08/07/2026

Belle Mottini | O Novo Sempre Vem

 

Pergunta de uma pequena menina

A Raquel, minha filha, tinha pouco mais de dois anos. Entrou no meu quarto e me sacudiu até que eu acordasse. Aí ela me olhou e fez a pergunta que a atormentava e a tirara da cama. “Papai, quando você morrer vai sentir saudades?”. Tão pequena e já sabia que uma grande separação nos aguarda! Onde ela aprendera aquilo? Ela nunca tivera experiência alguma com a morte! Talvez a consciência da morte já nasça conosco, não sendo coisa que se precisa aprender. Mais do que isso: ela sabia que morrer é ir para muito longe, para o lugar onde mora a saudade sem retorno. Ter de morrer é estar condenado à saudade... Fiquei mudo de espanto, não sabia o que dizer. Ela então me salvou da minha perplexidade. “Não chore. Eu vou te abraçar...”, ela me disse como consolo. Esse incidente me levou a escrever a estória A montanha encantada dos gansos selvagens, em que esse diálogo é preservado.

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

1629 – Comarca de Repocura



Para dizer adeus

Lua após lua, passou o tempo. É muito o que Francisco escutou e aprendeu nestes meses de cativeiro. Conheceu, e algum dia a escreverá, a outra versão desta longa guerra do Chile, justa guerra que os índios moveram contra os que os enganaram e ofenderam e tiveram como escravos, e pior ainda.
No bosque, ajoelhado na frente de uma cruz feita de galhos, Francisco reza orações de gratidão. Esta noite empreenderá o caminho até o forte do Nascimento. Lá será trocado por três chefes araucanos prisioneiros. Viajará protegido por cem lanças.
Caminha, agora, até o rancho. Debaixo do cipoal, o espera um círculo de ponchos esfarrapados e rosto de barro. De boca em boca anda a chicha de morango ou de maçã.
O venerável Tereupillán recebe o galho de canela, que é a palavra, e erguendo-o dedica uma longa alabanca a cada um dos caciques presentes. Elogia depois Maulicán, guerreiro bravio, que na batalha obteve um preso tão valioso e soube guardá-lo vivo.
Não é de corações generosos – diz Tereupillán – tomar a vida a sangue-frio. Quando nós tomamos as armas contra os espanhóis tiramos que perseguidos e vexados nos tinham, só nas batalhas não senti compaixão por eles. Mas depois, quando cativos os via, grande dor e pena me causavam e machucada a alma me tinham, que verdadeiramente não odiávamos suas pessoas. Suas cobiças, sim. Suas crueldades, sim. Suas soberbas, sim.
E virando para Francisco, diz:
E tu, capitão, amigo e companheiro, que te ausentas de nós e nos deixas machucados, tristes e sem consolo, não nos esqueça.
Tereupillán deixa cair o ramo de canela no centro do círculo e os araucanos despertam a terra, golpeando-a com os pés.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

A pedidos

Querem um verso,
mas não sou capaz.
Vejo a palavra fraturar
as entrelinhas,
tento soldá-las,
mas não são minhas.
Rompeu-se o verbo
e me deixou pra trás.

Flora Figueiredo, em Amor a céu aberto

Tamam Shod

Ontem chegamos de Teerã. Quinhentos quilômetros de areais, povoados mortos, postos de caravanas em ruínas, as formas caprichosas da meseta iraniana. Estávamos cansados e, excitados. Um banho e um bom chá no Shah Abban, e saímos a caminhar.. Jardins, avenidas, cúpulas, minaretes. Em Isfahan a noite é feérica, o céu é perfeito.
Quando regressamos ao hotel, extenuados e felizes, conversamos até que o sono nos venceu.
Sonhei que no centro da prodigiosa cúpula da mesquita Lutfullah estava escondido um rubi de virtudes mágicas. O judicioso que pára justamente debaixo dele, guarda silêncio e prende a respiração, recebe a visão de um tesouro, assim como a indicação do lugar onde ele se encontra. Sua existência não pode ser definida nem se deve tentar sua posse, pois quem ousar se transforma em madeira, a madeira em nuvem, a nuvem em pedra e a pedra se quebra em mil pedaços. O rubi proporciona deleite ou assombro, mas não autoriza o enriquecimento.
De manha voltamos a Meidan e Shah. Visitamos o palácio Ali Qapu desde seus últimos corredores até a sala de música.
Surpreenderam-me as escadarias com degraus demasiadamente altos e incrivelmente estreitos. Alguém explicou que era para impedir o acesso aos cavalos inimigos.
Enquanto Melania se demorava no terraço que dá para a antiga quadra de pólo (a mais bela praça do mundo), não resisti mais. Cruzei até a Lutfullah, coloquei-me bem debaixo do conjunto da cúpula, fiquei em silêncio e contive a respiração. Uma luz ocre peneirava todos os matizes. Subitamente — meu Deus! — O tesouro era surpreendente, de inúmeras riquezas, perto, fácil de obter, entre as ruínas de um dos antigos mirantes ou pombais, ou casas de prazer fora da cidade. A visão me foi concedida em um segundo interminável de vertiginoso esplendor.
Regressei a Ali Qapu. Percorremos a mesquita das Sextas-Feiras, cruzamos a velha ponte de trinta e tantos arcos...
Terminarei estas notas ou me pulverizarei na pedra?

Roy Bartholomew, em Livro de Sonhos, de Jorge Luis Borges

Conversa muito louca




Você foi convidado para a ceia dos cardeais?
Fui, mas não vou. Tenho outro programa.
Já sei. Os fidalgos da casa mourisca.
Não. Vou ver a dança sobre o abismo.
Pois eu estarei lá com as mulheres de mantilha.
Ué, não leva o demônio familiar?
Pois sim. Deixo ele na barca dos homens.
Bem bolado. Mas eu, infelizmente, tenho de sair com a ré misteriosa. Você sabe: os interesses da companhia.
Vem cá. No fundo, isso não é ilusão americana?
Que nada. Você não diria isso se ouvisse as confissões de frei Abóbora.
O quê? Foi apurado o crime do estudante Batista?
Por enquanto, não. Só o do padre Amaro.
Mas isso é velho. O exorcista contou tudo na televisão, e os cinegrafistas penetraram na montanha mágica.
Mas o dr. Jivago escapou.
Pudera. Se escondeu no chapadão do bugre.
É a tal coisa. As ligações perigosas conduzem direto aos subterrâneos da liberdade.
Besteira. Os sequestrados de Altona também escapavam sem que ninguém percebesse isso no gabinete do dr. Caligari.
É, mas os cavalinhos de Platiplanto estavam selados, à espera deles. Assim é fácil.
Cosi è se vi pare.
Lá vem você com citações. Não sabe que les jeux sont faits, en attendant Godot, e que to paint is to love again?
Desculpe. É que eu vivo conjugando amar, verbo intransitivo.
Pois devia olhar menos para o corpo de baile e mais para toda a América.
A questão é que chega hoje o rajá de Pendjab e não está aí o primo Altamirando para recebê-lo.
Por que não chama o coronel e o lobisomem para hospedá-lo?
Não posso. Desde que um deus dormiu lá em casa, tenho sempre uma ala reservada para o conde e o passarinho.
Absalão! Absalão! Meu quarto de hóspedes não mede mais que dois metros e cinco. Seria recusado pela condessa Hermínia.
Mas você descolou uma nota firme naquela concorrência da ponte de São Luís Rei.
E daí? Evaporei tudo com as pupilas do senhor reitor.
Ah, essas flores do mal!
Que se há de fazer? São os ossos do barão.
Mas sempre deve ter sobrado algum, no baú de ossos.
Mudemos de assunto. Não estou aqui para bancar Simão, o patético.
Tá bom. Tem visto a Clara d’Ellébeuse?
Fugiu com o Juca Mulato, não sabia?
Muito me contas. E Iaiá Garcia, continua em Búzios com a Lúcia McCartney?
Ouvi dizer que se separaram. Fogo morto.
Hum… Com que então, a Morgadinha de Valflor, hem?
É, parece que aderiu ao rei da vela.
Quer dizer: uniu o feijão e o sonho.
Para viver um grande amor no país das pedras verdes, isto é, na Zona Sul.
Ai de ti, Copacabana!
Por quê? Solness, o construtor, garante que aquilo ali não cai tão cedo.
E você acredita? Ainda ontem, a Maroquinhas Frufru me contou que o interceptor oceânico…
Até que não cheira mal. Os velhos marinheiros sabem de cor a geringonça carioca.
Dá para ouvir solo de clarineta?
Claro, executando a sinfonia pastoral, em arranjo de João Ternura. Mas que é isso? Que turma é aquela?
Aquela? Disfarça, e vamos saindo. São os irmãos Karamázov!

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

05/07/2026

Caetano Veloso e Carminho | Você-Você

Inverno europeu

Daqui é mais difícil: país estrangeiro, onde o creme de leite é desconjunturado e a subjetividade se parece com um roubo inicial. Recomendo cautela. Não sou personagem do seu livro e nem que você queira não me recorta no horizonte teórico da década passada. Os militantes sensuais passam a bola: depressão legítima ou charme diante das mulheres inquietas que só elas? Manifesto: segura a bola; eu de conviva não digo nada e indiscretíssima descalço as luvas (no máximo), à direita de quem entra.

Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés

Anésia, a Sincera

Terra de monstros

No seu livro A história natural dos sentidos, Diane Ackerman especula sobre o que um visitante de outra galáxia pensaria do que comemos. Se o extraterrestre resolvesse dar um jantar de confraternização na nave-mãe para representantes de todos os povos da Terra, teria dificuldade em organizar o menu e mais dificuldade ainda em conter a ânsia de vômito.
Sendo um ser perfeito que se alimenta só de luz líquida, como todos os alienígenas hipotéticos, nosso visitante não entenderia como os alemães conseguem comer repolho azedo com tanta alegria, por que os americanos chamam o pepino estragado de pickles e o comem com tudo, os franceses esperam o peixe apodrecer antes de comê-lo e os japoneses nem esperam o peixe morrer. E por que todos se entusiasmam com um fungo que chamam de champignon e entram em êxtase com outro chamado “trufa”, que é encontrado embaixo da terra por porcos. Mas o que realmente faria o extraterrestre correr para o banheiro da nave seria descobrir que os terrestres espremem um líquido branco e gorduroso das glândulas mamárias de um animal chamado “vaca” — e o bebem! De volta do banheiro, nosso anfitrião talvez se deparasse com um italiano destrinchando um passarinho com os dentes e tivesse que sair correndo outra vez.
O visitante não acharia nada de mais com o pão, o alimento mais simples e são do homem. Mas ouviria o alemão contar que o pão pumpernickel tem este nome porque pumper quer dizer “pum” e Nickel quer dizer o diabo, e que o pão é tão duro que até o diabo solta puns ao tentar comê-lo. Isto, aliado ao queijo bolorento e fedorento que o francês trouxe para comer com o pão, levaria nosso extraterreno a tomar uma decisão súbita. Expulsar todo mundo da nave e voltar voando para a sua galáxia translúcida, longe desta Terra de monstros.

Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora

Acerca da conduta

Como se comportou até então perante os deuses, seus pais, irmãos, filhos e professores e perante aqueles que viram você crescer — seus amigos, parentes e escravos? Reflita se sua conduta é digna do ditado: “Nunca ofendeu ninguém com ações ou palavras.”
Recorde-se de tudo que passou e suportou; das belezas que viu; dos prazeres e das dores que desprezou; das honrarias que rejeitou; das tantas vezes que se mostrou amável para pessoas mal-intencionadas. Lembre-se que a história da sua vida está completa e que seu serviço acabou.

Marco Aurélio, em Meditações

Factótum — 17



17

Trabalhei tempo suficiente para juntar dinheiro e comprar uma passagem para longe daquele lugar, mais uns dólares para poder me estabelecer. Pedi demissão, peguei um mapa dos Estados Unidos e dei uma boa olhada. Decidi ir para Nova York.
Coloquei cinco garrafinhas de uísque na minha mala e peguei o ônibus. Sempre que alguém sentava do meu lado e começava a falar, eu pegava uma garrafa e tomava um longo gole. Enfim, cheguei.
A rodoviária de Nova York ficava perto da Times Square. Andei pela rua com minha mala velha. Estava anoitecendo. As pessoas saíam das estações do metrô como um enxame. Tipo insetos, sem rosto e enlouquecidos, se apressavam na minha direção, contra mim e por todos os lados, de forma intensa. Se empurravam e faziam sons horríveis.
Me encostei no batente de uma entrada e terminei a última garrafinha de uísque.
Aí segui andando, sendo empurrado, acotovelado, até que vi um letreiro anunciando quartos vagos na Third Avenue. A responsável era uma senhora judia idosa.
Eu preciso de um quarto — disse a ela.
Você precisa de um bom terno, meu rapaz.
Estou liso.
Eu tenho um, quase de graça. Meu marido tem uma alfaiataria do outro lado da rua. Venha comigo.
Paguei pelo quarto e coloquei a mala no andar de cima. Atravessei a rua com a senhora.
Herman, mostre o terno ao rapaz.
Ah, é um terno bonito. — Herman o trouxe; era azul-escuro, um pouco gasto.
Parece pequeno.
Não, não, vai ficar bom.
Ele saiu de trás do balcão com o terno.
Pegue, experimente. — Herman me ajudou a vestir o paletó. — Viu só? Serviu… Quer experimentar a calça? — Segurou a calça na minha frente, da cintura até os pés.
Parece bom.
Dez dólares.
Estou liso.
Sete.
Dei os sete dólares ao Herman e levei o meu terno para o quarto. Saí atrás de uma garrafa de vinho. Quando voltei, tranquei a porta, tirei a roupa e me preparei para a primeira noite de sono decente depois de um bom tempo.
Fui para a cama, abri a garrafa, dobrei o travesseiro nas costas, respirei fundo e fiquei sentado no escuro, olhando pela janela. Era a primeira vez que eu estava sozinho em cinco dias. Eu era um cara que me dava bem na solidão; sem isso eu era como outro qualquer sem comida ou água. Cada dia sem solidão me enfraquecia. Eu não tinha orgulho da minha solidão, mas era dependente dela. A escuridão do quarto era como luz do sol para mim. Tomei um gole do vinho.
De repente o quarto se iluminou. Ouvi um estrondo metálico. O metrô elevado passava na frente da minha janela. Um dos trens parou ali. Olhei para uma fileira de rostos nova iorquinos que me encaravam. O trem ficou um pouco ali, depois partiu. Escureceu. Então o quarto se iluminou de novo. Outra vez, olhei para os rostos. Parecia uma visão do inferno se repetindo de forma infinita. Cada carga de gente era mais feia, demente e terrível do que a anterior. Outro gole.
Seguiu assim: escuro, depois claro; claro, depois escuro. Terminei o vinho e fui comprar mais. Voltei, tirei a roupa e fui para a cama. A chegada e partida dos rostos continuava; senti que aquilo era como uma visão. Estava recebendo a visita de centenas de demônios que nem o Diabo queria. Mais outro gole.
Aí resolvi levantar e tirei o terno novo do armário. Ao tentar me enfiar no paletó, percebi que estava apertado; parecia menor que o do alfaiate. De repente, ouvi um som de rasgo. O paletó abriu por completo nas costas. Tirei o que havia restado dele. Pelo menos ainda tinha as calças. Enfiei as pernas. Em vez de zíper na frente, a calça tinha botões; enquanto eu tentava fechá-los, a costura abriu no traseiro. Passei a mão por trás, e senti a cueca.

Charles Bukowski, em Factótum

04/07/2026

Gonzaguinha | Pacato Cidadão

Reza para as quatro almas de Fernando Pessoa

Da belíssima “Ode à noite antiga”
resulta que eu entendo, limpo de esforço
e vaidade, se nos fosse possível:
da oração verdadeira nasce a força.
Ninguém se cansa de bondade e avencas.
Os rebanhos guardados guardam o homem.
Todos que estamos vivos morreremos.
Não é para entender que nós pensamos,
é para sermos perdoados.
Pai nosso, criador da noite, do sonho,
do meu poder sobre os bois,
eis-me, eis-me.

Adélia Prado, em Bagagem

Capítulo 65 – Olheiros e Escutas



Interrompeu-nos o rumor de um carro na chácara. Veio um escravo dizer que era a baronesa X. Virgília consultou-me com os olhos.
Se a senhora está assim com dor de cabeça, disse eu, parece que o melhor é não receber.
Já se apeou? perguntou Virgília ao escravo.
Já se apeou; diz que precisa muito de falar com sinhá!
Que entre!
A baronesa entrou daí a pouco. Não sei se contava comigo na sala; mas era impossível mostrar maior alvoroço.
Bons olhos o vejam! explodiu ela. Onde se mete o senhor que não aparece em parte nenhuma? Pois olhe, ontem admirou-me não o ver no teatro. A Candiani esteve deliciosa. Que mulher! Gosta da Candiani? E natural. Os senhores são todos os mesmos. O barão dizia ontem, no camarote, que uma só italiana vale por cinco brasileiras. Que desaforo! e desaforo de velho, que é pior. Mas por que é que o senhor não foi ontem ao teatro?
Uma enxaqueca.
Qual! Algum namoro; não acha, Virgília? Pois, meu amigo, apresse-se, porque o senhor deve estar com quarenta anos... ou perto disso... Não tem quarenta anos?
Não lhe posso dizer com certeza, respondi eu; mas se me dá licença vou consultar a certidão de batismo.
Vá, vá... E estendendo-me a mão: – Até quando?
Sábado ficamos em casa; o barão está com umas saudades suas...
Chegando à rua, arrependi-me de ter saído. A baronesa era uma das pessoas que mais desconfiavam de nós. Cinquenta e cinco anos, que pareciam quarenta, macia, risonha, vestígios de beleza, porte elegante e maneiras finas. Não falava muito nem sempre; possuía a grande arte de escutar os outros, espiando-os; reclinava-se então na cadeira, desembainhava um olhar afiado e comprido, e deixava-se estar. Os outros, não sabendo o que era, falavam, olhavam, gesticulavam, ao tempo que ela olhava só, ora fixa, ora móbil, levando a astúcia ao ponto de olhar às vezes para dentro de si, porque deixava cair as pálpebras; mas, como as pestanas eram rótulas, o olhar continuava o seu oficio, remexendo a alma e a vida dos outros.
A segunda pessoa era um parente de Virgília, o Viegas, um cangalho de setenta invernos, chupado e amarelado, que padecia de um reumatismo teimoso, de uma asma não menos teimosa e de uma lesão do coração: era um hospital concentrado. Os olhos porém luziam de muita vida e saúde. Virgília, nas primeiras semanas, não lhe tinha medo nenhum; dizia-me que, quando o Viegas parecia espreitar, com o olhar fixo, estava simplesmente contando dinheiro. Com efeito, era um grande avaro.
Havia ainda o primo de Virgília, o Luís Dutra, que eu, entretanto, agora desarmava à força de lhe falar nos versos e prosas, e de o apresentar aos conhecidos. Quando estes, ligando o nome à pessoa, se mostravam contentes da apresentação, não há dúvida que Luís Dutra exultava de felicidade; mas eu curava-me da felicidade com a esperança de que ele nos não de-nunciasse nunca. Havia, enfim, umas duas ou três senhoras, vários gamenhos, e os fâmulos, que naturalmente se desforravam assim da condição servil, e tudo isso constituía uma verdadeira floresta de olheiros e escutas, por entre os quais tínhamos de resvalar com a tática e maciez das cobras.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

O insofismável Laerte

Forma e conteúdo

Fala-se da dificuldade entre a forma e o conteúdo, em matéria de escrever; até se diz: o conteúdo é bom, mas a forma não etc. Mas, por Deus, o problema é que não há de um lado um conteúdo e de outro a forma. Assim seria fácil: seria como relatar através de uma forma o que já existisse livre, o conteúdo. Mas a luta entre a forma e o conteúdo está no próprio pensamento: o conteúdo luta por se formar. Para falar a verdade, não se pode pensar num conteúdo sem sua forma. Só a intuição toca na verdade sem precisar nem de conteúdo nem de forma. A intuição é a funda reflexão inconsciente que prescinde de forma enquanto ela própria, antes de subir à tona, se trabalha. Parece-me que a forma já aparece quando o ser todo está com o conteúdo maduro, já que se quer dividir o pensar ou escrever em duas fases. A dificuldade de forma está no próprio constituir-se do conteúdo, no próprio pensar ou sentir, que não saberiam existir sem sua forma adequada e às vezes única.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

O Mestre e Margarida | 9



Truques de Korôviev

Nikanor Ivânovitch Bossôi, presidente da associação de moradores do prédio nº 302-bis, à rua Sadôvaia, em Moscou, onde morava o finado Berlioz, estava terrivelmente atribulado, começando pela noite precedente, de quarta para quinta-feira.
À meia-noite, como já sabemos, uma comissão da qual Jeldýbin fazia parte chegou ao prédio, chamou Nikanor Ivânovitch, informou-o sobre a morte de Berlioz e, junto com ele, dirigiu-se para o apartamento número 50.
Ali, lacraram os manuscritos e os pertences do finado. Nem Grúnia, a empregada, que não morava lá, nem o leviano Stepán Bogdánovitch estavam no apartamento naquele momento. A comissão declarou a Nikanor Ivânovitch que os manuscritos do finado seriam levados para verificação, que sua parte da casa, ou seja, três cômodos (os antigos escritório, sala de visita e sala de jantar da mulher do joalheiro), ficaria à disposição da associação de moradores e que seus pertences deveriam ser guardados nessa área do apartamento até a reclamação dos herdeiros.
A notícia sobre o falecimento de Berlioz espalhou-se por todo o prédio com uma rapidez sobrenatural e, a partir de sete horas da manhã de quinta-feira, começaram a telefonar para Bossôi, e depois também a aparecer pessoalmente com declarações que continham a intenção de ocupar a parte da casa do finado. Em duas horas, Nikanor Ivânovitch recebeu trinta e duas declarações desse tipo.
Nelas, havia súplicas, ameaças, intrigas, denúncias, promessas de realizar reforma por conta própria, reclamações sobre o aperto insuportável e sobre a impossibilidade de viver num mesmo apartamento com bandidos. Entre outras coisas, havia uma descrição, estupenda por sua força artística, do roubo de pelmiêni1 do apartamento número trinta e um, que haviam sido colocados, como se fosse a coisa mais natural do mundo, no bolso de um paletó; havia duas promessas de acabarem com suas vidas por meio de suicídio e uma confissão de gravidez secreta.
Chamavam Nikanor Ivânovitch até a entrada do seu apartamento, agarravam-no pela manga, cochichavam-lhe alguma coisa, piscavam e prometiam pagar pelo favor.
Esse tormento prolongou-se até o meio-dia, quando Nikanor Ivânovitch simplesmente fugiu de seu apartamento para a sala de administração, próxima do portão, mas quando percebeu que também ali o espreitavam, fugiu de lá também. Mal conseguindo se livrar daquelas pessoas que estavam ao seu encalço pelo pátio de asfalto, Nikanor Ivânovitch escondeu-se na sexta entrada e subiu até o quinto andar, exatamente onde se localizava aquele asqueroso apartamento de número cinquenta.
Depois de conseguir se recompor, o gorducho Nikanor Ivânovitch tocou a campainha, mas ninguém lhe abriu a porta. Tocou de novo e de novo, e começou a resmungar e a xingar baixinho. Mesmo assim, não lhe abriram a porta. A paciência de Nikanor Ivânovitch se esgotou e, tirando do bolso um molho de cópias das chaves que pertenciam à administração do prédio, abriu a porta com uma mão soberana e entrou.
Ei, empregada! — gritou Nikanor Ivânovitch na penumbra da entrada do apartamento. — Como é mesmo seu nome? Grúnia, ou o quê? Você não está?
Ninguém respondeu.
Então, Nikanor Ivânovitch tirou da maleta uma trena dobrável, em seguida tirou o lacre da porta do escritório e avançou. Entrar, ele entrou, mas parou estupefato na soleira da porta e até estremeceu.
À mesa do finado, estava sentado um cidadão desconhecido, magricela e comprido, de paletozinho xadrez, bonezinho de jóquei e pincenê... bom, em resumo, aquele mesmo.
Quem seria o senhor, cidadão? — perguntou Nikanor Ivânovitch, assustado.
Ah! Nikanor Ivânovitch! — vociferou em um tenor de taquara rachada o inusitado cidadão e, levantando-se de um salto, cumprimentou o presidente com um aperto de mão forçado e súbito. Nikanor Ivânovitch não ficou nada contente com esse cumprimento.
Perdão — começou a falar ele, desconfiado —, quem seria o senhor? O senhor é representante oficial?
Oh, Nikanor Ivânovitch! — exclamou o desconhecido, afetuoso. — O que significa ser representante oficial ou não oficial? Tudo isso depende de que ponto de vista você olha para o objeto. Tudo isso, Nikanor Ivânovitch, é relativo e instável. Hoje sou um representante não oficial, mas amanhã, quem sabe, um oficial! Mas acontece também o contrário, e como acontece!
Esse argumento não satisfez de forma alguma o presidente da administração do prédio. Sendo em geral uma pessoa desconfiada por natureza, ele concluiu que o cidadão verborrágico que estava diante dele era justamente um representante não oficial, e talvez até um desocupado.
Mas quem seria o senhor? Qual é o seu sobrenome? — perguntava o presidente, de forma cada vez mais severa e começando a avançar em direção ao desconhecido.
Meu sobrenome — respondeu o cidadão, sem se intimidar com o tom severo —, bom, digamos que seja Korôviev. Mas não quer um tira-gosto, Nikanor Ivânovitch? Não faça cerimônia, hein?
Perdão — disse Nikanor Ivânovitch, agora indignado —, mas que tira-gosto que nada! — É preciso reconhecer, mesmo que isso seja desagradável, que Nikanor Ivânovitch era um pouco grosseiro por natureza. — É proibido ficar nos aposentos do finado! O que o senhor está fazendo aqui?
Queira se sentar, Nikanor Ivânovitch — vociferou o cidadão, sem ficar nem um pouquinho perplexo, e começou a rodopiar, oferecendo uma poltrona ao presidente.
Tomado de fúria, Nikanor Ivânovitch recusou a poltrona e berrou:
Mas quem é o senhor?
Permita-me que eu me apresente. Estou aqui na qualidade de intérprete de um senhor estrangeiro, que reside nesse apartamento — apresentou-se aquele que dizia se chamar Korôviev, e bateu com o salto de sua botina castanho-avermelhada, toda suja.
Nikanor Ivânovitch ficou boquiaberto. A presença de um estrangeiro, ainda mais com um intérprete, naquele apartamento era para ele uma verdadeira surpresa que exigia explicações.
O intérprete explicou-se de bom grado. O senhor Woland, artista estrangeiro, fora gentilmente convidado pelo diretor do Teatro de Variedades, Stepán Bogdánovitch Likhodiêiev, a passar o tempo de sua turnê, por volta de uma semana, em seu apartamento, sobre o qual o mesmo havia escrito a Nikanor Ivânovitch ainda ontem, com a solicitação de registrar o estrangeiro como morador temporário, enquanto o próprio Likhodiêiev estivesse em viagem a Ialta.
Ele não me escreveu nada — disse o presidente, admirado.
E se o senhor procurar bem em sua pasta, Nikanor Ivânovitch? — propôs Korôviev, docemente.
Nikanor Ivânovitch deu de ombros, abriu a pasta e encontrou uma carta de Likhodiêiev.
Mas como é que pude me esquecer dela? — balbuciou Nikanor Ivânovitch, olhando para o envelope aberto, abobalhado.
Isso acontece, Nikanor Ivânovitch, isso acontece! — pôs-se a tagarelar Korôviev. — Distração, distração, estafa, hipertensão arterial, meu querido Nikanor Ivânovitch! Eu mesmo sou terrivelmente distraído. Um dia desses, a gente toma umas e contarei alguns fatos de minha biografia, o senhor vai morrer de rir!
Quando é mesmo que ele viaja para Ialta?
Ele já foi, foi embora! — gritou o intérprete. — Sabe, ele já está a caminho! Só o diabo sabe onde ele está! — Então o intérprete começou a agitar os braços como se fossem as asas de um moinho.
Nikanor Ivânovitch alegou que precisava ver o estrangeiro pessoalmente, mas recebeu uma resposta negativa do intérprete: era totalmente impossível. Ele está ocupado. Amestrando o gato.
Posso mostrar o gato, caso deseje — propôs Korôviev.
Foi a vez de Nikanor Ivânovitch recusar, e imediatamente o intérprete fez uma proposta inusitada mas bem interessante ao presidente.
Visto que o senhor Woland não desejava se hospedar em um hotel de jeito nenhum, e estava acostumado a viver em lugares espaçosos, será que a associação de moradores não poderia alugar para Woland o apartamento todo, ou seja, incluindo os cômodos do finado, por uma semaninha, enquanto durasse sua turnê em Moscou?
Afinal, para o finado é indiferente — sibilou Korôviev, sussurrando. — O senhor há de concordar, Nikanor Ivânovitch, de que serve esse apartamento para ele agora?
Nikanor Ivânovitch retrucou, com certa perplexidade, que os estrangeiros deveriam se hospedar no Metropol, nunca em apartamentos particulares...
Estou lhe dizendo, ele é teimoso como o diabo! — pôs-se a sussurrar Korôviev. — Não quer e pronto! Não gosta de hotéis! Estou por aqui desses turistas estrangeiros! — queixou-se Korôviev, em tom íntimo, cutucando seu pescoço nodoso com o dedo. — Acredite, encheram minha paciência! Eles vêm e ficam espionando como o pior filho da puta, ou amolando com seus caprichos: não faz assim, não é assado!.. Mas, para sua associação, Nikanor Ivânovitch, é uma verdadeira vantagem e lucro certo. Dinheiro não é problema para ele. — Korôviev olhou para os lados e em seguida cochichou no ouvido do presidente: — É milionário!
Na proposta do intérprete, havia um sentido prático claro, a proposta era muito concreta, mas havia algo incrivelmente inconcreto na sua maneira de falar, em sua roupa, e naquele pincenê repulsivo e que não servia para nada. Por conta disso, algo nebuloso angustiava o espírito do presidente, mas mesmo assim ele resolveu aceitar a proposta. A questão é que a associação de moradores enfrentava, que coisa, um deficit considerável. Até o outono seria necessário comprar combustível para a calefação a vapor e ninguém sabia com que grana. Mas com o dinheiro do turista estrangeiro, quem sabe, daria para sobreviver. Porém, Nikanor Ivânovitch, homem de negócio precavido, alegou que, antes de tudo, teria de acertar a questão com a agência de turistas estrangeiros.
Eu compreendo! — gritou Korôviev. — Como não dar um jeitinho? Claro! Aqui está o telefone, Nikanor Ivânovitch, e veja se dá esse jeitinho imediatamente! Quanto ao dinheiro, não faça cerimônia — acrescentou, sussurrando, arrastando o presidente até o telefone, na entrada. — Se não dele, de quem mais pegar dinheiro? Se o senhor visse que vila ele tem em Nice! No próximo verão, se o senhor for para o exterior, faça-lhe uma visitinha, e ficará boquiaberto!
O negócio com a agência de turistas estrangeiros foi resolvido por telefone com extraordinária rapidez, o que deixou o presidente admirado. Revelou-se que lá já sabiam das intenções do senhor Woland de hospedar-se no apartamento particular de Likhodiêiev e não se manifestaram nem um pouco contra a ideia.
Maravilha! — vociferava Korôviev.
Um pouco aturdido com o estardalhaço do outro, o presidente alegou que a associação de moradores concordava em alugar o apartamento número cinquenta ao artista Woland por uma semana pelo preço de... Nikanor Ivânovitch hesitou um pouco e disse:
De quinhentos rublos por dia.
Então Korôviev deixou o presidente extremamente espantado. Piscando com ar de ladrão em direção ao quarto, de onde se ouviram os pulos leves de um gato pesado, ele sibilou:
Assim sendo, uma semana sai por três mil e quinhentos?
Nikanor Ivânovitch pensou que a isso ele acrescentaria: “Nossa, que ambição do senhor, Nikanor Ivânovitch!”, mas Korôviev falou algo totalmente diferente:
Mas até parece que isso é quantia que se peça! Peça cinco, e ele dará.
Perplexo, com um sorriso malicioso, Nikanor Ivânovitch, sem saber como, encontrava-se do lado da mesa do finado, onde Korôviev, com a maior rapidez e esperteza, redigiu um contrato em duas vias. Depois disso, foi voando com ele até o quarto, e quando voltou a assinatura corrida do estrangeiro constava em ambas as vias. O presidente também assinou o contrato. Então Korôviev pediu um recibo de cinco...
Por extenso, por extenso, Nikanor Ivânovitch! ... Mil rublos... — E, usando palavras que não combinam com um negócio sério, disse: — Eins, zwei, drei! — E entregou ao presidente cinco maços de cédulas novinhas.
A contagem foi feita, entremeada com piadinhas e ditos de Korôviev, como “negócio é negócio”, “o meu olho é mais esperto” e outras coisas do gênero.
Depois de contar o dinheiro, o presidente recebeu de Korôviev o passaporte do estrangeiro para o registro temporário, colocou-o na pasta junto com o contrato e o dinheiro, e não se conteve, pediu uma entrada gratuita, envergonhado...
Mas que pergunta! — rugiu Korôviev. — Quantos ingressos o senhor quer, Nikanor Ivânovitch? Doze, quinze?
Aturdido, o presidente explicou que ele só precisava de um par de entradas gratuitas, para ele e Pelagueia Antônovna, sua esposa.
Korôviev sacou um bloquinho e, num vapt-vupt, criou para Nikanor Ivânovitch uma entrada gratuita, na primeira fileira, para duas pessoas. Esperto, com a mão esquerda, o intérprete enfiou essa entrada em uma das mãos de Nikanor Ivânovitch e, com a direita, colocou na outra mão do presidente, com um estalo, um maço volumoso. Nikanor Ivânovitch deu uma olhada para o maço, ficou muito ruborizado e começou a afastá-lo.
Não está certo... — balbuciou ele.
Não vou nem ouvir — cochichou Korôviev bem no seu ouvido. — Para nós, não está certo, mas para os estrangeiros, está. O senhor vai ofendê-lo, Nikanor Ivânovitch, não fica bem. Afinal, o senhor fez o seu trabalho...
A punição é severa — cochichou o presidente, em voz baixinha, baixinha, e olhou à sua volta.
Mas onde estão as testemunhas? — cochichou Korôviev na outra orelha. — Estou perguntando, onde estão? O que há com o senhor?
Então aconteceu, como afirmava posteriormente o presidente, um milagre: o maço deslizou por si só e entrou na sua pasta. Depois, o presidente, um tanto debilitado e até esfacelado, encontrou-se na escada. Um turbilhão de pensamentos fervilhava em sua cabeça. Giravam pela vila em Nice, o gato amestrado e a ideia de que realmente não havia testemunhas e de que Pelagueia Antônovna ficaria feliz com as entradas. Eram pensamentos desconexos, mas, de um modo geral, agradáveis. No entanto, uma agulha cutucava o presidente em algum lugar no fundo de sua alma. Era uma agulha de desassossego. Além disso, ali mesmo na escada, um pensamento o apanhou de surpresa, como um golpe: “Como é que o intérprete foi parar no escritório se a porta estava lacrada? E como ele, Nikanor Ivânovitch, não perguntou sobre isso?” Nikanor Ivânovitch ficou olhando para os degraus da escada um tempo, com cara de tacho, mas depois resolveu deixar tudo isso pra lá e não se atormentar mais com essa questão tão complicada...
Assim que o presidente deixou o apartamento, uma voz grave veio voando do quarto:
Não gostei desse Nikanor Ivânovitch. É um tratante e vigarista. Seria possível fazer com que não volte mais?
Meu senhor, basta ordenar! — retorquiu Korôviev de algum lugar, não com a voz trêmula, mas sim clara e sonora.
No mesmo instante o maldito intérprete viu-se na entrada, discou um número e começou, sabe-se lá por quê, a falar muito choroso para o fone:
Alô! Considero um dever informar que o presidente da nossa associação de moradores do prédio nº 302-bis, na rua Sadôvaia, Nikanor Ivânovitch Bossôi, anda especulando com moeda estrangeira. Nesse exato momento, em seu apartamento, número trinta e cinco, no duto de ventilação do banheiro, há quatrocentos dólares embrulhados em jornal. Quem fala é o inquilino do prédio citado, do apartamento número onze, Timofiêi Kvastsôv. Mas suplico que mantenham o meu nome em segredo. Temo vingança por parte do presidente acima referido.
E o desgraçado desligou o aparelho!
O que mais ocorreu no apartamento número cinquenta não se sabe, mas sabe-se o que ocorreu no apartamento de Nikanor Ivânovitch. Ele se trancou no banheiro, puxou o maço que o intérprete lhe impingiu e se certificou de que havia quatrocentos rublos. Nikanor Ivânovitch embrulhou esse maço num pedaço de jornal e escondeu no duto da ventilação.
Dali a cinco minutos, o presidente estava à mesa em sua pequena sala de jantar. Sua esposa trouxe da cozinha arenque em conserva, cuidadosamente cortado e salpicado com muita cebolinha. Nikanor Ivânovitch serviu uma tacinha de vodca, bebeu, serviu uma segunda, bebeu, espetou com o garfo três pedaços de arenque... e, nesse momento, tocaram a campainha. Pelagueia Antônovna trouxe uma panela fumegante e bastava um só olhar para imediatamente adivinhar que, dentro dela, bem no meio de um borsch pegando fogo, havia aquilo que era a coisa mais deliciosa do mundo: osso com tutano.
Com água na boca, Nikanor Ivânovitch começou a rosnar como um cão:
Sumam daqui! Não me deixam comer em paz. Não deixe ninguém entrar, eu não estou, não estou. Quanto ao apartamento, diga que parem de bisbilhotar. Daqui a uma semana haverá reunião...
A esposa correu até a entrada; com uma concha, Nikanor Ivânovitch retirou-o do lago que cuspia fogo — ele, o osso, rachado no sentido do comprimento. Nesse instante, dois cidadãos entraram na sala de jantar, e com eles Pelagueia Antônovna, sabe-se lá por quê, muito pálida. Quando olhou para os cidadãos, Nikanor Ivânovitch também embranqueceu e levantou-se.
Onde fica a privada? — perguntou, com um ar apreensivo, o primeiro, que estava de kossovorôtka branca.
Alguma coisa caiu sobre a mesa da sala de jantar (foi Nikanor Ivânovitch que deixou a concha cair sobre o oleado).
Aqui, aqui — respondeu Pelagueia Antônovna, falando como uma metralhadora.
Os recém-chegados dirigiram-se imediatamente para o corredor.
Qual é o problema? — perguntou, baixinho, Nikanor Ivânovitch, e os seguiu. — Não pode haver nada de mais em nosso apartamento... Seus documentos... Perdão…
O primeiro mostrou os documentos a Nikanor Ivânovitch, sem parar, e o segundo, no mesmo instante, já estava de pé em um banquinho dentro do banheiro, com o braço enfiado no duto da ventilação. Tudo se turvou diante dos olhos de Nikanor Ivânovitch. Tiraram o jornal, mas no maço encontravam-se não rublos, e sim um dinheiro desconhecido, azul ou verde, com a imagem de um velho. No entanto, Nikanor Ivânovitch não viu nada disso direito, diante de seus olhos flutuavam umas manchas.
Dólares na ventilação — disse o primeiro, pensativo, e perguntou a Nikanor Ivânovitch, doce e gentilmente: — Seu pacotinho?
Não! — respondeu Nikanor Ivânovitch, com uma voz terrível. — Inimigos plantaram isso aí!
Isso acontece — concordou aquele, e acrescentou novamente, do mesmo jeito doce: — Bom, precisa entregar o resto.
Não tenho nada! Não tenho, juro por Deus, nunca esteve nas minhas mãos! — gritou o presidente desesperadamente.
Ele se precipitou até a cômoda, com estrondo puxou a gaveta e dela a pasta, gritando de forma desconexa:
Aqui está o contrato... o intérprete nojento que tramou... Korôviev, de pincenê!
Ele abriu a maleta, olhou dentro, enfiou a mão, seu rosto ficou lívido e ele deixou a maleta cair no borsch. Não havia nada na maleta: nem a carta de Stiôpa, nem o contrato, nem o passaporte do estrangeiro, nem o dinheiro, nem as entradas gratuitas. Resumindo, nada além de uma trena dobrável.
Camaradas! — gritou o presidente, exaltado. — Peguem-nos! Espíritos impuros estão no nosso prédio!
Então não se sabe o que deu em Pelagueia Antônovna, mas ela ergueu as mãos e gritou:
Confesse, Iványtch! Você terá redução da pena!
Com os olhos injetados de sangue, Nikanor Ivânovitch ergueu os punhos sobre a cabeça da mulher, rouquejando:
Oh, maldita idiota!
Então ele se sentiu fraco e deixou-se cair em uma cadeira, pelo visto resolvido a aceitar o inevitável.
Nesse momento, no patamar da escada, Timofêi Kondrátievitch Kvastsôv punha às vezes uma orelha, às vezes um olho, no buraco da fechadura da porta do apartamento do presidente, não se aguentando de tanta curiosidade.
Dali a cinco minutos, os inquilinos do prédio, que estavam no pátio, viram quando o presidente, na companhia de mais dois tipos, foi direto até o portão do prédio. Dizem que Nikanor Ivânovitch estava mais pálido do que um defunto, que cambaleava, como um bêbado, quando passou, e que balbuciava algo.
E, dali a uma hora, um cidadão desconhecido apareceu no apartamento número onze, no mesmo momento em que Timofêi Kondrátievitch contava a outros inquilinos, exultando de prazer, como deram uma rasteira no presidente e, com o dedo, chamou a atenção de Timofêi Kondrátievitch da cozinha até a entrada, disse-lhe algo e sumiu junto com ele.

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida

03/07/2026