sexta-feira, 8 de maio de 2026

Eu não te Ouço | Trailer

Piloto de Guerra


V

A angústia se deve à perda de uma verdadeira identidade. Se espero uma mensagem da qual depende minha felicidade ou o meu desespero, sou como que lançado no nada. Enquanto a incerteza me mantém em suspense, meus sentimentos e minhas atitudes não passam de um disfarce provisório. O tempo cessa de fundar, segundo por segundo, como constrói a árvore, o personagem verdadeiro que me habitará em uma hora. Esse eu desconhecido vem ao meu encontro, de fora, como um fantasma. Então tenho uma sensação de angústia. A má notícia provoca não a angústia, mas o sofrimento: é completamente diferente.
Entretanto, eis que o tempo deixou de correr no vazio. Estou enfim instalado na minha função. Não me projeto mais num futuro sem rosto. Não sou mais aquele que esboçará, talvez, uma espiral no turbilhão do incêndio. O futuro não me assombra mais, como uma estranha aparição. Meus atos, doravante, uns após os outros, o compõem. Sou aquele que controla a bússola para mantê-la a 313 graus. Que regula a rotação das hélices e o aquecimento do óleo. São as preocupações imediatas e sãs. São preocupações da casa, os pequenos deveres do dia que suavizam o gosto do envelhecer. O dia se torna casa bem lustrada, assoalho bem encerado, oxigênio bem gasto. Eu controlo, com efeito, o consumo de oxigênio, pois subimos rápido: seis mil e setecentos metros.
Tudo bem com o oxigênio, Dutertre? Está se sentindo bem?
Tudo bem, Capitão.
Ei, Artilheiro, o oxigênio está bem?
Eu… Sim… Tudo bem, Capitão…
Você ainda não achou seu lápis?
Torno-me também aquele que aperta o botão S e o botão A para controlar minhas metralhadoras. A propósito…
Ei, Artilheiro, não tem uma cidade grande, atrás, em seu campo de tiro?
Hã… Não, Capitão.
Vai. Teste as suas metralhadoras.
Ouço suas rajadas.
Funcionaram?
Funcionaram.
Todas as metralhadoras?
Hã… Sim… Todas.
Eu também atiro. Pergunto-me aonde vão essas balas que lançamos sem escrúpulo ao longo dos campos amigos. Nunca matam ninguém. A terra é grande.
Cada minuto assim me alimenta de seu conteúdo. Eu sou alguma coisa tão pouco angustiada quanto um fruto amadurecendo. Decerto, as condições do voo mudarão à minha volta. As condições e os problemas. Mas estou inserido na fabricação desse futuro. O tempo me molda aos poucos. A criança não se assusta por pacientemente transformar-se num velhinho. É criança e brinca suas brincadeiras de criança. Eu brinco também. Conto os mostradores, os manetes, os botões, os manches de meu reino. Conto cento e três objetos a verificar, puxar, virar ou empurrar. (Só blefei ao contar como dois o comando de minhas metralhadoras: ele tem um pino de segurança.) Vou divertir o fazendeiro que me hospeda esta noite. Vou lhe dizer:
O senhor sabe quantos instrumentos um piloto hoje em dia precisa controlar?
Como é que você quer que eu saiba?
Não faz mal. Diga um número.
Que número você quer que eu diga?
Pois meu fazendeiro não tem nenhum tato.
Diga qualquer número!
Sete!
Cento e três!
E ficarei contente.
Minha paz está feita também porque todos os instrumentos de que estava atulhado tomaram seus lugares e receberam seu significado. Essas tripas de tubos e cabos viraram rede de circulação. Eu sou um organismo contíguo ao avião. O avião fabrica meu bem-estar, quando giro determinado botão que aquece, progressivamente, minhas roupas e meu oxigênio. O oxigênio, aliás, está quente demais e está me queimando o nariz. Esse oxigênio é consumido proporcionalmente à altitude, através de um instrumento complicado. E é o avião que me alimenta. Isso me parecia desumano antes do voo; e agora, amamentado pelo próprio avião, sinto por ele uma espécie de ternura filial. Uma espécie de ternura de lactente.
Quanto a meu peso, distribuiu-se em pontos de apoio. Minha tripla espessura de roupas superpostas, meu pesado paraquedas dorsal pesam contra o assento. Minhas botas enormes se apoiam nos pedais. Minhas mãos espessamente enluvadas e duras, tão desajeitadas no solo, manobram o manche facilmente. Manobram o manche… Manobram o manche…
Dutertre?
— … pitão?
Verifique primeiro seus contatos. Está picotando. Você está me ouvindo?
Sim…, Capi…
Sacode essa porcaria! Está me ouvindo?
A voz de Dutertre volta a ficar clara:
Estou ouvindo muito bem, Capitão.
Bom. Ainda hoje em dia os comandos gelam: o manche está duro; quanto aos pedais, estão completamente emperrados!
— “É uma beleza.” Qual altitude?
Nove mil e sete.
E o frio?
Quarenta e oito graus.
E o seu oxigênio, tudo bem?
Tudo bem, Capitão.
Artilheiro, o oxigênio está o.k.?
Nada de resposta.
Ei, Artilheiro!
Nada de resposta.
Você está ouvindo o artilheiro, Dutertre?
Não estou ouvindo nada, Capitão.
Chame-o!
Ei, Artilheiro! Artilheiro!
Nada de resposta.
Mas antes de mergulhar, sacudo brutalmente o avião para acordar o outro, caso estivesse dormindo.
Capitão?
É você, Artilheiro?
Eu… Hã… Sim.
Você não tem certeza?
Tenho.
Por que não respondia?
Estava fazendo um teste de rádio. Tinha desligado!
Você é um canalha! Tem que avisar! Quase mergulhei: achei que estivesse morto!
Eu… Não.
Acredito na sua palavra. Mas não me apronte mais uma dessas! Avise-me, pelo amor de Deus, antes de desligar.
Perdão, Capitão. Entendido, Capitão. Avisarei.
Pois a pane de oxigênio não é sensível ao organismo. Ela se traduz por uma euforia vaga que termina, em alguns segundos, com o desmaio e, em alguns minutos, na morte. O controle permanente do consumo desse oxigênio é então indispensável, tanto quanto o controle, pelo piloto, do estado de seus passageiros.
Aperto um pouquinho, então, o tubo de alimentação de minha máscara, a fim de sentir no nariz as golfadas quentes que trazem a vida.
Em suma, executo meu trabalho. Não experimento nada além do prazer físico de atos nutridos de sentido que bastam por si mesmos. Eu não tenho nem o sentimento de um grande perigo (estava, ao contrário, preocupado, quando me vestia), nem o sentimento de um grande dever. O combate entre o Ocidente e o nazismo se torna, dessa vez, na escala de meus atos, uma ação por manetes, alavancas e torneiras. É bem assim. O amor por seu Deus, no sacristão, faz-se amor pelo acendimento das velas. O sacristão anda com passo indiferente, numa igreja que não vê, e ele fica satisfeito em fazer florir, um a um, os candelabros. Quando todos estão acesos, ele esfrega as mãos. Está orgulhoso de si.
Eu regulei admiravelmente a rotação das minhas hélices, e mantenho o cabo a quase um grau. Isso deve maravilhar Dutertre, se, todavia, ele observar um pouco a bússola…
Dutertre… Eu… A agulha da bússola… Tudo bem?
Não, Capitão. Muita deriva. Incline à direita.
Paciência!
Capitão, estamos passando as linhas de contato.
Começo minhas fotos.
Qual a altitude em seu altímetro?
Dez mil.

Antoine de Saint-Exupéry, em Piloto de Guerra

Analfabeto

Quem não lê é mais analfabeto do que quem não sabe ler.

Millôr Fernandes, em A bíblia do caos

Níquel Náusea

Declaração de Males

Ilmo. Sr. Diretor do Imposto de Renda.

Antes de tudo devo declarar que já estou, parceladamente, à venda.
Não sou rico nem pobre, como o Brasil, que também precisa de boa parte do meu dinheirinho.
Pago imposto de renda na fonte e no pelourinho.
Marchei em colégio interno durante seis anos mas nunca cheguei ao fim de nada, a não ser dos meus enganos.
Fui caixeiro. Fui redator. Fui bibliotecário.
Fui roteirista e vilão de cinema. Fui pegador de operário.
Já estive, sem diagnóstico, bem doente.
Fui acabando confuso e autocomplacente.
Deixei o futebol por causa do joelho.
Viver foi virando dever e entrei aos poucos no vermelho.
No Rio, que eu amava, o saldo devedor já há algum tempo que supera o saldo do meu amor.
Não posso beber tanto quanto mereço, pela fadiga do fígado e a contusão do preço.
Sou órfão de mãe excelente.
Outras doces amigas morreram de repente.
Não sei cantar. Não sei dançar.
A morte há de me dar o que fazer até chegar.
Uma vez quis viver em Paris até o fim, mas não sei grego nem latim.
Acho que devia ter estudado anatomia patológica ou pelo menos anatomia filológica.
Escrevo aos trancos e sem querer e há contudo orgulhos humilhantes no meu ser.
Será do avesso dos meus traços que faço o meu retrato?
Sou um insensato a buscar o concreto no abstrato.
Minha cosmovisão é míope, baça, impura, mas nada odiei, a não ser a injustiça e a impostura.
Não bebi os vinhos crespos que desejara, não me deitei sobre os sossegos verdes que acalentara.
Sou um narciso malcontente da minha imagem e jamais deixei de saber que vou de torna-viagem.
Não acredito nos relógios… the pule cast of throught… sou o que não sou (all that I am I am not).
Podia ter sido talvez um bom corredor de distância: correr até morrer era a euforia da minha infância.
O medo do inferno torceu as raízes gregas do meu psiquismo e só vi que as mãos prolongam a cabeça quando me perdera no egotismo.
Não creio contudo em myself.
Nem creio mais que possa revelar-me em other self.
Não soube buscar (em que céu?) o peso leve dos anjos e da divina medida.
Sou o próprio síndico de minha massa falida.
Não amei com suficiência o espaço e a cor.
Comi muita terra antes de abrir-me à flor.
Gosto dos peixes da Noruega, do caviar russo, das uvas de outra terra; meus amores pela minha são legião, mas vivem em guerra.
Fatigante é o ofício para quem oscila entre ferir e remir.
A onça montou em mim sem dizer aonde queria ir.
A burocracia e o barulho do mercado me exasperam num instante.
Decerto sou crucificado por ter amado mal meu semelhante.
Algum deus em mim persiste
mas não soube decidir entre a lua que vemos e a lua que existe.
Lobisomem, sou arrogante às sextas-feiras, menos quando é lua cheia.
Persistirá talvez também, ao rumor da tormenta, algum canto da sereia.
Deixei de subir ao que me faz falta, mas não por virtude: meu ouvido é fino e dói à menor mudança de altitude.
Não sei muito dos modernos e tenho receios da caverna de Platão: vivo num mundo de mentiras captadas pela minha televisão.
Jamais compreendi os estatutos da mente.
O mundo não é divertido, afortunadamente.
E mesmo o desengano talvez seja um engano.

Paulo Mendes Campos, em O amor acaba: crônicas líricas e existenciais

A morte do pai – I



O velório de meu pai foi um hambúrguer frio. Eu me sentei defronte da casa mortuária, no Alhambra, e tomei um café. Seria um pulo de carro até o hipódromo depois que acabasse. Um homem com um rosto esfolado terrível, óculos muito redondos com lentes grossas, entrou.
Henry – me disse, e sentou-se e pediu um café.
Oi, Bert.
Seu pai e eu nos tornamos grandes amigos. A gente falava muito de você.
Eu não gostava do meu velho – eu disse.
Seu pai amava você, Henry. Esperava que você se casasse com Rita. – Era a filha dele. – Ela está saindo com o cara mais legal agora, mas ele não excita ela. Ela parece ter uma queda por impostores. Eu não entendo. Mas deve gostar dele um pouco – disse, animando-se –, porque esconde o filho no armário quando ele chega.
Vamos, Bert, vamos embora.
Atravessamos a rua e entramos na casa mortuária. Alguém dizia que meu pai tinha sido um bom homem. Me deu vontade de contar a eles o outro lado. Depois alguém cantou. Nós desfilamos diante do caixão. Talvez eu cuspa nele, pensei.
Minha mãe morrera. Eu a enterrara um ano antes, fora às corridas e depois trepara. A fila andou. Aí uma mulher gritou:
Não, não, não! Ele não pode estar morto!
Enfiou a mão no caixão, ergueu a cabeça dele e beijou-o. Ninguém a deteve. Ela pôs os lábios nos dele. Peguei meu pai e a mulher pelo pescoço e separei-os. Meu pai caiu de volta no caixão e a mulher foi levada para fora, tremendo.
Era a namorada de seu pai – disse Bert.
Nada mal – eu disse.
Quando desci os degraus após o serviço, a mulher estava à espera. Correu para mim.
Você se parece exatamente com ele! Você é ele!
Não – eu disse –, ele está morto, e eu sou mais jovem e melhor.
Ela me abraçou e beijou. Enfiei a língua entre os lábios dela. E recuei.
Pronto, pronto – disse em voz alta –, se contenha!
Ela tornou a me beijar e desta vez eu enfiei a língua mais fundo. O pênis começou a ficar duro. Vieram uns homens e umas mulheres para levá-la.
Não – ela disse –, eu quero ir com ele. Preciso conversar com o filho dele!
Vamos, Maria, por favor, venha conosco!
Não, não, preciso falar com o filho dele!
Você se incomoda? – perguntou um homem.
Tudo bem – eu disse.
Maria entrou em meu carro e fomos para a casa de meu pai. Abri a porta e entramos.
Dê uma olhada – eu disse. – Pode pegar qualquer coisa dele que queira. Eu vou tomar um banho. Velórios me fazem suar.
Quando voltei, Maria estava sentada na beira da cama de meu pai.
Oh, está usando o roupão dele!
Agora é meu.
Ele simplesmente adorava esse roupão. Dei a ele no Natal. Ele tinha tanto orgulho dele! Disse que ia vestir e andar pelo quarteirão pra todos os vizinhos verem.
Fez isso?
Não.
É um ótimo roupão. Agora é meu.
Peguei um maço de cigarros da mesinha de cabeceira.
Oh, são os cigarros dele!
Quer um?
Não.
Acendi um.
Há quanto tempo conhecia ele?
Cerca de um ano.
E não descobriu?
Descobriu o quê?
Que ele era um homem ignorante. Cruel. Patriótico. Com fome de dinheiro. Mentiroso. Covarde. Um impostor.
Não.
Estou surpreso. Você parece uma mulher inteligente.
Eu amava seu pai, Henry.
Quantos anos você tem?
Quarenta e três.
Está bem conservada. Tem belas pernas.
Obrigada.
Pernas sexy.
Fui à cozinha, peguei uma garrafa de vinho do armário, saquei a rolha, peguei duas taças e voltei. Servi um drinque para ela e entreguei-lhe a taça.
Seu pai falava muito de você.
É?
Dizia que você não tinha ambição.
Tinha razão.
É mesmo?
Minha única ambição é não ser nada, parece a coisa mais sensata.
Você é estranho.
Não, meu pai é que era. Me deixa servir outro drinque pra você. É um bom vinho.
Ele disse que você era um bebum.
Está vendo, consegui alguma coisa.
Você se parece muito com ele.
Só na superfície. Ele gostava de ovos moles, eu gosto duros. Ele gostava de companhia, eu gosto de solidão. Ele gostava de dormir à noite, eu gosto de dormir de dia. Ele gostava de cachorros, eu puxava as orelhas deles e enfiava fósforos no rabo deles. Ele gostava do emprego, eu gosto de vagabundar.
Estendi os braços e agarrei-a. Abri os lábios, enfiei a boca na dela e comecei a sugar o ar dos pulmões dela. Cuspi pela garganta dela abaixo e passei o dedo pelo rego da bunda dela. Separamo-nos.
Ele me beijava com delicadeza – disse Maria. – Me amava.
Merda – eu disse –, minha mãe só estava há um mês debaixo do chão e ele já estava chupando seus peitos e dividindo o papel higiênico com você.
Ele me amava.
Bolas. O medo de ficar só levou ele pra sua vagina.
Ele dizia que você era um jovem amargo.
Diabos, sim. Veja o que eu tive como pai.
Suspendi o vestido dela e comecei a beijar as pernas. Comecei nos joelhos. Cheguei à parte interna da coxa e ela se abriu para mim. Mordi-a com força, e ela saltou e soltou um peido.
Oh, desculpe.
Está tudo bem – eu disse.
Servi outro drinque para ela, acendi um dos cigarros de meu pai morto e fui à cozinha buscar outra garrafa de vinho. Bebemos por mais uma hora ou duas. A tarde se tornava noite, mas eu estava cansado. A morte era tão chata. Isso era o pior sobre a morte. Era chata. Assim que acontecia, não se podia fazer nada. Não se podia jogar tênis com ela nem transformá-la numa caixa de bombons. Estava ali, como um pneu furado. A morte era estúpida. Enfiei-me na cama. Ouvi Maria tirar os sapatos, a roupa, depois a senti na cama a meu lado. Ela pôs a cabeça em meu peito e senti meus dedos esfregando atrás das orelhas dela. Depois meu pênis começou a subir. Ergui a cabeça dela e pus a boca na dela. Pus delicadamente. Depois peguei a mão dela e a pus em meu pau.
Eu tinha bebido vinho demais. Montei nela. Meti e meti. Chegava na beirinha, mas não conseguia. Estava dando a ela uma longa, suada e interminável foda. A cama rangia e saltava, rebolava e gemia. Maria gemia. Eu a beijava e beijava. Ela abria a boca em busca de ar.
Deus do céu – disse –, você está me FODENDO MESMO!
Eu só queria acabar, mas o vinho embotara o mecanismo. Acabei rolando para o lado.
Deus – ela disse. – Deus.
Começamos a nos beijar e começou tudo de novo. Tornei a montar. Desta vez, senti o clímax chegando devagar.
Oh – eu disse. – Oh, deus!
Finalmente consegui, me levantei, fui ao banheiro, saí fumando um cigarro e voltei à cama. Ela estava quase dormindo.
Meu deus – ela disse –, você me FODEU mesmo!
Dormimos.

De manhã me levantei, vomitei, escovei os dentes, gargarejei e abri uma garrafa de cerveja. Maria acordou e me olhou.
A gente fodeu? – perguntou.
Está falando sério?
Não. Estou querendo saber. A gente fodeu?
Não – eu disse. – Não aconteceu nada.
Maria foi ao banheiro e tomou um chuveiro. Cantava. Depois se enxugou e saiu. Me olhou.
Estou me sentindo como uma mulher que foi fodida.
Não aconteceu nada, Maria.
Nós nos vestimos e eu a levei a um café na esquina. Ela comeu linguiça com ovos mexidos, torrada de pão de trigo, café. Eu tomei um copo de suco de tomate e comi um bolinho.
Eu não consigo superar isso. Você se parece com ele.
Esta manhã, não, Maria, por favor.
Enquanto a observava enfiar os ovos mexidos, linguiça e torrada (coberta de geleia de morango) na boca, percebi que tínhamos perdido o enterro. Tínhamos esquecido de ir ao cemitério ver o velho jogado no buraco. Eu queria ter visto isso. Era a única parte boa da coisa. Não tínhamos nos juntado ao préstito fúnebre, e em vez disso tínhamos ido à casa de meu pai e fumado seus cigarros e bebido seu vinho.
Maria levou um bocado particularmente grande de ovos mexidos amarelo vivo à boca e disse:
Você deve ter me fodido. Estou sentindo seu sêmen escorrendo pelas minhas pernas.
Oh, é apenas suor. Está quente esta manhã.
Vi-a enfiar a mão embaixo da mesa e embaixo do vestido. Um dedo voltou. Ela cheirou-o.
Isso não é suor, é sêmen.
Maria acabou de comer e saímos. Ela me deu seu endereço e eu a levei lá de carro. Estacionei no meio-fio.
Gostaria de entrar?
Agora, não. Preciso cuidar das coisas. A herança.
Maria curvou-se e me beijou. Tinha os olhos muito grandes, assustados, azedos.
Eu sei que você é muito mais jovem, mas eu podia amar você – ela disse. – Tenho certeza de que podia.
Quando chegou à porta, ela se virou. Ambos acenamos. Eu fui à primeira loja de bebidas, peguei meio litro e o Formulário das Corridas. Previa um bom dia no hipódromo. Eu sempre me saía melhor depois de um dia de folga.

Charles Bukowski, em Numa Fria

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Te Faço um Cafuné | Mariana Aydar e Celso Fonseca

 

PdF

Cada um tem a Macondo que merece.

Elilson José Batista, em Alumbramentos

Mãe-gentil

Por um tempo atrás meus filhos andaram me descobrindo. Quero dizer como pessoa, pois como mãe me haviam descoberto desde que nasceram, assim como eu os descobri até antes de eles nascerem. Foi tão curioso como, na descoberta, além de mãe, eles me consideravam uma pessoa com quem conversar. Quando eu ia escovar os cabelos no espelho do banheiro, eles me seguiam para continuar a conversa. Um deles desconfiou do que estava acontecendo e perguntou-me com franqueza: você não estará se fazendo de interessante para nós? Respondi que não, que eles é que estavam interessados em mim. Faziam-me perguntas, respondia o que podia. Um deles um dia desses me pediu: me dê o nome de alguns escritores profundos que eu queria ler. Ah, então ele já estava sentindo necessidade? Fiquei contente, e mais contente ainda de lhe dar nomes de escritores profundos brasileiros. Ele andou lendo uns contos de Tchekhov e gostou. O livro era Contos da velha Rússia, que recomendo aos leitores. É livro de bolso.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

1622 – Sevilha



Os ratos

O padre Antônio Vázquez de Espinosa, recém-chegado da América, é o convidado de honra.
Enquanto os criados servem os pedaços de peru com molho explode no ar a espuma das ondas, alto e branco mar enlouquecido pela tempestade; e quando chegam os frangos recheados desaba sobre a mesa a chuva dos trópicos. Conta o padre Antônio que na costa do mar Caribe chove de tal maneira que esperando que acabe a chuva ficam grávidas as mulheres e nascem os filhos: quando vem a bonança, já são homens.
Os demais convidados, atentos ao relato e ao banquete, comem e calam; o padre tem a boca cheia de palavras e se esquece dos pratos. No chão, sentados sobre almofadões, as crianças e as mulheres escutam como se fosse missa.
Foi uma façanha a travessia entre o porto hondurenho de Trujillo e Sanlúcar e Barrameda. Navegaram as naus aos trambolhões, atormentadas pela borrasca; várias embarcações foram tragadas pelo mar e vários marinheiros pelos tubarões. Mas nada pior, e baixa a voz o padre Antônio, nada pior que os ratos.
Como castigo pelos muitos pecados cometidos na América, e porque ninguém embarca confessado e comungado como é devido, Deus semeou os ratos nos navios. Meteu ratos nos paióis, entre os víveres, e debaixo do castelo da proa; na câmara de popa, nos camarotes e até na cadeira do piloto: temos ratos, e tão grandes, que causavam espanto e admiração. Dezesseis arrobas de pão roubaram os ratos do quarto onde o padre dormia, e os bolos que estavam debaixo da escotilha. Devoraram os presuntos e os toucinhos do tombadilho da popa. Quando iam os sedentos buscar água, encontravam ratos afogados, flutuando nas pipas. Quando iam os famintos ao galinheiro, não encontravam mais que ossos e penas e uma ou outra galinha caída com as patas roídas. Nem os papagaios, em suas gaiolas, se salvaram dos ataques. Os marinheiros vigiavam os restos de água e comida dia e noite, armados de paus e facas, e os ratos atacavam e mordiam mãos e se devoraram entre si.
Entre as azeitonas e as frutas, chegaram os ratos. Estão intactas as sobremesas. Ninguém prova nem uma gota de vinho.
Querem escutar as orações novas que inventei? Como as velhas ladainhas não aplacavam as iras do Senhor...
Ninguém responde.
Tossem os homens, levando o guardanapo à boca. Das mulheres que perambulavam dando ordens ao serviço, não resta nenhuma. As que escutavam sentadas no chão, estão vesgas e boquiabertas. As crianças veem no padre Antônio uma tromba longa, tremendos dentes e bigodes, e torcem o pescoço buscando sua cauda debaixo da mesa.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Cachorro Vai para o Céu?

Tenho um amigo que é pastor de uma igreja presbiteriana no Rio de Janeiro. Parte da missão de um pastor é esclarecer as dúvidas espirituais que porventura possam advir da leitura confusa das Sagradas Escrituras. Pois ele foi procurado por uma senhora já bem velha, solitária, que morava sozinha e tinha como amigo de todas as horas o seu cãozinho, também já velhinho. A aflição da senhora tinha a ver com o fato de que ela acreditava na Bíblia e lia a Bíblia como consolo. Pois houve um texto que a apunhalou: o escrito no livro de Apocalipse, capítulo 22, versículo 15. Nenhuma das passagens terríveis das Sagradas Escrituras a havia abalado. Ela as lera e ficara em paz... Mas esse mínimo versículo havia abalado o seu mundo. Porque esse versículo enumera aqueles que não poderão entrar no Paraíso: “... Fora ficam os cães, os feiticeiros, os impuros...”. “Reverendo, então o meu cãozinho, meu único amigo, não entrará comigo no Paraíso?” Não foi fácil convencer a velhinha. Aí o pastor teve a ideia de invocar a imagem dos rebanhos de ovelhas. Centenas de ovelhas pastando, os lobos à espreita, o pastor sozinho não dá conta, mas os cães estão sempre atentos. Eles são bons. Eles guardam as ovelhas. Por isso os pastores amam os cães. Pastores, ovelhas e cães entrarão todos juntos no Paraíso…

Rubem Alves, em Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo

O louco dos livros



São todos gestos comuns: tirar os óculos da caixa, limpá-los com papel ou tecido, com a bainha da blusa ou a ponta da gravata, empoleirá-los no nariz e firmá-los atrás das orelhas antes de olhar para a página agora lúcida diante de nós. Então, ajustá-los para cima ou para baixo sobre o nariz, para colocar as letras em foco, e, depois de algum tempo, levantá-los e esfregar a pele entre as sobrancelhas, apertando os olhos fechados para manter afastado o texto-sereia. E o ato final: tirá-los, dobrá-los, e inseri-los entre as páginas do livro para marcar o lugar onde paramos a leitura. Na iconografia cristã, Santa Luzia é representada carregando um par de óculos numa bandeja; os óculos são, com efeito, olhos que os leitores de visão ruim podem pôr e tirar à vontade. São uma função destacável do corpo, uma máscara através da qual o mundo pode ser observado, uma criatura semelhante a um inseto, carregada como um animal de estimação à caça de um louva-deus. Discretos, sentados de pernas cruzadas sobre uma pilha de livros ou em pé, em expectativa, num canto atravancado da escrivaninha, eles se tornaram o emblema do leitor, a marca da presença do leitor, um símbolo do ofício do leitor.
É desnorteante imaginar os muitos séculos anteriores a invenção dos óculos, séculos durante os quais os leitores se envesgaram para penetrar nas linhas nebulosas de um texto, e é emocionante imaginar se o alívio extraordinário, quando surgiram os óculos, ao ver subtamente, quase sem esforço, uma página escrita. Um sexto de toda a humanidade é míope; entre os leitores, a proporção é muito maior, perto de 24%. Aristóteles, Lutero, Samuel Pepys, Schopenhauer, Goethe, Schil er, Keats, Tennyson, o dr. Johnson, Alexander Pope, Quevedo, Wordsworth, Daute Gabriel Rossetti, Elizabeth Barrett Browning, Kipling, Edward Lear, Dorothy L. Sayers, Yeats, Unamuno, Rabindranath Tagore, James Joyce - todos tinham visão fraca. Em muitas pessoas essa condição piora, e um notável número de leitores famosos ficou cego na velhice, de Homero a Milton, James Thurber e Jorge Luis Borges. O escritor argentino, que começou a perder a visão no início da década de 1930 e foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires em 1955, quando não enxergava mais, comentou o destino peculiar do leitor debilitado a quem um dia concedem o reino dos livros:

Que ninguém avilte com lágrimas ou reprove
Esta declaração da habilidade de Deus
Que em sua ironia magnífica
Deu-me escuridão e livros ao mesmo tempo.

Borges comparava o destino desse leitor no mundo borrado de “vagas cinzas pálidas semelhantes a olvido e sono" ao destino do rei Midas, condenado a morrer de fome e sede cercado por comida e bebida. Um episódio da série de televisão Além da imaginação, trata de um Midas assim, um leitor voraz que é o único homem a sobreviver a um desastre nuclear. Todos os livros do mundo estão agora à sua disposição; então, acidentalmente, ele quebra seus óculos.
Antes da invenção dos óculos, pelo menos um quarto de todos os leitores teria precisado de letras estradas-grandes para decifrar um texto. As tensões sobre os olhos dos leitores medievais eram grandes: as salas em que tentavam ler eram escurecidas no verão para protegê-las do calor; no inverno, mergulhavam numa escuridão natural, porque as janelas, necessariamente pequenas para proteger das correntes de ar gelado, deixavam entrar pouca luz. Os escribas medievais queixavam-se constantemente das condições em que tinham de trabalhar e rabiscavam amiúde notas sobre suas dificuldades nas margens dos livros. Na metade do século XIII, um certo Florêncio, do qual não sabemos mais nada, exceto o primeiro nome, rabiscou esta descrição lúgubre de seu ofício: "É uma tarefa penosa. Extingue a luz dos olhos, encurva as costas, esmaga as vísceras e as costelas, provoca dor nos rins e cansaço em todo o corpo". Para os leitores com deficiência visual, o trabalho deveria ser ainda pior. Patrick Trevor-Roper sugeriu que eles provavelmente se sentiam mais confortáveis à noite, "porque a escuridão é uma grande igualadora".
Na Babilônia, em Roma e na Grécia, os leitores cuja visão era fraca não dispunham de outro recurso senão ter alguém, geralmente um escravo, que lesse os livros para eles.
Uns poucos descobriram que olhar através de um disco de pedra transparente ajudava.
Escrevendo sobre as propriedades das esmeraldas, Plínio,o Velho, observou de passagem que o imperador Nero, míope, costumava assistir às lutas de gladiadores através de uma esmeralda. Não sabemos se isso amplificava os detalhes sanguinolentos ou se apenas lhes dava uma coloração esverdeada, mas a história sobreviveu ao longo da Idade Média e eruditos como Roger Bacon e seu professor Robert Grosseteste comentaram a notável propriedade da jóia.
Entretanto, poucos leitores tinham acesso a pedras preciosas. A maioria era condenada a passar suas horas de leitura na dependência de leituras vicárias, ou fazendo progressos lentos e dolorosos enquanto os músculos de seus olhos se esforçavam para remediar o defeito. Então, em algum momento do final do século XIII, mudou a sina dos leitores que enxergavam mal.
Não sabemos exatamente quando a mudança ocorreu, mas em 23 de fevereiro de 1306, do púlpito da igreja de Santa Maria Novela, em Florença, Giordano da Rivalto, de Pisa, fez um sermão no qual lembrou a seu rebanho que a invenção dos óculos, "um dos dispositivos mais úteis do mundo", já tinha vinte anos. E acrescentou: "Eu vi o homem que, antes de qualquer outro, descobriu e fez um par de óculos, e falei com ele?”
Nada se sabe desse notável inventor. Talvez tenha sido um contemporâneo de Giordano, um monge chamado Spina, do qual se diz que "fazia óculos e ensinava de graça a arte para os outros". Ou quem sabe tenha sido um membro da Guilda dos Trabalhadores em Cristal de Veneza, onde a arte de fazer óculos já era conhecida em 1301, pois uma das regras da guilda naquele ano explicava o procedimento a ser seguido por quem quisesse "fazer óculos para leitura". Ou quem sabe o inventor não foi um certo Salvino degli Armati, cuja lápide, ainda visível na igreja de Santa Maria Maggiore, em Florença, chama-o de "inventor dos óculos", e acrescenta: "Que Deus perdoe seus pecados. A. D. 1317". Outro candidato é Roger Bacon, a quem já encontramos como mestre catalogador e que Kipling, em um de seus contos, tornou testemunha do uso de um primeiro microscópio árabe contrabandeado para a Inglaterra por um iluminador. No ano de 1268, Bacon escreveu: "Se alguém examinar letras ou objetos pequenos olhando através do meio de um cristal ou vidro no formato do menor segmento de uma esfera, com todos os lados convexos voltados para o olho, verá as letras muito melhor e maiores. Tal instrumento é útil a todas as pessoas . Quatro séculos depois, Descartes ainda louvava a invenção dos óculos: "Toda a administração de nossas vidas depende dos sentidos, e, uma vez que a visão é o mais abrangente e o mais nobre deles, não há dúvida de que as invenções que servem para aumentar seu poder estão entre as mais úteis que possa haver".
A representação mais antiga que se conhece de um par de óculos está num retrato do cardeal Hugo de St. Cher. na Provença, feita por Tommaso da Modena. Mostra o cardeal em traje completo, sentado à sua mesa, copiando de um livro aberto apoiado numa estante um pouco acima dele, à direita. Os óculos, conhecidos como "óculos de rebite", semelhantes a um pincenê, consistem de duas lentes redondas presas em armação grossa articulada acima do cavalete do nariz, de forma que a pressão possa ser regulada.
Até boa parte do século XV, os óculos de leitura eram um luxo: custavam caro e, em termos comparativos, poucas pessoas precisavam deles, uma vez que os livros estavam nas mãos de uma seleta minoria. Depois da invenção da imprensa e da relativa popularização dos livros, a demanda por óculos aumentou; na Inglaterra, por exemplo, mascates iam de vila em vila vendendo "óculos continentais baratos". Em 1466, apenas onze anos depois da publicação da primeira Bíblia de Gutenberg, fabricantes de óculos ficaram conhecidos em Estrasburgo, em Nuremberg, no ano de 1478 e em Frankfurt, em 1540. É possível que óculos melhores e em maior quantidade tenham permitido que mais leitores se tornassem leitores melhores e comprassem mais livros, e que por esse motivo os óculos tenham sido associados ao intelectual, ao bibliotecário, ao erudito.
A partir do século XIV, os óculos foram acrescentados a numerosas pinturas, para marcar a natureza estudiosa e sábia de uma personagem. Em muitas representações do Adormecimento ou Morte da Virgem, vários dos médicos e magos em torno de seu leito mortuário acham-se usando óculos de vários tipos. No quadro anônimo que se encontra no mosteiro de Neuberg, em Viena, um par de óculos foi acrescentado séculos depois ao sábio de barbas brancas, a quem um jovem desconsolado mostra um grosso volume. A implicação parece ser a de que nem o mais sábio dos eruditos possui sabedoria suficiente para curar a Virgem e mudar seu destino.
Na Grécia, em Roma e Bizâncio, o poeta-erudito - o doctus poeta, representado segurando uma tabuleta ou um rolo - foi considerado um modelo, mas esse papel estava confinado aos mortais. Os deuses jamais se ocupavam de literatura; as divindades gregas e latinas jamais eram mostradas segurando um livro. O cristianismo foi a primeira religião a pôr um livro nas mãos de seu deus, e, a partir da metade do século XIV, o livro emblemático cristão passou a ser acompanhado por outra imagem, a dos óculos. A perfeição de Cristo e de Deus Pai não justificaria representá-los como míopes, mas os Pais da Igreja - são Tomás de Aquino, santo Agostinho - e os autores antigos admitidos no cânone católico - Cícero, Aristóteles - às vezes foram representados carregando um douto volume e usando os sábios óculos do conhecimento.
No final do século XV, os óculos já eram suficientemente conhecidos para simbolizar não somente o prestígio da leitura, mas também seus excessos. A maioria dos leitores, naquele tempo como agora, passou em algum momento pela humilhação de ouvir que sua ocupação é repreensível. Lembro que riram de mim, durante um recreio na sexta ou sétima série, por eu ter ficado dentro do prédio lendo, e lembro que no fim do escárnio eu estava estatelado no chão, meus óculos chutados para um lado, meu livro para o outro.
"Você não vai gostar do filme", foi o veredicto de uns primos que, tendo visto meu quarto cheio de livros, acharam que eu não gostaria de assistir a um faroeste com eles. Minha avó, vendo-me ler nas tardes de domingo, dizia suspirando: "Você sonha acordado" - porque minha inatividade parecia-lhe um ócio inútil e um pecado contra a alegria de viver.
Preguiçoso, débil, pretensioso, pedante, elitista, estes são alguns dos epítetos que acabaram associados ao intelectual distraído, ao leitor míope, ao rato de biblioteca, ao nerd. Enterrado nos livros, isolado do mundo dos fatos, do mundo de carne e osso, sentindo-se superior aos não-familiarizados com as palavras preservadas entre capas poeirentas, o leitor de óculos que pretendia saber o que Deus, em sua sabedoria, havia escondido, era considerado um louco, e os óculos tornaram-se emblemas da arrogância intelectual.
Em fevereiro de 1494, durante o famoso carnaval da Basiléia, o jovem doutor em leis Sebastião Brant publicou um pequeno volume de versos alegóricos em alemão, intitulado Das Narrenschiff ou A nau dos insensatos. O sucesso foi imediato: no primeiro ano houve três reimpressões, e em Estrasburgo, terra natal de Brant, um editor empreendedor, ansioso por participar dos lucros, encomendou a um poeta desconhecido um acréscimo de quatrocentas linhas ao livro. Brant se queixou dessaforma de plágio, mas em vão.
Dois anos depois, pediu a seu amigo Jacques Locher, professor de poesia na Universidade de Freiburg, que traduzisse o livro para o latim. Locher assim o fez, mas alterou a ordem dos capítulos e incluiu variações de sua lavra. Por mais que o texto original de Brant mudasse, o número de leitores continuou aumentando até o século XVII.
Seu sucesso era devido, em parte, às xilogravuras que o ilustravam, muitas feitas por um Albrecht Dürer de 22 anos de idade. Mas, em larga medida, o sucesso era do próprio Brant. Ele fizera um levantamento meticuloso das loucuras ou pecados de sua sociedade, do adultério e do jogo à falta de fé e à ingratidão, em termos precisos e atualizados. Por exemplo, a descoberta do Novo Mundo, que acontecera menos de dois anos antes, é mencionada no livro para exemplificar as loucuras da curiosidade invejosa. Dürer e outros artistas ofereceram aos leitores de Brant imagens comuns desses novos pecadores, reconhecíveis de imediato por seus pares na vida cotidiana, mas foi o próprio Brant quem rascunhou as ilustrações destinadas a acompanhar o texto.
Uma dessas imagens, a primeira depois do frontispício, ilustra a loucura do intelectual. O leitor que abrisse o livro de Brant seria confrontado com a própria imagem: um homem em seu escritório, cercado por livros. Há livros por toda parte: nas estantes atrás dele, em ambos os lados da mesa de leitura, dentro de compartimentos da própria escrivaninha. O homem veste um gorro de dormir (para esconder suas orelhas de asno) e, atrás dele, pende uma carapuça de bufão com sinos, enquanto a mão direita segura um espanador para espantar as moscas que tentam pousar nos livros. Ele é o Büchernarr, "o louco dos livros”, o homem cuja loucura consiste em se enterrar nos livros. Sobre seu nariz repousa um par de óculos.
Esses óculos o acusam: eis um homem que não vê o mundo diretamente, preferindo espiar as palavras mortas numa página impressa. Diz o leitor insensato de Brant: "É por uma razão muito boa que sou o primeiro a subir ao barco. Para mim, o livro é tudo, mais precioso ainda que o ouro. / Tenho grandes tesouros aqui, dos quais não entendo patavina". Ele confessa que, na companhia de homens cultos que citam livros sábios, adora poder dizer:
"Tenho todos esses volumes em casa"; ele se compara a Ptolomeu II de Alexandria, que acumulou livros, mas não conhecimento. Graças ao livro de Brant, a imagem do erudito idiota de óculos logo se tornou um ícone comum; já em 1505, no De fide concubinarum de Olearius, um asno está sentado numa escrivaninha idêntica, óculos sobre o nariz e espanta-moscas na pata, lendo um grande livro aberto para uma turma de alunos-bestas.
A popularidade do livro de Brant foi tanta que, em 1509, o humanista Geiler von Kaysersberg começou a pregar uma série de sermões baseados no elenco de loucos de Brant, um para cada domingo. O primeiro sermão, correspondente ao primeiro capítulo do livro de Brant, foi sobre o louco dos livros, é claro. Brant emprestara ao idiota palavras para que ele se autodescrevesse: Geiler usou a descrição para dividir seu maluco livresco em sete tipos, cada um deles reconhecível pelo tilintar de um dos sinos do bufão.
Segundo Geiler, o primeiro sino anuncia o louco que coleciona livros por ostentação, como se fossem uma mobília cara. No primeiro século da era cristã, O filósofo latino Sêneca (que Geiler gostava de citar) já denunciava o acumulo exibicionista de livros: Muita gente sem educação escolar usa livros não como instrumento de estudo, mas como decoração para a sala de jantar". Geiler insiste: Aquele que quer livros para ganhar fama deve aprender algo com eles; não deve armazená-los em sua biblioteca, mas na cabeça.
Mas este primeiro louco pôs seus livros em correntes e fez deles prisioneiros; se pudessem se libertar e falar; arrastariam-no até o juiz. exigindo que ele, e não eles, fosse encarcerado". O segundo sino chama o idiota que deseja ficar sábio consumindo livros em demasia. Geiler compara-o a um estômago embrulhado por excesso de comida e a um general embaraçado num cerco por ter soldados demais. "Que devo fazer? - perguntais. Devo jogar todos os meus livros fora?" Podemos imaginar Geiler apontando o dedo para determinado paroquiano entre seu público dominical. "Não, isso não deveis fazer. Mas deveis selecionar aqueles que vos são úteis e usá-los no momento certo." O terceiro sino tilinta para o idiota que coleciona livros sem realmente lê-los, apenas borboleteando por eles para satisfazer sua curiosidade ociosa. Geiler o compara a um louco que corre pela cidade e, enquanto passa voando, tenta observar em detalhe os signos e emblemas nas fachadas das casas. Isso, diz ele, é não só impossível, mas também um lamentável desperdício de tempo.
O quarto sino chama o louco que ama livros suntuosamente iluminados. Pergunta Geiler: "Não é uma loucura pecaminosa banquetear os olhos com ouro e prata quando tantos filhos de Deus passam fome? Não têm os vossos olhos o sol, a lua, as estrelas, as muitas flores e outras coisas para vos agradar?". Que necessidade temos de figuras humanas ou flores em um livro? As que Deus provê não são suficientes? E Geiler conclui que esse amor por imagens pintadas "é um insulto à sabedoria". O quinto sino anuncia o idiota que encaderna seus livros com panos suntuosos. (Aqui novamente Geiler faz um empréstimo silencioso junto a Sêneca, que protestava contra o colecionador que "tira seu prazer de encadernações e rótulos" e em cujo lar analfabeto "podem-se ver as obras completas de oradores e historiadores em estantes que vão até o teto, porque, como os banheiros, a biblioteca tornou-se ornamento essencial numa casa rica".) O sexto sino chama o idiota que escreve e produz livros mal escritos sem ter lido os clássicos e sem nenhum conhecimento de ortografia, gramática ou retórica. É o leitor que se torna escritor, seduzido pela ideia de colocar seus pensamentos garatujados ao lado das obras dos grandes escritores. Por fim - numa mudança paradoxal que os futuros anti-intelectuais ignorariam - o sétimo e último louco dos livros é aquele que despreza completamente os livros e zomba da sabedoria que se pode obter deles.
Por meio da imaginação intelectual de Brant, Geiler, o intelectual, forneceu argumentos para os anti-intelectuais de seu tempo que viviam na incerteza de uma época em que as estruturas civis e religiosas da sociedade europeia romperam-se com guerras dinásticas que alteraram seus conceitos de história, com explorações geográficas que mudaram seus conceitos de espaço e comércio, com cismas religiosos que mudaram para sempre seu conceito de quem eram, por que eram e do que faziam na terra. Geiler armou-os com um catálogo inteiro de acusações que lhes permitiu, como sociedade, ver erros não em suas ações, mas nos pensamentos sobre suas ações, em suas fantasias, suas ideias, suas leituras.
Muitos daqueles que frequentavam a catedral de Estrasburgo todos os domingos, ouvindo as diatribes de Geiler contra as loucuras do leitor desorientado, acreditavam provavelmente que ele estava fazendo eco ao rancor popular contra o homem lido. Posso imaginar a sensação de desconforto daqueles que, como eu, usavam óculos, talvez tirando-os sub-repticiamente no momento em que esses ajudantes se tornavam de súbito uma insígnia de desonra. Mas Geiler não estava atacando o leitor e seus óculos. Longe disso: seus argumentos eram os do clérigo humanista, crítico da competição intelectual vazia e amadorística, porém defensor da necessidade de conhecimento letrado e do valor dos livros. Ele não compartilhava do ressentimento crescente entre a população em geral, que considerava os intelectuais indevidamente privilegiados, sofrendo do que John Donne descreveu como "defeitos da solidão" escondendo-se da verdadeira labuta do mundo naquilo que vários séculos depois Gérard de Nerval, seguindo Sainte-Beuve, chamaria de torre de marfim, o refúgio "para onde subimos cada vez mais alto para nos isolarmos da multidão", longe das ocupações gregárias da gente comum. Três séculos depois de Geiler, Thomas Carlyle, falando em defesa do erudito-leitor, emprestou-lhe traços heróicos: "Ele, com seus direitos e erros autorais, em sua esquálida água-furtada, em seu paletó desbotado, governando (pois é isso que faz) de seu túmulo, após a morte, nações e gerações inteiras que lhe deram, ou não, pão enquanto vivia”. Mas persistia a visão preconceituosa do leitor como um intelectualoide distraído, um trânsfuga do mundo, um sonhador de olhos abertos, de óculos, enfiado no livro num canto recluso.
O escritor espanhol Jorge Manrique, contemporâneo de Geiler, dividia a humanidade entre "aqueles que vivem de seu próprio esforço e os ricos". Logo essa divisão passou para "os que vivem de seu próprio esforço" e "o louco dos livros", o leitor de quatro olhos.
É curioso que os óculos nunca tenham perdido essa associação não mundana. Mesmo aqueles que querem parecer sábios (ou pelo menos livrescos) em nosso tempo aproveitam-se dos símbolos; um par de óculos, de grau ou não, prejudica a sensualidade do rosto e sugere preocupações intelectuais. Tony Curtis usa óculos roubados enquanto tenta convencer Marilyn Monroe de que não passa de um milionário ingênuo em Quanto mais quente melhor. E, nas palavras famosas de Dorothy Parker, Men seldom make passes / At girls who wear glasses [Os homens raramente cantam / garotas que usam óculos]. Mas no século XVIII, Antônio José da Silva faz seu diabinho chamar a atenção do aventuroso soldado Peralta dizendo-lhe que as belas e sensuais mulheres que o Diabo quer que ele seduza se tornaram, na verdade, vítimas do pecado da Preguiça graças "às leituras em excesso": os livros as corromperam. Opor a força do corpo ao poder da mente, separar o homme moyen sensuel do intelectual, isso exige argumentos elaborados. De um lado estão os trabalhadores, os escravos sem acesso a livros, as criaturas de ossos e nervos, a maioria da humanidade; do outro, a minoria, os pensadores, a elite dos escribas, os intelectuais supostamente aliados às autoridades, ou, ao contrário, que conspiram contra elas. Durante o regime do Khmer Vermelho de Pol Pot, no Camboja, as pessoas que usavam óculos eram mortas porque se supunha que podiam ler e, portanto, teriam acesso a informações que lhes permitiriam criticar o governo. Discutindo o significado da felicidade, Sêneca concedeu à minoria a fortaleza da sabedoria e desprezou a opinião da maioria: "O melhor deveria ser escolhido pela maioria, mas, ao contrário, o populacho prefere o pior [...] Nada é tão nocivo quanto ouvir o que o povo diz, considerar certo o que é aprovado pela maioria e tomar como modelo o comportamento das massas, que vivem não conforme a razão, mas para se conformar".
O erudito inglês John Carey, analisando a relação entre os intelectuais e as massas na virada do século, descobriu que a opinião de Sêneca encontrava eco em muitos dos mais famosos escritores britânicos dos períodos vitoriano tardio e eduardiano. Carey concluiu: "Tendo em vista as multidões pelas quais o indivíduo é cercado, é praticamente impossível considerar que todos os outros têm uma individualidade equivalente à nossa.
A massa, como conceito redutivo e excludente, é inventada para aliviar essa dificuldade".
O argumento que opõe aqueles com direito a ler, porque podem ler "bem" (como os temíveis óculos parecem indicar), e aqueles a quem a leitura deve ser negada, porque "não entenderiam", é tão antigo quanto especioso. "Depois que uma coisa é escrita,"
Sócrates argumentava, “o texto, qualquer que seja, é levado de lugar para lugar e cai nas mãos não apenas daqueles que o compreendem, mas também nas de quem não tem nada a ver com ele [grifo meu]. O texto não sabe como se dirigir às pessoas certas e como não se dirigir às pessoas erradas. E quando é mal tratado e abusado, precisa sempre que seu pai venha socorrê-lo, sendo incapaz de se defender ou de se ajudar por si mesmo." Leitores certos e errados: para Sócrates parece haver uma interpretação "correta" do texto, disponível apenas para uns poucos especialistas ínformados. Na Inglaterra vitoriana, Matthew Arnold repetiria essa opinião esplendidamente arrogante: "Somos [...] a favor de não transmitir a herança nem aos bárbaros, nem aos filisteus, nem ao populacho". Tentando entender o que era exatamente a herança, Aldous Huxley definiu-a como o conhecimento especial acumulado de qualquer família unida, a propriedade comum de todos os seus membros: "Quando nós, da grande Família Cultural, nos reunimos, trocamos reminiscências a respeito do vovô Homero, daquele terrível dr. Johnson, da tia Safo e do pobre John Keats.
E você lembra daquela coisa absolutamente preciosa que o tio Virgílio disse? Sabe?
Timeo Danaos. [...] Precioso; nunca vou esquecer.' Não, jamais esqueceremos. E mais: tomaremos todo o cuidado para que aquela gente horrível que teve a impertinência de nos invocar, para que aqueles intrusos desgraçados que nunca conheceram o querido e doce e velho tio V. nunca esqueçam também. Faremos com que se lembrem constantemente de sua condição de intrusos".
O que veio primeiro? A invenção das massas - que Thomas Hardy descreveu como "uma aglomeração de gente [...] contendo uma certa minoria dotada de almas sensíveis; estes, e os aspectos destes, sendo o que vale a pena observar" - ou a invenção do louco dos livros de quatro olhos, que se julga superior ao resto do mundo e por quem o mundo passa dando risada?
A cronologia não importa. Ambos os estereótipos são ficções e ambos são perigosos, porque sob a capa de crítica moral ou social eles são utilizados na tentativa de restringir um oficio que, em sua essência, não é limitado nem limitador. A realidade da leitura está em outro lugar. Tentando descobrir nos mortais comuns uma atividade afim à escrita criadora, Sigmund Freud sugeriu que se poderia fazer uma comparação entre as invenções da ficção e as da fantasia, pois ao ler ficção "nossa fruição real de uma obra de imaginação vem da liberação de tensões em nossa mente [...] permitindo-nos daí por diante fruir de nossas fantasias sem auto-recriminação ou vergonha". Mas essa não é certamente a experiência da maioria dos leitores. Dependendo do tempo e do lugar, de nosso humor e nossa memória, de nossa experiência e nosso desejo, a fruição da leitura, na melhor das hipóteses, aumenta, em vez de liberar, as tensões de nossa mente, retesando-as para que se manifestem, tornando-nos mais, e não menos, conscientes de sua presença. É verdade que às vezes o mundo da página passa para o nosso consciente imaginaire - nosso vocabulário cotidiano de imagens - e então vagamos a esmo naquelas paisagens ficcionais, perdidos de admiração, como dom Quixote. Mas, na maior parte do tempo, pisamos em terra firme. Sabemos que estamos lendo, mesmo quando suspendemos a descrença; sabemos porque lemos mesmo quando não sabemos como, mantendo em nossa mente, a um só tempo, o texto ilusivo e o ato de ler Lemos para descobrir o final, pelo prazer da história, não pelo prazer da leitura em si. Lemos buscando, como rastreadores, esquecidos de onde estamos. Lemos distraidamente, pulando páginas. Lemos com desprezo, admiração, negligência, raiva, paixão, inveja, anelo. Lemos em lufadas de súbito prazer, sem saber o que provocou esse prazer "O que é, no fim das contas, essa emoção?" - pergunta Rebecca West depois de ler o Rei Lear.
"Que poder têm as grandes obras de arte sobre minha vida para fazer com que eu me sinta tão contente?" Não sabemos: lemos ignorantemente. Lemos em movimentos longos, lentos, como que pairando no espaço, sem peso. Lemos cheios de preconceitos, com malignidade. Lemos generosamente, arranjando desculpas para o texto, preenchendo lacunas, corrigindo erros. E às vezes, quando as estrelas são favoráveis, lemos de um único fôlego, com um arrepio, como se alguém ou algo tivesse "caminhado sobre nosso túmulo", como se uma memória tivesse subitamente sido resgatada de um lugar no fundo de nós mesmos - o reconhecimento de algo que nunca soubemos que estava lá, ou de algo que sentimos vagamente, como um bruxuleio ou uma sombra, cuja forma fantasmagórica ergue-se e instala-se em nós sem que possamos ver o que é, deixando-nos mais velhos e sábios.
Essa leitura tem uma imagem. Uma fotografia tirada em 1940, durante o bombardeio de Londres na Segunda Guerra Mundial, mostra os restos de uma biblioteca desmoronada.
Pelo teto destruído veem-se prédios fantasmagóricos do lado de fora, e, no centro da peça, há uma pilha de vigas e móveis em pedaços. Mas as estantes na parede ficaram firmes e os livros parecem inteiros. Três homens encontram-se no meio dos destroços: um, como se hesitasse sobre qual livro escolher, está aparentemente lendo os títulos nas lombadas; outro, de óculos, está pegando um volume; o terceiro está lendo, segurando um livro aberto nas mãos. Eles não estão dando as costas para a guerra, nem ignorando a destruição. Não estão escolhendo os livros em vez da vida lá fora. Estão tentando persistir contra as adversidades óbvias; estão afirmando um direito comum de perguntar; estão tentando encontrar uma vez mais - entre as ruínas, no reconhecimento surpreendente que a leitura às vezes concede – uma compreensão.

Alberto Manguel, em Uma História da Leitura