28/10/2026
Para ser grande, sê inteiro
Para
ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa), em Odes de Ricardo Reis
Paula
Depois de casarem o último dos seus
cinco filhos, Paula contou para o marido que o encontro deles não
tinha sido casual, como ele pensava.
— Que encontro?
— O nosso. Há cinquenta anos.
— Eu sempre desconfiei que você
tinha planejado tudo, para me fisgar — disse o Osmar, rindo.
Mas Paula estava séria.
— Não planejei nada. Planejaram por
mim.
— Quem?
— Eu tinha ordens para me infiltrar
na sua vida. Casar com você, se fosse preciso. Acompanhar você em
tudo, me informar sobre todas as suas atividades e passar a
informação para eles.
— Eles quem?
— Meu casamento com você não foi
um casamento, Osmar. Foi uma missão.
Osmar começou a rir de novo. Parou
quando viu que Paula continuava séria.
— Mas Paula, você sempre foi uma
esposa perfeita. Perfeita!
— E você nunca desconfiou disso?
Uma mulher que fazia todas as suas vontades? Que nunca contrariou
você em nada? Uma mulher perfeita? Eu estava apenas protegendo meu
disfarce.
— Mas... E os nossos cinco filhos?!
— Sempre que eu desconfiava que você
estava perdendo o interesse em mim e no nosso casamento, engravidava.
Para não comprometer a missão.
— Você também foi uma mãe
perfeita!
— Sou uma boa profissional.
— Como você mandava a tal
informação?
— A princípio, fazia relatórios
escritos e deixava em locais predeterminados. Depois comecei a
registrar tudo eletronicamente neste aparelhinho que eles me deram.
— Quer dizer que você nunca foi
surda desse ouvido?
— Sempre ouvi perfeitamente dos
dois. Gravava tudo, depois colocava a fita no local que tinha
combinado com eles.
— Mas “eles” quem?!
— Pois é.
— Como “pois é”?
— Eu não lembro mais quem eram
eles. Na última vez que levei uma fita para o tal lugar secreto, a
fita anterior não tinha sido recolhida. A tal missão deve ter sido
desativada e não me avisaram.
— Você não se lembra para quem
trabalhava?
— Não.
— E o que eles queriam saber a meu
respeito?
— Também não me lembro.
— Paula, Paula...
— Bom, pelo menos educamos os nossos
filhos. Estão todos casados e bem encaminhados na vida...
— Missão cumprida.
— Missão cumprida.
— Boa noite, Paula.
— Juraci.
— O quê?
— “Paula” era codinome.
Luís Fernando Veríssimo, em Diálogos Impossíveis
A Contadora de Filmes
[13]
Aquela narração, porém, não foi
suficiente para me dar o título. Meu pai declarou empate: meu irmão
Mirto e eu tínhamos sido os melhores. E como era um democrata
convicto, disse que aquela questão ia ser resolvida através das
urnas. E em votação secreta.
Mirto seria o candidato número 1.
Eu seria a candidata número 2.
Foram cortados quatro papeizinhos
iguais, distribuídos entre os votantes (os candidatos não tinham
direito a voto). Cada um escreveu o número do seu candidato e depois
depositou o papelzinho num cone de papel.
E veio a contagem.
Dois votos para meu irmão e dois
votos para mim (eu intuí que meu pai e Marcelino tinham votado em
mim). Para desempatar, meu pai decidiu fazer o que era mais justo e
razoável: nós dois iríamos, juntos, ver o próximo filme. E quem
contasse melhor seria o vencedor.
Fomos então ver juntos um filme
mexicano carregado de canções; se chamava Guitarras de
medianoche e era com ninguém menos que Miguel Aceves Mejía e
Lola Beltrán, duas das vozes que mais soavam nos bares do deserto.
Meu irmão contou primeiro, e com a mesma graça de sempre.
Principalmente quando imitava o sotaque mexicano.
Acontece que eu, que também dominava
o tom da fala dos mexicanos (tantos tinham sido os filmes deles que
eu tinha visto em minha curta vida), além de contar o filme
descrevendo as paisagens e tudo, de repente desandei a cantar as
canções interpretadas no filme (de tanto ouvir nos alto-falantes
dos bares, sabia todas elas de cor). Eles, que nunca tinham me ouvido
cantar, acharam estranho que eu cantasse. E que cantasse tão bem.
Até para mim foi uma surpresa.
Meu pai ficou deslumbrado.
Principalmente quando cantei No soy monedita de oro, uma das
suas canções favoritas. Foi quando o democrata se esqueceu de votos
e plebiscitos e me declarou ganhadora absoluta.
“E ponto final!” rugiu ele quando
Mirto quis insinuar um protesto.
Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes
Pé-duro, chapéu-de-couro
VII – Termo
Não sabemos, num nosso país que
ainda constrói sua gente de tantos diversos sangues, se ele será, o
sertanejo, a “rocha viva de uma raça”, o “cerne de uma
nacionalidade”.
Mas sua presença é longa lição,
sua persistência um julgamento e um recado. Atuais como aquelas
palavras do mestre de Leyde:
“Nossos avós ainda não
dispunham senão de recursos muito parcos, para mitigar as dores,
curar as fraturas e os ferimentos, defender-se do frio, expulsar a
escuridão, comunicar-se pessoalmente ou à distância com seus
semelhantes, evitar a podridão e o mau-cheiro. Por toda a parte e
continuamente o homem tinha de sentir as limitações naturais do
bem-estar terrestre. A técnica, a higiene, os aperfeiçoamentos
sanitários do ambiente em que vive, tanto lhe facilitando,
acostumaram-no mal. Aquela conformada serenidade no desconforto
quotidiano, própria das outras gerações, e que os ascetas buscavam
como meio de santificação, perdeu-se para o homem moderno. Porém,
ao mesmo tempo, correu ele o risco de perder também a simples
aceitação da felicidade da vida, onde ela se oferece.”
. . .
Certo, nem é o progresso material
obrigatória despaga, nem a sabedoria prega ponto de qualquer
retrocesso.
Mas talvez não estejamos
desnecessitados de retornar à luz daquilo que, ainda segundo
Huizinga, é a condição primordial da cultura, e que
verdadeiramente a caracteriza: a dominação da natureza, mas da
natureza humana.
. . .
E esta bem pode vir a ser a moção
maior da “Ordem do Vaqueiro”.
Guimarães Rosa, em Ave, Palavra
O Risadinha
Seria melhor dizer que ele não teve
infância. Mas não é verdade. Eu o conheci menino, trepando às
árvores, armando alçapão para canários-da-terra, bodoqueando as
rolinhas, rolando pneu velho pelas ruas, pegando traseira de bonde,
chamando o Professor Asdrúbal de Jaburu. Foi este último um dos
mais divertidos e perigosos brinquedos da nossa infância: o velho
corria atrás da gente brandindo a bengala, seus bastos bigodes
amarelos fremindo sob as ventas vulcânicas.
Nestor, em suma, teve a meninice
normal de um filho de funcionário público em nosso tempo, tempo
incerto, pois os recursos da Fazenda na província eram magros, e os
pagamentos se atrasavam, enervando a população.
Seus companheiros talvez nem soubessem
que se chamasse Nestor; era para todos o Risadinha. Falava pouco e
ria muito, um riso de fato diminutivo, nascido de reservados
solilóquios, quase sempre extemporâneo. Certa feita, na aula de
francês, quando entoávamos em coro o presente do subjuntivo do
verbo s’en aller, Risadinha pespegou uma bólide de papel
bem na ponta do nariz do professor, que era muito branco, pedante a
capricho e tinha o nome de Demóstenes. O rosto do mestre passou do
pálido ao rubro das suas tremendas cóleras. Um dos seus prazeres,
sendo-lhe vetado por lei castigar-nos com o bastão, era desfiar em
cima do culpado uma série de insultos preciosos, que ele ia
escandindo um por um, sem pressa e com ódio.
— Levante-se, seu Nestor!
Sa-cri-pan-ta! Ne-gli-gen-te! Si-co-fan-ta! Tu-nan-te! Man-dri-ão!
Ca-la-cei-ro! Pan-di-lha! Bil-tre! Tram-po-li-nei-ro! Bar-gan-te!
Es-troi-na! Val-de-vi-nos! Va-ga-bun-do!...
Pegando a deixa da única palavra
inteligível, Risadinha erguia o dedo no ar e protestava, com ar
ofendido:
— Vagabundo, não, professor.
Era um artista do cinismo, e sua
momice de inocência era de tal arte que até mesmo seu Demóstenes
não conseguia conter o riso. Como também somente ele já arrancara
uma gargalhada do padre-prefeito, um alemão da altura da catedral de
Colônia, num dia em que vinha caminhando lento e distraído, fora da
forma.
— Por que o senhorr não está
na forma? — perguntou-lhe rosnando o padre, como se estivesse de
promotor da Inquisição, diante de um herege horripilante.
— É porque estou com o meu pezinho
machucado, respondeu com doçura o Risadinha.
— E por que o senhorr não
está mancando?
Risadinha olhou com espanto para os
seus próprios pés, começando a mancar vistosamente:
— Desculpe, seu padre, é porque eu
tinha esquecido.
Foi um precursor de Cantinflas e, a
despeito da opinião do leitor, nós lhe achávamos uma graça de
doer a barriga.
*
[…]
Paulo Mendes Campos, em O homem que odiava ilhas
27/10/2026
Poema do Aviso Final
É preciso que haja alguma coisa
alimentando meu povo:
uma vontade
uma certeza
uma qualquer esperança
É preciso que alguma coisa atraia
a vida ou a morte:
ou tudo será posto de lado
e na procura da vida
a morte virá na frente
e abrirá caminho
É preciso que haja algum respeito
ao menos um esboço:
ou a dignidade humana
se firmará a machadadas.
Torquato Neto, em O fato e a coisa
Poeminho do contra
Todos esses que aí estão
Atravancando
meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!
Mário Quintana, em Caderno H
1647 – Santiago do Chile
Se proíbe o jogo dos índios do
Chile
O capitão-geral, dom Marin de Mujica,
proclama por caixa e pendão a proibição do jogo da chueca,
que os araucanos praticam, segundo a tradição, golpeando uma bola
com paus de ponta encurvada, em campo rodeado de ramagens verdes.
Com cem chibatadas serão castigados
os índios que não obedeçam; e com multa os demais, porque muito se
difundiu a infame chueca entre a soldadesca criolla.
Diz a ordem do capitão-geral que se
dita a proibição para que se evitem pecados tão contra a honra de
Deus Nosso Senhor e porque correndo a bola os índios treinam para a
guerra: do jogo nascem alvoroços e assim depois corre a
flecha entre eles. É uma indecência, diz, que na chueca
se juntem homens e mulheres quase nus, vestidos apenas de plumas e
peles nos quais fundamentam a ventura de ganhar. No começo
invocam aos deuses para que a bola seja favorável às suas proezas e
corridas e no fim, todos abraçados, bebem mares de chicha.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
Capítulo 106 – Jogo Perigoso
Respirei e sentei-me. Dona Plácida
atroava a sala com exclamações e lástimas. Eu ouvia, sem lhe dizer
coisa nenhuma; refletia comigo se não era melhor ter fechado
Virgília na alcova e ficado na sala; mas adverti logo que seria
pior; confirmaria a suspeita, chegaria o fogo à pólvora, e uma cena
de sangue... Foi muito melhor assim. Mas depois? que ia acontecer em
casa de Virgília? matá-la-ia o marido? Espancá-la-ia?
encerrá-la-ia? expulsá-la-ia? Estas interrogações percorriam
lentamente o meu cérebro, como os pontinhos e vírgulas escuras
percorrem o campo visual dos olhos enfermos ou cansados. Iam e
vinham, com o seu aspecto seco e trágico, e eu não podia agarrar um
deles e dizer: és tu, tu e não outro.
De repente vejo um vulto negro; era
Dona Plácida, que fora dentro, enfiara a mantilha, e vinha
oferecer-se-me para ir casa do Lobo Neves. Ponderei-lhe que era
arriscado, porque ele desconfiaria da visita tão próxima.
– Sossegue, interrompeu ela; eu
saberei arranjar as coisas. Se ele estiver em casa não entro.
Saiu; eu fiquei a ruminar o sucesso e
as consequências possíveis. Ao cabo, parecia-me jogar um jogo
perigoso, e perguntava a mim mesmo se não era tempo de levantar e
espairecer como um parceiro do Whist. E então sentia-me tomado de
uma saudade do casamento, de um desejo de canalizar a vida. Por que
não? Meu coração tinha ainda que explorar; não me sentia incapaz
de um amor casto, severo e puro. Na verdade, as aventuras são parte
torrencial e vertiginosa da vida, isto é, a exceção; eu estava
enfarado delas; não sei até se me pungia algum remorso. Mal pensei
naquilo, deixei-me ir atrás da imaginação; vi-me logo casado, ao
pé de uma mulher adorável, diante de um baby, que dormia no regaço
da ama, todos nós no fundo de uma chácara sombria e verde, a
espiarmos através das árvores uma nesga do céu azul, extremamente
azul…
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas
São Paulo
De São Paulo recebi uma carta de
Fernanda Montenegro. Telefonei-lhe pedindo licença para publicá-la.
Foi dada:
“Clarice
é com emoção que lhe escrevo pois
tudo o que você propõe tem sempre essa explosão dolorosa. É uma
angústia terrivelmente feminina, dolorosa, abafada, educada,
desesperada e guardada.
Ao ler meu nome, escrito por você,
recebi um choque não por vaidade mas por comunhão. Ando muito
deprimida, o que não é comum. Atualmente em São Paulo se
representa de arma no bolso. Polícia nas portas dos teatros.
Telefonemas ameaçam o terror para cada um de nós em nossas casas de
gente de teatro. É o nosso mundo.
E o nosso mundo, Clarice?
Não este, pelas circunstâncias
obrigatoriamente político, polêmico, contundente. Mas aquele mundo
de que nos fala Tchekhov: onde repousaremos, onde nos
descontrairemos? Ai, Clarice, a nossa geração não o verá. Quando
eu tinha quinze anos pensava alucinadamente que minha geração
desfaria o nó. Nossa geração falhou, numa melancolia de ‘canção
sem palavra’, tão comum no século XIX. O amor no século XXI é a
justiça social. E Cristo que nos entenda.
Estamos aprendendo a lição seguinte:
amor é ter. Na miséria não está a salvação.
Quem não tem, não dá. Quem tem fome
não tem dignidade (Brecht). Clarice, estou pedindo desculpas por
este palavrório todo. Mas deixe que eu mantenha com você esta
sintonia dolorosa dos que percebem alguns mundos, não apenas este ou
aquele, porém até mesmo aquele outro, embora linearmente – como é
o caso.
Nossa geração sofre da frustração
do repouso. É isso, Clarice? A luta que fizermos, não o faremos pra
nós. E temos uma pena enorme de nós por isso. É assim que explico
pra mim estas frases que você põe no seu artigo: ‘Eu que dei pra
mentir. E com isso estou dizendo uma verdade. Mas mentir já não era
sem tempo. Engano a quem devo enganar, e, como sei que estou
enganando, digo por dentro verdades duras.’ A luta, a que me refiro
lá no alto, seria aquela luta bíblica, a grande luta, a que engloba
tudo.
Voltando às ‘verdades duras’ de
que você fala: na minha profissão o enganar é a minha verdade. É
isso mesmo, Clarice, como profissão. Mas na minha intimidade toda
particular, sinto, sem enganos, que nossa geração está começando
a comungar com a barata. A nossa barata (Fernanda se refere a um
livro meu). Nós sabemos o que significa esta comunhão, Clarice.
Juro que não vou afastá-la de mim, a barata. Eu o farei. Preciso já
organicamente fazê-lo. Dê-me a calma e a luz de um momento de
repouso interior, só um momento.
Com intensa comoção.
Fernanda”
Clarice Lispector, em Todas as crônicas
Pittsburgh Phill & Cia
Um cara chamado Summerfield estava de
folga, bebendo uma garrafa de vinho. Era um tipo meio bobo, eu
tentava evitá-lo, mas ele estava sempre meio bêbado e pendurado na
janela. Sempre me via saindo da minha casa e sempre dizia a mesma
coisa:
– Hey, Hank, que tal me levar às
corridas?
E eu sempre dizia:
– Uma hora dessas, Joe, hoje não.
Bem, ele continuava insistindo,
pendurado na janela e meio bêbado, então um dia eu disse:
– Tudo bem, diabos, vamos...
E lá fomos nós.
Estávamos em janeiro. Em Santa Anita,
e se você conhece bem aquela pista sabe do que estou falando, pode
ficar realmente frio lá fora quando se está perdendo. O vento sopra
vindo da neve das montanhas e nossos bolsos estão vazios e você
treme e pensa na morte e nos tempos difíceis e no aluguel e em todo
o resto. É um lugar bastante desagradável para perder. Pelo menos
em Hollywood Park dá para voltar com um bronzeado.
Então fomos os dois. Ele tagarelou
durante todo o caminho. Ele nunca tinha ido a um hipódromo. Tive de
ensiná-lo a diferença entre apostar no vencedor, na posição e nos
três primeiros colocados. Ele não sabia nem onde ficava a posição
de largada, muito menos sobre os programas. Quando chegamos lá, ele
usou o meu programa. Tive que ensiná-lo a ler as informações.
Paguei sua entrada e comprei um programa das corridas para ele. Tudo
que ele tinha era dois dólares. O suficiente para uma aposta.
Ficamos em pé por lá antes da
primeira corrida, olhando as mulheres. Joe me contou que ele não
pegava uma mulher havia cinco anos. Ele era um sujeito com uma
aparência rota, um verdadeiro perdedor. Passávamos o panfleto um
para o outro e olhávamos as mulheres, e então Joe disse:
– Por que o cavalo número seis paga
catorze para um? Me parece o melhor.
Tentei explicar a ele por que dizia
ali que o cavalo pagava quatorze para um e que o número tinha
relação com os outros cavalos, mas ele não me ouvia.
– Realmente me parece o melhor. Não
consigo entender. Tenho que apostar nesse animal.
– Os dois dólares são seus, Joe –
eu disse –, e eu não vou emprestar nenhum dinheiro depois que você
perder esse.
O nome do cavalo era Red Charley e se
tratava de um animal com uma aparência realmente muito triste. Veio
para o desfile de apresentação com quatro ataduras. Seu valor pulou
para dezoito para um, quando olharam para ele. Apostei dez dólares
na vitória do cavalo que logicamente seria o melhor candidato, Bold
Latrine[2], que sofrera uma pequena queda na classificação, mas com
bons resultados anteriores, um jóquei esperto e o segundo melhor
treinador. Achei que sete para dois era uma boa cotação para esse
cavalo.
Era uma corrida de uma milha e um
quarto. Red Charley estava cotado em vinte para um quando foi dada
largada, e ele saiu em primeiro, era impossível confundi-lo com os
outros devido às suas ataduras, e o garoto abriu quatro corpos de
diferença para o segundo colocado na primeira volta. Deve ter
pensado que estava em uma corrida de quarto de milha. O jóquei tinha
apenas duas vitórias em quarenta corridas e podia se ver por quê.
Ele tinha seis corpos de diferença na reta. A espuma escorria pelo
pescoço de Red Charley e se parecia muito com creme de barbear.
No começo da última curva, os seis
corpos de vantagem tinham diminuído para três e todo o grupo estava
se aproximando dele. No começo da reta final, Red Charley tinha
apenas um corpo e meio de vantagem sobre o meu cavalo, Bold Latrine
se aproximava por fora. Parecia que eu ia ganhar. Na metade da reta
final eu estava a um pescoço de ganhar. Mais um ataque eu ganharia.
Mas correram todo o resto do caminho até a linha de chegada dessa
forma. Red Charley ainda tinha um pescoço de vantagem na chegada.
Pagou 42,80.
– Tive a impressão de que ele era o
melhor – disse Joe, afastando-se em direção ao guichê para
receber seu dinheiro.
Quando ele voltou, pediu mais uma vez
o programa. Olhou os competidores.
– Por que o Big H paga seis para um?
– me perguntou. – Parece o melhor.
– Pode parecer o melhor para você –
eu disse –, mas no entendimento dos apostadores e dos estatísticos
experientes, profissionais de verdade, ele paga seis para um.
– Não se irrite, Hank. Sei que não
sei nada sobre esse jogo. Só quero dizer que, para mim, ele deveria
ser o favorito. Vou apostar nele de qualquer forma. Também posso
apostar na vitória do dez.
– É o seu dinheiro, Joe. Você teve
sorte na primeira corrida, o jogo não é fácil.
Bem, Big H ganhou e pagou 14,40. Joe
começou a se pavonear. Lemos o programa no bar e ele nos pagou umas
bebidas e deu um dólar de gorjeta ao barman. Enquanto saíamos do
bar, ele piscou para o barman e disse:
– O próximo páreo já é de
Barney’s Mole.
Barney’s Mole estava cotado em seis
para cinco, então não imaginei que esse fosse um anúncio tão
significativo. Ao fim do páreo, Barney’s Mole ainda rendeu algum
dinheiro. Pagou quatro dólares e vinte centavos e Joe saiu com um
lucro de vinte dólares na vitória.
– Dessa vez – ele me falou –
acertaram o cavalo favorito.
De nove corridas, Joe acertou oito
vencedores. Na viagem de volta, ele ficou se perguntando como havia
perdido a sétima corrida.
– Blue Truck parecia de longe o
melhor. Não entendo como chegou apenas em terceiro.
– Joe, você ganhou oito de nove
corridas. Isso é sorte de principiante. Você não faz ideia de como
esse jogo é difícil.
– Me parece fácil. Basta escolher o
vencedor e receber o dinheiro.
Não falei com ele durante o resto do
percurso. Naquela noite ele bateu à minha porta e trazia uma garrafa
de uísque e o boletim de apostas. Ajudei-o com a garrafa, enquanto
ele lia o programa e me dizia todos os nove vencedores das corridas
do dia seguinte e por que ganhariam. Tínhamos entre nós um
verdadeiro especialista. Sei como as corridas sobem à cabeça de um
homem. Uma vez acertei dezessete vezes seguidas e estava prestes a
comprar casas ao longo da costa e começar um negócio de escravas
brancas para proteger meus lucros da receita federal. Veja a que grau
de loucura esse negócio pode chegar.
Mal podia esperar para levar Joe às
corridas no dia seguinte. Queria ver a sua cara quando todas as suas
previsões falhassem. Cavalos eram animais feitos de carne. Eram
falíveis. Como diziam os velhos apostadores:
– Há doze maneiras de perder e
apenas uma de ganhar.
Tudo bem, não foi assim que
aconteceu. Joe ganhou sete de nove... favoritos, azarões, alguns com
preços médios. E ele resmungou durante todo o caminho de volta
sobre as duas corridas que perdera. Ele não podia entender. Não
falei com ele. O filho da puta podia fazer tudo certo, mas as
probabilidades o pegariam. Começou a me falar de como eu estava
apostando errado e qual era a maneira certa de apostar. Dois dias nas
pistas e ele era um especialista. Eu apostava há vinte anos e ele me
dizendo que eu não sabia nada sobre o assunto.
Fomos às corridas toda a semana e Joe
continuava ganhando. Tornou-se tão insuportável que eu não o
tolerava mais. Comprou um terno novo e um quepe, camisa nova e
sapatos e começou a fumar cigarros de cinquenta centavos. Disse ao
pessoal da assistência social que agora ele era um autônomo e que
não precisava mais do dinheiro deles. Joe enlouquecera. Deixou um
bigode crescer e comprou um relógio de pulso e um anel muito caro.
Na terça-feira seguinte, vi-o dirigir seu próprio carro até o
hipódromo, um Caddie preto, modelo 69. Abanou para mim de seu carro
e bateu as cinzas de seu cigarro. Não falei com ele durante aquele
dia no hipódromo. Ele estava no clube. Quando ele bateu em minha
porta naquela noite, tinha a garrafa de uísque de sempre e uma loira
alta. Uma loira jovem, bem-vestida, bem-arrumada, tinha um belo corpo
e um belo rosto. Entraram juntos.
– Quem é esse velho vagabundo? –
ela perguntou a Joe.
– Esse é o meu velho amigo, Hank –
ele lhe disse. – A gente se conheceu quando eu era pobre. Ele me
levou ao hipódromo um dia.
– Ele não tem mulher?
– O velho Hank não vê uma mulher
desde 1965. Escuta, que tal arranjarmos a Big Gertie para ele?
– Nem fodendo, Joe, Big Gertie não
ficaria com ele! Olha, ele está coberto de trapos.
– Tenha compaixão, querida, ele é
meu amigo. Sei que ele não parece muita coisa, mas nós dois
começamos juntos. Sou um sujeito sentimental.
– Bem, Big Gertie não é
sentimental, ela gosta de classe.
– Olha, Joe – eu disse –,
esqueça a mulher. Apenas sente-se com o boletim das corridas e vamos
beber um pouco e depois me dê alguns vencedores para amanhã.
Foi isso que Joe fez. Bebemos e ele
disse quais seriam os vencedores. Escreveu nove cavalos para mim em
um pedaço de papel. Sua mulher, Big Thelma... bem, Big Thelma apenas
me olhava como se eu fosse um cagalhão de cachorro no gramado de
alguém.
Aqueles nove cavalos renderam oito
vitórias no dia seguinte. Um pagou 62,60 dólares. Não podia
entender. Naquela noite, Joe veio com uma outra mulher. Era ainda
mais bonita. Sentou com a garrafa e o boletim e escreveu em um papel
mais nove cavalos.
Então ele me disse:
– Escuta, Hank, vou me mudar.
Encontrei um bom apartamento de luxo bem ao lado do hipódromo. O
tempo de deslocamento de ida e de volta às corridas é mínimo.
Vamos, querida. A gente se vê por aí, meu velho.
Sabia que esse era o fim. Meu amigo
estava me despachando. No dia seguinte, apostei pesado naqueles nove
cavalos. Ganhei sete. Reli o programa mais uma vez, quando cheguei em
casa, tentando entender por que ele escolhera os cavalos que
escolheu, mas parecia não haver nenhum método compreensível.
Algumas das escolhas eram realmente intrigantes.
Não voltei a ver Joe pelo resto da
temporada, exceto uma vez. Vi-o entrar no clube com duas mulheres.
Joe estava gordo e rindo. Vestia um terno de duzentos dólares e
usava um anel de diamante no dedo. Perdi em todas as nove corridas
daquele dia.
Passaram-se dois anos. Eu estava em
Hollywood Park e era um dia particularmente quente, uma quinta-feira
e, na sexta corrida eu, por acaso, acertei um vencedor que pagou
26,80. Enquanto eu caminhava para o guichê para receber o dinheiro,
ouvi sua voz atrás de mim:
– Ei, Hank! Hank!
Era Joe.
– Jesus Cristo, homem – ele disse
–, como é bom ver você!
– Olá, Joe...
Ainda usava seu terno de duzentos
dólares em todo aquele calor. O resto de nós estava em camisas de
manga. Ele precisava barbear-se e seus sapatos estavam gastos e o
terno estava amassado e sujo. O diamante se fora, e seu relógio de
pulso também.
– Me dê um cigarro, Hank.
Dei-lhe um cigarro e quando ele o
acendeu, notei que suas mãos tremiam.
– Preciso de uma bebida, cara –
ele me disse.
Levei-o para o bar e bebemos alguns
copos de uísque. Joe estudou o programa.
– Escute, parceiro, já apontei
vários vencedores para você, não é mesmo?
– Claro, Joe.
Ficamos ali, olhando o programa.
– Agora, veja essa corrida – disse
Joe. – Presta atenção ao Black Monkey. Vai ser uma vitória
fácil, Hank. É garantido. E paga oito pra um.
– Gosta das probabilidades dele,
Joe?
– Ele vai ganhar, parceiro. Vai
ganhar frouxo.
Fizemos nossas apostas no Black Monkey
e fomos assistir a corrida. Ele acabou em sétimo.
– Não entendo – disse Joe. –
Olha, me empreste mais dois dólares, Hank. Siren Call na próxima,
não tem como perder. De jeito nenhum.
Siren Call chegou em quinto, mas isso
não ajuda muito quando se está apostando no vencedor. Joe conseguiu
mais dois dólares de mim para a nona corrida e seu cavalo perdeu
também. Joe me disse que não tinha mais carro e perguntou se eu me
importava em lhe dar uma carona para casa.
– Você não vai acreditar nisso –
ele me disse –, mas estou de volta à assistência social.
– Acredito, Joe.
– Mas vou dar a volta por cima.
Sabe, Pittsburgh Phill faliu pelo menos meia dúzia de vezes. Ele
sempre dava a volta por cima. Seus amigos tinham fé nele.
Emprestavam dinheiro.
Quando o deixei em casa, descobri que
ele morava em uma pensão a quatro quarteirões de onde eu morava.
Nunca me mudei. Quando Joe desceu do carro ele disse:
– Tenho uma excelente carta na manga
para amanhã. Você vai?
– Não tenho certeza, Joe.
– Se for, me avisa.
– Claro, Joe.
Naquela noite ouvi uma batida em minha
porta. Eu conhecia a batida de Joe. Não atendi. A televisão estava
ligada, mas não atendi. Segui deitado na cama, bem parado. Ele
continuou batendo.
– Hank! Hank! Está aí? EI, HANK!
Então ele realmente bateu com força
na porta, o filho da puta. Parecia fora de si. Bateu e bateu.
Finalmente parou. Escutei-o se afastar pelo corredor. Então ouvi a
porta de entrada do prédio se fechar. Levantei, desliguei a
televisão e fui até a geladeira, fiz um sanduíche de presunto e
queijo, abri uma cerveja. Então me sentei com a comida, abri o
programa do dia seguinte e comecei a olhar a primeira corrida, um
prêmio de cinco mil dólares para potros e capões com mais de três
anos. Gostei do cavalo número oito. O boletim o dava como cinco para
um. Apostaria nele até de olhos fechados.
Charles Bukowski, em Ao Sul de Lugar Nenhum
26/10/2026
Um menino perdido na noite
Já meio adormecido, eu ouvia uma voz
que vinha da rua. Voz de menino. “Olha os pastéis, de carne e de
queijo...” . Sozinho na rua vazia ele vendia pastéis que sua mãe
fizera. Para quem, se nas ruas não havia ninguém? Era como nas
estórias: havia sempre um bom menino perdido. Ele me fazia lembrar o
menino da mata. Imaginava-me no seu lugar, anunciando pastéis a um
mundo adormecido. E toda noite acontecia o mesmo, ele passava com o
mesmo anúncio triste: “Olha os pastéis, de carne e de queijo...”
. A voz triste daquele menino me marcou. Continuo a ouvi-la.
Rubem Alves, em O velho que acordou menino
A luz da dor
O meu modo de saber é adoecendo.
A uns, a ideia surge em luz.
A mim, se declara
uma pontada no peito.
O advento da dor,
o deflagrar da súbita febre
e eu sei que o meu corpo sabe.
Um dia destes
me desconhecerei vivo
desfalecido de aguda sapiência.
Até lá
repartirei com um anjo
o doce milagre da refeição.
Mia Couto, em Poemas Escolhidos
O ovo
“Carlos acordou e fritou um ovo.”
— Anônimo
“N’aquele outomno de 1875, Carlos
abriu as pálpebras esguedelhadas — tinha acordado macilento.
Trazia-lhe tranquillidade contar as dezoito velas do lustre de ouro,
presenteado pelo tio Affonso havia trinta e dois anos. ‘Somente
para dar-me esse lustre serviu o tio Affonso’, pensou. Levantou-se
da cama com uma fadiga langorosa, arrastando consigo os lençóis de
seda indiana e esticou-se num fato de xadrezinho inglês. Cobriu-se
com um cache-nez de seda clara e abriu um telegramma, indolente e
poseur, em frente ao espelho de Veneza — resvalava, através das
árvores, uma luz esverdinhada. Ordenou à criada:
— Frite-me ovos.” — Eça de
Queiroz
“Carlos acordou com uma súbita
vontade de fritar um ovo, hei de fritar um ovo, pensou, agora mesmo,
posto que se não fritá-lo, não poderei comê-lo frito, e terei de
me contentar com ele cru, o que não seria do meu agrado. Tendo
pensado nisso, fritou o ovo, e não está ruim, pensou, o ovo,
frito.” — José Saramago
“Acordei libertado da angústia de
não estar acordado. Não estar acordado é enorme: viver é isso.
Fritei um ovo.” — Clarice Lispector
“Sonado: Carlos abriu o olho.
Bisbilhava-se. A galinha desovou um ovo, disse Migué.
— Larga de afoiteza, gritou tio
Janjório. É muita ambicionice comer a galinha que ainda não
galinhou.
Carlos nem orelhou. Quando o tio viu,
o ovo já não era.” — Guimarães Rosa
“Acordei ao lado de Vânia, que
ainda dormia. Seus seios eram rosados e sua pentelheira era vasta e
negra. Levantei e acendi um cigarro naquele fogão de bacana. Na
cozinha, Branca me esperava, nua, com uma Magnum na mão, tapando-lhe
a boceta. Eu disse alguma coisa e ela não gostou. Apontou a arma
para os meus testículos.
— Frita, Carlos. Seus ovos vão ser
a porra do meu café da manhã.
Alguém bateu na porta. Era Frida,
nua. Fodemos.” — Rubem Fonseca
“Carlos acordou com a perna meia
dormente. Para ficar com menas dor, recorreu a uma simpatia. Foi até
a cozinha e fez um ovo estralado.” — Paulo Coelho
Gregório Duvivier, em Put some farofa
Diário De Bernardo Soares
140.
Acontece-me às vezes, e sempre que
acontece é quase de repente, surgir-me no meio das sensações um
cansaço tão terrível da vida que não há sequer hipótese de acto
com que dominá-lo. Para o remediar o suicídio parece incerto, a
morte, mesmo suposta a inconsciência, ainda pouco. É um cansaço
que ambiciona, não o deixar de existir — o que pode ser ou pode
não ser possível —, mas uma coisa muito mais horrorosa e
profunda, o deixar de sequer ter existido, o que não há maneira de
poder ser.
Creio entrever, por vezes, nas
especulações, em geral confusas, dos índios, qualquer coisa desta
ambição mais negativa do que o nada. Mas ou lhes falta a agudeza de
sensação para relatar assim o que pensam, ou lhes falta a acuidade
de pensamento para sentir assim o que sentem. O facto é que o que
neles entrevejo não vejo. O facto é que me creio o primeiro a
entregar a palavras o absurdo sinistro desta sensação sem remédio.
E curo-a com o escrevê-la. Sim, não
há desolação, se é profunda deveras, desde que não seja puro
sentimento, mas nela participe a inteligência, para que não haja o
remédio irónico de a dizer. Quando a literatura não tivesse outra
utilidade, esta, embora para poucos, teria.
Os males da inteligência,
infelizmente, doem menos que os do sentimento, e os do sentimento,
infelizmente, menos que os do corpo. Digo “infelizmente” porque a
dignidade humana exigiria o avesso. Não há sensação angustiada do
mistério que possa doer como o amor, o ciúme, a saudade, que possa
sufocar como o medo físico intenso, que possa transformar como a
cólera ou a ambição. Mas também nenhuma dor das que esfacelam a
alma consegue ser tão realmente dor como a dor de dentes, ou a das
cólicas, ou (suponho) a dor de parto.
De tal modo somos constituídos que a
inteligência que enobrece certas emoções ou sensações, e as
eleva acima das outras, as deprime também se estende a sua análise
à comparação entre todas.
Escrevo como quem dorme, e toda a
minha vida é um recibo por assinar.
Dentro da capoeira de onde irá a
matar, o galo canta hinos à liberdade porque lhe deram dois
poleiros.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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