terça-feira, 12 de maio de 2026

Corsário | Elis Regina

Abstinência

Não beber é o vício dos abstinentes.

Millôr Fernandes, em A bíblia do caos

Hagar, o Horrível

1624 – Lima

Se vende gente

Caminha!
Corre!
Canta!
E esse, que defeito tem?
Abre essa boca!
Esse é bêbado, ou brigão?
Quanto oferece, senhor?
E doenças?
Mas vale o dobro!
Corre!
O senhor não trate de me enganar, que devolvo ele!
Salta, cachorro!
Uma peça assim não se dá de presente!
Que levante os braços!
Que cante forte!
Essa negra, é com cria ou sem cria?
Vamos ver esses dentes!
São levados pela orelha. O nome do comprador será marcado em sua bochecha ou em sua testa e serão instrumentos de trabalho nas plantações, nas minas e na pesca, e armas de guerra nos campos de batalha. Serão parteiras e amas de leite, dando vida, e tomando-a serão verdugos e sepultureiros. Serão trovadores e carne de cama.
Está o curral de escravos em pleno centro de Lima, mas o cabildo acaba de votar pela mudança. Os negros em oferta serão alojados em um barracão do outro lado do rio Rímac, junto ao matadouro de São Lázaro. Lá estarão bastante afastados da cidade, para que os ventos levem seus ares corrompidos e contagiosos.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Medo da libertação

Se eu me demorar demais olhando Paysage aux Oiseaux Jaunes (Paisagem com Pássaros Amarelos, de Klee), nunca mais poderei voltar atrás. Coragem e covardia são um jogo que se joga a cada instante. Assusta a visão talvez irremediável e que talvez seja a da liberdade. O hábito que temos de olhar através das grades da prisão, o conforto que traz segurar com as duas mãos as barras frias de ferro. A covardia nos mata. Pois há aqueles para os quais a prisão é a segurança, as barras um apoio para as mãos. Então reconheço que conheço poucos homens livres. Olho de novo a paisagem e de novo reconheço que covardia e liberdade estiveram em jogo. A burguesia total cai ao se olhar Paysage aux Oiseaux Jaunes. Minha coragem, inteiramente possível, me amedronta. Começo até a pensar que entre loucos há os que não são loucos. E que a possibilidade, a que é verdadeiramente, não é para ser explicada a um burguês quadrado. E à medida que a pessoa quiser explicar se enreda em palavras, poderá perder a coragem, estará perdendo a liberdade. Les Oiseaux Jaunes não pede sequer que se o entenda: esse grau é ainda mais liberdade: não ter medo de não ser compreendido. Olhando a extrema beleza dos pássaros amarelos calculo o que seria se eu perdesse totalmente o medo. O conforto da prisão burguesa tantas vezes me bate no rosto. E antes de aprender a ser livre, tudo eu aguentava — só para não ser livre.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Páginas de guarda



Em "As neves do Kilimanjaro", o famoso conto de Hemingway, o protagonista, que está morrendo, relembra todas as histórias que agora jamais escreverá. "Ele sabia pelo menos vinte histórias boas dali e jamais escrevera nenhuma delas. Por quê?" Ele menciona algumas, mas a lista, evidentemente, deve ser interminável. As estantes dos livros que não escrevemos, assim como as dos livros que não lemos, estendem-se pela escuridão do espaço remoto da biblioteca universal. Estamos sempre no começo do começo da letra A.
Entre os livros que não escrevi - entre os livros que não li, mas gostaria de ler - está A história da leitura. Posso vê-lo, logo ali, no ponto exato em que acaba a luz desta seção da biblioteca e começa a escuridão da próxima. Sei exatamente qual é a sua aparência.
Posso conceber sua capa e imaginar a sensação de suas ricas páginas cor de creme.
Posso adivinhar, com acuidade lasciva, a sensualidade da encadernação de pano escuro sob a sobrecapa e as letras gravadas em dourado. Conheço sua página de rosto sóbria, sua epígrafe espirituosa, sua dedicatória comovente. Sei que possui um índice abundante e curioso que me dará grande prazer, com tópicos (caio por acaso na letra T) como Tântalo para leitores; Tartaruga (ver Conchas e peles de animais); Tarzan, biblioteca de; Traças; Tradução; Tolstoi, cânone de; Tormento: e recitação; Transmigração de almas de leitores (ver Empréstimo de livros); Túmulos, inscrições em. Sei que o livro possui, como veios no mármore, cadernos de ilustrações que jamais vi: um mural do século VII representando a biblioteca de Alexandria, tal como vista por um artista da época; uma fotografia da poeta Sylvia Plath lendo em voz alta num jardim, sob a chuva; um esboço da sala de Pascal em Port-Royal, mostrando os livros que ele mantinha sobre sua escrivaninha; uma fotografia dos livros encharcados salvos por uma passageira do Titanic, sem os quais ela não abandonaria o navio; a lista de Natal de Greta Garbo para 1933, escrita por seu próprio punho, mostrando que entre os livros que compraria estava Miss Corações Solitários, de Nathanael West; Emily Dickinson na cama, com um gorro cheio de babados amarrado de um modo confortável sob o queixo, e, espalhados em torno dela, seis ou sete livros cujos títulos mal posso adivinhar.
Tenho o livro aberto diante de mim, sobre a minha mesa. E escrito de forma amistosa (tenho a sensação exata de seu tom), acessível e erudito ao mesmo tempo, informativo e, contudo, reflexivo. O autor, cujo rosto vi no belo frontispício, está sorrindo com satisfação (não posso dizer se é homem ou mulher; a face barbeada poderia ser de ambos os sexos, o mesmo podendo acontecer com as iniciais do nome) e sinto que estou em boas mãos.
Sei que, à medida que avançar pelos capítulos, serei apresentado àquela antiga família de leitores, alguns famosos, muitos obscuros, da qual faço parte. Aprenderei suas maneiras e as mudanças nessas maneiras, e as transformações que sofreram enquanto levaram consigo, como os magos de outrora, o poder de transformar signos mortos em memória viva. Lerei sobre seus triunfos e perseguições, sobre suas descobertas quase secretas. E, no final, compreenderei melhor quem eu - o leitor - sou.
Que um livro não exista (ou não exista ainda) não é motivo para ignorá-lo mais do que ignoraríamos um livro sobre um tema imaginário. Há volumes escritos sobre o unicórnio, sobre Atlântida, sobre igualdade dos gêneros, sobre a Dama Negra dos Sonetos e a igualmente negra Juventude. Mas a história que este livro registra foi particularmente difícil de agarrar; ele é feito, por assim dizer, de suas digressões. Um assunto chama outro, uma anedota traz à mente outra história aparentemente sem relação, e o autor se comporta como se estivesse alheio à causalidade lógica ou à continuidade histórica, como se definisse a liberdade do leitor no próprio ato de escrever sobre esse ofício.
Contudo, nessa aparente aleatoriedade, há um método: este livro que vejo diante de mim não é somente a história da leitura - é também a história de leitores comuns, dos indivíduos que, ao longo dos séculos, escolheram certos livros em detrimento de outros, aceitaram em alguns casos o veredicto dos antepassados, mas em outras ocasiões resgataram títulos esquecidos do passado ou puseram na estante os eleitos entre seus contemporâneos. Esta é a história de seus pequenos triunfos e de seus sofrimentos secretos, e da maneira como essas coisas aconteceram. A crônica de como tudo ocorreu está minuciosamente registrada neste livro, na vida cotidiana de umas poucas pessoas comuns descoberta aqui e ali em memórias de família, histórias de aldeias, relatos de vida em lugares distantes, há muito tempo. Mas fala sempre de indivíduos, nunca de vastas nacionalidades ou gerações cujas escolhas não pertencem à história da leitura, mas à da estatística. Rilke uma vez perguntou: "É possível que toda a história do mundo tenha sido mal compreendida? É possível que o passado seja falso, porque sempre falamos sobre suas massas como se estivéssemos contando sobre uma reunião de gente, em vez de falar sobre aquela pessoa em torno da qual se reuniram, porque era um estranho e estava morrendo? Sim, é possível". Esse mal-entendido, o autor de A história da leitura certamente a reconheceu.
Eis então, no capítulo 14, Richard de Bury, bispo de Durham, tesoureiro e chanceler do rei Eduardo II, nascido a 24 de janeiro de 1287 numa pequena aldeia próxima de Bury; St. Edmund's, em Suffolk, e que em seu quinquagésimo oitavo aniversário terminou um livro explicando que, "porque trata principalmente do amor aos livros, escolhemos, conforme a moda dos antigos romanos, intitulá-lo afetuosamente com a palavra grega Philobiblon".
Quatro meses depois, morreu. De Bury colecionara livros com paixão; tinha, dizia-se, mais livros que todos os outros bispos da Inglaterra juntos, e tantos empilhavam-se em torno de sua cama que era quase impossível andar pelo quarto sem tropeçar neles. De Bury, graças a Deus, não era um erudito e lia apenas o que lhe apetecia. Achava o Hermes Trismegisto (um volume neoplatônico de alquimia egípcia do século III) um excelente livro científico "de antes do Dilúvio", atribuía erradamente obras a Aristóteles e citava versos horríveis como se fossem de Ovídio. Não importava. "Nos livros", escreveu ele, "encontro os mortos como se estivessem vivos; nos livros, prevejo coisas que irão acontecer; nos livros, negócios de guerra são relatados; dos livros saem as leis da paz.
Todas as coisas são corrompidas e degeneram com o tempo; Saturno não cessa de devorar os filhos que gera: toda a glória do mundo estaria enterrada no olvido, se Deus não tivesse provido os mortais com o remédio dos livros. (Nosso autor não menciona isso, mas Virginia Woolf, em um trabalho lido na escola, fez eco à asserção de Bury: "Tenho sonhado às vezes que, quando chegar o Dia do Juízo e os grandes conquistadores, advogados e estadistas forem receber suas recompensas - suas coroas, lauréis, nomes gravados indelevelmente em mármore imperecível , o Todo-Poderoso irá se voltar para Pedro e dirá, não sem uma certa inveja quando nos vir chegando com nossos livros embaixo do braço: 'Veja, esses não precisam de recompensa. Não temos nada para lhes dar. Eles amaram a leitura.'”)
O capítulo 8 é devotado a uma leitora quase esquecida que santo Agostinho, numa carta, louva como uma escriba formidável e a quem dedicou um de seus livros. Seu nome era Melanía, a Jovem (para distingui-la de sua avó, Melania, a Anciã), e ela viveu em Roma, no Egito e no Norte da Africa. Nasceu por volta de 385 e morreu em Belém, em 439. Era apaixonada por livros e copiou para si mesma tantos quantos pôde encontrar, reunindo assim uma importante biblioteca. O erudito Gerôncio, do século V, descreveu-a como "naturalmente dotada" e tão aficionada pela leitura que "percorria as Vidas dos padres como se estivesse comendo uma sobremesa". "Lia livros que eram comprados, bem como livros que encontrava por acaso, e o fazia com tal diligência que nenhuma palavra ou pensamento permanecia desconhecido para ela. Tão avassaladora era sua paixão pelo aprendizado que, quando lia em latim, parecia a todos que não sabia grego, e, por outro lado, quando lia em grego, pensava-se que não sabia latim." Brilhante e transitória, Melania, a Jovem, é vista perambulando na - A história da leitura como uma das muitas pessoas que buscaram conforto nos livros.
De um século mais próximo de nós (mas o autor de A história da leitura não dá importância a essas convenções arbitrárias e o convida a comparecer no capítulo 6), outro leitor eclético, o genial Oscar Wilde, apresenta-se. Seguimos seu progresso nas leituras, dos contos de fada celtas que sua mãe lhe deu aos volumes eruditos que leu no Magdalen College, em Oxford. Foi num exame em Oxford que lhe pediram que traduzisse a versão grega da Paixão no Novo Testamento. Como avançou no trabalho com muita facilidade e correção, os examinadores disseram-lhe que já bastava. Wilde continuou a traduzir, e uma vez mais disseram-lhe que parasse. "Oh, deixem-me continuar, quero ver como acaba”, disse Wilde.
Para ele, era tão importante saber do que gostava quanto o que deveria evitar. Em beneficio dos assinantes da Pal Mall Gazette, publicou, em 8 de fevereiro de 1886, estas palavras de advertência sobre o que "Ler ou não ler": Livros que não devem ser lidos de forma alguma, como Seasons, de Thomson, Italy, de Rogers, Evidences, de Paley, todos os Pais da Igreja, exceto santo Agostinho, todo o John Stuart Mill, exceto o ensaio sobre a liberdade, todas as peças de Voltaire, sem exceção, Analogy, de Butler, Aristotle, de Grant, England, de Hume, History of philosophy, de Lewes, todos os livros argumentativos e todos os livros que tentam provar alguma coisa [...] Dizer às pessoas o que ler é, como regra, inútil ou prejudicial, pois a verdadeira apreciação da literatura é uma questão de temperamento, não de ensino, ao Parnaso não há cartilha introdutória, e nada do que alguém pode aprender vale a pena ser aprendido. Mas dizer às pessoas o que não ler é uma questão muito diferente, e aventuro-me a recomendá-lo, como missão, ao Programa de Extensão Universitária.
Os gostos de leitura privados e públicos são discutidos bem no início do livro, no capítulo 4. O papel do leitor como antologista é examinado, como coletor de material para si mesmo (o livro de Jean-Jacques Rousseau, um lugar-comum, é o exemplo dado) ou para os outros (Golden treasury [Tesouro dourado] de Palgrave), e nosso autor, com muita graça, mostra como os conceitos de público modificam as escolhas dos antologistas. Para apoiar essa "micro-história das antologias", nosso autor cita o professor Jonathan Rose a propósito das "cinco falácias comuns da resposta do leitor":

- primeira, toda literatura é política, no sentido de que sempre influencia a consciência política do leitor;
- segunda, a influência de determinado texto é diretamente proporcional à sua circulação;
- terceira, a cultura "popular" tem muito mais adeptos do que a "alta" cultura e, portanto, reflete com mais precisão as atitudes das massas;
- quarta, a "alta" cultura tende a reforçar a aceitação da ordem social e política existente (suposição largamente compartilhada tanto pela direita como pela esquerda); e
- quinta, o “cânone dos grandes” livros é definido somente pelas elites sociais. Os leitores comuns não reconhecem o cânone, ou aceitam-no apenas por deferência à opinião da elite.

Como nosso autor deixa bastante claro, nós, os leitores, somos normalmente culpados de aceitar pelo menos algumas, senão todas, essas falácias. O capítulo menciona também antologias ready-made coligidas e encontradas por acaso, tais como os 10 mil textos reunidos em um curioso arquivo judeu no Cairo Velho, chamado Geniza e descoberto em 1890 num quarto de despejo lacrado de uma sinagoga medieval. Por causa da reverência judaica em relação ao nome de Deus, nenhum papel foi jogado fora por medo de que contivesse seu nome; portanto, tudo, de contratos de casamento a listas de compras, de formas de amor a catálogos de livreiros (um dos quais incluía a primeira referência conhecida às Mil e uma noites), foi reunido ali para um leitor futuro.
Não apenas um, mas três capítulos (31, 32 e 33) são dedicados ao que o autor chama de "A invenção do leitor". Cada texto supõe um leitor Quando Cervantes começa sua introdução à primeira parte do Dom Quixote com o vocativo "Desocupado leitor”, sou eu que desde as primeiras palavras me torno uma personagem na ficção, uma pessoa com tempo suficiente para me comprazer com a história que está para começar. A mim Cervantes dedica o livro, a mim explica os fatos de sua composição, a mim confessa as falhas da obra. Seguindo o conselho de um amigo, ele próprio escreveu alguns poemas laudatórios recomendando o livro (a versão menos inspirada de hoje é pedir a personalidades conhecidas que elogiem e colem seus panegíricos na sobrecapa do livro).
Cervantes solapa sua própria autoridade ao me fazer penetrar em seu segredo. Eu, o leitor, fico em guarda e, no mesmo ato, sou desarmado. Como posso reclamar do que me foi exposto de forma tão clara'? Concordo em participar do jogo. Aceito a ficção. Não fecho o livro.
Minha decepção indisfarçada continua. Oito capítulos adiante, fico sabendo que esse é o tamanho da história de Cervantes e que o resto do livro é uma tradução do árabe feita pelo historiador Cide Hamete Benengeli. Por que o artificio? Porque eu, o leitor, não me convenço facilmente e porque, embora não acredite na maioria dos truques com os quais o autor jura veracidade, gosto de entrar num jogo em que os níveis de leitura mudam constantemente. Leio um romance, leio uma aventura real, leio a tradução de uma aventura real, leio uma versão correta dos fatos.
A história da leitura é eclética. A invenção do leitor segue-se um capítulo sobre a invenção do escritor, outra personagem de ficção. “Tive a infelicidade de começar um livro com a palavra eu", escreveu Proust, "e imediatamente pensou-se que, em vez de tentar descobrir leis gerais, eu estava analisando a mim mesmo, no sentido individual e detestável da palavra." Isso conduz nosso autor a discutir o uso da primeira pessoa do singular e do modo como esse eu fictício força o leitor a uma aparência de diálogo, do qual, entretanto, ele é excluído pela realidade física da página. "Somente quando o leitor lê para além da autoridade do escritor é que o diálogo acontece", diz nosso autor, e tira seus exemplos do nouveau roman, em especial de A modificação, de Michel Butor, escrito inteiramente na segunda pessoa. "Aqui", diz nosso autor, "as cartas estão na mesa e o escritor não espera que acreditemos no eu nem presume que vamos assumir o papel do condescendente 'prezado leitor'."
Numa fascinante digressão (capítulo 40 de A história da leitura), nosso autor apresenta a sugestão original de que a forma pela qual o livro se dirige ao leitor leva à criação dos principais gêneros literários - ou pelo menos à sua classificação. Em 1948, em Das Sprachliche Kunstwerk [Análise e interpretação da obra de arte literária], o crítico alemão Wolfgang Kayser propôs que o conceito de gênero derivava das três pessoas que existem em todas as línguas conhecidas: eu, tu e ele ou ela. Na literatura lírica, o eu expressa-se emocionalmente; no drama, o eu torna-se uma segunda pessoa, tu, e trava com outro tu um diálogo apaixonado. Por fim, na epopeia, o protagonista é a terceira pessoa, ele ou ela, que narra objetivamente. Ademais, cada gênero exige do leitor três atitudes distintas: uma atitude lírica (a da caução), uma atitude dramática (que Kayser chama de apóstrofe) e uma atitude épica, ou enunciação. Nosso autor acolhe com entusiasmo esse argumento e ilustra-o com três leitores: Éloise Bertrand, uma colegial francesa do século XIX cujo diário sobreviveu à guerra franco-prussiana de 1870 e que registrou fielmente sua leitura de Nerval; Douglas Hyde, que foi ponto na representação de The vicar of Wakefield [O vigário de Wakefield] no Court Theatre de Londres, com Ellen Terry no papel de Olívia; e a criada de Proust, Céleste, que leu (em parte) o extenso romance de seu patrão.
No capítulo 68 (essa História da leitura é um volume reconfortante-mente grosso), nosso autor levanta a questão de como (e por que) certos leitores preservam uma leitura depois que a maioria já a relegou ao passado. O exemplo dado é o de um jornal de Londres publicado em algum momento de 1855, quando a maioria dos jornais ingleses estava abarrotada de notícias da guerra na Criméia:
John Challis, um homem idoso de cerca de sessenta anos, vestido com os trajes pastoris de uma pastora da idade de ouro, e George Campbell, de 35 anos, que descreveu a si mesmo como advogado e apareceu completamente equipado em trajes femininos atuais, foram postos no tribunal diante de sir R. W. Carden, sob a acusação de terem sido encontrados disfarçados de mulher no Druids'-hal , em Turnagain Lane, um salão de danças sem licença, com o propósito de incitar outros a cometerem uma ofensa antinatural.
"Uma pastora da idade de ouro": em 1855, o ideal bucólico literário era coisa do passado.
Codificado nos Idílios de Teócrito no terceiro século antes de Cristo, atraindo os escritores de uma forma ou de outra até o século XVII, tentando escritores tão disparatados como Milton, Garcilaso de la Vega, Giambattista Marino, Cervantes, Sidney e Fletcher, o bucolismo encontrou um reflexo muito diferente em romancistas como George Eliot e Elizabeth Gaskel , Émile Zola e Ramón del Val e Inclán, em seus livros que davam aos leitores outra visão menos ensolarada da vida no campo: Adam Bede (1859), Cranford (1853), La Terre (1887), Tirano Banderas (1926). Essas reconsiderações não eram novas.
Já no século XIV o escritor espanhol Juan Ruiz, arcipreste de Hita, em seu Libro de buen amor, subvertera a convenção na qual um poeta ou cavaleiro solitário encontra uma bela pastora a quem seduz gentilmente, fazendo com que o narrador encontre nas colinas de Guadarrama quatro pastoras selvagens, corpulentas e voluntariosas. As duas primeiras o estupram, da terceira ele escapa com promessas falsas de casar com ela e a quarta lhe oferece abrigo em troca de roupas, joias, um casamento ou dinheiro vivo. Duzentos anos depois, havia poucos como o velho sr. Challis que ainda acreditavam no apelo simbólico do pastor adorável e suas pastoras ou do amoroso cavalheiro e sua inocente donzela do campo. Segundo o autor de A história da leitura, essa é uma das maneiras (extrema, sem dúvida) pelas quais os leitores preservam e recontam o passado.
Vários capítulos, em diferentes partes do livro, tratam dos deveres da ficção, em oposição ao que o leitor aceita como fato. Os capítulos sobre a leitura de fatos constituem um toque árido, indo das teorias de Platão às críticas de Hegel e Bergson; ainda que tragam o possivelmente apócrifo viajante-escritor inglês do século XIV sir John Mandevil e, são um tanto densos para se deixar resumir Os capítulos sobre leitura de ficção, no entanto, são mais concisos. Duas opiniões, igualmente prescritivas e totalmente opostas, são apresentadas. Segundo uma delas, o leitor deve acreditar nas personagens do romance e agir como elas. De acordo com a outra, o leitor deve desconsiderar essas personagens como meras fabricações sem nenhuma relação com o "mundo real". Henry Tilney, em A abadia de Northanger, de Jane Austen, dá voz à primeira opinião quando interroga Catherine depois do rompimento da amizade com Isabel a; ele espera que os sentimentos dela sigam as convenções da ficção:

- Imagino que, perdendo Isabel a, deve estar com a sensação de ter perdido metade de si mesma. Sente no coração um vazio que nada encherá. Tudo lhe parece enfadonho, e a simples idéia dos prazeres que compartilhava com ela - bailes, teatros, concertos lhe é odiosa. Está persuadida de que já não terá, de agora em diante, uma amiga em quem confiar sem reservas, uma amiga com quem contar. Está sentindo tudo isto?
- Não disse Catherine depois de refletir. - Devia?

O tom do leitor e o modo como ele afeta o texto são discutidos no capítulo 51, por meio da personagem de Robert Louis Stevenson lendo histórias para seus vizinhos na Samoa.
Stevenson atribuía o senso dramático e musical de sua prosa às histórias para dormir que lhe contava sua babá Alison Cunningham, "Cummie". Ela lia histórias de fantasmas, hinos religiosos, panfletos calvinistas e romances escoceses, tudo o que acabou penetrando em sua ficção. "Foi você quem me deu a paixão pelo teatro, Cummie", confessou-lhe quando já era homem feito. “Eu, senhor Lou? Nunca pus o pé num teatro em toda a minha vida.'”
Ao que ele respondeu: "Ah, mulher! Mas foi aquela magnífica forma dramática que você tinha de recitar os hinos". Stevenson aprendeu a ler somente aos sete anos, não por preguiça, mas porque queria prolongar as delícias de ouvir as histórias ganharem vida. A isso nosso autor chama de "síndrome de Scherazade".
Ler ficção não é a única preocupação do nosso autor. A leitura de textos científicos, dicionários, partes de um livro com índices, notas e dedicatórias, mapas, jornais, tudo merece (e recebe) seu próprio capítulo. Há um retrato curto mas revelador do romancista Gabriel García Márquez, que lê todas as manhãs um par de páginas de um dicionário (qualquer dicionário, exceto o pomposo Diccionario de la Real Academia Española) - hábito que nosso autor compara ao de Stendhal, que lia com atenção o Código Napoleônico para aprender a escrever com um estilo conciso e exato.
O tópico da leitura de livros emprestados ocupa o capítulo 15. Jane Carlyle (esposa de Thomas Carlyle e famosa epistológrafa) nos conduz pelas complexidades de ler livros que não nos pertencem, "como se tivéssemos um caso ilícito", e de retirar de bibliotecas livros que podem afetar nossa reputação. Uma certa tarde de 1843, tendo escolhido da respeitável London Library vários romances "ousados" do escritor francês Paul de Kock, ela descaradamente preencheu a ficha de empréstimo com o nome de Erasmus Darwin, o descarnado avô inválido do famoso Charles, para espanto dos bibliotecários.
Aqui estão também as cerimônias de leitura da nossa época e de tempos passados (capítulos 43 e 45). Aqui estão as maratonas de leitura de Ulisses no Bloomsday, as nostálgicas leituras radiofônicas de um livro antes de dormir, as leituras em grandes salões de biblioteca lotados e em lugares longínquos, desertos e bloqueados pela neve, leituras à cabeceira dos doentes, leituras de histórias de fantasmas ao pé do fogo no inverno. Aqui está a ciência curiosa da biblioterapia (capítulo 21), definida no Webster como "o uso de material de leitura selecionado como coadjuvante terapêutico na medicina e na psiquiatria", com o qual certos médicos afirmam poder curar os doentes do corpo e do espírito, administrando-lhes The wind in the wil ows [O vento nos salgueiros] ou Bouvard e Pécuchet.
Aqui estão as maletas de livros, o sine qua non de toda viagem vitoriana. Nenhum viajante saía de casa sem uma mala cheia de leitura apropriada. fosse para a Côte d'Azur ou para a Antártida. (Pobre Amundsen: nosso autor nos conta que, a caminho do Pólo Sul, a maleta de livros do explorador afundou sob o gelo e ele foi obrigado a passar muitos meses na companhia do único volume que conseguiu resgatar: The portraiture of His Sacred Majesty in his solitudes and sufferings [O retrato de Sua Sagrada Majestade em seus sofrimentos e solidões], do dr John Gauden.) Um dos capítulos finais (mas não o último) trata do reconhecimento explícito pelo escritor do poder do leitor. Aqui estão os livros deixados abertos para a construção do leitor, como uma caixa de Lego: o Tristram Shandy de Laurence Sterne, evidentemente, que nos permite ler de qualquer jeito, e O jogo da amarelinha, de Júlio Cortázar, romance construído com capítulos intercambiáveis cuja seqüência o leitor determina à vontade.
Sterne e Cortázar conduzem inevitavelmente aos romances da Nova Era, os hipertextos.
O termo (conta-nos nosso autor) foi cunhado na década de 1970 pelo especialista em computação Ted Nelson, para descrever o espaço narrativo não sequencial possibilitado pelos computadores. Nosso autor cita o romancista Robert Coover, que descreveu assim o hipertexto num artigo publicado no New York Times: "Não há hierarquias nessas redes sem parte de cima (e sem parte de baixo), na medida em que parágrafos, capítulos e outras divisões convencionais do texto são substituídas por blocos de texto e elementos gráficos do tamanho da janela, de valor semelhante e igualmente efêmeros". O leitor de um hipertexto pode entrar no texto praticamente em qualquer ponto, pode mudar o curso da narrativa, exigir inserções, corrigir, expandir ou apagar. Esses textos também não têm fim, pois o leitor (ou o escritor) sempre pode continuar ou recontar um texto: "Se tudo está no meio, como saber que acabou, seja você o leitor ou o escritor?" - pergunta Coover "Se a qualquer momento o autor é livre para levar a história a qualquer lugar e em quantas direções quiser, não se torna uma obrigação fazê-lo?" Entre parênteses, nosso autor questiona a liberdade implícita nessa obrigação.
A história da leitura, felizmente, não tem fim. Depois do último capítulo e antes do já mencionado índice copioso, nosso autor deixou várias páginas em branco para o leitor acrescentar mais pensamentos sobre a leitura, temas obviamente esquecidos, citações pertinentes, eventos e personagens ainda no futuro. Há algum consolo nisso. Imagino deixar o livro na mesinha-de-cabeceira, imagino abri-lo hoje à noite, amanhã à noite ou depois de amanhã, imagino que direi a mim mesmo: "Não acabou".

Alberto Manguel, em Uma História da Leitura

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Mais Um Na Multidão | Erasmo Carlos & Marisa Monte

Roça

No mesmo prato
o menino, o cachorro e o gato.
Come a infância do mundo.

Adélia Prado, em O Coração Disparado

Mágica divina

O cristianismo acabou com o sofrimento transformando o sofrimento em prazer, como o atesta a alegre legião dos mártires e essa gente que, a cada golpe, exclama: “Seja o que Deus quiser!”

Mário Quintana, em Caderno H

O impagável Quino

A bo de segunda

Dois homens se vestindo, cada um em seu quarto, falando ao telefone. O clima é adolescente, como se estivessem indo pra balada.
SALDANHA Senador Silveira?
SILVEIRA Fala, Saldanha!
SALDANHA Vai chegar lá na votação lá do negócio da emenda?
SILVEIRA Nossa, ia te ligar agora pra perguntar isso!
Os dois riem.
SALDANHA Tô muito na dúvida.
SILVEIRA Tá marcado pra que horas?
SALDANHA Umas nove, mas aquela coisa, né? Só começa a bombar lá pelas onze.
SILVEIRA Mas a questão é: o pessoal vai? A última votação que eu fui tava megamicada. Não tinha ninguém que eu conheço.
SALDANHA Nem fala! Foi o uó. Eu estreei uma gravata nova e não tinha nem CQC.
SILVEIRA Nossa, odeio quando isso acontece! Não comprei uma gravata italiana pra gastar na TV Senado!
Os dois riem.
SILVEIRA Você ligou pro pessoal?
SALDANHA O Zezinho do Sindicato tá em Trancoso. O Josuelton tá em Ibiza. O Pastor Tobias disse que só vai se o Carlinhos for. O Carlinhos falou que só vai se eu for. Mas eu só vou se você for, pra gente sentar no fundão e tocar a zoeira.
SILVEIRA E se a gente mandasse o suplente?
SALDANHA O meu tá cassado.
SILVEIRA A gente pode dar uma passadinha. Se tiver ruim a gente vaza.
SALDANHA Pode ser uma boa. A gente passa, dá uma olhadinha e faz uma social pra marcar presença.
SILVEIRA Combinado, então. Ah, essa votação é sobre o quê?
SALDANHA É uma emenda parlamentar de orçamento impositivo.
SILVEIRA Sério?
SALDANHA Claro que não, porra! Tu acha que eu vou saber que porra de votação que vão tá votando, ô caralho?
Os dois riem.
SILVEIRA A gente se vê lá, filho da puta. E vai perfumado que depois tem puteiro.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

I Want to Hold Your Hand | John Lennon e Paul McCartney


I Want to Hold Your Hand, de John Lennon e Paul McCartney

Oh yeah I’ll tell you something
I think you’ll understand
When I say that something
I want to hold your hand

I want to hold your hand
I want to hold your hand

Oh please say to me
You’ll let me be your man
And please say to me
You’ll let me hold your hand
Now let me hold your hand
I want to hold your hand

And when I touch you I feel happy inside
It’s such a feeling that my love
I can’t hide
I can’t hide
I can’t hide

Yeah you got that something
I think you’ll understand
When I say that something
I want to hold your hand

I want to hold your hand
I want to hold your hand

And when I touch you I feel happy inside
It’s such a feeling that my love
I can’t hide
I can’t hide
I can’t hide

Yeah you got that something
I think you’ll understand
When I feel that something

I want to hold your hand
I want to hold your hand
I want to hold your hand
I want to hold your hand

Por trás de tudo havia um erotismo. Se eu me ouvisse usando essa palavra quando eu tinha dezessete anos, eu daria uma gargalhada. Mas o erotismo foi uma das forças motrizes de tudo o que fiz. É uma coisa muito poderosa. E, sabe, era isso que estava por trás de muitas dessas canções de amor. “I want to hold your hand”, mas subentende-se, entre parênteses: (quero segurar a sua mão e provavelmente fazer muito mais!).
Na época em que esta canção foi escrita, eu tinha uns 21 anos, e tínhamos ido morar em Londres. O nosso empresário conseguiu um apartamento para os Beatles: apartamento L, 57 Green Street, Mayfair. Era tudo muito empolgante; Mayfair é uma área chique de Londres. Por algum motivo, fui o último a aparecer lá e a conhecer o local, e me deixaram num quartinho. Os outros já tinham escolhido os quartos maiores. E me deixaram nesse quartinho medonho.
Mas eu tinha uma namorada, Jane Asher, uma jovem muito elegante, cujo pai tinha um consultório médico na Wimpole Street e cuja mãe era uma senhora maravilhosa, a professora de música Margaret Asher. Então, eu sempre ia visitá-los na casa deles. Eu adorava ir lá por causa do ambiente familiar. Margaret e eu nos dávamos muito bem. Ela me tratava como se fosse minha segunda mãe. Era com esse carinho que eu estava acostumado antes de minha mãe morrer, quando eu tinha quatorze anos. Mas eu nunca tinha visto uma família como a deles. As únicas pessoas que eu conhecia pertenciam à classe trabalhadora de Liverpool. Essa era a Londres sofisticada; todos eles tinham uma rotina que se estendia das oito da manhã às seis ou sete da noite – uma agenda sempre cheia. Nem um segundo sequer era desperdiçado. Jane ia ao agente dela, passava o texto de uma peça teatral, encontrava-se com alguém para almoçar, tinha aula com o instrutor vocal para aprender um sotaque de Norfolk para seu próximo espetáculo. É natural que eu me apaixonasse por tudo isso. Era como se eu estivesse em uma história, vivendo em um romance.
Conversa vai, conversa vem, acabei morando com os Asher. Eu já tinha me hospedado lá algumas vezes, mas Margaret deve ter dito: “Bem, sabe, vamos deixar você ficar com o quarto do sótão”. Então fui morar lá, e eles colocaram um piano naquele quarto.
Quando John vinha me visitar, também havia um piano no porão – uma salinha de música onde eu acho que a Margaret dava aulas aos alunos dela. Assim, podíamos compor ali no porão, os dois sentados ao piano ao mesmo tempo, ou frente a frente, cada qual com seu violão.
I Want to Hold Your Hand” não é sobre Jane, mas com certeza foi escrita quando eu estava com ela. Para dizer a verdade, acho que estávamos compondo mais para o público em geral. Eu podia aproveitar minha experiência com a pessoa por quem eu estava apaixonado na época – e, às vezes, isso era muito específico –, mas em linhas gerais estávamos compondo para o mundo.

Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente

domingo, 10 de maio de 2026

Evidências | Paulo Miklos

A Arte de Portinari

Natureza-Morta (1930), de Cândido Portinari

Tarde de maio

Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,
outra chama, não perceptível, e tão mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços cômicos,
e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções de minh’alma
nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza
sem fruto.
 
Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,
colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.
Eu nada te peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto, e passa…
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e em maio, tantas vezes, morremos.
 
Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,
já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.
E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito
lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.
Nem houve testemunha. 
 
Não há nunca testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.
Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara?
Se morro de amor, todos o ignoram
e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória
das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,
perdida no ar, por que melhor se conserve,
uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.

Carlos Drummond de Andrade, em Claro Enigma

Quinto caderno de Kindzu – Juras, promessas, enganos



Farida dormia na cabina do capitão. Enquanto eu dormia fora, deitado entre cordas e panos velhos. O anão nunca saía do porão, de guarda aos donativos. Caso estranho: Farida não era capaz de ver o tchóti. Pior ainda: ela desacreditava da sua existência. Eu lhe apontava lá em baixo no porão, a sombra escura e minusculinha do anão. Ela se ria, como se fosse brincadeira. Eu lhe notava os barulhos que o baixito fazia, ela respondia que era o mar ecoando no navio. Desisti de provar a presença do tchóti. Aliás, mesmo eu comecei a duvidar. Cheguei a descer ao porão para provar se o baixito ali permanecia. Chamei por ele, vasculhei, passei tudo pela finura de um pente. Nada. Nem vestígio do anão. Farida tinha razão? Será que só em sonho a criaturita preenchera alguma existência? Ou seria, mais outra vez, obra de meu pai?
Essas perguntas me perseguiam enquanto procurava ninho para dormir. Do lugar onde me ensonava eu podia ver o céu, todo redondo, estrelinhoso. Nas noites mais claras eu já enxergava a torre do farol. No princípio eu não conseguia distinguir a ilha mais sua construção. Agora, sim. Já os via tanto quanto deixara de ver o anãozito. Eu e Farida trocáramos de ilusões? E lá estava o farol, esse da esperança. Parecia uma zebra descansando sobre uma só perna. Muitas vezes nem se via a pequena ilha onde tinha sido construído. As ondas cobriam os rochedos, em crinas de espumas. Nas ventanias, o mar se agravava e parecia o barco ia ser arrancado. Eu pensava: “lá vamos partir de viagem, sem rumo nem comandante”. Contudo, o barco apenas rangia, cansado. Nenhuma força conseguia libertar aquele náufrago. Tinha teimosias iguais às de Farida, só que de contrárias direcções. Um queria ficar, outro ansiava partir. Nada parecia demover aquela mulher de sair de sua terra, abandonar tudo. Seu filho era sua única dúvida, a última âncora.
Antes de deitar, Farida passeava pelo convés. Vagueava, espreitando no escuro. Nesses momentos, ela me recordava meu pai, andando pelo mato à procura de sonhos.
Não sentes, Kindzu? O barco está a mexer!
Não mexia. Só ela sentia o navio ceder. Naquele destroço, o tempo parecia também naufragado. Nesse enquanto, fui um ouvidor. De cada vez que sofria uma dessas estranhas febres que lhe roubavam o corpo, Farida contava sua estória, fiava e desfiava lembranças. Eu escutava até anoitecer. Meu pai costumava dizer que a escuridão nos faz nascer muitas cabeças. Os relatos de Farida me faziam entrar no passado dela como se eu fosse natural desse seu tempo. Minha companheira perdia a noção do mundo enquanto duravam suas recordações. Era eu que alertava para a fome, para a sede, para o frio. Comíamos e bebíamos da despensa do navio. Havia ainda demais reservas. Farida podia ficar aqui por tempos e tempos. E parecia era esse o desejo dela. E as estórias se seguiam, se repetiam, trocavam e multiplicavam.
Me estás a ouvir, Kindzu?
Na realidade, eu já desistira de escutar. Pensava sobre as semelhanças entre mim e Farida. Entendia o que me unia àquela mulher: nós dois estávamos divididos entre dois mundos. A nossa memória se povoava de fantasmas da nossa aldeia. Esses fantasmas nos falavam em nossas línguas indígenas. Mas nós já só sabíamos sonhar em português. E já não havia aldeias no desenho do nosso futuro. Culpa da Missão, culpa do pastor Afonso, de Virgínia, de Surendra. E sobretudo, culpa nossa. Ambos queríamos partir. Ela queria sair para um novo mundo, eu queria desembarcar numa outra vida. Farida queria sair de África, eu queria encontrar um outro continente dentro de África. Mas uma diferença nos marcava: eu não tinha a força que ela ainda guardava. Não seria nunca capaz de me retirar, virar costas. Eu tinha a doença da baleia que morre na praia, com olhos postos no mar.
Certa vez ela se chegou grave. Colocou suas mãos nas minhas e deixou um silêncio pousar. Depois, me pediu:
Quando saíres daqui quero que vás procurar meu filho. Hei-de levar Gaspar comigo.
Não posso, Farida. Vou sair daqui e procurar os naparamas.
Tu nunca vais encontrar esses teus naparamas. Esquece isso.
Não posso.
Não vês que essa gente também é filha da guerra? Quando vencerem ficam iguais aos outros. Vão querer dividir as vantagens com os outros.
Cala-te, tu não sabes nada sobre esta guerra. Tu queres fugir, não tens nenhum direito de falar.
Farida se ofende. No resto do dia ela me evita. Eu também me afastei. Aquela mulher tinha maltratado a minha maior aspiração. Eu precisava acreditar que existia uma causa nobre, uma razão pela qual valia a pena me entregar. Farida não tinha o direito de manchar aquela crença. Ao fim de um tempo, porém, reconsiderei: procurando uns naparamas bem podia procurar também o tal Gaspar. Não valia a pena acender briga naquele tão pequeno espaço. Me cheguei a Farida e perguntei como se não tivesse nenhum empenho:
Como posso encontrar teu filho?
Farida se espanta. Queres mesmo ir procurar o miúdo, pergunta ela. A sua mão pousa em meu braço: espera, não vás já! O melhor é aguardar por uma noite de luar para a tua canoa não virar nas pedras. Repeti a pergunta: onde deveria eu vasculhar para encontrar seu filho? Ela fingiu que pensava naquele momento. Mais de catorze anos se tinham passado desde que entregara seu filho na missão. E se eu procurasse tia Euzinha? Ou quem sabe Virgínia ainda estivesse por ali? Na missão? Na missão nem valia a pena, Gaspar nunca haveria de lá voltar. Enfim, eu que tentasse tudo em toda a parte. O menino não poderia ter desaparecido assim, qualquer maneira.
Procura onde teu peito suspeitar. Mas promete me trazer de volta o meu menino.
Prometi. Eu começaria a busca mal chegasse a terra. Mas eu sentia em mim uma guerra de quereres: parte de mim desejava que ela nunca mais encontrasse o filho. Seria uma maneira de ela ir ficando por ali, um modo de eu guardar sua companhia. Outra parte de mim queria merecer afectos. Redescobrir Gaspar seria o modo vitorioso de conquistar esse afecto. Depois, porém, eu comecei a duvidar se aquela mulher merecia tantas juras de minha parte. Porque as suas estórias foram mais e mais entrando na confusão. Dizia e desdizia. Uma certa vez, quando eu queria aprofundar o caso de seu filho ela me inquiria, surpresa:
Meu filho? Qual filho?
Seu filho Gaspar!
Demorou um tempo até se recordar. Afinal, ela se deslembrara assim do pé para a mão? Ou inventara tudo de sua criação? Comecei a pôr muita sobrancelha nas seguintes escutas. Farida se multiplicava em Faridas. Até que uma noite, o calor me fazia rebulir sobre os panos. Acordei estremungado. Ouvi barulhos. Um pequeno barco a motor se aproximava. Farida veio e gritou agitada:
São eles, me vêm buscar!
Eles, quem? Farida não respondeu. Me agarrou pelos braços e implorou defesa. Mas não foi preciso eu fazer nada. Porque uma grandiosa tempestade subitamente rebentou. O barquinho dos visitantes não conseguia encostar ao nosso. Tentaram várias vezes. Mas depois, desistiram e se retiraram, escuro adentro. Voltei a perguntar:
Mas Farida, quem eram?
Me querem vir matar, Kindzu.
Um assassinato? Que motivo teria? Me pareceu pouco acontecível, mais um delírio daquela mulher. Daquela vez, porém, seu comportamento me estranhou, em convincência. Ela se encerrou em seu quarto e me pediu que me mantivesse à espreita, não fossem os outros regressar. Fui para o convés, molhado até dentro dos olhos. A chuva redigia suas gordas gotas, hesitantes entre trovoar e tropousar. As nuvens se acotovelavam, sem gentileza. Podiam se tocar, pedirem desculpa e continuar caminho. Enquanto não: brigavam, cuspiam lumes, resmungos celestiais. Será que aprenderam dos homens as impaciências terrestres?
Aquelas nuvens me fizeram recordar quantos dias passaram desde que chegara ao barco encalhado. Já me fartava daquela sozinhidão. Farida nem se importava com a espera. Muitas vezes eu lhe pedia:
Vem, volta comigo para terra.
Por que razão eu não queria que ela fosse em sua viagem? Por que me doía pensar que alguém pudesse vir-lhe buscar e levar-lhe para terras muito estrangeiras? Será que já me afeiçoara tanto assim àquela mulher? Ou simplesmente sentia inveja de não poder partir também, sair daquela terra enlouquecida? Quem sabe eu tinha medo de aceitar esse desejo do longe, tão igual ao de Farida? Afinal, ali sob a grossa chuva, de sentinela aos obscuros saltinhadores, eu apenas fingia proteger Farida. Era ela quem realmente me protegia, era ela quem governava os espíritos daquele navio. Meu único espírito, o anão, já se havia extinguido.
Uma coisa me certificava: pouco a pouco eu me amarrava à presença daquela mulher. Nunca eu tinha tocado em mulher de amar. As autênticas, reais mulheres me temorizavam. Ao invés, Farida era quase irreal, ela se sonhava e eu me deliciava naquele fingimento que punha nela. Mas quanto mais me ardia em paixão mais eu sentia que me devia ir embora. Minha missão era outra. Por muito que começasse a duvidar, eu não podia esquecer meu original motivo: ser um naparama, um guerreiro de justiça. Farida me roubava coragem do caminho, me roubava força de decidir. Cada dia que passava, meu coração semelhava mais e mais aquele barco. Eu estava parado naquela mulher, como os ferros preguicentos do barco estavam cravados no banco de areia. Não podia adiar mais, se quisesse ainda ser dono de mim. Deveria partir, imediatamente. Desci o porão apenas para descarregar consciência sobre o anão. E se ele realmente existisse? Essa minha dúvida aumentou quando de um lado do porão vi pacotes e caixotes arrumados em altura reduzida como se tivessem sido empilhados por criança. Gritei, chamei. Recebi nenhuma resposta. Insisti, o silêncio teimou mais que eu. Farida estava certa, não havia ninguém mais no barco a não ser nós os dois.
Saí do porão, aspirei fundo o ar salgado. Nesse dia estava Setembro, o mês que chama os temporais. O vento soprava trazendo e levando uma chuva quente. De repente, a cabina de pilotagem se acendeu, um xipefo pintou luz, em doces pinceladas. Por entre as cortinas vi o corpo de Farida. Ela se banhava. Assim, em contorno de claro e escuro a mulher se esfregava em água ou em claridade? Cheguei à escotilha, espreitei sem disfarce. Farida me notou, virou-se de lado e acenou um gesto de convite.
Entrei, perturbado, ardendo de intenção. Juntei-me a ela, chegadinho, fosse confiar-me um ilegítimo segredo. Ela se prumou, face a face. Nos olhámos como se reconhecêssemos, no outro, o único ser da terra. Eu para mim, me garantia: não chegava uma vida inteira para contemplar aqueles olhos. Cinzas, se nos olhos dela dormitavam, em brasas se acenderam. Um dedo foi entrando no canto da sua boca. Toquei primeiro em seus dentes, depois senti sua saliva. Era uma saliva quente, parecia que não era apenas um dedo mas todo eu inteiro que penetrava numa caverna aquecida. Outro dedo caminhou nos interiores dela, nervoso de contente. Lá fora, o mar esturdilhava, lançando espumas. O vento soprou com mais raiva, as ondas começaram a varrer tudo, sem respeito. Mesmo ali, no guardado da nossa sala, a água jorrava. Nem parecíamos notar. O mundo esvanecia e o mar já não importava. As mãos molhadas de Farida desataram as vestes, os dedos dela parecia eram de água. Ela se deitou, derramada no chão de ferro. Nos colámos em gestos de afogado. As vagas ondeavam nossos corpos, indo e vindo. Os dois éramos já só um, emergindo como uma ilha num imenso nada.
Depois, nos desprendemos, fatigados. Ela estremeceu, molhada. Se chegou ao xipefo, se envolveu numa manta. Permaneci, prostrado, seguindo cada movimento dela. Que idade teria? Porque se Farida dava como uma mulher, recebia como uma menina.
Tens que ir, Kindzu.
Não entendi. Antes, ela me pedira que eu aguardasse pelas noites de luar. Agora se antecipava à lua. E depois, eu é que devia anunciar a partida. Como é que ela podia ordenar a nossa separação?
Eu vou. Mas tu vens comigo, Farida.
Ela negou: não podia abandonar aquele navio. Mas é um destroço, Farida. Aqui só há outroras, isto é água riscando fósforos. Ela não recuava ideia. Aqui, Kindzu, é o meu ninho. E depois, tenho a certeza, me hão-de vir buscar.
Um barco desse tamanho não pode ser esquecido. Os donos virão rebocar esta carcaça, eu irei junto. Para longe, muito longe, Kindzu.
Praguejei. Eu sabia que a miséria se cura é com farturas. É verdade que o melhor lugar para o vivo se esconder é no meio de um enterro. Mas aquele devaneio dela não tinha conformidade nenhuma. Tanta ilusão não se concebia. Gritei, em desespero: vais é morrer aqui, apodrecer sozinha. Ela girou, furiosa. Meus modos lhe desacertavam. Parecia que ela iria responder à justa letra e tom. Mas permaneceu gesticalada, com esse surpreendimento que só as mulheres são capazes. Mais tarde, avançou, carinhenta:
É o tempo da gente ser cada um. Só isso, Kindzu.
A terra que tu procuras é esta, Farida. Não há outro lugar.
Tu não entendes, Kindzu. Eu quero sair, continuar viva.
E teu filho: vais deixá-lo?
Eu pensava que aquele seria argumento fatal. Enganei-me. Ela já não escutava. Cabisbaixei-me, desistido. Quis enrolar um cigarro, o papel estava encharcado. Amarrotei o charro e atirei para o chão como se nos meus dedos estivesse a minha vontade. Farida não percebia: eu não podia senão viver no sossego da labareda, à sombra de uma paixão mortal. Ela me roçou um gesto, terna, materna. Perguntei se algum recado havia, alguma mensagem a levar para terra. Ela trocou uns dedos de silêncio e, depois, murmurou:
Eu, Deus me esqueça, só peço uma coisa: é que meu filho já não viva.
Não diga uma coisa dessas. O que é isso, mulher?
Mas, Kindzu, acredita que eu quero mal ao meu menino? É que quase eu penso que na morte se está melhor que aqui. E, depois, são pressentimentos, coisas de mãe, nem você pode nunca entender.
Eu prometi que iria buscar seu menino. É isso que farei, Farida.
Ela sorriu, nem sei se de gratidão. Talvez se divertisse de minha ingenuidade. Pedi-lhe que prometesse esperar pelo meu regresso. Respondeu com um vago aceno. Insisti:
Virei com seu Gaspar. Promete que me espera?
Prometo. Agora vai, Kindzu. Vai dormir que sua viagem segue amanhãzinha cedo.
Fui-me deitar em meu recanto. Farida não queria que dormíssemos juntos. Quem dorme no colo de outro perde a alma, dizia. Os sonhos não encontram os respectivos donos quando homem e mulher dormitam entrelaçados. Assim, me embalei solitário, procurando vencer meu cansaço. Em vão. Já era madrugada ainda eu não dera jeito no sono. As pálpebras cabecearam só quando o dia espontava. Olhando o nascer da luz realizei que nunca mais dera atenção ao astro-dia. No fundo, me despedira da luz nas praias de minha aldeia. De bruços sobre o verão, eu deixara o sol na savana do tempo. Molhado, quase líquido, o dia brotava das fundas águas do Índico. Se ergueu com a soberania das coisas derradeiras. E a terra se via estar nua, lembrando distante seu parto de carne e lua.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula