sexta-feira, 15 de maio de 2026

Hagar, o Horrível

Talvez assim seja

Por outro lado, estou hoje um pouco cansada e é sobre o prazer do cansaço dolorido que vou falar. Todo prazer intenso toca no limiar da dor. Isso é bom. O sono, quando vem, é como um leve desmaio, um desmaio de amor.
Morrer deve ser assim: por algum motivo estar-se tão cansado que só o sono da morte compensa. Morrer às vezes parece um egoísmo. Mas quem morre às vezes precisa muito.
Será que morrer é o último prazer terreno?

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

O caso do trocador silencioso




O trocador é um modelo de instituição brasileira. Porque, fazendo jus ao título, não troca absolutamente coisa nenhuma. E quando troca, exemplifica de maneira esplêndida a expressão “dar o troco” atirando moedas e caraminguás nos cornes do freguês.
Aproveitando o rebote dos dias do mestre, do médico, da criança e outros bichos, eu, na qualidade de defensor dos fracos e oprimidos (por preços módicos e com direito a pechincha), sugiro aos nossos atarefados políticos a criação do Dia do Trocador. Nesta data querida, o citado profissional teria o direito de revidar, com um soco na cara, qualquer atrevimento do tipo nota de cinco, de dez etc... Bom etc. aí é meio sobre a retórica porque pobre quando vê nota de cinquenta pra cima, trata logo de se livrar dela, antes que os hôme arranjem alguma acusação em seu vasto repertório.
Onde tu arranjou essa nota? Canta logo!
Conceiçãããão...
PÔU!
Mas, como diz o Penteado, toda regra tem exceção e toda exceção caga regra.
O Tinoco, lá do Estácio, foi o único trocador que eu conheci que não só cumpria rigorosamente seu dever como, de quebra, distribuía agradecimentos e sorrisos. Aqui entre nós, o motivo dessa conduta insólita era a Janete. Platinada, graça ao conhecido tônico capilar Louramil, Janete lembrava um pouco a Marilim Monrôu — como gostava de dizer o Tinoco, o que, é bom frisar de passagem (já que falamos em trocador), engrandece a Janete. Tinoco detestava referências a coisas “do estrangeiro. O Brasil dá de zero em tudo”.
Toda sexta-feira, dia de folga do Tinoco, Janete melhorava o astral da
casa com o defumadorIndiano, e nosso herói andava atrás dela, de cueca, na maior bolinação.
Peraí, Cocô! Parece que tem bicho-carpinteiro. Isso aqui é coisa séria...
Ah, o encanto de certos apelidos íntimos!
Acabavam na cama. Durante os chamados folguedos eróticos, Tinoco era silencioso e compenetrado, e Janete era penetrada com a maior gritaria.
Agora, meu amor! Fala!Diz uma coisa daquelas no meu ouvidinho.
E o Tinoco hum, ai, hum, ai, hum, ai, e mais nada.
Depois, Janete ficava um pouquinho triste. Bem que disfarçava, mas seu rosto traía um pensamento oculto parecido com o dos compositores ao receberem direitos autorais do ECAD:(é como se faltasse alguma coisa).
Tinoco reparava na tristeza da Janete e, fazendo cafuné, prometia:
Da próxima vez eu falo. Fica triste não, neguinha. Juro que da próxima vez eu falo.
E Ihufas. Na hora do lesco-lesco, Tinoco, que nem as Otoridades, não tinha nada a declarar.
Perturbada por esse silêncio, Janete decidiu ir a um afamado Centro Espírita na Travessa do Carneiro, a Tenda “Esperança e Ray-O-Vac” — a coisa tá tão preta que até os espíritos da luz estão de lanterna.
No tal centro, Janete contou o problema ao caboclo Pena Poluída, que, após prescrever o Pó Solta-a-Língua, deu-lhe uns passes contra mau-olhado e repetiu três vezes:
O negoço tá mais pra palmito que pra beija-flor.
Em casa, Janete preparou a beberagem amaciada com a cachaça “Insumos Básicos” e explicou pro Tinoco:
Bebe de uma vez só. O caboclo disse que é tiro e queda.
De fato, porém mais pra queda do que pra tiro. Entre huns e ais, o Tinoco deixou cair:
Meus concidadãos! Ai... numa conjuntura econômica que... hum... se define por um aperto... ai... os elementos divisionistas... hum...
E por aí afora. Ou adentro.
Janete chorou a noite inteira, enquanto o Tinoco, desolado, fumava na sala, andando pra lá e pra cá.
Sexta-feira seguinte, Janete voltou ao centro com o Tinoco a tiracolo. O caboclo Pena Poluída ouviu tudo, recomendou que a dosagem do remédio fosse triplicada, e pediu que o casal repetisse com ele a exortação:
Se falar não fosse fácil, onde estaria o José Bonifácio? Boca abre à toa que nem janela. Vide Petrônio Portela.
Pra encerrar, Pena Poluída ajoelhou-se, bateu três vezes com a testa no cimento e foi levado com fratura do frontal pro Souza Aguiar, saravá!
De alma lavada, os pombinhos esvoaçaram pro ninho no maior agarramento. A preliminar foi tremenda. Tinoco disse coisa de ruborizar a própria torcida do Curintia. Mas no jogo principal ficou ruço. Já tava na prorrogação e só pintava hum, ai, hum, ai, hum, ai... Janete, desesperada, sabendo que essas coisas não se resolvem em cobrança de pênalti, apelou pro patriotismo do Tinoco:
Fala, desgraçado! Me xinga! Honra o trocador brasileiro!
Tinoco avermelhou como se fosse explodir e:
F... f... f...
Isso querido! Diz!
F... f... favor dar um passinho a frente que o meio do carro tá vazio!

Aldir Blanc, em Rua dos Artista e Arredores

Viagem a Paris

Ouvi dizer que vai a Paris.
Exato.
A negócio?
Não.
Turista?
Não.
Missão política reservada?
Não.
Tão secreta assim?
Não.
Se não sou indiscreto… transa de amor?
Não.
Está muito misterioso.
Não.
Como não? Saúde, talvez.
Não.
Compreendo que não queira alarmar…
Não.
Busca apenas repouso.
Não.
Fugir a esse calorão dos infernos.
Não.
Fugir do trabalho, então.
Não.
Capricho do momento.
Não.
Tantos nãos devem significar um sim.
Não.
Significam sim. Vou repetir as hipóteses.
Não.
Temos pela frente uma indústria nova, de vulto.
Não.
De qualquer maneira, é financiamento internacional.
Não.
Então a coisa está ficando preta.
Não.
Está preta, e há jogadas que só em Paris.
Não.
Percebe-se alguma coisa no ar.
Não.
Não dá para perceber, mas há.
Não.
Mas pode haver a qualquer momento.
Não.
Nem por hipótese?
Não.
Nenhuma nuvem distante, muito distante mesmo?
Não.
No ano que vem?
Não.
Ouvi mal?
Não.
Sendo assim, é segredo pessoal?
Não.
O coração é quem dita a viagem… eu sei.
Não.
Sim, sim. Pode confessar.
Não.
Hoje em dia essas coisas são públicas. Dão até cartaz.
Não.
Sei que não precisa disso, mas…
Não.
Por que não? Está com medo da imprensa?
Não.
Receia perder a situação social?
Não.
A situação financeira?
Não.
Política?
Não.
Pois olhe, melhor é preparar o ambiente.
Não.
Claro que sim. Insinuar mudança em sua vida.
Não.
Discretamente.
Não.
De leve, só uma pincelada. Deixe comigo.
Não.
Não abro manchete nem boto aquela foto em duas colunas, aquela bacana, lembra?
Não.
Só cinco linhas.
Não.
Duas.
Não.
Mas tenho de dizer alguma coisa.
Não.
O senhor é notícia.
Não.
Pode dizer que não, mas é sim.
Não.
Puxa vida, o senhor hoje está medonho. Resolveu responder não a tudo que é pergunta minha?
Não.
Ah, é? Então vamos recomeçar: o senhor vai a Paris?
Vou.
E que é que vai fazer em Paris?
Ver.
Ver o quê?
O último tango em Paris.
E por que é que não me disse isso logo, homem de Deus?
Você não me perguntou, por que eu havia de responder?

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

Sexto capítulo – As idosas profanadoras




À volta do machimbombo Muidinga quase já não reconhece nada. A paisagem prossegue suas infatigáveis mudanças. Será que a terra, ela sozinha, deambula em errâncias? De uma coisa Muidinga está certo: não é o arruinado autocarro que se desloca. Outra certeza ele tem: nem sempre a estrada se movimenta. Apenas de cada vez que ele lê os cadernos de Kindzu. No dia seguinte à leitura, seus olhos desembocam em outras visões.
Muidinga já não reclama para passear pelas cercanias. Apenas Tuahir deseja sair, se espraiar pelos matos. Seu pretexto é a água: é preciso ir buscá-la, armazenar uma boa porção. Aconteceu nessa manhã mais cedo que o habitual:
Vamos!
Eu fico, tio.
Nem pense. Aqui ninguém fica. Se não quer me acompanhar então siga noutra direcção. Mas aqui é que não fica.
Valia a pena discutir? Muidinga se resigna, pois, a ir sozinho pelos carreiros dos bichos. Tuahir segue em oposta direcção. Por onde seguia o moço os capins se infindavam, num moçambique de verdes. Os olhos de Muidinga se meninam a ver as árvores. Em redor, já nada faz recordar a savana empobrecida. Agora a floresta floresce. Os caminhitos com a guerra se desabituaram de servir. E os capins ganharam confianças, cobrindo tudo. De repente, as árvores se suspendem em clareira. Um campo se abre, de cultivos pobres: milho, meixoeira, pouca mapira.
Muidinga pára a olhar. Ali estava, mesmo que indigente, uma extensão da vontade humana. Fica por instantes a inspirar aquele perfume da terra lavrada até que escuta vozes, vindas do fundo da paisagem. Eram mulheres que se aproximavam, cantando. Traziam ramos nas mãos e com eles iam batendo no chão. Da terra se levantavam nuvens e talvez fosse a poeira que não as deixava ver o miúdo. À frente, vem uma velha, corcunda, esbafurada. Muidinga grita para que seja notado. Há um alvoroço. Elas primeiro se alarmam, depois fazem uma roda, bichanando. Muidinga vai chegando perto, curioso. Súbito, elas correm para ele. O moço fica parado. Uma voz dentro o avisa:
Foge, Muidinga!
Mas ele nem dá entendimento. Fugir de um grupo de tão avançadas senhoras? As velhas já estavam junto, cercando-lhe. Gritam em língua que ele desconhece, parecem dedicar--lhe azedos insultos.
A mais velha se acerca e, com insuspeita força, lhe bate na cara. Muidinga fica dominando fervuras, entre receio e rancor. O seu medo estava preparado para as demais situações mas não para enfrentar tão idosa e feminina violência. Uma por uma, todas as outras dão um passo em frente e lhe atiram pancadarias. Lhe batem com paus, ramos secos, lhe atiravam areia, pedras, torrões.
Porquê me batem, mães?
Mas elas não entendem a sua língua. E desse desencontro se enchameia mais a zanga daquela gente. Braços e pernas se cruzam na azáfama de lhe golpejar, gritos e risos se enroscam na fúria de lhe ofender. O miúdo se humilha, olhos prestes a se aguarem, indefeso como bicho fora da toca.
Não me batam mais, por favor!
Então, a mais velha se coloca de pernas abertas sobre seu corpo derrubado e, num puxão, se desfaz da capulana. Aparecem as usadas carnes, enrugadas até aos ossos, os seios pendentes como sacos mortos. Ela grita, se lambe a si mesma, em inesperadas volúpias. Sobe a mão por entre as pernas e se deixa cair sobre o rapaz. E se desata a esfregar de encontro ao prostrado Muidinga, mais ciosa que ansiosa. As outras acompanham xiculunguelando, palmando. Uma por uma, todas restantes vão tirando as roupas, trapos e sacos com que se cobriam. Estão nuas, dançando frenéticas à sua volta. A mais idosa dá mais avanço a seus intentos, puxando as íntimas partes do rapaz, abraçada como se lhe quisesse arrancar a alma. Muidinga nem se quer inteirar da sucedência: estava a ser violentado, em flagrante abuso. A primeira se sacia, abusa e lambuza. Depois, as outras se seguem, num amontanhado de corpos, gorduras e pernas.
O pobre moço nem sabe se perdeu o consenso ou se o mundo rodou mais rápido que as mulheres endoidadas. Sabe apenas que está saindo de um escuro e as luzes pirilampejam, abrindo soluços no céu. No recorte da visão está Tuahir, lhe puxando para uma sombra.
O que aconteceu?, pergunta Muidinga.
Tuahir sorri. E lhe explica com modos paternos. O que aconteceu foi que aquelas mulheres estavam em sagrada cerimónia, afastando os gafanhotos que assaltaram as plantações. Elas estavam a enxotá-los, a esconjurar a maldição. A chegada de um intruso quebrou os mandamentos da tradição. Nenhum homem pode assistir a esta cerimónia. Nenhum, nunca.
É que esses não são gafanhotos próprios. São gafanhotos de alguém.
Tuahir fala apontando os campos onde cardumes de gafanhotos, em nuventanias, mastigavam o mundo. Aquele escasso verde desaparece dentada por dentada.
Vamos para o machimbombo.
Muidinga se deixa levar nos braços do velho. Lhe sabe bem aquele abandono, as marcas dos brutais apertos lhe parecem nem existir. E é assim dorido que Tuahir o deixa tombar no banco do velho machimbombo. O miúdo geme enquanto o velho lhe aquece um chá.
Vá, beba. Fique forte que é para, mais logo, atacar aqueles caderninhos que você sabe.
Mas, tio. Nem sei se vou conseguir.
Consegue. Leia como o velho Siqueleto, um olho aberto de cada turno.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

Inácio Botelho e Nelson Faria | Um Café Lá Em Casa

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Hora do Ângelus

A poesia é pura compaixão.
Até grávida posso ficar,
se lhe aprouver um filho apelidado Francisco.
Tem mesmo alguma coisa no mundo
que obriga o mundo a esperar.
O carroceiro pragueja: ô deus,
a minha lida é mais dura
que a lida de um retireiro.
Sem paciência, a beleza turva-se,
esta que sobre as tardes se inclina
e faz defensáveis
areias, ervas, insetos,
este homem que jamais disse a palavra crepúsculo.

Adélia Prado, em O Coração Disparado

Ilusão?!

Poesia & lenço

E essas que enxugam as lágrimas em nossos poemas como defluxos em lenços... Oh! tenham paciência, velhinhas... A poesia não é uma coisa idiota: a poesia é uma coisa louca!

Mário Quintana, em Caderno H

De stella et adventu magorum



No presépio onde tudo se perfazia estático — simultâneo repetir-se de matérias belas, retidas em arte de pequena eternidade — os Três Reis introduziam o tempo. O mais parava ali, desde a véspera da Noite, sob o fino brilho suspenso das bolas de cores e ao vivo cheiro de ananás, musgo, cera nobre e serragens: o Menino na manjedoura, José e a Virgem, o burrinho e o boi, os pastores com seus surrões, dentro da gruta; e avessa gente e objetos, confusas faunas, floras, provendo a muitíssima paisagem, geografia miudamente construída, que deslumbrava, à alma, os olhos do menino míope.
Em coisa alguma podia tocar-se, que Vovó Chiquinha, de coração exato e austera, e Chiquitinha, mamãe, proibiam. Eles, porém, regulavam-se à parte, com a duração de personagens: o idoso e em barbas Melchior, Gaspar menos avelhado e ruivo, Baltasar o preto — diversos mesmo naquele extraordinário orbe, com túnicas e turbantes e sobraçando as dádivas — um atrás do outro. Dia em dia, deviam avançar um tanto, em sua estrada, branca na montanha. Cada um de nós, pequenos, queria o direito de pegar neles e mudá-los dos quotidianos centímetros; a tarefa tinha de ser repartida. Então, à uma, preferíamos todos o Negro, ou o ancião Brechó, ou el-rei Galgalaad; preferíamos era a briga. Mas Vovó Chiquinha ralhava que não nós, por nossas mãos, os mexíamos, senão a luz da estrela, o cometa ignoto ou milagroso meteoro, rastro sideral dos movimentos de Deus. E Chiquitinha, para restituir-nos à paz dos homens concordiosos, mostrava a fita com a frase em douradas letras — Gloria in excelsis... — clara de campainhas no latim assurdado e umbroso.
No prazo de seu dia, à Lapinha iam chegar, o que nos alvoroçava, como todas as chegadas — escalas para o último enfim, a que se aspira. Mas, de repente, muito antes, apareciam e eram outros, com acompanhamento de vozes em falsete:

Boa noite, oh de casa, 
a quem nesta casa mora... 

A Folia de Reis — bando exótico de homens, que sempre se apresentavam engraçadamente sérios e excessivamente magros, tinham o imprevisto decoro dos pedintes das estradas, a impressiva hombridade esmoler. Alguns traziam instrumentos: rabecas, sanfonas, caixa-de-bater, violas. Entravam, mantinham-se de pé, em roda, unidos, mais altos, não atentavam para as pessoas, mas apenas à sua função, de venerar em festa o Menino-Deus. Pareciam-me todos cegos. Será, só eles veriam ainda a Estrela? Porém, no centro, para nossa raptada admiração, dançavam os dois Máscaras, vestidos de alegria e pompa, ao enquanto das vozes dos companheiros vindos só para cantar:

Eis chegados a esta casa 
os Três Reis do Oriente... 

De onde — oásis de Arábia, Pérsia de Zaratustra, Caldeia astrológica — da parte do Oriente ficava sua pátria incerta, além Jordão, descambado o morro do Bento Velho, por cujo caminho, banda de cá, costumavam descer os viajantes do Araçá e da Lagoa, e, sobre, na vista-alegre a gente se divertia com inteiros arco-íris, no espaço das chuvas, seduzidamente, conforme vinham, balançando-se em seus camelos, para adorar o Rei dos Judeus, fantasiados assim, e Herodes a Belém os enviava: o Guarda-Mor e o Bastião
Dois, só? Respondiam: que por estilos de virtude, porque, os Magos, mesmo, não remedavam de ser. E por que os chamavam, com respeito embora, de “os palhaços”? Bastião, o acólito, de feriada roupa vermelha, gorro, espelho na testa, e que bazofiava, curvando-se para os lados, fazendo sempre símias e facécias, representasse de sandeu. Mas o “mascarado velho”, o Guarda-Mor, esse trajava de truz, seu capacete na cabeça era de papelão preto, imponente, e sérios o enorme nariz e o bigode de pêlos de cauda de boi. Dele, a gente, a gente teria até medo. Pulavam, batendo no chão os bastões enfeitados de fitas e com rodelas de lata, de grave chocalhar. Um dos outros homens alteava o pau com a bandeira, estampa em pano. Entoavam: ...“A lapinha era pequena, não cabiam todos três... Cada um por sua vez, adoraram todos três...” Prestigiava-se ao irreal o presépio, à grossa e humana homenagem, velas acesas; a dança e música e canto rezando mesmo por nós, forçoso demais, em fé acima da nossa vontade; pasmavam-nos.
Depois, recebiam uma espórtula, fino recantando agradeciam: “Deus lhe pague a bela esmola...” — e saíam, saudando sem prosa, só o sagrado visitavam. Mas a gente queria acompanhá-los era para poder ver o que se contava tanto — que, onde não lhes dessem entrada, então, de fora, bradavam cantoria torta, a de amaldiçoar: “Esta casa fede a breu...” — e, que dentro dela morava incréu, a zangação continuava. Em vão, porém, esperava-se turra de violências. Avisados por um anjo, voltavam por outro caminho, seguiam se alontanando.
Se às vezes chegavam outras, folias de maiores distâncias, sucedia-se o em tudo por tudo. Só que, os homens, mais desconhecidos, sempre, diferentes mesmo dos iguais. Nem paravam — no vindo, ido e referido. Duas folias se encontrassem, deviam disputar o uso desafio: a vencedora, de mais arte em luzimento, ganhando em paz, da outra, a sacola com o dinheiro. Os estúrdios, que agora no sertão navegavam! A gente repetia de os esquecer.
Celebrava-se o dia 6, Vovó Chiquinha desmanchava o presépio, estiava o tempo em veranico entes do São Sebastião frechado. Por quanto, tornavam a falar nos foliões, deles não sendo boas, nem de casta lembrança, as notícias aportadas. Sabia-se que, por adiante, facilitavam aos poucos de receber no grupo aparasitados e vadios, pegavam desrumo, o Canto sacro dava mais praça a poracé e lundu, perdiam o conselho. Já mal podiam trocar as fardas, vez em quando, desfeitos do suor e das poeiras e chuvaradas. Passavam fome, quando não entravam em pantagruomérico comer, dormiam irrepousadamente, bebiam do tonel das danadas; pintavam o caneco. Nem honravam mais as praxes de preceito. Uma folia topava outra, e, sem nem um mal-entendimento, em vez de avença desapoderavam-se logo, à acossa, enfrentemente: batiam à força aberta, a bastão, a pau de bandeira, a cacete, espatifavam-se nas cabeças os tampos de rabecas e violas.
Só que não podiam tão cedo parar, no ímpeto de zelo, e iam, iam, à conta inteira, de lugar em lugar, fazenda em fazenda, ultrapassavam seu prazo de cessação, a Epifania, queriam os tantos quantos são nos presépios e os meninos-de-jesus do mundo. Mas, era como se, ao passo com que se distanciavam do Natal, no tempo, fossem perdendo sua mágica realidade e a eficácia devota, o furor de fervor não dava para tanta lonjura, e de tão esticado se estragava. Assim naufragavam por aí, espandongados, adoentados, exaustos, caindo abaixo de sono, em pé mesmo se dormiam. Derrotados, recuavam então, retornando, debandando — se coitados, se danados — não raro sob ameaça e apupos, num remate da santa desordem, na matéria merencória.
A gente se entristecia, de saber, receávamos não voltassem, mais nunca, não houvesse a valente Festa de Reis, beleza de piedade, com o Bastião truão e o Guarda-Mor destronado.
— “Mas, sim, eles voltam. Para o ano, se Deus quiser, todos voltam. Sempre, mesmo. Hão de recomeçar...” Os meninos se sorriam. — “... Eles são homens de boa-vontade...” — repetia Chiquitinha.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

Róssini



Restaurante fino. Maître extremamente elegante, ar superior, grande linha. Sotaque nordestino. Turnedô à Rossini ele pronunciava “Róssini”.
Rossi-ní — corrigiu a madame.
A empáfia do maître era inabalável.
Madame quer saber mais do que eu?
A pronúncia certa é Rossini.
O original é Róssini.
Na Europa se diz Rossiní.
Eu estou falando do Ceará, madame.
Ceará?
Inclusive, conheço Róssini pessoalmente.
O Rossini do turnedô é do Ceará?
Fortaleza.
O Rossini não era um compositor italiano?
Esse é outro. O Róssini que eu estou falando é cearense. Amigo do — Bechamel.
Bechamel?
Paulinho Bechamel.
O do molho?
Esse. Também conheço o Gratiné.
Quem?
Severino Gratiné. Inventor da supe a lóion.
Certo...
Madame vai de turnedô?
Não, não. Acho que vou pedir camarões flambê.
Flambé.
Flambê.
Flambé.
Você conhece pessoalmente...
O Luizão Flambé?

Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora

Menino numa festa de Natal

1

O miúdo que andava à mãozinha

As crianças são gente estranha que nos aparece nos sonhos e nas visões. Antes da quadra natalícia e na própria véspera de Natal, eu encontrava muitas vezes na rua, a uma esquina, um rapazinho dos seus sete anos, não mais. Fazia um frio de rachar, terrível, mas o garoto vestia quase como no verão, apenas embrulhando à volta do pescoço uns farrapos quaisquer; portanto, alguém o agasalhava para o mandar para a rua. Andava à mãozinha, termo técnico que significa pedir esmola. O termo foi inventado pelos próprios rapazes. Há muitíssimos como ele, que se nos metem à frente do caminho e uivam qualquer coisa decorada; mas este não uivava, falava de maneira inocente e natural e olhava-me nos olhos com confiança; portanto, estava em início de carreira. Às minhas perguntas, respondeu que tinha uma irmã, desempregada e doente; talvez fosse verdade. Mais tarde vim a saber que estes meninos são aos bandos e que são postos à mãozinha, nem que o frio seja terrível, e que, se não conseguirem arranjar nada espera-os com certeza o espancamento. Depois de juntar uns copeques, o rapazinho volta, de mãos vermelhas e enregeladas, para uma cave qualquer onde está a embebedar-se uma corja de “pessoal da ganga”, desses que “tendo largado o trabalho no sábado, não voltam a ele antes de quarta-feira à tarde”. Ali, nesses covis, embebedam-se com eles as suas mulheres famintas e espancadas, ao lado piam as suas crianças de peito também esfomeadas. Vodca, imundície, depravação, mas sobretudo vodca. O garoto, quando chega com os copeques da pedincha, é logo mandado à taberna buscar mais álcool. Por divertimento, também a ele lhe vertem às vezes alguma vodca na boca e riem-se quando ele, de respiração entrecortada, tomba no chão quase desmaiado.

... e impiedoso vertia-me
na boca a vodca abominável...

Quando o miúdo cresce um pouco, metem-no rapidamente nalguma fábrica, mas tudo o que ganhar será obrigatoriamente entregue ao mesmo “pessoal da ganga” para a bebedeira. Porém, ainda antes da fábrica, essas crianças tornam-se verdadeiros delinquentes. Vagueiam pela cidade e conhecem os lugares nas caves onde podem penetrar e pernoitar sem serem vistos. Um deles dormiu várias noites no cubículo de um guarda-portão, dentro de um cesto, e o guarda nem chegou a reparar nele. Tornam-se ladrões, evidentemente. O roubo já é uma paixão mesmo para crianças de oito anos, às vezes sem terem a consciência de que cometem um ato criminoso. Acabam por suportar tudo — o frio, a fome, os espancamentos — apenas com o fito numa coisa, a liberdade, e fogem do seu “pessoal da ganga” para enveredarem por uma vagabundagem já independente. Esta criatura selvagem, às vezes, não compreende nada — onde vive, a que nação pertence, se Deus existe, se o czar existe; contam-se coisas inacreditáveis destes miúdos, contudo são factos reais.

2

O menino na festa do Natal de Cristo

Como sou romancista, parece que inventei uma «história». Porque escrevo “parece”? Sei bem que a inventei, mas afigura-se sempre que ela aconteceu num certo lugar, em certo dia, ou antes, precisamente na véspera do Natal, em certa cidade enorme e durante um frio terrível.
Imagino que havia um rapaz muito pequeno numa cave, de seis anos ou ainda mais pequeno. O rapaz, numa manhã húmida e fria, acordou na sua cave. Vestia apenas uma batinha e tremia. Saía-lhe da boca um bafo de vapor branco, e ele, sentado no canto, em cima de uma arca, aborrecia-se e soprava o vapor de propósito, divertindo-se a vê-lo sair. Mas estava com muita fome. Logo de manhã, por várias vezes, já se aproximara do catre em que a mãe doente estava deitada numa esteira e com uma trouxa debaixo da cabeça. Como veio ela parar aqui? Chegara pelos vistos de outra cidade, com o filho, e de repente adoecera. A senhoria tinha sido levada pela polícia dois dias antes; os inquilinos dispersaram-se, era a quadra das festas; só um dos do “pessoal da ganga” estava lá, prostrado de bêbado como um morto havia já vinte e quatro horas, sem dar atenção às festas. Noutro canto do quarto gemia de dores reumáticas uma velha octogenária, antiga ama-seca numa casa qualquer, deitada no leito da morte solitária, queixosa, gemebunda e a resmungar com o miúdo que já tinha medo de se aproximar muito do canto dela. Encontrou, algures no átrio, água para beber, mas não encontrou uma côdea para comer, e já era a décima vez que se aproximava para acordar a mãe. Por fim, começou a sentir pavor da escuridão: havia muito que escurecera mas ninguém acendia as velas. Ao mexer na cara da mãe, espantou-se por ela não se mexer e por estar fria como a parede. “Está muito frio aqui”, pensou ele, e ficou um pouco parado, deixando, inconscientemente, a mão esquecida no ombro da morta; depois soprou para os dedinhos, tentando aquecê-los e, de repente, tendo encontrado às apalpadelas o seu boné em cima do catre, foi devagarinho, na escuridão, para a saída da cave. Teria saído ainda antes, mas tinha medo de um cão grande que, durante todo o dia, uivava em cima, nas escadas, à porta dos vizinhos. O cão já não estava lá, e o miúdo saiu para a rua.
Meu Deus, que cidade! Nunca antes ele vira nada de parecido. Lá, donde ele viera, fazia muito escuro de noite, havia só um lampião em toda a rua. As casas de madeira baixinhas tinham as portadas fechadas; mal caía a noite, não se via ninguém, as pessoas metiam-se dentro das casas, apenas os cães uivavam, matilhas de cães, centenas, milhares deles, a uivarem e a ladrarem toda a noite. Mas, lá, havia calor e davam de comer, e aqui... meu Deus, que me apetece tanto comer alguma coisa! E há tanto barulho aqui, estrondos, tanta luz, cavalos e coches, e frio, frio! Levanta-se um vapor gélido sobre os cavalos esfalfados, dos focinhos sai-lhes bafo quente, tinem as ferraduras nas pedras cobertas de neve, anda toda a gente aos empurrões, e, meu Deus, que fome, nem que fosse um bocadinho qualquer, e de repente começaram-me a doer muito os dedos. Passou ao lado um polícia e virou a cabeça para não olhar para o miúdo.
Outra rua — ah, que larga! Aqui de certeza que atropelam a gente; como eles gritam, correm, tantos coches, tanta luz, tanta luz! E isto o que é? Oh, que vidro tão grande, e atrás do vidro uma sala, e na sala uma árvore até ao teto! É a árvore de Natal, e tantas luzes na árvore, e tantos papelinhos dourados e tantas maçãs, e por todo o lado bonequinhos, cavalinhos; e crianças a correr na sala, todas apinocadas, todas limpinhas, riem-se e brincam e comem e bebem. Eis uma menina que começou a dançar com um rapaz, que linda! E ouve-se a música através do vidro. O rapaz olha, espanta-se e ri-se, mas doem-lhe os dedos, dos pés e das mãos, ficaram roxos, já não se dobram e doem-lhe quando os mexe. O miúdo pensou então, de repente, que lhe doíam muito os dedos, e chorou, e correu mais adiante pela rua, e viu de novo, por outro vidro grande, uma sala, árvores, mas nas mesas há bolos, variados: de amêndoa, vermelhos, amarelos, e estão lá quatro ricas senhoras, e dão bolos a quem entra, e a porta abre-se a cada instante e entram muitos senhores. O rapaz aproximou-se, abriu a porta e entrou. Ui, como gritaram com ele, como abanaram as mãos! Uma senhora aproximou-se dele e meteu-lhe na mão um copeque, abriu-lhe a porta para a rua. Como se assustou! O copeque caiu e tilintou nos degraus: não podia dobrar os dedos inteiriçados e vermelhos para o segurar. Saiu e pôs-se a andar depressa, depressa, mas não sabia para onde. Apetecia-lhe outra vez chorar, mas tinha medo e corria, corria e soprava nos dedos. E ficou muito aflito, porque se sentiu de repente sozinho e assustado, e de chofre, meu Deus, o que era aquilo outra vez? Está lá uma multidão de pessoas. A admirar isto: atrás da vidraça há três bonecos pequenos, todos apinocados com roupas vermelhas e verdes, tal e qual como se estivessem vivos! Está lá um velho que toca um violino grande, há mais dois de pé que tocam violinos pequenos, e abanam todos as cabecinhas ao ritmo da música, e olham uns para os outros, e os lábios deles mexem, e falam, falam mesmo, só que não se ouve através do vidro. E o miúdo, a princípio, pensou que estavam vivos, mas, quando adivinhou que eram bonecos, riu-se de repente. Nunca na vida tinha visto bonecos assim nem sabia que existiam! Apetecia-lhe chorar, mas também era tão engraçado ver os bonecos! De repente pareceu-lhe que alguém lhe puxava pela bata, atrás dele: estava ao pé dele um rapaz grande e mau que lhe deu, sem mais nem menos, um murro na cabeça, arrancou-lhe o boné e assestou-lhe um pontapé. O miúdo rolou pelo chão, toda a gente gritava, e ele, muito aturdido, levantou-se e deitou a correr muito, e então, sem saber onde nem porquê, entrou para um pátio por baixo do arco e sentou-se atrás de uma rima de lenha: “Aqui não me encontram, é escuro.”
Sentou-se, encolheu-se, não conseguia recuperar o fôlego por causa do medo, e de repente, mesmo de repente, sentiu-se muito bem: as mãos e os pés deixaram de lhe doer, e estava ali tanto calor, tão quentinho como no catre do fogão; e estremeceu: ah, estava quase a dormir! Que bom adormecer ali: “Fico aqui um bocado e depois vou outra vez ver os bonecos — pensou e sorriu, lembrando-se —; são tal e qual como se estivessem vivos!...” Então, de súbito, ouviu a mãe a cantar-lhe uma cantiga. “Mamã, estou a dormir, é tão bom dormir aqui!”
Pequenito, vem comigo ver a minha festa da árvore de Natal — sussurrou-lhe uma voz baixinha.
Primeiro pensou que era a mãe, mas não, não era ela; quem o chamava, então? Ele não via, mas alguém se inclinou sobre ele e o abraçou na escuridão, e o miúdo estendeu-lhe a mão e... de repente — oh, que luz! Oh, que árvore! Aquilo nem é uma árvore, nunca ele tinha visto árvores assim! Onde estará? Tudo brilha, tudo é luz, por todo o lado há bonequinhos... mas não: são rapazes e raparigas, só que são tão claros, e todos giram à volta dele, e voam, e todos lhe dão beijos, e pegam nele, e levam-no, e ele também voa, e vê: a mamã a olhar para ele e a rir de felicidade.
Mamã, mamã! Ah, que bom estares aqui, mamã! — grita-lhe o miúdo, e beija de novo os outros meninos, e conta-lhes logo sobre os bonecos atrás do vidro. — Quem sois vós, rapazinhos? Quem sois vós, raparigas? — pergunta, rindo-se de amor por eles.
É a “festa do Natal de Cristo” — responderam-lhe. — Neste dia, Cristo faz sempre a festa da árvore de Natal para os pequeninos que não têm a sua própria árvore... — E soube o menino que estas crianças eram todas como ele, mas umas gelaram ainda nos cestos em que foram abandonadas nas escadas, à porta dos funcionários petersburguenses, outras asfixiaram-se quando estavam com as amas finlandesas a quem os orfanatos entregaram para serem amamentadas, outras morreram ao peito seco das mães durante a grande fome de Samara, outras sufocaram no fedor das carruagens de terceira classe, e agora estão todas aqui, como anjos, todas estão com Cristo, e o próprio Cristo está no meio delas, e estende as mãos para elas, e abençoa-as e abençoa as suas mães pecadoras... E as mães destas crianças também estão aqui, ao lado, e choram; cada mãe reconhece o seu filho, ou a sua filha, que se aproxima dela a voar e a beija, lhe limpa as lágrimas do rosto com as mãozinhas e lhe pede que não chore, porque está muito bem...
No pátio, os guarda-portões encontraram de manhã o corpo pequenino do miúdo que se escondera atrás da lenha e aí gelara; encontraram também a mãe dele... Essa morrera ainda antes do filho; encontraram-se no céu, junto a Deus.
Para que inventei esta história tão inadequada a um diário normal e razoável, ainda por cima do escritor? Eu, que prometi escrever principalmente sobre acontecimentos reais! Mas é mesmo assim, sempre me pareceu que isto poderia acontecer na realidade — ou seja, o que aconteceu na cave e por trás do monte de lenha — já que, aquilo da festa do Cristo... nem sei que vos diga. Poderia acontecer ou não? Para isto sou romancista — para inventar.

Fíodor Dostoiévski, em A Submissa e Outras Histórias

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Sami Yusuf | Amada (Between Two Seas)

“Ó Citéron!”

No início, as tragédias foram trazidas para os palcos como um meio para lembrar os homens dos acontecimentos, da naturalidade dos fatos e de que, caso os episódios sejam encantadores naquele estreito palco, não devem ser preocupantes neste vasto. Diante disso, você observou a necessidade de tudo ocorrer como ocorre e de tudo precisar ser suportado inclusive por quem clama: “Ó Citéron!”
De fato, certas sentenças foram bem redigidas pelos dramaturgos. Alguns exemplos, dentre vários outros:

Se eu e os meus filhos os deuses negligenciam,
Também há uma razão.”

Não devemos nos irritar e nos desgastar com os eventos.”

A colheita da vida deve ser como ceifar uma frutífera espiga de trigo.”

Depois da tragédia, foi introduzida a comédia antiga, caracterizada pela magistral liberdade de expressão. Devido à franqueza, era um útil lembrete de precaução contra a insolência. Tal peculiaridade foi adotada por Diógenes para fins similares.
Em seguida, veio a comédia intermediária. Identifique a sua essência. Por último, a nova. Repare a sua finalidade inicial, eventualmente reduzida a um mero artifício de mímica. Todos reconhecem a existência de boas passagens até mesmo desses escritores. Contudo, considerando a abordagem geral, para qual objetivo mirava toda a poesia e a dramaturgia?

Marco Aurélio, em Meditações

Haverá Chuvas Suaves (1984) | Direção de Nazim Tulyakhodjaev

Diário de Bernardo Soares

107.

Sou daquelas almas que as mulheres dizem que amam, e nunca reconhecem quando encontram; daquelas que, se elas as reconhecessem, mesmo assim não as reconheceriam. Sofro a delicadeza dos meus sentimentos com uma atenção desdenhosa. Tenho todas as qualidades, pelas quais são admirados os poetas românticos, mesmo aquela falta dessas qualidades, pela qual se é realmente poeta romântico. Encontro-me descrito (em parte) em vários romances como protagonista de vários enredos; mas o essencial da minha vida, como da minha alma, é não ser nunca protagonista.
Não tenho uma ideia de mim próprio; nem aquela que consiste num a falta de ideia de mim próprio. Sou um nómada da consciência de mim. Tresmalharam-se à primeira guarda os rebanhos da minha riqueza íntima.
A única tragédia é não nos podermos conceber trágicos. Vi sempre nitidamente a minha coexistência com o mundo. Nunca senti nitidamente a minha falta de coexistir com ele; por isso nunca fui um normal.
Agir é repousar.
Todos os problemas são insolúveis. A essência de haver um problema é não haver uma solução. Procurar um facto significa não haver um facto.
Pensar é não saber existir.
Passo horas, às vezes, no Terreiro do Paço, à beira do rio, meditando em vão. A minha impaciência constantemente me quer arrancar desse sossego, e a minha inércia constantemente me detém nele. Medito, então, num a modorra de físico, que se parece com a volúpia apenas como o sussurro de vento lembra vozes, na eterna insaciabilidade dos meus desejos vagos, na perene instabilidade das minhas ânsias impossíveis. Sofro, principalmente, do mal de poder sofrer. Falta-me qualquer coisa que não desejo e sofro por isso não ser propriamente sofrer.
O cais, a tarde, a maresia entram todos, e entram juntos, na composição da minha angústia. As flautas dos pastores impossíveis não são mais suaves que o não haver aqui flautas e isso lembrar-mas. Os idílios longínquos, ao pé de riachos, doem-me esta hora análoga por dentro.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Fábula

Minha pátria é minha infância.
Por isso vivo no exílio.
Talvez o barco contasse
deste percurso no tempo.
De como seria o escafandro
isento de tal mergulho.
Minha pátria é sob a pele:
Cargueiro no mar de névoa.
Antigamente os conflitos
não aspiravam a ser.
De como fiquei trancado
na torre em que era dono.
E a certeza como faca
engolindo a própria lâmina.
De como se libertaram
os mitos presos na forca,
e o exato espanto vindo da terra,
dos gestos do imperador.

Cacaso, em Poesia completa

Capítulo 50 – Virgília Casada





Quem chegou de São Paulo foi minha prima Virgília, casada com o Lobo Neves, continuou Luís Dutra.
Ah!
E só hoje é que eu soube uma coisa, seu maganão...
Que foi?
Que você quis casar com ela.
Ideias de meu pai. Quem lhe disse isso?
Ela mesma. Falei-lhe muito em você, e ela então contou-me tudo.
No dia seguinte, estando na rua do Ouvidor, porta da tipografia do Plancher, vi assomar, a distância, uma mulher esplêndida. Era ela; só a reconheci a poucos passos, tão outra estava, a tal ponto a natureza e a arte lhe haviam dado o último apuro. Cortejamo-nos; ela seguiu; entrou com o marido na carruagem, que os esperava um pouco acima; eu fiquei atônito.
Oito dias depois, encontrei-a num baile; creio que chegamos a trocar duas ou três palavras. Mas noutro baile, dado dai a um mês, em casa de uma senhora, que ornara os salões do primeiro reinado, e não desornava então os do segundo, a aproximação foi maior e mais longa, porque conversamos e valsamos. A valsa é uma deliciosa coisa. Valsamos; e não nego que, ao conchegar ao meu corpo aquele corpo flexível e magnífico, tive uma singular sensação, uma sensação de homem roubado.
Está muito calor, disse ela, logo que acabamos. Vamos ao terraço?
Não; pode constipar-se. Vamos a outra sala.
Na outra sala estava o Lobo Neves, que me fez muitos cumprimentos, acerca dos meus escritos políticos, acrescentando que nada dizia dos literários, por não entender deles; mas os políticos eram excelentes, bem pensados e bem escritos. Respondi-lhe com iguais esmeros de cortesia, e separamo-nos contentes um com o outro.
Cerca de três semanas depois recebi um convite dele para uma reunião intima. Fui; Virgília recebeu-me com esta graciosa palavra: – O senhor hoje há de valsar comigo.
Na verdade, eu tinha fama e era valsista emérito; não admira que ela me preferisse. Valsamos uma vez, e mais outra vez. Um livro perdeu Francesca; cá foi a valsa que nos perdeu. Creio que nessa noite apertei-lhe a mão com muita força, e ela deixou-a ficar, como esquecida, e eu a abraçá-la e todos com os olhos em nós, e nos outros que também se abraçavam e giravam… Um delírio.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas