17/09/2026
Negras Olimpíadas
Clementina
Carolina de Jesus
Ganhamos
uma rosa de ouro
Uma
rosa desenhada em canção
Algodão
em sorriso ex-escravo
Sua
tataraneta judoca
Negra
como vazio em noite escura
De
cabelos lindos alvoroçados
Como
se o vento os tivesse penteando
Uma
redonda flor como o sol
Brilha
em seu olhar escondida
A
menina espantada da Cidade de Deus
Entra
em portas que nunca se abriram
Dos
seus olhos de espanto e fuga
Cai
uma chuva que enxuga sua dor.
José Carlos Capinan, em Cancioneiro geral
Capítulo 99 – Na Plateia
Na plateia achei o Lobo Neves, de
conversa com alguns amigos; falamos por alto, a frio, constrangidos
um e outro. Mas no intervalo seguinte, prestes a levantar o pano,
encontramo-nos num dos corredores, em que não havia ninguém. Ele
veio a mim, com muita afabilidade e riso, puxou-me a um dos óculos
do teatro, e falamos muito, principalmente ele, que parecia o mais
tranquilo dos homens. Cheguei a perguntar-lhe pela mulher; respondeu
que estava boa, mas torceu logo a conversação para assuntos gerais,
expansivo, quase risonho. Adivinhe quem quiser a causa da diferença;
eu fujo ao Damasceno que me espreita ali da porta do camarote.
Não ouvi nada do seguinte ato, nem as
palavras dos atores, nem as palmas do público. Reclinado na cadeira,
apanhava de memória os retalhos da conversação do Lobo Neves,
refazia as maneiras dele, e concluía que era muito melhor a nova
situação. Bastava-nos a Gamboa. A frequência da outra casa
aguçaria as invejas. E rigorosamente podíamos dispensar-nos de
falar todos os dias; era até melhor, metia a saudade de permeio nos
amores. Ao demais, eu galgara os quarenta anos, e não era nada, nem
simples eleitor de paróquia. Urgia fazer alguma coisa, ainda por
amor de Virgília, que havia de ufanar-se quando visse luzir o meu
nome... Creio que nessa ocasião houve grandes aplausos, mas não
juro; eu pensava em outra coisa.
Multidão, cujo amor cobicei até à
morte, era assim que eu me vingava às vezes de ti; deixava
burburinhar em volta do meu corpo a gente humana, sem a ouvir, como o
Prometeu de Esquilo fazia aos seus verdugos. Ah! tu cuidavas
encadear-me ao rochedo da tua frivolidade, da tua indiferença, ou da
tua agitação? Frágeis cadeias, amiga minha; eu rompia-as de um
gesto de Gulliver. Vulgar coisa é ir considerar no ermo.
O voluptuoso, o esquisito, é
insular-se o homem no meio de um mar de gestos e palavras, de nervos
e paixões, decretar-se alheado, inacessível, ausente. O mais que
podem dizer, quando ele tomar a si, – isto é, quando toma aos
outros, – é que baixa do mundo da lua; mas o mundo da lua, esse
desvão luminoso e recatado do cérebro, que outra coisa é senão a
afirmação desdenhosa da nossa liberdade espiritual? Vive Deus!
Eis um bom fecho de capítulo.
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas
Diário de Bernardo Soares
130.
Penso, muitas vezes, em como eu seria
se, resguardado do vento da sorte pelo biombo da riqueza, nunca
houvesse sido trazido, pela mão moral do meu tio, para um escritório
de Lisboa, nem houvesse ascendido dele para outros, até este píncaro
barato de bom ajudante de guarda-livros, com um trabalho como uma
certa sesta e um ordenado que dá para estar a viver.
Sei bem que, se esse passado que não
foi tivesse sido, eu não seria hoje capaz de escrever estas páginas,
em todo o caso melhores, por algumas, do que as nenhumas que em
melhores circunstâncias não teria feito mais que sonhar. É que a
banalidade é uma inteligência e a realidade, sobretudo se é
estúpida ou áspera, um complemento natural da alma.
Devo ao ser guarda-livros grande parte
do que posso sentir e pensar como a negação e a fuga do cargo.
Se houvesse de inscrever, no lugar sem
letras de resposta a um questionário, aque influências literárias
estava grata a formação do meu espírito, abriria o espaço
ponteado com o nome de Cesário Verde, mas não o fecharia sem nele
inscrever os nomes do patrão Vasques, do guarda-livros Moreira, do
Vieira caixeiro de praça e do António moço do escritório. E a
todos poria, em letras magnas, o endereço chave LISBOA.
Vendo bem, tanto o Cesário Verde como
estes foram para a minha visão do mundo coeficientes de correção.
Creio que é esta a frase, cujo sentido exato evidentemente ignoro,
com que os engenheiros designam o tratamento que se faz à matemática
para ela poder andar até à vida. Se é, foi isso mesmo. Se não é,
passe por o que poderia ser, e a intenção valha pela metáfora que
falhou.
Considerando, aliás, e com a clareza
que posso, o que tem sido aparentemente a minha vida, vejo-a como uma
coisa colorida — capa de chocolate ou anilha de charuto —
varrida, pela escova leve da criada que escuta de cima, da toalha a
levantar para a pá de lixo das migalhas, entre as côdeas da
realidade propriamente dita. Destaca-se das coisas cujo destino é
igual por um privilégio que vai ter à pá também. E a conversa dos
deuses continua por cima do escovar, indiferente a esses incidentes
do serviço do mundo.
Sim, se eu tivesse sido rico,
resguardado, escovado, ornamental, não teria sido nem esse breve
episódio de papel bonito entre migalhas; teria ficado num prato da
sorte — “não, muito obrigado” — e recolheria ao aparador
para envelhecer. Assim, rejeitado depois de me comerem o miolo
prático, vou com o pó do que resta do corpo de Cristo para o
caixote do lixo, e nem imagino o que se segue, e entre que astros;
mas sempre é seguir.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
Mistério de bola
“Quando Bauer, o de pés ligeiros,
se apoderou da cobiçada esfera, logo o suspeitoso Naranjo lhe partiu
ao encalço, mas já Brandãozinho, semelhante à chama, lhe cortou a
avançada. A tarde de olhos radiosos se fez mais clara para
contemplar aquele combate, enquanto os agudos gritos e imprecações
em redor animavam os contendores. A uma investida de Cárdenas, o de
fera catadura, o couro inquieto quase se foi depositar no arco de
Castilho, que com torva face o repeliu. Eis que Djalma, de aladas
plantas, rompe entre os adversários atônitos, e conduz sua presa
até o solerte Julinho, que a transfere ao valoroso Didi, e este por
sua vez a comunica ao belicoso Pinga. A essa altura, já o cansaço e
o suor chegam aos joelhos dos combatentes, mas o Atrida enfurecido,
como o leão que, fiado na sua força, colhe no rebanho a melhor
ovelha, rompendo-lhe a cerviz e despedaçando-a com fortes dentes,
para em seguida sorver-lhe o sangue e as entranhas — investe contra
o desprevenido Naranjo e atira-o sobre a verdejante relva calcada por
tantos pés celestes. Os velozes Torres, Madri e Avellan quedam
paralisados, tanto o pálido temor os domina; e é quando o divino
Baltasar, a quem Zeus infundiu sua energia e destreza, arremete com a
submissa pelota e vai plantá-la, como pomba mansa, entre os pés do
siderado Carbajal…”
Assim gostaria eu de ouvir a descrição
do jogo entre brasileiros e mexicanos, e a de todos os jogos: à
maneira de Homero. Mas o estilo atual é outro, e o sentimento
dramático se orna de termos técnicos. Mesmo assim, quando o
cronista especializado informa que o Botafogo “não estava numa
tarde de grande inspiração” ou que Zizinho “se desempenhou com
o seu habitual talento”, fico imaginando que há no futebol valores
transcendentes, que nós, simples curiosos, não captamos, mas que o
bom torcedor vai intuindo com a argúcia apurada em uma longa
educação da vista.
Confesso que o futebol me aturde,
porque não sei chegar até o seu mistério. Entretanto, a criança
menos informada o possui. Sua magia opera com igual eficiência sobre
eruditos e simples, unifica e separa como as grandes paixões
coletivas. Contudo, essa é uma paixão individual mais que todas.
Cada um tem sua maneira própria de
avaliar as coisas do gramado, e onde este vê a arte mais fina, outro
apenas denuncia a barbeiragem ou talvez um golpe ignominioso. Pelo
nosso clube fazemos o possível, e principalmente o impossível. O
jogador nos importa menos que suas cores, e se muda de camisa pode
baixar em nossa estima, à revelia de toda justiça.
A estética do torcedor é
inconsciente; ele ama o belo através de movimentos conjugados,
astuciosos e viris, que lhe produzem uma sublime euforia, mas se lhe
perguntam o que sente, exprimirá antes uma emoção política. Somos
fluminenses ou vascos pela necessidade de optar, como somos liberais,
socialistas ou reacionários. Apenas, se não é rara a mudança do
indivíduo de um para outro partido, nunca se viu, que eu saiba,
torcedor de um clube abandoná-lo em favor de outro.
Finalmente, a grande ilusão do gol
confere alta dignidade à paixão popular, que não visa a um
resultado positivo e duradouro no plano real, mas se satisfaz com uma
abstração: vinte e dois homens se atiram uns contra outros, e era
de esperar que os mais combativos ou engenhosos, saindo triunfantes,
deixassem os demais no campo, arrebentados. Não. O objeto de couro
transpõe uma linha convencional, e o que se chama de vitória
aparece aos olhos de todos com uma evidência corporal que dispensa a
imolação física. Não podemos acusar de primitivismo aos que se
satisfazem com este resultado ideal.
Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira
16/09/2026
Como Explicar Imagens a uma Lebre Morta
Como Explicar Imagens a uma Lebre
Morta (em alemão: Wie man dem toten Hasen die Bilder erklärt)
é uma performance realizada pelo artista alemão Joseph Beuys em 26
de novembro de 1965 na Galerie Schmela em Düsseldorf. Embora tenha
sido apenas a primeira exposição individual de Beuys em uma galeria
privada, às vezes é referida como sua ação mais conhecida.
Processo
No início da performance, Beuys
trancou as portas da galeria por dentro, deixando os visitantes do
lado de fora. Eles só podiam observar a cena lá dentro através das
janelas. Com a cabeça completamente coberta de mel e folha de ouro,
ele começou a explicar as pinturas para uma lebre morta.
Sussurrando para o animal morto em seu braço, num aparente diálogo,
ele percorreu a exposição de obra em obra. Ocasionalmente, ele
parava e retornava ao centro da galeria, onde passava por cima de um
pinheiro morto que jazia no chão. Após três horas, o público
foi autorizado a entrar na sala. Beuys sentou-se num banquinho na
área de entrada com a lebre no braço e de costas para os
espectadores.
Interpretação e contexto
A performance representou o ponto
culminante do desenvolvimento, por Beuys, de uma definição ampliada
de arte, que já havia começado em seus desenhos da década de 1950.
Ele celebrou o ritual de "explicar a arte" com uma ação
que, para seus espectadores, era efetivamente silenciosa.
A relação entre pensamento, fala e
forma nesta performance também era característica de Beuys. Em seu
último discurso Falando sobre a Alemanha (em alemão: Sprechen
über Deutschland, 1985), ele enfatizou que era essencialmente um
homem de palavras. Em outra ocasião, ele é citado dizendo: “Quando
falo, tento guiar o impulso desse poder para que ele flua para uma
linguagem mais plenamente descritiva, que é a percepção espiritual
do crescimento.” A integração da fala e da conversa em suas obras
visuais desempenha um papel significativo em Como Explicar Imagens
a uma Lebre Morta.
A lebre é um animal com um amplo
significado simbólico secular em muitas religiões. Na mitologia
grega, era associada à deusa do amor, Afrodite ; para os romanos e
tribos germânicas, era um símbolo de fertilidade; e no
cristianismo, passou a ser ligada à Ressurreição. Essa
interpretação também é corroborada pela "máscara" que
Beuys usou durante sua apresentação: o ouro como símbolo do poder
do sol, da sabedoria e da pureza, e o mel como símbolo germânico do
renascimento.
Beuys explicou:
Para mim, a lebre é um símbolo de
encarnação, que a lebre realmente encena – algo que um humano só
pode fazer na imaginação. Ela cava, construindo para si uma casa na
terra. Assim, ela se encarna na terra: só isso já é importante.
Pelo menos, é o que me parece. O mel na minha cabeça, claro, tem a
ver com o pensamento. Embora os humanos não tenham a capacidade de
produzir mel, eles têm a capacidade de pensar, de produzir ideias.
Portanto, a natureza obsoleta e mórbida do pensamento ganha vida
novamente. O mel é, sem dúvida, uma substância viva – os
pensamentos humanos também podem ganhar vida. Por outro lado, a
intelectualização pode ser mortal para o pensamento: pode-se falar
até a morte, seja na política ou na academia.
Esses materiais e ações tinham um
valor simbólico específico para Beuys. Por exemplo, o mel era o
produto das abelhas que, para Beuys (seguindo Rudolf Steiner),
representavam uma sociedade ideal de calor e fraternidade. O ouro
tinha sua importância na alquimia, e o ferro, o metal de Marte,
representava os princípios masculinos de força e conexão com a
terra. Uma fotografia da performance, na qual Beuys está sentado com
a lebre, foi descrita “por alguns críticos como uma nova Mona Lisa
do século XX!”, embora Beuys não concordasse com isso.
A performance é considerada uma obra
fundamental e foi recriada por Marina Abramović em 2005 no Museu
Solomon R. Guggenheim, em Nova York, como parte de sua série Seven
Easy Pieces.
Fonte: Wikipedia. Acesse aqui.
Balada do Festival — XX
Nós, poetas e amantes
o que sabemos do amor?
Temos o espanto na retina
diante da morte e da beleza.
Somos humanos e frágeis
mas antes de tudo, sós.
Somos inimigos.
Inimigos com muralhas
de sombra sobre os ombros.
E sonhamos. Às vezes
damos as mãos àqueles
que estão chorando.
(os que nunca choraram por nós)
Ah, meus irmãos e irmãs…
Ai daqueles que nos amam
e que por amor de nós se perdem.
Ah, pudéssemos amar um homem
ou uma mulher ou uma coisa…
Mas diante de nós, o tempo
se consome, desaparece e não para.
Ouvi: que vossos olhos se inundem
de pranto e água de todo o mundo!
Somos humanos e frágeis
mas antes de tudo, sós.
Hilda Hilst, em De amor tenho vivido — 50 poemas
Arroio-das-Antas
E eu via o gado todo branco
minha alma era de donzelas.
Porandiba.
Aonde — o despovoado, o
povoadozinho palustre, em feio o mau sertão — onde podia haver
assombros? Trouxe-se lá Drizilda, de nem quinze anos, que mais
não chorava: firme delindo-se, terminalvelmente, sozinha viúva.
Descontado que a esquecessem. Ela era quase bela; e alongavam-se-lhe
os cabelos. A flor é só flor. A alegria de Deus anda vestida de
amarguras.
De déu em doendo, à desvalença,
para no retiramento ficar sempre vivendo, desde desengano. O irmão
matara-lhe o marido, irregrado, revelde, que a desdenhava. De não
ter filhos? Estranhos culpando-a, soante o costume, e o povo de
parentes: fadada ao mal, nefandada. Tanto vai a nada a flor, que um
dia se despetala.
Mandaram-na e quis, furtadamente, para
não encarar com ninguém, forrar-se a reprovas, dizques,
piedade. Toda grande distância pode ser celeste. Trás a
dobrada serrania, ao último lugar do mundo, fim de som, do ido
outro-lado. Arroio-das-Antas — onde só restavam velhos, mais as
sobejas secas velhinhas, tristilendas. Pois era assim que era,
havendo muita realidade. Que faziam essas almas?
Rodearam-na — solertes, duvidando,
diversas — até ao coaxar da primeira rã. Nem achavam o acervo de
perguntas, entre outroras. Seus olhos punham palavras e frases.
Viera-lhes a moça, primor, mais vaga e clara que um pensamento;
tinham, à fria percepção, de tê-la em mal ou em bem.
Dali — recanto agarrado e custoso,
sem aconteceres — homens e mulheres cedo saíam, para tamanho
longe; e, aquela, chegava? Tão não sabida nem possível, o comum
não a minguando: como todo ser, coagido a calar-se, comove.
Sós, após, disputavam ainda, a
bisbilhar, em roda, as candeias acesas. Nenhuma delas ganhara da vida
jamais o muito — que ignoravam que queriam — feito romance, outra
maneira de alma. O que a gente esperava era a noite. Mas a velhice
era-lhes portentosa lanterna, arrulhavam ao Espírito-Santo.
Senão que, uma, avó Edmunda, sob
mínima voz, abençoou-a: — “Meu cravinho branco...”
Outra por ela puniu, afetando-se áspera: —“Gente
invencioneira!” Suspiraram mor, em giro doce, enfim,
entreentendidas, aguadas as vistas, com uma ternura que era quase uma
saudade.
Drizilda depôs-se, sacudidos os
cabelos, quisesse um parar — devagarzinho quietante — no limbo,
no olvido, no não abolido. Fez tenção: de trabalhar, sobre
só, ativa inertemente; sarado o dó de lembranças, afundando-se os
dias, fora já de sobressaltos.
Sofria, sofria, enquanto a noite.
Culpa capital — em escrúpulo e recato, o delicado sofrimento,
breve como uma pena de morte, peso de ninguém levantar. O marido, na
cova; o irmão, preso condenado; rivais, os dois, por uma outra
mulher, incerta ditosa, formosa... Deus é quem sabe o por não vir.
A gente se esquece — e as coisas lembram-se da gente.
Por maiormente, o lugar — soledade,
o ar, longas aves em curto céu — em que, múrmuras, nos
fichus, sábias velhinhas se aconselhavam. Aqui, não deviam de
estender notícias, o muito vulgado. Calava-se a ternura — infinito
monossílabo. O que não pudera, nem soubera; não havendo um
recomeçar. Pagava o mourejo, fado, sumida em si, vendo o chão,
mentindo para a alma. Sem senhor, sem sombras, tão lesada; como as
mais do campo, amarelas ou roxas, florzinha de má sorte? Um cachorro
passava por ali, de volta para alguma infância. Desse tempo para a
frente. Vigiavam-na as velhas, sem palavras.
Tramavam já com Deus, em bico de
silêncio, as quantas criaturas comedidas. De vê-la a
borralheirar, doíam-se, passarinho na muda, flor, que ao fim se
fana; nem podendo diverti-la, dentro em si, desse desistir. Mas,
pretendiam mais. Tomavam, todas juntas, a fé de mortificadas
orações, novenas, nôminas, setêmplices. — “Deus e
glória!” — adivinhavam, sérias de amor, se entusiasmavam.
Elas, para o queimar e ferver de Deus, decerto prestassem — feixe
de lenhazinha enxuta. Para o forçoso milagre!
Falava-se de uma ternura perfeita,
ainda nem existente; o bem-querer sem descrença. Enquanto isso, o
tempo, como sempre, fingia que passava. As velhinhas pactuavam a
alegria de penar e mesmo abreviadas irem-se — a fito de que neste
sertão vingassem ao menos uma vez a graça e o encanto.
Drizilda estremunhava-se, na
disquietação, ainda com medrosas pálpebras primitivas. Aqui
ninguém viesse — o mundo todo invisível — só a virtude demorã,
senhas de Maria e de Cristo, os cães com ternura nas narinas,
borboletas terra-a-terra. Ela queria a saudade. Ora chovia ou sol,
nhoso lazer, enfadonhação, lutas luas de luar, nuvens nadas.
Sua saudade — tendência secreta — sem memória. Ela, maternal
com suas velhinhas, custódias, menina amante: a vovozinha...
Moviam-na adiante, sob irresistíveis eflúvios, aspergiam-na,
persignavam-lhe o travesseiro e os cabelos. Comutava-se. Olhos
de receber, a cabeça de lado feito a aceitar carinho — sorria, de
dom.
Sua saudade cantava na gaiolazinha;
não esperar inclui misteriosas certezas. Vinham as velhas,
circulavam-na. Alguma proferia: — “Todo dia é véspera...”
— e muito quando. Viam-na em rebroto — o ardente da vida — que,
a tanto, um dia, ao fim, da haste se quebra. Rezavam, jejuavam,
exigiam, trêmulas, poderosas, conspiravam.
A avó Edmunda, de repente, então. —
“Morreu, morreu de penitências!” — a triunfar, em
ordem, tão anciãs, as outras jubilavam.
Saía o enterro — Drizilda adiante,
com a engrinaldada cruz — murchas, finais, as velhinhas, à manhã,
mais almas.
E vinha de lá um cavalo grande, na
ponta de uma flecha — entrante à estrada. Em galope curto, o Moço,
que colheu rédea, recaracolando, desmontou-se, descobriu-se.
Senhorizou-se: olhos de dar, de lado a mão feito a fazer
carícia — sorria, dono. Nada; senão que a queria e amava,
trespassava-se de sua vista e presença.
Ela percebeu-o puramente; levantou a
beleza do rosto, reflor. Ia. E disse altinho um segredo: — “Sim”.
Só o almêjo débil, entrepalpitado, que em volta as velhinhas
agradeciam.
Assim são lembrados em par os dois —
entreamor — Drizilda e o Moço, paixão para toda a vida. Aqui, na
forte Fazenda, feliz que se ergueu e inda hoje há, onde o
Arroio.
Guimarães Rosa, em Tutameia
Cordilheira
Desde agosto não caía uma gota de
chuva em Santiago. Ainda bem que nas torneiras — oh, leitor
carioca, meu semelhante e meu irmão! — a água é abundante e
limpa, e jorra à vontade para que à tardinha todo honesto cidadão
possa regar suas plantas. Só na Inglaterra há gramados como no
Chile, tão verdes, tão macios, tão perfeitos e lindos; o chileno
trata o capim como se fossem flores.
Numa tarde vagabunda de sábado andei
passeando pelo parque Balmaceda, cheio de árvores, crianças, flores
e namorados. Não é proibido, felizmente, pisar na grama. É
proibido colher flores e jogar bola, mas isso representa mais uma
opinião das placas da Prefeitura que uma realidade humana. Aqui e
ali três meninos jogam bola e uma garota colhe flores sem que o
guarda, por esse motivo, perca seu bom humor. Também já fumei duas
vezes no ônibus, ignorando o aviso, e ninguém me chamou a atenção;
Chile, graças a Deus, é um bom país latino.
Mas falávamos de chuva; choveu.
Choveu de tarde e a noite inteira, e o dia amanheceu enevoado. Depois
o céu foi se limpando — e há três dias, enquanto a lua cresce,
ele está azul, esplêndido, sem uma nuvem. Assim chegou o frio,
ainda moderado, sem descer além dos 7 graus. Mas, com a chuva, o ar
ficou mais fino e o alto cimo da Cordilheira se cobriu de neve.
É difícil contar esse lado da
paisagem, esse alto horizonte, essa imensa muralha azul toucada de
neve que brilha ao sol. Quando o sol vai morrendo do outro lado do
horizonte, a Cordilheira começa a mudar de cor — a Montanha se faz
violeta, a neve às vezes tem reflexos púrpuros ou róseos, o azul
do céu vai se fazendo mais grave no crepúsculo alto e solene.
Santiago não tem mar; mas tem, a
leste, essa presença de abismo e de infinito, essa paisagem de
estranha força, pureza e paz — de uma oceânica beleza.
Santiago, abril, 1955.
Rubem Braga, em Ai de ti, Copacabana
Parte 1 — Pássaro
1.
Cristal
A neve caía esparsa.
O campo em que eu estava se estendia
até uma colina. Ao longo do cume, se projetando na minha direção,
havia milhares de árvores pretas sem copa ou galhos, apenas troncos
nus. Como pessoas de idades diversas, eram árvores que se
diferenciavam um pouco na altura e tinham espessura semelhante à de
dormentes ferroviários. Contudo, não eram retas como eles, e sim
inclinadas ou arqueadas. Por isso se pareciam com milhares de homens,
mulheres e crianças magras, os ombros curvados cobertos de neve.
“O cemitério era aqui?”, pensei.
“Essas árvores são todas lápides?”
Flocos de neve se depositavam como
cristais de sal em cada copa cortada, em cada corte na transversal.
Caminhei entre as árvores pretas e os túmulos em forma de monte que
se prostravam atrás delas. De repente, meus pés paralisaram, pois
senti que estava pisando na água. “Que estranho”, pensei, e
quando me dei conta a água já havia subido até meus tornozelos.
Olhei para trás. Inacreditável. Ao longe, no campo, onde achei que
ficava o horizonte, na verdade estava o mar. Agora a maré subia.
Perguntei em voz alta, sem perceber:
“De todos os lugares, por que usar justo este como túmulo?”.
O mar avançava cada vez mais rápido.
Todos os dias a maré subia e descia assim? Os ossos já tinham sido
levados, e tudo que restava eram os túmulos em forma de monte?
Não havia tempo. Eu não conseguiria
alcançar os túmulos já inundados, mas as ossadas que estavam mais
acima na encosta precisavam ser removidas. Naquele instante, antes
que o mar avançasse mais. Mas como? Não havia ninguém ali. Eu
também não tinha nenhuma pá. Como ia chegar a todos esses túmulos?
Sem saber o que fazer, antes que me desse conta, a água já estava
na altura dos meus joelhos, e me vi correndo, atravessando as árvores
pretas.
Quando abri os olhos, o sol ainda não
tinha nascido. Encarei a janela do quarto escuro, no qual não havia
campo com neve caindo, nem árvores pretas, nem mar que avançava.
Então fechei os olhos. Percebendo que tinha sonhado de novo com
aquela cidade, cobri os olhos com as palmas das mãos geladas e
permaneci deitada por mais um tempo.
***
O sonho aconteceu no verão de 2014,
mais ou menos dois meses depois de eu ter publicado um livro sobre o
massacre naquela cidade. No decorrer dos quatro anos seguintes, nunca
duvidei da ligação do sonho com aquele local. Foi apenas no último
verão que pensei pela primeira vez na possibilidade de que não se
tratava só disso, e que minha conclusão rápida e intuitiva, na
realidade, fora um equívoco ou um entendimento muito superficial.
As noites abafadas, de calor
escaldante, já se sucediam havia três semanas. Eu, como sempre,
estava tentando dormir na sala de estar, deitada sob o
ar-condicionado quebrado. Já tinha tomado vários banhos gelados,
mas meu corpo suado não esfriava mesmo com as costas coladas no chão
de madeira. Senti a temperatura cair um pouco por volta das cinco da
manhã. Era uma pequena dádiva, pois dentro de trinta minutos o sol
nasceria de novo. Finalmente achei que conseguiria dormir um pouco;
na verdade, senti que estava quase dormindo. De repente, aquele campo
apareceu massivo detrás das minhas pálpebras fechadas. A lufada de
neve se espalhando sobre os milhares de troncos pretos e os flocos de
neve cintilantes que se acumulavam como sal nas copas cortadas eram
quase reais.
Não sei por que meu corpo começou a
tremer nesse momento. Era como o tremor de quando se desaba a chorar,
mas as lágrimas não escorreram: na verdade, nem chegaram a surgir.
É possível chamar isso de medo? Seria uma apreensão? Um arrepio?
Uma agonia repentina? Não, era como um despertar frio, a ponto de
fazer os dentes se entrechocarem. Uma faca enorme — uma lâmina de
metal pesada que não poderia ser erguida com a força de uma pessoa
— que flutuava no ar, parecendo mirar meu corpo. Era como se eu
estivesse deitada enquanto ela e eu nos encarávamos.
Aquela foi a primeira vez que pensei
que talvez o mar azul-escuro que avançava para levar os ossos sob os
túmulos em forma de monte não tivesse a ver com as pessoas
massacradas e a época que se seguiu. Talvez fosse apenas uma
profecia pessoal. Talvez aquele lugar de sepulturas inundadas e
lápides silenciosas estivesse me falando sobre o futuro da minha
vida.
Ou seja, minha vida de agora.
***
No período de quatro anos entre a
noite em que tive o sonho pela primeira vez e aquela madrugada de
verão, vivi algumas despedidas. Algumas foram escolha minha, mas
outras foram imprevisíveis, e eu só queria que parassem. Se, como
dizem várias religiões antigas, existir em algum lugar — no céu
ou no mundo dos mortos — um espelho gigantesco que observa e
documenta cada movimento das pessoas, o registro dos meus últimos
quatro anos seria como um caracol saindo da concha e avançando em
cima de uma lâmina. Um corpo que deseja viver. Um corpo que é
apunhalado e cortado. Um corpo que rejeita, abraça e agarra. Um
corpo que se ajoelha. Um corpo que implora. Um corpo que se esvai,
sem parar, em sangue, pus ou lágrimas.
No fim da primavera, quando todas as
dificuldades haviam sido superadas, aluguei um apartamento perto de
Seul. Eu já não tinha parentes de quem cuidar nem um emprego que me
ocupasse, embora fosse difícil de aceitar. Por muito tempo,
sustentei e cuidei da minha família com meu trabalho. Como essas
eram as prioridades, para escrever eu reduzia minhas horas de sono,
secretamente esperançosa de algum dia ter tempo para escrever o
quanto quisesse; esse tipo de anseio, porém, já não existia mais.
Deixei as coisas mais ou menos nos
lugares em que a empresa de mudança havia colocado e até julho
passei a maior parte do tempo deitada na cama, mas quase não
conseguia dormir. Não cozinhava nem saía lá fora. Eu consumia
água, um pouco de arroz e kimchi branco, que pedia pela internet.
Quando a enxaqueca acompanhada das cólicas estomacais começava,
vomitava tudo na privada. Certa noite, escrevi um testamento. Na
carta, que começava com a frase “Por favor, resolva estas
questões”, eu explicava de forma breve em que gaveta estava a
caixa com as cadernetas de contas bancárias, a apólice de seguro e
o contrato de aluguel. Também o quanto de dinheiro eu deixava, no
que gostaria que fosse empregado e para quem desejava que fosse
entregue o restante. Não tinha certeza, porém, de qual seria a
pessoa para quem eu deixaria um problema desses, e o espaço do
destinatário ficou em branco. Tentei ainda acrescentar uma frase de
agradecimento ou de desculpas, dizendo que recompensaria a pessoa que
resolvesse essas questões, mas no fim não consegui preencher nome
nenhum.
Foi o senso de responsabilidade por
esse destinatário desconhecido que finalmente me fez levantar da
cama, onde não conseguia dormir nem por um segundo, mas de onde meu
corpo se recusava a sair. Comecei a limpar a casa enquanto me
recordava de alguns conhecidos, um deles teria de ser a pessoa
designada para resolver minhas questões. Eu precisava descartar as
garrafas plásticas de água amontoadas na cozinha, minhas roupas e
cobertas, que certamente se tornariam uma dor de cabeça, e os
registros pessoais, como caderninhos e diários. Com sacos de lixo
nas mãos, pela primeira vez em dois meses, calcei apressada meus
tênis e abri a porta de entrada. A luz do sol da tarde de verão se
espalhou pelo corredor voltado para o oeste, como se fosse uma
revelação. Desci de elevador, passei pela portaria e, enquanto
atravessava o pátio, tive a sensação de estar testemunhando algo.
O mundo em que os seres humanos vivem. O tempo naquele dia. A umidade
do ar e a sensação da força da gravidade.
Voltei para casa e, em vez de
continuar juntando as coisas acumuladas na sala, entrei no banheiro.
Sem me despir, abri a torneira de água quente do chuveiro e me
sentei ali, debaixo da ducha. Eu me lembro da sensação da
superfície do piso de azulejos tocando a sola curvada dos meus pés,
do vapor sufocante, da camisa de algodão colada nas costas
completamente encharcada, do fluxo de água quente escorrendo pela
minha franja — que crescera a ponto de cobrir os olhos —, pelo
queixo, pelo peito e pela barriga.
Saí do banheiro, tirei a roupa
ensopada e procurei algo que pudesse usar na pilha de roupas que
ainda não fora descartada. Pus no bolso duas notas de dez mil wons
dobradas várias vezes e saí pela porta de entrada. Andei até o
restaurante de juk localizado atrás da estação de metrô
mais próxima e pedi o de pinhão, que parecia ser o mais leve.
Enquanto comia devagar o prato extremamente quente, do outro lado da
janela de vidro o corpo das pessoas que passavam parecia delicado,
como se fosse despedaçar. Foi nesse momento que me dei conta da
fragilidade da vida. De como carne, órgãos, ossos e vidas
carregavam a possibilidade de ser facilmente destruídos e
liquidados. Bastava uma escolha.
Foi assim que a morte se desviou de
mim. Como um asteroide em rota de colisão, mas que contorna a Terra
por um erro minúsculo de ângulo. Passando em velocidade violenta,
sem arrependimento, sem hesitação.
***
Não me reconciliei com minha
existência humana, porém tive de viver de novo.
Percebi que havia sofrido uma perda
considerável de massa muscular por causa do isolamento de pouco mais
de dois meses; estava num estado próximo à inanição. Necessitava
comer regularmente e movimentar o corpo para acabar com a enxaqueca,
a cólica estomacal, e romper o ciclo vicioso de tomar analgésico
com alto teor de cafeína. Entretanto, antes de tentar fazer um
esforço real, a onda de calor se iniciou. Quando a temperatura
máxima do dia ultrapassou, pela primeira vez, a do corpo de uma
pessoa, tentei ligar o ar-condicionado deixado pelo antigo locatário,
mas ele não funcionou. As empresas de manutenção, que estavam
difíceis de contatar, disseram que só poderiam atender novos
chamados a partir do final de agosto, por causa da enxurrada de
agendamentos ocasionada pela temperatura anormal. Mesmo se eu
comprasse um novo aparelho, a situação seria a mesma.
Seria sensato procurar qualquer lugar
com ar-condicionado. Todavia, eu não queria ir a locais onde as
pessoas se reúnem, como cafés, bibliotecas e bancos. O que consegui
fazer foi: deitar de costas no chão da sala de estar e, na medida do
possível, esfriar a temperatura do corpo; tomar banhos gelados com
frequência para não ficar com os poros obstruídos e não ter
insolação; sair de casa por volta das oito da noite, quando o calor
da rua pelo menos diminuía um pouco, comer juk e voltar.
Refrescado pelo ar-condicionado, o interior do restaurante de juk
era incrivelmente agradável. Por causa da diferença de temperatura
interna e externa e da umidade lá fora, as janelas ficavam embaçadas
como numa noite de inverno. Lá fora, uma onda de pessoas voltava
para casa carregando ventiladores portáteis, preenchendo as ruas da
noite tropical cujo calor não arrefece, como se fosse eterno.
Depois, seria eu a caminhar por essas ruas.
Certa noite, quando tinha ido ao
restaurante de juk e voltava para casa, parei em um semáforo
e senti uma lufada abafada no rosto por causa do asfalto ainda
quente. Nesse momento, pensei que deveria continuar escrevendo a
carta. Não, que fosse outra. De novo, desde o início, deveria
escrever aquele texto de destinatário ainda indeterminado, que eu
tinha posto dentro de um envelope identificado, com um marcador
permanente, como “Testamento”. Agora eu deveria escrever de
maneira completamente diferente.
***
Tive de pensar como escreveria.
Quando tudo começou a desmoronar?
Onde estava a encruzilhada?
Qual lacuna e qual nó foram os pontos
críticos?
A experiência nos mostra que certas
pessoas, quando partem, pegam a faca mais afiada que possuem para
cortar a parte mais sensível do outro, e elas sabem exatamente qual
é, pois eram próximas.
Não quero viver como a pessoa que
tomba, assim como você.
E, por querer viver, estou te
deixando.
Quero viver parecendo estar viva de
fato.
[…]
Han Kang, em Sem despedidas
15/09/2026
Me desprendi do sol
Para
Ciro Figueiredo, irmão, como se fôssemos os primeiros
Me desprendi do sol. A bruma turva
se alastra e trava a proa da canoa
que sabe de águas, lépida de curvas,
mas se maldiz do rumo que destoa.
Me desprendi do sol. Já o tempo
breve,
que me ensina lições de escuridão,
me diz que, fatigada, a luz da vida
já não ameiga a mágoa do caminho.
Navego sem temor. Desce serena
a mão deste crepúsculo que entrega
o sal da sua sombra. Me arde a pena
de feliz não ter feito a quem me
quis.
Ensolarada dor, mas não me nega
o amor, que se deu todo no que fiz.
Thiago de Mello, em Acerto de contas
Piloto de Guerra
XI
Eu morava em Orconte, vila nas
proximidades de Saint-Dizier — onde meu Grupo ficou acantonado
durante o inverno de 1939, que foi muito rude —, uma fazenda
construída com paredes de estuque. A temperatura noturna caía ali a
ponto de transformar em gelo a água da minha moringa rústica, e meu
primeiro ato, antes de me vestir, era, logicamente, acender o fogo.
Mas esse gesto exigia que eu saísse da cama onde estava aquecido e
onde me embolava deliciosamente.
Nada me parecia mais maravilhoso do
que aquela simples cama de monastério, num quarto vazio e
enregelado. Ali eu saboreava a beatitude do repouso depois de duras
jornadas. Saboreava também a segurança. Nada me ameaçava. Meu
corpo era ofertado, durante o dia, aos rigores da grande altitude e
aos projéteis cortantes. Meu corpo podia ser transformado, durante o
dia, em ninho de sofrimentos e ser injustamente dilacerado. Meu
corpo, durante o dia, não me pertencia. Não me pertencia mais.
Podiam arrancar-lhe membros, tirar-lhe sangue. Pois também é um
fato de guerra que esse corpo se torne loja de acessórios que não
são mais sua propriedade. O oficial vem e lhe reclama os olhos. E
você lhe cede seu dom de ver. O oficial vem e lhe reclama as pernas.
E você lhe cede seu dom de andar. O oficial vem, com sua tocha, e
lhe reclama toda a carne do rosto. E você não passa de um monstro,
tendo-lhe cedido, como resgate, seu dom de sorrir e de mostrar
amizade aos homens. Assim, esse corpo que podia revelar-se, durante o
dia, meu inimigo, e doer, esse corpo podia se transformar em usina de
lamentações, eis que era ainda meu amigo, obediente e fraterno, bem
enrolado nos lençóis em seu meio adormecimento, nada confiando à
minha consciência além de seu prazer de viver, seu ronronar
felizardo.
Mas era preciso tirá-lo da cama e
lavá-lo na água gelada, barbeá-lo, vesti-lo para ofertá-lo,
correto, à forja. E aquela saída da cama parecia o arrebatamento
dos braços maternos, do seio materno, de tudo o que, durante a
infância, cultiva, acaricia, protege um corpo de criança.
Então, depois de ter pesado bem,
amadurecido e atrasado minha decisão, eu dava um só pulo, com os
dentes cerrados, até a lareira, onde empurrava uma pilha de lenha
que aspergia com gasolina. Uma vez que se inflamasse, eu conseguia
atravessar de novo o meu quarto, enfiando-me de volta na cama, onde
reencontrava meu calor e de onde, enfiado nas cobertas e no edredom
até o olho esquerdo, eu vigiava a minha lareira. Primeiro, ela quase
não pegava, depois havia curtos clarões que iluminavam o teto.
Depois, começava a instalar-se ali, como uma festa que se organiza.
Começava a crepitar, roncar, cantar. Era alegre como um banquete de
casamento camponês, quando a multidão começa a beber, a esquentar
e acotovelar-se.
Ou então, parecia-me que era guardado
por meu fogo benfazejo como por um cão pastor ativo, fiel e
diligente, que desempenhava bem sua tarefa. Eu experimentava,
considerando-o, um júbilo surdo. E, quando a festa chegava no auge,
com aquela dança das sombras no teto e aquela música quente
dourada, e já perto de mim aquelas construções de brasa, quando
meu quarto ficava bem cheio daquele cheiro mágico de fumaça e de
resina, eu deixava, num pulo, um amigo pelo outro, corria da minha
cama ao meu fogo, ia ao mais generoso, e não sei muito bem se assava
a barriga ou esquentava o coração. Entre duas tentações,
covardemente, eu havia cedido à mais forte, à mais rutilante, à
que, com sua fanfarra e seus clarões, fazia a melhor publicidade.
Assim, por três vezes — primeiro,
para acender o fogo, depois me deitar de novo e voltar para fazer a
colheita das chamas —, eu, por três vezes, batendo os dentes,
havia atravessado as estepes vazias e geladas do meu quarto e
conhecido um pouco das expedições polares. Eu havia andado através
do deserto em direção a uma escala bem-aventurada, e fora
recompensado por aquele fogaréu, que dançava à minha frente, para
mim, sua dança de cão pastor.
Essa história parece uma ninharia. No
entanto, era uma grande aventura. Meu quarto me mostrava, com
transparência, o que eu nunca saberia descobrir se, um dia, como
turista, eu visitasse aquela fazenda. Ela teria me dado tão somente
seu vazio banal, mal mobiliado com uma cama, uma moringa de água e
uma lareira ruim. Eu teria bocejado alguns minutos. Como poderia
distinguir suas três províncias, suas três civilizações, a do
sono, a do fogo e a do deserto? Como teria pressentido a aventura do
corpo, que é primeiro um corpo de criança pendurado no seio
materno, acolhido e protegido, depois um corpo de soldado, construído
para sofrer, depois um corpo de homem, enriquecido de alegria pela
civilização do fogo, que é o polo da tribo. O fogo honra o hóspede
e honra seus camaradas. Se eles visitam seu amigo, tomam parte em seu
festim, puxam as cadeiras em volta da sua e, falando-lhe dos
problemas do dia, das preocupações e fardos, dizem, esfregando as
mãos e enchendo seus cachimbos: “Nada mal uma fogueirinha; é
gostoso”.
Mas já não há fogo para me fazer
crer na ternura. Não há mais quarto enregelado para me fazer crer
na aventura. Eu acordo do sonho. Não há nada além de um absoluto
vazio. Não há mais que uma extrema velhice. Tão somente uma voz, a
de Dutertre, dizendo-me, obstinada, em seu propósito quimérico:
— Um pezinho à esquerda, Capitão…
Antoine de Saint-Exupéry, em Piloto de Guerra
O grito
Sei que o que escrevo aqui não se
pode chamar de crônica nem de coluna nem de artigo. Mas sei que hoje
é um grito. Um grito! de cansaço. Estou cansada! É óbvio que o
meu amor pelo mundo nunca impediu guerras e mortes. Amar nunca
impediu que por dentro eu chorasse lágrimas de sangue. Nem impediu
separações mortais. Filhos dão muita alegria. Mas também tenho
dores de parto todos os dias. O mundo falhou para mim, eu falhei para
o mundo. Portanto não quero mais amar. O que me resta? Viver
automaticamente até que a morte natural chegue. Mas sei que não
posso viver automaticamente, preciso de amparo e é do amparo do
amor.
Eu tenho recebido amor. Duas pessoas
adultas quiseram que eu fosse madrinha delas. Um afilhado de batismo
mesmo eu tenho: é Cássio, filho de Maria Bonomi e de Antunes Filho.
E eu me ofereci para ser madrinha suplente de uma jovem que quer o
meu amor. Dela a seguinte carta, do Rio mesmo: “Sabe, ontem acordei
colorida. Assim porque vi uma porção de coisas sempre vistas e
nunca vistas, amei o movimento da vida, sabe como é, um dia que a
gente tem olhos para ver. E foi tão bonito que te dei meu dia. O
presente é meio mixo para a gente linda-tão-linda que tu me destes
(vou conversar com ela quando estiver sozinha) mas foi tão bonito e
grande e claro. Hoje estou a mesma chata de sempre, que não sabe
telefonar e nem dizer que gosta da madrinha.”
O mais curioso é que as duas
afilhadas adultas que tenho — uma inteiramente diferente da outra
—, o mais curioso é que eu é quem tenho sido ajudada por elas. O
que será que lhes dei a ponto de me quererem como madrinha?
Voltando ao meu cansaço, estou
cansada de tanta gente me achar simpática. Quero os que me acham
antipática porque com esses eu tenho afinidade: tenho profunda
antipatia por mim.
O que farei de mim? Quase nada. Não
vou escrever mais livros. Porque se escrevesse diria minhas verdades
tão duras que seriam difíceis de serem suportadas por mim e pelos
outros. Há um limite de se ser. Já cheguei a esse limite.
Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida
Não Verás País Nenhum
Nas suas divagações, Souza vê que tem sorte, pois ainda possui memória. Ao contrário dos Militecnos, que já perderam as faculdades humanas
Um olhar surpreendente.
Esquivo e ao mesmo tempo atravessador. O que me
impressionou foi a cor da pele. Dava até mal-estar.
Vermelha. De pessoa branca que ficou muito exposta ao
sol. Nem um só fio de cabelo. A pele da cabeça
transformada em placas ressequidas,
como solo de caatinga.
Mais forte, no entanto, foi a
sensação de familiaridade. Certeza de
já ter visto esse homem. Aquelas mãos sem unhas não eram
desconhecidas. Bem que Adelaide diz, ando
precisando de um remédio. Antigamente, ela
compraria peixe, me daria todos os tipos.
Teve época, antes de me
aposentarem compulsoriamente,
que passei a me esquecer. De tudo, propositalmente.
Atrasava aluguel, não pagava luz, roubava nos
supermercados, tomava café nos bares e ia
embora. Não voltava para casa à noite, ficava
sentado no banco do jardim.
Adelaide me curou com dieta à base de
peixe. Frito, ensopado, à escabeche, à
milanesa. Não me fartei porque gostava
muito. Coisa tão boa. Há quanto não comemos peixe? Nem
factício. Adianta lembrar? Enfrento o olhar fixo do
careca. Pessoas se afastam dele, enojadas.
Se não for trabalhar, terei
de ficar pela cidade. Quente demais, os abrigos
refrigerados estão lotados, não vou me
amontoar por aí o dia inteiro. Ainda bem que não vim de
paletó. Termino optando pela repartição, estou
mais do que atrasado. O que não me perturba.
Declarei no guichê nome e
número, matrícula, CIC, IR, ISS, repartição.
A luz amarela acendeu. Atraso de meia hora, então.
Não sei que punições posso sofrer, nunca abri o Manual. Não
li, pouco me importa. Todos sabem, por ele não temos direitos,
somente deveres e obrigações.
– E este atraso, senhor Souza?
– Mal dava para andar. Muita
segurança na rua. Toda hora a gente estava
rastejando.
– Quando é que as pessoas vão
aprender a sair mais cedo?
– Pois é.
– Que tal um desconto em
folha? O sábado e o domingo perdidos? Um dia de
férias?
– Não posso fazer nada, doutor
Álvaro.
– Pois é, mas eu posso. Não há
neste país mais sentido de responsabilidade,
noções de dever cumprido, respeito com a coisa
pública.
Ele fica falando, vou para minha
mesa. Como colegial repreendido. Irritado, porque
nesses anos nem faltei, nem me atrasei. Ora, me
preocupar? Só fico inquieto com o afundamento
na mão. Agora todo vermelho, parece que cedeu mais.
Meu Deus! Será que peguei câncer galopante?
Todo o trabalho sobre a
mesa. Fitas longuíssimas de papel amarelo.
Fileiras de números, meu trabalho é conferir.
Papéis que vieram dos computadores. Somos
obrigados a revisar. Faz doze anos que ninguém,
mas ninguém, nem um só de nós, descobriu um erro,
imperfeição, deslize, falha.
Para contentamento
do doutor Álvaro. Ele pensa que somos perfeitos,
quando o computador é que é. Até hoje não
achei a utilidade desta seção. Ninguém descobriu.
Meus colegas fazem a revisão conscientemente.
Eu não. Assino o que cai na minha frente. Para que ficar
questionando?
Ao menos, calculo que meus
companheiros trabalhem conscientemente.
Ficam nervosos diante das pranchas de números.
Investigam as colunas, cada um criou seu método, inventou
um sistema. Usam réguas, calculadoras.
Verificam cifra por cifra. Corrigem os números apagados,
mal impressos.
Alguns recorrem a
minipotencialidades. Observo o tempo
que demoram com cada folha. A média é de cinco folhas por dia,
não mais. Procuro estabelecer tempo igual. Apenas vou
olhando, e pensando. Gasto um tempo enorme sem
fazer nada. Sinto, forte, a sensação do desperdício.
Isso me deixa inquieto. Esse
tempo não usado, morto. Um homem não pode passar a vida
olhando para folhas cheias de números. Então devo me
empenhar nessas verificações? Aproveito
parte de meu tempo contemplando o que se passa na
vizinhança. A janela fica ao meu lado.
É provável que também
me observem do lado de lá. Alguém que, entediado, me
olha, cogitando: vejo aquele homem há tanto tempo
atrás de sua janela, que vou sentir sua falta se um dia
ele sair dali. Acostumei com ele. Sei de seu trabalho,
conheço seus hábitos. A hora que chega, a hora que sai.
Antes de sentar-se, ele tira
o paletó e estende cuidadosamente
na guarda da cadeira. Acende o cigarro, o primeiro
dos dois que fuma durante o dia. Faz um gesto, se
espreguiçando, coça o peito e se acomoda.
Mas não olha imediatamente para sua mesa.
Vira-se primeiro para fora.
Percebo o seu olhar vagando pelo
fundo dos prédios. O centro é velho, os pátios internos
são sujos, cinzas, repletos de lixo. Telheiros cheios de
papéis, plásticos, bujões de gás, vidros
enegrecidos, caixotes, chaminés
de lanchonete soltando fumaça
engordurada, engradados, garrafas.
Aquele homem passa boa parte do tempo
numa panorâmica, demorando-se em cada
coisa. As mesmas coisas há tanto tempo, o que pode mudar
por aqui? Um dia, ele viu o homem sair correndo por uma
porta com as mãos na garganta, ar de desespero.
O homem chegou ao pé de um muro. Assustado.
Esse muro dava para um pátio de
lajotas enegrecidas. O homem quis pular e caiu.
Ficou estrebuchando, como que num ataque
epilético. Depois se acalmou. Não apareceu
ninguém. À noite, o corpo ainda estava lá; e na manhã
seguinte. Aqui de cima, olhávamos,
interrogadores.
O dia se passou, o corpo
continuou. Preocupei-me com a decomposição,
o mau cheiro. Parece que o homem do lado de lá se preocupava
também, pois olhava inquieto, e repetidamente,
pela janela. No fim da tarde, ele desapareceu e
imaginei que pudesse ter ido investigar lá
embaixo.
Desci, acreditando que
poderia encontrá-lo. Apesar de não saber como é o
seu rosto. Por trás da janela vejo apenas um vulto
indistinto, nada concretamente
delineado. Na rua, fiquei meio perdido, era
difícil saber de que prédio o homem tinha saído, com os
seus ataques ou seja lá o que for.
Havia dentistas,
escritórios, lanchonetes. Teria sido de uma
lanchonete? Pode ser. Mas eu não possuía
permissão para aquela. Frequento outra. Não me
deixariam entrar, nem que eu pedisse: “Quero ir ao
banheiro, estou apertado”. Nem que suplicasse,
chorasse. Ou me borrasse todo.
“Se está apertado, vá ao
Posto Apropriado”, diriam. “Nada podemos fazer aqui,
estamos limitados aos fregueses, a um
determinado número de pessoas por dia.”
Os Postos Apropriados correspondem aos antigos
mictórios públicos, recondicionados.
Cheios de sofisticada maquinaria própria.
Os Postos estão espalhados,
com maior concentração no Centro Esquecido de São
Paulo. Funcionam como clube inglês, privado, exclusivo.
Sanitários limpos, sabão, ar seco para enxugar o rosto e
as mãos, ventinhos frescos, banquinhos para
repousar, máquina de fazer vinco em calça.
Os Postos dão o conforto,
você fornece a urina. Para frequentá-los é
necessário um exame médico rigoroso,
análise detalhada dos rins e da bexiga.
Comprovada sua boa saúde, o cidadão privilegiado
recebe a Ficha de Utilização para o Posto Apropriado, FUPA.
Eh, que palavra feia!
A sua urina é comercializada.
Com a falta de água, aparelhos recolhem os mijos
saudáveis numa caixa central, onde se procede
à reciclagem. Há mistura, tratamento
químico intenso, filtragem, purificação,
refinamento, transformação. A urina
retorna branca, pura, sem cheiro, esterilizada.
Dizem que dá para beber. Eu é que
não vou experimentar. Nem o mijo meu, quanto
mais o dos outros. Mas os Postos Apropriados têm uma capacidade
limitada de recolhimento. Daí também
a seleção apurada e o bom ambiente que se
encontra nesses banheiros especiais, de luxo,
para pessoas de fino trato.
Quem não é autorizado
a frequentar os Apropriados, ou não quer pegar filas,
deságua de qualquer jeito, onde puder. Por isso
determinadas ruas fedem. E as escadarias,
então? Em último caso, se não tiver mesmo solução,
arrisque-se na fila menor dos Tapa Visão do Sexo, os TVS.
São pequenos muros em que a
pessoa fica com meio corpo para fora, de cara para a rua. Todos
te olham enquanto você se alivia. Por que o homem fica sem
graça quando urina coletivamente? Os TVS
são indecentes porque recolhem a urina de graça
e a distribuem a privilegiados.
Disse que jamais vou aceitar essa
urina reciclada como água. Quem me garante que já
não a estou usando em casa, na rua, nas lanchonetes?
Se existe alguma coisa neste país na qual ninguém
ponha fé, algo que não vale absolutamente nada,
trata-se da palavra do Esquema.
Meu sobrinho, o Militecno, foi
quem me contou. Todos pensam que o excedente de
líquido reciclado é conduzido para as
reservas das Zonas Populopostais, onde se concentram
os maiores índices de população. Não, não
confundam. Nada têm a ver com os Acampamentos Paupérrimos.
Estes se encontram um pouco mais
à frente, além dos Círculos Oficiais Permitidos. O povo dos
Acampamentos foi impedido de entrar, no dia em que um
prefeito decidiu: “São Paulo precisa
parar”. Então parte dessa água-mijada seria
utilizada para a população dessas
Zonas.
O resto é reserva. O ministro
das Águas declarou que nossas reservas dão para seis
meses, numa emergência. No entanto meu sobrinho
afirmou que estamos vendendo água ao Chile por
um décimo do preço que pagamos. Para nós, o preço do
barril aumenta constantemente, e sem
razão.
Querem que economizemos
para evitar racionamento obrigatório.
Todavia as fichas representam o quê, senão o
racionamento? Não há como entender. Jogam a
gente na chuva e ficam bravos: “Vocês vão se molhar, saiam”.
A gente quer sair, mas trancam a porta, continuamos
na chuva.
A verdade é que as
reservas recebem um mínimo de excedentes.
Os Bairros Privilegiados abiscoitam tudo o que podem.
Ninguém viu, no entanto dizem que existem até piscinas
cobertas. Desse modo, se a emergência chegar,
vai dar crepe, porque os tanques devem estar todos vazios.
Essa emergência é
esperada há algum tempo. Algum? Eu nem tinha começado
neste escritório e já lia sobre os constantes
sinais vermelhos que a natureza vem emitindo.
É o alerta, declaravam os cientistas. Os
poucos cientistas que tinham sobrevivido
e tentavam criar defesas.
Cientistas. Categoria mínima,
marginalizada. Numa fase quase
pré-histórica, o povo era alheio aos seus
avisos. Mais tarde, o Esquema percebeu a situação,
manipulou jornais e televisão e fomentou
a ironia. Foi quando se difundiu amplamente
a expressão galhofeira “paranoia científica”.
Qualquer ato era “paranoia
científica”. Um cientista esclarecido,
consciente, naquela época, equivalia a ser
judeu nos dias de nazismo. Pessoa perseguida,
maldita, que se camuflava. No entanto,
a gente continuava a estudar, falar, denunciar.
A provocar a opinião pública.
A maioria dos cientistas
foi cassada. Outros se retiraram, aceitando
convites estrangeiros. Houve quem se aposentou,
mudou de atividade. Muitos institutos
foram fechados, enquanto uma nova ordem crescia e
dominava: a dos Militecnos ou Tecnocratas
Avançados da Nova Geração.
Hoje, a palavra Militecno é
corriqueira, incorporou-se ao
linguajar. Mas então não sabíamos bem o que
significava. Líamos na imprensa, ouvíamos
no rádio e não ligávamos. Se tivéssemos
previsto o perigo! Como podíamos sequer
imaginar que aqueles homens não tinham o cérebro
normal?
Ficou demonstrado pelos
cientistas. Foi mais uma das razões que os
tornaram marginalizados.
Provou-se que os Militecnos sofreram
metamorfose em seu organismo. O cérebro
ficou afetado. Perdeu parte da memória. As emoções
foram eliminadas. Tornaram-se serenamente
calculistas.
Daí o caráter bastante
prático desta nova civilização. Se
podemos chamar a isto de civilização. De
tanto mexer com números, cálculos, máquinas,
métodos, os Militecnos perderam certas
faculdades. Partes do corpo quando não usadas
são passíveis de atrofiamento. Deu no que
deu. Instinto de conservação, fraternidade,
capacidade de distinguir beleza, boa
qualidade, isso morreu. Tudo foi revelado
num relatório apresentado nos Estados
Unidos. Cientistas norte-americanos,
especializados no estudo de nosso país,
chegaram a curiosíssimas conclusões.
As obras desses
norte-americanos estão banidas.
Encontram-se em algumas bibliotecas
particulares. Chegaram antes dos Interditos
Postais. Hoje, abrem todos os pacotes nos correios,
revistam nos aeroportos, confiscam.
Computadores fornecem rapidamente as listas
de proibidos.
Esses cientistas
especializados na mente do homem brasileiro
surgiram depois do boom de brasilianistas.
Toda a história brasileira foi revista
e reescrita por esses amáveis professores
norte-americanos. Em seguida apareceram
os biólogos, os anatomistas, os
pesquisadores da mente.
Nós, os brasileiros,
não tínhamos acesso aos arquivos, mas eles sim.
Trabalhavam livremente, recebiam bolsas, ajuda,
microfilmagens, cópias de todo o material de que
o pesquisador necessita em seu trabalho.
Não adiantava denunciar, o Esquema ignorava.
Mais que isso, nos punia.
Sou lúcido para saber que o
controle total, rígido, dos meios de comunicação,
aliado à Intensa Propaganda Oficial, IPO, amorteceu
as mentes. De tal modo que esta emergência em que
vivemos passou a ser considerada
normal. A nossa memória é admirável, porque
esse passado é recente.
E nos esquecemos. Tudo se
precipitou. Rápido demais. Os Que Se Locupletaram
estão hoje em seus territórios isolados,
vivendo ricamente. Não conseguem se
reproduzir, se perpetuar. Mas não tem
importância para eles. São os chamados
(ironicamente?) Homens dos Tempos Presentes.
No decorrer dos anos, temos nos
adaptado a tudo. Acaso as gerações dos anos
sessenta e setenta não se conformaram,
aceitaram e até buscaram o estado de sítio
permanente? Quando penso nessas coisas, não
me excluo. Eu também sou o povo. E talvez tenha maior
responsabilidade.
Afinal, sou professor de
História. Cheguei a rir das críticas que os cientistas
fizeram. Estão loucos, imaginava. Tais
coisas nunca vão acontecer. Ou então a humanidade
pode desaparecer. Agora, vejo. Talvez a humanidade
não desapareça, mas nosso povo está nos limites.
Medo. Vivo com medo. Minha mulher
repete sempre isso. Mas Adelaide é outro gênero, só
quer saber de sua igreja. Acredita na vida eterna. Pensa na
salvação. Sofrimento agora, paraíso depois. O que
acontece aqui é simples preparação
para encarar o Senhor que está lá em cima.
Assim ela enfrenta a vida,
conformada. Aceitando, recebendo.
Quando quer, sabe ver as coisas. Tanto que conduziu o
sobrinho para o Novo Exército. Sou um professor de
História que tem um afundamento na mão. Encaro isso
com naturalidade. Deve ser um efeito, não
uma causa.
Quantas coisas não têm
aparecido? O careca de hoje? Quem tem ideia de
onde veio? As pessoas que andam perdendo unhas? Os que
sofrem de ossos amolecidos? Os que ficaram cegos?
Ou sem dentes? Se a investigação científica
existisse, saberíamos os porquês. Quem
quer saber?
Todos querem apenas
sobreviver. Se analisarmos a história,
vamos concluir que o nível de vida do povo baixou a zero.
Não de todos. Os Que Se Locupletaram estão lá. Aqueles que os
serviram se arranjaram. E todo mundo só quis
servir. Foram décadas que derrotaram a
civilização.
Tempos em que o povo passou a
comer menos. A comer pior. Cada vez com menos qualidade.
Não chegamos a comer raízes porque elas não
existem mais. Esgotamos praticamente tudo.
Dependemos das indústrias químicas governamentais
ou do que é importado das fechadas reservas
multi-internacionais.
As casas sumiram, edifícios
dominaram tudo, os espaços ficaram caríssimos
devido à intensa especulação
imobiliária. Tudo produto da Grande
Locupletação, quando o país foi dividido,
retalhado, entregue, vendido, explorado.
Tenho medo de pensar nisso. Medo de falar com alguém a
respeito.
Eu me perco. Sempre que começo a
pensar, vou longe. Talvez minha imaginação seja
poderosa. Devia ter aproveitado para coisa
melhor que este emprego rotineiro, metódico.
Ou até decole nesses voos de fantasia em função
deste trabalho desarticulante,
regressivo. Ou esse ou nenhum.
Naquele dia em que desci à procura
da entrada para o pátio, não encontrei nenhum dos dois.
Nem o pátio, nem o homem que ficava por trás da janela.
Voltei à minha mesa e continuei observando. O
corpo estava lá. Ficou até apodrecer dias depois,
mas nenhum cheiro subiu. Anormal? E daí?
Certa manhã, o esqueleto
desapareceu. No seu lugar surgiram pacotes
metálicos, brilhantes. Estão lá até hoje,
enferrujados, apesar do tempo seco e firme que
faz há anos. Para mim, a ferrugem era provocada
pela umidade. Deve existir outra causa. Discussões,
reflexões inúteis.
Olho pela janela, há um homem
que me observa. Penso que está olhando para mim. Ele
interrompe o trabalho e se encosta
no vidro. Me olha e deve pensar: “Vejo aquele homem há
tanto tempo, que vou sentir sua falta se um dia ele sair dali.
Acostumei com ele”. Meu Deus, deliro. Bela novidade!
Ignácio de Loyola Brandão, em Não Verás País Nenhum
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