24/06/2026
Último caderno de Kindzu
As páginas da terra
Depois de Euzinha já nenhuma
esperança me restava. Eu voltava a Matimati sem Quintino. Perdida
estava a amizade. Voltava sem trazer Gaspar. Perdido estava o amor.
Farida não aceitaria a minha falta de promessa. E ela se afastaria
de mim, partiria para inalcançável longe.
Subi a escura rua da vila em direcção
à casa de Assane. Antoninho me recebeu às arrecuas como se visse um
fantasma fora do prazo. Tinha os braços envoltos em ligaduras.
Assane chegou à porta se arrastando na cadeira e, virando-se para o
ajudante, perguntou:
— Já lhe deu a novidade?
— Que se passa? Que aconteceu com
Farida?
Assane se moveu em minha direcção.
Subiu-se na cadeira, esforçado para me dar um conforto, seu braço
me laçando o ombro.
— Não vale a pena você voltar
lá.
— Não vale a pena?
— Farida já não te espera.
— Como: vieram-lhe buscar?
— De certa maneira...
— Como de certa maneira?
— Se acalma, Kindzu. Lhe vamos
contar.
Se passara de maneira confusa. Por
ordem de Assane, Antoninho se metera numa canoa e se dirigira ao
barco naufragado. Quando encontrou Farida ele se exclamou. A mulher
estava uma rodilha, só quase se lhe viam os olhos. O enviado se
chegou com modos sossegados e se apresentou em sua função de
amizade. Farida quis saber novidades de Kindzu. Disse que a demora já
era demasiada. A procura do filho não iria resultar. A terra é
imensa, a guerra é maior ainda.
— Nunca lhe hão-de encontrar!
Então, com determinação, ela disse:
não posso adiar mais. Vês aquele farol, apontou ela por
entre o poente. Tenho que fazer com que aquele farol funcione.
Antoninho se dispôs a ajudar. Ela
anunciou: iria lá acender aquelas luzes, reparar a escuridão.
Aquelas luzes haveriam de guiar navios que a viriam tirar dali. O
outro ficaria no navio naufragado vigiando se alguém chegava. Farida
partiu na embarcação de Antoninho. Ele ainda a viu chegar ao
pequeno ilhéu e entrar no farol. Ficou lá um tempo, saiu, voltou a
entrar, carregando uns velhos bidões. De repente, a torre se sacudiu
em imensa explosão. Labaredas escaparam como sôfregas línguas do
edifício. Toda a ilha ficou ardendo.
— Não é possível, Farida não
morreu! Eu vou lá a esse farol, amanhã mesmo...
— Não vale a pena, Antoninho
confirmou.
— Não confio neste sacana. Se
calhar foi ele mesmo quem tramou a morte dela...
Virei costas e me retirei, brusco,
corredor afora. Dentro do quarto de Surendra fiquei em espanto. Não
chorava. Mas um tremendo cansaço me sufocava o peito. Assane entrou
no quarto, suas rodas chiaram no escuro.
— Kindzu, você foi injusto com
esse miúdo.
— Com Antoninho? Eu lhe conheço
muito bem.
— Mas, desta vez, se enganou. Eu
posso testemunhar quanto o moço sofreu.
Assane me garantia. Antoninho tinha
ido, em outro pequeno bote, tentar ajudar a mulher que eu amava.
Entrara no incêndio com desprezo de sua própria vida. Seus braços
arderam como tochas, quase os perdera para sempre.
— Antoninho, agora, lhe respeita.
Acredite, Kindzu.
A tristeza me enchia tanto que eu
deitei de parte a desconfiança. Admiti ter errado. Sem convicção
pedi a Assane que me desculpasse perante Antoninho.
— Assane, eu preciso sair daqui.
— Calha bem, meu amigo. Amanhã
mesmo sai o primeiro machimbombo de nossa empresa.
Fingi nem reparar. Nossa empresa?
Então, o negócio já se expandira? Afinal, em guerra se pode
prosperar mais rápido que em normais tempos de paz. Levantei outra,
mais leve, dúvida:
— Já se pode circular na
estrada?
— Não temos certeza. Vamos
tentar.
— Está certo. Amanhã eu embarco
nesse machimbombo. Me deixe agora, estou de mais cansado.
Eu queria ficar absolutamente só.
Sentia na versão de Assane um sabor de falso. O paralítico estava
agora unido com o administrador, lhe prestaria serviço apenas para
encomendar simpatias. A morte de Farida seria um desses serviços.
Antoninho seria um perfeito servente.
Durante toda a noite dormi um sonho,
com sabores de autêntico. Enquanto adormecia mil perguntas me
continuavam a agitar. E se não tivessem assassinado Farida, através
da mão suja de Antoninho? Se o moço se tivesse realmente arriscado
para a salvar? Nunca mais eu saberia o certo. No dia seguinte eu
estaria de retorno à minha aldeia. Há quanto tempo eu tinha saído?
O que acontecera, entretanto, a minha mãe, grávida de um impossível
filho? E Junhito: será que cocoricava ainda pelos prados?
Agora era como se esses fantasmas
trabalhassem em minha cabeça para me transmitirem seus segredos,
revelações de um outro mundo. Vou relatar o último sonho a ver se
me livro do peso de terríveis lembranças. Não quero que tais
pensamentos me regressem. Preciso dormir, totalmente dormir, me
emigrar deste corpo cheio de esperas e sofrências. Preciso descansar
de suspeitas, esfriar meu desejo de vingança. Amanhã apanho o
autocarro para regressar a minha aldeia. Não quero lembrar nada, nem
Farida, nem Carolinda, nem Quintino, nem ninguém. O que queria mesmo
era ir mar adentro, como Assma, empurrado num barquinho sem destino.
Ou fazer como minha mãe me ensinou: ser a mais delicada sombra. É
isso que desejo: me apagar, perder voz, desexistir. Ainda bem que
escrevi, passo por passo, esta minha viagem. Assim escritas estas
lembranças ficam presas no papel, bem longe de mim. Este é o último
caderno. Depois, arrumo tudo na mala que me deu Surendra. No final,
Surendra é o único de quem eu aceito companhia. O indiano mais sua
nação sonhada: o oceano sem nenhum fim.
Me falta, pois, trazer o que essa
noite viajou em minha cabeça. Me falta soltar o último peso que me
impede ser sombra. Ponho o sonho, em sua selvagem desordem: eu estava
descendo um vale molhado de tanta de luz, cheio de manhã. Aquela
parecia a primeira madrugada do mundo. A luz se espantava de sua
própria estreia, experimentando sua grandeza ao iluminar as mais
pequenas coisas. As cores, de tanto serem novas, se cambiavam
incessantemente. Foi então que vi avançar um enorme grupo de
pessoas, pobres, embrulhadas em cascas e fiapos. Eram centenas de
centenas. Foram-me enchendo o sono. À frente seguia o feiticeiro da
minha aldeia. Envergava uma sarapilheira encardida, cujos farrapos
poeiravam pelo chão. O adivinho olhou a terra como se dele
dependesse o destino do universo. Pesava nos seus olhos a gravíssima
decisão de criar um outro dia.
— É aqui mesmo!, disse.
Escolhia o caminho parecendo procurar
o centro de uma invisível paisagem. Atrás dele se arrastava a
multidão, rastejando como se suas vidas se alimentassem das pegadas
de seu guia. O feiticeiro subiu a um morro de muchém e contemplou a
planície. Ajeitou o chapéu feito de penas e enroscou melhor a
sarapilheira como se aquele calor lhe esfriasse os ossos. Então,
levantando o seu cajado sentenciou:
— Que morram as estradas, se
apaguem os caminhos e desabem as pontes!
Depois, começou o discurso, desfiando
palavras lentas, rasgando a voz de encontro ao vento:
— Chorais pelos dias de hoje?
Pois saibam que os dias que virão serão ainda piores. Foi por isso
que fizeram esta guerra, para envenenar o ventre do tempo, para que o
presente parisse monstros no lugar da esperança. Não mais procureis
vossos familiares que saíram para outras terras em busca da paz.
Mesmo que os reencontreis eles não vos reconhecerão. Vós vos
convertêsteis em bichos, sem família, sem nação. Porque esta
guerra não foi feita para vos tirar do país mas para tirar o país
de dentro de vós. Agora, a arma é a vossa única alma. Roubaram-vos
tanto que nem sequer os sonhos são vossos, nada de vossa terra vos
pertence, e até o céu e o mar serão propriedade de estranhos. Será
mil vezes pior que o passado pois não vereis o rosto dos novos donos
e esses patrões se servirão de vossos irmãos para vos dar castigo.
Ao invés de combaterem os inimigos, os melhores guerreiros afiarão
as lanças nos ventres das suas próprias mulheres. E aqueles que vos
deveriam comandar estarão entretidos a regatear migalhas no banquete
da vossa própria destruição. E até os miseráveis serão donos do
vosso medo pois vivereis no reino da brutalidade. Terão que esperar
que os assassinos sejam mortos por suas próprias mãos pois em todos
haverá medo da justiça. A terra se revolverá e os enterrados
assomarão à superfície para virem buscar as orelhas que lhes foram
decepadas. Outros procurarão seus narizes no vómito das hienas e
escavarão nas lixeiras para resgatarem seus antigos órgãos. E
há-de vir um vento que arrastará os astros pelos céus e a noite se
tornará pequena para tantas luzes explodindo sobre as vossas
cabeças. As areias se voltearão em remoinhos furiosos pelos ares e
os pássaros tombarão extenuados e ocorrerão desastres que não têm
nome, as machambas serão convertidas em cemitérios e das plantas,
secas e mirradas, brotarão apenas pedras de sal. As mulheres
mastigarão areia e serão tantas e tão esfaimadas que um buraco
imenso tornará a terra oca e desventrada. No final, porém, restará
uma manhã como esta, cheia de luz nova e se escutará uma voz
longínqua como se fosse uma memória de antes de sermos gente. E
surgirão os doces acordes de uma canção, o terno embalo da
primeira mãe. Esse canto, sim, será nosso, a lembrança de uma raiz
profunda que não foram capazes de nos arrancar. Essa voz nos dará a
força de um novo princípio e, ao escutá-la, os cadáveres
sossegarão nas covas e os sobreviventes abraçarão a vida com o
ingénuo entusiasmo dos namorados. Tudo isso se fará se formos
capazes de nos despirmos deste tempo que nos fez animais. Aceitemos
morrer como gente que já não somos. Deixai que morra o animal em
que esta guerra nos converteu.
O feiticeiro se calou, extenuado. A
sarapilheira estava ensopada de suor. Voltando a levantar o cajado
sobre a cabeça ele ainda voltou a falar. Mas se pronunciou em
palavras de nenhuma língua. As gentes seguiam o restante discurso à
cata de alguma compreensão. Então, o nganga se calou, ergueu uma
cabaça e verteu um líquido sobre os ombros. Depois, desceu o morro
e fez pingar a cabaça sobre cada um dos presentes. Então se deu o
mais extraordinário dos fenómenos e todos os presentes tombaram no
chão, agitando-se em espasmos e berros, e se seguiu uma orgia de
convulsões, babas e espumas e, um por um, todos foram perdendo as
humanas dimensões. Penugens e escamas, garras e bicos, caudas e
cristas se espalharam pelos corpos e todo aquele plenário de gente
se transfigurou em bicharada. A fala foi a última coisa a ser
convertida e, durante um tempo, se escutaram espantos e gritos
humanos proferidos pelas mais irracionais bestas. Aos poucos, porém,
também o verbo se perdeu e a bicharada, em desordem, se espalhou
pelos matos.
Tombado de joelhos perante tais
visões, eu olhei as próprias mãos para me confirmar humano.
Retirei as vestes e apalpei minhas velhas formas. Com cautela,
tossiquei para me certificar da voz. A medo fui emitindo palavras
simples, depois frases sem nexo. Não havia dúvida: eu me mantinha
completamente gente, habitando o corpo que sempre fora o meu.
Então, por entre as brumas do
sonhado, vi um galo se aproximando. Era Junhito, quase eu ia jurar.
Porque no inverso dos outros, ele se humanizava, lhe caíam penas,
cristas e esporões. Me olhou ainda semibicho. Seus olhos me pediam
qualquer coisa, nem eu adivinhava. Que ajuda lhe podia dar, eu,
simples sonhador? O que sucedeu, seguidamente, foi que surgiram o
colono Romão Pinto junto com o administrador Estêvão, Shetani,
Assane, Antoninho e milicianos. Vinham armados e se dirigiram para
Junhito, com ganas de lhe depenar o pescoço. Cercaram o manito,
dizendo:
— Teu pai tinha razão: sempre te
viemos buscar.
Então, Junhito me chamou. Eu me
olhei, sem confiança. Mas o que em mim vi foi de dar surpresa, mesmo
em sonho: porque em meus braços se exibiam lenços e enfeites.
Minhas mãos seguravam uma zagaia. Me certifiquei: eu era um
naparama! Ao me verem, em minha nova figura, aqueles que maltratavam
o meu irmão se extinguiram num fechar de olhos. Mas Junhito ainda
lutava para se desbichar, desembaraçar-se da condenação. Me veio à
ideia que ele precisava de um pouco de infância e cantei os embalos
de nossa mãe, sua última ponte com a família. Enquanto eu cantava
ele se foi vertendo todo gente, completamente Junhito. A seu lado,
como se chamada por meu canto, minha mãe apareceu segurando uma
criança em seu colo. Lhes chamei mas eles nem me pareciam ouvir.
Junhito colocou a mão aberta sobre o peito e depois fechou as duas
mãos em concha. Me agradecia. Acenei uma despedida e ele, segurando
minha mãe pelo braço, desapareceu nas infinitas folhagens.
Eu sentia que a noite chegava ao fim.
Qualquer coisa me dizia que me devia apressar antes que aquele sonho
se extinguisse. Porque me surgiam agora alucinadas visões de uma
estrada por onde eu seguia. Mas aquela era uma muito estranha picada:
não estava imóvel, esperando a viagem dos homens. Ela se deslocava,
seguindo de paisagem em paisagem. A estrada me descaminhou. O destino
o que é senão um embriagado conduzido por um cego? Fui sendo levado
sem conta nem tempo. Até que meu coração se apertou em sombrio
sobressalto. Me surgiu um machimbombo queimado. Estava derreado numa
berma, a dianteira espalmada de encontro a uma árvore. De repente, a
cabeça me estala em surdo baque. Parecia que o mundo inteiro
rebentava, fios de sangue se desalinhavam num fundo de luz muitíssimo
branca. Vacilo, vencido por súbito desfalecimento. Me apetece
deitar, me anichar na terra morna. Deixo cair ali a mala onde trago
os cadernos. Uma voz interior me pede para que não pare. É a voz de
meu pai que me dá força. Venço o torpor e prossigo ao longo da
estrada. Mais adiante segue um miúdo com passo lento. Nas suas mãos
estão papéis que me parecem familiares. Me aproximo e, com
sobressalto, confirmo: são os meus cadernos. Então, com o peito
sufocado, chamo: Gaspar! E o menino estremece como se nascesse
por uma segunda vez. De sua mão tombam os cadernos. Movidas por um
vento que nascia não do ar mas do próprio chão, as folhas se
espalham pela estrada. Então, as letras, uma por uma, se vão
convertendo em grãos de areia e, aos poucos, todos meus escritos se
vão transformando em páginas de terra.
Mia Couto, em Terra Sonâmbula
E Então Que Quereis?
Fiz
ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes
as pálpebras piscantes.
E
logo
de
cada fronteira distante
subiu
um cheiro de pólvora
perseguindo-me
até em casa.
Nestes
últimos vinte anos
nada
de novo há
no
rugir das tempestades.
Não
estamos alegres,
é
certo,
mas
também por que razão
haveríamos
de ficar tristes?
O mar
da história
é
agitado.
As
ameaças
e as
guerras
havemos
de atravessá-las,
rompê-las
ao meio,
cortando-as
como
uma quilha corta
as
ondas.
Vladimir Maiakovski, em Antologia Poética Russa
A eleição diferente
O trrrim da campainha penetrou no
sono, e acordei tendo à minha frente um motorista uniformizado, que
dizia: “O dr. João está lá embaixo, à sua espera”. “Oh, o
João é extraordinário, mas praque ele foi se incomodar”, e logo
me senti vestido e diante de João, que tinha o seu melhor sorriso.
“Vim buscá-lo porque o senhor é um preguiçoso, e está perdendo
um belo espetáculo cívico.” O auto rodou, e passamos pela 1a
seção da 5a zona eleitoral, que funcionava na praia. As moças
votavam de biquíni, os rapazes de short, e cada um ganhava um
sorvetinho italiano, ao assinar o livro de presença, que não era um
livro, era uma grande barraca de cores festivas. De quando em quando,
a mesa interrompia os trabalhos, para jogar peteca ou dar um
mergulho.
Passamos depois por um cinema, onde
funcionava outra seção. “Aqui votam os mais discretos, aqueles
que levam ao extremo o sigilo do voto”, explicou-me João; e
pressenti, no escuro, um movimento de mãos que recebiam e passavam
cédulas, e vozes murmuradas, que eram as de chamada de eleitores,
enquanto Gina Lollobrigida, na tela, colhia morangos do bosque e
namorava o carabineiro.(1)
Saímos, e continuamos a apreciar o
povo soberano. Havia uma seção no alto do Pão de Açúcar, e para
inspecioná-la passamos a um helicóptero pousado no local do antigo
Pavilhão Mourisco. Outra, nas matas da Tijuca. Passarinhos traziam
no bico delicado o material da eleição, e, pelos caminhos
perfumados de resinas e corolas silvestres, pares enlaçados os
perseguiam aos gritinhos e risadinhas, como no canto IX dos Lusíadas.
Quando um colibri se deixava pegar, as cédulas que ele transportava
eram todas do candidato preferido pelo casal, e o casal preferia
sempre os melhores nomes; mas era dificílimo escolher, porque todos
os nomes eram ótimos. João explicou-me que os canalhas se haviam
regenerado ou mudado para países distantes. Quanto aos mentirosos,
pensavam mentir ainda, não reparando que uma transformação
interior só lhes permitia falar verdade.
“E aquela aglomeração maior, ali
embaixo?” “É a seção do Banco do Brasil, não tinha
reparado?”, respondeu-me João. Os eleitores brandiam cédulas do
Tesouro, e iam depositá-las num guichê com a tabuleta “Recebedor”.
O sempre bem informado João esclareceu que peculatários e
estelionatários, aproveitando a ocasião, exerciam o direito de voto
e restituíam o roubado; em seguida, recolhiam-se espontaneamente à
cadeia, e, embora perdoados, teimavam em permanecer lá dentro, para
purgação de suas faltas.
“Vou lhe proporcionar um prazer
especial”, continuou João; “voemos sobre a Academia de Letras.”
O poeta Adelmar Tavares votava em verso alexandrino, que era logo
declamado em coro pelos amigos: “Hamilton, senador, como a
experiência manda, e, para vereador, Floresta de Miranda”. Manuel
Bandeira observou que, lidos como hexassílabos, os versos ganhavam
em ritmo e vivacidade. Alguns acadêmicos pediam cédulas de dom
Pedro ii, mas um mesário lhes explicava que esse de há muito já
era um eleito. Olegário Mariano chorava de emoção. E, aproveitando
o ensejo, a Academia deliberava criar poltronas extranumerárias, que
eram preenchidas ali no sufragante, com a participação de
acadêmicos e adventícios, e foram eleitas quarenta mulheres e
ninguém mais se entendeu daí por diante, e a eleição terminou no
bar Vilarino, entre uísques.
Faltava-nos ver umas quinhentas
seções, e João, sempre amável e eficiente, proporcionava-nos uma
lancha, para espiar as eleições marítimas e submarinas; depois,
andávamos a esmo pelas ruas, curiosos de ver onde votavam Cacilda
Becker, Villa-Lobos, Zizinho, o general Rondon, Heitor dos Prazeres,
Jayme Ovalle, Adalgisa Nery. Víamos, sorríamos, cumprimentávamos,
e tudo era melhor; e tomávamos um teco-teco e íamos sobre o Brasil
afora, e todo o Brasil votava como lhe parecia, dançando, cantando,
confraternizando; e voávamos e voávamos sobre a paz e o amor
universais. Há sonhos felizes.
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(1) Referência ao filme Pão, amor
e fantasia (1953), do diretor italiano Luigi Comencini
(1916-2007), com Gina Lollobrigida e Vittorio De Sica nos papéis
principais.
Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira
22/06/2026
1629 – Caranguejeiras
Bascuñán
A cabeça range e dói. Estendido no
barro, entre a montanha de mortos, Francisco Núnez de Pineda y
Bascunán abre os olhos. O mundo é um torvelinho de sangue e barro,
metralhado pela chuva, que gira e dá volta e espirra e gira.
Os índios atiram-se em cima dele.
Arrancam-lhe a couraça e o capacete de ferro, afundado pelo golpe
que o derrubou, e o despem aos arrancões. Francisco consegue fazer o
sinal da cruz antes de ser amarrado a uma árvore.
A tormenta açoita sua cara. O mundo
deixa de balançar. Uma voz dentro dele diz, através da gritaria dos
araucanos: “Estás em um charco da comarca de Chillán, em tua
terra do Chile. Esta chuva é a que molhou a pólvora. Este vento é
o que apagou as mechas.
Perdeste. Escutas os índios, que
discutem a tua morte”.
Francisco murmura uma última oração.
De repente, uma rajada de plumas
coloridas atravessa a chuva. Os araucanos abrem caminho ao cavalo
branco, que chega jorrando fogo pelas narinas e espuma pela boca. O
cavaleiro, mascarado pelo elmo que usa, dá um puxão brusco nas
rédeas. O cavalo ergue-se em duas patas na frente de Maulicán, o
vencedor da batalha. Todos ficam mudos.
“É o verdugo”, pensa Francisco.
“Agora, acabou”.
O florido cavaleiro se inclina e diz
alguma coisa a Maulicán. Francisco não escuta nada além das vozes
da chuva e do vento. Mas quando o cavaleiro dá as costas e
desaparece, Maulicán desamarra o prisioneiro, tira a própria capa e
o cobre.
Depois, os cavalos galopam rumo ao
sul.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
Coltrane e Mingus
Jazz é vício. Não tem essa história
de flertar com o lance, brincar com o material, dar uma cafungadinha
e voltar, são e salvo, para o aprisco (bééé!) familiar.
Jazz é feito paquerar a cunhada,
passar a mão na mulher do amigo, beijar no elevador a colega de
trabalho: começa leve, mas deixa cicatrizes profundas.
Imaginem um garoto do Estácio,
daqueles bem amalucados, com as canelas recém-cobertas pela calça
comprida e ainda cheias de mercúrio cromo devido a um tombo de
bicicleta em Paquetá, entrando na velha Palermo, no Largo da
Carioca, e saindo com um embrulho de discos, as fotos deslumbrantes,
Oscar Peterson,Dave Brubeck, Stan Getz, os primeirões.
No dia seguinte, a fera já está
diferente. A mãe, intuitiva, desconfia que seu bebê começou a
queimar fumo com os vagabundos do morro do São Carlos. Ainda não.
Foi o jazz. A cara do adolescente parece coisa de filme B, “Invasores
de Cassiopeia”, essas loucuras. Os amigos de esquina, sem o
clássico dente da frente e sapatos tô-na-merda, ainda gostam de
Elvis Prestes, talvez um parente distante do lendário líder
comunista, e do Lirôu (o acento era aí mesmo) Richa – mas o bicho
já viajou pra galáxias muito além do Carl Sagan.
Já que tocamos no assunto, não há
no jazz, com a possível inclusão de Bud Powell e Charlie Parker,
seres de planetas tão fascinantes como John Coltrane e Charles
Mingus.
A série The very best of the
Atlantic Years, presta serviço inestimável aos jovens
jazzófilos lançando os discos dos dois gigantes. O ouvinte que
continuar o mesmo depois de “My favorite things”, “Summertime”
e “Body and soul” pode dirigir-se ao Jardim da Saudade e cavar a
própria sepultura.Já está morto. O mesmo vale para
“Pithecanthropus erectus”, “Reincarnation of a lovebird” e
“Cryin’ blues”. No CD de Coltrane ainda podem ser ouvidos, de
quebra, Wynton Kelly e o jovem (na época) McCoy Tyner, além das
aulas de contrabaixo dadas por Paul Chambers. Dannie Richmond, um dos
maiores bateristas de jazz de todos os tempos, bota – e tira – o
trem nos trilhos para Mingus.
Os viciados conhecem de cor e salteado
as faixas, mas jamais se cansam delas. Já os novatos começarão –
garanto que é muito melhor que essas frescuras de magos na estrada
de Damasco – a percorrer as sagas jazzísticas de Coltrane e
Mingus: um aspirou atingir a divindade com seu sopro. Por ironia, e a
história da música está repleta delas, quanto mais alto voava,
piores as visões do inferno. O outro passou a vida toda no inferno
sem saber que era um deus.
Aldir Blanc, em O gabinete do doutor Blanc – sobre jazz, literatura e outros improvisos
Poeminha do contra
Todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!
Mário Quintana, em Caderno H
Capítulo 58 – Confidência
O Lobo Neves, a princípio, metia-me
grandes sustos. Pura ilusão!
Como adorasse a mulher, não se vexava
de mo dizer muitas vezes; achava que Virgília era a perfeição
mesma, um conjunto de qualidades sólidas e finas, amorável,
elegante, austera, um modelo. E a confiança não parava aí. De
fresta que era, chegou a porta escancarada. Um dia confessou-me que
trazia uma triste carcoma na existência; faltava-lhe a glória
pública. Animei-o; disse-lhe muitas coisas bonitas, que ele ouviu
com aquela unção religiosa de um desejo que não quer acabar de
morrer; então compreendi que a ambição dele andava cansada de
bater as asas, sem poder abrir o voo. Dias depois disse-me todos os
seus tédios e desfalecimentos, as amarguras engolidas, as raivas
sopitadas; contou-me que a vida política era um tecido de invejas,
despeitos, intrigas, perfídias, interesses, vaidades. Evidentemente
havia aí uma crise de melancolia; tratei de combatê-la.
– Sei o que lhe digo, replicou-me
com tristeza. Não pode imaginar o que tenho passado. Entrei na
política por gosto, por família, por ambição, e um pouco por
vaidade. Já vê que reuni em mim só todos os motivos que levam o
homem à vida pública; faltou-me só o interesse de outra natureza.
Vira o teatro pelo lado da plateia; e, palavra, que era bonito!
Soberbo cenário, vida, movimento e graça na representação.
Escriturei-me; deram-me um papel que... Mas para que o estou a
fatigar com isto? Deixe-me ficar com as minhas amofinações.
Creia que tenho passado horas e
dias... Não há constância de sentimentos, não há gratidão, não
há nada... nada... nada...
Calou-se profundamente abatido, com os
olhos no ar, parecendo não ouvir coisa nenhuma, a não ser o eco de
seus próprios pensamentos. Após alguns instantes, ergueu-se e
estendeu-me a mão: – O senhor há de rir-se de mim, disse ele; mas
desculpe aquele desabafo; tinha um negócio, que me mordia o
espírito. E ria, de um jeito sombrio e triste; depois pediu-me e que
não referisse a ninguém o que se passara entre nós; ponderei-lhe
que a rigor não se passara nada. Entraram dois deputados e um chefe
político da paróquia. O Lobo Neves recebeu-os com alegria, a
princípio um tanto postiça, mas logo depois natural. No fim de meia
hora, ninguém diria que ele não era o mais afortunado dos homens;
conversava, chasqueava, e ria, e riam todos.
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas
O relatório da coisa
Esta coisa é a mais difícil de uma
pessoa entender. Insista. Não desanime. Parecerá óbvio. Mas é
extremamente difícil de se saber dela. Pois envolve o tempo.
Nós dividimos o tempo quando ele na
realidade não é divisível. Ele é sempre e imutável. Mas nós
precisamos dividi-lo. E para isso criou-se uma coisa monstruosa: o
relógio.
Não vou falar sobre relógios. Mas
sobre um determinado relógio. O meu jogo é aberto: digo logo o que
tenho a dizer e sem literatura. Este relatório é a antiliteratura
da coisa.
O relógio de que falo é eletrônico
e tem despertador. A marca é Sveglia, o que quer dizer “acorda”.
Acorda para o quê, meu Deus? Para o tempo. Para a hora. Para o
instante. Esse relógio não é meu. Mas apossei-me de sua infernal
alma tranquila.
Não é de pulso: é solto portanto.
Tem dois centímetros e fica de pé na superfície da mesa. Eu queria
que ele se chamasse Sveglia mesmo. Mas a dona do relógio quer que se
chame Horácio. Pouco importa. Pois o principal é que ele é o
tempo.
Seu mecanismo é muito simples. Não
tem a complexidade de uma pessoa mas é mais gente do que gente. É
super-homem? Não, vem diretamente do planeta Marte, ao que parece.
Se é de lá que ele vem então um dia para lá voltará. É tolo
dizer que ele não precisa de corda, isso já acontece com outros
relógios, como o meu que é de pulso, é antichoque, pode-se molhar
à vontade. Esses até que são mais que gente. Mas pelo menos são
da Terra. O Sveglia é de Deus. Foram usados cérebros humanos
divinos para captar o que devia ser esterelógio. Estou escrevendo
sobre ele mas ainda não o vi. Vai ser o Encontro. Sveglia: acorda,
mulher, acorda para ver o que tem que ser visto. É importante estar
acordada para ver. Mas é também importante dormir para sonhar com a
falta de tempo. Sveglia é o Objeto, é a Coisa, com letra maiúscula.
Será que o Sveglia me vê? Vê, sim, como se eu fosse um outro
objeto. Ele reconhece que às vezes a gente também vem de Marte.
Estão me acontecendo coisas, depois
que soube do Sveglia, que mais parecem um sonho. Acorda-me, Sveglia,
quero ver a realidade. Mas é que a realidade parece um sonho. Estou
melancólica porque estou feliz. Não é paradoxo. Depois do ato do
amor não dá uma certa melancolia? A da plenitude. Estou com vontade
de chorar. Sveglia não chora. Aliás ele não tem circunstâncias.
Será que a energia dele tem peso? Dorme, Sveglia, dorme um pouco, eu
não suporto a tua vigília. Você não para de ser. Você não
sonha. Não se pode dizer que você “funciona”: você não é
funcionamento, você apenas é.
Você é todo magro. E nada lhe
acontece. Mas é você que faz acontecerem as coisas. Me aconteça,
Sveglia, me aconteça. Estou precisando de um determinado
acontecimento sobre o qual não posso falar. E dá-me de volta o
desejo, que é a mola da vida animal. Eu não te quero para mim. Não
gosto de ser vigiada. E você é o olho único aberto sempre como
olho solto no espaço. Você não me quer mal mas também não me
quer bem. Será que também eu estou ficando assim, sem sentimento de
amor? Sou uma coisa? Sei que estou com pouca capacidade de amar.
Minha capacidade de amar foi pisada demais, meu Deus. Só me resta um
fio de desejo. Eu preciso que este se fortifique. Porque não é como
você pensa, que só a morte importa. Viver, coisa que você não
conhece porque é apodrecível – viver apodrecendo importa muito.
Um viver seco: um viver o essencial.
Se ele se quebrar, pensam que morreu?
Não, foi simplesmente embora de simesmo. Mas você tem fraquezas,
Sveglia. Eu soube pela tua dona que você precisa de uma capa de
couro para protegê-lo contra a umidade. Soube também, em segredo,
que você uma vez parou. A dona não se afobou. Deu “a ele-nele”
umas mexidinhas muito das simples e você nunca mais parou. Eu te
entendo, eu te perdoo: você veio da Europa e precisa um mínimo de
tempo para se aclimatar, não é? Quer dizer que você também morre,
Sveglia? Você é o tempo que para?
Já ouvi o Sveglia, por telefone, dar
o alarma. É como dentro da gente: a gente acorda-se de dentro para
fora. Parece que seu eletrônico-Deus se comunica com o nosso cérebro
eletrônico-Deus: o som é macio, sem a menor estridência. Sveglia
marcha como um cavalo branco solto e sem sela.
Eu soube de um homem que possuía um
Sveglia e a quem aconteceu Sveglia. Ele estava andando com o filho de
dez anos, de noite, e o filho disse: cuidado, pai, tem macumba aí. O
pai recuou – mas não é que pisou em cheio na vela acesa,
apagando-a? Não parece ter acontecido nada, o que também é muito
de Sveglia. O homem foi dormir. Quando acordou viu que um de seus pés
estava inchado e negro. Chamou amigos médicos que não viram nenhuma
marca de ferimento: o pé estava intacto – só preto e muito
inchado, daquele inchado que deixa a pele toda esticada. Os médicos
chamaram mais colegas. E decidiram nove médicos que era gangrena.
Tinham que amputar o pé. Marcou-se para o dia seguinte e com hora
certa. O homem dormiu.
E teve um sonho terrível. Um cavalo
branco queria agredi-lo e ele fugia como um louco. Passava-se tudo
isso no Campo de Santana. O cavalo branco era lindo e enfeitado com
prata. Mas não houve jeito. O cavalo pegou-o bem no pé, pisando-o.
Aí o homem acordou gritando. Pensaram que estava nervoso, explicaram
que isso acontecia perto de uma operação, deram-lhe um sedativo,
ele dormiu de novo. Quando acordou, olhou logo para o pé. Surpreso:
o pé estava branco e de tamanho normal. Vieram os nove médicos e
não souberam explicar. Eles não conheciam o enigma do Sveglia
contra o qual só um cavalo branco pode lutar. Não havia mais motivo
de operação. Só que não pode se apoiar nesse pé: fraquejava. Era
a marca do cavalo de arreios de prata, da vela apagada, do Sveglia.
Mas Sveglia quis ser vitorioso e aconteceu uma coisa. A mulher desse
homem, em perfeito estado de saúde, na mesa do jantar, começou a
sentir fortes dores nos intestinos.
Interrompeu o jantar e foi se deitar.
O marido preocupadíssimo foi vê-la. Estava branca, exangue.
Tomou-lhe o pulso: não havia. O único sinal de vida é que sua
testa se perlava de suor. Chamou-se o médico que disse talvez ser
caso de catalepsia. O marido não se conformou. Descobriu-lhe a
barriga e fez sobre ela movimentos simples — como ele mesmo os
fizera quando Sveglia parara — movimentos que ele não sabia
explicar.
A mulher abriu os olhos. Estava em
saúde perfeita. E está viva, que Deus a guarde.
Isso tem a ver com Sveglia. Não sei
como. Mas que tem, tem. E o cavalo branco do Campo de Santana, que é
praça de passarinhos, pombos e quatis? Todo paramentado, com
enfeites de prata, de crina altiva e eriçada.
Correndo ritmadamente contra o ritmo
de Sveglia. Correndo sem pressa.
Estou em perfeita saúde física e
mental. Mas uma noite eu estava dormindo profundamente e me ouviram
dizer bem alto: eu quero ter um filho com Sveglia!
Eu creio no Sveglia. Ele não crê em
mim. Acha que minto muito. E minto mesmo. Na Terra se mente muito.
Eu passei cinco anos sem me gripar:
isso é Sveglia. E quando me gripei durou três dias. Depois ficou
uma tosse seca. Mas o médico me receitou antibiótico e curei-me.
Antibiótico é Sveglia.
Este é um relatório. Sveglia não
admite conto ou romance o que quer que seja. Permite apenas
transmissão.
Mal admite que eu chame isto de
relatório. Chamo de relatório do mistério. E faço o possível
para fazer um relatório seco como champanha ultrasseco. Mas às
vezes — me desculpem — fica molhado. Uma coisa seca é de prata
de lei. Ouro já é molhado. Poderia eu falar em diamante em relação
a Sveglia?
Não, ele apenas é. E na verdade
Sveglia não tem nome íntimo: conserva o anonimato. Aliás Deus não
tem nome: conserva o anonimato perfeito: não há língua que
pronuncie o seu nome verdadeiro.
Sveglia é burro: ele age
clandestinamente sem meditar. Vou agora dizer uma coisa muito grave
que vai parecer heresia: Deus é burro. Porque ele não entende, ele
não pensa, ele é apenas. É verdade que é de uma burrice que
executa-se a si mesma. Mas Ele comete muitos erros. E sabe que os
comete. Basta olharmos para nós mesmos que somos um erro grave.
Basta ver o modo como nos organizamos em sociedade e intrinsecamente,
de si para si. Mas um erro Ele não comete: Ele não morre.
Sveglia também não morre. Ainda não
vi o Sveglia, como já disse. Talvez seja molhado vê-lo. Sei tudo a
respeito dele. Mas a dona dele não quer que eu o veja. Tem ciúme.
Ciúme chega a pingar de tão molhado. Aliás, nossa Terra corre o
risco de vir a ser molhada de sentimentos. O galo é Sveglia. O ovo é
puro Sveglia. Mas só o ovo inteiro, completo, branco, de casca seca,
todo oval. Por dentro dele é vida; vida molhada. Mas comer gema crua
é Sveglia.
Querem ver quem é Sveglia? Jogo de
futebol. Mas já Pelé não é. Por quê? Impossível explicar.
Talvez ele não tenha respeitado o anonimato.
Briga é Sveglia. Acabo de ter uma com
a dona do relógio. Eu disse: já que você não quer me deixar ver
Sveglia, descreva-me os seus discos. Então ela ficou furiosa — e
isso é Sveglia — e disse que estava cheia de problemas — ter
problemas não é Sveglia. Então tentei acalmá-la e ficou tudo bem.
Amanhã não lhe telefonarei. Deixarei ela descansar.
Parece-me que escreverei sobre o
eletrônico sem jamais vê-lo. Parece que vai ter que ser assim. É
fatal.
Estou com sono. Será que é
permitido? Sei que sonhar não é Sveglia. O número é permitido.
Embora o seis não seja. Raríssimos poemas são permitidos. Romance,
então, nem se fala. Tive uma empregada por sete dias, chamada
Severina, e que tinha passado fome em criança. Perguntei-lhe se
estava triste. Disse que não era alegre nem triste: era assim mesmo.
Ela era Sveglia. Mas eu não era e não pude suportar a ausência de
sentimento.
Suécia é Sveglia.
Mas agora vou dormir embora não deva
sonhar.
Clarice Lispector, em Todos os Contos
20/06/2026
A fome
Meu Deus, até que ponto vou na miséria da necessidade: eu trocaria uma eternidade de depois da morte pela eternidade enquanto estou viva.
Clarice Lispector, em Todas as crônicas
Angústia
Levantei-me há cerca de trinta dias,
mas julgo que ainda não me restabeleci completamente. Das visões
que me perseguiam naquelas noites compridas umas sombras permanecem,
sombras que se misturam à realidade e me produzem calafrios.
Há criaturas que não suporto. Os
vagabundos, por exemplo. Parece-me que eles cresceram muito, e,
aproximando-se de mim, não vão gemer peditórios: vão gritar,
exigir, tomar-me qualquer coisa.
Certos lugares que me davam prazer
tornaram-se odiosos. Passo diante de uma livraria, olho com desgosto
as vitrinas, tenho a impressão de que se acham ali pessoas exibindo
títulos e preços nos rostos, vendendo-se. É uma espécie de
prostituição. Um sujeito chega, atenta, encolhendo os ombros ou
estirando o beiço, naqueles desconhecidos que se amontoam por detrás
do vidro. Outro larga uma opinião à toa. Basbaques escutam, saem. E
os autores, resignados, mostram as letras e os algarismos,
oferecendo-se como as mulheres da rua da Lama.
Vivo agitado, cheio de terrores, uma
tremura nas mãos, que emagreceram. As mãos já não são minhas:
são mãos de velho, fracas e inúteis. As escoriações das palmas
cicatrizaram.
Impossível trabalhar. Dão-me um
ofício, um relatório, para datilografar, na repartição. Até dez
linhas vou bem. Daí em diante a cara balofa de Julião Tavares
aparece em cima do original, e os meus dedos encontram no teclado uma
resistência mole de carne gorda. E lá vem o erro. Tento vencer a
obsessão, capricho em não usar a borracha. Concluo o trabalho, mas
a resma de papel fica muito reduzida.
À noite fecho as portas, sento-me à
mesa da sala de jantar, a munheca emperrada, o pensamento vadio longe
do artigo que me pediram para o jornal.
Vitória resmunga na cozinha, ratos
famintos remexem latas e embrulhos no guarda-comidas, automóveis
roncam na rua.
Em duas horas escrevo uma palavra:
Marina. Depois, aproveitando letras deste nome, arranjo coisas
absurdas: ar, mar, rima, arma, ira, amar. Uns vinte nomes. Quando não
consigo formar combinações novas, traço rabiscos que representam
uma espada, uma lira, uma cabeça de mulher e outros disparates.
Penso em indivíduos e em objetos que não têm relação com os
desenhos: processos, orçamentos, o diretor, o secretário,
políticos, sujeitos remediados que me desprezam porque sou um
pobre-diabo.
Tipos bestas. Ficam dias inteiros
fuxicando nos cafés e preguiçando, indecentes. Quando avisto essa
cambada, encolho-me, colo-me às paredes como um rato assustado. Como
um rato, exatamente. Fujo dos negociantes que soltam gargalhadas
enormes, discutem política e putaria.
Não posso pagar o aluguel da casa.
Dr. Gouveia aperta-me com bilhetes de cobrança. Bilhetes inúteis,
mas dr. Gouveia não compreende isto. Há também o homem da
luz, o Moisés das prestações, uma promissória de quinhentos
mil-réis, já reformada. E coisas piores, muito piores.
O artigo que me pediram afasta-se do
papel. É verdade que tenho o cigarro e tenho o álcool, mas
quando bebo demais ou fumo demais, a minha tristeza cresce. Tristeza
e raiva. Ar, mar, ria, arma, ira. Passatempo estúpido.
Dr. Gouveia é um monstro. Compôs, no
quinto ano, duas colunas que publicou por dinheiro na seção livre
de um jornal ordinário. Meteu esse trabalhinho num caixilho dourado
e pregou-o na parede, por cima do bureau. Está cheio de erros e
pastéis. Mas dr. Gouveia não os sente. O espírito dele não tem
ambições. Dr. Gouveia só se ocupa com o temporal: a renda das
propriedades e o cobre que o tesouro lhe pinga.
Não consigo escrever. Dinheiro e
propriedades, que me dão sempre desejos violentos de mortandade e
outras destruições, as duas colunas mal impressas, caixilho, dr.
Gouveia, Moisés, homem da luz, negociantes, políticos, diretor
e secretário, tudo se move na minha cabeça, como um bando de
vermes, em cima de uma coisa amarela, gorda e mole que é,
reparando-se bem, a cara balofa de Julião Tavares muito aumentada.
Essas sombras se arrastam com lentidão viscosa, misturando-se,
formando um novelo confuso.
Afinal tudo desaparece. E,
inteiramente vazio, fico tempo sem fim ocupado em riscar as palavras
e os desenhos. Engrosso as linhas, suprimo as curvas, até que deixo
no papel alguns borrões compridos, umas tarjas muito pretas.
[…]
Graciliano Ramos, em Angústia
A teus pés
Trilha sonora ao fundo: piano no
bordel, vozes barganhando uma informação difícil. Agora silêncio;
silêncio eletrônico, produzido no sintetizador que antes construiu
a ameaça das asas batendo freneticamente.
Apuro técnico.
Os canais que só existem no mapa.
O aspecto moral da experiência.
Primeiro ato da imaginação.
Suborno no bordel.
Eu tenho uma ideia.
Eu não tenho a menor ideia.
Uma frase em cada linha. Um golpe de
exercício.
Memórias de Copacabana. Santa Clara
às três da tarde.
Autobiografia. Não, biografia.
Mulher.
Papai Noel e os marcianos.
Billy the Kid versus Drácula.
Drácula versus Billy the Kid.
Muito sentimental.
Agora pouco sentimental. Pensa no seu
amor de hoje que sempre dura menos que o seu amor de ontem.
Gertrude: estas são ideias bem
comuns.
Apresenta a jazz-band.
Não, toca blues com ela.
Esta é a minha vida.
Atavessa a ponte.
É sempre um pouco tarde.
Não presta atenção em mim.
Olha aqueles três barcos colados
imóveis no meio do grande rio.
Estamos em cima da hora.
Daydream.
Quem caça mais o olho um do outro?
Sou eu admito vitória.
Ela que mora conosco então nem se
fala.
Caça, caça.
E faz passos pesados subindo a escada
correndo.
Outra cena da minha vida.
Um amigo velho vive em táxis.
Dentro de um táxi é que ele me diz
que quer
chorar mas não chora.
Não esqueço mais.
E a última, eu já te contei?
É assim.
Estamos parados.
Você lê sem parar, eu ouço uma
canção.
Agora estamos em movimento.
Atravessando a grande ponte olhando o
grande
rio e os três barcos colados imóveis
no meio.
Você anda um pouco na frente.
Penso que sou mais nova do que sou.
Bem nova.
Estamos deitados.
Você acorda correndo.
Sonhei outra vez com a mesma coisa.
Estamos pensando.
Na mesma ordem de coisas.
Não, não na mesma ordem de coisas.
É domingo de manhã (não é dia útil
às três da tarde).
Quando a memória está útil.
Usa.
Agora é a sua vez.
Do you believe in love...?
Então está.
Não insisto mais.
O tempo fecha.
Sou fiel aos acontecimentos
biográficos.
Mais do que fiel, oh, tão presa!
Esses mosquitos que não largam! Minhas saudades ensurdecidas
por cigarras! O que faço aqui no
campo declamando aos metros versos longos e sentidos?
Ah que estou sentida e portuguesa, e
agora não sou mais, veja, não sou mais severa e ríspida:
agora sou profissional.
Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés
Cerveja no bar da esquina
Não sei há quantos anos foi, quinze
ou vinte. Eu estava sentado em minha casa. Era uma quente noite de
verão e eu me sentia embotado.
Saí pela porta e desci a rua. Passara
da hora do jantar para a maioria das famílias, e elas se sentavam
vendo suas TVs. Fui até o boulevard. Do outro lado da rua tinha um
bar de bairro, construção antiga, com um balcão de madeira pintado
de verde e branco. Entrei.
Após quase uma vida inteira passada
em bares, eu perdera inteiramente o gosto por eles. Quando queria
alguma coisa para beber, geralmente pegava numa loja de bebidas,
levava para casa e bebia sozinho.
Entrei e encontrei um banquinho
distante da turma. Não estava constrangido, apenas me sentia
deslocado. Mas se queria sair, não havia nenhum outro lugar aonde
ir. Em nossa sociedade, os lugares interessantes, em sua maioria, ou
são ilegais ou muito caros.
Pedi uma garrafa de cerveja e acendi
um cigarro. Era mais um barzinho de bairro. Todos se conheciam.
Contavam piadas pesadas e viam TV. Só havia uma mulher, velha, num
vestido preto, peruca ruiva. Tinha uma dúzia de colares e acendia um
cigarro atrás do outro. Comecei a desejar estar de volta ao meu
quarto, e decidi ir para lá depois de acabar a cerveja.
Entrou um sujeito e pegou o banquinho
junto ao meu. Não ergui o olhar, não estava interessado, mas pela
voz imaginei que fosse mais ou menos da minha idade. Conheciam-no no
bar. O garçom do balcão chamou-o pelo nome e uns dois fregueses o
cumprimentaram. Ele ficou sentado junto a mim com sua cerveja por
três ou quatro minutos; depois disse:
– Oi, como vai?
– Vou indo bem.
– Novo no bairro?
– Não.
– Não vi você aqui antes.
Não respondi.
– De Los Angeles? – ele perguntou.
– Principalmente.
– Acha que os Dodgers ganham este
ano?
– Não.
– Não gosta dos Dodgers?
– Não.
– De quem você gosta?
– Ninguém. Não gosto de beisebol.
– De que é que gosta?
– Boxe. Tourada.
– Tourada é cruel.
– É, tudo é cruel quando a gente
perde.
– Mas o touro não tem uma chance.
– Nenhum de nós tem.
– Você é negativo pra caralho.
Acredita em Deus?
– Não no seu tipo de deus.
– Que tipo?
– Não sei ao certo.
– Eu vou à igreja desde que me
lembro.
Não respondi.
– Posso lhe pagar uma cerveja? –
ele perguntou.
– Claro.
Vieram as cervejas.
– Leu os jornais hoje? – ele
perguntou.
– Li.
– Leu sobre as cinquenta meninas que
morreram queimadas naquele orfanato de Boston?
Li.
– Não foi horrível?
– Acho que foi.
– Você acha que foi?
– É.
– Não sabe?
– Se eu estivesse lá, acho que
teria pesadelos o resto da vida. Mas é diferente quando a gente
apenas lê sobre a coisa nos jornais.
– Não sente pena das cinquenta
meninas que morreram queimadas? Elas se penduravam das janelas
gritando.
– Acho que foi horrível. Mas a
gente vê isso apenas como uma manchete de jornal, uma matéria de
jornal. Na verdade não pensei muito nisso. Virei a página.
– Quer dizer que não sentiu nada?
– Na verdade, não.
Ele ficou um momento calado e tomou um
gole de sua cerveja. Depois gritou:
– Ei, aqui tem um cara que diz que
não sentiu porra nenhuma quando leu sobre aquelas cinquenta órfãs
que morreram queimadas em Boston!
Todos olharam para mim. Baixei o olhar
para meu cigarro. Fez-se um minuto de silêncio. Então a mulher de
peruca vermelha disse:
– Se eu fosse homem, chutava a bunda
dele por toda a rua acima e abaixo.
– Ele também não acredita em
Deus! – disse o cara junto a mim. – Odeia beisebol.
Adoratouradas, e gosta de ver menininhas morrerem queimadas!
Pedi outra cerveja ao garçom, para
mim. Ele me empurrou a garrafa com repugnância. Dois rapazes jogavam
sinuca. O mais jovem, um garotão grande de camiseta branca, largou o
taco e aproximou-se de mim. Ficou atrás de mim enchendo os pulmões
de ar, tentando tornar o peito maior.
– Isso aqui é um bom bar. A gente
não gosta de babacas por aqui, a gente cobre eles de porrada.
Eu o sentia parado às minhas costas.
Peguei a garrafa, servi no copo, bebi e acendi um cigarro. A mão
perfeitamente firme. Ele ficou ali parado por algum tempo, depois
acabou voltando para a mesa de sinuca. O homem sentado a meu lado
desceu de seu banquinho e afastou-se.
– O filho da puta é negativo –
ouvi-o dizer. – Odeia as pessoas.
– Se eu fosse homem – disse a
mulher de peruca vermelha – fazia ele pedir o penico. Não suporto
esses sacanas.
– É assim que falam caras tipo
Hitler – disse alguém.
– Verdadeiros panacas cheios de
ódio.
Tomei a cerveja, pedi outra. Os dois
caras jovens continuavam jogando sinuca. Algumas pessoas saíram e os
comentários sobre mim começaram a morrer, exceto no caso da mulher
de peruca vermelha. Ela ficava cada vez mais bêbada.
– Canalha, canalha... você é um
verdadeiro canalha. Fede como uma fossa! Aposto que odeia seu país
também, não odeia? Seu pais, sua mãe e todo mundo mais. Ah, eu
conheço vocês! Canalhas, canalhas covardes vulgares.
Acabou saindo lá pela uma e meia da
manhã. Um dos garotos que jogavam sinuca saiu. O de camiseta branca
sentou-se na ponta do balcão e falou com o cara que tinha pago a
cerveja para mim. Às cinco para as duas, eu me levantei devagar e
saí.
Ninguém me seguiu. Subi o boulevard,
peguei minha rua. As luzes das casas e apartamentos estavam apagadas.
Havia uma cerveja na geladeira. Abri e bebi.
Depois tirei a roupa, fui ao banheiro,
mijei, escovei os dentes, apaguei a luz, fui para a cama, me deitei e
dormi.
Charles Bukowski, em Numa Fria
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