sexta-feira, 22 de junho de 2018

Médico de flores

Buenos Aires, outubro de 59: já poderia - como aquele ingênuo novo-rico que gravou nos seus cartões de visita: Fulano de Tal, ex-passageiro do “Cap Arcona” - mandar colocar nos meus, se os tivesse: V. de M., ex-passageiro do “Caravelle”. Pois a verdade é que acabei de ingressar na era do jacto puro, com um voo de Montevidéu a Buenos Aires. Voo fulminante, pois mal subimos e o piloto já estava resolvendo os problemas da descida. Devido à curta distância (para um jacto) do trajeto, não foi possível tomar a altura ideal de 12 mil metros, onde a serenidade é quase total e a vibração quase nula; mas de qualquer maneira achamos, a Bem-Amada e eu, emocionante voarmos a 7 mil metros, numa velocidade de oitocentos quilômetros horários e a uma temperatura externa de 300 abaixo de zero. E dentro do avião tudo quentinho como deve ser.
No chão, que ainda é melhor, a temperatura está também como deve ser, nesta boa cidade de Buenos Aires. Ainda há pouco, ao andar rodando por aí tudo, lembrei-me de mim mesmo, faz 14 anos, passeando por estas mesmas ruas em companhia de Aníbal Machado e Moacir Werneck de Castro. Éramos mais moços de quase três lustros e estávamos contentes da vida porque tínhamos escapado por milagre do desatre do six-motor francês “Leonel de Marmier” (num voo entre Rio e B. A.), que conseguiu amarar ninguém sabe como numa lagoa próxima à cidade de Rocha, em pleno pampa uruguaio, depois de ter tido a nacela cortada de alto a baixo por uma das hélices, que desprendera do motor e entrara avião adentro, numa carnificina que mais vale não lembrar. O tempo do desastre foi de seis minutos: seis terríveis minutos de expectativa da morte. Valha-nos, na era do jacto puro, saber que o indivíduo provavelmente desintegra, em caso de acidente.
Hoje, domingo, 25, fizemos, em companhia do meu mui caro, leal e valoroso amigo Lauro Escorel, secretário de Embaixada em B.A., uma grande rodada de automóvel que nos levou para lá do Palermo. A cidade dominical era tranquila, fria e com um céu de névoas. Lembro-me de que, num determinado momento, ao passarmos por uma enorme edificação toda murada, disse-nos o ensaísta de O pensamento político de Maquiavel ser ali o lugar onde são tratadas as águas que abastecem Buenos Aires. Fiquei pensando que, mais ainda que ex-passageiro do Caravelle, gostaria de ter nos meus cartões de visita: V. de M., médico de águas. Assim seria apresentado às pessoas nas festas, em vez de como poeta ou diplomata. E ante a estranheza que lhes causaria o título, eu confirmaria gravemente:
- Sim, minha senhora, médico de águas, para servi-la...
Depois a imaginação se me partiu, e eu fiquei achando que médico de flores seria ainda mais belo. Que linda e honesta profissão a ter! E como eu seria o único do Rio, não chegaria para as encomendas, com uma clientela de fazer inveja a meus amigos os drs. Clementino Fraga Filho, Marcelo Garcia e Ivo Pitanguy, dentro de suas especialidades. Estaria assim muito bem no meu consultório e de repente minha mãe, aflitíssima, telefonaria: “Meu filho, vem depressa que minhas rosas estão morrendo...” E eu partiria com a minha maletinha para auscultar o coração das rosas, aplicar-lhes a coramina das flores, fazer-lhes transfusão de seiva, reavivar-lhes as cores, a fragrância, a beleza. E mal chegado a casa já haveria recados de milhões de amigas preocupadíssimas com suas azáleas, seus redodendros, seus antúrios. E eu voltaria feliz e diria com orgulho e alegria à Bem-Amada: “Acho que consegui salvar as rosas de minha mãe.” E a Bem-Amada ficaria muito contente e me daria um beijo. E eu daria também consultas a flores pobres, e na rua todas as damas me sorririam com simpatia e respeito, cumprimentando-me com graciosos ademanes. E eu as cumprimentaria de volta, com a circunspecção que deve ter um médico de flores.
Vinicius de Moraes, in Para viver um grande amor

Calvin e Haroldo


As pensões

Depois de muitos anos de liceu, em que tropecei sempre no mês de dezembro com o exame de matemática, fiquei exteriormente pronto para enfrentar a universidade, em Santiago do Chile. Digo exteriormente porque, por dentro, minha cabeça estava cheia de livros, de sonhos e de poemas que zumbiam em mim como abelhas.
Provido de um baú de folha-de-flandres, com o indispensável traje negro de poeta, delgadíssimo e afilado como uma faca, entrei na terceira classe do trem noturno que levava um dia e uma noite intermináveis para chegar a Santiago.
Este comprido trem que atravessava zonas e climas diferentes, e no qual viajei tantas vezes, guarda para mim ainda um encanto estranho. Camponeses de ponchos molhados e cestos com galinhas, taciturnos mapuches, toda uma vida se desenvolvia no vagão de terceira. Eram muitos os que viajavam sem pagar, debaixo dos bancos. Ao surgir o inspetor, produzia-se uma metamorfose. Muitos desapareciam e alguns se ocultavam debaixo de um poncho sobre o qual logo dois passageiros fingiam jogar canas, sem que esta mesa improvisada chamasse a atenção do inspetor.
Entretanto o trem passava dos campos com carvalhos e araucárias e das casas de madeira molhada aos álamos do centro do Chile, às empoeiradas construções de adobe. Muitas vezes fiz aquela viagem de ida e volta entre a capital e a província mas sempre me senti oprimido quando saía dos grandes bosques, da madeira maternal. As casas de adobe e as cidades com passado pareciam-me cheias de teias de aranha e de silêncio. Até agora continuo sendo um poeta do céu aberto e da selva fria que perdi então.
Vinha recomendado a uma pensão da rua Maruri, 513. Não esqueço este número de maneira nenhuma. Esqueço todas as datas e até os anos, mas este número 513 ficou galvanizado na minha cabeça, onde o meti há tantos anos com medo de não chegar nunca a essa pensão e me extraviar na capital grandiosa e desconhecida. Na rua mencionada me sentava na sacada para olhar a agonia de cada tarde, o céu embandeirado de verde e carmim, a desolação dos telhados suburbanos ameaçados pelo incêndio do céu.
A vida daqueles anos na pensão de estudantes era de fome completa. Escrevi muito mais do que até então mas comi muito menos. Alguns dos poetas que conheci naqueles dias sucumbiram por causa das dietas rigorosas da pobreza. Entre estes recordo um poeta da minha idade, porém muito mais alto e mais desconjuntado do que eu, cuja lírica sutil estava cheia de essência e impregnava todo lugar onde era ouvida. Chamava-se Romeo Murga.
Com Romeo Murga fomos ler nossas poesias na cidade de San Bernardo, perto da capital. Antes que aparecêssemos no cenário, tudo se havia desenvolvido num ambiente de grande festa: a rainha dos Jogos Florais com sua corte branca e loura, os discursos das autoridades da cidade e os conjuntos vagamente musicais daquele lugar. Mas quando entrei e comecei a recitar meus versos com a voz mais queixosa do mundo, tudo mudou: o povo tossia, lançava piadas e se divertia muitíssimo com minha poesia melancólica. Vendo esta reação dos bárbaros, apressei minha leitura e dei o lugar a meu companheiro Romeo Murga. Foi memorável. Ao ver entrar aquele Quixote de dois metros de altura, de roupa escura e surrada, começar sua leitura com voz ainda mais queixosa que a minha, o público em peso não pôde conter sua indignação e começou a gritar: Poetas famintos! Fora! Não estraguem a festa!
Da pensão da rua Maruri saí como um molusco que sai de sua concha. Despedi-me daquela carapaça para conhecer o mar, isto é, o mundo. O mar desconhecido eram as ruas de Santiago, apenas entrevistas enquanto caminhava entre a velha escola universitária e o quarto ermo da pensão.
Eu sabia que minhas fomes anteriores aumentariam com esta aventura. As senhoras da pensão, remotamente ligadas à minha província, me ajudaram algumas vezes com algumas batatas ou cebolas misericordiosas. Mas não havia mais remédio: a vida, o amor, a glória, a emancipação me chamavam. Pelo menos assim me parecia.
O primeiro alojamento independente que tive foi alugado na rua Argüelles, perto do Instituto de Pedagogia. Numa janela dessa rua cinzenta aparecia um letreiro: “Alugam-se quartos”. O dono da casa ocupava os quartos da frente. Era um homem de cabelos grisalhos, de aparência nobre e de olhos que me pareceram estranhos. Era loquaz e eloqüente. Ganhava a vida como cabeleireiro de senhoras, ocupação a que ele não dava importância. Suas preocupações, segundo me disse, diziam respeito mais ao mundo invisível, ao além.
Tirei meus livros e minhas poucas roupas da maleta e do baú que viajavam comigo desde Temuco e me estendi na cama para ler e dormir, orgulhoso de minha independência e de minha preguiça.
A casa não tinha pátio mas tinha um alpendre para o qual davam vários quartos fechados. Explorando os desvãos da mansão solitária, na manhã do dia seguinte, observei que em todas as paredes e ainda na privada surgiam letreiros que diziam mais ou menos a mesma coisa: “Conforma-te. Não podes te comunicar conosco. Estás morta.” Advertências inquietantes que se prodigalizavam em cada quarto, na sala de jantar, nos corredores, nas saletas.
Era um desses invernos frios de Santiago do Chile. A herança colonial da Espanha deixou a meu país o desconforto e o menosprezo até dos rigores naturais. (Cinquenta anos depois do que estou contando, Ilia Ehrenburg me dizia que nunca sentiu tanto frio como no Chile, ele que chegava das mas nevadas de Moscou.) Aquele inverno havia recoberto os vidros. As árvores da rua tiritavam de frio. Os cavalos das velhas carruagens deitavam vapor pelos focinhos. Era o pior momento para se viver naquela casa, entre obscuras insinuações do além.
O dono da casa, coiffeur pour dames e ocultista, explicou com serenidade, enquanto me olhava profundamente com seus olhos de louco:
- Minha mulher, Charito, morreu há quatro meses. Este momento é muito difícil para os mortos, que continuam frequentando os mesmos lugares em que viviam. Não os vemos mas eles não se dão conta de que não os vemos. É preciso fazê-los saber para que não nos creiam indiferentes e para que não sofram com isto. Por isso coloquei estes cartazes para Charito que lhe tornarão mais fácil compreender seu estado atual de defunta.
Mas o homem de cabeça grisalha me julgava talvez demasiado vivo. Começou a vigiar minhas entradas e saídas, a regulamentar minhas visitas femininas, a espionar meus livros e minha correspondência. Entrasse eu intempestivamente no quarto e deparava com o ocultista explorando meu mobiliário exíguo, fiscalizando meus pobres pertences.
Tive que procurar em pleno inverno, levando tombos pelas ruas hostis, um novo alojamento onde albergar minha independência ameaçada. Encontrei-o a poucos metros dali em uma lavanderia. Saltava aos olhos que aqui a proprietária não tinha nada a ver com o além. Através de pátios frios, com fontes de água estagnada que o musgo aquático recobria de espessas alfombras verdes, alongavam-se jardins abandonados. No fundo havia um quarto de pé-direito muito alto, com bandeiras sobre a trave das altas portas, o que aumentava a meus olhos a distância entre o chão e o teto. Nessa casa e nesse quarto fiquei.
Tínhamos, os poetas estudantis, uma vida extravagante. Defendi meus hábitos provincianos trabalhando em meu quarto, escrevendo vários poemas por dia e tomando intermináveis chávenas de chá que eu mesmo preparava. Porém, fora do quarto e de minha rua, a turbulência da vida dos escritores da época tinha um fascínio especial. Estes não frequentavam o café mas sim as cervejarias e as tabernas. As conversas e os versos iam e vinham até de madrugada. Meus estudos se ressentiam com isso.
A empresa de estrada de ferro dava a meu pai, para suas tarefas a céu aberto, uma capa de grosso pano cinzento que ele nunca usou. Destinei esta capa à poesia. Três ou quatro poetas começaram a usar também capas semelhantes à minha que mudava de mão em mão. Esta peça provocava a fúria da boa gente e da não tão boa. Era a época do tango que chegava ao Chile não só com seus compassos e sua tijera rasgada, seus acordeões e seu ritmo, mas também com um cortejo de vadios que invadiram a vida noturna e os lugares em que nos reuníamos. Esta gente da malandragem, bailarinos e valentões, criava conflitos contra nossas capas e nossas vidas. Nós, os poetas, reagíamos com firmeza.
Por aqueles dias fiz amizade inesperada com uma viúva indelével, de imensos olhos azuis que se velavam ternamente na lembrança de seu recém-falecido marido. Este havia sido um jovem novelista, célebre por seu belo porte. Juntos faziam um par memorável, ela com sua cabeleira cor de trigo, o corpo perfeito e os olhos ultramarinos, e ele muito alto e atlético. O novelista havia sido aniquilado por uma tuberculose das que chamamos galopante. Depois pensei que a loura companheira teve também sua participação de Vênus galopante e que a época pré-penicilínica, mais a loura fogosa, levaram deste mundo o marido monumental num par de meses.
A bela viúva não havia se despojado ainda para mim de seus vestidos de luto, sedas negras e violetas, que a faziam parecer uma fruta nevada envolta numa aura de dor. Essa aura deslizou uma tarde no meu quarto, ao fundo da lavanderia, e pude tocar e percorrer inteiramente a fruta de neve ardente. Ia consumar-se o arrebatamento natural quando vi que, debaixo de meus olhos, ela cerrava os seus e exclamava: “Oh, Roberto, Roberto!”, suspirando ou soluçando. (Pareceu-me um ato litúrgico. A vestal invocava o deus desaparecido antes de entregar-se a um novo rito.) No entanto, e apesar de minha juventude abandonada, esta viúva me pareceu excessiva. Suas invocações se faziam cada vez mais urgentes e seu coração fogoso me conduzia lentamente a um aniquilamento prematuro. O amor, em tais doses, está em desacordo com a desnutrição. E minha desnutrição se tornava cada dia mais dramática.
Pablo Neruda, in Confesso que vivi

Pacificar o capitalismo

A social-democracia não é um capitalismo mais arguto, mais inteligente, atualizado, moderno, capaz de manobrar as forças sociais. A social-democracia destina-se a tornar pacífico o capitalismo, e é condição própria do comunismo destruir o capitalismo.
José Saramago, in As palavras de Saramago

Silva e Anitta - Fica Tudo Bem

Os pássaros de Deus

Desculpa: mais peregrino que o rio não conheço. As ondas vão, vão nessa ida sem fim. Há quanto tempo a água tem esse serviço? Sozinho sobre a velha canoa, Ernesto Timba media a sua vida. Aos doze anos começara a escola de tirar peixe da água. Sempre no comboio da corrente, a sua sombra havia mostrado, durante trinta anos, a lei do homem sobre o rio. E tudo era para quê? A seca esgotara a terra, as sementeiras não cumpriam promessa. Quando regressava da pescaria, não tinha defesa para os olhos da mulher e dos filhos que se espetavam nele. Pareciam olhos de cachorro, custava admitir, mas a verdade é que a fome iguala os homens aos animais.
Enquanto pensava as suas dores, Timba fez a canoa escorrer devagarinho. Por baixo da mafurreira da margem, ali onde o rio estreitava, parou o barco para enxotar o pensamento triste. Deixou o remo a trincar a água e a canoa agarrou-se à imobilidade. Mas o pensamento insistia:
Vivi o quê? Água, água, só mais nada.
A canoa, entre um e outro baloiar, multiplicava-lhe a angústia.
Vão-me tirar um dia, engolido no rio.
Ele antevia a mulher e os filhos a verem-no sair puxado do lodo, e era como se arrancassem as raízes da água.
Por cima, a mafurreira guardava o recado agreste do sol. Mas Timba não escutava a árvore, os olhos espreitavam-lhe a alma. E pareciam cegos, que a dor poeira que nos vai vazando a luz. Mais alto, a manhã chamou e ele sentiu o cheiro do azul intenso.
Quem me dera ser do céu — suspirou.
E sentia a fadiga de trinta anos a pesar-lhe na vida. Lembrou as palavras de seu pai, feitas para lhe ensinar coragem:
Está ver o caçador, maneira que ele faz? Prepara a zagaia momento que ele vê a gazela. Enquanto não, o pescador não pode ver o peixe dentro do rio. O pescador credita uma coisa que não vê.
Aquela era a lição do há-de vir da vida e ele, agora, lembrava as sábias palavras. Fazia-se tarde e a fome avisou-o da hora de voltar. Começou a mover o barco enquanto deitava os últimos olhares para lá, atrás das nuvens. Foi então que um pássaro enorme passou no céu, parecia um rei satisfeito com a sua própria grandeza. O bicho, no alto, segurou-lhe os olhos e uma inquietação estranha nasceu dentro de si. Pensou:
Se aquele pássaro casse agora meu concho!” (Concho: canoa.)
Pronunciou alto aquelas palavras. Mal se calou, o pássaro sacudiu as enormes asas e, bruscamente, desvoou, desvoou, em direção à canoa. Tombou, parecia despedido da vida. Timba recolheu aquele destroço e, segurando-o nas mãos, viu que o sangue ainda não desabotoara aquele corpo. No barco, o animal foi recuperando. Até que direitou e subiu à proa a olhar a sua sobrevivência. Timba pegou nele, pesou-lhe a carne para lhe adivinhar o caril. Afastou a ideia e, com um empurrão, ajudou a ave a retomar o voo.
Suca (Suca: Fora daqui!) pássaro, vai donde vieste!
Mas o pássaro deu meia volta e regressou ao barco. O pescador voltou a enxotá-lo. Outra vez, o mesmo regresso. Ernesto Timba começou a sustar.
Maldito pássaro, volta na tua vida.
Nada, o pássaro não se mexia. Foi então que o pescador suspeitou: aquilo não era um pássaro, era um sinal de Deus. Esse aviso do céu havia de matar, para sempre, o seu sossego. Acompanhado pelo animal voltou para a aldeia. Chegou a casa, a mulher festejou:
Vamos armoçar o pássaro! Num alvoroo chamou as crianças:
Meninos, andam ver chinhanhane (Chinhanhane: passarinho).
Sem responder, Timba poisou a ave sobre a esteira e foi às traseiras da casa buscar tábuas, arame e caniço. Começou logo ali a construir uma gaiola de grandes dimensões, mesmo um homem em pé cabia dentro. Meteu nela o animal e deitou-lhe o peixe que pescara.
A mulher dimirava: o homem estava maluco. O tempo foi passando e os cuidados de Timba eram todos para o pássaro.
A mulher perguntava, apontando o pássaro:
A fome da maneira que está pertar, você não quer-lhe matar?
Timba levantava o braço, categórico. Nunca! Quem tocasse no pássaro seria punido por Deus, seria descontado na vida.
E assim foram passando os dias, o pescador aguardando novos sinais dos desígnios divinos. Vezes sem conta, ficava na tarde molhada enquanto o rio se sentava à sua frente. O sol abaixava e ele fazia a última visita de controlo à gaiola onde o animal engordava. Pouco a pouco, foi notando uma sombra de tristeza pousada no pássaro sagrado. Percebeu que o bicho sofria por estar só. Uma noite pediu a Deus que enviasse uma companheira para a ave solitária. No dia seguinte, a gaiola tinha um novo habitante, uma fêmea. Silenciosamente, Timba agradeceu aos céus pela nova dádiva. Ao mesmo tempo, uma preocupação lhe foi nascendo: por que razão Deus lhe confiara a guarda daqueles animais? De que mensagem seriam portadores?
Pensou, pensou. Esse sinal, esse relâmpago de plumas brancas, só podia significar que a disposição do céu estava para mudar. Se os homens aceitassem despender a sua bondade para com os mensageiros celestes, então, a seca terminaria e o tempo da chuva ia começar. Coubera-lhe a ele, pobre pescador do rio, ser hospedeiro dos enviados de Deus. Competia-lhe mostrar que os homens podem ainda ser bons. Sim, que a verdadeira bondade não se mede em tempo de fartura mas quando a fome dança no corpo dos homens.
A mulher, regressada da machamba, interrompeu-lhe o pensamento:
Afinal? São dois agora?
Ela chegou-se mais perto, sentou-se na mesma esteira e fixando longa-mente o seu companheiro, falou:
Ó marido: a panela está no fogo. Estou pedir licença no pescoço de um, de um só.
Foi estrago de tempo. Timba prometeu severo castigo a quem maltratasse os pássaros divinos.
Com o tempo, o casal teve crias. Eram três, feios e desajeitados, sempre de goela aberta: um apetite de vazar o rio. Timba trabalhava pelos pais dos passarinhos. A comida de casa, já tão escassa, era desviada para alimentar a capoeira.
Na aldeia, espalhou-se a suspeita: Ernesto Timba estava era maluco. A própria mulher, depois de muito ameaçar, abandonou o lar, levando com ela todos os filhos. Timba pareceu nem notar a ausência da família. Preocupou-se, isso sim, em reforçar a segurança do galinheiro. Sentia em redor o espírito da inveja, a congeminação da vingança. Que culpa tinha ele de ter sido escolhido? Diziam que enlouquecera. Mas quem é escolhido por Deus perde sempre os seus caminhos.
E uma tarde, acabando o serviço do rio, uma suspeita queimou-lhe a mente: os pássaros! Pôs-se de regresso, rapidando. Já próximo, viu uma nuvem de fumo subindo nas árvores que cercavam a sua casa. Encostou a canoa sem sequer a amarrar e desatou a correr em direcção à tragédia. Quando chegou já só restavam destroços e cinzas. A madeira e o arame tinham sido mastigados pelo lume. Por entre as tábuas escapava uma asa que o fogo não tocara. O pássaro deve ter-se arremessado contra a parede das chamas e a asa fugira, era uma seta terrível a apontar desgraça. Não baloiçava, como é mania das coisas mortas. Estava firme, cheia de certeza.
Timba recuou aterrado. Gritou pela mulher, pelos filhos e depois, desco-brindo que não havia por quem mais gritar, chorou lágrimas de raiva, tantas que lhe magoaram os olhos.
Porque? Porquê magoaram os pássaros, tão bonitos que eram? E, ali, entre cinza e fumo, explicou-se a Deus:
Vais zangar, eu sei. Vais castigar os teus filhos. Mas olha: estou pedir desculpa. Faz morrer a mim sozinho, eu. Deixa os outros no sofrimento que já estão sofrer. Mesmo podes esquecer a chuva, podes deixar a poeira encostada no chão, mas faz favor, não castigues os homens desta terra.
No dia seguinte, encontraram Ernesto, abraçado à corrente do rio, arrefecido pelo cacimbo da madrugada. Quando o tentaram erguer, verificaram que estava pesado e que era impossível separá-lo da água. Juntaram-se os homens mais fortes mas foi esforço vão. O corpo estava colado superfície do rio. Um receio estranho espalhou-se entre os presentes. Para iludir o medo, algum disse:
Vão avisar a mulher. Digam aos outros que morreu o louco da aldeia.
E retiraram-se. Quando subiam a margem, as nuvens estalaram, parecia que o céu tossia, severo e doente. Noutro qualquer momento, teriam festejado o anunciar da chuva. Agora não. Pela primeira vez, se uniram as crenças suplicando que não chovesse.
Plácido, o rio foi ficando longe, a rir-se da ignorância dos homens. E num embalo terno foi levando Ernesto Timba, corrente abaixo, a mostrar-lhe os caminhos que ele apenas tinha aflorado em sonhos.
Mia Couto, in Vozes anoitecidas

quinta-feira, 21 de junho de 2018

As objeções à religião

As objeções à religião são de dois tipos – intelectuais e morais. A objeção intelectual é que não existe razão para supor que religião alguma seja verdadeira; a objeção moral é que os preceitos religiosos datam de uma época em que os homens eram mais cruéis do que são e, portanto, têm a tendência de perpetuar atrocidades que a consciência moral desta época, de outro modo, superaria.
Vamos examinar primeiro a objeção intelectual: existe uma certa tendência, em nossa época prática, de considerar que não faz muita diferença se os ensinamentos religiosos são verdadeiros ou não, já que a questão mais importante é saber se são úteis. Mas uma questão não pode ser respondida sem a outra. Se acreditarmos na religião cristã, nossas noções do que é bom serão diferentes do que seriam se não acreditássemos nela. Portanto, para os cristãos, os efeitos do cristianismo podem parecer bons, ao passo que, para os descrentes, podem parecer ruins. Além do mais, a atitude de que se deve acreditar nesta ou naquela proposição, independentemente de existirem evidências a seu favor, é uma atitude que produz hostilidade ante as evidências e faz com que fechemos a mente a todos os fatos que não se encaixem nos nossos preconceitos.
Um certo tipo de imparcialidade científica é uma qualidade muito importante, sendo algo que dificilmente pode existir em um homem que imagine existirem coisas em que deve acreditar por obrigação. Não podemos, portanto, realmente decidir se a religião faz bem ou não sem investigar se ela é verdadeira ou não. Para cristãos, maometanos e judeus, a questão mais fundamental implicada na verdade da religião é a existência de Deus. Na época em que a religião ainda triunfava no mundo, a palavra “Deus” tinha um significado perfeitamente definido; mas, como resultado dos ataques violentos dos racionalistas, a palavra foi empalidecendo, até ficar difícil saber o que as pessoas querem dizer ao afirmar que acreditam em Deus. Tomemos, por razões argumentativas, a definição de Matthew Arnold: “Uma força alheia a nós mesmos, que confirma a virtude”. Talvez devamos deixar isso ainda mais vago e perguntar a nós mesmos se temos alguma evidência de finalidade neste universo além das finalidades dos seres vivos sobre a superfície deste planeta.
O argumento mais comum das pessoas religiosas a respeito deste assunto é, grosso modo, o que se segue: “Eu e meus amigos somos pessoas de inteligência e virtude surpreendentes. É praticamente inconcebível supor que tanta inteligência e virtude pudessem ter surgido por acaso. Deve, portanto, existir alguém pelo menos tão virtuoso e inteligente quanto nós que pôs a engrenagem cósmica em funcionamento com o intuito de nos produzir”. Sinto dizer que não considero esse argumento tão impressionante quanto calculam as pessoas que o utilizam. O universo é grande; no entanto, se formos acreditar em Eddington, não há em nenhum lugar do universo seres tão inteligentes quanto os homens. Levando em conta a quantidade total de matéria no mundo e a comparando com a quantidade que forma o corpo dos seres inteligentes, ver-se-á que a segunda acha-se em proporção quase infinitesimal em relação à primeira. Em consequência, mesmo que seja enormemente improvável que as leis do acaso possam produzir um organismo capaz de ter inteligência a partir de uma seleção acidental de átomos, é, contudo, provável que exista no universo aquele número muito pequeno de tais organismos, que de fato encontramos. Mas, mesmo assim, considerados como o clímax de um processo tão complexo, não parecemos, na verdade, suficientemente maravilhosos. Obviamente, tenho consciência de que muitos sacerdotes são muito mais maravilhosos do que eu e que não tenho condições de apreciar por completo méritos que transcendem tanto assim aos meus. Contudo, mesmo depois de fazer concessões a esse respeito, não posso deixar de pensar que a Onipotência, operante por toda a eternidade, poderia ter produzido algo melhor. E, assim, é preciso refletir que mesmo esse resultado representa apenas uma gota no oceano. A terra não será habitável para sempre; a raça humana vai se extinguir, e, se o processo cósmico tiver de se justificar a partir daí, vai ter de fazê-lo em algum outro lugar que não a superfície de nosso planeta. E, mesmo que isso ocorra, o processo deverá ser interrompido cedo ou tarde. A segunda lei da termodinâmica torna praticamente impossível duvidar de que o universo esteja se exaurindo e de que, no fim, nada que tenha o menor interesse será possível em lugar nenhum. Claro, fica a nosso critério dizer que, quando tal hora chegar, Deus vai dar corda na engrenagem mais uma vez; mas, se fizermos esta afirmação, só poderemos basear nossa alegação na fé, e não em qualquer migalha de evidência científica. No que diz respeito à evidência científica, o universo se arrastou em estágios lentos até um resultado um tanto deplorável nesta terra – e vai se arrastar, por mais outros estágios deploráveis, até atingir a condição de morte universal. Se isso for tomado como evidência de uma finalidade, só posso dizer que esta finalidade não me atrai em nada. Não vejo razão, portanto, para acreditar em qualquer tipo de Deus, por mais vago e mais atenuado que seja. Deixo de lado os velhos argumentos metafísicos, já que os próprios defensores da religião os desprezaram.
Bertrand Russell, in Por que não sou cristão

Inferno

Em suave andadura de sonho, sob uma infinita série de arco-íris celestiais, anjos me conduziam num palanquim dourado, entre um curioso povo de profetas e virgens, que formavam alas para me ver passar. Mas eu me debruçava inquieto a uma e outra janela: faltava-lhe alguma coisa. Faltava... Faltavam os meus desafetos. Eu só queria era ver a cara deles, ver a cara que eles fariam quando me vissem passar, tirado por anjos num palanquim de ouro!
Mário Quintana, in Sapato florido

O esteireiro

  
Queequeg

Era uma tarde nublada e opressiva; os homens passeavam lentamente pelo convés, ou olhavam distraidamente para as águas plúmbeas. Queequeg e eu estávamos ocupados em tecer tranquilamente o que se chama de esteira-espada, para servir de amarra suplementar para o nosso bote. Tão calma e absorta e ainda de certo modo auspiciosa a cena se apresentava, e pairava tamanho encantamento de sonho no ar, que todo marinheiro, em silêncio, parecia dissolver-se em seu próprio eu invisível. Eu era o ajudante ou assistente de Queequeg, ambos ocupados no trabalho da esteira. Enquanto eu passava e repassava a trama ou fio de merlim por entre os longos fios da urdidura, usando minha própria mão como lançadeira, Queequeg, de pé ao lado, de vez em quando deslizava sua enorme espada de carvalho por entre as linhas, e, olhando distraidamente para a água, colocava de modo despreocupado e automático cada fio no seu lugar; repito, uma atmosfera estranha de sonho reinava sobre todo o navio e sobre todo o mar, apenas quebrada pelo barulho intermitente da espada, tanto que isto parecia ser o Tear do Tempo, e eu mesmo uma lançadeira mecanicamente tecendo e sempre tecendo para as Parcas. Assim estavam presos os fios da urdidura, sujeitos a apenas uma única vibração imutável e constante, e aquela vibração era calculada para permitir apenas o cruzamento dos outros fios com o seu. A urdidura parecia a Necessidade; e aqui, pensei, com as minhas próprias mãos guio a lançadeira e teço meu próprio destino nestes fios inalteráveis. Enquanto isso, a espada indiferente e impulsiva de Queequeg às vezes tocava na trama de modo enviesado, ou torto, ou muito forte, ou muito fraco, conforme o caso; e, com essa diferença, o último golpe produzia um contraste correspondente no aspecto final do tecido concluído; a espada desse selvagem, pensei, que dá forma e ajusta, por fim, tanto a urdidura quanto a trama; essa espada indiferente e descuidada deve ser o Acaso – sim, Acaso, Livre-Arbítrio e Necessidade – de modo algum incompatíveis – todos entrelaçadamente trabalhando juntos. A urdidura reta da Necessidade, que não deve ser desviada de seu curso final – todas as suas vibrações alternadas, de fato, levam a isso; o Livre-Arbítrio sempre livre para guiar sua lançadeira por entre os fios estabelecidos; e o Acaso, embora restrito pelas linhas retas da Necessidade, e além do mais tendo os movimentos modificados pelo Livre-Arbítrio, embora seja dessa forma determinado pelos dois, o Acaso a cada vez comanda ambos e dispõe do último golpe no configurar dos acontecimentos.

* * * * * * *

Estávamos assim tecendo e sempre tecendo, quando fui desperto por um som tão estranho, tão prolongado e musicalmente selvagem e sobrenatural, que o novelo do Livre-Arbítrio caiu de minha mão, e fiquei a olhar para cima, para as nuvens, de onde aquela voz descia como uma asa. No alto, na plataforma da gávea, estava Tashtego, aquele louco de Gay Head. Seu corpo se jogava avidamente para a frente, a mão esticada como uma vara, e com súbitos intervalos rápidos voltava a gritar. Esteja certo de que o mesmo grito talvez tenha sido ouvido naquele momento por toda a extensão dos mares, vindo de todos os gajeiros de navios baleeiros, empoleirados lá em cima; mas de poucos daqueles pulmões o velho e pisado aviso poderia surgir com uma cadência tão maravilhosa quanto a do índio Tashtego.
Enquanto pairasse sobre você como que suspenso no ar, tão ansiosa e avidamente olhando para o horizonte, você o teria comparado a um profeta ou vidente contemplando as sombras do Destino e anunciando com aqueles gritos selvagens sua chegada.
Lá soprou! Ali! Ali! Ali! Ela sopra! Ela sopra!”
Onde?”
A sotavento, umas duas milhas! Um bando!”
Imediatamente tudo se fez comoção.
O cachalote sopra como um relógio toca, com a mesma regularidade confiável e constante. Assim os baleeiros distinguem esse peixe das outras tribos de seu gênero.
Já foram as caudas!”, ouviu-se então Tashtego gritar, e as baleias desapareceram.
Depressa, camareiro!”, gritou Ahab. “As horas! As horas!”
Dough-Boy correu para baixo, olhou no relógio e informou Ahab da hora exata.
O navio mantinha-se afastado do vento e deslizava calmamente à sua frente. Tashtego tendo anunciado que as baleias mergulhavam a sotavento, esperávamos vê-las emergir diretamente na proa. Pois aquela astúcia singular mostrada às vezes pelo cachalote, quando, imergindo a cabeça numa direção, se move rapidamente na direção oposta, enquanto se esconde sob a superfície – este subterfúgio não podia estar sendo posto em prática naquele momento; pois não havia motivo para supor que o peixe avistado por Tashtego pudesse ter se assustado ou mesmo tomado conhecimento de nossa proximidade. Um dos homens escolhidos para guardar o navio – isto é, um dos que não desciam com os botes, já tinha tomado o lugar do Índio no topo do mastro principal. Os marinheiros dos mastros de proa e de mezena desceram; as bobinas dos cabos foram colocadas em seus lugares; os guindastes foram colocados para fora; a verga principal foi recolhida, e os três botes balançavam sobre o mar como três cestos de salicórnia sobre altos penhascos. Fora da amurada, a tripulação ansiosa, com uma das mãos firmada no balaústre, colocava o pé na amurada. Assim se colocam numa longa fila os marinheiros dos navios de guerra prontos para abordar o navio inimigo.
Mas neste momento crítico ouviu-se um grito que afastou todos os olhares da baleia. Com um sobressalto, todos se viraram para o soturno Ahab, que estava cercado por cinco fantasmas sombrios, que pareciam recém-criados pelo ar.
Herman Melville, in Moby Dick

A senhora do sétimo andar

Numa manhã de setembro do ano passado, eu estava no jardim do térreo e olhava um pássaro azul que dançava no ar de fuligem. De repente uma voz aguda me despertou:
O que você está olhando? Não se vê nada, as nuvens passam e se dissolvem como a vida.”
Era uma moradora de um apartamento do sétimo andar. Achei o comentário impertinente e um tanto poético. Não lhe perguntei nada sobre poesia, mas as nuvens e suas formas mutáveis me aproximaram de d. Valéria, uma senhora de uns noventa e poucos anos. Foi uma aproximação lenta, que se estreitou em janeiro deste ano, quando ela me convidou para conversar em seu apartamento.
Toquei a campainha às seis horas em ponto. A sala, iluminada, fora diminuída por uma biblioteca fantástica e livros empilhados por toda parte. Perguntou se eu queria chá, café, suco, uísque ou cerveja.
Suco.”
Para meu deleite, trouxe um copo com suco de manga; e, para minha surpresa, pegou uma garrafa de uísque e um copo sem gelo. As mãos tremiam, mas não a voz:
Os jovens já não bebem mais”, ela disse, com uma ironia que me fez sorrir.
Pôs dois dedos de uísque no copo, tomou um gole e disse que tinha namorado muito, numa época em que a maioria das moças namorava para casar. Aos 36 anos, quando suas amigas já tinham filhos adolescentes, ela se casou com um juiz e passou a lua de mel em Dublin.
Um juiz digno, um homem honesto”, frisou. “Ainda bem que meu marido não está aqui para ver tantas coisas ultrajantes. Bom, se ele estivesse, teria cento e seis anos, e com essa idade um ser humano não se surpreende com nada, nem mesmo com a morte.”
Como não teve filhos, d. Valéria passou uma parte da vida ajudando o marido. Lia autos de processos e também literatura. Leu tantos processos sobre todo tipo de delito que chegou a uma conclusão pessimista. Disse, sem amargura: “O ser humano, meu filho, não vale uma casca de cebola”.
Ela e o marido tinham conhecido Cyro dos Anjos em Brasília, quando a nova capital era um símbolo de esperança e otimismo. Aproveitei a menção do escritor mineiro e disse que havia conhecido seu filho.
Eu também conheci esse menino”, ela disse, me olhando com ar triste. “Vocês eram amigos?” “Estudamos na mesma escola em Brasília”, eu disse.
Tão jovem”, ela murmurou. “Como é possível?”
Bebeu mais um gole, e ficamos calados. Observei a sala, os livros, um quadro de Portinari e o assento de palhinha esburacado de uma marquesa; no chão, duas luminárias velhas e retorcidas. Uma claridade vinha da copa. O acesso ao corredor escurecia mais que o céu.
Ainda leio antes de dormir. E bebo um pouco quando converso, mas não gosto de falar de coisas tristes.”
Uma manhã de fevereiro, antes do meio-dia, eu a vi com duas amigas, as três sentadas à mesa de um bar, tomando cerveja. Minha vizinha era a única que falava; as outras ouviam com atenção, de vez em quando riam. Fingi que esperava alguém e ouvi trechos do monólogo. D. Valéria falou de sua juventude em São Pedro, de namoros e bailes, de viagens de trem a Piracicaba, de duas bordadeiras italianas, as mais famosas de sua cidade natal. Tomou um gole com tanta avidez que esvaziou o copo. Depois disse:
Vocês se lembram do Enzo, aquele rapaz de Campinas? Foi ele… Foi com ele… Na sede da fazenda. Não ia acontecer nada, e de repente aconteceu tudo. Ouvi badaladas de um sino, mas não tinha igreja por perto.”
As duas amigas gargalharam e o garçom, voyeur profissional, apenas sorriu.
Sei que ela gostava de poesia porque, numa conversa antes da Páscoa, mencionou poemas de Álvares de Azevedo e Augusto dos Anjos, e me mostrou um livro de Yeats, com uma dedicatória a um parente do marido dela. Folheei o livro, edição de 1933. Disse que seu marido, brasileiro de origem irlandesa, recitava poemas desse “irlandês genial”. Pôs uma fita cassete num gravador e ouvimos a voz cavernosa do finado James em noites do passado. Fiquei emocionado com essa voz, que parecia mastigar os sons de cada palavra. A viúva bebia uísque e sorria, sem tirar os olhos do gravador. Um dos poemas era “The Winding Stair”, título do livro.
Depois veio a Páscoa. Passei cinco dias fora de São Paulo e, quando voltei, encontrei na soleira da porta do meu apartamento um envelope com o livro de Yeats, que d. Valéria me mostrara. Subi pela escada os dois andares que nos separavam. A porta do 702 estava aberta. Dei uma olhada na sala: não havia livros nas estantes. Dois homens de macacão azul enrolavam a marquesa com uma manta de feltro.
Até hoje o apartamento está vazio.
Milton Hatoum, in Um solitário à espreita

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Carta

Não sei onde encontrá-lo
neste exato instante.
Nem se você carrega consigo
sua dose excitante de perigo
e a lista de coisas importantes.
Perdi o fio da meada.
Lembro sua figura na calçada,
acenando ternamente;
um acordo apressado
e a semente plantada num lugar qualquer
para o diabo usar quando Deus quiser.
Enquanto isso,
escrevo aquilo que sinto,
sinto tudo que não devo.
Adorável labirinto!
Por enquanto,
é melhor deixar a poesia
divagar no espaço
sem um ponto certo pra pousar.
Pode ser que um dia
ela vá amanhecer no seu canto,
sorrateira.
A desenrolar-se frouxa sobre sua esteira.
Flora Figueiredo

Um Café Lá em Casa com Carlos Malta e Nelson Faria

Dor

Gosto da Adélia Prado por várias razões. É poeta. Tem o jeitão mineiro. E teóloga. Sempre que ela fala sobre os mistérios do mundo sagrado, eu me calo e medito. Quase sempre as palavras dela iluminam as minhas dúvidas. Sugestão para algum estudante que esteja à procura de tema para dissertação: “A Teologia da Adélia Prado”...
Mas hoje peço perdão. Discordo do que ela escreveu. Estava teologando, falando sobre a coisa mais terrível que há no mundo, o demônio, e foi isso, mais ou menos, o que ela escreveu. Digo “mais ou menos” porque não sei de cor e não posso consultar os livros dela que estão encaixotados, prontos para uma mudança que, julgo, será a última... Foi isso que acho que ela disse: “O céu será igualzinho a essa vida, menos uma coisa: o medo...” . Tanta coisa boa! Não é preciso pôr mais nada. O que está aí chega. Precisa só tirar uma coisa, uma única coisa, e a Terra se transformará no céu. Qual é o nome dessa coisa terrível? Ela responde: o medo.
Concordo. Mas eu acho que tem coisa pior, que é a causa de todos os medos: a dor. Nunca tive medo de cálculo renal. A despeito de eu nunca ter tido medo dele, ele veio, sem pedir licença e sem consultar se eu tinha medo ou não. Foi assim que conheci pela primeira vez a dor do inferno. Cessam todos os pensamentos. O corpo só deseja uma coisa: parar de sentir dor, a qualquer preço.
Dor não tem jeito de explicar. Bernardo Soares diz que tudo o que é sentimento é inexplicável. O artista, para comunicar seus sentimentos — inexplicáveis —, se vale de um artifício: ele invoca um sentimento “parecido” que o outro conhece. Não posso explicar o cheiro da flor de um jasmim-do-imperador. O perfume está além das palavras. Mas eu posso dizer: “É igualzinho ao cheiro de pêssego...”.
De que comparação vou me valer para explicar a dor a alguém que não a está sentindo? Só sabe o que é a dor aquele que a está sentindo, no presente. Enquanto a dor está doendo, meu corpo — não minha cabeça — sabe o que ela é. Passada a dor, ela fica na memória. Passa a morar no passado. Mas isso que está na memória não é conhecimento da dor porque o passado não dói. A memória da dor, por terrível que tenha sido quando aconteceu, não me dá conhecimento da dor, depois que ela se foi.
Minha memória mais antiga de dor me leva de volta à roça onde vivi quando menino. Lembro-me da cena, mas não sinto. Acho até engraçado. Era dor de dente — dor num minúsculo dente. A dor fazia meu minúsculo dente inchar até ficar do tamanho do universo — e eu, chorando, sem saber contar a minha dor, dizia que tinha inveja das galinhas que não tinham dentes... Foi o meu primeiro encontro.
Mais tarde, ela voltou sem se anunciar. Não a mesma. Nenhuma dor é a mesma. Cada dor é única. Chegou bruta, definitiva. Lutei contra ela usando as armas que se compram nas farmácias. Inutilmente. Levaram-me (nesse ponto eu já não era dono de mim mesmo; eu estava à mercê dos outros) então para o hospital, lugar da medicina forte. As injeções são mais potentes que os comprimidos. Aplicaram-me seis Buscopan. A dor não tomou conhecimento. Ficou mais forte. Comecei a vomitar. O médico, reconhecendo a derrota dos recursos penúltimos, dirigiu-se à enfermeira e disse o nome do último, nenhum mais forte: “Aplica uma dolantina nele...”.
Ela aplicou. Aí, passados cinco minutos, senti a mais deliciosa sensação que tive em toda a minha vida. Não era sensação de nada. Que me importavam música, sexo ou flores? Era, simplesmente, a sensação de não ter dor. Pensei se essa euforia não deveria ser o estado normal da alma, sempre que o corpo não estivesse sentindo dor. Rindo e feliz, brinquei que o Paraíso morava dentro de uma ampola de dolantina...
Rubem Alves, in Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo

A era das compras

Fonte: Bol Fotos

A economia capitalista moderna deve aumentar a produção constantemente se quiser sobreviver, como um tubarão que deve nadar para não morrer por asfixia. Mas só produzir não é o bastante. Também é preciso que alguém compre os produtos, ou os industrialistas e os investidores irão à falência. Para evitar essa catástrofe e garantir que as pessoas sempre comprem o que quer que a indústria produza, surgiu um novo tipo de ética: o consumismo.
A maioria das pessoas ao longo da história viveu em condições de escassez. A frugalidade era, portanto, sua palavra de ordem. A ética austera dos puritanos e a dos espartanos são apenas dois exemplos famosos. Uma pessoa boa evitava luxos, nunca desperdiçava comida e remendava calças rasgadas em vez de comprar novas. Somente reis e nobres se permitiam renunciar publicamente a tais valores e ostentar suas riquezas.
O consumismo vê o consumo de cada vez mais produtos e serviços como algo positivo. Encoraja as pessoas a cuidarem de si mesmas, a se mimarem e até a se matarem pouco a pouco por meio do consumo exagerado. A frugalidade é uma doença a ser curada. Não é preciso olhar muito longe para ver a ética do consumo em ação – basta ler a parte de trás de uma caixa de cereal. Esta é uma citação de uma caixa de um dos meus cereais matinais favoritos, produzido por uma empresa israelense, a Telma:

Às vezes você precisa de cuidados. Às vezes você precisa de um pouco mais de energia. Há momentos para controlar o peso e momentos em que você simplesmente precisa fazer alguma coisa... imediatamente! A Telma oferece uma variedade de cereais saborosos especialmente para você – prazer sem remorso.

A mesma embalagem traz uma propaganda de outra marca de cereal chamada Health Treats:

Health Treats oferece uma porção de grãos, frutas, nozes e castanhas para uma experiência que combina sabor, prazer e saúde. Para uma refeição saborosa no meio do dia, perfeita para um estilo de vida saudável. Um verdadeiro deleite com o sabor maravilhoso de “quero mais” [grifo no original].

Durante a maior parte da história, as pessoas teriam sido repelidas, e não atraídas, por esse texto. Eles o teriam considerado egoísta, indecente e moralmente corrupto. O consumismo trabalhou duro, com a ajuda da psicologia popular (“Just do it!”), para convencer as pessoas de que a indulgência é algo bom, ao passo que a frugalidade significa auto-opressão.
O consumismo prosperou. Somos todos bons consumistas. Compramos uma série de produtos de que não precisamos realmente e que até ontem não sabíamos que existiam. Os fabricantes criam deliberadamente produtos de vida curta e inventam modelos novos e desnecessários de produtos perfeitamente satisfatórios que devemos comprar para “não ficar de fora”. Ir às compras se tornou um passatempo favorito, e os bens de consumo se tornaram mediadores essenciais nas relações entre membros da família, casais e amigos. Feriados religiosos como o Natal se tornaram festivais de compras. Nos Estados Unidos, até mesmo o Memorial Day – originalmente um dia solene para lembrar os soldados mortos em combate – é hoje uma ocasião para vendas especiais. A maioria das pessoas comemora esse dia indo às compras, talvez para provar que os defensores da liberdade não morreram em vão.
O florescimento da ética consumista é mais visível no mercado de alimentos. As sociedades agrícolas tradicionais viviam à sombra terrível da fome. No mundo afluente de hoje, um dos principais problemas de saúde é a obesidade, que acomete os pobres (que se empanturram de hambúrgueres e pizzas) de maneira ainda mais severa do que os ricos (que comem saladas orgânicas e vitaminas de frutas). Todos os anos, a população dos Estados Unidos gasta mais dinheiro em dietas do que a quantidade necessária para alimentar todas as pessoas famintas no resto do mundo. A obesidade é uma vitória dupla para o consumismo. Em vez de comer pouco, o que levará à contração econômica, as pessoas comem demais e então compram produtos para dieta – contribuindo duplamente para o crescimento econômico. Como podemos alinhar a ética consumista com a ética capitalista do empresário, de acordo com a qual os lucros não devem ser desperdiçados, e sim reinvestidos na produção? É simples. Como em épocas anteriores, existe hoje uma divisão de trabalho entre a elite e as massas. Na Europa medieval, os aristocratas gastavam o dinheiro despreocupadamente em luxos extravagantes, ao passo que os camponeses levavam uma vida frugal, cuidando de cada centavo. Hoje, a situação se inverteu. Os ricos gerenciam seus ativos e investimentos com muito cuidado, enquanto os menos abastados se endividam comprando carros e televisores de que na verdade não necessitam.
A ética capitalista e a consumista são dois lados da mesma moeda, uma combinação de dois mandamentos. O mandamento supremo dos ricos é “invista!”. O mandamento supremo do resto de nós é “compre!”.
A ética capitalista-consumista é revolucionária em outro aspecto. A maioria dos sistemas éticos anteriores apresentava às pessoas um acordo muito difícil. Elas recebiam a promessa do paraíso, mas só se cultivassem a compaixão e a tolerância, superassem o desejo e a fúria e controlassem seus interesses egoístas. Isso era difícil demais para a maioria. A história da ética é um conto triste de ideais maravilhosos que ninguém consegue colocar em prática. A maioria dos cristãos não imitou Cristo, a maioria dos budistas não conseguiu seguir os passos de Buda, e a maioria dos confucianos teria causado um ataque de nervos a Confúcio.
Já a maioria das pessoas hoje consegue viver de acordo com o ideal capitalista-consumista. A nova ética promete o paraíso sob a condição de que os ricos continuem gananciosos e dediquem seu tempo a ganhar mais dinheiro e as massas deem rédea solta a seus desejos e paixões – e comprem cada vez mais. Essa é a primeira religião na história cujos seguidores realmente fazem o que se espera que façam. Mas como temos certeza de que, em troca, teremos o paraíso? Nós vimos na televisão.
Yuval Noah Harari, in Sapiens: uma breve história da humanidade

Teste

Teste a si mesmo pela humanidade. Ela faz quem duvida duvidar, quem acredita, acreditar.
Franz Kafka, in Aforismos reunidos

Gato e Gata, de Laerte

 

Santa Milagrosa

Sábado de Carnaval. O índio entrou no bar Caras e Bocas, pintura de guerra feita com esparadrapo, sentou em frente a mim e suspirou:
- Canalha. Estendi a mão.
- Prazer. Canalha de quê?
Ele riu. Fiz um sinal pro Davi trazer dois chopes.
- Minha vida era aquela criança e agora...
- Morreu?
- Não, foi morar com a tia.
Bebi um gole e relaxei. Adoro drama contado em buteco.
- Durante a gravidez a mãe dela não passou bem. Eu disfarçava meu próprio sofrimento bebendo e bancando o macho. Uma noite a mãe dela me pediu que fosse a um supermercado e comprasse mamão papaia, tava com muito desejo. Eu disse pra ela não encher meu saco. Ela me olhou com uns olhos de mágoa que eu não consigo esquecer. Senti que tinha perdido a mulher. Era só uma questão de tempo. A criança nasceu de sete meses, foi pra incubadora. Fiz promessa: se a menina vingasse, eu pararia de fumar charuto, ela se chamaria Aparecida e, durante três anos, sairia vestida igualzinha a santa, com andor e o escambau, no meio da bateria do bloco onde eu era o faz-tudo, o Grêmio Carnavalesco Quem Nunca Sentiu Vai Sentir Agora. Quando Aparecida fez cinco anos, a mãe fugiu com um protético. Disse que nunca mais queria me ver. Senti que era hora de começar a cumprir minha promessa. No carnaval seguinte, armamos o Bloco, na Praça Mauá, pra atravesar a Rio Branco de cabo a rabo. Caiu um toró desgraçado. Quando colocamos Aparecida, de manto e coroa, no andor, a chuva parou como que por encanto. Tava todo mundo meio de porre. Dorinha Valium-10 gritou: “Milagre”! Teve gente que se ajoelhou. De farra. Não choveu uma gota até que tirei Aparecida do andor, lá perto do Obelisco. Foi pousar a menina no chão e o pé d'água desabar. Dava pra ver respeito, medo até, nos olhos das pessoas. Eu tava engatilhando uma piada pra desanuviar o astral quando Aparecida fez um gesto tipo cala-essa-boca, e avisou a todos, com voz suave e adulta: “Esse ano foi a chuva, ano que vem serão os pombos”.
- Nunca tive tanta vontade de fumar um charuto na minha vida.
Eu quis mandar buscar uns charutos no buteco da esquina, já que o Caras não vendia nada de fumo. O índio riu:
- Não, obrigado. Parei de vez. Eu tive vontade naquela hora, lá na avenida.
Pedi mais dois.
- Bom, durante o resto do ano, Aparecida se comportou como uma criança perfeitamente saudável, sem problema. Nem pesadelo tinha. Chegou o Carnaval. Desfilamos outra vez na Rio Branco. Quando estávamos passando pela Cinelândia, um monte de pombos pousou no andor. Há quem diga que foram três ou quatro. Outros juram que foram dezenas. Eu não sei mais. No meio do tumulto, gente chorando, um menino que saía de cadeiras de roda, com uma cuíca, levantou e agradeceu a graça conquistada. Eu quase tive um troço. Me deu uma vontade de fumar tão grande que a minha boca entortou. Olhei pra Aparecida: tinha crescido. A roupa de santinha tava na altura das canelas dela. Dava pra ver o tênis rosa-sujo. Fiquei com os olhos cheio de lágrimas e pensei: nessa terra até Nossa Senhora tem chulé. Aparecida sorriu docemente pra mim e orou: “Madrinha, faz eu voar ano que vem! Nem que seja só um pouquinho.
O índio pediu pra ir ao banheiro. Sabia cortar na hora certa. Quando voltou, ficou calado um tempão. Não forcei a barra. De repente, começou a chorar. Mais dois e ele contou o resto da história.
- Era o último desfile dela. Na concentração, na Praça Mauá, tinha até Televisão. Vários jornais publicaram reportagens sobre os milagres. Muita gente tinha recortes, com fotografia da menina, presos no peito com alfinetes, colados, eu sei lá. Até o cardeal falou sobre o bloco em seu programa de rádio e aproveitou a deixa pra esculhambar a Xuxa. A praça fervia. Tinha PM em traje de gala, representante do Prefeito, bandeiras do PT, uma loucura. Nunca vi tanto aleijado junto. O malandro do repique era surdo-mudo. A maior mistura de cabrochas seminuas e beatas com vela, terço, ex-voto... Que zona, parceirinho! Depois de muita confusão, o bloco saiu. O refrão do samba era assim:

Santos Dumont deu motivo pro Brasil se orgulhar
Abre alas Ponte Aérea, que a Santa vai voar”.

- É mole?
Eu ouvia tão fascinado que o chope esquentou. Mais dois!
- Perto do Avenida Central ela abriu os braços e começou a tremer. Foi indescritível. O povo cantava o refrão como se estivesse numa igreja, a bateria sentando a lenha. A turma da corda não conseguia conter os fiéis. Pintou um turista alemão filmando a cena, baita charuto na boca. Não aguentei Tirei o palhaço da boca do gringo e puxei fundo. O andor todo balançava. Os foliões todos gritavam: “É agora! É agora!” Perto do Teatro Municipal uns babacas ensaiaram o corinho: “Mar-me-la-da! Mar-me-la-da!”. Saiu um cacete pra Maguila nenhum botar defeito, todo mundo dando e levando. O único jeito de acabar com aquilo era Aparecida levantar voo. Perdi a cabeça. Me pendurei no andor e dei um tremendo esporro: “Tá rateando, merda? Decola logo, sua filha da...!” E aí...
Eu quase sem ar:
- E... aí?
- Foi um voo curto mas valeu. Aparecida soltou um berro medonho, despregou do andor, planou uns dois metros, o manto azul de cetim feito asa-delta de pobre, e caiu de cabeça no meio da bateria. A massa delirou. Aparecida levou seis pontos na testa e, na Quarta-feira de Cinzas, foi morar com a tia. Disse que nunca mais queria me ver.
- Por causa dos palavrões?
- Não. Por ter enfiado a brasa do charuto na perninha dela. Eu costumo dizer que santa voadora não admite co-piloto.
Aldir Blanc, in Brasil passado a sujo