sábado, 23 de maio de 2026
A procura de uma dignidade
A Sra. Jorge B. Xavier simplesmente
não saberia dizer como entrara. Por algum portão principal não
fora. Pareceu-lhe vagamente sonhadora ter entrado por uma espécie de
estreita abertura em meio a escombros de construção em obras, como
se tivesse entrado de esguelha por um buraco feito só para ela. O
fato é que quando viu já estava dentro.
E quando viu, percebeu que estava
muito, muito dentro. Andava interminavelmente pelos subterrâneos do
Estádio do Maracanã ou pelo menos pareceram-lhe cavernas estreitas
que davam para salas fechadas e quando se abriam as salas só havia
uma janela dando para o estádio. Este, àquela hora torradamente
deserto, reverberava ao extremo sol de um calor inusitado que estava
acontecendo naquele dia de pleno inverno.
Então a senhora seguiu por um
corredor sombrio. Este a levou igualmente a outro mais sombrio.
Pareceu-lhe que o teto dos subterrâneos eram baixos.
E aí este corredor a levou a outro
que a levou por sua vez a outro.
Dobrou o corredor deserto. E aí caiu
em outra esquina. Que a levou a outro corredor que desembocou em
outra esquina.
Então continuou automaticamente a
entrar pelos corredores que sempre davam para outros corredores. Onde
seria a sala da aula inaugural? Pois junto desta encontraria as
pessoas com quem marcara encontro. A conferência era capaz de já
ter começado. Ia perdê-la, ela que se forçava a não perder nada
de cultural porque assim se mantinha jovem por dentro, já que até
por fora ninguém adivinhava que tinha quase 70 anos, todos lhe davam
uns 57.
Mas agora, perdida nos meandros
internos e escuros do Maracanã, a senhora já arrastava pés pesados
de velha.
Foi então que subitamente encontrou
num corredor um homem surgido do nada e perguntou-lhe pela
conferência que o homem disse ignorar. Mas esse homem pediu
informações a um segundo homem que também surgira repentinamente
ao dobramento do corredor.
Então este segundo homem informou que
havia visto perto da arquibancada da direita, em pleno estádio
aberto, “duas damas e um cavalheiro, uma de vermelho”. A Sra.
Xavier tinha dúvida de que essas pessoas fossem o grupo com quem
devia se encontrar antes da conferência, e na verdade já perdera de
vista o motivo pelo qual caminhava sem nunca mais parar. De qualquer
modo seguiu o homem para o estádio, onde parou ofuscada no espaço
oco de luz escancarada e mudez aberta, o estádio nu desventrado, sem
bola nem futebol. Sobretudo sem multidão. Havia uma multidão que
existia pelo vazio de sua ausência absoluta.
As duas damas e o cavalheiro já
haviam sumido por algum corredor?
Então o homem disse com desafio
exagerado: “Pois vou procurar para a senhora e vou encontrar de
qualquer jeito essa gente, eles não podem ter sumido no ar.”
E de fato de muito longe ambos os
viram. Mas um segundo depois tornaram a desaparecer. Parecia um jogo
infantil onde gargalhadas amordaçadas riam da Sra. Jorge B. Xavier.
Então entrou com o homem por outros
corredores. Aí este homem também sumiu numa esquina.
A senhora já desistira da conferência
que no fundo pouco lhe importava. Contanto que saísse daquele
emaranhado de caminhos sem fim. Não haveria porta de saída? Então
sentiu como se estivesse dentro de um elevador enguiçado entre um
andar e outro. Não haveria porta de saída?
Então eis que subitamente lembrou-se
das palavras de informação da amiga pelo telefone: “fica mais ou
menos perto do Estádio do Maracanã.” Diante dessa lembrança
entendeu o seu engano de pessoa avoada e distraída que só ouvia as
coisas pela metade, a outra ficando submersa. A Sra. Xavier era muito
desatenta. Então, pois, não era no Maracanã o encontro, era apenas
perto dali. No entanto o seu pequeno destino quisera-a perdida no
labirinto.
Sim, então a luta recomeçou pior
ainda: queria por força sair de lá e não sabia como nem por onde.
E de novo apareceu no corredor aquele homem que procurava as pessoas
e que de novo lhe garantiu que as acharia porque não podiam ter
sumido no ar. Ele disse assim mesmo:
– As pessoas não podem ter sumido
no ar!
A senhora informou:
– Não precisa mais se incomodar de
procurar, sim? Muito obrigada, sim? Porque o lugar onde preciso
encontrar as pessoas não é no Maracanã.
O homem parou imediatamente de andar
para olhá-la perplexo:
– Então que é que a senhora está
fazendo aqui?
Ela quis explicar que sua vida era
assim mesmo, mas nem sequer sabia o que queria dizer com o “assim
mesmo” nem com “sua vida”, nada respondeu. O homem insistiu na
pergunta, entre desconfiado e cauteloso: que é que ela estava
fazendo ali? Nada, respondeu apenas em pensamento a senhora, já
então prestes a cair de cansaço. Mas não lhe respondeu, deixou-o
pensar que era louca. Além do mais ela nunca se explicava. Sabia que
o homem a julgava louca – e quem dissera que não? pois não sentia
aquela coisa que ela chamava de “aquilo” por vergonha? Se bem que
soubesse ter a chamada saúde mental tão boa que só podia se
comparar com sua saúde física. Saúde física já agora arrebentada
pois rastejava os pés de muitos anos de caminho pelo labirinto. Sua
via crucis. Estava vestida de lã muito grossa e sufocava suada ao
inesperado calor de um auge de verão, esse dia de verão que era um
aleijão do inverno. As pernas lhe doíam, doíam ao peso da velha
cruz. Já se resignara de algum modo a nunca mais sair do Maracanã e
a morrer ali de coração exangue.
Então, e como sempre, era só depois
de desistir das coisas desejadas que elas aconteciam. O que lhe
ocorreu de repente foi uma ideia: “mas que velha maluca eu sou”.
Por que em vez de continuar a perguntar pelas pessoas que não
estavam lá, não procurava o homem e indagava dele como se saía dos
corredores? Pois o que queria era apenas sair e não encontrar-se com
ninguém.
Achou finalmente o homem, ao dobrar de
uma esquina. E falou-lhe com voz um pouco trêmula e rouca por
cansaço e medo de ter vã esperança. O homem desconfiado concordou
mais do que depressa que era melhor mesmo que ela fosse embora para
casa e disse-lhe com cuidado: “A senhora parece que não está
muito bem da cabeça, talvez seja esse calor esquisito”.
Dito isto, então simplesmente o homem
entrou com ela no primeiro corredor e na esquina avistavam-se os dois
largos portões abertos. Apenas assim? tão fácil assim?
Apenas assim.
Então a senhora pensou sem nada
concluir que só para ela é que se havia tornado impossível achar a
saída. A Sra. Xavier estava apenas um pouco espantada e ao mesmo
tempo habituada. Na certa cada um tinha o próprio caminho a
percorrer interminavelmente, fazendo isto parte do destino, no qual
ela não sabia se acreditava ou não.
E havia o táxi passando. Mandou-o
parar e disse-lhe controlando a voz que estava cada vez mais velha e
cansada:
– Moço, não sei bem o endereço,
esqueci. Mas o que sei é que a casa fica numa rua –
não-me-lembro-mais-o-quê mas que fala em “Gusmão” e faz
esquina com uma rua se não me engano chamada Coronel-não-sei-quê.
O chofer foi paciente como com uma
criança: “Pois então não se afobe, vamos procurar calmamente uma
rua que tenha Gusmão no meio e Coronel no fim”, disse virando-se
para trás num sorriso e aí piscou-lhe um olho de conivência que
parecia indecente. Partiram aos solavancos que lhe sacudiam as
entranhas.
Então de repente reconheceu as
pessoas que procurava e que se achavam na calçada defronte de uma
casa grande. Era porém como se a finalidade fosse chegar e não a de
ouvir a palestra que a essa hora estava totalmente esquecida, pois a
Sra. Xavier se perdera de seu objetivo. E não sabia em nome de que
caminhara tanto. Então viu que se cansara para além das próprias
forças e quis ir embora, a conferência era um pesadelo. Então
pediu a uma senhora importante e vagamente conhecida e que tinha
carro com chofer para levá-la em casa porque não estava se sentindo
bem com o calor estranho. O chofer só viria daí a uma hora. Então
a Sra. Xavier sentou-se numa cadeira que tinham posto para ela no
corredor, sentou-se empertigada na sua cinta apertada, fora da
cultura que se processava defronte na sala fechada. De onde não se
ouvia som algum. Pouco lhe importava a cultura. E ali estava nos
labirintos de 60 segundos e de 60 minutos que a encaminhariam a uma
hora.
Então a senhora importante veio e
disse assim: que a condução estava à porta mas que lhe informava
que, como o chofer avisara que ia demorar muito, em vista da senhora
não estar passando bem, mandara parar o primeiro táxi que vira. Por
que a Sra. Xavier não tivera ela própria a ideia de chamar um táxi,
em vez de dispor-se a se submeter aos meandros do tempo de espera?
Então a Sra. Jorge B. Xavier agradeceu-lhe com extrema delicadeza. A
senhora era sempre muito delicada e educada. Entrou no táxi e disse:
– Leblon, por obséquio.
Tinha o cérebro oco, parecia-lhe que
sua cabeça estava em jejum.
Daí a pouco notou que rodavam e
rodavam mas que de novo terminavam por voltar para uma mesma praça.
Por que não saíam de lá? Não havia de novo caminho de saída? O
chofer acabou confessando que não conhecia a zona Sul, que só
trabalhava na zona Norte. E ela não sabia como ensinar-lhe o
caminho. Cada vez mais a cruz dos anos pesava-lhe e a nova falta de
saída apenas renovava a magia negra dos corredores do Maracanã. Não
havia meio de se livrarem da praça! Então o chofer disse-lhe que
tomasse outro táxi, e chegou mesmo a fazer sinal para um que passara
ao lado. Ela agradeceu comedidamente, fazia cerimônia com as
pessoas, mesmo com as conhecidas. Além do que era muito gentil. No
novo táxi disse a medo:
– Se o senhor não se incomodar,
vamos para o Leblon.
E simplesmente saíram logo da praça
e entraram por novas ruas.
Foi ao abrir com a chave a porta do
apartamento que teve vontade apenas mental e fantasiada de soluçar
bem alto. Mas ela não era de soluçar nem de reclamar. De passagem
avisou à empregada que não atenderia telefonema. Foi direto ao
quarto, tirou toda a roupa, engoliu sem água uma pílula e então
esperou que esta desse resultado.
Enquanto isso, fumava. Lembrou-se de
que era mês de agosto e diziam que agosto dava azar. Mas setembro
viria um dia como porta de saída. E setembro era por algum motivo o
mês de maio: um mês mais leve e mais transparente. Foi vagamente
pensando nisso que a sonolência finalmente veio e ela adormeceu.
Quando acordou horas depois então viu
que chovia uma chuva fina e gelada, fazia um frio de lâmina de faca.
Nua na cama ela enregelava. Então achou muito curioso uma velha nua.
Lembrou-se de que planejara a compra de uma echarpe de lã. Olhou o
relógio: ainda encontraria o comércio aberto. Tomou um táxi e
disse:
– Ipanema, por obséquio.
O homem disse:
– Como é que é? É para o Jardim
Botânico?
– Ipanema, por favor – repetiu a
senhora, bastante surpreendida. Era o absurdo do desencontro total:
pois, que havia em comum entre as palavras Ipanema e Jardim Botânico?
Mas de novo pensou vagamente que “era assim mesmo a sua vida”.
Fez rapidamente a compra e viu-se na
rua já escurecida sem ter o que fazer. Pois o Sr. Jorge B. Xavier
viajara para São Paulo no dia anterior e só voltaria no dia
seguinte.
Então, de novo em casa, entre tomar
nova pílula para dormir ou fazer alguma outra coisa, optou pela
segunda hipótese, pois lembrou-se de que agora poderia voltar a
procurar a letra de câmbio perdida. O pouco que entendia era que
aquele papel representava dinheiro. Há dois dias procurara
minuciosamente pela casa toda, e até pela cozinha, mas em vão.
Agora lhe ocorria: e por que não embaixo da cama? Talvez. Então
ajoelhou-se no chão. Mas logo cansou-se de só estar apoiada nos
joelhos e apoiou-se também nas duas mãos.
Então percebeu que estava de quatro.
Assim ficou um tempo, talvez
meditativa, talvez não. Quem sabe, a Sra. Xavier estivesse cansada
de ser um ente humano. Estava sendo uma cadela de quatro. Sem nobreza
nenhuma. Perdida a altivez última. De quatro, um pouco pensativa
talvez. Mas embaixo da cama só havia poeira.
Levantou-se com bastante esforço das
juntas desarticuladas e viu que nada mais havia a fazer senão
considerar com realismo – e era com um esforço penoso que via a
realidade – considerar com realismo que a letra estava perdida e
que continuar a procurá-la seria nunca sair do Maracanã.
E como sempre, já que desistira de
procurar, ao abrir a gavetinha de lenços para tirar um – lá
estava a letra de câmbio.
Então a senhora, cansada pelo esforço
de ter ficado de quatro, sentou-se na cama e começou muito à toa a
chorar de manso. Parecia mais uma lenga-lenga árabe. Há 30 anos não
chorava, mas agora estava tão cansada. Se é que aquilo era choro.
Não era. Era alguma coisa. Finalmente assoou o nariz. Então pensou
o seguinte: que ela forçaria o “destino” e teria um destino
maior. Com força de vontade se consegue tudo, pensou sem a menor
convicção. E isso de estar presa a um destino ocorrera-lhe porque
já começara sem querer a pensar em “aquilo”.
Mas aconteceu então que a senhora
também pensou o seguinte: era tarde demais para ter um destino. Ela
pensou que bem faria qualquer tipo de permuta com outro ser. Foi
então que lhe ocorreu que não havia com quem se permutar: que quer
que ela fosse, ela era ela e não podia se transformar numa outra
única. Cada um era único. A Sra. Jorge B. Xavier também era.
Mas tudo o que lhe acontecera ainda
era preferível a sentir “aquilo”. E aquilo veio com seus longos
corredores sem saída. “Aquilo”, agora sem nenhum pudor, era a
fome dolorosa de suas entranhas, fome de ser possuída pelo
inalcançável ídolo de televisão. Não perdia um só programa
dele. Então, já que não pudera se impedir de pensar nele, o jeito
era deixar-se pensar e relembrar o rosto de menina-moça de Roberto
Carlos, meu amor.
Foi lavar as mãos sujas de poeira e
viu-se no espelho da pia. Então a Sra. Xavier pensou assim: “Se eu
quiser muito, mas muito mesmo, ele será meu por ao menos uma noite.”
Acreditava vagamente na força de vontade. De novo se emaranhou no
desejo que era retorcido e estrangulado.
Mas, quem sabe? Se desistisse de
Roberto Carlos, então é que as coisas entre ele e ela aconteceriam.
A Sra. Xavier meditou um pouco sobre o assunto. Então espertamente
fingiu que desistia de Roberto Carlos. Mas bem sabia que a
desistência mágica só dava resultados positivos quando era real, e
não apenas um truque como modo de conseguir. A realidade exigia
muito da senhora. Examinou-se ao espelho para ver se o rosto se
tornaria bestial sob a influência de seus sentimentos. Mas era um
rosto quieto que já deixara há muito de representar o que sentia.
Aliás, seu rosto nunca exprimira senão boa educação. E agora era
apenas a máscara de uma mulher de 70 anos. Então sua cara levemente
maquilada pareceu-lhe a de um palhaço. A senhora forçou sem vontade
um sorriso para ver se melhorava. Não melhorou.
Por fora – viu no espelho – ela
era uma coisa seca como um figo seco. Mas por dentro não era
esturricada. Pelo contrário. Parecia por dentro uma gengiva úmida,
mole assim como gengiva desdentada.
Então procurou um pensamento que a
espiritualizasse ou que a esturricasse de vez. Mas nunca fora
espiritual. E por causa de Roberto Carlos a senhora estava envolta
nas trevas da matéria onde ela era profundamente anônima.
De pé no banheiro era tão anônima
quanto uma galinha.
Numa fração de fugitivo segundo
quase inconsciente vislumbrou que todas as pessoas são anônimas.
Porque ninguém é o outro e o outro não conhecia o outro. Então –
então a pessoa é anônima. E agora estava emaranhada naquele poço
fundo e mortal, na revolução do corpo. Corpo cujo fundo não se via
e que era a escuridão das trevas malignas de seus instintos vivos
como lagartos e ratos. E tudo fora de época, fruto fora de estação?
Por que as outras velhas nunca lhe tinham avisado que até o fim isso
podia acontecer? Nos homens velhos bem vira olhares lúbricos. Mas
nas velhas não. Fora de estação. E ela viva como se ainda fosse
alguém, ela que não era ninguém.
A Sra. Jorge B. Xavier era ninguém.
Então quis ter sentimentos bonitos e
românticos em relação à delicadeza de rosto de Roberto Carlos.
Mas não conseguiu: a delicadeza dele apenas a levava a um corredor
escuro de sensualidade. E a danação era a lascívia. Era fome
baixa: ela queria comer a boca de Roberto Carlos. Não era romântica,
ela era grosseira em matéria de amor. Ali no banheiro, defronte do
espelho da pia.
Com sua idade indelevelmente maculada.
Sem ao menos um pensamento sublime que
lhe servisse de leme e que enobrecesse a sua existência.
Então começou a desmanchar o coque
dos cabelos e a penteá-los devagar. Estavam precisando de nova
tintura, as raízes brancas já apareciam. Então a senhora pensou o
seguinte: na minha vida nunca houve um clímax como nas histórias
que se leem. O clímax era Roberto Carlos. Meditativa, concluiu que
iria morrer secretamente assim como secretamente vivera. Mas também
sabia que toda morte é secreta.
Do fundo de sua futura morte imaginou
ver no espelho a figura cobiçada de Roberto Carlos, com aqueles
macios cabelos encaracolados que ele tinha. Ali estava, presa ao
desejo fora de estação assim como o dia de verão em pleno inverno.
Presa no emaranhado dos corredores do Maracanã. Presa ao segredo
mortal das velhas. Só que ela não estava habituada a ter quase 70
anos, faltava-lhe prática e não tinha a menor experiência.
Então disse alto e bem sozinha:
– Robertinho Carlinhos.
E acrescentou ainda: meu amor. Ouviu
sua voz com estranheza como se estivesse pela primeira vez fazendo,
sem nenhum pudor ou sentimento de culpa, a confissão que no entanto
deveria ser vergonhosa. A senhora devaneou que era capaz de
Robertinho não querer aceitar o seu amor porque tinha ela própria
consciência de que este amor era muito piegas, melosamente
voluptuoso e guloso. E Roberto Carlos parecia tão casto, tão
assexuado.
Seus lábios levemente pintados ainda
seriam beijáveis? Ou por acaso era nojento beijar boca de velha?
Examinou bem de perto e inexpressivamente os próprios lábios. E
ainda inexpressivamente cantou baixo o estribilho da canção mais
famosa de Roberto Carlos: “Quero que você me aqueça neste inverno
e que tudo o mais vá para o inferno.”
Foi então que a Sra. Jorge B. Xavier
bruscamente dobrou-se sobre a pia como se fosse vomitar as vísceras
e interrompeu sua vida com uma mudez estraçalhante: tem! que! haver!
uma! porta! de saiiiiiída!
Clarice Lispector, em Todos os Contos
Gabriel
Não consigo refrear a tentação de
puxar conversa com uma criança que não conheço. Se tem uma criança
no elevador cheio, eu me agacho para que meus olhos fiquem na altura
dos seus. Deve ser muito estranho olhar em volta e só ver fivela de
cintos e bolsas. Olhando-se para cima, os adultos têm a
aparência de gigantes.
Na sala de espera do consultório
médico estava o menino com seu pai. Calculei, 9 ou 10 anos. Puxei
conversa. Ele ficou encabulado. Virou de lado. Mas eu não desisto.
Gosto de conversar com crianças. É fácil. E só falar de igual
para igual, sem voz melosa e sem usar diminutivos. Ele falou de
futebol. Eu disse que não torcia por nenhum time, mas havia escrito
um livro, Futebol levado a riso. E lhe contei várias estórias
divertidas do futebol. A conversa rolou fácil. Ficamos amigos.
Disse-lhe que escrevi estórias para crianças. Pedi o endereço
dele para lhe enviar uns livrinhos. Ele me deu. Mandei os livros.
Passados uns dias, ele me mandou um presente: um livro de poesias,
raridade literária, data de 1892-1903. Tão divertida a forma
como se escrevia! No meio dos poemas encontrei um que mexeu comigo:
“Embala-me, balanço da mangueira,/ Embala-me, que
enquanto vou contigo e contigo venho, o meu pesar esqueço...”.
O presente veio com uma carta dele, assinada Gabriel Quevedo. Disse a
ele que Gabriel é nome de anjo! Ele se espantou. E me disse que já
estava lendo o livro Lagartixas e dinossauros. Na carta, ele
escreveu que o presente era uma prova de gratidão. Mas não
precisava ter gratidão por tão pouco. Gostei, Gabriel.
Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba
Fita verde no cabelo (Nova velha estória)
Havia uma aldeia em algum lugar, nem
maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres
que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam. Todos com
juízo, suficientemente, menos uma meninazinha, a que por enquanto.
Aquela, um dia, saiu de lá, com uma fita verde inventada no cabelo.
Sua mãe mandara-a, com um cesto e um
pote, à avó, que a amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia.
Fita-Verde partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote
continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar
framboesas.
Daí, que, indo, no atravessar o
bosque, viu só os lenhadores, que por lá lenhavam; mas o lobo
nenhum, desconhecido nem peludo. Pois os lenhadores tinham
exterminado o lobo. Então, ela, mesma, era quem se dizia: — “Vou
à vovó, com cesto e pote, e a fita verde no cabelo, o tanto que a
mamãe me mandou.” A aldeia e a casa esperando-a acolá, depois
daquele moinho, que a gente pensa que vê, e das horas, que a gente
não vê que não são.
E ela mesma resolveu escolher tomar
este caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso. Saiu,
atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vindo-lhe correndo,
em pós. Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com
inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com
ignorar se cada uma em seu lugar as plebeiínhas flores, princesinhas
e incomuns, quando a gente tanto por elas passa. Vinha sobejadamente.
Demorou, para dar com a avó em casa,
que assim lhe respondeu, quando ela, toque, toque, bateu:
— “Quem é?”
— “Sou eu...” — e
Fita-Verde descansou a voz. — “Sou sua linda netinha, com
cesto e pote, com a fita verde no cabelo, que a mamãe me mandou.”
Vai, a avó, difícil disse: —
“Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençoe.”
Fita-Verde assim fez, e entrou e
olhou.
A avó estava na cama, rebuçada e só.
Devia, para falar agagado e fraco e rouco, assim, de ter apanhado um
ruim defluxo. Dizendo: — “Depõe o pote e o cesto na arca, e
vem para perto de mim, enquanto é tempo.”
Mas agora Fita-Verde se espantava,
além de entristecer-se de ver que perdera em caminho sua grande fita
verde no cabelo atada; e estava suada, com enorme fome de almoço.
Ela perguntou:
— “Vovozinha, que braços tão
magros, os seus, e que mãos tão trementes!”
— “É porque não vou poder
nunca mais te abraçar, minha neta...” — a avó murmurou.
— “Vovozinha, mas que lábios,
ai, tão arroxeados!”
— “É porque não vou nunca
mais poder te beijar, minha neta...” — a avó suspirou.
— “Vovozinha, e que olhos tão
fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido?”
— “É porque já não te estou
vendo, nunca mais, minha netinha...” — a avó ainda gemeu.
Fita-Verde mais se assustou, como se
fosse ter juízo pela primeira vez.
Gritou: — “Vovozinha, eu tenho
medo do Lobo!”
Mas a avó não estava mais lá, sendo
que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino
corpo.
Guimarães Rosa, em Ave, Palavra
sexta-feira, 22 de maio de 2026
O caule e a mente
Um ramo podado de um galho adjacente
foi, necessariamente, cortado de toda a árvore. Da mesma maneira, o
homem se separa de toda a comunidade social ao se apartar do outro.
Enquanto aquele é podado, este se aparta quando odeia ou se afasta
do seu vizinho. Ademais, não percebe a simultânea separação entre
ele e o sistema social germinada pelo seu ato.
Não obstante, esse homem é
privilegiado por Zeus, quem estruturou a sociedade, porque está em
nosso poder nos aproximar e nos incorporar ao todo. No entanto, caso
a divisão aconteça com frequência, a parte que se dividiu terá
dificuldade para se somar à unidade e se restaurar à condição
anterior. Afinal, o galho que brotou e se sustentou na árvore desde
o início não é como o que foi enxertado. Como os jardineiros
dizem: “O caule é o mesmo, porém a mente é outra.”
Marco Aurélio, em Meditações
O Apanhador no Campo de Centeio — 21
21
Há muito tempo não dava tanta sorte.
Quando cheguei em casa, o ascensorista da noite, Pete, não estava
lá, e o substituto dele era um sujeito que eu nunca tinha visto
antes. Aí tive a certeza de que, se não desse de cara com meus pais
e tudo, ia mesmo conseguir falar com a Phoebe e dar o fora, sem que
ninguém no mundo soubesse que eu tinha estado em casa. Era mesmo uma
sorte infernal. E, para melhorar a estória, o novo ascensorista
parecia meio sobre o imbecil. Disse a ele, com a voz mais natural do
mundo, que me levasse ao andar dos Dickstein. Os Dickstein eram uma
família que morava no outro apartamento do nosso andar. Eu já tinha
guardado meu chapéu de caça para não dar pinta de maluco nem nada.
Entrei no elevador como se estivesse com uma pressa danada.
O sujeito já tinha fechado a porta e
tudo, e estava pronto para subir, quando se virou para mim e disse:
—
Eles não estão em casa. Estão numa
festa no quatorze.
—
Não faz mal —
respondi —
sou sobrinho deles e combinei que ia esperar.
Ele me olhou meio desconfiado, com
aquela cara de palerma.
—
É melhor esperar por eles aqui
embaixo, companheiro.
—
Bem que gostaria... no duro —
falei. —
Mas o negócio é que eu sou meio aleijado de uma perna e tenho que
ficar com ela numa certa posição. Acho melhor me sentar naquela
cadeira que fica no hall do apartamento.
Ele não entendeu patavina, por isso
só fez dizer "Ah, sei" —
e me levou. É engraçado, basta a gente dizer alguma coisa que
ninguém entende para que façam praticamente tudo que a gente quer.
Saltei no nosso andar —
capengando como um doido —
e comecei a caminhar para o lado dos Dickstein. Aí, quando ouvi a
porta do elevador se fechar, dei meia volta e fui para o nosso
apartamento. Estava tudo correndo conforme o figurino. Nem me sentia
mais de pileque. Tirei minha chave e abri a porta, bem de leve. Aí,
com o maior cuidado e tudo, entrei e fechei a porta. Eu devia ter
nascido ladrão.
O vestíbulo estava escuro pra chuchu,
como era de se esperar, e naturalmente eu não podia acender a luz.
Precisava ter cuidado para não esbarrar em nada e fazer um
pandemônio dos diabos. Mas tinha a certeza de que estava em casa. O
nosso vestíbulo cheira diferente de qualquer outro lugar. Não sei
que diabo é. Não é couve-flor nem é perfume —
sei lá que porcaria é —
mas a gente sente logo que está em casa. Comecei a tirar o sobretudo
para pendurar no armário do vestíbulo, mas mudei de ideia porque
aquele armário vive entupido de cabides e faz um barulhão infernal
quando a gente abre a porta. Aí fui andando bem devagarinho pelo
corredor, na direção do quarto da Phoebe. Sabia que a empregada não
ia me ouvir, porque ela só tinha um tímpano. Quando era criança, o
irmão dela tinha lhe enfiado um canudo no ouvido. Era um bocado
surda e tudo. Mas com meus pais a coisa era outra —
principalmente minha mãe, que tinha um ouvido de perdigueiro. Pisei
macio pra burro quando passei pela porta deles. Pra falar a verdade,
até prendi a respiração. Quando meu pai está dormindo, a gente
pode dar uma cadeirada na cabeça dele que o velho não acorda; mas,
para minha mãe acordar, basta a gente tossir lá pras bandas da
Sibéria. Ela é nervosa pra chuchu. Quase sempre passa a noite toda
acordada, fumando.
Afinal, mais ou menos uma hora depois,
cheguei ao quarto da Phoebe. Ela não estava lá. Tinha-me esquecido.
Ela sempre dorme no quarto do D. B. quando ele está em Hollywood ou
outro lugar qualquer. Ela gosta de ficar lá porque é o maior quarto
da casa. E também por causa da escrivaninha maluca que tem lá, que
o D. B. comprou de uma mulher alcoólatra em Filadélfia, e da cama
enorme, gigantesca, de dez quilômetros de comprimento por dez de
largura. Não sei onde ele conseguiu comprar aquela cama. Seja como
for, a Phoebe adora dormir no quarto do D. B. quando ele está fora,
e ele não se importa. Vale a pena ver a Phoebe fazendo os trabalhos
de casa naquela escrivaninha maluca. É quase tão grande quanto a
cama, mas a Phoebe adora um troço desses. Não gosta do quarto dela
porque acha muito pequeno. Ela diz que precisa se espalhar, e eu me
esbaldo com isso. O que é que ela tem para espalhar? Nada.
De qualquer forma, entrei de mansinho
no quarto do D. B. e acendi a luz da escrivaninha. Phoebe nem
acordou. Fiquei olhando para ela, com a luz acesa e tudo. Estava
espichada ali, dormindo, com o rosto meio de lado, para fora do
travesseiro. A boca entre-aberta. É gozado, os adultos ficam
horríveis quando estão dormindo de boca aberta, mas as crianças
não. As crianças ficam cem por cento. Podem até ter babado todo o
travesseiro, que continuam cem por cento.
Dei uma volta pelo quarto, bem devagar
e tudo, olhando as coisas. Para variar, estava me sentindo muito bem.
Nem me lembrei mais que podia ter apanhado uma pneumonia nem nada. Só
para variar, estava me sentindo bem e mais nada. A roupa da Phoebe
estava em cima da cadeira, perto da cama. Para uma criança, ela é
muito arrumada. Por exemplo, não atira as coisas dela por todos os
lados, como a maioria das crianças. Não é nenhuma relaxada. O
casaco do costume havana que minha mãe havia trazido do Canadá
estava nas costas da cadeira. A blusa e os outros troços estavam no
assento. Os sapatos e as meias no chão, debaixo da cadeira, bem
juntinho um do outro. Nunca tinha visto aqueles sapatos, deviam ser
novos. Eram uns mocassins marron-escuro, parecidos com os meus, e
combinavam um bocado com o costume que minha mãe tinha comprado no
Canadá. Minha mãe veste a Phoebe muito bem, no duro. Minha mãe tem
um gosto infernal para certas coisas. Não tem lá muito jeito para
comprar patins de gelo ou coisa parecida, mas em matéria de roupa
ela é o fino.
A Phoebe está quase sempre com uns
vestidos do barulho. Acontece que a maioria das meninas, mesmo quando
os pais são ricos e tudo, em geral usam uns vestidos horrorosos. Mas
dava gosto ver a Phoebe com aquele costume que minha mãe tinha
trazido do Canadá.
Sentei diante da escrivaninha do D. B.
e fiquei olhando os troços que estavam ali por cima. Eram as coisas
da Phoebe, da escola e tudo. O que mais tinha era livro. Em cima da
pilha estava o Aritmética é Divertido. Abri na primeira
página para dar uma olhada. Phoebe tinha escrito:
PHOEBE WEATHERFIELD CAULFIELD
4B – 1
Me esbaldei. O segundo nome dela é
Josephine, e não Weatherfield. Mas ela não gosta e, por isso, cada
vez que a vejo ela está usando um novo segundo nome.
Debaixo do livro de aritmética tinha
um de geografia e, mais em baixo, um de ortografia. Esse é o tipo da
coisa em que ela é ótima. Ela é ótima em todas as matérias, mas
é melhor mesmo em ortografia. Mais para baixo havia uma porção de
cadernos. Ela tem uns cinco mil cadernos. Nunca vi ninguém que
tivesse tantos cadernos. Tirei o de cima e dei uma olhada na primeira
folha. Estava escrito:
Berenice —
me procura no recreio que eu tenho uma coisa muito importante para te
contar.
Não havia mais nada naquela página.
Na seguinte estava escrito:
Por que há tantas fábricas de
conservas no sudeste do Alaska?
Porque lá tem muito salmão.
Por que possui florestas valiosas?
Porque tem o clima adequado.
Que providências tomou nosso
Governo para melhorar a vida dos esquimós?
estudar para amanhã!!!
Phoebe Weatherfield Caulfield
Phoebe Weatherfield Caulfield
Phoebe Weatherfield Caulfield
Phoebe W. Caulfield
Dra. Phoebe Weatherfield Caulfield
Favor passar adiante para
Shirley!!!
Shirley você disse que era
sagitário mas não passa de touro traga os patins quando for lá
para casa
Ali, sentado na escrivaninha do D. B.,
li o caderno inteiro. Não me tomou muito tempo e posso passar o dia
e a noite lendo um troço desses, seja caderno da Phoebe ou de
qualquer outra criança. E morro de rir. Aí acendi outro cigarro —
era o meu último. Acho que naquele dia fumei uns vinte maços.
Então, finalmente, acordei a Phoebe. Não podia ficar o resto da
vida sentado naquela escrivaninha e, além do mais, estava com medo
de que meus pais aparecessem de repente. Antes disso, queria pelo
menos conversar um pouquinho com a Phoebe. Por isso tratei de
acordá-la.
Ela acorda com muita facilidade. Quer
dizer, não é preciso gritar nem nada. Praticamente, basta a gente
se sentar ao lado dela na cama e dizer: "Acorda, Phoebe" —
e pronto, ela acorda.
—
Holden —
ela disse imediatamente. Passou o braço em volta do meu pescoço e
tudo. Ela é muito carinhosa. Muito carinhosa para uma criança. Às
vezes ela é até carinhosa demais. Dei uma espécie de beijo nela, e
ela perguntou:
—
Quando é que você chegou?
Estava vibrando com a minha chegada,
era evidente.
—
Fala mais baixo. Cheguei agorinha
mesmo. Tudo bem com você?
—
Tudo bem. Recebeu minha carta? Te
escrevi uma carta de cinco páginas...
—
Recebi sim, mas fala mais baixo.
Gostei muito.
Ela tinha me escrito uma carta que eu
não respondi. Falava da peça em que ela ia representar na escola.
Mandou-me dizer que não marcasse nenhum programa para sexta-feira,
para que eu pudesse assistir à peça.
—
Como vai a peça? —
perguntei. —
Como é mesmo o nome dela?
—
"Um Desfile de Natal para os
Americanos". A peça é uma droga, mas eu faço o papel do
Benedict Arnold. Meu papel é muito bom. Tenho praticamente a melhor
parte.
Puxa, a esta altura ela já estava
completamente acordada. Fica logo excitada com esse tipo de troço.
—
A peça começa quando eu estou
morrendo. Um fantasma me aparece na véspera de Natal e pergunta se
eu tenho vergonha, etc. Sabe como é... de ter traído meu país,
etcétera e tal. Você vai ver?
Ela estava quase em pé na cama.
—
Foi sobre isso que eu escrevi para
você. Você vai ver?
—
Claro que vou. Naturalmente que vou.
—
Papai não vai poder. Tem que viajar
para a Califórnia —
ela disse.
Puxa, como ela estava acordada. Bastam
dois segundos para ela acordar completamente. Estava meio ajoelhada
lá para os lados da cabeceira da cama e segurava a droga da minha
mão.
—
Escuta. Mamãe disse que você ia
chegar na quarta-feira. —
Mamãe disse que era na quarta-feira.
—
Me deixaram sair antes. Fala mais
baixo, se não você acorda todo mundo.
—
Que horas são? Eles só vão chegar
muito tarde, mamãe é que disse. Foram a uma festa em Norwalk,
Connecticut. Adivinha o quê que eu fiz hoje de tarde! Que filme que
eu vi? Adivinha só!
—
Não sei... Escuta, eles não disseram
a que horas…
—
"O Médico". É um filme
especial exibido na Fundação Lister. Só ia ser passado uma vez —
hoje só. É a estória de um médico do Kentucky que mete um
cobertor no rosto de uma garota aleijada que não podia andar. Aí
mandam ele para a cadeia e tudo. É ótimo.
—
Espera aí, presta atenção um
minuto. Eles não disseram a que horas...
—
Ele tem pena dela, o doutor. É por
isso que ele mete o cobertor na cara dela e tudo, e sufoca ela. Aí
mandam ele para a cadeia, condenado à prisão perpétua, mas essa
menina que ele meteu o cobertor na cara dela vai sempre visitá-lo, e
agradecer pelo que ele fez. Ele tinha matado por piedade. Mas ele
sabe que merece ir para a cadeia, porque um médico não tem o
direito de tirar as coisas de Deus. Quem me levou foi a mãe de uma
colega de turma, a Alice Holmborg. É a minha melhor amiga. É a
única na turma inteira que...
—
Quer fazer o favor de parar um
instante? Estou te fazendo uma pergunta. Eles disseram a que horas
vão voltar, ou não?
—
Não, mas só vão voltar muito tarde.
Papai levou o carro e tudo para não ter que se preocupar com o trem.
Ele mandou botar um rádio no carro! Mas mamãe disse que ninguém
pode ligar o rádio no meio do trânsito.
Comecei a ficar mais descansado. Quer
dizer, finalmente deixei de me preocupar se eles iam me pegar em casa
ou não. Resolvi não me importar mais. Se pegassem, pegavam e
pronto.
Valia a pena ver a pinta da Phoebe,
com um daqueles pijamas com elefantes vermelhos na gola. Ela é
tarada por elefantes.
—
Quer dizer que foi um bom filme, hem?
—
perguntei.
—
Infernal. Só que a Alice estava
resfriada e a mãe dela ficou o tempo todo perguntando se ela havia
se constipado. Bem no meio do filme. Sempre no meio de alguma
cena importante, a mãe dela se jogava toda por cima de mim para
perguntar a Alice se ela havia se constipado. Esse negócio me deixou
furiosa.
Aí contei para ela a estória do
disco.
—
Escuta, comprei um disco para você,
mas ele quebrou quando eu estava vindo para casa.
Tirei os pedacinhos do bolso do
casaco.
—
Eu estava meio alto...
—
Me dá os pedaços. Vou guardar...
Praticamente arrancou os pedaços da
minha mão e guardou tudo na mesinha de cabeceira. Não posso mesmo
com ela.
—
O D. B. vem passar o Natal em casa? -
perguntei.
—
Talvez sim, talvez não. Pelo menos
foi o que mamãe disse. Tudo depende. Talvez tenha que ficar em
Hollywood e escrever um filme sobre Anápolis.
—
Anápolis? Essa não!
—
É uma estória de amor e tudo.
Adivinha quem vai trabalhar no filme. Que artista? Adivinha!
—
Tou pouco ligando. Anápolis! O quê
que ele entende de Anápolis? Veja só! O quê que tem isso a ver com
o tipo de estórias que ele escreve?
Puxa, um troço desses me deixa
maluco. Aquela droga de Hollywood...
—
Quê que houve com o teu braço? —
perguntei. Ela tinha um baita dum curativo de esparadrapo no
cotovelo. Só vi isso porque o pijama dela não tinha manga.
—
Tem um garoto, um tal de Curtis
Weintraub, lá da minha turma, que me empurrou quando eu estava
descendo a escada do parque. Quer ver?
Começou a tirar o esparadrapo do
cotovelo.
—
Não, não mexe nisso. Por que é que
ele te empurrou na escada?
—
Sei lá. Acho que ele tem raiva de
mim. Eu e uma amiga minha, a Selma Alterbury, derramamos tinta e uma
porção de troços no casaco de couro dele.
—
Isso não se faz. Afinal, que diabo,
isso é coisa de criancinha.
—
Eu sei, mas sempre que vou ao parque
ele fica me seguindo por tudo quanto é lugar. Ele está sempre
andando atrás de mim, e isso me dá raiva.
—
Talvez ele goste de você. E isso não
é motivo para derramar tinta...
—
Não quero que ele goste de mim.
Aí ela começou a olhar para mim com
um jeito meio esquisito.
—
Holden, por que é que você veio para
casa antes de quarta-feira?
—
O quê?
Puxa, é preciso a gente ficar de olho
nela o tempo todo. Quem pensa que ela não é muito esperta é
trouxa.
—
Por quê que você não veio pra casa
só na quarta-feira? Você não foi expulso nem nada, foi?
—
Já te disse. Eles deixaram a gente
sair mais cedo. Deixaram todo mundo...
—
Você foi expulso! Foi!
Aí me deu um murro na perna. Ela sabe
dar os seus soquinhos.
—
Você foi expulso! Não é,
Holden?
Ela estava cobrindo a boca com a mão
e tudo. É um bocado emotiva, no duro.
—
Quem é que disse que eu fui expulso?
Eu não disse.
Aí me deu outra cutucada. E olha que
dava para machucar.
—
Papai vai te fazer nem sei o quê.
Aí ela se jogou de bruços na cama e
botou a droga do travesseiro em cima da cabeça. Ela faz muito isso.
De vez em quando parece uma alucinada.
—
Para
com isso, tá? —
eu
disse. —
Ninguém
vai me fazer nada. Ninguém vai nem mesmo... Chega Phoebe, tira a
porcaria desse troço da cabeça. Não vai me acontecer nada...
Mas cadê que ela tirava. Ninguém a
obriga a fazer uma coisa quando ela não quer. Só fazia repetir:
"Papai dessa vez te mata". A gente mal conseguia ouvir o
que ela dizia, com a cabeça enfiada debaixo daquela droga daquele
travesseiro.
—
Ninguém vai me matar. Deixa de ser
boba. Em primeiro lugar, vou embora. Sabe o quê eu vou fazer? Vou
trabalhar uns tempos numa fazenda. Conheço um camarada que tem um
avô que tem um rancho no Colorado. Talvez ele me arranje um emprego
por lá. Vou escrever sempre para você e tudo, quando estiver lá,
tá bom? Agora, para, tira isso dá cabeça. Vamos, Phoebe, anda. Por
favor. Tira isso da cabeça, por favor.
Mas qual nada. Tentei arrancar o
travesseiro, mas ela é forte pra burro. Não há quem aguente brigar
com a Phoebe. Se resolve ficar com a cabeça enfiada embaixo do
travesseiro, fica mesmo.
—
Phoebe, por favor. Tira o travesseiro
da cabeça. Vamos... Êi, Weatherfield, sai daí...
Mas não havia jeito dela sair. Às
vezes é impossível querer argumentar com ela. Finalmente, fui até
a sala e tirei uma porção de cigarros da caixa e enfiei no bolso.
Os meus tinham acabado.
J. D. Salinger, em O Apanhador no Campo de Centeio
Dona Glorinha no circo
Dona Glorinha estava que não podia! Aquele homem que rodava no espaço, cada vez mais rápido, e preso apenas pelos dentes a uma roldana... Dona Glorinha sentia doerem-lhe os dentes, não os de agora, os outros... Dona Glorinha não pôde mais. E bradou, em meio do suspense geral: “Basta, cruel!”
Mário Quintana, em Caderno H
O Homem que Calculava — Capítulo 22
A grande prisão de Bagdá tinha o
aspecto de uma fortaleza persa ou chinesa. Atravessava-se, ao entrar,
pequeno pátio em cujo centro se via o famoso Poço da Esperança.
Era ali que o condenado, ao ouvir a sentença, deixava cair, para
sempre, todas as esperanças de salvação.
Ninguém poderá imaginar a vida de
sofrimentos e misérias daqueles que eram atirados no fundo das
masmorras da gloriosa cidade árabe.
A cela em que se achava o infeliz
Sanadique estava localizada na parte baixa da prisão. Chegamos ao
horripilante subterrâneo do presídio guiados pelo carcereiro e
auxiliados por dois guardas. Um escravo núbio, agigantado, conduzia
o grande archote cuja luz nos permitia observar todos os recantos da
prisão.
Depois de percorrermos um corredor
estreito, que mal dava passagem a um homem, descemos uma escadaria
úmida e escura. No fundo do subterrâneo achava-se o pequeno
calabouço onde fora encarcerado Sanadique. Ali não entrava a mais
tênue réstia de luz. O ar pesado e fétido mal se podia respirar,
sem náuseas e tonteiras. O chão estava coberto de uma camada de
lama pútrida e não havia entre as quatro paredes nenhuma peça ou
catre de que se pudesse servir o condenado.
À luz do archote que o hercúleo
núbio erguia, vimos o desventurado Sanadique, seminu, a barba
espessa e emaranhada, os cabelos em desalinho a lhe caírem pelos
ombros, sentado sobre uma laje, as mãos e os pés presos a correntes
de ferro.
Beremiz observou em silêncio, com
vivo interesse, o desventurado Sanadique. Era inacreditável pudesse
um homem resistir, com vida, durante quatro anos, àquela situação
desumana e dolorosa!
As paredes da cela, cheias de manchas
de umidade, achavam-se repletas de legendas e figuras — estranhos
indícios de muitas gerações de infelizes condenados. Tudo aquilo
Beremiz examinou, leu e traduziu com minucioso cuidado — parando de
quando em vez para fazer cálculos que me pareciam longos e
laboriosos. Como poderia o calculista, entre as maldições e
blasfêmias, descobrir a metade do “x” da vida?
Grande foi a sensação de alívio que
senti ao deixar a prisão sombria onde eram torturados os míseros
detentos. Ao chegar de volta ao rico divã das audiências,
apareceu-nos o grã-vizir Maluf rodeado de cortesãos, secretários e
vários xeques e ulemás da corte. Aguardavam todos a chegada de
Beremiz, pois queriam conhecer a fórmula que o calculista iria
empregar para resolver o problema de metade da prisão perpétua.
— Estávamos à vossa espera, ó
Calculista! — cortejou afável o vizir. — E peço-vos
apresenteis, sem mais delonga, a solução do grande problema. Temos
a maior urgência em fazer cumprir a sentença do nosso grande Emir!
Ao ouvir essa ordem, Beremiz
inclinou-se respeitoso, fez o habitual salã e assim falou:
— O contrabandista Sanadique,
de Báçora, preso há quatro anos na fronteira, foi condenado a
prisão perpétua. Essa pena acaba, porém, de ser reduzida à metade
por justa e sábia sentença do nosso glorioso califa Al-Motacém,
Comendador dos Crentes, sombra de Alá na Terra!
Designamos por x o período da vida de
Sanadique, período que vai do momento em que foi preso e condenado
até o termo de seus dias. Sanadique foi, portanto, condenado a x
anos de prisão, isto é, a prisão por toda a vida. Agora, em
virtude da régia sentença, essa pena irá reduzir-se à metade. Se
dividirmos o tempo x em vários períodos, importa dizer que a cada
período de prisão deve corresponder período igual de liberdade.
— Perfeitamente certo! — concordou
o vizir com um ar de inteligência. — Compreendo muito bem o seu
raciocínio.
— Ora, como Sanadique já esteve
preso durante quatro anos, é claro que deverá ficar em liberdade,
durante igual período, isto é, durante quatro anos.
Com efeito: imaginemos que um mago
genial pudesse prever o número exato de anos de vida de Sanadique e
nos dissesse agora: “Esse homem, no momento em que foi preso, tinha
apenas 8 anos de vida.” Ora, nesse caso, teríamos o x igual a 8,
isto é, Sanadique teria sido condenado a 8 anos de prisão, e essa
pena ficaria, agora, reduzida a 4 anos. Como Sanadique já está
preso há quatro anos, é claro que já cumpriu o total da pena e
deve ser considerado livre. Se o contrabandista, pelas determinações
do Destino, houver de viver mais de 8 anos, a sua vida (x maior que
8) poderá ser decomposta em três períodos: um de 4 anos de prisão
(já decorrido), outro de 4 anos de liberdade e um terceiro que
deverá ser dividido em duas partes iguais (prisão e liberdade). É
fácil concluir que, para qualquer valor de x (desconhecido), o
detento terá de ser posto imediatamente em liberdade, ficando livre
durante quatro anos, pois tem absoluto direito a esse período de
liberdade, conforme demonstrei, de acordo com a lei!
Findo esse prazo, ou melhor, terminado
esse período, deverá voltar à prisão e ficar recluso apenas
durante um tempo igual à metade do resto de sua vida.*
Seria fácil, talvez, prendê-lo
durante um ano e conceder-lhe liberdade durante o ano seguinte;
ficaria, graças a essa resolução, um ano preso e um ano solto, e
passaria, desse modo, a metade de sua vida em liberdade — conforme
manda a sentença do rei.
Tal solução, porém, só estaria
certa se o condenado viesse a morrer no último dia de um de seus
períodos de liberdade.
Imaginemos, com efeito, que Sanadique,
depois de passar um ano na prisão, fosse solto e viesse a morrer,
por exemplo, no quarto mês de liberdade. Dessa parte de sua vida (um
ano e quatro meses) teria passado “um ano preso” e “quatro
meses solto”. Não estaria certo. Teria havido erro no cálculo. A
sua pena não teria sido reduzida à metade!
Mas simples seria, portanto, prender
Sanadique durante um mês e conceder-lhe o mês seguinte de
liberdade. Tal solução poderá, dentro de um período menor,
conduzir a erro análogo. E isso acontecerá (com prejuízo para o
condenado) se ele, depois de passar um mês na prisão, não tiver, a
seguir, um mês completo de liberdade.
Poderá parecer, direis, que a solução
do caso consistirá, afinal, em prender Sanadique um dia e soltá-lo
no dia seguinte, concedendo-lhe igual período de liberdade, e
proceder assim até o termo da vida do condenado.
Tal solução não corresponderá,
contudo, à verdade matemática, pois Sanadique — como é fácil
entender — poderá ser prejudicado em muitas horas de liberdade.
Basta para isso que ele venha a morrer horas depois de um dia de
prisão.
Prender o condenado durante uma hora e
soltá-lo a seguir, deixando-o em liberdade durante uma hora, e assim
sucessivamente até a última hora da vida do condenado, seria
solução acertada se Sanadique viesse a morrer no último minuto de
uma hora de liberdade. Do contrário a sua pena não teria sido
reduzida à metade.
A solução matematicamente certa,
portanto, consistirá no seguinte:
Prender Sanadique durante um instante
de tempo e soltá-lo no instante seguinte. É preciso, porém, que o
tempo de prisão (o instante) seja infinitamente pequeno, isto é,
indivisível. O mesmo há de dar-se com o período de liberdade a
seguir.
Na realidade, tal solução é
impossível. Como prender um homem num instante indivisível e
soltá-lo no instante a seguir? Devemos, portanto, afastá-lo de
nossas cogitações. Só vejo, ó Vizir, uma forma de resolver o
problema: Sanadique será posto em liberdade condicional sob
vigilância da lei. É essa a única maneira de prender e soltar um
homem ao mesmo tempo!
Determinou o grão-vizir que fosse
atendida a sugestão do calculista e ao infeliz Sanadique, no mesmo
dia, concedida a “liberdade condicional” — fórmula que os
jurisconsultos árabes passaram a adotar, frequentemente, em suas
sábias sentenças.
No dia seguinte, perguntei que dados
ou elementos de cálculos conseguira ele, afinal, colher nas paredes
da prisão, durante a célebre visita; que motivos o teriam levado a
dar tão original solução ao problema do condenado. Respondeu-me o
calculista:
— Só quem já esteve, por alguns
momentos sequer, entre os muros tenebrosos de uma enxovia, sabe
resolver esses problemas em que os números são parcelas terríveis
da desgraça humana.
Nota:
*Esse resto de vida será x –
8 (da vida x descontados os 8 anos já decorridos).
Malba Tahan, em O Homem que Calculava
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