03/11/2026

Gal Costa | Dom de Iludir

Hagar, o Horrível

Diário de Bernardo Soares

143.

Tenho mais pena dos que sonham o provável, o legítimo e o próximo, do que dos que devaneiam sobre o longínquo e o estranho. Os que sonham grandemente, ou são doidos e acreditam no que sonham e são felizes, ou são devaneadores simples, para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes dizer nada. Mas o que sonha o possível tem a possibilidade real da verdadeira desilusão. Não me pode pesar muito o ter deixado de ser imperador romano, mas pode doer-me o nunca ter sequer falado à costureira que, cerca das nove horas, volta sempre a esquina da direita. O sonho que nos promete o impossível já nisso nos priva dele, mas o sonho que nos promete o possível intromete-se com a própria vida e delega nela a sua solução. Um vive exclusivo e independente; o outro submisso das contingências do que acontece.
Por isso amo as paisagens impossíveis e as grandes áreas desertas dos piamos onde nunca estarei. As épocas históricas passadas são de pura maravilha, pois desde logo não posso supor que se realizarão comigo. Durmo quando sonho o que não há; vou despertar quando sonho o que pode haver.
Debruço-me, de uma das janelas de sacada do escritório abandonado ao meio-dia, sobre a rua onde a minha distração sente movimentos de gente nos olhos, e os não vê, da distância da meditação. Durmo sobre os cotovelos onde o corrimão me dói, e sei de nada com um grande prometimento. Os pormenores da rua parada onde muitos andam destacam-se-me com um afastamento mental: os caixotes apinhados na carroça, os sacos à porta do armazém do outro, e, na montra mais afastada da mercearia da esquina, o vislumbre das garrafas daquele vinho do Porto que sonho que ninguém pode comprar. Isola-se-me o espírito de metade da matéria. Investigo com a imaginação. A gente que passa na rua é sempre a mesma que passou há pouco, é sempre o aspeto flutuante de alguém, nódoas de movimento, vozes de incerteza, coisas que passam e não chegam a acontecer.
Anotação com a consciência dos sentidos, antes que com os mesmos sentidos…
A possibilidade de outras coisas... E, de repente, soa, de detrás de mim no escritório, a vinda metafisicamente abrupta do moço.
Sinto que o poderia matar por me interromper o que eu não estava pensando. Olho-o, voltando-me, com um silêncio cheio de ódio, escuto antecipadamente, numa tensão de homicídio latente, a voz que ele vai usar para me dizer qualquer coisa. Ele sorri do fundo da casa e dá-me as boas-tardes em voz alta. Odeio-o como ao universo. Tenho os olhos pesados de supor.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

O espelho

Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me, a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.

Mia Couto, em Poemas Escolhidos

Elegia de baby

 


Tinha sete anos, e ainda era mais criança do que qualquer menina de sua idade. Pesava mil e quinhentos quilos, e chegaria a pesar quatro mil, se vivesse. Não viveu. Nascida na Índia, veio morrer no Leblon, sob a lona de um circo devastado pelo temporal — e essa madrugada de vento furioso, que ameaçava acabar com o mundo, terá sido um dos “fatos” de sua pequena vida sem acontecimentos.
Já se sabe que o necrológio é de Baby, a elefantinha que morreu de infecção na garganta. Esses animais são rústicos e delicados, e se no meio nativo se alimentam de plantas espinhentas, de cujo contato fugimos, padecem entretanto dos mesmos males que padecemos, e têm, quanto a nós, a desvantagem de uma sensibilidade que se ajustaria melhor ao nosso corpo que ao deles, ao passo que a nossa poderia chamar-se mais precisamente elefantina.
Vão rareando os elefantes, e com eles a doçura e a paciência na face da terra. Que a espécie caminha para o fim, os zoólogos já o têm prevenido. O lábio superior alongado e endurecido em tromba, e outros pormenores de estrutura — observa o professor Coutière — revelam a tendência primitiva ao gigantismo e à ancilose, que certos animais traziam consigo, e de que essas deformações representam justamente uma correção, grosseira, mas indispensável. Os traços subsistiram, mas a espécie nasceu, por assim dizer, errada, e tende a acabar. Por sua vez, os economistas lhe vaticinam o fim. O mesmo autor sério escreveu que basta olhar o elefante para concluir que ele é um “motor bárbaro” e de mínimo rendimento. Consome por dia uma ração bem mais cara que o óleo ou a eletricidade de um aparelho comum, enquanto este produz trabalho incomparavelmente mais precioso que o seu humilde ofício de transportador. Resta o valor econômico do seu marfim, mas talvez se torne menos dispendioso explorar jazidas fósseis desse material, como as que os mamutes deixaram na Sibéria. Há uma última utilidade do elefante, e essa retarda o seu desaparecimento: divertir meninos no circo. Baby não conheceu outra, pois que viveu realmente, para um elefante, l’espace d’un matin, isto é, o tempo de uma rosa.
Reduzido à condição circense, que pode o elefante pretender, como remédio a suas melancolias, agravadas na espessa convivência do homem? Fugir, é claro. Mas a fuga se reduz também a um passeio tonto pela cidade, entre bichos muito mais ferozes, que são os ônibus e os automóveis, num dédalo de ruas que não tem a lei e a simplicidade da floresta. Logo se organizam os homens para prendê-lo e restituí-lo ao seu mesquinho picadeiro. Se se recusa a voltar, os homens, considerando-se ameaçados, dispõem-se a fulminá-lo a tiro. Nunca nenhum escapou.
André Demaison, no Livro dos animais chamados selvagens, conta a história de Pupá, pequeno elefante pego numa colônia alemã da África, ocupada mais tarde pelos franceses. Sua alimentação onerosa, a leite condensado, se fazia à custa do governo; quando os residentes estrangeiros se retiraram, ele quedou abandonado, e andava a esmo pela cidade, mendigando comida, principalmente açúcar. Num Catorze de Julho, aproximou-se do clube francês em plena festa. Os homens, já bêbados, quiseram que ele também comemorasse a Queda da Bastilha, e deram-lhe um balde cheio de champanha, curaçau, anis e outros licores misturados. Pupá esvaziou-o com tamanha beatitude que daí por diante se tornou ébrio contumaz, e não podia compreender por que todos os dias não eram de festa, como aquele. Decadente, e sem comer, porque apenas lhe davam álcool, sentiu a nostalgia da selva, e fugiu para o interior, mas o meio natal o repeliu: estava demasiado marcado pela companhia do homem, para voltar a ser um bicho. Morreu, sobre os trilhos da via férrea, paralisando o tráfego.
Baby não viveu tais aventuras, nem teria muito que contar. Trabalhou, ainda criança, para comer, divertiu os outros e morreu sem ter compreendido (embora os elefantes sejam inteligentíssimos) a razão de ser de sua viagem da Índia ao Leblon, encerrada tão cedo, quando a outros de sua estirpe a natureza concede uma permanência de cem a cento e cinquenta anos sobre a terra. Mas imagine-se o que seria uma prisão de século e meio, mesmo no circo, e já não sentiremos tanto a morte de Baby.

Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira

Revelações

A posteridade não é mais um lugar seguro. Com a nova liberalidade, principalmente em matéria de sexo, as biografias agora contam tudo. Biografia sem uma revelação antes desconhecida ou suprimida não tem graça, ou não é biografia. Até as autobiografias precisam incluir confissões reveladoras, para serem confiáveis.
Existe um livro que diz explicitamente o que todos já desconfiavam: que J. Edgar Hoover, eterno diretor do FBI, defensor da lei, da ordem e dos bons costumes, caçador de comunistas e um notório durão, ia a festas vestindo um tutu rodado. John Kennedy, sabe-se agora, jamais perguntava a americanas o que seu país poderia fazer por elas, mas o que elas poderiam fazer pelo seu país ali mesmo, em cima da mesa do Gabinete Oval. Durante os anos Kennedy a maior ameaça à segurança dos Estados Unidos era alguma moça disparar foguetes nucleares contra a União Soviética com sua bunda, sem querer. (E quando os mísseis soviéticos começassem a cair sobre Washington em retaliação, se ouviria da Casa Branca a voz de Kennedy gritando “My God, isto é o que eu chamo de orgasmo!”.)
Em breve saberemos que Cristóvão Colombo desembarcou no Novo Mundo de mãos dadas com um marinheiro. Que Átila, o Flagelo de Deus, era secretamente chamado pelos seus comandados de Rainha dos Hunos e vivia maritalmente com seu cavalo. Que mesmo durante a guerra Winston Churchill continuou reunindo-se todas as quintas com ex-colegas de escola para relembrarem as festas no dormitório, inclusive com as ligas pretas. E que certa vez Charles de Gaulle foi convidado para a reunião, chocou-se com o que viu, mas no meio da noite já estava só de combinação.
Alguns detalhes históricos serão esclarecidos. Napoleão enfiava a mão dentro da túnica seguidamente para ajeitar o soutien. Stalin tinha um bigode cor-de-rosa para usar em ocasiões especiais. Monsieur e Madame Curie eram a mesma pessoa. O doutor Frankenstein inventou a história do monstro criado no seu laboratório para justificar aquele halterofilista morando com ele.
Etc. Etc.

Luís Fernando Veríssimo, em Diálogos Impossíveis

02/11/2026

Já foi

 



Talvez existam várias maneiras de responder. A mais evidente vem do grego. A palavra grega eros denota “querer”, “falta”, “desejo pelo que não está lá”. Quem ama quer o que não tem. É, por definição, impossível para o amante ter o que deseja se, assim que ele tem, não quer mais. É mais do que um jogo de palavras. Há um dilema dentro de eros que tem sido considerado crucial por pensadores desde Safo até hoje. Platão vira e mexe volta para ele. Quatro de seus diálogos exploram o que significa dizer que o desejo só pode ser por aquilo que falta, não pelo que está à mão, não pelo que está presente, não por algo que alguém possua nem que esteja em seu ser: eros implica endeia. Como Diotima coloca no Simpósio, Eros é um bastardo capturado pela Riqueza na Pobreza e seu lar é uma vida de carência (203b-e). A fome é a analogia escolhida por Simone Weil para esse impasse:

Todos os nossos desejos são contraditórios, como o desejo por comida. Eu quero que a pessoa que eu amo me ame. No entanto, se ele é totalmente devotado a mim, ele para de existir e eu deixo de amá-lo. E enquanto ele não for totalmente devotado a mim, ele não me ama o suficiente. Fome e saciedade.(1)

Emily Dickinson formula a questão de maneira mais atrevida em “I Had Been Hungry”

[“Tenho estado com fome”]:

Então pensei
que a fome é o modo de ver
de quem está fora das janelas
entrar põe tudo a perder(2)

Petrarca interpreta o problema com termos da antiga fisiologia do fogo e do gelo:

Sei seguir enquanto fujo do meu fogo
congelo quando presente; quando ausente, quente é o meu desejo.
(“Trionfo d’Amore”)
Sartre tem menos paciência com o ideal contraditório do desejo, esse “duplo engano”. Ele enxerga nas relações eróticas um sistema de reflexões infinitas, um jogo de espelhos enganador que carrega dentro de si a própria frustração.(3) Para Simone de Beauvoir, o jogo é uma tortura: “O cavalheiro que parte para novas aventuras ofende a dama, mas ela não sente nada além de desprezo se ele permanecer a seus pés. Esta é a tortura do amor impossível…”.(4) Jacques Lacan elabora a questão de maneira um pouco mais enigmática quando diz que “o desejo... evoca a falta do ser sob as três figuras do nada, que constitui a base da demanda por amor, do ódio que chega a negar o ser do outro e do elemento indizível que se ignora em seu pedido”.(5)
Parece que todas essas vozes estão buscando uma percepção comum. Todo desejo humano está posicionado em um eixo de paradoxo, ausência e presença são seus polos, amor e ódio, suas energias motivadoras. Vamos voltar mais uma vez àquele poema de Safo que já vimos. Esse fragmento (LP, fr. 130), conforme foi preservado no texto e escólios de Heféstion,

Ἄτθι. σοὶ δ᾽ ἔμεθεν μὲν ἀπήχθετο
φροντίσδην, ἐπί δ᾽ Ἀνδρομέδαν πόται

Atthis, your care for me stirred hatred in you
and you flew to Andromeda.

Átis, seu carinho por mim despertou ódio em você
então você voou para Andrômeda.
(LP, fr. 131)

Quem deseja o que não foi embora? Ninguém. Os gregos deixaram isso bem claro. Inventaram eros para expressar isso.

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(1) S. Weil, The Simone Weil Reader. Ed. G. A. Panichas, 1977, p. 364. (N.A.)
(2) E. Dickinson, The Complete Poems. Ed. T. H. Johnson, 1960. (N.A.) [Ed. bras.: Poesia completa, volume 1: os fascículos. Brasília/Campinas: UnB/Unicamp, 2020, p. 313.] A formatação do texto difere da fonte e acompanha o uso de Carson. (N.T.)
(3) J.-P. Sartre, Being and Nothingness, Trad. M. E. Barnes, 1956, pp. 444-45. (N.A.)
(4) S. De Beauvoir, The Second Sex. Trad. H. M. Parshley, 1953, p. 619. (N.A.)
(5) J. Lacan, Écrits. Paris, 1966, p. 28. (N.A.)

Anne Carson, em Eros, o doce-amargo: Um ensaio

Os centauros

O barulho de ferro batendo nas pedras me acordava de madrugada. O ruído das ferraduras se misturava com o relinchar dos cavalos. Eu me levantava e abria a única bandeira da janela. Só um pouquinho porque tinha medo de que me vissem. Eram seres misteriosos, misturas de homens e cavalos que, na bruma da manhã, me faziam imaginar centauros. Das ventas dos cavalos saía fumaça quando relinchavam. Como se fossem dragões. Do ângulo pelo qual os observava, através da fresta da janela, não me era possível ver os rostos dos soldados. Via-os pelas costas, inumeráveis, iam vagarosamente, a passo. Um exército inteiro de soldados dotados de força descomunal, a caminho de uma batalha. Que iam para uma batalha era certo: os fuzis pendentes dos coldres, ao lado direito das selas, esperavam a hora do fogo. Passado o último centauro, eu fechava a janela, voltava para a cama e ficava a imaginar a batalha, até dormir.

Rubem Alves, em O velho que acordou menino

Palavras

Felizmente há palavras para tudo. Felizmente que existem algumas que não se esquecerão de recomendar que quem dá deve dar com as duas mãos para que em nenhuma delas fique o que a outras deveria pertencer. Assim como a bondade não tem por que se envergonhar de ser bondade, também a justiça não deverá esquecer-se de que é, acima de tudo, restituição, restituição de direitos. Todos eles, começando pelo direito elementar de viver dignamente. Se a mim me mandassem dispor por ordem de precedência a caridade, a justiça e a bondade, daria o primeiro lugar à bondade, o segundo à justiça e o terceiro à caridade. Porque a bondade, por si só, já dispensa a justiça e a caridade, porque a justiça justa já contém em si caridade suficiente. A caridade é o que resta quando não há bondade nem justiça.

José Saramago, em O caderno

Casa

 



Não tinha nem uma hora que chegara a Candeia e Samuel já estava na rua da Matriz, segundo a referência da velha. Tudo rápido demais. Achou que levaria mais algum tempo para, enfim, estar diante de sua avó e de seu pai. O que diria? Não pensou em palavras para dizer, mas lembrava da voz de Mariinha, letra por letra, pedindo que fosse encontrá-los.
Se pudesse, mataria o pai. Nunca matou, não tinha arma, não tinha ideia do tamanho do homem. Eram anos de motivos, especialmente pelos últimos quinze dias, o rosto de Mariinha, o fio de voz, os quatro pedidos. Respirou fundo e foi.
Não demorou a achar a casa, era a maior da rua, perto da igreja. Tudo continuava morto. Olhou ao redor antes de chamar por alguém naquele portão. Portas e janelas fechadas com tijolos. Mato crescendo por cima das telhas, saindo das frestas, raízes quebrando o piso das calçadas e varandas, vencendo a pedra. As casas distribuídas acompanhando o desenho da praça. Em muitas delas ainda era possível ler as palavras escritas com tinta velha e descascada. “Barbearia Santo Antônio”. “Lanches Santo Antônio”. “Pousada Santo Antônio”. “Restaurante Santo Antônio”. Marcas borradas de um passado que ele não compreendia.
Uma coragem súbita tomou conta dos seus pés novamente. Era a besta-fera, ele acreditava. A vida que levara nos últimos dias fazia parecer mais possível acreditar no Mal. Puxou o papel do bolso, precisava ler mais uma vez as oito palavras e o número já cravados na memória e fazer o que tinha de ser feito ali.
Bateu palmas com a barriga encostada no portão de ferro, fechado com corrente e cadeado. Um jardim na frente, o mato tomando conta de tudo. O mato e os gatos. Coisa de oito, nove, e cada vez chegava mais. As duas janelas estavam fechadas com tijolos. Era uma casa grande, com alpendre, cadeira de balanço enferrujada. Havia uma grade na frente da porta de madeira e não demorou duas palmas para que a porta de dentro se abrisse e surgisse uma mulher de dificílima descrição.
— A senhora é d. Niceia?
— E você é Samuel.
Não era uma pergunta. Não era um sorriso. Não era uma acolhida.
— A senhora me conhece?
— Não. E nem você. Mas sei quem você é.
Tinha cara e conversa de louca.
— Está com fome? — perguntou a velha.
— Muita.
— Tá se vendo pela cara.
…
— Veio do Juazeiro?
— Foi.
— E não trouxe nada pra mim?
— Não.
— Sua mãe mandou.
— Mandou, mas eu não trouxe.
…
— Veio como?
— A pé.
— O caminho todo?
— Foi.
— Quantos dias?
— Uns quinze.
— Dezesseis.
— Como a senhora sabe?
— Eu sei.
…
— E o Manoel?
— Que Manoel?
— O seu filho.
— Ah, sim. Meu Manoel… — fez nuvem de choro em seu rosto, baixou a cabeça, deixando à mostra os cabelos raros e brancos.
— Ele mora aqui na cidade?
— Isso não é mais uma cidade.
— Mora onde?
— É mistério de Deus. Ele tem muitos.
— Ele se mudou daqui faz tempo?
— …
Não houve resposta. Ela olhava para Samuel, somente.
— Então ele mora aqui?
— Não adianta tentar entrar. — Segurou a porta com as duas mãos, mudou o rosto, agora tinha raiva.
— Ele está vivo?
— Tá com fome?
— Muita.
A mudança de assunto foi bem-sucedida.
— Tá se vendo. E sujo, carecido de banho.
Samuel tinha certeza de que ela o chamaria para entrar e depois, talvez mais tarde ou no dia seguinte, poderia perguntar os detalhes do que aconteceu com Manoel, seu pai. Se estivesse morto, pouparia o seu trabalho. Talvez ficasse lá uns tempos, a ideia de uma casa para dormir era tudo de que ele precisava depois de dezesseis dias como um cão de rua. Se ela notou que ele estava carecido de banho, o convite viria a seguir, ele pensou. Mas não veio. Algo dizia que Manoel morava lá e estava escondido, talvez pressentindo que o filho não o buscara para pedir a bênção. Niceia voltou a falar:
— Já escureceu e daqui a pouco vai chover. Você saia daqui, vá andando pelo mato. Segue aqui na rua, passa da matriz e do cemitério, entra nos matos mesmo, sempre reto, sem dobrar. Quando avistar um pé de goiaba, aí dobra pro rumo da direita, que tem um canto coberto pra dormir. Entra correndo e dorme, o temporal vem forte.
Bateu a madeira velha da porta com força e sumiu. Nenhum rastro de som lá por dentro. Por todo esse tempo Samuel permanecia com a barriga colada no portão de ferro e a mulher de cabelos desgrenhados do outro lado. Não foi assim que Mariinha descreveu a velha Niceia. Não foi assim que ele imaginou o encontro com sua avó.
Ela chamou a chuva, pediu que viesse. Antes, pouco antes, o céu estava limpo, sem dar sinal nenhum de que as nuvens estavam para chorar. Todas as nuvens do céu choraram ao mesmo tempo.

Socorro Acioli, em A cabeça do santo

Simone | Quando Eu Estiver Cantando

 

Poeminha social

Mesmo dito com cuidado
Sem qualquer provocação
“De gosto não se discute”
Traz logo uma discussão.

Millôr Fernandes, em Poemas

Calvin

 

01/11/2026

Drédito

Garçom traz a conta.
CLIENTE Traz a maquininha, por favor?
Garçom traz a máquina. Cliente dá o cartão.
GARÇOM É débito ou crédito?
CLIENTE Drédito.
GARÇOM Oi?
CLIENTE Crébito.
GARÇOM Não entendi.
CLIENTE Clérbito.
GARÇOM Débito?
CLIENTE Clérigo.
GARÇOM Crédito?
CLIENTE Drécimo.
O cliente começa a suar frio e a passar mal.
CLIENTE Lépido. Périplo.
GARÇOM Senhor, a pergunta é simples. Ou é drédito ou… Quérdito.
CLIENTE Quérdito?
GARÇOM Péricles.
CLIENTE Cérebro.
GARÇOM Mérito.
CLIENTE Derby.
GARÇOM (grita por ajuda) Josias!

Gregório Duvivier, em Put some farofa

Propriedade

Nunca digas que um verso está de pé quebrado: ele está é de asa quebrada.

Mário Quintana, em Caderno H

1648 – Olinda

 


Excelências da carne de canhão

Era menino quando foi arrancado de sua aldeia africana, embarcado em Luanda e vendido em Recife. Já era homem quando fugiu dos canaviais e refugiou-se em um dos baluartes negros de Palmares.
Nem bem os holandeses entraram no Brasil, os portugueses prometeram a liberdade aos escravos que combatessem contra os invasores. Os chimarrãos de Palmares decidiram que essa guerra não era deles: tanto fazia que fosse holandês ou português quem empunhasse o chicote nos canaviais e engenhos. Mas é, Henrique Dias acudiu para oferecer-se. Desde então comanda um regimento de negros que lutam pela coroa portuguesa no nordeste brasileiro. Os portugueses fizeram dele fidalgo cavalheiro.
De Olinda, o capitão Henrique Dias envia uma carta de intimidação ao exército holandês acampado em Recife. Adverte que de quatro nações está composto o seu regimento, o Tércio dos Henriques: minas, ardas, angolas e crioulos: estes são tão malévolos que não temem nem devem; os minas tão bravos, que aonde não podem chegar com o braço, chegam com o nome; os ardas tão fogosos, que tudo querem cortar de um só golpe; e os angolas tão robustos, que nenhum trabalho os cansa. Considerem agora se romperão a toda Holanda homens que tudo romperam.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

31/10/2026

João Bosco e Silva | Papel Machê

Capítulo 108 – Que Se Não Entende

Eis ai o drama, eis aí a ponta da orelha trágica de Shakespeare. Esse retalhinho de papel, garatujado em partes, machucado das mãos, era um documento de análise, que eu não farei neste capítulo, nem no outro, nem talvez em todo o resto do livro. Poderia eu tirar ao leitor o gosto de notar por si mesmo a frieza, a perspicácia e o ânimo dessas poucas linhas traçadas à pressa; e por trás delas a tempestade de outro cérebro, a raiva dissimulada, o desespero que se constrange e medita, porque tem de resolver-s ena lama, ou nas lágrimas?
Quanto a mim, se vos disser que li o bilhete três ou quatro vezes, naquele dia, acreditai-o, que é verdade; se vos disser mais que o reli no dia seguinte, antes e depois do almoço, podeis crê-lo, é a realidade pura. Mas se vos disser a comoção que tive, duvidai um pouco da asserção, e não a aceites sem provas. Nem então, nem ainda agora cheguei a discernir o que experimentei. Era medo, e não era medo; era dó e não era dó; era vaidade e não era vaidade; enfim, era amor sem amor, isto é, sem delírio; e tudo isso dava uma combinação assaz complexa e vaga, uma coisa que não podereis entender, como eu não entendi. Suponhamos que não disse nada.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

A primeira desintoxicação

 


Carlotta acordou, durante a quarta semana seguida de chuva daquele mês de outubro, na ala de desintoxicação do hospital do condado. Estou num hospital, ela pensou, e foi andando cambaleante pelo corredor. Havia dois homens num quarto grande, que seria ensolarado se não estivesse chovendo. Os homens eram feios e usavam roupas de brim preto e branco.
Estavam cheios de manchas roxas e de curativos sujos de sangue. Devem ter sido trazidos da prisão para cá, ela pensou, mas depois viu que também estava usando uma roupa de brim preto e branco e também estava cheia de manchas roxas e de curativos sujos de sangue. Lembrou de algemas, de uma camisa de força.
Era Halloween. A voluntária do AA os ensinou a fazer abóboras. Você enche o balão, ela dá o nó no bico. Depois você cola tiras de papel grudentas em volta do balão todo. Na noite seguinte, quando o seu balão estiver seco, você o pinta de cor de abóbora. A voluntária recorta os olhos, o nariz e a boca. Você pode escolher se quer um sorriso ou uma careta na sua abóbora. Você não pode usar tesoura.
Houve muitas risadas pueris, por causa dos balões escorregadios, das mãos trêmulas deles. Era difícil fazer as abóboras. Se tivessem tido permissão para recortar os olhos, o nariz e a boca, eles teriam recebido aquelas tesouras sem ponta ridículas. Sempre que queriam escrever, recebiam lápis grossos, como na primeira série.
Carlotta se divertiu bastante na ala de desintoxicação. Os homens a tratavam de um jeito galante e encabulado. Ela era a única mulher, era bonita e “não tinha a menor pinta de pinguça”. Seus olhos cinzentos eram claros e seu riso, fácil. Ela havia transformado o seu pijama preto e branco com uma echarpe de um tom bem vivo de vermelho.
Os homens eram em sua maioria beberrões de rua. A polícia os trazia para o hospital ou eles simplesmente vinham por conta própria quando a pensão que recebiam do governo acabava, quando não tinham vinho nem abrigo. O hospital do condado era um ótimo lugar para largar o álcool, eles disseram. Ali, eles te dão Valium, Thorazine, Dilantin se você tiver convulsão. Uma enorme cápsula amarela de Nembutal à noite. Isso não ia durar por muito tempo; logo, logo só iam existir clínicas de desintoxicação “modelo social”, sem droga nenhuma. “Que merda… pra que vir, então?”, perguntou Pepe.
A comida é boa, mas fria. Você tem que pegar a sua própria bandeja do carrinho e levá-la para a mesa. A maior parte das pessoas não consegue fazer isso no início, ou deixa a bandeja cair. Alguns dos homens tremiam tanto que era preciso lhes dar comida na boca, ou eles simplesmente abaixavam a cabeça e comiam direto do prato, como gatos.
Os pacientes recebiam Antabuse depois do terceiro dia. Se ingerir bebida alcoólica no período de setenta e duas horas depois de tomar Antabuse, você passa muito, muito mal. Convulsões, dores no peito, choque, muitas vezes morte. Os pacientes viam o filme sobre o Antabuse todos os dias às nove e meia da manhã, antes da terapia de grupo. Mais tarde, no solário, os homens calculavam quanto tempo faltava para eles poderem beber de novo. Anotavam em guardanapos, com lápis grossos. Carlotta era a única que dizia que não ia mais beber.
“O que é que tu bebe, mulher?”, Willie perguntou.
“Jim Beam.”
“Jim Beam?” Os homens todos riram.
“Tu não é bebona nem aqui nem na China, porra. Nós, bebuns, bebe vinho doce.”
“Ôôô… e como é doce!”
“Que diabo tu tá fazendo aqui, afinal?”
“Você quer dizer o que uma boa moça como eu…?” O que ela estava fazendo ali, afinal? Ainda não tinha pensado nisso.
“Jim Beam. Tu não precisa de distochicação nenhuma…”
“Ah, ela tava precisando sim. Ela tava doidinha quando eles trouxe ela pra cá, tava descendo o braço naquele polícia chinês, o Wong. Depois ela teve um treco dos feio e ficou uns três minuto se debatendo que nem uma galinha de pescoço torcido.”
Carlotta não se lembrava de nada. A enfermeira lhe disse que ela havia batido com o carro num muro. Os policiais a tinham levado para o hospital e não para a prisão porque descobriram que ela era professora, tinha quatro filhos, não tinha marido. E também não tinha antecedentes, o que quer que isso fosse.
“Você já teve DT?”, Pepe perguntou.
“Já”, ela mentiu. Meu Deus, o que eu estou dizendo… por favor, me aceitem, caras. Por favor gostem de mim, seus vagabundos de olhos remelentos.
Eu não sei o que é DT. O médico também me perguntou isso. Eu disse que sim e ele tomou nota. Acho que tive isso a vida inteira, se isso é, de fato, ter visões de demônios.
Todos eles riam, colando tiras de papel em seus balões. Joe contou que tinha sido convidado a se retirar do Adam and Eve e achado que podia encontrar um bar melhor. Entrou num táxi e gritou: “Para o Shalimar!”. Só que o táxi era uma radiopatrulha e eles o trouxeram para o hospital. A diferença entre um connaisseur e um bebum? O connaisseur tira a garrafa de dentro do saco de papel. Mac, sobre as virtudes do vinho Thunderbird: “Os idiota dos chicano esquece de tirar as meia”.
À noite, depois dos balões e do último Valium, vinha o pessoal do AA. Metade dos pacientes cochilava a reunião inteira, ouvindo o pessoal contar que também tinha estado no fundo do poço. Uma mulher do AA contou que costumava mascar alho o dia inteiro para que ninguém sentisse cheiro de bebida no hálito dela. Carlotta mascava cravos. A mãe dela inalava Vick Vaporub. Tio John vivia com pedaços de pastilha Sen-Sen grudados nos dentes, de modo que ele parecia uma das nossas abóboras, sorrindo.
Carlotta gostava mais da parte final da reunião, quando todos se davam as mãos e rezavam o pai-nosso. Eles tinham que acordar os companheiros e escorá-los como os soldados mortos de Beau Geste. Ela se sentia próxima dos homens quando eles rezavam pedindo sobriedade para todo o sempre.
Depois que o pessoal do AA ia embora, os pacientes recebiam leite, biscoitos e Nembutal. Quase todo mundo ia dormir, inclusive as enfermeiras. Carlotta jogava pôquer com Mac, Joe e Pepe até as três horas da manhã. Sem coringa.
Ela telefonava para casa todos os dias. Seus filhos mais velhos, Ben e Keith, estavam cuidando de Joel e Nathan. Estava tudo bem, eles diziam. Não havia muito que ela pudesse dizer.
Ela ficou sete dias no hospital. Na manhã em que foi embora, havia um cartaz na sala de recreação escura e chuvosa. “Boa sorte! Luta, Lotta!” A polícia tinha deixado o carro dela no estacionamento. Um amassado enorme, um espelho quebrado.
Carlotta entrou no carro e foi até Redwood Park. Ligou o rádio bem alto e se sentou no capô amassado, na chuva. Lá embaixo, brilhava o templo dourado mórmon. A baía estava coberta de neblina. Era bom estar ao ar livre, ouvir música. Ela fumou, planejou o que ia fazer nas aulas da semana seguinte, anotou planos de aula, livros da biblioteca de que iria precisar.
(Justificativas tinham sido dadas na escola. Um cisto no ovário… Benigno, felizmente.)
Lista de compras de supermercado. Ela ia fazer lasanha para o jantar — o prato preferido dos filhos. Massa de tomate, carne de vitela, carne de boi. Salada e pão de alho. Sabonete e papel higiênico provavelmente. Bolo de cenoura para a sobremesa. As listas a tranquilizavam, juntavam os cacos de novo.
Seus filhos e Myra, a diretora da escola, eram os únicos que sabiam onde ela tinha estado. Eles haviam lhe dado bastante apoio. Não se preocupe. Vai ficar tudo bem.
Sempre ficava tudo bem, de alguma forma. Ela era uma boa professora e uma boa mãe, mesmo. A casinha deles transbordava de projetos, livros, discussões, risadas. Todo mundo cumpria suas obrigações.
No fim do dia, depois de lavar a louça e a roupa e corrigir trabalhos, havia a televisão, Scrabble, charadas, cartas ou conversas bobas. Boa noite, meninos! Um silêncio então, que ela celebrava duplicando as doses de bebida, agora sem pedras de gelo maníacas.
Se acontecia de acordarem, os filhos davam de cara com a loucura dela, que, até então, só de vez em quando respingava na manhã. Mas, até onde se lembrava, ela ouvia Keith, tarde da noite, verificando cinzeiros, a lareira. Apagando luzes, trancando portas.
Aquele tinha sido o primeiro encontro dela com a polícia, embora não se lembrasse de nada. Nunca havia dirigido bêbada antes, nunca havia perdido mais do que um dia de trabalho, nunca… Não fazia ideia do que ainda estava por vir.
Farinha. Leite. Ajax. Ela só tinha vinagre de vinho em casa, o que, com o Antabuse, poderia lhe causar convulsões. Escreveu vinagre de maçã na lista.

Lucia Berlin, em Manual da faxineira: Contos escolhidos

Análise do passado

Ao analisar o passado — e as grandes variações de regimes políticos—, talvez consiga prever a posteridade, pois com certeza terá uma forma equivalente. É impossível desviar da ordem dos acontecimentos atuais. Por conseguinte, contemplar a vida humana por quarenta anos equivale a contemplá-la por dez mil. O que mais poderia presenciar?

Marco Aurélio, em Meditações