Todo mundo tem segredos. Todo mundo.
Acho que a diferença é que ou morremos com eles e deixamos que nos
devorem, ou os colocamos para fora, lutamos com eles (ou eles lutam
conosco) até que… nos reconciliamos. Segredos são o que nos
engole.
Sempre houve um segredo que era como o
prego no caixão para mim… É uma memória que está fresca na
minha mente, como se tivesse acontecido ontem, mas mesmo assim…
está bem distante.
Duas semanas antes da formatura,
acordei enjoada e ali eu já soube. Estava grávida do homem que
namorava havia sete anos. Eu me lembro de tirar minhas fotos
profissionais naquela semana e de ir assistir ao filme A Bela e a
Fera no cinema e tudo o que pensava era: Estou grávida.
Não sabia que diabos fazer a respeito daquilo. Era uma emoção
muito mais forte que o medo. Foi como se todas as decisões
irresponsáveis que tomei tivessem culminado naquilo. Desde que tinha
iniciado minha vida sexual, o que aconteceu tarde, não sabia o que
estava fazendo. Sim, você pode aprender a prevenir uma gravidez,
mas… e a amar? Como ser regrada e responsável, estar no controle,
estabelecer limites? Meu Deus, até mesmo garantir que teremos
dinheiro para comprar camisinha ou pílula anticoncepcional? Sentia
que o único compromisso inegociável que eu tinha era com a minha
carreira, e ela sugava TODA a minha energia. Os demais aspectos da
minha vida me sufocavam. E agora… estava grávida.
Lembro-me de ir a uma clínica perto
da Juilliard. Fui bem cedinho e tive que cancelar a primeira consulta
porque tinha comido. Voltei no dia seguinte. Lembro-me de entrar em
várias salas. Uma para me cadastrar e pagar. Uma para fazer outro
teste de gravidez. Outra para vestir a roupa cirúrgica. Cada sala
parecia uma cena saída de um filme de Stanley Kubrick na qual você
está muito perto da morte. Houve alguns médicos muito gentis que me
colocaram na mesa cirúrgica, e então eu apaguei.
Acordei aterrorizada. Acordei como se
tivesse sido atacada. A dor era enorme! Maior do que qualquer dor que
já tinha sentido na vida. Eles tinham me avisado que eu poderia
sentir dor, mas, cara… Existe “o que é dito”, “o que você
ouviu” e como é de verdade, e aquela dor NÃO ERA o que pensei que
seria. A sala de recuperação tinha um monte de poltronas
reclináveis posicionadas em círculo. Havia almofadas enormes em
cada poltrona para conter o sangramento da cirurgia. Cada uma delas
era ocupada por uma mulher e havia pelo menos umas 12 dessas
poltronas. Eles nos deram suco de maçã e biscoitos. Ao meu redor,
mulheres vomitavam em baldes e gritavam ou gemiam de dor. Uma mulher
gritava: “Eu não podia ficar com esse! Eu não podia! Já tenho
cinco e não tenho dinheiro nenhum!” Outra garota, que parecia ter
uns 15 anos, gritava: “MAMÃE!!!! MAMÃE!! Eu quero minha MAMÃE!!!”
E quanto a mim? Eu só chorei… e vomitei… e chorei até que a dor
passasse. Fui para casa e sangrei muito por duas semanas. Caí em uma
depressão que mudou a minha vida.
Minha nossa, lembro-me de ligar para o
meu namorado, gritando com ele: “Onde você está? Por que não
está aqui?” Para ele, o que eu tinha feito fora errado, e mesmo
assim a chance de que ele não desse apoio para o bebê ou para mim
era enorme. Não havia recursos financeiros ou emocionais — nada.
Mais uma vez, tive que contar com um milagre para passar por
obstáculos imensos e impactantes. A vida sempre pediu que eu
contasse com milagres. Meu namorado enfim foi para Nova York ficar
comigo por um dia, e depois foi embora. Foi um lembrete perfeito de
que, por mais que eu tivesse pensado que havia evoluído e me tornado
uma mulher madura, ainda não tinha chegado lá. Não havia como
escapar dos acidentes terríveis da vida que podem fazer você
paralisar por completo.
Os grandes coágulos de sangue me
lembravam o tempo todo de que eu acabara com uma vida, e eu
definitivamente, sem dúvidas, sabia que era uma vida… que eu
trocara pela minha. Tente lidar com o peso dessa merda!!!
Minha mãe teve o primeiro filho aos
15 anos, e eu queria que minha vida fosse diferente. Aquele bebê não
se encaixava nos meus sonhos. E quem eu era sem eles? Quanto maior o
sonho, mais rapidamente a vergonha daquela pequena Viola do terceiro
ano desapareceria. Quanto maior o sonho, mais pessoas não me
chamariam daqueles nomes dos quais eu fugia. Quanto maior o sonho…
mais digna eu poderia ser.
Eu me sentia quase desesperada para
explicar isso a Deus e receber seu perdão… para ser expurgada.
Tenho um amigo judeu ortodoxo moderno.
Ele me contou que um de seus rabinos disse o seguinte: “É inútil
procurar um sentido. Em vez disso, pergunte-se: O que aprendi com
isso?”
O que aprendi com tudo isso? É
impossível passar pela vida livre de cicatrizes. Impossível!! É
como um ringue de boxe emocional, e você passa por um round, quatro
rounds ou quarenta rounds, dependendo do seu oponente. E, caramba, se
seu oponente for você mesmo… você passará por quarenta. Se for
Deus, mal passará por um, porque Papai do Céu vai vencer você pelo
cansaço! Ele muda de forma. Você acha que está lutando com ele,
gritando, dando socos, implorando por ajuda. E então ele o deixa
frente a frente com… VOCÊ mesmo.
Anton Tchekhov, o grande dramaturgo
russo, disse uma vez: “Enquanto você ri histericamente, sua vida
está desmoronando.” É a definição do que é viver.
Meu jantar de formatura, quando
terminei o curso na Juilliard, foi alegre e animado. Cedric, um dos
meus melhores amigos, que se formou também, se sentou comigo no chão
do quarto dele e comemos pés de porco em conserva bebendo cerveja.
Chupamos até a cartilagem, os ossos de porco ricos e gordurosos
cheios de vinagre. Em voz alta, proclamamos aos risos que nunca
contaríamos a ninguém sobre esse jantar. Tínhamos acabado! Vencido
uma guerra artística, emocional e esmagadora de egos e almas.
Eu me formei na Juilliard. E vou dizer
o seguinte. Eu fora uma criança pobre e agora era uma adulta pobre.
Tinha um agente figurão e… nada aconteceu. Fazia testes, recebia
ligações, e então outra pessoa conseguia o trabalho. Ou eu sequer
chegava a fazer testes, porque era jovem demais, velha demais,
retinta demais, pouco sexy. Enquanto isso, a vida continuava. Tinha
aluguel para pagar. Conta de telefone, passagem de metrô, comida,
empréstimos estudantis. Toda a dura realidade sobre a qual não
havia pensado. Bem, eu havia, sim, mas não entendia o peso disso
tudo. A essa altura, dividia um apartamento com seis outros
estudantes da Juilliard, e eles também estavam penando. Por fim, um
conseguiu muitos comerciais e uma novela. Outro foi chamado para um
trabalho importante fora da faculdade, mas, quando acabou voltou a
fazer testes. Um saiu de Nova York, e o outro ainda estava na
faculdade.
Tive dois grandes momentos de
epifania. O primeiro foi que estávamos vivendo a realidade dos
artistas. A mentalidade dominante nas redes sociais é a de que você
precisa ser uma mulher segura e empoderada. Tem que ligar para o seu
agente e dizer a ELE quais papéis você quer ou, diabos, escrevê-los
para si mesma. Imploro a jovens atores que não façam isso.
Os atores privilegiados são aqueles
que falam e são ouvidos. Eles são entrevistados porque chegaram ao
topo da carreira e seus depoimentos são o tempo todo compartilhados
nas redes sociais. Nós os consumimos e, sem ter a possibilidade de
observar a realidade do ramo da atuação, aceitamos essas
informações como verdadeiras. Se você chegar ao auge quando jovem
e receber um salário de seis dígitos: Você. É. Privilegiado. Isso
não é uma crítica. Meu Deus, todo mundo adoraria viver essa
realidade. Mas a batalha é definida pela falta de escolhas, e o
ator que faz o comercial de uma seguradora de carros para ter um
plano de saúde tem tanta integridade quanto alguém que não aceita
esse trabalho para esperar pelo papel que lhe trará um Oscar.
Uma atriz já me ligou eufórica
porque o comercial dela foi selecionado e ela se qualificou para ter
um plano de saúde básico para si e para toda a família. Ela tem
dois filhos, um com problemas de saúde. A vida acontece enquanto sua
carreira acontece. A vida é difícil. Percebi que minha felicidade
não está atrelada apenas à satisfação artística, mas à
satisfação com a vida. Eu devia 56 mil dólares em empréstimo
estudantil. Meus miomas estavam crescendo. Eu sangrava por semanas a
fio. Estava muito anêmica. Tive alopecia areata. Acordei e o cabelo
do lado direito da minha cabeça tinha caído. Meu couro cabeludo
estava liso como bumbum de bebê. A reação imediata seria ir ao
médico. E eu teria ido, se tivesse plano de saúde. Eu ia a clínicas
baratas, mas miomas, anemia e alopecia requeriam cuidado
especializado. Tratamento com ginecologistas e dermatologistas.
Levaria anos para eu ter dinheiro para pagar um plano de saúde.
Meu outro momento de epifania foi
perceber o poder, a potência e a força vital provenientes da
combinação tóxica entre colorismo e machismo. Quase todos os
papéis para os quais fiz teste eram de mães que sofrem com
dependência química. Fiz testes para alguns papéis em produções
de baixo orçamento que pediam uma mulher negra, mas sempre descrita
como tendo pele clara. Sempre! Outros testes eram para novelas; e eu
me via sentada na sala de espera junto com modelos.
Comédias românticas negras estavam
sendo produzidas. Havia programas incríveis na TV que mostravam a
garota negra bonita que tinha autonomia e era rica. Mas nenhuma
daquelas mulheres se parecia comigo. Um agente me disse qual era a
palavra que todos os produtores de elenco usavam no telefone:
“intercambiável”. Isso significava que, mesmo que você fosse um
pouquinho retinta, precisava ter o corpo menos curvilíneo, traços
mais clássicos (leia-se: mais brancos). E eu não era assim.
O que torna isso ainda pior é que
esse tipo de declaração não era feito apenas por executivos
brancos, mas também por artistas e produtores negros. Você começa
a adotar a ideologia do “opressor”. Isso vira a chave para o
sucesso. Culturalmente falando, muitos acreditam nessa ideologia e
adotam a crença de que se você for negra, é mais feia, mais
difícil, mais masculina e mais maternal do que suas colegas de pele
clara. É a mentalidade racista do colorismo, a qual muitos ainda se
recusam a reconhecer.
Na minha jornada para encontrar meu
caminho, o melhor papel não era o maior objetivo. Ser garçonete
para pagar as contas até que aquele papel incrível surgisse não
era o objetivo. Eu precisava viver: esse era o objetivo. Isso foi
antes dos serviços de streaming. Os estúdios não estavam
produzindo grandes papéis para atores negros, pelo menos não para
atores com o meu tom de pele. As probabilidades eram: um papel
incrível, ou um bom cachê, ou um bom perfil, ou apenas um trabalho.
Você não ganha destaque se não trabalhar.
Eis a verdade: se você pode escolher
entre fazer um teste para um excelente papel e para um ruim, você é
privilegiado. Isso significa não só que você tem um ótimo agente
que pode lhe abrir portas, mas também que preenche os requisitos
para ser considerado para o papel. Nossa profissão, a qualquer
momento, tem uma taxa de 95% de desemprego. Apenas 1% dos atores
ganha 50 mil dólares ou mais por ano, e apenas quatro em cada 10 mil
são famosos, e nem vamos definir o que é fama aqui. Esses quatro
entre os 10 mil são as histórias que chegam à mídia. Escolher
papéis, largar agentes, ganhar bem menos do que colegas do sexo
masculino. Nunca se arrepender dos papéis que aceitou. E por aí
vai.
Quem tem escolhas tem recursos. E as
necessidades de um ator de pouco mais de 20 anos não são as
necessidades das outras pessoas. Plano de saúde, hipoteca e filhos
não são a prioridade da maioria dos jovens de pouco mais de 20
anos. Mesmo assim, há pessoas que almejam ser atores e não sabem
que não devem dar ouvidos aos depoimentos dos privilegiados.
Daqueles que são extremamente talentosos, mas também
extraordinariamente sortudos. A sorte é um monstro esquivo, que
escolhe quando sair de sua caverna e atacar seu alvo. É um negócio
de privação.
Para cada ator que alcança a fama,
existem milhares que fizeram exatamente a mesma coisa e não
conseguiram chegar lá. A maioria dos atores que conheci na
Juilliard, na Rhode Island College, no Circle in the Square Theatre e
na competição Arts Recognition Talent Search não está mais no
ramo. Acho que posso citar seis que continuaram, e a maioria você
não conheceria. Isso não tem a ver com o talento deles, é a
natureza desse meio. Acredite em mim quando digo que a maioria era
bonita e talentosa, e alguns tinham agentes incríveis. É um jogo de
uni-duni-tê que envolve sorte, networking, destino, tempo de
carreira e, às vezes, talento.
Você faz testes de acordo com o nível
em que está. É difícil perceber em que momento sua jornada para o
topo foi mais fácil, mas a verdade é que não há facilidade. Mesmo
que você faça o que a pessoa sortuda fez, há 99% de chance de as
coisas não darem certo para você. Apenas mais ou menos 4% dos
atores filiados ao sindicato Screen Actors Guild and American
Federation of Television and Radio Artists (SAG-AFTRA) ganham o
suficiente para ter direito a um plano de saúde, e isso significa
que precisam ganhar pelo menos 20 mil dólares por ano. Essa é a
nossa realidade.Em nossa sociedade, há o pensamento muito difundido
de não aceitar nada que esteja “abaixo” de você. Essa
mentalidade é algo difícil de se manter nesse ramo. Aqui está uma
pergunta melhor: você quer ser ator ou quer ser um ator famoso? Se
quer ser famoso, como o grande Alan Arkin disse, terá dificuldades.
Se quiser ser ator, dará um jeito. Tome cuidado com atores que dizem
que vivem recusando trabalhos e nunca escolheram fazer uma temporada
de teatro recebendo apenas 250 dólares por semana para se sentirem
realizados. A fama é inebriante.
Aos 28 anos eu estava acordando para a
realidade. Estava me conscientizando do que significava ser uma
mulher adulta, cuidando de mim mesma, mas também explorando como era
me sentir realizada no meu ofício. Eram coisas completamente
opostas. Eu também era uma grande farsa em alguns aspectos. Por um
lado, estava paralisada. Tinha muito medo de procurar pela cidade e
acabar encontrando um trabalho “só para pagar as contas”. Tivera
tantos trabalhos assim no passado, e a ideia de ter que equilibrar
isso com os testes estava pesando demais. Além disso, como eu fazia
testes para teatro, cinema e TV, precisava de espaço para ensaiar.
Passei anos me preparando no ônibus, no metrô e em pórticos de
entrada de prédios. Eu precisava de espaço apenas para me
concentrar no trabalho. Naquele primeiro ano, tudo era difícil e
claustrofóbico. Tive momentos não de fome propriamente dita, mas de
dificuldades. Era a realidade de ser uma atriz profissional.
Meu aluguel custava apenas 250
dólares, e às vezes era difícil conseguir até mesmo esse
dinheiro. Mas eu queria ser excelente no que fazia, apesar de não
saber como pagaria as contas. E por falar nelas, eu usava muito o
telefone, gastava centenas de dólares e tinha contas altíssimas.
Isso foi antes do celular, quando era necessário pagar por ligações
de longa distância. Comia asinhas de frango todos os dias. Três
xícaras de arroz branco no restaurante chinês custavam um dólar e
vinte centavos. Metade disso custava sessenta centavos. As asinhas de
frango custavam três dólares, e eu as comprava quando podia. Do
contrário, minha proteína era arenque seco, salgado e defumado, que
eu comprava nos mercados espanhóis. Dormia em um futon no chão do
quarto que dividia com minha amiga Pilar. Toda a minha vida tinha
sido de dificuldade e sobrevivência. Eu me sustentava desde os 17
anos. O fato de ser difícil, uma merda, não era novidade, mas o
maior problema era conseguir manter a esperança e continuar
acreditando em mim. Depois, encontrar uma comunidade artística que
me apoiasse, enquanto eu lutava com todas as forças para sobreviver.
Atuar era uma escolha, talvez uma escolha masoquista.
Meu primeiro trabalho quando saí da
faculdade foi como atriz substituta de Danitra Vance, que
interpretava a personagem Marisol em uma peça de José Rivera no
Public Theater, fundado por Joseph Papp. Danitra foi a primeira
mulher negra no Saturday Night Live e criou uma esquete famosa
chamada “That Black Girl”. Era uma paródia do programa de Marlo
Thomas nos anos 1970, That Girl. Danitra era extraordinária.
Ela escrevia, cantava, atuava. Quando cheguei para ser sua
substituta, ela tratava um câncer de mama em metástase.
Danitra ia à quimioterapia durante o
dia e à noite fazia o espetáculo. Os tumores haviam se espalhado
para a coluna. Eu não sabia disso até conversarmos um dia no
camarim, e ela tirou a blusa. Foi a primeira vez que vi uma cicatriz
de mastectomia.
Eu ganhava 250 dólares por semana e
adorava. Nunca atuei ao longo das quatro ou cinco semanas em que
trabalhei, mas tive uma conexão com Danitra. Lembro-me de ajudá-la
a se mudar e de ouvir suas histórias. Eu adorava ouvir histórias.
Quando soube que ela estava morrendo, liguei para ela e sua voz
estava muito fraca.
— Como você está? — perguntou
ela.
— Estou bem — respondi.
Eu ia reclamar sobre conseguir papéis
e manter um fluxo de trabalho estável, mas tudo parecia irrelevante
naquele momento.
— Como você está? — perguntei.
— Com raiva.
Silêncio.
— Do que você está com raiva,
Danitra? Eu só queria que ela falasse. A voz dela estava muito fraca
e rouca. O câncer havia se espalhado e não havia nada que os
médicos pudessem fazer. Ela estava morrendo.
— Estou com raiva disso. Estou com
raiva de estar morrendo.
— Danitra, eu sinto muito.
— Eu sei. Eu te amo. Estou cansada.
Preciso desligar.
Um amigo em comum, Tommy Hollis, me
contou uma história sobre Danitra. Ele disse que assistiu a uma
performance dela chamada “The Feminist Stripper”. Elasubia no
palco e começava a se despir. Havia música tocando, e ela fazia
piadas enquanto tirava a roupa. Todo mundo rolava no chão de tanto
rir e a aplaudia. Ela chegava às roupas de baixo e ficava de costas
para a plateia, provocante, antes de tirar o sutiã. Então se virava
e revelava a cicatriz da mastectomia; um grande X feito de fita a
cobria. A reação era de silêncio coletivo, uma quietude implacável
no ambiente. Todos foram forçados a encarar a mulher que estava
naquele corpo, e não apenas o corpo em si. Tommy contou que seu
coração quis sair pela boca e que nunca esqueceria aquela
experiência.Ela morreu mais ou menos dois meses depois. Suas últimas
palavras foram: “Vão pra rua festejar.”
[...]