quarta-feira, 27 de maio de 2026

Lenine | Confia Em Mim

O lutador

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como um javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.
 
Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto.
 
Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.
 
Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.
 
Iludo-me às vezes,
pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras

em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
outra sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor
me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
Mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora.
 
O ciclo do dia
ora se conclui
e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.

Carlos Drummond de Andrade, em José

Calvin

Progresso

O menino moderno, familiarizado com o computador, ficou curioso sobre como eram as coisas no trabalho do seu pai no tempo em que não havia computadores. O pai, entusiasmado com a súbita curiosidade do filho, pôs-se a campo para encontrar sua velha Olivetti portátil, amante esquecida, abandonada — e ele nem sabia ao certo onde ela estava. Depois de muito procurar, encontrou-a dentro de uma mala velha cheia de tranqueiras. Tirou-a da sepultura, limpou-a, conferiu as teclas e alavancas, e também as fitas metade preta e metade vermelha, colocando-a então de novo no mesmíssimo lugar sobre a mesa onde vezes sem conta eles estiveram juntos. “Como é que funciona, pai?”, o menino perguntou. “É assim que funciona...”, respondeu o pai. A seguir, colocou uma folha de papel sulfite no rolo, ajustou as margens e começou a “daquitilografar” (era assim que o meu pai falava) umas frases soltas. Ao ver a máquina em ação, o menino fez um “oh” de espanto. “Que máquina mais adiantada, diferente dos computadores. É só digitar as letras que o texto sai impresso...” O que me fez lembrar um texto divertidíssimo de Cortázar que se chama, se não me engano, A história das invenções. Só que tudo acontece não de trás para a frente, mas da frente para trás. A história começa num voo de supersônico de Nova York a Paris. Três horas. Aí os homens, inteligentes, pensaram que o prazer da viagem poderia ser aumentado se os aviões, em vez de voarem a uma velocidade acima da velocidade do som e a uma altura de quinze quilômetros, passassem a voar a uma velocidade de 400 quilômetros por hora a uma altura de três quilômetros. Assim, poderiam ficar muito mais tempo longe do trabalho e ver os rios, bosques e vilas... E assim vai acontecendo a história das invenções, sempre ao contrário e sempre melhor... Até que, depois de muito progresso, da invenção dos navios a vela não poluentes e das bicicletas que fazem bem ao coração, os humanos inventam a mais fantástica de todas as invenções: eles inventam o “andar a pé”…

Rubem Alves, em Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo

As dores da sobrevivência: Sérgio Porto

Não, não quero mais gostar de ninguém porque dói. Não suporto mais nenhuma morte de ninguém que me é caro.
Meu mundo é feito de pessoas que são as minhas – e eu não posso perdê-las sem me perder.
Sem pudor, com lágrimas nos olhos, choro a morte de Sérgio Porto. Ele criava alegria, ele se comunicava com o mundo e fazia esta terra infernal ficar mais suave: ele nos fazia sorrir e rir. Não pude deixar de pensar: ó Deus, por que não eu em lugar dele? O povo sentirá a sua falta, vai ficar mais pobre de sorrisos, enquanto eu escrevo para poucos: então por que não eu em lugar dele? O povo precisa de pão e circo.
Sérgio Porto, perdoe eu não ter dito jamais que adorava o que você escrevia. Perdoe eu não ter procurado você para uma conversa entre amigos. Mas uma conversa mesmo: dessas em que as almas são expostas. Porque você tinha lágrimas também. Atrás do riso. Perdoe eu ter sobrevivido.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

O Apanhador no Campo de Centeio – 24



O Professor Antolini e a mulher tinham um apartamento grã-finérrimo em Sutton Place, desses que a gente tem que descer dois degrauzinhos para entrar na sala de visitas, e com um bar e tudo. Eu já tinha ido lá algumas vezes, porque depois que saí do Elkton Hills o Professor Antolini ia freqüentemente jantar lá em casa, para saber como eu estava indo. Nessa época ele ainda, era solteiro. Depois que casou, andei jogando tênis com ele e a mulher, no clube de tênis West Side, em Forest Hills, Long Island. Ela era sócia de lá, era mesmo podre de rica. Era mais velha que o Professor Antolini uns sessenta anos, mas os dois pareciam se dar muito bem. Em parte porque eram muito intelectuais, especialmente o Professor Antolini, apesar dele dar a impressão de ser mais espirituoso do que realmente intelectual quando estava com a gente, assim mais ou menos como o D.B. A mulher dele era mais séria. Sofria muito de asma. Os dois haviam lido todos os contos do D.B. – a Senhora Antolini também – e, quando o D.B. foi para Hollywood, o Professor telefonou para ele, dizendo que não fosse. Mas ele foi assim mesmo. O Professor Antolini disse que uma pessoa que escrevia como o D.B. não tinha nada que ir para Hollywood. Foi praticamente a mesma coisa que eu disse.
Eu teria ido a pé à casa dele, porque só em último caso pensava gastar o dinheiro de Natal da Phoebe, mas me senti meio esquisito quando cheguei lá fora. Meio tonto. Por isso tomei um táxi. Não queria, mas tomei. Tive um trabalhão desgraçado só para encontrar um táxi.
Quando o safado do cabineiro resolveu afinal me deixar subir, toquei a campainha e quem veio abrir foi o próprio Professor Antolini. Estava de robe e chinelos e um copo de bebida na mão. Era um cara um bocado sofisticado e também bebia pra chuchu.
Holden, meu filho! – ele disse. – Ora veja, cresceu mais uns cinco centímetros. Que prazer vê-lo por aqui.
Como vai o senhor? Como está sua senhora?
Tudo bem.
Me dê seu casaco.
Me ajudou a tirar o sobretudo e guardou.
Estava esperando vê-lo com um recém-nascido nos braços. Sem ninguém no mundo para quem apelar. Flocos de neve nas pestanas.
Ele às vezes é um camarada muito espirituoso. Virou-se e gritou para a cozinha:
Lilian! Esse café está saindo?
Lilian era o nome da mulher dele.
Está prontinho – ela gritou de lá. – É o Holden que está aí? Como vai, Holden?
Bem, e a senhora?
A gente vivia gritando naquela casa, porque os dois, nunca estavam na mesma sala ao mesmo tempo. Chegava a ser engraçado.
Sente-se, Holden – disse o professor. Via-se logo que ele estava meio alto. Pelo jeito da sala, parecia que tinham dado alguma festa. Tinha copos e pratinhos com amendoim por todo o canto.
Desculpe a desordem – ele disse. – Estivemos recebendo uns amigos de Lilian, lá de Bufallo... Uns búfalos, para falar a verdade.
Dei uma risada, e a senhora Antolini gritou qualquer coisa para mim lá da cozinha, mas não entendi.
Quê que ela disse? – perguntei ao Professor Antolini.
Disse para você não olhar para ela quando entrar, porque acabou de sair da cama. Cigarro? Você agora está fumando?
Obrigado – respondi, e tirei um cigarro da caixa que ele me estendeu. – Só de vez em quando. Sou um fumante moderado.
Acredito muito – ele falou. Acendeu meu cigarro com um baita isqueiro de mesa. – Muito bem. Quer dizer que o Pencey e você se divorciaram.
Tinha a mania de dizer as coisas assim. Às vezes me divertia um bocado, outras vezes não. Exagerava um pouquinho. Não é que não fosse espirituoso nem nada – isso ele era – mas de vez em quando a gente se irrita quando uma pessoa vive dizendo coisas assim como "Quer dizer que o Pencey e você se divorciaram". D.B. de vez em quando também exagera um pouco nesse troço.
O que é que houve? Como é que você foi em inglês? Ponho-o na rua agora mesmo se você tiver sido reprovado em inglês, seu craque na redação.
Não, passei em inglês direitinho. Mas quase que só demos literatura. Só escrevi umas duas redações durante o ano todo. Mas fui reprovado em Expressão Oral. Lá eles tinham esse curso obrigatório. Expressão Oral. Nisso fui reprovado.
Por quê?
Ah, sei lá.
Não estava com muita vontade de falar no assunto. Me sentia ainda meio tonto ou coisa parecida, e de repente fiquei com uma dor de cabeça desgraçada. Fiquei mesmo. Mas ele parecia realmente interessado, por isso resolvi contar alguma coisa.
É um curso em que cada aluno tem que se levantar na aula e fazer um discurso. Sabe como é. Com espontaneidade e tudo. E, se o sujeito sai um pouquinho do assunto, todo mundo tem que gritar: "Digressão!" o mais depressa possível. O negócio me deixava meio maluco. Tirei uma nota horrível.
Por quê?
Ah, sei lá. Aquela estória de digressão me chateava. Sei lá. O problema comigo é que eu gosto quando um sujeito sai do assunto. É mais interessante e tudo.
Você não gosta que uma pessoa seja objetiva quando conta uma estória?
Claro! Gosto que a pessoa seja objetiva e tudo. Mas não gosto que seja objetiva demais. Não sei. Acho que não gosto quando a pessoa é objetiva o tempo todo. Os garotos que conseguiam as melhores notas em Expressão Oral eram objetivos o tempo todo, isso eram. Mas tinha um garoto, o Richard Kinsella. Ele não era muito objetivo e a turma vivia gritando "Digressão !" quando ele falava. Era horrível. Primeiro porque ele era um cara muito nervoso. Isso mesmo, nervosíssimo – e, quando chegava a hora de falar, os lábios dele começavam a tremer e, do fundo da sala, a gente mal conseguia ouvir o que ele estava dizendo. Mas, quando os lábios dele paravam um pouco de tremer, eu gostava dos discursos dele mais do que os de qualquer outro sujeito. Ele também quase foi reprovado. Passou raspando, porque a turma vivia gritando "Digressão !" para ele. Por exemplo, ele fez um discurso sobre uma fazenda que o pai dele tinha comprado em Vermont. O tempo inteirinho que ele falou a turma ficou gritando "Digressão !" e o professor, um tal de Vinson, deu-lhe uma nota ruim pra diabo porque ele não contou que espécie de animais e legumes e outros troços tinha lá na fazenda e tudo. Sabe o quê que ele fazia? Começava contando essas coisas todas e aí, de repente, começava a falar de uma carta que a mãe dele tinha recebido do tio, e que o tio teve poliomielite e tudo aos quarenta e dois anos de idade, e se recusava a receber visitas no hospital porque não queria que ninguém o visse com a perna na tipoia. Não tinha muita ligação com a fazenda, concordo, mas era simpático. É um troço simpático quando alguém fala de um tio. Principalmente quando começa a falar da fazenda do pai e, de repente, fica mais interessado no tio. O negócio é que eu acho uma sujeira começarem a gritar "Digressão !" pra um sujeito quando ele está todo embalado num assunto... Não sei. É difícil de explicar.
Eu nem estava com muita vontade de tentar. Em parte por causa daquela dor de cabeça desgraçada. Pedi a Deus que a senhora Antolini chegasse com o café. Se há uma coisa que me aporrinha é isso, quando alguém diz que o café está pronto e não está pronto coisa nenhuma.
Holden... Uma perguntinha pedagógica e um pouquinho batida. Você não acha que há um tempo e um lugar para tudo na vida? Você não acha que, se alguém começa a falar sobre a fazenda do pai, deve aguentar a mão e, depois, arranjar um jeito de falar sobre a tipoia do tio? Ou, então, se a tipoia do tio é um assunto tão fascinante, ele não devia tê-lo escolhido logo como tema da exposição, em vez da fazenda?
Eu não estava com muita vontade de pensar e responder e tudo. Estava com dor de cabeça e me sentia podre. Estava até com um pouco de dor de barriga, para falar a verdade.
Acho... Sei lá. Acho que sim. Quer dizer, acho que devia ter escolhido o tio como tema, em vez da fazenda, se isso era mais interessante para ele. Mas o caso é que, muitas vezes, a gente só descobre o que interessa mais na hora que começa a falar sobre uma coisa que não interessa muito. Quer dizer, às vezes a gente não consegue evitar isso. O que eu acho é que a gente deve deixar em paz uma pessoa que começa a contar uma estória, se a estória é pelo menos interessante e o sujeito se anima todo com o assunto. Gosto de ver uma pessoa ficar toda animada com o assunto. É bonito. O senhor não conhece esse professor, o tal do Vinson. Ele às vezes deixava a gente maluco, ele e a droga da turma. Vivia dizendo à gente para unificar e simplificar. Há coisas que a gente simplesmente não pode fazer assim. O negócio é que a gente quase nunca consegue simplificar e unificar um troço, só porque alguém mandou. O senhor não conhece esse camarada, o Professor Vinson. Era muito inteligente e tudo, mas estava na cara que era meio tapado.
Café, senhores, enfim – disse a senhora Antolini. Entrou com uma bandeja com café e bolos e outros troços. – Holden, nem olhe na minha direção. Estou uma coisa.
Como vai a senhora? – falei. Fiz menção de me levantar e tudo, mas o Professor Antolini me segurou pelo paletó e me obrigou a sentar. Ela estava com a cabeça cheia desses rolos de ondular cabelo e sem um pingo de pintura. Não estava nada bonita. Parecia um bocado velha e tudo.
Vou deixar isso aqui. Sirvam-se à vontade – falou. Pôs a bandeja na mesinha do centro, empurrando para o lado um montão de copos. – Como vai sua mãe, Holden?
Muito bem, obrigado. Não a tenho visto ultimamente, mas a última vez…
Querido, se o Holden precisar de alguma coisa, está tudo no armário da roupa de cama. Prateleira de cima. Vou me deitar. Estou exausta – ela disse. E dava impressão de estar mesmo. – Será que vocês dois sabem arrumar o sofá sozinhos?
Pode ir dormir descansada que nós cuidamos de tudo – o Professor Antolini respondeu. Deu um beijo nela, ela me disse até logo e foi para o quarto. Os dois viviam se beijando em público.
Tomei meia xícara de café e comi metade de um pedaço de bolo, mais duro do que pedra. O Professor Antolini se contentou com outro drinque, e forte à beça. Se ele não tomar cuidado ainda acaba viciado.
Almocei com o seu pai há umas duas semanas – ele falou de repente. – Você sabia?
Não, não sabia.
Você não ignora, naturalmente, que ele anda muito preocupado com você.
Sei disso. Sei que anda.
Tudo indica que, antes de me telefonar, ele tinha recebido uma carta enorme e bastante perturbadora do seu último diretor, informando que você não estava fazendo o mínimo esforço. Matando aulas. Não preparando as lições. Em suma, sendo um completo...
Não matei aula nenhuma. Não havia jeito. De vez em quando eu deixava de assistir às aulas de umas duas matérias, como a tal de Expressão Oral que eu falei antes. Matar mesmo, não matei...
Não estava com a menor vontade de discutir o troço. Minha dor de barriga tinha diminuído um pouco com o café, mas aquela dor de cabeça miserável, continuava.
O Professor Antolini acendeu outro cigarro. Ele fumava como uma chaminé. Aí falou:
Francamente, Holden, não sei o que lhe dizer.
Eu sei. É difícil falar comigo. Compreendo.
Tenho a impressão de que você está caminhando para alguma espécie de queda... uma queda tremenda. Mas, honestamente, não sei de que espécie... Está me ouvindo?
Estou.
A gente via logo que ele estava procurando se concentrar e tudo.
Talvez da espécie que faz com que a gente, aos trinta anos, se sente num bar e odeie todo mundo que entra com jeito de quem jogou futebol numa universidade. Ou, então, você conseguirá instruir-se o bastante para odiar todo mundo que diz: "É um segredo entre mim e você". Ou talvez acabe em algum escritório, atirando clipes na taquígrafa mais próxima. Não sei mesmo. Mas você entende o que estou querendo dizer, não entende?
Entendo – respondi. E entendia mesmo. – Mas o senhor se engana sobre esse negócio de odiar os jogadores de futebol e tudo. O senhor se engana mesmo. Não tenho raiva de muita gente. Pode ser que, de vez em quando, eu odeie alguns sujeitos durante algum tempo, como esse cara que eu conheci no Pencey, o Stradlater, ou esse outro sujeito, o Robert Ackley. De vez em quando eu tinha ódio deles, confesso, mas isso não dura muito, esse é que é o caso. Depois de algum tempo, se eu não os visse, se não vinham ao meu quarto, ou se eu passava umas duas refeições sem encontrar com eles no refeitório – chegava a sentir falta deles. É isso mesmo, chegava a ficar com saudade deles.
O Professor Antolini ficou uns dois minutos em silêncio. Levantou-se, apanhou outro pedaço de gelo, deixou cair no copo e aí sentou de novo. Via-se que ele estava pensando. Fiquei torcendo para que ele deixasse a conversa para outro dia, em vez de continuar naquela hora, mas ele estava embalado. Em geral, as pessoas se esquentam numa discussão na hora que a gente está mais frio.
Está bem. Agora, escuta aqui um momento... Pode ser que eu não consiga expressar isso tão bem quanto eu gostaria, mas escrevo uma carta para você amanhã ou depois explicando tudo. Aí você vai entender direitinho. De qualquer maneira presta atenção agora.
Começou a se concentrar outra vez, e aí disse:
Esta queda para a qual você está caminhando é um tipo especial de queda, um tipo horrível. O homem que cai não consegue nem mesmo ouvir ou sentir o baque do seu corpo no fundo. Apenas cai e cai. A coisa toda se aplica aos homens que, num momento ou outro de suas vidas, procuram alguma coisa que seu próprio meio não lhes podia proporcionar. Ou que pensavam que seu próprio meio não lhes poderia proporcionar. Por isso, abandonam a busca. Abandonam a busca antes mesmo de começá-la de verdade. Tá me entendendo?
Sim, senhor.
Está mesmo?
Estou sim.
Levantou-se e despejou mais um pouco de bebida no copo. Aí se sentou de novo. Ficou um bocado de tempo sem dizer nada.
Não quero te assustar – ele disse – mas vejo você, com toda a clareza, morrendo nobremente, de uma forma ou de outra por uma causa qualquer absolutamente indigna.
Me olhou de um jeito engraçado.
Se eu escrever umas palavras para você, promete que vai ler cuidadosamente? E guardar?
Prometo, sim – respondi. E era verdade. Até hoje guardo o papel que ele me deu.
Foi até a escrivaninha, no outro lado da sala, e escreveu alguma coisa num pedaço de papel, sem se sentar. Aí voltou e se sentou, com o papel na mão.
Por estranho que pareça, isso não foi escrito por um poeta. Foi escrito por um psicanalista chamado Wilhelm Stekel. Aqui está o que ele... Você ainda está me ouvindo?
Claro que estou.
Aqui está o que ele disse: "A característica do homem imaturo é aspirar a morrer nobremente por uma causa, enquanto que a característica do homem maduro é querer viver humildemente por uma causa".
Inclinou-se e me passou o pedaço de papel. Li imediatamente o que estava escrito, agradeci e tudo, e guardei o papel no bolso. Foi muito simpático da parte dele incomodar-se tanto por minha causa. Foi mesmo. Mas a verdade é que eu não estava realmente com muita vontade de me concentrar. Puxa, nunca me senti tão cansado, assim de repente.
Mas ele não dava a menor impressão de cansaço. Em parte porque estava bastante alto.
- Acho que um desses dias - ele falou - você vai ter que decidir para onde quer ir. E aí vai ter que começar a ir para lá. E sem perda de tempo. No seu caso, não se pode perder um minuto que seja.
Concordei com a cabeça, porque ele estava me encarando e tudo, mas não estava entendendo muito bem o que ele disse. Eu achava que sabia o que era, mas, naquele momento, não tinha certeza absoluta. Estava cansado pra diabo.
Detesto dizer isso, mas acho que, assim que você tiver uma ideia de onde quer chegar, seu primeiro passo vai ser aplicar-se no colégio. É o que você vai ter que fazer. Você é um estudante - quer a ideia lhe agrade ou não. Você está apaixonado pelo conhecimento. E eu acho que você vai encontrar, depois que deixar para trás todos esses Professores Vineses e suas composições e...
Vinsons – falei. Ele queria dizer todos os Professores Vinsons, e não todos os Professores Vineses. Mas eu não devia ter interrompido.
Está bem... os Professores Vinsons. Na hora em que você conseguir deixar para trás todos os Professores Vinsons, você vai começar a se aproximar cada vez mais – isto é, se você quiser, e se procurar, e se tiver paciência de esperar – da espécie de conhecimento que será muito, muito importante para você. Entre outras coisas, você vai descobrir que não é a primeira pessoa a ficar confusa e assustada, e até enojada, pelo comportamento humano. Você não está de maneira nenhuma sozinho nesse terreno, e se sentirá estimulado e entusiasmado quando souber disso. Muitos homens, muitos mesmo, enfrentaram os mesmos problemas morais e espirituais que você está enfrentando agora. Felizmente, alguns deles guardaram um registro de seus problemas. Você aprenderá com eles, se quiser. Da mesma forma que, algum dia, se você tiver alguma coisa a oferecer, alguém irá aprender alguma coisa de você. É um belo arranjo recíproco. E não é instrução. É história. É poesia.
Parou e tomou um longo gole do copo. Aí recomeçou. Puxa, ele estava embalado mesmo. Fiquei feliz por não ter tentado interrompê-lo nem nada.
Não estou querendo dizer que só os homens instruídos e cultos são capazes de contribuir com algo valioso para o mundo. Não é isso. O que eu quero dizer é que os homens instruídos e cultos, se de fato tiverem brilho e capacidade criadora – o que, infelizmente, é raro – tendem a deixar registros infinitamente mais valiosos do que aqueles que apenas têm brilho e capacidade criadora. Tendem a se expressar com mais clareza e, geralmente, têm a paixão de desenvolver seu pensamento até o fim. E – o que é mais importante – na grande maioria dos casos têm mais humildade do que o pensador menos culto. Você está me acompanhando?
Sim, senhor.
Ficou outra vez sem dizer nada por um tempão. Não sei se isso acontece com todo mundo, mas é meio chato a gente ficar sentado, esperando uma pessoa dizer alguma coisa, enquanto ela está pensando. É duro mesmo. Fiquei me esforçando para não bocejar. Não que eu estivesse chateado ou coisa parecida – não estava – mas de repente me deu um sono filho da mãe.
Há outra coisa que uma educação acadêmica poderá proporcionar a você. Se você prosseguir nela por um tempo razoável, ela acabará lhe dando uma ideia das dimensões da sua mente. Do que ela comporta e, talvez, do que ela não comporta. Depois de algum tempo, você vai ter uma ideia do tipo de pensamento que sua mente deve abrigar. A vantagem disso é que talvez lhe poupe uma enormidade de tempo, que você perderia experimentando ideias que não se ajustam a você, não combinam com você. Você começará a conhecer as suas medidas exatas, e vestirá sua mente de acordo com elas.
Aí, de repente, bocejei. Era o tipo da grossura, mas não pude evitar.
Mas o Professor Antolini só fez rir.
Vamos – ele disse, e se levantou. – Vamos arrumar o sofá.
Eu o acompanhei até o armário. Ele tentou tirar alguns lençóis e cobertores da prateleira de cima, mas, com o copo na mão, não conseguia. Por isso, bebeu o que restava, pôs o copo no chão e aí tirou os troços. Ajudei-o a trazer tudo para o sofá e fizemos a cama juntos. Ele não tinha muito jeito para a coisa. Não sabia esticar e prender nada direito. Mas não me importei. Estava tão cansado que seria capaz de dormir em pé.
Como vão as suas mulheres todas?
Vão indo – respondi. Em matéria de conversa eu estava uma droga, mas não queria me esforçar.
Como vai a Sally?
Ele conhecia a Sally. Eu a tinha apresentado a ele uma vez.
Vai bem. Saí com ela hoje de tarde – falei. Puxa, até parecia que tinham passado uns vinte anos. - Quase não temos mais nada em comum.
Ela é uma garota bonita pra burro. E aquela outra menina? Aquela de quem você me falou, do Maine?
Ah, sei... a Jane Gallagher. Ela é uma boa garota. Acho até que vou dar um telefonema para ela amanhã.
A essa altura já tínhamos acabado de fazer a cama.
É toda tua – ele disse. – Não sei que diabo você vai fazer com tanta perna.
Não tem importância. Já estou acostumado a dormir em camas curtas – respondi. – Muito obrigado. O senhor e a senhora Antolini salvaram mesmo a minha vida hoje.
Você sabe onde é o banheiro. Se precisar de alguma coisa, basta dar um berro. Vou ficar ainda um bocadinho na cozinha... A luz te incomoda?
Não, nem um pouquinho. Muito obrigado.
Está bem. Boa noite, bonitão.
Boa noite, Professor. Muito obrigado.
Ele foi para a cozinha e eu tirei a roupa no banheiro. Não pude escovar os dentes porque não havia trazido escova. Também não tinha pijama, e o Professor Antolini se havia esquecido de me emprestar um. Voltei para a sala, apaguei o abajur junto do sofá e me deitei só de cuecas. O sofá era um bocado pequeno para mim, mas na verdade eu seria capaz de dormir em pé, sem pestanejar. Fiquei acordado só uns dois segundos, pensando nos troços que o Professor tinha dito. Aquela estória de descobrir o tamanho da mente e tudo. Ele era mesmo um camarada inteligente pra chuchu. Mas não consegui ficar com a droga dos olhos abertos e peguei no sono.
Aí aconteceu um troço. Não gosto nem de falar no assunto.
Acordei de repente. Não sei que horas eram nem nada, só sei que acordei. Senti uma coisa na minha cabeça, a mão de uma pessoa. Puxa, fiquei apavorado pra diabo. Num instante vi que era a mão do Professor Antolini. Sabe o quê que ele estava fazendo? Estava sentado no chão, ao lado do sofá, no escuro e tudo, e estava assim me fazendo festinha ou um carinho na cabeça. Puxa, devo ter dado um pulo duns mil metros.
Que negócio é esse?
Nada, estou sentado aqui, admirando...
Quê que , afinal? – perguntei de novo. Não sabia que droga ia falar, estava confuso pra burro.
Que tal falar um pouquinho mais baixo? Estou só sentado aqui...
Está mesmo na hora de ir embora – falei. Puxa, como eu estava nervoso. Comecei a vestir a porcaria das minhas calças no escuro. Quase não acertava, de tão nervoso. Conheço mais tarados, nas escolas e tudo, do que qualquer pessoa, e eles sempre resolvem ser tarados na hora que eu estou por perto.
Onde é que você tem que ir? – ele me perguntou. Estava tentando aparentar muita naturalidade e controle e tudo, mas não estava natural coisíssima nenhuma. No duro.
Deixei minha bagagem e tudo na estação. Acho melhor ir buscar. Todos os meus troços estão lá dentro.
As malas vão estar no mesmo lugar amanhã de manhã. Agora trata de voltar para a cama. Também vou me deitar. Quê que houve com você?
Nada. Só que todo o meu dinheiro e meus troços estão nas malas. Volto daqui a pouco. Apanho um táxi e volto num instante – falei. Puxa, estava me embaralhando todo, no escuro. - O problema é que o dinheiro não é meu, é da minha mãe, e eu...
Não seja ridículo, Holden. Volta para a cama. É o que eu vou fazer também. O dinheiro está bem seguro até de manhã...
Não, fora de brincadeira, tenho que ir. Tenho mesmo.
Tinha quase acabado de me vestir, só que não achava a gravata. Não me lembrava onde tinha deixado a droga da gravata. Vesti o paletó e tudo, sem ela mesmo. O Professor Antolini estava sentado agora na poltrona grande, um pouco afastado de mim, me espiando. Estava escuro e tudo e não dava para vê-lo direito, mas eu sabia que ele estava me olhando, sem a menor dúvida. E também continuava bebendo. Dava para ver, na mão dele, o copo de estimação.
Você é um garoto muito estranho. Muito estranho mesmo.
Sei disso – respondi. Nem me dei ao trabalho de procurar muito pela gravata. Fui embora sem ela. – Até logo, Professor. Muito obrigado. Fora de brincadeira.
Ele me acompanhou até a saída e, quando chamei o elevador, continuou parado na droga da porta. Ficou só repetindo aquela estória de que eu era "um garoto muito estranho, muito estranho mesmo". Estranho uma ova. Ele ficou esperando a titica do elevador chegar. Juro que nunca vi um elevador demorar tanto em toda a droga de minha vida. Eu não sabia que porcaria ia dizer enquanto o elevador não vinha, e ele continuava ali, em pé, por isso falei:
Vou começar a ler uns bons livros. Vou mesmo.
O negócio é que eu tinha que dizer alguma coisa.
Era uma situação embaraçosa pra burro.
Apanha tua bagagem e volta correndo pra cá. Vou deixar a porta só encostada.
Muito obrigado. Até logo!
Até que enfim o elevador tinha chegado. Entrei e desci. Puxa, eu estava tremendo feito um desgraçado. E suando também. Quando me acontece um troço assim meio tarado, começo a suar como um filho da mãe. Esse tipo de coisa já me aconteceu mais de vinte vezes, desde que eu era garotinho. Não aguento isso.

J. D. Salinger, em O Apanhador no Campo de Centeio

terça-feira, 26 de maio de 2026

Soberano Sons da Alma — Entrevistas | Edu Lobo

Filhos

Vigie

Quem tenta obstruir o seu caminho quando você prossegue em concordância com a razão reta é incapaz de desviá-lo da ação apropriada. Por conseguinte, impeça-o de distanciá-lo da sua benevolência em relação a ele.
Vigie não apenas a firmeza dos seus julgamentos e das suas ações, como também a sua gentileza com quem tenta obstrui-lo ou impedi-lo de qualquer jeito. Aborrecer-se é uma fraqueza tanto quanto se desviar da ação adequada e ceder ao medo. Enfim, ambos são igualmente desertores dos seus cargos: o homem motivado pelo temor e o afastado de quem é, por natureza, um parente e amigo.

Marco Aurélio, em Meditações

Amor de mãe



Dona Lucélia.Taí uma coroa que eu admiro. Sua luta pra educar as três filhas é matéria obrigatória nos papos de Paquetá. Viúva desde muito moça, Dona Lucélia batalhou que não foi brincadeira, mas conseguiu seu intento: Helena Lúcia, Lúcia Helena e Lúcia Lucélia terminaram brilhantemente os estudos, ganham muito bem, são prendadas e, ainda por cima, bonitas. E nem pensem que o trabalho de uma vida inteira bitolou a visão de Dona Lucélia. Nada disso. Suas preocupações abrangem um campo vasto e complexo:
Só vou me realizar mesmo como mãe no dia em que souber que as meninas são felizes na cama como eu fui com o falecido.
E depois de um longo suspiro:
O falecido era, como se diz por aí, um homem muito bem-dotado. De caráter também.
O grande sarro é que Dona Lucélia acabou inventando um “teste” que asseguraria noites felizes pra sua ninhada: o Teste da Lâmpada.
Toda vez que uma das meninas entrava em casa com um pinta e contava que havia noivado à vista, Dona Lucélia aplicava o infalível teste da lâmpada, de forma a deixar também à vista dela certas qualidades do pretendente que o decoro impedia a exibição.
Casalzinho arrulhando doçuras no sofá da sala e Dona Lucélia aparecia com um velho calção do falecido Vivaldo — que Deus o tenha! — nas mãos. O referido calção, uma peça de museu, era guardado exclusivamente pro teste.
Meu filho, não repara eu interromper assim o namoro de vocês, mas é que eu tô precisando com urgência trocar a lâmpada do banheiro de empregada.
O pretendente, geralmente interessado em cair nas boas graças da coroa, se oferecia de cara. E aí é que a bola era lançada em profundidade:
Faz o seguinte: lá tá meio empoeirado e vai sujar tua roupa. Tem aqui esse calção do falecido...
Neguim tentava escapar:
Precisa não. Minha calça é velha mesmo e...
Mas Dona Lucélia não cedia um milímetro. Fechava a cara e deixava bem claro que a cotação do noivo tava caindo de cabeça:
Olha aqui, meu chapa: não há nada de errado com o calção do falecido. Ele não morreu de nenhum treco contagioso e eu considero sua atitude um insulto à memória dele.
O quase noivo perdia o rebolado:
Não! Por favor, não se ofenda! A senhora interpretou mal as minhas palavras. Eu... eu até simpatizei com o calção e...
Então veste!
Ficava, pra variar, meio largo.
A própria Dona Lucélia armava a escada e ficava embaixo.
Pode subir sem susto que eu seguro.
Bom, o calção era estilo vista-pro-mar e o suporte tinha sido cortado por Dona Lucélia. Pra facilitar a observação do objetivo.
Tudo bem, meu filho?
Ué, a lâmpada tá perfeita,Dona Lucélia.
Neste exato momento da peleja, a filha interessada dava a senha:
Não há perigo de curto, mãe?
Dona Lucélia olhava de novo pela perna do calção e garantia:
De jeito nenhum. É filamento pra ninguém botar defeito. Tás numa boa. Quer dizer, tamos todos numa boa contra a falta de luz, hi, hi, hi...
E assim, queridas leitoras, Helena Lúcia ficou noiva. Logo depois foi a vez de Lúcia Helena. Os rapazes eram tipos comuns: nem altos nem baixos, boas-praças, salários médios, por aí. E Dona Lucélia em paz com o sucesso do teste.
Na vez da caçula, Lúcia Lucélia, apareceu um tal de Renatão, de Mercedes esporte, boa-pinta pra burro, cheio da nota. Mas, infelizmente, o teste da lâmpada foi um redondo fracasso. Quando a garota perguntou pelo perigo de curto, a coroa perdeu as estribeiras e foi definitiva:
Curto? Pra mim esse pavio já pegou fogo e não sabe. Até um recém-nascido tem mais argumento. Lúcia Lucélia, saiba que eu desaprovo essa união. E o senhor aí, faça o favor de devolver o calção do falecido.

Aldir Blanc, em Rua dos Artistas e Arredores

“A poesia é necessária”

Título de uma antiga seção do velho Braga na Manchete. Pois eu vou mais longe ainda do que ele. Eu acho que todos deveriam fazer versos. Ainda que saiam maus, não tem importância. É preferível, para a alma humana, fazer maus versos a não fazer nenhum. O exercício da arte poética representaria, no caso, como que um esforço de autossuperação.
É fato consabido que esse refinamento do estilo acaba trazendo necessariamente o refinamento da alma.
Sim, todos devem fazer versos. Contanto que não venham mostrar-me.

Mário Quintana, em Caderno H

Uns índios (sua fala)



Refiro-me, em Mato Grosso, aos Terenos, povo meridional dos Aruaques. Logo desde Campo Grande eles aparecem. Porém, se mal não me informo, suas principais reservas ou aglomerações situam-se em Bananal, em Miranda, em Lalima e em Ipegue, e perto de Nioaque. Urbanizados, vestidos como nós, calçando meias e sapatos, saem de uma tribo secularmente ganha para o civil. Na Guerra do Paraguai, aliás, serviram, se afirmaram; deles e de seu comandante, Chico das Chagas, conta A Retirada da Laguna
Conversei primeiro com dois, moços e binominados: um se chamava U-la-lá, e também Pedrinho; o outro era Hó-ye-nó, isto é, Cecílio. Conversa pouca.
A surpresa que me deram foi ao escutá-los coloquiar entre si, em seu rápido, ríspido idioma. Uma língua não propriamente gutural, não guarani, não nasal, não cantada; mas firme, contida, oclusiva e sem molezas — língua para gente enérgica e terra fria. Entrava-me e saía-me pelos ouvidos aquela individida extensão de som, fio crespo, em articulação soprada; e espantava-me sua gama de fricativas palatais e velares, e as vogais surdas. Respeitei-a, pronto respeitei seus falantes, como se representassem alguma cultura velhíssima.
Deram-me o sentido de um punhado de palavras, que perguntei. Soltas, essas abriam sua escandida silabação, que antes desaparecia, no natural da entrefala. Eis, pois:

frio — kás-sa-tí
onça — sí-i-ní
peixe — khró-é
rio — khú-uê-ó
Deus — íkhái-van-n-u-kê
cobra — kóe-ch’oé
passarinho — hê-o-pen’n-o (h aspirado).

A notação, árdua, resultou arbitrária. Só para uma ideia. E, óbvio, as palavras trazidas assim são remortas, sem velocidade, sem queimo. Mas, ainda quando, fere seu forte arrevesso.
Depois, no arraial do Limão-Verde, 18 km de Aquidauana, pé da serra de Amambai, visitei-os: um arranchamento de “dissidentes” — 60 famílias, 300 e tantas almas índias, sob o cacicado do naa-ti Tani, ou Daniel, capitão.
O lugar, o Limão-Verde, era mágico e a-parte, quase de mentira, com excessivo espesso e esmalte na verdura, como a do Oxfordshire em julho; capim intacto e montanhas mangueiras, e o poente de Itália, aberto, infim, pura cor.
Quase conosco, adiante, chegava também uma terena, a cavalo. Com sapatos anabela e com seu indiozinho ao colo. Quisemos conversar, mas ela nem deixou. Convenceu o cavalo a volver garupa, dando-nos as costas, e assim giraram, e desgiraram, quanto foi preciso.
Mas, ao avistar-nos, o capitão Daniel rompeu de lá, com todos os seus súbditos. E ele era positivo um chefe, por cara e coroa. Sua personalidade bradava baixinho. Em qualquer parte, sem impo, só de chegar, seria respeitado. O descalabro, a indigência, o aciganamento sonso de seu pessoal, não lhe tolhiam o ar espaçoso, de patriarca e pompa. Ele representava; e, com ritual vazio e simples palavras, deu-nos, num momento, o esquema de uma grande hospitalidade.
Enquanto podia, entretive-me também com um grupo: Re-pi-pí (“o cipó”), I-li-hú, Mó-o-tchó, Pi-têu, E-me-a-ka-uê e Bertulino Divino Quaauagas. Eu fazia perguntas a um — como é isso, em língua terena? como é aquilo? — e ele se esforçava em ensinar-me; mas os outros o caçoavam: — Na-kó-i-kó? Na-kó-i-kó? (— “Como é que vamos? Como é que vamos?” — K’mok’wam’mo? — quer dizer: — Como que Você se sai desta?…)
Apenas tive tempo de ir anotando meu pequeno vocabulário, por lembrança. Mais tarde, de volta a Aquidauana, relendo-o, dei conta de uma coisa, que era uma descoberta. As cores. Eram:

vermelho — a-ra-ra-i’ti
verde — ho-no-no-i’ti
amarelo — he-ya-i’ti
branco — ho-po-i’ti
preto — ha-ha-i’ti

Sim, sim, claro: o elemento i’ti devia significar “cor” — um substantivo que se sufixara; daí, a-ra-ra-i’ti seria “cor de arara”; e por diante. Então gastei horas, na cidade, querendo averiguar. Valia. Toda língua são rastros de velho mistério. Fui buscando os terenos moradores em Aquidauana: uma cozinheira, um vagabundo, um pedreiro, outra cozinheira — que me sussurraram longas coisas, em sua fala abafada, de tanto finco. Mas i’ti não era aquilo.
Isto é, era não era. I’ti queria dizer apenas “sangue”. Ainda mais vero e belo. Porque, logo fui imaginando, vermelho seria “sangue de arara”; verde, “sangue de folha”, por exemplo; azul, “sangue do céu”; amarelo, “sangue do sol”; etc. Daí, meu afã de poder saber exato o sentido de hó-no-nó, hó-pô, h-há e hê-yá
Porém não achei. Nenhum — diziam-me — significava mais coisa nenhuma, fugida pelos fundos da lógica. Zero nada, zero. E eu não podia deixar lá minha cabeça, sozinha especulando. Na-kó i-kó? Uma tristeza.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Djavan | Alumbramento

O coração risonho

Sua vida é sua vida
Não deixe que ela seja esmagada na fria submissão.
Esteja atento.
Existem outros caminhos.
E em algum lugar, ainda existe luz.
Pode não ser muita luz, mas
ela vence a escuridão
Esteja atento.
Os deuses vão lhe oferecer oportunidades.
Reconheça-as.
Agarre-as.
Você não pode vencer a morte,
mas você pode vencer a morte durante a vida, às vezes.
E quanto mais você aprender a fazer isso,
mais luz vai existir.
Sua vida é sua vida.
Conheça-a enquanto ela ainda é sua.
Você é maravilhoso.
Os deuses esperam para se deliciar
em você.

Charles Bukowski, em Antologia Poética

O cervo escondido

Um lenhador de Cheng encontrou-se na campo com um cervo assustado e o matou. Para evitar que outros o descobrissem, enterrou-o na floresta, cobrindo a cova com f olhas e ramos. Pouco tempo depois esqueceu o local onde o havia escondido, e pensou que tudo não passara de um sonho. Assim, contou o fato a toda a gente como se fosse um sonho. Entre os ouvintes, houve um que foi procurar o cervo enterrado e o encontrou. Levou-o a sua casa e disse à sua mulher:
Um lenhador sonhou que havia matado um cervo e esqueceu onde o tinha escondido, e agora eu o encontrei. Este homem sim, é que é um sonhador...
Na certa sonhaste que viste um lenhador que havia matado um cervo. Crês realmente que existiu, o lenhador? Mas como o cervo está aqui, teu sonho deve ser verdadeiro — disse a mulher.
Ainda que suponhamos que eu tenha encontrado o cervo graças a um sonho — respondeu ò marido — por que nos preocuparemos em saber qual dos dois sonhou?
Naquela noite o lenhador voltou para casa pensando ainda no cervo, e realmente sonhou, e neste sonho sonhou o lugar onde havia escondido o cervo e sonhou também quem o havia encontrado. Ao amanhecer foi a casa do outro e encontrou o cervo. Os dois discutiram e terminaram diante de um juiz para que este resolvesse o assunto. O juiz disse ao lenhador:
Realmente mataste um cervo e pensaste que era um sonho. Em seguida sonhaste realmente, e então pensaste que era a realidade. O outro encontrou o cervo e agora o disputa, porém sua mulher pensa que ele sonhou que havia encontrado um cervo que outro havia matado. Logo, ninguém matou o cervo. Porém como aqui está o cervo, o melhor que os dois podem fazer é reparti-lo.
O caso chegou aos ouvidos do rei de Cheng e o rei de Cheng disse: 
E esse juiz? Não estará ele sonhando que reparte um cervo? 

Lieh-tsé (c. 300 a.C.), em Livro de Sonhos, de Jorge Luís Borges

Hagar, o Horrível

Capítulo 53 — . . . . . . . . . .

Virgília é que já se não lembrava da meia dobra; toda ela estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha vida, no meu pensamento; era o que dizia, e era verdade.
Há umas plantas que nascem e crescem depressa; outras são tardias e pecas. O nosso amor era daquelas; brotou com tal ímpeto e tanta seiva, que, dentro em pouco, era a mais vasta, folhuda e exuberante criatura dos bosques. Não lhes poderei dizer, ao certo, os dias que durou esse crescimento.
Lembra-me, sim, que, em certa noite, abotoou-se a flor, ou o beijo, se assim lhe quiserem chamar, um beijo que ela me deu, trêmula, coitadinha, trêmula de medo, porque era ao portão da chácara, à vista das estrelas, das castas estrelas de Otelo, you chaste starts! Uniu-nos esse beijo único, breve como a ocasião, ardente como o amor, prólogo de uma vida de delícias, de terrores, de remorsos, de prazeres que re-matavam em dor, de aflições que desabrochavam em alegria, uma hipocrisia paciente e sistemática, único freio de uma paixão sem freio, vida de agitações, de cóleras, de desesperos e de ciúmes, que uma hora pagava à farta e de sobra; mas outra hora vinha e engolia aquela, com tudo mais, para deixar à tona as agitações e o resto, e o resto do resto, que é o fastio e a saciedade: tal foi o livro daquele prólogo.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas