01/07/2026
Diário de Bernardo Soares
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
Canção de Mim Mesmo | 14
Ele grasna, e soa para mim como um convite,
O atrevido pode supô-lo sem sentido, mas eu, ouvindo perto,
Acho seu propósito e lugar lá em cima no céu invernal.
O casquinho afiado alce do norte, o gato na soleira, o chapim, a marmota,
A ninhada da porca grunhente puxando suas tetas,
Os filhotes da perua e ela com suas asas semiabertas,
Vejo neles e em mim a mesma velha lei.
A pressão de meu pé sobre a terra desperta mil afeições,
Elas desdenham o meu esmero em narrá-las.
Estou encantado com o crescer ao ar livre,
Com homens que vivem entre gado ou provam do oceano ou da selva,
Com construtores e pilotos de navios e machadeiros e malhadores, e condutores de cavalos,
Posso comer e dormir com eles semana após semana.
O que é mais comum, mais barato, mais próximo, mais fácil, sou Eu,
Eu buscando oportunidades, gastando para vastos retornos,
Adornando-me para conceder-me ao primeiro que me tomará,
Sem pedir ao céu que baixe à minha boa vontade,
Difundindo-a livremente para sempre.
Walt Whitman, em Folhas de Relva
O sonho de Pedro Henriquez Urena
Jorge Luis Borges, em Livro de Sonhos
Piloto de Guerra — VII
Antoine de Saint-Exupéry, em Piloto de Guerra
O manifesto da cidade
Clarice Lispector, em Todos os Contos
30/06/2026
Sete Chaves
Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés
Factótum
Charles Bukowski, em Factótum
Cruel amor
Mário Quintana, em Sapato Florido
A medicina bate à porta
Aldir Blanc, em Rua dos Artistas e Arredores
Ver
De tudo que João Guimarães Rosa escreveu, acho a estória do Miguilim a mais bonita. Miguilim era um menininho que vivia num lugar perdido do sertão, precisava andar um dia a cavalo pra se chegar no mais próximo. Mas Miguilim via um mundo embaçado e pensava que o mundo era assim. Não via o passarinho no galho da árvore nem os brotos do milho saídos do chão. Pai de Miguilim, bruto, achava que ele era burro. Desgostava. Batia. E no coração de Miguilim o ódio crescia. Mas um dia chegou um doutor montado em cavalo bonito e tratado. Estranhou que Miguilim fechasse os olhos pra ver melhor. “Esse nosso rapazinho tem a vista curta. Espera aí, Miguilim...” E o senhor tirava os óculos e punha-os em Miguilim, com todo o jeito. “Olha agora!” Miguilim olhou. “Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo...” Leiam e comparem, e vejam se o Miguilim não é o João. Os dois eram míopes sem saber. O espanto do Miguilim deve ter sido o espanto do João quando pôs os óculos pela primeira vez. E os dois brincavam com os mesmos brinquedos, até os boizinhos de sabugo, brancos, vermelhos e pretos, esses pretejados no fogo do fogão de lenha... Lendo o Miguilim aprendo sobre o João.
Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba
29/06/2026
Helena
Alexei Bueno, em Lucernário
La Morte d’Arthur
George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos
Nuances
Gregório Duvivier, em Put some farofa
A grande incólume
A água, que não teme os abismos: a grande incólume.
Guimarães Rosa, em Ave, Palavra
O Homem que Calculava | Capítulo 25
Malba Tahan, em O Homem que Calculava
28/06/2026
Um homem doente faz a oração da manhã
Adélia Prado, em Bagagem





