sábado, 23 de maio de 2026

Emílio Santiago | Dindi

 

Calvin e Haroldo

PdF II

Cada um
tem
a Macondo
que merece:
regojiza
ou enlouquece.

Elilson José Batista, em Alumbramentos

A procura de uma dignidade



A Sra. Jorge B. Xavier simplesmente não saberia dizer como entrara. Por algum portão principal não fora. Pareceu-lhe vagamente sonhadora ter entrado por uma espécie de estreita abertura em meio a escombros de construção em obras, como se tivesse entrado de esguelha por um buraco feito só para ela. O fato é que quando viu já estava dentro.
E quando viu, percebeu que estava muito, muito dentro. Andava interminavelmente pelos subterrâneos do Estádio do Maracanã ou pelo menos pareceram-lhe cavernas estreitas que davam para salas fechadas e quando se abriam as salas só havia uma janela dando para o estádio. Este, àquela hora torradamente deserto, reverberava ao extremo sol de um calor inusitado que estava acontecendo naquele dia de pleno inverno.
Então a senhora seguiu por um corredor sombrio. Este a levou igualmente a outro mais sombrio. Pareceu-lhe que o teto dos subterrâneos eram baixos.
E aí este corredor a levou a outro que a levou por sua vez a outro.
Dobrou o corredor deserto. E aí caiu em outra esquina. Que a levou a outro corredor que desembocou em outra esquina.
Então continuou automaticamente a entrar pelos corredores que sempre davam para outros corredores. Onde seria a sala da aula inaugural? Pois junto desta encontraria as pessoas com quem marcara encontro. A conferência era capaz de já ter começado. Ia perdê-la, ela que se forçava a não perder nada de cultural porque assim se mantinha jovem por dentro, já que até por fora ninguém adivinhava que tinha quase 70 anos, todos lhe davam uns 57.
Mas agora, perdida nos meandros internos e escuros do Maracanã, a senhora já arrastava pés pesados de velha.
Foi então que subitamente encontrou num corredor um homem surgido do nada e perguntou-lhe pela conferência que o homem disse ignorar. Mas esse homem pediu informações a um segundo homem que também surgira repentinamente ao dobramento do corredor.
Então este segundo homem informou que havia visto perto da arquibancada da direita, em pleno estádio aberto, “duas damas e um cavalheiro, uma de vermelho”. A Sra. Xavier tinha dúvida de que essas pessoas fossem o grupo com quem devia se encontrar antes da conferência, e na verdade já perdera de vista o motivo pelo qual caminhava sem nunca mais parar. De qualquer modo seguiu o homem para o estádio, onde parou ofuscada no espaço oco de luz escancarada e mudez aberta, o estádio nu desventrado, sem bola nem futebol. Sobretudo sem multidão. Havia uma multidão que existia pelo vazio de sua ausência absoluta.
As duas damas e o cavalheiro já haviam sumido por algum corredor?
Então o homem disse com desafio exagerado: “Pois vou procurar para a senhora e vou encontrar de qualquer jeito essa gente, eles não podem ter sumido no ar.”
E de fato de muito longe ambos os viram. Mas um segundo depois tornaram a desaparecer. Parecia um jogo infantil onde gargalhadas amordaçadas riam da Sra. Jorge B. Xavier.
Então entrou com o homem por outros corredores. Aí este homem também sumiu numa esquina.
A senhora já desistira da conferência que no fundo pouco lhe importava. Contanto que saísse daquele emaranhado de caminhos sem fim. Não haveria porta de saída? Então sentiu como se estivesse dentro de um elevador enguiçado entre um andar e outro. Não haveria porta de saída?
Então eis que subitamente lembrou-se das palavras de informação da amiga pelo telefone: “fica mais ou menos perto do Estádio do Maracanã.” Diante dessa lembrança entendeu o seu engano de pessoa avoada e distraída que só ouvia as coisas pela metade, a outra ficando submersa. A Sra. Xavier era muito desatenta. Então, pois, não era no Maracanã o encontro, era apenas perto dali. No entanto o seu pequeno destino quisera-a perdida no labirinto.
Sim, então a luta recomeçou pior ainda: queria por força sair de lá e não sabia como nem por onde. E de novo apareceu no corredor aquele homem que procurava as pessoas e que de novo lhe garantiu que as acharia porque não podiam ter sumido no ar. Ele disse assim mesmo:
As pessoas não podem ter sumido no ar!
A senhora informou:
Não precisa mais se incomodar de procurar, sim? Muito obrigada, sim? Porque o lugar onde preciso encontrar as pessoas não é no Maracanã.
O homem parou imediatamente de andar para olhá-la perplexo:
Então que é que a senhora está fazendo aqui?
Ela quis explicar que sua vida era assim mesmo, mas nem sequer sabia o que queria dizer com o “assim mesmo” nem com “sua vida”, nada respondeu. O homem insistiu na pergunta, entre desconfiado e cauteloso: que é que ela estava fazendo ali? Nada, respondeu apenas em pensamento a senhora, já então prestes a cair de cansaço. Mas não lhe respondeu, deixou-o pensar que era louca. Além do mais ela nunca se explicava. Sabia que o homem a julgava louca – e quem dissera que não? pois não sentia aquela coisa que ela chamava de “aquilo” por vergonha? Se bem que soubesse ter a chamada saúde mental tão boa que só podia se comparar com sua saúde física. Saúde física já agora arrebentada pois rastejava os pés de muitos anos de caminho pelo labirinto. Sua via crucis. Estava vestida de lã muito grossa e sufocava suada ao inesperado calor de um auge de verão, esse dia de verão que era um aleijão do inverno. As pernas lhe doíam, doíam ao peso da velha cruz. Já se resignara de algum modo a nunca mais sair do Maracanã e a morrer ali de coração exangue.
Então, e como sempre, era só depois de desistir das coisas desejadas que elas aconteciam. O que lhe ocorreu de repente foi uma ideia: “mas que velha maluca eu sou”. Por que em vez de continuar a perguntar pelas pessoas que não estavam lá, não procurava o homem e indagava dele como se saía dos corredores? Pois o que queria era apenas sair e não encontrar-se com ninguém.
Achou finalmente o homem, ao dobrar de uma esquina. E falou-lhe com voz um pouco trêmula e rouca por cansaço e medo de ter vã esperança. O homem desconfiado concordou mais do que depressa que era melhor mesmo que ela fosse embora para casa e disse-lhe com cuidado: “A senhora parece que não está muito bem da cabeça, talvez seja esse calor esquisito”.
Dito isto, então simplesmente o homem entrou com ela no primeiro corredor e na esquina avistavam-se os dois largos portões abertos. Apenas assim? tão fácil assim?
Apenas assim.
Então a senhora pensou sem nada concluir que só para ela é que se havia tornado impossível achar a saída. A Sra. Xavier estava apenas um pouco espantada e ao mesmo tempo habituada. Na certa cada um tinha o próprio caminho a percorrer interminavelmente, fazendo isto parte do destino, no qual ela não sabia se acreditava ou não.
E havia o táxi passando. Mandou-o parar e disse-lhe controlando a voz que estava cada vez mais velha e cansada:
Moço, não sei bem o endereço, esqueci. Mas o que sei é que a casa fica numa rua – não-me-lembro-mais-o-quê mas que fala em “Gusmão” e faz esquina com uma rua se não me engano chamada Coronel-não-sei-quê.
O chofer foi paciente como com uma criança: “Pois então não se afobe, vamos procurar calmamente uma rua que tenha Gusmão no meio e Coronel no fim”, disse virando-se para trás num sorriso e aí piscou-lhe um olho de conivência que parecia indecente. Partiram aos solavancos que lhe sacudiam as entranhas.
Então de repente reconheceu as pessoas que procurava e que se achavam na calçada defronte de uma casa grande. Era porém como se a finalidade fosse chegar e não a de ouvir a palestra que a essa hora estava totalmente esquecida, pois a Sra. Xavier se perdera de seu objetivo. E não sabia em nome de que caminhara tanto. Então viu que se cansara para além das próprias forças e quis ir embora, a conferência era um pesadelo. Então pediu a uma senhora importante e vagamente conhecida e que tinha carro com chofer para levá-la em casa porque não estava se sentindo bem com o calor estranho. O chofer só viria daí a uma hora. Então a Sra. Xavier sentou-se numa cadeira que tinham posto para ela no corredor, sentou-se empertigada na sua cinta apertada, fora da cultura que se processava defronte na sala fechada. De onde não se ouvia som algum. Pouco lhe importava a cultura. E ali estava nos labirintos de 60 segundos e de 60 minutos que a encaminhariam a uma hora.
Então a senhora importante veio e disse assim: que a condução estava à porta mas que lhe informava que, como o chofer avisara que ia demorar muito, em vista da senhora não estar passando bem, mandara parar o primeiro táxi que vira. Por que a Sra. Xavier não tivera ela própria a ideia de chamar um táxi, em vez de dispor-se a se submeter aos meandros do tempo de espera? Então a Sra. Jorge B. Xavier agradeceu-lhe com extrema delicadeza. A senhora era sempre muito delicada e educada. Entrou no táxi e disse:
Leblon, por obséquio.
Tinha o cérebro oco, parecia-lhe que sua cabeça estava em jejum.
Daí a pouco notou que rodavam e rodavam mas que de novo terminavam por voltar para uma mesma praça. Por que não saíam de lá? Não havia de novo caminho de saída? O chofer acabou confessando que não conhecia a zona Sul, que só trabalhava na zona Norte. E ela não sabia como ensinar-lhe o caminho. Cada vez mais a cruz dos anos pesava-lhe e a nova falta de saída apenas renovava a magia negra dos corredores do Maracanã. Não havia meio de se livrarem da praça! Então o chofer disse-lhe que tomasse outro táxi, e chegou mesmo a fazer sinal para um que passara ao lado. Ela agradeceu comedidamente, fazia cerimônia com as pessoas, mesmo com as conhecidas. Além do que era muito gentil. No novo táxi disse a medo:
Se o senhor não se incomodar, vamos para o Leblon.
E simplesmente saíram logo da praça e entraram por novas ruas.
Foi ao abrir com a chave a porta do apartamento que teve vontade apenas mental e fantasiada de soluçar bem alto. Mas ela não era de soluçar nem de reclamar. De passagem avisou à empregada que não atenderia telefonema. Foi direto ao quarto, tirou toda a roupa, engoliu sem água uma pílula e então esperou que esta desse resultado.
Enquanto isso, fumava. Lembrou-se de que era mês de agosto e diziam que agosto dava azar. Mas setembro viria um dia como porta de saída. E setembro era por algum motivo o mês de maio: um mês mais leve e mais transparente. Foi vagamente pensando nisso que a sonolência finalmente veio e ela adormeceu.
Quando acordou horas depois então viu que chovia uma chuva fina e gelada, fazia um frio de lâmina de faca. Nua na cama ela enregelava. Então achou muito curioso uma velha nua. Lembrou-se de que planejara a compra de uma echarpe de lã. Olhou o relógio: ainda encontraria o comércio aberto. Tomou um táxi e disse:
Ipanema, por obséquio.
O homem disse:
Como é que é? É para o Jardim Botânico?
Ipanema, por favor – repetiu a senhora, bastante surpreendida. Era o absurdo do desencontro total: pois, que havia em comum entre as palavras Ipanema e Jardim Botânico? Mas de novo pensou vagamente que “era assim mesmo a sua vida”.
Fez rapidamente a compra e viu-se na rua já escurecida sem ter o que fazer. Pois o Sr. Jorge B. Xavier viajara para São Paulo no dia anterior e só voltaria no dia seguinte.
Então, de novo em casa, entre tomar nova pílula para dormir ou fazer alguma outra coisa, optou pela segunda hipótese, pois lembrou-se de que agora poderia voltar a procurar a letra de câmbio perdida. O pouco que entendia era que aquele papel representava dinheiro. Há dois dias procurara minuciosamente pela casa toda, e até pela cozinha, mas em vão. Agora lhe ocorria: e por que não embaixo da cama? Talvez. Então ajoelhou-se no chão. Mas logo cansou-se de só estar apoiada nos joelhos e apoiou-se também nas duas mãos.
Então percebeu que estava de quatro.
Assim ficou um tempo, talvez meditativa, talvez não. Quem sabe, a Sra. Xavier estivesse cansada de ser um ente humano. Estava sendo uma cadela de quatro. Sem nobreza nenhuma. Perdida a altivez última. De quatro, um pouco pensativa talvez. Mas embaixo da cama só havia poeira.
Levantou-se com bastante esforço das juntas desarticuladas e viu que nada mais havia a fazer senão considerar com realismo – e era com um esforço penoso que via a realidade – considerar com realismo que a letra estava perdida e que continuar a procurá-la seria nunca sair do Maracanã.
E como sempre, já que desistira de procurar, ao abrir a gavetinha de lenços para tirar um – lá estava a letra de câmbio.
Então a senhora, cansada pelo esforço de ter ficado de quatro, sentou-se na cama e começou muito à toa a chorar de manso. Parecia mais uma lenga-lenga árabe. Há 30 anos não chorava, mas agora estava tão cansada. Se é que aquilo era choro. Não era. Era alguma coisa. Finalmente assoou o nariz. Então pensou o seguinte: que ela forçaria o “destino” e teria um destino maior. Com força de vontade se consegue tudo, pensou sem a menor convicção. E isso de estar presa a um destino ocorrera-lhe porque já começara sem querer a pensar em “aquilo”.
Mas aconteceu então que a senhora também pensou o seguinte: era tarde demais para ter um destino. Ela pensou que bem faria qualquer tipo de permuta com outro ser. Foi então que lhe ocorreu que não havia com quem se permutar: que quer que ela fosse, ela era ela e não podia se transformar numa outra única. Cada um era único. A Sra. Jorge B. Xavier também era.
Mas tudo o que lhe acontecera ainda era preferível a sentir “aquilo”. E aquilo veio com seus longos corredores sem saída. “Aquilo”, agora sem nenhum pudor, era a fome dolorosa de suas entranhas, fome de ser possuída pelo inalcançável ídolo de televisão. Não perdia um só programa dele. Então, já que não pudera se impedir de pensar nele, o jeito era deixar-se pensar e relembrar o rosto de menina-moça de Roberto Carlos, meu amor.
Foi lavar as mãos sujas de poeira e viu-se no espelho da pia. Então a Sra. Xavier pensou assim: “Se eu quiser muito, mas muito mesmo, ele será meu por ao menos uma noite.” Acreditava vagamente na força de vontade. De novo se emaranhou no desejo que era retorcido e estrangulado.
Mas, quem sabe? Se desistisse de Roberto Carlos, então é que as coisas entre ele e ela aconteceriam. A Sra. Xavier meditou um pouco sobre o assunto. Então espertamente fingiu que desistia de Roberto Carlos. Mas bem sabia que a desistência mágica só dava resultados positivos quando era real, e não apenas um truque como modo de conseguir. A realidade exigia muito da senhora. Examinou-se ao espelho para ver se o rosto se tornaria bestial sob a influência de seus sentimentos. Mas era um rosto quieto que já deixara há muito de representar o que sentia. Aliás, seu rosto nunca exprimira senão boa educação. E agora era apenas a máscara de uma mulher de 70 anos. Então sua cara levemente maquilada pareceu-lhe a de um palhaço. A senhora forçou sem vontade um sorriso para ver se melhorava. Não melhorou.
Por fora – viu no espelho – ela era uma coisa seca como um figo seco. Mas por dentro não era esturricada. Pelo contrário. Parecia por dentro uma gengiva úmida, mole assim como gengiva desdentada.
Então procurou um pensamento que a espiritualizasse ou que a esturricasse de vez. Mas nunca fora espiritual. E por causa de Roberto Carlos a senhora estava envolta nas trevas da matéria onde ela era profundamente anônima.
De pé no banheiro era tão anônima quanto uma galinha.
Numa fração de fugitivo segundo quase inconsciente vislumbrou que todas as pessoas são anônimas. Porque ninguém é o outro e o outro não conhecia o outro. Então – então a pessoa é anônima. E agora estava emaranhada naquele poço fundo e mortal, na revolução do corpo. Corpo cujo fundo não se via e que era a escuridão das trevas malignas de seus instintos vivos como lagartos e ratos. E tudo fora de época, fruto fora de estação? Por que as outras velhas nunca lhe tinham avisado que até o fim isso podia acontecer? Nos homens velhos bem vira olhares lúbricos. Mas nas velhas não. Fora de estação. E ela viva como se ainda fosse alguém, ela que não era ninguém.
A Sra. Jorge B. Xavier era ninguém.
Então quis ter sentimentos bonitos e românticos em relação à delicadeza de rosto de Roberto Carlos. Mas não conseguiu: a delicadeza dele apenas a levava a um corredor escuro de sensualidade. E a danação era a lascívia. Era fome baixa: ela queria comer a boca de Roberto Carlos. Não era romântica, ela era grosseira em matéria de amor. Ali no banheiro, defronte do espelho da pia.
Com sua idade indelevelmente maculada.
Sem ao menos um pensamento sublime que lhe servisse de leme e que enobrecesse a sua existência.
Então começou a desmanchar o coque dos cabelos e a penteá-los devagar. Estavam precisando de nova tintura, as raízes brancas já apareciam. Então a senhora pensou o seguinte: na minha vida nunca houve um clímax como nas histórias que se leem. O clímax era Roberto Carlos. Meditativa, concluiu que iria morrer secretamente assim como secretamente vivera. Mas também sabia que toda morte é secreta.
Do fundo de sua futura morte imaginou ver no espelho a figura cobiçada de Roberto Carlos, com aqueles macios cabelos encaracolados que ele tinha. Ali estava, presa ao desejo fora de estação assim como o dia de verão em pleno inverno. Presa no emaranhado dos corredores do Maracanã. Presa ao segredo mortal das velhas. Só que ela não estava habituada a ter quase 70 anos, faltava-lhe prática e não tinha a menor experiência.
Então disse alto e bem sozinha:
Robertinho Carlinhos.
E acrescentou ainda: meu amor. Ouviu sua voz com estranheza como se estivesse pela primeira vez fazendo, sem nenhum pudor ou sentimento de culpa, a confissão que no entanto deveria ser vergonhosa. A senhora devaneou que era capaz de Robertinho não querer aceitar o seu amor porque tinha ela própria consciência de que este amor era muito piegas, melosamente voluptuoso e guloso. E Roberto Carlos parecia tão casto, tão assexuado.
Seus lábios levemente pintados ainda seriam beijáveis? Ou por acaso era nojento beijar boca de velha? Examinou bem de perto e inexpressivamente os próprios lábios. E ainda inexpressivamente cantou baixo o estribilho da canção mais famosa de Roberto Carlos: “Quero que você me aqueça neste inverno e que tudo o mais vá para o inferno.”
Foi então que a Sra. Jorge B. Xavier bruscamente dobrou-se sobre a pia como se fosse vomitar as vísceras e interrompeu sua vida com uma mudez estraçalhante: tem! que! haver! uma! porta! de saiiiiiída!

Clarice Lispector, em Todos os Contos

Gabriel

Não consigo refrear a tentação de puxar conversa com uma criança que não conheço. Se tem uma criança no elevador cheio, eu me agacho para que meus olhos fiquem na altura dos seus. Deve ser muito estranho olhar em volta e só ver fivela de cintos e bolsas. Olhando­-se para cima, os adultos têm a aparência de gigantes.
Na sala de espera do consultório médico estava o menino com seu pai. Calculei, 9 ou 10 anos. Puxei conversa. Ele ficou encabulado. Virou de lado. Mas eu não desisto. Gosto de conversar com crianças. É fácil. E só falar de igual para igual, sem voz melosa e sem usar diminutivos. Ele falou de futebol. Eu disse que não torcia por nenhum time, mas havia escrito um livro, Futebol levado a riso. E lhe contei várias estórias divertidas do futebol. A conversa rolou fácil. Ficamos amigos. Disse­-lhe que escrevi estórias para crianças. Pedi o endereço dele para lhe enviar uns livrinhos. Ele me deu. Mandei os livros. Passados uns dias, ele me mandou um presente: um livro de poesias, raridade literária, data de 1892­-1903. Tão divertida a forma como se escrevia! No meio dos poemas encontrei um que mexeu comigo: “Embala­-me, balanço da mangueira,/ Embala­-me, que enquanto vou contigo e contigo venho, o meu pesar esqueço...”. O presente veio com uma carta dele, assinada Gabriel Quevedo. Disse a ele que Gabriel é nome de anjo! Ele se espantou. E me disse que já estava lendo o livro Lagartixas e dinossauros. Na carta, ele escreveu que o presente era uma prova de gratidão. Mas não precisava ter gratidão por tão pouco. Gostei, Gabriel.

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

Fita verde no cabelo (Nova velha estória)



Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam. Todos com juízo, suficientemente, menos uma meninazinha, a que por enquanto. Aquela, um dia, saiu de lá, com uma fita verde inventada no cabelo.
Sua mãe mandara-a, com um cesto e um pote, à avó, que a amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia. Fita-Verde partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar framboesas.
Daí, que, indo, no atravessar o bosque, viu só os lenhadores, que por lá lenhavam; mas o lobo nenhum, desconhecido nem peludo. Pois os lenhadores tinham exterminado o lobo. Então, ela, mesma, era quem se dizia: — “Vou à vovó, com cesto e pote, e a fita verde no cabelo, o tanto que a mamãe me mandou.” A aldeia e a casa esperando-a acolá, depois daquele moinho, que a gente pensa que vê, e das horas, que a gente não vê que não são.
E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vindo-lhe correndo, em pós. Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com ignorar se cada uma em seu lugar as plebeiínhas flores, princesinhas e incomuns, quando a gente tanto por elas passa. Vinha sobejadamente.
Demorou, para dar com a avó em casa, que assim lhe respondeu, quando ela, toque, toque, bateu:
— “Quem é?” 
— “Sou eu...” — e Fita-Verde descansou a voz. — “Sou sua linda netinha, com cesto e pote, com a fita verde no cabelo, que a mamãe me mandou.” 
Vai, a avó, difícil disse: — “Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençoe.” 
Fita-Verde assim fez, e entrou e olhou.
A avó estava na cama, rebuçada e só. Devia, para falar agagado e fraco e rouco, assim, de ter apanhado um ruim defluxo. Dizendo: — “Depõe o pote e o cesto na arca, e vem para perto de mim, enquanto é tempo.” 
Mas agora Fita-Verde se espantava, além de entristecer-se de ver que perdera em caminho sua grande fita verde no cabelo atada; e estava suada, com enorme fome de almoço. Ela perguntou:
— “Vovozinha, que braços tão magros, os seus, e que mãos tão trementes!” 
— “É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta...” — a avó murmurou.
— “Vovozinha, mas que lábios, ai, tão arroxeados!” 
— “É porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta...” — a avó suspirou.
— “Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido?” 
— “É porque já não te estou vendo, nunca mais, minha netinha...” — a avó ainda gemeu.
Fita-Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez.
Gritou: — “Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!” 
Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Dor e Prata | Djavan

10 Paezinhos

O caule e a mente

Um ramo podado de um galho adjacente foi, necessariamente, cortado de toda a árvore. Da mesma maneira, o homem se separa de toda a comunidade social ao se apartar do outro. Enquanto aquele é podado, este se aparta quando odeia ou se afasta do seu vizinho. Ademais, não percebe a simultânea separação entre ele e o sistema social germinada pelo seu ato.
Não obstante, esse homem é privilegiado por Zeus, quem estruturou a sociedade, porque está em nosso poder nos aproximar e nos incorporar ao todo. No entanto, caso a divisão aconteça com frequência, a parte que se dividiu terá dificuldade para se somar à unidade e se restaurar à condição anterior. Afinal, o galho que brotou e se sustentou na árvore desde o início não é como o que foi enxertado. Como os jardineiros dizem: “O caule é o mesmo, porém a mente é outra.”

Marco Aurélio, em Meditações

O Apanhador no Campo de Centeio — 21


21

Há muito tempo não dava tanta sorte. Quando cheguei em casa, o ascensorista da noite, Pete, não estava lá, e o substituto dele era um sujeito que eu nunca tinha visto antes. Aí tive a certeza de que, se não desse de cara com meus pais e tudo, ia mesmo conseguir falar com a Phoebe e dar o fora, sem que ninguém no mundo soubesse que eu tinha estado em casa. Era mesmo uma sorte infernal. E, para melhorar a estória, o novo ascensorista parecia meio sobre o imbecil. Disse a ele, com a voz mais natural do mundo, que me levasse ao andar dos Dickstein. Os Dickstein eram uma família que morava no outro apartamento do nosso andar. Eu já tinha guardado meu chapéu de caça para não dar pinta de maluco nem nada. Entrei no elevador como se estivesse com uma pressa danada.
O sujeito já tinha fechado a porta e tudo, e estava pronto para subir, quando se virou para mim e disse:
Eles não estão em casa. Estão numa festa no quatorze.
Não faz mal respondi sou sobrinho deles e combinei que ia esperar.
Ele me olhou meio desconfiado, com aquela cara de palerma.
É melhor esperar por eles aqui embaixo, companheiro.
Bem que gostaria... no duro falei. Mas o negócio é que eu sou meio aleijado de uma perna e tenho que ficar com ela numa certa posição. Acho melhor me sentar naquela cadeira que fica no hall do apartamento.
Ele não entendeu patavina, por isso só fez dizer "Ah, sei" e me levou. É engraçado, basta a gente dizer alguma coisa que ninguém entende para que façam praticamente tudo que a gente quer.
Saltei no nosso andar capengando como um doido e comecei a caminhar para o lado dos Dickstein. Aí, quando ouvi a porta do elevador se fechar, dei meia volta e fui para o nosso apartamento. Estava tudo correndo conforme o figurino. Nem me sentia mais de pileque. Tirei minha chave e abri a porta, bem de leve. Aí, com o maior cuidado e tudo, entrei e fechei a porta. Eu devia ter nascido ladrão.
O vestíbulo estava escuro pra chuchu, como era de se esperar, e naturalmente eu não podia acender a luz. Precisava ter cuidado para não esbarrar em nada e fazer um pandemônio dos diabos. Mas tinha a certeza de que estava em casa. O nosso vestíbulo cheira diferente de qualquer outro lugar. Não sei que diabo é. Não é couve-flor nem é perfume sei lá que porcaria é mas a gente sente logo que está em casa. Comecei a tirar o sobretudo para pendurar no armário do vestíbulo, mas mudei de ideia porque aquele armário vive entupido de cabides e faz um barulhão infernal quando a gente abre a porta. Aí fui andando bem devagarinho pelo corredor, na direção do quarto da Phoebe. Sabia que a empregada não ia me ouvir, porque ela só tinha um tímpano. Quando era criança, o irmão dela tinha lhe enfiado um canudo no ouvido. Era um bocado surda e tudo. Mas com meus pais a coisa era outra principalmente minha mãe, que tinha um ouvido de perdigueiro. Pisei macio pra burro quando passei pela porta deles. Pra falar a verdade, até prendi a respiração. Quando meu pai está dormindo, a gente pode dar uma cadeirada na cabeça dele que o velho não acorda; mas, para minha mãe acordar, basta a gente tossir lá pras bandas da Sibéria. Ela é nervosa pra chuchu. Quase sempre passa a noite toda acordada, fumando.
Afinal, mais ou menos uma hora depois, cheguei ao quarto da Phoebe. Ela não estava lá. Tinha-me esquecido. Ela sempre dorme no quarto do D. B. quando ele está em Hollywood ou outro lugar qualquer. Ela gosta de ficar lá porque é o maior quarto da casa. E também por causa da escrivaninha maluca que tem lá, que o D. B. comprou de uma mulher alcoólatra em Filadélfia, e da cama enorme, gigantesca, de dez quilômetros de comprimento por dez de largura. Não sei onde ele conseguiu comprar aquela cama. Seja como for, a Phoebe adora dormir no quarto do D. B. quando ele está fora, e ele não se importa. Vale a pena ver a Phoebe fazendo os trabalhos de casa naquela escrivaninha maluca. É quase tão grande quanto a cama, mas a Phoebe adora um troço desses. Não gosta do quarto dela porque acha muito pequeno. Ela diz que precisa se espalhar, e eu me esbaldo com isso. O que é que ela tem para espalhar? Nada.
De qualquer forma, entrei de mansinho no quarto do D. B. e acendi a luz da escrivaninha. Phoebe nem acordou. Fiquei olhando para ela, com a luz acesa e tudo. Estava espichada ali, dormindo, com o rosto meio de lado, para fora do travesseiro. A boca entre-aberta. É gozado, os adultos ficam horríveis quando estão dormindo de boca aberta, mas as crianças não. As crianças ficam cem por cento. Podem até ter babado todo o travesseiro, que continuam cem por cento.
Dei uma volta pelo quarto, bem devagar e tudo, olhando as coisas. Para variar, estava me sentindo muito bem. Nem me lembrei mais que podia ter apanhado uma pneumonia nem nada. Só para variar, estava me sentindo bem e mais nada. A roupa da Phoebe estava em cima da cadeira, perto da cama. Para uma criança, ela é muito arrumada. Por exemplo, não atira as coisas dela por todos os lados, como a maioria das crianças. Não é nenhuma relaxada. O casaco do costume havana que minha mãe havia trazido do Canadá estava nas costas da cadeira. A blusa e os outros troços estavam no assento. Os sapatos e as meias no chão, debaixo da cadeira, bem juntinho um do outro. Nunca tinha visto aqueles sapatos, deviam ser novos. Eram uns mocassins marron-escuro, parecidos com os meus, e combinavam um bocado com o costume que minha mãe tinha comprado no Canadá. Minha mãe veste a Phoebe muito bem, no duro. Minha mãe tem um gosto infernal para certas coisas. Não tem lá muito jeito para comprar patins de gelo ou coisa parecida, mas em matéria de roupa ela é o fino.
A Phoebe está quase sempre com uns vestidos do barulho. Acontece que a maioria das meninas, mesmo quando os pais são ricos e tudo, em geral usam uns vestidos horrorosos. Mas dava gosto ver a Phoebe com aquele costume que minha mãe tinha trazido do Canadá.
Sentei diante da escrivaninha do D. B. e fiquei olhando os troços que estavam ali por cima. Eram as coisas da Phoebe, da escola e tudo. O que mais tinha era livro. Em cima da pilha estava o Aritmética é Divertido. Abri na primeira página para dar uma olhada. Phoebe tinha escrito:

PHOEBE WEATHERFIELD CAULFIELD

4B – 1

Me esbaldei. O segundo nome dela é Josephine, e não Weatherfield. Mas ela não gosta e, por isso, cada vez que a vejo ela está usando um novo segundo nome.
Debaixo do livro de aritmética tinha um de geografia e, mais em baixo, um de ortografia. Esse é o tipo da coisa em que ela é ótima. Ela é ótima em todas as matérias, mas é melhor mesmo em ortografia. Mais para baixo havia uma porção de cadernos. Ela tem uns cinco mil cadernos. Nunca vi ninguém que tivesse tantos cadernos. Tirei o de cima e dei uma olhada na primeira folha. Estava escrito:

Berenice me procura no recreio que eu tenho uma coisa muito importante para te contar.
Não havia mais nada naquela página. Na seguinte estava escrito:
Por que há tantas fábricas de conservas no sudeste do Alaska?
Porque lá tem muito salmão.
Por que possui florestas valiosas?
Porque tem o clima adequado.
Que providências tomou nosso Governo para melhorar a vida dos esquimós?
estudar para amanhã!!!
Phoebe Weatherfield Caulfield
Phoebe Weatherfield Caulfield
Phoebe Weatherfield Caulfield
Phoebe W. Caulfield
Dra. Phoebe Weatherfield Caulfield
Favor passar adiante para Shirley!!!
Shirley você disse que era sagitário mas não passa de touro traga os patins quando for lá para casa

Ali, sentado na escrivaninha do D. B., li o caderno inteiro. Não me tomou muito tempo e posso passar o dia e a noite lendo um troço desses, seja caderno da Phoebe ou de qualquer outra criança. E morro de rir. Aí acendi outro cigarro era o meu último. Acho que naquele dia fumei uns vinte maços. Então, finalmente, acordei a Phoebe. Não podia ficar o resto da vida sentado naquela escrivaninha e, além do mais, estava com medo de que meus pais aparecessem de repente. Antes disso, queria pelo menos conversar um pouquinho com a Phoebe. Por isso tratei de acordá-la.
Ela acorda com muita facilidade. Quer dizer, não é preciso gritar nem nada. Praticamente, basta a gente se sentar ao lado dela na cama e dizer: "Acorda, Phoebe" e pronto, ela acorda.
Holden ela disse imediatamente. Passou o braço em volta do meu pescoço e tudo. Ela é muito carinhosa. Muito carinhosa para uma criança. Às vezes ela é até carinhosa demais. Dei uma espécie de beijo nela, e ela perguntou:
Quando é que você chegou?
Estava vibrando com a minha chegada, era evidente.
Fala mais baixo. Cheguei agorinha mesmo. Tudo bem com você?
Tudo bem. Recebeu minha carta? Te escrevi uma carta de cinco páginas...
Recebi sim, mas fala mais baixo. Gostei muito.
Ela tinha me escrito uma carta que eu não respondi. Falava da peça em que ela ia representar na escola. Mandou-me dizer que não marcasse nenhum programa para sexta-feira, para que eu pudesse assistir à peça.
Como vai a peça? perguntei. Como é mesmo o nome dela?
"Um Desfile de Natal para os Americanos". A peça é uma droga, mas eu faço o papel do Benedict Arnold. Meu papel é muito bom. Tenho praticamente a melhor parte.
Puxa, a esta altura ela já estava completamente acordada. Fica logo excitada com esse tipo de troço.
A peça começa quando eu estou morrendo. Um fantasma me aparece na véspera de Natal e pergunta se eu tenho vergonha, etc. Sabe como é... de ter traído meu país, etcétera e tal. Você vai ver?
Ela estava quase em pé na cama.
Foi sobre isso que eu escrevi para você. Você vai ver?
Claro que vou. Naturalmente que vou.
Papai não vai poder. Tem que viajar para a Califórnia ela disse.
Puxa, como ela estava acordada. Bastam dois segundos para ela acordar completamente. Estava meio ajoelhada lá para os lados da cabeceira da cama e segurava a droga da minha mão.
Escuta. Mamãe disse que você ia chegar na quarta-feira. Mamãe disse que era na quarta-feira.
Me deixaram sair antes. Fala mais baixo, se não você acorda todo mundo.
Que horas são? Eles só vão chegar muito tarde, mamãe é que disse. Foram a uma festa em Norwalk, Connecticut. Adivinha o quê que eu fiz hoje de tarde! Que filme que eu vi? Adivinha só!
Não sei... Escuta, eles não disseram a que horas…
"O Médico". É um filme especial exibido na Fundação Lister. Só ia ser passado uma vez hoje só. É a estória de um médico do Kentucky que mete um cobertor no rosto de uma garota aleijada que não podia andar. Aí mandam ele para a cadeia e tudo. É ótimo.
Espera aí, presta atenção um minuto. Eles não disseram a que horas...
Ele tem pena dela, o doutor. É por isso que ele mete o cobertor na cara dela e tudo, e sufoca ela. Aí mandam ele para a cadeia, condenado à prisão perpétua, mas essa menina que ele meteu o cobertor na cara dela vai sempre visitá-lo, e agradecer pelo que ele fez. Ele tinha matado por piedade. Mas ele sabe que merece ir para a cadeia, porque um médico não tem o direito de tirar as coisas de Deus. Quem me levou foi a mãe de uma colega de turma, a Alice Holmborg. É a minha melhor amiga. É a única na turma inteira que...
Quer fazer o favor de parar um instante? Estou te fazendo uma pergunta. Eles disseram a que horas vão voltar, ou não?
Não, mas só vão voltar muito tarde. Papai levou o carro e tudo para não ter que se preocupar com o trem. Ele mandou botar um rádio no carro! Mas mamãe disse que ninguém pode ligar o rádio no meio do trânsito.
Comecei a ficar mais descansado. Quer dizer, finalmente deixei de me preocupar se eles iam me pegar em casa ou não. Resolvi não me importar mais. Se pegassem, pegavam e pronto.
Valia a pena ver a pinta da Phoebe, com um daqueles pijamas com elefantes vermelhos na gola. Ela é tarada por elefantes.
Quer dizer que foi um bom filme, hem? perguntei.
Infernal. Só que a Alice estava resfriada e a mãe dela ficou o tempo todo perguntando se ela havia se constipado. Bem no meio do filme. Sempre no meio de alguma cena importante, a mãe dela se jogava toda por cima de mim para perguntar a Alice se ela havia se constipado. Esse negócio me deixou furiosa.
Aí contei para ela a estória do disco.
Escuta, comprei um disco para você, mas ele quebrou quando eu estava vindo para casa.
Tirei os pedacinhos do bolso do casaco.
Eu estava meio alto...
Me dá os pedaços. Vou guardar...
Praticamente arrancou os pedaços da minha mão e guardou tudo na mesinha de cabeceira. Não posso mesmo com ela.
O D. B. vem passar o Natal em casa? - perguntei.
Talvez sim, talvez não. Pelo menos foi o que mamãe disse. Tudo depende. Talvez tenha que ficar em Hollywood e escrever um filme sobre Anápolis.
Anápolis? Essa não!
É uma estória de amor e tudo. Adivinha quem vai trabalhar no filme. Que artista? Adivinha!
Tou pouco ligando. Anápolis! O quê que ele entende de Anápolis? Veja só! O quê que tem isso a ver com o tipo de estórias que ele escreve?
Puxa, um troço desses me deixa maluco. Aquela droga de Hollywood...
Quê que houve com o teu braço? perguntei. Ela tinha um baita dum curativo de esparadrapo no cotovelo. Só vi isso porque o pijama dela não tinha manga.
Tem um garoto, um tal de Curtis Weintraub, lá da minha turma, que me empurrou quando eu estava descendo a escada do parque. Quer ver?
Começou a tirar o esparadrapo do cotovelo.
Não, não mexe nisso. Por que é que ele te empurrou na escada?
Sei lá. Acho que ele tem raiva de mim. Eu e uma amiga minha, a Selma Alterbury, derramamos tinta e uma porção de troços no casaco de couro dele.
Isso não se faz. Afinal, que diabo, isso é coisa de criancinha.
Eu sei, mas sempre que vou ao parque ele fica me seguindo por tudo quanto é lugar. Ele está sempre andando atrás de mim, e isso me dá raiva.
Talvez ele goste de você. E isso não é motivo para derramar tinta...
Não quero que ele goste de mim.
Aí ela começou a olhar para mim com um jeito meio esquisito.
Holden, por que é que você veio para casa antes de quarta-feira?
O quê?
Puxa, é preciso a gente ficar de olho nela o tempo todo. Quem pensa que ela não é muito esperta é trouxa.
Por quê que você não veio pra casa só na quarta-feira? Você não foi expulso nem nada, foi?
Já te disse. Eles deixaram a gente sair mais cedo. Deixaram todo mundo...
Você foi expulso! Foi!
Aí me deu um murro na perna. Ela sabe dar os seus soquinhos.
Você foi expulso! Não é, Holden?
Ela estava cobrindo a boca com a mão e tudo. É um bocado emotiva, no duro.
Quem é que disse que eu fui expulso? Eu não disse.
Aí me deu outra cutucada. E olha que dava para machucar.
Papai vai te fazer nem sei o quê.
Aí ela se jogou de bruços na cama e botou a droga do travesseiro em cima da cabeça. Ela faz muito isso. De vez em quando parece uma alucinada.
Para com isso, tá? eu disse. Ninguém vai me fazer nada. Ninguém vai nem mesmo... Chega Phoebe, tira a porcaria desse troço da cabeça. Não vai me acontecer nada...
Mas cadê que ela tirava. Ninguém a obriga a fazer uma coisa quando ela não quer. Só fazia repetir: "Papai dessa vez te mata". A gente mal conseguia ouvir o que ela dizia, com a cabeça enfiada debaixo daquela droga daquele travesseiro.
Ninguém vai me matar. Deixa de ser boba. Em primeiro lugar, vou embora. Sabe o quê eu vou fazer? Vou trabalhar uns tempos numa fazenda. Conheço um camarada que tem um avô que tem um rancho no Colorado. Talvez ele me arranje um emprego por lá. Vou escrever sempre para você e tudo, quando estiver lá, tá bom? Agora, para, tira isso dá cabeça. Vamos, Phoebe, anda. Por favor. Tira isso da cabeça, por favor.
Mas qual nada. Tentei arrancar o travesseiro, mas ela é forte pra burro. Não há quem aguente brigar com a Phoebe. Se resolve ficar com a cabeça enfiada embaixo do travesseiro, fica mesmo.
Phoebe, por favor. Tira o travesseiro da cabeça. Vamos... Êi, Weatherfield, sai daí...
Mas não havia jeito dela sair. Às vezes é impossível querer argumentar com ela. Finalmente, fui até a sala e tirei uma porção de cigarros da caixa e enfiei no bolso. Os meus tinham acabado.

J. D. Salinger, em O Apanhador no Campo de Centeio

Dona Glorinha no circo

Dona Glorinha estava que não podia! Aquele homem que rodava no espaço, cada vez mais rápido, e preso apenas pelos dentes a uma roldana... Dona Glorinha sentia doerem-lhe os dentes, não os de agora, os outros... Dona Glorinha não pôde mais. E bradou, em meio do suspense geral: “Basta, cruel!”

Mário Quintana, em Caderno H

O Homem que Calculava — Capítulo 22



A grande prisão de Bagdá tinha o aspecto de uma fortaleza persa ou chinesa. Atravessava-se, ao entrar, pequeno pátio em cujo centro se via o famoso Poço da Esperança. Era ali que o condenado, ao ouvir a sentença, deixava cair, para sempre, todas as esperanças de salvação.
Ninguém poderá imaginar a vida de sofrimentos e misérias daqueles que eram atirados no fundo das masmorras da gloriosa cidade árabe.
A cela em que se achava o infeliz Sanadique estava localizada na parte baixa da prisão. Chegamos ao horripilante subterrâneo do presídio guiados pelo carcereiro e auxiliados por dois guardas. Um escravo núbio, agigantado, conduzia o grande archote cuja luz nos permitia observar todos os recantos da prisão.
Depois de percorrermos um corredor estreito, que mal dava passagem a um homem, descemos uma escadaria úmida e escura. No fundo do subterrâneo achava-se o pequeno calabouço onde fora encarcerado Sanadique. Ali não entrava a mais tênue réstia de luz. O ar pesado e fétido mal se podia respirar, sem náuseas e tonteiras. O chão estava coberto de uma camada de lama pútrida e não havia entre as quatro paredes nenhuma peça ou catre de que se pudesse servir o condenado.
À luz do archote que o hercúleo núbio erguia, vimos o desventurado Sanadique, seminu, a barba espessa e emaranhada, os cabelos em desalinho a lhe caírem pelos ombros, sentado sobre uma laje, as mãos e os pés presos a correntes de ferro.
Beremiz observou em silêncio, com vivo interesse, o desventurado Sanadique. Era inacreditável pudesse um homem resistir, com vida, durante quatro anos, àquela situação desumana e dolorosa!
As paredes da cela, cheias de manchas de umidade, achavam-se repletas de legendas e figuras — estranhos indícios de muitas gerações de infelizes condenados. Tudo aquilo Beremiz examinou, leu e traduziu com minucioso cuidado — parando de quando em vez para fazer cálculos que me pareciam longos e laboriosos. Como poderia o calculista, entre as maldições e blasfêmias, descobrir a metade do “x” da vida?
Grande foi a sensação de alívio que senti ao deixar a prisão sombria onde eram torturados os míseros detentos. Ao chegar de volta ao rico divã das audiências, apareceu-nos o grã-vizir Maluf rodeado de cortesãos, secretários e vários xeques e ulemás da corte. Aguardavam todos a chegada de Beremiz, pois queriam conhecer a fórmula que o calculista iria empregar para resolver o problema de metade da prisão perpétua.
Estávamos à vossa espera, ó Calculista! — cortejou afável o vizir. — E peço-vos apresenteis, sem mais delonga, a solução do grande problema. Temos a maior urgência em fazer cumprir a sentença do nosso grande Emir!
Ao ouvir essa ordem, Beremiz inclinou-se respeitoso, fez o habitual salã e assim falou:
O contrabandista Sanadique, de Báçora, preso há quatro anos na fronteira, foi condenado a prisão perpétua. Essa pena acaba, porém, de ser reduzida à metade por justa e sábia sentença do nosso glorioso califa Al-Motacém, Comendador dos Crentes, sombra de Alá na Terra!
Designamos por x o período da vida de Sanadique, período que vai do momento em que foi preso e condenado até o termo de seus dias. Sanadique foi, portanto, condenado a x anos de prisão, isto é, a prisão por toda a vida. Agora, em virtude da régia sentença, essa pena irá reduzir-se à metade. Se dividirmos o tempo x em vários períodos, importa dizer que a cada período de prisão deve corresponder período igual de liberdade.
Perfeitamente certo! — concordou o vizir com um ar de inteligência. — Compreendo muito bem o seu raciocínio.
Ora, como Sanadique já esteve preso durante quatro anos, é claro que deverá ficar em liberdade, durante igual período, isto é, durante quatro anos.
Com efeito: imaginemos que um mago genial pudesse prever o número exato de anos de vida de Sanadique e nos dissesse agora: “Esse homem, no momento em que foi preso, tinha apenas 8 anos de vida.” Ora, nesse caso, teríamos o x igual a 8, isto é, Sanadique teria sido condenado a 8 anos de prisão, e essa pena ficaria, agora, reduzida a 4 anos. Como Sanadique já está preso há quatro anos, é claro que já cumpriu o total da pena e deve ser considerado livre. Se o contrabandista, pelas determinações do Destino, houver de viver mais de 8 anos, a sua vida (x maior que 8) poderá ser decomposta em três períodos: um de 4 anos de prisão (já decorrido), outro de 4 anos de liberdade e um terceiro que deverá ser dividido em duas partes iguais (prisão e liberdade). É fácil concluir que, para qualquer valor de x (desconhecido), o detento terá de ser posto imediatamente em liberdade, ficando livre durante quatro anos, pois tem absoluto direito a esse período de liberdade, conforme demonstrei, de acordo com a lei!
Findo esse prazo, ou melhor, terminado esse período, deverá voltar à prisão e ficar recluso apenas durante um tempo igual à metade do resto de sua vida.*
Seria fácil, talvez, prendê-lo durante um ano e conceder-lhe liberdade durante o ano seguinte; ficaria, graças a essa resolução, um ano preso e um ano solto, e passaria, desse modo, a metade de sua vida em liberdade — conforme manda a sentença do rei.
Tal solução, porém, só estaria certa se o condenado viesse a morrer no último dia de um de seus períodos de liberdade.
Imaginemos, com efeito, que Sanadique, depois de passar um ano na prisão, fosse solto e viesse a morrer, por exemplo, no quarto mês de liberdade. Dessa parte de sua vida (um ano e quatro meses) teria passado “um ano preso” e “quatro meses solto”. Não estaria certo. Teria havido erro no cálculo. A sua pena não teria sido reduzida à metade!
Mas simples seria, portanto, prender Sanadique durante um mês e conceder-lhe o mês seguinte de liberdade. Tal solução poderá, dentro de um período menor, conduzir a erro análogo. E isso acontecerá (com prejuízo para o condenado) se ele, depois de passar um mês na prisão, não tiver, a seguir, um mês completo de liberdade.
Poderá parecer, direis, que a solução do caso consistirá, afinal, em prender Sanadique um dia e soltá-lo no dia seguinte, concedendo-lhe igual período de liberdade, e proceder assim até o termo da vida do condenado.
Tal solução não corresponderá, contudo, à verdade matemática, pois Sanadique — como é fácil entender — poderá ser prejudicado em muitas horas de liberdade. Basta para isso que ele venha a morrer horas depois de um dia de prisão.
Prender o condenado durante uma hora e soltá-lo a seguir, deixando-o em liberdade durante uma hora, e assim sucessivamente até a última hora da vida do condenado, seria solução acertada se Sanadique viesse a morrer no último minuto de uma hora de liberdade. Do contrário a sua pena não teria sido reduzida à metade.
A solução matematicamente certa, portanto, consistirá no seguinte:
Prender Sanadique durante um instante de tempo e soltá-lo no instante seguinte. É preciso, porém, que o tempo de prisão (o instante) seja infinitamente pequeno, isto é, indivisível. O mesmo há de dar-se com o período de liberdade a seguir.
Na realidade, tal solução é impossível. Como prender um homem num instante indivisível e soltá-lo no instante a seguir? Devemos, portanto, afastá-lo de nossas cogitações. Só vejo, ó Vizir, uma forma de resolver o problema: Sanadique será posto em liberdade condicional sob vigilância da lei. É essa a única maneira de prender e soltar um homem ao mesmo tempo!
Determinou o grão-vizir que fosse atendida a sugestão do calculista e ao infeliz Sanadique, no mesmo dia, concedida a “liberdade condicional” — fórmula que os jurisconsultos árabes passaram a adotar, frequentemente, em suas sábias sentenças.
No dia seguinte, perguntei que dados ou elementos de cálculos conseguira ele, afinal, colher nas paredes da prisão, durante a célebre visita; que motivos o teriam levado a dar tão original solução ao problema do condenado. Respondeu-me o calculista:
Só quem já esteve, por alguns momentos sequer, entre os muros tenebrosos de uma enxovia, sabe resolver esses problemas em que os números são parcelas terríveis da desgraça humana.

Nota:
*Esse resto de vida será x – 8 (da vida x descontados os 8 anos já decorridos).

Malba Tahan, em O Homem que Calculava