quinta-feira, 30 de abril de 2026

Guilherme Arantes | Minúcias

Assembleia baiana

O sr. Presidente — Tem a palavra o sr. deputado Marta Rocha.
O sr. Marta Rocha (movimento geral de atenção; palmas no recinto e nas galerias) — Sr. Presidente, ao subir a esta tribuna…
Vários senhores deputados — Muito bem! V. ex.a está-se exprimindo com rara eloquência e felicidade.
O sr. Marciano Condeúba — Não apoiado. V. ex.a não sobe à tribuna. Esta é que, com muita honra, se alça até v. ex.a.
(Novas palmas e vivas nas galerias.)
O sr. Presidente — Atenção! Peço às galerias que não se manifestem.
O sr. Demóstenes Latino — Sr. Presidente, rogo a v. ex.a, em nome da velha Grécia e dos imortais princípios de 2 de julho, que admita, neste caso excepcional, a manifestação irreprimível das galerias.
o sr. Presidente — Atendendo às ponderações do líder da maioria, permito às galerias que se manifestem com três hurras, terminados os quais voltará a prevalecer o regimento. (Ouvem-se três hurras e muitos fius.) Prossiga o nobre orador.
O sr. Romualdo Alecrim — Um momento, sr. Presidente. O nobre líder da maioria devia ter dado uma chance à minoria para também se solidarizar com as justas expansões do povo, pois é evidente que, numa hora solar como esta, cessam as distinções partidárias. A oposição também é filha de Deus.
O sr. Marta Rocha — Como dizia, sr. Presidente…
O sr. Demóstenes Latino — V. ex.a não precisa dizer nada. Os elevados pensamentos políticos de v. ex.a estão estampados em seu rosto. Esta assembleia em peso sente-se feliz em apoiar as considerações implícitas e aurifulgentes de v. ex.a.
Outros senhores deputados — Bravo! Já disse tudo!
O sr. Noé da Anunciação (com as mãos em concha) — Deixa a mocinha falar, gente!
O sr. Marciano Condeúba — O venerando colega não escutou a música dos anjos?
O sr. Noé da Anunciação — Como, meu filho? Ando meio duro de ouvido, depois daquele acidente de tílburi, no largo da Sé, em 85…
O sr. Marta Rocha (tira da bolsa batom e espelhinho, e aplica-se meticulosamente a retificar a linha dos lábios. Terminada a operação, sorri. Um clarão celestial espalha-se pelo recinto. Os senhores deputados quedam-se em êxtase nas bancadas, as galerias fazem o mesmo; o sr. Presidente, com as mãos no queixo, tem uma particular expressão de beatitude) — Bem, sr. Presidente…
O sr. Caribé — Vá ser bonita nos quintos dos infernos, puxa!
O sr. Noé da Anunciação — O que é que esse moço aí está dizendo?
O sr. Caribé — Nada, não.
O sr. Firmino Azedo — Sr. Presidente, tudo isso está muito bem, mas lembro à casa que há quatro anos seguidos não votamos a proposta de orçamento do Estado, remetida pelo eminente governador Pedrinho Calmon. A Assembleia não aprovou sequer o projeto de aumento de subsídio. Sei que estou sendo impertinente, mas a Bahia, que a todos nos julgará…
O sr. Demóstenes Latino — Sr. Presidente, em nome da maioria protesto contra as insinuações malévolas do nobre deputado. A Bahia é testemunha de que se não foi possível produzir mais nesta legislatura é porque, sr. Presidente…
O sr. Romualdo Alecrim — Claro, claro! A minoria, por sua vez, repele a acusação inepta e infeliz. Dou testemunho de que nunca fomos tão assíduos a esta casa, e que passamos a nos reunir de janeiro a dezembro, sem parar. Se não há projetos votados, devemos atribuir o fato…
O sr. Presidente (dirigindo-se ao sr. Firmino Azedo) — O nobre deputado está expulso deste recinto! (Sensação.)
O sr. Crispim Moreno — Sr. Presidente, no dia em que for restabelecida a votação, pedirei preferência para o meu projeto que modifica o sistema métrico decimal. Esse sistema permitiu a inqualificável prevaricação do júri capitalista de Long Beach, há quatro anos, que privou a nossa pátria do título mundial a que fazia jus. Os infames trastes petrolíferos, por uma questão de poucas polegadas…
O sr. Demóstenes Latino — Malgrado a orientação doutrinária do nobre representante de Ilhéus, proponho, sr. Presidente, que o seu projeto seja votado imediatamente, de pé, e por aclamação.
(Tempestade de aplausos nas galerias.)
O sr. Presidente — Atenção, atenção, as galerias não podem votar! Bem, já votaram. Está aprovado o projeto!
O sr. Marta Rocha (sorrindo novamente) — Sr. Presidente, tenho dito.
(Delírio. O orador é carregado em triunfo.)

Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira 

Alongo-me

O rio nasce
toda a vida.
Dá-se
ao mar a alma vivida.
A água amadurecida,
a face
ida.
O rio sempre renasce
A morte é vida.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

O labirinto

Alma pronta

Uma alma pronta está preparada para se extinguir, dispersar-se ou subsistir caso seja, a qualquer altura, separada do corpo. Essa prontidão precisa resultar do próprio julgamento do homem, não da mera obstinação — feito os cristãos. Precisa ser ponderada, digna e persuasiva, mas não dramática.

Marco Aurélio, em Meditações

2 — Pôncio Pilatos



[…]

Prossiga!
Não houve mais nada — disse o prisioneiro. — Depois uns homens entraram correndo e começaram a me amarrar e me levaram para a prisão.
O secretário, tentando não perder uma palavra sequer, traçava as palavras no pergaminho rapidamente.
Nunca houve, não há e não haverá no mundo poder mais grandioso e maravilhoso para as pessoas do que o poder do imperador Tiberius! — cresceu a voz rasgada e doente de Pilatos.
O procurador, por algum motivo, olhava com ódio para o secretário e para o corpo de guardas.
E não é você, um criminoso demente, que deve discutir sobre ele! — Então Pilatos gritou: — Retirem o corpo de guardas da varanda! — E, voltando-se para o secretário, acrescentou: — Deixem-me a sós com o criminoso. É um assunto de Estado.
O corpo de guardas levantou as lanças e, batendo ritmicamente com as cáligas no chão, saiu da varanda para o jardim, e atrás dele saiu também o secretário.
O silêncio na varanda, durante algum tempo, só era interrompido pela canção da água do chafariz. Pilatos via como a água jorrava no prato sobre o tubo, deslizando pelas bordas e caindo em filetes.
O prisioneiro falou primeiro:
Vejo que ocorreu alguma desgraça por causa de minha conversa com esse jovem de Kerioth. Eu, Hegemon, tenho um pressentimento de que com ele acontecerá algum infortúnio, e tenho muita pena.
Eu acho — respondeu o procurador, sorrindo de forma irônica e estranha — que existe mais gente no mundo de quem você deveria sentir mais pena do que de Judas de Kerioth e que deve sofrer bem mais do que Judas! Então, Marcos Mata-ratos, um carrasco frio e convencido, as pessoas, que, como vejo — o procurador apontou para o rosto deformado de Yeshua —, bateram em você por causa de sua pregação, os bandidos Dismas e Gestas, que com seus comparsas mataram quatro soldados, e, finalmente, o sujo traidor Judas... todos eles são bons homens?
São — respondeu o prisioneiro.
E virá o reino da verdade?
Virá, Hegemon — respondeu Yeshua com firmeza.
Ele nunca virá! — Pilatos começou a gritar de repente, com uma voz tão terrível que Yeshua se afastou. Havia muitos anos, no vale das Virgens, Pilatos gritara as seguintes palavras a seus soldados: “Degolem-nos! Degolem-nos! O grandioso Mata-ratos foi preso!” Ele aumentou ainda mais a voz rasgada por causa das ordens, chamando de maneira que suas palavras fossem ouvidas no jardim: — Criminoso! Criminoso! Criminoso!
Depois, diminuindo o tom de voz, perguntou:
Yeshua Ha-Notzri, você acredita em deuses?
Existe apenas um Deus — respondeu Yeshua. — Acredito nele.
Então reze para ele! Reze muito! Aliás... — a voz de Pilatos falseou — isso não o ajudará. Você não tem mulher? — Pilatos perguntou, por alguma razão, com tristeza, sem entender o que lhe estava passando.
Não, sou sozinho.
Cidade odiosa... — o procurador, por alguma razão, balbuciou de repente, encolhendo os ombros. — Se o tivessem matado antes de seu encontro com Judas de Kerioth, realmente, teria sido melhor.
E você poderia me soltar, Hegemon — pediu o prisioneiro inesperadamente, e sua voz pareceu preocupada. — Vejo que querem me matar.
O rosto de Pilatos desfigurou-se em uma convulsão, e ele voltou para Yeshua seus olhos irritados e cobertos de veias vermelhas, dizendo:
Você supõe, seu infeliz, que o procurador romano soltará um homem que disse o que você disse? Oh, deuses, deuses! Ou você pensa que estou pronto para ocupar o seu lugar? Eu não partilho de seus pensamentos! E ouça: se, a partir desse minuto, você pronunciar uma palavra sequer, se começar a falar com alguém, tome cuidado comigo! Repito: tome cuidado!
Hegemon...
Calado! — gritou Pilatos e, com um olhar desvairado, acompanhou a andorinha que sobrevoou de novo a varanda. — Venham aqui! — gritou Pilatos.
E quando o secretário e o corpo de tropas retornaram para seus lugares, Pilatos declarou que confirmava a sentença de morte, pronunciada na reunião do Pequeno Sinédrio, ao criminoso Yeshua Ha-Notzri, e o secretário anotou o que foi dito por Pilatos.
Um minuto depois, Marcos Mata-ratos estava diante do procurador. Pilatos ordenou-lhe que entregasse o criminoso ao chefe do serviço secreto, transmitindo-lhe a ordem do procurador para que Yeshua Ha-Notzri fosse separado dos outros condenados e também que o comando do serviço secreto, sob a ameaça de pena severa, estava proibido de conversar sobre qualquer coisa com Yeshua ou de responder a qualquer uma de suas perguntas.
Ao sinal de Marcos, o corpo de tropas cercou Yeshua e o levou para fora da varanda.
Depois, diante do procurador, apresentou-se um belo rapaz de barba loura com penas de águia no penacho do capacete, cabeças de leões douradas brilhando no peito, chapinhas douradas no cinturão da espada, os calçados de três solas amarrados até os joelhos e a capa púrpura jogada no ombro esquerdo. Era o legado que comandava a Legião.
O procurador lhe perguntou onde se encontrava a coorte de Sebastião naquele momento. O legado comunicou que os seguidores de Sebastião mantinham o cerco à praça em frente ao hipódromo, onde seria anunciada ao povo a sentença dos criminosos.
Então, o procurador ordenou que o legado separasse duas centúrias da coorte romana. Uma delas, sob o comando de Mata-ratos, deveria fazer a guarda dos criminosos e dos carros com os mecanismos para a execução e com os carrascos a caminho do monte Gólgota e, ao chegar lá, cercar a área por cima. A outra centúria deveria ser enviada imediatamente para o Gólgota e começar a fazer o cerco no mesmo instante. Para isso, ou seja, para a guarda do monte, o procurador pediu ao legado que enviasse um regimento auxiliar da cavalaria — a ala síria.
Quando o legado deixou a varanda, o procurador mandou o secretário chamar ao palácio o presidente do Sinédrio, dois de seus membros e o chefe da guarda do templo de Yerushalaim, acrescentando, porém, que tudo se desse de tal maneira que, antes da reunião com todas essas pessoas, pudesse falar com o presidente mais cedo e a sós.
A ordem do procurador foi cumprida rápida e precisamente, e o sol, que queimava Yerushalaim com uma severidade incomum nesses dias, ainda não conseguira se aproximar de seu ponto mais alto quando, no terraço superior do jardim, ao lado dos dois leões brancos de mármore que guardavam a escada, encontravam-se o procurador e o presidente interino do Sinédrio, o sumo sacerdote da Judeia, José Caifás.
Fazia silêncio no jardim. Mas, ao sair da colunata para a área superior do jardim, banhada pelo sol, com palmeiras sobre monstruosas patas de elefantes, Yerushalaim, que o procurador tanto odiava, se descortinava diante dele, com suas pontes suspensas, fortalezas e, principalmente, o indescritível bloco de mármore com escamas douradas de dragão como telhado. Era o templo de Yerushalaim, ao longe, abaixo, lá onde o muro de pedra separava os terraços inferiores do jardim do palácio da praça da cidade e de onde o procurador captou com o ouvido apurado resmungos baixos, sob os quais soavam, às vezes, ora gemidos, ora gritos, fracos e agudos.
O procurador compreendeu que uma multidão inumerável de habitantes de Yerushalaim, preocupada com as últimas desordens, já estava reunida na praça, e que essa multidão aguardava impacientemente o anúncio da sentença, e vendedores de água gritavam aflitos.
O procurador convidou o sumo sacerdote para a varanda para se proteger do calor impiedoso, mas Caifás desculpou-se educadamente e explicou que não poderia fazer isso na véspera da festa. Pilatos pôs o capuz em sua cabeça um pouco calva e começou a conversa. A conversa era em grego.
Pilatos disse que tinha examinado o caso de Yeshua Ha-Notzri e confirmara a sentença de morte.
Assim, três bandidos estavam condenados à pena de morte, que deveria ser executada naquele dia: Dismas, Gestas, Bar-Raban, e, além destes, esse Yeshua Ha-Notzri. Os dois primeiros, pela intenção de incitar o povo a se rebelar contra César, foram presos pelo poder romano em batalha e estavam na conta do procurador; consequentemente, não iriam falar deles. Os dois últimos, Bar-Raban e Ha-Notzri, foram capturados pelo poder local e julgados pelo Sinédrio. De acordo com a lei, de acordo com a tradição, um desses dois criminosos deveria ser posto em liberdade em homenagem à grande festa da Páscoa que se aproximava.
Então, o procurador queria saber qual dos dois criminosos o Sinédrio pretendia soltar: Bar-Raban ou Ha-Notzri?
Caifás inclinou a cabeça em sinal de que para ele a questão estava clara e respondeu:
O Sinédrio pede que soltem Bar-Raban.
O procurador sabia muito bem que o sumo sacerdote lhe responderia exatamente assim, mas sua tarefa era demonstrar que tal resposta lhe causava espanto.
E foi isso que Pilatos fez com grande habilidade. As sobrancelhas em seu rosto soberbo se suspenderam, o procurador olhou com admiração diretamente nos olhos do sumo sacerdote.
Reconheço que essa resposta me surpreendeu — disse o procurador suavemente. — Temo se não há algum mal-entendido.
Pilatos explicou-se. O poder romano não respeitava em nada os direitos do poder espiritual local, e o sumo sacerdote sabia muito bem disso. No entanto, nesse caso havia um erro evidente. E o poder romano, é claro, estava interessado na correção desse erro.
De fato, os crimes de Bar-Raban e Ha-Notzri eram de gravidade incomparável. Se o segundo era evidentemente um doente mental, acusado de pronunciar discursos absurdos que intimidavam o povo de Yerushalaim e de algumas outras localidades, o primeiro tinha mais agravantes. Além de realizar incitações diretas a rebeliões, também matou um soldado durante as tentativas de capturá-lo. Bar-Raban era incomparavelmente mais perigoso do que Ha-Notzri.
Pelo exposto, o procurador pedia ao sumo sacerdote que revisse a decisão e pusesse em liberdade o menos nocivo dos dois condenados, ou seja, sem dúvida, Ha-Notzri. Então?...
Caifás disse com voz baixa, mas firme, que o Sinédrio analisara atentamente o processo e que comunicava, pela segunda vez, que estava disposto a libertar Bar-Raban.
Como? Mesmo depois da minha intercessão? Intercessão daquele que representa o poder romano? Repita pela terceira vez, sacerdote.
Pela terceira vez comunico que libertaremos Bar-Raban — disse Caifás baixinho.
Tudo estava terminado e não havia mais sobre o que falar. Ha-Notzri partia para sempre, e as dores terríveis e malditas do procurador ninguém mais curaria; não há remédio para elas além da morte. Mas não foi esse pensamento que impressionou Pilatos. Toda aquela mesma tristeza incompreensível, que sentira na varanda, tomava conta de todo o seu ser. Imediatamente, esforçou-se para explicá-la, e a explicação era estranha: parecia-lhe vagamente que não terminara sua conversa com o condenado, ou, quem sabe, que não ouvira bem alguma coisa.
Pilatos afastou esse pensamento, que se foi tão rapidamente quanto veio. O pensamento voou, mas a tristeza permaneceu inexplicável, pois não podia ser explicada por outro breve pensamento que brilhou feito um raio e logo se apagou: “Imortalidade... chegou a imortalidade...” A imortalidade de quem chegou? Isso o procurador não entendeu, mas o pensamento sobre essa imortalidade enigmática o fez gelar sob o sol quente.
Tudo bem — disse Pilatos. — Que assim seja.
Aqui ele olhou ao redor e lançou seu olhar para o mundo que lhe era visível e admirou-se com a mudança ocorrida. O arbusto inclinado sob o peso das rosas sumiu, sumiram os ciprestes, que orlavam o terraço superior, também a árvore de romãs, assim como a estátua branca no verde, e o próprio verde. No lugar disso tudo, flutuava uma massa púrpura e nela balançavam algas que se moviam para algum lugar, e junto com tudo isso se movia o próprio Pilatos. Agora era o mais terrível ódio que o levava, sufocando-o e queimando-o — o ódio da impotência.
Sufocado — disse Pilatos. — Sinto-me sufocado!
Com a mão úmida e fria, ele arrancou a fivela da gola da capa e a deixou cair na areia.
Hoje está abafado, está caindo uma tempestade em algum lugar — exclamou Caifás sem tirar os olhos do rosto avermelhado do procurador e, prevendo todos os sofrimentos que ainda teria de enfrentar, pensou. “Oh, Nissan está sendo um mês terrível esse ano!”
Não — disse Pilatos —, não é o tempo abafado, é a sua presença, Caifás, que me deixa sufocado. — Apertando os olhos, Pilatos sorriu e acrescentou: — Cuide-se, sumo sacerdote.
Os olhos escuros do sacerdote brilharam e ele expressou admiração em seu rosto, não menos habilmente que o procurador fizera antes.
O que estou ouvindo, procurador? — respondeu Caifás, tranquilo e soberano. — Você está me ameaçando após a sentença pronunciada e confirmada por você mesmo? Seria possível? Estamos acostumados com o procurador romano que escolhe palavras antes de dizer alguma coisa. Será que ninguém está nos ouvindo, Hegemon?
Pilatos lançou um olhar mortífero para o sumo sacerdote e, arreganhando os dentes, mostrou um sorriso.
O que é isso, sumo sacerdote! Quem poderia nos ouvir agora? Será que pareço o jovem vadio e vidente que será executado hoje? Por acaso sou um menino, Caifás? Sei o que digo e onde digo. O jardim está cercado, o palácio está cercado de tal forma que nem um rato passará por uma fresta! Não só rato, não passará nem mesmo aquele, como é mesmo... da cidade de Kerioth. A propósito, você o conhece, sumo sacerdote? É... se um desses entrasse aqui sentiria amarga pena de si mesmo, nisso, claro, você acredita em mim, não é mesmo? Então, saiba que a partir de hoje você não terá mais sossego! Nem você, nem seu povo. — Pilatos apontou para o horizonte, à direita, onde no alto o templo ardia em chamas. — Sou eu, Pôncio Pilatos, o cavaleiro da Lança Dourada, que estou lhe dizendo isso!
Sei, sei! — sem medo, respondeu Caifás, de barba preta, e seus olhos brilharam. Ele elevou o braço para o céu e prosseguiu: — O povo judeu sabe que você o odeia com um ódio severo e que vai lhe causar muitos sofrimentos, mas não conseguirá destruí-lo! Deus o protegerá! Ele nos ouvirá, o César todo-poderoso nos ouvirá e nos protegerá de Pilatos, o gênio do mal!
Oh, não! — exclamou Pilatos, e a cada palavra se sentia mais e mais leve: não precisava mais disfarçar, nem escolher palavras. — Você reclamou muito de mim a César e agora chegou a minha hora, Caifás! Uma notícia minha partirá, não para o chefe da Antióquia, nem para Roma, mas diretamente para Capri, ao imperador, a notícia de como vocês deixam escapar da morte os notórios rebeldes de Yerushalaim. E não será da água do lago de Salomão, como era o meu desejo pensando em vocês, que eu darei de beber a Yerushalaim! Não, não será com água, lembre-se, como, por causa de vocês, tive de tirar os escudos com as insígnias do imperador das paredes, tive de mover o Exército e vir em pessoa para ver o que estava acontecendo! Lembre-se de minhas palavras: o que verá aqui, sumo sacerdote, não será apenas uma coorte em Yerushalaim, não! Chegará aos muros da cidade toda a Legião Fulminata, a cavalaria arábica se aproximará e então você ouvirá o choro amargo e as lamentações! E então se lembrará do Bar-Raban que salvou e lamentará ter mandado para a morte um filósofo com sua pregação pacífica!
O rosto do sumo sacerdote cobriu-se de manchas, os olhos ardiam. Como o procurador, ele sorriu por entre os dentes e respondeu:
Será que você mesmo, procurador, acredita nisso que está dizendo? Não, não acredita! Não foi paz, não foi paz que o sedutor do povo nos trouxe para Yerushalaim, e você, cavaleiro, entende isso muito bem. Você queria libertá-lo para que perturbasse o povo, para que achincalhasse a fé e levasse o povo contra as espadas romanas! Porém eu, sumo sacerdote judeu, enquanto estiver vivo, não deixarei que achincalhem a fé e protegerei o povo! Está ouvindo, Pilatos? — Nesse instante, Caifás suspendeu o braço ameaçadoramente: — Ouça, procurador!
Caifás calou-se, e o procurador ouviu novamente como o barulho, parecido com o do mar, aproximava-se dos muros do jardim de Herodes, o Grande. O barulho subia de baixo dos pés até o rosto do procurador. Pelas costas, lá atrás das alas do palácio, ouviam-se toques de alerta das trombetas, o estalido pesado de centenas de pés, o tinido metálico — então o procurador compreendeu que a infantaria romana já estava saindo, conforme sua ordem, e dirigindo-se para a terrível parada pre-mortem dos rebeldes e bandidos.
Está ouvindo, procurador? — repetiu baixinho o sacerdote. — Será que vai me dizer que tudo isso — nesse momento, o sacerdote elevou os dois braços, e o capuz escuro escorregou de sua cabeça — foi provocado pelo pobre bandido Bar-Raban?
O procurador enxugou a testa molhada e fria com as costas da mão, olhou para o chão e depois apertou os olhos para o céu e viu a bola incandescente quase sobre sua cabeça. A sombra de Caifás havia encolhido totalmente perto do rabo do leão e o procurador disse baixinho e indiferente:
É quase meio-dia. Ficamos entretidos com a conversa e, no entanto, é preciso prosseguir.
Com expressões sofisticadas, o procurador desculpou-se diante do sacerdote, pediu que sentasse em um banco à sombra de uma magnólia e que aguardasse enquanto ele chamava as outras pessoas, necessárias para a última e breve reunião, e dava ainda uma ordem, relacionada à execução.
Caifás agradeceu educadamente, pôs a mão no peito e permaneceu no jardim, enquanto Pilatos voltou para a varanda. Lá mandou o secretário, que o esperava, chamar para o jardim o legado da Legião, o tribuno da coorte e, também, dois membros do Sinédrio e o chefe da guarda do templo, que aguardavam o chamado no coreto redondo com chafariz no terraço inferior. Pilatos acrescentou que logo sairia para o jardim, mas se retirou para dentro do palácio.
Enquanto o secretário reunia o conselho, o procurador, dentro do quarto protegido do sol pelas cortinas, encontrava-se com um homem que tinha o rosto coberto pela metade com o capuz, embora dentro do quarto os raios de sol não pudessem incomodá-lo. O encontro foi extremamente breve. O procurador disse baixinho ao homem algumas palavras, após as quais este se retirou e Pilatos dirigiu-se, através da colunata, para o jardim.
Lá, na presença de todos que queria ver, o procurador confirmou solene e secamente que ele aprovava a sentença de morte de Yeshua Ha-Notzri e que, oficialmente, havia tomado conhecimento pelos membros do Sinédrio sobre qual dos prisioneiros deveria ficar vivo. Ao receber a resposta de que era Bar-Raban, o procurador disse:
Muito bem. — Mandou o secretário anotar isso no protocolo no mesmo instante, apertou na mão a fivela encontrada na areia pelo secretário e disse solenemente: — Está na hora!
Nesse instante, todos os presentes puseram-se em movimento, desceram pela larga escada de mármore entre os muros de rosas que exalavam um aroma nauseabundo, descendo mais e mais até o muro do palácio, até os portões que levavam à grande praça, pavimentada com pedras, no fim da qual se avistavam as colunas e estátuas da liça de Yerushalaim.
Assim que o grupo saiu do jardim para a praça e subiu no amplo palanque de pedra que ali reinava, Pilatos, olhando através das pálpebras semicerradas, tomou ciência da situação. O espaço pelo qual havia passado, ou seja, o espaço entre o muro do palácio até o palanque, estava vazio, porém, à sua frente, Pilatos já não via a praça — a multidão a tomara. A multidão também teria tomado o próprio palanque e aquele espaço aberto, se não fosse retida pelas fileiras triplas dos soldados de Sebastião, à esquerda de Pilatos, e pelos soldados da coorte auxiliar da Itureia, à sua direita.
Então, Pilatos subiu ao palanque, apertando mecanicamente no punho a dispensável fivela e franzindo os olhos. Não era por causa do sol que o procurador estava franzindo os olhos, não! Por algum motivo, ele não queria ver o grupo de condenados que, como sabia perfeitamente, subiria atrás dele no palanque.
Assim que o manto branco com aplicações púrpuras surgiu no alto do penhasco de pedra sobre a beirada do mar humano, uma onda sonora bateu nos ouvidos do invisível Pilatos: “Aaahh...” Ela começou baixinho, nasceu ao longe, perto do hipódromo, depois se tornou retumbante e, sustentando-se por alguns segundos, começou a diminuir. “Eles me viram”, pensou o procurador. A onda não chegou ao ponto mais baixo e, inesperadamente, começou a crescer novamente, oscilando, aumentou ainda mais alto do que a primeira. E, na segunda onda, como fervilha a espuma numa vala marítima, ferveu um assobio e diversos gemidos femininos isolados foram ouvidos através das trovoadas. “Eles subiram ao palanque...”, pensou Pilatos, “e os gemidos são de algumas mulheres pisoteadas quando a multidão avançou”.
Ele aguardou um tempo, sabendo que nenhuma força jamais faria a multidão se calar, enquanto ela não extravasasse tudo aquilo que havia acumulado dentro dela e que não se calaria sozinha.
E, quando esse momento chegou, o procurador estendeu o braço direito para o alto e o último ruído soprou da multidão.
Então, Pilatos encheu o peito o quanto pôde de ar quente e gritou, e sua voz rouca soou sobre milhares de cabeças:
Em nome do imperador César!
Nesse instante, um grito metálico e entrecortado bateu algumas vezes em seus ouvidos — nas coortes, erguendo as lanças e os estandartes para o alto, os soldados deram um terrível grito:
Viva César!
Pilatos levantou a cabeça e a expôs diretamente ao sol. Sob as pálpebras explodiu um fogo verde, dele seu cérebro ardeu e, sob a multidão, voaram as palavras roucas em aramaico:
Quatro criminosos, presos em Yerushalaim por assassinato, incitação à rebelião e desrespeito às leis e à fé, foram sentenciados à vergonhosa execução, ao enforcamento em postes! E essa execução será no monte Gólgota! Os nomes dos criminosos são: Dismas, Gestas, Bar-Raban e Ha-Notzri. Ei-los diante de vocês!
Pilatos apontou com a mão direita sem ver nenhum dos criminosos, mas sabia que estavam lá, no lugar onde deveriam estar.
A multidão respondeu com um longo rumor de admiração ou alívio. Depois que ela cessou, Pilatos prosseguiu:
Porém, serão executados somente três deles, pois, de acordo com a lei e a tradição, em homenagem à festa da Páscoa, a um dos condenados, escolhido pelo Pequeno Sinédrio e com a aprovação do poder romano, o benevolente César imperador devolve a vida miserável!
Pilatos gritava as palavras e, ao mesmo tempo, ouvia como o rumor era substituído por grande silêncio. Agora, não se ouvia uma respiração sequer, nenhum barulho chegava a seus ouvidos e houve um instante em que pareceu que tudo ao seu redor havia sumido. A cidade odiada por ele tinha morrido e somente ele estava lá, queimado pelos raios verticais, com o rosto voltado diretamente para o céu. Pilatos ainda manteve o silêncio e depois começou a gritar:
O nome daquele que agora será libertado na presença de vocês...
Ele fez mais uma pausa, segurando o nome, conferindo se havia dito tudo, pois sabia que a cidade morta iria ressuscitar depois de anunciado o nome do felizardo e que mais nenhuma palavra seria ouvida.
Pronto?”, sem pronunciar um som sequer, Pilatos cochichou para si mesmo. — Pronto. O nome!
E, esticando a letra “r” sobre a cidade calada, ele gritou:
Bar-Raban!
Nesse instante, pareceu-lhe que o sol, tilintando, explodira sobre ele e encharcara seus ouvidos com fogo. Nesse fogo esbravejavam berros, gritos, gemidos, gargalhadas e assobios.
Pilatos virou-se e caminhou para trás pelo palanque até os degraus, sem olhar para nada, além dos sabres coloridos sob seus pés para não tropeçar. Ele sabia que agora, ao virar as costas, eram atiradas ao palanque, feito granizo, moedas de bronze e tâmaras; que, na multidão rumorosa, as pessoas, pisoteando umas às outras, subiam nos ombros para ver o milagre com seus próprios olhos: como uma pessoa que já estava nas mãos da morte escapara dessas mãos! Como os legionários lhe retiravam as cordas, causando-lhe involuntariamente uma dor ardente nas mãos torcidas durante os interrogatórios, como ele, fazendo careta e suspirando, ainda sorria com um sorriso insensato e louco.
Ele sabia que, nesse momento, o corpo de tropas estava levando para os degraus laterais os três com as mãos amarradas, para levá-los até a estrada para o ocidente, para fora da cidade, até o monte Gólgota. Somente quando se viu atrás do palanque, no fundo, Pilatos abriu os olhos, sabendo que agora estava seguro, não podia mais ver os condenados.
Ao gemido da multidão, que começava a se acalmar, misturavam-se, e eram perceptíveis, os estridentes gritos dos arautos que repetiam o que o procurador gritara do palanque, uns em aramaico, outros em grego. Além disso, aos seus ouvidos, voou o som que se aproximava, fragmentado e matraqueado, do tropel dos cavalos e da trombeta, que tocou algo curto e alegre. A esses sons respondeu um assobio estridente de meninos sentados nos telhados das casas da rua que saía do mercado e terminava na praça do hipódromo, e os gritos de “Cuidado!”.
Um soldado, que estava parado sozinho no espaço liberado da praça com um estandarte na mão, agitou-o preocupado. Então o procurador, o legado da Legião, o secretário e o corpo de tropas pararam.
A ala da cavalaria, trotando cada vez mais rápido, voou pela praça para atravessá-la pela lateral, passando diante do amontoado de gente e a seguir pela travessa sob o muro de pedra, no qual se estendia uma parreira, que levava à estrada mais curta para o Gólgota.
Voando a trote, quando o comandante da ala, pequeno como um menino e escuro como um mulato — um sírio —, alcançou Pilatos, gritou algo forte e puxou a espada da bainha. O maldoso cavalo murzelo, transpirando, afastou-se bruscamente e empinou-se. Embainhando a espada, o comandante chicoteou o cavalo no pescoço, acertou o passo e trotou para a travessa, começando a galopar. Seguindo-o, os três cavaleiros lado a lado voaram numa nuvem de poeira, as pontas das lanças leves de bambu começaram a pular e eles passaram diante do procurador, parecendo ainda mais mulatos sob os turbantes brancos, com os rostos alegres e dentes brilhantes e arreganhados.
Levantando poeira até o céu, a ala irrompeu na travessa, e o último a passar a galope diante de Pilatos foi um soldado com uma trombeta nas costas que brilhava ao sol.
Protegendo o rosto da poeira com a mão e fazendo careta involuntariamente, Pilatos continuou a andar, dirigindo-se aos portões do jardim do palácio, e atrás dele caminhavam o legado, o secretário e o corpo de guardas.
Eram aproximadamente dez horas da manhã.

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Eliane Elias | Eu sambo mesmo

 

Entre o ser e as coisas

Onda e amor, onde amor, ando indagando
ao largo vento e à rocha imperativa,
e a tudo me arremesso, nesse quando
amanhece frescor de coisa viva.
 
Às almas, não, as almas vão pairando,
e, esquecendo a lição que já se esquiva,
tornam amor humor, e vago e brando
o que é de natureza corrosiva.
 
N’água e na pedra amor deixa gravados
seus hieróglifos e mensagens, suas
verdades mais secretas e mais nuas.
 
E nem os elementos encantados
sabem do amor que os punge e que é, pungindo,
uma fogueira a arder no dia findo.

Carlos Drummond de Andrade, em Claro Enigma

Pratos variados



O nosso garçom no Tre Scalini, na Piazza Navona de Roma, desaparecia por longos períodos. Desconfiava-se que fosse visitar a família ou jantar no restaurante ao lado. Quando reaparecia, era disputado aos gritos por diversas mesas, em diversos idiomas.
Desprezava a todos com a mesma empáfia. Mas conseguimos, finalmente, fazer o nosso pedido. Dizer que a massa estava perfeita é não dizer nada. O difícil é comer uma massa que não seja perfeita na Itália. Extraordinário estava o prato de antipasti, metade dos quais eu nem consegui identificar mas comi com igual entusiasmo. Só de azeitonas havia quatro variedades. Depois da massa pedimos — aproveitando uma das infrequentes aparições do garçom — o sorvete Tartufo, que faz a fama do restaurante. É uma espécie de torta de chocolate gelada e a fama é merecida. E a Piazza Navona fica ainda mais bonita depois do jantar.
A história de que em Paris se come bem em qualquer boteco é mito que não resiste ao primeiro boteco. Numa brasserie perto do Arco do Triunfo, à qual recorremos porque já era tarde e em Paris a gente caminha, e nunca chega ao Treviso, comi certamente a pior omelete da minha vida. Os restaurantes franceses, de qualquer categoria, estes sim raramente falham. Num restaurante da Madeleine, que por certo não receberia nem um cumprimento do Guide Michelin, quanto mais uma estrela, comi um magret de canard, que é uma espécie de bife feito de alguma misteriosa parte do pato, fantástico. Precedido de ostras e acompanhado de vinho nacional.
Na Place des Vosges, a mais antiga de Paris, descobrimos um restaurante que, pelo aspecto, antecedia a praça: Monsieur Não Sei o Que de Cocconnas. Primeiro uma terrine de canard e depois um peixe coberto com molho crocante indescritível que foi a melhor coisa que comi nesta viagem. A Lúcia pediu o pot au feu, um grande cozido no qual entrava, desconfio, até o plano qüinqüenal do Giscard D’Estaing. O vinho foi um tinto da região do Rhône, esfriado para não destoar do peixe.
Fizemos uma única extravagância alimentar em Paris, embora na verdade nada em Paris, fora a paisagem, seja muito barato. Fomos comer no Les Belles Gourmandes, cuja existência o Michelin pelo menos reconhece. Carré d’agneau para duas pessoas. Pela primeira vez compreendi o verdadeiro sentido das palavras cordeiro de Deus. Comecei a traduzir a conta para cruzeiros, mas desisti no segundo zero. Certas coisas não ajudam a digestão.
Fomos jantar com a Berenice Otero — que está ótima — no Coup Chou, que já conhecíamos mas que merece várias revisitas. O meu prato estava muito bom, mas confesso que passei todo o jantar de olho no prato da Berenice, que tinha tanta coisa para contar que nem tocava na comida. A educação foi mais forte e cheguei ao fim da noite sem avançar no prato de ninguém, no entanto. Mas estive tentado. Outra constatação parisiense: o Marco Aurélio Garcia está cozinhando cada vez melhor. E está experimentando com sobremesas!
O nosso hotel em Londres, o Cumberland, tem dois restaurantes. Um é o L’Épée d’Or, que justifica o nome de espada especializando-se em coisas no espeto, tais como o prato que os franceses chamam de brochette mas os gaúchos — tá doido — preferem chamar de xixo, uma corruptela do shisykebab, e que em certas churrascarias locais devia se chamar corruptela mesmo. O outro restaurante do Cumberland é o Carvery, onde, por um preço fixo, você pode se servir quantas vezes quiser de grandes assados de carne de rês ou porco, expostos num balcão supervisionado por chefs de chapelão. Fomos uma vez no L’Épée d’Or.
O serviço em quase todos os restaurantes ingleses a não ser os mais tradicionais é feito por imigrantes, uma variedade de raças e sotaques que só tem uma coisa em comum: o péssimo serviço. Hindus, indianos ocidentais, espanhóis, portugueses e italianos distraem-se tanto desentendendo-se, que esquecem de atender as mesas. No L’Épée d’Or a comida não justifica o caos, e ainda por cima há o perigo sempre presente de uma briga acabar com espetos voando sobre a clientela. Não voltamos lá. No Carvery, da primeira vez que tentamos entrar, o maître — português — nos informou que era impossível, o restaurante fecharia dali a pouco e ainda havia 50 pessoas esperando a vez. Tentamos na noite seguinte. Impossível, nos disse o maître. Desta vez, um espanhol. Havia 80 pessoas esperando. “Amanhã ele diz que tem 100”, apostei. Voltamos na noite seguinte só para conferir a aposta. “Impossível”, disse o italiano, “há 100 pessoas esperando para sentar.” Saí frustrado mas satisfeito. Tentamos ainda outro dia e desta vez — surpresa! — conseguimos entrar. A carne é fantástica. E a vantagem é que você é servido por brasileiros solícitos: você mesmo.
Quanto mais eu conheço restaurantes chineses por aí mais gosto do Pagoda de Porto Alegre. Com a possível exceção do Empress of China, em São Francisco, ainda não encontrei nenhum que se iguale. Em Londres, talvez tenha nos faltado sorte. Há dezenas de chineses no Soho, a gente escolhe um, entra, e depois fica pensando que o bom provavelmente é o do lado. Já sei, já sei. A solução é, da próxima vez, escolher um para entrar e entrar no do lado. Fomos a apenas um restaurante, digamos assim, mais encorpado, em Londres. O Bentley’s da Swallow Street, que já conhecíamos de outra viagem e que nos fora recomendado pelo Armando Coelho Borges. Coisas do mar. Continua bom. Também fomos na Chesa, um dos três restaurantes do centro suíço de turismo, excelente. E eu que pensei que já conhecia batatas suíças…

Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora

Diário de Bernardo Soares

103.

Cultivo o ódio à ação como uma flor de estufa. Gabo-me para comigo da minha dissidência da vida.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

O Jardim Perdido



Algumas frases no livro se tornaram desde o início objeto de lenda e paródia. Havia o começo, surpreendente numa obra de antropologia e de viagem pelo Amazonas: “Je haïs les voyages et les explorateurs” (“Odeio as viagens e os exploradores”). Havia a coda final — um monstro de uma sentença, cláusulas e mais cláusulas ornamentadas se empilhando, um sforzando barroco trinando até pousar na imagem, ao mesmo tempo cômica e mágica, do “breve relance do olhar, carregado de paciência, serenidade e perdão recíproco que um entendimento involuntário às vezes permite trocarmos com um gato” (a tradução em inglês é uma boa tentativa: “the brief glance, heavy with patience, serenity, and mutual forgiveness, that, through some involuntary understanding, one can sometimes exchange with a cat”, embora perca o páthos de “alourdi de patience” e a insinuação de uma quase graça teológica em “pardon réciproque qu’une entente involontaire permet parfois”). Tristes trópicos agora tem quase vinte anos. No intervalo, Claude Lévi-Strauss realizou em larga medida aquela revolução na antropologia, aquela renovação do vocabulário, dos rumos da argumentação própria ao “estudo do homem”, que eram pleiteadas por Tristes trópicos. Até onde alcança o clima geral da cultura letrada, ele é não só o mais celebrado antropólogo-etnógrafo vivo, mas também um escritor cujos tratados técnicos visivelmente especializados conseguiram penetrar na sensibilidade geral. O “estruturalismo” de Lévi-Strauss, termo na moda, mas não muito definido, de certa forma parece constituir o eixo dos trabalhos atuais em linguística e psicologia, em estudos sociais e estética. Mas a fama de Lévi-Strauss, a influência que ele exerce no tom de nossa cultura e de nossa palração de leitores instruídos (o reflexo pálido e suave que os meios de comunicação de massa devolvem à vida do espírito), tem uma forma paradoxal. Ela cresceu inversamente à posição dele entre seus pares profissionais. Do ponto de vista dos colegas antropólogos e etnógrafos, a curva segue mais ou menos este traçado: apesar da brevidade do trabalho de campo no Brasil nos anos 1930 e da metodologia talvez controversa, depois Lévi-Strauss produziu um estudo clássico das relações de parentesco, As estruturas elementares do parentesco, publicado em 1949. Junto com vários artigos técnicos escritos durante os anos que passou nos EUA e um pouco depois, essa opus constitui um desenvolvimento fundamental da compreensão do parentesco e da sociedade primitiva, que se iniciara com Marcel Mauss, Émile Durkheim e a escola antropológica britânica. No início dos anos 1950, em colaboração com Roman Jakobson, Lévi-Strauss começou a defender a existência de analogias fundamentais, de reciprocidades conceituais e metodológicas entre a linguística e a antropologia. Foi também um avanço estimulante. Certamente há muito a se aprender com a possível concordância entre a estrutura formal de uma língua e as estruturas sociais que ela organiza e reflete (a observação de Lévi-Strauss de que uma sociedade não pode proibir aquilo que não sabe nomear e classificar, e de que o reconhecimento do parentesco permitido ou proibido depende de uma precisão correspondente na designação linguística, é obviamente profunda e preciosa). Mas esses paralelos, quando podem ser demonstrados, precisam ser manuseados com extrema cautela. Saltar da escala monográfica para um modelo universal de funcionamento da mente humana, construir uma vasta teoria da mente e da evolução sobre uma base tão frágil, é abandonar os ideais da ciência. É isso, dizem os antropólogos, que Lévi-Strauss fez com Tristes trópicos e continua a fazer desde então. Ele pode ser um escritor de talento, um criador de mitos modernos, uma espécie de filósofo, mas não é mais um antropólogo que tem responsabilidade perante a opaca monotonia do detalhe, o “este é o caso”. Há um precedente famoso. Para poetas e dramaturgos, para o público em geral, sir James Frazer era o príncipe dos antropólogos; para os colegas de profissão e sucessores imediatos, era um fiandeiro de palavras preso no denso nevoeiro que ele mesmo tinha criado. Assim, as “Mitológicas”, a “mitologia dos mitos” em quatro volumes que tem ocupado Lévi-Strauss nos últimos quinze anos ou mais, serão — quando a tradução estiver completa — nosso Ramo de ouro.
É um tipo de constelação que reconhecemos: um especialista ultrapassa sua área técnica e adquire grande renome; os colegas que deixou para trás cerram fileiras num repúdio melindrado. É a história de Marx e os economistas acadêmicos, de Freud e os psicólogos contemporâneos, de Toynbee e os historiadores. A situação não se abranda quando o novo “astro” expressa sua impaciência com a mesquinharia, o paroquialismo corporativo de seus pares de outrora. (Lévi-Strauss, aliás, é um mestre do desdém.) Depois de um período — assim dizem a história e a hagiografia intelectual —, descobre-se que a obra do grande dissidente alterou a totalidade do campo com o qual rompera, e os detratores sobrevivem como ácidas notas de rodapé nas memórias do Mestre.
A resposta a isso precisa ser incomodamente dupla, afirmativa e negativa. Se as análises de Marx sobre o conflito social são ou não são “científicas”, se suas previsões têm ou não têm alguma força que se possa verificar, são questões que continuam controvertidas. Ninguém duvidaria da envergadura das realizações de Freud, da força moldadora de sua concepção filosófico-literária sobre o clima dominante da sensibilidade ocidental. Mas o modelo terapêutico que ele procurou universalizar e os fundamentos neurofisiológicos que tentou estabelecer para esse modelo vêm se revelando cada vez mais fugidios. As correntes “avançadas” dos estudos recentes da mente e do comportamento humano não são freudianas. O quadro que temos não é, pelo menos não inequivocamente, o do gênio individual, da rejeição invejosa dos colegas menos dotados e da apoteose subsequente. O que parece se dar é um desenvolvimento apenas dentro de uma área sensível de um campo tradicional. Esse desenvolvimento, que de início observa as convenções e a linguagem profissional do campo, logo se torna grande demais, problemático demais, para caber dentro das categorias estabelecidas. Ele rompe e arrasta consigo uma parte desse seu campo. Surgem novos ordenamentos: a “linguística antropológica”, a “semiótica” (que é a investigação sistemática dos signos e dos símbolos) surgiram da crise da antropologia clássica e do “impulso gravitacional” de Lévi-Strauss rumo a uma concepção conjunta da linguagem e da estrutura biológico-social. A querela entre o grande homem e seus colegas pragmáticos é, muitas vezes, sintoma de transição e reajuste. Em certo sentido, a relação de Lévi-Strauss com a antropologia desde o princípio foi tão ambivalente, tão intrinsecamente subversiva quanto, digamos, a relação de Marx com a teoria monetária e econômica clássica. Essa “duplicidade”, essa provocação, explica a opacidade e a importância de Tristes trópicos.
A nova tradução e edição (Atheneum, 1973) supera a versão de 1961. Por razões que nunca ficaram inteiramente claras, vários capítulos foram omitidos da edição inicial em inglês; agora estão incluídos. Foram incorporadas as alterações que Lévi-Strauss fez à edição francesa de 1968. Traduzir Lévi-Strauss é uma tarefa não só árdua, mas também feita sob a sombra exigente e rigorosa do autor. Embora tenham adotado um partido às vezes um pouco cansativo e dilatado demais, justamente com a intenção de esclarecer, de dissecar a retórica sinuosa do original, John e Doreen Weightman realizaram um trabalho admirável. Não raro, quando dificuldades especiais atrapalham a leitura, deixamos a linguagem de Lévi-Strauss e recorremos à deles. E, sendo os tradutores das “Mitológicas”, os Weightman mostram uma perspicácia inigualável ao verter a gênese do vocabulário de Lévi-Strauss, ao ver onde e como se iniciaram algumas de suas atitudes características.
Num determinado nível, Tristes trópicos é uma autobiografia intelectual, ironicamente ciente das distorções, das autodramatizações, complacentes ou críticas, inevitáveis num autorretrato. Mas as lembranças de Lévi-Strauss de sua carreira acadêmica, ao mesmo tempo brilhante e apaticamente vazia, levam a uma passagem que melhor pode fornecer a chave de sua obra. Por volta dos dezesseis anos de idade, ele conheceu as teorias de Freud e os textos fundamentais de Marx. Viu em ambos uma espécie de geologia, uma promessa da compreensão em profundidade, uma estratégia de atravessar a superfície das aparências no homem e na história social:

A passagem é difícil, mas oferece uma pista inequívoca. Combinando Marx e Freud (em relação aos quais Lévi-Strauss se mantém em certa posição de igualdade), usando o paradigma da geologia, com suas noções de superfície e estratos subjacentes e formadores — paradigma que já sugere a linguística moderna —, devemos desenvolver uma espécie de entendimento orgânico e unificador do que “significam as coisas”. Nesse estágio inicial de seu pensamento, Lévi-Strauss deu a esse entendimento da estrutura o nome de “super-racionalismo”, que não é um termo muito útil. Hoje ele poderia chama-lo de “mythologique”, uma lógica racional das maneiras (“mitos”) como o homem representa, enuncia e controla sua condição biológica, psíquica e social. Apenas tal compreensão, palavra que supõe uma apreensão completa, apenas tal understanding, palavra que, com seu prefixo under-, implica descer, se aprofundar, poderiam justificar o orgulhoso nome “antropologia”, estudo do homem. Ser um antropólogo nesse sentido total significava preencher e completar as análises socioeconômicas do marxismo com a leitura freudiana da consciência. Para isso, o jovem Lévi-Strauss estava disposto a abandonar a filosofia e aceitar um posto secundário para dar aulas em São Paulo.

O conflito entre esta concepção e a concepção normal da etnologia e do trabalho de campo é mais do que evidente. Lévi-Strauss empreendeu longas expedições, fisicamente penosas, pelo interior do Brasil. Tristes trópicos traz um relato detalhado de sua vida com vários grupos indígenas. Num dos casos, pode ter sido o primeiro contato com um homem branco desde alguns encontros casuais no século XVI. Suas anotações sobre a alimentação, os costumes sexuais e os artefatos dos índios eram disciplinadas e copiosas. Comeu comida bichada, passou sede nos grandes planaltos, percorreu entre tropeções a floresta virgem. Mas o foco, o enquadramento do diagnóstico, nunca foi o do antropólogo tradicional; diante dos elaborados desenhos faciais das mulheres kaduveu, nenhum “cientista” de campo concluiria que elas:

Nenhum psicólogo comportamental, observando as palhoças isoladas no interior brasileiro, afirmaria confiante que aqueles grupos de habitantes “desenvolveram várias formas de loucura” para conseguir enfrentar a chuva, a desnutrição e o abandono. Além disso, quando Lévi-Strauss atravessa os ermos lunares do interior, o que o fascina não é tanto a etnografia do grupo de nhambiquaras com que está viajando: é a relação do mundo ameríndio com a linha do telégrafo que se estende, semiabandonada, pelas vastidões estéreis diante deles.
O simbolismo é crucial. Como a famosa imagem de Joseph Conrad de uma canhoneira disparando tiros absurdos numa margem costeira da impenetrável floresta africana, a evocação da linha do telégrafo pelo Mato Grosso, em Lévi-Strauss, anuncia uma dúvida fundamental. Expressa as ilusões rapaces do homem branco e da tecnologia em suas relações com o mundo primitivo. Mas a rapacidade e as ilusões se estendem, e estão talvez manifestas com ironia ainda maior, na própria atividade da antropologia. A obsessiva percepção de Lévi-Strauss nesse ponto é, como ele mesmo ressalta, uma redescoberta: a natureza dúbia da abordagem antropológica, do estudo racional do homem como foi desenvolvido pelo Ocidente, já era evidente para Rousseau, o verdadeiro mestre de Lévi-Strauss. Apenas o homem ocidental — começando em Heródoto — gerou uma curiosidade sistemática sobre as outras raças e culturas; somente ele saiu para explorar os cantos mais remotos da terra em busca da classificação, da definição por contraste e comparação de sua própria superioridade. Mas essa busca, tantas vezes desinteressada e altruísta, levou consigo a conquista e a destruição. O pensamento analítico tem em si uma estranha violência. Conhecer analiticamente é reduzir o objeto de conhecimento, por mais complexo, por mais vital que possa ser, simplesmente a isto: um objeto. É desmembrar. Mais do que qualquer outro “conhecedor”, o antropólogo leva a destruição junto com ele. Nenhuma cultura primitiva sobrevive incólume à sua visitação. Mesmo os presentes que leva — medicamentosos, materiais, intelectuais — são fatais para as formas de vida, tal como as encontrou. A busca ocidental do conhecimento é, num sentido trágico, a exploração final.

É essa fatalidade que confere a Tristes trópicos seu registro elegíaco, até apocalíptico. “Uma civilização proliferante e demasiado agitada rompeu o silêncio dos mares para sempre.” Aonde quer que o viajante branco vá, ele encontra a desolação, os vestígios cruéis da pilhagem e da doença trazidas por suas conquistas anteriores. As tribos índias, as paisagens que o jovem Lévi-Strauss encontrou não eram edênicas, não eram “primitivas” em sentido puro. Encarnavam uma longa crônica de infecção, destruição ecológica e deslocamento forçado. O que tornava os povos da floresta inacessíveis não era tanto o isolamento geográfico ou o terreno acidentado. Era o fato brutal de que complexos grupos étnico-linguísticos, antes à vontade num amplo território, agora estavam reduzidos a poucos. “Até onde sei, ninguém voltou a ver os mundés desde minha visita, exceto uma missionária que encontrou um ou dois deles logo antes de 1950, no Guaporé de Cima, onde três famílias tinham procurado refúgio.” A dizimação é a culpa irreparável do homem branco. Mas não exclusivamente. Lévi-Strauss é um observador demasiado sutil, demasiado irônico para não sugerir que há na ruína das culturas primitivas um mecanismo ainda mais secreto de limitação, de uma inevitável inadequação. Os primeiros exploradores a chegar ao Brasil e à América Central encontraram civilizações que tinham “alcançado o pleno desenvolvimento e perfeição de que suas naturezas eram capazes”. A ressalva é obscura, mas vem tingida de um fatalismo quase calvinista.
Esse “calvinismo” (Lévi-Strauss, pessoalmente, preferia falar em “pessimismo schopenhaueriano”) gera sua própria alegoria punitiva. O que o etnógrafo encontrou em suas incursões amazônicas não foi o paraíso perdido, e sim uma paródia e uma destruição deliberada dos últimos pomares do Jardim do Éden. Era como se um homem, expulso do Jardim por ter colhido o fruto proibido da árvore do conhecimento — coleta essa que define sua eminência e solidão no mundo orgânico —, tivesse voltado furioso e começasse a arrancar todo e qualquer vestígio do Éden perdido que encontrasse em sua paisagem. Lévi-Strauss percebe na catástrofe ecológica, no tratamento assassino e, no entanto, também suicida que damos ao meio ambiente, muito mais do que mera ganância ou estupidez. O homem é possuído de alguma obscura fúria contra sua própria lembrança do Éden. Aonde quer que vá e encontre paisagens ou comunidades que parecem se assemelhar à sua imagem da inocência perdida, ele arremete e espalha destruição.
Assim, se Tristes trópicos é um dos primeiros clássicos da atual angústia ecológica, também é muito mais do que isso; em última análise, é uma alegoria moral-metafísica do fracasso humano. Avança numa arrogante melancolia até a imagem do globo — que se resfria, esvaziado da humanidade, purificado do lixo humano — que aparece na coda das “Mitológicas”. Há melodrama nessa antecipação, há certa pomposidade (e é uma bela e acertada coincidência que a cátedra que Lévi-Strauss irá ocupar dentro de poucas semanas na Academia Francesa seja a de Montherlant). Mas há também uma dor profunda e genuína. A “antropologia”, diz Lévi-Strauss concluindo Tristes trópicos, agora pode ser vista como “entropologia”: o estudo do homem se tornou o estudo da desintegração e da extinção certa. Não existe trocadilho mais sombrio na literatura moderna.
3 de junho de 1974

George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos

terça-feira, 28 de abril de 2026

Do rio ao mar | O Teatro Mágico

Essa não!

Lili teve conhecimento dos antípodas, na escola.
Logo que chegou em casa, começou a deitar sabença pra cima da cozinheira. Falou, falou, e, como visse que Sia Hortênsia não estava manjando nada, ergueu no ar o dedinho explicativo:
Imagine só que quando aqui é meio-dia lá na China é meia-noite!
Credo! Eu é que não morava numa terra assim...
Mas por que, Sia Hortênsia?
Uma terra onde o dia é de noite... Cruzes!

Mário Quintana, em Caderno H

Quarto capítulo — A Lição de Siqueleto




Uma vez mais Tuhair decide explorar os matos vizinhos. A estrada não traz ninguém. Enquanto a guerra não terminasse era mesmo melhor que nenhuma pessoa estradeasse por ali. O velho sempre repetia:
Alguma coisa, algum dia, há-de acontecer. Mas não aqui, emendava baixinho.
De facto, a única coisa que acontece é a consecutiva mudança da paisagem. Mas só Muidinga vê essas mudanças. Tuahir diz que são miragens, frutos do desejo de seu companheiro. Quem sabe essas visões eram resultado de tanto se confinarem ao mesmo refúgio. Por isso ele queria uma vez mais partir, tentar descobrir nem sabia o quê, uma réstia de esperança, uma saída daquele cerco.
Você quer sair, não é?
Quero, tio. Esta estrada está morta.
Esta estrada está morta!? Mas não entende que isso é muito bom, esta estrada estar morta é que nos dá boa segurança?
Mas nós, desta maneira, não vamos a lado nenhum...
Isso quer dizer que também aqui não chega ninguém.
O velho pondera: não valia a pena insistir. O melhor seria uma mentira, dessas tecidas pela bondade. Diria ao miúdo que aceitava partir. Depois fingiria afastar-se, enquanto andavam em círculos. Regressariam sempre ao machimbombo, à mesma estrada de onde haviam partido. Assim ele fizera desde a primeira vez que saíram da estrada.
Nessa tarde, o velho comanda uma dessas falsas viagens. Primeiro, seguem ao longo da picada. A estrada onde moram surge a Muidinga com novas vistas, parecendo pentear a savana, risco ao meio. Só depois derivam por atalhos e trilhos. No sossego da paisagem nenhuma coisa pedia urgência. Contudo, Muidinga não está tranquilo: sempre o susto espreita no farfalhar da folhagem, o segredar da morte, essa infatigável coscuvilheira. Vão pisando caminhos saudosos do pé de gente. Tuahir segue à frente, abrindo trilhos por onde depois o rapaz avança. De repente, o mundo desaba, o chão desaparece. Tuahir e Muidinga se abismalham, tombados numa enormíssima cova. É um desses buracos onde a noite se esconde com o rabo de fora.
Estamos onde, Tuahir?
Nem fale. Deve ser morada do sapo gigante, o tal comedor de escuro.
Ficam sentados, se acostumando ao nada. Depois, seus olhos lusco-focaram: havia uma rede cobrindo as paredes do buraco. Nenhum de ambos tem dúvida: estão dentro de uma armadilha. Só restava esperar. Conversam para distrair os maus espíritos que sempre aproveitam o silêncio para engordar intenções.
Sabe o que eu me estou a lembrar, tio? Lembro de Farida.
E quem é essa?
A mulher dos cadernos, apaixonada de Kindzu.
Tuahir sorri da confissão, cheio de idade. Sobre as mulheres ele, nos tempos, emitira opiniões que vinham do coração. Agora, nem tanto:
Há mulheres que são chuva, outras cacimbo. Essa tal Farida deve ser uma que vale a pena a gente se despentear com ela.
Muidinga vai fingindo que escuta, preocupado em estudar as paredes do buracão e avaliar modos de sair daquela prisão. O tempo passa sem solução e os dois adormecem, cada um para seu lado. Muidinga sonha, agitado. Lhe surgem, confusas, imagens de um tempo que ele nunca foi capaz de tocar. Muidinga se revê menino, saindo de uma escola. Mas nenhum rosto é legível, mesmo a escola não possui fachada. Confusas vozes lhe afluem: chamam por si! Lhe chamam um outro nome. Tenta desesperadamente entender esse nome. Mas os sons se desfocam, em eco de cacimbo. Depois, tudo se esfuma, anoitece dentro de seu sonho. Na manhã seguinte, o miúdo é o primeiro a acordar, o chão lhe doendo nas costas. Aquela noite lhe dera a certeza: os sonhos são cartas que enviamos a nossas outras, restantes vidas. Os cadernos de Kindzu não deveriam ter sido escritos por mão de carne e ossuda mas por sonhos iguais aos dele.
A manhã ainda balbucia, a luz pestaneja. Súbito, no meio do cacimbo, uma silhueta aparece. É figura de gente. Muidinga se satisfaz, chama o companheiro:
Acorda,Tuahir, nos vieram salvar!
Festejam a chegada do intruso. Dão os bons-dias mas não há resposta. O cacimbo se desfaz, ao sopro de uma brisa. O vulto então se esclarece: é um velho alto, torto, usando sobre o corpo nu uma gabardina comprida, maior que o seu tamanho. Um dos olhos permanece fechado enquanto o outro está aberto. O olho de serviço reveza-se, ora um ora outro. De vez em quando, tropeça no excesso da pouca roupa. Fica espreitando, demorado, incrédulo. Por fim, lhes lança uma rede. Ficam presos nas malhas, enredilhados como peixes. Então o velho os puxa, os dois vão ajudando com as pernas a subir, buraco acima. Saem mas ele não lhes solta. Traz a rede a arrastar pelo chão, os dois lá dentro, iguais aos bichos caçados. Quando por fim chegam a sua casa ele reforçou a rede com mais amarras. Encara os prisioneiros com um só olho enquanto fala na língua local. Tuahir traduz:
Ele diz que nos vai semear.
Semear?
Não sabe o que é semear? É isso que nos vai fazer. Ele quer companhia, quer que nasça mais gente.
O velho é doido, vai é matar a gente.
Tuahir então combina com o moço: se fingiriam doentes, estragados. Gemem, lançam feios cuspes e vómitos. Mas o velho nem se impressiona. Vai buscar uma lata, abana-a, tirando dela agudas estridências.
Meu nome é Siqueleto.
Depois ele se apresenta com sua estória. Enquanto fala vai sacudindo a lata como se acompanhasse uma canção. Daquele lugar todos se tinham ido embora, por motivo do terror. Os bandos assaltaram, mataram, queimaram. A aldeia foi ficando deserta, todos partiram, um após nenhum. A família lhe chamava o pensamento: venha connosco, já toda a gente foi embora! Assim lhe rogavam na hora da partida. Ele respondia:
Eu sou como a árvore, morro só de mentira.
E agora perante os dois inesperados visitantes ele repete as suas parecenças com as árvores que renascem cada ano. Tuahir acompanha com dificuldade, a ausência de dentes deforma as palavras do solitário aldeão.
Sou velho, já assisti muita desgraça. Mas igual como essa nunca eu vi. E abana a cabeça, pesaroso.
Estás triste, velho?, pergunta-lhe Tuahir.
Já não fico triste, só cansado.
Era por causa do cansaço que ele não abria os dois olhos de uma só vez. O idoso homem tinha, apesar de tudo, seus pensamentos futuros. Para ele só havia uma maneira de ganhar aquela guerra: era ficar vivo, teimando no mesmo lugar. Não desejava nenhuma felicidade, nem sequer se deliciar com doces lembranças. Lhe bastava sobreviver, restar como um guarda daquela aldeia em ruínas. Agora ele amaldiçoa os que tinham saído dali.
Satanhocos, hão-de comer poeira!
Fala com raiva, todo levantado. Depois, se zanga com os visitantes. Pontapina nas redes, insultando-os: vocês são fugistas, vosso mal está nos dentes. São os dentes que convidam a fome. É por isso eu tirei toda a dentaria. Estão aqui, nesta lata. Abana a lata ferrugenta, os dentes tintinam e ele sorri, satisfeito com o barulho.
É minha música, essa.
Prossegue seus lamentos: nos dias de hoje, os filhos mordem as mães quando ainda estão no ventre. Vejam a pedra em que me sento: parece morta, enquanto não, vive devagarinho, sem barulho. Como eu, conclui. Depois, se volta a zangar, manifestivo. O velho braceja, boca fora dos bofes.
Vão os dois para baixo da terra, satanhocas!
Muidinga, então, se excede. Grita. O velho aldeão se atenta para escutar, através da tradução de Tuahir. Por que motivo ele não recebia bem os visitantes como ordenavam as velhas leis hospitaleiras? De facto, responde o velho, não é assim a maneira da nossa raça. Antigamente quem chegava era em bondade de intenção. Agora quem vem traz a morte na ponta dos dedos.
O rapaz insiste em explicar seus motivos. As razões deles não eram iguais às dos que hoje cruzem os matos. Tuahir interrompe-o pedindo calma. Lento como um rosário desfia toda a estória, razão de estarem ali, requerendo tais ousadias. Nem Muidinga sabia de tais dotes em seu companheiro. Tuahir fala de um mundo que nem há, engraçando suas visões. Que a nossa terra se ia aquietar, todos se familiariam, moçambicanos. E nos visitaríamos, como nos tempos, roendo os caminhos sem nunca mais termos medo.
Verdade isso?, pergunta o desdentado.
Longe se ouvem tiros, a guerra continua a infligir seus estrondos. Tuahir prossegue, arrebatado: diz que ouviu falar de países ricos onde a gente já nem tem que cavar a terra: enterra-se a enxada, bem direito no chão. Do cabo brotam árvores, plantas cheias de verde.
Seremos assim também, sentenciou.
Mas o desdentado aldeão já anoitecera, queixo no peito. Seu mundo já era esse que Tuahir anunciara, de extensos sossegos. O próprio Muidinga está como se encantado com as palavras de Tuahir. Não é a estória que o fascina mas a alma que está nela. E ao ouvir os sonhos de Tuahir, com os ruídos da guerra por trás, ele vai pensando: “não inventaram ainda uma pólvora suave, maneirosa, capaz de explodir os homens sem lhes matar. Uma pólvora que, em avessos serviços, gerasse mais vida. E do homem explodido nascessem os infinitos homens que lhes estão por dentro”.
Tuahir se revela, por um instante, como um curandeiro amenizando o universo, seu paciente. E ali está o velho Siqueleto, sonecando em trégua de existir. Olhando o seu corpo abandonado dá vontade de sorrir como se faz ao contemplar o sono indefeso de uma criança. E os dois prisioneiros se entretêm a fabricar um tabaco, feito de folha que o velho deixara cair. Fumam com o gosto de serem eles mesmos o incenso, fumam como se em seus dedos esfumasse o tempo, como se não houvesse rede os aprisionando. Tuahir adivinhou a cabeça do rapaz:
Acreditaste em mim? Fizeste bem. Te dou um conselho: não confies em homem que não sabe mentir.
Foi então que, entre o lusco e o fusco, vêem chegar a hiena. Ao princípio, parece é nada, só um arrepio no capim, um suspiro do verde-escuro. Vai surgindo inteira, balançando as patas traseiras. Depois, se senta, sozinhando, espreitando o mundo de cá.
Sentem um aperto. Que vinha ali fazer aquele bicho sem aprumo, despromovido das traseiras? Trazer má sorte ao destino dos viventes, só podia ser esse o serviço desse animal. A hiena permanece parada, em vistoria dos cheiros. Depois, se encosta na própria sombra e, assim deitada, lambe os beiços. Faz medo ver-lhe à maneira de doméstica, nem besta se parecia. Os bichos temem o homem, desvizinham-se dele. Mas este, no entanto, deita no lugar exclusivo de gente.
O velho, entretanto, desperta. Vendo o espanto dos outros, esclarece a hiena: o bicho sentinelava sua vida. Ninguém me aproxima, sorri o velho enquanto acaricia a hiena que se enrosca, regalada. Aquele era o seu exército privado, segurança e guarda-corpo. Tuahir avisa, em segredo:
Não confia, miúdo. Aquilo nem hiena não é.
A noite vai descendo. O frio aperta enquanto se alarga um silêncio do tamanho da terra. Muidinga se queixa. Lhe dói o corpo da posição que a rede lhe obrigava, dobrado pelo umbigo. A dor, afinal, é uma janela por onde a morte nos espreita. Sucumbente, se encosta a Tuahir a buscar um quentinho. Mas o sono não lhe chega. Por um buraco da rede Muidinga consegue retirar um braço. Apanha um pau e escreve no chão.
Que desenhos são esses?, pergunta Siqueleto.
É o teu nome, responde Tuahir.
Esse é o meu nome?
O velho desdentado se levanta e roda em volta da palavra. Está arregalado. Joelha-se, limpa em volta dos rabiscos. Ficou ali por tempos, gatinhoso, sorrindo para o chão com sua boca desprovida de brancos. Depois, com voz descolorida trauteia uma canção. Parece rezar. Com aquela cantoria Muidinga acaba por adormecer. Não faz ideia quanto tempo dorme. Porque desperta em sobressalto: o brilho de uma lâmina relampeja frente a seus olhos. O velho Siqueleto armaneja uma faca.
Andam comigo!
Solta Tuahir e Muidinga das redes. São conduzidos pelo mato, para lá do longe. Então, frente a uma grande árvore, Siqueleto ordena algo que o jovem não entende.
Está mandar que escrevas o nome dele.
Passa-lhe o punhal. No tronco Muidinga grava letra por letra o nome do velho. Ele queria aquela árvore para parteira de outros Siqueletos, em fecundação de si. Embevecido, o velho passava os dedos pela casca da árvore. E ele diz:
Agora podem-se ir embora. A aldeia vai continuar, já meu nome está no sangue da árvore.
Então ele mete o dedo no ouvido, vai enfiando mais e mais fundo até que sentem o surdo som de qualquer coisa se estourando. O velho tira o dedo e um jorro de sangue repuxa da orelha. Ele se vai definhando, até se tornar do tamanho de uma semente.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula