15/06/2026

Vitor Kley ft. Joyce Alane | Abalo Psicológico

O impagável Laerte

Retrato do artista quando coisa

Retrato do artista quando coisa: borboletas
Já trocam as árvores por mim.
Insetos me desempenham.
Já posso amar as moscas como a mim mesmo.
Os silêncios me praticam.
De tarde um dom de latas velhas se atraca em meu olho
Mas eu tenho predomínio por lírios.
Plantas desejam a minha boca para crescer por de cima.
Sou livre para o desfrute das aves.
Dou meiguice aos urubus.
Sapos desejam ser-me.
Quero cristianizar as águas.
Já enxergo o cheiro do sol.

Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo

Anarquia

Na escola eu já sentia minha atração para o contrário – adorava o máximo divisor comum, as frações ordinárias e as palavras epicenas ou promíscuas.

Millôr Fernandes, em A bíblia do caos

O Mestre e Margarida — 8



O duelo entre o professor e o poeta
No exato momento em que a consciência abandonou Stiôpa em Ialta, ou seja, por voltas das onze e meia da manhã, ela retornou a Ivan Nikoláievitch Bezdômny, que havia despertado depois de um sono longo e profundo. Durante algum tempo tentou raciocinar sobre o fato de ter ido parar naquele quarto desconhecido com paredes brancas, uma surpreendente mesinha de cabeceira de algum metal leve e uma persiana branca, por trás da qual se podia sentir o sol.
Ivan balançou a cabeça, certificou-se de que não estava doendo e lembrou-se de que estava em uma clínica. Esse pensamento trazia a lembrança da morte de Berlioz, mas hoje isso já não o abalava tanto. Depois de pôr o sono em dia, Ivan Nikoláievitch ficou mais tranquilo e começou a raciocinar com mais clareza. Após ficar algum tempo deitado, imóvel, naquela cama de molas bem limpa, macia e confortável, Ivan viu o botão de uma campainha ao seu lado. Como tinha o hábito de tocar em objetos mesmo sem necessidade, apertou o botão. Esperava que algum retinir ou alguma aparição viriam depois de apertá-lo, mas aconteceu algo totalmente diferente.
Aos pés da cama de Ivan acendeu-se um cilindro translúcido no qual estava escrito a palavra “Beber”. O cilindro ficou algum tempo parado, mas logo começou a girar até que surgiu a inscrição “Enfermeira”. Não é preciso dizer que Ivan ficou espantado com esse esperto cilindro. A inscrição “Enfermeira” foi substituída por “Chamem o doutor”.
Hum... — proferiu Ivan, sem saber o que mais fazer com aquele cilindro. Mas por acaso deu sorte: apertou o botão uma segunda vez na palavra “Assistente”. Em resposta o cilindro soou baixinho, parou, apagou-se e no quarto entrou uma simpática senhora roliça de jaleco branco, limpo, que disse a Ivan:
Bom dia!
Ivan não respondeu, pois considerou a saudação descabida diante das circunstâncias em que se encontrava. Realmente, trancafiaram um homem saudável em uma clínica e ainda fazem de conta que era assim mesmo que tinha de ser!
A mulher, no entanto, sem perder a expressão benevolente do rosto, levantou as cortinas com a ajuda de um apertão em um botão e o quarto foi invadido pelo sol através de uma grade larga, tortuosa e leve que descia até o chão. Do outro lado se abria uma varanda, e atrás dela se avistava a margem de um rio sinuoso e, na outra margem do rio, um alegre bosque de pinheiros.
Hora de tomar um banho — convidou a mulher e, ao alcance de suas mãos, abriu-se uma parede interna e atrás dela surgiu um banheiro maravilhosamente equipado.
Apesar de ter decidido não falar com a mulher, Ivan não resistiu e, quando viu como a água jorrava forte de uma torneira reluzente para a banheira, disse, com ironia:
Nossa! É como no Metropol!
Oh, não — respondeu a mulher, com orgulho —, é bem melhor. Esse equipamento não existe em lugar algum, nem no exterior. Cientistas e médicos vêm especialmente para inspecionar a nossa clínica. Turistas estrangeiros nos visitam todos os dias.
Ao ouvir as palavras “turistas estrangeiros”, Ivan lembrou-se imediatamente do consultor do dia anterior. Ficou taciturno, deu uma olhada, carrancudo, e disse:
Turistas estrangeiros... Como vocês todos adoram turistas estrangeiros, não? Mas no meio deles, entre outras coisas, encontra-se tudo quanto é tipo de gente. Eu, por exemplo, ontem conheci um, precisa ver!
Por pouco não começou a contar sobre Pôncio Pilatos, mas se segurou, entendendo que para a mulher aquelas histórias de nada serviriam, e que tanto fazia, ela não poderia ajudá-lo mesmo.
De banho tomado, imediatamente deram a Ivan Nikoláievitch tudo que um homem de fato precisava depois de um banho: uma camisa passada, ceroulas, meias. Mas isso ainda não era nada: abrindo a porta de um pequeno armário, a mulher apontou para dentro e perguntou:
O que o senhor deseja vestir, um roupão ou um pijama?
Vinculado à nova moradia à força, Ivan quase ergueu os braços por causa do atrevimento da mulher, mas, calado, indicou com o dedo um pijama de flanela cor de papoula.
Depois disso, Ivan Nikoláievitch foi conduzido pelo corredor vazio e silencioso até um consultório de proporções enormes. Ivan resolveu tratar com ironia tudo o que havia naquele prédio equipado às mil maravilhas e logo batizou mentalmente o gabinete de “cozinha industrial”.
E tinha motivo para tanto. Ali havia gaveteiros e pequenos armários de vidro com instrumentos reluzentes e niquelados. Havia poltronas de construção extraordinariamente complexa, luminárias abauladas com cúpulas brilhantes, uma infinidade de frascos, bicos de gás, fios elétricos e aparelhos totalmente desconhecidos para todo mundo.
No consultório, três pessoas tomavam conta de Ivan — duas mulheres e um homem, todos de branco. Antes de mais nada, levaram Ivan para um canto e sentaram-no diante de uma pequena mesa, com a visível intenção de fazê-lo falar.
Ivan começou a examinar a situação. Tinha três caminhos diante de si. O primeiro era extremamente fascinante: lançar-se sobre aquelas lâmpadas e coisas intrincadas e destroçá-las, mandá-las para o espaço; assim expressaria seu protesto por ter sido preso à toa. Porém, o Ivan de hoje se distinguia significativamente do Ivan de ontem, e o primeiro caminho pareceu-lhe duvidoso: se optasse por ele, o pensamento de que ele era um louco desgovernado se enraizaria neles. Por isso, Ivan descartou o primeiro caminho. Havia o segundo: começar o relato sobre o consultor e Pôncio Pilatos imediatamente. No entanto, a experiência do dia anterior demonstrara que não acreditavam em sua história ou a entendiam de maneira distorcida. Por isso Ivan também desistiu desse caminho e resolveu eleger o terceiro: trancafiar-se em um silêncio majestoso.
Não conseguiu realizar isso por completo e, querendo ou não, viu-se obrigado a responder, embora taciturno e carrancudo, uma série de perguntas. E arrancaram dele definitivamente tudo sobre seu passado, chegando ao ponto de perguntar como e quando teve escarlatina, uns quinze anos antes. Depois de preencherem uma página inteira com suas respostas, viraram a folha e a mulher de branco passou a indagar sobre os parentes de Ivan. Iniciou-se uma verdadeira ladainha: quem morreu, quando, por quê, se bebia, se teve doenças venéreas e coisas do gênero. Para concluir, pediram que contasse sobre o acontecimento, desgraça, evento, incidente, infortúnio do dia anterior em Patriarchi Prudý, mas não insistiram muito e não se espantaram com a informação sobre Pôncio Pilatos.
Em seguida a mulher passou Ivan para o homem, que se ocupou dele de maneira diferente e já não perguntou mais nada. Ele tirou sua temperatura, tomou o pulso, examinou seus olhos, iluminando-os com uma espécie de lâmpada. Depois, a outra mulher veio ajudar o homem e furaram as costas de Ivan com alguma coisa, mas não doeu nada; com o cabo de um martelinho desenharam sobre a pele de seu peito alguns sinais; bateram nos joelhos com o martelinho, o que fez as pernas de Ivan pularem; furaram seu dedo e tiraram sangue, furaram a dobra interna do braço na altura do cotovelo e colocaram uma espécie de braceletes emborrachados nos braços…
Ivan apenas sorria para si, malicioso e amargo, e remoía como tudo aquilo acontecera de maneira tola e estranha. Imaginem só! Queria precaver todo mundo contra o perigo que representava aquele consultor desconhecido, pretendia agarrá-lo, mas tudo o que conseguiu foi parar em um misterioso consultório para contar tudo quanto é tipo de asneira sobre o tio Fiôdor, que bebia até cair em Vôlogda. Insuportavelmente tolo!
Finalmente o soltaram. Ele foi acompanhado de volta para seu quarto, onde recebeu uma xícara de café, dois ovos cozidos moles e pão branco com manteiga.
Depois de comer e beber o que lhe foi oferecido, Ivan resolveu esperar algum chefe daquela instituição chegar e tentar conseguir tanto atenção como justiça.
E ele chegou, logo depois do café da manhã. A porta do quarto de Ivan abriu-se de maneira inesperada e por ela entrou uma infinidade de pessoas de jaleco branco. À frente de todos, caminhava um homem de uns quarenta e cinco anos, meticuloso, barbeado à maneira dos artistas de cinema, olhos agradáveis, mas muito penetrantes, e maneiras educadas. A comitiva inteira lhe dispensava sinais de atenção e respeito e, por isso, sua entrada acabou sendo muito solene. “Como Pôncio Pilatos!”, pensou Ivan.
É, sem dúvida, esse era o chefe. Ele se sentou em um banco, enquanto os outros ficaram de pé.
Doutor Stravinski — o homem apresentou-se a Ivan enquanto se sentava e olhou para ele com afabilidade.
Aqui está, Aleksandr Nikoláievitch — disse em voz baixa alguém com uma barbicha bem cuidada e entregou ao chefe uma folha toda preenchida.
Arranjaram um verdadeiro dossiê!”, pensou Ivan. O chefe percorreu a folha com olhos acostumados, balbuciou “uh-hum, uh-hum...” e trocou algumas frases com os que estavam ao redor em uma língua pouco conhecida.
E fala latim, como Pilatos...”, pensou Ivan, triste. Então uma palavra o fez estremecer, e essa palavra era “esquizofrenia”, que coisa, que já tinha sido pronunciada ontem pelo maldito estrangeiro em Patriarchi Prudý, e hoje era repetida aqui pelo doutor Stravinski.
Também disso ele sabia!”, pensou Ivan, aflito.
O chefe, pelo visto, tinha como regra concordar e contentar-se com tudo que lhe dissessem os que estavam ao redor, expressando isso com as palavras “muito bem, muito bem...”.
Muito bem! — disse Stravinski, devolvendo a folha para alguém, e dirigiu-se a Ivan: — O senhor é poeta?
Sou poeta — respondeu Ivan, sombrio, e de repente sentiu pela primeira vez uma inexplicável aversão à poesia, e seus próprios poemas, que súbito lhe vieram à memória, sabe-se lá por que lhe pareceram desagradáveis.
Por sua vez, ele perguntou a Stravinski, franzindo o rosto:
O senhor é doutor?
Ao que Stravinski inclinou a cabeça, precavido e respeitoso.
E o senhor é o chefe daqui? — continuou Ivan.
Stravinski também fez uma reverência.
Preciso falar com o senhor — disse Ivan Nikoláievitch, com ar de importância.
É para isso que estou aqui — retorquiu Stravinski.
A questão é a seguinte — começou Ivan, sentindo que tinha chegado a sua hora. — Tomaram-me por louco e ninguém deseja me ouvir!
Oh, não, vamos escutá-lo com muita atenção — disse Stravinski, em tom sério e tranquilizador — e não permitiremos que o tomem por louco em hipótese alguma.
Então, ouça: ontem à noite, conheci em Patriarchi Prudý um indivíduo misterioso, um estrangeiro de meia-tigela, que sabia da morte de Berlioz de antemão e viu Pôncio Pilatos pessoalmente.
A comitiva ouvia o poeta muda, imóvel.
Pilatos? Pilatos, aquele que viveu na época de Jesus Cristo? — perguntou Stravinski, apertando os olhos para Ivan.
Esse mesmo.
A-hã — disse Stravinski. — E esse Berlioz morreu debaixo de um bonde?
Justamente, ele foi degolado por um bonde ontem, em Patriarchi, diante de meus olhos, e esse mesmo cidadão enigmático...
O conhecido de Pôncio Pilatos? — perguntou Stravinski, que, pelo visto, se distinguia por sua grande compreensão.
Justamente ele — confirmou Ivan, estudando Stravinski. — Então, ele disse, de antemão, que Ánnuchka derramaria o óleo de girassol... E Berlioz escorregou bem naquele lugar! O que o senhor acha disso? — quis saber Ivan, com ar de importância, esperando causar grande efeito com suas palavras.
Mas esse efeito não se deu e Stravinski simplesmente fez a próxima pergunta:
E quem é essa Ánnuchka?
A pergunta deixou Ivan um pouco transtornado, seu rosto contorceu-se.
Ánnuchka não tem nenhuma importância aqui — disse ele, fora de si. — Vai saber diabo quem é ela! Só uma idiota qualquer da Sadôvaia. O importante é que ele sabia de antemão, entende, do óleo de girassol! O senhor está me entendendo?
Entendo perfeitamente — respondeu Stravinski seriamente, e, tocando os joelhos do poeta, acrescentou: — Não se inquiete, continue.
Vou continuar — disse Ivan, tentando acompanhar o tom de Stravinski; já sabia, por sua amarga experiência, que somente a tranquilidade o ajudaria. — Então, esse tipo horroroso, e ele mente que é consultor, é dotado de uma força extraordinária... Por exemplo, você o persegue, mas não há possibilidade de alcançá-lo. E ele anda com mais dois sujeitinhos, também dos bons, mas cada um no seu estilo: um alto de lentes quebradas, e, além desse daí, há também um gato de proporções incríveis, que anda de bonde sozinho. Além disso — sem ser interrompido por ninguém, Ivan falava com cada vez mais ardor e convicção —, ele esteve na varanda de Pôncio Pilatos pessoalmente, sem sombra de dúvida. O que significa isso? Hein? Ele precisa ser preso imediatamente, do contrário causará desgraças indescritíveis.
Então o senhor está tentando prendê-lo? Entendi bem?
Ele é inteligente”, pensou Ivan. “Deve-se reconhecer que em meio aos membros da intelligentsia1 também é possível encontrar uns de inteligência rara. Não dá para negar isso.” E respondeu:
Muito bem! E como não tentar, pense bem! Enquanto isso, detiveram-me aqui à força, enfiaram uma lâmpada nos olhos, dão banho de banheira e fazem perguntas sobre o tio Fiêdia!... Mas já faz tempo que ele não está nesse mundo! Exijo que me soltem imediatamente.
Bom, muito bem, muito bem! — retorquiu Stravinski. — Então, tudo foi esclarecido. Realmente, que sentido tem deter um homem saudável em uma clínica? Tudo bem. Eu lhe darei alta daqui agora mesmo, se o senhor me disser que é normal. Não precisa provar, é só dizer. Então, o senhor é normal?
Fez-se silêncio absoluto. A mulher gorda, que cuidara de Ivan de manhã, olhou para o doutor com devoção, e Ivan pensou mais uma vez: “Definitivamente inteligente.”
Ele gostou muito da proposta do doutor, mas, antes de responder, pensou e repensou, franzindo a testa, e, finalmente, disse, com firmeza:
Eu sou normal.
Então muito bem — exclamou Stravinski, aliviado. — Se é assim, vamos raciocinar logicamente. Tomemos o seu dia de ontem. — Ele se virou e imediatamente lhe entregaram a folha de Ivan. — Em busca de um homem desconhecido, que se apresentou como conhecido de Pôncio Pilatos, o senhor realizou as seguintes ações ontem — Stravinski começou a dobrar seus dedos compridos, olhando ora para a folha, ora para Ivan. — Pendurou um ícone no peito. Não foi?
Foi — concordou Ivan, carrancudo.
Despencou de uma cerca e feriu o rosto. Certo? Apareceu em um restaurante com uma vela acesa na mão, só de roupa de baixo e lá bateu em alguém. Foi trazido para cá amarrado. Uma vez aqui, o senhor ligou para a polícia e pediu que enviassem metralhadoras. Depois, fez uma tentativa de se atirar pela janela. Certo? Pergunta-se: será que é possível, agindo dessa maneira, agarrar ou prender alguém? Se é uma pessoa normal, o senhor mesmo vai responder: de maneira alguma. O senhor quer sair daqui? À vontade. Mas me permita lhe perguntar, para onde o senhor pretende ir?
Até a polícia, claro — respondeu Ivan, já sem a mesma firmeza e se perdendo um pouco diante do olhar do doutor.
Direto daqui?
A-hã.
E não vai passar no seu apartamento? — perguntou rapidamente Stravinski.
Não há tempo para passar lá! Enquanto eu ficar dando voltas pelo apartamento, ele vai escapulir!
Certo. E o que dirá à polícia, antes de mais nada?
Sobre Pôncio Pilatos — respondeu Ivan Nikoláievitch, e seus olhos cobriram-se com uma névoa sombria.
Então, muito bem! — exclamou Stravinski, resignado, virando-se para aquele de barbicha, e ordenou: — Fiódor Vassílievitch, dê alta, por favor, ao cidadão Bezdômny, para que ele vá à cidade. Mas não coloque ninguém naquele quarto e não precisa trocar a roupa de cama. Daqui a duas horas o cidadão Bezdômny estará aqui de novo. Bom — voltou-se ele para o poeta —, não vou desejar-lhe êxito, porque não acredito nem um bocado nessa sorte. Até daqui a pouco! — Ele se levantou e sua comitiva se movimentou.
Por que razão estarei aqui de novo? — perguntou Ivan, aflito.
Stravinski parecia esperar essa pergunta e sentou-se imediatamente, dizendo:
Porque, assim que o senhor aparecer na polícia de ceroulas e disser que viu um homem que conheceu Pôncio Pilatos pessoalmente, será trazido para cá no mesmo instante, e de novo se encontrará naquele mesmo quarto.
O que as ceroulas têm a ver com isso? — perguntou Ivan, olhando ao redor, perplexo.
A razão principal é Pôncio Pilatos. Mas as ceroulas também. Veja bem, nós vamos recolher a roupa emprestada do Estado e devolveremos a roupa que você trajava ao chegar aqui. Mais precisamente, ceroulas. Entretanto, o senhor não pretende ir até o seu apartamento de jeito o nenhum, apesar de eu ter lhe sugerido isso. A seguir, vem Pilatos... e o negócio está fechado!
Então aconteceu algo estranho com Ivan Nikoláievitch. Sua vontade pareceu se fender e ele se sentiu fraco, precisava de um conselho.
Mas o que fazer? — perguntou ele, dessa vez tímido.
Então muito bem! — retorquiu Stravinski. — É uma pergunta muito razoável. Agora, vou lhe dizer o que aconteceu com o senhor de verdade. Ontem, alguém o deixou muito assustado e transtornado com uma história sobre Pôncio Pilatos e outras coisas. Então, o senhor, um homem muito nervoso e irritadiço, saiu pela cidade falando sobre Pôncio Pilatos. É totalmente natural que o tomem por louco. O senhor só tem uma salvação agora: repouso absoluto. É imprescindível que o senhor fique aqui.
Mas ele precisa ser agarrado! — exclamou Ivan, agora implorando.
Tudo bem, mas por que você mesmo precisa persegui-lo? Ponha no papel todas as suas suspeitas e acusações contra essa pessoa. Não há nada mais simples do que enviar sua declaração para o local apropriado, e caso se trate, como o senhor supõe, de estarmos lidando com um criminoso, tudo isso será esclarecido muito rapidamente. Mas com uma condição: não vá quebrar a cabeça e procure pensar menos em Pôncio Pilatos. Sabe-se lá o que contam por aí! Não se deve acreditar em tudo.
Entendi! — declarou Ivan, decidido. — Peço que me deem papel e caneta.
Dê-lhe papel e um lápis pequeno — ordenou Stravinski à mulher gorda, e a Ivan disse o seguinte: — Mas eu o aconselho a não escrever hoje.
Não, não, tem que ser hoje, hoje, é imprescindível — gritou Ivan, com aflição.
Tudo bem. Só que não vá fundir o cérebro. Se não der certo hoje, vai dar amanhã.
Ele vai fugir!
Oh, não — retrucou Stravinski com segurança —, ele não fugirá para lugar algum, isso eu lhe garanto. Lembre-se que aqui ajudarão o senhor com tudo que for possível, e sem isso nada vai dar certo para o senhor. Está me ouvindo? — perguntou Stravinski de repente, com ar de importância, e tomou as duas mãos de Ivan Nikoláievitch. Segurando-as nas suas, e fixando um olhar demorado em Ivan, ele repetiu: — Aqui o ajudarão... está me ouvindo?... Aqui o ajudarão... O senhor se sentirá aliviado. É silencioso e tranquilo aqui... Aqui o ajudarão...
Inesperadamente, Ivan Nikoláievitch bocejou, a expressão de seu rosto se aplacou.
Isso, isso — disse ele em voz baixa.
Então muito bem! — Stravinski concluiu a conversa como estava acostumado e levantou-se. — Até logo! — Apertou a mão de Ivan e, já de saída, virou-se para aquele de barbicha e disse: — Isso, experimente oxigênio... e banhos.
Alguns instantes depois, diante de Ivan não havia mais nem Stravinski, nem a comitiva. Do outro lado da tela da janela, sob o sol do meio-dia, o bosque alegre e primaveril resplandecia às margens do rio, que brilhava um pouco mais próximo.

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida

Calça literária

É assíduo leitor de blusas, camisas, saias, calças estampadas. Não lhe escapa um exemplar novo. Parece desligado, e observa tudo. Segundo ele, as peças de indumentária, masculina e feminina, ostentando símbolos e nomes de universidades americanas, manchetes, páginas de jornal, retratos de Pelé e Jimi Hendrix, apelos ao amor que não à guerra etc., há muito deixaram de ser originais. Constituem invólucros rotineiros de pessoas de qualquer idade. A gente estranha é uma camisa inteiramente nua de dizeres ou figuras, a roupa que não diz nada, só roupa. Hoje, lê-se mais nos tecidos do que nos livros, e não é ler apenas, é ver cinema e televisão, pois os corpos, ao se moverem, dinamizam as figuras estampadas. O que, de um modo ou de outro, contribui para a cultura de massas. Informa:
Estou pensando em aproveitar esse material para fins especificamente didáticos. Através dele, ensinar geografia, história, matemática, medicina de urgência, imposto de renda, ortografia desmistificada, essas coisas. O indivíduo cobre-se e vai distribuindo ciência. Ou aprendendo. Vinte minutos no ônibus — que aula! Classes ao ar livre, na feira, na fila. Escola dinâmica.
Você sozinho é um Mobral 1971.
Ontem eu li uma calça comprida, de mulher que à primeira vista não tinha nada de especial. Estava escrita como tantas outras. Mas o texto (não confundir com textura) me chamou a atenção. Geralmente, calças e blusas não são literárias. Trazem notícias, anúncios, slogans, mas versos, ainda não tinha visto. Pois essa tinha poemas em português, de Camões ao Vinicius.
Tomou nota?
Claro. Aliás, a usuária foi muito gentil. Percebendo que eu mirava a parte inferior do seu revestimento, gratificou-me com um sorriso que eu traduzi assim: “Pode mirar mais”. E eu mirei. Aí, puxei da caneta, e ela sorriu outra vez, como quem diz: “Pode copiar também”. Copiei.
Tudo?
Tudo não. A dona da calça estava sentada na sala de espera do cinema. Só o que era visível. Depois se levantou, foi ao bebedouro, deu tempo para eu colher mais alguma coisa, no ir e vir. Não tive coragem de pedir-lhe que desse umas voltas. Você compreende: sou tímido.
Estou vendo.
Foi a primeira calça literária, totalmente poética, do meu conhecimento. Feita em São Paulo? Talvez. Caracteres pretos sobre fundo branco. Versos em todas as direções. De Bilac, de Cecília, de Bandeira, de Castro Alves, de Fernando Pessoa. Uma antologia, bicho. Sem ordem, naturalmente. Escuta aí: Onde vais à tardezinha, morena flor do sertão? O que eu adoro em ti é a vida. Aqui outrora retumbaram hinos. Oh abelha imaginativa! o que o desejo inventa… Vou-me embora pra Pasárgada. Amor é fogo que arde sem se ver. Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho. No monte de amor andei, por ter de monteiro fama, sem tomar gamo nem gama. Clorindas e Belindas brincam no tempo das berlindas. Eu tenho amado tanto e não conheço o amor. Estrela Vésper do pastor errante. ‘Tamos em pleno mar: dois infinitos ali se alteiam…
Beleza.
Não é? Tem mais. Transforma-se o amador na coisa amada. Antônia, você parece uma lagarta listrada. D. Janaína, rainha do mar, dai-me licença para eu também brincar no vosso reinado. Por que não nasci eu um simples vaga-lume? Não queiras indagar do meu segredo. Mas que seja infinito enquanto dure. Cantando espalharei por toda parte. Tudo não escondido perde a graça. O cinamomo floresce em frente do teu postigo. Crisântemo divino aberto em meio da solidão… Tinha uma pedra no meio do caminho.
Isso já é prosa, amizade.
É mesmo. Em todo caso, trata-se da primeira calça poética luso-brasileira. Os poetas que tratem de defender seus direitos autorais. A menos que considerem uma honra vestir de versos as mulheres.

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

14/06/2026

Tom Ribeira e Agnes Nunes | Vc Assim

Meninos, eu vi


Vi, sim. Ora se vi. Eu não sou o Piu-Piu e não vi um gatinho. Eu vi a luz. Calma. Não estou delirando, tenho bebido moderadamente e também não ando queimando baseados colombianos. Eu vi a Luz das cordas, CD de Marco Pereira e Hamilton de Holanda, um dos mais importantes trabalhos instrumentais brasileiros nos últimos cinquenta anos.
Tivemos durante o ano 2000 muitas manitas del plata querendo aparecer: George Benson, John Pizzarelli, Robert Cray... Mas na hora da luz, o jogo ficou todo a favor de Marco Pereira e Hamilton de Holanda. O pessoal foi saindo de fininho, ofuscado.
Fiz um teste interessante, aqui em casa. Deixava as pessoas conversando no escritório e botava, na maciota, Luz das cordas. Teve de tudo: amigo chorando feito criança, moça entrando em transe catatônico, o diabo. Podem conferir.
Eu vi as extraordinárias caixas de CDs de Noel Rosa, Dorival Caymmi e do SESC São Paulo.
Eu vi, O quinteto de Buenos Aires, de Manuel Vázquez Montalbán, reduzindo o ego maradônico dos argentinos a extrato de pó de pum da pulga do cavalo do bandido. Depois desse livro, especialmente pelos capítulos “A guerra das Malvinas” e O filho natural de Jorge Luis Borges”, aqueles tangueiros nunca mais serão os mesmos.
Eu vi Os leopardos de Kafka, de Moacyr Scliar, na mesma coleção de Borges e os orangotangos eternos, de Luis Fernando Veríssimo. A crítica pode – e deve – falar o que bem entender, mas os dois livros são excelentes.
Eu vi, de Alberto Manguel, autor de Uma história da leitura e de Stevenson sobre as palmeiras, o delicado No bosque do espelho.
Vi, arrepiado de horror, Autópsia do medo – vida e morte do delegado Sergio Paranhos Fleury, do grande repórter Percival de Souza, onde aparece logo no começo, já aprontando, o Nicolalau.
Vi a Coleção Negra, da Record, completando com Whitejazz, o Quarteto de Los Angeles, de James Ellroy.
Vi a caverna do Saramago e os crocodilos do Lobo Antunes, como o Binho, cada vez melhores, perseguidos pela paixão de Pepetela.
Vi e revi Paulo Mendes Campos. Vi Fausto Wolff, que deve estar escrevendo vinte e quatro horas por dia. Vi Pai morto, vivo, de Ricardo Gontijo e OEspelho de Egon, de Horácio Soares.
Bebi na Ipanema do Jaguar e dancei com os Atabaques, violas e bambus, do Paulo César Pinheiro.
E andei tendo umas lições sobre Do Amor ausente, do jovem e talentoso escritor Paulo Roberto Pires. Será parente do outro, que já bebeu várias vezes no cafofo?!

Aldir Blanc, em O Gabinete do Doutor Blanc

Capítulo 57 – Destino




Sim senhor, amávamos. Agora, que todas as leis sociais no-lo impediam, agora é que nos amávamos deveras. Achávamo-nos jungidos um ao outro, como as duas almas que o poeta encontrou no Purgatório:
Di pari, come buoi, che vanno a giogo; e digo mal, comparando-nos a bois, porque nós éramos outra espécie de animal menos tardo, mais velhaco e lascivo. Eis-nos a caminhar sem saber até onde, nem por que estradas escusas; problema que me assustou, durante algumas semanas, mas cuja solução entreguei ao destino. Pobre Destino!
Onde andarás agora, grande procurador dos negócios humanos? Talvez estejas a criar pele nova, outra cara, outras maneiras, outro nome, e não é impossível que... Já me não lembra onde estava... Ah! nas estradas escusas. Disse eu comigo que já agora seria o que Deus quisesse. Era a nossa sorte amar-nos; se assim não fora, como explicaríamos a valsa e o resto? Virgília pensava a mesma coisa. Um dia, depois de me confessar que tinha momentos de remorsos, como eu lhe dissesse que, se tinha remorsos, é porque me não tinha amor, Virgília cingiu-me com os seus magníficos braços, murmurando:
Amo-te, é a vontade do céu.
E esta palavra não vinha à toa; Virgília era um pouco religiosa. Não ouvia missa aos domingos, é verdade, e creio até que só ia às igrejas em dia de festa, e quando havia lugar vago em alguma tribuna. Mas rezava todas as noites, com fervor, ou pelo menos, com sono. Tinha medo às trovoadas; nessas ocasiões, tapava os ouvidos, e resmoneava todas as orações do catecismo. Na alcova dela havia um oratoriozinho de jacarandá, obra de talha, de três palmos de altura, com três imagens dentro; mas não falava dele às amigas; ao contrário, tachava de beatas as que eram só religiosas. Algum tempo desconfiei que havia nela certo vexame de crer, e que a sua religião era uma espécie de camisa de flanela preservativa e clandestina; mas evidentemente era engano meu.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Hagar, o Horrível

Sesta

O poeta tem um chapéu,
um cinto de couro,
uma camisa de malha.
O poeta é um homem comum.
Mas, quando diz:
a tarde não podia tanger
com “os bandolins e suas doces nádegas”,
eu me prostro invocando:
me explica, ó decifrador, o mistério da vida,
me ama, homem incomum.
No oeste de Minas tem um canavial,
onde as folhas se roçam ásperas,
ásperas as folhas da cana-doce roçam-se.
Como agulhas bicando em vidro liso,
o pio das andorinhas dentro da igreja deserta.
Os trinados e as folhas cortam,
entre as canas é doce, doce e fresco,
entre os bancos da igreja.
Repouso lá e cá,
um poder em círculos me dilata,
eu danço na mão de Deus.
Na hora do encantamento,
o reverso do verso dá sua luz:
os bandolins e suas doces nádegas”,
um mistério santíssimo e inteligível.

Adélia Prado, em O Coração Disparado

I’ll Get You, de Paul McCartney e John Lennon





I’ll Get You

Oh yeah, oh yeah
Oh yeah, oh yeah

Imagine I’m in love with you
It’s easy ’cause I know
I’ve imagined I’m in love with you
Many, many, many times before
It’s not like me to pretend
But I’ll get you, I’ll get you in the end
Yes I will, I’ll get you in the end
Oh yeah, oh yeah

I think about you night and day
I need you and it’s true
When I think about you, I can say
I’m never, never, never, never blue
So I’m telling you, my friend
That I’ll get you, I’ll get you in the end
Yes I will, I’ll get you in the end
Oh yeah, oh yeah
Well there’s gonna be a time
When I’m gonna change your mind
So you might as well resign yourself to me
Oh yeah

Imagine I’m in love with you
It’s easy ’cause I know
I’ve imagined I’m in love with you
Many, many, many times before
It’s not like me to pretend
But I’ll get you, I’ll get you in the end
Yes I will, I’ll get you in the end

Oh yeah, oh yeah
Oh yeah, oh yeah, oh yeah

Esta canção foi composta na Menlove Avenue, em Liverpool, onde John ainda morava com a tia dele, Mimi. Ela era uma senhora bondosa, de vontade férrea; sem dúvida, ela era decidida. O estranho nisso é que Mimi não ligava muito para a nossa música e preferia não nos ver por perto, porque ela achava que estávamos incentivando John a dedicar mais tempo ao violão dele do que aos estudos. Mimi sempre dizia: “O violão serve como hobby, John, mas você nunca vai ganhar a vida com isso!”.
Esta canção traz a palavra “imagine”, e essa ideia de “imaginar” é algo que John reaproveitaria em sua própria canção “Imagine”. Também funciona um pouco como a abertura de “Lucy in the Sky With Diamonds”, com sua exortação: “Picture yourself...”. Portanto, tem um lance cinematográfico, além de literário. Quando eu digo “literário”, estou pensando no mundo imaginário de Lewis Carroll que John e eu tanto amávamos. Carroll foi uma grande influência para nós dois. Isso pode ser mesmo percebido nos livros de John, In His Own Write e A Spaniard in the Works [no Brasil, coligidos no volume Um atrapalho no trabalho, transcriação de Paulo Leminski].
Com relação à estrutura musical, essa é uma abertura realmente eficaz – acorde de Ré maior enquanto cantamos “oh yeah” em oitava. Havíamos aprendido o tipo de sequências em Dó, Lá menor, Fá, Sol e Ré – as tradicionais tríades. Mas então você começa a justapô-las um pouco, e a abertura de “I’ll Get You” é um exemplo do que acontece. No mais, temos acordes na forma padrão até chegarmos a “It’s not like me to pretend”. Esse verso termina com um acorde esquisito. Parece que destoa um pouco, mas esse que é o segredo desta canção.
Talvez seja um pouco demais dizer que o acorde faz um comentário sobre “fingir”, sugerindo que o personagem da canção talvez não seja confiável, que ele é realmente um fingidor, mostrando um sentimento com o qual não está comprometido. Que ele pode estar só brincando. Em geral, porém, os sentimentos nessas primeiras canções são bem diretos. Sem muita ironia. E é por isso que o público gostou e ainda gosta dessas canções. Elas dizem o que elas querem dizer. “It’s not like me to pretend/ But I’ll get you, I’ll get you in the end”. Pensando bem, acho que é justo dizer que também temos uma pitada de humor escolar pairando no ar.

Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente

13/06/2026

Emílio Santiago | Um Chope pra Distrair

Mais meu Sirimim



Habito a paisagem sólida, querida. Venham ver vocês. Ainda é inverno: alegrias direitinhas.
Amanhece de neblina, todos os dias, frio com frio. Ainda escuro, de sazão, agora, a madrugada vem muito curta, chega logo a manhã. O clarear é que é curto, para se assistir ao madrugar. Depois da coruja piando: o hu-lhu-h’hú. Da coruja, o pio é sempre. Mas, às vezes, vira o gargalhar, seco, um estalado, coisa seca, parece gargalhadinha de velho. Outra, a outra, seus estalidos, meio estridentes: cla-kle-cle-klá. Seriam duas corujas, no cajueiro, atrás do meu quarto; ninho delas. Dado o dia, bem guardam-se.
Os galos — e pintinhos e galinhas se agitando. A galinha com treze pintinhos, ela dorme debaixo do balaio. Entremente, melros, dos melhores. Ou os outros. A cambaxilra, aqui tem muita, dá um trinadozinho tristris. Aparecem os sanhaços. Vige aqui uma ordem: deixar-se, em cada mamoeiro, um mamão maduro, para eles, os pássaros de uso, que rebuscam o fácil das frutas. Àquela árvore de flor amarela, enchida de lagartas, vão os anus-pretos, mais tarde, quando se bem diz que o sol já está quente. Vi, porém, o martim-pescador, pousado no fim da luz, lindo. Escuro-e-verde e bronze, que, quando bate o sol, vira verde-azulado. Esperando a companheira?
Sigo, ao arreia-pêlo da correnteza, pela margem do mimo riachinho, soliloquaz: todo o tempo nos cruzamos. Sirimim estava de água clarinha, desta vez, ainda meio cheio, pelo que se sabe do que foi o verão: de chuvas e enxurros a granel. Mesmo agora, se costuma de vir alguma.
Tão cheiroso, na horta, aquele lugar da roseira! A gente se lembra de que foi a Irene que a plantou. A Irene se foi, faz seis meses, mas dá notícias. Diz que não conseguiu até hoje ajuntar dinheiro, só deu para comprar um vestido. Mas a Irene vai vir, estes dias, para o casamento da Maria do Dudu. Agora escuto o ruído de um muçum, pelo sol: a bulha da água remexida. E já se plantaram novas pimenteiras.
Ali, cheirando a roseira, e um perfume que vem, sai do chão. Cheira a mel. Vem de baixo. Você não vê nada. Deve de ser uma ervinha, um capinzinho. É o melhor cheiro e sobe da terra. Está por volta da horta, onde tem mato, nos lugares não capinados.
Vou visitar o Pedro, bebemos da biquinha, que recita. Mais que todas, a água do Sirimim, quando se apanha e põe na folha de taioba, ela fica de prata — a película prateada, a tremer. É a água mais pura que há.
O Pedro, mesmo tendo agora outra cachorrinha, não se esquece da que foi tão boa, a Bolinha, extinta. Conta de quando ela desapareceu, fugida, com a doença. — “...Zé Rufino tinha visto: ela passar, zangada, lá. Longe... Arruinada, uai. De zanga. Porque, naquela certa época do ano, zangam.” O Pedro é grato à Bolinha, porque ela não incomodou ninguém aqui, e porque poupou-lhe o assistir ao seu fim.
Sentamo-nos no antigo banco, pegado ao corte do barranco, ali tem uma laranjeira bem em cima do barranco, metade das raízes ficaram para fora. Mas, a casinha, a casa, atrás da qual estamos, já é a nova! O Pedro exulta — de não cessar de a contemplar.
E considera, com domingueiros olhos de repouso, o “seu” arrozal, lá embaixo, lugar fresco — à passarada. Está contente com o movimento, com o que se faz: na pinguela, para transpor o carro-de-bois, taparam os vãos com tabatinga e palha de arroz; taparam também todo o caminho que vem da pinguela até aqui, à casa; assim, há sempre palha de arroz espalhada — para refrescar a terra, agasalhá-la da umidade, e produzir adubo, depois.
Derrubou-se a casa velha, que era só um ranchinho de capim. O Pedro botou fogo em tudo, sapé e madeira podre, com ideia de que ali desse escorpiões. Mas, antes, a mudança levou dias, porque havia muito mantimento. O Pedro e a Eva são muito acomodados. A casa nova é grandinhazinha, com os dois quartos, e a cozinha e o quarto-dos-guardados — despensa para o milho e o arroz. Sem se esquecer a sala — só com um banco e o oratório: parece que os santos é que estão de visita ao Pedro.
No dia em que na casa nova definitivamente se alojaram, à noitinha, o Pedro, entrando no quarto-dos-guardados, escutou um barulho se mexendo. Com susto, invocou São Bento, pensou que fosse cobra atrás de camundongos, que estão dando no milho. Mas era uma gambá, com sete filhotes, já instalada perto do cacho de bananas — também de mudada! Foi só o Pedro fechar a porta, e mandar à Eva: — “Minha filha, premeia eles, com o cacete!” Medita: — “O vivente tem pouca pena do vivente...” E come a gambá, refogada simples, com farinha pura; mas não chupa os ossos, porque “dá caxumba”.
Na maior alegria, o Pedro inaugurou a casa nova, com uma ladainha. Armou a ladainha de ação-de-graças. Fez roupas novas, de papel crepom, para os santos todos do oratório. Varreu o terreno. Adornou o terreiro e casa com bandeirolas de papel. Arquinhos de bambus, com flores de papel, toscas, espetadas. Não tinha padre. Então, chamou um vizinho. Antoniartur de Almeida — ladrão, mau caráter, dizem, mas com grande prática de ladainhas. Quando estavam todos juntos, o homem dirigiu umas palavras ao povo. Depois, tirou umas rezas e preces. Ao meio-dia, em ponto. Rezaram um terço e a Ladainha de Todos-os-Santos. E o Padre reflete: — “Não é segredo o que estou lhe contando: mas, neste mundo, há gente de todo jeito. E é o de que se carece...” 
Depois, dias, é que foi a festa — a dos quinze anos da Eva.
Da venda de ovos e galinhas, o Pedro conseguira um dinheirinho, bem escondido, que seria para se a Eva viesse a precisar, por doenças, em o caso. Graças a Deus, porém, a Eva sempre teve saúde, assim se criou. Vai daí, o Pedro, com a influência da casa nova, resolveu gastar esse cobre na alegria. Ficou muito boa, a festa dele. Teve danças. Serviram café, rosquinha redondinha, broa e pé-de-moleque. Bancou-se o manuel-manta: que é jogo de dados, num caixote com um papel com seis quadradinhos, em que as apostas se casam. — “O Pedro não tem muita valença...” — diz o Joaquim. Mesmo tão casmurro, achou que devia dar-lhe proteção, ao irmão mais novo e afilhado; por isso, ficou lá até a festa dar em fim.
Contudo, às vezes, o Joaquim parece ter inveja do Pedro, dos agrados que lhe fazem. Não pode compreender que se preze um pobre aleijadinho, assim. Tudo ele pega, pesa, mede e apreça — o Joaquim.
O Joaquim vai se mudar daqui. Ele tem setenta-e-dois-anos, e é duro, carrancudo, prepotente. O Joaquim bebe.
A Irene foi-se empregar no Rio, e ele ficou sentido com todos, e não dizia por que, agastado. Não podia brigar com o Maninho, sem razão, nem obrigar o Maninho, a se casar com a Irene. A Maria, mulher dele, então, ainda ficou mais desgostosa. Ambos, remoeram, muito, aquilo, mais e mais a se ressentir. Daí, chegaram à decisão. Ir-se embora, mesmo largando suas benfeitorias de colono — a farturinha formada naqueles anos: bananeiras, canavial, mandioca.
Donde que, vão para perto da outra filha, a Maria Doca, mulher do Manuel Doca, deles muito querida, lá têm netinhas, no Cici.
O Joaquim é homem sério, estricto e correcto demais, não gosta de natureza para os olhos. A coisa melhor, para ele, é a fartura. A coisa pior — a que ameaça a fartura — é a vadiação. Só pensa em termos de proveito. Andar bem com os outros — isto é: os outros andando bem com ele. Acha que a gente está aqui para cumprir obrigação, fazer fartura; e, depois, no Céu, apresentar contas a Deus. Contas certas, certa a vida.
Rejeita toda mercê de beleza, desocupada e que não produz. Mesmo a roseirinha que a Irene plantou, ele diz que a tolera somente porque ela serve às plantinhas, de sombra. Mas nunca reparou em que, nas rosinhas-de-cachos, as pétalas de de-dentro é que são cor-de-rosa claro, e as de fora, mais brancas, ou parecem brancas, pelo menos, se não são. Nem jamais sentiu, rosas asas, seu perfume.
O riachinho sair por aí, correndo e cantando, aborrece a ele.
Aceita-o, servo, na horta: aprisionadas, obrigadas, as aguinhas diligentes. Mas não as que se seguem, para lá, lá, em todo o depois — as das sombras matosas, e as que, soltas, na cheia, vão de afogadilho. Da ponta para baixo, o Sirimim “está com vadiação”, vale de nada, de nenhum préstimo. Presume-se que, no fundo, detestava-o o Joaquim: como à flor que flor, a borboleta andante, o passarinho e ninho, o grilo na alface, e, à noite, no negro ermo, no ar, o pirilampadário. O meu Sirimim no descuidoso imprestar-se: a lânguida água à lengalenga e a ternura em aventura.
A ida embora do Joaquim é uma luta, que o Sirimim venceu.
A casa, que foi dele, está vaga. Quem a virá ocupar? Talvez, o velho avô da Idalina.

Graciliano Ramos, em Ave, Palavra

E quando se aproximou a hora

E quando se aproximou a hora, o Anjo da Encarnação perguntou-lhe:
Que queres ser na face da Terra?
Um polígono regular estrelado.
O quê?!
Um polígono regular estrelado — repetiu imperturbavelmente a alma do nascituro.
Mais um...” — pensou o Anjo. Mas, como os anjos e os poetas são os únicos que não riem dos loucos, limitou-se a objetar:
E por que não um poliedro? Vais viver num mundo de três dimensões e bem sabes que um polígono apenas tem duas. Lá só existirias na face do papel... e não propriamente na face da Terra.
Por isso mesmo.
O Anjo desta vez não compreendeu muito bem e retirou-se, dando de asas.
E foi assim que, quando chegou a hora, veio ao mundo mais um louco.
E um “louco simétrico”!
Chamou-se, entre os homens, Edgar Allan Poe.

Mário Quintana, em Caderno H

Terra Sonâmbula — Décimo capítulo



A Doença do Pântano

Tuahir mira e admira. Há dias que não se arredam do machimbombo. No entanto, a paisagem em volta vai negando a aparente imobilidade da estrada. Agora, por exemplo, se desenrola à sua frente um imenso pantanal. O mar se escutava vizinho, a mostrar que aquelas águas lhe pertenciam. O velho se dirige ao miúdo:
Quer ver o mar, não é?
Muito, tio.
Então, vamos embora.
E se fazem por caminhos de matope onde crescem as árvores do mangal. Atrás vai ficando a residência de chapa e cinzas, posta na estrada como um monumento de guerra.
Quer ver o mar por causa do quê?
O jovem nem sabe explicar. Mas era como se o mar, com seus infinitos, lhe desse um alívio de sair daquele mundo. Sem querer ele pensava em Farida, esperando naquele barco. E parecia entender a mulher: ao menos, no navio, ainda havia espera. Por isso, ele enfrenta aquela marcha pelo pântano. Chapinham numa imensidão: lodos, lamas e argilas fedorosas. A caminhada iria durar os seguintes dias.
Logo na primeira noite os sentem. Os mosquitos. São grandes, negros, zunzumbentes. Não mordem, apenas. Entram no sangue e ficam chiando lá dentro.
Merda de mosquitos!
Muidinga vai reclamando. O velho Tuahir lhe admolesta: não se chateie, miúdo. E lhe lembra:
Foi o mosquito que construiu o pântano. Também, dentro de nós, o mosquito pantaneja, podrecendo nossas águas.
São tão picados que, ao despertar no seguinte dia, Tuahir tem as orelhas feitas num dobro. Não tarda a que lhe apareçam as febres. Seu corpo se cinzenta, os dedos se tornam asmáticos. Ele teima:
A febre não é derivada dos mosquitos. É o canto desses pássaros que me faz quenturas.
Quais pássaros?
Você não lhes viu, esvoando por aí?
Muidinga não lembra ter avistado nenhumas aves. Quer dar cuidados ao seu companheiro. Mas o velho não aceita. Tem tanta febre que, posto nos charcos, faz ferver a água. O pântano em volta, sempre igual, faz perder as direcções. Estão perdidos, cansados. Sentados num tronco, esperam nem se sabe o quê. Devíamos ter ficado no machimbombo, comenta Muidinga.
Foi você que queria ver o mar, lembra o velho.
O velho treme tanto que suas palavras se desconexam. Depois, se calam ambos. À volta, se escuta apenas o silêncio pingando. Tuahir, porém, ainda guarda algumas forças. Sobe num ramo alto e se pendura de cabeça para baixo. Muidinga se admira ao lhe ver morcegando. Mas ele lhe sossega: era hábito da infância. Seu sangue era fraco e a mãe o deixava amarrado pelos pés no tecto da casa.
Sabe o que você vai fazer agora? É. Você vai dar voltas por aí e deitar susto nas aves da má sorte, essas que me estão trazer febres.
Muidinga parte então pelo lamaçal. O mangal, afinal, não se cansa em repetida monotonia. A paisagem se vai desembrulhando em novidade, seus olhos se estreiam naquela água. As garças flutuam como lenços brancos em fundo de cinza. Suas plumas, sem outro serviço que a beleza, penteiam a alma de Muidinga, como se lhe trouxessem a carícia do sono. Por cima do voo as brancas aves parecem meditar, seu peito sério, quase petulante. Seus gestos são de ensaiado bailado. Nem a fome lhes dá pressa, a caça se cumpre sempre mediante vagares.
Na margem das águas mortas, Muidinga olha as aves se afastando. Para além se estende o rasteirinho capim, emergindo muito verde por entre o solo escuro. Por entre os arbustos lhe chega o lamento de uma xigovia, essa flautinha feita em fruto da ncuacueira. Era um pequeno pastor que se aproximava. Ao vê-lo o pastorzito se assusta. Deve pensar que Muidinga é um saltinhador do mato. Muidinga o chama e se apresenta. Timiudamente, despontam os primeiros fios de conversa e os dois se vão confiando. Muidinga pede que o pastor toque a xigovia. E fecha os olhos, pronto a ser encantado.
O senhor está dormitoso?
O pastor lhe sacode, aflito. Muidinga sorri, pedindo que comece. Mas o outro continua receoso. Diz que já tinha visto muitos adormecerem definitivos, ao som da flauta. Não quer que seu visitante vá muito longe, embalado no esvoar da mente. Em vez de xigoviar diz preferir contar uma história, verdadeira, passada consigo, naqueles mesmos pastos.
Conta lá, então.
Semana passada faleceu um boi, cujo esse boi era o maior de todos.
Assim desfia o menino seu relato. Havia, entre sua manada, um muito triste boizarrão. De manhã até de noite o bicho boiava em rasteira solidão, esquecido de si, dos capinzais e das obrigatórias ruminações. Seus olhos felpudos seguiam todas distracções. Tudo lhe era pretexto, fosse o estremecer de uma sombra, fosse o farfalinar de uma borboleta tricotando seu voo. O pastorzinho se agastava: que doença estaria a consumir o animal? E se decidiu a segui-lo, de luz a lés. Foi então reparou que o bicho se prendia na visão de uma dada e considerada garça. A ave pernalteava-se, se juntava às nuvens, suas gémeas: sempre e sempre a atenção do boi nela se centrava. O ruminante se imobilizava, impedido. O pastor chambocava o bovino a ver se ele manadeava. O varapau, vuuum-ntáá, estalava nos costados. Nem valia a pena. Pois ele sacudia os lentos cornos e seguia, de impossível, impassível.
Sem nenhum comer, o bicho definhava-se. O pastor nem sabia como explicar a seu tio, dono da criação. Certa noite, ao juntar suas migalhas, o pastor viu aquilo que duvidava de contar. Pois que o boi esticava o pescoço para a lua e declamava mugidos que nunca foram ouvidos. De repente, se agitou todo seu corpo, o bicho parecia estar em parto de si mesmo. De sua garganta se afilaram os gemidos que se foram vertendo, creia-se, num cantarinhar de ave. Às duas por uma, ele começou a minguar, pequenando-se de taurino para bezerro, de bezerro para gato chifrudo. Em violentos arrepios se sacudiu e os pêlos, aos tufos, lhe foram caindo. No igual tempo lhe surgiam plumas brancas. Em instantes, o mamífero fazia nascer de si uma ave, profundamente garça.
O recente pássaro, então, percorreu o redor, procurando não se sabe qual quê com seu olhar em seta. Até que, de súbito, se vislumbrou uma outra garça, essa mesma que lhe fazia, enquanto boi, demorar o coração. E o transfigurado mamífero acorreu em volejos, se chegando à autêntica ave. Dançou em repentinos saltos, as pernas de nervosa altura, como se estivessem ainda a soletrar os primeiros passos. A terra parecia demasiado pesada para aquele habitante dos céus. Ali ficaram os recíprocos dois, em namoros despregados, soltando brancas fulgurações.
O pastor se garantiu que assim acontecia todas as noites de luar cheio. No roçar da aurora, o boi regressava à condição de tristonho quadripedestre. Sucedeu um ano, contudo, que por meses seguidos, a lua teimou em não sair. Por tempos consecutivos, as noites se velaram, escuras, viscosas. O boi percorria as nocturnas horas se mantendo boi, mugindo como as acabrunhadas xipalapalas. Morreu na trigésima noite. O pastor assistira a sua lenta agonia e jura ter visto lágrimas deflagrando nos redondíssimos olhos do bicho.
O menino suspende o relato, uma angústia lhe prende a voz. Muidinga não sabe como reparar aquela falta em seu companheiro de ocasião. Lhe faltam palavras, lhe fogem as entrelinhas. Então, tira de si o amuleto que o protegia dos maus espíritos, prenda de Tuahir. Afinal, trocam magias. Aquela suave estória, concedendo leveza a um apaixonado bovino, soava como uma dádiva de magia.
Se faz tarde, Muidinga se despede do pastorzito, regressando ao lugar onde deixara o companheiro doente. Tuahir se desprendera da árvore e treme. Ele tinha concebido um plano: juntariam uns paus de mangal, improvisariam uma jangada para fugir pântano abaixo. O miúdo tinha razão, admitia. Talvez na praia encontrassem gente, barcos, viagens.
Mas você não tem força para nada, tio Tuahir.
Tuahir então apontou para a margem: ele já juntara os paus e os amarrara no jeito de barcaça. Nesse poente, os dois partem naquela jangada. Muidinga remava. Se recorda de Kindzu em suas aventurosas viagens. A tremeluzente voz de Tuahir se faz ouvir:
Se eu falecer aqui não me enterre no matope.
O tio não vai morrer.
Você não sabe nada. Vou-lhe dizer: quem morre enterrado no lodo se transforma em peixe.
Está bem, não lhe enterro. Se um dia o tio morrer faço como fizeram com Taímo. Lhe deitamos na água.
O velho sorri e se enrosca em si, como se procurasse um ventre. Depois adormece. À medida que a jangada avança no mangal o miúdo vai medindo o quanto afecto guarda por aquele homem. No fundo, o velho foi toda a sua família, toda a sua humanidade. A jangada escorrega pelas lisas águas até desembocar numa margem onde a areia branqueja. Nítido se escuta o rugido do mar.
Escute: é o mar, o autêntico mar. Já estamos perto, tio.
Oh, esse mar já escuto desde que chegámos lá no machimbombo.
Cada vez mais a voz de Tuahir se esfuma. Em auge de arrepios, o velho pede carinhos de mão e de peito. Não era requerer de doente mas de esposa. Muidinga lhe ajusta a manta na esperança que ele caia em sono. Porém, Tuahir lhe surpreende as mãos, juntando-as a seu rosto. Pede ao rapaz que se deite juntinho a si, para ganhar quentura. O velho levanta a sua manta, abrindo espaço para que Muidinga se ajuste. O rapaz se deita, constreito. Dois medos em si se juntam: o de tocar em Tuahir e o de se estar deitando com a morte. Maneirosa, a mão do outro lhe desvanece uma ruga que teima em seu rosto. Longe se escuta o assobio da xigovia.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula