sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Lá do Alto | André Freitas

Calvin

1613 – Londres

Shakespeare

A Companhia de Virgínia está levando a breca na costa do norte da América, sem ouro nem prata, mas por toda Inglaterra circulam seus panfletos de propaganda anunciando que lá os ingleses trocam com os índios pérolas do Céu por pérolas da terra.
Não faz muito que John Donne explorava o corpo de sua amante, em um poema, como quem descobre a América; e Virgínia, o ouro de Virgínia, é o tema central das festas da boda da princesa Isabel. Em honra da filha do rei, representa-se uma dança mascarada de George Chapman que gira ao redor de um grande rochedo de ouro, símbolo de Virgínia ou das ilusões de seus acionistas: o ouro, chave de todos os poderes, segredo da vida perseguido pelos alquimistas, filho do sol como a prata é filha da lua e o cobre nasce de Vênus. Há ouro nas zonas quentes do mundo, onde o sol semeia, generoso, seus raios.
Nas celebrações do casamento da princesa, também estreia uma obra de William Shakespeare, A Tempestade, inspirada no naufrágio de um barco da Companhia de Virgínia nas Bermudas. O grande criador de almas e maravilhas situa esta vez seu drama em uma ilha do Mediterrâneo que mais parece do mar Caribe. Ali o duque Próspero encontra Calibã, filho da bruxa Sycorax, adoradora do deus dos índios da Patagônia. Calibã é um selvagem, um desses índios que Shakespeare viu em alguma exibição de Londres: coisa da escuridão, mais animal que homem, não aprende outra coisa a não ser amaldiçoar e não tem capacidade de juízo nem sentido de responsabilidade. Só como escravo, ou atado como um macaco, poderia encontrar um lugar na sociedade humana, ou seja, a sociedade europeia, onde não tem nenhum interesse de incorporar-se.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

A palavra



Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito — como não imaginar que, sem querer, feri alguém? Às vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade surda, ou uma reticência de mágoas. Imprudente ofício é este, de viver em voz alta.
Às vezes, também a gente tem o consolo de saber que alguma coisa que se disse por acaso ajudou alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com a sua vida de cada dia; a sonhar um pouco, a sentir uma vontade de fazer alguma coisa boa.
Agora sei que outro dia eu disse uma palavra que fez bem a alguém. Nunca saberei que palavra foi; deve ter sido alguma frase espontânea e distraída que eu disse com naturalidade porque senti no momento — e depois esqueci.
Tenho uma amiga que certa vez ganhou um canário, e o canário não cantava. Deram-lhe receitas para fazer o canário cantar; que falasse com ele, cantarolasse, batesse alguma coisa ao piano; que pusesse a gaiola perto quando trabalhasse em sua máquina de costura; que arranjasse para lhe fazer companhia, algum tempo, outro canário cantador; até mesmo que ligasse o rádio um pouco alto durante uma transmissão de jogo de futebol... mas o canário não cantava.
Um dia a minha amiga estava sozinha em casa, distraída, e assobiou uma pequena frase melódica de Beethoven — e o canário começou a cantar alegremente. Haveria alguma secreta ligação entre a alma do velho artista morto e o pequeno pássaro cor de ouro?
Alguma coisa que eu disse distraído — talvez palavras de algum poeta antigo — foi despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se a gente soubesse que de repente, num reino muito distante, uma princesa muito triste tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração do povo; iluminasse um pouco as suas pobres choupanas e as suas remotas esperanças.

Rubem Braga, em Ai de ti, Copacabana

A poesia, a salvação e a vida

Seo Raul tem uma calça azul-pavão
e atravessa a rua de manhã
pra dar risada com o vizinho.
Negro bom.
O azul da calça de seo Raul
parece foi pintado por pintor;
mais é uma cor que uma calça.
Eu fico pensando:
o que é que a calça azul de seo Raul
tem que ver com o momento
em que Pilatos decide a inscrição
JESUS NAZARENUS REX JUDEORUM.
Eu não sei o que é,
mas sei que existe um grão de salvação
escondido nas coisas deste mundo.
Senão, como explicar:
o rosto de Jesus tem manchas roxas,
reluz o broche de bronze
que prende as capas nos ombros dos soldados romanos.
O raio fende o céu: amarelo-azul profundo.
Os rostos ficam pálidos, a cor da terra,
a cor do sangue pisado.
De que cor eram os olhos do centurião convertido?
A calça azul de seo Raul
pra mim
faz parte da Bíblia.

Adélia Prado, em O Coração Disparado

O autor como leitor



Uma noite, no primeiro século da era cristã, Caio Plínio Cecílio Segundo (conhecido pelos futuros leitores como Plínio, o Jovem, para distingui-lo de seu erudito tio, Plínio, o Velho, que morreu na erupção do monte Vesúvio em 79 d.C.) saiu de casa de um amigo romano cheio de justificada cólera. Assim que chegou ao seu gabinete, sentou-se e, para ordenar os pensamentos (ou talvez de olho no volume de cartas que reuniria e publicaria mais tarde), escreveu ao advogado Cláudio Restituto sobre os acontecimentos daquela noite.
Acabei de sair indignado de uma leitura na casa de um amigo meu e sinto que preciso escrever-te neste instante, já que não posso falar-te pessoalmente. O texto que leram era exatamente polido, de qualquer ângulo que se considere, mas duas ou três pessoas espirituosas – ou que assim se julgam – escutaram-no como se fossem surdos-mudos. Em nenhum momento abriram os lábios, ou moveram as mãos, ou mesmo esticaram as pernas para mudar de posição. Qual o objetivo dessa conduta e cultura sóbria, ou, antes, dessa indolência e presunção, dessa falta de tato e bom senso que leva alguém a passar o dia inteiro sem fazer outra coisa senão causar desgosto e transformar em inimigo o querido amigo que se veio ouvir?”
É um pouco difícil para nós, a uma distância de vinte séculos, compreender a consternação de Plínio. Em sua época, a leitura feita por autores tornara-se uma cerimônia social da moda, e, como em qualquer cerimônia, havia uma etiqueta estabelecida para autores e ouvintes. Dos ouvintes, esperava-se que oferecessem uma reação crítica, com base na qual o autor aperfeiçoaria o texto – motivo pelo qual Plínio ficou tão ultrajado com a impassibilidade da plateia; ele próprio apresentava às vezes uma primeira versão de um discurso a um grupo de amigos e depois fazia alterações de acordo com a reação deles. Além disso, esperava-se que os ouvintes ficassem até o fim da apresentação, independentemente do tempo que durasse, de forma a não perder nenhuma parte da obra, e Plínio julgava que quem usava as leituras como mera diversão social não valia muito mais que um desordeiro. Escreveu furioso para outro amigo: “A maioria deles senta-se na sala de espera, perdendo tempo em vez de prestar atenção e pedindo aos seus servos que lhes digam a toda hora se o leitor chegou e já leu a introdução, ou se chegou ao fim da leitura. Somente então, e com a maior relutância, arrastam-se para dentro. E não ficam muito tempo, e saem antes do fim, alguns tentando escapar despercebidos, outros saindo sem pejo. [...] Mais louvor e honra merecem aqueles cujo amor pela escrita e leitura em voz alta não se deixa afetar pelos maus modos e arrogância da plateia”.
O autor também estava obrigado a seguir certas regras se quisesse ter sucesso em suas leituras, pois havia toda espécie de obstáculo a ser superado. Antes de mais nada, era preciso encontrar um local de leitura apropriado. Homens abastados imaginavam-se poetas e, em opulentas casas de campo, recitavam suas obras para um grande número de conhecidos - no auditorium, uma sala construída especialmente com esse objetivo.
Alguns desses poetas ricos, como Ticínio Capito, eram generosos e emprestavam seus auditórios para as apresentações de outros, mas a maioria desses espaços de recital era de uso exclusivo dos proprietários. Uma vez reunidos os amigos no local designado, o autor tinha de encará-los de uma cadeira colocada sobre um tablado, usando uma toga nova e exibindo todos os seus anéis. Segundo Plínio, esse costume atrapalhava-o duplamente: “ele se encontra em grande desvantagem pelo mero fato de ficar sentado, embora possa ser tão bem-dotado quanto oradores que ficam de pé” e tem”"os dois principais auxiliares de sua elocução, isto é, olhos e mãos”, ocupados em segurar o texto.
As habilidades oratórias eram, portanto, essenciais. Ao elogiar o desempenho de um leitor, Plínio observou que “ele mostrou uma versatilidade adequada ao elevar e baixar o tom e a mesma agilidade na passagem de temas elevados para inferiores, do simples para o complexo ou de assuntos mais leves para mais graves. A voz notavelmente agradável foi outra vantagem, realçada pela modéstia, pelos rubores e pelo nervosismo, que sempre acrescentam encanto a uma leitura. Não sei por quê, mas a timidez cai melhor num autor do que a segurança”.
Aqueles que tinham dúvidas sobre suas habilidades de leitor podiam recorrer a certos estratagemas. O próprio Plínio, confiante quando lia discursos, mas inseguro sobre sua capacidade de ler versos, teve a seguinte ideia para uma noitada de suas poesias, comunicada por carta ao amigo Suetônio, o autor de Vida dos doze Césares: “Estou planejando fazer uma leitura informal para alguns amigos e penso em utilizar um de meus escravos. Não darei grandes mostras de civilidade a meus amigos, pois o homem que escolhi não é realmente um bom leitor, mas acho que será melhor do que eu, uma vez que não é tão nervoso. [...] A questão é: o que devo fazer enquanto ele estiver lendo?
Devo sentar-me quieto e silencioso como um espectador, ou comportar-me como algumas pessoas e repetir as palavras dele com meus lábios, olhos e gestos?”. Não sabemos se Plínio ofereceu naquela noite uma das primeiras apresentações de leitura labial sincronizada da história.
Muitas dessas leituras devem ter parecido intermináveis. Plínio compareceu a uma que durou três dias. (Essa leitura, em particular, não parece tê-lo aborrecido, talvez porque o leitor anunciara à plateia: “Mas que me importam os poetas do passado, se conheço Plínio?”.) Indo de várias horas à metade de uma semana, as leituras públicas tornaram-se quase inevitáveis para quem quisesse ser conhecido como autor. Horácio queixava-se de que os leitores educados já não pareciam de fato interessados nos escritos de um poeta, tendo “transferido todo o prazer do ouvido para as delícias vazias e fugazes do olho”.
Marcial ficou tão farto de aturar poetastros ansiosos por ler suas obras em voz alta que desabafou:

Pergunto-te: quem pode suportar esse afã?
Lês para mim quando estou de pé,
Lês para mim quando estou sentado,
Lês para mim quando estou correndo,
Lês para mim quando estou cagando.

Plínio, no entanto, aprovava a leitura dos autores e via nelas os sinais de uma nova idade de ouro literária. “Dificilmente tivemos um dia em abril em que não houvesse alguém fazendo uma leitura pública”, observou satisfeito. “Estou encantado por ver a literatura florescer e o talento vicejar.” As gerações futuras discordaram do veredicto de Plínio e decidiram esquecer o nome da maioria desses poetas declamadores.
Contudo, se fosse destino de alguém ficar famoso graças a essas leituras públicas, um autor não precisava mais esperar a morte para ser consagrado. Plínio escreveu a seu amigo Valério Paulino: “As opiniões divergem, mas minha ideia de um homem verdadeiramente feliz é aquele que desfruta antecipadamente de uma boa e duradoura reputação e, confiante no veredicto da posteridade, vive na certeza da fama que virá”. A fama no presente era importante para ele. Ficava encantado quando alguém nas corridas achava que o escritor Tácito (a quem admirava muito) poderia ser Plínio. “Se Demóstenes teve o direito de se deleitar quando a velha da Ática o reconheceu com as palavras ‘aquele é Demóstenes’, eu certamente posso ficar contente ao ver meu nome bem conhecido. Na verdade, estou contente e admito isso.” Sua obra foi publicada e lida, até mesmo nos confins de Lugdunum (Lyon). A outro amigo, escreveu: “Não pensei que houvesse livreiros em Lugdunum, portanto fiquei ainda mais satisfeito ao saber por sua carta que minhas obras estão à venda. Fico contente que tenham no exterior a popularidade que conquistaram em Roma e estou começando a pensar que minha obra deve ser realmente boa, ao ver que a opinião pública de lugares tão diferentes concorda sobre ela”. Porém, agradava-lhe muito mais o louvor de uma plateia de ouvintes do que a aprovação silenciosa de leitores anônimos.
Plínio sugeriu várias razões pelas quais a leitura em público constituía um exercício benéfico. A celebridade era sem dúvida um fator muito importante, mas havia também o prazer de ouvir a própria voz. Ele justificava essa autocomplacência observando que a audição de um texto levava a plateia a comprar a peça publicada, causando assim uma demanda que satisfaria tanto os autores quanto os editores-livreiros. Na sua concepção, ler em público era a melhor maneira de um autor obter público. Na verdade, a leitura pública era em si mesma uma forma rudimentar de divulgação.
Como observou corretamente Plínio, ler em público era uma representação, um ato executado por todo o corpo para que outros percebessem. O autor que lê em público - naquela época como agora recobra as palavras com certos sons e interpreta-as com certos gestos; essa performance dá ao texto um tom que (supostamente) é aquele que o autor tinha em mente no momento da criação e, portanto, concede ao ouvinte a sensação de estar perto das intenções do autor; ela dá também ao texto um selo de autenticidade.
Mas, ao mesmo tempo, a leitura do autor deturpa o texto, melhorando-o (ou empobrecendo-o) com a interpretação. O romancista canadense Robertson Davies acrescentava camadas e mais camadas de caracterização durante as leituras, antes interpretando do que recitando sua ficção. A romancista francesa Nathalie Sarraute, ao contrário, lê numa monotonia que não faz jus aos seus textos líricos. Dylan Thomas cantava sua poesia, batendo nas tônicas como gongos e deixando pausas enormes. Eliot resmungava seus poemas como se fosse um vigário rabugento amaldiçoando seu rebanho.
Ao ser lido para uma plateia, um texto não é determinado exclusivamente pela relação entre suas características intrínsecas e aquelas de seu público arbitrário, sempre diferente, uma vez que os membros desse público não têm mais a liberdade (como os leitores comuns teriam) de voltar, reler, retardar e dar ao texto sua própria entonação conotativa. Ao contrário, ele se torna dependente do autor-intérprete, que assume o papel de leitor dos leitores, a encarnação presuntiva de cada membro da plateia cativa da leitura, ensinando-lhes o modo de ler As leituras de autores podem se tornar profundamente dogmáticas.
As leituras públicas não foram exclusividade de Roma. Os gregos liam em público. Cinco séculos antes de Plínio, por exemplo, Heródoto lia sua obra nos festivais olímpicos, onde se reunia uma grande e entusiástica plateia vinda de toda a Grécia; evitava-se assim viajar de cidade em cidade. Mas, no século VI, as leituras públicas cessaram efetivamente, porque parecia não haver mais um “público educado”. A última descrição conhecida de uma platéia romana numa leitura pública está nas cartas do poeta cristão Apolinário Sidônio, escritas na segunda metade do século V. Àquela altura, como Sidônio lamenta, o latim tornara-se uma língua especializada, estrangeira, “a linguagem da liturgia, das chancelarias e de uns poucos eruditos”. Por ironia, a Igreja cristã, que adotara o latim para difundir o evangelho entre “todos os homens em todos os lugares”, percebeu que essa língua se tornara incompreensível para a vasta maioria do rebanho. O latim passou a ser parte do “mistério” da Igreja, e, no século XI, apareceu o primeiro dicionário de latim, como forma de ajudar os estudantes e noviços para quem esse idioma não era mais a língua materna.
Mas os autores continuaram precisando do estímulo de um público imediato. No final do século XIII, Daute sugeria que a “língua vulgar” – isto é, o vernáculo – era ainda mais nobre que o latim, por três motivos: era a primeira língua falada por Adão e Eva; era “natural”, enquanto o latim era “artificial”, pois aprendido apenas nas escolas; e era universal, uma vez que todos os homens falavam uma língua vulgar e somente uns poucos sabiam latim. Embora essa defesa da língua vulgar fosse escrita, paradoxalmente, em latim, é provável que, mais para o fim da vida, na corte de Guido Novel o da polenta, em Ravena, Dante tenha lido trechos de sua Comédia na “língua vulgar” que defendera de forma tão eloquente. O certo é que, nos séculos XIV e XV, as leituras por autores voltaram a ser comuns; há muitos exemplos na literatura, tanto secular quanto religiosa.
Em 1309, Jean de Joinville dedicou sua Vida de são Luís a “vós e vossos irmãos que a ouvirão ser lida”. No final do século XIV, o historiador francês Froissart enfrentou tempestades em plena noite durante seis longas semanas de inverno para ler seu romance Méliador para o insone conde du Blois. O príncipe e poeta Charles d'Orléans, aprisionado pelos ingleses em Agincourt, em 1415, escreveu numerosos poemas durante um longo cativeiro, e, após ser libertado, em 1440, leu-os para a corte de Blois em noitadas literárias para as quais outros poetas, como François Villon, eram convidados. La Celestina, de Fernando de Rojas. deixava claro em sua introdução de 1499 que a comprida peça (ou romance em forma de peça de teatro) destinava-se a ser lida em voz alta "quando umas dez pessoas se reúnem para ouvir essa comédia"; é provável que o autor (de quem sabemos muito pouco, exceto que era um judeu convertido e pouco ansioso por chamar para sua obra a atenção da Inquisição) tivesse apresentado previamente a "comédia" a seus amigos. Em janeiro de 1507, Ariosto leu seu inacabado Orlando furioso para a convalescente Isabela Gonzaga, “fazendo com que dois dias se passassem não somente sem tédio, mas com todo o prazer”. E Geoffrey Chaucer, cujos livros estão cheios de referências à literatura lida em voz alta, certamente leu sua obra para uma plateia atenta.

[…]

Alberto Manguel, em Uma História da Leitura

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O Lado Quente do Ser | Maria Bethânia

A Metamorfose [excerto inicial]


Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posição e estava a ponto de escorregar. Comparadas com o resto do corpo, as inúmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se desesperadamente diante de seus olhos.
Que me aconteceu ? — pensou. Não era nenhum sonho. O quarto, um vulgar quarto humano, apenas bastante acanhado, ali estava, como de costume, entre as quatro paredes que lhe eram familiares. Por cima da mesa, onde estava deitado, desembrulhada e em completa desordem, uma série de amostras de roupas: Samsa era caixeiro-viajante, estava pendurada a fotografia que recentemente recortara de uma revista ilustrada e colocara numa bonita moldura dourada. Mostrava uma senhora, de chapéu e estola de peles, rigidamente sentada, a estender ao espectador um enorme regalo de peles, onde o antebraço sumia! Gregório desviou então a vista para a janela e deu com o céu nublado — ouviam-se os pingos de chuva a baterem na calha da janela e isso o fez sentir-se bastante melancólico. Não seria melhor dormir um pouco e esquecer todo este delírio? — cogitou. Mas era impossível, estava habituado a dormir para o lado direito e, na presente situação, não podia virar-se. Por mais que se esforçasse por inclinar o corpo para a direita, tornava sempre a rebolar, ficando de costas. Tentou, pelo menos, cem vezes, fechando os olhos, para evitar ver as pernas a debaterem-se, e só desistiu quando começou a sentir no flanco uma ligeira dor entorpecida que nunca antes experimentara. Oh, meu Deus, pensou, que trabalho tão cansativo escolhi! Viajar, dia sim, dia não. É um trabalho muito mais irritante do que o trabalho do escritório propriamente dito, e ainda por cima há ainda o desconforto de andar sempre a viajar, preocupado com as ligações dos trens, com a cama e com as refeições irregulares, com conhecimentos casuais, que são sempre novos e nunca se tornam amigos íntimos. Diabos levem tudo isto! Sentiu uma leve comichão na barriga; arrastou-se lentamente sobre as costas, — mais para cima na cama, de modo a conseguir mexer mais facilmente a cabeça, identificou o local da comichão, que estava rodeado de uma série de pequenas manchas brancas cuja natureza não compreendeu no momento, e fez menção de tocar lá com uma perna, mas imediatamente a retirou, pois, ao seu contato, sentiu-se percorrido por um arrepio gela- do. Voltou a deixar-se escorregar para a posição inicial. Isto de levantar cedo, pensou, deixa a pessoa estúpida. Um homem necessita de sono. Há outros comerciantes que vivem como mulheres de harém. Por exemplo, quando volto para o hotel, de manhã, para tomar nota das encomendas que tenho, esses se limitam a sentar-se à mesa para o pequeno almoço. Eu que tentasse sequer fazer isso com o meu patrão: era logo despedido. De qualquer maneira, era, capaz de ser bom para mim — quem sabe? Se não tivesse de me aguentar, por causa dos meus pais, há muito tempo que me teria despedido; iria ter com o patrão e lhe falar exatamente o que penso dele. Havia de cair ao comprido em cima da secretária! Também é um hábito esquisito, esse de se sentar a uma secretária em plano elevado e falar para baixo para os empregados, tanto mais que eles têm de aproximar-se bastante, porque o patrão é ruim de ouvido. Bem, ainda há uma esperança; depois de ter economizado o suficiente para pagar o que os meus pais lhe devem — o que deve levar outros cinco ou seis anos —, faço-o, com certeza. Nessa altura, vou me libertar completamente. Mas, para agora, o melhor é me levantar, porque o meu trem parte às cinco.
Olhou para o despertador, que fazia tique-taque na cômoda. Pai do Céu! — pensou. Eram seis e meia e os ponteiros moviam-se em silêncio, até passava da meia hora, era quase um quarto para as sete. O despertador não teria tocado? Da cama, via-se que estava corretamente regulado para as quatro; claro que devia ter tocado. Sim, mas seria possível dormir sossegadamente no meio daquele barulho que trespassava os ouvidos? Bem, ele não tinha dormido sossegadamente; no entanto, aparentemente, se assim era, ainda devia ter sentido mais o barulho. Mas que faria agora? o próximo trem saía às sete; para o apanhar tinha de correr como um doido, as amostras ainda não estavam embrulhadas e ele próprio não se sentia particularmente fresco e ativo. E, mesmo que apanhasse o trem, não conseguiria evitar uma reprimenda do chefe, visto que o porteiro da firma havia de ter esperado o trem das cinco e há muito teria comunicado a sua ausência. O porteiro era um instrumento do patrão, invertebrado e idiota. Bem, suponhamos que dizia que estava doente? Mas isso seria muito desagradável e pareceria suspeito, porque, durante cinco anos de emprego, nunca tinha estado doente. O próprio patrão certamente iria lá a casa com o médico da Previdência, repreenderia os pais pela preguiça do filho e poria de parte todas as desculpas, recorrendo ao médico da Previdência, que, evidentemente, considerava toda a humanidade um bando de falsos doentes perfeitamente saudáveis. E enganaria assim tanto desta vez? Efetivamente, Gregório sentia-se bastante bem, à parte uma sonolência que era perfeitamente supérflua depois de um tão longo sono, e sentia-se mesmo esfomeado.
À medida que tudo isto lhe passava pela mente a toda a velocidade, sem ser capaz de resolver a deixar a cama — o despertador acabava de indicar um quarto para as sete, ouviram-se pancadas cautelosas na porta que ficava por detrás da cabeceira da cama.
Gregório — disse uma voz, que era a da mãe, é um quarto para as sete. Não tem de apanhar o trem?
Aquela voz suave! Gregório teve um choque ao ouvir a sua própria voz responder-lhe, inequivocamente a sua voz, é certo, mas com um horrível e persistente guincho chilreante como fundo sonoro, que apenas conservava a forma distinta das palavras no primeiro momento, após o que subia de tom, ecoando em torno delas, até destruir-lhes o sentido, de tal modo que não podia ter-se a certeza de tê-las ouvido corretamente. Gregório queria dar uma resposta longa, explicando tudo, mas, em tais circunstâncias, limitou-se a dizer:
Sim, sim, obrigado, mãe, já vou levantar.
A porta de madeira que os separava devia ter evitado que a sua mudança de voz fosse perceptível do lado de fora, pois a mãe contentou-se com esta afirmação, afastando-se rapidamente. Esta breve troca de palavras tinha feito os outros membros da família notarem que Gregório estava ainda em casa, ao contrário do que esperavam, e agora o pai batia a uma das portas laterais, suavemente, embora com o punho.
Gregório, Gregório — chamou —, o que você tem?
E, passando pouco tempo depois, tornou a chamar, com voz mais firme:
Gregório! Gregório!
Junto da outra porta lateral, a irmã chamava, em tom baixo e quase lamentoso:
Gregório? Não se sente bem? Precisa de alguma coisa?
Respondeu a ambos ao mesmo tempo:
Estou quase pronto — e esforçou-se o máximo por que a voz soasse tão normal quanto possível, pronunciando as palavras muito claramente e deixando grandes pausas entre elas. Assim, o pai voltou ao breve almoço, mas a irmã segredou:
Gregório, abre esta porta, anda.
Ele não tencionava abrir a porta e sentia-se grato ao prudente hábito que adquirira em viagem de fechar todas as portas à chave durante a noite, mesmo em casa.
A sua intenção imediata era levantar-se silenciosamente sem ser incomodado, vestir-se e, sobretudo, tomar o breve almoço, e só depois estudar que mais havia a fazer, dado que na cama, bem o sabia, as suas meditações não levariam a qualquer conclusão sensata. Lembrava-se de muitas vezes ter sentido pequenas dores enquanto deitado, provavelmente causadas por posições incômodas, que se tinham revelado puramente imaginárias ao levantar-se, e ansiava fortemente por ver as ilusões desta manhã desfazerem-se gradualmente. Não tinha a menor dúvida de que a alteração da sua voz outra coisa não era que o prenúncio de um forte resfriado, doença permanente dos caixeiros-viajantes.
Libertar-se da colcha era tarefa bastante fácil: bastava-lhe inchar um pouco o corpo e deixá-la cair por si. Mas o movimento seguinte era complicado, especialmente devido à sua invulgar largura. Precisaria de braços e mãos para erguer-se; em seu lugar, tinha apenas as inúmeras perninhas, que não cessavam de agitar-se em todas as direções e que de modo nenhum conseguia controlar. Quando tentou dobrar uma delas, foi a primeira a esticar-se, e, ao conseguir finalmente que fizesse o que ele queria, todas as outras pernas abanavam selvaticamente, numa incômoda e intensa agitação. Mas de que serve ficar na cama assim sem fazer nada, perguntou Gregório a si próprio.
Pensou que talvez conseguisse sair da cama deslocando em primeiro lugar a parte inferior do corpo, mas esta, que não tinha visto ainda e da qual não podia ter uma ideia nítida, revelou-se difícil de mover, tão lentamente se deslocava; quando, finalmente, quase enfurecido de contrariedade, reuniu todas as forças e deu um temerário impulso, tinha calculado mal a direção e embateu pesadamente na extremidade inferior da cama, revelando-lhe a dor aguda que sentiu ser provavelmente aquela, de momento, a parte mais sensível do corpo.
[...]

Franz Kafka, em A Metamorfose

A menina de outro meio




1

A guerra com o Japão ainda não terminara. Inesperadamente, ela foi encoberta por outros acontecimentos. Pela Rússia passavam ondas da revolução, uma maior que a outra e jamais vistas.
Nesta época, chegou a Moscou, procedente dos Urais, a viúva de um engenheiro belga, uma francesa russificada por conta própria, Amália Karlovna Guichard, com seus dois filhos, Rodion e Larissa. O filho ela matriculou na escola de cadetes, e a filha no ginásio feminino, coincidentemente no mesmo ginásio e na mesma turma onde estudava Nádia Kologrivova.
Madame Guichard possuía economias do marido em ações, que antes se valorizavam mas que agora começavam a cair. Para interromper o desaparecimento de seus recursos e para não ficar de braços cruzados, madame Guichard comprou, próximo ao Arco do Triunfo, um pequeno negócio, a confecção de Levitskaia, dos herdeiros da costureira, com o direito de manter na velha empresa os antigos clientes e todas as estilistas e alunas.
Madame Guichard fez isso seguindo o conselho do advogado Komarovski, amigo de seu marido e seu próprio apoio, um negociador de sangue-frio que conhecia a vida empresarial russa como a palma de sua mão. Ela lhe escreveu sobre a mudança. Ele os recepcionou na estação e levou, atravessando toda Moscou, para os quartos mobiliados do Tchernogoria, na travessa Oruzheinaia, onde alugara um deles para madame Guichard.
Ele já havia convencido a viúva a matricular Ródia na escola de cadetes e Lara no ginásio que recomendou. Com descortesia, caçoava do menino e olhava para a menina de tal maneira, que ela ruborizava.

2

Antes de se instalar no pequeno apartamento de três quartos, anexo à confecção, eles moraram aproximadamente três meses no Tchernogoria.
Era um dos lugares mais terríveis de Moscou, antro de ladrões, ruas inteiras entregues à promiscuidade, cortiços de “seres perdidos”.
Nem as pulgas e a mediocridade do mobiliário, nem a sujeira nos quartos, impressionavam as crianças. Depois da morte do pai delas, a mãe vivia com medo constante do empobrecimento. Ródia e Lara cansavam-se de ouvir que estavam à beira da ruína. Eles sabiam que não eram crianças de rua, mas sentiam um profundo medo dos ricos, como os pupilos de orfanatos.
O exemplo vivo deste medo era infundido neles pela própria mãe. Amália Karlovna era uma loira roliça de uns 35 anos; nela, aos ataques do coração sucediam-se ataques de tolices. Era uma tremenda medrosa e morria de medo dos homens. Por isso mesmo, por susto e confusão, ela passava de mão em mão, a toda hora.
No Tchernogoria eles ocupavam o quarto 23 e no 24, desde a inauguração do hotel, morava o violoncelista Tichkevitch, um bonachão suado e careca que usava peruca e que juntava as mãos como em uma oração e as apertava contra o peito, quando tentava convencer alguém; jogava a cabeça para trás e, inspirado, revirava os olhos ao se apresentar nos círculos sociais e em concertos. Ele raramente estava em casa, passava dias inteiros no teatro Bolshoi e no Conservatório. Os vizinhos se conheceram. Favores mútuos os aproximaram.
Como a presença das crianças às vezes intimidava Amália Karlovna durante as visitas de Komarovski, Tichkevitch passou a deixar com ela a chave de seu quarto para que pudesse receber seu amigo. Logo madame Guichard se acostumou tanto com o sacrifício dele, que várias vezes bateu em sua porta, pedindo que a defendesse do seu protetor.

3

A casa de um só andar ficava perto da esquina com a Tverskaia. Sentia-se a proximidade da estrada de ferro que levava para Bretsk. Ao lado, ficavam as propriedades, os apartamentos funcionais, o depósito de locomotivas e depósitos em geral.
Lá morava Olia Demina, uma menina inteligente, sobrinha de um dos funcionários da ferrovia Moscou-Tovarnaia.
Ela era uma aluna muito capaz. A velha proprietária era atenciosa com ela e a nova, agora, começou se aproximar. Olia gostava muito de Lara.
Tudo ficou da mesma forma, como na administração de Levitskaia. As máquinas de costura rodavam feito loucas debaixo dos pés que desciam e subiam ou dos braços das costureiras que esvoaçavam. Alguém cosia calmamente, sentada à mesa, esticando o braço com a agulha e a linha comprida. O chão estava coberto de retalhos. Tinham que falar alto para superar o barulho das máquinas e o gorjeio vibrante de Kirill Modestovitch, um canário numa gaiola debaixo da abóbada da janela: o mistério de seu nome a antiga proprietária levou consigo para o túmulo.
Na recepção, um grupo de damas pitorescas cercava a mesa com revistas. Elas ficavam de pé, sentadas ou semi-encostadas, nas poses que viam nas revistas, observavam os modelos, trocavam conselhos sobre os feitios. A uma outra mesa, no lugar da diretora, estava a auxiliar de Amália Karlovna, uma das costureiras responsáveis, Faina Silantievna Fetisova, uma mulher ossuda com verrugas nas cavidades das bochechas flácidas.
Ela segurava a piteira de marfim, com o cigarro entre os dentes amarelados, apertava os olhos também amarelados e, soltando a fumaça amarela pela boca e pelo nariz, anotava no caderno as medidas, os números das notas fiscais, os endereços e as solicitações das clientes.
Amália Karlovna era uma pessoa nova e inexperiente na confecção. Ela não se sentia totalmente como dona. Mas os funcionários eram honestos e podia confiar em Fetisova. Mesmo assim, a época era inquieta. Amália Karlovna tinha medo de pensar no futuro. O desespero tomava conta dela. Tudo caía de suas mãos.
Komarovski frequentemente visitava a confecção. Quando Victor Ippolitovitch passava pela sala de costura, dirigindo-se ao fundo e assustando à sua passagem as damas elegantes que se trocavam e que se escondiam atrás dos biombos, de lá acolhendo em tom brincalhão seus gracejos atrevidos, as costureiras murmuravam pelas costas dele com maliciosa desaprovação: “Deu o ar de sua graça”. “O dela”. “O caso da Amália”. “Garanhão”. “Feiticeiro de mulheres”.
Objeto de grande ódio era ainda o seu buldogue, Jack, que às vezes o acompanhava preso na coleira e que o arrastava atrás de si com trancos tão impetuosos que Komarovski tropeçava, corria para a frente e andava atrás do cachorro com os braços estendidos, como um cego com o seu cão-guia.
Certa vez, na primavera, Jack agarrou-se à perna de Lara e rasgou sua meia.
Vou matar esse desgraçado — murmurou Olia Demina infantilmente no ouvido de Lara.
É realmente um cachorro nojento. Mas como você, sua tolinha, vai fazer isso?
Fale baixo, não grite, vou lhe ensinar. Sabe aqueles ovos de Páscoa de pedra, como os que sua mãe tem em cima da cômoda?
Sei, são de mármore e cristal...
Hã-hã, isso. Abaixe-se, vou lhe dizer no ouvido. Tem que pegar um, deixar de molho na gordura, a gordura vai grudar, então o cão tinhoso o engole, enche a pança e pronto! Patas para o alto! Morreu!
Lara ria, com inveja. A menina vivia passando necessidades, trabalhava. As crianças do povo se desenvolvem mais cedo. No entanto, veja o quanto ainda têm de bom, infantil, ingênuo: ovos, Jack, gordura... de onde vem isso? “Porque meu destino quis assim”, pensava Lara, “que tudo eu veja e com tudo sofra?”
[...]

Boris Pasternak, em Doutor Jivago

Téo e o Mini Mundo

Diário de Bernardo Soares

94.

Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir — é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.
Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com cada nova madrugada, numa revirgindade perpétua da emoção — isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos. Esta madrugada é a primeira do mundo. Nunca esta cor rosa amarelecendo para branco quente pousou assim na face com que a casaria de oeste encara cheia de olhos vidrados o silêncio que vem na luz crescente. Nunca houve esta hora, nem esta luz, nem este meu ser. Amanhã o que for será outra coisa, e o que eu vir será visto por olhos recompostos, cheios de uma nova visão. Altos montes da cidade! Grandes arquiteturas que as encostas íngremes seguram e engrandecem, resvalamentos de edifícios diversamente amontoados, que a luz tece de sombras e queimações – sois hoje, sois eu, porque vos vejo, sois o que serei? Amanhã, e amo-vos da amurada como um navio que passa por outro navio e há saudades desconhecidas na passagem.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Dr. H. A. Moynihan



Eu odiava a escola St. Joseph’s. Aterrorizada pelas freiras, eu bati na irmã Cecilia num dia de calor texano e fui expulsa da escola. Como punição, tive que trabalhar todos os dias das férias de verão no consultório do meu avô dentista. Eu sabia que o verdadeiro motivo do castigo era que eles não queriam que eu brincasse com as crianças da vizinhança, que eram mexicanas e sírias. Não havia negros, mas isso era só uma questão de tempo, segundo minha mãe.
Tenho certeza de que eles também queriam me poupar de ver Mamie morrendo, dos gemidos dela, das suas amigas rezando, do fedor e das moscas. À noite, com a ajuda da morfina, ela cochilava, e então minha mãe e meu avô iam beber sozinhos em seus respectivos quartos. Eu ouvia o gorgolejo de seus respectivos uísques da varanda onde eu dormia.
Meu avô mal falou comigo o verão inteiro. Eu esterilizava e enfileirava os instrumentos dele, prendia babadores em volta do pescoço dos pacientes, entregava o copinho com antisséptico bucal e falava para eles cuspirem. Quando não havia nenhum paciente, vovô ia para sua oficina para fazer dentes ou para seu escritório para colar recortes. Eu não estava autorizada a entrar em nenhum dos dois cômodos. Ele colava artigos de Ernie Pyle e sobre Franklin Delano Roosevelt; tinha álbuns de recortes separados para as guerras japonesa e alemã. Também tinha álbuns sobre Crimes, Texas e Acidentes Insólitos: Homem se enfurece e joga uma melancia pela janela de um apartamento de segundo andar. A fruta atinge a cabeça da mulher dele e a mata, depois atinge o bebê dentro do carrinho e o mata também, e nem sequer chega a rachar.
Todo mundo odiava o meu avô, menos Mamie, e eu, acho. Toda noite ele ficava bêbado e mau. Era cruel, intolerante e orgulhoso. Tinha dado um tiro no olho do meu tio John durante uma briga e envergonhado e humilhado a minha mãe a vida dela inteira. Ela nunca falava com ele, nunca sequer chegava perto dele por ele ser tão sujo e porco, sempre esparramando comida e cuspindo, deixando cigarros molhados em toda parte. Vivia coberto de pintas brancas, do gesso dos moldes de dentes, como se fosse um pintor ou uma estátua.
Ele era o melhor dentista do oeste do Texas, talvez até do Texas inteiro. Muita gente dizia isso, e eu acreditava. Não era verdade que os pacientes dele eram todos velhos beberrões ou então amigos de Mamie, como a minha mãe dizia. Homens respeitáveis vinham até mesmo de Dallas ou de Houston para se tratar com o meu avô porque ele fazia dentaduras maravilhosas. As dentaduras que ele fazia não saíam do lugar nem assobiavam, e eram iguaizinhas a dentes de verdade. Ele tinha inventado uma fórmula secreta para deixá-las da cor certa e às vezes fazia até dentes lascados ou amarelados e com obturações e coroas.
Não deixava ninguém entrar na oficina dele, a não ser os bombeiros, naquela única vez. A oficina não via uma faxina fazia uns quarenta anos. Eu entrava lá quando ele ia ao banheiro. As janelas estavam pretas de sujeira, gesso e cera. A única luz vinha das chamas azuladas e tremeluzentes de dois bicos de Bunsen. Havia enormes sacos de gesso empilhados junto às paredes, vertendo pó num chão coberto de cacos de moldes de dentes, e potes cheios de dentes soltos, cada pote com um tipo diferente de dente. Bolotas de cera rosa e branca grudavam-se às paredes, com teias de aranha penduradas. As prateleiras estavam abarrotadas de ferramentas enferrujadas e de fileiras de dentaduras sorrindo ou fazendo carranca, de cabeça para baixo, como máscaras de teatro. Ele cantarolava enquanto trabalhava, suas guimbas de cigarro volta e meia ateando fogo em bolotas de cera ou em embalagens de bombom. Então, ele jogava café no fogo, manchando o chão coberto de gesso de um tom escuro e cavernoso de marrom.
A oficina dava passagem para um pequeno escritório, onde havia uma escrivaninha de tampo corrediço, sobre a qual vovô colava recortes nos seus álbuns e preenchia cheques. Depois de assinar, ele sempre sacudia a caneta, fazendo pingar tinta preta sobre a assinatura e, às vezes, borrando o valor, de modo que o banco tinha que telefonar para conferir de quanto era o cheque.
Não havia porta entre a sala onde ele atendia os pacientes e a sala de espera. Enquanto trabalhava, ele virava para trás para conversar com quem estava na sala de espera, gesticulando com a broca na mão. Os pacientes que haviam extraído dentes se recuperavam numa espreguiçadeira; o resto se sentava nos peitoris das janelas ou nos radiadores. Às vezes, alguém se sentava na cabine telefônica, um cubículo de madeira com um telefone público, um ventilador e uma placa que dizia: “Eu nunca conheci um homem de quem não gostasse”.
Não havia nenhuma revista na sala de espera. Se alguém trouxesse uma e a deixasse por lá, vovô a jogava fora. Minha mãe dizia que ele só fazia isso para ser do contra. Ele dizia que era porque ver pessoas sentadas lá folheando revistas o deixava maluco.
Quando não estavam sentados, os pacientes ficavam zanzando pela sala, mexendo nos objetos pousados em cima dos dois cofres. Budas, caveiras com dentaduras presas com arame para abrir e fechar, cobras que mordiam quando você puxava o rabo, globos de vidro que nevavam quando virados de cabeça para baixo. No teto havia uma placa: POR QUE RAIOS VOCÊ ESTÁ OLHANDO AQUI PARA CIMA? Os cofres continham ouro e prata para as obturações, maços de dinheiro e garrafas de Jack Daniel’s.
Em todas as janelas, que davam para a rua principal de El Paso, havia grandes letras douradas que diziam: “Dr. H. A. Moynihan. Eu não trabalho para negros”. As placas se refletiam nos espelhos pendurados nas três paredes restantes. O mesmo aviso estava escrito na porta que dava para o hall. Eu nunca me sentava de frente para aquela porta, por medo de que negros passassem ali e olhassem para dentro da sala por cima do aviso. Mas nunca vi um único negro no edifício Caples, a não ser Jim, o ascensorista.
Quando alguém telefonava para marcar consulta, vovô me mandava dizer que ele não estava mais aceitando pacientes. Então, à medida que o verão passava, havia cada vez menos coisa para fazer. Por fim, pouco antes de Mamie morrer, já não havia mais paciente algum. Vovô simplesmente ficava trancado dentro da oficina ou do escritório. Eu ia para o terraço às vezes. Dava para ver a cidade de Juárez e todo o centro de El Paso lá de cima. Eu escolhia uma pessoa na multidão e a acompanhava com os olhos até que ela desaparecesse. Mas a maior parte do tempo eu ficava no consultório mesmo, sentada no radiador e olhando para a Yandel Drive lá embaixo. Passava horas decodificando cartas da seção de correspondência do Capitão Marvel, embora isso não tivesse a menor graça; o código era sempre A no lugar de Z, B no lugar de Y e assim por diante.
As noites eram longas e quentes. Mesmo quando Mamie dormia, as amigas dela ficavam lá, lendo passagens da Bíblia, às vezes cantando. Vovô saía, ia para o clube ou para Juárez. O motorista do táxi da companhia 8-5 o ajudava a subir a escada. Minha mãe saía, segundo ela, para jogar bridge, mas também voltava para casa bêbada. As crianças mexicanas brincavam na rua até bem tarde. Eu ficava observando as meninas da varanda. Elas jogavam o jogo das pedrinhas, agachadas no chão de concreto, à luz do poste de iluminação. Eu morria de vontade de brincar com elas. O som das pedrinhas parecia mágico, o arremesso delas era como uma vassourinha arrastando num tambor ou como a chuva quando uma lufada de vento a empurra de encontro ao vidro da janela.
Uma manhã, quando ainda estava escuro, vovô me acordou. Era domingo. Eu me vesti enquanto ele chamava um táxi. Para chamar um táxi, ele pediu à telefonista que o ligasse com a 8-5 e, quando atenderam, ele perguntou: “Dá pra fazer uma viagenzinha hoje?”. Ele não respondeu quando o motorista do táxi perguntou por que estávamos indo para o consultório num domingo. A portaria estava escura e assustadora. Baratas corriam pelos ladrilhos e revistas mostravam os dentes para nós de trás de grades. Vovô conduziu o elevador, dando um solavanco para cima e para baixo e depois para cima de novo feito um maníaco, até que finalmente paramos um pouco acima do quinto andar e pulamos. Tudo ficou muito silencioso depois que paramos. Só o que se ouvia eram sinos de igreja e o bonde de Juárez.
No início eu fiquei com medo de entrar na oficina atrás dele, mas depois ele me puxou lá para dentro. Estava escuro, como uma sala de cinema. Ele acendeu os bicos de Bunsen resfolegantes. Eu continuei sem entender, sem conseguir ver o que ele queria que eu visse. Ele pegou uma dentadura de cima de uma prateleira, pousou-a no bloco de mármore e a empurrou para perto da chama. Eu sacudi a cabeça.
Continua olhando.” Vovô abriu bem a boca e eu olhei para os dentes dele, depois para a dentadura e para os dentes dele de novo.
São iguais!”, eu disse.
A dentadura era uma réplica perfeita dos dentes na boca do meu avô; até as gengivas tinham o mesmo tom feio, pálido e doentio de rosa. Alguns dentes estavam obturados e rachados, outros lascados ou gastos. Ele só tinha modificado um dente, um dos da frente, no qual tinha posto uma coroa de ouro. Era isso que a tornava uma obra de arte, ele disse.
Como foi que você conseguiu fazer todas essas cores?”
Ficou bom à beça, né? Então… é a minha obra-prima ou não é?”
É.” Eu apertei a mão dele. Estava muito feliz por estar ali.
Como é que você vai encaixar a dentadura?”, eu perguntei. “Ela vai encaixar?”
Normalmente, ele arrancava todos os dentes, deixava as gengivas cicatrizarem, depois fazia uma impressão da gengiva desdentada.
Tem uns caras novos fazendo desse jeito. Você tira a impressão antes de arrancar os dentes, faz a dentadura e a encaixa antes que as gengivas tenham chance de encolher.”
Quando você vai arrancar os dentes?”
Agora mesmo. Somos nós que vamos arrancar. Vai lá preparar as coisas.”
Eu liguei o esterilizador enferrujado na tomada. O fio estava puído e soltou faíscas. Vovô correu em direção ao fio. “Deixa para lá esse…”, mas eu protestei. “Não. Eles têm que ser esterilizados”, e ele riu. Depois, botou sua garrafa de uísque e seus cigarros em cima da bandeja, acendeu um cigarro, encheu um copo de papel de Jack Daniel’s e se sentou na cadeira. Eu ajeitei o refletor, botei um babador no meu avô e apertei o pedal para fazer a cadeira subir e se inclinar.
Aposto que vários pacientes seus gostariam de estar no meu lugar.”
Aquele troço já está fervendo?”
Ainda não.” Enchi alguns copos de papel com antisséptico bucal e peguei um pote de sais aromáticos.
E se você desmaiar?”, perguntei.
Ótimo. Aí você pode arrancar todos. Você tem que segurar o dente o mais perto da gengiva que você puder e depois torcer e puxar ao mesmo tempo. Me dá uma bebida.” Eu entreguei um copo com antisséptico pra ele. “Engraçadinha.” Servi um copo com uísque.
Nenhum dos seus pacientes ganha bebida.”
Eles são meus pacientes, não seus.”
Pronto, está fervendo.” Esvaziei o esterilizador dentro da cuspideira e estendi uma toalha. Usando outra toalha, arrumei os instrumentos em arco em cima da bandeja sobre o peito dele.
Segura o espelhinho pra mim”, ele disse e pegou o alicate.
Subi no apoio para os pés, entre os joelhos do meu avô, para segurar o espelho perto do rosto dele. Os primeiros três dentes saíram fácil. Ele os entregou para mim e eu os joguei dentro do barril perto da parede. Os incisivos foram mais difíceis, um deles em particular. Vovô engasgou e parou, a raiz do dente ainda presa na gengiva. Ele fez um barulho estranho e pôs o alicate na minha mão. “Pega!” Eu puxei o dente. “Usa a tesoura, sua idiota!” Eu me sentei na placa de metal entre os pés dele. “Só um instante, vô.”
Ele esticou o braço por cima de mim para pegar a garrafa de uísque, bebeu, depois pegou outra ferramenta da bandeja. Começou a extrair o resto dos dentes de baixo mesmo sem o espelho. O som era como o de raízes de árvores sendo arrancadas do solo congelado no inverno. Gotas de sangue caíam na bandeja, ploc, ploc, e na placa de metal onde eu estava sentada.
Ele começou a rir tão alto que eu achei que ele tinha enlouquecido. Depois, desabou em cima de mim. Assustada, eu dei um pulo tão grande que o empurrei de volta para a cadeira inclinada. “Arranca o resto!”, ele disse, arfando. Eu estava com muito medo e, por um instante, fiquei me perguntando se seria assassinato se eu arrancasse os dentes restantes e ele morresse.
Arranca!” Ele cuspiu uma pequena cascata vermelha queixo abaixo.
Fiz a cadeira se inclinar totalmente. Ele estava mole, não parecia sentir nada enquanto eu puxava os dentes superiores de trás para o lado e para fora. Ele desmaiou, seus lábios se fechando feito conchas cinzentas de marisco. Eu abri a sua boca e enfiei uma toalha de papel lá no fundo, de um dos lados, para poder arrancar os três dentes de trás que faltavam.
Não restava mais dente nenhum. Tentei abaixar a cadeira com o pedal, mas bati na alavanca errada e acabei fazendo meu avô girar, espalhando pingos de sangue pelo chão. Eu o deixei lá, a cadeira rangendo lentamente até parar. Eu queria pegar uns saquinhos de chá; meu avô costumava fazer os pacientes morderem saquinhos de chá para estancar o sangramento. Revirei as gavetas de Mamie: talco, santinhos, obrigado pelas flores. Os saquinhos de chá estavam numa lata, atrás do fogão portátil.
A toalha de papel que eu tinha posto na boca do meu avô estava encharcada de sangue agora. Joguei-a no chão, enfiei um punhado de saquinhos de chá na boca dele e apertei os maxilares um contra o outro. Gritei. Sem dente nenhum, o rosto dele parecia uma caveira, ossos brancos em cima do pescoço ensanguentado. Um monstro medonho, um bule de chá que ganhou vida, com etiquetas amarelas e pretas de chá Lipton penduradas como enfeites de Carnaval. Corri para telefonar para a minha mãe, mas não tinha moeda para fazer a ligação. Não consegui virar o meu avô para alcançar os bolsos dele. Ele tinha mijado na calça; gotas de urina pingavam no chão. Volta e meia uma bolha de sangue aparecia na narina dele e estourava em seguida.
O telefone tocou. Era minha mãe. Ela estava chorando. A carne assada, um bom almoço de domingo. Com pepino, cebola e tudo, exatamente como Mamie fazia. “Socorro! O vovô!”, eu disse e desliguei.
Ele tinha vomitado. Ah, que bom, pensei, e depois ri, porque era uma coisa idiota pra se pensar “ah, que bom”. Joguei os saquinhos de chá no meio da porcaria amontoada no chão, molhei algumas toalhas e limpei o rosto dele. Abri o pote de sais aromáticos debaixo do nariz do meu avô, depois cheirei os sais eu mesmo e estremeci.
Meus dentes!”, ele berrou.
Não tem mais dente”, eu disse, como se estivesse falando com uma criança. “Nenhum!”
Os novos, palerma!”
Fui buscar a dentadura. Já a conhecia àquela altura; era exatamente como a boca do meu avô costumava ser por dentro.
Ele estendeu a mão para pegá-la como um mendigo de Juárez, mas estava tremendo demais.
Eu boto pra você. Enxague a boca primeiro.” Entreguei pra ele o antisséptico bucal. Ele bochechou e cuspiu sem levantar a cabeça. Eu lavei a dentadura com água oxigenada e a pus na boca dele. “Ei, olha!” Levantei o espelho de marfim de Mamie.
Olha xó exa gengiva!” Ele estava rindo.
Uma obra-prima, vovô!” Eu ri também e dei um beijo na sua cabeça suada.
Ai meu Deus!”, minha mãe exclamou com uma voz estridente e veio andando na minha direção com os braços estendidos. Escorregou no sangue e trombou com os barris de dentes. Apoiando-se neles, recuperou o equilíbrio.
Olha os dentes dele, mãe.”
Ela não tinha nem reparado. Disse que não dava para notar diferença nenhuma. Ele ofereceu um copo com Jack Daniel’s para ela. Ela aceitou, fez um brinde distraído a ele e bebeu.
Você é maluco, pai. Ele é maluco. De onde veio esse monte de saquinhos de chá?”
A camisa dele fez um ruído de rasgo quando desgrudou da pele. Eu o ajudei a lavar o peito e a barriga enrugada. Depois me lavei também e vesti um suéter cor de coral da Mamie. Os dois ficaram bebendo, em silêncio, enquanto esperávamos o táxi da 8-5. Eu conduzi o elevador até lá embaixo e aterrissei bem perto do piso. Quando nós chegamos em casa, o motorista ajudou o vovô a subir as escadas. Ele parou em frente ao quarto de Mamie, mas ela estava dormindo.
Na cama, o vovô dormiu também, seus dentes à mostra num esgar de Bela Lugosi. A boca dele devia estar doendo.
Ele fez um bom trabalho”, minha mãe disse.
Você não odeia mais o vovô, odeia, mãe?”
Ah, odeio”, disse ela. “Odeio sim.”

Lucia Berlin, em Manual da faxineira: Contos escolhidos

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Guilherme Arantes | Lágrima de uma Mulher

 

Poema Circense

Atirei meu coração às areias do circo como se atira ao
mar uma âncora aflita. Ninguém bateu palmas.
O trapezista sorriu, o leão farejou-me desdenhosamente,
o palhaço zombou de minha sombra fatídica.

Só a pequena bailarina compreendeu. Em sua mãos
de opala, meu coração refletia as nuvens de outono,
os jogos de infância, as vozes populares.

Depois de muitas quedas, aprendi. Sei agora vestir,
com razoável destreza, os risos da hiena, a frágil polidez
dos elefantes, a elegância marinha dos corcéis.

Todavia, quando as luzes se apagam, readquiro antigos
poderes e voo. Voo para um mundo sem espelhos falsos,
onde o sol devolve a cada coisa a sombra natural
e onde não há aplausos, 
porque tudo é justo, porque tudo é bom.

José Paulo Paes, em Melhores poemas

Capítulo 36 – A Propósito de Botas




Meu pai, que me não esperava, abraçou-me cheio de ternura e agradecimento. – Agora é deveras? disse ele. Posso enfim...?
Deixei-o nessa reticência, e fui descalçar as botas, que estavam apertadas. Uma vez aliviado, respirei à larga, e deitei-me a fio comprido, enquanto os pés, e todo eu atrás deles, entrávamos numa relativa bem-aventurança. Então considerei que as botas apertadas são uma das maiores venturas da terra, porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar. Mortifica os pés, desgraçado, desmortifica-os depois, e aí tens a felicidade barata, ao sabor dos sapateiros e de Epicuro.
Enquanto esta ideia me trabalhava no famoso trapézio, lançava eu os olhos para a Tijuca, e via a aleijadinha perder-se no horizonte do pretérito, e sentia que o meu coração não tardaria também a descalçar as suas botas. E descalçou-as o lascivo. Quatro ou cinco dias depois, saboreava esse rápido, inefável e incoercível momento de gozo, que sucede a uma dor pungente, a uma preocupação, a um incômodo... Daqui inferi eu que a vida é o mais engenhoso dos fenômenos, porque só aguça a fome, com o fim de deparar a ocasião de comer, e não inventou os calos, senão porque eles aperfeiçoam a felicidade terrestre. Em verdade vos digo que toda a sabedoria humana não vale um par de botas curtas.
Tu, minha Eugênia, é que não as descalçaste nunca; foste aí pela estrada da vida, manquejando da perna e do amor, triste como os enterros pobres, solitária, calada, laboriosa, até que vieste também para esta outra margem... O que eu não sei é se a tua existência era muito necessária ao século. Quem sabe? Talvez um comparsa de menos fizesse patear a tragédia humana.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Loucura? Não, não é

Às vezes, passo o dia inteiro tentando contar as folhas de uma única árvore. Para isso, preciso subir galho por galho e anotar os números em um caderninho. Então, suponho que, do ponto de vista deles, seja razoável que meus amigos digam: que bobagem! Ela está com a cabeça nas nuvens de novo.
Mas não é. Claro que tenho que desistir, mas a essa altura já estou meio louca de tanta admiração — a abundância de folhas, a quietude dos galhos, a inutilidade do meu esforço. E estou naquele lugar delicioso e importante, gargalhando alto, cheia de gratidão pela Terra.

Mary Oliver, em A Thousand Mornings – Poems

Pacóvio

Cretino!
Foi o fim de uma conversa áspera da moça pelo seu telefone celular. Depois daquele “cretino!”, dito com aquela força, era de se esperar que a moça jogasse o celular longe, como se estivesse jogando fora o próprio cretino. Mas não. Ela apenas desligou o celular e colocou ao lado da sua xícara de café (ou seria chá?), na mesa. O homem da mesa ao lado certificou-se de que ela estava calma e não despejaria todo o seu ódio, que pela conversa no celular parecia incluir toda a humanidade, sobre sua cabeça, e comentou:
Palavra curiosa, né?
O quê?
Cretino.
Por quê?
Eu sempre pensei que tivesse alguma coisa a ver com Creta.
Concreta?
Não. Creta. A ilha de Creta. Cretino seria alguém de Creta. Que por alguma razão teria a fama de produzir idiotas.
E não é?
Não. Fui ver no dicionário. Cretino é quem sofre de cretinismo, uma condição decorrente de problemas na tiroide.
Não é o caso do meu cretino.
Eu desconfiei que não era. No dicionário diz que “cretino” também é sinônimo de lorpa, pacóvio...
O telefone tocou. Vivaldi. Ela atendeu rispidamente.
Quié?
Ouviu por alguns minutos, de cara feia. E ela era linda. Depois disse:
Sabe o que você é? Um lorpa. Qual é o outro?
Pacóvio — disse o homem.
Um pacóvio. Nunca vi um pacóvio igual. O quê? Não, não estou com ninguém. Estou tomando um cappuccino sozinha, pensando em como pude perder meu tempo com um pacóvio como você. Por favor, não me ligue mais.
Ela desligou o telefone. Sorrindo. Ele perguntou:
Marido?
Deus me livre.
Namorado?
Não é mais.
Posso lhe pagar outro cappuccino?

Mais tarde, já na cama, ela distraída, ele perguntou se ela estava pensando no namorado.
Não, não. Acabou.
O que foi que ele fez, afinal?
Nada. Pacovice geral. Na verdade não nos entendemos desde o início. Ele é bonito. Mas sabe aquele tipo que tem os bíceps na cabeça? É ele. Não podia dar certo.
Ainda mais com o Vivaldi.
Como, Vivaldi?
É o que toca no seu celular. Vivaldi. Uma das quatro estações. Tenho uma tese de que se pode saber tudo sobre uma pessoa pelo que ela escolhe para tocar no seu celular. Uma vez rompi o namoro com uma mulher quando descobri que o celular dela tocava Wagner. Achei que seria perigoso. Já uma mulher que escolhe Vivaldi...
Não é para qualquer cretino.
Definitivamente não.

Luís Fernando Veríssimo, em Diálogos impossíveis