24/07/2026

João Bosco – Sinhá | NDR Bigband

O Misterioso Dom da Leitura de Mãos

Substância do universo

A substância do universo é obediente e complacente. A razão que o governa não tem motivo para fazer o mal, pois não tem malícia. Não prejudica, nem é prejudicada. É responsável pela criação e pelo aperfeiçoamento de tudo.

Marco Aurélio, em Meditações

Capítulo 71 – O Senão do Livro




Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...
E caem! – Folhas misérrimas do meu cipreste, heis de cair, como quaisquer outras belas e vistosas; e, se eu tivesse olhos, dar-vos-ia uma lágrima de saudade. Esta é a grande vantagem da morte, que, se não deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar... Heis de cair. Turvo é o ar que respirais, amadas folhas. O sol que vos alumia, com ser de toda gente, é um sol opaco e reles, de cemitério e carnaval.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Nobre rua São José

A rua é ainda egrégia e simpática. Tudo se vem fazendo por transformá-la em ponto de estacionamento de automóveis, mas a sombra de Rui Barbosa, a de João Ribeiro, de poetas antigos, sábios, professores, bibliófilos, estudantes, gente rica e gente pobre, com amor à leitura, que por lá buquinou durante anos e anos, parece frequentá-la ao jeito das sombras: discretamente, na memória dos que gostam de evocar, na saudade de alguns sobreviventes da velha geração de caixeiros, um pouco na poeira das estantes, que as estantes veneráveis não devem ser luzidias. Há também, esparsas, memórias de leiloeiros e antiquários.
Os “sebos” foram rareando, frequentadores assíduos se despediram para o Caju e o São João Batista, a cidade ensaiou novos hábitos, ou simplesmente perdeu velhos e não teve jeito de adquirir outros. Onde reinava o velho Quaresma e depois o velho Matos, há hoje latas de comestíveis. A “Principal”, a “Acadêmica”, o J. Leite saíram da paisagem, emigrando ou desvanecendo-se. Um lado inteiro da rua desapareceu, e foi como se arrancassem metade do tronco a um corpo vivo. Mas, no outro meio-fio, o sobrado da velha Briguiet se mantém fiel a seu destino de casa de livros. Com outro nome e outros ocupantes, o espírito literário não desertou aquelas paragens. Um menino, por assim dizer crescido na rua São José, ali está hoje, homem-feito, e a este não é possível demolir nem convencer de que deve negociar em política, importações ou apartamentos. Carlos Ribeiro mantém e revigora, quase sozinho, o espírito da gloriosa rua São José, que é uma universidade a seu modo: junto às pilhas de livros, sabedores de coisas filosofam ou pontificam; mocinhas supõem comprar romances, quando na realidade estão se provendo de noções da eterna e tenebrosa ciência de amar; o vice-presidente da Câmara, José Augusto, foge à barafunda parlamentar e mergulha nos clássicos; amadores contemplam estampas; o cônego Monteiro seleciona obras para a biblioteca do Círculo Operário de São José dos Campos, criada com o seu suor; não faltam nem as presses universitaires, pois a rua edita desde manuais de macumba até estudos eruditos; e há sempre uma ideia, um projeto, um traço intelectual no ar, um traço que não quer perder-se e reage contra a burrificação geral da vida carioca.
Mas essa rua é também uma praia, aonde vão dar os volumes de bibliotecas que naufragaram. Vêm de mistura os mestres do pensamento e aquelas tímidas obrinhas de principiantes, que o destinatário nem chegou a abrir. O livreiro recolhe esses destroços e os reanima, pondo-os de novo em circulação. Só na aparência é triste o comércio de livros usados. Realmente, ele assegura, dans un tumulte au silence pareil, uma vibração contínua, uma rotação infatigável aos produtos do espírito, que espírito também são, e não se sentiriam bem se agrilhoados eternamente à mesma prateleira imóvel.
O grande poeta estrangeiro oferece seu cântico ao grande poeta nacional e este, de alma doadora por natureza, o passa a um terceiro poeta, que, premido pela dura circunstância (e quem ainda não desfez ou pensou em desfazer sua biblioteca, num dia negro?), o lança à correnteza da rua São José, onde um quarto poeta o resgata — por quanto tempo? Assim a poesia circula como um facho levado por mãos que a prezam, e alguma coisa, no abismo, se salvará.

Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira

Jet | Paul McCartney e Linda McCartney



Jet
Jet
Jet, I can almost remember their funny faces
That time you told them that you were going to be marrying soon
And Jet, I thought the only lonely place was on the moon
Jet
Jet

Jet, was your father as bold as the sergeant major
How come he told you that you were hardly old enough yet
And Jet, I thought the major was a lady suffragette
Jet
Jet

Ah Mater
Want Jet to always love me
Ah Mater
Want Jet to always love me
Ah Mater
Much later
Jet

And Jet, I thought the major was a lady suffragette
Jet
Jet
Ah Mater
Want Jet to always love me
Ah Mater
Want Jet to always love me
Ah Mater
Much later

Jet, with the wind in your hair of a thousand laces
Climb on the back and we’ll go for a ride in the sky
And Jet, I thought that the major was a little lady suffragette

Jet
Jet
And Jet, you know I thought you was a little lady suffragette
Jet
A little lady
My little lady, yes

Quando estávamos nos Beatles, aprendemos a compor canções de sucesso. Afinal de contas, éramos os Beatles, então tínhamos que fazer isso. Não podíamos compor fracassos. Isso não seria adequado para os Beatles.
Por isso, desenvolvi um talento para escrever uma canção popular ou um hit. Naquela época, eu estava tentando intencionalmente fazer o Wings soar diferente dos Beatles, mas os truques do ramo ainda se aplicavam. Então, quando se trata de “Jet”, eu lancei mão de um monte de truques. Um deles é gritar; isso funciona. Um grito é sempre uma boa maneira de abrir uma canção.
Na verdade, “Jet” é o nome de um pônei, um poneizinho Shetland que tínhamos na
fazenda para a criançada. Minha filha Mary nasceu em 1969, por isso, em 1973, quando a canção foi escrita, ela estava com quatro anos. Stella tinha uns dois anos, então elas eram pequenas. Mas saber que Jet é um pônei é tão importante ou desimportante quanto saber que Martha, de “Martha My Dear”, é um cão pastor inglês.
Eu me lembro exatamente o que me fez começar a canção. Estávamos na Escócia, e adivinha só! Eu tinha o meu violão. No alto de uma grande colina havia uma fortaleza, um antigo forte celta. Hoje serve principalmente como um marco da agência de mapeamento Ordnance Survey. É um local com uma vista extraordinária. O tipo de lugar em que você pode imaginar os vikings tentando subir a colina enquanto derramávamos óleo quente em cima deles ou, senão, caso isso não funcionasse, arremessávamos uma chuva de lanças sobre eles. Na encosta da colina havia uns locais adoráveis, onde todos nós gostávamos de passear.
Eu disse a Linda que eu ia ficar um tempo no campo e me deitei ali, naquele lindo dia de verão, e deixei a mente vagar. Algumas das imagens são extraídas do relacionamento entre Linda e seu pai. Ele era um cara legal – muito bem- -sucedido –, mas um pouco patriarcal demais para o meu gosto. Eu me dava bem com ele, mas ele era um pouco severo. É meio daí que vem o “sargento-mor”. Em parte, é uma referência à canção de Gilbert e Sullivan “I Am the Very Model of a Modern Major-General”. Parcialmente, também, uma citação de Bootsie and Snudge, seriado de televisão do Reino Unido, que tinha um personagem chamado Sargento-mor Claude Snudge.
Mater”, que significa “mãe”, remonta às minhas aulas de latim na escola. Essa é uma figura materna imaginária, embora eu ache justo dizer que, ao fundo, o fantasma de minha mãe verdadeira sempre assoma em algum lugar.
O fato é que inventei tudo, toquei no violão, voltei à casa da fazenda e toquei para Linda. Perguntei o que ela achava. Ela gostou! E foi esse o resultado de minha tarde no alto da colina. Não era o Monte Sinai e não voltei com as Tábuas da Lei, mas voltei com “Jet”.

Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente

23/07/2026

Não devo nada a ninguém | O Cachorrão do Brega

Mocidade independente

Pela primeira vez infringi a regra de ouro e voei pra cima sem medir mais as consequências. Por que recusamos ser proféticas? E que dialeto é esse para a pequena audiência de serão? Voei pra cima e agora, coração, no carro em fogo pelos ares, sem uma graça atravessando o Estado de São Paulo de madrugada, por você, e furiosa: é agora, nesta contramão.

Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés

Garçom vegetariano

Restaurante chique. Um casal está sentado. Garçom vem atendê-los.
GARÇOM Posso anotar o pedido de vocês?
HOMEM Eu tô pensando em pedir esse filé à Oswaldo Aranha. Como é que ele vem?
GARÇOM Vem morto.
HOMEM Não entendi.
GARÇOM O filé, senhor, é um boi, né? E ele é servido, invariavelmente, morto.
Garçom fica triste. Quase chora.
GARÇOM Desculpa, é que eu soube disso agora há pouco.
MULHER Sim, mas ele quer saber da parte Oswaldo Aranha.
GARÇOM Ah. Isso devia ser o nome de uma pessoa. Provavelmente um homem. Também morto. Que deu nome ao filé.
HOMEM Mas como é que ele é servido? O filé?
GARÇOM Morto. Invariavelmente. Isso daí infelizmente não tem como mudar.
MULHER Sim, mas vem com quê?
GARÇOM Ah. Alho. Por cima. Do cadáver. Do boi morto. Abatido brutalmente, com uma pancada na cabeça.
MULHER Acho que eu vou de frango. Como é que é esse supremo de frango?
GARÇOM Isso daí é um pintinho que eles entupiram de hormônio pra crescer bem rápido. Daí criaram com mais mil pintinhos entulhados dentro de uma caixa de sapato. D…
MULHER Sim, mas depois…
GARÇOM Mataram ele. Invariavelmente. É uma coisa horrível.
HOMEM Mas e a parte do Supremo…
GARÇOM Creme de leite. Por cima do cadáver. Do frango morto.
HOMEM Acho que a gente vai de saladinha mesmo.
Garçom sorri. Anota o pedido.
MULHER Tem salada de atum?
Garçom volta a chorar, inconsolável.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

Da lua

O que é da lua são os gobelins, as borboletas bruxas, os rostos depois do amor, a tua pele…

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

O impagável Quino

Diário de Bernardo Soares

120.

Aquela malícia incerta e quase imponderável que alegra qualquer coração humano ante a dor dos outros, e o desconforto alheio, ponho-a eu no exame das minhas próprias dores, levo-a tão longe que nas ocasiões em que me sinto ridículo ou mesquinho, gozo-a como se fosse outro que o estivesse sendo. Por uma estranha e fantástica transformação de sentimentos, acontece que não sinto essa alegria maldosa e humaníssima perante a dor e o ridículo alheio. Sinto perante o rebaixamento dos outros não uma dor, mas um desconforto estético e uma irritação sinuosa. Não é por bondade que isto acontece, mas sim porque quem se torna ridículo não é só para mim que se torna ridículo, mas para os outros também, e irrita-me que alguém esteja sendo ridículo para os outros, dói-me que qualquer animal da espécie humana ria à custa de outro, quando não tem direito de o fazer. De os outros se rirem à minha custa não me importo, porque de mim para fora há um desprezo profícuo e blindado.
Mais terrível de que qualquer muro, pus grades altíssimas a demarcar o jardim do meu ser, de modo que, vendo perfeitamente os outros, perfeitissimamente eu os excluo e mantenho outros.
Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida.
Não me submeto ao estado nem aos homens; resisto inertemente. O estado só me pode querer para uma ação qualquer. Não agindo eu, ele nada de mim consegue. Hoje já não se mata, e ele apenas me pode incomodar; se isso acontecer, terei que blindar mais o meu espírito e viver mais longe adentro dos meus sonhos. Mas isso não aconteceu nunca. Nunca me apoquentou o estado. Creio que a sorte soube providenciar.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

22/07/2026

Jean Tassy | O Novo Sempre Vem

Canção de mim mesmo

15

A contralto puro canta na galeria do órgão,
O carpinteiro ajusta sua tábua, a língua de sua plaina assobia seu zumbido selvagem e ascendente,
Os casados e solteiros rumam para casa para a ceia de 
Ação de Graças,
O piloto agarra o pino mestre, ele carena com braço forte,

O imediato fica apoiado no baleeiro, lança e arpão prontos,
O caçador de patos anda em expansões silenciosas e cautelosas,
Os diáconos são ordenados com mãos cruzadas ao altar,
A fiandeira recua e avança ao zunido da grande roda,

O fazendeiro para nas traves ao andar num passeio 
de Primeiro Dia
E olha a aveia e o centeio,
O lunático é carregado por fim para o asilo, um caso crônico,
(Ele nunca mais dormirá como no catre no quarto da mãe;)

O tipógrafo de ofício com cabeça cinzenta e maxilas esquálidas trabalha em sua caixa de tipos,
Ele gira seu bocado de tabaco enquanto seus olhos se turvam com o manuscrito;
Os membros malformados estão atados à mesa do cirurgião,
O que é removido cai horrivelmente num balde;

A quadrarona é vendida no palanque do leilão,
O bêbado balança a cabeça ao lado da estufa do bar,
O maquinista enrola as mangas, o policial percorre sua ronda,
O porteiro marca quem passa, o rapaz conduz o vagão expresso,

(Eu o amo, embora não o conheça;)

O mestiço amarra suas botas leves para competir na corrida,
O tiro ao peru no oeste atrai velhos e jovens, alguns se apoiam nos rifles, alguns sentam nos troncos,
Da multidão caminha o atirador, toma sua posição, aponta sua arma;

Os grupos de imigrantes recém-chegados cobrem 
o cais e as docas,
Enquanto as carapinhas cultivam o canavial, o feitor os observa de sua sela,
O clarim chama no salão de festas,
Os cavalheiros correm para seus pares, os dançarinos se reverenciam,
O jovem descansa acordado no sótão com teto de cedro e escuta a chuva musical,
O Carcaju põe armadilhas no riacho que ajuda a encher o Huron,
A índia enrolada em seu tecido de bainhas amarelas está vendendo mocassins e bolsas de miçangas,
O perito esquadrinha a galeria de exibição com olhos semi-fechados e o corpo oblíquo,

Conforme os taifeiros amarram o barco a vapor a prancha é lançada para os passageiros descerem à praia,
A irmã jovem segura a meada enquanto a mais velha desenrola o novelo, e para às vezes nos nós,
A esposa, um ano de casada, está se recuperando e feliz tendo uma semana atrás seu primeiro filho,
A moça Yankee de cabelo limpo trabalha com sua máquina de costura ou na fábrica ou no moinho,

O pavimentador se apoia no seu bate-estacas, o grafite do repórter voa veloz no caderno de notas,
O letrista pinta com azul e dourado, o rapaz do canal trota pela trilha de sirga,
O contador conta em sua escrivaninha, o sapateiro encera seu cadarço,
O regente marca o andamento para a banda 
e todos os músicos o seguem,

A criança é batizada, o convertido está fazendo suas primeiras profissões de fé,
A regata se espalha na baía, a corrida começou, (como faíscam as velas brancas!)
O boiadeiro guardando sua boiada aboia àqueles que se desgarram,
O mascate transpira com o pacote nas costas, (o comprador pechincha por um centavo;)

A noiva desamarrota seu vestido branco, o ponteiro dos minutos se move devagar,
O viciado em ópio se reclina com cabeça rígida e 
lábios recém-abertos,
A prostituta enlameia seu chale, sua touca treme em seu pescoço espinhento e bêbado,
A multidão ri dos seus vis juramentos, os homens zombam e piscam uns pros outros,

(Miserável! Não rio de teus juramentos nem zombo de ti;)

O Presidente liderando um conselho de gabinete é rodeado pelos grandes Secretários,
Na praça andam três matronas majestosas e simpáticas com os braços cingidos,
A tripulação da sumaca amontoa camadas repetidas de linguado gigante no recipiente,
O missouriano cruza as planícies levando artigos e gado,

Conforme o cobrador anda pelo trem ele se anuncia pelo tilintar do troco solto,
Os ladrilheiros assentam o soalho, os latoeiros estão fazendo o teto, os pedreiros estão pedindo argamassa,
Em fila indiana cada um arcando seu cocho 
passam os trabalhadores;
Estações se alternando a indescritível multidão é reunida, é o quatro do Sétimo mês, (que saudações de canhões e armas de fogo!)

Estações se alternando o lavrador lavra, o ceifador ceifa, e a semente invernal cai na terra;
Nos lagos o piqueiro vigia e espera junto ao buraco na superfície congelada,
Os cepos formam pilhas ao redor da clareira, o usucapiente golpeia fundo com seu machado,
Chalaneiros se apressam rumo ao poente junto 
aos choupos ou nogueiras,

Capitães do mato atravessam as regiões do Rio Vermelho ou aquelas banhadas pelo Tennessee, ou aquelas do Arkansas,
Tochas luzem no escuro que pende sobre Chattahooche ou Altamahaw,
Patriarcas sentam-se à ceia com filhos 
e netos e bisnetos em volta,
Em muros de adobe, em tendas de lona, repousam caçadores de animais e peles após o esforço do dia,

Dorme a cidade e dorme o campo,
Os vivos dormem por sua vez, os mortos dormem por sua vez,
Dorme o velho marido junto à esposa e dorme o jovem marido junto à esposa;

E estes tendem interiormente para mim, e eu tendo exteriormente para eles,
E tal como é para ser desses mais ou menos sou,
E desses todos teço a canção de mim.

Walt Whitman, em Folhas de Relva 

O Realismo do brasileiro Almeida Júnior

Saudade (1899), de Almeida Júnior

Gravação

Pronto, tá ligado. Posso começar?
Pode.
O senhor se sente realizado?
Por que você quer saber isso?
Nada não. O professor é que mandou lhe perguntar.
O professor tem interesse em saber se eu me sinto realizado?
Sei não senhor.
Então diga ao professor que venha me procurar.
Pra quê?
Para eu lhe perguntar se ele se sente realizado.
O senhor vai perguntar isso a ele?
Vou.
O senhor também está estudando? Nessa idade, poxa!
Que que tem? Toda idade é boa para estudar, a gente não acaba nunca de saber as coisas. Mas não estou estudando não.
Então por que vai perguntar isso ao professor?
Porque se ele quer saber se eu me sinto realizado, eu também quero saber a mesma coisa dele. Indiscrição por indiscrição.
Gozado… Mas se o senhor fizer isso, não bota o meu nome no meio, porque vai dar grilo. Vê lá, hem.
Fique descansado. Não vou comprometer você.
E o senhor só vai responder a minha pergunta depois de falar com ele? E se ele não responder? Se demorar? Tenho de entregar esta entrevista até quinta-feira.
Bem, eu respondo agora mesmo.
Então, responde, vamos lá.
Primeiro eu preciso saber: o que é se sentir realizado?
O senhor não sabe?
Para dizer o que eu sinto, quero saber antes se o que eu sinto é o mesmo que se deve sentir quando se está realizado, ou se julga estar. E para isso é preciso saber o que é estar realizado.
Poxa, não complica.
Estou complicando, meu querido? Minha intenção era simplificar, esclarecer. O que é mesmo se sentir realizado?
Ora! Se sentir realizado é… quer dizer… Não sei explicar muito bem, mas o senhor entende, né?
Mais ou menos. Quer dizer: menos. E você?
Se o senhor não entende bem, eu é que vou entender?
Então, como é que eu posso responder?
Ué, o senhor é o entrevistado, o que sabe das coisas.
E quando não sei?
Não sabe se está realizado?
Não sei nem o que é realizado.
Corta essa. Não vai me dizer que não tem dicionário em casa.
Tenho alguns, mas em vez de me tirarem as dúvidas, me acrescentam outras.
Desculpa, mas o senhor é enrolado, hem? Será que não achou o significado de realizado?
Achei quatro ou cinco. Quer ver? Olhe aqui. O primeiro é o de coisa ou negócio que se realizou, que se tornou real. Será que me tornei real? E antes não era? Que que eu era então? Fantasma? Projeto?
Assim o senhor me funde a cuca.
Não tenho intenção.
E os outros significados?
No fim, está o neologismo, e aí é que — desculpe a expressão, que não costumo usar, mas me deu vontade — aí é que a vaca vai pro brejo. Aqui está: “indivíduo realizado: dito por uma pessoa, de si própria, quando considera ter alcançado todos os seus objetivos no terreno ético ou no de suas atividades profissionais ou artísticas”.
Tá legal.
Legal no papel, mas e dentro de mim?
Dentro do senhor o quê?
Quais são meus objetivos no terreno ético, ou, mais modestamente, no terreno de minhas atividades profissionais ou artísticas? Tenho objetivos éticos definidos? Quais são? São meus ou me são impostos ou sugeridos pela educação e pela conveniência social? Se fossem exclusivamente meus, quais seriam? E em minhas atividades práticas ou criativas? Que é que eu pretendo? Pretendo sempre as mesmas coisas? Não mudo de alvo? Não danço conforme a música ou até sem ela e contra ela? Que é que eu sei de positivo a respeito disso, ao longo de minha vida? Que pretendia eu há vinte anos? Há dez? Na semana passada? Me procure depois de eu morrer. Aí então posso dar balanço.
Chega! Chega!
Estou caceteando você?
Não está enchendo não. É que a fita acabou. Até que a entrevista foi bacana, um tremendo barato. O professor vai delirar, a turma também. Um cara que não sabe se está realizado nem o que é realizado! Papo findo, tchau!

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

Banho de Netos



Já contei procês que, em 1991, minha mulher e eu sofremos um grave acidente de carro. Fiz uma operação difícil, placas e parafusos ao longo do fêmur esquerdo. Passei a claudicar — um eufemismo bacaninha.
Anos depois, bastante deprimido, eu estava quase deixando a peteca ir pro espaço quando chegaram Os Quatro Cavaleiros do Apocalápis, A Poca Roupa, A Poca Vergonha, criem os neologismos que quiserem: meus netos, Pedro, Joana, Milena e Vinícius. Foi uma paixão devastadora, à primeira vista. E correspondida.
Assim que aprenderam a falar, os quatro — tenho certeza de que há comunicação por telepatia entre as feras — começaram a me chamar de Bidu. Morri de orgulho. Vovó, com muito jeito, procurou esclarecer a origem do apelido. Minha autoestima levou um baque de bola sete, despencando no fundo da caçapa, com direito a rasgão no pano verde:
Eles acham você parecido com o cachorro do Franjinha, aquele cachorro azul, da Turma da Mônica.
Ora, mas que falta de respeito dessa galera! Num domingo memorável, comecei a sempre adiada arrumação do escritório. Sou um modesto bibliófilo. Surpresa: os netinhos ofereceram-se entre risadas marotas, pra ajudar na limpeza. Que alegria. Até o cachorro, meu superlabrador Batuque, cúmplice deles em todas as armações, carregava livros e ria. Juro que ria. A avó, ao fim de um dia glorioso, organizou, antes da pizza, um banho conjunto,todos em trajes de praia.
Foi uma bagunça histórica. Meia hora após a orgiástica lustração, voltei ao escritório pra apreciar o trabalho realizado. Eu, além de brilhar feito um ET, exalava um cheiro assaz penetrante. Vovó Mary, quase sem ar de tanto rir, novamente esclareceu a celeuma:
Eles te deram um banho com o xampu antipulga do Batuque.
Ouvi a explosão de cinco risadas nas minhas costas. Cinco, sim. Não errei na conta. Quem mais ria — posso asseverar com a mão direita sobre a Bíblia — era o cachorro, a ponto de rolar no carpete.
Essa vai ter forra.

Aldir Blanc, em Direto do Balcão

Um carneiro em minha casa

Eu tinha um parente senador que, depois de ter vencido novas eleições, veio passar uns dias em minha casa de Isla Negra. Assim começa a história do cordeiro.
Acontece que seus eleitores mais entusiastas vieram para festejar o senador. Na primeira tarde da festa assaram um carneiro à moda do campo do Chile, com uma grande fogueira ao ar livre e o corpo do animal enfiado num assador de madeira. A isto chamam asado al palo, que é celebrado com muito vinho e queixosas guitarras criollas.
Outro carneiro ficou para a cerimônia do dia seguinte. Enquanto não chegava a sua hora, amarraram-no junto de minha janela. A noite toda gemeu e chorou, baliu e se queixou de sua solidão. Partia a alma escutar as modulações daquele carneiro, ao ponto que decidi me levantar de madrugada e raptá-lo.
Metido num automóvel levei-o a cento e cinquenta quilômetros dali, à minha casa de Santiago, onde não o alcançassem as facas. Mal entrou, pôs-se a pastar vorazmente no melhor lugar de meu jardim. As tulipas o entusiasmaram e ele não respeitou nenhuma delas. Ainda que por razões espinhosas, não se atreveu com as roseiras. Mas devorou em troca os goiveiros e os lírios com estranho prazer. Não tive remédio senão amarrá-lo outra vez. E de imediato se pôs a balir, tratando visivelmente de me comover como antes. Senti-me desesperado.
Nesse ponto se entrecruza a história de Juanito com a história do cordeiro. Acontece que por aquele tempo havia começado uma greve de camponeses no sul. Os latifundiários da região, que pagavam a seus rendeiros não mais de apenas vinte centavos de dólar por dia, terminaram a pauladas e prisões com aquela greve.
Um jovem camponês teve tanto medo que subiu num trem em movimento. O rapaz se chamava Juanito, era muito católico e não sabia nada das coisas deste mundo. Quando passou o cobrador do trem examinando as passagens, ele respondeu que não tinha, que se dirigia a Santiago e que pensava que os trens eram para que a gente subisse neles e viajasse quando precisasse. Trataram de desembarcá-lo, naturalmente. Mas os passageiros de terceira classe – gente do povo, sempre generosa – fizeram uma coleta e pagaram a passagem.
Por ruas e praças da capital andou Juanito com um embrulho de roupa debaixo do braço. Como não conhecia ninguém, não queria falar com ninguém. No campo dizia-se que em Santiago tinha mais ladrões do que habitantes e ele tinha medo que lhe roubassem a camisa e as alpercatas que levava debaixo do braço, embrulhadas num jornal. Durante o dia perambulava pelas ruas mais frequentadas, onde as pessoas sempre tinham pressa e afastavam com um empurrão este Gaspar Hauser (1) vindo de outro planeta. De noite buscava também os bairros mais concorridos mas estes eram as avenidas de cabarés e de vida noturna e ali sua presença era mais estranha ainda, pálido pastor perdido entre os pecadores. Como não tinha um só centavo, não podia comer, tanto assim que um dia caiu ao solo sem sentidos.
Uma multidão de curiosos rodeou o homem estendido na rua. A porta defronte da qual caiu correspondia a um pequeno restaurante. Levaram-no para dentro e o deixaram no chão. É o coração, disseram uns. É uma crise hepática, disseram outros. O dono do restaurante se aproximou, olhou-o e disse: “É fome.” Mal comeu algumas garfadas aquele cadáver reviveu. O dono o pôs para lavar pratos e se tomou de amores por ele. Tinha razões para isso. Sempre sorridente, o jovem camponês lavava montanhas de pratos. Tudo ia bem. Comia muito mais do que na sua terra.
O sortilégio da cidade se teceu de maneira estranha para que se juntassem certa vez, em minha casa, o pastor e o carneiro.
Deu vontade no pastor de conhecer a cidade, encaminhando então seus passos um pouco além das montanhas de louça. Tomou com entusiasmo uma rua, atravessou uma praça, e tudo o deslumbrava. Mas, quando quis voltar, já não o podia fazer. Não tinha anotado o endereço porque não sabia escrever, buscando assim em vão a porta hospitaleira que o tinha recebido. Nunca mais a encontrou.
Um transeunte, com pena de sua confusão, disse-lhe que devia se dirigir a mim, ao poeta Pablo Neruda. Não sei por que lhe sugeriram esta ideia. Provavelmente porque no Chile se tem por mania me encarregar de quanta coisa estranha passe pela cabeça das pessoas e ao mesmo tempo de me jogar a culpa de tudo o que acontece. São estranhos costumes nacionais.
O certo é que o rapaz chegou um dia à minha casa e se encontrou com o bicho preso. Já que eu estava tomando conta daquele carneiro inútil, não me custava também tomar conta deste pastor. Deixei a seu cargo a tarefa de impedir que o carneiro gourmet devorasse exclusivamente minhas flores mas sim que também, de vez em quando, saciasse o apetite com a grama de meu jardim.
Compreenderam-se na hora. Nos primeiros dias ele lhe pôs, só para constar, uma cordinha no pescoço com uma fita e com ela o conduzia de um lugar para outro. O carneiro comia incessantemente e o pastor individualista também, transitando ambos por toda a casa, inclusive por dentro de meus aposentos. Era uma união perfeita, conseguida pelo cordão umbilical da mãe terra, pelo autêntico mandato do homem. Assim se passaram muitos meses. Tanto o pastor como o carneiro arredondaram suas formas carnais, especialmente o ruminante que apenas podia seguir seu pastor de tão gordo que ficou. Às vezes entrava parcimoniosamente em meu quarto, olhava-me com indiferença e saía deixando um pequeno rosário de contas escuras no chão.
Tudo acabou quando o camponês sentiu a nostalgia do campo e me disse que voltava para sua terra distante. Era uma resolução de última hora. Tinha que pagar uma promessa à Virgem de seu povoado. Não podia levar o carneiro. Despediram-se com ternura. O pastor tomou o trem, desta vez com sua passagem na mão. Foi patética aquela despedida.
Em meu jardim não deixou um carneiro mas sim um problema grave, ou melhor, gordo. O que fazer com o ruminante? Quem cuidaria dele agora? Eu tinha preocupações políticas demais. Minha casa andava desordenada depois das perseguições que a minha poesia combativa me trouxe. O carneiro começou de novo a balir suas partituras queixosas.
Fechei os olhos e disse à minha irmã que o levasse. Ai, desta vez eu tinha certeza de que não se livraria do forno!

Nota:
(1) Gaspar Hauser: personagem do romance homônimo de Jakob Wassermann. (N. da T.)

Pablo Neruda, em Confesso que vivi