terça-feira, 28 de abril de 2026
Essa não!
Lili teve conhecimento dos antípodas,
na escola.
Logo que chegou em casa, começou a
deitar sabença pra cima da cozinheira. Falou, falou, e, como visse
que Sia Hortênsia não estava manjando nada, ergueu no ar o dedinho
explicativo:
— Imagine só que quando aqui é
meio-dia lá na China é meia-noite!
— Credo! Eu é que não morava numa
terra assim...
— Mas por que, Sia Hortênsia?
— Uma terra onde o dia é de
noite... Cruzes!
Mário Quintana, em Caderno H
Quarto capítulo — A Lição de Siqueleto
Uma vez mais Tuhair decide explorar os
matos vizinhos. A estrada não traz ninguém. Enquanto a guerra não
terminasse era mesmo melhor que nenhuma pessoa estradeasse por ali. O
velho sempre repetia:
— Alguma coisa, algum dia, há-de
acontecer. Mas não aqui, emendava baixinho.
De facto, a única coisa que acontece
é a consecutiva mudança da paisagem. Mas só Muidinga vê essas
mudanças. Tuahir diz que são miragens, frutos do desejo de seu
companheiro. Quem sabe essas visões eram resultado de tanto se
confinarem ao mesmo refúgio. Por isso ele queria uma vez mais
partir, tentar descobrir nem sabia o quê, uma réstia de esperança,
uma saída daquele cerco.
— Você quer sair, não é?
— Quero, tio. Esta estrada está
morta.
— Esta estrada está morta!? Mas
não entende que isso é muito bom, esta estrada estar morta é que
nos dá boa segurança?
— Mas nós, desta maneira, não
vamos a lado nenhum...
— Isso quer dizer que também
aqui não chega ninguém.
O velho pondera: não valia a pena
insistir. O melhor seria uma mentira, dessas tecidas pela bondade.
Diria ao miúdo que aceitava partir. Depois fingiria afastar-se,
enquanto andavam em círculos. Regressariam sempre ao machimbombo, à
mesma estrada de onde haviam partido. Assim ele fizera desde a
primeira vez que saíram da estrada.
Nessa tarde, o velho comanda uma
dessas falsas viagens. Primeiro, seguem ao longo da picada. A estrada
onde moram surge a Muidinga com novas vistas, parecendo pentear a
savana, risco ao meio. Só depois derivam por atalhos e trilhos. No
sossego da paisagem nenhuma coisa pedia urgência. Contudo, Muidinga
não está tranquilo: sempre o susto espreita no farfalhar da
folhagem, o segredar da morte, essa infatigável coscuvilheira. Vão
pisando caminhos saudosos do pé de gente. Tuahir segue à frente,
abrindo trilhos por onde depois o rapaz avança. De repente, o mundo
desaba, o chão desaparece. Tuahir e Muidinga se abismalham, tombados
numa enormíssima cova. É um desses buracos onde a noite se esconde
com o rabo de fora.
— Estamos onde, Tuahir?
— Nem fale. Deve ser morada do
sapo gigante, o tal comedor de escuro.
Ficam sentados, se acostumando ao
nada. Depois, seus olhos lusco-focaram: havia uma rede cobrindo as
paredes do buraco. Nenhum de ambos tem dúvida: estão dentro de uma
armadilha. Só restava esperar. Conversam para distrair os maus
espíritos que sempre aproveitam o silêncio para engordar intenções.
— Sabe o que eu me estou a
lembrar, tio? Lembro de Farida.
— E quem é essa?
— A mulher dos cadernos,
apaixonada de Kindzu.
Tuahir sorri da confissão, cheio de
idade. Sobre as mulheres ele, nos tempos, emitira opiniões que
vinham do coração. Agora, nem tanto:
— Há mulheres que são chuva,
outras cacimbo. Essa tal Farida deve ser uma que vale a pena a gente
se despentear com ela.
Muidinga vai fingindo que escuta,
preocupado em estudar as paredes do buracão e avaliar modos de sair
daquela prisão. O tempo passa sem solução e os dois adormecem,
cada um para seu lado. Muidinga sonha, agitado. Lhe surgem, confusas,
imagens de um tempo que ele nunca foi capaz de tocar. Muidinga se
revê menino, saindo de uma escola. Mas nenhum rosto é legível,
mesmo a escola não possui fachada. Confusas vozes lhe afluem: chamam
por si! Lhe chamam um outro nome. Tenta desesperadamente entender
esse nome. Mas os sons se desfocam, em eco de cacimbo. Depois, tudo
se esfuma, anoitece dentro de seu sonho. Na manhã seguinte, o miúdo
é o primeiro a acordar, o chão lhe doendo nas costas. Aquela noite
lhe dera a certeza: os sonhos são cartas que enviamos a nossas
outras, restantes vidas. Os cadernos de Kindzu não deveriam ter sido
escritos por mão de carne e ossuda mas por sonhos iguais aos dele.
A manhã ainda balbucia, a luz
pestaneja. Súbito, no meio do cacimbo, uma silhueta aparece. É
figura de gente. Muidinga se satisfaz, chama o companheiro:
— Acorda,Tuahir, nos vieram
salvar!
Festejam a chegada do intruso. Dão os
bons-dias mas não há resposta. O cacimbo se desfaz, ao sopro de uma
brisa. O vulto então se esclarece: é um velho alto, torto, usando
sobre o corpo nu uma gabardina comprida, maior que o seu tamanho. Um
dos olhos permanece fechado enquanto o outro está aberto. O olho de
serviço reveza-se, ora um ora outro. De vez em quando, tropeça no
excesso da pouca roupa. Fica espreitando, demorado, incrédulo. Por
fim, lhes lança uma rede. Ficam presos nas malhas, enredilhados como
peixes. Então o velho os puxa, os dois vão ajudando com as pernas a
subir, buraco acima. Saem mas ele não lhes solta. Traz a rede a
arrastar pelo chão, os dois lá dentro, iguais aos bichos caçados.
Quando por fim chegam a sua casa ele reforçou a rede com mais
amarras. Encara os prisioneiros com um só olho enquanto fala na
língua local. Tuahir traduz:
— Ele diz que nos vai semear.
— Semear?
— Não sabe o que é semear? É
isso que nos vai fazer. Ele quer companhia, quer que nasça mais
gente.
— O velho é doido, vai é matar
a gente.
Tuahir então combina com o moço: se
fingiriam doentes, estragados. Gemem, lançam feios cuspes e vómitos.
Mas o velho nem se impressiona. Vai buscar uma lata, abana-a, tirando
dela agudas estridências.
— Meu nome é Siqueleto.
Depois ele se apresenta com sua
estória. Enquanto fala vai sacudindo a lata como se acompanhasse uma
canção. Daquele lugar todos se tinham ido embora, por motivo do
terror. Os bandos assaltaram, mataram, queimaram. A aldeia foi
ficando deserta, todos partiram, um após nenhum. A família lhe
chamava o pensamento: venha connosco, já toda a gente foi embora!
Assim lhe rogavam na hora da partida. Ele respondia:
— Eu sou como a árvore, morro só
de mentira.
E agora perante os dois inesperados
visitantes ele repete as suas parecenças com as árvores que
renascem cada ano. Tuahir acompanha com dificuldade, a ausência de
dentes deforma as palavras do solitário aldeão.
— Sou velho, já assisti muita
desgraça. Mas igual como essa nunca eu vi. E abana a cabeça,
pesaroso.
— Estás triste, velho?,
pergunta-lhe Tuahir.
— Já não fico triste, só
cansado.
Era por causa do cansaço que ele não
abria os dois olhos de uma só vez. O idoso homem tinha, apesar de
tudo, seus pensamentos futuros. Para ele só havia uma maneira de
ganhar aquela guerra: era ficar vivo, teimando no mesmo lugar. Não
desejava nenhuma felicidade, nem sequer se deliciar com doces
lembranças. Lhe bastava sobreviver, restar como um guarda daquela
aldeia em ruínas. Agora ele amaldiçoa os que tinham saído dali.
— Satanhocos, hão-de comer
poeira!
Fala com raiva, todo levantado.
Depois, se zanga com os visitantes. Pontapina nas redes,
insultando-os: vocês são fugistas, vosso mal está nos dentes.
São os dentes que convidam a fome. É por isso eu tirei toda a
dentaria. Estão aqui, nesta lata. Abana a lata ferrugenta, os
dentes tintinam e ele sorri, satisfeito com o barulho.
— É minha música, essa.
Prossegue seus lamentos: nos dias
de hoje, os filhos mordem as mães quando ainda estão no ventre.
Vejam a pedra em que me sento: parece morta, enquanto não, vive
devagarinho, sem barulho. Como eu, conclui. Depois, se volta a
zangar, manifestivo. O velho braceja, boca fora dos bofes.
— Vão os dois para baixo da
terra, satanhocas!
Muidinga, então, se excede. Grita. O
velho aldeão se atenta para escutar, através da tradução de
Tuahir. Por que motivo ele não recebia bem os visitantes como
ordenavam as velhas leis hospitaleiras? De facto, responde o velho,
não é assim a maneira da nossa raça. Antigamente quem chegava era
em bondade de intenção. Agora quem vem traz a morte na ponta dos
dedos.
O rapaz insiste em explicar seus
motivos. As razões deles não eram iguais às dos que hoje cruzem os
matos. Tuahir interrompe-o pedindo calma. Lento como um rosário
desfia toda a estória, razão de estarem ali, requerendo tais
ousadias. Nem Muidinga sabia de tais dotes em seu companheiro. Tuahir
fala de um mundo que nem há, engraçando suas visões. Que a
nossa terra se ia aquietar, todos se familiariam, moçambicanos. E
nos visitaríamos, como nos tempos, roendo os caminhos sem nunca mais
termos medo.
— Verdade isso?, pergunta o
desdentado.
Longe se ouvem tiros, a guerra
continua a infligir seus estrondos. Tuahir prossegue, arrebatado: diz
que ouviu falar de países ricos onde a gente já nem tem que cavar a
terra: enterra-se a enxada, bem direito no chão. Do cabo brotam
árvores, plantas cheias de verde.
— Seremos assim também,
sentenciou.
Mas o desdentado aldeão já
anoitecera, queixo no peito. Seu mundo já era esse que Tuahir
anunciara, de extensos sossegos. O próprio Muidinga está como se
encantado com as palavras de Tuahir. Não é a estória que o fascina
mas a alma que está nela. E ao ouvir os sonhos de Tuahir, com os
ruídos da guerra por trás, ele vai pensando: “não inventaram
ainda uma pólvora suave, maneirosa, capaz de explodir os homens sem
lhes matar. Uma pólvora que, em avessos serviços, gerasse mais
vida. E do homem explodido nascessem os infinitos homens que lhes
estão por dentro”.
Tuahir se revela, por um instante,
como um curandeiro amenizando o universo, seu paciente. E ali está o
velho Siqueleto, sonecando em trégua de existir. Olhando o seu corpo
abandonado dá vontade de sorrir como se faz ao contemplar o sono
indefeso de uma criança. E os dois prisioneiros se entretêm a
fabricar um tabaco, feito de folha que o velho deixara cair. Fumam
com o gosto de serem eles mesmos o incenso, fumam como se em seus
dedos esfumasse o tempo, como se não houvesse rede os aprisionando.
Tuahir adivinhou a cabeça do rapaz:
— Acreditaste em mim? Fizeste
bem. Te dou um conselho: não confies em homem que não sabe mentir.
Foi então que, entre o lusco e o
fusco, vêem chegar a hiena. Ao princípio, parece é nada, só um
arrepio no capim, um suspiro do verde-escuro. Vai surgindo inteira,
balançando as patas traseiras. Depois, se senta, sozinhando,
espreitando o mundo de cá.
Sentem um aperto. Que vinha ali fazer
aquele bicho sem aprumo, despromovido das traseiras? Trazer má sorte
ao destino dos viventes, só podia ser esse o serviço desse animal.
A hiena permanece parada, em vistoria dos cheiros. Depois, se encosta
na própria sombra e, assim deitada, lambe os beiços. Faz medo
ver-lhe à maneira de doméstica, nem besta se parecia. Os bichos
temem o homem, desvizinham-se dele. Mas este, no entanto, deita no
lugar exclusivo de gente.
O velho, entretanto, desperta. Vendo o
espanto dos outros, esclarece a hiena: o bicho sentinelava sua vida.
Ninguém me aproxima, sorri o velho enquanto acaricia a hiena
que se enrosca, regalada. Aquele era o seu exército privado,
segurança e guarda-corpo. Tuahir avisa, em segredo:
— Não confia, miúdo. Aquilo nem
hiena não é.
A noite vai descendo. O frio aperta
enquanto se alarga um silêncio do tamanho da terra. Muidinga se
queixa. Lhe dói o corpo da posição que a rede lhe obrigava,
dobrado pelo umbigo. A dor, afinal, é uma janela por onde a morte
nos espreita. Sucumbente, se encosta a Tuahir a buscar um quentinho.
Mas o sono não lhe chega. Por um buraco da rede Muidinga consegue
retirar um braço. Apanha um pau e escreve no chão.
— Que desenhos são esses?,
pergunta Siqueleto.
— É o teu nome, responde Tuahir.
— Esse é o meu nome?
O velho desdentado se levanta e roda
em volta da palavra. Está arregalado. Joelha-se, limpa em volta dos
rabiscos. Ficou ali por tempos, gatinhoso, sorrindo para o chão com
sua boca desprovida de brancos. Depois, com voz descolorida trauteia
uma canção. Parece rezar. Com aquela cantoria Muidinga acaba por
adormecer. Não faz ideia quanto tempo dorme. Porque desperta em
sobressalto: o brilho de uma lâmina relampeja frente a seus olhos. O
velho Siqueleto armaneja uma faca.
— Andam comigo!
Solta Tuahir e Muidinga das redes. São
conduzidos pelo mato, para lá do longe. Então, frente a uma grande
árvore, Siqueleto ordena algo que o jovem não entende.
— Está mandar que escrevas o
nome dele.
Passa-lhe o punhal. No tronco Muidinga
grava letra por letra o nome do velho. Ele queria aquela árvore para
parteira de outros Siqueletos, em fecundação de si. Embevecido, o
velho passava os dedos pela casca da árvore. E ele diz:
— Agora podem-se ir embora. A
aldeia vai continuar, já meu nome está no sangue da árvore.
Então ele mete o dedo no ouvido, vai
enfiando mais e mais fundo até que sentem o surdo som de qualquer
coisa se estourando. O velho tira o dedo e um jorro de sangue repuxa
da orelha. Ele se vai definhando, até se tornar do tamanho de uma
semente.
Mia Couto, em Terra Sonâmbula
Chuteira
Neto está amarrando suas
chuteiras roxas, todo pimpão. Vê Aguinaga, do outro lado do
vestiário, amarrando uma chuteira da mesma cor. Fecha o tempo. Vai
falar com ele.
NETO Que porra é essa, Aguinaga?
AGUINAGA Do que é que você tá
falando?
NETO Essa porra dessa chuteira roxa.
AGUINAGA Não gosta?
NETO Gosto, Aguinaga. Tanto gosto que
eu venho usando chuteira roxa há um mês.
AGUINAGA Sério? Irado. Esse é o
bonde da chuteira roxa, tum tchi tum tchi…
Aguinaga faz uma dancinha pra
descontrair. Neto não acha a menor graça.
NETO Exatamente. É o bonde da
chuteira roxa. Não é mais o cara da chuteira roxa.
Aguinaga tenta entender se Neto
está falando sério.
NETO Não é mais: Neto? Qual Neto?
Aquele da chuteira roxa. Ah, tá, o Neto é o da chuteira roxa. Você
acha que alguém me conhece pelo nome?
AGUINAGA Nem pela chuteira roxa.
NETO Mas vai conhecer. Ou melhor, ia.
Antes de eu ser só mais um chuteira roxa. Qual Neto? Aquele da
chuteira roxa? Mas aquele não é o Aguinaga?
AGUINAGA Ninguém vai confundir. Eu
sou do ataque. Você é da zaga.
NETO Eu sabia que isso iria surgir em
algum momento.
AGUINAGA Não foi isso que eu quis
dizer....
NETO É porque eu sou da zaga que eu
não tenho direito de usar chuteira roxa?
AGUINAGA Você entendeu errado.
NETO Chuteira colorida é coisa de
atacante! Zagueiro tem que usar chuteira preta! De preferência
Kichute!
AGUINAGA Neto, ninguém repara nessas
coisas!
NETO Em mim não repara. Mas em você
vão reparar, porque você é o craque do time. E sabe o que é pior?
Depois de reparar na sua vão reparar na minha, e achar que fui eu
que copiei você, quando na verdade…
Neto ameaça chorar. Aguinaga traz
ele pro abraço.
NETO … Eu já usava chuteira roxa
antes de todo o mundo, antes do Cristiano Ronaldo, antes de virar
moda.
AGUINAGA Virou moda?
NETO Mas ninguém reparou, sabe por
quê? Porque eu sou só mais um zagueiro. E lesionado, na maior parte
do tempo. Eu tô todo bichado, porra.
Neto chora.
AGUINAGA Relaxa, Neto! Passou. Tirei a
chuteira, já. Tá?
NETO Não! Pode ficar. Deixa que eu
tiro. Ela ficou muito melhor em você. Essa é toda a questão. Deixa
que eu me viro, aqui.
AGUINAGA Sério?
NETO Vai lá! A torcida tá te
chamando.
Aguinaga sai do vestiário, sob os
gritos da torcida. Neto guarda sua chuteira roxa. Tira do armário um
Kichute e veste, enxugando as lágrimas. Ergue a cabeça e entra em
campo.
Gregório Duvivier, em Put some farofa
1618 – Lima
Um porteiro de cor escura
Os amigos reviram suas capas puídas e
varrem o chão com seus chapéus. Cumprida a mútua reverência, se
elogiam:
– Maravilha esse toco de braço!
– E essa tua chaga? Está tremenda!
Atravessam junto o descampado,
perseguidos pelas moscas. Conversam enquanto mijam, de costas para o
vento.
– Tempos sem te ver.
– Corri feito mosca. Sofrendo,
sofrendo.
– Ai.
Laxartixa extrai do bolso uma bolacha
dura, sopra, dá brilho e oferece a Pedepão. Sentados em uma pedra,
contemplam as flores dos abrolhos.
Pedepão morde com todos os seus três
dentes, e conta.
– Na Auditoria, boas esmolas
havia... O melhor lugarzinho de Lima. Me expulsaram a pontapés. Foi
o porteiro.
– Juan Ochoa?
– Satanás, você quer dizer. Lá
sabe meu Deus que eu não fiz nada.
– Já não está Juan Ochoa.
– Verdade?
– O expulsaram feito cachorro. Já
não é porteiro da Auditoria, nem nada.
Pedepão, vingado, sorri. Estica os
dedos de seus pés descalços.
– Por suas maldades, deve ter sido.
– Não, não.
– Por ser burro?
– Não, não. Por ser filho de
mulata e neto de negra. Por isso.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
domingo, 26 de abril de 2026
O Guardador de Rebanhos
III
Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em
frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.
Que pena que tenho dele! Ele era um
camponês
Que andava preso em liberdade pela
cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas coisas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada
por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há
pelos campos...
Por isso ele tinha aquela grande
tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no
campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros…
Fernando Pessoa, em Poemas de Alberto Caeiro
Máquina escrevendo
Sinto que já cheguei quase à
liberdade. A ponto de não precisar mais escrever. Se eu pudesse,
deixava meu lugar nesta página em branco: cheio do maior silêncio.
E cada um que olhasse o espaço em branco, o encheria com seus
próprios desejos.
Vamos falar a verdade: isto aqui não
é crônica coisa nenhuma. Isto é apenas. Não entra em gênero.
Gêneros não me interessam mais. Interessa-me o mistério. Preciso
ter um ritual para o mistério? Acho que sim. Para me prender à
matemática das coisas. No entanto, já estou de algum modo presa à
terra: sou uma filha da natureza: quero pegar, sentir, tocar, ser. E
tudo isso já faz parte de um todo, de um mistério. Sou uma só.
Antes havia uma diferença entre escrever e eu (ou não havia? não
sei). Agora mais não. Sou um ser. E deixo que você seja. Isso lhe
assusta? Creio que sim. Mas vale a pena. Mesmo que doa. Dói só no
começo.
Agora vou falar de umas verdades que
me deixam espantada. É sobre bichos.
Uma pessoa que conheço disse que o
siri, quando se lhe pega por uma perna, essa se solta para que o
corpo todo não fique aprisionado pela pessoa. E que, no lugar dessa
perna caída, nasce outra.
Outra pessoa que conheço estava
hospedada numa casa e foi abrir a porta da geladeira para beber um
pouco de água.
E viu a coisa.
A coisa era branca, muito branca. E,
sem cabeça, arfava. Como um pulmão. Assim: para baixo, para cima,
para baixo, para cima. A pessoa fechou depressa a geladeira. E ali
perto ficou, de coração batendo.
Depois veio a saber do que se tratava.
O dono da casa era perito em caça submarina. E pescara uma
tartaruga. E lhe tirara o casco. E lhe cortara a cabeça. E pusera a
coisa na geladeira para no dia seguinte cozinhá-la e comê-la.
Mas enquanto não era cozida, ela, sem
cabeça, nua, arfava. Como um fole.
Já lhe falei aqui sobre tartarugas.
Escrevi o seguinte: “Da lenta e empoeirada tartaruga carregando seu
pétreo casco, não quero falar. Esse animal nos vem da Era
Terciária, dinossáurico (quando escrevi dinossáurico não sabia
que era mesmo, estava só adivinhando), não me interessa: é por
demais estúpido, não entra em relação com ninguém, nem consigo
próprio. É uma abstração. O ato de amor de duas tartarugas não
deve ter calor nem vida. Sem ser cientista, aventuro-me a
prognosticar que a espécie vai daqui a poucos milênios acabar.”
Esqueci-me de dizer que acho a
tartaruga inteiramente imoral.
Alguém, adivinhando que era falso meu
não interesse por tartarugas, emprestou-me um livrinho sobre elas,
em inglês. Eis um trecho traduzido desse livrinho.
“As tartarugas são répteis raros e
antigos. Seus ancestrais apareceram pela primeira vez há uns 200
milhões de anos, muito antes que os dinossauros. Enquanto estes
animais grandes há muito tempo se extinguiram, as tartarugas, com
sua forma estranha e sem beleza, conseguiram sobreviver, e têm
permanecido relativamente imutáveis pelo menos durante 150 milhões
de anos.”
Sem o casco, sem a cabeça, arfando,
para cima, para baixo, para cima, para baixo. Com vida.
Como compreender uma tartaruga? Como
compreender Deus?
O ponto de partida deve ser: “Não
sei.” O que é uma entrega total.
A máquina continua escrevendo. Por
exemplo, ela vai escrever o seguinte: quem atinge um alto nível de
abstração está em fronteira com a loucura. Que os grandes
matemáticos e físicos o digam. Conheço um grande homem abstrato
que faz de conta que é como todo mundo: come, bebe, dorme com a
mulher, tem filhos. Assim ele se salva de se tornar um x ou uma raiz
quadrada. Quando penso que, muito menina ainda, eu dava aulas
particulares explicativas de matemática e português a ginasianos,
mal acredito. Porque hoje seria incapaz de resolver uma raiz
quadrada. Quanto a português, era com o maior tédio que eu dava as
regras de gramática. Depois, felizmente, vim a esquecê-las. É
preciso antes saber, depois esquecer. Só então se começa a
respirar livremente.
Agora a máquina vai parar. Até
sábado próximo.
Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida
Capítulo 46 – A Herança
Veja-nos agora o leitor, oito dias
depois da morte de meu pai, – minha irmã sentada num sofá, –
pouco adiante, o Cotrim, de pé, encostado a um consolo, com os
braços cruzados e a morder o bigode, – eu a passear de um lado
para outro, com os olhos no chão. Luto pesado. Profundo silêncio.
– Mas afinal, disse Cotrim; esta
casa pouco mais pode valer de trinta contos; demos que valha trinta e
cinco...
– Vale cinquenta, ponderei; a Sabina
sabe que custou cinquenta e oito...
– Podia custar até sessenta, tomou
Cotrim; mas não se segue que os valesse, e menos ainda que os valha
hoje. Você sabe que as casas, aqui há anos, baixaram muito. Olhe,
se esta vale os cinquenta contos, quantos não vale a que você
deseja para si, a do Campo?
– Não fale nisso! Uma casa velha.
– Velha! exclamou Sabina, levantando
as mãos ao teto.
– Parece-lhe nova, aposto?
– Ora, mano, deixe-se dessas coisas,
disse Sabina, erguendo-se do sofá; podemos arranjar tudo em boa
amizade, e com lisura. Por exemplo, o Cotrim não aceita os pretos,
quer só o boleeiro de papai e o Paulo...
– O boleeiro não, acudi eu; fico
com a sege e não hei de ir comprar outro.
– Bem, fico com o Paulo e o
Prudêncio.
– O Prudêncio está livre.
– Livre?
– Há dois anos.
– Livre? Como seu pai arranjava
estas coisas cá por casa, sem dar parte a ninguém! Está direito.
Quanto à prata... creio que não libertou a prata?
Tínhamos falado na prata, a velha
prataria do tempo de Dom José I, a porção mais grave da herança,
já pelo lavor, já pela vetustez, já pela origem da propriedade;
dizia meu pai que o Conde da Cunha, quando vice-rei do Brasil, a dera
de presente a meu bisavô Luís Cubas.
– Quanto à prata, continuou o
Cotrim, eu não faria questão nenhuma, se não fosse o desejo que
sua irmã tem de ficar com ela; e acho-lhe razão. Sabina é casada,
e precisa de uma copa digna, apresentável. Você é solteiro, não
recebe, não...
– Mas posso casar.
– Para quê? interrompeu Sabina.
Era tão sublime esta pergunta, que
por alguns instantes me fez esquecer os interesses. Sorri; peguei na
mão de Sabina, bati-lhe levemente na palma, tudo isso com tão boa
sombra, que o Cotrim interpretou o gesto como de aquiescência, e
agradeceu-mo.
– Que é lá? redargui; não cedi
coisa nenhuma, nem cedo.
– Nem cede?
Abanei a cabeça.
– Deixa, Cotrim, disse minha irmã
ao marido; vê se ele quer ficar também com a nossa roupa do corpo,
é só o que falta.
– Não falta mais nada. Quer a sege,
quer o boleeiro, quer a prata, quer tudo. Olhe, é muito mais sumário
citar-nos a juízo e provar com testemunhas que Sabina não é sua
irmã, que eu não sou seu cunhado, e que Deus não é Deus. Faça
isto, e não perde nada, nem uma colherinha. Ora, meu amigo, outro
ofício!
Estava tão agastado, e eu não menos,
que entendi oferecer um meio de conciliação: dividir a prata.
Riu-se e perguntou-me a quem caberia o bule e a quem o açucareiro; e
depois desta pergunta, declarou que teríamos tempo de liquidar a
pretensão, quando menos em juízo. Entretanto, Sabina fora até
janela que dava para a chácara, – e depois de um instante, voltou,
e propôs ceder o Paulo e outro preto, com a condição de ficar com
a prata; eu ia dizer que não me convinha, mas o Cotrim adiantou-se e
disse a mesma coisa.
– Isso nunca! não faço esmolas!
disse ele.
Jantamos tristes. Meu tio cônego
apareceu para sobremesa, e ainda presenciou uma pequena altercação.
– Meus filhos, disse ele, lembrem-se
que meu irmão deixou um pão bem grande para ser repartido por
todos.
Mas o Cotrim:
– Creio, creio. A questão, porém,
não é de pão, é de manteiga. Pão seco é que eu não engulo.
Fizeram-se finalmente as partilhas,
mas nós estávamos brigados. E digo-lhes, que ainda assim, custou-me
muito a brigar com Sabina. Éramos tão amigos! Jogos pueris, fúrias
de crianças, risos e tristezas da idade adulta, dividimos muita vez
esse pão da alegria e da miséria, irmamente, como bons irmãos que
éramos. Mas estávamos brigados. Tal qual a beleza de Marcela, que
se esvaiu com as bexigas.
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas
Homem de visão na Vila
Foi na última festa junina do 257,
Rua dos Artistas.
O balão deu prego, foi escorado pelos
fios (pauta musical do Orestes) e todo mundo achou que o danado se
acabaria devagarinho quando o mundo estourou feito pluma, a luz
apagou, as crianças gritaram... Aquele poeta que há muito tempo não
dava o ar da sua graça, um que era meio maluco, misturou as
lanterninhas:
— Esse troço foi no meu peito.
Trouxeram o lampião de querosene. O
poeta deu de mostrar um três por quatro e um papel amarrotado.
Ninguém acreditava, ninguém levava a sério:
— De quem será que ele roubou esse
retrato?
— Tão moça, de olhinho claro, não
ia gostar desse traste…
— Que solidão, né, menina? Ter que
inventar uma namorada,tsc,tsc...
Ele ficava olhando o retrato e falava
sozinho:
— Tô decorando ela, tô decorando
elazinha... Vou botar esse papel com os nomes pra São João decidir.
O que ficar mais orvalhado...
Ceceu Rico, o cético da rua, cuspiu
na fogueira:
— Cada vez mais tantã. Isso que ele
tá falando é samba-canção do Lupicínio.
— Não cospe na fogueira que tu fica
seco.
A Lua apareceu de caipira, as manchas
escuras feito sorriso onde falta dente ou bigode de rolha queimada. O
festival de comiseração continuou:
— Dá um pouco de quentão pro
coitado.
— Dá não. Ele ficou assim por
causa da bebida.
— Que isso? Sujeito só bebe que nem
ele quando sente a agonia do peru de véspera, cumpadre. Bebida só
mata quando o tira-gosto é tristeza.
— Isso parece frase dele.
— Pô, não sei se agradeço ou se
fico ofendido.
Velho dilema de quem é amigo de
poeta.
Dançaram a quadrilha. Tuninho Sorvete
chamuscou de novo as calças remendadas na fogueira. Meu avô Aguiar
prendeu as rodinhas no cabo de vassoura. Um buscapé matreiro beijou
a bunda da Isolda. Nunca se viu tanto voluntário pro Corpo de
Bombeiros. Ela rebolou mais que Rainha do Bafo da Onça. Fagulha pra
todo lado. Penteado deu um gole na branquinha e gozou o rescaldo:
— A calça dela ficou entre dois
fogos...
Lindauro não tirava a mão do
hidrante e a Deysinha abriu a torneira:
— O balão lambe e tu é que fica
com a língua de fora, otário.
— Não chacoalha, tá? Manjo teu
repertório. Tás na bronca porque tua bucha anda pingando muito
breu.
— Tu fala de boca-cheia,
Lindauro. Peraí que eu vou apanhar uns amendoins pra tua tromba. Tás
precisando...
— Ah, vai tomar no...
— Tomate cru é na salada, teu cu é
pra garotada.
Nem Santo Antônio, o casamenteiro
calhorda, pacificaria aquele Oriente Médio. Mas o tal poeta, com
certeza por ser meio maluco, pegou o violão e cantou como se
estivesse no sonhado Papel Carbono, ao lado da inesquecível
missiméri:
Tenho certas manchas no passado,
outras hei de ver no teu pescoço...
Ah,eu queria ser moço
pra dizer à mocidade
que ela brinca de “já era”
mas o que era hoje é você.
Um tremor rindo na boca de criança
que não esconde mais a fêmea e
o que ela quer.
Nada é mais profundo e verdadeiro
que o desejo solto na mulher.
Não adianta fugir desse encontro,
Não adianta evitar meu caminho
somos ambos cobra, ambos
passarinho.
Meu fascínio é você que gera.
Teu olhar me enreda,
pago na mesma moeda,
minha bela fera.
Deu um branco momentâneo na festa e
no texto.
O pessoal há havia virado poema do
Manuel Bandeira, todos deitados dormindo profundamente, quando uma
espécie de fada tocou a campainha — ninguém ouviu! —, fez
carinho no bêbado — ninguém viu! — e voltou pro céu num bojo
enorme, meio tangerina, meio charuto, com uma alegoria que lembrava a
metade de um coração, ou a letra C, ou um pedaço de serpentina, ou
uma estrela cadente, sei lá...
No meio da noite despertei, fui pra
varanda olhar o céu e sou a única testemunha de tudo.
Mas acreditem, não me levem a sério,
que eu também costumo beber e sonhar acordado.
Aldir Blanc, em Vila Isabel, inventário da infância
sábado, 25 de abril de 2026
Auto-observação, autoanálise e autonomia
Estas são propriedades da alma
racional: auto-observação, autoanálise e autonomia.
Goza dos frutos produzidos por si
própria — diferente das plantas e dos animais, cujos produtos são
desfrutados por outrem. Alcança o seu propósito particular, onde
quer que o limite da sua vida seja estabelecido — diferente das
danças, das peças ou das atividades semelhantes, que acabam
incompletas quando encurtadas. Independentemente de em qual parte e
de onde for interrompida, cumpre por completo o que lhe foi proposto,
de modo que pode dizer: “Tenho o que é meu.”
Ademais, atravessa todo o universo e o
vácuo circundante e examina a sua forma. Prolonga-se até a
infinidade do tempo. Abraça e compreende a renovação periódica do
mundo. Entende que os sucessores não encontrarão nada novo, assim
como os antecessores não encontraram — quem tem quarenta anos,
caso disponha de algum entendimento, observou a uniformidade
prevalecente em tudo o que foi e tudo o que será.
Eis outras das suas propriedades:
afeição pelos vizinhos, veracidade, modéstia e valorização
suprema de si mesma — essa também é própria da lei, logo a razão
correta não difere da justa.
Marco Aurélio, em Meditações
I Saw Her Standing There, de Paul McCartney e John Lennon
I Saw Her Standing There, de
Paul McCartney e John Lennon
Well she was just seventeen
You know what I mean
And the way she looked was way
beyond compare
So how could I dance with another
Ooh when I saw her standing there
Well she looked at me
And I, I could see
That before too long I’d fall in
love with her
She wouldn’t dance with another
Ooh when I saw her standing there
Well my heart went boom
When I crossed that room
And I held her hand in mine
Oh we danced through the night
And we held each other tight
And before too long I fell in love
with her
Now I’ll never dance with another
Ooh when I saw her standing there
Well my heart went boom
When I crossed that room
And I held her hand in mine
Oh we danced through the night
And we held each other tight
And before too long I fell in love
with her
Now I’ll never dance with another
Ooh since I saw her standing there
Since I saw her standing there
Since I saw her standing there
Escrevi muitas canções, mas algumas
delas se destacam, e se eu tivesse que escolher quais representam
meus melhores trabalhos ao longo dos anos, eu provavelmente incluiria
“I Saw Her Standing There”. Ou melhor: com absoluta certeza eu a
incluiria.
A primeira vez que toquei esta canção
para John foi quando nos reunimos para fumar chá no cachimbo do meu
pai (e quando eu digo chá, eu quero dizer chá). Cantei: “She
was just seventeen. She’d never been a beauty queen”. E John
falou: “Tenho lá minhas dúvidas quanto a isso”. Assim, a nossa
principal tarefa era nos livrarmos da parte da rainha da beleza. Após
muitas tentativas, surgiu uma solução.
Ao cantá-la hoje – e isso acontece
com todas as canções dos Beatles que eu toco –, percebo que estou
revisitando o trabalho de um rapaz de 18, 20 anos. E eu acho isso
interessantíssimo, porque tem um quê de inocência – um ar
ingênuo – que é impossível de inventar.
Falando nisso, Jerry Seinfeld fez uma
bela sátira com esta letra. Fomos à Casa Branca, e Jerry disparou:
“Paul, estive olhando o trecho: ‘She was just seventeen/ You
know what I mean’. Não sei bem se nós sabemos o que você
quer dizer, Paul!”.
O fato é que já tínhamos ouvido
todas essas coisas – eu tinha uns 20 anos, e estávamos compondo
esta canção na casa do meu pai, na Forthlin Road –, e
continuamos: “She was just seventeen/ You know what I mean/ And
the way she looked was way beyond compare”. Esse ritmo vem da
versão de Stanley Holloway de “The Lion and Albert”. Esse poema
cômico escrito por Marriott Edgar tem uma métrica semelhante.
Eu trazia na bagagem todas as melodias
que eu tinha ouvido. As composições de Hoagy Carmichael, Harold
Arlen, George Gershwin e Johnny Mercer. Eu ouvia isso tudo em minha
infância e adolescência. Eu não tinha feito ainda muitas
composições próprias, mas tinha absorvido isso tudo. E depois, no
colégio, o meu professor de inglês, Alan Durband, me ensinou sobre
o dístico rimado no final dos sonetos de Shakespeare. Não sei de
onde veio “nada se compara”, mas pode ter saído do Soneto 18:
“Devo comparar você a um dia de verão?”. Também pode ser que
eu tenha ouvido, na infância, uma tradicional canção irlandesa em
que a mulher é descrita como “sem comparação”.
Mas não é bem o que você esperaria
no rock’n’roll. Não sei de onde eu a resgatei, mas na grande
rede de arrasto da minha juventude, essa expressão simplesmente se
emaranhou como um golfinho.
Paul McCartney, em As Letras – 1956 até o presente
Amar
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados,
amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa
marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou
simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração
expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em
sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou
nulas,
doação ilimitada a uma completa
ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura
medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na
secura nossa
amar a água implícita, e o beijo
tácito, e a sede infinita.
Carlos Drummond de Andrade, em Claro enigma
O sertão tudo não aceita?
[…]
Tanto ouvi, muito macambúzio. Onde
que então, eu varava mundo, em comando, e ainda não se prezava o
meu nome. Eu ― o Urutú-Branco! Ser Chefe de jagunço era isso. Ser
o que não dava realce ― qualquer um podia, fazendeiro com posses,
mão em políticas. O sertão tudo não aceita? A minha pessoa era
nada, glória de Zé Bebelo era nada. O que dá fama, dá desdém. O
menos de me importar. O que eu carecia era de dar primeiras batalhas.
Suspender a alta coragem, adiante de meus cabras. Ou será que já
estavam mas era se aplicando no vagavagar? ― Cigano sou? ― eu
pensei, enraivecido. Tinha o norte, para a gente. Dei ordem. Aí
torcemos caminho, numa poeira danã. A reto, viemos beirando o
Ribeirão da Areia, de rota abatida. O que era que eu tencionava
fazer? O senhor espere.
Narro que não rendi melindres do
feito de Diadorim, digo ― o recado enviado. Mas, à vez, balancei
uma inquietação, daquilo, que era para eu bem estranhar, a decisão
dele de tanto absurdo. Essas desordenadas da vida da gente! tudo o
que estoura manso e guampa quieto, e que só tem a razoável
explicação para quem está mesmo longe dos motivos. Ao meio do meio
duma coisa eu tinha certeza! que Diadorim não ia me mentir. O amor
só mente para dizer maior verdade. Diadorim me compassava; por
força. Mas, para mandar à minha Otacília assim aquela embaixada,
era porque ele soubesse, no zelo de seu coração, que então
Otacília me tinha amor. E tanto igual sabia também de mim? Naqueles
dias, era. Abrandei minha lembrança em Otacília, que sincera me
aguardasse, em sua casa, em seu meigo estar. Agora eu ia indo às
avessas de lá, da Santa Catarina, mas, de arribada, minha intenção
de saudade vinha voltando.Tudo, nesta vida, é muito cantável.
Até, a seguir, por um afino de
momento eu me arrepiei por trás da testa. Ato do que meio confuso
imaginei, por um vão imaginar: que, me querendo-bem ― a mais de
meu merecimento ― e crendo que eu enfrentava os duros riscos, ela
Otacília pudesse praticar o estouvamento gentil de se fugir de casa
e vir aventurada em minha cata, por todos os pousos deste sertão...
Ah, ela vinha, montada num bom cavalo corcel, aparecia de repente,
por meu nome perguntando. E eu declarava a grandeza real dela,
definida bem do meu lado, na frente do grande bando de meus homens...
Assim, de jeito tão desigual do comum, minha vida grangeava outros
fortes significados. E isso variou em meu pensamento, inesperado de
ligeiro supor, que, a bem notado, nem foi um pensar. Arremêdo de
sonho, também, não seria de ser. Então, emendando de novo o vero
juízo, tive um receio: por causa que aquilo podia ser aviso do que
estivesse por vir, rumo de profecias.
Otacília ― me alembrei da luzinha
de meio mel, no demorar dos olhares dela. Aquelas mãos, que ninguém
tinha me contado que assim eram assim, para gozo e sentimento. O
corpo ― em lei dos seios e da cintura ― todo formoso, que era de
se ver e logo decorar exato. E a docice da voz: que a gente depois
viajasse, viajasse, e não faltava frescura d água em nenhumas todas
as léguas e chapadas... Isso tudo então não era amor? Por força
que era. E pelo sim receei: será tivesse Diadorim falseado fala, e o
recado na verdade fosse outro ― o para ela vir, afoitamente, que eu
dela muito carecia? Divulgo o desuso disso, que era extravagâncias.
Mas o senhor acreditando que alguma coisa humana é de todo
impossível, então é que o senhor não pode mesmo ser chefe de
jagunço, nem na menor metade só de um diazinho, nem somente nos
vastos imaginados. Ora essas! ― digo. Se Otacília viesse,
aparecesse lá em no meio de nós ― que seguimento de coisas havia
de suceder?
A bobeia, toleima. Otacília estava
guardada protegida, na casa alta da Fazenda Santa Catarina, junto com
o pai e a mãe, com a família, lá naquele lugar para mim melhor,
mais longe neste mundo. E eu, sem ser por motivo ou razão, cada dia
tocava com a minha gente por contrárias bandas, para mais apartado
de donde ela assistia. Ao cada dia mais distante, eu mais Diadorim,
mire veja. O senhor saiba ― Diadorim! que, bastava ele me olhar com
os olhos verdes tão em sonhos, e, por mesmo de minha vergonha,
escondido de mim mesmo eu gostava do cheiro dele, do existir dele, do
morno que a mão dele passava para a minha mão. O senhor vai ver. Eu
era dois, diversos? O que não entendo hoje, naquele tempo eu não
sabia.
Máximo me lembro é de que, na
minguante, se estava no veredal das cabeceiras de um córrego, lugar
de desmedidas pastagens, adonde os cavalos usufruirem descanso. A lá
esbarramos e paramos, por uns dias. Me lembro, eu quis escrever uma
carta.
Essa minha carta, eu podia destacar um
homem, dos ligeiros, ele ia levava em mão, à Otacília, minha
nôiva, trazia a resposta. O que eu cogitei de escrever era muito
singelo! as notícias de minha saúde, pergunta de como era que ela e
os parentes iam passando, saudações de lembranças. Admiro que
achei natural de não falar coisa de minha glória de chefia, por
oras. Por que? Pois. E tive vontade de traçar uns versos também;
mas que a aragem não ajudava a deduzir. Era uma sinceridade muito
dificultosa. Escrevi metade.
Isto é: como é que podia saber que
era metade, se eu não tinha ainda ela toda pronta, para medir? Ah,
viu?! Pois isto eu digo por riso, por graça; mas também para lhe
indicar importante fato: que a carta, aquela, eu somente terminei de
escrever, e remeti, quase em data dum ano muito depois... Digo o
porquê? Próprio porque não pude. Guarde o senhor: não pude
completo. Mas, guarde, por outra: o dia vindo depois da noite ―
esse é o motivo dos passarinhos...
Falo por palavras tortas. Conto minha
vida, que não entendi. O senhor é homem muito ladino, de instruída
sensatez. Mas não se avexe, não queira chuva em mês de agosto. Já
conto, já venho ― falar no assunto que o senhor está de mim
esperando. E escute.
Tinha o Maligno?
Às vezes, penso. Um boneco de capim,
vestido com um paletó velho e um chapéu roto, e com os braços de
pau abertos em cruz, no arrozal, não é mamolengo? O passopreto vê
e não vem, os passarinhos se piam de distância. Homem, é. O senhor
nunca pense em cheio no demo. O mato é dos porcos-do-mato... O
sertão aceita todos os nomes: aqui é o Gerais, lá é o Chapadão,
lá acolá é a caatinga. Quem entende a espécie do demo? Ele não
fura: rascrava. Demorar comigo ele podia. E, o que não existe de se
ver, tem força completa demais, em certas ocasiões. A ele vazio
assim, como é que eu ia dizer: ― Te arreda desta minha
conversa!?... Ao que, pois, o que eu ia pondo, na carta, era quase
que uma ordenada lembrança, a igualzinha repetição daquilo de
Diadorim: ― que ela rezasse por mim, Otacília, orações
rezasse... Ia. Ah, mas, aí, houve. Amoleci mão antes de coração:
não pude. Não pude, diabralmente, desarrazoado ― por outras
fortes ordens... ―; e então de repente tive vergonha, desgostei de
estar querendo escrever aquela carta. Desisti, guardei na mochila
aquela metade. Um homem é um homem, no que não vê e no que
consome. Ah, não. Otacília, eu não merecia. Diadorim era um
impossível. Demiti de tudo.
[...]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas
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