quinta-feira, 12 de março de 2026

Guilherme Arantes | Libido da Alma

 

Onde paira a canção recomeçada

Onde paira a canção recomeçada
No capitel de acanto de teu lar?
Onde prossegue a dança terminada
Nas lajes de meu tempo de chorar?
Rapaz, em minhas mãos cheias de areia
Conto os astros que faltam no horizonte
Da praia soluçante onde passeia
A espuma de teu fim, pranto sem fonte.
Oh juventude, um pálio de inocência
Jamais se estenderá sobre outra aurora
Mais clara que esta clara adolescência
Que o lupanar da noite hoje devora:
Que vale o lenço impuro da elegia
Sobre teu rosto, lúcida alegria?

Mário Faustino, em O homem e sua hora

Sentir-se útil

Exatamente quando eu atravessava uma fase de involuntária meditação sobre a inutilidade de minha pessoa, recebi uma carta assinada, mas só darei as iniciais: “Cada vez que me encontro com a beleza de suas contribuições literárias, vejo ainda mais fortalecida minha intensa capacidade de amar, de me dar aos outros, de existir para meu marido.” Assinada H. M.
Não fiquei contente por você, H. M., falar na beleza de minhas contribuições literárias. Primeiro porque a palavra beleza soa como enfeite, e nunca me senti tão despojada da palavra beleza. A expressão “contribuições literárias” também não adorei, porque exatamente ando numa fase em que a palavra literatura me eriça o pelo como o de um gato. Mas, H. M., como você me fez sentir útil ao dizer-me que sua capacidade intensa de amar ainda se fortaleceu mais. Então eu dei isso a você? Muito obrigada. Obrigada também pela adolescente que já fui e que desejava ser útil às pessoas, ao Brasil, à humanidade, e nem se encabulava de usar para si mesma palavras tão imponentes.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

1616 – Potosí



Retratos de uma procissão

Morro mágico de Potosí: nestes altos páramos inimigos, que só ofereciam solidão e frio, fez brotar a cidade mais povoada do mundo.
Altas cruzes de prata encabeçam a procissão, que avança entre duas fileiras de estandartes e de espadas. Sobre as ruas de prata, ferraduras de prata; soam os cavalos luxuosos de veludo e bridões cobertos de pérolas. Para confirmação dos que mandam e consolo dos que servem, a prata desfila, fulgurante, pisa forte, sabedora de que não há espaço da terra ou do céu que não possa comprar.
Vestiu-se de festa a cidade; os balcões brilham de brasões e flâmulas; de um mar de farfalhantes sedas, espumas de bordados e cataratas de pérolas, as senhoras admiram a cavalgada que avança com estrépito de trombetas, pífaros e atabaques. Uns quantos cavaleiros levam vendas negras em um dos olhos e protuberâncias e chagas na testa, que não são marcas da guerra e sim da sífilis; mas voando vão e vêm, dos balcões à rua, da rua aos balcões, os beijos e os gracejos.
Abrem caminho, mascarados, o Interesse e a Cobiça Canta a Cobiça, máscara de cobras, enquanto o cavalo faz cabriolas:

Dizem que sou dos males a raiz
mas meu troféu é
a ninguém deixar feliz.

E responde o Interesse, calças negras, gibão negro bordado de ouro, máscara negra sob o negro chapéu cheio de plumas:

Se eu venci o amor
e o amor vence a morte
sou de todos o mais forte.

Encabeça o bispo um lento e longo exército de padres e encapuçados nazarenos armados de altos círios e candelabros de prata, até que o ruído da trombeta dos heraldos se impõe sobre o repicar dos sininhos anunciando a Virgem de Guadalupe, Luz dos que esperam Espelho de justiça, Refúgio de pecadores, Consolo dos aflitos, Palma verde, Vara florescida, Pedra refulgente. Ela chega em ondas de ouro e madrepérola, nos braços de cinquenta índios; afogada por muitas joias, assiste com olhos de assombro o bulício dos querubins de asas de prata e o espetacular movimento de seus adoradores. No branco corcel irrompe o Cavaleiro da Ardente Espada, seguido por um batalhão de pajens e lacaios de librés brancas. O Cavaleiro atira longe o seu chapéu e canta à Virgem:

Em minha dama, embora morena
tal formosura se encerra
que suspende céu e terra.

Lacaios e pajens de libré roxa correm atrás do Cavaleiro do Amor Divino, que vem trotando, ginete romano, ao vento das longas casacas de seda arroxeada: frente à Virgem cai de joelhos e humilha a testa coroada de louro, mas quando incha o peito para cantar as rimas, explode uma fuzilaria de fumaça de enxofre. Invadiu a rua o carro dos Demônios, e ninguém presta a menor atenção ao Cavaleiro do Amor Divino.
O príncipe Tartáreo, adorador de Maomé, abre suas asas de morcego, e a princesa Proserpina, cabeleira e cauda de serpentes, lança do alto blasfêmias e gargalhadas que a corte dos diabos celebra. Em alguma parte soa de repente o nome de Jesus Cristo e o carro do Inferno arrebenta-se em uma explosão descomunal. O príncipe Tartáreo e a princesa Proserpina atravessam de um salto a fumaça e as chamas e rodam, prisioneiros, aos pés da Mãe de Deus.
Cobre-se a rua de anjinhos, auréolas e asas de prata cintilante, e alegram o ar o som de violões e guitarras, cítaras e flautins. Os músicos, vestidos de donzelas, festejam a chegada da Misericórdia, da Justiça, da Paz e da Verdade, quatro airosas filhas de Potosí erguidas sobre poltronas de prata e veludo. Têm cabeça e peito de índio os cavalos que puxam a carruagem.
E chega então, atropelando, a Serpente. Sobre mil pernas de índios se desliza o imenso réptil, aberta a boca flamejante, metendo medo e fogo na romaria, e aos pés da Virgem desafia e combate. Quando os soldados cortam-lhe a cabeça a golpes de machado e espada, das entranhas da Serpente emerge, com seu orgulho feito pedaços, o Inca. Arrastando suas assombrosas vestes, o filho do Sol cai de joelhos frente à Divina Luz. Exibe a Virgem manto de ouro, rubis e pérolas grandes como grãos-de-bico, e mais que nunca brilha, acima de seus olhos atônitos, a cruz de ouro da coroa imperial.
Depois, a multidão. Artesãos de todos os ofícios e malandros e mendigos capazes de arrancar lágrimas de um olho de vidro: os mestiços, filhos da violência, nem servos nem senhores, caminham a pé. Proíbe a lei que tenham cavalos ou armas, como proíbe aos mulatos o uso do guarda-sol, para que ninguém dissimule o estigma que mancha o sangue até a sexta geração. Com os mestiços e os mulatos vêm os quarterões e os cafusos e todos os misturados, as mil cores dos filhos do caçador e sua presa.
Atrás, fecha a procissão uma multidão de índios carregados de frutas e flores e travessas de comida fumegante. Frente à Virgem imploram os índios perdão e consolo.
Mais longe, alguns negros varrem o lixo deixado por todos os outros.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

A religião dos outros

Sério, gente, vocês têm que parar de rir da religião dos outros. A fé das pessoas é uma coisa sagrada. Não, macumba é diferente. Vocês têm que fazer um vídeo sobre macumba.
Macumba não é religião, macumba é magia negra. Macumba, umbanda, candomblé, vudu, tudo a mesma coisa de preto velho. Misifi põe uma galinha preta na encruzilhada que eu trago a pessoa amada em três dias.
Por favor, faz um vídeo sobre isso. Desculpa, gente, mas é que macumba é muito engraçado. Espiritismo também é uma piada pronta. Sabe o que vocês podem dizer? Que quem conversa com gente morta é esquizofrênico e tem que ser internado.
Budismo não é religião, é moda. Tem seis gatos pingados no Tibete e o resto é tudo socialite e ator em início de carreira. Fora que aqueles monges são muito gordos pra quem é vegetariano. Aposto que quando ninguém tá olhando eles comem uma bela de uma picanha.
Mas pelo menos eles não pintam a cara igual hare krishna. Aquilo não é religião, aquilo é pretexto pra não tomar banho. Vocês não entenderam: quando eu digo religião, eu tô falando das religiões sérias.
Não, islamismo já é sério demais. Aí tem que zoar. Aquelas mulheres de burca parecem um apicultor. E os terroristas que acham que vão se encontrar com trinta virgens? Isso dava um vídeo. Quando eu digo religião, eu tô falando das religiões da Bíblia.
Não, judeu pode zoar também, claro. Judeu por acaso lê Bíblia? Estranho, foram eles que mataram Jesus. Vocês têm que rir daquele bando de mão de vaca. Por que é que não fizeram nenhum vídeo de judeu? Tem que fazer.
Eu tô falando da Bíblia de verdade, completa, sem cortes. A escritura sagrada, que fala da vinda do Deus vivo à Terra.
Acho que é isso: quando eu digo religião, eu tô falando das religiões que envolvem Jesus. Não, não tô falando do Inri Cristo. Gente, eu tô falando sério. Quando eu digo religião, eu tô falando das religiões que envolvem Jesus, Maria, José, as que têm multidões de fiéis.
Tem que rir das religiões menores, as religiões de preto, de judeu. Não tem graça rir da fé da maioria do povo brasileiro. Acho que é isso: quando eu digo religião, eu tô falando da religião da maioria. Aí é que perde a graça.
Sim, por acaso essa é a minha religião. Tá bom. Quando eu digo que não pode brincar com religião, eu tô falando da minha religião. A minha religião não tem a menor graça.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

Uma receita de uma pessoa viver



[…]

Por curto! minto, se não conto que estava duvidoso. E o senhor sabe no que era que eu estava imaginando, em quem. Ele é? Ele pode? Ainda hoje eu conheço tormentos por saber isso; trastempo que agora, quando as idades me sossegam. E o demo existe? Só se existe o estilo dele, solto, sem um ente próprio ― feito remanchas nágua. A saúde da gente entra no perigo daquilo, feito num calor, num frio. Eu, então? Ao que fui, na encruzilhada, à meia-noite, nas Veredas Mortas. Atravessei meus fantasmas? Assim mais eu pensei, esse sistema, assim eu menos penso. O que era para haver, se houvesse, mas que não houve! esse negócio. Se pois o Cujo nem não me apareceu, quando esperei, chamei por ele? Vendi minha alma algum? Vendi minha alma a quem não existe? Não será o pior?... Ah, não! não declaro. Desgarrei da estrada, mas retomei meus passos. O senhor segurado não acha? Ao que tropecei, e o chão não quis minha queda. De hoje em dia, eu penso, eu purgo. Eu tive pena de minhas velhas roupas. E rezo. Para a minha reza, Deus dá as costas, mas abaixa meio ouvido. Rezo. Queria ver ainda uma igreja grande, brancas torres, reinando de alto sino, no estado do Chapadão. Como que algum santo ainda não há de vir, das beiras deste meu Urucúia? E o diabo não há! Nenhum. E o que tanto digo. Eu não vendi minha alma. Não assinei finco. Diadorim não sabia de nada. Diadorim só desconfiava de meus mesmos ares. Escuto o claro riso dele, que era raramente; quer dizer: me alembro. Compadre meu Quelemém me dá conselhos, de tranquilidade. O que ele renova é: ― ...Em presente e futuros... Eu sei.
Sempre sei, realmente. Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma só coisa ― a inteira ― cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver ― e essa pauta cada um tem ― mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que é. E que: para cada dia, e cada hora, só uma ação possível da gente é que consegue ser a certa. Aquilo está no encoberto; mas, fora dessa consequência, tudo o que eu fizer, o que o senhor fizer, o que o beltrano fizer, o que todo-o-mundo fizer, ou deixar de fazer, fica sendo falso, e é o errado. Ah, porque aquela outra é a lei, escondida e vivível mas não achável, do verdadeiro viver: que para cada pessoa, sua continuação, já foi projetada, como o que se põe, em teatro, para cada representador ― sua parte, que antes já foi inventada, num papel...
Ora, veja. Remedêio peco com pecado? Me tôrço! Com essa sonhação minha, compadre meu Quelemém concorda, eu acho. E procurar encontrar aquele caminho certo, eu quis, forcejei; só que fui demais, ou que cacei errado. Miséria em minha mão. Mas minha alma tem de ser de Deus! se não, como é que ela podia ser minha? O senhor reza comigo. A qualquer oração. Olhe! tudo o que não é oração, é maluqueira... Então, não sei se vendi? Digo ao senhor! meu medo é esse. Todos não vendem? Digo ao senhor! o diabo não existe, não há, e a ele eu vendi a alma... Meu medo é este. A quem vendi? Medo meu é este, meu senhor! então, a alma, a gente vende, só, é sem nenhum comprador...
Divulgo o meu. Essas coisas que pensei assim; mas pensei abreviado. O que era como eu tivesse de furtar uma folga nos centros de minha confusão, por amor de ter algum claro juízo ― espaço de três credos. E o resto já vinha. O senhor verá, pois.
Porém mais além.
Na serra do Tatú, o frio ali é tal, que, em madrugadas, a gente necessita de uns três cobertores. Na Serra dos Confins, meados de julho, lá já está sovertendo o laçaço dos ventos, desencontrados, de agosto; como que venta! árvores caídas. Aonde eu ia, todos achavam natural. Chefe é chefe. Será que eles não sabiam que eu não sabia aonde ia? Isto é ― digo ― isto é. Não soubessem os começos e os finais. Dalgum modo, eu estava indo e sabendo. Sobre como é que a coruja conseguiu modo de poder voar sem se escutar o rumor do voo? Ao que eu estava sofismado. Menos que não guardei raiva de Diadorim, nem sentimentos. O desar que ele tinha falado e feito, aquela ruim conversa nossa, não deixou nem nublo! melhor fugiu, de todo, de minha lembrança.
O palpite meu, primeiro, era de chegar até na Serra do Meio ― cruzar na Cachoeira-do-Urucúia. Daí, desisti. De repente, torci direto para o norte; foi no Lagamar, a travessia. Mas, fujo de dizer: que, antes, no Lugar-do-Touro, se arrecadou a exata munição. Ainda antes se dando, dias, que a gente tinha recebido uma boa surpresa. O Quipes!
Assim o Quipes, que retornava, depois de tantos meses. De desde que tinha cumprido a ordem de sair por travesso socórro, de lá ondonde estávamos cercados em combates, na Fazenda dos Tucanos ― o senhor se alembrará. Ele vinha certo e alegre. E, de ver um companheiro assim se aparecer, de ausências, a gente ganhava mais mocidade.
Lampeiro, o Quipes entrado em boas roupas, montado num bom cavalo amarelo, pitando maço de cigarros de fábrica; rico feito um Mascarenhas. Arte que puxava um burro e uma burra, adestros, e tinha comprado coisas: até trempe e caçarolas, e açúcar real e chocolate em pó. Ao fagueiro, pujante, mesmo.
Ara, veja, como passou? E dond é que soube de nós? ― eu em atiço perguntei.
Ao que pois, Tatarana: em faltas de notícia, formei meu pião por aí... Já estive em Ingazeiras, na Barra-da-Vaca, no Oi-Mãe, em Morrinhos... O Urucúia não é o meio do mundo? ― assim ele se temperou.
O que não era toda a verdade. O que ele estava era recém-chegando. E me tratou de Tatarana... O seja que tivesse vivido esses tempos tangendo urubú, adformas que vinha agora na ignorância de que eu é que era o Chefe. Indagou por Zé Bebelo; e pois de Zé Bebelo mesmo ele tudo não sabia. Nem o parar do Hermógenes. Nem não tinha nenhum sinal do Joaquim Beijú, assim como aviso de outas novidades do mundo não deu. Só, por terminar, se gabou de ter tido duas ofertas: para servir de jagunço de Dona Adelaide, no Capão Redondo, e do Coronel Rotílio Manduca ― em sua Fazenda Baluarte.
Ah, entrei, gozando de minha pessoa de paz, até nas cidades de Januária e São-Francisco... ― ainda proseou. Devia de ser verdade. Assim como verdade completa que, a burra e o burro, e a tralha, ou o dinheiro para tudo adquirir, ele devia de ter roubado tomado em terra de riquezas. Tal que disse! ― Isto eu bem comprei, na venda do José Vassalo... Desajuizado gastador, esse o Quipes.

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

quarta-feira, 11 de março de 2026

Pedro Emílio | O Novo Sempre Vem

Oração

Horizontina é gorda,
mas é com desvelo que seus pais a amam,
eles que só compram livros didáticos:
Já tomou seu leite, filhinha?’
De que vale pagar o dízimo da menta e da arruda
se meu coração não se desdobra?
Já vi um homem sofrido ficar feliz de repente
e puxar uma fumaça no pito
como se visse no céu as trombetas da parusia,
ele que não sabe dos místicos:
nem todo o que diz Senhor, Senhor,
entrará no Reino”.
Eu Vos peço perdão
por ter amado mal.

Adélia Prado, em O Coração Disparado

O impagável Laerte

Dor e esperança

Temos uma capacidade quase infinita de suportar a dor, desde que haja esperança. Diz­-se que a esperança é a última que morre. Mas o certo seria dizer: a penúltima. Há uma morte que acontece antes da morte. Quando se conclui que não há mais razões para viver. Quando ­morrem as razões para viver, entram em cena as razões para morrer.

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

Regras



Nos grandes banquetes de antigamente, no tempo em que um bom jantar durava toda a noite e um equívoco no suflê poderia custar a cabeça do chef — ou, pior, a sua reputação —, costumava-se comer um sorbet de frutas entre um prato e outro. Sorbet, no caso, não é sorvete, é quase só gelo picado e aromatizado. Segundo a tradição, um sorbet de sabor pungente limpava o paladar, apagava o gosto do prato anterior e preparava os corpúsculos da língua para a delícia a seguir. Este hábito deixou de ser hábito, desconfio, não apenas porque hoje ninguém mais tem tempo ou disposição para frescura mas também porque não devia funcionar. Seria mais uma das tantas regras da mesa que permanecem mais para honrar a etiqueta do que por qualquer lógica.
Coisa parecida acontece, até hoje, com os vinhos. Não se discute que certo tipo de comida “pede” certo tipo de vinho, e que não é só porque as cores se combinam que se deva pedir vinho branco para acompanhar a carne branca. Mas estas regras de acompanhamento também não estão gravadas em pedra e podem ser infringidas sem perigo de retribuição divina. O maître talvez faça um sorriso de desdém, mas isto não é mortal. Eu sempre achei que o vinho deve ser pedido de acordo com a nossa disposição do momento, a temperatura do lugar, o estado da alma — ou do sistema gástrico — e só em último lugar a cor ou a textura do prato que ele vai acompanhar.
Contam a história daquele famoso navegador solitário inglês (cujo nome, como de costume, me escapa) que, antes de ir para bordo do seu pequeno veleiro para uma volta ao mundo, consultava informes meteorológicos, examinava a sua provável rota no mapa, olhava para o céu, cheirava o vento e finalmente decidia: “Esta é uma viagem de gim.” Ou “uma viagem de scotch, talvez com um pouco de cerveja preta”. E estocava o seu barco de acordo com a previsão.
Da mesma maneira, você deve decidir, antes mesmo de consultar o cardápio: “esta é uma mesa de brancos” ou “é uma noite para clarete” ou “champanha para todo mundo e o que sobrar de pé paga a conta”. Venha depois a comida que vier. Claro, você não vai pedir um branco doce para beber com o steak au poivre, mas não porque seja proibido. Porque é ruim.
Uma vez o escritor americano Herman Mackienwicz foi convidado para jantar na casa de um produtor de cinema em Hollywood famoso pelo seu esnobismo. Para o produtor, as regras da mesa eram sagradas. Mackienwicz já chegou ao jantar bêbado, continuou bebendo vinho durante a refeição e, um pouco antes da sobremesa, vomitou espetacularmente em cima da mesa. Diante do escândalo geral, o escritor virou-se para o seu anfitrião e o acalmou: “Não se preocupe, meu caro. O vinho branco voltou junto com o peixe...”
Ninguém jamais disse coisa tão definitiva sobre a etiqueta.

Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora

Diário de Bernardo Soares – 96

Vejo as paisagens sonhadas com a mesma clareza com que fito as reais. Se me debruço sobre os meus sonhos é sobre qualquer coisa que me debruço.
Se vejo a vida passar, sonho qualquer coisa.
De alguém disse que para ele as figuras dos sonhos tinham o mesmo relevo e recorte que as figuras da vida. Para mim, embora compreendesse que se me aplicasse frase semelhante, não a aceitaria. As figuras dos sonhos não são para mim iguais às da vida. São paralelas. Cada vida — a dos sonhos e a do mundo — tem uma realidade igual e própria, mas diferente. Como as coisas próximas e as coisas remotas. As figuras dos sonhos estão mais próximas de mim, mas…

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

A origem do jogo de xadrez





Difícil será descobrir, dada a incerteza dos documentos antigos, a época precisa em que viveu e reinou na Índia um príncipe chamado Iadava, senhor da província da Taligana. Seria, porém, injusto ocultar que o nome desse monarca vem sendo apontado por vários historiadores hindus como dos soberanos mais ricos e generosos de seu tempo.
A guerra, com o cortejo fatal de suas calamidades, muito amargou a existência do rei Iadava, transmutando-lhe o ócio e gozo da realeza nas mais inquietantes atribulações. Adstrito ao dever, que lhe impunha a coroa, de zelar pela tranquilidade de seus súditos, viu-se o nosso bom e generoso monarca forçado a empunhar a espada para repelir, à frente de pequeno exército, um ataque insólito e brutal do aventureiro Varangul, que se dizia príncipe de Caliã.
O choque violento das forças rivais juncou de mortos os campos de Dacsina e tingiu de sangue as águas sagradas do Rio Sandhu. O rei Iadava possuía — pelo que nos revela a crítica dos historiadores — invulgar talento para a arte militar; sereno em face da invasão iminente, elaborou um plano de batalha, e tão hábil e feliz foi em executá-lo, que logrou vencer e aniquilar por completo os pérfidos perturbadores da paz do seu reino.
O triunfo sobre os fanáticos de Varangul custou-lhe, infelizmente, pesados sacrifícios; muitos jovens quichatrias(1) pagaram com a vida a segurança de um trono para prestígio de uma dinastia; e entre os mortos, com o peito varado por uma flecha, lá ficou no campo de combate o príncipe Adjamir, filho do rei Iadava, que patrioticamente se sacrificou no mais aceso da refrega, para salvar a posição que deu aos seus a vitória final.
Terminada a cruenta campanha e assegurada a nova linha de suas fronteiras, regressou o rei ao suntuoso palácio de Andra, baixando, porém, formal proibição de que se realizassem as ruidosas manifestações com que os hindus soíam festejar os grandes feitos guerreiros. Encerrado em seus aposentos, só aparecia para atender aos ministros e sábios brâmanes quando algum grave problema nacional o chamava a decidir, como chefe de Estado, no interesse e para felicidade de seus súditos.
Com o andar dos dias, longe de se apagarem as lembranças da penosa cam mais se agravaram a angústia e a tristeza que, desde então, oprimiam o coração do rei. De que lhe poderiam servir, na verdade, os ricos palácios, os elefantes de guerra, os tesouros imensos, se já não mais vivia a seu lado aquele que fora sempre a razão de ser de sua existência? Que valor poderiam ter, aos olhos de um pai inconsolável, as riquezas materiais que não apagam nunca a saudade do filho estremecido?
As peripécias da batalha em que pereceu o príncipe Adjamir não lhe saíam do pensamento. O infeliz monarca passava longas horas traçando, sobre uma grande caixa de areia, as diversas manobras executadas pelas tropas durante o assalto. Com um sulco indicava a marcha da infantaria; ao lado, paralelo ao primeiro, outro traço mostrava o avanço dos elefantes de guerra; um pouco mais abaixo, representada por pequenos círculos dispostos em simetria, perfilava a destemida cavalaria chefiada por um velho radj(2) que se dizia sob a proteção de Techandra, a deusa da Lua. Ainda por meio de gráficos esboçava o rei a posição das colunas inimigas desvantajosamente colocadas, graças à sua estratégia, no campo em que se feriu a batalha decisiva.
Uma vez completado o quadro dos combatentes, com as minudências que pudera evocar, o rei tudo apagava, para recomeçar novamente, como se sentisse íntimo gozo em reviver os momentos passados na angústia e na ansiedade.
À hora matinal em que chegavam ao palácio os velhos brâmanes para a leitura dos Vedas(3), já o rei era visto a riscar na areia os planos de uma batalha que se reproduzia interminavelmente.
Infeliz monarca! — murmuravam os sacerdotes penalizados. — Procede como um sudra(4) a quem Deus privou da luz da razão. Só Dhanoutara(5), poderosa e clemente, poderá salvá-lo!
E os brâmanes erguiam preces, queimavam raízes aromáticas, implorando à eterna zeladora dos enfermos que amparasse o soberano de Taligana.
Um dia, afinal, foi o rei informado de que um moço brâmane — pobre e modesto — solicitava uma audiência que vinha pleiteando havia já algum tempo. Como estivesse, no momento, com boa disposição de ânimo, mandou o rei que trouxessem o desconhecido à sua presença.
Conduzido à grande sala do trono, foi o brâmane interpelado, conforme as exigências da praxe, por um dos vizires do rei.
Quem és, de onde vens e que desejas daquele que, pela vontade de Vichnu(6), é rei e senhor de Taligana?
Meu nome — respondeu o jovem brâmane — é Lahur Sessa(7) e venho da aldeia de Namir, que trinta dias de marcha separam desta bela cidade. Ao recanto em que eu vivia chegou a notícia de que o nosso bondoso rei arrastava os dias em meio de profunda tristeza, amargurado pela ausência de um filho que a guerra viera roubar-lhe. Grande mal será para o país, pensei, se o nosso dedicado soberano se enclausurar, como um brâmane cego, dentro de sua própria dor. Deliberei, pois, inventar um jogo que pudesse distraí-lo e abrir em seu coração as portas de novas alegrias. É esse o desvalioso presente que desejo neste momento oferecer ao nosso rei Iadava.
Como todos os grandes príncipes citados nesta ou naquela página da História, tinha o soberano hindu o grave defeito de ser excessivamente curioso. Quando o informaram da prenda de que o moço brâmane era portador, não pôde conter o desejo de vê-la e apreciá-la sem mais demora.
O que Sessa trazia ao rei Iadava consistia num grande tabuleiro quadrado, dividido em sessenta e quatro quadradinhos, ou casas, iguais; sobre esse tabuleiro colocavam-se, não arbitrariamente, duas coleções de peças que se distinguiam, uma da outra, pelas cores branca e preta, repetindo, porém, simetricamente, os engenhosos formatos e subordinados a curiosas regras que lhes permitiam movimentar-se por vários modos.
Sessa explicou pacientemente ao rei, aos vizires e cortesãos que rodeavam o monarca em que consistia o jogo, ensinando-lhes as regras essenciais:
Cada um dos partidos dispõe de oito peças pequeninas — os peões. Representam a infantaria, que ameaça avançar sobre o inimigo para desbaratá-lo. Secundando a ação dos peões vêm os elefantes de guerra(8), representados por peças maiores e mais poderosas; a cavalaria, indispensável no combate, aparece, igualmente, no jogo, simbolizada por duas peças que podem saltar, como dois corcéis, sobre as outras; e, para intensificar o ataque, incluem-se — para representar os guerreiros cheios de nobreza e prestígio — os dois vizires(9) do rei. Outra peça, dotada de amplos movimentos, mais eficiente e poderosa do que as demais, representará o espírito de nacionalidade do povo e será chamada a rainha. Completa a coleção uma peça que isolada pouco vale, mas se torna muito forte quando amparada pelas outras. É o rei.
O rei Iadava, interessado pelas regras do jogo, não se cansava de interrogar o inventor:
E por que é a rainha mais forte e mais poderosa que o próprio rei?
É mais poderosa — argumentou Sessa — porque a rainha representa, nesse jogo, o patriotismo do povo. A maior força do trono reside, principalmente, na exaltação de seus súditos. Como poderia o rei resistir ao ataque dos adversários, se não contasse com o espírito de abnegação e sacrifício daqueles que o cercam e zelam pela integridade da pátria?
Dentro de poucas horas o monarca, que aprendera com rapidez todas as regras do jogo, já conseguia derrotar os seus dignos vizires em partidas que se desenrolavam impecáveis sobre o tabuleiro.
Sessa, de quando em quando, intervinha respeitoso, para esclarecer uma dúvida ou sugerir novo plano de ataque ou de defesa.
Em dado momento, o rei fez notar, com grande surpresa, que a posição das peças, pelas combinações resultantes dos diversos lances, parecia reproduzir exatamente a batalha de Dacsina.
Reparai — ponderou o inteligente brâmane — que para conseguirdes a vitória, indispensável se torna, de vossa parte, o sacrifício deste vizir!
E indicou precisamente a peça que o rei Iadava, no desenrolar da partida — por vários motivos —, grande empenho pusera em defender e conservar.
O judicioso Sessa demonstrava, desse modo, que o sacrifício de um príncipe é, por vezes, imposto como uma fatalidade, para que dele resultem a paz e a liberdade de um povo.
Ao ouvir tais palavras, o rei Iadava, sem ocultar o entusiasmo que lhe dominava o espírito, assim falou:
Não creio que o engenho humano possa produzir maravilha comparável a este jogo interessante e instrutivo! Movendo essas tão simples peças, aprendi que um rei nada vale sem o auxílio e a dedicação constante de seus súditos. E que, às vezes, o sacrifício de um simples peão vale mais, para a vitória, do que a perda de uma poderosa peça.
E, dirigindo-se ao jovem brâmane, disse-lhe:
Quero recompensar-te, meu amigo, por este maravilhoso presente, que de tanto me serviu para alívio de velhas angústias. Dize-me, pois, o que desejas, para que eu possa, mais uma vez, demonstrar o quanto sou grato àqueles que se mostram dignos de recompensa.
As palavras com que o rei traduziu o generoso oferecimento deixaram Sessa imperturbável. Sua fisionomia serena não traía a menor agitação, a mais insignificante mostra de alegria ou surpresa. Os vizires olhavam-no atônitos e entreolhavam-se pasmados diante da apatia de uma cobiça a que se dava o direito da mais livre expansão.
Rei poderoso! — redargüiu o jovem com doçura e altivez. — Não desejo, pelo presente que hoje vos trouxe, outra recompensa além da satisfação de ter proporcionado ao senhor de Taligana um passatempo agradável que lhe vem aligeirar as horas dantes alongadas por acabrunhante melancolia. Já estou, portanto, sobejamente aquinhoado e outra qualquer paga seria excessiva.
Sorriu, desdenhosamente, o bom soberano ao ouvir aquela resposta que refletia um desinteresse tão raro entre os ambiciosos hindus. E, não crendo na sinceridade das palavras de Sessa, insistiu:
Causa-me assombro tanto desdém e desamor aos bens materiais, ó jovem! A modéstia, quando excessiva, é como o vento que apaga o archote cegando o viandante nas trevas de uma noite interminável. Para que possa o homem vencer os múltiplos obstáculos que se lhe deparam na vida, precisa ter o espírito preso às raízes de uma ambição que o impulsione a um ideal qualquer. Exijo, portanto, que escolhas, sem mais demora, uma recompensa digna de tua valiosa oferta. Queres uma bolsa cheia de ouro? Desejas uma arca repleta de joias? Já pensaste em possuir um palácio? Almejas a administração de uma província? Aguardo a tua resposta, por isso que à minha promessa está ligada a minha palavra!
Recusar o vosso oferecimento depois de vossas últimas palavras — acudiu Sessa — seria menos descortesia do que desobediência ao rei. Vou, pois, aceitar, pelo jogo que inventei, uma recompensa que corresponde à vossa generosidade; não desejo, contudo, nem ouro, nem terras ou palácios. Peço o meu pagamento em grãos de trigo.
Grãos de trigo? — estranhou o rei, sem ocultar o espanto que lhe causava semelhante proposta. — Como poderei pagar-te com tão insignificante moeda?
Nada mais simples — elucidou Sessa. — Dar-me-eis um grão de trigo pela primeira casa do tabuleiro; dois pela segunda, quatro pela terceira, oito pela quarta, e assim dobrando sucessivamente, até a sexagésima quarta e última casa do tabuleiro. Peço-vos, ó Rei, de acordo com a vossa magnânima oferta, que autorizeis o pagamento em grãos de trigo, e assim como indiquei!
Não só o rei como os vizires e venerandos brâmanes presentes riram-se, estrepitosamente, ao ouvir a estranha solicitação do jovem. A desambição que ditara aquele pedido era, na verdade, de causar assombro a quem menos apego tivesse aos lucros materiais da vida. O moço brâmane, que bem poderia obter do rei um palácio em uma província, contentava-se com grãos de trigo!
Insensato! — clamou o rei. — Onde foste aprender tão grande desamor à fortuna? A recompensa que me pedes é ridícula. Bem sabes que há, num punhado de trigo, número incontável de grãos. Devemos compreender, portanto, que com duas ou três medidas de trigo eu te pagarei folgadamente, consoante o teu pedido, pelas sessenta e quatro casas do tabuleiro. É certo, pois, que pretendes uma recompensa que mal chegará para distrair, durante alguns dias, a fome do último pária10 do meu reino. Enfim, visto que minha palavra foi dada, vou expedir ordens para que o pagamento se faça imediatamente, conforme teu desejo.
Mandou o rei chamar os algebristas mais hábeis da corte e ordenou-lhes calculassem a porção de trigo que Sessa pretendia.
Os sábios calculistas, ao cabo de algumas horas de acurados estudos, voltaram ao salão para submeter ao rei o resultado completo de seus cálculos.
Perguntou-lhes o rei, interrompendo a partida que então jogava:
Com quantos grãos de trigo poderei, afinal, desobrigar-me da promessa que fiz ao jovem Sessa?
Rei magnânimo! — declarou o mais sábio dos matemáticos. — Calculamos o número de grãos de trigo que constituirá o pagamento pedido por Sessa, e obtivemos um número(11) cuja grandeza é inconcebível para a imaginação humana. Avaliamos, em seguida, com o maior rigor, a quantas ceiras(12) corresponderia esse número total de grãos, e chegamos à seguinte conclusão: a porção de trigo que deve ser dada a Lahur Sessa equivale a uma montanha que, tendo por base a cidade de Taligana, seria cem vezes mais alta do que o Himalaia! A Índia inteira, semeados todos os seus campos, taladas todas as suas cidades, não produziria em dois mil séculos a quantidade de trigo que, pela vossa promessa, cabe, em pleno direito, ao jovem Sessa!
Como descrever aqui a surpresa e o assombro que essas palavras causaram ao rei Iadava e a seus dignos vizires? O soberano hindu via-se, pela primeira vez, diante da impossibilidade de cumprir a palavra dada.
Lahur Sessa — rezam as crônicas do tempo —, como bom súdito, não quis deixar aflito o seu soberano. Depois de declarar publicamente que abriria mão do pedido que fizera, dirigiu-se respeitosamente ao monarca e assim falou:
Meditai, ó Rei, sobre a grande verdade que os brâmanes prudentes tantas vezes repetem: os homens mais avisados iludem-se, não só diante da aparência enganadora dos números, mas também com a falsa modéstia dos ambiciosos. Infeliz daquele que toma sobre os ombros o compromisso de uma dívida cuja grandeza não pode avaliar com a tábua de cálculo de sua própria argúcia. Mais avisado é o que muito pondera e pouco promete!
E, após ligeira pausa, acrescentou:
Menos aprendemos com a ciência vã dos brâmanes do que com a experiência direta da vida e das suas lições de todo dia, a toda hora desdenhadas! O homem que mais vive mais sujeito está às inquietações morais, mesmo que não as queira. Achar-se-á ora triste, ora alegre; hoje fervoroso, amanhã tíbio; já ativo, já preguiçoso; a compostura alternará com a leviandade. Só o verdadeiro sábio, instruído nas regras espirituais, se eleva acima dessas vicissitudes, paira por sobre todas essas alternativas!
Essas inesperadas e tão sábias palavras calaram fundo no espírito do rei. Esquecido da montanha de trigo que, sem querer, prometera ao jovem brâmane, nomeou-o seu primeiro-vizir.
E Lahur Sessa, distraindo o rei com engenhosas partidas de xadrez e orientando-o com sábios e prudentes conselhos, prestou os mais assinalados benefícios ao povo e ao país, para maior segurança do trono e maior glória de sua pátria.
Encantado ficou o califa Al-Motacém quando Beremiz concluiu a história singular do jogo de xadrez. Chamou o chefe de seus escribas e determinou que a lenda de Sessa fosse escrita em folhas especiais de algodão e conservada em valioso cofre de prata.
E, a seguir, o generoso soberano deliberou se entregasse ao calculista um manto de honra e 100 cequins de ouro.
Bem disse o filósofo:
Deus fala ao mundo pelas mãos dos generosos(13)!
A todos causou grande alegria o ato de magnanimidade do soberano de Bagdá. Os cortesãos que permaneciam no divã eram amigos do vizir Maluf e do poeta Iezid: era, pois, com simpatia que ouviam as palavras do calculista persa, por quem muito se interessavam.
Beremiz, depois de agradecer ao soberano os presentes com que acabava de ser distinguido, retirou-se do divã. O califa ia iniciar o estudo e julgamento de diversos casos, ouvir os honrados cádis(14) e proferir suas sábias sentenças.
Deixamos o palácio real ao cair da noite. Ia começar o mês de Chá-band(15).

NOTAS
(1) Militares, uma das quatro castas em que se divide o povo hindu. As demais são formadas pelos brâmanes (sacerdotes), vairkas (operários) e sudras (escravos).
(2) Chefe militar.
(3) Livro sagrado dos hindus.
(4) Escravo.
(5) Deusa.
(6) Segundo membro da trindade bramânica.
(7) Nome do inventor do jogo de xadrez. Significa “natural de Lahur”.
(8) Os elefantes foram mais tarde substituídos pelas torres.
(9) Os vizires são as peças chamadas bispos. A rainha não tinha, a princípio, movimentos tão amplos.
(10) Indivíduo pertencente a uma das castas mais ínfimas da costa de Coromandel. Corresponde, na escala social, à casta dos poleás. Na Europa emprega-se o termo no sentido de “homem expulso de sua casta ou classe”.
(11) Para se obter esse total de grãos de trigo, devemos elevar o número 2 ao expoente 64, e do resultado tirar uma unidade. Trata-se de um número verdadeiramente astronômico, de vinte algarismos, que é famoso em Matemática:

18 446 744 073 709 551 615

Chamamos especialmente a atenção dos matemáticos para a nota do Apêndice, intitulada O Problema do Jogo de Xadrez.

(12) Ceira ou cer — Unidade de capacidade e peso usada na Índia. Seu valor variava de uma localidade para outra.
(13) Esse pensamento é de Gibran Khalil Gibran.
(14) Juízes. Denominação dada aos magistrados.
(15) Um dos meses do calendário árabe.

Malba Tahan, em O Homem que Calculava

terça-feira, 10 de março de 2026

Joyce Alane | Melhor Assim / Eu Vou Bater Aí / Aquém

 

Desejo




O mel do desejo –
Quando se alcança algo –
Tem outro sabor.

おお、メル・ド・デセホ –
何かが達成されたとき –
別の味がありました。

Elilson José Batista, em O Sol dá têmpera à espada-de-são-jorge

Hagar, o Horrível

Capítulo 41 – A Alucinação



E era verdade. Entrei apressado, achei Virgília ansiosa, mau humor, fronte nublada. A mãe, que era surda, estava na sala com ela. No fim dos cumprimentos disse-me a moça com sequidão:
Esperávamos que viesse mais cedo.
Defendi-me do melhor modo; falei do cavalo que empacara, e de um amigo, que me detivera. De repente morre-me a voz nos lábios, fico tolhido de assombro. Virgília...
Seria Virgília aquela moça? Fitei-a muito, e a sensação foi tão penosa, que recuei um passo e desviei a vista. Tomei a olhá-la. As bexigas tinham-lhe comido o rosto; a pele, ainda na véspera tão fina, rosada e pura, aparecia-me agora amarela, estigmada pelo mesmo flagelo que devastara o rosto da espanhola. Os olhos, que eram travessos, fizeram-se murchos; tinha o lábio triste e a atitude cansada. Olhei-a bem; peguei-lhe na mão, e chamei-a brandamente a mim.
Não me enganava; eram as bexigas. Creio que fiz um gesto de repulsa.
Virgília afastou-se, e foi sentar-se no sofá. Eu fiquei algum tempo a olhar para os meus próprios pés. Devia sair ou ficar?
Rejeitei o primeiro alvitre, que era simplesmente absurdo, e encaminhei-me para Virgília, que lá estava sentada e calada.
Céus! Era outra vez a fresca, a juvenil, a florida Virgília. Em vão procurei no rosto dela algum vestígio da doença; nenhum havia; era a pele fina e branca do costume.
Nunca me viu? perguntou Virgília, vendo que a encarava com insistência.
Tão bonita, nunca.
Sentei-me, enquanto Virgília, calada, fazia estalar as unhas. Seguiram-se alguns segundos de pausa. Falei-lhe de coisas estranhas ao incidente; ela porém não me respondia nada, nem olhava para mim. Menos o estalido, era a estátua do Silêncio. Uma só vez me deitou os olhos, mas muito de cima, soerguendo a pontinha esquerda do lábio, contraindo as sobrancelhas, ao ponto de as unir; e todo esse conjunto de coisas dava-lhe ao rosto uma expressão média entre cômica e trágica.
Havia alguma afetação naquele desdém; era um arrebique do gesto. Lá dentro, ela padecia, e não pouco, – ou fosse mágoa pura, ou só despeito; e porque a dor que se dissimula dói mais, é mui provável que Virgília padecesse em dobro do que realmente devia padecer. Creio que isto é metafísica.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Libertar-se da tristeza e do temor.

Para quem está imerso em convicções verídicas, o menor e mais comum preceito é suficiente para lembrá-lo de se libertar da tristeza e do temor. Por exemplo:

Às folhas, atira-as o vento ao chão; […]
Assim nasce uma geração de homens; e outra deixa de existir.”

Folhas são seus filhos. São aqueles que clamam como se fossem dignos de crédito, que louvam ou que amaldiçoam, culpam e zombam secretamente. São quem recebe e transmite a fama de um homem para a posterioridade. As folhas “nascem quando a estação da primavera sobrevém”, diria o poeta. Então, o vento as derruba e a floresta faz nascer outras em seus lugares.
A existência de todas as coisas é breve. Ainda assim, você as evita e as persegue como se fossem eternas. Fechará os olhos em instantes. Logo outro lamentará a morte daquele que lamentou a sua.

Marco Aurélio, em Meditações

I Lost My Little Girl – Paul McCartney


I Lost My Little Girl – Paul McCartney
(Composta em 1956, mas só gravada em 1991)

Well I woke up late this morning
My head was in a whirl
And only then I realised
I lost my little girl
Uh huh huh huh

Well her clothes were not expensive
Her hair didn’t always curl
I don’t know why I loved her
But I loved my little girl
Uh huh huh huh huh huh

Não é necessário ser um Sigmund Freud para você reconhecer que a canção é uma resposta muito direta à morte de minha mãe. Ela morreu em outubro de 1956, muito jovem, aos 47 anos. Escrevi esta canção naquele mesmo ano. Na época eu tinha quatorze anos.
Como o meu pai tocava trompete, eu aprendi um pouco. Desisti porque não tinha como cantar com a boquilha na boca. A questão é que a ideia de cantar me agradava e eu estava vendo muita gente entrando em cena. Quando você olha para trás e pensa nisso, o rock’n’roll estava só começando.
Já que o trompete era meio inviável no rock’n’roll, acabei com um violãozinho improvisado. Um Zenith acústico. Era um violão para destros, porque não vendiam violões para canhotos, então tive que adaptar. Virei-o para que as cordas grossas e graves ficassem nos buracos finos e as cordas finas e agudas nos buracos largos. Tive de entalhar os buracos finos para permitir que os fios grossos entrassem e, em seguida, encaixar um pedaço de palito de fósforo em cada buraco largo para que o fio fino passasse por cima. Agora eu tinha um violão para canhotos e poucos acordes no repertório – acordes muito básicos, recém-aprendidos.
Os acordes em “I Lost My Little Girl” vão de Sol a Sol maior com sétima até chegar em Dó, então temos um efeito decrescente. Eu queria que a melodia aumentasse à medida que a progressão dos acordes diminuísse. Então, eu já estava tentando pensar nessas coisas aos quatorze anos, talvez porque sempre convivi com música em casa – meu pai tocava, ou um amigo dele, ou as nossas tias, e eu provavelmente os via improvisando um pouco. Por isso, decidi: enquanto o violão estivesse baixando, o meu canto ia subir.
O verso de abertura, “Well I woke up late this morning”, ou uma variação disso, é um elemento básico do blues americano. Não sei ao certo se eu tinha uma canção de blues em particular na minha cabeça. Era uma configuração bem familiar. Blues 101, ou seja, as 101 progressões essenciais do blues. O verso “Her hair didn’t always curl” me fez encolher de vergonha ao longo dos anos, mas, puxa vida, eu tinha só quatorze anos. E esse, como se diz, foi o primeiro passo.
Eu nem preciso falar, a coisa começou para valer quando eu conheci John Lennon. Fomos apresentados por um amigo em comum, Ivan Vaughan, que me levou para ver John tocar na Woolton Village Fête, na Igreja de São Pedro. O palco era um caminhão-plataforma, e eu achei que John era muito bom. Ele estava cantando “Come Go With Me”, dos Del-Vikings, e eu só conhecia vagamente essa canção. Para mim ficou claro que ele também a conhecia apenas vagamente e estava inventando à medida que prosseguia. Ele cantou algo como “Vem, vem, vem, venha comigo até a penitenciária”. Sem dúvida, a letra não é essa, mas ele deve ter tirado isso de Lead Belly ou de outra pessoa. Achei aquilo muito inteligente da parte dele.
John e eu então nos encontramos no intervalo entre o show diurno e o show noturno, que aconteceu no salão da igreja – e ali tinha uma pequena área de bastidores. Eu me lembro de que havia um piano e eu estava com o meu violão. Então, toquei a canção “Twenty Flight Rock”, que era a minha peça festiva, e ele aparentemente ficou muito impressionado porque eu sabia a letra de cor e salteado.
Eu tive a sensação de que ele não queria realmente fazer uma parceria comigo, porque eu era um pouco mais jovem do que ele, mas ele tinha que admitir, bem, existia um pouco de talento ali.
Compareci ao show naquela noite e depois saí com Ivan e ele. A banda não era grande coisa, mas John era bom. Cerca de uma semana depois, um dos amigos de John, Pete Shotton, me alcançou quando eu estava na minha bicicleta e disse: “Querem você na banda”. Fiz uma pausa e disse: “Vou pensar no assunto”.
Eu não estava me fazendo de difícil. Mas eu era um mocinho precavido. Eu me perguntei se eu realmente queria fazer parte de uma banda. Era uma coisa boa ou seria melhor me dedicar aos estudos?
Para o bem ou para o mal, eu os procurei e disse: “Sim”.

Paul McCartney, em As Letras – 1956 até o presente