sábado, 7 de fevereiro de 2026
Acontecerá de muito acontecer
Naquela região que parece isolada, em
Pedra das Flores, ocorreu estranha enfermidade, abatendo os jovens na
cegueira. Não havia remédios que a curassem.
E o mais curioso é que a doença não
atingiu as crianças e os velhos. Como se estivessem protegidos ou
vacinados na própria natureza contra o mal.
E o que era inesperado e miraculoso, é
que os jovens que voltavam a ver, principiavam a envelhecer, como se
fosse a semente da juventude a precipitação do desastre. Ou talvez
ocorresse uma condenação no tempo, ou severa prescrição da sorte.
Assim, a juventude era atacada pela
falta de visão, que se reduzia em totalidade ao envelhar.
É verdade que alguns jovens chegaram
a amar a própria cegueira, como se tivessem outros olhos que viam.
Ou tinham que roer um osso ou desenterrá-lo. Ou de novo tentar roer
até o extremo de alguma treva se acordar.
Alguns idosos, que a isso
contemplavam, não conseguiam entender como os jovens podiam amar a
própria ceguez. Desconfiavam da existência de algum enigma que se
agregava neles, aprendendo a enxergar no escuro, como em avesso de
razão, por onde raciocinasse a claridade. Ou talvez houvesse o
segredo de os jovens cegos, achando a palavra, passassem a ver
magicamente por ela.
E até os infortúnios têm no recesso
a súbita invenção do desconhecido, mesmo que tombem duas vezes no
mesmo lugar, trovão de noites, folhas ou chãos.
E registro, eu que narro, o fato de os
jovens nada verem sem os olhos, ainda que outros sentidos se apurem e
alarguem. Mas se pusessem, astutamente, palavras nos olhos, seriam as
palavras que veriam. E os olhos serviam a palavra.
Todavia, verifiquei como os cegos,
diante da dificuldade, pareciam sobrar na comunidade humana, quando
as trevas não raciocinam, sucedendo exatamente o contrário com a
claridade, que raciocina de instantes.
Era como se os jovens cegos entrassem
dentro do espelho. Mas o espelho vê, o espelho é palavra.
E se pareço velho a alguém, não o
sou nos olhos. Não me perco na volta do mar, subindo pela dor de
estar vivo.
E os jovens lutarão contra a dita
cegueira até que ela morra. E se iam curando de palavra, curando
amor na palavra, em elo se afeiçoando, acabando juntos com a
cegueira, seja por palavra nas pupilas, seja pela experiência de
arrostar a escuridão, ao revogá-la. Tudo vinha pela estremecida
sensatez.
Mas a visão dos velhos em Pedra das
Flores era tão ditosa, que contemplavam o ignoto, com capacidade
olímpica de profetas. Livres da doença, agora com as palavras, iam
bem além dos acontecidos. Sem possibilidade dos naufrágios.
E conheci um lutador e espadachim,
leitor inveterado, Zatói Duarte, dono de um clube de atletismo no
centro da cidade.
Baixo, firme de músculos, tronco
robusto, olhos estranhos e azuis. Era apaixonado pelos livros de
cavalaria, como Amadis de Gaula, Mio Cid, Rolando da França, ou D.
Quixote de la Mancha, como admirava o outro Quixote, de Pedra das
Flores, Noe Matusalém e seu Sancho, o cão Crisóstomo.
E tinha que catar um amor na vizinha
Milane, de tranças, olhos muito negros, cabelos escuros. Formosa de
corpo, mediana. Zatói sabia que “cavaleiro andante sem amores era
árvore sem folhas”. E mesmo bem andante, tinha o hábito de
carregar uma bengala. Se batia no chão, tornava-se espada, sua
Durindana. Era usada, na defesa, em tática guerreira. Temido pela
coragem, cortejava Milane, levando-a nos bailes da redondeza,
dançando noite inteira, abraçados. Como a canção: “Nunca fora
cavaleiro/ de damas tão bem servido, /Como fora D. Quixote/ quando
de sua aldeia vinha/”.
Contam que Zatói Duarte teve
descomunal batalha com odres de vinho. Ocorreu numa taberna. Ao
estreitar contra o peito, tão fortemente, sua dama Milane, ele se
desequilibrou, batendo sozinho nos odres de vinho tinto, junto ao
canto, estando a sala cheia de gente. Os odres e Duarte rolaram e se
derramaram, saltando vinho e sujando alguns. É verdade que no choque
Duarte arredou, rápido, Milane, suportando a vinhosa tintura na
roupa e na cara. E ao se ver em luta, a bengala no ladrilho pulou,
como serpente que dá o bote e se estira com um grito de trovão. E
diferente do cajado de Moisés, de uma cobra engolindo a outra,
acabou por parar inerte, como arado sem cavalo.
Zatói Duarte pagou o dano ao
proprietário da taberna e saiu de alma derramada em Milena.
E eu narro quanto o vinho do amor é
longo nas brasas, horas. Embriagável.
Entretanto, o que se sabe não sabe –
dizia Pedro Nau, agricultor e cultivador de flores, que se pareciam
inventar nele por instinto. Mas o que se sabe não se inventa de
novo. Como milagre, não se repete.
E eu, que vou relatando, observo que
não há milagre na morte e ainda quer editar obras completas e
provar quanto é boa.
A cegueira é mais da consciência que
dos sonhos. Ou talvez os sonhos é que sejam cegos. O que era oculto
na cegueira dos jovens na região, como fogo nos gravetos da noite,
veio à luz, bem maior que os olhos. Pois com palavra já não havia
cegueira alguma. E todos precisavam da palavra, para chegarem mais
longe ainda.
O pesquisador Pery Grand achou que a
origem da doença dos jovens era algum inseto inominado. E viu,
assombrado, que a cegueira de vários jovens era de fora para dentro
e de outros, como a mais feroz enfermidade, era democraticamente de
dentro para fora. Tal se os olhos aprumassem escura ou bizarra ótica.
Aos primeiros bastava colocar a palavra sobre os olhos e, noutro
caso, precisavam pôr a palavra no coração, dando então olhos
vigilantes, sapientes.
Havia de mudar a correnteza de ver
para a foz e ao repuxo silente das pálpebras.
O mundo conjuga o que não sabe com o
que sabe. E o mundo, vendo sem palavra, principiava a enlouquecer. Só
a palavra impedia a loucura mansa que se alçava das pernas para o
estômago voraz. E sem ela os velhos tropeçavam, coxeavam.
E o problema não era mais dos olhos,
mas das mentes, que obscureciam ou se desequilibravam, e nem
raciocinar resolvia, como se caíssem os andaimes do pensamento.
Ou era outra espécie de cegueira, a
que roía a capacidade de pensar e sonhar, transparecendo demência
nos mínimos gestos.
O que se sabe não se sabe –
afirmava Pedro Nau. Porque a loucura se inventava. Não tinha olhos,
mas era cega no meio do povo. Agora não separava idosos, ou jovens;
ocupava como erva ao bosque. E não se harmonizavam nas fábricas,
nas empresas nem nos lares. Tal se um vento tivesse soprado virulento
ou entrasse pelas costas. E foi dizimando a cívica normalidade da
república, e nem as máscaras serviam. Sem haver descoberta dos
motivos de tal aparecimento. Mas, estranhamente, mantinham-se
intocáveis apenas alguns felizes ou coroados de alegria.
No mais, atingia essa loucura os
casais atordoados, que se apartavam sem rumo. Ou amigos que se
dividiam por nadas, ou amantes que se repudiavam. E até mesmo
políticos que saíam de partidos sem raciocinar, como se a ebriez
absoluta os absorvesse. Não havia mais verossimilhança no visível.
Ou melhor, a loucura vazava no ar. E até aves que voavam,
enlouqueciam. Cães e gatos nas famílias, excitados em contendas,
também enlouqueciam.
Consta ter havido discórdia entre os
Chefes do Senado e da Câmara, e ambos nem precisaram endoidar; se
acabaram à bala em praça pública.
Soube que o Hospital de Clínica
Mental ficou abarrotado em Pedra das Flores. Indo pacientes para a
vizinha Riopampa, com mais condições de tratamento. E angustiado,
vou descrevendo esses infaustos ocorridos, com medo de ser atropelado
ou submetido a eles. Ainda que me sinta lúcido, mas mesmo a lucidez
pode estar gripada, ou avariada. Igual ao ataque de febre, que
atravessa, como vara, de lado a outro, do abismo. Raciocinar é ir
respirando o plasma do universo incriado.
Não me importa quantos instantes têm
o abismo, ou quantos instantes raciocinam em nós. E não tenho medo
de me escorrer a aurora, não quero que a aurora me escorra de medo.
Tudo se reforma de silêncio, até por
debaixo das escadas ou das pernas do cavalo. Apraz atravessar o
perigo, se atravessado de luz, como de um rio, no talvegue. O amor às
vezes deixa goteiras na alma, como a dos telhados.
O que não registrei foi outro
processo de obsessiva cegueira de alguns velhos de Pedra das Flores,
o de adentrarem na floresta, como se ali se amoitasse a infância, e
se abraçarem às árvores, apertando o rugoso tronco ao peito. E o
fundo carnoso dos sonhos, todos palpitando, até os cimos sentirem a
mesma seiva do coração. E todas as gerações de árvores e folhas.
Mas a loucura se mostrava igual à dos pássaros no ninho. E a
infância voava devagar pelo tronco das árvores. E tudo é tempo,
mesmo o que não existe. Porque os que amam como um rio, não sabem
esquecer.
E a mocidade, depois da crise dos
olhos, passou a erguer a bandeira de nova civilização, buscando o
que aproximava um e outro, os interesses que se acumpliciam na
arrumação do caos. Sabiam que não avançariam sem dar-se as mãos.
Como ao céu não carece de se ver, bastando que exista.
É também verdade que parte do povo
tinha visões. Contemplava nas ruas de Pedra das Flores, durante a
noite, vultos ou almas nos corpos de alguns viventes, como se saíssem
para fora, e se expunham. Eram tão refulgentes, que assombravam ou
traziam pânico, não havendo então cegueira alguma no mistério.
Mas Verena Silva, a filósofa, formosa
dama, alegava, com seus grandes olhos na morenice, que as almas eram
estrangeiras, não o corpo. Porque o corpo não tinha certeza dos
centímetros finais, sob a terra. Só a alma era bem-aventurada,
apesar de todas as aventuranças terem nascimento sem data, a da
morte. E se um dia os corpos serão defuntos, a alma não. Portanto,
os que viam almas, viam a Eternidade se encantar.
Só Deus não se encanta imóvel,
móvel e definitivo. O que apenas é possível noutra vida é de as
almas se verem entre si, incorruptíveis. E o sagrado é o começo do
imaginado. Igual à paisagem vista de um trem em movimento quando a
estação é destino.
Mas o corpo guardava a estupidez de
não contemplar os lentos ossos da alma.
Inacabado e corroído silêncio é a
penúria. Mas não se deixa de nomear o sulco, o desenho no chão do
pé humano.
Porém, em Pedra das Flores houve um
lapso do inverno, a impressão de que se evaporava a morte. Quando
até os pés de água caíam na luz. Ou porque não se acham humanos,
ao tropeçarem nos troncos ou pedras, cambaleantes. Mas sonhando, não
se desaparece. Nem a morte se converte de sonho em água.
Depois, diante da voracidade da vida,
a voracidade dos dias e noites, o povo padeceu deficiência de alma.
E é curioso como a alma não sofre deficiência do corpo, distante e
insaciada.
O que muda, não descansa, como no
círculo, o desejo. Igual ao povo, que de amar não descansa.
E ouço o ruído das gerações, o
ruído de Deus. O vagaroso ruído de rodas e da Eternidade de Deus.
Sim, uma porção de viventes buscava a Deus num templo de pedra, com
pureza que se despetalava em água do Espírito. E nessa comunidade
de homens, mulheres e crianças, havia pessoas simples, rudes e
alguns eruditos. Porque Deus não é propriedade de classe alguma, ou
sistema de cima para baixo, com política sob pretexto divino.
Não é possível evangelizar batendo,
como em pregos, martelo, contra a filosofia, a teologia, a ciência e
a arte, sem possibilidade de defesa. Quando os filhos desses que
assim agem estão nas melhores universidades. Por que tem de ser o
povo analfabeto de saber e alma?Sim, o martelo que pregou o corpo nas
mãos do Filho do Homem no madeiro é o mesmo com que batem, batem
nos que Nele creem. Mas o que não se entende é amor.
A cultura é adubo, segundo o Apóstolo
dos Gentios, Paulo de Tarso. E há terras que apenas com adubo geram
flores, germinando neles a revelada Palavra. E tudo soma a favor dos
que creem, salvo a ignorância, a brutalidade, que jamais serão
sinônimos da obra de Deus, que é o livre mover do Espírito sobre
as águas de preconceitos ou arbítrios.
O ruído de Deus aumenta e se escuta o
bater na porta. Deus não é sozinho. Nunca será. Deus não derruba
a porta, é A Porta. E nossa humana alma precisa se encher de Deus,
da superfície ao fundo. E se abrirá o mar; a penha terá água.
Sim, aquela comunidade de Pedra das
Flores, no templo todo feito de pedras, fora, e as escolhidas,
dentro, segundo o Mestre de Obras, sendo a pedra desprezada, de
esquina.
Crescia a comunidade e até nos cardos
nasciam rosas e das pedras, flores. Depois árvores ou a divina
floresta dos frutos no Espírito.
Foi no meio desse povo, na comunidade,
que surgiu Zaqueu Peregrino, ferreiro e louco de Deus. Parecia ter
olhos de lâmpada, sobrancelhas espessas, rosto com pele fina,
clárida. Fala paciente e firme, com alguns pássaros ocultos na voz,
como se fosse livre em fluir.
Não se sustinha com a razão, mas com
fé ancestral, invencível. E tinha na mão palavra. Dizia no
acontecido e ia acontecer. Ou até desacontecer. Como fonte manando
na encosta dos passos. Deus doía muito.
E o que podia ser de animal nele se
humanizara, economizando luz.
Mas Zaqueu era doido de Deus, por
saber quanto atordoava o amor. Como na noite o rolar das estrelas. O
que se abrandava, aquecia. O amor, o amor, abraçando os seres. Não
aceitava os monárquicos sistemas a custo do sagrado, salvo o das
celestes esferas, inalcançável. E o que Zaqueu profetizava,
acontecia.
E se a comunidade suscitava
conjeturas, a doutrina era a do Livro do Caminho, e o que rastreava
política e domínio familiar, se dissolvia na vinculação fraterna
dos integrantes, com ajuda aos mais pobres.
Zaqueu Peregrino comunicava sua febre
com o gotejar de perpétuo paraíso. E se perguntava com Jó: “Que
é o mortal para que assim o engrandeças? E Zaqueu desesperava de
si, por esperar em Deus.
O tempo não é contável na luz nem a
luz no tempo, apesar da assistência da noite. E de todas as noites
no desequilibrado amor. Como as funduras nos chamam, os ciclos são
buracos na água. A língua do Espírito não cochila, mesmo quando
se expande. E Deus doía muito. Sim, Deus doía muito na luz, e a luz
vazava de sono.
Curiosa era a forma como Zaqueu
Peregrino sofria surda hostilidade de alguns dignatários de Pedra
das Flores e da própria comunidade. A inveja espiritual, que é a
mais extrema. E Zaqueu às vezes não possuía pousada certa. Mas
Deus pousava no seu mistério, que até sofria cãibras no andar. Mas
não se pode parar dentro da luz. E a luz cirze a razão, para se
abotoarem os sonhos. Deus doía nos sonhos.
Zaqueu Peregrino nasceu com encargo de
árvore. Eu vi. E se interrompo, é com a presença do agricultor,
Pedro Nau. Criava um pomar de uvas, trigo, arroz, tomates, alfaces e
frutos. Tinha vocação de viagens nas plantas e ventas do monte. Até
os olhos verdejavam.
Pedro Nau se afeiçoara a Zaqueu
Peregrino, à sua ventada loucura. E se acharam diante do Camarada
Mar, onde às vezes era visto, com cajado de ondas, o famoso
Matusalém de Flores. Andarilhava, avantajado, descalço. Duas
tartarugas ambulavam ao sol, nas pedras, e ele, de horizonte.
Carlos Nejar, em Acontecerá de muito acontecer
Indague
Antes de atuar em cada episódio, pare e indague-se: “A morte é terrível por privar-me disto?”
Marco Aurélio, em Meditações
| 3 | Vida Póstuma
[…]
Na Alemanha, terra natal de Marx, suas
ideias tornaram-se a ideologia dominante do Partido Socialdemocrata
(SPD, na sigla em alemão), a partir do congresso de 1891 em Erfurt.
Mas a programação do evento era constituída de duas partes
distintas e pressagiava uma longa luta entre revolucionários e
revisionistas. A primeira seção, esboçada por Karl Kautski,
discípulo de Marx, reafirmava teorias familiares tiradas do Capital,
tais como a tendência ao monopólio e à pauperização do
proletariado; a segunda parte, escrita por Eduard Bernstein, lidava
com objetivos políticos mais imediatos – sufrágio universal,
educação livre, imposto progressivo. Bernstein viveu em Londres
durante os anos 1880 e rendeu-se à influência dos primeiros
fabianos. Rosa Luxemburgo queixava-se: “Ele vê o mundo através de
lentes inglesas.”
Bernstein, na década seguinte ao
congresso de Erfurt, repudiava abertamente grande parte do legado de
Marx, descartando sua teoria do valor como “um conceito puramente
abstrato” que deixou de explicar a relação entre oferta e
demanda. Kautski relutava em criticar seu antigo camarada e parecia
muitas vezes até mesmo encorajá-lo: “Você superou nossas
táticas, nossa teoria do valor, nossa filosofia; agora tudo depende
de qual será a boa-nova que você pensa em colocar no lugar da
antiga.”
No final do século, as intenções de
Bernstein estavam bastante evidentes. O capitalismo, longe de ser
superado por uma crise inevitável e iminente, provavelmente
resistiria e traria uma progressiva prosperidade às massas. Com o
ajuste adequado, poderia até se provar o motor do progresso social:
É, portanto, muito errado presumir
que o presente desenvolvimento da sociedade demonstra relativa ou
mesmo absoluta diminuição do número de integrantes das classes com
posses. Seu número aumenta tanto relativa quanto absolutamente…. O
sucesso do socialismo depende não da diminuição, mas do aumento da
riqueza social.
Embora o SPD ainda se definisse como
uma organização proletária revolucionária, ele tornara-se, na
prática, um partido parlamentarista, progressivamente bem-sucedido e
liderado por gradualistas e tecnocratas.
Como especialista em ironias, Marx
talvez tenha se visto obrigado a sorrir (ou, ao menos, a repuxar os
lábios) diante de seu destino: um profeta sem muita honra em sua
própria terra, e ainda menos considerado em seu país de adoção, a
Inglaterra, se tornou a inspiração para um levante cataclísmico no
local onde menos esperava, a Rússia, nação raramente mencionada no
Capital. No entanto, no fim da vida, Marx já havia começado a se
arrepender dessa omissão: o sucesso da edição russa do Capital
levou-o a imaginar que lá, afinal, talvez houvesse algum potencial
revolucionário.
Seu tradutor em São Petersburgo,
Nikolai Danielson, era também líder do movimento populista, que
acreditava que a Rússia poderia passar diretamente do feudalismo
para o socialismo. A descrição de Marx dos efeitos prejudiciais do
capitalismo para a alma do homem convenceram-no de que, se possível,
esse estágio da evolução econômica deveria ser evitado, e, uma
vez que a Rússia já tinha no campo uma forma embrionária de
propriedade coletiva da terra, seria uma atrocidade dissolver as
comunas camponesas e depositá-las nas mãos de proprietários
particulares simplesmente para obedecer a uma suposta lei inelutável
da história. Para os marxistas mais ortodoxos, como Georgi
Plekhânov, que achavam que as condições para o socialismo não
amadureceriam até que a Rússia se industrializasse, esta era uma
insensatez – e, ao longo da década que se seguiu ao lançamento de
O Capital, Marx parecia ter a mesma opinião. Em 1877,
respondendo a um populista russo que protestava contra sua visão
determinista da história, Marx escreveu que se a Rússia estivesse
destinada a se tornar uma nação capitalista nos mesmos moldes que
os países do Ocidente europeu,
… ela não conseguiria isso sem
antes transformar boa parte dos camponeses em proletários; e, então,
quando se encontrar no âmago do regime capitalista, experimentará,
como outros povos profanos, a crueldade de suas leis.
Assim mesmo, Marx acompanhava o
desenrolar dos acontecimentos na Rússia, que ameaçavam contestar
suas teorias. O movimento insurrecional, embora pequeno,
impressionava pela sua determinação e eficácia: entre 1879 e 1881,
a Vontade do Povo, uma facção dissidente do movimento populista,
realizou sete atentados à vida do czar Alexandre II, o último deles
bem-sucedido. (Seis anos depois, a Vontade do Povo tentou também
assassinar o czar Alexandre III; uma das pessoas enforcadas por tomar
parte na trama foi Alexander Ulianov, cujo irmão adolescente,
Vladimir Ilich Ulianov, se tornaria mais conhecido como V.I. Lênin.)
A subsequente enxurrada de detenções
e execuções levou muitos revolucionários russos ao exílio.
Plekhânov mudou-se para a Suíça com vários camaradas, entre eles
Vera Zasulich, que em 1876 deu um tiro no governador-geral de São
Petersburgo e, quando levada a julgamento, teve um desempenho tão
notável que o júri a absolveu da acusação de tentativa de
assassinato. A despeito de seu passado, ela desaprovava a tendência
cada vez mais regicida e violenta do socialismo russo, que parecia
ter perdido de vista os imperativos econômicos formulados no
Capital. Mas a questão dos camponeses e proletários continuava a
incomodar Vera Zasulich e seus companheiros de exílio às margens do
lago Genebra. Em fevereiro de 1881, ela apelou a Marx em busca de uma
opinião abalizada: “Você não ignora que O Capital goza de
grande popularidade na Rússia”, escreveu ela. “Mas talvez não
tenha conhecimento do papel que seu livro desempenhou em nossa
discussão sobre a questão agrária.” E pedia gentilmente que Marx
“desse sua opinião sobre o possível futuro da comuna rural russa
e a teoria da inevitabilidade histórica, segundo a qual todos os
países do mundo atravessarão todas as fases da produção
capitalista”, e assim tentar encerrar a polêmica.
Marx se debateu com o problema por
várias semanas e escreveu cinco rascunhos de resposta. Finalmente
enviou uma breve carta dizendo que sua “assim chamada teoria”
fora mal interpretada: a inevitabilidade histórica da fase burguesa
“é expressamente limitada aos países da Europa Ocidental”. A
transição ocidental do feudalismo para o capitalismo representava a
transformação de um tipo de propriedade privada em outro, enquanto
no caso dos camponeses russos “a propriedade comunal teria, ao
contrário, de ser transformada em propriedade privada. Por isso, a
análise proposta no Capital não apresenta qualquer razão
favorável ou contrária à viabilidade da comuna rural”. Isso era
mais encorajador que o comentário que fizera apenas quatro anos
antes – porém, muito mais cauteloso que o primeiro rascunho de sua
carta a Vera Zasulich, que explicava por que e como o campesinato
russo escaparia ao destino de seus companheiros da Europa Ocidental:
Na Rússia, graças a uma singular
combinação de circunstâncias, a comuna rural, ainda assentada em
escala nacional, pode aos poucos livrar-se de seus traços primitivos
e desenvolver-se diretamente como um elemento da produção coletiva
em escala nacional…. Para salvar a comuna russa, uma revolução é
necessária. A esse respeito, o governo e os “novos pilares da
sociedade” estão fazendo o melhor a fim de preparar as massas para
esse desastre. Se a revolução vier no momento oportuno, se
concentrar todas as forças de modo a permitir total expansão à
comuna rural, esta em breve se transformará em elemento de
regeneração na sociedade russa e de superioridade em relação aos
países escravizados pelo sistema capitalista.
Cinco dias depois de Marx ter enviado
a versão final dessa carta, um pequeno grupo da Vontade do Povo
assassinou o czar Alexandre II em São Petersburgo arremessando uma
bomba em sua carruagem.
Com a plena certeza de que a revolução
só se realizaria pela ação coletiva da classe trabalhadora, mais
que por proezas individuais ou atos de terrorismo, era de esperar que
Marx se aliasse a Vera Zasulich e a Plekhânov mais que aos
terroristas radicais. Todavia, em carta à filha Jenny, Marx
confidenciou que os exilados na Suíça eram “meros doutrinários,
desnorteados anarco-socialistas, e a influência deles no ‘teatro
de guerra’ na Rússia é nula”. Os assassinos de São
Petersburgo, ao contrário,
são, em todos os aspectos,
verdadeiros companheiros, sem pose melodramática, simples,
objetivos, heroicos…. Eles se esforçam para ensinar à Europa que
seu modus operandi é
especificamente russo e historicamente inevitável, que não se
presta a moralizações – a favor ou contra –, mais que o
terremoto em Chios.
Tal atitude seria inconcebível em um
Karl Marx mais jovem: ele passara muitos anos denunciando socialistas
que punham suas crenças a serviço de golpes, atentados e
conspirações clandestinas. Em 1881, no entanto, estava doente e
fatigado. Depois de tanto aguardar o momento oportuno para a
revolução proletária e estar com a paciência esgotada, ansiava
por qualquer tipo de revolta. Naquela primavera, após o nascimento
de um neto, comentaria que as crianças “nascidas neste momento
crucial da história … têm diante de si o período mais
revolucionário que qualquer outro já visto pela humanidade. O lado
ruim neste momento é ser ‘velho’, de modo a apenas prever, e não
testemunhar”.
Todos os arquitetos da Revolução de
1917 citavam Marx, em particular O Capital, como a autoridade
divina para a concretização de suas propostas. Trotski estudou o
livro em 1900, quando se encontrava na Sibéria, exilado em uma vila
horrível, infestada de insetos – “removendo as baratas para fora
da página”, como lembrava. Lênin alegava ter lido o livro em
1888, com precoces 18 anos, sentado sobre um velho forno na cozinha
do apartamento de seu avô. Desde então empregava O Capital –
ou os trechos que serviam a seus propósitos – como a lâmina com
que golpeava seus rivais. (Máximo Górki disse a respeito dos
discursos de Lênin que tinham “o frio brilho de limalhas de aço”.)
Embora sua primeira grande obra, O desenvolvimento do capitalismo
na Rússia, fosse apresentada como uma espécie de suplemento a
Marx, a obra de Lênin nada tinha da ironia e da indignação do
Capital. Como Edmund Wilson observou: “Todos os escritos de
Lênin são funcionais; todos têm o intuito de atingir um propósito
imediato…. Ele é simplesmente um homem que deseja convencer.”
O propósito imediato do livro O
desenvolvimento do capitalismo na Rússia era persuadir os
camaradas de que a Rússia já emergira do feudalismo graças à
rápida expansão de ferrovias, minas de carvão, siderúrgicas e
tecelagens nos anos 1880 e 1890. O fato era que somente em Moscou e
São Petersburgo havia um proletariado industrial; isso, no entanto,
reforçava a responsabilidade de ação da classe como uma
organização de vanguarda que expressasse as reivindicações dos
camponeses e artesãos de outras localidades. Nas novas fábricas,
escreveu Lênin,
… a exploração está
plenamente desenvolvida e emerge em sua forma pura, sem qualquer
detalhe perturbador. O trabalhador não pode deixar de perceber que é
oprimido pelo capital…. É por isso que o trabalhador da fábrica é
o principal representante de toda a população de explorados.
Mas em seu tratado posterior, Que
fazer?, acrescentou que os trabalhadores estavam muito
preocupados com sua própria luta econômica para desenvolver uma
verdadeira consciência revolucionária:
Muito se fala sobre espontaneidade.
Mas o desenvolvimento espontâneo de um movimento da classe
trabalhadora leva à sua subordinação à ideologia burguesa; pois
tal ação é o sindicalismo, que significa a escravização
ideológica dos trabalhadores pela burguesia. Portanto, nossa tarefa,
a tarefa da socialdemocracia, é combater a espontaneidade, afastar o
movimento da classe trabalhadora desse sindicalismo espontâneo,
desejoso de se abrigar sob as asas da burguesia, e trazê-lo para
debaixo das asas da socialdemocracia revolucionária.
Campanhas de massa para melhorar as
condições e encurtar a semana de trabalho, defendidas por Marx no
Capital, eram consideradas por Lênin uma perda de tempo. Em
vez disso, os trabalhadores deveriam se colocar à disposição de
revolucionários profissionais como ele: “O movimento socialista
contemporâneo só poderá se tornar realidade se tiver como base um
profundo conhecimento científico…. O portador desse conhecimento
não é o proletariado, mas a intelligentsia burguesa.”
Nessas sentenças pode-se notar a forma embrionária do que, no
final, se tornou uma tirania monstruosa.
Como o autoproclamado portador dos dez
mandamentos, Lênin gostava de lembrar a condição intelectual
inferior de seus camaradas. “É impossível compreender O
Capital de Marx, em especial os primeiros capítulos, sem ter
estudado e entendido completamente toda a Lógica de Hegel”,
escreveu ele em seus Cadernos filosóficos. “Por
conseguinte, meio século depois, nenhum dos marxistas compreende
Marx.” Exceto ele, é claro. Apesar de todas as suas leituras e
escritos, o “conhecimento científico” de Lênin não era mais
profundo que o necessário. Eis uma aguçada avaliação feita por
Trotski, que o observava mais de perto que ninguém:
O pensamento de Marx aparece por
inteiro no Manifesto Comunista,
em Para a crítica da economia
política e no Capital.
Mesmo que não estivesse destinado a tornar-se o fundador da Primeira
Internacional, ele ainda permaneceria por muito tempo a figura que
conhecemos hoje. As ideias de Lênin, por outro lado, aparecem na
ação revolucionária. Os trabalhos científicos dele são apenas um
preâmbulo à ação.
Talvez nem mesmo um preâmbulo. “A
tomada do poder”, escreveu Lênin em 1917, “é o objetivo da
insurreição. Sua tarefa política ficará clara após a tomada.”
Como o historiador Bertram Wolfe mostra, isso faz com que o
raciocínio de Marx seja virado do avesso: a convicção marxista de
que a economia determina a política “torna-se a visão leninista
de que, com suficiente determinação, o próprio poder, o pleno
poder político, pode determinar inteiramente a economia”. Não é
de causar espanto que a crença predominante na União Soviética
tenha adquirido o nome de marxismo-leninismo, e não simplesmente
marxismo. O lema favorito de Marx era de omnibus dubitandum
(“tudo deve ser questionado”), mas ninguém que tenha tentado pôr
isso em prática na Rússia comunista sobreviveu por muito tempo.
O marxismo praticado por Marx era
menos uma ideologia que um processo crítico, uma argumentação
dialética contínua; Lênin e em seguida Stálin transformaram-no em
dogma. (Como, é claro, fizeram outros socialistas antes deles.) “A
Federação Socialdemocrata aqui divide com os socialistas
germano-americanos a característica de serem os únicos partidos que
lograram reduzir a teoria do desenvolvimento marxista a uma rígida
ortodoxia”, lamentou Engels, em maio de 1894, a Friedrich Adolph
Sorge, um emigrado alemão em Nova York.
Essa teoria deve ser empurrada
goela abaixo dos trabalhadores de uma só vez e sem desenvolvimento,
como artigos de fé, e não fazer com que os trabalhadores se elevem
a seu nível pela força de seu próprio instinto de classe. É por
isso que ambas permanecem meras seitas e, como Hegel diz, vêm do
nada, por meio do nada e em direção ao nada.
Seria possível até argumentar que a
conquista mais verdadeiramente marxista da União Soviética foi seu
colapso: uma economia dirigida – centralizada, fechada e
burocrática – provou-se incompatível com as novas forças de
produção, e assim precipitou uma mudança nas relações de
produção. Mikhail Gorbachev o admitiu em seu livro de 1997,
Perestroika:
O sistema administrativo que se
formou nos anos 1930 e 1940 começou gradualmente a contradizer as
demandas e condições do progresso econômico. O potencial positivo
dele se exaurira. Tornara-se cada vez mais um obstáculo e originou o
mecanismo de ruptura que tanto mal nos fez depois….
Foi nessas condições que se
desenvolveu uma atitude preconceituosa diante do papel das relações
mercadológicas e da lei do valor sob o socialismo, e em geral se
alegava que eram contrárias e estranhas ao socialismo. Além do
mais, subestimou-se a contabilidade de lucros e perdas, que abalou os
preços e negligenciou a circulação de dinheiro…. Surgiram sinais
cada vez mais evidentes de alienação do homem em relação à
propriedade coletiva e da falta de coordenação entre os interesses
públicos e pessoais do trabalhador.
[...]
Francis Wheen, em O Capital de Marx – Uma Biografia
Criação
Quem escreve romances não quer ver um leão comer grama. Percebe que um mesmo Deus criou o lobo e o cordeiro, e sorriu, “vendo que o trabalho estava bom”.
André Gide, epígrafe de Factótum, de Charles Bukowski
Primeiro capítulo – A estrada morta
Naquele lugar, a guerra tinha morto a
estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre
cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas,
em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que
tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas
pelo azul. Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se
acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte.
A estrada que agora se abre a nossos
olhos não se entrecruza com outra nenhuma. Está mais deitada que os
séculos, suportando sozinha toda a distância. Pelas bermas
apodrecem carros incendiados, restos de pilhagens. Na savana em
volta, apenas os embondeiros contemplam o mundo a desflorir.
Um velho e um miúdo vão seguindo
pela estrada. Andam bambolentos como se caminhar fosse seu único
serviço desde que nasceram. Vão para lá de nenhuma parte, dando o
vindo por não ido, à espera do adiante. Fogem da guerra, dessa
guerra que contaminara toda a sua terra. Vão na ilusão de, mais
além, haver um refúgio tranquilo. Avançam descalços, suas vestes
têm a mesma cor do caminho. O velho se chama Tuahir. É magro,
parece ter perdido toda a substância. O jovem se chama Muidinga.
Caminha à frente desde que saíra do campo de refugiados. Se nota
nele um leve coxear, uma perna demorando mais que o passo. Vestígio
da doença que, ainda há pouco, o arrastara quase até à morte.
Quem o recolhera fora o velho Tuahir, quando todos outros o haviam
abandonado. O menino estava já sem estado, os ranhos lhe saíam não
do nariz mas de toda a cabeça. O velho teve que lhe ensinar todos os
inícios: andar, falar, pensar. Muidinga se meninou outra vez. Esta
segunda infância, porém, fora apressada pelos ditados da
sobrevivência. Quando iniciaram a viagem já ele se acostumava de
cantar, dando vaga a distraídas brincriações. No convívio com a
solidão, porém, o canto acabou por migrar de si. Os dois
caminheiros condiziam com a estrada, murchos e desesperançados.
Muidinga e Tuahir param agora frente a
um autocarro queimado. Discutem, discordando-se. O jovem lança o
saco no chão, acordando poeira. O velho ralha:
— Estou-lhe a dizer, miúdo:
vamos instalar casa aqui mesmo.
— Mas aqui? Num machimbombo todo
incendiado?
— Você não sabe nada, miúdo. O
que já está queimado não volta a arder.
Muidinga não ganha convencimento.
Olha a planície, tudo parece desmaiado. Naquele território, tão
despido de brilho, ter razão é algo que já não dá vontade. Por
isso ele não insiste. Roda à volta do machimbombo. O veículo se
despistara, ficara meio atravessado na rodovia. A dianteira estava
amassada de encontro a um imenso embondeiro. Muidinga se encosta ao
tronco da árvore e pergunta:
— Mas na estrada não é mais
perigoso, Tuahir? Não é melhor esconder no mato?
— Nada. Aqui podemos ver os
passantes. Está-me compreender?
— Você sempre sabe, Tuahir.
— Não vale a pena queixar. Culpa
é sua: não é você que quer procurar seus pais?
— Quero. Mas na estrada quem
passa são os bandos.
— Os bandos se vierem, nós
fingimos que estamos mortos. Faz conta falecemos junto com o
machimbombo.
Entram no autocarro. O corredor e os
bancos estão ainda cobertos de corpos carbonizados. Muidinga se
recusa a entrar. O velho avança pelo corredor, vai espreitando os
cantos da viatura.
— Estes arderam bem. Veja como
todos ficaram pequenitos. Parece o fogo gosta de nos ver crianças.
Tuahir se instala no banco traseiro,
onde o fogo não chegara. O miúdo continua receoso, hesitando
entrar. O velho encoraja:
— Venha, são mortos limpos pelas
chamas.
Muidinga vai avançando, pisando com
mil cautelas. Aquele recinto está contaminado pela morte. Seriam
precisas mil cerimónias para purificar o autocarro.
— Não faça essa cara, miúdo.
Os falecidos se ofendem se lhes mostramos nojo.
Muidinga arruma o saco num banco.
Senta-se e observa o recanto conservado. Há tecto, assentos,
encostos. O velho, impávido, já se deitou a repousar. De olhos
fechados, espreguiça a voz:
— Sabe bem uma sombrinha assim.
Não descanso desde que fugimos do campo. Você não quer sombrear?
— Tuahir, vamos tirar esses
corpos daqui.
— E porquê? Cheiram-lhe mal?
O miúdo não responde logo. Está
virado para a janela quebrada. O velho insiste que descanse. Desde
que saíram do campo de deslocados eles não tinham tido pausa.
Muidinga permanece de costas viradas. Se escuta apenas o seu
respirar, quase resvalando em soluço. Então, ele repete a
sussurrante súplica: que se limpe aquele refúgio.
— Lhe peço, tio Tuahir. É que
estou farto de viver entre mortos.
O velho se apressa a emendar: não sou
seu tio! E ameaça: o moço que não abuse familiaridades. Mas aquele
tratamento é só a maneira da tradição, argumenta Muidinga.
— Em você não gosto.
— Não lhe chamo nunca mais.
— E me diga: você quer encontrar
seus pais porquê?
— Já expliquei tantas vezes.
— Desconsigo de entender. Vou-lhe
contar uma coisa: seus pais não lhe vão querer ver nem vivo.
— Porquê?
— Em tempos de guerra filhos são
um peso que trapalha maningue.
Saem a enterrar os cadáveres. Não
vão longe. Abrem uma única campa para poupar esforço. No caminho
do regresso encontram mais um corpo. Jazia junto à berma, virado de
costas. Não estava queimado. Tinha sido morto a tiro. A camisa
estava empapada em sangue, nem se notava a original cor. Junto dele
estava uma mala, fechada, intacta. Tuahir sacode o morto com o pé.
Revista-lhe os bolsos, em vão: alguém já os tinha vazado.
— Eh pá, este gajo não cheira.
Atacaram o machimbombo há pouco tempo.
O miúdo estremece. A tragédia,
afinal, é mais recente que ele pensava. Os espíritos dos falecidos
ainda por ali pairavam. Mas Tuahir parece alheio à vizinhança.
Enterram o último cadáver. O rosto dele nunca chega a ser visto:
arrastaram-no assim mesmo, os dentes charruando a terra. Depois de
fecharem o buraco, o velho puxa a mala para dentro do autocarro.
Tuahir tenta abrir o achado, não é capaz. Convoca a ajuda de
Muidinga:
— Abre, vamos ver o que está
dentro.
Forçam o fecho, apressados. No
interior da mala estão roupas, uma caixa com comidas. Por cima de
tudo estão espalhados cadernos escolares, gatafunhados com letras
incertas. O velho carrega a caixa com mantimentos. Muidinga
inspecciona os papéis.
— Veja, Tuahir. São cartas.
— Quero saber é das comidas.
O miúdo remexe no resto. As mãos
curiosas viajam pelos cantos da mala. O velho chama a atenção: ele
que deixasse tudo como estava, fechasse a tampa.
— Tira só essa papelada. Serve para
acendermos a fogueira.
O jovem retira os caderninhos.
Guarda-os por baixo do seu banco. Não parece pretender sacrificar
aqueles papéis para iniciar o fogo. Fica sentado, alheio. No
enquanto, lá fora, tudo vai ficando noite. Reina um negro silvestre,
cego. Muidinga olha o escuro e estremece. É um desses negros que nem
os corvos comem. Parece todas as sombras desceram à terra. O medo
passeia seus chifres no peito do menino que se deita, enroscado como
um congolote. O machimbombo se rende à quietude, tudo é silêncio
taciturno.
Mais tarde, se começa a escutar um
pranto, num fio quase inaudível. É Muidinga que chora. O velho se
levanta e zanga:
— Pára de chorar!
— É que me dói uma tristeza...
— Chorando assim você vai chamar
os espíritos. Ou se cala ou lhe rebento a tristeza à porrada.
— Nós nunca mais vamos sair
daqui.
— Vamos, com a certeza. Qualquer
coisa vai acontecer qualquer dia. E essa guerra vai acabar. A estrada
já vai-se encher de gente, camiões. Como no tempo de antigamente.
Mais sereno, o velho passa um braço
sobre os ombros trementes do rapaz e lhe pergunta:
— Tens medo da noite?
Muidinga acena afirmativamente.
— Então vai acender uma fogueira
lá fora.
O miúdo se levanta e escolhe entre os
papéis, receando rasgar uma folha escrita. Acaba por arrancar a capa
de um dos cadernos. Para fazer fogo usa esse papel. Depois se senta
ao lado da fogueira, ajeita os cadernos e começa a ler. Balbucia
letra a letra, percorrendo o lento desenho de cada uma. Sorri com a
satisfação de uma conquista. Vai-se habituando, ganhando despacho.
— Que estás a fazer, rapaz?
— Estou a ler.
— É verdade, já esquecia. Você
era capaz ler. Então leia em voz alta que é para me dormecer.
O miúdo lê em voz alta. Seus olhos
se abrem mais que a voz que, lenta e cuidadosa, vai decifrando as
letras. Ler era coisa que ele apenas agora se recordava saber. O
velho Tuhair, ignorante das letras, não lhe despertara a faculdade
da leitura.
A lua parece ter sido chamada pela voz
de Muidinga. A noite toda se vai enluarando. Pratinhada, a estrada
escuta a estória que desponta dos cadernos: “Quero pôr os
tempos...”.
Mia Couto, em Terra Sonâmbula
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
Uma esperança
Aqui em casa pousou uma esperança.
Não a clássica que tantas vezes verifica-se ser ilusória, embora
mesmo assim nos sustente sempre. Mas a outra, bem concreta e verde: o
inseto.
Houve um grito abafado de um de meus
filhos:
– Uma esperança! e na parede bem em
cima de sua cadeira! Emoção dele também que unia em uma só as
duas esperanças, já tem idade para isso. Antes surpresa minha:
esperança é coisa secreta e costuma pousar diretamente em mim, sem
ninguém saber, e não acima de minha cabeça numa parede. Pequeno
rebuliço: mas era indubitável, lá estava ela, e mais magra e verde
não podia ser.
– Ela quase não tem corpo,
queixei-me.
– Ela só tem alma, explicou meu
filho e, como filhos são uma surpresa para nós, descobri com
surpresa que ele falava das duas esperanças.
Ela caminhava devagar sobre os fiapos
das longas pernas, por entre os quadros da parede. Três vezes tentou
renitente uma saída entre dois quadros, três vezes teve que
retroceder caminho. Custava a aprender.
– Ela é burrinha, comentou o
menino.
– Sei disso, respondi um pouco
trágica.
– Está agora procurando outro
caminho, olhe, coitada, como ela hesita.
– Sei, é assim mesmo.
– Parece que esperança não tem
olhos, mamãe, é guiada pelas antenas.
– Sei, continuei mais infeliz ainda.
Ali ficamos, não sei quanto tempo
olhando. Vigiando-a como se vigiava na Grécia ou em Roma o começo
de fogo do lar para que não apagasse.
– Ela se esqueceu de que pode voar,
mamãe, e pensa que só pode andar devagar assim.
Andava mesmo devagar – estaria por
acaso ferida? Ah não, senão de um modo ou de outro escorreria
sangue, tem sido sempre assim comigo.
Foi então que farejando o mundo que é
comível, saiu de trás de um quadro uma aranha. Não uma aranha, mas
me parecia “a” aranha. Andando pela sua teia invisível, parecia
transladar-se maciamente no ar. Ela queria a esperança. Mas nós
também queríamos e, oh! Deus, queríamos menos que comê-la. Meu
filho foi buscar a vassoura. Eu disse fracamente, confusa, sem saber
se chegara infelizmente a hora certa de perder a esperança:
– É que não se mata aranha, me
disseram que traz sorte...
– Mas ela vai esmigalhar a
esperança! respondeu o menino com ferocidade.
– Preciso falar com a empregada para
limpar atrás dos quadros – falei sentindo a frase deslocada e
ouvindo o certo cansaço que havia na minha voz. Depois devaneei um
pouco de como eu seria sucinta e misteriosa com a empregada: eu lhe
diria apenas: você faz o favor de facilitar o caminho da esperança.
O menino, morta a aranha, fez um
trocadilho, com o inseto e a nossa esperança. Meu outro filho, que
estava vendo televisão, ouviu e riu de prazer. Não havia dúvida: a
esperança pousara em casa, alma e corpo.
Mas como é bonito o inseto: mais
pousa que vive, é um esqueletinho verde, e tem uma forma tão
delicada que isso explica por que eu, que gosto de pegar nas coisas,
nunca tentei pegá-la.
Uma vez, aliás, agora é que me
lembro, uma esperança bem menor que esta pousara no meu braço. Não
senti nada, de tão leve que era, foi só visualmente que tomei
consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza. Eu não
mexia o braço e pensei: “e essa agora? que devo fazer?” Em
verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse
nascido em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu. E acho
que não aconteceu nada.
Clarice Lispector, em Todos os contos
O guardador de águas
I
O aparelho de ser inútil estava
jogado no chão,
quase coberto de limos —
Entram coaxos por ele dentro.
Crescem jacintos sobre palavras.
(O rio funciona atrás de um jacinto.)
Correm águas agradecidas sobre latas…
O som do novilúnio sobre as latas
será plano.
E o cheiro azul do escaravelho, tátil.
De pulo em pulo um ente abeira as
pedras.
Tem um cago de ave no chapéu.
Seria um idiota de estrada?
Urubus se ajoelham pra ele.
Luar tem gula de seus trapos.
Manoel de Barros, em O guardador de águas
1608 – Sevilha
Mateo Alemán
Mateo Alemán sobe ao navio que parte
para o México. Para poder viajar para as Índias, subornou o
secretário do rei e demonstrou pureza de sangue.
Judeu de pai e mãe e com um ou outro
parente queimado pela Inquisição, Mateo Alemán inventou-se uma
cristianíssima linhagem e um imponente escudo de armas, e ao mesmo
tempo converteu sua amante, Francisca de Calderón, em sua filha mais
velha.
O novelista soube aprender as artes de
sua personagem, Guzmán de Alfarache, destro no ofício da florida
malícia, quem muda de vestimenta, de nome e de cidade para
apagar estigmas e escapar da pobreza. Dançar tenho ao som que
todos, dure o que dure, explica Guzmán de Alfarache na novela
que a Espanha está lendo.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
O império das formigas
1.
Quando o capitão Gerilleau recebeu
instruções para conduzir sua nova canhoneira, a Benjamin
Constant, até Badama, situada no rio Batemo, afluente do
Guaramadema, para ajudar a população local a combater uma praga de
formigas, ele desconfiou que as autoridades estavam zombando dele.
Sua promoção se deu por motivos tanto românticos quanto
irregulares; a afeição de uma proeminente dama brasileira e os
líquidos olhos do capitão tinham desempenhado um papel decisivo
nesse processo, e tanto O Diário quanto O Futuro
haviam sido pouco respeitosos em seus comentários. Ele sentiu que em
breve daria motivos para novas manifestações de desrespeito.
Era um mestiço, e suas concepções
de etiqueta e disciplina eram de puro sangue português. Ele abria o
coração apenas com Holroyd, o maquinista de Lancashire que viera
com o barco, e apenas para praticar sua pronúncia do inglês, que
era deficiente com os sons de “th”.
— Isto é com efeito para me tornar
absurdo! — disse ele. — O que um homem pode fazer contra
formigas? Elas vêm e elas vão.
— O que se diz — respondeu Holroyd
— é que estas não vão. Aquele sujeito que o senhor chamou de
Sambo…
— Zambo. É uma espécie de pessoa
de sangue misturado.
— Sim, Sambo. Ele diz que as pessoas
é que estão indo embora.
O capitão ficou algum tempo soltando
baforadas inquietas. Por fim continuou:
— Essas coisas precisam acontecer. O
que é isso? Pragas de formigas e coisas assim, pela vontade de Deus.
Houve uma praga em Trinidad, de formigas que carregam folhas. Todas
as árvores de laranjas, todas as de mangas! O que importa? Às vezes
chegam exércitos de formigas em nossas casas; formigas guerreiras;
diferente tipo. Você se ausenta e elas fazem limpeza na casa. Então
você volta e a casa está limpa, como nova! Nada de baratas, de
pulgas, de carrapatos pelo chão.
— O tal Sambo — disse Holroyd —
diz que elas são um tipo diferente de formiga.
O capitão encolheu os ombros, soltou
uma baforada, e concentrou sua atenção no cigarro. Daí a pouco
voltou à carga.
— Caro Holroyd, o que devo fazer a
respeito das malditas formigas? — Ficou refletindo mais um pouco, e
murmurou: — É ridículo.
À tarde, ele vestiu o uniforme
completo e desceu à terra. Jarros e caixotes foram trazidos para o
barco, e daí a pouco ele os acompanhou. Holroyd sentou no convés,
aproveitando a temperatura amena do entardecer, fumando com gosto e
pensando com admiração no Brasil. Estavam havia cinco dias subindo
o Amazonas, já a algumas centenas de milhas do oceano, e a leste e a
oeste dele via-se apenas um horizonte como o do mar alto, e ao sul
nada além de uma ilha com encostas de areia e alguns arbustos.
A água fluía lenta como a de um
canal, suja, espessa, agitada pela presença de crocodilos e de
pássaros planadores, e alimentada de troncos de árvores produzidos
por alguma fonte inexaurível; e aquele desperdício, aquele
impetuoso desperdício, preenchia a alma de Holroyd. A vila de
Alemquer, com sua igrejinha dilapidada, suas casas e cabanas cobertas
de palha, suas ruínas descoloridas de uma época mais próspera,
parecia uma coisa minúscula perdida na selvageria da Natureza, uma
moedinha caída num Saara. Holroyd era jovem, esta era sua primeira
missão nos trópicos, e ele vinha direto da Inglaterra, onde a
Natureza é submetida a cercas, a valas, a drenos, até atingir uma
submissão perfeita; e agora ele descobria de súbito a
insignificância do ser humano. Por seis dias ele e seu barco tinham
resfolegado através de canais pouco frequentados, onde o homem era
tão raro quanto a mais rara das borboletas. Num dia avistava-se uma
canoa, noutro uma estação distante, no seguinte nem uma pessoa
sequer.
Ele começou a perceber que o ser
humano é de fato um animal escasso, e que mantém uma posse precária
sobre a terra.
Percebeu isto com mais clareza à
medida que os dias foram passando, e eles percorriam o trajeto
tortuoso que os conduzia ao rio Batemo, na companhia daquele
extraordinário comandante que tinha apenas um canhão sob suas
ordens e estava proibido de desperdiçar munição. Holroyd estudava
o espanhol com toda aplicação, mas ainda estava naquele estágio
feito apenas de substantivos e verbos no presente, e a única outra
pessoa que sabia algumas palavras em inglês era um negro que
trabalhava na fornalha e não conseguia pronunciá-las direito. O
imediato, Da Cunha, era português de nascimento e falava francês,
mas um francês diferente daquele que Holroyd tinha aprendido em
Southport, de modo que o diálogo dos dois se limitava a cumprimentos
e a comentários básicos sobre bom ou mau tempo. E o clima dali,
como tudo o mais naquele extraordinário mundo novo, não tinha
qualquer consideração humana: era quente de noite e quente de dia,
o ar fumegava, até mesmo o vento era um vapor escaldante, cheirando
a vegetação apodrecida; e os jacarés e os pássaros estranhos, as
moscas de todos os tipos e tamanhos, os besouros, as formigas, as
cobras e os macacos, todos pareciam espantados sem saber o que o
homem ia fazer numa atmosfera cujo sol não tinha alegria e cuja
noite não refrescava. Usar roupas era insuportável, mas tirá-las
significava ser assado pelo sol durante o dia e expor uma área maior
aos mosquitos durante a noite; subir ao tombadilho durante o dia era
ficar cego pela luz do sol, e ficar embaixo era sufocar. E durante o
dia apareciam certas moscas extremamente espertas, e nocivas aos
pulsos e tornozelos. O capitão Gerilleau, a única distração capaz
de desviar a mente de Holroyd dessas desventuras físicas, acabou se
revelando um sujeito insuportavelmente tedioso, contando o dia
inteiro histórias de suas aventuras sentimentais, uma série
interminável de mulheres anônimas, que ele desfiava como contas de
um rosário. Às vezes propunha um pouco de esporte e os dois
atiravam em jacarés; de vez em quando chegavam a aglomerados humanos
nos confins da floresta e ficavam por um dia ou dois bebendo, sem
fazer nada; uma noite dançaram com garotas mestiças, que acharam o
parco espanhol de Holroyd, cujos verbos não tinham passado nem
futuro, mais do que suficiente para os seus propósitos. Mas estes
eram meros lampejos luminosos na longa e acinzentada travessia do
caudaloso rio, daquela correnteza contra a qual as máquinas vibravam
e latejavam. Uma certa divindade pagã e liberal, em forma de
garrafão, era quem governava o barco da popa à proa.
Mas Gerilleau aprendia coisas sobre as
formigas, cada vez mais coisas, em cada parada que faziam ao longo do
trajeto, e ia ficando mais interessado em sua missão.
— Elas são nova espécie de
formigas — disse ele. — Precisamos ser... como mesmo se diz?
Entomologia? Grandes. Cinco centímetros! Muito grandes. É ridículo.
Somos como macacos, enviados para apanhar insetos. Mas elas estão
comendo o país. — Ele explodiu de indignação. — Suponha, de
repente, que existem complicações com a Europa. Aqui estou eu,
perto de chegar ao Rio Negro, e meu canhão está inútil!
Ele afagou o joelho e continuou
resmungando.
— Aquelas pessoas, que estavam no
local de dançar, vieram de lá. Perderam tudo que tinham. Formigas
chegaram na casa deles uma tarde. Tudo destruído. Você sabe que
quando formigas chegam a gente foge. Todos fogem e elas ocupam a
casa. Se você ficasse seria comido. Está vendo? Bem, depois eles
voltam, eles dizem: “As formigas foram embora.” As formigas não
foram embora! Eles tentam entrar. O filho entra. As formigas
brigam.
— Elas o atacaram?
— Morderam. Rapidamente ele sai de
novo, gritando e correndo. Corre para o rio. Está vendo? Entra na
água e afoga as formigas. — Gerilleau fez uma pausa, virou seus
olhos líquidos para o rosto de Holroyd, e bateu no joelho dele com
os nós dos dedos. — Naquela noite ele morre, como se tivesse sido
picado por uma cobra.
— Envenenado? Pelas formigas?
— Quem sabe? — Gerilleau encolheu
os ombros. — Talvez o morderam demais. Quando eu entrei para o
serviço eu vim para combater homens. Essas coisas, essas formigas,
elas vêm e vão. Não é um trabalho para um homem.
Depois disso ele falou frequentemente
das formigas para Holroyd, e, onde quer que eles se aproximassem de
qualquer aglomerado humano naquela vastidão de água e luz solar e
árvores distantes, Holroyd punha em prática seu domínio crescente
do idioma para reconhecer a palavra “saúba”, e perceber o quanto
ela se tornava predominante nas conversas.
Ele achou que as formigas estavam
ficando interessantes; e quanto mais chegavam perto mais
interessantes elas se tornavam. Gerilleau deixou de lado seus antigos
temas quase de repente, e o tenente português tornou-se mais aberto
ao diálogo; ele tinha algumas informações a respeito da formiga
cortadora de folhas, e compartilhava seus conhecimentos. Gerilleau às
vezes reproduzia para Holroyd o que ele tinha para contar. Ele falou
das pequenas operárias que trabalhavam e lutavam em grupo, e as
grandes operárias que lideravam e comandavam, e como estas últimas
quase sempre subiam na direção do pescoço, e como suas picadas
tiravam sangue. Contou como elas cortavam folhas e com elas
preparavam leitos de fungos, e como em Caracas os seus formigueiros
chegam a ter centenas de metros de diâmetro. Durante dois dias
inteiros os três homens debateram a questão de as formigas terem
olhos ou não. A discussão tornou-se perigosamente acalorada na
segunda tarde, e Holroyd salvou a situação indo de bote até a
margem e trazendo algumas formigas para examinar. Capturou vários
espécimes e os trouxe. Algumas tinham olhos e outras não. Outra
discussão entre eles era: as formigas mordem ou picam?
— Essas formigas — disse
Gerilleau, depois de se informar numa fazenda — têm grandes olhos.
Elas não correm cegas como a maioria das formigas fazem. Não! Elas
ficam nos cantos e olham o que você faz.
— E elas picam? — perguntou
Holroyd.
— Sim. Elas picam. Existe veneno na
picada delas. — Ele meditou. — Eu não sei o que os homens podem
fazer contra formigas. Elas vêm e vão.
— Mas estas não vão.
— Elas vão ir — disse Gerilleau.
Depois de Tamandu, há uma longa costa
de baixios ao longo de oitenta milhas, totalmente desabitada, e
depois dela chega-se à confluência entre o grande rio e o Batemo, a
qual é como um imenso lago; e então a floresta se aproxima,
chegando a uma distância quase íntima. O caráter da correnteza
muda, os troncos submersos tornam-se abundantes. O Benjamin
Constant atracou durante aquela noite preso a um mourão, sob a
sombra profunda das árvores. Pela primeira vez em muitos dias foi
sentida uma rajada de vento fresco, e Holroyd e Gerilleau sentaram-se
até tarde, fumando charutos e curtindo aquela sensação deliciosa.
A mente de Gerilleau estava ocupada pelas formigas e pelo que elas
eram capazes de fazer. Finalmente ele resolveu dormir, e deitou-se
num colchão ali no próprio convés, um homem desesperadamente
perplexo; suas últimas palavras, quando já parecia adormecido,
foram para perguntar, num acesso de ansiedade:
— O que se pode fazer com formigas?
Toda essa coisa é absurda.
Holroyd ficou coçando os pulsos
cobertos de mordidas, e meditando a sós.
Sentou no parapeito e escutou as
variações na respiração de Gerilleau até que este mergulhou num
sono mais profundo; então, o chapinhar das ondas de encontro ao
casco do navio ocupou seus sentidos e lhe trouxe de volta aquele
senso de imensidão que o estava invadindo desde que deixaram para
trás o Pará e mergulharam no rio. O barco mantinha apenas uma
pequena luz acesa. Havia um murmúrio de conversação que logo foi
seguido por um completo silêncio. Os olhos dele foram da silhueta
sombria do barco até a margem do rio, e dali para a negra e
esmagadora presença da floresta, iluminada aqui e ali pelo brilho de
um vagalume, de onde emanava continuamente um murmúrio de estranhas
e misteriosas atividades…
Era a imensidade inumana daquela terra
que o assombrava e oprimia. Ele sabia que os céus eram desabitados,
que as estrelas eram apenas pontos luminosos na incrível vastidão
do espaço; sabia que o oceano era enorme e indomável, mas na
Inglaterra ele se acostumara a pensar na terra como o domínio do ser
humano. E na Inglaterra ela pertence ao homem, sem dúvida. As
criaturas selvagens têm uma vida difícil, multiplicam-se onde são
autorizadas, e por toda parte imperam as estradas, as cercas e a
autoridade absoluta do homem. Num atlas, também, a terra é do
homem, e as áreas são coloridas para assinalar sua posse, em vívido
contraste com o azul universal do mar independente. Ele imaginara o
dia em que todas as coisas da terra, as lavouras, as culturas, as
vias férreas rápidas, as boas estradas, acabariam prevalecendo num
clima de segurança e ordem. Agora, começava a duvidar disso.
A floresta era interminável,
aparentava ser invencível, e o Homem parecia na melhor das hipóteses
um intruso ocasional, em condições precárias. Era possível viajar
muitas milhas no meio da silenciosa luta entre as árvores
gigantescas, os cipós estranguladores, as flores onipresentes, e por
toda parte surgiam o jacaré, a tartaruga, as incontáveis variedades
de aves e os insetos que ali se sentiam em casa e com a certeza de
não serem despejados; mas o Homem conseguia no máximo ocupar um
pequeno espaço numa clareira, lutava contra o mato, disputava com os
bichos e os insetos cada palmo de terreno, era vitimado pelas cobras,
pelas feras, pela febre, e acabava sendo enxotado. De muitos lugares
ao longo do rio ele já tinha sido visivelmente expulso, e um ou
outro riacho deserto preservava o nome de uma casa, e aqui e ali
apareciam ruínas de paredes brancas e torres desmoronadas para
repetir essa lição. O puma e o jaguar eram mais senhores daquele
espaço do que o ser humano.
Quem eram os verdadeiros senhores?
Em algumas poucas milhas quadradas de
floresta devem existir mais formigas do que toda a população do
mundo! Era uma ideia totalmente nova na mente de Holroyd. Em poucos
milhares de anos o Homem tinha emergido da barbárie para um estágio
de civilização que o fazia sentir-se como senhor do futuro e
proprietário da Terra! Mas o que impedia as formigas de também
evoluírem? As formigas que conhecemos vivem em pequenas comunidades
de uns poucos milhares de indivíduos, e não ousam um enfrentamento
maior com o mundo à sua volta. Mas elas tinham uma linguagem, tinham
inteligência! Por que iriam se deter nesse ponto, se os homens não
tinham se detido na sua fase de barbárie? Suponhamos que as formigas
se tornassem capazes de armazenar conhecimentos, assim como o Homem
fizera com seus livros e seus registros; capazes de usar armas,
formar grandes impérios, sustentar uma guerra planejada e
organizada?!
Lembrou de algumas informações,
colhidas por Gerilleau, sobre as formigas que estavam indo enfrentar.
Elas empregavam um veneno semelhante ao das serpentes. Obedeciam seus
líderes, assim como as formigas cortadoras de folhas. Eram
carnívoras, e quando ocupavam um lugar não o abandonavam mais...
A floresta estava tranquila. A água
chapinhava incessantemente de encontro ao casco da canhoneira. Sobre
a lanterna erguida lá no alto, via-se um torvelinho silencioso de
mariposas fantasmas.
Gerilleau mudou de posição no sono,
e soltou um suspiro. “O que se pode fazer?”, murmurou ele,
e, virando-se para o outro lado, adormeceu novamente.
As meditações de Holroyd iam ficando
cada vez mais sinistras, e ele foi arrancado delas pelo zumbido de um
mosquito.
H. G. Wells, em O país dos cegos e outras histórias
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