domingo, 1 de março de 2026
O poeta, ao espelho, barbeando-se
o rito
do dia
o rictus
do dia
o risco
do dia
EU?
UE?
olho
por olho
dente
por dente
ruga
por ruga
EU?
UE?
o fio
da barba
o fio
da navalha
a vida
por um fio
EU?
UE?
mas a barba
feita
a máscara
refeita
mais um dia
aceita
EU
EU
José Paulo Paes, em Antologia Poética
Eu falando, ficava sendo
[...]
Real, mudando o propósito ― e para
que isto bem se entenda. Fio que me aprovaram. Divertidos, todos;
quem é que ia me contrariar? Eu era senhor dali e daqui! eu falando,
ficava sendo. Do Demo, mesmo, não tirei noção. Agora eu estava com
outra pressa. ― Desapeiem o homem, mandemos embora, que se vá! ―
em ato ordenei. Até porque ele se cessava sem entendimento das
coisas, sem ação. Transes que em instante temi! aquele homem
morresse, roqueado no medo, rebaixado dessa forma ― então, ah, aí,
então, o destino de lugar, para mim, estava definitivo! só sendo
nas extremas do fim do Inferno... Com jeito, com asco, uns dos meus
cumpriram meu mandado, desamontaram o homem, e o homem quase nem se
impunha de ficar em pé. ― Tu foge fora daqui, tu te vai embora! ―
eu disse, tive de gritar. Aí ele entendeu, e saíu. Por um momento,
pensei que fosse correr. Mas esbarrou, sem espiar para trás. Agora
era que achava pranto, com bem de choro: estava chorando soluços
fortes, igual se fosse criança pequena. Aquilo não tinha nenhuma
sensatez e me dava gastura, astúcia que remexia com minhas
resistências. Aborrecidos, os do meu pessoal gritaram com ele, que
tornou a pegar a correr, ao tom dos brados. Ainda esbarrou, outra
vez, devia de estar chorando, conforme os ombros dele se sacudiam.
Arrochei. Assim foi em arrebrusco: sobreveio em mim a estúrdia
arfagem de chorar também ― eu nas margens do mar. Não quis e nem
pude. Ânsia que meus olhos, para dentro, davam em escuro. As graças
d arte ― sabe o senhor ―: na escuridão, não se chora, por não
se ver, como não se pita cigarro... Com isso, desgostei de mim. Ah,
no final da vez, o que ria o riso principal era ele, o demo. O
Tisnado! Assim, por causa da judiação que eu, mesmo por querer
salvar a vida dele, eu tinha procedido de demorar assim, com aquele
homem. Antes tivesse logo matado. Como é que se podia desrespeitar
tudo desse jeito, numa desgraçada pessoa, roupeada? Como é? E o
homem não tinha vislumbrado de espiar para trás, para saber de sua
cachorrinha. E a cachorrinha estava ali, bem amarrada na dignidade.
Tanto ela não latia mais, que todos tinham se esquecido dela. Agora
eu colhi em mim um estado de desânimo. A ser, que, por conta daquele
homem, por meus desmandos, quem sabe eu ia ter, mais para adiante, de
pagar, com graves castigos?
Algum tempo estava se passando, daí
já tinham desarreado a égua, e o lombilho e os baixeiros botaram
dependurados num galho de árvore de beira estrada. Ali estava aquele
magro animal, preso somentemente no cabresto, que o Fafafa segurava;
assim esperavam que eu desse cabo dela, eu mesmo, ou que mandasse
outro fazer, segundo tinha sido a minha decisão. A cachorrinha,
essa, eu pensei! eu dava para Diadorim, que perto todo o tempo tinha
ficado, calado durante tudo. E, pois, era a hora de minha acertação,
mesmo com a contrariedade. Ao dito, porque eu tinha começado a
desastrada estória, que um final razoável carecia de ter.
Suficiente sacar garrucha, e mirar o tiro na testa da égua, que se
debruçava de pernas abertas, se acabando. A tanto, pois?
Ao que o Fafafa, que não teve poder
em si de se consentir silêncio, virou para mim, e disse! ― Nosso
Chefe, com vênia eu peço! o senhor aceite de eu pagar em dinheiro o
prêço deste inocente animal, que seja poupado... A eguinha não é
de todo ruim...
Aonde que ele disse, outros
secundaram! eu deixasse. Repente meu foi meio irado; porque até o
Fafafa me atravessava. Os demais, a ver que reprovavam minha decisão,
de que a égua se matasse. A gente revoltosa? Ah, não; que, em
seguida, gostei, eu mesmo. Instante em que me prazia ouvir o meu
pessoal discordar daquilo, com a égua, a frio e por fria razão. Do
demo era que eles discordavam! Rapaziada boa, solerte. Só que,
assim, como eles queriam, não estava em meu regulamento resolver.
Vender, não vendia a vida da égua ao Fafafa. Ah, não. Resumi um
recurso, por aí alerta. O que foi como pronunciei!
― Delibero o certo! o primeiro que
eu vi, foi essa égua. Ela tinha de receber a morte... Ah, mas égua
não é gente, não é pessoa que existe. E que? Ah, então, não é
cabível que se mate a égua, por tanto que a minha palavra decidida
era de se matar um homem! Não executo. A alçada da palavra se
perdeu por si e se gastou ― pois não está dito? Acho e dou que o
negócio veio ao terminado.
Verdadeiramente, com alegria, foi que
todos me aprovaram. Ou seja que me admiravam em real, pela esperteza
de toda solução que eu achava; e mesmo nem sabiam que essas minhas
espertezas eram cobradas da manha do Tentador. Contente, tanto, e
descontente, comigo, era que eu estava. Porque essas coisas, de certo
modo, me tiravam o poder do chão. Mas, uma na outra, eu limpei o
seco de minhas mãos.
― Aí , correr alguém, em tempo de
campear outra vez esse homem... ― eu disse. ― Trazer, a modo de
se dar a ele dinheiro, se dar de comer e um café, e tornar a
entregar a ele o que é dele…
Eu falava era por devolver a égua. E
o Suzarte, José Gervásio e Jiribibe, torcendo em galope, foram pelo
homem. A égua, que se soltou, caçava móitas de capim, para pastar.
Com o que, já que se estava por descanso e espera, e se tinha boa
aguada na vereda perto, o Jacaré armou a trempe e coou café.
Sentei, na sombra dum pau-dóce, fiquei ouvindo os gabos que os em
redor de mim me dessem, como arras de procedimentos maiores.
― Tal a tal, o Chefe tira mais
finíssimas artimanhas do que o Zé Bebelo próprio... ― um disse.
― A fé, que determina com a mesma
justiça que Medeiro Vaz... ― outro falou, mais aduloso.
Isso, bom louvo, sossegava a minha
perturbação. Aquela hora, eu estimava meus homens, que vivessem,
que falassem. Mas, para afirmar ideia e respeito de que eu estava em
minha chefia independente, mandei que aquietassem, pelo que eu ia
aproveitar para uma sesta de sonéques. Aprazia escutar o ventinho do
chapadão, com o suave rumor que assopra e faz, nas folhas do
bate-caixa. A cachorrinha, amarrada mesmo, se sujeitava de não
latir: figuro que alguém estava dando a ela pedaços de carne-seca.
Alembro que eu ainda podia caber nesse domingozinho de tranquilidade.
O melhor ― ah, pensei, o melhor de tudo! ― era que o Anhangão
não aparecesse, não se visse porfiando no meio de todos; e que
mesmo o mais certo era d ele, demo, não competir, por não ter
nenhuma existência.
Tirei minha madorna, a pouco. Suzarte,
Jiribibe e José Gervásio já retornavam, com o vazio tido, sem o
resultado algum.
― ...Sujeito se sumiu nesse mundo,
carregando com o rastro, medo dele era medonho... Só achamos o nada
dele... ― assim rendiam explicação. Que é que se podia
remediar? Seguir nossa marcha, sem mais tardanças. A gente largava a
égua ali, acaso algum dia o homem voltava, ou dela por boca de
outros tinha notícia. Amontamos. E a cachorrinha? ― Reinaldo, essa
tu quer? ― perguntei a Diadorim. Meante o que, ele melhor
respondeu! ― Só convém se soltar a coitadinha, de seguro ela vai
se encontrar com onde estiver o dono... E ele mesmo desatou. Valia o
senhor ver o raio de amor que tangeu a cachorrinhazinha! que latiu
suas alegrias e airada correu, sem nenhuma demora, feito fosse para
um pronto destino, há-de asas! Foi ela em longe desaparecer, e nós
tocamos, no caminho contrário. A égua ficou lá, pastando; e o
arreio do homem, como um espantalho, pendurado no ramo de árvore,
até as moscas do campo já se ajuntassem nele.
Do que acontecido, me senti muito
livre. Trotei, adiante. Eu ia, à meia-rédea, não me instava, não
pensava. Será ― mal pergunto eu ao senhor ― que viajei este
sertão com o Outro sendo meu sócio? Vá retro! Mas não tenho modo
de entender como Diadorim estranhou meus semblantes. E por via disso
é que tinha sido a nossa conversação ― por causa do de que agora
lhe dei conta miudamente.
Do que discuti com Diadorim, do que
derradeiro ele me disse, me ficou um retardo. Aquele passo me
envergonhava. Como ser? Eu queria e não queria ouvir ― não queria
e queria. Resto de toda resposta, que tivesse, tinha de ser acusação.
E eu quis. Deu o que me deu, e eu vim, perguntar forçado; sentido,
perguntei:
― O recado mandado, Diadorim, tu
diz.Teu falar no exato, dever de toda lealdade, é que eu a duras
exijo ― o que me reverte!...
― Sou teu amigo. O recado aquele,
Riobaldo, pedi ao arrieiro para dar a uma mulher...
― Ah, então foi para uma moça,
para a filha do fazendeiro da Santa Catarina, que Otacília é, e que
é minha nóiva; será?
― Riobaldo, pois foi. Em que é que
você malda?
Ao que, por praga, eu relutei no
freio. Até o campolino meu cavalo assumiu um espanto. Porque
surpreendi o mundo desequilibrado rústico, o que me pertencia e o
que não me pertencia. Se a vida coisas assim às horas arranja,
então que segurança de si é que a gente tem? Diadorim me olhava.
Diadorim esperou, sempre com serenidade. O amor dele por mim era de
todo quilate: ele não tartameava mais, de ciúme nem de medo. Disse
assim:
― Pedi a ela que rezasse por você,
Riobaldo... Assim pela esperança de saudade que ela tivesse, que não
esbarrasse de rezar, o todo tempo, por costume antigo...
No argame, no esquisito desgosto de
meu espírito, vi que, mesmo antes dele falar, eu já sabia que
aquilo era ― o que ele não evitava de me dizer. Rude que ainda
reperguntei, mesmo assim:
― Ah, não! Ah, você acha que eu
careço de suas rezas orações, por minha ajuda, Diadorim?
― Acho, de manhã à noite,
Riobaldo... Demais. Nem sei mesmo se alguém te botou o malefício...
Tua mãe, mesma, que estivesse viva, achava...
Mor, mor, aí, recebi surto de meu
sangue, forte,no corpo da cara e na beira das orêlhas, e logo doeu
no meu beiço o que eu estava me mordendo, assim para não insultar
Diadorim com nomes que fossem da maior ofensa. Com um tapa na rédea,
eu tirei de perto dele a cara de meu cavalo.
― Acha tua vida, rapaz! Careço é
de menos amizades... ― ainda eu maldisse, me apartando. Ao que bem
pensei! ― Hás-de! Rezas essas, o contra? Atira, tu, em anta, com
chumbo fino... ― e ri mamente. O que era que me transtornava, do
meio para o fim, por essa fraseação?
Sendo que, depois logo, quando
esbarramos a caminhada do dia, eu fiz questão de não querer prosa
nem presenças de ninguém, para que vissem que eu estava pensativo
de projetos, e raivoso. Tristonho. A gente parava no findar do
Chapadão, longe do poente, segundo se ia indo, por meu comando. As
muitas sérias coisas referi comigo, quando eu estava provando a
fresca da tarde.
[…]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas
Uma Dupla do Barulho
Estou em casa, depois de um jogo da
Seleção Brasileira, com dor de cabeça, pensando na chatice em que
o nosso futebol se transformou. Toca o relefone. É Hermínio Bello
de Carvalho, diretamente de São Paulo, em companhia de Dona Neuma da
Mangueira. Conheci Dona Neuma quando tive a honra de desfilar na
Comissão de Frente da Mangueira, que homenageou Carlos Drummond de
Andrade. A escola sagrou-se bicampeã. Sou salgueirense de enfartar,
mas jamais esquecerei do abraço de Dona Neuma e de Dona Zica na
pista, o dia clareando, no Desfile das Campeãs.
Hermínio já me deixou em situações
dificílimas. Uma vez, também em São Paulo, estávamos Hermínio,
Mello Menezes e eu meio de porre, num fim de tarde, dispostos a
aprontar, quando o Mello notou três moças muito engraçadinhas (e,
na aparência, nada ordinárias) na mesa em frente. Paquera vai,
paquera vem, Hermínio fechou a cara:
– Já vi que essas peruas vão
estragar a boêmia.
Procuramos acalmá-lo: que nada,
bobagem, e coisa e tal. As moças vieram pra nossa mesa. O pedaço
que me coube naquele latifúndio mulherístico tinha uns dentes de
fazer botar óculos escuros, uma beleza. Fiz um galanteio. Comparando
os dentinhos dela com pérolas, troço muito original. A jovem
agradeceu e escancarou ainda mais o anúncio luminoso. Hermínio,
friamente, perguntou:
– São naturais ou prótese?
E quando Mello Menezes elogiou os
seios da moreninha, Hermínio repetiu a pergunta. Ora, diante desse
clima, uma delas procurou brincar. Pra descontrair, entende? Disse
pro Hermínio:
– Ainda não sei o seu nome.
Lembram do muxoxo das novelas de
antanho, aquelas bochechas de tédio e descaso e um bico assim, ó?
Pois, é. Hermínio fez uma careta dessas pra coitada e respondeu:
– Chamo-me Valéria.
Eu caí da cadeira e o Mello começou
a chorar. Elas bateram asas, amores paulistanos que poderiam ter
sido, mas não foram.
Pelo telefone, Dona Neuma me deu
várias informações confidenciais sobre, digamos, atributos
anatômicos de Noel Rosa, João da Baiana e de outros monstros
sagrados de nossa música popular. Minha dor de cabeça passou de
tanto rir. Quando o Hermínio apresentava suas despedidas misturadas
com o repertório de Nora Nei fui acometido de curiosidade pouco
elegante e perguntei:
– Estão em São Paulo por quê?
Pra um casamento de bacana, responde
Hermínio. E passou a descrever a festa: trombetas na entrada da
igreja, uma orquestra enorme lá dentro, coro, viadinhos.
– Viadinhos? – estranhei.
E o Hermínio, do alto de sua
sabedoria:
– Tem em todo lugar, meu filho.
Parece criança...
E eis o fecho de ouro: na recepção,
a noiva, uma verdadeira avalanche de rendas, aproximou-se da gloriosa
Dona Neuma.
– Dona Neuma, é uma honra ter a
Mangueira aqui representada pela senhora.
A resposta:
– Brigada, minha filha. Cê tá tão
linda que eu tou até com saudade do meu cabaço.
God save a Estação Primeira!
Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo
Condizente com a razão
Dado esse material, o que pode ser
falado ou feito da maneira mais condizente com a razão? Seja o que
for, falar ou fazer depende de você. Não se justifique dizendo que
foi impedido.
Não suspenderá as lamentações até
que o material que lhe é submetido e apresentado seja tão
valorizado pela sua mente quanto o luxo o é pelos lascivos. Até que
julgue prazerosas as ações adequadas à sua constituição. O poder
de julgá-las assim o acompanha para todo canto.
Perceba: a escolha de se direcionar
não é dada a um cilindro, à água, ao fogo ou a quaisquer entes
governados só pela natureza ou por almas irracionais. São impedidos
de inúmeras maneiras. Por outro lado, a inteligência e a razão
podem escolher transpor os impedimentos, pois foram constituídas
para isso. Note como a razão os transpõe tão facilmente quanto o
fogo ascende, a pedra cai ou um cilindro desce por um plano
inclinado. Não busque mais nada.
Entraves impedem apenas o corpo — um
cadáver. Exceto se assim opinar ou se renunciar à razão, não
esmagam nem danificam. Se esmagassem, quem fosse danificado se
tornaria pior. Mas, ao passo que os demais entes pioram quando são
danificados, o homem se torna melhor e mais elogiável quando emprega
esse “dano” com destreza.
Por fim, recorde-se: se não deteriora
um cidadão genuíno, não deteriora o estado. Se não afeta o
estado, não afeta a lei. Nenhum entrave infringe a lei. Logo, se não
fere a lei, não fere o cidadão ou o estado.
Marco Aurélio, em Meditações
Factótum
6
Na segunda-feira eu estava de ressaca.
Fiz a barba e fui atrás de um anúncio que vi no jornal. Me sentei,
e do outro lado estava o editor, um homem de mangas curtas e
depressões profundas ao redor dos olhos. Parecia que ele não dormia
há uma semana. Lá dentro era frio e escuro. Era a sala de montagem
de um dos dois jornais da cidade, o menor deles. Homens estavam
sentados em mesas sob lâmpadas de leitura, trabalhando com cópias.
— Doze dólares por semana —
propôs ele.
— Tudo bem — respondi —, eu
topo.
Eu trabalhava com um homenzinho gordo
que tinha uma barriga nada saudável. Ele usava um relógio de bolso
antiquado, preso em uma corrente dourada, vestia colete e um boné
verde, tinha lábios grossos e uma expressão carnosa e sombria. As
linhas do rosto não eram interessantes e sequer tinham
personalidade; a cara parecia ter sido dobrada várias vezes e depois
alisada, como se fosse um pedaço de papelão. Usava sapatos
quadrados bregas e mascava tabaco, cuspindo o sumo em uma
escarradeira no chão.
— O sr. Belger — disse ele sobre o
homem que precisava dormir — trabalhou duro para erguer este
jornal. Ele é um bom homem. Estávamos à beira da falência até
ele aparecer.
Ele me deu uma olhada. — Normalmente
dão esse emprego para um estagiário.
Um sapo, pensei, é o que
ele é, isso, sim.
— Quero dizer — explicou —, esse
trabalho costuma ser dado a um estudante. Ele pode estudar enquanto
espera uma ligação. Você estuda?
— Não.
— Esse trabalho em geral é para
quem estuda.
Voltei para a minha sala e sentei.
Estava abarrotada de fileiras e fileiras de gavetas de metal, e
dentro delas ficavam as gravuras em zinco que tinham sido usadas nos
anúncios. Muitas dessas gravuras eram usadas inúmeras vezes. Havia
também muitos tipos – com nomes de clientes e logomarcas. O gordo
gritava “Chinaski!”, e eu ia ver qual anúncio ou que tipo ele
queria. Muitas vezes eu era enviado ao jornal concorrente para pegar
emprestado alguns dos tipos. Eles também pegavam os nossos. Era uma
caminhada agradável, e eu achei um lugar em um beco onde podia tomar
um copo de cerveja por alguns centavos. O gordo não me chamava
muito, e o lugar da cerveja barata se tornou minha distração. O
gordo começou a sentir minha falta. No começo, ele só me olhava
com uma cara desagradável, até que um dia me perguntou:
— Onde você estava?
— Lá fora, tomando uma cerveja.
— Este é um trabalho para
estudantes.
— Eu não sou estudante.
— Vou ter que ter que mandá-lo
embora. Preciso de alguém que esteja aqui com total disponibilidade.
O gordo me levou até o Belger, que
parecia cansado como nunca.
— Este é um trabalho para
estudantes, sr. Belger. Receio que esse homem não se encaixe.
Precisamos de um estudante.
— Está bem — disse Belger. O
gordo saiu todo estufado da sala.
— Quanto te devemos? — perguntou
Belger.
— Cinco dias.
— Certo, leve isso ao RH.
— Ouça, Belger, aquele velho
miserável é nojento.
Belger suspirou. — Jesus, não me
diga?
Desci para o RH.
Charles Bukowski, em Factótum
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
1613 – Londres
Shakespeare
A Companhia de Virgínia está levando
a breca na costa do norte da América, sem ouro nem prata, mas por
toda Inglaterra circulam seus panfletos de propaganda anunciando que
lá os ingleses trocam com os índios pérolas do Céu por pérolas
da terra.
Não faz muito que John Donne
explorava o corpo de sua amante, em um poema, como quem descobre a
América; e Virgínia, o ouro de Virgínia, é o tema central das
festas da boda da princesa Isabel. Em honra da filha do rei,
representa-se uma dança mascarada de George Chapman que gira ao
redor de um grande rochedo de ouro, símbolo de Virgínia ou das
ilusões de seus acionistas: o ouro, chave de todos os poderes,
segredo da vida perseguido pelos alquimistas, filho do sol como a
prata é filha da lua e o cobre nasce de Vênus. Há ouro nas zonas
quentes do mundo, onde o sol semeia, generoso, seus raios.
Nas celebrações do casamento da
princesa, também estreia uma obra de William Shakespeare, A
Tempestade, inspirada no naufrágio de um barco da Companhia de
Virgínia nas Bermudas. O grande criador de almas e maravilhas situa
esta vez seu drama em uma ilha do Mediterrâneo que mais parece do
mar Caribe. Ali o duque Próspero encontra Calibã, filho da bruxa
Sycorax, adoradora do deus dos índios da Patagônia. Calibã é um
selvagem, um desses índios que Shakespeare viu em alguma exibição
de Londres: coisa da escuridão, mais animal que homem, não aprende
outra coisa a não ser amaldiçoar e não tem capacidade de juízo
nem sentido de responsabilidade. Só como escravo, ou atado como um
macaco, poderia encontrar um lugar na sociedade humana, ou seja, a
sociedade europeia, onde não tem nenhum interesse de incorporar-se.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
A palavra
Tanto que tenho falado, tanto que
tenho escrito — como não imaginar que, sem querer, feri alguém?
Às vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade
surda, ou uma reticência de mágoas. Imprudente ofício é este, de
viver em voz alta.
Às vezes, também a gente tem o
consolo de saber que alguma coisa que se disse por acaso ajudou
alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com a sua vida de cada dia;
a sonhar um pouco, a sentir uma vontade de fazer alguma coisa boa.
Agora sei que outro dia eu disse uma
palavra que fez bem a alguém. Nunca saberei que palavra foi; deve
ter sido alguma frase espontânea e distraída que eu disse com
naturalidade porque senti no momento — e depois esqueci.
Tenho uma amiga que certa vez ganhou
um canário, e o canário não cantava. Deram-lhe receitas para fazer
o canário cantar; que falasse com ele, cantarolasse, batesse alguma
coisa ao piano; que pusesse a gaiola perto quando trabalhasse em sua
máquina de costura; que arranjasse para lhe fazer companhia, algum
tempo, outro canário cantador; até mesmo que ligasse o rádio um
pouco alto durante uma transmissão de jogo de futebol... mas o
canário não cantava.
Um dia a minha amiga estava sozinha em
casa, distraída, e assobiou uma pequena frase melódica de Beethoven
— e o canário começou a cantar alegremente. Haveria alguma
secreta ligação entre a alma do velho artista morto e o pequeno
pássaro cor de ouro?
Alguma coisa que eu disse distraído —
talvez palavras de algum poeta antigo — foi despertar melodias
esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se a gente soubesse
que de repente, num reino muito distante, uma princesa muito triste
tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração do povo; iluminasse
um pouco as suas pobres choupanas e as suas remotas esperanças.
Rubem Braga, em Ai de ti, Copacabana
A poesia, a salvação e a vida
Seo Raul tem uma calça azul-pavão
e atravessa a rua de manhã
pra dar risada com o vizinho.
Negro bom.
O azul da calça de seo Raul
parece foi pintado por pintor;
mais é uma cor que uma calça.
Eu fico pensando:
o que é que a calça azul de seo Raul
tem que ver com o momento
em que Pilatos decide a inscrição
JESUS NAZARENUS REX JUDEORUM.
Eu não sei o que é,
mas sei que existe um grão de
salvação
escondido nas coisas deste mundo.
Senão, como explicar:
o rosto de Jesus tem manchas roxas,
reluz o broche de bronze
que prende as capas nos ombros dos
soldados romanos.
O raio fende o céu: amarelo-azul
profundo.
Os rostos ficam pálidos, a cor da
terra,
a cor do sangue pisado.
De que cor eram os olhos do centurião
convertido?
A calça azul de seo Raul
pra mim
faz parte da Bíblia.
Adélia Prado, em O Coração Disparado
O autor como leitor
Uma noite, no primeiro século da era
cristã, Caio Plínio Cecílio Segundo (conhecido pelos futuros
leitores como Plínio, o Jovem, para distingui-lo de seu erudito tio,
Plínio, o Velho, que morreu na erupção do monte Vesúvio em 79
d.C.) saiu de casa de um amigo romano cheio de justificada cólera.
Assim que chegou ao seu gabinete, sentou-se e, para ordenar os
pensamentos (ou talvez de olho no volume de cartas que reuniria e
publicaria mais tarde), escreveu ao advogado Cláudio Restituto sobre
os acontecimentos daquela noite.
“Acabei de sair indignado de uma
leitura na casa de um amigo meu e sinto que preciso escrever-te neste
instante, já que não posso falar-te pessoalmente. O texto que leram
era exatamente polido, de qualquer ângulo que se considere, mas duas
ou três pessoas espirituosas – ou que assim se julgam –
escutaram-no como se fossem surdos-mudos. Em nenhum momento abriram
os lábios, ou moveram as mãos, ou mesmo esticaram as pernas para
mudar de posição. Qual o objetivo dessa conduta e cultura sóbria,
ou, antes, dessa indolência e presunção, dessa falta de tato e bom
senso que leva alguém a passar o dia inteiro sem fazer outra coisa
senão causar desgosto e transformar em inimigo o querido amigo que
se veio ouvir?”
É um pouco difícil para nós, a uma
distância de vinte séculos, compreender a consternação de Plínio.
Em sua época, a leitura feita por autores tornara-se uma cerimônia
social da moda, e, como em qualquer cerimônia, havia uma etiqueta
estabelecida para autores e ouvintes. Dos ouvintes, esperava-se que
oferecessem uma reação crítica, com base na qual o autor
aperfeiçoaria o texto – motivo pelo qual Plínio ficou tão
ultrajado com a impassibilidade da plateia; ele próprio apresentava
às vezes uma primeira versão de um discurso a um grupo de amigos e
depois fazia alterações de acordo com a reação deles. Além
disso, esperava-se que os ouvintes ficassem até o fim da
apresentação, independentemente do tempo que durasse, de forma a
não perder nenhuma parte da obra, e Plínio julgava que quem usava
as leituras como mera diversão social não valia muito mais que um
desordeiro. Escreveu furioso para outro amigo: “A maioria deles
senta-se na sala de espera, perdendo tempo em vez de prestar atenção
e pedindo aos seus servos que lhes digam a toda hora se o leitor
chegou e já leu a introdução, ou se chegou ao fim da leitura.
Somente então, e com a maior relutância, arrastam-se para dentro. E
não ficam muito tempo, e saem antes do fim, alguns tentando escapar
despercebidos, outros saindo sem pejo. [...] Mais louvor e honra
merecem aqueles cujo amor pela escrita e leitura em voz alta não se
deixa afetar pelos maus modos e arrogância da plateia”.
O autor também estava obrigado a
seguir certas regras se quisesse ter sucesso em suas leituras, pois
havia toda espécie de obstáculo a ser superado. Antes de mais nada,
era preciso encontrar um local de leitura apropriado. Homens
abastados imaginavam-se poetas e, em opulentas casas de campo,
recitavam suas obras para um grande número de conhecidos - no
auditorium, uma sala construída especialmente com esse
objetivo.
Alguns desses poetas ricos, como
Ticínio Capito, eram generosos e emprestavam seus auditórios para
as apresentações de outros, mas a maioria desses espaços de
recital era de uso exclusivo dos proprietários. Uma vez reunidos os
amigos no local designado, o autor tinha de encará-los de uma
cadeira colocada sobre um tablado, usando uma toga nova e exibindo
todos os seus anéis. Segundo Plínio, esse costume atrapalhava-o
duplamente: “ele se encontra em grande desvantagem pelo mero fato
de ficar sentado, embora possa ser tão bem-dotado quanto oradores
que ficam de pé” e tem”"os dois principais auxiliares de
sua elocução, isto é, olhos e mãos”, ocupados em segurar o
texto.
As habilidades oratórias eram,
portanto, essenciais. Ao elogiar o desempenho de um leitor, Plínio
observou que “ele mostrou uma versatilidade adequada ao elevar e
baixar o tom e a mesma agilidade na passagem de temas elevados para
inferiores, do simples para o complexo ou de assuntos mais leves para
mais graves. A voz notavelmente agradável foi outra vantagem,
realçada pela modéstia, pelos rubores e pelo nervosismo, que sempre
acrescentam encanto a uma leitura. Não sei por quê, mas a timidez
cai melhor num autor do que a segurança”.
Aqueles que tinham dúvidas sobre suas
habilidades de leitor podiam recorrer a certos estratagemas. O
próprio Plínio, confiante quando lia discursos, mas inseguro sobre
sua capacidade de ler versos, teve a seguinte ideia para uma noitada
de suas poesias, comunicada por carta ao amigo Suetônio, o autor de
Vida dos doze Césares: “Estou planejando fazer uma leitura
informal para alguns amigos e penso em utilizar um de meus escravos.
Não darei grandes mostras de civilidade a meus amigos, pois o homem
que escolhi não é realmente um bom leitor, mas acho que será
melhor do que eu, uma vez que não é tão nervoso. [...] A questão
é: o que devo fazer enquanto ele estiver lendo?
Devo sentar-me quieto e silencioso
como um espectador, ou comportar-me como algumas pessoas e repetir as
palavras dele com meus lábios, olhos e gestos?”. Não sabemos se
Plínio ofereceu naquela noite uma das primeiras apresentações de
leitura labial sincronizada da história.
Muitas dessas leituras devem ter
parecido intermináveis. Plínio compareceu a uma que durou três
dias. (Essa leitura, em particular, não parece tê-lo aborrecido,
talvez porque o leitor anunciara à plateia: “Mas que me importam
os poetas do passado, se conheço Plínio?”.) Indo de várias horas
à metade de uma semana, as leituras públicas tornaram-se quase
inevitáveis para quem quisesse ser conhecido como autor. Horácio
queixava-se de que os leitores educados já não pareciam de fato
interessados nos escritos de um poeta, tendo “transferido todo o
prazer do ouvido para as delícias vazias e fugazes do olho”.
Marcial ficou tão farto de aturar
poetastros ansiosos por ler suas obras em voz alta que desabafou:
Pergunto-te: quem pode suportar
esse afã?
Lês para mim quando estou de pé,
Lês para mim quando estou sentado,
Lês para mim quando estou
correndo,
Lês para mim quando estou cagando.
Plínio, no entanto, aprovava a
leitura dos autores e via nelas os sinais de uma nova idade de ouro
literária. “Dificilmente tivemos um dia em abril em que não
houvesse alguém fazendo uma leitura pública”, observou
satisfeito. “Estou encantado por ver a literatura florescer e o
talento vicejar.” As gerações futuras discordaram do veredicto de
Plínio e decidiram esquecer o nome da maioria desses poetas
declamadores.
Contudo, se fosse destino de alguém
ficar famoso graças a essas leituras públicas, um autor não
precisava mais esperar a morte para ser consagrado. Plínio escreveu
a seu amigo Valério Paulino: “As opiniões divergem, mas minha
ideia de um homem verdadeiramente feliz é aquele que desfruta
antecipadamente de uma boa e duradoura reputação e, confiante no
veredicto da posteridade, vive na certeza da fama que virá”. A
fama no presente era importante para ele. Ficava encantado quando
alguém nas corridas achava que o escritor Tácito (a quem admirava
muito) poderia ser Plínio. “Se Demóstenes teve o direito de se
deleitar quando a velha da Ática o reconheceu com as palavras
‘aquele é Demóstenes’, eu certamente posso ficar contente ao
ver meu nome bem conhecido. Na verdade, estou contente e
admito isso.” Sua obra foi publicada e lida, até mesmo nos confins
de Lugdunum (Lyon). A outro amigo, escreveu: “Não pensei que
houvesse livreiros em Lugdunum, portanto fiquei ainda mais satisfeito
ao saber por sua carta que minhas obras estão à venda. Fico
contente que tenham no exterior a popularidade que conquistaram em
Roma e estou começando a pensar que minha obra deve ser realmente
boa, ao ver que a opinião pública de lugares tão diferentes
concorda sobre ela”. Porém, agradava-lhe muito mais o louvor de
uma plateia de ouvintes do que a aprovação silenciosa de leitores
anônimos.
Plínio sugeriu várias razões pelas
quais a leitura em público constituía um exercício benéfico. A
celebridade era sem dúvida um fator muito importante, mas havia
também o prazer de ouvir a própria voz. Ele justificava essa
autocomplacência observando que a audição de um texto levava a
plateia a comprar a peça publicada, causando assim uma demanda que
satisfaria tanto os autores quanto os editores-livreiros. Na sua
concepção, ler em público era a melhor maneira de um autor obter
público. Na verdade, a leitura pública era em si mesma uma forma
rudimentar de divulgação.
Como observou corretamente Plínio,
ler em público era uma representação, um ato executado por todo o
corpo para que outros percebessem. O autor que lê em público -
naquela época como agora recobra as palavras com certos sons e
interpreta-as com certos gestos; essa performance dá ao texto um tom
que (supostamente) é aquele que o autor tinha em mente no momento da
criação e, portanto, concede ao ouvinte a sensação de estar perto
das intenções do autor; ela dá também ao texto um selo de
autenticidade.
Mas, ao mesmo tempo, a leitura do
autor deturpa o texto, melhorando-o (ou empobrecendo-o) com a
interpretação. O romancista canadense Robertson Davies acrescentava
camadas e mais camadas de caracterização durante as leituras, antes
interpretando do que recitando sua ficção. A romancista francesa
Nathalie Sarraute, ao contrário, lê numa monotonia que não faz jus
aos seus textos líricos. Dylan Thomas cantava sua poesia, batendo
nas tônicas como gongos e deixando pausas enormes. Eliot resmungava
seus poemas como se fosse um vigário rabugento amaldiçoando seu
rebanho.
Ao ser lido para uma plateia, um texto
não é determinado exclusivamente pela relação entre suas
características intrínsecas e aquelas de seu público arbitrário,
sempre diferente, uma vez que os membros desse público não têm
mais a liberdade (como os leitores comuns teriam) de voltar, reler,
retardar e dar ao texto sua própria entonação conotativa. Ao
contrário, ele se torna dependente do autor-intérprete, que assume
o papel de leitor dos leitores, a encarnação presuntiva de cada
membro da plateia cativa da leitura, ensinando-lhes o modo de ler As
leituras de autores podem se tornar profundamente dogmáticas.
As leituras públicas não foram
exclusividade de Roma. Os gregos liam em público. Cinco séculos
antes de Plínio, por exemplo, Heródoto lia sua obra nos festivais
olímpicos, onde se reunia uma grande e entusiástica plateia vinda
de toda a Grécia; evitava-se assim viajar de cidade em cidade. Mas,
no século VI, as leituras públicas cessaram efetivamente, porque
parecia não haver mais um “público educado”. A última
descrição conhecida de uma platéia romana numa leitura pública
está nas cartas do poeta cristão Apolinário Sidônio, escritas na
segunda metade do século V. Àquela altura, como Sidônio lamenta, o
latim tornara-se uma língua especializada, estrangeira, “a
linguagem da liturgia, das chancelarias e de uns poucos eruditos”.
Por ironia, a Igreja cristã, que adotara o latim para difundir o
evangelho entre “todos os homens em todos os lugares”, percebeu
que essa língua se tornara incompreensível para a vasta maioria do
rebanho. O latim passou a ser parte do “mistério” da Igreja, e,
no século XI, apareceu o primeiro dicionário de latim, como forma
de ajudar os estudantes e noviços para quem esse idioma não era
mais a língua materna.
Mas os autores continuaram precisando
do estímulo de um público imediato. No final do século XIII, Daute
sugeria que a “língua vulgar” – isto é, o vernáculo – era
ainda mais nobre que o latim, por três motivos: era a primeira
língua falada por Adão e Eva; era “natural”, enquanto o latim
era “artificial”, pois aprendido apenas nas escolas; e era
universal, uma vez que todos os homens falavam uma língua vulgar e
somente uns poucos sabiam latim. Embora essa defesa da língua vulgar
fosse escrita, paradoxalmente, em latim, é provável que, mais para
o fim da vida, na corte de Guido Novel o da polenta, em Ravena, Dante
tenha lido trechos de sua Comédia na “língua vulgar” que
defendera de forma tão eloquente. O certo é que, nos séculos XIV e
XV, as leituras por autores voltaram a ser comuns; há muitos
exemplos na literatura, tanto secular quanto religiosa.
Em 1309, Jean de Joinville dedicou sua
Vida de são Luís a “vós e vossos irmãos que a ouvirão
ser lida”. No final do século XIV, o historiador francês
Froissart enfrentou tempestades em plena noite durante seis longas
semanas de inverno para ler seu romance Méliador para o
insone conde du Blois. O príncipe e poeta Charles d'Orléans,
aprisionado pelos ingleses em Agincourt, em 1415, escreveu numerosos
poemas durante um longo cativeiro, e, após ser libertado, em 1440,
leu-os para a corte de Blois em noitadas literárias para as quais
outros poetas, como François Villon, eram convidados. La
Celestina, de Fernando de Rojas. deixava claro em sua introdução
de 1499 que a comprida peça (ou romance em forma de peça de teatro)
destinava-se a ser lida em voz alta "quando umas dez pessoas se
reúnem para ouvir essa comédia"; é provável que o autor (de
quem sabemos muito pouco, exceto que era um judeu convertido e pouco
ansioso por chamar para sua obra a atenção da Inquisição) tivesse
apresentado previamente a "comédia" a seus amigos. Em
janeiro de 1507, Ariosto leu seu inacabado Orlando furioso
para a convalescente Isabela Gonzaga, “fazendo com que dois dias se
passassem não somente sem tédio, mas com todo o prazer”. E
Geoffrey Chaucer, cujos livros estão cheios de referências à
literatura lida em voz alta, certamente leu sua obra para uma plateia
atenta.
[…]
Alberto Manguel, em Uma História da Leitura
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026
A Metamorfose [excerto inicial]
Numa manhã, ao despertar de sonhos
inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado num
gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que
parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça,
divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos
arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posição e
estava a ponto de escorregar. Comparadas com o resto do corpo, as
inúmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se
desesperadamente diante de seus olhos.
Que me aconteceu ? — pensou. Não
era nenhum sonho. O quarto, um vulgar quarto humano, apenas bastante
acanhado, ali estava, como de costume, entre as quatro paredes que
lhe eram familiares. Por cima da mesa, onde estava deitado,
desembrulhada e em completa desordem, uma série de amostras de
roupas: Samsa era caixeiro-viajante, estava pendurada a fotografia
que recentemente recortara de uma revista ilustrada e colocara numa
bonita moldura dourada. Mostrava uma senhora, de chapéu e estola de
peles, rigidamente sentada, a estender ao espectador um enorme regalo
de peles, onde o antebraço sumia! Gregório desviou então a vista
para a janela e deu com o céu nublado — ouviam-se os pingos de
chuva a baterem na calha da janela e isso o fez sentir-se bastante
melancólico. Não seria melhor dormir um pouco e esquecer todo este
delírio? — cogitou. Mas era impossível, estava habituado a dormir
para o lado direito e, na presente situação, não podia virar-se.
Por mais que se esforçasse por inclinar o corpo para a direita,
tornava sempre a rebolar, ficando de costas. Tentou, pelo menos, cem
vezes, fechando os olhos, para evitar ver as pernas a debaterem-se, e
só desistiu quando começou a sentir no flanco uma ligeira dor
entorpecida que nunca antes experimentara. Oh, meu Deus, pensou, que
trabalho tão cansativo escolhi! Viajar, dia sim, dia não. É um
trabalho muito mais irritante do que o trabalho do escritório
propriamente dito, e ainda por cima há ainda o desconforto de andar
sempre a viajar, preocupado com as ligações dos trens, com a cama e
com as refeições irregulares, com conhecimentos casuais, que são
sempre novos e nunca se tornam amigos íntimos. Diabos levem tudo
isto! Sentiu uma leve comichão na barriga; arrastou-se lentamente
sobre as costas, — mais para cima na cama, de modo a conseguir
mexer mais facilmente a cabeça, identificou o local da comichão,
que estava rodeado de uma série de pequenas manchas brancas cuja
natureza não compreendeu no momento, e fez menção de tocar lá com
uma perna, mas imediatamente a retirou, pois, ao seu contato,
sentiu-se percorrido por um arrepio gela- do. Voltou a deixar-se
escorregar para a posição inicial. Isto de levantar cedo, pensou,
deixa a pessoa estúpida. Um homem necessita de sono. Há outros
comerciantes que vivem como mulheres de harém. Por exemplo, quando
volto para o hotel, de manhã, para tomar nota das encomendas que
tenho, esses se limitam a sentar-se à mesa para o pequeno almoço.
Eu que tentasse sequer fazer isso com o meu patrão: era logo
despedido. De qualquer maneira, era, capaz de ser bom para mim —
quem sabe? Se não tivesse de me aguentar, por causa dos meus pais,
há muito tempo que me teria despedido; iria ter com o patrão e lhe
falar exatamente o que penso dele. Havia de cair ao comprido em cima
da secretária! Também é um hábito esquisito, esse de se sentar a
uma secretária em plano elevado e falar para baixo para os
empregados, tanto mais que eles têm de aproximar-se bastante, porque
o patrão é ruim de ouvido. Bem, ainda há uma esperança; depois de
ter economizado o suficiente para pagar o que os meus pais lhe devem
— o que deve levar outros cinco ou seis anos —, faço-o, com
certeza. Nessa altura, vou me libertar completamente. Mas, para
agora, o melhor é me levantar, porque o meu trem parte às cinco.
Olhou para o despertador, que fazia
tique-taque na cômoda. Pai do Céu! — pensou. Eram seis e meia e
os ponteiros moviam-se em silêncio, até passava da meia hora, era
quase um quarto para as sete. O despertador não teria tocado? Da
cama, via-se que estava corretamente regulado para as quatro; claro
que devia ter tocado. Sim, mas seria possível dormir sossegadamente
no meio daquele barulho que trespassava os ouvidos? Bem, ele não
tinha dormido sossegadamente; no entanto, aparentemente, se assim
era, ainda devia ter sentido mais o barulho. Mas que faria agora? o
próximo trem saía às sete; para o apanhar tinha de correr como um
doido, as amostras ainda não estavam embrulhadas e ele próprio não
se sentia particularmente fresco e ativo. E, mesmo que apanhasse o
trem, não conseguiria evitar uma reprimenda do chefe, visto que o
porteiro da firma havia de ter esperado o trem das cinco e há muito
teria comunicado a sua ausência. O porteiro era um instrumento do
patrão, invertebrado e idiota. Bem, suponhamos que dizia que estava
doente? Mas isso seria muito desagradável e pareceria suspeito,
porque, durante cinco anos de emprego, nunca tinha estado doente. O
próprio patrão certamente iria lá a casa com o médico da
Previdência, repreenderia os pais pela preguiça do filho e poria de
parte todas as desculpas, recorrendo ao médico da Previdência, que,
evidentemente, considerava toda a humanidade um bando de falsos
doentes perfeitamente saudáveis. E enganaria assim tanto desta vez?
Efetivamente, Gregório sentia-se bastante bem, à parte uma
sonolência que era perfeitamente supérflua depois de um tão longo
sono, e sentia-se mesmo esfomeado.
À medida que tudo isto lhe passava
pela mente a toda a velocidade, sem ser capaz de resolver a deixar a
cama — o despertador acabava de indicar um quarto para as sete,
ouviram-se pancadas cautelosas na porta que ficava por detrás da
cabeceira da cama.
— Gregório — disse uma voz, que
era a da mãe, é um quarto para as sete. Não tem de apanhar o trem?
Aquela voz suave! Gregório teve um
choque ao ouvir a sua própria voz responder-lhe, inequivocamente a
sua voz, é certo, mas com um horrível e persistente guincho
chilreante como fundo sonoro, que apenas conservava a forma distinta
das palavras no primeiro momento, após o que subia de tom, ecoando
em torno delas, até destruir-lhes o sentido, de tal modo que não
podia ter-se a certeza de tê-las ouvido corretamente. Gregório
queria dar uma resposta longa, explicando tudo, mas, em tais
circunstâncias, limitou-se a dizer:
— Sim, sim, obrigado, mãe, já vou
levantar.
A porta de madeira que os separava
devia ter evitado que a sua mudança de voz fosse perceptível do
lado de fora, pois a mãe contentou-se com esta afirmação,
afastando-se rapidamente. Esta breve troca de palavras tinha feito os
outros membros da família notarem que Gregório estava ainda em
casa, ao contrário do que esperavam, e agora o pai batia a uma das
portas laterais, suavemente, embora com o punho.
— Gregório, Gregório — chamou —,
o que você tem?
E, passando pouco tempo depois, tornou
a chamar, com voz mais firme:
— Gregório! Gregório!
Junto da outra porta lateral, a irmã
chamava, em tom baixo e quase lamentoso:
— Gregório? Não se sente bem?
Precisa de alguma coisa?
Respondeu a ambos ao mesmo tempo:
— Estou quase pronto — e
esforçou-se o máximo por que a voz soasse tão normal quanto
possível, pronunciando as palavras muito claramente e deixando
grandes pausas entre elas. Assim, o pai voltou ao breve almoço, mas
a irmã segredou:
— Gregório, abre esta porta, anda.
Ele não tencionava abrir a porta e
sentia-se grato ao prudente hábito que adquirira em viagem de fechar
todas as portas à chave durante a noite, mesmo em casa.
A sua intenção imediata era
levantar-se silenciosamente sem ser incomodado, vestir-se e,
sobretudo, tomar o breve almoço, e só depois estudar que mais havia
a fazer, dado que na cama, bem o sabia, as suas meditações não
levariam a qualquer conclusão sensata. Lembrava-se de muitas vezes
ter sentido pequenas dores enquanto deitado, provavelmente causadas
por posições incômodas, que se tinham revelado puramente
imaginárias ao levantar-se, e ansiava fortemente por ver as ilusões
desta manhã desfazerem-se gradualmente. Não tinha a menor dúvida
de que a alteração da sua voz outra coisa não era que o prenúncio
de um forte resfriado, doença permanente dos caixeiros-viajantes.
Libertar-se da colcha era tarefa
bastante fácil: bastava-lhe inchar um pouco o corpo e deixá-la cair
por si. Mas o movimento seguinte era complicado, especialmente devido
à sua invulgar largura. Precisaria de braços e mãos para
erguer-se; em seu lugar, tinha apenas as inúmeras perninhas, que não
cessavam de agitar-se em todas as direções e que de modo nenhum
conseguia controlar. Quando tentou dobrar uma delas, foi a primeira a
esticar-se, e, ao conseguir finalmente que fizesse o que ele queria,
todas as outras pernas abanavam selvaticamente, numa incômoda e
intensa agitação. Mas de que serve ficar na cama assim sem fazer
nada, perguntou Gregório a si próprio.
Pensou que talvez conseguisse sair da
cama deslocando em primeiro lugar a parte inferior do corpo, mas
esta, que não tinha visto ainda e da qual não podia ter uma ideia
nítida, revelou-se difícil de mover, tão lentamente se deslocava;
quando, finalmente, quase enfurecido de contrariedade, reuniu todas
as forças e deu um temerário impulso, tinha calculado mal a direção
e embateu pesadamente na extremidade inferior da cama, revelando-lhe
a dor aguda que sentiu ser provavelmente aquela, de momento, a parte
mais sensível do corpo.
[...]
Franz Kafka, em A Metamorfose
A menina de outro meio
1
A guerra com o Japão ainda não
terminara. Inesperadamente, ela foi encoberta por outros
acontecimentos. Pela Rússia passavam ondas da revolução, uma maior
que a outra e jamais vistas.
Nesta época, chegou a Moscou,
procedente dos Urais, a viúva de um engenheiro belga, uma francesa
russificada por conta própria, Amália Karlovna Guichard, com seus
dois filhos, Rodion e Larissa. O filho ela matriculou na escola de
cadetes, e a filha no ginásio feminino, coincidentemente no mesmo
ginásio e na mesma turma onde estudava Nádia Kologrivova.
Madame Guichard possuía economias do
marido em ações, que antes se valorizavam mas que agora começavam
a cair. Para interromper o desaparecimento de seus recursos e para
não ficar de braços cruzados, madame Guichard comprou, próximo ao
Arco do Triunfo, um pequeno negócio, a confecção de Levitskaia,
dos herdeiros da costureira, com o direito de manter na velha empresa
os antigos clientes e todas as estilistas e alunas.
Madame Guichard fez isso seguindo o
conselho do advogado Komarovski, amigo de seu marido e seu próprio
apoio, um negociador de sangue-frio que conhecia a vida empresarial
russa como a palma de sua mão. Ela lhe escreveu sobre a mudança.
Ele os recepcionou na estação e levou, atravessando toda Moscou,
para os quartos mobiliados do Tchernogoria, na travessa Oruzheinaia,
onde alugara um deles para madame Guichard.
Ele já havia convencido a viúva a
matricular Ródia na escola de cadetes e Lara no ginásio que
recomendou. Com descortesia, caçoava do menino e olhava para a
menina de tal maneira, que ela ruborizava.
2
Antes de se instalar no pequeno
apartamento de três quartos, anexo à confecção, eles moraram
aproximadamente três meses no Tchernogoria.
Era um dos lugares mais terríveis de
Moscou, antro de ladrões, ruas inteiras entregues à promiscuidade,
cortiços de “seres perdidos”.
Nem as pulgas e a mediocridade do
mobiliário, nem a sujeira nos quartos, impressionavam as crianças.
Depois da morte do pai delas, a mãe vivia com medo constante do
empobrecimento. Ródia e Lara cansavam-se de ouvir que estavam à
beira da ruína. Eles sabiam que não eram crianças de rua, mas
sentiam um profundo medo dos ricos, como os pupilos de orfanatos.
O exemplo vivo deste medo era
infundido neles pela própria mãe. Amália Karlovna era uma loira
roliça de uns 35 anos; nela, aos ataques do coração sucediam-se
ataques de tolices. Era uma tremenda medrosa e morria de medo dos
homens. Por isso mesmo, por susto e confusão, ela passava de mão em
mão, a toda hora.
No Tchernogoria eles ocupavam o quarto
23 e no 24, desde a inauguração do hotel, morava o violoncelista
Tichkevitch, um bonachão suado e careca que usava peruca e que
juntava as mãos como em uma oração e as apertava contra o peito,
quando tentava convencer alguém; jogava a cabeça para trás e,
inspirado, revirava os olhos ao se apresentar nos círculos sociais e
em concertos. Ele raramente estava em casa, passava dias inteiros no
teatro Bolshoi e no Conservatório. Os vizinhos se conheceram.
Favores mútuos os aproximaram.
Como a presença das crianças às
vezes intimidava Amália Karlovna durante as visitas de Komarovski,
Tichkevitch passou a deixar com ela a chave de seu quarto para que
pudesse receber seu amigo. Logo madame Guichard se acostumou tanto
com o sacrifício dele, que várias vezes bateu em sua porta, pedindo
que a defendesse do seu protetor.
3
A casa de um só andar ficava perto da
esquina com a Tverskaia. Sentia-se a proximidade da estrada de ferro
que levava para Bretsk. Ao lado, ficavam as propriedades, os
apartamentos funcionais, o depósito de locomotivas e depósitos em
geral.
Lá morava Olia Demina, uma menina
inteligente, sobrinha de um dos funcionários da ferrovia
Moscou-Tovarnaia.
Ela era uma aluna muito capaz. A velha
proprietária era atenciosa com ela e a nova, agora, começou se
aproximar. Olia gostava muito de Lara.
Tudo ficou da mesma forma, como na
administração de Levitskaia. As máquinas de costura rodavam feito
loucas debaixo dos pés que desciam e subiam ou dos braços das
costureiras que esvoaçavam. Alguém cosia calmamente, sentada à
mesa, esticando o braço com a agulha e a linha comprida. O chão
estava coberto de retalhos. Tinham que falar alto para superar o
barulho das máquinas e o gorjeio vibrante de Kirill Modestovitch, um
canário numa gaiola debaixo da abóbada da janela: o mistério de
seu nome a antiga proprietária levou consigo para o túmulo.
Na recepção, um grupo de damas
pitorescas cercava a mesa com revistas. Elas ficavam de pé, sentadas
ou semi-encostadas, nas poses que viam nas revistas, observavam os
modelos, trocavam conselhos sobre os feitios. A uma outra mesa, no
lugar da diretora, estava a auxiliar de Amália Karlovna, uma das
costureiras responsáveis, Faina Silantievna Fetisova, uma mulher
ossuda com verrugas nas cavidades das bochechas flácidas.
Ela segurava a piteira de marfim, com
o cigarro entre os dentes amarelados, apertava os olhos também
amarelados e, soltando a fumaça amarela pela boca e pelo nariz,
anotava no caderno as medidas, os números das notas fiscais, os
endereços e as solicitações das clientes.
Amália Karlovna era uma pessoa nova e
inexperiente na confecção. Ela não se sentia totalmente como dona.
Mas os funcionários eram honestos e podia confiar em Fetisova. Mesmo
assim, a época era inquieta. Amália Karlovna tinha medo de pensar
no futuro. O desespero tomava conta dela. Tudo caía de suas mãos.
Komarovski frequentemente visitava a
confecção. Quando Victor Ippolitovitch passava pela sala de
costura, dirigindo-se ao fundo e assustando à sua passagem as damas
elegantes que se trocavam e que se escondiam atrás dos biombos, de
lá acolhendo em tom brincalhão seus gracejos atrevidos, as
costureiras murmuravam pelas costas dele com maliciosa desaprovação:
“Deu o ar de sua graça”. “O dela”. “O caso da Amália”.
“Garanhão”. “Feiticeiro de mulheres”.
Objeto de grande ódio era ainda o seu
buldogue, Jack, que às vezes o acompanhava preso na coleira e que o
arrastava atrás de si com trancos tão impetuosos que Komarovski
tropeçava, corria para a frente e andava atrás do cachorro com os
braços estendidos, como um cego com o seu cão-guia.
Certa vez, na primavera, Jack
agarrou-se à perna de Lara e rasgou sua meia.
— Vou matar esse desgraçado —
murmurou Olia Demina infantilmente no ouvido de Lara.
— É realmente um cachorro nojento.
Mas como você, sua tolinha, vai fazer isso?
— Fale baixo, não grite, vou lhe
ensinar. Sabe aqueles ovos de Páscoa de pedra, como os que sua mãe
tem em cima da cômoda?
— Sei, são de mármore e cristal...
— Hã-hã, isso. Abaixe-se, vou lhe
dizer no ouvido. Tem que pegar um, deixar de molho na gordura, a
gordura vai grudar, então o cão tinhoso o engole, enche a pança e
pronto! Patas para o alto! Morreu!
Lara ria, com inveja. A menina vivia
passando necessidades, trabalhava. As crianças do povo se
desenvolvem mais cedo. No entanto, veja o quanto ainda têm de bom,
infantil, ingênuo: ovos, Jack, gordura... de onde vem isso? “Porque
meu destino quis assim”, pensava Lara, “que tudo eu veja e com
tudo sofra?”
[...]
Boris Pasternak, em Doutor Jivago
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