segunda-feira, 11 de maio de 2026
Roça
No mesmo prato
o menino, o cachorro e o gato.
Come a infância do mundo.
Adélia Prado, em O Coração Disparado
Mágica divina
O cristianismo acabou com o sofrimento
transformando o sofrimento em prazer, como o atesta a alegre legião
dos mártires e essa gente que, a cada golpe, exclama: “Seja o que
Deus quiser!”
Mário Quintana, em Caderno H
A bo de segunda
Dois homens se vestindo, cada um em
seu quarto, falando ao telefone. O clima é adolescente, como se
estivessem indo pra balada.
SALDANHA Senador Silveira?
SILVEIRA Fala, Saldanha!
SALDANHA Vai chegar lá na votação
lá do negócio da emenda?
SILVEIRA Nossa, ia te ligar agora pra
perguntar isso!
Os dois riem.
SALDANHA Tô muito na dúvida.
SILVEIRA Tá marcado pra que horas?
SALDANHA Umas nove, mas aquela coisa,
né? Só começa a bombar lá pelas onze.
SILVEIRA Mas a questão é: o pessoal
vai? A última votação que eu fui tava megamicada. Não tinha
ninguém que eu conheço.
SALDANHA Nem fala! Foi o uó. Eu
estreei uma gravata nova e não tinha nem CQC.
SILVEIRA Nossa, odeio quando isso
acontece! Não comprei uma gravata italiana pra gastar na TV Senado!
Os dois riem.
SILVEIRA Você ligou pro pessoal?
SALDANHA O Zezinho do Sindicato tá em
Trancoso. O Josuelton tá em Ibiza. O Pastor Tobias disse que só vai
se o Carlinhos for. O Carlinhos falou que só vai se eu for. Mas eu
só vou se você for, pra gente sentar no fundão e tocar a zoeira.
SILVEIRA E se a gente mandasse o
suplente?
SALDANHA O meu tá cassado.
SILVEIRA A gente pode dar uma
passadinha. Se tiver ruim a gente vaza.
SALDANHA Pode ser uma boa. A gente
passa, dá uma olhadinha e faz uma social pra marcar presença.
SILVEIRA Combinado, então. Ah, essa
votação é sobre o quê?
SALDANHA É uma emenda parlamentar de
orçamento impositivo.
SILVEIRA Sério?
SALDANHA Claro que não, porra! Tu
acha que eu vou saber que porra de votação que vão tá votando, ô
caralho?
Os dois riem.
SILVEIRA A gente se vê lá, filho da
puta. E vai perfumado que depois tem puteiro.
Gregório Duvivier, em Put some farofa
I Want to Hold Your Hand | John Lennon e Paul McCartney
I Want to Hold Your Hand, de John
Lennon e Paul McCartney
Oh yeah I’ll tell you something
I think you’ll understand
When I say that something
I want to hold your hand
I want to hold your hand
I want to hold your hand
Oh please say to me
You’ll let me be your man
And please say to me
You’ll let me hold your hand
Now let me hold your hand
I want to hold your hand
And when I touch you I feel happy
inside
It’s such a feeling that my love
I can’t hide
I can’t hide
I can’t hide
Yeah you got that something
I think you’ll understand
When I say that something
I want to hold your hand
I want to hold your hand
I want to hold your hand
And when I touch you I feel happy
inside
It’s such a feeling that my love
I can’t hide
I can’t hide
I can’t hide
Yeah you got that something
I think you’ll understand
When I feel that something
I want to hold your hand
I want to hold your hand
I want to hold your hand
I want to hold your hand
Por trás de tudo havia um erotismo.
Se eu me ouvisse usando essa palavra quando eu tinha dezessete anos,
eu daria uma gargalhada. Mas o erotismo foi uma das forças motrizes
de tudo o que fiz. É uma coisa muito poderosa. E, sabe, era isso que
estava por trás de muitas dessas canções de amor. “I want to
hold your hand”, mas subentende-se, entre parênteses: (quero
segurar a sua mão e provavelmente fazer muito mais!).
Na época em que esta canção foi
escrita, eu tinha uns 21 anos, e tínhamos ido morar em Londres. O
nosso empresário conseguiu um apartamento para os Beatles:
apartamento L, 57 Green Street, Mayfair. Era tudo muito empolgante;
Mayfair é uma área chique de Londres. Por algum motivo, fui o
último a aparecer lá e a conhecer o local, e me deixaram num
quartinho. Os outros já tinham escolhido os quartos maiores. E me
deixaram nesse quartinho medonho.
Mas eu tinha uma namorada, Jane Asher,
uma jovem muito elegante, cujo pai tinha um consultório médico na
Wimpole Street e cuja mãe era uma senhora maravilhosa, a professora
de música Margaret Asher. Então, eu sempre ia visitá-los na casa
deles. Eu adorava ir lá por causa do ambiente familiar. Margaret e
eu nos dávamos muito bem. Ela me tratava como se fosse minha segunda
mãe. Era com esse carinho que eu estava acostumado antes de minha
mãe morrer, quando eu tinha quatorze anos. Mas eu nunca tinha visto
uma família como a deles. As únicas pessoas que eu conhecia
pertenciam à classe trabalhadora de Liverpool. Essa era a Londres
sofisticada; todos eles tinham uma rotina que se estendia das oito da
manhã às seis ou sete da noite – uma agenda sempre cheia. Nem um
segundo sequer era desperdiçado. Jane ia ao agente dela, passava o
texto de uma peça teatral, encontrava-se com alguém para almoçar,
tinha aula com o instrutor vocal para aprender um sotaque de Norfolk
para seu próximo espetáculo. É natural que eu me apaixonasse por
tudo isso. Era como se eu estivesse em uma história, vivendo em um
romance.
Conversa vai, conversa vem, acabei
morando com os Asher. Eu já tinha me hospedado lá algumas vezes,
mas Margaret deve ter dito: “Bem, sabe, vamos deixar você ficar
com o quarto do sótão”. Então fui morar lá, e eles colocaram um
piano naquele quarto.
Quando John vinha me visitar, também
havia um piano no porão – uma salinha de música onde eu acho que
a Margaret dava aulas aos alunos dela. Assim, podíamos compor ali no
porão, os dois sentados ao piano ao mesmo tempo, ou frente a frente,
cada qual com seu violão.
“I Want to Hold Your Hand” não é
sobre Jane, mas com certeza foi escrita quando eu estava com ela.
Para dizer a verdade, acho que estávamos compondo mais para o
público em geral. Eu podia aproveitar minha experiência com a
pessoa por quem eu estava apaixonado na época – e, às vezes, isso
era muito específico –, mas em linhas gerais estávamos compondo
para o mundo.
Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente
domingo, 10 de maio de 2026
Tarde de maio
Como esses primitivos que carregam por
toda parte o maxilar inferior de seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que
consumiam a terra,
outra chama, não perceptível, e tão
mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços
cômicos,
e uma a uma, disjecta membra,
deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções
de minh’alma
nunca antes nem nunca mais aferidas em
sua nobreza
sem fruto.
Mas os primitivos imploram à relíquia
saúde e chuva,
colheita, fim do inimigo, não sei que
portentos.
Eu nada te peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora
dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo
a ponto de
converter-se em sinal de beleza no
rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto, e
passa…
Outono é a estação em que ocorrem
tais crises,
e em maio, tantas vezes, morremos.
Para renascer, eu sei, numa fictícia
primavera,
já então espectrais sob o aveludado
da casca,
trazendo na sombra a aderência das
resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a
poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que
desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive,
pusesse reparo.
E os que o vissem não saberiam dizer:
se era um préstito
lutuoso, arrastado, poeirento, ou um
desfile carnavalesco.
Nem houve testemunha.
Não há nunca testemunhas. Há
desatentos. Curiosos, muitos.
Quem reconhece o drama, quando se
precipita, sem máscara?
Se morro de amor, todos o ignoram
e negam. O próprio amor se desconhece
e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito
dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há
tanto lavou a memória
das impurezas de barro e folha em que
repousava. E resta,
perdida no ar, por que melhor se
conserve,
uma particular tristeza, a imprimir
seu selo nas nuvens.
Carlos Drummond de Andrade, em Claro Enigma
Quinto caderno de Kindzu – Juras, promessas, enganos
Farida dormia na cabina do capitão.
Enquanto eu dormia fora, deitado entre cordas e panos velhos. O anão
nunca saía do porão, de guarda aos donativos. Caso estranho: Farida
não era capaz de ver o tchóti. Pior ainda: ela desacreditava da sua
existência. Eu lhe apontava lá em baixo no porão, a sombra escura
e minusculinha do anão. Ela se ria, como se fosse brincadeira. Eu
lhe notava os barulhos que o baixito fazia, ela respondia que era o
mar ecoando no navio. Desisti de provar a presença do tchóti.
Aliás, mesmo eu comecei a duvidar. Cheguei a descer ao porão para
provar se o baixito ali permanecia. Chamei por ele, vasculhei, passei
tudo pela finura de um pente. Nada. Nem vestígio do anão. Farida
tinha razão? Será que só em sonho a criaturita preenchera alguma
existência? Ou seria, mais outra vez, obra de meu pai?
Essas perguntas me perseguiam enquanto
procurava ninho para dormir. Do lugar onde me ensonava eu podia ver o
céu, todo redondo, estrelinhoso. Nas noites mais claras eu já
enxergava a torre do farol. No princípio eu não conseguia
distinguir a ilha mais sua construção. Agora, sim. Já os via tanto
quanto deixara de ver o anãozito. Eu e Farida trocáramos de
ilusões? E lá estava o farol, esse da esperança. Parecia uma zebra
descansando sobre uma só perna. Muitas vezes nem se via a pequena
ilha onde tinha sido construído. As ondas cobriam os rochedos, em
crinas de espumas. Nas ventanias, o mar se agravava e parecia o barco
ia ser arrancado. Eu pensava: “lá vamos partir de viagem, sem rumo
nem comandante”. Contudo, o barco apenas rangia, cansado. Nenhuma
força conseguia libertar aquele náufrago. Tinha teimosias iguais às
de Farida, só que de contrárias direcções. Um queria ficar, outro
ansiava partir. Nada parecia demover aquela mulher de sair de sua
terra, abandonar tudo. Seu filho era sua única dúvida, a última
âncora.
Antes de deitar, Farida passeava pelo
convés. Vagueava, espreitando no escuro. Nesses momentos, ela me
recordava meu pai, andando pelo mato à procura de sonhos.
— Não sentes, Kindzu? O barco
está a mexer!
Não mexia. Só ela sentia o navio
ceder. Naquele destroço, o tempo parecia também naufragado. Nesse
enquanto, fui um ouvidor. De cada vez que sofria uma dessas estranhas
febres que lhe roubavam o corpo, Farida contava sua estória, fiava e
desfiava lembranças. Eu escutava até anoitecer. Meu pai costumava
dizer que a escuridão nos faz nascer muitas cabeças. Os relatos de
Farida me faziam entrar no passado dela como se eu fosse natural
desse seu tempo. Minha companheira perdia a noção do mundo enquanto
duravam suas recordações. Era eu que alertava para a fome, para a
sede, para o frio. Comíamos e bebíamos da despensa do navio. Havia
ainda demais reservas. Farida podia ficar aqui por tempos e tempos. E
parecia era esse o desejo dela. E as estórias se seguiam, se
repetiam, trocavam e multiplicavam.
— Me estás a ouvir, Kindzu?
Na realidade, eu já desistira de
escutar. Pensava sobre as semelhanças entre mim e Farida. Entendia o
que me unia àquela mulher: nós dois estávamos divididos entre dois
mundos. A nossa memória se povoava de fantasmas da nossa aldeia.
Esses fantasmas nos falavam em nossas línguas indígenas. Mas nós
já só sabíamos sonhar em português. E já não havia aldeias no
desenho do nosso futuro. Culpa da Missão, culpa do pastor Afonso, de
Virgínia, de Surendra. E sobretudo, culpa nossa. Ambos queríamos
partir. Ela queria sair para um novo mundo, eu queria desembarcar
numa outra vida. Farida queria sair de África, eu queria encontrar
um outro continente dentro de África. Mas uma diferença nos
marcava: eu não tinha a força que ela ainda guardava. Não seria
nunca capaz de me retirar, virar costas. Eu tinha a doença da baleia
que morre na praia, com olhos postos no mar.
Certa vez ela se chegou grave. Colocou
suas mãos nas minhas e deixou um silêncio pousar. Depois, me pediu:
— Quando saíres daqui quero que
vás procurar meu filho. Hei-de levar Gaspar comigo.
— Não posso, Farida. Vou sair
daqui e procurar os naparamas.
— Tu nunca vais encontrar esses
teus naparamas. Esquece isso.
— Não posso.
— Não vês que essa gente também
é filha da guerra? Quando vencerem ficam iguais aos outros. Vão
querer dividir as vantagens com os outros.
— Cala-te, tu não sabes nada
sobre esta guerra. Tu queres fugir, não tens nenhum direito de
falar.
Farida se ofende. No resto do dia ela
me evita. Eu também me afastei. Aquela mulher tinha maltratado a
minha maior aspiração. Eu precisava acreditar que existia uma causa
nobre, uma razão pela qual valia a pena me entregar. Farida não
tinha o direito de manchar aquela crença. Ao fim de um tempo, porém,
reconsiderei: procurando uns naparamas bem podia procurar também o
tal Gaspar. Não valia a pena acender briga naquele tão pequeno
espaço. Me cheguei a Farida e perguntei como se não tivesse nenhum
empenho:
— Como posso encontrar teu filho?
Farida se espanta. Queres mesmo ir
procurar o miúdo, pergunta ela. A sua mão pousa em meu braço:
espera, não vás já! O melhor é aguardar por uma noite de luar
para a tua canoa não virar nas pedras. Repeti a pergunta: onde
deveria eu vasculhar para encontrar seu filho? Ela fingiu que pensava
naquele momento. Mais de catorze anos se tinham passado desde que
entregara seu filho na missão. E se eu procurasse tia Euzinha? Ou
quem sabe Virgínia ainda estivesse por ali? Na missão? Na missão
nem valia a pena, Gaspar nunca haveria de lá voltar. Enfim, eu que
tentasse tudo em toda a parte. O menino não poderia ter desaparecido
assim, qualquer maneira.
— Procura onde teu peito
suspeitar. Mas promete me trazer de volta o meu menino.
Prometi. Eu começaria a busca mal
chegasse a terra. Mas eu sentia em mim uma guerra de quereres: parte
de mim desejava que ela nunca mais encontrasse o filho. Seria uma
maneira de ela ir ficando por ali, um modo de eu guardar sua
companhia. Outra parte de mim queria merecer afectos. Redescobrir
Gaspar seria o modo vitorioso de conquistar esse afecto. Depois,
porém, eu comecei a duvidar se aquela mulher merecia tantas juras de
minha parte. Porque as suas estórias foram mais e mais entrando na
confusão. Dizia e desdizia. Uma certa vez, quando eu queria
aprofundar o caso de seu filho ela me inquiria, surpresa:
— Meu filho? Qual filho?
— Seu filho Gaspar!
Demorou um tempo até se recordar.
Afinal, ela se deslembrara assim do pé para a mão? Ou inventara
tudo de sua criação? Comecei a pôr muita sobrancelha nas seguintes
escutas. Farida se multiplicava em Faridas. Até que uma noite, o
calor me fazia rebulir sobre os panos. Acordei estremungado. Ouvi
barulhos. Um pequeno barco a motor se aproximava. Farida veio e
gritou agitada:
— São eles, me vêm buscar!
Eles, quem? Farida não respondeu. Me
agarrou pelos braços e implorou defesa. Mas não foi preciso eu
fazer nada. Porque uma grandiosa tempestade subitamente rebentou. O
barquinho dos visitantes não conseguia encostar ao nosso. Tentaram
várias vezes. Mas depois, desistiram e se retiraram, escuro adentro.
Voltei a perguntar:
— Mas Farida, quem eram?
— Me querem vir matar, Kindzu.
Um assassinato? Que motivo teria? Me
pareceu pouco acontecível, mais um delírio daquela mulher. Daquela
vez, porém, seu comportamento me estranhou, em convincência. Ela se
encerrou em seu quarto e me pediu que me mantivesse à espreita, não
fossem os outros regressar. Fui para o convés, molhado até dentro
dos olhos. A chuva redigia suas gordas gotas, hesitantes entre
trovoar e tropousar. As nuvens se acotovelavam, sem gentileza. Podiam
se tocar, pedirem desculpa e continuar caminho. Enquanto não:
brigavam, cuspiam lumes, resmungos celestiais. Será que aprenderam
dos homens as impaciências terrestres?
Aquelas nuvens me fizeram recordar
quantos dias passaram desde que chegara ao barco encalhado. Já me
fartava daquela sozinhidão. Farida nem se importava com a espera.
Muitas vezes eu lhe pedia:
— Vem, volta comigo para terra.
Por que razão eu não queria que ela
fosse em sua viagem? Por que me doía pensar que alguém pudesse
vir-lhe buscar e levar-lhe para terras muito estrangeiras? Será que
já me afeiçoara tanto assim àquela mulher? Ou simplesmente sentia
inveja de não poder partir também, sair daquela terra enlouquecida?
Quem sabe eu tinha medo de aceitar esse desejo do longe, tão igual
ao de Farida? Afinal, ali sob a grossa chuva, de sentinela aos
obscuros saltinhadores, eu apenas fingia proteger Farida. Era ela
quem realmente me protegia, era ela quem governava os espíritos
daquele navio. Meu único espírito, o anão, já se havia
extinguido.
Uma coisa me certificava: pouco a
pouco eu me amarrava à presença daquela mulher. Nunca eu tinha
tocado em mulher de amar. As autênticas, reais mulheres me
temorizavam. Ao invés, Farida era quase irreal, ela se sonhava e eu
me deliciava naquele fingimento que punha nela. Mas quanto mais me
ardia em paixão mais eu sentia que me devia ir embora. Minha missão
era outra. Por muito que começasse a duvidar, eu não podia esquecer
meu original motivo: ser um naparama, um guerreiro de justiça.
Farida me roubava coragem do caminho, me roubava força de decidir.
Cada dia que passava, meu coração semelhava mais e mais aquele
barco. Eu estava parado naquela mulher, como os ferros preguicentos
do barco estavam cravados no banco de areia. Não podia adiar mais,
se quisesse ainda ser dono de mim. Deveria partir, imediatamente.
Desci o porão apenas para descarregar consciência sobre o anão. E
se ele realmente existisse? Essa minha dúvida aumentou quando de um
lado do porão vi pacotes e caixotes arrumados em altura reduzida
como se tivessem sido empilhados por criança. Gritei, chamei. Recebi
nenhuma resposta. Insisti, o silêncio teimou mais que eu. Farida
estava certa, não havia ninguém mais no barco a não ser nós os
dois.
Saí do porão, aspirei fundo o ar
salgado. Nesse dia estava Setembro, o mês que chama os temporais. O
vento soprava trazendo e levando uma chuva quente. De repente, a
cabina de pilotagem se acendeu, um xipefo pintou luz, em doces
pinceladas. Por entre as cortinas vi o corpo de Farida. Ela se
banhava. Assim, em contorno de claro e escuro a mulher se esfregava
em água ou em claridade? Cheguei à escotilha, espreitei sem
disfarce. Farida me notou, virou-se de lado e acenou um gesto de
convite.
Entrei, perturbado, ardendo de
intenção. Juntei-me a ela, chegadinho, fosse confiar-me um
ilegítimo segredo. Ela se prumou, face a face. Nos olhámos como se
reconhecêssemos, no outro, o único ser da terra. Eu para mim, me
garantia: não chegava uma vida inteira para contemplar aqueles
olhos. Cinzas, se nos olhos dela dormitavam, em brasas se acenderam.
Um dedo foi entrando no canto da sua boca. Toquei primeiro em seus
dentes, depois senti sua saliva. Era uma saliva quente, parecia que
não era apenas um dedo mas todo eu inteiro que penetrava numa
caverna aquecida. Outro dedo caminhou nos interiores dela, nervoso de
contente. Lá fora, o mar esturdilhava, lançando espumas. O vento
soprou com mais raiva, as ondas começaram a varrer tudo, sem
respeito. Mesmo ali, no guardado da nossa sala, a água jorrava. Nem
parecíamos notar. O mundo esvanecia e o mar já não importava. As
mãos molhadas de Farida desataram as vestes, os dedos dela parecia
eram de água. Ela se deitou, derramada no chão de ferro. Nos
colámos em gestos de afogado. As vagas ondeavam nossos corpos, indo
e vindo. Os dois éramos já só um, emergindo como uma ilha num
imenso nada.
Depois, nos desprendemos, fatigados.
Ela estremeceu, molhada. Se chegou ao xipefo, se envolveu numa manta.
Permaneci, prostrado, seguindo cada movimento dela. Que idade teria?
Porque se Farida dava como uma mulher, recebia como uma menina.
— Tens que ir, Kindzu.
Não entendi. Antes, ela me pedira que
eu aguardasse pelas noites de luar. Agora se antecipava à lua. E
depois, eu é que devia anunciar a partida. Como é que ela podia
ordenar a nossa separação?
— Eu vou. Mas tu vens comigo,
Farida.
Ela negou: não podia abandonar aquele
navio. Mas é um destroço, Farida. Aqui só há outroras, isto é
água riscando fósforos. Ela não recuava ideia. Aqui, Kindzu, é o
meu ninho. E depois, tenho a certeza, me hão-de vir buscar.
— Um barco desse tamanho não
pode ser esquecido. Os donos virão rebocar esta carcaça, eu irei
junto. Para longe, muito longe, Kindzu.
Praguejei. Eu sabia que a miséria se
cura é com farturas. É verdade que o melhor lugar para o vivo se
esconder é no meio de um enterro. Mas aquele devaneio dela não
tinha conformidade nenhuma. Tanta ilusão não se concebia. Gritei,
em desespero: vais é morrer aqui, apodrecer sozinha. Ela
girou, furiosa. Meus modos lhe desacertavam. Parecia que ela iria
responder à justa letra e tom. Mas permaneceu gesticalada, com esse
surpreendimento que só as mulheres são capazes. Mais tarde,
avançou, carinhenta:
— É o tempo da gente ser cada
um. Só isso, Kindzu.
— A terra que tu procuras é
esta, Farida. Não há outro lugar.
— Tu não entendes, Kindzu. Eu
quero sair, continuar viva.
— E teu filho: vais deixá-lo?
Eu pensava que aquele seria argumento
fatal. Enganei-me. Ela já não escutava. Cabisbaixei-me, desistido.
Quis enrolar um cigarro, o papel estava encharcado. Amarrotei o
charro e atirei para o chão como se nos meus dedos estivesse a minha
vontade. Farida não percebia: eu não podia senão viver no sossego
da labareda, à sombra de uma paixão mortal. Ela me roçou um gesto,
terna, materna. Perguntei se algum recado havia, alguma mensagem a
levar para terra. Ela trocou uns dedos de silêncio e, depois,
murmurou:
— Eu, Deus me esqueça, só peço
uma coisa: é que meu filho já não viva.
— Não diga uma coisa dessas. O
que é isso, mulher?
— Mas, Kindzu, acredita que eu
quero mal ao meu menino? É que quase eu penso que na morte se está
melhor que aqui. E, depois, são pressentimentos, coisas de mãe, nem
você pode nunca entender.
— Eu prometi que iria buscar seu
menino. É isso que farei, Farida.
Ela sorriu, nem sei se de gratidão.
Talvez se divertisse de minha ingenuidade. Pedi-lhe que prometesse
esperar pelo meu regresso. Respondeu com um vago aceno. Insisti:
— Virei com seu Gaspar. Promete
que me espera?
— Prometo. Agora vai, Kindzu. Vai
dormir que sua viagem segue amanhãzinha cedo.
Fui-me deitar em meu recanto. Farida
não queria que dormíssemos juntos. Quem dorme no colo de outro
perde a alma, dizia. Os sonhos não encontram os respectivos donos
quando homem e mulher dormitam entrelaçados. Assim, me embalei
solitário, procurando vencer meu cansaço. Em vão. Já era
madrugada ainda eu não dera jeito no sono. As pálpebras cabecearam
só quando o dia espontava. Olhando o nascer da luz realizei que
nunca mais dera atenção ao astro-dia. No fundo, me despedira da luz
nas praias de minha aldeia. De bruços sobre o verão, eu deixara o
sol na savana do tempo. Molhado, quase líquido, o dia brotava das
fundas águas do Índico. Se ergueu com a soberania das coisas
derradeiras. E a terra se via estar nua, lembrando distante seu parto
de carne e lua.
Mia Couto, em Terra Sonâmbula
Diário de Bernardo Soares
106.
Às vezes, quando ergo a cabeça
estonteada dos livros em que escrevo as contas alheias e a ausência
de vida própria, sinto uma náusea física, que pode ser de me
curvar, mas que transcende os números e a desilusão. A vida
desgosta-me como um remédio inútil. E é então que eu sinto com
visões claras como seria fácil o afastamento deste tédio se eu
tivesse a simples força de o querer deveras afastar.
Vivemos pela ação, isto é, pela
vontade. Aos que não sabemos querer — sejamos génios ou mendigos
— irmana-nos a impotência. De que me serve citar-me génio se
resulto ajudante de guarda-livros? Quando Cesário Verde fez dizer ao
médico que era, não o Sr. Verde empregado no comércio, mas o poeta
Cesário Verde, usou de um daqueles verbalismos do orgulho inútil
que suam o cheiro da vaidade. O que ele foi sempre, coitado, foi o
Sr. Verde empregado no comércio. O poeta nasceu depois de ele
morrer, porque foi depois de ele morrer que nasceu a apreciação do
poeta.
Agir, eis a inteligência verdadeira.
Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em
ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de
palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se o
não fizerem ali?
O meu orgulho lapidado por cegos e a
minha desilusão pisada por mendigos.
“Quero-te só para sonho”, dizem à
mulher amada, em versos que lhe não enviam, os que não ousam
dizer-lhe nada. Este “quero-te só para sonho” é um verso de um
velho poema meu. Registo a memória com um sorriso, e nem o sorriso
comento.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
“Eu não estava de francamentes"
[…]
Mas Diadorim, conforme diante de mim
estava parado, reluzia no rosto, com uma beleza ainda maior, fora de
todo comum. Os olhos ― vislumbre meu ― que cresciam sem beira,
dum verde dos outros verdes, como o de nenhum pasto. E tudo meio se
sombreava, mas só de boa doçura. Sobre o que juro ao senhor!
Diadorim, nas asas do instante, na pessoa dele vi foi a imagem tão
formosa da minha Nossa Senhora da Abadia! A santa... Reforço o
dizer! que era belezas e amor, com inteiro respeito, e mais o realce
de alguma coisa que o entender da gente por si não alcança.
Mas repeli aquilo. Visão arvoada.
Como que eu estava separado dele por um fogueirão, por alta cerca de
achas, por profundo valo, por larguez enorme dum rio em enchente. De
que jeito eu podia amar um homem, meu de natureza igual, macho em
suas roupas e suas armas, espalhado rústico em suas ações?! Me
franzi. Ele tinha a culpa? Eu tinha a culpa? Eu era o chefe. O sertão
não tem janelas nem portas. E a regra é assim! ou o senhor bendito
governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa... Aquilo eu
repeli?
Antes que Diadorim mesmo abrisse boca
para me sorrir, me falar, eu tive de fazer uma coisa. A meio em
ânsia, meio em astúcia; meio em raiva. Como foi que peguei o vivo
de tal ideia, em gesto, como se deu de que me alembrei daquilo?
Homem, não sei. Mas enfiei mão! por entre armas e cartucheiras, e
correias de mochilas, abri à berra meu jaleco e a minha camisa. Aí
peguei o cordão, o fio do escapulário da Virgem ― que em tanto
cortei, por não poder arrebentar ― e joguei para Diadorim, que
aparou na mão. Ia me fazer alguma pergunta, que eu não consenti, a
voz dele era que mais significava. Isto é, porque eu primeiro falei,
como resumo. ― Hei-á, voltar ― que o povoão está de minha
espera! ― eu enfim disse: eu ainda estava respirando muito ligeiro
demais.
Assim eu dava era ordem, como
convinha. Eu não estava de francamentes. Para mim, um palmo, àquela
hora, podia medir três braças. Apertei. Nem meu cavalo carecia
disso: era eu encolher um pé, e ele já via voo. À paz! Mas
Diadorim, vez de logo vir, tocou em contrário. Sustentei em esbarro
meu Siruiz, a ver, querendo as curiosidades. Diadorim estava indo lá,
modo de caçar e recolher o revólver, que de minha mão tinha caído.
Num repousozinho de coração, calado eu agradeci à amizade dele
essa fineza. Daí, vim. Sempre longe em frente, portanto que meu
cavalo soberbo não dava alcance para ele se emparelhar. Daí,
cantei. Mesmo mal, me cantei ― por causa que via que, medeando tão
grandes silêncios, era que Diadorim tomava mais sorrateiro poder em
meu afeto, que não era possível concernente. Entre isso, chegamos
de volta no arranchamento. Mas cheguei lá foi para ter ocupação de
uma estúrdia novidade. Com os urucuianos.
O senhor estando lembrado: aqueles
cinco, soturnos homens, catrumanos também, dos Gerais, cabras do
Alto-Urucúia. Os primeiros que com Zé Bebelo tinham vindo surgidos,
e que com ele desceram o Rio Paracatú, numa balsa de talos de
burití. Esses sempre mereceram pouca história da gente, por quietos
e certos, bem procedidos, sujeitos de furtadas palavras. Agora eles
comigo queriam um entendimento. Um Diodato, esse era o cabo deles.
Formou em frente dos outros, puxando a parlagem.
Queriam conversa comigo em só,
apartada. Eu apreciasse aqueles homens. A valentia deles estava por
dentro de muita seriedade. Urucuiano conversa com o peixe para vir no
anzol ― o povo diz. As lérias. Como contam também que nos Gerais
goianos se salga o de-comer com suor de cavalo... Sei lá, sei? Um
lugar conhece outro é por calúnias e falsos levantados; as pessoas
também, nesta vida. Mas aqueles cinco me condiziam. Admirei de ver
que eles todos ainda estavam a pé, mas com dobros e bissacos nas
costas, feito prontos para pedestre viagem. Sisudez deles ainda
semelhava maior. Então constitui meus ouvidos, para o cabecilho,
Diodato.
― Praz vosso respeito, Chefe, a
gente decidiram... A gente vamo-sembora. Praz vossas ordens... ― o
homem me disse, assim mesmo, casmurro com serenidade. Tive de ver bem
suas feições, uma cara assim aos poucos se examinava.
Entendi, mas reperguntei. O homem não
coçou a cabeça. Olhos de santo de madeira. O nariz dele era bem
grande, nariz que não se empinava. Só tinha a barbazinha que tem um
queixo de cavalo.
O homem não coçou a cabeça. Firme
disse. Queriam ir-sembora, duma vez; careciam. Ah, eles bem que
conheciam a regra! que um jagunço sai do bando quando quer ― só
tem que definir a ida e devolver o que ao chefe ou ao patrão
pertence. As armas, eles não devolviam, porque eram deles; mas, como
tinham de primeiro vindo a pé, largavam bem agora os cavalos.
Pegavam era um tanto de matula ― trivial de farinha e carne-seca, e
rapadura, para uns três dias, mal. Mesmo assim, era doideira, achei.
Doideira tencionarem vagar reto dali donde estávamos, alto ermo,
distantes brenhas. Por que é que iam, nem esperando eu desse minha
primeira ganhada?
― A isso, meio acontecidos, Chefe...
A conforme a gente carece, praz vosso respeito, senhor, sim... ― o
homem meio respondeu, bastante sincero. Reparei no chapéu na cabeça
dele, que era de couro de veado suassú-apara, com macias abas e
formato muito composto. A cara dele mesmo dava um ar honrável,
circunspecto, por mal que com manchas, sarro de alguma velha
moléstia, semelhando nódoas de caldo de cajú. ― Sua graça,
toda, é Diodato de que? ― indaguei. ― Diodato Nariz, por
alcunha... ― ele disse; disse, de brancura. Conheci como eu nunca
tinha dado tento d atenção naqueles homens, cuja valia. Assim que
eles eram, de batismo: e o Pantaleão, Salústio João, João Tatú e
O-Bispo. Naquela hora, era que eu punha tino. Nunca mais tive notícia
desses. Hoje, repenso. Naquela hora, eu cogitava jeito de conservar
todos em companhia. Remei minhas perguntas. Donde que eram?
― Desses córregos... Do
Burití-Comprido, Tamboril, Cambaúba, Virgens, Mata-Cachorro, das
Cobras... Para cima da Barra-da-Vaca, Arinos,... Em sertão são.
Isso, que são lugares. E que é que me adiantava saber que tinham
suas ocas por lá? O que eu inventei de conhecer era donde tinham
estado, quando Zé Bebelo deu com eles, que vinha voltando de Goiás.
― Ah , senhor sim, nas beiras... Roças do rio São Marcos, senhor
sim, no Esparramado... Fazenda duma Dona Mogiana... Cabras dessa Dona
Mogiana? Eram. Tinham sido. Mas com sua labuta de plantações. Que
qualidades de crimes eles tinham feito, para principiar, crimes de
boa merência? E por que era que tinham querido vir com Zé Bebelo?
Isso eu quis perguntar. O que de repente perguntei:
― Por via de que é que vocês
desespiritaram de seguir vinda com a gente? Falei, e refuguei para
não ter falado; que gabo e questão não são regra de se negociar.
Mas o homem Diodato, distanciado duma minha pergunta dessas, esbarrou
vez, demorão; mesmo num desajeito, ele fungava. E ele comigo não
tinha ajuste, mas não queria me ofender sem a razão. Chega olhou
para os companheiros, que acenavam devagar com as cabeças, mas numa
maneira brandazinha de sonsa, fora de tudo o mais, para não se
entender se é sestro ou anuído ― que é do jeito comum como essa
gente costuma.
― Ara, senhor, sim... ― por fim
ele falou resposta! ― ... que a influência esmoreceu... A gente
gastou o entendido... ―; e estava quase meio envergonhado.
Eu disse! ― A pois?
― Não vê, Chefe, praz vosso
respeito! as coisas demudaram... Que viemos com siu Zé Bebel... Vai,
a gente gastou o entendido... ― ele disse.
― O que Zé Bebelo falou, quando
chamou vocês?
― A foi. Quando chamou, senhor
sim...
― Ele prometeu vantagens?
― Não se diz... Chamou. Falou
misturado... A gente viemos.
― E o que é que falou?
― Agora, a gente não sabe mais.
Falou muito razoável... Falou muito razoável... Agora, com perdão
vosso, a gente esquecemos, a gente gastou o entendido... Mas muito
razoável falou...
De irritado, de aflêima, dei o
discutir!
― Pois, por que é, então, que não
foram logo, com Zé Bebelo, quando Zé Bebelo se foi?
― Deixamos o tempo dos outros
passar... Não temos questão... Não temos questão...
Mirei e vi! o que desde de antes me
invocava. Aquele homem, por uns astutos indícios, se apartando, ele
desconfiasse de mim. Aqueles outros homens, os do todo sertão, das
brenhas, os com as ventas largas para baixo, cada-um um cão ― o
que era que eles achavam em meu ser? Repensei! ah! Ah, então, para
avaliar em prova a dúvida deles, tive um recurso. A manha, como de
inesperadamente de repente eu muito disse!
― Louvado seja Nosso Senhor Jesus
Cristo!
Senhor vendo como foi, o supetão de
susto que ele teve, arregalado conforme me olhava e naquilo ouvido
não acreditava, o tanto que retardou para responsar, todo baixo, o:
...Para sempre...
Ah. Despedidos estavam, podiam ir. Ah.
Ah , não. A bobeia. Se ele em fato
estranhou, foi somente por causa do tom de minha voz. Se foi por
minha voz, foi porque, no afã de querer pronunciar sincero demais o
santíssimo nome, eu mesmo tinha desarranjado fala ― essas
nervosias...
E eles iam s embora, conforme desisti
de sobreguardar esses homens. Do jeito, de que é que me valiam? O
contrato de coragem de guerreiros não se faz com vara de meirinho,
não é com dares e tomares. Fino que me abespinhei, por conta. Ao
que aqueles homens não eram meus de lei, eram de Zé Bebelo. E Zé
Bebelo era assim instruído e inteligente, em salão de fazenda?
Desisti, dado. Não baboseio. E o mais? Era como alguém dizendo: ―
Vai declarar seca, por esse Norte, e homem e mulher vão vir... A
vida é um vago variado. O senhor escreva no caderno: sete páginas...
Aqueles urucuianos não iam em cata de Zé Bebelo, conforme sem nem
satisfação fiquei sabendo.Voltavam de volta para os seus recantos.
Quartel de mandioca, em qualquer parte se planta; e o senhor derruba
um mato, faz um chão bom, roça também se semeia... Eles foram
embora, deixei levarem os cavalos. Reparti com eles alguma quantia, e
com alegria se arregalaram: dinheiro é sempre amigo-seja... Estúrdio
é o que digo, nesta verdade ― que, eu livre longe deles,
desaluídos é que eles estavam comigo; mas, eu quisesse com gana o
préstimo deles, então só me serviam era na falsidade... O senhor
me entende? E digo que eles eram homens tão diversos de mim, tão
suportados nas coisas deles, que... por contar o que achei: que devia
de ter pedido a eles a lembrança de muito rezarem por meu destino…
Mas, de desertarem de mim, então,
será que era um agouro? Não sei. Que sei? Tive fé em mim sozinho.
O que juro, e que sei, é que tucano tem papo!…
[...]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas
sábado, 9 de maio de 2026
Revolta na Vila
Aquele oiti cresceu junto comigo.
Enchi, muitas vezes, meu pequeno regador verde na bica do jardim pra
dar de beber ao meu amigo. Fiz, é verdade, um ou outro xixizinho
nele. Mas tudo na maior camaradagem. Sempre repartiu comigo a terra
que o alimentava, pra que eu enchesse o balde e as forminhas de praia
nas tardes em que batia a saudade da ilha de Paquetá. Nunca me deu
esporro nos momentos que gravei meu nome, a canivete, em sua pele.
Sabíamos que era uma coisa dolorosa e difícil de explicar, mas,
quase sempre, são assim as grandes amizades. Salvou muitos gols dos
inimigos nos jogos-contra, trave heroica. Jamais enredou em seus
ramos honestos a linha da minha pipa. Nunca mais vou esquecer sua
alegria no supercampeonato de 58, Vasco doente, balançava os galhos
com a conquista do título, e eu repetia,todo emocionado:
— Casaca, oiti. Mais uma estrela na
nossa bandeira.
Tinha o dia em que as árvores da Rua
dos Artistas cortavam seus cabelos verdes. Vinham os cadetes da L.U.
e deixavam as calçadas cobertas de galhos, que nem ficava, assim de
cabelo, o chão da barbearia do Seu Teófilo. Meu amigo oiti usava um
corte parecido com o meu, “Príncipe Danilo”, e eu mandava selo,
carimbo, estampilha nele. Coração que não cabia no tronco, se
preocupava muito com os ninhos que sustentava e, nos dias de vento,
eu ficava tranquilizando da janela:
— Calma que tá tudo bem.
Esse negoço de elogiar muito um amigo
costuma acontecer quando o cara empacota e é sempre a maior
xaropada. Meus prezados leitores vão me desculpar, mas é que no
caso do oiti não foi morte natural. Ele foi assassinado covardemente
por uma imobiliária sem escrúpulos, sem mãe, em nome do pogresso.
Pogresso é que nem, nos apartamentos que eles mesmos constroem, o
que acontece nos tais respiradouros do banheiro: Você ouve o
barulho, mas não sente o cheiro. Fica aí a sugestão para slogan do
SérgioDourado.
Pois é, meu amigo dançou. Mas vai
ter forra. Em cada morador da Vila cresce, prodigiosa, a revolta.
Protestaremos sempre contra mais esse crime, nós, os sanhaços, os
bem-te-vis, os coleiros, as tímidas juritis a quem ele abrigou; nós,
os vira-latas, que urinamos em seu tronco amistoso; nós, os bêbados,
que vomitamos amparados em seu ombro compreensivo; nós, os
varredores das ruas, que limpamos a testa à sua sombra; nós, as
crianças que nos escondemos atrás de seu corpo, trinta e um de
janeiro, lá vou eu; nós, goiabeiras, avencas, samambaias, pequenas
ervas sem nome, protestaremos contra essa covardia, irmãozinho.
E traremos, aliadas, as cigarras, com
seu otimismo, e elas convidarão os decididos grilos de Vila Isabel,
os mais boêmios da cidade.
Virão sabiás e pintassilgos, cágados
e cabritos, gatos vadios e papagaios que falam palavrão. A denúncia
desse crime estará nas pipas pastorinhas dos carneiros do céu;
estará nos balões — do mais humilde balão japonês passando
pelos grandes balões-tangerina cheios de lanterninhas até o balão
visto pelo Zeca em Cachambi retratando, com cento e trinta e um
figurantes, a Queda da Bastilha. A denúncia desse crime estará nas
estrelas e na lua — na lua, que vezes incontáveis mascarou-se,
linda, com teus galhos. Criaremos códigos e senhas. O apito do
guarda-noturno contará que te mataram. Contará que te mataram o
assovio das facas do amolador. O grito do garrafeiro falará dessa
covardia, assim como os livros de histórias, os gibis e as
figurinhas. Leremos mensagens no desenho das nuvens, conspiraremos
com os botões e as pétalas da primavera, ouviremos os conselhos das
sábias folhas de outono. Seguirão notícias em gaivotas nas salas
de aula e em barcos de jornal nas enchentes provocadas pelas chuvas
de verão. O Penteado, tremendo gozador, inventará lorotas sobre o
passado dos donos de imobiliárias atrás da bananeira. E o Esmeraldo
passará, uma por uma, as mulheres deles na cara.
Porque sabemos que deve haver um
pedaço teu, meu amigo, vivo. Embaixo da terra, em algum lugar, há
um pedaço teu. E vivo.
E nós, que com nossos olhos secos e
amargurados, com nossos galhos cobertos de fuligem, com nossas
plumagens descoloridas, nós que, testemunhando mais esse crime, não
deixamos que morresses de todo, nós vamo partir pra briga.
Volta logo. Combateremos à tua
sombra, e que não falte cachaça e cervejinha pros nossos rapazes.
Volta logo, que nós vamos botar de
novo as cadeiras na calçada e distribuir maços de Lincoln e chupar
rebuçado e vestir pijamas de listras e usar chapéu panamá.
E cada vez que ouvirmos burrices do
tipo “é preciso assumir” ou “o senso deve prevalecer”,
responderemos, orgulhosos do que somos: dá o pé, louro! E mais: uma
aqui pro nossa-amizade!
E, como golpe de misericórdia, a
terrível sentença: conheceu, papudo?
Volta logo, e traz com você muitos
bondes, bondes cheios de passarinhos e cachorros, mariolas, petecas e
sonhadores. Faremos subir novas pipas com a forma dos nossos sonhos,
novos balões que derramam lágrimas de ouro barato, e depois virá a
lua, e desfilarão os ranchos e seremos todos palhaços, índios,
piratas, e todos usaremos sutiã de casquinha de sorvete e nos
apaixonaremos pela mesma deslumbrante odalisca, arrumadeira do 257.
As crianças baterão nos postes, como
nas antigas noites de Ano-Novo. Acenderemos fogueiras e brincaremos
de roda, nós, pássaros, nós, árvores, nós, homens, ao som da
flauta inesquecível do Benedito Lacerda, do violão de Noel.
Vovó Noemia fará uma feijoada, coisa
simples, e convidaremos Cosme e Damião pra ouvir as piadas do Waldyr
Iapetec, a Maria da Ave pra ajudar minha vó, Papai Noel pra levar um
esporro e parar de ficar feito prostituta em porta de loja;
convidaremos o coelho da Páscoa (ô cara chato!), o santo
casamenteiro pra tomar umas batidas feitas pelo Lindauro, o Pena
Branca,
todos os avôs do mundo, que é tão
difícil a alegria sem avô, o lago da Quinta da Boa Vista, os
brinquedos do Parque Shangai, os personagens do presépio, o time
supercampeão do glorioso Vasco da Gama, os ciganos do carro-preto, o
Armindo, que também foi assassinado, a turma toda, até o Ceceu
Rico, que não gosta de festa. Que participem da nossa conjura
abilolada, da nossa inconfidência delirante.
Pode ser que os sicários do verde, os
carrascos da esperança, os verdugos da alegria — em nome do
pogresso — tentem nos dispersar a cacetada, imponham o toque de
silêncio a nossas flautas e violões e declarem estado de sítio nos
fios,telhados e copas verdes onde zoneiam nossos passarinhos.
Será inútil, imobiliárias sem
escrúpulos, sem mãe: a Vila avisa que resistirá até o último
pardal, até o último oiti, até o último sonhador embriagado.
Aldir Blanc, em Pasquim, nº 362
Borboletas
Desde menino as borboletas me
encantam. E acho que elas gostam de mim. Certa vez, na casa do
Brandão, lá em Pocinhos do Rio Verde, uma borboleta assentou-se no
meu rosto e lá ficou, imóvel e tranquila. Não me mexi, com medo de
assustá-la. Ela ficou tanto tempo em meu rosto que deu tempo de o
Brandão ir buscar sua câmera e tirar uma foto.
Penso que borboletas, seres alados,
diáfanos e coloridos, devem ser emissários dos deuses, anjos que
anunciam coisas do amor. Imaginei então que aquela borboleta era um
anjo disfarçado que os deuses me enviavam com uma promessa de
felicidade.
O imaginário mítico e poético
sempre gostou de borboletas. Os gregos, por exemplo, imaginavam a
alma como uma borboleta com corpo de menina. E Fernando Pessoa
dedicou-lhes um maravilhoso poema: Eros e Psique.
Cecília Meireles também brincou com
elas. Compôs um poema em que colocou uma pequenina borboleta
equilibrando a pesadíssima grandeza cósmica:
No mistério do Sem-Fim
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de uma borboleta.
Podem imaginar isso, que uma borboleta
com suas levíssimas asas possa equilibrar um planeta? E numa cena do
filme Sonhos, de Kurosawa, há uma revoada de milhares,
milhões de borboletas.
Isso aconteceu faz muitos anos. A
cena da borboleta pousada no meu rosto estava no esquecimento. Aí
sonhei e a cena se tornou viva de novo.
Os sonhos são um mundo mágico. No
mundo dos sonhos, não há nem antes nem depois, nem lá nem aqui.
Tempo e espaço se misturam.
Aí, sonhando, ouvi o cantarolar de
uma valsinha velha de que ninguém mais se lembra. Era só um
cantarolar, sem palavras. Depois de acordar, fui ao Google e lá
estava ela – “Linda borboleta”:
Certa manhã
Destas manhãs cheias de luz
Por entre as rosas do jardim
Eu vi passar
Gentil borboleta
De asas azuis
E o seu voo incerto
Me fez pensar
Que os namorados
Que passeiam por aí
São borboletas que a voar
De flor em flor
Procuram daqui
E procuram dali
Encontrar um novo amor
Voa, minha linda borboleta
Voa procurando a ilusão
Voa pois a vida é tão boa
Quando se tem
Um amor no coração
Sonhei com a borboleta que pousara no
meu rosto. Mas de repente ela bateu asas e voou em meio às árvores
da mata. Corri atrás, mas ela era mais rápida que eu.
A cena se alterou. A borboleta estava
agora num shopping, voando, voando, e entrou numa joalheria. Fiquei
confuso diante de tantas joias nas vitrines, até que vi a borboleta
pousada num fino cordão de ouro. Mas foi só tocá-la para que ela
se transformasse numa borboleta de vidro, as asas feitas com pedras
coloridas.
Fiquei triste com essa transformação,
porque eu preferia a borboleta viva, aquela que se assentara no meu
rosto. De qualquer maneira, resolvi comprá-la. Era uma joia que eu
poderia dar a alguém que se parecesse com a minha borboleta.
Pus a borboleta de pedras coloridas no
bolso e me fui. Mas aí aconteceu o que eu não imaginara: como no
filme de Kurosawa, milhares de borboletas começaram a sair do meu
bolso e encheram de cores o espaço do shopping. E foi em meio a esse
encantamento onírico que uma das borboletas não voou. Ela se
assentou sobre o meu rosto e ali ficou...
Aí eu acordei...
***
Nestes jardins – há vinte anos –
andaram os nossos muitos passos,
e aqueles que então éramos se
contemplaram nestes lagos.
Se algum de nós avistasse o que
seríamos com o tempo, todos nós choraríamos,
de mútua pena e susto imenso.
E assim nos separamos, suspirando dias
futuros, nenhum se atrevia a desvelar
seus próprios mundos.
E agora que separados vivemos o que
foi vivido, com doce amor choramos quem
fomos nesse tempo antigo.
Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado
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