16/10/2026

Alfredo Rodriguez and friends | The Black Room Sessions

 

O próprio homem

Está se tornando cada vez mais óbvio que não é a fome, nem os micróbios, nem o câncer, mas o próprio homem o maior perigo para a Humanidade, porque ele não dispõe de proteção adequada contra epidemias psíquicas, infinitamente mais devastadoras, em seus efeitos, do que as maiores catástrofes naturais.

C. G. Jung, em O Homem Moderno em Busca de uma Alma

Prova

Olha,
Entre um pingo e outro
A chuva não molha.

Millôr Fernandes, em Poemas

Let ’Em In | Paul McCartney e Linda McCartney

 


Let ’Em In, de Paul McCartney e Linda McCartney
Lançamento: At the Speed of Sound, 1976
Single, 1976

Someone’s knocking at the door
Somebody’s ringing the bell
Someone’s knocking at the door
Somebody’s ringing the bell
Do me a favour
Open the door and let ’em in
Let ’em in

Sister Suzy, Brother John
Martin Luther, Phil and Don
Brother Michael, Auntie Jin
Open the door and let ’em in
Oh yeah

Sister Suzy, Brother John
Martin Luther, Phil and Don
Uncle Ernie, Auntie Jin
Open the door and let ’em in
Oh yeah, yeah

Someone knocking at the door
Somebody ringing the bell
Someone’s knocking at the door
Somebody’s ringing the bell
Do me a favour
Open the door and let ’em in
Oh yeah, yeah, let ’em in now

Sister Suzy, Brother John
Martin Luther, Phil and Don
Uncle Ernie, Uncle Ian
Open the door and let ’em in
Yeah, yeah

Someone’s knocking at the door
Somebody’s ringing the bell
Someone’s knocking at the door
Somebody’s ringing the bell
Do me a favour
Open the door and let ’em in
Yeah, yeah, yeah, yeah, yeah

Um presentinho de Natal, daqueles de colocar dentro das meias natalinas. É assim que eu encaro algumas canções. É uma lembrancinha divertida, mas não é o seu principal presente de Natal. Se me bate um certo perfeccionismo e eu me pego a pensar: “Esta não é uma de minhas grandes canções”, isso muitas vezes me deixa um pouquinho decepcionado com ela. Eu me lembro de que fiquei bem deprimido com uma canção chamada “Bip Bop” e pensei: “Meu Deus, como é que eu consegui ser tão banal?”. Até que uma vez comentei isso com o produtor Trevor Horn, que produziu gente como Frankie Goes to Hollywood, Grace Jones e muitos artistas legais, e ele me disse: “Esta é uma de minhas favoritas de sua autoria!”. E assim consegui enxergar o que ele viu nela, que é o que eu vi quando a escrevi e quis gravá-la, então ele me fez sentir melhor em relação a isso.
“Someone’s knocking at the door / Somebody’s ringing the bell” – na minha imaginação isso está acontecendo em Liverpool. Algum tipo de festa. Quando estávamos na Jamaica, todos os jamaicanos chamavam Linda, só porque ela era loira: “Ei, Suzy, Suzy!”. Para eles, uma mulher loira e branca era “Suzy”. Então, Linda formou um grupo e se autodenominou Suzy and the Red Stripes, o nome da marca de cerveja. Então, “Sister Suzy” é a Linda. “Brother John” pode ser o irmão dela, John Eastman, ou John Lennon. “Martin Luther” é Martin Luther King Jr., “Phil e Don” são os Everly Brothers; e daí você tem “Brother Michael”, então esse é meu irmão, ou talvez Michael Jackson – no ano anterior, tínhamos convidado The Jackson 5 para a festa do álbum Venus and Mars no Queen Mary. E então “Auntie Jin”, que se escreve com J em vez de G porque o nome da minha tia era Jane. Mas em Liverpool isso soava muito formal, então ela dizia: “Pode me chamar de Jinny”. Em seguida temos o “Uncle Ernie” – na verdade, o nome de meu primo era Ian, mas o pessoal o chamava de Ern. E a essa altura não estou muito preocupado. Estou só brincando com as palavras.“Uncle Ian”? Ah, qual é, pessoal, vocês nem estão prestando atenção direito. Não importa. Não existe um Tio Ian... e com certeza ele não era casado com a Tia Jin.
E a bizarrice das bizarrices: avance um milhão de anos e eu me caso com Nancy Shevell, cuja irmã se chama Susie e cujo irmão se chama Jon. Então, de repente, é sobre a família de Nancy que estou cantando: “Sister Suzy, Brother John”. É uma coincidência e tanto.
Foi sugerido que o “Martin Luther” (“Martinho Lutero”) da letra está associado a bater à porta, pregar os artigos de fé numa porta. Eu não estava ciente disso quando compus a canção, mas em termos de inconsciente coletivo talvez seja possível. Sem dúvida, as canções brotam mesmo de algum lugar misterioso. Na maioria das vezes, se você tiver sorte, as palavras e a música vêm juntas. Você só se senta ali e começa. Vai esboçando coisas com vários sons até que, por fim, ouve um breve fraseado que começa a funcionar. E basta se embrenhar nessa trilha. Como artistas, meio que sabemos instintivamente: se estivermos abertos a isso e se brincarmos o suficiente com esse conjunto de palavras ou notas, isso vai dar resultado. Algo vai chegar. Sem que você nem ao menos tenha de convidar.

Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente

Do bem

 “É nobre ser difamado por praticar o bem.”

Marco Aurélio, em Meditações

Parte I | Você trouxe todas as palavras




4.

Fernando pediu que eu tentasse dormir durante a viagem para evitar certa indisposição. Disposto e indisposto eram palavras que ele usava muito para classificar o estado geral das pessoas de acordo com a saúde, o humor, a qualidade do sono, a reação dos órgãos às alterações de temperatura, a alegria, a esperança, a situação do nariz. Tu precisas sonhar para ter algum alívio, ele quase suplicava. Era sempre um assunto muito sério o tema dos sonhos, quase um tratamento para minha salvação. São os delírios do desvelo que vão te salvar, ouvi muito essa frase até decorar, delírio e desvelo. Não sei se eu sabia dessas palavras antes.
— É bonito.
— O quê?
— Delírio do desvelo. Soa familiar no meu trabalho.
— Confesso que sua profissão me impressiona, você é muito calmo para um criminoso.
— Não é tudo crime, só uma parte. E o delito bem-feito é arte, exige paciência. A frieza e o autocontrole são os segredos dos estrategistas bem-sucedidos. Continua a contar, por favor, nosso tempo é curto para tantas coisas. Então começaste o caderno de sonhos nesse dia?
— Sim. Abri o caderno pela primeira vez e não estava totalmente em branco, havia uma frase na primeira página, no meio: Livro das Visões. Não era a letra de Florice, eu tinha visto quando abriu o caderninho e passou as páginas na minha frente. Ela escrevia com ondas, curvas, uma caligrafia muito enfeitada em contraste com a dele, de linhas retas, três palavras. Livro das Visões.
Na segunda página comecei:
Saí de um buraco na terra da Almofala, em Portugal. Estava nua e careca, só usava um colar de búzios. Não sei o meu nome. Fui salva por um casal de idosos. Tenho cortes e marcas de violência no corpo. Sou brasileira. Consigo ver os mortos. Não lembro de nada. Acredito em Deus.
Anotei essas palavras e guardei o caderno, era o que eu sabia sobre mim até ali. Estávamos no carro a caminho de Lisboa, um automóvel limpo e bem cuidado que Fernando dirigia. Florice consultava o mapa de vez em quando. Eu obedeceria à ordem de dormir de qualquer maneira, estava quase sempre muito cansada no primeiro mês, outubro, disso me lembro bem, a sensação de cansaço permanente, de sono, tontura, corpo fraco.
Foi em trânsito que começou a temporada dos tais delírios do desvelo. Abrir o caderno acionou algum mecanismo, e comecei a sonhar. Na primeira vez tive um sonho que me pareceu muito longo, com cenas entrecortadas. Vi as mãos de uma mulher furando búzios pequenos, enfiando o fio por eles, organizando o universo, pois as coisas brilhantes no céu se movimentavam no ritmo dos seus braços. A mesma mão pequena abriu a barriga de um peixe morto e tirou um búzio maior lá de dentro. Lavava na água de sal, enxugava e o colocava no meio, mas o sangue das mãos não saía.
Era um rei dentre os outros, mais marrom, mais brilhante. S­e­­guiu com os búzios menores do outro lado até arrematar o arco completo. Estava pronto o colar, igual a este aqui, que veio comigo. Abaixei a cabeça e ela colocou o presente no meu pescoço, falando coisas que não entendi, eu não reconhecia aquela fala. Pude ver seu rosto, era um sonho de boa luz. Fiz esforço para identificar qualquer coisa, o lugar, a voz… O delicioso som do mar.
— O marulho.
— Sim, o marulho. Só pude descobrir que ganhei o colar de uma senhora de quem eu gosto muito. Senti amor por ela, imenso amor, quando a abracei. Ainda posso sentir, era como saber tudo, enxergar tudo, ouvir tudo, depois dali eu poderia vencer qualquer guerra insurgente, era pura força em um abraço. Chegaram outras pessoas, era ela e outra, depois outra e outra, muitas me abraçavam sem que a mulher saísse do lugar, todas sangravam, eu também, confusa, tempo embaralhado. Elas queriam falar comigo, eu afundava em muitos braços, uma festa silenciosa, voltando ou partindo, não sei se era um adeus ou se me recebiam de volta, se riam ou se choravam. Puseram o peixe morto no mar e ele voltou a viver, saiu nadando e deixando sangue na água azul. Passei muito tempo fantasiando o retorno, seria assim, mas às vezes pensava se não era a preparação de partida, o sonho trazendo uma lembrança. O vento era forte, perturbou minha vista, desligou meus ouvidos e eu acordei, dentro do carro, com a esperança de que eu voltaria, de que ainda me esperavam na praia.
Meu rosto no reflexo do vidro do carro. Acordei e vi, não pareço com ela, a mulher do outro lado da minha vida. Desejei que tivesse dito alguma coisa, o primeiro sentimento depois do sonho foi de ter perdido tudo de novo. Procurava sangue nas mãos. Tinha esperança de lembrar de mim, queria que as memórias voltassem pelo caminho certo. Talvez elas ainda estivessem atravessando o mesmo buraco sob a terra por onde viemos eu, meu corpo, minhas palavras e meu colar de búzios.
Quando Florice percebeu que acordei ficou conversando comigo, tentando mostrar mais ou menos em que ponto do mapa estávamos. Eles disseram várias vezes que queriam me levar a um lugar muito importante quando chegássemos a Lisboa. Riam um para o outro, comentavam baixinho, brincando de fazer segredo. Pelos cálculos precisos de horário e distância, ainda seria dia claro e daria tempo, sim, de ir até lá.

Cochilei várias vezes ao longo da viagem, mas foi possível perceber como estavam mais leves e bem-humorados na volta para casa. Ouviam música bem baixinho, cantarolavam de vez em quando. Meus ouvidos são sensíveis demais aos sons. Naqueles primeiros dias tive certa dificuldade com o tempo, nunca lembro bem quantas horas durava cada situação. Ainda não sou muito boa nisso, em quantificar minutos, perco rápido tudo o que passa, meus pensamentos são um labirinto infinito, eu vou e vou e vou e não sei mais nem por onde voltar. Despertei de vez chegando a Lisboa, gostaria de continuar dormindo em um canto silencioso, mas aconteceu exatamente o contrário.
Paramos o carro e precisamos andar alguns minutos. Os dois caminhavam de mãos dadas um pouco à minha frente, e aquela cidade deu ao par uma nova energia. Pareciam outras pessoas, a Morte e o Vice-Morte estavam bem vivos ali ao lado do rio.
Pelo cansaço e desconforto dos sapatos, eu estava sempre uns bons passos atrás. Usava um vestido preto, que pelo tamanho certamente não era dela, e nem sei onde ela arranjou essa roupa. Levou na mala para Almofala junto com tantas coisas, a muda de oliveira, comidas, utensílios, aquilo que me serviu. O vestido era estranho, mas ao menos o tecido grosso e o casaco verde por cima me protegiam do frio. Não me vi no espelho, não tenho um retrato desse tempo, não sei com o que eu parecia, daquele jeito, de chapéu, tão despreparada para andar em público. Olhavam para mim e dava vontade de dizer que se enxergassem, cada um mais estranho que o outro, deveriam cuidar de suas vidas.
A névoa de Lisboa cobria meus olhos, podia ser alguma doença na vista ou a perturbação normal da minha situação. Perto das pessoas apareciam sombras e massas de luz, isso me incomodava, eu gostaria de não ver nada estranho, queria descansar, parar em algum lugar tranquilo e esperar um momento, esperar até uma paz qualquer se acomodar em mim, mas nada me sossegava. Gostava de respirar o vento fresco, apesar da sensação ruim.
Eles pareciam satisfeitos com minha companhia e descobri, nas conversas posteriores, que não tiveram filhos. Estavam felizes naquele passeio, mesmo andando com uma criatura que não pertencia a nada e atraía olhares de espanto.
O lugar que eles queriam me mostrar com tanto gosto e entusiasmo era a Torre de Belém. Paramos em frente e eu não vi nada de tanta emoção, mas fingi meu melhor sorriso. Era bonito. Fernando iniciou um discurso solene ao explicar que dali partiam as caravelas que descobriram o Brasil, que dali os destinos de Brasil e de Portugal se encontraram, o nosso fado. Ele explicava tudo com detalhes, orgulhoso, professoral, tentando dar sentido ao que me aconteceu, e eu estava exausta, achando muito penoso ouvir a palestra, sem energia, cansada, querendo que tudo aquilo acabasse logo, mas fazia de conta que prestava atenção. Sou brasileira e acho que isso sempre foi a coisa mais importante a descobrir direito, o que é isso, o que trouxe comigo que só existe porque sou uma criatura do Brasil.
Olhando a torre antiga, dos homens antigos, dos países antigos e das caravelas que não existem mais, eu só pensava em restaurar a força do meu corpo. Algo naquele discurso me incomodava demais, mesmo reconhecendo a boa vontade do homem. Era um esforço para me dar algum sentido, alguma noção de ordem, mas não me agradava em nada, parecia a lógica de um castigo.
Pedi para me sentar na grama ou ir embora logo. Ele seguiu falando que era o lugar onde nossa história começou a se cruzar pela primeira vez e depois nos cruzamos de vez com minha chegada, uma Ressurrecta, tentando mostrar que devia existir alguma ligação entre as duas coisas.
Florice contou que seu pai achava que os Ressurrectos voltavam para onde deixaram um pedaço perdido da sua alma. O espírito é um só, entra e sai dos séculos, os corpos nascem e morrem e as partes da alma vão se espalhando, ela revelava. Não tive energia na hora para ir além, fazer mais perguntas. De vez em quando eu lembrava que ela me chamou de rapariga, não tinha esquecido, guardei a mágoa, ficava pensando no motivo. Para que isso? Para que chamar de rapariga logo no primeiro dia?
— Em Portugal isso não é insulto. Rapariga é o mesmo que moça, no Brasil, mulher, é um modo normal.
— Não ria, hoje eu sei, estou contando tudo da forma como aconteceu, não foi o que o senhor me pediu? Naquele dia eu estava indignada porque lembrava da palavra como insulto, a memória dos significados ficou intacta. Mas isso era o menos importante, eles me tratavam bem e tiveram responsabilidade com minha vida, não sou ingrata. Até ali o que me chocava mesmo era ter sido enterrada viva, com tanta crueldade, não sei se os outros Ressurrectos também foram. Eu tinha certeza de que algo ruim tinha acontecido antes, não parecia uma travessia para resgate de pedaço de alma, nenhuma busca espiritual, era uma tragédia violenta. Não tenho como saber quando, se faz muito tempo, se ainda estão vivas as pessoas com quem sonhei. Não sei, por exemplo, se a travessia obedeceu ao fluxo dos dias. Pode ser que eu tenha voltado no calendário.
— Pode ter sido um salto temporal para qualquer lado.
— Talvez eu nunca saiba.
— Tua vida tem sido enganar Chronos, amar a Kairós.
— Não conheço essas criaturas. Não sei quem amei ou enganei.
— Volta ao relato do passeio em Lisboa, por favor. Não te perca nos meus comentários, eu também tenho um labirinto na cabeça.
Pois, todos temos.

Ainda na Torre de Belém, fiz muito esforço para parecer interessada quando elogiavam a bravura e a inteligência dos navegantes. Contaram tudo, que o Brasil já era habitado por selvagens, que existem cartas contando a saga heroica, a descoberta da beleza dessas terras, que aconteceram lá as mortes mas é assim mesmo na história das civilizações, os povos invadem, matam por necessidade e novos mundos se descobrem, Portugal também sabe disso, foram muitas invasões.
— Eles não dizem por mal, é o que está nos livros.
Na verdade lembro quase nada do que disseram, só tontura e palavras soltas, confusão. Minha cabeça às vezes funciona como uma fábrica impiedosa de pensamentos massacrantes.
Fomos embora da Torre porque eu não me sentia bem e eles acharam que era fome, tontura, doença, precisávamos comer alguma coisa. Decidiram jantar no Bairro Alto e me apresentar ao bacalhau com migas e ao vinho da casa; fui aprendendo o nome das comidas, me ensinavam tudo ao mesmo tempo, a história de Lisboa, os pratos tradicionais, o terremoto, o que é Península Ibérica, os mouros, os azulejos, o castelo de São Jorge, as Sete Colinas, e eu só precisava de silêncio. E comida. Estar de barriga cheia me deixava bem.
Fernando me tratava como se eu fosse uma criança que nasceu adulta, pronta para capturar o mundo todo em poucos dias, porque em breve a vida me cobraria algumas coisas, foi o que eles me disseram. Eu seria portuguesa e precisava perceber Portugal. Perceber uma nova vida em Portugal.
A refeição durou muito tempo, foi decisiva. Seria necessário definir algumas coisas antes de chegarmos a Aboim da Nóbrega. A irmã de Florice já estava sabendo de tudo, já tinha conhecimento dos Ressurrectos desde criança, mas para facilitar as coisas seria bom inventar uma narrativa que fosse convincente para os outros, a casa vivia cheia de amigos, sua vida social era intensa.
Precisamos escolher seu nome, ela disse.
Perguntaram de novo se eu não lembrava de nada, uma letra, um som, se seria palavra curta ou mais longa, nada. Nada. Sobre o Livro das Visões, queriam saber se havia algo novo. Nada. Expliquei o borrão dos sonhos, comecei a chorar mais uma vez, o peso de ser uma névoa. Fernando olhou nos meus olhos:
— Eu tenho uma sugestão desde que chegaste. É o nome que meu coração diz quando olho para ti.
— E qual é?
— Cida. Não só porque tu chegaste assim, mas porque gostamos da história de Nossa Senhora Aparecida a um menino em Portugal que era mudo e começou a falar. Há outra no Brasil, acho que fica bem.
— É assim que falamos de ti entre nós. Já dissemos para minhas irmãs que tu tens cara de Cida.
Aceitei ser Cida, por puro cansaço. Fiz que sim, sorri de leve. Levaria a marca deles dois comigo, já que fizeram meu parto da cova. Não tinha por que recusar o nome novo, não me restava nada além de aceitar que as coisas teriam de seguir de alguma forma. Cida era um nome neutro, pois vinha do modo absurdo como cheguei aqui, no sentido deles, evocava milagre. E se era deles que vinha a ajuda e a salvação, muito justo o batismo, muito saudável ter um nome até que eu lembrasse do meu.
Havia uma alegria sincera naqueles gestos de proteção, mas Florice mantinha uma constante nuvem tensa sobre os olhos. Nele eu confiei desde o primeiro dia, apesar da sensação de que gostaria de me dizer mais e não tinha permissão. Quando eu perguntava inúmeras vezes aos dois sobre o esquecimento, eles respondiam que eu já deveria ter recordado algo, sim, mas que não há regra exata para nada disso, em todos os casos as pessoas acabam se lembrando logo. Depende do trauma, do tempo, do modo. Não poderiam garantir, o que tinham em mãos eram as histórias anteriores, que nunca me contaram direito. Àquela altura eu já sabia que não estava morta, pelo menos, tinha um resto de vida, precisava mesmo desse nome.
Fomos então ao apartamento deles, no Largo de São Carlos, número 4. Anotaram em um papel para que eu tivesse em mãos, caso precisasse. Decorei, de tanto medo de me perder.
Passaríamos uns dias em Lisboa para descansar e resolver alguns assuntos. Os vizinhos do quarto andar viajaram para a África do Sul e deviam tomar providências sobre o aluguel do apartamento, esse era um dos temas. Precisavam também comprar presentes para as irmãs de Florice, fazer um reparo na torneira, que estava pingando, e eu acompanhava tudo. Dormi no sofá do pequeno escritório do dr. Fernando, ali seria meu quarto.
Nessa primeira noite em Lisboa tive um sonho cego.
Eu não via o rosto, mas sabia que um homem examinava o maior búzio do meu colar com dedicada atenção. A ponta dos seus dedos era macia e mansa, alisava demoradamente o marrom estriado do búzio, salpicado como as costas de um bicho do mesmo mar de onde eu vim. Dentro do silêncio, sua respiração me contava que ele não tinha nenhuma pressa de interromper o que fazia, era o gesto mais necessário da sua vida; a ponta dos seus dedos fazia estalar faíscas na minha pele. Guardei algumas frases: corpo de areia, praia de pele morna. As lembranças são confusas nesse sonho porque eu não vi nada, tudo de que lembro está nos ouvidos e na pele, senti muitas coisas. Eu sabia que era noite porque não enxergava, estávamos suados, vivos e muito perto um do outro. Não saíamos do lugar, nada nos tiraria dali. Os dedos chegaram à cena do sonho subindo pelas conchinhas miúdas, devagar e aos poucos, as duas mãos, até que, no pescoço, escolheram destinos diferentes.
Primeiro a esquerda andou vagarosa para minha nuca até enfiar os dedos e fechar os cachos na mão forte e lentamente para não me deixar duvidar nem por um segundo do tanto que me queria. Eu estava careca, ainda, mas foi nesse sonho que fiquei sabendo sobre como seriam meus cabelos quando crescessem.
A outra mão foi para o meu lábio superior, quase sem tocar, desenhando uma onda ao lado da outra, uma boca de concha, acho que disse isso, foi um sussurro pequeno, foi quase segredo, penso que sorriu. O sonho foi seguindo, ele se aproximava e eu acendi como uma estrela de muitas pontas. Explodi, acordei como quem cai do céu. Era tudo meio avermelhado ao redor, a luz do sol, as paredes, vários cavalos-marinhos no teto que caíam, mas começavam a nadar depois, muitos, muitos, e eu caía com eles.

— Um artifício libidinoso muito sofisticado do teu inconsciente.
— Sonhei várias vezes com as estrelas-do-mar, vendo estrelas ou transformando o corpo em uma delas. Eram recortes abstratos, não informavam nada, mas as sensações me deixavam muito perturbada. Escrevi tudo no Livro das Visões. O que importa é que havia um homem na minha vida. Não tenho meu nome, nem o dele. Fico pensando se ficou lá me esperando, se chora minha morte.
— Ou se foi ele quem tentou te matar.
— Já pensei nisso.
— É um belo sonho, de qualquer forma.
— No fim eu anotei: “Quero sonhar de novo, quero que ele diga seu nome. Pedi que dissesse, pedi que voltasse. Ele tem que voltar”.
— E o que descobriste sobre ele?
— Que me amava muito e me fazia explodir como uma estrela. Nada mais.

Socorro Acioli, em Oração para Desaparecer

15/10/2026

Acerca do Amor | Zelitto Coringa e Elilson José Batista

10 paezinhos, de Fábio Moon e Gabriel Bá

 

Diário de Bernardo Soares

138.

Há uma erudição do conhecimento, que é propriamente o que se chama erudição, e há uma erudição do entendimento, que é o que se chama cultura. Mas há também uma erudição da sensibilidade.
A erudição da sensibilidade nada tem a ver com a experiência da vida. A experiência da vida nada ensina, como a história nada informa. A verdadeira experiência consiste em restringir o contacto com a realidade e aumentar a análise desse contacto. Assim a sensibilidade se alarga e aprofunda, porque em nós está tudo; basta que o procuremos e o saibamos procurar.
Que é viajar, e para que serve viajar? Qualquer poente é o poente; não é mister ir vê-lo a Constantinopla. A sensação de libertação, que nasce das viagens? Posso tê-la saindo de Lisboa até Benfica, e tê-la mais intensamente do que quem vá de Lisboa à China, porque se a libertação não está em mim, não está, para mim, em parte alguma. “Qualquer estrada”, disse Carlylé, “até esta estrada de Entepfuhl, te leva até ao fim do mundo.” Mas a estrada de Entepfuhl, se for seguida toda, e até ao fim, volta a Entepfuhl; de modo que o Entepfuhl, onde já estávamos, é aquele mesmo fim do mundo que íamos a buscar.
Condillac começa o seu livro célebre, “Por mais alto que subamos e mais baixo que desçamos, nunca saímos das nossas sensações”. Nunca desembarcamos de nós. Nunca chegamos a outrem, senão outrando-nos pela imaginação sensível de nós mesmos. As verdadeiras paisagens são as que nós mesmos criamos, porque assim, sendo deuses delas, as vemos como elas verdadeiramente são, que é como foram criadas. Não é nenhuma das sete partidas do mundo aquela que me interessa e posso verdadeiramente ver; a oitava partida é a que percorro e é minha.
Quem cruzou todos os mares cruzou somente a monotonia de si mesmo. Já cruzei mais mares do que todos. Já vi mais montanhas que as que há na terra.
Passei já por cidades mais que as existentes, e os grandes rios de nenhuns mundos fluíram, absolutos, sob os meus olhos contemplativos.
Se viajasse, encontraria a cópia débil do que já vira sem viajar.
Nos países que os outros visitam, visitam-nos anónimos e peregrinos. Nos países que tenho visitado, tenho sido, não só o prazer escondido do viajante incógnito, mas a majestade do Rei que ali reina, e o povo cujo uso ali habita, e a história inteira daquela nação e das outras. As mesmas paisagens, as mesmas casas eu as vi porque as fui, feitas em Deus com a substância da minha imaginação.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Todas as vidas

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau­-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai de santo...

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são­-caetano.

Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute benfeito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho­-sal.

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca­-grossa,
de chinelinha,
e filharada.

Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.

Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.

Cora Coralina, em Poemas dos becos de Goiás e estórias mais

Lembra de Pearl Harbor?



Tínhamos que ir ao pátio de exercícios duas vezes por dia, no meio da manhã e no meio da tarde. Não havia muito o que fazer. As amizades entre os homens eram baseadas principalmente naquilo que os havia colocado na prisão. Como meu companheiro de cela, Taylor, disse, os molestadores de crianças e os casos de atentado ao pudor estavam na parte mais baixa da sociedade carcerária, enquanto os grandes trapaceiros e os estelionatários estavam no topo.
Taylor não falava comigo no pátio de exercícios. Caminhava com um grande trapaceiro. Eu sentava sozinho. Alguns dos rapazes enrolavam uma camiseta para dar-lhe a forma de uma bola e jogavam com ela. Pareciam gostar disso. As instalações para o entretenimento dos internos não eram lá essas coisas.
Sentei por ali. Logo notei um amontoamento de homens. Era o jogo de dados. Levantei e fui até lá. Tinha pouco menos de um dólar em moedas. Observei alguns lances. O homem com os dados ganhou três rodadas seguidas. Senti que a sorte dele tinha acabado e o desafiei. Ele jogou os dados e perdeu. Ganhei 25 centavos.
Cada vez que alguém entrava numa maré de sorte, eu esperava até que imaginasse que sua maré tivesse recuado. Então apostava contra ele. Notei que os outros homens apostavam em todas as rodadas. Fiz seis apostas e ganhei cinco delas. Então nos fizeram marchar de volta para as nossas celas. Eu ganhara um dólar.
Na manhã seguinte, entrei no jogo mais cedo. Ganhei dois dólares e cinquenta centavos pela manhã e um dólar e 75 centavos à tarde. Quando o jogo acabou, um jovem veio até mim e disse:
– Parece que você está indo bem, senhor.
Dei ao garoto quinze centavos. Ele seguiu caminhando. Outro sujeito se aproximou de mim.
– Você deu algo para aquele filho da puta?
– Sim. Quinze centavos.
– Ele sempre ganha uma porcentagem da rodada. Não dê nada pra ele.
– Não tinha percebido.
– É. Ele ganha. A cada rodada, ele ganha um pouco.
– Vou observá-lo amanhã.
– Além disso, ele é um cretino, dos que estão aqui por atentado ao pudor. O negócio dele é mostrar o pau pras garotinhas.
– É – eu disse –, detesto esses otários.

A comida era muito ruim. Uma noite, depois da janta, mencionei ao Taylor que estava ganhando nos dados.
– Sabe – ele disse –, dá para comprar comida aqui, comida boa.
– Como?
– O cozinheiro aparece depois que apagam as luzes. A comida do diretor, a melhor. Sobremesa, tudo o que você quiser. O cozinheiro é bom. O diretor lhe deu o emprego por causa disso.
– Quanto sairia alguns jantares pra gente?
– Dê uns dez centavos pra ele. Não mais de quinze.
– Só isso?
– Se der mais, ele vai achar que você é um trouxa.
– Tudo bem. Quinze centavos.
Taylor combinou tudo. Na próxima noite, após apagarem as luzes, esperamos matando os percevejos da cama, um a um.
– Aquele cozinheiro matou dois homens. É um tremendo filho da puta, um tipo cruel. Matou um sujeito, cumpriu dez anos, saiu da prisão e dois ou três dias depois matou outro. Esta é uma prisão para crimes de penas curtas, mas o diretor o mantém aqui porque ele cozinha muito bem.
Ouvimos alguém se aproximando. Era o cozinheiro. Levantei e ele passou a comida pela grade. Caminhei até a mesa e depois voltei para a porta da cela. O filho da puta era enorme, assassino de dois homens. Dei-lhe quinze centavos.
– Obrigado, camarada, quer que eu volte amanhã à noite?
– Todas as noites.
Taylor e eu sentamos e comemos. Tudo estava em pratos. O café estava bom e quente, a carne, um rosbife, estava macia. Purê de batatas, ervilhas, biscoitos, molho de carne, manteiga e torta de maçã. Havia cinco anos que não comia tão bem.
– O cozinheiro estuprou um marinheiro outro dia. Deixou-o tão mal que o marinheiro não podia caminhar. Tiveram que hospitalizá-lo.
Enchi a boca de purê e ervilhas.
– Você não precisa se preocupar – disse Taylor. – Você é tão feio que ninguém o estupraria.
– Estava mais preocupado em conseguir um pouco de sexo.
– Bem, vou apontar os putos. Alguns têm dono e outros não.
– A comida está ótima.
– Porra, muito boa. Como eu ia dizendo, há dois tipos de putos por aqui. Os que chegam como putos e os que viram putos aqui dentro. Nunca tem putos suficientes para todo mundo, então os garotos têm que criar alguns extras para satisfazer suas necessidades.
– Isso está bem.
– Os que viraram putos na prisão são normalmente um pouco agressivos por causa das surras que levam. Resistem no começo.
– É mesmo?
– Sim. Até que decidem que é melhor viver como um puto do que morrer como virgem.
Terminamos nossa janta, fomos para nossos beliches, lutamos contra os percevejos e tentamos dormir.
Continuei a ganhar nos dados todos os dias. Apostava mais pesado e mesmo assim ganhava. A vida na prisão estava ficando cada vez melhor. Um dia me disseram para não ir ao pátio de exercícios. Dois agentes do FBI vieram me visitar. Fizeram algumas perguntas, então um deles disse:
– Nós o investigamos. Você não precisa ir a julgamento. Será levado ao centro de alistamento. Se o exército o aceitar, você entrará para o exército. Se o rejeitarem, voltará à vida civil.
– Quase gosto daqui, da prisão – eu disse.
– Sim, você parece estar se dando bem por aqui.
– Sem tensão – eu disse –, sem aluguel, sem contas, sem brigas com namoradas, sem impostos, sem placas de licença, sem despesas com comida, sem ressacas...
– Continue dando uma de espertinho, vamos dar um jeito em você.
– Ah, merda – eu disse. – Estou só brincando. Finjam que eu sou Bob Hope.
– Bob Hope é um bom americano.
– Eu também seria se tivesse aquela grana toda.
– Continue tagarelando. Podemos transformar sua vida num inferno.
Não respondi. Um dos sujeitos tinha uma maleta. Ele se levantou primeiro. O outro o seguiu e os dois saíram.

Deram a todos nós um saco com almoço para levar e nos colocaram em uma caminhonete. Estávamos em vinte ou 25. Os rapazes haviam acabado de tomar o café da manhã uma hora e meia atrás, mas todos já tinham o saco com o almoço. Não era ruim: um sanduíche com molho bolonhesa, um sanduíche com manteiga de amendoim e uma banana podre. Dei meu almoço para os outros. Estavam muito quietos. Nenhum deles fez piada. Olhavam reto para frente. A maioria deles eram negros ou pardos. E todos eram grandes.
Passei no teste físico, então fui ver o psiquiatra.
– Henry Chinaski?
– Sim.
– Sente-se.
Sentei.
– Você acredita na guerra?
– Não.
– Está disposto a ir a guerra?
– Sim.
Ele me olhou. Baixei o olhar para os meus pés. Ele parecia estar lendo um maço de papéis à sua frente. Demorou vários minutos. Quatro, cinco, seis, sete minutos. Então falou:
– Escute, darei uma festa na próxima quarta-feira à noite na minha casa. Irão médicos, advogados, artistas, escritores, atores, toda essa gente. Posso ver que você é um homem inteligente. Quero que vá a minha festa. Virá?
– Não.
Ele começou a escrever. Escreveu e escreveu e escreveu. Imaginei como ele sabia tanto sobre mim. Eu mesmo não sabia tanto sobre mim.
Deixei que continuasse escrevendo. Eu estava indiferente. Agora que eu não podia ir à guerra, eu quase queria ir à guerra. Ainda assim, ao mesmo tempo, estava contente por ficar de fora. O doutor acabou de escrever. Senti que os tinha enganado. Minha objeção à guerra não era que eu tinha que matar alguém ou ser morto sem motivo, isso quase não me importava. O que eu objetava era que me negassem o direito de sentar em uma pequena sala e passar fome e beber vinho barato e ficar viajando, à minha maneira, para meu prazer.
Não queria ser acordado por um sujeito com um clarim. Não queria dormir em barracas com um bando de garotos americanos saudáveis, loucos por sexo, amantes de futebol, bem-nutridos, metidos a espertos, punheteiros, assustados, rosados, amáveis peidorreiros, filhinhos da mamãe, modestos, jogadores de basquete com quem eu teria de fazer amizade, com quem eu teria de me embebedar nas folgas, que me contariam dúzias de piadas sujas, previsíveis e sem graça quando eu deitasse de costas. Não queria seus cobertores que pinicam ou seus uniformes que dão coceira nem a incômoda humanidade deles. Não queria cagar no mesmo lugar nem mijar no mesmo lugar ou compartilhar a mesma puta. Não queria ver as unhas dos pés deles nem ler as cartas que receberiam de casa. Não queria aquelas bundas balançando na minha frente com todos os rapazes ombro a ombro, não queria fazer amigos, não queria fazer inimigos, eu apenas não os queria, não queria isso nem aquilo nem coisa nenhuma. Matar ou ser morto quase não me importava.
Depois de esperar duas horas sentado em um banco duro, em um túnel escuro que mais parecia uma cloaca, com um vento frio que não parava de soprar, eles me deixaram ir e eu saí caminhando na direção norte. Parei para comprar um maço de cigarros. Entrei no primeiro bar, sentei, pedi um uísque com água, tirei o celofane do maço, puxei um cigarro, acendi, peguei aquela bebida na minha mão, bebi metade do copo, traguei a fumaça, olhei meu belo rosto no espelho. Parecia estranho estar livre. Parecia estranho poder caminhar em qualquer direção que eu quisesse.
Só para me divertir, levantei e caminhei até a privada. Mijei. Era outro banheiro horrível de bar. Quase vomitei por causa do fedor. Saí, pus uma moeda no jukebox, sentei e ouvi a última da seleção. O fato de ser a última não a fazia nem um pouco melhor. Os caras tinham a batida, mas não tinham alma. Mozart, Bach e Bee ainda os faziam ficar em maus lençóis. Eu ia sentir falta daqueles jogos de dados e da boa comida. Pedi outra bebida. Olhei ao redor do bar. Havia cinco homens no bar e nenhuma mulher. Eu estava de volta às ruas americanas.

Charles Bukowski, em Ao Sul de Lugar Nenhum

A Contadora de Filmes

[11]

O primeiro a ir ao cinema foi meu irmão Mariano, o Caterpillar. Sua narração foi um desastre. Naquele dia passou um de guerra – alemães contra norte-americanos –, e a única coisa que se entendia e saía emendado da boca do pobrezinho era o matracar das metralhadoras. E a mímica. Sua mímica era genial. Eu acho que nos tempos do cinema mudo ele teria sido muito bom.
Na vez do meu irmão Mirto, o Pássaro, passaram um de índios, com Jack Palance. Sua narração foi extraordinária. O galope dos cavalos, os tiros, os gritos dos índios, os sinais de fumaça. A gente até achava que estava ouvindo o assovio das flechas passando sobre nossas cabeças, zuuuummm! A única coisa ruim era que Mirto contava tudo na base de “babaquices” e “cagadas”:
“Então, quando o babaca sacou do revólver e atirou na cabeça da babacona, deu uma tremenda cagada porque os outros babacas nem cagando iam deixar que cagassem neles daquele jeito…”.
Manuel, que até que contava direito, contou um filme de vampiros. Acontece que se perdeu por amor. Aos doze anos, estava apaixonado pela filha do dono da loja mais sortida da Mina – era o único dos irmãos que namorava –, e passou a hora e quarenta minutos que durou o filme abraçando a menina, que gemia de medo.
Já com meu irmão Marcelino aconteceu o cúmulo da má sorte. Calado por natureza – “desse menino, é preciso arrancar as palavras com um saca-rolhas”, dizia minha mãe quando morava com a gente –, na vez dele caiu O velho e o mar, um filme quase sem fala.
Sua narração só durou cinco minutos.
Duas semanas mais tarde chegou, enfim, a minha vez, a vez da irmã menor, Maria Margarita, M M, como às vezes meu pai me chamava. Embora eu não tivesse apelido oficial, sabia que pelas costas alguns meninos me chamavam de Maria Machona. O apelido, é verdade, não era muito refinado, mas se observarem bem verão que é composto por duas palavras que começam com a letra eme.
Durante essas duas semanas chegaram vários filmes bons, e alguns muito bons, mas não houve dinheiro para comprar a entrada. Era meados do mês e mal dava para comer e para a garrafinha de vinho de meu pai.
“A gente tem que esperar o pagamento da pensão”, dizia ele. E aconteceu que justo no dia do pagamento apareceu no anúncio do cinema nada menos que Ben-Hur, o filme que todo mundo no povoado esperava com ansiedade.
Meus irmãos ficaram loucos.
Todos queriam ir ao cinema. Ou pelo menos que o Mirto fosse, já que até aquele momento tinha sido quem melhor havia contado um filme.
Mas meu pai, que era um homem justo, se negou.
“Agora é a vez de Maria Margarita e quem vai é a Maria Margarita. E ponto final”.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

14/10/2026

Gal Costa | Força Estranha

 

Calvin e Haroldo

 

Idades

No início,
eu queria um instante.
A flor.

Depois,
nem a eternidade me bastava.
E desejava a vertigem
do incêndio partilhado.
O fruto.

Agora,
quero apenas
o que havia antes de haver vida.
A semente.

Mia Couto, em Poemas Escolhidos

A Bailarina Fantasma




1º Ato
1. Travessa do Anjo

Anabela e o pai, Marcelo, tinham orgulho de dizer que moravam na casa mais antiga da cidade: a Travessa do Anjo, uma ilha feita de passado no meio de um mar de vidro e metal.
Tudo naquele lugar era exatamente igual ao que sempre fora. Os anos e a vida de todos os familiares que moraram ali permaneciam gravados nos cheiros, nas cores e nos detalhes de cada canto. Uma foto na parede, uma figura colada na porta de um armário, a xícara pintada à mão com o nome da tia querida… tudo permanecia na casinha azul com telhado vermelho e fachada estreita onde cabiam somente uma porta, uma janela e, lá dentro, todos os sonhos do mundo.
O portão da entrada era de ferro e o muro, bem baixo. Entre o muro e a porta havia um jardim com flores que brotavam o ano todo, especialmente os pequenos e delicados miosótis, jovens descendentes de mudas plantadas havia muito tempo. Junto das flores, um banco com dois lugares, um convite para sentar e conversar.
Apesar de estreita, a Travessa do Anjo era comprida. Logo na entrada ficava o escritório de Marcelo. A seguir, duas pequenas salas com fotografias antigas nas paredes, estantes de livros, sofás e cadeiras para as visitas. Do lado direito, um corredor. À esquerda, o quarto de Anabela e, logo depois, o do pai. A cozinha, clara e espaçosa, tinha vista para o pomar, onde Anabela colhia laranjas, limões e maracujás, suas frutas preferidas. As laranjas eram muito doces e inacreditavelmente suculentas. Era de lá que soprava o vento adocicado que fazia daquela casa a mais ventilada da cidade.
O nome, Travessa do Anjo, fora inspirado em um painel de azulejos colocado sobre a porta, bem pertinho do telhado, com a pintura de um anjo ajudando duas crianças a atravessar uma ponte. Os azulejos eram de Portugal e vieram com dona Maria de Lourdes, bisavó de Marcelo, quando ela se mudara para lá.
Definitivamente, a vida daquela família era muito distinta da do mundo ao redor, e isso incomodava. Quase todo dia aparecia algum curioso por ali. Tinha gente que atravessava a cidade para ver a Travessa do Anjo de perto, todos tão admirados, parados na frente da casa de Anabela como se estivessem vendo uma legítima caravela portuguesa dos tempos do Descobrimento:
— Como eles vivem sem ar-condicionado?
— Sem antenas?
— E sem micro-ondas?
— Isso é praticamente uma caverna — diziam umas senhoras muito arrumadas, de cabelo pintado e bolsa dourada, que passavam o tempo prestando atenção na vida dos outros.
Falavam, falavam, e o vento levava para longe tantas palavras vazias, desnecessárias. Anabela e Marcelo não ligavam. Estavam ocupados com outras coisas… Foi naquela casa que Anabela nasceu, aprendeu a andar, a falar, e cresceu até se tornar tão linda, de rosto pintado de sardas e olhos tão verdes como as luzes do Natal dos seus catorze anos, quando a vida começou a mudar tanto para aquela família.
Sua mãe havia morrido quando Anabela tinha sete anos. Por causa disso ela até poderia pensar que era a menina mais azarada do mundo, sozinha, sem mãe. Mas não — ela preferia enxergar sua realidade com outros olhos e virar a vida ao contrário. Então se achava a garota mais sortuda do mundo, isso sim, por ter um pai tão incrível. A lembrança da mãe não era sofrimento. Só dúvidas, esperança e saudade.
Quando Anabela falava sobre a mãe ou fazia perguntas sobre a morte para Marcelo ou outro parente, o que sempre ouvia era que Melinda partira para um lugar melhor. Anabela imaginava, desde pequena, que aquele tão falado Lugar Melhor seria um mundo parecido com o nosso, como um espelho, uma cópia, para onde iria tudo o que morresse aqui: animais, plantas, flores, pessoas… até as formigas, que podiam se afogar ao cair num copo de suco qualquer. Tudo o que morria — talvez até a mãe de Anabela —, chegando lá, em certo lugar, voltava a viver. De um jeito diferente do nosso, mas viveria.
Seus momentos mais felizes eram os que passava no quintal da Travessa do Anjo, seu lugar preferido para ficar quando estava triste ou feliz, ou quando queria parar um pouco, pensar e observar os pequenos e grandes mistérios da vida. Anabela parecia ver e até tocar os segredos das coisas. Sempre que via uma flor começando a murchar, ou uma borboleta com uma asa machucada, ou uma formiguinha carregada pelas águas da chuva, explicava-lhes baixinho que todos os seres vivos um dia iam para outro lugar, talvez um lugar lindo, muito melhor do que aquela vida. E por que não? No fundo, as pequenas mortes da natureza eram para Anabela uma esperança de fazer contato com a mãe, especialmente quando ela via um miosótis — a flor preferida de Melinda — com as pétalas começando a amarelar, dando sinal de que era hora de partir.
Anabela amarrava delicados bilhetinhos, feitos de papel recortado e letrinha miúda, nos miosótis que morriam no quintal. Enterrava os bilhetes e as flores com cuidado. Eram recados curtinhos, segredos, notícias, contando que estava bem na escola, que melhorara da gripe, ou, às vezes, breves confissões de saudade. Saudade era quase uma alegria para ela, um jeito de eternizar as coisas. Com sua pá de jardineira, arrumava os bilhetes e as flores, cobria-os de terra e rezava. Ela acreditava que aconteceria algo mágico: a flor viajaria, de alguma forma, para o Lugar Melhor. E voltaria a viver, levando o bilhete para as mãos de Melinda.
Os pedacinhos de papel em branco ela guardava em uma caixa de madeira forrada de tecido — forrar caixas era um dos passatempos preferidos de Melinda, e Anabela adorava guardar dentro delas os objetos mais especiais.
Quando soube que o avô de Luciana, sua melhor amiga, havia morrido, aproveitou a ocasião e escreveu uma carta de duas páginas para a mãe e deu um jeitinho de colocar o envelope para ser enterrado com ele.
Anabela pensava que a morte era uma cortina pesada e escura, como um veludo vermelho, que só poderia ser aberta para quem fosse passar daqui para lá. Mas houve um dia que mudou sua vida, quando ela compreendeu de forma definitiva que essa cortina podia ser leve e clara como seda azul e que, com um sopro do vento, podia se abrir para dar passagem a alguém vindo de lá… para cá.
O motivo dessa volta nunca se sabe, até que esse alguém diga. A razão pode ser simples. Ou terrivelmente assustadora.
Até aquele dia ela não sabia de nada disso. Anabela realmente acreditava que os mortos não voltavam. De repente entendeu que isso tinha sido um tremendo engano…

Socorro Acioli, em A Bailarina Fantasma

Amor a Ele

Através de meus graves erros – que um dia eu talvez os possa mencionar sem me vangloriar deles – é que cheguei a poder amar. Até esta glorificação: eu amo o Nada. A consciência de minha permanente queda me leva ao amor do Nada. E desta queda é que começo a fazer minha vida. Com pedras ruins levanto o horror, e com horror eu amo. Não sei o que fazer de mim, já nascida, senão isto: Tu, Deus, que eu amo como quem cai no nada.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

Capítulo 103 – Distração

 


– Não, senhor Doutor, isto não se faz. Perdoe-me, isto não se faz.
Tinha razão Dona Plácida. Nenhum cavalheiro chega uma hora mais tarde ao lugar em que o espera a sua dama. Entrei esbaforido; Virgília tinha ido embora. DonaPlácida contou-me que ela esperara muito, que se irritara, que chorara, que jurara votar-me ao desprezo, e outras mais coisas que a nossa caseira dizia com lágrimas na voz, pedindo-me que não desamparasse Iaiá, que era ser muito injusto com uma moça que me sacrificaria tudo. Expliquei-lhe então que um equívoco...
E não era; cuido que foi simples distração. Um dito, uma conversa, uma anedota, qualquer coisa; simples distração.
Coitada de Dona Plácida! Estava aflita deveras. Andava de um lado para outro, abanando a cabeça, suspirando com estrépito, espiando pela rótula. Coitada de Dona Plácida! Com que arte conchegava as roupas, bafejava as faces, acalentava as manhas do nosso amor! que imaginação fértil em tornar as horas mais aprazíveis e breves! Flores, doces, - os bons doces de outros dias, - e muito riso, muito afago, um riso e um afago que cresciam com o tempo, como se ela quisesse fixar a nossa aventura; ou restituir-lhe a primeira flor. Nada esquecia a nossa confidente e caseira; nada, nem a mentira, porque a um e outro referia suspiros e saudades que não presenciara; nada, nem a calúnia, porque uma vez chegou a atribuir-me uma paixão nova. – Você sabe que não posso gostar de outra mulher, foi a minha resposta, quando Virgília me falou em semelhante coisa. E esta só palavra, sem nenhum protesto ou admoestação, dissipou o aleive de Dona Plácida, que ficou triste.
– Está bem, disse-lhe eu, depois de um quarto de hora; Virgília há de reconhecer que não tive culpa nenhuma... Quer você levar-lhe uma carta agora mesmo?
– Ela há de estar bem triste, coitadinha! Olhe, eu não desejo a morte de ninguém; mas, se o senhor Doutor algum dia chegar a casar com Iaiá, então sim, é que há de ver o anjo que ela é!
Lembra-me que desviei o rosto e baixei os olhos ao chão.
Recomendo este gesto às pessoas que não tiverem uma palavra pronta para responder, ou ainda as que recearem encarar a pupila de outros olhos. Em tais casos, alguns preferem recitar uma oitava dos Lusíadas, outros adotam o recurso de assobiar a Norma; eu atenho-me ao gesto indicado; é mais simples, exige menos esforço.
Três dias depois, estava tudo explicado. Suponho que Virgília ficou um pouco admirada, quando lhe pedi desculpa das lágrimas que derramara naquela triste ocasião. Nem me lembra se interiormente as atribuí a Dona Plácida. Com efeito, podia acontecer que Dona Plácida chorasse, ao vê-la desapontada, e, por um fenômeno da visão, as lágrimas que tinha nos próprios olhos lhe parecessem cair dos olhos de Virgília. Fosse como fosse, tudo estava explicado, mas não perdoado, e menos ainda esquecido. Virgília dizia-me uma porção de coisas duras, ameaçava-me com a separação, enfim louvava o marido. Esse sim, era um homem digno, muito superior a mim, delicado, um primor de cortesia e afeição; é o que ela dizia, enquanto eu, sentado, com os braços fincados nos joelhos, olhava para o chão, onde uma mosca arrastava uma formiga que lhe mordia o pé. Pobre mosca! pobre formiga!
– Mas você não diz nada, nada? perguntou Virgília, parando diante de mim.
– Que hei de dizer? Já expliquei tudo; você teima em zangar-se; que hei de dizer? Sabe o que me parece? Parece-me que você está enfastiada, que se aborrece, que quer acabar...
– Justamente!
Foi dali pôr o chapéu, com a mão trêmula, raivosa... – Adeus, Dona Plácida, bradou ela para dentro. Depois foi até à porta, correu o fecho, ia sair; agarrei-a pela cintura. – Está bom, está bom, disse-lhe. Virgília ainda forcejou por sair. Eu retive-a, pedi-lhe que ficasse, que esquecesse; ela afastou-se da porta e foi cair no canapé. Sentei-me ao pé dela, disse-lhe muitas coisas meigas, outras humildes, outras graciosas. Não afirmo se os nossos lábios chegaram à distância de um fio de cambraia ou ainda menos; é matéria controversa. Lembra-me, sim, que na agitação caiu um brinco de Virgília, que eu inclinei-me a apanhá-lo, e que a mosca de há pouco trepou ao brinco, levando sempre a formiga no pé. Então eu, com a delicadeza nativa de um homem do nosso século, pus na palma da mão aquele casal de mortificados; calculei toda a distância que ia da minha mão ao planeta Saturno, e perguntei a mim mesmo que interesse podia haver num episódio tão mofino. Se concluis daí que eu era um bárbaro, enganas-te, porque eu pedi um grampo a Virgília, a fim de separar os dois insetos; mas a mosca farejou a minha intenção, abriu as asas e foi-se embora. Pobre mosca! pobre formiga! E Deus viu que isto era bom, como se diz na Escritura.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas