14/10/2026

Gal Costa | Força Estranha

 

Calvin e Haroldo

 

Idades

No início,
eu queria um instante.
A flor.

Depois,
nem a eternidade me bastava.
E desejava a vertigem
do incêndio partilhado.
O fruto.

Agora,
quero apenas
o que havia antes de haver vida.
A semente.

Mia Couto, em Poemas Escolhidos

A Bailarina Fantasma




1º Ato
1. Travessa do Anjo

Anabela e o pai, Marcelo, tinham orgulho de dizer que moravam na casa mais antiga da cidade: a Travessa do Anjo, uma ilha feita de passado no meio de um mar de vidro e metal.
Tudo naquele lugar era exatamente igual ao que sempre fora. Os anos e a vida de todos os familiares que moraram ali permaneciam gravados nos cheiros, nas cores e nos detalhes de cada canto. Uma foto na parede, uma figura colada na porta de um armário, a xícara pintada à mão com o nome da tia querida… tudo permanecia na casinha azul com telhado vermelho e fachada estreita onde cabiam somente uma porta, uma janela e, lá dentro, todos os sonhos do mundo.
O portão da entrada era de ferro e o muro, bem baixo. Entre o muro e a porta havia um jardim com flores que brotavam o ano todo, especialmente os pequenos e delicados miosótis, jovens descendentes de mudas plantadas havia muito tempo. Junto das flores, um banco com dois lugares, um convite para sentar e conversar.
Apesar de estreita, a Travessa do Anjo era comprida. Logo na entrada ficava o escritório de Marcelo. A seguir, duas pequenas salas com fotografias antigas nas paredes, estantes de livros, sofás e cadeiras para as visitas. Do lado direito, um corredor. À esquerda, o quarto de Anabela e, logo depois, o do pai. A cozinha, clara e espaçosa, tinha vista para o pomar, onde Anabela colhia laranjas, limões e maracujás, suas frutas preferidas. As laranjas eram muito doces e inacreditavelmente suculentas. Era de lá que soprava o vento adocicado que fazia daquela casa a mais ventilada da cidade.
O nome, Travessa do Anjo, fora inspirado em um painel de azulejos colocado sobre a porta, bem pertinho do telhado, com a pintura de um anjo ajudando duas crianças a atravessar uma ponte. Os azulejos eram de Portugal e vieram com dona Maria de Lourdes, bisavó de Marcelo, quando ela se mudara para lá.
Definitivamente, a vida daquela família era muito distinta da do mundo ao redor, e isso incomodava. Quase todo dia aparecia algum curioso por ali. Tinha gente que atravessava a cidade para ver a Travessa do Anjo de perto, todos tão admirados, parados na frente da casa de Anabela como se estivessem vendo uma legítima caravela portuguesa dos tempos do Descobrimento:
— Como eles vivem sem ar-condicionado?
— Sem antenas?
— E sem micro-ondas?
— Isso é praticamente uma caverna — diziam umas senhoras muito arrumadas, de cabelo pintado e bolsa dourada, que passavam o tempo prestando atenção na vida dos outros.
Falavam, falavam, e o vento levava para longe tantas palavras vazias, desnecessárias. Anabela e Marcelo não ligavam. Estavam ocupados com outras coisas… Foi naquela casa que Anabela nasceu, aprendeu a andar, a falar, e cresceu até se tornar tão linda, de rosto pintado de sardas e olhos tão verdes como as luzes do Natal dos seus catorze anos, quando a vida começou a mudar tanto para aquela família.
Sua mãe havia morrido quando Anabela tinha sete anos. Por causa disso ela até poderia pensar que era a menina mais azarada do mundo, sozinha, sem mãe. Mas não — ela preferia enxergar sua realidade com outros olhos e virar a vida ao contrário. Então se achava a garota mais sortuda do mundo, isso sim, por ter um pai tão incrível. A lembrança da mãe não era sofrimento. Só dúvidas, esperança e saudade.
Quando Anabela falava sobre a mãe ou fazia perguntas sobre a morte para Marcelo ou outro parente, o que sempre ouvia era que Melinda partira para um lugar melhor. Anabela imaginava, desde pequena, que aquele tão falado Lugar Melhor seria um mundo parecido com o nosso, como um espelho, uma cópia, para onde iria tudo o que morresse aqui: animais, plantas, flores, pessoas… até as formigas, que podiam se afogar ao cair num copo de suco qualquer. Tudo o que morria — talvez até a mãe de Anabela —, chegando lá, em certo lugar, voltava a viver. De um jeito diferente do nosso, mas viveria.
Seus momentos mais felizes eram os que passava no quintal da Travessa do Anjo, seu lugar preferido para ficar quando estava triste ou feliz, ou quando queria parar um pouco, pensar e observar os pequenos e grandes mistérios da vida. Anabela parecia ver e até tocar os segredos das coisas. Sempre que via uma flor começando a murchar, ou uma borboleta com uma asa machucada, ou uma formiguinha carregada pelas águas da chuva, explicava-lhes baixinho que todos os seres vivos um dia iam para outro lugar, talvez um lugar lindo, muito melhor do que aquela vida. E por que não? No fundo, as pequenas mortes da natureza eram para Anabela uma esperança de fazer contato com a mãe, especialmente quando ela via um miosótis — a flor preferida de Melinda — com as pétalas começando a amarelar, dando sinal de que era hora de partir.
Anabela amarrava delicados bilhetinhos, feitos de papel recortado e letrinha miúda, nos miosótis que morriam no quintal. Enterrava os bilhetes e as flores com cuidado. Eram recados curtinhos, segredos, notícias, contando que estava bem na escola, que melhorara da gripe, ou, às vezes, breves confissões de saudade. Saudade era quase uma alegria para ela, um jeito de eternizar as coisas. Com sua pá de jardineira, arrumava os bilhetes e as flores, cobria-os de terra e rezava. Ela acreditava que aconteceria algo mágico: a flor viajaria, de alguma forma, para o Lugar Melhor. E voltaria a viver, levando o bilhete para as mãos de Melinda.
Os pedacinhos de papel em branco ela guardava em uma caixa de madeira forrada de tecido — forrar caixas era um dos passatempos preferidos de Melinda, e Anabela adorava guardar dentro delas os objetos mais especiais.
Quando soube que o avô de Luciana, sua melhor amiga, havia morrido, aproveitou a ocasião e escreveu uma carta de duas páginas para a mãe e deu um jeitinho de colocar o envelope para ser enterrado com ele.
Anabela pensava que a morte era uma cortina pesada e escura, como um veludo vermelho, que só poderia ser aberta para quem fosse passar daqui para lá. Mas houve um dia que mudou sua vida, quando ela compreendeu de forma definitiva que essa cortina podia ser leve e clara como seda azul e que, com um sopro do vento, podia se abrir para dar passagem a alguém vindo de lá… para cá.
O motivo dessa volta nunca se sabe, até que esse alguém diga. A razão pode ser simples. Ou terrivelmente assustadora.
Até aquele dia ela não sabia de nada disso. Anabela realmente acreditava que os mortos não voltavam. De repente entendeu que isso tinha sido um tremendo engano…

Socorro Acioli, em A Bailarina Fantasma

Amor a Ele

Através de meus graves erros – que um dia eu talvez os possa mencionar sem me vangloriar deles – é que cheguei a poder amar. Até esta glorificação: eu amo o Nada. A consciência de minha permanente queda me leva ao amor do Nada. E desta queda é que começo a fazer minha vida. Com pedras ruins levanto o horror, e com horror eu amo. Não sei o que fazer de mim, já nascida, senão isto: Tu, Deus, que eu amo como quem cai no nada.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

Capítulo 103 – Distração

 


– Não, senhor Doutor, isto não se faz. Perdoe-me, isto não se faz.
Tinha razão Dona Plácida. Nenhum cavalheiro chega uma hora mais tarde ao lugar em que o espera a sua dama. Entrei esbaforido; Virgília tinha ido embora. DonaPlácida contou-me que ela esperara muito, que se irritara, que chorara, que jurara votar-me ao desprezo, e outras mais coisas que a nossa caseira dizia com lágrimas na voz, pedindo-me que não desamparasse Iaiá, que era ser muito injusto com uma moça que me sacrificaria tudo. Expliquei-lhe então que um equívoco...
E não era; cuido que foi simples distração. Um dito, uma conversa, uma anedota, qualquer coisa; simples distração.
Coitada de Dona Plácida! Estava aflita deveras. Andava de um lado para outro, abanando a cabeça, suspirando com estrépito, espiando pela rótula. Coitada de Dona Plácida! Com que arte conchegava as roupas, bafejava as faces, acalentava as manhas do nosso amor! que imaginação fértil em tornar as horas mais aprazíveis e breves! Flores, doces, - os bons doces de outros dias, - e muito riso, muito afago, um riso e um afago que cresciam com o tempo, como se ela quisesse fixar a nossa aventura; ou restituir-lhe a primeira flor. Nada esquecia a nossa confidente e caseira; nada, nem a mentira, porque a um e outro referia suspiros e saudades que não presenciara; nada, nem a calúnia, porque uma vez chegou a atribuir-me uma paixão nova. – Você sabe que não posso gostar de outra mulher, foi a minha resposta, quando Virgília me falou em semelhante coisa. E esta só palavra, sem nenhum protesto ou admoestação, dissipou o aleive de Dona Plácida, que ficou triste.
– Está bem, disse-lhe eu, depois de um quarto de hora; Virgília há de reconhecer que não tive culpa nenhuma... Quer você levar-lhe uma carta agora mesmo?
– Ela há de estar bem triste, coitadinha! Olhe, eu não desejo a morte de ninguém; mas, se o senhor Doutor algum dia chegar a casar com Iaiá, então sim, é que há de ver o anjo que ela é!
Lembra-me que desviei o rosto e baixei os olhos ao chão.
Recomendo este gesto às pessoas que não tiverem uma palavra pronta para responder, ou ainda as que recearem encarar a pupila de outros olhos. Em tais casos, alguns preferem recitar uma oitava dos Lusíadas, outros adotam o recurso de assobiar a Norma; eu atenho-me ao gesto indicado; é mais simples, exige menos esforço.
Três dias depois, estava tudo explicado. Suponho que Virgília ficou um pouco admirada, quando lhe pedi desculpa das lágrimas que derramara naquela triste ocasião. Nem me lembra se interiormente as atribuí a Dona Plácida. Com efeito, podia acontecer que Dona Plácida chorasse, ao vê-la desapontada, e, por um fenômeno da visão, as lágrimas que tinha nos próprios olhos lhe parecessem cair dos olhos de Virgília. Fosse como fosse, tudo estava explicado, mas não perdoado, e menos ainda esquecido. Virgília dizia-me uma porção de coisas duras, ameaçava-me com a separação, enfim louvava o marido. Esse sim, era um homem digno, muito superior a mim, delicado, um primor de cortesia e afeição; é o que ela dizia, enquanto eu, sentado, com os braços fincados nos joelhos, olhava para o chão, onde uma mosca arrastava uma formiga que lhe mordia o pé. Pobre mosca! pobre formiga!
– Mas você não diz nada, nada? perguntou Virgília, parando diante de mim.
– Que hei de dizer? Já expliquei tudo; você teima em zangar-se; que hei de dizer? Sabe o que me parece? Parece-me que você está enfastiada, que se aborrece, que quer acabar...
– Justamente!
Foi dali pôr o chapéu, com a mão trêmula, raivosa... – Adeus, Dona Plácida, bradou ela para dentro. Depois foi até à porta, correu o fecho, ia sair; agarrei-a pela cintura. – Está bom, está bom, disse-lhe. Virgília ainda forcejou por sair. Eu retive-a, pedi-lhe que ficasse, que esquecesse; ela afastou-se da porta e foi cair no canapé. Sentei-me ao pé dela, disse-lhe muitas coisas meigas, outras humildes, outras graciosas. Não afirmo se os nossos lábios chegaram à distância de um fio de cambraia ou ainda menos; é matéria controversa. Lembra-me, sim, que na agitação caiu um brinco de Virgília, que eu inclinei-me a apanhá-lo, e que a mosca de há pouco trepou ao brinco, levando sempre a formiga no pé. Então eu, com a delicadeza nativa de um homem do nosso século, pus na palma da mão aquele casal de mortificados; calculei toda a distância que ia da minha mão ao planeta Saturno, e perguntei a mim mesmo que interesse podia haver num episódio tão mofino. Se concluis daí que eu era um bárbaro, enganas-te, porque eu pedi um grampo a Virgília, a fim de separar os dois insetos; mas a mosca farejou a minha intenção, abriu as asas e foi-se embora. Pobre mosca! pobre formiga! E Deus viu que isto era bom, como se diz na Escritura.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

13/10/2026

Hamilton de Holanda trio ft. Paulo Flores - Luanda (Unidos)

O Impagável Quino

 

Teimosia

Não adianta
quebrarem minhas pernas,
furar meus olhos
ou falar pelas costas.

O que sustenta meu corpo
são minhas ideias.
Braços descruzados,
tenho um cérebro com asas
e sou todo coração.

Se me proibirem de andar sobre a água,
nado sobre a terra.

Sérgio Vaz, em Flores da Batalha

Piloto de Guerra




XII

Exerço corretamente meu ofício. Não impede que eu seja um tripulante em derrota. Estou embebido na derrota. Transpira-se a derrota por todo lado, haja vista minhas mãos.
Os manetes de potência estão congelados. Estou condenado a manobrar em potência máxima. E eis que essas duas sucatas me trazem problemas inextricáveis.
No avião que estou pilotando, o aumento do passo de hélice é limitado, baixo demais. Eu não posso pretender, picando em regime pleno, evitar uma velocidade de aproximadamente oitocentos quilômetros por hora e o aumento de rotação de meus motores. Todavia, o aumento de rotação de um motor traz riscos de falha.
A rigor, me seria possível cortar os contatos. Mas eu me infligiria assim uma pane definitiva. Essa pane levaria ao fracasso da missão e à eventual perda do avião. Nem todos os terrenos favorecem a aterrissagem de um aparelho que toca o solo a cento e oitenta quilômetros por hora.
É então essencial que eu destrave os manetes. Em consequência de um primeiro esforço, vou ao limite do manete esquerdo. Mas o da direita continua resistindo.
Seria possível agora efetuar minha descida numa velocidade de voo tolerável, se eu reduzisse ao mínimo o motor sobre o qual já pude agir, o esquerdo. Mas se eu reduzir o motor esquerdo, precisarei compensar a potência assimétrica do motor direito — a qual tenderá, obviamente, a fazer girar o avião para a esquerda. Terei de resistir a essa tendência. No entanto, os pedais, dos quais dependem essas manobras, também estão completamente congelados. Fico impossibilitado, assim, de compensar. Se eu reduzir o motor esquerdo, caio em espiral.
O único recurso será arriscar ultrapassar, durante a descida, o limite de regime teórico de ruptura. Três mil e quinhentos giros: risco de falha catastrófica.
Tudo isso é absurdo. Nada está ajustado. Nosso mundo é feito de engrenagens que não se ajustam umas às outras. Não são os materiais que estão em questão, mas o Relojoeiro. Falta o Relojoeiro.
Depois de nove meses de guerra, ainda não conseguimos fazer com que as indústrias adaptassem metralhadoras e comandos ao clima em grande altitude. E não é com a incúria dos homens que nos deparamos. Os homens, na maioria, são honestos e conscienciosos. Sua inércia, quase sempre, é um efeito, e não uma causa, de sua ineficácia.
A ineficácia pesa sobre nós todos como uma fatalidade. Pesa sobre soldados da infantaria armados de baionetas diante de tanques. Pesa sobre os tripulantes que lutam, um contra dez. Pesa até mesmo sobre aqueles que deveriam ter por missão modificar as metralhadoras e os comandos.

Vivemos no ventre cego de uma administração. Uma administração é uma máquina. Quanto mais uma administração é aperfeiçoada, mais elimina a arbitrariedade humana. Numa administração perfeita, onde o homem desempenha seu papel de engrenagem, a preguiça, a desonestidade, a injustiça não têm mais oportunidade de alastrar-se.
Mas, assim como a máquina é construída para administrar uma sucessão de movimentos previstos de uma só vez, a administração também não cria mais. Ela gere. Aplica tal sanção para tal falta, tal solução a tal problema. Uma administração não é concebida para resolver problemas novos. Se, numa máquina de chapear, introduzirem-se peças de madeira, não vão sair móveis. Seria preciso, a fim de adaptar a máquina, que um homem dispusesse do direito de mexer nela. Mas numa administração, concebida para prevenir os inconvenientes da arbitrariedade humana, as engrenagens recusam a intervenção do homem. Recusam o Relojoeiro.

Faço parte do Grupo 2/33 desde novembro. Meus camaradas, assim que cheguei, avisaram:
— Você vai passear na Alemanha sem metralhadoras nem comandos.
Depois, para me consolar:
— Fique tranquilo. Você não perde nada. Os caças abatem sempre antes de serem vistos.
Em maio, seis meses mais tarde, as metralhadoras e os comandos ainda congelam.

Penso numa fórmula tão velha quanto meu país: “Na França, quando tudo parece perdido, um milagre salva o país”. Entendi por quê. Aconteceu às vezes de um desastre, tendo destrambelhado a bela máquina administrativa, e tendo esta se mostrando irreparável, substituírem-na, por falta de melhor, por simples homens. E os homens salvaram tudo.
Quando um torpedo tiver reduzido a cinzas o Ministério da Aeronáutica, convocarão, com urgência, um cabo qualquer, e lhe dirão:
— Você está encarregado de descongelar os comandos. Você tem carta branca. Vire-se. Mas se em quinze dias eles ainda gelarem, você será preso.
Os comandos, talvez, então, descongelem.

Conheço uns cem exemplos desse vício. As comissões de requisição de um departamento do norte, por exemplo, requisitaram novilhas prenhes e transformaram assim os abatedouros em cemitério de fetos. Nenhuma engrenagem da máquina, nenhum coronel do serviço de recrutamento estava qualificado para agir de outro modo senão como engrenagem. Eles obedeciam todos a uma outra engrenagem, como num relógio. Qualquer revolta era inútil. É por isso que essa máquina, uma vez que tenha começado a destrambelhar, foi alegremente empregada em abater novilhas prenhes. Talvez tenha sido um mal menor. Ela poderia, se mais gravemente destrambelhada, começar a abater coronéis.
Eu me sinto desencorajado até o pescoço por essa degradação universal. Mas como me parece inútil dar um tranco num dos meus motores, exerço contra o manete esquerdo um novo peso. Em meu desgosto, exagero o esforço. Depois, abandono. Esse esforço me custou uma nova pontada no coração. Decididamente, o homem não foi feito para o culto físico a dez mil metros de altitude. Essa pontada é uma dor em surdina, uma espécie de consciência local estranhamente despertada na escuridão dos órgãos.
Os motores vão estourar se quiserem.
Pouco me importa. Esforço-me para respirar. Parece-me que não respiraria mais se me distraísse. Eu me lembro dos foles de outrora, com a ajuda dos quais a gente reanimava o fogo. Reanimo meu fogo. Eu queria muito convencê-lo a “pegar”.
O que estraguei de irreparável? A dez mil metros, um esforço físico um pouco brusco pode acarretar uma ruptura dos músculos do coração. É muito frágil um coração. Precisa servir muito tempo. É absurdo comprometê-lo com trabalhos tão grosseiros. É como se queimássemos diamantes para cozinhar uma maçã.

Antoine de Saint-Exupéry, em Piloto de Guerra

As marcas do sangue azul

 


A importância de Lambari na minha infância se deve a uma ação do meu irmão Ismael, em claro desafio à autoridade de minha mãe. Mas, para chegar a esse acontecido, é preciso começar longe.
A psicanálise ensina que, para se descobrir segredos, é preciso prestar atenção a pequenas coisas a que ninguém atribui importância. Por exemplo: aqui, na cidade onde vivo, Campinas, há pessoas que falam “casa de Aurélia”, “o livro de Pedro”, “o aniversário de Margarida”... Quando ouço esse “de” já sei que se trata de pessoa ligada à nobreza dos grandes barões do café. E me cubro de cerimônias por me sentir na sala de visitas de um casarão colonial... É nesse insignificante “de” que se encontra a revelação.
Pois as diferenças entre a família do meu pai e a família de minha mãe se revelam no insignificante e banalíssimo ato de chupar laranja. Ah! Vocês pensavam que uma laranja é simplesmente uma laranja! Não é não. Laranjas do mesmo pé podem ser nobres ou plebeias. Depende do jeito como são comidas. A família de minha mãe chupava laranja de gomo, a família do meu pai chupava laranja de tampa. Você pode imaginar uma senhora da alta sociedade chupando laranja de tampa num jantar? Jamais! Chupar laranja de tampa é coisa de plebeus: a laranja enfiada entre os beiços e os dentes, comprimida pelas mãos para lhe extrair o caldo, as sementes enchendo a boca para serem cuspidas para o lado. Pode-se dizer que chupar laranja de tampa é gostoso e descontraído. Mas elegante é que não é. Laranja de tampa pode-se chupar de pé e mesmo andando. O que não é possível fazer quando se chupa uma laranja de gomo. Há duas formas de se chupar uma laranja de gomo. A primeira, plebeia, consta das seguintes operações. Descascar a laranja. Tirar a pele branca que cobre os gomos. Abrir a laranja em duas. Ir enfiando os gomos um a um na boca para serem mastigados, o caldo engolido, as sementes cuspidas e o bagaço engolido ou cuspido, conforme o gosto ou as necessidades da pessoa. Digo “necessidades” porque há pessoas que engolem o bagaço por ordem médica, por causa da prisão de ventre. A segunda, nobre, é diferente. É preciso estar assentado à mesa. Primeiro é o cuidadoso ato de descascar. Descascada a laranja segue-se a operação de retirar-lhe a película branca que a cobre. A seguir, abre-se a mesma em duas metades e separam-se os seus gomos. Tomam-se então os gomos, um a um, e vagarosamente executa-se a operação cirúrgica de retirar a pele translúcida em que vêm revestidos, o que se faz por meio de uma incisão ao longo da linha fina do gomo. Desnudados os gomos, retiram-se-lhes com a ponta da faca os caroços, que são colocados num prato. Finalmente, come-se a sua carne enquanto se conversa. É trabalhoso comer uma laranja de gomo. Trata-se de um elaborado striptease. Todos da família da minha mãe comiam as laranjas de gomo, do jeito nobre. Curioso sobre esse costume, procurei explicações com a minha mãe. Ela me respondeu: “É para aproveitar melhor”. De fato, aproveita-se melhor. Mas eu não via razão para se aproveitar tanto, quando as laranjeiras estavam cheias de laranjas que se perdiam, comidas pelos passarinhos e insetos e apodrecidas no chão. Não, não fazia sentido. Essa estória de “aproveitar melhor” só faz sentido quando laranjas são poucas e raras, frutas nobres e caras, possivelmente importadas... Mas lá no interior de Minas não se importavam laranjas, não eram raras nem eram caras. Havia um descompasso entre a abundância das laranjas e a necessidade de comê-las de sorte a aproveitar todas as suas garrafinhas. Se você não sabe, as garrafinhas de uma laranja são aquelas minúsculas gotas de caldo que compõem o gomo. Isso não era costume brasileiro. Era costume que vinha das cortes reais da Europa. Lá os nobres, ricos, comiam caras laranjas importadas, de gomo, elegantemente. O povo pobre não comia laranjas, talvez nem soubesse o que eram laranjas... Assim, ao comer as laranjas de gomo, os membros da família de minha mãe anunciavam suas origens de sangue azul.
A família do meu pai, que chupava laranjas de tampa, nada tinha de nobreza. Era gente comum, sem etiquetas. Mas a família da minha mãe se julgava diferente, era de “sangue azul”, e se meu avô permitiu que minha mãe se casasse com o meu pai, acho que foi porque meu pai era rico. O dinheiro faz perdoar um homem que chupa laranjas de tampa... Referiam-se desdenhosamente às pessoas da “prateleira de baixo” e, quando uma delas tinha antecedentes negros, coçavam discretamente a bochecha com o dedo indicador — gesto que era conhecido de todos — para advertir quem não soubesse: “Tem sangue de preto...” .
Havia vários outros artifícios para estabelecer com clareza sua superioridade sobre a plebe. Um deles eram os nomes que se davam aos filhos. A plebe batizava seus filhos de João, José, Antônio, Manuel, Maria, Conceição, Tereza, nomes vulgares que logo eram reduzidos a apelidos. Mas, para que não houvesse confusões, nossa diferença nobre já estava anunciada em nossos nomes: Aloísio, Augusto, Silvestre, Jorge, Eugênio, Noêmia, Eliza, Delminda...
Uma outra marca de nobreza estava nas roupas que tínhamos de vestir. Os meninos da plebe muito cedo começavam a usar calças compridas. Mas a família da minha mãe achava que os filhos nobres tinham de usar calças curtas. Meu irmão me contou da sua vergonha: já tinha catorze anos, suas pernas eram peludas e tinha de usar calças curtas. Ele andava pelas ruas se espremendo contra as paredes para que ninguém o visse. Naqueles tempos, filho não tinha vontade. Minha mãe se justificava dizendo que os meninos do Rio de Janeiro usavam calças curtas.
Foi muito depois, no Rio de Janeiro, que descobri que a razão era outra. Mãe que tem filho de calças curtas é mulher jovem. A idade de uma mulher se media pelo comprimento das calças do filho... Eu tinha doze anos. Só usava calças curtas. Meu pai e minha mãe me levaram para comprar um terno. Em tudo eu era apenas um observador. Minha mãe pediu um terno de calças curtas. O vendedor respondeu que, para um jovem da minha idade, não havia ternos de calças curtas. Ri de felicidade! Finalmente iria realizar o meu desejo de ter um terno de calças compridas! Concluída a compra, minha mãe disse ao vendedor: “Por favor, mande cortar as pernas...” . O remédio era continuar a usar as calças compridas de brim cáqui do uniforme da escola. Ela não podia mandar cortar as pernas das calças do uniforme...
Na família do meu pai as portas da rua das casas tinham um buraco pelo qual se passava um barbante amarrado ao trinco. Não era preciso bater. Bastava puxar o barbante que a porta se abria e a pessoa podia entrar pela casa indo até a cozinha, onde havia sempre uma cafeteira sobre a chapa do fogão de lenha. No sobradão do meu avô ninguém passava da sala de visitas, que ficava na frente, ao fim da escadaria. Era lá que as visitas eram cerimoniosamente recebidas e confinadas.
Mas, de todas as marcas de nobreza, havia uma que me humilhava mais: os meninos da plebe tinham os seus cabelos raspados à escovinha, com uma franja na testa. Como tínhamos de nos diferenciar dos meninos da “prateleira de baixo”, nosso cabelo havia de ser comprido. O que era motivo de muita vergonha porque, naqueles tempos, cabelo comprido era coisa de menina. Cabelo comprido e calças curtas: era demais...
Aconteceu que o meu irmão Ismael, já moço, já havendo ultrapassado a humilhação das calças curtas, já havendo ultrapassado a humilhação do cabelo comprido, veio nos visitar. Ele estava no internato do Instituto Gammon, em Lavras. Ele não disse nada. Me pegou pela mão e disse: “Vamos passear!”. Ao passar por uma barbearia, ele entrou, assentou-me na cadeira e ordenou ao barbeiro: “Escovinha”…

Rubem Alves, em O velho que acordou menino

Zoo

O dromedário apesar-de. O camelo, além-de. A girafa, sobretudo.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

12/10/2026

Djavan | A Carta

 

Ninfas

Agora sei que existem ninfas
fora das estampas e dos contos.
São três.
Bebem água publicamente
servida por uma sereia,
pois que também existem as sereias
na composição de verde e mármore
e é tudo fantástico no jardim
em frente do Palácio do Governo.

Carlos Drummond de Andrade, em Boitempo – Esquecer para lembrar

O Impressionismo de Renoir

 

Rosas e Jasmins em um Vaso Delft (1881), de Pierre-Auguste Renoir

Limite-se ao presente

Limpe as suas impressões. Interrompa o puxar das cordas. Limite-se ao presente. Entenda bem o que se passa com você e com o próximo. Divida e distribua cada objeto em causal e material. Pense na sua última hora. Deixe o mal cometido por um homem perdurar com ele.

Marco Aurélio, em Meditações

Se eu morresse...

Se eu atravessasse a rua agora, eu morria atropelado por aquele carro preto. Era bom que eu não precisava entregar o texto dessa semana. Mas ia ser um drama fodido.
O dono do carro preto ia ficar bem puto. Depois ia ficar bem mal. Depois ia ficar bem puto, de novo, porque o sinal tava aberto pra ele. E o carro preto ia ficar bem estraçalhado. Dei uma engordada que ia ser fatal pro carro preto. O dono do carro preto ia sair me xingando, só depois ia perceber que eu já morri. Aí ele ia ficar mal de novo. As pessoas iam ficar putas com ele, porque ninguém fica puto com quem já morreu. Mas o sinal tava aberto pra mim, ele ia dizer. Talvez alguém me reconhecesse: esse cara faz uns vídeos pra internet. Talvez virasse uma comoção.
A Folha ia publicar uma homenagem no lugar onde é a coluna, o Porta dos Fundos talvez lançasse um vídeo-homenagem, com meus melhores momentos editados, uma música emocionante. Fora que vinte e sete anos é uma idade ótima pra morrer, tem um monte de gente legal que morreu com vinte e sete anos e as pessoas iam me botar no meio dessa lista. Ia parecer que eu faço parte de um grupo: “Nós, que morremos com vinte e sete”. Ia parecer que eu tinha levado uma vida muito mais maldita e muito mais interessante.
Talvez eu virasse nome de rua. A rua em que eu morri. A própria Marquês de São Vicente talvez passasse a se chamar rua Gregorio Duvivier, com a legenda: mártir dos atropelados. Se bem que o sinal tava vermelho pra mim. Nunca iam homenagear um cara que atravessou no sinal fechado. E a Marquês é uma rua muito grande.
Talvez valesse mais a pena eu ser atropelado numa rua menor. Na rua das Acácias, por exemplo, eu tinha mais chance. Aí sim, rolava meu nome. Ou não. Rua das Acácias é um nome bonito, os moradores iam preferir manter. E ninguém atropela ninguém por ali. As pessoas iam achar suspeito. Iam pensar: esse daí se jogou na frente do carro só pra virar nome de rua.
Talvez aqui na Marquês seja mais fácil. Talvez aqui eu consiga emplacar um canteiro. Canteiro Gregorio Duvivier. Não. Canteiro não costuma ter nome. Talvez, no máximo, uma plaquinha: aqui morreu Gregorio Duvivier, que fazia vídeos pra internet e escreveu um livro de poemas. Que ninguém leu. Não. Melhor não atravessar, não. Por enquanto, morrer não tá valendo muito a pena pra mim. Nota mental: fazer alguma coisa que preste. Puta que o pariu, tenho que entregar o texto dessa semana.

Gregorio Duvivier, em Put some farofa

Você não consegue escrever uma história de amor




Margie ia sair com um sujeito, mas, no caminho, esse sujeito encontrou com outro que vestia um casaco de couro e o sujeito com casaco de couro abriu o casaco de couro e mostrou as tetas e o outro sujeito foi até a casa de Margie e disse que não poderia mais ir ao encontro, porque esse sujeito, vestindo um casaco de couro, havia lhe mostrado as tetas e ele iria trepar com esse sujeito. Então Margie foi até a casa de Carl. Carl estava em casa e ela se sentou e disse para Carl:
– Um sujeito ia me levar para um café com mesas na calçada e íamos beber vinho e conversar, só beber vinho e conversar, só isso, nada mais, mas no caminho para me encontrar, esse sujeito encontrou outro com um casaco de couro e o sujeito com casaco de couro lhe mostrou as tetas e agora esse sujeito vai trepar com o sujeito com casaco de couro e eu fico sem minha mesa e meu vinho e minha conversa.
– Não consigo escrever – disse Carl. – Acabou-se.
Então ele se levantou e foi até o banheiro, fechou a porta e deu uma cagada. Carl cagava quatro ou cinco vezes por dia. Não havia mais nada a fazer. Ele tomava cinco ou seis banhos por dia. Não havia mais nada a fazer. Ficava bêbado pela mesma razão.
Margie ouviu a descarga da privada. Então Carl saiu do banheiro.
– Um homem simplesmente não consegue escrever oito horas por dia. Nem mesmo consegue escrever todo dia ou toda semana. É uma situação péssima. Não há nada a fazer além de esperar.
Carl foi até a geladeira e voltou com um pacote de seis garrafas de cerveja Michelob. Abriu uma garrafa.
– Sou o maior escritor do mundo – ele disse. – Você sabe como isso é difícil?
Margie não respondeu.
– Posso sentir a dor rastejando por todo o meu corpo. É como uma segunda pele. Queria poder me livrar dessa pele como uma cobra.
– Bem, por que você não se deita no tapete e tenta?
– Escute – ele perguntou –, onde foi que a conheci?
– Na Bodega do Barney.
– Bem, isso explica um pouco as coisas. Beba uma cerveja.
Carl abriu uma garrafa e lhe entregou.
– É... – disse Margie – eu sei. Você precisa do seu isolamento. Você precisa ficar sozinho. Exceto quando quer trepar, ou exceto quando nos separamos, então você me liga. Diz que precisa de mim. Diz que está morrendo por causa de uma ressaca. Você enfraquece rápido.
– Enfraqueço rápido.
– E fica tão inerte quando estou por perto, nunca se excita. Vocês escritores são tão... preciosos... não suportam pessoas. A humanidade fede, certo?
– Certo.
– Mas toda vez que nos separamos você começa a fazer festas gigantes que duram quatro dias. E de repente você acorda, começa a FALAR! De repente fica cheio de vida, falando, dançando, cantando, dança em cima da mesa de café, joga garrafas pela janela, encena trechos de Shakespeare. De repente, você está vivo... quando estou longe. Ah, fiquei sabendo de tudo!
– Não faço festas. Odeio ainda mais as pessoas nas festas.
– Para um sujeito que não gosta de festas, certamente você organiza um bocado delas.
– Escute, Margie, você não entende. Não consigo mais escrever. Estou acabado. Em algum lugar tomei uma trajetória errada. Em algum momento, morri durante a noite.
– O único jeito de você morrer é numa dessas suas ressacas gigantescas.
– Jeffers diz que até mesmo o mais forte dos homens fica encurralado.
– Quem foi Jeffers?
– Foi o sujeito que transformou Big Sur numa armadilha para turistas.
– O que você ia fazer essa noite?
– Ia ouvir as músicas de Rachmaninoff.
– Quem é?
– Um russo que já morreu.
– Olha para você. Fica aí sentado.
– Estou esperando. Alguns sujeitos esperam por dois anos. Às vezes a coisa nunca volta.
– E se nunca voltar?
– Apenas vestirei meus sapatos e descerei até a rua principal.
– Por que não arranja um emprego decente?
– Não existem empregos decentes. Se um escritor não consegue sucesso através da criação, está morto.
– Ah, para com isso, Carl! Existem bilhões de pessoas no mundo que não atingem o sucesso pela criação. Quer me dizer que elas estão mortas?
– Sim.
– E você tem uma alma? Você é um dos poucos que tem uma alma?
– Diria que sim.
– Diria que sim! Você e a sua maquininha de escrever! Você e os seus cheques mirrados! Minha avó ganha mais dinheiro do que você!
Carl abriu outra garrafa de cerveja.
– Cerveja! Cerveja! Você e a porra da sua cerveja! Isso está nas suas histórias também. “Marty ergueu sua cerveja. Quando levantou os olhos, uma tremenda loira entrou no bar e sentou ao seu lado...” Você está certo. Está acabado. Seu material é limitado, muito limitado. Você não consegue escrever uma história decente de amor.
– Você está certa, Margie.
– Se um homem não consegue escrever uma história de amor, ele é um inútil.
– Quantas você já escreveu?
– Não digo que sou uma escritora.
– Mas – disse Carl – você parece posar como uma crítica literária infernal.
Margie, depois disso, foi logo embora. Carl ficou sentado e bebeu o resto das cervejas. Era verdade, a escrita o havia deixado. Isso deixaria algum de seus inimigos do subsolo felizes. Eles poderiam aumentar em um tento a marca dos inimigos abatidos. A morte os agradava, em cima ou embaixo da terra. Lembrou-se de Endicott, Endicott sentado, dizendo:
– Bem, Hemingway se foi, Dos Passos se foi, Patchen se foi, Pound se foi, Berryman pulou daquela ponte... as coisas estão parecendo cada vez melhores.
O telefone tocou. Carl atendeu.
– Sr. Gantling?
– Sim – ele respondeu.
– Gostaríamos de saber se você estaria interessado em uma leitura de algum dos seus trabalhos na Faculdade Fairmount.
– Bem, sim, qual a data?
– No dia 30 do próximo mês.
– Acho que não tenho nada marcado para esse dia.
– Nosso pagamento geralmente é de cem dólares.
– Geralmente recebo 150. Ginsberg ganha mil.
– Mas ele é Ginsberg. Podemos oferecer apenas cem.
– Tudo bem.
– Bom, sr. Gantling. Enviaremos os detalhes para você.
– E o transporte? Dirigir até aí não é pouca coisa.
– Ok, 25 dólares pela viagem.
– Ok.
– Gostaria de falar com os estudantes em suas classes?
– Não.
– Oferecemos um almoço grátis.
– Vou aceitar o almoço.
– Bom, sr. Gantling, estaremos esperando para vê-lo em nosso campus.
– Nos falamos.
Carl foi até o quarto. Olhou para a máquina de escrever. Colocou uma folha de papel no rolo, então observou uma garota com uma minissaia surpreendentemente curta cruzar pela frente de sua janela. Depois começou a escrever:
“Margie ia sair com um sujeito, mas, no caminho, esse sujeito encontrou com outro que vestia um casaco de couro e o sujeito com casaco de couro abriu o casaco de couro e mostrou as tetas e o outro sujeito foi até a casa de Margie e disse que não poderia mais ir ao encontro, porque esse sujeito, vestindo um casaco de couro, havia lhe mostrado as tetas...”
Carl ergueu sua cerveja. Era bom voltar a escrever.

Charles Bukowski, em Ao Sul de Lugar Nenhum

11/10/2026

Soberano Sons da Alma - Entrevistas | César Camargo Mariano

A uma senhora

Na idade em que eu brincando entre os pastores,
Andava pela mão e mal andava,
Uma ninfa comigo então brincava
Da mesma idade e bela como as flores.

Eu com vê-la sentia mil ardores;
Ela punha-se a olhar e não falava;
Qualquer de nós podia ver que amava,
Mas quem sabia então que eram amores?

Mudar de sítio à ninfa já convinha,
Foi-se a outra ribeira; e eu só, naquela
Fiquei sentindo a dor que n’alma tinha,

Eu cada vez mais firme, ela mais bela;
Não se lembra ela já de que foi minha,
Eu ainda me lembro que sou dela!…

Basílio da Gama, em A poesia é necessária