04/11/2026

O chamado | Marina Lima

Sociável e modesto

Ele pode ser melhor em derrubar seus oponentes. Contudo, não é mais sociável, modesto, disciplinado para abraçar as ocorrências ou indulgente com as falhas dos vizinhos.

Marco Aurélio, em Meditações

Pé-duro, chapéu-de-couro

 


— Qué buscades, los vaqueros.
— Una, ay, novilleja, una...
Góngora

Reunindo redondo mais de meio milhar de vaqueiros, na cidade baiana de Cipó, no São João deste ano, para desfile, guarda-de-honra, jogos de vaquejada e homenagem recíproca entre o Chefe da Nação e os simples cavaleiros do Sertão Ulterior, o que Assis Chateaubriand moveu — além de colocar sob tantos olhos os homens de um ofício grave e arcaico, precisado de amparo, e de desferir admodo um comando de poesia — foi algo de coração e garra, intento amplo, temero, indiminuível: a inauguração dinâmica de um símbolo.

I

Antigo veio o tema: o de estrênuos pegureiros, que lutavam com anjos, levantavam suas tendas e vadeavam os desertos — Caldeia a Canaã um rastro de rebanhos, e o itinerário do espírito.
E velho o idílio — “... eleláthei boúkos...” — retente, trescantado: o ruro, o zagal, as faias, um vão amor e a queixa, de “quanto gado vacum pastava e tinha...”
Sem embargo, o epos, e por bem que cedo, aqui, em ciclo e gestas se fizesse no folclore, emergiu só mais tarde na literatura.
De começo, nossa volumosa lida pastoril, subalterna e bronca, desacertava das medidas clássicas, segundo se sente do árcade:

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado,
De tosco trato, de expressões grosseiro...

II

Mas o boi e o povo do boi, enquanto tudo, iam em avanço, horizontal e vertical, riscando roteiros e pondo arraiais no país novo.
No Centro, no Sul, ao Norte, a Oeste, por mão de trechos do interior fechado e aberto, e na beira das fronteiras, na paz e na guerra, se aviava o gado, com sua preia, sua cria, sua riqueza, seu negócio — léu de bando, contrabando, abactores e abigeatos — e as peripécias de um trato animado e primitivo, obrigador de gente apta e fundador de longa tradição rusticana.
Gaúchos meridionais, peões mato-grossenses, pastoreadores marajoaras, e outros de muita parte para dentro desses extremos geográficos; mais obtidos, porém, e contados como vaqueiros propriamente, os do rugoso sertão que ajunta o Norte de Minas, porção da Bahia, de Sergipe, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande, Ceará, Piauí, Maranhão, Goiás.
Através dessa quantidade de cerrados, gerais, carrascos campos, caatingas, serras sempre ou avaras várzeas, planaltos, chapadas e agrestes, regiões pouco fáceis, espalharam-se, na translação das boiadas, os gadeiros são-franciscanos com querência de espaço, sertanistas subidores, barões do couro, e seus servos campeiros, mais ou menos curibocas, herdeiros idealmente do índio no sentido de acomodação ao ruim da terra e da invenção de técnicas para paliá-lo. Nossos, os vaqueiros.

III

Assim a apanhou Alencar — a figura afirmativa do boieiro sertanejo — passando-a na arte como avatar romântico, daí tomado, bem ou mal, por outros, à maneira regional ou realista, mais indesviado da sugestão sã de epopeia, porquanto sua presença — esportiva, equestre, viril, virtualmente marcial — influi esse tom maior romanceável, aqui como nos países de perto, de vulto pecuário análogo, valendo ver em exemplos, tais o “rodeo” e a “vaqueria general” no Doña Bárbara, como respondem, em si e no modus novelístico de seu emprego, aos mesmos episódios postos pelos nossos autores: sentido de refletir, no herói que a supera, a violência da natureza circundante.
[...]

Guimarães Rosa, em Ave, palavra

O homem no quarto

Teu protesto inútil,
tuas flores murchas,
teu violino fácil,
tua vontade escassa,

São frutos humildes,
são folhas perdidas
que um sapato esmaga
nascendo da sombra.

Caminhas sem rumo
por todas as ruas,
não rasgas um livro
nem matas o amigo.

Cumprimentas mesmo
com a garganta seca,
gestos tão longe
que ninguém esboça.

Meu coitado amigo...
prende a tua mão
antes que ela entorne
a copa de sangue.

Teus irmãos constroem
no ar atmosférico
com pedras e luzes
um berço pouco a pouco.

Não podes manchá-los
de sangue hesitante
nem deves turbar
o ritmo da aurora.

Acende o cachimbo,
eis uma poltrona.
Começa a vigília
sem impaciência,

Até que outros braços,
redentoras asas,
venham colocar
um lírio muito branco

na página e no verso
do teu melhor poeta…

José Paulo Paes, em Poesia completa

Vinho de missa

 



Era domingo e o navio prosseguia viagem. Os passageiros iam sendo convocados para a missa de bordo.
— Vamos à missa? — convidou Ovalle.
O passageiro a seu lado no convés recusou-se com inesperada veemência:
— Missa, eu? Deus me livre de missa.
— Não entendo — tornou Ovalle, intrigado: — O senhor pede justamente a Deus que o livre da missa?
— No meu tempo de menino eu ia à missa. Mas deixei de ir por causa de um episódio no colégio interno, há mais de trinta anos. Colégio de padre — isso explica tudo, o senhor não acha?
Ele achou que não explicava nada e pediu ao homem que contasse.
— Pois olha, vou lhe contar: imagine o senhor que havia no colégio um barbeiro, para fazer a barba dos padres e o cabelo dos alunos. Vai um dia o barbeiro me seduz com a ideia de furtar o vinho de missa, que era guardado numa adega. Me ensinou um jeito de entrar na adega — e um dia eu fiz uma incursão ao tonel de vinho. Mas fui infeliz: deixei a torneira pingando, descobriram a travessura e no dia seguinte o padre-diretor reunia todos os alunos do colégio, intimando o culpado a se denunciar. Ia haver comunhão geral e quem comungasse com tão horrenda culpa mereceria danação eterna. Está visto que não me denunciei: busquei um confessor, tendo o cuidado de escolher um padre que gozava entre nós da fama de ser mais camarada: “Padre, como é que eu saio desta? Eu pequei, fui eu que bebi o vinho. Mas se deixar de comungar, o padre-diretor descobre tudo, vou ser castigado.” Ele então me tranquilizou, invocando o segredo confessional, me absolveu e pude receber comunhão. Pois muito bem: no mesmo dia todo mundo sabia que tinha sido eu e eu era suspenso do colégio.
O homem respirou fundo e acrescentou, irritado:
— Como é que o senhor quer que eu ainda tenha fé nessa espécie de gente?
Ovalle ouvia calado, os olhos perdidos na amplidão do mar. Sem se voltar para o outro, comentou:
— O senhor, certamente, achou que o confessor saiu dali e foi diretinho contar ao diretor.
— Isso mesmo. Foi o que aconteceu.
— O vinho era bom?
— Como?
— Pergunto se o senhor achou o vinho bom.
O homem sorriu, intrigado:
— Creio que sim. Tanto tempo, não me lembro mais... Mas devia ser: vinho de missa!
Então Ovalle se voltou para o homem, ergueu o punho com veemência:
— E o senhor, depois de beber o seu bom vinho de missa, me passa trinta anos acreditando nessa asneira?
O homem o olhava, boquiaberto:
— Asneira? Que asneira?
— Será possível que ainda não percebeu? Foi o barbeiro, idiota!
— O barbeiro? — balbuciou o outro: — É verdade... O barbeiro! Como é que na época não me ocorreu...
— Vamos para a missa — ordenou Ovalle, tomando-o pelo braço.

Fernando Sabino, em Os melhores contos

O que eu queria ter sido

Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser.
O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de “a protetora dos animais”. Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la. E eu sentia o drama social com tanta intensidade que vivia de coração perplexo diante das grandes injustiças a que são submetidas as chamadas classes menos privilegiadas. Em Recife eu ia aos domingos visitar a casa de nossa empregada nos mocambos. E o que eu via me fazia como que me prometer que não deixaria aquilo continuar. Eu queria agir. Em Recife, onde morei até doze anos de idade, havia muitas vezes nas ruas um aglomerado de pessoas diante das quais alguém discursava ardorosamente sobre a tragédia social. E lembro-me de como eu vibrava e de como eu me prometia que um dia esta seria a minha tarefa: a de defender os direitos dos outros.
No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima.
É pouco, é muito pouco.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

03/11/2026

Gal Costa | Dom de Iludir

Hagar, o Horrível

Diário de Bernardo Soares

143.

Tenho mais pena dos que sonham o provável, o legítimo e o próximo, do que dos que devaneiam sobre o longínquo e o estranho. Os que sonham grandemente, ou são doidos e acreditam no que sonham e são felizes, ou são devaneadores simples, para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes dizer nada. Mas o que sonha o possível tem a possibilidade real da verdadeira desilusão. Não me pode pesar muito o ter deixado de ser imperador romano, mas pode doer-me o nunca ter sequer falado à costureira que, cerca das nove horas, volta sempre a esquina da direita. O sonho que nos promete o impossível já nisso nos priva dele, mas o sonho que nos promete o possível intromete-se com a própria vida e delega nela a sua solução. Um vive exclusivo e independente; o outro submisso das contingências do que acontece.
Por isso amo as paisagens impossíveis e as grandes áreas desertas dos piamos onde nunca estarei. As épocas históricas passadas são de pura maravilha, pois desde logo não posso supor que se realizarão comigo. Durmo quando sonho o que não há; vou despertar quando sonho o que pode haver.
Debruço-me, de uma das janelas de sacada do escritório abandonado ao meio-dia, sobre a rua onde a minha distração sente movimentos de gente nos olhos, e os não vê, da distância da meditação. Durmo sobre os cotovelos onde o corrimão me dói, e sei de nada com um grande prometimento. Os pormenores da rua parada onde muitos andam destacam-se-me com um afastamento mental: os caixotes apinhados na carroça, os sacos à porta do armazém do outro, e, na montra mais afastada da mercearia da esquina, o vislumbre das garrafas daquele vinho do Porto que sonho que ninguém pode comprar. Isola-se-me o espírito de metade da matéria. Investigo com a imaginação. A gente que passa na rua é sempre a mesma que passou há pouco, é sempre o aspeto flutuante de alguém, nódoas de movimento, vozes de incerteza, coisas que passam e não chegam a acontecer.
Anotação com a consciência dos sentidos, antes que com os mesmos sentidos…
A possibilidade de outras coisas... E, de repente, soa, de detrás de mim no escritório, a vinda metafisicamente abrupta do moço.
Sinto que o poderia matar por me interromper o que eu não estava pensando. Olho-o, voltando-me, com um silêncio cheio de ódio, escuto antecipadamente, numa tensão de homicídio latente, a voz que ele vai usar para me dizer qualquer coisa. Ele sorri do fundo da casa e dá-me as boas-tardes em voz alta. Odeio-o como ao universo. Tenho os olhos pesados de supor.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

O espelho

Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me, a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.

Mia Couto, em Poemas Escolhidos

Elegia de baby

 


Tinha sete anos, e ainda era mais criança do que qualquer menina de sua idade. Pesava mil e quinhentos quilos, e chegaria a pesar quatro mil, se vivesse. Não viveu. Nascida na Índia, veio morrer no Leblon, sob a lona de um circo devastado pelo temporal — e essa madrugada de vento furioso, que ameaçava acabar com o mundo, terá sido um dos “fatos” de sua pequena vida sem acontecimentos.
Já se sabe que o necrológio é de Baby, a elefantinha que morreu de infecção na garganta. Esses animais são rústicos e delicados, e se no meio nativo se alimentam de plantas espinhentas, de cujo contato fugimos, padecem entretanto dos mesmos males que padecemos, e têm, quanto a nós, a desvantagem de uma sensibilidade que se ajustaria melhor ao nosso corpo que ao deles, ao passo que a nossa poderia chamar-se mais precisamente elefantina.
Vão rareando os elefantes, e com eles a doçura e a paciência na face da terra. Que a espécie caminha para o fim, os zoólogos já o têm prevenido. O lábio superior alongado e endurecido em tromba, e outros pormenores de estrutura — observa o professor Coutière — revelam a tendência primitiva ao gigantismo e à ancilose, que certos animais traziam consigo, e de que essas deformações representam justamente uma correção, grosseira, mas indispensável. Os traços subsistiram, mas a espécie nasceu, por assim dizer, errada, e tende a acabar. Por sua vez, os economistas lhe vaticinam o fim. O mesmo autor sério escreveu que basta olhar o elefante para concluir que ele é um “motor bárbaro” e de mínimo rendimento. Consome por dia uma ração bem mais cara que o óleo ou a eletricidade de um aparelho comum, enquanto este produz trabalho incomparavelmente mais precioso que o seu humilde ofício de transportador. Resta o valor econômico do seu marfim, mas talvez se torne menos dispendioso explorar jazidas fósseis desse material, como as que os mamutes deixaram na Sibéria. Há uma última utilidade do elefante, e essa retarda o seu desaparecimento: divertir meninos no circo. Baby não conheceu outra, pois que viveu realmente, para um elefante, l’espace d’un matin, isto é, o tempo de uma rosa.
Reduzido à condição circense, que pode o elefante pretender, como remédio a suas melancolias, agravadas na espessa convivência do homem? Fugir, é claro. Mas a fuga se reduz também a um passeio tonto pela cidade, entre bichos muito mais ferozes, que são os ônibus e os automóveis, num dédalo de ruas que não tem a lei e a simplicidade da floresta. Logo se organizam os homens para prendê-lo e restituí-lo ao seu mesquinho picadeiro. Se se recusa a voltar, os homens, considerando-se ameaçados, dispõem-se a fulminá-lo a tiro. Nunca nenhum escapou.
André Demaison, no Livro dos animais chamados selvagens, conta a história de Pupá, pequeno elefante pego numa colônia alemã da África, ocupada mais tarde pelos franceses. Sua alimentação onerosa, a leite condensado, se fazia à custa do governo; quando os residentes estrangeiros se retiraram, ele quedou abandonado, e andava a esmo pela cidade, mendigando comida, principalmente açúcar. Num Catorze de Julho, aproximou-se do clube francês em plena festa. Os homens, já bêbados, quiseram que ele também comemorasse a Queda da Bastilha, e deram-lhe um balde cheio de champanha, curaçau, anis e outros licores misturados. Pupá esvaziou-o com tamanha beatitude que daí por diante se tornou ébrio contumaz, e não podia compreender por que todos os dias não eram de festa, como aquele. Decadente, e sem comer, porque apenas lhe davam álcool, sentiu a nostalgia da selva, e fugiu para o interior, mas o meio natal o repeliu: estava demasiado marcado pela companhia do homem, para voltar a ser um bicho. Morreu, sobre os trilhos da via férrea, paralisando o tráfego.
Baby não viveu tais aventuras, nem teria muito que contar. Trabalhou, ainda criança, para comer, divertiu os outros e morreu sem ter compreendido (embora os elefantes sejam inteligentíssimos) a razão de ser de sua viagem da Índia ao Leblon, encerrada tão cedo, quando a outros de sua estirpe a natureza concede uma permanência de cem a cento e cinquenta anos sobre a terra. Mas imagine-se o que seria uma prisão de século e meio, mesmo no circo, e já não sentiremos tanto a morte de Baby.

Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira

Revelações

A posteridade não é mais um lugar seguro. Com a nova liberalidade, principalmente em matéria de sexo, as biografias agora contam tudo. Biografia sem uma revelação antes desconhecida ou suprimida não tem graça, ou não é biografia. Até as autobiografias precisam incluir confissões reveladoras, para serem confiáveis.
Existe um livro que diz explicitamente o que todos já desconfiavam: que J. Edgar Hoover, eterno diretor do FBI, defensor da lei, da ordem e dos bons costumes, caçador de comunistas e um notório durão, ia a festas vestindo um tutu rodado. John Kennedy, sabe-se agora, jamais perguntava a americanas o que seu país poderia fazer por elas, mas o que elas poderiam fazer pelo seu país ali mesmo, em cima da mesa do Gabinete Oval. Durante os anos Kennedy a maior ameaça à segurança dos Estados Unidos era alguma moça disparar foguetes nucleares contra a União Soviética com sua bunda, sem querer. (E quando os mísseis soviéticos começassem a cair sobre Washington em retaliação, se ouviria da Casa Branca a voz de Kennedy gritando “My God, isto é o que eu chamo de orgasmo!”.)
Em breve saberemos que Cristóvão Colombo desembarcou no Novo Mundo de mãos dadas com um marinheiro. Que Átila, o Flagelo de Deus, era secretamente chamado pelos seus comandados de Rainha dos Hunos e vivia maritalmente com seu cavalo. Que mesmo durante a guerra Winston Churchill continuou reunindo-se todas as quintas com ex-colegas de escola para relembrarem as festas no dormitório, inclusive com as ligas pretas. E que certa vez Charles de Gaulle foi convidado para a reunião, chocou-se com o que viu, mas no meio da noite já estava só de combinação.
Alguns detalhes históricos serão esclarecidos. Napoleão enfiava a mão dentro da túnica seguidamente para ajeitar o soutien. Stalin tinha um bigode cor-de-rosa para usar em ocasiões especiais. Monsieur e Madame Curie eram a mesma pessoa. O doutor Frankenstein inventou a história do monstro criado no seu laboratório para justificar aquele halterofilista morando com ele.
Etc. Etc.

Luís Fernando Veríssimo, em Diálogos Impossíveis

02/11/2026

Já foi

 



Talvez existam várias maneiras de responder. A mais evidente vem do grego. A palavra grega eros denota “querer”, “falta”, “desejo pelo que não está lá”. Quem ama quer o que não tem. É, por definição, impossível para o amante ter o que deseja se, assim que ele tem, não quer mais. É mais do que um jogo de palavras. Há um dilema dentro de eros que tem sido considerado crucial por pensadores desde Safo até hoje. Platão vira e mexe volta para ele. Quatro de seus diálogos exploram o que significa dizer que o desejo só pode ser por aquilo que falta, não pelo que está à mão, não pelo que está presente, não por algo que alguém possua nem que esteja em seu ser: eros implica endeia. Como Diotima coloca no Simpósio, Eros é um bastardo capturado pela Riqueza na Pobreza e seu lar é uma vida de carência (203b-e). A fome é a analogia escolhida por Simone Weil para esse impasse:

Todos os nossos desejos são contraditórios, como o desejo por comida. Eu quero que a pessoa que eu amo me ame. No entanto, se ele é totalmente devotado a mim, ele para de existir e eu deixo de amá-lo. E enquanto ele não for totalmente devotado a mim, ele não me ama o suficiente. Fome e saciedade.(1)

Emily Dickinson formula a questão de maneira mais atrevida em “I Had Been Hungry”

[“Tenho estado com fome”]:

Então pensei
que a fome é o modo de ver
de quem está fora das janelas
entrar põe tudo a perder(2)

Petrarca interpreta o problema com termos da antiga fisiologia do fogo e do gelo:

Sei seguir enquanto fujo do meu fogo
congelo quando presente; quando ausente, quente é o meu desejo.
(“Trionfo d’Amore”)
Sartre tem menos paciência com o ideal contraditório do desejo, esse “duplo engano”. Ele enxerga nas relações eróticas um sistema de reflexões infinitas, um jogo de espelhos enganador que carrega dentro de si a própria frustração.(3) Para Simone de Beauvoir, o jogo é uma tortura: “O cavalheiro que parte para novas aventuras ofende a dama, mas ela não sente nada além de desprezo se ele permanecer a seus pés. Esta é a tortura do amor impossível…”.(4) Jacques Lacan elabora a questão de maneira um pouco mais enigmática quando diz que “o desejo... evoca a falta do ser sob as três figuras do nada, que constitui a base da demanda por amor, do ódio que chega a negar o ser do outro e do elemento indizível que se ignora em seu pedido”.(5)
Parece que todas essas vozes estão buscando uma percepção comum. Todo desejo humano está posicionado em um eixo de paradoxo, ausência e presença são seus polos, amor e ódio, suas energias motivadoras. Vamos voltar mais uma vez àquele poema de Safo que já vimos. Esse fragmento (LP, fr. 130), conforme foi preservado no texto e escólios de Heféstion,

Ἄτθι. σοὶ δ᾽ ἔμεθεν μὲν ἀπήχθετο
φροντίσδην, ἐπί δ᾽ Ἀνδρομέδαν πόται

Atthis, your care for me stirred hatred in you
and you flew to Andromeda.

Átis, seu carinho por mim despertou ódio em você
então você voou para Andrômeda.
(LP, fr. 131)

Quem deseja o que não foi embora? Ninguém. Os gregos deixaram isso bem claro. Inventaram eros para expressar isso.

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(1) S. Weil, The Simone Weil Reader. Ed. G. A. Panichas, 1977, p. 364. (N.A.)
(2) E. Dickinson, The Complete Poems. Ed. T. H. Johnson, 1960. (N.A.) [Ed. bras.: Poesia completa, volume 1: os fascículos. Brasília/Campinas: UnB/Unicamp, 2020, p. 313.] A formatação do texto difere da fonte e acompanha o uso de Carson. (N.T.)
(3) J.-P. Sartre, Being and Nothingness, Trad. M. E. Barnes, 1956, pp. 444-45. (N.A.)
(4) S. De Beauvoir, The Second Sex. Trad. H. M. Parshley, 1953, p. 619. (N.A.)
(5) J. Lacan, Écrits. Paris, 1966, p. 28. (N.A.)

Anne Carson, em Eros, o doce-amargo: Um ensaio

Os centauros

O barulho de ferro batendo nas pedras me acordava de madrugada. O ruído das ferraduras se misturava com o relinchar dos cavalos. Eu me levantava e abria a única bandeira da janela. Só um pouquinho porque tinha medo de que me vissem. Eram seres misteriosos, misturas de homens e cavalos que, na bruma da manhã, me faziam imaginar centauros. Das ventas dos cavalos saía fumaça quando relinchavam. Como se fossem dragões. Do ângulo pelo qual os observava, através da fresta da janela, não me era possível ver os rostos dos soldados. Via-os pelas costas, inumeráveis, iam vagarosamente, a passo. Um exército inteiro de soldados dotados de força descomunal, a caminho de uma batalha. Que iam para uma batalha era certo: os fuzis pendentes dos coldres, ao lado direito das selas, esperavam a hora do fogo. Passado o último centauro, eu fechava a janela, voltava para a cama e ficava a imaginar a batalha, até dormir.

Rubem Alves, em O velho que acordou menino

Palavras

Felizmente há palavras para tudo. Felizmente que existem algumas que não se esquecerão de recomendar que quem dá deve dar com as duas mãos para que em nenhuma delas fique o que a outras deveria pertencer. Assim como a bondade não tem por que se envergonhar de ser bondade, também a justiça não deverá esquecer-se de que é, acima de tudo, restituição, restituição de direitos. Todos eles, começando pelo direito elementar de viver dignamente. Se a mim me mandassem dispor por ordem de precedência a caridade, a justiça e a bondade, daria o primeiro lugar à bondade, o segundo à justiça e o terceiro à caridade. Porque a bondade, por si só, já dispensa a justiça e a caridade, porque a justiça justa já contém em si caridade suficiente. A caridade é o que resta quando não há bondade nem justiça.

José Saramago, em O caderno

Casa

 



Não tinha nem uma hora que chegara a Candeia e Samuel já estava na rua da Matriz, segundo a referência da velha. Tudo rápido demais. Achou que levaria mais algum tempo para, enfim, estar diante de sua avó e de seu pai. O que diria? Não pensou em palavras para dizer, mas lembrava da voz de Mariinha, letra por letra, pedindo que fosse encontrá-los.
Se pudesse, mataria o pai. Nunca matou, não tinha arma, não tinha ideia do tamanho do homem. Eram anos de motivos, especialmente pelos últimos quinze dias, o rosto de Mariinha, o fio de voz, os quatro pedidos. Respirou fundo e foi.
Não demorou a achar a casa, era a maior da rua, perto da igreja. Tudo continuava morto. Olhou ao redor antes de chamar por alguém naquele portão. Portas e janelas fechadas com tijolos. Mato crescendo por cima das telhas, saindo das frestas, raízes quebrando o piso das calçadas e varandas, vencendo a pedra. As casas distribuídas acompanhando o desenho da praça. Em muitas delas ainda era possível ler as palavras escritas com tinta velha e descascada. “Barbearia Santo Antônio”. “Lanches Santo Antônio”. “Pousada Santo Antônio”. “Restaurante Santo Antônio”. Marcas borradas de um passado que ele não compreendia.
Uma coragem súbita tomou conta dos seus pés novamente. Era a besta-fera, ele acreditava. A vida que levara nos últimos dias fazia parecer mais possível acreditar no Mal. Puxou o papel do bolso, precisava ler mais uma vez as oito palavras e o número já cravados na memória e fazer o que tinha de ser feito ali.
Bateu palmas com a barriga encostada no portão de ferro, fechado com corrente e cadeado. Um jardim na frente, o mato tomando conta de tudo. O mato e os gatos. Coisa de oito, nove, e cada vez chegava mais. As duas janelas estavam fechadas com tijolos. Era uma casa grande, com alpendre, cadeira de balanço enferrujada. Havia uma grade na frente da porta de madeira e não demorou duas palmas para que a porta de dentro se abrisse e surgisse uma mulher de dificílima descrição.
— A senhora é d. Niceia?
— E você é Samuel.
Não era uma pergunta. Não era um sorriso. Não era uma acolhida.
— A senhora me conhece?
— Não. E nem você. Mas sei quem você é.
Tinha cara e conversa de louca.
— Está com fome? — perguntou a velha.
— Muita.
— Tá se vendo pela cara.
…
— Veio do Juazeiro?
— Foi.
— E não trouxe nada pra mim?
— Não.
— Sua mãe mandou.
— Mandou, mas eu não trouxe.
…
— Veio como?
— A pé.
— O caminho todo?
— Foi.
— Quantos dias?
— Uns quinze.
— Dezesseis.
— Como a senhora sabe?
— Eu sei.
…
— E o Manoel?
— Que Manoel?
— O seu filho.
— Ah, sim. Meu Manoel… — fez nuvem de choro em seu rosto, baixou a cabeça, deixando à mostra os cabelos raros e brancos.
— Ele mora aqui na cidade?
— Isso não é mais uma cidade.
— Mora onde?
— É mistério de Deus. Ele tem muitos.
— Ele se mudou daqui faz tempo?
— …
Não houve resposta. Ela olhava para Samuel, somente.
— Então ele mora aqui?
— Não adianta tentar entrar. — Segurou a porta com as duas mãos, mudou o rosto, agora tinha raiva.
— Ele está vivo?
— Tá com fome?
— Muita.
A mudança de assunto foi bem-sucedida.
— Tá se vendo. E sujo, carecido de banho.
Samuel tinha certeza de que ela o chamaria para entrar e depois, talvez mais tarde ou no dia seguinte, poderia perguntar os detalhes do que aconteceu com Manoel, seu pai. Se estivesse morto, pouparia o seu trabalho. Talvez ficasse lá uns tempos, a ideia de uma casa para dormir era tudo de que ele precisava depois de dezesseis dias como um cão de rua. Se ela notou que ele estava carecido de banho, o convite viria a seguir, ele pensou. Mas não veio. Algo dizia que Manoel morava lá e estava escondido, talvez pressentindo que o filho não o buscara para pedir a bênção. Niceia voltou a falar:
— Já escureceu e daqui a pouco vai chover. Você saia daqui, vá andando pelo mato. Segue aqui na rua, passa da matriz e do cemitério, entra nos matos mesmo, sempre reto, sem dobrar. Quando avistar um pé de goiaba, aí dobra pro rumo da direita, que tem um canto coberto pra dormir. Entra correndo e dorme, o temporal vem forte.
Bateu a madeira velha da porta com força e sumiu. Nenhum rastro de som lá por dentro. Por todo esse tempo Samuel permanecia com a barriga colada no portão de ferro e a mulher de cabelos desgrenhados do outro lado. Não foi assim que Mariinha descreveu a velha Niceia. Não foi assim que ele imaginou o encontro com sua avó.
Ela chamou a chuva, pediu que viesse. Antes, pouco antes, o céu estava limpo, sem dar sinal nenhum de que as nuvens estavam para chorar. Todas as nuvens do céu choraram ao mesmo tempo.

Socorro Acioli, em A cabeça do santo

Simone | Quando Eu Estiver Cantando

 

Poeminha social

Mesmo dito com cuidado
Sem qualquer provocação
“De gosto não se discute”
Traz logo uma discussão.

Millôr Fernandes, em Poemas

Calvin

 

01/11/2026

Drédito

Garçom traz a conta.
CLIENTE Traz a maquininha, por favor?
Garçom traz a máquina. Cliente dá o cartão.
GARÇOM É débito ou crédito?
CLIENTE Drédito.
GARÇOM Oi?
CLIENTE Crébito.
GARÇOM Não entendi.
CLIENTE Clérbito.
GARÇOM Débito?
CLIENTE Clérigo.
GARÇOM Crédito?
CLIENTE Drécimo.
O cliente começa a suar frio e a passar mal.
CLIENTE Lépido. Périplo.
GARÇOM Senhor, a pergunta é simples. Ou é drédito ou… Quérdito.
CLIENTE Quérdito?
GARÇOM Péricles.
CLIENTE Cérebro.
GARÇOM Mérito.
CLIENTE Derby.
GARÇOM (grita por ajuda) Josias!

Gregório Duvivier, em Put some farofa