02/09/2026

"De volta pro aconchego" por Nelson Faria e Henrique Neto

 

Encosto

Por Tropicowboy

Duas tábuas e uma paixão


Cenário

Apartamento velho, construído há mais de trinta anos. O cenário deve ser construído apenas em sua estrutura básica, isto é, vazado, de modo que se veja em conjunto alguns dos cômodos – sala, parte do banheiro – necessários à ação. O apartamento tem ar de abandonado – ar que perde no decorrer da ação – mas não há muito tempo. Posse familiar, de certa forma invendável – pois o prédio está num processo de afundamento lentíssimo mas talvez inexorável – ficou disponível para qualquer membro da família que o quiser, precariamente, habitar. Rachaduras nas paredes, onde houver paredes visíveis. Importante: em frente, a porta que dá para o corredor externo é de vidro grosso, por onde se vê a sombra de pessoas que se aproximam. Mas não mais que isso! Muitos móveis esparsos e muitas estantes vazias – há intelectuais na família! Uma bela escrivaninha, peça, hoje, de antiquário. Essa escrivaninha está em posição diferente em cada cena. No início da peça, no fim do primeiro ato e no fim do segundo ato, está mais ou menos na mesma posição, no centro da cena.
À direita, no proscênio, outra parte da casa, indefinível. E uma simples parede, mais alta, com janela permanentemente fechada, como se desse para um pátio interno. Andaimes de ferro, remontáveis. Até certo ponto da ação há uma lâmpada nua pendente do teto, no centro da sala, esperando luminária. Deve estar um pouco abaixo da altura de uma pessoa normal. Depois de uma certa cena, mais alta.
Há 15 cenas nesta história. Entre cada uma delas acontecem no cenário pequenas – ou grandes – alterações. Coisas que são retiradas, coisas que são acrescentadas ou mudadas de lugar. Pois há uma reforma em andamento e se sente o progresso do trabalho através dessas alterações. Assim, um móvel que estava já não está. Um que não havia antes, aparece. Uma estante vazia já está com livros. Coisas são rearrumadas. Uma parede branca já ficou azul, ou vice-versa. As mudanças maiores ou menores devem ser feitas de acordo com o tempo decorrido entre uma cena e outra, conforme indicado.

Millôr Fernandes, em Duas tábuas e uma paixão

Eles voltavam para suas casas

Eles voltavam para suas casas e contavam às suas esposas,
que nunca antes em suas vidas
haviam conhecido uma garota como eu,
Mas… Eles voltavam para suas casas.

Eles elogiavam a limpeza da minha casa,
eu não dizia nenhuma palavra que não fosse a certa
e mantinha meu ar de mistério,
Mas… Eles voltavam para suas casas.

As bocas de todos os homens me enalteciam,
eles gostavam do meu sorriso, da minha sagacidade, dos meus quadris,
passavam uma noite, ou duas ou três.
Mas…

Maya Angelou, em Poesia Completa

O mundo especial do poeta

Carta a uma velha amiga que me disse ter conhecido um grande poeta, que é meu amigo; e ter sofrido uma decepção:

“Querida –
Não achou você poético o poeta; e até se queixa de que, no tempo em que esteve em sua mesa, não lhe ouviu uma palavra sobre poesia, mas, unicamente, ao sabor da conversa, comentários sobre sapatos de homem e desastres de automóvel, quando você gostaria de conversar sobre William Shakespeare.
É, na verdade, um pouco mortificante. Nunca falam os poetas de poesia?, me pergunta você. Bem, eles falam. Cada homem tem costume de falar de seu ofício, e o poeta é um homem como os outros. Mas acontece que, além de ser um homem como os outros, e sem deixar de sê-lo, ele tem isso de grave e especial que é ser um homem a quem tudo concerne e de tudo tira seu mel e seu fel. Esse menino que passa com um barulhento carrinho feito de caixotes, a trazer verduras da feira; aqueles operários da construção, que, depois de almoçar no botequim da esquina com uma cerveja preta, ficam um pouco sentados na calçada, conversando à-toa, à espera do sinal para o trabalho; e o próprio carrinho de tábuas de caixote, e a própria garrafa de cerveja preta – tudo é matéria do poeta. Não concerne o peixe ao motorista nem a mangueira ao cirurgião; mas ao poeta tudo concerne, e nesse pedaço de jornal velho que o vento arrasta pelo chão ele se inspira tão bem quanto naquela moça que saiu às compras, na manhã fria do bairro, com calças compridas e um suéter vermelho. Apenas há isto: que a esse farrapo de jornal ou aos olhos verdes dessa moça, pode acontecer que tenham de esperar muitos anos para entrar em um verso do poeta, como podem entrar de repente, atravessando um braço de mar de 1938 ou a tarde de um agosto antigo. A moça tão linda julga ir onde quer, ao sabor de sua fantasia; na verdade ela é guiada por um controle remoto que a faz passar perante o poeta. Este pelo menos assim o crê: vê gestos de Deus na queda de uma folha ou no salto de um gato.
Quando o poeta fala de sapatos, de trânsito ou futebol, não está disfarçando: o último jogo do Flamengo, a corrida dos ônibus depois do túnel e a cor dos sapatos, tudo se filtra na alma do poeta. Tudo; e com certeza também você, que ele pode ter incorporado silenciosamente no seu mundo. E quando amanhã escrever “uma tarde castanha”, se lembrará de seus cabelos e de sua voz serena.
Não o desame pois, por não ser poético; isso não é seu ofício: ele é poeta. Adeus.”

Rubem Braga
Rio, 1954/1983

Rubem Braga, em A poesia é necessária

Correnteza


1

Fazia muito tempo que Rita Preta não recordava o infortúnio que marcou sua vida de maneira definitiva, e assim continuaria não fosse a chuva repentina que transformava, à sua frente, o espaço entre a avenida e o meio-fio num pequeno riacho. Era sempre assim: imagens que despertavam memórias distantes, boiando e submergindo na corrente das lembranças. A água arrasta folhas secas, sacolas plásticas, fragmentos de objetos, papéis e até mesmo pequenos animais. A lembrança então chega renovada e repleta de detalhes. Ela aperta a bolsa contra a cintura e ajeita o guarda-chuva para se proteger do aguaceiro que prometia parar a cidade. Algumas pessoas sobem no banco do abrigo do ônibus enquanto outras se reúnem debaixo da cober­tura de concreto — cuja área é insuficiente para proteger os que buscam fugir do dilúvio. Para se resguardar, dois homens se posicionam atrás da placa lateral de um anúncio de protetor solar. Eles ficam sob o vidro pontilhado de umidade condensada, resultado do calor que aquece a atmosfera.
Enquanto as pessoas se aglomeram num espaço minúsculo para não chegarem encharcadas ao seu destino, Rita Preta deixa de acenar para dois ou três ônibus em que poderia subir, com alguma dificuldade, e talvez pudesse chegar sem atraso ao super­mercado onde trabalha. Tudo seguiria seu fluxo natural se não persistisse uma desconfortável angústia que a deixa paralisada por um instante. Seus olhos vagam em direção à água que continua a correr para desembocar num bueiro. O fluxo se torna então o rio da infância; um véu claro banhado pela luz que atravessava o céu de um dia nublado. O tempo a desafiar o conhecimento meteorológico dos moradores do campo sobre as chances de que uma precipitação ocorra.

O rio, caminho sinuoso por onde percorrem seres e saberes, sonhos e mistérios, como contaram certo dia os mais velhos. Rita brinca com os irmãos, e se alguém pudesse contemplá-los de longe, divisaria uma paisagem tranquila. Rita, menina, risca a terra com um galho seco. Desenha assim a vida: um barco, o rosto da mãe, a agitação dos irmãos, uma casa, um filho, depois mais filhos e o mar, aquele mesmo mar que banhava o lugar de destino de sua mãe, onde as histórias haveriam de começar e terminar, como a própria vida. As crianças saltam nas águas do rio como se trotassem um cavalo alado. No outeiro, a casa velha e Carmelita, que os observa da porta dos fundos em meio à lida. O reflexo do branco das nuvens cega as duas por um momento. Rita e a avó; pelo menos a primeira vê a matriarca apertar os olhos para se certificar de que os netos estão próximos e a seu alcance. Então a menina entrevê por um instante a silhueta da mulher diminuindo, sumindo, voltando para casa. Tudo naquele momento parece tão insignificante, e talvez por isso fosse sentido, mesmo passado tanto tempo, como a calmaria que costuma anteceder as tormentas. Ela abandona o galho, entra na água. Remove um cascalho da beira, outro do leito, e os segura com as mãos, e quando percebe seus ombros já estão submersos. É aí que seus pés flutuam e os seixos caem, devolvidos ao rio. Rita sente que precisa se segurar em algo para não ser levada. A correnteza a arrasta e a cabeça se move para tentar encontrar os irmãos. Seu corpo cresce e se afasta da margem, e os pés flutuam, se enroscam em pequenas ilhas de vegetação. A tranquilidade da paisagem dá lugar à inquietação, e o rumor que ecoa pelo ar é o do desespero, e também o de uma tromba-d’água.
As águas, as águas daquele instante, correm para sempre e sem destino.

Um pedaço de lona para nos pés de Rita Preta, e dentro de alguns minutos a chuva cessará, assim como o pequeno riacho que se formou próximo ao meio-fio irá se extinguir, deixando um rastro confuso de detritos. Mas antes que abandone as imagens e aquele estranho sentimento, velho conhecido, ela volta à memória do próprio corpo, à memória da dor que se replicou depois, incessante, enquanto tentava se segurar à terra, aos galhos, ao mato que flutuava no rio, à vida, para não ser arrastada em definitivo. Sente então que cresceu durante a batalha travada para viver, e por isso seus ossos doeram ao longo de todo o ano.
A tempestade dura poucos minutos, mas o suficiente para que o caos se instaure na cidade. Trânsito interminável, desabamentos de casas junto às encostas, um homem desaparecido depois de ser arrastado pelas águas até um bueiro. Rita precisa chegar ao trabalho antes das dez horas, mas com as ruas alagadas, os semáforos quebrados e vários carros deixados no meio do caminho, iria demorar muito mais. Ela não está tão úmida a ponto de ficar com cheiro de tapete molhado; tinha guardado a camiseta do uniforme amarelo na bolsa. Voltar para casa está fora de cogitação; a empresa está se “reestruturando”, seja lá o que isso signifique, e ela precisa daquele emprego. Na bolsa, o porta-documento e, por trás de um pequeno quadrado de acrílico, aquilo que mais importava: as fotografias três por quatro de seus filhos.

Rita Preta inicia as atividades do dia no supermercado. Senta-se no caixa, conta as cédulas e moedas que recebeu do operador do cofre. Outras operadoras de caixa se alinham numa fila. Depois, encontram seus caixas numerados, sentam-se, contam o dinheiro guardado nos pequenos malotes que lhes foram entregues. Faltam seis minutos para o turno das dez. Ela não pensa mais no temporal de duas horas atrás. Também não remexe na memória para reviver o dia que mudaria a vida de sua família há quase trinta anos.
Quando a chuva desabou severa numa manhã de outubro, e precipitou a imagem dos arrastados e das perdas que continuava a reverberar feroz em sua vida, Rita Preta não sabia que estava a poucos dias de ser levada outra vez, por uma corrente violenta, à vida que as mulheres de sua comunidade temiam ter. Registrar as compras e ouvir o bipe da máquina escaneando o código de barras a trouxe para o presente. Então constata que anda exausta e enumera na mente as causas de seu cansaço: primeiro, a falta de paciência com Jorge. Ela é a amante — e essa palavra a deixa com um sentimento ambíguo difícil de definir, um estigma, sem dúvida, mas também lhe confere certa dose de excitação e liberdade. O que a abala são as promessas não cumpridas, os telefone­mas não atendidos, as expectativas não correspondidas. Toda uma cadeia de pequenas frustrações. Além de passar muito tempo na estrada, viajando para transportar os grãos do oeste à baía, ele tem uma família que ocupa seu tempo: mulher, filhos, um neto. Prometera que sairiam para dançar em breve, mas havia meses os dois não iam à casa de seresta da Cidade Baixa. Além disso, a vida de encontros em hotéis baratos do centro da cidade sempre lhe soara humilhante e destituída de interesse.
Às vezes, Rita Preta tenta se conformar com seu destino, alegando que esta é sua sina. Confere um peso a essa história tendo como métrica seus relacionamentos anteriores. Ela tem muitos motivos para duvidar de seu atual romance. Foi assim com o pai de seu primeiro filho; com a transa breve que se seguiu e lhe deixou outro filho; com o delinquente, pai do terceiro, que a agredia e só deixou a casa quando ela trocou as fechaduras, e depois de lhe comprar uma passagem de ônibus de ida, sem volta, para o cafundó de onde ele tinha saído.

Detergente para louça, sacos de feijão, rolos de papel higiênico, alho triturado e o cheiro da água sanitária que tinha escorrido para fora da garrafa plástica. Tudo isso e mais um pouco passa por suas mãos ágeis e faz o dia seguir ainda mais depressa. Os ruídos mecânicos da esteira de compras, da impressora de cupom fiscal e do bipe do escaneador não são os mais desagradáveis de escutar, e, às vezes, mesmo nos dias de folga, Rita sente falta daquele trabalho repetitivo, que lhe permite pensar sem que lhe cobrem, por alguns minutos, a falta de concentração.
Naqueles instantes entre o alerta vermelho para o próximo cliente e o pagamento da compra anterior, Rita Preta aproveita para inventariar com rigor as razões de sua exaustão. Quando o faz, é inevitável pensar nos filhos. Reflete sobre seus caminhos, a maneira como crescem e a atenção que precisa lhes dispensar para manter a família sob controle.
Cid, o mais velho, é a fonte maior de sua dor de cabeça. Revelou sem dizer uma palavra que estava namorando uma jovem — uma menina, assim Rita a definia —, e ela creditava a isso o desleixo cada vez maior em relação às suas obrigações com oestudo. Ela recebia recados dos professores informando sobre as ausências do filho, as notas baixas, as brigas e o desinteresse por tudo que se relacionava à escola. Aquele desapreço a deixava furiosa, e não foram poucos os momentos, nos últimos meses, em que as tensões cresceram no ambiente doméstico, com gritos — quem grita mais alto? —, bater de portas, e o filho conduzindo a explosão de sentimentos de um adolescente que está se tornando homem. Rita está detestando — para não dizer odiando — ser mãe nessa fase. Sente-se sufocada e tenta encontrar meios de fazer com que sua autoridade prevaleça. Lança toda a culpa no pai ausente e grita impropérios aos quatro cantos sem nenhum pudor. Continua a pedir a colaboração do filho, e atribui a ele a responsabilidade pela própria vida, pelo bom futuro ou por seu fracasso.
Não há mal algum em fracassar. Ela sabe que fracassou muitas vezes.
Em contraponto, Cainho, o segundo, se movimenta num corpo que vai crescendo desajeitado. Não há reclamações sobre seu comportamento, mas Rita sente que alguma dor parece se esconder na vida do filho, sem que ela consiga compreendê-lo. Sem a companhia de amigos, sem o bulício das brincadeiras, sem praticar esportes. Somente um livro e outro; cadernos nos quais escreve quase todos os dias. Quando está furiosa, ela promete ler. Não considera possível que se escreva tanto, a ponto de negligenciar as tarefas domésticas. Ela gostaria de saber o que se passa na cabeça alheia ao tempo e à história, naquela mente que parece habitar uma dimensão impenetrável.
Juca, o terceiro, povoa a casa — ele é muitas crianças em uma, na verdade —, e Rita credita aquela energia impetuosa aos últimos anos da infância. Um rodamoinho de mudanças que a deixa exausta até mesmo quando imagina. Escapa para as ruas, escala as lajes para levantar arraias, joga bola por becos e vielas, atingindo os portões e as grades da vizinhança. Rita escuta as queixas, discute de maneira acalo­rada em defesa do filho. Mas em casa o ameaça, promete não deixá-lo sair, mesmo sabendo que é impossível crescer saudável confinado num cubículo. Quando as coisas melhorassem — quem sabe conseguisse ser promovida a supervisora? —, procuraria um lugar maior, uma comunidade com um campo ou uma casa com laje coberta, com um valor de aluguel que coubesse em seu orçamento, onde o filho pudesse brincar. Mas de que adianta mais espaço, se pergunta, se há muito não confia na cidade, na vila, na rua, e se mesmo em casa ela já não se sente mais segura?
Rita Preta observa as mulheres a seu lado: Nete operando o caixa 6, confusa com as compras que precisa registrar e empacotar ao mesmo tempo, enquanto a cliente conversa ao celular. Mais adiante, outra cliente se movimenta com o andador enquanto a cuidadora segura sua bolsa e vigia seus pés, temendo um passo em falso. Dois funcionários conversam em Libras e depois se dispersam para não serem repreendidos pela desatenção.
Rita imagina que todos, assim como ela, estão entretidos com seus mundos, refletindo sobre assuntos que precisam ser ou não decididos. Todos imersos numa miríade de pensamentos que costumam ocupar os dias de seus semelhantes.
Quando Rita abre a porta de casa naquela madrugada, não imagina que o fará para viver a perda. Um segundo e ela transpõe as várias portas que atravessou ao longo da vida. Suas histórias estão reunidas na casa, no corpo dos filhos, e, sobretudo, nas memórias que carrega consigo. Quando fecha a porta atrás de si, ela também está fechando as muitas outras portas sem, no entanto, trancá-las, para que seus fantasmas voltem quando precisarem: a mãe que se pôs a caminho da cidade e Rita nunca mais encontrou; a avó que não se despediu da neta que faria uma longa viagem; as casas de família onde conheceu o mundo do trabalho e da humilhação, aos doze anos (a mesma idade do filho mais novo); os homens que entraram e saíram de sua vida deixando marcas difíceis de esquecer.
Um de seus filhos fechou a mesma porta horas antes e se pôs a caminho da rua. Sem saber, Rita não se demora segurando a maçaneta, mas sua mão direita toca o metal descascado e deixa ali os desenhos difusos de suas digitais. Quando a mão dessa mãe tocar o metal, as impressões digitais de seus dedos se misturarão involuntariamente às pequenas marcas da existência dos filhos e, em especial, das do filho que deixou aquela casa.
No entanto, naquele tempo diminuto, na superfície fria do metal da maçaneta, os dois estão juntos, reunidos, despertos, e ainda não estão à procura de alguém.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo

01/09/2026

Eduardo Du Norte | Descobri

As sire­nes toca­ram a noite intei­ra sem parar. Todavia, pior que as sire­nes, foi o navio que afun­da­va, enquan­to as cabe­ças das crian­ças explo­diam



Mefítico. O fedor vem dos cadá­ve­res, do lixo e dos excre­men­tos que se amon­toam além dos Círculos Oficiais Permitidos, para lá dos Acampamentos Paupérrimos. Que não me ouçam desig­nar tais regiões pelos ape­li­dos popu­la­res. Mal sei o que me pode acon­te­cer. Isolamento, acho.
Tentaram tudo para eli­mi­nar esse chei­ro de morte e decom­po­si­ção que nos ago­nia con­ti­nua­men­te. Será que ten­ta­ram? Nada con­se­gui­ram. Os cami­nhões, ale­gre­men­te pin­ta­dos de ama­re­lo e verde, des­pe­jam mor­tos, noite e dia. Sabemos, por­que tais coi­sas sem­pre se sabem. É assim.
Não há tempo para cre­mar todos os cor­pos. Empilham e espe­ram. Os esgo­tos se abrem ao ar livre, des­car­re­gam, em vago­ne­tes, na vala seca do rio. O lixo forma seten­ta e sete coli­nas que ondu­lam, habi­ta­das, todas. E o sol, vio­len­to demais, cor­rói e apo­dre­ce a carne em pou­cas horas.
O chei­ro infe­to dos mor­tos se mis­tu­ra ao dos inse­ti­ci­das impo­ten­tes e aos for­móis. Acre, faz o nariz san­grar em tar­des de inver­são atmos­fé­ri­ca. Atravessa as más­ca­ras obri­ga­tó­rias, res­se­ca a boca, os olhos lacri­me­jam, racha a pele. Ao nível do chão, os ani­mais mor­rem.
Forma­-se uma atmos­fe­ra pes­ti­len­cial que uma bate­ria de ven­ti­la­do­res pos­san­tes pro­cu­ra inu­til­men­te expul­sar. Para longe dos limi­tes dos oikou­me­nê, pala­vra que os soció­lo­gos, ocio­sos, recu­pe­ram da anti­gui­da­de, a fim de desig­nar o espa­ço exí­guo em que vive­mos. Vivemos?
Virei­-me assus­ta­do. Adelaide nunca tinha dado um grito em trin­ta e dois anos de casa­dos. Treze para as oito. Em qua­tro minu­tos deveria estar no ponto, ou per­de­ria o S­-7.58, minha con­du­ção auto­ri­za­da. Estranho, ela sabia. E por que então resol­via me atra­sar ainda mais?
– O que foi?
– O pale­tó! Esqueceu?
– Não aguen­to esse pale­tó. Passo o dia suan­do.
– Mas sem ele não te dei­xam tra­ba­lhar.
– Tomara.
Adelaide me olhou, aris­ca. Inquieto, enca­rei o rosto dela e me per­gun­tei. Pergunta que não tenho cora­gem de enfren­tar. Se eu admi­tir, ela se des­ven­da. Toma forma, cris­ta­li­za, reve­la. Será que depois de tan­tos anos com­pen­sa ver? Reagir agora? E se vales­se a pena?
Tomávamos o café da manhã jun­tos, todos os dias. Depois ela me acom­pa­nha­va até a porta. Eu colo­ca­va o cha­péu (vol­tou o seu uso), aca­ri­cia­va seu ombro esquer­do (nem sei mais se há pra­zer nisto) e con­sul­ta­va o reló­gio. Ficava angus­tia­do se não esti­ves­se den­tro do horá­rio.
– Olha a nebli­na, está baixa. Vai esquen­tar muito.
Cada dia, a nebli­na desce. Quando envol­ver tudo, vamos supor­tar? Seis meses atrás, pai­ra­va no espa­ço como a cúpu­la de uma cate­dral gigan­tes­ca. O mor­ma­ço res­cal­da a cida­de, infla­ma a gente. Às vezes, a nebli­na some, fica o fedor que dá ânsias de vômi­to. A cabe­ça arde.
– Conseguiu dor­mir?
– Com as sire­nes tocan­do a noite intei­ra?
– Era alar­me de roubo?
– Incêndio. Me deixa com os ner­vos estou­ra­dos. A falta de sono até aguen­to. Mas os alar­mes me per­tur­bam.
– Não chega o calor infer­nal duran­te o dia? Ainda tem incên­dio à noite?
– Está tudo res­se­ca­do.
– Lembra­-se daque­le tempo em que os galões de gaso­li­na estou­ra­vam? Os pré­dios ardiam sem parar? Havia um depó­si­to em cada casa, logo depois do nefas­to perío­do de Racionamentos Incríveis.
Trouxe o pale­tó cinza. Tecido sin­té­ti­co que imper­mea­bi­li­za. Não deixa pas­sar calor, anun­cia­ram. Nada. Igual à casi­mi­ra. Me abafa. Vi sobre a mesa os calen­dá­rios sendo empi­lha­dos, ela esta­va reti­ran­do das pare­des. Puxa! Hoje deve ser 5 de janei­ro. O que me inte­res­sa?
Os calen­dá­rios desta casa per­ma­ne­cem sem­pre no pri­mei­ro do ano. O 1 ver­me­lho, fra­ter­ni­da­de uni­ver­sal. O ver­me­lho des­bo­ta, torna­-se rosa­do ao fim do ano. Todos os dias, Adelaide limpa. Horas e horas tiran­do o pó das folhi­nhas, na sala, cozi­nha, quar­to. Ansiosamente.
O 1 eter­no. Não é pre­ci­so mar­car o tempo, basta aban­do­ná­-lo, ela me disse uma vez. De que adian­ta saber que dia é hoje? As horas, sim, são impor­tan­tes. O dia é bem divi­di­do. Cada hora uma coisa certa. Melhor viver um dia só, sem fim. O que tiver de acon­te­cer, é den­tro dele.
Agora me dou conta. Não pare­cia coisa dela. Mulher quie­ta, ex­-escri­tu­rá­ria de estra­da de ferro. Nunca fala­va. Aceitava as coi­sas e só mos­tra­va irri­ta­ção calan­do­-se e coçan­do em baixo dos olhos. O lugar coça­do tor­na­va­-se enru­ga­do e os olhos alon­ga­vam­-se, como os de uma japo­ne­sa.
No come­ço do ano, reco­lhia os calen­dá­rios, fazia um pa­­co­te com papel­-pardo. No dia 5, ao sair, pedia: “Não se esque­ça do papel”. Repetiu, trin­ta e dois anos. Nunca me lem­bra­va, ela jamais se esque­cia. Dizia a frase, irre­me­dia­vel­men­te, ao nos des­pe­dir­mos, treze para as oito.
A subs­ti­tui­ção dos calen­dá­rios era auto­má­ti­ca no dia 5 de janei­ro. Pela manhã, Adelaide reti­ra­va­-os. Nesse dia, eu não fica­va na cida­de, vol­ta­va na hora do almo­ço. Depois de comer, sem­pre me dei­ta­va um pouco. Mas, agora, o quar­to aba­fa­do e o suor não me dei­xam dor­mir.
Mesmo assim, fico no quar­to. Ao sair, vejo os novos calen­dá­rios no lugar. E, sobre a mesa, o embru­lho de papel­-pardo. Devo levá­-lo ao anti­go quar­to de empre­ga­da, amon­toá­-lo junto com os outros. Ali estão empi­lha­das pela ordem as folhi­nhas dos últi­mos trin­ta e dois anos.
Onze mil e sete­cen­tos dias into­ca­dos. Empoeirados, ama­re­la­dos, não uti­li­za­dos, con­ser­va­dos. Naquele cômo­do, entro uma vez por ano. Nunca tive­mos empre­ga­da. Adelaide sem­pre fez tudo, dizia iro­ni­ca­men­te que era a sua mis­são. Só há pouco con­se­gui con­tra­tar uma faxi­nei­ra sema­nal.
E isso por­que empre­ga­dos ganham pou­quís­si­mo. As pes­soas tra­ba­lham em troca de um prato de comi­da, um copo de água por dia. Não que­rem dinhei­ro, só comer e beber. Aí está a gran­de difi­cul­da­de. Se acei­tas­sem dinhei­ro, tudo bem. Mas comi­da? E que dizer de água então?
Os dias guar­da­dos. Armazenados. Neles, nenhu­ma marca. Nem sequer rasura. Conjunto, soma de todos os nos­sos ins­tan­tes. Agora sei. Cada momen­to era uma ante­ce­dên­cia para nós. Uma espe­ra que se subs­ti­tuía infi­ni­ta­men­te. Vivíamos na ansie­da­de pela oca­sião que have­ria de che­gar.
Assim, nossa vida se dis­ten­dia como um elás­ti­co. Esticava­-se ao ponto máxi­mo, atin­gin­do o esta­do de ten­são, incô­mo­da in­­quie­­­ta­ção. Quando o dia se aca­ba­va, a espe­ran­ça nas­cia outra vez den­tro de nós. Aguardávamos os ins­tan­tes que fariam o dia seguin­te reple­to­-vazio.
Instantes des­pi­dos daqui­lo que fal­ta­va. Algo que neces­si­tá­va­mos e não íamos pro­cu­rar. Ficávamos na expec­ta­ti­va de que acon­te­ces­se. Havia uma falta. Não somen­te den­tro do tempo. Porém um vazio real, con­cre­to. Lancinante. Em cada canto da casa se pro­je­ta­va a sua som­bra. Compacta.
Fomos preen­chen­do o apar­ta­men­to com obje­tos. Até que ele se asse­me­lhou a um bazar de arti­gos úni­cos, inven­dá­veis. Cristaleiras cheias de com­po­tei­ras, xíca­ras, salei­ros, copos, taças e lico­rei­ras. Paredes com qua­dros, repro­du­ções, flâ­mu­las, san­tos, retra­tos, reló­gios para­dos.
Vasos, bibe­lôs, cria­dos­-mudos, mesi­nhas de cen­tro, cin­zei­ros lim­pos, esta­tue­tas, ima­gens, porta­-retra­tos, toa­lhi­nhas de renda, tape­tes de bar­ban­te, cai­xi­nhas deco­ra­das, vidros vazios, gar­ra­fas cor­ta­das, pesos de papel, aba­ju­res, lâm­pa­das voti­vas, ces­ti­nhas de cos­tu­ra deco­ra­das.
E calen­dá­rios. Dois ou três em cada cômo­do, esco­lhi­dos por ela. Brindes ganhos nos Superpostos de Distribuição Alimentar. Comprados na igre­ja. Folhinhas que nos ensi­na­vam vários cos­tu­mes obso­le­tos. Como a boa época para se plan­tar e colher. Ou que pre­viam o bom e o mau tempo.
Depois de guar­dar os paco­tes, eu vinha olhar, uma a uma, as folhi­nhas novas. Estampas colo­ri­das. Moças colhen­do café. Laranjais em fila india­na sobre a coli­na. Trigais dou­ra­dos ao sol, homens com cei­fa­dei­ras. Casas à beira de lagos, incên­dios na flo­res­ta. Tudo tão anti­go.
Índios, onças, gatos na cesta, pai preto, anjos velan­do meni­nos à borda de abis­mos. Tudo, menos moças nuas. Dessas que se viam nas ofi­ci­nas mecâ­ni­cas. Loiras diá­fa­nas, more­nas rechon­chu­das, sor­rin­do em tan­gas míni­mas. Contemplava rapi­da­men­te, teria o ano todo para admi­rá­-las.
– Tem um fio de cabe­lo bran­co. O que é isso, pai­zi­nho? Mal fez cin­quen­ta anos. Seu pai com noven­ta ainda tem a cabe­ça preta!
A mãe dela cha­ma­va o mari­do de pai. Mas nós? Onde está nosso filho? Nem sei se tive­mos. Pode pare­cer um absur­do, mas é ver­da­de. Podem acre­di­tar. Pela minha honra. Tudo se con­fun­de na minha cabe­ça, o que foi e o que deveria ser. O que era real­men­te e aqui­lo que eu gos­ta­ria que fosse.
– Souza, sonhei outra vez.
– De novo? O mesmo sonho?
– Mudou um pouco. Não foram as sire­nes que não me dei­xa­ram dor­mir. Foi o sonho. Tão níti­do. Real como aque­la noite no porto.
Não. Adelaide, não. Basta! Já temos o infer­no no cora­ção. Há coi­sas que devem ser esque­ci­das. Vamos sepul­tá­-las. É pre­ci­so. Combinamos um dia não falar nunca mais sobre o assun­to. Afinal, para nós, viver sem­pre foi tão calmo, recon­for­tan­te. Éramos feli­zes. Ao menos, pare­cia.
– Souza, foi impres­sio­nan­te. O navio afun­da­va num mar ter­rí­vel. Não havia tem­pes­ta­de algu­ma, nem vento, só o silên­cio. Sabe o que me con­ge­la­va? O ruído das lâm­pa­das quen­tes estou­ran­do quan­do toca­vam a água fria. Os cor­dões de lâm­pa­das se arre­ben­ta­vam, sol­tan­do uma fuma­ci­nha bran­ca. O mar foi fican­do escu­ro, escu­ro, até que a últi­ma lâm­pa­da se apa­gou. Eu sem enxer­gar nada, só ouvin­do aque­las explo­sões. Nem mesmo um gemi­do. Elas mor­re­ram todas, não mor­re­ram, Souza? Você vai ter de me con­tar uma hora. Será que não era o baru­lho das cabe­ci­nhas estou­ran­do?
– Não seja louca, Adelaide. Como a cabe­ça delas ia estou­rar?
– Criança tem a cabe­ça tão fra­qui­nha.
– É tudo sonho, Adelaide, não tem nada a ver. Se acal­me.
– Não posso sos­se­gar, e você tem­bém não, até que eu saiba.
O navio, nossa afli­ção, esta­va esque­ci­do. Imaginei que jamais retor­nas­se. Antes, mais novos, tínha­mos capa­ci­da­de para supor­tar. Adelaide, prin­ci­pal­men­te. Está can­sa­da, acho que doen­te. Desassossegada. Para nós, o tempo não aju­dou a esque­cer, ao con­trá­rio, ali­men­tou lem­bran­ças.
Quatro para as oito; se não corro, perco o ôni­bus. Não fosse esta perna, eu teria uma bici­cle­ta, como todo mundo. Uma artro­se no joe­lho me impe­de de peda­lar. Tive de pas­sar por deze­nas de exa­mes, cen­te­nas de gabi­ne­tes, paguei gor­je­tas, conhe­ci todos os peque­nos subor­nos.
Escorreguei fichas de água nas mãos de fun­cio­ná­rios. Fichas que me fize­ram falta. Transferi cotas de ali­men­tos, e espe­rei até que saís­se a pra­ti­ca­men­te impos­sí­vel auto­ri­za­ção para o ôni­bus. Ganhei a ficha espe­cial de cir­cu­la­ção para o S­-7.58. O des­gra­ça­do é pon­tual, até irri­ta.
Abro a porta, o bafo quen­te vem do cor­re­dor. Já estou mela­do, quan­do che­gar ao cen­tro esta­rei em sopa. Como todo mundo. A vizi­nha varre o chão, furio­sa­men­te. Como se fosse pos­sí­vel lutar con­tra a poei­ra negra, a imun­dí­cie. Não for­ne­cem água para lavar as par­tes comuns.
Vou pela esca­da. Há muito desis­ti desse emper­ra­do ele­va­dor soli­tá­rio, mam­bem­be. Serve trin­ta anda­res, cento e cin­quen­ta apar­ta­men­tos. Somente os velhos e invá­li­dos espe­ram por esse apa­re­lho des­con­jun­ta­do, amea­ça­dor. O cor­re­dor da entra­da atu­lha­do de lixo. Uma ver­go­nha.
Lixo que aumen­ta dia a dia. Não pode­mos ati­rar na rua, e não há onde depo­si­tar. O cami­nhão car­re­ga o que pode quan­do passa. Se passa. Vem tão cheio que leva muito pouco. Ratos dila­ce­ram os sacos, o lixo se espar­ra­ma, espa­lha um fedor insu­por­tá­vel. Ora, um chei­ro a mais.
Nem sei por que paga­mos zela­dor, ele nunca está, se es­que­­­ce de ligar o Sônico Antirratos. Um zela­dor hoje em dia preci­sa ser polí­ti­co, nego­ciar com os Homens dos Caminhões de Lixo, com os Civiltares de Segurança, dia­lo­gar habil­men­te com For­ne­ce­do­res Oficiais de Água.
A bar­bea­ria está abrin­do. Antigamente, havia neste hall loji­nhas minús­cu­las, boni­tas. Existia até um café, com toa­lhas xadrez, chás e tor­tas, sonhos e bolos, sor­ve­tes, água gela­da, refri­ge­ran­tes e sucos. Fecharam, as vitri­nes estão cer­ra­das com pla­cas de plás­ti­co pre­ga­das aos baten­tes.
Lacrado por pla­cas pre­ga­das por fora. Assim me sinto. Contando os dias, deta­lhan­do meus pas­sos. Sensação de que me obser­vo em micros­có­pio, aumen­tado deze­nas de vezes. Quantas vezes não reco­nhe­ço este Souza que des­li­za num líqui­do vis­co­so. Sou, toda­via não pode ser eu.
No cor­re­dor, somen­te o bar­bei­ro resis­tiu. Sei lá como, ou por quê. Não enten­do. Os velhos des­cem de vez em quan­do para uma barba, um cabe­lo. Através dos vidros encar­di­dos, mal se per­ce­be o salão. Cumprimento com um aceno, Prata me faz um sinal, gosta de uma pro­si­nha. Inevitável, indo­lor.
– Tem água esta sema­na?
– E eu sei? Pergunte ao dis­tri­bui­dor.
– É que você tem aque­le sobri­nho.
– Não faço a míni­ma ideia.
– Desorganizaram as entre­gas, ou aumen­ta­ram os pra­zos.
Coceira nas mãos. Arde e no lugar está uma peque­na depres­são, como se eu tives­se aper­ta­do uma bola de gude por muito tempo. Fiquei pas­san­do o dedo pela depres­são, sen­tin­do cóce­gas. Será uma pica­da de inse­to? Não senti nada. Medo. Anda apa­re­cen­do cada bicho estra­nho!
O cami­nhão des­car­re­ga refri­ge­ran­tes fac­tí­cios no bar. Portanto um mês se pas­sou. Durante as fes­tas o tempo voa. Besteira, o que me inte­res­sa a cor­ri­da do tempo? Não exis­te nada a fazer com ele. Que impor­ta a velo­ci­da­de se já não tenho uso para minha vida. Quem tem?

Ignácio de Loyola Brandão, em Não verás país nenhum

Normal

Por @karenfagu

Ainda sem resposta

Não sei mais escrever, perdi o jeito. Mas já vi muita coisa no mundo. Uma delas, e não das menos dolorosas, é ter visto bocas se abrirem para dizer ou talvez apenas balbuciar, e simplesmente não conseguirem. Então eu quereria às vezes dizer o que elas não puderam falar. Não sei mais escrever, porém o fato literário tornou-se aos poucos tão desimportante para mim que não saber escrever talvez seja exatamente o que me salvará da literatura.
O que é que se tornou importante para mim? No entanto, o que quer que seja, é através da literatura que poderá talvez se manifestar.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Todos temos um pouco



“Foi ali que mataram o filho da rainha da Inglaterra.”
“Posso tirar uma foto sua?”
“Sim, general.”
Tirei a câmera da pasta e bati uma foto de dona Romilda.
“O senhor vai ao churrasco que vou oferecer no fim de semana?”
“Se puder, vou.”
“Quantos bois devo matar? Dois?”
“Vai muita gente?”
“Umas duzentas pessoas.”
“Creio que dois é o suficiente.”
“O senhor está examinando o problema da minha casa na São Clemente? A casa é minha e eles não querem sair de lá.”
“Estou vendo. Tenho que ir.”
“Sábado. Na fazenda. Não é nesse, no outro sábado.”
“Eu irei, dona Romilda.”
Entrei no prédio do meu escritório, peguei o elevador.
Cristina estava me esperando.
“Copia esta foto, por favor.”
“O senhor está gostando dessa digital?”
“É boa, pequena, fácil de carregar. Mas não vou me desfazer da minha Leica do tempo do Onça. Nem da Pentax.”
“Tem muita coisa na sua agenda”, disse Cristina, ao sair da minha sala.
Agenda. Coisas pendentes. A agenda sempre me deixava abatido, como se eu começasse o dia fazendo uma hemodiálise. Uma maneira de aliviar esse sofrimento era abrir a gaveta e consultar o meu extrato bancário. Dava um certo alívio ver meus fundos de investimento aumentando todo mês. O problema é que eu não sabia o que fazer com aquele dinheiro todo guardado num banco. Podia comprar imóveis, ações, ouro, mandar o dinheiro para um paraíso fiscal, mas isso iria criar mais agendas. Não aguentava outra agenda.
“Quer marcar a reunião com a Ceteagá? É a única urgente”, Cristina perguntou, pelo interfone.
“Não, vê se eles podem amanhã. Ou outro dia.”
Eu precisava de umas férias.
Depois do almoço, Cristina entrou na minha sala.
“A foto está pronta, imprimi na laser nova. Ficou muito boa. É a dona Romilda, não é?”
“Você a conhece?”
“Ela me alertou outro dia para não ir ao Wagner. Cuidado, eles fazem tráfico de órgãos lá. Agora evito que a dona Romilda me veja entrando no Wagner, se ele souber o que ela anda dizendo vai ficar furioso, o senhor sabe como são os cabeleireiros. Mas eu gosto da dona Romilda, ela é a única pessoa bem-humorada que conheço. Sempre que me vê diz, bom dia, princesa.”
“Hoje ela me disse que mataram o filho da rainha da Inglaterra na frente do banco.”
“Para mim dona Romilda falou que o príncipe foi morto naquele prédio grande, com grades. Matar o príncipe na porta do banco não tem muita lógica. Mas o prédio tem muitos apartamentos, de todos os tamanhos, de quatro quartos, de dois, conjugados com kitchenette, entra e sai gente a toda hora, você se perde nos corredores, de tão grande. Um lugar melhor para matar o filho da rainha da Inglaterra. Posso dar o retrato para ela?”
“Acha uma boa ideia?”
“O retrato ficou tão bom... Quando fui almoçar, eu a encontrei e lhe disse que o meu chefe tinha tirado uma foto dela.”
“O que foi que ela disse?”
“Perguntou: uma foto nua?”
“Ela pensa que alguém ia tirar uma foto dela nua?”
“O senhor talvez fizesse uma foto dessas.”
“Dona Romilda disse isso?”
“Eu é que estou dizendo. O senhor gosta tanto de fotografia que isso não me parece impossível. E uma foto nua dela seria uma maravilha.”
“Mas eu não faço fotos de mulheres nuas.”
“A dela seria uma beleza. Um bom começo.”
“Ela iria gritar, quando eu passasse na rua: o general tirou minha foto nua.”
“Ela não grita nunca. Fala sempre num tom de voz educado. E além disso, ninguém ia acreditar. Outro dia ela me disse, estou com todas as minhas joias, meusdiamantes, rubis neste saco. O Guilherme, ao meu lado, não acreditou. Ninguém acredita nela. A dona Romilda nos levou até a praça para mostrar os escargôs que criava e iam lhe dar muito dinheiro. Moça, o Guilherme disse, isso aí são lesmas.”
“É tudo da mesma família.”
“Eram só quatro lesmas, que estavam numa caixa com alface. Não eram suficientes para fazer uma criação. Ela tem esse lado sonhador. O Guilherme disse que essa coisa de comer escargô é um modismo burguês que vai passar.”
“Esse modismo tem pelo menos dois mil anos.”
“É mesmo?”
“No mínimo.”
“O senhor já comeu?”
“Já.”
“Gostou?”
“Sim.”
“Acho que eu ia ter nojo. Mas se um dia o senhor me levar para comer essa coisa, eu como.”
Abri a agenda.
“E a foto da dona Romilda nua?” perguntou Cristina.
Não respondi logo. A foto talvez valesse a pena, seria algo novo no meu acervo de amador.
“Onde é que eu posso fazer isso? Não tenho lugar, dona Cristina. Na minha casa não pode ser.”
“Pode ser na minha.”
“Onde a senhora mora?”
“No prédio cheio de corredores onde mataram o príncipe.”
“Foi em frente ao banco.”
“Dona Romilda inventou isso, tem cisma com o gerente, ele não gosta que ela durma na porta do banco.”
“Em que dia nós vamos fazer isso?”
“No sábado. De tarde. Se o senhor puder, é claro.”
“Me dá o número do seu apartamento.”
“Não, é uma kitchenette.”
“Tem uma cama, não tem? Uma foto nua dela, para ficar boa, tem que ser deitada. Quer dizer, vou fazer uma em pé, também. A senhora leva a dona Romilda para o seu apartamento e eu encontro vocês lá. Quatro horas, está bem?”
O ideal para fazer aquela foto seria lá pelas ou 7. Eu levaria também os flashes, caso não tivesse uma janela dando uma luz boa da rua. E como garantia, a Leica, que me dava mais mobilidade. A digital não era uma máquina para fotos artísticas.
O prédio era mesmo grande e cheio de corredores, mas acabei achando o apartamento.
Cristina e dona Romilda, com o enorme saco que sempre carregava, estavam na sala me esperando.
“General, que bom ver o senhor novamente.”
“Vamos fazer a foto?”
“Pelada?”
“A senhora se incomoda?”
“Já fiz foto pelada para a Playboy. O senhor não viu?”
“Eu não leio a Playboy!
Dona Romilda tirou a roupa.
“A senhora sabe quantos quilos pesa, dona Romilda?”
“Não sei, princesa.”
“Deve ser uns cem quilos. Tenho uma balança no banheiro, vou trazer para cá.”
Pesamos dona Romilda.
“Errei por pouco. Cento e dez. Não dá uma fotografia deslumbrante, doutor?”
A cama estava arrumada, com uma colcha vermelha.
“Deita aí na cama, dona Romilda.”
“Eu não deito em colcha vermelha.”
“Por quê?”
“Não é bom. Maus espíritos atacam a gente.”
“A senhora tem outra colcha, dona Cristina?”
“Pode ser branca, dona Romilda?”
“Pode.”
“Acho que branca é até melhor, cria um bom contraste. Muda a colcha, por favor.”
Cristina trocou a colcha.
“Fico com as pernas abertas?”, perguntou dona Romilda, deitando na cama.
“Espera um pouco. Preciso colocar os filtros na máquina, fazer o enquadramento, ver a luz. Não demora muito.”
Pela janela entrava uma luz boa, de fim de tarde.
“General, eles não querem devolver a minha mansão da São Clemente. A Rosinha diz que a casa é dela. Mas a casa é minha, quem me deu a casa foi a rainha da Inglaterra, que morou lá.”
“Vou ver o que posso fazer”
“E fala com o Vítor para parar de fazer propostas indecentes para mim. Já estou com dois filhos dele na barriga.”
“Eu falo.”
Coloquei a Pentax num tripé.
“Fecha as pernas, por favor, e fica deitada quieta. Dona Cristina, põe uns travesseiros sob a cabeça e as costas dela, para o tórax ficar um pouquinho levantado. Me arranja um livro.”
“Qualquer livro?”
“A senhora tem um livro de arte?”
“Que arte?”
“Tem que ser um livro grande.”
“Este serve?”
“Serve. Põe, por favor, o livro sobre o púbis dela.”
“Para que esse livro, general?”
“É um toque artístico, dona Romilda.”
“Mas eu quero tirar uma foto com as pernas abertas.”
“As outras a gente tira como a senhora quiser. Mas primeiro esta, com o livro.”
Dona Romilda ficou imóvel na cama, pensativa, mas tranquila, com o livro sobre o púbis.
“Dá uma olhada aqui no visor, dona Cristina.”
“Que coisa linda”, disse Cristina. “Não pensei que ela tivesse tantas curvas. Vai ser uma foto de museu internacional.”
Bati outras fotos, dona Romilda de pernas abertas, de bruços, de lado, em posição fetal. Usei também a Leica.
“Está encerrada a sessão, sobrou apenas um filme. Muito obrigado, dona Romilda.”
“Vai sair na Playboy?”
“Não garanto.”
“Estou com fome.”
“Vou fazer um sanduíche para a senhora”, disse Cristina.

Rubem Fonseca, em Pequenas Criaturas

Piada

Um português, um francês e um americano estavam no deserto quando perceberam que estavam dentro de uma piada. Foi o português quem primeiro perguntou: o que é que nós estamos fazendo aqui, ó, pá? Ao que o francês respondeu, com leve sotaque: se você está falando “ó, pá” isso só pode ser uma piada, porque nenhum português de verdade fala assim.
Ao que o americano respondeu: e se nós que nem portugueses somos estamos falando português, e ainda por cima com esse sotaque tão malfeito, é porque isso só pode ser uma piada. Já estou morrendo de sede, disse o francês, precisamos sair daqui o quanto antes.
Ao que o português, que não era burro e tinha ido parar ali na piada por engano, respondeu: talvez algo de engraçado precise acontecer, talvez a gente precise encontrar a graça da piada pra conseguir sair daqui. Talvez se encontrássemos uma lâmpada, disse o americano, piadas de deserto costumam envolver gênios, lâmpadas, três pedidos, e no terceiro pedido, puf: a graça.
Os três cavaram por horas, sem qualquer vestígio de graça ou lâmpada. O francês teve uma ideia: nós só vamos sair daqui quando o português disser ou fizer uma estupidez. Ao que o português respondeu ser contra a perpetuação desse tipo de preconceito. Os outros dois pediram que ele batalhasse por essa causa depois que já tivessem saído da piada. E o português desandou a gritar estupidezes, a contragosto. Não teve graça. Partiu para o humor físico. Tropeçou, comeu areia, imitou um camelo. Nada.
Foi aí que lhe veio a ideia: talvez não fosse uma piada de português. Talvez fosse uma piada de francês. Algo relacionado ao fato dele não tomar banho. O francês disse que era limpíssimo e que o mais provável era que a piada em questão recaísse sobre o americano. Este disse que nunca tinha visto uma piada de americano, o que só torna essa piada melhor, respondeu o francês, porque ela é inesperada. O americano fez meia dúzia de americanices, sem efeito.
Eis que no horizonte surge, esbaforida, uma loura. Alguém viu meu papagaio?, ela pergunta. Perfeito!, diz o francês. É nele que mora a piada. Surge o papagaio. Mas ele é do tipo que não fala. Eles desistem. Exaustos, refestelam-se na areia, moribundos.
Talvez isso não seja uma piada, diz o português. Talvez isso seja só uma coluna de jornal, que não precisa de graça para acabar. Talvez acabe de repente, sem piada. O que é que a gente faz?, pergunta a loura. Espera, ele responde. Espera.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

11 — A duplicação de Ivan



O bosque na margem oposta do rio, ainda há uma hora iluminado pelo sol de maio, turvou-se, borrado, e se dissipou.
A água caía como uma cortina contínua do outro lado da janela. No alto, a todo instante, linhas irradiavam, o céu arrebentava, e uma luz vacilante e assustadora era derramada no quarto do doente.
Sentado na cama, Ivan chorava baixinho, olhando para o rio turvo em ebulição. A cada trovoada, ele soltava um grito penoso e cobria o rosto com as mãos. As folhas escritas por Ivan estavam largadas no chão. Tinham sido carregadas pelo vento que soprou no quarto antes de a tempestade começar.
As tentativas do poeta de escrever uma denúncia sobre o terrível consultor não deram em nada. Assim que ele recebeu um toco de lápis e papel das mãos da gorda assistente, que se chamava Praskóvia Fiódorovna, Ivan esfregou as mãos com um ar prático e depressa instalou-se à mesa. O início lhe veio com bastante facilidade:
“À polícia. Do membro da Massolit, Ivan Nikoláievitch Bezdômny. Denúncia. Ontem à noite, eu fui com o falecido M.A. Berlioz a Patriarchi Prudý...”
Mas imediatamente o poeta ficou confuso, principalmente por causa da palavra “falecido”. Logo de saída veio à tona um ponto absurdo: como assim... “fui com o falecido”? Os mortos não vão a lugar algum! Realmente, são capazes de me tomar por louco!
Pensando assim, Ivan Nikoláievitch começou a corrigir o que havia escrito. Saiu o seguinte: “... com M.A. Berlioz, posteriormente falecido...” Mas isso também não o satisfez. Ele teve de recorrer a uma terceira versão, que resultou pior do que as duas primeiras: “... Berlioz, que foi parar debaixo do bonde...” — e aqui não saía de sua cabeça aquele compositor homônimo que ninguém conhecia, e então teve que incluir: “... não o compositor...”
Depois de padecer muito com esses dois Berlioz, Ivan riscou tudo e resolveu começar de uma vez com algo bem forte para atrair a atenção do leitor imediatamente. Então escreveu que um gato pegou o bonde, e depois voltou ao episódio da cabeça decepada. A cabeça e a previsão do consultor o remeteram ao pensamento sobre Pôncio Pilatos e, para ser ainda mais convincente, Ivan resolveu expor na íntegra toda a história do procurador, desde aquele exato momento em que, de manto branco, com a barra cor de sangue, ele saiu para a colunata do palácio de Herodes.
Ivan trabalhava com afinco, riscava o que havia escrito, inseria palavras novas, e até tentou desenhar Pôncio Pilatos, e a seguir um gato nas patas traseiras. Mas os desenhos também não ajudavam e, quanto mais avançava, mais confusa e incompreensível se tornava sua denúncia.
Naquele momento em que uma nuvem assustadora com as bordas fumegantes apareceu ao longe e cobriu o bosque, e o vento soprou, Ivan sentiu que já não tinha forças, que não daria conta da denúncia, desistiu de recolher as folhas que tinham voado e pôs-se a chorar baixinho, amargurado.
Praskóvia Fiódorovna, a assistente de bom coração, que fora dar uma olhada no poeta na hora da tempestade, ficou aflita quando viu que ele chorava. Fechou a cortina para que os raios não assustassem o doente, recolheu as folhas do chão e foi correndo com elas procurar o médico.
O médico apareceu, aplicou uma injeção no braço de Ivan e garantiu que ele não iria mais chorar, que agora tudo iria passar, tudo iria mudar e tudo seria esquecido.
O médico tinha razão. Logo o bosque da outra margem do rio ficou como antes. Ele se delineava até a última árvore sob o céu, que voltara a ficar limpo e completamente azul, como antes, e o rio se acalmou. A desolação começou a deixar Ivan logo após a injeção, e agora o poeta estava deitado, calmo, olhando para o arco-íris que se estendera no céu.
Assim continuou até a noite e ele nem percebeu quando o arco-íris se dissolveu, como o céu ficou triste e desbotado e o bosque enegrecido.
Depois de beber leite morno, Ivan deitou de novo e se admirou com a mudança que se operou em seus pensamentos. O maldito gato diabólico suavizou-se em sua memória, a cabeça decepada não o assustava mais e, deixando de lado o pensamento sobre ela, Ivan começou a refletir que, no fundo, não era assim tão ruim estar na clínica, que Stravinski era muito inteligente, uma celebridade, e que era extremamente agradável lidar com ele. No fim das contas, o ar da noite ficou doce e fresco após a tempestade.
A casa da aflição estava adormecendo. Nos corredores silenciosos as lâmpadas brancas frias iam se apagando e no lugar delas foram acesas, de acordo com os regulamentos, lâmpadas de cabeceira, fracas, azuis, e cada vez mais raramente se ouviam atrás das portas os passos cuidadosos das assistentes nos tapetes de borracha do corredor.
Agora Ivan estava deitado em doce languidez, olhando ora para a pequena lâmpada sob a cúpula do lustre que derramava, do teto, uma luz atenuada, ora para a lua, que saía de trás do bosque negro, e conversava consigo mesmo.
— Realmente, por que fiquei tão alterado por Berlioz ter ido parar debaixo do bonde? — raciocinava o poeta. — No fim das contas, ele que vá para o inferno! Na verdade, o que eu sou dele, amigo do peito ou parente? Pensando melhor sobre essa questão, chegarei à conclusão de que eu, na realidade, nem sequer conhecia o falecido muito bem. Na verdade, o que eu sabia sobre ele? Nada, a não ser que era careca e extremamente eloquente. E tem mais, cidadãos — prosseguia seu discurso, dirigindo-se a uma pessoa qualquer —, vejamos qual é a questão: por que eu, expliquem, fiquei irritado com esse enigmático consultor, mago e professor com aquele olho vazio e negro? Para quê toda essa perseguição sem sentido, só de ceroulas e com uma vela nas mãos, e depois a confusão no restaurante?
— Ei, vá com calma — de repente disse, severo, o Ivan de antes, em algum lugar, de dentro ou ao pé do ouvido, ao novo Ivan. — Ele não sabia de antemão que a cabeça de Berlioz seria decepada? Como não ficar alterado?
— Que conversa é essa, camaradas! — exclamava o novo Ivan ao antigo Ivan. — Que aqui o negócio não cheira bem até uma criança pode entender. Trata-se de uma personalidade cem por cento fora do comum e misteriosa. Mas é exatamente isso o mais interessante! O homem conheceu Pôncio Pilatos pessoalmente, querem algo mais interessante do que isso? Em vez de armar o maior escândalo em Patriarchi, não teria sido mais inteligente perguntar com educação o que aconteceu depois com Pilatos e com aquele preso, Ha-Notzri? O diabo vai saber com o que fui me meter! Um acidente importante, na verdade; o editor de uma revista foi atropelado! E daí, será que a revista vai fechar por causa disso? O que é que se vai fazer? O homem é mortal e, como já foi dito com toda a propriedade, é inesperadamente mortal. Que descanse em paz! Haverá outro editor e até, quem sabe, ainda mais eloquente do que o antigo.
Depois de cochilar um pouco, o novo Ivan perguntou com escárnio ao velho Ivan:
— Então, quem sou eu nesse caso?
— Um idiota! — em algum lugar falou uma voz grave, nítida, que não pertencia a nenhum dos Ivans e que era extremamente parecida com a voz grave do consultor.
Sabe-se lá por que Ivan não se ofendeu com a palavra “idiota”, mas até ficou agradavelmente admirado, sorriu e se acalmou, semiacordado. O sono se apoderava de Ivan e ele já imaginava uma palmeira em sua perna de elefante, um gato passando em frente — não terrível, mas alegre. Resumindo, logo, logo, o sono surpreenderia Ivan, quando de repente, sem fazer barulho, a grade se moveu para o lado, e na varanda surgiu uma figura misteriosa, desviando da luz da lua e acenando com o dedo para Ivan.
Sem se assustar nem um pouco, Ivan se ergueu na cama e viu que na varanda havia um homem. E esse homem, encostando o dedo nos lábios, sussurrou:
— Shh!

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida