segunda-feira, 16 de março de 2026

Jorge Drexler | Estar acá y estar ahora

Graça

O mundo é um jardim. Uma luz banha o mundo.
A limpeza do ar, os verdes depois das chuvas,
os campos vestindo a relva como o carneiro a sua lã,
a dor sem fel: uma borboleta viva espetada.
Acodem as gratas lembranças:
moças descalças, vestidos esvoaçantes,
tudo seivoso como a juventude,
insidioso prazer sem objeto.
Insisto no vício antigo — para me proteger do inesperado gozo.
E a mulher feia? E o homem crasso?
Em vão. Estão todos nimbados como eu.
A lata vazia, o estrume, o leproso no seu cavalo
estão resplandecentes. Nas nuvens tem um rei, um reino,
um bobo com seus berloques, um príncipe. Eu passeio nelas,
é sólido. O que não vejo, existindo mais que a carne.
Esta tarde inesquecível Deus me deu. Limpou meus olhos e vi:
como o céu, o mundo verdadeiro é pastoril.

Adélia Prado, em O Coração Disparado

O impagável Quino

O bom

Tem uma crônica do Paulo Mendes Campos em que ele conta de um amigo que sofria de pressão alta e era obrigado a fazer uma dieta rigorosa.
Certa vez, no meio de uma conversa animada de um grupo, durante a qual mantivera um silêncio triste, ele suspirou fundo e declarou:
Vocês ficam aí dizendo que bom mesmo é mulher. Bom mesmo é sal!
O que realmente diferencia os estágios da experiência humana nesta Terra é o que o homem, a cada idade, considera bom mesmo. Não apenas bom. Melhor do que tudo. Bom MESMO.
Um recém-nascido, se pudesse participar articuladamente de uma conversa com homens de outras idades, ouviria pacientemente a opinião de cada um sobre as melhores coisas do mundo e no fim decretaria:
Conversa. Bom mesmo é mãe.
Depois de uma certa idade, a escolha do melhor de tudo passa a ser mais difícil. A infância é um viveiro de prazeres. Como comparar, por exemplo, o orgulho de um pião bem lançado, o volume voluptuoso de uma bola de gude daquelas boas entre os dedos, o cheiro da terra úmida, o cheiro do caderno novo?
Bom mesmo é cheiro de Vick-Vaporub!
Mas acho que, tirando-se uma média das opiniões de pré-adolescentes normais brasileiros, se chegaria fatalmente à conclusão de que nesta fase bom mesmo, melhor do que tudo, melhor até do que fazer xixi na piscina, é passe de calcanhar que dá certo.
Mais tarde a gente se sente na obrigação de pensar que bom mesmo é mulher, mas no fundo ainda acha que bom mesmo é acordar com febre e não precisar ir à aula.
Depois, sim, vem a fase em que não tem conversa. Bom mesmo é sexo! Quem diz outra coisa é porque está sendo ou muito honesto ou desconcertantemente original.
Bom mesmo é pudim de laranja.
Melhor do que sexo?
Bom... Cada coisa na sua hora.

Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora

Diário de Bernardo Soares | 97

O verdadeiro sábio é aquele que assim se dispõe que os acontecimentos exteriores o alterem minimamente. Para isso precisa couraçar-se cercando-se de realidades mais próximas de si do que os factos, e através das quais os factos, alterados para de acordo com elas, lhe chegam.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Capítulo 39 – O Vizinho | Capítulo 40 – Na Sege


Capítulo 39 – O Vizinho

Enquanto eu fazia comigo mesmo aquela reflexão, entrou na loja um sujeito baixo, sem chapéu, trazendo pela mão uma menina de quatro anos.
Como passou de hoje de manhã? disse ele a Marcela.
Assim, assim. Vem cá, Maricota.
O sujeito levantou a criança pelos braços e passou-a para dentro do balcão.
Anda, disse ele; pergunta a Dona Marcela como passou a noite. Estava ansiosa por vir cá, mas a mãe não tinha podido vesti-la... Então, Maricota? Toma a bênção... Olha a vara de marmelo! Assim... Não imagina o que ela é lá em casa; fala na senhora a todos os instantes, e aqui parece uma pamonha. Ainda ontem... Digo, Maricota?
Não diga, não, papai.
Então foi alguma coisa feia? perguntou Marcela batendo na cara da menina.
Eu lhe digo; a mãe ensina-lhe a rezar todas as noites um padre-nosso e uma ave-maria, oferecidos a Nossa Senhora; mas a pequena ontem veio pedir-me com voz muito humilde... imagine o quê?... que queria oferecê-los a Santa Marcela.
Coitadinha! disse Marcela beijando-a.
E um namoro, uma paixão, como a senhora não imagina... A mãe diz que é feitiço...
Contou mais algumas coisas o sujeito, todas mui agradáveis, até que saiu levando a menina, não sem deitar-me um olhar interrogativo ou suspeitoso. Perguntei a Marcela quem era ele.
É um relojoeiro de vizinhança, um bom homem; a mulher também; e a filha é galante, não? Parecem gostar muito de mim... é boa gente.
Ao proferir estas palavras havia um tremor de alegria na voz de Marcela; e no rosto como que se lhe espraiou uma onda de ventura…

Capítulo 40 – Na Sege

Nisto entrou o moleque trazendo o relógio com o vidro novo. Era tempo; já me custava estar ali; dei uma moedinha de prata ao moleque; disse a Marcela que voltaria noutra ocasião, e saí a passo largo. Para dizer tudo, devo confessar que o coração me batia um pouco; mas era uma espécie de dobre de finados. O espírito ia travado de impressões opostas. Notem que aquele dia amanhecera alegre para mim. Meu pai, ao almoço, repetiu-me, por antecipação, o primeiro discurso que eu tinha de proferir na Câmara dos Deputados; rimo-nos muito, e o sol também, que estava brilhante, como nos mais belos dias do mundo; do mesmo modo que Virgília devia rir, quando eu lhe contasse as nossas fantasias do almoço. Vai senão quando, cai-me o vidro do relógio; entro na primeira loja que me fica à mão; e eis me surge o passado, ei-lo que me lacera e beija; ei-lo que me interroga, com um rosto cortado de saudades e bexigas...
Lá o deixei; meti-me às pressas na sege, que me esperava no largo de São Francisco de Paula, e ordenei ao boleeiro que rodasse pelas ruas fora. O boleeiro atiçou as bestas, a sege entrou a sacolejar-me, as molas gemiam, as rodas sulcavam rapidamente a lama que deixara a chuva recente, e tudo isso me parecia estar parado. Não há, às vezes, um certo vento morno que não bochorno, não forte nem áspero, mas abafadiço, que nos não leva o chapéu da cabeça, nem rodomoinha nas saias das mulheres, e todavia é ou parece ser pior do que se fizesse uma e outra coisa, porque abate, afrouxa, e como que dissolve os espíritos? Pois eu tinha esse vento comigo; e, certo de que ele me soprava por achar-me naquela espécie de garganta entre o passado e o presente, almejava por sair à planície do futuro. O pior é que a sege não andava.
João, bradei eu ao boleeiro. Esta sege anda ou não anda?
Uê! nhonhô! Já estamos parados na porta de sinhô Conselheiro.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

domingo, 15 de março de 2026

Roberta Campos e Tuyo | Atento

Acordo quase ao amanhecer

Por que as pessoas continuam pedindo para ver
os documentos de identidade de Deus
quando a escuridão que se abre para a manhã
já é mais do que suficiente?
Certamente qualquer deus poderia se afastar com desgosto.
Pense em Sabá se aproximando
do reino de Salomão.
Você acha que ela precisou perguntar:
“É este o lugar?”

Mary Oliver, em Devotions

Calvin

Desejos

Um olho saudável não olha para as coisas visíveis e deseja que sejam verdes. Tal desejo é um sintoma de um olho doente. Uma audição e um olfato saudáveis distinguem tudo o que pode ser ouvido e cheirado. Um estômago sadio digere as comidas tal como o moinho trata aquilo que foi construído para moer. Da mesma forma, um entendimento vigoroso deve estar preparado para acidentes. Um entendimento que almeja “a longevidade das minhas queridas crianças” ou “a admiração alheia” equivale a um olho que procura coisas verdes ou a dentes que procuram coisas moles.

Marco Aurélio, em Meditações

Nome de boutique

As três se juntaram para abrir uma boutique na Zona Sul, que já tem duzentas e cinquenta mil boutiques. Que mal faz ter duzentas e cinquenta mil e uma? Essa vai pegar.
Estão cheias de ideias. “De relâmpagos”, diz Carla. Está na moda o lenço feito de pano de prato? Vamos lançar o lenço de saco de aniagem, que machuca muito mais. Hora de machucar.
Beth cuida de produzir o chapéu de praia desenhado pelo Fifinho, seu irmão mais jovem (quinze anos). Chapéu inexistente em cima, só tem aba, que é de três cores bem espantadas. Com um chapéu desses, a gente protege os olhos e areja a cuca, um barato.
Milu descobriu que sapatos, sandálias, chinelos e tudo mais que serve para encadernar os pés sofre de triste monotonia: o par. Ela inventou o díspar, com feitio e cor diferentes para cada pé. Quentérrimo, pois não?
Novidades assim garantem su tremendo para a boutique. Resta um problema: nome. Todos os nomes foram tomados antes que as três se lembrassem de entrar no comércio. Aniki Bobó, Lelé da Cuca, Dumba, Sexy, Obvius, Trapo, Tanajura, Chez Elise…
Carla tem um relâmpago:
Já sei. Vai ser Ptyx.
Milu e Beth, um susto:
Que que é isso?!
Tirado de um soneto de Mallarmé, suas burras. Quer dizer concha, búzio.
Difícil de pronunciar — opina Milu.
Bom, se o negócio é literatura — propõe Beth — eu sou mais Annabel Lee, de Poe.
Não dá pé. Lembra defunto.
Então Diadorim, do Guimarães Rosa.
Diadorim já é lanchonete em Ipanema e jornal em Minas.
Tintim. O “tintim olalá” dos coretos de Diamantina.
Fica melhor num bar, né?
E Bigodão, que tal Bigodão? Hoje é universal. Por isso mesmo, vetado. Boutique pede nome com segunda ou terceira conotação, fagulha escondida. Druid? Pink? Scup? Dicionário aberto, cachoeira de possibilidades. Milu propõe Zebra. Era o que faltava. Daí a pouco você vai lembrar Coluna do Meio… Laranja Quadrada é um bom título, vocês não acham? Ninguém achou.
Recorreram a lembranças domésticas, baú, gangorra, quintal, castiçal, penico. Penico até que era legal, mas…
Penico de ágata — insiste Milu.
De ágata ou de porcelana, dá na mesma.
Nas lembranças de família, Vó Capitulina teve um voto. Capitu já é alguma coisa por aí, negativo.
E Fio Maravalha?
Maravilha, você quer dizer?
Agora é a minha vez de xingar você de analfa. Maravalha é bagatela, e o que que tem numa boutique? Bagatelas. Beth deu um pulo:
Máfia!
Tá doida? Isso é nome sério.
E daí? Não tem boutique chamada Smuggler? Outra chamada Mescalina?
Ei, pessoal, e se a gente partisse para uma zorra assim como Não Vem de Terninho que Eu Já Vou de Topless?
Cafonice demais, Beth. Além de dez quilômetros.
Vão passar a vida discutindo. É capaz de nem se fazer a boutique, por falta de nome. Ou por excesso deles. Quando chega o Fifinho, brandindo pasta de colégio, enorme, e ainda maior erudição:
Besteira, gente. A boutique vai se chamar Butica. Escreve-se com “o”, mas com “u” fica mais legal. É loja de varejo, e farmácia do tempo da vó. Vou pintar as letras: Boutique Butica, e não se fala mais nisso.
Aprovação geral. Aguardem no Leblon.

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

Factótum



11

No dia seguinte, depois que meus pais saíram, voltei para ficar mais um pouco na cama. Quando me levantei, fui para a sala e dei uma olhada, por entre as cortinas, lá para fora. A dona de casa estava sentada de novo na escada do outro lado da rua. Ela usava um vestido diferente, mais sexy. Fiquei bastante tempo olhando para ela. Aí me masturbei devagar e à vontade.
Tomei banho e me vesti. Achei umas garrafas vazias na cozinha e fiz uns trocados na mercearia. Encontrei um bar na avenida, entrei e pedi um chope. Tinha uma penca de bêbados mexendo na jukebox, rindo e falando alto. De vez em quando, um chope chegava para mim. Alguém estava pagando. Eu bebia. Comecei a conversar com as pessoas.
Aí olhei para fora. Já estava escurecendo. Os chopes continuavam chegando. A mulher gorda, que era dona do bar, e o namorado eram simpáticos.
Fui lá para fora uma vez para brigar com alguém. Não foi uma briga boa. A gente estava muito bêbado e tinha uns buracões no asfalto do estacionamento que dificultavam o equilíbrio. Desistimos…

***

Acordei muito tempo depois em um banco acolchoado e vermelho no fundo do bar. Me levantei e dei uma olhada ao redor. Todo mundo já tinha ido. O relógio marcava três e quinze da madrugada. Tentei a porta, mas estava trancada. Fui para trás do balcão e peguei uma garrafa de cerveja, abri, voltei e me sentei. Depois fui atrás de um charuto e um saco de batatas fritas. Terminei minha cerveja, levantei e encontrei uma garrafa de vodca, outra de uísque, e me sentei de novo. Misturei tudo com água; fumei cigarros e comi carne seca, batatas fritas e ovos cozidos.
Fiquei bebendo até as cinco da manhã. Dei uma limpada no bar, guardei tudo, fui até a porta e caí fora. Assim que saí, vi um carro com policiais se aproximando. Eles vinham devagar atrás de mim enquanto eu caminhava.
Depois de uma quadra, pararam do meu lado. Um policial colocou a cabeça para fora.
Ei, companheiro!
Os faróis estavam na minha cara.
O que você está fazendo?
Indo para casa.
Você mora por aqui?
Sim.
Onde?
Na Longwood Avenue, 2.122.
O que você estava fazendo, saindo daquele bar?
Eu sou o zelador.
E quem é o dono?
Uma senhora chamada Jewel.
Entre no carro.
Entrei.
Mostra para a gente onde você mora.
Eles me levaram para casa.
Agora vai lá e toca a campainha.
Fui até a entrada. Entrei na varanda, toquei a campainha. Ninguém atendeu.
Toquei de novo, várias vezes. Enfim a porta abriu. Meus pais estavam de pijama e roupão.
Você está bêbado! — gritou meu pai.
Estou mesmo.
Onde você arruma dinheiro para beber? Você não tem nada!
Vou arrumar um emprego.
Você está bêbado! Bêbado! Meu filho é um bebum! Um maldito bebum imprestável!
Os cabelos do meu pai estavam em pé, em tufos espetados. As sobrancelhas estavam arrepiadas, o rosto inchado e corado de sono.
Você age como se eu tivesse matado alguém.
É tão ruim quanto!
— …Ai, merda…De supetão, vomitei no tapete persa com o desenho de uma árvore da vida. Minha mãe gritou. Meu pai pulou para cima de mim.
Sabe o que a gente faz com um cachorro quando ele caga no tapete?
Sei sim.
Ele pegou na parte de trás do meu pescoço. Pressionou para baixo, me forçando a me curvar. Ele estava tentando me fazer ajoelhar.
Vou te mostrar.
Não….
Meu rosto estava quase encostando no vômito.
Vou te mostrar o que a gente faz com cachorro!
Eu me levantei do chão com o punho em riste. Foi um soco perfeito. Ele cambaleou para trás até chegar ao outro lado da sala e sentou no sofá. Eu fui junto.
Levanta.
Ele ficou lá sentado. Ouvi minha mãe:
Você bateu no seu pai! No seu pai! Você bateu no seu pai!
Ela deu um berro, e com as próprias unhas rasgou um lado do meu rosto.
Levanta — falei para o meu pai.
Você bateu no seu pai!
Ela arranhou meu rosto de novo. Virei para olhar. Ela rasgou o outro lado. Sangue escorria pelo meu pescoço, encharcando camisa, calça, sapatos e tapete. Ela baixou as mãos e me encarou.
Deu?
Ela nem respondeu. Voltei para o quarto pensando que era melhor mesmo arrumar um emprego.

Charles Bukowski, em Factótum

sexta-feira, 13 de março de 2026

Antoine Boyer | Overjoyed

 

Canção sensata

Dora, que importa
O juiz que escreve
Exemplos na areia,
Se livres seguimos
O rastro dos faunos,
A voz das sereias?

Dora, que importa
A herança do avô
Sob a pedra, nua,
Se do ar colhemos
Moedas de sol,
Guirlandas de lua?

Dora, que importa
Esse frágil muro
Que defende os cautos,
Se além do pequeno
Há horizontes loucos,
De que somos arautos?

De maior beleza
É, pois, nada prever
E à fina incerteza
De amor ou viagem
Abrir nossa porta.

José Paulo Paes, em Antologia Poética

O Espelho


Esboço de uma nova teoria da alma humana

Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta transcendência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora. Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de cousas metafísicas, resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas do universo.
Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala um quinto personagem, calado, pensando, cochilando, cuja espórtula no debate não passava de um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem tinha a mesma idade dos companheiros, entre quarenta e cinquenta anos, era provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão é a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herança bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta naquela noite, contestou-lha um dos presentes, e desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante, e respondeu:
Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.
Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça, cada sentença; não só o acordo, mas a mesma discussão tornou-se difícil, senão impossível, pela multiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal e um pouco, talvez, pela inconsistência dos pareceres. Um dos argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, uma conjetura, ao menos.
Nem conjetura, nem opinião – redarguiu ele –; uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas…
Duas?
Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro... Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; – e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. Shylock, por exemplo. A alma exterior daquele judeu eram os seus ducados; perdê-los equivalia a morrer. “Nunca mais verei o meu ouro”, diz ele a Tubal; “é um punhal que me enterras no coração.” Vejam bem esta frase; a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para ele. Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma…
Não?
Não, senhor; muda de natureza e de estado. Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria, com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora enérgicas, de natureza mudável. Há cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde uma provedoria de irmandade, suponhamos. Pela minha parte, conheço uma senhora – na verdade, gentilíssima – que muda de alma exterior cinco, seis vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera; cessando a estação, a alma exterior substitui-se por outra: um concerto, um baile do Cassino, a rua do Ouvidor, Petrópolis…
Perdão; essa senhora quem é?
Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome; chama-se Legião... E assim outros mais casos. Eu mesmo tenho experimentado dessas trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao episódio de que lhes falei. Um episódio dos meus vinte e cinco anos…
Os quatro companheiros, ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia. Santa curiosidade! tu não és só a alma da civilização, és também o pomo da concórdia, fruta divina, de outro sabor que não aquele pomo da mitologia. A sala, até há pouco ruidosa de física e metafísica, é agora um mar morto; todos os olhos estão no Jacobina, que conserta a ponta do charuto, recolhendo as memórias. Eis aqui como ele começou a narração:
Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da Guarda Nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. Minha mãe ficou tão orgulhosa! tão contente! Chamava-me o seu alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura. Na vila, note-se bem, houve alguns despeitados; choro e ranger de dentes, como na Escritura; e o motivo não foi outro senão que o posto tinha muitos candidatos e que esses perderam. Suponho também que uma parte do desgosto foi inteiramente gratuita: nasceu da simples distinção. Lembra-me de alguns rapazes, que se davam comigo, e passaram a olhar-me de revés, durante algum tempo. Em compensação, tive muitas pessoas que ficaram satisfeitas com a nomeação; e a prova é que todo o fardamento me foi dado por amigos... Vai então uma das minhas tias, D. Marcolina, viúva do Capitão Peçanha, que morava a muitas léguas da vila, num sítio escuso e solitário, desejou ver-me, e pediu que fosse ter com ela e levasse a farda. Fui, acompanhado de um pajem, que daí a dias tornou à vila, porque a tia Marcolina apenas [...] me pilhou no sítio, escreveu a minha mãe dizendo que não me soltava antes de um mês, pelo menos. E abraçava-me! Chamava-me também o seu alferes. Achava-me um rapagão bonito. Como era um tanto patusca, chegou a confessar que tinha inveja da moça que houvesse de ser minha mulher. Jurava que em toda a província não havia outro que me pusesse o pé adiante. E sempre alferes; era alferes para cá, alferes para lá, alferes a toda a hora. Eu pedia-lhe que me chamasse Joãozinho, como dantes; e ela abanava a cabeça, bradando que não, que era o “senhor alferes.” Um cunhado dela, irmão do finado Peçanha, que ali morava, não me chamava de outra maneira. Era o “senhor alferes,” não por gracejo, mas a sério, e à vista dos escravos, que naturalmente foram pelo mesmo caminho. Na mesa tinha eu o melhor lugar, e era o primeiro servido. Não imaginam. Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta e simples... Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D. João VI. Não sei o que havia nisso de verdade; era a tradição. O espelho estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, uns delfins esculpidos nos ângulos superiores da moldura, uns enfeites de madrepérola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas bom…
Espelho grande?
Grande. E foi, como digo, uma enorme fineza, porque o espelho estava na sala; era a melhor peça da casa. Mas não houve forças que a demovessem do propósito; respondia que não fazia falta, que era só por algumas semanas, e finalmente que o “senhor alferes” merecia muito mais. O certo é que todas essas cousas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou. Imaginam, creio eu?
Não.
O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado. Custa-lhes acreditar, não?
Custa-me até entender – respondeu um dos ouvintes.
Vai entender. Os fatos explicarão melhor os sentimentos: os fatos são tudo. A melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada; e, se bem me lembro, um filósofo antigo demonstrou o movimento andando. Vamos aos fatos. Vamos ver como, ao tempo em que a consciência do homem se obliterava, a do alferes tornava-se viva e intensa. As dores humanas, as alegrias humanas, se eram só isso, mal obtinham de mim uma compaixão apática ou um sorriso de favor. No fim de três semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes. Ora, um dia recebeu a tia Marcolina uma notícia grave; uma de suas filhas, casada com um lavrador residente dali a cinco léguas, estava mal e à morte. Adeus, sobrinho! adeus, alferes! Era mãe extremosa, armou logo uma viagem, pediu ao cunhado que fosse com ela, e a mim que tomasse conta do sítio. Creio que, se não fosse a aflição, disporia o contrário; deixaria o cunhado e iria comigo. Mas o certo é que fiquei só, com os poucos escravos da casa. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande opressão, alguma cousa semelhante ao efeito de quatro paredes de um cárcere, subitamente levantadas em torno de mim. Era a alma exterior que se reduzia; estava agora limitada a alguns espíritos boçais. O alferes continuava a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a consciência mais débil. Os escravos punham uma nota de humildade nas suas cortesias, que de certa maneira compensava a afeição dos parentes e a intimidade doméstica interrompida. Notei mesmo, naquela noite, que eles redobravam de respeito, de alegria, de protestos. Nhô alferes, de minuto a minuto; nhô alferes é muito bonito; nhô alferes há de ser coronel; nhô alferes há de casar com moça bonita, filha de general; um concerto de louvores e profecias, que me deixou extático. Ah! pérfidos! mal podia eu suspeitar a intenção secreta dos malvados.
Matá-lo?
Antes assim fosse.
Cousa pior?
Ouçam-me. Na manhã seguinte achei-me só. Os velhacos, seduzidos por outros, ou de movimento próprio, tinham resolvido fugir durante a noite; e assim fizeram. Achei-me só, sem mais ninguém, entre quatro paredes, diante do terreiro deserto e da roça abandonada. Nenhum fôlego humano. Corri a casa toda, a senzala, tudo; ninguém, um molequinho que fosse. Galos e galinhas tão somente, um par de mulas, que filosofavam a vida, sacudindo as moscas, e três bois. Os mesmos cães foram levados pelos escravos. Nenhum ente humano. Parece-lhes que isto era melhor do que ter morrido? Era pior. Não por medo; juro-lhes que não tinha medo; era um pouco atrevidinho, tanto que não senti nada, durante as primeiras horas. Fiquei triste por causa do dano causado à tia Marcolina; fiquei também um pouco perplexo, não sabendo se devia ir ter com ela, para lhe dar a triste notícia, ou ficar tomando conta da casa. Adotei o segundo alvitre, para não desamparar a casa, e porque, se a minha prima enferma estava mal, eu ia somente aumentar a dor da mãe, sem remédio nenhum; finalmente, esperei que o irmão do tio Peçanha voltasse naquele dia ou no outro, visto que tinha saído havia já trinta e seis horas. Mas a manhã passou sem vestígio dele; à tarde comecei a sentir a sensação como de pessoa que houvesse perdido toda a ação nervosa, e não tivesse consciência da ação muscular. O irmão do tio Peçanha não voltou nesse dia, nem no outro, nem em toda aquela semana. Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa. As horas batiam de século a século no velho relógio da sala, cuja pêndula tic-tac, tic-tac, feria-me a alma interior, como um piparote contínuo da eternidade. Quando, muitos anos depois, li uma poesia americana, creio que de Longfellow, e topei este famoso estribilho: Never, for ever!For ever, never! confesso-lhes que tive um calafrio: recordei-me daqueles dias medonhos. Era justamente assim que fazia o relógio da tia Marcolina: Never, for ever! – For ever, never! Não eram golpes de pêndula, era um diálogo do abismo, um cochicho do nada. E então de noite! Não que a noite fosse mais silenciosa. O silêncio era o mesmo que de dia. Mas a noite era a sombra, era a solidão ainda mais estreita, ou mais larga. Tic-tac, tic-tac. Ninguém, nas salas, na varanda, nos corredores, no terreiro, ninguém em parte nenhuma... Riem-se?
Sim, parece que tinha um pouco de medo.
Oh! fora bom se eu pudesse ter medo! Viveria. Mas o característico daquela situação é que eu nem sequer podia ter medo, isto é, o medo vulgarmente entendido. Tinha uma sensação inexplicável. Era como um defunto andando, um sonâmbulo, um boneco mecânico. Dormindo, era outra cousa. O sono dava-me alívio, não pela razão comum de ser irmão da morte, mas por outra. Acho que posso explicar assim esse fenômeno: o sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava atuar a alma interior. Nos sonhos, fardava-me orgulhosamente, no meio da família e dos amigos, que me elogiavam o garbo, que me chamavam alferes; vinha um amigo de nossa casa, e prometia-me o posto de tenente, outro o de capitão ou major; e tudo isso fazia-me viver. Mas quando acordava, dia claro, esvaía-se com o sono a consciência do meu ser novo e único porque a alma interior perdia a ação exclusiva, e ficava dependente da outra, que teimava em não tornar... Não tornava. Eu saía fora, a um lado e outro, a ver se descobria algum sinal de regresso. Soeur Anne, soeur Anne, ne vois-tu rien venir? Nada, cousa nenhuma; tal qual como na lenda francesa. Nada mais do que a poeira da estrada e o capinzal dos morros. Voltava para casa, nervoso, desesperado, estirava-me no canapé da sala. Tic-tac, tic-tac. Levantava-me, passeava, tamborilava nos vidros das janelas, assobiava. Em certa ocasião lembrei-me de escrever alguma cousa, um artigo político, um romance, uma ode; não escolhi nada definitivamente; sentei-me e tracei no papel algumas palavras e frases soltas, para intercalar no estilo. Mas o estilo, como tia Marcolina, deixava-se estar. Soeur Anne, soeur Anne... Cousa nenhuma. Quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel.
Mas não comia?
Comia mal, frutas, farinha, conservas, algumas raízes tostadas ao fogo, mas suportaria tudo alegremente, se não fora a terrível situação moral em que me achava. Recitava versos, discursos, trechos latinos, liras de Gonzaga, oitavas de Camões, décimas, uma antologia em trinta volumes. Às vezes fazia ginástica; outras dava beliscões nas pernas; mas o efeito era só uma sensação física de dor ou de cansaço, e mais nada. Tudo silêncio, um silêncio vasto, enorme, infinito, apenas sublinhado pelo eterno tic-tac da pêndula. Tic-tac, tic-tac
Na verdade, era de enlouquecer.
Vão ouvir cousa pior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque no fim de oito dias deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois.
Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis físicas não permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação. Então tive medo; atribuí o fenômeno à excitação nervosa em que andava; receei ficar mais tempo, e enlouquecer. Vou-me embora, disse comigo. E levantei o braço com gesto de mau humor, e ao mesmo tempo de decisão, olhando para o vidro; o gesto lá estava, mas disperso, esgaçado, mutilado... Entrei a vestir-me, murmurando comigo, tossindo sem tosse, sacudindo a roupa com estrépito, afligindo-me a frio com os botões, para dizer alguma cousa. De quando em quando, olhava furtivamente para o espelho; a imagem era a mesma difusão de linhas, a mesma decomposição de contornos... Continuei a vestir-me. Subitamente por uma inspiração inexplicável, por um impulso sem cálculo, lembrou-me... Se forem capazes de adivinhar qual foi a minha ideia…
Diga.
Estava a olhar para o vidro, com uma persistência de desesperado, contemplando as próprias feições derramadas e inacabadas, uma nuvem de linhas soltas, informes, quando tive o pensamento... Não, não são capazes de adivinhar.
Mas, diga, diga.
Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e... não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas não conhece individualmente uns nem outros; enfim, sabe que este é Fulano, aquele é Sicrano; aqui está uma cadeira, ali um sofá. Tudo volta ao que era antes do sono. Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir…
Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.

Machado de Assis, em Papéis Avulsos

Hagar, o Horrível

Distância

Essas distâncias astronômicas não são tão grandes assim: basta estenderes o braço e tocar no ombro do teu vizinho.

Mário Quintana, em Caderno H

Estrelas e santos



Espera, me deixa explicar…
A vida inteira eu me vi nesse tipo de situação, como naquele dia com o psiquiatra. Ele estava hospedado no chalé atrás da minha casa enquanto a sua casa nova passava por uma reforma. Parecia muito simpático, além de bonito, e claro que eu queria causar uma boa impressão; pensei até em levar uns brownies para ele, mas não queria que ele me achasse oferecida. Uma manhã, logo depois do amanhecer, como de costume, eu estava tomando café e olhando pela janela para o meu jardim, que estava lindo naquela época, com ervilhas-de-cheiro, delfínios e cosmos. Eu estava sentindo, bem, eu estava sentindo uma enorme alegria… por que hesito em te contar isso? Não quero que você me ache boba, quero causar uma boa impressão. Enfim, eu estava feliz e joguei um punhado de alpiste no deque lá fora, depois fiquei sentada, sorrindo sozinha enquanto dezenas de rolinhas e tentilhões vinham voando para comer o alpiste. De repente, num relâmpago, dois gatos enormes saltaram para o deque e começaram a estraçalhar os passarinhos, penas voando para todo lado, justo na hora em que o psiquiatra estava saindo pela porta do chalé. Ele olhou para mim, chocado, disse “Que horror!” e foi embora. Depois daquela manhã, ele passou a me evitar completamente, e não era imaginação minha. Não havia jeito de explicar que tudo tinha acontecido rápido demais, que eu não estava sorrindo porque os gatos estavam devorando os passarinhos. É que a minha alegria com as ervilhas-de-cheiro e os tentilhões não tinha tido tempo de murchar.
Até onde me lembro, eu sempre causei uma péssima primeira impressão. Como naquela vez em Montana em que o que eu estava tentando fazer era só tirar as meias de Kent Shreve para a gente ficar descalço, mas elas estavam presas às ceroulas dele. Mas o que eu queria falar mesmo é da escola St. Joseph’s. Sabe, os psiquiatras (por favor, não me entenda mal, eu não sou obcecada por psiquiatras nem nada disso)… é só que tenho a impressão de que os psiquiatras se concentram demais na cena primária e na privação pré-edipiana e ignoram o trauma da escola e das outras crianças, que são cruéis, secas, impiedosas.
Não vou nem mencionar o que aconteceu na Vilas, a primeira escola que frequentei em El Paso. Um grande mal-entendido do início ao fim. Então, dois meses depois de iniciado o ano letivo, na terceira série, lá estava eu no pátio em frente à St. Joseph’s. Minha nova escola. Absolutamente apavorada. Eu tinha pensado que usar uniforme fosse ajudar. Só que o problema era o trambolho que eu tinha nas costas, um colete de metal para corrigir o que chamavam de curvatura, mas que era, vamos encarar os fatos, uma corcunda. Então, eu tive que comprar uma blusa branca e uma saia xadrez de um tamanho muito maior do que o meu para poder vesti-las por cima do colete, e claro que nem passou pela cabeça da minha mãe fazer pelo menos uma bainha na saia.
Outro grande mal-entendido. Meses mais tarde, a irmã Mercedes estava encarregada de monitorar o hall. Ela era aquele tipo de freira jovem e doce que devia ter tido um caso amoroso trágico. Ele provavelmente tinha morrido na guerra, num avião bombardeiro. Quando estávamos passando por ela em fila, duas a duas, ela pôs a mão na minha corcunda e disse baixinho: “Minha querida, você tem uma cruz para carregar”. Ora, como ela poderia saber que eu tinha me transformado numa fanática religiosa àquela altura, que aquelas suas palavras inocentes só iriam confirmar a minha suspeita de estar predestinada a me unir ao Nosso Salvador?
(Ah, e as mães. Outro dia mesmo, no ônibus, uma mãe entrou com o filho pequeno. Ela obviamente trabalhava fora, tinha acabado de pegar o filho na escola maternal, estava cansada, mas feliz de vê-lo, e perguntou como tinha sido o dia dele. O menino contou a ela todas as coisas que ele havia feito. “Você é tão especial!”, ela disse e o abraçou. “Especial quer dizer que eu sou retardado!”, disse o menino. Lágrimas enormes brotaram de seus olhos e ele ficou lá sentado, com uma expressão de pânico no rosto, enquanto a mãe continuava sorrindo exatamente como eu no episódio dos passarinhos.)
Aquele dia no pátio eu tive a certeza de que nunca na vida ia conseguir me enturmar. Não falo da coisa de se adequar, mas de se enturmar. Num canto do pátio, duas meninas giravam uma corda grossa e pesada e, uma a uma, lindas meninas de bochechas rosadas saíam da fila correndo para pular sob a corda, pulavam, pulavam e saíam de novo na hora exata, depois voltavam para a fila. Vapt, vapt, ninguém perdia uma única batida. No meio do pátio havia um balanço redondo, com um assento circular que girava vertiginosa e alegremente sem nunca parar, mas crianças risonhas saltavam para subir ou descer dele sem… não só sem cair, mas sem sequer titubear. Ao meu redor no pátio, em todo canto, havia simetria, sincronia. Duas freiras, as contas do rosário estalando em uníssono, os rostos lavados se virando para cumprimentar as crianças como se fossem um só. O jogo das pedrinhas. A bola quicando no cimento com um baque seco, as doze pedrinhas voando para o alto e agarradas todas de uma vez com o giro de um pequeno pulso. Tapa, tapa, tapa, outras meninas faziam complicadas brincadeiras de bater as mãos. Era uma vez um pequeno holandês. Tapa, tapa. Fiquei circulando, não só incapaz de me enturmar, mas aparentemente invisível, o que era um misto de bênção e maldição. Fugi para a lateral do edifício, onde ouvi ruídos e risos vindos da cozinha da escola. Foi ali que me escondi do pátio; os barulhos amistosos que vinham lá de dentro me tranquilizavam. Mas eu também não podia entrar lá. Pouco depois, no entanto, ouvi gritos e brados e uma freira dizendo “Ah, eu não consigo, eu simplesmente não consigo”, e concluí que eu poderia entrar, porque o que ela não conseguia fazer era tirar os ratos mortos das ratoeiras. “Eu faço isso”, eu disse. E as freiras ficaram tão contentes que não disseram nada sobre o fato de eu estar na cozinha, embora uma delas tenha cochichado “Protestante” para a outra.
E foi assim que começou. Além disso, elas me deram um pãozinho, quente e delicioso, com manteiga. Claro que eu tinha tomado café da manhã, mas o pãozinho era tão delicioso que eu o devorei num instante e elas me deram outro. Então, todo dia, em troca de esvaziar e rearmar duas ou três ratoeiras, eu ganhava não só pãezinhos, mas também uma medalha de são Cristóvão, que eu usava mais tarde como ficha para comprar lanche. Isso me poupava do embaraço de entrar na fila, antes de a aula começar, para trocar moedas pelas medalhas que serviam como fichas para o lanche.
Por causa das minhas costas, as freiras deixavam que eu ficasse na sala durante a aula de educação física e o recreio. Era só de manhã cedo que era difícil, porque o ônibus chegava lá antes da hora em que o portão do prédio era aberto. Eu me forçava a tentar fazer amizade, a puxar conversa com meninas da minha turma, mas era inútil. Todas elas eram católicas e se conheciam desde o jardim de infância. Eram, justiça seja feita, boas meninas, meninas normais. Eu estava adiantada na escola e, portanto, era bem mais nova do que elas. Além disso, só tinha morado em campos de mineração remotos antes da guerra. Não sabia dizer coisas como “Você gosta de estudar o Congo Belga?” ou “O que você gosta de fazer no seu tempo livre?”. Chegava perto delas de repente e disparava: “O meu tio tem um olho de vidro”. Ou “Uma vez eu encontrei um urso morto com a cara cheia de larvas”. Elas me ignoravam, davam risadinhas ou diziam “Quem mente o nariz cresce!”.
Então, durante algum tempo eu tive um lugar para ir antes das aulas. Eu me sentia útil e valorizada. Mas depois comecei a ouvir as meninas sussurrarem “bolsista carente” e “protestante” quando me viam e, passado um tempo, elas começaram a me chamar de “menina da ratoeira” e “Minnie Mouse”. Eu fingia não ligar e, além do mais, adorava a cozinha, o riso suave e os murmúrios das freiras cozinheiras, que usavam batinas rústicas, parecidas com camisolas, na cozinha.
Claro que a essa altura eu tinha decidido me tornar freira, não só porque elas nunca pareciam ficar nervosas, mas principalmente por causa das batinas pretas e das toucas brancas, que pareciam enormes flores de lis brancas e engomadas. Aposto que a Igreja católica perdeu uma porção de aspirantes a freiras quando elas começaram a se vestir como guardas femininas comuns. Então, a minha mãe resolveu fazer uma visita à escola para saber como eu estava me saindo. Elas disseram que o meu desempenho nos trabalhos de classe era excelente e o meu comportamento, perfeito. A irmã Cecilia disse que elas eram muito gratas a mim na cozinha e sempre zelavam para que eu tomasse um bom café da manhã. Minha mãe, a esnobe, com aquele seu casaco velho e xexelento que tinha uma gola de raposa xexelenta cujos olhos de conta tinham caído, ficou chocada, enojada com a história dos ratos e furiosa com a medalha de são Cristóvão, porque eu continuava a receber dinheiro para o lanche todas as manhãs e o gastava com balas quando saía da escola. Ladrazinha trapaceira. Vapt, vapt. Chocada!
Então, fim da história, e foi um grande mal-entendido de todos os lados. Ao que parece, as freiras achavam que eu fazia ponto na cozinha porque era uma pobre criancinha desamparada e faminta, e só me davam a tarefa de cuidar das ratoeiras por caridade, não porque de fato precisassem de mim. O problema é que até hoje eu não sei como a falsa impressão poderia ter sido evitada. Talvez se eu tivesse recusado o pãozinho?
Foi assim que eu acabei indo matar o tempo antes das aulas na igreja e decidi realmente virar freira, ou santa. O primeiro mistério que encontrei foi que as fileiras de velas em frente a cada uma das estátuas de Jesus, Maria e José ficavam bruxuleando e tremendo como se estivessem recebendo lufadas de vento, quando na verdade a enorme igreja estava toda muito bem fechada e nenhuma de suas portas pesadas estava aberta. Concluí, então, que o espírito de Deus nas estátuas era tão forte que fazia as chamas das velas se agitarem e sibilarem, trêmulas de sofrimento. Cada pequeno pique de luz iluminava o sangue coagulado nos pés brancos e ossudos de Jesus e fazia com que ele parecesse úmido.
No início, eu ficava bem no fundo da igreja, grogue, embriagada com o cheiro de incenso. Ajoelhava e rezava. Ajoelhar era muito doloroso, por causa do problema nas minhas costas e porque o colete se encravava na coluna. Eu tinha certeza de que isso me tornava santa e servia como penitência pelos meus pecados, mas doía demais e, por fim, acabei desistindo e passei a ficar só sentada lá, na igreja escura, até o sinal da entrada tocar. Geralmente não havia ninguém na igreja além de mim, salvo nas quintas-feiras, quando o padre Anselmo ia para o confessionário e se trancava lá. Algumas senhoras, meninas dos últimos anos do colegial e, de vez em quando, uma ou outra aluna do ginásio se dirigiam até lá, parando para se ajoelhar e fazer o sinal da cruz diante do altar, depois se ajoelhando e fazendo o sinal da cruz de novo antes de entrarem pelo outro lado do confessionário. O que me intrigava era o tempo variável que elas passavam rezando depois que saíam de lá. Eu teria dado qualquer coisa no mundo para saber o que acontecia lá dentro. Não sei ao certo quanto demorou até eu conseguir reunir coragem para entrar, com o coração martelando no peito. O interior do confessionário era muito mais bonito do que eu poderia ter imaginado. Enevoado pela mirra, uma almofada de veludo para ajoelhar, uma virgem abençoada olhando para mim lá do alto com infinita piedade e compaixão. Atrás da treliça trabalhada estava o padre Anselmo, que normalmente era um homenzinho ensimesmado. Mas ele estava em silhueta, como o homem de cartola na parede de Mamie. Poderia ser qualquer um… Tyrone Power, meu pai, Deus. Sua voz não parecia nem um pouco com a do padre Anselmo; era uma voz grave, com um leve eco. Como eu não conhecia a oração que me pediu para rezar, ele recitou os versos e eu os repeti, profundamente arrependida de vos ter ofendido. Então, ele me perguntou quais eram os meus pecados. Eu não estava mentindo. Realmente não tinha nenhum pecado para confessar. Nenhum mesmo. Fiquei muito envergonhada. Não era possível que eu não conseguisse pensar em alguma coisa. Procure bem no fundo do seu coração, minha filha… Nada. Aflita, querendo desesperadamente agradar, eu inventei um pecado. Tinha batido na cabeça da minha irmã com uma escova de cabelo. Você tem ciúme da sua irmã? Tenho, tenho sim, padre. O ciúme é um pecado, minha filha, reze para ficar livre dele. Três ave-marias. Enquanto rezava, ajoelhada, eu me dei conta de que tinha recebido uma penitência curta. Da próxima vez eu me sairia melhor. Mas não haveria próxima vez. Naquele dia, a irmã Cecilia quis conversar comigo depois da aula. O fato de ela ser tão gentil tornou a coisa ainda pior. Ela entendia que eu quisesse vivenciar os sacramentos e os mistérios da Igreja. Os mistérios, sim! Mas eu era protestante e não tinha sido batizada nem crismada. Podia frequentar a escola delas, e ela era grata por isso, porque eu era uma aluna estudiosa e obediente, mas não podia tomar parte na Igreja delas. Tinha que ficar no pátio com as outras crianças.
Um pensamento terrível me passou pela cabeça e eu tirei quatro santinhos de dentro do bolso. Toda vez que a gente tirava nota máxima em leitura ou aritmética, ganhava uma estrela. Nas sextas-feiras, a aluna que tivesse mais estrelas recebia um santinho, que era parecido com um card de beisebol, só que na auréola tinha purpurina. “Eu posso ficar com os meus santinhos?”, perguntei a ela, com o coração apertado.
Claro que pode. E eu espero que você ganhe vários outros.” Ela sorriu para mim e me fez outro favor. “Você ainda pode rezar, minha querida, pedindo que Deus a guie. Vamos rezar uma ave-maria juntas.” Eu fechei os olhos e rezei com fervor para Nossa Senhora, que para mim sempre vai ter o rosto da irmã Cecilia.
Sempre que uma sirene soava lá fora, na rua, perto ou longe, a irmã Cecilia nos fazia parar o que quer que estivéssemos fazendo, deitar a cabeça nas nossas mesas e rezar uma ave-maria. Eu ainda faço isso. Rezar uma ave-maria, quero dizer. Bem, às vezes eu também deito a cabeça em mesas de madeira, para ouvi-las, porque elas de fato produzem sons, como galhos ao vento, como se ainda fossem árvores. Várias coisas andavam me intrigando muito naquela época, como o que dava vida às velas ou de onde exatamente vinha o som das mesas de madeira. Se tudo o que existe no mundo de Deus tem alma, até as mesas, já que elas têm uma voz, então deve existir um céu. Eu não podia ir para o céu, porque era protestante. Ia ter que ir para o limbo. Eu preferia ir para o inferno a ir para o limbo. Que palavra feia, limbo. Parece lombo, molambo. Um lugar sem dignidade nenhuma.
Eu disse à minha mãe que queria virar católica. Ela e meu avô tiveram um ataque. Ele queria me botar de volta na escola Vilas, mas minha mãe disse que não, que lá era cheio de mexicanos e de delinquentes juvenis. Eu disse a ela que havia muitas alunas mexicanas na St. Joseph’s, mas ela disse que elas eram de boas famílias. A gente era uma boa família? Eu não sabia. Uma coisa que eu ainda faço até hoje é espiar pelas janelas o interior de salas onde famílias estão reunidas e ficar pensando o que será que aquelas pessoas fazem, como será que elas falam umas com as outras.
Uma tarde, a irmã Cecilia e outra freira foram até a nossa casa. Eu não sei por que elas foram lá e elas não tiveram a chance de dizer. Estava tudo uma bagunça. A minha mãe chorando e Mamie, a minha avó, também. Vovô estava bêbado e avançou para cima delas, chamando-as de bruxas. No dia seguinte eu estava com medo de que a irmã Cecilia tivesse ficado zangada comigo e não me dissesse mais “Até logo, minha querida” quando me deixasse sozinha na sala durante o recreio. Mas, antes de sair, ela me deu um livro chamado Understood Betsy e disse que achava que eu ia gostar. Foi o primeiro livro de verdade que eu li, o primeiro livro pelo qual me apaixonei.
Ela elogiava os meus trabalhos na escola e comentava com as outras alunas sempre que eu recebia uma estrela ou ganhava um santinho às sextas-feiras. Eu fazia tudo para agradar-lhe, escrevia A.M.D.G.* com letras cuidadosamente desenhadas no alto de todos os trabalhos, corria para apagar o quadro-negro. A minha voz era a mais alta quando rezávamos, a minha mão era a primeira a se erguer quando ela fazia uma pergunta. Ela continuou a me dar livros para ler e, uma vez, me deu um marcador de livro de papel que dizia “Rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte”. Eu mostrei o marcador para Melissa Barnes na cafeteria. Tinha posto na cabeça, tolamente, que, já que a irmã Cecilia gostava de mim, as meninas também passariam a gostar. Mas agora, em vez de rir de mim, elas me odiavam. Quando eu me levantava para responder a alguma pergunta na aula, elas sussurravam queridinha, queridinha, queridinha. Se a irmã Cecilia me escolhia para recolher as moedas e distribuir as medalhas para comprar lanche, cada uma das meninas sussurrava queridinha quando recebia a medalha de mim.
Então um dia, sem mais nem menos, a minha mãe ficou furiosa comigo porque o meu pai escrevia mais para mim do que para ela. É porque eu escrevo mais para ele. Não, é porque você é a queridinha dele. Um dia, eu cheguei tarde em casa. Tinha perdido o ônibus que passava na praça. Minha mãe apareceu no alto da escada, segurando uma carta aérea azul do meu pai numa das mãos. Com a outra, ela acendeu um fósforo na unha do polegar e queimou a carta enquanto eu corria escada acima. Aquilo sempre me assustava. Quando era pequena, eu não via o fósforo e achava que ela acendia os cigarros dela com um polegar em chamas.
Parei de falar. Não disse: agora, eu não vou mais falar. Simplesmente fui parando aos poucos e, quando sirenes passavam, eu deitava a cabeça na mesa e sussurrava a oração para mim mesma. Quando a irmã Cecilia me chamava, eu sacudia a cabeça e me sentava de novo. Parei de ganhar estrelas e santinhos. Mas já era tarde demais. Agora elas me chamavam de burralda. Um dia, a irmã Cecilia ficou na sala depois que a turma saiu para a aula de educação física. “O que há com você, minha querida? Eu posso ajudar? Por favor, fale comigo.” Eu trinquei os dentes e me recusei a olhar para ela. Ela saiu e eu fiquei lá sentada, na penumbra quente da sala de aula. Ela voltou mais tarde, com um exemplar de Beleza negra, que pousou na minha mesa. “Esse livro é maravilhoso, só que muito triste. Diga para mim, você está triste com alguma coisa?”
Eu fugi dela e do livro e corri para o pequeno vestiário de guardar casacos. Claro que não havia casaco nenhum lá, já que no Texas faz muito calor, mas sim caixas cheias de livros didáticos empoeirados, enfeites de Páscoa, enfeites de Natal. A irmã Cecilia entrou no vestiário minúsculo atrás de mim. Ela me fez virar de frente para ela e ajoelhar. “Vamos rezar”, disse.
Ave Maria, cheia de graça, o senhor é convosco. Bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus… Os olhos dela estavam cheios de lágrimas. Eu não consegui suportar a ternura que havia neles e me desvencilhei dela, derrubando-a sem querer no chão. A touca ficou presa num gancho de casaco e foi arrancada. Ela não tinha a cabeça raspada como as meninas diziam. Ela gritou e saiu de lá correndo.
Fui mandada para casa naquele dia mesmo, expulsa da Saint Joseph’s por agredir uma freira. Não sei como ela pode ter achado que eu seria capaz de bater nela. Não tinha sido nada disso.
______________________
Nota: *Ad maiorem Dei gloriam (“para maior glória de Deus”), lema dos jesuítas. (N. T.)

Lucia Berlin, em Manual da faxineira: Contos escolhidos