01/11/2026

Drédito

Garçom traz a conta.
CLIENTE Traz a maquininha, por favor?
Garçom traz a máquina. Cliente dá o cartão.
GARÇOM É débito ou crédito?
CLIENTE Drédito.
GARÇOM Oi?
CLIENTE Crébito.
GARÇOM Não entendi.
CLIENTE Clérbito.
GARÇOM Débito?
CLIENTE Clérigo.
GARÇOM Crédito?
CLIENTE Drécimo.
O cliente começa a suar frio e a passar mal.
CLIENTE Lépido. Périplo.
GARÇOM Senhor, a pergunta é simples. Ou é drédito ou… Quérdito.
CLIENTE Quérdito?
GARÇOM Péricles.
CLIENTE Cérebro.
GARÇOM Mérito.
CLIENTE Derby.
GARÇOM (grita por ajuda) Josias!

Gregório Duvivier, em Put some farofa

Propriedade

Nunca digas que um verso está de pé quebrado: ele está é de asa quebrada.

Mário Quintana, em Caderno H

1648 – Olinda

 


Excelências da carne de canhão

Era menino quando foi arrancado de sua aldeia africana, embarcado em Luanda e vendido em Recife. Já era homem quando fugiu dos canaviais e refugiou-se em um dos baluartes negros de Palmares.
Nem bem os holandeses entraram no Brasil, os portugueses prometeram a liberdade aos escravos que combatessem contra os invasores. Os chimarrãos de Palmares decidiram que essa guerra não era deles: tanto fazia que fosse holandês ou português quem empunhasse o chicote nos canaviais e engenhos. Mas é, Henrique Dias acudiu para oferecer-se. Desde então comanda um regimento de negros que lutam pela coroa portuguesa no nordeste brasileiro. Os portugueses fizeram dele fidalgo cavalheiro.
De Olinda, o capitão Henrique Dias envia uma carta de intimidação ao exército holandês acampado em Recife. Adverte que de quatro nações está composto o seu regimento, o Tércio dos Henriques: minas, ardas, angolas e crioulos: estes são tão malévolos que não temem nem devem; os minas tão bravos, que aonde não podem chegar com o braço, chegam com o nome; os ardas tão fogosos, que tudo querem cortar de um só golpe; e os angolas tão robustos, que nenhum trabalho os cansa. Considerem agora se romperão a toda Holanda homens que tudo romperam.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

31/10/2026

João Bosco e Silva | Papel Machê

Capítulo 108 – Que Se Não Entende

Eis ai o drama, eis aí a ponta da orelha trágica de Shakespeare. Esse retalhinho de papel, garatujado em partes, machucado das mãos, era um documento de análise, que eu não farei neste capítulo, nem no outro, nem talvez em todo o resto do livro. Poderia eu tirar ao leitor o gosto de notar por si mesmo a frieza, a perspicácia e o ânimo dessas poucas linhas traçadas à pressa; e por trás delas a tempestade de outro cérebro, a raiva dissimulada, o desespero que se constrange e medita, porque tem de resolver-s ena lama, ou nas lágrimas?
Quanto a mim, se vos disser que li o bilhete três ou quatro vezes, naquele dia, acreditai-o, que é verdade; se vos disser mais que o reli no dia seguinte, antes e depois do almoço, podeis crê-lo, é a realidade pura. Mas se vos disser a comoção que tive, duvidai um pouco da asserção, e não a aceites sem provas. Nem então, nem ainda agora cheguei a discernir o que experimentei. Era medo, e não era medo; era dó e não era dó; era vaidade e não era vaidade; enfim, era amor sem amor, isto é, sem delírio; e tudo isso dava uma combinação assaz complexa e vaga, uma coisa que não podereis entender, como eu não entendi. Suponhamos que não disse nada.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

A primeira desintoxicação

 


Carlotta acordou, durante a quarta semana seguida de chuva daquele mês de outubro, na ala de desintoxicação do hospital do condado. Estou num hospital, ela pensou, e foi andando cambaleante pelo corredor. Havia dois homens num quarto grande, que seria ensolarado se não estivesse chovendo. Os homens eram feios e usavam roupas de brim preto e branco.
Estavam cheios de manchas roxas e de curativos sujos de sangue. Devem ter sido trazidos da prisão para cá, ela pensou, mas depois viu que também estava usando uma roupa de brim preto e branco e também estava cheia de manchas roxas e de curativos sujos de sangue. Lembrou de algemas, de uma camisa de força.
Era Halloween. A voluntária do AA os ensinou a fazer abóboras. Você enche o balão, ela dá o nó no bico. Depois você cola tiras de papel grudentas em volta do balão todo. Na noite seguinte, quando o seu balão estiver seco, você o pinta de cor de abóbora. A voluntária recorta os olhos, o nariz e a boca. Você pode escolher se quer um sorriso ou uma careta na sua abóbora. Você não pode usar tesoura.
Houve muitas risadas pueris, por causa dos balões escorregadios, das mãos trêmulas deles. Era difícil fazer as abóboras. Se tivessem tido permissão para recortar os olhos, o nariz e a boca, eles teriam recebido aquelas tesouras sem ponta ridículas. Sempre que queriam escrever, recebiam lápis grossos, como na primeira série.
Carlotta se divertiu bastante na ala de desintoxicação. Os homens a tratavam de um jeito galante e encabulado. Ela era a única mulher, era bonita e “não tinha a menor pinta de pinguça”. Seus olhos cinzentos eram claros e seu riso, fácil. Ela havia transformado o seu pijama preto e branco com uma echarpe de um tom bem vivo de vermelho.
Os homens eram em sua maioria beberrões de rua. A polícia os trazia para o hospital ou eles simplesmente vinham por conta própria quando a pensão que recebiam do governo acabava, quando não tinham vinho nem abrigo. O hospital do condado era um ótimo lugar para largar o álcool, eles disseram. Ali, eles te dão Valium, Thorazine, Dilantin se você tiver convulsão. Uma enorme cápsula amarela de Nembutal à noite. Isso não ia durar por muito tempo; logo, logo só iam existir clínicas de desintoxicação “modelo social”, sem droga nenhuma. “Que merda… pra que vir, então?”, perguntou Pepe.
A comida é boa, mas fria. Você tem que pegar a sua própria bandeja do carrinho e levá-la para a mesa. A maior parte das pessoas não consegue fazer isso no início, ou deixa a bandeja cair. Alguns dos homens tremiam tanto que era preciso lhes dar comida na boca, ou eles simplesmente abaixavam a cabeça e comiam direto do prato, como gatos.
Os pacientes recebiam Antabuse depois do terceiro dia. Se ingerir bebida alcoólica no período de setenta e duas horas depois de tomar Antabuse, você passa muito, muito mal. Convulsões, dores no peito, choque, muitas vezes morte. Os pacientes viam o filme sobre o Antabuse todos os dias às nove e meia da manhã, antes da terapia de grupo. Mais tarde, no solário, os homens calculavam quanto tempo faltava para eles poderem beber de novo. Anotavam em guardanapos, com lápis grossos. Carlotta era a única que dizia que não ia mais beber.
“O que é que tu bebe, mulher?”, Willie perguntou.
“Jim Beam.”
“Jim Beam?” Os homens todos riram.
“Tu não é bebona nem aqui nem na China, porra. Nós, bebuns, bebe vinho doce.”
“Ôôô… e como é doce!”
“Que diabo tu tá fazendo aqui, afinal?”
“Você quer dizer o que uma boa moça como eu…?” O que ela estava fazendo ali, afinal? Ainda não tinha pensado nisso.
“Jim Beam. Tu não precisa de distochicação nenhuma…”
“Ah, ela tava precisando sim. Ela tava doidinha quando eles trouxe ela pra cá, tava descendo o braço naquele polícia chinês, o Wong. Depois ela teve um treco dos feio e ficou uns três minuto se debatendo que nem uma galinha de pescoço torcido.”
Carlotta não se lembrava de nada. A enfermeira lhe disse que ela havia batido com o carro num muro. Os policiais a tinham levado para o hospital e não para a prisão porque descobriram que ela era professora, tinha quatro filhos, não tinha marido. E também não tinha antecedentes, o que quer que isso fosse.
“Você já teve DT?”, Pepe perguntou.
“Já”, ela mentiu. Meu Deus, o que eu estou dizendo… por favor, me aceitem, caras. Por favor gostem de mim, seus vagabundos de olhos remelentos.
Eu não sei o que é DT. O médico também me perguntou isso. Eu disse que sim e ele tomou nota. Acho que tive isso a vida inteira, se isso é, de fato, ter visões de demônios.
Todos eles riam, colando tiras de papel em seus balões. Joe contou que tinha sido convidado a se retirar do Adam and Eve e achado que podia encontrar um bar melhor. Entrou num táxi e gritou: “Para o Shalimar!”. Só que o táxi era uma radiopatrulha e eles o trouxeram para o hospital. A diferença entre um connaisseur e um bebum? O connaisseur tira a garrafa de dentro do saco de papel. Mac, sobre as virtudes do vinho Thunderbird: “Os idiota dos chicano esquece de tirar as meia”.
À noite, depois dos balões e do último Valium, vinha o pessoal do AA. Metade dos pacientes cochilava a reunião inteira, ouvindo o pessoal contar que também tinha estado no fundo do poço. Uma mulher do AA contou que costumava mascar alho o dia inteiro para que ninguém sentisse cheiro de bebida no hálito dela. Carlotta mascava cravos. A mãe dela inalava Vick Vaporub. Tio John vivia com pedaços de pastilha Sen-Sen grudados nos dentes, de modo que ele parecia uma das nossas abóboras, sorrindo.
Carlotta gostava mais da parte final da reunião, quando todos se davam as mãos e rezavam o pai-nosso. Eles tinham que acordar os companheiros e escorá-los como os soldados mortos de Beau Geste. Ela se sentia próxima dos homens quando eles rezavam pedindo sobriedade para todo o sempre.
Depois que o pessoal do AA ia embora, os pacientes recebiam leite, biscoitos e Nembutal. Quase todo mundo ia dormir, inclusive as enfermeiras. Carlotta jogava pôquer com Mac, Joe e Pepe até as três horas da manhã. Sem coringa.
Ela telefonava para casa todos os dias. Seus filhos mais velhos, Ben e Keith, estavam cuidando de Joel e Nathan. Estava tudo bem, eles diziam. Não havia muito que ela pudesse dizer.
Ela ficou sete dias no hospital. Na manhã em que foi embora, havia um cartaz na sala de recreação escura e chuvosa. “Boa sorte! Luta, Lotta!” A polícia tinha deixado o carro dela no estacionamento. Um amassado enorme, um espelho quebrado.
Carlotta entrou no carro e foi até Redwood Park. Ligou o rádio bem alto e se sentou no capô amassado, na chuva. Lá embaixo, brilhava o templo dourado mórmon. A baía estava coberta de neblina. Era bom estar ao ar livre, ouvir música. Ela fumou, planejou o que ia fazer nas aulas da semana seguinte, anotou planos de aula, livros da biblioteca de que iria precisar.
(Justificativas tinham sido dadas na escola. Um cisto no ovário… Benigno, felizmente.)
Lista de compras de supermercado. Ela ia fazer lasanha para o jantar — o prato preferido dos filhos. Massa de tomate, carne de vitela, carne de boi. Salada e pão de alho. Sabonete e papel higiênico provavelmente. Bolo de cenoura para a sobremesa. As listas a tranquilizavam, juntavam os cacos de novo.
Seus filhos e Myra, a diretora da escola, eram os únicos que sabiam onde ela tinha estado. Eles haviam lhe dado bastante apoio. Não se preocupe. Vai ficar tudo bem.
Sempre ficava tudo bem, de alguma forma. Ela era uma boa professora e uma boa mãe, mesmo. A casinha deles transbordava de projetos, livros, discussões, risadas. Todo mundo cumpria suas obrigações.
No fim do dia, depois de lavar a louça e a roupa e corrigir trabalhos, havia a televisão, Scrabble, charadas, cartas ou conversas bobas. Boa noite, meninos! Um silêncio então, que ela celebrava duplicando as doses de bebida, agora sem pedras de gelo maníacas.
Se acontecia de acordarem, os filhos davam de cara com a loucura dela, que, até então, só de vez em quando respingava na manhã. Mas, até onde se lembrava, ela ouvia Keith, tarde da noite, verificando cinzeiros, a lareira. Apagando luzes, trancando portas.
Aquele tinha sido o primeiro encontro dela com a polícia, embora não se lembrasse de nada. Nunca havia dirigido bêbada antes, nunca havia perdido mais do que um dia de trabalho, nunca… Não fazia ideia do que ainda estava por vir.
Farinha. Leite. Ajax. Ela só tinha vinagre de vinho em casa, o que, com o Antabuse, poderia lhe causar convulsões. Escreveu vinagre de maçã na lista.

Lucia Berlin, em Manual da faxineira: Contos escolhidos

Análise do passado

Ao analisar o passado — e as grandes variações de regimes políticos—, talvez consiga prever a posteridade, pois com certeza terá uma forma equivalente. É impossível desviar da ordem dos acontecimentos atuais. Por conseguinte, contemplar a vida humana por quarenta anos equivale a contemplá-la por dez mil. O que mais poderia presenciar?

Marco Aurélio, em Meditações

Conjugal

 



Telefonou para a irmã, indignada:
— Imagine que aquele sem-vergonha mandou aqui um contínuo para me avisar que ele não vem jantar, tem de ficar até mais tarde no escritório. Fiquei desconfiada, telefonei para o escritório e o vigia é que atendeu, me disse que todos já foram embora, não tem ninguém mais no escritório! O que é que eu faço?
— Vem para cá — disse-lhe a irmã.
Mais velha e experiente, a irmã se dispôs a ajudá-la. Enquanto as duas jantavam, tentando concertar um plano, a esposinha se lastimava, chorosa entre garfadas:
— Nem dois meses de casada! Nunca pensei que ele fosse capaz de uma coisa dessas — me enganar dessa maneira!
— É assim que eles começam, minha filha — pontificou a outra, conformada no ceticismo, fruto das desilusões de um casamento já desfeito. — Mas chorar não resolve: vamos ver o que se pode fazer. Você não deve deixar a coisa passar em brancas nuvens. Se não reagir, amanhã nem avisar ele manda.
— Imagine que o contínuo estava até com cara de riso! Foi o que me fez desconfiar.
A irmã começou a ditar-lhe instruções. Mastigando lentamente, ela escutava atenta, uma lágrima fácil ainda a equilibrar-se no rostinho mimoso. Findo o jantar, sentaram-se na sala, a irmã mais velha acendeu um cigarro, ofereceu outro à irmã mais nova. Tão perturbada se achava esta que, distraída, aceitou, embora até então nunca tivesse fumado. Logo à primeira tragada engasgou, aproveitando o acesso de tosse para romper em soluços:
— Ele deve ter uma amante! Nunca pensei!
— Tenha calma, minha filha — tranquilizou a outra: — Você dá uma lição nele. Quando você saiu, disse aonde ia?
— Dizer a quem? Deixei um bilhete assim: “Roberto — eu vou sair — Vera Lúcia.”
E Vera Lúcia apoiou o rosto na mão, fitando o espaço, pensativa:
— Eu devia ter aproveitado e dado uma busca nas coisas dele, para ver se descobria alguma coisa...
Eram onze horas quando as duas se dirigiram ao apar­tamen­to da esposa ultrajada. Logo ao chegar, tiveram uma surpre­sa: no bilhete deixado sobre a mesa, abaixo do recado “Roberto — eu vou sair — Vera Lúcia”, estava escrito: “Eu também — Roberto.” Vera Lúcia olhou a irmã interrogativamente: aquilo atrapalhava todos os planos.
— Nada disso: ele esteve aqui e tornou a sair, mas não tem importância. Você tem uma mala, das grandes?
Puseram a mala sobre a cama, ao lado de um monte de roupas e vestidos, tudo ainda do enxoval, e sentaram-se à espera.
— E se ele não voltar? Vai ver que esteve aqui para mudar de roupa, buscar dinheiro. Vai ver que me abandonou. Olha só como ele escreveu aqui: “Eu também — Roberto”, tran­quilamente, sem uma palavra de explicação! Meu Deus, que desilusão.
A vida é mesmo um mar de desilusões — era o que a outra, a experiente, parecia estar pensando, a olhar a irmã, entre irônica e compassiva. Ela própria, porém, ia navegando:
— Não liga pra isso não, minha filha. Os homens não prestam mesmo.
À meia-noite, afinal, chegou o que não prestava. Assim que ouviram o ruído da chave na porta as duas saltaram da cama e a esposa pôs-se a arrumar estabanadamente a mala. Ele, porém, não se dirigiu logo ao quarto. Tirou o paletó, jogou-o na cadeira e foi ao banheiro, onde se aliviou, sem se lembrar de fechar a porta. Depois atravessou a sala assobiando, entrou na cozinha, abriu a geladeira, deu uma olhada, tornou a fechar. Atentas, as duas acompanhavam lá do quarto todos os seus passos. Comeu uma banana, atirou a casca no mármore da pia, ligou o gás. A irmã mais velha foi ver o que ele fazia, surpreendeu-o tentando requentar um café:
— Você por aqui? — estranhou ele, enquanto farejava o interior da cafeteira: — Este café deve estar de amargar. Que horas são?
— Meia-noite — respondeu a cunhada, imperturbável como uma esfinge.
Ele desistiu do café, comeu outra banana, apanhou um palito e passou por ela, bocejando:
— Estou morto de sono.
No quarto, ao dar com a mala sobre a cama, voltou-se para a mulher, intrigado:
— Ué, quem é que vai viajar?
Ela se voltou, muito digna:
— Eu. Vou para a casa de mamãe.
Ele riu:
— A essa hora? Sua mãe já deve estar dormindo.
Desconcertada, a esposinha o olhava sem saber o que fazer. Aquela reação levava por água abaixo o plano minuciosamente estudado. Quando ele, perplexo, perguntasse: “Por quê?”, ela saltaria, dramática: “Porque não me casei para me sujeitar a...” e iria por aí afora. No fim ele, patético, pediria perdão, explicaria tudo, inventava umas mentiras, ela perdoava, a irmã iria embora e tudo se harmonizava — ele tendo aprendido sua lição. Em vez disso limitava-se a rir. Vera Lúcia olhava a irmã por cima do ombro do marido, como a perguntar: “E agora? O que é que eu faço?”
— Roberto, exijo uma explicação — improvisou ela, gravemente, plantando-se diante dele. A irmã aprovou com o olhar.
— De quê, minha filha?
— Onde você estava? — e ela o olhava com firmeza, como se da resposta dependesse o destino de ambos.
— Na cozinha — respondeu ele, cada vez mais intrigado. Olhou para a cunhada, como a pedir explicação.
— Não seja cínico! Eu quero saber onde você foi hoje à noite. É meu direito de esposa.
— Que brincadeira é essa? — e ele tornou a rir: — Parece novela de televisão! Ia haver serão no escritório, não houve, estive aqui, você não estava, jantei com o Jorge, jogamos um buraco. Dei azar. Não ganhei uma só vez.
Caminhou preguiçosamente até a cadeira, palitando os dentes, sentou-se, descalçou os sapatos com um suspiro de alívio:
— Tira essa mala da cama que eu quero dormir.
— Vou para a casa de mamãe — repetiu ela, chorosa, sem saber mais o que dizer.
— Está bem, mas amanhã: hoje já é tarde.
A essa altura, vendo que não havia mais nada a fazer, a irmã resolveu se despedir. Sua experiência de vida de nada adiantara­. A outra ficou a sós com o marido no quarto, resolveu voltar ao que era, sem planos, sem direitos de esposa. Abraçou-se a ele:
— Me desculpe, meu bem, ter desconfiado de você. A gente perde a cabeça, fica pensando coisas.
Mais tarde, já deitados, luz apagada, ela chamou-o num sussurro:
— Roberto...
— Ahn? — resmungou ele, de dentro do sono.
Ela pediu, com voz suave:
— Um dia você me ensina a jogar buraco?
Ele não respondeu; dormia a sono solto e ela, num arrepio de prazer, já quase dormindo também, reparou pela primeira vez que ele roncava.

Fernando Sabino, em Os melhores contos

30/10/2026

Chiara Civello e Chico Buarque | Io che amo solo te

Rosa

Não ascendo a rosa.
Fico por espinho, crosta, remorso.

Lição do gesto
de quem retira a mão,
gotejando sangue,
em castigo
de querer possuir
a beleza da flor.

Me sufoca o ser,
me assusta o querer ser.

O que mais quero ter
é a impossibilidade do ter.

Mia Couto, em Poemas Escolhidos

A bravata

Z. M. sentia que a vida lhe fugia por entre os dedos. Na sua humildade esquecia que ela mesma era fonte de vida e de criação. Então saía pouco, não aceitava convites. Não era mulher de perceber quando um homem estava interessado nela a menos que ele o dissesse – então se surpreendia e aceitava.
De tarde – era primavera, primeiro dia de primavera – foi visitar uma amiga que a pôs em brios. Como então ela, uma mulher feita, era tão humilde? como é que não percebia que vários homens a queriam? como não percebia que devia, dentro de sua própria dignidade, ter um caso de amor? Disse ainda que a vira entrar numa sala onde todos eram conhecidos. E por acaso nenhum dos presentes chegava a seus pés. E no entanto entrou tímida como ausente, como uma corça de cabeça baixa. “Você precisa andar de cabeça levantada, você tem que sofrer porque você é diferente, cosmicamente diferente, então aceite que você não pode ter a vida burguesa, e entre numa sala com a cabeça levantada.” “Mas entrar sozinha numa sala cheia de gente?” “Exatamente. Você não precisa de companhia para ir, você mesma é bastante.”
Lembrou-se que no fim da tarde havia uma espécie de coquetel para os professores primários, em férias. Lembrou-se da atitude nova que desejava, não combinou a ida com nenhum professor ou professora – arriscar-se-ia toda só. Vestiu um vestido mais ou menos novo, mas a coragem não vinha. Então – só o entendeu depois – pintou demais os olhos e demais a boca até que seu rosto parecia uma máscara: ela estava pondo sobre si mesma alguém outro: esse alguém era fantasticamente desinibido, era vaidoso, tinha orgulho de si mesmo. Esse alguém era exatamente o que ela não era. Mas na hora de sair de casa, fraquejou: não estaria exigindo demais de si mesma? Toda vestida, com uma máscara de pintura no rosto – ah persona, como não te usar e enfim ser! –, sem coragem, sentou-se na poltrona de sua sala tão conhecida e seu coração pedia para ela não ir. Parecia que previa que ia se machucar muito e ela não era masoquista. Enfim apagou o cigarro-de-coragem, levantou-se e foi.
Pareceu-lhe que as torturas de uma pessoa tímida jamais foram completamente descritas. No táxi que rolava ela morria um pouco.
E ei-la de repente diante de um salão enorme com talvez muitas pessoas, mas pareciam poucas dentro do descomunal espaço onde se processava como um ritual moderno o coquetel.
Quanto tempo suportou de cabeça falsamente erguida? A máscara a incomodava, ela sabia ainda por cima que era mais bonita sem pintura. Mas sem pintura seria a nudez da alma. E ela não podia se arriscar nem se dar esse luxo.
Falava sorrindo com um, falava sorrindo com outro. Mas como em todos os coquetéis, nesse era impossível a conversa e quando ela viu estava de novo sozinha.
Viu um homem que tinha sido seu amante. E ela pensou: por mais amor que este homem tenha recebido, fui eu que lhe dei toda a minha alma e todo o meu corpo. Os dois se olharam, perscrutaram-se, ele com certeza espantado com a máscara de pintura. Não soube o que fazer senão perguntar-lhe se ele era seu amigo, se podia ser. Ele disse que sim, para sempre.
Até que sentiu que não suportava mais manter a cabeça de pé. Mas como atravessar a enorme extensão até a porta? Sozinha, como uma fugitiva? Então em meias palavras confessou seu drama a uma das professoras e ela levou-a pela enorme extensão até a porta.
E no escuro da noite primaveril ela era uma mulher infeliz. Sim, era diferente. Mas sim, era tímida. Sim, era supersensível. Sim, vira um amor passado. O escuro e o perfume da primavera. O coração do mundo batia-lhe no peito. Sempre soubera sentir o cheiro da natureza. Achou finalmente um táxi onde se sentou quase em lágrimas de alívio, lembrando-se que em Paris lhe acontecera o mesmo porém pior ainda. Foi para casa como uma foragida do mundo. Era inútil esconder: a verdade é que não sabia viver. Em casa estava agasalhante, ela se olhou ao espelho quando estava lavando as mãos e viu a persona afivelada no seu rosto: a persona tinha um sorriso parado de palhaço. Então lavou o rosto e com alívio estava de novo de alma nua. Tomou então uma pílula para dormir. Antes que chegasse o sono, ficou alerta e se prometeu que nunca mais se arriscaria sem proteção. A pílula de dormir começava a apaziguá-la. E a noite incomensurável dos sonhos começou.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

Armandinho

Sentido

“Que fique muito mal explicado
Não faço força pra ser entendido
Quem faz sentido é soldado.”
…………………………….

Gláucio Giordanni e Carlos Moreira, na canção Sentido

O livro da natureza em Galileu

 


A metáfora mais famosa na obra de Galileu — e que encerra em si o nó da nova filosofia — é a do livro da natureza escrito em linguagem matemática.

A filosofia está escrita nesse imenso livro que continuamente se acha aberto diante de nossos olhos (falo do universo), mas não se pode entender se antes não se aprende a compreender a língua, e conhecer os caracteres nos quais está escrito. Ele vem escrito em linguagem matemática e os caracteres são triângulos, círculos e outras figuras geométricas, sem as quais é impossível para os homens entender suas palavras; sem eles é rodar em vão por um labirinto escuro. (Saggiatore, 6)

A imagem do livro do mundo já possuía uma longa história antes de Galileu, dos filósofos da Idade Média a Nicolas de Cues, a Montaigne, e era usada por contemporâneos de Galileu como Francis Bacon e Tommaso Campanella. Nas poesias de Campanella, publicadas um ano antes do Saggiatore, existe um soneto que começa com estas palavras: “O mundo é o livro em que a inteligência eterna escreve os próprios conceitos”.
Já na Istoria e dimostrazioni intorno alle macchie solari (1613), ou seja, dez anos antes do Saggiatore, Galileu opunha a leitura direta (livro do mundo) à indireta (livros de Aristóteles). Essa passagem é muito interessante, pois Galileu aí descreve a pintura de Arcimboldo, com juízos críticos que valem para a pintura em geral (e testemunham suas ligações com artistas florentinos como Ludovico Cigoli), e sobretudo com reflexões sobre a análise combinatória que podem ser aproximadas daquelas que serão lidas mais adiante.

Restam somente em contradição alguns severos defensores de cada minúcia peripatética, os quais, daquilo que posso compreender, educados e nutridos desde a primeira infância de seus estudos nesta opinião que o filosofar não seja, nem possa ser outra coisa senão fazer grande prática sobre os textos de Aristóteles, e assim prontamente e em grande número possam acorrer de diferentes lugares e juntar-se para examinar algum problema proposto, não querem mais saber de levantar os olhos daqueles papéis, como se esse grande livro do mundo não fosse escrito pela natureza para ser lido por outros, a não ser por Aristóteles, e que seus olhos tivessem que ver por toda a posteridade. Esses, que se sujeitam a leis tão estritas, me fazem lembrar certas obrigações, às quais às vezes de brincadeira se restringem os caprichosos pintores, em querer representar um rosto humano ou outras figuras com a junção ora de instrumentos agrícolas ora somente de frutas ou de flores desta ou daquela estação, cujas bizarrices, embora propostas como divertimento, são belas e agradáveis, e mostram maior perspicácia nesse artífice do que naquele, conforme ele tenha sabido mais adequadamente escolher e aplicar isso ou aquilo à parte imitada; mas, se alguém, talvez por ter consumido todos os seus estudos em semelhante maneira de pintar, quisesse depois universalmente concluir que qualquer outro modo de pintar seria imperfeito e criticável, certamente Cigoli e outros pintores ilustres ririam dele.

A contribuição mais nova de Galileu à metáfora livro-mundo é a atenção ao seu alfabeto especial, aos “caracteres nos quais está escrito”. Pode-se então precisar que a verdadeira relação metafórica se estabelece, mais do que entre mundo e livro, entre mundo e alfabeto. Conforme esta passagem do Dialogo sopra i due massimi sistemi del mondo (segunda jornada), o alfabeto é que é o mundo:

Tenho um pequeno livro muito menor que o de Aristóteles e de Ovídio, no qual estão contidas todas as ciências, e com pouquíssimos outros estudos se pode formar uma ideia bem perfeita: e isso é o alfabeto; e não há dúvida de que aquele que souber combinar e ordenar bem esta e aquela vogal com essas e aquelas outras consoantes obterá respostas muito verdadeiras para todas as dúvidas e daí extrairá os ensinamentos de todas as ciências e de todas as artes, justamente daquela maneira que o pintor partindo de simples cores diferentes, separadamente colocadas sobre a tela, vai, com a mistura de um pouco desta com um pouco daquela e de outra mais, figurando homens, plantas, fábricas, pássaros, peixes e, em suma, imitando todos os objetos visíveis, sem que na tela apareçam nem olhos nem penas nem escamas nem folhas nem seixos: antes é necessário que nenhuma das coisas a serem imitadas ou certas partes delas estejam atualmente entre as cores, querendo que com elas possam ser representadas todas as coisas, e que, se aí estivessem, por exemplo, penas, estas só serviriam para pintar pássaros ou penachos.

Quando fala do alfabeto, Galileu pretende, portanto, um sistema combinatório em condições de dar conta de toda a multiplicidade do universo. Também aqui vemos Galileu introduzir a comparação com a pintura: a combinação das letras do alfabeto é o equivalente da combinação das cores na tela. Notar-se-á que se trata de uma combinação num nível diferente daquela da pintura de Arcimboldo na citação precedente: uma combinação de objetos já dotados de significado (quadro de Arcimboldo, collage ou assemblage de penas, centenas de citações aristotélicas) não pode representar a totalidade do real; para chegar até aí é preciso recorrer a uma combinação de elementos mínimos, como as cores simples ou as letras do alfabeto.
Numa outra passagem do Diálogo (no final da primeira jornada) que faz o elogio das grandes invenções do espírito humano, o lugar mais elevado toca ao alfabeto. Aqui de novo se fala de combinação e também de rapidez de comunicação: outro tema, o da rapidez, importantíssimo em Galileu.

Mas sobre todas as invenções estupendas, que eminência de mente foi aquela de quem imaginou encontrar modo de comunicar seus próprios pensamentos mais recônditos a qualquer outra pessoa, mesmo que distante por enorme intervalo de lugar e de tempo? falar com aqueles que estão na Índia, falar com aqueles que ainda não nasceram e só nascerão dentro de mil ou 10 mil anos? e com que facilidade? Com as várias junções de vinte pequenos caracteres num pedaço de papel. Seja este o segredo de todas as admiráveis invenções humanas.

Se relermos a passagem do Saggiatore que citei no início à luz do que acaba de ser transcrito, entenderemos melhor como para Galileu a matemática e sobretudo a geometria têm uma função de alfabeto. Este ponto é explicitado numa carta de janeiro de 1641 (um ano antes da morte) a Fortunio Liceti.

Mas eu considero de fato que o livro da filosofia é aquele que está perpetuamente aberto diante de nossos olhos; mas, porque se encontra escrito em caracteres diferentes daqueles do nosso alfabeto, não pode ser lido por todos: e são os caracteres de tal livro triângulos, quadrados, círculos, esferas, cones, pirâmides e outras figuras matemáticas, perfeitamente adequadas para tal leitura.

Pode-se observar que, em sua enumeração das figuras, Galileu, mesmo tendo lido Kepler, não fala de elipses. Porque em sua análise combinatória deve partir das formas mais simples? Ou porque sua batalha contra o modelo ptolomaico ainda se joga no interior de uma ideia clássica de proporção e perfeição da qual o círculo e a esfera permanecem como as imagens soberanas?
O problema do alfabeto do livro da natureza está ligado ao da “nobreza” das formas, como se vê nesta passagem da dedicatória do Dialogo sopra i due massimi sistemi ao grão-duque da Toscana:

Quem olha mais alto se diferencia mais altamente; e voltar-se para o grande livro da natureza, que é o próprio objeto da filosofia, é o modo para erguer os olhos: livro no qual, embora tudo aquilo que se lê, como obra do Artífice onipotente, seja por isso extremamente proporcionado, aquele mesmo assim é mais expedito e mais digno, onde maior, em nossa opinião, parece a obra e o artifício. A constituição do universo dentre os naturais apreensíveis, no meu entender, pode ser colocada em primeiro lugar: pois se aquela, como contentora universal, em grandeza supera tudo o mais, como regra e manutenção de tudo deve também ser superior em nobreza. Porém, se a ninguém jamais tocou em excesso diferenciar-se pelo intelecto dos outros homens, Ptolomeu e Copérnico foram aqueles que tão elevadamente leram, se fixaram e filosofaram sobre a constituição do mundo.

Um quesito que Galileu se coloca várias vezes para ironizar o velho modo de pensamento é o seguinte: as formas geométricas regulares devem ser consideradas mais nobres, mais perfeitas que as formas naturais empíricas, acidentadas etc. É sobretudo a propósito das irregularidades da Lua que a questão é discutida: existe uma carta de Galileu para Gallanzone Gallanzoni inteiramente dedicada ao tema; mas bastará citar a passagem do Saggiatore, 38:

E eu, quanto a mim, não tendo nunca lido as crônicas e as nobrezas particulares das figuras, não sei quais delas são mais ou menos nobres, mais ou menos perfeitas; mas creio que todas sejam antigas e nobres de algum modo ou, melhor dizendo, que quanto a elas próprias não são nem nobres nem perfeitas, nem ignóbeis e imperfeitas, senão enquanto para erguer paredes creio que as quadradas sejam mais perfeitas que as esféricas, mas para fazer rolar ou conduzir carroças sejam mais indicadas as redondas que as triangulares. Mas, voltando a Sarsi, ele diz que eu lhe ofereço inúmeros argumentos para provar a aspereza da superfície côncava do céu, porque eu próprio quero que a Lua e os outros planetas (corpos também eles ainda celestes e bastante mais que o próprio céu nobres e perfeitos) sejam de superfície montanhosa, áspera e irregular; e, se isso é, por que não se deve dizer que tal desigualdade se encontra ainda na figura celeste? Aqui pode o próprio Sarsi dar como resposta aquilo que ele responderia a alguém que lhe quisesse provar que o mar deveria estar cheio de espinhas e de escamas, pois assim são as baleias, os atuns e os outros peixes que o habitam.

Enquanto partidário da geometria, Galileu deveria apoiar a causa da superioridade das formas geométricas, mas enquanto observador da natureza ele recusa a ideia de uma perfeição abstrata e opõe a imagem da Lua “montanhosa, áspera e desigual” à pureza dos céus da cosmologia aristotélico-ptolomaica.
Por que uma esfera (ou uma pirâmide) deveria ser mais perfeita que uma forma natural, por exemplo, a de um cavalo ou de um gafanhoto? A questão é recorrente em todo o Dialogo sopra i due massimi sistemi. Nesta passagem da segunda jornada voltamos a encontrar a comparação com o trabalho do artista, aqui o escultor: “Contudo, gostaria de saber se a mesma dificuldade se encontra ao representar um sólido de qualquer outra figura, isto é, para explicar melhor, se maior dificuldade se encontra em querer reduzir um pedaço de mármore à figura de uma esfera perfeita do que a uma perfeita pirâmide ou a um perfeito cavalo ou então a um perfeito gafanhoto”.
Uma das páginas mais belas e importantes do Dialogo (primeira jornada) é o elogio da Terra como objeto de alterações, mutações, gerações. Galileu evoca com espanto a imagem de uma Terra de jaspe, de uma Terra de cristal, de uma Terra incorruptível, como petrificada pela Medusa.

Não posso sem grande admiração, e direi grande repugnância para meu intelecto, ouvir atribuições de grande nobreza e perfeição aos corpos celestes e integrantes do universo por serem impassíveis, imutáveis, inalteráveis etc., e ao contrário considerar grande imperfeição ser alterável, capaz de gerar, mutável etc.: julgo a Terra nobilíssima e admirável pelas tantas e tão diversas alterações, mutações, gerações etc. que nela incessantemente ocorrem; e quando, sem estar sujeita a nenhuma mutação, ela fosse toda uma vasta solidão de areia ou massa de jaspe ou que, no tempo do dilúvio, congelando-se as águas que a cobriam se transformasse num globo imenso de cristal, onde não nascesse nem se alterasse ou mudasse coisa nenhuma, eu a consideraria um corpanzil inútil no mundo, cheio de ócio e, para usar poucas palavras, supérfluo e como se não estivesse na natureza e não faria diferença entre estar viva ou morta; e o mesmo digo sobre a Lua, Júpiter e todos os outros globos do mundo. […] Esses que tanto exaltam a incorruptibilidade, a inalterabilidade etc. creio que se reduzem a dizer tais coisas pelo grande desejo de viver muito e pelo terror que têm da morte; e não consideram que, quando os homens fossem imortais, não lhes tocaria vir ao mundo. Estes mereceriam encontrar-se numa cabeça de Medusa, que os transformasse em estátua de jaspe ou de diamante, para tornar-se mais perfeitos do que são.

Se associarmos o discurso sobre o alfabeto do livro da natureza a este elogio das pequenas alterações, mutações etc. vemos que a verdadeira oposição se situa entre imobilidade e mobilidade, e é contra uma imagem de inalterabilidade da natureza que Galileu toma partido, evocando a carranca de Medusa. (A mesma imagem e argumento já se achavam presentes no primeiro livro astronômico de Galileu, Istoria e dimostrazioni intorno alle macchie solari.) O alfabeto geométrico ou matemático da natureza será aquele que, baseando-se em sua capacidade de ser decomposto em elementos mínimos e de representar todas as formas do movimento e da mudança, cancela a oposição entre céus imutáveis e elementos terrestres.
A dimensão filosófica dessa operação está bem ilustrada por esta fala do Dialogo entre o ptolomaico Simplicio e Salviati, porta-voz do autor, em que retorna o tema da “nobreza”:

SIMP.: Este modo de filosofar tende à subversão de toda a filosofia natural e a desordenar e arruinar o céu, a Terra e todo o universo. Mas acredito que os fundamentos dos peripatéticos sejam tais que não há perigo de que com a ruína eles possam construir novas ciências.
SALV.: Não se preocupe com o céu nem com a Terra, nem tema sua subversão, como tampouco da filosofia; porque, quanto ao céu, é vão que temam aquilo que vocês mesmos consideram inalterável e impassível; quanto à Terra, tratamos de nobilitá-la e aperfeiçoá-la, enquanto procuramos fazê-la semelhante aos corpos celestes e de certo modo colocá-la quase no céu, de onde os seus filósofos a expulsaram.

Italo Calvino, em Por que ler os clássicos

29/10/2026

"Little Thing No. 6" (Instrumental), de Elilson José Batista

 

Balada

Folha enrugada,
poeira nos livros.
A pena se arrasta
no esforço inútil
de libertação.
Nenhuma vontade,
nem mesmo desejo
na tarde cinzenta.

A árvore seca
esperando seiva
não tem paisagem.
Na frente é o deserto
coberto de pedras.
Nem sombra de oásis.
Pobre árvore seca
na tarde cinzenta!

Se houvesse um castelo
com torres e dama
de loiros cabelos,
talvez eu fizesse
algum madrigal.
Mas a dama morreu,
os castelos se foram
na tarde cinzenta!

O caminho se alonga
por entre montanhas,
por campos e vales.
Talvez me conduza
ao roteiro perdido
no fundo do mar.
Mas estou tão cansado
na tarde cinzenta!

Não sou lobo da estepe;
amo a todos os homens
e suporto as mulheres.
Contudo não posso
falar com os lábios,
amar com o sexo,
porque sinto a tortura
da tarde cinzenta!

Só me restam os livros.
Vou ficar com eles
esperando que chegue
do fundo da noite,
das sombras do tempo,
oh! imenso mar,
vem me libertar
da tarde cinzenta!

José Paulo Paes, em Poesia completa

O impagável Quino

 

Diário de Bernardo Soares

141.
Paisagem de chuva

Em cada pingo de chuva a minha vida falhada chora na natureza. Há qualquer coisa do meu desassossego no gota a gota, na bátega a bátega com que a tristeza do dia se destorna inutilmente por sobre a terra.
Chove tanto, tanto. A minha alma é húmida de ouvi-lo. Tanto... A minha carne é líquida e aquosa em torno à minha sensação dela.
Um frio desassossegado põe mãos gélidas em torno ao meu pobre coração.
As horas cinzentas alongam-se, emplaniciam-se no tempo; os momentos arrastam-se.
Como chove!
As biqueiras golfam torrentes mínimas de águas sempre súbitas. Desce pelo meu saber que há canos um barulho perturbador de descida de água. Bate contra a vidraça, indolente, gemedoramente, a chuva; Uma mão fria aperta-me a garganta e não me deixa respirar a vida.
Tudo morre em mim, mesmo o saber que posso sonhar! De nenhum modo físico estou bem. Todas as maciezas em que me reclino têm arestas para a minha alma. Todos os olhares para onde olho estão tão escuros de lhes bater esta luz empobrecida do dia para se morrer sem dor.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Oração para desaparecer



6.

— Ele veio jogar as cinzas da mãe no rio do ouro.
Jorge entrou na minha vida no momento em que ouvi esta frase. Quem disse foi Fátima, irmã de Florice. Explicava que ele avisou que viria para deixar as cinzas da mãe no rio do ouro e ficaria uns dias, e isso foi, para todos, uma surpresa muito feliz. Eu não o vi nessa hora, o nome dele chegou antes, sonoro, gostoso de dizer: Jorge. Perguntaram se ele estava bem, parecia que sim, sempre foi forte, mas sentia muito a falta da mãezinha. Ele chegaria logo, foi buscar o carro na frente da rodoviária, assim ficaria mais fácil levar as bagagens. Depois soube que era o rio Douro, claro, mas na hora escutei um pouco diferente.
Compreendi essa frase no meio de uma confusão de vozes na chegada à Braga.
Quando falavam rápido eu não entendia nada do português deles, nada mesmo, todos ao mesmo tempo, era uma massa de vozes. Uma palavra ou outra saltava, desisti de compreender. Ocupei meu tempo carregando as malas e bolsas que levamos com presentes, roupas, comidas, coisas, todos se abraçando e com tanto a dizer e eu atordoada por tudo, tentava ser útil e silenciosa para disfarçar meu desentendimento.
Não sabia que eram trigêmeas. Três Florices abraçadas, idênticas, vestidas com os mesmos tons de sobriedade mas diferentes nos detalhes, reagiam ao encontro com choro ou riso, nisso variavam, mas eram iguais e falavam ao mesmo tempo. Maria Florice, Maria de Fátima, Maria de Lourdes estavam juntas de novo para comemorar os setenta anos de suas vidas. Cada uma viveu setenta, eram então duzentos e dez anos, faziam a conta o tempo todo, gostavam de comparar quem fez mais isso ou aquilo, riam das próprias asneiras.
A casa para onde iríamos era o lugar onde nasceram e viveram com os pais. Florice e Lourdes mudaram por causa dos trabalhos dos maridos, mas Fátima quis ficar. Sempre quis estar em Aboim, cuidar de tudo, limpar as lápides dos familiares no cemitério, a guardiã dos mortos.
Falavam rápido, aos sobressaltos, até que Jorge chegou. Veio dirigindo a carrinha de Aboim até Braga para nos buscar, caberíamos todos. E ele está aqui? Sim, veio jogar as cinzas da mãe no rio do ouro, essa foi a sequência exata do diálogo entre eles. Acho importante falar tudo sobre Jorge a partir de agora. A entrada dele na minha vida transforma muitas coisas.

— E é por causa dele que estás aqui?
— Sim. Porque ele sabia do seu trabalho. Poucos sabem, não é?
— Poucos, sim. Preciso dos clientes, mas não sou fácil de encontrar. Tenho de mudar sempre de lugar para que não me encontrem. Não é uma vida fácil. Continua, Aparecida, já temos de encerrar a entrevista de hoje, mas preciso saber sobre Jorge.

Pois, esse dia da chegada pareceu durar umas quarenta horas, de tão intenso. Só percebo agora, que preciso recontar. No caminho Florice me avisou que Fátima era a mais interessada nos Ressurrectos. Olhou para mim pela primeira vez perguntando qual seria meu nome, afinal, porque sabia que cheguei sem nada.
— Aparecida, como combinamos — Florice respondeu por mim.
— Eu sei, mas a menina precisa de um sobrenome, acho que pode ser Reis. Aparecida dos Reis, que tal? Se gostam, está bem, pois foi assim que ficou registrado no caderno da prefeitura, já está lá seu nome como voluntária no projeto dos bordados minhotos. Não pediram documentos, eu mesma anotei.
— Fátima é mesmo engraçada — foi Lourdes quem disse. — Ela arranja tudo como quer, faz de conta que está pedindo uma opinião e segue do jeito que acha certo de qualquer forma. Sempre foi assim.
Florice era uma mulher de pensamento prático, concreto, uma dona de casa impecável, maternal, cuidadosa, legado de uma vida como enfermeira. Fátima era conectada com o mundo, com as causas ao seu redor, não gostava de cuidar de casa, queria estar sempre cercada de pessoas e de movimento. Lourdes, um amor de criatura. Distraída, filósofa, batizou a fábrica de vinhos do marido com o nome Beijos de Beber, uma mulher com a cabeça constantemente acima das nuvens, lendo, pensando.
Já eu não tive tempo de pensar, de dizer sim ou não, perguntar o que é isso de bordado minhoto, já estava decidido que essa seria minha ocupação em Aboim, além de ajudar Fátima com a vida na casa, no alto de uma colina naquela vila de poucas casas e de frio lancinante. Isso tudo foi tratado na estrada entre Braga e Aboim, fui comunicada. Queria chamar dona Fátima, por respeito, mas ela não permitiu.
Quando o cansaço calou a todas por um tempo, fez-se silêncio e pude ver o Minho pela janela. Na frente de todas as moradas havia uma construção alta, comprida e estreita, com uma cruz em cima, e cheguei a achar que eram túmulos. Perguntei por que enterravam as pessoas assim, no jardim, na frente de casa. Pareceu piada.
— São espigueiros, menina. Nada trágico ou dramático, apenas espigueiros onde se armazenam cereais.
Claro que a resposta foi de Fátima. Riram de mim, da minha primeira vez no Minho, desconhecendo tudo. Jorge tentou ser discreto, mas também riu e olhou pelo retrovisor. Era jovem, usava óculos escuros, não pude ver direito o seu rosto, mas vi seu tamanho, um homem que ocupava todo o espaço, as mãos firmes na direção do carro, as pernas, olhei o que pude, tentei ser discreta, mas tempos depois ele disse que percebeu que eu esticava o pescoço. Ele nos deixou em casa e teria de ir resolver algo com urgência, não pude ver direito.
Só consegui ter um pouco de paz à noite, antes do jantar. Quando chegamos à casa levamos muitas horas descarregando todas as bagagens, fazendo comida para mais tarde, e logo entrei na rotina porque isso era mais fácil do que tentar conversar ou entender qualquer coisa. Arrumei a mesa para seis pessoas, sem fazer as contas, porque assim mandaram. Ocupava-me com o leva e traz de pratos e taças, mais vinho, até soar a campainha com a chegada do sexto convidado que faltava.
Era Jorge, com três ramalhetes de flores e uma cestinha de queijos e geleias. Não trouxe vinho como manda o costume português porque sei que nessa casa só se toma Beijos de Beber, ele disse, sendo coberto de abraços por todos. Só então reparei que era este o nome de todas as garrafas de vinho da casa, as vazias e as duas caixas cheias, Beijos de Beber.
Apresentaram-me como Aparecida enquanto eu estava na cozinha, lavando copos e taças. Florice falou que me desenterraram em Almofala e me assustei, derrubei uma taça e quebrei dentro da pia, não esperava esse assunto. Fernando explicou que poderíamos falar dos Ressurrectos naturalmente enquanto estivéssemos a sós, a família e eu. Jorge é da família. E disse que não valia a pena sofrer por aquele enigma imenso de ressurgir em outra terra, não tem muito o que remoer sobre isso, é assim. A mãe de Jorge era prima das Marias, sabiam de tudo.
Quando por fim nos sentamos para jantar o assunto era a minha vida. As duas irmãs já sabiam dos detalhes: que eu falava desde o primeiro dia, que não tinha nenhuma memóriaalém dos sonhos, da reação emocional ao sino e ao mar, das pistas esparsas que guardo sobre mim. Minha esperança era de que Fátima tivesse alguma informação sobre o que eu poderia fazer para me salvar, mas minha ausência total de lembranças também a espantava. Sua opinião sobre os Ressurrectos era muito prática e concreta: era preciso levantar e seguir até que alguma verdade fosse revelada. Sem jamais parar a vida, porque tudo acontecera por um esforço do destino para que eu pudesse continuar vivendo. Há o destino, mas há a vontade, ela disse. Morrer teria sido mais fácil que atravessar um túnel de terra, há um motivo para que esta sua vida prossiga.
Em geral vocês todos se lembram de tudo em algum momento, ela continuou, as coisas começam a voltar, pouco a pouco, nos sonhos, depois um jorro de lembranças; os nomes das pessoas, dos lugares, costuma ser assim, mas sua porta está fechada. A porta da sua memória não abre daqui, é preciso ter paciência, retomar a vida de outro jeito. Fátima falava disso enquanto passava um pedaço do pão no azeite e enchia a taça de alguém, como se quase morrer, nascer de novo, sair da terra não fosse coisa de sofrer ou de ter angústia.
Quando comecei a perguntar o motivo, a razão de tudo, o sentido de estar ali sem lembrar, sendo alguém que perdeu o poder sobre a própria vida, vi o quanto Fátima é uma mulher menos paciente que a irmã. Interpretou como se me queixasse deles e me disse que eu deveria agradecer porque estava sendo acolhida em uma família onde eu poderia caber, um dia, se merecesse fazer parte, se aprendesse que o destino é forjado pela faca do segredo, que há golpes e erros e que para todo corte há uma cura. Jorge olhou assustado para mim, adivinhando meu constrangimento. Foi a primeira vez que cruzamos olhares. Eu tinha mesmo vontade de chorar, mas de raiva, não de tristeza. Vontade de responder, de dizer desaforos, mas não podia e, no mais, ela tinha toda razão.
Daquele ponto da minha vida, ela disse, ou eu aceitava as mãos que me tiraram do buraco, moldando meus meses iniciais a uma nova modalidade de vida, ou saía rumo ao nada. Existem Ressurrectos por todos os lados e poucos tiveram a minha sorte. Muitos estão no meio das ruas contando alto de onde vieram sem que ninguém acredite, sem que ninguém diga para onde ir.
Emendou lembrando da matéria de jornal que leu sobre um pedinte em Istambul, que explicava em francês sua história, de como apareceu na Turquia sem fazer ideia do que o levou até lá, mostrava o buraco de onde saiu, virou atração pela loucura, coitado.
Cada palavra era um golpe seco, uma sinceridade dolorosa, a dor da verdade da minha condição, sem nenhum alívio ou disfarce, sem camadas, a verdade crua de que estou perdida no século, no tempo, no vácuo de uma existência sem nome, essa coisa que nos faz gente eu não tinha, a ideia de pátria e de ser parte da história, eu não tinha. Ainda não tenho. Era preciso aguardar mais um pouco, confiar na possível benevolência do destino.
Até lá eu seria Aparecida dos Reis, disse Lourdes, tentando acalmar os ânimos, levantando um brinde a mim. Era a mais silenciosa das três, mas agiu com muita sensibilidade para que mudássemos o assunto. Depois brindamos ao aniversário delas. Contaram que isso aconteceu, o nascimento de três meninas, porque sua mãe via sempre três andorinhas pousadas no galho de uma árvore do jardim de sua família, quando estava grávida. Era este o bordado de um pano colorido em cima da lareira, emoldurado. Relembravam as histórias da infância, algumas coisas eu não entendia; quando falavam todas ao mesmo tempo a conversa virava uma massa de sons confusos.
— E o Jorge, como está levando a vida?
Enfim um pequeno vale de silêncio para que Jorge pudesse falar de Catarina, sua mãe. Ele me olhou. Disse que achava por bem me explicar, se apresentar a mim, aquele homem todo, de voz grave, adocicado pela gentileza. Desde o começo notei sua atenção comigo, uma curiosidade impossível de disfarçar. Sua mãe era prima das três, cresceram juntas em Aboim até que ela foi estudar em Coimbra. Casou-se com um diplomata moçambicano e mudaram para a África, onde Jorge nasceu e cresceu, até vir estudar em Lisboa. Catarina ficou na Ilha de Moçambique. Entendi sua história enquanto ele falava do pedido da mãe, dos lugares onde deveria jogar as suas cinzas.
O primeiro era em Aboim, na casa onde tinha nascido. O segundo, no rio Douro. O terceiro era mesmo na Ilha de Moçambique, diante da capela de Nossa Senhora do Baluarte. Jorge tinha um mundo inteiro dentro dele, seus tataravós eram macuas e, mesmo não tendo sido criado com eles, entendia da religião, dos antepassados, esse era o tema do seu doutorado, a história dos macuas.
— Não tenho data certa para voltar. Estou arrumando a casinha para escrever minha tese aqui em Aboim. Preciso desse tempo de solidão.
Fernando quis saber sobre a tese e assim começou um passeio pela mente de Jorge nos guiando pelo mundo inteiro, falando não só dos macuas, mas de lugares que conheceu, das coisas que viveu com seus pais e sozinho, das suas viagens por todo o continente africano, das lembranças da mãe, da sua adoção, das iguarias estranhas que comeu e bebeu, da vontade de abrir a cabeça para o total, sempre olhando para mim, para todos. Eu não estava entendendo muito bem, de vez em quando eu levantava, pegava um prato, levava uma taça, trazia uma garrafa, mas uma frase ficou marcada para mim: “O barco de cada um está em seu próprio peito”. Era um provérbio macua.
Aceitei o vinho, o Beijos de Beber, fiquei tonta rapidamente. Aceitei receber aquela noite como um alívio. Sabia que dali em diante tudo iria mudar. Jorge tomou conta da casa, aos poucos sua voz encheu os espaços, elas o adoravam como se ainda fosse um menino. Ele as reverenciava como se fossem a marca de vida de sua mãe, respeitava Fernando com brilho nos olhos e eu participava de um encontro daqueles destinos. Até que Jorge começou a falar comigo de novo.
— Eu conheço o Brasil, Aparecida. Estive no Rio de Janeiro e em Minas Gerais.
— Ela não lembra de nada, a pobrezinha, nem adianta — Lourdes apressou-se em me salvar, um pouco bêbada.
— Sim. Uma Ressurrecta. Lembro do dia em que avisaram da sua chegada. Vocês lembram? — Jorge disse.
— A chegada de Aparecida? Avisaram a quem?
— Ao senhor Afonso, seu pai. Não disseram o nome, mas é ela. Acho que eu tinha uns dez anos quando estive aqui de férias com meus pais. Chegou um homem, sentaram-se ali no sofá. Já se conheciam, parece que por carta. Deu a notícia de morte de uma pessoa e depois disse que trazia um outro recado, que uma mulher brasileira surgiria na família, alguns anos adiante. Foi uma previsão bem adiantada, pois Cida chegou vinte e cinco anos depois. Seria a última Ressurrecta, a primeira mulher e com ela terminaria a missão de vocês, e o senhor Afonso levantou as mãos para o céu, assim, dando graças. Não sei se havia mais algum detalhe, a senhora se lembra, dona Fátima?
— Nunca tinha ouvido falar disso, vocês sabiam?
— Chegando a Lisboa vou procurar na caderneta de meu pai, ele tomava nota de tudo. Há uma parte em que escreveu muitas coisas que conversava sobre os Ressurrectos, mas nunca li. A caligrafia é muito atrapalhada, mas justo a mim ele confiou o caderno — Florice respondeu.
— E justo para a senhora chegou Aparecida — Jorge sorriu.
Jorge e seu conhecimento, sua presença no dia do anúncio da minha chegada; ele e sua memória, sua seriedade e gentileza, era a primeira chave das descobertas que eu precisava fazer a partir de então.
Disfarcei a angústia apressando a limpeza dos pratos que já estavam na pia. Pedi licença para começar a arrumar as coisas, eu sentia a obrigação de colaborar, todos perceberam, é claro, mudaram de assunto. Combinamos o dia seguinte, a reunião seria às duas da tarde. Não sei que reunião era essa, mas meu nome estava lá e eu deveria ir. Precisávamos dormir. Todos levaram as coisas para a cozinha, arrumamos depressa o que foi possível. Doze mãos cuidam bem de uma casa. Jorge foi embora depois de abraçar a todos e acenar de longe para mim.
Um quarto só meu, o mais alto, todo em madeira, miúdo, o mínimo para viver. Adormeci rapidamente de tanto cansaço e consegui sonhar.
O primeiro sonho em Aboim da Nóbrega me despertou no meio da madrugada. Uma missa parecida à que ouvi na Igreja dos Mártires, não tão tranquila, não tão em ordem, havia uma confusão, as badaladas do sino, alguma coisa aconteceu, fora da igreja as pessoas se arrumavam em círculo. Anotei no Livro das Visões que talvez meu corpo não fosse cristão, constantemente tocava uma música na minha cabeça mas eu não reconhecia as palavras, só a melodia, que relembrei por inteiro. Cantei para adormecer de novo, chamar a calma, chamar o vento, chamar qualquer coisa que me desse esperança.
Não consegui mais dormir depois do sonho porque pensava em Jorge, no pequeno baú de cinzas de sua mãe que ele carregava, na missão de jogar parte a parte em vários lugares, refazendo o trajeto do seu amor. A voz de Jorge estava espalhada por toda extensão da minha cabeça vazia, desocupada de memórias, tudo só para ele, só para os detalhes do seu corpo, as mãos, o porte de caçador, de repente meus pensamentos já eram outros, esqueci dos Ressurrectos, dos sonhos, só tinha para mim o eco daquela voz, as palavras, macua, Moçambique, o sotaque dele, seu olhar pousava em mim com atenção, ele me enxergou a noite inteira. Paixão e feitiçaria são obras do mesmo fogo.

Socorro Acioli, em Oração para Desaparecer