04/06/2026

Promessa | Maria Bethânia

O homem e a cidade



Agora, que não preciso mais ir à cidade todo dia, descubro um prazer novo em andar por essas velhas ruas do centro onde tanto vaguei outrora.
E pego um estranho dia de verão: há um alto nevoeiro aéreo sob o céu azul, mas o vento espanta alegremente as nuvens esgotadas de chover; o ar é fino, a luz é clara, a manhã é assanhada, com uma alegria de convalescente que pela primeira vez, depois de longa doença, sai a passear entre as árvores, o mar e as montanhas azuis.
Parece que estamos em maio ou setembro, num desses dias cambiantes e leves em que as folhas têm um brilho mais feliz. E sinto prazer em andar pela calçada larga da Rua do Passeio, em espiar as grandes vitrinas coloridas de presentes de Natal. (Não quero comprar nada, não preciso ganhar mais nada, não é verdade que recebi na minha porta a graça juvenil de uma rosa amarela?)
A calçada está cheia de gente, e é doce a gente se deixar ir andando à toa. Na Rua Senador Dantas vejo livros, camisas, aparelhos elétricos, discos, fuzis submarinos, gravatas; e os cartazes dizem que tudo é muito barato e fácil de comprar, os cartazes me fazem ofertas especiais para levar agora e só começar a pagar em fevereiro... Muito obrigado, muito obrigado, mas não preciso de nada. Entretanto, gosto de ver essa fartura de coisas: fico parado numa porta de mercearia contemplando reluzentes goiabadas e frascos de vinho, bebidas e gulodices de toda a espécie que vieram de terras longes se oferecerem a mim.
Mas de repente houve alguma coisa — a visão de um muro, o som de uma vitrola distante, algum rosto no meio da multidão? —, alguma coisa que me devolveu ao meu ser antigo. Sou um rapaz magro nesta mesma rua, sou o verdadeiro estudante de 1929 e talvez cruze numa esquina, sem conhecê-la ainda, aquela que há de ser a minha amada, e tire do bolso a minha carteirinha da Faculdade para ter direito ao abatimento no cinema. Mas logo, por um instante, sou o homem dramático e silencioso de 1938, e caminho carregado de angústia por essa calçada que, entretanto, é a mesma de hoje — há o vento palpitando nos vestidos coloridos de mulheres finas que sorriem com dentes muito brancos entre os lábios úmidos. E vou andando, tomo um café, sinto uma grande ternura pela cidade grande onde outrora te amei tanto, tanto, oh! para sempre perdida Lenora.
Lenora... E me dá uma humildade entre o povo, completo o dinheiro da entrada de um menino que quer ir ao cinema, espero um bonde, ajudo uma senhora gorda a subir com seu embrulho, ela agradece e sorri, é cinquentona e pobre, mas seu sorriso é bom, ela e eu somos cidadãos da mesma cidade e antes de saltar ela me desejará boas-entradas. Vem o condutor, tem cara de alemão e é gordo, mas ágil e paciente, todos pagam sua passagem na boa ordem civil e cordial. Um homem conduz uma gaiola dentro do bonde, todos querem ver o passarinho — é um pintassilgo, diz ele.
Quieto, vou repetindo sem voz, para mim mesmo, teu nome, Lenora — perdida, para sempre perdida, mas tão viva, tão linda, batendo os saltos na calçada, andando de cabelos ao vento dentro da minha cidade e de minha saudade, Lenora.
Rio, janeiro, 1960.

Rubem Braga, em Ai de ti, Copacabana

Especiarias



No fim, tudo se deve à comida insossa. Quando os mongóis e os turcos interromperam o suprimento por terra dos condimentos do Oriente, a era dos descobrimentos começou. A Europa descobriu que não podia viver sem tempero e lançou-se ao mar e à conquista de rotas alternativas para o cominho e, por acidente, outros mundos.
A América é um produto do paladar europeu. Toda a grande aventura imperial foi aromática, tangida pela pimenta e o gengibre, a hortelã e a noz-moscada. Homens rudes lançavam-se contra o desconhecido e a morte pelo rosmaninho. Navios inteiros eram tragados pelo mar e deixavam, na superfície, irônicas sopas de ervas. Até a poluição era inocente: se se rompesse um porão de navio, as praias se cobriam de grãos de mostarda, as gaivotas se intoxicavam com favos de baunilha. Desastre ecológico era quando os peixes engoliam alho, cebola e alcaparras e já vinham à tona prontos para a panela.
Outras fomes eram servidas, claro. A de ouro, a de prata, a de espaço. E a de sexo, pois as mulheres europeias também eram sem sal. Descobriu-se que o comércio de escravos era mais rentável do que o comércio de especiarias e não houve nenhum escrúpulo, ou reticência poética, em fazer a adaptação. Mas os novos mundos continuaram a ser governados pelo paladar da Europa. Não dá para calcular quanta gente morreu nos navios negreiros ou no trabalho escravo para que a classe operária inglesa tivesse açúcar no seu chá todos os dias, por exemplo. E é por falta de condimentos parecidos onde eles vivem que turistas europeus continuam desembarcando no Nordeste do Brasil para comer adolescentes.
A especiaria de hoje é a droga e não deixa de ser apropriado que cocaína pareça açúcar. O apetite servido é pelo delírio, não mais pela noz-moscada, e a carga viaja escondida. Quem transporta drogas é chamado de “mula” e há no apelido uma vaga evocação das caravanas do Oriente que enfrentavam bárbaros e ursos — em vez de fiscais na alfândega — só para dar uma sensação à Europa.

Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora

Ameaça

Os banqueiros não perdem por esperar. Ganham.

Millôr Fernandes, em A bíblia do caos

Treciziano, o bruto


[…]

Rasgamos sertão. Só o real. Se passou como se passou, nem refiro que fosse difícil-ah; essa vez não podia ser! Sobrelégios? Tudo ajudou a gente, o caminho mesmo se economizava. As estrelas pareciam muito quentes. Nos nove dias, atravessamos. Todos; bem, todos, tirante um. Que conto.
O que era ― que o raso não era tão terrível? Ou foi por graças que achamos todo o carecido, nãostante no ir em rumos incertos, sem mesmo se percurar? De melhor em bom, sem os maiores notáveis sofrimentos, sem em-errar ponto. O que era, no cujo interior, o Liso do Sussuarão? ― era um feio mundo, por si, exagerado. O chão sem se vestir, que quase sem seus tufos de capim seco em apraz e apraz, e que se ia e ia, até não-onde a vista não se achava e se perdia. Com tudo, que tinha de tudo. Os trechos de plano calçado rijo: casco que fere faíscas ― cavalo repisa em pedra azul. Depois, o frouxo, palmo de areia de cinza em-sobre pedras. E até barrancos e morretes. A gente estava encostada no sol. Mas, com a sorte nos mandada, o céu enuveou, o que deu pronto mormaço, e refresco. Tudo de bom socôrro, em az. A uns lugares estranhos. Ali tinha carrapato... Que é que chupavam, por seu miudinho viver? Eh, achamos rêses bravas ― gado escorraçado fugido, que se acostumaram por lá, ou que de lá não sabiam sair; um gado que assiste por aqueles fins, e que como veados se matava. Mas também dois veados a gente caçou ― e tinham achado jeito de estarem gordos... Ali, então, tinha de tudo? Afiguro que tinha. Sempre ouvi zum de abêlha. O dar de aranhas, formigas, abêlhas do mato que indicavam flores.
Todo o tanto, que de sede não se penou demais. Porque, solerte subitamente, pra um mistério do ar, sobrechegamos assim, em paragens. No que nem o senhor nem ninguém não crê: em paragens, com plantas.
De justiça, digo, também! uma regra se teve, sem se saber de quem foi que veio a ideia dessa combinação. Qual foi que a gente se apartou, em grupos de poucos, jornadeando com a maior distância aberta. Mas que, assim, quando um avistasse qualquer coisa diversa, podia dar sinal, chamando os outros para novidade boa.
Eu que digo. Mesmo, não era só capim áspero, ou planta peluda como um gambá morto, o cabeça-de-frade pintarrôxa, um mandacarú que assustava. Ou o xique-xique espinharol, cobrejando com suas lagartonas, aquilo que, em chuvas, de flôr dói em branco. Ou cacto preto, cacto azul, bicho luiz-cacheiro. Ah , não. Cavalos iam pisando no quipá, que até rebaixado, esgarço no chão, e começavam as folhagens ― que eram urtigão e assa-peixe, e o neves, mas depois a tinta-dos-gentíos de flôr belazul, que é o anil-trepador, e até essas sertaneja-assim e a maria-zipe, amarelas, pespingue de orvalhosas, e a sinhazinha, muito melindrosa flôr, que também guarda muito orvalho, orvalho pesa tanto! parece que as folhas vão murchar. E herva-curraleira... E a quixabeira que dava quixabas.
Digo ― se achava água. O que não em-apenas água de touceira de gravatá, conservada. Mas, em lugar onde foi córrego morto, cacimba d água, viável, para os cavalos. Então, alegria. E tinha até uns embrejados, onde só faltava o burití! palmeira alalã ― pelas veredas. E buraco-pôço, água que dava prazer em se olhar. Devido que, nas beiras ― o senhor crê? ― se via a coragem de árvores, árvores de mata, indas que pouco altaneiras! simaruba, o aniz, canela-do-brejo, pau-amarante, o pombo; e gameleira. A gameleira branca! Como outro-tempo se cantava!

Sombra, só de gameleira,
na beira do riachão…

Assim achado, tudo, e o mais, sem sobranço nem desgosto, eu apalpei os cheios. O respeito que tinham por mim ia crescendo no bom entendido dos meus homens. Os jagunços meus, os riobaldos, raça de Urutú-Branco. Além! Mas, daí, um pensamento ― que raro já era que ainda me vinha, de fugida, esse pensamento ― então tive. O senhor sabe. O que me mortifica, de tanto nele falar, o senhor sabe. O demo! Que tanto me ajudasse, que quanto de mim ia tirar cobro? ― Deixa, no fim me ajeito... ― que eu disse comigo. Triste engano. Do que não lembrei ou não conhecesse, que a bula dele é esta! aos poucos o senhor vai, crescendo e se esquecendo...
Daí, mesmo, que, certa hora, Diadorim se chegou, com uma avença. Para meu sofrer, muito me lembro. Diadorim, todo formosura.
Riobaldo, escuta! vamos na estreitez deste passo... ― ele disse; e de medo não tremia, que era de amor ― hoje sei.
...Riobaldo, o cumprir de nossa vingança vem perto... Daí, quando tudo estiver repago e refeito, um segredo, uma coisa, vou contar a você...
Ele disse, com o amor no fato das palavras. Eu ouvi. Ouvi, mas mentido. Eu estava longe de mim e dele. Do que Diadorim mais me disse, desentendi metade.
Só sei que, no meio reino do sol, era feito parássemos numa noite demais clareada. Assim figuro. Dentro de muito sol, eu estava reparando uma cena! que era um jumentinho, um jegue já selvagem caatingano, no limpo do campo caçando o que roer, assaz pelos cardos.
Eu não tinha de tomar tento em coisas mais graves? Mire veja o senhor. Picapau vôa é duvidando do ar. Que tal Zé Bebelo ― na hora me lembrei ― quando mal irado, ou quando conforme querendo impôr medo a todos! ― Norte de Minas! Norte de Minas...! ― o que bramava. E ele estava com a razão. Mas Zé Bebelo era projetista. Eu, eu ia por meu constante palpite. Usando de toda ajuda que me vinha, mas prevenido sempre contra o Maligno: que o que rança, o que azéda. As traças dele são novas sempre, e povoadas tantas, são que nem os tins de areia grãoindo em areal. Então eu não sabia?!
Ah, quase que eu estava cogitando nisso, quando o homem rosnou. Quem ele era, digo, em qualidade: um, troncudo, pardaz, genista, filho não sei de que terra. Assim, casta de gente?
Ah, não. Por meu bem, eu estava em todo o meu siso. Até mais. Não faço caso! ― eu disse, isto é: pensei dizendo. Eu não queria somar com aquilo nenhum; porque cheirava ao Cujo: esses estratagemas. Era do demo... ― eu tirei um enredo. Pois, então, paz... ― eu falei, me falei. ...Não faço conta... ― me prometi. Eu estava em manhas. Estive que estive no embalançar, em equilibrável. Tico tanto pensei. Mas tudo era frisado ligeiro, ligeiro, feito cavalo que pressente fúria de boi.
Aí escutei a voz ― a voz dele tremia nervosa, como de cabrito; da maneira que gritou ― à briga. Um desfeliz. Levei os olhos.
Ah, quem o homem era, eu já sabia, ele se chamava Treciziano. O bruto; para falar com ele, só a cajado. Eu sabia. Rebém, que desconfiei do demo. Ali esse Treciziano era fraco de paciências; ou será que estivesse curtindo mais sede do que os outros segundo esse tremor das ventas ― e pegou a malucar? Diziam que ele criava dôr-de-cabeça, e padecia de erupções e dartros. Estava falando contra comigo, reclamando, gritou uma ofensa. Homem zuretado, esbrasêia os olhos. Eu, senhor de minhas inteligências, como fica dito. Eu estava podendo refleitir, em passo de jumento. ― Siô, deixa o padre ofrecer missa... ― falei para mim mesmo. Eu queria tolerar, primeiro: porque o demo não era homem para mandar em mim e me pôr em raiva. Aí, era só eu forçar calma, tenteador; depois, com palavras de energia boa, eu acautelava evitando a jerimbamba, e daí repreendia esse Treciziano, revoltoso, próprio por autoridade minha, mas sem pau nem pedra. Que dessa ― chefe eu ― o O não me pilhava…
Mas ― ah! ― quem diga! um faz, mas não estipula. O que houve, que se deu. Que vi. Com a sede sofrida, um incha, padece nas vistas, chega fica cego. Mas vi. Foi num átimo. Como que por distraído! num dividido de minuto, a gente perde o tino por dez anos. Vi! ele ― o chapéu que não quebrava bem, o punhal que sobressaía muito na cintura, o monho, o mudar das caras... Ele era o demo, de mim diante... O Demo!... Fez uma careta, que sei que brilhava. Era o Demo, por escarnir, próprio pessoa!
E ele endireitou pontudo para sobre mim, jogou o cavalo... O demo? Em mim, danou-se! Como vinha, terrível, naquele agredimento de boi bravo. Levantei nos estribos. ― E-hê!... Esse luzluziu a faca, afiafe, e urrou de ódio de enfiar e cravar, se debruçando, para diante todo. Tirou uma estocada. Cerrei com ele... A ponta daquela pegou, por um mau movimento, nas coisas e trens que eu tinha na cintura e a tiracol! se prendeu ali, um mero. Às asas que eu com a minha quicé, a lambe leal ― pajeuzeira ― em dura mão, peguei por baixo o outro, encortei-recortei desde o princípio da nuca ― ferro ringiu rodeando em ossos, deu o assovião esguichado, no se lesar o cano-do-ar, e mijou alto o sangue dele. Cortei por cima do adão... Ele Outro caíu do cavalo, já veio antes do chão com os olhos duros apagados... Morreu maldito, morreu com a goela roncando na garganta!
E o que olhei? Sangue na minha faca ― bonito brilho, feito um verniz veludo... E ele! estava rente aos espinhos dum mandacarú-quadrado. Conforme tinha sido. Ah-oh! Aoh, mas ninguém não vê o demônio morto... O defunto, que estava ali, era mesmo o do Treciziano!
A morte dele deu certo. E era, segundo tinha de ser? E tinha de ser, por tanto que o demo não existe! As tramóias, armadilhas... Nem nunca mais, daí por diante, eu queria pensar nele. Nem no pobre do Treciziano, que estava ali, degolal, que eu tinha... Um frio profundíssimo me tremeu. Sofri os pavôres disso da mão da gente ser capaz de ato sem o pensamento ter tempo. Somente todos me gabaram, com elogios e palavras prezáveis, porque a minha chefia era com presteza. Fosse de tiro, tanto não admiravam a tanto, porque a minha fama no gatilho já era a qual; à faca, eh, fiz! E do outro grupo, longe mas que era o mais perto, da banda da mão esquerda, um escutou ou viu, e veio. Era o Jiribibe, mocinho Jiribibe, num cavalo preto galopeiro. Diadorim tinha disparado tiro, só esmo; de nervosia. Dentro de pouco, todos iam ficar cientes da proeza daquele homem tão morto: das beiras do corte ― lá nele ― a pele subia repuxada, a outra para baixo tinha descaído tamanhamente, quase nas maminhas até; deixavam formado o buraco medonho horrendo, se aparecendo a toda carnança. Aí Alaripe esclareceu: ― Ao que sei, este era da Serra dUmã... O de tão longe, o sapo leiteiro! Uns estavam remexendo nele ― não tinha um pêlo nos peitos. Assim queriam desaliviar aquele corpo, das coisas de valor principais. Do que alguém disse que ele guardava: um dixe, joiazinha de prata; e as esporas eram as excelentes, de bom metal.
Não turveei. Morte daquela cabra era em ramo de suicídios.
A modo que morreu? Ele foi para os infernos? ― indagou em verdade o menino Guirigó. Antes o que era que eu tinha com isso, como todos me louvaram? Sendo minha a culpa ― a morte, isto sei; mas o senhor me diga, meussenhor: a horinha em que foi, a horinha? Como que o cego Borromeu garrou um fanhoso recitar, pelos terços e responsos. Medo de cego não é o medo real. Diadorim me olhava ― eu estivesse para trás da lua. Só aí, revi o sangue. Aquele, em minha roupa, a plasta vermelha fétida. Do sangue alheio que grosso me breava, mal me alimpei o queixo; eu, desgostoso de sangue, mas deixava, de sinal? Ah, não, pois ali me salteou o horror maior. Sangue... Sangue é a coisa para restar sempre em entranhas escondida, a espécie para nunca se ver. Será por isso também que imensa mais é a oculta glória de grandeza da hóstia de Deus no ouro do sacrário ― toda alvíssima! ― e que mais venero, com meus joelhos no duro chão.
Por mais, o corpo ali ficava, para o ar do raso. Sumimos de lá, há-de que tocávamos, adiante. À viajadamente eu ia, desconversei meu espírito. Até às alelúias!
Que, como conto. Aquele Treciziano tinha redobrado destino de triste-fim de louco. Pois nem bem três léguas andadas, daí depois, a gente saía do Liso, como que a ponto! dávamos com uma varzeazinha e um esporão de serra; chapadas, digo. Apeei na terra cristã. Se estava no para ver esses campos crondeubais da Bahia.
[…]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

03/06/2026

Marcos Sacramento e Zé Paulo Becker ft. Ney Matogrosso | Canto de Ossanha

Benefício comum

Algum homem sentirá desprezo por mim? Deixe-o cuidar disso sozinho. Enquanto isso, cuidarei para não fazer ou dizer nada desprezível.
Alguém me odiará? Deixe-o ser responsável por isso. Em oposição, serei brando e benevolente com todos. Caso não assuma o erro, eu me prontificarei para apontá-lo, não visando reprimir ou exibir a minha tolerância, mas, sim, ser nobre e honesto — como o grande Focion, na hipótese de que ele não dissimulava. O interior do homem deve ser assim, e os deuses não devem encontrá-lo insatisfeito ou reclamando.
Quais males podem o atingir caso você aja conforme a sua natureza e se satisfaça com o que é apropriado à natureza universal — considerando que é um ser humano encarregado de agir em favor do benefício comum?

Marco Aurélio, em Meditações

Solo de clarineta

As pétalas da flor-seca, a sempre-viva,
do que mais gosto em flor.
Do seu grego existir de boniteza,
sua certa alegria.
É preciso ter morrido uma vez e desejado
o que sobre as lápides está escrito
de repouso e descanso, pra amar seu duro odor
de retrato longínquo, seu humano conter-se.
As severas.

Adélia Prado, em Bagagem

Minha mãe



Todo mundo gosta de beleza. Até os pobres. A pobreza também se enfeita. Primeiro era preciso limpar a casa abandonada. Varrer. Tirar as teias de aranha e os picumãs. Picumãs eram estalactites que ficavam pendurados sobre o fogão de lenha, formados pela combinação de teias de aranha e gordura e que, segundo as benzedeiras, tinham extraordinários poderes medicinais para a cicatrização de umbigos. O fogão tinha de ser limpo, cheio que estava com as cinzas deixadas por moradores anteriores. Era preciso caçar os ovos de baratas escondidos nas gretas.
Havia as prateleiras de tábua que o tempo, o pó, a fumaça das lamparinas e do fogão haviam pretejado. As mulheres da cidade enfeitavam suas prateleiras com pano bordado. A Adélia Prado, numa declaração de amor, escreveu ao seu amado: “Você me espicaça como o desenho do peixe na guarnição da cozinha”... Nunca me passou pela cabeça que guarnição de cozinha pudesse entrar em declaração de amor... Quando não tinha pano bordado o jeito era comprar papel cor-de-rosa para fazer os enfeites. Se não tinha nem pano com peixe bordado nem papel comprado o jeito era usar jornal. Minha mãe repicava jornal pra dar uma alegria pobre às prateleiras. E plantava roseiras. Uma roseira florida era sinal de nobreza! Com as rosas brancas trepadeiras se fazia chá pra pôr nos olhos, como colírio. Havia uma coisa que não tinha jeito: os ratos. De noite ficavam correndo entre os caibros redondos e as telhas. Ninguém se assustava. Ninguém gritava. Ninguém corria. Sabia-se que era inútil. O jeito era conviver com eles.
Eu não tinha brinquedos. Acho que nem sabia o que eram brinquedos, desses que se compram em lojas. Minha mãe me fazia uns brinquedos. Ela era uma artesã consumada em petecas de palha com penas de galinha. E fazia-me corrupios com botões grandes e barbante. E ensinou-me a fazer barquinhos e chapéus de papel, e a dobrar jornal para recortar dezenas de bonequinhos de mãos dadas. O livro que mais me encantava tinha sido dela, quando criança. Eram gravuras que faziam sonhar. Um negro arrastando-se na direção de um jacaré de boca aberta para enfiar verticalmente dentro de sua boca um pau pontudo. Quando ele fechasse a boca estaria preso. Eu pensava: “Será que ele conseguiu?”. Uma gravura de um prédio em Nova York com a seguinte explicação: “Nos Estados Unidos há casas com dez andares”. Uma família de esquimós, pais e filhos vestidos com peles, saudando o sol que aparecia depois de seis meses de noite. E a mais querida: um menino e uma menina fazendo um minijardim com árvores, riachinhos, pontes, cachoeiras. Brincava com pedras, bichos, sabugos de milho, arcos de barril. Da minha mãe recebi minha primeira lição de teologia, embora ela o fizesse com boas intenções. De noite, antes de dormir, ela me fazia repetir: “Agora me deito para dormir. Guarda-me o Deus em teu amor. Se eu morrer sem acordar, recebe a minhalma, ó Senhor, amém”. Essa reza me ensinou que é perigoso dormir. A gente está distraído, guarda baixa, e é possível que a morte ataque. Aprendi que a gente morre. Por isso é preciso Deus, por causa da morte. O sono é uma morte da qual se acorda. Toda noite eu repetia a lição. E aprendi que, morrendo, a alma, uma coisa que mora no corpo, volta para Deus. Eu não queria voltar para Deus. Preferia a terra ao céu. Deus, que pode tudo, bem que poderia me proteger da morte, dando-lhe ordens ao contrário...
Ela também me contava estórias. Uma delas tinha um refrão: “Jingue-le-jingue que eu vou para a Angola...” . Eu não sabia o que era Angola. Depois ela me disse que essa estória fora a Iaiá que lhe contara. A Iaiá era uma escrava que permanecera na casa do meu avô mesmo depois da Lei Áurea. Ficara porque não tinha para onde ir. Aí entendi o que era Angola. Era a Iaiá que cuidava da minha mãe quando menina. Uma outra estória era a da madrasta que enterrara a enteada como castigo por não haver impedido que os passarinhos bicassem os figos da figueira. Mas seus cabelos brotaram do fundo da terra. O jardineiro, ao tentar capiná-los, ouviu um canto melancólico: “Jardineiro do meu pai não capine meus cabelos. Minha mãe me penteava. Minha madrasta me enterrou pelo figo da figueira que o passarinho buscou”. Ao final o pai salva a filha da sepultura onde a madrasta a enterrara. Que maravilhoso tema para uma meditação psicanalítica! E cantava para me fazer dormir: “Tatu subiu no pau, é mentira de você. Lagarto, lagartixa, isso sim que pode ser...” .

Rubem Alves, em O Velho que Acordou Menino

1624 – Sevilha

O último capítulo de “A vida do buscão”

O rio reflete o homem que o interroga.
Aonde mando o malandro? Hei de mandá-lo à morte?
Dançam sobre o Guadalquivir, lá no cais de pedra, as botas tortas. Este homem tem o costume de agitar os pés enquanto pensa.
Eu decido. Fui eu quem o fez nascer filho de barbeiro e bruxa e sobrinho de verdugo. Eu o coroei príncipe da vida buscona no reino dos piolhos, mendigos e enforcados.
Brilham os óculos nas águas esverdeadas, cravados nas profundidades, perguntando, perguntadores:
Que faço? Eu o ensinei a roubar frangos e implorar esmola pelas chagas de Cristo. De mim aprendeu maestrias em dados, baralhos e espadas. Com minhas artes foi gala de monjas e ator.
Francisco de Quevedo franze o nariz para acomodar os óculos.
Eu decido. Que mais remédio tenho? Jamais se viu novela, na história das letras, que não tenha capítulo final.
Estica o pescoço entre os galeões que vêm, arriando as velas rumo ao cais.
Ninguém sofreu como eu. Não fiz minhas as suas fomes, quando rangiam suas tripas e nem os exploradores encontravam seus olhos? Se dom Pablos deve morrer, devo matá-lo. Ele é cinza, como eu, que sobrou da chama.
De longe, um menino esfarrapado olha o cavaleiro que coça a cabeça, inclinado sobre o rio. “Uma coruja”, pensa o menino. E pensa: “A coruja está louca. Quer pescar sem anzol”.
E Quevedo pensa.
Matá-lo? Não é fama, então, que traz má sorte quebrar espelhos? Matá-lo. E se tomassem o crime por justo castigo ao seu mau viver? Tremenda alegria para inquisidores e censores! Só de imaginar sua felicidade, me dá voltas na tripa.
Explode, então, uma gritaria de gaivotas. Um navio da América está ancorando. De um pulo, Quevedo se põe a caminhar. O menino o persegue, imitando o andar bambo.
Resplandece a cara do escritor. No cais encontrou o destino que seu personagem merece. Enviará dom Pablos, o buscão, às Índias. Onde, a não ser na América, poderia terminar seus dias? Já tem desembocadura a sua novela e Quevedo se afunda alucinado, nesta cidade de Sevilha, onde sonham os homens com navegações, e as mulheres, com regressos.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

I’ll Follow the Sun | Paul McCartney e John Lennon


I’ll Follow the Sun, de Paul McCartney e John Lennon

One day you’ll look
To see I’ve gone
For tomorrow may rain, so
I’ll follow the sun

Some day you’ll know
I was the one
But tomorrow may rain, so
I’ll follow the sun

And now the time has come
And so, my love, I must go
And though I lose a friend
In the end you will know, oh

One day you’ll find
That I have gone
But tomorrow may rain, so
I’ll follow the sun

Yes tomorrow may rain, so
I’ll follow the sun

And now the time has come
And so, my love, I must go
And though I lose a friend
In the end you will know, oh

One day you’ll find
That I have gone
But tomorrow may rain, so
I’ll follow the sun

A última casa em que morei em Liverpool fica no endereço 20 Forthlin Road. A essa altura, já tínhamos melhorado de vida. A minha mãe tinha grandes aspirações para nós e encontrou essa casa numa área relativamente agradável. As cortinas eram de renda, talvez por isso eu ainda faça questão de ter cortinas de renda em todos os lugares. Um hábito irlandês, acho eu. Assim, o pessoal não consegue espiar lá dentro. Eu me lembro de tocar esta canção na sala de estar com meu violão. Se você for analisar, é uma canção sobre “deixar Liverpool”. Estou deixando esta cidade chuvosa nortista e indo a um lugar onde as coisas acontecem.
A melodia é interessante também. Eu estava procurando novas combinações de notas marcantes. Tem algo de muito original nela. Uma das minhas canções favoritas da época do meu pai era “Cheek to Cheek”, a canção de Fred Astaire, e eu gosto que o verso “Heaven, I’m in heaven” aparece em duas estrofes e, depois do contraste, o “céu” volta na última estrofe. É uma frase que resume tudo. Era como a nossa casa na Forthlin Road. Você entra pela porta da frente, passa na sala de estar, na sala de jantar, cozinha, corredor e está de volta ao ponto de partida. “I’ll Follow the Sun” também faz isso.
Mesmo se estivéssemos abertos a receber influências, uma das melhores coisas nos Beatles era nossa aversão a nos repetirmos. Éramos moços inteligentes; tédio não era conosco. Quando tocamos em Hamburgo, às vezes tínhamos que preencher um período de oito horas. Tentamos aprender canções suficientes para não precisarmos repeti-las. Algumas bandas tinham só um set de uma hora, folgavam uma hora e depois repetiam o mesmo set. Tentávamos variar, porque decidimos que, caso contrário, simplesmente não sobreviveríamos. Quando voltamos à Inglaterra, tínhamos um vasto repertório, e acho que, quando começamos a fazer discos, essa ideia persistiu. Por que ficar nos repetindo? Por que fazer duas vezes o mesmo disco?
É verdade que, como já falei, existia uma certa fórmula para algumas das primeiras canções – a recorrência de pronomes como “eu”, “você”, “mim”, “dele”, “dela”, “meu”, “ela” –, mas isso era porque queríamos estabelecer contato com os fãs. Criar um vínculo com eles. Mas não eram padronizadas. O que fez dos Beatles uma banda tão sensacional foi a diversidade do repertório: não há duas músicas iguais. É incrível quando você pensa nessa produção. E tem outra coisa. John e eu escrevemos cerca de trezentas canções em sessões que duravam poucas horas ou um só dia, e nunca – nunca mesmo – saímos de uma sessão dessas sem terminar uma canção. Sempre que nos sentávamos para compor, só saíamos dali quando tínhamos uma canção.

Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente

02/06/2026

Chico Chico e Orquestra Sesiminas | Admirável Gado Novo / Toada

A coincidência



Conheceram-se na feira. Jorge estava apoiado no cabo do velho guarda-chuva tentando tirar alguma coisa agarrada à sola do sapato, quando teve sua atenção atraída por uma reclamação:
Puxa, mas o preço do tomate tá uma indecência!
Por uma dessas caraminholas da mente, a soma de tomate e indecência deu, na cuca do Jorge, um resultado bastante diverso do real. Jorge procurou a dona da voz e constatou que todas as besteiras esboçadas no bestunto eram poucas diante daquele — sentiu o cheiro de outra barraca — peixão. Forçando a abordagem, Jorge, que detestava tomate, juntou seus mais veementes protestos aos dela, chegando a fazer uma ridícula imitação de um personagem de tevê:
O tomatal tem que tomatar!
A moça achou graça e Jorge completou com um galanteio na medida:
Mas meu negócio não é número. Meu negócio é me apaixonar de repente — numa feira, por exemplo — e levar meu novo amor pra conhecer meu apartamento, aqui pertinho. Todas ficam amarradas em minha vista pro mar.
A moça, que normalmente repeliria uma entrada de sola, caiu na esparrela:
Seu apartamento tem vista pro mar? Aqui?
Meu apartamento dá pra um terreno baldio. Eu é que dou vista pro mar. Espia bem nos meus olhos: verdinhos, né?
Uma expressão de carinho surgiu no rosto da moça e Jorge sentiu que era só dar mais um pouco de linha antes de usar o cerol. Ficou propenso a utilizar a tática aprendida com a edificante leitura de O Último Tango em Paris: nada de nomes.
A verdade é que o Jorge tinha certa bronca do seu nome:
Jorge Goulart Cauby Peixoto da Silva. O da Silva era de sua mãe, assídua frequentadora da Rádio Nacional nos áureos tempos dos grandes programas de auditório. Mãe solteira, colocara no filho seu modesto sobrenome coroando a fusão dos nomes de seus maiores ídolos. Jorge achava tudo isso meio ridículo e só declarava o nome completo em caso de absoluta necessidade.
E a necessidade surgiu quando a moça, já devidamente cantada, teve um capricho maluco:
Vou, mas quero ver tua carteira de identidade. Você tá escondendo alguma coisa de mim.
Mas, minha flor...
Não tem mas-mas. Ou mostra a carteira ou fica na saudade.
Jorge cedeu. A moça, ao contrário do que Jorge esperava, não riu:
Que estranho! Imagina você que meu pai era assíduo frequentador da Rádio Nacional e...
Aterrorizado, Jorge interrompeu a moça:
Como é teu nome?
Jezebel Conceição de Souza.
Ô mundinho danado de pequeno — pensou o Jorge, de pau, quer dizer, de guarda-chuva na mão.

Aldir Blanc, em Rua dos Artistas e Arredores

Nabucodonosor

O nome de Nabucodonosor é belo como um cortejo religioso. O triste é que os seus súditos, para abreviar, chamavam-no simplesmente de Bubu.

Mário Quintana, em Caderno H

Imaginação

Arte: Caetano Cury

Diário de Bernardo Soares

112.

Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém.
É um conceito nosso — em suma, é a nós mesmos — que amamos.
Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa. O onanista é abjeto, mas, em exata verdade, o onanista é a perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não disfarça nem se engana.
As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha’ complexidade. No próprio acto em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois “amo-te" ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada um quer dizer uma ideia diferente, uma vida diferente, até, porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma abstrata de impressões que constitui a atividade da alma.
Estou hoje lúcido como se não existisse. O meu pensamento é em claro como um esqueleto, sem os trapos carnais da ilusão de exprimir. E estas considerações, que formo e abandono, não nasceram de coisa alguma – de coisa alguma, pelo menos, que me esteja na plateia da consciência.
Talvez aquela desilusão do caixeiro de praça com a rapariga que tinha, talvez qualquer frase lida nos casos amorosos que os jornais transcrevem dos estrangeiros, talvez até uma vaga náusea que trago comigo e me não expeli fisicamente…
Disse mal o escoliasta de Virgílio. É de compreender que sobretudo nos cansamos. Viver é não pensar.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

O Mestre e Margarida — 7


7

Um apartamento sinistro

Se, na manhã seguinte, alguém dissesse a Stiôpa Likhodiêiev: “Stiôpa! Se você não se levantar nesse instante, será fuzilado!”, Stiôpa responderia com uma voz sombria, quase inaudível: “Podem me fuzilar, façam o que quiserem comigo, mas não vou me levantar.”
O problema não era se levantar, mas parecia-lhe que não conseguiria abrir os olhos, porque só de fazer isso um raio cairia e sua cabeça seria dilacerada em vários pedaços. Um sino pesado badalava naquela cabeça, manchas cor de café com bordas verdes e flamejantes flutuavam pelos globos oculares e pelas pálpebras fechadas e, para coroar, ele estava enjoado, e parecia que esse enjoo estava ligado ao som inconveniente de um gramofone.
Stiôpa esforçava-se para lembrar algo, mas só uma coisa vinha à sua mente — aparentemente, ontem, em um lugar desconhecido, ele estava parado com um guardanapo na mão e tentava beijar uma senhora, prometendo-lhe que no dia seguinte, ao meio-dia em ponto, iria visitá-la. A senhora se recusava, dizendo: “Não, não, não estarei em casa!”, mas Stiôpa insistia na sua decisão, obstinado: “Mas eu vou e pronto!”
Stiôpa decididamente não sabia nem quem era a senhora, nem que horas eram agora, nem que dia, nem de que mês, e o pior é que não conseguia sequer reconhecer onde estava. Ele procurou esclarecer pelo menos a última questão, e para isso desgrudou as pálpebras pregadas do olho esquerdo. Algo reluzia levemente na penumbra. Stiôpa finalmente reconheceu o espelho e entendeu que estava deitado de costas em sua cama, quer dizer, na antiga cama da mulher do joalheiro, no quarto. Então sentiu uma dor tão forte na cabeça que fechou os olhos e começou a gemer.
Expliquemos melhor: Stiôpa Likhodiêiev, diretor do Teatro de Variedades, voltou a si de manhã em seu apartamento, aquele mesmo que ele dividia com o falecido Berlioz, num grande prédio de seis andares, localizado na santa paz da rua Sadôvaia.
Deve-se dizer que esse apartamento — o de número 50 — já havia muito gozava de uma reputação, se não má, no mínimo estranha. Dois anos atrás, sua proprietária era a viúva do joalheiro De Fougère. Ánna Frantsiêievna de Fougère, uma senhora honrada de cinquenta anos, muito eficiente, alugava três dos cinco cômodos para inquilinos: um cujo sobrenome, parece, era Bielomút, e outro que tinha perdido o sobrenome.
E então dois anos atrás começaram a ocorrer fatos inexplicáveis no apartamento: as pessoas passaram a desaparecer dali sem deixar vestígios.
Certa vez, num dia de folga, um policial apareceu no apartamento, chamou o segundo inquilino (o que perdeu o sobrenome) até a entrada e disse que ele deveria comparecer à delegacia um minutinho para assinar alguma coisa. O inquilino mandou Anfissa, fiel e antiga empregada de Ánna Frantsiêievna, explicar, caso ele recebesse algum telefonema, que retornaria dali a dez minutos e saiu acompanhado do policial civil de luvas brancas. Porém, ele não só não retornou em dez minutos, como não retornou nunca mais. O mais surpreendente de tudo é que, pelo visto, junto com ele desapareceu também o policial.
Devota ou, para dizer mais francamente, supersticiosa, Anfissa foi correndo contar para a já muito transtornada Ánna Frantsiêievna que aquilo era feitiçaria e que ela sabia muito bem quem tinha levado o inquilino e o policial, só que não queria falar sobre isso na calada da noite.
Bom, com bruxaria é assim, como se sabe; basta começar que depois nada pode detê-la. O segundo inquilino desapareceu, ao que parece, na segunda-feira, e na quarta quem desapareceu como se a terra o tivesse engolido foi Bielomút. Mas isso, na verdade, ocorreu em outras circunstâncias. Pela manhã, como de costume, um carro veio buscá-lo para levá-lo ao trabalho, e de fato o levou, mas não trouxe ninguém de volta, e o próprio carro não apareceu mais.
A aflição e o terror de madame Bielomút eram indescritíveis. Mas, que pena!, tanto um como o outro duraram pouco. Naquela mesma noite, após retornar com Anfissa da datcha, para a qual sabe-se lá por que saiu às pressas, Ánna Frantsiêievna não encontrou mais a cidadã Bielomút no apartamento. E não era só isso: as portas dos dois quartos ocupados pelo casal Bielomút estavam lacradas!
Dois dias se passaram com dificuldade. No terceiro dia, Ánna Frantsiêievna, que estava sofrendo de insônia, foi mais uma vez às pressas para a datcha... e é inútil dizer que ela nunca mais voltou!
Anfissa, que tinha ficado sozinha e chorado tudo o que tinha para chorar, deitou-se para dormir depois da uma da madrugada. Não se sabe ao certo o que aconteceu com ela dali em diante, mas os inquilinos dos outros apartamentos contavam que, durante a noite inteira, teriam ouvido umas batidas no número 50 e que até de manhã teriam visto nas janelas a luz elétrica acesa. Pela manhã, soube-se que Anfissa também havia sumido!
Durante muito tempo, contavam no prédio diversas lendas sobre os desaparecidos e sobre o apartamento maldito, como, por exemplo, que aquela sequinha e beata da Anfissa carregava em seu peito murcho, em um saquinho de couro cru, vinte e cinco diamantes graúdos pertencentes a Ánna Frantsiêievna. Que no depósito de lenha daquela mesma datcha para onde Ánna Frantsiêievna ia às pressas, teriam sido localizados por si só tesouros inestimáveis, na forma daqueles mesmos diamantes, assim como moedas de ouro cunhadas na época do tzar... E outras coisas do mesmo gênero. Bom, não podemos colocar nossa mão no fogo por aquilo que não sabemos.
Seja como for, o apartamento permaneceu vazio e lacrado apenas uma semana, e então mudaram-se para lá o finado Berlioz com a esposa e esse mesmo Stiôpa, também com a esposa. É totalmente natural que, assim que foram parar no apartamento execrado, só o diabo sabe o que é que começou a acontecer com eles. Isto é, num único mês sumiram as duas esposas. Mas elas não se foram sem deixar vestígios. Sobre a esposa de Berlioz contavam que teria sido vista em Khárkov com um certo professor de balé, e a esposa de Stiôpa teria supostamente sido localizada na rua Bojedômka onde, falavam as más línguas, o diretor do Teatro de Variedades, fazendo uso de seus inúmeros contatos, dera um jeito de arranjar-lhe um quarto, mas com a condição de que não pusesse o pé na rua Sadôvaia...
Então Stiôpa começou a gemer. Queria chamar a empregada Grúnia e pedir analgésico, mas sabia que era bobagem. Grúnia não teria analgésico algum, é claro. Tentou pedir ajuda a Berlioz e disse duas vezes, gemendo: “Micha... Micha...”, mas, como vocês já devem ter deduzido, não recebeu resposta. No apartamento reinava um silêncio absoluto.
Mexeu um pouco os dedos dos pés e concluiu que estava deitado de meias; passou a mão trêmula pelo quadril para verificar se estava ou não de calças e não conseguiu. Finalmente, percebendo que estava abandonado e sozinho, que ninguém viria socorrê-lo, resolveu levantar-se, por mais que isso lhe custasse forças sobre-humanas.
Stiôpa desgrudou as pálpebras coladas e viu que se refletia no espelho como um homem de cabelos arrepiados para todos os lados, uma cara inchada e coberta por uma barba preta por fazer, olhos inchados, camisa de colarinho suja, gravata, ceroulas e meias.
Foi assim que ele se viu no espelho e ao lado do espelho viu um homem desconhecido, vestido de preto e de boina preta.
Stiôpa sentou-se na cama e arregalou o quanto pôde os olhos injetados de sangue para o desconhecido.
O silêncio foi quebrado pelo tal desconhecido, que pronunciou as seguintes palavras em voz baixa, pesada e com sotaque estrangeiro:
Bom dia, simpaticíssimo Stepán Bogdánovitch!
Houve uma pausa e depois, com um enorme sacrifício, Stiôpa disse:
O que o senhor deseja? — e surpreendeu-se, pois não reconheceu a própria voz. As palavras “o que”, ele pronunciou em soprano, “o senhor”, em baixo, e “deseja” não saiu de jeito nenhum.
O estranho sorriu, maliciosa e amavelmente, tirou um grande relógio de ouro com um triângulo de diamante na tampa, bateu onze vezes e disse:
Onze! E faz exatamente uma hora que estou sentado esperando o senhor despertar, já que marcou comigo às dez. Aqui estou eu!
Stiôpa procurou as calças tateando a cadeira ao lado da cama e cochichou:
Desculpe... — Vestiu as calças e perguntou, rouco: — Diga-me, por favor, qual é o seu sobrenome?
Estava com dificuldade para falar. A cada palavra alguém enfiava uma agulha em seu cérebro, provocando uma dor infernal.
Como? O senhor esqueceu também o meu sobrenome? — E então o desconhecido sorriu.
Perdão... — rouquejou Stiôpa, sentindo que a ressaca o presenteava com um novo sintoma: pareceu-lhe que o chão ao lado da cama tinha se evaporado e que naquele exato momento ele iria direto para o inferno, para a casa do diabo.
Querido Stepán Bogdánovitch — falou o visitante, com um sorriso perspicaz —, nenhum analgésico ajudará. Siga o velho e sábio conselho: curar o mal com o mesmo mal. A única coisa que o fará voltar à vida são duas doses de vodca com algum tira-gosto picante e quente.
Stiôpa era uma pessoa esperta e, por mais doente que pudesse estar, percebeu que uma vez que o pegassem nesse estado, teria de confessar tudo.
Para dizer a verdade, ontem eu — começou ele, mal conseguindo mover a língua — exagerei um pouco...
Nem mais uma palavra! — respondeu o visitante e afastou-se com a poltrona até o canto.
Stiôpa arregalou os olhos e viu uma pequena mesa posta com uma bandeja, na qual havia pão branco fatiado, caviar prensado em um potinho, cogumelos brancos em conserva em um prato, alguma coisa em uma panelinha e, finalmente, vodca em uma decantadeira robusta que pertencera à mulher do joalheiro. O que mais impressionou Stiôpa foi que a garrafa estava suada por causa do frio. Porém, isso era compreensível, afinal ela estava em uma bacia cheia de gelo. Resumindo, tudo havia sido preparado com asseio e eficiência.
O estranho não deixou a admiração de Stiôpa se desenvolver até um grau doentio e, esperto, serviu-lhe meia dose de vodca.
E o senhor? — piou Stiôpa.
Com prazer!
Stiôpa levou o copinho até os lábios com a mão trêmula, enquanto o estranho engoliu o conteúdo do copo num gole só. Mastigando com vontade um pouco de caviar, Stiôpa arrancou as seguintes palavras de sua boca:
E o senhor, por que não pega... um tira-gosto?
Obrigado, eu nunca belisco — respondeu o estranho e serviu uma segunda dose. Abriram a panelinha e nela havia salsichas com molho de tomate.
Então, o maldito verde diante dos olhos evaporou, as palavras começaram a se articular e, o mais importante, Stiôpa lembrou-se de alguma coisa. Justamente que ontem algo tinha acontecido em Skhôdnia, na datcha de Khustov, autor de esquetes, para onde esse mesmo Khustov levara Stiôpa de táxi. Até lhe veio à mente que, quando pegaram esse táxi perto do Metropol, também estava com eles um ator que não era de meia-tigela... com um gramofone dentro de uma maleta. Isso, isso, isso, foi na datcha! Parecia lembrar, ainda, que cachorros uivavam por causa desse gramofone. Só a senhora que Stiôpa queria tanto beijar continuou sem explicação... vai saber quem diabos era ela... vai ver trabalha na rádio, mas também pode ser que não.
Assim, o dia anterior ia aos poucos se esclarecendo, mas agora Stiôpa estava muito mais interessado no dia de hoje e, em particular, no aparecimento daquele desconhecido em seu quarto e, ainda por cima, com tira-gostos e vodca. Isso sim seria bom explicar!
E então, espero que agora o senhor tenha se lembrado de meu sobrenome?
Mas Stiôpa só sorria, envergonhado, sem saber o que dizer.
Não me diga! Tenho a impressão de que depois da vodca o senhor andou bebendo vinho do Porto! Por favor, é possível uma coisa dessas!
Gostaria de pedir que isso fique só entre nós — disse Stiôpa, com um tom adulador.
Oh, é claro, claro! Mas não preciso nem dizer que não respondo por Khustov!
Mas o senhor por acaso conhece Khustov?
Ontem eu vi esse indivíduo passar rapidamente no seu gabinete, mas basta olhar seu rosto de relance para compreender que ele é um canalha, um fofoqueiro, um oportunista e um puxa-saco.
Exatamente”, pensou Stiôpa, espantado com uma definição tão exata, precisa e concisa de Khustov.
É, os pedaços do dia anterior iam se modelando pouco a pouco, mas mesmo assim a aflição não dava uma trégua ao diretor do Teatro de Variedades. O problema era que um enorme buraco negro se abria nesse dia anterior. Esse estranho de boina, seja como for, Stiôpa realmente não o vira ontem em seu gabinete.
Mestre em magia negra, Woland — disse o visitante com autoridade, percebendo as dificuldades de Stiôpa, e contou tudo em ordem.
Ontem, durante a tarde, ele chegara a Moscou do exterior e, sem demora, surgiu diante de Stiôpa e ofereceu apresentar sua turnê no Teatro de Variedades. Stiôpa telefonou para a comissão de lazer da região de Moscou e resolveu a questão (Stiôpa empalideceu e começou a piscar os olhos), assinou com o professor Woland um contrato que previa sete apresentações (Stiôpa abriu a boca), combinou que Woland viria até seu apartamento às dez horas da manhã de hoje para acertar os detalhes. E então Woland veio. Quando chegou, foi recebido pela empregada Grúnia, que lhe explicou que ela mesma acabara de chegar, que não morava lá, que Berlioz não estava em casa e que se o visitante quisesse ver Stepán Bogdánovitch que fosse ele mesmo até seu quarto. Stepán Bogdánovitch dorme tão profundamente, que ela não se atreve a despertá-lo. Quando percebeu o estado de Stepán Bogdánovitch, o artista mandou Grúnia ao mercado mais próximo atrás de vodca e tira-gostos, à farmácia atrás de gelo e…
Permita-me acertar as contas com o senhor — choramingou Stiôpa, abatido, e começou a procurar a carteira.
Oh, que absurdo! — exclamou o apresentador, e não queria mais nem ouvir falar sobre o assunto.
Então a vodca e os tira-gostos foram esclarecidos, mas mesmo assim dava pena olhar para Stiôpa: decididamente ele não lembrava nada sobre o contrato e podia jurar que não tinha visto esse Woland ontem. Khustov, sim, estava lá, mas Woland, não.
Com sua licença, gostaria de dar uma olhada no contrato — pediu baixinho Stiôpa.
Claro, claro...
Stiôpa deu uma olhada no papel e gelou. Estava tudo certo. Primeiro, a autêntica assinatura espirituosa de Stiôpa! Ao lado, à mão, o endosso torto do diretor financeiro, Rímski, com autorização para liberar ao artista Woland, por conta das sete apresentações, a soma de dez mil rublos do total que lhe é devido de trinta e cinco mil rublos. E tem mais: ali estava o visto de Woland por ele já ter recebido esses dez mil!
Mas o que isso significa?”, pensou o infeliz Stiôpa, e sua cabeça começou a girar. Será que estava começando a ter funestos lapsos de memória?! Mas nem precisa dizer que, depois de o contrato ser apresentado, novas manifestações de admiração seriam simplesmente inadequadas. Stiôpa pediu licença à visita para se retirar por um minuto e, como estava, de meias, correu até o telefone, na antessala. Pelo caminho ele gritou em direção à cozinha:
Grúnia!
Mas ninguém retorquiu. Então, ele deu uma olhada para a porta do gabinete de Berlioz, que ficava ao lado da antessala, e ali mesmo, como se costuma dizer, ficou estarrecido. Ele viu um enorme lacre de cera pendurado na maçaneta da porta. “Pronto!”, rugiu alguém na cabeça de Stiôpa. “Era só o que faltava!” Então os pensamentos de Stiôpa bifurcaram-se por dois caminhos, mas, como sempre acontece no momento de uma catástrofe, em uma única direção, e na realidade, só o diabo sabe para onde. Até mesmo descrever a salada da cabeça de Stiôpa é difícil. Ali estava aquele diabrete de boina preta, a vodca gelada e o incrível contrato e, para completar, faça-me o favor, um selo na porta! Ou seja, se quiserem dizer para alguém que Berlioz andou aprontando, não vão acreditar, juro, não vão acreditar, não! Mas o selo estava lá!
Sim, senhor...
Então começaram a pulular no cérebro de Stiôpa uns pensamentos muito desagradáveis sobre um artigo que, por azar, ele havia pouco impingira a Mikhail Aleksándrovitch para ser publicado na revista. O artigo, cá entre nós, era estúpido! Sem propósito, e o dinheiro, uma mixaria...
Logo depois da lembrança do artigo, pairou a de uma conversa duvidosa, que acontecera, como recordava, no dia vinte e quatro de abril à noite, ali mesmo, na sala de jantar, enquanto Stiôpa jantava com Mikhail Aleksándrovitch. Ou seja, é claro, aquela conversa não podia nunca ser chamada de duvidosa no pleno sentido da palavra (Stiôpa nem começaria uma conversa dessas), mas sim uma conversa sobre algum tema desnecessário. Ele era totalmente livre, cidadãos, para não iniciá-la. Até o selo, sem dúvida, a conversa poderia ser considerada uma verdadeira bobagem, mas depois do lacre...
Ah, Berlioz, Berlioz!”, o sangue subia à cabeça de Stiôpa. “Isso é demais para minha cabeça!”
Mas não havia muito tempo para se lamentar e Stiôpa discou o número do gabinete do diretor financeiro do Teatro de Variedades, Rímski. A situação de Stiôpa era delicada: primeiro, o estrangeiro poderia se ofender porque Stiôpa iria investigá-lo, depois de ter sido mostrado o contrato, além de ser extremamente difícil falar com o diretor financeiro. De fato, não dava mesmo para perguntar desse jeito: “Diga-me, por acaso fechei ontem um contrato de trinta e cinco mil rublos com um professor de magia negra?” Perguntar assim não leva a lugar algum!
Pronto! — soou no fone a voz aguda e desagradável de Rímski.
Olá, Grigóri Danílovitch — começou baixinho Stiôpa —, é o Likhodiêiev. É o seguinte... hum... hum... estou aqui em casa com esse... é... artista, Woland... Então... Bom... eu queria perguntar, e hoje à noite?
Ah, o da magia negra? — retrucou no fone Rímski. — Os cartazes já vão ficar prontos.
A-hã — disse Stiôpa com uma voz fraca —, então até mais...
E o senhor vem logo? — perguntou Rímski.
Daqui a meia hora — respondeu Stiôpa e, pondo o fone no gancho, apertou a cabeça quente com as mãos. Ah, que piada de mau gosto! O que está acontecendo com sua memória, cidadãos? Hein?
No entanto, não convinha permanecer por muito tempo na antessala e Stiôpa na mesma hora traçou um plano: esconder a sua incrível falta de memória de qualquer jeito e, agora, antes de mais nada, como quem não quer nada, arrancar do estrangeiro o que exatamente ele pretende mostrar hoje no Teatro de Variedades, entregue aos cuidados de Stiôpa.
Então Stiôpa virou-se de costas para o aparelho e, no espelho que ficava na antessala e havia muito tempo não era limpo pela preguiçosa Grúnia, viu nitidamente um sujeito estranho — comprido como uma vara, de pincenê (ah, se Ivan Nikoláievitch estivesse aqui! Ele reconheceria esse sujeito de cara!). Ele foi refletido, mas sumiu no mesmo instante. Stiôpa, aflito, olhou melhor para a entrada e perdeu o equilíbrio uma segunda vez, pois um enorme gato preto passou diante do espelho e também sumiu.
Stiôpa ficou com o coração na mão e cambaleou.
Mas o que é isso?”, pensou. “Será que estou enlouquecendo? De onde vêm esses reflexos?” Ele olhou para a entrada e gritou, assustado:
Grúnia! Por que esse gato está perambulando aqui? De onde ele veio? E ainda tem alguém com ele?!
Não se preocupe, Stepán Bogdánovitch — retrucou uma voz, mas não de Grúnia e sim da visita, que vinha do quarto —, esse gato é meu. Não fique nervoso. E a Grúnia não está, despachei-a para Vorônej. Ela reclamou que o senhor se apropriou de suas férias.
Aquelas palavras eram tão inesperadas e disparatadas que Stiôpa achou que estava ouvindo demais. Totalmente transtornado, correu a trote curto até o quarto e postou-se imóvel à soleira da porta. Ficou de cabelos em pé e na testa surgiram pequenas gotas de suor.
O visitante já não estava sozinho no quarto, mas acompanhado. Na segunda poltrona estava sentado aquele mesmo indivíduo que imaginara na entrada. Agora ele estava claramente visível: o bigode-penugem, um vidro do pincenê cintilava, o outro era inexistente. Mas as coisas no quarto se mostraram bem piores: no pufe da mulher do joalheiro, com uma pose petulante, estava estirado um terceiro, justamente — um gato preto de proporções espantosas, com uma dose de vodca em uma das patas e na outra um garfo, com o qual ele conseguira fisgar um cogumelo em conserva.
A luz já fraca do quarto começou a ficar ainda mais lívida aos olhos de Stiôpa. “Então é assim que se enlouquece!”, pensou ele e agarrou-se ao batente da porta.
Estou vendo que o senhor está um pouco surpreso, meu caríssimo Stepán Bogdánovitch? — quis saber Woland de Stiôpa, que estava tiritando os dentes. — No entanto, não há com o que se assombrar. Essa é a minha comitiva.
Então o gato tomou a vodca e a mão de Stiôpa deslizou batente abaixo.
E essa comitiva demanda espaço — continuou Woland. — Por isso, algum de nós está sobrando aqui nesse apartamento. E me parece que é justamente o senhor quem está sobrando!
Eles, eles! — entoou o alto de xadrez com voz de bode, usando o plural para falar de Stiôpa. — De modo geral, eles andam se emporcalhando de maneira espantosa nos últimos tempos. Ficam se embebedando, têm casos com mulheres, valendo-se de sua posição, não fazem absolutamente nada e nem podem fazer nada mesmo, porque não entendem patavina sobre suas responsabilidades. Só sabem deitar terra nos olhos dos seus superiores!
Usa o carro oficial para assuntos particulares! — denunciou o gato, mastigando um cogumelo.
E então aconteceu uma quarta e última aparição no apartamento, enquanto Stiôpa, já deslizando totalmente até o chão, arranhava o batente com a mão enfraquecida.
Diretamente do espelho do aparador saiu um homem pequeno, mas de ombros extraordinariamente largos, de chapéu-coco na cabeça e um canino à mostra, desfigurando sua fisionomia que já era execrável mesmo sem isso, algo sem precedentes. E ainda por cima ruivo, vermelho-fogo.
Eu — entrou na conversa esse novo visitante — de modo geral nem consigo entender como ele foi parar no lugar de diretor — o ruivo ficava cada vez mais fanho. — Se ele é diretor, então eu sou bispo!
Você não se parece com um bispo, Azazello — observou o gato, servindo-se de salsichas.
Mas é isso mesmo que estou falando — esganiçou o ruivo e voltou-se para Woland, com deferência: — Permita-me, meu senhor, expulsá-lo de Moscou e mandá-lo para os diabos?
Chispa!! — rosnou o gato de repente, eriçando o pelo.
Então o quarto começou girar ao redor de Stiôpa e ele bateu a cabeça contra o batente, perdendo os sentidos, e pensou: “Estou morrendo...”
Mas não morreu. Entreabriu os olhos de leve e se viu sentado em cima de algo parecido com uma pedra. Ao seu redor algo marulhava. Quando abriu os olhos devidamente, entendeu que era o mar e que, além disso, as ondas quebravam nos seus próprios pés e que, resumindo, ele estava sentado bem na extremidade de um dique, e que acima dele havia um céu azul reluzente e atrás uma cidade branca nas montanhas.
Sem saber como proceder em tais casos, Stiôpa levantou-se sobre as pernas bambas e caminhou pelo dique até a beira do mar.
No dique havia um homem, fumando, cuspindo na água. Ele olhou para Stiôpa com olhos selvagens e parou de cuspir.
Então Stiôpa fez uma cena daquelas: pôs-se de joelhos diante do fumante desconhecido e pronunciou:
Eu lhe imploro, diga-me, que cidade é essa?
Francamente! — disse o fumante, insensível.
Não estou bêbado — respondeu Stiôpa, rouco. — Aconteceu alguma coisa comigo... estou doente... Onde estou? Que cidade é essa?
Ialta, ora...
Stiôpa suspirou baixinho, caiu de lado, bateu a cabeça contra a pedra quente do dique. A consciência o abandonou.

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida