12/10/2026
Ninfas
Agora sei que existem ninfas
fora das estampas e dos contos.
São três.
Bebem água publicamente
servida por uma sereia,
pois que também existem as sereias
na composição de verde e mármore
e é tudo fantástico no jardim
em frente do Palácio do Governo.
Carlos Drummond de Andrade, em Boitempo – Esquecer para lembrar
Limite-se ao presente
Limpe as suas impressões. Interrompa
o puxar das cordas. Limite-se ao presente. Entenda bem o que se passa
com você e com o próximo. Divida e distribua cada objeto em causal
e material. Pense na sua última hora. Deixe o mal cometido por um
homem perdurar com ele.
Marco Aurélio, em Meditações
Se eu morresse...
Se eu atravessasse a rua agora, eu
morria atropelado por aquele carro preto. Era bom que eu não
precisava entregar o texto dessa semana. Mas ia ser um drama fodido.
O dono do carro preto ia ficar bem
puto. Depois ia ficar bem mal. Depois ia ficar bem puto, de novo,
porque o sinal tava aberto pra ele. E o carro preto ia ficar bem
estraçalhado. Dei uma engordada que ia ser fatal pro carro preto. O
dono do carro preto ia sair me xingando, só depois ia perceber que
eu já morri. Aí ele ia ficar mal de novo. As pessoas iam ficar
putas com ele, porque ninguém fica puto com quem já morreu. Mas o
sinal tava aberto pra mim, ele ia dizer. Talvez alguém me
reconhecesse: esse cara faz uns vídeos pra internet. Talvez virasse
uma comoção.
A Folha ia publicar uma homenagem no
lugar onde é a coluna, o Porta dos Fundos talvez lançasse um
vídeo-homenagem, com meus melhores momentos editados, uma música
emocionante. Fora que vinte e sete anos é uma idade ótima pra
morrer, tem um monte de gente legal que morreu com vinte e sete anos
e as pessoas iam me botar no meio dessa lista. Ia parecer que eu faço
parte de um grupo: “Nós, que morremos com vinte e sete”. Ia
parecer que eu tinha levado uma vida muito mais maldita e muito mais
interessante.
Talvez eu virasse nome de rua. A rua
em que eu morri. A própria Marquês de São Vicente talvez passasse
a se chamar rua Gregorio Duvivier, com a legenda: mártir dos
atropelados. Se bem que o sinal tava vermelho pra mim. Nunca iam
homenagear um cara que atravessou no sinal fechado. E a Marquês é
uma rua muito grande.
Talvez valesse mais a pena eu ser
atropelado numa rua menor. Na rua das Acácias, por exemplo, eu tinha
mais chance. Aí sim, rolava meu nome. Ou não. Rua das Acácias é
um nome bonito, os moradores iam preferir manter. E ninguém atropela
ninguém por ali. As pessoas iam achar suspeito. Iam pensar: esse daí
se jogou na frente do carro só pra virar nome de rua.
Talvez aqui na Marquês seja mais
fácil. Talvez aqui eu consiga emplacar um canteiro. Canteiro
Gregorio Duvivier. Não. Canteiro não costuma ter nome. Talvez, no
máximo, uma plaquinha: aqui morreu Gregorio Duvivier, que fazia
vídeos pra internet e escreveu um livro de poemas. Que ninguém leu.
Não. Melhor não atravessar, não. Por enquanto, morrer não tá
valendo muito a pena pra mim. Nota mental: fazer alguma coisa que
preste. Puta que o pariu, tenho que entregar o texto dessa semana.
Gregorio Duvivier, em Put some farofa
Você não consegue escrever uma história de amor
Margie ia sair com um sujeito, mas, no
caminho, esse sujeito encontrou com outro que vestia um casaco de
couro e o sujeito com casaco de couro abriu o casaco de couro e
mostrou as tetas e o outro sujeito foi até a casa de Margie e disse
que não poderia mais ir ao encontro, porque esse sujeito, vestindo
um casaco de couro, havia lhe mostrado as tetas e ele iria trepar com
esse sujeito. Então Margie foi até a casa de Carl. Carl estava em
casa e ela se sentou e disse para Carl:
– Um sujeito ia me levar para um
café com mesas na calçada e íamos beber vinho e conversar, só
beber vinho e conversar, só isso, nada mais, mas no caminho para me
encontrar, esse sujeito encontrou outro com um casaco de couro e o
sujeito com casaco de couro lhe mostrou as tetas e agora esse sujeito
vai trepar com o sujeito com casaco de couro e eu fico sem minha mesa
e meu vinho e minha conversa.
– Não consigo escrever – disse
Carl. – Acabou-se.
Então ele se levantou e foi até o
banheiro, fechou a porta e deu uma cagada. Carl cagava quatro ou
cinco vezes por dia. Não havia mais nada a fazer. Ele tomava cinco
ou seis banhos por dia. Não havia mais nada a fazer. Ficava bêbado
pela mesma razão.
Margie ouviu a descarga da privada.
Então Carl saiu do banheiro.
– Um homem simplesmente não
consegue escrever oito horas por dia. Nem mesmo consegue escrever
todo dia ou toda semana. É uma situação péssima. Não há nada a
fazer além de esperar.
Carl foi até a geladeira e voltou com
um pacote de seis garrafas de cerveja Michelob. Abriu uma garrafa.
– Sou o maior escritor do mundo –
ele disse. – Você sabe como isso é difícil?
Margie não respondeu.
– Posso sentir a dor rastejando por
todo o meu corpo. É como uma segunda pele. Queria poder me livrar
dessa pele como uma cobra.
– Bem, por que você não se deita
no tapete e tenta?
– Escute – ele perguntou –, onde
foi que a conheci?
– Na Bodega do Barney.
– Bem, isso explica um pouco as
coisas. Beba uma cerveja.
Carl abriu uma garrafa e lhe entregou.
– É... – disse Margie – eu sei.
Você precisa do seu isolamento. Você precisa ficar sozinho. Exceto
quando quer trepar, ou exceto quando nos separamos, então você me
liga. Diz que precisa de mim. Diz que está morrendo por causa de uma
ressaca. Você enfraquece rápido.
– Enfraqueço rápido.
– E fica tão inerte quando estou
por perto, nunca se excita. Vocês escritores são tão...
preciosos... não suportam pessoas. A humanidade fede, certo?
– Certo.
– Mas toda vez que nos separamos
você começa a fazer festas gigantes que duram quatro dias. E de
repente você acorda, começa a FALAR! De repente fica cheio de vida,
falando, dançando, cantando, dança em cima da mesa de café, joga
garrafas pela janela, encena trechos de Shakespeare. De repente, você
está vivo... quando estou longe. Ah, fiquei sabendo de tudo!
– Não faço festas. Odeio ainda
mais as pessoas nas festas.
– Para um sujeito que não gosta de
festas, certamente você organiza um bocado delas.
– Escute, Margie, você não
entende. Não consigo mais escrever. Estou acabado. Em algum lugar
tomei uma trajetória errada. Em algum momento, morri durante a
noite.
– O único jeito de você morrer é
numa dessas suas ressacas gigantescas.
– Jeffers diz que até mesmo o mais
forte dos homens fica encurralado.
– Quem foi Jeffers?
– Foi o sujeito que transformou Big
Sur numa armadilha para turistas.
– O que você ia fazer essa noite?
– Ia ouvir as músicas de
Rachmaninoff.
– Quem é?
– Um russo que já morreu.
– Olha para você. Fica aí sentado.
– Estou esperando. Alguns sujeitos
esperam por dois anos. Às vezes a coisa nunca volta.
– E se nunca voltar?
– Apenas vestirei meus sapatos e
descerei até a rua principal.
– Por que não arranja um emprego
decente?
– Não existem empregos decentes. Se
um escritor não consegue sucesso através da criação, está morto.
– Ah, para com isso, Carl! Existem
bilhões de pessoas no mundo que não atingem o sucesso pela criação.
Quer me dizer que elas estão mortas?
– Sim.
– E você tem uma alma? Você é um
dos poucos que tem uma alma?
– Diria que sim.
– Diria que sim! Você e a
sua maquininha de escrever! Você e os seus cheques mirrados! Minha
avó ganha mais dinheiro do que você!
Carl abriu outra garrafa de cerveja.
– Cerveja! Cerveja! Você e a porra
da sua cerveja! Isso está nas suas histórias também. “Marty
ergueu sua cerveja. Quando levantou os olhos, uma tremenda loira
entrou no bar e sentou ao seu lado...” Você está certo. Está
acabado. Seu material é limitado, muito limitado. Você não
consegue escrever uma história decente de amor.
– Você está certa, Margie.
– Se um homem não consegue escrever
uma história de amor, ele é um inútil.
– Quantas você já escreveu?
– Não digo que sou uma escritora.
– Mas – disse Carl – você
parece posar como uma crítica literária infernal.
Margie, depois disso, foi logo embora.
Carl ficou sentado e bebeu o resto das cervejas. Era verdade, a
escrita o havia deixado. Isso deixaria algum de seus inimigos do
subsolo felizes. Eles poderiam aumentar em um tento a marca dos
inimigos abatidos. A morte os agradava, em cima ou embaixo da terra.
Lembrou-se de Endicott, Endicott sentado, dizendo:
– Bem, Hemingway se foi, Dos Passos
se foi, Patchen se foi, Pound se foi, Berryman pulou daquela ponte...
as coisas estão parecendo cada vez melhores.
O telefone tocou. Carl atendeu.
– Sr. Gantling?
– Sim – ele respondeu.
– Gostaríamos de saber se você
estaria interessado em uma leitura de algum dos seus trabalhos na
Faculdade Fairmount.
– Bem, sim, qual a data?
– No dia 30 do próximo mês.
– Acho que não tenho nada marcado
para esse dia.
– Nosso pagamento geralmente é de
cem dólares.
– Geralmente recebo 150. Ginsberg
ganha mil.
– Mas ele é Ginsberg. Podemos
oferecer apenas cem.
– Tudo bem.
– Bom, sr. Gantling. Enviaremos os
detalhes para você.
– E o transporte? Dirigir até aí
não é pouca coisa.
– Ok, 25 dólares pela viagem.
– Ok.
– Gostaria de falar com os
estudantes em suas classes?
– Não.
– Oferecemos um almoço grátis.
– Vou aceitar o almoço.
– Bom, sr. Gantling, estaremos
esperando para vê-lo em nosso campus.
– Nos falamos.
Carl foi até o quarto. Olhou para a
máquina de escrever. Colocou uma folha de papel no rolo, então
observou uma garota com uma minissaia surpreendentemente curta cruzar
pela frente de sua janela. Depois começou a escrever:
“Margie ia sair com um sujeito, mas,
no caminho, esse sujeito encontrou com outro que vestia um casaco de
couro e o sujeito com casaco de couro abriu o casaco de couro e
mostrou as tetas e o outro sujeito foi até a casa de Margie e disse
que não poderia mais ir ao encontro, porque esse sujeito, vestindo
um casaco de couro, havia lhe mostrado as tetas...”
Carl ergueu sua cerveja. Era bom
voltar a escrever.
Charles Bukowski, em Ao Sul de Lugar Nenhum
11/10/2026
A uma senhora
Na idade em que eu brincando entre os
pastores,
Andava pela mão e mal andava,
Uma ninfa comigo então brincava
Da mesma idade e bela como as flores.
Eu com vê-la sentia mil ardores;
Ela punha-se a olhar e não falava;
Qualquer de nós podia ver que amava,
Mas quem sabia então que eram amores?
Mudar de sítio à ninfa já convinha,
Foi-se a outra ribeira; e eu só,
naquela
Fiquei sentindo a dor que n’alma
tinha,
Eu cada vez mais firme, ela mais bela;
Não se lembra ela já de que foi
minha,
Eu ainda me lembro que sou dela!…
Basílio da Gama, em A poesia é necessária
Diário de Bernardo Soares
135.
As coisas mais simples, mais realmente
simples, que nada pode tornar semi-simples, torna-mas complexas o eu
vivê-las. Dar a alguém os bons-dias por vezes intimida-me.
Seca-se-me a voz, como se houvesse uma audácia estranha em ter essas
palavras em voz alta. É uma espécie de pudor de existir — não
tem outro nome!
A análise constante das nossas
sensações cria um modo novo de sentir, que parece artificial a quem
analise só com a inteligência, que não com a própria sensação.
Toda a vida fui fútil
metafisicamente, sério a brincar. Nada fiz a sério, por mais que
quisesse. Divertiu-se em mim comigo um Destino malin.
Ter emoções de chita, ou de seda, ou
de brocado! Ter emoções descritíveis assim! Ter emoções
descritíveis!
Sobe por mim na alma um arrependimento
que é de Deus por tudo, uma paixão surda de lágrimas pela
condenação dos sonhos na carne dos que os sonharam... E odeio sem
ódio todos os poetas que escreveram versos, todos os idealistas que
fizeram ver o seu ideal, todos os que conseguiram o que queriam.
Vagueio indefinidamente nas ruas
sossegadas, ando até cansar o corpo em acordo com a alma, dói-me
até aquele extremo da dor conhecida que tem um gozo em sentir-se,
uma compaixão materna por si-mesma, que é musicada e indefinível.
Dormir! Adormecer! Sossegar! Ser uma
consciência abstrata de respirar sossegadamente, sem mundo, sem
astros, sem alma — mar morto de emoção refletindo uma ausência
de estrelas!
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
Parte I: Você trouxe todas as palavras
3.
Despertei quando Florice bateu na
porta e me chamou para tomar um chá de tília, prometendo que
acalmaria minhas ideias, sem que ela mesma estivesse tranquila.
Lembrei de sonhos confusos que tive, cenas cortadas com facas, um
homem muito perto de mim, falando alto. Acordei assustada com os
gritos dele, furioso dentro do sonho, misturados às batidas dela,
suaves.
Enquanto demos quatro passos lentos
até a mesa, contou-me que descobriu um pé de tília no quintal e
estava contente por isso, era seu chá preferido. Tomamos muito em
Portugal, ela explicou, abrindo espaço para esse assunto sem
qualquer interesse ou relação com a tragédia que eu vivia, como se
estivesse tudo bem.
Fernando me aguardava à mesa, com um
caderno e uma caneta em mãos. Florice também. O dela era gasto,
velho, uma capa de papelão azul-marinho dobrado e desdobrado, com as
pontas já se desfazendo. O dele, um caderninho novo, de capa
vermelha. Sua fala foi um percurso de coisas numeradas, organizadas,
a única ordem que meus pensamentos conseguiram obedecer. Combinaram
aquela conversa. Decidiram sobre o que cada um falaria e até que
ponto poderiam me dizer coisas, um evento ensaiado.
Primeiro ele repetiu que não perdi as
palavras, voltou a esse ponto com insistência, olhando nos meus
olhos, pausando a voz para que eu entendesse que aquilo era sério e
importante, poderia compor meu tempo, determinaria o meu futuro, eu
não tinha percebido ainda. Alguns chegam mudos aqui e só voltam a
falar meses depois, meu caso era um intercurso improvável e
milagroso. Ele me pediu para acreditar, pois só isso me ajudaria a
resolver tudo mais rápido, lembrar quem sou, voltar para casa.
Estava viva, não morri, sobrevivi ao insólito.
Segundo: meu passado poderia aparecer
nos sonhos e eu precisaria anotar com muita dedicação, em detalhes,
mesmo que parecesse uma coisa sem sentido ou sem importância. Eu
iria lembrar de tudo em algum momento. Os sonhos guardam o que é
nosso e nos devolvem quando precisamos, ele disse, contando que pelos
caminhos de dentro as memórias voltaram da viagem escura.
— Escreve tudo no caderno. Sabemos
que é difícil para ti não lembrar nada da tua vida nem das
pessoas. Não perceber o que te aconteceu é devastador, mas os
outros chegaram quase sempre mudos, soltando grunhidos que ninguém
entende, latem, miam, um festival de horrores. As palavras vieram,
isso é muito bom, mas tem paciência. É como reconstruir uma cidade
depois de um terramoto. Tu te desfizeste, foi uma categoria de morte,
mas não daquelas que encerram a vida. É uma ressurreição,
entendes?
Claro que eu não entendia. Eu
acreditava nele, havia um esforço sincero para me fazer perceber,
muito profundamente, que me entregava uma chave importante para
seguir, mas eu me revoltava.
— Quem são os outros todos?
Florice ouvia tudo de cabeça baixa,
olhando seu caderno, prestes a explodir com minha irritação,
apertando os lábios, controlando o ânimo, apressando os gestos e a
ponta dos dedos contornando a borda da capa, com unhas pintadas e bem
cortadas. Fernando sustentava o olhar em mim. As tarefas entre os
dois estavam bem divididas: ela cuidava do meu corpo por obrigação
e ele, dos pedaços de alma que levei, por caridade.
Perguntei também o que achavam que
aconteceu na igrejinha da aldeia, ela disse que pode ter sido alguma
confusão mental, é comum no meu estado. Além de rapariga, sou
louca, era isso que ela pensava de mim, essa égua do meu ódio. Não
havia nada lá, as portas estavam imóveis, ele garantiu, olhou com
atenção, não escutou coisa nenhuma. Tive certeza de que muitas
pessoas queriam sair de lá de dentro, mas eles disseram que eu não
me importasse, que os primeiros dias e meses eram assim mesmo,
aconteciam fatos inexplicáveis.
— Ou eu posso ser louca. Se não
sabemos de nada, posso ser qualquer coisa.
— Os Ressurrectos chegam sempre
confusos. Eu conheci muitos loucos na vida e os piores estavam sempre
convencidos de que eram ótimas pessoas — Florice resolveu falar.
— O que é ser Ressurrecto, afinal?
Por que isso aconteceu comigo?
— Já te disse antes. Significa quem
morre sem morrer, enterrados que saem da terra. Não é qualquer
morto, são os escolhidos para isso. Quem começa uma vida nova. Meu
avô repetia exatamente isso quando tocávamos no assunto. O que
aconteceu contigo é parte da história da minha família há anos,
um absurdo que nunca entendemos, quase um delírio, não contamos
para ninguém, sempre foi nosso segredo. Tu não podes falar nada,
percebes? Nunca poderás falar. Os que chegaram para nós estão
registrados neste caderno. Cada um com uma origem diferente.
— Sempre saem da terra?
— Os que chegam para minha família,
sim. Tu és a vigésima oitava e a primeira mulher. Mas meu avô
falava que havia outras formas de chegar.
— Esse corte no meu braço, no
pescoço, essas marcas e pancadas, vocês sabem o que foi? Estou
muito ferida. Quem me enterrou, quem fez isso comigo?
Não sabiam. Fernando quis dizer algo,
mas Florice tocou sua mão e o interrompeu. A sensação se repetiria
muitas vezes: ele ficava prestes a dizer qualquer coisa que ela não
permitia. Ela abriu o caderno e passou as páginas. Nome, data de
chegada, data de saída, algumas linhas a mais. Mostrou muito
rapidamente. Na página vinte e oito havia a data e a hora do meu
desenterro, descrição física, pouca coisa.
Recebi o caderno vermelho em branco e
prometi me esforçar. Eu saberia anotar? Se dependia de mim, garanti
que iria fazer o certo: escrever os sonhos.
— Não sei se isso vai ajudar em
alguma coisa, meus sonhos são ilusões de cabeça confusa.
— É o contrário. Só o sonho é
real.
Ele explicou mais uma vez, com
paciência, que alguns dos Ressurrectos que conseguiram voltar para
as suas casas de origem, seus países, foram os que perseguiram as
pistas dos sonhos, de forma consciente ou vaga, mas era o único
jeito de voltar. Os Ressurrectos sempre têm fortes motivos para
fazer a viagem, ele disse.
— E qual teria sido meu motivo?
— Deve ter alguma relação com as
tuas cicatrizes. Foram cortes fundos, quem fez isso queria o teu mal.
Tu lutaste uma batalha violenta, isso é certo.
— Eu morri e recebi outra chance por
qual motivo?
— Não sabemos, realmente, mas
aconteceram absurdos, era o pai de Florice quem contava os casos. A
esta altura da minha vida sei que qualquer coisa é possível. Não
sou mais ingênuo de acreditar que uma ordem única rege tudo, ou que
nossa cabeça pode entender os desígnios do mundo. Não pode. Só
nos resta aceitar e seguir vivendo porque estamos nessa aventura às
cegas. Todos nós. Quando a gente acha que entendeu tudo, o caos
aparece para relembrar que não somos coisa nenhuma.
Depois dessa conversa eles não
queriam dizer mais nada, mudaram o tema, entramos no modo prático da
vida: arrumar objetos, organizar a bagagem, estudar a rota da viagem
pelo mapa. Partiríamos para a casa de dona Fátima, cunhada de
Fernando, mas antes iríamos passar uns dias em Lisboa. Mostraram o
mapa de Portugal, a travessia que faríamos até lá, onosso lugar
naquele país, pequeno e estreito na Europa, o nome do continente,
ele explicava como se eu fosse criança. Pediram desculpas por não
mostrar o mapa do Brasil, não o tinham em mãos. Levavam o de
Portugal pela necessidade.
A rota de saída de Almofala passaria
por São Clemente, Venda da Costa, Venda da Natária, Cumeira da
Cruz, Chões, Alvorninha, Chiote, Zambujal, Vila Nova, Outeiro, Casal
do Rei, Casais da Boavista, Ribeira de Crastos, Carrasqueira, Vidais,
Mosteiros, Trabalhia, Matoeiro, Imaginário, Caldas da Rainha. Eu
guardei esse papel, deixei dentro do caderno, por isso sei os nomes
até hoje.
Os dois tinham gosto de apontar no
mapa os lugares onde nasceram, onde viveram, onde estão seus
parentes, os sítios mais bonitos, as viagens, as paisagens. Falaram
da muralha de Óbidos, da casa que alugaram com uma laranjeira cuja
copa invadia a janela do quarto quando eram jovens e comemoravam o
terceiro ano de casamento. Adoravam o Porto, Coimbra, Sintra, Mafra,
Aveiro, Braga, decorei alguns nomes mas estava cansada, não era um
bom momento. Eu não estava ali porque escolhi. Desejaram que eu
aproveitasse a sorte de renascer em Portugal. Não conseguia ter essa
ideia tão bem-acabada de renascimento, mas gostava do esforço para
me alegrar.
Antes de ir embora fui ver de onde
saí. O buraco estava coberto e Florice plantou uma muda de oliveira
em cima, contou que trouxe de casa, era um ritual de chegada dos
Ressurrectos que seu avô ensinou. Aninhou a mudinha na terra
enquanto eu me recuperava na primeira noite, diz ela que isso me
ajudou e eu nem sei. A árvore absorveria o que ficou de mim pelo
caminho.
Deixamos a casa de carro e vimos que o
movimento nas poucas ruas estava diferente. A igrejinha de Almofala
só abria uma vez a cada três meses. Um padre de Caldas da Rainha
passava o fim de semana na aldeia, atendia aos pedidos de batismo,
confissão, extrema-unção, exorcismos e casamentos, tudo junto, os
sacramentos, as ilusões da vida, a certeza do fim. Já estávamos de
saída, todos no carro, mas Florice pediu para descer e rezar um
pouco.
Era um padre jovem. Sentia-se bem
porque Deus o escolheu como pároco de Almofala, aquela terra de
sofrimentos, e ali ele percebia com mais força que sua vocação se
cumpria, ele disse. Engraçado, de Deus eu lembrava. É preciso ter
muita fé para achar que foi Deus que cuidou dos detalhes banais da
vida terrena, mas era o que eu sentia naqueles dias, a crença também
veio comigo, mesmo que depois tenha se perdido.
De portas abertas e cheia de gente, a
minúscula igrejinha encrustada em um triângulo trazia Almofala de
volta à vida. A missa já estava em andamento quando entramos e nos
sentamos no penúltimo banco, do lado esquerdo. A pequena interrupção
gaguejante e o olhar do padre fizeram com que todos virassem para nos
ver, um trio estranho. Um casal elegante, uma moça careca e
malvestida olhando o mundo com visível perturbação.
Minha audição alcançava os
sussurros desde a primeira fila e ouvi os comentários:
— É essa aí a rapariga.
— O aluguel da casa foi pago por um
mês, mas só ficaram alguns dias.
— Disseram que iriam embora pelo
agravamento do estado de saúde da enferma.
— Será que é cancro?
— Não, parece lunática, minha mãe
tem uma prima assim, eu percebo de longe.
— Pobrezinha, é jovem ainda. Não
sabemos que tipo de doença.
— Estou convencida de que é
lunática.
Fiquei na ponta do banco, de cabeça
baixa, fechei um pouco os olhos para ouvir o canto, a música em coro
improvisado, a voz do padre em destaque, aquilo era familiar e me
trouxe conforto. Meu transe de paz só foi interrompido por uma
mulher que chegou perto de mim, com um menino. O povo todo cantava
olhando para o padre, já tinham esquecido de nós, menos eles. A
mulher e o menino. Menos aquele outro homem na janela. Menos o jovem,
na outra janela. E as duas idosas, gêmeas, muito magras e com fiapos
de cabelos brancos e longos, quase um emaranhado de teias e poeira da
cabeça até os ombros, uma cabeleira só para duas pessoas. A mulher
com o menino olhava muito séria e, enquanto eu a observava, não
percebi que chegou ao meu lado uma menina de uns sete anos, tão
junto de mim que falou baixo, no meu ouvido com um movimento
discreto:
— Já vais?
Sorri para ela e disse sim. Sorri para
as outras pessoas em pé, nas janelas. Não responderam o
cumprimento, apenas olharam para mim. A cor e a forma as distinguiam
dos outros da igreja e então entendi.
Não sei o que fui antes de esquecer
tudo, mas no momento em que me concentrava naqueles corpos descobri
que era capaz de ver os mortos. Não era espantoso, deve ter sido
sempre assim, a ideia não me deu medo, mas era angustiante. A menina
continuava ali e disse que iria comigo.
É difícil lembrar dessa cena, tenho
vontade de chorar. Isso tudo, os primeiros dias. Eu retomo a sensação
de sufocamento. Se você não se importar, eu gostaria de fazer uma
pausa agora para beber água. Estou contando muito rápido?
— Não te preocupa, estou a gravar.
Aceitas um sumo de laranja?
— Só água, obrigada. E talvez uma
taça de vinho. Mas veja: dos primeiros dias lembro algumas coisas
com detalhes, mas depois da saída de Almofala os acontecimentos
foram diferentes. Não sei se vou conseguir continuar da mesma
maneira, quase minuto a minuto.
— Talvez o caderno ajude. Anotaste
os sonhos, certamente.
— Sim, anotei o que foi possível,
aos poucos tive sonhos mais longos, mais claros, em alguns tive certa
lucidez. Aqui está o caderno.
— Gostaria de ver, quando for
possível. Será importante para o meu trabalho.
— O senhor não tem perguntas?
— Sim, mas o correto é sempre
escutar primeiro.
Socorro Acioli, em Oração para Desaparecer
10/10/2026
Capítulo 101 – A Revolução Dálmata
Foi Virgília quem me deu notícia da
viravolta política do marido, certa manhã de outubro, entre onze e
meio-dia; falou-me de reuniões, de conversas, de um discurso...
– De maneira que desta vez fica você
baronesa, interrompi eu.
Ela derreou os cantos da boca, e moveu
a cabeça a um e outro lado; mas esse gesto de indiferença era
desmentido por alguma coisa menos definível, menos clara, uma
expressão de gosto e de esperança. E não sei por que, imaginei que
a carta imperial da nomeação podia atrai-la à virtude, não digo
pela virtude em si mesma, mas por gratidão ao marido. Que ela amava
cordialmente a nobreza; e um dos maiores desgostos de nossa vida foi
o aparecimento de certo pelintra de legação, – da legação da
Dalmácia, suponhamos, – o conde B.
V., que a namorou durante três meses.
Esse homem, vero fidalgo de raça, transtornara um pouco a cabeça de
Virgília, que, além do mais, possuía a vocação diplomática. Não
chego a alcançar o que seria de mim, se não rebentasse na Dalmácia
uma revolução, dolorosa, formidável; os jornais, a cada navio que
chegava da Europa, transcreviam os horrores, mediam o sangue,
contavam as cabeças; toda a gente fremia de indignação e
piedade... Eu não; eu abençoava interiormente essa tragédia, que
me tirara uma pedrinha do sapato. E depois a Dalmácia era tão
longe!
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas
Tiranias
antigamente
diziam: cuidado,
as paredes têm ouvidos
então
falávamos baixo
nos policiávamos
hoje
as coisas mudaram:
os ouvidos têm paredes
de nada
adianta
gritar
Rui Proença, em Visão do térreo
Estilo
Como uma forma de depuração, eu
sempre quis um dia escrever sem nem mesmo o meu estilo natural.
Estilo, até próprio, é um obstáculo a ser ultrapassado. Eu não
queria meu modo de dizer. Queria apenas dizer. Deus meu, eu mal
queria dizer.
E o que eu escrevesse seria o destino
humano na sua pungência mortal. A pungência de se ser esplendor,
miséria e morte. A humilhação e a podridão perdoadas porque fazem
parte da carne fatal do homem e de seu modo errado na terra. O que eu
escrevesse ia ser o prazer dentro da miséria. É a minha dívida de
alegria a um mundo que não me é fácil.
Clarice Lispector, em Todas as crônicas
Doce-Amargo
Safo foi a primeira a chamar eros de
“doce-amargo”. Ninguém que já se apaixonou discorda. O
que significa essa palavra?
Eros parecia a Safo uma experiência
ao mesmo tempo de prazer e dor. Aqui temos contradição e talvez
paradoxo. Perceber esse eros pode dividir a mente em duas. Por quê?
Os componentes da contradição podem parecer, à primeira vista,
óbvios. Tomamos por certo, como fez Safo, a doçura do desejo
erótico; sua prazerabilidade sorri para nós. Mas a amargura é
menos óbvia. Podem existir várias razões para explicar por que
aquilo que é doce também deve ser amargo. Podem existir várias
relações entre os dois sabores. Poetas elaboraram a questão de
diferentes maneiras. A formulação da própria Safo é um bom ponto
de partida para traçar as possibilidades. O fragmento relevante diz
assim:
Ἔρος δηὖτέ μ᾽ ὀ
λυσιμέλης δόνει,
γλυκύπικρον ἀμάχανον
ὄρπετον
Eros once again limb-loosener
whirls me
sweetbitter, impossible to fight
off, creature stealing up
Eros mais uma vez afrouxa-membros me
torce
doce-amargo, impossível de resistir,
criatura a roubar
(LP, fr. 130)
É difícil de traduzir. “Doce-amargo”
soa errado, a tradução padrão em inglês “bittersweet”
[amargo-doce] inverte os termos do composto glukupikron de
Safo. Isso deveria nos preocupar? Se a ordenação de Safo tem uma
intenção descritiva, o que está sendo dito aqui é que eros traz
primeiro doçura, depois amargura: a poeta classifica
cronologicamente as possibilidades. A experiência de um grande
número de pessoas que já se apaixonaram validaria tal cronologia,
sobretudo na poesia, em que a maioria dos amores termina mal. Mas é
improvável que seja isso que Safo queira dizer. Seu poema começa
com uma localização dramática da situação erótica no tempo
(dēute) e fixa a ação erótica no presente do indicativo
(donei). Em vez da história de um caso de amor, ela registra
o instante do desejo. Um momento vacila sob a pressão de eros; um
estado mental se divide. O que está em questão é uma
simultaneidade de prazer e dor. O aspecto aprazível é nomeado
primeiro, presumimos, porque é menos surpreendente. A ênfase é
colocada no outro lado do fenômeno, o lado problemático, cujos
atributos avançam numa enxurrada de consoantes suaves (verso 2).
Eros se move ou espreita sua vítima de algum lugar de fora: orpeton.
Nenhuma resistência pode combater esse avanço: amachanon. O
desejo, então, não é nem habitante nem aliado da pessoa desejante.
Alheio à vontade desta, de fora, o desejo se impõe
irresistivelmente sobre ela. Eros é um inimigo. Sua amargura deve
ter o sabor da inimizade. Seria ódio.
“Amar os amigos e odiar os inimigos”
é uma prescrição arcaica e padrão da moral responsiva. Amor e
ódio constroem entre si a maquinaria do contato humano. Faz sentido
localizar os dois polos desse afeto dentro de um único evento
emocional que é o eros? Provavelmente, sim, se amigo e inimigo
convergem dentro do ser que é a ocasião do afeto. A convergência
cria um paradoxo, mas que é quase um clichê para a imaginação
literária moderna. “E o ódio começa onde o amor termina…”,
sussurra Anna Kariênina, enquanto caminha em direção à Estação
de Moscou e a um fim do dilema do desejo. Na verdade, o paradoxo
erótico é um problema anterior ao próprio Eros. Nós o encontramos
encenado, pela primeira vez, na muralha de Troia, em uma cena entre
Helena e Afrodite. A troca entre elas é tão certeira quanto um
paradigma. Homero nos mostra Helena, encarnação do desejo, farta
das imposições de eros, desafiando uma ordem dada por Afrodite para
que ela servisse o leito de Páris. A deusa do amor responde com
raiva, empunhando o paradoxo erótico como uma arma:
μή μ’ ἔρεθε σχετλίη,
μὴ χωσαμένη σε μεθείω,
τὼς δέ σ’ ἀπεχθήρω
ὡς νῦν ἔκπαγλ’ ἐφίλησα
Damn you woman, don’t provoke
me—I’ll get angry
and let you drop!
I’ll come to hate you as terribly
as I now love you!
Mulher maldita, não me provoque –
eu vou ficar com raiva
e te abandonar!
Vou te odiar tão terrivelmente quanto
agora te amo!
(Il. 3.414-15)
Helena obedece na hora; amor e ódio
juntos formam um inimigo irresistível.
A simultaneidade do amargo e doce que
nos surpreende no adjetivo glukupikron de Safo é construída
de forma diferente no poema de Homero. A convenção épica encena
estados emotivos internos de maneira dinâmica e linear, de modo que
uma mente dividida possa ser lida a partir de uma sequência de ações
antitéticas. Homero e Safo, contudo, concordam em apresentar a
divindade do desejo como um ser ambivalente, ao mesmo tempo amigo e
inimigo, que informa a experiência erótica com um paradoxo
emocional.
Eros também aparece em outros gêneros
e poetas como um paradoxo de amor e ódio. Aristófanes, por exemplo,
nos conta que o jovem sedutor libertino Alcibíades foi capaz de
inspirar um sentimento como a paixão no dēmos grego:
ποθεῖ μέν, ἐχθαίρει
δέ, βούλεται δ᾽ ἔχειν.
For they love him and they hate him
and they long to possess him.
Pois eles o amam e o odeiam
e desejam possuí-lo.
(Ran. 1425)
No Agamêmnon de Ésquilo,
Menelau é descrito vagando pelo palácio vazio depois da partida de
Helena. Os quartos parecem assombrados por ela; Menelau chega ao
quarto do casal e suplica pelos “sulcos de amor na cama” (411). É
desejo que ele sente (pothos, 414), sem dúvida, mesmo assim o
ódio se infiltra para preencher o vazio (echthetai):
πόθῳ δ᾽ ὑπερποντίας
φάσμα δόξει δόμων
ἀνάσσειν·
εὐμόρφων δὲ κολοσσῶν
ἔχθεται χάρις ἀνδρί,
ὀμμάτων δ᾽ ἐν ἀχηνίαις
ἔρρει πᾶς Ἀφροδίτα.
Because of his longing for
something gone across
the sea
a phantom seems to rule the rooms,
and the grace of statues shaped in
beauty
comes to be an object of hate for
the man.
In the absences of eyes
all Aphrodite is vacant, gone.
Por causa da sua ânsia por algo que
atravessou
o mar
um fantasma parece governar os
quartos,
e a graça das estátuas moldadas em
beleza
chega a ser um objeto de ódio do
homem.
Na ausência de olhos,
toda Afrodite está vazia, se foi.
(Ag. 414-19)
Amor e ódio também fornecem um tema
para o epigrama helenístico. A injunção de Nicarco à amada é
típica:
Εἴ με φιλεῖς, μισεῖς
με· καὶ εἰ μισεῖς, σὺ φιλεῖς με·
εἰ δέ με μὴ μισεῖς,
φίλτατε, μή με φίλει.
If you love me, you hate me. And if
you hate me, you
love me.
Now if you don’t hate me,
beloved, don’t love me.
Se você me ama, você me odeia. E se
você me odeia, você
me ama.
Agora, se você não me odeia, amada,
não me ame.
(Anth. Pal. 11.252)
O epigrama de Catulo talvez seja o
destilado mais elegante que temos desse clichê:
Odi et amo. quare id faciam, fortasse
requiris.
nescio, sed fieri sentio et
excrucior.
I hate and I love. Why? you might
ask.
I don’t know. But I feel it
happening and I hurt.
Odeio e amo. Por quê? Você quer
saber.
Não sei. Mas sinto acontecendo e
me dói.
(Catulo 85)
Às vezes, poetas da tradição lírica
grega conceituam a condição erótica assim de maneira contundente,
mas Safo e seus sucessores geralmente preferem fisiologia a
conceitos. O momento em que a alma sai de si em desejo é concebido
como um dilema do corpo e dos sentidos. Na língua de Safo, como
vimos, é um momento amargo e doce. Esse gosto ambivalente é
desenvolvido, em poetas posteriores, em “mel amargo” (Anth.
Pal. 12.81), “doce ferida” (Anth. Pal. 12.126), e
“Eros de lágrimas doces” (Anth. Pal. 12.167). Eros dá um
nocaute na pessoa apaixonada usando o choque entre quente e frio no
poema de Anacreonte:
μεγάλῳ δηὖτέ μ’ Ἔρως
ἔκοψεν ὥστε χαλκεύς
πελέκει, χειμερίῃ δ᾽
ἔλονσεν χαράδρῃ.
With his huge hammer again Eros
knocked me like a
blacksmith
and doused me in a wintry ditch
De novo com seu enorme martelo Eros me
derrubou como um
ferreiro
e na vala invernal me encharcou por
inteiro
(PMG 413)
[…]
Anne Carson, em Eros, o doce-amargo – Um ensaio
09/10/2026
1644 – Jamestown
Opechancanough
Antes que um soldado inglês o fulmine
pelas costas, o chefe Opechancanough se pergunta: “Onde está o
guardião invisível de minhas viagens? Quem roubou-me a minha
sombra?”.
Aos cem anos, foi derrotado. Tinha ido
ao campo de batalha em uma liteira.
Faz mais de oitenta anos que o
almirante Pedro Menéndez de Avilés levou-o a Cadiz. Apresentou-o na
corte de Felipe II: Eis aqui um belo príncipe índio da Florida.
Puseram-lhe calças, gibão e gola. Em um convento dominicano de
Sevilha ensinaram-lhe a língua e a religião dos castelhanos.
Depois, no México, o vice-rei deu-lhe seu nome de presente e
Opechancanough passou a chamar-se Luis de Velasco. Ao mesmo tempo
regressou à terra de seus pais, como intérprete e guia dos
jesuítas. Sua gente achou que ele voltava da morte. Predicou o
cristianismo e depois despiu-se e degolou os jesuítas e tornou a
chamar-se como antes.
Desde aquele tempo, matou muito e viu
muito. Viu as chamas devorando aldeias e campos de cultivo e viu seus
irmãos vendidos a quem pagava mais, nesta região que os ingleses
batizaram de Virgínia em memória a uma rainha virgem de espírito.
Viu a varíola engolindo homens e o tabaco, faminto, devorando
terras. Viu como eram apagados do mapa dezessete das vinte e oito
comunidades que existiam aqui, e como as outras recebiam a
possibilidade de escolher entre a diáspora e a guerra. Trinta mil
índios deram as boas-vindas aos navegantes ingleses que chegaram à
baía de Chesapeake, em uma fresca manhã de 1607. Sobrevivem três
mil.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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