quarta-feira, 3 de junho de 2026
Benefício comum
Algum homem sentirá desprezo por mim?
Deixe-o cuidar disso sozinho. Enquanto isso, cuidarei para não fazer
ou dizer nada desprezível.
Alguém me odiará? Deixe-o ser
responsável por isso. Em oposição, serei brando e benevolente com
todos. Caso não assuma o erro, eu me prontificarei para apontá-lo,
não visando reprimir ou exibir a minha tolerância, mas, sim, ser
nobre e honesto — como o grande Focion, na hipótese de que ele não
dissimulava. O interior do homem deve ser assim, e os deuses não
devem encontrá-lo insatisfeito ou reclamando.
Quais males podem o atingir caso você
aja conforme a sua natureza e se satisfaça com o que é apropriado à
natureza universal — considerando que é um ser humano encarregado
de agir em favor do benefício comum?
Marco Aurélio, em Meditações
Solo de clarineta
As pétalas da flor-seca, a
sempre-viva,
do que mais gosto em flor.
Do seu grego existir de boniteza,
sua certa alegria.
É preciso ter morrido uma vez e
desejado
o que sobre as lápides está escrito
de repouso e descanso, pra amar seu
duro odor
de retrato longínquo, seu humano
conter-se.
As severas.
Adélia Prado, em Bagagem
Minha mãe
Todo mundo gosta de beleza. Até os
pobres. A pobreza também se enfeita. Primeiro era preciso limpar a
casa abandonada. Varrer. Tirar as teias de aranha e os picumãs.
Picumãs eram estalactites que ficavam pendurados sobre o fogão de
lenha, formados pela combinação de teias de aranha e gordura e que,
segundo as benzedeiras, tinham extraordinários poderes medicinais
para a cicatrização de umbigos. O fogão tinha de ser limpo, cheio
que estava com as cinzas deixadas por moradores anteriores. Era
preciso caçar os ovos de baratas escondidos nas gretas.
Havia as prateleiras de tábua que o
tempo, o pó, a fumaça das lamparinas e do fogão haviam pretejado.
As mulheres da cidade enfeitavam suas prateleiras com pano bordado. A
Adélia Prado, numa declaração de amor, escreveu ao seu amado:
“Você me espicaça como o desenho do peixe na guarnição da
cozinha”... Nunca me passou pela cabeça que guarnição de
cozinha pudesse entrar em declaração de amor... Quando não tinha
pano bordado o jeito era comprar papel cor-de-rosa para fazer os
enfeites. Se não tinha nem pano com peixe bordado nem papel comprado
o jeito era usar jornal. Minha mãe repicava jornal pra dar uma
alegria pobre às prateleiras. E plantava roseiras. Uma roseira
florida era sinal de nobreza! Com as rosas brancas trepadeiras se
fazia chá pra pôr nos olhos, como colírio. Havia uma coisa que não
tinha jeito: os ratos. De noite ficavam correndo entre os caibros
redondos e as telhas. Ninguém se assustava. Ninguém gritava.
Ninguém corria. Sabia-se que era inútil. O jeito era conviver com
eles.
Eu não tinha brinquedos. Acho que nem
sabia o que eram brinquedos, desses que se compram em lojas. Minha
mãe me fazia uns brinquedos. Ela era uma artesã consumada em
petecas de palha com penas de galinha. E fazia-me corrupios com
botões grandes e barbante. E ensinou-me a fazer barquinhos e chapéus
de papel, e a dobrar jornal para recortar dezenas de bonequinhos de
mãos dadas. O livro que mais me encantava tinha sido dela, quando
criança. Eram gravuras que faziam sonhar. Um negro arrastando-se na
direção de um jacaré de boca aberta para enfiar verticalmente
dentro de sua boca um pau pontudo. Quando ele fechasse a boca estaria
preso. Eu pensava: “Será que ele conseguiu?”. Uma gravura de um
prédio em Nova York com a seguinte explicação: “Nos Estados
Unidos há casas com dez andares”. Uma família de esquimós, pais
e filhos vestidos com peles, saudando o sol que aparecia depois de
seis meses de noite. E a mais querida: um menino e uma menina fazendo
um minijardim com árvores, riachinhos, pontes, cachoeiras. Brincava
com pedras, bichos, sabugos de milho, arcos de barril. Da minha mãe
recebi minha primeira lição de teologia, embora ela o fizesse com
boas intenções. De noite, antes de dormir, ela me fazia repetir:
“Agora me deito para dormir. Guarda-me o Deus em teu amor. Se eu
morrer sem acordar, recebe a minhalma, ó Senhor, amém”. Essa
reza me ensinou que é perigoso dormir. A gente está distraído,
guarda baixa, e é possível que a morte ataque. Aprendi que a gente
morre. Por isso é preciso Deus, por causa da morte. O sono é uma
morte da qual se acorda. Toda noite eu repetia a lição. E aprendi
que, morrendo, a alma, uma coisa que mora no corpo, volta para Deus.
Eu não queria voltar para Deus. Preferia a terra ao céu. Deus, que
pode tudo, bem que poderia me proteger da morte, dando-lhe ordens ao
contrário...
Ela também me contava estórias. Uma
delas tinha um refrão: “Jingue-le-jingue que eu vou para a
Angola...” . Eu não sabia o que era Angola. Depois ela me disse
que essa estória fora a Iaiá que lhe contara. A Iaiá era uma
escrava que permanecera na casa do meu avô mesmo depois da Lei
Áurea. Ficara porque não tinha para onde ir. Aí entendi o que era
Angola. Era a Iaiá que cuidava da minha mãe quando menina. Uma
outra estória era a da madrasta que enterrara a enteada como castigo
por não haver impedido que os passarinhos bicassem os figos da
figueira. Mas seus cabelos brotaram do fundo da terra. O jardineiro,
ao tentar capiná-los, ouviu um canto melancólico: “Jardineiro
do meu pai não capine meus cabelos. Minha mãe me penteava. Minha
madrasta me enterrou pelo figo da figueira que o passarinho buscou”.
Ao final o pai salva a filha da sepultura onde a madrasta a
enterrara. Que maravilhoso tema para uma meditação psicanalítica!
E cantava para me fazer dormir: “Tatu subiu no pau, é mentira
de você. Lagarto, lagartixa, isso sim que pode ser...” .
Rubem Alves, em O Velho que Acordou Menino
1624 – Sevilha
O último capítulo de “A vida do
buscão”
O rio reflete o homem que o interroga.
– Aonde mando o malandro? Hei de
mandá-lo à morte?
Dançam sobre o Guadalquivir, lá no
cais de pedra, as botas tortas. Este homem tem o costume de agitar os
pés enquanto pensa.
– Eu decido. Fui eu quem o fez
nascer filho de barbeiro e bruxa e sobrinho de verdugo. Eu o coroei
príncipe da vida buscona no reino dos piolhos, mendigos e
enforcados.
Brilham os óculos nas águas
esverdeadas, cravados nas profundidades, perguntando, perguntadores:
– Que faço? Eu o ensinei a roubar
frangos e implorar esmola pelas chagas de Cristo. De mim aprendeu
maestrias em dados, baralhos e espadas. Com minhas artes foi gala de
monjas e ator.
Francisco de Quevedo franze o nariz
para acomodar os óculos.
– Eu decido. Que mais remédio
tenho? Jamais se viu novela, na história das letras, que não tenha
capítulo final.
Estica o pescoço entre os galeões
que vêm, arriando as velas rumo ao cais.
– Ninguém sofreu como eu. Não fiz
minhas as suas fomes, quando rangiam suas tripas e nem os
exploradores encontravam seus olhos? Se dom Pablos deve morrer, devo
matá-lo. Ele é cinza, como eu, que sobrou da chama.
De longe, um menino esfarrapado olha o
cavaleiro que coça a cabeça, inclinado sobre o rio. “Uma coruja”,
pensa o menino. E pensa: “A coruja está louca. Quer pescar sem
anzol”.
E Quevedo pensa.
– Matá-lo? Não é fama, então,
que traz má sorte quebrar espelhos? Matá-lo. E se tomassem o crime
por justo castigo ao seu mau viver? Tremenda alegria para
inquisidores e censores! Só de imaginar sua felicidade, me dá
voltas na tripa.
Explode, então, uma gritaria de
gaivotas. Um navio da América está ancorando. De um pulo, Quevedo
se põe a caminhar. O menino o persegue, imitando o andar bambo.
Resplandece a cara do escritor. No
cais encontrou o destino que seu personagem merece. Enviará dom
Pablos, o buscão, às Índias. Onde, a não ser na América, poderia
terminar seus dias? Já tem desembocadura a sua novela e Quevedo se
afunda alucinado, nesta cidade de Sevilha, onde sonham os homens com
navegações, e as mulheres, com regressos.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
I’ll Follow the Sun | Paul McCartney e John Lennon
I’ll Follow the Sun, de Paul
McCartney e John Lennon
One day you’ll look
To see I’ve gone
For tomorrow may rain, so
I’ll follow the sun
Some day you’ll know
I was the one
But tomorrow may rain, so
I’ll follow the sun
And now the time has come
And so, my love, I must go
And though I lose a friend
In the end you will know, oh
One day you’ll find
That I have gone
But tomorrow may rain, so
I’ll follow the sun
Yes tomorrow may rain, so
I’ll follow the sun
And now the time has come
And so, my love, I must go
And though I lose a friend
In the end you will know, oh
One day you’ll find
That I have gone
But tomorrow may rain, so
I’ll follow the sun
A última casa em que morei em
Liverpool fica no endereço 20 Forthlin Road. A essa altura, já
tínhamos melhorado de vida. A minha mãe tinha grandes aspirações
para nós e encontrou essa casa numa área relativamente agradável.
As cortinas eram de renda, talvez por isso eu ainda faça questão de
ter cortinas de renda em todos os lugares. Um hábito irlandês, acho
eu. Assim, o pessoal não consegue espiar lá dentro. Eu me lembro de
tocar esta canção na sala de estar com meu violão. Se você for
analisar, é uma canção sobre “deixar Liverpool”. Estou
deixando esta cidade chuvosa nortista e indo a um lugar onde as
coisas acontecem.
A melodia é interessante também. Eu
estava procurando novas combinações de notas marcantes. Tem algo de
muito original nela. Uma das minhas canções favoritas da época do
meu pai era “Cheek to Cheek”, a canção de Fred Astaire, e eu
gosto que o verso “Heaven, I’m in heaven” aparece em
duas estrofes e, depois do contraste, o “céu” volta na última
estrofe. É uma frase que resume tudo. Era como a nossa casa na
Forthlin Road. Você entra pela porta da frente, passa na sala de
estar, na sala de jantar, cozinha, corredor e está de volta ao ponto
de partida. “I’ll Follow the Sun” também faz isso.
Mesmo se estivéssemos abertos a
receber influências, uma das melhores coisas nos Beatles era nossa
aversão a nos repetirmos. Éramos moços inteligentes; tédio não
era conosco. Quando tocamos em Hamburgo, às vezes tínhamos que
preencher um período de oito horas. Tentamos aprender canções
suficientes para não precisarmos repeti-las. Algumas bandas tinham
só um set de uma hora, folgavam uma hora e depois repetiam o mesmo
set. Tentávamos variar, porque decidimos que, caso contrário,
simplesmente não sobreviveríamos. Quando voltamos à Inglaterra,
tínhamos um vasto repertório, e acho que, quando começamos a fazer
discos, essa ideia persistiu. Por que ficar nos repetindo? Por que
fazer duas vezes o mesmo disco?
É verdade que, como já falei,
existia uma certa fórmula para algumas das primeiras canções – a
recorrência de pronomes como “eu”, “você”, “mim”,
“dele”, “dela”, “meu”, “ela” –, mas isso era porque
queríamos estabelecer contato com os fãs. Criar um vínculo com
eles. Mas não eram padronizadas. O que fez dos Beatles uma banda tão
sensacional foi a diversidade do repertório: não há duas músicas
iguais. É incrível quando você pensa nessa produção. E tem outra
coisa. John e eu escrevemos cerca de trezentas canções em sessões
que duravam poucas horas ou um só dia, e nunca – nunca mesmo –
saímos de uma sessão dessas sem terminar uma canção. Sempre que
nos sentávamos para compor, só saíamos dali quando tínhamos uma
canção.
Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente
terça-feira, 2 de junho de 2026
A coincidência
Conheceram-se na feira. Jorge estava
apoiado no cabo do velho guarda-chuva tentando tirar alguma coisa
agarrada à sola do sapato, quando teve sua atenção atraída por
uma reclamação:
— Puxa, mas o preço do tomate tá
uma indecência!
Por uma dessas caraminholas da mente,
a soma de tomate e indecência deu, na cuca do Jorge, um resultado
bastante diverso do real. Jorge procurou a dona da voz e constatou
que todas as besteiras esboçadas no bestunto eram poucas diante
daquele — sentiu o cheiro de outra barraca — peixão. Forçando a
abordagem, Jorge, que detestava tomate, juntou seus mais veementes
protestos aos dela, chegando a fazer uma ridícula imitação de um
personagem de tevê:
— O tomatal tem que tomatar!
A moça achou graça e Jorge completou
com um galanteio na medida:
— Mas meu negócio não é número.
Meu negócio é me apaixonar de repente — numa feira, por exemplo —
e levar meu novo amor pra conhecer meu apartamento, aqui pertinho.
Todas ficam amarradas em minha vista pro mar.
A moça, que normalmente repeliria uma
entrada de sola, caiu na esparrela:
— Seu apartamento tem vista pro mar?
Aqui?
— Meu apartamento dá pra um terreno
baldio. Eu é que dou vista pro mar. Espia bem nos meus olhos:
verdinhos, né?
Uma expressão de carinho surgiu no
rosto da moça e Jorge sentiu que era só dar mais um pouco de linha
antes de usar o cerol. Ficou propenso a utilizar a tática aprendida
com a edificante leitura de O Último Tango em Paris: nada de
nomes.
A verdade é que o Jorge tinha certa
bronca do seu nome:
Jorge Goulart Cauby Peixoto da Silva.
O da Silva era de sua mãe, assídua frequentadora da Rádio Nacional
nos áureos tempos dos grandes programas de auditório. Mãe
solteira, colocara no filho seu modesto sobrenome coroando a fusão
dos nomes de seus maiores ídolos. Jorge achava tudo isso meio
ridículo e só declarava o nome completo em caso de absoluta
necessidade.
E a necessidade surgiu quando a moça,
já devidamente cantada, teve um capricho maluco:
— Vou, mas quero ver tua carteira de
identidade. Você tá escondendo alguma coisa de mim.
— Mas, minha flor...
— Não tem mas-mas. Ou mostra a
carteira ou fica na saudade.
Jorge cedeu. A moça, ao contrário do
que Jorge esperava, não riu:
— Que estranho! Imagina você que
meu pai era assíduo frequentador da Rádio Nacional e...
Aterrorizado, Jorge interrompeu a
moça:
— Como é teu nome?
— Jezebel Conceição de Souza.
Ô mundinho danado de pequeno —
pensou o Jorge, de pau, quer dizer, de guarda-chuva na mão.
Aldir Blanc, em Rua dos Artistas e Arredores
Nabucodonosor
O nome de Nabucodonosor é belo como um cortejo religioso. O triste é que os seus súditos, para abreviar, chamavam-no simplesmente de Bubu.
Mário Quintana, em Caderno H
Diário de Bernardo Soares
112.
Nunca amamos alguém. Amamos,
tão-somente, a ideia que fazemos de alguém.
É um conceito nosso — em suma, é a
nós mesmos — que amamos.
Isto é verdade em toda a escala do
amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de
um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer
nosso dado por intermédio de uma ideia nossa. O onanista é abjeto,
mas, em exata verdade, o onanista é a perfeita expressão lógica do
amoroso. É o único que não disfarça nem se engana.
As relações entre uma alma e outra,
através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras
comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha’
complexidade. No próprio acto em que nos conhecemos, nos
desconhecemos. Dizem os dois “amo-te" ou pensam-no e sentem-no
por troca, e cada um quer dizer uma ideia diferente, uma vida
diferente, até, porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma
abstrata de impressões que constitui a atividade da alma.
Estou hoje lúcido como se não
existisse. O meu pensamento é em claro como um esqueleto, sem os
trapos carnais da ilusão de exprimir. E estas considerações, que
formo e abandono, não nasceram de coisa alguma – de coisa alguma,
pelo menos, que me esteja na plateia da consciência.
Talvez aquela desilusão do caixeiro
de praça com a rapariga que tinha, talvez qualquer frase lida nos
casos amorosos que os jornais transcrevem dos estrangeiros, talvez
até uma vaga náusea que trago comigo e me não expeli fisicamente…
Disse mal o escoliasta de Virgílio. É
de compreender que sobretudo nos cansamos. Viver é não pensar.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
O Mestre e Margarida — 7
7
Um apartamento sinistro
Se, na manhã seguinte, alguém
dissesse a Stiôpa Likhodiêiev: “Stiôpa! Se você não se
levantar nesse instante, será fuzilado!”, Stiôpa responderia com
uma voz sombria, quase inaudível: “Podem me fuzilar, façam o que
quiserem comigo, mas não vou me levantar.”
O problema não era se levantar, mas
parecia-lhe que não conseguiria abrir os olhos, porque só de fazer
isso um raio cairia e sua cabeça seria dilacerada em vários
pedaços. Um sino pesado badalava naquela cabeça, manchas cor de
café com bordas verdes e flamejantes flutuavam pelos globos oculares
e pelas pálpebras fechadas e, para coroar, ele estava enjoado, e
parecia que esse enjoo estava ligado ao som inconveniente de um
gramofone.
Stiôpa esforçava-se para lembrar
algo, mas só uma coisa vinha à sua mente — aparentemente, ontem,
em um lugar desconhecido, ele estava parado com um guardanapo na mão
e tentava beijar uma senhora, prometendo-lhe que no dia seguinte, ao
meio-dia em ponto, iria visitá-la. A senhora se recusava, dizendo:
“Não, não, não estarei em casa!”, mas Stiôpa insistia na sua
decisão, obstinado: “Mas eu vou e pronto!”
Stiôpa decididamente não sabia nem
quem era a senhora, nem que horas eram agora, nem que dia, nem de que
mês, e o pior é que não conseguia sequer reconhecer onde estava.
Ele procurou esclarecer pelo menos a última questão, e para isso
desgrudou as pálpebras pregadas do olho esquerdo. Algo reluzia
levemente na penumbra. Stiôpa finalmente reconheceu o espelho e
entendeu que estava deitado de costas em sua cama, quer dizer, na
antiga cama da mulher do joalheiro, no quarto. Então sentiu uma dor
tão forte na cabeça que fechou os olhos e começou a gemer.
Expliquemos melhor: Stiôpa
Likhodiêiev, diretor do Teatro de Variedades, voltou a si de manhã
em seu apartamento, aquele mesmo que ele dividia com o falecido
Berlioz, num grande prédio de seis andares, localizado na santa paz
da rua Sadôvaia.
Deve-se dizer que esse apartamento —
o de número 50 — já havia muito gozava de uma reputação, se não
má, no mínimo estranha. Dois anos atrás, sua proprietária era a
viúva do joalheiro De Fougère. Ánna Frantsiêievna de Fougère,
uma senhora honrada de cinquenta anos, muito eficiente, alugava três
dos cinco cômodos para inquilinos: um cujo sobrenome, parece, era
Bielomút, e outro que tinha perdido o sobrenome.
E então dois anos atrás começaram a
ocorrer fatos inexplicáveis no apartamento: as pessoas passaram a
desaparecer dali sem deixar vestígios.
Certa vez, num dia de folga, um
policial apareceu no apartamento, chamou o segundo inquilino (o que
perdeu o sobrenome) até a entrada e disse que ele deveria comparecer
à delegacia um minutinho para assinar alguma coisa. O inquilino
mandou Anfissa, fiel e antiga empregada de Ánna Frantsiêievna,
explicar, caso ele recebesse algum telefonema, que retornaria dali a
dez minutos e saiu acompanhado do policial civil de luvas brancas.
Porém, ele não só não retornou em dez minutos, como não retornou
nunca mais. O mais surpreendente de tudo é que, pelo visto, junto
com ele desapareceu também o policial.
Devota ou, para dizer mais
francamente, supersticiosa, Anfissa foi correndo contar para a já
muito transtornada Ánna Frantsiêievna que aquilo era feitiçaria e
que ela sabia muito bem quem tinha levado o inquilino e o policial,
só que não queria falar sobre isso na calada da noite.
Bom, com bruxaria é assim, como se
sabe; basta começar que depois nada pode detê-la. O segundo
inquilino desapareceu, ao que parece, na segunda-feira, e na quarta
quem desapareceu como se a terra o tivesse engolido foi Bielomút.
Mas isso, na verdade, ocorreu em outras circunstâncias. Pela manhã,
como de costume, um carro veio buscá-lo para levá-lo ao trabalho, e
de fato o levou, mas não trouxe ninguém de volta, e o próprio
carro não apareceu mais.
A aflição e o terror de madame
Bielomút eram indescritíveis. Mas, que pena!, tanto um como o outro
duraram pouco. Naquela mesma noite, após retornar com Anfissa da
datcha, para a qual sabe-se lá por que saiu às pressas, Ánna
Frantsiêievna não encontrou mais a cidadã Bielomút no
apartamento. E não era só isso: as portas dos dois quartos ocupados
pelo casal Bielomút estavam lacradas!
Dois dias se passaram com dificuldade.
No terceiro dia, Ánna Frantsiêievna, que estava sofrendo de
insônia, foi mais uma vez às pressas para a datcha... e é inútil
dizer que ela nunca mais voltou!
Anfissa, que tinha ficado sozinha e
chorado tudo o que tinha para chorar, deitou-se para dormir depois da
uma da madrugada. Não se sabe ao certo o que aconteceu com ela dali
em diante, mas os inquilinos dos outros apartamentos contavam que,
durante a noite inteira, teriam ouvido umas batidas no número 50 e
que até de manhã teriam visto nas janelas a luz elétrica acesa.
Pela manhã, soube-se que Anfissa também havia sumido!
Durante muito tempo, contavam no
prédio diversas lendas sobre os desaparecidos e sobre o apartamento
maldito, como, por exemplo, que aquela sequinha e beata da Anfissa
carregava em seu peito murcho, em um saquinho de couro cru, vinte e
cinco diamantes graúdos pertencentes a Ánna Frantsiêievna. Que no
depósito de lenha daquela mesma datcha para onde Ánna Frantsiêievna
ia às pressas, teriam sido localizados por si só tesouros
inestimáveis, na forma daqueles mesmos diamantes, assim como moedas
de ouro cunhadas na época do tzar... E outras coisas do mesmo
gênero. Bom, não podemos colocar nossa mão no fogo por aquilo que
não sabemos.
Seja como for, o apartamento
permaneceu vazio e lacrado apenas uma semana, e então mudaram-se
para lá o finado Berlioz com a esposa e esse mesmo Stiôpa, também
com a esposa. É totalmente natural que, assim que foram parar no
apartamento execrado, só o diabo sabe o que é que começou a
acontecer com eles. Isto é, num único mês sumiram as duas esposas.
Mas elas não se foram sem deixar vestígios. Sobre a esposa de
Berlioz contavam que teria sido vista em Khárkov com um certo
professor de balé, e a esposa de Stiôpa teria supostamente sido
localizada na rua Bojedômka onde, falavam as más línguas, o
diretor do Teatro de Variedades, fazendo uso de seus inúmeros
contatos, dera um jeito de arranjar-lhe um quarto, mas com a condição
de que não pusesse o pé na rua Sadôvaia...
Então Stiôpa começou a gemer.
Queria chamar a empregada Grúnia e pedir analgésico, mas sabia que
era bobagem. Grúnia não teria analgésico algum, é claro. Tentou
pedir ajuda a Berlioz e disse duas vezes, gemendo: “Micha...
Micha...”, mas, como vocês já devem ter deduzido, não recebeu
resposta. No apartamento reinava um silêncio absoluto.
Mexeu um pouco os dedos dos pés e
concluiu que estava deitado de meias; passou a mão trêmula pelo
quadril para verificar se estava ou não de calças e não conseguiu.
Finalmente, percebendo que estava abandonado e sozinho, que ninguém
viria socorrê-lo, resolveu levantar-se, por mais que isso lhe
custasse forças sobre-humanas.
Stiôpa desgrudou as pálpebras
coladas e viu que se refletia no espelho como um homem de cabelos
arrepiados para todos os lados, uma cara inchada e coberta por uma
barba preta por fazer, olhos inchados, camisa de colarinho suja,
gravata, ceroulas e meias.
Foi assim que ele se viu no espelho e
ao lado do espelho viu um homem desconhecido, vestido de preto e de
boina preta.
Stiôpa sentou-se na cama e arregalou
o quanto pôde os olhos injetados de sangue para o desconhecido.
O silêncio foi quebrado pelo tal
desconhecido, que pronunciou as seguintes palavras em voz baixa,
pesada e com sotaque estrangeiro:
— Bom dia, simpaticíssimo Stepán
Bogdánovitch!
Houve uma pausa e depois, com um
enorme sacrifício, Stiôpa disse:
— O que o senhor deseja? — e
surpreendeu-se, pois não reconheceu a própria voz. As palavras “o
que”, ele pronunciou em soprano, “o senhor”, em baixo, e
“deseja” não saiu de jeito nenhum.
O estranho sorriu, maliciosa e
amavelmente, tirou um grande relógio de ouro com um triângulo de
diamante na tampa, bateu onze vezes e disse:
— Onze! E faz exatamente uma hora
que estou sentado esperando o senhor despertar, já que marcou comigo
às dez. Aqui estou eu!
Stiôpa procurou as calças tateando a
cadeira ao lado da cama e cochichou:
— Desculpe... — Vestiu as calças
e perguntou, rouco: — Diga-me, por favor, qual é o seu sobrenome?
Estava com dificuldade para falar. A
cada palavra alguém enfiava uma agulha em seu cérebro, provocando
uma dor infernal.
— Como? O senhor esqueceu também o
meu sobrenome? — E então o desconhecido sorriu.
— Perdão... — rouquejou Stiôpa,
sentindo que a ressaca o presenteava com um novo sintoma: pareceu-lhe
que o chão ao lado da cama tinha se evaporado e que naquele exato
momento ele iria direto para o inferno, para a casa do diabo.
— Querido Stepán Bogdánovitch —
falou o visitante, com um sorriso perspicaz —, nenhum analgésico
ajudará. Siga o velho e sábio conselho: curar o mal com o mesmo
mal. A única coisa que o fará voltar à vida são duas doses de
vodca com algum tira-gosto picante e quente.
Stiôpa era uma pessoa esperta e, por
mais doente que pudesse estar, percebeu que uma vez que o pegassem
nesse estado, teria de confessar tudo.
— Para dizer a verdade, ontem eu —
começou ele, mal conseguindo mover a língua — exagerei um
pouco...
— Nem mais uma palavra! —
respondeu o visitante e afastou-se com a poltrona até o canto.
Stiôpa arregalou os olhos e viu uma
pequena mesa posta com uma bandeja, na qual havia pão branco
fatiado, caviar prensado em um potinho, cogumelos brancos em conserva
em um prato, alguma coisa em uma panelinha e, finalmente, vodca em
uma decantadeira robusta que pertencera à mulher do joalheiro. O que
mais impressionou Stiôpa foi que a garrafa estava suada por causa do
frio. Porém, isso era compreensível, afinal ela estava em uma bacia
cheia de gelo. Resumindo, tudo havia sido preparado com asseio e
eficiência.
O estranho não deixou a admiração
de Stiôpa se desenvolver até um grau doentio e, esperto, serviu-lhe
meia dose de vodca.
— E o senhor? — piou Stiôpa.
— Com prazer!
Stiôpa levou o copinho até os lábios
com a mão trêmula, enquanto o estranho engoliu o conteúdo do copo
num gole só. Mastigando com vontade um pouco de caviar, Stiôpa
arrancou as seguintes palavras de sua boca:
— E o senhor, por que não pega...
um tira-gosto?
— Obrigado, eu nunca belisco —
respondeu o estranho e serviu uma segunda dose. Abriram a panelinha e
nela havia salsichas com molho de tomate.
Então, o maldito verde diante dos
olhos evaporou, as palavras começaram a se articular e, o mais
importante, Stiôpa lembrou-se de alguma coisa. Justamente que ontem
algo tinha acontecido em Skhôdnia, na datcha de Khustov,
autor de esquetes, para onde esse mesmo Khustov levara Stiôpa de
táxi. Até lhe veio à mente que, quando pegaram esse táxi perto do
Metropol, também estava com eles um ator que não era de
meia-tigela... com um gramofone dentro de uma maleta. Isso, isso,
isso, foi na datcha! Parecia lembrar, ainda, que cachorros
uivavam por causa desse gramofone. Só a senhora que Stiôpa queria
tanto beijar continuou sem explicação... vai saber quem diabos era
ela... vai ver trabalha na rádio, mas também pode ser que não.
Assim, o dia anterior ia aos poucos se
esclarecendo, mas agora Stiôpa estava muito mais interessado no dia
de hoje e, em particular, no aparecimento daquele desconhecido em seu
quarto e, ainda por cima, com tira-gostos e vodca. Isso sim seria bom
explicar!
— E então, espero que agora o
senhor tenha se lembrado de meu sobrenome?
Mas Stiôpa só sorria, envergonhado,
sem saber o que dizer.
— Não me diga! Tenho a impressão
de que depois da vodca o senhor andou bebendo vinho do Porto! Por
favor, é possível uma coisa dessas!
— Gostaria de pedir que isso fique
só entre nós — disse Stiôpa, com um tom adulador.
— Oh, é claro, claro! Mas não
preciso nem dizer que não respondo por Khustov!
— Mas o senhor por acaso conhece
Khustov?
— Ontem eu vi esse indivíduo passar
rapidamente no seu gabinete, mas basta olhar seu rosto de relance
para compreender que ele é um canalha, um fofoqueiro, um oportunista
e um puxa-saco.
“Exatamente”, pensou Stiôpa,
espantado com uma definição tão exata, precisa e concisa de
Khustov.
É, os pedaços do dia anterior iam se
modelando pouco a pouco, mas mesmo assim a aflição não dava uma
trégua ao diretor do Teatro de Variedades. O problema era que um
enorme buraco negro se abria nesse dia anterior. Esse estranho de
boina, seja como for, Stiôpa realmente não o vira ontem em seu
gabinete.
— Mestre em magia negra, Woland —
disse o visitante com autoridade, percebendo as dificuldades de
Stiôpa, e contou tudo em ordem.
Ontem, durante a tarde, ele chegara a
Moscou do exterior e, sem demora, surgiu diante de Stiôpa e ofereceu
apresentar sua turnê no Teatro de Variedades. Stiôpa telefonou para
a comissão de lazer da região de Moscou e resolveu a questão
(Stiôpa empalideceu e começou a piscar os olhos), assinou com o
professor Woland um contrato que previa sete apresentações (Stiôpa
abriu a boca), combinou que Woland viria até seu apartamento às dez
horas da manhã de hoje para acertar os detalhes. E então Woland
veio. Quando chegou, foi recebido pela empregada Grúnia, que lhe
explicou que ela mesma acabara de chegar, que não morava lá, que
Berlioz não estava em casa e que se o visitante quisesse ver Stepán
Bogdánovitch que fosse ele mesmo até seu quarto. Stepán
Bogdánovitch dorme tão profundamente, que ela não se atreve a
despertá-lo. Quando percebeu o estado de Stepán Bogdánovitch, o
artista mandou Grúnia ao mercado mais próximo atrás de vodca e
tira-gostos, à farmácia atrás de gelo e…
— Permita-me acertar as contas com o
senhor — choramingou Stiôpa, abatido, e começou a procurar a
carteira.
— Oh, que absurdo! — exclamou o
apresentador, e não queria mais nem ouvir falar sobre o assunto.
Então a vodca e os tira-gostos foram
esclarecidos, mas mesmo assim dava pena olhar para Stiôpa:
decididamente ele não lembrava nada sobre o contrato e podia jurar
que não tinha visto esse Woland ontem. Khustov, sim, estava lá, mas
Woland, não.
— Com sua licença, gostaria de dar
uma olhada no contrato — pediu baixinho Stiôpa.
— Claro, claro...
Stiôpa deu uma olhada no papel e
gelou. Estava tudo certo. Primeiro, a autêntica assinatura
espirituosa de Stiôpa! Ao lado, à mão, o endosso torto do diretor
financeiro, Rímski, com autorização para liberar ao artista
Woland, por conta das sete apresentações, a soma de dez mil rublos
do total que lhe é devido de trinta e cinco mil rublos. E tem mais:
ali estava o visto de Woland por ele já ter recebido esses dez mil!
“Mas o que isso significa?”,
pensou o infeliz Stiôpa, e sua cabeça começou a girar. Será que
estava começando a ter funestos lapsos de memória?! Mas nem precisa
dizer que, depois de o contrato ser apresentado, novas manifestações
de admiração seriam simplesmente inadequadas. Stiôpa pediu licença
à visita para se retirar por um minuto e, como estava, de meias,
correu até o telefone, na antessala. Pelo caminho ele gritou em
direção à cozinha:
— Grúnia!
Mas ninguém retorquiu. Então, ele
deu uma olhada para a porta do gabinete de Berlioz, que ficava ao
lado da antessala, e ali mesmo, como se costuma dizer, ficou
estarrecido. Ele viu um enorme lacre de cera pendurado na maçaneta
da porta. “Pronto!”, rugiu alguém na cabeça de Stiôpa. “Era
só o que faltava!” Então os pensamentos de Stiôpa bifurcaram-se
por dois caminhos, mas, como sempre acontece no momento de uma
catástrofe, em uma única direção, e na realidade, só o diabo
sabe para onde. Até mesmo descrever a salada da cabeça de Stiôpa é
difícil. Ali estava aquele diabrete de boina preta, a vodca gelada e
o incrível contrato e, para completar, faça-me o favor, um selo na
porta! Ou seja, se quiserem dizer para alguém que Berlioz andou
aprontando, não vão acreditar, juro, não vão acreditar, não! Mas
o selo estava lá!
Sim, senhor...
Então começaram a pulular no cérebro
de Stiôpa uns pensamentos muito desagradáveis sobre um artigo que,
por azar, ele havia pouco impingira a Mikhail Aleksándrovitch para
ser publicado na revista. O artigo, cá entre nós, era estúpido!
Sem propósito, e o dinheiro, uma mixaria...
Logo depois da lembrança do artigo,
pairou a de uma conversa duvidosa, que acontecera, como recordava, no
dia vinte e quatro de abril à noite, ali mesmo, na sala de jantar,
enquanto Stiôpa jantava com Mikhail Aleksándrovitch. Ou seja, é
claro, aquela conversa não podia nunca ser chamada de duvidosa no
pleno sentido da palavra (Stiôpa nem começaria uma conversa
dessas), mas sim uma conversa sobre algum tema desnecessário. Ele
era totalmente livre, cidadãos, para não iniciá-la. Até o selo,
sem dúvida, a conversa poderia ser considerada uma verdadeira
bobagem, mas depois do lacre...
“Ah, Berlioz, Berlioz!”, o sangue
subia à cabeça de Stiôpa. “Isso é demais para minha cabeça!”
Mas não havia muito tempo para se
lamentar e Stiôpa discou o número do gabinete do diretor financeiro
do Teatro de Variedades, Rímski. A situação de Stiôpa era
delicada: primeiro, o estrangeiro poderia se ofender porque Stiôpa
iria investigá-lo, depois de ter sido mostrado o contrato, além de
ser extremamente difícil falar com o diretor financeiro. De fato,
não dava mesmo para perguntar desse jeito: “Diga-me, por acaso
fechei ontem um contrato de trinta e cinco mil rublos com um
professor de magia negra?” Perguntar assim não leva a lugar algum!
— Pronto! — soou no fone a voz
aguda e desagradável de Rímski.
— Olá, Grigóri Danílovitch —
começou baixinho Stiôpa —, é o Likhodiêiev. É o seguinte...
hum... hum... estou aqui em casa com esse... é... artista, Woland...
Então... Bom... eu queria perguntar, e hoje à noite?
— Ah, o da magia negra? — retrucou
no fone Rímski. — Os cartazes já vão ficar prontos.
— A-hã — disse Stiôpa com uma
voz fraca —, então até mais...
— E o senhor vem logo? — perguntou
Rímski.
— Daqui a meia hora — respondeu
Stiôpa e, pondo o fone no gancho, apertou a cabeça quente com as
mãos. Ah, que piada de mau gosto! O que está acontecendo com sua
memória, cidadãos? Hein?
No entanto, não convinha permanecer
por muito tempo na antessala e Stiôpa na mesma hora traçou um
plano: esconder a sua incrível falta de memória de qualquer jeito
e, agora, antes de mais nada, como quem não quer nada, arrancar do
estrangeiro o que exatamente ele pretende mostrar hoje no Teatro de
Variedades, entregue aos cuidados de Stiôpa.
Então Stiôpa virou-se de costas para
o aparelho e, no espelho que ficava na antessala e havia muito tempo
não era limpo pela preguiçosa Grúnia, viu nitidamente um sujeito
estranho — comprido como uma vara, de pincenê (ah, se Ivan
Nikoláievitch estivesse aqui! Ele reconheceria esse sujeito de
cara!). Ele foi refletido, mas sumiu no mesmo instante. Stiôpa,
aflito, olhou melhor para a entrada e perdeu o equilíbrio uma
segunda vez, pois um enorme gato preto passou diante do espelho e
também sumiu.
Stiôpa ficou com o coração na mão
e cambaleou.
“Mas o que é isso?”, pensou.
“Será que estou enlouquecendo? De onde vêm esses reflexos?” Ele
olhou para a entrada e gritou, assustado:
— Grúnia! Por que esse gato está
perambulando aqui? De onde ele veio? E ainda tem alguém com ele?!
— Não se preocupe, Stepán
Bogdánovitch — retrucou uma voz, mas não de Grúnia e sim da
visita, que vinha do quarto —, esse gato é meu. Não fique
nervoso. E a Grúnia não está, despachei-a para Vorônej. Ela
reclamou que o senhor se apropriou de suas férias.
Aquelas palavras eram tão inesperadas
e disparatadas que Stiôpa achou que estava ouvindo demais.
Totalmente transtornado, correu a trote curto até o quarto e
postou-se imóvel à soleira da porta. Ficou de cabelos em pé e na
testa surgiram pequenas gotas de suor.
O visitante já não estava sozinho no
quarto, mas acompanhado. Na segunda poltrona estava sentado aquele
mesmo indivíduo que imaginara na entrada. Agora ele estava
claramente visível: o bigode-penugem, um vidro do pincenê
cintilava, o outro era inexistente. Mas as coisas no quarto se
mostraram bem piores: no pufe da mulher do joalheiro, com uma pose
petulante, estava estirado um terceiro, justamente — um gato preto
de proporções espantosas, com uma dose de vodca em uma das patas e
na outra um garfo, com o qual ele conseguira fisgar um cogumelo em
conserva.
A luz já fraca do quarto começou a
ficar ainda mais lívida aos olhos de Stiôpa. “Então é assim que
se enlouquece!”, pensou ele e agarrou-se ao batente da porta.
— Estou vendo que o senhor está um
pouco surpreso, meu caríssimo Stepán Bogdánovitch? — quis saber
Woland de Stiôpa, que estava tiritando os dentes. — No entanto,
não há com o que se assombrar. Essa é a minha comitiva.
Então o gato tomou a vodca e a mão
de Stiôpa deslizou batente abaixo.
— E essa comitiva demanda espaço —
continuou Woland. — Por isso, algum de nós está sobrando aqui
nesse apartamento. E me parece que é justamente o senhor quem está
sobrando!
— Eles, eles! — entoou o alto de
xadrez com voz de bode, usando o plural para falar de Stiôpa. — De
modo geral, eles andam se emporcalhando de maneira espantosa nos
últimos tempos. Ficam se embebedando, têm casos com mulheres,
valendo-se de sua posição, não fazem absolutamente nada e nem
podem fazer nada mesmo, porque não entendem patavina sobre suas
responsabilidades. Só sabem deitar terra nos olhos dos seus
superiores!
— Usa o carro oficial para assuntos
particulares! — denunciou o gato, mastigando um cogumelo.
E então aconteceu uma quarta e última
aparição no apartamento, enquanto Stiôpa, já deslizando
totalmente até o chão, arranhava o batente com a mão enfraquecida.
Diretamente do espelho do aparador
saiu um homem pequeno, mas de ombros extraordinariamente largos, de
chapéu-coco na cabeça e um canino à mostra, desfigurando sua
fisionomia que já era execrável mesmo sem isso, algo sem
precedentes. E ainda por cima ruivo, vermelho-fogo.
— Eu — entrou na conversa esse
novo visitante — de modo geral nem consigo entender como ele foi
parar no lugar de diretor — o ruivo ficava cada vez mais fanho. —
Se ele é diretor, então eu sou bispo!
— Você não se parece com um bispo,
Azazello — observou o gato, servindo-se de salsichas.
— Mas é isso mesmo que estou
falando — esganiçou o ruivo e voltou-se para Woland, com
deferência: — Permita-me, meu senhor, expulsá-lo de Moscou e
mandá-lo para os diabos?
— Chispa!! — rosnou o gato de
repente, eriçando o pelo.
Então o quarto começou girar ao
redor de Stiôpa e ele bateu a cabeça contra o batente, perdendo os
sentidos, e pensou: “Estou morrendo...”
Mas não morreu. Entreabriu os olhos
de leve e se viu sentado em cima de algo parecido com uma pedra. Ao
seu redor algo marulhava. Quando abriu os olhos devidamente, entendeu
que era o mar e que, além disso, as ondas quebravam nos seus
próprios pés e que, resumindo, ele estava sentado bem na
extremidade de um dique, e que acima dele havia um céu azul
reluzente e atrás uma cidade branca nas montanhas.
Sem saber como proceder em tais casos,
Stiôpa levantou-se sobre as pernas bambas e caminhou pelo dique até
a beira do mar.
No dique havia um homem, fumando,
cuspindo na água. Ele olhou para Stiôpa com olhos selvagens e parou
de cuspir.
Então Stiôpa fez uma cena daquelas:
pôs-se de joelhos diante do fumante desconhecido e pronunciou:
— Eu lhe imploro, diga-me, que
cidade é essa?
— Francamente! — disse o fumante,
insensível.
— Não estou bêbado — respondeu
Stiôpa, rouco. — Aconteceu alguma coisa comigo... estou doente...
Onde estou? Que cidade é essa?
— Ialta, ora...
Stiôpa suspirou baixinho, caiu de
lado, bateu a cabeça contra a pedra quente do dique. A consciência
o abandonou.
Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida
domingo, 31 de maio de 2026
O país e o armário
“Todo ano, um milhão de mulheres
fazem aborto na França. Eu sou uma dessas mulheres. Eu abortei.” O
manifesto foi assinado por 343 mulheres e publicado no Nouvel
Observateur, em 1971.
O Estado francês tinha duas opções:
prender essas mulheres ou reconhecer que elas não fizeram nada de
errado. O Estado não prenderia 343 mulheres. Ou melhor: não essas
mulheres. Dentre as assinaturas, estavam as de Ariane Mnouchkine,
Catherine Deneuve, Jeanne Moreau, Marguerite Duras. A redatora do
manifesto era ninguém menos que Simone de Beauvoir. Não prenderam
ninguém.
A esse manifesto, seguiram-se outros:
331 médicos assumiram-se a favor da causa. Na Alemanha, 374 mulheres
assinaram um manifesto em que diziam: Wir haben abgetrieben. Nós
abortamos. Entre as mulheres, Romy Schneider e Senta Berger. Em 1975
o aborto deixa de ser crime na França e passa a ser chamado de
“interrupção voluntária de gravidez”. A interrupção passa a
ser “livre e gratuita” até a décima semana de gestação.
Estamos muito longe dessa lei por
aqui. Nenhum dos candidatos a presidente parece interessado em
discuti-la. Tampouco a classe artística está interessada em sair do
armário nesse assunto. O Brasil vai na direção oposta. É
constrangedor ver os principais candidatos se estapeando pelo
eleitorado conservador. Não se trata de propor mudanças, trata-se
de vender apego à tradição. “Você me conhece, sabe que eu sou o
que mais acredita em Deus, o que mais passou longe de dar a bunda, de
cheirar pó, olhem só como minha filha é virgem, olhem só como meu
filho é hétero.” Todos estão desesperados pelo voto conservador.
Estranhamente, ninguém está nem aí pro voto aborteiro.
Se as eleições, como anuncia o
plantão da Globo, são a festa da democracia, essa festa, Dona
Globo, está meio caída — ou fui eu que bebi pouco. Na minha
opinião, tem pastor demais e maconha de menos. A maioria dos
candidatos não fede nem cheira — a não ser um deles, que cheira.
Um amigo gay outro dia disse que “levantar bandeira é cafona e
quem sai do armário é porque quer atenção”. Amigo, tudo bem,
ninguém é obrigado a sair do armário. Mas você não precisa
trancar a porta por dentro.
Sair do armário não é um ato
exibicionista. Levantar bandeira também não. O manifesto das 343
vagabundas, como ficou conhecido, não permitiu às manifestantes que
elas fizessem um aborto. Elas já o tinham feito. Permitiu às suas
filhas e netas.
Ateus, maconheiros, vagabundas,
pederastas, sapatões e travestis do mundo: uni-vos. Porque o lado de
lá tá bem juntinho.
Agosto de 2014
Gregório Duvivier, em Put some farofa
Soneto 18
Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.
Às vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.
Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste
inverno:
Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.
William Shakespeare, em Sonetos
Nono capítulo — Miragens da Solidão
Olhando as alturas, Muidinga repara
nas várias raças das nuvens. Brancas, mulatas, negras. E a
variedade dos sexos também nelas se encontrava. A nuvem feminina,
suave: a nua-vem, nua-vai. A nuvem-macho, arrulhando com peito de
pombo, em feliz ilusão de imortalidade.
E sorri: como se pode jogar com as
mais longínquas coisas, trazer as nuvens para perto como pássaros
que vêm comer em nossa mão. Se recorda da tristeza que o manchara
na noite anterior. Lembra as palavras que trocou com Tuahir:
— Tio, eu me sinto tão
pequeno...
— É que você está só. Foi o
que fez essa guerra: agora todos estamos sozinhos, mortos e vivos.
Agora já não há país.
A fala de Tuahir ainda agora remexe em
seu peito. Mas ele já não parece vencido. E se levanta cheio de uma
ideia. Toca nas costas do velho e lhe diz:
— Estamos sozinhos, não é, tio?
Tuahir esfrega os ensonados olhos. O
miúdo estaria zuca-zaruca? Se estava, era loucura convicta. Porque o
moço lhe pede que se junte a ele numa estranha brincadeira.
— Tio, vamos fazer um jogo. Vamos
fazer de conta que eu sou Kindzu e o senhor é o meu pai!
— Seu pai?
— Sim, o velho Taímo.
Tuahir negou. O tal Taímo era um
falecido. E com os falecidos nunca é bom brincar. Ainda por cima era
um morto desconsolado.
— Você não sabe o que pode
fazer um morto incompleto. Não lhe contei o que sucedeu com o
pescador Nipita?
— Conte, tio. Se é uma estória
me conte, nem importa se é verdade.
Tuahir lembra Nipita, um pescador que
fora esfaquinhado pelos bandos armados. Acontecera de noite, o
desgraçado voltou de madrugada, vinha buscar as tripas. Deixei-lhes
aqui, esbarriguei-me num nadinha, disse num derradeiro sopro.
Agora estando quase para morrer, não podia se presentar perante a
cova sem estar devidamente completo. Alguém ainda lhe disse: vai
que nós te levamos depois as partes que te faltam. E ele se
sepultou, assim, destripado. Nunca mais ninguém lhe levou os restos
de suas entranhas. O falecido pescador, agora, passava a morte a
maldiçoar os viventes.
— Está ver? Não se deve brincar
com os falecidos.
O miúdo entende os cuidados do velho.
Decide argumentar, escolhe as ideias. Mas tio, não vamos fazer
pouco. Ao contrário, se esse morto está desconsolado nós vamos lhe
dar sossego. Tuahir hesita. O miúdo não dá tempo, insistindo
sempre. É brincar no respeito, tio. E já se vai sentando, os
espantosos olhos fitando o velho.
— Certo, pai?
Pai? Tuahir sacode a cabeça. E fica
cismando. Depois de um tempo, porém, sua voz se abre, em fresta de
riso.
— Certo, Kindzu.
Muidinga, então, se deita ajeitando a
cabeça no colo do velho. Seus olhos se perdem no horizonte. O miúdo
não esperava que Tuahir aceitasse aquele jogo. Agora parece ser ele
que está menos à vontade que o velho.
— Estás a ver o monte, Kindzu?,
pergunta Tuahir.
— Estou. Quem sabe Gaspar anda
por lá, neste momento?
— Não anda, com certeza. Aquele
monte é proibido, disse o velho.
E prosseguiu: aquele era o lugar onde
há muito enterraram o régulo marreco. Naquela altura, não havia
nenhuma elevação, tudo em volta era planície. O morto começou a
crescer debaixo da terra e as suas costas se encurvaram, empurrando o
chão.
— Foi assim que nasceu a
montanha, conclui Tuahir.
Muidinga se embala, entorpecido. À
medida que aquele fingimento avança ele já não sabe se o que ali
se está passando não está ser tirado do livro, como folha rasgada
da própria realidade. Fecha os olhos e vê Tuahir, aliás Taímo, se
banhando num lago de sura. O velho sai do charco, escorrendo vinho
pelas pernas. Se admira:
— Por que estás tão reduzido,
filho?
— É que trago um desgosto de
mulher.
— Isso não tem remédio, filho. Eu
sei muito bem. Porque eu vivi num tempo em que o amor era uma coisa
perigosa. Tu vives num tempo em que o amor é uma coisa estúpida.
E o velho desenrola seu pensamento.
Nosso mundo de então era feito de miséria e fome. O que valia o
amor, a amizade? O único valor, nos actuais dias, é sobreviver.
Muidinga, aliás Kindzu, queria saber da felicidade; os outros
queriam saber de comida. Ele procurava bondade; os outros só queriam
saber quanta vantagem podiam tirar. À medida que Tuahir fala o miúdo
se sente minguar, pequeno, quase sem nenhuma idade. Ele carecia de
sua paterna mão. Porém, ao invés de ajudar, o velho lhe pede
apoio. Estava com frio, solicitou agasalho. O miúdo lhe cobre com
seu corpo. E sente pena de si. Como é que ele, tão menino, tão
recém-recente, andava cuidando de seu pai? Como é que a sua mão,
do tamanho de um beijo, protegia um homem tão volumoso? E lhe cresce
uma grande raiva para com seu pai. Afinal, nunca ele lhe cobrira dos
frios, nunca ele o empurrara para fora da tristeza. Ou seria que
apenas depois da infância ele poderia ser criança?
— Tio, vamos parar esta brincadeira.
Já sinto a cabeça me andar à volta.
— Tio? Então, Kindzu, agora você
me chama de tio? Será que não respeita seu falecido pai?
— Não, pai. É que...
E Muidinga se atrapalha em totais
confusões. É como se qualquer coisa, lá fundo de seu peito, se
estivesse rasgando. E se apercebe que, em seu rosto, desliza o frio
das lágrimas. Depois, sente a mão de seu pai lhe afagando a cabeça.
Olha o seu rosto e vê que, afinal, seus olhos eram sábios. Foi como
se, repente, toda a bondade dele ficasse visível, redonda.
— Pai, por que nunca me mostraste
como eras, dentro de ti?
— Tinha medo, filho. Não podia
mostrar esse defeito e dizer: olha este meu coração que nunca
cresceu!
Seu pai estava ali, grande, sem
mentira. Pela primeira vez alguém lhe dava abrigo. O mundo se
estreava, já não havia escuro, não havia frio. O autocarro
incendiado, Junhito maldiçoado, os corpos carbonizados, as mãos do
pastor Afonso sangrando, tudo isso ficava longe. De repente, o pai se
desata a rir. Por um instante, Muidinga receia que o tio deseje
quebrar aquele fingimento, cansado da ilusão. Mas não, o velho
prossegue a brincriação. E começa a palhaçar, cambalhotando, para
lhe fazer soltar gargalhadas. Cada riso do sobrinho lhe dá o gozo de
se sentir pai. Cada disparate de Tuahir traz a Muidinga a doçura de
ser filho.
— Eu só sei brincar, Kindzu. Só
te posso ensinar a ficares sempre criança.
— Sim, pai. Me ensine.
E eles se rebolam, em folgações
mútuas, alegres tresloucuras. Até que exausto, Muidinga se deita no
banco do machimbombo. Fazendo de almofada, se amontoam os cadernos de
Kindzu. Antes de adormecer o miúdo passa a mão por aquelas folhas,
em cúmplice afago.
Mia Couto, em Terra Sonâmbula
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