domingo, 20 de janeiro de 2019

Instante e eternidade

A eternidade apenas se deixa ser compreendida enquanto experiência, como algo de vivido. Concebê-la objetivamente não tem nenhum sentido para o indivíduo, pois sua finitude temporal não lhe permite considerar uma duração infinita, um processo ilimitado. A experiência da eternidade depende da intensidade das reações subjetivas; a entrada na eternidade somente pode ser cumprida transcendendo-se a temporalidade. Deve-se conduzir um combate áspero e intenso contra o tempo para que ele apenas permaneça - uma vez vencida a miragem da sucessão de momentos - a vivência exasperada do instante, que nos precipita diretamente rumo ao atemporal. Como a imersão absoluta no instante concede-nos tal acesso? A percepção do porvir resulta da insuficiência dos instantes, de sua relatividade: todos aqueles que são dotados de uma consciência afiada da temporalidade vivem cada segundo pensando no seguinte. Somente se tem acesso à eternidade, por outro lado, suprimindo-se toda correlação, vivendo-se cada instante de maneira absoluta. Toda a experiência da eternidade supõe um salto e uma transfiguração, pois muito poucos são capazes da tensão necessária para atingir esta paz serena que se encontra na contemplação do eterno. Não é a duração, mas a potência desta contemplação que mais importa. O retorno às vivências habituais não diminui em nada a fecundidade desta intensa experiência. A frequência da contemplação é essencial - só a repetição permite atingir a embriaguez da eternidade, onde as volúpias têm algo de supra-terrestre, uma transcendência radiante. Isolando cada instante na sucessão, concedemos-lhe um caráter absoluto, mas que permanece puramente subjetivo, sem qualquer elemento de irrealidade ou fantasia. Na perspectiva da eternidade, o tempo é, com seu cortejo de instantes individuais, senão irreal, ao menos insignificante em vista das realidades essenciais.
A eternidade faz com que vivamos sem lamentar ou esperar o que quer que seja. Viver cada momento por ele mesmo - isto é exceder a relatividade do gosto e das categorias, distanciar-se da imanência em que nos encerra a temporalidade. O viver imanente à vida é impossível sem o viver simultâneo no tempo, pois a vida como atividade dinâmica e progressiva exige a temporalidade: privada desta, ela perde seu caráter dramático. Quanto mais a vida é intensa, mais o tempo se torna essencial e revelador. Além disso, a vida apresenta uma multiplicidade de direções e de arroubos que somente podem ser empregados no tempo. Falando da vida, nós mencionamos instantes; falando da eternidade - o instante. Não há uma ausência de vida na experiência da eternidade, nesta vitória sobre o tempo, nesta transcendência dos momentos? Uma transfiguração opera-se, um desvio súbito da vida rumo a um plano diferente, no qual a antinomia e a dialética das tendências vitais estão como que purificadas. Aqueles que são predispostos à contemplação da eternidade, tais como os mestres orientais, ignoram nosso áspero combate para transcender o tempo, ignoram nossos esforços de interiorização - nós que estamos profundamente contaminados pela temporalidade. A contemplação da própria eternidade é para nós uma fonte de sedutoras visões e de estranhos encantamentos. Tudo é permitido ao indivíduo dotado da consciência da eternidade, pois, para ele, as diferenciações fundam-se numa imagem de monumental serenidade, que parece o resultado da paixão que se sente por uma mulher, por seu próprio destino ou por seu desespero; mas a propensão que se tem pelas regiões da eternidade atrai uma espécie de élan para a paz de uma luz estelar.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

Rodrigo Amarante - Tuyo

Floripes

Você não acha”, diz Floripes, “que devíamos ficar noivos? Estamos namorando há mais de dois anos, vou fazer trinta anos…”
Para mudar de assunto, pergunto:
Como é mesmo aquela história do seu nome?”
Já te contei, várias vezes.”
Mas gosto de ouvir.”
Sei que Floripes adora contar as lendas referentes ao seu nome.
Está bem, está bem. Floripes era uma moura encantada que deambulava à noite na vila de Olhão. Os pescadores acreditavam que, seduzidos pelo seu feitiço, morreriam ao tentar atravessar o mar. Mas isso é apenas um resumo duma história enorme sobre a formosa mulher vestida de branco que, durante a noite, aparecia na porta do Moinho do Sobrado. Você quer ouvir tudo?”
Uma parte, pelo menos.”
Eu não queria voltar ao assunto referente ao noivado.
Ela usava um véu sobre o rosto e uma flor nos cabelos louros”, continuou Floripes. “Apenas uma pessoa, uma única pessoa, que se chamava Julião, teria falado com ela. ‘Sou a desditosa Floripes’, disse ela, com uma expressão triste no rosto, ‘uma moura encantada. Quando a minha raça foi expulsa da província, viu-se o meu pai obrigado a partir, sem poder prevenir-me. Eu tinha um namorado, que também fugiu, e aqui fiquei sozinha, aguardando a cada momento que o meu pai me viesse buscar. Numa noite em que esperava, vi ao longe a luz de uma embarcação. A noite era de tormenta, e o barco espatifou-se de encontro aos rochedos. Não era o meu pai que ali vinha: era o meu namorado, que foi engolido pelas ondas. O meu pai soube deste funesto acontecimento e, vendo que não lhe era possível vir buscar-me, fazendo uso da magia, deixou-me aqui. Só existe uma maneira de salvar-me.’”
Floripes fez uma pausa.
Meu amor”, disse ela, “vou resumir a história, temos coisas mais importantes para conversar”.
A coisa mais importante sobre a qual ela queria falar era o noivado. Senti que suava frio.
Resumindo a história, a única maneira de salvar a moura encantada era um homem lhe dar um abraço à beira de um rio e logo feri-la no braço esquerdo. Em seguida, ele teria que acompanhá-la até a África, e lá casar-se com ela. Mas Julião tinha casamento marcado com outra mulher e recusou-se a fazer o que Floripes pedia. E assim, Floripes continuou encantada, vagando durante a noite e apavorando os pescadores de Olhão. Pronto, chega.”
Eu sabia o que viria em seguida.
Então, quando ficamos noivos?”, perguntou Floripes.
Sei que Floripes está doida para casar devido à sua idade. Ela diz que vai fazer trinta, mas na verdade vai fazer quarenta anos.
Não sei, minha querida, estou aguardando uma promoção…”
Você está aguardando essa promoção há mais de um ano”, respondeu Floripes, sem esconder sua irritação. “E você sabe que tenho recursos, meu pai, quando morreu, deixou-me uma grande quantidade de bens.”
Meu erro foi ter tido, como direi, intimidades com Floripes quando a conheci. Mas o meu desejo logo perdeu a força, expirou. E quando ela quer ir para a cama comigo, dou uma desculpa, digo para esperarmos o casamento, que é mais correto agirmos assim. Na verdade, sei que novamente deixarei de ter uma ereção, e não poderei dar a mesma explicação, como aconteceu antes, dizer que não estou me sentindo bem.
Podemos passar a nossa lua de mel em Olhão”, disse Floripes, “é uma cidade linda, fica no Algarve, uma região do sul de Portugal que tem o melhor clima da Europa”.

Neste momento estou no meu apartamento de quarto e sala, em Copacabana. Pode haver coisa pior do que morar em um apartamento de quarto e sala na avenida Nossa Senhora de Copacabana? Quando chego do trabalho, gosto de caminhar na rua, mas em Copacabana isso é impossível. As ruas vivem cheias o dia inteiro, gente fazendo compras, sujeitos vendendo bugigangas, mendigos pedindo esmolas, velhos e velhas, gente de todas as idades olhando vitrines cheias de porcarias, enquanto os carros e ônibus e caminhões que trafegam pela avenida fazem um barulho infernal e enchem os nossos pulmões de gazes cancerígenos. Eu inventei a minha promoção, não vou ser promovido. Floripes pensa que sou escriturário, mas sou contínuo. Vou ter de casar com a Floripes.
Mas li, não sei onde, que existe o chamado “casamento branco ou celibatário, sem relações sexuais”. Vou propor isso a Floripes. Como será que ela vai reagir?
Ai, meu Deus, não sei o que fazer.
Rubem Fonseca, in Amálgama

Nesta hora

Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda
Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se invoca o povo
Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exílio
E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade

Meia verdade é como habitar meio quarto
Ganhar meio salário
Como só ter direito
A metade da vida

O demagogo diz da verdade a metade
E o resto joga com habilidade
Porque pensa que o povo só pensa metade
Porque pensa que o povo não percebe nem sabe

A verdade não é uma especialidade
Para especializados clérigos letrados

Não basta gritar povo
É preciso expor
Partir do olhar da mão e da razão
Partir da limpidez do elementar

Como quem parte do sol do mar do ar
Como quem parte da terra onde os homens estão

Para construir o canto do terrestre
- Sob o ausente olhar silente de atenção -

Para construir a festa do terrestre
Na nudez de alegria que nos veste.
Sophia de Mello Breyner Andresen

Calvin e Haroldo


A manta

Não dediquei pouca atenção a esse assunto um tanto incômodo, a pele da baleia. Entrei em discussões a esse respeito com experientes baleeiros de bordo e doutos naturalistas de terra. A minha opinião inicial ainda é a mesma; contudo, é apenas uma opinião.
Eis o problema – o que é, e onde está, a pele da baleia? Você já sabe o que é sua gordura. A gordura tem algo da consistência firme e fibrosa da carne do boi, embora mais dura, mais elástica e compacta, com uma espessura de oito ou dez a doze ou quinze polegadas.
Ora, por mais absurdo que pareça à primeira vista afirmar que uma criatura tenha uma pele com tal espessura e consistência, de fato não existem argumentos contra tal hipótese; porque não se encontra nenhuma outra camada densa envolvendo o corpo da baleia, salvo essa mesma gordura; e a mais externa camada que envolva qualquer animal, se consideravelmente densa, o que pode ser senão sua pele? De fato, raspando o corpo da baleia morta e ainda fresca com as próprias mãos você pode extrair uma substância infinitamente fina e transparente, que lembra um pouco a mais fina lâmina de cola de peixe, mas quase tão flexível e macia quanto o cetim; isto é, antes de ficar seca, quando não apenas se contrai e engrossa, como também se torna dura e quebradiça. Tenho vários desses pedaços secos, que uso para marcar meus livros sobre baleias. São transparentes, como disse antes; e quando colocados sobre a página impressa, muito me apraz imaginar que pudessem ter um efeito de aumento. De qualquer modo, é muito agradável ler sobre as baleias através de suas próprias lentes, por assim dizer. Mas eis aonde quero chegar. Aquela mesma substância infinitamente fina, a cola de peixe, que, digo, reveste o corpo todo da baleia, não pode ser considerada a pele do animal, mas a pele da pele, por assim dizer; pois seria simplesmente ridículo afirmar que a pele da imensa baleia é mais fina e macia do que a pele de um bebê recém-nascido. Mas vamos encerrar este assunto.
Admitindo que a gordura seja mesmo a pele da baleia; então, quando essa pele, como no caso de um grande Cachalote, produz um volume de cem barris de óleo; e quando consideramos que em quantidade, ou melhor, em peso, tal óleo, em seu estado outrora referido, representa apenas três quartos, e não toda a substância do revestimento; teremos uma ideia da enormidade dessa massa viva, da qual uma simples parte do tegumento produz tamanho lago de óleo. Calculando dez barris por tonelada, você tem dez toneladas em peso líquido para apenas três quartos da pele da baleia.
Em vida, a superfície visível do Cachalote não é a menor de suas muitas maravilhas. Quase sempre é inteiramente cruzada e recruzada por inúmeros traços retos em arranjo cerrado, como as linhas das melhores gravuras Italianas. Mas esses traços não parecem estar impressos na referida substância do revestimento, mas parecem atravessá-la, como se estivessem gravados no próprio corpo. Mas isso não é tudo. Em alguns casos, para um olhar rápido e perspicaz, aqueles traços lineares, como nas verdadeiras gravuras, apenas servem de base para vários outros desenhos. Esses são hieroglíficos; isto é, se você chama aqueles misteriosos criptogramas das paredes das pirâmides de hieróglifos, então essa é a palavra certa para se usar na presente ocasião. Por minha boa memória dos hieróglifos de um Cachalote em especial, impressionou-me sobremaneira um quadro que representava antigos caracteres Indígenas, traçado nas famosas paliçadas hieroglíficas dos barrancos do alto Mississippi. Assim como os enigmáticos rochedos, também a baleia assinalada de enigmas permanece indecifrada. Essa referência aos rochedos indígenas me fez lembrar de mais uma coisa. Além de todos os demais fenômenos exteriores que o Cachalote apresenta, ele amiúde dispõe de dorso, e ainda mais de flancos, desprovidos das visíveis linhas regulares, em razão dos numerosos e terríveis arranhões que lhe dão um aspecto acidental e irregular. Eu diria que esses rochedos no litoral da Nova Inglaterra, os quais, assim crê Agassiz, trazem as marcas de um violento contato abrasivo com enormes icebergs flutuantes – eu diria que tais rochedos revelam não pouca semelhança com o Cachalote neste particular. Também me parece que tais arranhões na baleia foram possivelmente feitos por um contato hostil com outras baleias; pois os vi em maior número nos machos grandes e adultos da espécie.
Mais uma ou duas palavras sobre o assunto da pele ou gordura da baleia. Já foi dito que ela é arrancada da baleia em pedaços compridos, chamados de mantas. Como a maior parte dos termos náuticos, este é muito conveniente e significativo. Pois a baleia está de fato embrulhada em sua gordura como numa manta ou numa colcha; ou, melhor ainda, como num poncho Indígena, que enfiado pela cabeça chegasse até a outra ponta. É devido a essa proteção aconchegante de seu corpo que a baleia encontra meios de se sentir confortável em quaisquer condições climáticas, em todos os oceanos, tempos e marés. O que aconteceria com a baleia da Groenlândia, por exemplo, nos mares setentrionais frios e trépidos, se não dispusesse desse sobretudo aconchegante? Em verdade, outros peixes são encontrados bem vivos naquelas águas Hiperbóreas; mas esses, que fique claro, são peixes de sangue frio, desprovidos de pulmões, cujas barrigas são geladeiras; criaturas que se aquecem a sotavento de um iceberg, como um viajante no inverno se aqueceria diante de uma lareira numa estalagem; ao passo que, como os homens, a baleia tem pulmões e sangue quente. Congele seu sangue, e ela morrerá. Como é espantoso – salvo depois dessa explicação– que esse imenso monstro, para o qual o calor do corpo é tão indispensável quanto para o homem; como é espantoso que ele possa ser encontrado à vontade submerso até os lábios, para o resto da sua vida, naquelas águas Árticas! Lugar onde, quando caem para fora dos navios, os marinheiros são às vezes encontrados, depois de meses, perpendicularmente congelados no coração dos campos de gelo, como uma mosca encontrada presa ao âmbar. Mas ainda mais surpreendente é saber que, como foi demonstrado por experimento, o sangue de uma baleia Polar é mais quente do que o de um negro de Bornéu em pleno verão.
Parece-me que aqui vemos a rara virtude de uma vitalidade individual poderosa, e a grande virtude das paredes espessas, e a grande virtude de uma imensidão interior. Ah, homem! Admira e espelha-te na baleia! Permanece aquecido, tu também, no gelo. Vive neste mundo, tu também, sem pertencer a ele. Sê frio no Equador; mantém o sangue correndo no Pólo. Como a grande cúpula da Catedral de São Pedro, e como a grande baleia, mantém, ó, homem, a tua própria temperatura em todas as estações!
Mas quão fácil e inútil é ensinar essas coisas belas! Das construções, quão poucas são as que têm uma cúpula como a Catedral de São Pedro! Das criaturas, quão poucas têm a magnitude da baleia!
Herman Melville, in Moby Dick

sábado, 19 de janeiro de 2019

Na esteira do parto

O casal se chegou, em dupla obscuridade. Os dois pediam licença à penumbra. A mulher vinha mais dobrada que gruta na montanha. Estava grávida, quase em fim do estado. Chegados à claridade se reconheceu serem Diamantinho, o mais vizinho dos residentes, e sua redonda esposa, Tudinha Rosa, retorcida em dores e esgares. A pobre zululuava, em completas tonturas. Diamantinho, porém, parecia alheio à mulher.
O casal comparecia em casa de Ananias e Maria Cascatinha, os afáveis vizinhos. As duas donas ficaram na varanda, já uma esteira se estendendo para o que desse e saísse. Maria Cascatinha sorriu, timiúda: aquela era a sua mais pessoal esteira. Não era um simples objeto de assentar. Sobre aquela esteira haviam sido concebidos, de namoro e gemidos, seus todos filhos.
Diamantinho foi entrando, dando-se poiso e posição, mais instalado que convidado. Sentou-se, convocou os pedidos de uma bebida, serviu-se dos confortos. Ananias, o anfitrião, ainda lhe reparou a atenção: não ia ajudar a sua derreada esposa? O outro apenas sorria, saboreando prazeres desta e de outras vidas. Ananias insistiu:
Você, Diamantinho, não divide o sofrimento familiar?
Tem razão, Ananias, eu só penso da minha pança para cá. Na realmente, não valho as penas. Também já sou assim desde a barriga do meu pai.
Sobre a mulher, Diamantinho nem esboçou menção. Tudinha Rosa permanecia fora, em posição de estar deitada, descontorcida. Rejeitara, contudo, a esteira. Dar parto devia ser sobre a terra, a mãe das mães. Assim é o mandamento da tradição. Maria Cascatinha se agradecia por fato de a esteira ser dispensada. E enrolou-a num cuidadoso canto. Tudinha assentava agora sobre o mundo. Mas a carícia da terra de pouco lhe aliviava. A mulher seguia em dor: os olhos já ímpares, as tripas já triplas.
Na sala, o marido servia-se da bebida oferecida, vagueando os olhos em aplicações de preguiça. E continuava a fiar conversa, sempre na mais concisa inexatidão:
Me sinto ferrujado, Ananias. Não é que eu seja mais velho que você. Eu nasci foi antes...
Ananias se enervava com a atitude do visitante, mais displicientífico que pangolim. Bem se sabe: partos são exclusivo assunto de mulheres. Diamantinho, no entanto, parecia por de mais alheado. E tanto mais quanto, lá fora, as coisas agora se complicavam. Tudinha desprogredia de nesga em vesga. Trocava tudo, até as rezas: o padre-maria e a ave-nossa. Em aflição, Ananias propôs ações e providências. Não seria melhor levar a grávida até à vila? O candidato a pai, sereno como rio em planície, não apresentava nenhum cuidado. Ordenou ao outro que sentasse, quieto. E estendia o copo a solicitar mais enchimentos. Tudo sem perplexidades.
A mulher, sua indiscutível esposa, se desdobrava em lancinantes gritos. Sobrinhas diversas se juntavam em roda, debruçadas sobre a sofrimentada mãe. O nervoso círculo das mulheres se podia ver pela janela. Até que Ananias foi chamado, em convocação de auxílio. Ananias sugeriu ao visitante que os dois acudissem mas o outro ripostou que estava a acabar uma bebida ainda mal começada. Que depois iria, já em tempo e disposição de proceder devidamente. Por enquanto, ele descascava o tempo, impassível como tronco de embondeiro.
Ananias rompeu a tradição, juntando-se ao parto que se demorava e às parteiras que se enervavam. Dúvidas gerais se começavam a espalhar. Todos, afinal, sabem: parto que se prolonga significa infidelidade da mulher. Para salvar a situação, a grávida deve admitir o pecado, divulgar o nome do autêntico pai da criança. Caso o contrário, então, o bebê fica retido no ventre, sem mês nem signo.
Então, no meio de gritos, suspiros e transpiros, Tudinha Rosa confessou ter trocado amores com Ananias, o próprio e presente anfitrião. Maria Cascatinha ficou em estado de nem-estar: seu marido, pai de alheio rebento? Porém, continuou seu trabalho de parteira, inalterável. Só os olhos dela se descomportavam, derramados. Sem palavra, ela findou a obra de desbarrigar a sua súbita adversária. No princípio, a confissão de Tudinha fora um simples murmúrio, não se ouvindo para além do recinto. Nos últimos esforços, porém, a grávida foi alardeando a consumada traição:
Foi Ananias, foi ele!
Dentro, tudo se ouviu. Foi como se mundo abrisse rochas e rachas. Diamantinho, nesse repente, mudou da alvorada para o poente.
Saiu para a varanda com cara de marido, em ares de pareceres e pancadarias. Numa palavra: chocado e chocalhado. Descia de sujeito para fulano, de fulano para tipo. Nunca antes se vira tal metamorfase. Ele se enraivecia a ponto de lâminas e pólvoras. E gritou ameaças e impropérios: haveria Ananias de beijar os pés que ele pisasse. Entre os dois homens se procederam a estrondosas porradarias.
Enquanto socos e insultos se trocavam, o novo menino foi emigrando para a luz. Diamantinho e Ananias nem deram contas do nascimento. Tudinha e o recém-nascido foram levados para um interior quarto, em resguardo. Ananias, aviado de uns tantos sopapos, se recolheu no mesmo aposento da respectiva grávida. Ali ficou o tempo de muitas vidas. Na sala, Diamantinho soprou raivas, invocando feitiços e péssimos-olhados contra o dito Ananias. Depois, se derreou, infeliz como a casca sem a banana.
Maria Cascatinha, surgida de igual tristeza, veio a amparar o traído Diamantinho. Lhe assentou o braço sobre o ombro e lhe disse que lhe acompanhava, rumo a casa. Diz-se que Maria Cascatinha nunca mais voltou. Nem para buscar a sagrada esteira.
Mia Couto, in Estórias abensonhadas

Canções para depois do ódio - Marcelo Yuka

"Quem é este homem?”

Quando S. entrou no atelier, percebi que tinha de aprender tudo se queria dividir nas suas minúsculas peças aquela segurança, aquele sangue-frio, aquele modo irônico de ser belo e ter saúde, aquela insolência todos os dias estudada para ferir onde mais doesse. Pedi muito mais do que costumo cobrar, e ele concordou e deu sinal imediatamente. Mas devia ter largado o pincel logo na primeira pose, quando me achei humilhado, sem saber de quê concretamente, sem que uma palavra tivesse sido dita: bastou o primeiro olhar, e eu disse: “quem é este homem?”. Esta é precisamente a pergunta que nenhum pintor deve fazer a si mesmo, e eu fi-la. Tão arriscado é fazê-la como dizer ao psicanalista que leve mais longe, só um pouco mais, o seu interesse pelo doente: podem dar-se todos os passos até a beira do precipício, mas daí para diante será a queda inevitável, desamparada, mortal. Toda a pintura deve ser feita do lado de cá, e creio que a psicanálise também. Precisamente para me conservar do lado de cá, é que comecei o segundo retrato: salvava-me no jogo duplo que fazia, tinha comigo um trunfo que me permitia pairar sobre o abismo, enquanto aparentemente me afundava na derrota, na humilhação de quem tentou e falhou, à vista de toda a gente e por dentro dos seus próprios olhos. Mas o jogo complicou-se, e agora sou um pintor que errou duas vezes, que persevera no erro porque não pode sair dele e tenta o caminho desviado de uma escrita cujos segredos ignora: mal ou bem comparado, vou procurar decifrar um enigma com um código que não conheço.
Foi só hoje que decidi tentar o retrato definitivo de S. desta maneira. Não creio que em momento algum dos últimos dois meses (fez anteontem exatamente dois meses que comecei o primeiro retrato) a ideia me tivesse ocorrido. Mas, caso singular, ela veio naturalmente, sem me surpreender, sem que eu a tivesse discutido em nome da minha incapacidade literária, e o primeiro gesto que desencadeou foi a compra deste papel, tão à vontade como se estivesse adquirindo tubos de tintas ou um jogo de pincéis novos. Andei o resto do dia fora (não tinha combinado qualquer sessão de pose), saí da cidade no carro, levando ao lado a resma de papel, como quem passeia uma nova conquista, daquelas para quem o automóvel é já lençol de cima. Jantei sozinho. E quando voltei a casa, fui direito ao atelier, destapei o retrato, lancei uma pincelada ao acaso, tornei a cobrir a tela. Depois fui ao quarto do fundo, onde guardo as malas e pinturas velhas, repeti os gestos no segundo retrato, com a intensidade automática de quem pratica o milésimo exorcismo, e vim sentar-me aqui, neste pequeno reduto que é o meu quarto de cama, meio biblioteca, meio fojo, onde as mulheres nunca gostaram de demorar-se.
Que quero eu? Primeiramente, não ser derrotado. Depois, se possível, vencer. E vencer será, quaisquer que sejam os caminhos por onde ainda me levem os dois retratos, procurar descobrir a verdade de S. sem que ele o suspeite, já que a sua presença e as suas imagens são testemunhas duma minha incapacidade provada de satisfazer satisfazendo-me. Não sei que passos darei, não sei que espécie de verdade busco: apenas sei que se me tornou intolerável não saber. Tenho quase cinquenta anos, cheguei à idade em que as rugas deixam de acentuar a expressão, para serem expressão doutra idade que é a velhice aproximando-se, e de repente, outra vez o digo, tornou-se-me intolerável perder, não saber, continuar a fazer gestos na escuridão, ser um autômato que todas as noites sonhasse evacuar a fita perfurada do seu programa: uma longa tênia que fora a única vida existente entre os circuitos e os transistores.
Perguntem-me se tomaria igual decisão mesmo que S. não aparecesse, e eu não saberei responder. Creio que sim, tomaria, mas não posso jurar. No entanto, agora que comecei a escrever, sinto-me como se nunca tivesse feito outra coisa ou para isto é que tivesse afinal nascido.
Observo-me a escrever como nunca me observei a pintar, e descubro o que há de fascinante neste ato: na pintura, vem sempre o momento em que o quadro não suporta nem mais uma pincelada (mau ou bom, ela irá torná-lo pior), ao passo que estas linhas podem prolongar-se infinitamente, alinhando parcelas de uma soma que nunca será começada, mas que é, nesse alinhamento, já trabalho perfeito, já obra definitiva porque conhecida. É sobretudo a ideia do prolongamento infinito que me fascina. Poderei escrever sempre, até ao fim da vida, ao passo que os quadros, fechados em si mesmos, repelem, são eles próprios isolados na sua pele, autoritários, e, também eles, insolentes.
José Saramago, in Manual de pintura e caligrafia

Dos sábios e dos tolos

Os que querem parecer sábios entre os tolos, acabam por parecer tolos entre os sábios.”
Quintiliano

O homem-sanduíche

Em um momento de tristeza, quando a poesia lhe parece insuficiente e o prestígio lhe esmaga os ossos, o poeta francês Paul Valéry anota: “Enfastiado de ter razão, de fazer o que tem sucesso, da eficiência dos procedimentos, tentar outra coisa”.
Mas o quê ? Diz-se que, pouco antes de morrer, Valéry balbuciou: “Minha vida, eu te perdi!”. Guiou-o, sempre, o projeto de “ir até o fim dentro de mim mesmo”. Mas quem consegue isso? Optar pela poesia não leva ao sucesso, tampouco garante o consolo da eficiência. Não é garantia de nada – mas é aquilo que um poeta, se de fato aposta nas palavras, pode fazer.
Estar sempre “a caminho de”: que melhor expressão define um poeta? Sabe que não chegará, conhece os limites estreitos de sua escolha. Neles se move, entre eles se espreme, com eles escreve. Como Alberto Martins, no magnífico Em trânsito (Companhia das Letras), um livro que não paro de reler.
Martins fala do poeta como um “homem-sanduíche”, desses que, nas ruas, carregam no corpo anúncios de compra e venda. Avançam, espremidos entre o mundo e as palavras. São veículos, fazem conexões. Sob o peso das palavras, desaparecem. O poeta, Martins sugere, é uma torre de eletricidade, uma corrente de transmissão. Não trabalha só com palavras, mas com “energias”.
Essas energias – como o queijo que acomodamos em um sanduíche – escorrem pelas bordas. O poeta não as domina ou manipula; ele as representa (“alguém está dublando a realidade”, Martins escreve, e este alguém é o poeta). Espécie de fio condutor, ele se deixa moldar por forças secretas. De onde elas vêm? O que significam? – todo poeta pergunta.
Em um tempo de respostas práticas e de definições totais, o poeta persiste no indefinido, pois sabe “que cada passo é um erro, é um logro”. Só por isso desistir? “Quem não joga perde a vez e nunca mais volta para o jogo”, ele adverte. E por isso continua a escrever, mesmo sem saber para quê.
Há alguns meses, fui apresentado a Alberto Martins. Um cumprimento rápido e, de seu rosto, além do sorriso afetuoso, me ficou a imagem dos óculos quadrados, um pouco desproporcionais – como se ele quisesse me dizer que não tem vergonha alguma (e tem até orgulho) de não ver, ou pouco ver.
Em um de seus poemas, “Na volta do oculista”, essa imagem de um Martins massacrado pelos óculos me volta. Como saber quais são as lentes corretas? Com um par de óculos novo, as letras crescem uma enormidade; mas sem eles o mundo perde a nitidez. Se, ao contrário, usamos óculos “para longe”, as coisas do mundo se avolumam, mas as letras se esmagam. Que danação!
Em Martins, os óculos servem como metáfora da poesia – imagem que ele, o homem Alberto, carrega no rosto. A poesia para quê? Ela é inútil em palanque político ou em um gabinete de empresário. Também de nada serve ao cirurgião ou ao pesquisador de laboratório. Mas se nos colocamos entre eles, se persistimos em um intervalo de contemplação, como dispensá-la? É nesse trânsito, entre o grande e o pequeno, que o poeta se posta.
Em outro poema, sobre Anchieta, um corajoso Martins, depois de observar que “não há nada no mar além do mar”, pergunta, um tanto perplexo: “Então por que meus lábios se abrem e a boca ferida prefere estes sons?”. A poesia, para quê? Volto a pensar nos óculos, que são, eles também, intermediários – linhas que conectam o olho e o mundo. Através deles circulam imagens, energias. Só fazem sentido se os usamos – um par de óculos, no fundo de uma gaveta, não passa de um dejeto. Só existem como transmissores. Sozinhos, nada são.
Sem seus óculos, o poeta (Martins) acorda de madrugada. Insone, busca um livro que o proteja dos pesadelos. Avança pelo quarto, procura, não encontra. “Dá um pouco de medo/ passar assim em silêncio/ entre as paredes/ rente a mim mesmo”, ele escreve. Quer o livro, só tem a si mesmo. Até que uma voz (a sua) o salva: “É por aqui, Alberto!”. Entre o homem e o livro (um sanduíche), esconde-se o poeta.
Mesmo que sirva de consolo, mesmo que possa ser usada como um sedativo, a poesia destampa e perfura. Permite que as energias circulem e escorram. Faz acontecer. Alberto Martins escreve belos poemas narrativos – como o dedicado a Attila József, o poeta húngaro que conviveu com os expressionistas. Não teve pai, não teve mãe. “Seus tios lhe disseram que seu nome não era um nome.” De um nome que não se diz, Martins tira um retrato de espantosa nitidez.
Acompanha o peruano César Vallejo, o “poeta da dor”, e a seu lado sofre. Segue o fotógrafo americano Robert Capa, para quem a fotografia mostrava o inexistente. Pobres retratistas! Depois, vai à padaria com o amigo Flávio Di Giorgi. Enquanto tomam um café, o poeta se recorda de Horácio, que encontrou uma ânfora com um vinho fabricado no ano de seu nascimento. Provou do vinho, como quem toma a si mesmo. Confirmou-se poeta, que trabalha com o que é.
A poesia ardente de Alberto Martins me leva a pensar na tese enganosa (e dura) da mestria – que transporta para outro lugar (um lugar inexistente) aquilo que está bem aqui, em nós mesmos. A poesia começa onde o trabalho do mestre se esgota, onde a imagem do grande sábio se evapora. Martins resume: “Quem está formado segue ao sabor dos próprios erros”. A poesia se torna, com isso, a difícil arte de “cair em si”.
Essa “queda em si”, contudo, é só um resvalar. Não passa (aposso-me, de novo, das palavras de Martins) de um conservar-se “rente a si mesmo”. Seu livro, ele nos diz, se destina àqueles que usam os poemas “como um meio de transporte”. Com a mente em outro lugar, distraído (iludido), como se estivesse em um ponto de ônibus, você sobe em um poema e nele se aboleta. Que alívio! As palavras o carregam, e isso, a princípio, adocica e tempera o coração.
Por algum tempo, alguns versos, você se sente amparado. Entrega ao mestre das palavras seu destino. Mas, de repente, em um desvio, alguma freada brusca, percebe que subiu (caiu) em si. Que é você, leitor, quem está na direção. Espremido entre o mundo e as palavras, sua alma escorre e você treme – e isso é a poesia.
José Castello, in Sábado inquietos

O traço sarcástico do iraniano Mana Neyestani


sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Do amor contente e muito descontente – I

Iniciei mil vezes o diálogo. Não há jeito.
Tenho me fatigado tanto todos os dias
Vestindo, despindo e arrastando amor
Infância,
Sóis e sombras.
Vou dizer coisas terríveis à gente que passa.
Dizer que não é mais possível comunicar-me.
(Em todos os lugares o mundo se comprime.)
Não há mais espaço para sorrir ou bocejar de tédio.
As casas estão cheias. As mulheres parindo sem cessar,
Os homens amando sem amar, ah, triste amor desperdiçado
Desesperançado amor… Serei eu só
A revelar o escuro das janelas, eu só
Adivinhando a lágrima em pupilas azuis
Morrendo a cada instante, me perdendo?

Iniciei mil vezes o diálogo. Não há jeito.
Preparo-me e aceito-me
Carne e pensamento desfeitos. Intentemos,
Meu pai, o poema desigual e torturado.
E abracemo-nos depois em silêncio. Em segredo.
Hilda Hilst

02/10/91 - 23:03

A morte vem para aqueles que esperam e aqueles que não esperam. Dia escaldante, hoje, maldito dia escaldante. Saí do correio e meu carro não pegou. Bom, eu sou um cidadão decente. Sou membro do Auto Club. Assim, precisei de um telefone. Há 40 anos, havia telefones em todo lado. Telefones e relógios. Você sempre podia olhar para o lado e ver que horas eram. Isto não existe mais. Não há mais hora grátis. E os telefones públicos estão desaparecendo.
Fui por instinto. Fui ao correio, desci uma escada e lá, num canto escuro, sozinho e sem ser anunciado, estava um telefone. Um telefone sujo e grudento. Não havia outro num raio de três quilômetros. Sabia como fazer um telefone funcionar. Talvez. Informações. A voz da telefonista surgiu e achei que estava salvo. Era uma voz calma e entendiada e me perguntou que cidade eu queria. Disse a cidade e o autoclube. (Você tem que saber como fazer as pequenas coisas e você tem que fazê-las sem parar ou está morto. Morto nas ruas. Ignorado, indesejável.) A moça me deu um número, mas era o número errado. Do escritório. Depois consegui a oficina. Uma voz de macho, calma, cansada, mas combativa. Maravilhoso. Dei a ele a informação. “30 minutos”, ele disse.
Voltei ao carro, abri uma carta. Era um poema. Cristo. Era sobre mim. E ele. Nos encontramos, parece, duas vezes, há 15 anos. Ele também tinha me publicado em sua revista. Eu era um grande poeta, ele disse, mas eu bebia. E tinha vivido uma vida desgraçada e marginal. Hoje, os jovens poetas bebiam e viviam vidas miseráveis e marginais porque eles achavam que era assim que se fazia. Também, que eu tinha atacado outras pessoas em meus poemas, inclusive ele. E que eu tinha imaginado que ele tinha escrito poemas desfavoráveis sobre mim. Não é verdade. Ele era uma pessoa legal, disse que tinha publicado vários outros poetas em sua revista, por 15 anos. E eu não era uma pessoa legal. Eu era um grande escritor, mas não uma pessoa legal. E ele nunca teria se “amigado” comigo. Foi isso que ele escreveu: “amigado”. E ele escrevia “vosê” o tempo todo em vez de “você”... A ortografia dele não era boa.
Estava quente dentro do carro. Fazia 39 graus, o primeiro de outubro mais quente desde 1906.
Eu não ia responder à sua carta. Ele escreveria de novo.
Outra carta de um agente, contendo o trabalho de um escritor. Dei uma olhada. Ruim. É claro. “Se você tiver qualquer sugestão sobre seu texto ou qualquer dica de publicação, gostaríamos muito...”
Outra carta de uma senhora me agradecendo por eu ter escrito algumas linhas ao seu marido e feito um desenho por sua sugestão, que isto o tinha deixado muito feliz. Mas agora estavam divorciados e ela estava fazendo trabalhos free lance e ela poderia vir e me entrevistar?
Duas vezes por semana recebo pedidos de entrevistas. Não há muito o que dizer. Existem muitas coisas para se escrever, mas não para se falar.
Lembro de uma vez, nos velhos tempos, de um jornalista alemão que me entrevistou. Enchi-o de vinho e falamos por quatro horas. Depois disso, ele se inclinou para frente, bêbado, e disse: “Não sou um jornalista. Só queria uma desculpa para te ver”...
Joguei as cartas de lado e fiquei sentado esperando. Daí vi o caminhão-guincho. Um cara jovem e sorridente. Um garoto legal. Claro.
EI, GAROTO!”, gritei, “AQUI!”
Ele deu uma ré, saí do carro e contei o problema.
Me reboca até a oficina Acura”, disse para ele.
O carro ainda está na garantia?”, perguntou.
Ele sabia muito bem que não estava. Estávamos em 1991 e eu estava dirigindo um modelo 1989.
Não interessa”, disse eu, “me reboca até a loja Acura.”
Eles vão levar um tempão para consertar, talvez uma semana.”
Claro que não, eles são bem rápidos.”
Escute”, disse o garoto, “temos nossa própria oficina. Podemos levar o carro lá, talvez consertá-lo hoje. Se não, nós te registramos e telefonamos assim que possível.”
Naquele momento, visualizei meu carro na sua oficina por uma semana. Pra me dizerem que eu precisava de um novo eixo excêntrico. Ou fixar as cabeças de cilindro.
Me reboca para a Acura”, eu disse.
Espere”, disse o garoto. “Tenho que ligar para o chefe primeiro.”
Esperei. Ele voltou.
Ele disse pra fazer pegar no tranco.”
O quê?”
Pegar no tranco.”
Tudo bem. Vamos lá.”
Entrei no meu carro e deixei que escorregasse até o caminhão. Ele me puxou um pouco e o carro deu a partida imediatamente. Assinei os papéis e ele foi embora e eu fui embora...
Então, decidi deixar o carro na oficina da esquina.
Nós conhecemos você. Você tem vindo aqui há anos”, disse o gerente.
Legal”, disse eu, e sorri: “Então, não me sacaneiem.”
Ele só me olhou.
Nos dê 45 minutos.”
Tudo bem.”
Precisa de uma carona?”
Claro.”
Apontou. “Ele te leva.”
Um garoto legal parado ali. Fomos até o carro dele. Dei o endereço a ele. Subimos a colina. “Você ainda está fazendo filmes?”, me perguntou.
Eu era uma celebridade, sabe.
Não”, eu disse. “Foda-se Hollywood.”
Ele não entendeu aquilo.
Pare aqui”, eu disse.
Ei, esta casa é grande.”
Eu só trabalho aqui”, disse eu.
Era verdade.
Saí do carro. Dei dois dólares a ele. Ele protestou, mas ficou com eles.
Andei pelo caminho da entrada. Os gatos estavam espalhados por ali, esgotados. Na minha próxima vida, quero ser um gato. Dormir 20 horas por dia e esperar ser alimentado. Sentar por aí lambendo meu cu. Os humanos são desgraçados demais, irados demais, obcecados demais.
Fui pra cima e sentei na frente do computador. É o meu novo consolador. Meu trabalho dobrou em potência e produção desde que o comprei. É uma coisa mágica. Sento na frente dele como a maioria das pessoas senta na frente dos seus aparelhos de tv.
É só uma máquina de escrever melhorada”, me disse meu genro uma vez.
Mas ele não é um escritor. Ele não sabe o que é quando as palavras surgem no espaço, brilham na luz, quando os pensamentos que vêm na sua cabeça podem ser seguidos imediatamente por palavras, que encorajam mais pensamentos e mais palavras a seguir. Com uma máquina de escrever, é como caminhar na lama. Com um computador, é como patinar no gelo. É uma rajada brilhante. Claro, se não há nada dentro de você, não importa. E depois tem o trabalho de limpeza, as correções. Diabos, eu costumava escrever tudo duas vezes. A primeira, para colocar as ideias, e a segunda, para corrigir os erros. Assim, é uma vez só para o divertimento, a glória e a fuga.
Imagino qual será o próximo passo depois do computador. Provavelmente, você só apertará os dedos nas têmporas e sairá esse monte de palavras perfeitas. É claro, você terá que encher o tanque antes de começar, mas tem sempre os sortudos que conseguem fazer isso. Espero.
O telefone tocou.
É a bateria”, ele disse,
você precisava de uma bateria nova.”
E se eu não puder pagar?”
Daí vamos ficar com a sua estepe.”
Já vou aí.”
E assim que comecei a descer a ladeira, ouvi meu vizinho idoso. Estava gritando para mim. Subi a escadaria da sua casa. Ele estava vestido com calças de pijama e um velho abrigo cinza. Fui até ele e o cumprimentei com um aperto de mãos.
Quem é você?”, perguntou.
Sou seu vizinho. Moro aqui há dez anos.”
Tenho 96 anos”, disse ele.
Eu sei, Charley.”
Deus não quer me levar porque Ele tem medo que eu fique com o emprego dele.”
Você poderia.”
Poderia ficar com o trabalho do Diabo, também.”
Poderia.”
Quantos anos você tem”?
71.”
71?”
É.”
Isso é ser velho também.”
É, eu sei, Charley.”
Apertamos as mãos e desci as escadas e depois ladeira abaixo, passando pelas plantas cansadas, pelas casas cansadas. Eu estava a caminho do posto de gasolina.
Mais um dia chutado no traseiro.
Charles Bukowski, in O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio

A transfiguração pela poesia

Creio firmemente que o confinamento em si mesmo, imposto a toda uma legião de criaturas pela guerra, é dinamite se acumulando no subsolo das almas para as explosões da paz. No seio mesmo da tragédia sinto o fermento da meditação crescer. Não tenho dúvida de que poderosos artistas surgirão das ruínas ainda não reconstruídas do mundo para cantar e contar a beleza e reconstruí-lo livre. Pois na luta onde todos foram soldados - a minoria nos campos de batalha, a maioria nas solidões do próprio eu, lutando a favor da liberdade e contra ela, a favor da vida e contra ela - os sobreviventes, de corpo e espírito, e os que aguardaram em lágrimas a sua chegada imprevisível, hão de se estreitar num abraço tão apertado que nem a morte os poderá separar. E o pranto que chorarem juntos há de ser água para lavar dos corações o ódio e das inteligências o mal-entendido.
Porque haverá nos olhos, na boca, nas mãos, nos pés de todos uma ânsia tão intensa de repouso e de poesia, que a paixão os conduzirá para os mesmos caminhos, os únicos que fazem a vida digna: os da ternura e do despojamento. Tenho que só a poesia poderá salvar o mundo da paz política que se anuncia - a poesia que é carne, a carne dos pobres humilhados, das mulheres que sofrem, das crianças com frio, a carne das auroras e dos poentes sobre o chão ainda aberto em crateras.
Só a poesia pode salvar o mundo de amanhã. E como que é possível senti-la fervilhando em larvas numa terra prenhe de cadáveres. Em quantos jovens corações, neste momento mesmo, já não terá vibrado o pasmo da sua obscura presença? Em quantos rostos não se terá ela plantado, amarga, incerta esperança de sobrevivência? Em quantas duras almas já não terá filtrado a sua claridade indecisa? Que langor, que anseio de voltar, que desejo de fruir, de fecundar, de pertencer, já não terá ela arrancado de tantos corpos parados no antemomento do ataque, na hora da derrota, no instante preciso da morte? E a quantos seres martirizados de espera, de resignação, de revolta já não terão chegado as ondas do seu misterioso apelo?
Sofre ainda o mundo de tirania e de opressão, da riqueza de alguns para a miséria de muitos, da arrogância de certos para a humilhação de quase todos. Sofre o mundo da transformação dos pés em borracha, das pernas em couro, do corpo em pano e da cabeça em aço. Sofre o mundo da transformação das mãos em instrumentos de castigo e em símbolos
De força. Sofre o mundo da transformação da pá em fuzil, do arado em tanque de guerra, da imagem do semeador que semeia na do autômato com seu lança-chamas, de cuja sementeira brotam solidões.
A esse mundo, só a poesia poderá salvar, e a humildade diante da sua voz. Parece tão vago, tão gratuito, e no entanto eu o sinto de maneira tão fatal! Não se trata de desencantá-la, porque creio na sua aparição espontânea, inevitável. Surgirá de vozes jovens fazendo ciranda em torno de um mundo caduco; de vozes de homens simples, operários, artistas, lavradores, marítimos, brancos e negros, cantando o seu labor de edificar, criar, plantar, navegar um novo mundo; de vozes de mães, esposas, amantes e filhas, procriando, lidando, fazendo amor, drama, perdão. E contra essas vozes não prevalecerão as vozes ásperas de mando dos senhores nem as vozes soberbas das elites. Porque a poesia ácida lhes terá corroído as roupas. E o povo então poderá cantar seus próprios cantos, porque os poetas serão em maior número e a poesia há de velar.
Vinicius de Moraes, in Prosa

Maria Bethânia e Zeca Pagodinho - Sonho Meu

O sono dos justos

Os ovos estalam na frigideira, e mergulhada no sonho preparo o café da manhã. Sem nenhum senso da realidade, grito pelas crianças que brotam de várias camas, arrastam cadeiras e comem, e o trabalho do dia amanhecido começa, gritado e rido e comido, clara e gema, alegria entre brigas, dia que é o nosso sal e nós somos o sal do dia, viver é extremamente tolerável, viver ocupa e distrai, viver faz rir.
E me faz sorrir no meu mistério. O meu mistério é que eu ser apenas um meio, e não um fim, tem-me dado a mais maliciosa das liberdades: não sou boba e aproveito. Inclusive, faço um mal aos outros que, francamente. O falso emprego que me deram para disfarçar a minha verdadeira função, pois aproveito o falso emprego e dele faço o meu verdadeiro; inclusive o dinheiro que me dão como diária para facilitar minha vida de modo a que o ovo se faça, pois esse dinheiro eu tenho usado para outros fins, desvio de verba, ultimamente comprei ações da Brahma e estou rica. A isso tudo ainda chamo ter a necessária modéstia de viver. E também o tempo que me deram, e que nos dão apenas para que no ócio honrado o ovo se faça, pois tenho usado esse tempo para prazeres ilícitos e dores ilícitas, inteiramente esquecida do ovo. Esta é a minha simplicidade.
Ou é isso mesmo que eles querem que me aconteça, exatamente para que o ovo se cumpra? É liberdade ou estou sendo mandada? Pois venho notando que tudo o que é erro meu tem sido aproveitado. Minha revolta é que para eles eu não sou nada, eu sou apenas preciosa: eles cuidam de mim segundo por segundo, com a mais absoluta falta de amor; sou apenas preciosa. Com o dinheiro que me dão, ando ultimamente bebendo. Abuso ou confiança? Mas é que ninguém sabe como se sente por dentro aquele cujo emprego consiste em fingir que está traindo, e que termina acreditando na própria traição. Cujo emprego consiste em diariamente esquecer. Aquele de quem é exigida a aparente desonra. Nem meu espelho reflete mais um rosto que seja meu. Ou sou um agente, ou é a traição mesmo.
Mas durmo o sono dos justos por saber que minha vida fútil não atrapalha a marcha do grande tempo. Pelo contrário: parece que é exigido de mim que eu seja extremamente fútil, é exigido de mim inclusive que eu durma como um justo. Eles me querem ocupada e distraída, e não lhes importa como. Pois, com minha atenção errada e minha tolice grave, eu poderia atrapalhar o que se está fazendo através de mim. É que eu própria, eu propriamente dita, só tenho mesmo servido para atrapalhar. O que me revela que talvez eu seja um agente é a ideia de que meu destino me ultrapassa: pelo menos isso eles tiveram mesmo que me deixar adivinhar, eu era daqueles que fariam mal o trabalho se ao menos não adivinhassem um pouco; fizeram-me esquecer o que me deixaram adivinhar, mas vagamente ficou-me a noção de que meu destino me ultrapassa, e de que sou instrumento do trabalho deles. Mas de qualquer modo era só instrumento que eu poderia ser, pois o trabalho não poderia ser mesmo meu. Já experimentei me estabelecer por conta própria e não deu certo; ficou me até hoje essa mão trêmula. Tivesse eu insistido um pouco mais e teria perdido para sempre a saúde. Desde então, desde essa malograda experiência, procuro raciocinar deste modo: que já me foi dado muito, que eles já me concederam tudo o que pode ser concedido; e que Outros agentes, muito superiores a mim, também trabalharam apenas para o que não sabiam. E com as mesmas pouquíssimas instruções. Já me foi dado muito; isto, por exemplo: uma vez ou outra, com o coração batendo pelo privilégio, eu pelo menos sei que não estou reconhecendo! Com o coração batendo de emoção, eu pelo menos não compreendo! com o coração batendo de confiança, eu pelo menos não sei.
Clarice Lispector, in Ovo e a galinha (trecho)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Sensibilidade alheia

O escrúpulo é a morte da ação. Pensar na sensibilidade alheia é estar certo de não agir. Não há ação, por pequena que seja - e quanto mais importante, mais isso é certo - que não fira outra alma, que não magoe alguém que não contenha elementos de que, se tivermos coração, nos não tenhamos que arrepender. Muitas vezes tenho pensado que a filosofia real do eremita estará antes no esquivar-se a ser hostil, pelo simples facto de viver, do que em qualquer pensamento diretamente relacionado com o isolar-se.”
Fernando Pessoa (Barão de Teive), in A educação do estóico

Glória e ruína

Não se move a roda, sem que a parte que virou para o céu seja maior repuxo para tocar na terra, e a parte que se viu no ar erguida se veja logo da mesma terra pisada, sem outro impulso para descer, mais que com o mesmo movimento com que subiu; por isso a fortuna fez trono da sua mesma roda, porque, como na figura esférica se não conhece nela primeiro nem último lugar, nas felicidades andam sempre em confusão as venturas. Na dita com que se sobe, vai sempre entalhado o risco com que se desce. Não há estrela no céu que mais prognostique a ruína de um grande, que o levantar de sua estrela. Mais depressa se move aos afagos da grandeza que nos lisonjeia, do que aos desfavores com que a fortuna nos abate.
Quanto trabalharam os homens para subir, tantas foram as diligências que fizeram para se arruinarem; porque, como a fortuna (falo com os que não são beneméritos) não costuma subir a ninguém por seus degraus, em faltando degraus para a descida, tudo hão-de ser precipícios; e diferem muito entre si o descer e o cair. Se perguntarmos o por que caiu Roma, o maior império do Mundo, dir-nos-á seu historiador que foi porque cresceu muito; e com efeito acabou de grande, e as mesmas mãos que a edificaram, essas mesmas a desfizeram. Sem mãos se arruinou aquela estátua de Nabuco, porque a mesma grandeza não necessita de mãos, mas só de si para se arruinar. Em um monte de glória onde assistiu Cristo, se formaram estas glórias dos raios do Sol e da brancura da neve, para que, desfazendo-se a neve com o sol, se desfizessem umas glórias com outras; porque não depende a grandeza, para a ruína, mais que de si mesma, e quando falte quem as acabe, elas mesmas se consomem.
Padre Antônio Vieira, in As sete propriedades da alma