quinta-feira, 7 de maio de 2026

Te Faço um Cafuné | Mariana Aydar e Celso Fonseca

 

PdF

Cada um tem a Macondo que merece.

Elilson José Batista, em Alumbramentos

Mãe-gentil

Por um tempo atrás meus filhos andaram me descobrindo. Quero dizer como pessoa, pois como mãe me haviam descoberto desde que nasceram, assim como eu os descobri até antes de eles nascerem. Foi tão curioso como, na descoberta, além de mãe, eles me consideravam uma pessoa com quem conversar. Quando eu ia escovar os cabelos no espelho do banheiro, eles me seguiam para continuar a conversa. Um deles desconfiou do que estava acontecendo e perguntou-me com franqueza: você não estará se fazendo de interessante para nós? Respondi que não, que eles é que estavam interessados em mim. Faziam-me perguntas, respondia o que podia. Um deles um dia desses me pediu: me dê o nome de alguns escritores profundos que eu queria ler. Ah, então ele já estava sentindo necessidade? Fiquei contente, e mais contente ainda de lhe dar nomes de escritores profundos brasileiros. Ele andou lendo uns contos de Tchekhov e gostou. O livro era Contos da velha Rússia, que recomendo aos leitores. É livro de bolso.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

1622 – Sevilha



Os ratos

O padre Antônio Vázquez de Espinosa, recém-chegado da América, é o convidado de honra.
Enquanto os criados servem os pedaços de peru com molho explode no ar a espuma das ondas, alto e branco mar enlouquecido pela tempestade; e quando chegam os frangos recheados desaba sobre a mesa a chuva dos trópicos. Conta o padre Antônio que na costa do mar Caribe chove de tal maneira que esperando que acabe a chuva ficam grávidas as mulheres e nascem os filhos: quando vem a bonança, já são homens.
Os demais convidados, atentos ao relato e ao banquete, comem e calam; o padre tem a boca cheia de palavras e se esquece dos pratos. No chão, sentados sobre almofadões, as crianças e as mulheres escutam como se fosse missa.
Foi uma façanha a travessia entre o porto hondurenho de Trujillo e Sanlúcar e Barrameda. Navegaram as naus aos trambolhões, atormentadas pela borrasca; várias embarcações foram tragadas pelo mar e vários marinheiros pelos tubarões. Mas nada pior, e baixa a voz o padre Antônio, nada pior que os ratos.
Como castigo pelos muitos pecados cometidos na América, e porque ninguém embarca confessado e comungado como é devido, Deus semeou os ratos nos navios. Meteu ratos nos paióis, entre os víveres, e debaixo do castelo da proa; na câmara de popa, nos camarotes e até na cadeira do piloto: temos ratos, e tão grandes, que causavam espanto e admiração. Dezesseis arrobas de pão roubaram os ratos do quarto onde o padre dormia, e os bolos que estavam debaixo da escotilha. Devoraram os presuntos e os toucinhos do tombadilho da popa. Quando iam os sedentos buscar água, encontravam ratos afogados, flutuando nas pipas. Quando iam os famintos ao galinheiro, não encontravam mais que ossos e penas e uma ou outra galinha caída com as patas roídas. Nem os papagaios, em suas gaiolas, se salvaram dos ataques. Os marinheiros vigiavam os restos de água e comida dia e noite, armados de paus e facas, e os ratos atacavam e mordiam mãos e se devoraram entre si.
Entre as azeitonas e as frutas, chegaram os ratos. Estão intactas as sobremesas. Ninguém prova nem uma gota de vinho.
Querem escutar as orações novas que inventei? Como as velhas ladainhas não aplacavam as iras do Senhor...
Ninguém responde.
Tossem os homens, levando o guardanapo à boca. Das mulheres que perambulavam dando ordens ao serviço, não resta nenhuma. As que escutavam sentadas no chão, estão vesgas e boquiabertas. As crianças veem no padre Antônio uma tromba longa, tremendos dentes e bigodes, e torcem o pescoço buscando sua cauda debaixo da mesa.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Cachorro Vai para o Céu?

Tenho um amigo que é pastor de uma igreja presbiteriana no Rio de Janeiro. Parte da missão de um pastor é esclarecer as dúvidas espirituais que porventura possam advir da leitura confusa das Sagradas Escrituras. Pois ele foi procurado por uma senhora já bem velha, solitária, que morava sozinha e tinha como amigo de todas as horas o seu cãozinho, também já velhinho. A aflição da senhora tinha a ver com o fato de que ela acreditava na Bíblia e lia a Bíblia como consolo. Pois houve um texto que a apunhalou: o escrito no livro de Apocalipse, capítulo 22, versículo 15. Nenhuma das passagens terríveis das Sagradas Escrituras a havia abalado. Ela as lera e ficara em paz... Mas esse mínimo versículo havia abalado o seu mundo. Porque esse versículo enumera aqueles que não poderão entrar no Paraíso: “... Fora ficam os cães, os feiticeiros, os impuros...”. “Reverendo, então o meu cãozinho, meu único amigo, não entrará comigo no Paraíso?” Não foi fácil convencer a velhinha. Aí o pastor teve a ideia de invocar a imagem dos rebanhos de ovelhas. Centenas de ovelhas pastando, os lobos à espreita, o pastor sozinho não dá conta, mas os cães estão sempre atentos. Eles são bons. Eles guardam as ovelhas. Por isso os pastores amam os cães. Pastores, ovelhas e cães entrarão todos juntos no Paraíso…

Rubem Alves, em Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo

O louco dos livros



São todos gestos comuns: tirar os óculos da caixa, limpá-los com papel ou tecido, com a bainha da blusa ou a ponta da gravata, empoleirá-los no nariz e firmá-los atrás das orelhas antes de olhar para a página agora lúcida diante de nós. Então, ajustá-los para cima ou para baixo sobre o nariz, para colocar as letras em foco, e, depois de algum tempo, levantá-los e esfregar a pele entre as sobrancelhas, apertando os olhos fechados para manter afastado o texto-sereia. E o ato final: tirá-los, dobrá-los, e inseri-los entre as páginas do livro para marcar o lugar onde paramos a leitura. Na iconografia cristã, Santa Luzia é representada carregando um par de óculos numa bandeja; os óculos são, com efeito, olhos que os leitores de visão ruim podem pôr e tirar à vontade. São uma função destacável do corpo, uma máscara através da qual o mundo pode ser observado, uma criatura semelhante a um inseto, carregada como um animal de estimação à caça de um louva-deus. Discretos, sentados de pernas cruzadas sobre uma pilha de livros ou em pé, em expectativa, num canto atravancado da escrivaninha, eles se tornaram o emblema do leitor, a marca da presença do leitor, um símbolo do ofício do leitor.
É desnorteante imaginar os muitos séculos anteriores a invenção dos óculos, séculos durante os quais os leitores se envesgaram para penetrar nas linhas nebulosas de um texto, e é emocionante imaginar se o alívio extraordinário, quando surgiram os óculos, ao ver subtamente, quase sem esforço, uma página escrita. Um sexto de toda a humanidade é míope; entre os leitores, a proporção é muito maior, perto de 24%. Aristóteles, Lutero, Samuel Pepys, Schopenhauer, Goethe, Schil er, Keats, Tennyson, o dr. Johnson, Alexander Pope, Quevedo, Wordsworth, Daute Gabriel Rossetti, Elizabeth Barrett Browning, Kipling, Edward Lear, Dorothy L. Sayers, Yeats, Unamuno, Rabindranath Tagore, James Joyce - todos tinham visão fraca. Em muitas pessoas essa condição piora, e um notável número de leitores famosos ficou cego na velhice, de Homero a Milton, James Thurber e Jorge Luis Borges. O escritor argentino, que começou a perder a visão no início da década de 1930 e foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires em 1955, quando não enxergava mais, comentou o destino peculiar do leitor debilitado a quem um dia concedem o reino dos livros:

Que ninguém avilte com lágrimas ou reprove
Esta declaração da habilidade de Deus
Que em sua ironia magnífica
Deu-me escuridão e livros ao mesmo tempo.

Borges comparava o destino desse leitor no mundo borrado de “vagas cinzas pálidas semelhantes a olvido e sono" ao destino do rei Midas, condenado a morrer de fome e sede cercado por comida e bebida. Um episódio da série de televisão Além da imaginação, trata de um Midas assim, um leitor voraz que é o único homem a sobreviver a um desastre nuclear. Todos os livros do mundo estão agora à sua disposição; então, acidentalmente, ele quebra seus óculos.
Antes da invenção dos óculos, pelo menos um quarto de todos os leitores teria precisado de letras estradas-grandes para decifrar um texto. As tensões sobre os olhos dos leitores medievais eram grandes: as salas em que tentavam ler eram escurecidas no verão para protegê-las do calor; no inverno, mergulhavam numa escuridão natural, porque as janelas, necessariamente pequenas para proteger das correntes de ar gelado, deixavam entrar pouca luz. Os escribas medievais queixavam-se constantemente das condições em que tinham de trabalhar e rabiscavam amiúde notas sobre suas dificuldades nas margens dos livros. Na metade do século XIII, um certo Florêncio, do qual não sabemos mais nada, exceto o primeiro nome, rabiscou esta descrição lúgubre de seu ofício: "É uma tarefa penosa. Extingue a luz dos olhos, encurva as costas, esmaga as vísceras e as costelas, provoca dor nos rins e cansaço em todo o corpo". Para os leitores com deficiência visual, o trabalho deveria ser ainda pior. Patrick Trevor-Roper sugeriu que eles provavelmente se sentiam mais confortáveis à noite, "porque a escuridão é uma grande igualadora".
Na Babilônia, em Roma e na Grécia, os leitores cuja visão era fraca não dispunham de outro recurso senão ter alguém, geralmente um escravo, que lesse os livros para eles.
Uns poucos descobriram que olhar através de um disco de pedra transparente ajudava.
Escrevendo sobre as propriedades das esmeraldas, Plínio,o Velho, observou de passagem que o imperador Nero, míope, costumava assistir às lutas de gladiadores através de uma esmeralda. Não sabemos se isso amplificava os detalhes sanguinolentos ou se apenas lhes dava uma coloração esverdeada, mas a história sobreviveu ao longo da Idade Média e eruditos como Roger Bacon e seu professor Robert Grosseteste comentaram a notável propriedade da jóia.
Entretanto, poucos leitores tinham acesso a pedras preciosas. A maioria era condenada a passar suas horas de leitura na dependência de leituras vicárias, ou fazendo progressos lentos e dolorosos enquanto os músculos de seus olhos se esforçavam para remediar o defeito. Então, em algum momento do final do século XIII, mudou a sina dos leitores que enxergavam mal.
Não sabemos exatamente quando a mudança ocorreu, mas em 23 de fevereiro de 1306, do púlpito da igreja de Santa Maria Novela, em Florença, Giordano da Rivalto, de Pisa, fez um sermão no qual lembrou a seu rebanho que a invenção dos óculos, "um dos dispositivos mais úteis do mundo", já tinha vinte anos. E acrescentou: "Eu vi o homem que, antes de qualquer outro, descobriu e fez um par de óculos, e falei com ele?”
Nada se sabe desse notável inventor. Talvez tenha sido um contemporâneo de Giordano, um monge chamado Spina, do qual se diz que "fazia óculos e ensinava de graça a arte para os outros". Ou quem sabe tenha sido um membro da Guilda dos Trabalhadores em Cristal de Veneza, onde a arte de fazer óculos já era conhecida em 1301, pois uma das regras da guilda naquele ano explicava o procedimento a ser seguido por quem quisesse "fazer óculos para leitura". Ou quem sabe o inventor não foi um certo Salvino degli Armati, cuja lápide, ainda visível na igreja de Santa Maria Maggiore, em Florença, chama-o de "inventor dos óculos", e acrescenta: "Que Deus perdoe seus pecados. A. D. 1317". Outro candidato é Roger Bacon, a quem já encontramos como mestre catalogador e que Kipling, em um de seus contos, tornou testemunha do uso de um primeiro microscópio árabe contrabandeado para a Inglaterra por um iluminador. No ano de 1268, Bacon escreveu: "Se alguém examinar letras ou objetos pequenos olhando através do meio de um cristal ou vidro no formato do menor segmento de uma esfera, com todos os lados convexos voltados para o olho, verá as letras muito melhor e maiores. Tal instrumento é útil a todas as pessoas . Quatro séculos depois, Descartes ainda louvava a invenção dos óculos: "Toda a administração de nossas vidas depende dos sentidos, e, uma vez que a visão é o mais abrangente e o mais nobre deles, não há dúvida de que as invenções que servem para aumentar seu poder estão entre as mais úteis que possa haver".
A representação mais antiga que se conhece de um par de óculos está num retrato do cardeal Hugo de St. Cher. na Provença, feita por Tommaso da Modena. Mostra o cardeal em traje completo, sentado à sua mesa, copiando de um livro aberto apoiado numa estante um pouco acima dele, à direita. Os óculos, conhecidos como "óculos de rebite", semelhantes a um pincenê, consistem de duas lentes redondas presas em armação grossa articulada acima do cavalete do nariz, de forma que a pressão possa ser regulada.
Até boa parte do século XV, os óculos de leitura eram um luxo: custavam caro e, em termos comparativos, poucas pessoas precisavam deles, uma vez que os livros estavam nas mãos de uma seleta minoria. Depois da invenção da imprensa e da relativa popularização dos livros, a demanda por óculos aumentou; na Inglaterra, por exemplo, mascates iam de vila em vila vendendo "óculos continentais baratos". Em 1466, apenas onze anos depois da publicação da primeira Bíblia de Gutenberg, fabricantes de óculos ficaram conhecidos em Estrasburgo, em Nuremberg, no ano de 1478 e em Frankfurt, em 1540. É possível que óculos melhores e em maior quantidade tenham permitido que mais leitores se tornassem leitores melhores e comprassem mais livros, e que por esse motivo os óculos tenham sido associados ao intelectual, ao bibliotecário, ao erudito.
A partir do século XIV, os óculos foram acrescentados a numerosas pinturas, para marcar a natureza estudiosa e sábia de uma personagem. Em muitas representações do Adormecimento ou Morte da Virgem, vários dos médicos e magos em torno de seu leito mortuário acham-se usando óculos de vários tipos. No quadro anônimo que se encontra no mosteiro de Neuberg, em Viena, um par de óculos foi acrescentado séculos depois ao sábio de barbas brancas, a quem um jovem desconsolado mostra um grosso volume. A implicação parece ser a de que nem o mais sábio dos eruditos possui sabedoria suficiente para curar a Virgem e mudar seu destino.
Na Grécia, em Roma e Bizâncio, o poeta-erudito - o doctus poeta, representado segurando uma tabuleta ou um rolo - foi considerado um modelo, mas esse papel estava confinado aos mortais. Os deuses jamais se ocupavam de literatura; as divindades gregas e latinas jamais eram mostradas segurando um livro. O cristianismo foi a primeira religião a pôr um livro nas mãos de seu deus, e, a partir da metade do século XIV, o livro emblemático cristão passou a ser acompanhado por outra imagem, a dos óculos. A perfeição de Cristo e de Deus Pai não justificaria representá-los como míopes, mas os Pais da Igreja - são Tomás de Aquino, santo Agostinho - e os autores antigos admitidos no cânone católico - Cícero, Aristóteles - às vezes foram representados carregando um douto volume e usando os sábios óculos do conhecimento.
No final do século XV, os óculos já eram suficientemente conhecidos para simbolizar não somente o prestígio da leitura, mas também seus excessos. A maioria dos leitores, naquele tempo como agora, passou em algum momento pela humilhação de ouvir que sua ocupação é repreensível. Lembro que riram de mim, durante um recreio na sexta ou sétima série, por eu ter ficado dentro do prédio lendo, e lembro que no fim do escárnio eu estava estatelado no chão, meus óculos chutados para um lado, meu livro para o outro.
"Você não vai gostar do filme", foi o veredicto de uns primos que, tendo visto meu quarto cheio de livros, acharam que eu não gostaria de assistir a um faroeste com eles. Minha avó, vendo-me ler nas tardes de domingo, dizia suspirando: "Você sonha acordado" - porque minha inatividade parecia-lhe um ócio inútil e um pecado contra a alegria de viver.
Preguiçoso, débil, pretensioso, pedante, elitista, estes são alguns dos epítetos que acabaram associados ao intelectual distraído, ao leitor míope, ao rato de biblioteca, ao nerd. Enterrado nos livros, isolado do mundo dos fatos, do mundo de carne e osso, sentindo-se superior aos não-familiarizados com as palavras preservadas entre capas poeirentas, o leitor de óculos que pretendia saber o que Deus, em sua sabedoria, havia escondido, era considerado um louco, e os óculos tornaram-se emblemas da arrogância intelectual.
Em fevereiro de 1494, durante o famoso carnaval da Basiléia, o jovem doutor em leis Sebastião Brant publicou um pequeno volume de versos alegóricos em alemão, intitulado Das Narrenschiff ou A nau dos insensatos. O sucesso foi imediato: no primeiro ano houve três reimpressões, e em Estrasburgo, terra natal de Brant, um editor empreendedor, ansioso por participar dos lucros, encomendou a um poeta desconhecido um acréscimo de quatrocentas linhas ao livro. Brant se queixou dessaforma de plágio, mas em vão.
Dois anos depois, pediu a seu amigo Jacques Locher, professor de poesia na Universidade de Freiburg, que traduzisse o livro para o latim. Locher assim o fez, mas alterou a ordem dos capítulos e incluiu variações de sua lavra. Por mais que o texto original de Brant mudasse, o número de leitores continuou aumentando até o século XVII.
Seu sucesso era devido, em parte, às xilogravuras que o ilustravam, muitas feitas por um Albrecht Dürer de 22 anos de idade. Mas, em larga medida, o sucesso era do próprio Brant. Ele fizera um levantamento meticuloso das loucuras ou pecados de sua sociedade, do adultério e do jogo à falta de fé e à ingratidão, em termos precisos e atualizados. Por exemplo, a descoberta do Novo Mundo, que acontecera menos de dois anos antes, é mencionada no livro para exemplificar as loucuras da curiosidade invejosa. Dürer e outros artistas ofereceram aos leitores de Brant imagens comuns desses novos pecadores, reconhecíveis de imediato por seus pares na vida cotidiana, mas foi o próprio Brant quem rascunhou as ilustrações destinadas a acompanhar o texto.
Uma dessas imagens, a primeira depois do frontispício, ilustra a loucura do intelectual. O leitor que abrisse o livro de Brant seria confrontado com a própria imagem: um homem em seu escritório, cercado por livros. Há livros por toda parte: nas estantes atrás dele, em ambos os lados da mesa de leitura, dentro de compartimentos da própria escrivaninha. O homem veste um gorro de dormir (para esconder suas orelhas de asno) e, atrás dele, pende uma carapuça de bufão com sinos, enquanto a mão direita segura um espanador para espantar as moscas que tentam pousar nos livros. Ele é o Büchernarr, "o louco dos livros”, o homem cuja loucura consiste em se enterrar nos livros. Sobre seu nariz repousa um par de óculos.
Esses óculos o acusam: eis um homem que não vê o mundo diretamente, preferindo espiar as palavras mortas numa página impressa. Diz o leitor insensato de Brant: "É por uma razão muito boa que sou o primeiro a subir ao barco. Para mim, o livro é tudo, mais precioso ainda que o ouro. / Tenho grandes tesouros aqui, dos quais não entendo patavina". Ele confessa que, na companhia de homens cultos que citam livros sábios, adora poder dizer:
"Tenho todos esses volumes em casa"; ele se compara a Ptolomeu II de Alexandria, que acumulou livros, mas não conhecimento. Graças ao livro de Brant, a imagem do erudito idiota de óculos logo se tornou um ícone comum; já em 1505, no De fide concubinarum de Olearius, um asno está sentado numa escrivaninha idêntica, óculos sobre o nariz e espanta-moscas na pata, lendo um grande livro aberto para uma turma de alunos-bestas.
A popularidade do livro de Brant foi tanta que, em 1509, o humanista Geiler von Kaysersberg começou a pregar uma série de sermões baseados no elenco de loucos de Brant, um para cada domingo. O primeiro sermão, correspondente ao primeiro capítulo do livro de Brant, foi sobre o louco dos livros, é claro. Brant emprestara ao idiota palavras para que ele se autodescrevesse: Geiler usou a descrição para dividir seu maluco livresco em sete tipos, cada um deles reconhecível pelo tilintar de um dos sinos do bufão.
Segundo Geiler, o primeiro sino anuncia o louco que coleciona livros por ostentação, como se fossem uma mobília cara. No primeiro século da era cristã, O filósofo latino Sêneca (que Geiler gostava de citar) já denunciava o acumulo exibicionista de livros: Muita gente sem educação escolar usa livros não como instrumento de estudo, mas como decoração para a sala de jantar". Geiler insiste: Aquele que quer livros para ganhar fama deve aprender algo com eles; não deve armazená-los em sua biblioteca, mas na cabeça.
Mas este primeiro louco pôs seus livros em correntes e fez deles prisioneiros; se pudessem se libertar e falar; arrastariam-no até o juiz. exigindo que ele, e não eles, fosse encarcerado". O segundo sino chama o idiota que deseja ficar sábio consumindo livros em demasia. Geiler compara-o a um estômago embrulhado por excesso de comida e a um general embaraçado num cerco por ter soldados demais. "Que devo fazer? - perguntais. Devo jogar todos os meus livros fora?" Podemos imaginar Geiler apontando o dedo para determinado paroquiano entre seu público dominical. "Não, isso não deveis fazer. Mas deveis selecionar aqueles que vos são úteis e usá-los no momento certo." O terceiro sino tilinta para o idiota que coleciona livros sem realmente lê-los, apenas borboleteando por eles para satisfazer sua curiosidade ociosa. Geiler o compara a um louco que corre pela cidade e, enquanto passa voando, tenta observar em detalhe os signos e emblemas nas fachadas das casas. Isso, diz ele, é não só impossível, mas também um lamentável desperdício de tempo.
O quarto sino chama o louco que ama livros suntuosamente iluminados. Pergunta Geiler: "Não é uma loucura pecaminosa banquetear os olhos com ouro e prata quando tantos filhos de Deus passam fome? Não têm os vossos olhos o sol, a lua, as estrelas, as muitas flores e outras coisas para vos agradar?". Que necessidade temos de figuras humanas ou flores em um livro? As que Deus provê não são suficientes? E Geiler conclui que esse amor por imagens pintadas "é um insulto à sabedoria". O quinto sino anuncia o idiota que encaderna seus livros com panos suntuosos. (Aqui novamente Geiler faz um empréstimo silencioso junto a Sêneca, que protestava contra o colecionador que "tira seu prazer de encadernações e rótulos" e em cujo lar analfabeto "podem-se ver as obras completas de oradores e historiadores em estantes que vão até o teto, porque, como os banheiros, a biblioteca tornou-se ornamento essencial numa casa rica".) O sexto sino chama o idiota que escreve e produz livros mal escritos sem ter lido os clássicos e sem nenhum conhecimento de ortografia, gramática ou retórica. É o leitor que se torna escritor, seduzido pela ideia de colocar seus pensamentos garatujados ao lado das obras dos grandes escritores. Por fim - numa mudança paradoxal que os futuros anti-intelectuais ignorariam - o sétimo e último louco dos livros é aquele que despreza completamente os livros e zomba da sabedoria que se pode obter deles.
Por meio da imaginação intelectual de Brant, Geiler, o intelectual, forneceu argumentos para os anti-intelectuais de seu tempo que viviam na incerteza de uma época em que as estruturas civis e religiosas da sociedade europeia romperam-se com guerras dinásticas que alteraram seus conceitos de história, com explorações geográficas que mudaram seus conceitos de espaço e comércio, com cismas religiosos que mudaram para sempre seu conceito de quem eram, por que eram e do que faziam na terra. Geiler armou-os com um catálogo inteiro de acusações que lhes permitiu, como sociedade, ver erros não em suas ações, mas nos pensamentos sobre suas ações, em suas fantasias, suas ideias, suas leituras.
Muitos daqueles que frequentavam a catedral de Estrasburgo todos os domingos, ouvindo as diatribes de Geiler contra as loucuras do leitor desorientado, acreditavam provavelmente que ele estava fazendo eco ao rancor popular contra o homem lido. Posso imaginar a sensação de desconforto daqueles que, como eu, usavam óculos, talvez tirando-os sub-repticiamente no momento em que esses ajudantes se tornavam de súbito uma insígnia de desonra. Mas Geiler não estava atacando o leitor e seus óculos. Longe disso: seus argumentos eram os do clérigo humanista, crítico da competição intelectual vazia e amadorística, porém defensor da necessidade de conhecimento letrado e do valor dos livros. Ele não compartilhava do ressentimento crescente entre a população em geral, que considerava os intelectuais indevidamente privilegiados, sofrendo do que John Donne descreveu como "defeitos da solidão" escondendo-se da verdadeira labuta do mundo naquilo que vários séculos depois Gérard de Nerval, seguindo Sainte-Beuve, chamaria de torre de marfim, o refúgio "para onde subimos cada vez mais alto para nos isolarmos da multidão", longe das ocupações gregárias da gente comum. Três séculos depois de Geiler, Thomas Carlyle, falando em defesa do erudito-leitor, emprestou-lhe traços heróicos: "Ele, com seus direitos e erros autorais, em sua esquálida água-furtada, em seu paletó desbotado, governando (pois é isso que faz) de seu túmulo, após a morte, nações e gerações inteiras que lhe deram, ou não, pão enquanto vivia”. Mas persistia a visão preconceituosa do leitor como um intelectualoide distraído, um trânsfuga do mundo, um sonhador de olhos abertos, de óculos, enfiado no livro num canto recluso.
O escritor espanhol Jorge Manrique, contemporâneo de Geiler, dividia a humanidade entre "aqueles que vivem de seu próprio esforço e os ricos". Logo essa divisão passou para "os que vivem de seu próprio esforço" e "o louco dos livros", o leitor de quatro olhos.
É curioso que os óculos nunca tenham perdido essa associação não mundana. Mesmo aqueles que querem parecer sábios (ou pelo menos livrescos) em nosso tempo aproveitam-se dos símbolos; um par de óculos, de grau ou não, prejudica a sensualidade do rosto e sugere preocupações intelectuais. Tony Curtis usa óculos roubados enquanto tenta convencer Marilyn Monroe de que não passa de um milionário ingênuo em Quanto mais quente melhor. E, nas palavras famosas de Dorothy Parker, Men seldom make passes / At girls who wear glasses [Os homens raramente cantam / garotas que usam óculos]. Mas no século XVIII, Antônio José da Silva faz seu diabinho chamar a atenção do aventuroso soldado Peralta dizendo-lhe que as belas e sensuais mulheres que o Diabo quer que ele seduza se tornaram, na verdade, vítimas do pecado da Preguiça graças "às leituras em excesso": os livros as corromperam. Opor a força do corpo ao poder da mente, separar o homme moyen sensuel do intelectual, isso exige argumentos elaborados. De um lado estão os trabalhadores, os escravos sem acesso a livros, as criaturas de ossos e nervos, a maioria da humanidade; do outro, a minoria, os pensadores, a elite dos escribas, os intelectuais supostamente aliados às autoridades, ou, ao contrário, que conspiram contra elas. Durante o regime do Khmer Vermelho de Pol Pot, no Camboja, as pessoas que usavam óculos eram mortas porque se supunha que podiam ler e, portanto, teriam acesso a informações que lhes permitiriam criticar o governo. Discutindo o significado da felicidade, Sêneca concedeu à minoria a fortaleza da sabedoria e desprezou a opinião da maioria: "O melhor deveria ser escolhido pela maioria, mas, ao contrário, o populacho prefere o pior [...] Nada é tão nocivo quanto ouvir o que o povo diz, considerar certo o que é aprovado pela maioria e tomar como modelo o comportamento das massas, que vivem não conforme a razão, mas para se conformar".
O erudito inglês John Carey, analisando a relação entre os intelectuais e as massas na virada do século, descobriu que a opinião de Sêneca encontrava eco em muitos dos mais famosos escritores britânicos dos períodos vitoriano tardio e eduardiano. Carey concluiu: "Tendo em vista as multidões pelas quais o indivíduo é cercado, é praticamente impossível considerar que todos os outros têm uma individualidade equivalente à nossa.
A massa, como conceito redutivo e excludente, é inventada para aliviar essa dificuldade".
O argumento que opõe aqueles com direito a ler, porque podem ler "bem" (como os temíveis óculos parecem indicar), e aqueles a quem a leitura deve ser negada, porque "não entenderiam", é tão antigo quanto especioso. "Depois que uma coisa é escrita,"
Sócrates argumentava, “o texto, qualquer que seja, é levado de lugar para lugar e cai nas mãos não apenas daqueles que o compreendem, mas também nas de quem não tem nada a ver com ele [grifo meu]. O texto não sabe como se dirigir às pessoas certas e como não se dirigir às pessoas erradas. E quando é mal tratado e abusado, precisa sempre que seu pai venha socorrê-lo, sendo incapaz de se defender ou de se ajudar por si mesmo." Leitores certos e errados: para Sócrates parece haver uma interpretação "correta" do texto, disponível apenas para uns poucos especialistas ínformados. Na Inglaterra vitoriana, Matthew Arnold repetiria essa opinião esplendidamente arrogante: "Somos [...] a favor de não transmitir a herança nem aos bárbaros, nem aos filisteus, nem ao populacho". Tentando entender o que era exatamente a herança, Aldous Huxley definiu-a como o conhecimento especial acumulado de qualquer família unida, a propriedade comum de todos os seus membros: "Quando nós, da grande Família Cultural, nos reunimos, trocamos reminiscências a respeito do vovô Homero, daquele terrível dr. Johnson, da tia Safo e do pobre John Keats.
E você lembra daquela coisa absolutamente preciosa que o tio Virgílio disse? Sabe?
Timeo Danaos. [...] Precioso; nunca vou esquecer.' Não, jamais esqueceremos. E mais: tomaremos todo o cuidado para que aquela gente horrível que teve a impertinência de nos invocar, para que aqueles intrusos desgraçados que nunca conheceram o querido e doce e velho tio V. nunca esqueçam também. Faremos com que se lembrem constantemente de sua condição de intrusos".
O que veio primeiro? A invenção das massas - que Thomas Hardy descreveu como "uma aglomeração de gente [...] contendo uma certa minoria dotada de almas sensíveis; estes, e os aspectos destes, sendo o que vale a pena observar" - ou a invenção do louco dos livros de quatro olhos, que se julga superior ao resto do mundo e por quem o mundo passa dando risada?
A cronologia não importa. Ambos os estereótipos são ficções e ambos são perigosos, porque sob a capa de crítica moral ou social eles são utilizados na tentativa de restringir um oficio que, em sua essência, não é limitado nem limitador. A realidade da leitura está em outro lugar. Tentando descobrir nos mortais comuns uma atividade afim à escrita criadora, Sigmund Freud sugeriu que se poderia fazer uma comparação entre as invenções da ficção e as da fantasia, pois ao ler ficção "nossa fruição real de uma obra de imaginação vem da liberação de tensões em nossa mente [...] permitindo-nos daí por diante fruir de nossas fantasias sem auto-recriminação ou vergonha". Mas essa não é certamente a experiência da maioria dos leitores. Dependendo do tempo e do lugar, de nosso humor e nossa memória, de nossa experiência e nosso desejo, a fruição da leitura, na melhor das hipóteses, aumenta, em vez de liberar, as tensões de nossa mente, retesando-as para que se manifestem, tornando-nos mais, e não menos, conscientes de sua presença. É verdade que às vezes o mundo da página passa para o nosso consciente imaginaire - nosso vocabulário cotidiano de imagens - e então vagamos a esmo naquelas paisagens ficcionais, perdidos de admiração, como dom Quixote. Mas, na maior parte do tempo, pisamos em terra firme. Sabemos que estamos lendo, mesmo quando suspendemos a descrença; sabemos porque lemos mesmo quando não sabemos como, mantendo em nossa mente, a um só tempo, o texto ilusivo e o ato de ler Lemos para descobrir o final, pelo prazer da história, não pelo prazer da leitura em si. Lemos buscando, como rastreadores, esquecidos de onde estamos. Lemos distraidamente, pulando páginas. Lemos com desprezo, admiração, negligência, raiva, paixão, inveja, anelo. Lemos em lufadas de súbito prazer, sem saber o que provocou esse prazer "O que é, no fim das contas, essa emoção?" - pergunta Rebecca West depois de ler o Rei Lear.
"Que poder têm as grandes obras de arte sobre minha vida para fazer com que eu me sinta tão contente?" Não sabemos: lemos ignorantemente. Lemos em movimentos longos, lentos, como que pairando no espaço, sem peso. Lemos cheios de preconceitos, com malignidade. Lemos generosamente, arranjando desculpas para o texto, preenchendo lacunas, corrigindo erros. E às vezes, quando as estrelas são favoráveis, lemos de um único fôlego, com um arrepio, como se alguém ou algo tivesse "caminhado sobre nosso túmulo", como se uma memória tivesse subitamente sido resgatada de um lugar no fundo de nós mesmos - o reconhecimento de algo que nunca soubemos que estava lá, ou de algo que sentimos vagamente, como um bruxuleio ou uma sombra, cuja forma fantasmagórica ergue-se e instala-se em nós sem que possamos ver o que é, deixando-nos mais velhos e sábios.
Essa leitura tem uma imagem. Uma fotografia tirada em 1940, durante o bombardeio de Londres na Segunda Guerra Mundial, mostra os restos de uma biblioteca desmoronada.
Pelo teto destruído veem-se prédios fantasmagóricos do lado de fora, e, no centro da peça, há uma pilha de vigas e móveis em pedaços. Mas as estantes na parede ficaram firmes e os livros parecem inteiros. Três homens encontram-se no meio dos destroços: um, como se hesitasse sobre qual livro escolher, está aparentemente lendo os títulos nas lombadas; outro, de óculos, está pegando um volume; o terceiro está lendo, segurando um livro aberto nas mãos. Eles não estão dando as costas para a guerra, nem ignorando a destruição. Não estão escolhendo os livros em vez da vida lá fora. Estão tentando persistir contra as adversidades óbvias; estão afirmando um direito comum de perguntar; estão tentando encontrar uma vez mais - entre as ruínas, no reconhecimento surpreendente que a leitura às vezes concede – uma compreensão.

Alberto Manguel, em Uma História da Leitura

quarta-feira, 6 de maio de 2026

⁠9 Linhas e 22 Toques corpo à Escolha do Diagramador | Chico César

Enguiço

Eis um amor que bate à porta
em hora imprópria.
Ousado, liga a lâmpada frouxa,
joga a trouxa de roupa ainda manchada
do sangue das costas lanhadas.
Impõe cadeado no portão,
como se não fosse sair mais,
caminha decidido sobre minha paz.
Esse temido amor de hora errada
já vem assobiando pelo corredor.
O trinco da porta é fraco
e não sustenta;
a oração é rala e pouco aguenta,
o medo é pequeno e permissivo.
A tal amor que chega inoportuno,
eu me condeno.
Porque me condeno é que me sinto vivo.

Flora Figueiredo, em Amor a céu aberto

Hagar, o Horrível

Diário de Bernardo Soares

105.

Estética da abdicação

Conformar-se é submeter-se e vencer é conformar-se, ser vencido. Por isso toda a vitória é uma grosseria. Os vencedores perdem sempre todas as qualidades de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele que se conforma, que não tem a mentalidade do vencedor. Vence só quem nunca consegue. Só é forte quem desanima sempre. O melhor e o mais púrpura é abdicar. O império supremo é o do Imperador que abdica de toda a vida normal, dos outros homens, em quem o cuidado da supremacia não pesa como um fardo de joias.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Diálogo de bar

Mas há as compreensivas.
Ah! essas são muito piores!

Mário Quintana, em Caderno H

O Homem que Calculava — Capítulo 18



No dia seguinte, à primeira hora da sobh(1), um egípcio veio, com uma carta do poeta Iezid, buscar-nos em nossa modesta hospedaria.
 Ainda é muito cedo para a aula — advertiu tranquilo Beremiz. — Receio que a minha paciente aluna não esteja avisada.
O egípcio explicou que o xeque, antes da aula de Matemática, desejava apresentar o calculista persa a um grupo de amigos. Convinha, pois, chegássemos mais cedo ao palácio do poeta.
Desta vez, por precaução, fomos acompanhados por três escravos negros, fortes e decididos, pois era muito possível que o terrível e ciumento Tara-Tir tentasse, em caminho, assaltar o nosso grupo e assassinar o calculista no qual, ao que parece, vislumbrava odiento rival.
Uma hora depois, sem que nada de anormal nos sucedesse, chegamos à deslumbrante residência do xeque Iezid. O servo egípcio conduziu-nos, através de interminável galeria, até um rico salão azul adornado com frisos dourados. Ali se encontrava o pai de Telassim, rodeado de vários letrados e poetas.

 Salam aleicum!
 Massa al-quair!
 Venda azzaiac!(2)

Trocadas as delicadas saudações, o dono da casa dirigiu-nos amistosas palavras e convidou-nos a tomar assento naquela reunião.
Sentamo-nos sobre fartos coxins de seda. Uma escrava morena, de olhos negros e vivos, trouxe-nos frutas, doces e água com rosa.
Notei uma túnica de cetim branco de Gênova, apertada por um cinto azul todo constelado de brilhantes, de onde pendia lindo punhal com o cabo marchetado de lápis-lazúli e safiras. Coroava-o vistoso turbante de seda cor-de-rosa semeado de gemas preciosas e enfeitado de fios negros. A mão trigueira e fina realçava o brilho dos valiosos anéis que lhe pesavam nos dedos esguios.
 Ilustre geômetra — disse o xeque Iezid, dirigindo-se ao calculista —, bem sei que estás surpreendido com a reunião que promovi hoje nesta modestíssima tenda. Cabe-me, portanto, dizer-te que esta reunião não envolve outra finalidade senão homenagear o nosso ilustre hóspede, o príncipe Cluzir-el-din-Mubarec-Schá, senhor de Laore e Délhi!
Beremiz, com leve inclinação do busto, fez um salã ao grande marajá de Laore, que era o jovem de cinto de brilhantes.
Já sabíamos, das palestras habituais com que nos divertiam os forasteiros na hospedaria, que o príncipe deixara os seus ricos domínios na Índia para cumprir um dos deveres do bom muçulmano — fazer a peregrinação a Meca, a Pérola do Islã. Poucos dias, portanto, ficaria entre os muros de Bagdá; muito breve partiria, com seus numerosos servos e ajudantes, para a Cidade Santa.
 Desejamos, ó Calculista — prosseguiu Iezid —, o vosso auxílio para que possamos esclarecer uma dúvida sugerida pelo príncipe Cluzir Schá. Qual foi a contribuição com que a ciência dos hindus enriqueceu a Matemática? Quais os principais geômetras que mais se destacaram, na Índia, por seus estudos e pesquisas?
 Xeque generoso! — respondeu Beremiz. — Sinto que a tarefa que acabais de lançar-me sobre os ombros é daquelas que exigem erudição e serenidade. Erudição para conhecer, com todos os pormenores, os fatos apontados pela História das Ciências e serenidade para analisá-los e julgá-los com elevação e discernimento. Os vossos menores desejos, ó Xeque, são, entretanto, ordens para mim. Vou, pois, expor nesta brilhante reunião, como tímida homenagem ao príncipe Cluzir Schá (que acabo de ter a honra de conhecer), as pequenas noções que aprendi nos livros sobre o desenvolvimento da Matemática no país do Ganges.
E o Homem que Calculava assim começou:
 Nove ou dez séculos antes de Maomé, viveu na Índia um brâmane ilustre que se chamava Apastamba. Com o intuito de esclarecer os sacerdotes sobre os processos para construir os altares e orientar os templos, elaborou esse sábio uma obra intitulada Suba-Sultra, que contém numerosos ensinamentos matemáticos. É pouco provável que essa obra tenha recebido influência dos pitagóricos(3), pois a Geometria do sacerdote hindu não segue o método dos pesquisadores gregos. Encontram-se, entretanto, nas páginas de Suba-Sultra vários teoremas de Matemática e pequenas regras sobre construções de figuras. Para ensinar a transformação conveniente de um altar, o judicioso Apastamba é levado a construir um triângulo retângulo cujos lados medem respectivamente 39, 36 e 15 polegadas. Para a solução desse curioso problema, aplicava o brâmane um princípio que era atribuído ao grego Pitágoras:




E, voltando-se para o xeque Iezid, que tudo ouvia com a maior atenção, o calculista assim falou:
Melhor poderia esclarecer, por meio de figuras, essa proposição famosa que todos devem conhecer.
O xeque Iezid ergueu a mão e fez um sinal aos seus auxiliares. Dentro de poucos instantes dois escravos trouxeram para o salão uma grande caixa com areia. Sobre a superfície clara da areia, poderia Beremiz traçar figuras e esboçar cálculos e problemas a fim de esclarecer o Príncipe de Laore.
Aqui está — explicou Beremiz, traçando na areia com o auxílio de uma haste de bambu —, aqui está um triângulo retângulo. O lado maior é denominado hipotenusa e os outros dois lados chamaremos catetos.
Vamos, agora, construir três quadrados: um sobre a hipotenusa, outro sobre o primeiro cateto e o terceiro sobre o segundo cateto. Será fácil provar que o quadrado maior (construído sobre a hipotenusa) tem a área exatamente igual à soma das áreas dos dois outros quadrados (construídos sobre os catetos).
Perguntou o príncipe se aquela relação era verdadeira para todos os triângulos.
Com ar grave, respondeu Beremiz:
Essa proposição é verdadeira para todos os triângulos retângulos. Direi, sem receio de errar, que a lei de Pitágoras exprime uma verdade eterna. Mesmo antes de brilhar o sol que os ilumina, antes de existir o ar que respiramos, já o quadrado construído sobre a hipotenusa era igual à soma dos quadrados construídos sobre os catetos.
Mostrava-se o príncipe interessadíssimo com os esclarecimentos que ouvia do calculista. E falando ao poeta Iezid, observou com simpatia:
Coisa maravilhosa, meu amigo, é a Geometria! Que ciência notável! Percebemos em seus ensinamentos duas faces que encantam o homem mais rude e mais desinteressado pelas coisas do pensamento: clareza e simplicidade.
E tocando de leve com a mão esquerda no ombro de Beremiz, interpelou o calculista com honrosa naturalidade.
E essa proposição, que os gregos estudaram, já aparece no tal livro Suba-Sultra do velho brâmane Apastamba?
Respondeu Beremiz sem hesitar:
Sim, ó Príncipe, a chamada Lei de Pitágoras pode ser lida nas folhas do Suba-Sultra sob uma forma um pouco diferente. Pela leitura dos escritos de Apastamba aprendiam, ainda, os sacerdotes, para o cálculo dos altares, a transformar um retângulo num quadrado equivalente, isto é, num quadrado que tivesse a mesma área.
E surgiram, na Índia, outras obras de cálculo dignas de destaque? — indagou o príncipe.
Várias outras — acudiu, prontamente, Beremiz. — Citarei a curiosa Suna-Sidauta, obra de autor desconhecido, mas de muito valor, pois expõe, de forma muito singela, as regras da numeração decimal e mostra que o zero é de alta importância no cálculo. Não menos notáveis, para a Ciência dos Brâmanes, foram os escritos de dois sábios que são hoje apontados pela admiração dos geômetras: Aria-Bata e Brama-Gupta. O tratado de Aria-Bata era dividido em quatro partes: Harmonias Celestes, O Tempo e suas Medidas, As Esferas e Elementos de Cálculo. Não poucos foram os erros apontados nos escritos de Aria-Bata. Esse geômetra ensinava, por exemplo, que o volume da pirâmide se obtém multiplicando-se a metade da base pela altura.
E essa regra não está certa? — interrompeu o príncipe.
Está, na verdade, errada — respondeu Beremiz. — Totalmente errada. Para o cálculo do volume de uma pirâmide devemos multiplicar não a metade, mas a terça parte da área da base (avaliada em polegadas quadradas) pela altura (avaliada em polegadas).
Achava-se ao lado do Príncipe de Laore um homem alto, magro, ricamente trajado, de barba grisalha, meio avermelhado. Tipo estranho nos meios dos hindus. Julguei que era um caçador de tigres; enganei-me. Era um astrólogo hindu que acompanhava o príncipe em sua peregrinação a Meca. Ostentava um turbante azul de três voltas, bastante escandaloso. Chamava-se Sadhu Gang e mostrava-se muito interessado em ouvir as palavras do calculista.
Em dado momento o astrólogo Sadhu resolveu intervir nos debates. Falando mal, com sotaque estrangeiro, perguntou a Beremiz:
É verdade que a Geometria, na Índia, foi cultivada por um sábio que conhecia os segredos dos astros e os altos mistérios dos céus?
Aquela pergunta não perturbou o calculista. Depois de meditar durante alguns instantes, tomou Beremiz a sua haste de bambu, desmanchou todas as figuras que se achavam no tabuleiro de areia e escreveu apenas um nome:

Bháskara, o Sábio.

E disse com certa ênfase:
Eis o nome do mais famoso geômetra da Índia. Conhecia Bháskara os segredos dos astros e estudava os altos mistérios dos céus. Nasceu esse astrônomo em Bidom, na província de Deca, cinco séculos depois de Maomé. A primeira obra de Bháskara intitulava-se Bija-ganita.
Bija-ganita? — repetiu o homem do turbante azul. — Bija quer dizer semente, e ganita, num dos nossos velhos dialetos, significa contar, avaliar, medir.
É isso mesmo — confirmou Beremiz numa sinceridade veemente. — É isso mesmo. A melhor tradução para o título dessa obra de Bháskara seria: a Arte de Contar Sementes. Mas, além do Bija-ganita, elaborou o judicioso Bháskara outra obra que se tornou famosa: Lilaváti. Sabemos que era esse o nome da filha de Bháskara.
O astrólogo do turbante azul voltou a interromper:
Dizem que há um romance, ou uma lenda, em torno de Lilaváti. Conhece, ó Calculista, esse romance ou essa lenda?
Sim, sim — acudiu Beremiz. — Conheço-o perfeitamente e, se for do agrado do nosso príncipe, poderei contá-la.
Por Alá! — interveio prontamente o Príncipe de Laore. — Vamos ouvir a lenda de Lilaváti. Ponho todo o empenho em conhecê-la! A mim, palpita-me que deve ser muito interessante.
Nesse momento, a um sinal do poeta Iezid, o dono da casa, surgiram na sala cinco ou seis escravos, oferecendo, aos seus convidados, bolos de faisão, doces de leite, bebidas e tâmaras.
Logo que terminou aquela deliciosa refeição (e feitas as abluções do ritual) foi dada, novamente, a palavra ao calculista.
Beremiz ergueu-se, correu o olhar por todos os presentes, e assim começou:
Em nome de Alá, Clemente e Misericordioso!(4) Conta-se que o famoso geômetra Bháskara, o Sábio, tinha uma filha chamada Lilaváti.
A origem do Lilaváti é muito interessante. Vou recordá-la. Bháskara tinha uma filha chamada Lilaváti. Quando essa menina nasceu, consultou ele as estrelas e verificou, pela disposição dos astros, que sua filha, condenada a permanecer solteira toda a vida, ficaria esquecida pelo amor dos jovens patrícios. Não se conformou Bháskara com essa determinação do Destino e recorreu aos ensinamentos dos astrólogos mais famosos do tempo. Como fazer para que a graciosa Lilaváti pudesse obter marido, sendo feliz no casamento?
Um astrólogo, consultado por Bháskara, aconselhou-o a levar a filha para a província de Dravira, junto ao mar. Havia em Dravira um templo escavado na pedra, no qual era venerada uma imagem de Buda, que trazia na mão uma estrela. Só em Dravira (assegurou o astrólogo) poderia Lilaváti encontrar um noivo, mas o casamento só seria feliz se a cerimônia do enlace fosse marcada, em certo dia, no cilindro do tempo.
Lilaváti foi, afinal, com agradável surpresa para seu pai, pedida em casamento por um jovem rico, trabalhador, honesto, e de boa casta. Fixado o dia, e marcada a hora, reuniram-se os amigos para assistir à cerimônia.
Os hindus mediam, calculavam e determinavam as horas do dia com auxílio de um cilindro colocado num vaso cheio d’água. Esse cilindro, aberto apenas em cima, apresentava pequeno orifício no centro da superfície da base. À proporção que a água, entrando pelo orifício da base, invadia lentamente o cilindro, este afundava no vaso e de tal modo que chegava a desaparecer por completo em hora previamente determinada.
Colocou Bháskara o cilindro das horas em posição adequada, com o máximo cuidado, e aguardou que a água chegasse ao nível marcado. A noiva, levada por irreprimível curiosidade, verdadeiramente feminina, quis observar a subida da água no cilindro. Aproximou-se para acompanhar a determinação do tempo. Uma das pérolas de seu vestido desprendeu-se e caiu no interior do vaso. Por uma fatalidade, a pérola, levada pela água, foi obstruir o pequeno orifício do cilindro, impedindo que nele pudesse entrar a água do vaso. O noivo e os convidados esperaram com paciência largo período de tempo. Passou-se a hora propícia sem que o cilindro indicasse o tempo como previra o sábio astrólogo. O noivo e os convidados retiraram-se para que fosse fixado, depois de consultados os astros, outro dia para o casamento. O jovem brâmane, que pedira Lilaváti em casamento, desapareceu semanas depois e a filha de Bháskara ficou para sempre solteira.
Reconheceu o sábio geômetra que é inútil lutar contra o Destino e disse à filha:
Escreverei um livro que perpetuará o teu nome e ficarás na lembrança dos homens mais do que viveriam os filhos que viessem a nascer do teu malogrado casamento.
A obra de Bháskara tornou-se célebre e o nome de Lilaváti, a noiva malograda, surge imortal na História da Matemática.
Pelo que se refere à Matemática, Lilaváti faz exposição metódica da numeração decimal e das operações aritméticas sobre números inteiros; estuda minuciosamente as quatro operações, o problema da elevação ao quadrado e ao cubo, ensina a extração da raiz quadrada e chega até mesmo ao estudo da raiz cúbica de um número qualquer. Aborda depois as operações sobre números fracionários, com a conhecida regra da redução das frações ao mesmo denominador.
Para os problemas, adotava Bháskara enunciados graciosos e até românticos.
Eis um dos problemas do livro de Bháskara:

Amável e querida Lilaváti, de olhos doces como os da tenra e delicada gazela, dize-me qual o número que resulta da multiplicação de 135 por 12.

Outro problema, igualmente interessante, que figura no livro de Bháskara, refere-se ao cálculo de um enxame de abelhas:

A quinta parte de um enxame de abelhas pousou na flor de Kadamba, a terça parte numa flor de Silinda, o triplo da diferença entre estes dois números voa sobre uma flor de Krutaja, e uma abelha adeja sozinha, no ar, atraída pelo perfume de um jasmim e de um pandnus. Dize-me, bela menina, qual o número de abelhas.(5)

Bháskara mostrou em seu livro que os problemas mais complicados podem ser apresentados de uma forma viva e até graciosa.
E Beremiz, sempre traçando figuras no tabuleiro de areia, apresentou ao Príncipe de Laore vários problemas curiosos, colhidos na obra Lilaváti.
Infeliz Lilaváti!
Ao repetir o nome da desditosa menina, lembrei-me do poeta.

Como o oceano rodeia a Terra, assim tu, mulher,
rodeias o coração do mundo com o abismo das tuas lágrimas.(6)

Notas:
(1) Parte da manhã.
(2) As frases citadas são formas usuais de saudação entre árabes amigos.
(3) Geômetras gregos, discípulos de Pitágoras.
(4) Essa frase faz parte do ritual. Ao iniciar uma narrativa, em público, deve o muçulmano, previamente, exaltar o nome de Deus.
(5) A solução é 15.
(6) O verso é de Tagore. Figura no livro Pássaros Perdidos.

Malba Tahan, em O Homem que Calculava

terça-feira, 5 de maio de 2026

Caetano Veloso à la Philharmonie, Paris 2021

Que dor dói mais?



Duas cenas. Na primeira, um homem chora a morte da mulher amada. Na segunda, outro homem chora a partida da mulher amada para um novo amor. Que dor dói mais?
Mais que a morte da pessoa amada, dói a partida dela para um novo amor.
A morte, ao levar a pessoa amada, retira-a do tempo, eterniza o amor e congela o abraço – como numa fotografia. Na fotografia tudo está imóvel, não há mudanças, não há tempo. Ali o amor está fixado para sempre. A mulher que morreu, morreu amando, e a morte tornou eterno esse amor. Ela continuará amando sempre na fotografia. E esse amor estará para sempre com o homem que ficou. A pessoa amada nunca o abandonará. Ele sofre, mas a alma está amando e tranquila. A amada morreu, mas na fotografia a imagem dela está inteira. A fotografia é a presença de uma ausência.
Drummond escreveu um poema em que descreve essa ausência:

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Cecília Meireles fotografou com palavras a ausência de sua avó, em “Elegia”:

Um jardineiro desconhecido se ocupará da simetria
desse pequeno mundo em que estás.
Suas mãos vivas caminharão acima das tuas, em descanso

[...]

Tua voz sem corpo estará comandando,
entre terra e água,
o aconchego das raízes tenras

[...]

Tudo em ti era uma ausência que se demorava:
uma despedida pronta a cumprir-se.

A imaginação sofre. Mas o seu sofrimento é belo. Não há esperança nem o suplício da espera. A ausência de esperança tranquiliza a alma.
Mas, quando não é a morte da pessoa amada, e sim a partida da pessoa amada para um novo amor, a imaginação enche a ausência de fantasmas.
Sei que ela está em algum lugar – onde? Que estará fazendo, livre, esquecida de mim? Quem sabe rindo nos braços de um novo amor...
A fotografia fixou o rosto de uma mulher que me amava e não me ama mais. Havendo partido para um novo amor, ela já não pode continuar lá. A morte não a pegou. Viva, ela vai por onde quer, longe de mim. Não é minha.
É preciso que o tempo faça o seu trabalho de esquecimento. Mas o amante abandonado não quer esquecer. Porque ama. Ainda não foi atingido pela graça da desesperança, que chega muito devagar... Por isso ele sofre…

Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado

O abstracionismo geométrico de Portinari

Industrialização do Brasil (1960), de Cândido Portinari

Questão de idade

Perdão, cavalheiro. O senhor não pode.
Não posso por quê? Tá aqui a entrada que eu comprei.
O filme é proibido para setenta e cinco anos, não viu na bilheteria?
Vi. Eu tenho setenta e seis.
Então me mostre a carteira de identidade, por gentileza.
A carteira de identidade está na minha cara.
Ah, é? Parece ter cinquenta e cinco, sessenta no mais tardar. Infelizmente não pode.
Este bom aspecto que o senhor achou em mim — aliás, eu lhe agradeço, viu? — é porque eu me cuido: ioga, meditação transcendental, cooper, macrobiótica.
Tá bom, mas sem documento não insista.
Espere aí, me deixe argumentar.
O gerente aproxima-se:
Que que há?
É esse jovem aí que quer entrar e não tem idade suficiente.
Jovem? O senhor me chamou de jovem? Agora está debochando de mim?
Não senhor. Se o cara não tem condição de ver o filme, eu chamo ele de jovem.
Cara! O chefe de seção aposentado de uma das mais importantes repartições federais, ser tratado de cara!
Meu amigo, calma. O rapaz está cumprindo com o dever. São ordens superiores. Compreenda a nossa posição. A frequência está baixando devido às últimas disposições sobre idade-limite. Já pensamos mesmo em transformar este estabelecimento em edifício-garagem.
E eu com isso?
Se o senhor entra, vem o fiscal e fecha o cinema por infração.
Melhor até. Facilita a mudança de ramo.
Não brinque com essas coisas. Colabore conosco. Inclusive a fila está aumentando, e o senhor bloqueou a entrada.
Se a fila aumenta, como é que diminui a frequência?
Este filme é dos raros, entende? Que ainda lotam a casa. Claro: proibido até setenta e cinco anos.
Por isso mesmo é que eu quero ver.
Mas se não atingiu a idade, se ainda não conquistou esse direito, como é que eu posso permitir essa… como direi, essa inconstitucionalidade? Seja razoável.
Seja razoável também. Sou uma pessoa respeitável, está para nascer quem tenha me visto mentir uma vez na vida. Completei setenta e seis anos em 15 de fevereiro, sou um homem de Aquário, e Aquário não é de embromar ninguém.
Acredito, mas e a carteira?
A carteira estava no carro, o carro saiu com meu neto, sei lá onde ele anda a esta hora.
A fila começa a impacientar-se. Pigarros. Tosses. Irritação sonora.
Entra ou sai logo!
Por que não deixam ele entrar? Será que veio nova portaria, proibindo até oitenta?
Aquele ali? Coitado, já passou da idade de frequentar cinema. Por isso é que foi barrado.
Só a gente criando uma associação de frequentadores de cinema, para garantir nossos direitos.
Garantir como? E quem garante a associação?
Esse velho está enchendo.
O gerente também.
Velho por quê? Quem é velho aqui? Eu não me considero velho. Velhice é estado de espírito.
Acaba com isso! Decide logo!
O gerente, nervoso:
Viu o que o senhor me arranjou? Essa turma de setenta e cinco, quando se chateia, é capaz de arrebentar o cinema. E eu não tenho nada com o peixe, eu cumpro determinações do alto, eu nem sequer posso entrar na sala de projeção, ainda não fiz quarenta! Nem eu nem o porteiro… Os vaga-lumes, um tem setenta e sete e o outro setenta e oito anos, por causa da proibição, o senhor sabia? Pelo amor de Deus, suma da minha presença!

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica