domingo, 31 de maio de 2026
O país e o armário
“Todo ano, um milhão de mulheres
fazem aborto na França. Eu sou uma dessas mulheres. Eu abortei.” O
manifesto foi assinado por 343 mulheres e publicado no Nouvel
Observateur, em 1971.
O Estado francês tinha duas opções:
prender essas mulheres ou reconhecer que elas não fizeram nada de
errado. O Estado não prenderia 343 mulheres. Ou melhor: não essas
mulheres. Dentre as assinaturas, estavam as de Ariane Mnouchkine,
Catherine Deneuve, Jeanne Moreau, Marguerite Duras. A redatora do
manifesto era ninguém menos que Simone de Beauvoir. Não prenderam
ninguém.
A esse manifesto, seguiram-se outros:
331 médicos assumiram-se a favor da causa. Na Alemanha, 374 mulheres
assinaram um manifesto em que diziam: Wir haben abgetrieben. Nós
abortamos. Entre as mulheres, Romy Schneider e Senta Berger. Em 1975
o aborto deixa de ser crime na França e passa a ser chamado de
“interrupção voluntária de gravidez”. A interrupção passa a
ser “livre e gratuita” até a décima semana de gestação.
Estamos muito longe dessa lei por
aqui. Nenhum dos candidatos a presidente parece interessado em
discuti-la. Tampouco a classe artística está interessada em sair do
armário nesse assunto. O Brasil vai na direção oposta. É
constrangedor ver os principais candidatos se estapeando pelo
eleitorado conservador. Não se trata de propor mudanças, trata-se
de vender apego à tradição. “Você me conhece, sabe que eu sou o
que mais acredita em Deus, o que mais passou longe de dar a bunda, de
cheirar pó, olhem só como minha filha é virgem, olhem só como meu
filho é hétero.” Todos estão desesperados pelo voto conservador.
Estranhamente, ninguém está nem aí pro voto aborteiro.
Se as eleições, como anuncia o
plantão da Globo, são a festa da democracia, essa festa, Dona
Globo, está meio caída — ou fui eu que bebi pouco. Na minha
opinião, tem pastor demais e maconha de menos. A maioria dos
candidatos não fede nem cheira — a não ser um deles, que cheira.
Um amigo gay outro dia disse que “levantar bandeira é cafona e
quem sai do armário é porque quer atenção”. Amigo, tudo bem,
ninguém é obrigado a sair do armário. Mas você não precisa
trancar a porta por dentro.
Sair do armário não é um ato
exibicionista. Levantar bandeira também não. O manifesto das 343
vagabundas, como ficou conhecido, não permitiu às manifestantes que
elas fizessem um aborto. Elas já o tinham feito. Permitiu às suas
filhas e netas.
Ateus, maconheiros, vagabundas,
pederastas, sapatões e travestis do mundo: uni-vos. Porque o lado de
lá tá bem juntinho.
Agosto de 2014
Gregório Duvivier, em Put some farofa
Soneto 18
Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.
Às vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.
Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste
inverno:
Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.
William Shakespeare, em Sonetos
Nono capítulo — Miragens da Solidão
Olhando as alturas, Muidinga repara
nas várias raças das nuvens. Brancas, mulatas, negras. E a
variedade dos sexos também nelas se encontrava. A nuvem feminina,
suave: a nua-vem, nua-vai. A nuvem-macho, arrulhando com peito de
pombo, em feliz ilusão de imortalidade.
E sorri: como se pode jogar com as
mais longínquas coisas, trazer as nuvens para perto como pássaros
que vêm comer em nossa mão. Se recorda da tristeza que o manchara
na noite anterior. Lembra as palavras que trocou com Tuahir:
— Tio, eu me sinto tão
pequeno...
— É que você está só. Foi o
que fez essa guerra: agora todos estamos sozinhos, mortos e vivos.
Agora já não há país.
A fala de Tuahir ainda agora remexe em
seu peito. Mas ele já não parece vencido. E se levanta cheio de uma
ideia. Toca nas costas do velho e lhe diz:
— Estamos sozinhos, não é, tio?
Tuahir esfrega os ensonados olhos. O
miúdo estaria zuca-zaruca? Se estava, era loucura convicta. Porque o
moço lhe pede que se junte a ele numa estranha brincadeira.
— Tio, vamos fazer um jogo. Vamos
fazer de conta que eu sou Kindzu e o senhor é o meu pai!
— Seu pai?
— Sim, o velho Taímo.
Tuahir negou. O tal Taímo era um
falecido. E com os falecidos nunca é bom brincar. Ainda por cima era
um morto desconsolado.
— Você não sabe o que pode
fazer um morto incompleto. Não lhe contei o que sucedeu com o
pescador Nipita?
— Conte, tio. Se é uma estória
me conte, nem importa se é verdade.
Tuahir lembra Nipita, um pescador que
fora esfaquinhado pelos bandos armados. Acontecera de noite, o
desgraçado voltou de madrugada, vinha buscar as tripas. Deixei-lhes
aqui, esbarriguei-me num nadinha, disse num derradeiro sopro.
Agora estando quase para morrer, não podia se presentar perante a
cova sem estar devidamente completo. Alguém ainda lhe disse: vai
que nós te levamos depois as partes que te faltam. E ele se
sepultou, assim, destripado. Nunca mais ninguém lhe levou os restos
de suas entranhas. O falecido pescador, agora, passava a morte a
maldiçoar os viventes.
— Está ver? Não se deve brincar
com os falecidos.
O miúdo entende os cuidados do velho.
Decide argumentar, escolhe as ideias. Mas tio, não vamos fazer
pouco. Ao contrário, se esse morto está desconsolado nós vamos lhe
dar sossego. Tuahir hesita. O miúdo não dá tempo, insistindo
sempre. É brincar no respeito, tio. E já se vai sentando, os
espantosos olhos fitando o velho.
— Certo, pai?
Pai? Tuahir sacode a cabeça. E fica
cismando. Depois de um tempo, porém, sua voz se abre, em fresta de
riso.
— Certo, Kindzu.
Muidinga, então, se deita ajeitando a
cabeça no colo do velho. Seus olhos se perdem no horizonte. O miúdo
não esperava que Tuahir aceitasse aquele jogo. Agora parece ser ele
que está menos à vontade que o velho.
— Estás a ver o monte, Kindzu?,
pergunta Tuahir.
— Estou. Quem sabe Gaspar anda
por lá, neste momento?
— Não anda, com certeza. Aquele
monte é proibido, disse o velho.
E prosseguiu: aquele era o lugar onde
há muito enterraram o régulo marreco. Naquela altura, não havia
nenhuma elevação, tudo em volta era planície. O morto começou a
crescer debaixo da terra e as suas costas se encurvaram, empurrando o
chão.
— Foi assim que nasceu a
montanha, conclui Tuahir.
Muidinga se embala, entorpecido. À
medida que aquele fingimento avança ele já não sabe se o que ali
se está passando não está ser tirado do livro, como folha rasgada
da própria realidade. Fecha os olhos e vê Tuahir, aliás Taímo, se
banhando num lago de sura. O velho sai do charco, escorrendo vinho
pelas pernas. Se admira:
— Por que estás tão reduzido,
filho?
— É que trago um desgosto de
mulher.
— Isso não tem remédio, filho. Eu
sei muito bem. Porque eu vivi num tempo em que o amor era uma coisa
perigosa. Tu vives num tempo em que o amor é uma coisa estúpida.
E o velho desenrola seu pensamento.
Nosso mundo de então era feito de miséria e fome. O que valia o
amor, a amizade? O único valor, nos actuais dias, é sobreviver.
Muidinga, aliás Kindzu, queria saber da felicidade; os outros
queriam saber de comida. Ele procurava bondade; os outros só queriam
saber quanta vantagem podiam tirar. À medida que Tuahir fala o miúdo
se sente minguar, pequeno, quase sem nenhuma idade. Ele carecia de
sua paterna mão. Porém, ao invés de ajudar, o velho lhe pede
apoio. Estava com frio, solicitou agasalho. O miúdo lhe cobre com
seu corpo. E sente pena de si. Como é que ele, tão menino, tão
recém-recente, andava cuidando de seu pai? Como é que a sua mão,
do tamanho de um beijo, protegia um homem tão volumoso? E lhe cresce
uma grande raiva para com seu pai. Afinal, nunca ele lhe cobrira dos
frios, nunca ele o empurrara para fora da tristeza. Ou seria que
apenas depois da infância ele poderia ser criança?
— Tio, vamos parar esta brincadeira.
Já sinto a cabeça me andar à volta.
— Tio? Então, Kindzu, agora você
me chama de tio? Será que não respeita seu falecido pai?
— Não, pai. É que...
E Muidinga se atrapalha em totais
confusões. É como se qualquer coisa, lá fundo de seu peito, se
estivesse rasgando. E se apercebe que, em seu rosto, desliza o frio
das lágrimas. Depois, sente a mão de seu pai lhe afagando a cabeça.
Olha o seu rosto e vê que, afinal, seus olhos eram sábios. Foi como
se, repente, toda a bondade dele ficasse visível, redonda.
— Pai, por que nunca me mostraste
como eras, dentro de ti?
— Tinha medo, filho. Não podia
mostrar esse defeito e dizer: olha este meu coração que nunca
cresceu!
Seu pai estava ali, grande, sem
mentira. Pela primeira vez alguém lhe dava abrigo. O mundo se
estreava, já não havia escuro, não havia frio. O autocarro
incendiado, Junhito maldiçoado, os corpos carbonizados, as mãos do
pastor Afonso sangrando, tudo isso ficava longe. De repente, o pai se
desata a rir. Por um instante, Muidinga receia que o tio deseje
quebrar aquele fingimento, cansado da ilusão. Mas não, o velho
prossegue a brincriação. E começa a palhaçar, cambalhotando, para
lhe fazer soltar gargalhadas. Cada riso do sobrinho lhe dá o gozo de
se sentir pai. Cada disparate de Tuahir traz a Muidinga a doçura de
ser filho.
— Eu só sei brincar, Kindzu. Só
te posso ensinar a ficares sempre criança.
— Sim, pai. Me ensine.
E eles se rebolam, em folgações
mútuas, alegres tresloucuras. Até que exausto, Muidinga se deita no
banco do machimbombo. Fazendo de almofada, se amontoam os cadernos de
Kindzu. Antes de adormecer o miúdo passa a mão por aquelas folhas,
em cúmplice afago.
Mia Couto, em Terra Sonâmbula
Banco barroco
— Quer comprar o meu banco? Ele não
está à venda.
Falava com superioridade de banqueiro
que se sabe forte na praça, capaz de resistir à pressão de grupos
econômicos poderosos. Tornou-se arrogante:
— Não vendo ele de jeito nenhum. Já
recusei muitas propostas. Por que havia de vender? Gosto dele, não
vai mudar de proprietário enquanto eu for vivo.
— Perdão, eu não queria comprar.
— Queria então o quê?
— Queria permissão para ver. Estou
estudando mobiliário barroco, e soube que o senhor tem em casa uma
peça valiosa.
— Valiosa? Pra mim ele não pode ser
avaliado em cruzeiros. Nem em dólar, que aliás hoje não é mais lá
essas coisas. O senhor quer ver apenas?
— Ver e, com sua licença,
fotografar.
— Ah, fotografar pra quê? Pra botar
no jornal?
— Não trabalho em jornal.
— Então, trabalha pro governo, já
vi tudo. Vem ver o meu banco, tira retrato, faz relatório, depois,
pimba: o governo desapropria o meu banco por essa tal de utilidade
pública. Muito bonito.
— O senhor está completamente
enganado. Não sou funcionário público, sou estudante e trabalho no
escritório da Light. Olhe aqui as minhas carteiras.
— Carteiras? Carteira não prova
nada.
— Bem, se não acredita…
— Prefiro acreditar na sua cara, que
me parece de gente de bem. Pode entrar.
A salinha era pobre, só o banco
impunha sua classe, misturado a trastes sem estilo.
— Século XVII, no duro. Joia.
— Eu sei, eu conheço o que é meu.
— O senhor permite que eu tome as
medidas?
— Pra que tirar medida? Não chega
tirar retrato?
— Para documentar bem a peça. Vou
fazer um sucesso danado lá na Escola, com o trabalho sobre este
banco.
A desconfiança voltou a acinzentar os
olhos do dono:
— Sei não. Este seu interesse pelo
meu banco…
— O senhor está pensando que eu vim
a mando de algum antiquário? Dou minha palavra de honra que faço
uma pesquisa escolar.
— Bom, pode tirar as medidas.
O rapaz aproximou-se, alisou o couro
lavrado, com carinho. Banco de igreja nordestina, jacarandá
venerando, oito pés retorcidos, duas traves torneadas, como é que
um tesouro desses foi parar naquela casinha vulgar de Madureira?
— Vou dar ao senhor cópias das
fotos.
— Não carece, moço. Prefiro olhar
pro meu banco do que olhar pro retrato dele.
— O senhor… posso saber como essa
coisa linda veio ter às suas mãos?
— Olha só a curiosidade dele. Eu
não falei? Agora tem fiscalização de móveis na casa da gente?
— Não precisa responder, é claro.
Está se vendo que isto é um bem de família, o senhor herdou de seu
pai.
— E meu pai de meu avô. Meu avô do
pai dele, ou da mãe, sei lá. Negócio muito do antigório.
— Mas este banco não é do tempo do
seu bisavô. É muito mais antigo.
— Como é que eu posso saber quem
foi a primeira pessoa da minha família que possuiu este banco? Não
sou adivinhão.
— Bem, ele saiu duma igreja.
— Isso eu sei.
— Não estou duvidando de sua
família, claro. Absolutamente. Mas seus pais não lhe contaram nada,
nada, não lhe falaram de uma tradição da família em torno deste
banco?
Ficou pensativo, coçando a testa.
— Parece que tinha um padre…
— Lógico que tinha um padre.
— Vou confiar no senhor. Negócio
perdido na fumaceira do tempo, né? a gente pode contar.
— Isso.
— Uma dona da nossa família era
casada com ele. Naquela base, entende? O padre morreu, a comadre
guardou o banco de lembrança. O senhor vê que este banco é
sagrado. Não vendo ele pra Onassis nenhum. Ninguém tem o direito de
sentar nele. Nem eu. Sou pobre mas sustento a honra do passado. Agora
que já sabe tudo, o senhor aceita uma xicra de café coado na hora?
Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica
sexta-feira, 29 de maio de 2026
O “verdadeiro” romance
Bem sei o que é o chamado verdadeiro
romance. No entanto, ao lê-lo, com suas tramas de fatos e
descrições, sinto-me apenas aborrecida. E quando escrevo não é o
clássico romance. No entanto é romance mesmo. Só que o que me guia
ao escrevê-lo é sempre um senso de pesquisa e de descoberta. Não,
não de sintaxe pela sintaxe em si, mas de sintaxe o mais possível
se aproximando e me aproximando do que estou pensando na hora de
escrever. Aliás, pensando melhor nunca escolhi linguagem. O
que eu fiz, apenas, foi ir me obedecendo.
Ir me obedecendo — é na verdade o
que faço quando escrevo, e agora mesmo está sendo assim. Vou me
seguindo, mesmo sem saber ao que me levará. Às vezes ir me seguindo
é tão difícil — por estar seguindo em mim o que ainda não passa
de uma nebulosa — que termino desistindo.
E os romances que escrevo que não
passam do título? Porque seria muito difícil escrevê-los ou
porque, já tendo uma ideia precisa do desenrolar-se da história,
perco a curiosidade de escrevê-la. Embora representando grande
risco, só é bom escrever quando ainda não se sabe o que
acontecerá. Agora mesmo, neste próprio instante, ou melhor, há
alguns instantes em que interrompi para atender ao telefone,
nasceu-me um título do que seria um conto ou um romance: O
montanhês. O título é sem graça, bem sei. E sei o que seria:
não se trataria de um homem das montanhas, mas da subida gradual de
um homem através da vida até chegar a um cume simbólico, ou não
simbólico de uma montanha, de onde ele veria o seu passado e também
o que lhe restava ainda a subir, isto é, um pouco mais de futuro.
E o que ele via não era bonito, nem
bom, nem ruim, nem feio, era o que fatalmente a vida fizera dele e
sobretudo o que fatalmente ele fizera da vida. E aí vem o problema:
até que ponto fora fatal o que ele fizera na vida e esta dele? Até
que ponto houvera escolha? Estou me confundindo toda com esta
história que jamais escreverei.
E eu, que já viajei bastante e não
quero mais viajar, como é que nunca me ocorreu nem ocorrerá jamais
escrever um livro de viagens? Com perdão da palavra, sou um mistério
para mim. E, ainda fazendo parte deste mistério, por que leio tão
pouco? O que era de se esperar é que eu tivesse verdadeira fome de
leituras. Também para ver o que os outros fazem. No entanto só
consigo ler coisas que, se possível, caminhem direto ao que querem
dizer. Não, positivamente, não me entendo. Bem, mas o fato é que
mesmo não me entendendo, vou lentamente me encaminhando — e também
para o quê, não sei. De um modo geral, para mais amor por tudo. É
vago “mais amor por tudo”? Inclusive mais amor inclui uma
alerteza maior para achar bonito o que nem mesmo bonito é. E, embora
a palavra humano me arrepie um pouco, de tão carregada de
sentidos variados e vazios essa palavra foi ficando, sinto que me
encaminho para o mais humano. Ao mesmo tempo as coisas do mundo —
os objetos — estão se tornando cada vez mais importantes para mim.
Vejo os objetos sem quase me misturar com eles, vendo-os por eles
mesmos. Então às vezes se tornam fantásticos e livres, como se
fossem coisa nascida e não feita por pessoas. Se eu for me
encaminhando para o mais humano não quer dizer que eu precise
perder essa qualidade que tenho às vezes de enxergar a coisa pela
coisa. Porque — e aí vou eu entrando com sofisma só para me
defender — se sendo gente eu consigo ir, por que haveria de perder
essa capacidade ao me tornar mais gente? Ah, Deus, sinto que é puro
sofisma. Aliás o sofisma como forma de raciocínio sempre me atraiu
um pouco, passou a ser um de meus defeitos. Explicável porque sempre
tive que me defender muito, e com sofismas se consegue. Talvez, quem
sabe, eu que agora me defendo menos, largue pelo caminho o
raciocínio-sofisma. Talvez eu não precise mais ganhar para me
defender. O sofisma faz ganhar muito em discussões — há anos que
não discuto — e em explicação para si mesma das próprias ações
inexplicáveis etc. De agora em diante eu gostaria de me defender
assim: é porque eu quero. E que isso bastasse.
Bem, fui escrevendo ao correr do
pensamento e vejo agora ter me afastado tanto do começo que o título
desta coluna já não tem nada a ver com o que escrevi. Paciência.
Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida
Natureza e Arte
Nenhuma natureza é inferior à arte,
pois as artes imitam as naturezas das coisas. Sendo assim, a natureza
mais perfeita e abrangente não pode carecer da maestria artística.
Agora, todas as artes criam o inferior em prol do superior. Portanto,
a natureza universal também o faz.
Nisso está a origem da justiça, e
nela as outras virtudes se fundamentam. Afinal, não é possível ser
justo ao valorizar as coisas indiferentes, ao ser facilmente iludido
e ao ser descuidado e instável.
Marco Aurélio, em Meditações
Terrinas
Chovia em Paris, e não tínhamos
guarda-chuva. Saímos do hotel nos esgueirando. (Esgueirar-se: a arte
de andar entre pingos de chuva ou sob marquises. Sua principal
característica é que nunca dá certo.) Decidimos entrar no primeiro
restaurante que aparecesse.
Chamava-se Oeuf à la Poche, numa
clara referência ao seu tamanho. Estava vazio. Sentamo-nos, depois
de sacudir a água na entrada, com aquele falso ar de habitués
que deve nos acompanhar em qualquer lugar absolutamente estranho. Um
cachorro veio nos examinar em silêncio e, satisfeito ou desapontado,
voltou para o seu lugar perto do balcão. De trás do qual saiu um
cabeludo com duas terrinas que colocou sobre a nossa mesa, silencioso
como o seu cachorro. Uma terrina continha um patê pela metade. A
outra era indecifrável. Dali a pouco, o cabeludo voltou com mais
duas terrinas. Depois, mais duas. E mais duas!
Conseguimos identificar champignons,
salames, rillettes e pouca coisa mais. Quando trouxe o pão, o
cabeludo perguntou se queríamos vinho. Suspirei aliviado. Ele não
nos odiava! Pedi um tinto. E como não aparecesse ninguém com um
cardápio e eu é que não ia pedir explicações sobre que tipo de
restaurante era aquele, afinal, atacamos as terrinas e o pão como
quem não espera outra coisa.
Só de baguette foi um quilômetro, e
não ficou terrina sobre terrina. Estávamos nos congratulando pela
descoberta acidental do restaurante, e tentando nos lembrar de quando
tínhamos comido tanto e tão bem quando surgiu uma moça, um pouco
menos feminina do que o cabeludo, e perguntou que prato quente
iríamos querer, depois da entrada. Tinham boeuf bourguignon,
tinham... Pedimos cada um um prato quente, de pura timidez.
Estou recontando esta história sem
qualquer proveito social que a redima por que mesmo? Talvez só para
dizer que anos depois procuramos o “Oeuf à la Poche” e não o
encontramos mais. Suas terrinas muito generosas ou, quem sabe, a
melancolia do cachorro tinham derrotado a proposta. Ou talvez seja
uma história inspiradora: não confunda os aperitivos que o destino
lhe serve com a vida, cedo ou tarde aparecerá o prato quente. Sei
lá.
E a chuva em Paris? Não parou. Choveu
todos os dias, até que resolvemos tomar uma providência. Compramos
guarda-chuvas. Aí ela parou.
Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora
Capítulo 54 — A Pêndula
Saí dali a saborear o beijo. Não
pude dormir; estirei-me na cama, é certo, mas foi o mesmo que nada.
Ouvi as horas todas da noite. Usualmente, quando eu perdia o sono, o
bater da pêndula fazia-me muito mal; esse tique -taque soturno,
vagaroso e seco, parecia dizer a cada golpe que eu ia ter um instante
menos de vida. Imaginava então um velho diabo, sentado entre dois
sacos, o da vida e da morte, a tirar as moedas da vida para dá-las à
morte, e a contá-las assim:
— Outra de menos...
— Outra de menos...
— Outra de menos...
— Outra de menos...
O mais singular é que, se o relógio
parava, eu dava-lhe corda, para que ele não deixasse de bater nunca,
e eu pudesse contar todos os meus instantes perdidos. Invenções há,
que se transformam ou acabam; as mesmas instituições morrem; o
relógio é definitivo e perpétuo; o derradeiro homem, ao
despedir-se do sol frio e gasto, há de ter um relógio na algibeira,
para saber a hora exata em que morre.
Naquela noite não padeci essa triste
sensação de enfado, mas outra, e deleitosa. As fantasias
tumultuavam-me cá dentro, vinham umas sobre outras, à semelhança
de devotas que se abalroam para ver o anjo-cantor das procissões.
Não ouvia os instantes perdidos, mas os minutos ganhados; e de certo
tempo em diante não ouvi coisa nenhuma, porque o meu pensamento,
ardiloso e traquinas, saltou pela janela fora e bateu as asas na
direção da casa de Virgília. Aí achou ao peitoril de uma janela o
pensamento de Virgília, saudaram-se e ficaram de palestra. Nós a
rolarmos na cama, talvez com frio, necessitados de repouso, e os dois
vadios ali postos, a repetirem o velho diálogo de Adão e Eva.
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas
O Homem que Calculava — Capítulo 23
O bairro humilde em que moramos
assinalou hoje o seu primeiro dia glorioso na História.
Beremiz, pela manhã, recebeu
inesperadamente a honrosa visita do príncipe Cluzir Schá.
Quando a aparatosa comitiva irrompeu
pela rua, terraços e varandas encheram-se de curiosos. Mulheres,
velhos e crianças admiravam, mudos e estarrecidos, o maravilhoso
espetáculo.
Vinham na frente cerca de trinta
cavaleiros montados em soberbos corcéis árabes com arreios
tauxiados e gualdrapas de veludo bordado a prata; traziam turbantes
brancos com elmos metálicos reluzindo ao sol, mantos e túnicas
alvadias, largas cimitarras pendentes de cintas de couro lavrado.
Precediam-nos estandartes com o escudo do príncipe — um elefante
branco sobre fundo azul. Seguiam-se vários arqueiros e batedores,
todos a cavalo.
Encerrando o cortejo surgiu o poderoso
Marajá, acompanhado de dois secretários, três médicos e dez
pajens. O príncipe trajava uma túnica escarlate, toda adornada com
fios de pérolas. No turbante, de uma riqueza inaudita, cintilavam
incontáveis safiras e rubis.
Quando o velho Salim viu a sua
hospedaria receber aquela majestosa comitiva, foi tomado por um
acesso de loucura. Atirou-se ao chão e começou a gritar:
— Men ein?(1)
Mandei que um aguadeiro que ali se
achava, com ar de basbaque, arrastasse o alucinado amigo para o fundo
do pátio, até que a calma voltasse a dominar-lhe o conturbado
espírito.
A sala da hospedaria era pequena para
conter os ilustres visitantes. Beremiz, maravilhado com a honrosa
visita, desceu ao pátio a fim de recebê-los.
O príncipe Cluzir, ao chegar, com seu
porte altamente senhoril, saudou o calculista com amistoso salã, e
disse-lhe:
— O pior sábio é aquele que
frequenta os ricos; o maior dos ricos é o que frequenta os
sábios!(2)
— Bem sei, senhor! — respondeu
Beremiz —, que as vossas palavras inspira-as o mais arraigado
sentimento de bondade. A pequena e insignificante parcela de ciência
que consegui adquirir desaparece diante da infinita generosidade de
vosso coração.
— A minha visita, ó Calculista —
atalhou o príncipe —, é ditada mais pelo egoísmo do que pelo
amor à ciência. Depois que tive o prazer de ouvi-lo em casa do
poeta Iezid, pensei em oferecer-lhe algum cargo de prestígio em
minha corte. Desejo nomeá-lo meu secretário ou diretor do
Observatório de Délhi. Aceita? Partiremos dentro de poucas semanas
para Meca e de lá para a Índia.
— Infelizmente, ó Príncipe
generoso — respondeu Beremiz —, não posso afastar-me, agora, de
Bagdá. Prende-me a esta cidade sério compromisso. Só poderei
ausentar-me daqui depois que a filha do ilustre Iezid tiver aprendido
as belezas da Geometria!
Sorriu o marajá e retorquiu:
— Se o motivo de sua recusa assenta
nesse compromisso, creio que mui breve chegaremos a acordo.
O xeque Iezid disse-me que a jovem
Telassim, dados os progressos feitos, dentro de poucos meses estará
em condições de ensinar aos ulemás o famoso problema das pérolas
do rajá.
Tive a impressão de que as palavras
do nosso nobre visitante haviam surpreendido Beremiz. O calculista
parecia meio confuso.
— E eu muito folgaria — alvitrou
ainda o príncipe — em conhecer esse complicado problema que vem
desafiando a sagacidade dos algebristas e que remonta, sem dúvida, a
um dos meus gloriosos antepassados. Refiro-me ao chamado “problema
das pérolas do rajá”.
Beremiz, para atender à curiosidade
do marajá, tomou da palavra e discorreu sobre o problema que
interessava ao príncipe. E, no seu falar lento e seguro, disse o
seguinte:
— Trata-se menos de um problema do
que de mera curiosidade aritmética. É o seguinte o seu enunciado:
“Um rajá deixou às suas filhas
certo número de pérolas e determinou que a divisão se fizesse do
seguinte modo: a filha mais velha tiraria 1 pérola e um sétimo do
que restasse; viria, depois, a segunda e tomaria para si 2 pérolas e
um sétimo do restante; a seguir a terceira jovem receberia pérolas
e um sétimo do que restasse. E assim sucessivamente.
As filhas mais moças apresentaram
queixa a um juiz, alegando que, por esse sistema complicado de
partilha, elas seriam fatalmente prejudicadas.
O juiz que — reza a tradição —
era hábil na resolução do problema, respondeu prontamente que as
reclamantes estavam enganadas e que a divisão proposta pelo velho
rajá era justa e perfeita.
E tinha razão. Feita a partilha, cada
uma das herdeiras recebeu o mesmo número de pérolas.”
— Pergunta-se: Qual o número de
pérolas? Quantas as filhas do rajá?
A solução para esse problema não
oferece a menor dificuldade.
Vejamos.
As pérolas eram em número de 36 e
deviam ser repartidas por 6 pessoas.
A primeira tirou uma pérola e mais um
sétimo de 35, isto é, 5; logo, tirou 6 pérolas e deixou 30.
A segunda, das 30 que encontrou, tirou
2 mais um sétimo de 28, que é 4; logo, tirou 6 e deixou 24.
A terceira, das 24 que encontrou,
tirou 3 mais um sétimo de 21, ou 3. Tirou, portanto 6, deixando 18
de resto.
A quarta, das 18 que encontrou, tirou
4 e mais um sétimo de 14. E um sétimo de 14 é 2. Recebeu, também,
6 pérolas.
A quinta encontrou 12 pérolas; dessas
12 tirou 5 e um sétimo de 7, isto é, 1; logo, tirou 6.
A filha mais moça recebeu, por fim,
as 6 pérolas restantes.
E Beremiz concluiu:
— Como vedes, o problema, embora
engenhoso, nada tem de difícil. Chega-se à solução sem artifícios
ou sutileza de raciocínio.
Nesse momento, a atenção do príncipe
Cluzir Schá foi despertada por um número que se achava escrito
cinco vezes na parede do quarto; 142.857.
— Que significação tem esse
número? — perguntou.
— Trata-se — respondeu o
calculista — de um dos números mais curiosos em Matemática. Ele
apresenta, em relação aos seus múltiplos, coincidências
interessantes.
Multipliquemo-lo por 2. O produto
será:
142.857 × 2 = 285.714
Vemos que os algarismos constitutivos
do produto são os mesmos do número dado, em outra ordem. O 14 que
se achava à esquerda transportou-se para a direita.
Efetuemos o produto do número 142.857
por 3:
142.857 × 3 = 428.571
Ainda uma vez observamos a mesma
singularidade: os algarismos do produto são, precisamente, os mesmo
do número, alterada apenas a ordem. O 1 que se achava à esquerda
passou para a direita, os outros algarismos lá ficaram, onde
estavam.
A mesma coisa ocorre, ainda, quando o
número é multiplicado por 4:
142.857 × 4 = 571.428
Notemos, agora, o que vai ocorrer no
caso da multiplicação por 5:
142.857 × 5 = 714.285
O algarismo 7 deslocou-se da direita
para a esquerda, os restantes permaneceram em seus lugares.
Observemos a multiplicação por 6:
142.857 × 6 = 857.142
Feito o produto nota-se que o grupo
142 permutou, apenas, de posição com 857.
Uma vez chegados ao fator 7,
impressiona-nos outra particularidade. O número 142.857 multiplicado
por 7 dá como produto o número:
999.999
formado de seis noves!
Experimentemos multiplicar o número
142.857 por 8. O produto será:
142.857 × 8 = 1.142.856
Todos os algarismos do número
aparecem, ainda, no produto, com exceção do 7. O 7 do número
primitivo foi decomposto em duas partes: 6 e 1. O algarismo 6 ficou à
direita e o 1 foi para a esquerda completar o produto.
Vejamos agora o que acontece quando
multiplicamos o número 142.857 por 9:
142.857 × 9 = 1.285.713
Observemos com atenção esse
resultado. O único algarismo do multiplicando que não figura no
produto é o 4. Que teria acontecido com ele? Aparece decomposto em
duas parcelas 1 e 3, colocados nos extremos do produto.
Do mesmo modo poderíamos verificar as
singularidades que apresenta o número 142.857 quando multiplicado
por 11, 12, 13, 15, 17, 18 etc.4
Eis por que o número 142.857 se
inclui entre os números cabalísticos da Matemática. Ensinou-me o
dervixe Nô-Elin...
— Nô-Elin! — repetiu, tomado de
vivo júbilo, o príncipe Cluzir Schá. — É possível que tenha
conhecido esse sábio?
— Conheci-o muito bem, ó Príncipe
— respondeu Beremiz. — Com ele aprendi todos os princípios que
hoje aplico nas pesquisas matemáticas.
— Pois o grande Nô-Elin —
explicou o hindu — era amigo de meu pai. Certa vez, vencido pelo
desgosto, por ter perdido um filho em combate, numa guerra injusta e
cruel, afastou-se da cidade e nunca mais foi visto. Tenho feito
várias pesquisas para encontrá-lo, mas até hoje não consegui
obter a menor indicação sobre seu paradeiro. Cheguei, até, a
admitir que ele tivesse perecido no deserto, devorado pelas panteras.
Saberá, acaso, dizer-me onde poderei encontrar Nô-Elin?
Respondeu Beremiz:
— Quando parti para Bagdá deixei o
sábio Nô-Elin em Khói, na Pérsia, recomendado a três amigos.
— Pois logo que eu regresse de Meca
iremos à cidade de Khói buscar esse grande ulemá — respondeu o
príncipe. — Quero levá-lo para o meu palácio! Poderá você, ó
Calculista, auxiliar-me nessa grandiosa empresa?
— Senhor! — apoiou Beremiz. — Se
é para prestar auxílio e fazer justiça àquele que foi meu guia e
mestre, pronto estou para acompanhar-vos, se for preciso, até à
Índia.
E, assim, por causa de 142.857, ficou
resolvida a nossa viagem à Índia, a terra dos rajás.
O tal número é realmente
cabalístico!
Notas:
(1) Para onde? (Para onde me vão
levar?)
(2) Verso árabe.
Malba Tahan, em O Homem que Calculava
quinta-feira, 28 de maio de 2026
Anarquia
Anarquia é apenas uma proposta social em que você dá ao palhaço a administração do circo. (E quase sempre ele é muito bem-sucedido).
Millôr Fernandes, em A bíblia do caos
1624 – Lima
“A endiabrada”
Luz de lua à uma, anuncia o sino da
igreja, e dom Juan de Mogrovejo de la Cerda sai da taverna e se põe
a caminhar pela noite de Lima, cheirosa de flores de laranjeira.
Ao chegar no cruzamento da rua do
Trato, escuta vozes estranhas ou ecos; para e estica a orelha.
Um tal de Asmodeu está dizendo que
mudou várias vezes de residência desde que saiu de Sevilha Ao
chegar a Portobelo habitou os corpos de vários mercadores que chamam
o engano de trato, o furto de lucro e a gazua de vara de medir; e
no Panamá mudou-se e passou a viver dentro de um hipócrita da
cavalaria, de nome falso, que sabia de memória a cópia dos
duques, o calendário dos marqueses e a ladainha los condes...
– Conta uma coisa, Asmodeu. Guardava
esse sujeito os mandamentos da cavalaria moderna?
– Todos, Amonio. Mentia e não
pagava as dívidas nem dava importância ao sexto mandamento; se
levantava sempre tarde, falava na missa e sentia frio o tempo
inteiro, o que dizem ser de bom gosto. E olha que é difícil sentir
frio no Panamá, com aqueles calores que o inferno gostaria de ter.
No Panamá as pedras suam e dizem as pessoas: “Depressa com a sopa,
que vai esquentar”.
O indiscreto dom Juan de Mogrovejo de
la Cerda não pode ver Asmodeu nem Amonio, que se falam de longe, mas
basta saber que tais nomes não figuram no santoral e sentir o cheiro
do inconfundível bafo de enxofre, que invadiu o ar, como se não
bastasse o tema de conversa tão eloquente. Dom Juan esmaga suas
costas contra a alta cruz da esquina do Trato, cuja sombra impede,
através da rua, que Asmodeu e Amonio se aproximem; faz o sinal da
cruz e imediatamente convoca toda uma esquadra de santos para sua
proteção e socorro. Mas não pode rezar, porque quer escutar. Não
vai perder uma palavra disto.
Asmodeu conta que saiu do corpo
daquele cavaleiro para meter-se em um clérigo renegado e depois, na
viagem ao Peru, encontrou pousada nas entranhas de uma beata
especializada em vender donzelas.
– Assim cheguei a Lima, em cujos
labirintos muito norte me serão tuas advertências. Dê-me notícias
destas dilatadas províncias... São bem ganhados os dinheiros?
– Se o fossem, mais desocupado
estaria o inferno.
– Por que caminho hei de tentar
os mercadores?
– Procurando que o sejam, e
deixando-os.
– Pelos superiores, têm aqui
amor ou respeito?
– Medo.
– Pois o que haverá de fazer o
que queira prêmio?
– Não merecê-lo.
Dom Juan invoca a Virgem de Atocha,
busca o rosário, que esqueceu, e aperta o pomo da espada, enquanto
continua o questionário sobre Lima que Amonio, depressinha,
responde.
– E quanto aos presumidos de
gala, te pergunto se vestem bem.
– Poderiam, pelo muito que todo o
ano cortam.
– Tanto murmuram?
– De maneira que em Lima todas as
horas são críticas.
– Diz-me agora, por que chamam os
Francisco de Panchos, os Luises de Luchos e as Isabelas de Chabelas?
– Primeiro para não dizer a
verdade, segundo, para não dizer os nomes dos santos.
Sofre então dom Juan um inoportuno
ataque de tosse. Escuta gritar: Fujamos, fujamos!, e ao final
de um longo silêncio se desgruda da cruz que o protegia. Com os
joelhos tremendo, dá uma olhada na rua dos Mercadores e nos postais
da Província. Dos boquirrotos, não sobra nem sombra.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
Diário de Bernardo Soares
111.
Todo o homem de hoje, em quem a
estatura moral e o relevo intelectual não sejam de pigmeu ou de
charro, ama, quando ama, com o amor romântico.
O amor romântico é um produto
extremo de séculos sobre séculos de influência cristã; e, tanto
quanto à sua substância, como quanto à sequência do seu
desenvolvimento, pode ser dado a conhecer a quem não o perceba
comparando-o com uma veste, ou traje, que a alma ou a imaginação
fabriquem para com ele vestir as criaturas, que acaso apareçam, e o
espírito ache que lhes cabe.
Mas todo o traje, como não é eterno,
dura tanto quanto dura; e em breve, sob a veste do ideal que
formámos, que se esfacela, surge o corpo real da pessoa humana, em
quem o vestimos.
O amor romântico, portanto, é um
caminho de desilusão. Só o não é quando a desilusão, aceite
desde o princípio, decide variar de ideal constantemente, tecer
constantemente, nas oficinas da alma, novos trajes, com que
constantemente se renove o aspeto da criatura, por eles vestida.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
Ah, jagunço não despreza quem dá ordens diabradas.
[…]
O que na hora achei, foi que Diadorim
estivesse me relembrando de Medeiro Vaz não ter conseguido cruzar a
travessia do raso. Mas Diadorim, também, não adivinhou meu
espírito. Pois, por aquela conta, mesma, era que eu queria. Sobre o
que eu era um homem, em sim, fantasia forra, tendo em nada aqueles
perigos, capaz do caso. Para vencer vitória, aonde nenhum outro
antes de mim tivesse! Respinguei dessas faíscas constantes. Eu, não!
o cujo do orgulho, de mim, do impossível.
Descia e subia a fumaça da noite.
Esbarramos. Era numa curta vereda, duns brejos, buritizalzinho.
Acendemos fogo. Aí mal dormi, fortíssimo no meu segredo. Um meu
primeiro sono, sim. O resto, foi ondas. Reprazer crú dessa
espiritação ― eu ardia em mim, e em satisfa contente, feito fosse
véspera duma patusqueira.
As forças me amanheceram acordado.
Adiante da gente, o mangabeiral.
Depois, o raso. Aí o Liso do Sussuarão ― em fundo e largo,
as cinquenta léguas e as quase trinta léguas, das mais. Ninguém me
fazia voltar a seco de lá. Aquela hora, eu só não me desconheci,
porque bebi de mim ― esses mares. Também eu não ia naquilo sem
alguma razão, mas movido merecido. Por conta do Hermógenes? Nossos
dois bandos viajavam em guerra e contraguerra, e desenrolando
caminhos, por esses Gerais, cães, se caçando. Só que o sertão é
grande ocultado demais. Então, eu ia, varava o Liso, ia atacar a
Fazenda dele, com família. Ovo é coisa esmigalhável. E a bem. Para
vencer justo, o senhor não olhe e nem veja o inimigo, volte para a
sua obrigação. Mas eu dava as costas à cobra e achava o ninho
dela, para melhor acerto. Ao que, esse não tinha sido o arrojo de
Medeiro Vaz?
O dia parava formoso, suando sol,
mesmo o vento suspendido. Vi o chão mudar, com a cor de velho, e as
lagartixas que percorriam de leve, por debaixo das môitas de
caculucage. O pessoal meu não devia de estar com inquietação? Vi
uma coruja ― mas corujinha entortadeira; e coruja só agoura mesmo
é em centro de noite, quando dá para risã. E cuspi no branco leite
duma maria-brava, que toda às sãs cheirosa florescia. Era a hora.
Repuxei os freios, bem esbarrando. Equei os meus homens.
― Aqui, gente.
Guerreiros em minha presença! Com
certo reboliço, como todos vieram, para saber daquela novidade.
Declarei a eles. Todos me entenderam? Em fila ― as caras todas
ficando iguais. Me seguissem? Ah, nenhum não tinha ar do que ia ser,
e que fazia tantos dias eu tencionava. Nem João Goanhá, Marcelino
Pampa, João Concliz, nem o Alaripe. Nem Diadorim. Diadorim me olhou
tremeluzentemente: de coragem, de disposto. Ele, sim. Mas, os outros?
Seria que medissem meu mor atrevimento? Era feito se eu estivesse
aloucado extenso.
Porque, o que eu estava mandando, nem
Medeiro Vaz mesmo não teria sido capaz de crer: eu queria tudo, sem
nada! Aprofundar naquele raso perverso ― o chão
esturricado, solidão, chão aventêsma ― mas sem preparativos
nenhuns, nem cargueiros repletos de bom mantimento, nem bois tangidos
para carneação, nem bogós de couro-crú derramando de cheios, nem
tropa de jegues para carregar água. Para que eu carecia de tantos
embaraços? Pois os próprios antigos não sabiam que um dia virá,
quando a gente pode permanecer deitada em rede ou cama, e as enxadas
saindo sozinhas para capinar roça, e as fôices, para colherem por
si, e o carro indo por sua lei buscar a colheita, e tudo, o que não
é o homem, é sua, dele, obediência? Isso, não pensei ― mas meu
coração pensava. Eu não era o do certo: eu era era o da sina! E
nem enviei adiante nenhuma patrulha de farejadores ― nem Suzarte,
Nelson ou o Quipes, que tapejassem; nem o Tipote para trilhar e
entender, ver se divulgava os socorros: alguma grota duvidável d
água.
Se o cada um que se valesse, cada um
que me seguisse. ― Agora vamos entrar, para pernoitar lá dentro...
― eu determinei. Só era se aviar. Mas o menino Guirigó, mal me
ouvindo, falou!
― A gente? A gente.
Esse era um menino, eu não devia de
mandar alguém conduzir o Guirigó de volta, para que em lugar seguro
deixassem? No ar não fiz. Se não, por que era então que ele para
tudo tinha vindo? Os outros, não me cumprissem, eu havia de voltar
de lá, dar de mão de minha tenção? Nuncas. Só melhor sozinho eu
ia. Ia, por meus brancos ossos. Transe, tempo, que esperei a resposta
deles. Dei a palavra! Meus homens. Ah, jagunço não despreza quem dá
ordens diabradas.
― Se amanhã meu dia for, em
depois-d’amanhã não me vejo.
― Antes de menino nascer, hora de
sua morte está marcada!
― Teu destino dando em data, da
meia-noite tu vivente não passa...
Os que diziam assim eram todos eles,
secundando os cabecilhas. Valentes que eram, e como foram se
animando. Ao que me obedeciam, ao meu melhor em redor. A gente andou
no comum, até ao fim do grameal. Aí, se estava, se esbarrava,
frente a frente com o Liso. Rédeas às ordens. A gente se moveu.
Sol em glória. Eu pensei em Otacília;
pensei, como se um beijo mandasse. Soltando rédeas, entrei nos
horizontes. Aonde entrei, na areia cinzenta, todos me acompanhando. E
os cavalos, vagarosos; viajavam como dentro dum mar.
O senhor vê e vê? Alguém a alto me
levou, alguém, salvo a um seguinte. Aguas não desmanchavam meu
torrão de sal. Ah, nem eu não tive incerteza em mente. Assim fomos.
Aí eu em frente adiante.
A fortes braços de anjos sojigado. O
digo? Os outros, a em passo em passo, usufruíam quinhão da minha
andraja coragem.
[...]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas
Assinar:
Postagens (Atom)










