual tem o seu álcool. Tenho álcool bastante em existir. Bêbado de me sentir, vagueio e ando certo. Se são horas, recolho ao escritório como qualquer outro. Se não são horas, vou até ao rio fitar o rio, como qualquer outro. Sou igual. E por detrás de isso, céu meu, constelo-me às escondidas e tenho o meu infinito.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Oitavo capítulo — O Suspiro dos Comboios



Lhe vou confessar miúdo. Eu sei que é verdade: não somos nós que estamos a andar. É a estrada.
Isso eu disse desde há muito tempo.
Você disse, não. Eu é que digo.
E Tuahir revela: de todas as vezes que ele lhe guiara pelos caminhos era só fingimento. Porque nenhuma das vezes que saíram pelos matos eles se tinham afastado por reais distâncias.
Sempre estávamos aqui pertinho, a reduzidos metros.
Tudo acontecera na vizinhança do autocarro. Era o país que desfilava por ali, sonhambulante. Siqueleto esvaindo, Nhamataca fazendo rios, as velhas caçando gafanhotos, tudo o que se passara tinha sucedido em plena estrada.
É miúdo, estamos a viajar. Nesse machimbombo parado nós não paramos de viajar. Me faz lembrar quando andava no comboio.
O velho se lembrava, olhos quiméricos. Recordava o trem resfolegando pela savana, trazendo as boas simpatias de muito longe, os mineiros que chegavam carregados de mil ofertas. Sua memória se inundava de vapores e fumos, esses que cacimbam as sonolentas estações. Há quanto tempo os comboios tinham parado de espalhar seus fumos mágicos?
Você alguma vez escutou a fala do comboio?
Nunca, tio.
É bonito de se ouvir. Túúúúúú-úú.
Tuahir se recorda. Seu serviço tinha sido numa estaçãozinha. Quando a guerra chegou, os comboios deixaram de passar. Mas ele ficou em seu posto, com sua lanterna, sua atenta bandeira. Aquela lanterna tinha restado como única luz entre tanto mato como se fosse uma lâmpada não dos homens mas da terra. Pontualmente Tuahir madrugava na gare, varria o patamar, reparava as tábuas da casinha. Aplicava seu princípio: há-de vir, um dia o comboio virá. Quando chegasse a data ele estaria à frente da ocasião, todo fardado, todo organizado. Como sempre fizera, saudaria a locomotiva em solene continência. As carruagens arrastariam seu suspiro de ferros, as meninas correriam com seus cestos vendendo frutas e a vida se banharia de luzes e vozes.
Às vezes me apetece arrumar este machimbombo como eu fazia com a estação. Mas agora não vale a pena.
Não vale a pena porquê?
Também não vale a pena responder. Vê esse apito?
E retira do bolso um velho apito. Era um amuleto que o tinha acompanhado todos aqueles anos.
Leve. Para lhe dar sorte.
Muidinga, de princípio, não aceita. O apito tem valores sentimentais que só o velho conhece. Mas Tuahir insiste e ele acaba por recolher o pequeno objecto. Em sua alma, porém, há uma pedrinha. Por que motivo não mereceria a pena cuidarem do autocarro? Porquê aquela desistência do tio? E lhe fala, com devoção. Lhe fala de risos futuros, o mundo brincando em suas mãos. Voltariam os dois a cuidar da estação, lanternas e bandeiras a ordenar o trânsito das carruagens.
Não é o tio que sempre repete: qualquer coisa vai acontecer?
Digo isso porque já perdi a esperança.
Mentira. Se tivesse perdido por que razão me havia de oferecer esse apito?
O velho pede então que o miúdo dê voz aos cadernos. Dividissem aquele encanto como sempre repartiram a comida. Ainda bem você sabe ler, comenta o velho. Não fossem as leituras eles estariam condenados à solidão. Seus devaneios caminhavam agora pelas letrinhas daqueles escritos.
Me lê, miúdo. Vai lendo enquanto eu faço um serviço.
Então, o velho improvisa um xipefo, solta um pano vermelho. Apanha um ramo de palmeira e inventa uma vassoura. Varre o interior do machimbombo enquanto canta. O miúdo desfolha os cadernos sorridente. O velho se recriava, igual ao seu antigo emprego. E é como se o próprio Muidinga estivesse sentado na estação, aguardando o próximo comboio. Tuahir vai juntando os resíduos do queimado numa velha tampa. Depois, sai do autocarro e espalha as cinzas pelas terras em volta.
O que está a fazer, tio?
Estou semear este adubo. É para amanhã quando chover. Continue, filho. Não pare de ler.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

1624 – Lima

O negro açoita o negro

Três escravos africanos percorreram as ruas de Lima com as mãos amarradas e uma corda no pescoço. Os verdugos negros também, caminhavam atrás. A cada poucos passos, uma chicotada, até somar cem; e quando caíam, os açoites eram de presente.
O alcaide tinha dado a ordem. Os escravos tinham levado baralhos ao cemitério da catedral, convertendo-o em sala de jogo usando as lápides como mesa; e bem sabia o alcaide que não vinha mal a lição para os negros em geral, de tão insolentes e numerosos que são, e tão amigos de um alvoroço.
Agora jazem, os castigados, no pátio da casa de seu amo. Têm as costas em carne viva. Uivam enquanto lavam as suas chagas com urina e aguardente.
O amo amaldiçoa o alcaide, agita o punho, jura vingança. Não se brinca assim com a propriedade alheia.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

I Will | Paul McCartney e John Lennon




Who knows how long I’ve loved you
You know I love you still
Will I wait a lonely lifetime
If you want me to I will

For if I ever saw you
I didn’t catch your name
But it never really mattered
I will always feel the same

Love you forever and forever
Love you with all my heart
Love you whenever we’re together
Love you when we’re apart

And when at last I find you
Your song will fill the air
Sing it loud so I can hear you
Make it easy to be near you
For the things you do endear you to me
You know I will
I will

Alan-a-Dale. O trovador vagando pela Floresta de Sherwood na lenda de Robin Hood. Sou eu mesmo. Nesta canção ativei o meu modo menestrel.
Existe uma tese de que as canções de amor mais interessantes são aquelas sobre um amor que deu errado. Não concordo com isso. Esta canção é sobre a alegria do amor. Às vezes, essas canções são rotuladas de piegas, doces ou açucaradas. Sim, eu compreendo isso. Mas o amor pode ser a força mais poderosa e intensa do planeta. Agora mesmo, no Vietnã ou no Brasil, pessoas se apaixonam. Muitas vezes, querem ter filhos. É uma força universal e profunda. Não tem nada de piegas.
Quando eu me sento para tentar compor uma canção, é comum eu pensar: “Ah, como eu gostaria de capturar aquele sentimento de estar apaixonado pela primeira vez”. Esta canção foi iniciada em fevereiro de 1968, quando eu estava na Índia com Jane Asher. Pelo que eu me lembro, a melodia já existia havia um tempo e a música ganhou forma bem rápido. Continua sendo uma de minhas melodias favoritas que eu compus. Escrever a letra levou mais tempo. Sei que parece estranho, porque é um conjunto de ideias bem básico. O cantor folk Donovan, que passou algum tempo conosco em nossa viagem para visitar o Maharishi Mahesh Yogi, contribuiu com uma versão inicial da letra, mas não foi aproveitada. Era mais básica ainda, com rimas do tipo “moon/June”.
De novo, só porque eu estava envolvido com Jane na época, isso não significa que esta canção seja dedicada a Jane ou sobre ela. Quando estou compondo, é como se eu definisse o texto e a música para o filme que estou assistindo em minha cabeça. É uma declaração de amor, sim, mas nem sempre para alguém em especial. A menos que seja para a pessoa que estiver ouvindo a canção. E ela tem que estar pronta para isso. Com certeza quase absoluta não é para a pessoa que disser: “Lá vem ele de novo com aquelas canções de amor bobinhas”. Então, este sou eu no meu modo menestrel.

Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente