01/08/2026

This is "ART OF GUITAR" | Marcin & Yamandu Costa

Disritmia

Os velhos cospem sem nenhuma destreza
e os velocípedes atrapalham o trânsito no passeio.
O poeta obscuro aguarda a crítica
e lê seus versos, as três vezes por dia,
feito um monge com seu livro de horas.
A escova ficou velha e não penteia.
Neste exato momento o que interessa
são os cabelos desembaraçados.
Entre as pernas geramos e sobre isso
se falará até o fim sem que muitos entendam:
erótico é a alma.
Se quiser, ponho agora a ária na quarta corda,
pra me sentir clemente e apaziguada.
O que entendo de Deus é sua ira,
não tenho outra maneira de dizer.
As bolas contra a parede me desgostam,
mas os meninos riem satisfeitos.
Tarde como a de hoje, vi centenas.
Não sinto angústia, só uma espera ansiosa.
Alguma coisa vai acontecer.
Não existe o destino.
Quem é premente é Deus.

Adélia Prado, em Bagagem

Ah, o Tempo!

Acerca da glória vã

Está livre o teu peito do amor à glória vã? Estará também da ira e do medo da morte? Os sonhos, os terrores mágicos, as feiticeiras, os duendes noturnos, os sortilégios de Tessália: eles te fazem rir?

Horácio, em Epístolas, II, 2.

Até às alelúias!



[…]

Mas ― ah! ― quem diga! um faz, mas não estipula.
O que houve, que se deu. Que vi. Com a sede sofrida, um incha, padece nas vistas, chega fica cego. Mas vi. Foi num átimo. Como que por distraído! num dividido de minuto, a gente perde o tino por dez anos. Vi! ele ― o chapéu que não quebrava bem, o punhal que sobressaía muito na cintura, o monho, o mudar das caras... Ele era o demo, de mim diante... O Demo!... Fez uma careta, que sei que brilhava. Era o Demo, por escarnir, próprio pessoa!
E ele endireitou pontudo para sobre mim, jogou o cavalo... O demo? Em mim, danou-se! Como vinha, terrível, naquele agredimento de boi bravo. Levantei nos estribos. ― E-hê!... Esse luzluziu a faca, afiafe, e urrou de ódio de enfiar e cravar, se debruçando, para diante todo. Tirou uma estocada. Cerrei com ele... A ponta daquela pegou, por um mau movimento, nas coisas e trens que eu tinha na cintura e a tiracol! se prendeu ali, um mero. Às asas que eu com a minha quicé, a lambe leal ― pajeuzeira ― em dura mão, peguei por baixo o outro, encortei-recortei desde o princípio da nuca ― ferro ringiu rodeando em ossos, deu o assovião esguichado, no se lesar o cano-do-ar, e mijou alto o sangue dele. Cortei por cima do adão... Ele Outro caíu do cavalo, já veio antes do chão com os olhos duros apagados... Morreu maldito, morreu com a goela roncando na garganta!
E o que olhei? Sangue na minha faca ― bonito brilho, feito um verniz veludo... E ele! estava rente aos espinhos dum mandacarú-quadrado. Conforme tinha sido. Ah-oh! Aoh, mas ninguém não vê o demônio morto... O defunto, que estava ali, era mesmo o do Treciziano!
A morte dele deu certo. E era, segundo tinha de ser? E tinha de ser, por tanto que o demo não existe! As tramóias, armadilhas... Nem nunca mais, daí por diante, eu queria pensar nele. Nem no pobre do Treciziano, que estava ali, degolal, que eu tinha... Um frio profundíssimo me tremeu. Sofri os pavôres disso da mão da gente ser capaz de ato sem o pensamento ter tempo.
Somente todos me gabaram, com elogios e palavras prezáveis, porque a minha chefia era com presteza. Fosse de tiro, tanto não admiravam a tanto, porque a minha fama no gatilho já era a qual; à faca, eh, fiz! E do outro grupo, longe mas que era o mais perto, da banda da mão esquerda, um escutou ou viu, e veio. Era o Jiribibe, mocinho Jiribibe, num cavalo preto galopeiro. Diadorim tinha disparado tiro, só esmo; de nervosia. Dentro de pouco, todos iam ficar cientes da proeza daquele homem tão morto: das beiras do corte ― lá nele ― a pele subia repuxada, a outra para baixo tinha descaído tamanhamente, quase nas maminhas até; deixavam formado o buraco medonho horrendo, se aparecendo a toda carnança. Aí Alaripe esclareceu: ― Ao que sei, este era da Serra dUmã... O de tão longe, o sapo leiteiro! Uns estavam remexendo nele ― não tinha um pêlo nos peitos. Assim queriam desaliviar aquele corpo, das coisas de valor principais. Do que alguém disse que ele guardava: um dixe, joiazinha de prata; e as esporas eram as excelentes, de bom metal.
Não turveei. Morte daquela cabra era em ramo de suicídios.
A modo que morreu? Ele foi para os infernos? ― indagou em verdade o menino Guirigó. Antes o que era que eu tinha com isso, como todos me louvaram? Sendo minha a culpa ― a morte, isto sei; mas o senhor me diga, meussenhor: a horinha em que foi, a horinha? Como que o cego Borromeu garrou um fanhoso recitar, pelos terços e responsos. Medo de cego não é o medo real. Diadorim me olhava ― eu estivesse para trás da lua. Só aí, revi o sangue. Aquele, em minha roupa, a plasta vermelha fétida. Do sangue alheio que grosso me breava, mal me alimpei o queixo; eu, desgostoso de sangue, mas deixava, de sinal? Ah, não, pois ali me salteou o horror maior. Sangue... Sangue é a coisa para restar sempre em entranhas escondida, a espécie para nunca se ver. Será por isso também que imensa mais é a oculta glória de grandeza da hóstia de Deus no ouro do sacrário ― toda alvíssima! ― e que mais venero, com meus joelhos no duro chão.
Por mais, o corpo ali ficava, para o ar do raso. Sumimos de lá, há-de que tocávamos, adiante. À viajadamente eu ia, desconversei meu espírito. Até às alelúias!
[...]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

Buganvílias

Fonte da imagem: Jardineiro.net


Nossa casa é antiga, embora não secular — explicava-me aquela senhora — e o senhor sabe como essas construções antigas têm pé-direito alto, um despropósito. Nossos dois andares enfrentam bem uns três dos edifícios vizinhos. Isso lhe dará ideia da altura de minhas buganvílias, pois as raízes delas se misturam com os alicerces, e temos praticamente dois telhados: o comum, e esse lençol rubro de flores, quando vem pintando a primavera.
Não, não pense que as flores cobrem o telhado: elas formam o seu teto especial, no terraço, dominando a pérgula — e a boa senhora sorriu — que o antigo proprietário fez questão de construir, para dar um ar meio silvestre, meio parnasiano, àquela superfície árida de ladrilhos. Nossa casa está longe de ser bonita, embora eu goste muito dela; e quando as buganvílias funcionam a todo vapor, na florescência, não imagina como a nossa modesta alvenaria se transforma numa coisa espetacular, todo aquele dilúvio de escarlate que a brisa do Brasil beija e balança, os ladrilhos também se deixam atapetar de florinhas, e até o cãozinho, indo brincar no terraço, costuma voltar trazendo no pelo branco manchas encarnadas de primavera. Caem florinhas nas panelas da cozinheira, cá embaixo, e se a gente deixar entreaberta a janela do banheiro, pode tomar seu banho de Bougainvillea spectabilis, Willd., ou que nome tenha; sei que é uma nictaginácea, ouviu?
Tudo isso é simpático, mas tem seus inconvenientes. Quando nos instalamos, um mestre de obras ponderou: “Eu, se fosse madame, cortava essas trepadeiras. Veja como os troncos encorparam, e como as paredes vão trincando. A raiz está abalando tudo”. Não tive coragem de matar uma planta de Deus, aliás duas, subindo lado a lado, confundindo lá em cima os galhos e fazendo de nossa casa uma coisa diferente, no cinzento da Zona Sul (os moradores dos edifícios garantem que, vista do alto, a casa vale muito mais do que vista da rua, por causa das buganvílias, que fazem bem aos olhos). E depois, já tivemos que sacrificar a goiabeira para abrir mais uma caixa-d’água subterrânea, Deus nos perdoe. Não, as buganvílias, não. A casa pode vir abaixo, e seremos soterrados sob tijolos e flores, mas todo o poder às buganvílias!
Há dias foi engraçado, porque convidamos um casal para almoçar, e já na horinha me lembrei que não tínhamos flores em casa. Fui comprá-las correndo, mas a greve da Leopoldina acabara com elas, ou era a própria greve das flores, que pediam aumento de orvalho; não havia uma triste corola à venda. E não era dia de feira no bairro, de sorte que não se podia recorrer a flores de calçada. Voltei de alma ferida, porque se pode trabalhar sem flor, dormir sem flor, mas comer sem flor é desagradável, tira o sal. Estava imersa em vil desânimo, quando me pousou no nariz, trazida pelo vento, a florinha de buganvília, cujos ramos estão explodindo de vermelho, entre pinceladas verdes. Voei ao quarto de depósito, saí de lá brandindo a escada de três metros, e icei-a na pérgula. E com risco de romper o esqueleto, pois escada de casa velha também é velha e desconjuntada, aos olhos divertidos ou indignados da vizinhança, fui ceifando com tesoura aquele mar de florinhas sanguíneas. Enchi duas cestas enormes, e nunca minha casa ficou tão bonita como enfeitada assim à última hora, sem gastar um cruzeiro; o casal ficou encantado, mas que beleza de flor, então eu expliquei que buganvília não tem propriamente flores, tem brácteas, que são folhas iguais às outras, mas valorizadas pelo vermelho. Deu tudo certo, e eu senti que os imensos pés de buganvílias me agradeciam e pagavam dessa maneira a decisão de poupar-lhes a vida até a consumação dos séculos — ou da nossa velha casa, que eles vão destruindo poeticamente.

Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira

31/07/2026

João Bosco e Tiago Iorc | Perfeição

A corretora de mar



A mulher entrou no meu escritório com um sorriso muito amável e os olhos muito azuis. Desenrolou um mapa e começou a falar com uma certa velocidade, como é uso dos chilenos. Gosto de ver mapas, e me ergui para olhar aquele.
Quando percebi que se tratava de um loteamento, e a mulher queria me vender uma parcela, me coloquei na defensiva; disse que no momento suspendi meus negócios imobiliários, e até estava pensando em vender meus imensos territórios no Brasil; que além disso o Chile é um país muito estreito e sua terra deveria ser dividida entre seu povo; até ficaria mal a um estrangeiro querer especular com um trecho da faja angosta, que é como os chilenos chamam sua tira estreita de terra, que por sinal costumam dizer que é “larguíssima”, para assombro do brasileiro recém-chegado, que não sabe que isso em castelhano quer dizer “compridíssima”.
Os olhos azuis fixaram-se nos meus, a mão extraiu de uma pasta a fotografia de um terreno plantado de pinheirinhos de dois ou três anos: não se tratava de especulação imobiliária; dentro de poucos anos eu seria um madeireiro, poderia cortar meus pinheiros... Ponderei que tenho uma pena imensa de cortar árvores.
A senhora não tem?
Também tinha. E então baixou a voz, sombreou os olhos de poesia, e me disse que ela mesma, corretora, também comprara duas parcelas naquele terreno. E tinha certeza — confessava — que também não teria coragem de mandar cortar seus pinheiros; também adorava árvores e passarinhos, cortaria apenas os pinheiros necessários para fazer uma casinha de madeira: o lugar é lindo, em um pequeno planalto, dá para uns penedos junto ao mar; as árvores choram, e cantam com as ondas quando sopra o vento do oceano...
Confesso que paguei a primeira prestação: ela passou o recibo, sorriu, me disse muchas gracias e hasta lueguito e partiu com seus olhos azuis, me deixando meio tonto, com a vaga impressão de ter comprado um pedaço do Oceano Pacífico.
Santiago do Chile, abril, 1955.

Rubem Braga, em Ai de ti, Copacabana

Canção de Mim Mesmo

16

Sou dos velhos e jovens, dos tolos tanto quanto dos sábios,
Desatento com os demais, sempre atento aos demais,
Maternal não menos que paternal, uma criança assim como um homem,
Recheado com o recheio que é tosco e recheado com o recheio que é fino,

Alguém da Nação de muitas nações, igual ao menor e igual ao maior,
Um Sulista logo um Nortista, um plantador desinteressado e hospitaleiro à margem do Oconee moro,
Um Yankee a meu modo pronto para o comércio, minhas juntas as mais maleáveis da terra e as mais rígidas da terra,
Um kentuckiano andando no vale de Elkhorn vestido de couro de cervo, perneiras, um louisianiano ou georgiano,

Um barqueiro sobre lagos ou baías ou costas, um habitante de Indiana, Wisconsin, Ohio,
À vontade com raquetas Kanadianas ou no mato, ou com pescadores em Terra-Nova,
À vontade na frota de navios quebra-gelo, velejando com o resto e bordejando,
À vontade nas colinas de Vermount ou nos bosques do Maine, ou rancho do Texas,

Camarada de Californianos, camarada de Noroestinos livres, (amando suas grandes proporções,)
Camarada de jangadeiros e carvoeiros, camarada de todos que apertam mãos e oferecem bebida e comida,
Um aprendiz com os mais simples, um professor dos mais pensativos,
Noviço iniciando no entanto experiente de miríades de estações,

De todo tom e casta sou, de todo renque e religião,
Fazendeiro, mecânico, artista, cavalheiro, marinheiro, quacre,
Prisioneiro, gigolô, brigão, advogado, médico, padre.

Resisto a qualquer coisa mais que minha própria diversidade,
Respiro o ar mas deixo bastante atrás de mim,
E não sou convencido, e estou no meu lugar.

(A mariposa e os ovos de peixe estão em seu lugar,
Os sóis brilhantes que vejo e os sóis escuros que não vejo estão em seu lugar,
O palpável está em seu lugar e o impalpável está em seu lugar.)

Walt Whitman, em Folhas de Relva 

Soma zero



Sei que temos esse jantar, não se preocupe, estou vendo se encontro aquele vestido... Vou a outras lojas, depois... Tchau.”
A mulher desliga o celular, voltam a se abraçar na cama, esquecem a vida.
Esse coração batendo forte é o meu ou o seu?”
O nosso, o suor também é nosso, mas esses fios de cabelo na sua mão são meus.”
Silêncio.
Não fica olhando para o teto, olha para mim.”
O homem olha para a mulher.
Estou muito feliz. Sabe quanto tempo vou ficar feliz?”
Silêncio.
Até entrar no meu carro e chegar em casa. Às vezes tenho vontade de me drogar, mas sou muito medrosa para fazer isso.”
Não ia resolver nada.”
Quando cheguei em casa ontem ele perguntou, Você foi ao cabeleireiro para fazer um penteado desses? Inventei uma resposta... Estou andando sobre carvões em brasa... Você não entende, você sai de casa e bate a porta, eu tenho que deixar instruções com empregadas, dar explicações, criar cenários, dizer mentiras, e na volta tudo se repete, novas determinações, providências, desempenhos, embustes. O lar é um monstro que nunca tem as suas exigências saciadas, está sempre pedindo mais. À noite tenho que ir a festas e jantares com ele e os nossos amigos, onde me mostro alegre, e sou a que ri mais alto, a que fala com mais entusiasmo, mas quando chego em casa estou com vontade de vomitar e preciso tomar um tranquilizante para poder dormir.”
Eu te amo.”
Não precisa fazer essa cara de cachorro sem dono, esquece o que eu disse.”
Ela o beija. Fodem novamente.
Você puxa os meus cabelos com força. Você é sádico e maluco. Um pouco sádico e muito maluco.”
É sem querer.”
Mas eu gosto, se nós tivéssemos um jogo de dominó você jogaria comigo?”
Acho que sim. Quer ouvir uma música? Aquela de que você gosta.”
Me deixa triste. Não fica olhando para o teto.”
Estou deitado de barriga para cima.”
Também estou deitada de barriga para cima e estou olhando para você. Quer que eu diga o que estou vendo?”
Não.”
E você, agora que está olhando para mim e o seu pescoço está doendo, vê o quê?”
A mulher mais bonita do mundo.”
Quer que eu chore?”
Não.”
Ela chora, sem soluçar, mas as lágrimas brilham tanto que ele as vê, mesmo olhando para o teto.
Meu marido está desconfiado.”
A vida é um jogo de soma zero.”
O que quer dizer isso?”
Um jogo em que a soma dos ganhos e das perdas dos jogadores é sempre zero.”
E o que acabamos de ganhar é zero? O que ganhamos todos os dias é zero?”
Só quando formos somar com as perdas, as perdas nunca são zero.”
Isso é uma coisa horrível, não é? Olha para mim.”
Estou olhando.”
Você está com medo. Medo de que eu me mude para cá. De que eu me torne um peso para você.”
Não diga isso.”
Eu vivo com medo o tempo todo, mas o meu medo não é maior do que o meu amor. Diga, o seu medo é maior do que o seu amor?”
Não estou com medo.”
Mas esse seu medo de eu me mudar para cá só acontece às vezes, se acontecer sempre, o seu amor vai diminuir. E acaba, é isso?”
Temos que ser lúcidos.”
A razão sobre os sentimentos, que coisa mais árida, você não respondeu.”
Não sei responder.”
Você não sofre por saber que eu, eu...”
Você?”
Durmo toda noite com outro.”
Prefiro não falar sobre isso.”
Você não sabe fazer nada para ganhar dinheiro, e se formos morar debaixo da ponte o nosso amor acaba, só podemos viver dentro de um certo esquema. É isso que você não sabe responder?”
Já estive internado. Coisas da cabeça, não é contagioso.”
Você nunca me disse isso.”
Estou dizendo agora. Já trabalhei numa loja de discos e numa livraria, mas me mandaram embora.”
Também nunca me disse isso.”
Estou dizendo agora.”
Nunca trabalhei, nem escrevi, nem pintei, nem coisa nenhuma, saí da faculdade para casar, não terminei o curso, estudava biologia, uma órfã de pai e mãe estudando biologia, você acredita?”
O que uma órfã deve estudar?”
Talvez contabilidade, informática. Mas você sofre ou não? Por eu dormir toda noite com outro.”
Fico infeliz.”
Fica infeliz mas não chora, eu choro sempre.”
Minha mãe não me ensinou a chorar.”
Ela já morreu, não morreu? E o que ela dizia? Homem não chora?”
Ela não chorava.”
Mas tinha um marido e amava outro homem? Um artista, um intelectual incapaz de ganhar dinheiro com o seu trabalho? Desculpe o intelectual, sei que você não gosta dessa palavra.”
Às vezes, sinto vontade de chorar, quando você vai embora e fico sozinho, mas não consigo.”
E quando a dor é física? Nem assim?”
Tomo analgésico. Enxugue o seu rosto com o lençol.”
Você não acha que temos que fazer alguma coisa? Ou vamos esperar a vida corromper os nossos sentimentos?”
Que coisa?”
Já pensei em me matar, depois de matar você. Pára de olhar para o teto, não estou brincando.”
Daqui a pouco o meu pescoço vai doer.”
E eu?”
Você o quê?”
O que significo para você?”
Alegria, deleite, companhia, amor.”
Mas a arte é mais importante que tudo... E se quando você morrer de velho, tudo o que você fez for esquecido, jogado no lixo? Você não tem coragem nem de cortar a sua orelha.”
Se você quiser, eu corto.”
Então corta agora.”
Ele se levanta da cama. Depois de algum tempo, volta com um pano apertado de encontro à face, sangue escorre do seu pescoço, ele estende a outra mão fechada para ela, abre a mão. Dentro está a orelha decepada.
Um presente para você.”
Meu Deus, você tem que ir para um hospital.”
Esterilizei a faca antes e limpei o ferimento com um antisséptico, a hemorragia passa logo.”
Sua mãe, onde quer que ela esteja, deve estar muito orgulhosa de você.”
Estou contando com isso.”
Sabia que ia ter que cortar uma orelha para mim?”
Comprei uma faca afiada.”
E eu tenho que fazer o quê, por você?”
Não sei, mas não é cortar os pulsos.”
Acho que estamos enlouquecendo.”
Eu já cheguei no meu ponto. Não passo disso.”
Posso te contar uma coisa? Meu analista anda preocupado comigo. Ele não sabe, mas acho que ainda não cheguei no meu ponto. Tenho que ir embora. Posso levar a orelha comigo?”
É sua, chegando em casa, põe num frasco com formol, a farmácia vende.”
Mas o que eu gostaria mesmo é que você também chorasse.”
Isso é mais difícil.”
Nunca deixarei de te amar.”
Nem eu.”
Amanhã é sábado.”
Eu sei, a gente não vai se ver, nem no domingo.”
Talvez você chore, neste fim de semana.”
Vou tentar.”
Pinta uns girassóis.”
Não sei pintar aqueles girassóis. Talvez se sofresse de glaucoma.”
Escreve um soneto.”
Não sei escrever sonetos.”
Ela se veste, percorre o quarto e a sala para ver se não está esquecendo alguma coisa, abre a porta da rua.
Soma zero?”
Fecha a porta, sai.

Rubem Fonseca, em Pequenas Criaturas

Do diário de Paris

O que é da lua são os gobelins, as borboletas bruxas, os rostos depois do amor, a tua pele…

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

1629 – Caranguejeiras




Bascuñán

A cabeça range e dói. Estendido no barro, entre a montanha de mortos, Francisco Núnez de Pineda y Bascunán abre os olhos. O mundo é um torvelinho de sangue e barro, metralhado pela chuva, que gira e dá volta e espirra e gira.
Os índios atiram-se em cima dele. Arrancam-lhe a couraça e o capacete de ferro, afundado pelo golpe que o derrubou, e o despem aos arrancões. Francisco consegue fazer o sinal da cruz antes de ser amarrado a uma árvore.
A tormenta açoita sua cara. O mundo deixa de balançar. Uma voz dentro dele diz, através da gritaria dos araucanos: “Estás em um charco da comarca de Chillán, em tua terra do Chile. Esta chuva é a que molhou a pólvora. Este vento é o que apagou as mechas. Perdeste. Escutas os índios, que discutem a tua morte”.
Francisco murmura uma última oração.
De repente, uma rajada de plumas coloridas atravessa a chuva. Os araucanos abrem caminho ao cavalo branco, que chega jorrando fogo pelas narinas e espuma pela boca. O cavaleiro, mascarado pelo elmo que usa, dá um puxão brusco nas rédeas. O cavalo ergue-se em duas patas na frente de Maulicán, o vencedor da batalha. Todos ficam mudos.
É o verdugo”, pensa Francisco. “Agora, acabou”.
O florido cavaleiro se inclina e diz alguma coisa a Maulicán. Francisco não escuta nada além das vozes da chuva e do vento. Mas quando o cavaleiro dá as costas e desaparece, Maulicán desamarra o prisioneiro, tira a própria capa e o cobre.
Depois, os cavalos galopam rumo ao sul.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

30/07/2026

Clodo, Climério e Clésio | São Piauí (1977 - Full Album)

 

O impagável Quino

Uma tarde plena

O sagui é tão pequeno como um rato, e da mesma cor.
A mulher, depois de se sentar no ônibus e de lançar uma tranquila vista de proprietária pelos bancos, engoliu um grito: ao seu lado, na mão de um homem gordo, estava aquilo que parecia um rato inquieto e que na verdade era um vivíssimo sagui. Os primeiros momentos da mulher versus sagui foram gastos em procurar sentir que não se tratava de um rato disfarçado.
Quando isso foi conseguido, começaram momentos deliciosos e intensos: a observação do bicho. O ônibus inteiro, aliás, não fazia outra coisa.
Mas era privilégio da mulher estar ao lado do personagem principal. De onde estava podia, por exemplo, reparar na minimeza que é uma língua de sagui: um risco de lápis vermelho.
E havia os dentes também: quase que se poderiam contar cerca de milhares de dentes dentro do risco da boca, e cada lasca menor que a outra, e mais branca. O sagui não fechou a boca um instante.
Os olhos eram redondos, hipertireóidicos, combinando com um ligeiro prognatismo – e essa mistura, se lhe dava um ar estranhamente impudico, formava uma cara meio oferecida de menino de rua, desses que estão permanentemente resfriados e que ao mesmo tempo chupam bala e fungam o nariz.
Quando o sagui deu um pulo no colo da senhora, esta conteve um frisson, e o prazer encabulado de quem foi eleita.
Mas os passageiros olharam-na com simpatia, aprovando o acontecimento, e, um pouco ruborizada, ela aceitou ser a tímida favorita. Não o acariciou porque não sabia se esse era o gesto a ser feito.
E nem o bicho sofria à míngua de carinho. Na verdade o seu dono, o homem gordo, tinha por ele um amor sólido e severo, de pai para filho, de dono para mulher. Era um homem que, sem um sorriso, tinha o chamado coração de ouro. A expressão de seu rosto era até trágica, como se ele tivesse missão. Missão de amar? O sagui era o seu cachorro na vida.
O ônibus, na brisa, como embandeirado, avançava. O sagui comeu um biscoito. O sagui coçou rapidamente a redonda orelha com a perna fina de trás. O sagui guinchou. Pendurou-se na janela, e espiou o mais depressa que podia – despertando nos ônibus opostos caras que se espantavam e que não tinham tempo de averiguar se tinham mesmo visto o que tinham visto.
Enquanto isso, perto da senhora, uma outra senhora contou a outra senhora que tinha um gato. Quem tinha posses de amor, contou.
Foi nesse ambiente de família feliz que um caminhão quis passar à frente do ônibus, houve quase encontro fatal, os gritos. Todos saltaram depressa. A senhora, atrasada, com hora marcada, tomou um táxi.
Só no táxi lembrou-se de novo do sagui.
E lamentou com um sorriso sem graça que – sendo os dias que correm tão cheios de notícias nos jornais e com tão poucas para ela – tivessem os acontecimentos se distribuído tão mal a ponto de um sagui e um quase desastre sucederem na mesma hora.
Aposto” – pensou – “que nada mais me acontecerá durante muito tempo, aposto que agora vou entrar no tempo das vacas magras.” Que era em geral seu tempo.
Mas nesse mesmo dia aconteceram outras coisas. Todas até que dentro da categoria de bens declaráveis. Só que não eram comunicáveis. Essa mulher era, aliás, um pouco silenciosa para si mesma e não se entendia muito bem consigo própria.
Mas assim é. E jamais se soube de um sagui que tenha deixado de nascer, viver e morrer – só por não se entender ou não ser entendido.
De qualquer modo fora uma tarde embandeirada.

BILHETE A ÉRICO VERÍSSIMO

Não concordo com você que disse: “Desculpem, mas não sou profundo”.
Você é profundamente humano – e que mais se pode querer de uma pessoa? Você tem grandeza de espírito. Um beijo para você, Érico.

Clarice Lispector, em Onde Estivestes de Noite

Confetis


Feito aquele enredo dos Três Mosqueteiros (olha aí a sugestão pra fantasia), os três dias de carnaval são quatro. Isso já dá uma ideia da bagunça. Uma pequena idéia.
Durante os três (quatro, cinco...) dias de pagode, imperam os disparates dos súditos de Momo Primeiro e Único, fora os outros trinta – Cidadão Samba, Cidadão Recreativista, Rei do Carnaval, as respectivas Rainhas e Princesas, D. Higiênico Sales, Marechal de Cama-e-Mesa Átero Escler Ozze, e menos votados.
Marmanjo trajando fralda suja nos fundilhos com creme de abacate...
Neros coroados de arruda tangendo mudas harpas de tábuas de privada...
Zorros de sapato-tanque ao lado dos fiéis Bêbados, isto é, Tontos...
Grandes astros internacionais cuja maior graça reside no fato indiscutível de não serem astros, nem grandes, e internacionais lá pras negas deles...
Árabes de lençol e toalha santista (os mais refinados) em busca de um oásis que venda caipirinha...
O imortal General da Banda. Melhor um General da Banda que outra banda dos generais...
Marte, o Deus da Guerra, de batom e cílios postiços, com os bordados da capa (diviiina) feitos pela mamãe (dele)...
Odaliscas de cocar bebendo uísque nacional, melindrosas com o que a baiana tem na piteira, gregas com o chapéu de tirolesa, cheirando lança...
A rainha do Carnaval (uma delas) apertada pra fazer xixi, perguntando pelo “Wanderley Cardoso”...
Cartolas enormes, próprias pros palhaços que “dirigem” nosso futebol...
Blocos de Sujo muito mais limpos que o jet-set...
Buda, logo atrás de um Preto Velho, empurrado por tapuias de cueca zorba...
A freira que é barbadinho com o hábito levantado...
A Rainha Louca sentada num Círio de Nazaré. É louca mesmo, sô...
O nomezinho daquela doce gueixa é Oswaldo, torneiro-mecânico de profissão...
Que qui a cobra tá fazendo ali na Cleópatra? A transação não foi no seio?...
Santos Dumont estacionando o 14-BIS no Aterro pra ir tomar uma loura com a escurinha...
A moça nua em cima da mesa: duas listrinhas claras – tirou o bustiê, arrancaram a tanga – no corpo queimado. Zebra estilizada?...
Acima a depilação! Quer dizer, embaixo, por favor, não...
Um jacaré de rancho dança frevo em Irajá tomando mamadeira cheia de maracujá...
O Fantástico Marajá de Laori ameaçando dar uma sandalhada no Esplendor de Assurbanípal..
O Incrível Hulk, bastante emagrecido, tomando cachaça e escarrando sangue num coreto da Penha...
Escravas de correntes douradas e sandálias havaianas...
Chope, chope, chope pra afastar o calor...
Coxas, coxas, coxas pra aumentar o tesão...
A fantasia de legionário, miragem de todas as juventudes...
Palha, ráfia, isopor, paetê, fita – materiais que o BNH usará no futuro...
A Princesa Isabel sofrendo com as cólicas menstruais no desfile do Grupo III...
Um pierrô – até que enfim! - corneando o arlequim...
Mais nobreza decadente: o Rei Sol palmeando um cabo da PM...
Zumbi dos Palmares no repique, morcegos brincando à luz do dia, Clóvis na linha do trem para todo o sempre...
Aquele tampinha, perto da cabrocha e do rubro-negro de patinete, ali ó, não é o tal do general Jaruzelski?...
E, comandando a Ala do Bochincho, Tamandaré batendo o pé:
Sem minhas guias e colares por cima das medalhas, nem morta!...
Por aí afora, O negócio é aproveitar. Porque depois restauram a moralidade, refazem a Lei, recompõem a ordem, e aí, durante uns trezentos e sessenta dias imperam a seriedade do general que manda assassinar desafetos como qualquer dono de boca-de-fumo, a austeridade de um Ministro da Justiça contrabandeando joias, desfalques, desvios, escândalos!
A não ser no Carnaval, o Brasil é a maior zona.

Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo

Shakespeare

Os que se empenham em provar que as obras de Shakespeare só podem ter sido escritas por outro, estes, por sua vez, só podem ser uns invejosos póstumos. O caso desses críticos não é um caso apenas divertido, como se vê. E grave, e triste, e patológico... São os parentes ambiciosos desses, que vivem catando “influências” na obra de seus contemporâneos.

Mário Quintana, em Caderno H

Capítulo 74 – História de Dona Plácida




Não te arrependas de ser generoso; a pratinha rendeu-me uma confidência de Dona Plácida, e conseguintemente este capítulo. Dias depois, como eu a achasse só em casa, travamos palestra, e ela contou-me em breves termos a sua história. Era filha natural de um sacristão da Sé e de uma mulher que fazia doces para fora. Perdeu o pai aos dez anos. Já então ralava coco e fazia não sei que outros misteres de doceira, compatíveis com a idade. Aos quinze ou dezesseis casou com um alfaiate, que morreu tísico algum tempo depois, deixando-lhe uma filha.
Viúva, com pouco mais de vinte anos, ficaram a seu cargo a filha, com dois, e a mãe, cansada de trabalhar. Tinha de sus-tentar a três pessoas. Fazia doces, que era o seu ofício, mas cosia também, de dia e de noite, com afinco, para três ou quatro lojas e ensinava algumas crianças do bairro, a dez tostões por mês. Com isto iam-se passando os anos, não, não a beleza, porque não a tivera nunca. Apareceram-lhe alguns namoros, propostas, seduções, a que resistia.
Se eu pudesse encontrar outro marido, disse-me ela, creia que me teria casado; mas ninguém queria casar comigo.
Um dos pretendentes conseguiu fazer-se aceito; não sendo, porém, mais delicado que os outros, Dona Plácida despediu-o do mesmo modo, e, depois de o despedir, chorou muito. Continuou a coser para fora e a escumar os tachos. A mãe tinha a rabugem do temperamento, dos anos e da necessidade: mortificava a filha para que tomasse um dos maridos de empréstimo e de ocasião que lixa pediam. E bradava:
Queres ser melhor do que eu? Não sei donde te vem essas fidúcias de pessoa rica. Minha camarada, a vida não se arranja à toa; não se come vento. Ora esta! Moços tão bons como o Policarpo da venda, coitado... Esperas algum fidalgo, não é?
Dona Plácida jurou-me que não esperava fidalgo nenhum.
Era gênio. Queria ser casada. Sabia muito bem que a mãe o não fora, e conhecia algumas que tinham só o seu moço delas; mas era gênio e queria ser casada. Não queria também que a filha fosse outra coisa. Trabalhava muito, queimando os dedos ao fogão, e os olhos ao candeeiro, para comer e não cair. Emagreceu, adoeceu, perdeu a mãe, enterrou-a por subscrição, e continuou a trabalhar. A filha estava com quatorze anos; mas era muito fraquinha, e não fazia nada, a não ser namorar os capadócios que lhe rondavam a rótula. Dona Plácida vivia com imensos cuidados, levando-a consigo, quando tinha de ir entregar costuras, e a gente das lojas arregalava e piscava os olhos, convencida de que ela a levava para colher marido ou outra coisa. Alguns diziam graçolas, faziam cumprimentos; a mãe chegou a receber propostas de dinheiro...
Interrompeu-se um instante, e continuou logo:
Minha filha fugiu-me; foi com um sujeito, nem quero saber... Deixou-me só, mas tão triste, tão triste, que pensei morrer. Não tinha ninguém mais no mundo e estava quase velha e doente. Foi por esse tempo que conheci a família de Iaiá: boa gente, que me deu que fazer, e até chegou a me dar casa. Estive lá muitos meses, um ano, mais de um ano, agregada, costurando. Saí quando Iaiá casou. Depois vivi como Deus foi servido. Olhe os meus dedos, olhe estas mãos... E mostrou-me as mãos grossas e gretadas, as pontas dos dedos picadas da agulha. - Não se cria isto à toa, meu senhor; Deus sabe como é que isto se cria... Felizmente, Iaiá me protegeu, e o senhor doutor também... Eu tinha um medo de acabar na rua, pedindo esmola…
Ao soltar a última frase, Dona Plácida teve um calafrio.
Depois, como se tomasse a si, pareceu atentar na inconveniência daquela confissão ao amante de uma mulher casada, e começou a rir, a desdizer-se, a chamar-se tola, “cheia de fidúcias”, como lhe dizia a mãe; enfim, cansada do meu silêncio, retirou-se da sala. Eu fiquei a olhar para a ponta do botim.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

29/07/2026

Gente Humilde | Luiz Melodia

O desmemoriado de Vigário Geral

Lembrava-se, como se fosse ontem, isto é, há quarenta séculos, que um exército de pirâmides o contemplava. Mas não saberia precisar onde, a que luz ou em que sol de que extinta constelação. Não obstante preferia que fosse na estrela mais branca do cinturão de Órion.
É verdade: havia uma mulher que telefonava. Mas tão distante, meu Deus, que era como se lhe faltasse a ela e para todo o sempre um atributo humano indispensável.
Se lhe propunham exemplos – o xeque do pastor, o pau de amarrar égua, o mal-assombrado de Guapi, futura cidade, ele dissimulava. Era então horrível de se ver.
Afinal um dia foi encontrado morto e quando já nem tudo era possível, uma aventura banal.

Manuel Bandeira, em Estrela da manhã