terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Chico Buarque | As Vitrines

Não abra!

Paixão

De vez em quando Deus me tira a poesia.
Olho pedra, vejo pedra mesmo.
O mundo, cheio de departamentos,
não é a bola bonita caminhando solta no espaço.
Eu fico feia, olhando espelhos com provocação,
batendo a escova com força nos cabelos,
sujeita à crença em presságios.
Viro péssima cristã.
Todo dia a essa hora alguém soca um pilão:
em vem o Manquitola, eu penso e entristeço de medo.
Que dia é hoje?’, a mãe fala,
sexta-feira é mistérios dolorosos.’
A lamparina bruxuleia sua luz já humílima,
estreita de vez o pretume da noite.
Comparece, no acalmado da hora,
o zoado da fábrica em destacado contínuo.
E meu cio que não cessa,
continuo indo ao jardim atrair borboletas
e a lembrança dos mortos.
Me apaixono todo dia,
escrevo cartas horríveis, cheias de espasmos,
como se tivesse um piano e olheiras,
como se me chamasse Ana da Cruz.
Fora os olhos dos retratos,
ninguém sabe o que é a morte.
Sem os trevos no jardim,
não sei se escreveria esta escritura,
ninguém sabe o que é um dom.
Permaneço no alpendre olhando a rua,
vigiando o céu entristecer de crepúsculo.
Quando eu crescer vou escrever um livro:
Pirilampos é vaga-lume?’, me perguntavam admirados.
Sobre um resto de brasas,
o feijão incha na panela preta.
Um pequeno susto, ia longe a cauda da reza.
Os pintos franguinhos
não cabiam todos debaixo da galinha,
ela repiava em cuidados.
Este conto ameaça parar, represado de pedras.
Só quaresmal ninguém suporta ser.
Uma dor tão roxa desmaia,
uma dor tão triste não há.
A cantina das escolas
e a ginástica musicada transmitida no rádio
sustêm a ordem do mundo, à revelia de mim.
Mesmo os grossos nódulos extraídos do seio,
o cobalto e seu raio sobre a carne em dores,
mesmo esses sobre os quais eu lançara a maldição:
não lhes farei um verso; mesmo esses
acomodam-se entre as achas de lenha,
querem um lugar na crucificação.
Foi cheia de soberba que comecei esta carta,
sobrestimando meu poder de gritar por socorro,
tentada a acreditar que algumas coisas,
de fato, não têm páscoa.
Mas o sono venceu-me e esta história dormiu,
uma letra depois da outra. Até que o sol nasceu
e as moscas acordaram.
A vizinha passou mal dos nervos
e me chamaram do muro, com urgência.
A morte deixa retratos, peças de roupa,
remédios pela metade, insetos desorientados
no mar de flores que recobre o corpo.
Este poema visgou-se. Não se despega de mim.
Enfaro dele, de sua cabeça grande;
pego a sacola de compras,
vou passear no mercado.
Mas lá está ele, os cuspos grossos de pinga,
os calcanhares rachados das mulheres,
tostões na palma da mão.
Não é uma vida exemplar esta que tira de um velho
o doce modo de ser um homem com netos.
Minha tristeza nunca foi mortal,
renasce a cada manhã.
O óbito não obsta o repinicado da chuva na sombrinha,
as gotículas,
incontáveis como constelações.
Vou atrás do pio cortejo,
misturo-me às santas mulheres,
enxugo a Sagrada Face.
Vós todos que passais, olhai e vede,
se há dor tão grande como a minha dor.”
Que dia é hoje?’, a mãe fala,
domingo é mistérios gloriosos.’
O que tem corpo é a alegria.
Só ela fica pendida,
de olhos turvos e boca.
Peito e membros magoados.

Adélia Prado, em O Coração Disparado

Capítulo 32 – Coxa de Nascença



Fui dali acabar os preparativos da viagem. já agora não me demoro mais. Desço imediatamente; desço, ainda que algum leitor circunspecto me detenha para perguntar se o capítulo passado é apenas uma sensaboria ou se chega a empulhação... Ai de mim! Não contava com Dona Eusébia.
Estava pronto, quando me entrou por casa. Vinha convidar-me para transferir a descida, e ir lá jantar nesse dia. Cheguei a recusar; mas instou tanto, tanto, tanto, que não pude deixar de aceitar, demais, era-lhe devida aquela compensação; fui.
Eugênia desataviou-se nesse dia por minha causa. Creio que foi por minha causa, – se é que não andava muita vez assim. Nem as bichas de ouro, que trazia na véspera, lhe pendiam agora das orelhas, duas orelhas finamente recortadas numa cabeça de ninfa. Um simples vestido branco, de cassa, sem enfeites, tendo ao colo, em vez de broche, um botão de madrepérola, e outro botão nos punhos, fechando as mangas, e nem sombra de pulseira.
Era isso no corpo; não era outra coisa no espírito. Ideias claras, maneiras chás, certa graça natural, um ar de senhora, e não sei se alguma outra coisa; sim, a boca, exatamente a boca da mãe, a qual me lembrava o episódio de 1814, e então dava-me ímpetos de glosar o mesmo mote à filha...
Agora vou mostrar-lhe a chácara, disse a mãe, logo que esgotamos o último gole de café.
Saímos à varanda, dali à chácara, e foi então que notei uma circunstância. Eugênia coxeava um pouco, tão pouco, que eu cheguei a perguntar-lhe se machucara o pé. A mãe calou-se; a filha respondeu sem titubear:
Não, senhor, sou coxa de nascença.
Mandei-me a todos os diabos; chamei-me desastrado, grosseirão. Com efeito, a simples possibilidade de ser coxa era bastante para lhe não perguntar nada. Então lembrou-me que da primeira vez que a vi – na véspera – a moça chegara-se lentamente à cadeira da mãe, e que naquele dia, já a achei à mesa de jantar. Talvez fosse para encobrir o defeito; mas por que razão o confessava agora? Olhei para ela e reparei que ia triste.
Tratei de apagar os vestígios de meu desazo; não me foi difícil, porque a mãe era, segundo confessara, uma velha patusca, e prontamente travou de conversa comigo. Vimos toda a chácara, árvores, flores, tanque de patos, tanque de lavar, uma infinidade de coisas, que ela me ia mostrando, e comentando, ao passo que eu, de soslaio, perscrutava os olhos de Eugênia...
Palavra que o olhar de Eugênia não era coxo, mas direito, perfeitamente são; vinha de uns olhos pretos e tranquilos.
Creio que duas ou três vezes baixaram eles à terra, um pouco turvados; mas duas ou três somente; em geral fitavam-me com franqueza, sem temeridade, nem biocos.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Darl

Darl foi para Jackson. Puseram-no no trem, e ele ria, ele ria no vagão comprido, e as cabeças viravam-se, como cabeças de corujas, quando ele passava.
De que está rindo?” eu perguntei.
Sim sim sim sim sim.” Dois homens puseram-no no trem. Tinham roupas desiguais, que faziam protuberância em cima dos bolsos, no quadril direito. Suas nucas estavam bem barbeados, como se dois recentes o simultâneos barbeiros houvessem usado a linha de marcar de Cash. “Está rindo das pistolas?”, eu disse. “Por que está rindo?”, eu disse. "É porque odeia o som do riso?"
Juntaram dois bancos, de forma que Darl pudesse sentar-se à janela para rir. Um deles sentou-se ao seu lado, o outro no banco fronteiro, de costas para a locomotiva, Um dos dois tinha de viajar assim, porque o dinheiro do Estado tem uma cara para cada lado e um lado para cada cara, e eles viajavam no dinheiro de Estado, o que é incestuoso. Um níquel tem uma mulher de um lado e um búfalo no outro; dois rostos sem reverso. Não entendo. Darl tinha um binóculo que trouxe da França na guerra. Nele havia uma mulher e um porco, com duas costas e sem cara. Eu agora entendo.
É por isso que você está rindo, Darl?”
Sim sim sim sim sim sim.” A carroça está parada na praça, com as mulas atreladas, mas imóveis, as rédeas atadas nas costas do banco, o fundo da carroça virado para o tribunal. Não parece diferente de uma centena de outras carroças ali; Jewel está em pé, ao seu lado, e olha para a rua como qualquer outro homem da cidade aquele dia, contudo existe alguma coisa diferente, distinta. Há essa inequívoca atmosfera de partida definitiva e iminente que os trens possuem, talvez devido ao fato de Dewey Dell e Vardaman, no banco, e Cash, sobre um colchão, no fundo, estarem comendo bananas que tiram de um saco de papel.
É por isso que está rindo, Darl?”
Darl é nosso irmão, nosso irmão Darl. Nosso irmão Darl está numa gaiola em Jackson onde, com as mãos sujas agarrando de leve os intervalos frios das grades, olha para fora, com a boca cheia de espuma.
Sim sim sim sim sim sim sim sim.”

William Faulkner, em Enquanto Agonizo

| 3 | Vida Póstuma



Um século após a publicação do Capital, o então primeiro-ministro britânico Harold Wilson gabava-se de nunca ter lido o livro. “Não fui além da página dois – quase completamente tomada por uma nota de rodapé. Achei que uma página de nota para duas frases era demais.” Um rápido olhar no primeiro volume da obra deixa evidente que este é um enorme exagero: há de fato muitas notas nas páginas iniciais, mas todas de pequena extensão. Entretanto, Wilson talvez falasse em nome de muitos outros leitores que foram desencorajados pela “dificuldade”, imaginária ou real, do livro.
Marx antecipou essa reação no prefácio. “O entendimento do Capítulo 1, em especial da parte que contém a análise da mercadoria, apresentará a maior dificuldade. Quanto às passagens que se referem à análise da substância e da magnitude do valor, procurei torná-las acessíveis ao máximo.” A forma do valor, alegava ele, era extremamente simples.

Mesmo assim, a mente humana tem procurado fundamentá-la em vão há mais de dois mil anos…. Por isso, com exceção da parte relativa à forma do valor, não se poderá acusar este livro de ser de difícil compreensão. Pressuponho, naturalmente, leitores que desejam aprender algo de novo e queiram, portanto, também pensar por conta própria.

Engels não estava certo disso. Durante a composição do livro alertou Marx de que era um erro grave não esclarecer a argumentação teórica com uma divisão em seções menores, com títulos próprios.

Embora tivesse a aparência de um livro escolar, uma vasta camada de leitores o consideraria muito mais fácil de entender com essa organização. As massas e até mesmo os estudiosos não estão mais familiarizados com essa forma de pensamento, assim, é imprescindível facilitar-lhes ao máximo a questão.

De fato, Marx fez algumas alterações nas provas do livro, porém, não mais que emendas irrelevantes. “Como pôde manter a configuração do livro na forma atual?”, desesperançou-se Engels ao ver as provas finais.

O quarto capítulo tem quase 200 páginas e apenas quatro subseções…. Além do mais, a linha de raciocínio é constantemente interrompida por exemplificações, e o tema a ser ilustrado jamais é retomado, de tal forma que sempre se passa diretamente do exemplo de um tópico à exposição de outro. É terrivelmente cansativo, e confuso também.

Os olhos de outros admiradores ficaram igualmente embaçados à medida que lutavam com os obscuros primeiros capítulos. “Por favor, faça a gentileza de dizer à sua esposa”, escreveu Marx a Ludwig Kugelmann, um amigo de Hanôver,

que os capítulos sobre “A jornada de trabalho”, “Cooperação, divisão do trabalho e maquinaria” e, finalmente, “Acumulação primitiva” são os mais imediatamente legíveis. Você precisará explicar-lhe qualquer terminologia que ela não domine. Se restarem outros aspectos duvidosos, ficarei feliz em ajudar.

Quando leu o primeiro tomo do Capital, o grande socialista inglês William Morris apreciou “imensamente a parte histórica”, mas confessou sofrer de “confusão cerebral com os trechos de economia pura dessa grande obra. De qualquer modo, li o que pude, e espero que alguma informação tenha em mim se fixado depois dessa leitura”. (Na verdade, a experiência provou-se um bom investimento em todos os sentidos: o exemplar de Morris, com encadernação de couro esplendidamente decorada, foi leiloado por 50 mil dólares em maio de 1989.)
Uma absoluta incompreensão, mais que antipatia política, pode explicar a indiferente resposta à primeira edição do Capital. “O silêncio sobre meu livro me exaspera”, queixou-se Marx. Engels procurou incitar alguma publicidade ao submeter, sob pseudônimo, resenhas hostis aos jornais alemães e ao convocar outros amigos de Marx a fazer o mesmo. “O que importa é que o livro seja cada vez mais discutido, de todas as formas possíveis”, disse a Kugelmann. “Nas palavras de nosso velho amigo Jesus Cristo, sejamos tão inocentes quanto pombas e tão astutos quanto serpentes.” Kugelmann fez o melhor que pôde, estampou artigos em alguns jornais de Hanôver, mas como ele próprio mal compreendia o livro, os artigos nada tinham de esclarecedores. “Kugelmann torna-se a cada dia mais obtuso”, irritava-se Engels.
Foram necessários quatro anos para que as mil cópias da primeira edição se esgotassem. Embora Marx alegasse no prefácio à segunda edição (1872) que a compreensão que O Capital rapidamente encontrou em amplos círculos da classe operária alemã fosse a maior recompensa de seu trabalho, parece improvável que o volume tenha chegado a muitos trabalhadores – embora eles tenham sido apresentados aos seus principais temas em uma série de artigos de Joseph Dietzgen para o jornal socialista Demokratisches Wochenblatt. “Há possivelmente poucos livros que tenham sido escritos em circunstâncias mais difíceis”, escreveu Jenny Marx. “Se os trabalhadores tivessem noção dos sacrifícios necessários para que essa obra fosse finalizada, produzida unicamente para eles e em seu benefício, talvez demonstrassem um pouco mais de interesse.” Mas como poderiam, dada a extensão, a densidade e o tema tão pouco familiar? Marx depois observou: “Na Alemanha, a economia política continua uma ciência estrangeira.”
Em outros lugares, entretanto, houve manifestações de interesse. Ainda em janeiro de 1868, dois meses após a publicação, o Saturday Review de Londres incluiu O Capital em um apanhado de livros alemães recém-lançados. “A visão do autor pode ser tão perniciosa quanto acreditamos”, concluiu o artigo, “mas não há dúvida sobre a plausibilidade de sua lógica, o vigor de sua retórica e o fascínio com que recobre os mais áridos problemas da economia política.” Uma nota no Contemporary Review cinco meses depois, ainda que desdenhasse patrioticamente da economia alemã (“não duvidamos que Karl Marx tenha muito a nos ensinar”), cumprimentava o autor por não esquecer “o interesse humano – ‘a preocupação com a fome e a sede’ que a ciência ignora”.
Uma tradução russa do Capital apareceu na primavera de 1872, ao passar pelos censores do czar com a justificativa de que não teria qualquer aplicação na Rússia e, portanto, não poderia ser subversivo (embora tenham removido o retrato do autor, temendo que inspirasse um culto à sua personalidade). Julgaram o texto tão impenetrável que “poucos o leriam e ainda menos o compreenderiam”. Porém, grande parte dos três mil exemplares impressos se esgotou em menos de um ano. Enquanto na maioria dos países capitalistas a obra era ignorada, jornais e periódicos na Rússia pré-capitalista publicavam resenhas favoráveis. “Não é uma ironia do destino”, escreveu Marx a Engels, “que os russos, contra os quais lutei por 25 anos, sempre queiram ser meus patronos? Eles correm, por pura glutonaria, atrás das mais extremadas ideias que o Ocidente tem a oferecer.” Sentia-se especialmente gratificado por uma notícia no Jornal de São Petersburgo, que lhe elogiava a “incomum vivacidade” da prosa. “A esse respeito”, acrescentava o periódico, “o autor de modo algum se assemelha … à maioria dos sábios alemães que … escrevem seus livros em uma linguagem tão seca e obscura que despedaça a cabeça dos mortais comuns.”
A produção de uma edição francesa foi mais problemática. Apesar de o trabalho ter sido iniciado em 1867, imediatamente após a publicação na Alemanha, ao longo dos quatro anos seguintes cinco tradutores foram testados e rejeitados. Eventualmente, Marx deu sua bênção a um professor de Bordeaux, Joseph Roy. Contudo, depois de rever os primeiros capítulos, julgou que, embora “no geral bem-feita”, a tradução de Roy era frequentemente muito literal. “Senti-me portanto forçado a reescrever passagens inteiras em francês para torná-las palatáveis.” Com a aprovação de Marx, o editor decidiu publicar o livro em fascículos (“mais acessível à classe operária”), e o primeiro deles apareceu em maio de 1875.
Em seu país de adoção, as promissoras primeiras resenhas foram seguidas de um longo silêncio. “Embora Marx tenha vivido muito tempo na Inglaterra”, escreveu o advogado John MacDonnel na Fortnightly Review em março de 1875, “ele é aqui quase a sombra de um nome. As pessoas podem honrá-lo com seus insultos; mas não o leem.” Marx acreditava que “o dom peculiar da descabida estupidez” era um direito hereditário britânico, e o fato de que não se tenha publicado nenhuma edição inglesa ao longo de sua vida confirmou seu preconceito. “Ficamos muito gratos por sua carta”, escreveram os editores da Macmillan & Co. a Carl Schorlemmer, amigo de Engels e professor de química orgânica na Universidade de Manchester, “mas não estamos dispostos a publicar uma tradução do Capital.” Os poucos britânicos que o desejavam estudar tinham de lutar o melhor possível com as versões alemã, russa e francesa. O jornalista radical inglês Peter Fox, editor do National Reformer, comentou, depois de ser presenteado com a edição alemã, que se sentia como um homem que havia adquirido um elefante e não sabia o que fazer com ele. Um trabalhador escocês, Robert Banner, enviou a Marx esse angustiado pedido de ajuda:

Não há qualquer esperança de que seja traduzido? Não existe em inglês sequer uma obra que defenda a causa das massas trabalhadoras; todo livro em que nós, jovens socialistas, pomos as mãos defende os interesses do capital. Por isso nossa causa está tão atrasada neste país. Com uma obra que aborde a economia do ponto de vista do socialismo, veríamos em breve um movimento que colocaria um ponto final nessa situação.

Aqueles que mais precisavam do livro eram os que estavam menos aptos a compreendê-lo, enquanto a elite educada, que o poderia ler, não o desejava. Como o socialista inglês Henry Hyndman escreveu:

Acostumados como estamos hoje, especialmente na Inglaterra, a esgrimir sempre com grandes chumaços de algodão nas pontas de nossos floretes, o terrível golpe da lâmina nua de Marx sobre seus adversários parecia tão impróprio que seria impossível para nossos cavalheirescos pseudolutadores e ginastas mentais acreditar que esse polemista impiedoso e crítico furioso do capital e do capitalismo fosse na realidade o mais profundo pensador de nosso tempo.

Hyndman era uma exceção à regra. No início de 1880, depois de ler a tradução francesa do Capital, cobriu o autor de tamanhas homenagens extravagantes que Marx se sentiu obrigado a encontrá-lo. No entanto, embora Hyndman se declarasse “ávido de aprender”, foi ele quem conduziu quase toda a conversa: Marx viria a temer as visitas desse “complacente tagarela”. A inevitável ruptura ocorreu em junho de 1881, quando o manifesto socialista de Hyndman, England for All, incluiu dois capítulos amplamente plagiados do Capital sem autorização ou mesmo reconhecimento, a não ser por uma nota no prefácio: “A respeito das ideias e grande parte do conteúdo dos Capítulos 2 e 3, estou em débito com a obra de um grande pensador e original escritor que em breve, tenho certeza, estará disponível para a maioria de meus compatriotas.” Marx considerou isso vergonhosamente inadequado: por que não mencionar O Capital ou o nome de seu autor? A frágil desculpa de Hyndman foi que o público inglês tinha “horror ao socialismo” e “pavor aos ensinamentos estrangeiros”. Porém, como indicou Marx, era pouco provável que a evocação do “sonho do socialismo” aplacasse esse horror, e qualquer leitor de inteligência mediana com certeza adivinharia pelo prefácio que o “grande pensador” anônimo era estrangeiro. Tratava-se pura e simplesmente de uma apropriação – marcada pela inserção de erros crassos nos poucos parágrafos não literalmente retirados do Capital.
Mal se livrara de um discípulo inglês, Marx já conquistava outro, embora desta vez tenha tomado a precaução de jamais encontrar o sujeito. Ernest Belfort Bax, nascido em 1854, tornara-se um radical, quando ainda jovem estudante, sob a influência da Comuna de Paris. Em 1879 iniciou uma longa série de artigos para o intelectualizado mensário Modern Thought sobre os titãs intelectuais da época, entre eles Schopenhauer, Wagner e (em 1881) Karl Marx. Tendo estudado a filosofia hegeliana na Alemanha, Bax era provavelmente o único socialista inglês de sua geração a aceitar a dialética como dinâmica inerente à vida. Ele descreveu O Capital como um livro “que encerra a elaboração de uma doutrina econômica comparável em seu caráter revolucionário e também por sua importância ao sistema de Copérnico na astronomia, ou à lei da gravitação na mecânica”. Marx ficou compreensivelmente lisonjeado e saudou o artigo de Bax como “a primeira publicação desse tipo que é impregnada de um verdadeiro entusiasmo por ideias novas e corajosamente se levanta contra o ‘filistinismo’ inglês”.
Apesar de todos os seus defeitos, o desprezado Hyndman fizera mais do que Bax ou qualquer outro para disseminar as ideias de Marx na nação filistéia. Em 1883, ainda fervoroso discípulo, citou Marx exaustivamente – e, desta vez, com o devido crédito – em seu livro The Historical Basis of Socialism in England. Hyndman até fundou um partido político explicitamente marxista, a Federação Democrática (posteriormente, Federação Social-democrata), cuja liderança era formada por Bax, William Morris, Walter Crane, Eleanor Marx (uma das filhas de Marx) e o namorado dela, Edward Aveling. A entusiástica defesa do Capital feita por Hyndman nos encontros da Federação motivaram o jovem escritor irlandês George Bernard Shaw a dedicar o outono de 1883 ao estudo da edição francesa na sala de leitura do Museu Britânico, de onde o próprio Marx extraíra parte da matéria-prima de sua obra. “Aquele foi o ponto crucial de minha carreira”, lembrava Shaw. “Marx foi uma revelação…. Abriu meus olhos para os fatos da história e da civilização, deu-me uma concepção inteiramente nova do universo, proporcionou-me um propósito e uma missão na vida.” O Capital, escreveu ele, “atingiu a maior façanha que um livro é capaz: mudar a mente das pessoas que o leem”.
A paixão de Shaw pelo Capital jamais se extinguiria, como demonstrou com essa homenagem caracteristicamente extravagante logo na primeira página de Everybody’s Political What’s What, escrito mais de 60 anos depois:

Apenas no século XIX, quando Karl Marx extraiu os relatórios dos inspetores de fábrica de nossos esquecidos livros azuis e revelou todas as atrocidades do capitalismo, o pessimismo e o cinismo atingiram a mais sombria profundidade. Ele comprovou exaustivamente que o capital, ao buscar aquilo que denominou Mehrwerth, que traduzimos por mais-valia (e incluiu aluguel, juros e lucros comerciais), é implacável, e nada o deterá, nem mesmo mutilação, massacre, escravidão branca e negra, droga e bebida, caso prometam-lhe um xelim a mais que os dividendos da filantropia. Antes de Marx, houvera bastante pessimismo. Na Bíblia, o livro do Eclesiástico está cheio disso. Shakespeare, em Rei Lear, Timão de Atenas, Coriolano, bebeu dessa fonte e se fartou. O mesmo fizeram Swift e Goldsmith. Porém, nenhum deles pôde documentar a questão a partir de fontes oficiais como fez Marx. Dessa forma, ele criou aquela demanda por “um novo mundo” que não só inspirou os modernos comunismo e socialismo, mas também se tornou, em 1941, o lema de zelosos conservadores e religiosos.

Shaw teve pouco sucesso em divulgar o evangelho aos colegas da Sociedade Fabiana, na qual ingressou em 1884. Seu amigo H.G. Wells considerava Marx “um teórico enfadonho, egocêntrico e mal-intencionado” que “concedeu aos mais baratos e baixos impulsos humanos a aparência de pretensiosa filosofia”. Sob influência de seu principal teórico, Sidney Webb, os fabianos afastaram o socialismo inglês das noções de luta de classes e revolução rumo à crença de que, com o sufrágio universal, o Estado britânico poderia promulgar a legislação social que melhoraria o bem-estar da classe trabalhadora e a eficácia do sistema econômico.
Este também se tornou o credo dominante do Partido Trabalhista, criado em 1900. O antigo gracejo de que o partido devia mais ao metodismo que a Marx talvez seja um exagero: entre seus adeptos e representantes no Parlamento, contavam-se muitos socialistas que poderiam se considerar marxianos, senão marxistas; em 1947 o partido até editou uma reimpressão do Manifesto Comunista para “reconhecer a dívida com Marx e Engels, que foram a inspiração de todo o movimento da classe trabalhadora”. Entretanto, os líderes trabalhistas sustentaram a visão de Harold Wilson de que o legado de Marx era irrelevante, talvez verdadeiramente prejudicial a um partido constitucional de centro-esquerda.
[…]

Francis Wheen, em O Capital de Marx – Uma Biografia

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Androniki

 

Androniki (2013), de Giorgos Rorris

16 de junho

Decido escrever um romance. Personagens: a Grande Escritora de Grandes Olhos Pardos, mulher farpada e apaixonada. O fotógrafo feio e fino que me vê pronta e prosa de lápis comprido inventando a ilha perdida do prazer. O livrinho que sumiu atrás da estante que morava na parede do quarto que cabia no labirinto cego que o coelho pensante conhecia e conhecia e conhecia. Nessa altura eu tinha um quarto só para mim com janela de correr narcisos e era atacada de noite pela fome tenra que papai me deu.

Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés

O jantar


O jantar em cinco minutos sou eu e minha mãe numa mesa de quatro lugares, grande demais, frente a frente. Os lugares vazios são Nicolas, em São Paulo, e meu pai, no céu, no paraíso, reencarnado ou no cemitério, dependendo da perspectiva. “O que você tem, Marquinhos?”, minha mãe, eu olhando para a minha mão direita, envergonhado, a certeza do gozo que não veio entre os dedos, um prazer, desejo, que ainda não compreendo, ou finjo não compreender, e meu corpo talvez compreenda, o pau duro, ou finja não compreender, o gozo negado. “O que houve, Marquinhos?” Respondo que nada, esquecendo a mão, erguendo o prato para minha mãe me servir, ela ainda me serve, mas com ela nunca pode ser nada, para dona Marlene alguma coisa é sempre alguma coisa, e o silêncio dos outros, então, um pesadelo, e ela: “É seu pai, não é?” E voltamos ao assunto de todos os dias, o assunto que ela não me deixa esquecer; digo que não é nada, depois, pensando melhor, falo que estava pensando na aula do bar mitzvah, e ao receber o prato de volta, cheio, “Você precisa se alimentar bem, meu filho”, minha mãe pergunta se pode contar uma história, e sorri, forçado, melancólica, mas sorri. Aceno com a cabeça que sim, mas nem precisava, a pergunta retórica, a história iniciada, o tom didático de minha mãe quando conta uma história que esconde uma moral: “Quando fiz meu bat mitzvah...” e desligo, cabeça no meu Jesus gay de olhos azuis, e escuto palavras: “Sua avó, seu pai, comunidade judaica da Tijuca, vestido...”, mas só penso nele, nos seus olhos, na sua bunda, e meu pau endurece novamente, ele compreende, sim, e sorrio mastigando o frango, e minha mãe me vê sorrindo e diz: “Sente saudade do seu pai, né?”, e a vontade é responder que não, sinto raiva, sinto raiva de você também, meus olhos mostram, a sobrancelha arqueada, eu com o pau duro, começando a me entender e a ter medo e ela lembrando do meu pai, e meu pai é só a imagem de um homem calvo caído no chão, raquete na mão, morrendo, morto, e eu gritando, para ele, por ele, por alguém, por socorro, e ele apagado na quadra, mas meu pai tem de novo os olhos abertos, segundos antes, e grita: “Bate como homem, porra!”, e vira o rosto, quica a bola duas, três vezes e saca forte, tenho raiva, toda ela reunida na empunhadura da raquete, e respondo o saque com força, ódio, “Como homem, porra!”, aliso sem perceber meu pau ainda duro por debaixo da mesa, testo a empunhadura, e com a mesma força que rebati aquele saque aperto meu pau, e escuto o som metálico da bola se prendendo na grade, e quando olho para a quadra é meu pai no chão, morrendo, e quando tudo acaba é meu pai no chão, morto, e eu desperto por outra pergunta de minha mãe: “Tudo bem, Marquinhos?”, eu de novo olhando para a minha mão direita.

Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

Espumas ao Vento | Accioly Neto, Zeca Baleiro e Mestrinho

São Paulo

De São Paulo recebi uma carta de Fernanda Montenegro. Telefonei-lhe pedindo licença para publicá-la. Foi dada: 

Clarice 

é com emoção que lhe escrevo pois tudo o que você propõe tem sempre essa explosão dolorosa. É uma angústia terrivelmente feminina, dolorosa, abafada, educada, desesperada e guardada.
Ao ler meu nome, escrito por você, recebi um choque não por vaidade mas por comunhão. Ando muito deprimida, o que não é comum. Atualmente em São Paulo se representa de arma no bolso. Polícia nas portas dos teatros. Telefonemas ameaçam o terror para cada um de nós em nossas casas de gente de teatro. É o nosso mundo.
E o nosso mundo, Clarice?
Não este, pelas circunstâncias obrigatoriamente político, polêmico, contundente. Mas aquele mundo de que nos fala Tchekhov: onde repousaremos, onde nos descontrairemos? Ai, Clarice, a nossa geração não o verá. Quando eu tinha quinze anos pensava alucinadamente que minha geração desfaria o nó. Nossa geração falhou, numa melancolia de ‘canção sem palavra’, tão comum no século XIX. O amor no século XXI é a justiça social. E Cristo que nos entenda.
Estamos aprendendo a lição seguinte: amor é ter. Na miséria não está a salvação.
Quem não tem, não dá. Quem tem fome não tem dignidade (Brecht). Clarice, estou pedindo desculpas por este palavrório todo. Mas deixe que eu mantenha com você esta sintonia dolorosa dos que percebem alguns mundos, não apenas este ou aquele, porém até mesmo aquele outro, embora linearmente – como é o caso.
Nossa geração sofre da frustração do repouso. É isso, Clarice? A luta que fizermos, não o faremos pra nós. E temos uma pena enorme de nós por isso. É assim que explico pra mim estas frases que você põe no seu artigo: ‘Eu que dei pra mentir. E com isso estou dizendo uma verdade. Mas mentir já não era sem tempo. Engano a quem devo enganar, e, como sei que estou enganando, digo por dentro verdades duras.’ A luta, a que me refiro lá no alto, seria aquela luta bíblica, a grande luta, a que engloba tudo.
Voltando às ‘verdades duras’ de que você fala: na minha profissão o enganar é a minha verdade. É isso mesmo, Clarice, como profissão. Mas na minha intimidade toda particular, sinto, sem enganos, que nossa geração está começando a comungar com a barata. A nossa barata (Fernanda se refere a um livro meu). Nós sabemos o que significa esta comunhão, Clarice. Juro que não vou afastá-la de mim, a barata. Eu o farei. Preciso já organicamente fazê-lo. Dê-me a calma e a luz de um momento de repouso interior, só um momento.
Com intensa comoção.
Fernanda”

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas – Parte 1



2

A estrada segue sempre em frente, serpenteando… paramos para descansar e almoçar, conversamos fiado e nos acomodamos para enfrentar a longa etapa seguinte. A fadiga da tarde contrabalança o entusiasmo do primeiro dia, e seguimos num ritmo constante, nem rápido nem devagar.
Pegamos de lado um vento de sudoeste. A cada rajada, a moto se inclina como que por si mesma na direção contrária para se opor ao efeito do vento. Tenho tido uma sensação peculiar a respeito desta estrada, uma certa apreensão, como se estivéssemos sendo observados ou seguidos. Mas à nossa frente não há veículo algum e pelo retrovisor só vejo John e Sylvia, muito atrás de nós.
Não estamos ainda nas Dakotas, mas os campos extensos mostram que estamos chegando perto. Alguns deles estão azuis com as flores do linho, que se agitam em longas ondas como a superfície do oceano. O terreno é mais movimentado do que antes e agora as elevações de terra dominam toda a paisagem, com exceção do céu, que aqui parece mais largo. As casas de fazenda, bem longe, são tão pequenas que mal conseguimos vê-las. O terreno está começando a se abrir.
O final das Planícies Centrais e o começo das Grandes Planícies não são demarcados por uma linha divisória rígida. É uma mudança gradual que pega você de surpresa, como se, partindo num veleiro de um porto de mar agitado, você percebesse de repente que as ondulações do mar ficaram mais largas e profundas e, voltando-se para trás, não visse mais a terra. Há menos árvores aqui, e de repente me dou conta de que elas não são naturais da região. Foram trazidas para cá e plantadas em fileiras ao redor das casas e entre os campos para diminuir a força do vento. Mas, onde não foram plantadas, não se vê a macega dos bosques nem árvores novas – só a relva, às vezes com algumas ervas daninhas e flores silvestres, mas quase toda de gramíneas. São pastagens. Entramos nas pradarias.
Tenho a sensação de que nenhum de nós compreende perfeitamente como será passar quatro dias nestas pradarias em pleno mês de julho. As lembranças de viagens de carro por esta região são imagens de um terreno plano e vazio até onde a vista alcança, de um tédio e uma monotonia extremos em que as horas se sucedem e não se chega a lugar algum; e você se pergunta até onde a estrada pode prosseguir sem nenhuma curva, sem nenhuma mudança na paisagem, que se estende interminável até o horizonte.
John tinha medo de que Sylvia não conseguisse aguentar o desconforto da viagem e quis que ela fosse de avião até Billings, em Montana, mas tanto Sylvia quanto eu o convencemos a desistir da idéia. Eu disse que o desconforto físico só afeta a pessoa quando seu estado de espírito está mal. Quando isso acontece, ela se apega à coisa que lhe causa desconforto e lhe põe a culpa. Porém, quando o estado de espírito está bem, o desconforto físico não tem grande importância. E, quando eu pensava no humor e nos sentimentos de Sylvia, não imaginava que pudesse se queixar.
Além disso, quem chega às Montanhas Rochosas de avião as contempla num determinado tipo de contexto, como uma bela paisagem. Mas quem chega depois de dias e dias de viagem através das pradarias as vê de outra maneira, como uma meta, uma terra prometida. Se John, Chris e eu chegássemos com esse sentimento e Sylvia as visse como “legais” e “bonitas”, haveria mais desarmonia entre nós do que a desarmonia causada pelo calor e pela monotonia das Dakotas. De qualquer modo, também estou pensando em mim, pois gosto de conversar com ela.
Na minha mente, quando olho para estes campos, digo a ela: “Viu?… Viu?” E acho que ela vê. Espero que, com o tempo, ela passe a ver e a sentir um aspecto destas pradarias sobre o qual já desisti de falar com os outros: uma coisa que existe aqui porque aqui não existe mais nada, uma coisa que pode ser percebida graças à ausência de outras coisas. Às vezes, a monotonia e o tédio da vida na cidade parecem deixar Sylvia tão deprimida que pensei que, talvez, no meio desta relva e deste vento sem fim, ela consiga ver uma coisa que às vezes acontece quando aceitamos a monotonia e o tédio. Essa coisa está aqui, mas não sei com que nome chamá-la.
Agora mesmo, no horizonte, vejo algo que, segundo me parece, os outros não veem. Muito longe, a sudoeste – só pode ser avistado do alto desta colina –, o céu tem uma linha escura na parte de baixo. Tempestade chegando. Talvez seja isso que tem me perturbado. Eu mantive a mente fechada de propósito, mas sabia desde o começo que, com esta umidade e este vento, era muito provável que viesse uma tempestade. É uma pena topar com uma no primeiro dia, mas, como eu disse, numa motocicleta você está dentro da paisagem, não é um simples espectador passivo; e as tempestades, em definitivo, fazem parte da paisagem.
Quando se trata de uma nuvem isolada, você pode tentar contorná-la, mas não é o caso desta aqui. Aquela longa tira negra, sem nenhuma nuvem cirro à frente, é uma frente fria. As frentes frias são violentas e, quando vêm do sudoeste, são mais violentas ainda. Frequentemente contêm tornados. Quando chegam, o melhor é se proteger e deixá-las passar. Não duram muito, e o ar frio que vem por trás é bom para andar de moto.
As frentes quentes são as piores. Podem durar dias. Lembro que, alguns anos atrás, eu e Chris viajamos para o Canadá. Vencemos cerca de duzentos quilômetros e fomos pegos por uma frente quente de cuja presença já estávamos mais do que cientes, mas que não compreendíamos. A experiência toda foi bem tola e triste.
Viajávamos com uma motocicletinha de seis cavalos e meio, com bagagem demais e bom senso de menos. A máquina, mesmo acelerada ao máximo, não passava dos setenta quilômetros por hora contra um vento moderado. Não era uma moto para viajar. Na primeira noite, chegamos a um lago em North Woods e acampamos entre tempestades que duraram a noite inteira. Esqueci-me de escavar uma vala em torno da barraca e, às duas da manhã, uma corrente de água entrou nela e encharcou os dois sacos de dormir. Na manhã seguinte, estávamos ensopados, deprimidos e sonolentos, mas pensei que, se fôssemos em frente, a chuva diminuiria depois de algum tempo. Nada disso. Às dez da manhã o céu estava tão escuro que todos os carros trafegavam com os faróis acesos. E foi então que caiu a chuva forte.
Estávamos usando os ponchos que tinham servido de barraca na noite anterior. Na moto, eles se abriam como velas ao vento e diminuíam nossa velocidade para cinquenta quilômetros por hora no máximo. A água na estrada chegou a cinco centímetros de profundidade. Raios caíam à nossa volta. Lembro-me da cara de uma mulher que nos encarou perplexa da janela de um carro que passava, pensando que diabos estávamos fazendo com uma motocicleta nesse tempo. Tenho certeza de que, se ela me fizesse essa pergunta, eu não saberia o que responder.
A velocidade da moto diminuiu para quarenta quilômetros por hora, depois trinta. Então ela começou a tossir, engasgar e pigarrear até que, mal conseguindo chegar a dez por hora, encontramos num bosque de reflorestamento um posto de gasolina velho e mal conservado no qual entramos.
Naquela época, eu, como John, ainda não me ocupara de aprender muitas coisas a respeito do conserto de motocicletas. Lembro-me que segurei o poncho sobre a cabeça para impedir que a chuva caísse sobre o tanque de gasolina e balancei a motocicleta entre as pernas. Ouvi a gasolina chacoalhar lá dentro. Examinei as velas, os contatos e o carburador e tentei dar a partida até ficar exausto.
Entramos no edifício do posto, que também era bar e restaurante, e comemos um bife semicarbonizado. Então, saí e tentei de novo. Chris ficava me fazendo perguntas que começaram a me deixar com raiva, pois ele não percebia o quanto a situação era séria. Por fim, percebi que nada daquilo adiantava, desisti e minha raiva passou. Com todo o cuidado, expliquei-lhe que estava tudo acabado. Não iríamos a lugar algum de motocicleta naquelas férias. Chris me sugeriu algumas soluções, como a de verificar se havia gasolina no tanque, o que eu já tinha feito, ou encontrar um mecânico. Mas não havia mecânicos por ali. Só os pinheiros de reflorestamento, os arbustos e a chuva.
Sentei-me na grama ao lado dele, no acostamento da estrada, derrotado, olhando para as árvores e arbustos. Respondi pacientemente a todas as suas perguntas, que com o tempo foram rareando. Então, Chris finalmente compreendeu que nossa viagem de motocicleta tinha acabado e começou a chorar. Acho que, na época, ele tinha oito anos.
Voltamos para casa de carona, alugamos um reboque, o amarramos no carro e fomos buscar a moto. Nós a trouxemos de volta à nossa cidade e partimos em viagem de novo, dessa vez de carro. Mas não era a mesma coisa. Na realidade, não nos divertimos muito.
Duas semanas depois do fim das férias, certa noite, depois do trabalho, tirei o carburador da moto para tentar descobrir qual era o problema, mas mesmo assim não consegui encontrar nada. Para limpar a graxa antes de colocá-lo de volta, abri a torneirinha debaixo do tanque para tirar um pouco de gasolina. Não saiu nada. O tanque estava completamente vazio. Na hora não consegui acreditar e ainda não consigo.
Já me recriminei mentalmente mais de cem vezes por essa estupidez e acho que, na verdade, nunca vou conseguir realmente me perdoar por isso. É claro que o barulho que ouvi quando balancei a moto foi o da gasolina no tanque de reserva, que não cheguei a abrir. Se não fiz uma verificação mais cuidadosa, foi porque parti do pressuposto de que a chuva causara o problema do motor. Na época, eu não sabia o quanto essas conclusões precipitadas podem ser tolas. Agora estamos com uma máquina de vinte e oito cavalos e levo muito a sério a sua manutenção.
De repente, John me ultrapassa levantando e abaixando a mão, fazendo sinal para parar. Diminuímos a velocidade e procuramos um local por onde passar da pista ao acostamento de cascalho. A beirada do concreto é abrupta, o cascalho está solto e não gosto nem um pouco dessa manobra.
Chris pergunta:
Para que estamos parando?
Acho que passamos a nossa saída ali atrás – diz John.
Olho para trás e não vejo nada. – Não vi placa nenhuma – digo.
John balança a cabeça. – Grande como a porta de um celeiro.
Verdade?
Ele e Sylvia fazem que sim com a cabeça.
Ele se inclina, estuda meu mapa, aponta para a saída e, mais adiante, para um viaduto sobre a autoestrada. – Veja só, já passamos por esta autoestrada – ele diz. E tem toda razão. Fico envergonhado.
Voltamos ou vamos em frente? – pergunto.
Ele pensa um pouco. – Bom, acho que na verdade não temos motivo nenhum para voltar. Tudo bem. Vamos em frente. De um jeito ou de outro chegaremos lá.
E agora, seguindo-os de perto, penso: por que fiz aquilo? Mal notei a autoestrada. E agora mesmo esqueci-me de avisá-los da tempestade. A situação está um pouco preocupante.
A massa de nuvens tempestuosas está maior agora, mas não se aproxima tão rápido quanto eu esperava. Isso não é bom. Quando a tempestade chega depressa, também vai embora depressa. Quando chega devagar, como esta, você pode ter de passar bastante tempo parado.

Robert M. Pirsig, em Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas – Uma Investigação Sobre os Valores

domingo, 1 de fevereiro de 2026

BRASIL ESCONDIDO | A beleza que poucos viram | Documentário em 4K

Calvin e Haroldo

Envelhecer

Antes, todos os caminhos iam.
Agora todos os caminhos vêm.
A casa é acolhedora, os livros poucos.
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.

Mário Quintana, em Sapato Florido

Escrever com sangue

De todo o escrito, só amo aquilo que alguém escreve com o seu sangue. Escreve com sangue, e aprenderás que o sangue é espírito.

Friedrich Nietzsche, em Assim Falou Zaratustra

1608 – Porto Príncipe



Silvestre de Balboa

Na casa de barro e palmeira de Silvestre de Balboa, escrivão do cabildo de Porto Príncipe, nasce o primeiro poema épico da história de Cuba. Dedica o autor suas oitavas reais ao bispo Altamirano, que há quatro anos foi sequestrado pelo pirata francês Gilbert Giron no porto de Manzanillo.
Ao navio do pirata ascenderam, do reino de Netuno, focas e nereidas com piedade do bispo, que não quis em sua defesa aceitar nada. Conseguiram os moradores de Manzanillo reunir duzentos ducados, mil couros e outras prendas e no fim o corsário luterano soltou sua presa. Dos bosques chegaram à praia, para dar as boas-vindas ao bispo resgatado, sátiros, faunos e semicapros que lhe trouxeram frutas-de-conde e outras delícias. Vieram dos prados as ninfas, carregadas de mamões, abacaxis, figos-da-índia, abacates, tabaco; e vestindo anáguas, as dríades desceram das árvores, cheios os braços de silvestres pitangas e frutos da árvore birijí e da alta palma. Também recebeu o bispo Altamiro guabinas, dajaos e outros peixes de rio das mãos das náides; e as ninfas das fontes e os estanques o presentearam com umas saborosas tartarugas de Masabo. Quando se dispunham os piratas a cobrar o resgate, caíram sobre eles uns poucos mancebos, flor e nata de Manzanillo, que valentemente lhes deram o merecido. Foi um negro escravo, chamado Salvador, quem atravessou com sua lança o peito do pirata Gilbert Giron:

Oh Salvador crioulo, negro honrado!
Voe tua fama e nunca se consuma;
que em alabança a tão bom soldado
é bem que não se cansem língua e pluma.

Inchado de admiração e espanto, Silvestre de Balboa invoca Troia e compara com Aquiles e Ulisses os moradores de Manzanillo, depois de tê-los misturado com ninfas, faunos e centauros. Mas entre as portentosas divindades abriram caminho, humildemente, as pessoas deste povoado, um negro escravo que portou-se como um herói e muitas frutas, ervas e animais desta ilha que o autor chama e ama por seus nomes.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Química orgânica

Há mulheres altas e mulheres baixas; mulheres bonitas e mulheres feias; mulheres gordas e mulheres magras; mulheres caseiras e mulheres rueiras; mulheres fecundas e mulheres estéreis; mulheres primíparas e mulheres multíparas; mulheres extrovertidas e mulheres inconsúteis; mulheres homófagas e mulheres inapetentes; mulheres suaves e mulheres wagnerianas; mulheres simples e mulheres fatais;  mulheres de toda sorte e toda sorte de mulheres no nosso mundo de homens. Mas, do que pouca gente sabe é que há duas categorias antagônicas de mulheres cujo conhecimento é da maior utilidade, de vez que pode ser determinante na relação desses dois sexos que eu, num dia feliz, chamei de “inimigos inseparáveis”. São as mulheres “ácidas” e as mulheres “básicas”, qualificação esta tirada à designação coletiva de compostos químicos que, no primeiro caso, são hidrogenados, de sabor azedo; e no segundo, resultam da união dos óxidos com a água e devolvem à tintura do tornassol, previamente avermelhada pelos ácidos, sua primitiva cor azul.
Darei exemplos para evitar que os ínscios e levianos, ao se deixarem levar pela mania de classificar, que às vezes resulta de uma teoria paracientífica, cometam injustiças irreparáveis. Pois a verdade é que mulheres que podem parecer em princípio “ácidas”, como as louras (conf. com a expressão corrente: “branca azeda”, etc.), podem apresentar tipos da maior basicidade. Não é possível haver mulher mais “básica” que Marylin Monroe, por exemplo; enquanto que Grace Kelly, que muita gente pode tomar por “básica”, é a mulher mais cítrica dos dias que correm. Podia-se fazer com Grace Kelly a maior limonada de todos os tempos, e nem todo o açúcar de Cuba seria capaz de adoçá-la.
De um modo geral, a mulher “ácida” é sempre bela, surpreendente mesmo de beleza. É como se a Natureza, em sua eterna sabedoria, procurasse corrigir essa hidrogenação excessiva com predicados que a façam perdoar, senão esquecer pelos homens. Porque uma coisa eu vos digo: é preciso muito conhecimento de química orgânica para poder distinguir uma “básica” ou uma “ácida” pela cara. A mulher “ácida” tem uma consciência intuitiva da sua química, e não é incomum vê-la querer passar por “básica” graças ao uso de maquilagem apropriada e outros disfarces próprios à categoria inimiga.
Como um homem prevenido vale por dois, dou aqui, por alto, noções geográficas e fisiológicas dos dois tipos, de modo que não chupe tamarindo aquele que gosta de manga, e vice-versa. A vol d'oiseau se pode dizer que as regiões escandinavas, certas regiões balcânicas e a América do Norte são infestadas de mulheres “ácidas”, no caso da América, sobretudo o Sul e Middlewest, onde há predominância do tipo one hundred per cent American. Ingrid Bergman é uma “ácida escandinava” típica e é preciso ir procurar uma Greta Garbo para achar a famosa exceção comum a toda a regra. As Ilhas Britânicas em si não são “ácidas”; mas há que ter cuidado com certas regiões da Escócia e da Irlanda, onde o limão come solto. Na França, com exceção de Paris e Île-de-France, e naturalmente da Côte d'Azur, reina uma certa acidez, sobretudo na Bretanha, Alsácia e Normandia. A Itália é “básica”, tirante, talvez, o Veneto e a Sicília. Os Países Baixos são o que há de mais “ácido”, Flandres ainda mais que a região fiamenga. A Alemanha é à base do araque. Há, aí, que ir mais pelo padrão psicofisiológico que pelo geográfico.
Desconfie-se, em princípio, de mulheres com muita sarda ou tache-de-rousseur. Há exceções, é claro; mas vejam só Betty Davis,  que é de dar dor na dentina. É bom também andar um pouco precavido com mulheres, louras ou morenas, levemente dentuças. Acidez quase certa.
Felizmente, a grande maioria é constituída de “básicas”, para bem de todos e felicidade geral da nação. Sobretudo no Brasil, felizmente liberto, desde alguns meses, da sua “ácida número um” – aliás de outras plagas, diga-se, o peito inchado do mais justo orgulho nacional.

Vinicius de Moraes, em Para viver um grande amor

A hora zero



Ah, ia ser tão animado. Que jogo! Havia anos eles não viam uma empolgação assim. As crianças catapultavam-se para lá e para cá pelos gramados verdes, gritando umas com as outras, dando as mãos, voando em círculos, subindo nas árvores, gargalhando. Acima, foguetes voando, e carros-besouros sussurrando pelas ruas, mas as crianças continuavam brincando. Tanta diversão, tanta alegria vibrante, tantos pulos e gritos vigorosos.
Mink entrou correndo na casa, toda suja e suada. Nos seus sete anos, ela era barulhenta e forte e decidida. Por pouco, sua mãe, a sra. Morris, não a viu puxar gavetas e enfiar panelas e ferramentas em um saco grande.
Nossa, Mink, o que está acontecendo?”
O jogo mais emocionante do mundo!”, disse Mink ofegante, o rosto rosado.
Pare e tome fôlego”, disse a mãe.
Não, estou bem”, disse Mink. “Posso levar estas coisas , mãe?”
Mas não as entorte”, disse a sra. Morris.
Obrigada, obrigada!”, exclamou Mink e... zum!... foi saindo como um foguete.
A sra. Morris inquiriu a menina que escapulia.
Qual é o nome do jogo?”
Invasão!”, disse Mink.
A porta bateu.
Em cada metro da rua, crianças traziam facas e garfos e atiçadores e velhos canos de fogão e abridores de lata.
O interessante é que esta fúria e alvoroço ocorria apenas entre as crianças mais novas. As mais velhas, a maioria com dez anos ou mais, desdenhavam o assunto e marchavam zombeteiramente para longe, em caminhadas, ou brincavam entre si de uma versão mais nobre de esconde-esconde.
Enquanto isso, os pais chegavam e saíam em carros-besouros cromados. Os homens da manutenção chegaram para consertar os elevadores a vácuo em casas, reparar aparelhos de televisão fora do ar ou martelar teimosos cubos de entrega de alimentos. A civilização adulta ia e vinha em meio às crianças atarefadas, invejosa da energia feroz da molecada turbulenta, tolerantemente encantada com seu desabrochar, desejosa de se unir a eles.
Isto e isto e isto”, disse Mink, instruindo os outros com suas colheres e ferramentas sortidas. “Faça isso e traga aquilo para cá. Não! Aqui, bobo! Certo. Agora, volte enquanto eu arrumo isto.” Língua nos dentes, cenho franzido de pensar. “Desse jeito. Viu?”
Éeee!”, gritaram as crianças.
Joseph Connors, de doze anos, subiu correndo.
Vá embora”, disse Mink a ele.
Eu quero brincar”, disse Joseph.
Não pode!”, disse Mink.
Por que não?“
Você ia zombar da gente.”
Acredite, não ia.”
Não. Nós conhecemos você. Vá embora ou vamos chutá-lo daqui.”
Um outro menino de doze anos passou zumbindo em seus pequenos patins motorizados.
Ei, Joe! Venha! Deixe esses mariquinhas brincarem!”
Joseph demonstrou relutância e uma certa tristeza.
Eu quero brincar”, ele disse.
Você é velho”, disse Mink firmemente.
Não tão velho”, disse Joe, com razão.
Você só vai rir e estragar a Invasão.”
O menino de patins motorizados fez um ruído mal-educado com os lábios.
Venha, Joe! Esses mariquinhas! Bocós!”
Joseph se afastou devagar. Continuava olhando para trás, quarteirão abaixo.
Mink já estava novamente ocupada. Construiu uma espécie de aparato com os equipamentos que havia reunido. Entregou bloco e lápis a uma outra garotinha para fazer anotações em garatujas dolorosamente lentas. Suas vozes subiam e desciam à luz morna do sol.
Em torno deles, a cidade toda zumbia. As ruas eram ladeadas por árvores fortes, verdes e pacíficas. Somente o vento provocava conflito na cidade, no país, no continente. Em mil outras cidades havia árvores e crianças e avenidas, executivos em seus escritórios silenciosos, gravando suas vozes ou observando monitores. Foguetes passavam como agulhas de costura no céu azul. Havia a presunção e a despreocupação universais e cômodas de homens acostumados à paz, muito certos de que nunca mais haveria problemas de novo. De braços dados, homens por toda a Terra formavam uma frente unida. As armas perfeitas eram partilhadas igualmente por todas as nações. Uma situação de equilíbrio incrivelmente belo havia se estabelecido. Não havia traidores entre os homens. Ninguém infeliz, ninguém insatisfeito; portanto, o mundo era baseado em terreno estável. O sol iluminava metade do mundo, e as árvores dormitavam em uma onda de ar morno.
A mãe de Mink, de sua janela no andar de cima, olhava para baixo.
As crianças. Ela as observava e balançava a cabeça. Bom, elas comeriam bem, dormiriam bem e estariam na escola na segunda-feira. Abençoados sejam seus corpinhos vigorosos. Ela apurou os ouvidos.
Mink conversava energicamente com alguém perto da roseira — embora não houvesse ninguém ali.
Essas estranhas crianças. E a garotinha, como era o nome dela? Anna? Anna fazia anotações em um bloco. Primeiro, Mink fez uma pergunta à roseira, depois repetiu a resposta para Anna.
Triângulo”, disse Mink.
O que é um tri”, disse Anna com dificuldade, “ângulo?”
Não importa”, disse Mink.
Como se soletra?”, perguntou Anna.
T-r-i...”, soletrou Mink, devagar, depois perdeu a paciência: “Ah, soletre você mesma!” Passou a outras palavras.
Viga”, ela disse.
Eu não escrevi tri”, disse Anna, “ângulo ainda!”
Bom, então depressa, depressa!”, exclamou Mink.
A mãe de Mink se debruçou na janela do andar de cima.
Â-n-g-u-l-o”, ela soletrou de lá de cima para Anna.
Ah, obrigada, senhora Morris”, disse Anna.
De nada”, disse a mãe de Mink, e se retirou, rindo, para limpar a sala com um removedor de pó eletromagnético.
As vozes das meninas oscilavam no ar trêmulo.
Viga”, disse Anna. A voz sumindo.
Quatro-nove-sete-A-e-B-e-X”, disse Mink, distante, séria. “E um garfo e um cordão e um... hex... hex... agonia — hexágono...!”
No almoço, Mink tomou o leite de um gole e já estava na porta. Sua mãe bateu na mesa.
Volte e sente-se”, ordenou a sra. Morris. “A sopa quente sai num minuto.”
Ela apertou o botão vermelho de seu assistente de cozinha e, dez segundos depois, algo aterrissou com um baque no receptáculo de borracha. A sra. Morris abriu-o e retirou uma lata com um par de alças de alumínio, tirou o lacre com um puxão e serviu sopa quente em um prato.
Durante isso tudo, Mink se remexia.
Depressa, mãe! É uma questão de vida ou morte! Ahh...”
Eu era a mesma coisa na sua idade. Sempre vida ou morte. Eu sei.”
Mink engolia a sopa.
Devagar”, disse a mãe.
Não dá”, disse Mink, “Drill está me esperando.”
Quem é Drill? Que nome estranho”, disse a mãe.
A senhora não o conhece”, disse Mink.
Garoto novo na vizinhança?”, a mãe perguntou.
Ele é novo sim”, disse Mink. Começou a tomar o segundo prato.
Qual deles é Drill?”, a mãe perguntou.
Ele está por aí”, disse Mink evasivamente. “Você vai zombar. Todo mundo zomba. Que droga.”
Drill é tímido?”
Sim. Não. Mais ou menos. Ih, mãe, eu tenho de ir se quisermos ter a Invasão!”
Quem está invadindo o quê?”
Os marcianos invadindo a Terra. Bem, não exatamente marcianos. Eles são... não sei. Lá de cima.” Apontou com a colher.
E de dentro”, disse a mãe, tocando a testa febril de Mink.
Mink se rebelou.
A senhora está rindo! Vai matar Drill e todo mundo.”
Eu não tive a intenção”, disse a mãe. “Drill é marciano?”
Não. Ele é... bem, talvez de Júpiter ou Saturno ou Vênus. De qualquer forma, ele tem tido dificuldades.”
Imagino.” A sra. Morris pôs a mão sobre a boca.
Eles não conseguiam arrumar um jeito de atacar a Terra.”
Somos inexpugnáveis”, disse a mãe com seriedade fingida.
Essa é a palavra que Drill usou! Inexpug... Essa era a palavra, mãe.”
Ai, ai. Drill é um garotinho brilhante. Palavrinha corriqueira.”
Eles não conseguiam achar um jeito de atacar, mãe. Drill diz... ele diz que para fazer uma boa batalha é preciso achar um jeito novo de surpreender as pessoas. Dessa forma, a gente vence. E ele diz também que é preciso obter ajuda de seu inimigo.”
Uma quinta coluna”, disse a mãe.
É. É o que Drill disse. E eles não conseguiam um jeito de surpreender a Terra ou obter ajuda.”
Não é de admirar. Somos fortes mesmo”, a mãe riu, terminando a limpeza.
Mink ficou ali sentada, olhando fixamente para a mesa, visualizando aquilo de que falava.
Até que um dia”, sussurrou Mink melodramaticamente, “eles pensaram nas crianças.”
Bom”, disse a sra. Morris alegremente.
E eles pensaram no fato de os adultos estarem tão ocupados que nunca procuram debaixo das roseiras ou nos gramados!”
Procuram somente lesmas e fungos.”
E então tem algo sobre dim... dime...”
Dim-dime?”
Dimen-sães.”
Dimensões?”
Quatro delas! E tem algo sobre crianças com menos de nove anos e imaginação. É realmente divertido ouvir Drill falando.”
A sra. Morris estava cansada.
Bom, deve ser divertido. E Drill está esperando você, e, se vocês quiserem ter sua Invasão antes do banho da noite, é melhor correr.”
Eu tenho de tomar banho?”, resmungou Mink.
Tem sim. Por que as crianças odeiam água? Não importa a época, as crianças detestam lavar as orelhas!”
Drill diz que eu não vou ter de tomar banhos”, disse Mink.
Ah, ele diz, não diz?”
Ele disse isso a todas as crianças. Chega de banhos. E podemos ficar acordadas até dez horas e ir a dois programas de televisão no sábado, em vez de um!”
Bem, é melhor o senhor Drill ter cuidado com o que diz. Eu vou ligar para a mãe dele e...”
Mink foi para a porta.
Estamos tendo problemas com caras como Pete Britz e Dale Jerrick. Eles estão crescendo. Ficam fazendo gozação. São piores do que pai e mãe. Eles simplesmente não acreditam em Drill. São tão metidos, porque estão crescendo. A gente achava que eram mais espertos. Eram pequenos apenas uns dois anos atrás. São os que eu mais detesto. Vamos matá-los primeiro.”
Seu pai e eu por último?”
Drill diz que vocês são perigosos. Sabe por quê? Porque vocês não acreditam em marcianos! Eles vão nos deixar governar o mundo. Bom, não apenas a gente, mas as crianças do outro quarteirão também. Eu posso virar rainha.”
Ela abriu a porta.
Mãe?”
Sim?”
O que é logi-cá?”
Lógica? Ora, querida, lógica é saber quais coisas são verdadeiras e quais não são.”
Ele mencionou isso”, disse Mink. “E o que é im-pres-si-o-ná-veis?” Ela levou um minuto para dizer a palavra.
Ora, significa...” A mãe olhou para o chão, rindo delicadamente. “Significa ser criança, querida.”
Obrigada pelo almoço!”
Mink saiu correndo, mas voltou, mostrando só a cabeça.
Mãe, vou garantir que a senhora não se machuque muito, mesmo!”
Ora, obrigada”, disse a mãe.
A porta bateu.
Às quatro horas, o audiovisor tocou. A sra. Morris abriu o painel.
Alô, Helen!”, ela saudou.
Alô, Mary. Como estão as coisas em Nova York?”
Bem. Como estão as coisas em Scranton? Você parece cansada.”
Você também. As crianças. Dando trabalho”, disse Helen.
A sra. Morris suspirou.
Minha Mink também. A Superinvasão.”
Helen riu.
Seus filhos também estão jogando?”
Meu Deus, sim. Amanhã, serão três-marias geométricas e amarelinha motorizada. Éramos tão levadas assim quando crianças em quarenta e oito?”
Pior. Japoneses e nazistas. Não sei como meus pais me aguentavam. Uma capetinha.”
Os pais aprendem a fechar os ouvidos.”
Silêncio.
O que houve, Mary?”, perguntou Helen.
Os olhos da sra. Morris estavam meio fechados; a língua deslizava lenta, pensativamente, sobre seu lábio inferior.
Oh”, ela disse de arranco. “Ah, nada. Só estava pensando nisso. Ouvidos fechados e coisas assim. Não importa. Onde estávamos?”
Meu filho Tim está morrendo de amores por um certo sujeito chamado... Drill, acho que é isso.”
Deve ser uma nova senha, Mink também gosta dele.”
Não sabia que tinha chegado até Nova York. De boca em boca, imagino. Parece uma campanha de coleta de metal para a guerra. Conversei com Josephine e ela disse que os filhos — lá em Boston — estão malucos com este novo jogo. Virou uma febre no país.”
Neste momento, Mink entrou trotando na cozinha para beber um copo de água. A sra. Morris se virou.
Como estão as coisas?”
Quase terminadas”, disse Mink.
Maravilhoso”, disse a sra. Morris. “O que é aquilo?”
Um ioiô”, disse Mink. “Veja.”
Ela rolou o ioiô fio abaixo.
Ao chegar ao fim do cordão, ele... ele desapareceu.
Viu?”, disse Mink. “Upa!” Esticando o dedo, ela fez o ioiô reaparecer e subir pelo cordão.
Faça de novo”, pediu a mãe.
Não posso. A hora zero é às cinco horas. Tchau!”
Mink saiu, jogando seu ioiô.
No audiovisor, Helen ria.
Tim trouxe um desses ioiôs esta manhã, mas, quando fiquei curiosa, ele disse que não ia me mostrar, e quando finalmente tentei jogá-lo, ele não quis funcionar.”
Você não é impressionável”, disse a sra. Morris.
O quê?”
Não importa. Algo em que pensei. Posso ajudá-la, Helen?”
Eu queria a receita daquele bolo preto-e-branco…”

***

O tempo passava sonolento. O dia se esvaía. O sol se punha no céu azul tranqüilo. Sombras se estendiam pelos gramados verdes. Os risos e a excitação continuavam. Uma garotinha se afastou correndo, chorando. A sra. Morris saiu à porta da frente.
Mink, aquela era Peggy Ann chorando?”
Mink estava abaixada no jardim, perto da roseira.
É. Ela é um bebê chorão. Não vamos deixá-la brincar mais. Está ficando velha demais para brincar, acho que cresceu de repente.”
É por isso que ela chorou? Bobagem. Me dê uma resposta decente, mocinha, ou já para dentro!”
Mink se virou com um misto de consternação e irritação.
Não posso sair agora. Está quase na hora. Vou ser boazinha. Me desculpe.”
Você bateu em Peggy Ann?”
Não, verdade. Pergunte a ela. Foi alguma coisa... bom, ela é só uma medrosa.
O círculo de crianças se fechou em torno de Mink, enquanto ela olhava de cenho franzido para seu trabalho com colheres e uma espécie de arranjo quadrado de martelos e canos.
Ali e ali”, murmurava Mink.
O que há de errado?”, disse a sra. Morris.
Drill está preso. A meio caminho. Se pelo menos pudéssemos trazê-lo até aqui, seria mais fácil. Então todos os outros poderiam vir depois dele.”
Posso ajudar?”
Não, mãe, obrigada. Eu vou dar um jeito.”
Tudo bem. Vou chamá-la para o banho em meia hora. Estou cansada de tomar conta de você.”
Ela entrou e sentou-se na cadeira massageadora, bebericando um pouco de cerveja em um copo pela metade. A cadeira massageava suas costas. Crianças, crianças. Crianças e amor e ódio, lado a lado. Algumas vezes as crianças amam a gente, odeiam a gente — tudo em meio segundo. Estranhas crianças, será que elas esquecem ou perdoam as surras e as ordens duras e severas?, ela se perguntava. Como esquecer ou perdoar aqueles acima de você, aqueles ditadores altos e tolos?
O tempo passou. Um silêncio curioso e expectante caiu sobre a rua, aprofundando-se.
Cinco horas. Um relógio cantou brandamente em algum lugar da casa, com voz tranqüila e musical: “Cinco horas... cinco horas. O tempo se vai. Cinco horas”, ronronando até silenciar.
A hora zero.
A sra. Morris dava risadinhas. A hora zero.
Um carro-besouro chegou zunindo pela entrada da casa. O sr. Morris. A sra. Morris sorriu. O sr. Morris saiu do carro, trancou-o e disse olá a Mink, que estava ocupada. Mink o ignorou. Ele riu e ficou por um instante observando as crianças. Em seguida, subiu os degraus da frente.
Olá, querida.”
Olá, Henry.”
Ela se esticou para a frente, na beirada da cadeira, escutando. As crianças estavam silenciosas. Silenciosas demais.
Ele esvaziou o cachimbo, encheu-o de novo.
Dia maravilhoso. Dá gosto estar vivo.”
Zumbido.
O que é aquilo?”, perguntou Henry.
Não sei.”
Ela se levantou de repente, os olhos se arregalando. Ia dizer algo. Parou. Ridículo. Os nervos em sobressalto.
Essas crianças não estão com nada perigoso lá fora, estão?”, ela perguntou.
Nada além de canos e martelos. Por quê?”
Nada elétrico?”
Caramba, não”, disse Henry. “Eu olhei.”
Ela caminhou até a cozinha. O zumbido prosseguia.
Tudo igual. É melhor você mandar que parem. Passa das cinco. Diga a elas...”
Os olhos dela se arregalaram e se apertaram.
Diga a elas que adiem sua Invasão para amanhã.”
Ela riu, nervosamente.
O zumbido ficou mais alto.
O que elas estão aprontando? Acho melhor dar uma olhada, tudo bem?”
A explosão!
A casa foi sacudida pelo som abafado. Houve outras explosões em outros jardins em outras ruas.
Involuntariamente, a sra. Morris gritou.
Para cima, por aqui!”, gritou do nada, sem saber por quê, sem nenhuma razão. Talvez tenha visto algo com o canto dos olhos; talvez tivesse sentido um cheiro diferente ou ouvido um barulho novo. Não havia tempo de argumentar com Henry para convencê-lo. Deixe que ele pense que está louca. Sim, louca! Berrando, ela subiu as escadas. Ele correu atrás dela para ver o que ela ia fazer.
No sótão!”, ela gritava. “É lá que está!”
Era apenas uma desculpa mal dada para levá-lo para o sótão a tempo. Ah, Deus... a tempo!
Outra explosão lá fora. As crianças gritavam deliciadas, como se em um grande espetáculo de fogos de artifício.
Não está no sótão”, Henry gritou. “Está do lado de fora.”
Não, não!” Respirando com dificuldade, ofegante, ela tateava a porta do sótão. “Eu lhe mostro. Depressa! Eu lhe mostro!”
Eles entraram aos tropeços no sótão, ela fechou a porta, trancou-a, tirou a chave e a jogou longe em um canto entulhado. Agora ela balbuciava coisas sem nexo. As coisas saíam de sua boca. Toda a suspeita subconsciente e o medo que se acumulara secretamente durante a tarde fermentaram nela como um vinho. Todas as pequenas revelações e informações e significados que a incomodaram o dia todo ela havia lógica e cuidadosa e sensatamente rejeitado e censurado. Agora explodiam e a reduziam a pedaços.
Ali, ali”, ela disse, soluçando contra a porta. “Estamos seguros até a noite. Talvez possamos escapulir. Talvez possamos fugir!”
Henry explodiu também, mas por outro motivo.
Ficou louca? Por que você jogou a chave longe? Droga, querida!”
Sim, sim, estou louca, se você quer, mas fique aqui comigo!”
Não sei como vou poder sair desta droga de lugar!”
Quieto. Eles vão nos ouvir. Ah, Deus, eles vão nos encontrar logo, logo...”
Lá embaixo, a voz de Mink. O marido parou. Havia por toda parte zumbido e chiado, gritos e risadinhas. No andar de baixo, o audiovisor tocava e tocava insistente, alarmante, violentamente. Será Helen ligando?, pensou a sra. Morris. E será que ela está ligando para falar do que estou pensando?
Passos entraram na casa. Passos pesados.
Quem está entrando em minha casa?”, Henry perguntou enraivecido. “Quem está andando aí embaixo?”
Pés pesados. Vinte, trinta, quarenta, cinquenta deles. Cinquenta pessoas se amontoando dentro da casa. O zumbido. As risadinhas das crianças.
Por aqui”, gritou Mink lá embaixo.
Quem está no andar de baixo?”, berrou Henry. “Quem está aí!”
Silêncio. Ah, nãonãonãonãonãonão!”, disse a esposa, com a voz sumida, abraçando-o. “Por favor, fique quieto. Quem sabe eles vão embora.”
Mãe?”, Mink chamou. “Pai?”
Uma pausa.
Onde vocês estão?”
Passos pesados, pesados, pesados, muito pesados subiam a escada. Mink os conduzia.
Mamãe?” Uma hesitação. “Papai?” Uma espera, um silêncio.
Zumbido. Passos em direção ao sótão. Mink é a primeira.
Eles tremiam juntos no silêncio do sótão, o sr. e a sra. Morris. Por alguma razão, o zumbido elétrico, a estranha luz fria repentinamente visível sob a fresta da porta, o estranho odor e o som alienígena de avidez na voz de Mink finalmente fizeram com que Henry Morris também entendesse. Ele tremia no silêncio escuro, a esposa a seu lado.
Mãe! Pai!”
Passos. Um pequeno zumbido. A fechadura do sótão derreteu. A porta foi aberta. Mink olhou para dentro, sombras azuis e altas atrás dela.
Acheeei!”, disse Mink.

Ray Bradbury, em A cidade inteira dorme e outros contos breves