14/09/2026

Lenine – Relampiano | The Bridge | Martin Fondse | NDR Bigband

O impagável Quino

Apropriação

♦ A famosa frase libertária “Trabalhadores do mundo, uni-vos; nada tendes a perder senão os vossos grilhões” prejudicou muito a fábrica de grilhões mas enriqueceu a de produção de algemas.

Millôr Fernandes, em A bíblia do caos

Sobre Fernando Pessoa


Era um homem que sabia idiomas e fazia versos. Ganhou o pão e o vinho pondo palavras no lugar de palavras, fez versos como os versos se fazem, como se fosse a primeira vez. Começou por se chamar Fernando, pessoa como toda a gente. Um dia lembrou-se de anunciar o aparecimento iminente de um super-Camões, um camões muito maior que o antigo, mas, sendo uma pessoa conhecidamente discreta, que soía andar pelos Douradores de gabardina clara, gravata de lacinho e chapéu sem plumas, não disse que o super-Camões era ele próprio. Afinal, um super-Camões não vai além de ser um camões maior, e ele estava de reserva para ser Fernando Pessoas, fenómeno nunca visto antes em Portugal. Naturalmente, a sua vida era feita de dias, e dos dias sabemos nós que são iguais mas não se repetem, por isso não surpreende que em um desses, ao passar Fernando diante de um espelho, nele tivesse percebido, de relance, outra pessoa. Pensou que havia sido mais uma ilusão de óptica, das que sempre estão a acontecer sem que lhes prestemos atenção, ou que o último copo de aguardente lhe assentara mal no fígado e na cabeça, mas, à cautela, deu um passo atrás para confirmar se, como é voz corrente, os espelhos não se enganam quando mostram. Pelo menos este tinha-se enganado: havia um homem a olhar de dentro do espelho, e esse homem não era Fernando Pessoa. Era até um pouco mais baixo, tinha a cara a puxar para o moreno, toda ela rapada. Com um movimento inconsciente, Fernando levou a mão ao lábio superior, depois respirou fundo com infantil alívio, o bigode estava lá. Muita coisa se pode esperar de figuras que apareçam nos espelhos, menos que falem. E porque estes, Fernando e a imagem que não era a sua, não iriam ficar ali eternamente a olhar-se, Fernando Pessoa disse: “Chamo-me Ricardo Reis”. O outro sorriu, assentiu com a cabeça e desapareceu. Durante um momento, o espelho ficou vazio, nu, mas logo a seguir outra imagem surgiu, a de um homem magro, pálido, com aspecto de quem não vai ter muita vida para viver. A Fernando pareceu-lhe que este deveria ter sido o primeiro, porém não fez qualquer comentário, só disse: “Chamo-me Alberto Caeiro”. O outro não sorriu, acenou apenas, frouxamente, concordando, e foi-se embora. Fernando Pessoa deixou-se ficar à espera, sempre tinha ouvido dizer que não há duas sem três. A terceira figura tardou uns segundos, era um homem daqueles que exibem saúde para dar e vender, com o ar inconfundível de engenheiro diplomado em Inglaterra. Fernando disse: “Chamo-me Álvaro de Campos”, mas desta vez não esperou que a imagem desaparecesse do espelho, afastou-se ele, provavelmente tinha-se cansado de ter sido tantos em tão pouco tempo. Nessa noite, madrugada alta, Fernando Pessoa acordou a pensar se o tal Álvaro de Campos teria ficado no espelho. Levantou-se, e o que estava lá era a sua própria cara. Disse então: “Chamo-me Bernardo Soares”, e voltou para a cama. Foi depois destes nomes e alguns mais que Fernando achou que era hora de ser também ele ridículo e escreveu as cartas de amor mais ridículas do mundo. Quando já ia muito adiantado nos trabalhos de tradução e poesia, morreu. Os amigos diziam-lhe que tinha um grande futuro na sua frente, mas ele não deve ter acreditado, tanto assim que decidiu morrer injustamente na flor da idade, aos 47 anos, imagine-se. Um momento antes de acabar pediu que lhe dessem os óculos: “Dá-me os óculos”, foram as suas últimas e formais palavras. Até hoje nunca ninguém se interessou por saber para que os queria ele, assim se vêm ignorando ou desprezando as últimas vontades dos moribundos, mas parece bastante plausível que a sua intenção fosse olhar-se num espelho para saber quem finalmente lá estava. Não lhe deu tempo a parca. Aliás, nem espelho havia no quarto. Este Fernando Pessoa nunca chegou a ter verdadeiramente a certeza de quem era, mas por causa dessa dúvida é que nós vamos conseguindo saber um pouco mais quem somos.

José Saramago, em O caderno

O tempo nos espelhos

O tempo nos espelhos
Imagem que se repete
Infinitamente
Sou eu mil vezes, ecos de luz
Não mil, incontáveis vezes
Como beijar
beijamos, beijamos, beijamos
Como os humanos se beijam
Nos filmes, nos cemitérios, nos becos
Encostados no muro, deitados em redes
Esteiras, beijamos de olho nas estrelas
Ou nos seios (tão lindos) adolescentes
Não falo mais para ti, moralista
A lírica é assim besta lua sobre as ondas
Urbano luar, urbana filmografia
As imagens que já vimos no cinema.

José Carlos Capinan, em Cancioneiro geral

1639 – Potosí



O testamento do mercador

Entre as cortinas, aparece o nariz do escrivão. A alcova tem cheiro de cera e de morte. À luz da única vela, se adivinha a caveira debaixo da pele do moribundo.
– Que esperas, abutre?
Não abre os olhos o mercador, mas sua voz soa invicta.
– Minha sombra e eu discutimos e decidimos – diz. E suspira. E ordena ao tabelião:
– Não haverás de acrescentar ou tirar coisa alguma. Me ouves? Te pagarei duzentos pesos em aves, para que com suas plumas, e as que usas para escrever, voes aos infernos. Me estás ouvindo? Ai! Cada dia que vivo é um dia que alugo. Cada dia mais caro me custa. Escreve, anda! Depressa. Mando que com a quarta parte da prata que deixo se façam na pracinha da ponte umas grandes latrinas, para que nobres e plebeus de Potosí rendam homenagem ali, cada dia, à minha memória. Outra quarta parte de minhas barras e moedas haverão de enterrar-se no curral desta minha casa, e em suas portas se porão quatro cães dos mais bravos, para guardar este enterro.
Não enrola a língua e continua, sem tomar fôlego:
– E que com outra quarta parte de minhas riquezas se cozinhem os mais esplêndidos manjares e postos em minhas travessas de prata se metam em um barranco profundo, com todos os mantimentos de minha despensa, porque quero que se fartem os vermes, como farão comigo. E mando...
Agita o dedo indicador, que projeta uma sombra de bastão sobre o muro branco:
– E mando... que a meu próprio enterro não acuda pessoa alguma, e que acompanhem meu corpo todos os asnos que existam em Potosí, vestidos em riquíssimos vestidos e joias melhores, que serão compradas com o que reste de meus dinheiros.

Dizem os índios:

Que tem dono a terra? Como assim? Como se há de vender? Como se há de comprar? Se ela não nos pertence... Nós somos dela. Seus filhos somos. Assim sempre, sempre. Terra viva. Como cria os vermes, assim nos cria. Tem ossos e sangue. Tem leite, e nos dá de mamar. Tem cabelos, pasto, palha, árvores. Ela sabe parir batatas. Faz nascer casas. Gente, faz nascer. Ela cuida de nós e nós cuidamos dela. Ela bebe chicha, aceita nosso convite. Filhos seus somos. Como há de vender-se? Como há de comprá-la?

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

12/09/2026

Açaí | Vanessa Moreno

 

Intercâmbio, por Laerte

Zoo

O passarinho na gaiola pensa que uma árvore e o céu o prendem.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

Capítulo 98 – Suprimido



Separamo-nos alegremente. Jantei reconciliado com a situação. A carta anônima restituía à nossa aventura o sal do mistério e a pimenta do perigo; e afinal foi bem bom que Virgília não perdesse naquela crise a posse de si mesma. De noite fui ao teatro de São Pedro; representava-se uma grande peça, em que a Estela arrancava lágrimas. Entro; corro os olhos pelos camarotes; vejo em um deles o Damasceno e a família.
Trajava a filha com outra elegância e certo apuro, coisa difícil de explicar, porque o pai ganhava apenas o necessário para endividar-se; e daí, talvez fosse por isso mesmo.
No intervalo fui visitá-los. O Damasceno recebeu-me com muitas palavras, a mulher com muitos sorrisos. Quanto a Nhã-loló, não tirou mais os olhos de mim; e realmente parecia-me agora mais bonita que no dia do jantar. Achei-lhe certa suavidade etérea casada ao polido das formas terrenas:  expressão vaga, e condigna de um capítulo em que tudo há de ser vago. Realmente, não sei como lhes diga que não me senti mal, ao pé da moça, trajando garridamente um vestido fino, um vestido que me dava cócegas de Tartufo. Ao contemplá-lo, cobrindo casta e redondamente o joelho, foi que eu fiz uma descoberta sutil, a saber, que a natureza previu a vestidura humana, condição necessária ao desenvolvimento da nossa espécie. A nudez habitual, dada a multiplicação das obras e dos cuidados do indivíduo, tenderia a embotar os sentidos e a retardar os sexos, ao passo que o vestuário, negaceando a natureza, aguça e atrai as vontades, ativa-as, reprodu-las, e conseguintemente faz andar a civilização. Abençoado uso que nos deu Otelo e os paquetes transatlânticos!
Estou com vontade de suprimir este capítulo. O declive é perigoso. Mas enfim eu escrevo as minhas memórias e não as tuas, leitor pacato. Ao pé da graciosa donzela, parecia-me tomado de uma sensação dupla e indefinível. Ela exprimia inteiramente a dualidade de Pascal, l'ange er la bête, com a diferença que o jansenista não admitia a simultaneidade das duas naturezas, ao passo que elas aí estavam bem juntinhas,
L'ange, que dizia algumas coisas do céu, – e la bête, que...
Não; decididamente suprimo este capítulo.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

A Contadora de Filmes – 6

Lembro que quando minha mãe estava com a gente – antes que acontecesse a desgraça – éramos uma família completa, e lembro que meu pai trabalhava (e não bebia tanto), e que ela o recebia com um beijo quando ele chegava do trabalho, e que nos fins de semana íamos todos juntos, os sete, ao cinema.
Como eu gostava do ritual de se preparar para ir ao cinema!
Meu pai chegava dizendo “Hoje vão passar um com o Audie Murphy!” (naquele tempo, eram os astros e estrelas quem dava categoria aos filmes).
Então a gente punha as nossas melhores roupas. A gente punha até sapato. Minha mãe penteava cada um dos meus irmãos; penteava com limão, e fazia um risco que parecia feito com régua. Menos o Marcelino, o quarto dos meus irmãos, que tinha um cabelo duro feito crina e por mais que o penteassem do jeito que fosse, acabava sempre com a cabeça parecendo um livro aberto. Em mim ela fazia um rabo de cavalo, que prendia com elásticos negros, tão apertado que eu achava que os olhos iam saltar da minha cara.
A gente ia sempre à sessão vespertina.
Eu adorava, porque para mim o entardecer era a hora mais bonita do pampa. Os últimos raios de sol pintavam de ouro o óxido das chapas de zinco e as cores do crepúsculo faziam jogo com os lenços de seda que minha mãe usava.
Ela adorava lenços de seda.
Tal como era costume no deserto, nós íamos pelo meio da rua de terra, de frente para os arrebóis, aquela hora em que a cor do sol se misturava a todas as outras. Meu pai caminhava levando minha mãe pelo braço, e todos os homens que passavam o cumprimentavam.
“Boa tarde, mestre Castillo!”
“Boas, senhor fulano!”
Eu reparava que o cumprimentado era ele, mas a olhada era minha mãe. É que ela era muito linda e jovem, e ao andar movia as cadeiras como as atrizes dos filmes.
Ao chegar à esquina do cinema nós ouvíamos a música emergindo dos velhos alto-falantes e nossos corações se enchiam de júbilo. Fora da sala havia carrinhos com docinhos e essas coisas. Minha mãe comprava pastilhas Namoro para ela e para papai, e um saco de pipocas açucaradas para cada um de nós.
Éramos quase sempre dos primeiros a entrar no cinema.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

Peixe-boi



Informado de que a próxima Feira da Providência terá, entre mil atrações, um vasto peixe-boi, deliberei entrevistar esse triquequídeo, absolutamente inédito na Guanabara e adjacências.
Não foi difícil localizá-lo. Apesar de sua fama de esquivança e cautela, o peixe-boi faz um barulho dos diabos ao alimentar-se fora d’água. Ouvindo inusitado rumor à margem da piscina, onde cresce erva abundante, para lá me dirigi, e logo identifiquei o nosso hóspede, que pastava seus quarenta e cinco quilos de vegetação.
— Senhor peixe-boi, poderia atender à curiosidade dos leitores de minha coluna, respondendo a algumas perguntas?
— Não gosto de conversar na hora das refeições — resmoneou — mas seja tudo pelo amor da Feira da Providência, a que compareço como convidado especial. Fale, e responderei. Mas, antes de mais nada, eu é que vou lhe perguntar uma coisa. Já voltou a carne aos açougues?
— Veio a congelada.
— Ainda bem. Eu receava uma traição.
— Como assim?
— Sabe, esse nome, peixe-boi, pode dar margem a equívocos. Se falta o boi propriamente dito, peixe-boi deve botar as barbas de molho. Não me esqueço da mixira.
— Que que é isso?
— Mixira, meu caro desinformado, é chouriço de minha carne. Dizem que ela é insípida, e acho bom que o seja, para não atrair o apetite de vocês, mas por que faziam mixira de mim? Leia o dr. José Veríssimo, que conta o processo. Carne de peixe-boi, moqueada e cozinhada na gordura do próprio peixe-boi! Se já não se pratica mais isto, é porque a raça está acabando. Sou um dos poucos sobreviventes, e me cuido.
— De fato, parece que o senhor é mais uma originalidade que um exemplar.
— E olhe que até no Espírito Santo, nos tempos do padre Anchieta, nós circulávamos felizes, sem problemas. Depois, começou a matança. Mania de fazer óleo e azeite de cozinha com o meu toucinho. De fazer chicotes com o meu couro. Até mangueira d’água para os trens maria-fumaça tiravam de meu lombo! Não estou mentindo, ouça o que diz d. Flávia da Silveira Lobo, na sua enciclopédia animal. Tanto caçaram minha espécie que ela virou raridade, digna de ser mostrada em feira, com entrada paga.
— Louvo sua generosidade, comparecendo.
— Prezado colunista, ainda há generosidade nos peixes. Nos últimos da minha família, pelo menos. De resto, não sou propriamente peixe. Sou mamífero, como você, tenho alguma coisa de humano, como os próprios homens têm. Confesso que não vim ao Rio só por altruísmo. Vim também para saber das coisas, entende? Mamífero da Amazônia observa o comportamento dos mamíferos da Guanabara, que comem, bebem e dançam para ajudar os pobres. Peixe-boi se divertindo a olhar os que se divertem olhando o peixe-boi. Não sabem que estou achando graça neles. Meu focinho de bezerro inspira-lhes gracinhas. Também me rio dos que têm cara de macaco ou de foca. Nenhum deles tem de altura o que tenho de comprimento, nenhum pesa tanto quanto eu. Portanto, sou superior a vocês por mais de um título, e nem por isso me considero rei da natureza. Pasto minha relvinha — licença, vou papar mais um feixe, com a minha rica série de molares — e não chateio os outros, como vocês gostam de fazer.
Ouviu-se um estrondo: era o peixe-boi mastigando. Cessada a manducação, não resisti:
— Mas o senhor faz tantas restrições ao gênero humano. Por que, afinal, atendeu ao convite?
— Amigo, até peixe-boi gosta de publicidade.
E mergulhou. Só então me espantei de que ele falasse, e falasse tanto. Expliquem os sábios na escritura que segredos são estes de Natura.

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

11/09/2026

Cordas de Aço | Gal Costa

Uma flor num buraco de calçada

Quando soltaram os cachorros loucos
eu estava fazendo chá
de ervas do campo
e de repente o espanto
tremendo a chaleira
e bombeando medo

larguei as ervas e danado
precipitei-me à janela
de onde vi
enormes matilhas
com olhos cheios de negra espuma

a espuma invadia a rua
e abraçava postes, que caíam
cheios de óleo e náusea
engolia as pessoas
que alucinadas
enchiam o ar de berros

depois os cachorros foram embora
eu voltei ao meu chá
e lá fora a solidão
e uma flor quase despercebida.

Henrique do Valle, em Do lado de fora

Hagar, o Horrível

Diário de Bernardo Soares


129.

O moço atava os embrulhos de todos os dias no frio crepuscular do escritório vasto. "Que grande trovão", disse para ninguém, com um tom alto de "bons dias", o crudelíssimo bandido. O meu coração começou a bater de novo. O apocalipse tinha passado. Fez-se uma pausa.
E com que alívio — luz forte e clara, espaço, trovão duro — este troar próximo já afastado nos aliviava do que houvera. Deus cessara. Senti-me respirar com os pulmões inteiros. Reparei que estava pouco ar no escritório. Notei que havia ali outra gente, sem ser o moço. Todos tinham estado calados. Soou uma coisa trémula e crespa: era a grande folha espessa do Razão que o Moreira virara para diante, bruscamente, para verificar.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Bicho-de-pé


Todo menino tinha bicho-de-pé. Eu tive muitos. Ter um bicho-de-pé era uma felicidade...
Como é provável que a maioria dos meus leitores nem tenha tido a felicidade de ter um bicho-de-pé no dedo do pé e nem mesmo tenha ouvido falar desse minúsculo animal, trato de dar as informações devidas. Trata-se de uma espécie de pulga, nome científico Tunga penetrans, que tem especial predileção pelos dedos dos pés. Esse gosto é específico das fêmeas, que, penetrando sob a pele dos humanos, ali se põem a botar uma enorme quantidade de ovos minúsculos que formam uma bolha transparente, como se fosse de plástico, do tamanho de uma pimenta-do-reino. Essa bolha recebe vulgarmente o nome de “batata”.
A descoberta de uma ou mais batatas nos dedos era sempre um motivo de felicidade, por uma razão que explicarei depois. A extração de uma batata requeria uma habilidade protocirúrgica, ou seja, a manipulação de uma agulha de costura. Procedia-se de forma ordenada: com a ponta da agulha ia-se cortando a pele circularmente à volta da batata até que, completada a operação, espetava-se a mesma no seu centro, marcado pelo ponto negro da Tunga penetrans, para então cuidadosamente proceder-se à conclusão da cirurgia, qual seja, puxar a batata para fora. Sendo bem-sucedida a operação, a batata saía redonda e inteira, sendo exibida triunfalmente como um troféu pela cirurgiã. No seu lugar fica uma pequena cratera, cratera esta que tem uma capacidade enorme de produzir prazer, sob a forma de coceira.
Coceira é uma coisa estranha: dor que dá prazer. Todo mundo já teve frieira — prazer parecido com o da batata. A gente coça até sair sangue. É provável que o mistério do masoquismo encontre sua explicação mais profunda no prazer doloroso da coceira. Meu irmão Murilo, por medo da agulha, não deixava que suas batatas fossem extraídas. Mas tratava de obter o prazer a que tinha direito por meio de um interminável esfrega-esfrega das batatas com uma bucha.
O amor à verdade obriga-me a uma informação desagradável: o bicho-de-pé, para existir, precisa de sujeira. É nos chiqueiros que ele engorda. Há prazeres que necessitam de um ambiente suíno para existir.
O bicho-de-pé, juntamente com as pulgas, eram partes normais da vida, conviviam com os humanos. De noite as pulgas começavam a fazer cócegas, andando sobre a pele, à procura de um lugar propício à sua mordida hematófaga. Mas depois vieram os inseticidas, o BHC, o Neocid, e elas se foram. Hoje só sobrevivem em locais distantes. São animais em perigo de extinção, mas ninguém sai em sua defesa. Os bichos-de-pé mereceriam sobreviver pelo seu uso metafórico na educação sexual. A jovem, com medo da noite de núpcias, perguntou à mãe se doía muito. Ao que a mãe respondeu: “É feito bicho-de-pé. Dói um pouquinho mas depois a gente não quer parar de esfregar...”.

Rubem Alves, em O Velho que Acordou Menino

Aí pelas três da tarde

Para José Carlos Abbate

Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em ideias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares à sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo “ciao” ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pelo, mas sem ferir o pudor (o seu pudor, bem entendido), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome depois com sua nudez no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado), e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.

Raduan Nassar, em Obra completa

Coração sem medo


3

“Dona Rita!”
Rita Preta se vira para identificar quem a chamara enquanto retirava o cadeado do portão. Ela reconhece a moça, que exibe a indiferença dos adolescentes. Pela primeira vez olha de frente para Daiane. Talvez já a tenha visto circulando pelo bairro com outras garotas, com Cid. Tinha traços quase infantis, como se tivesse acabado de chegar à adolescência.
“Minha mãe me contou que a senhora esteve lá em casa procurando por mim.”
Rita Preta segura o cadeado, deixa o portão entreaberto. Confirma que tinha ido atrás de informações. Cid não havia passado a noite em casa, por isso ela a procurou, mas a mãe lhe informou que ela estava dormindo.
“Eu não estava dormindo”, revelou sem nenhum constrangimento por desmentir a mãe, “estava acordada, mas minha mãe brigou comigo e me proibiu de falar com qualquer pessoa.” Daiane conta que esteve na casa de Rita querendo notícias de Cid, mas a encontrou fechada.
“Ele esteve com você?”
“Não. Sim.” Daiane responde, tentando encontrar a melhor maneira de expressar o que tinha a dizer. Ele havia combinado de passar em sua casa.
Antes que consiga concluir a frase, Rita pergunta outra vez se ele tinha ido ao encontro da moça.
“Foi”, a garota responde, acrescentando que a mãe dissera que ela não estava. Cid foi embora e a garota continuou sem conseguir falar com ele. Ligou para o celular e as chamadas caíram todas na caixa postal. Continuou sem informar se eles flertavam ou namoravam. Manteve-se evasiva quanto ao relacionamento que tinham. “Minha mãe não quer que eu namore de jeito nenhum.”
No entanto, ela estava na casa de Rita movida pela mesma intenção que levou aquela mãe à sua: queria encontrar Cid.
O coração de Rita Preta se acelera. Uma corrente elétrica percorre seu corpo, da planta dos pés ao couro cabeludo. Ela termina de abrir o portão, convida a garota para entrar. Daiane recusa. A mãe não quer que ela entre na casa de estranhos. Rita, impaciente, percorre os poucos cômodos, abre a porta estreita do quintal, chama pelos filhos, um a um pelo nome. Somente Juca aparece.
“Seu irmão?”, pergunta, se referindo a Cid.
O menino faz sinal de que não, não tem notícias do irmão. Depois ele retorna à televisão para assistir a uma animação japonesa. Rita volta para o portão e responde. Agora são duas à procura de um rapaz, ambas contendo a frustração derivada da longa espera. Rita aproveita para perguntar se Daiane faz ideia de onde ele possa estar.
“Não”, responde, “mas se a senhora souber de algo, pede para ele falar comigo.”
Rita percebe uma verdadeira preocupação no semblante da jovem. Elas não se despedem. Enquanto Rita fecha o portão e fica pensando por onde deveria começar, Cainho atravessa a passagem, vindo para a casa. Pergunta se a mãe tem alguma notícia. Mais um dia, ele nunca ficou fora de casa por tanto tempo. Rita Preta pede a Cainho que tente ligar outra vez para o irmão.
Depois, sai em direção à casa de Fátima.
Fátima retirava as roupas penduradas num varal improvisado no pátio externo. Havia acabado de chegar, nem tinha tido tempo de abrir a casa.
“O menino sumiu”, Rita Preta dispara num tom de inquietação.
Ela deixa a vizinha a par de tudo o que fizera nas últimas horas: fala da briga que tiveram, das horas sem dormir, da descoberta da namorada, da falta de informação, do telefone que está desligado, das chamadas encaminhadas para a caixa postal, da cama intacta. Do silêncio crescente que promete enlouquecê-la.
“Não deve ter ido muito longe”, Fátima pondera. “Quando a fome apertar, ele volta correndo.”
“Eu preciso avisar à polícia sobre o desaparecimento.”
“É necessário?”, Fátima pergunta.
Ele nunca tinha ficado tanto tempo longe de casa.
Rita se aproximou de Fátima quando os filhos ainda eram pequenos, e um pouco antes de se mudarem para o endereço atual. Residiam na mesma comunidade, em ruas próximas, onde havia esgoto a céu aberto e as casas alagavam com frequência na estação das chuvas. Apesar disso, como o local era mais próximo do ponto de ônibus, o aluguel continuava a aumentar, tornando-se incompatível com o salário que recebiam. Fátima encontrou uma casa onde passou a morar, fez a mudança primeiro. Em seguida, indicou para Rita um imóvel perto do lugar em que vivia, com um valor mais acessível. As duas tinham muito em comum: eram trabalhadoras e mães solteiras: Rita, mãe de três filhos; Fátima, de dois, um homem e uma mulher. As duas trabalharam como empregadas domésticas; Rita deixou a função, mas Fátima continua trabalhando para a mesma família. Com o passar dos anos, a amizade se firmou, e Fátima se tornou a pessoa mais próxima de Rita, com quem ela compartilha os altos e baixos vividos em seus relacionamentos. Foi a amiga que a ajudou a elaborar o plano para tirar o pai de Juca de casa. Da mesma maneira, Fátima dividiu com Rita as frustrações e humilhações passadas na casa onde trabalha. Compartilhavam também os problemas relacionados aos filhos, aos preços praticados pelas mercearias do bairro, às chuvas que transtornavam a vida de todos, aos vizinhos, às companhias de abastecimento de água e energia, ao tráfico e à polícia, que aparecia de tempos em tempos para espalhar o terror.
Fátima aconselha Rita Preta a esperar um pouco mais. Cid haveria de aparecer. Era jovem, estava magoado, quantos fugiam de casa depois de uma briga para assustar a família?, pergunta. Rita conta que pensa em telefonar para o pai dele. Reluta, é verdade, mas a gravidade do ocorrido a faria deixar de lado o próprio orgulho. Quem sabe ele não tinha ido procurá-lo para não ficar na rua? Ela sabia que o ex-marido não se interessava pelo filho. Nunca oferecera qualquer ajuda para atender a suas necessidades. Mas era possível que Cid tivesse procurado pelo pai e talvez estivesse com ele? Rita sabe que Evilásio se casou outra vez, que tem uma família.
Evilásio estranha a chamada telefônica da ex-mulher e, ciente da falta de cordialidade entre eles, ela vai direto ao assunto. Antes que terminasse de contar sobre o desaparecimento do filho, ele a interrompe para perguntar se o garoto estava implicado em algo errado, se estava usando drogas.
Rita considera a pergunta ofensiva. Não responde. Repete que o telefonema era para saber se Cid estava na casa do pai. O filho sabia onde ele morava — se é que ainda residia no mesmo lugar.
Evilásio então passa a acusar Rita de ser irresponsável e permissiva, por ter deixado o garoto se envolver com “coisas erradas”. Acusou-a de telefonar só para dizer que algo tinha dado errado; ele a interrompe antes que ela própria finalize o que gostaria de responder.
Rita está tomada pela raiva, mas decide ouvir o que Evilásio tem a dizer. Em seguida, desabafa: repete que ele, o pai, a abandonou antes que a criança completasse um ano. Que nunca se preocupou com o filho. Que durante quinze anos apareceu apenas três vezes: no primeiro ano após a separação, depois aos sete e finalmente quando o menino completou dez anos. Afirma que, se o filho cruzasse com ele na rua, não o reconheceria, assim como Evilásio também não o reconheceria. Grita, se revolta, cospe todos os xingamentos que estão engasgados.
Os filhos a observam, tentam descobrir com quem ela está falando, mas Rita está tão transtornada que nem percebe quando a ligação é interrompida.
Evilásio tinha desligado.
Rita diz que telefonou para saber se o filho estava lá, justifica para os outros.
Ela passa a mão pela cabeça, retira a faixa que segura o cabelo crespo e o mantém volumoso no topo. Dá alguns passos até a cozinha para depois voltar. Ordena aos dois que se vistam. Precisam acompanhá-la até a delegacia para registrar o desaparecimento do mais velho.
O mais novo desacredita que é hora de procurar ajuda. O do meio parece assustado com a palavra delegacia, com a palavra desaparecimento. Não compreendem muito bem a gravidade da situação. Rita também não explica que aquele era o protocolo. Apenas pega a bolsa de novo e repete que não quer voltar muito tarde para casa. Está determinada a encontrar Cid, mas também sabe que é preciso acordar cedo para trabalhar na manhã seguinte.
O relógio de registro de ponto não costuma perdoar os atrasos.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo