08/09/2026
O ser em soneto
Para o Tenório Telles, ele me sabe
Mas será que viver a pena vale
da vida que não vale sem a pena?
E o que é a pena de viver senão
aceitar dissabor, de coração?
Escrevo só por gosto, se desgosto
do amanhecer amargo, permaneço.
O amor me ensina, o desamor ajuda
a saber que só ganho o que mereço.
Coragem tenho de me ver. Contudo,
construo devagar o que mais quero:
findar me vendo no meu próprio
espelho.
Valeu-me a vida quando descobri
que o ser é a minha própria
gravidade.
Se ela desmaia, eu me desapareço.
Thiago de Mello, em Acerto de contas
Capítulo 96 – A Carta Anônima
Senti tocar-me no ombro; era o Lobo
Neves. Encaramo-nos alguns instantes, mudos, inconsoláveis. Indaguei
de Virgília, depois ficamos a conversar uma meia hora. No fim desse
tempo, vieram trazer-lhe uma carta; ele leu-a, empalideceu muito, e
fechou-a com a mão trêmula. Creio que lhe vi fazer um gesto, como
se quisesse atirar-se sobre mim; mas não me lembra bem. O que me
lembra claramente é que durante os dias seguintes recebeu-me frio e
taciturno. Enfim Virgília contou-me tudo, daí a dias na Gamboa.
O marido mostrou-lhe a carta, logo que
ela se restabeleceu. Era anônima e denunciava-nos. Não dizia tudo;
não falava, por exemplo, das nossas entrevistas externas;
limitava-se a precavê-lo contra a minha intimidade, e acrescentava
que a suspeita era pública. Virgília leu a carta e disse com
indignação que era uma calúnia infame.
– Calúnia? perguntou Lobo Neves.
– Infame.
O marido respirou; mas, tomando à
carta, parece que cada palavra dela lhe fazia com o dedo um sinal
negativo, cada letra bradava contra a indignação da mulher. Esse
homem, aliás intrépido, era agora a mais frágil das criaturas.
Talvez a imaginação lhe mostrou, ao
longe, o famoso olho da opinião a fitá-lo sarcasticamente, com um
ar de pulha; talvez uma boca invisível lhe repetiu ao ouvido as
chulas que ele escutara ou dissera outrora. Instou com a mulher que
lhe confessasse tudo, porque tudo lhe perdoaria. Virgília
compreendeu que estava salva; mostrou-se irritada com a insistência,
jurou que da minha parte só ouvira palavras de gracejo e cortesia. A
carta havia de ser de algum namorado sem ventura. E citou alguns, –
um que a galanteara francamente, durante algumas semanas, outro que
lhe escrevera uma carta, e ainda outros e outros. Citava-os pelo
nome, com circunstâncias, estudando os olhos do marido, e concluiu
dizendo que, para não dar margem à calúnia, tratar-me-ia de
maneira que eu não voltaria lá.
Ouvi tudo isto um pouco turbado, não
pelo acréscimo de dissimulação que era preciso empregar de ora em
diante, até afastar-me inteiramente da casa do Lobo Neves, mas pela
tranquilidade moral de Virgília, pela falta de comoção, de susto,
de saudades, e até de remorsos. Virgília notou a minha preocupação,
levantou-me a cabeça, porque eu olhava então para o soalho, e disse
com certa amargura:
– Você não merece os sacrifícios
que lhe faço.
Não lhe disse nada; era ocioso
ponderar-lhe que um pouco de desespero e terror daria à nossa
situação o sabor cáustico dos primeiros dias; mas se lho dissesse,
não é impossível que ela chegasse lenta e artificiosamente até
esse pouco de desespero e terror. Não lhe disse nada. Ela batia
nervosamente com a ponta do pé no chão; aproximei-me e beijei-a na
testa.
Virgília recuou, como se fosse um
beijo de defunto.
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas
1639 – São Miguel de Tucumán
De uma denúncia contra o bispo de
Tucumán, enviada ao Tribunal de Inquisição de Lima
Com a sinceridade e verdade que a
tão santo Tribunal se deve falar, denuncio da pessoa do reverendo
bispo de Tucumán, dom Fr. Melchor Maldonado de Saavedra, do qual
ouvi coisas gravíssimas suspeitas em nossa santa fé católica, e
correm geralmente entre todo este bispado. Que em Salta, estando
confirmando, chegou uma menina de bom parecer, e disse a ela: “Melhor
é vossa mercê para tomada que para confirmada”; e em Córdoba
este passado ano de 1638 chegou outra em presença de muita gente e
erguendo-lhe a saia disse: “Zape! Que não a hei de confirmar para
baixo e sim para cima”; e com a primeira amancebou-se com
publicidade…
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
The Kiss of Venus | Paul McCartney
The Kiss of Venus, de Paul McCartney
The kiss of Venus
Has got me on the go
She scored a bullseye
In the early morning glow
Early morning glow
Packed with illusions
Our world is turned around
This golden circle has a
Most harmonic sound
Harmonic sound
And in the sunshine
When we stand alone
We came together with
Our secrets blown
Our secrets blown
Now moving slowly
We circle through the square
Two passing planets in the
Sweet, sweet summer air
Sweet summer air
And in the sunshine
When we stand alone
We came together with
Our secrets blown
Our secrets blown
Reflected mountains in a lake
Is this too much to take?
Asleep or wide awake?
And if the world begins to shake
Will something have to break?
We have to stay awake
Packed with illusions
Our world is turned around
This golden circle has a
Most harmonic sound
Harmonic sound
And in the sunshine
When we stand alone
We came together with
Our secrets blown
Our secrets blown
The kiss of Venus
Has got me on the go
She scored a bullseye
In the early morning glow
Early morning glow
The kiss of Venus
Has got me on the go
O Livro das Coincidências:
a harmonia dos planetas, de John Martineau, é um minitratado
sobre os planetas, suas órbitas e as revoluções do Sol e da Lua.
Eu o reli faz pouco tempo. É uma leitura fascinante, pois quem
concebeu esse livro visualizou essas órbitas e revoluções. Por
exemplo, do ponto de vista geocêntrico, Vênus traça um pentagrama
ao redor da Terra a cada oito anos.
Quando eu li o livro pela primeira
vez, fiquei surpreso ao ver esses designs complexos no universo, e
isso me fez pensar: “Sim, é mágico... Essa vida, a
interdependência de tudo, as árvores fornecendo oxigênio; há
tanta coisa mágica acontecendo”.
Falando em coisas mágicas, quando
tocamos no Festival de Glastonbury em 2004, adorei a ideia de que
provavelmente estávamos na confluência de linhas retas, as linhas
que cruzam o globo e ao longo das quais se acredita que nossos
ancestrais fundaram cidades significativas. Esse tipo de história me
atrai. Glastonbury também é considerado o lugar em que o Rei Arthur
está enterrado. De uma forma ou de outra, é um lugar muito especial
e tem uma vibe muito vívida. Não há como negar: o local tem uma
aura distinta.
Desde os anos 1960 eu me interesso por
constelações, cosmologia e sons cósmicos. O livro de Martineau
também aborda o som – a música das esferas –, em que cada
planeta emite uma nota diferente. Isso, para mim, é muito “hippie”
– toda essa ideia de apenas curtir as coisas simples da vida e de
estar em harmonia com a natureza. “We came together with/ Our
secrets blown” – não estamos tentando esconder nada, estamos
desnudos na chuva, entramos em sintonia com nossos segredos
revelados, e o cosmos cuida de seus afazeres.
Pensar nessas coisas maiores nos torna
humildes. Aqui estamos nós, pequenos pontos neste planeta, ele
próprio um pontinho no universo, e ao mesmo tempo no coração de
tudo. E temos esse modelo da flor de lótus, que ao menos algumas
religiões (budismo e hinduísmo) consideram um símbolo importante.
Outra coisa que aprendi no livro de
Martineau é que de vez em quando Vênus passa bem pertinho da Terra,
fenômeno conhecido como “o beijo de Vênus”. Isso bastou para
incendiar a minha imaginação. Esse foi o embalo que me pôs em
movimento.
“Two passing planets in the/
Sweet, sweet summer air”. É como se nós, na condição de
pessoas, fôssemos planetas que passam – um pouco como navios
passando à noite. A sequência “Now moving slowly/ We circle
through the square” me lembra de “through the fair”
(“pela feira”), expressão usada em muitas baladas, inclusive na
tradicional balada irlandesa, “She Moved Through the Fair”.
A ideia de esquadrar o círculo (“squaring the circle”) –
de fazer algo impossível – também está à espreita em algum
lugar na vegetação rasteira desse verso. Em certo sentido, cada
canção supera a grande chance de acabar nem sendo escrita.
Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente
07/09/2026
Negras olimpíadas
Clementina
Carolina de Jesus
Ganhamos
uma rosa de ouro
Uma
rosa desenhada em canção
Algodão
em sorriso ex-escravo
Sua
tataraneta judoca
Negra
como vazio em noite escura
De
cabelos lindos alvoroçados
Como
se o vento os tivesse penteando
Uma
redonda flor como o sol
Brilha
em seu olhar escondida
A
menina espantada da Cidade de Deus
Entra
em portas que nunca se abriram
Dos
seus olhos de espanto e fuga
Cai
uma chuva que enxuga sua dor.
José Carlos Capinan, em Cancioneiro geral
Diário de Bernardo Soares
128.
Repudiei sempre que me compreendessem.
Ser compreendido é prostituir-se. Prefiro ser tomado a sério como o
que não sou, ignorado humanamente, com decência e naturalidade.
Nada poderia indignar-me tanto como se
no escritório me estranhassem.
Quero gozar comigo a ironia de me não
estranharem. Quero o cilício de me julgarem igual a eles. Quero a
crucifixão de me não distinguirem. Há martírios mais subtis que
aqueles que se registam dos santos e dos eremitas. Há suplícios da
inteligência como os há do corpo e do desejo.
E desses, como dos outros, suplícios
há uma volúpia.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
Pardon anything
Hello, Gringo! Welcome to Brazil. Não
repara a bagunça. Don’t repair the mess. In Brazil we give two
beijinhos. Em São Paulo, just one beijinho. If you are em Minas,
it’s three beijinhos, pra casar. It’s a tradition. If you don’t
give three kisses, you don’t marry in Minas. In the other places of
Brazil, you can give how many beijinhos you want. In Rio, the
beijinho is in the shoulder.
The house is yours. Fica à vontade.
Qualquer coisa é só gritar. Shout. Mas keep calm. Como é que se
fala keep calm em inglês? Here the things demoram. It’s better to
wait seated. Everything is atrasado, it’s like subentendido that
the person will be atrasada. For a meeting, it’s meia hora. For a
party, it’s two hours. For a stadium, it’s one year. For the
metrô, it’s forever.
Never say you are a gringo. Yes,
people love gringos but people also love money and gringos have money
so people vai cobrar de você mais money because you are gringo. Say
you are from Florianópolis. People de Florianópolis look like
gringo and they have a strange sotaque igual like you. People will
believe you are from Florianópolis.
Politics is complicated. We don’t
like Dilma because of corruption but I think she don’t rob but
people from PT rob and Dilma don’t do nothing to stop people
robbing but politics is complicated.
Try this moqueca. Put some farofa. Try
this açaí. Put some farofa. Try this chicken we call à passarinho
because it looks like a little bird. Now put some farofa. Now put
some ovo inside the farofa. Mix with some banana. Delicious. You
don’t have farofa in your country? You know nothing, you innocent.
I’m catholic but I’m also budista
and I am son of Oxóssi. How do you say Oxóssi in english? It’s
the brother of Ogum. You don’t know Ogum? They are guerreiros. And
my moon is in Áries. Ou seja. Imagine the mess.
Try this xiboquinha. It’s cachaça
with canela and honey. Try this Jurupinga. It’s cachaça with wine.
Or maybe it’s wine and sugar. Nobody knows. It’s delicious. Try
this soltinho da Bahia. It’s organic. I only smoke when I drink.
But the problem is I drink a lot. Try this brigadeiro. This is called
larica. Now put some farofa. Delicious.
This cup passed really fast. Volte
sempre. Come back always! Fica lá em casa. We are family now. You
like that? You can keep it. It’s yours. Faço questão. I make
question. Go with god and desculpa qualquer coisa. Pardon anything.
Gregório Duvivier, em Put some farofa
O Homem que Calculava — Capítulo 34
34. — Segue-me — disse Jesus. —
Eu sou o caminho que deves trilhar, a verdade em que deves crer, a
vida que deves esperar. Eu sou o caminho sem perigo; a verdade sem
erro e a vida sem morte.
Na terceira lua do mês de Rhegeb, do
ano de 1258, uma horda de tártaros e mongóis atacou a cidade de
Bagdá. Os assaltantes eram comandados por um príncipe mongol, neto
de Gêngis Khan.
O xeque Iezid (Alá o tenha em sua
glória!) morreu combatendo junto à ponte de Solimã; o califa
Al-Motacém entregou-se prisioneiro e foi degolado pelos mongóis(1).
A cidade foi saqueada e cruelmente
arrasada.
A gloriosa Bagdá, que durante
quinhentos anos fora um centro de ciências, letras e artes, ficou
reduzida a um montão de ruínas.
Felizmente não assisti a esse crime
que os bárbaros conquistadores praticaram contra a civilização.
Três anos antes, logo depois da morte do generoso príncipe Cluzir
Schá (Alá o tenha em sua paz!), segui para Constantinopla com
Beremiz e Telassim.
Devo dizer que Telassim, antes de seu
casamento, já era cristã, e ao cabo de poucos meses fez com que
Beremiz repudiasse a religião de Maomé e adotasse integralmente o
Evangelho de Jesus, o Salvador.
Beremiz fez questão de ser batizado
por um bispo que soubesse a Geometria de Euclides.
Todas as semanas vou visitá-lo. Chego
às vezes a invejar-lhe a felicidade em que vive em companhia dos
três filhinhos e da carinhosa esposa.
Ao ver Telassim, lembro-me das
palavras do poeta:
“Pela tua graça, mulher,
conquistaste todos os corações. Tu és a obra sem mácula, saída
das mãos do Criador.”
E mais:
“Esposa de pura origem, ó
perfumada! Sob as notas de tua voz as pedras levantam-se dançando e
vêm, em ordem, erguer um edifício harmonioso!(2)
Cantai, ó aves, as vossas cantigas
mais puras! Brilhai, ó Sol, com a vossa mais doce luz!
Deixai voar as vossas flechas, ó
Deus do Amor!
Mulher! É grande a tua felicidade:
bendito seja o teu amor(3)”
Não resta dúvida. De todos os
problemas, o que Beremiz melhor resolveu foi o da Vida e do Amor.
E aqui termino, sem fórmulas e sem
números, a história simples da vida do Homem que Calculava.
A verdadeira felicidade — segundo
afirma Beremiz — só pode existir à sombra da religião cristã.
Louvado seja Deus! Cheios estão o Céu
e a Terra da majestade de sua obra(4).
Notas:
(1) A conquista de Bagdá, pelas
hordas impiedosas de Houlagou, é descrita por vários historiadores.
A cidade foi cruelmente saqueada pelos bárbaros invasores. Tudo foi
arrasado e destruído: o fogo consumiu os grandes palácios e as mais
ricas mesquitas. O sangue dos mortos inundou as ruas e as praças. Os
mongóis atiraram ao Tigre todos os livros das grandes bibliotecas, e
os preciosos manuscritos, misturados na lama, formaram uma ponte
sobre a qual os conquistadores passavam a cavalo.
(2) Os versos citados são transcritos
das Mil e Uma Noites, tradução de Nair Lacerda e de Domingos
Carvalho da Silva.
(3) Cf. Tagore, A Alma das
Paisagens, pág. 260.
(4) Dos Salmos de Davi.
Malba Tahan, em O Homem que Calculava
06/09/2026
Tabaréu
Vira e mexe eu penso é numa toada só.
Fiz curso de filosofia pra escovar o
pensamento,
não valeu. O mais universal a que
chego
é a recepção de Nossa Senhora de
Fátima
em Santo Antônio do Monte.
Duas mil pessoas com velas louvando
Maria
num oco de escuro, pedindo bom parto,
moço de bom gênio pra casar,
boa hora pra nascer e morrer.
O cheiro do povo espiritado,
isso eu entendo sem desatino.
Porque, mercê de Deus, o poder que eu
tenho
é de fazer poesia, quando ela insiste
feito
água no fundo da mina, levantando
morrinho de areia.
É quando clareia e refresca, abre
sol, chove,
conforme necessidades.
Às vezes dá até de escurecer de
repente
com trovoado e raio. Não desaponta
nunca.
É feito sol.
Feito amor divino.
Adélia Prado, em Bagagem
Coçando a palma da mão (alergia?), Souza observa, com fastio, a operação dos Civiltares para dominar bandidos com balas catalépticas
O ônibus chegou, a coceira
voltou. Cruzei a borboleta, não havia lugares
vagos. Normal, a essa hora. Cumprimentei pessoas que vejo aqui
todos os dias, à mesma hora. Os novos são raros. Somos parte do
S-7.58, nos permitem este, nenhum outro. É o que
dizem as fichas de tráfego.
A ficha indica onde posso andar,
os caminhos a percorrer, bairros autorizados,
por que lado de calçada circular, condução
a tomar. Assim, somos sempre os mesmos dentro do
S-7.58. Nos conhecemos todos, mas não nos falamos,
raramente nos cumprimentamos. Viajamos
em silêncio.
Sou exceção, grito meu
bom-dia, os rostos se viram aflitos, perplexos.
Depois se voltam para a paisagem, as calçadas
congestionadas. Mais um louco, pensam. Todos
têm certeza, serei apanhado ao descer. No
dia seguinte se surpreendem, sem demonstrar,
quando apareço, cumprimentando.
Três pontos antes do final (deve
ser dez e vinte) senti uma comichão insuportável.
Estava comprimido. Não podia olhar, nem levantar
a mão. Segurava a maleta com a esquerda, com a direita
me apoiava ao varão. Empurrado para a saída, me despedi.
Claro que não responderam.
Acabei de descer, ouvi os
estampidos. Secos, ocos. Tão conhecidos.
Joguei-me rápido ao chão, conforme severas
instruções. Num décimo de segundo, todos em
volta estendidos. Vivemos condicionados,
nossos reflexos aguçados. Como aqueles
ratos que vão comer ao ouvir a campainha.
Quantas vezes por dia me atiro ao chão
nesta cidade. Se alguém filmasse durante
algumas horas, sem registrar o som, veria uma daquelas
velhas comédias de Harold Loyd, o Gordo e o Magro, Mack Sennet.
Deita, levanta, deita, levanta. E os rostos? Todo
mundo apavorado, tenso.
As pessoas disputam
centímetros de calçada. Batem cabeças,
se beijam, ficam rosto a rosto, cheiram o pó, se levantam
imundas, xingam, protestam. Teve um dia que levei
duas horas para vencer duzentos metros até o escritório.
Deita, levanta. Foi tiro para tudo quanto é lado.
Hoje, um tiro só. Os Civiltares são
conhecidos e temidos pela excelente
pontaria e rapidez. O ladrãozinho, ou o que
quer que fosse, garoto ainda (nunca fui bom para determinar
idades), estava estendido, de costas. A
cápsula enterrada no meio da testa. Nenhuma gota
de sangue.
O vermelho da cápsula
me permitiu identificá-la como
Cataléptica. Provoca um estado semelhante à morte
durante duas horas. Quando o atingido acorda, já
está encerrado no Isolamento. E aí, bau-bau,
Nicolau! Nunca mais. Tem quem afirme que a Cataléptica torna a
pessoa idiota.
O Civiltar abaixou-se,
apanhou a carteira, devolveu a um senhor,
ao lado. O homem recolheu-a tranquilamente,
retirou uma nota, entregou ao policial. Os Acertos de
Taxas de Segurança são feitos no ato. Acabou-se a
burocracia, papéis, recibos, guichês, filas,
esperas.
O Civiltar acionou o
walkie-talkie, pedindo carro transportador.
Puxou o atingido para um canto da calçada e
gritou: “Podem se levantar”. Mas a gente sempre dá
um tempo. Quando ocorre um incidente assim, seguem-se
uns quatro ou cinco, os marginais aproveitam
a confusão.
Se bem que não é fácil. Para cada
homem em circulação, existe praticamente
um Civiltar ao seu lado. Eles andam girando a cabeça para
todos os lados e se assemelham a robôs. O treinamento
intensivo desperta neles, compulsivo,
o faro, o instinto. Não sei como, enxergam tudo.
Verdade.
Parece que são treinados
pelos mesmos métodos com que se ensinavam os
antigos cães pastores na polícia militar.
Ficam condicionados e são uma beleza na
eficiência. Por menos que se goste deles, é preciso
reconhecer: evitam catástrofes nesta
cidade. Pior sem eles.
Chegamos a esse ponto. Aceitar os
Civiltares como necessários, suportá-los e
chamá-los de vez em quando. Para mim, ter de fazer isso um
dia vai ser pior que tomar óleo de rícino. O quê? Óleo de
rícino? Ainda existe? Cada coisa de que me lembro de
repente. É engraçado.
A refrescante Casa dos
Vidros de Água. Chego à sua porta, todos os dias, às dez e
quarenta. Tenho meia hora para passear por dentro
dela, sentindo a tranquilidade que
existe ali. Há dois anos não consigo começar o meu dia
sem entrar e visitar a Casa. Cada dia uma seção,
vagarosamente.
Olhei a mão. A mancha estava
de um vermelho vivo e juro que me pareceu perceber
um aumento na depressão. Bem funda. Aperto, não dói.
Coça ainda, mas é uma coceira agradável, dessas
que dão prazer, me arrepia todo. Loucura, na minha idade,
ficar me arrepiando assim com coceiras.
Saio da Casa dos Vidros de Água
sempre abalado com o irreparável. Não
em relação à minha vida. Ao mundo que me cerca, ao ponto a
que as coisas chegaram. Puxa! Não é resignação
que me toma quando deixo a última sala e atravesso
o corredor, artificialmente
esverdeado.
Como se luz opaca atravessasse
floresta espessa, rompendo com
dificuldade a galharia, arbustos, ramos,
folhas, cipós. Este corredor final me acalma, me
reconcilia. Talvez o mal esteja aí. Nessa
reconciliação. Há uma interrupção
brusca quando passo do corredor para a saída.
Todo dia passeio pelo deserto,
broto no vazio de salas e corredores. A sensação
de que tudo é meu é reconfortante. Egoísmo.
Mas para mim é como se as pessoas conspurcassem
este recinto, quase igreja, catedral de nossos
tempos, com seus santos, divindades, imagens.
Certamente, do ponto de vista
prático, a Casa é inútil e o que ela exibe também.
Coisas perdidas no tempo, irrecuperáveis.
Tudo funciona em torno da utilidade,
conveniência ou não. Esta Casa talvez tenha
sido a última obra considerada sem valor
prático para a civilização.
Não devia estar na Casa. Entro aqui
me perguntando o porquê de tudo. Sem ter o que
responder. Mesmo assim, entro. Me forço a isso, acho
necessário. Se perder essa lucidez que começo
a adquirir, estarei morto. Como os calendários
inalterados que dormem no quartinho de
minha casa.
Encontrar uma saída. Se as pessoas
quisessem, haveria possibilidades.
Não há querer, ninguém vê nada. Todos tranquilos,
aceitam o inevitável. Os jornais não dizem
palavra. Calaram-se aos poucos. Mesmo que falassem,
não têm força nenhuma. A televisão está vigiada.
Ainda que não estivesse, a
ela nada interessa. Os noticiários são
inócuos. Novelas, inaugurações, planos do
governo, promessas de ministros. Como acreditar
nesses ministros, a maioria centenários?
Quase perpétuos, remanescentes da
fabulosa Época da Grande Locupletação.
O povo ainda fala desses tempos
insondáveis. Eles sobrevivem na tradição
oral. Os livros de história omitem. Quem se der a um
grande trabalho, encontrará nos arquivos
de jornais alguns elementos. Distorcidos, é claro.
Foi um período de intolerância,
amordaçamento, silêncio.
Quando eu dava aulas, os estudantes
perguntavam sobre tais tempos. Eram alunos
que as escolas reputavam incômodos e
terminavam afastados dos cursos. A
direção ouvia as gravações das aulas e me
chamava. Para que eu informasse quem tinha me
interrogado. Denunciasse.
No início, recusava.
Havia justificativas. Naquelas classes
de quinhentos alunos e grandes telões, eu
alegava, era impossível saber quem tinha feito a
Pergunta Intragável, como dizia a direção. Que tamanho
terão as classes hoje? Mil alunos? Bem que gostaria
de saber.
Depois, a situação foi ficando
mais difícil, era sempre em minhas aulas que as
perguntas intragáveis surgiam. A direção
queria saber por quê. Que tipo de coisas eu andava
dizendo fora das classes. Mandaram me seguir,
plantonaram minha casa, grampearam meu
telefone.
Solucionaram obrigando a
pessoa interessada em fazer perguntas a
se identificar antes. Muitos se calaram, outros
preferiram enfrentar punições. “Essa
época de locupletação não existiu. Foi
calúnia”, garantia a direção. “Fala-se
muito, mas onde estão os documentos? Invenções, mitos.
Isso, mitos populares. O
senhor conhece os mitos populares? O saci existe?
O caipora, a mula sem cabeça, o lobisomem?
Que esperança. São fantasias criadas que
se perpetuam para colocar medo nas pessoas. Está
vendo como a tradição oral é coisa perigosa,
traiçoeira?”
Por que os estudantes não
recorriam aos jornais, às bibliotecas públicas,
aos arquivos microfilmados? Tudo em mãos do
governo. Era (ainda é) necessário percorrer
um longo caminho burocrático, buscando
papéis, carimbos, selos. A tarefa se tornava
completamente impossível.
Impossível é o termo. Tive alunos
que gastaram anos e, quando obtiveram o
último nihil obstat, os arquivos se mudaram.
Antigos funcionários foram removidos e os
novos, avisados, não reconheceram as
autorizações. Os alunos tentavam
outra vez, a tática do governo era clara.
Quando passo pelos bairros da
Circunstancial Número 14, vejo os prédios imensos onde
está guardada a memória nacional. Ninguém sabe
que fatos estão depositados ali. Para não dizer das
pastas carimbadas: A SEREM ABERTAS DENTRO DE
DOIS SÉCULOS. São documentos da Locupletação.
– Tio.
– Dois séculos, imagine...
– O quê?
Meu sobrinho,
instintivamente, antes de me estender a
mão, ia erguendo a palma em continência. Não
aceitei, interrompi, puxei-o para mim e dei um
grande abraço. Ele se conservou rígido,
ainda que o rosto fosse sorridente e cordial.
Também sempre foi como um filho para nós.
– O que faz por aqui, tio?
– Visitava a Casa dos Vidros.
– Saudosismo?
_ Ééé, quem sabe?
– Fui promovido, tio.
Sou o primeiro do Novo Exército a atingir o posto de
capitão aos vinte e três anos.
Fiz uma continência
irônica. Ele respondeu, a sério. Sempre foi
circunspecto, compenetrado, com
noções de dever e obrigações. Desde criança.
Estava sempre em casa, Adelaide dizia: “Você deve entrar para
o Exército”. Foi quando entendi como ela estava
dentro da realidade.
Muito mais do que eu podia pensar.
Adelaide sempre foi surpresa constante.
Observando nosso relacionamento, vejo que
entendi bem pouco a mulher que tive. Quando menos se esperava,
ela fazia uma observação justa, adequada. Será
tarde demais? Diz o povo que nunca é.
Sim, porque em outros tempos,
no século XVII, ou XVIII, teria dito ao sobrinho: “Vá
ser padre”. Naquele dia, quinze anos atrás, Adelaide começou
uma surda e persistente campanha para que o
menino vestisse farda. Mas não almejava um
simples praça, queria que ele fosse Militecno.
Os melhores postos do país
se encontravam em mãos de Militecnos. Bancos,
ministérios, empresas Multis. E como era difícil
romper as barreiras para se formar um Militecno.
Além de superar toda a carreira militar, quem
suportava as fantásticas anuidades
cobradas pelas universidades?
– Passo lá para comemorar.
Com o senhor e a tia. Posso?
– Eu é que insisto. Nem vou
dizer à sua tia. Vamos fazer surpresa.
– Tem comida?
– O normal.
– Vou tentar algo na
Subsistência. Ah, quer fichas para água?
– Sempre é bom, jamais consegui
me controlar, gasto mesmo.
– E não é para gastar?
– Mas tem o racionamento,
para dividir melhor.
– Racionamento, tio? Pensa que é
para todo mundo?
No fundo, não gosto dele. Uso suas
facilidades. Penso que tenho direito a elas,
contribuo para que o Novo Exército exista com todos
os seus privilégios. Devo explorá-lo.
Afinal, ele deve a mim e a Adelaide o posto, e a carreira.
Quanta roupa ela não lavou? E as comidas?
Eu acordava todos os dias
quinze para as seis, fazia café, arrancava o
preguiçoso da cama. Foram dois anos na Escola
Superior de Integração. Os piores, até ele passar por
todas as provas, principalmente as de
fidelidade, neutralidade
ideológica e percepção sensorial.
– Sabe o que vou fazer, tio?
– Não tenho ideia.
– Vou visitar essa tal Casa dos
Vidros.
– Boa coisa.
– Quero ver como estão
aproveitando esse prédio enorme.
Desta vez correspondeu
ao abraço, soltando o corpo. Como posso gostar
desse sobrinho quando sei ao que ele pertence? Se
tenho plena consciência do que será o país na mão dele
dentro de alguns anos? Se houver alguns anos. Tenho as
cartas dele, conheço suas ideias.
Nenhuma vontade de
trabalhar. A coceira volta, fico impressionado.
O centro de minha mão está afundando. Só pode ser
delírio provocado pelo calor. Agarro o braço de
um homem, ele se assusta. Sei o risco que corro, toda reação
é admitida quando se trata da própria
segurança.
– Calma, meu senhor, calma. Olhe, me
desculpe, mas preciso saber. Olhe a minha mão.
Tem um afundamento aí?
Ele procurou se livrar. Viu
a mão e talvez tenha se apavorado mais. Ninguém
garante que isso não seja contagioso. Só não
saiu correndo porque é impossível correr
nestas calçadas atravancadas. Para
mim, a realidade é este afundamento,
sem dor, coceira. Inexplicável como tudo hoje em dia.
Ir ao médico é bobagem,
melhor esperar. Estou desmentindo Adelaide, ela
me julgava hipocondríaco. Não
acreditava em minhas dores de cabeça, nos
mal-estares do estômago. Ergui os olhos. Uma
sensação inquietante de alto a baixo. O homem
careca me olhava penetrante,
ameaçador.
Ignácio de Loyola Brandão, em Não verás país nenhum
Um degrau acima: o silêncio
Até hoje eu por assim dizer não
sabia que se pode não escrever. Gradualmente, gradualmente até que
de repente a descoberta tímida: quem sabe, também eu já poderia
não escrever. Como é infinitamente mais ambicioso. É quase
inalcançável.
Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida
Correnteza
2
Cainho atravessa a porta do quarto
para a sala e encontra a mãe desperta, uma caneca de café na mão e
a face contra a luz da janela. O rosto está marcado de maquiagem —
olhos pretos e delineados, as sobras de um batom vermelho — e, por
trás da máscara, o semblante rígido, cansado, preocupado. O filho
percebe, pela roupa, que a mãe saiu para encontrar o namorado da
vez, alguém que ele ainda não conhece porque ela é muito reservada
para comentar seus casos amorosos. Talvez ela nem tenha dormido. Deve
ter voltado na hora em que ele escutou o cachorro da casa ao lado
latir, noite alta ainda, e as grades do portão rangeram e a porta
bateu sem cuidado e a luz do quarto se acendeu para Rita Preta se
certificar de que todos estavam em casa. Cainho despertou com a
movimentação, cobriu os olhos para se proteger da luz. A mãe
recolheu o uniforme de Juca do chão, dobrou-o e o dispôs na cadeira
ao lado da cama. O caçula tinha o sono profundo, a boca aberta,
estava descoberto à mercê dos pernilongos. Ela estendeu o cobertor
sobre o corpo dele. Rita então aproveitou o movimento do filho,
Cainho, que se recobria, para perguntar por Cid. Ele não sabia.
“Seu irmão não voltou para casa”,
Rita Preta diz enquanto o filho se aproxima da janela.
Então ela retira o celular da bolsa e
verifica as mensagens. Depois, confere a hora e pergunta onde mora a
garota com quem Cid tem se encontrado. Rita se banha no chuveiro com
pressa, esfrega as mãos com força no rosto para retirar a
maquiagem. Grita que está atrasada. Deveria ter saído para o
trabalho, mas precisa saber onde o filho rebelde se encontra. Em
minutos, veste a roupa limpa, arruma a bolsa e faz promessas mentais
de castigos. Ensaia de maneira involuntária todo o desabafo que fará
quando ele voltar.
Rita pede a Cainho que, caso Cid volte
para casa enquanto ela estiver fora, lhe envie uma mensagem. Ela
estará no trabalho, mas vai conferir o celular de vez em quando para
se inteirar das notícias. Fala como uma pequena tirana, de forma
intempestiva, conferindo ao mesmo tempo se o uniforme está na bolsa,
sem olhar para o filho que se mostra entediado ao escutar a mãe.
Ele tenta dizer, durante o tempo que
ela fala sem parar, que está sem crédito para enviar mensagens.
Então Rita pergunta de maneira
genérica o que tanto eles faziam para esgotarem os créditos tão
rápido. Lembra que poucos dias atrás tinha lhes dado dinheiro.
Ele contra-argumenta dizendo que já
fazia dois meses que ela lhe dera dinheiro. O prazo dos créditos
havia expirado.
Rita Preta sabe que pode estar errada
sobre os poucos dias, mas não cede. Ela guarda aquela sensação
superficial da velocidade do tempo, embora não a externe, pelo menos
não naquele instante. Olha com ar de quem não acredita na desculpa
e pede para Cainho ligar a cobrar, caso tenha notícias do irmão.
“E se ele não chegar?”
Se ele não chegar. Essa não
parece ser uma possibilidade para Rita Preta. Ele chegará. E ela
estará preparada, com o discurso pronto, para o desabafo e as
punições que irá aplicar.
Uma hora qualquer ele chegará,
pondera, e terá de explicar o que andou aprontando. Ela contesta com
segurança, mas ao final já não se sente tão confiante. Se ele não
chegar, Rita argumenta, não é preciso telefonar. A ausência de
notícia é também uma resposta, retruca enquanto pega as chaves
para sair de casa.
“Qual o nome dela mesmo?”
“Dela quem?”
“Da moça com quem seu irmão está
ficando.”
Contudo, antes que Cainho termine de
contar o que sabe, ela o instrui para que lave os pratos e reponha as
garrafas de água na geladeira. Não havia água gelada, e o sol,
muito cedo, já se exibe abrasador.
A casa onde a garota mora fica na base
de uma ladeira íngreme, muito próxima a um córrego malcheiroso que
corta o bairro, infestado de mosquitos. Rita Preta grita — ô de
casa — para verificar se tem alguém.
Quando uma mulher surge na porta
entreaberta, Rita pergunta se Daiane está em casa. Ela se posiciona
do lado de fora, atrás do portão em uma varanda gradeada. A mulher
parece irritada. Informa que é a mãe da garota e diz que a jovem
está dormindo. Rita não se intimida com o mau humor e pergunta se
ela poderia chamar a filha. “Sou a mãe do Cid, amigo dela”, diz,
esperando assim uma boa recepção. A mulher não se demonstra muito
disposta a atendê-la. Diz não conhecê-lo, mantém-se dentro da
casa, respondendo à distância. Rita não quer prolongar a conversa,
mas repete:
“Eles são amigos”, omitindo assim
o que sabe sobre os dois. O filho não dormira em casa e por isso
imaginou que pudesse estar com alguém conhecido.
“Quando ela acordar”, a mulher
inicia a frase disposta a finalizar a importunação, “eu
pergunto.” Quer saber se Rita mora nas redondezas e se compromete a
deixar recado com alguém por lá.
Rita amaldiçoa a mulher enquanto se
afasta da casa. Sente o peso da noite perdida nos olhos irritados,
como se estivessem com grãos de areia. Está atrasada o suficiente
para receber uma advertência da supervisora. Caminha até o ponto de
ônibus sem disfarçar a preocupação, se deveria ou não faltar ao
turno no supermercado para ir à escola ou buscar por mais notícias
do filho junto aos colegas.
Enquanto espera pela condução, sente
na boca o gosto da cerveja que bebeu à noite. Nem por isso o corpo
parece mais leve, mesmo sem ter pisado no chão da seresta e ter
repousado poucas horas nos braços de Jorge. Depois desses encontros,
ela se vê tomada pelo vazio da solidão difícil de explicar —
andar sozinha pela rua onde mora, a cama deserta —, mas dessa vez
não lamenta a ausência do homem, pois o assunto “filho” domina
quase todos os seus pensamentos. Dois dias antes, eles haviam
discutido, os ânimos estavam exaltados quando Rita Preta ameaçou
dar uma surra em Cid se ele não baixasse o tom de voz.
Ela tinha ficado sabendo que Cid
estava faltando às aulas para passear na garupa das bicicletas com
os companheiros de escola. Fátima, sua comadre e vizinha, o avistou
ao voltar mais cedo do trabalho. Contou a Rita. Depois do expediente,
ela se dirigiu à escola para verificar as ausências, e se enfureceu
ao perceber que as faltas eram frequentes nos últimos meses.
A descoberta desencadeou mais uma
briga entre os dois. Gritos. Portas batidas com violência. O choro
sentido do filho mais novo, apavorado com a possibilidade de a mãe e
o irmão se agredirem, preencheu os momentos de algum silêncio no
diálogo exaltado. Rita Preta queria entender de onde Cid havia
tirado aquele vocabulário chulo, enquanto ele disparava mais
xingamentos contra todos. Com os olhos arregalados e visivelmente
furiosa, ela se mostrava perplexa. Cid percorria a casa falando mais
alto, demonstrando desdém. Para atingi-lo ainda mais, ela perguntou
se ele estava usando algo.
“Quer saber se estou usando droga?”,
ele disparou diante dos irmãos.
“Quero saber para te corrigir”,
Rita retrucou, “para saber se você está se misturando com quem
não presta.” Ela prestava atenção nos olhos indignados do filho
e falava “olha seus olhos”, insistindo em saber por que estavam
arregalados. Aquilo era fúria?
Os olhos dos dois estavam bem abertos,
um tentando intimidar o outro com expressões carregadas de uma
energia violenta, atestando que eram feitos da mesma natureza. Ela
intuía que o filho não usava nenhuma substância. Era negligente
com os estudos, parecia distante e pouco afetuoso com a mãe, mas
Rita não considerava que usasse algo, nem mesmo álcool. Contudo,
para machucar, ela trouxe de volta à discussão familiar o fantasma
que assombra as comunidades por onde passou, sobretudo os pais e as
mulheres chefes de família. Reavivou o estigma que recaía sobre
todos como uma mancha, como se fosse um problema destinado a atingir
apenas as pessoas de sua classe, as pessoas com as mesmas origens.
“E se tivesse?”, ele a desafia.
“Pelo menos não iriam te apontar pela rua, como me apontam, por
você sair com uns e outros.”
Rita gritou a palavra “repete” e
procurou por um pedaço de corda guardado estrategicamente embaixo da
pia da cozinha. Faria o malcriado engolir o que havia dito. Já fazia
tempo desde a última surra, e por isso achava que era hora de
puni-lo outra vez. Juca chorava, implorando à mãe que parasse,
enquanto Cainho continuava deitado na cama no cômodo ao lado, com o
travesseiro sobre a cabeça para abafar os sons da discussão.
Ela se aproximou segurando a corda
grossa e, diferente das outras ocasiões, Cid não correu para se
proteger. “Repete”, gritou Rita Preta. Ele olhou nos olhos da mãe
e, para surpresa dela, repetiu o que havia dito. Ela fez um único
movimento com a corda para trás e para a frente, fazendo-a vibrar
como um chicote. Quando a corda atingiu o corpo de Cid, ele a agarrou
e a transformou num cabo de guerra. Nenhum dos dois queria perder
aquela batalha; lutavam arrastando os móveis, empurrando-os para
longe até que Rita caiu no chão e Cid arremessou a corda no
quintal. Mas ele sabia que não tinha vencido. Ela estava suada,
cansada, prometeu se vingar. Não naquele momento, disse ela, mas Cid
não teria vida fácil.
“Não quer estudar”, Rita gritou,
“então vai ter que trabalhar para ajudar a pagar as contas, seu
infeliz.” Disse isso enquanto Juca a ajudava a se levantar, apesar
da recusa por puro orgulho — sentia-se humilhada de ter sido
derrubada por um dos filhos.
Então, até que desse pela ausência
do filho, dois dias se passaram sem que trocassem qualquer palavra,
ou mesmo gesto ou expressão, evitando se olharem nos olhos ou
permanecerem juntos no mesmo espaço diminuto da casa. Eles não
poderiam saber — e talvez Cid até mesmo tenha desejado, num
momento de grande raiva, não falar mais com a mãe —, mas essas
seriam as últimas palavras que trocariam antes que ele
desaparecesse.
Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo
05/09/2026
Vassouras do tempo
Ninguém,
além do tempo,
sabe o nome daquele gari
que limpava a rua
sempre cantando uma música
e segurava a vassoura
como uma parceira
que domina o salão.
Um dia,
não sei se por amor
ou por inveja,
quando passava em frente
a uma padaria
um cliente de sorriso miúdo
ouviu sua canção e ficou indignado.
Uma voz linda
vinda de uma tão boca torta
e um rosto todo marcado,
resolveu perguntar:
"Varrendo a rua… de onde vem
toda essa alegria?"
O bailarino
cheio de poeira nos olhos
em vez de olhar para ele
olhou para o tempo.
Quem já sofreu sabe,
é preciso aprender a reciclar a dor
e colocar um saco plástico
no lugar do coração
quando a vida nos esconde
pra debaixo do tapete.
Entender todo dia pela manhã
que limpar o lixo dos outros
é bem mais fácil que limpar o seu.
Até o cão sem dono sabe
que tempo é o senhor
de todas as respostas.
Mas tempo também é curto,
e assim com um sorriso
mais limpo entre os dentes,
ele respondeu:
“É que não estou varrendo a rua.
Estou varrendo o passado.”
Sérgio Vaz, em Flores da batalha
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