24/08/2026
Atrás dos olhos das meninas sérias
Mas poderei dizer-vos que elas ousam?
Ou vão, por injunções muito mais sérias, lustrar pecados que
jamais repousam?
Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés
Gorjeios
Gorjeio é mais bonito do que canto
porque nele se
inclui a sedução.
É quando a pássara está enamorada
que ela gorjeia.
Ela se enfeita e bota novos meneios na
voz.
Seria como perfumar-se a moça para
ver o namorado.
É por isso que as árvores ficam
loucas se estão gorjeadas.
É por isso que as árvores deliram.
Sob o efeito da sedução da pássara
as árvores deliram.
E se orgulham de terem sido escolhidas
para o concerto.
As flores dessas árvores depois
nascerão mais perfumadas.
Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo
Aprofundamento das horas
Não posso escrever enquanto estou
ansiosa ou espero soluções a problemas porque nessas situações
faço tudo para que as horas passem — e escrever, pelo contrário,
aprofunda e alarga o tempo. Se bem que ultimamente, por necessidade
grande, aprendi um jeito de me ocupar escrevendo, exatamente para ver
se as horas passam.
Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida
O Homem que Calculava — Capítulo 32
32. Como foi Beremiz interrogado
por um astrônomo libanês. O problema da pérola mais leve. O
astrônomo cita um poeta em homenagem ao calculista.
Chamava-se Mohildin Ihaia Banabixacar,
geômetra e astrônomo, uma das figuras mais extraordinárias do
Islã, o sétimo e último sábio que devia arguir Beremiz. Nascido
no Líbano, tinha o nome escrito em cinco mesquitas e seus livros
eram lidos até pelos rumis(1). Seria impossível encontrar-se, sob o
céu do Islã, inteligência mais possante e cultura mais sólida e
vasta.
O erudito Banabixacar, o Libanês(2),
na sua linguagem clara e impecável, assim falou, com bonomia
sorridente:
— Sinto-me, realmente, encantado com
o que tive oportunidade de ouvir. O ilustre matemático persa acaba
de demonstrar, várias vezes, a pujança de seu incomparável
talento. Gostaria, também, colaborando neste brilhante torneio, de
oferecer ao calculista Beremiz Samir interessante problema que
aprendi, quando ainda moço, de um sacerdote budista que cultivava a
Ciência dos Números.
Acudiu o califa, vivamente
interessado:
— Ouviremos, ó Irmão dos Árabes,
com o máximo prazer, a vossa arguição. Espero que o jovem persa,
que até agora se tem mantido inabalável nos domínios do Cálculo,
saiba resolver a questão formulada pelo velho budista (Alá se
compadeça desse idólatra!3)
Percebendo o sábio libanês que sua
inesperada proposta havia despertado a atenção do rei, dos vizires
e dos nobres muçulmanos, assim falou, dirigindo-se serenamente ao
Homem que Calculava:
— A esse problema caberia
perfeitamente denominação de “problema da pérola mais leve”.
Tem o seguinte enunciado:
“Um mercador de Benares, na Índia,
dispunha de oito pérolas iguais — na forma, no tamanho e na cor.
Dessas oito pérolas, sete tinham o mesmo peso; a oitava, entretanto,
era um pouquinho mais leve que as outras. Como poderia o mercador
descobrir a pérola mais leve e indicá-la, com toda segurança,
usando a balança apenas duas vezes, isto é, efetuando apenas duas
pesagens? É esse o problema, ó Calculista! Queira Alá inspirar-te
a solução mais simples e mais perfeita!
Ao ouvir o enunciado do problema das
pérolas, um xeque, de cabelos brancos, com largo colar de ouro, que
se achava ao lado do capitão Sayeg, murmurou, em voz baixa:
— Que belíssimo problema! Esse
sábio libanês é um monstro! Glória ao Líbano, o País dos
Cedros!
Beremiz Samir, depois de refletir
durante breves instantes, assim falou, com voz remansada e firme:
— Não me parece difícil ou obscuro
o problema budista da pérola mais leve. Um raciocínio bem
encaminhado pode revelar-nos, desde logo, a solução.
Vejamos: Tenho oito pérolas iguais.
Iguais na forma, na cor, no brilho e notamanho. Rigorosamente iguais,
diríamos assim. Alguém nos assegurou que, entre essas oito pérolas,
destaca-se uma que é um pouquinho mais leve do que as outras sete, e
que essas outras sete apresentam o mesmo peso. Para descobrir a mais
leve só há um meio. É usar uma balança. E deve ser, para o caso
das pérolas, uma balança delicada e fina, de braços longos e
pratos bem leves. A balança deve ser sensível. E mais ainda.
A balança deve ser exata. Tomando as pérolas duas a duas e
colocando-as na balança (uma em cada prato), eu descubro, é claro,
qual a pérola mais leve; mas se a pérola mais leve for uma das duas
últimas eu serei obrigado a efetuar quatro pesagens. Ora, o problema
exige que a pérola mais leve seja descoberta e determinada com duas
pesagens apenas — qualquer que seja a posição por ela ocupada. A
solução que me parece mais simples é a seguinte:
— Dividamos as pérolas em três
grupos. E chamemos A, B e C esses grupos.
O grupo A terá três
pérolas; o grupo B terá, também, três pérolas; o
terceiro grupo C
será constituído pelas duas restantes. Com duas pesagens devo
apontar com segurança, sem possibilidade de erro, qual a pérola
mais leve, sabendo que sete são iguais em peso.
Levemos os grupos A e B
para a balança e coloquemos um grupo em cada prato (estamos, assim,
efetuando a primeira pesagem).
Duas hipóteses podem ocorrer:
1.ª hipótese — Os grupos A
e B apresentam pesos iguais.
2.ª hipótese — Os grupos A
e B apresentam pesos desiguais, sendo um deles (o A,
por exemplo) mais leve.
Na primeira hipótese (A
e B com o mesmo peso) podemos garantir que a pérola
mais leve não pertence ao grupo A, nem figura no grupo
B. A pérola procurada é uma das duas que formam o
grupo C.
Tomemos, pois, essas duas pérolas que
formam o grupo C e levemo-las para a balança e
ponhamos uma em cada prato (segunda pesagem). A balança indicará
qual a mais leve, que fica, assim, determinada.
Na segunda hipótese (A
sendo mais leve do que B) é claro que a pérola mais
leve pertence ao grupo A, ou melhor, a pérola mais
leve é uma das três pérolas do grupo menos pesado. Tomemos, então,
duas pérolas quaisquer do grupo A e deixemos a outra
de lado. Levemos essas duas pérolas à balança e pesemo-las
(segunda pesagem). Se a balança ficar em equilíbrio, a terceira
pérola (que ficara de lado) é a mais leve. Se houver desequilíbrio,
a pérola mais leve estará no prato que subiu.
— Fica assim, ó Príncipe dos
Crentes — rematou Beremiz —, resolvido o
problema da pérola mais leve, formulado por ilustre sacerdote
budista e aqui apresentado pelo nosso hóspede geômetra libanês.
O astrônomo Banabixacar, o Libanês,
classificou de impecável a solução apresentada por Beremiz, e
rematou a sua sentença nos seguintes termos:
— Só um verdadeiro geômetra
poderia raciocinar com tanta perfeição. A solução que acabo de
ouvir, em relação ao problema da pérola mais leve, é um
verdadeiro poema de beleza e simplicidade.
E para homenagear o calculista o velho
astrônomo do país dos cedros proferiu os seguintes versos:
Se uma rosa de amor tu guardaste,
Bem no teu coração;
Se a um Deus supremo e justo
endereçaste
Tua humilde oração;
Se com a taça erguida
Cantaste, um dia, o teu louvor à
vida,
Tu não viveste em vão...
Beremiz agradeceu emocionado,
inclinando ligeiramente a cabeça e levando a mão direita à altura
do coração. Os versos que ele acabara de ouvir eram de um poeta
persa, que foi também geômetra e astrônomo: Omar Khayyám. (Que
Alá o tenha em sua glória!)
Sim, por Alá! Que beleza de Omar
Khayyám. “Tu não viveste em vão!”…
Notas:
(1) Cristãos
(2) Eis como Lamartine, Viagem ao
Oriente, II vol., pág. 535, se referiu aos libaneses: “Trazem
as armas da Fé nos corações e as armas da luta em seus braços.”
Cf. Tanus Jorge Bastani, O Líbano e os Libaneses no Brasil,
1945, pág. 58.
(3) Para um crente do Islã o budista
é incluído entre os idólatras. E, por se tratar de um sábio, o
rei pede (para esse budista) a misericórdia de Deus.
Malba Tahan, em O Homem que Calculava
23/08/2026
Aparência
♦ Fui comprar um par de óculos,
experimentei vários, descobri que nenhum fica bem em mim.
Experimentei mais alguns até chegar à triste conclusão de que eu é
que não fico bem em nenhum dos óculos. Saí à rua sem óculos e
descobri que não fico bem.
♦ As coisas nem sempre são tão
ruins quanto parecem. Mas quase sempre são.
♦ As aparências não enganam:
quando você vê um cara vestido de general, há enorme probabilidade
de que ele seja isso.
Millôr Fernandes, em A bíblia do caos
Civilização
O veado-galheiro-do-norte reuniu a
família e:
— Rápido, pessoal, vamos dar o pira
que isto aqui na Amazônia está cheirando a fumaça!
O veado-mateiro, seu primo, e a
capivara, vizinha dos dois, sentiram o mesmo odor e dispararam
também. Com pouca sorte: no Maranhão ouviam-se tiros, em Mato
Grosso pairava cheiro de carne assada; em Goiás…
Lá embaixo, no Rio Grande do Sul,
pobre do marrecão-da-patagônia; distraiu-se e seu dia chegou. Não
lhe serviu de consolo ver o maçarico-preto e a caturrita tombarem do
mesmo galho.
Pelo Brasil inteiro ouve-se: Pum! Pum!
Pum! Ou, se preferem versões americanas, de quadrinhos: Bam!
Zing! Crash!
São os bichos caindo, as aves
baixando em voo morto, a caça legal, autorizada pelo Instituto
Brasileiro de Desenvolvimento Florestal. Até 31 de agosto,
aproveitem, caçadores. Podem matar a seu gosto. Com apenas três
restrições:
1) Cacem por esporte; não cacem para
ganhar dinheiro ou por maldade.
2) Evitem caçar certas espécies, que
são sagradas.
3) Não cacem muito; limitem o número
de animais caçados, para que sempre restem alguns no mato.
Tirante isso, meus prezados, a fauna
lhes pertence. Gosta de codorna, e não simplesmente de ovos da dita?
Então, vá a Minas, vá a São Paulo, ao Paraná. Estado do Rio,
não; codorna sob o governo do dr. Padilha tem de ser respeitada. É
para o inhambu que vai o seu paladar? Não queira prová-lo no
Espírito Santo nem na Bahia; dirija-se a São Paulo. Paca, essa boa
carne, está pulando à sua disposição no extremo Norte, mas
desista desse prato em Santa Catarina. O mesmo bicho é caçável num
estado, incaçável noutro.
Carece de o caçador levar na mão a
arma e a portaria do Instituto, para não se enganar, e um bom mapa
do Brasil também. O mesmo recomendo aos bichos: vocês têm que
aprender a ler, queridos; ou pelo menos arranjar um radinho de pilha,
que os oriente para onde devem se mandar, se residirem em unidade
federativa onde foi permitida a matança de vocês. Cuidado com
informantes e dedos-duros: qualquer descuido pode ser fatal. Estudem
as questões de limites que ainda persistem entre alguns estados,
para evitar o pior. Narceja pousada no galho, precisa saber se o
tronco fica do lado de cá ou do lado de lá; o brejo que ela aprecia
já foi fotogrametrado? Olhe o risco de um tiro legal, procedente de
qualquer das margens.
Outro problema, a numeração.
Saracura, o caçador licenciado tem direito de liquidar cinco; a no
6, que andar escondida por perto, não está livre de ser imolada à
contagem errônea. Caça e caçador geralmente não chegam a acordo,
e que adiantaria mostrar a este a estatística de saracuras
sacrificadas? Ele se enganou, pronto: mata seis, mata sete.
Recomendar a presença de fiscal junto
ao caçador licenciado, para que não derrube mais de dez
marrecas-dos-pés-encarnados? Não quero pôr em dúvida a
integridade dos fiscais de qualquer natureza, mas carne de marreca é
tão sublime, quando bem preparada! Vá lá, pode derrubar ainda umas
três ou quatro, de pinga. Mas não se esqueça aqui do titio, hem? E
a ideia de instalar um computador nos capoeirões brasileiros, para
controlar o teto das caçadas, mostra que o surrealismo continua
vivo. De qualquer modo, fiquem sabendo: caçar dez irerês é
esportivo; onze, já constitui abuso contra a natureza. Quer acabar
com a raça?
— Mas eu sou campeão de caça a
irerê e queria bater meu recorde!
Calma, amizade. Você ainda tem
direito a abater dez inhambuxororós, dois inhambus-canela-roxa, dez
codornas… Seu clube lhe dará novos troféus.
Bem, a caça é permitida nas regiões
e períodos em que não se desenvolve a fase de reprodução das
espécies. É princípio universal, a que se submete nosso Código de
Caça. Respeita-se a reprodução, para que ela assegure a estocagem
de animais a serem caçados por esporte, sob tais e quais condições
restritivas. Garante-se a natureza, por um lado; por outro,
garante-se o esporte, que desfalca a natureza. Mas que esporte é
esse, fundado na morte de animais inocentes, e não na alegria da
vida, que dá sentido às competições da força e da higidez?
Palavra que não entendo. Não o
entendia Paul Léautaud, que se rejubilava quando o tiro destinado à
caça pegava a nádega de outro caçador. Não chego a tanto, mas
suspeito que falta ainda muito para se inscrever nos dicionários o
exato sentido da palavra civilização.
Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica
Tradução simultânea
Sala de transmissão do Oscar. Um
tradutor simultâneo tenta traduzir para o telespectador tudo o que
acontece no palco.
ELE Billy Cristal: Boa noite, vocês
são uma plateia mais bonita do que Mountain Rockwa… O ator fez um
trocadilho, uma piada que faz referência ao fato de que há uma
montanha homônima ao ator Rockward, bom, isso não tem tradução…
ELA A comediante Ellen De Generes
retrucou dizendo: isso quer dizer que você não estava presente no
Tonight Show no dia em que, bom o Tonight Show é um programa
de John Stewart, isso foi uma piada mais voltada ao público
americano, mesmo, que acompanha a programação televisiva, não cabe
traduzir.
ELE Billy Cristal, novamente: obrigado
Miley Cyrus, por nos… bem, ele está fazendo referência a uma
celebridade local, é uma piada de atualidade, a atriz, famosa pelo
papel de Hannah Montana, recentemente, bom, essa tem que acompanhar o
noticiário americano pra entender. Não cabe aqui narrar, enfim.
Steve Martin arremedou com uma piada referente à Miley Cyrus que eu
perdi porque estava explicando a piada anterior da Miley Cyrus.
ELA E para apresentar o prêmio de
Melhor Atriz, Whoopy Goldberg. O público aplaude intensamente. Com a
palavra Whoopy Goldberg, que diz: hua-ha baby ooo, isso não tem
tradução, é apenas isso mesmo que significa, uma série de
onomatopeias. Acrescidas de um pouco de humor visual, uma piada
imagética. Ou talvez seja a imitação de alguém que eu não
conheço. O público ri, não sei exatamente por quê. Fica o
mistério.
ELE Com a palavra Billy Crystal.
Negros não gostam de, bom, eu não vou traduzir essa piada, em
português ela fica parecendo racista, mas ela é calcada no fato,
digo: no preconceito de que negros não teriam o hábito de, bom,
acho que ele está falando dos negros americanos. Whoopy volta ao
palco.
ELA Bom, Whoopy arremedou com alguma
coisa que eu não entendi, acho que foi uma brincadeira com Billy,
eles são amigos de longa data, foi uma piada interna. Billy responde
com outro trocadilho, um chiste linguístico, intraduzível, baseado
no fato de que duas palavras de significados opostos em inglês têm
uma sonoridade parecida em inglês. Whoopy responde com: oh, no he
didn’t. É uma piada de repetição, uma running gag, fazendo
referência a uma piada anterior que eu não havia traduzido pois eu
estava traduzindo uma outra piada que eu tampouco havia traduzido,
assim como agora eu perdi alguma coisa que provavelmente foi uma
piada pois o público está rindo. O público agora está aplaudindo,
de tanto rir. Esse Oscar está se revelando especialmente divertido
para quem está lá.
Gregório Duvivier, em Put some farofa
22/08/2026
1637 – Baía de Massachusetts
“Deus é inglês”,
disse o piedoso John Aylmer, pastor de
almas, há uns quantos anos. E John Winthrop, fundador da colônia da
baía de Massachusetts, afirma que os ingleses podem apropriar-se das
terras dos índios tão legitimamente como Abraão entre os
sodomitas: O que é comum a todos não pertence a ninguém. Este
povo selvagem mandava sobre vastas terras sem título nem
propriedade. Winthrop é o chefe dos puritanos que chegaram no
Arbella, há quatro anos. Veio com seus sete filhos.
O reverendo John Cotton despediu os
peregrinos no cais de Southampton garantindo-lhes que Deus os
conduziria voando sobre eles com uma águia, da velha Inglaterra,
terra de iniquidades, até a terra prometida.
Para construir a nova Jerusalém no
alto da colina, chegam os puritanos. Dez anos antes do Arbella
chegou o Mayflower a Plymouth, quando já outros ingleses,
ansiosos por ouro, tinham alcançado, ao sul, a costa de Virgínia.
As famílias puritanas fogem do rei e de seus bispos. Deixam atrás
os impostos e as guerras, a fome e as pestes. Também fogem das
ameças de mudança na velha ordem. Como diz Winthrop, advogado de
Cambridge nascido em berço nobre, Deus todo-poderoso, em sua mais
santa e sábia providência, dispõe que na condição humana de
todos os tempos uns haverão de ser ricos e outros pobres; uns altos
e eminentes no poder e dignidade, e outros medíocres e submetidos.
A primeira vez, os índios viram uma
ilha que caminhava. O mastro era uma árvore e as velas, nuvens
brancas. Quando a ilha parou, os índios se aproximaram, em suas
canoas, para buscar morangos. Em lugar de morangos, encontraram
varíola.
A varíola arrasou comunidades índias
e limpou o terreno aos mensageiros de Deus, escolhidos por Deus, povo
de Israel nas areias de Canaã. Como moscas morreram os que aqui
viviam há mais de três mil anos. A varíola, diz Winthrop, foi
enviada por Deus para obrigar os colonos ingleses a ocupar as terras
limpas pela peste.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
Factótum
22
Depois de chegar na Filadélfia, eu
achei uma pensão e paguei uma semana de aluguel adiantado. O bar
mais próximo já estava lá havia cinquenta anos. Dava para sentir o
cheiro de urina, fezes e vômito de meio século subindo pelo chão
do bar, vindo dos banheiros lá de baixo.
Eram quatro e meia da tarde. Dois
homens estavam brigando no meio do bar.
O cara da minha direita disse que se
chamava Danny. O da esquerda, que se chamava Jim.
Danny tinha um cigarro na boca, a
ponta brilhava. Uma garrafa de cerveja vazia passou voando e por
pouco não acertou o nariz e o cigarro dele. Ele não se mexeu, nem
olhou em volta, só bateu as cinzas no cinzeiro.
— Quase, seu desgraçado! Tenta de
novo para você ver!
O bar estava lotado. Tinha mulheres,
algumas donas de casa gordas e um pouco burras, e duas ou três
senhoras que estavam passando por alguma barra. Enquanto eu estava
sentado, uma garota se levantou e saiu com um homem. Ela voltou em
cinco minutos.
— Helen! Helen! Como você consegue?
Ela riu.
Outro pulou em cima dela.
— Deve ser boa. Também quero!
Saíram juntos. De novo, Helen voltou
em cinco minutos.
— Ela deve ter uma bomba de sucção
no lugar da vagina!
— Preciso experimentar — disse um
coroa lá no fundo do bar. — Eu não fico de pau duro desde que
Teddy Roosevelt conquistou a última colina dele.
Com esse, Helen levou dez minutos.
— Eu quero um sanduíche — disse
um cara gordo. — Quem vai me fazer o favor de ir buscar um
sanduíche?
Eu disse que iria.
— Rosbife no pão, com tudo que tem
direito. — Me deu dinheiro. — Pode ficar com o troco.
Eu fui até o lugar do sanduíche. Um
velhote com uma barriga grande se aproximou.
— Um sanduíche de rosbife no
capricho, com tudo que tem direito. E uma garrafa de cerveja enquanto
eu espero.
Bebi a cerveja, levei o sanduíche
para o cara gordo no bar e encontrei outro lugar para sentar. Um copo
de uísque apareceu. Bebi em um gole só. Outro surgiu. Bebi tudo de
novo. A jukebox tocava.
Lá de trás do bar, um guri de uns
vinte e quatro anos veio até mim.
— Eu preciso que limpem as persianas
— falou para mim.
— Com certeza!
— O que você faz?
— Nada. Bebo. Os dois.
— E as cortinas?
— Cinco contos.
— Contratado.
Chamavam ele de Billy-Boy. Billy era
casado com a dona do bar. Ela tinha quarenta e cinco anos.
Ele me trouxe dois baldes, uns pedaços
de sabão, trapos e esponjas. Eu baixei as persianas, tirei as
lâminas e comecei a limpar.
— A bebida é por conta da casa —
disse Tommy, que era o atendente da noite — enquanto você estiver
trabalhando.
— Manda uma dose de uísque, Tommy.
Trabalho demorado esse; a poeira
estava endurecida, virou sujeira incrustada. Eu cortei as mãos
várias vezes nas lâminas das persianas de metal. A água com sabão
ardia.
— Tommy, me vê uma dose de uísque
aí. — Terminei uma parte das persianas e pendurei de volta. A
galera do bar se virava para ver meu trabalho.
— Tá bom, hein!
— Com certeza melhora o ambiente.
— Assim é provável que aumentem o
preço das bebidas.
— Dá uma dose de uísque, Tommy —
falei.
Peguei mais um conjunto de persianas e
tirei as lâminas. Ganhei do Jim no pinball por uma moeda,
depois esvaziei os baldes no vaso sanitário e fui pegar água limpa.
O segundo conjunto foi mais difícil.
Minhas mãos ganharam novos cortes. Eu duvido que aquelas janelas
tenham sido limpas nos últimos dez anos. Ganhei mais uma moeda no
pinball e aí o Billy-Boy gritou para eu voltar ao trabalho.
Helen passou por ali a caminho da
latrina das mulheres.
— Helen, te dou cinco contos quando
eu terminar aqui. Tem jeito?
— Claro, mas depois de tanto
trabalho você não vai conseguir subir o amiguinho.
— Eu subo, sim.
— Estarei aqui até fechar. Se você
ainda conseguir ficar de pé, aí pode levar de graça!
— Vou estar firme e forte,
baby.
Helen voltou para a latrina.
— Uma dose de uísque, Tommy.
— Ei, vai com calma — disse
Billy-Boy —, senão você não vai terminar esse trabalho hoje.
— Billy, se eu não terminar, você
fica com os cincão.
— Negócio fechado. Vocês todos
ouviram isso?
— Ouvimos, Billy, seu pão-duro.
— Mais um pra viagem, Tommy.
Tommy mandava o uísque. Eu bebia e
seguia com o trabalho. Enchi a cara. Depois de algumas doses eu já
estava com todas as persianas limpas e brilhando.
— Beleza, Billy, pode me pagar.
— Você não terminou.
— Quê?
— Tem mais três janelas nos fundos.
— Nos fundos?
— Isso. O salão de festas.
Billy-Boy me mostrou o tal salão.
Tinha mais três janelas, mais três conjuntos de persianas.
— Eu topo por dois e cinquenta,
Billy.
— Não, ou você limpa todas ou não
ganha nada.
Peguei os baldes, joguei fora a água
suja, coloquei água limpa, sabão, aí peguei um conjunto de
persianas. Tirei as lâminas, coloquei em uma mesa e fiquei
encarando.
Jim parou a caminho da latrina.
— Qual é o problema?
— Eu não aguento mais essas
lâminas.
Quando Jim saiu do banheiro, ele
passou no bar para trazer a cerveja dele. Começou a limpar as
persianas.
— Jim, deixa isso para lá.
Fui até o bar, peguei outro uísque.
Quando voltei, uma das garotas estava pegando um conjunto de
persianas.
— Cuidado para não se cortar —
falei para ela.
Em poucos minutos, já tinha quatro ou
cinco pessoas lá atrás conversando e rindo, incluindo Helen. Todas
estavam limpando as persianas. Logo depois, toda a galera do bar
estava lá. Trabalhei com mais duas doses de uísque. Enfim, todas as
persianas estavam limpas e penduradas. Não levou muito tempo. Elas
brilhavam. Billy-Boy entrou:
— Eu não vou te pagar.
— O trabalho está terminado.
— Mas não foi você que terminou.
— Não seja mão de vaca, Billy —
alguém falou.
Billy-Boy desenterrou os cinco
dólares, e eu peguei. Fomos para o bar.
— Uma dose para todo mundo! —
Deitei os cinco dólares na mesa. — E uma para mim também.
Tommy serviu as bebidas.
Bebi a minha e ele pegou os cinco
dólares.
— Você deve três dólares e quinze
centavos ao bar.
— Pendura aí.
— Ok, qual é o teu sobrenome?
— Chinaski.
— Já ouviu aquela do polonês que
foi ao banheiro?
— Já.
As bebidas chegaram para mim até a
hora de fechar. Depois da última, eu olhei ao redor. Helen tinha
picado a mula. Ela mentiu.
Que piranha, pensei, com
medo de uma longa e dura aventura…
Levantei e fui caminhando de volta até
a pensão. A luz da lua estava forte. Meus passos ecoavam na rua
vazia e parecia que alguém estava me seguindo. Olhei em volta. Me
enganei, estava sozinho por completo.
Charles Bukowski, em Factótum
Capítulo 80 – De Secretário
Na noite seguinte fui efetivamente à
casa do Lobo Neves; estavam ambos, Virgília muito triste, ele muito
jovial.
Juro que ela sentiu certo alívio
quando os nossos olhos se encontraram, cheios de curiosidade e
ternura; e não direi o que senti, porque isso já ficou expresso no
capítulo anterior, in fine. O Lobo Neves contou-me os planos que
levava para a presidência, as dificuldades locais, as esperanças,
as resoluções; estava tão contente! tão esperançado! Virgília,
ao pé da mesa, fingia ler um livro, mas por cima da página
olhava-me de quando em quando, interrogativa e ansiosa.
– O pior, disse-me de repente o Lobo
Neves, é que ainda não achei secretário.
– Não?
– Não, e tenho uma ideia.
– Ah!
– Uma ideia... Quer você dar um
passeio ao Norte?
Não sei o que lhe disse.
– Você é rico, continuou ele, não
precisa de um magro ordenado; mas se quisesse obsequiar-me, ia de
secretário comigo.
Meu espírito deu um salto para trás,
como se descobrisse uma serpente diante de si. Encarei o Lobo Neves,
fixamente, imperiosamente, a ver se lhe apanhava algum pensamento
oculto... Nem sombra disso; o olhar vinha direito e franco, a
placidez do rosto era natural, não violenta, uma placidez salpicada
de alegria. Respirei, e não tive ânimo de olhar para Virgília;
senti por cima da página o olhar dela, que me pedia também a mesma
coisa, e disse que sim, que iria. Na verdade, um presidente, uma
presidenta, um secretário, era resolver as coisas de um modo
administrativo.
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas
Depois de ler
Depois de ler, por cima de meu ombro,
as linhas precedentes, observou-me o João Sabiá:
— Mas tu já não falaste na
incompreendida beleza dos sapos, na beleza transcendental de um
matungo de inverno? Isso é a alma deles?!
— Não, é a minha alma…
Mário Quintana, em Caderno H
Siempre en la Barca pra Paquetá
3ª Faixa: Marilda
A crooner do Conjunto Sete de Ouros
chamava todo mundo de Hipócrita, no Vila da Feira, e eu, que nasci
pra bailar, terçava passo com Marilda, moreninha de minhas relações,
infelizmente não-sexuais. Perpetrei uma queda-de-asa e o salto do
sapato dela quebrou. Levei-a, cavalheirescamente, até a mesa e dei
uma de homem vivido:
– Fica triste não. Sapato alto é
um problema.
Ela não refrescou:
– Sempre desconfiei que você também
usava.
Hipócrita, cretina, filha da puta…
Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo
21/08/2026
A ausente perfeita
Mal refletida em multidão de
espelhos,
traída pela carne de meus olhos,
pressentida
uma ou outra vez, quando
consigo gastar um quanto da minha
pesada consolação transitória —
poderás ser:
a ave
a água
a alma?
Guimarães Rosa, em Ave, Palavra
Proletários e comunistas
Qual a posição dos comunistas diante
dos proletários em geral? Os comunistas não formam um partido à
parte, oposto aos outros partidos operários.
Não têm interesses que os separem do
proletariado em geral.
Não proclamam princípios
particulares, segundo os quais pretenderiam modelar o movimento
operário.
Os comunistas só se distinguem dos
outros partidos operários em dois pontos: 1) Nas diversas lutas
nacionais dos proletários, destacam e fazem prevalecer os interesses
comuns do proletariado, independentemente da nacionalidade; 2) Nas
diferentes fases por que passa a luta entre proletários e burgueses,
representam, sempre e em toda parte, os interesses do movimento em
seu conjunto.
Praticamente, os comunistas
constituem, pois, a fração mais resoluta dos partidos operários de
cada país, a fração que impulsiona as demais; teoricamente têm
sobre o resto do proletariado a vantagem de uma compreensão nítida
das condições, da marcha e dos fins gerais do movimento proletário.
O objetivo imediato dos comunistas é
o mesmo que o de todos os demais partidos proletários: constituição
dos proletários em classe, derrubada da supremacia burguesa,
conquista do poder político pelo proletariado
As concepções teóricas dos
comunistas não se baseiam, de modo algum, em ideias ou princípios
inventados ou descobertos por tal ou qual reformador do mundo. São
apenas a expressão geral das condições reais de uma luta de
classes existente, de um movimento histórico que se desenvolve sob
os nossos olhos. A abolição das relações de propriedade que têm
existido até hoje não é uma característica peculiar e exclusiva
do comunismo.
Todas as relações de propriedade têm
passado por modificações constantes em consequência das contínuas
transformações das condições históricas.
A Revolução Francesa, por exemplo,
aboliu a propriedade feudal em proveito da propriedade burguesa.
O que caracteriza o comunismo não é
a abolição da propriedade em geral, mas a abolição da propriedade
burguesa. Ora, a propriedade privada atual, a propriedade burguesa, é
a última e mais perfeita expressão do modo de produção e de
apropriação baseado nos antagonismos de classe, na exploração de
uns pelos outros.
Nesse sentido, os comunistas podem
resumir sua teoria nesta fórmula única: abolição da propriedade
privada. Censuram-nos, a nós comunistas, o querer abolir a
propriedade pessoalmente adquirida, fruto do trabalho do indivíduo,
propriedade que se declara ser a base de toda liberdade, de toda
independência individual.
A propriedade pessoal, fruto do
trabalho e do mérito! Pretende-se falar da propriedade do pequeno
burguês, do pequeno camponês, forma de propriedade anterior à
propriedade burguesa? Não precisamos aboli-la, porque o progresso da
indústria já a aboliu e continua a aboli-la diariamente. Ou por
ventura pretende-se falar da propriedade privada atual, da
propriedade burguesa?
Mas, o trabalho do proletário, o
trabalho assalariado cria propriedade para o proletário? De nenhum
modo. Cria o capital, isto é, a propriedade que explora o trabalho
assalariado e que só pode aumentar sob a condição de produzir novo
trabalho assalariado, a fim de explorá-lo novamente. Em sua forma
atual a propriedade se move entre os dois termos antagônicos:
capital e trabalho.
Examinemos os dois termos dessa
antinomia.
Ser capitalista significa ocupar não
somente uma posição pessoal, mas também uma posição social na
produção. O capital é um produto coletivo: só pode ser posto em
movimento pelos esforços combinados de muitos membros da sociedade,
e mesmo, em última instância, pelos esforços combinados de todos
os membros da sociedade.
O capital não é, pois, uma força
pessoal; é uma força social. Assim, quando o capital é
transformado em propriedade comum, pertencente a todos os membros da
sociedade, não é uma propriedade pessoal que se transforma em
propriedade social. O que se transformou foi apenas o caráter social
da propriedade. Esta, perde seu caráter de classe.
Passemos ao trabalho assalariado.
O preço médio que se paga pelo
trabalho assalariado é o mínimo de salário, isto é, a soma dos
meios de subsistência necessária para que o operário viva como
operário. Por conseguinte, o que o operário obtém com o seu
trabalho é o estritamente necessário para a mera conservação e
reprodução de sua vida. Não queremos de nenhum modo abolir essa
apropriação pessoal dos produtos do trabalho, indispensável à
manutenção e à reprodução da vida humana, pois essa apropriação
não deixa nenhum lucro líquido que confira poder sobre o trabalho
alheio. O que queremos é suprimir o caráter miserável desta,
apropriação que faz com que o operário só viva para aumentar o
capital e só viva na medida em que o exigem os interesses da classe
dominante.
Na sociedade burguesa, o trabalho vivo
é sempre um meio de aumentar o trabalho acumulado. Na sociedade
comunista, o trabalho acumulado é sempre um meio de ampliar,
enriquecer e melhorar cada vez mais a existência dos trabalhadores.
Na sociedade burguesa, o passado
domina o presente; na sociedade comunista é o presente que domina o
passado. Na sociedade burguesa, o capital é independente e pessoal,
ao passo que o indivíduo que trabalha não tem nem independência
nem personalidade. a abolição de semelhante estado de coisas que a
burguesia verbera como a abolição da individualidade e da
liberdade. E com razão. Porque se trata efetivamente de abolir a
individualidade burguesa, a independência burguesa, a liberdade
burguesa.
Por liberdade, nas condições atuais
da produção burguesa, compreende-se a liberdade de comércio, a
liberdade de comprar e vender.
Mas, se o tráfico desaparece,
desaparecerá também a liberdade de traficar. Demais, toda a
fraseologia sobre a liberdade de comércio, bem como todas as
bazófias liberais de nossa burguesia só têm sentido quando se
referem ao comércio tolhido e ao burguês oprimido da Idade Média;
nenhum sentido têm quando se trata da abolição comunista do
tráfico, das relações burguesas de produção e da própria
burguesia.
Horrorizai-vos porque queremos abolir
a propriedade privada. Mas em vossa sociedade a propriedade privada
está abolida para nove décimos de seus membros. E é precisamente
porque não existe para estes nove décimos que ela existe para vós.
Acusai-nos, portanto, de querer abolir uma forma de propriedade que
só pode existir com a condição de privar de toda propriedade a
imensa maioria da sociedade.
Em resumo, acusai-nos de querer abolir
vossa propriedade. De fato, é isso que queremos.
Desde o momento em que o trabalho não
mais pode ser convertido em capital, em dinheiro, em renda da terra,
numa palavra, em poder social capaz de ser monopolizado, isto é,
desde o momento em que a propriedade individual não possa mais se
converter em propriedade burguesa, declarais que a individualidade
está suprimida.
Confessais, pois, que quando falais do
indivíduo, quereis referir-vos unicamente ao burguês, ao
proprietário burguês. E este indivíduo, sem dúvida, deve ser
suprimido.
O comunismo não retira a ninguém o
poder de apropriar-se de sua parte dos produtos sociais, apenas
suprime o poder de escravizar o trabalho de outrem por meio dessa
apropriação.
Alega-se ainda que, com a abolição
da propriedade privada, toda a atividade cessaria, uma inércia geral
apoderar-se-ia do mundo.
Se isso fosse verdade, há muito que a
sociedade burguesa teria sucumbido à ociosidade, pois que os que no
regime burguês trabalham não lucram e os que lucram não trabalham.
Toda a objeção se reduz a essa tautologia: não haverá mais
trabalho assalariado quando não mais existir capital.
As acusações feitas contra o modo
comunista de produção e de apropriação dos produtos materiais têm
sido feitas igualmente contra a produção e a apropriação dos
produtos do trabalho intelectual. Assim como o desaparecimento da
propriedade de classe equivale, para o burguês, ao desaparecimento
de toda a produção, também o desaparecimento da cultura de classe
significa, para ele, o desaparecimento de toda a cultura.
A cultura, cuja perda o burguês
deplora, é, para a imensa maioria dos homens, apenas um adestramento
que os transforma em máquinas.
Mas não discutais conosco enquanto
aplicardes à abolição da propriedade burguesa o critério de
vossas noções burguesas de liberdade, cultura, direito, etc. Vossas
próprias ideias decorrem do regime burguês de produção e de
propriedade burguesa, assim como vosso direito não passa da vontade
de vossa classe erigida em lei, vontade cujo conteúdo é determinado
pelas condições materiais de vossa existência como classe.m
A falsa concepção interesseira que
vos leva a erigir em leis eternas da natureza e da razão as relações
sociais oriundas do vosso modo de produção e de propriedade –
relações transitórias que surgem e desaparecem no curso da
produção – a compartilhais com todas as classes dominantes já
desaparecidas. O que admitis para a propriedade antiga, o que admitis
para a propriedade feudal, já não vos atreveis a admitir para a
propriedade burguesa.
Abolição da família! Até os mais
radicais ficam indignados diante desse desígnio infame dos
comunistas. Sobre que fundamento repousa a família atual, a família
burguesa? No capital, no ganho individual. A família, na sua
plenitude, só existe para a burguesia, mas encontra seu complemento
na supressão forçada da família para o proletário e na
prostituição pública.
A família burguesa desvanece-se
naturalmente com o desvanecer de seu complemento, e uma e outra
desaparecerão com o desaparecimento do capital.
Acusai-nos de querer abolir a
exploração das crianças por seus próprios pais? Confessamos este
crime.
Dizeis também que destruímos os
vínculos mais íntimos, substituindo a educação doméstica pela
educação social. E vossa educação não é também determinada
pela sociedade, pelas condições sociais em que educais vossos
filhos, pela intervenção direta ou indireta da sociedade por meio
de vossas escolas, etc? Os comunistas não inventaram essa
intromissão da sociedade na educação, apenas mudam seu caráter e
arrancam a educação à influência da classe dominante.
As declamações burguesas sobre a
família e a educação, sobre os doces laços que unem a criança
aos pais, tornam-se cada vez mais repugnantes à medida que a grande
indústria destrói todos os laços familiares do proletário e
transforma as crianças em simples objetos de comércio, em simples
instrumentos de trabalho.
Toda a burguesia grita em coro: “Vós,
comunistas, quereis introduzir a comunidade das mulheres!”
Para o burguês, sua mulher nada mais
é que um instrumento de produção. Ouvindo dizer que os
instrumentos de produção serão explorados em comum, conclui
naturalmente que haverá comunidade de mulheres. Não imagina que se
trata precisamente de arrancar a mulher de seu papel atual de simples
instrumento de produção.
Nada mais grotesco, aliás, que a
virtuosa indignação que, a nossos burgueses, inspira a pretensa
comunidade oficial das mulheres que adotariam os comunistas. Os
comunistas não precisam introduzir a comunidade das mulheres. Esta
quase sempre existiu.
Nossos burgueses, não contentes em
ter à sua disposição as mulheres e as filhas dos proletários, sem
falar da prostituição oficial, têm singular prazer em cornearem-se
uns aos outros.
O casamento burguês é, na realidade,
a comunidade das mulheres casadas. No máximo, poderiam acusar os
comunistas de querer substituir uma comunidade de mulheres, hipócrita
e dissimulada, por outra que seria franca e oficial.
[…]
Karl Marx e Friedrich Engels, em Manifesto do Partido Comunista
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