21/10/2026

Criolo | Não Existe Amor em SP

 

10 Paezinhos

 

Vintém de Cobre (Freudiana)

Eu vestia um antigo mandrião
de uma saia velha de minha bisavó.
Eu vestia um timão feio
de pedaços, de restos de baeta.

Vintém de cobre:
ainda o vejo
ainda o sinto
ainda o tenho
na mão fechada.

Vintém de cobre:
dinheiro antigo.
Moeda escura,
recolhida, desusada.
Feia, triste, pesada.

Corenta. Vintém. Derréis.
Dinheiro curto, escasso.
Parco. Parcimonioso
de gente pobre,
da minha terra,
da minha casa,
da minha infância.

Vintém de cobre:
Economia. Poupança.
A casa pobre.

Mandrião de saias velhas.
Timão de restos de baeta.
Colchas de retalhos desbotados.
Panos grosseiros, encardidos, remendados.
Vida sedentária.
Velhos preconceitos.
Orgulho e grandeza do passado.

Pé­-de­-meia sempre vazio.
E o sonho de ajuntar.
Melhorar de vida, prosperar,
num esforço inútil e tardio.

Corenta, vintém, derréis...
Eu ajuntando.
Mudando de caixinha, mudando de lugar.
Diziam, caçoando, as meninas da escola:
“– Muda de lugar que ele aumenta...”
Eu acreditava.
Guardava cinquinho a cinquinho
na esperança irrealizada
de inteirar quinhentos réis.
Fui criança do tempo do cinquinho,
do tempo do vintém.
Do antigo mandrião
de saias velhas da vovó.
De cobertas de retalho,
de panos grosseiros encardidos,
remendados.
De velhos preconceitos
– orgulho e grandeza do passado.
Opulência. Posição social.
Sesmarias. Escravatura.
Caixas de lavrado.

Parentes emproados.
Brigadeiros. Comendadores,
visitando a Corte,
recebidos no Paço.
Decadência...
Tempos anacrônicos, superados.

Fui menina do tempo do vintém.
Do timão de restos de baeta.
Fiquei sempre no tempo do cinquinho.

No tempo dos adágios que os velhos
sentenciavam
enfáticos e solenes:
“– Quem nasce pra derréis não chega a vintém”.
Pessimismo recalcando
aquele que pensava evoluir.
“Vintém poupado, vintém ganhado.”
Estatuto econômico. Mote gravado
no corpo de algumas emissões.
“Na pataca da miséria o diabo tem sempre um vintém.”
Isto se dizia, quando moça pobre se perdia.
“Quem compra o extraordinário
vê­-se obrigado a vender o necessário.”
Doía... impressionava.
Era a Sabedoria que falava.

E a gente sentia até uma lagrimazinha de remorso
no canto do olho.
E se via mesmo de trouxinha na cabeça,
andando de déu em déu,
perseguida dos credores.
A casinha penhorada.
Os trenzinhos dados à praça.
Tudo irrecuperado, perdido,
porque tinha comprado o extraordinário:
um vestido de chita cor­-de­-rosa
pintadinho de azul.

O tempo foi passando, foi levando:
minha bisavó, meu avô, minha mãe, minhas irmãs.
A velha casa.
Os velhos preconceitos
de cor, de classe, de família.
O tempo, velho tempo que passou,
nivelou muros e monturos.
Remarcou dentro de mim
a menina magricela, amarela,
inassimilada,
do tempo do cinquinho.

Eu tinha um timão de restos de baeta.
Eu tinha um mandrião de uma saia velha
de minha bisavó.

Vintém de cobre:
Ainda o vejo
ainda o sinto
ainda o tenho
na mão fechada.
Moeda triste,
escura, pesada,
da minha infância,
da casa pobre.

Cora Coralina, em Poemas dos becos de Goiás e estórias mais

Candeia




Oito pessoas feitas de fé: três homens, duas mulheres, três crianças. Todos usando a túnica marrom de pano grosso exatamente igual à que são Francisco usava — eles tinham o direito de acreditar nisso. Surrão amarrado na cintura, algumas provisões. Poucas: eram sacos murchos no fim da jornada, pois dali já se enxergava a imagem de são Francisco de Canindé, marrom, gigantesco, de mãos espalmadas.
Andavam devagar. O homem mais jovem de joelhos, os outros ao redor, por perto. As crianças menores iam nos braços, a maior ia a pé e aceitava a penitência, talvez sem saber que ainda não devia nada a santo algum. Balbuciavam o tempo todo, não deixavam de rezar, o santo estava ouvindo. Caminhavam para que os visse, olhasse para o seu sacrifício e fosse benevolente com os pedidos que carregavam.
Não demorou para que percebessem o rapaz seminu e solitário do outro lado da estrada. Uma das mulheres se apressou a tirar do saco de pano uma garrafa de água, um trapo, um vidro com álcool, um pedaço de pão seco. Estavam ali para ajudar como são Francisco ajudou. Junto com o outro homem, o seu marido, correu para cuidar do suposto jovem romeiro. Quanto mais perto, mais doía o seu estado de miséria.
— Não vai te faltar caridade, irmão, são Francisco está te vendo! — disse a mulher, com fé e prontidão.
Samuel tomou a garrafa, bebeu a água com desespero, deixando cair pelos cantos da boca, pescoço, pelo peito.
— São Francisco vai te dar força, irmão! Você vai anoitecer nas bênçãos dele — disse o homem, sorrindo.
— Não sou romeiro, não, senhor — disse o hálito podre de Samuel, com algum deboche. — Só queria saber se Candeia ainda tá longe, mas se tiverem mais comida, também fico agradecido.
A mulher foi tomada de fúria. Não era romeiro, era um moleque malandro qualquer, um ladrão, estuprador, assassino, salafrário… Coisa boa não poderia ser. Um rapaz de bem não anda imundo pela estrada nem responde daquela maneira à caridade de quem tenta diminuir seu flagelo. Era uma mulher que partia, em segundos, de um extremo a outro da sua escala particular de análise do caráter alheio. Jogou o pão seco no chão e atravessou a pista de volta para os seus. O romeiro que ia com ela ainda ficou, sabia um pouco mais da vida e sobre a paciência com as fraquezas humanas. Já vira muita gente de bem enlouquecer na Estrada das Chagas, isso sempre foi comum. Naqueles anos de romaria vira de tudo no caminho e teve piedade, porque às vezes nem Deus livra o homem de enlouquecer. O demônio é artista. Poucos escapam dos enganos do Satanás.
Apontou a estátua de são Francisco e mostrou para Samuel o quanto já estava perto de chegar aos pés do santo.
— Ao menos pintaram a roupa desse desinfeliz — debochou. — O padre Cícero parece alma do outro mundo, todo branco. Candeia fica desse lado da pista, depois de Canindé. Vá com Deus, irmão.
Samuel não respondeu nada. O romeiro sorriu, muito levemente. Seu olhar dizia alguma coisa, talvez uma ou duas palavras de fé e força.
Samuel sentia-se muito mais forte depois de beber água e encontrar o homem, que ainda o observava do outro lado da pista. Acelerou o passo e constatou que estava mesmo perto de Candeia, agora sabia. Para isso o homem serviu, ele pensou. Já avistava algumas casas ao longe, à direita. Olhou o papel no bolso: “Niceia Rocha Vale, Manoel Vale, rua da Matriz, 52”.

Socorro Acioli, em A cabeça do santo

Três Corações

 


“Vamos mudar para Três Corações”, disse o pai. Os negócios estavam melhorando. Três Corações era entroncamento ferroviário. Facilitava a vida de um viajante de caderneta quilométrica, boné e guarda-pó.

Em Três Corações passava o rio Verde.
Em Três Corações estavam soldados que andavam a cavalo...

Lembro-me do meu pai, assentado à escrivaninha, fazendo um inventário da sua riqueza: a Encyclopaedia e Diccionario Internacional, a Biblioteca Internacional de Obras Célebres, dois quadros a óleo, sem moldura, um navio a velas em meio a um mar agitado, um veado galheiro soltando vapor pelas narinas, o atlas francês, uma máquina de escrever Smith-Corona portátil, um relógio de bolso, de ouro. Nada mais.
Minha mãe vivia na tristeza. Saudades do sobrado. Eu não tinha um passado de riqueza para comparar com o presente de pobreza. Por isso era feliz na pobreza. Acho que foi a sua memória do sobrado que fez com que ela nunca reconhecesse a casa onde morávamos como a sua casa. Quando ela dizia “lá em casa” era ao sobrado que ela estava se referindo. Ela vivia com saudades do sobrado. Daí a sua depressão.
Os deprimidos querem dormir. No sono não há tristeza. Minha mãe ia cedo para a cama. Se pudesse dormiria sempre. Mas eu e o Ivan, meu irmão, estávamos alegres. Não queríamos dormir. Íamos para a cozinha para um “concerto” de leitura: a Astolfina nos lia, soletrando, as Histórias do arco da velha. O suspense era máximo e nos arrepiávamos de terror quando ela lia que o herói, dentro de um quarto, ouvia uma voz lúgubre que dizia: “Eu caio, eu caio...”. Ao que ele, sem se perturbar, respondia: “Pois caia com Deus...”. E uma perna caía. E ia assim, a cada “eu caio, eu caio”, caíam braços, mãos, pernas, pés, cabeça, até que o corpo inteiro estava deitado no chão. Íamos para a cama com medo de que pernas nos caíssem na cabeça.
Na cama ouvíamos o relógio da matriz tocar oito badaladas. Eu ainda vivia o tempo da roça. Valia que já o sol se pusera, a noite chegara e as galinhas estavam dormindo nos poleiros. Noite profunda, a cidade adormecida, todos nas suas camas, as ruas vazias, os monstros da noite correndo soltos pela cidade, tal como acontecia na roça.
A Tofa fazia bonecas de pano para mim. Eu gostava de brincar com bonecas. Mais tarde os homens me disseram que era vergonhoso para um menino brincar com bonecas: “Quem brinca com boneca são as meninas”. Troquei então as bonecas por um ursinho. Com ursinhos os meninos podem brincar. Não é vergonhoso.

Rubem Alves, em O Velho que Acordou Menino

Faz de conta

Faz de conta que ela era uma princesa azul pelo crepúsculo que viria, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que sangue escarlate não estava em silêncio branco escorrendo e que ela não estivesse pálida de morte, estava pálida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz de conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz de conta verde cintilante de olhos que veem, faz de conta que ela amava e era amada, faz de conta que não precisava morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente da mão de Deus, faz de conta que vivia e não que estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, faz de conta que ela não ficava de braços caídos quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio, faz de conta que era sábia bastante para desfazer os nós de marinheiro que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua, faz de conta que ela fechasse os olhos e os seres amados surgissem quando abrisse os olhos úmidos da gratidão mais límpida, faz de conta que tudo o que tinha não era de faz de conta, faz de conta que se descontraíra o peito e a luz dourada a guiava pela floresta de açudes e tranquilidades, faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando.

Clarice Lispector, em Todos as crônicas

20/10/2026

Little Thing N. 5 (Instrumental) | Elilson José Batista

 

O impagável Quino

 

Ítaca

Se partires um dia rumo à Ítaca
Faz votos de que o caminho seja longo
Repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem lestrigões, nem ciclopes,
Nem o colérico Poseidon te intimidem!
Eles no teu caminho jamais encontrarás
Se altivo for teu pensamento
Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes
Nem o bravio Poseidon hás de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
Nas quais com que prazer, com que alegria
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto
Para correr as lojas dos fenícios
E belas mercancias adquirir. Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos
E perfumes sensuais de toda espécie
Quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrinas
Para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas, não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
E fundeares na ilha velho enfim.
Rico de quanto ganhaste no caminho
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu
Se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência.
E, agora, sabes o que significam Ítacas.

Konstantinos Kavafis (Tradução de José Paulo Paes), em Pequeno Compêndio de Poemas Luminosos

Via Crucis




Maria das Dores se assustou. Mas se assustou de fato.
Começou pela menstruação que não veio. Isso a surpreendeu porque ela era muito regular.
Passaram-se mais de dois meses e nada. Foi a uma ginecologista. Esta diagnosticou uma evidente gravidez.
– Não pode ser! gritou Maria das Dores.
– Por quê? a senhora não é casada?
– Sou, mas sou virgem, meu marido nunca me tocou. Primeiro porque ele é homem paciente, segundo porque já é meio impotente.
A ginecologista tentou argumentar:
– Quem sabe se a senhora em alguma noite...
– Nunca! mas nunca mesmo!
– Então, concluiu a ginecologista, não sei como explicar. A senhora já está no fim do terceiro mês.
Maria das Dores saiu do consultório toda tonta. Teve que parar num restaurante e tomar um café. Para conseguir entender.
O que é que estava lhe acontecendo? Grande angústia tomou-a. Mas saiu do restaurante mais calma.
Na rua, de volta para casa, comprou um casaquinho para o bebê. Azul, pois tinha certeza que seria menino. Que nome lhe daria? Só podia lhe dar um nome: Jesus.
Em casa encontrou o marido lendo jornal e de chinelos. Contou-lhe o que acontecia. O homem se assustou:
– Então eu sou São José?
– É, foi a resposta lacônica.
Caíram ambos em grande meditação.
Maria das Dores mandou a empregada comprar as vitaminas que a ginecologista receitara. Eram para o benefício de seu filho.
Filho divino. Ela fora escolhida por Deus para dar ao mundo o novo Messias.
Comprou o berço azul. Começou a tricotar casaquinhos e a fazer fraldas macias.
Enquanto isso a barriga crescia. O feto era dinâmico: dava-lhe violentos pontapés. Às vezes ela chamava São José para pôr a mão na sua barriga e sentir o filho vivendo com força.
São José então ficava com os olhos molhados de lágrimas. Tratava-se de um Jesus vigoroso. Ela se sentia toda iluminada.
A uma amiga mais íntima Maria das Dores contou a história abismante. A amiga também se assustou:
– Maria das Dores, mas que destino privilegiado você tem!
– Privilegiado, sim, suspirou Maria das Dores. Mas que posso fazer para que meu filho não siga a via crucis?
– Reze, aconselhou a amiga, reze muito.
E Maria das Dores começou a acreditar em milagres. Uma vez julgou ver de pé ao seu lado a Virgem Maria que lhe sorria. Outra vez ela mesma fez o milagre: o marido estava com uma ferida aberta na perna, Maria das Dores beijou a ferida. No dia seguinte nem marca havia.
Fazia frio, era mês de julho. Em outubro nasceria a criança.
Mas onde encontrar um estábulo? Só se fosse para uma fazenda do interior de Minas Gerais. Então resolveu ir à fazenda da tia Mininha.
O que a preocupava é que a criança não nasceria em vinte e cinco de dezembro.
Ia à igreja todos os dias e, mesmo barriguda, ficava horas ajoelhada. Como madrinha do filho escolhera a Virgem Maria. E para padrinho o Cristo.
E assim foi se passando o tempo. Maria das Dores engordara brutalmente e tinha desejos estranhos. Como o de comer uvas geladas. São José foi com ela para a fazenda. E lá fazia seus trabalhos de marcenaria.
Um dia Maria das Dores empanturrou-se demais – vomitou muito e chorou. E pensou: começou a via crucis de meu sagrado filho.
Mas parecia-lhe que se desse à criança o nome de Jesus, ele seria, quando homem, crucificado. Era melhor dar-lhe o nome de Emmanuel. Nome simples. Nome bom.
Esperava Emmanuel sentada debaixo de uma jabuticabeira. E pensava:
Quando chegar a hora, não vou gritar, vou só dizer: ai Jesus!
E comia jabuticabas. Empanturrava-se a mãe de Jesus.
A tia – a par de tudo – preparava o quarto com cortinas azuis. O estábulo estava ali, com seu cheiro bom de estrume e suas vacas.
De noite Maria das Dores olhava para o céu estrelado à procura da estrela-guia. Quem seriam os três reis magos? quem lhe traria incenso e mirra?
Dava longos passeios porque a médica lhe recomendara caminhar muito. São José deixara crescer a barba grisalha e os longos cabelos chegavam-lhe aos ombros.
Era difícil esperar. O tempo não passava. A tia fazia-lhes, para o café da manhã, brevidades que se desmanchavam na boca. E o frio deixava-lhes as mãos vermelhas e duras.
De noite acendiam a lareira e ficavam sentados ali a se esquentarem. São José arranjava para si um cajado. E, como não mudava de roupa, tinha um cheiro sufocante. Sua túnica era de estopa. Ele tomava vinho junto da lareira. Maria das Dores tomava grosso leite branco, com o terço na mão.
De manhã bem cedo ia espiar as vacas no estábulo. As vacas mugiam. Maria das Dores sorria-lhes. Todos humildes: vacas e mulher. Maria das Dores a ponto de chorar. Ajeitava as palhas no chão, preparando lugar onde se deitar quando chegasse a hora. A hora da iluminação.
São José, com seu cajado, ia meditar na montanha. A tia preparava lombinho de porco e todos comiam danadamente. E a criança nada de nascer.
Até que numa noite, às três horas da madrugada, Maria das Dores sentiu a primeira dor. Acendeu a lamparina, acordou São José, acordou a tia. Vestiram-se. E com um archote iluminando-lhes o caminho, dirigiram-se através das árvores para o estábulo. Uma grossa estrela faiscava no céu negro.
As vacas, acordadas, ficaram inquietas, começaram a mugir.
Daí a pouco nova dor. Maria das Dores mordeu a própria mão para não gritar. E não amanhecia.
São José tremia de frio. Maria das Dores, deitada na palha, sob um cobertor, aguardava.
Então veio uma dor forte demais. Ai Jesus, gemeu Maria das Dores. Ai Jesus, pareciam mugir as vacas.
As estrelas no céu.
Então aconteceu.
Nasceu Emmanuel.
E o estábulo pareceu iluminar-se todo.
Era um forte e belo menino que deu um berro na madrugada.
São José cortou o cordão umbilical. E a mãe sorria. A tia chorava.
Não se sabe se essa criança teve que passar pela via crucis. Todos passam.

Clarice Lispector, em A Via Crucis do Corpo

Oração para Desaparecer




5.

Foram dias cansativos em Lisboa, sempre muitas coisas a fazer. Andei com eles por vários lugares e aos poucos gostava da cidade pelos detalhes que meus olhos capturavam no caminho. Uma predominância de azuis, amarelos e brancos, as coisas simples do cotidiano das pessoas, vasos de flores nas sacadas, desenhos nas placas, flores por todo lado, o cheiro e o gosto das comidas, isso me trazia alguma calma. De tanto encher meu coração com a beleza, esqueci de sofrer.
Os planos na cidade incluíam a compra de algumas roupas para mim, uma mala e os cuidados comigo. Na primeira noite, enquanto ajudava a arrumar a bagagem, o badalar de um sino muito perto dali me fez chorar. Compulsivamente e sem explicação. Fernando tentou ajudar:
— Não deve ser fácil, Cida, percebo que tu sofres. Além das palavras, não perdeste os sentimentos, mas é difícil sem saber de onde vêm. Infelizmente os Ressurrectos são sempre confusos. Muitos são agressivos, chegam a ser violentos. Mas és boa. Tens os olhos de uma mulher forte e boa. E por que os sinos, não é? Isso precisa ser anotado.
Por que os sinos? Ele puxou uma cadeira, sentou-se diante de mim. Florice chegou. Tive coragem de perguntar a ela, de novo, o que eles sabiam mais sobre as pessoas que saem da terra, os Ressurrectos.
— A menina não cansa de perguntar a mesma coisa? Eu não sei, essa é a resposta mais honesta que posso dar. Desde que sou pequena escuto a tal palavra, mesmo assim é uma incógnita. De vez em quando meus pais nos levavam para casas alugadas, para descansar uns dias, mudar de ares, mas hoje entendo que era para buscar Ressurrectos. Aos seis anos eu estava brincando no quintal, sozinha, e aconteceu algo que me assustou. A terra começou a remexer assim por baixo, abrindo, deslocando e foi rápido que a coisa surgiu na minha frente. Nunca esqueci daquele primeiro homem que vi saindo da terra, como se fosse uma planta, o parto de um bicho. Um homem nu, todo sujo, atordoado, agarrado a uma arma. Não tinha hora para acontecer e, se ele não estivesse no lugar para recolher a pessoa e levar para o quarto, poderia virar uma confusão. Faz parte da missão proteger o Ressurrecto, apesar do risco.
— Que risco?
— Já aconteceram coisas terríveis. Nenhum Ressurrecto chega deixando uma vida fácil para trás, é o que tenho percebido. A menina mesmo, chegou cá toda magoada de cortes e pancadas. Antes de morrer, meu pai pediu que eu não deixasse de continuar anotando o registro. Não sei o motivo, se algum dia a ciência vai chegar e nos investigar, se vai atrás de todas as pessoas, se vamos ser presos, se por um acaso isto é um crime, mas ele levava essas anotações muito a sério. Eu obedeço, por isso tenho aquele caderno com o nome, data de chegada, tudo o que podemos saber, anotados por ele e por outros membros da família.
— Essa arma me deixa intrigado, Florice. Todos que cá chegaram, dos que eu soube, trazem um objeto na mão, um pano, uma arma, qualquer coisa.
— Eu não cheguei com nada.
— Como não? Chegaste com o colar de búzios. Não recordaste nada sobre ele? — Florice lembrou, agitou-se, levantou-se do sofá, olhou para Fernando com reprovação, retomou a arrumação das coisas, mais uma vez querendo encerrar. Ela nunca deixava que o tema se prolongasse além do limite imposto por ela mesma, da necessidade daquele dia, e minhas perguntas pareciam sempre desconfortáveis.
— Não, mas sonhei. Primeiro era uma senhora fazendo o colar e me entregando. Depois era um rapaz beijando os búzios, um por um.
— Um rapaz? Então tu tens um amor! — Florice sorria, olhos mais azuis.
— Ele deve pensar que morri.
— Tu não tens nada a fazer além de anotar os sonhos e seguir a tua vida aqui. Trabalhar logo que possível, juntar um dinheiro, esperar que as memórias voltem para que tu possas retornar, é o que deve ser feito.
— O que aconteceu com eles todos, dona Florice? A sua família tem ou teve contato?
— Dos que sabemos, todos lembraram da vida anterior em alguma altura e nenhum passado era simples. Nunca é. Mas vamos voltar ao presente: o sino que badala aqui ao lado é da Igreja dos Mártires. Precisamos dormir para pegar a missa bem cedo amanhã. Talvez tu estejas precisando de Deus.

— Alguma pergunta até aqui, senhor. Félix? Acho que estou falando rápido demais.
— Gostava de voltar ao tema do rapaz. Sonhaste mais vezes com ele?
— Muitas vezes. Deitados em uma cama não sei onde, conversando, uma luz vermelha, alaranjada, sempre. Seus pensamentos e os meus eram iguais e eu lembro de rir muito. Não faço ideia do assunto. Lembro da sua voz e de uma parede onde via alguns cavalos-marinhos pendurados, pequenos, delicados, sustentando por cima e por baixo, posicionados como se estivessem em movimento. Por vezes eram imensos, já sonhei estar com eles na barriga, ou estar dentro da barriga deles, e eles voavam. Os cavalos-marinhos voltam sempre aos meus sonhos.
“Do rapaz, muitas coisas. Vi seus olhos muito perto de mim. Senti o mesmo estalo grandioso da outra vez, as estrelas caindo, estrelas-do-mar no teto do quarto terroso. Tive a certeza de que eu vim de uma praia. Pelos búzios, cavalos-marinhos, estrelas-do-mar. Durou poucos minutos, sonhar era como andar sobre uma fumaça frágil, eu caía sempre. Às vezes me iludia na esperança de ser uma cena do futuro que meu sonho mostrava.”
— Muitas vezes, sim. Existem os sonhos premonitórios, são comprovados. Salvam vidas, evitam acidentes.
— No meu caso não eram premonitórios. Se fossem eu estaria lá, não aqui.
— Ainda tens um futuro, mais prudente aguardar para ter certeza.

São sonhos borrados, não têm muito mais nitidez que isso. Abria os olhos e sentia sua falta constantemente. Ele não estaria comigo nos dias a seguir e sua existência parecia a alegria da minha. Na vida real, em Lisboa, ganhei roupas bonitas. Um vestido do meu tamanho, uma saia, duas blusas, meias-calças, para aquecer, um par de sapatos adequados, e agora andava como uma pessoa que fazia parte do mundo. Ganhei também um vidro de lavanda, um sabonete, um creme para os lábios e um par de brincos. Estava frio naquele outubro.
A falta de cabelos ainda atraía olhares, mas aos poucos eu não sabia se me olhavam mesmo por isso ou porque me achavam uma criatura exótica como um todo. O vendedor da loja de doces perguntou de onde eu era. A mesma coisa na floricultura e na conversa com sua vizinha. Meu rosto não era familiar aos portugueses. Sou brasileira, e logo confirmavam, pois sim, pensei mesmo que fosses brasileira.
Gostei de ir à missa com Florice. Na primeira vez o padre leu o Evangelho de São Marcos, sobre Jesus expulsando o Demônio do corpo de um homem. Pedi à dona Florice que me explicasse aquilo tudo e ela me contou o que aconteceu com Jesus. Nasceu de uma mãe pura, fez coisas fantásticas, morreu, depois voltou da morte e foi embora, mas continua entrenós. Basta chamar. Não acreditei que fosse tão fácil falar com ele, e realmente não é, exige fé, merecimento, bondade, persistência, oração, tudo isso ela me disse, espantada com minha ignorância cristã. Você não deve ser católica, ela disse. Acredita em Deus, mas não tem respeito pelo filho Dele.
Não é que eu desrespeitasse, ao contrário, pensei que Jesus não acharia estranho o que aconteceu comigo e certamente ele saberia explicar tudo, por isso insisti nessa tentativa de rezar. No começo Florice riu, depois teve raiva, achou que eu estava faltando com respeito, mas não era isso. Jesus morreu e viveu, foi enterrado, apareceu de novo. Era morto, mas estava vivo, também deve ter sido confuso para todos, até hoje não parece fora do normal? Quanto mais eu falava, pior ela reagia.
Diante da polêmica achei melhor não mencionar, mas também pensei muito no Diabo, se talvez não era a força dele que estava conduzindo meu enterro e meu desenterro, a cicatriz no meu braço, a maldade de quem fez isso comigo. O Demônio também fez coisas impressionantes, como ocupar o corpo alheio, o padre disse. Eu não poderia, naquela situação, negar a existência do Mal no mundo. Claro que o Mal participava da minha vida, está na vida de todos nós. Ela disse que falar comigo era como ensinar a uma criança, “mas tu pensas demasiado, tens uns entusiasmos de ideias fora de lugar”, ela reclamava, bem irritada. Por isso achei melhor interromper as perguntas.
Só tentei ficar de olhos fechados na igreja o máximo que pude, porque aconteceu de novo. Estava cheia de mortos, deitados nos bancos, andando, rezando, chorando, falando baixo, é impressionante que as pessoas não sintam e não vejam se são tantos em todos os lugares.
Eles se sentam perto, olham dentro das bolsas, puxam cabelos, ficam rindo das pessoas, ou às vezes choram, seguindo alguém que talvez conheçam. Fantasminhas de crianças brincando, empurrando pessoas que escorregam e dão topadas sem entender como. Velhos padres com roupas estranhas transitavam como se fossem os donos do lugar, eu reconheceria se soubesse a história de Portugal. Se eu tivesse a paciência de perguntar os nomes, de procurar fotos e documentos, seria a pessoa mais famosa do país. Ou seria trancada em um asilo, sempre há o risco. Aquela igreja estava especialmente lotada e por isso não notaram que eu os via, ainda bem, porque talvez eles pedissem ajuda e eu não queria me envolver com gente morta, nessas horas eu duvidada se estaria mesmo viva.
— Não tiveste medo?
— Não. Desde a primeira vez pareceu natural.
— Tanto quanto ver os vivos?
— Mesma coisa. Exatamente a mesma coisa.
— Mas eles sabem coisas que não sabemos. Já atravessaram, podem contar sobre isso. Se eu tivesse essa vantagem de falar com quem morreu, meu trabalho seria muito mais fácil.
— Disso eu tinha medo, de falar. De fazer perguntas naquela altura. Eu me sentia fraca demais nos primeiros meses. Aceitava que conduzissem a minha vida, sem pensar, por exaustão.
— Ainda vês os mortos até hoje?
— Sim.
— Nunca tiveste vontade de perguntar as coisas de tua vida?
— Não chegou nenhum fantasma conhecido. Eu não evoco, só vejo quem está.
— Eu gostava de ouvir mais sobre isso, mas me preocupo com o tempo. Preciso saber de tudo ainda hoje para começar o trabalho amanhã. Tens um prazo, não?
— Sim, uma viagem. Eu tenho uma data-limite para resolver o assunto e conto com a sua ajuda.
— Volta à convivência com Fernando e Florice, por favor.
— Tentarei ser mais direta.

Combinamos que pegaríamos um trem de Lisboa até Braga e assim chegaríamos ao Norte do país, como sempre me explicava Fernando. No caminho inteiro ele foi me localizando no mapa, explicando as cidades uma por uma e me comovi quando vi o mar, a praia deserta, ninguém além da areia e aquela água que me separa de onde eu vim.
Foi quando ele contou sobre as ondas gigantes de Nazaré. Sobre o milagre de Fátima, onde Nossa Senhora apareceu para três crianças. Portugal tão pequeno se comparado à Espanha, ali ao lado, mas na voz de Fernando parecia infinito. Sua vida de médico o levou a conhecer muita coisa, aldeias esquecidas, histórias de fé, dos santos, da tradição. Entendia da comida, das bebidas e dos cantos do povo.
Florice estava dormindo e também nos acomodamos para descansar um pouco. Adormeci e sonhei com ele de novo, o rapaz sem rosto de sempre. Foi um sonho longo.
Naquele quarto terracota, a poeira vermelha nos cercando, o teto cheio de estrelas-do-mar, os cavalinhos pelas paredes, estávamos na cama juntos. Eu ouvia o som de outro sino. Não lembro de nenhuma palavra, só do gesto de ele me entregando um cavalo-marinho. Meus fiapos de memória são minha glória e meu castigo.
No sonho eu vi seus olhos muito de perto novamente. Dessa vez não sorriu. Havia um rio passando por trás deles que desaguou. A água nos separava e isso é a nossa verdade, temos um mar de esquecimento entre nós. Pela primeira vez meu corpo aparecia inteiro e eu me via pelos olhos dele. Soube que sou bonita porque ele me disse. Soube porque ele não parava de cumprir os verbos que escrevia com as mãos na minha pele, deitava as frases e as obedecia, mas ele chorava e chamava as ondas que invadiam o quarto avermelhado, como um tsunâmi.
Acordei chorando também, pensando se ele sonha comigo, se as coisas que ele diz e faz ainda reverberam na sua pele, se ele também acorda com os estalos. Foi a primeira vez que pensei nisso, na possibilidade de fazer do sonho um fio entre nós, abuso da minha frágil consciência.
Pensar nele era uma esperança, imaginar se lembrava de mim, se sabia tudo o que esqueci. Eu acreditava no amor como um espírito que descola do peito e segue pelas ruas, entra nas casas, derruba as coisas, faz o que for preciso para dissolver todas as trapaças que separa os que se amam. Fosse correto meu desatino, os amantes sempre teriam seu dia de sorte e os amores dariam certo por lei. Nada prova que ele existe, disso parte a absoluta incerteza sobre tudo que vivo enquanto durmo. Mas eu o amava muito quando sonhava com ele. E meu corpo o encontrava nos sonhos, eu sentia tudo dos sonhos, o fogo, o desespero, a explosão e a paz.

— Ainda sentes isso tudo?
— Não. Estou lembrando como foi na época. Aos poucos parei de sonhar com ele. Parei totalmente.
— Em algum sonho soubeste algo mais sobre esse homem? Nome, traços, palavras, qualquer coisa?
— Nunca. Não tenho qualquer informação além da lembrança dessas sensações e detalhes do lugar. Há tempos eu nem sequer pensava nisso, relembrei para contar porque o senhor me disse que qualquer coisa era importante.
— Esqueceste dele por causa de Jorge?
— Por causa do que vejo nos olhos de Jorge.

Socorro Acioli, em Oração para Desaparecer

Diário de Bernardo Soares

139.

Há muito tempo que não escrevo. Têm passado meses sem que viva, e vou durando, entre o escritório e a fisiologia, numa estagnação íntima de pensar e de sentir. Isto, infelizmente, não repousa: no apodrecimento há fermentação.
Há muito tempo que não só não escrevo, mas nem sequer existo. Creio que mal sonho. As ruas são ruas para mim. Faço o trabalho do escritório com consciência só para ele, mas não direi bem sem me distrair: por detrás estou, em vez de meditando, dormindo, porém estou sempre outro por detrás do trabalho.
Há muito tempo que não existo. Estou sossegadíssimo. Ninguém me distingue de quem sou. Senti-me agora respirar como se houvesse praticado uma coisa nova, ou atrasada. Começo a ter consciência de ter consciência. Talvez amanhã desperte para mim mesmo, e reate o curso da minha existência própria. Não sei se, com isso, serei mais feliz ou menos. Não sei nada. Ergo a cabeça de passeante e vejo que, sobre a encosta do Castelo, o poente oposto arde em dezenas de janelas, num revérbero alto de fogo frio. À roda desses olhos de chama dura toda a encosta é suave do fim do dia. Posso ao menos sentir-me triste, e ter a consciência de que, com esta minha tristeza, se cruzou agora – visto com ouvido — o som súbito do elétrico que passa, a voz casual dos conversadores jovens, o sussurro esquecido da cidade viva.
Há muito tempo que não sou eu.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Diálogo feroz


— Alô, Mestre! Não repare se entrei sem me anunciar. Vi a porta aberta, e, como sabe, a juventude tem pressa.
— Está-se vendo. Posso saber por que motivo o encontro a esta hora da manhã em minha cozinha?
— Mas está na cara: o rosto da mocidade é um espelho de seus desejos. Em segundo lugar, o apartamento do Mestre só tem quarto e kitchenette, e o senhor estava nesta última.
— É, mas, de qualquer modo, a etiqueta…
— Não vamos perder tempo com esses resíduos do século xix. O senhor já foi moço, talvez…
— Mancebo, sua insolência é igual à de Alfred de Vigny ao visitar Royer-Collard, quando este não queria recebê-lo. E, ao que parece, você não é um segundo Vigny.
— Mas o senhor talvez seja o próprio Royer-Collard, de quem aliás nunca ouvi falar nem bem nem mal. Posso contar com o seu voto?
— Que voto? Não me meto em política.
— Mestre, não pense que tem à sua frente um candidato a vereador pelo Distrito. Minha ambição é mais pura. Sonho com a Academia, ou melhor, a Academia me faz cócega em sonhos.
— Continue sonhando.
— Não posso. Meu sonho é da espécie explosiva, e exige confirmação imediata na realidade. O Mestre será meu padrinho.
— Que idade você tem, meu filho?
— Vinte e dois.
— E quando chegou do Pará?
— Há duas semanas. Como vê, já perdi um tempo precioso. Duas semanas na vida de um homem, na era atômica…
— Mas não há vaga, menino.
— Como não? Há a do Filogônio e a do Mamede.
— O Filogônio baixou num terreiro e legou a vaga a um afilhado. Foi uma doação solene, e temos que respeitar a vontade dos mortos, já que ninguém respeita a dos vivos. Quanto ao Mamede, há uma combinação de escrutínios que dará a vitória, na quinta rodada, a um desembargador do Guaporé, candidato desde 1908. É justo.
— Quer dizer que não posso aspirar nem a uma vitória moral?
— São as mais difíceis, rapaz. Você está exigindo muito.
— Por isso é que o Brasil não vai adiante. Os novos são governados pelos velhos, e os velhos pelos mortos. E eu que tinha grandes planos para a Academia.
— Pode-se saber quais eram?
— Primeiro, substituir o chá com sequilhos por uísque e salgadinhos. É uma vergonha para as letras esse regime de donas de casa reunidas em confeitaria.
— Insensato, quando chegamos à Academia já renunciamos ao fígado.
— Levaríamos a literatura ao povo, através de comícios, atos públicos, manifestos contra o artipurismo, a invasão da Guatemala e os vícios da burguesia.
— Espero estar morto antes de chegar esse dia. Ofereço-lhe a minha vaga.
— Tomo nota do oferecimento, mas vai ver que o Mestre não fala isso de coração. Já a prometeu a outros.
— Cet âge est sans pitié! Vocês são capazes de matar um cristão para fazer-lhe o elogio.
— Não exagere, Mestre, o elogio não é o nosso fraco. Posso lhe garantir que nos detestamos cordialmente uns aos outros. Mas voltando à vaca-fria: nenhuma esperança para as próximas vagas?
— Insofrido, seu jeito franco merece retribuição. Saiba que as próximas vagas, a julgar pelos eletrocardiogramas e pelas informações das empregadas, serão abertas pelo Fredolindo, pelo Sesóstris, pelo Janduí e pelo Cabeção. Estão prometidas a quinhentos escritores e jornalistas, mas aposto no Fioravanti, no Pituquinha, no general Porfírio e na Violeta.
— Mas a Violeta não pode eleger-se. É mulher, e vive na Europa!
— Ser mulher não é defeito insanável. O estatuto não permite, mas dá-se um jeito. Houve um papa chamado Joana. Ela vive na Europa, mas alguns colegas nossos também vivem.
Vamos fazer uma experiência com a Violeta, e se ela promete não escrever nada, outras escritoras terão sua vez. Sou contra escrever.
— Protesto! A geração de 1954, que eu represento, e que é uma geração sacrificada, lutará nas praias, nas ruas e nas casas pela democratização da Academia! Vocês, velhotes…
— Rua!

Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira

19/10/2026

Maria Bethânia | Mares da Espanha

I. EU DEDICO ESTE LIVRO A KEATS (FOI VOCÊ QUEM ME CONTOU QUE KEATS ERA MÉDICO?) COM BASE NA IDEIA DE QUE UMA DEDICATÓRIA TEM QUE SER DEFEITUOSA PARA QUE O LIVRO SE MANTENHA LIVRE E PELA AMPLA RENDIÇÃO DO AUTOR À BELEZA

Uma ferida emite luz própria
dizem os cirurgiões.
Se todas as lâmpadas da casa fossem apagadas
você poderia fazer um curativo nessa ferida
usando a luz que dela brilha.

Cara pessoa que me lê ofereço apenas uma analogia.

Um atraso.

“Use atraso em vez de imagem ou pintura —
um atraso em vidro
do mesmo jeito que dizem um poema em prosa ou uma escarradeira em prata.”
Como Duchamp
de A noiva despida por seus celibatários, mesmo

que quebrou em oito pedaços em trânsito entre o Museu do Brooklyn

e Connecticut (1912).

O que está sendo atrasado?
O casamento parece.
Meu marido o chamava de lugar oscilante.
Veja como a palavra
brilha.

Anne Carson, em A beleza do marido – um ensaio ficcional em 29 tangos

Calvin

 

De quem?

 — “Antes um pássaro na mão, que dois voando...”
— Na mão de quem? — pergunta a raposa.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

Nutrição

Consultório de uma nutricionista.
MÉDICA Fiz uma dieta pra você seguir à risca. É muito importante não fugir disso, pelo menos na primeira semana.
Mulher lê a dieta. Não entende.
MULHER Não entendi. Pode pão à vontade?
MÉDICA Pão é ótimo. Não leu no jornal de hoje?
MULHER Saiu no jornal?
MÉDICA Deixa eu só ver no G1 se continua fazendo bem. Continua. Pode comer. Quando começar a fazer mal eu te ligo.
Mulher lê a dieta.
MULHER Tá escrito que eu preciso evitar brócolis?
MÉDICA A todo custo. Acabei de receber um inbox no Face avisando que o brócolis caiu.
MULHER Não era anticancerígeno?
MÉDICA Sim, mas parece que tá dando Alzheimer. Então tem que botar na balança.
MULHER Mas ovo pode?
MÉDICA Ovo à vontade.
MULHER Você acha que isso deve mudar?
MÉDICA Não. O ovo parece que veio pra ficar (chega um SMS). Ih não. Caiu. Por causa do colesterol. Não. É colesterol bom. Então pode. Eu tenho um grupo de WhatsApp só pro ovo.
MULHER Não tem nada que seja definitivo? Tipo a linhaça?
MÉDICA Linhaça tá superultramegaproibida a partir das duas da tarde.
MULHER Faz mal comer depois das duas?
MÉDICA Faz mal comer sempre. É que descobriram isso hoje, às duas.
MULHER E abacate?
MÉDICA Abacate mata…
MULHER Então não.
MÉDICA … os germes….
MULHER Então sim?
MÉDICA … responsáveis pela cura do câncer.
MULHER Então não.
MÉDICA Mas pela cura do câncer bom.
MULHER Tem câncer bom?
MÉDICA Não. Esse que é o problema.
MULHER Então abacate não?
MÉDICA Jamais. Não poderia. Deixar de poder. A não ser que venha a poder mesmo.
MULHER Vou botar que não.
MÉDICA Melhor.

Gregório Duvivier, em Put some farofa