28/07/2026

Gilberto Gil | Não Tenho Medo da Morte

 

O impagável Quino

Brecht revisitado

partido: o que partiu rumo ao futuro
mas no caminho esqueceu a razão da partida
(só perdemos a viagem camaradas
não a estrada nem a vida)

José Paulo Paes, em Resíduo

Olhar de criança

Poça D'água (1952), de Maurits Cornelis Escher

O senso comum identifica o “infantil” com o “pueril”. Adulto no qual mora uma criança não é digno de confiança. O ideal é o homem maduro, que abandonou as coisas de criança, que trocou o brinquedo pelo trabalho. A psicanálise concorda: o “infantil” é o regressivo, sintoma neurótico a ser analisado.
Na minha psicanálise, os desejos infantis são desejos eternos e divinos. O infantil não é o regressivo: é o eterno, o que sempre foi, o que sempre será, o objeto da saudade e da nostalgia, o objeto perdido que se espera reencontrar no futuro. É dos desejos infantis que surge a poesia. A criança e o poeta falam a mesma língua.
Lá vão pelo caminho a mãe e a criança, que vai sendo arrastada pelo braço — segurar pelo braço é mais eficiente que segurar pela mão. Vão as duas pelo mesmo caminho, mas não vão pelo mesmo caminho. Pois eu digo que o caminho por que anda a mãe não é o mesmo caminho por que anda a criança. Os olhos da criança vão como borboletas, pulando de coisa em coisa, para cima, para baixo, para os lados, tudo é espantoso, tudo é divertido. Pena que a mãe não veja nada do que a criança vê porque seus olhos desaprenderam a arte de ver como quem brinca, ela tem muita pressa, é preciso chegar, há coisas urgentes a fazer, seu pensamento está nas obrigações de dona de casa, por isso vai dando safanões nervosos na criança... Olhando fixamente para o chão, ela procura as pedras no meio do caminho, não por amor ao Drummond, mas para não dar topadas, e procura também as poças d’água, não porque tenha se comovido com o lindo desenho do Escher de nome Poça d’água, uma poça de água suja na qual se refletem o céu azul e os ramos verdes dos pinheiros; ela procura as poças para não sujar o sapato. A pedra do Drummond e a poça de água suja do Escher os adultos não veem, só as crianças e os artistas.

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

Temas que morrem

Sinto em mim que há tantas coisas sobre o que escrever. Por que não? O que me impede? A exiguidade do tema talvez, que faria com que este se esgotasse em uma palavra, em uma linha. às vezes é o horror de tocar numa palavra que desencadearia milhares de outras, não desejadas, estas. No entanto, o impulso de escrever. O impulso puro — mesmo sem tema. Como se eu tivesse a tela, os pincéis e as cores — e me faltasse o grito de libertação, ou a mudez essencial que é necessária para que se digam certas coisas. Às vezes a minha mudez faz com que eu procure pessoas que, sem elas saberem, me darão a palavra-chave. Mas quem? quem me obriga a escrever? O mistério é esse: ninguém, e no entanto a força me impelindo.
Eu já quis escrever o que se esgotaria em uma linha. Por exemplo, sobre a experiência de ser desorganizada, e de repente a pequena febre de organização que me toma como a de uma antiga formiga. É como se o meu inconsciente coletivo fosse o de uma formiga.
Eu também queria escrever, e seriam duas ou três linhas, sobre quando uma dor física passa. De como o corpo agradecido, ainda arfando, vê a que ponto a alma é também o corpo.
E é como se eu fosse escrever um livro sobre a sensação que tive uma vez que passei vários dias em casa muito gripada — e quando saí fraca pela primeira vez à rua, havia sol cálido e gente na rua. E de como me veio uma exclamação entre infantil e adulta: ah, como os outros são bonitos. É que eu vinha do escuro meu para o claro que também descobria que era meu, é que eu vinha de uma solidão de pessoas para o ser humano que movia pernas e braços e tinha expressões de rosto.
Também seria inesgotável escrever sobre beber mal. Bebo depressa demais, e não há alternativas: ou praticamente adormeço dentro de mim e fico morosa, pensativa, sem que um pensamento se esclareça como descoberta, ou fico excitada dizendo tolices de maior brilho instantâneo. Mas — mas há um instante mínimo nesse estado em que simplesmente sei como é a vida, como eu sou, como os outros são, como a arte deveria ser, como o abstracionismo por mais abstrato não é abstrato. Esse instante só não vale a pena porque esqueço tudo depois, quase na hora. É como se o pacto com Deus fosse este: ver e esquecer, para não ser fulminado pelo saber.
E às vezes, por mais absurdo, acho lícito escrever assim: nunca se inventou nada além de morrer, pois faz parte essencial da natureza humana, animal e vegetal, e também as coisas morrem. E, como se houvesse ligação com essa descoberta, vem a outra óbvia e espantosa: nunca se inventou um modo diferente de amor de corpo que é estranho e cego. Cada um vai naturalmente em direção à reinvenção da cópia, que é absolutamente original quando realmente se ama. E de novo volta o assunto morrer. E vem a ideia de que, depois de morrer, não se vai ao paraíso, morrer é que é o paraíso.
A verdade é que sempre me faltou o dom para a minha verdadeira vocação: a de desenhar. Porque eu poderia, sem finalidade nenhuma, desenhar e pintar um grupo de formigas andando ou paradas — e sentir-me inteiramente realizada nesse trabalho. Ou desenharia linhas e linhas, uma cruzando a outra, e me sentiria toda concreta nessas linhas que os outros talvez chamassem de abstratas.
Eu também poderia escrever um verdadeiro tratado sobre comer, eu que gosto de comer e no entanto não como tanto. Terminaria sendo um tratado sobre a sensualidade, não especificamente a do sexo, mas a sensualidade de “entrar em contato” íntimo com o que existe, pois comer é uma de suas modalidades — e é uma modalidade que engage de algum modo o ser inteiro.
Também escreveria sobre rir do absurdo de minha condição. E ao mesmo tempo mostrar como ela é digna, e usar a palavra digna me faz rir de novo.
Eu falaria sobre frutas e frutos. Mas como quem pintasse com palavras. Aliás, verdadeiramente, escrever não é quase sempre pintar com palavras?
Ah, estou cheia de temas que jamais abordarei. Vivo deles, no entanto.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Cerveja no bar da esquina



Não sei há quantos anos foi, quinze ou vinte. Eu estava sentado em minha casa. Era uma quente noite de verão e eu me sentia embotado.
Saí pela porta e desci a rua. Passara da hora do jantar para a maioria das famílias, e elas se sentavam vendo suas TVs. Fui até o boulevard. Do outro lado da rua tinha um bar de bairro, construção antiga, com um balcão de madeira pintado de verde e branco. Entrei.
Após quase uma vida inteira passada em bares, eu perdera inteiramente o gosto por eles. Quando queria alguma coisa para beber, geralmente pegava numa loja de bebidas, levava para casa e bebia sozinho.
Entrei e encontrei um banquinho distante da turma. Não estava constrangido, apenas me sentia deslocado. Mas se queria sair, não havia nenhum outro lugar aonde ir. Em nossa sociedade, os lugares interessantes, em sua maioria, ou são ilegais ou muito caros.
Pedi uma garrafa de cerveja e acendi um cigarro. Era mais um barzinho de bairro. Todos se conheciam. Contavam piadas pesadas e viam TV. Só havia uma mulher, velha, num vestido preto, peruca ruiva. Tinha uma dúzia de colares e acendia um cigarro atrás do outro. Comecei a desejar estar de volta ao meu quarto, e decidi ir para lá depois de acabar a cerveja.
Entrou um sujeito e pegou o banquinho junto ao meu. Não ergui o olhar, não estava interessado, mas pela voz imaginei que fosse mais ou menos da minha idade. Conheciam-no no bar. O garçom do balcão chamou-o pelo nome e uns dois fregueses o cumprimentaram. Ele ficou sentado junto a mim com sua cerveja por três ou quatro minutos; depois disse:
Oi, como vai?
Vou indo bem.
Novo no bairro?
Não.
Não vi você aqui antes.
Não respondi.
De Los Angeles? – ele perguntou.
Principalmente.
Acha que os Dodgers ganham este ano?
Não.
Não gosta dos Dodgers?
Não.
De quem você gosta?
Ninguém. Não gosto de beisebol.
De que é que gosta?
Boxe. Tourada.
Tourada é cruel.
É, tudo é cruel quando a gente perde.
Mas o touro não tem uma chance.
Nenhum de nós tem.
Você é negativo pra caralho. Acredita em Deus?
Não no seu tipo de deus.
Que tipo?
Não sei ao certo.
Eu vou à igreja desde que me lembro.
Não respondi.
Posso lhe pagar uma cerveja? – ele perguntou.
Claro.
Vieram as cervejas.
Leu os jornais hoje? – ele perguntou.
Li.
Leu sobre as cinquenta meninas que morreram queimadas naquele orfanato de Boston?
Li.
Não foi horrível?
Acho que foi.
Você acha que foi?
É.
Não sabe?
Se eu estivesse lá, acho que teria pesadelos o resto da vida. Mas é diferente quando a gente apenas lê sobre a coisa nos jornais.
Não sente pena das cinquenta meninas que morreram queimadas? Elas se penduravam das janelas gritando.
Acho que foi horrível. Mas a gente vê isso apenas como uma manchete de jornal, uma matéria de jornal. Na verdade não pensei muito nisso. Virei a página.
Quer dizer que não sentiu nada?
Na verdade, não.
Ele ficou um momento calado e tomou um gole de sua cerveja. Depois gritou:
Ei, aqui tem um cara que diz que não sentiu porra nenhuma quando leu sobre aquelas cinquenta órfãs que morreram queimadas em Boston!
Todos olharam para mim. Baixei o olhar para meu cigarro. Fez-se um minuto de silêncio. Então a mulher de peruca vermelha disse:
Se eu fosse homem, chutava a bunda dele por toda a rua acima e abaixo.
Ele também não acredita em Deus! – disse o cara junto a mim. – Odeia beisebol. Adora touradas, e gosta de ver menininhas morrerem queimadas!
Pedi outra cerveja ao garçom, para mim. Ele me empurrou a garrafa com repugnância. Dois rapazes jogavam sinuca. O mais jovem, um garotão grande de camiseta branca, largou o taco e aproximou-se de mim. Ficou atrás de mim enchendo os pulmões de ar, tentando tornar o peito maior.
Isso aqui é um bom bar. A gente não gosta de babacas por aqui, a gente cobre eles de porrada.
Eu o sentia parado às minhas costas. Peguei a garrafa, servi no copo, bebi e acendi um cigarro. A mão perfeitamente firme. Ele ficou ali parado por algum tempo, depois acabou voltando para a mesa de sinuca. O homem sentado a meu lado desceu de seu banquinho e afastou-se.
O filho da puta é negativo – ouvi-o dizer. – Odeia as pessoas.
Se eu fosse homem – disse a mulher de peruca vermelha – fazia ele pedir o penico. Não suporto esses sacanas.
É assim que falam caras tipo Hitler – disse alguém.
Verdadeiros panacas cheios de ódio.
Tomei a cerveja, pedi outra. Os dois caras jovens continuavam jogando sinuca. Algumas pessoas saíram e os comentários sobre mim começaram a morrer, exceto no caso da mulher de peruca vermelha. Ela ficava cada vez mais bêbada.
Canalha, canalha... você é um verdadeiro canalha. Fede como uma fossa! Aposto que odeia seu país também, não odeia? Seu pais, sua mãe e todo mundo mais. Ah, eu conheço vocês! Canalhas, canalhas covardes vulgares.
Acabou saindo lá pela uma e meia da manhã. Um dos garotos que jogavam sinuca saiu. O de camiseta branca sentou-se na ponta do balcão e falou com o cara que tinha pago a cerveja para mim. Às cinco para as duas, eu me levantei devagar e saí.
Ninguém me seguiu. Subi o boulevard, peguei minha rua. As luzes das casas e apartamentos estavam apagadas. Havia uma cerveja na geladeira. Abri e bebi.
Depois tirei a roupa, fui ao banheiro, mijei, escovei os dentes, apaguei a luz, fui para a cama, me deitei e dormi.

Charles Bukowski, em Numa Fria

27/07/2026

Olhai por Nós | Elilson José Batista

Tamam Shod

Ontem chegamos de Teerã. Quinhentos quilômetros de areais, povoados mortos, postos de caravanas em ruínas, as formas caprichosas da meseta iraniana. Estávamos cansados e, excitados. Um banho e um bom chá no Shah Abban, e saímos a caminhar.. Jardins, avenidas, cúpulas, minaretes. Em Isfahan a noite é feérica, o céu é perfeito.
Quando regressamos ao hotel, extenuados e felizes, conversamos até que o sono nos venceu.
Sonhei que no centro da prodigiosa cúpula da mesquita Lutfullah estava escondido um rubi de virtudes mágicas. O judicioso que pára justamente debaixo dele, guarda silêncio e prende a respiração, recebe a visão de um tesouro, assim como a indicação do lugar onde ele se encontra. Sua existência não pode ser definida nem se deve tentar sua posse, pois quem ousar se transforma em madeira, a madeira em nuvem, a nuvem em pedra e a pedra se quebra em mil pedaços. O rubi proporciona deleite ou assombro, mas não autoriza o enriquecimento.
De manha voltamos a Meidan e Shah. Visitamos o palácio Ali Qapu desde seus últimos corredores até a sala de música.
Surpreenderam-me as escadarias com degraus demasiadamente altos e incrivelmente estreitos. Alguém explicou que era para impedir o acesso aos cavalos inimigos.
Enquanto Melania se demorava no terraço que dá para a antiga quadra de pólo (a mais bela praça do mundo), não resisti mais. Cruzei até a Lutfullah, coloquei-me bem debaixo do conjunto da cúpula, fiquei em silêncio e contive a respiração. Uma luz ocre peneirava todos os matizes. Subitamente— meu Deus! — O tesouro era surpreendente, de inúmeras riquezas, perto, fácil de obter, entre as ruínas de um dos antigos mirantes ou pombais, ou casas de prazer fora da cidade. A visão me foi concedida em um segundo interminável de vertiginoso esplendor.
Regressei a Ali Qapu. Percorremos a mesquita das Sextas-Feiras, cruzamos a velha ponte de trinta e tantos arcos...
Terminarei estas notas ou me pulverizarei na pedra?

Roy Bartholomew, em Livro de Sonhos, de Jorge Luis Borges

Lendo nas entrelinhas | Gijs van Vaerenbergh










Fotos: Filip Dujardin


A obra de arte permanente "Lendo nas Entrelinhas" foi concebida como parte de uma exposição de arte no espaço público, organizada pelo museu Z33 de Hasselt. Situada na paisagem pitoresca perto da vila de Borgloon, a estrutura é formalmente baseada no arquétipo da igreja paroquial local. Ela é construída como um empilhamento de camadas horizontais, cada uma formando uma seção transversal horizontal da planta da igreja. Cerca de 2.000 pequenas colunas de sustentação mantêm essas camadas horizontais equidistantes umas das outras. De longe, a aparência leve, quase flutuante, das camadas faz com que a estrutura pareça virtualmente transparente. Com sua estrutura translúcida, a obra de arte surge quase como uma miragem.
À medida que os visitantes se aproximam e circulam a obra de arte, as linhas das camadas horizontais mudam visualmente. A obra parece tornar-se mais sólida, revelando aberturas de janelas bem definidas e uma abóbada no teto.
Ao observar o edifício, automaticamente se observa também a paisagem (tanto no sentido físico quanto cultural). A obra não se destina a um uso específico, mas funciona como um ponto de referência em seu entorno.

ENCOMENDA: Casa Z33 para Arte Contemporânea, Design e Arquitetura.
DATA: 2011 (permanente).
LOCAL: Borgloon (BE). 
Postagem original: https://www.gijsvanvaerenbergh.com/

O fotógrafo

Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre
as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na
pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a Nuvem de calça.
Representou para mim que ela andava na aldeia de
braços com Maiakovski — seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.

Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo 

Do diário em Paris

O diário tem dois títulos: às vezes é “Nautikon”, às vezes “Sozinho a bordo”. Sozinho de verdade, não. Apenas, cada um de nós traz sua parte chão e uma parte oceano?

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

A Morte dos Reis




Existem três atividades intelectuais, e até onde sei apenas três, em que os seres humanos conseguem realizar grandes proezas antes da puberdade. São a música, a matemática e o xadrez. Mozart escreveu composições de inquestionável encanto e competência antes dos oito anos de idade. Aos três anos, Karl Friedrich Gauss realizava cálculos numéricos de razoável complexidade; demonstrou-se matemático prodigiosamente rápido, mas também muito profundo, antes dos dez anos. Com doze anos, Paul Morphy derrotou todos os concorrentes em Nova Orleans — façanha nada pequena numa cidade que, cem anos atrás, contava com vários enxadristas excelentes. Estamos aqui lidando com alguma espécie de elaborado reflexo de imitação, com feitos que estariam ao alcance de autômatos? Ou esses maravilhosos seres em miniatura realmente criam? As Seis sonatas para dois violinos, violoncelo e contrabaixo que Rossini compôs durante o verão de 1804, aos doze anos, têm a visível influência de Haydn e Vivaldi, mas as principais linhas melódicas são de Rossini, e mostram uma bela criatividade. Também aos doze, Pascal parece ter recriado sozinho, por conta própria, os principais axiomas e proposições iniciais da geometria euclidiana. Os primeiros jogos registrados de Capablanca e Alekhine contêm ideias significativas e mostram marcas de estilo pessoal. Nenhuma teoria dos reflexos pavlovianos ou da imitação simiesca explica os fatos. Nos três campos encontramos criação, não raro original e memorável, numa idade fantasticamente precoce.
Há explicação? Procuramos alguma relação genuína entre as três atividades: quais as similaridades entre a música, a matemática e o xadrez? É o tipo de pergunta que deveria ter uma resposta clara — e até consagrada. (A ideia de que realmente existe uma profunda afinidade não é nova.) Mas não se encontra muita coisa além de vagas sugestões e metáforas. A psicologia da criação musical — no que se distingue da mera execução do virtuose — é praticamente inexistente. Apesar de algumas pistas fascinantes dos matemáticos Jules Poincaré e Jacques Hadamard, pouco se sabe sobre os processos de intuição e raciocínio que estão por trás da descoberta matemática. Dr. Fred Reinfeld e mr. Gerald Abrahams escreveram coisas interessantes sobre “a mente enxadrista”, mas sem estabelecer se ela existe e, se existe, no que consistem suas singulares capacidades. Nessas três áreas, a “psicologia” se resume basicamente a episódios anedóticos, entre eles a exibição das crianças-prodígio executando suas proezas de criação e execução.
Ao refletir, dois pontos nos chamam a atenção. É como se as tremendas energias e capacidades mentais de uma combinação intencional, mostradas pelas crianças-prodígio em música, matemática e xadrez, estivessem quase totalmente isoladas, como se explodissem em plena maturidade sem qualquer relação necessária com as características físicas e cerebrais em processo normal de amadurecimento. Um prodígio musical, um pequeno regente ou compositor pode ser, em todos os outros aspectos, uma criança petulante e ignorante como qualquer outra criança normal da mesma idade. Não existe nenhuma indicação sugerindo que o comportamento de Gauss na infância, sua fluência ou sua estabilidade emocional fossem maiores do que a de outros meninos; era um adulto, e mais do que um adulto normal, apenas em relação aos números e à geometria. Qualquer um que já tenha jogado xadrez com algum menino altamente dotado terá percebido a discrepância tremenda, quase escandalosa, entre os estratagemas, a sofisticação analítica de seus movimentos no tabuleiro e seu comportamento pueril na hora em que acaba a partida. Vi um garoto de seis anos de idade fazer uma Defesa Francesa com uma encarniçada perícia e, logo que terminou o jogo, virar um diabinho malcriado e barulhento. Em suma, seja lá o que se passa no cérebro e nas sinapses neuronais de um jovem Mendelssohn, de um Galois, de Bobby Fischer, que sob outros aspectos é apenas um menino levado, parece acontecer à parte, num local essencialmente separado. Ora, ainda que as teorias neurológicas mais recentes estejam mais uma vez invocando a possibilidade de uma localização específica — a ideia, familiar à frenologia setecentista, de que nosso cérebro possui áreas distintas para as distintas habilidades ou potencialidades —, simplesmente não temos os fatos que comprovem. Sem dúvida existem certos centros sensoriais muito evidentes, mas não sabemos se ou como o córtex divide suas múltiplas tarefas. Em todo caso, a imagem do local é sugestiva.
A música, a matemática e o xadrez são, em aspectos vitais, atos dinâmicos de colocação. Elementos simbólicos são dispostos em fileiras dotadas de significado. Alcança-se a solução, seja de uma dissonância, de uma equação algébrica ou de uma posição de impasse, com o reagrupamento, o reordenamento sequencial de unidades e grupos de unidades (notas, números inteiros, torres ou peões). O mestre infantil, como seu correspondente adulto, é capaz de visualizar de maneira instantânea, mas com uma segurança sobrenatural, como a situação deve se afigurar várias jogadas à frente. Ele enxerga o desenvolvimento lógico, harmônico e melódico necessário tal como surge de uma relação tonal inicial ou dos fragmentos preliminares de um tema. Conhece a ordem, a dimensão apropriada da soma ou da figura geométrica antes de dar os passos intermediários. Anuncia o xeque-mate em seis jogadas porque a posição vitoriosa final, a configuração de eficiência máxima de suas peças no tabuleiro, está “ali” de alguma maneira, na visão gráfica, inexplicavelmente clara em sua mente. Em todos esses casos, o mecanismo neuronal do cérebro dá um verdadeiro salto à frente, num “espaço subsequente”. É muito provável que seja uma capacidade neurológica — sentimo-nos tentados a dizer neuroquímica — de extrema especialização, praticamente isolada de outras capacidades mentais e fisiológicas, suscetível a um desenvolvimento de rapidez espantosa. Algum elemento fortuito — uma melodia ou uma progressão harmônica ouvida num piano na sala ao lado, uma fileira de números anotados na lousa de uma loja, os movimentos de abertura numa partida de xadrez numa mesa de bar — aciona uma reação em cadeia numa determinada zona limitada da psique humana. O resultado é uma belíssima monomania.
A música e a matemática estão entre as principais maravilhas da espécie humana. Lévi-Strauss vê na invenção da melodia “uma chave para o mistério supremo” do homem — uma pista, se pudéssemos segui-la, para a estrutura e a natureza singular da espécie. O poder da matemática de conceber ações por razões tão sutis, tão engenhosas e variadas quanto as fornecidas pela experiência sensorial, e de avançar num desdobramento interminável de uma vida que cria a si mesma, é uma das marcas profundas e estranhas que o homem imprime no mundo. O xadrez, por outro lado, é um jogo em que 32 pedacinhos de marfim, de chifre, madeira, metal ou de serragem empastada com graxa de sapato (nos campos de prisioneiros de guerra) são movidos entre 64 quadrados de cores alternadas. Essa descrição, para o aficionado, é uma blasfêmia. As origens do xadrez estão envoltas em brumas controversas, mas é inquestionável que, para muitos seres humanos excepcionalmente inteligentes de todas as raças e séculos, esse antiquíssimo passatempo trivial parece constituir uma realidade, um foco para as emoções, tão substancial e muitas vezes mais substancial do que a própria realidade. As cartas podem vir a significar o mesmo absoluto. Mas o magnetismo delas não é puro. A paixão pelo uíste ou pelo pôquer se prende à magia óbvia e universal do dinheiro. O elemento monetário no xadrez, se e quando existe, é sempre pequeno ou acidental.
Para um autêntico enxadrista, a movimentação de 32 elementos em 8 × 8 quadrados é um fim em si, um mundo inteiro em comparação ao qual o mundo da mera vida biológica, da vida política ou social parece caótico, insípido e contingente. Mesmo o patzer, o pobre diletante que ataca com o peão do cavalo quando o bispo do adversário escapa para R4, sente esse sortilégio demoníaco. Há momentos em que as sereias cantam e criaturastotalmente normais que se ocupam de outras coisas, homens como Lênin ou eu mesmo, sentem vontade de renunciar a tudo, ao casamento, ao financiamento da casa própria, à carreira, à Revolução Russa — para passar os dias e as noites movendo de cá para lá pecinhas entalhadas num tabuleiro quadriculado. À vista das peças, mesmo do jogo mais vagabundo, de plástico e de bolso, os dedos coçam, passa um arrepio pela espinha como num sono leve. Não pelo ganho, não pela fama ou pelo conhecimento, mas numa espécie de enfeitiçamento autista, puro como um dos cânones invertidos de Bach ou uma das fórmulas de Euler para os poliedros. Aí certamente reside uma das conexões reais. Apesar de toda a riqueza de conteúdo, apesar de toda a soma de história e de instituições sociais investidas neles, a música, a matemática e o xadrez são esplendorosamente destituídos de finalidade prática (a matemática aplicada é apenas um serviço de encanador mais refinado, uma espécie de marcha para a banda militar). São metafisicamente triviais, irresponsáveis. Recusam-se a manter relações com o exterior, a tomar a realidade como árbitro. Esta é a fonte de seu sortilégio. Eles nos falam — como faz também um processo similar, mas muito posterior, a arte abstrata — da capacidade única do homem de “construir contra o mundo”, de conceber formas que são bobas, totalmente inúteis, austeramente frívolas. Tais formas não respondem à realidade e, portanto, como nenhuma outra, são invioláveis diante da autoridade banal da morte.
As associações alegóricas entre a morte e o xadrez são perpétuas: nas gravuras medievais, nos afrescos renascentistas, nos filmes de Cocteau e de Bergman. A morte ganha a partida, mas com isso ela se submete, mesmo que apenas por um instante, a regras totalmente exteriores a seu domínio. Os amantes jogam xadrez para deter o avanço inexorável do tempo e expulsar o mundo. Assim, em Deirdre de Yeats:

Sabiam que nada poderia salvá-los,
E então jogaram xadrez como fizeram
Por anos, e aguardaram o golpe da espada.
Jamais soube eu de morte tão distante
De corações comuns, um alto e digno fim.

É este ostracismo da mortalidade comum, esta imersão dos seres humanos numa esfera cristalina, fechada, que o poeta ou o romancista que escolhe como tema o xadrez deve capturar. É preciso tornar psicologicamente plausível o escândalo, o paradoxo da trivialidade de suprema importância. É raro lograr sucesso neste gênero. Master Prim (Little, Brown, 1968), de James Whitfield Ellison, não é um bom romance, mas traz alguns pontos válidos. O narrador Francis Rafael recebe ordens de seu editor de cobrir uma matéria sobre Julian Prim, estrela em ascensão no xadrez americano. De início, o jornalista de meia-idade, assentado na vida, suburbano até o último fio de cabelo, e o mestre enxadrista de dezenove anos de idade não se acertam. Prim é cáustico e arrogante; tem os modos de um cachorrinho de dentes afiados. Mas Rafael já tinha sonhado antigamente em ser enxadrista de competição. Na cena mais tensa do romance, uma série de partidas simultâneas com dez segundos por jogada entre Julian e vários “trouxas” no Gotham Chess Club, o jornalista e o jovem demolidor se encontram no tabuleiro. Rafael quase consegue um empate, e nasce entre os dois adversários “uma espécie de camaradagem de mútuo respeito”. Na página final, Prim ganha o campeonato americano de xadrez e fica noivo da filha de Rafael. O enredo de mr. Ellison tem todos os elementos de um roman à clef. As idiossincrasias e a carreira de Julian podem ter se baseado na vida de Bobby Fischer, cujo antagonismo pessoal e profissional em relação a Samuel Reshévski — conflito incomum devido à sua veemência pública, intensa mesmo no mundo necessariamente competitivo do xadrez — parece ocupar o centro do enredo. Eugene Berlin, o Reshévski de mr. Ellison, é o campeão. Numa partida que fornece o clímax mais do que óbvio, Julian arranca a coroa do odiado oponente. A partida em si, uma abertura com o peão da rainha, embora muito provavelmente tenha se baseado no jogo efetivo do Mestre, não é de grande interesse ou beleza. O tratamento dado à defesa de Berlin é pouco criativo e o avanço de Julian no 22o movimento dificilmente merece a reação entusiástica dada pelo romancista, quem dirá o título de campeão. Figuras e episódios secundários também se baseiam maciçamente em fatos reais; nenhum aficionado deixaria de lembrar os irmãos Sturdivant ou de identificar a ambientação no Gotham Club. Mas mr. Ellison realmente consegue transmitir em certa medida a violência estranha, silenciosa, gerada pelo xadrez. Derrotar outro ser humano no xadrez é humilhá-lo nas próprias raízes de sua inteligência; derrotá-lo com facilidade é deixá-lo estranhamente despido. Numa noitada em Manhattan, regada a álcool, Julian joga com Bryan Pleasant, o astro inglês de cinema, dando-lhe um cavalo de vantagem, a um dólar a partida. Ganha ininterruptamente, o dobro ou nada, sua “rainha aparecendo e fustigando o inimigo como uma grande fera ensandecida”. Numa exibição vingativa de virtuosismo, Julian reduz cada vez mais o tempo de suas jogadas. De súbito ele se sente estarrecido com a selvageria desenfreada do próprio talento: “É como uma doença. […] Ela acomete feito uma febre e a gente perde qualquer noção das coisas. […] Quer dizer, quem você pode derrotar em quinze segundos? Nem que você fosse Deus. E não sou Deus. É idiota precisar dizer isso, mas às vezes preciso”.
Que o xadrez pode ser um íntimo aliado da loucura é o tema da famosa Schachnovelle, de Stefan Zweig, publicada em 1941, traduzida para o inglês como The Royal Game [em português, Xadrez]. O Campeão Mundial Mirko Czentovic está a bordo de um luxuoso transatlântico com destino a Buenos Aires. Por 250 dólares a partida, ele concorda em jogar com um grupo de passageiros. Derrota o esforço conjugado deles com uma facilidade desdenhosa e exasperante. De repente, um passageiro misterioso vem ajudar os diletantes desacorçoados. Czentovic é levado ao embate. O rival é um médico vienense que foi preso pela Gestapo, e ficou confinado numa solitária. O único vínculo do prisioneiro com o mundo exterior era um velho livro de xadrez (uma interessante inversão simbólica do papel usual do xadrez). Dr. B. decora as 150 partidas do livro, repetindo-as mentalmente um milhar de vezes. Nesse processo, ele dividiu seu ego em branco e preto. Conhecendo cada partida tão absurdamente bem, desenvolveu uma velocidade inacreditável no jogo mental. Ele sabe a resposta das pretas antes que as brancas tenham jogado. O Campeão Mundial condescende em jogar mais uma rodada. O estrangeiro assombroso o derrota na primeira partida. Czentovic diminui a rapidez do jogo. Alucinado com o que lhe parece uma demora insuportável e com uma sensação avassaladora de déjà vu, dr. B. sente se aproximar a esquizofrenia e sucumbe no meio de mais uma partida brilhante. Essa fábula macabra, na qual Zweig transmite a impressão de um genuíno jogo de mestres ao sugerir a configuração de cada partida em vez de especificar os movimentos, destaca o elemento esquizoide do xadrez. Estudando aberturas e finais, repetindo as jogadas dos mestres, o enxadrista é ao mesmo tempo as brancas e as pretas. No jogo real, a mão em suspenso no outro lado do tabuleiro é, em certa medida, sua própria mão. Ele se encontra, por assim dizer, dentro do cérebro do adversário, vendo-se como o inimigo do momento, aparando seus próprios golpes e imediatamente voltando a si mesmo para buscar um lance de contragolpe. Num jogo de baralho, as cartas do adversário estão ocultas; no xadrez, as peças dele estão sempre abertas diante de nós, convidando-nos a enxergar as coisas pelo lado delas. Assim, em todo mate existe literalmente um toque do chamado suimate, ou “automate” — uma espécie de problema de xadrez em que o jogador deve mover suas peças para pôr a si mesmo em xeque-mate. Numa partida séria entre jogadores de nível equivalente, somos derrotados e ao mesmo tempo derrotamos a nós mesmos. Daí o gosto de cinzas na boca.
[…]

George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos

26/07/2026

Taiguara | Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara (1976)

Fomes

Diz-se de quem come de tudo que “come como um animal”, o que é uma injustiça. Nenhum outro animal é omnívoro como o homem. Estamos no topo da cadeia alimentar entre os bichos de sangue quente e somos da categoria dos predadores, definida pela posição e a função dos olhos. Somos caçadores, e bons caçadores, e comemos de tudo, da baleia ao escargot.
Já éramos bons caçadores mesmo antes de inventar o arco e a flecha e a mira telescópica com sensor infravermelho. Mas nossa vocação predatória nos deixou mal-equipados como presas. Nascemos com binóculos estereoscópicos na cabeça mas não temos a visão periférica que ajuda outras espécies a sobreviverem à sua condição de presas. A ausência de olhos nas têmporas, por exemplo, está na origem de toda a nossa literatura de terror. Se o homem tivesse olho na nuca, 50% da sua angústia existencial desapareceria e Stephen King hoje seria um homem pobre. Mas nunca sabemos que outro predador se aproxima pelas nossas costas.
Temos o sentimento de presas sem seu instrumental de defesa. Somos reféns da nossa visão especializada, tememos tudo que nossos olhos de caçador não podem captar com nitidez na sua mira: vultos, sombras, fantasmas, premonições, ruídos no escuro, sensações de culpa. Ao contrário de outros animais predatórios, sentimos culpa. Temos remorso. A palavra “remorso” quer dizer, mais ou menos, comer de volta. Outras espécies são autofágicas, mas só o homem desconfia que seu semelhante engolido pode começar a mordê-lo por dentro, por vingança.
Tememos a retribuição pela nossa omnivoracidade. Os mortos que voltam do túmulo para nos aterrorizar são como restos de comida – ossos à mostra, carnes putrefatas. Só um inato senso do ridículo impediu até agora que alguém inventasse a suprema história de terror, a de um homem perseguido pelos espíritos de tudo que já comeu na vida, desde a primeira galinha. Inclusive os vegetais.
Nosso passado de canibais nos persegue. Aquela senhora que reage à rechonchudez de um bebê dizendo que ele é tão lindo que “dá vontade de comer” só está expressando esta verdade atávica, que tudo que nos agrada é apetitoso, que no fim todo desejo é uma vontade de comer. Comida e sexo se confundem na nossa linguagem desde que ela existe, e não apenas porque a ingestão e a eliminação da comida e a atividade erótica usam as mesmas vias, ou pelos menos vias paralelas.
E nem apenas pela analogia de formas: “vagem” vem do latim “vagina”; baunilha se chama assim porque os espanhóis acharam que aquela vagem consumida pelo astecas se parecia com uma “vainilla”, diminutivo de “vaina”, ou bainha, que também vem de “vagina”; “fica”, ou figo, em italiano é o apelido da vulva; “penne”, aquele espaguete curto e grosso, vem de pênis mesmo. Etc..., etc. Mas não é só isto. Comer é uma forma extrema de possuir o que queremos, seja o fígado ou a coragem do inimigo, o sangue redentor do deus ou a carne da pessoa amada. Fazemos tudo isso no sentido figurado porque, afinal, civilização é isso, é a domesticação dos nossos apetites, mas na nossa linguagem ainda somos predadores e comemos todas as nossas presas. Pezinhos de bebê incluídos.
Ou isto, ou a dieta está me fazendo delirar.

Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora

Calvin

Diário de Bernardo Soares

238.

Nenhum prémio certo tem a virtude, nenhum castigo certo o pecado. Nem seria justo que houvesse tal prémio ou tal castigo. Virtude ou pecado são manifestações inevitáveis de organismos condenados a um ou a outro, servindo a pena de serem bons ou a pena de serem maus. Por isso todas as religiões colocam as recompensas e os castigos, merecidos por quem, nada sendo nem podendo, nada pôde merecer, em outros mundos, de que nenhuma ciência pode dar notícia, de que nenhuma fé pode transmitir a visão.
Abdiquemos, pois, de toda a crença sincera, como de toda a preocupação de influir em outrem.
A vida, disse Tarde, é a busca do impossível através do inútil.
Busquemos sempre o impossível, porque tal é o nosso fado; busquemo-lo através do inútil, porque não passa caminho por outro ponto; ascendamos, porém, à consciência de que nada buscamos que possa obter-se, de que por nada passamos que mereça um carinho ou uma saudade.
Cansamo-nos de tudo, exceto de compreender, disse o escoliasta.
Compreendamos, compreendamos sempre, e façamos por tecer astuciosamente capelas ou grinaldas que hão de murchar também, as flores espectrais dessa compreensão.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

O Homem que Calculava


27. No qual um sábio historiador interroga Beremiz. O geômetra que não podia olhar para o céu. A Matemática na Grécia. Elogio de Eratóstenes.

Solucionado o primeiro caso com todas as suas minúcias, o segundo sábio foi convidado a interrogar Beremiz. Esse ulemá era um historiador famoso: lecionara, durante vinte anos, em Córdova, e, mais tarde, por questões políticas, transferira-se para o Cairo, onde passou a residir sob a proteção do califa. Era um homem baixo, cujo rosto bronzeado parecia emoldurado por uma barba elíptica. Tinha os olhos nevoados, mortiços.
Eis como o sábio historiador se dirigiu ao calculista:
Em nome de Alá, Clemente e Misericordioso! Enganam-se aqueles que apreciam o valor de um matemático pela maior ou menor habilidade com que efetua as operações e aplica as regras banais do cálculo! A meu ver, o verdadeiro geômetra é o que conhece, com absoluta segurança, o desenvolvimento e o progresso da Matemática através dos séculos. Estudar a História da Matemática é prestar homenagem aos engenhos maravilhosos que enalteceram e dignificaram as antigas civilizações, e que, pelo labor e pelo seu gênio, puderam desvendar alguns dos mistérios profundos da imensa natureza, conseguindo, pela ciência, elevar e melhorar a miserável condição humana. Cumpre-nos ainda, pelas páginas da História, honrar os gloriosos antepassados que trabalharam para a formação da matemática e apontar as obras que deixaram. Quero, pois, ó Calculista, interrogar-vos sobre um fato interessante da História da Matemática: “Qual foi o geômetra célebre que se suicidou de desgosto por não poder olhar para o céu?”
Beremiz susteve-se instantes e exclamou de golpe:
Foi Eratóstenes, matemático oriundo da Cirenaica e educado, a princípio, em Alexandria e, mais tarde, na Escola de Atenas. Onde aprendeu as doutrinas de Platão!
E, completando a resposta, prosseguiu:
Eratóstenes foi escolhido para dirigir a grande biblioteca da Universidade de Alexandria, cargo que exerceu até o termo de seus dias. Além de possuir invejáveis conhecimentos científicos e literários que o distinguiram entre os maiores sábios de seu tempo, era Eratóstenes poeta, orador, filósofo e — ainda mais — atleta completo. Basta dizer que conquistou o título excepcional de vencedor do pentatlo, as cinco provas máximas dos jogos olímpicos. A Grécia achava-se, nesse tempo, no período áureo de seu desenvolvimento científico e literário. Era a pátria dos aedos, poetas que declamavam, com acompanhamento musical, nas refeições e nas reuniões dos reis e dos chefes.
Não seria prolixidade dizer que entre os gregos de maior cultura e valor, era o sábio Eratóstenes considerado como o homem extraordinário que atirava o dardo,escrevia poemas, vencia os grandes corredores e resolvia problema de Astronomia. Eratóstenes legou à posteridade várias obras. Ao rei Ptolomeu III, do Egito, apresentou uma tábua de números primos feitos sobre uma prancha metálica, na qual os números múltiplos eram marcados por um pequeno furo. Deu-se, por isso, o nome de “Crivo de Eratóstenes” ao processo de que se utilizara o astrônomo grego para formar sua tábua. Em consequência de uma oftalmia, adquirida nas margens do Nilo, durante uma viagem, Eratóstenes ficou cego. Ele, que cultivava a Astronomia, achava-se impedido de olhar para o céu e de admirar a beleza incomparável do firmamento nas noites estreladas. A luz azulada de Al-Schira(1) jamais poderia vencer aquela nuvem negra que lhe encobria os olhos. Esmagado por tão grande desgraça e não podendo resistir aos desgostos que lhe causava a cegueira, o sábio e atleta suicidou-se, deixando-se morrer de fome, fechado em sua biblioteca!
O sábio historiador dos olhos mortiços voltou-se para o califa e declarou, depois de rápido silêncio.
Considero-me plenamente satisfeito com a brilhante exposição histórica feita pelo jovem calculista persa. O único geômetra célebre levado ao suicídio foi, realmente, o grego Eratóstenes, poeta, astrônomo e atleta, amigo fraterno do famosíssimo Arquimedes de Siracusa. Iallah!(2)
Pela beleza de Selsebit!(3) — exclamou o califa com entusiasmo. — Quanta coisa acabo de aprender! Esse grego notável que estudava os astros, escrevia poemas e cultivava o atletismo, merece a nossa sincera admiração. De hoje em diante, sempre que olhar para o céu, em noite estrelada, e avistar a incomparável Al-Schira, pensarei no fim trágico desse sábio geômetra que foi escrever o poema de sua morte no meio de um tesouro de livros que ele já não podia ler!
E pousando, com extrema cortesia, a sua mão larga sobre o ombro do príncipe, ajuntou com cativante naturalidade:
Vamos ver, agora, se o terceiro arguidor conseguirá vencer o nosso calculista!

Notas:
(1) Sirius. Alfa do Cão Maior. A estrela mais brilhante do céu. A Estrela Polar é denominada Dsjudde. (Nota de Malba Tahan.)
(2) Deus seja louvado.
(3) Fonte do Paraíso. Citada no Alcorão.

Malba Tahan, em O Homem que Calculava

25/07/2026

Aos pés da letra, de Gregorio Duvivier

Os dançarinos do arame

Dentro das atuais coordenadas do espaço e do tempo, aqui nos vamos equilibrando sobre este fio de vida...
Que rede de segurança, pensamos nós, cheios de esperança e medo, que rede de segurança nos aparará?

Mário Quintana, em Caderno H

1631 – Guatemala Antiga




Uma tarde de música no convento da Conceição

No jardim do convento, Juana canta e tange o alaúde. Luz verde, troncos verdes, verde brisa: estava morto o ar até que ela o tocou com as palavras e a música.
Juana é filha do juiz Maldonado, que distribui os índios da Guatemala em lavouras, minas e oficinas. De mil ducados foi o seu dote para o casamento com Jesus, e no convento seis escravas negras a servem. Enquanto Juana canta letras próprias ou alheias, as escravas, paradas à distância, escutam e esperam.
O bispo, sentado na frente da monja, não pode conter as caretas. Olha a cabeça de Juana inclinada sobre o mastro do alaúde, o pescoço nu, a boca que se abre, iluminada, e dá a si mesmo a ordem de ficar quieto. Tem fama de jamais mudar de expressão quando dá beijos ou os pêsames, mas agora franze essa cara imutável: sua boca se torce e batem asas, rebeldes, as suas pálpebras. Seu pulso firme parece alheio a essa mão que segura, trêmula, um cálice.
As melodias, alabanças a Deus ou melancolias profanas, se elevam na folhagem. Longe, ergue-se o verde vulcão de água e o bispo gostaria de concentrar-se naquelas plantações de milho e trigo e nos mananciais que brilham na ladeira.
O vulcão tem a água presa. Quem se aproxima escuta fervores de marmita. A última vez que vomitou, faz menos de um século, afogou a cidade que Pedro de Alvarado tinha fundado aos seus pés. Aqui, a cada verão treme a terra, prometendo fúrias; e vive a cidade em pânico, entre dois vulcões que cortam a sua respiração. Este a ameaça com o dilúvio. O outro, com o inferno.
Nas costas do bispo, frente ao vulcão de água, ergue-se o vulcão de fogo. As chamas que aparecem pela boca permitem ler cartas a uma légua, em plena noite. De tempos em tempos soa um troar de canhões e o vulcão bombardeia o mundo a pedradas: dispara pedras tão grandes que não as moveriam vinte mulas e enche o céu de cinza e o ar de um enxofre que fede.
Voa a voz da moça.
O bispo olha para o chão, querendo contar formigas, mas seus olhos deslizam até os pés de Juana, que os sapatos ocultam e delatam, e o olhar percorre este corpo bem lavrado que palpita debaixo do hábito branco, enquanto a memória desperta de repente e viaja até a infância. O bispo recorda aquelas vontades que sentia, incontíveis, de morder a hóstia em plena missa, e o pânico de que a hóstia sangrasse; e depois navega por um mar de palavras não ditas e cartas não escritas e sonhos não contados.
De tanto calar, o silêncio soa. O bispo percebe de repente que faz um bom tempo que Juana deixou de cantar e tocar. O alaúde repousa sobre seus joelhos e olha para o bispo, sorrindo muito, com esses olhos que nem ela merece ter. Uma auréola verde flutua ao redor.
O bispo sofre um ataque de tosse. O anis cai no chão e suas mãos ficam com bolhas-d’água de tanto aplaudir.
Farei de ti superiora! – geme. – Farei de ti abadessa!

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos