05/06/2026

Milo J | Bajo De La Piel

Argila

Nascemos um para o outro, dessa argila
De que são feitas as criaturas raras;
Tens legendas pagãs nas carnes claras
E eu tenho a alma dos faunos na pupila...

Às belezas heroicas te comparas
E em mim a luz olímpica cintila,
Gritam em nós todas as nobres taras
Daquela Grécia esplêndida e tranquila...

É tanta a glória que nos encaminha
Em nosso amor de seleção, profundo,
Que (ouço ao longe o oráculo de Elêusis)

Se um dia eu fosse teu e fosses minha,
O nosso amor conceberia um mundo
E do teu ventre nasceriam deuses…

Raul de Leoni, em Luz Mediterrânea

Esquecer algo!

Dois modos

Como se eu procurasse não aproveitar a vida imediata, mas sim a mais profunda, o que me dá dois modos de ser: em vida, observo muito, sou ativa nas observações, tenho o senso do ridículo, do bom humor, da ironia, e tomo um partido. Escrevendo, tenho observações por assim dizer passivas, tão interiores que se escrevem ao mesmo tempo em que são sentidas, quase sem o que se chama de processo. É por isso que no escrever eu não escolho, não posso me multiplicar em mil, me sinto fatal a despeito de mim.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

O Apanhador no Campo de Centeio – 25


25

Quando cheguei lá fora o dia estava começando a clarear. Fazia também um frio desgraçado, mas até que me senti bem, de tão suado que eu estava.
Não tinha a mínima ideia para onde ir. Não queria me meter em outro hotel e gastar todo o dinheiro da Phoebe. Afinal, fui andando até a Avenida Lexington e tomei o metrô para a Estação Grand Central. Tinha deixado as minhas malas lá e tudo, e pensei em dormir naquele salão de espera enorme, onde tem um milhão de bancos. Foi o que acabei fazendo. No começo até que não foi tão ruim, porque havia pouca gente por ali e eu podia pôr os pés em cima do banco. Mas não tenho muita vontade de falar sobre isso. Não foi nada agradável. A gente não devia nunca ter de fazer um troço desses. No duro, é um bocado deprimente.
Só consegui dormir até umas nove horas porque aí milhões de pessoas começaram a entrar no saguão e tive que tirar os pés de cima do banco. Não consigo dormir direito com os pés no chão, e não tinha mesmo outro jeito senão ficar sentado. Ainda estava com dor de cabeça, só que agora pior ainda, e acho que nunca me senti tão deprimido em toda a minha vida.
Bem que eu não queria, mas comecei a pensar no Professor Antolini e no que ele ia ter que dizer à mulher dele quando ela visse que eu não tinha dormido lá nem nada. Essa parte até que não me incomodava muito, porque eu sabia que o Professor Antolini era bastante inteligente para inventar alguma coisa para dizer a ela. Podia dizer que eu tinha ido para casa ou coisa parecida. Essa parte não me preocupava muito. O que me chateava mesmo era esse negócio de eu ter acordado e encontrado o Professor fazendo festinha na minha cabeça e tudo. Chegava a pensar que podia ter sido um engano meu e que, afinal de contas, ele não estivesse me fazendo um carinho aveadado. Talvez ele só gostasse mesmo era de fazer festinha na cabeça da gente, enquanto a gente dormia. Como é que se pode ter certeza de um troço desses? É impossível. Comecei até a pensar se não devia pegar minhas malas e voltar para a casa dele, como havia dito que ia fazer. Pensei que, mesmo que fosse veado, ele tinha sido um bocado bom comigo. Nem tinha se importado de eu telefonar tão tarde para ele, e me havia dito que fosse imediatamente para lá, se quisesse. E tinha tido um trabalhão para me aconselhar sobre aquele negócio da gente descobrir o tamanho da nossa mente e tudo. E foi o único sujeito que chegou perto daquele garoto, o James Castle, no dia em que ele morreu. Pensei nisso tudo. E, quanto mais pensava, mais deprimido ficava.
Comecei a achar que talvez eu devesse voltar para a casa dele. Possivelmente, ele só estava mesmo me fazendo festinha na cabeça à toa, sem maldade nenhuma. Mas, quanto mais eu pensava no troço todo, mais deprimido e confuso ia ficando. Para piorar tudo ainda, meus olhos estavam me incomodando um bocado. Estavam irritados e ardendo, pela falta de sono. Além disso eu estava começando a ficar resfriado e não tinha nem uma porcaria dum lenço no bolso. Tinha alguns na mala, mas não estava com a mínima vontade de tirá-la de dentro do armário de aço e abrir ali, bem na frente de todo mundo.
Alguém tinha deixado uma revista no banco, ao meu lado, e comecei a ler, achando que assim ia parar de pensar no Professor Antolini e num milhão de outras coisas, pelo menos durante algum tempo. Mas a porcaria do artigo que comecei a ler quase que me fez sentir pior ainda. Era sobre os hormônios. Mostrava a aparência que a gente deve ter – a cara, os olhos e tudo - quando os hormônios estão funcionando direito, e eu estava todo ao contrário. Estava parecendo exatamente com o sujeito do artigo, que estava com os hormônios todos funcionando errado. Por isso comecei a ficar preocupado com os meus hormônios. Aí li outro artigo, sobre a maneira pela qual a gente pode saber se tem câncer ou não. Dizia lá que, se a gente tem alguma ferida na boca que demora a sarar, então isso é sinal de que a gente provavelmente está com câncer. E eu já estava com aquele machucado na parte de dentro do lábio há umas duas semanas. Por isso imaginei que estava pegando um câncer. A tal revista era um bocado boa para levantar o moral da gente. Acabei parando de ler e saí para dar uma volta. Calculei que devia morrer dentro de uns dois meses, já que estava com câncer. Foi mesmo. Eu estava certo de que ia morrer. Evidentemente, essa ideia não me deixou muito satisfeito.
Estava com jeito de que ia chover, mas saí andando assim mesmo. Em parte porque achei que devia comer alguma coisa. Não tinha a menor fome, mas achei que precisava pelo menos me alimentar um pouco. Quer dizer, pelo menos tomar algum troço que tivesse umas vitaminas. Por isso comecei a andar na direção leste, onde tem uma porção de restaurantes baratos, porque não estava a fim de gastar um dinheirão.
Enquanto ia andando, passei por dois sujeitos que estavam descarregando uma baita árvore de Natal dum caminhão. Um deles ficava só falando para o outro: "Segura essa filha da puta! Segura mesmo!" Certamente, era o tipo da maneira delicada de se referir a uma árvore de Natal. Mas até que tinha sua graça, assim dum jeito meio infeliz, e eu mais ou menos comecei a rir. Foi a pior coisa que eu podia ter feito, porque mal comecei a rir, pensei que fosse vomitar. No duro. Cheguei mesmo a começar, mas logo passou. Sei lá por quê. Afinal de contas, não tinha comido nada estragado ou coisa que o valha, e normalmente tenho um estômago um bocado forte. De qualquer forma, consegui me aguentar e imaginei que ia me sentir melhor se comesse alguma coisa. Entrei num restaurante vagabundo e pedi café com roscas. Não houve jeito de engolir direito. O caso é que, quando a gente está muito deprimido, é difícil como o diabo engolir qualquer coisa. Mas o garçon foi simpático: levou as roscas de volta sem me cobrar nada por elas. Só bebi o café. Aí saí e fui andando em direção à Quinta Avenida.
Era uma segunda-feira e tudo, pertinho do Natal, e todas as lojas estavam abertas. Por isso, até que não era de todo mau caminhar pela Quinta Avenida, que estava um bocado natalina. Tinha toda aquela porção de Papais Noéis magricelas nas esquinas, cada um sacudindo seu sino, e todas aquelas mulheres do Exército da Salvação, as tais que não usam baton nem nada, também badalando seus sininhos. Fiquei mais ou menos procurando aquelas duas freiras que eu tinha encontrado na véspera, tomando o café da manhã, mas não as vi. Sabia que não ia vê-las mesmo, porque elas me haviam dito que tinham vindo para Nova York para ser professoras, mas de qualquer maneira continuei a procurar por elas. Seja como for, de repente estava tudo um bocado natalino. Um milhão de crianças zanzavam pelo centro da cidade com as mães, subindo e descendo dos ônibus, entrando e saindo das lojas. Queria que a Phoebe estivesse ali comigo. Ela já não é tão pequena que ainda fique inteiramente alucinada na seção de brinquedos, mas gosta de circular e olhar as pessoas. No Natal passado levei-a à cidade para fazer compras comigo. Nos divertimos pra chuchu. Acho que foi na Loja Bloomingdale. Fomos na seção de sapatos e fizemos de conta que ela - Phoebe – queria um par dessas galochas altas, dessas que têm mais ou menos um milhão de casas para passar o cadarço. O vendedor quase ficou maluco. A doida da Phoebe experimentou uns vinte pares, e cada vez o infeliz tinha que amarrar um pé até em cima. Era o tipo da maldade, mas a Phoebe se divertiu barbaramente. Afinal, compramos um par de mocassins e mandamos pôr na conta. O vendedor até que foi muito simpático. Acho que ele sabia que nós estávamos só de brincadeira porque a Phoebe fica rindo o tempo todo.
De qualquer modo, continuei andando toda a vida pela Quinta Avenida, sem gravata nem nada. Aí, de repente, começou a acontecer um negócio um bocado fantasmagórico. Cada vez que eu chegava ao fim de um quarteirão e descia o meio-fio, tinha a sensação de que nunca chegaria ao outro lado da rua. Pensava que ia caindo, caindo, caindo, e nunca mais ninguém ia me ver. Puxa, fiquei apavorado pra burro. Ninguém imagina o medão que me deu. Comecei a suar como um filho da mãe, molhei toda a camisa, a roupa de baixo, tudo. Aí comecei a fazer outro troço: cada vez que chegava ao fim do quarteirão, fazia de conta que estava falando com o meu irmão Allie. Dizia pra ele: "Allie, não me deixa desaparecer. Allie, não me deixa desaparecer. Por favor, Allie." Aí então, quando chegava do outro lado da rua sem desaparecer, eu agradecia a ele. Logo que chegava a outra esquina, começava tudo de novo. Mas continuei andando assim mesmo. Acho que estava meio amedrontado de parar - nem sei direito, para dizer a verdade. Sei que só fui parar quando já estava lá pela altura da rua Sessenta e tantos, pra lá do Jardim Zoológico. Aí, sentei num banco. Quase que não conseguia respirar e ainda estava suando como um filho da mãe. Acho que fiquei sentado lá mais ou menos uma hora. Finalmente, decidi ir embora de vez. Resolvi que não voltaria para casa nunca mais, e nunca mais iria para colégio nenhum. Decidi que ia só encontrar com a Phoebe, para me despedir e tudo, e devolver o dinheiro de Natal que ela me havia emprestado. Aí começaria a viajar para o oeste, pegando caronas nos carros. Já sabia o que tinha de fazer: ia até o Túnel Holland e apanhava uma carona, depois pegava outra carona, e depois outra e mais outra. Assim, em poucos dias já estaria lá pelo oeste, num lugar muito bonito e ensolarado, onde ninguém me conhecesse e eu arranjasse um emprego. Calculei que podia achar trabalho num posto de gasolina em qualquer canto, pondo gasolina e óleo no carro dos outros. Mas não me importava que tipo de emprego ia ser, desde que ninguém me conhecesse e eu não conhecesse ninguém. Aí, bolei o que é que eu devia fazer: ia fingir que era surdo-mudo. Desse modo, não precisava ter nenhuma conversa imbecil e inútil com ninguém. Se alguém quisesse me dizer alguma coisa, teria de escrever o troço num pedaço de papel e me entregar. Depois de algum tempo iam ficar um bocado aporrinhados de ter que fazer tudo isso, e aí eu nunca mais precisaria conversar pelo resto da minha vida. Todo mundo ia pensar que eu era só um infeliz dum filho da mãe surdo-mudo, e iam me deixar em paz sozinho. Me deixavam botar gasolina e óleo na droga dos carros deles, e me pagavam um salário para fazer isso. Com o dinheiro que fosse ganhando, construiria uma cabaninha para mim em algum lugar e viveria lá o resto da vida. Ia fazer a cabana bem pertinho de uma floresta, mas não dentro da mata, porque ia fazer questão de ter a casa ensolarada pra burro o tempo todo. Cozinharia minha própria comida e mais tarde, se quisesse casar ou coisa parecida, ia encontrar uma garota bonita, também surdo-muda, e nos casaríamos. Ela viria viver comigo na cabana e, se quisesse me dizer alguma coisa, teria de escrever numa porcaria dum pedaço de papel, como todo mundo. Se tivéssemos filhos, iam ficar escondidos em algum canto. Podíamos comprar uma porção de livros para eles e nós mesmos íamos ensiná-los a ler e escrever.
Fiquei excitado pra burro pensando no negócio todo. No duro. Sabia que aquela parte de bancar o surdo-mudo era amalucada, mas de qualquer maneira gostava de pensar nela. Mas resolvi de fato ir embora para o oeste e tudo. A única coisa que eu queria fazer antes da partida era me despedir da Phoebe. Por isso, de repente, atravessei a rua correndo como um doido – pra dizer a verdade, por um triz não morri atropelado – entrei numa papelaria e comprei um bloco e um lápis. Resolvi que ia escrever um bilhete para ela, marcando um encontro para que eu pudesse lhe dizer adeus e devolver o dinheiro das compras de Natal; aí levaria o bilhete para a escola dela e daria um jeito para que alguém do gabinete do diretor lhe entregasse. Mas acabei guardando o bloco e o lápis no bolso e comecei a andar depressa na direção da escola – estava nervoso demais para escrever o bilhete ali mesmo na papelaria. Tinha que andar rápido, porque queria que ela recebesse o bilhete antes de ir para casa almoçar, e não sobrava muito tempo.
Naturalmente, sabia onde era a escola dela, porque eu também havia estudado lá quando era garoto. Quando cheguei, foi engraçado. Não tinha certeza se me lembraria de como era a escola por dentro, mas vi que me lembrava. Tudo continuava exatamente como no meu tempo. Tinha o mesmo pátio enorme do lado de dentro, sempre meio escuro, com aquelas telas de arame em volta das lâmpadas para não se quebrarem com uma bolada. Os mesmos círculos de giz pelo chão todo, para as brincadeiras de pular. E as mesmas cestas de basquete sem rede - só as tabelas e os aros.
Não havia ninguém à vista, provavelmente porque não era hora do recreio e nem tinha chegado ainda a hora do almoço. Só vi um garotinho, um pretinho, a caminho do banheiro. Do bolso dele saia um daqueles passes de madeira, como nós costumávamos usar, para mostrar que ele tinha permissão para ir ao banheiro.
Eu ainda estava suando, mas não tanto quanto antes. Fui até as escadas, sentei no primeiro degrau e tirei do bolso o bloco e o lápis que tinha comprado. As escadas tinham o mesmo cheiro de quando eu estudava lá, como se alguém tivesse acabado de dar uma mijada por ali. Todas as escadas de escola têm esse cheiro. Seja como for, sentei e escrevi um bilhete:
Querida Phoebe:

Não posso mais esperar até quarta-feira, por isso provavelmente vou partir hoje de tarde para o oeste, pegando carona. Encontre-me no Museu de Arte, juntinho à porta, ao meio-dia e quinze, se você puder, que eu quero devolver teu dinheiro de Natal. Não gastei muito.
Um beijo
Holden

A escola era pertinho do museu e ela tinha mesmo de passar por lá a caminho de casa para o almoço, por isso sabia que ela ia poder encontrar comigo.
Aí comecei a subir a escada em direção ao gabinete do diretor, para arranjar alguém que entregasse o bilhete a ela na sala de aulas. Dobrei o papel umas dez vezes, para que ninguém o abrisse. Não se pode confiar em ninguém numa porcaria duma escola. Mas, como eu era irmão dela e tudo, sabia que eles entregariam o bilhete.
De repente, enquanto subia a escada, pensei outra vez que ia vomitar. Só que não vomitei. Sentei um minuto e me senti melhor. Mas, enquanto estava sentado, vi uma coisa que me deixou maluco de raiva. Alguém tinha escrito "Foda-se" na parede. Fiquei furioso de ódio. Imaginei a Phoebe e todas as outras crianças lendo o que estava escrito: iam ficar pensando que diabo significava aquilo, até que, afinal, algum garoto sujo ia dizer a elas - naturalmente tudo errado - o que queria dizer aquela palavra. E elas todas iam ficar pensando na coisa, e talvez até se preocupando com aquilo durante alguns dias. Me deu vontade de matar o safado que tinha escrito aquilo. Imaginei que devia ter sido algum tarado, que havia entrado escondido na escola tarde da noite, para dar uma mijada ou coisa parecida, e aí tivesse escrito aquilo na parede. Me imaginei pegando o sacana em flagrante e batendo com a cabeça dele nos degraus de pedra, até que ele estivesse todo ensanguentado e bem morto. Mas eu sabia também que não ia ter coragem de fazer um negócio desses. Sabia disso e fiquei ainda mais deprimido. Eu quase não tinha coragem nem mesmo de apagar o troço com a mão, para dizer a verdade. Fiquei com medo de que algum professor me pegasse apagando e pensasse que eu é que tinha escrito aquilo. Mas, finalmente, acabei apagando. Aí subi para o gabinete do diretor.
Acho que o diretor não estava por lá, mas uma velhinha de uns cem anos de idade estava sentada, batendo a máquina. Eu disse que era irmão da Phoebe Caulfield, da classe 4B-1, e pedi que me fizesse o favor de entregar o bilhete à Phoebe. Falei que era muito importante, porque minha mãe estava doente e não podia aprontar o almoço da Phoebe, e que por isso ela tinha de se encontrar comigo para comer numa lanchonete. A velhinha foi muito simpática. Apanhou o bilhete e chamou outra mulher, na sala ao lado, e a outra foi entregar o bilhete à Phoebe. Aí, eu e a velhinha que devia ter uns cem anos batemos um papinho. Ela era muito simpática e eu disse que também tinha estudado lá, como todos os meus irmãos. Perguntou-me onde é que eu estava estudando agora e, quando falei que era no Pencey, ela disse que era um colégio muito bom. Mesmo que eu quisesse, não teria forças para convencê-la do contrário. Além disso, se pensava que o Pencey era um colégio muito bom, melhor para ela. É muito chato dizer alguma coisa nova para alguém que tem uns cem anos de idade. Eles não gostam de ouvir novidades. Aí, depois de algum tempo, fui embora. Foi engraçado: ela me gritou "Felicidades!", igualzinho ao velho Spencer quando eu saí do Pencey. Puxa, que raiva que me dá quando alguém berra "Felicidades!" quando estou indo embora de algum lugar. É deprimente pra burro.
Desci por outra escada e vi outro "Foda-se" na parede. Tentei apagar outra vez com a mão, mas esse tinha sido riscado na parede, com um canivete ou coisa parecida. Não saía de jeito nenhum. De qualquer maneira, é bobagem mesmo. Mesmo que a gente vivesse um milhão de anos, não conseguiria apagar nem a metade dos "Foda-se" escritos pelo mundo. É impossível.
Olhei o relógio do pátio de recreio e eram só vinte para o meio-dia, por isso ainda tinha um bocado de tempo para matar enquanto esperava pela Phoebe. Mas, de qualquer modo, fui andando mesmo para o museu. Não tinha nenhum outro lugar para ir. Pensei que talvez pudesse parar numa cabine telefônica e dar uma palavrinha com a Jane Gallagher antes de começar a minha viagem de carona para o oeste, mas não me deu vontade. Aliás, nem sabia se ela já tinha chegado de férias. Por isso, fui mesmo até o museu e fiquei zanzando por lá.
Enquanto esperava pela Phoebe no museu, do lado de dentro, bem junto da porta e tudo, dois garotinhos chegaram perto de mim e perguntaram se eu sabia onde ficavam as múmias. Um deles, o que me fez a pergunta, estava com a braguilha desabotoada. Disse isso a ele, que se abotoou ali mesmo onde estava, em pé, falando comigo – nem se deu ao trabalho de ir para trás de uma pilastra nem nada. Achei o troço infernal. Tive vontade de rir, mas fiquei dom medo de me dar vontade de vomitar outra vez, por isso não ri.
Onde é que ficam as múmias? – ele repetiu. – Você sabe?
Resolvi fazer um pouco de hora com os dois.
As múmias? Quê que é isso? – perguntei a ele.
Num sabe? As múmias, esses caras mortos. Que eles enterram nos tumos e tudo. Tumos. Essa foi mesmo genial. Ele queria dizer túmulos.
Por que é que vocês dois não estão na escola? – perguntei.
Hoje num tem aula – respondeu o garoto que falava pelos dois. Na certa era mentira. Mas eu não tinha mesmo nada para fazer até a hora de encontrar com a Phoebe, por isso os ajudei a achar o lugar em que ficavam as múmias. Puxa, eu costumava saber exatamente onde era, mas já fazia anos que não ia ao museu.
Vocês dois se interessam muito pelas múmias? – perguntei.
É.
Teu amigo não sabe falar, é?
Ele num é meu amigo, é meu irmão.
Mas ele não sabe falar? – repeti. Olhei para o garoto que ainda não tinha dito uma palavra. – Será que você sabe falar? – perguntei a ele.
Sei sim – respondeu – mas não tou com vontade.
Afinal encontramos o lugar das múmias e entramos.
Você sabe como é que os egípcios enterravam os mortos? – perguntei ao que falava.
Não.
É, mas devia. É muito interessante. Eles embrulhavam as caras deles nuns panos, tratados com um preparado químico secreto. Desse jeito eles podiam ficar enterrados milhares de anos nos túmulos, sem as caras apodrecerem nem nada. Ninguém sabe como é que eles faziam isso, só os egípcios. Nem a ciência moderna.
Para se chegar até onde estavam as múmias, a gente tinha de descer uma espécie de corredor, com paredes de pedra nos dois lados, que eles tinham tirado lá mesmo da tumba de um faraó e tudo. Era um lugar de meter medo, e estava na cara que os dois sabichões que vinham comigo não estavam se divertindo muito. Andavam grudadinhos em mim, e o tal que não falava nunca vinha praticamente agarrado na minha manga.
Vambora – ele disse para o irmão. – Já vi tudo. Vambora, êi!
Aí ele deu meia volta e se mandou.
Ele é medroso pra burro – o outro disse. – Té logo!
E disparou também. Fiquei sozinho no túmulo. Até que, de certo modo, gostei. Estava tudo tão quieto e agradável. Aí, de repente, vi aquilo na parede. Outro "Foda-se". Escrito com lápis vermelho ou coisa parecida, bem embaixo da parte envidraçada da parede, perto das pedras.
Esse é que é o problema todo. Não se pode achar nunca um lugar quieto e gostoso, porque não existe nenhum. A gente pode pensar que existe, mas, quando se chega lá e está completamente distraído, alguém entra escondido e escreve "Foda-se" bem na cara da gente. É só experimentar. Acho mesmo que, se um dia eu morrer e me enfiarem num cemitério, com uma lápide e tudo, vai ter a inscrição "Holden Caulfield", mais o ano em que eu nasci e o ano em que morri e, logo abaixo, alguém vai escrever "Foda-se". Tenho certeza absoluta.
[…]

J. D. Salinger, em O Apanhador no Campo de Centeio

Capítulo 55 – O Velho Diálogo de Adão e Eva



Brás Cubas
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Virgília
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Brás Cubas
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Virgília
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Brás Cubas
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Virgília
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Brás Cubas
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Brás Cubas
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Virgília
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Brás Cubas
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Virgília
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Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

04/06/2026

Promessa | Maria Bethânia

O homem e a cidade



Agora, que não preciso mais ir à cidade todo dia, descubro um prazer novo em andar por essas velhas ruas do centro onde tanto vaguei outrora.
E pego um estranho dia de verão: há um alto nevoeiro aéreo sob o céu azul, mas o vento espanta alegremente as nuvens esgotadas de chover; o ar é fino, a luz é clara, a manhã é assanhada, com uma alegria de convalescente que pela primeira vez, depois de longa doença, sai a passear entre as árvores, o mar e as montanhas azuis.
Parece que estamos em maio ou setembro, num desses dias cambiantes e leves em que as folhas têm um brilho mais feliz. E sinto prazer em andar pela calçada larga da Rua do Passeio, em espiar as grandes vitrinas coloridas de presentes de Natal. (Não quero comprar nada, não preciso ganhar mais nada, não é verdade que recebi na minha porta a graça juvenil de uma rosa amarela?)
A calçada está cheia de gente, e é doce a gente se deixar ir andando à toa. Na Rua Senador Dantas vejo livros, camisas, aparelhos elétricos, discos, fuzis submarinos, gravatas; e os cartazes dizem que tudo é muito barato e fácil de comprar, os cartazes me fazem ofertas especiais para levar agora e só começar a pagar em fevereiro... Muito obrigado, muito obrigado, mas não preciso de nada. Entretanto, gosto de ver essa fartura de coisas: fico parado numa porta de mercearia contemplando reluzentes goiabadas e frascos de vinho, bebidas e gulodices de toda a espécie que vieram de terras longes se oferecerem a mim.
Mas de repente houve alguma coisa — a visão de um muro, o som de uma vitrola distante, algum rosto no meio da multidão? —, alguma coisa que me devolveu ao meu ser antigo. Sou um rapaz magro nesta mesma rua, sou o verdadeiro estudante de 1929 e talvez cruze numa esquina, sem conhecê-la ainda, aquela que há de ser a minha amada, e tire do bolso a minha carteirinha da Faculdade para ter direito ao abatimento no cinema. Mas logo, por um instante, sou o homem dramático e silencioso de 1938, e caminho carregado de angústia por essa calçada que, entretanto, é a mesma de hoje — há o vento palpitando nos vestidos coloridos de mulheres finas que sorriem com dentes muito brancos entre os lábios úmidos. E vou andando, tomo um café, sinto uma grande ternura pela cidade grande onde outrora te amei tanto, tanto, oh! para sempre perdida Lenora.
Lenora... E me dá uma humildade entre o povo, completo o dinheiro da entrada de um menino que quer ir ao cinema, espero um bonde, ajudo uma senhora gorda a subir com seu embrulho, ela agradece e sorri, é cinquentona e pobre, mas seu sorriso é bom, ela e eu somos cidadãos da mesma cidade e antes de saltar ela me desejará boas-entradas. Vem o condutor, tem cara de alemão e é gordo, mas ágil e paciente, todos pagam sua passagem na boa ordem civil e cordial. Um homem conduz uma gaiola dentro do bonde, todos querem ver o passarinho — é um pintassilgo, diz ele.
Quieto, vou repetindo sem voz, para mim mesmo, teu nome, Lenora — perdida, para sempre perdida, mas tão viva, tão linda, batendo os saltos na calçada, andando de cabelos ao vento dentro da minha cidade e de minha saudade, Lenora.
Rio, janeiro, 1960.

Rubem Braga, em Ai de ti, Copacabana

Especiarias



No fim, tudo se deve à comida insossa. Quando os mongóis e os turcos interromperam o suprimento por terra dos condimentos do Oriente, a era dos descobrimentos começou. A Europa descobriu que não podia viver sem tempero e lançou-se ao mar e à conquista de rotas alternativas para o cominho e, por acidente, outros mundos.
A América é um produto do paladar europeu. Toda a grande aventura imperial foi aromática, tangida pela pimenta e o gengibre, a hortelã e a noz-moscada. Homens rudes lançavam-se contra o desconhecido e a morte pelo rosmaninho. Navios inteiros eram tragados pelo mar e deixavam, na superfície, irônicas sopas de ervas. Até a poluição era inocente: se se rompesse um porão de navio, as praias se cobriam de grãos de mostarda, as gaivotas se intoxicavam com favos de baunilha. Desastre ecológico era quando os peixes engoliam alho, cebola e alcaparras e já vinham à tona prontos para a panela.
Outras fomes eram servidas, claro. A de ouro, a de prata, a de espaço. E a de sexo, pois as mulheres europeias também eram sem sal. Descobriu-se que o comércio de escravos era mais rentável do que o comércio de especiarias e não houve nenhum escrúpulo, ou reticência poética, em fazer a adaptação. Mas os novos mundos continuaram a ser governados pelo paladar da Europa. Não dá para calcular quanta gente morreu nos navios negreiros ou no trabalho escravo para que a classe operária inglesa tivesse açúcar no seu chá todos os dias, por exemplo. E é por falta de condimentos parecidos onde eles vivem que turistas europeus continuam desembarcando no Nordeste do Brasil para comer adolescentes.
A especiaria de hoje é a droga e não deixa de ser apropriado que cocaína pareça açúcar. O apetite servido é pelo delírio, não mais pela noz-moscada, e a carga viaja escondida. Quem transporta drogas é chamado de “mula” e há no apelido uma vaga evocação das caravanas do Oriente que enfrentavam bárbaros e ursos — em vez de fiscais na alfândega — só para dar uma sensação à Europa.

Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora

Ameaça

Os banqueiros não perdem por esperar. Ganham.

Millôr Fernandes, em A bíblia do caos

Treciziano, o bruto


[…]

Rasgamos sertão. Só o real. Se passou como se passou, nem refiro que fosse difícil-ah; essa vez não podia ser! Sobrelégios? Tudo ajudou a gente, o caminho mesmo se economizava. As estrelas pareciam muito quentes. Nos nove dias, atravessamos. Todos; bem, todos, tirante um. Que conto.
O que era ― que o raso não era tão terrível? Ou foi por graças que achamos todo o carecido, nãostante no ir em rumos incertos, sem mesmo se percurar? De melhor em bom, sem os maiores notáveis sofrimentos, sem em-errar ponto. O que era, no cujo interior, o Liso do Sussuarão? ― era um feio mundo, por si, exagerado. O chão sem se vestir, que quase sem seus tufos de capim seco em apraz e apraz, e que se ia e ia, até não-onde a vista não se achava e se perdia. Com tudo, que tinha de tudo. Os trechos de plano calçado rijo: casco que fere faíscas ― cavalo repisa em pedra azul. Depois, o frouxo, palmo de areia de cinza em-sobre pedras. E até barrancos e morretes. A gente estava encostada no sol. Mas, com a sorte nos mandada, o céu enuveou, o que deu pronto mormaço, e refresco. Tudo de bom socôrro, em az. A uns lugares estranhos. Ali tinha carrapato... Que é que chupavam, por seu miudinho viver? Eh, achamos rêses bravas ― gado escorraçado fugido, que se acostumaram por lá, ou que de lá não sabiam sair; um gado que assiste por aqueles fins, e que como veados se matava. Mas também dois veados a gente caçou ― e tinham achado jeito de estarem gordos... Ali, então, tinha de tudo? Afiguro que tinha. Sempre ouvi zum de abêlha. O dar de aranhas, formigas, abêlhas do mato que indicavam flores.
Todo o tanto, que de sede não se penou demais. Porque, solerte subitamente, pra um mistério do ar, sobrechegamos assim, em paragens. No que nem o senhor nem ninguém não crê: em paragens, com plantas.
De justiça, digo, também! uma regra se teve, sem se saber de quem foi que veio a ideia dessa combinação. Qual foi que a gente se apartou, em grupos de poucos, jornadeando com a maior distância aberta. Mas que, assim, quando um avistasse qualquer coisa diversa, podia dar sinal, chamando os outros para novidade boa.
Eu que digo. Mesmo, não era só capim áspero, ou planta peluda como um gambá morto, o cabeça-de-frade pintarrôxa, um mandacarú que assustava. Ou o xique-xique espinharol, cobrejando com suas lagartonas, aquilo que, em chuvas, de flôr dói em branco. Ou cacto preto, cacto azul, bicho luiz-cacheiro. Ah , não. Cavalos iam pisando no quipá, que até rebaixado, esgarço no chão, e começavam as folhagens ― que eram urtigão e assa-peixe, e o neves, mas depois a tinta-dos-gentíos de flôr belazul, que é o anil-trepador, e até essas sertaneja-assim e a maria-zipe, amarelas, pespingue de orvalhosas, e a sinhazinha, muito melindrosa flôr, que também guarda muito orvalho, orvalho pesa tanto! parece que as folhas vão murchar. E herva-curraleira... E a quixabeira que dava quixabas.
Digo ― se achava água. O que não em-apenas água de touceira de gravatá, conservada. Mas, em lugar onde foi córrego morto, cacimba d água, viável, para os cavalos. Então, alegria. E tinha até uns embrejados, onde só faltava o burití! palmeira alalã ― pelas veredas. E buraco-pôço, água que dava prazer em se olhar. Devido que, nas beiras ― o senhor crê? ― se via a coragem de árvores, árvores de mata, indas que pouco altaneiras! simaruba, o aniz, canela-do-brejo, pau-amarante, o pombo; e gameleira. A gameleira branca! Como outro-tempo se cantava!

Sombra, só de gameleira,
na beira do riachão…

Assim achado, tudo, e o mais, sem sobranço nem desgosto, eu apalpei os cheios. O respeito que tinham por mim ia crescendo no bom entendido dos meus homens. Os jagunços meus, os riobaldos, raça de Urutú-Branco. Além! Mas, daí, um pensamento ― que raro já era que ainda me vinha, de fugida, esse pensamento ― então tive. O senhor sabe. O que me mortifica, de tanto nele falar, o senhor sabe. O demo! Que tanto me ajudasse, que quanto de mim ia tirar cobro? ― Deixa, no fim me ajeito... ― que eu disse comigo. Triste engano. Do que não lembrei ou não conhecesse, que a bula dele é esta! aos poucos o senhor vai, crescendo e se esquecendo...
Daí, mesmo, que, certa hora, Diadorim se chegou, com uma avença. Para meu sofrer, muito me lembro. Diadorim, todo formosura.
Riobaldo, escuta! vamos na estreitez deste passo... ― ele disse; e de medo não tremia, que era de amor ― hoje sei.
...Riobaldo, o cumprir de nossa vingança vem perto... Daí, quando tudo estiver repago e refeito, um segredo, uma coisa, vou contar a você...
Ele disse, com o amor no fato das palavras. Eu ouvi. Ouvi, mas mentido. Eu estava longe de mim e dele. Do que Diadorim mais me disse, desentendi metade.
Só sei que, no meio reino do sol, era feito parássemos numa noite demais clareada. Assim figuro. Dentro de muito sol, eu estava reparando uma cena! que era um jumentinho, um jegue já selvagem caatingano, no limpo do campo caçando o que roer, assaz pelos cardos.
Eu não tinha de tomar tento em coisas mais graves? Mire veja o senhor. Picapau vôa é duvidando do ar. Que tal Zé Bebelo ― na hora me lembrei ― quando mal irado, ou quando conforme querendo impôr medo a todos! ― Norte de Minas! Norte de Minas...! ― o que bramava. E ele estava com a razão. Mas Zé Bebelo era projetista. Eu, eu ia por meu constante palpite. Usando de toda ajuda que me vinha, mas prevenido sempre contra o Maligno: que o que rança, o que azéda. As traças dele são novas sempre, e povoadas tantas, são que nem os tins de areia grãoindo em areal. Então eu não sabia?!
Ah, quase que eu estava cogitando nisso, quando o homem rosnou. Quem ele era, digo, em qualidade: um, troncudo, pardaz, genista, filho não sei de que terra. Assim, casta de gente?
Ah, não. Por meu bem, eu estava em todo o meu siso. Até mais. Não faço caso! ― eu disse, isto é: pensei dizendo. Eu não queria somar com aquilo nenhum; porque cheirava ao Cujo: esses estratagemas. Era do demo... ― eu tirei um enredo. Pois, então, paz... ― eu falei, me falei. ...Não faço conta... ― me prometi. Eu estava em manhas. Estive que estive no embalançar, em equilibrável. Tico tanto pensei. Mas tudo era frisado ligeiro, ligeiro, feito cavalo que pressente fúria de boi.
Aí escutei a voz ― a voz dele tremia nervosa, como de cabrito; da maneira que gritou ― à briga. Um desfeliz. Levei os olhos.
Ah, quem o homem era, eu já sabia, ele se chamava Treciziano. O bruto; para falar com ele, só a cajado. Eu sabia. Rebém, que desconfiei do demo. Ali esse Treciziano era fraco de paciências; ou será que estivesse curtindo mais sede do que os outros segundo esse tremor das ventas ― e pegou a malucar? Diziam que ele criava dôr-de-cabeça, e padecia de erupções e dartros. Estava falando contra comigo, reclamando, gritou uma ofensa. Homem zuretado, esbrasêia os olhos. Eu, senhor de minhas inteligências, como fica dito. Eu estava podendo refleitir, em passo de jumento. ― Siô, deixa o padre ofrecer missa... ― falei para mim mesmo. Eu queria tolerar, primeiro: porque o demo não era homem para mandar em mim e me pôr em raiva. Aí, era só eu forçar calma, tenteador; depois, com palavras de energia boa, eu acautelava evitando a jerimbamba, e daí repreendia esse Treciziano, revoltoso, próprio por autoridade minha, mas sem pau nem pedra. Que dessa ― chefe eu ― o O não me pilhava…
Mas ― ah! ― quem diga! um faz, mas não estipula. O que houve, que se deu. Que vi. Com a sede sofrida, um incha, padece nas vistas, chega fica cego. Mas vi. Foi num átimo. Como que por distraído! num dividido de minuto, a gente perde o tino por dez anos. Vi! ele ― o chapéu que não quebrava bem, o punhal que sobressaía muito na cintura, o monho, o mudar das caras... Ele era o demo, de mim diante... O Demo!... Fez uma careta, que sei que brilhava. Era o Demo, por escarnir, próprio pessoa!
E ele endireitou pontudo para sobre mim, jogou o cavalo... O demo? Em mim, danou-se! Como vinha, terrível, naquele agredimento de boi bravo. Levantei nos estribos. ― E-hê!... Esse luzluziu a faca, afiafe, e urrou de ódio de enfiar e cravar, se debruçando, para diante todo. Tirou uma estocada. Cerrei com ele... A ponta daquela pegou, por um mau movimento, nas coisas e trens que eu tinha na cintura e a tiracol! se prendeu ali, um mero. Às asas que eu com a minha quicé, a lambe leal ― pajeuzeira ― em dura mão, peguei por baixo o outro, encortei-recortei desde o princípio da nuca ― ferro ringiu rodeando em ossos, deu o assovião esguichado, no se lesar o cano-do-ar, e mijou alto o sangue dele. Cortei por cima do adão... Ele Outro caíu do cavalo, já veio antes do chão com os olhos duros apagados... Morreu maldito, morreu com a goela roncando na garganta!
E o que olhei? Sangue na minha faca ― bonito brilho, feito um verniz veludo... E ele! estava rente aos espinhos dum mandacarú-quadrado. Conforme tinha sido. Ah-oh! Aoh, mas ninguém não vê o demônio morto... O defunto, que estava ali, era mesmo o do Treciziano!
A morte dele deu certo. E era, segundo tinha de ser? E tinha de ser, por tanto que o demo não existe! As tramóias, armadilhas... Nem nunca mais, daí por diante, eu queria pensar nele. Nem no pobre do Treciziano, que estava ali, degolal, que eu tinha... Um frio profundíssimo me tremeu. Sofri os pavôres disso da mão da gente ser capaz de ato sem o pensamento ter tempo. Somente todos me gabaram, com elogios e palavras prezáveis, porque a minha chefia era com presteza. Fosse de tiro, tanto não admiravam a tanto, porque a minha fama no gatilho já era a qual; à faca, eh, fiz! E do outro grupo, longe mas que era o mais perto, da banda da mão esquerda, um escutou ou viu, e veio. Era o Jiribibe, mocinho Jiribibe, num cavalo preto galopeiro. Diadorim tinha disparado tiro, só esmo; de nervosia. Dentro de pouco, todos iam ficar cientes da proeza daquele homem tão morto: das beiras do corte ― lá nele ― a pele subia repuxada, a outra para baixo tinha descaído tamanhamente, quase nas maminhas até; deixavam formado o buraco medonho horrendo, se aparecendo a toda carnança. Aí Alaripe esclareceu: ― Ao que sei, este era da Serra dUmã... O de tão longe, o sapo leiteiro! Uns estavam remexendo nele ― não tinha um pêlo nos peitos. Assim queriam desaliviar aquele corpo, das coisas de valor principais. Do que alguém disse que ele guardava: um dixe, joiazinha de prata; e as esporas eram as excelentes, de bom metal.
Não turveei. Morte daquela cabra era em ramo de suicídios.
A modo que morreu? Ele foi para os infernos? ― indagou em verdade o menino Guirigó. Antes o que era que eu tinha com isso, como todos me louvaram? Sendo minha a culpa ― a morte, isto sei; mas o senhor me diga, meussenhor: a horinha em que foi, a horinha? Como que o cego Borromeu garrou um fanhoso recitar, pelos terços e responsos. Medo de cego não é o medo real. Diadorim me olhava ― eu estivesse para trás da lua. Só aí, revi o sangue. Aquele, em minha roupa, a plasta vermelha fétida. Do sangue alheio que grosso me breava, mal me alimpei o queixo; eu, desgostoso de sangue, mas deixava, de sinal? Ah, não, pois ali me salteou o horror maior. Sangue... Sangue é a coisa para restar sempre em entranhas escondida, a espécie para nunca se ver. Será por isso também que imensa mais é a oculta glória de grandeza da hóstia de Deus no ouro do sacrário ― toda alvíssima! ― e que mais venero, com meus joelhos no duro chão.
Por mais, o corpo ali ficava, para o ar do raso. Sumimos de lá, há-de que tocávamos, adiante. À viajadamente eu ia, desconversei meu espírito. Até às alelúias!
Que, como conto. Aquele Treciziano tinha redobrado destino de triste-fim de louco. Pois nem bem três léguas andadas, daí depois, a gente saía do Liso, como que a ponto! dávamos com uma varzeazinha e um esporão de serra; chapadas, digo. Apeei na terra cristã. Se estava no para ver esses campos crondeubais da Bahia.
[…]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

03/06/2026

Marcos Sacramento e Zé Paulo Becker ft. Ney Matogrosso | Canto de Ossanha

Benefício comum

Algum homem sentirá desprezo por mim? Deixe-o cuidar disso sozinho. Enquanto isso, cuidarei para não fazer ou dizer nada desprezível.
Alguém me odiará? Deixe-o ser responsável por isso. Em oposição, serei brando e benevolente com todos. Caso não assuma o erro, eu me prontificarei para apontá-lo, não visando reprimir ou exibir a minha tolerância, mas, sim, ser nobre e honesto — como o grande Focion, na hipótese de que ele não dissimulava. O interior do homem deve ser assim, e os deuses não devem encontrá-lo insatisfeito ou reclamando.
Quais males podem o atingir caso você aja conforme a sua natureza e se satisfaça com o que é apropriado à natureza universal — considerando que é um ser humano encarregado de agir em favor do benefício comum?

Marco Aurélio, em Meditações

Solo de clarineta

As pétalas da flor-seca, a sempre-viva,
do que mais gosto em flor.
Do seu grego existir de boniteza,
sua certa alegria.
É preciso ter morrido uma vez e desejado
o que sobre as lápides está escrito
de repouso e descanso, pra amar seu duro odor
de retrato longínquo, seu humano conter-se.
As severas.

Adélia Prado, em Bagagem

Minha mãe



Todo mundo gosta de beleza. Até os pobres. A pobreza também se enfeita. Primeiro era preciso limpar a casa abandonada. Varrer. Tirar as teias de aranha e os picumãs. Picumãs eram estalactites que ficavam pendurados sobre o fogão de lenha, formados pela combinação de teias de aranha e gordura e que, segundo as benzedeiras, tinham extraordinários poderes medicinais para a cicatrização de umbigos. O fogão tinha de ser limpo, cheio que estava com as cinzas deixadas por moradores anteriores. Era preciso caçar os ovos de baratas escondidos nas gretas.
Havia as prateleiras de tábua que o tempo, o pó, a fumaça das lamparinas e do fogão haviam pretejado. As mulheres da cidade enfeitavam suas prateleiras com pano bordado. A Adélia Prado, numa declaração de amor, escreveu ao seu amado: “Você me espicaça como o desenho do peixe na guarnição da cozinha”... Nunca me passou pela cabeça que guarnição de cozinha pudesse entrar em declaração de amor... Quando não tinha pano bordado o jeito era comprar papel cor-de-rosa para fazer os enfeites. Se não tinha nem pano com peixe bordado nem papel comprado o jeito era usar jornal. Minha mãe repicava jornal pra dar uma alegria pobre às prateleiras. E plantava roseiras. Uma roseira florida era sinal de nobreza! Com as rosas brancas trepadeiras se fazia chá pra pôr nos olhos, como colírio. Havia uma coisa que não tinha jeito: os ratos. De noite ficavam correndo entre os caibros redondos e as telhas. Ninguém se assustava. Ninguém gritava. Ninguém corria. Sabia-se que era inútil. O jeito era conviver com eles.
Eu não tinha brinquedos. Acho que nem sabia o que eram brinquedos, desses que se compram em lojas. Minha mãe me fazia uns brinquedos. Ela era uma artesã consumada em petecas de palha com penas de galinha. E fazia-me corrupios com botões grandes e barbante. E ensinou-me a fazer barquinhos e chapéus de papel, e a dobrar jornal para recortar dezenas de bonequinhos de mãos dadas. O livro que mais me encantava tinha sido dela, quando criança. Eram gravuras que faziam sonhar. Um negro arrastando-se na direção de um jacaré de boca aberta para enfiar verticalmente dentro de sua boca um pau pontudo. Quando ele fechasse a boca estaria preso. Eu pensava: “Será que ele conseguiu?”. Uma gravura de um prédio em Nova York com a seguinte explicação: “Nos Estados Unidos há casas com dez andares”. Uma família de esquimós, pais e filhos vestidos com peles, saudando o sol que aparecia depois de seis meses de noite. E a mais querida: um menino e uma menina fazendo um minijardim com árvores, riachinhos, pontes, cachoeiras. Brincava com pedras, bichos, sabugos de milho, arcos de barril. Da minha mãe recebi minha primeira lição de teologia, embora ela o fizesse com boas intenções. De noite, antes de dormir, ela me fazia repetir: “Agora me deito para dormir. Guarda-me o Deus em teu amor. Se eu morrer sem acordar, recebe a minhalma, ó Senhor, amém”. Essa reza me ensinou que é perigoso dormir. A gente está distraído, guarda baixa, e é possível que a morte ataque. Aprendi que a gente morre. Por isso é preciso Deus, por causa da morte. O sono é uma morte da qual se acorda. Toda noite eu repetia a lição. E aprendi que, morrendo, a alma, uma coisa que mora no corpo, volta para Deus. Eu não queria voltar para Deus. Preferia a terra ao céu. Deus, que pode tudo, bem que poderia me proteger da morte, dando-lhe ordens ao contrário...
Ela também me contava estórias. Uma delas tinha um refrão: “Jingue-le-jingue que eu vou para a Angola...” . Eu não sabia o que era Angola. Depois ela me disse que essa estória fora a Iaiá que lhe contara. A Iaiá era uma escrava que permanecera na casa do meu avô mesmo depois da Lei Áurea. Ficara porque não tinha para onde ir. Aí entendi o que era Angola. Era a Iaiá que cuidava da minha mãe quando menina. Uma outra estória era a da madrasta que enterrara a enteada como castigo por não haver impedido que os passarinhos bicassem os figos da figueira. Mas seus cabelos brotaram do fundo da terra. O jardineiro, ao tentar capiná-los, ouviu um canto melancólico: “Jardineiro do meu pai não capine meus cabelos. Minha mãe me penteava. Minha madrasta me enterrou pelo figo da figueira que o passarinho buscou”. Ao final o pai salva a filha da sepultura onde a madrasta a enterrara. Que maravilhoso tema para uma meditação psicanalítica! E cantava para me fazer dormir: “Tatu subiu no pau, é mentira de você. Lagarto, lagartixa, isso sim que pode ser...” .

Rubem Alves, em O Velho que Acordou Menino

1624 – Sevilha

O último capítulo de “A vida do buscão”

O rio reflete o homem que o interroga.
Aonde mando o malandro? Hei de mandá-lo à morte?
Dançam sobre o Guadalquivir, lá no cais de pedra, as botas tortas. Este homem tem o costume de agitar os pés enquanto pensa.
Eu decido. Fui eu quem o fez nascer filho de barbeiro e bruxa e sobrinho de verdugo. Eu o coroei príncipe da vida buscona no reino dos piolhos, mendigos e enforcados.
Brilham os óculos nas águas esverdeadas, cravados nas profundidades, perguntando, perguntadores:
Que faço? Eu o ensinei a roubar frangos e implorar esmola pelas chagas de Cristo. De mim aprendeu maestrias em dados, baralhos e espadas. Com minhas artes foi gala de monjas e ator.
Francisco de Quevedo franze o nariz para acomodar os óculos.
Eu decido. Que mais remédio tenho? Jamais se viu novela, na história das letras, que não tenha capítulo final.
Estica o pescoço entre os galeões que vêm, arriando as velas rumo ao cais.
Ninguém sofreu como eu. Não fiz minhas as suas fomes, quando rangiam suas tripas e nem os exploradores encontravam seus olhos? Se dom Pablos deve morrer, devo matá-lo. Ele é cinza, como eu, que sobrou da chama.
De longe, um menino esfarrapado olha o cavaleiro que coça a cabeça, inclinado sobre o rio. “Uma coruja”, pensa o menino. E pensa: “A coruja está louca. Quer pescar sem anzol”.
E Quevedo pensa.
Matá-lo? Não é fama, então, que traz má sorte quebrar espelhos? Matá-lo. E se tomassem o crime por justo castigo ao seu mau viver? Tremenda alegria para inquisidores e censores! Só de imaginar sua felicidade, me dá voltas na tripa.
Explode, então, uma gritaria de gaivotas. Um navio da América está ancorando. De um pulo, Quevedo se põe a caminhar. O menino o persegue, imitando o andar bambo.
Resplandece a cara do escritor. No cais encontrou o destino que seu personagem merece. Enviará dom Pablos, o buscão, às Índias. Onde, a não ser na América, poderia terminar seus dias? Já tem desembocadura a sua novela e Quevedo se afunda alucinado, nesta cidade de Sevilha, onde sonham os homens com navegações, e as mulheres, com regressos.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

I’ll Follow the Sun | Paul McCartney e John Lennon


I’ll Follow the Sun, de Paul McCartney e John Lennon

One day you’ll look
To see I’ve gone
For tomorrow may rain, so
I’ll follow the sun

Some day you’ll know
I was the one
But tomorrow may rain, so
I’ll follow the sun

And now the time has come
And so, my love, I must go
And though I lose a friend
In the end you will know, oh

One day you’ll find
That I have gone
But tomorrow may rain, so
I’ll follow the sun

Yes tomorrow may rain, so
I’ll follow the sun

And now the time has come
And so, my love, I must go
And though I lose a friend
In the end you will know, oh

One day you’ll find
That I have gone
But tomorrow may rain, so
I’ll follow the sun

A última casa em que morei em Liverpool fica no endereço 20 Forthlin Road. A essa altura, já tínhamos melhorado de vida. A minha mãe tinha grandes aspirações para nós e encontrou essa casa numa área relativamente agradável. As cortinas eram de renda, talvez por isso eu ainda faça questão de ter cortinas de renda em todos os lugares. Um hábito irlandês, acho eu. Assim, o pessoal não consegue espiar lá dentro. Eu me lembro de tocar esta canção na sala de estar com meu violão. Se você for analisar, é uma canção sobre “deixar Liverpool”. Estou deixando esta cidade chuvosa nortista e indo a um lugar onde as coisas acontecem.
A melodia é interessante também. Eu estava procurando novas combinações de notas marcantes. Tem algo de muito original nela. Uma das minhas canções favoritas da época do meu pai era “Cheek to Cheek”, a canção de Fred Astaire, e eu gosto que o verso “Heaven, I’m in heaven” aparece em duas estrofes e, depois do contraste, o “céu” volta na última estrofe. É uma frase que resume tudo. Era como a nossa casa na Forthlin Road. Você entra pela porta da frente, passa na sala de estar, na sala de jantar, cozinha, corredor e está de volta ao ponto de partida. “I’ll Follow the Sun” também faz isso.
Mesmo se estivéssemos abertos a receber influências, uma das melhores coisas nos Beatles era nossa aversão a nos repetirmos. Éramos moços inteligentes; tédio não era conosco. Quando tocamos em Hamburgo, às vezes tínhamos que preencher um período de oito horas. Tentamos aprender canções suficientes para não precisarmos repeti-las. Algumas bandas tinham só um set de uma hora, folgavam uma hora e depois repetiam o mesmo set. Tentávamos variar, porque decidimos que, caso contrário, simplesmente não sobreviveríamos. Quando voltamos à Inglaterra, tínhamos um vasto repertório, e acho que, quando começamos a fazer discos, essa ideia persistiu. Por que ficar nos repetindo? Por que fazer duas vezes o mesmo disco?
É verdade que, como já falei, existia uma certa fórmula para algumas das primeiras canções – a recorrência de pronomes como “eu”, “você”, “mim”, “dele”, “dela”, “meu”, “ela” –, mas isso era porque queríamos estabelecer contato com os fãs. Criar um vínculo com eles. Mas não eram padronizadas. O que fez dos Beatles uma banda tão sensacional foi a diversidade do repertório: não há duas músicas iguais. É incrível quando você pensa nessa produção. E tem outra coisa. John e eu escrevemos cerca de trezentas canções em sessões que duravam poucas horas ou um só dia, e nunca – nunca mesmo – saímos de uma sessão dessas sem terminar uma canção. Sempre que nos sentávamos para compor, só saíamos dali quando tínhamos uma canção.

Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente

02/06/2026

Chico Chico e Orquestra Sesiminas | Admirável Gado Novo / Toada

A coincidência



Conheceram-se na feira. Jorge estava apoiado no cabo do velho guarda-chuva tentando tirar alguma coisa agarrada à sola do sapato, quando teve sua atenção atraída por uma reclamação:
Puxa, mas o preço do tomate tá uma indecência!
Por uma dessas caraminholas da mente, a soma de tomate e indecência deu, na cuca do Jorge, um resultado bastante diverso do real. Jorge procurou a dona da voz e constatou que todas as besteiras esboçadas no bestunto eram poucas diante daquele — sentiu o cheiro de outra barraca — peixão. Forçando a abordagem, Jorge, que detestava tomate, juntou seus mais veementes protestos aos dela, chegando a fazer uma ridícula imitação de um personagem de tevê:
O tomatal tem que tomatar!
A moça achou graça e Jorge completou com um galanteio na medida:
Mas meu negócio não é número. Meu negócio é me apaixonar de repente — numa feira, por exemplo — e levar meu novo amor pra conhecer meu apartamento, aqui pertinho. Todas ficam amarradas em minha vista pro mar.
A moça, que normalmente repeliria uma entrada de sola, caiu na esparrela:
Seu apartamento tem vista pro mar? Aqui?
Meu apartamento dá pra um terreno baldio. Eu é que dou vista pro mar. Espia bem nos meus olhos: verdinhos, né?
Uma expressão de carinho surgiu no rosto da moça e Jorge sentiu que era só dar mais um pouco de linha antes de usar o cerol. Ficou propenso a utilizar a tática aprendida com a edificante leitura de O Último Tango em Paris: nada de nomes.
A verdade é que o Jorge tinha certa bronca do seu nome:
Jorge Goulart Cauby Peixoto da Silva. O da Silva era de sua mãe, assídua frequentadora da Rádio Nacional nos áureos tempos dos grandes programas de auditório. Mãe solteira, colocara no filho seu modesto sobrenome coroando a fusão dos nomes de seus maiores ídolos. Jorge achava tudo isso meio ridículo e só declarava o nome completo em caso de absoluta necessidade.
E a necessidade surgiu quando a moça, já devidamente cantada, teve um capricho maluco:
Vou, mas quero ver tua carteira de identidade. Você tá escondendo alguma coisa de mim.
Mas, minha flor...
Não tem mas-mas. Ou mostra a carteira ou fica na saudade.
Jorge cedeu. A moça, ao contrário do que Jorge esperava, não riu:
Que estranho! Imagina você que meu pai era assíduo frequentador da Rádio Nacional e...
Aterrorizado, Jorge interrompeu a moça:
Como é teu nome?
Jezebel Conceição de Souza.
Ô mundinho danado de pequeno — pensou o Jorge, de pau, quer dizer, de guarda-chuva na mão.

Aldir Blanc, em Rua dos Artistas e Arredores