29/06/2026

One for Jinshi | Live in Brazil feat. Michael Pipoquinha

Helena

No cômodo onde Menelau vivera
Bateram. Nada. Helena estava morta.
A última aia a entrar fechou a porta,
Levaram linho, unguento, âmbar e cera.

Noventa e sete anos. Suas pernas
Eram dois secos galhos recurvados.
Seus seios até o umbigo desdobrados
Cobriam-lhe três hérnias bem externas...

Na boca sem um dente os lábios frouxos
Murchavam, ralo pêlo lhe cobria
O sexo que de perto parecia
Um pergaminho antigo de tons roxos.

Maquiaram-lhe as pálpebras vincadas,
Compuseram seus ossos quebradiços,
Deram-lhe à boca uns rubores postiços,
Envolveram-na em faixas perfumadas.

Então chamas onívoras tragaram
A carne que cindiu tantas vontades.
Quando sua sombra idosa entrou no Hades
As sombras dos heróis todas choraram.

Alexei Bueno, em Lucernário

La Morte d’Arthur



O zero e o infinito, de Arthur Koestler, é um dos clássicos do século. The Spanish Testament [Testamento espanhol] (também conhecido como Dialogue with Death [Diálogo com a morte]) tem quase a mesma estatura. The Sleepwalkers [Os sonâmbulos], sobretudo os capítulos sobre Kepler, são uma das raras proezas de recriação literária convincente da grande ciência, da lógica poética da descoberta. Não compartilho as certezas de Koestler em Reflections on Hanging [Reflexões sobre a forca], mas o texto resiste como um dos grandes ensaios polêmicos de nossa época, um momento central no debate sobre a pena de morte. Há capítulos clássicos em obras autobiográficas como Arrow in the Blue [Seta no azul]. Mas de alguma maneira Arthur Koestler é mais do que a soma de seus escritos. Existem em todas as eras e sociedades homens e mulheres que prestam um testemunho essencial, cujas sensibilidades pessoais e vidas individuais concentram e estampam em si os significados mais amplos da época. Neste século sombrio, coube ao judeu centro-europeu, talvez mais do que a qualquer outro grupo, a enormidade de portar e ilustrar a experiência de nossos tempos. Koestler, que nasceu em Budapeste em 1905, estava no ponto exato onde se cruzam os terminais nervosos da história, da política, da linguagem e da ciência. Ele foi atravessado por suas correntes dolorosas e envolventes. Num catálogo das principais presenças da modernidade — as políticas do marxismo e do terror fascista; a psicanálise e os estudos das anatomias mentais; o grande avanço das ciências biológicas; os conflitos entre a ideologia e as artes — encontraremos não só os vários livros de Koestler, mas também o próprio indivíduo. Ele conheceu o exílio e a prisão, o divórcio e o assustador consolo do álcool, a luta ambígua pela privacidade no mundo dos meios de comunicação de massa. As carteiras de identidade de Koestler, autênticas e forjadas, os vistos e carimbos em seus passaportes, suas agendas do dia e cadernetas de telefones compõem o mapa e o itinerário dos perseguidos em nosso século.
É por isso que o duplo suicídio de Arthur e Cynthia Koestler, no dia 3 março de 1983, ou logo antes desse dia, ainda repercute. É por isso que adquiriu uma força sugestiva tão marcante. Aqui também a mensagem vinha em maiúsculas. Narrado com sobriedade pungente na breve memória de George Mikes, Arthur Koestler: The Story of a Friendship [A história de uma amizade] (André Deutsch, 1983), o suicídio teve motivos imediatos. Uma doença degenerativa em fase terminal não demoraria a reduzir Koestler a uma dor degradante. Mas, como em tudo na vida de Koestler, o gesto pessoal foi antecedido e sustentado por uma reflexão pública e ponderada. Koestler tinha manifestado fortes simpatias pelas posições de um grupo que procurava esclarecer as questões jurídicas e morais da morte por livre escolha. Tendo encarado tantas vezes a morte em suas formas mais cruéis e involuntárias, tendo combatido com tanto vigor a imposição fria da morte judicial aos condenados, Koestler atribuía enorme valor à liberdade humana, à dignidade humana perante a morte. Um homem na posse de suas faculdades mentais deveria ter a chance de converter seu fim num gesto consoante com o valor central da liberdade de espírito e de consciência. O castigo previsto em lei para o suicida que não conseguiu consumar seu intento, como consta em tantos códigos jurídicos, parecia a Arthur Koestler uma impertinência bárbara.
O bilhete do suicídio estava escrito desde junho de 1982. Traz a seguinte passagem:

Quero que meus amigos saibam que estou deixando sua companhia num estado de espírito pacífico, com algumas tímidas esperanças de um além despersonalizado, que ultrapassa as fronteiras do tempo, do espaço e da matéria, e ultrapassa os limites de nossa compreensão. Esse “sentimento oceânico” me sustentou em muitos momentos difíceis, e me sustenta agora enquanto escrevo.

Na verdade, e como bem se sabe, as esperanças ou, melhor, as ansiosas especulações de Koestler nada tinham de “tímidas”. Seu “sentimento oceânico” (a expressão vem de Freud)se concentrava na profunda convicção de que existiam “lá fora” presenças psíquicas, energias organizadoras de tipo transcendente — embora inacessíveis em sua força oculta, podiam ser abordadas ou percebidas em certos aspectos dentro dos limites de nossa consciência e da observação empírica. Por isso seu interesse insistente, muitas vezes expresso publicamente em tom de desafio, pela parapsicologia, pela percepção extrassensorial, por fenômenos que iam de assombrações ao entortamento de colheres. Por isso sua compilação ardorosa de coincidências “inexplicáveis”. Pois o secretário de Lincoln, chamado Kennedy, não tinha implorado ao presidente que não fosse ao teatro, e o secretário de Kennedy, chamado Lincoln, não tinha implorado ao presidente que não fosse a Dallas? Booth não atirou em Lincoln num teatro e fugiu para um armazém e Oswald não atirou em Kennedy de um armazém e fugiu para um teatro? (Quando me apresentou pela primeira vez esse encadeamento, Koestler parecia vibrar com uma intensidade maravilhosamente irônica, espicaçadora, mas também obsessiva. E quando hesitei, aquela voz de uma ironia insistente, ardendo por dentro, acrescentou: “E não foram ambos sucedidos por presidentes chamados Johnson?”.) Koestler legou uma parte considerável de seu patrimônio à dotação de uma cátedra universitária de estudos de parapsicologia.
Amigos e conhecidos que não o acompanhassem por essas sendas obscuras eram, com maior ou menor gentileza, excluídos de sua intimidade. Koestler sabia muito bem que, com sua crença na telecinética e no extrassensorial, vinha se tornando um pária no mundo das ciências exatas e naturais. Nunca seria eleito para a Royal Society. Ao lado do Prêmio Nobel, para o qual de fato foi indicado, seu maior desejo era pertencer a ela. Interessante que essas duas honrarias também foram negadas a H. G. Wells, que em alguns aspectos é o único antecessor genuíno de Koestler. E ambos fizeram muito mais do que a grande maioria dos cientistas profissionais para divulgar a severa beleza e a importância política das ciências entre a comunidade letrada.
Outro critério de Koestler na escolha de seus íntimos era a bebida. Mikes é afetuosamente direto nesse assunto. Logo ficou claro para mim e para minha esposa que não conseguiríamos acompanhar os uísques antes do jantar, o vinho durante a refeição e depois os numerosos conhaques que regavam as noites de Koestler. Isso significava que um relacionamento, uma troca de opiniões, uma sucessão de visitas mútuas frequentes, mesmo estendendo-se durante anos, não amadureceriam numa intimidade sincera. Outro obstáculo, não mencionado por Mikes, era o xadrez. Koestler tinha um jogo rápido e contundente. Mas preferia interromper a partida a perder para alguém visivelmente inferior em inteligência, em talento, em experiência de vida. Isso também veio a significar um véu tácito a nossa confiança recíproca, nossa descontração quando estávamos juntos. Enfrentei exatamente a mesma inibição com Jacob Bronowski, aquele outro mestre da Europa Central cuja morte, somada à de Koestler, parece ter reduzido em muito o total de inteligência geral, polímata, em nosso mundo. E ele era um jogador brilhante.
Os conhaques de Koestler, os acessos de irritação e sarcasmo exacerbado que podiam assustar e humilhar os mais próximos, tinham uma motivação legítima. Comenta Mikes: “Um homem feliz era algo estranho e bizarro para ele, quase um mistério”. Como uma pessoa sensível, inteligente, poderia ser feliz entre as insânias brutais, as devastações, a cegueira suicida da história contemporânea? Para Arthur Koestler, o racionalismo convencional não passava de complacência, de afetação inaceitável. Seria de fato possível alicerçar políticas liberais sobre uma ficção da razão, avançar com a ciência sobre bases positivistas não examinadas, quando o mundo real estava tão visivelmente à mercê de impulsos desumanos inexplicáveis? Se desde o começo dos anos 1950 Koestler deixou de participar abertamente no debate público (absteve-se mesmo durante a invasão soviética da Hungria), foi por desalento. Quando falavam, as vozes da razão eram objeto de escárnio.
Mas, nos bons tempos, Arthur Koestler irradiava uma rara paixão pela vida, uma profunda alegria diante do desconhecido. Parecia encarnar a ideia de Nietzsche de que existe nos indivíduos uma motivação mais forte do que o amor, o ódio ou o medo. É a motivação de se interessar — por um corpo de conhecimento, por um problema, por um passatempo, pelo jornal de amanhã. Koestler era sumamente interessado. Imagino que ele marcou seu encontro com a morte com aquela mesma arte de atenção cuidadosa, questionadora, que havia dedicado com generosidade à literatura e às ciências, à política e à psicologia, às tribos perdidas de Israel e à culinária francesa.
George Mikes, ele também um exilado húngaro, é demasiado modesto em relação a seus próprios talentos e realizações. É o autor daquele ensaio clássico How to Be an Alien [Como ser um extraterrestre] e de uma série de divertidíssimos livros sobre os perigos dos tempos modernos. Seu livro sobre Koestler é um retrato criterioso e espirituoso de alguém que o apreciava muito. Apenas para constar, vou corrigir um episódio que Mikes relata. Koestler tinha um refúgio em Alpbach, nas montanhas austríacas. Durante um colóquio de verão, ele me pediu para pô-lo em contato com um funcionário húngaro de segundo escalão que estava participando dos procedimentos. Nós três nos encontramos ao anoitecer, em torno de uma mesa de bar. Brusco, Koestler perguntou se seria possível revisitar Budapeste e pisar mais uma vez em solo natal. Depois de pensar um pouco, o húngaro disse que a visita seria um verdadeiro triunfo e que o regime lhe daria discretamente uma boa acolhida. Mas disse também que o nome de Koestler encimava uma lista bem curta (que também incluía Silone) de pessoas tão odiadas pelas autoridades soviéticas que elas poderiam vir caçá-lo mesmo em Budapeste. Não seria possível garantir sua segurança. A KGB tinha seus meios de cruzar as fronteiras. Quando Koestler e eu voltávamos à sua casa, sob uma chuva de estrelas e o ar límpido da montanha, disse-lhe que a presença naquela lista me parecia uma distinção maior do que o Nobel ou uma cadeira na Royal Society. Ele estacou, me deu um de seus típicos olhares de esguelha e não falou nada. Mas, por um instante, pareceu em paz.
11 de junho de 1984

George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos

Nuances

Assento: põe-se embaixo. Acento: põe-se em cima.
Barco: qualquer embarcação. Barca: embarcação lenta.
Ciúme: inveja de afeto. Inveja: ciúme de coisa.
Contagiante: alegria. Contagiosa: doença.
Corda: em qualquer lugar. Cabo: a corda, quando num barco.
Cumpridas: as leis não são. Compridas: as leis são.
Depressão: tristeza de rico. Desespero: tristeza de pobre.
Despensa: armário. Dispensa: o que você não guarda na despensa.
Discriminar: o que é feito com o usuário de drogas. Descriminar: o que deveria ser feito com ele.
Ecologia: proteger o verde. Economia: multiplicar o verde.
Em trânsito: em movimento. No trânsito: sem movimento.
Eu te amo: quando se ama. Eu também: quando não se quer cometer uma grosseria.
Euforia: alegria barulhenta. Felicidade: alegria silenciosa.
Excelência: perfeição. Vossa Excelência: crápula.
Fantasia: roupa no Carnaval. Figurino: na televisão. Caretice desnecessária: no teatro contemporâneo.
Golfinho: baleia extrovertida. Tubarão: golfinho sociopata.
Golpe: revolução pra quem sofreu. Revolução: golpe pra quem participou.
Gravar: quando o ator é de televisão. Filmar: quando ele quer deixar claro que não é de televisão.
Grávida: em qualquer ocasião. Gestante: em filas e assentos preferenciais.
Guardar: na gaveta. Salvar: no computador. Salvaguardar: no Exército.
Javali: porco de raiz. Porco: javali metrossexual.
Língua: dialeto de rico. Dialeto: língua de pobre.
Menta: no sorvete, na bala ou no xarope. Hortelã: na horta, no Mojito ou no suco de abacaxi.
Mentira: na vida real. Inverdade: na política.
Mitologia: religião sem adeptos. Religião: mitologia com seguidores.
Peça: quando você vai assistir. Espetáculo: quando você está em cartaz.
Policial: em qualquer ocasião. Tira: quando está sendo dublado.
Recife: quando você não é de Recife. Ricife: quando você é de Recife. Récife: quando você não é de Recife e está imitando alguém de Recife.
Teatro: em São Paulo. Tchiatro: no Rio. Tiatro: em Ricife. Téatro: na Bahia.
Ukulele: cavaquinho hipster. Rabeca: violino bêbado.
Vocabulário: léxico de quem não tem muito léxico. Léxico: vocabulário de quem tem muito vocabulário.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

A grande incólume

A água, que não teme os abismos: a grande incólume.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

O Homem que Calculava | Capítulo 25




Na primeira noite depois do Ramadã(1), logo que chegamos ao palácio do califa fomos informados por um velho, nosso companheiro de trabalho, que o soberano preparava estranha surpresa para o nosso amigo Beremiz.
Aguardava-se grave acontecimento. O calculista ia ser arguido, em audiência pública, por sete matemáticos de fama, três dos quais haviam chegado, dias antes, do Cairo.
Que fazer? Allahur Akbar(2)! Diante daquela ameaça procurei encorajar Beremiz, fazendo-lhe sentir que devia ter confiança absoluta em sua capacidade, tantas vezes comprovada.
O Calculista recordou-me um provérbio que ouvira de seu mestre Nô-Elin: “Quem não desconfia de si mesmo não merece a confiança dos outros!”
Sob pesada sombra de apreensões e tristeza entramos em palácio.
O grande e rutilante divã, profusamente iluminado, estava repleto de cortesãos e cheiques de renome.
À direita do califa achava-se o jovem príncipe Cluzir Schá, convidado de honra, que se fazia acompanhar de oito doutores hindus, ostentando roupagens vistosas de ouro e veludo, e exibindo garbosos turbantes de Caxemira. À esquerda do trono perfilavam-se os vizires, os poetas, os cádis e os elementos de maior prestígio da alta sociedade de Bagdá. Sobre um estrado, onde se viam vários coxins de seda, achavam-se os sete sábios que iam interrogar o calculista. A um gesto do califa o xeque Nurendim Barur tomou Beremiz pelo braço e conduziu-o, com toda solenidade, até a uma espécie de tribuna erguida ao centro do rico salão.
Um escravo negro agigantado fez soar três vezes pesado gongo de prata. Todos os turbantes se curvaram. Ia ter início a singular cerimônia. A minha imaginação, confesso, voejava por mundos alucinados.
Um imã tomou do Livro Santo e leu, numa cadência invariável, pronunciando lentamente as palavras, a prece do Alcorão(3):

Em nome de Alá, Clemente e Misericordioso!
Louvado seja o Onipotente, Criador de todos os mundos!
A misericórdia é em Deus o atributo supremo!
Nós Te adoramos, Senhor, e imploramos a Tua divina assistência!
Conduze-nos pelo caminho certo! Pelo caminho daqueles que são esclarecidos e abençoados por Ti!

Logo que a última palavra do imã se perdeu com o seu cortejo de ecos pelas galerias do palácio, o rei avançou dois ou três passos, parou e disse:
Uallah! O nosso amigo e aliado, príncipe Cluzirehdin-Moubarec Schá, senhor de Lahore e Délhi, pediu-me que proporcionasse aos doutores de sua comitiva o ensejo de admirarem a cultura e a habilidade do geômetra persa, secretário do vizir Ibrahim Maluf. Seria desairoso deixar de atender a essa solicitação de nosso ilustre hóspede. E, assim, sete dos mais famosos ulemás do Islã vão propor ao calculista Beremiz questões que se relacionam com a ciência dos números. Se ele souber responder a todas as perguntas, receberá (assim o prometo), recompensa tal que o fará um dos homens mais invejados de Bagdá.
Vimos, nesse momento, o poeta Iezid aproximar-se do califa.
Comendador dos Crentes! — disse o xeque. — Tenho em meu poder um objeto que pertence ao calculista. Trata-se de um anel encontrado em nossa casa por uma das escravas do harém. Quero restituí-lo ao calculista antes de ser iniciada a importantíssima prova a que vai submeter-se. É possível que se trate de um talismã e eu não desejo privar o calculista nem mesmo do auxílio dos recursos sobrenaturais.
E, depois de breve pausa, o nobre Iezid disse ainda:
Minha encantadora filha Telassim, verdadeiro tesouro entre os tesouros da minha vida, pediu-me fosse permitido oferecer ao geômetra persa, seu mestre na Ciência dos Números, pequeno tapete por ela mesma bordado. Esse tapete, se o Emir dos Crentes consentir, seria colocado sob a almofada destinada ao calculista que vai ser arguido, hoje, pelos sete maiores sábios do Islã.
Permitiu o monarca que o anel e o tapete fossem, no mesmo instante, entregues ao calculista.
O próprio xeque Iezid, sempre transbordante de simpatia, fez a entrega da caixa. Logo a seguir, a um sinal do xeque, um mabid(4) adolescente apareceu trazendo nas mãos o pequeno tapete azul-claro que foi colocado sob a almofada verde de Beremiz.
Tudo isso é feitiço, é baraka — insinuou, em voz baixa, um velhote risonho, magro, de túnica azul e cara chupada, que se achava bem atrás de mim. — Esse jovem calculista persa é bom conhecedor de baraka. Faz sortilégios! Esse tapetezinho azul-claro parece-me um tanto misterioso!
Mostrou-se Beremiz profundamente emocionado ao receber a joia e o tapete. Apesar da distância em que me achava, pude notar que alguma coisa de muito grave ocorria naquele momento. Ao abrir a pequenina caixa os seus olhos brilhantes se umedeceram. Soube depois que, juntamente com o anel, a piedosa Telassim havia colocado um papel no qual Beremiz leu emocionado:
Ânimo. Confia em Deus. Rezo por ti.”
E o tapete azul-claro?
Haveria, no caso, alguma baraka, como insinuava o velhinho alegre da túnica azul?
Nada de sortilégios.
Aquele pequeno tapete azul-claro, que aos olhos dos xeques e ulemás não passava de um simples presente, trazia, em caracteres cúficos (que só Beremiz saberia decifrar e ler) alguns versos que abalaram o coração do nosso amigo calculista. Esses versos, que eu, mais tarde, pude traduzir e decorar, haviam sido finamente bordados por Telassim, como se fossem arabescos, nas barras do pequenino tapete:

Eu te amo, querido. Perdoa-me o meu amor!
Eu fui apanhada como um pássaro que se extraviou no caminho.
Quando o meu coração foi tocado, ele perdeu o véu e ficou ao desabrigo. Cobre-o com piedade, querido, e perdoa o meu amor!
Se não me podes amar, querido, perdoa a minha dor.
E voltarei para o meu canto e ficarei sentada no escuro.
E cobrirei com as mãos a nudez do meu recato(5).

Estaria o xeque Iezid a par daquela dupla mensagem de carinho e amor?
Não havia motivo para deter-me em tal ideia. Só mais tarde, como já disse, revelou-me Beremiz, o tal segredo.
Só Alá sabe a verdade!
Fez-se, no suntuoso recinto, profundo silêncio.
Ia ter início, no grande e rico divã do califa, o torneio de espírito e de cultura mais notável ocorrido até agora sob os céus do Islã.
Iallah!

Notas:
(1) Mês da quaresma muçulmana.
(2) Deus é grande!
(3) Entre os muçulmanos, qualquer cerimônia pública deve ser precedida de uma prece.
(4) Servidor. Semiescravo.
(5) Versos de Tagore.

Malba Tahan, em O Homem que Calculava

28/06/2026

Guegué Medeiros e Pé de Bode Big Band | Doidinho, Doidinho

 

Um homem doente faz a oração da manhã

Pelo sinal da Santa Cruz,
chegue até Vós meu ventre dilatado
e Vos comova, Senhor, meu mal sem cura.
Inauguro o dia, eu que a meu crédito explico
que passei em claro a treva da noite.
Escutei — e é quando às vezes descanso —
vozes de há mais de trinta anos.
Vi no meio da noite nesgas claríssimas de sol.
Minha mãe falou,
enxotei gatos lambendo
o prato da minha infância.
Livrai-me de lançar contra Vós
a tristeza do meu corpo
e seu apodrecimento cuidadoso.
Mas desabafo dizendo:
que irado amor Vós tendes.
Tem piedade de mim,
tem piedade de mim
pelo sinal da Vossa Cruz,
que faço na testa, na boca, no coração.
Da ponta dos pés à cabeça,
de palma à palma da mão.

Adélia Prado, em Bagagem

Armandinho

1629 – Margens do Bío-Bío

Putapichun

Depois de pouco andar, veem chegando uma multidão da distante cordilheira. Maulicán dá com os calcanhares em seu cavalo e adianta-se ao encontro do cacique Putapichun.
Os da cordilheira também trazem um prisioneiro, que vem tropeçando entre os cavalos, com uma corda ao pescoço.
No alto de uma colina rasa, Putapichun crava sua lança de três pontas. Faz desamarrar o prisioneiro e atira um galho aos seus pés.
Diga o nome dos capitães mais valentes do teu exército.
Não os conheço – gagueja o soldado.
Diga um nome – ordenou Putapichun.
Não lembro.
Um.
E diz o nome do pai de Francisco.
Outro.
E diz outro. A cada nome, deve quebrar um ramo do galho. Francisco assiste à cena com os dentes apertados. O soldado diz o nome de doze capitães: tem doze pauzinhos na mão.
Agora, cava um buraco.
O prisioneiro atira no fundo os pauzinhos, um por um, repetindo os nomes.
Atira terra. Cobre esses paus.
Então, sentenceia Putapichun:
Já estão enterrados os doze valentes capitães.
E o verdugo faz despencar sobre o prisioneiro o bastão eriçado de pregos.
Arrancam seu coração. Oferecem a Maulicán o primeiro sorvo de sangue. A fumaça do tabaco flutua no ar, enquanto o coração passa de mão em mão.
Depois Putapichun, veloz na guerra e lento na fala, diz a Maulicán:
Viemos comprar o capitão que você leva. Sabemos que é filho de Álvaro, o grande chefe por quem nossas terras tremeram.
Oferece-lhe uma de suas filhas, cem ovelhas de Castilha, cinco lhamas, três cavalos com sela lavrada e vários colares de pedras ricas:
Com tudo isso, pode-se pagar dez espanhóis e ainda sobra.
Francisco engole saliva. Maulicán olha para o chão. Depois, diz:
Antes, devo levá-lo para que meu pai o veja, e também os outros chefes da comarca de Repocura. Quero mostrar-lhes esta prenda de meu valor.
Esperaremos – aceita Putapichun.
Anda a minha vida nascendo de morte em morte”, pensa Francisco. Zunem seus ouvidos.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Capítulo 59 – Um Encontro



Deve ser um vinho bem enérgico a política, dizia eu comigo, ao sair da casa de Lobo Neves; e fui andando, fui andando, até que na rua dos Barbonos vi uma sege, e dentro um dos ministros, meu antigo companheiro de colégio. Cortejamo-nos afetuosamente, a sege seguiu, e eu fui andando... andando... andando...
Por que não serei eu ministro?
Esta ideia, rútila e grande, – trajada ao bizarro, como diria o padre Bernardes, – esta idéia começou uma vertigem de cabriolas e eu deixei-me estar com os olhos nela, a achar-lhe graça. E não pensei mais na tristeza de Lobo Neves; senti a atração do abismo. Recordei aquele companheiro de colégio, as correrias nos morros, as alegrias e travessuras, e comparei o menino com o homem, e perguntei a mim mesmo por que não seria eu como ele. Entrava então no Passeio Público, e tudo me parecia dizer a mesma coisa. – Por que não serás ministro, Cubas? – Cubas, por que não serás ministro de Estado?
Ao ouvi-lo, uma deliciosa sensação me refrescava todo o sistema. Entrei, fui sentar-me num banco, a cavar comigo aquela ideia. E Virgília que havia de gostar! Alguns minutos depois vejo encaminhar-se para mim uma cara, que me não pareceu desconhecida. Conhecia-a, fosse donde fosse. Imaginem um homem de trinta e oito a quarenta anos, alto, magro e pálido. As roupas, salvo o feitio, pareciam ter escapado ao cativeiro de Babilônia; o chapéu era contemporâneo do de Gessler. Imaginem agora uma sobrecasaca mais larga do que pediam as carnes, – ou, literalmente, os OSSOS da pessoa; a cor preta ia cedendo o passo a um amarelo sem brilho; o pêlo desaparecia aos poucos; dos oito primitivos botões restavam três. As calças, de brim pardo, tinham duas fortes joelheiras, enquanto as bainhas eram roldas pelo tacão de um botim sem misericórdia nem graxa. Ao pescoço flutuavam as pontas de uma gravata de duas cores, ambas desmaiadas, apertando um colarinho de oito dias. Creio que trazia também colete, um colete de seda escura, roto a espaços, e desabotoado.
Aposto que me não conhece, Senhor Doutor Cubas? disse ele.
Não me lembra...
Sou o Borba, o Quincas Borba.
Recuei espantado... Quem me dera agora o verbo solene de um Bossuet ou de Vieira, para contar tamanha desolação!
Era o Quincas Borba, o gracioso menino de outro tempo, o meu companheiro de colégio, tão inteligente e abastado. O
Quincas Borba! Não; impossível; não pode ser. Não podia acabar de crer que essa figura esquálida, essa barba pintada de branco, esse maltrapilho avelhentado, que toda essa ruína fosse o Quincas Borba. E era. Os olhos tinham um resto da expressão de outro tempo, e o sorriso não perdera certo ar escarninho, que lhe era peculiar. Entretanto, ele suportava com firmeza o meu espanto. No fim de algum tempo arredei os olhos; se a figura repelia, a comparação acabrunhava.
Não é preciso contar-lhe nada, disse ele enfim; o senhor adivinha tudo. Uma via de misérias, de atribulações e de lutas. Lembra-se das nossas festas, em que eu figurava de rei? Que trambolhão! Acabo mendigo...
E alçando a mão direita e os ombros, com um ar de indiferença, parecia resignado aos golpes da fortuna, e não sei até se contente. Talvez contente. Com certeza, impassível. Não havia nele a resignação cristã, nem a conformidade filosófica.
Parece que a miséria lhe calejara a alma, a ponto de lhe tirar a sensação da lama. Arrastava os andrajos, como outrora a púrpura: com certa graça indolente.
Procure-me, disse eu, poderei arranjar-lhe alguma coisa.
Um sorriso magnífico lhe abriu os lábios.  Não é o primeiro que me promete alguma coisa, replicou, e não sei se será o último que não me fará nada. E para quê? Eu nada peço, a não ser dinheiro; dinheiro sim, porque é necessário comer, e as casas de pasto não fiam. Nem as quitandeiras. Uma coisa de nada, uns dois vinténs de angu, nem isso fiam as malditas quitandeiras... Um inferno, meu... ia dizer meu amigo... Um inferno! o diabo! todos os diabos! Olhe, ainda hoje não almocei.
Não?
Não; sai muito cedo de casa. Sabe onde moro? No terceiro degrau das escadas de São Francisco, à esquerda de quem sobe; não precisa bater na porta. Casa fresca, extremamente fresca. Pois saí cedo, e ainda não comi...
Tirei a carteira, escolhi uma nota de cinco mil-réis, – a menos limpa, – e dei-lha. Ele recebeu-ma com os olhos cintilantes de cobiça. Levantou a nota ao ar, e agitou-a entusiasmado.
In hoc signo vinces! bradou.
E depois beijou-a, com muitos ademanes de ternura, e tão ruidosa expansão, que me produziu um sentimento misto de nojo e lástima. Ele, que era arguto, entendeu-me; ficou sério, grotescamente sério, e pediu-me desculpa da alegria, dizendo que era alegria de pobre que não via, desde muitos anos, uma nota de cinco mil-réis.
Pois está em suas mãos ver outras muitas, disse eu.
Sim? acudiu ele, dando um bote para mim.
Trabalhando, conclui eu.
Fez um gesto de desdém; calou-se alguns instantes; depois disse-me positivamente que não queria trabalhar. Eu estava enjoado dessa abjeção tão cômica e tão triste, e preparei-me para sair.
Não vá sem eu lhe ensinar a minha filosofia da miséria, disse ele, escarranchando-se diante de mim.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Supersede




O acadêmico, ilustre, que me distingue com sua intimidade, estava apreensivo. Interpelei-o:
Que que há, mestre? Em dia tão fausto para a Academia, o senhor com esta cara!
Fausto? Tens certeza? Deus te ouça, meu filho. Mas tenho cá as minhas nuvens.
Nuvens?
Os meus receios.
Vamos ver se adivinho. Acha que a supersede… não vai dar renda compensadora?
Vai dar, e fantástica.
Tem medo, talvez, de que a construção, assim gigantesca, não seja bastante segura.
Aquilo? Aquilo é obra para séculos.
Então não entendo. A Academia assina contrato para levantar um senhor edifício, as firmas contratantes são as mais idôneas, o imóvel encherá de dinheiro a instituição, que tem ótimo executivo, e o mestre me sai com esse ar de quem não comeu e não gostou?
Por isso mesmo. É bondade demais, Carlos. Uma coisa assim não existe.
Não existe, como? Tem terreno de três mil e quinhentos metros quadrados, oferecido pelo marechal Castelo Branco e doado pelo Congresso Nacional, tem financiamento no valor de quinze milhões de dólares, tem projeto bacana de Maurício Roberto, o contrato será firmado hoje, e vai me dizer que isso não existe?
Existe em demasia, o que é maneira de não existir, de virar conto de Onássis e perturbar a cabeça da gente.
Desculpe, mestre, mas o senhor não estará cultivando complexo de franciscano?
Não me compreendes, estou vendo. Não é de admirar. A faculdade de compreensão vai minguando à medida que se expandem os meios de comunicação. És um, entre milhões, a prová-lo.
Perdão, eu…
Cala e escuta. A Academia atrai ou não atrai os homens e até as mulheres de letras?
Realmente.
E que é a Academia? O fardão, o espadim, o colar, a poltrona azul e ouro, a cajuada, o jeton que não dá para pagar a despesa de viver durante um mês, a sepultura e, principalmente, se não laboro em erro, e se não mentiu Machado, “a glória que fica, eleva, honra e consola”. Se com apenas isso, que não é muito, ela se faz tão cobiçada, imagina como vai ser daqui por diante, com o seu império imobiliário.
Ora!
É o que te digo. Todo mundo, mas todo mundo mesmo, querendo participar do condomínio de quarenta andares, da renda dos escritórios e dos seis andares de garagem. Noite e dia, gente de olho no reumatismo, no colesterol, no diabete da gente… É sinistro.
Não ligue. Faça figa.
Eu faço, mas adianta? E os despachos em sentido adverso? A descaridade dos que desejarão a minha vaga, sinônimo de minha morte? Cada sorriso, um punhal; cada blandícia, um pavê envenenado. É o que iremos lucrar, entrando na área da grande empresa.
Com a renda, ouço dizer, se custearão empreendimentos culturais.
Sobre as nossas campas, abertas antes da hora. E imaginas que iremos produzir mais, com a burra cheia de pecúnia? Nosso tempo será todo absorvido com pedidos de empenho para alugar a melhor loja, o escritório de vista mais panorâmica. Nossas letras serão de preferência as imobiliárias, de câmbio e do Tesouro. Manteremos um plantão na Bolsa de Valores. Outro no BNH. Cibulares e Marcelo serão nossos assessores para a avaliação das obras, perdão, dos títulos dos candidatos à imortalidade. E as leis fiscais, os problemas de Imposto de Renda e quejandos não nos deixarão dormir, quanto mais escrever ensaios ou rapsódias.
Mestre…
Em quê? Em investimentos? Em construção civil? Em juros? Não sou mestre de coisíssima alguma, sou um condenado à riqueza, uma vítima da prosperidade. O Athayde vai se ver comigo na próxima sessão! O diabo é que não consigo brigar com ele. Ninguém consegue. Leva a gente na conversa, no aveludado. E acabará me nomeando administrador do superedifício, presta atenção no que eu estou falando!
Disse, e vestiu-se com esmero para a solenidade de assinatura do contrato.

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica 

26/06/2026

Rafael Meninão e Nelson Faria | Um Café Lá Em Casa

 

Lugarzinho



Eu conheço UM lugarzinho...
Quantas vezes você já não ouviu esta frase? Dita por pessoas que conhecem todos os lugares óbvios que você também conhece mas conhecem um que você não pode conhecer, porque ninguém conhece, só elas? O curioso é que é sempre um lugarzinho, nunca é um lugar grande ou apenas um lugar. Há pessoas que ostentam lugarzinhos como outras ostentam riqueza. Especializam-se em lugarzinho, têm a volúpia do lugarzinho, só para poderem nos impressionar depois.
Nem sempre a frase é dita com a intenção de humilhar quem talvez tenha passado pelo lugarzinho — o barzinho, o restaurantezinho, o hotelzinho, a cidadezinha, às vezes até o paizinho — sem se dar conta.
Vai dizer que você esteve em Luxemburgo e não visitou Luxemburguette, o único país do mundo que é só uma esquina?!
Pode haver o sincero desejo de compartilhar uma descoberta. Devo muitos prazeres a indicações de amigos de lugarzinhos que não estão nos guias e nos caminhos normalmente percorridos, como o restaurante L’Hangar, em Paris, impossível de ser localizado por acaso, já que fica num “impasse”, uma rua que não leva a lugar nenhum. O Hangar, segundo o informante, pertence ao filho da escritora Marguerite Duras, que (uma característica de quem conhece lugarzinhos é conhecer também as fofocas exclusivas dos lugarzinhos) não se dá com a mãe. Fica no “impasse” Berthaud, que sai da avenida Beaubourg, bem perto do Centre Pompidou, também chamado de o mausoléu do Robocop. Não importa o que você pedir como prato principal no Hangar, não deixe de pedir, como sobremesa, o demi-cuit, uma espécie de pudim de chocolate cujo segredo do sucesso é vir para a mesa segundos antes de ficar pronto.
Coisas de lugarzinhos.
O melhor de conhecer lugarzinhos, no entanto, é poder dar inveja a quem não os conhece. Eu mesmo já descobri a minha cota de lugarzinhos e os ostento sem misericórdia. Vai dizer que você já andou pela região do Périgord, na França, e não foi a Collonge-la-rouge, uma cidadezinha medieval toda da mesma cor vermelha? Pobre de você. Quando for, coma omelettes com trufas negras no Relais Saint-Jacques de Compostelle, que tem este nome porque Collonge ficava na rota de peregrinação para Santiago de Compostella, no norte da Espanha. Se quiser, use o meu nome quando pedir as omelettes. Elas virão perfeitas. É verdade que se não usar o meu nome elas também estarão perfeitas, pois ninguém saberá de quem você está falando, mas que diabo.
Há casos em que o lugarzinho não é nada do que disseram. Casos em que houve mais ficção e desejo de arrasar você do que verdade na descrição do lugarzinho. Falaram do ambiente aconchegante e do garçom engraçado mas esqueceram de dizer que o bife tanto pode ser comido como usado para calçar a mesa. Ou então a sua experiência simplesmente não reproduz a experiência de quem indicou o lugarzinho, e naquele hotelzinho rústico tão elogiado e recomendado lhe botam num quarto já ocupado, por um rato, e depois ainda cobram a ocupação dupla. E existe o fato inescapável de que o mesmo lugar pode ser, para alguns, um autêntico lugarzinho, com todas as conotações de revelação e boas surpresas do termo, e para outros um lugarzinho no sentido de porcaria.
Uma versão: “Chegamos a esta cidadezinha maravilhosa que não está nem no mapa e em que nenhuma casa tinha menos de 400 anos e a Margarida perguntou para um amor de velhinho ‘dove é il vecê’ e ele não entendia, e chamou toda a família dele e ninguém entendia, depois juntou toda a cidade e ninguém entendia, até que veio o prefeito, que sabia inglês, e a Margarida perguntou ‘where is the vee cee?’ e o prefeito perguntou ‘What?’ e então a Margarida começou a fazer barulho de xixi, ‘ssshhh, ssshhh’ e o prefeito perguntou ‘What?’ de novo, só que baixinho, e aí nós caímos na risada, e a Margarida riu tanto que só continuou perguntando onde era o banheiro por farra, porque não precisava mais, foi tão simpático!”
Outra versão: “Chegamos a este lugar caindo aos pedaços, não sei por que eles gostam tanto de velharia, e imagina que ninguém sabia o que era WC, a Margarida apertada tendo que perguntar para um monte de ignorantes que não falavam língua nenhuma onde era, até que apareceu o manda-chuva, eles devem eleger o mais ignorante como prefeito, que só complicou mais as coisas e no fim não adiantava mais, coitada da Margarida. Mas o que se pode esperar de uma cidade que não está nem no mapa?”
Mortal, no entanto, é quando o lugarzinho é usado como arma numa competição de vaidades turísticas.
Nós fomos jantar no Tour D’Argent e...
Não me diga que vocês foram ao Tour D’Argent e não foram ao Petit Tour.
O quê?
O Petit Tour. Um lugarzinho que nós descobrimos. Fica do lado!
Nunca ouvi falar.
Eles não querem muita propaganda. Cabeça a minha. Devia ter avisado vocês...
É bom?
Está brincando? É onde os cozinheiros do Tour D’Argent vão comer, depois de enganarem os turistas.
Claro que o Petit Tour não existe. Pelo menos, não que eu saiba. Mas para quem usa o lugarzinho como arma, o efeito é mais importante do que a verdade.
A coisa às vezes chega ao exagero.
O Louvre é espetacular, não é?
É. Mas ao lado do Louvre tem UM museuzinho...
O que pode deixar o outro com a incômoda suspeita de que viu a Mona Lisa errada.
O lugarzinho tem que ser, antes de mais nada, desconhecido, ou só conhecido por uma minoria privilegiada, ou — para ser um lugarzinho ainda mais lugarzinho — só conhecido por uma minoria do lugar. Seu charme não pode ser intencional. Isto é, o lugarzinho não pode saber que tem charme, senão não é mais lugarzinho. E como os meteoritos, que só são detectados no céu quando se desintegram, os lugarzinhos só são descobertos pouco antes de deixarem de ser, pois a própria descoberta determina a perda das credenciais de lugarzinho. Se alguém o recomendou a você, e você, claro, não vai perder a oportunidade de também poder dizer “Eu conheço UM lugarzinho...” a outros, não demorará muito antes que o lugarzinho passe a ser frequentado só por pessoas atrás de lugarzinhos. Perderá toda a espontaneidade. Os preços aumentarão e é possível que o próprio lugar também aumente, perdendo o direito ao diminutivo. Se o encanto do lugarzinho era o menu escrito a giz num quadro-negro, e errado, na sua visita seguinte você descobrirá que eles estão errando a grafia dos pratos de propósito e em pouco tempo estarão vendendo pôsteres com “o nosso famoso menu mal escrito”. E é fácil prever o que acontecerá depois. Você dirá para alguém, convencido de que está abafando:
Eu conheço UM lugarzinho...
E ouvirá:
Não, não. Esse eu conheço. Não dá mais para ir lá. Agora, do lado dele tem UM lugarzinho…

Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora

Sobre escrever

Às vezes tenho a impressão de que escrevo por simples curiosidade intensa. É que, ao escrever, eu me dou as mais inesperadas surpresas. É na hora de escrever que muitas vezes fico consciente das coisas, das quais, sendo inconsciente, eu antes não sabia que sabia.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Factótum



14

Meu pai chegou com os trinta dólares à noite. Ao sairmos, os olhos dele estavam marejados.
Você arruinou os seus pais — disse. Parece que eles conheciam um dos policiais que lhe perguntou: “Sr. Chinaski, o que seu filho está fazendo aqui?”.
Eu fiquei tão envergonhado. Nunca poderia imaginar o meu próprio filho preso.
Fomos até o carro dele e entramos. Ele arrancou. Ainda estava chorando.
Já é ruim o suficiente você não querer servir o próprio país na guerra…
O psicólogo disse que eu era inadequado.
Meu filho, se não fosse pela Primeira Guerra Mundial, eu nunca teria conhecido sua mãe e você nunca teria nascido.
Tem cigarro?
Agora você foi preso. Uma coisa dessas poderia matar sua mãe.
Passamos por alguns bares baratos na baixa Broadway.
Vamos entrar e beber alguma coisa.
O quê? Você quer dizer que teria coragem de beber logo depois de sair da cadeia por embriaguez?
É justamente quando mais se precisa de uma bebida.
Não ouse contar para sua mãe que você queria beber logo depois de sair da cadeia — ele me alertou.
Preciso dar umazinha também.
Quê?
Eu disse que também preciso dar umazinha.
Ele quase passou o sinal vermelho. Seguimos em silêncio.
A propósito — disse ele, enfim —, acho que você sabe que a multa da prisão será adicionada ao seu quarto, comida e roupa lavada, né?

Charles Bukowski, em Factótum

Angústia



[…]

Se pudesse, abandonaria tudo e recomeçaria as minhas viagens. Esta vida monótona, agarrada à banca das nove horas ao meio-dia e das duas às cinco, é estúpida. Vida de sururu. Estúpida. Quando a repartição se fecha, arrasto-me até o relógio oficial, meto-me no primeiro bonde de Ponta-da-Terra.
Que estará fazendo Marina? Procuro afastar de mim essa criatura. Uma viagem, embriaguez, suicídio...
Penso no meu cadáver, magríssimo, com os dentes arreganhados, os olhos como duas jabuticabas sem casca, os dedos pretos do cigarro cruzados no peito fundo.
Os conhecidos dirão que eu era um bom tipo e conduzirão para o cemitério, num caixão barato, a minha carcaça meio bichada. Enquanto pegarem e soltarem as alças, revezando-se no mister piedoso e cacete de carregar defunto pobre, procurarão saber quem será o meu substituto na diretoria da fazenda.
Enxoto as imagens lúgubres. Vão e voltam, sem vergonha, e com elas a lembrança de Julião Tavares. Intolerável. Esforço-me por desviar o pensamento dessas coisas. Não sou um rato, não quero ser um rato. Tento distrair-me olhando a rua.
À medida que o carro se afasta do centro sinto que me vou desanuviando. Tenho a sensação de que viajo para muito longe e não voltarei nunca. Do lado esquerdo são as casas da gente rica, dos homens que me amedrontam, das mulheres que usam peles de contos de réis. Diante delas, Marina é uma ratuína. Do lado direito, navios. Às vezes há diversos ancorados. Rolam bondes para a cidade, que está invisível, lá em cima, distante. Vida de sururu.
Há quinze anos era diferente. O barulho dos bondes não deixava a gente ouvir o sino da igreja. O meu quarto, no primeiro andar, era um inferno de calor. Por isso, à hora em que os outros hóspedes iam para a escola, estudar medicina, eu dava um salto ao Passeio Público e lia, debaixo das árvores, o noticiário da polícia. Naturalmente a pensão se fechou e d. Aurora, que naquele tempo era velha, morreu.
O calor aqui também é grande demais. E faltam plantas. Apenas, um pouco afastados, coqueiros macambúzios, perfilados, como se esperassem ordens.
Cidade grande, falta de trabalho. O meu quarto ficava junto à escada, e à noite o cheiro do gás era insuportável. Quando escurecia, Dagoberto, estudante e repórter, vinha despejar sobre a minha cama um compêndio de anatomia e uma cesta de ossos.
O bonde chega ao fim da linha, volta. Bairro miserável, casas de palha, crianças doentes. Barcos de pescadores, as chaminés dos navios, longe.
D. Aurora, que tinha sobrenome inglês, às seis horas encostava-se ao guarda-louça e rosnava, agitava os caracóis brancos, pregava os óculos nos hóspedes que comiam demais e nos que estavam em atraso. Havia um rapaz de Minas, dispéptico, que ela adorava e queria casar com a neta. Enquanto os outros mastigavam, Dagoberto esquecia o prato e falava sobre os discursos da câmara.
Retorno à cidade. Os globos opalinos do Aterro iluminam o gramado murcho e a praia branca. Os coqueiros empertigados ficam para trás. Penso numa ditadura militar, em paradas, em disciplina. Os navios também ficam para trás. A pensão, o meu quarto abafado, o focinho de d. Aurora e a cesta de ossos de Dagoberto somem-se.
O carro passa pelos fundos do tesouro. É ali que ­trabalho. Ocupação estúpida e quinhentos mil-réis de ordenado.
Rua do Comércio. Lá estão os grupos que me desgostam. Conto as pessoas conhecidas: quase sempre até os Martírios encontro umas vinte. Distraio-me, esqueço Marina, que algumas ruas apenas separam de mim. Afasto-me outra vez da realidade, mas agora não vejo os navios, a recordação da cidade grande desapareceu completamente. O bonde roda para oeste, dirige-se ao interior. Tenho a impressão de que ele me vai levar ao meu município sertanejo. E nem percebo os casebres miseráveis que trepam o morro, à direita, os palacetes que têm os pés na lama, junto ao mangue, à esquerda. Quanto mais me aproximo de Bebedouro mais remoço. Marina, Julião Tavares, as apoquentações que tenho experimentado estes últimos tempos, nunca existiram.
Volto a ser criança, revejo a figura de meu avô, Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva, que alcancei velhíssimo. Os negócios na fazenda andavam mal. E meu pai, reduzido a Camilo Pereira da Silva, ficava dias inteiros manzanzando numa rede armada nos esteios do copiar, cortando palha de milho para cigarros, lendo o Carlos Magno, sonhando com a vitória do partido que padre Inácio chefiava. Dez ou doze reses, arrepiadas no carrapato e na varejeira, envergavam o espinhaço e comiam o mandacaru que Amaro vaqueiro cortava nos cestos. O cupim devorava os mourões do curral e as linhas da casa. No chiqueiro alguns bichos bodejavam. Um carro de bois apodrecia debaixo das catingueiras sem folhas. Tinham amarrado no pescoço da cachorra Moqueca um rosário de sabugos de milho queimados. Quitéria, na cozinha, mexia em cumbucos cheios de miudezas, escondia peles de fumo no caritó.
Eu andava no pátio, arrastando um chocalho, brincando de boi. Minha avó, sinha Germana, passava os dias falando só, xingando as escravas, que não existiam. Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva tomava pileques tremendos. Às vezes subia à vila, descomposto, um camisão vermelho por cima da ceroula de algodão encaroçado, chapéu de ouricuri, alpercatas e varapau. Nos dias santos, de volta da igreja, mestre Domingos, que havia sido escravo dele e agora possuía venda sortida, encontrava o antigo senhor escorado no balcão de Teotoninho Sabiá, bebendo cachaça e jogando três-setes com os soldados. O preto era um sujeito perfeitamente respeitável. Em horas de solenidade usava sobrecasaca de chita, correntão de ouro atravessado de um bolso a outro do colete, chinelos de trança, por causa dos calos, que não aguentavam sapatos. Por baixo do chapéu duro, a testa retinta, úmida de suor, brilhava como um espelho. Pois, apesar de tantas vantagens, mestre Domingos, quando via meu avô naquela desordem, dava-lhe o braço, levava-o para casa, curava-lhe a bebedeira com amoníaco. Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva vomitava na sobrecasaca de mestre Domingos e gritava:
Negro, tu não respeitas teu senhor não, negro!
Quando o carro para, essas sombras antigas desaparecem de supetão — e vejo coisas que não me excitam nenhum interesse: os focos da iluminação pública, espaçados, cochilando, piongos, tão piongos como luzes de cemitério; um palácio transformado em albergue de vagabundos; escuridões, capoeiras, barreiras cortadas a pique no monte; a frontaria de uma fábrica de tecidos; e, de longe em longe, através de ramagens, pedaços de mangue, cinzentos. À medida que nos aproximamos do fim da linha as paradas são menos frequentes. Os postes cintados de branco passam correndo, o carro está quase vazio, as recordações da minha infância precipitam-se. E a decadência de Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva precipita-se também.
Estava pegando um século quando entrou a caducar. Encolhido na cama de couro cru, mijava-se todo, contava os dedos dos pés e caía na madorna. De repente acordava sobressaltado:
Sinha Germana!
Meu pai largava o Carlos Magno, abria o tabaqueiro, ­deixava a rede, impaciente:
Que é que há?
Homem, você não me dirá onde está sua mãe? Aqui mais de uma hora chamando essa mulher!
Morreu.
Que está me dizendo? estranhava o velho arregalando os olhos quase cegos. Quando foi isso?
Camilo Pereira da Silva amolava-se:
Deixe de arrelia. Morreu o ano passado.
Tanto tempo! dizia Trajano. E vocês calados...
Punha-se a folgar com os dedos e pegava no sono. Quinze minutos depois estava berrando:
Sinha Germana!
Acabou-se numa agonia leve que não queria ter fim. E enterrou-se na catacumba desmantelada que nossa família tinha no cemitério da vila. Mestre Domingos pegou na alça do caixão e declarou a meu pai que a morte é um mundéu. Fomos morar na vila. Meteram-me na escola de seu Antônio Justino, para desasnar, pois, como disse Camilo quando me apresentou ao mestre, eu era um cavalo de dez anos e não conhecia a mão direita. Aprendi leitura, o catecismo, a conjugação dos verbos. O professor dormia durante as lições. E a gente bocejava olhando as paredes, esperando que uma réstia chegasse ao risco de lápis que marcava duas horas. Saíamos em algazarra. Eu ia jogar pião, sozinho, ou empinar papagaio. Sempre brinquei só.

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Graciliano Ramos, em Angústia