quarta-feira, 18 de março de 2026
Procura da poesia
Não faças versos sobre
acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a
poesia.
Diante dela, a vida é um sol
estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os
incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável
corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo
ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e
tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não
é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em
paz.
O canto não é o movimento das
máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem;
rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e
esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das
coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em
mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de
diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos
esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo
imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das
palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser
escritos.
Estão paralisados, mas não há
desespero,
há calma e frescura na superfície
intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de
dicionário.
Convive com teus poemas, antes de
escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se
te provocam.
Espera que cada um se realize e
consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do
limbo.
Não colhas no chão o poema que se
perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma
definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as
palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face
neutra
e te pergunta, sem interesse pela
resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito,
elas se refugiaram na noite, as
palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se
transformam em desprezo.
Carlos Drummond de Andrade, em Antologia poética
Segundo capítulo – As Letras do Sonho
Por cima da página, Muidinga espreita
o velho. Ele está de olhos fechados, parece dormido. “Fim ao cabo,
tenho estado a ler apenas para minhas orelhas”, pensa Muidinga.
“Também há já três noites que vou lendo, é natural o cansaço
do velho”, condescende Muidinga. Os cadernos de Kindzu se tinham
tornado o único acontecer naquele abrigo. Procurar lenha, cozinhar
as reservas da mala, carretar água: em tudo o rapaz se apressava. O
tempo ele o queria apenas para mergulhar nas misteriosas folhas. O
miúdo, em si, se intriga: quem seria o autor dos escritos? O homem
de camisa sanguentada, estendido ao lado da mala, seria o tal Kindzu?
A voz de Tuahir o surpreende:
— Aposto você está pensar nessa
porcaria dos cadernos.
— Como sabe?
— Você, agora, nem faz outra
coisa. Já me chateia.
O jovem passa a mão pelo caderno,
como se palpasse as letras. Ainda agora ele se admira: afinal, sabia
ler? Que outras habilidades poderia fazer e que ainda desconhecia?
— Tuahir, não se zanga se lhe
chamar de tio...
— Que queres, diga lá?
— Me conte sobre a minha vida.
Quem eu era, antes do senhor me apanhar?
— Tio, tio, tio! Essa palavra só
me desgosta...
— Conte, lhe peço.
— Você nem tem estória nenhuma.
Lhe apanhei no campo, ganhei pena de lhe ver aranhiçar, com pernas
que já nem conheciam andamento...
— Mas o senhor me conhecia, sabia
quem eu era?
— Nada. Você nunca me foi visto.
Agora, acabou-se a conversa. Apague a fogueira.
O miúdo desiste de mais pergunta. Por
que razão o velho teima em não lhe revelar nenhum passado? Seria
verdadeira aquela ignorância dele? Há tempos que os dois estão
juntos. O velho lhe dedica paciências, em paternais maternidades.
Sem nunca lhe escapar uma ternura. A conversa também é pouca, sem
desperdício de palavra. Tuahir volta a insistir para que extinga o
fogo. Dentro do carro é um perigo, argumenta. Mas o miúdo resiste,
tem medo do escuro. A fogueirinha ajuda a vencer o medo. Ler os
escritos do morto é um pretexto para ele não enfrentar a escuridão.
A decisão de Tuahir se impõe, reinam as trevas. O respirar dos
adormecidos é um ruído que inquieta. Como se neles soasse uma outra
alma.
Passado tempo, Muidinga acorda em
sobressalto. Uma massa viscosa lhe raspa o rosto, fosse o ventre de
uma cobra escorrediça. A medo espreita pela fresta das pálpebras:
um monstro lhe lambe a cara. Visto assim, de baixo para o topo, o
focinho ganha medonhas dimensões. Aquilo parecia o planeta, todo de
chifre. O sol ainda não todo emergira no horizonte. Na obscuridade,
Tuahir grita:
— Não mexa, miúdo.
Imóvel, o garoto espera. A imagem
esbatida se revela então a seus olhos: é um cabrito pastando em seu
rosto. O caprino roda a cabeça estudando se o vulto que lambeu é ou
não comestível. Tuahir sai do banco e avança, gatinhoso, pé posto
em cautela. Se aproxima por trás e dispara um puxado pontapé no
animal. Um méééé se amplia pela noite.
— Hidjii! Afinal, é um cabrito!
— Pensava era o quê?
— Pensava era uma hiena. A hiena
é que gosta de comer nariz de gente.
O cabrito não vai longe. Sai do
autocarro, sacode a cauda. Tuahir enxota o bicho. Em vão.
— Vou lá correr com ele, tio.
— Vai. Mas não aproveite o caso
para me voltar a chamar tio.
Muidinga se ergue. Sai da carcaça do
autocarro, pega numa pedra e lança-a sobre o cabrito. O bicho
troteia em coices, de casco e caganitas. Mas não se alonja.
— Deixa lá. Ele sente falta das
pessoas. Eu também começo sentir falta de cabrito. Principalmente
aqui no estômago.
— Vamos comer o bicho?
Surge ali um novo motivo de briga.
Muidinga opõe-se a que o bicho seja morto. O cabrito lhe dá um
sentimento de estar em aldeia, longe daquele lugar perdido. No facto,
se passava o inacreditável: um bicho lhe trazia de volta o
sentimento da família humana. O velho insiste em assar o cabrito: o
rapaz deixasse o tempo passar e pensaria mais com a barriga. A fome
quando ferra nos faz feras. Muidinga retira uma corda da maleta. Vou
amarrar o bicho aqui pertinho, anuncia.
— Pertinho não. Deixe ele solto
longe, sem corda.
O miúdo entorta o nariz, decidido a
desobedecer. Não queria que o animal escapasse. Procura nas
redondezas um ramo à altura de receber um nó. Então se admira:
aquela árvore, um djambalaueiro, estava ali no dia anterior? Não,
não estava. Como podia ter-lhe escapado a presença de tão distinta
árvore? E onde estava a palmeira pequena que, na véspera, dava
graça aos arredores do machimbombo? Desaparecera! A única árvore
que permanecia em seu lugar era o embondeiro, suportando a testa do
machimbombo. Seria coisa de crer aquelas mudanças na paisagem?
Muidinga hesita em consultar Tuahir. Ele haveria de desdenhar com
aquele riso de peixe, a boca à espera de entender a graça. Decerto,
lhe acusaria de tontice. Ou ainda pior: lhe lembraria a doença em
que se havia exilado não da vida mas da humana meninice. Assim,
Muidinga optou por deixar o assunto.
Se despede do cabrito e torneia a
árvore de fruta que tanto o intriga. Recolhe um djambalau, examina o
negro fruto. O dia já se ergueu, as sombras vão minguando na
quentura do chão. O sol, voluminoso, sucessivamente sempre sendo um.
Muidinga imagina como será uma aldeia, essas de antigamente,
cheiinhas de tonalidades. As colorações que devia haver na vila de
Kindzu antes da guerra desbotar as esperanças?! Quando é que cores
voltariam a florir, a terra arco-iriscando?
Então ele com um pequeno pau rabisca
na poeira do chão: “azul”. Fica a olhar o desenho, com a cabeça
inclinada sobre o ombro. Afinal, ele também sabia escrever?
Averiguou as mãos quase com medo. Que pessoa estava em si e lhe ia
chegando com o tempo? Esse outro gostaria dele? Chamar--se-ia
Muidinga? Ou teria outro nome, desses assimilados, de usar em
documento?
Mais uma vez contempla a palavra
escrita na estrada. Ao lado, volta a escrevinhar. Lhe vem uma outra
palavra, sem cuidar na escolha: “luz”. Dá um passo atrás e
examina a obra. Então, pensa: “a cor azul tem o nome certo. Porque
tem as iguais letras da palavra ‘luz’, fosse o seu feminino às
avessas”.
De súbito, lhe chegam sons distantes
no tempo, semelhando gritos de meninagem em recreio. O menino
estremece: aquela era uma primeira lembrança. Até ali ele não se
recordava de ocorrência anterior à enfermidade. Corre em balbúrdias
para o autocarro.
— Tio, tio! Eu me lembrei de
minha escola!
Tuahir sorri, carantonhoso. Faz conta
que nem ouve, entretido com nenhuma coisa. O rapaz repete, sacudindo
o falso-dito tio.
— Me lembrei, juro!
— Te lembraste o quê?
— Das vozes, da barulheira dos
outros meninos.
— Escuta uma coisa de vez por
todas: nunca houve nenhuns outros meninos, nunca houve nada. Ouviste?
Fui eu que te apanhei, baboso e ranhado, faz conta tinhas sido dado
parto assim mesmo. Nasceste comigo. Eu não sou teu tio: sou teu pai.
Empurrado com brusquidão, o miúdo
tomba sobre os ferros do machimbombo. Afinal, era essa a razão de
ele negar ser chamado de tio? Era esse o motivo por que o velho lhe
ocultava todo seu passado? Então, o miúdo sorri com doçura e se
ergue sobre os joelhos. O corpo lhe tropeça numa fraqueza e volta a
permanecer de gatas. O velho se apressa a debruçar sobre ele, em
aflição:
— Lhe aleijei, miúdo?
Assim como está, Muidinga se limita a
negar com a cabeça. Tuahir insiste:
— Então, se está sentir mal?
Lhe voltou a doença?
O rapaz se volta a erguer e enfrenta o
velho. Seu rosto está sereno, parece acrescentado de uma repentina
idade:
— Se esse é o seu medo vou dizer
o seguinte: lhe gosto mesma coisa fosse o autêntico meu pai.
Tuahir reage, apanhado em armadilha. E
se torna grave: Levante-se, miúdo! Por que que é que anda a
gatinhar pelo chão feito um cabrito? Ambos se separam e se
arrumam em quietude. Ficam assim, amuados até serem surpreendidos
por barulhos que chegam do mato. O miúdo se levanta, precipitado.
Acredita serem pessoas que se aproximam. Ensaia correr, sua intenção
é entregar-se de braços, seja quem for que se aproxime. Mas Tuahir
lhe corta o gesto com secura:
— Não mexa, miúdo!
— Porquê? É gente que está
vir. Vêm para nos tirar daqui...
Não termina a frase. A mão do velho
se calca sobre os seus lábios, impondo o grave silêncio. Então,
por entre os altos capins, assoma um elefante. O bicho se arrasta,
cansado do seu peso. Mas há no demorar das pernas um sinal de morte
caminhando. E, na realidade, se vislumbra que, em plenas traseiras,
está coberto de sangue. O animal se afasta, penoso. Muidinga sente o
golpe da agonia em seu próprio peito. Aquele elefante se perdendo
pelos matos é a imagem da terra sangrando, séculos inteiros
moribundando na savana.
— Dispararam sobre o bicho.
— Quem foi, tio?
— São esses da guerra. Querem os
dentes para vender lá fora.
Se voltam a sentar em silêncio. Há
uma tristeza que nem o cantarolar do velho consegue dispersar.
— Tio Tuahir: estou a pensar uma
coisa. Mas o senhor vai zangar, eu sei.
— Você anda pensar de mais. Não
lhe devia ter curado tanto. Um bocadinho de doença até lhe ia fazer
bem. Chateava menos...
— Mas, tio, é só imaginar. É
um sonho que tenho...
— Não pensa, rapaz. A vida é
tão curta, você quer encher ela de tristezas?
— Não, tio. Estou a pensar...
Não, é melhor não dizer.
— É melhor, mesmo. Fica calado.
Muidinga insiste depois de um
silêncio. O velho já tinha regressado ao cantochão.
— Vou dizer. Estou a pensar eu
sou Junhito.
— Quem é Junhito?
— Junhito, esse menino do escrito
que eu li, aquele da capoeira.
— É pena não ser mesmo. Porque
se fosse galinha, já eu lhe depenava para um bom caril.
— Estou a falar sério, tio
Tuahir.
— E se vai calar muito sério,
também.
O miúdo realmente se mantém calado
até ao fim do dia. Já escurece quando reentram para o machimbombo e
se preparam para deitar. Mais uma vez lhes chega o barulho do
elefante. Parecia um rastolhar, lá longe. Quem sabe o bicho se
findou, tombado no vasto chão? O escuro se aproveita para entrar
dentro do refúgio dos dois esperantes.
— Tio, posso acender a fogueira?
— Acenda lá fora.
— Mas eu queria ler, tio.
— Leia lá fora.
Muidinga arruma uns paus secos e
transporta consigo os escritos de Kindzu. Acende o fogo na berma da
estrada. Depois, se instala para ler em comodidade o segundo caderno.
A voz de Tuahir o sobressalta:
— Não vai ler isso sozinho, pois
não?
Mia Couto, em Terra Sonâmbula
1616 – Santiago Papasquiaro
O deus dos amos, é o deus dos servos?
Falou da vida livre um velho profeta
índio. Vestido à antiga, andou por estes desertos e serras
levantando pó e cantando, ao triste som de um tronco oco, as
façanhas dos antepassados e a perdida liberdade. Predicou o velho a
guerra contra quem arrebatou dos índios as terras e os deuses e os
arrebenta nas entranhas das minas de Zacatecas. Ressuscitarão os que
morram na guerra necessária, anunciou, e renascerão jovens e
velozes os velhos que morram lutando.
Os tepehuanos roubaram mosquetões e
armaram e esconderam muitos arcos e flechas, porque eles são
arqueiros destros como Estrela da Manhã, o flechador divino.
Roubaram e mataram cavalos, para comer sua agilidade, e mulas para
comer sua força.
A rebelião começou em Santiago
Papasquiaro, ao norte de Durango. Os tepehuanes, os índios mais
cristãos da região, os primeiros convertidos, pisaram as hóstias;
e quando o padre Bernardo Cisneros pediu clemência, responderam
Dominas Vobiscum. Ao sul, em Mezquital, romperam a machadadas
a cara da Virgem e beberam vinho nos cálices. No povoado de Zape,
índios vestidos de batina de jesuíta perseguiram pelos bosques os
espanhóis fugitivos. Em Santa Catarina, descarregaram seus porretes
sobre o padre Heraldo del Tovar enquanto diziam: Vamos ver se Deus
te salva. O padre Juan del Valle ficou estendido na terra, nu, no
ar a mão que fazia o sinal da cruz e a outra mão cobrindo seu sexo
jamais usado.
Mas pouco durou a insurreição. Nas
planícies de Cacária, as tropas coloniais fulminaram os índios.
Cai uma chuva vermelha sobre os mortos. A chuva atravessa o ar
espesso de pó e criva os mortos com balas de barro vermelho.
Em Zacatecas repicam os sinos,
chamando aos banquetes de celebração. Os senhores das minas
suspiram aliviados. Não faltará mão de obra nos túneis. Nada
interromperá a prosperidade do reino. Poderão eles continuar
mijando tranquilos em baciazinhas de prata lavrada e ninguém
impedirá que acudam à missa suas senhoras acompanhadas de cem
criados e vinte donzelas.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
O Amigo de um Amigo
Pode ser que a erudição de
primeiríssima ordem seja tão rara quanto a grande arte ou a grande
poesia. Alguns dos talentos e qualidades que ela exige são óbvios:
uma extrema concentração, uma vasta memória, mas de grande
precisão, espírito fino e penetrante, uma espécie de ceticismo
piedoso ao manusear fontes e indicações, clareza na apresentação.
Outros requisitos são mais raros e difíceis de definir. O realmente
grande erudito tem um faro especial para encontrar o documento
escondido, mas fundamental, para concatenar circunstâncias
aparentemente díspares. Num relance ele vê a carta roubada enquanto
os outros fitam o papel da parede. Como um rabdomante, ele sente o
que há de importante sob a superfície batida. Detecta a falha no
cristal, a nota falsa no arquivo, a pressão encoberta daquilo que
foi falsificado ou amordaçado. Ele adere obstinadamente ao que Blake
chamava de “a sacralidade do pequeno detalhe”, mas então extrai
a aplicação, a inferência generalizadora, que pode alterar todo o
panorama de nossas percepções históricas, literárias e sociais.
No entanto, mesmo esses talentos e sua
rara combinação não determinam o que é fundamental para a grande
erudição. Tal como o magistral tradutor, ou autor, ou intérprete
musical, o erudito realmente grandioso se torna uma unidade com seu
material, por mais abstruso, por mais recôndito que seja. Ele
amalgama a força de sua personalidade e perícia técnica à época
histórica, ao texto literário ou filosófico, à trama sociológica
que está analisando e nos apresentando. Por sua vez, essa trama,
esse conjunto de fontes primárias vai adquirir algo do estilo e da
voz de seu intérprete. Irá se tornar dele sem deixar de ser o que
é. Agora existe uma China antiga que é a de Joseph Needham, uma
civilização helenista que fala com as inflexões do finado Arnaldo
Momigliano, um mapeamento das gramáticas que por muito tempo trará
as marcas de Roman Jakobson. E no entanto, em cada um desses casos, a
alquimia reinstaura a força do material.
A erudição de Gershom Scholem
pertencia a esse gênero raro e vivificante. Não só seus estudos da
Cabala modificaram, ainda que de maneira controversa, a imagem do
judaísmo — a compreensão que mesmo um judeu agnóstico agora tem
de sua proveniência psicológica e histórica —, como também suas
explorações, traduções e apresentações dos escritos
cabalísticos exercem uma enorme influência na teoria literária em
geral, no modo como críticos e estudiosos não judeus e totalmente
agnósticos leem poesia. Os ensaios de Scholem, muitos deles
compostos numa prosa alemã límpida e clássica (escrever mal é
sinal de pouca erudição), abrangem interesses que ultrapassam em
muito a Cabala. Não existe nenhum comentador mais arguto, mais
sombriamente percuciente, do drama do judaísmo alemão, das
ambiguidades na condição da Israel moderna, do papel dos estudos e
traduções da Bíblia numa época cada vez mais secularizada. Os
gostos não raro subversivos e estranhamente irônicos de Scholem são
variados: da mesma forma que William James (e existem outras
analogias), ele tomou como campo seu o jogo entre o intelecto e as
pluralidades do sentimento humano. Toda manifestação de consciência
religiosa, de imaginação mítica, de ilusão criativa o fascinava.
Mas fascinavam-no também a matemática, a anatomia do discurso
jurídico e a antropologia. Grande parte da caudalosa produção de
Scholem é esotérica não só no tema — os arcanos do misticismo
medieval e hassídico, da cosmologia gnóstica, da magia e do
hermetismo renascentista, mas também nos meios de apresentação.
Várias obras-primas de erudição, de solução de problemas,
continuam inevitavelmente encerradas em revistas especializadas e em
hebraico. Mas as obras principais de Scholem, como As origens da
Cabala e o fascinante estudo de Sabatai Tzvi, o pseudomessias
místico (ambos publicados pela editora de Princeton), se destinam ao
público cultivado, como também aquelas preciosidades em (relativa)
miniatura: as recordações pessoais de Scholem, a monografia sobre
as visões místicas da criação, sua memória de Walter Benjamin. E
em alguns casos as traduções para o inglês trazem atualizações e
textos de apoio inexistentes nas primeiras edições hebraicas ou
alemãs. Um grande servidor da intuição tem sido muito bem servido.
Scholem e Benjamin se conheceram em
1915, quando Benjamin tinha 23 anos e Scholem, dezessete. A amizade
dos dois se tornou matéria de lenda e de pesquisa acadêmica. Ela
mostra pontos de profunda afinidade. Benjamin e Scholem eram judeus
alemães estranhamente alertas ao ambiente marginal, mas também
criativo, das condições sociais e pessoais em que viviam. Eram
homens do intelecto — do saber, da citação e do comentário num
veio quase rabínico. Ambos eram apaixonados por livros antigos,
bibliófilos e colecionadores sistemáticos em suas áreas. Eram
exímios praticantes da prosa alemã em registros muito distintos,
mas comungavam a mesma pureza de expressão, cujo próprio domínio
indicava algo não totalmente inato, não herdado de forma
inconsciente. Havia em ambos uma propensão anárquica, uma
desconfiança radical em relação às estruturas e convenções
estabelecidas. (Os dois conseguiram escapar para a Suíça durante a
Primeira Guerra Mundial, e Scholem simulou vários sintomas
neuróticos quando foi convocado pela agência de recrutamento.) Mais
importante, ambos decidiram abordar problemas filosóficos,
históricos e psicológicos centrais de um ângulo exótico. Scholem
revolucionou o estudo do judaísmo com seus exames
filológico-editoriais de esoterismos extremos — de heresias às
vezes desvairadas, de devaneios especulativos patológicos. Análises
de livros e brinquedos infantis, de fotos oitocentistas, dos livros
de emblemas e da dramaturgia “perdida” do barroco alemão, dos
empórios e lojas de departamentos que pipocaram em Paris no Segundo
Império levaram Benjamin a sugestões, a “iluminações” (termo
que tomou a Rimbaud), que hoje estão no centro do estruturalismo, da
sociologia cultural e da semiótica.
Mas as diferenças entre os dois
homens eram marcadas. Paradoxalmente, a imersão de Scholem no
misticismo religioso se originou de uma visão de mundo profundamente
cética e irônica. Tive o privilégio de conhecer Scholem em seus
últimos anos, de vê-lo em Jerusalém, Zurique e Nova York. Não
posso me atrever sequer a arriscar um palpite de se esse inspirado
expositor da meditação cabalista sobre as autodivisões da Unidade
Divina, sobre as emanações de luz da fronte divina, sobre a “quebra
dos vasos” no momento da criação, acreditava ou não em Deus. Os
trejeitos cômicos do sorriso de Scholem, as insinuações de um
divertimento voltairiano de fundo eram incontáveis. Benjamin, por
outro lado, era aquela rara criatura: um místico moderno, um
iniciado nos reinos ocultos do vaticínio, do simbolismo hermético,
da magia branca. Benjamin, que deu ao contexto sociológico-econômico
de nossa consciência um novo grau de precisão, que respondeu
prontamente à revolução na fotografia, no cinema e na rádio como
meios de comunicação de massa, que adotou um marxismo mais ou menos
pessoal e herético como componente vital de sua perspectiva, era o
verdadeiro cabalista. (Também teve experiências com drogas — uma
incursão no irracional da qual Scholem recuou.)
O interesse pelo sionismo era um
vínculo forte entre ambos, embora as maneiras de colocá-lo em
prática iriam se mostrar irreconciliáveis desde o começo. Com uma
rigorosa clarividência, Scholem sentia o potencial de catástrofe no
amálgama alemão-judaico. Para ele, tornou-se de uma clareza
fulgurante que um compromisso sério com a identidade judaica deveria
acarretar o domínio do hebraico e a vida em Israel. Há na
reconquista de Scholem do passado cabalístico para o conhecimento
judaico e para a história geral do pensamento religioso um veemente
“sionismo”, um retorno a uma Terra Santa. Benjamin manteve um
flerte ardoroso com a ideia de emigrar para a terra que então era a
Palestina. Ansioso, várias vezes informou Scholem sobre suas
intenções de estudar hebraico. Em 1929, e novamente nos meados dos
anos 1930, sob a égide de um impaciente Scholem, Benjamin declarou
que estava prestes a deixar uma Europa condenada. Nada resultou
desses impulsos prementes e inquietos. Scholem foi para Jerusalém em
1923. Morreu em 1982, cercado de honras, cumprida sua grande obra.
Benjamin, reduzido ao absoluto desespero, perseguido, seus escritos
dispersos ou fragmentados, se suicidou num buraco sórdido na
fronteira franco-espanhola em 1940. (Corria o boato de que os
refugiados isolados que tinham cruzado a fronteira seriam entregues à
polícia francesa e ficariam à mercê dos nazistas.)
Mas não poderia ser de outra maneira.
Walter Benjamin foi um dos últimos e mais inspirados
centro-europeus, sendo que essa centralidade indica uma noção
geográfica — os espaços definidos por Frankfurt-Viena-Praga-Paris
para o judaísmo emancipado — e o conceito do gênio histórico
europeu tal como se expressava em francês e em alemão. Como Adorno,
como Ernst Bloch e outros fundadores e testemunhas da chamada Escola
de Frankfurt de teoria crítica e filosofia da cultura, Benjamin
nunca poderia separar sua identidade poliglota, seu papel na
intelectualidade, seu próprio físico — o do sábio de botequim
por excelência — da fatalidade europeia. E adiou demais a chance
de fugir para os eua — chance que seus pares e amigos (Adorno,
Bloch, Horkheimer, Brecht) agarraram com maior ou menor senso de
oportunidade.
Um fio central em Correspondência
— Walter Benjamin e Gershom Scholem, traduzida por Gary Smith e
André Lefevere (Schocken, 1989), é a diferença fascinante entre o
Messias de Scholem e o Messias de Benjamin. Para Scholem, o
messiânico — cujas formas variadas e imensamente ricas ele havia
diagnosticado em monografias, em seu magistral As grandes
correntes da mística judaica e, acima de tudo, em seu épico de
Sabatai Tzvi — era inseparável de um retorno físico,
historicamente fundado, a Israel. Foi com o prazer de uma travessura
que Scholem insinuou no repertório cabalístico uma parábola que
ele mesmo tinha inventado: uma vinda do Messias que alteraria apenas
muito ligeiramente as coisas e portanto passaria despercebida
— exceto em Israel, cuja criação como Estado seria em si a melhor
prova disponível do advento messiânico. Já a visão de Benjamin,
que se concentrava na imagem do Angelus Novus, de Paul Klee —
o anjo da história, que uma ventania afasta de nós —, era
totalmente diversa. O messiânico não significava o sionismo.
Implicava a recuperação das vozes dos humilhados e vencidos,
soterradas pela história e pelos historiadores. Restauraria a língua
adâmica perdida que subjaz secretamente a todas as línguas humanas,
e cuja presença generativa fazia ao mesmo tempo possível e
impossível o ato da tradução. Para Benjamin, a vinda do Messias se
revelaria como uma imagem de transparência rumo à verdade, à
justiça social, à racionalidade amorosa se estendendo além do
judaísmo e do renascimento de Israel (por milagroso que o
considerasse).
A tradução dessa correspondência
tem a virtude da clareza. (São 128 cartas ao todo; algumas
anteriores a 1932 parecem ter se perdido, e há um toque de
prestidigitador na descoberta de Scholem em outubro de 1966, na
Alemanha Oriental, de seu lado da correspondência.) Ela não
transmite (nem poderia transmitir) de maneira convincente as
diferenças de tom dos dois escritores — diferenças que revelam
dissonâncias de índole permanentes. Mesmo sob o tom mais afetuoso —
às vezes arreliador — de Scholem há uma ponta de autoridade, de
exasperação diante da ilusão e do que lhe parece falta de lógica.
O tom de Benjamin é de faiscante sutileza, de esforço aparentemente
evasivo, mas finamente interiorizado, de dar expressão a coisas
intangíveis, a ambiguidades inevitáveis, a um vibrato de
percepções e intenções que ele mesmo denominou de “aura”.
No começo da primavera de 1934, por
exemplo, a preocupação clarividente de Scholem com a situação
europeia e a incapacidade de Benjamin de prover ao indispensável da
vida quase resultaram no rompimento da amizade. Escreve Benjamin em 3
de março:
Minha existência está chegando ao
limite do precário e a cada dia depende diretamente do bom Deus —
para dizer a mesma coisa de forma mais prudente. E com isso não me
refiro apenas à ajuda que consigo de tempos em tempos, mas também à
minha própria iniciativa, mais ou menos voltada para um milagre.
A espera de um milagre tinha um teor
ao mesmo tempo terapêutico — mantinha-o vivo — e incapacitante,
na medida em que reduzia ainda mais a utilidade, o estatuto moral e
metafísico, da simples ação racional. Para Scholem, a questão de
uma possível ajuda divina era pragmática. Ele lutou para conseguir
uma colocação profissional para Benjamin em Israel; batalhou para
conseguir a publicação ou a divulgação das obras de Benjamin. Mas
sua irritação é inequívoca. “Como vai se desenvolver realmente
sua situação está ficando cada vez mais incerto para mim”,
escreveu Scholem, e “Muitos fatos de nossa correspondência devem
lhe ter fugido da memória, pois você não lembra mais o que o levou
a tentar explicar sua situação. […] Estamos discutindo em
posições falsas, e isso não me agrada”.
Além disso, não eram somente as
vacilações de Benjamin em relação ao refúgio na Palestina que
exasperavam Scholem, mas, a partir de 1924, o envolvimento
extremamente complicado de Benjamin com o marxismo. Scholem sabia de
seu envolvimento pessoal e erótico com uma comunista. Sabia da
viagem do amigo a Moscou em 1926. O irmão mais velho de Scholem
tinha desempenhado um papel trágico e muito importante no Partido
Comunista alemão. Scholem se ressentia muito da influência cada vez
maior da obra e da pessoa de Brecht sobre Benjamin (o qual passou
semanas cruciais com Brecht no exílio dinamarquês). A política de
Scholem, se é que havia, era a do desencantamento, da ironia ou até
sarcasmo irredutível diante do espetáculo inveterado da loucura e
barbárie humanas.
Mas Scholem interpretou mal o recurso
herético e profundamente inventivo de Benjamin às teorias marxistas
da história e aos instrumentos retóricos do materialismo dialético.
Algumas amizades dentro do comunismo ajudaram Benjamin a aclarar as
sombras de sua solidão quase anormal. Em vários pontos da
enormidade política dos anos 1930, o comunismo e até o stalinismo
pareciam oferecer a única resistência efetiva à escalada
triunfante do fascismo e do nazismo. Scholem não teve acesso ao
diário de Moscou de Benjamin, publicado postumamente. Ali teria
encontrado indicações claras do ceticismo de Benjamin, de sua
aversão ao clima dominante na sociedade soviética. Mas tal aversão
não negava a força inspiradora das análises marxianas do
capitalismo oitocentista nem o estímulo a uma interpretação
materialista econômica da criação e disseminação de obras
artísticas e intelectuais que encontramos na estética marxista. Os
estudos pioneiros de Benjamin sobre a reprodutibilidade das obras de
arte para as massas, por meio da fotografia e do fac-símile em
cores, sua compreensão penetrante do jogo entre a alta cultura e o
mercado, suas análises preliminares para uma magnum opus que
havia planejado — uma anatomia de “Paris, a Capital do Século
XIX” — se fundavam numa luta pessoal com os princípios
marxistas. Daí as afinidades com o marxismo personalizado,
estrategicamente astuto, das peças e panfletos críticos de Brecht.
E sobretudo Scholem estacava diante do
que intuía a contragosto ser, em Benjamin, uma interpretação do
marxismo como variante natural da escatologia messiânica judaica —
da concentração judaica na esperança milenarista. Rigorosamente
informado, Scholem via a opressão política, a miséria humana a que
o marxismo-leninismo e seus companheiros de percurso estavam levando.
Não quis perceber as dimensões trágicas dessa degeneração dos
ideais messiânicos, do apelo utópico, porém incessante, à justiça
social, como já era eloquente nos Profetas. A anunciação em parte
mística de Benjamin quanto a uma “recuperação da história” —
da imposição de critérios morais à história — tinha nascido
justamente de um sonho de Moscou-Jerusalém. Sem esse fatídico
híbrido, ele não teria produzido muitos de seus melhores escritos —
em especial sua última produção, obra-prima de elegância e
concisão, “Teses sobre a filosofia da história”. Muito depois,
refletindo sobre o gênio de Benjamin e a sucessão de milagres que
permitiram a sobrevivência dos textos “perdidos”, Scholem iria
reconhecer (ouvi ao vivo) que a sinuosa dança de seu amigo com o
marxismo e ao redor dele tinha sido de algum proveito. Na época,
parecia-lhe uma traição e um desperdício vulgar de dotes raros.
O que manteve o andamento do diálogo,
entre seus altos e baixos, o que lhe dá estatura duradoura são as
sucessivas discussões de Kafka. Talvez de maneira subconsciente,
toda vez que suas relações estavam tensas, Benjamin e Scholem
voltavam a Kafka. O resultado é uma série de leituras — de
delineamentos críticos — de originalidade muito penetrante. Em
comparação, os truques interesseiros do atual desconstrucionismo ou
do pós-estruturalismo chegam a criar constrangimento.
Incansavelmente, Scholem e Benjamin põem a operar na esquiva
inesgotabilidade de Kafka um poder de imaginação quase equivalente
ao de seu objeto. A vontade é de citar uma página após a outra.
Limito-me a dois exemplos. Aqui está Scholem escrevendo para
Benjamin em 20 de setembro de 1934 (sobre O castelo):
E no entanto as mulheres de Kafka
trazem os sinais de outras coisas a que você não presta quase
atenção. É evidente que o castelo ou a burocracia com a qual elas
mantêm uma relação horrivelmente indefinível, mas exata, não é
o mundo primal de que você fala, se é que ele existe. Se fosse o
mundo primal, que necessidade então haveria de transformar a relação
das mulheres com ele num enigma? Tudo ficaria claro, enquanto na
realidade nada é claro e a relação delas com a burocracia é muito
instigante, ainda mais porque a própria burocracia chega a advertir
contra elas (por exemplo, pela boca do capelão). Em vez disso, o
castelo ou burocracia é algo com que o “mundo primal” deve
primeiramente manter alguma relação.
Você pergunta o que eu entendo
pelo “nada da revelação”. Entendo por ele um estado em que a
revelação aparece sem significado, em que ela ainda afirma a si
mesma, em que tem validade,
mas nenhuma significação.
Um estado em que a riqueza de significado se perdeu e o que está em
processo de aparição (pois a revelação é esse processo) mesmo
assim não desaparece, embora esteja reduzido ao ponto zero de seu
conteúdo.
A distinção entre validade e
significação é da máxima pertinência a todas as obras de
Kafka.
Ou tome-se a grande carta — um
ensaio de extrema densidade — de Benjamin, datada de 12 de junho de
1938. Mesmo uma longa citação não faz jus à sua profundidade:
Kafka entreouviu a tradição, e
quem ouve dificilmente deixa de ver.
A principal razão pela qual esse
entreouvir exige tanto esforço é que apenas os sons mais
indistintos chegam ao ouvinte. Não há nenhuma doutrina que se possa
aprender, nenhum conhecimento que se possa preservar. As coisas que o
ouvinte quer captar enquanto passa não se destinam aos ouvidos de
ninguém. Isso supõe um estado de coisas que caracteriza
negativamente as obras de Kafka com uma grande precisão. […] A
obra de Kafka representa o adoecimento da tradição […].
Disso Kafka tinha absoluta certeza:
primeiro, que, se for para ajudar, o sujeito deve ser um idiota;
segundo, apenas a ajuda de um idiota é uma verdadeira ajuda. A única
coisa incerta é: tal ajuda ainda pode ter alguma serventia para um
ser humano? […] Assim, como coloca Kafka, há uma quantidade
infinita de esperança, mas não para nós. Essa declaração
realmente contém a esperança de Kafka; é a fonte de sua serenidade
radiante.
Note-se — e isso é típico das
alegorias de Benjamin sobre a leitura — como a própria análise se
torna uma parábola ao estilo de Kafka.
Uma imensa tristeza sombreia mesmo a
carta mais informal e momentaneamente otimista. Elas foram enviadas
quando a Europa ingressou no pesadelo. Além disso, na Palestina,
Scholem não só viveu diretamente a violência dos primeiros choques
entre árabes e judeus, mas teve também claras intuições das
inimizades intratáveis que se estendiam à frente. E no entanto, à
sua maneira, é um livro jubiloso. Celebra o elixir da paixão
intelectual — a capacidade do cérebro e do sistema nervoso dos
homens de mergulhar em interesses abstratos, especulativos, mesmo ou
principalmente diante da dor e da adversidade pessoal. Demonstra com
prodigalidade a força por trás da aparente fraqueza, que muitas
vezes é a senha que permite a sobrevivência do humanismo e dos
perseguidos. Aqui, por fim, e não na placa lacônica num austero
muro de cemitério, Walter Benjamin tem seu in memoriam. E é
totalmente indissociável da maravilha, talvez mais profunda do que o
amor, que é a amizade.
22 de janeiro de 1990
George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos
terça-feira, 17 de março de 2026
Charlatões
Um amigo meu diz que em todos nós
existe o charlatão. Concordei. Sinto em mim a charlatã me
espreitando. Só não vence, primeiro porque não é realmente
verdade, segundo porque minha honestidade básica até me enjoa. Há
outra coisa que me espreita e que me faz sorrir: o mau gosto. Ah, a
vontade que tenho de ceder ao mau gosto. Em quê? Ora, o campo é
ilimitado, simplesmente ilimitado. Vai desde o instante em que se
pode dizer a palavra errada exatamente quando ela cairia pior — até
o instante em que se diriam palavras de grande beleza e verdade
quando o interlocutor está desprevenido e levaria um susto de
constrangimento, e haveria o silêncio depois. Em que mais? Em se
vestir, por exemplo. Não necessariamente o óbvio do equivalente a
plumas. Não sei descrever, mas saberia usar um mau gosto perfeito. E
em escrever? A tentação é grande, pois a linha divisória é quase
invisível entre o mau gosto e a verdade. E mesmo porque, pior que o
mau gosto em matéria de escrever, é certo tipo horrível de bom
gosto. Às vezes, de puro prazer, de pura pesquisa simples, ando
sobre a linha bamba.
Como é que eu seria charlatã? Eu
fui, e com toda a sinceridade, pensando que acertava. Sou, por
exemplo, formada em direito, e com isso enganei a mim e aos outros.
Não, mais a mim que a todos. No entanto, como eu fui sincera: fui
estudar direito porque desejava reformar as penitenciárias do
Brasil.
O charlatão é um contrabandista de
si mesmo. Que é mesmo o que estou dizendo? Era uma coisa, mas já me
escapou. O charlatão se prejudica? Não sei, mas sei que às vezes a
charlatanice dói e muito. Imiscui-se nos momentos mais graves. Dá
uma vontade de não ser, exatamente quando se é com toda a força.
Não posso infelizmente me alongar mais nesse assunto.
Disseram-me que um crítico teria
escrito que Guimarães Rosa e eu éramos dois embustes, o que vale
dizer dois charlatões. Esse crítico não vai entender nada do que
estou dizendo aqui. É outra coisa. Estou falando de algo muito
profundo, embora não pareça, embora eu mesma esteja um pouco
tristemente brincando com o assunto.
Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida
Capítulo IV – Sinha Vitória
Cena do filme Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos
Acocorada junto às pedras que serviam
de trempe, a saia de ramagens entalada entre as coxas, Sinha Vitória
soprava o fogo. Uma nuvem de cinza voou dos tições e cobriu-lhe a
cara, a fumaça inundou-lhe os olhos, o rosário de contas brancas e
azuis desprendeu-se do cabeção e bateu na panela. Sinha Vitória
limpou as lágrimas com as costas das mãos, encarquilhou as
pálpebras, meteu o rosário no seio e continuou a soprar com
vontade, enchendo muito as bochechas.
Labaredas lamberam as achas de angico,
esmoreceram, tornaram a levantar-se e espalharam-se entre as pedras.
Sinha Vitória aprumou o espinhaço e agitou o abano. Uma chuva de
faíscas mergulhou num banho luminoso a cachorra Baleia, que se
enroscava no calor e cochilava embalada pelas emanações da comida.
Sentindo a deslocação do ar e a
crepitação dos gravetos, Baleia despertou, retirou-se
prudentemente, receosa de sapecar o pêlo, e ficou observando
maravilhada as estrelinhas vermelhas que se apagavam antes de tocar o
chão. Aprovou com um movimento de cauda aquele fenômeno e desejou
expressar a sua admiração à dona. Chegou-se a ela em saltos
curtos, ofegando, ergueu-se nas pernas traseiras, imitando gente. Mas
Sinha Vitória não queria saber de elogios.
Deu um pontapé na cachorra, que se
afastou humilhada e com sentimentos revolucionários.
Sinha Vitória tinha amanhecido nos
seus azeites. Fora de propósito, dissera ao marido umas
inconveniências a respeito da cama de varas. Fabiano, que não
esperava semelhante desatino, apenas grunhira: – “Hum! hum!” E
amunhecara, porque realmente mulher é bicho difícil de entender,
deitara-se na rede e pegara no sono. Sinha Vitória andara para cima
e para baixo, procurando em que desabafar. Como achasse tudo em
ordem, queixara-se da vida. E agora vingava-se em Baleia, dando-lhe
um pontapé.
Avizinhou-se da janela baixa da
cozinha, viu os meninos, entretidos no barreiro, sujos de lama,
fabricando bois de barro, que secavam ao sol, sob o pé de turco, e
não encontrou motivo para repreendê-los. Pensou de novo na cama de
varas e mentalmente xingou Fabiano. Dormiam naquilo, tinham-se
acostumado, mas seria mais agradável dormirem numa cama de lastro de
couro, como outras pessoas.
Fazia mais de um ano que falava nisso
ao marido. Fabiano a princípio concordara com ela, mastigara
cálculos, tudo errado. Tanto para o couro, tanto para a armação.
Bem. Poderiam adquirir o móvel necessário economizando na roupa e
no querosene. Sinha Vitória respondera que isso era impossível,
porque eles vestiam mal, as crianças andavam nuas, e recolhiam-se
todos ao anoitecer. Para bem dizer, não se acendiam candeeiros na
casa. Tinham discutido, procurando cortar outras despesas. Como não
se entendessem, Sinha Vitória aludira, bastante azeda, ao dinheiro
gasto pelo marido na feira, com jogo e cachaça. Ressentido, Fabiano
condenara os sapatos de verniz que ela usava nas festas, caros e
inúteis. Calçada naquilo, trôpega, mexia-se como um papagaio, era
ridícula. Sinha Vitória ofendera-se gravemente com a comparação,
e se não fosse o respeito que Fabiano lhe inspirava, teria
despropositado. Efetivamente os sapatos apertavam-lhe os dedos,
faziam-lhe calos. Equilibrava-se mal, tropeçava, manquejava, trepada
nos saltos de meio palmo. Devia ser ridícula, mas a opinião de
Fabiano entristecera-a muito. Desfeitas essas nuvens, curtidos os
dissabores, a cama de novo lhe aparecera no horizonte acanhado.
Agora pensava nela de mau humor.
Julgava-a inatingível e misturava-a às obrigações da casa. Foi a
sala, passou por baixo do punho da rede onde Fabiano roncava, tirou
do caritó o cachimbo e uma pele de fumo, saiu para o copiar. O
chocalho da vaca laranja tilintou para os lados do rio. Fabiano era
capaz de se ter esquecido de curar a vaca laranja. Quis acordá-lo e
perguntar, mas distraiu-se olhando os xiquexiques e os mandacarus que
avultavam na campina.
Um mormaço levantava-se da terra
queimada. Estremeceu lembrando-se da seca, o rosto moreno desbotou,
os olhos pretos arregalaram-se. Diligenciou afastar a recordação,
temendo que ela virasse realidade. Rezou baixinho uma ave-maria, já
tranquila, a atenção desviada para um buraco que havia na cerca do
chiqueiro das cabras. Esfarelou a pele de fumo entre as palmas das
mãos grossas, encheu o cachimbo de barro, foi consertar a cerca.
Voltou, circulou a casa atravessando o cercadinho do oitão, entrou
na cozinha.
– É capaz de Fabiano ter-se
esquecido da vaca laranja.
Agachou-se, atiçou o fogo, apanhou
uma brasa com a colher, acendeu o cachimbo, pôs-se a chupar o canudo
de taquari cheio de sarro. Jogou longe uma cusparada, que passou por
cima da janela e foi cair no terreiro. Preparou-se para cuspir
novamente. Por uma extravagante associação, relacionou esse ato com
a lembrança da cama. Se o cuspo alcançasse o terreiro, a cama seria
comprada antes do fim do ano. Encheu a boca de saliva, inclinou-se –
e não conseguiu o que esperava. Fez várias tentativas, inutilmente.
O resultado foi secar a garganta. Ergueu-se desapontada. Besteira,
aquilo não valia.
Aproximou-se do canto onde o pote se
erguia numa forquilha de três pontas, bebeu um caneco de água. Água
salobra.
– Iche!
Isto lhe sugeriu duas imagens quase
simultâneas, que se confundiram e neutralizaram: panelas e
bebedouros. Encostou o fura-bolos à testa, indecisa. Em que estava
pensando? Olhou o chão, concentrada, procurando recordar-se, viu os
pés chatos, largos, os dedos separados. De repente as duas ideias
voltaram: o bebedouro secava, a panela não tinha sido temperada.
Foi levantar o testo, recebeu na cara
vermelha uma baforada de vapor. Não é que ia deixando a comida
esturrar? Pôs água nela e remexeu-a com a quenga preta de coco. Em
seguida provou o caldo. Insosso, nem parecia bóia de cristão.
Chegou- se ao jirau onde se guardavam cumbucos e mantas de carne,
abriu a mochila de sal, tirou um punhado, jogou-o na panela.
Agora pensava no bebedouro, onde havia
um líquido escuro que bicho enjeitava. Só tinha medo da seca.
Olhou de novo os pés espalmados.
Efetivamente não se acostumava a calçar sapatos, mas o remoque de
Fabiano molestara-a. Pés de papagaio. Isso mesmo, sem dúvida,
matuto anda assim. Para que fazer vergonha à gente? Arreliava-se com
a comparação.
Pobre do papagaio. Viajar com ela, na
gaiola que balançava em cima do baú de folha. Gaguejava: – “Meu
louro.” Era o que sabia dizer. Fora isso, aboiava arremedando
Fabiano e latia como Baleia. Coitado. Sinha Vitória nem queria
lembrar-se daquilo. Esquecera a vida antiga, era como se tivesse
nascido depois que chegara à fazenda. A referência aos sapatos
abrira-lhe uma ferida – e a viagem reaparecera. As alpercatas dela
tinham sido gastas nas pedras. Cansada, meio morta de fome, carregava
o filho mais novo, o baú e a gaiola do papagaio. Fabiano era ruim.
– Mal-agradecido.
Olhou os pés novamente. Pobre do
louro. Na beira do rio matara-o por necessidade, para sustento da
família. Naquele momento ele estava zangado, fitava na cachorrinha
as pupilas sérias e caminhava aos tombos, como os matutos em dias de
festa. Para que Fabiano fora despertar-lhe aquela recordação?
Chegou à porta, olhou as folhas amarelas das catingueiras. Suspirou.
Deus não havia de permitir outra desgraça. Agitou a cabeça e
procurou ocupações para entreter-se. Tomou a cuia grande,
encaminhou-se ao barreiro, encheu de água o caco das galinhas,
endireitou o poleiro. Em seguida foi ao quintalzinho regar os
craveiros e as panelas de losna. E botou os filhos para dentro de
casa, que tinham barro até nas meninas dos olhos. Repreendeu-os: –
Safadinhos! porcos! sujos como... Deteve-se. Ia dizer que eles
estavam sujos como papagaios.
Os pequenos fugiram, foram enrolar-se
na esteira da sala, por baixo do caritó, e Sinha Vitória voltou
para junto da trempe, reacendeu o cachimbo. A panela chiava; um vento
morno e empoeirado sacudia as teias de aranha e as cortinas de pucumã
do teto; Baleia, sob o jirau, coçava-se com os dentes e pegava
moscas. Ouviam-se distintamente os roncos de Fabiano, compassados, e
o ritmo deles influiu nas ideias de Sinha Vitória. Fabiano roncava
com segurança. Provavelmente não havia perigo, a seca devia estar
longe.
Outra vez Sinha Vitória pôs-se a
sonhar com a cama de lastro de couro. Mas o sonho se ligava à
recordação do papagaio, e foi-lhe preciso um grande esforço para
isolar o objeto de seu desejo.
Tudo ali era estável, seguro. O sono
de Fabiano, o fogo que estalava, o toque dos chocalhos, até o
zumbido das moscas davam-lhe sensação de firmeza e repouso. Tinha
de passar a vida inteira dormindo em varas? Bem no meio do catre
havia um nó, um calombo grosso na madeira. E ela se encolhia num
canto, o marido no outro, não podiam estirar-se no centro. A
princípio não se incomodara. Bamba, moída de trabalhos,
deitar-se-ia em pregos. Viera, porém, um começo de prosperidade.
Corriam, engordavam. Não possuíam nada: se retirassem, levariam a
roupa, a espingarda, o baú de folha e troças miúdos. Mas iam
vivendo, na graça de Deus, o patrão confiava neles – e eram quase
felizes. Só faltava uma cama. Era o que aperreava Sinha Vitória.
Como já não se estazava em serviços pesados, gastava um pedaço da
noite parafusando. E o costume de encafuar-se ao escurecer não
estava certo, que ninguém é galinha.
Nesse ponto as ideias de Sinha Vitória
seguiram outro caminho, que pouco depois foi desembocar no primeiro.
Não era que a raposa tinha passado no rabo a galinha pedrês? Logo a
pedrês, a mais gorda. Decidiu armar um mundéu perto do poleiro.
Encolerizou-se. A raposa pagaria a galinha pedrês.
– Ladrona.
Pouco a pouco a zanga se transferiu.
Os roncos de Fabiano eram insuportáveis. Não havia homem que
roncasse tanto. Era bom levantar-se e procurar uma vara para
substituir aquele pau amaldiçoado que não deixava uma pessoa
virar-se. Porque não tinham removido aquela vara incômoda?
Suspirou. Não conseguiam tomar resolução. Paciência. Era melhor
esquecer o nó e pensar numa cama igual à de seu Tomás da
bolandeira. Seu Tomás tinha uma cama de verdade, feita pelo
carpinteiro, um estrado de sucupira alisado a enxó, com as juntas
abertas a formão, tudo embutido direito, e um couro cru em cima, bem
esticado e bem pregado. Ali podia um cristão estirar os ossos.
Se vendesse as galinhas e a marrã?
Infelizmente a excomungada raposa tinha comido a pedrês, a mais
gorda. Precisava dar uma lição à raposa. Ia armar o mundéu junto
do poleiro e quebrar o espinhaço daquela sem-vergonha.
Ergueu-se, foi a camarinha procurar
qualquer coisa, voltou desanimada e esquecida. Onde tinha a cabeça?
Sentou-se na janela baixa da cozinha,
desgostosa. Venderia as galinhas e a marrã, deixaria de comprar
querosene. Inútil consultar Fabiano, que sempre se entusiasmava,
arrumava projetos. Esfriava logo – e ela franzia a testa,
espantada; certa de que o marido se satisfazia com a ideia de possuir
uma cama. Sinha Vitória desejava uma cama real, de couro e sucupira,
igual à de seu Tomás da bolandeira.
Graciliano Ramos, em Vidas Secas
Hierarquia
Diz que um leão enorme ia andando
chateado, não muito rei dos animais, porque tinha acabado de brigar
com a mulher e esta lhe dissera poucas e boas.
Eis que, subitamente, o leão defronta
com um pequeno rato, o ratinho mais menor que ele já tinha visto.
Pisou-lhe a cauda e, enquanto o rato forçava inutilmente pra
escapar, o leão gritava: “Miserável criatura, estúpida, ínfima,
vil, torpe: não conheço na criação nada mais insignificante e
nojento. Vou te deixar com vida apenas para que você possa sofrer
toda a humilhação do que lhe disse, você, desgraçado, inferior,
mesquinho, rato!” E soltou-o.
O rato correu o mais que pode, mas,
quando já estava a salvo, gritou pro leão: “Será que V.
Excelência poderia escrever isso pra mim? Vou me encontrar com uma
lesma que eu conheço e quero repetir isso pra ela com as mesmas
palavras!”
MORAL: Ninguém é tão sempre
inferior.
SUBMORAL: Nem tão nunca superior, por
falar nisso
Millôr Fernandes, em Fábulas Fabulosas
Garbo: novidades
Um semanário francês publicou a
biografia de Greta Garbo, e embora não conte nada de novo sobre esse
fenômeno cinematográfico desconhecido da geração mais moça,
atraiu a atenção dos leitores.
A este humilde cronista, a publicação
interessou sobretudo porque lhe abriu a urna das recordações; e
ainda porque lhe permite desvendar um pequeno segredo velho de vinte
e seis anos, e os senhores sabem como os segredos, à força de
envelhecer, perdem a significação.
Passado um quarto de século,
considero-me desobrigado do compromisso assumido naquela tarde de
outono, no Parque Municipal de Belo Horizonte, e revelarei uma página
— meia página, se tanto — da vida particular de Greta Garbo.
Está dito na biografia de Paris
Match que, depois de recusar o papel de vamp em As
mulheres adoram diamantes, oferecido por Louis B. Mayer, a
extraordinária atriz se fechou em copas, por cinco meses, em seus
aposentos do hotel Miramar, em Santa Mônica, até obter aumento de
salário. É falso. Durante esse período, Greta viajou incógnita
pela América do Sul, possuída de tedium vitae, e foi dar com
sua angulosa e perturbadora figura na capital mineira, onde apenas
três pessoas lhe conheceram a identidade.
Corria o ano de 1929, e como corria: a
luta pela sucessão do presidente Washington Luís assumira desde
logo aspecto violento, mas não deixávamos, eu e um grupo de amigos
diletos, de frequentar o cineminha local, onde a Garbo, já em pleno
fastígio da glória, desbancava todas as “estrelas” do mundo.
Certa manhã, pálido e emocionado, o poeta Abgar Renault bateu-me à
porta, reclamando cooperação. Uma senhora estrangeira chegaria pelo
noturno da Central, às dez horas (isto é, às três da tarde, pois
o trem vinha sempre atrasado). Fora-lhe recomendada por um professor
sueco, então nos Estados Unidos, com quem Abgar se correspondia a
respeito de poetas elisabetianos. Tínhamos de reservar-lhe aposentos
no Grande Hotel, do Arcângelo Maletta, e proporcionar-lhe distrações
campestres, mas a senhora fazia questão de não travar relações
com ninguém e se ele, Abgar, queria os meus serviços, era em razão
de nossa fraterna amizade.
Tomamos providências e, à tardinha,
vimos descer do carro-dormitório, dentro de um capotão cinza que
lhe cobria o queixo, e por trás dos primeiros óculos pretos que uma
filha de Eva usou naquelas paragens, um vulto feminino estranho e
seco, pisando duro em sapatões de salto baixo. Mal franziu os lábios
para cumprimentar o meu amigo, olhou-me como a um carregador, e
disse-nos: “I want to be alone”. Depois, manifestou os
dentes num largo sorriso, como a explicar: “Mas isso não atinge a
vocês”. E de fato, nos dias que se seguiram, mostrou-se
cordialíssima conosco, sempre através dos conhecimentos de inglês
de Abgar, já então notáveis.
Não tardei, por iluminação poética,
a identificar a misteriosa viajante, que dava grandes passeios pela
serra do Curral acima, e um dia se dispôs a ir a pé a Sabará,
empresa de que a dissuadimos, horrorizados. Revelei a Abgar minha
descoberta e ele, arregalando os olhos, suplicou-me, por tudo quanto
fosse sagrado para mim, que não contasse a ninguém. Fiz-lhe a
vontade. Os outros amigos ignoraram tudo. Capanema, Emílio Moura,
Milton Campos, João Pinheiro Filho etc., olhavam-nos surpresos ante
aquela relação estranha. Explicamos que se tratava de uma
naturalista em férias, miss Gustafsson. E a cidade não soube que
hospedava pessoa daquela importância. É facílimo enganar uma
cidade.
Apenas o Jorge, chofer árabe que nos
servia, arranhando vários idiomas, acabou pescando, por uma conversa
entre Abgar e a estrangeira, quem era ela. Intimamo-lo a calar-se,
sob pena de o denunciarmos como “prestista”. Éramos amigos do
governo, e este tomara posição contra o dr. Júlio Prestes,
candidato à Presidência da República. Jorge encolheu-se, talvez
por motivos que sempre desaconselham um encontro com a autoridade.
À véspera da partida, nossa amiga
levou-nos a jantar no Grande Hotel e — lembro-me perfeitamente —
fixou os olhos na mesa vizinha, onde uma família chegada da Bahia
abrangia um garotinho de cerca de dois anos. Greta mirou a testa
larga do guri, e disse pensativamente: “É poeta”. Tive a
curiosidade de procurar no livro da gerência o nome da família:
Amaral; e do neném: José Augusto. É hoje o poeta e crítico de
cinema Van Jafa, que, decerto, ignora esse vaticínio.
Saímos ao entardecer para uma volta
no parque, e lá Greta Garbo, mãos nas mãos, pediu-nos que jamais
lhe revelássemos a identidade. De resto, ela própria não sabia
mais ao certo quem era: as personagens que interpretara se
superpunham ao “eu” original. Uma confusão… “Gostaria de
ficar entre vocês para sempre, tirando leite das vaquinhas num sítio
em Cocais. That’s a dream.” Furtamos um papagaio do parque
e o oferecemos à amiga; reencontro essa ave no texto de Paris
Match, dizendo: “Hello, Greta” e imitando sua risada,
entre gutural e cristalina… Como a vida passa! Mas, agora, não
posso calar.
Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira
segunda-feira, 16 de março de 2026
Graça
O mundo é um jardim. Uma luz banha o
mundo.
A limpeza do ar, os verdes depois das
chuvas,
os campos vestindo a relva como o
carneiro a sua lã,
a dor sem fel: uma borboleta viva
espetada.
Acodem as gratas lembranças:
moças descalças, vestidos
esvoaçantes,
tudo seivoso como a juventude,
insidioso prazer sem objeto.
Insisto no vício antigo — para me
proteger do inesperado gozo.
E a mulher feia? E o homem crasso?
Em vão. Estão todos nimbados como
eu.
A lata vazia, o estrume, o leproso no
seu cavalo
estão resplandecentes. Nas nuvens tem
um rei, um reino,
um bobo com seus berloques, um
príncipe. Eu passeio nelas,
é sólido. O que não vejo, existindo
mais que a carne.
Esta tarde inesquecível Deus me deu.
Limpou meus olhos e vi:
como o céu, o mundo verdadeiro é
pastoril.
Adélia Prado, em O Coração Disparado
Assinar:
Comentários (Atom)




