05/10/2026
1641 – Madrid
A eternidade contra a história
O conde-duque de Olivares morde os
punhos e amaldiçoa baixinho.
É muito o que manda, depois de vinte
anos de tanto fazer e desfazer na corte, mas mais forte pisa Deus.
A Junta de Teólogos acaba de rejeitar
o projeto de canalização dos rios Tejo e Manzanares, que tanto bem
faria para os páramos de Castilha. Os rios ficarão como os fez
Deus, e ao arquivo irão os projetos dos engenheiros Carducci e
Martelli.
Na França anunciam que logo se abrirá
o grande canal do Languedoc, para unir o Mediterrâneo com o vale do
Garona. Enquanto isso, nesta Espanha que conquistou a América, a
Junta de Teólogos decide que atenta contra a Divina Providência
quem tenta melhorar o que ela, por motivos inescrutáveis, quis que
seja imperfeito. Se Deus quisesse que os rios fossem navegáveis, os
teria feito navegáveis.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
Classe
Não estou certo da localização.
Algum lugar a nordeste da Califórnia. Hemingway recém acabara um
romance, vinha da Europa ou de lá sei onde e estava no ringue
lutando contra alguém. Havia jornalistas, críticos, escritores –
aquela tribo – e também algumas jovens senhoritas sentadas nas
cadeiras próximas ao ringue. Sentei na última fileira de cadeiras.
A maioria das pessoas não estava observando Hemingway. Estavam
conversando umas com as outras e rindo.
O sol estava alto. Era alguma das
horas do início da tarde. Eu observava o Ernie. Já tinha derrotado
o adversário, estava brincando com ele. Distribuía jabs e
cruzados à vontade. Então colocou o adversário no chão. As
pessoas os olhavam. O oponente de Hemingway levantou-se quando a
contagem chegou ao oito. Hemingway foi na direção dele, então
parou. Ernie tirou seu protetor bucal, riu e despachou o oponente com
um aceno de mão. Foi uma vitória fácil. Ernie caminhou para o seu
corner. Reclinou a cabeça para trás e alguém espremeu água
em sua boca.
Levantei da minha cadeira e caminhei
lentamente pelo corredor entre os assentos. Aproximei-me, espichei a
mão e chamei-o com um cutucão.
– Sr. Hemingway?
– Sim, o que é?
– Gostaria de lutar com senhor.
– Você tem alguma experiência no
boxe?
– Não.
– Então vá arranjar alguma.
– Estou aqui para quebrar a sua
cara.
Ernie riu. Disse para o sujeito no
corner:
– Arranje calções e luvas para o
garoto.
O sujeito pulou para fora do ringue, e
eu o segui pelo corredor entre as cadeiras até o vestiário.
– Você está louco, garoto? – me
perguntou.
– Não sei. Acho que não.
– Aqui. Experimente esses calções.
– Ok.
– Ih... está muito grande.
– Foda-se. Vai assim mesmo.
– Ok, deixe-me colocar a faixa nas
suas mãos.
– Sem faixas.
– Sem faixas?
– Sem faixas.
– Que tal um protetor bucal?
– Sem protetor.
– Vai lutar com ele usando esses
sapatos?
– Lutarei de sapato.
Acendi um charuto e o segui até o
ringue. Caminhei pelo corredor fumando o charuto. Hemingway subiu
novamente no ringue e colocaram as luvas nele. Não havia ninguém no
meu corner. Finalmente alguém chegou e colocou as luvas em mim.
Fomos chamados ao centro do ringue para receber instruções.
– Quando você partir para um clinch
– disse o juiz –, eu vou...
– Não uso o clinch – eu
disse ao juiz.
Ele seguiu dando outras instruções.
– Ok. Voltem para seus corners.
Quando o gongo soar, lutem. Que vença o melhor homem. E – ele me
disse – é melhor você tirar o cigarro da boca.
Quando o gongo soou, comecei com o
charuto ainda na boca. Puxando uma boa baforada, soprei a fumaça na
cara de Ernest Hemingway. A multidão riu.
Hem avançou, soltou um jab e
um gancho e errou os dois. Eu tinha os pés rápidos. Ginguei um
pouco, avancei, tap tap tap tap tap, cinco jabs de esquerda no
nariz do papai. Dei uma olhada em uma garota da primeira fila, uma
coisinha muito bonita, e então Hem acertou uma direita, tirando o
charuto de minha boca. Senti minha boca e minha bochecha queimarem e
tirei as cinzas quentes. Cuspi a bagana e acertei um gancho na
barriga de Ernie. Ele soltou um gancho com a direita e me pegou na
orelha com uma esquerda. Abaixou-se para se esquivar da minha direita
e me acertou uma saraivada, levando-me até as cordas. Justo quando
soou o gongo, ele soltou uma sólida direita no meu queixo. Levantei
e caminhei para o meu corner.
Um sujeito apareceu com um balde.
– O sr. Hemingway quer saber se você
gostaria de lutar mais um round – o sujeito me perguntou.
– Diga ao sr. Hemingway que ele teve
sorte. Entrou fumaça nos meus olhos. Mais um assalto é só do que
preciso para terminar o serviço.
O sujeito com o balde foi até lá e
eu podia ver Hemingway rindo.
O gongo soou e eu saí rapidamente.
Comecei soltando a mão, não com muita força, mas com boas
combinações. Ernie recuou, errando seus socos. Pela primeira vez vi
dúvida em seus olhos.
“Quem é esse garoto?”, ele devia
estar pensando. Encurtei meus golpes, acertei-o com mais força.
Acertei cada golpe. Cabeça e corpo. Combinações variadas. Boxeei
como Sugar Ray e bati como Dempsey.
Coloquei Hemingway contra as cordas.
Ele não tinha como cair. Cada vez que ele começava a cair para
frente, eu o endireitava com outro soco. Era assassinato. Morte na
tarde.
Dei uma passo para trás e o sr.
Ernest Hemingway caiu para frente, nocauteado.
Desamarrei minhas luvas com os dentes,
tirei-as e saltei para fora do ringue. Caminhei para o meu vestiário,
quero dizer, o vestiário de Hemingway, e tomei um banho. Bebi uma
garrafa de cerveja, acendi um charuto e sentei na ponta da mesa de
massagem. Trouxeram Ernie carregado e o colocaram na outra mesa. Ele
ainda estava fora do ar. Continuei sentado ali, pelado, observando-os
enquanto se preocupavam com Ernie. Havia mulheres na sala, mas não
dei atenção. Então um sujeito veio até mim.
– Quem é você? – perguntou. –
Qual o seu nome?
– Henry Chinaski.
– Nunca ouvi falar – ele disse.
– Vai ouvir – eu disse.
Todos vieram me cercar. Ernie foi
deixado sozinho. Pobre Ernie. Todos ao redor de mim. As mulheres
também. Nenhuma em especial me chamava a atenção, com exceção de
uma delas. Uma mulher muito classuda me olhava de cima a baixo.
Parecia ser uma mulher da sociedade, rica, educada e todo o resto...
bom corpo, boa cara, boas roupas, tudo aquilo.
– O que você faz? – alguém me
perguntou.
– Trepo e bebo.
– Não, não, quero saber qual a sua
ocupação?
– Lavador de pratos.
– Lavador de pratos?
– Sim.
– Você tem algum passatempo?
– Bem, não sei se dá para chamar
de passatempo. Escrevo.
– Escreve?
– É.
– O quê?
– Contos. Coisa fina.
– Já foi publicado?
– Não.
– Por quê?
– Não mandei para ninguém.
– Onde estão seus contos?
– Ali – apontei para uma pasta
rasgada.
– Escute, sou um crítico do New
York Times. Você se importa se eu levar suas histórias para
casa e as ler? Vou devolver.
– Por mim tudo bem, cara, mas não
sei onde estarei.
A mulher de classe deu um passo à
frente.
– Ele estará comigo.
Então ela disse:
– Vamos, Henry, vista suas roupas. É
uma longa viagem e temos algumas coisas para... conversar.
Vesti-me e então Ernie voltou a si.
– O que raios aconteceu? – ele
perguntou.
– Você encontrou um sujeito muito
bom, sr. Hemingway – alguém lhe disse.
Acabei de me vestir e fui até onde
ele estava.
– Você é bom, papai, ninguém
ganha todas – apertei sua mão. – Não vá estourar os miolos.
Saí com a grã-fina, e entramos em um
carro conversível amarelo que tinha o comprimento de meio
quarteirão. Ela dirigia com o pé no fundo e fazia as curvas
derrapando e cantando os pneus e sem nenhuma expressão no rosto.
Isso era classe. Se ela amasse como dirigia, seria uma noite e tanto.
O lugar ficava em cima das colinas,
afastado de tudo. Um mordomo abriu a porta.
– George – ela lhe disse –, tire
a noite de folga. Não, pensando melhor, tire a semana de folga.
Entramos, e havia um sujeito grande
sentado em uma cadeira com uma bebida na mão.
– Tommy – ela disse –,
desapareça.
Seguimos pela casa.
– Quem era o grandão? – perguntei
a ela.
– Thomas Wolfe – ela disse. – Um
tédio.
Ela parou na cozinha para pegar uma
garrafa de uísque e dois copos. Então disse:
– Vamos.
Segui-a para o quarto.
Na manhã seguinte o telefone nos
acordou. Era para mim. Ela me alcançou o telefone, e me sentei ao
lado dela na cama.
– Sr. Chinaski?
– Sim?
– Li suas histórias. Fiquei tão
entusiasmado que não pude dormir de noite. Você é certamente o
maior gênio da nossa década!
– Só da década?
– Bem, talvez do século.
– Assim está melhor.
– Os editores da Harper’s e da
Atlantic estão aqui comigo. Você pode não acreditar, mas cada um
dele aceitou cinco histórias para publicação futura.
– Acredito – eu disse.
O crítico desligou. Deitei. A mulher
de classe e eu fizemos amor mais uma vez.
Charles Bukowski, em Ao Sul de Lugar Nenhum
O terror
E havia luz demais para seus olhos. De
repente um repuxão; ajeitavam-no, mas ele não sabia: só tinha
mesmo era o terror de rostos inclinados para o seu. E ele não sabia
de nada. E não podia se mexer livremente. As vozes que para ele eram
trovões, só uma voz era cantante: ele se banhava nela. Mas logo em
seguida era depositado e vinha o terror e ele gritava entre as grades
e viu cores que depois ele entendeu que eram azuis. O azul o
molestava e ele chorava. E o terror das cólicas. Abriam-lhe a boca e
depositavam coisas ruins na boca, ele engolia. Quando era a voz
cantante que lhe dava coisas ruins, ele suportava melhor. Mas era
logo depositado entre as grades. Sombras gigantescas rodeavam-no. E
então ele gritava. A mínima luz de tudo isso é que ele acabara de
nascer. Tinha cinco dias de nascido.
Depois de mais velho ouviu sem
entender: “Este menino já não dá trabalho mas quando nasceu dava
choros e urros. Agora felizmente é mais fácil de criá-lo.” Não,
não era fácil, nunca seria fácil. O nascimento era a morte de um
ser uno se dividindo em dois solitários. Agora parecia fácil porque
ele aprendera a manejar o seu terror secreto que duraria até a
morte. Terror de estar na terra, como uma saudade do céu.
Clarice Lispector, em Todas as crônicas
Parte I – Você trouxe todas as palavras
2.
A casa era um depósito dos vestígios
de muitas vidas. Diante da porta do quarto, havia uma sala pequena.
Das marcas retangulares nas paredes imaginei os quadros. Uma máquina
de costura em silêncio, uma cadeira sem assento e uma espessa camada
de poeira, que denunciava abandono. Um piano de madeira escura servia
agora apenas como a prateleira de retratos desbotados de casais,
mulheres, homens, crianças que partiram deste mundo muitos anos
antes.
Ao lado vi outra sala, um pouco menos
suja. E vi Fernando. A mesa posta contrastava com o cenário ao redor
porque, no meio dela, havia uma flor. Uma garrafa branca com água e
uma rosa amarela de Almofala, como eu saberia depois. Um dos dois
saiu no frio para buscá-la e dar outra ordem ao lugar do nosso
pequeno-almoço.
Florice estava cozinhando enquanto uma
mulher cantava no rádio. Fernando puxou uma cadeira para mim. A
menina conseguiu descansar? Sentiste alguma dor na cabeça, no corpo,
estás bem? O sono foi reparador, sim, mas não resgatou nenhum traço
de memória. Ele perguntaria isso a seguir e já adiantei que não
recuperei nada.
Interrompeu o exame, mudou de assunto,
alinhou a colher com a mão direita, o garfo com a esquerda e contou
que o capricho da mesa era graças a uma mala de apetrechos trazidos
pela esposa. Toalha de mesa, copos, chávenas, pratos, talheres, tudo
era deles. Florice só sabe estar cercada de beleza, ele disse, só
anda com as coisinhas dela. Os dois perfumados, penteados,
bem-vestidos. Especialmente ele, Fernando, e sua inabalável
elegância e olhar sempre atento a todos os meus gestos. Não era só
cuidado; havia curiosidade e um pouco de medo, um sentido de alerta.
As bagagens estavam no chão, uma mala
aberta e outra fechada. Perto delas, um pacote enrolado com plástico
preto e barbante, em cima de um cobertor dobrado, parecia um bebê
morto e preparado para um enterro. Não tive tempo de perguntar o que
era, nunca esqueci a sensação que me causou aquele embrulho,
aterrorizante como um choque frio. Durou segundos minha vista ali,
logo Florice encheu minha xícara de café e o cheiro me acordou. Só
depois de tomar metade e de comer algo comecei a falar e a fazer
perguntas: como fui parar naquele lugar, o que aconteceu, se eu
estava morta, se ela era a Morte e ele era Deus, ou a Morte e seu
auxiliar. Os dois riam, achavam divertida a minha confusão. Até que
veio a sentença:
— Você trouxe todas as palavras.
Foi Fernando quem disse. Perguntei de
novo o que tinha acontecido comigo e Florice foi direta: sabemos
muito pouco sobre isso, só recebemos o aviso de que alguém chegaria
no chão deste lugar, e foi preciso correr para o teu resgate. De
repente estávamos concentrados em falar a sério sobre todo aquele
absurdo.
— E como vocês souberam?
— Recebemos um telefonema.
— E o que disseram de mim? Não
explicaram nada?
— Nada. Foi uma conversa breve.
Mandaram que viéssemos à Almofala, esta aldeia, buscar uma mulher e
desligaram o telefone. Nós já sabíamos que iria acontecer um dia
conosco, mas demorou muito. Abrimos o mapa de Portugal, eu e Florice,
e vimos seis aldeias com o mesmo nome, cada uma menor que a outra,
seria um código? Almofala é uma palavra árabe, significa
acampamento temporário. Al mohala. Os mouros foram deixando muitos
pelo caminho. Ficamos sem saber o que fazer, imaginamos mil sentidos,
uma senha, um enigma. Estávamos perdidos.
— E como descobriram?
— Recebemos outra ligação pedindo
desculpas pela confusão e explicando que era a Almofala perto de
Caldas da Rainha.
— E só?
— Só. Falou do pó de café, mas
disso eu já sabia.
— O que pó de café tem a ver com
isso?
— Quando se recebe o aviso da
chegada do Ressurrecto a gente joga pó de café no lugar onde quer
que a terra se abra, ajuda no caminho. Meu avô fazia assim porque
alguém disse a ele.
— Ressurrecto? Eu sou isso?
— É como meu pai chamava. Pessoas
que iam morrer, mas por um triz escaparam e voltaram à vida em outro
lugar.
— E qual o sentido disso?
— A menina ainda não percebeu que
quase nada na vida faz sentido? Algumas coisas são obrigatórias, é
preciso fazer e já está. Desde pequena eu sei que temos de jogar o
pó de café no terreno e aguardar a criatura que vai chegar,
receber, cuidar de todas as maneiras até que a pessoa vá embora por
decisão própria, são as regras. E entre um acontecimento e outro,
rezar para que nada de mal nos ocorra. Achei que não aconteceria
mais, que por algum motivo eu poderia estar livre, mas tu vieste. Se
a gente começar com isso de entender ninguém termina mais essa
conversa e temos muito a fazer.
— Quem ligou, era homem ou mulher?
— Mulher. Apresentou-se como Regina,
nada mais.
— Quem é essa Regina? Por que ela
sabe de mim?
— Não faço ideia, menina, nunca a
vi na vida. Ela só disse essas coisas e desligou. Falava rápido
demais, um entusiasmo de ideias, mas consegui entender e cá estamos.
Chegamos semana passada e arranjamos esta casa. Fizemos vigília para
esperar teu desenterro, obedecendo à ordem da razão mística que
nunca entenderemos, como dizia meu pai.
— Mas por quê? O que vocês querem
comigo?
— Queremos nada. É uma obrigação
a cumprir, só isso. Salvamos a tua vida, a menina deveria agradecer.
Florice tentou encerrar a conversa,
aborrecida, irritada, resmungando. Ficou me perguntando se eu queria
algo mais, que era bom comer bastante pois devia ter perdido
vitaminas. Da bruma ao corpo, de novo. Fernando retomou a conversa:
— Lembraste teu nome, uma letra, um
som?
— Não.
— Vais lembrar. Mas escuta: esta
casa não é nossa, como já expliquei. Não somosdaqui, alugamos só
para te receber e já vamos embora amanhã. Ainda dá tempo de
passear um pouco pela aldeia, tu precisas andar para reequilibrar a
circulação, funções vitais. É necessário.
— Eu vou ficar aqui?
— Não, claro que não. Vamos te
levar para a casa da irmã de Florice, no Norte. De lá seguimos a
nossa vida, tu segues a tua e não estarás desamparada nesse começo.
Moramos em um apartamento em Lisboa, na casa de minha cunhada tu
terás mais conforto. Ela vive sozinha, vai gostar da tua companhia,
já falamos com ela. Depois tu decides teu destino, quando lembrar.
Alguns voltam para casa, outros ficam, é escolha tua, mas por
enquanto é nossa responsabilidade cuidar de ti até que essa fase de
confusão passe.
Então eles cuidariam de mim, mas eu
deveria seguir a minha vida em breve. Eu, que não sabia que vida
tive, sem pistas daquilo que fui e não sei. Voltei para o quarto,
peguei um dos casacos, o verde, de veludo, e calcei um par de botas
que cabiam três pés dentro de cada uma.
Na porta, Fernando disse que iria
comigo caminhar, mas que seria rápido para não despertar a
curiosidade das pessoas. Almofala era uma aldeia pequena, uma e outra
casa habitada, com roseiras no jardim, flores saindo dos muros, datas
antigas sobre as portas, tomada por gatos peludos de todos os tipos.
A maioria das construções estava
abandonada. O som das pedras sob nossos sapatos quebrava o silêncio
frio e triste. Estávamos no alto de uma montanha, o cume do mundo, o
mais perto possível do céu.
Dobrando à esquerda da casa vimos uma
igrejinha no alto, em formato triangular, vazia e de portas fechadas.
Um homem que arrancava mato das pedras do muro veio falar com
Fernando. Entendi que se conheciam do primeiro dia, trataram do
aluguel, ele perguntou se estava tudo bem na casa, acho que tentava
entender o que fazíamos ali, porque metralhava as perguntas olhando
para mim. Fernando explicou que procurou uma aldeia tranquila e alta
para uns dias de descanso com a sobrinha doente.
Para evitar seu olhar estupefato,
achei prudente subir os degraus, entrar na igreja e me sentar um
pouco, mas estava trancada. Havia uma rosa vermelha no batente,
fresca, recém-colhida. Talvez deixada por alguém que iria levá-la
para algum santo e deu com a porta fechada.
Os dois conversavam e o homem falava
de Almofala, contava que os idosos foram morrendo e que as famílias
nunca voltaram para reclamar as casas, que tudo morria junto com quem
partia e talvez fosse culpa das almas do fosso, os mortos da Santa
Inquisição. Os enforcamentos aconteciam ali, os corpos eram jogados
lá — ele apontava com precisão, colocando seus olhos nas palavras
para explicar a geografia do desterro, sem precisar a data, parecia
um ato de sempre, enforcar, jogar no buraco da morte.
Dei a volta para não ouvir mais.
Encontrei uma portinha lateral, talvez estivesse aberta. Quando subi
os degraus, todas as portas começaram a sacudir, várias mãos ao
mesmo tempo, um movimento orquestrado pelo vento. Continuei subindo e
com mais um passo, mais de perto, estavam sacolejando a madeira com
violência, implorando para sair, mais forte e mais alto. Isso
acontecia com a porta principal, a lateral e as janelas,
sincronizadas, e teria de ser, então, trabalho de umas tantas
pessoas. Eu ouvia um murmurar de longe, confuso, tive medo, mas os
homens conversavam normalmente, não pareciam ouvir nada. Desci
correndo e escorreguei na areia.
Fernando olhou para mim espantado,
ajudou-me a levantar e adiantou nosso retorno, sem entender meu
susto, minhas palavras desconexas, em voz bem alta, repetindo que
estavam tentando abrir as portas e as janelas, que era preciso salvar
as almas presas dos enforcados. Alguns moradores começaram a
aparecer pelas ruelas, e o rumor da forasteira louca já estava se
espalhando, pelo visto, coisa fácil de acontecer em um lugar morto,
onde nunca há novidades e são tão poucos os vivos. Despediu-se
explicando ao homem que precisava cuidar da sobrinha doente, que já
iríamos embora. Voltei para casa chorando e amaldiçoando o fosso
vazio da minha memória.
Socorro Acioli, em Oração para Desaparecer
04/10/2026
No Caminho, com Maiakóvski
Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se
escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.
Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a
consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma
espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.
Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.
E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de
vozes,
o coração grita – MENTIRA!
Eduardo Alves da Costa, em No Caminho, com Maiakóvski
Diário de Bernardo Soares
134.
Busco-me e não me encontro. Pertenço
a horas crisântemos, nítidas em alongamentos de jarros. Devo fazer
da minha alma uma coisa decorativa.
Não sei que detalhes demasiadamente
pomposos e escolhidos definem o feitio do meu espírito. O meu amor
ao ornamental é, sem dúvida, porque sinto nele qualquer coisa de
idêntico à substância da minha alma.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
A caixa de laranjada
Deixei a roça sem saudades. A saudade
vem com a velhice. Não sofri com a mudança. Como disse Caeiro, “as
crianças são de novo nascidas a cada momento para a eterna novidade
do mundo”. Tudo era novidade. Não me importava que a casa para
onde nos mudamos fosse do tamanho de uma caixa de fósforos. Eu não
sabia que ela era do tamanho de uma caixa de fósforos. O que me
importava era o fato de minha casa se encontrar atrás de um Castelo
Encantado. Lá estava ele, no alto da colina, enorme, fechado,
misterioso. Dos pátios vazios que o circundavam, olhando-se para
baixo se via um lago azul imenso, coisa que eu desconhecia porque na
roça eu só conhecera riachinhos e lagoinhas. E havia marrequinhos a
nadar...
Depois de grande pensei que não havia
razões objetivas para nos termos mudado para Lambari. Meu pai era
agora viajante, precisava de trens, e o mais lógico teria sido Três
Corações, entroncamento ferroviário. Por que ele escolheu Lambari?
Acho que foi por causa do Castelo Encantado... Ele me levou a visitar
o Castelo por dentro, graças à amizade que fizera com o guarda.
Eram salas imensas, empoeiradas, silenciosas, escuras, os móveis
cobertos com lençóis, lustres de cristal, mesas de veludos
vermelhos e verdes. Tudo parecia dormir. Eu estava no Castelo Bela
Adormecida...
Mais tarde me explicaram, e com a
explicação o Castelo deixou de ser Castelo. Foi-se o mistério.
Virou um cassino. O assombroso desse cassino é que ele teve uma
noite de glória, uma única noite de glória. Foi fechado por ordens
superiores no dia seguinte ao de sua inauguração, sem explicações,
e nunca mais foi aberto.
O tempo realizou o seu trabalho de
desencantamento. Hoje nele funcionam repartições da prefeitura. As
riquezas antigas desapareceram. Parece que foram saqueadas. Agora ele
está reduzido à banalidade de um prédio onde funcionam repartições
burocráticas. Visitei-o sob sua nova forma. O lago é o mesmo. Os
marrecos continuam a nadar. Observei os funcionários. Eles não
sabem que estão andando num espaço onde, em tempos esquecidos,
viveram reis e donzelas. Agora, na lanchonete, se serve um cafezinho
com pães de queijo...
Cheguei e percebi que acabara de
entrar num mundo diferente daquele em que eu vivera. Mas o
desconhecido não me amedrontava. Ao contrário. Dava-me uma alegre
sensação de liberdade. Lá não havia nem onças nem meninos
abandonados dentro da mata. Tive uma cadela que, quando novinha, de
repente, sem nenhuma razão especial, se punha a correr e a saltar
como doida, em círculos, pela própria alegria de viver. E eu me
vejo, menino de seis anos, como a minha cadelinha, correndo de
alegria, sem nenhuma razão, entrando pela porta da frente da casa,
atravessando alpendre, a sala, saindo pela porta da cozinha, voltando
para a frente da casa, para fazer tudo de novo, em círculos...
As evidências da novidade do mundo
eram claras. A primeira era a maravilha das lâmpadas elétricas que
pendiam do teto ao fim de um fio coberto de cocôs de moscas. Mas que
são cocôs de moscas diante do assombro? Bastava girar uma orelha no
bocal para que a lâmpada acendesse! Adeus, lamparinas! Adeus, cheiro
de querosene! Adeus, fuligem negra! Na roça o mundo e a vida eram
misteriosos. Mas não os objetos. Bastava olhar para compreender como
eram feitos e como funcionavam. Uma lamparina, nada mais simples: um
recipiente de vidro ou lata, querosene, pavio, fogo, luz. Era fácil
fazer uma lamparina. Mas a lâmpada elétrica pertencia a um novo
mundo, onde os objetos eram opacos. Como são feitas as lâmpadas?
Como acontece o milagre da luz? Que coisa é essa chamada
eletricidade que ninguém vê, que faz a lâmpada acender e que dá
choque quando se toca nela, invisível?
A outra evidência era a privada.
Bastava puxar uma cordinha para que acontecesse uma descarga de água
que fazia desaparecer os cocôs...
Não tínhamos móveis. Mas o meu pai
dava um jeito. Foi a um armazém, arranjou um caixote grande de
madeira, trouxe-o para casa, tirou uma porta das dobradiças, pregou
a porta sobre o caixote — e eis a nossa mesa! Infelizmente a mesa
apresentava um problema devido à sua construção: ela funcionava
como uma gangorra. Quem estivesse assentado à cabeceira, se se
apoiasse sobre a mesa, corria o risco de receber uma terrina de
feijão na testa. Guarda-roupas, nem pensar. Meu pai não se
perturbou. Juntou uns cabos de vassoura abandonados, fez buracos nos
ângulos das paredes e neles encaixou os cabos de vassoura que,
assim, se transformaram nos nossos guarda-roupas, onde pendurávamos
os cabides. Muito pouco, mas o suficiente para as poucas roupas que
tínhamos.
Um dia o pai, viajante, chegou de uma
de suas viagens com uma surpresa alegre. Como já disse, ele vendia
de tudo. E também caixas de doces de frutas em pasta: goiabada,
pessegada, marmelada, laranjada. Pois uma caixa de doce de laranja de
cinco quilos ficara encalhada e assim ele a trazia como presente. Foi
uma felicidade! Comeríamos sobremesa! No primeiro dia foi uma festa.
Também no segundo, no terceiro e no quarto. Acontece, porém, que
cinco quilos de doce de laranja é muito... Por mais que comêssemos,
a laranjada não diminuía de tamanho. Transcorridas duas semanas, já
não podíamos ver a caixa, que voltava sempre para a mesa. E, sendo
pobres, não podíamos nos entregar ao luxo de jogá-la fora. A
laranjada, de alegria se transformou em tortura. Levou muito tempo
para que terminasse. Terminou. Mas o trauma ficou.
Rubem Alves, em O Velho que Acordou Menino
Capítulo 100 – O Caso Provável
Se esse mundo não fosse uma região
de espíritos desa-tentos, era escusado lembrar ao leitor que eu só
afirmo certas leis quando as possuo deveras; em relação a outras
restrinjo-me à admissão da probabilidade. Um exemplo da segunda
classe constitui o presente capítulo, cuja leitura recomendo a todas
as pessoas que amam o estudo dos fenômenos sociais. Segundo parece,
e não é improvável, existe entre os fatos da vida pública e os da
vida particular uma certa ação recíproca, regular, e talvez
periódica, – ou, para usar de uma imagem, há alguma coisa
semelhante às marés da praia do Flamengo e de outras igualmente
marulhosas.
Com efeito, quando a onda investe a
praia, alaga-a muitos palmos a dentro; mas esta mesma água toma ao
mar, com variável força, e vai engrossar a onda que há de vir, e
que terá de tomar como a primeira. Esta é a imagem; vejamos a
aplicação.
Deixei dito noutra página que o Lobo
Neves, nomeado presidente da província, recusou a nomeação por
motivo da data do decreto, que era 13; ato grave, cuja consequência
foi separar do ministério o marido da Virgília. Assim, o fato
particular da ojeriza de um número produziu o fenômeno da
dissidência política. Resta ver como, tempos depois, um ato
político determinou na vida particular uma cessação de movimento.
Não convindo ao método deste livro descrever imediatamente esse
outro fenômeno, limito-me a dizer por ora que o Lobo Neves, quatro
meses depois de nosso encontro no teatro, reconciliou-se com o
ministério; fato que o leitor não deve perder de vista, se quiser
penetrar a sutileza do meu pensamento.
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas
Recreio
Camila era a mais velha de três
irmãs. Na época devia ter uns onze anos, mas eu a via com uns
quarenta e três. Subia no micro-ônibus com certa dificuldade,
carregando uma mochila imensa da Barbie (que vinha com uma lancheira
acoplada, com os mesmos desenhos), mas para mim era como se ela
ostentasse toda manhã, dependurados nos ombros, um apartamento
próprio com criadagem fazendo bolos variados e uma casa na praia com
súditos sexuais. Eu tinha medo dela e a respeitava muito.
Eram irmãs “sofridas”. O pai
morrera de câncer fazia pouco menos de um ano. As duas mais novas
eram apenas tristinhas. Mas no coração da Camila havia ódio. Ela
estava naquela fase não passiva e muito nobre conhecida como “raiva
do mundo”, e eu achava uma coisa bonita de ver. Ela quebrava o pau
na aula de religião, “sabia que a Bíblia era a favor dos
escravos?”, e eu vibrava por dentro.
Uma vez, na aula de geografia, ao ser
repreendida por não ter feito o dever de casa (desenhar rios numa
folha de papel-manteiga: a lembrança mais horrenda que tenho dos
tempos de escola), ela respondeu (tão amarga, tão machucada, tão
protagonista de um seriado dramático para adolescentes): “meu pai
me ajudava a fazer essas coisas, mas ele morreu”. E todas as
crianças instantaneamente olharam para a professora: “sai dessa
agora, fofa”. Para que Camila precisava saber o nome da porra de um
rio no Pará se a sua vida era uma escura água desenfreada que não
desembocava em lugar nenhum? No fundo dos seus olhos dava para ver
uma areiazinha movediça. Era uma garota com angústia latente e
infinita, afundando em seu lodo pessoal e intransponível. Foi quando
pensei: “é essa!”.
Desde que entrei naquela escola, aos
sete anos, eu sonhava em ter uma amiga que me entendesse. Alguém a
quem pudesse falar coisas como “você acorda com medo, chora no
banho, pensa em vomitar, unha um pouco a palma das mãos e pergunta
como será a vida daqui a quarenta anos se você continuar assim?”.
Mas eu já devia estar com uns dez anos, e nada. Arrumava amigas para
trocar papel de carta, brincar “de elástico”, dividir um
salgadinho Ebicen de camarão. Mas, para falar do quanto eu me sentia
esquisita e apavorada, não arrumava ninguém.
Arrisquei uma vez com a Paula, mas ela
arrotou suco de melancia na minha cara. Tentei com a Dani, mas ela me
perguntou se era porque “nenhum menino olhava pra mim”. Tentei
com o Felipe, um gordinho da minha sala que sofria de enjoos (cheguei
mesmo a amar esse garoto, eu achava que aqueles enjoos significavam
que éramos almas gêmeas), mas ele me disse que não estava
entendendo nada e que eu era feia demais e que nenhum cara do New
Kids on the Block ia querer me beijar.
Minha esperança crescia dia a dia em
relação a Camila. Na aula de português, estávamos aprendendo
“descrição” e a professora botou um vaso lá na mesa dela. A
redação de todos era aquela chatice de “pequeno, azul, bonito,
com uma flor”. Quando chegou a minha vez, lembro da professora
Celina pondo as mãos na frente da boca, num misto de espanto e
alegria. Eu tinha escrito: “longe, velho, acinzentado e com
saudade”. A classe inteira riu despudoradamente da minha cara,
menos Camila. Camila me olhou com profundidade e, na minha fantasia
urgente, chegou a sorrir para mim.
Então, uma quinta-feira, durante a
“queimada” (ainda existe esse crime nas escolas? Consistia em
tacar a bola com toda a força num coleguinha que não estivesse
atento ao jogo: eu. Mas àquela altura eu já tinha aprendido o
macete da “pouca destreza física” e pedia dispensa da terrível
aula de educação física me utilizando de um atestado de prolapso
da válvula mitral), tomei coragem e fui falar com a Camila. Assim
como eu, ela estava liberada dessas aulas.
Quis saber se era medo de levar
bolada; obviamente, não era. Ela estava “de castigo” porque dava
boladas muito fortes nos outros. Eu precisava mentir que tinha sopro
(e tinha mesmo, mas quem não tem?), já ela fora “convidada a sair
pra aprender a se conter”. Que mulher! Respirei fundo, e saiu:
“amanhã, na hora do recreio, vamos conversar?”.
Mal acabei de falar, me arrependi.
Nada daquilo fazia o menor sentido, pois, se eu já estava
conversando com ela! Que falasse logo! Mas ela não me colocou nessa
posição desconfortável, não ficou me exigindo lógica, como fazia
de forma cruel com os professores, não esfregou sua melancolia e
dura realidade na minha cara sempre disforme por uma coriza alérgica
que dura até hoje. Ela topou. “Tudo bem, amanhã na hora do
recreio, em frente à lanchonete, daí eu te pago.” E foi logo
estendendo as mãozinhas e pedindo: “me empresta trinta preu
comprar um lanche, amanhã eu pago o seu”. Então era isso?
Melhores amigas forever a ponto de “um dia eu pago o dela, no outro
ela paga o meu!?”. Já era oficial, então: eu nunca mais me
sentiria sozinha.
No dia seguinte, na hora do recreio,
percebi que existiam duas “frentes da lanchonete”. A frente de
quem vinha da direita e a frente de quem vinha da esquerda. Achei um
ângulo de onde pudesse supervisionar, evitando piscar os olhos, as
duas frentes. Lá fiquei uma hora, sem comer, sem beber, sem fazer
xixi. Esperando a Camila, esperando minha primeira conversa realmente
legal com alguém que me entenderia. Só arredei o pé da frente da
lanchonete quando, dez minutos depois do sinal, uma espécie de
“supervisor do recreio” me puxou pelos braços. Ele era
engraçado, gordo, gente boa, “vâmu, moça, coragem!”. Eu não
podia acreditar que minha musa do desalento, minha rainha do pesar,
tinha feito aquilo comigo.
Vinte e cinco anos depois, num jantar
na casa de um amigo diretor de cinema, sentei ao lado de Contardo
Calligaris. Lembro de sentir algo parecido com o que vivi com Camila.
Talvez ele pudesse me dizer alguma coisa sobre “você acorda com
medo, chora no banho, pensa em vomitar, unha um pouco a palma das
mãos e pergunta como será a vida daqui a quarenta anos se você
continuar assim?”. Dessa vez, porque afinal de contas eu já era
adulta e, por fim, pertencia à tal de “hora do recreio ao lado de
alguém que possa me entender”, fui bem direta. Ele tirou com muita
elegância uma espinha de peixe, colocou com muita elegância na
beiradinha do prato, e com muita elegância me disse: “leva um
chocolatinho na bolsa”.
Tati Bernardi, em Depois a louca sou eu
03/10/2026
Episódio
Ele tinha o costume de gesticular seu
pensamento,
de sorte que estar parado era já ter compreendido
ou não ter dúvidas. Foi um abalo enorme quando se deu o que conto,
porque ultimamente ocupava a compreensão em tomar os remédios,
não comer sal, medir cor e volume de sua urina difícil.
Sem que ninguém suspeitasse ficou em pé na sala
e começou a cantar, pondo e tirando da jarra o galhinho de flor,
a voz como antes, firme, alta, grossa, anterior
a qualquer debilidade do seu corpo.
Um susto às avessas do susto foi o nosso,
porque a barriga dele continuava altíssima e alagava a mina
rompida de sua perna. Fugimos como nas guerras.
Um de nós foi chorar na privada, outro no quintal,
eu inventei uma barata pra matar com um chinelo.
A alegria dele desertava, quase, do que fosse
uma alegria humana e não estávamos à altura de entendê-la.
Sofrer era muito mais fácil.
de sorte que estar parado era já ter compreendido
ou não ter dúvidas. Foi um abalo enorme quando se deu o que conto,
porque ultimamente ocupava a compreensão em tomar os remédios,
não comer sal, medir cor e volume de sua urina difícil.
Sem que ninguém suspeitasse ficou em pé na sala
e começou a cantar, pondo e tirando da jarra o galhinho de flor,
a voz como antes, firme, alta, grossa, anterior
a qualquer debilidade do seu corpo.
Um susto às avessas do susto foi o nosso,
porque a barriga dele continuava altíssima e alagava a mina
rompida de sua perna. Fugimos como nas guerras.
Um de nós foi chorar na privada, outro no quintal,
eu inventei uma barata pra matar com um chinelo.
A alegria dele desertava, quase, do que fosse
uma alegria humana e não estávamos à altura de entendê-la.
Sofrer era muito mais fácil.
Adélia Prado, em Bagagem
A velha
Sua primeira menção, um tanto
confusa, foi em qualquer manhã, pelo telefone. Uma senhora, muito
velha e doente, pedia que o Cônsul lhe fosse à casa, para assunto
de testamento. Frau Wetterhuse.
O recado se perdia, obrigação
abstrata, no tumulto diário de casos, o Consulado invadindo-se de
judeus, sob mó de angústias, famintos de partir, sofridos imenso,
em desengano, público pranto e longo estremecer, quase cada rosto
prometendo-se a coativa esperança final do suicídio. Vê-los, vinha
à mente a voz de Hitler ao rádio — rouco, raivoso. Contra esses,
desde novembro, se implacara mais desbordada e atroz a perseguição,
dosada brutal. Viesse a guerra, a primeira ordem seria matá-los?
O nome Wetterhuse extinguia-se num
zumbido, com o que o Norte tem de mais brumoso. Mas, seguinte, na
semana, voltava, a súplica, embaixada-de-jó, apelo insistido.
Prometi-me de ir lá. Fazia todo o frio.
Sumia-se no dia noturno a bela, grande
cidade hanseática, nem se avistavam seu céu de ferro molhado e as
silhuetas das cinco igrejas, suas torres de cobre em azinhavre.
Dava-se, que nem caudas de cobras, delgados glaciais chicotes —
nevando, fortes flocos — o vento mordaz. Saindo para o
Glockengiesserwall, se bem que abafado em roupas, eu tivera que me
enregemer, ao resfrio cravador e à umidade, que transia. Via-se, a
cada canto, o emblema: pousada num círculo, onde cabia oblíqua a
suástica, a águia de abertas asas. A fora, as sombras dos troncos
de árvores, na neve, e as curvas dos corvos, o corvo da desdita.
Dizia-se que, este, muitos anos faz, seria o mais duro inverno, de
concumulados gelos: morriam muitos pássaros. O coração daquela
natureza era manso, era mau? Sentia-se um, ao meio de tal ponte, à
face do caos e espírito de catástrofe, em tempo tão ingeneroso,
ante o critério último — o pecado de nascer — na tese
anaximândrica. Todos pertencíamos, assim, mesmo, à vida.
A casa era no Harvesterhude, umbrosa,
meio a um jardim que no verão teria sido amável, com seus olmos e
os maciços de tuias e rododendros. Toquei e levaram-me ao salão —
como se subterrâneo. Havia lá uma invernia de austeridade, o cheiro
de irrenovável mofo e de humanidade macerada. Tapeçarias,
reposteiros de falbalás, muito antigos móveis, tudo se unia num
esfumado: as cinzas da neve. Assustava a esdruxularia daquele
ambiente solífugo e antimundano, de sopor e semiviver, o sentido de
solidão; circunstando um ar frio. Tinham acendido lareira. Dos
lustres descia uma luz, de velas, era luz em cemitério. Esperava-se
encontrar, em torno, duendes e lêmures. Encontravam-se criaturas —
ao todo cinco mulheres, todas velhas, que se retraíam,
estafermáticas, estornicadas nas vestes de veludo ou gorgorão de
lã, de golas altas, longas mangas, terrível decoro.
Ao centro, numa poltrona em estrado —
deveria ficar mais alta que nós, segundo um rito — a mais anciã.
Era extraordinária de velha, exaustamente o rosto, todo angulado,
cavado de sulcos, e em cujo esqualor olhos havia, ex-azuis, sem íris,
de despupilada estátua. Passaria dos noventa, parecia centenária.
Desde as aparências, porém, sabia-se que a gentil-dama, feita às
sociais sobrancerias e ao comando íntimo, e a quem o recato levara a
levantar-se do leito de semiparalítica, e ser vestida e colocada
ali, em elevado assento, de mágoa hirta, de sua lívida vontade. E
precisava de ser ouvida. Beijei-lhe a mão, os trêmulos dedos
definhados.
Era a Dame Verônika. Dame
Angélika, sua filha, e três parentas, as outras, ressemblantes,
com, que nem que perucas, os tão brancos cabelos, que teriam sido
amarelo-palha. Ordenadamente se sentavam, cada qual com mal pegado
sorriso, prontas a conservar-se de parte, sentindo-se demasiado
presentes ao versar do assunto conspirável. O qual, a justo ver,
elas desconheciam.
Desfez-se um silêncio. Dame Verônika
tomou a voz. Dissesse tão-só frases de polidez; repetia-as, balbuz,
sob algum afrontamento, com um arrulha de asma. Ora fechava os olhos,
sacudia, levíssima, a cabeça em frinas, reprincipiava. Devia de
estar repassando-se de algo, muito passado, trazido de um túnel,
relutante na resistência à evocação, fato de estrangulada
memória. Confundia-se; eu tinha de prestar ouvidos. De repente,
encarou-me mais, dava-me o todo gris dos olhos. E começara a falar
em português.
Falava-o, tão perfeitamente, e não
mais naquela dicção fosca, mas ressurgida, anos d’ora-atrás. E
vi — que a voz pertence às estâncias da idade: que, bem assim,
nesse teor de tom, que eu jamais ouvira, conversar-se-ia, outro
tempo, em solar e saraus, em tertúlias, merendas e cavacos. Era como
se falasse figura, de um álbum desbotado.
— “Vivi em vosso país, vossa
pequena formosa cidade de Petropolyís... Conheci vosso bom Imperador
— ele estudava o hebraico. Vosso Imperador estimava meu marido,
Káspar... Dr. Káspar Eswepp, sabeis? Vosso Imperador nos convidava
ao paço...”
Relembrava — revocava — sorriu-se
a um persistir de imagens? E estremeceu. Voltava às brumas do
presente, à sua gélida pátria. Só então entrou a falar sob força
de fatos: dos campos-de-prisão, as hitlerocidades, as trágicas
técnicas, o ódio abismático, os judeus trateados. Olhávamos, ali,
na parede, de corpo inteiro, o marido. — “Ele era judeu, sabeis?”
E — o retamente, o raso: a filha,
também tão idosa Dame Angélika, seria teuto-hebreia uma
mischling, “mestiça do primeiro grau”, segundo o código
hediondo. Dona Verônica o disse, de soçobro. A filha, por sua eiva
aboriginal, corria grave perigo. Ela, a Mãe, tinha de solicitar-se
daquilo.
Sofria, seca. Preparava-se? Para
desvendar-me seu motivo: o drama, sobreestranho, o coração da
coisa, vagarosíssima verdade:
— “Minha filha não é filha do
meu marido. Nem ela, nem ele jamais o souberam... Foi em vosso
país... O pai da minha filha era um amigo nosso, que nos
frequentava... O pai de minha filha não era de sangue judeu...”
Teve um sorrisinho titânico.
Endireitou o busto, alisava-se o rosto, num ademã de extrema
dignidade, fizera-se altiva. Num momento, ela precisara de profundar
um poço, arrancar em si o que tanto sepultara à força do tempo,
desistir do longo benefício do olvido. E já era a dor de dar, à
fé, uma sua turpitude secreta, exsuscitar um negrego, a fementira.
Seu coração não pesava um miligrama?
Ali, as outras quatro mulheres
permaneciam, salvaguardadas, em circunstância de surda sociedade,
sem participação emotiva. Aquelas meditavam o que não podiam
entender — Dame Angélika, damas Filippa, Osna e Alwyna.
Dona Verônica não se voltara para a
filha; só a mim encarava, ávida. Não sem intuito descobrira-me o
inarrável. Tinha de satisfazer o problema, intentar o sarcimento.
Sanar o obviável. — “Não? Sim?” E queria reforçar-se com
minha opinião, tomar conselho. A filha não tinha sangue da outra
raça. —“Por que, pois?” Pertencia-lhe, fidedigna,declarar
aquilo, fatal como o sol, verifazer o real, renegar o inautêntico.
Tomaria o grave passo. A tanto preço — o de se inquinar e
malsinar-se, para o pouco restante da vida. Em dizer, porém, que não
lhe era possível prestar fatos, produzir testemunhas, recorrer no
caso à prova de sangue, nem ao menos apelar para a razão pública.
Tão longe, tantos anos... Mas, quem sabe, poderia ter o apoio de um
grande, forte país, de gente tão fidalga, de tanta ponderância! —
“Sim. E?” Pegou o lenço, tivera um jacto de tosse. Ansiosa,
querulante: — “Foi em vossa formosa, pequena cidade de
Petropolyís...”
Não, em fato. Não. Tive de sacudir a
cabeça. Dame Angélika nem mesmo era brasileira. Tudo
indeterminado, sem fundamento certo, apenas o citar de um romance
perdido no antigo, tão esfiapável, pátina, voz para memória. Quem
iria querer crer? Ela mesma, Dona Verônica, não se lograva de
ilusões. Ah, vivera demasiado tempo, distanciara-se das
possibilidades manejáveis das coisas. Teve o chluque de um soluço.
Ofegou. Ia abater-se. Súbito, porém, rompendo-se do desalento, algo
flamejou nela, que nem um rebrilho de alma — uma glória — e
exclamou:
— “Ele foi um vosso
compatriota, um homem nobre... O amor de minha vida!...”
Sopitou-se, desopressa. Como poder
pagar sua dívida dourada? Levantei-me; eu nem era um cooperador
passivo do destino. Também aquelas senhoras presentes se levantaram,
em sincera, distinta cortesia. Ali, borbulhavam pensamentos.
Desfalecidos espíritos. Só silêncio. Dona Verônica mostrava-nos
seu comprido rosto, escalavrado, blafardo, diáfano pergaminho. Dona
Angélica passava-lhe meiga a mão por trás da cabeça. Todos nós
jazíamos de pé, em volta dela. A longa mulher. O sistema do mundo.
A velha vida.
Guimarães Rosa, em Ave, Palavra
Fama
Quantos, depois de serem celebrados pela fama, foram entregues ao esquecimento. Quantos, após celebrarem a fama alheia, estão mortos há tempos.
Marco Aurélio, em Meditações
O corpo
Xavier era um homem truculento e
sanguíneo. Muito forte esse homem. Adorava tangos. Foi ver O
último tango em Paris e excitou-se terrivelmente. Não
compreendeu o filme: achava que se tratava de filme de sexo. Não
descobriu que aquela era a história de um homem desesperado.
Na noite em que viu O último tango
em Paris foram os três para cama: Xavier, Carmem e Beatriz. Todo
o mundo sabia que Xavier era bígamo: vivia com duas mulheres.
Cada noite era uma. Às vezes duas
vezes por noite. A que sobrava ficava assistindo. Uma não tinha
ciúme da outra.
Beatriz comia que não era vida: era
gorda e enxundiosa. Já Carmem era alta e magra.
A noite do último tango em Paris foi
memorável para os três. De madrugada estavam exaustos. Mas Carmem
se levantou de manhã, preparou um lautíssimo desjejum – com
gordas colheres de grosso creme de leite – e levou-o para Beatriz e
Xavier. Estava estremunhada. Precisou tomar um banho de chuveiro
gelado para se pôr em forma de novo.
Nesse dia – domingo – almoçaram
às três horas da tarde. Quem cozinhou foi Beatriz, a gorda. Xavier
bebeu vinho francês. E comeu sozinho um frango inteiro. As duas
comeram o outro frango. Os frangos eram recheados de farofa de passas
e ameixas, tudo úmido e bom.
Às seis horas da tarde foram os três
para a igreja. Pareciam um bolero. O bolero de Ravel.
E de noite ficaram em casa vendo
televisão e comendo. Nessa noite não aconteceu nada: os três
estavam muito cansados.
E assim era, dia após dia.
Xavier trabalhava muito para sustentar
as duas e a si mesmo, as grandes comidas. E às vezes enganava a
ambas com uma prostituta ótima. Mas nada contava em casa pois não
era doido.
Passavam-se dias, meses, anos. Ninguém
morria. Xavier tinha quarenta e sete anos. Carmem tinha trinta e
nove. E Beatriz já completara os cinquenta.
A vida lhes era boa. Às vezes Carmem
e Beatriz saíam a fim de comprar camisolas cheias de sexo. E comprar
perfume. Carmem era mais elegante. Beatriz, com suas banhas, escolhia
biquíni e um sutiã mínimo para os enormes seios que tinha.
Um dia Xavier só chegou de noite bem
tarde: as duas desesperadas. Mal sabiam que ele estava com a sua
prostituta. Os três na verdade eram quatro, como os três
mosqueteiros.
Xavier chegou com uma fome que não
acabava mais. E abriu uma garrafa de champanha. Estava em pleno
vigor. Conversou animadamente com as duas, contou-lhes que a
indústria farmacêutica que lhe pertencia ia bem de finanças. E
propôs às duas irem os três a Montevidéu, para um hotel de luxo.
Foi uma tal azáfama a preparação
das três malas.
Carmem levou toda a sua complicada
maquilagem. Beatriz saiu e comprou uma minissaia. Foram de avião.
Sentaram-se em banco de três lugares: ele no meio das duas.
Em Montevidéu compraram tudo o que
quiseram. Inclusive uma máquina de costura para Beatriz e uma
máquina de escrever que Carmem quis para aprender a manipulá-la. Na
verdade não precisava de nada, era uma pobre desgraçada. Mantinha
um diário: anotava nas páginas do grosso caderno encadernado de
vermelho as datas em que Xavier a procurava. Dava o diário a Beatriz
para ler.
Em Montevidéu compraram um livro de
receitas culinárias. Só que era em francês e elas nada entendiam.
As palavras mais pareciam palavrões.
Então compraram um receituário em
castelhano. E se esmeraram nos molhos e nas sopas. Aprenderam a fazer
rosbife. Xavier engordou três quilos e sua força de touro
acresceu-se.
Às vezes as duas se deitavam na cama.
Longo era o dia. E, apesar de não serem homossexuais, se excitavam
uma à outra e faziam amor. Amor triste.
Um dia contaram esse fato a Xavier.
Xavier vibrou. E quis que nessa noite
as duas se amassem na frente dele. Mas, assim encomendado, terminou
tudo em nada. As duas choraram e Xavier encolerizou-se danadamente.
Durante três dias ele não disse
nenhuma palavra às duas.
Mas, nesse intervalo, e sem encomenda,
as duas foram para a cama e com sucesso.
Ao teatro os três não iam. Preferiam
ver televisão. Ou jantar fora.
Xavier comia com maus modos: pegava a
comida com as mãos, fazia muito barulho para mastigar, além de
comer com a boca aberta. Carmem, que era mais fina, ficava com nojo e
vergonha. Sem-vergonha mesmo era Beatriz que até nua andava pela
casa.
Não se sabe como começou. Mas
começou.
Um dia Xavier veio do trabalho com
marcas de batom na camisa. Não pôde negar que estivera com a sua
prostituta preferida. Carmem e Beatriz pegaram cada uma um pedaço de
pau e correram pela casa toda atrás de Xavier. Este corria feito um
desesperado, gritando: perdão! perdão! perdão!
As duas, também cansadas, afinal
deixaram de persegui-lo.
Às três horas da manhã Xavier teve
vontade de ter mulher. Chamou Beatriz porque ela era menos rancorosa.
Beatriz, mole e cansada, prestou-se aos desejos do homem que parecia
um super-homem.
Mas no dia seguinte avisaram-lhe que
não cozinhariam mais para ele. Que se arranjasse com a terceira
mulher.
As duas de vez em quando choravam e
Beatriz preparou para ambas uma salada de batata com maionese.
De tarde foram ao cinema. Jantaram
fora e só voltaram para casa à meia-noite. Encontrando um Xavier
abatido, triste e com fome. Ele tentou explicar:
– É porque às vezes tenho vontade
durante o dia!
– Então, disse-lhe Carmem, então
por que não volta para casa?
Ele prometeu que assim faria. E
chorou. Quando chorou, Carmem e Beatriz ficaram de coração partido.
Nessa noite as duas fizeram amor na sua frente e ele roeu-se de
inveja.
Como é que começou o desejo de
vingança? As duas cada vez mais amigas e desprezando-o.
Ele não cumpriu a promessa e procurou
a prostituta. Esta excitava-o porque dizia muito palavrão. E
chamava-o de filho da puta. Ele aceitava tudo.
Até que veio um certo dia.
Ou melhor, uma noite. Xavier dormia
placidamente como um bom cidadão que era. As duas ficaram sentadas
junto de uma mesa, pensativas. Cada uma pensava na infância perdida.
E pensaram na morte. Carmem disse:
– Um dia nós três morreremos.
Beatriz retrucou:
– E à toa.
Tinham que esperar pacientemente pelo
dia em que fechariam os olhos para sempre. E Xavier? O que fariam com
Xavier? Este parecia uma criança dormindo.
– Vamos esperar que Xavier morra de
morte morrida? perguntou Beatriz.
Carmem pensou, pensou e disse:
– Acho que devemos as duas dar um
jeito.
– Que jeito?
– Ainda não sei.
– Mas temos que resolver.
– Pode deixar por minha conta, eu
sei o que faço.
E nada de fazerem nada. Daqui a pouco
seria madrugada e nada teria acontecido. Carmem fez para as duas um
café bem forte. E comeram chocolate até à náusea. E nada, nada
mesmo.
Ligaram o rádio de pilha e ouviram
uma lancinante música de Schubert. Era piano puro. Carmem disse:
– Tem que ser hoje.
Carmem liderava e Beatriz obedecia.
Era uma noite especial: cheia de estrelas que as olhavam faiscantes e
tranquilas. Que silêncio. Mas que silêncio. Foram as duas para
perto de Xavier para ver se se inspiravam. Xavier roncava. Carmem
realmente inspirou-se.
Disse para Beatriz:
– Na cozinha há dois facões.
– E daí?
– E daí nós somos duas e temos
dois facões.
– E daí?
– E daí, sua burra, nós duas temos
armas e poderemos fazer o que precisamos fazer. Deus manda.
– Não é melhor não falar em Deus
nessa hora?
– Você quer que eu fale no Diabo?
Não, falo em Deus que é dono de tudo. Do espaço e do tempo.
Então foram à cozinha. Os dois
facões eram amolados, de fino aço polido. Teriam força?
Teriam, sim.
Foram armadas. O quarto estava escuro.
Elas faquejaram erradamente, apunhalando o cobertor. Era noite fria.
Então conseguiram distinguir o corpo adormecido de Xavier.
O rico sangue de Xavier escorria pela
cama, pelo chão, um desperdício.
Carmem e Beatriz sentaram-se junto à
mesa da sala de jantar, sob a luz amarela da lâmpada nua, estavam
exaustas. Matar requer força. Força humana. Força divina. As duas
estavam suadas, mudas, abatidas. Se tivessem podido, não teriam
matado o seu grande amor.
E agora? Agora tinham que se desfazer
do corpo. O corpo era grande. O corpo pesava.
Então as duas foram ao jardim e com
auxílio de duas pás abriram no chão uma cova.
E, no escuro da noite – carregaram o
corpo pelo jardim afora. Era difícil porque Xavier morto parecia
pesar mais do que quando vivo, pois escapara-lhe o espírito.
Enquanto o carregavam, gemiam de cansaço e de dor. Beatriz chorava.
Puseram o grande corpo dentro da cova,
cobriram-na com a terra úmida e cheirosa do jardim, terra de bom
plantio. Depois entraram em casa, fizeram de novo café, e
revigoraram-se um pouco.
Beatriz, muito romântica que era –
vivia lendo fotonovelas onde acontecia amor contrariado ou perdido –
Beatriz teve a ideia de plantarem rosas naquela terra fértil.
Então foram de novo ao jardim,
pegaram uma muda de rosas vermelhas e plantaram-na na sepultura do
pranteado Xavier. Amanhecia. O jardim orvalhado. O orvalho era uma
bênção ao assassinato. Assim elas pensaram, sentadas no banco
branco que lá havia.
Passaram-se dias. As duas mulheres
compraram vestidos pretos. E mal comiam. Quando anoitecia a tristeza
caía sobre elas. Não tinham mais gosto de cozinhar. De raiva,
Carmem, a colérica, rasgou o livro de receitas em francês. Guardou
o castelhano: nunca sabia se ainda não seria necessário.
Beatriz passou a ocupar-se da cozinha.
Ambas comiam e bebiam em silêncio. O pé de rosas vermelhas parecia
ter pegado. Boa mão de plantio, boa terra próspera. Tudo resolvido.
E assim ficaria encerrado o problema.
Mas acontece que o secretário de
Xavier estranhou a longa ausência. Havia papéis urgentes a assinar.
Como a casa de Xavier não tinha telefone, foi até lá. A casa
parecia banhada de mala suerte. As duas mulheres disseram-lhe que
Xavier viajara, que fora a Montevidéu. O secretário não acreditou
muito mas pareceu engolir a história.
Na semana seguinte o secretário foi à
Polícia. Com Polícia não se brinca. Antes os policiais não
quiseram dar crédito à história. Mas, diante da insistência do
secretário, resolveram preguiçosamente dar ordem de busca na casa
do polígamo. Tudo em vão: nada de Xavier.
Então Carmem falou assim:
— Xavier está no jardim.
— No jardim? fazendo o quê?
— Só Deus sabe o quê.
— Mas nós não vimos nada nem
ninguém.
Foram ao jardim: Carmem, Beatriz, o
secretário de nome Alberto, dois policiais, e mais dois homens que
não se sabia quem eram. Sete pessoas. Então Beatriz, sem uma
lágrima nos olhos, mostrou-lhes a cova florida. Três homens abriram
a cova, destroçando o pé de rosas que sofriam à toa a brutalidade
humana.
E viram Xavier. Estava horrível,
deformado, já meio roído, de olhos abertos.
— E agora? disse um dos policiais.
— E agora é prender as duas
mulheres.
— Mas, disse Carmem, que seja numa
mesma cela.
— Olhe, disse um dos policiais
diante do secretário atônito, o melhor é fingir que nada aconteceu
senão vai dar muito barulho, muito papel escrito, muita falação.
— Vocês duas, disse o outro
policial, arrumem as malas e vão viver em Montevidéu. Não nos deem
maior amolação.
As duas disseram: muito obrigada.
E Xavier não disse nada. Nada havia
mesmo a dizer.
Clarice Lispector, em A Via Crucis do Corpo
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