09/10/2026
1644 – Jamestown
Opechancanough
Antes que um soldado inglês o fulmine
pelas costas, o chefe Opechancanough se pergunta: “Onde está o
guardião invisível de minhas viagens? Quem roubou-me a minha
sombra?”.
Aos cem anos, foi derrotado. Tinha ido
ao campo de batalha em uma liteira.
Faz mais de oitenta anos que o
almirante Pedro Menéndez de Avilés levou-o a Cadiz. Apresentou-o na
corte de Felipe II: Eis aqui um belo príncipe índio da Florida.
Puseram-lhe calças, gibão e gola. Em um convento dominicano de
Sevilha ensinaram-lhe a língua e a religião dos castelhanos.
Depois, no México, o vice-rei deu-lhe seu nome de presente e
Opechancanough passou a chamar-se Luis de Velasco. Ao mesmo tempo
regressou à terra de seus pais, como intérprete e guia dos
jesuítas. Sua gente achou que ele voltava da morte. Predicou o
cristianismo e depois despiu-se e degolou os jesuítas e tornou a
chamar-se como antes.
Desde aquele tempo, matou muito e viu
muito. Viu as chamas devorando aldeias e campos de cultivo e viu seus
irmãos vendidos a quem pagava mais, nesta região que os ingleses
batizaram de Virgínia em memória a uma rainha virgem de espírito.
Viu a varíola engolindo homens e o tabaco, faminto, devorando
terras. Viu como eram apagados do mapa dezessete das vinte e oito
comunidades que existiam aqui, e como as outras recebiam a
possibilidade de escolher entre a diáspora e a guerra. Trinta mil
índios deram as boas-vindas aos navegantes ingleses que chegaram à
baía de Chesapeake, em uma fresca manhã de 1607. Sobrevivem três
mil.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
Felicidade
As coisas não nasceram para dar
certo, somos nós que fazemos as coisas acontecerem, ou não.
Acredito que a gente tem que ter um foco a seguir, traçar metas,
viver por elas. Ou morrer tentando. Jamais queimar etapas e saber
reconhecer quando é a sua hora.
O Acaso é uma grande armadilha e
destrói os sonhos fracos de pessoas que se acham fortes. Não passar
do tempo nem chegar antes. Preparar o corpo, o espírito, estudar o
tempo e o espaço. Não ser escravo de nenhum dos dois. Observar as
coisas que interferem no seu dia e na sua noite. E saber entender que
há aqueles sem sol e sem estrelas e que a vida não deve parar só
por isso. Ser gentil com as pessoas e consigo mesmo. E gentileza não
tem nada a ver com fraqueza, pois, assim como um bom espadachim, é
preciso ter elegância para ferir seus adversários. O que adianta
uma boca grande e um coração pequeno? Nunca diga que faz, se não o
faz.
Ame o teu ofício como uma religião,
respeite suas convicções e as pratique de verdade, mesmo quando não
tiver ninguém olhando. Milagres acontecem quando a gente vai à
luta. Pratique esportes como arremesso de olhar, beijo na boca, poema
no ouvido dos outros, andar de mãos dadas com a pessoa amada,
respirar o espaço alheio, abraçar sonhos impossíveis e elogios a
distância. E, em hipótese alguma, tente chegar em primeiro. Chegar
junto é melhor, até porque o universo não distribuiu medalhas nem
troféus. Respeite as crianças, todas, inclusive aquela esquecida na
sua memória. Sem crianças não há razão nenhuma para se acreditar
num mundo melhor. As crianças não são o futuro, elas são o
presente, e se ainda não aprendemos isso, somos nós, os adultos,
que tiramos zero na escola. Ser feliz não quer dizer que não
devemos estar revoltados com as coisas injustas que estão ao nosso
redor — muito pelo contrário, ter uma causa verdadeira é uma
alegria que poucos podem ter.
Por isso, sorrir enquanto luta é uma
forma de confundir os inimigos. Principalmente os que habitam nossos
corações. E jamais se sujeite a ser carcereiro do sorriso alheio.
Não deixe que outras pessoas digam o que você deve ter, ou usar.
Ter coisas é tão importante quanto não tê-las, mas é você
quem deve decidir. Ter cartão de crédito é bom, porém, ter
crédito nele tem um preço.
Se possível, aprecie as coisas
simples da vida, vai que no futuro... Adeus, pertences.
Esteja sempre disposto ao aprendizado,
e não se esqueça de que quem já sabe tudo é porque não aprendeu
nada. As ruas são excelentes professoras de filosofia, pratique
andar sobre elas. Procure desvendar as máscaras do dia a dia, pois o
segredo está no minúsculo, assim como um belo espetáculo do
crepúsculo e o pequeno gesto das formiguinhas escondem a grandeza a
ser seguida pela humanidade. Tenha amigos. Se não tem, seja. Eles
virão.
Felicidade não se ensina, é uma
magia, e o segredo está na disciplina de uma vida sem truques e sem
fogos de artifícios. E não acreditem em poetas. São pessoas
tristes que vendem alegria.
Sérgio Vaz, em Literatura, pão e poesia
A Contadora de Filmes
[10]
Devo confessar que nunca imaginei que
seria a vencedora do concurso de quem contava melhor um filme. É que
meu irmão Mirto, o segundo, apelidado de Pássaro, que em casa era o
responsável pelas compras, era o favorito de todo mundo. Ele sempre
foi alegre e falastrão e passava o dia contando coisas que
aconteciam com ele; tinha muito senso de humor.
Já meu irmão Mariano, o mais velho,
que por causa de sua gagueira era chamado de Caterpillar – ele se
encarregava de cozinhar, apesar de ser o mais inteligente de todos, e
“mais sério que cabo de polícia”, como dizia meu pai –, não
tinha nenhuma possibilidade, por causa de sua fala quebrada. O
coitado tinha começado a gaguejar quando nossa mãe foi-se embora.
Meu irmão Manuel, o terceiro (era
quem cuidava da limpeza), nem gostava muito de cinema. Para ele, o
que mais importava no mundo era o futebol; era um peladeiro
impenitente; suas partidas duravam o dia inteiro, o primeiro tempo de
manhã e o segundo de tarde, com um breve intervalo para o almoço.
Por causa de seu hábito de fazer um montinho de terra cada vez que
ia chutar a bola, foi apelidado de Morrinho.
No deserto, todo mundo exibia com
orgulho a condecoração de um apelido; quem não tinha apelido era
um nonato, um zé ninguém, não existia.
Meu quarto irmão, Marcelino, o Cabeça
de Livro, tinha alma de artista. Gostava de desenhar e pintar com
lápis de cor. Em casa era mais para o calado, gostava mais de ouvir
que de falar. E sua única tarefa era tirar o lixo.
Depois vinha eu, e, por ser mulher,
ninguém dava um tostão por mim. Eles achavam que as mulheres só
prestavam para fazer as camas e lavar os pratos – daí que eu
cuidava da casa – e por isso não tinha a menor chance. Acontece
que havia três coisas que me davam vantagem em cima deles, embora
nem eu mesma soubesse. A primeira é que eu devorava os quadrinhos de
Hopalong Cassidy, de Gene Autry, de Kid Colt e todos os heróis do
Velho Oeste, e eles não liam nada. A segunda é que eu era louca
pelas novelas de rádio, uma paixão que tinha herdado da minha mãe,
que, comigo nos braços, jamais perdia um capítulo de Esmeralda,
a filha do rio. E a terceira era uma coisa que até papai
ignorava: quando eu era muito pequena, minha mãe me fazia dormir
contando para mim filmes românticos – os seus favoritos –, coisa
que não fez com nenhum dos meus irmãos.
“Essas coisas são mais nossas, das
mulheres”, dizia ao me dar uma piscada de cumplicidade que eu
adorava.
Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes
Sertão-Veneza
Só importa a Beleza. Mas a Beleza
é incapturável.
A Beleza é uma porta encruzilhada.
João Guimarães Rosa
Em 9 de outubro de 1949, João
Guimarães Rosa, acompanhado da esposa Aracy, registrou em seus
Diários da Itália sua partida no trem das 9h15 de Milão
para Veneza. Era a primeira vez que visitaria Veneza; uma viagem de
fruição, após anos de inquietações. Depois desse dia, o olhar de
Rosa para a encantada Veneza – e para a Itália – nunca mais foi
o mesmo. E o desejo de retornar, de visitar novamente museus,
restaurantes e praças, de observar pombos, passarinhos e gatos, de
passear nas gôndolas, capturar e registrar momentos, visões e
sensações permaneceu latente até seus últimos dias. Walter
Benjamin, no seu livro Rua de mão única, escreveu: “Por
meio de Moscou se aprende a ver Berlim mais rapidamente que a própria
Moscou”. Durante essa viagem pela Itália – e a partir das
observações e anotações – o viaggiatore Rosa conseguiu
ver mais rapidamente, e reconheceu afetivamente, outras veredas desse
“sertão” insular, milenar e suspenso.
No dia 28 de maio de 1952, Rosa faria
outra viagem, ainda mais sensorial e literária. Uma investigação
detalhada, uma apurada pesquisa in loco, um retorno ao passado e às
memórias de infância. Saindo de Sirga até Araçuaí, acompanhado
de seu primo Francisco Moreira, e conduzido por Manuelzão, ele se
juntaria a uma boiada de vaqueiros durante a travessia dos mais de
240 quilômetros pelo sertão de Minas Gerais. Nos diários ou
cadernos de anotações – A boiada 1 e A boiada 2 –,
Rosa registraria, assim como já havia feito nos Diários da
Itália e no Diário da Alemanha,
casos, acasos, minúcias, detalhes, cenários, pessoas, situações,
sensações, sentimentos e reminiscências. Benjamin afirmava ser
possível dividir o olhar do viajante em dois grupos, o dos
autóctones e o dos estrangeiros. Segundo ele, os escritos e
registros do primeiro grupo são minoria, já que o motivo
superficial, o exótico, o pitoresco só atrai os de fora. Para o
autóctone, o importante é resgatar imagens e sensações de sua
cidade. Ele tem a motivação de quem, ao invés de viajar para longe
e se colocar na posição distante e fria de estrangeiro, busca
viajar para o passado a fim de se encontrar consigo mesmo. O retrato
produzido pelo autóctone terá afinidade com o próprio livro de
memórias. Nessas travessias, Rosa, que passou sua infância no
sertão, se reconectou e redescobriu sua voz. Quatro anos após essa
aventura, seriam lançados Corpo de baile e Grande sertão:
veredas.
Sobre o desejo de empreender essa
viagem-retorno, Rosa relatou ao amigo Mário Calábria, cônsul do
Brasil em Munique: “Estou-me preparando para, daqui a dias, ir
acompanhar, rústica, árdua, autenticamente, uma boiada brava, em
percurso de 40 léguas, lá do sertão sagarânico, da fazenda da
Sirga – entre buritizais belíssimos e chapadões de matagal
inviolado – até a fazenda São Francisco, de um meu primo, lá
perto de Cordisburgo. Já ando nos preparativos, arrumando mochila,
cantil, roupa cáqui, pois serão 15 dias no ermo, a carne seca com
farinha-de-mandioca e café com rapadura, sob sol, poeira, lama e
chuva. Odisseus”. Ao citar a jornada do herói grego, ele se
preparava para a sua travessia/retorno ao sertão. Não era a
primeira vez: em 1945, esteve em Minas, e suas observações estão
em “Notas da Grande Excursão a Minas”; e, em 1947, em
Nhecolândia, no Pantanal Mato-Grossense, cujo relato pode ser lido
nos textos Com o vaqueiro Mariano, Sanga Puytã, Cipango, Ao
pantanal e Uns índios – sua fala.
Viagem ao passado. Jornada de sonhos,
mitos e místicas. Travessias e reencontros é o que também realizou
Italo Calvino. No livro As cidades invisíveis, o autor
italiano resgata as suas lembranças – e as lembranças, crenças e
criações da cultura italiana – em relação à encantada Veneza –
ou às encantadas Venezas. Esse livro canônico se tornou fundamental
para sonhar as inúmeras possibilidades dessa cidade. Por meio de seu
personagem-protagonista Marco Polo, Calvino transformou a geografia
física e histórica em uma linguagem de símbolos, e a viagem em
epifanias. Ele – criador e criatura – reconstrói as cidades
visitadas elucidando o contorno brumoso e “cadavérico” de Veneza
– cidade natal do viajante e coração silencioso de toda a
narrativa. Cada cidade descrita ao imperador Kublai Khan funciona
como um reflexo – mas também como uma distorção – da
cidade-mãe-mito Veneza. Cidade-sonho insular, flutuante,
aterrorizante; sempre à beira e à margem, tanto do desaparecimento
quanto da eternidade.
Os mesmos detalhes e rigor, o mesmo
fruir e encantamento que se percebe em A boiada também são
saboreados em seus Diários da Itália. Rosa se mostra
apaixonado pelas gôndolas e pelas conversas dos gondoleiros (ao
chegar em Veneza, ele se deslumbra de tal forma que até a sua letra
garranchada, tremida e inelegível se transforma). Em vários
momentos, desenha essas embarcações venezianas, comenta seus nomes
e anota também o que está ao redor. Parece não ter medo, só
encanto e fascínio pelo rio e por aquele que o conduz. “(cidade
de) Mestre: chegamos a Veneza às 6h40. As gondolas, no lusco-fusco,
como bichos do mar. O deslumbramento. A lua aponta.”
Jacques Fux, em Sertão-Veneza – Retornos e travessias roseanas
07/10/2026
A cabeça do santo | Primeira parte
Traigo los ojos con que ella miró
estas cosas, porque me dio sus ojos para ver.
Juan Rulfo
Caminho
Ele não tinha mais sapatos e seus
pés, àquela altura, já eram outra coisa: um par de bichos
disformes. Dois animais dentados e imundos. Duas bestas, presas aos
tornozelos, incansáveis, avante, um depois do outro, avante,
conduzindo Samuel por dezesseis longos e dolorosos dias sob o sol.
Nos primeiros dias o sangue e a água
que minavam das bolhas arrebentadas nos seus pés chiavam em contato
com o asfalto em brasa, inclemente. De tão secos, fizeram silêncio.
Surgiu uma pele nova, quase um couro de cobra, esturricado, admirável
engenho da natureza para os que não podem contar com nenhum lapso de
piedade do inimigo. As pernas, gêmeos paradoxos: quanto mais magras,
mais fortes. Os músculos cresceram, até nas canelas sujas que
sustentavam as coxas de pouca carne. Ele, sujo como um desenterrado,
andando sempre em linha reta.
Dezesseis dias. Por vezes olhava para
baixo e temia que o ventre colasse de vez nas costelas, como na
história do homem caído que a mãe, Mariinha, contava. Dizia que
foi num dia de muito calor, pior que o sopro quente de sempre, quando
ela ouviu alguém bater palmas diante de sua porta. Foi abrir,
levando a alegria discreta que sempre doava aos vizinhos ou aos
compradores de chapéu. O sorriso acabou-se no espanto, porque ali
estava um homem esticado no chão, tão faminto que a pele da barriga
colara nas costelas. O desmaiado era bonito e foi isso que o salvou.
As mulheres da vizinhança não demoraram a ferver um mingau de
milho, cozinhar uma galinha gorda, um quilo de arroz refogado com
alho e sal, uma panela grande de farofa com carne-seca e coentro,
nove copos de leite com canela e oito ovos cozidos. Não faltaram
voluntárias para trazer os pratos, dar comida na boca, fazer a
barba, limpar o rosto com pano perfumado de colônia. Foram dois dias
de comilança para que a barriga do desinfeliz descolasse das
costelas, fazendo um estalido seco e alto que se ouviu por todo o
Horto. Voltou dos mortos tão cheio de desejo que não demorou para
que pedisse a mão de uma das moças em casamento. Era Estelita, a
que lhe trouxe mingau de milho.
Samuel também tinha o ventre quase
colado nas costas e oxalá ainda fosse possível desgrudar quando
chegasse a hora. Alguém ajudaria? Alguém daria comida a um
desenterrado? Pensava na galinha cozida, nas bananas, nas mãos da
mãe enchendo o seu prato de louça branco leitoso, com as bordas
quebradas e a pinturinha de flores descascada. Das mãos da mãe ele
tentava não lembrar. Era uma dor sem nome.
Sapatos, as pernas da calça, mangas
da camisa, o parco dinheiro: tudo ficou pelo caminho. (Existe quem
compre mangas de camisa, isso é espantoso.) Seu torso mal protegido
tinha duas cores. Os braços queimados de sol não serviam para nada
além de sustentar as mãos. Das coisas que um corpo exige, ele não
tinha quase nenhuma, o corpo pede e pune, na mesma medida. A mala que
levava quando deixou a casa ficou pelo caminho logo no quinto dia. Ou
isso, ou a fome. Trocou por um prato de carne cozida e baião de
dois. A dona de uma pensão aceitou, de má vontade, só porque
precisava de uma mala para guardar as toalhas das mesas.
Restavam apenas os seus vinte e oito
anos e o endereço de poucas palavras no bolso esquerdo. Às vezes o
pequeno pedaço de papel pegava fogo e torrava a única pista do seu
destino. Samuel enfiava a mão no bolso com desespero: era o pior do
elenco de pesadelos daquela jornada. Ele queria chegar lá, no lugar
indicado por oito palavras e um número. Chegar lá era a única
coisa que tinha na vida.
Os cabelos escuros e lisos cresciam
rápido e já escorriam de forma irritante sobre a testa,
atrapalhando a vista. Tinha olhos pequenos, sobrancelhas fartas e
juntas acima do nariz, boca carnuda e traços de índio, herdados da
mãe, Mariinha.
Samuel era um corpo magro e faminto,
quase uma sombra, que não parava de andar. Quase dez horas de
caminhada por dia. Pouca água, comida rara, sono em cotas breves.
Tudo ficou pelo caminho: juventude, alegria, pedaços de pele,
mililitros de suor, quilos do corpo, e os parcos e velhos fios de
esperança de que houvesse alguma coisa invisível que ajudasse os
homens sobre a Terra. As esperanças nunca foram suas, eram de
Mariinha, ele as usava por empréstimo em casos raros. Naquele
momento, Samuel não tinha fé nenhuma nas coisas do espírito. Do
outro lado da estrada, em direção contrária, caminhavam exemplares
do seu extremo oposto.
Socorro Acioli, em A cabeça do santo
Minifesto
Ave a raiva desta noite
a baita lasca fúria abrupta
louca besta vaca solta
ruiva luz que contra o dia
tanto e tarde madrugastes
morra a calma desta tarde
morra em ouro
enfim, mais seda
a morte, essa fraude,
quando próspera
viva e morra sobretudo
este dia, metal vil,
surdo, cego e mudo,
nele tudo foi e, se ser foi tudo,
já nem tudo nem sei
se vai saber a primavera
ou se um dia saberei
que nem eu saber nem ser nem era
vim pelo caminho difícil,
a linha que nunca termina,
a linha bate na pedra,
a palavra quebra uma esquina,
mínima linha vazia,
a linha, uma vida inteira,
palavra, palavra minha.
Paulo Leminski, em Distraídos venceremos
Capítulo IX – Baleia
A Cachorra Baleia estava para morrer.
Tinha emagrecido, o pêlo caíra-lhe em vários pontos, as costelas
avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e
sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos
beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida.
Por isso Fabiano imaginara que ela
estivesse com um princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço
um rosário de sabugos de milho queimados. Mas Baleia, sempre de mal
a pior, roçava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato,
impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas murchas,
agitando a cauda pelada e curta, grossa na base, cheia de moscas,
semelhante a uma cauda de cascavel.
Então Fabiano resolveu matá-la. Foi
buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o saca-trapo
e fez tenção de carregá-la bem para a cachorra não sofrer muito.
Sinha Vitória fechou-se na camarinha,
rebocando os meninos assustados, que adivinhavam desgraça e não se
cansavam de repetir a mesma pergunta: – Vão bulir com a Baleia?
Tinham visto o chumbeiro e o
polvarinho, os modos de Fabiano afligiam-nos, davam-lhes a suspeita
de que Baleia corria perigo.
Ela era como uma pessoa da família:
brincavam juntos os três, para bem dizer não se diferençavam,
rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que ia subindo, ameaçava
cobrir o chiqueiro das cabras.
Quiseram mexer na taramela e abrir a
porta, mas Sinha Vitória levou-os para a cama de varas, deitou-os e
esforçou-se por tapar-lhes os ouvidos prendeu a cabeça do mais
velho entre as coxas e espalmou as mãos nas orelhas do segundo. Como
os pequenos resistissem, aperreou-se e tratou de subjugá-los,
resmungando com energia.
Ela também tinha o coração pesado,
mas resignava-se: naturalmente a decisão de Fabiano era necessária
e justa. Pobre da Baleia.
Escutou, ouviu o rumor do chumbo que
se derramava no cano da arma, as pancadas surdas da vareta na bucha.
Suspirou. Coitadinha da Baleia.
Os meninos começaram a gritar e a
espernear. E como Sinha Vitória tinha relaxado os músculos, deixou
escapar o mais taludo e soltou uma praga: – Capeta excomungado.
Na luta que travou para segurar de
novo o filho rebelde, zangou-se de verdade. Safadinho. Atirou um
cocorote ao crânio enrolado na coberta vermelha e na saia de
ramagens.
Pouco a pouco a cólera diminuiu, e
Sinha Vitória, embalando as crianças, enjoou-se da cadela achacada,
gargarejou muxoxos e nomes feios. Bicho nojento, babão.
Inconveniência deixar cachorro doido solto em casa. Mas compreendia
que estava sendo severa demais, achava difícil Baleia endoidecer e
lamentava que o marido não houvesse esperado mais um dia para ver se
realmente a execução era indispensável.
Nesse momento Fabiano andava no
copiar, batendo castanholas com os dedos. Sinha Vitória encolheu o
pescoço e tentou encostar os ombros às orelhas. Como isto era
impossível, levantou os, braços e, sem largar o filho, conseguiu
ocultar um pedaço da cabeça.
Fabiano percorreu o alpendre, olhando
a baraúna e as porteiras, açulando um cão invisível contra
animais invisíveis: – Eco! eco!
Em seguida entrou na sala, atravessou
o corredor e chegou à janela baixa da cozinha. Examinou o terreiro,
viu Baleia coçando-se a esfregar as peladuras no pé de turco, levou
a espingarda ao rosto. A cachorra espiou o dono desconfiada,
enroscou-se no tronco e foi-se desviando, até ficar no outro lado da
árvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras.
Aborrecido com esta manobra, Fabiano saltou a janela, esgueirou-se ao
longo da cerca do curral, deteve-se no mourão do canto e levou de
novo a arma ao rosto. Como o animal estivesse de frente e não
apresentasse bom alvo, adiantou-se mais alguns passos. Ao chegar as
catingueiras, modificou a pontaria e puxou o gatilho. A carga
alcançou os quartos traseiros e inutilizou uma perna de Baleia, que
se pôs a latir desesperadamente.
Ouvindo o tiro e os latidos, Sinha
Vitória pegou-se à Virgem Maria e os meninos rolaram na cama,
chorando alto. Fabiano recolheu-se.
E Baleia fugiu precipitada, rodeou o
barreiro, entrou no quintalzinho da esquerda, passou rente aos
craveiros e às panelas de losna, meteu-se por um buraco da cerca e
ganhou o pátio, correndo em três pés. Dirigiu-se ao copiar, mas
temeu encontrar Fabiano e afastou-se para o chiqueiro das cabras.
Demorou-se aí um instante, meio desorientada, saiu depois sem
destino, aos pulos
Defronte do carro de bois faltou-lhe a
perna traseira. E, perdendo muito sangue, andou como gente, em dois
pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo. Quis
recuar e esconder-se debaixo do carro, mas teve medo da roda.
Encaminhou-se aos juazeiros. Sob a
raiz de um deles havia uma barroca macia e funda. Gostava de
espojar-se ali: cobria-se de poeira, evitava as moscas e os
mosquitos, e quando se levantava, tinha folhas secas e gravetos
colados as feridas, era um bicho diferente dos outros.
Caiu antes de alcançar essa cova
arredada. Tentou erguer- se, endireitou a cabeça e estirou as pernas
dianteiras, mas o resto do corpo ficou deitado de banda. Nesta
posição torcida, mexeu-se a custo, ralando as patas, cravando as
unhas no chão, agarrando-se nos seixos miúdos. Afinal esmoreceu e
aquietou-se junto as pedras onde os meninos jogavam cobras mortas.
Uma sede horrível queimava-lhe a
garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu: um nevoeiro
impedia-lhe a visão. Pôs-se a latir e desejou morder Fabiano.
Realmente não latia: uivava baixinho, e os uivos iam diminuindo,
tornavam-se quase imperceptíveis.
Como o sol a encandeasse, conseguiu
adiantar-se umas polegadas e escondeu-se numa nesga de sombra que
ladeava a pedra.
Olhou-se de novo, aflita. Que lhe
estaria acontecendo? O nevoeiro engrossava e aproximava-se. Sentiu o
cheiro bom dos preás que desciam do morro, mas o cheiro vinha, fraco
e havia nele partículas de outros viventes. Parecia que o morro se
tinha distanciado muito. Arregaçou o focinho, aspirou o ar
lentamente, com vontade de subir a ladeira e perseguir os preás, que
pulavam e corriam em liberdade. Começou a arquejar penosamente,
fingindo ladrar. Passou a língua pelos beiços torrados e não
experimentou nenhum prazer. O olfato cada vez mais se embotava:
certamente os preás tinham fugido.
Esqueceu-os e de novo lhe veio o
desejo de morder Fabiano, que lhe apareceu diante dos olhos meio
vidrados, com um objeto esquisito na mão. Não conhecia o objeto,
mas pôs-se a tremer, convencida de que ele encerrava surpresas
desagradáveis. Fez um esforço para desviar-se daquilo e encolher o
rabo. Cerrou as pálpebras pesadas e julgou que o rabo estava
encolhido. Não poderia morder Fabiano: tinha nascido perto dele,
numa camarinha, sob a cama de varas, e consumira a existência em
submissão, ladrando para juntar o gado quando o vaqueiro batia
palmas.
O objeto desconhecido continuava a
ameaçá-la. Conteve a respiração, cobriu os dentes, espiou o
inimigo por baixo das pestanas caídas. Ficou assim algum tempo,
depois sossegou. Fabiano e a coisa perigosa tinham-se sumido.
Abriu os olhos a custo. Agora havia
uma grande escuridão, com certeza o sol desaparecera.
Os chocalhos das cabras tilintaram
para os lados do rio, o fartum do chiqueiro espalhou-se pela
vizinhança.
Baleia assustou-se. Que faziam aqueles
animais soltos de noite? A obrigação dela era levantar-se,
conduzi-los ao bebedouro. Franziu as ventas, procurando distinguir os
meninos. Estranhou a ausência deles.
Não se lembrava de Fabiano. Tinha
havido um desastre, mas Baleia não atribuía a esse desastre a
impotência em que se achava nem percebia que estava livre de
responsabilidades. Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração.
Precisava vigiar as cabras: àquela hora cheiros de suçuarana deviam
andar pelas ribanceiras, rondar. as moitas afastadas. Felizmente os
meninos dormiam na esteira, por baixo do caritó onde Sinha Vitória
guardava o cachimbo.
Uma noite de inverno, gelada e
nevoenta, cercava a criaturinha. Silêncio completo, nenhum sinal de
vida nos arredores. O galo velho não cantava no poleiro, nem Fabiano
roncava na cama de varas. Estes sons não interessavam Baleia, mas
quando o galo batia as asas e Fabiano se virava, emanações
familiares revelavam-lhe a presença deles. Agora parecia que a
fazenda se tinha despovoado.
Baleia respirava depressa, a boca
aberta, os queixos desgovernados, a língua pendente e insensível.
Não sabia o que tinha sucedido. O estrondo, a pancada que recebera
no quarto e a viagem difícil do barreiro ao fim do pátio
desvaneciam-se no seu espírito.
Provavelmente estava na cozinha, entre
as pedras que serviam de trempe. Antes de se deitar, Sinha Vitória
retirava dali os carvões e a cinza, varria com um molho de
vassourinha o chão queimado, e aquilo ficava um bom lugar para
cachorro descansar. O calor afugentava as pulgas, a terra se
amaciava. E, findos os cochilos, numerosos preás corriam e saltavam,
um formigueiro de preás invadia a cozinha.
A tremura subia, deixava a barriga e
chegava ao peito de Baleia. Do peito para trás era tudo
insensibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo se arrepiava,
espinhos de mandacaru penetravam na carne meio comida pela doença.
Baleia encostava a cabecinha fatigada
na pedra. A pedra estava fria, certamente Sinha Vitória tinha
deixado o fogo apagar-se muito cedo.
Baleia queria dormir. Acordaria feliz,
num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano
enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num
pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de
preás, gordos, enormes.
Graciliano Ramos, em Vidas Secas
O regresso do mestre
Desde seus primeiros anos, Migyur —
este era o seu nome — havia sentido que não estava onde tinha que
estar. Sentia-se forasteiro em sua família, forasteiro em seu
povoado. Ao sonhar, via paisagens que não pertenciam a Ngari:
solidões de areia, tendas circulares de feltro, um mosteiro na
montanha; e na vigília, estas mesmas imagens cobriam ou empanavam a
realidade.
Aos dezenove anos fugiu, ávido de
encontrar a realidade que correspondia a essas formas. Foi vagabundo,
esmoler, trabalhador e as vezes ladrão. Hoje chegou a esta pousada
perto da fronteira.
Viu a casa, a cansada caravana mongol,
os camelos no pátio.
Atravessou o portão e se encontrou
diante do velho monge que comandava a caravana. Reconheceram-se,
então: o jovem vagabundo viu-se a si mesmo como um lama ancião, e
viu o monge como este era há muitos anos, quando fora seu discípulo;
e o monge reconheceu no rapaz o seu velho mestre, já desaparecido.
Lembraram a peregrinação que haviam feito aos santuários do Tibete
e o regresso ao mosteiro da montanha. Falaram evocaram o passado e se
interrompiam para intercalar detalhes precisos.
O propósito da viagem dos mongóis
era buscar um novo chefe para o seu convento. Fazia vinte anos que
havia morrido o antigo, e eles em vão esperavam sua reencarnação.
Hoje o tinham encontrado.
Ao amanhecer a caravana empreendeu sua
lenta viagem de volta. Migyur regressava às solidões de areia, às
tendas circulares de feltro e ao mosteiro de sua encarnação
anterior.
Alexandra David-Neel, em Mystiques el Magiciens du Tibet
Posse
Pense mais no que possui do que no que
não possui. Imagine o quão ansiosamente buscaria as coisas que
selecionou como as melhores caso não as possuísse. Em compensação,
dado que está satisfeito com elas, tome cuidado para não as
valorizar a ponto de se perturbar caso as perca.
Marco Aurélio, em Meditações
Correnteza
8
Rita Preta acorda se sentindo ainda
pior que no dia anterior. O cansaço deixa seus pensamentos
desordenados e o corpo parece se render. Está dormindo pouco e sem o
descanso adequado, o sono contínuo deu vez aos cochilos
intermitentes sem que lhe permitissem repousar o suficiente. Além da
angústia pelo sumiço do filho, ela vê surgir um crescente
sentimento de culpa, que a atormenta de maneira constante. Primeiro,
pela briga que antecedeu o desaparecimento de Cid; se fosse menos
impulsiva, poderia ter contornado a situação sem a agressividade
cultivada ao longo da vida para se proteger, evitando assim as mágoas
e o que se seguiu. Depois, porque ela não se preocupou com o fato de
o filho não estar em casa quando voltou do trabalho. Tinha ido ao
encontro do namorado. Bebeu, conversou, depois aceitou passar duas
horas num hotel barato no centro da cidade. Por fim, esperou pela
carona, no caminhão que ele dirigia, para voltar para casa. Se
distraiu dos dissabores da vida, seja pelo leve torpor do álcool,
pelos efeitos do orgasmo, ou ainda pela visão abrangente que tinha
da cidade ao viajar num caminhão por ruas e viadutos; ou por tudo
isso junto.
Aquela perspectiva de mirar a cidade
de cima a fascina, e todas as vezes que Jorge a leva para qualquer
lugar conduzindo o caminhão, Rita fala de seu desejo de aprender a
dirigi-lo. Ele promete ensinar, quer impressioná-la, mesmo que
esteja cético sobre sua capacidade de pedalar sequer uma bicicleta,
que dirá manobrar um veículo pesado. Por mais que fosse incrédula
em relação a um bom número de desejos, aquele em particular é
alimentado com a esperança de poder realizá-lo. Mas, enquanto não
aprende a dirigir, ela trafega pela noite de Salvador — com Jorge
quase nunca é durante o dia —, mal ou bem iluminada, contemplando
a cidade e sua gente, o traçado das ruas, o esplendor e a sobriedade
convivendo nos distintos espaços. Mesmo quando a bebida lhe cai mal
e o sexo não é bom, resta admirar as ruas, a chuva, a brisa, as
luzes, o mar e os morros, os rios correndo como esgoto, a lua e os
vales, os edifícios com vidros espelhados e os casebres com tijolos
à mostra, e o concreto que macula o horizonte com elevados e
passarelas suspensas para pedestres. Naquelas horas, ela não é mãe
nem trabalhadora. É apenas uma mulher sentindo, de forma simples,
que ama viver.
“Mãe, Cid não voltou. O que será
que aconteceu?”
A pergunta esmaga o peito de Rita
Preta, por ela não ter uma resposta satisfatória, por não tentar
dar nenhuma outra e por ficar em silêncio quando se espera dela a
verdade, mesmo que não a tenha. Para se esquivar desse vazio, ela
anuncia:
“Preciso contar o que está
acontecendo no trabalho. Se faltar mais um dia, corro o risco de
perder o emprego. Depois, vou voltar à delegacia e procurar nos
hospitais”, diz enquanto recolhe a caneca de café da mesa. “Vou
pedir dinheiro a Fátima. Já não tenho mais nada para o transporte.
Gastei tudo indo até a delegacia e levando vocês para não ficarem
sozinhos em casa.”
“É verdade o que estão dizendo?
Que ele foi levado pela polícia?”
“Quem disse?”
“Você, minha mãe”, Cainho se
senta à mesa enquanto olha para Rita como se suplicasse por uma
resposta. “Será que ele fugiu? Cid disse que ia embora de casa no
dia em que vocês brigaram.”
“Eu repeti o que seu Aranha e dona
Conceição disseram, mas nem eles têm certeza. De qualquer maneira,
voltei à delegacia e dei a informação. Vão me dizer se ele fez
algo errado e se está em algum lugar”, Rita responde, irritada,
como se necessitasse confrontar o filho. “Ontem zanzei pelo bairro,
levei a foto de Cid, perguntei a um e a outro; nada. Disseram que uns
meninos que jogavam bola viram ele ser abordado. Encontrei alguns
garotos depois de muito andar e eles não sabiam também”, diz sem
olhar para Cainho, se movimentando entre a sala e a cozinha em busca
de tarefas por fazer. “Prometi um trocado se alguém me der uma
informação concreta. Se alguém aparecer aqui, mande voltar mais
tarde.”
“Se ele foi embora, não foi para
longe”, ela tenta minimizar a gravidade da situação enquanto
enfia na bolsa pedaços de papéis com anotações difusas e um
batom. “E o que você está querendo dizer? Que a culpa dele ter
sumido é minha?” Rita encara Cainho com o ar grave. “O que você
sabe da vida? Só me faltava essa.”
Cainho se cala, e seu rosto é a
expressão do descontentamento. Não é preciso declarar nada, não é
preciso dizer que, se a mãe não tivesse brigado com o irmão, isso
não teria acontecido. Ele permanece sentado, olhando para a ponta
dos dedos, e não se volta de novo para Rita, nem nada diz. Seus
gestos descortinam um cansaço anterior ao seu tempo, àquela vida,
mesmo que não saiba como expressar.
Rita Preta termina de enfiar os
objetos na bolsa com gestos furiosos. No fundo, parece querer de
alguma maneira retardar tudo o que tem para fazer fora de casa até
que Cid apareça ou envie notícias. Ela sai para voltar segundos
depois. Procura algo na mesa de vidro e em seguida no balcão que
serve como divisória entre a sala e a minúscula cozinha. Ergue a
chave e volta para a porta. “Cuide do seu irmão; telefone se Cid
aparecer.”
Rita se dirige à casa de Fátima.
Enviou uma mensagem de voz um pouco antes, perguntando se ela poderia
emprestar uma quantia até a próxima semana. Elas saem juntas para o
ponto de ônibus. Rita conta tudo o que fez no dia anterior e Fátima
mantém sua expressão atenta. A vizinha procura confortá-la: Cid
tem que aparecer, e se o que disseram sobre a polícia é verdade,
ela vai descobrir. Rita Preta pergunta: se o filho fosse recolhido
por algum delito, os policiais ou o juizado de menores não teriam
por obrigação informar aos pais (pensando consigo mesma “eu sou
‘os pais’”)? Então conta que ligou para o pai de Cid e ele não
deu a devida importância, além de tentar culpá-la pelo que
aconteceu. Rita ressalva que no fundo não queria telefonar para ele,
afinal havia criado os filhos sozinha, mas precisava saber se Cid o
tinha procurado querendo abrigo ou mesmo pedindo algum dinheiro para
ir mais longe, embora ela duvidasse que o pai fosse capaz de abrir a
casa da família ou desse algo para o filho.
Elas se despedem. No trajeto, Rita
viaja em pé no ônibus e segura a bolsa à sua frente. Faz uma prece
em silêncio pelos filhos, embora sinta que nenhuma reza, nenhum
encanto, conseguirá protegê-la dessa aflição sem nome. Aquele
crescente é perturbador, uma enxurrada carregando detritos, mas ela
mantém os olhos no horizonte através das janelas e se estimula para
não se distrair, precisa fazer tudo ao seu alcance para que o filho
volte. Rita se prepara para os próximos embates, e em seu estômago
guarda apenas um copo de café preto doce, coado ainda pela manhã.
Ela não contou a Cainho nem a Fátima sobre a falta de apetite. A
ansiedade a fazia se sentir com o estômago cheio, como se os
alimentos consumidos dias atrás não tivessem sido digeridos.
Depois de contar o que havia
acontecido à supervisora e ao gerente da loja numa sala isolada e
refrigerada a ponto de parecer o interior de uma câmara fria, Rita
Preta deixa o supermercado evitando cruzar com os colegas para não
ter que responder às perguntas sobre o desaparecimento do filho.
Mais cedo ou mais tarde todos saberão, pois não há segredos nem
discrição naquele ambiente. Ao entregar a bolsa para que o
segurança a reviste na saída da loja, ressoam as palavras do
gerente: estava liberada naquele dia, mas ele não poderia arcar com
o ônus de sua ausência por muito tempo. Assim como Rita se
reportava a ele como superior hierárquico, ele devia satisfação ao
seu chefe, e arriscaria sua função se permitisse ausências
prolongadas de qualquer funcionário sem justificativa amparada na
legislação trabalhista. No entanto, como Rita havia sido uma boa
colaboradora naqueles mais de dois anos em que trabalhava no
supermercado, ele se empenharia junto ao setor de recursos humanos
para antecipar suas férias, ajustando todo o cronograma
milimetricamente desenhado de forma a não impactar as vendas de fim
de ano.
Vendas, metas, bom desempenho. Rita
não chega a ter aversão a essas palavras em meio à sua aflição,
mas não consegue alcançar seus significados, por mais esforço que
faça. São como as lembranças do fim da infância: sua avó andando
sem rumo pela terra, armazenando sacas de sal na casa de paredes
rachadas, trazidas durante meses da feira da cidade, junto com as
compras mirradas. Faltava tudo, menos sal e loucura. Aquelas palavras
ecoavam em sua memória como os murmúrios sem sentido de Carmelita
repetindo como uma aparição: o rio se estreitava como sua garganta,
o rio se estreitava como sua garganta, o rio morreria junto com ela.
Rita, menina, acreditava que era a dor da má sorte e da insânia
pela morte dos que estavam à sua volta. Durante muito tempo, seu
maior temor era terminar como sua avó, amargurada, vagando pela
terra e repetindo palavras sem sentido.
Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo
06/10/2026
Resistir
Resistir ao lado das pessoas que a
gente gosta
deixa a luta mais suave,
a gente não quebra, entorta.
As lágrimas ficam filtradas,
o suor mais doce e o sangue mais quente.
E sem que a gente perceba, percebendo,
as coisas começam a mudar à nossa volta.
E aquele sonho que parecia impossível,
acaba virando festa, enquanto a gente revolta.
deixa a luta mais suave,
a gente não quebra, entorta.
As lágrimas ficam filtradas,
o suor mais doce e o sangue mais quente.
E sem que a gente perceba, percebendo,
as coisas começam a mudar à nossa volta.
E aquele sonho que parecia impossível,
acaba virando festa, enquanto a gente revolta.
Sérgio Vaz, em Flores da batalha
Cujas canções
É costume cada um colocar sua
profissão ou títulos nos cartões de visita.
Ora, quem escreve estas linhas já
recebeu alguns títulos da generosidade de seus conterrâneos;
escolher um só seria indelicadeza com os outros proponentes.
Quanto a mim, sempre fui de opinião
que bastava o nome da pessoa, sem a vaidade de títulos secundários.
Mas eis que a minha camareira fez-me cair em tentação: dá-se o
caso que saiu a edição de meu livro Canções, ilustrado por
Noêmia e que, ao ser noticiado por Nilo Tapecoara no “Bric-à-brac
da Vida”, este o publicou com o meu retrato em duas colunas, e,
abaixo do mesmo, uma notícia que assim principiava, com a primeira
linha impressa em letras maiúsculas:
MARIO QUINTANA, CUJAS CANÇÕES etc.
etc... Ora, na manhã daquele dia, ao servir-me o café na cama, sia
Balbina não podia ocultar o orgulho que lhe causava o seu hóspede e
repetia:
“Cujas canções, hein, cujas
canções!”
O seu maior respeito era devido, sem
dúvida, à misteriosa palavra “cujas”...
E não sei se resistirei à ideia que
me inspirou sia Balbina: imprimir meu cartão de visitas assim:
MARIO QUINTANA
Cujas Canções
Mario Quintana, em Porta Giratória
Outra barata
Boto o papel na máquina, para
alinhavar estas mal traçadas, e eis que na ponta da mesa surge
silenciosa baratinha, e…
— Que nojo! — Exclama, em alguma
parte do país, minha leitora.
— E, sabe? fica me contemplando.
— Gostou de sua cara. Meus
cumprimentos.
— Então decidi: vou escrever sobre
a baratinha.
— Mas você não podia inventar
assunto mais cronicável? Esse é de morte.
— Sei que é de morte, e certamente
vou matá-la antes de fazer a crônica. Narrarei a contemplação e
morte da baratinha.
— O que você devia fazer, antes de
mais nada, era dedetizar sua casa, viu?
— Pensa que não dedetizei? Este é
o primeiro motivo de meu interesse pela baratinha. Não por todas, ou
por qualquer. Por esta. Resistiu à dedetização, veio me olhar face
a face. Tem alguma coisa a me dizer.
— Veio desafiá-lo, é isso.
— É possível. Mas também é
possível que tenha vindo em missão de paz. Quer talvez explicar-me
que as baratas, pelo menos as baratinhas, não são aquilo que a
gente está pensando delas há milênios.
— Você é um boboca.
— Obrigado. Mas Oswaldo Goeldi era
um grande artista, e simpatizava com a barata sem uma perna que todas
as noites circulava no seu ateliê, ceando restos de cola. Fazia
companhia ao gravador, madrugada alta.
— Bem, o Goeldi…
— E Manuel Bandeira me contou, um
dia, que Joanita Blank, flor de pessoa, absolutamente limpa de corpo
e hábitos, chamava de amiga uma baratona frequentadora de sua mesa
de trabalho. Queriam que ela a esmagasse com uma chinelada. “Eu,
matar uma amiga?!”, protestou Joanita.
— Mas você disse que vai matar a
sua.
— Disse que vou matar, mas não
estou bem certo disso. Ela começou a me cativar, como se diz no
Principezinho. Não é todos os dias que uma barata fica parada
diante de um homem, tranquila, tranquila.
— Nem todos os dias que um homem
fica parado diante de uma barata, tranquilo, tranquilo.
— Me encara com tanta confiança que
seria uma sujeira matá-la.
— Sujeira é a própria barata, você
não desconfia?
— Sei que eu e ela não vamos nos
entender por palavras, como eu e você não estamos nos entendendo
neste momento. A comunicação tem de ser de outro jeito. Estou me
esforçando por entender a barata, você não vê logo?
— Francamente: se você começa por
não se entender comigo, como é que vai se entender com uma porcaria
dessa?
— De qualquer modo, tento. A
iniciativa é dela. Você me garante que sou superior a esse bicho.
Como então vou recusar o diálogo, tornando-me inferior a uma
baratinha?
— Esse orgulho, essa falsa
humildade…
— Ora, você está cultivando
preconceitos femininos com relação à barata. Joanita deve ser a
única exceção. Todas as outras mulheres do planeta não admitem
que se tente lançar uma ponte entre a barata e o homem, pelo menos
para troca de pontos de vista.
— Não ataque as mulheres em bloco.
É demagogia. Pensa que eu não tenho sensibilidade? Se alguém me
provasse que barata sofre como a gente, e se ela não fosse tão
repugnante…
— Aí está. Para você ter pena da
barata, era preciso que ela não fosse barata. Fosse um inseto
encantador, como a borboleta.
— Talvez você tenha razão. Gostar
do que é bonito não tem valor. O Goeldi…
— Viu? Você passou a compreender a
primeira letra da barata. Não é “i” de imunda, é “m” de
miséria. Pobre ser miserável, condenado a destruir e ser destruído.
Criação triste da natureza.
— Começo a ter pena da baratinha.
— Mas agora é tarde. Ela está se
movendo, não parece mais disposta a uma aliança comigo. Retomou o
ar dissimulado. Vou matá-la.
— Não faça isso, espere…
— Pronto. Matei.
— Monstro!
Ah, mulheres, mulheres!
Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica
A guerra que não chegou a ser
E esta? Em Março de 1975, e mais
acentuadamente no mês seguinte, chegaram-nos rumores a Portugal do
desagrado do governo espanhol, então presidido por Carlos Arias
Navarro, quanto aos caminhos, perigosos em seu entender, que a
revolução portuguesa estava tomando. A derrota do golpe militar
direitista de 11 de Março, de que o general Spínola havia sido
inspirador e chefe, teve como imediata consequência o revigoramento
das forças políticas de esquerda, incluindo as organizações
sindicais. Ao que parece, Arias Navarro entrou em pânico, a tal
ponto que, num encontro com o vice-secretário de Estado
norte-americano Robert Ingersoll, manifestou a ideia de que Portugal
era uma séria ameaça para Espanha, não só pelo desenvolvimento
que a situação ali estava tomando mas também pelo apoio exterior
que poderia obter e que seria hostil a Espanha. O passo seguinte,
segundo Arias Navarro, poderia ser a guerra. Da informação que,
acto contínuo, Ingersoll transmitiu ao secretário de Estado Henry
Kissinger, consta o seguinte: “Espanha estaria disposta a lançar
sozinha o combate anticomunista se necessário. É um país forte e
próspero. Não quer pedir ajuda, mas confia em que terá a
cooperação e a compreensão dos seus amigos, não só no interesse
de Espanha, mas também de todos aqueles que pensam da mesma
maneira”. Numa outra conversação em 9 de Abril com Wells Stabler,
embaixador dos Estados Unidos, Arias Navarro disse que “o Exército
espanhol conhece os perigos do comunismo pela experiência da Guerra
Civil e está totalmente unido”.
E esta? Nós, aqui, preocupados em pôr
de pé, contra os mil ventos e marés de dentro e os que estavam a
ser preparados de fora, um futuro mais digno para Portugal, e os
nossos vizinhos, nuestros hermanos, a tramarem com os Estados Unidos
uma guerra que provavelmente nos deixaria destruídos e, não
duvidemos, malferida a própria Espanha. Depois das conversações
que Franco manteve no passado com a Alemanha de Hitler com vista à
partilha, pataca a mim, pataca a ti, das colónias portuguesas,
pairava agora sobre as nossas cabeças a ameaça explícita de uma
invasão à qual talvez só tenha faltado o sim dos Estados Unidos.
Terei de dizer que não foi para isto
que escrevi A jangada de pedra?
José Saramago, em O caderno
Assinar:
Postagens (Atom)






