26/09/2026

João Bosco e Mestrinho | Quando o Amor Acontece

 

A fome

Meu Deus, até que ponto vou na miséria da necessidade: eu trocaria uma eternidade de depois da morte pela eternidade enquanto estou viva.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

Acerto de contas

Zé Lins me disse n’O Globo:
– O José quer te editar.
E foi com José Olympio
que a carreira começou.
Soprou um Vento geral.

No tempo de Ênio Silveira,
homem por demais. Com ele
combati o bom combate.
Cantei no escuro. Deu cárcere.

Abri a porta do exílio,
entrou um moço bonito,
me abraçou: – Vim do Brasil,
quero o seu poema, ele é meu.
Editou os Estatutos
com o galo do Aldemir
anunciando a esperança.
Era o Waldir Martins Fontes,
estrela que não se apaga.

Rosemary Alves me soube.
Seu cocar iluminado
quis meu Canto castelhano.
Não pôde fazer milagre.
De uma vez por todas digo:
fui longe pela mão dela.

Isaac Maciel e Tenório Telles
ressuscitaram o gosto
que Manaus tinha de ler.
Vestiram o Silêncio e palavra,
primogênito meu, de linho branco HJ.
Sérgio Bath mostrou bilíngue
como A Floresta vê o homem.

Não fora o José Reinaldo
com a sua editora Pontes
nenhum leitor ia ver
o Borges na luz de Borges.

Quem primeiro enxergou
e mostrou para a Lily Sverner
a luz da Pátria da Água
foi o André meu Boccato
Com o olho do Marigo
e a graça dos índios Ticunas.

Com Luiz Alves de irmão
(sonhei que ele me esperava),
sigo cantando. Os poetas
da nossa América guardam
seu nome. Quem afinou
os bemóis e sustenidos

dos fonemas castelhanos
foi o Quartim de Moraes.
Sobrou fôlego. A carreira
não se acaba. Fiel a meu rio,
guardo a fé. Como Sou.

Conversei com Paulo, o apóstolo, ele permitiu
que eu me valesse do que falou para Timóteo,
quando fez seu ajuste de contas com a Vida:

Combati o bom combate,
acabei a carreira, guardei a fé.
(Carta a 2 Timóteo 4:7)

Thiago de Mello, em Acerto de contas

Hagar, o Horrível

Diário de Bernardo Soares

132.

Quanto mais contemplo o espetáculo do mundo, e o fluxo e refluxo da mutação das coisas, mais profundamente me compenetro da ficção ingénita de tudo, do prestígio falso da pompa de todas as realidades. E nesta contemplação, que a todos, que refletem, uma ou outra vez terá sucedido, a marcha multicolor dos costumes e das modas, o caminho complexo dos progressos e das civilizações, a confusão grandiosa dos impérios e das culturas — tudo isso me aparece como um mito e uma ficção, sonhado entre sombras e esquecimentos. Mas não sei se a definição suprema de todos esses propósitos mortos, até quando conseguidos, deve estar na abdicação extática do Buda, que, ao compreender a vacuidade das coisas, se ergueu do seu êxtase dizendo “Já sei tudo”, ou na indiferença demasiado experiente do imperador Severo: “Omnia fui, nihil expedit — fui tudo, nada vale a pena.”

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Heróis e Bandidos



Num dia de setembro de 1820 chegou à tristonha Assunção, do Dr. Francia, um prisioneiro ilustre e sexagenário, a quem, entretanto, não se concedera o preito da mais diminuta escolta. Vinha só; passou, a cavalo, pelas longas ruas retilíneas e retangularmente cruzadas entre janelas de grades, à maneira de extensos corredores de uma prisão vastíssima, e descavalgou no largo onde se erige o palácio do governo.
Viu-se então que a idade o não abatia. Num desempenho de rapaz atlético aprumava-se-lhe a estatura elegantíssima entre as voltas do poncho desbotado que lhe desciam até às botas de viagem, flexíveis e armadas das rosetas largas das esporas retinindo ao compasso de um andar seguro.
Grande sombrero de abas derribadas cobria-lhe a meio a face magra; e naquela face rígida, cindida de linhas incisivas e firmes — como se um buril maravilhoso ali rasgasse a imagem da bravura, num bloco palpitante de músculos e nervos — um olhar dominador e duro, velado de tristeza indescritível.
Era José Artigas, o motim feito homem, o primeiro molde dos caudilhos, primeiro resultado dessa combinação híbrida e anacrônica de D. Quixote, do Cid e de Hernani — a idealização doentia, a coragem esplendorosa e o banditismo romântico — indo perpetuar na América a ociosidade turbulenta, a monomania da glória e o anelo de combates que sacrificaram a Espanha do século XVII.
Correra-lhe a vida aventurosa e tumultuária. Chefe de contrabandistas arremessado à ventura pelas coxilhas da Banda Oriental e do Rio Grande, transformara-se logo depois, com o mais doloroso espanto dos quadrilheiros condutícios, em capitão de carabineiros da metrópole que o captara, impondo-lhe o exercitar sobre os antigos sócios de desmandos uma fiscalização incorruptível e feroz, até que se voltasse contra a mesma metrópole, transmudado em tenente-coronel revolucionário, e avantajando-se aos maiores demolidores do antigo vice-reinado, ou se transfigurasse de chofre em general, “Jefe de los Orientales y protector de las ciudades libres”, arremetendo com os irmãos de armas da véspera e destruindo a solidariedade platina, com o afastamento do Uruguai.
Salteador, policial, revolucionário, chefe de governo.. Por fim, caiu. A tática estonteadora quebraram-lha os voluntários reais de Lecor, endurecidos na disciplina incoercível de Beresford; e traído pelos seus melhores sequazes, sem exército e sem lar, errante e perseguido, viera bater às portas do seu mais sinistro adversário, a quem tanto afrontara nas antigas tropelias.
O ditador não lhe apareceu, mas não o repeliu: mandou-o para um convento.
Extraordinário e enigmático Dr. Francia! Este ato denuncia-lhe do mesmo passo a índole retrincada, a ironia diabólica e a ríspida educação política que tanto o incompatibilizava com o heroísmo criminoso daqueles esmaniados cavaleiros andantes da liberdade. Entre o borzeguim esmoedor e a estrapada desarticuladora só lhe dependiam de um gesto todos os requintes das torturas: escolheu uma cela e constringiu ali dentro, entre paredes nuas, sobre alguns metros quadrados de soalho, uma vida que se agitara desafogadamente nos cenários amplíssimos dos pampas.
A vingança era, como se vê, antes de tudo, uma lição duríssima, mas foi improdutiva. Artigas deixara no Estado Oriental o seu melhor discípulo, Frutuoso Rivera, e em torno deste e de seu êmulo e companheiro de armas, Lavalleja, veio desdobrando-se até ao nosso tempo esta interessantíssima farândola de heróicos degenerados, que invadem desabaladamente a história, fugindo da polícia correcional, e vêm desfilando ante a civilização, surpreendida, sob aspectos vários, que vão do astucioso Urquiza a esse desassombrado Aparício, que nesta hora convulsiona todas as paragens entre o Taquarembó e o Salto.
Em todos, uniformes na disparidade dos temperamentos, do sanguinário Oribe ao destemeroso Lavalleja, que nos arrebatou a Cisplatina, os mesmos traços característicos: a combatividade irrequieta, a bravura astuciosa e a ferocidade não raro sulcada de inexplicáveis lances generosos.
Traçar-lhes a história é fazer em grande parte a nossa mesma história militar. Quase toda a nossa atividade guerreira tem tido uma diretriz predominante naquela fronteira perturbadíssima do Rio Grande, há cem anos batida a patas de cavalos, e estirando-se como longo diafragma por onde nos penetra, numa permanente endosmose, o espírito febril da caudilhagem, obrigando-nos por vezes a colaborar também, a pontaços de lanças, naquelas revoluções crônicas e naquele regime clássico de tropelias.
Ali, na longa faixa que se estira de Jaguarão ao Quaraim, o gaúcho resume, na envergadura possante e no ânimo resoluto e inquieto, os traços proeminentes de dois povos. Não há destacá-los às vezes. O bravo e versátil Rivera copia servilmente o versátil e bravo Bento Manoel; Lavalleja, um Bayard vibrátil e volúvel, afeiçoado a todas as temeridades, se acaso o nobilitasse a disciplina, irromperia na figura escultural do primeiro Mena Barreto.
Ainda agora o Aparício oriental tem uma larva, o João Francisco rio-grandense: acorrentai o primeiro num posto sedentário, e tereis o molosso ferocíssimo da fronteira; arremessai o segundo pelo revesso das coxilhas, e vereis o caudilho…
Daí as surpresas que muitas vezes nos saltearam naquelas bandas. Notemos uma, de relance. A Guerra do Paraguai, em que pese aos seus velhos antecedentes, teve, inegavelmente, um prelúdio muito expressivo nas ruidosas “califórnias”, que arrebataram os nossos bravos patrícios aos entreveros entre blancos e colorados. A primeira bandeira que ali congregou brasileiros e orientais foi o pala do general Flores, desdobrado e ruflando nas correrias vertiginosas. E quaisquer que fossem depois os milagres de uma diplomacia que desde 1853 e 1858 vinha lentamente suplantando o malquerer e a vesânia de Lopes, talvez não nô-lo impedisse mais, desde a hora em que os peleadores de um e de outro lado, guascas e gringos, mas uniformemente gaúchos, entrelaçassem, sobre o solo vibrante das campinas, os laços e as bolas silvantes, objetivando a fraternidade sanguinolenta que os atrai àqueles trágicos divertimentos, e às arrancadas súbitas, e às batalhas originalíssimas e minúsculas dispersas em torneios céleres, feitas de perseguições e de fugas, e nas quais raro se queima um único cartucho, porque ao lidador selvagem o que sobretudo apraz é desfechar sobre o contrário os golpes simultâneos de cinco armas formidáveis — a lança e as quatro patas do cavalo…
Ora, esta identidade de estímulos, efeito de antiquíssimo contágio, reveste-nos de importância considerável a situação atual do Uruguai. Entretanto, atraída por outros sucessos, toda voltada para a Amazônia ameaçada, ou para o enorme duelo do Extremo Oriente, a opinião geral mal se impressiona com aquelas desordens. Um ou outro telegrama, impertinente e mal lido, entre outros casos de maior monta, nos denuncia de longe em longe que o caudilho rebelado ainda respira.
A despeito de não sabermos quantas derrotas para logo corrigidas com outras tantas fugas triunfais, rompendo entre as tropas do governo vitoriosas e desapontadas — no “Passo dos Carros”, em Taquarembó, em Daimam, em Salto, em Santa Luzia e em Santa Rosa, na Concórdia, no Aceguai e em toda a parte — a revolta irradia para toda a parte, intangível e invencível, espalhando alarmas desde Montevidéu, inopinadamente ameaçada de um assalto, às remotas povoações e estâncias do interior, de súbito despertadas pelo tradicional ahy vienen! que há um século por ali espalha e atira fora dos lares as gentes retransidas de espanto ante o estrupido dos cavaleiros errantes e ferozes…
Vencido pelo general Moniz desde os primeiros dias da luta; acutilado, e algumas vezes morto a golpes de telegramas; erradio, ou fugindo com os restos de uma tropa desmoralizada, para o abrigo da nossa fronteira salvadora, Aparício Saraiva recorda uma paródia grosseira do herói macabro do Romancero, morto e espavorindo os inimigos.
Pelo menos a sua revolução, tantas vezes destruída e tantas vezes renascente, tem a estrutura privilegiada dos pólipos: despedaçá-la é multiplicá-la.
Ainda neste momento, rijamente repelido do Salto, este combate perdido parece ter tido o efeito único de remontar-lhe a cavalhada, permitindo-lhe a divisão das forças em três corpos, que, dirigidos por ele, por Lamas e Muñoz, vão refluir de novo sobre todo o Uruguai e reeditar a mesmice inaturável das refregas inúteis e das correrias e das derrotas e das eternas vitórias telegráficas — enfeixadas todas numa anarquia deplorável cujo termo e cujas consequências dificilmente se preveem.
Lutas à gandaia, adstritas ao sustento aleatório das estâncias saqueadas, em que o soldado surge pronto de todos os lados, laçando os adversários como laça os touros bravios, combatendo ou “parando o rodeio”, sem notar diferenças nas azáfamas perigosas, elas podem prolongar-se indefinidamente.
Bastam-lhes como recursos únicos alguns ginetes ensofregados e o pampa: a disparada violenta e o plaino desimpedido; a velocidade e a amplidão…
Daí os seus principais inconvenientes. O duradouro dessas desordens à ourela de uma fronteira agitada fez sempre a mais prejudicial dissipação dos nossos esforços e do nosso valor.
Quando se traçar o quadro emocionante das nossas campanhas do Sul, que vêm, desde as arrancadas na colônia do Sacramento, desdobrando-se numa interminável série de conflitos sulcados de armistícios e de desfalecimentos, ver-se-á que aos nossos melhores generais coube sempre o arriscadíssimo papel de uns tenazes e brilhantes caçadores de caudilhos e de tiranos irrequietos.
Felizmente, mudaram-se os tempos.
E certo não mais nos atrairão a dispendiosas aventuras aqueles estonteados heróis, singulares revenants, que nestes tempos de utilitarismo positivo exigem apenas, prosaicamente, e de acordo com a lição memorável de Francia, um termo de bem viver e uma cadeia.

Euclides da Cunha, em Contrastes e Confrontos

25/09/2026

Convergência | Zelitto Coringa, Humberto Luiz e Elilson José Batista

A Contadora de Filmes




[8]

As casas do povoado, como em todos os salitrais do deserto, definiam perfeitamente as três classes sociais que imperavam: as casas de chapas de zinco dos peões, as casas de adobe dos empregados, e os luxuosos chalés dos gringos.
A nossa casa era um barracão de zinco carcomido dividido em três partes. A primeira era a “sala de visitas”, como todo mundo dizia (embora em nossa casa nunca tenha havido visitas). A segunda servia de dormitório, e a terceira parte, a lá do fundo, de cozinha e sala de jantar. No dormitório cabiam exatamente as três camas de ferro forjado que a gente tinha. Numa, dormia meu pai; na outra, meus três irmãos maiores; e na terceira, meu irmão Marcelino e eu.
Eu, virada para a cabeceira; ele, para o pé da cama.
Do maior para o menor, os nomes de meus irmãos eram Mariano, Mirto, Manuel e Marcelino. O meu é Maria Margarita. Como já devem ter percebido, meu pai tinha uma fixação por nomes que começavam com eme. Isso, desde que, segundo ouvi ele mesmo contar certa vez, percebeu que, além dele se chamar Medardo, sua mãe se chamava Martina e seu pai, Magno.
Hoje, acho que a única razão que fez meu pai se casar com minha mãe foi ela se chamar Maria Magnólia. É que eles não tinham afinidade alguma, não se pareciam em nada. Eram feito água e óleo. Além do mais, meu pai tinha uma diferença de vinte e cinco anos a mais do que ela.
“Era assim que se usava antigamente no campo”, ouvi minha mãe dizer, num suspiro de desencanto, quando uma vizinha achou estranho aquele contraste de idades.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

Adeus à roça



No Cancioneiro da Inconfidência, Cecília Meireles descreve a desgraça do negro na cata do ouro. Vou transcrever um pedacinho:

Já se ouve cantar o negro,
Que saudade pela serra!
Os corpos naquelas águas,
As almas por longe terra.
Em cada vida de escravo.
Que surda, perdida guerra!

Faço uma paródia para se aplicar ao meu pai:

O corpo naqueles campos,
A alma por longes terras...

Meu pai perdera a guerra. Testa coberta de suor, foice na mão, ele não queria travar uma batalha com a natureza. Ele não nascera para a agricultura. Não nascera para a solidão dos pastos. Sua alma viajava por outros lugares. O apito das locomotivas, o cheiro do carvão, as viagens, o sacolejar do trem cortando os campos, as estações ferroviárias, os hotéis, a caderneta quilométrica, e ele fazendo a praça, espalhando palavras alegres para convencer os fregueses, o retorno à casa depois do triunfo comercial de cada viagem. Sonhava outra vida. Essa outra vida começava com as locomotivas. Sonhava mudar-se para Juiz de Fora e dizia: “Em Juiz de Fora as rodas das locomotivas são da altura do seu irmão Ivan...” . Eu me assombrava ao ouvir falar dessas coisas que eu nunca vira. Ele abria então a Encyclopaedia no volume XI, “K — Macchabeus”, e me mostrava as fotografias. “Quem inventou a locomotiva foi um inglês chamado George Stephenson”, ele dizia.
Até que chegou um dia quando ele disse: “Vamos nos mudar daqui! Vamos nos mudar para Lambari...” . Não era Juiz de Fora. Para Juiz de Fora o pulo seria muito grande. Era uma cidadezinha pequena, estação de águas, que tinha trem. Eu não me lembro direito do dia da mudança. Lembro-me que me acordaram muito cedo. E eu me espantei ao ver o céu coberto de estrelas. Para mim, menino, céu coberto de estrelas acontecia à noite, quando se ia para a cama. Que estranho! Eu estava me levantando, era manhã, e o céu estava coberto de estrelas!
A mudança foi simples. Não tínhamos móveis. Tudo o que tínhamos cabia numas poucas canastras. Mais o piano, naturalmente. A Encyclopaedia. E a Biblioteca Internacional de Obras Célebres. Umas poucas panelas. Talheres. Louças. Roupas. E foi assim, com o céu coberto de estrelas e o horizonte se avermelhando que eu deixei o mundo onde meus companheiros eram os cavalos, as vacas, as galinhas, os riachinhos e o menino da mata que conversava comigo e me mudei para um mundo desconhecido onde corriam trens de ferro movidos a fogo e vapor…

Rubem Alves, em O Velho que Acordou Menino

Número de emergência

Balcão de companhia aérea. Cliente está sendo atendida.

ATENDENTE Senhora, eu preciso de um número de telefone, para caso aconteça alguma emergência.
CLIENTE Pode ser o meu?
ATENDENTE No caso de um acidente com a senhora, não vai adiantar muito ligar para a senhora.
CLIENTE Ah, tá. Esse número que você quer é para o caso de o avião cair?
ATENDENTE Isso.
CLIENTE É que eu não tinha nem pensado que esse avião podia cair.
ATENDENTE Não vai cair. Mas, caso caia, a gente precisa de um número…
CLIENTE Não dá pra ser o meu? É que tudo sempre acaba voltando pra mim de qualquer jeito.
ATENDENTE Desculpa, mas tem que ser o número de outra pessoa.
CLIENTE Então liga para o meu namorado.
ATENDENTE Telefone?
CLIENTE 9827… Não. Liga não. Que ele nunca atende aquilo lá, só dá caixa postal. Liga pra minha mãe. 9738… Não. Liga não. Que ela é cardíaca e vai cair dura. A não ser que você fale com jeitinho. Você já sabe como é que vai ser a abordagem?
ATENDENTE Não vou ser eu que vou ligar…
CLIENTE Então é melhor não ligar. Liga pra minha irmã. Rita. 7862… Não. Liga não. A Helena vai ficar puta que eu dei o telefone da Rita e não dei o dela. Helena é a outra irmã. Liga pra ela: 8934… Não. Mas aí a Rita é que fica puta. Liga pra Neide. É a empregada. E pede pra Neide ligar pra minha mãe, que a Neide vai saber como falar com ela. A Neide tem muito jeito com a minha mãe. E fala pra Neide pedir pra minha mãe dar a notícia pra Rita e pra Helena ao mesmo tempo, que é pra nenhuma delas ficar puta. Tá anotando?
ATENDENTE Tô tentando…
CLIENTE Não. Apaga. A Neide vai confundir tudo. Liga pro meu namorado mesmo. Ele não vai atender. Mas deixa recado. E pede pra ele ligar pra Neide e explicar pra ela tudo isso que eu te falei. Mas devagar. Não deixa ele ligar pra minha mãe antes de ligar pra Neide que ele mata ela de susto. Eles dois não se dão. Nem deixa ele ligar pra Rita nem pra Helena. E aproveita e diz pra Neide regar as plantas enquanto eu estiver morta. E apagar o meu Facebook senão o Facebook fica me sugerindo de amizade pra pessoas que sabem que eu morri e é a coisa mais constrangedora do mundo. A senha é Senha23 que é a minha Senha de tudo. E já que você tem a minha senha aproveita e libera uns amigos no Candy Crush. Entendeu?
ATENDENTE Acho que sim.
CLIENTE Então repete.
ATENDENTE Olha, vou botar o número da senhora mesmo.
CLIENTE Melhor. Que tudo sempre acaba voltando pra mim de qualquer jeito.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

Desencontrários

Drácula

Quando me encontrei com o Conde Drácula, por uma destas noites de inverno, na Esquina dos Ventos Uivantes, tinha ele o aspecto de um grande guarda-chuva de varetas quebradas. Foi o que eu lhe disse. Ele deu meia-volta e partiu revoando, aos solavancos, decerto para quebrar a cara do diretor do filme... Esses pobres monstros ainda não compreenderam toda a grandeza da sua verdadeira tragédia, que é a tragédia do ridículo.

Mário Quintana, em Caderno H

Parte I | Você trouxe todas as palavras


1.

Acordei com os olhos grudados de lama, o nariz entupido de terra e a boca cheia de areia estralando nos dentes. Alguém me enterrou. Bichos alisavam minha língua, rastejavam pelos ouvidos e por outros caminhos para dentro das carnes. Debaixo do chão era uma agonia gelada, molhada, fedida. Não sentia braços e pernas no breu daquela cova. Perdi a noção do meu corpo, achei que me transformaria em um bicho morto, me desfazendo até virar pó. Ninguém sabe o que fazer na hora da morte.
Quando eu já suplicava pelo fim, o buraco me apertou como uma mão gigante de terra, envolveu meu corpo inteiro e começou a me expulsar. Os olhos lacrados, a hora do parto, a boa hora de Nossa Senhora, as palavras se repetiam no pensamento tomado de desespero.
Comecei a sentir os músculos, ossos, nervos, minha pele toda invadida pelo espírito impetuoso de um parafuso, a forma humana preservada, não virei bicho nem pó. Girava para cima com ritmo e firmeza, sem fazer esforço, na pressão lenta da terra, cada vez mais forte ao redor do meu eixo, apertando dos lados, empurrando no meio das pernas, pelas plantas dos pés. O monstro subterrâneo estava decidido sobre meu destino: queria me expulsar dali.
Dois pares de braços surgiram cavando, falando, abrindo espaço para a luz. Buscavam por mim. Duas mãos encontraram meu pescoço, seguraram pelos lados e puxaram com força. Outro par de mãos agarrou minha cabeça. Ouvia suas vozes apressadas comentando como era pesada, cuidado para o pescoço não quebrar e matar de uma vez, puxe o braço com jeito para não arrancar o ombro, que pele fria, será que a criatura está viva? e se sair morta, o que faremos? deixa de asneira, eles saem vivos sempre, você sabe que é assim.
Os dois mudaram a estratégia e me arrancaram pelas axilas com vigor e gemidos de esforço. Atravessei a terra tossindo muito. É uma rapariga, ela disse. Passou um pano molhado no meu rosto e repetia que estava tudo bem, que era preciso calma, enquanto um homem me enrolava em duas mantas, cobria meus peitos e minhas costas. Eu estava nua, com medo e morrendo de ódio daquela mulher me chamando de rapariga. Um sopro gelado no rosto esfriou as gotas na minha pele e parecia congelar. Ainda não enxergava bem, não ouvia com clareza, achava estranhas aquelas vozes, escutava tudo sem entender nada, delirava sobre morrer.
Voltei a enxergar graças ao zelo dela, limpando minhas pálpebras com muita paciência. Meu corpo estava completamente nu e sem pelos em nenhum lugar. Passei a mão na cabeça e gritei, assustei os dois. Estava careca. Os cabelos ficam no caminho, o chão arranca, a mulher disse, mas logo vão crescer, não te preocupes. Falava o essencial e continuava limpando com cuidado, as orelhas, a pele, o pescoço, o dedo enrolado em um tecido fino cutucava os ouvidos. Suas mãos me devolviam a dignidade, seus olhos não largavam de mim.
De vez em quando ela pedia que eu não ficasse nervosa, que me acalmasse, que me daria sopa com pão, chá quente e boa dormida. Todos vocês chegam com muita fome, depois dormem uns dias, ela disse, quando acordar arranjaremos sua vida, sem susto nem espanto. Não adiantava tentar me acalmar, tudo era puro assombro. Perguntou se eu conseguiria ficar em pé e colocar meus braços sobre os ombros deles. Estava fraca demais. O homem me pegou no colo e me levou até a casa, perto da cova de onde saí.
Tentei falar, mas tossi de novo. Entramos pela porta de trás e fomos direto para um pequeno quarto, ao lado da cozinha. Os dois me deixaram em uma poltrona larga de couro marrom, forrada com alguns lençóis em um local escuro e bagunçado.
Senta-te aqui, fica parada, não sai por enquanto. É preciso permanecer mais ou menos meia hora sentada para que o sangue volte a correr direito pelo corpo e a pressão regularize, o homem explicou nesses termos. Depois deveria tomar banho. Antes de deixar o quarto ele levantou minhas duas pernas e as apoiou em um pequeno banco, também forrado com uns trapos manchados, dizendo que era para ajudar a ativar a circulação. Abriu uma maleta de couro e me examinou com aparatos de médico. Respiração. Lanterna nos olhos e ouvidos. Aperto no braço, na barriga com sua mão fria e avermelhada. Disse que parecia estar tudo bem, por enquanto, só muito suja por dentro, mas iria melhorar com os dias.
A mulher voltou com outra toalha, limpando meus pés. Eu seguia atenta às temperaturas, à benevolência dos exames do doutor, à certeza dos olhos dela. Na parede ao lado da cama havia um batente alto de alvenaria cheio de velas antigas, de cores e de formatos diferentes, ceras derretidas, retorcidas, pavios dormindo. Ela acendeu algumas antes de sair, deixou fogo e luz. Senti cheiro de estrume, passei muito tempo com aquele fedor de enterro por dentro do meu nariz, mesmo dias depois de estar limpa.
Um pouco de chá amargo, um prato de sopa e um pedaço de pão. Foi a primeira refeição que fiz com eles, enquanto me observavam.
— Deixa a chávena aqui na mesa, assim tu tomas a sopa na bandeja com mais jeito.
Eu não sabia o que era chávena. Quase bebi a sopa direto do prato, de tanta fome. Comi o pão de uma vez e ainda tossia, engasgava, mas o desespero pela comida era maior. O chá quente dissolveu a terra da garganta, um alívio.
Agora podes tomar banho, ela autorizou, arrumando na cadeira ao lado da banheira um pijama de flanela azul, de tamanho bem maior que o meu; um par de meias, um vestido preto, um casaco verde, roupa de baixo, um pedaço de sabão. Enquanto eu comia, eles encheram uma banheira com água tão quente que fumaçava, ali dentro do quarto mesmo. Faziam tudo juntos, sincronizados, pareciam treinados para aqueles gestos de cuidar de uma morta-viva. A água caía na banheira de ferro antiga e de pés elegantes. Ao lado havia uma cama e um baú.
— Demora-te no banho, lava as partes todas, esfrega-te com esta esponja. Tenho outras, arranjei um pacote quando soube que tu chegarias, podes usar tudo. Limpa os dentes, é importante tirar a sujeira das gengivas também. Descansa, depois do banho tu podes dormir, a cama está pronta.
Ela adivinhou meu desejo de falar e avisou que não seria bom fazer muito esforço nos primeiros dias.
— Eu sou Florice. Este é o doutor Fernando, meu marido. Ele é médico, saberá fazer o que for preciso para recuperar tua saúde. Depois tu me dizes o teu nome.
Seria impossível descansar com tanto nojo da minha imundície. Tirei os panos de cima de mim e entrei na banheira para passar o frio, o corpo nu, tonto e fraco, sem equilíbrio. Fechei os olhos dentro da água, a perfeição da temperatura, um lago de alívio sob a luz das velas. Parecia lógico e prudente aceitar que algo gravíssimo acontecera. Voltei a achar, dessa vez com calma, que eu estava morta. Alguém me matou e tudo ao meu redor era o além. Então era assim a Morte, uma senhora de olhos azuis chamada Florice, prestimosa, racional, um pouco apreensiva, mas jamais surpresa. Uma aberração surgiu do solo, no quintal, mas isso não alterava sua calma, como se me conhecesse.
Se fosse uma situação real, com pessoas vivas, não sei o que teria sido de mim, onde eu teria sido largada, chamariam a polícia, pensava tudo isso ao mesmo tempo, minha cabeça acelerada. Cheguei a me convencer de que talvez aquilo fosse uma área de transição, um descanso para o que viria depois. Vida e morte são mistérios que ninguém alcança. Tudo o que se fala sobre nascer e morrer é mera aposta. A morte é dolorosa, mas talvez o nascimento seja pior, e minha desgraça estava ali, entre uma coisa e outra.
Era estranho que o corpo doesse tanto, nos músculos, na pele, aquela dor de cabeça, sentir fome, sentir frio, ter a carne tão viva ainda. O desligamento das sensações viria aos poucos, devia ser assim.
Alisei meu corpo com as mãos buscando algo que explicasse o acontecido: tiro, facada, ferida, inchaço, costura, tumor. Achei um corte no braço esquerdo, fundo, do ombro ao cotovelo, e outro no pescoço, e machucados, pontos roxos, arranhões, pancadas. Os cortes maiores não sangravam, mas estavam abertos e com terra por dentro. Ardia. Eu não estranhava minha própria pele. Fui capaz de alguma maneira, apertei minhas coxas, achei tudo forte, farto, os músculos, as carnes, os seios, as pistas eram só essas. A última esperança que tinha era o corpo, minha única posse, mesmo sem saber se eu era só uma sobra de vida que desapareceria com os dias.
Mergulhei. A banheira era larga e funda o suficiente para ficar uns segundos imersa. Foi quando percebi um colar de búzios boiando, preso ao meu pescoço, cheio de areia que saía de dentro das conchas e se dissolvia na água, e que veio comigo não sei de onde, em testemunho de não sei o quê. Recobrei um pouco da lucidez. Até hoje, quando estou confusa, cuido do meu corpo, lavo a cabeça, deixo que a água me ajude a voltar para a minha pele.
A temperatura foi baixando muito rápido e tive de sair da banheira, me enxugar, vestir a roupa, as meias, calçar os estranhos sapatos de esquentar pés e abrir a porta para tentar chamá-la. Havia voz: Florice! Ela veio correndo com o marido e perguntei se eles sabiam como eu morri, se estava mesmo morta, onde era aquele lugar, tudo atropelado.
— Ela fala brasileiro — Fernando disse, sorrindo, pois para ele era boa notícia.
Perguntaram meu nome. Não lembrava. Não havia nenhum registro de resposta nos meus pensamentos para a pergunta que coloca uma pessoa na vida de outra.
Nada aparecia na cabeça, imagem, lembrança, nenhuma pessoa, isso me desesperou e eles disseram que seria melhor dormir, pois a chegada confunde as ideias, no dia seguinte eu lembraria de tudo.
— E se eu não lembrar?
— Todos lembram.

Socorro Acioli, em Oração para Desaparecer

24/09/2026

Erasmo Carlos | Convite Para Nascer de Novo

Calvin

1641 – Lima

Ávila

Interrogou milhares e milhares de índios, sem encontrar um que não fosse herege. Destruiu ídolos e adoratórios, queimou múmias; raspou cabeças e esfolou costas a chibatadas. Em seu caminho, o vento da fé cristã purificou o Peru.
O sacerdote Francisco de Ávila tem sessenta e cinco anos quando vê que as forças o abandonam, anda meio surdo e sente que até a roupa dói; e decide que não se irá do mundo sem conseguir o que vem querendo desde que era menino. Solicita, então, seu ingresso na Companhia de Jesus.
– Não,
responde o reitor dos jesuítas, Antonio Vazquez.
– Não,
porque por mais que diga que é homem douto e grande lenguaraz, Francisco de Ávila representa sua condição de mestiço.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Azo de almirante



Longe, atrás uma de outra, passaram as mais que meia dúzia de canoas, enchusmadas e em celeuma, ao empuxo de remos, a toda a voga. O sol a tombar, o rio brilhando que qual enxada nova, destacavam-se as cabeças no resplandecer. Iam rumo ao Calcanhar, aonde se preparava alguma desordem. De um Hetério eram as canoas, que ele regia. Despropósito? O caso tem mais dúvida.

Eventos vários. Em fatal ano da graça, Hetério sobressaíra, a grande enchente de arrasar no começo de seus caminhos. Fora homem de família, merecedor de silêncio, só no fastio de vi­ver, sem hálito nem bafo. O gênio é punhal de que não se vê o cabo. Não o suspeitavam inclinado ou apontado ao êxito no século.
Na cheia, por chuvas e trombas, desesperara-se o povo, à estraga, em meio ao de repente mar — as águas antepassadas — por cima o Espírito Solto. Hetério teve então a suscitada.
Ajuntou canoas e acudiu, valedor, dado tudo, sabendo lidar com o fato, o jeito de chefe. Ímpetos maiores nunca houve, coisa que parecia glória. Salvou, quantidade. Voltado porém da socorreria, não achou casa nem corpos das filhas e mulher, jamais, que o rio levara.
Não exclamou. Não se pareceu mais com ninguém, ou ébrio por dentro, aquela novidade de caráter. Sacudia, com a cabeça, o perplexo existir, de dó sem parar, em tanta maneira. E nem a bola de bilhar tem caprichos cinemáticos. De modo ou ou­tro, já estava ele adquirindo as boas canoas, de que precisava.
Para o que de efeito. Destruíra-se a ponte da Fôa, cortando a estrada, ali de movimento. Hetério despachou-se para lá, tri­pulantes ele e os filhos, e outros moços, e arranjaram-se ao tra­vessio. Durado mais de ano, versaram aquilo, transpondo gente e carga, de banda para banda. Até cortejos de noivos passaram, sob baldaquim, até enterros, o bispo em pastoral, troços de soldados. Foi tudo justo. Obedeciam os outros a Hetério — o em posição personificada — o na maior, canoa barcaçosa, a caravela com caveiras.
Ao certo, nada explicava, ainda que de humor benigno, homem de cabeça perpétua; cerrando bem a boca é que a gente se convence a si mesmo. Morriam-lhe os inimigos, e ele nem por isso se alegrava, ao menos. Segue-se ver o que quisesse.
A ponte nova repronta, o bom ofício tocava a termo. Heté­rio, entretanto, se reaviara. Descobrira-se, rio acima, uma mu­lher milagreira jejuadora, a quem os crentes acorriam. Vieram também, para passadores, ele e os seus; todo o mundo é, de algum modo, inteligente. Travessavam, com acuração, os peregrinos da santa, aleijados, cegos, doentes de toda loucura e le­pra, o rico triste e o próximo precisado.
Semi-ator, Hetério, em mãos o rosário e o remo amarelo-venado de taipoca, tivesse mudado talvez a lembrança da enchente e de sua ocasião de herói, que já era apenas virtude sem fama, um fragmento de lenda. Ao adiante, assim às águas — outras e outras. No rio nada durava.

Agora, ao pôr-do-sol, desciam as canoas — de enfia-a-fino, serenas, horizonteantes, cheias de rude gente à grita, impelidas no reluzente — de longe, soslonge.

Ainda não.
Seguindo-se antes outros atos. Desaparecida de lá a mulher beata, Hetério com os dele saíram-se imediatamente a mascatear, revendendo aos ribeirinhos mercadorias e miudezas, em faina de ciganos regatões. Sobe e descendo, nessa cabotagem trafegaram até a águas sãofranciscas, ou abocando a outros rios, as canoas mercantes separadas ou juntas, como de estanceio chegaram ao porto de Santo Hipólito e ao Porto-das-Galinhas, abaixo de Traíras, lugares de negócio, no das Velhas, de praias amarelas. Trazia ele então lápis e uma grande caderneta, em que assentava e repassava difíceis contas. Os que o seguiam, pensavam na riqueza.
Daí, vai, começou a construir-se barragem para enorme usina, a do Governo, em tumulto de trabalhadores, mil, totalmente, de dezenas de engenheiros. Rearvorado, logo Hetério lar­gou-se para lá, com seu lóide de canoas. Vales, a bacia, convertiam-se em remanso de imenso lago, em que podiam navegar com favor e proveito. Empreitaram-se, por fim, a contrato daqueles. Máquinas e casas, nas margens, barracões de madeira — e foi que um dos filhos de Hetério o deixou, para namorar e se casar. Hetério, ora, em oferecido tempo, encontrou um Normão, homem apaixonado, na maior imaginação. A paisagem ali tomava mais luz: fazia-se mais espelho — a represa, lisa — que não retinha, contudo, corpos de afogadas.
E esse Normão, propício, queria reaver sua mulher, que o pai guardava, prudente, de refém, na Fazenda-do-Calcanhar, beira­deã. Enquanto anos; e a usina deu-se por pronta. O rio não dei­xa paz ao canoeiro.

Assim ao de longe, contra raso sol, viu-se a fila de canoas, reta rápida, remadas no brilhar, com homens com armas, de Normão, que rumavam a rixa e fogo. Hetério comandava-as, defi­nitivo severamente decerto, sua figura apropriada, vogavante.

Certo, soube-se.
Aproaram aos fundos da do-Calcanhar, numa gamboa, e ata­caram, de faca em polpa. Troou, curto, o tiroteio. Normão, ven­cedor, raptada em paz a mulher, no ribanceiro acendeu fogueira de festa. As canoas todas entanto se perderam. Só na sua, Heté­rio continuou, a esporte de ir, rio abaixo, popeiro proezista, de levada, estava ferido, não a conduzia de por si, vogavagante; e seu outro filho na briga terminara, baleado.
Adiante, no travessão do Fervor, itaipava perigosa, a canoa fez rombo. Ainda ele mesmo virou-a então, de boca para baixo, num completamento. Safo, escafedeu-se de espumas, bra­cean­te, alcançou o brejo da beira, onde atolado se aquietou. Acha­ram-no — risonho morto, muito velho, velhaco — a qua­li­dade de sua pessoa.

Guimarães Rosa, em Tutameia

Preste atenção!

Quando discursarem, preste atenção ao que é dito e observe o que é efetuado a cada impulso. A priori, veja imediatamente o intuito por trás do que dizem. A posteriori, considere com cuidado o que querem dizer.

Marco Aurélio, em Meditações

Correnteza


5

“O pessoal está falando do menino, Rita.”
Rita Preta ouve a voz de Fátima. Emudece ao telefone. O mesmo arrepio que percorreu seu corpo dias antes a eletriza com intensidade. Quer saber o que aconteceu com o filho. “A polícia”, Fátima responde. Como de costume, escutou quando chegou do trabalho mais cedo. Ouviu o burburinho ao tentar encurtar o caminho passando pela rua de cima. Dona Conceição, uma senhora que mora perto da entrada da vila, ouviu de alguém, que por sua vez ouviu dos meninos que brincavam de futebol na rua. Quando seu Aranha passou pelo mesmo caminho uma hora depois, a mulher comentou com ele “à boca miúda”, para não causar alvoroço e ser chamada de X-9. De pronto, ele se dirigiu à casa de Rita Preta, mas não encontrou ninguém. Os filhos estavam na escola. Enquanto seu Aranha batia na porta de Rita, Fátima abria o portão de ferro para entrar em sua casa, com os cachorros festejando sua chegada. “É com Rita? É urgente?”, quis saber. O pedreiro se pôs a falar com reserva, receoso da lei que rege a comunidade. Tem as roupas sujas de cimento, está trabalhando na construção de um muro e, apesar da fama de bêbado, aparenta estar sóbrio. Mesmo sem querer se intrometer, decidiu procurar por Rita. Algo o toca naquela história: pensa nos próprios filhos e gostaria que lhe informassem se algo parecido acontecesse.
Procurou Rita porque ela era a mãe. Saberia o que fazer.
Fátima se certificou de que estava sozinha, com portão e porta fechados e de que ninguém a observava. Queria ter certeza de que não seria ouvida. Telefonou para Rita Preta, uma, duas, três vezes.
O telefone vibrou de forma insistente no bolso da calça. Rita está em seu turno no supermercado e registra item por item de uma compra. Depois de duas noites sem dormir, estava insustentável esconder dos colegas na loja seu cansaço e o tormento que a acompanha desde que o filho não voltou para casa. Ao finalizar aquela tarefa, equilibrando o inventário com a disposição dos itens em oito sacolas plásticas, ela retirou o telefone do bolso como se fosse se certificar da hora. Viu as chamadas de Fátima. “Deve ser urgente”, pensou, “ela quase não me telefona.” Precisa deixar o caixa para tentar falar com a comadre e saber do que se trata. Um fio de esperança indica que Cid voltou para casa. Ela pediu à supervisora para ir ao banheiro e aguarda por exatos quinze minutos para a plaquinha “caixa encerrado” ser colocada na esteira.
“Como assim a polícia? O que ele fez?”
Fátima fica muda, não sabe o que responder. Diz que seu Aranha não contou mais nada. Evoca os medos de Rita ao dizer que todos temem os “caras” e a polícia.
Contudo, apesar da aflição inicial, Rita Preta deixa crescer um sentimento de raiva pelo filho. Se pergunta sobre o que ele deve ter aprontado para ter sido levado à delegacia. Enumera seus problemas: faltar às aulas, o namoro, ficar de bobeira pela rua. Conclui que deve ter aprontado algo. Em meio ao turbilhão, desperta para o fato de que precisa deixar o supermercado naquele instante. Por vergonha, omitirá que Cid foi levado pela polícia e que precisa deixar o trabalho em busca de informações. Rita Preta então alega um mal súbito, enjoo e indisposição que só poderiam ser resolvidos num posto de saúde.
“Temos uma farmacinha no RH”, escuta da supervisora. Não resolveria nem uma fração de sua angústia no setor de recursos humanos — só se ganhasse na loteria dinheiro suficiente para ir até lá pedir demissão. Então, Rita finge tontura e esbarra de maneira proposital no extintor de incêndio. A supervisora é chamada de novo e a olha de cima a baixo. Rita Preta transpira mais que o normal, passa uma toalhinha no rosto. A supervisora decide liberá-la, fazendo contudo um breve histórico da falta de funcionários na equipe. Precisará encerrar o caixa que Rita opera naquele turno, já que não há substituto para o trabalho. Pede que Rita registre a saída antecipada no relógio de ponto e enfatiza que terá que voltar com um atestado médico.
Rita aparenta estar agradecida, mas em pensamento manda a mulher para um lugar sujo e lhe deseja o pior. Sai em disparada pelo salão do supermercado para pegar sua bolsa no armário individual. Não passa no vestiário para retirar o uniforme e deseja nunca mais voltar. Na portaria, abre a bolsa para que o segurança possa revistá-la e ter certeza de que não está levando algo da loja, enquanto ela própria observa ao seu lado uma pequena fila com três homens, o primeiro em posição de revista, braços abertos e pernas esticadas, sendo examinado por outro segurança.
Rita se dirige de imediato para o ponto de ônibus e, enquanto aguarda, decide telefonar para Jorge. Não faz ideia de onde ele esteja. Estiveram juntos há dois dias e recorda apenas que combinaram de se encontrar dali a uma semana. Sabe que se estiver com a mulher e os filhos não atenderá o telefone nem chamará de volta na hora. Se estiver dirigindo o caminhão na estrada, talvez atenda, mas pouco poderá fazer. Por sorte, ele atende. Está abastecendo o veículo.
“Levaram o menino.”
“Que menino?”
“Levaram Cid. Faz dois dias que ele não dorme em casa. Estão dizendo que foi a polícia.”
“O que ele aprontou?”
Rita se dá conta de que talvez tenha se precipitado ao telefonar para Jorge. Ele não pode fazer nada e ainda se acha no direito de duvidar de Cid — “O que ele aprontou?”. Ela é mãe e conhece bem cada um dos filhos — ou pelo menos acha que os conhece —, mas apenas ela poderia duvidar deles. Não admitiria que ninguém sugerisse algum desvio.
Uma hora e meia se passa no trajeto do supermercado até sua casa. Rita anda por ruas e vielas sem levantar a cabeça. Passa também por Fátima, que abre a porta no exato instante em que a comadre chega. Diz algo de que já não consegue se lembrar no segundo seguinte. Rita Preta entra em casa e encontra Juca escutando música no celular. Puxa os fones que ele tem no ouvido de forma abrupta, enquanto caminha para a cozinha. Pergunta se ele ouviu falar algo sobre o irmão. Não, foi a resposta. Vê a louça suja na pia, mas não consegue praguejar ou amaldiçoar a vida como faria num dia qualquer. Segue para o quarto sem janelas onde os filhos dormem e tudo está desarrumado, como sempre. Camas desfeitas, uniformes escolares dispostos numa cadeira de plástico branca ao lado da cama. Menos a de Cid. Rita Preta precisa pensar rápido por onde começar. Decide se dirigir à escola, ainda que não tenha certeza de que será atendida. Fátima continua na porta, à sua espera. Pergunta se ela precisa de ajuda e, mesmo sem resposta, se junta a Rita naquele início de busca.
“Se esse menino fez coisa errada, Fátima, ele vai me pagar.”

Em que momento — em que fração de tempo, em que ponto do espaço — o corpo de Rita foi atravessado por um arrepio? Talvez tenha sido caminhando pelos becos estreitos enquanto as sombras dos sobrados sem reboco se projetavam no chão. Ou ao chegar ao ponto de ônibus e ser tomada de assalto pela dúvida, se tinha ou não trancado a porta de casa para impedir um furto ou algo pior. Talvez tenha sido ao recordar que não passara no quarto sem janelas para se certificar de que os filhos dormiam e saber se haviam retornado para casa. Ou ainda foi quando disse sem motivo aparente, “Meu Deus”, distraída de tudo, mas surpreendida por um sopro carregado de sentidos capazes de fazer estremecer qualquer coisa viva.
A razão desse arrepio foi tragada pelas distrações de um dia comum: pelo barulho do velho motor do ônibus apinhado de gente, vencendo as lombadas no asfalto e fazendo com que os corpos se movimentassem mais do que deveriam; o telefonema que não foi atendido e a imaginação vagando à procura do que o amante estaria fazendo naquele instante; as contas das despesas domésticas que nunca fecham no fim do mês. A recordação desse leve tremor foi ofuscada pela velocidade da caminhada de Rita e pelo cartão de registro de ponto do supermercado. A memória do arrepio foi obliterada pelas máquinas registradoras e pela esteira rolante emperrada com as compras dos clientes. Pelos conflitos e queixas compartilhados com os outros trabalhadores. Pelos clientes que exigiam as compras ensacadas com zelo e rigor, e por sua supervisora pedindo mais celeridade no escaneamento dos alimentos. Pela repetição sem fim dos movimentos que a faziam se sentir distante da terra, um pássaro sem local para pousar.
Não saberia mais dizer se foi depois do arrepio que pediu para ir ao banheiro e esperou com paciência por minutos a fio. Se foi depois de lavar o rosto e escapar para a área de desembarque de mercadorias onde havia um telefone público sem uso. Com certeza, isso ocorreu antes de telefonar de volta para Fátima, e depois para Cainho, e, por fim, para o número de telefone de Cid que permanecia desligado.
Contudo, o mal-estar veio junto com a sensação de que o chão sob seus pés desmoronava. Rita já tinha experimentado aquela agitação outras vezes, uma combinação de aflição e de espanto. A primeira foi quando sua mãe saiu de casa dizendo que iria trabalhar na cidade e que voltaria quando encontrasse um lugar para abrigar os filhos. Nunca mais voltou. Aquela ausência fez Rita encontrar seu primeiro desamparo. Depois, o rio, a morte, e a vida se segurando numa ilha de mato, resistindo à correnteza brutal. A segunda foi quando uma mulher bem-vestida apareceu à porta da casa da fazenda, a casa perdida num grotão do campo vasto, onde o vento se transmutava em sons e as folhas dos juazeiros resistiam, formando uma sinfonia com os chocalhos das mirradas reses. Rita seria levada para trabalhar na cidade. Mas, por ironia, no dia em que ela deixou a casa onde havia morado desde o nascimento, o vento era uma aragem e as folhas das árvores permaneciam imóveis e o gado jazia morto e sem os sons de seus chocalhos. Semanas antes, sua avó Carmelita havia amaldiçoado o rio, e depois de sua partida salgaria a terra, deixando que o céu desabasse sobre sua existência.
A terceira vez era o agora, a memória se fazendo no exato instante em que as coisas estão acontecendo. Foi quando chegou a casa onde vivia, incrustada no apinhado de outras casas na cidade. Anos e anos separam o primeiro evento desse outro, mas o sentimento de que o chão sob seus pés continua instável permanece o mesmo.
Todas as vezes anteriores que o chão parecia ter ruído sob seus pés vagavam longe em sua memória. Converteram-se em pequenos abalos diante da magnitude dos novos eventos.

Na escola, ela busca por informações sobre os passos do filho. Precisa falar com algum responsável, no entanto não consegue encontrar ninguém. Em sua cabeça vagueiam mil situações sobre o que poderia ter acontecido a Cid. Em seu rosto ainda não há tristeza, tampouco revolta. Não há lágrima nem hesitação. Há apenas uma mãe querendo desfazer um mal-entendido e disposta a negociar com qualquer pessoa uma reparação pelo erro cometido. Depois ela mesma cuidaria da punição, exerceria ainda mais controle sobre os filhos, tentaria mantê-los no “rumo certo”, como as mães que conhece costumam se referir ao caminho de renúncia do que não se tem.
A inquietação se instaura no peito de Rita Preta, impedindo-a de esperar pelos funcionários da escola. Ela se exalta e reclama para o segurança. O homem continua imóvel, apenas escuta, mas parece concordar. Rita levanta a voz e diz que sempre que necessita de algo da escola é preciso esperar bastante tempo. Sai a passos firmes. Fátima apenas a segue. Ela se dá conta da companhia e pergunta de novo onde ele estava quando foi levado.
“Na saída da vila, antes de chegar ao largo.”
Rita saiu com tanta pressa que não tirou o uniforme amarelo do trabalho. Transpira, e por isso pega uma pequena toalha para enxugar o suor que tem no rosto. É uma noite sem vento e o céu está coberto de nuvens. Um estágio do tempo chamado de mormaço; umidade e calor intensos anunciando chuva nas próximas horas. É o momento de maior movimento diário na rua, quando os trabalhadores estão voltando para casa.
Dona Conceição deixa o interior da sua casa com telhado de amianto e um bom tanque de policarbonato para armazenar água. Encontra Rita e Fátima à sua porta. Repete o que foi dito por seu Aranha.
“A senhora se lembra quem eram os meninos que disseram que a polícia levou Cid?”
“Uns meninos que jogam bola na rua de baixo. Eles passam sempre por aqui, mas não sei o nome de ninguém.”
É como se cada passo, cada pergunta, cada rosto novo en­contrado fosse levá-la a uma revelação, que por sua vez a conduziria para mais perto ou mais longe do filho. Rita Preta continua sua caminhada disposta a perguntar sobre o ocorrido a quem encontrar durante o trajeto, antes de procurar de novo a delegacia para relatar o desaparecimento e a suposta abordagem. Acelera os passos e diz a Fátima para não se preocupar, ela pode voltar para casa. A comadre conhece bem as qualidades e os defeitos de Rita, por isso finge não escutar, apenas a acompanha. Elas passam por uma calçada rente a um muro que cerca uma casa desconhecida. Rita olha para um tecido branco em destaque, hasteado como uma bandeira na altura de seus olhos. Se afasta para não esbarrar no objeto, mas ao chegar mais perto descobre que é uma camisa de uniforme escolar. Como a da escola dos filhos.
Na camisa está uma nódoa conhecida, uma mancha de caneta que nenhum alvejante conseguiu retirar.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo