13/07/2026

João Bosco — Incompatibilidade de Gênios | NDR Bigband

Conclusão

Os impactos de amor não são poesia
(tentaram ser: aspiração noturna).
A memória infantil e o outono pobre
vazam no verso de nossa urna diurna.

Que é poesia, o belo? Não é poesia,
e o que não é poesia não tem fala.
N em o mistério em si nem velhos nomes
poesia são: coxa, fúria, cabala.

Então, desanimamos. Adeus, tudo!
A mala pronta, o corpo desprendido,
resta a alegria de estar só, e mudo.

De que se formam nossos poemas? Onde?
Que sonho envenenado lhes responde,
se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?

Carlos Drummond de Andrade, em Fazendeiro do Ar

O saber da cozinheira

A cozinheira: por onde se inicia o preparo do banquete?
Se me disserem que o banquete se inicia na cozinha, com as panelas, fogões, utensílios, ingredientes e tempero, eu direi que estão errados. O banquete se inicia com uma decisão de amor.
Babette, com pena das pessoas mirradas e mesquinhas que a inveja e o ressentimento tornara insensíveis, na aldeia em que vivia, prepara um banquete que lhes daria uma experiência inesquecível de prazer, beleza e generosidade.
Tita, proibida pela mãe de amar o seu amado, prepara os sabores que lhes permitissem fazer, na mesa, o amor que não podia fazer na cama.
O nutricionista, ao preparar um jantar, se pergunta sobre o equilíbrio científico dos vários componentes alimentares que irão compor a refeição. Pondera as utilidades: vitaminas, carboidratos, proteínas. Cozinha para alimentar quem come. Deseja matar a fome de quem come. Seu evangelho reza: “Bem-aventurados os que têm fome porque eles serão fartos”.
A cabeça da cozinheira funciona ao contrário. Não considera vitaminas, carboidratos e proteínas. Sua imaginação está cheia de sabores. Sonha com os efeitos que os sabores irão produzir no corpo de quem come. Não quer matar a fome. O que ela deseja é fazer amor com quem come, através dos sabores. Quando a fome está satisfeita, o festival de amor chegou ao fim. “Não quero faca nem queijo. Quero é a fome”, diz Adélia Prado. Gostaria que o texto evangélico fosse outro: “bem-aventurados os que têm fome porque eles terão mais fome”. A cozinheira deseja que o seu convidado morra de prazer!

Rubem Alves, em Variações sobre o prazer

O volante-de-contenção




De repente, não mais que de repente, como nos versos do Poetinha, surge, em nosso burocratizado, corrupto e tapetudo futebol, uma figura das Arábias, digna das atuações da seleção brasileira naquela Copa lá, nos Emirados Afegãs, Floriano Faissal, ou coisa parecida. Refiro-me ao “volante-decontenção”. Perdemos os pontas, ganhamos alas, overlaping, ponto futuro, elemento surpresa, o diabo. Na zona do agrião dessa confa, cresceu a nefasta importância do cabeça-de-área, dando carrinhos que maltratam a grama, dos quatro ou cinco defensores com um na sobra e mais quatro à frente da zaga dando proteção e dois atacantes recuados guardando aqueles que protegem a zaga e... bom, já tem onze e ninguém chuta em gol. Diante de tanta cautela defensiva, vemos, estarrecidos, a seleção tetra campeã do mundo, com seus volantes-de-contenção, não conseguir cobrar um único e escasso corner direito. Vai ver, a suprema tarefa do volante-de-contenção é ganhar a tal da segunda bola, que, como diz o Tostão, não existe, mas está quicando em todos os comentários abalizados. Eu já perguntei no Bar da Maria se volante-de-contenção é um nome bacaninha pra leão de chácara ou se traduziram mal air bag, mas são tantas as teorias e os fundamentos que ninguém soube responder. Acredito que esteja ocorrendo um fenômeno linguístico: falta criatividade em campo na proporção em que abundam terminologias abiloladas. Puxando a brasa pra minha requentada sardinha de ex-psiquiatra, aqui vão algumas posições que podem não mudar bosta nenhuma, mas gerarão o maior auê na França. Como se sabe, francês adora a parte teórica da coisa:
VOLANTE PARANOICO DELIRANTE — Arma confusão no meio de campo, recuado, gritando “Olha a segunda bola nas costas!”. Forte latência homoerótica. Quando é substituído, acusa o massagista de conspirar com antenas parabólicas para prejudicá-lo. Já sedado, refere-se a Bruno Quadros como “uma grande promessa”. Aí o médico aumenta a dose.
MÉDIO CATATÔNICO AGUDO — É muito difícil explicar a um leigo suas funções. Lembra um pouco o desempenho de Zinho em 94, passando por Jamir no Flamengo e certos lampejos de César Sampaio, na Arábia, em seus momentos mais criativos.
AUTÔMATO AMBIVALENTE — Cumpre religiosamente as determinações da comissão técnica e é Soldado de Cristo ou carrasco de alguma seita. Caracteriza-se pelo fervor com que defende sua bandeira, mas, quando menos se espera, chuta o pau da barraca e joga contra o patrimônio. Dizem que o Taffa sofre desse troço. Sei lá.
MÉDIO FIMOSE — Dá total cobertura ao cabeça de área. Um adendo: gostaria de descrever rapidamente o terrível quadro clínico conhecido como Logorréia Espamofílica seguida de Estupor — o Mal dos Técnicos. Começa com falação intensa, acrescida de rubores, fúria, desejo de ser engolido e convulsão. Quando volta a si, o técnico segura a mão do supervisor e pergunta quem ganhou: a resposta (Foi a Nigéria!) induz ao estupor.

Aldir Blanc, em Direto do Balcão

Diário de Bernardo Soares

118.

Que me pesa que ninguém leia o que escrevo? Escrevo-o para me distrair de viver, e publico-o porque o jogo tem essa regra. Se amanhã se perdessem todos os meus escritos, teria pena, mas, creio bem, não com pena violenta e louca como seria de supor, pois que em tudo ia toda a minha vida. Não é outra, pois, que a mãe, morto o filho, meses depois estar aí? E é a mesma. A grande terra que serve os mortos serviria, menos maternalmente, esses papéis. Tudo não importa e creio bem que houve quem visse a vida sem uma grande paciência para essa criança acordada e com grande desejo do sossego de quando ela, enfim, se tenha ido deitar.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Primeiras palavras




A questão da formação docente ao lado da reflexão sobre a prática educativo-progressiva em favor da autonomia do ser dos educandos é a temática central em torno de que gira este texto. Temática a que se incorpora a análise de saberes fundamentais àquela prática e aos quais espero que o leitor crítico acrescente alguns que me tenham escapado ou cuja importância não tenha percebido.
Devo esclarecer aos prováveis leitores e leitoras o seguinte: na medida mesma em que esta vem sendo uma temática sempre presente às minhas preocupações de educador, alguns dos aspectos aqui discutidos não têm sido estranhos a análises feitas em livros meus anteriores. Não creio, porém, que a retomada de problemas entre um livro e outro e no corpo de um mesmo livro enfade o leitor. Sobretudo quando a retomada do tema não é pura repetição do que já foi dito. No meu caso pessoal, retomar um assunto ou tema tem que ver principalmente com a marca oral de minha escrita. Mas tem que ver também com a relevância que o tema de que falo e a que volto tem no conjunto de objetos a que direciono minha curiosidade. Tem que ver também com a relação que certa matéria tem com outras que vêm emergindo no desenvolvimento de minha reflexão. É neste sentido, por exemplo, que me aproximo de novo da questão da inconclusão do ser humano, de sua inserção num permanente movimento de procura, que rediscuto a curiosidade ingênua e a crítica, virando epistemológica. É nesse sentido que reinsisto em que formar é muito mais do que puramente treinar o educando no desempenho de destrezas, e por que não dizer também da quase obstinação com que falo de meu interesse por tudo o que diz respeito aos homens e às mulheres, assunto de que saio e a que volto com o gosto de quem a ele se dá pela primeira vez. Daí a crítica permanentemente presente em mim à malvadez neoliberal, ao cinismo de sua ideologia fatalista e a sua recusa inflexível ao sonho e à utopia.
Daí o tom de raiva, legítima raiva, que envolve o meu discurso quando me refiro às injustiças a que são submetidos os esfarrapados do mundo. Daí o meu nenhum interesse de, não importa que ordem, assumir um ar de observador imparcial, objetivo, seguro, dos fatos e dos acontecimentos. Em tempo algum pude ser um observador “acinzentadamente” imparcial, o que, porém, jamais me afastou de uma posição rigorosamente ética. Quem observa o faz de um certo ponto de vista, o que não situa o observador em erro. O erro na verdade não é ter um certo ponto de vista, mas absolutizá-lo e desconhecer que, mesmo do acerto de seu ponto de vista, é possível que a razão ética nem sempre esteja com ele.
O meu ponto de vista é o dos “condenados da Terra”, o dos excluídos. Não aceito, porém, em nome de nada, ações terroristas, pois que delas resultam a morte de inocentes e a insegurança de seres humanos. O terrorismo nega o que venho chamando de ética universal do ser humano. Estou com os árabes na luta por seus direitos, mas não pude aceitar a malvadez do ato terrorista nas Olimpíadas de Munique.
Gostaria, por outro lado, de sublinhar a nós mesmos, professores e professoras, a nossa responsabilidade ética no exercício de nossa tarefa docente. Sublinhar esta responsabilidade igualmente àquelas e àqueles que se acham em formação para exercê-la. Este pequeno livro se encontra cortado ou permeado em sua totalidade pelo sentido da necessária eticidade que conota expressivamente a natureza da prática educativa, enquanto prática formadora. Educadores e educandos não podemos, na verdade, escapar à rigorosidade ética. Mas é preciso deixar claro que a ética de que falo não é a ética menor, restrita, do mercado, que se curva obediente aos interesses do lucro. Em escala internacional começa a aparecer uma tendência em acertar os reflexos cruciais da “nova ordem mundial” como naturais e inevitáveis. Num encontro internacional de ONGs, um dos expositores afirmou estar ouvindo com certa frequência em países do Primeiro Mundo a ideia de que crianças do Terceiro Mundo, acometidas por doenças como diarreia aguda, não deveriam ser salvas, pois tal recurso só prolongaria uma vida já destinada à miséria e ao sofrimento.1 Não falo, obviamente, desta ética. Falo, pelo contrário, da ética universal do ser humano. Da ética que condena o cinismo do discurso citado acima, que condena a exploração da força de trabalho do ser humano, que condena acusar por ouvir dizer, afirmar que alguém falou A sabendo que foi dito B, falsear a verdade, iludir o incauto, golpear o fraco e indefeso, soterrar o sonho e a utopia, prometer sabendo que não cumprirá a promessa, testemunhar mentirosamente, falar mal dos outros pelo gosto de falar mal. A ética de que falo é a que se sabe traída e negada nos comportamentos grosseiramente imorais como na perversão hipócrita da pureza em puritanismo. A ética de que falo é a que se sabe afrontada na manifestação discriminatória de raça, de gênero, de classe. É por esta ética inseparável da prática educativa, não importa se trabalhamos com crianças, jovens ou com adultos, que devemos lutar. E a melhor maneira de por ela lutar é vivê-la em nossa prática, é testemunhá-la, vivaz, aos educandos em nossas relações com eles. Na maneira como lidamos com os conteúdos que ensinamos, no modo como citamos autores de cuja obra discordamos ou com cuja obra concordamos. Não podemos basear nossa crítica a um autor na leitura feita por cima de uma ou outra de suas obras. Pior ainda, tendo lido apenas a crítica de quem só leu a contracapa de um de seus livros.
Posso não aceitar a concepção pedagógica deste ou daquela autora, e devo inclusive expor aos alunos as razões por que me oponho a ela, mas o que não posso, na minha crítica, é mentir. É dizer inverdades em torno deles. O preparo científico do professor ou da professora deve coincidir com sua retidão ética. É uma lástima qualquer descompasso entre aquela e esta. Formação científica, correção ética, respeito aos outros, coerência, capacidade de viver e de aprender com o diferente, não permitir que o nosso mal-estar pessoal ou a nossa antipatia com relação ao outro nos façam acusá-lo do que não fez são obrigações a cujo cumprimento devemos humilde, mas perseverantemente, nos dedicar.
É não só interessante mas profundamente importante que os estudantes percebam as diferenças de compreensão dos fatos; as posições às vezes antagônicas entre professores na apreciação dos problemas e no equacionamento de soluções. Mas é fundamental que percebam o respeito e a lealdade com que um professor analisa e critica as posturas dos outros.
De quando em vez, ao longo deste texto, volto a este tema. É que me acho absolutamente convencido da natureza ética da prática educativa enquanto prática especificamente humana. É que, por outro lado, nos achamos, ao nível do mundo e não apenas do Brasil, de tal maneira submetidos ao comando da malvadez da ética do mercado, que me parece ser pouco tudo o que façamos na defesa e na prática da ética universal do ser humano. Não podemos nos assumir como sujeitos da procura, da decisão, da ruptura, da opção, como sujeitos históricos, transformadores, a não ser assumindo-nos como sujeitos éticos. Neste sentido, a transgressão dos princípios éticos é uma possibilidade mas não é uma virtude. Não podemos aceitá-la.
Não é possível ao sujeito ético viver sem estar permanentemente exposto à transgressão da ética. Uma de nossas brigas na história, por isso mesmo, é exatamente esta: fazer tudo o que possamos em favor da eticidade, sem cair no moralismo hipócrita, ao gosto reconhecidamente farisaico. Mas faz parte igualmente desta luta pela eticidade recusar, com segurança, as críticas que veem na defesa da ética precisamente a expressão daquele moralismo criticado. Em mim, a defesa da ética jamais significou sua distorção ou negação.
Quando, porém, falo da ética universal do ser humano estou falando da ética enquanto marca da natureza humana, enquanto algo absolutamente indispensável à convivência humana. Ao fazê-lo estou advertido das possíveis críticas que, infiéis a meu pensamento, me apontarão como ingênuo e idealista. Na verdade, falo da ética universal do ser humano da mesma forma como falo de sua vocação ontológica para o Ser Mais, como falo de sua natureza constituindo-se social e historicamente não como um a priori da história. A natureza que a ontologia cuida se gesta socialmente na história. É uma natureza em processo de estar sendo com algumas conotações fundamentais sem as quais não teria sido possível reconhecer a própria presença humana no mundo como algo original e singular. Quer dizer, mais do que um ser no mundo, o ser humano se tornou uma presença no mundo, com o mundo e com os outros. Presença que, reconhecendo a outra presença como um “não eu” se reconhece como “si própria”. Presença que se pensa a si mesma, que se sabe presença, que intervém, que transforma, que fala do que faz mas também do que sonha, que constata, compara, avalia, valora, que decide, que rompe. E é no domínio da decisão, da avaliação, da liberdade, da ruptura, da opção, que se instaura a necessidade da ética e se impõe a responsabilidade. A ética se torna inevitável e sua transgressão possível é um desvalor, jamais uma virtude.
Na verdade, seria incompreensível se a consciência de minha presença no mundo não significasse já a impossibilidade de minha ausência na construção da própria presença. Como presença consciente no mundo não posso escapar à responsabilidade ética no meu mover-me no mundo. Se sou puro produto da determinação genética ou cultural ou de classe, sou irresponsável pelo que faço no mover-me no mundo, e se careço de responsabilidade não posso falar em ética. Isso não significa negar os condicionamentos genéticos, culturais, sociais a que estamos submetidos. Significa reconhecer que somos seres condicionados mas não determinados. Reconhecer que a história é tempo de possibilidade e não de determinismo, que o futuro, permita-se-me reiterar, é problemático e não inexorável.
Devo enfatizar também que este é um livro esperançoso, um livro otimista, mas não ingenuamente construído de otimismo falso e de esperança vã. As pessoas, porém, inclusive de esquerda, para quem o futuro perdeu sua problematicidade — o futuro é um dado dado —, dirão que ele é mais um devaneio de sonhador inveterado.
Não tenho raiva de quem assim pensa. Lamento apenas sua posição: a de quem perdeu seu endereço na história.
A ideologia fatalista, imobilizante, que anima o discurso neoliberal anda solta no mundo. Com ares de pós-modernidade, insiste em convencer-nos de que nada podemos contra a realidade social que, de histórica e cultural, passa a ser ou a virar “quase natural”. Frases como “a realidade é assim mesmo, que podemos fazer?” ou “o desemprego no mundo é uma fatalidade do fim do século” expressam bem o fatalismo desta ideologia e sua indiscutível vontade imobilizadora. Do ponto de vista de tal ideologia, só há uma saída para a prática educativa: adaptar o educando a esta realidade que não pode ser mudada. O de que se precisa, por isso mesmo, é o treino técnico indispensável à adaptação do educando, à sua sobrevivência. O livro com que volto aos leitores é um decisivo não a esta ideologia que nos nega e amesquinha como gente.
De uma coisa qualquer texto necessita: que o leitor ou a leitora a ele se entregue de forma crítica, crescentemente curiosa. É isto o que este texto espera de você, que acabou de ler estas “Primeiras palavras”.
São Paulo
Setembro de 1996

Paulo Freire, em Pedagogia da autonomia Saberes necessários à prática educativa 

11/07/2026

Clube da Esquina nº 2 | Milton Nascimento

 

Retrato do artista quando coisa

Uso um deformante para a voz.
Em mim funciona um forte encanto a tontos.
Sou capaz de inventar uma tarde a partir de
uma garça.
Sou capaz de inventar um lagarto a partir de
uma pedra.
Tenho um senso apurado de irresponsabilidades.
Não sei de tudo quase sempre quanto nunca.
Experimento o gozo de criar.
Experimento o gozo de Deus.
Faço vaginação com palavras até meu retrato
aparecer.
Apareço de costas.
Preciso de atingir a escuridão com clareza.
Tenho de laspear verbo por verbo até alcançar
o meu aspro.
Palavras têm que adoecer de mim para que se
tornem mais saudáveis.
Vou sendo incorporado pelas formas pelos
cheiros pelo som pelas cores.
Deambulo aos esgarços.
Vou deixando pedaços de mim no cisco.
O cisco tem agora para mim uma importância
de Catedral.

Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo

Hagar, o Horrível

Escrever (I)

Não se faz uma frase. A frase nasce.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

O Mestre e Margarida | 10 — Notícias de Ialta



Ao mesmo tempo que ocorreu a desgraça a Nikanor Ivânovitch, não muito longe do prédio nº 302-bis, na mesma Sadôvaia, no escritório de Rímski, o diretor financeiro do Teatro de Variedades, encontravam-se duas pessoas: o próprio Rímski e o administrador do Teatro de Variedades, Variênukha.
O grande escritório com duas janelas no segundo andar do teatro dava para a rua Sadôvaia, e uma janela, a que ficava bem atrás do diretor financeiro sentado à mesa, dava para o jardim de verão do teatro, onde se localizavam as cantinas de refrescos, um clube de tiro e um palco ao ar livre. A decoração do escritório, além da mesa, consistia em um monte de velhos cartazes pendurados em uma das paredes, uma mesinha com uma jarra de água, quatro poltronas e, em um canto, um aparador sobre o qual havia uma antiga e empoeirada maquete de algum espetáculo passado. Bom, nem precisa dizer que havia no escritório um cofre de pequenas proporções, gasto, descascado e à prova de fogo, à esquerda de Rímski, ao lado da escrivaninha.
Sentado à mesa, Rímski estava mal-humorado desde muito cedo, pela manhã, enquanto Variênukha, pelo contrário, estava muito animado e especialmente agitado e ativo. No entanto, não tinha como extravasar sua energia.
Variênukha escondia-se agora no escritório do diretor financeiro, para evitar os que infernizavam sua vida pedindo entradas gratuitas, em especial nos dias em que a programação mudava. E hoje era exatamente um desses dias.
Assim que o telefone começava a tocar, Variênukha pegava o fone do gancho e mentia para ele:
Quem? Variênukha? Ele não está. Saiu.
Por favor, ligue para Likhodiêiev mais uma vez — disse Rímski de forma exasperada.
Mas ele não está em casa. Já mandei até Kárpov. Não tem ninguém no apartamento.
Sabe-se lá o que isso significa — sibilava Rímski, estalando as teclas da calculadora.
A porta se abriu e um lanterninha entrou carregando um pacote volumoso de cartazes extras recém-impressos. Com letras garrafais vermelhas em folhas verdes, estava impresso:

Hoje e Todos os Dias no Teatro de Variedades
Programação Extra:
PROFESSOR WOLAND
Sessões de Magia Negra e sua Revelação Total

Variênukha afastou-se do cartaz, que ele tinha jogado em cima da maquete, admirou-o e ordenou que o lanterninha distribuísse e afixasse todos os cartazes imediatamente.
Bom, chamativo — observou Variênukha enquanto o lanterninha saía.
Eu não estou gostando nada dessa história — rosnou Rímski, olhando perversamente para o cartaz através dos óculos de chifre — e me admiro como permitiram que ele apresente isso!
Não, Grigóri Danílovitch, tenho minhas dúvidas, é uma boa decisão. Toda a graça está na revelação.
Não sei, não sei, não tem graça nenhuma e ele sempre inventará algo do gênero! Se pelo menos tivesse nos mostrado esse mágico. Você chegou a vê-lo? Vai saber o diabo de onde ele o desenterrou!
Foi esclarecido que, assim como Rímski, Variênukha não tinha visto o mágico. Ontem Stiôpa viera correndo ver o diretor financeiro (“como um louco”, segundo a expressão de Rímski) com o rascunho já redigido de um contrato, e imediatamente mandou que fizessem uma cópia e liberassem o dinheiro. E o mago evaporou. Ninguém o viu, além do próprio Stiôpa.
Rímski tirou o relógio, viu que já eram duas e cinco e ficou completamente ensandecido. Francamente! Likhodiêiev telefonara por volta das onze horas, dissera que viria dali a meia hora, mas não só não veio como também sumiu do seu apartamento!
Tenho mais o que fazer! — Rímski agora rugia, apontando o dedo para uma pilha de papéis sem assinatura.
Será que ele não foi parar, como Berlioz, debaixo do bonde? — dizia Variênukha, segurando o fone perto da orelha, do qual se ouviam sinais profundos, longos e completamente desesperançosos.
Até que seria bom... — disse Rímski entre os dentes, e mal se ouvia o que falava.
Nesse exato momento uma mulher de jaqueta de uniforme, boné, saia preta e tênis entrou no escritório. De sua pequena bolsa no cinto, tirou um quadradinho branco e um caderno e perguntou:
Onde está o Variedades? Telegrama urgente. Assinem. — Variênukha rabiscou um garrancho no caderno da mulher e, assim que a porta bateu atrás dela, abriu o quadradinho.
Depois de ler o telegrama, pôs-se a pestanejar e entregou o quadradinho a Rímski.
O telegrama dizia o seguinte: “De Ialta a Moscou Variedades Hoje onze e meia polícia investigação apareceu moreno camisa calças descalço psicótico diz chamar-se Likhodiêiev diretor Variedades enviem telegrama urgente para polícia de Ialta onde está diretor Likhodiêiev.”
Era só o que faltava! — exclamou Rímski, e acrescentou: — Mais uma surpresa!
Um falso Dmitri1 — disse Variênukha e começou a falar para o fone: — Telégrafo? Conta do Variedades. Expedir telegrama superurgente... Está me ouvindo?.. “Ialta... delegacia de investigação... diretor Likhodiêiev em Moscou diretor financeiro Rímski”...
Independentemente do informe sobre o impostor de Ialta, Variênukha começou a procurar Stiôpa de novo por telefone em tudo quanto é lugar e, naturalmente, não o encontrou em parte alguma.
No exato instante em que ele, com o fone nas mãos, pensava para onde mais ligaria, entrou a mesma mulher que trouxera o primeiro telegrama e entregou a Variênukha um novo envelope. Variênukha abriu-o depressa, leu o que estava escrito e assobiou.
O que foi? — perguntou Rímski, contorcendo-se nervosamente. Calado, Variênukha lhe entregou o envelope e o diretor financeiro viu as seguintes palavras: “Suplico acreditar largado Ialta hipnose Woland mandem telegrama urgente polícia investigação confirmação identidade Likhodiêiev.”
Rímski e Variênukha releram o telegrama, a cabeça de um encostada na do outro, e depois de reler, calados, os olhos de um cravaram-se nos do outro.
Cidadãos! — de repente enfureceu-se a mulher. — Assinem e depois fiquem calados o quanto quiserem! Afinal, entrego telegramas superurgentes.
Sem despregar os olhos do telegrama, Variênukha rabiscou o caderno de qualquer jeito e a mulher desapareceu.
Você não conversou com ele pelo telefone um pouco depois das onze? — pôs-se a falar o administrador, totalmente perplexo.
Qual é a ordem, messire? — perguntou Fagot ao mascarado.
Bom, fazer o quê? — retrucou o mago, pensativo. — São pessoas como outras quaisquer. Gostam de dinheiro, mas sempre foi assim... A humanidade gosta de dinheiro, independentemente do que seja feito: de couro, de papel, de bronze ou ouro. Bom, são levianas... fazer o quê... a misericórdia às vezes bate em seus corações... são pessoas comuns... em geral fazem lembrar as pessoas de antigamente... só que o problema habitacional as corrompeu... — E ordenou em voz alta: — Coloquem a cabeça no lugar.
Mirando com esmero, o gato enterrou a cabeça no pescoço e esta se assentou perfeitamente, como se nunca tivesse se ausentado de lá. E o principal, não ficou sequer uma cicatriz no pescoço. O gato espanou o fraque e o peitilho da camisa de Bengálski com as patas e os vestígios de sangue desapareceram. Fagot ergueu Bengálski, colocando-o de pé, enfiou em seu bolso um maço de dinheiro e o conduziu para fora do palco, com as seguintes palavras:
Fora daqui! Sem você é mais divertido.
Olhando ao redor insanamente, e cambaleando, o mestre de cerimônias conseguiu se arrastar até o extintor de incêndio e ali se sentiu mal. Então soltou um grito penoso:
Minha cabeça, minha cabeça!
Entre os que correram até ele, também estava Rímski. O mestre de cerimônias chorava, tentava apanhar algo no ar, balbuciava:
Devolvam minha cabeça! Devolvam a cabeça! Peguem o apartamento, os quadros, mas devolvam a cabeça!
Um recepcionista foi correndo em busca de um médico. Tentaram acomodar Bengálski em um sofá do camarim, mas ele começou a se debater, ficou violento. Foram obrigados a chamar uma ambulância. Quando o pobre do mestre de cerimônias foi levado, Rímski correu de volta para o palco e viu que novas maravilhas estavam acontecendo ali. Ah, sim, naquele momento, ou um pouco antes, o mago, junto com sua poltrona desbotada, havia desaparecido do palco, e, a propósito, é preciso dizer que o público nem sequer notou, seduzido que estava com aquelas coisas excepcionais que Fagot desdobrava no palco.
Depois de despachar o vitimado mestre de cerimônias, Fagot anunciou ao público:
Agorinha, depois de nos livrarmos desse chato, vamos abrir uma loja para damas!
E imediatamente o chão do palco cobriu-se com tapetes persas, surgiram enormes espelhos, iluminados nas laterais por tubos esverdeados. Entre os espelhos, vitrines, e nelas os espectadores, alegres e aturdidos, viram vestidos parisienses, de diversas cores e cortes. Isso só em algumas vitrines. Já em outras apareceram centenas de chapéus para damas, com plumas e sem plumas, com fivelas e sem, centenas de sapatos — pretos, brancos, amarelos, de couro, de cetim, de camurça, com tiras, com pedrinhas. Entre os sapatos apareceram estojos de perfumes, montanhas de bolsas de couro de antílope, de camurça, de seda e, entre elas — verdadeiras pilhas de pequenos estojos alongados de ouro cinzelado em que se costuma colocar o batom.
Vai saber o diabo de onde saiu uma moça ruiva com uma toalete preta de gala, uma moça bonita em todos os sentidos, não fosse por uma estranha cicatriz no pescoço que a desfigurava, com um sorriso de proprietária ao lado das vitrines.
Fagot, sorrindo, malicioso e doce, anunciou que a casa estava realizando, sem cobrar nada, a troca de vestidos e calçados femininos velhos por novos modelos parisienses e novos calçados parisienses. Ele acrescentou o mesmo com relação às bolsas e ao restante.
O gato começou a arrastar a pata traseira e com a dianteira fazia uns gestos, próprios de porteiros quando abrem uma porta.
Mesmo afônica e com a língua presa, a moça começou a cantar docemente algo pouco compreensível, mas, a julgar pelos rostos femininos da plateia, muito sedutoramente:
Guerlain, Chanel nº 5, Mitsouko, Narcisse Noir, vestidos de gala, vestidos para coquetéis...
Fagot se contorcia, o gato fazia reverências, a moça abria vitrines de vidro.
Por favor! — vociferava Fagot. — Sem constrangimento ou cerimônia!
O público estava agitado, mas ninguém se atrevia a ir até o palco. Finalmente, uma morena saiu da décima fileira da plateia e, sorrindo, digamos, como se desse na mesma e não tivesse nenhuma importância para ela, passou pela escada lateral e subiu ao palco.
Bravo! — gritou Fagot. — Vamos cumprimentar a primeira cliente! Uma cadeira, Behemoth! Vamos começar pelos calçados, madame!
A morena sentou-se na poltrona e imediatamente Fagot despejou um amontoado de sapatos no tapete diante dela. A morena tirou o sapato do pé direito, experimentou um lilás e pisou pelo tapete, examinando o salto.
Será que não vai me apertar? — perguntou de forma pensativa. Ao que Fagot exclamou, ofendido:
O que é isso, o que é isso! — e o gato miou também, ofendido.
Vou levar esse par, monsieur — disse a morena com orgulho, calçando também o outro sapato.
Os sapatos velhos da morena foram jogados para trás da cortina, para onde também seguiu ela mesma, acompanhada da moça ruiva e de Fagot, que levava vários vestidos da última moda em cabides. O gato ajudava, atarantado, e, para dar um ar de importância, pendurou uma fita métrica no pescoço.
Um minuto depois, a morena saiu de trás da cortina com um vestido que fez um suspiro rodopiar por toda a plateia. A audaciosa mulher, admiravelmente mais bela, parou diante do espelho, moveu os ombros desnudos, tocou os cabelos na nuca e virou-se, tentando ver as próprias costas.
A casa pede que aceite isso como recordação — disse Fagot, oferecendo à morena um estojo aberto com um frasco.
Merci — respondeu a morena, soberanamente, e foi para a plateia pela escada. Enquanto andava, os espectadores saltavam e tocavam no estojo.
Então, de todos os lados, como uma avalanche, mulheres foram para o palco. Em meio ao rebuliço geral de vozes, risinhos e suspiros, ouviu-se uma voz masculina: “Não vou permitir uma coisa dessas!”, e outra feminina: “Seu déspota, pequeno-burguês! Assim você vai quebrar meu braço!” Mulheres desapareciam atrás da cortina, deixavam seus vestidos e saíam com novos. Toda uma fileira de damas sentada em banquinhos de pés dourados batia energicamente os calçados novos no tapete. Fagot se ajoelhava, manejando uma calçadeira de metal. O gato, atolado no meio de um monte de bolsas e sapatos, zanzava de um lado para o outro entre as vitrines e os banquinhos. A moça do pescoço deformado aparecia e desaparecia e chegou até mesmo ao ponto de ficar papeando inteiramente em francês, e o mais impressionante era que todas as mulheres a compreendiam mesmo com meias palavras, até as que não sabiam uma palavra sequer de francês.
Admiração geral foi provocada por um homem que se enfiou no palco. Ele anunciou que sua esposa estava gripada e por isso pedia que lhe dessem algo para levar-lhe. Para provar que era realmente casado, o cidadão prontificou-se em apresentar a certidão. A declaração do marido dedicado foi recebida com gargalhadas e Fagot vociferou que acreditava nele como em si próprio, mesmo sem a certidão, e entregou ao cidadão dois pares de meias de seda, e o gato incluiu de sua parte um pequeno estojo de batom.
As mulheres atrasadas irrompiam no palco, e dali transbordavam bem-aventuradas com vestidos de baile, robes com dragões, trajes sóbrios e pequenos chapéus apoiados sobre uma sobrancelha.
Então Fagot anunciou que, dali a exatamente um minuto, em função da hora tardia, a loja ficaria fechada até a noite do dia seguinte, e uma incomensurável confusão tomou conta do palco. As mulheres agarravam sapatos apressadamente, sem experimentá-los. Uma, feito um furacão, irrompeu para trás da cortina, arrancou ali mesmo seu traje e se apossou da primeira coisa que apareceu pela frente — um chambre de seda com estampa de buquês enormes de flores. Além disso, conseguiu agarrar dois estojos de perfumes.
Exatamente depois de um minuto, houve um disparo de pistola, os espelhos desapareceram, as vitrines e os banquinhos se dissiparam, o tapete evaporou no ar, assim como a cortina. A última coisa que desapareceu foi a altíssima montanha de vestidos e calçados velhos, e o palco ficou novamente austero, vazio e desnudo.
E foi aqui que um novo personagem se intrometeu.
Um barítono agradável, sonoro e muito insistente foi ouvido do camarote número dois:
De qualquer maneira, cidadão artista, seria desejável que, sem perder mais tempo, o senhor revelasse diante dos espectadores a técnica de suas mágicas, em especial a das cédulas de dinheiro. Seria desejável, também, o retorno do mestre de cerimônias ao palco. Os espectadores estão agitados sobre o destino dele.
O barítono pertencia a ninguém menos que o convidado de honra daquela noite, Arkádi Apollônovitch Sempleiárov, presidente da Comissão de Acústica dos Teatros Moscovitas.
Arkádi Apollônovitch estava no camarote com duas damas: a mais velha usava trajes caros e da moda, e a outra — jovenzinha e bonitinha — trajes mais simples. A primeira, como se soube durante a redação do relatório, era a esposa de Arkádi Apollônovitch; a segunda, sua parente distante, atriz iniciante e promissora, que viera de Sarátov e estava morando no apartamento de Arkádi Apollônovitch e sua esposa.
Pardon! — retrucou Fagot. — Peço desculpas, aqui não há nada a ser revelado, tudo está claro.
Não, sinto muito! A revelação é totalmente necessária. Sem isso esses brilhantes números deixarão má impressão. A massa de espectadores exige explicações.
Parece que a massa de espectadores — rebateu o palhaço insolente, interrompendo Sempleiárov — não tem nada a declarar. Mas, levando em consideração o seu profundo e respeitável desejo, Arkádi Apollônovitch, que assim seja, eu farei uma revelação. Porém, para isso, permita-me mais um numerozinho?
Por que não? — respondeu Arkádi Apollônovitch, com ar condescendente. — Mas com uma revelação, sem falta!
Sim, senhor, sim, senhor. Então permita-me perguntar, onde o senhor estava ontem à noite, Arkádi Apollônovitch?
Diante dessa pergunta descabida e, digamos, indelicada, o rosto de Arkádi Apollônovitch ficou alterado, realmente bastante alterado.
Ontem à noite Arkádi Apollônovitch estava em uma reunião da Comissão de Acústica — declarou de forma muito arrogante sua esposa. — Mas não estou entendendo o que isso tem a ver com magia.
Ouiii, madame! — confirmou Fagot. — É natural que a senhora não entenda. Mas,quanto à reunião, está totalmente enganada. Quando saiu para a referida reunião, que, diga-se de passagem, nem estava marcada para ontem, Arkádi Apollônovitch dispensou seu motorista perto do edifício da Comissão de Acústica em Tchístie Prudý (o teatro inteiro silenciou) e, sozinho, tomou um ônibus até a rua Ielôkhovskaia para fazer uma visita a uma atriz do teatro itinerante do distrito, Mílitsa Andrêievna Pokobátko, e com ela passou cerca de quatro horas.
Ai! — alguém soltou uma exclamação de sofrimento em meio ao silêncio absoluto.
De repente a jovem parente de Arkádi Apollônovitch soltou uma gargalhada baixa e terrível.
Tudo está esclarecido! — exclamou ela. — Eu já desconfiava disso fazia muito tempo. Agora está claro porque aquela besta quadrada ganhou o papel de Luisa!
E, agitando-se repentinamente, bateu na cabeça de Arkádi Apollônovitch com seu pequeno e grosso guarda-chuva lilás.
O pérfido Fagot, também chamado Korôviev, gritou:
Vejam, veneráveis cidadãos, um dos casos de revelação que Arkádi Apollônovitch arrumou com tanta impertinência!
Como você se atreve, sua infame, a encostar em Arkádi Apollônovitch? — perguntou a esposa com um ar terrível, levantando-se no camarote em todo seu tamanho gigante.
Um segundo e breve acesso de riso satânico tomou conta da jovem parente.
E quem mais do que eu — respondeu ela, rindo — se atreveria a encostar nele! — E pela segunda vez o estalido seco do guarda-chuva batendo na cabeça de Arkádi Apollônovitch ressoou no teatro.
Polícia! Prendam-na! — gritou a esposa de Sempleiárov com uma voz tão terrível que muitos sentiram o coração gelar.
Então o gato apareceu na ribalta e esbravejou para o teatro inteiro ouvir com uma voz humana:
A sessão acabou! Maestro! Execute uma marcha!!
O enlouquecido maestro, sem se dar conta do que estava fazendo, agitou a batuta, e a orquestra não começou a tocar, nem mesmo a soar ou a retumbar, mas precisamente, seguindo a expressão repulsiva do gato, executou uma marcha incrível, de uma rudeza sem precedentes.
Por um momento pareceu que as palavras dessa marcha, pouco inteligíveis, mas muito audaciosas, tinham sido ouvidas outrora em um café-cantante, sob o brilho das estrelas do sul:

Sua excelência
De passarinhos gostava,

E para si
Belas mocinhas tomava!!!

Mas pode ser que não fosse nenhuma dessas palavras, mas outras com essa mesma música, com letras extremamente inadequadas. O importante não é isso, o importante é que, depois de tudo, algo parecido com uma babel teve início no Teatro de Variedades. A polícia correu até o camarote dos Sempleiárov, os curiosos subiam nas divisórias, ouviam-se explosões infernais de gargalhadas, gritos raivosos, abafados pelo retinir dourado dos pratos da orquestra.
Via-se que o palco tinha ficado repentinamente vazio. O impostor do Fagot e o insolente do gato Behemoth tinham evaporado no ar, desaparecido, como antes havia sumido o mago em sua poltrona de estofamento desbotado.

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida 

Dos antigos

 “Ah, os egípcios! Ah, os etruscos! Ah, os gregos!” Mas essa nossa atitude ante os que nos precederam de milênios é, no fundo, um tanto protetora, não acham? É como se disséssemos: “Meu Deus, como eles eram precoces!”

Mário Quintana, em Caderno H

10/07/2026

Plebe Rude, Herbert Vianna e Jaques Morelenbaum | Até Quando Esperar

Noite carioca

Diálogo de surdos, não: amistoso no frio. Atravanco na contramão. Suspiros no contrafluxo. Te apresento a mulher mais discreta do mundo: essa que não tem nenhum segredo.

Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés

Capítulo 66 – As Pernas

Ora, enquanto eu pensava naquela gente, iam-me as pernas levando, ruas abaixo, de modo que insensivelmente me achei à porta do hotel Pharoux. De costume jantava ai; mas, não tendo deliberadamente andado, nenhum merecimento da ação me cabe, e sim às pernas, que a fizeram. Abençoadas pernas! E há quem vos trate com desdém ou indiferença. Eu mesmo, até então, tinha-vos em má conta, zangava-me quando vos fatigáveis, quando não podíeis ir além de certo ponto, e me deixáveis com o desejo a avoaçar, à semelhança de galinha atada pelos pés.
Aquele caso, porém, foi um raio de luz. Sim, pernas amigas, vós deixastes à minha cabeça o trabalho de pensar em Virgília, e dissestes uma à outra: – Ele precisa comer, são horas de jantar, vamos levá-lo ao Pharoux; dividamos a consciência dele, uma parte fique lá com a dama, tomemos nós a outra, para que ele vá direito, não abalroe as gentes e as carroças, tire o chapéu aos conhecidos, e finalmente chegue são e salvo ao hotel. E cumpristes à risca o vosso propósito, amáveis pernas, o que me obriga a imortalizar-vos nesta página.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Calvin e Haroldo

Outros brasileiros

Outros brasileiros:
Acaráuaçu, apaiari, amazônico, faz careta, a florfeerir: verde-folha-de-café, manchado de vermelho, riscado de preto, com pavonino espelho na cauda.
O bagre-do-arnês-estriado, do Brasil Central, é o que mais se embebe: todavia vem do fundo, onde há rocalha e sargaços em infusão.
A saumocarpa beckfordiana, marajoara, se enfronha, sóbria de barbatanas, hábil traçadora de retas.
Abre largas velas o acará-bandeira, bicudo papilião e pomposo, tricintado de preto, suave deslizador; os olhos têm setores vermelho, amarelo e azul, de incompleto disco-de-Newton.
Acaraí — o peixinho que nada com melhor sintaxe.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

O Homem que Calculava — Capítulo 26



26. No qual vamos encontrar um teólogo famoso. O problema da vida futura. O muçulmano deve conhecer o Livro Sagrado. Quantas palavras há no Alcorão? Quantas letras? O nome de Jesus é citado dezenove vezes. Um engano de Beremiz.

O sábio indicado para iniciar a arguição ergueu-se com austera solenidade. Era uma figura respeitável de octogenário, que me inspirava um respeito medroso. As longas barbas brancas, proféticas, caíam-lhe, fartas, sobre o peito largo.
Quem é esse pobre ancião? — perguntei, em surdina, a um haquim oio-ien(1) de rosto magro e bronzeado, que se achava ao meu lado.
É o célebre ulemá Mohadebe-Abner-Rama — respondeu-me. — Dizem que conhece mais de quinze mil sentenças sobre o Alcorão. Ensina Teologia e Retórica.
As palavras do sábio Mohadebe, o teólogo, eram pronunciadas em tom estranho e surpreendente, sílaba por sílaba, como se o orador pusesse empenho em medir o som de sua própria voz:
Vou interrogar-vos, ó Calculista, sobre assunto de indiscutível importância para a cultura de um muçulmano. Antes de estudar a ciência de um Euclides ou de um Pitágoras, deve o bom islamita conhecer profundamente o problema religioso, pois a vida não é concebível quando se projeta divorciada da Verdade e da Fé. Aquele que não se preocupa com o problema de sua existência futura, com a salvação de sua alma e desconhece os preceitos de Deus, os mandamentos, não merece o qualificativo de sábio. Quero, portanto, que nos apresenteis, neste momento, sem a menor hesitação, quinze indicações numéricas certas e notáveis sobre o Alcorão, o livro de Alá!
Entre essas quinze indicações deverão figurar:

1º) O número de suratas do Alcorão;
2º) O número exato de versículos;
3º) O número de palavras;
4º) O número de letras do Livro Incriado;
5º) O número exato dos profetas citados nas páginas do Livro Eterno.

E o sábio teólogo insistiu, fazendo ecoar bem forte a sua voz:
Quero ouvir, enfim, neste momento, além das cinco indicações, por mim apontadas, mais outras dez relações numéricas certas e notáveis sobre o Livro Incriado! Uassalã!
Seguiu-se profundo silêncio. Aguardava-se, com ansiedade, a palavra de Beremiz. Com uma tranquilidade que causava assombro, o jovem calculista respondeu:
O Alcorão, ó sábio e venerável Mufti(2), compõe-se de 114 suratas, das quais 70 foram ditadas em Meca e 44 em Medina. Divide-se em 611 ashrs e contém 6.236 versículos, dos quais 7 do primeiro capítulo Fatihat(3) e 8 do último, Os homens. A surata maior é a segunda, que encerra 280 versículos. O Alcorão contém 46.439 palavras e 323.670 letras, cada uma das quais encerra dez virtudes especiais. O nosso Livro Sagrado cita o nome de 25 profetas. Issa, filho de Maria(4), é citado 19 vezes. Há cinco animais, cujos nomes foram tomados para epígrafes de cinco capítulos: a vaca, a abelha, a formiga, a aranha e o elefante. A surata 102 tem por título: “A contestação dos números.” É notável esse capítulo do Livro Incriado pela advertência que dirige, em seus cinco versículos, àqueles que se preocupam com disputas estéreis sobre números que não têm importância alguma para o progresso espiritual dos homens.
Neste ponto fez Beremiz ligeira pausa e logo acrescentou:
Eis aí, para atender ao vosso pedido, as indicações numéricas tiradas do Livro de Alá! Houve, apenas, na resposta que acabo de formular, um engano que me apresso a confessar. Em vez de quinze relações, citei dezesseis!
Por Alá! — murmurou, atrás de mim, o velhote da túnica azul. — Como pode um homem saber, de memória, tantos números e tantas contas! É fantástico! Sabe até quantas letras tem o Alcorão!
Estuda muito — replicou, quase em segredo, o vizinho, que era gordo e tinha uma cicatriz no queixo. — Estuda muito e decora tudo. Já ouvi uns zunzuns a tal respeito.
Decorar não adianta — cochichou, ainda, o velhinho da cara chupada. — Não adianta. Eu, por exemplo, não consigo decorar nem a idade da filha de meu tio!
Irritavam-me aquelas falinhas segredadas.
Mas o fato é que Mohadebe confirmou todas as indicações dadas pelo calculista; até o número de letras do Livro de Alá fora enunciado sem erro de uma unidade.
Disseram-me que esse douto teólogo Mohadebe era um homem pobre. E devia ser mesmo verdade. A muitos sábios priva Alá das riquezas, pois a sabedoria e a riqueza raramente aparecem juntas.
Beremiz havia vencido brilhantemente a primeira prova do terrível debate. Faltavam seis.
Queira Alá! — pensei. — Queira Alá que tudo possa correr bem!

Notas:
(1) Médico oculista.
(2) Jurisconsulto muçulmano.
(3) Primeiro capítulo do Alcorão.
(4) Jesus — Das cinco preces que os árabes proferem, todos os dias, uma delas é dedicada a Jesus.

Malba Tahan, em O Homem que Calculava

09/07/2026

Tangendo a Vida (Lyric Video) | Elilson Batista e Maurílio Santos

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino.
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa.
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…

Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa), em Poesias de Álvaro de Campos