sexta-feira, 20 de março de 2026
A rua dos cataventos – I
Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!... E que leves, lindas
filigranas
Desenha o sol na página deserta!
Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta...
desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...
Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me
esqueço...
Pra que pensar? Também sou da
paisagem...
Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... iriso-me...
estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando!
Mário Quintana, em A rua dos cataventos
Capítulo 42 – Que Escapou a Aristóteles
Outra coisa que também me parece
metafísica é isto: – Dá-se movimento a uma bola, por exemplo;
rola esta, encontra outra bola, transmite-lhe o impulso, e eis a
segunda bola a rolar como a primeira rolou. Suponhamos que a primeira
bola se chama... Marcela, – é uma simples suposição; a segunda,
Brás Cubas; – a terceira, Virgília. Temos que Marcela, recebendo
um piparote do passado rolou até tocar em Brás Cubas, – o qual,
cedendo à força impulsiva, entrou a rolar também até esbarrar em
Virgília, que não tinha nada com a primeira bola; e eis aí como,
pela simples transmissão de uma força, se tocam os extremos
sociais, e se estabelece uma coisa que poderemos chamar –
solidariedade do aborrecimento humano. Como é que este capítulo
escapou a Aristóteles?
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas
21 de fevereiro
Não quero mais a fúria da verdade.
Entro na sapataria popular.
Chove por detrás. Gatos amarelos
circulando no fundo.
Abomino Baudelaire querido, mas
procuro na vitrina um modelo brutal. Fica boazinha, dor; sábia como
deve ser, não tão generosa, não. Recebe o afeto que se encerra no
meu peito. Me calço decidida onde os gatos fazem que me amam,
juvenis, reais. Antes eu era 36, gata borralheira, pé ante pé,
pequeno polegar, pagar na caixa, receber na frente. Minha dor. Me dá
a mão. Vem por aqui, longe deles. Escuta querida, escuta. A marcha
desta noite. Se debruça sobre os anos neste pulso. Belo belo. Tenho
tudo que fere. As alemãs marchando que nem homem.
As cenas mais belas do romance o autor
não soube comentar. Não me deixa agora, fera.
Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés
Uma história de tanto amor
Era uma vez uma menina que observava
tanto as galinhas que lhes conhecia a alma e os anseios íntimos. A
galinha é ansiosa, enquanto o galo tem angústia quase humana:
falta-lhe um amor verdadeiro naquele seu harém, e ainda mais tem que
vigiar a noite toda para não perder a primeira das mais longínquas
claridades e cantar o mais sonoro possível. É o seu dever e a sua
arte. Voltando às galinhas, a menina possuía duas só dela. Uma se
chamava Pedrina e a outra Petronilha.
Quando a menina achava que uma delas
estava doente do fígado, ela cheirava embaixo das asas delas, com
uma simplicidade de enfermeira, o que considerava ser o sintoma
máximo de doenças, pois o cheiro de galinha viva não é de se
brincar. Então pedia um remédio a uma tia. E a tia: “Você não
tem coisa nenhuma no fígado.” Então, com a intimidade que tinha
com essa tia eleita, explicou-lhe para quem era o remédio. A menina
achou de bom alvitre dá-lo tanto a Pedrina quanto a Petronilha para
evitar contágios misteriosos. Era quase inútil dar o remédio
porque Pedrina e Petronilha continuavam a passar o dia ciscando o
chão e comendo porcarias que faziam mal ao fígado. E o cheiro
debaixo das asas era aquela morrinha mesmo. Não lhe ocorreu dar um
desodorante porque nas Minas Gerais onde o grupo vivia não eram
usados assim como não se usavam roupas íntimas de nylon e sim de
cambraia. A tia continuava a lhe dar o remédio, um líquido escuro
que a menina desconfiava ser água com uns pingos de café – e
vinha o inferno de tentar abrir o bico das galinhas para
administrar-lhes o que as curaria de serem galinhas. A menina ainda
não tinha entendido que os homens não podem ser curados de serem
homens e as galinhas de serem galinhas: tanto o homem como a galinha
têm misérias e grandeza (a da galinha é a de pôr um ovo branco de
forma perfeita) inerentes à própria espécie. A menina morava no
campo e não havia farmácia perto para ela consultar.
Outro inferno de dificuldade era
quando a menina achava Pedrina e Petronilha magras debaixo das penas
arrepiadas, apesar de comerem o dia inteiro. A menina não entendera
que engordá-las seria apressar-lhes um destino na mesa. E recomeçava
o trabalho mais difícil: o de abrir-lhes o bico. A menina tornou-se
grande conhecedora intuitiva de galinhas naquele imenso quintal das
Minas Gerais. E quando cresceu ficou surpresa ao saber que na gíria
o termo galinha tinha outra acepção. Sem notar a seriedade cômica
que a coisa toda tomava:
– Mas é o galo, que é um nervoso,
é quem quer! Elas não fazem nada demais! e é tão rápido que mal
se vê! O galo é quem fica procurando amar uma e não consegue!
Um dia a família resolveu levar a
menina para passar o dia na casa de um parente, bem longe de casa. E
quando voltou, já não existia aquela que em vida fora Petronilha.
Sua tia informou-lhe:
– Nós comemos Petronilha.
A menina era criatura de grande
capacidade de amar: uma galinha não corresponde ao amor que se lhe
dá e no entanto a menina continuava a amá-la sem esperar
reciprocidade. Quando soube o que acontecera com Petronilha passou a
odiar todo o mundo da casa, menos sua mãe que não gostava de comer
galinha e os empregados que comeram carne de vaca ou de boi. O seu
pai, então, ela mal conseguiu olhar: era ele quem mais gostava de
comer galinha. Sua mãe percebeu tudo e explicou-lhe.
– Quando a gente come bichos, os
bichos ficam mais parecidos com a gente, estando assim dentro de nós.
Daqui de casa só nós duas é que não temos Petronilha dentro de
nós. É uma pena.
Pedrina, secretamente a preferida da
menina, morreu de morte morrida mesmo, pois sempre fora um ente
frágil. A menina, ao ver Pedrina tremendo num quintal ardente de
sol, embrulhou-a num pano escuro e depois de bem embrulhadinha
botou-a em cima daqueles grandes fogões de tijolos das fazendas das
minas gerais. Todos lhe avisaram que estava apressando a morte de
Pedrina, mas a menina era obstinada e pôs mesmo Pedrina toda
enrolada em cima dos tijolos quentes. Quando na manhã seguinte
Pedrina amanheceu dura de tão morta, a menina só então, entre
lágrimas intermináveis, se convenceu de que apressara a morte do
ser querido.
Um pouco maiorzinha, a menina teve uma
galinha chamada Eponina.
O amor por Eponina: dessa vez era um
amor mais realista e não romântico; era o amor de quem já sofreu
por amor. E quando chegou a vez de Eponina ser comida, a menina não
apenas soube como achou que era o destino fatal de quem nascia
galinha. As galinhas pareciam ter uma presciência do próprio
destino e não aprendiam a amar os donos nem o galo. Uma galinha é
sozinha no mundo.
…
Mas a menina não esquecera o que sua
mãe dissera a respeito de comer bichos amados: comeu Eponina mais do
que todo o resto da família, comeu sem fome, mas com um prazer quase
físico porque sabia agora que assim Eponina se incorporaria nela e
se tornaria mais sua do que em vida. Tinham feito Eponina ao molho
pardo. De modo que a menina, num ritual pagão que lhe foi
transmitido de corpo a corpo através dos séculos, comeu-lhe a carne
e bebeu-lhe o sangue. Nessa refeição tinha ciúmes de quem também
comia Eponina. A menina era um ser feito para amar até que se tornou
moça e havia os homens.
Clarice Lispector, em Todos os contos
quinta-feira, 19 de março de 2026
O homem e a cidade
Agora, que não preciso mais ir à
cidade todo dia, descubro um prazer novo em andar por essas velhas
ruas do centro onde tanto vaguei outrora.
E pego um estranho dia de verão: há
um alto nevoeiro aéreo sob o céu azul, mas o vento espanta
alegremente as nuvens esgotadas de chover; o ar é fino, a luz é
clara, a manhã é assanhada, com uma alegria de convalescente que
pela primeira vez, depois de longa doença, sai a passear entre as
árvores, o mar e as montanhas azuis.
Parece que estamos em maio ou
setembro, num desses dias cambiantes e leves em que as folhas têm um
brilho mais feliz. E sinto prazer em andar pela calçada larga da Rua
do Passeio, em espiar as grandes vitrinas coloridas de presentes de
Natal. (Não quero comprar nada, não preciso ganhar mais nada, não
é verdade que recebi na minha porta a graça juvenil de uma rosa
amarela?)
A calçada está cheia de gente, e é
doce a gente se deixar ir andando à toa. Na Rua Senador Dantas vejo
livros, camisas, aparelhos elétricos, discos, fuzis submarinos,
gravatas; e os cartazes dizem que tudo é muito barato e fácil de
comprar, os cartazes me fazem ofertas especiais para levar agora e só
começar a pagar em fevereiro... Muito obrigado, muito obrigado, mas
não preciso de nada. Entretanto, gosto de ver essa fartura de
coisas: fico parado numa porta de mercearia contemplando reluzentes
goiabadas e frascos de vinho, bebidas e gulodices de toda a espécie
que vieram de terras longes se oferecerem a mim.
Mas de repente houve alguma coisa —
a visão de um muro, o som de uma vitrola distante, algum rosto no
meio da multidão? —, alguma coisa que me devolveu ao meu ser
antigo. Sou um rapaz magro nesta mesma rua, sou o verdadeiro
estudante de 1929 e talvez cruze numa esquina, sem conhecê-la ainda,
aquela que há de ser a minha amada, e tire do bolso a minha
carteirinha da Faculdade para ter direito ao abatimento no cinema.
Mas logo, por um instante, sou o homem dramático e silencioso de
1938, e caminho carregado de angústia por essa calçada que,
entretanto, é a mesma de hoje — há o vento palpitando nos
vestidos coloridos de mulheres finas que sorriem com dentes muito
brancos entre os lábios úmidos. E vou andando, tomo um café, sinto
uma grande ternura pela cidade grande onde outrora te amei tanto,
tanto, oh! para sempre perdida Lenora.
Lenora... E me dá uma humildade entre
o povo, completo o dinheiro da entrada de um menino que quer ir ao
cinema, espero um bonde, ajudo uma senhora gorda a subir com seu
embrulho, ela agradece e sorri, é cinquentona e pobre, mas seu
sorriso é bom, ela e eu somos cidadãos da mesma cidade e antes de
saltar ela me desejará boas-entradas. Vem o condutor, tem cara de
alemão e é gordo, mas ágil e paciente, todos pagam sua passagem na
boa ordem civil e cordial. Um homem conduz uma gaiola dentro do
bonde, todos querem ver o passarinho — é um pintassilgo, diz ele.
Quieto, vou repetindo sem voz, para
mim mesmo, teu nome, Lenora — perdida, para sempre perdida, mas tão
viva, tão linda, batendo os saltos na calçada, andando de cabelos
ao vento dentro da minha cidade e de minha saudade, Lenora.
Rio, janeiro, 1960.
Rubem Braga, em Ai de ti, Copacabana
Da infinita solidão
Mas só Deus — que é único, que não tem par — poderia dizer o que é a solidão.
Mário Quintana, em Caderno H
Diário de Bernardo Soares | 98.
Acordei hoje muito cedo, num repente
embrulhado, e ergui-me logo da cama, sob o estrangulamento de um
tédio incompreensível. Nenhum sonho o havia causado; nenhuma
realidade o poderia ter feito. Era um tédio absoluto e completo, mas
fundado em qualquer coisa. No fundo obscuro da minha alma,
invisíveis, forças desconhecidas travavam uma batalha em que o meu
ser era o solo, e todo eu tremia do embate incógnito. Uma náusea
física da vida inteira nasceu com o meu despertar. Um horror a ter
que viver ergueu-se comigo da cama. Tudo me pareceu oco e tive a
impressão fria de que não há solução para problema algum.
Uma inquietação enorme fazia-me
estremecer os gestos mínimos. Tive receio de endoidecer, não de
loucura, mas de ali mesmo. O meu corpo era um grito latente. O meu
coração batia como se falasse.
Com passos largos e falsos, que em vão
procurara tornar outros, percorri, descalço, o comprimento pequeno
do quarto, e a diagonal vazia do quarto interior, que tem a porta ao
canto para o corredor da casa. Com movimentos incoerentes e
imprecisos, toquei nas escovas em cima da cómoda, desloquei uma
cadeira, e uma vez bati com a mão movida em baloiço o ferro acre
dos pés da cama inglesa. Acendi um cigarro, que fumei por
subconsciência, e só quando vi que tinha caído cinza sobre a
cabeceira da cama — como, se eu não me debruçara ali? —
compreendi que estava possesso, ou coisa análoga, em ser quando não
em nome, e que a consciência de mim, que eu deveria ter, se tinha
intervalado com o abismo.
Recebi o anúncio da manhã, a pouca
luz fria que dá um vago azul branco ao horizonte que se revela, como
um beijo de gratidão das coisas. Porque essa luz, esse verdadeiro
dia, libertava-me, libertava-me não sei de quê, dava-me o braço à
velhice incógnita, fazia festas à infância postiça, amparava o
repouso mendigo da minha sensibilidade transbordada.
Ah, que manhã é esta, que me
desperta para a estupidez da vida, e para a grande ternura dela!
Quase que choro, vendo esclarear-se diante de mim, debaixo de mim, a
velha rua estreita, e quando os taipais da mercearia da esquina já
se revelam castanho sujo na luz que se extravasa um pouco, o meu
coração tem um alívio de conto de fadas reais, e começa a
conhecer a segurança de se não sentir.
Que manhã esta mágoa! E que sombras
se afastam? E que mistérios se deram? Nada: o som do primeiro
elétrico como um fósforo que vai iluminar a escuridão da alma, e
os passos altos do meu primeiro transeunte que são a realidade
concreta a dizer-me, com voz de amigo, que não esteja assim.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
O grande samba disperso
João Policarpo fala, longos ais.
Se canta: mau pranto. Perfunctório. Agarrado de angústias. Cuida
de: mentiras, saudades, traição, lembrança.
— A situação parou, meu coração
se afundou. Ora, a vida. Entestei com grande espanto, artifícios de
ilusão. Não desminto desta fé — o que em mim era verdade. Amar,
mais, era proibido. Maria das Mercês... Mas ela era mulher, mulher,
simpatia mal mostrada. Ela estava junto a mim, não em minha
companhia; em suas faces era de noite, em seus olhos era de dia...
Promessa feita — amor desfeito. Se abraçou com minhas pernas ao
pé-da-cruz. Só as lagriminhas, quase — dessas águas crocodilas.
Só a que seu tanto não sofreu, é que ama com falsidades. O que
foi, já manhã clara. De um juramento que dei: que o meu perdão eu
não dava. Maria’s Mercês da maldade. Não perdi nenhum valor,
amor sofrido dobrado. Cumpro minha obrigação de dor, meu senhor.
Estou alegre de trono, só choro estas poucas lágrimas. Amanhã vou
esquecer, depois então vou saber: saudade é chateação, pensamento
com cansaço. Saí de lá com o coração muito bandido. Saí,
senhor. Ninguém dê notícias minhas. Eu não posso chegar à razão,
de umas tantas criaturas Maria passou pela tarde. Só — o que sei —
é cidade e amor; para que fazer caso? Urubu que praguejou, há-de a
ver que não me mate. Desculpe franquezas minhas, mas eu estou na
liberdade. Guardei paixão? Agora eu estou em outrora, veja, vou
compor aquela tristeza. O tremido do meu ser, que é o viver
desnorteado. Agora, se vou lá ver. Sozinho é que sei sofrer. Mas,
antes, penar constante, que se usar o mal-comprado. Crescer, mercês
de saudade. Aqui estou João Policarpo, um servo do senhor, meu
senhor. O senhor quem será, sua graça?
— Amorearte de Almeida
(doutor, não-compositor). — Vejo as muralhas da cidade.
Reflito-as: vastas, várias, as ondas indivíduas, miríades demais.
Tenho nos meus ouvidos este sinapismo de sons. O povo popular, a rua
estrábica, a pânica floresta, um frondoso gemer, um tudo chão,
denso como um bambual, as enfeitiçagens, a preparação do prazer, o
paraforamento; luzes, numa remotidão de estrelas; e sempre a noite,
antiquíssima — nigrícia. Desesperem-se-me os fatos. O círculo do
amor, tão repetido: esta é a água de fontes amargas. O silêncio é
moralmente incompleto. Enquanto o tempo não parar de cair, não
teremos equilíbrio. Vou ao vento, para meu assento. Vou? Eu ouço.
Ou não ou? Mas sou teu irmão. Muito prazer.
Policarpo (sério). —
Agradecido.
João do Colégio (vem,
recitando sozinho). — Desde que choveu, minha Mãe, doeu muito
esta cidade...
Amorearte. — E você quem é,
trôpego efebo?
Do Colégio. — Sou só o
irmão da Mercês, ela me mandou com um recado. Saber se já pode
voltar...
Policarpo. — Nunca nunca!
Amorearte. — Num canunca está
você — canunca infausto.
Policarpo. — Sou homem. Sei o
que não quero...
Amorearte. — Sabe-se a
quantas? Sabe quem você-mesmo é, você se entende, o que quer? Você
quererá é: medula, banzo, descordo para desenfastiar, zabumba,
gemidão de urso, palavras de doce escárnio, horas de inteira terra;
meia-noite sem relógio, dispersão de outras mágoas, ver a vida em
grandes grãos, morder o dia, encher a noite; ser o alegre alguém,
nas operações de mudar de amor, fauno feito; chorar barrigudamente,
um grito próprio para a alma ouvir, entremeio aos romances; dar suas
proclamações de dor, de dor de amor de mentira; chorar, de qualquer
maneira: eis o problema; tal bruaá... Você diz: o triste de mim...
Você, navegador de limo e lodo, por derrota repetida. Você se
esbalhou e esbandalhou-se, nos quantos caminhos da cidade, então seu
espírito parou as máquinas. Você é um corpo de ressonância. Você
está é sufocado de amor, cuja uma paixão ingovernada. Ou você
beija, ou mata.
Policarpo. — Eu penso que...
Amorearte. — Cale-se. O
pensamento é um fútil pássaro. Toda razão é medíocre. Viver é
respirar; pensar já é morrer. Só Deus é dono de todas as
simultaneidades. Só há um diálogo verdadeiro: o do silêncio e da
voz. Se quer dizer alguma coisa, diga, por exemplo:... Em minha alma
se abriu, esta hora, um golfo de Guiné...
Policarpo. — Mas, a
ingratidão...
Amorearte. — Isto é o
contramotivo. O mugido do vento é um mugido de cobra. Coragem, mais!
O Morenão (não entra,
cantando). — Se eu fiz chorar, foi legal...
Amorearte. — E você, quem é,
vil hermeneuta? Que é isso?
O Morenão. — O breque. Sou
um que foi o homem da Maria das Mercês. Sou mais não. Tudo se
acabou tanto, que nem houve. Só foi um engano.
Amorearte (a Policarpo).
— Está vendo? Perceba-se, Policarpo!
Policarpo. — Seja o que for,
meu senhor. Ela...
Amorearte. — Sempre tem ela.
Bela, flor para impurezas, a rara natureza — para você. Mais rara
que ela, só a malva amarela, eu sei, eu sei... Seus beiços
bugres... Pavã, pavoa. Você queria era ser pedrinha no sapato dela.
Mas você gosta dela?
Policarpo. — Não amuo de
outra tristeza...
Joaquim Imaculado (passa,
cantando). — Mas, afinal, que tenho eu, com peru que outrem
comeu?...
Amorearte. — E quem é você,
tão recém-chegado? Você vem lá: vejo a tristeza... Agacha-te,
escriba!
Joaquim Imaculado. —
Serviços, meu senhor. Sou um que ia ser, daqui a muitos anos, o
homem da Maria das Mercês. Vou ser mais não. Ia ser só um engano.
Amorearte (a Policarpo).
— Está vendo? Concerte-se, Policarpo!
Policarpo. — O bom, para mim,
se acabou. Tudo é passado... Me indiguina.
Amorearte. — Mulheres
passadas é que movem amores. Tira o sentido disso, Policarpo.
Refresca teu coração. Sofre, sofre, depressa, que é para as
alegrias novas poderem vir…
Maria das Mercês (chega,
chorosa e esplendente). — Triste foi aquele dia, de saudades
replantado... Não fui eu que estive em teus braços? No mundo quem
te viu, ainda não existiu o outro homem... Sinto no peito, por fora,
é o suor? E por dentro, meu amor? De te perder devagar, não sou de
me conformar. Debaixo dessa promessa, ai, ai, ai, sem um tiquinho de
gratidão, sem uma compreensão, sinto esta separação, que ela só
me perambula... Eu quero querer tudo com você, um carinho, um amor,
e você está só é aprendendo a amar... Meu amor de enlouquecer,
esperar é esta minha agonia... Terá sido um amor que eu perdi?
Policarpo. — Ingrata!
Perdemos...
Amorearte. — Alto lá! Basta.
Um momento. Seja não, não, sim, sim; mas, vejam bem, se perderam,
mesmo. Amor perdido é amor que não foi achado: não-amor. Não o
amor-mor, o mor amor. Mas falso amor, algum engano. O falso-amor é
um biombo, o mor-amor é um ribombo. Então, se não é, resolvam:
e... pirai-vos! — oh grandes entes imorais... Perdido por um,
perdido por mil... — como dizem as cachoeiras...
Policarpo. — Ela...
Mercês. — Ele...
Amorearte. — Um momento! Com
a natureza humana decaída, eu me entendo. Vocês dois estão quais
quiabos no oásis. Se querem dizer alguma coisa, digam, por exemplo:
... Laço foi o que me trouxe. Minha carne viu por meus olhos. Mundo
isolado de mim. Bom-grado vou. Amanhã e estrelas. Sinto-me. Quando
sinto, minto? Meu teu meu-amor...
Mercês. — ... ai, ai, ai.
Policarpo. — ... ê ê ê, ô
ô ô.
Amorearte. — Unissoou. Amor
renhido, amor crescido. Cousa grande! Vocês dois são o que-não-sei:
o tudo, a... persistência da lua, apesar das cidades. Umbigo —
centro, centro, centro. Umbigo — medida ideal. Havei forte amor! O
amor não precisa de memória, não arredonda, não floreia: faz
forte estilo. E fim.
Guimarães Rosa, em Ave, Palavra
quarta-feira, 18 de março de 2026
Procura da poesia
Não faças versos sobre
acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a
poesia.
Diante dela, a vida é um sol
estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os
incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável
corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo
ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e
tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não
é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em
paz.
O canto não é o movimento das
máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem;
rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e
esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das
coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em
mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de
diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos
esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo
imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das
palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser
escritos.
Estão paralisados, mas não há
desespero,
há calma e frescura na superfície
intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de
dicionário.
Convive com teus poemas, antes de
escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se
te provocam.
Espera que cada um se realize e
consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do
limbo.
Não colhas no chão o poema que se
perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma
definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as
palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face
neutra
e te pergunta, sem interesse pela
resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito,
elas se refugiaram na noite, as
palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se
transformam em desprezo.
Carlos Drummond de Andrade, em Antologia poética
Segundo capítulo – As Letras do Sonho
Por cima da página, Muidinga espreita
o velho. Ele está de olhos fechados, parece dormido. “Fim ao cabo,
tenho estado a ler apenas para minhas orelhas”, pensa Muidinga.
“Também há já três noites que vou lendo, é natural o cansaço
do velho”, condescende Muidinga. Os cadernos de Kindzu se tinham
tornado o único acontecer naquele abrigo. Procurar lenha, cozinhar
as reservas da mala, carretar água: em tudo o rapaz se apressava. O
tempo ele o queria apenas para mergulhar nas misteriosas folhas. O
miúdo, em si, se intriga: quem seria o autor dos escritos? O homem
de camisa sanguentada, estendido ao lado da mala, seria o tal Kindzu?
A voz de Tuahir o surpreende:
— Aposto você está pensar nessa
porcaria dos cadernos.
— Como sabe?
— Você, agora, nem faz outra
coisa. Já me chateia.
O jovem passa a mão pelo caderno,
como se palpasse as letras. Ainda agora ele se admira: afinal, sabia
ler? Que outras habilidades poderia fazer e que ainda desconhecia?
— Tuahir, não se zanga se lhe
chamar de tio...
— Que queres, diga lá?
— Me conte sobre a minha vida.
Quem eu era, antes do senhor me apanhar?
— Tio, tio, tio! Essa palavra só
me desgosta...
— Conte, lhe peço.
— Você nem tem estória nenhuma.
Lhe apanhei no campo, ganhei pena de lhe ver aranhiçar, com pernas
que já nem conheciam andamento...
— Mas o senhor me conhecia, sabia
quem eu era?
— Nada. Você nunca me foi visto.
Agora, acabou-se a conversa. Apague a fogueira.
O miúdo desiste de mais pergunta. Por
que razão o velho teima em não lhe revelar nenhum passado? Seria
verdadeira aquela ignorância dele? Há tempos que os dois estão
juntos. O velho lhe dedica paciências, em paternais maternidades.
Sem nunca lhe escapar uma ternura. A conversa também é pouca, sem
desperdício de palavra. Tuahir volta a insistir para que extinga o
fogo. Dentro do carro é um perigo, argumenta. Mas o miúdo resiste,
tem medo do escuro. A fogueirinha ajuda a vencer o medo. Ler os
escritos do morto é um pretexto para ele não enfrentar a escuridão.
A decisão de Tuahir se impõe, reinam as trevas. O respirar dos
adormecidos é um ruído que inquieta. Como se neles soasse uma outra
alma.
Passado tempo, Muidinga acorda em
sobressalto. Uma massa viscosa lhe raspa o rosto, fosse o ventre de
uma cobra escorrediça. A medo espreita pela fresta das pálpebras:
um monstro lhe lambe a cara. Visto assim, de baixo para o topo, o
focinho ganha medonhas dimensões. Aquilo parecia o planeta, todo de
chifre. O sol ainda não todo emergira no horizonte. Na obscuridade,
Tuahir grita:
— Não mexa, miúdo.
Imóvel, o garoto espera. A imagem
esbatida se revela então a seus olhos: é um cabrito pastando em seu
rosto. O caprino roda a cabeça estudando se o vulto que lambeu é ou
não comestível. Tuahir sai do banco e avança, gatinhoso, pé posto
em cautela. Se aproxima por trás e dispara um puxado pontapé no
animal. Um méééé se amplia pela noite.
— Hidjii! Afinal, é um cabrito!
— Pensava era o quê?
— Pensava era uma hiena. A hiena
é que gosta de comer nariz de gente.
O cabrito não vai longe. Sai do
autocarro, sacode a cauda. Tuahir enxota o bicho. Em vão.
— Vou lá correr com ele, tio.
— Vai. Mas não aproveite o caso
para me voltar a chamar tio.
Muidinga se ergue. Sai da carcaça do
autocarro, pega numa pedra e lança-a sobre o cabrito. O bicho
troteia em coices, de casco e caganitas. Mas não se alonja.
— Deixa lá. Ele sente falta das
pessoas. Eu também começo sentir falta de cabrito. Principalmente
aqui no estômago.
— Vamos comer o bicho?
Surge ali um novo motivo de briga.
Muidinga opõe-se a que o bicho seja morto. O cabrito lhe dá um
sentimento de estar em aldeia, longe daquele lugar perdido. No facto,
se passava o inacreditável: um bicho lhe trazia de volta o
sentimento da família humana. O velho insiste em assar o cabrito: o
rapaz deixasse o tempo passar e pensaria mais com a barriga. A fome
quando ferra nos faz feras. Muidinga retira uma corda da maleta. Vou
amarrar o bicho aqui pertinho, anuncia.
— Pertinho não. Deixe ele solto
longe, sem corda.
O miúdo entorta o nariz, decidido a
desobedecer. Não queria que o animal escapasse. Procura nas
redondezas um ramo à altura de receber um nó. Então se admira:
aquela árvore, um djambalaueiro, estava ali no dia anterior? Não,
não estava. Como podia ter-lhe escapado a presença de tão distinta
árvore? E onde estava a palmeira pequena que, na véspera, dava
graça aos arredores do machimbombo? Desaparecera! A única árvore
que permanecia em seu lugar era o embondeiro, suportando a testa do
machimbombo. Seria coisa de crer aquelas mudanças na paisagem?
Muidinga hesita em consultar Tuahir. Ele haveria de desdenhar com
aquele riso de peixe, a boca à espera de entender a graça. Decerto,
lhe acusaria de tontice. Ou ainda pior: lhe lembraria a doença em
que se havia exilado não da vida mas da humana meninice. Assim,
Muidinga optou por deixar o assunto.
Se despede do cabrito e torneia a
árvore de fruta que tanto o intriga. Recolhe um djambalau, examina o
negro fruto. O dia já se ergueu, as sombras vão minguando na
quentura do chão. O sol, voluminoso, sucessivamente sempre sendo um.
Muidinga imagina como será uma aldeia, essas de antigamente,
cheiinhas de tonalidades. As colorações que devia haver na vila de
Kindzu antes da guerra desbotar as esperanças?! Quando é que cores
voltariam a florir, a terra arco-iriscando?
Então ele com um pequeno pau rabisca
na poeira do chão: “azul”. Fica a olhar o desenho, com a cabeça
inclinada sobre o ombro. Afinal, ele também sabia escrever?
Averiguou as mãos quase com medo. Que pessoa estava em si e lhe ia
chegando com o tempo? Esse outro gostaria dele? Chamar--se-ia
Muidinga? Ou teria outro nome, desses assimilados, de usar em
documento?
Mais uma vez contempla a palavra
escrita na estrada. Ao lado, volta a escrevinhar. Lhe vem uma outra
palavra, sem cuidar na escolha: “luz”. Dá um passo atrás e
examina a obra. Então, pensa: “a cor azul tem o nome certo. Porque
tem as iguais letras da palavra ‘luz’, fosse o seu feminino às
avessas”.
De súbito, lhe chegam sons distantes
no tempo, semelhando gritos de meninagem em recreio. O menino
estremece: aquela era uma primeira lembrança. Até ali ele não se
recordava de ocorrência anterior à enfermidade. Corre em balbúrdias
para o autocarro.
— Tio, tio! Eu me lembrei de
minha escola!
Tuahir sorri, carantonhoso. Faz conta
que nem ouve, entretido com nenhuma coisa. O rapaz repete, sacudindo
o falso-dito tio.
— Me lembrei, juro!
— Te lembraste o quê?
— Das vozes, da barulheira dos
outros meninos.
— Escuta uma coisa de vez por
todas: nunca houve nenhuns outros meninos, nunca houve nada. Ouviste?
Fui eu que te apanhei, baboso e ranhado, faz conta tinhas sido dado
parto assim mesmo. Nasceste comigo. Eu não sou teu tio: sou teu pai.
Empurrado com brusquidão, o miúdo
tomba sobre os ferros do machimbombo. Afinal, era essa a razão de
ele negar ser chamado de tio? Era esse o motivo por que o velho lhe
ocultava todo seu passado? Então, o miúdo sorri com doçura e se
ergue sobre os joelhos. O corpo lhe tropeça numa fraqueza e volta a
permanecer de gatas. O velho se apressa a debruçar sobre ele, em
aflição:
— Lhe aleijei, miúdo?
Assim como está, Muidinga se limita a
negar com a cabeça. Tuahir insiste:
— Então, se está sentir mal?
Lhe voltou a doença?
O rapaz se volta a erguer e enfrenta o
velho. Seu rosto está sereno, parece acrescentado de uma repentina
idade:
— Se esse é o seu medo vou dizer
o seguinte: lhe gosto mesma coisa fosse o autêntico meu pai.
Tuahir reage, apanhado em armadilha. E
se torna grave: Levante-se, miúdo! Por que que é que anda a
gatinhar pelo chão feito um cabrito? Ambos se separam e se
arrumam em quietude. Ficam assim, amuados até serem surpreendidos
por barulhos que chegam do mato. O miúdo se levanta, precipitado.
Acredita serem pessoas que se aproximam. Ensaia correr, sua intenção
é entregar-se de braços, seja quem for que se aproxime. Mas Tuahir
lhe corta o gesto com secura:
— Não mexa, miúdo!
— Porquê? É gente que está
vir. Vêm para nos tirar daqui...
Não termina a frase. A mão do velho
se calca sobre os seus lábios, impondo o grave silêncio. Então,
por entre os altos capins, assoma um elefante. O bicho se arrasta,
cansado do seu peso. Mas há no demorar das pernas um sinal de morte
caminhando. E, na realidade, se vislumbra que, em plenas traseiras,
está coberto de sangue. O animal se afasta, penoso. Muidinga sente o
golpe da agonia em seu próprio peito. Aquele elefante se perdendo
pelos matos é a imagem da terra sangrando, séculos inteiros
moribundando na savana.
— Dispararam sobre o bicho.
— Quem foi, tio?
— São esses da guerra. Querem os
dentes para vender lá fora.
Se voltam a sentar em silêncio. Há
uma tristeza que nem o cantarolar do velho consegue dispersar.
— Tio Tuahir: estou a pensar uma
coisa. Mas o senhor vai zangar, eu sei.
— Você anda pensar de mais. Não
lhe devia ter curado tanto. Um bocadinho de doença até lhe ia fazer
bem. Chateava menos...
— Mas, tio, é só imaginar. É
um sonho que tenho...
— Não pensa, rapaz. A vida é
tão curta, você quer encher ela de tristezas?
— Não, tio. Estou a pensar...
Não, é melhor não dizer.
— É melhor, mesmo. Fica calado.
Muidinga insiste depois de um
silêncio. O velho já tinha regressado ao cantochão.
— Vou dizer. Estou a pensar eu
sou Junhito.
— Quem é Junhito?
— Junhito, esse menino do escrito
que eu li, aquele da capoeira.
— É pena não ser mesmo. Porque
se fosse galinha, já eu lhe depenava para um bom caril.
— Estou a falar sério, tio
Tuahir.
— E se vai calar muito sério,
também.
O miúdo realmente se mantém calado
até ao fim do dia. Já escurece quando reentram para o machimbombo e
se preparam para deitar. Mais uma vez lhes chega o barulho do
elefante. Parecia um rastolhar, lá longe. Quem sabe o bicho se
findou, tombado no vasto chão? O escuro se aproveita para entrar
dentro do refúgio dos dois esperantes.
— Tio, posso acender a fogueira?
— Acenda lá fora.
— Mas eu queria ler, tio.
— Leia lá fora.
Muidinga arruma uns paus secos e
transporta consigo os escritos de Kindzu. Acende o fogo na berma da
estrada. Depois, se instala para ler em comodidade o segundo caderno.
A voz de Tuahir o sobressalta:
— Não vai ler isso sozinho, pois
não?
Mia Couto, em Terra Sonâmbula
1616 – Santiago Papasquiaro
O deus dos amos, é o deus dos servos?
Falou da vida livre um velho profeta
índio. Vestido à antiga, andou por estes desertos e serras
levantando pó e cantando, ao triste som de um tronco oco, as
façanhas dos antepassados e a perdida liberdade. Predicou o velho a
guerra contra quem arrebatou dos índios as terras e os deuses e os
arrebenta nas entranhas das minas de Zacatecas. Ressuscitarão os que
morram na guerra necessária, anunciou, e renascerão jovens e
velozes os velhos que morram lutando.
Os tepehuanos roubaram mosquetões e
armaram e esconderam muitos arcos e flechas, porque eles são
arqueiros destros como Estrela da Manhã, o flechador divino.
Roubaram e mataram cavalos, para comer sua agilidade, e mulas para
comer sua força.
A rebelião começou em Santiago
Papasquiaro, ao norte de Durango. Os tepehuanes, os índios mais
cristãos da região, os primeiros convertidos, pisaram as hóstias;
e quando o padre Bernardo Cisneros pediu clemência, responderam
Dominas Vobiscum. Ao sul, em Mezquital, romperam a machadadas
a cara da Virgem e beberam vinho nos cálices. No povoado de Zape,
índios vestidos de batina de jesuíta perseguiram pelos bosques os
espanhóis fugitivos. Em Santa Catarina, descarregaram seus porretes
sobre o padre Heraldo del Tovar enquanto diziam: Vamos ver se Deus
te salva. O padre Juan del Valle ficou estendido na terra, nu, no
ar a mão que fazia o sinal da cruz e a outra mão cobrindo seu sexo
jamais usado.
Mas pouco durou a insurreição. Nas
planícies de Cacária, as tropas coloniais fulminaram os índios.
Cai uma chuva vermelha sobre os mortos. A chuva atravessa o ar
espesso de pó e criva os mortos com balas de barro vermelho.
Em Zacatecas repicam os sinos,
chamando aos banquetes de celebração. Os senhores das minas
suspiram aliviados. Não faltará mão de obra nos túneis. Nada
interromperá a prosperidade do reino. Poderão eles continuar
mijando tranquilos em baciazinhas de prata lavrada e ninguém
impedirá que acudam à missa suas senhoras acompanhadas de cem
criados e vinte donzelas.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
O Amigo de um Amigo
Pode ser que a erudição de
primeiríssima ordem seja tão rara quanto a grande arte ou a grande
poesia. Alguns dos talentos e qualidades que ela exige são óbvios:
uma extrema concentração, uma vasta memória, mas de grande
precisão, espírito fino e penetrante, uma espécie de ceticismo
piedoso ao manusear fontes e indicações, clareza na apresentação.
Outros requisitos são mais raros e difíceis de definir. O realmente
grande erudito tem um faro especial para encontrar o documento
escondido, mas fundamental, para concatenar circunstâncias
aparentemente díspares. Num relance ele vê a carta roubada enquanto
os outros fitam o papel da parede. Como um rabdomante, ele sente o
que há de importante sob a superfície batida. Detecta a falha no
cristal, a nota falsa no arquivo, a pressão encoberta daquilo que
foi falsificado ou amordaçado. Ele adere obstinadamente ao que Blake
chamava de “a sacralidade do pequeno detalhe”, mas então extrai
a aplicação, a inferência generalizadora, que pode alterar todo o
panorama de nossas percepções históricas, literárias e sociais.
No entanto, mesmo esses talentos e sua
rara combinação não determinam o que é fundamental para a grande
erudição. Tal como o magistral tradutor, ou autor, ou intérprete
musical, o erudito realmente grandioso se torna uma unidade com seu
material, por mais abstruso, por mais recôndito que seja. Ele
amalgama a força de sua personalidade e perícia técnica à época
histórica, ao texto literário ou filosófico, à trama sociológica
que está analisando e nos apresentando. Por sua vez, essa trama,
esse conjunto de fontes primárias vai adquirir algo do estilo e da
voz de seu intérprete. Irá se tornar dele sem deixar de ser o que
é. Agora existe uma China antiga que é a de Joseph Needham, uma
civilização helenista que fala com as inflexões do finado Arnaldo
Momigliano, um mapeamento das gramáticas que por muito tempo trará
as marcas de Roman Jakobson. E no entanto, em cada um desses casos, a
alquimia reinstaura a força do material.
A erudição de Gershom Scholem
pertencia a esse gênero raro e vivificante. Não só seus estudos da
Cabala modificaram, ainda que de maneira controversa, a imagem do
judaísmo — a compreensão que mesmo um judeu agnóstico agora tem
de sua proveniência psicológica e histórica —, como também suas
explorações, traduções e apresentações dos escritos
cabalísticos exercem uma enorme influência na teoria literária em
geral, no modo como críticos e estudiosos não judeus e totalmente
agnósticos leem poesia. Os ensaios de Scholem, muitos deles
compostos numa prosa alemã límpida e clássica (escrever mal é
sinal de pouca erudição), abrangem interesses que ultrapassam em
muito a Cabala. Não existe nenhum comentador mais arguto, mais
sombriamente percuciente, do drama do judaísmo alemão, das
ambiguidades na condição da Israel moderna, do papel dos estudos e
traduções da Bíblia numa época cada vez mais secularizada. Os
gostos não raro subversivos e estranhamente irônicos de Scholem são
variados: da mesma forma que William James (e existem outras
analogias), ele tomou como campo seu o jogo entre o intelecto e as
pluralidades do sentimento humano. Toda manifestação de consciência
religiosa, de imaginação mítica, de ilusão criativa o fascinava.
Mas fascinavam-no também a matemática, a anatomia do discurso
jurídico e a antropologia. Grande parte da caudalosa produção de
Scholem é esotérica não só no tema — os arcanos do misticismo
medieval e hassídico, da cosmologia gnóstica, da magia e do
hermetismo renascentista, mas também nos meios de apresentação.
Várias obras-primas de erudição, de solução de problemas,
continuam inevitavelmente encerradas em revistas especializadas e em
hebraico. Mas as obras principais de Scholem, como As origens da
Cabala e o fascinante estudo de Sabatai Tzvi, o pseudomessias
místico (ambos publicados pela editora de Princeton), se destinam ao
público cultivado, como também aquelas preciosidades em (relativa)
miniatura: as recordações pessoais de Scholem, a monografia sobre
as visões místicas da criação, sua memória de Walter Benjamin. E
em alguns casos as traduções para o inglês trazem atualizações e
textos de apoio inexistentes nas primeiras edições hebraicas ou
alemãs. Um grande servidor da intuição tem sido muito bem servido.
Scholem e Benjamin se conheceram em
1915, quando Benjamin tinha 23 anos e Scholem, dezessete. A amizade
dos dois se tornou matéria de lenda e de pesquisa acadêmica. Ela
mostra pontos de profunda afinidade. Benjamin e Scholem eram judeus
alemães estranhamente alertas ao ambiente marginal, mas também
criativo, das condições sociais e pessoais em que viviam. Eram
homens do intelecto — do saber, da citação e do comentário num
veio quase rabínico. Ambos eram apaixonados por livros antigos,
bibliófilos e colecionadores sistemáticos em suas áreas. Eram
exímios praticantes da prosa alemã em registros muito distintos,
mas comungavam a mesma pureza de expressão, cujo próprio domínio
indicava algo não totalmente inato, não herdado de forma
inconsciente. Havia em ambos uma propensão anárquica, uma
desconfiança radical em relação às estruturas e convenções
estabelecidas. (Os dois conseguiram escapar para a Suíça durante a
Primeira Guerra Mundial, e Scholem simulou vários sintomas
neuróticos quando foi convocado pela agência de recrutamento.) Mais
importante, ambos decidiram abordar problemas filosóficos,
históricos e psicológicos centrais de um ângulo exótico. Scholem
revolucionou o estudo do judaísmo com seus exames
filológico-editoriais de esoterismos extremos — de heresias às
vezes desvairadas, de devaneios especulativos patológicos. Análises
de livros e brinquedos infantis, de fotos oitocentistas, dos livros
de emblemas e da dramaturgia “perdida” do barroco alemão, dos
empórios e lojas de departamentos que pipocaram em Paris no Segundo
Império levaram Benjamin a sugestões, a “iluminações” (termo
que tomou a Rimbaud), que hoje estão no centro do estruturalismo, da
sociologia cultural e da semiótica.
Mas as diferenças entre os dois
homens eram marcadas. Paradoxalmente, a imersão de Scholem no
misticismo religioso se originou de uma visão de mundo profundamente
cética e irônica. Tive o privilégio de conhecer Scholem em seus
últimos anos, de vê-lo em Jerusalém, Zurique e Nova York. Não
posso me atrever sequer a arriscar um palpite de se esse inspirado
expositor da meditação cabalista sobre as autodivisões da Unidade
Divina, sobre as emanações de luz da fronte divina, sobre a “quebra
dos vasos” no momento da criação, acreditava ou não em Deus. Os
trejeitos cômicos do sorriso de Scholem, as insinuações de um
divertimento voltairiano de fundo eram incontáveis. Benjamin, por
outro lado, era aquela rara criatura: um místico moderno, um
iniciado nos reinos ocultos do vaticínio, do simbolismo hermético,
da magia branca. Benjamin, que deu ao contexto sociológico-econômico
de nossa consciência um novo grau de precisão, que respondeu
prontamente à revolução na fotografia, no cinema e na rádio como
meios de comunicação de massa, que adotou um marxismo mais ou menos
pessoal e herético como componente vital de sua perspectiva, era o
verdadeiro cabalista. (Também teve experiências com drogas — uma
incursão no irracional da qual Scholem recuou.)
O interesse pelo sionismo era um
vínculo forte entre ambos, embora as maneiras de colocá-lo em
prática iriam se mostrar irreconciliáveis desde o começo. Com uma
rigorosa clarividência, Scholem sentia o potencial de catástrofe no
amálgama alemão-judaico. Para ele, tornou-se de uma clareza
fulgurante que um compromisso sério com a identidade judaica deveria
acarretar o domínio do hebraico e a vida em Israel. Há na
reconquista de Scholem do passado cabalístico para o conhecimento
judaico e para a história geral do pensamento religioso um veemente
“sionismo”, um retorno a uma Terra Santa. Benjamin manteve um
flerte ardoroso com a ideia de emigrar para a terra que então era a
Palestina. Ansioso, várias vezes informou Scholem sobre suas
intenções de estudar hebraico. Em 1929, e novamente nos meados dos
anos 1930, sob a égide de um impaciente Scholem, Benjamin declarou
que estava prestes a deixar uma Europa condenada. Nada resultou
desses impulsos prementes e inquietos. Scholem foi para Jerusalém em
1923. Morreu em 1982, cercado de honras, cumprida sua grande obra.
Benjamin, reduzido ao absoluto desespero, perseguido, seus escritos
dispersos ou fragmentados, se suicidou num buraco sórdido na
fronteira franco-espanhola em 1940. (Corria o boato de que os
refugiados isolados que tinham cruzado a fronteira seriam entregues à
polícia francesa e ficariam à mercê dos nazistas.)
Mas não poderia ser de outra maneira.
Walter Benjamin foi um dos últimos e mais inspirados
centro-europeus, sendo que essa centralidade indica uma noção
geográfica — os espaços definidos por Frankfurt-Viena-Praga-Paris
para o judaísmo emancipado — e o conceito do gênio histórico
europeu tal como se expressava em francês e em alemão. Como Adorno,
como Ernst Bloch e outros fundadores e testemunhas da chamada Escola
de Frankfurt de teoria crítica e filosofia da cultura, Benjamin
nunca poderia separar sua identidade poliglota, seu papel na
intelectualidade, seu próprio físico — o do sábio de botequim
por excelência — da fatalidade europeia. E adiou demais a chance
de fugir para os eua — chance que seus pares e amigos (Adorno,
Bloch, Horkheimer, Brecht) agarraram com maior ou menor senso de
oportunidade.
Um fio central em Correspondência
— Walter Benjamin e Gershom Scholem, traduzida por Gary Smith e
André Lefevere (Schocken, 1989), é a diferença fascinante entre o
Messias de Scholem e o Messias de Benjamin. Para Scholem, o
messiânico — cujas formas variadas e imensamente ricas ele havia
diagnosticado em monografias, em seu magistral As grandes
correntes da mística judaica e, acima de tudo, em seu épico de
Sabatai Tzvi — era inseparável de um retorno físico,
historicamente fundado, a Israel. Foi com o prazer de uma travessura
que Scholem insinuou no repertório cabalístico uma parábola que
ele mesmo tinha inventado: uma vinda do Messias que alteraria apenas
muito ligeiramente as coisas e portanto passaria despercebida
— exceto em Israel, cuja criação como Estado seria em si a melhor
prova disponível do advento messiânico. Já a visão de Benjamin,
que se concentrava na imagem do Angelus Novus, de Paul Klee —
o anjo da história, que uma ventania afasta de nós —, era
totalmente diversa. O messiânico não significava o sionismo.
Implicava a recuperação das vozes dos humilhados e vencidos,
soterradas pela história e pelos historiadores. Restauraria a língua
adâmica perdida que subjaz secretamente a todas as línguas humanas,
e cuja presença generativa fazia ao mesmo tempo possível e
impossível o ato da tradução. Para Benjamin, a vinda do Messias se
revelaria como uma imagem de transparência rumo à verdade, à
justiça social, à racionalidade amorosa se estendendo além do
judaísmo e do renascimento de Israel (por milagroso que o
considerasse).
A tradução dessa correspondência
tem a virtude da clareza. (São 128 cartas ao todo; algumas
anteriores a 1932 parecem ter se perdido, e há um toque de
prestidigitador na descoberta de Scholem em outubro de 1966, na
Alemanha Oriental, de seu lado da correspondência.) Ela não
transmite (nem poderia transmitir) de maneira convincente as
diferenças de tom dos dois escritores — diferenças que revelam
dissonâncias de índole permanentes. Mesmo sob o tom mais afetuoso —
às vezes arreliador — de Scholem há uma ponta de autoridade, de
exasperação diante da ilusão e do que lhe parece falta de lógica.
O tom de Benjamin é de faiscante sutileza, de esforço aparentemente
evasivo, mas finamente interiorizado, de dar expressão a coisas
intangíveis, a ambiguidades inevitáveis, a um vibrato de
percepções e intenções que ele mesmo denominou de “aura”.
No começo da primavera de 1934, por
exemplo, a preocupação clarividente de Scholem com a situação
europeia e a incapacidade de Benjamin de prover ao indispensável da
vida quase resultaram no rompimento da amizade. Escreve Benjamin em 3
de março:
Minha existência está chegando ao
limite do precário e a cada dia depende diretamente do bom Deus —
para dizer a mesma coisa de forma mais prudente. E com isso não me
refiro apenas à ajuda que consigo de tempos em tempos, mas também à
minha própria iniciativa, mais ou menos voltada para um milagre.
A espera de um milagre tinha um teor
ao mesmo tempo terapêutico — mantinha-o vivo — e incapacitante,
na medida em que reduzia ainda mais a utilidade, o estatuto moral e
metafísico, da simples ação racional. Para Scholem, a questão de
uma possível ajuda divina era pragmática. Ele lutou para conseguir
uma colocação profissional para Benjamin em Israel; batalhou para
conseguir a publicação ou a divulgação das obras de Benjamin. Mas
sua irritação é inequívoca. “Como vai se desenvolver realmente
sua situação está ficando cada vez mais incerto para mim”,
escreveu Scholem, e “Muitos fatos de nossa correspondência devem
lhe ter fugido da memória, pois você não lembra mais o que o levou
a tentar explicar sua situação. […] Estamos discutindo em
posições falsas, e isso não me agrada”.
Além disso, não eram somente as
vacilações de Benjamin em relação ao refúgio na Palestina que
exasperavam Scholem, mas, a partir de 1924, o envolvimento
extremamente complicado de Benjamin com o marxismo. Scholem sabia de
seu envolvimento pessoal e erótico com uma comunista. Sabia da
viagem do amigo a Moscou em 1926. O irmão mais velho de Scholem
tinha desempenhado um papel trágico e muito importante no Partido
Comunista alemão. Scholem se ressentia muito da influência cada vez
maior da obra e da pessoa de Brecht sobre Benjamin (o qual passou
semanas cruciais com Brecht no exílio dinamarquês). A política de
Scholem, se é que havia, era a do desencantamento, da ironia ou até
sarcasmo irredutível diante do espetáculo inveterado da loucura e
barbárie humanas.
Mas Scholem interpretou mal o recurso
herético e profundamente inventivo de Benjamin às teorias marxistas
da história e aos instrumentos retóricos do materialismo dialético.
Algumas amizades dentro do comunismo ajudaram Benjamin a aclarar as
sombras de sua solidão quase anormal. Em vários pontos da
enormidade política dos anos 1930, o comunismo e até o stalinismo
pareciam oferecer a única resistência efetiva à escalada
triunfante do fascismo e do nazismo. Scholem não teve acesso ao
diário de Moscou de Benjamin, publicado postumamente. Ali teria
encontrado indicações claras do ceticismo de Benjamin, de sua
aversão ao clima dominante na sociedade soviética. Mas tal aversão
não negava a força inspiradora das análises marxianas do
capitalismo oitocentista nem o estímulo a uma interpretação
materialista econômica da criação e disseminação de obras
artísticas e intelectuais que encontramos na estética marxista. Os
estudos pioneiros de Benjamin sobre a reprodutibilidade das obras de
arte para as massas, por meio da fotografia e do fac-símile em
cores, sua compreensão penetrante do jogo entre a alta cultura e o
mercado, suas análises preliminares para uma magnum opus que
havia planejado — uma anatomia de “Paris, a Capital do Século
XIX” — se fundavam numa luta pessoal com os princípios
marxistas. Daí as afinidades com o marxismo personalizado,
estrategicamente astuto, das peças e panfletos críticos de Brecht.
E sobretudo Scholem estacava diante do
que intuía a contragosto ser, em Benjamin, uma interpretação do
marxismo como variante natural da escatologia messiânica judaica —
da concentração judaica na esperança milenarista. Rigorosamente
informado, Scholem via a opressão política, a miséria humana a que
o marxismo-leninismo e seus companheiros de percurso estavam levando.
Não quis perceber as dimensões trágicas dessa degeneração dos
ideais messiânicos, do apelo utópico, porém incessante, à justiça
social, como já era eloquente nos Profetas. A anunciação em parte
mística de Benjamin quanto a uma “recuperação da história” —
da imposição de critérios morais à história — tinha nascido
justamente de um sonho de Moscou-Jerusalém. Sem esse fatídico
híbrido, ele não teria produzido muitos de seus melhores escritos —
em especial sua última produção, obra-prima de elegância e
concisão, “Teses sobre a filosofia da história”. Muito depois,
refletindo sobre o gênio de Benjamin e a sucessão de milagres que
permitiram a sobrevivência dos textos “perdidos”, Scholem iria
reconhecer (ouvi ao vivo) que a sinuosa dança de seu amigo com o
marxismo e ao redor dele tinha sido de algum proveito. Na época,
parecia-lhe uma traição e um desperdício vulgar de dotes raros.
O que manteve o andamento do diálogo,
entre seus altos e baixos, o que lhe dá estatura duradoura são as
sucessivas discussões de Kafka. Talvez de maneira subconsciente,
toda vez que suas relações estavam tensas, Benjamin e Scholem
voltavam a Kafka. O resultado é uma série de leituras — de
delineamentos críticos — de originalidade muito penetrante. Em
comparação, os truques interesseiros do atual desconstrucionismo ou
do pós-estruturalismo chegam a criar constrangimento.
Incansavelmente, Scholem e Benjamin põem a operar na esquiva
inesgotabilidade de Kafka um poder de imaginação quase equivalente
ao de seu objeto. A vontade é de citar uma página após a outra.
Limito-me a dois exemplos. Aqui está Scholem escrevendo para
Benjamin em 20 de setembro de 1934 (sobre O castelo):
E no entanto as mulheres de Kafka
trazem os sinais de outras coisas a que você não presta quase
atenção. É evidente que o castelo ou a burocracia com a qual elas
mantêm uma relação horrivelmente indefinível, mas exata, não é
o mundo primal de que você fala, se é que ele existe. Se fosse o
mundo primal, que necessidade então haveria de transformar a relação
das mulheres com ele num enigma? Tudo ficaria claro, enquanto na
realidade nada é claro e a relação delas com a burocracia é muito
instigante, ainda mais porque a própria burocracia chega a advertir
contra elas (por exemplo, pela boca do capelão). Em vez disso, o
castelo ou burocracia é algo com que o “mundo primal” deve
primeiramente manter alguma relação.
Você pergunta o que eu entendo
pelo “nada da revelação”. Entendo por ele um estado em que a
revelação aparece sem significado, em que ela ainda afirma a si
mesma, em que tem validade,
mas nenhuma significação.
Um estado em que a riqueza de significado se perdeu e o que está em
processo de aparição (pois a revelação é esse processo) mesmo
assim não desaparece, embora esteja reduzido ao ponto zero de seu
conteúdo.
A distinção entre validade e
significação é da máxima pertinência a todas as obras de
Kafka.
Ou tome-se a grande carta — um
ensaio de extrema densidade — de Benjamin, datada de 12 de junho de
1938. Mesmo uma longa citação não faz jus à sua profundidade:
Kafka entreouviu a tradição, e
quem ouve dificilmente deixa de ver.
A principal razão pela qual esse
entreouvir exige tanto esforço é que apenas os sons mais
indistintos chegam ao ouvinte. Não há nenhuma doutrina que se possa
aprender, nenhum conhecimento que se possa preservar. As coisas que o
ouvinte quer captar enquanto passa não se destinam aos ouvidos de
ninguém. Isso supõe um estado de coisas que caracteriza
negativamente as obras de Kafka com uma grande precisão. […] A
obra de Kafka representa o adoecimento da tradição […].
Disso Kafka tinha absoluta certeza:
primeiro, que, se for para ajudar, o sujeito deve ser um idiota;
segundo, apenas a ajuda de um idiota é uma verdadeira ajuda. A única
coisa incerta é: tal ajuda ainda pode ter alguma serventia para um
ser humano? […] Assim, como coloca Kafka, há uma quantidade
infinita de esperança, mas não para nós. Essa declaração
realmente contém a esperança de Kafka; é a fonte de sua serenidade
radiante.
Note-se — e isso é típico das
alegorias de Benjamin sobre a leitura — como a própria análise se
torna uma parábola ao estilo de Kafka.
Uma imensa tristeza sombreia mesmo a
carta mais informal e momentaneamente otimista. Elas foram enviadas
quando a Europa ingressou no pesadelo. Além disso, na Palestina,
Scholem não só viveu diretamente a violência dos primeiros choques
entre árabes e judeus, mas teve também claras intuições das
inimizades intratáveis que se estendiam à frente. E no entanto, à
sua maneira, é um livro jubiloso. Celebra o elixir da paixão
intelectual — a capacidade do cérebro e do sistema nervoso dos
homens de mergulhar em interesses abstratos, especulativos, mesmo ou
principalmente diante da dor e da adversidade pessoal. Demonstra com
prodigalidade a força por trás da aparente fraqueza, que muitas
vezes é a senha que permite a sobrevivência do humanismo e dos
perseguidos. Aqui, por fim, e não na placa lacônica num austero
muro de cemitério, Walter Benjamin tem seu in memoriam. E é
totalmente indissociável da maravilha, talvez mais profunda do que o
amor, que é a amizade.
22 de janeiro de 1990
George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos
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