sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Gal Costa | Já era tempo

 

Uma esperança

Aqui em casa pousou uma esperança. Não a clássica que tantas vezes verifica-se ser ilusória, embora mesmo assim nos sustente sempre. Mas a outra, bem concreta e verde: o inseto.
Houve um grito abafado de um de meus filhos:
Uma esperança! e na parede bem em cima de sua cadeira! Emoção dele também que unia em uma só as duas esperanças, já tem idade para isso. Antes surpresa minha: esperança é coisa secreta e costuma pousar diretamente em mim, sem ninguém saber, e não acima de minha cabeça numa parede. Pequeno rebuliço: mas era indubitável, lá estava ela, e mais magra e verde não podia ser.
Ela quase não tem corpo, queixei-me.
Ela só tem alma, explicou meu filho e, como filhos são uma surpresa para nós, descobri com surpresa que ele falava das duas esperanças.
Ela caminhava devagar sobre os fiapos das longas pernas, por entre os quadros da parede. Três vezes tentou renitente uma saída entre dois quadros, três vezes teve que retroceder caminho. Custava a aprender.
Ela é burrinha, comentou o menino.
Sei disso, respondi um pouco trágica.
Está agora procurando outro caminho, olhe, coitada, como ela hesita.
Sei, é assim mesmo.
Parece que esperança não tem olhos, mamãe, é guiada pelas antenas.
Sei, continuei mais infeliz ainda.
Ali ficamos, não sei quanto tempo olhando. Vigiando-a como se vigiava na Grécia ou em Roma o começo de fogo do lar para que não apagasse.
Ela se esqueceu de que pode voar, mamãe, e pensa que só pode andar devagar assim.
Andava mesmo devagar – estaria por acaso ferida? Ah não, senão de um modo ou de outro escorreria sangue, tem sido sempre assim comigo.
Foi então que farejando o mundo que é comível, saiu de trás de um quadro uma aranha. Não uma aranha, mas me parecia “a” aranha. Andando pela sua teia invisível, parecia transladar-se maciamente no ar. Ela queria a esperança. Mas nós também queríamos e, oh! Deus, queríamos menos que comê-la. Meu filho foi buscar a vassoura. Eu disse fracamente, confusa, sem saber se chegara infelizmente a hora certa de perder a esperança:
É que não se mata aranha, me disseram que traz sorte...
Mas ela vai esmigalhar a esperança! respondeu o menino com ferocidade.
Preciso falar com a empregada para limpar atrás dos quadros – falei sentindo a frase deslocada e ouvindo o certo cansaço que havia na minha voz. Depois devaneei um pouco de como eu seria sucinta e misteriosa com a empregada: eu lhe diria apenas: você faz o favor de facilitar o caminho da esperança.
O menino, morta a aranha, fez um trocadilho, com o inseto e a nossa esperança. Meu outro filho, que estava vendo televisão, ouviu e riu de prazer. Não havia dúvida: a esperança pousara em casa, alma e corpo.
Mas como é bonito o inseto: mais pousa que vive, é um esqueletinho verde, e tem uma forma tão delicada que isso explica por que eu, que gosto de pegar nas coisas, nunca tentei pegá-la.
Uma vez, aliás, agora é que me lembro, uma esperança bem menor que esta pousara no meu braço. Não senti nada, de tão leve que era, foi só visualmente que tomei consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza. Eu não mexia o braço e pensei: “e essa agora? que devo fazer?” Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu. E acho que não aconteceu nada.

Clarice Lispector, em Todos os contos

O guardador de águas

I

O aparelho de ser inútil estava jogado no chão,
quase coberto de limos —
Entram coaxos por ele dentro.
Crescem jacintos sobre palavras.
(O rio funciona atrás de um jacinto.)
Correm águas agradecidas sobre latas…
O som do novilúnio sobre as latas será plano.
E o cheiro azul do escaravelho, tátil.
De pulo em pulo um ente abeira as pedras.
Tem um cago de ave no chapéu.
Seria um idiota de estrada?
Urubus se ajoelham pra ele.
Luar tem gula de seus trapos.

Manoel de Barros, em O guardador de águas

Calvin e Haroldo

1608 – Sevilha

Mateo Alemán

Mateo Alemán sobe ao navio que parte para o México. Para poder viajar para as Índias, subornou o secretário do rei e demonstrou pureza de sangue.
Judeu de pai e mãe e com um ou outro parente queimado pela Inquisição, Mateo Alemán inventou-se uma cristianíssima linhagem e um imponente escudo de armas, e ao mesmo tempo converteu sua amante, Francisca de Calderón, em sua filha mais velha.
O novelista soube aprender as artes de sua personagem, Guzmán de Alfarache, destro no ofício da florida malícia, quem muda de vestimenta, de nome e de cidade para apagar estigmas e escapar da pobreza. Dançar tenho ao som que todos, dure o que dure, explica Guzmán de Alfarache na novela que a Espanha está lendo.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

O império das formigas



1.

Quando o capitão Gerilleau recebeu instruções para conduzir sua nova canhoneira, a Benjamin Constant, até Badama, situada no rio Batemo, afluente do Guaramadema, para ajudar a população local a combater uma praga de formigas, ele desconfiou que as autoridades estavam zombando dele. Sua promoção se deu por motivos tanto românticos quanto irregulares; a afeição de uma proeminente dama brasileira e os líquidos olhos do capitão tinham desempenhado um papel decisivo nesse processo, e tanto O Diário quanto O Futuro haviam sido pouco respeitosos em seus comentários. Ele sentiu que em breve daria motivos para novas manifestações de desrespeito.
Era um mestiço, e suas concepções de etiqueta e disciplina eram de puro sangue português. Ele abria o coração apenas com Holroyd, o maquinista de Lancashire que viera com o barco, e apenas para praticar sua pronúncia do inglês, que era deficiente com os sons de “th”.
Isto é com efeito para me tornar absurdo! — disse ele. — O que um homem pode fazer contra formigas? Elas vêm e elas vão.
O que se diz — respondeu Holroyd — é que estas não vão. Aquele sujeito que o senhor chamou de Sambo…
Zambo. É uma espécie de pessoa de sangue misturado.
Sim, Sambo. Ele diz que as pessoas é que estão indo embora.
O capitão ficou algum tempo soltando baforadas inquietas. Por fim continuou:
Essas coisas precisam acontecer. O que é isso? Pragas de formigas e coisas assim, pela vontade de Deus. Houve uma praga em Trinidad, de formigas que carregam folhas. Todas as árvores de laranjas, todas as de mangas! O que importa? Às vezes chegam exércitos de formigas em nossas casas; formigas guerreiras; diferente tipo. Você se ausenta e elas fazem limpeza na casa. Então você volta e a casa está limpa, como nova! Nada de baratas, de pulgas, de carrapatos pelo chão.
O tal Sambo — disse Holroyd — diz que elas são um tipo diferente de formiga.
O capitão encolheu os ombros, soltou uma baforada, e concentrou sua atenção no cigarro. Daí a pouco voltou à carga.
Caro Holroyd, o que devo fazer a respeito das malditas formigas? — Ficou refletindo mais um pouco, e murmurou: — É ridículo.
À tarde, ele vestiu o uniforme completo e desceu à terra. Jarros e caixotes foram trazidos para o barco, e daí a pouco ele os acompanhou. Holroyd sentou no convés, aproveitando a temperatura amena do entardecer, fumando com gosto e pensando com admiração no Brasil. Estavam havia cinco dias subindo o Amazonas, já a algumas centenas de milhas do oceano, e a leste e a oeste dele via-se apenas um horizonte como o do mar alto, e ao sul nada além de uma ilha com encostas de areia e alguns arbustos.
A água fluía lenta como a de um canal, suja, espessa, agitada pela presença de crocodilos e de pássaros planadores, e alimentada de troncos de árvores produzidos por alguma fonte inexaurível; e aquele desperdício, aquele impetuoso desperdício, preenchia a alma de Holroyd. A vila de Alemquer, com sua igrejinha dilapidada, suas casas e cabanas cobertas de palha, suas ruínas descoloridas de uma época mais próspera, parecia uma coisa minúscula perdida na selvageria da Natureza, uma moedinha caída num Saara. Holroyd era jovem, esta era sua primeira missão nos trópicos, e ele vinha direto da Inglaterra, onde a Natureza é submetida a cercas, a valas, a drenos, até atingir uma submissão perfeita; e agora ele descobria de súbito a insignificância do ser humano. Por seis dias ele e seu barco tinham resfolegado através de canais pouco frequentados, onde o homem era tão raro quanto a mais rara das borboletas. Num dia avistava-se uma canoa, noutro uma estação distante, no seguinte nem uma pessoa sequer.
Ele começou a perceber que o ser humano é de fato um animal escasso, e que mantém uma posse precária sobre a terra.
Percebeu isto com mais clareza à medida que os dias foram passando, e eles percorriam o trajeto tortuoso que os conduzia ao rio Batemo, na companhia daquele extraordinário comandante que tinha apenas um canhão sob suas ordens e estava proibido de desperdiçar munição. Holroyd estudava o espanhol com toda aplicação, mas ainda estava naquele estágio feito apenas de substantivos e verbos no presente, e a única outra pessoa que sabia algumas palavras em inglês era um negro que trabalhava na fornalha e não conseguia pronunciá-las direito. O imediato, Da Cunha, era português de nascimento e falava francês, mas um francês diferente daquele que Holroyd tinha aprendido em Southport, de modo que o diálogo dos dois se limitava a cumprimentos e a comentários básicos sobre bom ou mau tempo. E o clima dali, como tudo o mais naquele extraordinário mundo novo, não tinha qualquer consideração humana: era quente de noite e quente de dia, o ar fumegava, até mesmo o vento era um vapor escaldante, cheirando a vegetação apodrecida; e os jacarés e os pássaros estranhos, as moscas de todos os tipos e tamanhos, os besouros, as formigas, as cobras e os macacos, todos pareciam espantados sem saber o que o homem ia fazer numa atmosfera cujo sol não tinha alegria e cuja noite não refrescava. Usar roupas era insuportável, mas tirá-las significava ser assado pelo sol durante o dia e expor uma área maior aos mosquitos durante a noite; subir ao tombadilho durante o dia era ficar cego pela luz do sol, e ficar embaixo era sufocar. E durante o dia apareciam certas moscas extremamente espertas, e nocivas aos pulsos e tornozelos. O capitão Gerilleau, a única distração capaz de desviar a mente de Holroyd dessas desventuras físicas, acabou se revelando um sujeito insuportavelmente tedioso, contando o dia inteiro histórias de suas aventuras sentimentais, uma série interminável de mulheres anônimas, que ele desfiava como contas de um rosário. Às vezes propunha um pouco de esporte e os dois atiravam em jacarés; de vez em quando chegavam a aglomerados humanos nos confins da floresta e ficavam por um dia ou dois bebendo, sem fazer nada; uma noite dançaram com garotas mestiças, que acharam o parco espanhol de Holroyd, cujos verbos não tinham passado nem futuro, mais do que suficiente para os seus propósitos. Mas estes eram meros lampejos luminosos na longa e acinzentada travessia do caudaloso rio, daquela correnteza contra a qual as máquinas vibravam e latejavam. Uma certa divindade pagã e liberal, em forma de garrafão, era quem governava o barco da popa à proa.
Mas Gerilleau aprendia coisas sobre as formigas, cada vez mais coisas, em cada parada que faziam ao longo do trajeto, e ia ficando mais interessado em sua missão.
Elas são nova espécie de formigas — disse ele. — Precisamos ser... como mesmo se diz? Entomologia? Grandes. Cinco centímetros! Muito grandes. É ridículo. Somos como macacos, enviados para apanhar insetos. Mas elas estão comendo o país. — Ele explodiu de indignação. — Suponha, de repente, que existem complicações com a Europa. Aqui estou eu, perto de chegar ao Rio Negro, e meu canhão está inútil!
Ele afagou o joelho e continuou resmungando.
Aquelas pessoas, que estavam no local de dançar, vieram de lá. Perderam tudo que tinham. Formigas chegaram na casa deles uma tarde. Tudo destruído. Você sabe que quando formigas chegam a gente foge. Todos fogem e elas ocupam a casa. Se você ficasse seria comido. Está vendo? Bem, depois eles voltam, eles dizem: “As formigas foram embora.” As formigas não foram embora! Eles tentam entrar. O filho entra. As formigas brigam.
Elas o atacaram?
Morderam. Rapidamente ele sai de novo, gritando e correndo. Corre para o rio. Está vendo? Entra na água e afoga as formigas. — Gerilleau fez uma pausa, virou seus olhos líquidos para o rosto de Holroyd, e bateu no joelho dele com os nós dos dedos. — Naquela noite ele morre, como se tivesse sido picado por uma cobra.
Envenenado? Pelas formigas?
Quem sabe? — Gerilleau encolheu os ombros. — Talvez o morderam demais. Quando eu entrei para o serviço eu vim para combater homens. Essas coisas, essas formigas, elas vêm e vão. Não é um trabalho para um homem.
Depois disso ele falou frequentemente das formigas para Holroyd, e, onde quer que eles se aproximassem de qualquer aglomerado humano naquela vastidão de água e luz solar e árvores distantes, Holroyd punha em prática seu domínio crescente do idioma para reconhecer a palavra “saúba”, e perceber o quanto ela se tornava predominante nas conversas.
Ele achou que as formigas estavam ficando interessantes; e quanto mais chegavam perto mais interessantes elas se tornavam. Gerilleau deixou de lado seus antigos temas quase de repente, e o tenente português tornou-se mais aberto ao diálogo; ele tinha algumas informações a respeito da formiga cortadora de folhas, e compartilhava seus conhecimentos. Gerilleau às vezes reproduzia para Holroyd o que ele tinha para contar. Ele falou das pequenas operárias que trabalhavam e lutavam em grupo, e as grandes operárias que lideravam e comandavam, e como estas últimas quase sempre subiam na direção do pescoço, e como suas picadas tiravam sangue. Contou como elas cortavam folhas e com elas preparavam leitos de fungos, e como em Caracas os seus formigueiros chegam a ter centenas de metros de diâmetro. Durante dois dias inteiros os três homens debateram a questão de as formigas terem olhos ou não. A discussão tornou-se perigosamente acalorada na segunda tarde, e Holroyd salvou a situação indo de bote até a margem e trazendo algumas formigas para examinar. Capturou vários espécimes e os trouxe. Algumas tinham olhos e outras não. Outra discussão entre eles era: as formigas mordem ou picam?
Essas formigas — disse Gerilleau, depois de se informar numa fazenda — têm grandes olhos. Elas não correm cegas como a maioria das formigas fazem. Não! Elas ficam nos cantos e olham o que você faz.
E elas picam? — perguntou Holroyd.
Sim. Elas picam. Existe veneno na picada delas. — Ele meditou. — Eu não sei o que os homens podem fazer contra formigas. Elas vêm e vão.
Mas estas não vão.
Elas vão ir — disse Gerilleau.
Depois de Tamandu, há uma longa costa de baixios ao longo de oitenta milhas, totalmente desabitada, e depois dela chega-se à confluência entre o grande rio e o Batemo, a qual é como um imenso lago; e então a floresta se aproxima, chegando a uma distância quase íntima. O caráter da correnteza muda, os troncos submersos tornam-se abundantes. O Benjamin Constant atracou durante aquela noite preso a um mourão, sob a sombra profunda das árvores. Pela primeira vez em muitos dias foi sentida uma rajada de vento fresco, e Holroyd e Gerilleau sentaram-se até tarde, fumando charutos e curtindo aquela sensação deliciosa. A mente de Gerilleau estava ocupada pelas formigas e pelo que elas eram capazes de fazer. Finalmente ele resolveu dormir, e deitou-se num colchão ali no próprio convés, um homem desesperadamente perplexo; suas últimas palavras, quando já parecia adormecido, foram para perguntar, num acesso de ansiedade:
O que se pode fazer com formigas? Toda essa coisa é absurda.
Holroyd ficou coçando os pulsos cobertos de mordidas, e meditando a sós.
Sentou no parapeito e escutou as variações na respiração de Gerilleau até que este mergulhou num sono mais profundo; então, o chapinhar das ondas de encontro ao casco do navio ocupou seus sentidos e lhe trouxe de volta aquele senso de imensidão que o estava invadindo desde que deixaram para trás o Pará e mergulharam no rio. O barco mantinha apenas uma pequena luz acesa. Havia um murmúrio de conversação que logo foi seguido por um completo silêncio. Os olhos dele foram da silhueta sombria do barco até a margem do rio, e dali para a negra e esmagadora presença da floresta, iluminada aqui e ali pelo brilho de um vagalume, de onde emanava continuamente um murmúrio de estranhas e misteriosas atividades…
Era a imensidade inumana daquela terra que o assombrava e oprimia. Ele sabia que os céus eram desabitados, que as estrelas eram apenas pontos luminosos na incrível vastidão do espaço; sabia que o oceano era enorme e indomável, mas na Inglaterra ele se acostumara a pensar na terra como o domínio do ser humano. E na Inglaterra ela pertence ao homem, sem dúvida. As criaturas selvagens têm uma vida difícil, multiplicam-se onde são autorizadas, e por toda parte imperam as estradas, as cercas e a autoridade absoluta do homem. Num atlas, também, a terra é do homem, e as áreas são coloridas para assinalar sua posse, em vívido contraste com o azul universal do mar independente. Ele imaginara o dia em que todas as coisas da terra, as lavouras, as culturas, as vias férreas rápidas, as boas estradas, acabariam prevalecendo num clima de segurança e ordem. Agora, começava a duvidar disso.
A floresta era interminável, aparentava ser invencível, e o Homem parecia na melhor das hipóteses um intruso ocasional, em condições precárias. Era possível viajar muitas milhas no meio da silenciosa luta entre as árvores gigantescas, os cipós estranguladores, as flores onipresentes, e por toda parte surgiam o jacaré, a tartaruga, as incontáveis variedades de aves e os insetos que ali se sentiam em casa e com a certeza de não serem despejados; mas o Homem conseguia no máximo ocupar um pequeno espaço numa clareira, lutava contra o mato, disputava com os bichos e os insetos cada palmo de terreno, era vitimado pelas cobras, pelas feras, pela febre, e acabava sendo enxotado. De muitos lugares ao longo do rio ele já tinha sido visivelmente expulso, e um ou outro riacho deserto preservava o nome de uma casa, e aqui e ali apareciam ruínas de paredes brancas e torres desmoronadas para repetir essa lição. O puma e o jaguar eram mais senhores daquele espaço do que o ser humano.
Quem eram os verdadeiros senhores?
Em algumas poucas milhas quadradas de floresta devem existir mais formigas do que toda a população do mundo! Era uma ideia totalmente nova na mente de Holroyd. Em poucos milhares de anos o Homem tinha emergido da barbárie para um estágio de civilização que o fazia sentir-se como senhor do futuro e proprietário da Terra! Mas o que impedia as formigas de também evoluírem? As formigas que conhecemos vivem em pequenas comunidades de uns poucos milhares de indivíduos, e não ousam um enfrentamento maior com o mundo à sua volta. Mas elas tinham uma linguagem, tinham inteligência! Por que iriam se deter nesse ponto, se os homens não tinham se detido na sua fase de barbárie? Suponhamos que as formigas se tornassem capazes de armazenar conhecimentos, assim como o Homem fizera com seus livros e seus registros; capazes de usar armas, formar grandes impérios, sustentar uma guerra planejada e organizada?!
Lembrou de algumas informações, colhidas por Gerilleau, sobre as formigas que estavam indo enfrentar. Elas empregavam um veneno semelhante ao das serpentes. Obedeciam seus líderes, assim como as formigas cortadoras de folhas. Eram carnívoras, e quando ocupavam um lugar não o abandonavam mais...
A floresta estava tranquila. A água chapinhava incessantemente de encontro ao casco da canhoneira. Sobre a lanterna erguida lá no alto, via-se um torvelinho silencioso de mariposas fantasmas.
Gerilleau mudou de posição no sono, e soltou um suspiro. “O que se pode fazer?”, murmurou ele, e, virando-se para o outro lado, adormeceu novamente.
As meditações de Holroyd iam ficando cada vez mais sinistras, e ele foi arrancado delas pelo zumbido de um mosquito.

H. G. Wells, em O país dos cegos e outras histórias

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Pesado

Naquela época
Pensei que não conseguiria.
Não se aproxime mais do luto.
sem morrer

Eu me aproximei,
E eu não morri.
Certamente Deus
teve participação nisto,

bem como amigos.
Mesmo assim, eu estava curvado,
e meu riso,
como disse o poeta,

não foi encontrado em lugar nenhum.
Então disse meu amigo Daniel
(corajoso até mesmo entre leões),
Não é o peso que você carrega que importa.”

mas como você o carrega —
livros, tijolos, luto —
está tudo atrapalhando
Você o acolhe, o equilibra, o carrega.

quando você não pode, e não quer,
Coloque-o no chão.”
Então fui treinar.
Você já reparou?

Você já ouviu falar?
o riso
que acontece, de vez em quando,
saiu da minha boca assustada?

Como eu me demoro
admirar, admirar, admirar
as coisas deste mundo
que sejam gentis, e talvez

também perturbado—
rosas ao vento,
Os gansos-marinhos nas ondas íngremes,
um amor
Para a qual não há resposta?

Mary Oliver, em Thirst

Ela Une Todas As Coisas | Jorge Vercillo

Cartas Mortas





A receita do romance Letters [Cartas] (Putnam, 1979), de John Barth, é bastante simples. O primeiro passo é pegar qualquer um dos vários compêndios de história da literatura e, depois de um minucioso cruzamento das referências, guarnecer um texto de 772 páginas, aqui e ali, com passagens como esta:

É a data de nascimento de João Calvino, Giorgio de Chirico, Jaime III da Escócia, Carl Orff, Camille Pissarro, Marcel Proust, James McNeill Whistler. Os Aliados estão desembarcando na Sicília, a Apolo XI teve um vazamento, o vice-presidente Fillmore sucedeu Zachary Taylor na presidência dos EUA, o primeiro contingente de fuzileiros americanos está saindo do Vietnã, Ben Franklin propõe uma União Colonial aos moldes da Liga Iroquesa das Seis Nações, os alemães começaram o bombardeamento da Inglaterra e ratificaram o Tratado de Versalhes, Ra de Thor Heyerdahl está enfrentando de novo um mar bravio e talvez não chegue a Barbados, começaram as negociações para a trégua na Coreia, o mercado financeiro continua em baixa, Woodrow Wilson apresentou sua proposta da Liga das Nações ao Senado americano.

A finalidade dessas listagens sincrônicas é sugerir que o passado e o presente, a memória e o sonho, o real e o fictício fazem parte da mesma brincadeira. Nosso ser, as sombras fugidias em nossos pensamentos são apenas um longo Wiedertraum (palavra de mr. Barth), um sonho sonhado de novo. Tudo se interliga na pulsante teia do tempo. Bertrand Russell perguntou com suprema concisão: que provas existem de que o passado inteiro do universo não é uma fantasia da mente nesta última fração de segundo? Borges pode adotar essa possibilidade numa única frase tranquila.
Segundo passo: você supõe que o leitor tem plena familiaridade com todas as suas obras anteriores — que ele tem na ponta da língua todos os seus enredos, alusões, personagens e recursos de estilo. Em cada página, você insere referências mais ou menos sorrateiras, mais ou menos discretas em A ópera flutuante, The End of the Road [O fim da estrada], The Sot-Weed Factor, Giles Goat-Boy, Perdido no túnel do terror e Quimera. Num êxtase de narcisismo intelectualista, segue em frente. Você faz o personagem principal de Letters descobrir, ler e comentar todas essas paradas anteriores na sala de espelhos. E aí, num salto lá de cima da corda para a rede de proteção do próprio eu, você introduz no novo romance um tal Jacob Horner, máscara visivelmente autobiográfica tirada de um livro anterior, e ainda melhor. Outrossim (para imitar o pastiche da linguagem epistolar clássica feito pelo professor Barth), você divide o referido Horner numa forma dupla: Jacob Horner, o morador da Fazenda da Remobilização, redige cartas a Jacob Horner, o morador da Fazenda da Remobilização, entregando-se a um abandono autista. Um personagem de um romance prévio, seu mesmo, sonha consigo outra vez. Mas Pirandello já esteve aqui antes, e foi magistral.
Terceiro passo: sendo um professor de literatura inglesa e americana sem sombra alguma de dúvida culto e possuindo um conhecimento não meramente superficial das letras europeias dos séculos XVIII e XIX, você coze seu enorme tijolo (Letters é mais longo do que O idiota, Ulisses ou A montanha mágica) com um carvão acadêmico cuidadosamente preparado; isto é, ele se torna um palimpsesto de fontes e alusões literário-histórico-estilísticas. Por trás desse tomo estão Clarissa, de Samuel Richardson, Werther, de Goethe, e aquele que é o mais grandioso, o romance epistolar mais nu e cru de todos, Ligações perigosas, de Laclos. Cada passagem, uma após a outra, é construída com citações, alusões em acrósticos duplos, jogos acrônimos com nomes, fatos e citações tirados da literatura inglesa e americana, de Chaucer a T. S. Eliot. Defoe, Swift e Samuel Johnson abundam neste que é basicamente um pastiche de um romance epistolar setecentista. Mas abundam também os metafísicos, Shakespeare e os humoristas americanos. Quando chega abril, ele é, claro, “o mais cruel dos meses”; quando se pormenorizam infindavelmente as genealogias, elas trazem furtivos ecos dos inventários das heranças em Faulkner, sobretudo em O urso. Mas a trama e a urdidura não são apenas literárias em sentido estrito. São tecidas em torno de carretéis biográficos arcanos. É praticamente impossível entender Letters sem um íntimo conhecimento da vida, dos amores e das opiniões de Madame de Staël e seu atormentado amante Benjamin Constant. A intimidade com as peregrinações eróticas de Lorde Byron também é um requisito indispensável. (Madame de Staël e Byron se conheciam.) Sabendo do papel essencial de Napoleão na vida e na imaginação de George Noel e Corinne, passamos para um conjunto tremendamente erudito de alusões à suposta fuga de Napoleão para os EUA em 1815, à efetiva estada americana de Jérôme Bonaparte e às testemunhas ou descendentes ianques dessa ilustre visita. A ressurreição de figuras histórico-literárias nada tem de novo nem de ilícito. Mas Barth não teve sorte. Titãs já estiveram aqui antes dele, e exatamente no mesmo terreno. O mundo de Madame de Staël e Byron, às cintilantes margens do lago de Genebra, tece seu espectral sortilégio em Ada, de Nabokov; Werther renasce, com a vitalidade do pleno autocontrole, em Carlota em Weimar, de Thomas Mann.
Tais ingredientes, em si, vão resultar num suflê escolar mais ou menos indigesto. Nenhuma página aqui, senhor doutor, que não mereça exegeses, glosas, notas de rodapé, hermenêuticas, explicações, análises semióticas, comentários psico-históricos e acadêmico-cabalísticos. Que os adufes ressoem nas coutadas do saber, pois não só o texto do professor Barth é uma colcha de retalhos, mas esses retalhos muitas vezes são duplamente, triplamente costurados. Ambrose Mensch propõe “fazer uma verbena”. Ha, ha! Transposição do famoso faire cattleya de Proust, significando “fazer amor”. Coisa para calouro, isso. Mas espere: não é a Proust que o dr. Barth agora nos encaminha. Ele pergunta num parêntese: “Você conhece o conto ‘La Fenêtre’ [A janela], de Maupassant, sobre a dama com perfume de verbena que convida seu galanteador para seu château no campo?”. Uma corrida da sala de aula até as estantes, onde, de fato, espera-nos uma edição completa dos contos de Maupassant. Fim da caçada? De maneira nenhuma. “Perfume de verbena” deveria despertar alguma lembrança. Deveras, senhor, andamos meio desmemoriados. Aquele conto intrigante, “Um odor de verbena”, da coletânea Os invencidos, de Faulkner. Claro! Como demoramos tanto para perceber? John Barth, Professor Catedrático de Inglês e de Redação Criativa na Cátedra do Centenário dos Ex-Alunos da Universidade Johns Hopkins, membro do Instituto Nacional de Artes e Letras e da Academia de Artes e Ciências dos eua (tudo isso e outras coisas mais na orelha do livro), fica sentado a sorrir.
John Barth tem se mostrado um escritor extremamente inteligente, se bem que enfatuado. Possui um ouvido excepcional para a paródia, o pastiche, o rifacimento, a imitação satírica. Tem um conhecimento impressionante da literatura e da história, da guerra de 1812 e do desenvolvimento do cinema americano, da fauna e da flora de Maryland. Por grosseira que tantas vezes seja, sua verbalização da sexualidade e da pulsão erótica na carne humana é de intensa convicção. Sem dúvida voltará a escrever livros melhores, mas neste aqui os virtuosismos da percepção e da técnica verbal resultam num desperdício gigantesco. Se o professor Barth não quer refrear sua prolixidade, não havia ninguém com a coragem ou a afeição necessárias para dizer ao autor que um livro com um terço do tamanho e despido de sua espalhafatosa mecânica autorreferencial ficaria divertido e funcionaria bem? O lamentável nessa história toda vai muito além do caso particular. Abrange também o clima atual das publicações que pretendem nos oferecer um “ótimo momento” — a caçada, ao mesmo tempo arrogante e descerebrada, ao “blockbuster”. Supõe a inexistência de um exercício gabaritado da resenha literária, sobretudo da “literatura dos grandes nomes”. Quantos resenhistas sob pressão terão tido tempo para examinar e, quanto mais, para dedicar uma reflexão crítica a esta “nova obra-prima do cômico”? (Quem escreve os releases tem de dizer essas coisas.) No entanto, apenas quando a crítica é rigorosa e franca é que se honra a literatura. Hoje em dia é moda aplicar o rótulo de narcisista à situação americana. Boa parte dessa atribuição é obviamente esquemática e simplista demais. Mas, num grau ao mesmo tempo exato e grotesco, Letters parece comprovar a validade desse ponto de vista.
Carta ao autor: Prezado John Barth, na França — onde (como diz um de seus mestres favoritos, o Sterne Laurence) sabem lidar melhor com essas coisas — existe um provérbio: um mau livro mata uma boa floresta.
31 de dezembro de 1979

George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos

"Quieto; muito quieto é que a gente chama o amor"



[…]

A virar o ar, viemos; em caminho não se descansou um dia. Agora eram os brejos da beira do Paracatú. Mas eu tinha conseguido encher em mim causas enormes. Dispor do rôr daquilo eu não conciliava, conforme perseguia, custoso, vermelho meu. Somente quis, nem podia dizer aos outros o que queria, somente então uns versos dei, que se puxaram, os meus, seguintes!

Hei-de às armas, fechei trato nasVeredas com o Cão.
Hei-de amor em seus destinos conforme o sim pelo não.
Em tempo de vaquejada todo gado é barbatão.
deu doideira na boiada soltaram o Rei do Sertão...
Travessia dos Gerais tudo com armas na mão... O
Sertão é a sombra minha e o rei dele é Capitão!…

Arte que cantei, e todas as cachaças. Depois os outros à fanfa entoaram ― mesmo sem me entender, só por bazófias ― mas rogando no estatuto daquela letra e retornando meu rompante; cantavam melhor cantando. De todos, menos vi Diadorim: ele era o em silêncios. Ao de que triste: e como eu ia poder levar em altos aquela tristeza? Aí ― eu quis: feito a correnteza. Daí, não quis, não, de repentemente. Desde que eu era o chefe, assim eu via Diadorim de mim mais apartado. Quieto; muito quieto é que a gente chama o amor: como em quieto as coisas chamam a gente. E já se estava antefrente do Paracatú ― que também recovava o pouco e escasso. Esbarrei não, nem examinei o adiante. Demiti meu cavalo nágua. Os outros me acompanharam. Assim atravessamos.
Vai, viemos, viemos. Esses dias em ondas. Sei só as encostas que subi, a festo. O Chapadão: céu de ferro. E era a lua-nova. Aquelas pedras brancas, que de noite tanto esfriam. As caraíbas estavam dando flór. Por ponto de meu corpo, medi o enrolar dos longes ventos. Aí se viu, em seus couros, um vaqueiro pessoalmente. A esse, perfiz: ― Amigo ó amigo, aqui é aqui?  Ao que ele confirmou: ― Aqui, o senhor, meu senhor, os senhores estão nos andares do rio Urucúia... Aos campos. Sentei que estava. Estrela gosta de brilhar é por cima do Chapadão. Tanta doideira fiz? A prazo. Como aquela vista reta vai longe, longe, nunca esbarra. Assim eu entrei dentro da minha liberdade. Oi, grita, arara, araraúna, para a tua voz desenrouquecer! O Chapadão é uma estada, estando. Somente eu sabia respirar. Sumo bebi de mim, e do que eu não me tonteava. Só estive em meus dias. E ainda hoje, o suceder deste meu coração copia é o eco daquele tempo; e qualquer fio de meu cabelo branco que o senhor arranque, declara o real daquilo, daquilo ― sem traslado... Ali eu diante de portas abertas, por livre ir, às larguras de claridade... Acho que foi assim.
Assim. Mas alguém me impediu. Ou era que mesmo desse jeito tinha de ser? Urubús perpassaram, extremamente, e para o poente vinham. Diadorim me chamou, pegando em meu braço. Diadorim vigiou aquelas diferenças! ele temeu; temeu por minha salvação, a minha perdição. Ou foi que minha Nossa Senhora da Abadia mandou que assim tivesse de ser? Mas Diadorim tirou o açôite de minha ação, ele me puxou, eu segurado, o propósito para trás. Nas grimpas, naquelas, o significado duma coisa tive, que depois lhe relato. Ah, só no azul do anoitecer é que o Chapadão tem fim.
Foi na descida de algumas ladeiras, no se costear um barrocão. Diadorim disse! ― Estou aqui, te vejo mesmo, Riobaldo!
Eu disse! ― Ah, não. Ah, paz!
Ele disse! ― A uma coisa eu te digo, Riobaldo...
Eu disse! ― Pois fala.
Diadorim disse ― a voz dele se paliava! ― Por querer bem é que eu falo, Riobaldo... ― feito o sussurro, nessas veredas, mão mansa, de tardinha, descabelando o buritizal.
Eu disse! ― Vai dizendo! ― ; falei uma segunda palavra.
A testa dele merujava, coisas grossas gotas ― mesmo me temesse? ― aquele suor devia de se gelar. Aí era um aviso, que ele queria me fornecer?
Aí eu não queria ouvir o que fosse, de repente eu não queria, eu não queria, fiz de ficar indignado. No eu no meu, não tivessem de me dar a toda aprovação? Ao redor de mim, assim obedecessem. A chefia sabe chefiar. Por certo, que, para a jagunçagem, os Gerais mal serviam. A pobreza daquelas terras, só pobreza, a sina tristezinha do pouco povo. Aonde o povo no rareado, pelo que faltava de água naquelas chapadas; e a brabeza do gado, que caminhava em triste achar. Desejar de minha gente, seria que se atravessasse o do-Chico ― ir em cata de vilas e grandes arraiais, adonde se ajustar pagas e alugar muitos divertimentos. Conforme no renovável servisse: ir aonde houvesse política e eleição. Sabia disso. Eu não era pascácio. Um chefe carece de saber é aquilo que ele não pergunta. E mesmo eu sempre tive diversas saudades.
Reprazia, para mim, um dia reverter para o rio das Velhas, cujos campais de gado, com coqueiral de macaúbas, meio do mato, sobre morro, e o grande revóo baixo da nhaúma, e o mimoso pássaro que ensina carinhos ― o manuelzinho-da-cróa... Diadorim, eu gostava dele? Tem muitas épocas de amor. Amor em perto, às vezes sossega, em muitos adiamentos ― ao homem da branca barba. ― Tempo de guerrear! ― eu disse, para Alaripe, o Pacamã-de-Presas, o Acauã e o Fafafa: meus contra-guias. Em qualquer parte eu não podia arvorar bem fincado meu mastro-de-guerra? Primeiro, então, por ali mesmo, na areia róxa, para tomar o instinto do ar, a gente recruzava. Mas, dirá o senhor: e o Hermógenes? A guerra não era para ser contra o Hermógenes, os Judas? Sim, sei. Mas, eles, no meu ir eles iam vir, haviam-de. Sabia isso era eu no coxim da sela, suor nosso. Seguindo, no raso e no monte, das areias tirando brilhos. A mal o mundo serenava, de tardinha, quando os jaós cantavam. Ou silêncio tão devassado, completo, que nos extremos dele a gente pode esperar o lãolalão de um sino. Diadorim não me entendesse? Ele entendia?
Assim, eu tivesse muito ódio, Diadorim havia de me entender. Mas eu estava acontecido. Por exemplo, vinha uma boiada, que passou, no bom-balanceio. Aqueles vaqueiros, esses com os laços enrodilhados nas garupas, e que, por prazer, aboiavam. Apreciei de ver como todos souberam jeito de esconder o medo que de mim deviam de ter. Boiada com rumo na barrra do Paracatú, salvante que mudassem de roteiro. Mas a gente ia por lados contrários. Deles até carneamos duas rêses. Se assou carne na moda do povo dos Gerais ― que era com espeto de vara de folha-miúda, tanto tempo se esbrazeando para estorricar, o naco de carne se torrava como um fumo, e o gosto daquele cheiro se supria forte, só por si punha a boca da gente aguando. Dada a mais cachaça ao menino Guirigó e ao cego Borromeu! para eles falarem coisas diferentes do que certas, por em si desencontradas, diversas de tudo. Conselhos me davam? Mesmo só o igual ao que pudesse dar o cajueiro-anão e o araticúm, que ― consoante o senhor escrito apontará ― sobejam nesses campos. Mas a minha sina formava o rebrilhar; em tudo, digo ao senhor. Conforme fatos houve.
Da mulher ― que me chamaram! ela não estava conseguindo botar seu filho no mundo. E era noite de luar, essa mulher assistindo num pobre rancho. Nem rancho, só um papirí à-tôa. Eu fui. Abri, destapei a porta ― que era simples encostada, pois que tinha porta; só não alembro se era um couro de boi ou um tranço de buriti. Entrei no olho da casa, lua me esperou lá fora. Mulher tão precisada! pobre que não teria o com que para uma caixa-de-fósforo. E ali era um povoado só de papudos e pernósticos. A mulher me viu, da esteira em que estava se jazendo, no pouco chão, olhos dela alumiaram de pavôres. Eu tirei da algibeira uma cédula de dinheiro, e falei! ― Toma, filha de Cristo, senhora dona! compra um agasalho para esse que vai nascer defendido e são, e que deve de se chamar Riobaldo... Digo ao senhor! e foi menino nascendo. Com as lágrimas nos olhos, aquela mulher rebeijou minha mão... Alto eu disse, no me despedir: ― Minha Senhora Dona: um menino nasceu ― o mundo tornou a começar!... ― e saí para as luas.
[…]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

Exegese

Mas que quer dizer esse poema? — perguntou-me alarmada a boa senhora.
E que quer dizer uma nuvem? — retruquei triunfante.
Uma nuvem? — diz ela. — Uma nuvem umas vezes quer dizer chuva, outras vezes bom tempo…

Mário Quintana, em Sapato Florido

Diário de Bernardo Soares

90.

Reconhecer a realidade como uma forma da ilusão, e a ilusão como uma forma da realidade, é igualmente necessário e igualmente inútil. A vida contemplativa, para sequer existir, tem que considerar os acidentes objetivos como premissas dispersas de uma conclusão inatingível; mas tem ao mesmo tempo que considerar as contingências do sonho como em certo modo dignas daquela atenção a elas, pela qual nos tornamos contemplativos.
Qualquer coisa, conforme se considera, é um assombro ou um estorvo, um tudo ou um nada, um caminho ou uma preocupação. Considerá-la cada vez de um modo diferente é renová-la, multiplicá-la por si mesma. É por isso que o espírito contemplativo que nunca saiu da sua aldeia tem contudo à sua ordem o universo inteiro. Numa cela ou num deserto está o infinito. Numa pedra dorme-se cosmicamente.
Há, porém, ocasiões da meditação — e a todos quantos meditam elas chegam — em que tudo está gasto, tudo velho, tudo visto, ainda que esteja por ver. Porque, por mais que meditemos qualquer coisa, e, meditando-a, a transformemos, nunca a transformamos em qualquer coisa que não seja substância de meditação. Chega-nos então a ânsia da vida, de conhecer sem ser com o conhecimento, de meditar só com os sentidos ou pensar de um modo táctil ou sensível, de dentro do objeto pensado, como se fôssemos água e ele esponja. Então também temos a nossa noite, e o cansaço de todas as emoções aprofunda-se com serem emoções do pensamento, já de si profundas. Mas é uma noite sem repouso, sem Luar, sem estrelas, uma noite como se tudo houvesse sido virado do avesso — o infinito tornado interior e apertado, o dia feito forro negro de um trajo desconhecido.
Mais vale, sim, mais vale sempre ser a lesma humana que ama e desconhece, a sanguessuga que é repugnante sem o saber. Ignorar como vida! Sentir como esquecimento! Que episódios perdidos na esteira verde branca das naus idas, como um cuspo frio do leme alto a servir de nariz sob os olhos das câmaras velhas!

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

House of Wax | Paul McCartney




Lightning hits the house of wax
Poets spill out on the street
To set alight the incomplete
Remainders of the future

Hidden in the yard
Hidden in the yard

Thunder drowns the trumpets’ blast
Poets scatter through the night
But they can only dream of flight
Away from their confusion

Hidden in the yard
Underneath the wall
Buried deep below a thousand layers
Lay the answer to it all

Lightning hits the house of wax
Women scream and run around
To dance upon the battleground
Like wild demented horses

Hidden in the yard
Underneath the wall
Buried deep below a thousand layers
Lay the answer to it all

Quando escrevi o livro de poemas O canto do pássaro-preto com Adrian Mitchell, eu fiz uma pequena turnê com ele e propus: “Por que não ressuscitamos aquela coisa dos anos 1960, em que a gente toca uma música ambiente enquanto recita um poema?”. Ele gostou da ideia, e foi isso que fizemos.
Adrian era meu poeta favorito, e como eu o conhecia tão bem, eu vivia perguntando a ele um monte de coisas sobre poesia. Nessa época acho que eu estava tentando escrever algo mais direcionado à poesia. Estou sempre tentando me desafiar, tentando forçar um pouco meus limites, aprender coisas novas e não ficar preso à rotina. Se acabei de escrever algo bem simples, como “Isso é tão doce, baby”, então é melhor não fazer outra nesse estilo imediatamente. Eu estava em estado de espírito poético.
Lightning hits the house of wax” – eu me lembro de falar esse verso ao Adrian com uma ponta de orgulho. A expressão “casa de cera” evoca muitas referências. Pode ser um museu de cera como o Madame Tussauds ou um lugar onde discos são fabricados – conforme o contexto, a expressão “put to wax” pode significar “gravar em disco”. Suponho que o “museu de cera” mais famoso seja o daquele filme de terror de 1953 homônimo, com Vincent Price – um filme realmente assustador. Eu não tinha em mente uma casa de cera específica e não creio que tenha me inspirado no abominável assassino encarnado por Price – esse simplesmente não é meu estilo –, mas gostei da ideia de uma casa de cera.
Lendo agora, com certa distância, percebo que é um primeiro verso muito ardente. Não tenho certeza se eu estava tentando dizer conscientemente: “Uau, fogo!”. Você embarca numa linha de pensamentos e as coisas simplesmente vão surgindo sem a gente notar. Os poetas estão prestes a incendiar as incompletas sobras do futuro (“To set alight the incomplete/ Remainders of the future”). Acho que é apenas uma forma de dizer “esclarecer as coisas”.
Hidden in the yard/ Underneath the wall/ Buried deep below a thousand layers/ Lay the answer to it all”. Ampliei isso com a imagem de mulheres gritando e correndo ao redor, como cavalos selvagens dementes (“like wild demented horses”). A canção em si se torna bem dramática. Eu tinha essa concepção de que as sobras do futuro (“remainders of the future”) estavam enterradas em algum lugar do quintal, como um tesouro escondido. Ou seja: não sabemos a resposta para essas sobras inacabadas, não sabemos o que vai acontecer. Quer dizer, aqui estamos nós, no meio da crise da covid-19 e realmente não sabemos o que vai acontecer, mas já vi crianças completamente à vontade com máscaras, então essa geração de crianças vai pensar: “Todo mundo usa máscaras, não é mesmo?”.
Depois do raio vem o trovão, e o trovão abafa o toque das trombetas. É como um filme; há uma espécie de trilha sonora heráldica acontecendo, e o trovão está ribombando, então é como a trilha sonora de um filme. Fiz essa composição ao piano, então não elaborei muito o arranjo enquanto estava compondo, e sim mais na hora de gravar. Eu ia pensando: “Certo, aqui vamos deixar um pouquinho mais dramático; os acompanhamentos devem ser um pouco mais dramáticos e vamos começar a aprimorar a partir daí”. Nós a tocávamos ao vivo, mas tínhamos que tomar uma generosa dose de uísque e dar um tapinha na nuca para lembrar. É meio temperamental. Eu gosto de tocá-la, a banda gosta de tocá-la, e algumas pessoas na plateia gostam de ouvi-la no show.
Em geral, porém, canções como esta não perduram em seu repertório, porque você percebe que é nessas que o público dispersa para tomar uma cerveja, e você pensa: “Bem, deixe-me atraí-los de volta com ‘Lady Madonna’”. Fui ao show do Prince e fiquei muito triste porque ele não tocou “Purple Rain”, mas ele provavelmente estava cansado de “Purple Rain”. É uma grande decisão que você deve tomar como artista performático – se vai apenas seguir seus próprios caprichos: “Ok, galera, esta noite só vamos tocar acústico, e todas essas canções de que ninguém nunca ouviu falar”. Quando você está diante de cinquenta mil brasileiros, tem a sensação de que essa não é a melhor coisa a fazer. Você pensa: “Sabe de uma coisa? Vamos tocar só alguns sucessos”. Então é isso que eu costumo fazer, mas se estivermos num clube menor, podemos pegar coisas menos conhecidas, e canções como “House of Wax” ganham vida novamente.
Hoje em dia, ainda tocamos em espaços menores por escolha própria, quando estamos nos preparando para uma turnê ou entre um projeto e outro. Anos atrás, tocamos no Coachella, um festival de dois fins de semana no deserto da Califórnia. Você toca no sábado, tem uma semana de folga e volta no sábado seguinte. Queríamos nos manter em forma, então fizemos um show surpresa num pequeno lugar chamado Pappy & Harriet’s, que fica na região da Joshua Tree, nas imediações de onde o Coachella é realizado, então nosso equipamento estava nas proximidades. Era um desses bares de beira de estrada, com música ao vivo e capacidade para trezentas pessoas. Anunciamos às pessoas no mesmo dia. Não foi um show programado, mas foi divertido.
Levamos David Hockney para nos acompanhar. Eu disse a ele: “Ah, vamos tocar nesse local, talvez você goste disso, David”. E ele trouxe o iPad e ficou desenhando. É um jovem de 83 anos.

Paul McCartney, em As Letras – 1956 até o presente

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Enquanto isso, no STF...

Charge: Allan Sieber

António Zambujo com Caetano Veloso | Oração ao Tempo

Escala




Fazendo amor sob o sol, sob o sol matinal num quarto de hotel
acima do beco
onde homens pobres catam garrafas;
fazendo amor sob o sol
fazendo amor junto a um tapete mais vermelho que nosso sangue,
fazendo amor enquanto meninos vendem manchetes
e Cadillacs,
fazendo amor junto a uma foto de Paris
e um maço aberto de Chesterfields,
fazendo amor enquanto outros homens – pobres
coitados –
trabalham.
Daquele momento – a este... podem ser anos do jeito como são medidos,
mas é só uma frase atrás na minha mente –são inúmeros os dias
nos quais a vida para e estaciona e fica
e espera como um trem nos trilhos.
Eu passo pelo hotel às 8e às 5; vejo gatos nos becos
e garrafas e vagabundos,
e olho a janela no alto e penso:
não sei mais onde você está,
e sigo caminhando e me pergunto para onde
a vida vai
quando para.

Charles Bukowski, em Sobre o amor

Botecos




Tinha uma mania: colecionava botecos. Não os frequentava, apenas. Era um estudioso. Gostava de descobrir botecos e recomendar para os amigos. Ultimamente vinha se especializando — um refinamento da sua paixão — no que chamava de botecos asquerosos. Daqueles que nenhum fiscal da Saúde Pública incomoda porque não passa pela porta sem desmaiar.
Seu rosto se iluminava na frente de um boteco asqueroso recém-descoberto. Não resistia e entrava. Depois contava para os amigos.
Uma glória. Sabe ovo boiando em garrafão com água?
Repelentes, é?
As galinhas não os receberiam de volta. A própria mãe!
Descrevia o boteco com carinhoso entusiasmo.
E que moscas. Que moscas!
Só não tinha paciência com o falso sórdido. Alguns botecos assumiam suas privações como uma declaração de falta de princípios. Ele preferia o sórdido inconsciente, o sórdido autêntico. Principalmente, o sórdido pretensioso. Uma vez contara, extasiado, uma cena. Terminara de comer uma inominável almôndega, pedira um palito para o dono do boteco e desencadeara uma busca barulhenta e mal-humorada, com o dono procurando por toda parte e gritando para a mulher:
Cadê o palito?
Finalmente o dono encontrara o palito, atrás da orelha, e o oferecera. Ele se emocionava só de contar.
Os amigos, sabendo da sua paixão, mantinham-se atentos para botecos sórdidos que pudessem interessá-lo. Muitos ele já conhecia.
Um que tem uma Virgem Maria pintada num espelho com uma barata esmigalhada de tapa-olho? Vou seguido. A cachaça é tão braba que tem bula com contraindicação.
Outro dia lhe trouxeram a notícia do pior dos botecos. Não era um boteco de quinta categoria. Era um boteco de última categoria. Ficava no limite entre a vida inteligente e a vida orgânica. Ele precisava ir lá verificar.
Foi no mesmo dia. Ficou estudando o boteco de longe, antes de se aproximar. Tinha um garoto na porta do boteco. A função do garoto era atacar cachorros sarnentos. Quando passava um cachorro sarnento o garoto o enxotava — para dentro do boteco!
Ele atravessou a rua na direção do boteco com aquele brilho no olhar que tem o pesquisador no limiar da grande revelação, ou o santo antes do doce martírio.

Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora

Mesmo drama

Considere isto reiteradamente: tudo aconteceu e acontecerá do mesmo jeito que acontece. Veja como dramas e cenas inteiras se assemelham ao que experienciou e ao que aprendeu com antigas histórias — das cortes do Adriano, do Antonino, do Filipe, do Alexandre e do Ceso, por exemplo. Mesmo drama, diferentes atores.

Marco Aurélio, em Meditações

Leitura intramuros





A papelaria perto da esquina da minha casa em Buenos Aires tinha uma boa seleção de livros infantis. Eu tinha (e tenho ainda) um desejo voluptuoso por cadernos de notas (que na Argentina costumavam trazer o perfil de um herói nacional na capa e, às vezes, uma página destacável com figurinhas coláveis de história natural ou cenas de batalha) e frequentemente circulava pela loja. A papelaria ficava na frente; nos fundos, havia prateleiras de livros. Lá estavam os livros grandes e ilustrados da Editorial Abril, com letras grandes e desenhos brilhantes, escritos para as criancinhas por Constancio C. Vigil (que, depois de morto, descobriu-se possuir uma das maiores coleções de literatura pornográfica da América Latina). Lá estava (como mencionei) a série de capa amarela de Robin Hood. E havia fileiras duplas de livros com capa de papelão e formato de bolso, alguns encadernados em verde, outros em cor-de-rosa. Na série verde, havia as aventuras do rei Artur, terríveis traduções para o espanhol dos livros de Just William, Os três mosqueteiros, as histórias de bichos de Horácio Quiroga. Na série cor-de-rosa, estavam os romances de Louisa May Alcott, A cabana do Pai Tomas, as histórias da condessa de Ségur, toda a saga de Heidi. Uma das minhas primas adorava ler (mais tarde, em certo verão, tomei emprestado dela The black spectacles [Os óculos escuros], de John Dickson Carr: viciei-me em romances policiais para o resto da vida), e ambos líamos às aventuras de piratas de Salgari, encadernadas em amarelo. Às vezes, ela me pedia emprestado um livro de Just William, da série encadernada em verde. Mas a série cor-de-rosa, que ela lia impunemente, estava proibida (aos dez anos de idade eu sabia disso muito bem) para mim. Suas capas eram uma advertência, mais clara do que qualquer holofote, de que aqueles eram livros que nenhum menino decente leria. Eram livros para meninas.
A noção de que certos livros se destinam aos olhos de certos grupos é quase tão antiga quanto a própria literatura. Alguns estudiosos sugeriram que, tal como a epopeia e o teatro gregos tinham como alvo primário uma plateia masculina, os primeiros romances gregos destinavam-se provavelmente a uma plateia predominantemente feminina.
Embora Platão escrevesse que na sua república ideal a escola seria compulsória para ambos os sexos, um de seus discípulos, Teofrasto, argumentava que se deveria ensinar às mulheres apenas o suficiente para administrar um lar, porque a educação avançada "transforma a mulher numa comadre preguiçosa e briguenta". Uma vez que a alfabetização entre as mulheres gregas era baixa (ainda que se tenha sugerido que as cortesãs fossem "perfeitamente letradas"), escravos instruídos leriam os romances em voz alta para elas. Devido à sofisticação de linguagem dos autores e ao número relativamente pequeno de fragmentos que sobreviveram, o historiador Wil iam V. Harris sustentou que esses romances não eram muito populares, sendo antes a leitura amena de um limitado público feminino com certo grau de instrução.
O tema era amor e aventura; o herói e a heroína eram sempre jovens, belos e bem-nascidos; a desgraça caía sobre eles, mas o final era sempre feliz; esperava-se que houvesse confiança nos deuses, bem como virgindade e castidade (pelo menos da heroína). Desde os romances mais antigos, o conteúdo era exposto com clareza ao leitor Tendo vivido por volta do começo da era cristã, o autor do mais antigo romance grego que sobreviveu inteiro" apresenta a si mesmo a ao seu tema nas duas primeiras linhas: “Meu nome é Cáriton, de Afrodísias [cidade da Ásia Menor], e sou empregado do advogado Atenágoras. Vou contar uma história de amor que aconteceu em Siracusa”. “História de amor - pathos erotikon: desde as primeiras linhas, os livros destinados às mulheres estiveram associados com o que mais tarde seria chamado de amor romântico. Lendo essa literatura permitida, desde a sociedade patriarcal da Grécia do século I até a Bizâncio do século XII (quando o último desses romances foi escrito), as mulheres de algum modo devem ter encontrado estímulos intelectuais nesse mingau: nas labutas, perigos e agonias de casais amorosos, as mulheres às vezes descobriam alimento insuspeitado para o pensamento. Séculos mais tarde, criança leitora de novelas de cavalaria (inspiradas às vezes em romances gregos), santa Teresa descobriu muitas das imagens que desenvolveria em seus escritos devotos. “Acostumei-me a lê-las, e essa pequena falha arrefeceu em mim o desejo e a vontade de fazer minhas outras tarefas. E eu não me importava em passar muitas horas do dia e da noite nesse exercício vão, escondida de meu pai. Meu arrebatamento nisso era tão grande que, se não tivesse um livro novo para ler, parecia-me que não poderia me sentir feliz.” Vão o exercício pode ter parecido – contudo, as histórias de Margarida de Navarra, A princesa de Clèves, de madame de La Fayette, e os romances das irmãs Brontê e de Jane Austen devem muito à leitura de romances.
Como mostra a crítica inglesa Kate Flint, a leitura desses romances não oferecia à leitora apenas um meio de ocasionalmente "retirar-se para a passividade induzida pelo ópio da ficção. Muito mais excitante, permitia a ela afirmar seu sentimento de individualidade e saber que não estava sozinha nisso Desde tempos antigos, as leitoras descobriram maneiras de subverter o material que a sociedade colocava em suas prateleiras.
A separação de um grupo de livros ou de um gênero para um grupo específico de leitores (sejam romances gregos ou a série cor-de-rosa da minha infância) não apenas cria um espaço literário fechado que esses leitores são estimulados a explorar; com frequência, toma esse espaço proibido para os outros. Disseram-me que os livros de capa cor-de-rosa eram para meninas e que se fosse visto com um deles nas mãos seria rotulado de efeminado. Lembro da expressão de censura e surpresa no rosto de um balconista de Buenos Aires quando comprei um desses livros e de como tive de explicar rapidamente que se tratava de um presente para uma menina. (Mais tarde encontrei preconceito semelhante, quando, depois de coeditar uma antologia de ficção homossexual masculina, amigos “machos” me disseram que ficariam embaraçados se fossem vistos com o livro em público, por medo de serem considerados bichas.) Aventurar-se numa literatura que a sociedade, num gesto de condescendência, põe de lado para um grupo “menos privilegiado” ou “menos aceito” é arriscar-se a ser infectado por associação, uma vez que a mesma cautela não se aplicava à minha prima, que podia migrar para a série verde sem provocar mais que um gracejo de sua mãe sobre seus “gostos ecléticos”.
Mas, às vezes, o material de leitura de um grupo segregado é criado deliberadamente por leitores de dentro do próprio grupo. Essa criação aconteceu entre as mulheres da corte japonesa em algum momento do século XI.
Em 894 – cem anos depois da fundação da nova capital, HeianKyo, onde hoje é Quioto –, o governo japonês decidiu parar de mandar enviados oficiais à China. Durante os três séculos anteriores, os embaixadores tinham trazido a arte e os ensinamentos da milenar vizinha do Japão, e o modo de vida japonês fora dominado pelos hábitos da China; naquele momento, com o rompimento da influência chinesa, o país começou a desenvolver um estilo de vida de sua própria invenção, que atingiu o apogeu no final do século X, durante a regência de Fujiwara no Michinaga.
Como em qualquer sociedade aristocrática, os que gozaram dos benefícios desse renascimento foram poucos. As mulheres da corte japonesa, embora muito privilegiadas em comparação com as das classes mais baixas, estavam sujeitas a uma série de regras e limites. Quase totalmente isoladas do mundo externo, forçadas a seguir rotinas monótonas, limitadas pela própria linguagem (pois, com raras exceções, não eram instruídas nos vocabulários de história, filosofia, direito “e qualquer outra forma de conhecimento”, e suas trocas normalmente se realizavam por cartas e não através de conversas), as mulheres tiveram de desenvolver por si mesmas – apesar das pilhas de restrições – métodos – astutos de explorar e ler sobre o mundo em que viviam, bem como sobre o mundo fora de suas paredes de papel. Falando de uma jovem princesa, o príncipe Genji, herói de A história de Genji, da sra. Murasaki Shikibu, observa: “Não penso que precisemos nos preocupar com a educação dela. As mulheres devem ter um conhecimento geral de vários assuntos, mas causa má impressão se se mostram apegadas a determinado ramo do conhecimento. Eu não as deixaria completamente ignorantes em nenhum campo. O importante é que elas devem dar a impressão de que tratam de forma suave e despreocupada mesmo daqueles temas que levam mais a sério”.
A aparência era fundamental, e, desde que aparentassem indiferença pelo conhecimento e ignorância inabálavel, as mulheres da corte podiam manejar para se subtrair à sua condição. Nessas circunstâncias, é espantoso que tenham conseguido criar a principal literatura daquele período, inventando até alguns gêneros no processo. Ser ao mesmo tempo a criadora e a fruidora da literatura – formar, por assim dizer, um círculo fechado que produz e consome o que produz, em meio às coerções de uma sociedade que deseja que o círculo permaneça subserviente – deve ser visto como um extraordinário ato de coragem.
Na corte, as mulheres passavam os dias principalmente “olhando para o espaço”, numa agonia de lazer (“sofrendo de lazer” é uma expressão recorrente) algo aparentada com a melancolia europeia. Os aposentos quase vazios, com suas telas e cortinas de seda, estavam geralmente às escuras. Mas isso não oferecia privacidade. As paredes finas e as balaustradas de treliça faziam com que os sons viajassem com facilidade, e centenas de pinturas representam voyeurs espiando as atividades das mulheres.
As longas horas de lazer compulsório, interrompidas quando muito por festivais anuais e visitas esporádicas a templos elegantes, levaram-nas a praticar música e caligrafia, mas, sobretudo, a ler em voz alta ou ouvir leituras. Nem todos os livros eram permitidos. No Japão do período Heian, assim como na Grécia clássica, no islã, na Índia pós-védica e em tantas outras sociedades, as mulheres estavam proibidas de ler o que se considerava literatura "séria": deviam confinar-se ao reino da diversão banal e frívola, que os eruditos confucianos desprezavam, e havia uma distinção clara entre literatura e linguagem “masculina” (com temas heroicos e filosóficos e voz pública) e “feminina” (trivial, doméstica e íntima). Essa distinção foi levada para muitas áreas diferentes: por exemplo, como os modos chineses continuavam a ser admirados, a pintura chinesa era chamada de “masculina”, enquanto a pintura japonesa, mais leve, era “feminina”.
Mesmo que todas as bibliotecas de literatura chinesa e japonesa estivessem abertas para elas, as mulheres do período Heian não encontrariam o som de suas vozes na maioria dos livros do período. Portanto, em parte para aumentar seu estoque de material de leitura, em parte para obter acesso a material de leitura que respondesse às suas preocupações específicas, elas criaram uma literatura própria. Para registrá-la, desenvolveram uma transcrição fonética da língua que tinham permissão de falar, o kanabungaku, um japonês expurgado de quase todas as construções com palavras chinesas. Essa língua escrita veio a ser conhecida como “escrita das mulheres” e, estando restrita à mão feminina, adquiriu, aos olhos dos homens que as dominavam, uma qualidade erótica. Para ser atraente, uma mulher precisava não apenas possuir encantos físicos, mas também escrever com caligrafia elegante, bem como ser versada em música e saber ler, interpretar e escrever poesia. Essas realizações, no entanto, jamais eram consideradas equiparáveis às dos artistas e estudiosos masculinos.
De todas as maneiras de adquirir livros, escrevê-los é tido como o método mais louvável”, comentou Walter Benjamim. Em alguns casos, descobriram as mulheres do período Heian, é o único método. Em sua nova linguagem, elas escreveram algumas das obras mais importantes da literatura japonesa e, talvez, de todos os tempos. As mais famosas delas são a monumental História de Genji, de Murasaki Shikibu, que o tradutor e erudito inglês Arthur Waley considerou ser o primeiro romance autêntico do mundo, iniciado provavelmente em 1001 e terminado não antes de 1010, e O livro de travesseiro, de Sei Shonagon, mais ou menos da mesma época de Genji e assim chamado porque foi escrito no quarto da autora e com certeza mantido nas gavetas de seu travesseiro de madeira.
Em livros como os citados, a vida cultural e social de homens e mulheres é explorada em minúcias, mas pouca atenção é dada às manobras políticas que absorviam tanto tempo dos funcionários da corte. Waley julgou que nesses livros a “extraordinária imprecisão das mulheres quanto às atividades puramente masculinas” era desconcertante; mantidas à distância da linguagem e das atividades políticas, mulheres como Sei Shonagon e a senhora Murasaki não poderiam, de forma alguma, ir além de descrições baseadas no que ouviriam falar de tais atividades. De qualquer forma, essas mulheres estavam escrevendo essencialmente para elas mesmas – espelhando suas vidas. Exigiam da literatura não as imagens que interessavam a seus equivalentes masculinos e com as quais eles se compraziam, mas um reflexo daquele outro mundo em que o tempo era lento e a conversação escassa, onde a paisagem pouco mudava, exceto quando as estações traziam mudanças. A história de Genji, ao mesmo tempo em que exibe uma enorme tela da vida de então, destinava-se a ser lida sobretudo por mulheres como a autora, mulheres que compartilhassem sua inteligência e sua perspicácia sutil em assuntos psicológicos.
Alguns anos após o aparecimento da História de Genji, a sra. Sarashina, outra mulher brilhante, descreveu como era apaixonada por histórias quando ainda não passava de uma menina em alguma província remota. “Mesmo confinada no interior, de algum modo vim a saber que no mundo existiam coisas conhecidas como contos, e a partir desse momento meu maior desejo foi lê-los por mim mesma. Para passar o tempo, minha irmã, minha madrasta e outras da casa contavam-me histórias tiradas dos Contos, incluindo episódios sobre Genji, o Príncipe Brilhante; mas, como dependiam da memória, com certeza não me contavam tudo o que sabiam, e suas histórias acabavam me deixando mais curiosa do que antes. Em minha impaciência, consegui uma estátua do Benevolente Buda que tinha a minha altura. Quando não havia ninguém olhando, introduzia-me às escondidas na sala do altar, ajoelhava-me e orava com devoção: ‘Oh, por favor, dê um jeito para que eu possa ir logo para a Capital, onde há tantos contos, e, por favor permita que eu leia todos eles’.”
O livro de travesseiro de Sei Shonagon é um registro aparentemente despreocupado de impressões, descrições, mexericos, listas de coisas agradáveis e desagradáveis - repleto de opiniões extravagantes, preconceituosas e petulantes, totalmente dominadas pela noção de hierarquia. Seus comentários têm um traço de sinceridade que ela diz (devemos acreditar nela?) vir do fato de que “nunca pensei que essas notas seriam lidas por outra pessoa e assim incluí tudo o que veio à minha cabeça, por mais estranho ou desagradável”. Sua simplicidade explica boa parte de seu encanto. Eis aqui dois exemplos de “coisas que são deliciosas”: Descobrir um grande número de histórias que ainda não lemos. Ou adquirir o segundo volume de uma história cujo primeiro volume nos deu prazer. Mas com frequência é um desapontamento.
As cartas são bastante banais, mas como são esplêndidas! Quando alguém está numa província distante e nos preocupamos com ele, e então chega subitamente uma carta, é como se o estivéssemos vendo face a face. E é um grande conforto termos expressado nossos sentimentos numa carta mesmo sabendo que ela ainda pode não ter chegado.
Tal como A história de Genji, O livro de travesseiro, com sua paradoxal adoração ao poder imperial e desprezo pelos modos masculinos, valoriza o ócio forçado e põe a vida doméstica das mulheres no mesmo nível literário das vidas “épicas” dos homens. Porém, a sra. Murasaki, para quem a narrativa das mulheres precisava ser trazida à luz dentro da epopeia dos homens e não, frivolamente, nos limites de suas paredes de papel, achava a escrita de Sei Shonagon “cheia de imperfeições”: “Ela é uma mulher bem-dotada, com certeza. Contudo, se alguém dá rédeas soltas às próprias emoções, mesmo nas circunstâncias mais inapropriadas. se alguém precisa exemplificar cada coisa interessante que acontece, as pessoas irão considerar essa pessoa frívola. E como as coisas podem acabar bem para uma tal mulher?”.

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Pelo menos dois tipos diferentes de leitura parecem ocorrer dentro de um grupo segregado.
No primeiro, as leitoras, como arqueólogas imaginativas, abrem caminho através da literatura oficial para resgatar das entrelinhas a presença de suas colegas proscritas, para encontrar espelhos de si mesmas nas histórias de Clitemnestra, de Gertrude, das cortesãs de Balzac. No segundo tipo, as leitoras tornam-se escritoras, inventando para si mesmas novas maneiras de contar histórias, a fim de redimir sobre a página as crônicas cotidianas de suas vidas confinadas ao laboratório da cozinha, ao estúdio da saleta de costura, às selvas do quarto das crianças.
Há talvez uma terceira categoria, em algum ponto entre essas duas. Muitos séculos depois de Sei Shonagon e Murasaki Shikibu, do outro lado do globo, a escritora inglesa George Eliot, escrevendo sobre a literatura de sua época, descreveu o que chamou “romances tolos de Senhoras Romancistas [...] um gênero com muitas espécies, determinado pela qualidade particular de tolice que predomina neles – o frívolo, o prosaico, o devoto ou o pedante. Mas é uma mistura de todos – uma ordem compósita de fatuidade feminina responsável pela produção da maior parte de tais romances, que deveremos distinguir como sendo da espécie cérebro-e-chapelaria. [...] A desculpa habitual para as mulheres que se tornam escritoras sem nenhuma qualificação especial é que a sociedade as segrega de outras esferas de ocupação. A sociedade é uma entidade que tem uma boa dose de culpa, devendo responder pela manufatura de muitas mercadorias insalubres, de picles ruins a má poesia. Mas, como ‘assunto’, a sociedade, o Governo de Sua Majestade e outras abstrações grandiosas têm uma fatia excessiva de acusação, bem como de elogio”. E concluía ela: “Em toda labuta há proveito’; mas os romances tolos das senhoras, imaginamos, resultam menos da labuta do que da ociosidade atarefada”. O que George Eliot descrevia era uma ficção que, embora escrita dentro do grupo, limita-se praticamente a repetir os estereótipos e preconceitos oficiais que, antes de mais nada, conduziram à criação do grupo.
Tolice era também a falha que a senhora Murasald, como leitora, via na escrita de Sei Shonagon. Porém, a diferença óbvia era que Sei Shonagon não oferecia a suas leitoras uma versão ridicularizada da imagem delas tal como consagrada pelos homens. O que Murasaki achava frívolo era o tema: o mundo cotidiano dentro do qual ela mesma vivia, um mundo cuja trivialidade Sei Shonagon documentara com tanta atenção como se fora o mundo cintilante de Genji. Apesar das críticas de sua colega, o estilo de literatura íntimo e aparentemente banal de Sei Shonagon floresceu entre as mulheres leitoras da época. O exemplo mais antigo desse período é o diário de uma senhora da corte conhecida apenas como a “Mãe de Michitsuna” - o Diário do fim do verão ou Diário fugaz. Nele a autora tentou fazer a crônica, tão fiel quanto possível, da realidade de sua existência. Falando em si mesma na terceira pessoa, escreveu: "Enquanto os dias arrastavam-se monotonamente, ela lia os velhos romances e achava a maioria deles uma coleção de invenções grosseiras. Talvez, disse para si mesma, a história de sua existência enfadonha, na forma de um diário, pudesse provocar algum grau de interesse. Talvez pudesse até ser capaz de responder: isto é vida apropriada para uma dama bem-nascida?”.
Apesar das críticas da senhora Murasaki, é fácil entender por que a forma confessional, a página em que uma mulher podia parecer estar dando “rédeas soltas às emoções”, tornou-se o material de leitura favorito das mulheres do período Heian. Genji apresentava algo da vida das mulheres nas personagens que cercavam o príncipe, mas O livro de travesseiro dava espaço para que as leitoras se tornassem suas próprias historiadoras.
Há quatro maneiras de escrever a vida de uma mulher”, sustenta a crítica americana Carolyn G. Heilbrun. “A própria mulher pode contá-la, no que ela escolhe chamar autobiografia; pode contá-la no que escolhe chamar ficção; um(a) biógrafo(a) pode escrever a vida de uma mulher no que é chamado de biografia; ou a mulher pode escrever sua própria vida antes de vivê-la, inconscientemente, sem reconhecer ou nomear o processo.”
A rotulagem cuidadosa que Carolyn Heilbrun faz das formas também corresponde vagamente às distintas literaturas que as escritoras do período Heian produziram: monogatari (romances), livros de travesseiro e outros. Nesses textos, as leitoras encontravam suas próprias vidas vividas ou não vividas, idealizadas ou fantasiadas, ou expostas com prolixidade e fidelidade documentais. Essa costuma ser a norma em se tratando de leitores segregados: a literatura que exigem é confessional, autobiográfica e até didática, porque leitores cujas identidades são negadas não têm outro lugar onde encontrar suas histórias exceto na literatura que eles mesmos produzem. No século XVII, em Portugal, sóror Mariana Alcoforado (ou, com maior probabilidade, um autor anônimo que usou seu nome) encontrou nas cartas de amor proibidas um meio de atravessar as paredes do claustro. Essas famosas Cartas portuguesas, que inspiraram o romance de Diderot La religieuse, se tornam, na verdade, material de leitura para a própria freira, como substituição do amante ausente e remédio para seu desejo insatisfeito, um lugar onde pode encenar sua vida erótica, um recinto dentro do qual palavras, em vez de ações, encarnam os eventos de sua paixão, dando um relato factual de seu amor impossível. Num argumento aplicado à leitura homossexual - e que pode ser perfeitamente aplicado à leitura feminina, à leitura de qualquer grupo excluído do reino do poder -, o escritor americano Edmund White observa que tão logo alguém nota que ele (podemos acrescentar “ou ela”) é diferente, essa pessoa deve responder por isso, e que tais prestações de contas são um tipo primitivo de ficção, “as narrativas orais contadas e recontadas como conversa de travesseiro, ou em bares, ou no divã do psicanalista”. Ao contar "uns para os outros - ou para o mundo hostil em torno deles - as histórias de suas vidas, não estão apenas registrando o passado, mas também dando forma ao futuro, forjando uma identidade e, ao mesmo tempo, revelando-a". Em Sei Shonagon, bem como na sra. Murasaki, encontram-se as sombras da literatura feminina que lemos hoje.
Uma geração depois de George Eliot, na Inglaterra vitoriana, a Gwendolen de Oscar Wilde, em A importância de ser sério, declarava que jamais viajava sem seu diário porque “deve-se sempre ter algo sensacional para ler no trem”; ela não estava exagerando. Na definição de Cecily, réplica de Gwendolen, um diário era “simplesmente um registro, feito por uma moça muito jovem, de seus pensamentos e impressões e, consequentemente, destinado a publicação”. A publicação – ou seja, a reprodução de um texto a fim de multiplicar seus leitores através de cópias manuscritas, da leitura em voz alta ou da imprensa – permitiu às mulheres encontrar vozes similares às suas, descobrir que seu fardo não era único, descobrir na confirmação da experiência uma base sólida sobre a qual construir uma imagem autêntica de si mesmas. Isso foi verdade tanto para as mulheres do período Heian como para George Eliot.
Diferentes das papelarias da minha infância, as livrarias de hoje não têm somente os livros para mulheres distribuídos no mercado por interesses comerciais alheios ao negócio, para determinar e limitar o que uma mulher deve ler, mas também os livros criados de dentro do grupo, nos quais mulheres escrevem para elas mesmas aquilo que está ausente dos textos oficiais. Isso estabelece a tarefa da leitora, talvez prevista pelas escritoras do período Heian: escalar as paredes: pegar qualquer livro que pareça atraente, despi-lo daquelas coloridas capas codificadas e arrumá-lo entre os volumes que o acaso e a experiência puseram na sua mesinha-de-cabeceira.

Alberto Manguel, em Uma História da Leitura