15/06/2026
Retrato do artista quando coisa
Retrato do artista quando coisa:
borboletas
Já trocam as árvores por mim.
Insetos me desempenham.
Já posso amar as moscas como a mim
mesmo.
Os silêncios me praticam.
De tarde um dom de latas velhas se
atraca em meu olho
Mas eu tenho predomínio por lírios.
Plantas desejam a minha boca para
crescer por de cima.
Sou livre para o desfrute das aves.
Dou meiguice aos urubus.
Sapos desejam ser-me.
Quero cristianizar as águas.
Já enxergo o cheiro do sol.
Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo
Anarquia
Na escola eu já sentia minha atração para o contrário – adorava o máximo divisor comum, as frações ordinárias e as palavras epicenas ou promíscuas.
Millôr Fernandes, em A bíblia do caos
O Mestre e Margarida — 8
O duelo entre o professor e o poeta
No exato momento em que a consciência
abandonou Stiôpa em Ialta, ou seja, por voltas das onze e meia da
manhã, ela retornou a Ivan Nikoláievitch Bezdômny, que havia
despertado depois de um sono longo e profundo. Durante algum tempo
tentou raciocinar sobre o fato de ter ido parar naquele quarto
desconhecido com paredes brancas, uma surpreendente mesinha de
cabeceira de algum metal leve e uma persiana branca, por trás da
qual se podia sentir o sol.
Ivan balançou a cabeça,
certificou-se de que não estava doendo e lembrou-se de que estava em
uma clínica. Esse pensamento trazia a lembrança da morte de
Berlioz, mas hoje isso já não o abalava tanto. Depois de pôr o
sono em dia, Ivan Nikoláievitch ficou mais tranquilo e começou a
raciocinar com mais clareza. Após ficar algum tempo deitado, imóvel,
naquela cama de molas bem limpa, macia e confortável, Ivan viu o
botão de uma campainha ao seu lado. Como tinha o hábito de tocar em
objetos mesmo sem necessidade, apertou o botão. Esperava que algum
retinir ou alguma aparição viriam depois de apertá-lo, mas
aconteceu algo totalmente diferente.
Aos pés da cama de Ivan acendeu-se um
cilindro translúcido no qual estava escrito a palavra “Beber”. O
cilindro ficou algum tempo parado, mas logo começou a girar até que
surgiu a inscrição “Enfermeira”. Não é preciso dizer que Ivan
ficou espantado com esse esperto cilindro. A inscrição “Enfermeira”
foi substituída por “Chamem o doutor”.
— Hum... — proferiu Ivan, sem
saber o que mais fazer com aquele cilindro. Mas por acaso deu sorte:
apertou o botão uma segunda vez na palavra “Assistente”. Em
resposta o cilindro soou baixinho, parou, apagou-se e no quarto
entrou uma simpática senhora roliça de jaleco branco, limpo, que
disse a Ivan:
— Bom dia!
Ivan não respondeu, pois considerou a
saudação descabida diante das circunstâncias em que se encontrava.
Realmente, trancafiaram um homem saudável em uma clínica e ainda
fazem de conta que era assim mesmo que tinha de ser!
A mulher, no entanto, sem perder a
expressão benevolente do rosto, levantou as cortinas com a ajuda de
um apertão em um botão e o quarto foi invadido pelo sol através de
uma grade larga, tortuosa e leve que descia até o chão. Do outro
lado se abria uma varanda, e atrás dela se avistava a margem de um
rio sinuoso e, na outra margem do rio, um alegre bosque de pinheiros.
— Hora de tomar um banho —
convidou a mulher e, ao alcance de suas mãos, abriu-se uma parede
interna e atrás dela surgiu um banheiro maravilhosamente equipado.
Apesar de ter decidido não falar com
a mulher, Ivan não resistiu e, quando viu como a água jorrava forte
de uma torneira reluzente para a banheira, disse, com ironia:
— Nossa! É como no Metropol!
— Oh, não — respondeu a mulher,
com orgulho —, é bem melhor. Esse equipamento não existe em lugar
algum, nem no exterior. Cientistas e médicos vêm especialmente para
inspecionar a nossa clínica. Turistas estrangeiros nos visitam todos
os dias.
Ao ouvir as palavras “turistas
estrangeiros”, Ivan lembrou-se imediatamente do consultor do dia
anterior. Ficou taciturno, deu uma olhada, carrancudo, e disse:
— Turistas estrangeiros... Como
vocês todos adoram turistas estrangeiros, não? Mas no meio deles,
entre outras coisas, encontra-se tudo quanto é tipo de gente. Eu,
por exemplo, ontem conheci um, precisa ver!
Por pouco não começou a contar sobre
Pôncio Pilatos, mas se segurou, entendendo que para a mulher aquelas
histórias de nada serviriam, e que tanto fazia, ela não poderia
ajudá-lo mesmo.
De banho tomado, imediatamente deram a
Ivan Nikoláievitch tudo que um homem de fato precisava depois de um
banho: uma camisa passada, ceroulas, meias. Mas isso ainda não era
nada: abrindo a porta de um pequeno armário, a mulher apontou para
dentro e perguntou:
— O que o senhor deseja vestir, um
roupão ou um pijama?
Vinculado à nova moradia à força,
Ivan quase ergueu os braços por causa do atrevimento da mulher, mas,
calado, indicou com o dedo um pijama de flanela cor de papoula.
Depois disso, Ivan Nikoláievitch foi
conduzido pelo corredor vazio e silencioso até um consultório de
proporções enormes. Ivan resolveu tratar com ironia tudo o que
havia naquele prédio equipado às mil maravilhas e logo batizou
mentalmente o gabinete de “cozinha industrial”.
E tinha motivo para tanto. Ali havia
gaveteiros e pequenos armários de vidro com instrumentos reluzentes
e niquelados. Havia poltronas de construção extraordinariamente
complexa, luminárias abauladas com cúpulas brilhantes, uma
infinidade de frascos, bicos de gás, fios elétricos e aparelhos
totalmente desconhecidos para todo mundo.
No consultório, três pessoas tomavam
conta de Ivan — duas mulheres e um homem, todos de branco. Antes de
mais nada, levaram Ivan para um canto e sentaram-no diante de uma
pequena mesa, com a visível intenção de fazê-lo falar.
Ivan começou a examinar a situação.
Tinha três caminhos diante de si. O primeiro era extremamente
fascinante: lançar-se sobre aquelas lâmpadas e coisas intrincadas e
destroçá-las, mandá-las para o espaço; assim expressaria seu
protesto por ter sido preso à toa. Porém, o Ivan de hoje se
distinguia significativamente do Ivan de ontem, e o primeiro caminho
pareceu-lhe duvidoso: se optasse por ele, o pensamento de que ele era
um louco desgovernado se enraizaria neles. Por isso, Ivan descartou o
primeiro caminho. Havia o segundo: começar o relato sobre o
consultor e Pôncio Pilatos imediatamente. No entanto, a experiência
do dia anterior demonstrara que não acreditavam em sua história ou
a entendiam de maneira distorcida. Por isso Ivan também desistiu
desse caminho e resolveu eleger o terceiro: trancafiar-se em um
silêncio majestoso.
Não conseguiu realizar isso por
completo e, querendo ou não, viu-se obrigado a responder, embora
taciturno e carrancudo, uma série de perguntas. E arrancaram dele
definitivamente tudo sobre seu passado, chegando ao ponto de
perguntar como e quando teve escarlatina, uns quinze anos antes.
Depois de preencherem uma página inteira com suas respostas, viraram
a folha e a mulher de branco passou a indagar sobre os parentes de
Ivan. Iniciou-se uma verdadeira ladainha: quem morreu, quando, por
quê, se bebia, se teve doenças venéreas e coisas do gênero. Para
concluir, pediram que contasse sobre o acontecimento, desgraça,
evento, incidente, infortúnio do dia anterior em Patriarchi Prudý,
mas não insistiram muito e não se espantaram com a informação
sobre Pôncio Pilatos.
Em seguida a mulher passou Ivan para o
homem, que se ocupou dele de maneira diferente e já não perguntou
mais nada. Ele tirou sua temperatura, tomou o pulso, examinou seus
olhos, iluminando-os com uma espécie de lâmpada. Depois, a outra
mulher veio ajudar o homem e furaram as costas de Ivan com alguma
coisa, mas não doeu nada; com o cabo de um martelinho desenharam
sobre a pele de seu peito alguns sinais; bateram nos joelhos com o
martelinho, o que fez as pernas de Ivan pularem; furaram seu dedo e
tiraram sangue, furaram a dobra interna do braço na altura do
cotovelo e colocaram uma espécie de braceletes emborrachados nos
braços…
Ivan apenas sorria para si, malicioso
e amargo, e remoía como tudo aquilo acontecera de maneira tola e
estranha. Imaginem só! Queria precaver todo mundo contra o perigo
que representava aquele consultor desconhecido, pretendia agarrá-lo,
mas tudo o que conseguiu foi parar em um misterioso consultório para
contar tudo quanto é tipo de asneira sobre o tio Fiôdor, que bebia
até cair em Vôlogda. Insuportavelmente tolo!
Finalmente o soltaram. Ele foi
acompanhado de volta para seu quarto, onde recebeu uma xícara de
café, dois ovos cozidos moles e pão branco com manteiga.
Depois de comer e beber o que lhe foi
oferecido, Ivan resolveu esperar algum chefe daquela instituição
chegar e tentar conseguir tanto atenção como justiça.
E ele chegou, logo depois do café da
manhã. A porta do quarto de Ivan abriu-se de maneira inesperada e
por ela entrou uma infinidade de pessoas de jaleco branco. À frente
de todos, caminhava um homem de uns quarenta e cinco anos,
meticuloso, barbeado à maneira dos artistas de cinema, olhos
agradáveis, mas muito penetrantes, e maneiras educadas. A comitiva
inteira lhe dispensava sinais de atenção e respeito e, por isso,
sua entrada acabou sendo muito solene. “Como Pôncio Pilatos!”,
pensou Ivan.
É, sem dúvida, esse era o chefe. Ele
se sentou em um banco, enquanto os outros ficaram de pé.
— Doutor Stravinski — o homem
apresentou-se a Ivan enquanto se sentava e olhou para ele com
afabilidade.
— Aqui está, Aleksandr
Nikoláievitch — disse em voz baixa alguém com uma barbicha bem
cuidada e entregou ao chefe uma folha toda preenchida.
“Arranjaram um verdadeiro dossiê!”,
pensou Ivan. O chefe percorreu a folha com olhos acostumados,
balbuciou “uh-hum, uh-hum...” e trocou algumas frases com os que
estavam ao redor em uma língua pouco conhecida.
“E fala latim, como Pilatos...”,
pensou Ivan, triste. Então uma palavra o fez estremecer, e essa
palavra era “esquizofrenia”, que coisa, que já tinha sido
pronunciada ontem pelo maldito estrangeiro em Patriarchi Prudý, e
hoje era repetida aqui pelo doutor Stravinski.
“Também disso ele sabia!”, pensou
Ivan, aflito.
O chefe, pelo visto, tinha como regra
concordar e contentar-se com tudo que lhe dissessem os que estavam ao
redor, expressando isso com as palavras “muito bem, muito bem...”.
— Muito bem! — disse Stravinski,
devolvendo a folha para alguém, e dirigiu-se a Ivan: — O senhor é
poeta?
— Sou poeta — respondeu Ivan,
sombrio, e de repente sentiu pela primeira vez uma inexplicável
aversão à poesia, e seus próprios poemas, que súbito lhe vieram à
memória, sabe-se lá por que lhe pareceram desagradáveis.
Por sua vez, ele perguntou a
Stravinski, franzindo o rosto:
— O senhor é doutor?
Ao que Stravinski inclinou a cabeça,
precavido e respeitoso.
— E o senhor é o chefe daqui? —
continuou Ivan.
Stravinski também fez uma reverência.
— Preciso falar com o senhor —
disse Ivan Nikoláievitch, com ar de importância.
— É para isso que estou aqui —
retorquiu Stravinski.
— A questão é a seguinte —
começou Ivan, sentindo que tinha chegado a sua hora. — Tomaram-me
por louco e ninguém deseja me ouvir!
— Oh, não, vamos escutá-lo com
muita atenção — disse Stravinski, em tom sério e tranquilizador
— e não permitiremos que o tomem por louco em hipótese alguma.
— Então, ouça: ontem à noite,
conheci em Patriarchi Prudý um indivíduo misterioso, um estrangeiro
de meia-tigela, que sabia da morte de Berlioz de antemão e viu
Pôncio Pilatos pessoalmente.
A comitiva ouvia o poeta muda, imóvel.
— Pilatos? Pilatos, aquele que viveu
na época de Jesus Cristo? — perguntou Stravinski, apertando os
olhos para Ivan.
— Esse mesmo.
— A-hã — disse Stravinski. — E
esse Berlioz morreu debaixo de um bonde?
— Justamente, ele foi degolado por
um bonde ontem, em Patriarchi, diante de meus olhos, e esse mesmo
cidadão enigmático...
— O conhecido de Pôncio Pilatos? —
perguntou Stravinski, que, pelo visto, se distinguia por sua grande
compreensão.
— Justamente ele — confirmou Ivan,
estudando Stravinski. — Então, ele disse, de antemão, que
Ánnuchka derramaria o óleo de girassol... E Berlioz escorregou bem
naquele lugar! O que o senhor acha disso? — quis saber Ivan, com ar
de importância, esperando causar grande efeito com suas palavras.
Mas esse efeito não se deu e
Stravinski simplesmente fez a próxima pergunta:
— E quem é essa Ánnuchka?
A pergunta deixou Ivan um pouco
transtornado, seu rosto contorceu-se.
— Ánnuchka não tem nenhuma
importância aqui — disse ele, fora de si. — Vai saber diabo quem
é ela! Só uma idiota qualquer da Sadôvaia. O importante é que ele
sabia de antemão, entende, do óleo de girassol! O senhor está me
entendendo?
— Entendo perfeitamente —
respondeu Stravinski seriamente, e, tocando os joelhos do poeta,
acrescentou: — Não se inquiete, continue.
— Vou continuar — disse Ivan,
tentando acompanhar o tom de Stravinski; já sabia, por sua amarga
experiência, que somente a tranquilidade o ajudaria. — Então,
esse tipo horroroso, e ele mente que é consultor, é dotado de uma
força extraordinária... Por exemplo, você o persegue, mas não há
possibilidade de alcançá-lo. E ele anda com mais dois sujeitinhos,
também dos bons, mas cada um no seu estilo: um alto de lentes
quebradas, e, além desse daí, há também um gato de proporções
incríveis, que anda de bonde sozinho. Além disso — sem ser
interrompido por ninguém, Ivan falava com cada vez mais ardor e
convicção —, ele esteve na varanda de Pôncio Pilatos
pessoalmente, sem sombra de dúvida. O que significa isso? Hein? Ele
precisa ser preso imediatamente, do contrário causará desgraças
indescritíveis.
— Então o senhor está tentando
prendê-lo? Entendi bem?
“Ele é inteligente”, pensou Ivan.
“Deve-se reconhecer que em meio aos membros da intelligentsia1
também é possível encontrar uns de inteligência rara. Não dá
para negar isso.” E respondeu:
— Muito bem! E como não tentar,
pense bem! Enquanto isso, detiveram-me aqui à força, enfiaram uma
lâmpada nos olhos, dão banho de banheira e fazem perguntas sobre o
tio Fiêdia!... Mas já faz tempo que ele não está nesse mundo!
Exijo que me soltem imediatamente.
— Bom, muito bem, muito bem! —
retorquiu Stravinski. — Então, tudo foi esclarecido. Realmente,
que sentido tem deter um homem saudável em uma clínica? Tudo bem.
Eu lhe darei alta daqui agora mesmo, se o senhor me disser que é
normal. Não precisa provar, é só dizer. Então, o senhor é
normal?
Fez-se silêncio absoluto. A mulher
gorda, que cuidara de Ivan de manhã, olhou para o doutor com
devoção, e Ivan pensou mais uma vez: “Definitivamente
inteligente.”
Ele gostou muito da proposta do
doutor, mas, antes de responder, pensou e repensou, franzindo a
testa, e, finalmente, disse, com firmeza:
— Eu sou normal.
— Então muito bem — exclamou
Stravinski, aliviado. — Se é assim, vamos raciocinar logicamente.
Tomemos o seu dia de ontem. — Ele se virou e imediatamente lhe
entregaram a folha de Ivan. — Em busca de um homem desconhecido,
que se apresentou como conhecido de Pôncio Pilatos, o senhor
realizou as seguintes ações ontem — Stravinski começou a dobrar
seus dedos compridos, olhando ora para a folha, ora para Ivan. —
Pendurou um ícone no peito. Não foi?
— Foi — concordou Ivan,
carrancudo.
— Despencou de uma cerca e feriu o
rosto. Certo? Apareceu em um restaurante com uma vela acesa na mão,
só de roupa de baixo e lá bateu em alguém. Foi trazido para cá
amarrado. Uma vez aqui, o senhor ligou para a polícia e pediu que
enviassem metralhadoras. Depois, fez uma tentativa de se atirar pela
janela. Certo? Pergunta-se: será que é possível, agindo dessa
maneira, agarrar ou prender alguém? Se é uma pessoa normal, o
senhor mesmo vai responder: de maneira alguma. O senhor quer sair
daqui? À vontade. Mas me permita lhe perguntar, para onde o senhor
pretende ir?
— Até a polícia, claro —
respondeu Ivan, já sem a mesma firmeza e se perdendo um pouco diante
do olhar do doutor.
— Direto daqui?
— A-hã.
— E não vai passar no seu
apartamento? — perguntou rapidamente Stravinski.
— Não há tempo para passar lá!
Enquanto eu ficar dando voltas pelo apartamento, ele vai escapulir!
— Certo. E o que dirá à polícia,
antes de mais nada?
— Sobre Pôncio Pilatos —
respondeu Ivan Nikoláievitch, e seus olhos cobriram-se com uma névoa
sombria.
— Então, muito bem! — exclamou
Stravinski, resignado, virando-se para aquele de barbicha, e ordenou:
— Fiódor Vassílievitch, dê alta, por favor, ao cidadão
Bezdômny, para que ele vá à cidade. Mas não coloque ninguém
naquele quarto e não precisa trocar a roupa de cama. Daqui a duas
horas o cidadão Bezdômny estará aqui de novo. Bom — voltou-se
ele para o poeta —, não vou desejar-lhe êxito, porque não
acredito nem um bocado nessa sorte. Até daqui a pouco! — Ele se
levantou e sua comitiva se movimentou.
— Por que razão estarei aqui de
novo? — perguntou Ivan, aflito.
Stravinski parecia esperar essa
pergunta e sentou-se imediatamente, dizendo:
— Porque, assim que o senhor
aparecer na polícia de ceroulas e disser que viu um homem que
conheceu Pôncio Pilatos pessoalmente, será trazido para cá no
mesmo instante, e de novo se encontrará naquele mesmo quarto.
— O que as ceroulas têm a ver com
isso? — perguntou Ivan, olhando ao redor, perplexo.
— A razão principal é Pôncio
Pilatos. Mas as ceroulas também. Veja bem, nós vamos recolher a
roupa emprestada do Estado e devolveremos a roupa que você trajava
ao chegar aqui. Mais precisamente, ceroulas. Entretanto, o senhor não
pretende ir até o seu apartamento de jeito o nenhum, apesar de eu
ter lhe sugerido isso. A seguir, vem Pilatos... e o negócio está
fechado!
Então aconteceu algo estranho com
Ivan Nikoláievitch. Sua vontade pareceu se fender e ele se sentiu
fraco, precisava de um conselho.
— Mas o que fazer? — perguntou
ele, dessa vez tímido.
— Então muito bem! — retorquiu
Stravinski. — É uma pergunta muito razoável. Agora, vou lhe dizer
o que aconteceu com o senhor de verdade. Ontem, alguém o deixou
muito assustado e transtornado com uma história sobre Pôncio
Pilatos e outras coisas. Então, o senhor, um homem muito nervoso e
irritadiço, saiu pela cidade falando sobre Pôncio Pilatos. É
totalmente natural que o tomem por louco. O senhor só tem uma
salvação agora: repouso absoluto. É imprescindível que o senhor
fique aqui.
— Mas ele precisa ser agarrado! —
exclamou Ivan, agora implorando.
— Tudo bem, mas por que você mesmo
precisa persegui-lo? Ponha no papel todas as suas suspeitas e
acusações contra essa pessoa. Não há nada mais simples do que
enviar sua declaração para o local apropriado, e caso se trate,
como o senhor supõe, de estarmos lidando com um criminoso, tudo isso
será esclarecido muito rapidamente. Mas com uma condição: não vá
quebrar a cabeça e procure pensar menos em Pôncio Pilatos. Sabe-se
lá o que contam por aí! Não se deve acreditar em tudo.
— Entendi! — declarou Ivan,
decidido. — Peço que me deem papel e caneta.
— Dê-lhe papel e um lápis pequeno
— ordenou Stravinski à mulher gorda, e a Ivan disse o seguinte: —
Mas eu o aconselho a não escrever hoje.
— Não, não, tem que ser hoje,
hoje, é imprescindível — gritou Ivan, com aflição.
— Tudo bem. Só que não vá fundir
o cérebro. Se não der certo hoje, vai dar amanhã.
— Ele vai fugir!
— Oh, não — retrucou Stravinski
com segurança —, ele não fugirá para lugar algum, isso eu lhe
garanto. Lembre-se que aqui ajudarão o senhor com tudo que for
possível, e sem isso nada vai dar certo para o senhor. Está me
ouvindo? — perguntou Stravinski de repente, com ar de importância,
e tomou as duas mãos de Ivan Nikoláievitch. Segurando-as nas suas,
e fixando um olhar demorado em Ivan, ele repetiu: — Aqui o
ajudarão... está me ouvindo?... Aqui o ajudarão... O senhor se
sentirá aliviado. É silencioso e tranquilo aqui... Aqui o
ajudarão...
Inesperadamente, Ivan Nikoláievitch
bocejou, a expressão de seu rosto se aplacou.
— Isso, isso — disse ele em voz
baixa.
— Então muito bem! — Stravinski
concluiu a conversa como estava acostumado e levantou-se. — Até
logo! — Apertou a mão de Ivan e, já de saída, virou-se para
aquele de barbicha e disse: — Isso, experimente oxigênio... e
banhos.
Alguns instantes depois, diante de
Ivan não havia mais nem Stravinski, nem a comitiva. Do outro lado da
tela da janela, sob o sol do meio-dia, o bosque alegre e primaveril
resplandecia às margens do rio, que brilhava um pouco mais próximo.
Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida
Calça literária
É assíduo leitor de blusas, camisas,
saias, calças estampadas. Não lhe escapa um exemplar novo. Parece
desligado, e observa tudo. Segundo ele, as peças de indumentária,
masculina e feminina, ostentando símbolos e nomes de universidades
americanas, manchetes, páginas de jornal, retratos de Pelé e Jimi
Hendrix, apelos ao amor que não à guerra etc., há muito deixaram
de ser originais. Constituem invólucros rotineiros de pessoas de
qualquer idade. A gente estranha é uma camisa inteiramente nua de
dizeres ou figuras, a roupa que não diz nada, só roupa. Hoje, lê-se
mais nos tecidos do que nos livros, e não é ler apenas, é ver
cinema e televisão, pois os corpos, ao se moverem, dinamizam as
figuras estampadas. O que, de um modo ou de outro, contribui para a
cultura de massas. Informa:
— Estou pensando em aproveitar esse
material para fins especificamente didáticos. Através dele, ensinar
geografia, história, matemática, medicina de urgência, imposto de
renda, ortografia desmistificada, essas coisas. O indivíduo cobre-se
e vai distribuindo ciência. Ou aprendendo. Vinte minutos no ônibus
— que aula! Classes ao ar livre, na feira, na fila. Escola
dinâmica.
— Você sozinho é um Mobral 1971.
— Ontem eu li uma calça comprida,
de mulher que à primeira vista não tinha nada de especial. Estava
escrita como tantas outras. Mas o texto (não confundir com textura)
me chamou a atenção. Geralmente, calças e blusas não são
literárias. Trazem notícias, anúncios, slogans, mas versos, ainda
não tinha visto. Pois essa tinha poemas em português, de Camões ao
Vinicius.
— Tomou nota?
— Claro. Aliás, a usuária foi
muito gentil. Percebendo que eu mirava a parte inferior do seu
revestimento, gratificou-me com um sorriso que eu traduzi assim:
“Pode mirar mais”. E eu mirei. Aí, puxei da caneta, e ela sorriu
outra vez, como quem diz: “Pode copiar também”. Copiei.
— Tudo?
— Tudo não. A dona da calça estava
sentada na sala de espera do cinema. Só o que era visível. Depois
se levantou, foi ao bebedouro, deu tempo para eu colher mais alguma
coisa, no ir e vir. Não tive coragem de pedir-lhe que desse umas
voltas. Você compreende: sou tímido.
— Estou vendo.
— Foi a primeira calça literária,
totalmente poética, do meu conhecimento. Feita em São Paulo?
Talvez. Caracteres pretos sobre fundo branco. Versos em todas as
direções. De Bilac, de Cecília, de Bandeira, de Castro Alves, de
Fernando Pessoa. Uma antologia, bicho. Sem ordem, naturalmente.
Escuta aí: Onde vais à tardezinha, morena flor do sertão? O que eu
adoro em ti é a vida. Aqui outrora retumbaram hinos. Oh abelha
imaginativa! o que o desejo inventa… Vou-me embora pra Pasárgada.
Amor é fogo que arde sem se ver. Ninguém sonha duas vezes o mesmo
sonho. No monte de amor andei, por ter de monteiro fama, sem tomar
gamo nem gama. Clorindas e Belindas brincam no tempo das berlindas.
Eu tenho amado tanto e não conheço o amor. Estrela Vésper do
pastor errante. ‘Tamos em pleno mar: dois infinitos ali se alteiam…
— Beleza.
— Não é? Tem mais. Transforma-se o
amador na coisa amada. Antônia, você parece uma lagarta listrada.
D. Janaína, rainha do mar, dai-me licença para eu também brincar
no vosso reinado. Por que não nasci eu um simples vaga-lume? Não
queiras indagar do meu segredo. Mas que seja infinito enquanto dure.
Cantando espalharei por toda parte. Tudo não escondido perde a
graça. O cinamomo floresce em frente do teu postigo. Crisântemo
divino aberto em meio da solidão… Tinha uma pedra no meio do
caminho.
— Isso já é prosa, amizade.
— É mesmo. Em todo caso, trata-se
da primeira calça poética luso-brasileira. Os poetas que tratem de
defender seus direitos autorais. A menos que considerem uma honra
vestir de versos as mulheres.
Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica
14/06/2026
Meninos, eu vi
Vi, sim. Ora se vi. Eu não sou o
Piu-Piu e não vi um gatinho. Eu vi a luz. Calma. Não estou
delirando, tenho bebido moderadamente e também não ando queimando
baseados colombianos. Eu vi a Luz das cordas, CD de Marco
Pereira e Hamilton de Holanda, um dos mais importantes trabalhos
instrumentais brasileiros nos últimos cinquenta anos.
Tivemos durante o ano 2000 muitas
manitas del plata querendo aparecer: George Benson, John
Pizzarelli, Robert Cray... Mas na hora da luz, o jogo ficou todo a
favor de Marco Pereira e Hamilton de Holanda. O pessoal foi saindo de
fininho, ofuscado.
Fiz um teste interessante, aqui em
casa. Deixava as pessoas conversando no escritório e botava, na
maciota, Luz das cordas. Teve de tudo: amigo chorando feito
criança, moça entrando em transe catatônico, o diabo. Podem
conferir.
Eu vi as extraordinárias caixas de
CDs de Noel Rosa, Dorival Caymmi e do SESC São Paulo.
Eu vi, O quinteto de Buenos Aires,
de Manuel Vázquez Montalbán, reduzindo o ego maradônico dos
argentinos a extrato de pó de pum da pulga do cavalo do bandido.
Depois desse livro, especialmente pelos capítulos “A guerra das
Malvinas” e O filho natural de Jorge Luis Borges”, aqueles
tangueiros nunca mais serão os mesmos.
Eu vi Os leopardos de Kafka, de
Moacyr Scliar, na mesma coleção de Borges e os orangotangos
eternos, de Luis Fernando Veríssimo. A crítica pode – e deve
– falar o que bem entender, mas os dois livros são excelentes.
Eu vi, de Alberto Manguel, autor de
Uma história da leitura e de Stevenson sobre as palmeiras,
o delicado No bosque do espelho.
Vi, arrepiado de horror, Autópsia
do medo – vida e morte do delegado Sergio Paranhos Fleury, do
grande repórter Percival de Souza, onde aparece logo no começo, já
aprontando, o Nicolalau.
Vi a Coleção Negra, da Record,
completando com Whitejazz, o Quarteto de Los Angeles, de James
Ellroy.
Vi a caverna do Saramago e os
crocodilos do Lobo Antunes, como o Binho, cada vez melhores,
perseguidos pela paixão de Pepetela.
Vi e revi Paulo Mendes Campos. Vi
Fausto Wolff, que deve estar escrevendo vinte e quatro horas por dia.
Vi Pai morto, vivo, de Ricardo Gontijo e OEspelho de Egon,
de Horácio Soares.
Bebi na Ipanema do Jaguar e
dancei com os Atabaques, violas e bambus, do Paulo César
Pinheiro.
E andei tendo umas lições sobre Do
Amor ausente, do jovem e talentoso escritor Paulo Roberto Pires.
Será parente do outro, que já bebeu várias vezes no cafofo?!
Aldir Blanc, em O Gabinete do Doutor Blanc
Capítulo 57 – Destino
Sim senhor, amávamos. Agora, que
todas as leis sociais no-lo impediam, agora é que nos amávamos
deveras. Achávamo-nos jungidos um ao outro, como as duas almas que o
poeta encontrou no Purgatório:
Di pari, come buoi, che vanno a
giogo; e digo mal, comparando-nos a bois, porque nós éramos
outra espécie de animal menos tardo, mais velhaco e lascivo. Eis-nos
a caminhar sem saber até onde, nem por que estradas escusas;
problema que me assustou, durante algumas semanas, mas cuja solução
entreguei ao destino. Pobre Destino!
Onde andarás agora, grande procurador
dos negócios humanos? Talvez estejas a criar pele nova, outra cara,
outras maneiras, outro nome, e não é impossível que... Já me não
lembra onde estava... Ah! nas estradas escusas. Disse eu comigo que
já agora seria o que Deus quisesse. Era a nossa sorte amar-nos; se
assim não fora, como explicaríamos a valsa e o resto? Virgília
pensava a mesma coisa. Um dia, depois de me confessar que tinha
momentos de remorsos, como eu lhe dissesse que, se tinha remorsos, é
porque me não tinha amor, Virgília cingiu-me com os seus magníficos
braços, murmurando:
– Amo-te, é a vontade do céu.
E esta palavra não vinha à toa;
Virgília era um pouco religiosa. Não ouvia missa aos domingos, é
verdade, e creio até que só ia às igrejas em dia de festa, e
quando havia lugar vago em alguma tribuna. Mas rezava todas as
noites, com fervor, ou pelo menos, com sono. Tinha medo às
trovoadas; nessas ocasiões, tapava os ouvidos, e resmoneava todas as
orações do catecismo. Na alcova dela havia um oratoriozinho de
jacarandá, obra de talha, de três palmos de altura, com três
imagens dentro; mas não falava dele às amigas; ao contrário,
tachava de beatas as que eram só religiosas. Algum tempo desconfiei
que havia nela certo vexame de crer, e que a sua religião era uma
espécie de camisa de flanela preservativa e clandestina; mas
evidentemente era engano meu.
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas
Sesta
O poeta tem um chapéu,
um cinto de couro,
uma camisa de malha.
O poeta é um homem comum.
Mas, quando diz:
a tarde não podia tanger
com “os bandolins e suas doces
nádegas”,
eu me prostro invocando:
me explica, ó decifrador, o mistério
da vida,
me ama, homem incomum.
No oeste de Minas tem um canavial,
onde as folhas se roçam ásperas,
ásperas as folhas da cana-doce
roçam-se.
Como agulhas bicando em vidro liso,
o pio das andorinhas dentro da igreja
deserta.
Os trinados e as folhas cortam,
entre as canas é doce, doce e fresco,
entre os bancos da igreja.
Repouso lá e cá,
um poder em círculos me dilata,
eu danço na mão de Deus.
Na hora do encantamento,
o reverso do verso dá sua luz:
“os bandolins e suas doces nádegas”,
um mistério santíssimo e
inteligível.
Adélia Prado, em O Coração Disparado
I’ll Get You, de Paul McCartney e John Lennon
I’ll Get You
Oh yeah, oh yeah
Oh yeah, oh yeah
Imagine I’m in love with you
It’s easy ’cause I know
I’ve imagined I’m in love with
you
Many, many, many times before
It’s not like me to pretend
But I’ll get you, I’ll get you
in the end
Yes I will, I’ll get you in the
end
Oh yeah, oh yeah
I think about you night and day
I need you and it’s true
When I think about you, I can say
I’m never, never, never, never
blue
So I’m telling you, my friend
That I’ll get you, I’ll get you
in the end
Yes I will, I’ll get you in the
end
Oh yeah, oh yeah
Well there’s gonna be a time
When I’m gonna change your mind
So you might as well resign
yourself to me
Oh yeah
Imagine I’m in love with you
It’s easy ’cause I know
I’ve imagined I’m in love with
you
Many, many, many times before
It’s not like me to pretend
But I’ll get you, I’ll get you
in the end
Yes I will, I’ll get you in the
end
Oh yeah, oh yeah
Oh yeah, oh yeah, oh yeah
Esta canção foi composta na Menlove
Avenue, em Liverpool, onde John ainda morava com a tia dele, Mimi.
Ela era uma senhora bondosa, de vontade férrea; sem dúvida, ela era
decidida. O estranho nisso é que Mimi não ligava muito para a nossa
música e preferia não nos ver por perto, porque ela achava que
estávamos incentivando John a dedicar mais tempo ao violão dele do
que aos estudos. Mimi sempre dizia: “O violão serve como hobby,
John, mas você nunca vai ganhar a vida com isso!”.
Esta canção traz a palavra
“imagine”, e essa ideia de “imaginar” é algo que John
reaproveitaria em sua própria canção “Imagine”. Também
funciona um pouco como a abertura de “Lucy in the Sky With
Diamonds”, com sua exortação: “Picture yourself...”.
Portanto, tem um lance cinematográfico, além de literário. Quando
eu digo “literário”, estou pensando no mundo imaginário de
Lewis Carroll que John e eu tanto amávamos. Carroll foi uma grande
influência para nós dois. Isso pode ser mesmo percebido nos livros
de John, In His Own Write e A Spaniard in the Works [no
Brasil, coligidos no volume Um atrapalho no trabalho,
transcriação de Paulo Leminski].
Com relação à estrutura musical,
essa é uma abertura realmente eficaz – acorde de Ré maior
enquanto cantamos “oh yeah” em oitava. Havíamos aprendido
o tipo de sequências em Dó, Lá menor, Fá, Sol e Ré – as
tradicionais tríades. Mas então você começa a justapô-las um
pouco, e a abertura de “I’ll Get You” é um exemplo do que
acontece. No mais, temos acordes na forma padrão até chegarmos a
“It’s not like me to pretend”. Esse verso termina com um
acorde esquisito. Parece que destoa um pouco, mas esse que é o
segredo desta canção.
Talvez seja um pouco demais dizer que
o acorde faz um comentário sobre “fingir”, sugerindo que o
personagem da canção talvez não seja confiável, que ele é
realmente um fingidor, mostrando um sentimento com o qual não está
comprometido. Que ele pode estar só brincando. Em geral, porém, os
sentimentos nessas primeiras canções são bem diretos. Sem muita
ironia. E é por isso que o público gostou e ainda gosta dessas
canções. Elas dizem o que elas querem dizer. “It’s not like
me to pretend/ But I’ll get you, I’ll get you in the end”.
Pensando bem, acho que é justo dizer que também temos uma pitada de
humor escolar pairando no ar.
Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente
13/06/2026
Mais meu Sirimim
Habito a paisagem sólida, querida.
Venham ver vocês. Ainda é inverno: alegrias direitinhas.
Amanhece de neblina, todos os dias,
frio com frio. Ainda escuro, de sazão, agora, a madrugada vem muito
curta, chega logo a manhã. O clarear é que é curto, para se
assistir ao madrugar. Depois da coruja piando: o hu-lhu-h’hú.
Da coruja, o pio é sempre. Mas, às vezes, vira o gargalhar, seco,
um estalado, coisa seca, parece gargalhadinha de velho. Outra, a
outra, seus estalidos, meio estridentes: cla-kle-cle-klá.
Seriam duas corujas, no cajueiro, atrás do meu quarto; ninho delas.
Dado o dia, bem guardam-se.
Os galos — e pintinhos e galinhas se
agitando. A galinha com treze pintinhos, ela dorme debaixo do balaio.
Entremente, melros, dos melhores. Ou os outros. A cambaxilra, aqui
tem muita, dá um trinadozinho tristris. Aparecem os sanhaços. Vige
aqui uma ordem: deixar-se, em cada mamoeiro, um mamão maduro, para
eles, os pássaros de uso, que rebuscam o fácil das frutas. Àquela
árvore de flor amarela, enchida de lagartas, vão os anus-pretos,
mais tarde, quando se bem diz que o sol já está quente. Vi, porém,
o martim-pescador, pousado no fim da luz, lindo. Escuro-e-verde e
bronze, que, quando bate o sol, vira verde-azulado. Esperando a
companheira?
Sigo, ao arreia-pêlo da correnteza,
pela margem do mimo riachinho, soliloquaz: todo o tempo nos cruzamos.
Sirimim estava de água clarinha, desta vez, ainda meio cheio, pelo
que se sabe do que foi o verão: de chuvas e enxurros a granel. Mesmo
agora, se costuma de vir alguma.
Tão cheiroso, na horta, aquele lugar
da roseira! A gente se lembra de que foi a Irene que a plantou. A
Irene se foi, faz seis meses, mas dá notícias. Diz que não
conseguiu até hoje ajuntar dinheiro, só deu para comprar um
vestido. Mas a Irene vai vir, estes dias, para o casamento da Maria
do Dudu. Agora escuto o ruído de um muçum, pelo sol: a bulha da
água remexida. E já se plantaram novas pimenteiras.
Ali, cheirando a roseira, e um perfume
que vem, sai do chão. Cheira a mel. Vem de baixo. Você não vê
nada. Deve de ser uma ervinha, um capinzinho. É o melhor cheiro e
sobe da terra. Está por volta da horta, onde tem mato, nos lugares
não capinados.
Vou visitar o Pedro, bebemos da
biquinha, que recita. Mais que todas, a água do Sirimim, quando se
apanha e põe na folha de taioba, ela fica de prata — a película
prateada, a tremer. É a água mais pura que há.
O Pedro, mesmo tendo agora outra
cachorrinha, não se esquece da que foi tão boa, a Bolinha, extinta.
Conta de quando ela desapareceu, fugida, com a doença. — “...Zé
Rufino tinha visto: ela passar, zangada, lá. Longe... Arruinada,
uai. De zanga. Porque, naquela certa época do ano, zangam.” O
Pedro é grato à Bolinha, porque ela não incomodou ninguém aqui, e
porque poupou-lhe o assistir ao seu fim.
Sentamo-nos no antigo banco, pegado ao
corte do barranco, ali tem uma laranjeira bem em cima do barranco,
metade das raízes ficaram para fora. Mas, a casinha, a casa, atrás
da qual estamos, já é a nova! O Pedro exulta — de não cessar de
a contemplar.
E considera, com domingueiros olhos de
repouso, o “seu” arrozal, lá embaixo, lugar fresco — à
passarada. Está contente com o movimento, com o que se faz: na
pinguela, para transpor o carro-de-bois, taparam os vãos com
tabatinga e palha de arroz; taparam também todo o caminho que vem da
pinguela até aqui, à casa; assim, há sempre palha de arroz
espalhada — para refrescar a terra, agasalhá-la da umidade, e
produzir adubo, depois.
Derrubou-se a casa velha, que era só
um ranchinho de capim. O Pedro botou fogo em tudo, sapé e madeira
podre, com ideia de que ali desse escorpiões. Mas, antes, a mudança
levou dias, porque havia muito mantimento. O Pedro e a Eva são muito
acomodados. A casa nova é grandinhazinha, com os dois quartos, e a
cozinha e o quarto-dos-guardados — despensa para o milho e o arroz.
Sem se esquecer a sala — só com um banco e o oratório: parece que
os santos é que estão de visita ao Pedro.
No dia em que na casa nova
definitivamente se alojaram, à noitinha, o Pedro, entrando no
quarto-dos-guardados, escutou um barulho se mexendo. Com susto,
invocou São Bento, pensou que fosse cobra atrás de camundongos, que
estão dando no milho. Mas era uma gambá, com sete filhotes, já
instalada perto do cacho de bananas — também de mudada! Foi só o
Pedro fechar a porta, e mandar à Eva: — “Minha filha, premeia
eles, com o cacete!” Medita: — “O vivente tem pouca pena
do vivente...” E come a gambá, refogada simples, com farinha
pura; mas não chupa os ossos, porque “dá caxumba”.
Na maior alegria, o Pedro inaugurou a
casa nova, com uma ladainha. Armou a ladainha de ação-de-graças.
Fez roupas novas, de papel crepom, para os santos todos do oratório.
Varreu o terreno. Adornou o terreiro e casa com bandeirolas de papel.
Arquinhos de bambus, com flores de papel, toscas, espetadas. Não
tinha padre. Então, chamou um vizinho. Antoniartur de Almeida —
ladrão, mau caráter, dizem, mas com grande prática de ladainhas.
Quando estavam todos juntos, o homem dirigiu umas palavras ao povo.
Depois, tirou umas rezas e preces. Ao meio-dia, em ponto. Rezaram um
terço e a Ladainha de Todos-os-Santos. E o Padre reflete: — “Não
é segredo o que estou lhe contando: mas, neste mundo, há gente de
todo jeito. E é o de que se carece...”
Depois, dias, é que foi a festa — a
dos quinze anos da Eva.
Da venda de ovos e galinhas, o Pedro
conseguira um dinheirinho, bem escondido, que seria para se a Eva
viesse a precisar, por doenças, em o caso. Graças a Deus, porém, a
Eva sempre teve saúde, assim se criou. Vai daí, o Pedro, com a
influência da casa nova, resolveu gastar esse cobre na alegria.
Ficou muito boa, a festa dele. Teve danças. Serviram café,
rosquinha redondinha, broa e pé-de-moleque. Bancou-se o
manuel-manta: que é jogo de dados, num caixote com um papel com seis
quadradinhos, em que as apostas se casam. — “O Pedro não tem
muita valença...” — diz o Joaquim. Mesmo tão casmurro, achou
que devia dar-lhe proteção, ao irmão mais novo e afilhado; por
isso, ficou lá até a festa dar em fim.
Contudo, às vezes, o Joaquim parece
ter inveja do Pedro, dos agrados que lhe fazem. Não pode compreender
que se preze um pobre aleijadinho, assim. Tudo ele pega, pesa, mede e
apreça — o Joaquim.
O Joaquim vai se mudar daqui. Ele tem
setenta-e-dois-anos, e é duro, carrancudo, prepotente. O Joaquim
bebe.
A Irene foi-se empregar no Rio, e ele
ficou sentido com todos, e não dizia por que, agastado. Não podia
brigar com o Maninho, sem razão, nem obrigar o Maninho, a se casar
com a Irene. A Maria, mulher dele, então, ainda ficou mais
desgostosa. Ambos, remoeram, muito, aquilo, mais e mais a se
ressentir. Daí, chegaram à decisão. Ir-se embora, mesmo largando
suas benfeitorias de colono — a farturinha formada naqueles anos:
bananeiras, canavial, mandioca.
Donde que, vão para perto da outra
filha, a Maria Doca, mulher do Manuel Doca, deles muito querida, lá
têm netinhas, no Cici.
O Joaquim é homem sério, estricto e
correcto demais, não gosta de natureza para os olhos. A coisa
melhor, para ele, é a fartura. A coisa pior — a que ameaça a
fartura — é a vadiação. Só pensa em termos de proveito. Andar
bem com os outros — isto é: os outros andando bem com ele. Acha
que a gente está aqui para cumprir obrigação, fazer fartura; e,
depois, no Céu, apresentar contas a Deus. Contas certas, certa a
vida.
Rejeita toda mercê de beleza,
desocupada e que não produz. Mesmo a roseirinha que a Irene plantou,
ele diz que a tolera somente porque ela serve às plantinhas, de
sombra. Mas nunca reparou em que, nas rosinhas-de-cachos, as pétalas
de de-dentro é que são cor-de-rosa claro, e as de fora, mais
brancas, ou parecem brancas, pelo menos, se não são. Nem jamais
sentiu, rosas asas, seu perfume.
O riachinho sair por aí, correndo e
cantando, aborrece a ele.
Aceita-o, servo, na horta:
aprisionadas, obrigadas, as aguinhas diligentes. Mas não as que se
seguem, para lá, lá, em todo o depois — as das sombras matosas, e
as que, soltas, na cheia, vão de afogadilho. Da ponta para baixo, o
Sirimim “está com vadiação”, vale de nada, de nenhum
préstimo. Presume-se que, no fundo, detestava-o o Joaquim: como à
flor que flor, a borboleta andante, o passarinho e ninho, o grilo na
alface, e, à noite, no negro ermo, no ar, o pirilampadário. O meu
Sirimim no descuidoso imprestar-se: a lânguida água à lengalenga e
a ternura em aventura.
A ida embora do Joaquim é uma luta,
que o Sirimim venceu.
A casa, que foi dele, está vaga. Quem
a virá ocupar? Talvez, o velho avô da Idalina.
Graciliano Ramos, em Ave, Palavra
E quando se aproximou a hora
E quando se aproximou a hora, o Anjo
da Encarnação perguntou-lhe:
— Que queres ser na face da Terra?
— Um polígono regular estrelado.
— O quê?!
— Um polígono regular estrelado —
repetiu imperturbavelmente a alma do nascituro.
“Mais um...” — pensou o Anjo.
Mas, como os anjos e os poetas são os únicos que não riem dos
loucos, limitou-se a objetar:
— E por que não um poliedro? Vais
viver num mundo de três dimensões e bem sabes que um polígono
apenas tem duas. Lá só existirias na face do papel... e não
propriamente na face da Terra.
— Por isso mesmo.
O Anjo desta vez não compreendeu
muito bem e retirou-se, dando de asas.
E foi assim que, quando chegou a hora,
veio ao mundo mais um louco.
E um “louco simétrico”!
Chamou-se, entre os homens, Edgar
Allan Poe.
Mário Quintana, em Caderno H
Terra Sonâmbula — Décimo capítulo
A Doença do Pântano
Tuahir mira e admira. Há dias que não
se arredam do machimbombo. No entanto, a paisagem em volta vai
negando a aparente imobilidade da estrada. Agora, por exemplo, se
desenrola à sua frente um imenso pantanal. O mar se escutava
vizinho, a mostrar que aquelas águas lhe pertenciam. O velho se
dirige ao miúdo:
— Quer ver o mar, não é?
— Muito, tio.
— Então, vamos embora.
E se fazem por caminhos de matope onde
crescem as árvores do mangal. Atrás vai ficando a residência de
chapa e cinzas, posta na estrada como um monumento de guerra.
— Quer ver o mar por causa do
quê?
O jovem nem sabe explicar. Mas era
como se o mar, com seus infinitos, lhe desse um alívio de sair
daquele mundo. Sem querer ele pensava em Farida, esperando naquele
barco. E parecia entender a mulher: ao menos, no navio, ainda havia
espera. Por isso, ele enfrenta aquela marcha pelo pântano. Chapinham
numa imensidão: lodos, lamas e argilas fedorosas. A caminhada iria
durar os seguintes dias.
Logo na primeira noite os sentem. Os
mosquitos. São grandes, negros, zunzumbentes. Não mordem, apenas.
Entram no sangue e ficam chiando lá dentro.
— Merda de mosquitos!
Muidinga vai reclamando. O velho
Tuahir lhe admolesta: não se chateie, miúdo. E lhe lembra:
— Foi o mosquito que construiu o
pântano. Também, dentro de nós, o mosquito pantaneja, podrecendo
nossas águas.
São tão picados que, ao despertar no
seguinte dia, Tuahir tem as orelhas feitas num dobro. Não tarda a
que lhe apareçam as febres. Seu corpo se cinzenta, os dedos se
tornam asmáticos. Ele teima:
— A febre não é derivada dos
mosquitos. É o canto desses pássaros que me faz quenturas.
— Quais pássaros?
— Você não lhes viu, esvoando
por aí?
Muidinga não lembra ter avistado
nenhumas aves. Quer dar cuidados ao seu companheiro. Mas o velho não
aceita. Tem tanta febre que, posto nos charcos, faz ferver a água. O
pântano em volta, sempre igual, faz perder as direcções. Estão
perdidos, cansados. Sentados num tronco, esperam nem se sabe o quê.
Devíamos ter ficado no machimbombo, comenta Muidinga.
— Foi você que queria ver o mar,
lembra o velho.
O velho treme tanto que suas palavras
se desconexam. Depois, se calam ambos. À volta, se escuta apenas o
silêncio pingando. Tuahir, porém, ainda guarda algumas forças.
Sobe num ramo alto e se pendura de cabeça para baixo. Muidinga se
admira ao lhe ver morcegando. Mas ele lhe sossega: era hábito da
infância. Seu sangue era fraco e a mãe o deixava amarrado pelos pés
no tecto da casa.
— Sabe o que você vai fazer
agora? É. Você vai dar voltas por aí e deitar susto nas aves da má
sorte, essas que me estão trazer febres.
Muidinga parte então pelo lamaçal. O
mangal, afinal, não se cansa em repetida monotonia. A paisagem se
vai desembrulhando em novidade, seus olhos se estreiam naquela água.
As garças flutuam como lenços brancos em fundo de cinza. Suas
plumas, sem outro serviço que a beleza, penteiam a alma de Muidinga,
como se lhe trouxessem a carícia do sono. Por cima do voo as brancas
aves parecem meditar, seu peito sério, quase petulante. Seus gestos
são de ensaiado bailado. Nem a fome lhes dá pressa, a caça se
cumpre sempre mediante vagares.
Na margem das águas mortas, Muidinga
olha as aves se afastando. Para além se estende o rasteirinho capim,
emergindo muito verde por entre o solo escuro. Por entre os arbustos
lhe chega o lamento de uma xigovia, essa flautinha feita em fruto da
ncuacueira. Era um pequeno pastor que se aproximava. Ao vê-lo o
pastorzito se assusta. Deve pensar que Muidinga é um saltinhador do
mato. Muidinga o chama e se apresenta. Timiudamente, despontam os
primeiros fios de conversa e os dois se vão confiando. Muidinga pede
que o pastor toque a xigovia. E fecha os olhos, pronto a ser
encantado.
— O senhor está dormitoso?
O pastor lhe sacode, aflito. Muidinga
sorri, pedindo que comece. Mas o outro continua receoso. Diz que já
tinha visto muitos adormecerem definitivos, ao som da flauta. Não
quer que seu visitante vá muito longe, embalado no esvoar da mente.
Em vez de xigoviar diz preferir contar uma história, verdadeira,
passada consigo, naqueles mesmos pastos.
— Conta lá, então.
— Semana passada faleceu um boi,
cujo esse boi era o maior de todos.
Assim desfia o menino seu relato.
Havia, entre sua manada, um muito triste boizarrão. De manhã até
de noite o bicho boiava em rasteira solidão, esquecido de si, dos
capinzais e das obrigatórias ruminações. Seus olhos felpudos
seguiam todas distracções. Tudo lhe era pretexto, fosse o
estremecer de uma sombra, fosse o farfalinar de uma borboleta
tricotando seu voo. O pastorzinho se agastava: que doença estaria a
consumir o animal? E se decidiu a segui-lo, de luz a lés. Foi então
reparou que o bicho se prendia na visão de uma dada e considerada
garça. A ave pernalteava-se, se juntava às nuvens, suas gémeas:
sempre e sempre a atenção do boi nela se centrava. O ruminante se
imobilizava, impedido. O pastor chambocava o bovino a ver se ele
manadeava. O varapau, vuuum-ntáá, estalava nos costados. Nem valia
a pena. Pois ele sacudia os lentos cornos e seguia, de impossível,
impassível.
Sem nenhum comer, o bicho
definhava-se. O pastor nem sabia como explicar a seu tio, dono da
criação. Certa noite, ao juntar suas migalhas, o pastor viu aquilo
que duvidava de contar. Pois que o boi esticava o pescoço para a lua
e declamava mugidos que nunca foram ouvidos. De repente, se agitou
todo seu corpo, o bicho parecia estar em parto de si mesmo. De sua
garganta se afilaram os gemidos que se foram vertendo, creia-se, num
cantarinhar de ave. Às duas por uma, ele começou a minguar,
pequenando-se de taurino para bezerro, de bezerro para gato chifrudo.
Em violentos arrepios se sacudiu e os pêlos, aos tufos, lhe foram
caindo. No igual tempo lhe surgiam plumas brancas. Em instantes, o
mamífero fazia nascer de si uma ave, profundamente garça.
O recente pássaro, então, percorreu
o redor, procurando não se sabe qual quê com seu olhar em seta. Até
que, de súbito, se vislumbrou uma outra garça, essa mesma que lhe
fazia, enquanto boi, demorar o coração. E o transfigurado mamífero
acorreu em volejos, se chegando à autêntica ave. Dançou em
repentinos saltos, as pernas de nervosa altura, como se estivessem
ainda a soletrar os primeiros passos. A terra parecia demasiado
pesada para aquele habitante dos céus. Ali ficaram os recíprocos
dois, em namoros despregados, soltando brancas fulgurações.
O pastor se garantiu que assim
acontecia todas as noites de luar cheio. No roçar da aurora, o boi
regressava à condição de tristonho quadripedestre. Sucedeu um ano,
contudo, que por meses seguidos, a lua teimou em não sair. Por
tempos consecutivos, as noites se velaram, escuras, viscosas. O boi
percorria as nocturnas horas se mantendo boi, mugindo como as
acabrunhadas xipalapalas. Morreu na trigésima noite. O pastor
assistira a sua lenta agonia e jura ter visto lágrimas deflagrando
nos redondíssimos olhos do bicho.
O menino suspende o relato, uma
angústia lhe prende a voz. Muidinga não sabe como reparar aquela
falta em seu companheiro de ocasião. Lhe faltam palavras, lhe fogem
as entrelinhas. Então, tira de si o amuleto que o protegia dos maus
espíritos, prenda de Tuahir. Afinal, trocam magias. Aquela suave
estória, concedendo leveza a um apaixonado bovino, soava como uma
dádiva de magia.
Se faz tarde, Muidinga se despede do
pastorzito, regressando ao lugar onde deixara o companheiro doente.
Tuahir se desprendera da árvore e treme. Ele tinha concebido um
plano: juntariam uns paus de mangal, improvisariam uma jangada para
fugir pântano abaixo. O miúdo tinha razão, admitia. Talvez na
praia encontrassem gente, barcos, viagens.
— Mas você não tem força para
nada, tio Tuahir.
Tuahir então apontou para a margem:
ele já juntara os paus e os amarrara no jeito de barcaça. Nesse
poente, os dois partem naquela jangada. Muidinga remava. Se recorda
de Kindzu em suas aventurosas viagens. A tremeluzente voz de Tuahir
se faz ouvir:
— Se eu falecer aqui não me
enterre no matope.
— O tio não vai morrer.
— Você não sabe nada. Vou-lhe
dizer: quem morre enterrado no lodo se transforma em peixe.
— Está bem, não lhe enterro. Se
um dia o tio morrer faço como fizeram com Taímo. Lhe deitamos na
água.
O velho sorri e se enrosca em si, como
se procurasse um ventre. Depois adormece. À medida que a jangada
avança no mangal o miúdo vai medindo o quanto afecto guarda por
aquele homem. No fundo, o velho foi toda a sua família, toda a sua
humanidade. A jangada escorrega pelas lisas águas até desembocar
numa margem onde a areia branqueja. Nítido se escuta o rugido do
mar.
— Escute: é o mar, o autêntico
mar. Já estamos perto, tio.
— Oh, esse mar já escuto desde
que chegámos lá no machimbombo.
Cada vez mais a voz de Tuahir se
esfuma. Em auge de arrepios, o velho pede carinhos de mão e de
peito. Não era requerer de doente mas de esposa. Muidinga lhe ajusta
a manta na esperança que ele caia em sono. Porém, Tuahir lhe
surpreende as mãos, juntando-as a seu rosto. Pede ao rapaz que se
deite juntinho a si, para ganhar quentura. O velho levanta a sua
manta, abrindo espaço para que Muidinga se ajuste. O rapaz se deita,
constreito. Dois medos em si se juntam: o de tocar em Tuahir e o de
se estar deitando com a morte. Maneirosa, a mão do outro lhe
desvanece uma ruga que teima em seu rosto. Longe se escuta o assobio
da xigovia.
Mia Couto, em Terra Sonâmbula
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