26/06/2026

Rafael Meninão e Nelson Faria | Um Café Lá Em Casa

 

Lugarzinho



Eu conheço UM lugarzinho...
Quantas vezes você já não ouviu esta frase? Dita por pessoas que conhecem todos os lugares óbvios que você também conhece mas conhecem um que você não pode conhecer, porque ninguém conhece, só elas? O curioso é que é sempre um lugarzinho, nunca é um lugar grande ou apenas um lugar. Há pessoas que ostentam lugarzinhos como outras ostentam riqueza. Especializam-se em lugarzinho, têm a volúpia do lugarzinho, só para poderem nos impressionar depois.
Nem sempre a frase é dita com a intenção de humilhar quem talvez tenha passado pelo lugarzinho — o barzinho, o restaurantezinho, o hotelzinho, a cidadezinha, às vezes até o paizinho — sem se dar conta.
Vai dizer que você esteve em Luxemburgo e não visitou Luxemburguette, o único país do mundo que é só uma esquina?!
Pode haver o sincero desejo de compartilhar uma descoberta. Devo muitos prazeres a indicações de amigos de lugarzinhos que não estão nos guias e nos caminhos normalmente percorridos, como o restaurante L’Hangar, em Paris, impossível de ser localizado por acaso, já que fica num “impasse”, uma rua que não leva a lugar nenhum. O Hangar, segundo o informante, pertence ao filho da escritora Marguerite Duras, que (uma característica de quem conhece lugarzinhos é conhecer também as fofocas exclusivas dos lugarzinhos) não se dá com a mãe. Fica no “impasse” Berthaud, que sai da avenida Beaubourg, bem perto do Centre Pompidou, também chamado de o mausoléu do Robocop. Não importa o que você pedir como prato principal no Hangar, não deixe de pedir, como sobremesa, o demi-cuit, uma espécie de pudim de chocolate cujo segredo do sucesso é vir para a mesa segundos antes de ficar pronto.
Coisas de lugarzinhos.
O melhor de conhecer lugarzinhos, no entanto, é poder dar inveja a quem não os conhece. Eu mesmo já descobri a minha cota de lugarzinhos e os ostento sem misericórdia. Vai dizer que você já andou pela região do Périgord, na França, e não foi a Collonge-la-rouge, uma cidadezinha medieval toda da mesma cor vermelha? Pobre de você. Quando for, coma omelettes com trufas negras no Relais Saint-Jacques de Compostelle, que tem este nome porque Collonge ficava na rota de peregrinação para Santiago de Compostella, no norte da Espanha. Se quiser, use o meu nome quando pedir as omelettes. Elas virão perfeitas. É verdade que se não usar o meu nome elas também estarão perfeitas, pois ninguém saberá de quem você está falando, mas que diabo.
Há casos em que o lugarzinho não é nada do que disseram. Casos em que houve mais ficção e desejo de arrasar você do que verdade na descrição do lugarzinho. Falaram do ambiente aconchegante e do garçom engraçado mas esqueceram de dizer que o bife tanto pode ser comido como usado para calçar a mesa. Ou então a sua experiência simplesmente não reproduz a experiência de quem indicou o lugarzinho, e naquele hotelzinho rústico tão elogiado e recomendado lhe botam num quarto já ocupado, por um rato, e depois ainda cobram a ocupação dupla. E existe o fato inescapável de que o mesmo lugar pode ser, para alguns, um autêntico lugarzinho, com todas as conotações de revelação e boas surpresas do termo, e para outros um lugarzinho no sentido de porcaria.
Uma versão: “Chegamos a esta cidadezinha maravilhosa que não está nem no mapa e em que nenhuma casa tinha menos de 400 anos e a Margarida perguntou para um amor de velhinho ‘dove é il vecê’ e ele não entendia, e chamou toda a família dele e ninguém entendia, depois juntou toda a cidade e ninguém entendia, até que veio o prefeito, que sabia inglês, e a Margarida perguntou ‘where is the vee cee?’ e o prefeito perguntou ‘What?’ e então a Margarida começou a fazer barulho de xixi, ‘ssshhh, ssshhh’ e o prefeito perguntou ‘What?’ de novo, só que baixinho, e aí nós caímos na risada, e a Margarida riu tanto que só continuou perguntando onde era o banheiro por farra, porque não precisava mais, foi tão simpático!”
Outra versão: “Chegamos a este lugar caindo aos pedaços, não sei por que eles gostam tanto de velharia, e imagina que ninguém sabia o que era WC, a Margarida apertada tendo que perguntar para um monte de ignorantes que não falavam língua nenhuma onde era, até que apareceu o manda-chuva, eles devem eleger o mais ignorante como prefeito, que só complicou mais as coisas e no fim não adiantava mais, coitada da Margarida. Mas o que se pode esperar de uma cidade que não está nem no mapa?”
Mortal, no entanto, é quando o lugarzinho é usado como arma numa competição de vaidades turísticas.
Nós fomos jantar no Tour D’Argent e...
Não me diga que vocês foram ao Tour D’Argent e não foram ao Petit Tour.
O quê?
O Petit Tour. Um lugarzinho que nós descobrimos. Fica do lado!
Nunca ouvi falar.
Eles não querem muita propaganda. Cabeça a minha. Devia ter avisado vocês...
É bom?
Está brincando? É onde os cozinheiros do Tour D’Argent vão comer, depois de enganarem os turistas.
Claro que o Petit Tour não existe. Pelo menos, não que eu saiba. Mas para quem usa o lugarzinho como arma, o efeito é mais importante do que a verdade.
A coisa às vezes chega ao exagero.
O Louvre é espetacular, não é?
É. Mas ao lado do Louvre tem UM museuzinho...
O que pode deixar o outro com a incômoda suspeita de que viu a Mona Lisa errada.
O lugarzinho tem que ser, antes de mais nada, desconhecido, ou só conhecido por uma minoria privilegiada, ou — para ser um lugarzinho ainda mais lugarzinho — só conhecido por uma minoria do lugar. Seu charme não pode ser intencional. Isto é, o lugarzinho não pode saber que tem charme, senão não é mais lugarzinho. E como os meteoritos, que só são detectados no céu quando se desintegram, os lugarzinhos só são descobertos pouco antes de deixarem de ser, pois a própria descoberta determina a perda das credenciais de lugarzinho. Se alguém o recomendou a você, e você, claro, não vai perder a oportunidade de também poder dizer “Eu conheço UM lugarzinho...” a outros, não demorará muito antes que o lugarzinho passe a ser frequentado só por pessoas atrás de lugarzinhos. Perderá toda a espontaneidade. Os preços aumentarão e é possível que o próprio lugar também aumente, perdendo o direito ao diminutivo. Se o encanto do lugarzinho era o menu escrito a giz num quadro-negro, e errado, na sua visita seguinte você descobrirá que eles estão errando a grafia dos pratos de propósito e em pouco tempo estarão vendendo pôsteres com “o nosso famoso menu mal escrito”. E é fácil prever o que acontecerá depois. Você dirá para alguém, convencido de que está abafando:
Eu conheço UM lugarzinho...
E ouvirá:
Não, não. Esse eu conheço. Não dá mais para ir lá. Agora, do lado dele tem UM lugarzinho…

Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora

Sobre escrever

Às vezes tenho a impressão de que escrevo por simples curiosidade intensa. É que, ao escrever, eu me dou as mais inesperadas surpresas. É na hora de escrever que muitas vezes fico consciente das coisas, das quais, sendo inconsciente, eu antes não sabia que sabia.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Factótum



14

Meu pai chegou com os trinta dólares à noite. Ao sairmos, os olhos dele estavam marejados.
Você arruinou os seus pais — disse. Parece que eles conheciam um dos policiais que lhe perguntou: “Sr. Chinaski, o que seu filho está fazendo aqui?”.
Eu fiquei tão envergonhado. Nunca poderia imaginar o meu próprio filho preso.
Fomos até o carro dele e entramos. Ele arrancou. Ainda estava chorando.
Já é ruim o suficiente você não querer servir o próprio país na guerra…
O psicólogo disse que eu era inadequado.
Meu filho, se não fosse pela Primeira Guerra Mundial, eu nunca teria conhecido sua mãe e você nunca teria nascido.
Tem cigarro?
Agora você foi preso. Uma coisa dessas poderia matar sua mãe.
Passamos por alguns bares baratos na baixa Broadway.
Vamos entrar e beber alguma coisa.
O quê? Você quer dizer que teria coragem de beber logo depois de sair da cadeia por embriaguez?
É justamente quando mais se precisa de uma bebida.
Não ouse contar para sua mãe que você queria beber logo depois de sair da cadeia — ele me alertou.
Preciso dar umazinha também.
Quê?
Eu disse que também preciso dar umazinha.
Ele quase passou o sinal vermelho. Seguimos em silêncio.
A propósito — disse ele, enfim —, acho que você sabe que a multa da prisão será adicionada ao seu quarto, comida e roupa lavada, né?

Charles Bukowski, em Factótum

Angústia



[…]

Se pudesse, abandonaria tudo e recomeçaria as minhas viagens. Esta vida monótona, agarrada à banca das nove horas ao meio-dia e das duas às cinco, é estúpida. Vida de sururu. Estúpida. Quando a repartição se fecha, arrasto-me até o relógio oficial, meto-me no primeiro bonde de Ponta-da-Terra.
Que estará fazendo Marina? Procuro afastar de mim essa criatura. Uma viagem, embriaguez, suicídio...
Penso no meu cadáver, magríssimo, com os dentes arreganhados, os olhos como duas jabuticabas sem casca, os dedos pretos do cigarro cruzados no peito fundo.
Os conhecidos dirão que eu era um bom tipo e conduzirão para o cemitério, num caixão barato, a minha carcaça meio bichada. Enquanto pegarem e soltarem as alças, revezando-se no mister piedoso e cacete de carregar defunto pobre, procurarão saber quem será o meu substituto na diretoria da fazenda.
Enxoto as imagens lúgubres. Vão e voltam, sem vergonha, e com elas a lembrança de Julião Tavares. Intolerável. Esforço-me por desviar o pensamento dessas coisas. Não sou um rato, não quero ser um rato. Tento distrair-me olhando a rua.
À medida que o carro se afasta do centro sinto que me vou desanuviando. Tenho a sensação de que viajo para muito longe e não voltarei nunca. Do lado esquerdo são as casas da gente rica, dos homens que me amedrontam, das mulheres que usam peles de contos de réis. Diante delas, Marina é uma ratuína. Do lado direito, navios. Às vezes há diversos ancorados. Rolam bondes para a cidade, que está invisível, lá em cima, distante. Vida de sururu.
Há quinze anos era diferente. O barulho dos bondes não deixava a gente ouvir o sino da igreja. O meu quarto, no primeiro andar, era um inferno de calor. Por isso, à hora em que os outros hóspedes iam para a escola, estudar medicina, eu dava um salto ao Passeio Público e lia, debaixo das árvores, o noticiário da polícia. Naturalmente a pensão se fechou e d. Aurora, que naquele tempo era velha, morreu.
O calor aqui também é grande demais. E faltam plantas. Apenas, um pouco afastados, coqueiros macambúzios, perfilados, como se esperassem ordens.
Cidade grande, falta de trabalho. O meu quarto ficava junto à escada, e à noite o cheiro do gás era insuportável. Quando escurecia, Dagoberto, estudante e repórter, vinha despejar sobre a minha cama um compêndio de anatomia e uma cesta de ossos.
O bonde chega ao fim da linha, volta. Bairro miserável, casas de palha, crianças doentes. Barcos de pescadores, as chaminés dos navios, longe.
D. Aurora, que tinha sobrenome inglês, às seis horas encostava-se ao guarda-louça e rosnava, agitava os caracóis brancos, pregava os óculos nos hóspedes que comiam demais e nos que estavam em atraso. Havia um rapaz de Minas, dispéptico, que ela adorava e queria casar com a neta. Enquanto os outros mastigavam, Dagoberto esquecia o prato e falava sobre os discursos da câmara.
Retorno à cidade. Os globos opalinos do Aterro iluminam o gramado murcho e a praia branca. Os coqueiros empertigados ficam para trás. Penso numa ditadura militar, em paradas, em disciplina. Os navios também ficam para trás. A pensão, o meu quarto abafado, o focinho de d. Aurora e a cesta de ossos de Dagoberto somem-se.
O carro passa pelos fundos do tesouro. É ali que ­trabalho. Ocupação estúpida e quinhentos mil-réis de ordenado.
Rua do Comércio. Lá estão os grupos que me desgostam. Conto as pessoas conhecidas: quase sempre até os Martírios encontro umas vinte. Distraio-me, esqueço Marina, que algumas ruas apenas separam de mim. Afasto-me outra vez da realidade, mas agora não vejo os navios, a recordação da cidade grande desapareceu completamente. O bonde roda para oeste, dirige-se ao interior. Tenho a impressão de que ele me vai levar ao meu município sertanejo. E nem percebo os casebres miseráveis que trepam o morro, à direita, os palacetes que têm os pés na lama, junto ao mangue, à esquerda. Quanto mais me aproximo de Bebedouro mais remoço. Marina, Julião Tavares, as apoquentações que tenho experimentado estes últimos tempos, nunca existiram.
Volto a ser criança, revejo a figura de meu avô, Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva, que alcancei velhíssimo. Os negócios na fazenda andavam mal. E meu pai, reduzido a Camilo Pereira da Silva, ficava dias inteiros manzanzando numa rede armada nos esteios do copiar, cortando palha de milho para cigarros, lendo o Carlos Magno, sonhando com a vitória do partido que padre Inácio chefiava. Dez ou doze reses, arrepiadas no carrapato e na varejeira, envergavam o espinhaço e comiam o mandacaru que Amaro vaqueiro cortava nos cestos. O cupim devorava os mourões do curral e as linhas da casa. No chiqueiro alguns bichos bodejavam. Um carro de bois apodrecia debaixo das catingueiras sem folhas. Tinham amarrado no pescoço da cachorra Moqueca um rosário de sabugos de milho queimados. Quitéria, na cozinha, mexia em cumbucos cheios de miudezas, escondia peles de fumo no caritó.
Eu andava no pátio, arrastando um chocalho, brincando de boi. Minha avó, sinha Germana, passava os dias falando só, xingando as escravas, que não existiam. Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva tomava pileques tremendos. Às vezes subia à vila, descomposto, um camisão vermelho por cima da ceroula de algodão encaroçado, chapéu de ouricuri, alpercatas e varapau. Nos dias santos, de volta da igreja, mestre Domingos, que havia sido escravo dele e agora possuía venda sortida, encontrava o antigo senhor escorado no balcão de Teotoninho Sabiá, bebendo cachaça e jogando três-setes com os soldados. O preto era um sujeito perfeitamente respeitável. Em horas de solenidade usava sobrecasaca de chita, correntão de ouro atravessado de um bolso a outro do colete, chinelos de trança, por causa dos calos, que não aguentavam sapatos. Por baixo do chapéu duro, a testa retinta, úmida de suor, brilhava como um espelho. Pois, apesar de tantas vantagens, mestre Domingos, quando via meu avô naquela desordem, dava-lhe o braço, levava-o para casa, curava-lhe a bebedeira com amoníaco. Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva vomitava na sobrecasaca de mestre Domingos e gritava:
Negro, tu não respeitas teu senhor não, negro!
Quando o carro para, essas sombras antigas desaparecem de supetão — e vejo coisas que não me excitam nenhum interesse: os focos da iluminação pública, espaçados, cochilando, piongos, tão piongos como luzes de cemitério; um palácio transformado em albergue de vagabundos; escuridões, capoeiras, barreiras cortadas a pique no monte; a frontaria de uma fábrica de tecidos; e, de longe em longe, através de ramagens, pedaços de mangue, cinzentos. À medida que nos aproximamos do fim da linha as paradas são menos frequentes. Os postes cintados de branco passam correndo, o carro está quase vazio, as recordações da minha infância precipitam-se. E a decadência de Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva precipita-se também.
Estava pegando um século quando entrou a caducar. Encolhido na cama de couro cru, mijava-se todo, contava os dedos dos pés e caía na madorna. De repente acordava sobressaltado:
Sinha Germana!
Meu pai largava o Carlos Magno, abria o tabaqueiro, ­deixava a rede, impaciente:
Que é que há?
Homem, você não me dirá onde está sua mãe? Aqui mais de uma hora chamando essa mulher!
Morreu.
Que está me dizendo? estranhava o velho arregalando os olhos quase cegos. Quando foi isso?
Camilo Pereira da Silva amolava-se:
Deixe de arrelia. Morreu o ano passado.
Tanto tempo! dizia Trajano. E vocês calados...
Punha-se a folgar com os dedos e pegava no sono. Quinze minutos depois estava berrando:
Sinha Germana!
Acabou-se numa agonia leve que não queria ter fim. E enterrou-se na catacumba desmantelada que nossa família tinha no cemitério da vila. Mestre Domingos pegou na alça do caixão e declarou a meu pai que a morte é um mundéu. Fomos morar na vila. Meteram-me na escola de seu Antônio Justino, para desasnar, pois, como disse Camilo quando me apresentou ao mestre, eu era um cavalo de dez anos e não conhecia a mão direita. Aprendi leitura, o catecismo, a conjugação dos verbos. O professor dormia durante as lições. E a gente bocejava olhando as paredes, esperando que uma réstia chegasse ao risco de lápis que marcava duas horas. Saíamos em algazarra. Eu ia jogar pião, sozinho, ou empinar papagaio. Sempre brinquei só.

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Graciliano Ramos, em Angústia

25/06/2026

Dominguinhos | Nossas Últimas Viagens

Livro XI | 18

I. Devo considerar o meu vínculo com os homens e que fomos feitos uns para os outros. Sob outra perspectiva, fui concebido para pastorar, como um carneiro que chefia o rebanho ou um touro que conduz a manada. Devo examinar a questão a partir das primeiras convicções: caso não existam somente átomos, a natureza ordena tudo. Assim sendo, as coisas inferiores existem para o benefício das superiores, e essas para o bem umas das outras.
II. Devo avaliar quais tipos de homens são na mesa, na cama e assim por diante. Particularmente, a quais compulsões estão sujeitos devido às suas opiniões e o quanto se orgulham das suas ações.
III. Caso os homens façam o que é certo, não devemos nos descontentar. Caso não, agem por falta de consciência e por ignorância. Nenhuma alma é voluntariamente privada da verdade ou tolhida da aptidão para lidar com os homens conforme seus méritos. Esse é o motivo de se chatearem quando são chamados de injustos, ingratos e gananciosos e, em especial, malfeitores dentre seus vizinhos.
IV. Também erro e sou um homem como qualquer outro. Embora não incorra em certas falhas, ainda estou inclinado a cometê-las — mesmo que a covardia, o apego à reputação ou outras motivações vis me previnam de falhar.
V. Nem sequer sei se os homens estão agindo errado ou não, porque muitas ações são realizadas proporcionalmente às circunstâncias. Um homem precisa saber muito para ser capaz de julgar corretamente as ações do outro.
VI.Caso esteja aborrecido ou aflito, devo ponderar: a vida do homem é um breve instante e logo estaremos todos mortos.
VII. O que nos perturba não são os atos dos homens — pois esses se fundamentam nas suas faculdades hegemônicas —, mas sim nossas próprias opiniões acerca dos atos. Portanto, remova a sua opinião. Pare de julgar um ato como doloroso e sua dor cessará.
Como, então, remover essas opiniões?”
Basta reconhecer que nenhum ato errôneo sofrido por você é vergonhoso. Afinal de contas, se o que é vergonhoso fosse apenas mau, você cometeria muitos erros, seria um ladrão e tudo mais.
VIII. A dor é causada mais pela cólera e pelo aborrecimento em resposta aos atos do que pelos atos em si.
IX. Uma boa disposição é invencível quando é genuína—quando o sorriso não é falso ou fingido. Não há nada que o homem mais violento possa fazer caso você continue tratando-o gentilmente, admoestando-o e calmamente corrigindo-o quando tentar prejudicá-lo. Diga a ele: “Não é assim, meu filho. Fomos constituídos por natureza para outro propósito. Você prejudica não a mim, mas a você mesmo.” Mostre-o, com tato e recorrendo a convicções abrangentes, que nem as abelhas nem quaisquer animais gregários agem como ele. Você deve se dirigir a ele de modo afetuoso, sem sarcasmo ou reprimenda e sem guardar rancor na sua alma. Você deve admoestá-lo não como se fosse um professor ou como se pretendesse impressionar espectadores, mas sim como se ele estivesse sozinho — ainda que outros estejam presentes.
Receba essas nove regras como se fossem dádivas das nove Musas.
Comece, enquanto ainda vive, a ser um homem. Evite, na mesma medida,tagarelar e se aborrecer com os outros, porque ambos são comportamentos antissociais e danosos. Quando encolerizado, retenha esta verdade: ser movido pela paixão não é viril. A brandura e a gentileza, por estarem mais em consonância com a natureza humana, são mais viris. Quem possui essas duas qualidades demonstra força, nervos e coragem, diferente do homem sujeito ao ímpeto da paixão e do descontentamento. Ao passo que se liberta das paixões, o homem se fortalece. A raiva é uma característica da fraqueza tanto quanto o sofrimento. Quem cede à ira está tão ferido e rendido quanto quem cede à dor.
Por fim, caso queira, receba uma décima dádiva do líder das Musas:
X. Esperar que homens maus não façam o mal é insanidade, pois significa expectar o impossível. Permitir que se comportem dessa maneira com o outro mas não com você é irracional e tirânico.

Marco Aurélio, em Meditações

Téo & O Mini Mundo

Diário de Bernardo Soares

116.

Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e o representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida — umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana.
Não é esse o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

I’m Carrying | Paul McCartney



By dawn’s first light I’ll come back to your room again
With my carnation hidden by the packages
I’m carrying
Something
I’m carrying something for you

Ah long time no see, baby, sure has been a while
And if my reappearance lacks a sense of style
I’m carrying
Something
I’m carrying something for you

I’m carrying
Can’t help it
I’m carrying something for you
I’m carrying
Something
I’m carrying something for you

Continuar a carreira após o término dos Beatles sempre seria difícil. Na cabeça de muita gente, eu estava carregando bagagem emocional. Mas, após uns lançamentos solo, eu queria voltar à camaradagem de estar numa banda, e poderia ter abordado o Wings de duas maneiras: entrar no topo como um Beatle ao lado de um ex-membro do Small Faces ou Cream e fazer o que eles costumavam chamar de “supergrupo”, ou eu poderia simplesmente começar algo que fosse agradável e tentar construir uma trajetória, como os Beatles fizeram. Escolhi a segunda opção. O único problema era que dessa vez teríamos que cometer nossos erros em público. Com os Beatles, foi tudo no privado, porque o público nos clubes de Hamburgo era reduzido, então pouca gente nos ouvia pisando na bola.
No início, a caminhada foi dura, porque o Wings não tinha sucessos e eu não queria tocar nada dos Beatles. Eu queria fazer uma divisão clara. Todos os promotores renomados da época me indagavam: “Vai tocar ‘Yesterday’?”. Era possível ver no semblante deles: era isso que eles queriam. E tínhamos que lutar contra isso. Isso dá uma ideia de quem eu sou; eu abomino duplicar qualquer coisa ou pessoa. Por isso, eu queria que o grupo Wings fosse bem-sucedido por méritos próprios. Assim, desde o começo, ficou óbvio que teríamos de nos conformar com o fato de que esse processo levaria tempo. Começamos em escala pequena, crescemos um pouquinho, excursionamos na Europa. No começo não éramos uma banda muito boa, faltava aparar as arestas. Um show aqui, outro ali, aparecendo nas universidades e pedindo para tocar nas entidades estudantis naquela noite, sem ter nenhuma canção conhecida do público. Mas então fomos melhorando e nos entrosando mais. Súbito, em meados dos anos 1970, já tínhamos sucessos como “Band on the Run”, “Silly Love Songs” e um repertório suficiente para sermos conhecidos sem depender dos Beatles.
As pessoas me indagam: “O que significa esta canção?”, e eu respondo: “Bem, depende de você”. Pode significar um milhão de coisas. O que é que estou carregando aqui? Fica claro que são pacotes. Sou como um dândi com pacotes que escondem meu cravo na lapela. Estou trazendo presentes pra você, estou carregando algo pra você, mas também, quando a mulher está grávida, ela “carrega” um neném. Talvez pudéssemos descartar outros significados. Uma pessoa carrega uma arma. E outra está carregando drogas. Um significado que pode funcionar aqui é a ideia de a pessoa “carregar” uma banda nas costas, com os outros se beneficiando do sucesso alheio. Não estou bem certo em relação a isso. Só estou brincando com a palavra “carregar”. É uma cançãozinha pra lá de ambígua, mas esse é o tipo de liberdade do Wings, de fazer algo meio ambíguo.
Já insinuaram que esta canção soa lennoniana. Eu admitiria se fosse, mas para mim soa mais mccartniana: apenas a vozinha. Não consigo imaginar John fazendo uma vozinha dessas. Mas sabe, se alguém a considerar lennoniana, não tem problema. Afinal de contas, aprendemos a compor canções juntos.

Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente

24/06/2026

Tom Ribeira | Juba

Naturalidade

Eu e o peixe no aquário temos nenhuma naturalidade.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

Último caderno de Kindzu



As páginas da terra

Depois de Euzinha já nenhuma esperança me restava. Eu voltava a Matimati sem Quintino. Perdida estava a amizade. Voltava sem trazer Gaspar. Perdido estava o amor. Farida não aceitaria a minha falta de promessa. E ela se afastaria de mim, partiria para inalcançável longe.
Subi a escura rua da vila em direcção à casa de Assane. Antoninho me recebeu às arrecuas como se visse um fantasma fora do prazo. Tinha os braços envoltos em ligaduras. Assane chegou à porta se arrastando na cadeira e, virando-se para o ajudante, perguntou:
Já lhe deu a novidade?
Que se passa? Que aconteceu com Farida?
Assane se moveu em minha direcção. Subiu-se na cadeira, esforçado para me dar um conforto, seu braço me laçando o ombro.
Não vale a pena você voltar lá.
Não vale a pena?
Farida já não te espera.
Como: vieram-lhe buscar?
De certa maneira...
Como de certa maneira?
Se acalma, Kindzu. Lhe vamos contar.
Se passara de maneira confusa. Por ordem de Assane, Antoninho se metera numa canoa e se dirigira ao barco naufragado. Quando encontrou Farida ele se exclamou. A mulher estava uma rodilha, só quase se lhe viam os olhos. O enviado se chegou com modos sossegados e se apresentou em sua função de amizade. Farida quis saber novidades de Kindzu. Disse que a demora já era demasiada. A procura do filho não iria resultar. A terra é imensa, a guerra é maior ainda.
Nunca lhe hão-de encontrar!
Então, com determinação, ela disse: não posso adiar mais. Vês aquele farol, apontou ela por entre o poente. Tenho que fazer com que aquele farol funcione.
Antoninho se dispôs a ajudar. Ela anunciou: iria lá acender aquelas luzes, reparar a escuridão. Aquelas luzes haveriam de guiar navios que a viriam tirar dali. O outro ficaria no navio naufragado vigiando se alguém chegava. Farida partiu na embarcação de Antoninho. Ele ainda a viu chegar ao pequeno ilhéu e entrar no farol. Ficou lá um tempo, saiu, voltou a entrar, carregando uns velhos bidões. De repente, a torre se sacudiu em imensa explosão. Labaredas escaparam como sôfregas línguas do edifício. Toda a ilha ficou ardendo.
Não é possível, Farida não morreu! Eu vou lá a esse farol, amanhã mesmo...
Não vale a pena, Antoninho confirmou.
Não confio neste sacana. Se calhar foi ele mesmo quem tramou a morte dela...
Virei costas e me retirei, brusco, corredor afora. Dentro do quarto de Surendra fiquei em espanto. Não chorava. Mas um tremendo cansaço me sufocava o peito. Assane entrou no quarto, suas rodas chiaram no escuro.
Kindzu, você foi injusto com esse miúdo.
Com Antoninho? Eu lhe conheço muito bem.
Mas, desta vez, se enganou. Eu posso testemunhar quanto o moço sofreu.
Assane me garantia. Antoninho tinha ido, em outro pequeno bote, tentar ajudar a mulher que eu amava. Entrara no incêndio com desprezo de sua própria vida. Seus braços arderam como tochas, quase os perdera para sempre.
Antoninho, agora, lhe respeita. Acredite, Kindzu.
A tristeza me enchia tanto que eu deitei de parte a desconfiança. Admiti ter errado. Sem convicção pedi a Assane que me desculpasse perante Antoninho.
Assane, eu preciso sair daqui.
Calha bem, meu amigo. Amanhã mesmo sai o primeiro machimbombo de nossa empresa.
Fingi nem reparar. Nossa empresa? Então, o negócio já se expandira? Afinal, em guerra se pode prosperar mais rápido que em normais tempos de paz. Levantei outra, mais leve, dúvida:
Já se pode circular na estrada?
Não temos certeza. Vamos tentar.
Está certo. Amanhã eu embarco nesse machimbombo. Me deixe agora, estou de mais cansado.
Eu queria ficar absolutamente só. Sentia na versão de Assane um sabor de falso. O paralítico estava agora unido com o administrador, lhe prestaria serviço apenas para encomendar simpatias. A morte de Farida seria um desses serviços. Antoninho seria um perfeito servente.
Durante toda a noite dormi um sonho, com sabores de autêntico. Enquanto adormecia mil perguntas me continuavam a agitar. E se não tivessem assassinado Farida, através da mão suja de Antoninho? Se o moço se tivesse realmente arriscado para a salvar? Nunca mais eu saberia o certo. No dia seguinte eu estaria de retorno à minha aldeia. Há quanto tempo eu tinha saído? O que acontecera, entretanto, a minha mãe, grávida de um impossível filho? E Junhito: será que cocoricava ainda pelos prados?
Agora era como se esses fantasmas trabalhassem em minha cabeça para me transmitirem seus segredos, revelações de um outro mundo. Vou relatar o último sonho a ver se me livro do peso de terríveis lembranças. Não quero que tais pensamentos me regressem. Preciso dormir, totalmente dormir, me emigrar deste corpo cheio de esperas e sofrências. Preciso descansar de suspeitas, esfriar meu desejo de vingança. Amanhã apanho o autocarro para regressar a minha aldeia. Não quero lembrar nada, nem Farida, nem Carolinda, nem Quintino, nem ninguém. O que queria mesmo era ir mar adentro, como Assma, empurrado num barquinho sem destino. Ou fazer como minha mãe me ensinou: ser a mais delicada sombra. É isso que desejo: me apagar, perder voz, desexistir. Ainda bem que escrevi, passo por passo, esta minha viagem. Assim escritas estas lembranças ficam presas no papel, bem longe de mim. Este é o último caderno. Depois, arrumo tudo na mala que me deu Surendra. No final, Surendra é o único de quem eu aceito companhia. O indiano mais sua nação sonhada: o oceano sem nenhum fim.
Me falta, pois, trazer o que essa noite viajou em minha cabeça. Me falta soltar o último peso que me impede ser sombra. Ponho o sonho, em sua selvagem desordem: eu estava descendo um vale molhado de tanta de luz, cheio de manhã. Aquela parecia a primeira madrugada do mundo. A luz se espantava de sua própria estreia, experimentando sua grandeza ao iluminar as mais pequenas coisas. As cores, de tanto serem novas, se cambiavam incessantemente. Foi então que vi avançar um enorme grupo de pessoas, pobres, embrulhadas em cascas e fiapos. Eram centenas de centenas. Foram-me enchendo o sono. À frente seguia o feiticeiro da minha aldeia. Envergava uma sarapilheira encardida, cujos farrapos poeiravam pelo chão. O adivinho olhou a terra como se dele dependesse o destino do universo. Pesava nos seus olhos a gravíssima decisão de criar um outro dia.
É aqui mesmo!, disse.
Escolhia o caminho parecendo procurar o centro de uma invisível paisagem. Atrás dele se arrastava a multidão, rastejando como se suas vidas se alimentassem das pegadas de seu guia. O feiticeiro subiu a um morro de muchém e contemplou a planície. Ajeitou o chapéu feito de penas e enroscou melhor a sarapilheira como se aquele calor lhe esfriasse os ossos. Então, levantando o seu cajado sentenciou:
Que morram as estradas, se apaguem os caminhos e desabem as pontes!
Depois, começou o discurso, desfiando palavras lentas, rasgando a voz de encontro ao vento:
Chorais pelos dias de hoje? Pois saibam que os dias que virão serão ainda piores. Foi por isso que fizeram esta guerra, para envenenar o ventre do tempo, para que o presente parisse monstros no lugar da esperança. Não mais procureis vossos familiares que saíram para outras terras em busca da paz. Mesmo que os reencontreis eles não vos reconhecerão. Vós vos convertêsteis em bichos, sem família, sem nação. Porque esta guerra não foi feita para vos tirar do país mas para tirar o país de dentro de vós. Agora, a arma é a vossa única alma. Roubaram-vos tanto que nem sequer os sonhos são vossos, nada de vossa terra vos pertence, e até o céu e o mar serão propriedade de estranhos. Será mil vezes pior que o passado pois não vereis o rosto dos novos donos e esses patrões se servirão de vossos irmãos para vos dar castigo. Ao invés de combaterem os inimigos, os melhores guerreiros afiarão as lanças nos ventres das suas próprias mulheres. E aqueles que vos deveriam comandar estarão entretidos a regatear migalhas no banquete da vossa própria destruição. E até os miseráveis serão donos do vosso medo pois vivereis no reino da brutalidade. Terão que esperar que os assassinos sejam mortos por suas próprias mãos pois em todos haverá medo da justiça. A terra se revolverá e os enterrados assomarão à superfície para virem buscar as orelhas que lhes foram decepadas. Outros procurarão seus narizes no vómito das hienas e escavarão nas lixeiras para resgatarem seus antigos órgãos. E há-de vir um vento que arrastará os astros pelos céus e a noite se tornará pequena para tantas luzes explodindo sobre as vossas cabeças. As areias se voltearão em remoinhos furiosos pelos ares e os pássaros tombarão extenuados e ocorrerão desastres que não têm nome, as machambas serão convertidas em cemitérios e das plantas, secas e mirradas, brotarão apenas pedras de sal. As mulheres mastigarão areia e serão tantas e tão esfaimadas que um buraco imenso tornará a terra oca e desventrada. No final, porém, restará uma manhã como esta, cheia de luz nova e se escutará uma voz longínqua como se fosse uma memória de antes de sermos gente. E surgirão os doces acordes de uma canção, o terno embalo da primeira mãe. Esse canto, sim, será nosso, a lembrança de uma raiz profunda que não foram capazes de nos arrancar. Essa voz nos dará a força de um novo princípio e, ao escutá-la, os cadáveres sossegarão nas covas e os sobreviventes abraçarão a vida com o ingénuo entusiasmo dos namorados. Tudo isso se fará se formos capazes de nos despirmos deste tempo que nos fez animais. Aceitemos morrer como gente que já não somos. Deixai que morra o animal em que esta guerra nos converteu.
O feiticeiro se calou, extenuado. A sarapilheira estava ensopada de suor. Voltando a levantar o cajado sobre a cabeça ele ainda voltou a falar. Mas se pronunciou em palavras de nenhuma língua. As gentes seguiam o restante discurso à cata de alguma compreensão. Então, o nganga se calou, ergueu uma cabaça e verteu um líquido sobre os ombros. Depois, desceu o morro e fez pingar a cabaça sobre cada um dos presentes. Então se deu o mais extraordinário dos fenómenos e todos os presentes tombaram no chão, agitando-se em espasmos e berros, e se seguiu uma orgia de convulsões, babas e espumas e, um por um, todos foram perdendo as humanas dimensões. Penugens e escamas, garras e bicos, caudas e cristas se espalharam pelos corpos e todo aquele plenário de gente se transfigurou em bicharada. A fala foi a última coisa a ser convertida e, durante um tempo, se escutaram espantos e gritos humanos proferidos pelas mais irracionais bestas. Aos poucos, porém, também o verbo se perdeu e a bicharada, em desordem, se espalhou pelos matos.
Tombado de joelhos perante tais visões, eu olhei as próprias mãos para me confirmar humano. Retirei as vestes e apalpei minhas velhas formas. Com cautela, tossiquei para me certificar da voz. A medo fui emitindo palavras simples, depois frases sem nexo. Não havia dúvida: eu me mantinha completamente gente, habitando o corpo que sempre fora o meu.
Então, por entre as brumas do sonhado, vi um galo se aproximando. Era Junhito, quase eu ia jurar. Porque no inverso dos outros, ele se humanizava, lhe caíam penas, cristas e esporões. Me olhou ainda semibicho. Seus olhos me pediam qualquer coisa, nem eu adivinhava. Que ajuda lhe podia dar, eu, simples sonhador? O que sucedeu, seguidamente, foi que surgiram o colono Romão Pinto junto com o administrador Estêvão, Shetani, Assane, Antoninho e milicianos. Vinham armados e se dirigiram para Junhito, com ganas de lhe depenar o pescoço. Cercaram o manito, dizendo:
Teu pai tinha razão: sempre te viemos buscar.
Então, Junhito me chamou. Eu me olhei, sem confiança. Mas o que em mim vi foi de dar surpresa, mesmo em sonho: porque em meus braços se exibiam lenços e enfeites. Minhas mãos seguravam uma zagaia. Me certifiquei: eu era um naparama! Ao me verem, em minha nova figura, aqueles que maltratavam o meu irmão se extinguiram num fechar de olhos. Mas Junhito ainda lutava para se desbichar, desembaraçar-se da condenação. Me veio à ideia que ele precisava de um pouco de infância e cantei os embalos de nossa mãe, sua última ponte com a família. Enquanto eu cantava ele se foi vertendo todo gente, completamente Junhito. A seu lado, como se chamada por meu canto, minha mãe apareceu segurando uma criança em seu colo. Lhes chamei mas eles nem me pareciam ouvir. Junhito colocou a mão aberta sobre o peito e depois fechou as duas mãos em concha. Me agradecia. Acenei uma despedida e ele, segurando minha mãe pelo braço, desapareceu nas infinitas folhagens.
Eu sentia que a noite chegava ao fim. Qualquer coisa me dizia que me devia apressar antes que aquele sonho se extinguisse. Porque me surgiam agora alucinadas visões de uma estrada por onde eu seguia. Mas aquela era uma muito estranha picada: não estava imóvel, esperando a viagem dos homens. Ela se deslocava, seguindo de paisagem em paisagem. A estrada me descaminhou. O destino o que é senão um embriagado conduzido por um cego? Fui sendo levado sem conta nem tempo. Até que meu coração se apertou em sombrio sobressalto. Me surgiu um machimbombo queimado. Estava derreado numa berma, a dianteira espalmada de encontro a uma árvore. De repente, a cabeça me estala em surdo baque. Parecia que o mundo inteiro rebentava, fios de sangue se desalinhavam num fundo de luz muitíssimo branca. Vacilo, vencido por súbito desfalecimento. Me apetece deitar, me anichar na terra morna. Deixo cair ali a mala onde trago os cadernos. Uma voz interior me pede para que não pare. É a voz de meu pai que me dá força. Venço o torpor e prossigo ao longo da estrada. Mais adiante segue um miúdo com passo lento. Nas suas mãos estão papéis que me parecem familiares. Me aproximo e, com sobressalto, confirmo: são os meus cadernos. Então, com o peito sufocado, chamo: Gaspar! E o menino estremece como se nascesse por uma segunda vez. De sua mão tombam os cadernos. Movidas por um vento que nascia não do ar mas do próprio chão, as folhas se espalham pela estrada. Então, as letras, uma por uma, se vão convertendo em grãos de areia e, aos poucos, todos meus escritos se vão transformando em páginas de terra.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

E Então Que Quereis?

Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.
Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.

Vladimir Maiakovski, em Antologia Poética Russa

Hagar, o Horrível

A eleição diferente

O trrrim da campainha penetrou no sono, e acordei tendo à minha frente um motorista uniformizado, que dizia: “O dr. João está lá embaixo, à sua espera”. “Oh, o João é extraordinário, mas praque ele foi se incomodar”, e logo me senti vestido e diante de João, que tinha o seu melhor sorriso. “Vim buscá-lo porque o senhor é um preguiçoso, e está perdendo um belo espetáculo cívico.” O auto rodou, e passamos pela 1a seção da 5a zona eleitoral, que funcionava na praia. As moças votavam de biquíni, os rapazes de short, e cada um ganhava um sorvetinho italiano, ao assinar o livro de presença, que não era um livro, era uma grande barraca de cores festivas. De quando em quando, a mesa interrompia os trabalhos, para jogar peteca ou dar um mergulho.
Passamos depois por um cinema, onde funcionava outra seção. “Aqui votam os mais discretos, aqueles que levam ao extremo o sigilo do voto”, explicou-me João; e pressenti, no escuro, um movimento de mãos que recebiam e passavam cédulas, e vozes murmuradas, que eram as de chamada de eleitores, enquanto Gina Lollobrigida, na tela, colhia morangos do bosque e namorava o carabineiro.(1)
Saímos, e continuamos a apreciar o povo soberano. Havia uma seção no alto do Pão de Açúcar, e para inspecioná-la passamos a um helicóptero pousado no local do antigo Pavilhão Mourisco. Outra, nas matas da Tijuca. Passarinhos traziam no bico delicado o material da eleição, e, pelos caminhos perfumados de resinas e corolas silvestres, pares enlaçados os perseguiam aos gritinhos e risadinhas, como no canto IX dos Lusíadas. Quando um colibri se deixava pegar, as cédulas que ele transportava eram todas do candidato preferido pelo casal, e o casal preferia sempre os melhores nomes; mas era dificílimo escolher, porque todos os nomes eram ótimos. João explicou-me que os canalhas se haviam regenerado ou mudado para países distantes. Quanto aos mentirosos, pensavam mentir ainda, não reparando que uma transformação interior só lhes permitia falar verdade.
E aquela aglomeração maior, ali embaixo?” “É a seção do Banco do Brasil, não tinha reparado?”, respondeu-me João. Os eleitores brandiam cédulas do Tesouro, e iam depositá-las num guichê com a tabuleta “Recebedor”. O sempre bem informado João esclareceu que peculatários e estelionatários, aproveitando a ocasião, exerciam o direito de voto e restituíam o roubado; em seguida, recolhiam-se espontaneamente à cadeia, e, embora perdoados, teimavam em permanecer lá dentro, para purgação de suas faltas.
Vou lhe proporcionar um prazer especial”, continuou João; “voemos sobre a Academia de Letras.” O poeta Adelmar Tavares votava em verso alexandrino, que era logo declamado em coro pelos amigos: “Hamilton, senador, como a experiência manda, e, para vereador, Floresta de Miranda”. Manuel Bandeira observou que, lidos como hexassílabos, os versos ganhavam em ritmo e vivacidade. Alguns acadêmicos pediam cédulas de dom Pedro ii, mas um mesário lhes explicava que esse de há muito já era um eleito. Olegário Mariano chorava de emoção. E, aproveitando o ensejo, a Academia deliberava criar poltronas extranumerárias, que eram preenchidas ali no sufragante, com a participação de acadêmicos e adventícios, e foram eleitas quarenta mulheres e ninguém mais se entendeu daí por diante, e a eleição terminou no bar Vilarino, entre uísques.
Faltava-nos ver umas quinhentas seções, e João, sempre amável e eficiente, proporcionava-nos uma lancha, para espiar as eleições marítimas e submarinas; depois, andávamos a esmo pelas ruas, curiosos de ver onde votavam Cacilda Becker, Villa-Lobos, Zizinho, o general Rondon, Heitor dos Prazeres, Jayme Ovalle, Adalgisa Nery. Víamos, sorríamos, cumprimentávamos, e tudo era melhor; e tomávamos um teco-teco e íamos sobre o Brasil afora, e todo o Brasil votava como lhe parecia, dançando, cantando, confraternizando; e voávamos e voávamos sobre a paz e o amor universais. Há sonhos felizes.
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(1) Referência ao filme Pão, amor e fantasia (1953), do diretor italiano Luigi Comencini (1916-2007), com Gina Lollobrigida e Vittorio De Sica nos papéis principais.

Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira 

22/06/2026

Brejo da Cruz | Escafandristas

1629 – Caranguejeiras

Bascuñán

A cabeça range e dói. Estendido no barro, entre a montanha de mortos, Francisco Núnez de Pineda y Bascunán abre os olhos. O mundo é um torvelinho de sangue e barro, metralhado pela chuva, que gira e dá volta e espirra e gira.
Os índios atiram-se em cima dele. Arrancam-lhe a couraça e o capacete de ferro, afundado pelo golpe que o derrubou, e o despem aos arrancões. Francisco consegue fazer o sinal da cruz antes de ser amarrado a uma árvore.
A tormenta açoita sua cara. O mundo deixa de balançar. Uma voz dentro dele diz, através da gritaria dos araucanos: “Estás em um charco da comarca de Chillán, em tua terra do Chile. Esta chuva é a que molhou a pólvora. Este vento é o que apagou as mechas.
Perdeste. Escutas os índios, que discutem a tua morte”.
Francisco murmura uma última oração.
De repente, uma rajada de plumas coloridas atravessa a chuva. Os araucanos abrem caminho ao cavalo branco, que chega jorrando fogo pelas narinas e espuma pela boca. O cavaleiro, mascarado pelo elmo que usa, dá um puxão brusco nas rédeas. O cavalo ergue-se em duas patas na frente de Maulicán, o vencedor da batalha. Todos ficam mudos.
É o verdugo”, pensa Francisco. “Agora, acabou”.
O florido cavaleiro se inclina e diz alguma coisa a Maulicán. Francisco não escuta nada além das vozes da chuva e do vento. Mas quando o cavaleiro dá as costas e desaparece, Maulicán desamarra o prisioneiro, tira a própria capa e o cobre.
Depois, os cavalos galopam rumo ao sul.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Coltrane e Mingus


Jazz é vício. Não tem essa história de flertar com o lance, brincar com o material, dar uma cafungadinha e voltar, são e salvo, para o aprisco (bééé!) familiar.
Jazz é feito paquerar a cunhada, passar a mão na mulher do amigo, beijar no elevador a colega de trabalho: começa leve, mas deixa cicatrizes profundas.
Imaginem um garoto do Estácio, daqueles bem amalucados, com as canelas recém-cobertas pela calça comprida e ainda cheias de mercúrio cromo devido a um tombo de bicicleta em Paquetá, entrando na velha Palermo, no Largo da Carioca, e saindo com um embrulho de discos, as fotos deslumbrantes, Oscar Peterson,Dave Brubeck, Stan Getz, os primeirões.
No dia seguinte, a fera já está diferente. A mãe, intuitiva, desconfia que seu bebê começou a queimar fumo com os vagabundos do morro do São Carlos. Ainda não. Foi o jazz. A cara do adolescente parece coisa de filme B, “Invasores de Cassiopeia”, essas loucuras. Os amigos de esquina, sem o clássico dente da frente e sapatos tô-na-merda, ainda gostam de Elvis Prestes, talvez um parente distante do lendário líder comunista, e do Lirôu (o acento era aí mesmo) Richa – mas o bicho já viajou pra galáxias muito além do Carl Sagan.
Já que tocamos no assunto, não há no jazz, com a possível inclusão de Bud Powell e Charlie Parker, seres de planetas tão fascinantes como John Coltrane e Charles Mingus.
A série The very best of the Atlantic Years, presta serviço inestimável aos jovens jazzófilos lançando os discos dos dois gigantes. O ouvinte que continuar o mesmo depois de “My favorite things”, “Summertime” e “Body and soul” pode dirigir-se ao Jardim da Saudade e cavar a própria sepultura.Já está morto. O mesmo vale para “Pithecanthropus erectus”, “Reincarnation of a lovebird” e “Cryin’ blues”. No CD de Coltrane ainda podem ser ouvidos, de quebra, Wynton Kelly e o jovem (na época) McCoy Tyner, além das aulas de contrabaixo dadas por Paul Chambers. Dannie Richmond, um dos maiores bateristas de jazz de todos os tempos, bota – e tira – o trem nos trilhos para Mingus.
Os viciados conhecem de cor e salteado as faixas, mas jamais se cansam delas. Já os novatos começarão – garanto que é muito melhor que essas frescuras de magos na estrada de Damasco – a percorrer as sagas jazzísticas de Coltrane e Mingus: um aspirou atingir a divindade com seu sopro. Por ironia, e a história da música está repleta delas, quanto mais alto voava, piores as visões do inferno. O outro passou a vida toda no inferno sem saber que era um deus.

Aldir Blanc, em O gabinete do doutor Blanc sobre jazz, literatura e outros improvisos

Poeminha do contra

Todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!

Mário Quintana, em Caderno H