26/08/2026

João Bosco – Horda | NDR Bigband

Duas maneiras

De dentro da geometria
Deus me olha e me causa terror.
Faz descer sobra mim o íncubo hemiplégico.
Eu chamo por minha mãe,
me escondo atrás da porta,
onde meu pai pendura sua camisa suja,
bebo água doce e falo as palavras das rezas.
Mas há outro modo:
se vejo que Ele me espreita,
penso em marca de cigarros,
penso num homem saindo de madrugada pra adorar o Santíssimo,
penso em fumo de rolo, em apito, em mulher da roça
com o balaio de pequi, fruta feita de cheiro e amarelo.
Quando Ele dá fé, já estou no colo d’Ele,
pego Sua barba branca,
Ele joga pra mim a bola do mundo,
eu jogo pra Ele.

Adélia Prado, em Bagagem

Siempre en la Barca pra Paquetá



4ª Faixa: Pupurri
(Arranjo – Gilson Peranzetta)

A negra lingerie, a sobrancelha feita a lápis, e olhos tais minúsculos aquários de peixinhos tropicais... Eu conheci tantas assim, dessas mulheres que um homem não esquece. E, no entanto, que coisa incrível, esqueci tanto começo inesquecível. Mas sou sincero: tenho alma de artista e tremores nas mãos. Na idade que estou aparecem os tiques, as manias, transparentes feito bijuterias pelas vitrines da Sloper da alma. Vou desligar a vitrola. No lado B só tem tango. Obrigado minhas fãs. Cheguei aqui, ao apogeu, com o auxílio de vocês. Guardem o livro, pra que os olhos relembrem quando o coração infiel esquecer.

Um beijo, Aldir

Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo

Esperanças e utopias

Sobre as virtudes da esperança tem-se escrito muito e parolado muito mais. Tal como sucedeu e continuará a suceder com as utopias, a esperança foi sempre, ao longo dos tempos, uma espécie de paraíso sonhado dos cépticos. E não só dos cépticos. Crentes fervorosos, dos de missa e comunhão, desses que estão convencidos de que levam por cima das suas cabeças a mão compassiva de Deus a defendê-los da chuva e do calor, não se esquecem de lhe rogar que cumpra nesta vida ao menos uma pequena parte das bem-aventuranças que prometeu para a outra. Por isso, quem não está satisfeito com o que lhe coube na desigual distribuição dos bens do planeta, sobretudo os materiais, agarra-se à esperança de que o diabo nem sempre estará atrás da porta e de que a riqueza lhe entrará um dia, antes cedo que tarde, pela janela dentro. Quem tudo perdeu, mas teve a sorte de conservar ao menos a triste vida, considera que lhe assiste o humaníssimo direito de esperar que o dia de amanhã não seja tão desgraçado como o está sendo o dia de hoje. Supondo, claro, que haja justiça neste mundo. Ora, se nestes lugares e nestes tempos existisse algo que merecesse semelhante nome, não a miragem do costume com que se iludem os olhos e a mente, mas uma realidade que se pudesse tocar com as mãos, é evidente que não precisaríamos de andar todos os dias com a esperança ao colo, a embalá-la, ou embalados nós ao colo dela. A simples justiça (não a dos tribunais, mas a daquele fundamental respeito que deveria presidir às relações entre os humanos) se encarregaria de pôr todas as coisas nos seus justos lugares. Dantes, ao pobre de pedir a quem se tinha acabado de negar a esmola, acrescentava-se hipocritamente que “tivesse paciência”. Penso que, na prática, aconselhar alguém a que tenha esperança não é muito diferente de aconselhá-lo a ter paciência. É muito comum ouvir-se dizer da boca de políticos recém-instalados que a impaciência é contra-revolucionária. Talvez seja, talvez, mas eu inclino-me a pensar que, pelo contrário, muitas revoluções se perderam por demasiada paciência. Obviamente, nada tenho de pessoal contra a esperança, mas prefiro a impaciência. Já é tempo de que ela se note no mundo para que alguma coisa aprendam aqueles que preferem que nos alimentemos de esperanças. Ou de utopias.

José Saramago, em O caderno

Capítulo 81 – A Reconciliação



E contudo, ao sair de lá, tive umas sombras de dúvida; cogitei se não ia expor insanamente a reputação de Virgília, se não haveria outro meio razoável de combinar o Estado e a Gamboa. Não achei nada. No dia seguinte, ao levantar-me da cama, trazia o espírito feito e resoluto a aceitar a nomeação.
Ao meio-dia, veio o criado dizer-me que estava na sala uma senhora, coberta com um véu. Corro; era minha irmã Sabina.
– Isto não pode continuar assim, disse ela; é preciso que, de uma vez por todas, façamos as pazes. Nossa família está acabando; não havemos de ficar como dois inimigos.
– Mas se eu não te peço outra coisa, mana! bradei eu estendendo-lhe os braços.
Sentei-a ao pé de mim, e falei-lhe do marido, da filha, dos negócios, de tudo. Tudo ia bem; a filha estava linda como os amores. O marido viria mostrar-ma, se eu consentisse.
– Ora essa! irei eu mesmo vê-la.
– Sim?
– Palavra.
– Tanto melhor! respirou Sabina. É tempo de acabar com isto.
Achei-a mais gorda, e talvez mais moça. Parecia ter vinte anos, e contava mais de trinta. Graciosa, afável, nenhum acanhamento, nenhum ressentimento. Olhávamos um para o outro, com as mãos seguras, falando de tudo e de nada, como dois namorados. Era a minha infância que ressurgia, fresca, travessa e loura; os anos iam caindo como as fileiras de cartas de jogar encurvadas, com que eu brincava em pequeno, e deixavam-me ver a nossa casa, a nossa família, as nossas festas.
Suportei a recordação com algum esforço; mas um barbeiro da vizinhança lembrou-se de zangarrear na clássica rabeca, e essa voz – porque até então a recordação era muda, – essa voz do passado, fanhosa e saudosa, a tal ponto me comoveu, que...
Os olhos dela estavam secos. Sabina não herdara a flor amarela e mórbida. Que importa? Era minha irmã, meu sangue, um pedaço de minha mãe, e eu disse-lho com ternura, com sinceridade... Súbito, ouço bater à porta da sala; vou abrir; era um anjinho de cinco anos.
– Entra, Sara, disse Sabina.
Era minha sobrinha. Apanhei-a do chão, beijei-a muitas vezes; a pequena, espantada, empurrava-me o ombro com a mãozinha, quebrando o corpo para descer... Nisto, aparece-me porta um chapéu, e logo um homem, o Cotrim, nada menos que o Cotrim. Eu estava tão comovido, que deixei a filha e lancei-me aos braços do pai. Talvez essa efusão o desconcertou um pouco; é certo que me pareceu acanhado. Simples prólogo. Daí a pouco falávamos como bons amigos velhos. Nenhuma alusão ao passado, muitos planos de futuro, promessa de jantarmos em casa um do outro. E não deixei de dizer que essa troca de jantares podia ser que tivesse uma curta interrupção, porque eu andava com ideias de uma viagem ao Norte. Sabina olhou para o Cotrim, o Cotrim para Sabina; ambos concordaram que essas ideias não tinham senso comum. Que diacho podia eu achar no Norte? Pois não era na corte, em plena corte, que devia continuar a luzir, a meter num chinelo os rapazes do tempo?
Que, na verdade, nenhum havia que se me comparasse; ele, Cotrim, acompanhava-me de longe, e, não obstante uma briga ridícula, teve sempre interesse, orgulho, vaidade nos meus triunfos. Ouvia o que se dizia a meu respeito, nas ruas e nas salas; era um concerto de louvores e admirações. E deixa-se isso para ir passar alguns meses na província, sem necessidade, sem motivo sério? A menos que não fosse política...
– Justamente política, disse eu.
– Nem assim, replicou ele dai a um instante. - E depois de outro silêncio: - Seja como for, venha jantar hoje conosco.
– Certamente que vou; mas, amanhã ou depois, hão de vir jantar comigo.
– Não sei, não sei, objetou Sabina; em casa de homem solteiro... Você precisa casar, mano. Também eu quero uma sobrinha, ouviu?
Cotrim reprimiu-a com um gesto, que não entendi bem.
Não importa; a reconciliação de uma família vale bem um gesto enigmático.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

25/08/2026

Robertinho de Recife | Revelação

Diário de Bernardo Soares

125.

Não fizeram, Senhor, as vossas naus viagem mais primeira que a que o meu pensamento, no desastre deste livro, conseguiu. Cabo não dobraram, nem Draia viram mais afastada, tanto da audácia dos audazes como da imaginação dos por ousar, igual aos cabos que dobrei com a minha meditação, e às praias a que, com o meu El, fiz aportar o meu esforço.
Por vosso início, Senhor, se descobriu o Mundo Real; pelo meu o Mundo Intelectual se descobrirá.
Arcaram os vossos argonautas com monstros e medos. Também, na viagem do meu pensamento, tive monstros e medos com que arcar. No caminho para o abismo abstrato, que está no fundo das coisas, há horrores, que passar, que os homens do mundo não imaginam e medos que ter que a experiência humana não conhece; é mais humano talvez o cabo para o lugar indefinido do mar comum do que a senda abstrata para o vácuo do mundo.
Apartados do uso dos seus lares, êxuis do caminho das suas casas, viúvos para sempre da brandura de a vida ser a mesma, chegaram por fim os vossos emissários, vós já morto, ao extremo oceânico da Terra. Viram, no material, um novo céu e uma terra nova.
Eu, longe dos caminhos de mim próprio, cego da visão da vida que amo, cheguei por fim, também, ao extremo vazio das coisas, à borda imponderável do limite dos entes, à porta sem lugar do abismo abstrato do Mundo.
Entrei, senhor, essa Porta. Vaguei, senhor, por esse mar. Contemplei, senhor, esse invisível abismo.
Ponho esta obra de Descoberta suprema na invocação do vosso nome português, criador de argonautas.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Ida e volta

Máximo de atenção

Acostume-se a prestar o máximo de atenção àquilo que alguém diz e, na medida do possível, esteja na mente de quem fala.

Marco Aurélio, em Meditações

Junk | Paul McCartney



Motor cars, handlebars, bicycles for two
Broken-hearted jubilee
Parachutes, army boots, sleeping bags for two
Sentimental jamboree

Buy, buy, says the sign in the shop window
Why? Why? says the junk in the yard

Candlesticks, building bricks, something old and new
Memories for you and me

Buy, buy, says the sign in the shop window
Why? Why? says the junk in the yard

Wilfrid Brambell, o ator irlandês, interpretou o personagem do meu avô “bem limpinho” no filme dos Beatles A Hard Day’s Night. Ele também estrelava Steptoe and Son, o famoso sitcom da BBC. O seriado enfocava os constantes conflitos entre Albert Steptoe, muitas vezes chamado de “velhote sujo”, e o filho dele, Harold, um personagem fadado a ter aspirações sociais que aparentemente nunca vão se materializar. Acho que todos nós estamos familiarizados com esse cenário!
Se me permitem usar uma expressão antiquada, o ambiente de “Junk” foi influenciado pela loja de “trecos e cacarecos”, o cenário principal de Steptoe and Son. Essa loja, um misto de quinquilharias e ferro-velho, se tornou tão familiar para o público britânico nas décadas de 1960 e 1970 quanto o rancho de Bonanza ou a mansão em The Beverly Hillbillies.
O gatilho da canção, como de muitas outras, foi uma sequência de acordes legais e, depois, a melodia. Sei que pode soar estranho, mas o acorde inicial desta canção realmente me faz pensar em um ferro-velho ou nos fundos de uma loja. O tipo de atmosfera na qual, se eu estivesse escrevendo um romance, eu gostaria de situar uma cena. Quem costuma fazer isso é o Dickens. Os fundos de uma loja, um porão ou até mesmo a fundição Rouncewell em A casa soturna. Aqui temos “Motor cars, handlebars, bicycles for two”. Muita gente vai reconhecer que “bicicletas para duas pessoas” é uma reciclagem da canção “Daisy Bell (Bicycle Built for Two)”. Essa canção de Harry Dacre, feita em 1892, tornou-se um grande sucesso com Nat King Cole, em 1963.
Não que a reciclagem fosse um tópico muito importante na década de 1960. Em parte, é porque a ideia de obsolescência programada ainda não havia decolado. Naquela época, se você comprasse um carro, ele precisava durar muito tempo. Poderia até ser transmitido de geração em geração. Quando eu era menino, você se apegava às coisas. Hoje eu tenho o instinto de me apegar às coisas e, mais do que isso, espero que elas durem. Por isso, esta canção serve de comentário sobre a sociedade de consumo. Esta é uma coisa que você faz como compositor: comenta sobre a sociedade e transmite uma opinião. Coloco opiniões em minhas canções – nem sempre uma opinião que eu tenho, mas pode ser uma opinião que ouvi, gostei ou que me interessa. Assim, a ideia de que as coisas vão ficar inúteis depois que você comprar é um comentário sobre o consumismo da sociedade. Ao que parece, foi só a partir da década de 1960 que atravessamos a linha de ter necessidades para ter desejos e então agir de acordo com esses desejos. De modo que esta canção entra nesse contexto.
Mas é basicamente uma canção de amor. De bicicletas para duas pessoas passamos a sacos de dormir para duas pessoas (“sleeping bags for two”). E logo depois temos o verso “Buy, buy, says the sign in the shop window”, que soa como um amante dizendo “Bye-bye”, e então o interlocutor indaga melancolicamente: Por quê, por quê? (“Why, why?”). É como se a sucata no quintal (“the junk in the Yard”) estivesse exigindo uma explicação para essa ânsia de obter algo – ou alguém – novo.

Paul McCartney, em As Letras – 1956 até o presente

Sucesso



Ele sai da cama dizendo, filhos da puta. Filhos da puta são as pessoas, é o dia que está raiando, o café que não vai tomar, o jornal que não vai ler, o trabalho, o sucesso, a cidade, o mundo inteiro.
Ele sabe que não está sofrendo de nenhuma depressão. Um deprimido não sente ódio, ele está sentindo ódio, de pessoas e coisas. Mais das pessoas do que das coisas.
O carro é uma coisa desprezível, mas qualquer pessoa é ainda mais repulsiva do que essa máquina estúpida. Está falando com ele mesmo, mas é maluco por isso? Não tomou banho nem fez a barba. É maluco por isso? Na semana passada saiu para fazer análise, mas para tanto é preciso ter fé, acreditar em bruxas e quejandos, mas se até Deus está incluído entre os filhos da puta, o que dizer do analista? Não era um neurótico precisando de muletas. Quem precisa disso é o palhaço do analista, suas muletas são os parlapatões, os vomitadores que vão lá pedir socorro. Pagou o filho da puta e voltou para casa.
Tem êxito no que faz, ganha dinheiro. É perfeito o conjunto de suas funções orgânicas, que distanciam a morte e o ajudam a pensar, esporrar quando é preciso e a defecar diariamente — e a carregar malas sem esforço. Mas não pretende fazer mais viagens; não importa aonde vá, é tudo a mesma porcaria. O sucesso é repulsivo, quase tanto quanto as pessoas. Cada vez tem mais sucesso e é cercado por mais pessoas nojentas e cretinas. Há a música, a poesia. Saem na urina. As coisas boas saem na urina.
E a mulher que perguntou você me ama e ele respondeu sim?
Infelizmente a vida não é uma anedota com final feliz.
“Ei, Roberto, abre a porta.”
“Vai se foder.”
“Angélica está aqui comigo.”
“Quero ficar só.”
“Abre a porta.”
“Vai se foder.”
“Angélica está aqui comigo.”
“É mentira. Você disse isso ontem e era mentira. Vai se foder”
“Estou aqui, sim, Roberto.”
“Vocês estão pensando que eu estou drogado. Não estou drogado. Não tomei nem água.”
“Eu sei. Abre a porta, querido.”
“Não me chama de querido. Você perguntou, você me ama, e eu respondi sim, mas você não me ama. Você disse eu não te amo mais.”
“Foi aquilo das mulheres...”
“Eram duas vadias enviadas por uma cafetina. Eu nem sabia o nome delas.”
“Eu fiquei magoada, mas agora não estou mais.”
“Não sei se você é mesmo a Angélica. O mundo está cheio de filhos da puta que imitam vozes. E eu não tenho a porra de um olho mágico na porta.”
“Você não conhece a minha voz?”
“Como é que eu te chamo quando estamos na cama?”
“Branquela. Abre a porta.”
“Manda embora esse bunda-suja que está com você.”
“Vai embora, Artur. Me deixa, vai embora. Roberto, o Artur foi embora, estou só eu aqui, não tem mais ninguém. Abre a porta. Eu te amo. Abre a porta, por favor. Você precisa de mim. Abre a porta.”
“O que foi que eu lhe dei de presente no dia do seu aniversário?”
“Um carro.”
“Eu te dei essa bosta de presente?”
“Deu.”
“Qual a marca?”
“Um Peugeot.”
“Porra, um carro francês. Os franceses são uns putos.”
“Abre a porta. Você já viu que sou eu mesma. Eu te amo. Sei que você me ama também. Abre a porta.”
Ele abre a porta. Dois homens de branco entram agarram-no, lutam.
“Angélica”, grita, olhando para todos os lados, sem vê-la.
Os putos pensam que ele é maluco? Está cansado de rolar no chão. Os homens lhe dão uma injeção no braço.

Rubem Fonseca, em Pequenas Criaturas

24/08/2026

Djavan | Encontrar-te

O impagável Quino

 

Atrás dos olhos das meninas sérias

Mas poderei dizer-vos que elas ousam? Ou vão, por injunções muito mais sérias, lustrar pecados que jamais repousam?

Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés

Gorjeios

Gorjeio é mais bonito do que canto porque nele se
inclui a sedução.
É quando a pássara está enamorada que ela gorjeia.
Ela se enfeita e bota novos meneios na voz.
Seria como perfumar-se a moça para ver o namorado.
É por isso que as árvores ficam loucas se estão gorjeadas.
É por isso que as árvores deliram.
Sob o efeito da sedução da pássara as árvores deliram.
E se orgulham de terem sido escolhidas para o concerto.
As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.

Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo

Aprofundamento das horas

Não posso escrever enquanto estou ansiosa ou espero soluções a problemas porque nessas situações faço tudo para que as horas passem — e escrever, pelo contrário, aprofunda e alarga o tempo. Se bem que ultimamente, por necessidade grande, aprendi um jeito de me ocupar escrevendo, exatamente para ver se as horas passam.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

O Homem que Calculava — Capítulo 32


32. Como foi Beremiz interrogado por um astrônomo libanês. O problema da pérola mais leve. O astrônomo cita um poeta em homenagem ao calculista.

Chamava-se Mohildin Ihaia Banabixacar, geômetra e astrônomo, uma das figuras mais extraordinárias do Islã, o sétimo e último sábio que devia arguir Beremiz. Nascido no Líbano, tinha o nome escrito em cinco mesquitas e seus livros eram lidos até pelos rumis(1). Seria impossível encontrar-se, sob o céu do Islã, inteligência mais possante e cultura mais sólida e vasta.
O erudito Banabixacar, o Libanês(2), na sua linguagem clara e impecável, assim falou, com bonomia sorridente:
— Sinto-me, realmente, encantado com o que tive oportunidade de ouvir. O ilustre matemático persa acaba de demonstrar, várias vezes, a pujança de seu incomparável talento. Gostaria, também, colaborando neste brilhante torneio, de oferecer ao calculista Beremiz Samir interessante problema que aprendi, quando ainda moço, de um sacerdote budista que cultivava a Ciência dos Números.
Acudiu o califa, vivamente interessado:
— Ouviremos, ó Irmão dos Árabes, com o máximo prazer, a vossa arguição. Espero que o jovem persa, que até agora se tem mantido inabalável nos domínios do Cálculo, saiba resolver a questão formulada pelo velho budista (Alá se compadeça desse idólatra!3)
Percebendo o sábio libanês que sua inesperada proposta havia despertado a atenção do rei, dos vizires e dos nobres muçulmanos, assim falou, dirigindo-se serenamente ao Homem que Calculava:
— A esse problema caberia perfeitamente denominação de “problema da pérola mais leve”. Tem o seguinte enunciado:
“Um mercador de Benares, na Índia, dispunha de oito pérolas iguais — na forma, no tamanho e na cor. Dessas oito pérolas, sete tinham o mesmo peso; a oitava, entretanto, era um pouquinho mais leve que as outras. Como poderia o mercador descobrir a pérola mais leve e indicá-la, com toda segurança, usando a balança apenas duas vezes, isto é, efetuando apenas duas pesagens? É esse o problema, ó Calculista! Queira Alá inspirar-te a solução mais simples e mais perfeita!
Ao ouvir o enunciado do problema das pérolas, um xeque, de cabelos brancos, com largo colar de ouro, que se achava ao lado do capitão Sayeg, murmurou, em voz baixa:
— Que belíssimo problema! Esse sábio libanês é um monstro! Glória ao Líbano, o País dos Cedros!
Beremiz Samir, depois de refletir durante breves instantes, assim falou, com voz remansada e firme:
— Não me parece difícil ou obscuro o problema budista da pérola mais leve. Um raciocínio bem encaminhado pode revelar-nos, desde logo, a solução.
Vejamos: Tenho oito pérolas iguais. Iguais na forma, na cor, no brilho e notamanho. Rigorosamente iguais, diríamos assim. Alguém nos assegurou que, entre essas oito pérolas, destaca-se uma que é um pouquinho mais leve do que as outras sete, e que essas outras sete apresentam o mesmo peso. Para descobrir a mais leve só há um meio. É usar uma balança. E deve ser, para o caso das pérolas, uma balança delicada e fina, de braços longos e pratos bem leves. A balança deve ser sensível. E mais ainda. A balança deve ser exata. Tomando as pérolas duas a duas e colocando-as na balança (uma em cada prato), eu descubro, é claro, qual a pérola mais leve; mas se a pérola mais leve for uma das duas últimas eu serei obrigado a efetuar quatro pesagens. Ora, o problema exige que a pérola mais leve seja descoberta e determinada com duas pesagens apenas — qualquer que seja a posição por ela ocupada. A solução que me parece mais simples é a seguinte:
— Dividamos as pérolas em três grupos. E chamemos A, B e C esses grupos.
O grupo A terá três pérolas; o grupo B terá, também, três pérolas; o terceiro grupo C será constituído pelas duas restantes. Com duas pesagens devo apontar com segurança, sem possibilidade de erro, qual a pérola mais leve, sabendo que sete são iguais em peso.
Levemos os grupos A e B para a balança e coloquemos um grupo em cada prato (estamos, assim, efetuando a primeira pesagem).
Duas hipóteses podem ocorrer:

1.ª hipótese — Os grupos A e B apresentam pesos iguais.
2.ª hipótese — Os grupos A e B apresentam pesos desiguais, sendo um deles (o A, por exemplo) mais leve.

Na primeira hipótese (A e B com o mesmo peso) podemos garantir que a pérola mais leve não pertence ao grupo A, nem figura no grupo B. A pérola procurada é uma das duas que formam o grupo C.

Tomemos, pois, essas duas pérolas que formam o grupo C e levemo-las para a balança e ponhamos uma em cada prato (segunda pesagem). A balança indicará qual a mais leve, que fica, assim, determinada.
Na segunda hipótese (A sendo mais leve do que B) é claro que a pérola mais leve pertence ao grupo A, ou melhor, a pérola mais leve é uma das três pérolas do grupo menos pesado. Tomemos, então, duas pérolas quaisquer do grupo A e deixemos a outra de lado. Levemos essas duas pérolas à balança e pesemo-las (segunda pesagem). Se a balança ficar em equilíbrio, a terceira pérola (que ficara de lado) é a mais leve. Se houver desequilíbrio, a pérola mais leve estará no prato que subiu.
— Fica assim, ó Príncipe dos Crentes — rematou Beremiz —, resolvido o problema da pérola mais leve, formulado por ilustre sacerdote budista e aqui apresentado pelo nosso hóspede geômetra libanês.
O astrônomo Banabixacar, o Libanês, classificou de impecável a solução apresentada por Beremiz, e rematou a sua sentença nos seguintes termos:
— Só um verdadeiro geômetra poderia raciocinar com tanta perfeição. A solução que acabo de ouvir, em relação ao problema da pérola mais leve, é um verdadeiro poema de beleza e simplicidade.
E para homenagear o calculista o velho astrônomo do país dos cedros proferiu os seguintes versos:

Se uma rosa de amor tu guardaste,
Bem no teu coração;
Se a um Deus supremo e justo endereçaste
Tua humilde oração;
Se com a taça erguida
Cantaste, um dia, o teu louvor à vida,
Tu não viveste em vão...

Beremiz agradeceu emocionado, inclinando ligeiramente a cabeça e levando a mão direita à altura do coração. Os versos que ele acabara de ouvir eram de um poeta persa, que foi também geômetra e astrônomo: Omar Khayyám. (Que Alá o tenha em sua glória!)
Sim, por Alá! Que beleza de Omar Khayyám. “Tu não viveste em vão!”…

Notas:
(1) Cristãos
(2) Eis como Lamartine, Viagem ao Oriente, II vol., pág. 535, se referiu aos libaneses: “Trazem as armas da Fé nos corações e as armas da luta em seus braços.” Cf. Tanus Jorge Bastani, O Líbano e os Libaneses no Brasil, 1945, pág. 58.
(3) Para um crente do Islã o budista é incluído entre os idólatras. E, por se tratar de um sábio, o rei pede (para esse budista) a misericórdia de Deus.

Malba Tahan, em O Homem que Calculava

23/08/2026

Eu Rio (Porto Seguro) | Elilson José Batista e Zelitto Coringa

Hagar, o Horrível

Aparência

♦ Fui comprar um par de óculos, experimentei vários, descobri que nenhum fica bem em mim. Experimentei mais alguns até chegar à triste conclusão de que eu é que não fico bem em nenhum dos óculos. Saí à rua sem óculos e descobri que não fico bem.
♦ As coisas nem sempre são tão ruins quanto parecem. Mas quase sempre são.
♦ As aparências não enganam: quando você vê um cara vestido de general, há enorme probabilidade de que ele seja isso.

Millôr Fernandes, em A bíblia do caos