05/10/2026

Mundo Velho-Novo

 

Armandinho

 

1641 – Madrid

A eternidade contra a história

O conde-duque de Olivares morde os punhos e amaldiçoa baixinho.
É muito o que manda, depois de vinte anos de tanto fazer e desfazer na corte, mas mais forte pisa Deus.
A Junta de Teólogos acaba de rejeitar o projeto de canalização dos rios Tejo e Manzanares, que tanto bem faria para os páramos de Castilha. Os rios ficarão como os fez Deus, e ao arquivo irão os projetos dos engenheiros Carducci e Martelli.
Na França anunciam que logo se abrirá o grande canal do Languedoc, para unir o Mediterrâneo com o vale do Garona. Enquanto isso, nesta Espanha que conquistou a América, a Junta de Teólogos decide que atenta contra a Divina Providência quem tenta melhorar o que ela, por motivos inescrutáveis, quis que seja imperfeito. Se Deus quisesse que os rios fossem navegáveis, os teria feito navegáveis.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Classe

 



Não estou certo da localização. Algum lugar a nordeste da Califórnia. Hemingway recém acabara um romance, vinha da Europa ou de lá sei onde e estava no ringue lutando contra alguém. Havia jornalistas, críticos, escritores – aquela tribo – e também algumas jovens senhoritas sentadas nas cadeiras próximas ao ringue. Sentei na última fileira de cadeiras. A maioria das pessoas não estava observando Hemingway. Estavam conversando umas com as outras e rindo.
O sol estava alto. Era alguma das horas do início da tarde. Eu observava o Ernie. Já tinha derrotado o adversário, estava brincando com ele. Distribuía jabs e cruzados à vontade. Então colocou o adversário no chão. As pessoas os olhavam. O oponente de Hemingway levantou-se quando a contagem chegou ao oito. Hemingway foi na direção dele, então parou. Ernie tirou seu protetor bucal, riu e despachou o oponente com um aceno de mão. Foi uma vitória fácil. Ernie caminhou para o seu corner. Reclinou a cabeça para trás e alguém espremeu água em sua boca.
Levantei da minha cadeira e caminhei lentamente pelo corredor entre os assentos. Aproximei-me, espichei a mão e chamei-o com um cutucão.
– Sr. Hemingway?
– Sim, o que é?
– Gostaria de lutar com senhor.
– Você tem alguma experiência no boxe?
– Não.
– Então vá arranjar alguma.
– Estou aqui para quebrar a sua cara.
Ernie riu. Disse para o sujeito no corner:
– Arranje calções e luvas para o garoto.
O sujeito pulou para fora do ringue, e eu o segui pelo corredor entre as cadeiras até o vestiário.
– Você está louco, garoto? – me perguntou.
– Não sei. Acho que não.
– Aqui. Experimente esses calções.
– Ok.
– Ih... está muito grande.
– Foda-se. Vai assim mesmo.
– Ok, deixe-me colocar a faixa nas suas mãos.
– Sem faixas.
– Sem faixas?
– Sem faixas.
– Que tal um protetor bucal?
– Sem protetor.
– Vai lutar com ele usando esses sapatos?
– Lutarei de sapato.
Acendi um charuto e o segui até o ringue. Caminhei pelo corredor fumando o charuto. Hemingway subiu novamente no ringue e colocaram as luvas nele. Não havia ninguém no meu corner. Finalmente alguém chegou e colocou as luvas em mim. Fomos chamados ao centro do ringue para receber instruções.
– Quando você partir para um clinch – disse o juiz –, eu vou...
– Não uso o clinch – eu disse ao juiz.
Ele seguiu dando outras instruções.
– Ok. Voltem para seus corners. Quando o gongo soar, lutem. Que vença o melhor homem. E – ele me disse – é melhor você tirar o cigarro da boca.
Quando o gongo soou, comecei com o charuto ainda na boca. Puxando uma boa baforada, soprei a fumaça na cara de Ernest Hemingway. A multidão riu.
Hem avançou, soltou um jab e um gancho e errou os dois. Eu tinha os pés rápidos. Ginguei um pouco, avancei, tap tap tap tap tap, cinco jabs de esquerda no nariz do papai. Dei uma olhada em uma garota da primeira fila, uma coisinha muito bonita, e então Hem acertou uma direita, tirando o charuto de minha boca. Senti minha boca e minha bochecha queimarem e tirei as cinzas quentes. Cuspi a bagana e acertei um gancho na barriga de Ernie. Ele soltou um gancho com a direita e me pegou na orelha com uma esquerda. Abaixou-se para se esquivar da minha direita e me acertou uma saraivada, levando-me até as cordas. Justo quando soou o gongo, ele soltou uma sólida direita no meu queixo. Levantei e caminhei para o meu corner.
Um sujeito apareceu com um balde.
– O sr. Hemingway quer saber se você gostaria de lutar mais um round – o sujeito me perguntou.
– Diga ao sr. Hemingway que ele teve sorte. Entrou fumaça nos meus olhos. Mais um assalto é só do que preciso para terminar o serviço.
O sujeito com o balde foi até lá e eu podia ver Hemingway rindo.
O gongo soou e eu saí rapidamente. Comecei soltando a mão, não com muita força, mas com boas combinações. Ernie recuou, errando seus socos. Pela primeira vez vi dúvida em seus olhos.
“Quem é esse garoto?”, ele devia estar pensando. Encurtei meus golpes, acertei-o com mais força. Acertei cada golpe. Cabeça e corpo. Combinações variadas. Boxeei como Sugar Ray e bati como Dempsey.
Coloquei Hemingway contra as cordas. Ele não tinha como cair. Cada vez que ele começava a cair para frente, eu o endireitava com outro soco. Era assassinato. Morte na tarde.
Dei uma passo para trás e o sr. Ernest Hemingway caiu para frente, nocauteado.
Desamarrei minhas luvas com os dentes, tirei-as e saltei para fora do ringue. Caminhei para o meu vestiário, quero dizer, o vestiário de Hemingway, e tomei um banho. Bebi uma garrafa de cerveja, acendi um charuto e sentei na ponta da mesa de massagem. Trouxeram Ernie carregado e o colocaram na outra mesa. Ele ainda estava fora do ar. Continuei sentado ali, pelado, observando-os enquanto se preocupavam com Ernie. Havia mulheres na sala, mas não dei atenção. Então um sujeito veio até mim.
– Quem é você? – perguntou. – Qual o seu nome?
– Henry Chinaski.
– Nunca ouvi falar – ele disse.
– Vai ouvir – eu disse.
Todos vieram me cercar. Ernie foi deixado sozinho. Pobre Ernie. Todos ao redor de mim. As mulheres também. Nenhuma em especial me chamava a atenção, com exceção de uma delas. Uma mulher muito classuda me olhava de cima a baixo. Parecia ser uma mulher da sociedade, rica, educada e todo o resto... bom corpo, boa cara, boas roupas, tudo aquilo.
– O que você faz? – alguém me perguntou.
– Trepo e bebo.
– Não, não, quero saber qual a sua ocupação?
– Lavador de pratos.
– Lavador de pratos?
– Sim.
– Você tem algum passatempo?
– Bem, não sei se dá para chamar de passatempo. Escrevo.
– Escreve?
– É.
– O quê?
– Contos. Coisa fina.
– Já foi publicado?
– Não.
– Por quê?
– Não mandei para ninguém.
– Onde estão seus contos?
– Ali – apontei para uma pasta rasgada.
– Escute, sou um crítico do New York Times. Você se importa se eu levar suas histórias para casa e as ler? Vou devolver.
– Por mim tudo bem, cara, mas não sei onde estarei.
A mulher de classe deu um passo à frente.
– Ele estará comigo.
Então ela disse:
– Vamos, Henry, vista suas roupas. É uma longa viagem e temos algumas coisas para... conversar.
Vesti-me e então Ernie voltou a si.
– O que raios aconteceu? – ele perguntou.
– Você encontrou um sujeito muito bom, sr. Hemingway – alguém lhe disse.
Acabei de me vestir e fui até onde ele estava.
– Você é bom, papai, ninguém ganha todas – apertei sua mão. – Não vá estourar os miolos.
Saí com a grã-fina, e entramos em um carro conversível amarelo que tinha o comprimento de meio quarteirão. Ela dirigia com o pé no fundo e fazia as curvas derrapando e cantando os pneus e sem nenhuma expressão no rosto. Isso era classe. Se ela amasse como dirigia, seria uma noite e tanto.
O lugar ficava em cima das colinas, afastado de tudo. Um mordomo abriu a porta.
– George – ela lhe disse –, tire a noite de folga. Não, pensando melhor, tire a semana de folga.
Entramos, e havia um sujeito grande sentado em uma cadeira com uma bebida na mão.
– Tommy – ela disse –, desapareça.
Seguimos pela casa.
– Quem era o grandão? – perguntei a ela.
– Thomas Wolfe – ela disse. – Um tédio.
Ela parou na cozinha para pegar uma garrafa de uísque e dois copos. Então disse:
– Vamos.
Segui-a para o quarto.
Na manhã seguinte o telefone nos acordou. Era para mim. Ela me alcançou o telefone, e me sentei ao lado dela na cama.
– Sr. Chinaski?
– Sim?
– Li suas histórias. Fiquei tão entusiasmado que não pude dormir de noite. Você é certamente o maior gênio da nossa década!
– Só da década?
– Bem, talvez do século.
– Assim está melhor.
– Os editores da Harper’s e da Atlantic estão aqui comigo. Você pode não acreditar, mas cada um dele aceitou cinco histórias para publicação futura.
– Acredito – eu disse.
O crítico desligou. Deitei. A mulher de classe e eu fizemos amor mais uma vez.

Charles Bukowski, em Ao Sul de Lugar Nenhum

O terror

E havia luz demais para seus olhos. De repente um repuxão; ajeitavam-no, mas ele não sabia: só tinha mesmo era o terror de rostos inclinados para o seu. E ele não sabia de nada. E não podia se mexer livremente. As vozes que para ele eram trovões, só uma voz era cantante: ele se banhava nela. Mas logo em seguida era depositado e vinha o terror e ele gritava entre as grades e viu cores que depois ele entendeu que eram azuis. O azul o molestava e ele chorava. E o terror das cólicas. Abriam-lhe a boca e depositavam coisas ruins na boca, ele engolia. Quando era a voz cantante que lhe dava coisas ruins, ele suportava melhor. Mas era logo depositado entre as grades. Sombras gigantescas rodeavam-no. E então ele gritava. A mínima luz de tudo isso é que ele acabara de nascer. Tinha cinco dias de nascido.
Depois de mais velho ouviu sem entender: “Este menino já não dá trabalho mas quando nasceu dava choros e urros. Agora felizmente é mais fácil de criá-lo.” Não, não era fácil, nunca seria fácil. O nascimento era a morte de um ser uno se dividindo em dois solitários. Agora parecia fácil porque ele aprendera a manejar o seu terror secreto que duraria até a morte. Terror de estar na terra, como uma saudade do céu.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

Parte I – Você trouxe todas as palavras

 


2.

A casa era um depósito dos vestígios de muitas vidas. Diante da porta do quarto, havia uma sala pequena. Das marcas retangulares nas paredes imaginei os quadros. Uma máquina de costura em silêncio, uma cadeira sem assento e uma espessa camada de poeira, que denunciava abandono. Um piano de madeira escura servia agora apenas como a prateleira de retratos desbotados de casais, mulheres, homens, crianças que partiram deste mundo muitos anos antes.
Ao lado vi outra sala, um pouco menos suja. E vi Fernando. A mesa posta contrastava com o cenário ao redor porque, no meio dela, havia uma flor. Uma garrafa branca com água e uma rosa amarela de Almofala, como eu saberia depois. Um dos dois saiu no frio para buscá-la e dar outra ordem ao lugar do nosso pequeno-almoço.
Florice estava cozinhando enquanto uma mulher cantava no rádio. Fernando puxou uma cadeira para mim. A menina conseguiu descansar? Sentiste alguma dor na cabeça, no corpo, estás bem? O sono foi reparador, sim, mas não resgatou nenhum traço de memória. Ele perguntaria isso a seguir e já adiantei que não recuperei nada.
Interrompeu o exame, mudou de assunto, alinhou a colher com a mão direita, o garfo com a esquerda e contou que o capricho da mesa era graças a uma mala de apetrechos trazidos pela esposa. Toalha de mesa, copos, chávenas, pratos, talheres, tudo era deles. Florice só sabe estar cercada de beleza, ele disse, só anda com as coisinhas dela. Os dois perfumados, penteados, bem-vestidos. Especialmente ele, Fernando, e sua inabalável elegância e olhar sempre atento a todos os meus gestos. Não era só cuidado; havia curiosidade e um pouco de medo, um sentido de alerta.
As bagagens estavam no chão, uma mala aberta e outra fechada. Perto delas, um pacote enrolado com plástico preto e barbante, em cima de um cobertor dobrado, parecia um bebê morto e preparado para um enterro. Não tive tempo de perguntar o que era, nunca esqueci a sensação que me causou aquele embrulho, aterrorizante como um choque frio. Durou segundos minha vista ali, logo Florice encheu minha xícara de café e o cheiro me acordou. Só depois de tomar metade e de comer algo comecei a falar e a fazer perguntas: como fui parar naquele lugar, o que aconteceu, se eu estava morta, se ela era a Morte e ele era Deus, ou a Morte e seu auxiliar. Os dois riam, achavam divertida a minha confusão. Até que veio a sentença:
— Você trouxe todas as palavras.
Foi Fernando quem disse. Perguntei de novo o que tinha acontecido comigo e Florice foi direta: sabemos muito pouco sobre isso, só recebemos o aviso de que alguém chegaria no chão deste lugar, e foi preciso correr para o teu resgate. De repente estávamos concentrados em falar a sério sobre todo aquele absurdo.
— E como vocês souberam?
— Recebemos um telefonema.
— E o que disseram de mim? Não explicaram nada?
— Nada. Foi uma conversa breve. Mandaram que viéssemos à Almofala, esta aldeia, buscar uma mulher e desligaram o telefone. Nós já sabíamos que iria acontecer um dia conosco, mas demorou muito. Abrimos o mapa de Portugal, eu e Florice, e vimos seis aldeias com o mesmo nome, cada uma menor que a outra, seria um código? Almofala é uma palavra árabe, significa acampamento temporário. Al mohala. Os mouros foram deixando muitos pelo caminho. Ficamos sem saber o que fazer, imaginamos mil sentidos, uma senha, um enigma. Estávamos perdidos.
— E como descobriram?
— Recebemos outra ligação pedindo desculpas pela confusão e explicando que era a Almofala perto de Caldas da Rainha.
— E só?
— Só. Falou do pó de café, mas disso eu já sabia.
— O que pó de café tem a ver com isso?
— Quando se recebe o aviso da chegada do Ressurrecto a gente joga pó de café no lugar onde quer que a terra se abra, ajuda no caminho. Meu avô fazia assim porque alguém disse a ele.
— Ressurrecto? Eu sou isso?
— É como meu pai chamava. Pessoas que iam morrer, mas por um triz escaparam e voltaram à vida em outro lugar.
— E qual o sentido disso?
— A menina ainda não percebeu que quase nada na vida faz sentido? Algumas coisas são obrigatórias, é preciso fazer e já está. Desde pequena eu sei que temos de jogar o pó de café no terreno e aguardar a criatura que vai chegar, receber, cuidar de todas as maneiras até que a pessoa vá embora por decisão própria, são as regras. E entre um acontecimento e outro, rezar para que nada de mal nos ocorra. Achei que não aconteceria mais, que por algum motivo eu poderia estar livre, mas tu vieste. Se a gente começar com isso de entender ninguém termina mais essa conversa e temos muito a fazer.
— Quem ligou, era homem ou mulher?
— Mulher. Apresentou-se como Regina, nada mais.
— Quem é essa Regina? Por que ela sabe de mim?
— Não faço ideia, menina, nunca a vi na vida. Ela só disse essas coisas e desligou. Falava rápido demais, um entusiasmo de ideias, mas consegui entender e cá estamos. Chegamos semana passada e arranjamos esta casa. Fizemos vigília para esperar teu desenterro, obedecendo à ordem da razão mística que nunca entenderemos, como dizia meu pai.
— Mas por quê? O que vocês querem comigo?
— Queremos nada. É uma obrigação a cumprir, só isso. Salvamos a tua vida, a menina deveria agradecer.
Florice tentou encerrar a conversa, aborrecida, irritada, resmungando. Ficou me perguntando se eu queria algo mais, que era bom comer bastante pois devia ter perdido vitaminas. Da bruma ao corpo, de novo. Fernando retomou a conversa:
— Lembraste teu nome, uma letra, um som?
— Não.
— Vais lembrar. Mas escuta: esta casa não é nossa, como já expliquei. Não somosdaqui, alugamos só para te receber e já vamos embora amanhã. Ainda dá tempo de passear um pouco pela aldeia, tu precisas andar para reequilibrar a circulação, funções vitais. É necessário.
— Eu vou ficar aqui?
— Não, claro que não. Vamos te levar para a casa da irmã de Florice, no Norte. De lá seguimos a nossa vida, tu segues a tua e não estarás desamparada nesse começo. Moramos em um apartamento em Lisboa, na casa de minha cunhada tu terás mais conforto. Ela vive sozinha, vai gostar da tua companhia, já falamos com ela. Depois tu decides teu destino, quando lembrar. Alguns voltam para casa, outros ficam, é escolha tua, mas por enquanto é nossa responsabilidade cuidar de ti até que essa fase de confusão passe.
Então eles cuidariam de mim, mas eu deveria seguir a minha vida em breve. Eu, que não sabia que vida tive, sem pistas daquilo que fui e não sei. Voltei para o quarto, peguei um dos casacos, o verde, de veludo, e calcei um par de botas que cabiam três pés dentro de cada uma.
Na porta, Fernando disse que iria comigo caminhar, mas que seria rápido para não despertar a curiosidade das pessoas. Almofala era uma aldeia pequena, uma e outra casa habitada, com roseiras no jardim, flores saindo dos muros, datas antigas sobre as portas, tomada por gatos peludos de todos os tipos.
A maioria das construções estava abandonada. O som das pedras sob nossos sapatos quebrava o silêncio frio e triste. Estávamos no alto de uma montanha, o cume do mundo, o mais perto possível do céu.
Dobrando à esquerda da casa vimos uma igrejinha no alto, em formato triangular, vazia e de portas fechadas. Um homem que arrancava mato das pedras do muro veio falar com Fernando. Entendi que se conheciam do primeiro dia, trataram do aluguel, ele perguntou se estava tudo bem na casa, acho que tentava entender o que fazíamos ali, porque metralhava as perguntas olhando para mim. Fernando explicou que procurou uma aldeia tranquila e alta para uns dias de descanso com a sobrinha doente.
Para evitar seu olhar estupefato, achei prudente subir os degraus, entrar na igreja e me sentar um pouco, mas estava trancada. Havia uma rosa vermelha no batente, fresca, recém-colhida. Talvez deixada por alguém que iria levá-la para algum santo e deu com a porta fechada.
Os dois conversavam e o homem falava de Almofala, contava que os idosos foram morrendo e que as famílias nunca voltaram para reclamar as casas, que tudo morria junto com quem partia e talvez fosse culpa das almas do fosso, os mortos da Santa Inquisição. Os enforcamentos aconteciam ali, os corpos eram jogados lá — ele apontava com precisão, colocando seus olhos nas palavras para explicar a geografia do desterro, sem precisar a data, parecia um ato de sempre, enforcar, jogar no buraco da morte.
Dei a volta para não ouvir mais. Encontrei uma portinha lateral, talvez estivesse aberta. Quando subi os degraus, todas as portas começaram a sacudir, várias mãos ao mesmo tempo, um movimento orquestrado pelo vento. Continuei subindo e com mais um passo, mais de perto, estavam sacolejando a madeira com violência, implorando para sair, mais forte e mais alto. Isso acontecia com a porta principal, a lateral e as janelas, sincronizadas, e teria de ser, então, trabalho de umas tantas pessoas. Eu ouvia um murmurar de longe, confuso, tive medo, mas os homens conversavam normalmente, não pareciam ouvir nada. Desci correndo e escorreguei na areia.
Fernando olhou para mim espantado, ajudou-me a levantar e adiantou nosso retorno, sem entender meu susto, minhas palavras desconexas, em voz bem alta, repetindo que estavam tentando abrir as portas e as janelas, que era preciso salvar as almas presas dos enforcados. Alguns moradores começaram a aparecer pelas ruelas, e o rumor da forasteira louca já estava se espalhando, pelo visto, coisa fácil de acontecer em um lugar morto, onde nunca há novidades e são tão poucos os vivos. Despediu-se explicando ao homem que precisava cuidar da sobrinha doente, que já iríamos embora. Voltei para casa chorando e amaldiçoando o fosso vazio da minha memória.

Socorro Acioli, em Oração para Desaparecer

04/10/2026

Força Estranha | Xande

 

No Caminho, com Maiakóvski

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA!

Eduardo Alves da Costa, em No Caminho, com Maiakóvski

Hagar, o Horrível

Diário de Bernardo Soares

134.

Busco-me e não me encontro. Pertenço a horas crisântemos, nítidas em alongamentos de jarros. Devo fazer da minha alma uma coisa decorativa.
Não sei que detalhes demasiadamente pomposos e escolhidos definem o feitio do meu espírito. O meu amor ao ornamental é, sem dúvida, porque sinto nele qualquer coisa de idêntico à substância da minha alma.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

A caixa de laranjada



Deixei a roça sem saudades. A saudade vem com a velhice. Não sofri com a mudança. Como disse Caeiro, “as crianças são de novo nascidas a cada momento para a eterna novidade do mundo”. Tudo era novidade. Não me importava que a casa para onde nos mudamos fosse do tamanho de uma caixa de fósforos. Eu não sabia que ela era do tamanho de uma caixa de fósforos. O que me importava era o fato de minha casa se encontrar atrás de um Castelo Encantado. Lá estava ele, no alto da colina, enorme, fechado, misterioso. Dos pátios vazios que o circundavam, olhando-se para baixo se via um lago azul imenso, coisa que eu desconhecia porque na roça eu só conhecera riachinhos e lagoinhas. E havia marrequinhos a nadar...
Depois de grande pensei que não havia razões objetivas para nos termos mudado para Lambari. Meu pai era agora viajante, precisava de trens, e o mais lógico teria sido Três Corações, entroncamento ferroviário. Por que ele escolheu Lambari? Acho que foi por causa do Castelo Encantado... Ele me levou a visitar o Castelo por dentro, graças à amizade que fizera com o guarda. Eram salas imensas, empoeiradas, silenciosas, escuras, os móveis cobertos com lençóis, lustres de cristal, mesas de veludos vermelhos e verdes. Tudo parecia dormir. Eu estava no Castelo Bela Adormecida...
Mais tarde me explicaram, e com a explicação o Castelo deixou de ser Castelo. Foi-se o mistério. Virou um cassino. O assombroso desse cassino é que ele teve uma noite de glória, uma única noite de glória. Foi fechado por ordens superiores no dia seguinte ao de sua inauguração, sem explicações, e nunca mais foi aberto.
O tempo realizou o seu trabalho de desencantamento. Hoje nele funcionam repartições da prefeitura. As riquezas antigas desapareceram. Parece que foram saqueadas. Agora ele está reduzido à banalidade de um prédio onde funcionam repartições burocráticas. Visitei-o sob sua nova forma. O lago é o mesmo. Os marrecos continuam a nadar. Observei os funcionários. Eles não sabem que estão andando num espaço onde, em tempos esquecidos, viveram reis e donzelas. Agora, na lanchonete, se serve um cafezinho com pães de queijo...
Cheguei e percebi que acabara de entrar num mundo diferente daquele em que eu vivera. Mas o desconhecido não me amedrontava. Ao contrário. Dava-me uma alegre sensação de liberdade. Lá não havia nem onças nem meninos abandonados dentro da mata. Tive uma cadela que, quando novinha, de repente, sem nenhuma razão especial, se punha a correr e a saltar como doida, em círculos, pela própria alegria de viver. E eu me vejo, menino de seis anos, como a minha cadelinha, correndo de alegria, sem nenhuma razão, entrando pela porta da frente da casa, atravessando alpendre, a sala, saindo pela porta da cozinha, voltando para a frente da casa, para fazer tudo de novo, em círculos...
As evidências da novidade do mundo eram claras. A primeira era a maravilha das lâmpadas elétricas que pendiam do teto ao fim de um fio coberto de cocôs de moscas. Mas que são cocôs de moscas diante do assombro? Bastava girar uma orelha no bocal para que a lâmpada acendesse! Adeus, lamparinas! Adeus, cheiro de querosene! Adeus, fuligem negra! Na roça o mundo e a vida eram misteriosos. Mas não os objetos. Bastava olhar para compreender como eram feitos e como funcionavam. Uma lamparina, nada mais simples: um recipiente de vidro ou lata, querosene, pavio, fogo, luz. Era fácil fazer uma lamparina. Mas a lâmpada elétrica pertencia a um novo mundo, onde os objetos eram opacos. Como são feitas as lâmpadas? Como acontece o milagre da luz? Que coisa é essa chamada eletricidade que ninguém vê, que faz a lâmpada acender e que dá choque quando se toca nela, invisível?
A outra evidência era a privada. Bastava puxar uma cordinha para que acontecesse uma descarga de água que fazia desaparecer os cocôs...
Não tínhamos móveis. Mas o meu pai dava um jeito. Foi a um armazém, arranjou um caixote grande de madeira, trouxe-o para casa, tirou uma porta das dobradiças, pregou a porta sobre o caixote — e eis a nossa mesa! Infelizmente a mesa apresentava um problema devido à sua construção: ela funcionava como uma gangorra. Quem estivesse assentado à cabeceira, se se apoiasse sobre a mesa, corria o risco de receber uma terrina de feijão na testa. Guarda-roupas, nem pensar. Meu pai não se perturbou. Juntou uns cabos de vassoura abandonados, fez buracos nos ângulos das paredes e neles encaixou os cabos de vassoura que, assim, se transformaram nos nossos guarda-roupas, onde pendurávamos os cabides. Muito pouco, mas o suficiente para as poucas roupas que tínhamos.
Um dia o pai, viajante, chegou de uma de suas viagens com uma surpresa alegre. Como já disse, ele vendia de tudo. E também caixas de doces de frutas em pasta: goiabada, pessegada, marmelada, laranjada. Pois uma caixa de doce de laranja de cinco quilos ficara encalhada e assim ele a trazia como presente. Foi uma felicidade! Comeríamos sobremesa! No primeiro dia foi uma festa. Também no segundo, no terceiro e no quarto. Acontece, porém, que cinco quilos de doce de laranja é muito... Por mais que comêssemos, a laranjada não diminuía de tamanho. Transcorridas duas semanas, já não podíamos ver a caixa, que voltava sempre para a mesa. E, sendo pobres, não podíamos nos entregar ao luxo de jogá-la fora. A laranjada, de alegria se transformou em tortura. Levou muito tempo para que terminasse. Terminou. Mas o trauma ficou.

Rubem Alves, em O Velho que Acordou Menino

Capítulo 100 – O Caso Provável



Se esse mundo não fosse uma região de espíritos desa-tentos, era escusado lembrar ao leitor que eu só afirmo certas leis quando as possuo deveras; em relação a outras restrinjo-me à admissão da probabilidade. Um exemplo da segunda classe constitui o presente capítulo, cuja leitura recomendo a todas as pessoas que amam o estudo dos fenômenos sociais. Segundo parece, e não é improvável, existe entre os fatos da vida pública e os da vida particular uma certa ação recíproca, regular, e talvez periódica, – ou, para usar de uma imagem, há alguma coisa semelhante às marés da praia do Flamengo e de outras igualmente marulhosas.
Com efeito, quando a onda investe a praia, alaga-a muitos palmos a dentro; mas esta mesma água toma ao mar, com variável força, e vai engrossar a onda que há de vir, e que terá de tomar como a primeira. Esta é a imagem; vejamos a aplicação.
Deixei dito noutra página que o Lobo Neves, nomeado presidente da província, recusou a nomeação por motivo da data do decreto, que era 13; ato grave, cuja consequência foi separar do ministério o marido da Virgília. Assim, o fato particular da ojeriza de um número produziu o fenômeno da dissidência política. Resta ver como, tempos depois, um ato político determinou na vida particular uma cessação de movimento. Não convindo ao método deste livro descrever imediatamente esse outro fenômeno, limito-me a dizer por ora que o Lobo Neves, quatro meses depois de nosso encontro no teatro, reconciliou-se com o ministério; fato que o leitor não deve perder de vista, se quiser penetrar a sutileza do meu pensamento.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Recreio

Camila era a mais velha de três irmãs. Na época devia ter uns onze anos, mas eu a via com uns quarenta e três. Subia no micro-ônibus com certa dificuldade, carregando uma mochila imensa da Barbie (que vinha com uma lancheira acoplada, com os mesmos desenhos), mas para mim era como se ela ostentasse toda manhã, dependurados nos ombros, um apartamento próprio com criadagem fazendo bolos variados e uma casa na praia com súditos sexuais. Eu tinha medo dela e a respeitava muito.
Eram irmãs “sofridas”. O pai morrera de câncer fazia pouco menos de um ano. As duas mais novas eram apenas tristinhas. Mas no coração da Camila havia ódio. Ela estava naquela fase não passiva e muito nobre conhecida como “raiva do mundo”, e eu achava uma coisa bonita de ver. Ela quebrava o pau na aula de religião, “sabia que a Bíblia era a favor dos escravos?”, e eu vibrava por dentro.
Uma vez, na aula de geografia, ao ser repreendida por não ter feito o dever de casa (desenhar rios numa folha de papel-manteiga: a lembrança mais horrenda que tenho dos tempos de escola), ela respondeu (tão amarga, tão machucada, tão protagonista de um seriado dramático para adolescentes): “meu pai me ajudava a fazer essas coisas, mas ele morreu”. E todas as crianças instantaneamente olharam para a professora: “sai dessa agora, fofa”. Para que Camila precisava saber o nome da porra de um rio no Pará se a sua vida era uma escura água desenfreada que não desembocava em lugar nenhum? No fundo dos seus olhos dava para ver uma areiazinha movediça. Era uma garota com angústia latente e infinita, afundando em seu lodo pessoal e intransponível. Foi quando pensei: “é essa!”.
Desde que entrei naquela escola, aos sete anos, eu sonhava em ter uma amiga que me entendesse. Alguém a quem pudesse falar coisas como “você acorda com medo, chora no banho, pensa em vomitar, unha um pouco a palma das mãos e pergunta como será a vida daqui a quarenta anos se você continuar assim?”. Mas eu já devia estar com uns dez anos, e nada. Arrumava amigas para trocar papel de carta, brincar “de elástico”, dividir um salgadinho Ebicen de camarão. Mas, para falar do quanto eu me sentia esquisita e apavorada, não arrumava ninguém.
Arrisquei uma vez com a Paula, mas ela arrotou suco de melancia na minha cara. Tentei com a Dani, mas ela me perguntou se era porque “nenhum menino olhava pra mim”. Tentei com o Felipe, um gordinho da minha sala que sofria de enjoos (cheguei mesmo a amar esse garoto, eu achava que aqueles enjoos significavam que éramos almas gêmeas), mas ele me disse que não estava entendendo nada e que eu era feia demais e que nenhum cara do New Kids on the Block ia querer me beijar.
Minha esperança crescia dia a dia em relação a Camila. Na aula de português, estávamos aprendendo “descrição” e a professora botou um vaso lá na mesa dela. A redação de todos era aquela chatice de “pequeno, azul, bonito, com uma flor”. Quando chegou a minha vez, lembro da professora Celina pondo as mãos na frente da boca, num misto de espanto e alegria. Eu tinha escrito: “longe, velho, acinzentado e com saudade”. A classe inteira riu despudoradamente da minha cara, menos Camila. Camila me olhou com profundidade e, na minha fantasia urgente, chegou a sorrir para mim.
Então, uma quinta-feira, durante a “queimada” (ainda existe esse crime nas escolas? Consistia em tacar a bola com toda a força num coleguinha que não estivesse atento ao jogo: eu. Mas àquela altura eu já tinha aprendido o macete da “pouca destreza física” e pedia dispensa da terrível aula de educação física me utilizando de um atestado de prolapso da válvula mitral), tomei coragem e fui falar com a Camila. Assim como eu, ela estava liberada dessas aulas.
Quis saber se era medo de levar bolada; obviamente, não era. Ela estava “de castigo” porque dava boladas muito fortes nos outros. Eu precisava mentir que tinha sopro (e tinha mesmo, mas quem não tem?), já ela fora “convidada a sair pra aprender a se conter”. Que mulher! Respirei fundo, e saiu: “amanhã, na hora do recreio, vamos conversar?”.
Mal acabei de falar, me arrependi. Nada daquilo fazia o menor sentido, pois, se eu já estava conversando com ela! Que falasse logo! Mas ela não me colocou nessa posição desconfortável, não ficou me exigindo lógica, como fazia de forma cruel com os professores, não esfregou sua melancolia e dura realidade na minha cara sempre disforme por uma coriza alérgica que dura até hoje. Ela topou. “Tudo bem, amanhã na hora do recreio, em frente à lanchonete, daí eu te pago.” E foi logo estendendo as mãozinhas e pedindo: “me empresta trinta preu comprar um lanche, amanhã eu pago o seu”. Então era isso? Melhores amigas forever a ponto de “um dia eu pago o dela, no outro ela paga o meu!?”. Já era oficial, então: eu nunca mais me sentiria sozinha.
No dia seguinte, na hora do recreio, percebi que existiam duas “frentes da lanchonete”. A frente de quem vinha da direita e a frente de quem vinha da esquerda. Achei um ângulo de onde pudesse supervisionar, evitando piscar os olhos, as duas frentes. Lá fiquei uma hora, sem comer, sem beber, sem fazer xixi. Esperando a Camila, esperando minha primeira conversa realmente legal com alguém que me entenderia. Só arredei o pé da frente da lanchonete quando, dez minutos depois do sinal, uma espécie de “supervisor do recreio” me puxou pelos braços. Ele era engraçado, gordo, gente boa, “vâmu, moça, coragem!”. Eu não podia acreditar que minha musa do desalento, minha rainha do pesar, tinha feito aquilo comigo.
Vinte e cinco anos depois, num jantar na casa de um amigo diretor de cinema, sentei ao lado de Contardo Calligaris. Lembro de sentir algo parecido com o que vivi com Camila. Talvez ele pudesse me dizer alguma coisa sobre “você acorda com medo, chora no banho, pensa em vomitar, unha um pouco a palma das mãos e pergunta como será a vida daqui a quarenta anos se você continuar assim?”. Dessa vez, porque afinal de contas eu já era adulta e, por fim, pertencia à tal de “hora do recreio ao lado de alguém que possa me entender”, fui bem direta. Ele tirou com muita elegância uma espinha de peixe, colocou com muita elegância na beiradinha do prato, e com muita elegância me disse: “leva um chocolatinho na bolsa”.

Tati Bernardi, em Depois a louca sou eu

03/10/2026

Niño Josele & Marisa Monte – Nem Um Passo Atrás

Episódio

Ele tinha o costume de gesticular seu pensamento,
de sorte que estar parado era já ter compreendido
ou não ter dúvidas. Foi um abalo enorme quando se deu o que conto,
porque ultimamente ocupava a compreensão em tomar os remédios,
não comer sal, medir cor e volume de sua urina difícil.
Sem que ninguém suspeitasse ficou em pé na sala
e começou a cantar, pondo e tirando da jarra o galhinho de flor,
a voz como antes, firme, alta, grossa, anterior
a qualquer debilidade do seu corpo.
Um susto às avessas do susto foi o nosso,
porque a barriga dele continuava altíssima e alagava a mina
rompida de sua perna. Fugimos como nas guerras.
Um de nós foi chorar na privada, outro no quintal,
eu inventei uma barata pra matar com um chinelo.
A alegria dele desertava, quase, do que fosse
uma alegria humana e não estávamos à altura de entendê-la.
Sofrer era muito mais fácil.

Adélia Prado, em Bagagem

A velha



Sua primeira menção, um tanto confusa, foi em qualquer manhã, pelo telefone. Uma senhora, muito velha e doente, pedia que o Cônsul lhe fosse à casa, para assunto de testamento. Frau Wetterhuse.
O recado se perdia, obrigação abstrata, no tumulto diário de casos, o Consulado invadindo-se de judeus, sob mó de angústias, famintos de partir, sofridos imenso, em desengano, público pranto e longo estremecer, quase cada rosto prometendo-se a coativa esperança final do suicídio. Vê-los, vinha à mente a voz de Hitler ao rádio — rouco, raivoso. Contra esses, desde novembro, se implacara mais desbordada e atroz a perseguição, dosada brutal. Viesse a guerra, a primeira ordem seria matá-los?
O nome Wetterhuse extinguia-se num zumbido, com o que o Norte tem de mais brumoso. Mas, seguinte, na semana, voltava, a súplica, embaixada-de-jó, apelo insistido. Prometi-me de ir lá. Fazia todo o frio.
Sumia-se no dia noturno a bela, grande cidade hanseática, nem se avistavam seu céu de ferro molhado e as silhuetas das cinco igrejas, suas torres de cobre em azinhavre. Dava-se, que nem caudas de cobras, delgados glaciais chicotes — nevando, fortes flocos — o vento mordaz. Saindo para o Glockengiesserwall, se bem que abafado em roupas, eu tivera que me enregemer, ao resfrio cravador e à umidade, que transia. Via-se, a cada canto, o emblema: pousada num círculo, onde cabia oblíqua a suástica, a águia de abertas asas. A fora, as sombras dos troncos de árvores, na neve, e as curvas dos corvos, o corvo da desdita. Dizia-se que, este, muitos anos faz, seria o mais duro inverno, de concumulados gelos: morriam muitos pássaros. O coração daquela natureza era manso, era mau? Sentia-se um, ao meio de tal ponte, à face do caos e espírito de catástrofe, em tempo tão ingeneroso, ante o critério último — o pecado de nascer — na tese anaximândrica. Todos pertencíamos, assim, mesmo, à vida.
A casa era no Harvesterhude, umbrosa, meio a um jardim que no verão teria sido amável, com seus olmos e os maciços de tuias e rododendros. Toquei e levaram-me ao salão — como se subterrâneo. Havia lá uma invernia de austeridade, o cheiro de irrenovável mofo e de humanidade macerada. Tapeçarias, reposteiros de falbalás, muito antigos móveis, tudo se unia num esfumado: as cinzas da neve. Assustava a esdruxularia daquele ambiente solífugo e antimundano, de sopor e semiviver, o sentido de solidão; circunstando um ar frio. Tinham acendido lareira. Dos lustres descia uma luz, de velas, era luz em cemitério. Esperava-se encontrar, em torno, duendes e lêmures. Encontravam-se criaturas — ao todo cinco mulheres, todas velhas, que se retraíam, estafermáticas, estornicadas nas vestes de veludo ou gorgorão de lã, de golas altas, longas mangas, terrível decoro.
Ao centro, numa poltrona em estrado — deveria ficar mais alta que nós, segundo um rito — a mais anciã. Era extraordinária de velha, exaustamente o rosto, todo angulado, cavado de sulcos, e em cujo esqualor olhos havia, ex-azuis, sem íris, de despupilada estátua. Passaria dos noventa, parecia centenária. Desde as aparências, porém, sabia-se que a gentil-dama, feita às sociais sobrancerias e ao comando íntimo, e a quem o recato levara a levantar-se do leito de semiparalítica, e ser vestida e colocada ali, em elevado assento, de mágoa hirta, de sua lívida vontade. E precisava de ser ouvida. Beijei-lhe a mão, os trêmulos dedos definhados.
Era a Dame Verônika. Dame Angélika, sua filha, e três parentas, as outras, ressemblantes, com, que nem que perucas, os tão brancos cabelos, que teriam sido amarelo-palha. Ordenadamente se sentavam, cada qual com mal pegado sorriso, prontas a conservar-se de parte, sentindo-se demasiado presentes ao versar do assunto conspirável. O qual, a justo ver, elas desconheciam.
Desfez-se um silêncio. Dame Verônika tomou a voz. Dissesse tão-só frases de polidez; repetia-as, balbuz, sob algum afrontamento, com um arrulha de asma. Ora fechava os olhos, sacudia, levíssima, a cabeça em frinas, reprincipiava. Devia de estar repassando-se de algo, muito passado, trazido de um túnel, relutante na resistência à evocação, fato de estrangulada memória. Confundia-se; eu tinha de prestar ouvidos. De repente, encarou-me mais, dava-me o todo gris dos olhos. E começara a falar em português.
Falava-o, tão perfeitamente, e não mais naquela dicção fosca, mas ressurgida, anos d’ora-atrás. E vi — que a voz pertence às estâncias da idade: que, bem assim, nesse teor de tom, que eu jamais ouvira, conversar-se-ia, outro tempo, em solar e saraus, em tertúlias, merendas e cavacos. Era como se falasse figura, de um álbum desbotado.
— “Vivi em vosso país, vossa pequena formosa cidade de Petropolyís... Conheci vosso bom Imperador — ele estudava o hebraico. Vosso Imperador estimava meu marido, Káspar... Dr. Káspar Eswepp, sabeis? Vosso Imperador nos convidava ao paço...”
Relembrava — revocava — sorriu-se a um persistir de imagens? E estremeceu. Voltava às brumas do presente, à sua gélida pátria. Só então entrou a falar sob força de fatos: dos campos-de-prisão, as hitlerocidades, as trágicas técnicas, o ódio abismático, os judeus trateados. Olhávamos, ali, na parede, de corpo inteiro, o marido. — “Ele era judeu, sabeis?”
E — o retamente, o raso: a filha, também tão idosa Dame Angélika, seria teuto-hebreia uma mischling, “mestiça do primeiro grau”, segundo o código hediondo. Dona Verônica o disse, de soçobro. A filha, por sua eiva aboriginal, corria grave perigo. Ela, a Mãe, tinha de solicitar-se daquilo.
Sofria, seca. Preparava-se? Para desvendar-me seu motivo: o drama, sobreestranho, o coração da coisa, vagarosíssima verdade:
— “Minha filha não é filha do meu marido. Nem ela, nem ele jamais o souberam... Foi em vosso país... O pai da minha filha era um amigo nosso, que nos frequentava... O pai de minha filha não era de sangue judeu...”
Teve um sorrisinho titânico. Endireitou o busto, alisava-se o rosto, num ademã de extrema dignidade, fizera-se altiva. Num momento, ela precisara de profundar um poço, arrancar em si o que tanto sepultara à força do tempo, desistir do longo benefício do olvido. E já era a dor de dar, à fé, uma sua turpitude secreta, exsuscitar um negrego, a fementira. Seu coração não pesava um miligrama?
Ali, as outras quatro mulheres permaneciam, salvaguardadas, em circunstância de surda sociedade, sem participação emotiva. Aquelas meditavam o que não podiam entender — Dame Angélika, damas Filippa, Osna e Alwyna.
Dona Verônica não se voltara para a filha; só a mim encarava, ávida. Não sem intuito descobrira-me o inarrável. Tinha de satisfazer o problema, intentar o sarcimento. Sanar o obviável. — “Não? Sim?” E queria reforçar-se com minha opinião, tomar conselho. A filha não tinha sangue da outra raça. —“Por que, pois?” Pertencia-lhe, fidedigna,declarar aquilo, fatal como o sol, verifazer o real, renegar o inautêntico. Tomaria o grave passo. A tanto preço — o de se inquinar e malsinar-se, para o pouco restante da vida. Em dizer, porém, que não lhe era possível prestar fatos, produzir testemunhas, recorrer no caso à prova de sangue, nem ao menos apelar para a razão pública. Tão longe, tantos anos... Mas, quem sabe, poderia ter o apoio de um grande, forte país, de gente tão fidalga, de tanta ponderância! — “Sim. E?” Pegou o lenço, tivera um jacto de tosse. Ansiosa, querulante: — “Foi em vossa formosa, pequena cidade de Petropolyís...”
Não, em fato. Não. Tive de sacudir a cabeça. Dame Angélika nem mesmo era brasileira. Tudo indeterminado, sem fundamento certo, apenas o citar de um romance perdido no antigo, tão esfiapável, pátina, voz para memória. Quem iria querer crer? Ela mesma, Dona Verônica, não se lograva de ilusões. Ah, vivera demasiado tempo, distanciara-se das possibilidades manejáveis das coisas. Teve o chluque de um soluço. Ofegou. Ia abater-se. Súbito, porém, rompendo-se do desalento, algo flamejou nela, que nem um rebrilho de alma — uma glória — e exclamou:
— “Ele foi um vosso compatriota, um homem nobre... O amor de minha vida!...”
Sopitou-se, desopressa. Como poder pagar sua dívida dourada? Levantei-me; eu nem era um cooperador passivo do destino. Também aquelas senhoras presentes se levantaram, em sincera, distinta cortesia. Ali, borbulhavam pensamentos. Desfalecidos espíritos. Só silêncio. Dona Verônica mostrava-nos seu comprido rosto, escalavrado, blafardo, diáfano pergaminho. Dona Angélica passava-lhe meiga a mão por trás da cabeça. Todos nós jazíamos de pé, em volta dela. A longa mulher. O sistema do mundo. A velha vida.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

O impagável Quino

Fama

Quantos, depois de serem celebrados pela fama, foram entregues ao esquecimento. Quantos, após celebrarem a fama alheia, estão mortos há tempos.

Marco Aurélio, em Meditações

O corpo



Xavier era um homem truculento e sanguíneo. Muito forte esse homem. Adorava tangos. Foi ver O último tango em Paris e excitou-se terrivelmente. Não compreendeu o filme: achava que se tratava de filme de sexo. Não descobriu que aquela era a história de um homem desesperado.
Na noite em que viu O último tango em Paris foram os três para cama: Xavier, Carmem e Beatriz. Todo o mundo sabia que Xavier era bígamo: vivia com duas mulheres.
Cada noite era uma. Às vezes duas vezes por noite. A que sobrava ficava assistindo. Uma não tinha ciúme da outra.
Beatriz comia que não era vida: era gorda e enxundiosa. Já Carmem era alta e magra.
A noite do último tango em Paris foi memorável para os três. De madrugada estavam exaustos. Mas Carmem se levantou de manhã, preparou um lautíssimo desjejum – com gordas colheres de grosso creme de leite – e levou-o para Beatriz e Xavier. Estava estremunhada. Precisou tomar um banho de chuveiro gelado para se pôr em forma de novo.
Nesse dia – domingo – almoçaram às três horas da tarde. Quem cozinhou foi Beatriz, a gorda. Xavier bebeu vinho francês. E comeu sozinho um frango inteiro. As duas comeram o outro frango. Os frangos eram recheados de farofa de passas e ameixas, tudo úmido e bom.
Às seis horas da tarde foram os três para a igreja. Pareciam um bolero. O bolero de Ravel.
E de noite ficaram em casa vendo televisão e comendo. Nessa noite não aconteceu nada: os três estavam muito cansados.
E assim era, dia após dia.
Xavier trabalhava muito para sustentar as duas e a si mesmo, as grandes comidas. E às vezes enganava a ambas com uma prostituta ótima. Mas nada contava em casa pois não era doido.
Passavam-se dias, meses, anos. Ninguém morria. Xavier tinha quarenta e sete anos. Carmem tinha trinta e nove. E Beatriz já completara os cinquenta.
A vida lhes era boa. Às vezes Carmem e Beatriz saíam a fim de comprar camisolas cheias de sexo. E comprar perfume. Carmem era mais elegante. Beatriz, com suas banhas, escolhia biquíni e um sutiã mínimo para os enormes seios que tinha.
Um dia Xavier só chegou de noite bem tarde: as duas desesperadas. Mal sabiam que ele estava com a sua prostituta. Os três na verdade eram quatro, como os três mosqueteiros.
Xavier chegou com uma fome que não acabava mais. E abriu uma garrafa de champanha. Estava em pleno vigor. Conversou animadamente com as duas, contou-lhes que a indústria farmacêutica que lhe pertencia ia bem de finanças. E propôs às duas irem os três a Montevidéu, para um hotel de luxo.
Foi uma tal azáfama a preparação das três malas.
Carmem levou toda a sua complicada maquilagem. Beatriz saiu e comprou uma minissaia. Foram de avião. Sentaram-se em banco de três lugares: ele no meio das duas.
Em Montevidéu compraram tudo o que quiseram. Inclusive uma máquina de costura para Beatriz e uma máquina de escrever que Carmem quis para aprender a manipulá-la. Na verdade não precisava de nada, era uma pobre desgraçada. Mantinha um diário: anotava nas páginas do grosso caderno encadernado de vermelho as datas em que Xavier a procurava. Dava o diário a Beatriz para ler.
Em Montevidéu compraram um livro de receitas culinárias. Só que era em francês e elas nada entendiam. As palavras mais pareciam palavrões.
Então compraram um receituário em castelhano. E se esmeraram nos molhos e nas sopas. Aprenderam a fazer rosbife. Xavier engordou três quilos e sua força de touro acresceu-se.
Às vezes as duas se deitavam na cama. Longo era o dia. E, apesar de não serem homossexuais, se excitavam uma à outra e faziam amor. Amor triste.
Um dia contaram esse fato a Xavier.
Xavier vibrou. E quis que nessa noite as duas se amassem na frente dele. Mas, assim encomendado, terminou tudo em nada. As duas choraram e Xavier encolerizou-se danadamente.
Durante três dias ele não disse nenhuma palavra às duas.
Mas, nesse intervalo, e sem encomenda, as duas foram para a cama e com sucesso.
Ao teatro os três não iam. Preferiam ver televisão. Ou jantar fora.
Xavier comia com maus modos: pegava a comida com as mãos, fazia muito barulho para mastigar, além de comer com a boca aberta. Carmem, que era mais fina, ficava com nojo e vergonha. Sem-vergonha mesmo era Beatriz que até nua andava pela casa.
Não se sabe como começou. Mas começou.
Um dia Xavier veio do trabalho com marcas de batom na camisa. Não pôde negar que estivera com a sua prostituta preferida. Carmem e Beatriz pegaram cada uma um pedaço de pau e correram pela casa toda atrás de Xavier. Este corria feito um desesperado, gritando: perdão! perdão! perdão!
As duas, também cansadas, afinal deixaram de persegui-lo.
Às três horas da manhã Xavier teve vontade de ter mulher. Chamou Beatriz porque ela era menos rancorosa. Beatriz, mole e cansada, prestou-se aos desejos do homem que parecia um super-homem.
Mas no dia seguinte avisaram-lhe que não cozinhariam mais para ele. Que se arranjasse com a terceira mulher.
As duas de vez em quando choravam e Beatriz preparou para ambas uma salada de batata com maionese.
De tarde foram ao cinema. Jantaram fora e só voltaram para casa à meia-noite. Encontrando um Xavier abatido, triste e com fome. Ele tentou explicar:
– É porque às vezes tenho vontade durante o dia!
– Então, disse-lhe Carmem, então por que não volta para casa?
Ele prometeu que assim faria. E chorou. Quando chorou, Carmem e Beatriz ficaram de coração partido. Nessa noite as duas fizeram amor na sua frente e ele roeu-se de inveja.
Como é que começou o desejo de vingança? As duas cada vez mais amigas e desprezando-o.
Ele não cumpriu a promessa e procurou a prostituta. Esta excitava-o porque dizia muito palavrão. E chamava-o de filho da puta. Ele aceitava tudo.
Até que veio um certo dia.
Ou melhor, uma noite. Xavier dormia placidamente como um bom cidadão que era. As duas ficaram sentadas junto de uma mesa, pensativas. Cada uma pensava na infância perdida. E pensaram na morte. Carmem disse:
– Um dia nós três morreremos.
Beatriz retrucou:
– E à toa.
Tinham que esperar pacientemente pelo dia em que fechariam os olhos para sempre. E Xavier? O que fariam com Xavier? Este parecia uma criança dormindo.
– Vamos esperar que Xavier morra de morte morrida? perguntou Beatriz.
Carmem pensou, pensou e disse:
– Acho que devemos as duas dar um jeito.
– Que jeito?
– Ainda não sei.
– Mas temos que resolver.
– Pode deixar por minha conta, eu sei o que faço.
E nada de fazerem nada. Daqui a pouco seria madrugada e nada teria acontecido. Carmem fez para as duas um café bem forte. E comeram chocolate até à náusea. E nada, nada mesmo.
Ligaram o rádio de pilha e ouviram uma lancinante música de Schubert. Era piano puro. Carmem disse:
– Tem que ser hoje.
Carmem liderava e Beatriz obedecia. Era uma noite especial: cheia de estrelas que as olhavam faiscantes e tranquilas. Que silêncio. Mas que silêncio. Foram as duas para perto de Xavier para ver se se inspiravam. Xavier roncava. Carmem realmente inspirou-se.
Disse para Beatriz:
– Na cozinha há dois facões.
– E daí?
– E daí nós somos duas e temos dois facões.
– E daí?
– E daí, sua burra, nós duas temos armas e poderemos fazer o que precisamos fazer. Deus manda.
– Não é melhor não falar em Deus nessa hora?
– Você quer que eu fale no Diabo? Não, falo em Deus que é dono de tudo. Do espaço e do tempo.
Então foram à cozinha. Os dois facões eram amolados, de fino aço polido. Teriam força?
Teriam, sim.
Foram armadas. O quarto estava escuro. Elas faquejaram erradamente, apunhalando o cobertor. Era noite fria. Então conseguiram distinguir o corpo adormecido de Xavier.
O rico sangue de Xavier escorria pela cama, pelo chão, um desperdício.
Carmem e Beatriz sentaram-se junto à mesa da sala de jantar, sob a luz amarela da lâmpada nua, estavam exaustas. Matar requer força. Força humana. Força divina. As duas estavam suadas, mudas, abatidas. Se tivessem podido, não teriam matado o seu grande amor.
E agora? Agora tinham que se desfazer do corpo. O corpo era grande. O corpo pesava.
Então as duas foram ao jardim e com auxílio de duas pás abriram no chão uma cova.
E, no escuro da noite – carregaram o corpo pelo jardim afora. Era difícil porque Xavier morto parecia pesar mais do que quando vivo, pois escapara-lhe o espírito. Enquanto o carregavam, gemiam de cansaço e de dor. Beatriz chorava.
Puseram o grande corpo dentro da cova, cobriram-na com a terra úmida e cheirosa do jardim, terra de bom plantio. Depois entraram em casa, fizeram de novo café, e revigoraram-se um pouco.
Beatriz, muito romântica que era – vivia lendo fotonovelas onde acontecia amor contrariado ou perdido – Beatriz teve a ideia de plantarem rosas naquela terra fértil.
Então foram de novo ao jardim, pegaram uma muda de rosas vermelhas e plantaram-na na sepultura do pranteado Xavier. Amanhecia. O jardim orvalhado. O orvalho era uma bênção ao assassinato. Assim elas pensaram, sentadas no banco branco que lá havia.
Passaram-se dias. As duas mulheres compraram vestidos pretos. E mal comiam. Quando anoitecia a tristeza caía sobre elas. Não tinham mais gosto de cozinhar. De raiva, Carmem, a colérica, rasgou o livro de receitas em francês. Guardou o castelhano: nunca sabia se ainda não seria necessário.
Beatriz passou a ocupar-se da cozinha. Ambas comiam e bebiam em silêncio. O pé de rosas vermelhas parecia ter pegado. Boa mão de plantio, boa terra próspera. Tudo resolvido.
E assim ficaria encerrado o problema.
Mas acontece que o secretário de Xavier estranhou a longa ausência. Havia papéis urgentes a assinar. Como a casa de Xavier não tinha telefone, foi até lá. A casa parecia banhada de mala suerte. As duas mulheres disseram-lhe que Xavier viajara, que fora a Montevidéu. O secretário não acreditou muito mas pareceu engolir a história.
Na semana seguinte o secretário foi à Polícia. Com Polícia não se brinca. Antes os policiais não quiseram dar crédito à história. Mas, diante da insistência do secretário, resolveram preguiçosamente dar ordem de busca na casa do polígamo. Tudo em vão: nada de Xavier.
Então Carmem falou assim:
— Xavier está no jardim.
— No jardim? fazendo o quê?
— Só Deus sabe o quê.
— Mas nós não vimos nada nem ninguém.
Foram ao jardim: Carmem, Beatriz, o secretário de nome Alberto, dois policiais, e mais dois homens que não se sabia quem eram. Sete pessoas. Então Beatriz, sem uma lágrima nos olhos, mostrou-lhes a cova florida. Três homens abriram a cova, destroçando o pé de rosas que sofriam à toa a brutalidade humana.
E viram Xavier. Estava horrível, deformado, já meio roído, de olhos abertos.
— E agora? disse um dos policiais.
— E agora é prender as duas mulheres.
— Mas, disse Carmem, que seja numa mesma cela.
— Olhe, disse um dos policiais diante do secretário atônito, o melhor é fingir que nada aconteceu senão vai dar muito barulho, muito papel escrito, muita falação.
— Vocês duas, disse o outro policial, arrumem as malas e vão viver em Montevidéu. Não nos deem maior amolação.
As duas disseram: muito obrigada.
E Xavier não disse nada. Nada havia mesmo a dizer.

Clarice Lispector, em A Via Crucis do Corpo