quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A ternura

Pureza de coração é desejar uma só coisa.” Foi assim que Kierkegaard definiu, a pureza. Puro é aquilo em que não há misturas; é uma coisa só.
A paixão é pura porque vive de uma coisa só: a imagem da pessoa amada. Não se trata de uma imagem mais bonita que as outras. É uma única imagem que apaga todas as outras. O apaixonado só pensa na pessoa amada. Sempre. Os assuntos que fazem as conversas do cotidiano não lhe interessam. Bem que ele gostaria de falar sobre o seu amor, mas se cala sabendo que ririam dele. Camões, no episódio de Inês de Castro, escreveu que ela caminhava

Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

Se não havia ouvidos humanos a quem pudesse dizer o nome que tinha gravado no peito, que as árvores, a relva e as pedras fossem depositárias do seu segredo – um único nome.

A raposa pediu que o Pequeno Príncipe a cativasse.
Que quer dizer “cativar”? — ele perguntou.
A raposa explicou:
Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, a cada dia, te sentarás mais perto... Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade!

Aconteceu então que o Pequeno Príncipe cativou a raposa. O tempo passou e chegou o dia em que ele precisou partir. A raposa disse:

Ah! Eu vou chorar.
A culpa é tua; eu não te queria fazer mal, mas tu quiseste que eu te cativasse...
Quis — disse a raposa.
Mas tu vais chorar!
Vou — ela respondeu.
Então, não sais lucrando nada!
Eu lucro — disse ela — por causa da cor do trigo. — E acrescentou: – Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...

O amor começa quando colocamos uma metáfora poética no rosto da pessoa amada. A paixão é uma experiência estética. Está ligada à contemplação da beleza. A pessoa pela qual se está apaixonado é bela. Não é que ela seja bela – é o olhar apaixonado que a torna assim. Porque não vemos o que vemos, vemos o que somos. Uma mulher é bela quando nos vemos belos ao seu olhar. Quem, ao olhar para uma mulher, pensa em sexo não é um apaixonado.
O apaixonado sorri ao contemplar a amada dormindo, sem tocá-la. O corpo de lado, o rosto sobre o travesseiro, os olhos fechados, o suave ressonar, a camisola suspensa deixando ver a calcinha – é uma imagem de paz, de tranquilidade. E um momento de ternura. Há um desejo de acariciá-la, mas a mão se contém; nenhum movimento dele deverá interromper a beleza da cena. Nela, os impulsos sexuais estão proibidos.
O sexo dos adolescentes e dos jovens se parece com um furúnculo inchado – túrgido, vermelho, dolorido, que busca se livrar do incômodo. O que se busca não é a experiência amorosa, é rasgar o furúnculo para que o pus saia, trazendo alívio. E o esperma não se parece com pus? Quando o orgasmo acontece, numa mistura de dor e prazer, o furúnculo se esvazia e o corpo fica em paz. Pode até ser que nesse momento o parceiro se esqueça da mulher ao seu lado, vire as costas para ela e durma.
Foi sobre esse sexo que Freud escreveu. Era o único que ele conhecia. Era o sexo que Tomas, personagem de A insustentável leveza do ser, fazia com suas namoradas. Mas uma delas protestava: “não procuro o prazer, procuro a alegria...”.
O sexo-furúnculo prescinde da ternura. Tomas não sentia ternura por suas amantes. Elas eram objetos para seu alívio. Ele as usava. Não as amava. O amor mora no olhar terno que sorri ao contemplar o rosto da pessoa amada.

Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado

Beijo Partido | Toninho Horta e Arismar do Espírito Santo

Cai chuva. É noite.

Cai chuva. É noite. Uma pequena brisa
Substitui o calor.
P’ra ser feliz tanta coisa é precisa.
Este luzir é melhor.

O que é a vida? O espaço é alguém para mim.
Sonhando sou eu só.
A luzir, em quem não tem fim
E, sem querer, tem dó.

Extensa, leve, inútil passageira,
Ao roçar por mim traz
Uma ilusão de sonho, em cuja esteira
A minha vida jaz.

Barco indelével pelo espaço da alma,
Luz da candeia além
Da eterna ausência da ansiada calma,
Final do inútil bem.

Que se quer, e, se veio, se desconhece
Que, se for, seria
O tédio de o haver... E a chuva cresce
Na noite agora fria.

Fernando Pessoa, em Poesias inéditas e poemas dramáticos 

O impagável Quino

Cântico dos cânticos

Maria, com um vinco entre as sobrancelhas, escolhe o segundo prato. Depois sorri-me deliciosamente. Como não encantar-me? Como não comparar-me a Salomão? “Sustentai-me (diz-lhe a Sulamita), sustentai-me com passas, confortai-me com maçãs, que desfaleço de amor.”

Mário Quintana, em Sapato Florido

Capítulo 35 – O Caminho de Damasco



Ora aconteceu, que, oito dias depois, como eu estivesse no caminho de Damasco, ouvi uma voz misteriosa, que me sussurrou as palavras da Escritura (Act., IX, 7): “Levanta-te, e entra na cidade.” Essa voz saia de mim mesmo, e tinha duas origens: a piedade, que me desarmava ante a candura da pequena, e o terror de vir a amar deveras, e desposá-la. Uma mulher coxa! Quanto a este motivo da minha descida, não há duvidar que ela o achou e mo disse. Foi na varanda, na tarde de uma segunda-feira, ao anunciar-lhe que na seguinte manhã viria para baixo. – Adeus, suspirou ela estendendo-me a mão com simplicidade; faz bem. – E como eu nada dissesse, continuou: – Faz bem em fugir ao ridículo de casar comigo. Ia dizer-lhe que não; ela retirou-se lentamente, engolindo as lágrimas. Alcancei-a a poucos passos, e jurei-lhe por todos os santos do céu que eu era obrigado a descer, mas que não deixava de lhe querer e muito; tudo hipérboles frias, que ela escutou sem dizer nada.
Acredita-me? perguntei eu no fim.
Não, e digo-lhe que faz bem.
Quis retê-la, mas o olhar que me lançou não foi já de súplica, senão de império. Eu desci da Tijuca, na manhã seguinte, um pouco amargurado, outro pouco satisfeito; e vinha dizendo a mim mesmo que era justo obedecer a meu pai, que era conveniente abraçar a carreira política.., que a constituição… que a minha noiva.., que o meu cavalo…

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O guardador de águas

V

Eles enverdam jia nas auroras.
São viventes de ermo. Sujeitos
Que magnificam moscas — e que oram
Devante uma procissão de formigas…
São vezeiros de brenhas e gravanhas.
São donos de nadifúndios.
(Nadifúndio é lugar em que nadas
Lugar em que osso de ovo
E em que latas com vermes emprenhados na boca.
Porém.
O nada destes nadifúndios não alude ao infinito menor de ninguém.
Nem ao Néant de Sartre.
E nem mesmo ao que dizem os dicionários: coisa que não existe.
O nada destes nadifúndios existe e se escreve com letra minúscula.)
Se trata de um trastal.
Aqui pardais descascam larvas.
Vê-se um relógio com o tempo enferrujado dentro.
E uma concha com olho de osso que chora.
Aqui, o luar desova…Insetos umedecem couros
E sapos batem palmas compridas…
Aqui, as palavras se esgarçam de lodo.

Manoel de Barros, em O guardador de águas

A arte naif da alagoana Tânia Pedrosa

Sertão Sempre Vivo (S.D.), de Tânia Pedrosa

Estátuas

Há uma estátua do Carlos Drummond de Andrade sentado num banco da praia de Copacabana, uma estátua do Fernando Pessoa sentado em frente ao café “A Brasileira” em Lisboa, uma estátua do Mario Quintana sentado num banco da Praça da Alfandega de Porto Alegre. Salvo um cataclismo inimaginável, as três estátuas jamais se encontrarão. Mas, e se se encontrassem?
Uma estátua é um equívoco em bronze — diria o Mario Quintana, para começar a conversa.
Do que nos adianta sermos eternos, mas imóveis? — diria Drummond.
Pessoa faria “sim” com a cabeça, se pudesse mexê-la. E acrescentaria:
Pior é ser este corpo duro sentado num lugar duro. Eu trocaria a eternidade por uma almofada.
Pior são as câimbras — diria Drummond.
Pior são os passarinhos — diria Quintana.

Fizeram estátuas justamente do que menos interessa em nós: nossos corpos mortais.
Justamente do nosso exterior. Do que escondia a poesia.
Do que muitas vezes atrapalhava a poesia.
Espera lá, espera lá — diz Drummond. — Minha poesia também vinha do corpo. Minha cara de padre era um disfarce para a sensualidade. Minha poesia dependia do corpo e dos seus sentidos. E o sentido que mais me faz falta, aqui em bronze, é o do tato. Eu daria a eternidade para ter de volta a sensação na ponta dos meus dedos.
Pessoa:
O corpo nunca ajudou minha poesia. Eu e meus heterônimos habitávamos o mesmo corpo, com a sua cara de professor de geografia, mas não nos envolvíamos com ele. Nossa poesia era à revelia dele. E fizeram a estátua do professor de geografia.
Quintana:
Pra mim, o corpo não era nem inspiração nem receptáculo. Acho que já era a minha estátua, esperando para se livrar de mim.

Pessoa — diria Drummond —, estamos há meia hora com você nesta mesa do Chiado, e você não nos ofereceu nem um cafezinho.
Não posso — responderia Pessoa. — Não consigo chamar o garçom. Não consigo me mexer. Muito menos estalar os dedos.
Nós também não...
Não posso reagir quando sentam à minha volta para serem fotografados, ou retribuir quando me abraçam, ou espantar as crianças que me chutam, ou protestar quando um turista diz “Olha o Eça de Queiroz”...
Em Copacabana é pior — diria Drummond. — Fico de costas para a praia, só ouvindo o ruído do mar e o tintilar das mulheres, sem poder me virar...
Pior, pior mesmo — diria Quintana — é estar cheio de poemas ainda não escritos e não poder escrevê-los, nem em cima da perna.
Os três concordam: o pior é serem poetas eternos, monumentos de bronze à prova das agressões do tempo, fora poluição e vandalismo — e não poderem escrever nem sobre isto. As estátuas de poetas são a sucata da poesia.
E ficariam os três, desolados e em silêncio, até um turista apontá-los para a mulher e dizer:
O do meio eu não sei mas os outros dois são o Carlos Gardel e o José Saramago.

Luís Fernando Veríssimo, em Diálogos impossíveis

Girassol/Anunciação | Mariana Aydar & Mestrinho

Matéria e Razão

Quando imaginar Satirion, o socrático, imagine Eutiques ou Himião. Quando pensar em Eufrates, Alcifrão e Xenofonte, pense, respectivamente, em Eutiquião ou Silvano, em Tropaéforo e em Críton ou Severo. Quando se visualizar, visualize outros Césares. Repita esse procedimento para cada um.
Enfim, indague: “Onde estão?” Em lugar nenhum — ninguém sabe onde, pelo menos. À vista disso, enxergará o que é humano como fumaça ou coisa nenhuma — especialmente ao concluir que o que mudou jamais será como era. Então, por que está preocupado? Por que não se satisfaz ordenando-se durante a sua breve existência?
Está desperdiçando matéria e oportunidade! O que esses materiais são além de exercícios para a razão — a qual inspeciona e examina suas verdadeiras naturezas? Persevere até apropriá-los, assim como o estômago, que se nutre com os alimentos, ou o fogo ardente, que se inflama e resplandece por meio do que nele é arremessado.

Marco Aurélio, em Meditações

Factótum



3

Um dia, como de costume, eu saí na rua para dar uma volta. Me sentia feliz e relaxado. O sol estava no ponto. Havia uma paz no ar. Ao me aproximar da metade da quadra, vi um homem parado em frente à porta de uma loja. Segui andando.
Ei, amigão!
Parei e me virei.
Quer um emprego?
Voltei até onde ele estava. Por cima do seu ombro eu conseguia ver uma grande sala escura. Tinha uma mesa comprida com homens e mulheres em pé dos dois lados dela. Essas pessoas empunhavam martelos e batiam em objetos à frente. Na penumbra, os objetos pareciam ser mariscos. Cheiravam a mariscos. Me virei e continuei andando.
Lembrei como meu pai costumava chegar em casa todas as noites e falava com minha mãe sobre o serviço. Esse papo de trabalho começava assim que ele botava os pés em casa, continuava na mesa do jantar e terminava no quarto, onde, lá pelas oito da noite, ele gritava “Apaguem as luzes!”. Assim, ele podia descansar e ter toda a energia necessária para o serviço do dia seguinte. Não havia outro assunto senão o trabalho. O único assunto era o trabalho.
Na esquina, fui parado por outro homem.
Ele começou com:
Olha só, meu amigo…
Sim? — respondi.
Olha só, eu sou um veterano da Primeira Guerra Mundial. Coloquei minha vida em risco por este país, mas ninguém me contrata, ninguém me dá um emprego. Não estão nem aí para o que eu fiz. Estou com fome, me dá uma ajuda…
Estou sem trabalho.
Quer dizer que está desempregado?
Isso mesmo.
Me afastei e atravessei a rua. O cara gritou.
Você tá mentindo! Você trabalha. Você tem emprego!
Em poucos dias eu estava procurando por um.

Charles Bukowski, em Factótum

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Conversa telefônica

Uma grande amiga minha se deu ao trabalho de ir anotando numa folha de papel o que eu lhe dizia numa conversa telefônica. Deu-me depois a folha e eu me estranhei, reconhecendo-me ao mesmo tempo. Estava escrito: “Eu às vezes tenho a sensação de que estou procurando às cegas uma coisa; eu quero continuar, eu me sinto obrigada a continuar. Sinto até uma certa coragem de fazê-lo. O meu temor é de que seja tudo muito novo para mim, que eu talvez possa encontrar o que não quero. Essa coragem eu teria, mas o preço é muito alto, o preço é muito caro, e eu estou cansada. Sempre paguei e de repente não quero mais. Sinto que tenho que ir para um lado ou para outro. Ou para uma desistência: levar uma vida mais humilde de espírito, ou então não sei em que ramo a desistência, não sei em que lugar encontrar a tarefa, a doçura, a coisa. Estou viciada em viver nessa extrema intensidade. A hora de escrever é o reflexo de uma situação toda minha. É quando sinto o maior desamparo.”

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Calvin

O jardineiro

Vivi o suficiente?
Amei o suficiente?
Refleti o suficiente sobre a Ação Correta,
cheguei a alguma conclusão?
Experimentei a felicidade com gratidão suficiente?
Suportei a solidão com serenidade?

Digo isso, ou talvez esteja apenas pensando.
Na verdade, provavelmente penso demais.

Então saio para o jardim,
onde o jardineiro, que dizem ser um homem simples,
cuida de seus filhos, as rosas.

Mary Oliver, em A Thousand Mornings – Poems 

1611 – Yarutini




O extirpador de idolatrias

A golpes de picareta estão quebrando Cápac Huanca.
O sacerdote Francisco de Ávila grita com seus índios para que se apressem. Ainda restam muitos ídolos para serem descobertos e triturados nestas terras do Peru, onde ele não conhece ninguém que não incorra no pecado da idolatria. Jamais descansa a cólera divina. Ávila, açoite dos feiticeiros, vive sem sentar-se.
Mas para seus servos, que sabem, cada golpe dói. Esta pedra grande é um homem escolhido e salvo pelo deus Pariacaca. Cápac Huanca foi o único que partilhou com ele sua chicha de milho e suas folhas de coca, quando Pariacaca se disfarçou com trapos e veio a Yarutini e aqui suplicou que lhe dessem de beber e mascar. Esta grande pedra é um homem generoso. Cápac Huanca foi esfriado e convertido em pedra, para que não fosse levado pelo furacão de castigo que levou, em um sopro, todos os outros.
Ávila faz com que joguem seus pedaços em um abismo. Em seu lugar, finca uma cruz.
Depois pergunta aos índios a história de Cápac Huanca; e a escreve.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Pão nosso

Típica padaria. Fiscal da Receita entra, acompanhado de dois policiais.
FISCAL Quem é o dono do estabelecimento?
DONO Sou eu mesmo, senhor.
FISCAL Eu sou fiscal da receita e percebi que a padaria do senhor já existe há dez anos e nunca pagou nenhum imposto. Infelizmente a gente vai ter que fechar isto aqui até que o senhor pague a quantia de um milhão e trezentos mil reais relativos a…
DONO Desculpa, acho que aconteceu algum engano.
FISCAL Que engano?
DONO Isso aqui não é uma padaria, é uma igreja.
FISCAL Como?
DONO Pode olhar aí a nossa razão social: Igreja Universal do Pão Em Cristo. Ia chamar de Pãotecostal, mas achei meio forçado.
FISCAL Mas vocês fazem pão, vocês cobram pelo pão, isso é uma padaria.
DONO A gente não cobrou um centavo por nada, senhor.
FISCAL Ali não tem o preço de cada unidade?
DONO O que a gente faz é que a gente aceita doações e oferece um brinde proporcional à doação. Doou dois reais e trinta centavos? Ganhou um quibe abençoado. Doou quatro e cinquenta? Ganhou uma ciabata cristã com direito a sagrado refresco. Doou doze e cinquenta? Almoço episcopal.
CLIENTE Amigo, qual é o prato hoje?
DONO É frango benzido.
CLIENTE Vê um, por favor.
O dono pega o frango e faz uma cerimônia de batismo. Joga uns temperos, sal.
DONO Jesus Cristo, esse é o vosso corpo, esse é o vosso sangue. Pelo mistério do frango, esse é o Corpo de Cristo.
CLIENTE O Corpo de Cristo.
DONO Não, você só fala Amém.
CLIENTE Amém.
O cliente vai embora, levando o frango.
FISCAL Você acabou de benzer um frango?
DONO Que deixou de ser um frango quando foi abençoado e passou a carregar simbolicamente o corpo de cristo que morreu pelos nossos pecados.
FISCAL Você vai me desculpar mas essa religião não existe e ninguém vai me convencer de que um frango pode ser sagrado.
DONO Mas um pedaço de papel pode? Uma santa de madeira toda carcomida de cupim? Um elefante que na verdade é uma mulher e tem seis braços?
FISCAL A diferença é que a sua religião é uma palhaçada que o senhor inventou pra não pagar imposto.
DONO O senhor é que está escarnecendo do meu objeto de culto e isso caracteriza intolerância religiosa, pode pegar de três a cinco anos de cadeia.
Os policiais sacam as algemas.
FISCAL Melhor deixar pra lá. Me vê uma esfiha cristã.
DONO Três e trinta.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

I Don’t Know – Paul McCartney



I Don’t Know – Paul McCartney

I got crows at my window
Dogs at my door
I don’t think I can take any more
What am I doing wrong?
I don’t know

My brother told me
Life’s not a pain
That was right when it started to rain
Where am I going wrong?
I don’t know

But it’s alright, sleep tight
I will take the strain
You’re fine, love of mine
You will feel no pain

Well I see trouble
At every turn
I’ve got so many lessons to learn
What am I doing wrong?
I don’t know

Now what’s the matter with me?
Am I right, am I wrong?
Now I’ve started to see
I must try to be strong
I tried to love you
Best as I can
But you know that I’m only a man
Why am I going wrong?
I don’t know

But it’s alright, sleep tight
I will take the strain
You’re fine, little love of mine
You will feel no pain

I got crows at my window
Dogs at my door
But I don’t think I can take any more
What am I doing wrong?
I don’t know

Now what’s the matter with me?
I don’t know, I don’t know
What’s the matter with me?
I don’t know, I don’t know
What’s the matter with me?
I don’t know, I don’t know

Ser pai ou mãe é um negócio interessante. Fazemos nenéns pela pura alegria de trazer uma criaturinha ao mundo e tudo o que vem com ela. Mas, às vezes, a gente se esquece de que um dia elas vão crescer. Conheço gente que diz: “Ah, eu não gosto delas quando são nenéns. Gosto delas quando ficam um pouco mais velhas”. Não concordo. Eu gosto delas quando são nenéns, mas digamos que vai ficando mais interessante à medida que crescem, porque entram na conversa outras coisas além de “gu-gu-dá-dá” e “mamã”. Aos poucos, o vocabulário vai se expandindo. Às vezes, é “desafiador”, como se diz, e esse foi um desses momentos.
Andei uns dias um pouco frenético com o que estava acontecendo em casa – o tipo de coisa que acontece com todos nós. É por isso que a canção começa assim: “I got crows at my window/ Dogs at my door”; porque era assim que eu estava me sentindo, com corvos na minha janela e cachorros na minha porta, e meio que transbordou, como quem diz: “Nossa, estou tão mal, preciso desabafar”. Assim que a terminei, senti como se estivesse saindo de uma sessão de terapia.
Não é sempre que eu me sinto tão deprimido, mas, nessa ocasião, eu parecia estar carregando um verdadeiro fardo. Após uma ou duas estrofes gemendo comigo mesmo, tendo a chuva como símbolo de tristeza, então penso: “Qual é o outro lado disso? Não vai dar certo ou ainda posso encontrar um consolo?”. Imagino que, na condição de pai, eu queria dizer: “Está tudo bem, vai dar certo, não se preocupe”. Em seguida, temos esta seção de ponte: “But it’s alright, sleep tight/ I will take the strain/ You’re fine, love of mine/ You will feel no pain”.
Portanto, isso define a ideia básica. Estou falando sobre os meus problemas, como eu faria numa canção de blues. “Well I see trouble/ At every turn/ I’ve got so many lessons to learn”. Quando você está triste, está triste. Se eu vou cantar uma música sobre tristeza, levando em conta os meus gostos musicais ao longo dos anos, a coisa tende a se inclinar para o blues, a forma que serviu de base ao rock’n’roll. É uma sensação boa cantar naqueles termos. É uma sensação boa incorporar a tristeza em vez de só dizer: “Tô muito triste hoje”.
Em muitos aspectos, a poesia e a música têm a ver com isso – a capacidade de projetar ou mostrar algo por meio da própria arte, de elevar todos esses tipos de emoções a um nível mais alto, exatamente como um bom professor de redação às vezes pede a você para “mostrar” em vez de apenas “contar”.
Esta é uma canção que ainda não tocamos em shows, porque é um pouco complicada, e eu ando na linha tênue entre fazer música que é muito simples – rock’n’roll com três, quatro acordes, no máximo, muito minimalista – ou a música da época do meu pai, por causa das melodias e das harmonias e da sagacidade dessas canções. Eu penso nos grandes compositores dos sucessos da época de papai, como Harold Arlen, Cole Porter, os Gershwin, todos egressos dessa tradição. Nessa época, a Broadway estava no auge, e Hollywood estava no auge, então esse pessoal que se tornou adepto de inventar pequenas rimas inteligentes transformou isso numa grande tradição estadunidense.
Sempre me interessei muito por esse período, a época que talvez tenha durado até pouco depois de eu nascer, quando havia um piano em cada casa, quando existia, em muitos lares, a tradição generalizada de compor pequenas cantigas para o aniversário de alguém. Todo mundo se arriscava como compositor. Por isso, às vezes, eu me afasto dos três ou quatro acordes e tento explorar outras formações.
I Don’t Know” é uma daquelas canções em que eu acabo saindo de minha zona de conforto. Não se restringe a Dó, Fá, Sol. Também tem Lá bemol e Mi bemol. Tem um pouco mais de colorido. Se tem uma coisa de que eu gosto é tentar coisas diferentes e experimentar.
Costumo dizer que compor uma canção é como falar com um psicoterapeuta, e esta canção é exatamente isso. Sou eu expondo meus problemas e pensamentos e me perguntando o que é que estou fazendo de errado. Mas a resposta é: “Não sei”.

Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Desclassificados



1. Minha vida de cachorro Tenho bassês, dobermans, galgos, cokers e dois ou três vira-latas para sua inteira satisfação na cadeirinha sem fundos. O são-bernardo não quer participar por motivos religiosos e vai ficar sem Papita.
2. A escorregadia alpinaLoura cremosa, corpinho de garota todo untado de margarina. Venha ficar preso no elevador comigo. Elevador enguiçado dá uma vontade de comer Alpina, não dá? Atendo domic., hotéis, motéis, Sendas, Paes Mendonça e demais tendinhas.
3. Zuleica e seu acordeónPáginas imortais de nosso cancioneiro. Relax e bom-gosto. Pagamento cash na mão de meu digno esposo, Dr. Acordeón Tavares, o Mágico de Ozzzz... waldo Cruz!
4. Kirie eleisonNúncio Apostólico aposentado, mas com a bundinha bem arrebitada, fogoso, tudo nos lugares santos. Venha comungar comigo a divina lambada. Fé no Sumaré.
5. Corneteiros em fogoSe você tem problemas de embocadura, não relute em procurar-nos. Ambiente discreto para seu lazer. Venha acampar conosco após o toque de recolher. Batalhão de Guarda.
6. Sereia rejeitadaNão fui aproveitada na minissérie sobre o canto de minhas irmãs porque meu rabo tem algumas polegadas a mais, tal como a Marta Rocha, a eterna miss Brasil. Afie o arpão em minhas escamas e fique enfeitiçado com meu canto: ’’Óóóóóóóaaaaaaaiiiiiiiikhoooourrrrr. Desculpe. Tô um pouquinho rouca. Contatos em F. de Noronha ou F. Mesquita.
7. BérgamoSou um tremendo armário, mas sua mala, com bastante cuspe e jeito, cabe direitinho em meus compartimentos. Venha conferir em uma de nossas filiais.
8. Antigo da onçaChileno foragido e radicado em Itaboraí, ideal para swing, tango, chácháchá e outros ritmos fora de moda. Por uma babinha a mais, se veste de coroinha sonso ou de la Violetera. Barra da Tijuca.
10. Gueixa orientalVenha e comprove que meus grandes lábios fazem bilu-bilu no corrimão. Banhos típicos, massagens, do-in, tai-chi-chuan, xo-ta, Ku-shai-shang e, caso meu samurai apareça voltando de viagem, harakiri e kakerada na kara. Banzai.
11. Turquinho tímidoEu zer munto zenzual mas ter vergonhe do minha ligerro zutaque. Mas, zuperadas inibizons iniziaiz, convisco teu popanza bra eu. Dou joque orto e heterodoxo. Eu fazo gontrato com teu risco mas tiro o meu do reta.
12. Garanhão sindicalNóis conseguiu chegar a Ministro e tudo fazeremos para não ser reconhecido. Assim como cafetão de gravata não é capitão de fragata, Ministério do Trabalho também não é climatério do caralho. Puxa, essa quase me traiu-me. Rasgo catálogo telefônico e posso ser mais sem escrúpulos que a Febraban.
13. Pequenos cantores da GuanabaraJá estão grandinhos e bem-dotados. Experimentem nosso sarau de loucuras, sexo oral com trinados, gorjeios e solfejos. Inesquecível imitação de pássaros no cio. Oferecemos também Curso de Introdução à Batuta do Maestro Isaac Karabitchevski. Não tenha dó de si e venha dar ré lá com a gente. Não querendo, vá fá. Caixa Postal FUC/69.
14. Virgem elétricacpo, vdo, tco fin Telerj carnê pref pufqq linha est quit Pabx telex hiiii, meu Deus, é primeira vez que eu faço isso. Errei tudo. Esquece.
15. Imelda filipinaSe você está a fim de fazer melda grossa, procure a Imelda. Toda a sem-vergonhice da verdadeira rainha da sucata ao seu alcance. Só pra olhar. Meu patrimônio é imexível. Canalhice e podridão only for your eyes. Mais sujos do que eu só os tribunais que me absolvem. USA.
16. letrista carecaLetrista carinhoso, fica inventando desclassificados, enquanto você não sai do trabalho. Venha sentar em cima da minha Olivetti Lettera. Muda. Rio.

Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo

Chico César & Nova Orquestra