terça-feira, 12 de maio de 2026
1624 – Lima
Se vende gente
– Caminha!
– Corre!
– Canta!
– E esse, que defeito tem?
– Abre essa boca!
– Esse é bêbado, ou brigão?
– Quanto oferece, senhor?
– E doenças?
– Mas vale o dobro!
– Corre!
– O senhor não trate de me enganar,
que devolvo ele!
– Salta, cachorro!
– Uma peça assim não se dá de
presente!
– Que levante os braços!
– Que cante forte!
– Essa negra, é com cria ou sem
cria?
– Vamos ver esses dentes!
São levados pela orelha. O nome do
comprador será marcado em sua bochecha ou em sua testa e serão
instrumentos de trabalho nas plantações, nas minas e na pesca, e
armas de guerra nos campos de batalha. Serão parteiras e amas de
leite, dando vida, e tomando-a serão verdugos e sepultureiros. Serão
trovadores e carne de cama.
Está o curral de escravos em pleno
centro de Lima, mas o cabildo acaba de votar pela mudança. Os negros
em oferta serão alojados em um barracão do outro lado do rio Rímac,
junto ao matadouro de São Lázaro. Lá estarão bastante afastados
da cidade, para que os ventos levem seus ares corrompidos e
contagiosos.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
Medo da libertação
Se eu me demorar demais olhando
Paysage aux Oiseaux Jaunes (Paisagem com Pássaros Amarelos,
de Klee), nunca mais poderei voltar atrás. Coragem e covardia são
um jogo que se joga a cada instante. Assusta a visão talvez
irremediável e que talvez seja a da liberdade. O hábito que temos
de olhar através das grades da prisão, o conforto que traz segurar
com as duas mãos as barras frias de ferro. A covardia nos mata. Pois
há aqueles para os quais a prisão é a segurança, as barras um
apoio para as mãos. Então reconheço que conheço poucos homens
livres. Olho de novo a paisagem e de novo reconheço que
covardia e liberdade estiveram em jogo. A burguesia total cai ao se
olhar Paysage aux Oiseaux Jaunes. Minha coragem, inteiramente
possível, me amedronta. Começo até a pensar que entre loucos há
os que não são loucos. E que a possibilidade, a que é
verdadeiramente, não é para ser explicada a um burguês quadrado. E
à medida que a pessoa quiser explicar se enreda em palavras, poderá
perder a coragem, estará perdendo a liberdade. Les Oiseaux Jaunes
não pede sequer que se o entenda: esse grau é ainda mais
liberdade: não ter medo de não ser compreendido. Olhando a extrema
beleza dos pássaros amarelos calculo o que seria se eu perdesse
totalmente o medo. O conforto da prisão burguesa tantas vezes me
bate no rosto. E antes de aprender a ser livre, tudo eu aguentava —
só para não ser livre.
Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida
Páginas de guarda
Em "As neves do Kilimanjaro",
o famoso conto de Hemingway, o protagonista, que está morrendo,
relembra todas as histórias que agora jamais escreverá. "Ele
sabia pelo menos vinte histórias boas dali e jamais escrevera
nenhuma delas. Por quê?" Ele menciona algumas, mas a lista,
evidentemente, deve ser interminável. As estantes dos livros que não
escrevemos, assim como as dos livros que não lemos, estendem-se pela
escuridão do espaço remoto da biblioteca universal. Estamos sempre
no começo do começo da letra A.
Entre os livros que não escrevi -
entre os livros que não li, mas gostaria de ler - está A
história da leitura. Posso vê-lo, logo ali, no ponto exato em
que acaba a luz desta seção da biblioteca e começa a escuridão da
próxima. Sei exatamente qual é a sua aparência.
Posso conceber sua capa e imaginar a
sensação de suas ricas páginas cor de creme.
Posso adivinhar, com acuidade lasciva,
a sensualidade da encadernação de pano escuro sob a sobrecapa e as
letras gravadas em dourado. Conheço sua página de rosto sóbria,
sua epígrafe espirituosa, sua dedicatória comovente. Sei que possui
um índice abundante e curioso que me dará grande prazer, com
tópicos (caio por acaso na letra T) como Tântalo para leitores;
Tartaruga (ver Conchas e peles de animais); Tarzan,
biblioteca de; Traças; Tradução; Tolstoi, cânone de; Tormento: e
recitação; Transmigração de almas de leitores (ver Empréstimo
de livros); Túmulos, inscrições em. Sei que o livro
possui, como veios no mármore, cadernos de ilustrações que jamais
vi: um mural do século VII representando a biblioteca de Alexandria,
tal como vista por um artista da época; uma fotografia da poeta
Sylvia Plath lendo em voz alta num jardim, sob a chuva; um esboço da
sala de Pascal em Port-Royal, mostrando os livros que ele
mantinha sobre sua escrivaninha; uma fotografia dos livros
encharcados salvos por uma passageira do Titanic, sem os quais
ela não abandonaria o navio; a lista de Natal de Greta Garbo para
1933, escrita por seu próprio punho, mostrando que entre os livros
que compraria estava Miss Corações Solitários, de Nathanael
West; Emily Dickinson na cama, com um gorro cheio de babados amarrado
de um modo confortável sob o queixo, e, espalhados em torno dela,
seis ou sete livros cujos títulos mal posso adivinhar.
Tenho o livro aberto diante de mim,
sobre a minha mesa. E escrito de forma amistosa (tenho a sensação
exata de seu tom), acessível e erudito ao mesmo tempo, informativo
e, contudo, reflexivo. O autor, cujo rosto vi no belo frontispício,
está sorrindo com satisfação (não posso dizer se é homem ou
mulher; a face barbeada poderia ser de ambos os sexos, o mesmo
podendo acontecer com as iniciais do nome) e sinto que estou em boas
mãos.
Sei que, à medida que avançar pelos
capítulos, serei apresentado àquela antiga família de leitores,
alguns famosos, muitos obscuros, da qual faço parte. Aprenderei suas
maneiras e as mudanças nessas maneiras, e as transformações que
sofreram enquanto levaram consigo, como os magos de outrora, o poder
de transformar signos mortos em memória viva. Lerei sobre seus
triunfos e perseguições, sobre suas descobertas quase secretas. E,
no final, compreenderei melhor quem eu - o leitor - sou.
Que um livro não exista (ou não
exista ainda) não é motivo para ignorá-lo mais do que ignoraríamos
um livro sobre um tema imaginário. Há volumes escritos sobre o
unicórnio, sobre Atlântida, sobre igualdade dos gêneros, sobre a
Dama Negra dos Sonetos e a igualmente negra Juventude. Mas a história
que este livro registra foi particularmente difícil de agarrar; ele
é feito, por assim dizer, de suas digressões. Um assunto chama
outro, uma anedota traz à mente outra história aparentemente sem
relação, e o autor se comporta como se estivesse alheio
à causalidade lógica ou à continuidade histórica, como se
definisse a liberdade do leitor no próprio ato de escrever sobre
esse ofício.
Contudo, nessa aparente
aleatoriedade, há um método: este livro que vejo diante de mim não
é somente a história da leitura - é também a história de
leitores comuns, dos indivíduos que, ao longo dos séculos,
escolheram certos livros em detrimento de outros, aceitaram em alguns
casos o veredicto dos antepassados, mas em outras ocasiões
resgataram títulos esquecidos do passado ou puseram na estante os
eleitos entre seus contemporâneos. Esta é a história de seus
pequenos triunfos e de seus sofrimentos secretos, e da maneira como
essas coisas aconteceram. A crônica de como tudo ocorreu está
minuciosamente registrada neste livro, na vida cotidiana de umas
poucas pessoas comuns descoberta aqui e ali em memórias de família,
histórias de aldeias, relatos de vida em lugares distantes, há
muito tempo. Mas fala sempre de indivíduos, nunca de vastas
nacionalidades ou gerações cujas escolhas não pertencem à
história da leitura, mas à da estatística. Rilke uma vez
perguntou: "É possível que toda a história do mundo tenha
sido mal compreendida? É possível que o passado seja falso, porque
sempre falamos sobre suas massas como se estivéssemos contando sobre
uma reunião de gente, em vez de falar sobre aquela pessoa em torno
da qual se reuniram, porque era um estranho e estava morrendo? Sim, é
possível". Esse mal-entendido, o autor de A história da
leitura certamente a reconheceu.
Eis então, no capítulo 14, Richard
de Bury, bispo de Durham, tesoureiro e chanceler do rei Eduardo II,
nascido a 24 de janeiro de 1287 numa pequena aldeia próxima de Bury;
St. Edmund's, em Suffolk, e que em seu quinquagésimo oitavo
aniversário terminou um livro explicando que, "porque trata
principalmente do amor aos livros, escolhemos, conforme a moda dos
antigos romanos, intitulá-lo afetuosamente com a palavra grega
Philobiblon".
Quatro meses depois, morreu. De Bury
colecionara livros com paixão; tinha, dizia-se, mais livros que
todos os outros bispos da Inglaterra juntos, e tantos empilhavam-se
em torno de sua cama que era quase impossível andar pelo quarto sem
tropeçar neles. De Bury, graças a Deus, não era um erudito e lia
apenas o que lhe apetecia. Achava o Hermes Trismegisto (um
volume neoplatônico de alquimia egípcia do século III) um
excelente livro científico "de antes do Dilúvio",
atribuía erradamente obras a Aristóteles e citava versos horríveis
como se fossem de Ovídio. Não importava. "Nos livros",
escreveu ele, "encontro os mortos como se estivessem vivos; nos
livros, prevejo coisas que irão acontecer; nos livros, negócios de
guerra são relatados; dos livros saem as leis da paz.
Todas as coisas são corrompidas e
degeneram com o tempo; Saturno não cessa de devorar os filhos que
gera: toda a glória do mundo estaria enterrada no olvido, se Deus
não tivesse provido os mortais com o remédio dos livros. (Nosso
autor não menciona isso, mas Virginia Woolf, em um trabalho lido na
escola, fez eco à asserção de Bury: "Tenho sonhado às vezes
que, quando chegar o Dia do Juízo e os grandes conquistadores,
advogados e estadistas forem receber suas recompensas - suas coroas,
lauréis, nomes gravados indelevelmente em mármore imperecível , o
Todo-Poderoso irá se voltar para Pedro e dirá, não sem uma certa
inveja quando nos vir chegando com nossos livros embaixo do braço:
'Veja, esses não precisam de recompensa. Não temos nada para lhes
dar. Eles amaram a leitura.'”)
O capítulo 8 é devotado a uma
leitora quase esquecida que santo Agostinho, numa carta, louva como
uma escriba formidável e a quem dedicou um de seus livros. Seu nome
era Melanía, a Jovem (para distingui-la de sua avó, Melania, a
Anciã), e ela viveu em Roma, no Egito e no Norte da Africa. Nasceu
por volta de 385 e morreu em Belém, em 439. Era apaixonada por
livros e copiou para si mesma tantos quantos pôde encontrar,
reunindo assim uma importante biblioteca. O erudito Gerôncio, do
século V, descreveu-a como "naturalmente dotada" e tão
aficionada pela leitura que "percorria as Vidas dos padres como
se estivesse comendo uma sobremesa". "Lia livros que eram
comprados, bem como livros que encontrava por acaso, e o fazia com
tal diligência que nenhuma palavra ou pensamento permanecia
desconhecido para ela. Tão avassaladora era sua paixão pelo
aprendizado que, quando lia em latim, parecia a todos que não sabia
grego, e, por outro lado, quando lia em grego, pensava-se que não
sabia latim." Brilhante e transitória, Melania, a Jovem, é
vista perambulando na - A história da leitura como uma das
muitas pessoas que buscaram conforto nos livros.
De um século mais próximo de nós
(mas o autor de A história da leitura não dá importância a
essas convenções arbitrárias e o convida a comparecer no capítulo
6), outro leitor eclético, o genial Oscar Wilde, apresenta-se.
Seguimos seu progresso nas leituras, dos contos de fada celtas que
sua mãe lhe deu aos volumes eruditos que leu no Magdalen College, em
Oxford. Foi num exame em Oxford que lhe pediram que traduzisse a
versão grega da Paixão no Novo Testamento. Como avançou no
trabalho com muita facilidade e correção, os examinadores
disseram-lhe que já bastava. Wilde continuou a traduzir, e uma vez
mais disseram-lhe que parasse. "Oh, deixem-me continuar, quero
ver como acaba”, disse Wilde.
Para ele, era tão importante saber do
que gostava quanto o que deveria evitar. Em beneficio dos assinantes
da Pal Mall Gazette, publicou, em 8 de fevereiro
de 1886, estas palavras de advertência sobre o que "Ler ou não
ler": Livros que não devem ser lidos de forma alguma, como
Seasons, de Thomson, Italy, de Rogers, Evidences, de Paley, todos os
Pais da Igreja, exceto santo Agostinho, todo o John Stuart Mill,
exceto o ensaio sobre a liberdade, todas as peças de Voltaire, sem
exceção, Analogy, de Butler, Aristotle, de Grant, England, de Hume,
History of philosophy, de Lewes, todos os livros argumentativos e
todos os livros que tentam provar alguma coisa [...] Dizer às
pessoas o que ler é, como regra, inútil ou prejudicial, pois a
verdadeira apreciação da literatura é uma questão de
temperamento, não de ensino, ao Parnaso não há cartilha
introdutória, e nada do que alguém pode aprender vale a pena ser
aprendido. Mas dizer às pessoas o que não ler é uma questão muito
diferente, e aventuro-me a recomendá-lo, como missão, ao Programa
de Extensão Universitária.
Os gostos de leitura privados e
públicos são discutidos bem no início do livro, no capítulo 4. O
papel do leitor como antologista é examinado, como coletor de
material para si mesmo (o livro de Jean-Jacques Rousseau, um
lugar-comum, é o exemplo dado) ou para os outros (Golden treasury
[Tesouro dourado] de Palgrave), e nosso autor, com muita graça,
mostra como os conceitos de público modificam as escolhas dos
antologistas. Para apoiar essa "micro-história das antologias",
nosso autor cita o professor Jonathan Rose a propósito das "cinco
falácias comuns da resposta do leitor":
- primeira, toda literatura é
política, no sentido de que sempre influencia a consciência
política do leitor;
- segunda, a influência de
determinado texto é diretamente proporcional à sua circulação;
- terceira, a cultura "popular"
tem muito mais adeptos do que a "alta" cultura e, portanto,
reflete com mais precisão as atitudes das massas;
- quarta, a "alta"
cultura tende a reforçar a aceitação da ordem social e política
existente (suposição largamente compartilhada tanto pela direita
como pela esquerda); e
- quinta, o “cânone dos grandes”
livros é definido somente pelas elites sociais. Os leitores comuns
não reconhecem o cânone, ou aceitam-no apenas por deferência à
opinião da elite.
Como nosso autor deixa bastante claro,
nós, os leitores, somos normalmente culpados de aceitar pelo menos
algumas, senão todas, essas falácias. O capítulo menciona também
antologias ready-made coligidas e encontradas por acaso, tais
como os 10 mil textos reunidos em um curioso arquivo judeu no Cairo
Velho, chamado Geniza e descoberto em 1890 num quarto de despejo
lacrado de uma sinagoga medieval. Por causa da reverência judaica em
relação ao nome de Deus, nenhum papel foi jogado fora por medo de
que contivesse seu nome; portanto, tudo, de contratos de casamento a
listas de compras, de formas de amor a catálogos de livreiros (um
dos quais incluía a primeira referência conhecida às Mil e uma
noites), foi reunido ali para um leitor futuro.
Não apenas um, mas três capítulos
(31, 32 e 33) são dedicados ao que o autor chama de "A invenção
do leitor". Cada texto supõe um leitor Quando Cervantes começa
sua introdução à primeira parte do Dom Quixote com o
vocativo "Desocupado leitor”, sou eu que desde as primeiras
palavras me torno uma personagem na ficção, uma pessoa com tempo
suficiente para me comprazer com a história que está para começar.
A mim Cervantes dedica o livro, a mim explica os fatos de sua
composição, a mim confessa as falhas da obra. Seguindo o conselho
de um amigo, ele próprio escreveu alguns poemas laudatórios
recomendando o livro (a versão menos inspirada de hoje é pedir a
personalidades conhecidas que elogiem e colem seus panegíricos na
sobrecapa do livro).
Cervantes solapa sua própria
autoridade ao me fazer penetrar em seu segredo. Eu, o leitor, fico em
guarda e, no mesmo ato, sou desarmado. Como posso reclamar do que me
foi exposto de forma tão clara'? Concordo em participar do jogo.
Aceito a ficção. Não fecho o livro.
Minha decepção indisfarçada
continua. Oito capítulos adiante, fico sabendo que esse é o tamanho
da história de Cervantes e que o resto do livro é uma tradução do
árabe feita pelo historiador Cide Hamete Benengeli. Por que o
artificio? Porque eu, o leitor, não me convenço facilmente e
porque, embora não acredite na maioria dos truques com os quais o
autor jura veracidade, gosto de entrar num jogo em que os níveis de
leitura mudam constantemente. Leio um romance, leio uma aventura
real, leio a tradução de uma aventura real, leio uma versão
correta dos fatos.
A história da leitura é
eclética. A invenção do leitor segue-se um capítulo sobre a
invenção do escritor, outra personagem de ficção. “Tive a
infelicidade de começar um livro com a palavra eu", escreveu
Proust, "e imediatamente pensou-se que, em vez de tentar
descobrir leis gerais, eu estava analisando a mim mesmo, no sentido
individual e detestável da palavra." Isso conduz nosso autor a
discutir o uso da primeira pessoa do singular e do modo como esse eu
fictício força o leitor a uma aparência de diálogo, do qual,
entretanto, ele é excluído pela realidade física da página.
"Somente quando o leitor lê para além da autoridade do
escritor é que o diálogo acontece", diz nosso autor, e tira
seus exemplos do nouveau roman, em especial de A
modificação, de Michel Butor, escrito inteiramente na segunda
pessoa. "Aqui", diz nosso autor, "as cartas estão na
mesa e o escritor não espera que acreditemos no eu nem presume que
vamos assumir o papel do condescendente 'prezado leitor'."
Numa fascinante digressão (capítulo
40 de A história da leitura), nosso autor apresenta a sugestão
original de que a forma pela qual o livro se dirige ao leitor leva à
criação dos principais gêneros literários - ou pelo menos à sua
classificação. Em 1948, em Das Sprachliche Kunstwerk [Análise e
interpretação da obra de arte literária], o crítico alemão
Wolfgang Kayser propôs que o conceito de gênero derivava das três
pessoas que existem em todas as línguas conhecidas: eu, tu e
ele ou ela. Na literatura lírica, o eu
expressa-se emocionalmente; no drama, o eu torna-se uma
segunda pessoa, tu, e trava com outro tu um diálogo
apaixonado. Por fim, na epopeia, o protagonista é a terceira pessoa,
ele ou ela, que narra objetivamente. Ademais, cada
gênero exige do leitor três atitudes distintas: uma atitude lírica
(a da caução), uma atitude dramática (que Kayser chama de
apóstrofe) e uma atitude épica, ou enunciação. Nosso autor acolhe
com entusiasmo esse argumento e ilustra-o com três leitores: Éloise
Bertrand, uma colegial francesa do século XIX cujo diário
sobreviveu à guerra franco-prussiana de 1870 e que registrou
fielmente sua leitura de Nerval; Douglas Hyde, que foi ponto na
representação de The vicar of Wakefield [O vigário de
Wakefield] no Court Theatre de Londres, com Ellen Terry no papel de
Olívia; e a criada de Proust, Céleste, que leu (em parte) o extenso
romance de seu patrão.
No capítulo 68 (essa História da
leitura é um volume reconfortante-mente grosso), nosso autor
levanta a questão de como (e por que) certos leitores preservam uma
leitura depois que a maioria já a relegou ao passado. O exemplo dado
é o de um jornal de Londres publicado em algum momento de 1855,
quando a maioria dos jornais ingleses estava abarrotada de notícias
da guerra na Criméia:
John Challis, um homem idoso de cerca
de sessenta anos, vestido com os trajes pastoris de uma pastora da
idade de ouro, e George Campbell, de 35 anos, que descreveu a si
mesmo como advogado e apareceu completamente equipado em trajes
femininos atuais, foram postos no tribunal diante de sir R. W.
Carden, sob a acusação de terem sido encontrados disfarçados de
mulher no Druids'-hal , em Turnagain Lane, um salão de danças sem
licença, com o propósito de incitar outros a cometerem uma ofensa
antinatural.
"Uma pastora da idade de ouro":
em 1855, o ideal bucólico literário era coisa do passado.
Codificado nos Idílios de
Teócrito no terceiro século antes de Cristo, atraindo os escritores
de uma forma ou de outra até o século XVII, tentando escritores tão
disparatados como Milton, Garcilaso de la Vega, Giambattista Marino,
Cervantes, Sidney e Fletcher, o bucolismo encontrou um reflexo muito
diferente em romancistas como George Eliot e Elizabeth Gaskel , Émile
Zola e Ramón del Val e Inclán, em seus livros que davam aos
leitores outra visão menos ensolarada da vida no campo: Adam Bede
(1859), Cranford (1853), La Terre (1887), Tirano
Banderas (1926). Essas reconsiderações não eram novas.
Já no século XIV o escritor espanhol
Juan Ruiz, arcipreste de Hita, em seu Libro de buen amor,
subvertera a convenção na qual um poeta ou cavaleiro solitário
encontra uma bela pastora a quem seduz gentilmente, fazendo com que o
narrador encontre nas colinas de Guadarrama quatro pastoras
selvagens, corpulentas e voluntariosas. As duas primeiras o estupram,
da terceira ele escapa com promessas falsas de casar com ela e a
quarta lhe oferece abrigo em troca de roupas, joias, um casamento ou
dinheiro vivo. Duzentos anos depois, havia poucos como o velho sr.
Challis que ainda acreditavam no apelo simbólico do pastor adorável
e suas pastoras ou do amoroso cavalheiro e sua inocente donzela do
campo. Segundo o autor de A história da leitura, essa é uma das
maneiras (extrema, sem dúvida) pelas quais os leitores preservam e
recontam o passado.
Vários capítulos, em diferentes
partes do livro, tratam dos deveres da ficção, em oposição ao que
o leitor aceita como fato. Os capítulos sobre a leitura de fatos
constituem um toque árido, indo das teorias de Platão às críticas
de Hegel e Bergson; ainda que tragam o possivelmente apócrifo
viajante-escritor inglês do século XIV sir John Mandevil e, são um
tanto densos para se deixar resumir Os capítulos sobre leitura de
ficção, no entanto, são mais concisos. Duas opiniões, igualmente
prescritivas e totalmente opostas, são apresentadas. Segundo uma
delas, o leitor deve acreditar nas personagens do romance e agir como
elas. De acordo com a outra, o leitor deve desconsiderar essas
personagens como meras fabricações sem nenhuma relação com o
"mundo real". Henry Tilney, em A abadia de Northanger,
de Jane Austen, dá voz à primeira opinião quando interroga
Catherine depois do rompimento da amizade com Isabel a; ele espera
que os sentimentos dela sigam as convenções da ficção:
- Imagino que, perdendo Isabel a,
deve estar com a sensação de ter perdido metade de si mesma. Sente
no coração um vazio que nada encherá. Tudo lhe parece enfadonho, e
a simples idéia dos prazeres que compartilhava com ela - bailes,
teatros, concertos lhe é odiosa. Está persuadida de que já não
terá, de agora em diante, uma amiga em quem confiar sem reservas,
uma amiga com quem contar. Está sentindo tudo isto?
- Não disse Catherine depois de
refletir. - Devia?
O tom do leitor e o modo como ele
afeta o texto são discutidos no capítulo 51, por meio da personagem
de Robert Louis Stevenson lendo histórias para seus vizinhos na
Samoa.
Stevenson atribuía o senso dramático
e musical de sua prosa às histórias para dormir que lhe contava sua
babá Alison Cunningham, "Cummie". Ela lia histórias de
fantasmas, hinos religiosos, panfletos calvinistas e romances
escoceses, tudo o que acabou penetrando em sua ficção. "Foi
você quem me deu a paixão pelo teatro, Cummie", confessou-lhe
quando já era homem feito. “Eu, senhor Lou? Nunca pus o pé num
teatro em toda a minha vida.'”
Ao que ele respondeu: "Ah,
mulher! Mas foi aquela magnífica forma dramática que você tinha de
recitar os hinos". Stevenson aprendeu a ler somente aos sete
anos, não por preguiça, mas porque queria prolongar as delícias de
ouvir as histórias ganharem vida. A isso nosso autor chama de
"síndrome de Scherazade".
Ler ficção não é a única
preocupação do nosso autor. A leitura de textos científicos,
dicionários, partes de um livro com índices, notas e dedicatórias,
mapas, jornais, tudo merece (e recebe) seu próprio capítulo. Há um
retrato curto mas revelador do romancista Gabriel García Márquez,
que lê todas as manhãs um par de páginas de um dicionário
(qualquer dicionário, exceto o pomposo Diccionario de la Real
Academia Española) - hábito que nosso autor compara ao de
Stendhal, que lia com atenção o Código Napoleônico para aprender
a escrever com um estilo conciso e exato.
O tópico da leitura de livros
emprestados ocupa o capítulo 15. Jane Carlyle (esposa de Thomas
Carlyle e famosa epistológrafa) nos conduz pelas complexidades de
ler livros que não nos pertencem, "como se tivéssemos um caso
ilícito", e de retirar de bibliotecas livros que podem afetar
nossa reputação. Uma certa tarde de 1843, tendo escolhido da
respeitável London Library vários romances "ousados" do
escritor francês Paul de Kock, ela descaradamente preencheu a ficha
de empréstimo com o nome de Erasmus Darwin, o descarnado avô
inválido do famoso Charles, para espanto dos bibliotecários.
Aqui estão também as cerimônias de
leitura da nossa época e de tempos passados (capítulos 43 e 45).
Aqui estão as maratonas de leitura de Ulisses no Bloomsday,
as nostálgicas leituras radiofônicas de um livro antes de dormir,
as leituras em grandes salões de biblioteca lotados e em lugares
longínquos, desertos e bloqueados pela neve, leituras à cabeceira
dos doentes, leituras de histórias de fantasmas ao pé do fogo no
inverno. Aqui está a ciência curiosa da biblioterapia (capítulo
21), definida no Webster como "o uso de material de leitura
selecionado como coadjuvante terapêutico na medicina e na
psiquiatria", com o qual certos médicos afirmam poder curar os
doentes do corpo e do espírito, administrando-lhes The wind in
the wil ows [O vento nos salgueiros] ou Bouvard e Pécuchet.
Aqui estão as maletas de livros, o
sine qua non de toda viagem vitoriana. Nenhum viajante saía de casa
sem uma mala cheia de leitura apropriada. fosse para a Côte d'Azur
ou para a Antártida. (Pobre Amundsen: nosso autor nos conta que, a
caminho do Pólo Sul, a maleta de livros do explorador afundou sob o
gelo e ele foi obrigado a passar muitos meses na companhia do único
volume que conseguiu resgatar: The portraiture of His Sacred Majesty
in his solitudes and sufferings [O retrato de Sua Sagrada Majestade
em seus sofrimentos e solidões], do dr John Gauden.) Um dos
capítulos finais (mas não o último) trata do reconhecimento
explícito pelo escritor do poder do leitor. Aqui estão os livros
deixados abertos para a construção do leitor, como uma caixa de
Lego: o Tristram Shandy de Laurence Sterne, evidentemente, que
nos permite ler de qualquer jeito, e O jogo da amarelinha, de
Júlio Cortázar, romance construído com capítulos intercambiáveis
cuja seqüência o leitor determina à vontade.
Sterne e Cortázar conduzem
inevitavelmente aos romances da Nova Era, os hipertextos.
O termo (conta-nos nosso autor) foi
cunhado na década de 1970 pelo especialista em computação Ted
Nelson, para descrever o espaço narrativo não sequencial
possibilitado pelos computadores. Nosso autor cita o romancista
Robert Coover, que descreveu assim o hipertexto num artigo publicado
no New York Times: "Não há hierarquias nessas redes sem
parte de cima (e sem parte de baixo), na medida em que parágrafos,
capítulos e outras divisões convencionais do texto são
substituídas por blocos de texto e elementos gráficos do tamanho da
janela, de valor semelhante e igualmente efêmeros". O leitor de
um hipertexto pode entrar no texto praticamente em qualquer ponto,
pode mudar o curso da narrativa, exigir inserções, corrigir,
expandir ou apagar. Esses textos também não têm fim, pois o leitor
(ou o escritor) sempre pode continuar ou recontar um texto: "Se
tudo está no meio, como saber que acabou, seja você o leitor ou o
escritor?" - pergunta Coover "Se a qualquer momento o autor
é livre para levar a história a qualquer lugar e em quantas
direções quiser, não se torna uma obrigação fazê-lo?"
Entre parênteses, nosso autor questiona a liberdade implícita nessa
obrigação.
A história da leitura,
felizmente, não tem fim. Depois do último capítulo e antes do já
mencionado índice copioso, nosso autor deixou várias páginas em
branco para o leitor acrescentar mais pensamentos sobre a leitura,
temas obviamente esquecidos, citações pertinentes, eventos e
personagens ainda no futuro. Há algum consolo nisso. Imagino deixar
o livro na mesinha-de-cabeceira, imagino abri-lo hoje à noite,
amanhã à noite ou depois de amanhã, imagino que direi a mim mesmo:
"Não acabou".
Alberto Manguel, em Uma História da Leitura
segunda-feira, 11 de maio de 2026
Roça
No mesmo prato
o menino, o cachorro e o gato.
Come a infância do mundo.
Adélia Prado, em O Coração Disparado
Mágica divina
O cristianismo acabou com o sofrimento
transformando o sofrimento em prazer, como o atesta a alegre legião
dos mártires e essa gente que, a cada golpe, exclama: “Seja o que
Deus quiser!”
Mário Quintana, em Caderno H
A bo de segunda
Dois homens se vestindo, cada um em
seu quarto, falando ao telefone. O clima é adolescente, como se
estivessem indo pra balada.
SALDANHA Senador Silveira?
SILVEIRA Fala, Saldanha!
SALDANHA Vai chegar lá na votação
lá do negócio da emenda?
SILVEIRA Nossa, ia te ligar agora pra
perguntar isso!
Os dois riem.
SALDANHA Tô muito na dúvida.
SILVEIRA Tá marcado pra que horas?
SALDANHA Umas nove, mas aquela coisa,
né? Só começa a bombar lá pelas onze.
SILVEIRA Mas a questão é: o pessoal
vai? A última votação que eu fui tava megamicada. Não tinha
ninguém que eu conheço.
SALDANHA Nem fala! Foi o uó. Eu
estreei uma gravata nova e não tinha nem CQC.
SILVEIRA Nossa, odeio quando isso
acontece! Não comprei uma gravata italiana pra gastar na TV Senado!
Os dois riem.
SILVEIRA Você ligou pro pessoal?
SALDANHA O Zezinho do Sindicato tá em
Trancoso. O Josuelton tá em Ibiza. O Pastor Tobias disse que só vai
se o Carlinhos for. O Carlinhos falou que só vai se eu for. Mas eu
só vou se você for, pra gente sentar no fundão e tocar a zoeira.
SILVEIRA E se a gente mandasse o
suplente?
SALDANHA O meu tá cassado.
SILVEIRA A gente pode dar uma
passadinha. Se tiver ruim a gente vaza.
SALDANHA Pode ser uma boa. A gente
passa, dá uma olhadinha e faz uma social pra marcar presença.
SILVEIRA Combinado, então. Ah, essa
votação é sobre o quê?
SALDANHA É uma emenda parlamentar de
orçamento impositivo.
SILVEIRA Sério?
SALDANHA Claro que não, porra! Tu
acha que eu vou saber que porra de votação que vão tá votando, ô
caralho?
Os dois riem.
SILVEIRA A gente se vê lá, filho da
puta. E vai perfumado que depois tem puteiro.
Gregório Duvivier, em Put some farofa
I Want to Hold Your Hand | John Lennon e Paul McCartney
I Want to Hold Your Hand, de John
Lennon e Paul McCartney
Oh yeah I’ll tell you something
I think you’ll understand
When I say that something
I want to hold your hand
I want to hold your hand
I want to hold your hand
Oh please say to me
You’ll let me be your man
And please say to me
You’ll let me hold your hand
Now let me hold your hand
I want to hold your hand
And when I touch you I feel happy
inside
It’s such a feeling that my love
I can’t hide
I can’t hide
I can’t hide
Yeah you got that something
I think you’ll understand
When I say that something
I want to hold your hand
I want to hold your hand
I want to hold your hand
And when I touch you I feel happy
inside
It’s such a feeling that my love
I can’t hide
I can’t hide
I can’t hide
Yeah you got that something
I think you’ll understand
When I feel that something
I want to hold your hand
I want to hold your hand
I want to hold your hand
I want to hold your hand
Por trás de tudo havia um erotismo.
Se eu me ouvisse usando essa palavra quando eu tinha dezessete anos,
eu daria uma gargalhada. Mas o erotismo foi uma das forças motrizes
de tudo o que fiz. É uma coisa muito poderosa. E, sabe, era isso que
estava por trás de muitas dessas canções de amor. “I want to
hold your hand”, mas subentende-se, entre parênteses: (quero
segurar a sua mão e provavelmente fazer muito mais!).
Na época em que esta canção foi
escrita, eu tinha uns 21 anos, e tínhamos ido morar em Londres. O
nosso empresário conseguiu um apartamento para os Beatles:
apartamento L, 57 Green Street, Mayfair. Era tudo muito empolgante;
Mayfair é uma área chique de Londres. Por algum motivo, fui o
último a aparecer lá e a conhecer o local, e me deixaram num
quartinho. Os outros já tinham escolhido os quartos maiores. E me
deixaram nesse quartinho medonho.
Mas eu tinha uma namorada, Jane Asher,
uma jovem muito elegante, cujo pai tinha um consultório médico na
Wimpole Street e cuja mãe era uma senhora maravilhosa, a professora
de música Margaret Asher. Então, eu sempre ia visitá-los na casa
deles. Eu adorava ir lá por causa do ambiente familiar. Margaret e
eu nos dávamos muito bem. Ela me tratava como se fosse minha segunda
mãe. Era com esse carinho que eu estava acostumado antes de minha
mãe morrer, quando eu tinha quatorze anos. Mas eu nunca tinha visto
uma família como a deles. As únicas pessoas que eu conhecia
pertenciam à classe trabalhadora de Liverpool. Essa era a Londres
sofisticada; todos eles tinham uma rotina que se estendia das oito da
manhã às seis ou sete da noite – uma agenda sempre cheia. Nem um
segundo sequer era desperdiçado. Jane ia ao agente dela, passava o
texto de uma peça teatral, encontrava-se com alguém para almoçar,
tinha aula com o instrutor vocal para aprender um sotaque de Norfolk
para seu próximo espetáculo. É natural que eu me apaixonasse por
tudo isso. Era como se eu estivesse em uma história, vivendo em um
romance.
Conversa vai, conversa vem, acabei
morando com os Asher. Eu já tinha me hospedado lá algumas vezes,
mas Margaret deve ter dito: “Bem, sabe, vamos deixar você ficar
com o quarto do sótão”. Então fui morar lá, e eles colocaram um
piano naquele quarto.
Quando John vinha me visitar, também
havia um piano no porão – uma salinha de música onde eu acho que
a Margaret dava aulas aos alunos dela. Assim, podíamos compor ali no
porão, os dois sentados ao piano ao mesmo tempo, ou frente a frente,
cada qual com seu violão.
“I Want to Hold Your Hand” não é
sobre Jane, mas com certeza foi escrita quando eu estava com ela.
Para dizer a verdade, acho que estávamos compondo mais para o
público em geral. Eu podia aproveitar minha experiência com a
pessoa por quem eu estava apaixonado na época – e, às vezes, isso
era muito específico –, mas em linhas gerais estávamos compondo
para o mundo.
Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente
domingo, 10 de maio de 2026
Tarde de maio
Como esses primitivos que carregam por
toda parte o maxilar inferior de seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que
consumiam a terra,
outra chama, não perceptível, e tão
mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços
cômicos,
e uma a uma, disjecta membra,
deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções
de minh’alma
nunca antes nem nunca mais aferidas em
sua nobreza
sem fruto.
Mas os primitivos imploram à relíquia
saúde e chuva,
colheita, fim do inimigo, não sei que
portentos.
Eu nada te peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora
dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo
a ponto de
converter-se em sinal de beleza no
rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto, e
passa…
Outono é a estação em que ocorrem
tais crises,
e em maio, tantas vezes, morremos.
Para renascer, eu sei, numa fictícia
primavera,
já então espectrais sob o aveludado
da casca,
trazendo na sombra a aderência das
resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a
poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que
desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive,
pusesse reparo.
E os que o vissem não saberiam dizer:
se era um préstito
lutuoso, arrastado, poeirento, ou um
desfile carnavalesco.
Nem houve testemunha.
Não há nunca testemunhas. Há
desatentos. Curiosos, muitos.
Quem reconhece o drama, quando se
precipita, sem máscara?
Se morro de amor, todos o ignoram
e negam. O próprio amor se desconhece
e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito
dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há
tanto lavou a memória
das impurezas de barro e folha em que
repousava. E resta,
perdida no ar, por que melhor se
conserve,
uma particular tristeza, a imprimir
seu selo nas nuvens.
Carlos Drummond de Andrade, em Claro Enigma
Quinto caderno de Kindzu – Juras, promessas, enganos
Farida dormia na cabina do capitão.
Enquanto eu dormia fora, deitado entre cordas e panos velhos. O anão
nunca saía do porão, de guarda aos donativos. Caso estranho: Farida
não era capaz de ver o tchóti. Pior ainda: ela desacreditava da sua
existência. Eu lhe apontava lá em baixo no porão, a sombra escura
e minusculinha do anão. Ela se ria, como se fosse brincadeira. Eu
lhe notava os barulhos que o baixito fazia, ela respondia que era o
mar ecoando no navio. Desisti de provar a presença do tchóti.
Aliás, mesmo eu comecei a duvidar. Cheguei a descer ao porão para
provar se o baixito ali permanecia. Chamei por ele, vasculhei, passei
tudo pela finura de um pente. Nada. Nem vestígio do anão. Farida
tinha razão? Será que só em sonho a criaturita preenchera alguma
existência? Ou seria, mais outra vez, obra de meu pai?
Essas perguntas me perseguiam enquanto
procurava ninho para dormir. Do lugar onde me ensonava eu podia ver o
céu, todo redondo, estrelinhoso. Nas noites mais claras eu já
enxergava a torre do farol. No princípio eu não conseguia
distinguir a ilha mais sua construção. Agora, sim. Já os via tanto
quanto deixara de ver o anãozito. Eu e Farida trocáramos de
ilusões? E lá estava o farol, esse da esperança. Parecia uma zebra
descansando sobre uma só perna. Muitas vezes nem se via a pequena
ilha onde tinha sido construído. As ondas cobriam os rochedos, em
crinas de espumas. Nas ventanias, o mar se agravava e parecia o barco
ia ser arrancado. Eu pensava: “lá vamos partir de viagem, sem rumo
nem comandante”. Contudo, o barco apenas rangia, cansado. Nenhuma
força conseguia libertar aquele náufrago. Tinha teimosias iguais às
de Farida, só que de contrárias direcções. Um queria ficar, outro
ansiava partir. Nada parecia demover aquela mulher de sair de sua
terra, abandonar tudo. Seu filho era sua única dúvida, a última
âncora.
Antes de deitar, Farida passeava pelo
convés. Vagueava, espreitando no escuro. Nesses momentos, ela me
recordava meu pai, andando pelo mato à procura de sonhos.
— Não sentes, Kindzu? O barco
está a mexer!
Não mexia. Só ela sentia o navio
ceder. Naquele destroço, o tempo parecia também naufragado. Nesse
enquanto, fui um ouvidor. De cada vez que sofria uma dessas estranhas
febres que lhe roubavam o corpo, Farida contava sua estória, fiava e
desfiava lembranças. Eu escutava até anoitecer. Meu pai costumava
dizer que a escuridão nos faz nascer muitas cabeças. Os relatos de
Farida me faziam entrar no passado dela como se eu fosse natural
desse seu tempo. Minha companheira perdia a noção do mundo enquanto
duravam suas recordações. Era eu que alertava para a fome, para a
sede, para o frio. Comíamos e bebíamos da despensa do navio. Havia
ainda demais reservas. Farida podia ficar aqui por tempos e tempos. E
parecia era esse o desejo dela. E as estórias se seguiam, se
repetiam, trocavam e multiplicavam.
— Me estás a ouvir, Kindzu?
Na realidade, eu já desistira de
escutar. Pensava sobre as semelhanças entre mim e Farida. Entendia o
que me unia àquela mulher: nós dois estávamos divididos entre dois
mundos. A nossa memória se povoava de fantasmas da nossa aldeia.
Esses fantasmas nos falavam em nossas línguas indígenas. Mas nós
já só sabíamos sonhar em português. E já não havia aldeias no
desenho do nosso futuro. Culpa da Missão, culpa do pastor Afonso, de
Virgínia, de Surendra. E sobretudo, culpa nossa. Ambos queríamos
partir. Ela queria sair para um novo mundo, eu queria desembarcar
numa outra vida. Farida queria sair de África, eu queria encontrar
um outro continente dentro de África. Mas uma diferença nos
marcava: eu não tinha a força que ela ainda guardava. Não seria
nunca capaz de me retirar, virar costas. Eu tinha a doença da baleia
que morre na praia, com olhos postos no mar.
Certa vez ela se chegou grave. Colocou
suas mãos nas minhas e deixou um silêncio pousar. Depois, me pediu:
— Quando saíres daqui quero que
vás procurar meu filho. Hei-de levar Gaspar comigo.
— Não posso, Farida. Vou sair
daqui e procurar os naparamas.
— Tu nunca vais encontrar esses
teus naparamas. Esquece isso.
— Não posso.
— Não vês que essa gente também
é filha da guerra? Quando vencerem ficam iguais aos outros. Vão
querer dividir as vantagens com os outros.
— Cala-te, tu não sabes nada
sobre esta guerra. Tu queres fugir, não tens nenhum direito de
falar.
Farida se ofende. No resto do dia ela
me evita. Eu também me afastei. Aquela mulher tinha maltratado a
minha maior aspiração. Eu precisava acreditar que existia uma causa
nobre, uma razão pela qual valia a pena me entregar. Farida não
tinha o direito de manchar aquela crença. Ao fim de um tempo, porém,
reconsiderei: procurando uns naparamas bem podia procurar também o
tal Gaspar. Não valia a pena acender briga naquele tão pequeno
espaço. Me cheguei a Farida e perguntei como se não tivesse nenhum
empenho:
— Como posso encontrar teu filho?
Farida se espanta. Queres mesmo ir
procurar o miúdo, pergunta ela. A sua mão pousa em meu braço:
espera, não vás já! O melhor é aguardar por uma noite de luar
para a tua canoa não virar nas pedras. Repeti a pergunta: onde
deveria eu vasculhar para encontrar seu filho? Ela fingiu que pensava
naquele momento. Mais de catorze anos se tinham passado desde que
entregara seu filho na missão. E se eu procurasse tia Euzinha? Ou
quem sabe Virgínia ainda estivesse por ali? Na missão? Na missão
nem valia a pena, Gaspar nunca haveria de lá voltar. Enfim, eu que
tentasse tudo em toda a parte. O menino não poderia ter desaparecido
assim, qualquer maneira.
— Procura onde teu peito
suspeitar. Mas promete me trazer de volta o meu menino.
Prometi. Eu começaria a busca mal
chegasse a terra. Mas eu sentia em mim uma guerra de quereres: parte
de mim desejava que ela nunca mais encontrasse o filho. Seria uma
maneira de ela ir ficando por ali, um modo de eu guardar sua
companhia. Outra parte de mim queria merecer afectos. Redescobrir
Gaspar seria o modo vitorioso de conquistar esse afecto. Depois,
porém, eu comecei a duvidar se aquela mulher merecia tantas juras de
minha parte. Porque as suas estórias foram mais e mais entrando na
confusão. Dizia e desdizia. Uma certa vez, quando eu queria
aprofundar o caso de seu filho ela me inquiria, surpresa:
— Meu filho? Qual filho?
— Seu filho Gaspar!
Demorou um tempo até se recordar.
Afinal, ela se deslembrara assim do pé para a mão? Ou inventara
tudo de sua criação? Comecei a pôr muita sobrancelha nas seguintes
escutas. Farida se multiplicava em Faridas. Até que uma noite, o
calor me fazia rebulir sobre os panos. Acordei estremungado. Ouvi
barulhos. Um pequeno barco a motor se aproximava. Farida veio e
gritou agitada:
— São eles, me vêm buscar!
Eles, quem? Farida não respondeu. Me
agarrou pelos braços e implorou defesa. Mas não foi preciso eu
fazer nada. Porque uma grandiosa tempestade subitamente rebentou. O
barquinho dos visitantes não conseguia encostar ao nosso. Tentaram
várias vezes. Mas depois, desistiram e se retiraram, escuro adentro.
Voltei a perguntar:
— Mas Farida, quem eram?
— Me querem vir matar, Kindzu.
Um assassinato? Que motivo teria? Me
pareceu pouco acontecível, mais um delírio daquela mulher. Daquela
vez, porém, seu comportamento me estranhou, em convincência. Ela se
encerrou em seu quarto e me pediu que me mantivesse à espreita, não
fossem os outros regressar. Fui para o convés, molhado até dentro
dos olhos. A chuva redigia suas gordas gotas, hesitantes entre
trovoar e tropousar. As nuvens se acotovelavam, sem gentileza. Podiam
se tocar, pedirem desculpa e continuar caminho. Enquanto não:
brigavam, cuspiam lumes, resmungos celestiais. Será que aprenderam
dos homens as impaciências terrestres?
Aquelas nuvens me fizeram recordar
quantos dias passaram desde que chegara ao barco encalhado. Já me
fartava daquela sozinhidão. Farida nem se importava com a espera.
Muitas vezes eu lhe pedia:
— Vem, volta comigo para terra.
Por que razão eu não queria que ela
fosse em sua viagem? Por que me doía pensar que alguém pudesse
vir-lhe buscar e levar-lhe para terras muito estrangeiras? Será que
já me afeiçoara tanto assim àquela mulher? Ou simplesmente sentia
inveja de não poder partir também, sair daquela terra enlouquecida?
Quem sabe eu tinha medo de aceitar esse desejo do longe, tão igual
ao de Farida? Afinal, ali sob a grossa chuva, de sentinela aos
obscuros saltinhadores, eu apenas fingia proteger Farida. Era ela
quem realmente me protegia, era ela quem governava os espíritos
daquele navio. Meu único espírito, o anão, já se havia
extinguido.
Uma coisa me certificava: pouco a
pouco eu me amarrava à presença daquela mulher. Nunca eu tinha
tocado em mulher de amar. As autênticas, reais mulheres me
temorizavam. Ao invés, Farida era quase irreal, ela se sonhava e eu
me deliciava naquele fingimento que punha nela. Mas quanto mais me
ardia em paixão mais eu sentia que me devia ir embora. Minha missão
era outra. Por muito que começasse a duvidar, eu não podia esquecer
meu original motivo: ser um naparama, um guerreiro de justiça.
Farida me roubava coragem do caminho, me roubava força de decidir.
Cada dia que passava, meu coração semelhava mais e mais aquele
barco. Eu estava parado naquela mulher, como os ferros preguicentos
do barco estavam cravados no banco de areia. Não podia adiar mais,
se quisesse ainda ser dono de mim. Deveria partir, imediatamente.
Desci o porão apenas para descarregar consciência sobre o anão. E
se ele realmente existisse? Essa minha dúvida aumentou quando de um
lado do porão vi pacotes e caixotes arrumados em altura reduzida
como se tivessem sido empilhados por criança. Gritei, chamei. Recebi
nenhuma resposta. Insisti, o silêncio teimou mais que eu. Farida
estava certa, não havia ninguém mais no barco a não ser nós os
dois.
Saí do porão, aspirei fundo o ar
salgado. Nesse dia estava Setembro, o mês que chama os temporais. O
vento soprava trazendo e levando uma chuva quente. De repente, a
cabina de pilotagem se acendeu, um xipefo pintou luz, em doces
pinceladas. Por entre as cortinas vi o corpo de Farida. Ela se
banhava. Assim, em contorno de claro e escuro a mulher se esfregava
em água ou em claridade? Cheguei à escotilha, espreitei sem
disfarce. Farida me notou, virou-se de lado e acenou um gesto de
convite.
Entrei, perturbado, ardendo de
intenção. Juntei-me a ela, chegadinho, fosse confiar-me um
ilegítimo segredo. Ela se prumou, face a face. Nos olhámos como se
reconhecêssemos, no outro, o único ser da terra. Eu para mim, me
garantia: não chegava uma vida inteira para contemplar aqueles
olhos. Cinzas, se nos olhos dela dormitavam, em brasas se acenderam.
Um dedo foi entrando no canto da sua boca. Toquei primeiro em seus
dentes, depois senti sua saliva. Era uma saliva quente, parecia que
não era apenas um dedo mas todo eu inteiro que penetrava numa
caverna aquecida. Outro dedo caminhou nos interiores dela, nervoso de
contente. Lá fora, o mar esturdilhava, lançando espumas. O vento
soprou com mais raiva, as ondas começaram a varrer tudo, sem
respeito. Mesmo ali, no guardado da nossa sala, a água jorrava. Nem
parecíamos notar. O mundo esvanecia e o mar já não importava. As
mãos molhadas de Farida desataram as vestes, os dedos dela parecia
eram de água. Ela se deitou, derramada no chão de ferro. Nos
colámos em gestos de afogado. As vagas ondeavam nossos corpos, indo
e vindo. Os dois éramos já só um, emergindo como uma ilha num
imenso nada.
Depois, nos desprendemos, fatigados.
Ela estremeceu, molhada. Se chegou ao xipefo, se envolveu numa manta.
Permaneci, prostrado, seguindo cada movimento dela. Que idade teria?
Porque se Farida dava como uma mulher, recebia como uma menina.
— Tens que ir, Kindzu.
Não entendi. Antes, ela me pedira que
eu aguardasse pelas noites de luar. Agora se antecipava à lua. E
depois, eu é que devia anunciar a partida. Como é que ela podia
ordenar a nossa separação?
— Eu vou. Mas tu vens comigo,
Farida.
Ela negou: não podia abandonar aquele
navio. Mas é um destroço, Farida. Aqui só há outroras, isto é
água riscando fósforos. Ela não recuava ideia. Aqui, Kindzu, é o
meu ninho. E depois, tenho a certeza, me hão-de vir buscar.
— Um barco desse tamanho não
pode ser esquecido. Os donos virão rebocar esta carcaça, eu irei
junto. Para longe, muito longe, Kindzu.
Praguejei. Eu sabia que a miséria se
cura é com farturas. É verdade que o melhor lugar para o vivo se
esconder é no meio de um enterro. Mas aquele devaneio dela não
tinha conformidade nenhuma. Tanta ilusão não se concebia. Gritei,
em desespero: vais é morrer aqui, apodrecer sozinha. Ela
girou, furiosa. Meus modos lhe desacertavam. Parecia que ela iria
responder à justa letra e tom. Mas permaneceu gesticalada, com esse
surpreendimento que só as mulheres são capazes. Mais tarde,
avançou, carinhenta:
— É o tempo da gente ser cada
um. Só isso, Kindzu.
— A terra que tu procuras é
esta, Farida. Não há outro lugar.
— Tu não entendes, Kindzu. Eu
quero sair, continuar viva.
— E teu filho: vais deixá-lo?
Eu pensava que aquele seria argumento
fatal. Enganei-me. Ela já não escutava. Cabisbaixei-me, desistido.
Quis enrolar um cigarro, o papel estava encharcado. Amarrotei o
charro e atirei para o chão como se nos meus dedos estivesse a minha
vontade. Farida não percebia: eu não podia senão viver no sossego
da labareda, à sombra de uma paixão mortal. Ela me roçou um gesto,
terna, materna. Perguntei se algum recado havia, alguma mensagem a
levar para terra. Ela trocou uns dedos de silêncio e, depois,
murmurou:
— Eu, Deus me esqueça, só peço
uma coisa: é que meu filho já não viva.
— Não diga uma coisa dessas. O
que é isso, mulher?
— Mas, Kindzu, acredita que eu
quero mal ao meu menino? É que quase eu penso que na morte se está
melhor que aqui. E, depois, são pressentimentos, coisas de mãe, nem
você pode nunca entender.
— Eu prometi que iria buscar seu
menino. É isso que farei, Farida.
Ela sorriu, nem sei se de gratidão.
Talvez se divertisse de minha ingenuidade. Pedi-lhe que prometesse
esperar pelo meu regresso. Respondeu com um vago aceno. Insisti:
— Virei com seu Gaspar. Promete
que me espera?
— Prometo. Agora vai, Kindzu. Vai
dormir que sua viagem segue amanhãzinha cedo.
Fui-me deitar em meu recanto. Farida
não queria que dormíssemos juntos. Quem dorme no colo de outro
perde a alma, dizia. Os sonhos não encontram os respectivos donos
quando homem e mulher dormitam entrelaçados. Assim, me embalei
solitário, procurando vencer meu cansaço. Em vão. Já era
madrugada ainda eu não dera jeito no sono. As pálpebras cabecearam
só quando o dia espontava. Olhando o nascer da luz realizei que
nunca mais dera atenção ao astro-dia. No fundo, me despedira da luz
nas praias de minha aldeia. De bruços sobre o verão, eu deixara o
sol na savana do tempo. Molhado, quase líquido, o dia brotava das
fundas águas do Índico. Se ergueu com a soberania das coisas
derradeiras. E a terra se via estar nua, lembrando distante seu parto
de carne e lua.
Mia Couto, em Terra Sonâmbula
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