24/10/2026
Gracias A La Vida
Obrigada
à vida
que me deu tanto
deu-me dois olhos
que quando os abro
perfeito distingo
o preto do branco
no alto céu seu fundo estrelado
e nas multidões o homem que eu amo.
Obrigada à vida
que me deu tanto
deu-me o ouvido
que em toda sua extensão
grava noite e dia
grilos e canários
martelos, turbinas, latidos, chuvaradas
e a voz tão terna do meu bem amado
Obrigada à vida
que me deu tanto
deu-me o som e o abecedário
com ele as palavras
que penso e declaro
“mãe, amigo, irmão”
e a luz, iluminando
o rumo da alma do que estou amando
Obrigada à vida
que me deu tanto
deu-me a marcha
dos meus pés cansados
com eles andei
cidades e charcos
praias e desertos, montanhas e planos
tua casa, tua rua e teu pátio.
Obrigada à vida
que me deu tanto
deu-me o coração
que agita seu marco
quando olho o fruto
do cérebro humano
quando olho o bom tão longe do mal
quando olho o fundo de teus olhos claros
Obrigada à vida
que me deu tanto
deu-me a risada
e deu-me o pranto
assim distingo
felicidade de fraqueza
os dois materiais que formam meu canto
o canto de todos que é o mesmo canto
o canto de todos que é meu próprio canto
Obrigada à vida!
que me deu tanto
deu-me dois olhos
que quando os abro
perfeito distingo
o preto do branco
no alto céu seu fundo estrelado
e nas multidões o homem que eu amo.
Obrigada à vida
que me deu tanto
deu-me o ouvido
que em toda sua extensão
grava noite e dia
grilos e canários
martelos, turbinas, latidos, chuvaradas
e a voz tão terna do meu bem amado
Obrigada à vida
que me deu tanto
deu-me o som e o abecedário
com ele as palavras
que penso e declaro
“mãe, amigo, irmão”
e a luz, iluminando
o rumo da alma do que estou amando
Obrigada à vida
que me deu tanto
deu-me a marcha
dos meus pés cansados
com eles andei
cidades e charcos
praias e desertos, montanhas e planos
tua casa, tua rua e teu pátio.
Obrigada à vida
que me deu tanto
deu-me o coração
que agita seu marco
quando olho o fruto
do cérebro humano
quando olho o bom tão longe do mal
quando olho o fundo de teus olhos claros
Obrigada à vida
que me deu tanto
deu-me a risada
e deu-me o pranto
assim distingo
felicidade de fraqueza
os dois materiais que formam meu canto
o canto de todos que é o mesmo canto
o canto de todos que é meu próprio canto
Obrigada à vida!
Violeta Parra (Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)
Fama
Ninguém se espante com o diálogo que
mantive com um bebê de quinze dias de existência. Hoje, a
comunicação não conhece fronteiras espaciais ou etárias. O bebê
não fala o português de Portugal nem o português brasileiro,
ensinado pelo saudoso professor Stanislaw Ponte Preta. Mas fala a seu
modo, desde que se saiba interrogá-lo, e eu, não é por me gabar,
tenho meus macetes. Perguntei-lhe de saída:
— Então, satisfeita de vir ao
mundo?
Respondeu-me com rabugem, em termos
que traduzirei assim:
— Como posso estar satisfeita, se
ainda bem não cheguei a este lugar, já me televisionaram e estão
me entrevistando?
— É a era
tecnológico-aldeiglobal-consumística, minha querida. Desde o
primeiro minuto de vida extrauterina você participa da sociedade
eletrônico-difusoro-cósmica ilimitada.
— É, estou vendo mas não acho
graça nenhuma.
— Não é para achar graça nem
desgraça, é para se integrar, entende? Você tem de aderir ao
processo. O processo é irreversível. Melhor você não dar uma de
contestadora, e entrar na jogada.
— Mas eu nem tive tempo de
contestar, me botaram diante das câmeras, fechei os olhos para não
me ofuscar com aquelas luzes, chorei em sinal de protesto, riram de
mim, e agora, pelo que vejo, estou em todas.
— De fato. Seu índice de
publicidade é dos mais altos. Em duas semanas você varou o Brasil,
fez concorrência a Elizabeth Taylor, aos terroristas palestinos e
aos não palestinos, governos que caem, governos que sobem, técnicas
de exorcismo…
— E daí? Pensa que o meu Ibope me
dá prazer?
— Ibope não dá prazer. Dá
dividendos. Você tem o futuro garantido, se for sempre dócil às
exigências do sistema. Não deve bobear. Esteja sempre perto de uma
objetiva, um gravador, uma passarela.
— Preferia viver a vida, com a
sensação de ter uma vida realmente minha.
— Quem tem isso hoje em dia,
meus-encantos? Só os loucos, isso mesmo, apenas certos loucos, não
marcados pela psicose de governar o mundo. Loucos mansos, vamos dizer
assim. São raros, a maioria é agitada, e não só recebe a
influência da comunicação delirante, como, por sua vez, influi
sobre esta, aumentando-lhe o delírio. De sorte que é bom você
renunciar ao ideal individualista e anacrônico. Vida particular da
gente já era. Agora vivemos a vida dos outros, em bloco, ou melhor,
a de ninguém.
— De qualquer maneira, os direitos
da criança… O direito de mamar sem virar manchete, de fazer
cocozinho à vontade sem ser objeto de curiosidade geral, como se eu
pudesse fazê-lo de pérolas. Isso não está mais em vigor?
— Depende. Há criança e criança.
Umas nascem destinadas à obscuridade total e permanente, senão
mesmo a coisa mais negativa, que é não viver. Nascem para não
conhecer a vida. Em pouco tempo voltam para o outro lado, onde, ao
que se sabe, ainda há o aproveitamento industrial do ser. Você até
que é dos bebês privilegiados. Centenas de milhares, ou milhões,
de espectadores debruçam-se diante dos seus cueiros, pela
circunstância feliz de que você é extensão da glória de sua
mãezinha.
— Vou pedir a ela para me esconder.
— Ela não pode fazer isso.
Compreenda o seu papel, ó flor reclamante. Não se pode fazer nada
nesta situação, a não ser exigir que as fotos saiam caprichadas,
mesmo porque se não saírem será preciso tirar outras. Sua imagem é
mais importante do que você. E você não se pertence; você é a
sua imagem multiplicada, em cor e som. Cresça como puder, mas
apareça. Aparecer é ser, em nosso tempo. Bem, vou me despedir, já
estão chegando outras equipes que naturalmente vão pedir a você
que estreie na próxima novela das vinte e duas horas. Trate de se
preparar para tudo. Sucesso, hem? E tchauzinho, mon amour de
bebê.
Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica
"Precisa-se"
Sendo este um jornal por excelência,
e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr
um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que
ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que
não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se
extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria
alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como
estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que
tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é
muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa
pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror
do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque
a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes
que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se
com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca, oferece-se também
uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos.
Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar.
P.S.: Não se precisa de
prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os
outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo
divina para dar.
Clarice Lispector, em Todas as crônicas
Let It Be, de Paul McCartney e John Lennon
When I find myself in times of
trouble
Mother Mary comes to me
Speaking words of wisdom
Let it be
And in my hour of darkness
She is standing right in front of
me
Speaking words of wisdom
Let it be
Let it be, let it be
Let it be, let it be
Whisper words of wisdom
Let it be
And when the broken-hearted people
Living in the world agree
There will be an answer
Let it be
For though they may be parted
There is still a chance that they
will see
There will be an answer
Let it be
Let it be, let it be
Let it be, let it be
There will be an answer
Let it be
Let it be, let it be
Let it be, let it be
Whisper words of wisdom
Let it be
Let it be, let it be
Let it be, let it be
Whisper words of wisdom
Let it be
And when the night is cloudy
There is still a light that shines
on me
Shine until tomorrow
Let it be
I wake up to the sound of music
Mother Mary comes to me
Speaking words of wisdom
Let it be
Let it be, let it be
Let it be, let it be
There will be an answer
Let it be
Let it be, let it be
Let it be, let it be
There will be an answer
Let it be
Let it be, let it be
Let it be, let it be
Whisper words of wisdom
Let it be
Eu estava decidindo o que eu ia cantar
no Live Aid, e Sting me disse que “Let It Be” não era uma
boa escolha. Ele achava que deveríamos explicitar que ações eram
necessárias e, por isso, “deixe estar” não seria uma mensagem
apropriada. Na visão dele, o Live Aid pressupunha um forte apelo à
ação. Mas “Let It Be” não tem a ver com ser complacente ou
cúmplice. Tem a ver com obter uma noção panorâmica e render-se à
visão global.
A canção foi composta num contexto
de estresse. O momento era difícil porque estávamos nos
encaminhando para a separação dos Beatles. Esse período de mudança
aconteceu em parte porque John e Yoko se conheceram, e isso afetou a
dinâmica do grupo. Yoko ficava literalmente no meio das sessões de
gravação, e isso era desafiador. Mas também era algo com que
precisávamos lidar. A menos que houvesse um problema muito sério –
a menos que um de nós dissesse: “Não consigo cantar com ela ali”
–, só tinha um jeito: deixe estar. O nosso estilo era evitar
conflitos, então simplesmente reprimimos e seguimos em frente.
Éramos garotos do Norte, e isso fazia parte da nossa cultura. Abra
um sorriso e aguente firme.
Uma coisa interessante sobre “Let It
Be” da qual me lembrei só recentemente é que, quando estudei
literatura inglesa no Liverpool Institute High School for Boys com
meu professor favorito, Alan Durband, eu li Hamlet. Naquela
época, você tinha que decorar as falas, porque era preciso ser
capaz de recordá-las e citá-las na prova. No ato final da peça
temos a seguinte fala:
O, I could tell you –
But let it be. – Horatio, I am dead
Suspeito que esses versos se plantaram
subconscientemente em minha memória. Quando eu estava compondo “Let
It Be”, eu fazia muita coisa ao mesmo tempo, estava muito exausto e
tudo isso estava cobrando seu preço. A banda, eu – todos nós
estávamos passando, como diz a canção, por períodos turbulentos
(“times of trouble”), e não se enxergava uma luz no fim
do túnel daquela confusão. Um dia, exausto, eu caí no sono e tive
um sonho em que minha mãe (que havia morrido pouco mais de dez anos
antes), de fato, apareceu para mim. Quando em seu sonho aparece uma
pessoa que você perdeu, mesmo que às vezes seja por breves
segundos, você tem a impressão de que ela está ali com você, e é
como se ela sempre tivesse estado ali. Acho que todo mundo que sofreu
com a perda de alguém próximo entende isso, especialmente no
período logo após a morte do ente querido. Até hoje eu tenho
sonhos com John e George e converso com eles. Mas nesse sonho foi
muito reconfortante enxergar o rosto lindo e gentil da minha mãe e
estar com ela em um lugar tranquilo. De imediato, eu me senti à
vontade, amado e protegido. A minha mãe era muito tranquilizadora,
como tantas mulheres costumam ser; também era ela quem mantinha a
nossa família em andamento. Ela mantinha o nosso ânimo. Ela pareceu
notar que eu andava preocupado com o que se passava em minha vida e
com o que poderia acontecer e me falou: “Vai ficar tudo bem. Deixe
estar”.
Acordei pensando que esse seria um
ótimo tema para uma canção. Resolvi começar com as circunstâncias
no meu entorno – o “problema no trabalho”.
Na época em que gravamos “Let It
Be”, eu estava pressionando a banda para voltarmos a tocar em
clubes noturnos – voltar ao básico e nos unirmos novamente como
banda, terminar a década como a havíamos começado: só tocando
pelo prazer de tocar. Com os Beatles não foi possível levar essa
ideia a cabo, mas isso influenciou a direção do álbum Let It
Be. Não queríamos nada de truques de estúdio. Era para ser um
álbum honesto, sem overdubs. Não acabou exatamente assim, mas o
plano era esse.
A triste constatação é que os
Beatles nunca tocaram esta canção num show. Por isso, a
apresentação no Live Aid foi, para muitas pessoas, provavelmente a
primeira vez que elas viram uma performance desta canção.
Hoje, “Let It Be” já está no
show há um bom tempo. Ela sempre foi uma canção comunitária,
sobre aceitação, e acho que esses momentos funcionam muito bem com
plateias grandes. Vemos muita gente abraçando seus parceiros, amigos
ou familiares e cantando junto. Antigamente, milhares de isqueiros
também eram erguidos no ar durante a canção. Aí foi proibido
fumar nos shows, e as luzes vinham dos celulares do público. A gente
sempre percebe quando a canção é menos popular, porque os
celulares são guardados. Mas saem dos bolsos para esta.
Alguns anos atrás, estávamos no
Japão e tocamos no Budokan, em Tóquio. Tínhamos tocado três
noites no Tokyo Dome, um enorme estádio de beisebol de 55 mil
lugares. Para contrabalançar, encerramos a turnê com uma noite no
Budokan, um local bem intimista em comparação. Ainda não tinham
passado cinquenta anos desde que os Beatles tinham tocado lá, mas
foi um show especial, em um local com muitas memórias. A minha
equipe de turnê gosta de me surpreender e, dessa vez, pulseiras
foram distribuídas para o público. E, durante “Let It Be”, fui
pego desprevenido: o auditório inteiro se iluminou com as mãos
balançando. Às vezes, é difícil continuar cantando em momentos
assim.
Algumas pessoas disseram que “Let It
Be” tem ligeiras conotações religiosas, e de fato ela lembra um
pouco uma canção gospel, especialmente o piano e o órgão. Em
essência, o termo “Mother Mary” é provavelmente interpretado
como uma referência a Maria, a Virgem Mãe de Deus. Como você deve
se lembrar, a minha mãe, Mary, era católica, embora meu pai fosse
protestante, e meu irmão e eu fomos batizados. Por isso, no que
tange à religião, obviamente sou influenciado pelo Cristianismo, mas
todas as religiões nos trazem muitos ensinamentos excelentes. No
sentido convencional, não sou especialmente religioso, mas acredito
na ideia de que existe um tipo de força superior capaz de nos
ajudar.
De modo que esta canção se torna uma
prece, ou mini-prece. Há um anseio em algum lugar do âmago dela. E a
própria palavra “amém” significa “assim seja” – ou “deixe
estar”.
Ela sempre foi uma canção
comunitária, sobre aceitação, e acho que esses momentos funcionam
muito bem com plateias grandes. Vemos muita gente abraçando seus
parceiros, amigos ou familiares e cantando junto.
A minha mãe era muito
tranquilizadora, como tantas mulheres costumam ser; também era ela
quem mantinha a nossa família em andamento. Ela mantinha o nosso
ânimo. Ela pareceu notar que eu andava preocupado com o que se
passava em minha vida e com o que poderia acontecer e me falou: “Vai
ficar tudo bem. Deixe estar”.
Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente
23/10/2026
La Dernière Translation
(Homenagem
à recém-fundada Sobrates
– Sociedade Brasileira de Tradutores)
Quando morre um velho tradutor
Sua alma, anima, soul,
Já livre do cansativo ofício
De verter
Vai direta pro céu, in cielo, to the
heaven, au ciel, in caelum, zum himmel,
Ou pro inferno – Hölle – dos grandes traditori?
Ou um tradutor será considerado
In the minute hierarquia do divino (himm’lisch)
Nem peixe, nem água, ni poisson, ni l’eau,
Neither water, nor fish, nichts, assolutamente niente?
Que irá descobrir de essencial
Esse mero intermediário da semântica,
Corretor da Babel universal?
A comunicação definitiva, sem palavras?
Outra vez o verbo inicial?
Saberá, enfim!,
Se ELE fala hebraico
Ou latim?
Ou ficará infinitamente
No infinito
Até ouvir a Voz, Voix, Voce, Voice,
Stimme, Vox,
Do Supremo Mistério
Partindo do Além
Voando como um pássarobirduccelopájarovogel
Se dirigindo a ele em...
E lhe dando, afinal,
A tradução pro Amém?
Quando morre um velho tradutor
Sua alma, anima, soul,
Já livre do cansativo ofício
De verter
Vai direta pro céu, in cielo, to the
heaven, au ciel, in caelum, zum himmel,
Ou pro inferno – Hölle – dos grandes traditori?
Ou um tradutor será considerado
In the minute hierarquia do divino (himm’lisch)
Nem peixe, nem água, ni poisson, ni l’eau,
Neither water, nor fish, nichts, assolutamente niente?
Que irá descobrir de essencial
Esse mero intermediário da semântica,
Corretor da Babel universal?
A comunicação definitiva, sem palavras?
Outra vez o verbo inicial?
Saberá, enfim!,
Se ELE fala hebraico
Ou latim?
Ou ficará infinitamente
No infinito
Até ouvir a Voz, Voix, Voce, Voice,
Stimme, Vox,
Do Supremo Mistério
Partindo do Além
Voando como um pássarobirduccelopájarovogel
Se dirigindo a ele em...
E lhe dando, afinal,
A tradução pro Amém?
Millôr Fernandes, em Poemas
O mesmo assunto
Há tempos Marques Rebello esteve em
Porto Alegre. Com ele, andamos uma tarde, o Telmo Vergara e eu, pelos
altos de Petrópolis. Basta dizer que era outono em Porto Alegre. Eu
disse ao visitante:
— Está vendo? As cores não se
misturam: tudo parece recortado a tesourinha no horizonte. A paisagem
de Porto Alegre é anterior ao impressionismo.
Ele agachava-se, apertava, arregalava
os olhos, concordava com tudo. E, de regresso ao Rio, escreveu:
“Como eles não têm nada que
mostrar; gabam os crepúsculos!”
Mário Quintana, em Caderno H
Sem tangência
A morte é lúgubre lorde: a ambígua.
De repente, como sempre, um homem faleceu. Diziam-no mau. Entre tudo,
porém, o cemitério prosseguia de decisivo quietar quem sabe o sítio
mais amigo da cidade. O enterro do homem, não conhecido, ensinou-o
ao forasteiro. Podia-se procurar passeio, o desexílio, em seu
reduzido espaço, dos que perderam para sempre o endereço. Na dita
cidade, muito longe, árdua do todo-o-dia, fatal, fabricada,
enfadonha. Ali, o mar era o cemitério.
A gente perdia a abusão de estar-se
em lugar danoso, de quebrantos ou assombro e apegava-se à paz, no
descritivo, a paisagem especializada. A erva, consequente, permeio às
tumbas, a grama urbana; um estapaflorir; zumbidos; às vezes
borboletas. Sob luz reta, no ponto do meio-dia, a lousa quente. Tarde
ainda mais limpa; a que não traz sombras. As casuarinas e seus
instantes de vento. Queixava-se o coveiro de dores nas costas, do
custo da vida; seu ajudante, descalço, fumava cigarros caros. De
primeiro, temia-se a terra, aquela, havida por maléfica: limpavam-se
do pó os sapatos. Mas, melhor pudesse qualquer um — no chamado
campo-santo — defender sua loucura das dos outros. Dos mais outros,
também, talvez. Quem morre, morreu mesmo? A morte é maior que a
lógica. E, quando menos quando, vinha a moça. Viera, vários dias,
trazia longas flores. Nem parecia ver ninguém ou ouvir, encerrada em
costumeiro pesar. Deixava-a o vestido preto mais esvelta que as
outras, da cidade; mais rara. Devia ser filha do homem falecido.
Nunca o avistara o forasteiro. Achava
porém de apreender-lhe os traços nas feições da moça, a rude
maldade de que o reputavam, desabrangendo sua matéria. Dele,
contava-se: que mais perversos tendo sido o pai e o avô — do sujo
e errado outrora. Nenhuma vida tem resumo: a tarda crosta da vida,
com seu trecheio de ilusões. A gente vê só o cinzento, mas têm-se
de adivinhar o branco e o preto.
O homem falecido, seu recente
sepulcro, seria num dos extremos, aonde parava a moça, dali o
recinto prolongando-se em emaranhado de bosque. Até onde não se
devia ir, enquanto, seguida apenas a distância, por lá ela
permanecesse, decerto atinadamente, lúcida lagrimada. Além, teria
sido o cemitério primeiro, sua outra grande porta oculta. A antiga.
Às vezes, ela tardava em vir.
Andava-se, a léu de labirinto, no quiescer de ante vazias
permanências — dos de ide-vós-sós; faz-se que contra querubins
em cavernas gritantes. As vozes humanas é que inventaram o silêncio.
É possível um não-mais-futuro? Vive-se, e ri-se. O gênio ainda
não germinou bem em nós, distraídos e fracos. Mas, na necrópole,
uma mudez se move, algo que ultrapassava a mudez; pesam-se as
espécies imperceptíveis, visões intermutáveis. Por maneira que as
aceitávamos. Mais perto do mundo. Algo havia; pairava. — “Refuja
o denso viver, pela levez da morte...” — disseram-me: voz
indefinida, a minha talvez. Sim, a moça era quase prevista surpresa.
Um dia, haverá sábios. E, que nos vem da vida, enfim? — com o
continuitar do ar, do chão e do relógio. A morte: o inenarrável
rapto.
E ela. Demorou o rosto, deu seu ser a
perceber. Perto que perto. Era boa. Era bela. Amor... —
palavra que sobrou de frases. Amor, o que lhe radiava da figura, na
fala das fadas. Demasiado grande, que amedrontava.
Sua lembrança, ideia clara. A marca
da imagem. Inafastável, como persistia, de negro vestida, a
obstinada presença, nessa entreparagem, na vagação, nas horas
temporárias. Adiara o forasteiro de ir à sepultura do homem
falecido. Da moça, não se viam ali sinais, nenhumas flores.
Murchas, em volta, apenas coroas. A arruda-dos-muros. A lápide —
cais tão calmo. Só uns passarinhos em piqueniques. Mortas, só as
folhas; e o sol enviava mais calor. Sim, com esquisitinho
sem-sossego, os pássaros algo explicam. E o coveiro, espião. —
“Ele é seu parente?” Os olhos das pessoas já são coisas
de fantasmas. A meu não, ele riu. Tinha pensado; porque com o
defunto em mim notara parecença. Estaria tonto, o coveiro,
toupeireiro operador. — “Era homem mau?” — indaguei. —
“Era homem justo. Bom, mas vagaroso.” E avancei: — “E
a moça?” Teve ele forte espanto. — “Pois, não é sua
conhecida? Não vem com o senhor?” — a desajuizar-me. Neutra,
a relva, esparramaz, alegre no entreabrirfechar florinhas, se não há
nenhum nunca. O vento, devolvedor de palavras. O homem, que falecera,
não podia. Depois da vida, o que há, é mais vida... — disse-me:
o que minha mais funda memória me telegrafou. Retomava o trabalho o
coveiro, dolorento, sabedor de ofício. Já como fósseis os ossos
que ele transplantava, naquele bom lugar universo.
Ela não voltaria mais... — pensei,
subciente. O rapaz ajudante passava, ao ombro suas ferramentas. —
“Acho que é uma mesma que vinha, noutra ocasião...” —
e ele tinha as petulâncias da vida. — “Vinha escolher a
própria cova...” — ignorava a especulação poética, o
mistério esperançoso. Se o falecido se parecia comigo? —
“Todos parecem com todos.”
Inegadamente. — “Homem bom, no geral...” — ele queria
gratificação. Nunca mais? Um enterro chegava, entrava. Será... —
doía, o despropositivo, a hipótese mais eficaz. Não. Só era o de
um morto. Nunca mais.
Se a gente podia dali sair, a atento
horizonte, pela porta primitiva, olvidado vislumbráculo? Não, o
coveiro intransigiu, ria-se do desmotivo daquilo. Enferrujara,
montões de terra entupindo o trato, o mato rijo, espessos de
urtigas, roseiras bravas. Mas, informou: que não havia segredo, a
moça era filha de um Seo Visneto, tinha vindo, nove dias, cumprir
promessa de rezar e pôr flores, no cruzeirinho das Almas... —
“Pois, senhor...” Não mais. Ainda não. Devia em seguida
partir, o forasteiro, deixar a fácil, fatigadora, fingida cidade.
Apanhou uma pedrinha, colocou-a no túmulo do homem falecido. A
liberdade é absurda. A gente sempre sabe que podia ter sabido.
Guimarães Rosa, em Ave, Palavra
Capítulo 105 – Equivalência das Janelas
Dona Plácida fechou a porta e caiu
numa cadeira. Eu deixei imediatamente a alcova, e dei dois passos
para sair à rua, com o fim de arrancar Virgília ao marido; foi o
que disse, e em bem que o disse, porque Dona Plácida deteve-me por
um braço. Tempo houve em que eu cheguei a supor que não dissera
aquilo senão para que ela me detivesse; mas a simples reflexão
basta para mostrar que, depois dos dez minutos da alcova, o gesto
mais genuíno e cordial não podia ser senão esse. E isto por aquela
famosa lei da equivalência das janelas, que eu tive a satisfação
de descobrir e formular, no capítulo 51. Era preciso arejar a
consciência. A alcova foi uma janela fechada; eu abri outra com o
gesto de sair, e respirei.
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas
22/10/2026
A primeira vez da idade
A vez
que tive mais idade
foi aos cinco anos.
Meu pai,
com solenidade que eu desconhecia,
perante seus superiores hierárquicos,
apontou e disse:
— Este é meu filho!
E deu-me a mão
coroando-me rei.
que tive mais idade
foi aos cinco anos.
Meu pai,
com solenidade que eu desconhecia,
perante seus superiores hierárquicos,
apontou e disse:
— Este é meu filho!
E deu-me a mão
coroando-me rei.
Mia Couto, em Poemas Escolhidos
106 anos
Essa mulher de cento e seis anos, Ann
Nixon Cooper, que Obama citou no seu primeiro discurso como
presidente eleito dos Estados Unidos, talvez venha a ocupar um lugar
na galeria das personagens literárias favoritas dos leitores
norte-americanos, ao lado daquela outra que, viajando num autocarro,
se recusou a levantar-se para dar o lugar a um branco. Não se tem
escrito muito sobre o heroísmo das mulheres. Entre o que Obama nos
contou sobre Ann Nixon Cooper não havia actos heróicos, salvo os do
viver quotidiano, mas as lições do silêncio podem não ser menos
poderosas que as da palavra. Cento e seis anos a ver passar o mundo,
com as suas convulsões, os seus logros e os seus fracassos, a falta
de piedade ou a alegria de estar vivo, apesar de tudo. Na noite
passada essa mulher viu a imagem de um dos seus em mil cartazes e
compreendeu, não podia deixar de compreendê-lo, que algo novo
estava acontecendo. Ou então guardou simplesmente no coração a
imagem repetida, à espera de que a sua alegria recebesse
justificação e confirmação. Os velhos têm destas coisas, de
repente abandonam os lugares-comuns e avançam contra a corrente,
fazendo perguntas impertinentes e mantendo silêncios obstinados que
arrefecem a festa. Ann Nixon Cooper sofreu escravidões várias, por
negra, por mulher, por pobre. Viveu submetida, as leis teriam mudado
no exterior, mas não nos seus diversos medos, porque olhava à sua
volta e via mulheres maltratadas, usadas, humilhadas, assassinadas,
sempre por homens. Via que cobravam menos que eles pelos mesmos
trabalhos, que tinham de assumir responsabilidades domésticas que
iam ficar na sombra, apesar de necessárias, via como lhes travavam
os passos decididos, e não obstante continuam a caminhar, ou não se
levantando num autocarro, contemo-lo uma vez mais, como aquela outra
mulher negra, Rosa Banks, que fez história, também.
Cento e seis anos a ver passar o
mundo. Talvez o veja bonito, como a minha avó, pouco antes de
morrer, velha e formosa, pobre. Talvez a mulher de quem Obama nos
falou ontem sentisse a serenidade da alegria perfeita, talvez o
saibamos um dia. Entretanto felicitemos o presidente eleito por tê-la
tirado da sua casa, por ter-lhe prestado uma homenagem que ela
provavelmente não necessitaria, mas nós, sim. À medida que Obama
ia falando de Ann Nixon Copper, percebemos que a cada palavra o
exemplo nos tornava melhores, mais humanos, à beira de uma
fraternidade total. De nós depende fazer durar este sentimento.
José Saramago, em O caderno
1645 – Potosí
História de Estefânia, pecadora
mulher de Potosí (em versão abreviada da crônica de Bartolomé
Arzáns de Orsúa y Vela)
Nasceu Estefânia nesta Vila imperial
e cresceu em formosura a tal grau que mais não pôde subi-lo a
natureza.
Aos catorze anos de idade saiu de casa
a belíssima donzela, aconselhada por outras perdidas mulheres, e
havendo entendido sua mãe a abominável determinação com que esta
filha se afastava, cheia de pesar em breves dias acabou-se-lhe a
vida.
Não por isso emendou-se a filha, que
havendo já perdido o tesouro inestimável da virgindade, vestindo-se
profanamente se fez pública e escandalosa pecadora.
Vendo seu irmão tanto descrédito e
má fama, chamou-a à sua casa e disse: “Mesmo que te pese haverás
de ouvir-me, que enquanto estiveres em pecado mortal és inimiga de
Deus e escrava do demônio, e além disto degeneras tua nobreza e
desonras toda a sua linhagem. Olhe, irmã, o que fazes, levanta-te
deste pântano, teme a Deus e faz penitência”. Ao que Estefânia
respondeu: “Que necessidade tens de mim, hipocritão”. E enquanto
o irmão a repreendia, em um momento despiu ela a cortadora adaga que
estava na parede pendurada e com diabólica ferocidade avançou
dizendo: “Só esta resposta merecem tuas razões”. Deixou-o morto
em um lago de sangue e depois disfarçou aquela maldade com fingido
sentimento, vestindo-se de luto e ponderando a lástima.
Também seu ancião pai, entristecido
pela morte do bom filho e o escândalo da má filha, procurou
reduzi-la com boas razões que contra sua vontade escutava a
despiadada. Em vez da emenda, deu ela em aborrecer o venerável velho
e à meia-noite pôs fogo no telhado da casa. Saltou da cama o
atordoado ancião, gritando com toda a sua voz: “Fogo, fogo!”,
mas caíram as vigas que sustentavam o teto e ali mesmo abrasou-lhe o
terrível elemento. Vendo-se livre Estefânia, com mais desenfreio se
deu a maiores vícios e pecados.
Arribou nesses dias a esta Vila de
Potosí um homem dos reinos da Espanha, mercador dos mais opulentos
que naqueles galeões vieram ao Peru, e chegou a suas notícias a
formosura e graça daquela pública pecadora. Solicitou-a, e quando
mais gozosos se encontravam em suas torpezas, um amante antigo da
dama, armado de todas as armas e com duas bravas pistolas, apareceu
decidido a vingar sua ofensa.
Achou o antigo amante solitária a
mulher, mas com enganosas palavras deteve ela seu airado ânimo, e
quando houve controlado tão arrebatada cólera, com grande presteza
tirou da manga um punhal e caiu ao chão morto o infeliz.
Referiu Estefânia o sucesso ao rico
mercador. Passados alguns meses, estando ele muito atormentado pelos
ciúmes, ameaçou-a com acusá-la à justiça do homicídio feito.
Nesses dias foram juntos banhar-se na lagoa de Tarapaya. Arrojou ela
de si seus ricos vestidos, ficando patente a neve de seu corpo
salpicada de belíssimo carmin, e nua atirou-a à água. Seguiu-a o
descuidado mercador e estando juntos na metade da lagoa, com toda a
força de seus braços meteu ela a cabeça do desaventurado dentro da
água.
Não se creia que pararam ali suas
abominações. Deu um golpe de alfanje acabou com a vida de um
cavalheiro de ilustre sangue; e a outros dois matou com veneno que
enviou em uma merenda. Por suas intrigas transpassaram-se outros os
peitos com as espadas, ficando Estefânia alegríssima de que se
derramasse sangue por sua causa.
E assim foi até o ano de 1645, quando
escutou a pecadora um sermão do padre Francisco Patino, servo de
Deus de cujas admiráveis virtudes gozava neste tempo Potosí, e
socorreu-a Deus com um raio de sua divina graça. E foi tão grande a
dor de Estefânia que começou a derramar rios de lágrimas, com
grandes suspiros e soluços que pareciam arrancar-lhe a alma, e
quando acabou o sermão arrojou-se aos pés do sacerdote pedindo-lhe
confissão.
Exortou-a o padre à penitência e
absolve-a, que bem se sabe com quanta felicidade se entregam as
mulheres em mãos da serpente, por coisas herdadas da que tentou
Adão. Levantou-se Estefânia dos pés do confessor qual outra
Madalena e quando ia a caminho de sua casa, oh feliz pecadora!,
mereceu que lhe aparecesse Maria Santíssima e lhe dissesse: “Filha,
já estás perdoada. Eu pedi por ti a meu Filho, porque em tua
infância rezavas meu rosário”.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
Acerca dos fatos
“Não é certo se irritar com os fatos, porque eles não se importam com a sua irritação.”
Marco Aurélio, em Meditações
A Contadora de Filmes
[12]
O filme durou três horas. Chorei mais
que Sara García, a veterana atriz do cinema mexicano. Eu nunca havia
gostado tanto de um filme. Depois soube que, além de ser tão longo,
tinha sido o filme mais caro da história. E que havia ganhado onze
prêmios Oscar. E além de tudo, Charlton Heston era um dos atores de
quem eu mais gostava.
Cheguei em casa com os olhos
vermelhos. Todos me esperavam com grande expectativa. Tomei em
silêncio a xícara de chá, me pus na frente deles, e sem que meus
joelhos tremessem nem nada, comecei a minha narração.
Foi então que alguma coisa se
apoderou de mim.
Enquanto contava o filme –
gesticulando, dando braçadas, mudando a voz – ia como que me
desdobrando, transformando, convertendo-me em cada um dos
personagens. Naquela tarde fui Ben-Hur, o jovenzinho. Fui Messala, o
malvado do filme. Fui as duas mulheres leprosas que Jesus curou.
Fui o mesmíssimo Jesus.
Eu não estava contando o filme, eu
estava atuando o filme. Mais ainda: eu estava vivendo o filme. Meu
pai e meus irmãos me ouviam e olhavam para mim de boca aberta.
“Essa menina é uma artista
completa”, comentou meu pai quando, esgotada até a última gota,
acabei de contar o filme.
Ele e meus irmãos pareciam estar
flutuando.
E estavam com os olhos marejados.
Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes
21/10/2026
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