01/10/2026

Marina Sena, Mari Jasca e Zélia Duncan | Voltei pra Mim

 

O impagável Quino

Diário de Bernardo Soares

133.


O mundo, monturo de forças instintivas, que em todo o caso brilha ao sol com tons palhetados de ouro claro e escuro.
Para mim, se considero, pestes, tormentas, guerras, são produtos da mesma força cega, operando uma vez através de micróbios inconscientes, outra vez através de raios e águas inconscientes, outra vez através de homens inconscientes. Um terramoto e um massacre não têm para mim diferença senão a que há entre assassinar com uma faca e assassinar com um punhal. O monstro imanente nas coisas tanto se serve — para o seu bem ou o seu mal, que, ao que parece, lhe são indiferentes – da deslocação de um pedregulho na altura ou da deslocação do ciúme ou da cobiça num coração. O pedregulho cai, e mata um homem; a cobiça ou o ciúme armam um braço, e o braço mata um homem. Assim é o mundo, monturo de forças instintivas, que todavia brilha ao sol com tons palhetados de ouro claro e escuro.
Para fazer face à brutalidade de indiferença, que constitui o fundo visível das coisas, descobriram os místicos que o melhor era repudiar.
Negar o mundo, virar-se dele como de um pântano a cuja beira nos encontrássemos. Negar como o Buda, negando-lhe a realidade absoluta; negar como o Cristo, negando-lhe a realidade relativa; negar.
Não pedi à vida mais do que ela me não exigisse nada. À porta da cabana que não tive sentei-me ao sol que nunca houve, e gozei a velhice futura da minha realidade cansada (com o prazer de a não ter ainda).
Não ter morrido ainda basta para os pobres da vida, e ter ainda a esperança para contente com o sonho só quando não estou sonhando, contente com o mundo só quando sonho longe dele. Pêndulo oscilante, sempre movendo-se para não chegar, indo só para voltar, preso eternamente à dupla fatalidade de um centro e de um movimento inútil.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

1. Folguedos da Libertação



“Todos respiravam felicidade, tudo era delírio.”
Machado de Assis,
sobre o Treze de Maio de 1888

O projeto era singelo, brevíssimo, de apenas duas linhas, um dos mais curtos já votados no parlamento brasileiro. Sua disposição principal, no artigo primeiro, continha só doze palavras. Em seguida vinha uma determinação complementar e usual nos dispositivos legais, com mais cinco vocábulos. Nada além disso. Assim era o texto da lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888, mais conhecida como Lei Áurea, talvez a mais importante de toda a história do Brasil:[1]

Art. 1º É declarada extinta desde a data desta Lei a escravidão no Brasil.
Art. 2º Revogam-se as disposições em contrário.

Apesar de sua aparente simplicidade, nunca um projeto de lei mobilizou tanto a atenção dos brasileiros. Nunca tantos interesses se viram contrariados. Nunca os destinos nacionais estiveram tão em jogo. Nunca haveria uma ruptura tão drástica na realidade do país. A votação não foi tranquila nem teve aprovação unânime ou fácil. Entre a apresentação da proposta, no dia 3 de maio, e a votação final, no dia 13, os debates foram acirrados. Concentrada nas galerias e nas imediações do parlamento, a multidão ansiosa acompanhava as notícias. “A Câmara permaneceu cercada, como em estado de sítio”, relatou o advogado e historiador Antônio Evaristo de Moraes, testemunha dos acontecimentos. “Tudo quanto lá dentro se fazia irradiava cá fora.” Os jornais reproduziam discursos e decisões em manchetes garrafais, retransmitidas às regiões distantes pelo telégrafo e pelo telefone, novidades tecnológicas ainda recentes no país.
Dois brasis com visões diametralmente opostas em relação ao futuro se confrontaram naqueles memoráveis e tensos dez dias de maio. De um lado, havia os que sonhavam com uma nação livre do cativeiro, em que nenhum homem ou mulher jamais voltasse a ser vendido em leilões em praça pública, tratado como mercadoria qualquer, em que a lei do chicote deixasse de mediar as relações entre um grupo de brasileiros e outro, em que ninguém fosse discriminado devido à cor da pele ou à origem étnica. De outro, uma aristocracia rural predatória e escravista, que nos quatro séculos anteriores construíra seu poder e sua fortuna pelo uso da violência e da exploração indigna do trabalho alheio, sem nenhum reconhecimento ou contrapartida.
Em 1888, restavam ainda cerca de 750 mil homens e mulheres escravizados no Império brasileiro. Eram os remanescentes de uma história brutal. Nos três séculos anteriores, o Brasil tinha sido o maior território escravista do hemisfério ocidental. E o mais avesso a qualquer proposta de mudança. Viciado em escravidão desde o início da colonização portuguesa, resistira a todas as pressões e a todos os esforços feitos até então para se tornar uma nação livre. Fora o último país da América a acabar com o tráfico de africanos escravizados, pela Lei Eusébio de Queirós de 1850. Naquele momento, já quase no alvorecer do século XX, era também o último a discutir a abolição.
Os primeiros africanos escravizados chegaram ao Brasil por volta de 1538 para saciar a fome de mão de obra das lavouras e engenhos de açúcar que já então se multiplicavam pelas regiões litorâneas. Nos 350 anos seguintes, o total alcançaria 4,9 milhões, cerca de 46% dos 10,7 milhões desembarcados em cerca de 37 mil viagens de navios negreiros para todo o continente americano no mesmo período. Antes de negra e africana, porém, a escravidão brasileira havia sido indígena. Os mais antigos registros de compra e venda de pessoas cativas datavam de 1511, apenas uma década após a chegada da esquadra de Pedro Álvares Cabral à Bahia. Naquele ano, a nau Bretoa, de propriedade do florentino Bartolomeu Marchionni, financiador das grandes navegações portuguesas, e do cristão novo Fernando de Noronha, que hoje dá nome ao famoso arquipélago na costa pernambucana, partiu de Salvador levando uma carga de peles de onças-pintadas, papagaios, toras de pau-brasil e um grupo de 35 índios que seriam leiloados em Lisboa. Submetidos desde aquela época à escravidão e expostos às inúmeras doenças trazidas pelos europeus, contra as quais não tinham imunidade, os indígenas acabaram vítimas de um massacre de proporções bíblicas. De uma população estimada entre três milhões e cinco milhões em 1500, estavam reduzidos a menos de meio milhão por volta de 1888.
A escravidão sustentou todos os ciclos econômicos responsáveis pela riqueza da colônia portuguesa nos trópicos, da exploração do pau-brasil às lavouras de café, passando pelo açúcar, pelo ouro, pelo diamante, pelo tabaco e pelo algodão, entre outras atividades. Ser dono de terras e de pessoas escravizadas era o principal indicador de prestígio e riqueza no Brasil. “Os escravos são as mãos e os pés do senhor do engenho”, afirmava o padre jesuíta André João Antonil, ao descrever o Brasil em 1711. Era esse o grupo que tinha acesso às posições de mando, governava, recebia títulos de nobreza, fazia as leis e usufruía de seus benefícios.
Por isso havia tanta expectativa e tanta ansiedade ao redor daquele brevíssimo projeto de lei em maio de 1888. O Brasil fora construído com sangue e suor de homens e mulheres escravizados. Conseguiria sobreviver e progredir sem eles? Poderia o Brasil mergulhar no caos testemunhado nas décadas anteriores em outras regiões do continente? Como nos Estados Unidos, em que a abolição só foi possível ao fim de uma violentíssima guerra civil na qual cerca de 750 mil pessoas haviam morrido? Os senhores escravocratas, que até então dependiam da mão de obra cativa, aceitariam passivamente as mudanças? E se os próprios escravos decidissem reagir à opressão e pegar em armas em busca da liberdade? Notícias ainda recentes chegadas do interior do país davam conta de fugas em massa nas fazendas, enquanto os proprietários armavam milícias com o objetivo de caçar os fugitivos e reprimir manifestações abolicionistas. Como seria possível fazer a abolição sem que o país mergulhasse num banho de sangue?
Além dessas preocupações relacionadas à escravidão, o Brasil enfrentava outras graves incertezas de natureza política naquela 20ª Legislatura da Assembleia, como se denominava então o Congresso Nacional. Cansado, doente e precocemente envelhecido aos 62 anos, o imperador Pedro ii estava na Europa, em tratamento de saúde. Sua filha mais velha, a princesa Isabel, ocupava a regência do Império pela terceira vez, com a missão de orientar as decisões do ministério, inspirar e organizar os debates no parlamento. Era, porém, uma mulher sem carisma e imatura, com enormes dificuldades no diálogo com os partidos e forças políticas, o que lançava sérias dúvidas a respeito da viabilidade de um terceiro reinado, na hipótese da morte do soberano. Nas ruas, na imprensa e nos salões sociais a agitação republicana era crescente. Um grupo cada vez maior e mais ruidoso defendia que a única saída possível estava na mudança do regime. A complicar o cenário, havia, ainda, um enorme descontentamento nos quartéis a respeito do tratamento dado às Forças Armadas pelas autoridades imperiais. O cheiro de golpe era perceptível no ar.
Como era tradição na monarquia brasileira, coube à princesa abrir o ano parlamentar de 1888, no dia 3 de maio, com a Fala do Trono, pronunciamento em que o governo imperial fazia um balanço da situação nacional e delineava suas prioridades para aquele momento. Diante dos deputados e senadores, Isabel anunciou que dentre os desafios a serem enfrentados naquele ano estava “a extinção do elemento servil” — para bom entendedor, o fim da escravidão. Conclamou os parlamentares a apagar do direito pátrio o que, segundo suas palavras, seria uma “exceção”, contrária ao espírito cristão e liberal das instituições do país. Reagia desse modo à pressão do movimento abolicionista que, nos anos anteriores, mobilizara milhares de pessoas em todo o país, até se converter na primeira grande campanha popular de rua na história do Brasil. Havia, contudo, na fala da princesa, palavras e expressões dúbias, que de algum modo drenavam da mensagem a força e o senso de urgência que a conjuntura parecia exigir.
A proposta poderia ser resumida nestas poucas linhas da Fala do Trono:
A extinção do elemento servil, pelo influxo do sentimento nacional e das liberalidades particulares, em honra do Brasil, adiantou-se pacificamente de tal modo que é hoje aspiração aclamada por todas as classes, com admiráveis exemplos de abnegação da parte dos proprietários. Quando o próprio interesse privado vem espontaneamente colaborar para que o Brasil se desfaça da infeliz herança, que as necessidades da lavoura haviam mantido, confio que não hesitareis em apagar do direito pátrio a única exceção que nele figura em antagonismo com o espírito cristão e liberal das nossas instituições. Mediante providências que acautelem a ordem nas transformações do trabalho, apressem pela imigração o povoamento do país, facilitem as comunicações, utilizem as terras devolutas, desenvolvam o crédito agrícola e aviventem a indústria nacional, pode-se asseverar que a produção sempre crescente tomará forte impulso e nos habilitará a chegar mais rapidamente aos nossos auspiciosos destinos.
Uma análise mais cuidadosa deste trecho do discurso ajuda a explicar o quanto era precário o equilíbrio do trono brasileiro entre os interesses dos fazendeiros e a maré abolicionista. Em momento algum a princesa usou duas palavras cruciais: “escravidão” e “abolição”. Em vez disso, refugiou-se em algo mais suave e genérico: “a extinção do elemento servil”. O tom era de elogio aos fazendeiros, alicerces da monarquia desde a independência em 1822. A julgar pelas palavras de Isabel, a abolição não seria uma conquista dos abolicionistas e dos próprios escravos que, nos anos anteriores, passaram a se rebelar e promover fugas em massa. Era, na verdade, resultado de “admiráveis exemplos de abnegação da parte dos proprietários”, em especial os barões do café, nata da aristocracia escravista que até então o Império recompensava com títulos de nobreza e outros privilégios. Isabel apressava-se ainda em justificar a “escravidão”, mantida por tanto tempo em razão das “necessidades da lavoura”. Assumia por fim que a abolição era uma aspiração nacional, um desejo generalizado no Brasil. Não era. Os fazendeiros e senhores de escravos resistiram até onde foi possível à mudança.
Em vez de abnegados abolicionistas subitamente convertidos a uma causa humanitária que contrariava seus interesses, como sugeria o pronunciamento da princesa, os fazendeiros exigiam que o Estado brasileiro os indenizasse pelo fim da escravatura. Alegavam que os cativos representavam um valioso patrimônio, no qual tinham investido muito dinheiro, tempo e sacrifícios pessoais, que não lhes poderiam ser retirados sem a devida compensação. Abolir a escravidão, diziam, seria atropelar o direito à propriedade, desde sempre garantido nas leis portuguesas e brasileiras. Por isso, reivindicavam uma indenização equivalente a cerca de 20 milhões de libras esterlinas, dez vezes o valor que o imperador Pedro i havia se comprometido a pagar a Portugal, em 1826, em troca do reconhecimento da Independência do Brasil. Por coincidência, era a mesma quantia que o governo britânico pagara aos fazendeiros cinquenta anos antes como compensação pela libertação de cerca de 750 mil cativos em seus domínios.
Apesar do desconforto dos fazendeiros, a tramitação do projeto da Lei Áurea, sem a indenização reivindicada por eles, foi surpreendentemente rápida no parlamento. A proposta chegou à Câmara na terça-feira, 8 de maio, pelas mãos do ministro da Agricultura, deputado Rodrigo Augusto da Silva, presbiteriano e maçom, filho de um grande fazendeiro paulista, o Barão de Tietê, e genro do senador Eusébio de Queirós, responsável pela lei que aboliu o tráfico em 1850. No mesmo dia, foi discutida e aprovada, sem qualquer alteração, por uma comissão composta pelo deputado abolicionista pernambucano Joaquim Nabuco, líder do Partido Liberal. “Há neste momento uma manhã mais clara em torno dos berços, uma tarde mais serena em torno dos túmulos, uma atmosfera mais pura no interior do lar”, discursou Nabuco. “Os navios levarão amanhã por todos os mares a bandeira lavada de uma grande nódoa que a manchava”.
Uma pequena e insignificante modificação na proposta viria só no dia seguinte, 9 de maio, data da segunda discussão do projeto. O deputado Araújo Góes Júnior inseriu “desde a data desta lei” após a frase “é declarada extinta”, sugestão logo aceita por todos. Na quinta-feira, 10 de maio, terceiro e último dia de tramitação na Câmara, o presidente da casa, desembargador Henrique Pereira de Lucena, de Pernambuco, cedeu aos apelos dos abolicionistas e franqueou a entrada do público nas galerias, para contrariedade do deputado Andrade Figueira, representante dos fazendeiros escravistas, que classificou o local como um “circo de cavalinhos”. Colocada em votação, a proposta recebeu os votos favoráveis de 83 deputados. Nove foram contra. Outros 33 preferiram ficar em casa, alegando variados problemas para não se expor perante seus eleitores naquele momento decisivo.
A lista dos nove votos contrários na Câmara fornecia um retrato preciso do Brasil que resistira até a última hora aos ventos abolicionistas. Francisco de Caldas Lins, Barão de Araçagi, representava a província de Pernambuco, a mais antiga região escravista do Brasil, cujos engenhos de açúcar tinham sido os precursores no uso de mão de obra cativa ainda no longínquo século xvi. Todos os demais — Bulhões de Carvalho, Carlos Frederico Castrioto, Pedro Luís Soares de Sousa, Alberto Bezamat, Alfredo Chaves, Lacerda Werneck, Domingos de Andrade Figueira e Antônio Cândido da Cunha Leitão — eram da província do Rio de Janeiro, porta-vozes da chamada “lavoura arcaica” do Vale do Paraíba, onde se situavam as já decadentes e exauridas fazendas de café. O último da lista, o advogado Cunha Leitão, ex-presidente da província de Sergipe, morreria jovem, aos 42 anos, no dia 11 de maio, apenas 24 horas depois de entrar para a história como um dos últimos e mais renitentes escravocratas brasileiros.
No mesmo dia 11, após passar pelo crivo dos deputados, o projeto foi remetido ao Senado, sob a presidência do mineiro Antônio Cândido da Cruz Machado, Visconde de Serro Frio. A câmara alta do parlamento era o templo da elite escravocrata brasileira. Nomeados em caráter vitalício pelo imperador em uma lista tríplice dos candidatos mais votados em cada província, os senadores eram, em sua maioria, barões do café, senhores de engenho, fazendeiros e outros homens de prestígio, aos quais a monarquia prestava favores em troca de apoio político. Durante o primeiro e o segundo reinados, 40% dos senadores receberam títulos de nobreza. Entre os presidentes do Senado, a proporção de nobres era ainda maior, 80% do total.
No ano da Lei Áurea, cinco senadores exerciam mandato já havia quatro décadas. O Visconde de Queirós, mais antigo de todos, fora nomeado em 1848. “O apoio desses homens era decisivo para obter-se um empréstimo bancário, um posto na burocracia, uma pensão no governo, a aprovação de uma empresa ou companhia por ações, ou para o êxito numa carreira política”, observou a historiadora Emilia Viotti da Costa. “A sociedade brasileira estava permeada de alto a baixo pela prática e pela ética da patronagem.” Ou seja, pela política do toma lá dá cá. As eleições para o Senado (como, de regra, para qualquer cargo eletivo no país) eram de fachada, feitas com urnas e cédulas de papel e pautadas pela fraude e pela perseguição aos opositores. Em geral, o partido que estivesse no poder na época do sufrágio, saía vencedor.
O pensamento dessa gente poderia ser resumido no pronunciamento contrário à Lei Áurea feito no Senado pelo baiano João Maurício Wanderley, Barão de Cotegipe, no dia 12 de maio, véspera da Abolição. Segundo ele, os escravos eram itens do patrimônio dos fazendeiros tanto quanto os animais e os objetos inanimados. Dizia que o fim do cativeiro representaria um confisco de bens, abriria caminho para uma reforma agrária, mediante a redistribuição das terras, e seria o primeiro passo para a república no Brasil:
A propriedade sobre o escravo, como sobre os objetos inanimados, é uma criação do direito civil. Enfim, senhores, decreta-se que neste país não há propriedade, que tudo pode ser destruído por meio de uma lei, sem atenção nem a direitos adquiridos, nem a inconvenientes futuros. [...] Daqui a pouco se pedirá a divisão das terras, do que há exemplos em diversas nações, seja de graça ou por preço mínimo, e o Estado poderá decretar a expropriação sem indenização. […] Há de haver uma perturbação enorme no país. […] A crise será medonha. [...] Por ora, tudo é festa, tudo é alegria, tudo são flores, o prazer é unânime, universal, por esse grande ato de extinção da escravidão. Estão, porém, persuadidos de que o negócio fica aí? Não, senhores. Este ato cria muitos descontentes, as instituições perdem apoio com a irritação de uns e a indiferença de outros. Secas as flores, dissipadas as nuvens, […] vereis surgir mais de uma questão grave. […] Vê pouco quem não percebe o golpe republicano. Eis aqui, senhores, o que nos espera. Preparem-se para esses novos combates.
Vaticínio semelhante sobre o futuro da monarquia foi lançado por outro baluarte dos interesses escravistas, o senador e conselheiro Paulino de Souza, do Partido Conservador. Fluminense de Itaboraí, filho do Visconde do Uruguai, um dos grandes expoentes do Segundo Reinado, Paulino de Souza acusava o imperador Pedro ii e a princesa Isabel de se deixarem seduzir por uma ideia populista, a de libertar os escravos, e que o preço a pagar seria perder a Coroa:
A história e a experiência política atestam que todas as vezes que a realeza, por amor da população, por motivos de sentimentalismo, ou por cálculo político, acorda-se, ainda que em pensamento, com qualquer propaganda popular, [...] pode-se contar que está fatalmente derrocada, e com ela sacrificada a classe ou as classes interessadas na sua manutenção.
Coube ao baiano Manuel Pinto de Sousa Dantas, do Partido Liberal, abolicionista e ex-ministro do Império, responder às ameaças, dizendo que, ao contrário, valeria a pena acabar com a escravidão no Brasil, mesmo que o preço a ser pago pelo imperador e pela princesa fosse eventualmente o fim da monarquia:
Mais vale cingir uma coroa por algumas horas, contando que se tenha a imensa fortuna de colaborar para com uma lei como esta, que vai tirar da escravidão a tantas criaturas humanas, do que possuir essa mesma coroa por longos e dilatados anos, com a condição de conservar e sustentar a maldita instituição do cativeiro.
Os discursos de Cotegipe e Paulino de Souza se revelariam parcialmente proféticos. No ano seguinte, o próprio Império brasileiro sucumbiria, abrindo caminho para a Proclamação da República, apoiada por muitos fazendeiros que se sentiriam traídos pela assinatura da Lei Áurea. A tão temida reforma agrária, porém, jamais aconteceria. O Brasil permaneceria como um santuário do latifúndio até os dias atuais. A Abolição viria sem distribuição de terras, como desejavam muitos dos abolicionistas do século XIX. Essa era e continuaria a ser uma questão de honra para a classe proprietária.
A votação final no Senado, na manhã do dia 13, um domingo, repetiu a proporção observada na Câmara. Foram quarenta e seis votos favoráveis, seis contrários e oito ausentes, sem contar mais uma dezena de assentos vagos pela morte recente de seus ocupantes — entre esses, o Barão de Leopoldina, José Rezende Monteiro, falecido no dia 10 de maio, enquanto as discussões se processavam na Câmara. A aprovação era dada como tão certa que, no mesmo dia 13, antes de saber o resultado final, os jornais já traziam manchetes comemorando a nova lei e convocando seus leitores a irem às ruas à espera de uma sanção pela princesa Isabel.
O ato da princesa sacramentou-se com uma pena de ouro e pedras preciosas que lhe foi presenteada em uma subscrição pública promovida por Luiz Pedro Drago, professor de matemática do Colégio Pedro II, com o apoio de alguns jornais do Rio de Janeiro. Hoje em exibição no Museu Imperial de Petrópolis, o pequeno objeto de treze gramas exibe no dorso 48 pequenos brilhantes.[10] Na base da nervura principal, se engasta uma esmeralda circundada também de brilhantes, formando o nó de um laço ornamentado pela coroa imperial e pelo brasão de armas da casa de Orleans. No corpo da pena, vê-se ainda um dragão todo cravejado de diamantes e pedras vermelhas, emblema da casa de Bragança, e a seguinte inscrição: “À D. Isabel, a redentora, o povo agradecido”. Do lado oposto aparecem o número e a data da lei.
As doações para a compra da pena de ouro, no valor de 500 réis por pessoa, haviam sido enviadas à sede do jornal O País, que se encarregara de contabilizar e publicar nas edições que acompanharam a votação da Lei Áurea a soma apurada diariamente. Dentre os primeiros doadores, ainda no dia 10 de maio, estavam o abolicionista José do Patrocínio, o jornalista Ernesto Senna, o escritor Coelho Neto e o jovem poeta Osório Duque-Estrada, autor da letra do atual Hino Nacional Brasileiro. As listas foram crescendo nos dias seguintes e incluíam gente de todas as idades e estratos sociais, homens e mulheres, docentes do Ginásio Fluminense, empregados do Asilo dos Meninos Desvalidos, foguistas do encouraçado Javary, pessoal do Imperial Observatório, operários do Arsenal da Marinha e da oficina de ferreiro do Arsenal de Guerra da Corte, chefes e empregados do escritório da Societê Anonyme du Gaz, carpinteiros da Diretoria das Obras Civis, empregados da fábrica de instrumentos de música Rabeca de Ouro, moradores dos subúrbios de Cascadura, Penha, Irajá, e mesmo de lugares mais afastados como Barra do Piraí e Macuco. Uma das contribuições vinha do Quilombo do Leblon, refúgio de escravos que contava com o apoio dos abolicionistas.
[…]

Laurentino Gomes, em Escravidão – Volume 3, Da Independência do Brasil à Lei Áurea

Teresa



Entrei no elevador, dois sujeitos grandes gordos estavam lá dentro. Um apartamento desse tamanho e só moram lá o velho e aquela vigarista, disse um deles. A filha da puta só quer o dinheiro do velho, respondeu o outro, mas ele não morre, noventa anos e não morre, ela deve estar muito decepcionada, já atura o velho há cinco anos.
Depois ficaram calados, saíram na minha frente. Na portaria perguntei ao porteiro, quem são esses dois caras que acabaram de sair? São filhos do doutor Gumercindo, ele respondeu. É a primeira vez que os vejo por aqui, eu disse. Eles não se dão com o velho, respondeu o porteiro. Desde que ele casou com dona Teresa só apareceram agora.
Eu sempre via o doutor Gumercindo saindo de braço com dona Teresa. Eles moravam no apartamento que ficava em cima do meu, costumávamos descer juntos no elevador, então trocávamos amabilidades. Eu abria a porta para eles, que agradeciam amavelmente. Dona Teresa não parecia de jeito nenhum uma mulher que tivesse casado por interesse.
Um dia depois de ouvir a conversa dos filhos no elevador, desci com o doutor Gumercindo e dona Teresa. Sem que percebessem, olhei dona Teresa atentamente. Ela cuidava do doutor Gumercindo com carinho e desvelo, nenhuma outra mulher do prédio tratava o marido daquela maneira.
Um dia o doutor Gumercindo teve um acidente vascular cerebral. Tempos depois, descemos os três pelo elevador, o doutor Gumercindo numa cadeira de rodas.
Vamos passear na praça, disse dona Teresa. Você gosta de passear na praça, não gosta?, perguntou ela. Gumercindo meneou a cabeça afirmativamente. Posso ir junto?, perguntei.
Depois de darmos uma volta pela praça sentamos à sombra de uma árvore. O doutor Gumercindo começou a cochilar e dona Teresa limpou um pouco de saliva que escorria pelos cantos da boca do marido. Notei que os olhos dela se encheram de lágrimas.
Ele era tão cheio de vida, ela disse, com um sorriso triste.
Encontrei-me com eles outras vezes e notei que dona Teresa ficara muito abatida com a doença do marido. Ela tinha setenta anos, mas aparentava muito mais, emagrecera, seu rosto ficara muito pálido. Há casos em que o cônjuge doente acaba matando o que cuida dele.
Fiquei alguns dias em São Paulo fazendo um serviço para o Despachante, um freguês fácil de despachar.
Na volta subi ao apartamento dos velhos. Dona Teresa abriu a porta, seu aspecto era tão doentio que me senti obrigado a dizer, dona Teresa, a senhora devia arranjar uma enfermeira, alguém para ajudar a senhora a cuidar do doutor Gumercindo.
Ele não quer, ela respondeu, ele quer que eu mesma cuide dele, somente eu, e acho que ele tem razão, uma enfermeira não o trataria como ele merece.
Viajei durante uma semana fazendo outro serviço para o Despachante, esse mais complicado, o freguês tinha um guarda-costas que deu trabalho. Ao voltar tornei a encontrar no elevador os dois filhos grandes gordos do doutor Gumercindo, acompanhados de duas mulheres magras. Eles me cumprimentaram amavelmente e saíram na minha frente.
Aqueles são os filhos e as noras do doutor Gumercindo?
São, respondeu o porteiro, agora estão morando aqui, o doutor Gumercindo morreu, mas o apartamento é grande, dá para morar todo mundo nele. E dona Teresa?, perguntei. Ela não tem aparecido, respondeu o porteiro.
Voltei a encontrar os novos moradores do apartamento do doutor Gumercindo. As duas mulheres tinham cara de putas. Eu conheço putas. Os dois filhos estavam cada vez mais gordos. Falavam dos novos carros que haviam comprado. As duas mulheres estavam vestidas com roupas caras. Esses caras andaram fazendo coisas erradas, pensei. No meu trabalho sou obrigado a sacar quem é perigoso, quem não é, quem é filho da puta, quem não é. Eles eram as duas coisas.
Depois de um mês achei estranho não encontrar mais dona Teresa no elevador. Ela gostava de passear na praça, sentar num dos bancos para apanhar sol. Perguntei ao porteiro, tem visto dona Teresa? Não, ele respondeu.
Subi ao apartamento do doutor Gumercindo, toquei a campainha. Uma empregada abriu a porta.
Vim visitar dona Teresa, eu disse. A mulher bateu com a porta na minha cara. Toquei novamente a campainha. Ouvi a voz da empregada, gritando do lado de dentro, dona Teresa não pode receber visitas. Eu gritei, e a senhora não pode abrir a porta para falar comigo? Tenho ordem de não abrir a porta para estranhos, a mulher gritou do lado de dentro.
Dois dias depois voltei ao apartamento de dona Teresa. Sabia que a empregada estava de folga. Era a hora do almoço do porteiro. Antes tirei algo de dentro da maleta de couro onde guardava os folhetos sobre informática. Toquei a campainha e notei que o olho mágico havia escurecido, alguém me olhava de dentro.
Um dos grandões entreabriu a porta. Vim visitar dona Teresa, eu disse. Ela não pode receber visitas, ele respondeu irritado, dá o fora. Começou a fechar a porta, mas não deixei. Abre essa merda, eu disse, encostando a pistola nos cornos dele.
Em pé na sala estava o irmão dele. Onde é que ela está, seus filhos da puta? Ela viajou, balbuciou um deles. Viajou o caralho, eu disse, dando uma porrada com a pistola na cara dele, em cima do nariz.
Dona Teresa estava numa cama dessas de hospital, os dois pulsos amarrados no estrado de ferro. Solta ela, eu disse. Eles soltaram. Senta ela naquela poltrona.
A senhora está bem?, perguntei. Ela meneou a cabeça dizendo que sim. A senhora é capaz de guardar um segredo? Sou, ela respondeu com voz fraca. Um segredo terrível? Sim, seu José, ela respondeu.
Levei os dois grandões para o banheiro, mandei entrarem na banheira e dei um tiro na cabeça de cada um. Sempre atiro na cabeça. Tirei as carteiras com cartões de crédito dos bolsos deles. Voltei para a sala.
Matei aqueles dois canalhas, ninguém pode saber que fui eu, diga que foi um ladrão. Sim, ela respondeu.
Fui ao quarto das putas e peguei as joias das gavetas. Depois saí, deixando a porta aberta.
No meu apartamento botei aquele bagulho todo em várias sacolinhas de supermercado. Coloquei tudo na minha maleta de couro, saí, peguei um táxi, saltei bem longe, noutro bairro, joguei cada saco numa lata de lixo diferente.
Quando voltei para casa havia uma grande movimentação no prédio. Assaltaram o apartamento do doutor Gumercindo, disse o porteiro, mataram os dois filhos dele.
É mesmo? Como isso foi possível?
Foi na hora do meu almoço, respondeu o porteiro.
E dona Teresa?
Ela está bem, respondeu o porteiro.
Subi para o apartamento do doutor Gumercindo. As duas putas estavam lá dentro, choramingando.
Vocês podem fazer as malas e ir baixar noutro terreiro, eu disse, o apartamento pertence à dona Teresa.
Quando as duas putas saíram, dona Teresa deu um beijo na minha mão, o senhor é um santo, seu José, vou guardar até morrer o nosso segredo.
Voltei para o meu apartamento. Um santo. Um santo porra nenhuma. Sou um assassino profissional, mato por dinheiro.
Nem sempre.

Rubem Fonseca, em Ela e Outras Mulheres

O grêmio Artur Azevedo


Quando faleceu Artur Azevedo, o rabiscador destas linhas ainda não havia aprendido a ler, mas, logo aos primeiros avanços no mundo das palavras impressas, seu nome devia impor-se à imaginação infantil. O interior do país conserva ainda (ou conservava, naquele tempo de comunicações escassas, por muitos anos) a lembrança que logo se esgarça no Rio e em São Paulo. Morrendo em 1908, Artur Azevedo continuava perfeitamente vivo na memória de muitos leitores, que guardavam revistas e almanaques antigos, como alimento para as horas de ócio. Ele manejara um instrumento que assegura essa permanência com que o simples humorista ou cronista não pode contar: suas comédias realmente engraçadas, fáceis de representar e guardar, despertavam nas pequenas cidades não só a alegria da descoberta do teatro, como ainda essa outra alegria bem maior, de participar dele, de omitir a rotina cotidiana de maneira ativa, figurando, como ator, num plano irreal. Por isso florescia em Itabira, nos idos de 1915, um Grêmio Dramático e Literário Artur Azevedo, a que tive a honra de pertencer por especial benevolência dos diretores, que deram interpretação muito elástica aos estatutos (se não me engano, houve mesmo reforma), pois a sociedade era de adultos, e abriu suas portas a um menino metido a literato.
O Grêmio ficava no segundo pavimento de um velho sobrado, a casa dos Anchietas, família de mudos que viviam de fabricar sapatos no andar térreo. Um pequeno armário envidraçado era toda a biblioteca; o retrato de nosso patrono abençoava-nos gordamente da parede. A bem dizer, só pertenci à associação na parte puramente literária, pois desde cedo verificara minha especial inaptidão para a arte de representar. Já contei isso em outra oportunidade, e não teria graça repeti-lo. Mas os pequenos-grandes sofrimentos advindos dessa incompetência não desviaram o garoto do interesse pelo que se passava no teatro, que era amplo e simpático, e aparecia a seus olhos como a casa mágica, raramente aberta, sempre prestigiosa. Tínhamos ótimos amadores, ou assim os julgávamos. Tito Franklin, prático de farmácia, primava nos papéis cômicos, assim como Maninho Andrade nos dramáticos. A meu ver, a influência saudável de Artur Azevedo sobre os grupos de amadores do interior terá residido particularmente neste ponto: o dramalhão antigo e cacete foi cedendo lugar a peças divertidas, que refletiam realmente nossos costumes, suscitavam a confraternização jovial da plateia e abriam caminho para uma arte teatral tipicamente brasileira no seu espírito e nas suas formas. Essa arte brasileira não veio, ou só agora se anuncia, porque a evolução foi cortada bruscamente pela irrupção do cinema.
Assim, o teatro de minha terra, com seu globo azul no frontispício, dominado pelo voo de uma águia de massa, que era obra muito prima do santeiro Alfredo Duval, e olhando para a igreja matriz do outro lado do paredão, como a dizer-lhe: “Nossos reinos são diferentes; aqui mando eu”, teve de ser adaptado para o cinema de seu Eurico, e com o tempo se iam pela vertente das coisas caducas o grêmio dramático, o grupo de amadores, a notável orquestra mista que tocava as ouvertures. Artur Azevedo foi derrotado, no Brasil afora, por Max Linder, Bertini, William Farnum, Pearl White e outros pesos-pluma. Eram porém trezentos, como no verso de Mário de Andrade, e um autor teatral, sozinho, não poderia manter o interesse do grande público esparso por esses brejões nacionais, ávidos de distração e de sonho barato, na interminável noite onde piscam luzinhas fracas, de longe em longe.
Mas a lembrança dele é grata aos que conheceram ainda os últimos dias de glória dos teatros oitocentistas no interior. E ao cronista, então, que se envaidecia de ingressar meninote num grêmio tão conspícuo de notáveis da terra natal, sob o seu nome popular e amado, o centenário de Artur Azevedo é — desculpem — quase que um pouco o seu próprio centenário. Coisas de 1915! Coisas do século XV…

Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira

30/09/2026

Som Imaginário | Som Imaginário (Álbum Completo) [1971]

 

Felicidade

As coisas não nasceram para dar certo, somos nós que fazemos as coisas acontecerem, ou não. Acredito que a gente tem que ter um foco a seguir, traçar metas, viver por elas. Ou morrer tentando. Jamais queimar etapas e saber reconhecer quando é a sua hora.
O Acaso é uma grande armadilha e destrói os sonhos fracos de pessoas que se acham fortes. Não passar do tempo nem chegar antes. Preparar o corpo, o espírito, estudar o tempo e o espaço. Não ser escravo de nenhum dos dois. Observar as coisas que interferem no seu dia e na sua noite. E saber entender que há aqueles sem sol e sem estrelas e que a vida não deve parar só por isso. Ser gentil com as pessoas e consigo mesmo. E gentileza não tem nada a ver com fraqueza, pois, assim como um bom espadachim, é preciso ter elegância para ferir seus adversários. O que adianta uma boca grande e um coração pequeno? Nunca diga que faz, se não o faz.
Ame o teu ofício como uma religião, respeite suas convicções e as pratique de verdade, mesmo quando não tiver ninguém olhando. Milagres acontecem quando a gente vai à luta. Pratique esportes como arremesso de olhar, beijo na boca, poema no ouvido dos outros, andar de mãos dadas com a pessoa amada, respirar o espaço alheio, abraçar sonhos impossíveis e elogios a distância. E, em hipótese alguma, tente chegar em primeiro. Chegar junto é melhor, até porque o universo não distribuiu medalhas nem troféus. Respeite as crianças, todas, inclusive aquela esquecida na sua memória. Sem crianças não há razão nenhuma para se acreditar num mundo melhor. As crianças não são o futuro, elas são o presente, e se ainda não aprendemos isso, somos nós, os adultos, que tiramos zero na escola. Ser feliz não quer dizer que não devemos estar revoltados com as coisas injustas que estão ao nosso redor — muito pelo contrário, ter uma causa verdadeira é uma alegria que poucos podem ter.
Por isso, sorrir enquanto luta é uma forma de confundir os inimigos. Principalmente os que habitam nossos corações. E jamais se sujeite a ser carcereiro do sorriso alheio. Não deixe que outras pessoas digam o que você deve ter, ou usar. Ter coisas é tão importante quanto não tê­-las, mas é você quem deve decidir. Ter cartão de crédito é bom, porém, ter crédito nele tem um preço.
Se possível, aprecie as coisas simples da vida, vai que no futuro... Adeus, pertences.
Esteja sempre disposto ao aprendizado, e não se esqueça de que quem já sabe tudo é porque não aprendeu nada. As ruas são excelentes professoras de filosofia, pratique andar sobre elas. Procure desvendar as máscaras do dia a dia, pois o segredo está no minúsculo, assim como um belo espetáculo do crepúsculo e o pequeno gesto das formiguinhas escondem a grandeza a ser seguida pela humanidade. Tenha amigos. Se não tem, seja. Eles virão.
Felicidade não se ensina, é uma magia, e o segredo está na disciplina de uma vida sem truques e sem fogos de artifícios. E não acreditem em poetas. São pessoas tristes que vendem alegria.

Sérgio Vaz, em Literatura, pão e poesia

Armandinho

Canção de mim mesmo

19

Esta é a refeição posta uniformemente, esta a carne para a fome natural,
É para o iníquo tanto quanto o correto, tenho compromisso com todos,
Não terei uma só pessoa insultada ou relegada, A manteúda, o filador, ladrão, são pela presente convidados;
O escravo de grosso lábio é convidado, o doente venéreo é convidado;

Não haverá diferença entre eles e os demais.
Este o premer de uma tímida mão, este o esvoaçar e o cheiro de cabelo,
Este o toque dos meus lábios nos teus, este o murmúrio de ânsia,
Esta a profundidade distante e a altura refletindo meu próprio rosto,
Esta a refletida fusão de mim mesmo, e a saída de novo.

Supões que tenho algum propósito intricado?
Bem, tenho, pois o aguaceiro de Abril tem, e a mica no lado da rocha tem.

Crês que eu espantaria?
A luz do dia espanta? e o rabo-ruivo matinal chilreando pelos bosques?
Eu espanto mais que eles?

Nesta hora conto coisas em confiança,
Talvez não conte a todos, mas te contarei.

Walt Whitman, em Folhas de Relva

A pergunta

E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?

Almeida Garrett (1799-1854), em O caderno, de José Saramago

Tirant lo Blanc



O herói do primeiro romance de cavalaria ibérico, Tirant lo Blanc, entra em cena dormitando em cima de seu cavalo. O cavalo se detém para beber numa fonte, Tirant acorda e vê, sentado ao lado da água, um eremita de barba branca que está lendo um livro. Tirant manifesta ao eremita sua intenção de entrar para a ordem da cavalaria. O eremita, que fora cavaleiro, se oferece para instruir o jovem nas regras da ordem.

— Hijo mío — dijo el ermitaño —,
toda la orden está escrita en ese
libro, que algunas veces leo para
recordar la gracia que Nuestro Señor
me ha hecho en este mundo, puesto
que honraba y mantenía la orden de
caballería con todo mi poder.

Desde suas primeiras páginas, o primeiro romance de cavalaria da Espanha parece querer nos advertir de que todo livro de cavalaria pressupõe um livro de cavalaria precedente, necessário para que o herói se torne cavaleiro. “Tot l’ordre és en aques llibre escrit.” Desse postulado podem ser extraídas muitas conclusões: inclusive a de que talvez a cavalaria não tenha nunca existido antes dos livros de cavalaria ou até que só existiu nos livros.
Assim, é possível compreender como o último depositário das virtudes cavaleirescas, Dom Quixote, será alguém que construiu a si mesmo e a seu próprio mundo exclusivamente por meio dos livros. Uma vez que Cura, Barbero, Sobrina e Ama tenham ateado fogo à biblioteca, a cavalaria terminou: Dom Quixote permanecerá como o último exemplar de uma espécie sem sucessores.
No auto de fé doméstico, o Padre salva os livros arquetípicos, Amadís de Gaula e Tirante el Blanco, bem como os poemas em versos de Boiardo e de Ariosto (no original italiano, não em tradução, em que perdem “su natural valor”). Em relação a tais livros, à diferença de outros aceitos porque considerados conformes à moral (como Palmerín de Inglaterra), parece que a indulgência tem sobretudo motivações estéticas; mas quais? Constatamos que as qualidades que valem para Cervantes (mas até que ponto estamos seguros de que as opiniões de Cervantes coincidem com as do Padre e do Barbeiro, mais do que com as de Dom Quixote?) são a originalidade literária (Amadís é definido como “único en su arte”) e a verdade humana (Tirante el Blanco é elogiado porque “aquí comen los caballeros, y duermen y mueren en sus camas, y hacen testamento antes de su muerte, con otras cosas de que los demás libros de este género carecen”). Portanto, Cervantes (aquela parte de Cervantes que se identifica etc.) respeita os livros de cavalaria quanto mais se afastem das regras do gênero; não é mais o mito da cavalaria que conta, mas o valor do livro enquanto livro. Um critério de juízo oposto ao de Dom Quixote (e do lado de Cervantes que se identifica com seu herói), o qual se recusa a distinguir entre os livros e a vida e quer encontrar o mito fora dos livros.
Qual será a sorte do mundo romanesco da cavalaria, quando o espírito analítico intervém para estabelecer os limites entre o reino do maravilhoso, o reino dos valores morais, o reino da realidade verossímil? A catástrofe repentina e grandiosa em que o mito da cavalaria se dissolve pelas desoladas estradas da Mancha é um evento de dimensão universal mas que não tem correspondência nas outras literaturas. Na Itália, e mais precisamente nas cortes da Itália setentrional, o mesmo processo ocorrera durante o século precedente de forma menos dramática, como sublimação literária da tradição. O declínio da cavalaria fora celebrado por Pulci, Boiardo, Ariosto num clima de festa renascentista, com matizes burlescos mais ou menos marcados, porém com nostalgia pela ingênua fabulação popular dos contadores de histórias; aos rudes despojos do imaginário cavaleiresco ninguém atribuía nenhum valor além de um repertório de motivos convencionais, mas o céu da poesia se abria para acolher seu espírito.
Pode ser interessante lembrar que, muitos anos antes de Cervantes, em 1526, já encontramos uma fogueira de livros de cavalaria ou, mais precisamente, uma seleção dos livros a serem condenados ao fogo e daqueles a serem salvos. Falo de um texto decididamente menor e não muito conhecido: o Orlandino, poema breve em versos italianos de Teofilo Folengo (famoso com o nome de Merlin Cocai por causa de Baldus, poema em latim macarrônico misturado com o dialeto de Mântua). No primeiro canto do Orlandino, Folengo conta ter sido levado por uma bruxa, voando na garupa de um bode, para uma caverna dos Alpes onde são conservadas as verdadeiras crônicas de Turpin, lendária matriz de todo o ciclo carolíngio. Do confronto com as fontes, resultam verdadeiros os poemas de Boiardo, Ariosto, Pulci e do “Cego de Ferrara”, embora com acréscimos arbitrários.

Mas Trebisunda, Ancroja, Spagna e Bovo
Com todo o resto ao fogo sejam dadas,
Apócrifas são todas e as reprovo
Como inimigas de quaisquer verdades;
Boiardo, Ariosto, Pulci e o Cego
Autenticados são e eu junto sigo.

“El verdadero historiador Turpin”, também lembrado por Cervantes, era um ponto de referência habitual no jogo dos poetas cavaleirescos italianos do Renascimento. Também Ariosto, quando sente que conta casos muito exagerados, se protege com a autoridade de Turpin: “O bom Turpin, que sabe dizer o vero, e vai deixar crer o que o homem ouve com agrado, conta admiráveis coisas de Ruggiero, que, só de ouvir, de mentiroso sim seria chamado” (O. F., XXVI, 23).
A função do lendário Turpin, Cervantes irá atribuí-la a um misterioso Cide Hamete Benengeli de cujo manuscrito árabe ele seria apenas o tradutor. Mas Cervantes age agora num mundo radicalmente diverso: a verdade para ele deve fazer as contas com a experiência cotidiana, com o senso comum e também com os preceitos da religião da Contrarreforma. Para os poetas italianos do Quatrocentos e do Quinhentos (até Tasso, excluído, pois com ele a questão se complica), a verdade era ainda fidelidade ao mito, como para o Cavaleiro da Mancha.
Podemos verificar isso também num epígono como Folengo, a meio caminho entre poesia popular e poesia culta: o espírito do mito, transmitido pela noite dos tempos, é simbolizado por um livro, o de Turpin, que está na origem de todos os livros, livro hipotético, só alcançável pela magia (também Boiardo, diz Folengo, era amigo das bruxas), livro mágico além de ser relato de magias.
Nos países de origem, França e Inglaterra, a tradição literária cavaleiresca se apagara antes (na Inglaterra, em 1470, recebendo uma forma definitiva no romance de Thomas Malory, exceto se considerarmos uma nova encarnação com as fadas elisabetanas de Spencer; na França, declinando lentamente após ter conhecido a consagração poética mais precoce no século XII com as obras-primas de Chrétien de Troyes). O revival cavaleiresco do século XVI envolve sobretudo Itália e Espanha. Quando Bernal Díaz del Castillo, para exprimir a maravilha dos conquistadores perante as visões de um mundo inimaginável como o do México de Montezuma, escreve: “Decíamos que parecía a las cosas de encantamiento que cuentan en el libro de Amadís”, temos a impressão de que compara a realidade mais nova com a tradição de textos antiquíssimos. Mas, se observarmos as datas, vemos que Díaz del Castillo narra fatos ocorridos em 1519, quando Amadís ainda podia ser considerado quase uma novidade editorial… Compreendemos assim que a descoberta do Novo Mundo e a Conquista foram acompanhadas, no imaginário coletivo, por aquelas histórias de gigantes e de encantamentos das quais o mercado de livros oferecia vasto sortimento, assim como a primeira difusão europeia do ciclo francês acompanhara, alguns séculos antes, a mobilização publicitária para as Cruzadas.
O milênio que está para se encerrar foi o milênio do romance. Nos séculos XI, XII e XIII, os romances de cavalaria foram os primeiros livros profanos cuja difusão marcou profundamente a vida das pessoas comuns e não somente dos doutos. Dante é testemunho disso, falando-nos de Francesca, a primeira personagem da literatura mundial que vê sua vida mudada pela leitura dos romances, antes de Dom Quixote, antes de Emma Bovary. No romance francês Lancelot, o cavaleiro de Galehaut convence Guenièvre a beijar Lancelot; na Divina comédia, o livro Lancelot assume a função que Galehaut tivera no romance, convencendo Francesca a deixar-se beijar por Paolo. Provocando uma identificação entre a personagem do livro enquanto age sobre as outras personagens e o livro enquanto age sobre seus leitores (“Galeotto foi o livro e quem o escreveu”), Dante executa uma primeira operação vertiginosa de metaliteratura. Nos versos de uma concentração e sobriedade insuperáveis, acompanhamos Francesca e Paolo que “sem nenhuma suspeita” se deixam prender pelas emoções da leitura e, de vez em quando, se olham nos olhos, empalidecem, e quando chegam ao ponto em que Lancelot beija a boca de Guenièvre (“o desejado riso”) o desejo escrito no livro torna explícito o desejo experimentado na vida e a vida toma a forma narrada no livro: “a boca me beijou toda trêmula…”.
1985

Italo Calvino, em Por que ler os clássicos

29/09/2026

Lilian Estela | Coisas da Vida

Pelada de barranco

Nada havia de mais prestante em nós senão a infância.
O mundo começava ali. Nosso campo encostava na beira
do rio. Um menino Guató chegava de canoa e embicava
no barranco. Teria remado desde cedo para vir ocupar
a posição de golquíper no Porto de Dona Emília Futebol
Clube. Nosso valoroso time. As cercas laterais do campo
eram de cansanção. Espinheiro fechado pra ninguém botar
defeito. Guató já trazia do barranco duas pedras para servir
de balizas. Os craques desciam da cidade como formigas.
José de Camos, nosso beque de espera também tinha a
incumbência de soprar as bexigas. Porque a nossa bola
era de bexiga, que às vezes caiam no rio e as piranhas
devoravam. E se caísse no cansanção os espinhos furavam.
Nosso campinho por miúdo só permitia times de sete:
O goleiro, um beque de espera, um beque de avanço e
três na linha. Chambalé nosso técnico impunha regras:
só pode mijar no rio e não pode jogar de botina.
Sabastião era centroavante. Chutava no rumo certo. Sabia
as variações da bexiga no vento e botava no grau certo.
Quando alguém enfiava as unhas na pedra abria uma vaga.
Metade de nossos craques eram filhos de lavandeiras e
outra metade de pescadores. Na aba do campo a namorada
do Sabastião torcia: quebra esse saba, destina eles pras
piranhas. Mas Chambalé não deixava destinar. Quem destina
é Deusi – falava. No fim do jogo alguns iam bater bronha,
outros iam no mato jogar o mantimento e outros iam
pelotear passarinho. Guató pegava a canoa e remava até
a aldeia a mil metros dali. A cidade onde a gente morava
foi feita em cima de uma pedra branca enorme. E o rio
paraguaio, lá embaixo, corria com suas piranhas
e os seus camalotes.

Manoel de Barros, em Memórias Inventadas – A segunda infância

Correnteza




6

Passava já da meia-noite quando Rita saiu da delegacia. Ela havia pedido a Fátima que orientasse os filhos a manterem a casa trancada, e que, em qualquer emergência, a chamassem. Rita Preta também estaria com o telefone para monitorá-los à distância. Sentou-se no mesmo canto do dia anterior — próximo à porta — e, por horas, viu uma procissão de pessoas registrarem novas ocorrências. Num dia qualquer, estaria faminta e exausta. Mas, curiosamente, não sentia fome ou fraqueza. Tinha a energia infatigável das urgências, precisava encontrar o filho, saber o que havia acontecido e prosseguir com a vida já afetada por aquele grande problema. Por fim, Rita conseguiu concluir o boletim. Também pediu para assinalarem a informação de que o filho tinha sido levado numa abordagem policial, embora não tivesse qualquer prova — a escrivã usaria um código para pontuar a questão —, e perguntou se teria como saber se a entrada de Cid constava no sistema de segurança pública.
“Não temos como verificar”, disse a atendente, sem se dirigir em nenhum momento a Rita, apenas olhando para o terminal de computador. “A senhora precisa ir até este endereço aqui”, continuou, apontando para um pequeno cartão de papel com a unidade policial de destino.

Ao chegar em casa, Rita nota que a luz está acesa. Juca dorme, mas Cainho ainda está acordado. Quer saber se a mãe tem notícia do irmão e se os comentários sobre a polícia eram verdade. Rita confirma. Ela contou, durante o registro da ocorrência, sobre a abordagem, e a atendente resistiu a anotar. A mulher sugeriu que era um boato — e, por enquanto, era somente isso mesmo —, mas orientou Rita a procurar na unidade do cartão onde poderia obter mais notícias sobre a suposta abordagem e o recolhimento.
“Não levaram seu irmão para uma delegacia ou prisão. Recolheram ele para outro lugar. Ele é menor de idade.”
“Eu vou com a senhora.”
“Não. Prefiro que você cuide do Juca. Preciso de você em casa.”
Rita Preta entende que Cainho é apenas um adolescente de catorze anos. Desajeitado, imaturo, talvez o que menos soubesse lidar com a vida para além das paredes de casa. Passava o tempo com livros e caderno na mão escrevendo anotações sem serventia — era assim que pensava —, rabiscando, e por vezes pouco atento, a cabeça no mundo da imaginação. Rita não considerava o filho do meio um jovem estudioso. Ele tirava notas medianas na escola, suficientes para ser aprovado. Ainda assim se saía melhor que os irmãos. Nem sempre ela conseguia acompanhar, mas vez ou outra procurava pelos títulos e pelos textos das capas de livros para saber o que ele andava lendo. As leituras escolhidas não tinham relação com as matérias que ele estudava. Eram romances, livros de conhecimentos gerais, além de jornais velhos e folhetos religiosos talvez úteis para outras atividades, mas não para a escola. No entanto, apesar da aparente imaturidade, Rita Preta o considerava plenamente capaz de cuidar do irmão e da casa, e ajudá-la naquele momento. Afinal, ela não tinha começado a trabalhar para uma família ainda mais nova? Rita confiava que ele pudesse desenvolver habilidades para a vida resolvendo problemas cotidianos e tomando decisões sem sua intermediação. A partir daquele dia, ele seria muitas vezes convocado a assumir o posto de responsável pela casa em sua ausência.
Rita sai cedo de casa para continuar sua busca. Decide não ir ao supermercado onde trabalha, preferindo inventar uma desculpa. Se contasse a verdade, achariam que ela era mãe de um drogado ou arruaceiro, ou que seu filho estivesse envolvido com atividades ilícitas. Precisava manter o emprego — não se imaginava procurando trabalho outra vez por meses ou mesmo anos, como via acontecer com muita gente, de todas as idades. Mas, ao mesmo tempo, Rita precisava encontrar Cid, saber o que tinha acontecido, ajudá-lo a sair de onde estivesse, trazê-lo de volta para casa, desfazer as diferenças persistentes para se perdoarem mutuamente. Sobretudo, precisava ajudá-lo a reencontrar seu caminho na vida.

Nome completo. Data de nascimento. Número do documento de identidade. Rita tenta não parecer distraída, mãe relapsa, e procura informar tudo que lhe é solicitado. Não pode falhar. Fotografia atual? Não, só a do documento e mais algumas tiradas num celular de baixa qualidade. Numa delas, Cid aparece sem camisa e com uma corrente dourada de bijuteria escurecida. Ao fundo, um muro mal-acabado de tijolos cerâmicos vermelhos à mostra e alguns pontos de limo. Os dedos em “V”, o sinal da vitória. Em outra foto, Cid esconde o rosto, não quer aparecer. Está deitado no sofá, a capa de tecido sintético verde fluorescente está desajustada. O ambiente parece escuro, embora fosse dia, Rita recorda; mas sobretudo era um dia descontraído. Ela consegue vislumbrar o sorriso do filho por trás das mãos enquanto tenta esconder o rosto. Em outra imagem, ele está de costas, o cabelo recém-cortado, desenhos nas laterais feitos a navalha. A imagem está desfocada, mas Rita se reprime e decide não mostrá-la na delegacia. Poderiam pensar o pior. Ela mesma havia censurado o filho, externara o próprio preconceito dizendo que parecia corte de malandro, bandido. Quando ele fosse trabalhar — e não faltava muito tempo —, não poderia ostentar cortes de cabelo como aquele nem tatuagens no rosto, nas mãos, no pescoço. E o serviço obrigatório do Exército? Daqui a dois anos, Cid precisaria se alistar — quem sabe não é convocado? Pode ser um bom emprego. Enquanto aguarda o atendimento, Rita seleciona as fotografias que poderá mostrar como eventual fonte de reconhecimento, porém elas começam a retroceder no tempo e já não serão tão úteis. Fato inegável: Cid era o filho que mais havia mudado nos últimos dois anos. Cresceu, o rosto parecia o de um adulto, mesmo pontilhado de acne. Já retirava os pelos ao redor da boca. Explorando os arquivos do celular, das últimas imagens para as primeiras, Rita vê a vida em retrospectiva: uma selfie com Jorge na praia, ela com o corpo bronzeado, óculos escuros e tranças afro que sempre a deixavam mais jovem; em outra imagem ela surge de olhos fechados com os filhos à sua volta. Parecem felizes, mesmo quando Cainho se mostrava sério, sem achar graça das piadas e situações em que todos riam. Em outra imagem, Juca aparece menor, um menino engraçado com uma espada de plástico nas mãos e sentado nos ombros de Cid. O mais velho está sem camisa, seu corpo adolescente à mostra, a bermuda caída abaixo da cintura. Em outra fotografia, algo escuro num canto da parede e uma vassoura ao lado caída no chão. Rita aumenta a imagem e vê o que parece ser uma ratazana morta. Mais adiante, a foto de um vestido branco e decotado na vitrine de uma loja — talvez quisesse copiar o modelo para a costureira do bairro reproduzir um igual, para dançar numa noite de encontro e festa.
A primeira vez que Cid suga seu seio para se saciar da fome mais antiga, Rita o observa com verdadeira curiosidade e sente sua alma em estado de graça. Quando a criança caiu da escada e a fez correr para a emergência de um hospital. Cinco pontos no queixo. Quando se alfabetizou, Cid passou a ler as sílabas de trás para a frente. As horas de parto quando sofreu todo tipo de violência num hospital público; um enfermeiro se sentou na sua barriga para forçar a expulsão da criança, que, por fim, foi retirada a fórceps. A criança era um sobrevivente e sorriu e correu e brincou, resistindo à sentença que toda violência carrega. Cainho escorregou como um quiabo por entre as pernas de Rita no caminho para a sala de parto, e por pouco — muito pouco — não foi ao chão. O mais novo subiu na porta do forno do fogão e derrubou o almoço quente, que poderia tê-lo ferido com gravidade. Porém essas fotografias não estão materializadas e arquivadas em seu aparelho celular. São vistas em perspectiva na memória, sem a ajuda de uma máquina, mas com o sangue correndo como rio em suas veias.

Rita Preta responde com ênfase que Cid não tem envolvimento com atividade ilícita. É um adolescente como muitos, gosta de futebol, quer namorar, quer o tênis da moda e sonha com uma vida melhor. Ela retira da bolsa a camisa encontrada no dia anterior. Afirma que pode ser do filho e mostra para quem realiza o atendimento.
“Vocês não precisam examinar?”
“Não, senhora. Não é necessário.”
“Ele estava a caminho da casa da namorada. Deve ter saído com a camisa no ombro e outra vestida por baixo. Alguém o levou, porque ele não deixaria a camisa em qualquer lugar sabendo que eu ia ficar uma fera se descobrisse.”
A mulher não está interessada na história que Rita conta e assinala que falta pouco para finalizar o atendimento. Rita Preta guarda a camisa de volta na bolsa. Pergunta se terá logo o resultado da pesquisa do sistema de segurança, se o filho foi recolhido e se está em alguma unidade de correção. A atendente diz que não, o prazo é de setenta e duas horas. Ela precisará voltar ali para saber o resultado.
Registrado o desaparecimento e feita a solicitação para tentar localizar Cid — se ele tinha sido ou não abordado por policiais, como seu Aranha havia escutado —, Rita Preta caminha até o ponto de ônibus, procura organizar as ideias em meio ao caos daqueles dias. Não consegue pensar em nada que não seja encontrar o filho mais velho, e segue sua intuição sobre quais caminhos deve continuar a trilhar.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem Medo

Teatrinho




Temos de começar pela bibliografia: Journal (1943-1945), de Julien Green; e A Volta do Gato Preto, de Érico Veríssimo.
É que os dois contam, cruzadamente, uma passagem, um caso que se deu, a 4 de agosto de 1944, no Mills College, Oakland, Califórnia, Estados Unidos. Emparelhá-los seria já de si curioso, texto e texto. Mas o próprio caso, em si, paga; veja-se que vale a pena.
Veríssimo é imparcial, jovial, sem rugosidades, entre distâncias. Aliteradamente, é um riacho: lúcido, lépido, límpido. E bom contrarregra. Tenham como traz os personagens. Diz:
De Julien Green: “... é um homem de estatura meã, construção sólida, tez dum moreno claro, cabelos e olhos escuros e um nariz gaulês, longo e fino. É retraído e tímido, dessa timidez que à primeira vista pode parecer empáfia. Só depois duma apresentação formal, durante a qual ele tirou da cabeça o panamá creme, é que passou a me cumprimentar, mas sempre cerimoniosamente.”
E de Carrera-Andrade: “Alto, corpulento, monumental, com seu bigode aparado, seus olhos de índio... Temos feito longos passeios pelo parque, a conversar sobre homens e livros, viagens e ideias. Ao cabo de dois dias começamos a divergir em quase todos os assuntos que atacamos.”
Mas, do que Veríssimo desdobra, entende-se também um Carrera-Andrade rei no intolerar, exorbitante:
“... Um dia, ao cabo de uma dissertação que lhe fiz relativamente à minha atitude diante do mundo, concluiu:
“— Mas você não é um escritor latino.
“— Por quê?
“— É um homem frio, metódico, insensível.
“— Insensível? Frio? Essa é boa...
“— Eu o tenho observado todos estes dias, tenho acompanhado as suas reações às coisas que lhe dizem, às pessoas que o cercam.”
Veríssimo sorri e desvê de mais explicar-se.
Mas Carrera-Andrade — que usa palmadas na coxa e outros jactos de impaciência — declara amor ao “povo”, tem pendores para isso. Sua má-vontade para com os norte-americanos se acende sempre. Assim:
“— Que se pode dizer dum país onde nem criados existem!
“— Mas, meu caro poeta — observo —, você não me disse que era socialista?
“— Pues si, amigo... Pero eso es diferente. Siempre habrá señores y esclavos.”
Dando a um o dado ao outro, compara-se agora. Green, no 3-V-43 de seu diário:
“Há os que deixam de repente de crer em Deus. Quanto a mim, noto que deixo, pouco a pouco, de crer na humanidade. Por muito tempo, ela se me impôs, com seus discursos, suas leis, seus livros, mas começo a vê-la sob o verdadeiro aspecto, que é triste, porque é uma velha louca, cujas crises de ferocidade alternam com sorrisos.”
Carrera-Andrade faz belos versos, será “um dos mais interessantes poetas modernos da América espanhola”. A pessoa de um homem é uma catarata de surpresas.
E Green, que convive com a Bíblia e compulsa o dicionário hebraico, ignora a existência de Carrera-Andrade, mas sabe que o Demônio existe. Green é um místico irresoluto. Passeia por si mesmo, como em claustro circular, plataforma para o invisível. Glosa a danação e a graça, o problema do mal, o destino, o pecado, o jogo entre Deus e o homem.
Mas, volta a falar Veríssimo, e a cena principia:
“... Acha Carrera-Andrade que Julien Green habita numa torre de marfim, alheio aos conflitos e inquietações sociais do momento.
“— E se promovêssemos um encontro..., por exemplo, um almoço com Green, para submetê-lo a uma sabatina? — pergunta-me ele.”
Arma-se o almoço. Julien Green vem sentar-se à mesa dos sul-americanos, sem suspeitar da cilada que lhe puseram. Veríssimo vai contando:
“... Finalmente Carrera-Andrade aproveita uma deixa e entra no assunto:
“— Mr. Green, não encontramos nos seus romances nenhuma inquietação relativa aos fenômenos sociais do nosso tempo. Não há neles nem mesmo menção desses problemas...
“Green fita no interlocutor seus olhos sombrios. O poeta continua:
“— Talvez tenha sido para evitar essa dificuldade que o senhor situou a ação de Adrienne Mesurat antes das duas Guerras...
“Todos nós esperamos a resposta com interesse. Uma expressão quase de agonia passa pela fisionomia de Julien Green. Ele olha para os lados, como a pedir socorro. Finalmente tartamudeia:
“— Problemas sociais? Como poderei escrever a respeito deles... se não os conheço? Só posso escrever sobre minha experiência humana... Essas questões sociais estão fora da minha experiência... Não é que eu não me interesse... Acontece que me sinto verdadeiramente perdido neste mundo.
“Carrera vai insistir. Isso me parece crueldade, crueldade de toureiro que, depois de farpear um touro, de vê-lo sangrando, exausto, quer ainda ir até o golpe final de espada.”
(Veríssimo é amigo de Thornton Wilder; leu o de Michael Gould, sabe que as paixões vivem de equívocos; opina:)
“Penso que um escritor da importância de Green merece não apenas admiração, mas também respeito. É, sem a menor dúvida, um romancista sério. Não falará a nossa língua, o que não quer absolutamente dizer que seja mudo. Não pertence ao nosso mundo, o que não quer dizer que deva ser votado ao inferno. Por outro lado parece-me que seus livros serão lembrados muitos anos depois que a obra de alguns dos escritores modernos de propaganda tenha sido completamente esquecida.
“Carrera-Andrade continua a atirar suas farpas. Acho melhor desviar a conversa do assunto. Vê-se claramente que Julien Green está infeliz.”
Mas — atenção — agora, à versão de Green no Journal:
“Ontem, na Casa Pan-americana, almocei em companhia de vários sul-americanos, um dos quais muito inteligente e os outros menos. Veríssimo, homem de grande modéstia apesar de seu sucesso, falou-me de meus livros. Ele é moço, com uma fisionomia agradável. À minha direita, uma espécie de bebê de bigodes pergunta-me, com voz em que já vibra a cólera, por que não escrevo romances ‘sociológicos’. Esse senhor sustenta, com efeito, que os romances devem servir para alguma coisa, que não são mais admissíveis as obras de arte que não sirvam para nada, e que seria ‘um real perigo haver escritores demais como Julien Green’. Digo-lhe então que esse perigo não é real, não é grande, e os outros todos começam a rir.”
E, pois, públicos aplausos: Não se diga que nosso patrício não se saiu excelentemente.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra