17/07/2026

Sertão de Metal, de Círio e Léo Batista

Marfim

A moça desceu os degraus com o robe monogramado no peito: L.M. sobre o coração. Vamos iniciar outra Correspondência, ela propõe. Você já amou alguém verdadeiramente? Os limites do romance realista. Os caminhos do conhecer. A imitação da rosa. As aparências desenganam. Estou desenganada. Não reconheço você, que é tão quieta, nessa história. Liga amanhã outra vez sem falta. Não posso interromper o trabalho agora. Gente falando por todos os lados. Palavra que não mexe mais no barril de pólvora plantado sobre a torre de marfim.

Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés

Armandinho

Diário de Bernardo Soares

119.

Foi sempre com desgosto que li no diário de Amiel as referências que lembram que ele publicou livros. A figura quebra-se ali. Se não fora isso, que grande!
O diário de Amiel doeu-me sempre pela minha causa.
Quando cheguei àquele ponto em que ele diz que sobre ele desceu o fruto do espírito como sendo “a consciência da consciência”, senti uma referência direta à minha alma.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Jenny Wren | Paul McCartney


Jenny Wren | Paul McCartney

Like so many girls
Jenny Wren could sing
But a broken heart
Took her song away

Like the other girls
Jenny Wren took wing
She could see the world
And its foolish ways

How we spend our days
Casting love aside
Losing sight of life
Day by day

She saw poverty
Breaking up a home
Wounded warriors
Took her song away

But the day will come
Jenny Wren will sing
When this broken world
Mends its foolish ways

Then we’ll spend our days
Catching up on life
All because of you
Jenny Wren
You saw who we are
Jenny Wren
Em Los Angeles, há um cânion onde eu adoro fazer caminhadas. Tem que ir de carro para chegar lá, então muitas vezes vou sozinho. No dia em que escrevi esta canção, encontrei um lugar tranquilo para estacionar à beira da estrada, em uma área bem rural e, em vez de fazer uma caminhada, pensei: “Vou compor uma canção”.
As pessoas costumam pensar que Liverpool é uma cidade industrial, mas não tive problemas para praticar a observação de pássaros quando eu era menino. Eu gostava de me desligar do corre-corre do mundo, e isso era permitido pelo simples fato de que morávamos em Speke, no sul de Liverpool, a apenas um quilômetro e meio da área rural. Eu tinha um livrinho de bolso, The Observer’s Book of Birds, e costumava sair sozinho para fazer caminhadas no campo, em busca de um pouco de solidão. Eu curtia me distanciar das coisas normais – escola, vida familiar, rádio, televisão, incumbências, seja lá o que fosse – e só ficar na minha, capaz de perambular e meditar. Logo aprendi a identificar os pássaros, e a corruíra (“wren”) provavelmente se tornou a minha ave favorita – pequenina, muito reservada, uma coisinha tão delicada. Não é fácil de avistá-la, mas súbito ela surge, pulando de arbusto em arbusto. Por isso, se o assunto é passarinho – os melros-pretos, também entre os meus favoritos, ou as cotovias, ou as Jenny Wrens –, estamos falando de uma coisa pela qual há muito tempo eu cultivo uma afeição.
Sempre é bom, quando você está escrevendo algo, escrever sobre um mundo de que você gosta. Então, quando estou falando sobre Jenny Wren, primeiro estou me lembrando da ficção, da corajosa moça de Our Mutual Friend (O amigo comum), de Dickens, cuja atitude positiva lhe permitiu superar suas deformidades dolorosas, mas num átimo me vem à mente a corruíra, e em seguida estou vendo de novo uma personagem, e nessa história ela canta como ninguém. A criançada talvez não tenha mais ouvido falar nela, mas as gerações de meus pais e avós conheciam a grande cantora de ópera sueca Jenny Lind, que tinha o cognome de “Jenny Wren”.
Na minha narrativa, eis que Jenny Wren, tendo sido privada de sua alma, parou de cantar como forma de protesto. Por isso, a canção se torna um pouco reflexiva sobre nossa sociedade – como nós colocamos as coisas a perder e como nos solidarizamos com a pessoa que protesta. Ela presenciou as nossas tolas decisões, a maneira como deixamos o amor de lado, a maneira como perdemos de perspectiva as nossas vidas – a pobreza destruindo lares, criando guerreiros feridos. Ela percebeu quem somos e, como todo mundo, só está buscando um caminho melhor. E se estivermos, digamos, num ano de eleição, e isso pode ser em qualquer lugar do mundo, você espera que a perturbação, este mundo fraturado (“this broken world”) em que estamos no momento – vá embora, assim como as pessoas que criaram isso, e alguém melhor virá para que consigamos retomar o nosso lado melhor, consertar as nossas tolas decisões (“foolish ways”). Você sabe que lá está o nosso lado melhor, mas nem sempre é tão fácil de acessá-lo.
Mesmo assim, preciso manter o otimismo – afinal de contas, eu nasci em plena Segunda
Guerra Mundial, e a Grã-Bretanha conseguiu superar aqueles dias sombrios. Por isso, ainda estou convencido de que é um bom velho mundo, de verdade, mas acho que estamos pisando na bola. Por exemplo, o oceano se enchendo de plástico é um caso óbvio; o plástico não chegou lá sozinho. Pensar que a mudança climática é uma farsa é outro vacilo, e eu espero que ainda consigamos consertar isso a tempo de beneficiar nossos filhos e os filhos de nossos filhos.
Estou ciente de que estou cantando para pessoas que podem estar passando por momentos difíceis, porque, no meio onde eu cresci, muita gente passava por momentos difíceis pela falta de dinheiro, e nunca me esqueci que há um monte de coisas que você não consegue se não tiver dinheiro. Por isso, estou sempre muito ciente do poder de uma bela canção, pois sei que quando eu ouvia uma – mesmo uma canção sobre um passarinho – na minha adolescência em Liverpool, isso me dava esperança e me deixava feliz. Compreendi o quanto aquele sentimento era valioso para mim. E agora sou eu o cara que diz: “Olha só, as coisas nem sempre são ruins”. Isso me dá um lugar para ir na canção, e também me dá um lugar onde eu gostaria de estar. Lembra muito a canção “Smile”, de Charlie Chaplin. É a SCO – Síndrome da Canção Otimista.
Muitas vezes, as canções estabelecem um diálogo com outras canções, e esta obviamente conversa com “Blackbird”. Acho que, se você está ali sentado com o violão, pode seguir alguns caminhos. Em “Blackbird”, o canto responde ao dedilhar dos acordes, e eu acho que “Jenny Wren” tem essa mesma ideia. É provável que eu estivesse revisitando “Blackbird”, talvez intencionalmente. Eu não admitiria isso pra ninguém caso eu não estivesse trabalhando neste livro, que, como diz a letra de “Jenny Wren”, está me permitindo pôr a vida em dia (“catching up on life”).

Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente

Aquário (Berlim)

Vertical, resvés, a água se enjaula.
Vítreo, aquoso, cristalino, cada compartimento abre olho: azul de filmagem ou verde-fluoresceína: os das luzes em anúncio e das pequenas ondas findantes.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

16/07/2026

Igor Souza e Ian Coury – Tá Escrito | Com Xande de Pilares e Pretinho da Serrinha

Gente do bem

Gente que mantém
pássaros na gaiola
tem bom coração.
Os pássaros estão a salvo
de qualquer salvação.

Paulo Leminski, em Toda Poesia

Amor entre livros

No Canecão? Hoje não dá, meu chuchuzinho. Tou afundado no Stokoe, uma curtição tremenda. O quê? Semiotics and Human Sign Languages. É isso aí. Te telefono amanhã, tá?
Sábado passado você já não pôde sair, por causa de um tal Catichico…
Catichico, não. Katicic, com k. Eu tinha de atacar de Katicic lá no Centro. O Lopes veio pra cima de mim com o Kramsky, então eu derrubei ele com o Katicic.
Derrubou como? Você bateu no Lopes?
Não é nada disso, anjo. O Lopes apareceu muito pimpão mostrando The Word as a Linguistic Unit, do Kramsky, gabando que era a última palavra em novidade. Então eu corri à d. Vana e…
Esse cara está hospedado com d. Vana?
Que hospedado coisa nenhuma, bem. É livro, entende? Um livro do Katicic chamado A Contribution to the General Theory of Comparative Linguistic. Comprei ele na livraria de d. Vana, por sinal que ela me disse: “É tão caro, não vale a pena comprar”, d. Vana é assim, fica com pena da gente gastar o dinheiro com os livros de sua livraria. Mas isso não vem ao caso. Trouxe o Katicic e pá! Atirei na cara do Lopes a teoria do Katicic.
Deu coluna do meio?
Um a zero. O Lopes não conhecia o Katicic, a turma também não, e daí, o Kramsky já tá meio superado. Eu soube que ano passado o Magalhães já tinha citado ele em Atibaia. E o Magalhães não é lá muito atualizado. Imagine você que ele ainda cita Stratificational Grammar, do Sampson! Sampson não é mais autor que se possa citar. Sampson anda muito por baixo.
Que que ele fez para andar por baixo?
Nada. Exatamente isso. O Sampson não fez nadinha. Ficou na Stratificational Grammar. Impressionou, abafou, depois calou. É o que me garantiu o Azevedo, que foi vidrado no Sampson, depois enjoou. O Azevedo diz que no livro dele o que vale é o título.
Querido, você promete que semana que vem combina um programa comigo?
Ah, isso prometo sim. Tá prometido. Quer dizer, fica dependendo de um papo meu com o Rogério.
Que é que o Rogério tem com os nossos programas?
Ele ficou de me arranjar o Pike, de que eu preciso muito para a tese que estou preparando. A tese para aquele simpósio que vai haver em Campina Grande, já contei a você, em agosto.
E daí?
Daí, que o Rogério ainda não acabou de fichar o Pike, e se ele acabar até domingo, segunda-feira me passa o livro. Tenho de passar a semana inteira estudando o Pike.
Sábado também?
Acho que o Pike vai me absorver até sexta-feira. Você não faz ideia, é um troço da maior importância, presta atenção no título: Language in Relation to the Structure of Human Behavior. Como é que eu posso perder uma coisa dessas, coração?
Você não gosta de mim.
Gosto milhões, gosto trilhões, amor. Mas ou eu pego logo o Pike enquanto os outros não avançam nele (o Rogério é camarada, o Rogério é um cara que não existe) ou eu sacrifico minha atuação em Campina Grande. Você quer me ver desmoralizado em Campina Grande, diz, você quer?
Quero sair com você.
Eu também quero sair com você, mas será que você não percebe que os interesses da cultura sobrelevam nossos prazeres pessoais, e que o amor é sobretudo uma forma de compreensão?
Você não me gosta, você gosta é desses bichos esquisitos, sei lá.
Não diz uma coisa dessas, amorzinho. Você está em tudo que eu faço, tudo que eu penso. Ainda ontem estava lendo o Ollen, Coding Information in Natural Languages, e sua imagem aflorava em cada página, quase em cada palavra. Baralhei tudo, acabei grilado.
Mentira.
Mentira não, te juro.
Nunca hei de me esquecer de suas férias de 72…
Que eu dediquei a Lévi-Strauss? Que é que eu podia fazer, my love, se a patota gamou nele e eu tinha que entrar na jogada? Olha que eu desisti de uma semana Barthes por tua causa; que deixei de me inscrever num curso sobre Derrida e Greimas para te acompanhar no festival de cinema durante uma semana. Por você eu faço tudo. Mas deixa eu curtir o meu Stokoe, deixa!
Adeusinho, viu? Quando acabar de ler esses chatos, telefone para as Bahamas e pergunte se eu cheguei lá!

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

Capítulo 67 – A Casinha



Jantei e fui a casa. Lá achei uma caixa de charutos, que me mandara o Lobo Neves, embrulhada em papel de seda, e ornada de fitinhas cor-de-rosa. Entendi, abria-a, e tirei este bilhete:
"Meu B...
Desconfiam de nós; tudo está perdido; esqueça-me para sempre. Não nos veremos mais. Adeus; esqueça-se da infeliz V. a."
Foi um golpe esta carta; não obstante, apenas fechou a noite, corri à casa de Virgília. Era tempo; estava arrependida.
Ao vão de uma janela, contou-me o que se passara com a baronesa. A baronesa disse-lhe francamente que se falara muito, no teatro, na noite anterior, a propósito da minha ausência do camarote do Lobo Neves; tinham comentado as minhas relações na casa; em suma, éramos objeto da suspeita pública. Concluiu dizendo que não sabia que fazer.
O melhor é fugirmos, insinuei.
Nunca, respondeu ela abanando a cabeça.
Vi que era impossível separar duas coisas que no espírito dela estavam inteiramente ligadas: o nosso amor e a consideração pública. Virgília era capaz de iguais e grandes sacrifícios para conservar ambas as vantagens, e a fuga só lhe deixava uma. Talvez senti alguma coisa semelhante a despeito; mas as comoções daqueles dois dias eram já muitas, e o despeito morreu depressa. Vá lá; arranjemos a casinha.
Com efeito, achei-a, dias depois, expressamente feita em um recanto da Gamboa. Um brinco! Nova, caiada de fresco, com quatro janelas na frente e duas de cada lado – todas com venezianas cor de tijolo, – trepadeira nos cantos, jardim na frente; mistério e solidão. Um brinco!
Convencionamos que iria morar ali uma mulher, conhecida de Virgília, em cuja casa fora costureira e agregada.
Virgília exercia sobre ela verdadeira fascinação. Não se lhe diria tudo; ela aceitaria facilmente o resto.
Para mim era aquilo uma situação nova do nosso amor, uma aparência de posse exclusiva, de domínio absoluto, alguma coisa que me faria adormecer a consciência e resguardar o decoro. Já estava cansado das cortinas do outro, das cadeiras, do tapete, do canapé, de todas essas coisas, que me traziam aos olhos constantemente a nossa duplicidade. Agora podia evitar os jantares frequentes, o chá de todas as noites, enfim a presença do filho deles, meu cúmplice e meu inimigo. A casa resgatava-me tudo; o mundo vulgar terminaria à porta – dali para dentro era o infinito, um mundo eterno, superior, excepcional, nosso, somente nosso, sem leis, sem instituições, sem baronesas, sem olheiros, sem escutas, – um só mundo, um só casal, uma só vida, uma só vontade, uma só afeição – a unidade moral de todas as coisas pela exclusão das que me eram contrárias.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Verso perdido

... eu te amo a perder de vista.

Mário Quintana, em Caderno H

1630 – Motocintle


Não traem seus mortos

Durante quase dois anos tinha predicado frei Francisco Bravo neste povoado de Motocintle.
Um dia anunciou aos índios que tinha sido chamado da Espanha. Ele queria regressar à Guatemala, disse, e ficar para sempre aqui junto a seu querido rebanho, mas lá na Espanha seus superiores lhe negariam a permissão.
Somente o ouro poderá convencê-los – advertiu frei Francisco.
Ouro não temos – disseram os índios.
Sim, têm – desmentiu o padre. – Eu sei que existe um criadeiro de ouro escondido em Motocintle.
Esse ouro não nos pertence – explicaram eles. – Esse ouro é de nossos antepassados. Nós só estamos cuidando dele. Se faltar alguma coisa, o que lhes diremos quando voltem ao mundo?
Eu só sei o que dirão meus superiores na Espanha. Me dirão: Se tanto te amam os índios desse povo onde queres ficar, como estás tão pobre?”
Se reuniram os índios em assembleia para discutir o assunto.
Um domingo, depois da missa, vendaram os olhos de Frei Francisco e o fizeram dar voltas até ficar tonto. Todos foram atrás dele, dos velhos às crianças de peito. Ao chegar ao fundo de uma gruta, tiraram-lhe a venda. O padre piscava os olhos, machucados pelo fulgor do ouro, mais ouro que o de todos os tesouros das mil e uma noites, e suas mãos trêmulas não sabiam por onde começar. Transformou em saco a sua batina e carregou o que pôde. Depois jurou por Deus e os santos evangelhos que jamais revelaria o segredo e recebeu uma mula e comida para a viagem.
Com o tempo, chegou à Real Auditoria da Guatemala uma carta de frei Francisco Bravo do porto de Veracruz. Com grande dor na alma cumpria o sacerdote seu dever, no ato de serviço ao rei por tratar-se de importante e esmerado negócio. Dava notícias do possível rumo do ouro: “Creio ter andado a escassa distância da aldeia. Corria à esquerda um arroio...” Enviava algumas pepitas como amostra e prometia empregar o resto em devoções a um santo de Málaga.
Agora aparecem a cavalo em Motocintle o juiz e os soldados. Vestindo túnica vermelha e com uma vara branca pendurada no peito, o juiz Juan Maldonado trata de convencer os índios a entregar o ouro.
Promete e garante bom tratamento.
Ameaça com rigores e castigos.
Tranca uns quantos na prisão.
A outros aplica cepo e dá tormento.
Outros faz subir as escadas do patíbulo.
E não adianta.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

14/07/2026

Mono no aware | Hamilton de Holanda

Ricordanza Della Mia Gioventú

A minha ama-de-leite Guilhermina
Furtava as moedas que o Doutor me dava.
Sinhá-Mocinha, minha Mãe, ralhava...
Via naquilo a minha própria ruína!

Minha ama, então, hipócrita, afetava
Susceptibilidade de menina:
“– Não, não fora ela! –” E maldizia a sina,
Que ela absolutamente não furtava.

Vejo, entretanto, agora, em minha cama,
Que a mim somente cabe o furto feito...
Tu só furtaste a moeda, o ouro que brilha.

Furtaste a moeda só, mas eu, minha ama,
Eu furtei mais, porque furtei o peito
Que dava leite para a tua filha!

Augusto dos Anjos, em Eu e Outras Poesias

Autor não encontrado

Olá, a coluna desta segunda-feira infelizmente não foi enviada pelo autor. Quem está escrevendo agora é a editora deste caderno, que precisou preencher em cima da hora o buraco que o Gregorio deixou, por não ser um bom profissional. Todo sábado, recebemos o texto em cima do laço, e é sempre a última coisa de que precisamos para fechar a edição de segunda. Diagramadores, editores, revisores, todos sofrem. Mas quem mais sofre é Natalia, a ilustradora, que se vê obrigada a improvisar um desenho às pressas.
E toda semana é a mesma correria. Já pedimos algumas vezes que ele se programasse para mandar o texto com antecedência, mas ele ora pede desculpas e diz que está passando por maus bocados “em casa com a patroa” (sic) ora pede que “parem de encher a porra do meu saco, eu sou um artista livreeee” (sic). Às vezes diz que só precisa de um tempo para “apertar unzinho enquanto a inspiração não baixa”.
Uma vez, nos escreveu um e-mail que deixou a todos mais calmos: “Estou em frente ao computador, vou mandar agora mesmo”, mas logo abaixo estava escrito “enviado do meu iPhone”. Alguns minutos mais tarde, publicava em seu Facebook que tinha passado de fase no Candy Crush. O texto veio só no dia seguinte.
Nesta semana, foi diferente. Gregorio disse que não mandaria o texto pois estava muito “pegado de trabalho” (sic). Descobrimos através do seu Instagram que ele está na Grécia. Uma foto dos seus pés na areia revela que ele estaria “recarregando as baterias”. Em outra foto, abraçando uma estátua em Delos, ele diz: “Obrigado Apolo, continue a me iluminar”. Procurada, sua assessoria afirmou que ele está viajando em um ato de “protesto contra a Copa”.
Por isso, precisei escrever a coluna no lugar dele. Pedi à Natália que ilustrasse a coluna com um desenho bem horroroso do seu rosto, enquanto eu tento replicar seu estilo. É fácil de imitar: em geral a adversativa vem introduzida por dois pontos. A temática também é sempre a mesma: basta aproveitar este espaço pra divulgar causas pessoais e se autopromover. Seguinte: tô vendendo um Corsa 2003 sedã quatro portas única dona favor ligar para a Folha e tratar com Heloísa Helvécia.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

Pular fora!

As manigâncias de dona Frozina

Também com esse dinheiro mirrado...
Isso é o que a viúva dona Frozina diz do montepio. Mas dá para ela comprar Leite de Rosas e tomar verdadeiros banhos com o líquido leitoso. Dizem que sua pele é espetacular. Usa desde mocinha o mesmo produto e tem cheiro de mãe.
É muito católica e vive em igrejas. Tudo isso cheirando a Leite de Rosas. Como uma menina. Ficou viúva com vinte e nove anos. E de lá para cá – nada de homem. Viúva à moda antiga. Severa. Sem decote e sempre com mangas compridas.
D. Frozina, como é que a senhora arrumou sua vida sem homem?, quero lhe perguntar.
A resposta seria:
Manigâncias, minha filha, manigâncias.
Dizem dela: muita gente jovem não tem o espírito que ela tem. Está na casa dos setenta, a excelentíssima senhora dona Frozina. É sogra boa e ótima avó. Boa parideira que foi. E continuou frutificando. Eu queria ter uma conversa séria com d. Frozina.
Dona Frozina, a senhora tem qualquer coisa a ver com d. Flor e seus três maridos?
Que é isso, minha amiga, mas que pecado grande! Sou viúva virgem, minha filha.
Seu marido se chamava Epaminondas, com o apelido de Moço.
Olhe, d. Frozina, tem nomes piores do que o seu. Tem uma que se chama Flor de Lis – e como acharam ruim o nome, deram-lhe apelido pior: Minhora. Quase minhoca. E os pais que chamaram seus filhos de Brasil, Argentina, Colômbia, Bélgica e França? A senhora escapou de ser um país. A senhora e suas manigâncias. “Ganha-se pouco”, diz ela, “mas é divertido.”
Divertido como, minha senhora? A senhora não conheceu então a dor? Foi driblando a dor pela vida afora? Sim, senhora, com minhas manigâncias fui escapando.
D. Frozina não toma Coca-Cola. Acha que é moderno demais.
Mas todo o mundo toma!
Eu é que não, cruz-credo! parece até remédio contra bichas, Deus me livre e guarde.
Mas se acha o gosto de remédio é porque já provou.
D. Frozina usa o nome de Deus mais do que deveria. Não se deve usar o nome de Deus em vão. Mas com ela não cola essa lei.
E ela se agarra nos santos. Os santos já estão enjoados dela, de tanto ela abusar. De “Nossa Senhora” nem se fala; a mãe de Jesus não tem sossego. E, como vem do norte, vive dizendo: Virgem Maria! a cada espanto. E são muitos os seus espantos de viúva ingênua.
D. Frozina rezava todas as noites. Fazia uma prece para cada santo. Aí aconteceu o desastre: ela adormeceu no meio.
D. Frozina, que coisa horrível a senhora cochilar no meio da reza deixando os santos à toa!
Ela respondeu com um gesto de mão de descaso:
Ah, minha filha, que cada um pegue o dele.
Teve um sonho muito esquisitinho: sonhou que via o Cristo do Corcovado – e cadê os braços abertos? Estavam era bem cruzados, e o Cristo enjoado como se dissesse: vocês que se arranjem, estou farto. Era um pecado esse sonho.
D. Frozina, chega de manigâncias. Fique com o seu Leite de Rosas e “io me ne vado”. (É assim que se diz em italiano quando uma pessoa quer ir embora?)
Dona Frozina, excelentíssima senhora, quem está farta da senhora sou eu. Adeus, pois. Cochilei no meio da reza.
P.S. Procure no dicionário o que quer dizer manigâncias. Mas adianto-lhe o serviço: manigância – prestidigitação; manobra misteriosa, artes de berliques e berloques. (Do Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa.)
Um detalhe antes de acabar:
D. Frozina quando era pequena, lá em Sergipe, comia acocorada atrás da porta da cozinha. Não se sabe por quê.

Clarice Lispector, em Todos os Contos

Habilidade e conhecimento

Por que almas desqualificadas e ignorantes perturbam quem é hábil e conhecedor? Qual alma, então, detém habilidade e conhecimento? É aquela que identifica o início e o fim, que conhece a razão que permeia toda a substância e que, pela eternidade, administra o todo mediante períodos fixados.

Marco Aurélio, em Meditações

13/07/2026

João Bosco — Incompatibilidade de Gênios | NDR Bigband

Conclusão

Os impactos de amor não são poesia
(tentaram ser: aspiração noturna).
A memória infantil e o outono pobre
vazam no verso de nossa urna diurna.

Que é poesia, o belo? Não é poesia,
e o que não é poesia não tem fala.
N em o mistério em si nem velhos nomes
poesia são: coxa, fúria, cabala.

Então, desanimamos. Adeus, tudo!
A mala pronta, o corpo desprendido,
resta a alegria de estar só, e mudo.

De que se formam nossos poemas? Onde?
Que sonho envenenado lhes responde,
se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?

Carlos Drummond de Andrade, em Fazendeiro do Ar