quinta-feira, 9 de abril de 2026
Livro Sobre Nada
À mesa o doutor perorou: Vocês é
que são felizes
porque moram neste Empíreo.
Meu pai cuspiu o empíreo de lado.
O doutor falava bobagens conspícuas.
Mano Preto aproveitou: Grilo é um ser
imprestável
para o silêncio.
Mano Preto não tinha entidade
pessoal, só coisal.
(Seria um defeito de Deus?)
A gente falava bobagens de à brinca,
mas o doutor
falava de à vera.
O pai desbrincou de nós:
Só o obscuro nos cintila.
Bugrinha boquiabriu-se.
Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo
A gorjeta é livre
Confesso que sou um constrangido
diante do garçom, qualquer garçom. Se for garção, então, é
pior. Garçom é uma coisa pouco natural. Uma coisa antiga. Aquele
homem ali, de gravatinha, nos servindo. Às vezes com idade bastante
para ser nosso pai... É embaraçoso, para ele e para nós. A gorjeta
voluntária é uma espécie de taxa-vexame que você paga ao garçom
por ainda existir. Um suborno para ele esquecer tudo e você aplacar
sua consciência. É como dizer “eu sei, eu mesmo devia me levantar
e ir à cozinha buscar meu prato como mamãe me ensinou, sou uma
besta, o mundo é injusto, toma aí para uma cervejinha”. Quanto
mais servil o garçom, mais você se constrange e maior a gorjeta. É
o remorso. Ou a consciência social, que é a mesma coisa.
A gorjeta obrigatória desobriga as
duas partes, o garçom de babar no seu pescoço e você de ter
remorso. Mas também leva a exageros, como a desatenção completa do
garçom pelo mundo em geral e pela sua mesa em particular. Quer
dizer, somos pela igualdade universal, o fim do servilismo e a
fraternidade entre os homens, mas olha o serviço, pô! E quem nunca
teve que passar pelo vexame de atrair a atenção de um garçom que
insiste em não olhar para cá? É dos piores momentos da humanidade.
Você levanta o braço para um aceno,
o garçom não olha e você tem que improvisar: passa a mão no
cabelo, coça a nuca, finge que está espantando uma mosca ou que viu
um conhecido lá no fundo. “Oi, tudo certinho?” Tenta outra vez,
o garçom continua não olhando, e é outro conhecido que você
descobre no restaurante. Até que:
— Qual é?
— Qual é o que, cavalheiro?
— É a terceira vez que você abana
para a minha mulher e ela jura que nunca viu você na vida.
— Sua mulher? Não, não, por amor
de Deus, eu estava espantando uma mosca.
— Tou sabendo. Que não aconteça
outra vez.
— Pode deixar. E me faça um favor.
Na volta para a sua mesa, diga ao garçom que preciso falar com ele.
É urgente. Espero ele aqui mesmo, mais ou menos a esta hora, com o
braço levantado que é para ele me identificar. Diz para ele trazer
a nota. A nota. Ele compreenderá.
Pior é quando você chama e ele não
ouve. Você tenta o tom jovial — “ó comandante” — depois o
falso íntimo — “meu chapinha!” — depois o formal com alguma
autoridade — “quer fazer o favor?” — e finalmente a linguagem
internacional do “psiu!”. Se tudo falhar, atira um garfo na
cabeça dele. Mas tem que pagar a gorjeta, está incluída.
E o maître? O maître é
o terror. O maître já foi garçom, já passou por tudo que
um garçom passa, e hoje é um ressentido no poder. Trata os garçons
como uma subespécie e você como um garçom. Não sei se sou só eu,
mas sempre tenho a impressão de que o maître desaprova o meu
pedido, o vinho que escolhi, o jeito que pego na faca e o tom dos
meus sapatos. E também não está muito entusiasmado com a minha
existência.
— Mesa para quantos?
— Do-dois... Se o senhor não se
importar. Mas se preferir, eu vou embora. E desculpe qualquer coisa!
Na primeira vez em que pedi ostras num
restaurante em Paris, conta ele só para dizer que já esteve em
Paris, encarei o maître pronto para exorcizar de uma vez
todos os meus terrores. Se conseguisse enfrentar um maître de
Montparnasse, na língua dele (cada vez que eu falo francês, Racine
morre mais um pouco), estaria salvo. Olhei o maître nos olhos
e disse, a voz firme como a saúde do Pompidou, que estava à morte
na ocasião:
— Des huîtres.
— Monsieur?
— Des huîtres — repeti, já
pensando em abandonar a ideia, a mesa e a cidade.
— Sim, monsieur, mas de
qualidade? Que número?
Ele me mostrou o cardápio. Havia 17
categorias diferentes de ostras, e cada categoria tinha vários
números, correspondentes ao tamanho.
— A claire número 3,
evidentemente — disse eu, dando a entender que um bom maître
veria na minha cara que eu era um homem de claire número 3.
Mais tarde, consumidas as ostras, ele
trouxe uma tigela de prata com água morna e uma rodela de limão. E
ficou por perto, na certa antecipando que eu beberia a água em vez
de lavar os dedos. Mas não lhe dei esse prazer.
O diabo é que depois disso, em
qualquer restaurante do mundo em que entro, noto um brilho de
divertido reconhecimento nos olhos do maître. Ah, esse é o
tal das ostras em Paris... Uma alucinação, claro. É o terror.
Sempre dou gorjeta para o garçom,
apesar do constrangimento. Mas para o maître nunca. Conheço os meus
inimigos.
Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora
segunda-feira, 6 de abril de 2026
Conserve o seu próprio caráter
Não há homem afortunado a ponto de
ninguém festejar seu falecimento. Ainda que seja benfeitor e sábio,
alguém comentará: “Respiro aliviado agora que me livrei desse
pedante. De fato não foi áspero conosco, mas percebi que nos
reprovava tacitamente.”
Comentam isso sobre os bons! Já no
nosso caso, por quantos outros motivos querem livrar-se de nós? Ao
mensurá-los, morrerá bem-aventurado: “Estou deixando uma vida em
que até os meus companheiros — para os quais direcionei atenção,
orações e cuidado — esperam pelo meu óbito na esperança de,
porventura, obter vantagens. Nessa situação, por que me agarraria a
uma estadia mais longa?”
Entretanto, não saia indisposto com
eles ou como se estivesse sendo arrancado. Conserve o seu próprio
caráter. Continue amigável, benevolente e compassivo. Quando morre
tranquilo, a pobre alma se separa do corpo com facilidade. Deixe-os
desse modo, pois a natureza os uniu e os associou e agora os desune.
Desassocio-me dos meus parentes conforme a natureza: sem ser
arrastado ou empurrado.
Marco Aurélio, em Meditações
1617 – Londres
Fumaças de Virgínia na névoa de
Londres
Dramatis personae:
O REI Jacó I da Inglaterra, VI da
Escócia. Escreveu: O tabaco converte em uma cozinha as partes
interiores do homem, sujando-as ou infetando-as com uma espécie de
fuligem untuosa e gordurosa. Também escreveu que quem fuma imita
as bárbaras e bestiais maneiras dos selvagens e servis índios
sem Deus.
JOHN ROLFE. Colono inglês de
Virgínia. Um dos membros mais distintos deste povo apontado e
escolhido pelo dedo de Deus – segundo o próprio Rolfe define
aos seus. Com sementes levadas da ilha de Trinidad à Virginia, fez
boas misturas de tabaco em suas plantações. Há três anos
despachou para Londres, nos porões do Elizabeth, quatro tonéis
cheios de folhas, que iniciaram o recente, mas já frutífero,
comércio de tabaco com a Inglaterra. Bem se pode dizer que John
Rolfe colocou o tabaco no trono de Virgínia, como planta-rainha de
poder absoluto. No ano passado veio a Londres com o governador Dale,
buscando novos colonos e novos investimentos para a Companhia de
Virgínia e prometendo lucros fabulosos a seus acionistas, porque o
tabaco será para a Virgínia o que a prata é para o Peru. Também
veio para apresentar ante o rei Jacó sua esposa, a princesa índia
Pocahontas, batizada Rebeca.
SIR THOMAS DALE. Governador de
Virgínia até o ano passado. Autorizou a boda de John Rolfe e a
princesa Pocahontas, primeiro matrimônio anglo-índio da história
de Virgínia, por entender que era um ato de alta conveniência
política, que contribuiria ao pacífico subministro de grãos e
braços por parte da população indígena. Entretanto, em sua
solicitação de permissão, John Rolfe não mencionava este aspecto
do assunto. Tampouco mencionava o amor, embora se ocupasse de negar
terminantemente qualquer desenfreado desejo em relação à sua bela
noiva de dezoito anos de idade. Dizia Rolfe que queria casar-se com
essa pagã de rude educação, bárbaras maneiras e geração
condenada, pelo bem desta plantação, pela honra de nosso país,
pela glória de Deus, por minha própria salvação e para converter
ao verdadeiro conhecimento de Deus e Jesus Cristo uma criatura
incrédula.
POCAHONTAS. Também chamada Matoaka
enquanto viveu com os índios. Filha predileta do grande chefe
Powhatan. Desde que se casou com John Rolfe, Pocahontas renunciou à
idolatria, passou a chamar-se Rebeca e cobriu com roupa inglesa sua
nudez. Usando chapéu de copa e bordados altos no pescoço, chegou a
Londres e foi recebida na corte. Falava como inglesa e pensava como
inglesa; devotamente partilhava a fé calvinista de seu esposo e o
tabaco de Virgínia encontrou nela a mais hábil e exótica
propaganda que necessitava para se impor em Londres. De doença
inglesa morreu. Navegando pelo Tâmisa de regresso a Virgínia, e
enquanto o barco esperava ventos favoráveis, Pocahontas exalou seu
último suspiro nos braços de John Rolfe, em Gravesend no mês de
março deste ano de 1617. Não tinha cumprido vinte e um anos.
OPECHANCANOUGH. Tio de Pocahontas,
irmão mais velho do grande chefe Powhatan. Foi Opechancanough quem
entregou a noiva na igreja protestante de Jamestown, igreja nua, de
troncos, há três anos. Não disse uma palavra durante a cerimônia,
nem antes, nem depois, mas Pocahontas contou a John Rolfe a história
de seu tio. Opechancanough viveu em outros tempos na Espanha e no
México, foi cristão e se chamou Luis de Velasco, mas nem bem o
devolveram à sua terra e atirou ao fogo o crucifixo e a capa e a
gola, degolou os padres que o acompanhavam e recuperou seu nome de
Opechancanough, que na língua dos algonquins significa o que tem
a alma limpa.
Alguém que foi ator do Globe Theatre
nos anos de Shakespeare reuniu os dados desta história e se pergunta
agora, frente a uma jarra de cerveja, o que fará com eles. Escreverá
uma tragédia de amor ou um drama moralizante sobre o tabaco e seus
poderes maléficos? Ou talvez uma mascarada que tenha por tema a
conquista da América? A obra seria um êxito certo, porque toda
Londres fala da princesa Pocahontas e sua passagem fugaz por aqui.
Essa mulher... Ela sozinha era um harém. Toda Londres sonha com ela
nua entre as árvores, com flores cheirosas nos cabelos. Que anjo
vingador atravessou-a com sua espada invisível? Expiou ela os
pecados de seu povo pagão? Ou foi essa morte uma advertência de
Deus a seu marido? O tabaco, filho ilegítimo de Proserpina e Baco...
Não ampara Satanás o misterioso pacto entre essa erva e o fogo? Não
sopra Satanás a fumaça que deixa os virtuosos tontos? E a escondida
lascívia do puritano John Rolfe... E o passado de Opechancanough,
antes chamado Luis de Velasco, traidor ou vingador... Opechancanough
entrando na igreja com a princesa no braço... Alto, erguido, mudo...
– Não, não – conclui o
indiscreto caçador de histórias, enquanto paga suas cervejas e sai
à rua – Esta história é boa demais para ser escrita. Como
costuma dizer o galeno Silva, poeta das Índias: “Se a escrevo, o
que me sobrará para contar aos amigos?”
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
Capítulo V – O Menino Mais Novo
A ideia surgiu-lhe na tarde em que
Fabiano botou os arreios na égua alazã e entrou a amansá-la. Não
era propriamente ideia: era o desejo vago de realizar qualquer ação
notável que espantasse o irmão e a cachorra Baleia.
Naquele momento Fabiano lhe causava
grande admiração. Metido nos couros, de perneiras, gibão e
guarda-peito, era a criatura mais importante do mundo. As rosetas das
esporas dele tilintavam no pátio; as abas do chapéu, jogado para
trás, preso debaixo do queixo pela correia, aumentavam-lhe o rosto
queimado, faziam-lhe um círculo enorme em torno da cabeça.
O animal estava selado, os estribos
amarrados na garupa, e Sinha Vitória subjugava-o agarrando-lhe os
beiços. O vaqueiro apertou a cilha e posse a andar em redor,
fiscalizando os arranjos, lento. Sem se apressar, livrou-se de um
coice: virou o corpo, os cascos da égua passaram-lhe rente ao peito,
raspando o gibão. Em seguida Fabiano subiu ao copiar, saltou na
sela, a mulher recuou – e foi um redemoinho na catinga.
Trepado na porteira do curral, o
menino mais novo torcia as mãos suadas, estirava-se para ver a nuvem
de poeira que toldava as imburanas. Ficou assim uma eternidade, cheio
de alegria e medo, até que a égua voltou e começou a pular
furiosamente no pátio, como se tivesse o diabo no corpo. De repente
a cilha rebentou e houve um desmoronamento. O pequeno deu um grito,
ia tombar da porteira. Mas sossegou logo. Fabiano tinha caído em pé
e recolhia-se banzeiro e cambaio, os arreios no braço. Os estribos,
soltos na carreira desesperada, batiam um no outro, as rosetas das
esporas tiniam.
Sinha Vitória cachimbava tranquila no
banco do copiar, catando lêndeas no filho mais velho. Não se
conformando com semelhante indiferença depois da façanha do pai, o
menino foi acordar Baleia, que preguiçava, a barriguinha vermelha
descoberta, sem-vergonha. A cachorra abriu um olho, encostou a cabeça
à pedra de amolar, bocejou e pegou no sono de novo.
Julgou-a estúpida e egoísta,
deixou-a, indignado, foi puxar a manga do vestido da mãe, desejando
comunicar-se com ela. Sinha Vitória soltou uma exclamação de
aborrecimento, e, como o pirralho insistisse, deu-lhe um cascudo.
Retirou-se zangado, encostou-se num
esteio do alpendre, achando o mundo todo ruim e insensato. Dirigiu-se
ao chiqueiro, onde os bichos bodejavam, fungando, erguendo os
focinhos franzidos. Aquilo era tão engraçado que o egoísmo de
Baleia e o mau humor de Sinha Vitória desapareceram. A admiração a
Fabiano é que ia ficando maior.
Esqueceu desentendimentos e
grosserias, um entusiasmo verdadeiro encheu-lhe a alma pequenina.
Apesar de ter medo do pai, chegou-se a ele devagar, esfregou-se nas
perneiras, tocou as abas do gibão. As perneiras, o gibão, o guarda-
peito, as esporas e o barbicacho do chapéu maravilhavam-no.
Fabiano desviou-o desatento, entrou na
sala e foi despojar-se daquela grandeza.
O menino deitou-se na esteira,
enrolou-se e fechou os olhos. Fabiano era terrível. No chão,
despidos os couros, reduzia-se bastante, mas no lombo da égua alazã
era terrível.
Dormiu e sonhou. Um pé-de-vento
cobria de poeira a folhagem das imburanas, Sinha Vitória catava
piolhos no filho mais velho. Baleia descansava a cabeça na pedra de
amolar.
No dia seguinte essas imagens se
varreram completamente. Os juazeiros do fim do pátio estavam
escuros, destoavam das outras árvores. Porque seria?
Aproximou-se do chiqueiro das cabras,
viu o bode velho fazendo um barulho feio com as ventas arregaçadas,
lembrou-se do acontecimento da véspera. Encaminhou-se aos juazeiros,
curvado, espiando os rastos da égua alazã.
A hora do almoço Sinha Vitória
repreendeu-o: – Este capeta anda leso.
Ergueu-se, deixou a cozinha, foi
contemplar as perneiras, o guarda-peito e o gibão pendurados num
torno da sala. Daí marchou para o chiqueiro – e o projeto nasceu.
Arredou-se, fez tenção de
entender-se com alguém, mas ignorava o que pretendia dizer. A égua
alazã e o bode misturavam-se, ele e o pai misturavam-se também.
Rodeou o chiqueiro, mexendo-se como um urubu, arremedando Fabiano.
A necessidade de consultar o irmão
apareceu e desapareceu. O outro iria rir-se, mangar dele, avisar
Sinha Vitória. Teve medo do riso e da mangação. Se falasse
naquilo, Sinha Vitória lhe puxaria as orelhas.
Evidentemente ele não era Fabiano.
Mas se fosse? Precisava mostrar que podia ser Fabiano. Conversando,
talvez conseguisse explicar-se.
Pôs-se a caminhar, banzeiro, até que
o irmão e Baleia levaram as cabras ao bebedouro. A porteira
abriu-se, um fartum espalhou-se pelos arredores, os chocalhos soaram,
a camisinha de algodão atravessou o pátio, contornou as pedras onde
se atiravam cobras mortas, passou os juazeiros, desceu a ladeira,
alcançou a margem do rio.
Agora as cabras se empurravam metendo
os focinhos na água, os cornos entrechocavam-se. Baleia, atarefada,
latia correndo.
Trepado na ribanceira, o coração aos
baques, o menino mais novo esperava que o bode chegasse ao bebedouro.
Certamente aquilo era arriscado, mas parecia-lhe que ali em cima
tinha crescido e podia virar Fabiano.
Sentou-se indeciso. O bode ia saltar e
derrubá-lo. Ergueu-se, afastou-se, quase livre da tentação, viu um
bando de periquitos que voava sobre as catingueiras. Desejou possuir
um deles, amarrá-lo com uma embira, dar-lhe comida. Sumiram-se todos
chiando, e o pequeno ficou triste, espiando o céu cheio de nuvens
brancas. Algumas eram carneirinhos, mas desmanchavam-se e tornavam-se
bichos diferentes. Duas grandes se juntaram - e uma tinha a figura da
égua alazã, a outra representava Fabiano.
Baixou os olhos encandeados,
esfregou-os, aproximou-se novamente da ribanceira, distinguiu a massa
confusa do rebanho, ouviu as pancadas dos chifres. Se o bode já
tivesse bebido, ele experimentaria decepção. Examinou as pernas
finas, a camisinha encardida e rasgada. Enxergara viventes no céu,
considerava-se protegido, convencia-se de que forças misteriosas iam
ampará-lo. Boiaria no ar, como um periquito.
Pôs-se a berrar, imitando as cabras,
chamando o irmão e a cachorra. Não obtendo resultado, indignou-se.
Ia mostrar aos dois uma proeza, voltariam para casa espantados.
Aí o bode se avizinhou e meteu o
focinho na água. O menino despenhou-se da ribanceira, escanchou-se
no espinhaço dele.
Mergulhou no pelame fofo, escorregou,
tentou em vão segurar-se com os calcanhares, foi atirado para a
frente, voltou, achou-se montado na garupa do animal, que saltava
demais e provavelmente se distanciava do bebedouro. Inclinou-se para
um lado, mas fortemente sacudido, retomou a posição vertical,
entrou a dançar desengonçado, as pernas abertas, os braços
inúteis. Outra vez impelido para a frente, deu um salto mortal,
passou por cima da cabeça do bode, aumentou o rasgão da camisa numa
das pontas e estirou-se na areia. Ficou ali estatelado, quietinho, um
zunzum nos ouvidos, percebendo vagamente que escapara sem honra da
aventura.
Viu as nuvens que se desmanchavam no
céu azul, embirrou com elas. Interessou-se pelo voo dos urubus.
Debaixo dos couros, Fabiano andava banzeiro, pesado, direitinho um
urubu.
Sentou-se, apalpou as juntas doídas.
Fora sacolejado violentamente, parecia-lhe que os ossos estavam
deslocados.
Olhou com raiva o irmão e a cachorra.
Deviam tê-lo prevenido. Não descobriu neles nenhum sinal de
solidariedade: o irmão ria como um doido, Baleia, séria,
desaprovava tudo aquilo. Achou-se abandonado e mesquinho, exposto a
quedas, coices e marradas.
Ergueu-se, arrastou-se com desânimo
até a cerca do bebedouro, encostou-se a ela, o rosto virado para a
água barrenta, o coração esmorecido. Meteu os dedos finos pelo
rasgão, coçou o peito magro. O tropel das cabras perdeu-se na
ladeira, a cachorrinha ladrou longe. Como estariam as nuvens?
Provavelmente algumas se transformavam em carneirinhos, outras eram
como bichos desconhecidos.
Lembrou-se de Fabiano e procurou
esquecê-lo. Com certeza Fabiano e Sinha Vitória iam castigá-lo por
causa do acidente. Levantou os olhos tímidos. A lua tinha aparecido,
engrossava, acompanhada por uma estrelinha quase invisível. Aquela
hora os Periquitos descansavam na vazante, nas touceiras secas de
milho. Se possuísse um daqueles periquitos, seria feliz.
Baixou a cabeça, tornou a olhar a
poça escura que o gado esvaziara. Uns riachos miúdos marejavam na
areia como artérias abertas de animais. Recordou-se das cabras
abatidas a mão de pilão, penduradas de cabeça para baixo num
caibro do copiar, sangrando.
Retirou-se. A humilhação atenuou-se
pouco a pouco e morreu. Precisava entrar em casa, jantar, dormir. E
precisava crescer, ficar tão grande como Fabiano, matar cabras a mão
de pilão, trazer uma faca de ponta à cintura. Ia crescer,
espichar-se numa cama de varas, fumar cigarros de palha, calçar
sapatos de couro cru.
Subiu a ladeira, chegou-se a casa
devagar, entortando as pernas, banzeiro. Quando fosse homem,
caminharia assim, pesado, cambaio, importante, as rosetas das esporas
tilintando. Saltaria no lombo de um cavalo brabo e voaria na catinga
como pé-de-vento, levantando poeira. Ao regressar, apear-se-ia num
pulo e andaria no pátio assim torto, de perneiras, gibão,
guarda-peito e chapéu de couro com barbicacho. O menino mais velho e
Baleia ficariam admirados.
Graciliano Ramos, em Vidas Secas
domingo, 5 de abril de 2026
Charlatões
Um amigo meu diz que em todos nós
existe o charlatão. Concordei. Sinto em mim a charlatã me
espreitando. Só não vence, primeiro porque não é realmente
verdade, segundo porque minha honestidade básica até me enjoa. Há
outra coisa que me espreita e que me faz sorrir: o mau gosto. Ah, a
vontade que tenho de ceder ao mau gosto. Em quê? Ora, o campo é
ilimitado, simplesmente ilimitado. Vai desde o instante em que se
pode dizer a palavra errada exatamente quando ela cairia pior —
até o instante em que se diriam palavras de grande beleza e verdade
quando o interlocutor está desprevenido e levaria um susto de
constrangimento, e haveria o silêncio depois. Em que mais? Em se
vestir, por exemplo. Não necessariamente o óbvio do equivalente a
plumas. Não sei descrever, mas saberia usar um mau gosto perfeito. E
em escrever? A tentação é grande, pois a linha divisória é quase
invisível entre o mau gosto e a verdade. E mesmo porque, pior que o
mau gosto em matéria de escrever, é certo tipo horrível de bom
gosto. Às vezes, de puro prazer, de pura pesquisa simples, ando
sobre a linha bamba.
Como é que eu seria charlatã? Eu
fui, e com toda a sinceridade, pensando que acertava. Sou, por
exemplo, formada em direito, e com isso enganei a mim e aos outros.
Não, mais a mim que a todos. No entanto, como eu fui sincera: fui
estudar direito porque desejava reformar as penitenciárias do
Brasil.
O charlatão é um contrabandista de
si mesmo. Que é mesmo o que estou dizendo? Era uma coisa, mas já me
escapou. O charlatão se prejudica? Não sei, mas sei que às vezes a
charlatanice dói e muito. Imiscui-se nos momentos mais graves. Dá
uma vontade de não ser, exatamente quando se é com toda a força.
Não posso infelizmente me alongar mais nesse assunto.
Disseram-me que um crítico teria
escrito que Guimarães Rosa e eu éramos dois embustes, o que vale
dizer dois charlatões. Esse crítico não vai entender nada do que
estou dizendo aqui. É outra coisa. Estou falando de algo muito
profundo, embora não pareça, embora eu mesma esteja um pouco
tristemente brincando com o assunto.
Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida
Instância
Eu cometi pecados,
por palavras, por atos, omissões.
Deles confesso a Deus,
à Virgem Maria, aos santos,
a São Miguel Arcanjo
e a vós irmãos.
A tão criticável tristeza
e seu divisível ser
pelejam por abotoar em mim
seu colar de desespero.
Mas eu peço perdão:
a Deus e a vós, irmãos.
O meu peito está nu como quando
nasci;
em panos de alegria me enrolou minha
mãe,
beijou minha carne estragável,
em minha boca mentirosa espremeu seu
leite,
por isso sobrevivi.
Agora vós, irmãos, perdoai-me,
por minha mãe que se foi.
Por Deus que não vejo, perdoai-me.
Adélia Prado, em O Coração Disparado
Um sonho modesto
Macunaíma, o “herói” de Mário
de Andrade, gabava-se um dia de ter caçado dois veados-mateiros de
uma só vez, quando pegara simplesmente dois ratos chamuscados. Como
seus irmãos contestassem a proeza, ele “parou assim os olhos” no
interlocutor e explicou:
— Eu menti.
Desde domingo, o cronista se sente um
pouco na situação de Macunaíma, embora (ou por isso mesmo) ninguém
pusesse em dúvida a veracidade da passagem de Greta Garbo por Belo
Horizonte. Pelo contrário, o crédito dispensado à narrativa foi
unânime, e até cumprimentos recebeu o narrador, por motivos
distintos. Louvaram-lhe uns o ter mantido por tantos anos o sigilo
assegurado a Greta Garbo e, generosos, não exprobraram o fato de
haver rompido esse silêncio, transcorrido um quarto de século. A
atriz não pedira reserva por determinado período, e assim devia
entender-se que a desejava para sempre; e sem consulta à Garbo, como
quebrar o compromisso? “Você foi formidável, disse-me um amigo;
vinte e seis anos com um segredo desses na moita!” Aprendi com isso
que, para a virtude da discrição, ou de modo geral qualquer
virtude, aparecer em seu fulgor, é necessário que faltemos à sua
prática. Morresse eu com o meu segredo, ninguém me acharia
formidável.
Outros, e esses me comoveram, vieram
trazer-me agradecimentos da sua (ou nossa) geração, pelo bem feito
a todos com a revelação do episódio. Afinal, de um grupo numeroso
de homens que amaram Greta Garbo espiritualmente e na tela, dois, se
não a amaram na realidade, pelo menos tiveram esse privilégio de
passeá-la incógnita, pelas alamedas de um parque, num crepúsculo
de outono mineiro. Et notre âme depuis ce temps tremble et
s’étonne — como diz o poeta Verlaine. Tínhamos, Abgar
Renault e o cronista, representado nesse passeio a sensibilidade de
muitos.
Já me sentia disposto a conceder a
Pompeu de Sousa a entrevista solicitada para o Diário Carioca,
e a ser ilustrada com a ingênua fotografia tirada por um
profissional de jardim, com a “estrela” entre os seus dois
amigos, e fac-símiles de bilhetes que ela nos escrevera, quando,
rebuscando os meus guardados, verifiquei que faltavam bilhetes e
foto. E faltavam pela simples e macunaímica razão de que jamais
haviam existido.
A essa altura, porém, tornava-se mais
fácil provar de diferentes maneiras o intermezzo belo-horizontino do
que invalidá-lo. O Grande Hotel, em que jantáramos com a amiga,
tanto podia ser o do filme do mesmo nome, por ela interpretado, como
o venerando hotel da rua da Bahia, do saudoso Maletta. Os elementos
de credibilidade e mesmo de convicção eram tão intensos, que me
surpreendi perguntando, intrigado:
— Onde diabo puseram os papéis que
estavam na gaveta de cima? Vai ver que esses capetinhas botaram fogo
neles!
Não, não botaram. Lamento
desencantar os leitores que acharam não só plausível como até
contada “com visível fidelidade” a historinha de Greta Garbo em
Minas. Peço desculpas a Abgar Renault pelo incômodo que lhe haja
causado o muito afeto em que o tenho, e que me levou a associá-lo a
essa aventura imaginária. (Era preciso alguém que falasse inglês,
e talvez até sueco, na minha pobre fábula.) Mas tirei uma segunda
lição — sempre se tiram algumas, das situações mais
insignificantes — e é que, vinte e cinco anos depois, tudo pode
ser verdade, e é precisamente verdade. O homem guarda certa
desconfiança a respeito de fatos ocorridos diante do seu nariz,
presumindo que o estejam enganando; mas acredita piamente, por
exemplo, no que lhe contarem a respeito de vultos cujo centenário se
comemora, e está disposto a admitir qualquer coisa, desde que traga
a chancela do tempo. As consequências a tirar desta disposição, no
estudo da história, são óbvias: os manuais devem ser lidos e
entendidos pelo avesso. Mas o cronista não quis provar absolutamente
nada, imaginando que poderia ter conhecido Greta Garbo, por preguiça,
aqui mesmo no Brasil. Quis apenas alimentar um modesto sonho de
domingo, e los sueños sueños son.
Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira
sábado, 4 de abril de 2026
Capítulo 43 – Marquesa, Porque Eu Serei Marquês
Positivamente, era um diabrete
Virgília, um diabrete angélico, se querem, mas era-o, e então...
E então apareceu o Lobo Neves, um
homem que não era mais esbelto que eu, nem mais elegante, nem mais
lido, nem mais simpático, e todavia foi quem me arrebatou Virgília
e a candidatura, dentro de poucas semanas, com um ímpeto
verdadeiramente cesariano. Não precedeu nenhum despeito; não houve
a menor violência de família. Dutra veio dizer-me, um dia, que
esperasse outra aragem, porque a candidatura de Lobo Neves era
apoiada por grandes influências. Cedi; e tal foi o começo da minha
derrota. Uma semana depois, Virgília perguntou ao Lobo Neves, a
sorrir, quando seria ele ministro.
– Pela minha vontade, já; pela dos
outros, daqui a um ano.
Virgília replicou:
– Promete que algum dia me fará
baronesa?
– Marquesa, porque eu serei marquês.
Desde então fiquei perdido. Virgília
comparou a águia e o pavão, e elegeu a águia, deixando o pavão
com o seu espanto, o seu despeito, e três ou quatro beijos que lhe
dera. Talvez cinco beijos; mas dez que fossem não queria dizer coisa
nenhuma.
O lábio do homem não é como a pata
do cavalo de Atila, que esterilizava o solo em que batia; é
justamente o contrário.
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas
Diário de Bernardo Soares
99.
Há momentos em que tudo cansa, até o
que nos repousaria. O que nos cansa porque nos cansa; o que nos
repousaria porque a ideia de o obter nos cansa. Há abatimentos da
alma abaixo de toda a angústia e de toda a dor; creio que os não
conhecem senão os que se furtam às angústias e às dores humanas,
e têm diplomacia consigo mesmos para se esquivar ao próprio tédio.
Reduzindo-se, assim, a seres couraçados contra o mundo, não admira
que, em certa altura da sua consciência de si-mesmos, lhes pese de
repente o vulto inteiro da couraça, e a vida lhes seja uma angústia
às avessas, uma dor perdida.
Estou num desses momentos, e escrevo
estas linhas como quem quer ao menos saber que vive. Todo o dia, até
agora, trabalhei como um sonolento, contas por processos de sonho,
escrevendo ao longo do meu torpor. Todo o dia me senti pesar a vida
sobre os olhos e contra as têmporas — sono nos olhos, pressão
para fora nas têmporas, consciência de tudo isto no estômago,
náusea e desalento.
Viver parece-me um erro metafísico da
matéria, um descuido da inação. Nem olho o dia, para ver o que ele
tem que me distraia de mim, e, escrevendo-o eu aqui em descrição,
tape com palavras a xícara vazia do meu não me querer. Nem olho o
dia, e ignoro com as costas dobradas se é sol ou falta de sol o que
está lá fora na rua subjetivamente triste, na rua deserta onde está
passando o som de gente. Ignoro tudo e dói-me o peito. Parei de
trabalhar e não quero mexer-me daqui. Estou olhando para o
mata-borrão branco sujo, que alastra, pregado aos cantos, por sobre
a grande idade da secretária inclinada. Fito atentamente os rabiscos
de absorção e distração que estão borrados nele. Várias vezes a
minha assinatura às avessas e ao invés. Alguns números aqui e ali,
assim mesmo. Uns desenhos de nada, feitos pela minha desatenção.
Olho a tudo isto como um aldeão de mata-borrões, com uma atenção
de quem olha novidades, com todo o cérebro inerte por detrás dos
centros cerebrais que promovem a visão.
Tenho mais sono íntimo do que cabe em
mim. E não quero nada, não prefiro nada, não há nada a que fugir.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
sexta-feira, 3 de abril de 2026
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