21/08/2026

Felipe Alves & Rio Funk Jazz Session | Djavan — Cigano

A ausente perfeita

Mal refletida em multidão de espelhos,
traída pela carne de meus olhos,
pressentida
uma ou outra vez, quando
consigo gastar um quanto da minha
pesada consolação transitória —
poderás ser:
a ave
a água
a alma?

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

Proletários e comunistas




Qual a posição dos comunistas diante dos proletários em geral? Os comunistas não formam um partido à parte, oposto aos outros partidos operários.
Não têm interesses que os separem do proletariado em geral.
Não proclamam princípios particulares, segundo os quais pretenderiam modelar o movimento operário.
Os comunistas só se distinguem dos outros partidos operários em dois pontos: 1) Nas diversas lutas nacionais dos proletários, destacam e fazem prevalecer os interesses comuns do proletariado, independentemente da nacionalidade; 2) Nas diferentes fases por que passa a luta entre proletários e burgueses, representam, sempre e em toda parte, os interesses do movimento em seu conjunto.
Praticamente, os comunistas constituem, pois, a fração mais resoluta dos partidos operários de cada país, a fração que impulsiona as demais; teoricamente têm sobre o resto do proletariado a vantagem de uma compreensão nítida das condições, da marcha e dos fins gerais do movimento proletário.
O objetivo imediato dos comunistas é o mesmo que o de todos os demais partidos proletários: constituição dos proletários em classe, derrubada da supremacia burguesa, conquista do poder político pelo proletariado
As concepções teóricas dos comunistas não se baseiam, de modo algum, em ideias ou princípios inventados ou descobertos por tal ou qual reformador do mundo. São apenas a expressão geral das condições reais de uma luta de classes existente, de um movimento histórico que se desenvolve sob os nossos olhos. A abolição das relações de propriedade que têm existido até hoje não é uma característica peculiar e exclusiva do comunismo.
Todas as relações de propriedade têm passado por modificações constantes em consequência das contínuas transformações das condições históricas.
A Revolução Francesa, por exemplo, aboliu a propriedade feudal em proveito da propriedade burguesa.
O que caracteriza o comunismo não é a abolição da propriedade em geral, mas a abolição da propriedade burguesa. Ora, a propriedade privada atual, a propriedade burguesa, é a última e mais perfeita expressão do modo de produção e de apropriação baseado nos antagonismos de classe, na exploração de uns pelos outros.
Nesse sentido, os comunistas podem resumir sua teoria nesta fórmula única: abolição da propriedade privada. Censuram-nos, a nós comunistas, o querer abolir a propriedade pessoalmente adquirida, fruto do trabalho do indivíduo, propriedade que se declara ser a base de toda liberdade, de toda independência individual.
A propriedade pessoal, fruto do trabalho e do mérito! Pretende-se falar da propriedade do pequeno burguês, do pequeno camponês, forma de propriedade anterior à propriedade burguesa? Não precisamos aboli-la, porque o progresso da indústria já a aboliu e continua a aboli-la diariamente. Ou por ventura pretende-se falar da propriedade privada atual, da propriedade burguesa?
Mas, o trabalho do proletário, o trabalho assalariado cria propriedade para o proletário? De nenhum modo. Cria o capital, isto é, a propriedade que explora o trabalho assalariado e que só pode aumentar sob a condição de produzir novo trabalho assalariado, a fim de explorá-lo novamente. Em sua forma atual a propriedade se move entre os dois termos antagônicos: capital e trabalho.
Examinemos os dois termos dessa antinomia.
Ser capitalista significa ocupar não somente uma posição pessoal, mas também uma posição social na produção. O capital é um produto coletivo: só pode ser posto em movimento pelos esforços combinados de muitos membros da sociedade, e mesmo, em última instância, pelos esforços combinados de todos os membros da sociedade.
O capital não é, pois, uma força pessoal; é uma força social. Assim, quando o capital é transformado em propriedade comum, pertencente a todos os membros da sociedade, não é uma propriedade pessoal que se transforma em propriedade social. O que se transformou foi apenas o caráter social da propriedade. Esta, perde seu caráter de classe.
Passemos ao trabalho assalariado.
O preço médio que se paga pelo trabalho assalariado é o mínimo de salário, isto é, a soma dos meios de subsistência necessária para que o operário viva como operário. Por conseguinte, o que o operário obtém com o seu trabalho é o estritamente necessário para a mera conservação e reprodução de sua vida. Não queremos de nenhum modo abolir essa apropriação pessoal dos produtos do trabalho, indispensável à manutenção e à reprodução da vida humana, pois essa apropriação não deixa nenhum lucro líquido que confira poder sobre o trabalho alheio. O que queremos é suprimir o caráter miserável desta, apropriação que faz com que o operário só viva para aumentar o capital e só viva na medida em que o exigem os interesses da classe dominante.
Na sociedade burguesa, o trabalho vivo é sempre um meio de aumentar o trabalho acumulado. Na sociedade comunista, o trabalho acumulado é sempre um meio de ampliar, enriquecer e melhorar cada vez mais a existência dos trabalhadores.
Na sociedade burguesa, o passado domina o presente; na sociedade comunista é o presente que domina o passado. Na sociedade burguesa, o capital é independente e pessoal, ao passo que o indivíduo que trabalha não tem nem independência nem personalidade. a abolição de semelhante estado de coisas que a burguesia verbera como a abolição da individualidade e da liberdade. E com razão. Porque se trata efetivamente de abolir a individualidade burguesa, a independência burguesa, a liberdade burguesa.
Por liberdade, nas condições atuais da produção burguesa, compreende-se a liberdade de comércio, a liberdade de comprar e vender.
Mas, se o tráfico desaparece, desaparecerá também a liberdade de traficar. Demais, toda a fraseologia sobre a liberdade de comércio, bem como todas as bazófias liberais de nossa burguesia só têm sentido quando se referem ao comércio tolhido e ao burguês oprimido da Idade Média; nenhum sentido têm quando se trata da abolição comunista do tráfico, das relações burguesas de produção e da própria burguesia.
Horrorizai-vos porque queremos abolir a propriedade privada. Mas em vossa sociedade a propriedade privada está abolida para nove décimos de seus membros. E é precisamente porque não existe para estes nove décimos que ela existe para vós. Acusai-nos, portanto, de querer abolir uma forma de propriedade que só pode existir com a condição de privar de toda propriedade a imensa maioria da sociedade.
Em resumo, acusai-nos de querer abolir vossa propriedade. De fato, é isso que queremos.
Desde o momento em que o trabalho não mais pode ser convertido em capital, em dinheiro, em renda da terra, numa palavra, em poder social capaz de ser monopolizado, isto é, desde o momento em que a propriedade individual não possa mais se converter em propriedade burguesa, declarais que a individualidade está suprimida.
Confessais, pois, que quando falais do indivíduo, quereis referir-vos unicamente ao burguês, ao proprietário burguês. E este indivíduo, sem dúvida, deve ser suprimido.
O comunismo não retira a ninguém o poder de apropriar-se de sua parte dos produtos sociais, apenas suprime o poder de escravizar o trabalho de outrem por meio dessa apropriação.
Alega-se ainda que, com a abolição da propriedade privada, toda a atividade cessaria, uma inércia geral apoderar-se-ia do mundo.
Se isso fosse verdade, há muito que a sociedade burguesa teria sucumbido à ociosidade, pois que os que no regime burguês trabalham não lucram e os que lucram não trabalham. Toda a objeção se reduz a essa tautologia: não haverá mais trabalho assalariado quando não mais existir capital.
As acusações feitas contra o modo comunista de produção e de apropriação dos produtos materiais têm sido feitas igualmente contra a produção e a apropriação dos produtos do trabalho intelectual. Assim como o desaparecimento da propriedade de classe equivale, para o burguês, ao desaparecimento de toda a produção, também o desaparecimento da cultura de classe significa, para ele, o desaparecimento de toda a cultura.
A cultura, cuja perda o burguês deplora, é, para a imensa maioria dos homens, apenas um adestramento que os transforma em máquinas.
Mas não discutais conosco enquanto aplicardes à abolição da propriedade burguesa o critério de vossas noções burguesas de liberdade, cultura, direito, etc. Vossas próprias ideias decorrem do regime burguês de produção e de propriedade burguesa, assim como vosso direito não passa da vontade de vossa classe erigida em lei, vontade cujo conteúdo é determinado pelas condições materiais de vossa existência como classe.m
A falsa concepção interesseira que vos leva a erigir em leis eternas da natureza e da razão as relações sociais oriundas do vosso modo de produção e de propriedade – relações transitórias que surgem e desaparecem no curso da produção – a compartilhais com todas as classes dominantes já desaparecidas. O que admitis para a propriedade antiga, o que admitis para a propriedade feudal, já não vos atreveis a admitir para a propriedade burguesa.
Abolição da família! Até os mais radicais ficam indignados diante desse desígnio infame dos comunistas. Sobre que fundamento repousa a família atual, a família burguesa? No capital, no ganho individual. A família, na sua plenitude, só existe para a burguesia, mas encontra seu complemento na supressão forçada da família para o proletário e na prostituição pública.
A família burguesa desvanece-se naturalmente com o desvanecer de seu complemento, e uma e outra desaparecerão com o desaparecimento do capital.
Acusai-nos de querer abolir a exploração das crianças por seus próprios pais? Confessamos este crime.
Dizeis também que destruímos os vínculos mais íntimos, substituindo a educação doméstica pela educação social. E vossa educação não é também determinada pela sociedade, pelas condições sociais em que educais vossos filhos, pela intervenção direta ou indireta da sociedade por meio de vossas escolas, etc? Os comunistas não inventaram essa intromissão da sociedade na educação, apenas mudam seu caráter e arrancam a educação à influência da classe dominante.
As declamações burguesas sobre a família e a educação, sobre os doces laços que unem a criança aos pais, tornam-se cada vez mais repugnantes à medida que a grande indústria destrói todos os laços familiares do proletário e transforma as crianças em simples objetos de comércio, em simples instrumentos de trabalho.
Toda a burguesia grita em coro: “Vós, comunistas, quereis introduzir a comunidade das mulheres!”
Para o burguês, sua mulher nada mais é que um instrumento de produção. Ouvindo dizer que os instrumentos de produção serão explorados em comum, conclui naturalmente que haverá comunidade de mulheres. Não imagina que se trata precisamente de arrancar a mulher de seu papel atual de simples instrumento de produção.
Nada mais grotesco, aliás, que a virtuosa indignação que, a nossos burgueses, inspira a pretensa comunidade oficial das mulheres que adotariam os comunistas. Os comunistas não precisam introduzir a comunidade das mulheres. Esta quase sempre existiu.
Nossos burgueses, não contentes em ter à sua disposição as mulheres e as filhas dos proletários, sem falar da prostituição oficial, têm singular prazer em cornearem-se uns aos outros.
O casamento burguês é, na realidade, a comunidade das mulheres casadas. No máximo, poderiam acusar os comunistas de querer substituir uma comunidade de mulheres, hipócrita e dissimulada, por outra que seria franca e oficial.
[…]

Karl Marx e Friedrich Engels, em Manifesto do Partido Comunista

Calvin

Em consonância com a inteligência

O instrumento, a ferramenta e o recipiente ficam bem quando cumprem sua função, ainda que seus criadores não estejam por perto. O que é mantido junto pela natureza possui dentro si o poder que o criou. Portanto, ao reverenciar esse poder e pensar que, caso viva e aja consoante a vontade dele, tudo em você estará em consonância com a inteligência. Tudo no cosmos que o pertence também o está.

Marco Aurélio, em Meditações

A Contadora de Filmes


[3]

Éramos cinco filhos na família. Quatro homens e eu. Nós cinco formávamos uma escadinha perfeita, em tamanho e idade. Eu era a menor. Vocês imaginam o que significa crescer numa casa só de irmãos homens? Nunca brinquei de boneca. Em compensação, era campeã em bolinhas de gude e no jogo de palitinhos. E na hora de matar lagartixas nas minas de cal ninguém ganhava de mim. Era eu botar o olho e paf, lagartixa morta.
Andava de pé no chão todo santo dia, fumava escondida, usava um boné de aba virada e tinha até aprendido a mijar de pé.
A gente mija de pé, a gente urina de cócoras.
E eu mijava em qualquer lugar do deserto de salitre, igual aos meus irmãos. Até nas competições de quem mijava mais longe às vezes eu ganhava. E contra o vento.
Quando fiz sete anos entrei na escola. Além do sacrifício de ter que usar saia, me custou um bocado acostumar a urinar como as senhoritas.
Custou mais do que aprender a ler.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

20/08/2026

Mari Jasca e Michael Pipoquinha | Flor De Ir Embora / Eu Apenas Queria Que Você Soubesse

O realismo brasileiro de Almeida Júnior

Recado Difícil (1895), de José Ferraz de Almeida Júnior

Bendito

Louvados sejas Deus meu Senhor,
porque o meu coração está cortado a lâmina,
mas sorrio no espelho ao que,
à revelia de tudo, se promete.
Porque sou desgraçado
como um homem tangido para a forca,
mas me lembro de uma noite na roça,
o luar nos legumes e um grilo,
minha sombra na parede.
Louvado sejas, porque eu quero pecar
contra o afinal sítio aprazível dos mortos,
violar as tumbas com o arranhão das unhas,
mas vejo Tua cabeça pendida
e escuto o galo cantar
três vezes em meu socorro.
Louvado sejas porque a vida é horrível,
porque mais é o tempo que eu passo recolhendo despojos,
— velho ao fim da guerra como uma cabra —
mas limpo os olhos e o muco do meu nariz,
por um canteiro de grama.
Louvados sejas porque eu quero morrer,
mas tenho medo e insisto em esperar o prometido.
Uma vez, quando eu era menino, abri a porta de noite,
a horta estava branca de luar
e acreditei sem nenhum sofrimento.
Louvado sejas!

Adélia Prado, em Bagagem

Palavras...

           Mergulhar nas palavras, surfá-las, pegar um tubo, eternizar-se nesses instantes, nem que seja necessário pagar o preço de um caldo.

Elilson José Batista, em Alumbramentos

O pior dos venenos



Todos os homens gostam de ser colocados ao meu lado, nos grandes jantares que frequento. Sou inteligente, bonita, atraente, irônica, tenho imaginação, cultura, sou capaz de manter um diálogo expressivo com um banqueiro importante ou com um professor de filosofia, caso convidem um professor de filosofia para um desses jantares elegantes. Pareço uma presunçosa egocêntrica? Devo mentir, só para aparentar modéstia?
Os homens que se aproximam de mim querem sempre me seduzir. Uma mulher, qualquer mulher, até a mais obtusa, percebe quando o homem tem segundas intenções. Há uns ridiculamente óbvios, outros mais sutis, lidar com qualquer um deles exige talento. Esquivo-me das investidas, mas sem desestimulá-los totalmente; a atenção masculina galante, desde que respeitosa, é muito agradável, para mim ou qualquer outra mulher. Sou virtuosa, sei como me comportar adequadamente. O único homem que conheci, no sentido bíblico, foi o meu marido, um homem rico, influente. Não quero de maneira alguma prejudicar minha confortável situação familiar.
Antes dos jantares com lugares marcados, sempre encontro uma maneira de verificar, na mesa em que ficarei, os nomes dos outros comensais, manuscritos com rebuscada caligrafia nos cartões colocados em frente aos pratos. Em várias ocasiões troquei os cartões, quase sempre de acordo com a anfitriã, mudando de placement algum chato indicado para ficar ao meu lado. Há homens ricos, importantes, famosos, mas insuportavelmente aborrecidos. Meu marido, aliás, é um desses, todos o consideram desprovido de charme, o que é verdade. Felizmente não existe o risco de tê-lo junto a mim, nesses jantares. A etiqueta não permite.
Dizem que eu podia ter escolhido outro homem para casar, mais atraente e espirituoso. Em primeiro lugar, não existem tantos homens ricos, influentes, espirituosos e, principalmente, generosos, que sejam disponíveis. Minhas amigas se queixam da mesquinhez dos seus maridos ricaços e eu cheguei à conclusão de que assim é a maioria dos maridos, ricos ou pobres, todos reclamam das despesas que as mulheres fazem. Casei-me porque de alguma maneira gostava dele, mas reconheço que com o passar do tempo meu marido se tornou enfadonho. Além de chato, é baixo e gorducho, sei que não devo pensar nele dessa maneira, um homem que me dá tudo o que peço. Mas que outro termo pode ser aplicado ao aspecto físico dele? Rechonchudo? É pior.
Estou neste momento nua, na frente do espelho do meu quarto, feliz, meu corpo é bonito para a minha idade, afinal já passei dos quarenta. E a lipo, que fiz recentemente, deu um retoque final perfeito à malhação que pratico na academia. Relutei um pouco em fazer a lipo, mas todas as minhas amigas estavam fazendo, e não somente lipo, mas o serviço completo, cortando com bisturi ou enfiando silicone, inclusive algumas enchendo o lábio superior, creio que acham esse beicinho saliente sensual, sei lá, eu não preciso disso, tenho lábios carnudos. É verdade que uma delas tinha o lábio superior tão fino e reto que parecia um traço feito com uma régua.
Também faço dieta, é claro, o que às vezes me deixa histérica, mas é importante para manter a silhueta esbelta. É uma tortura, comer constantemente salada, peixe cozido e coisas do gênero sem poder dar uma bicada num chocolate, numa torta cremosa ou até mesmo numa baguete torradinha. Não acredito em quem diz que há dietas saborosas, isso não passa de um daqueles raciocínios que a pessoa faz para se autoenganar e sofrer menos.
Sou uns quinze centímetros mais alta do que meu marido. Ele não sabe dançar, não tem ritmo nem para essas músicas em que as pessoas apenas sacodem o corpo, uma para cada lado. Mas sempre que surge uma oportunidade ele quer bailar. Um dia, convidou a Gabriela para dançar um tango. A infeliz, que é argentina e dança como uma profissional, aceitou o convite. Foi uma coisa grotesca, a Gabriela foi um anjo, depois dei um beijo nela e pedi desculpas pelo meu marido. Coitado, eu sei, eu sei que não devia pensar assim de um homem tão bom, que me dá tudo o que peço, mas naquele dia eu fiquei com ódio dele.
Ideias surgem na minha cabeça constantemente, como agora, olhando gulosamente o reflexo da minha nudez no espelho. Mas não devemos ter medo de pensar, já tememos tanta coisa, se tivermos medo de pensar nem sequer existimos como pessoa. Gostaria que meu marido olhasse para o meu corpo nu, como eu estou olhando, e dissesse, estou com vontade de te morder. Estarei me tornando uma lésbica? Acontece com mulheres casadas. Lembro-me do Carlinhos Varela dizendo num jantar, “você tem braços lindos, estou me contendo para não mordê-los agora mesmo.” Um arrepio passou pelo meu corpo. Respondi, “Carlinhos, você é muito engraçado, mas diz muita besteira.” Usei essa palavra forte, besteira, e acintosamente evitei conversar com ele durante o resto do jantar. Aquela coisa da mulher de César.
Meu marido nunca me deu uma dentada. Confesso que detesto ficar a sós com ele, e quando não consigo evitar que isso aconteça, sou paciente, amável, sem demonstrar o desgosto que sinto. Se ele quer ficar calado, faço o mesmo, se quer ir a um leilão — meu marido coleciona vasos antigos —, eu o acompanho; às vezes até assistimos juntos aos noticiários financeiros da TV a cabo. Felizmente dormimos em quartos separados, o que é comum entre os casais do nosso nível socioeconômico. À noite, na cama, insone, suspiro, rolo de um lado para o outro sem querer saber bem por quê. Na verdade sei a razão, mas não quero falar nisso.
No jantar de hoje tenho a sorte de ser colocada ao lado do Dudu Meirelles. Ele é engraçado, um homem interessante mas metido a conquistador, se você der um dedo ele quer o braço todo. Lá para as tantas ele diz no meu ouvido: “Por você faço qualquer loucura, abandono minha mulher, vendo meus cavalos, meu apartamento em Paris, deixo de jogar pingue-pongue.”
Tomo um gole de vinho, ganhando tempo para achar uma boa resposta.
“Esse pingue-pongue foi uma metáfora inconsciente? As bolas simbolizam as mulheres que, segundo dizem, você joga de um lado para o outro?”
Ele fica indeciso, sem saber o que dizer, surpreso por descobrir que sou inteligente e espirituosa, talvez um pouco ofendido. Os homens são muito tolos, muito mais vaidosos do que as mulheres. A média das mulheres é mais inteligente do que a média dos homens, e não estou falando de intuição, é preciso acabar com essa bobagem de que somos muito intuitivas, com isso eles querem sugerir que pensamos com os ovários.
Minhas amigas invejam o interesse que os homens demonstram por mim, sejam eles solteiros ou casados, os maridos delas inclusive. O Chico Mattos Soares, considerado o melhor partido da cidade, rico, bonito, quarentão, um solteirão empedernido, disputado por todas, me disse à mesa, com uma ponta de tristeza na voz “Se você não fosse mulher de um amigo meu, eu a pediria em casamento” E olhou nos meus olhos como quem diz, “leia, sinta o meu olhar, estou falando a verdade”. Notei, nos seus olhos castanho-claros, que não estava mentindo. Foi um momento mágico, que Chico tentou romper dizendo, “desculpe ter sido tão inconveniente”. Mas essa delicadeza me deixou ainda mais comovida.
À noite sonho com Chico. Ele segura minha mão e rimos felizes. Chico tem lábios bonitos, dentes perfeitos, é mais alto do que eu, creio que não existe homem mais elegante e distinto, e não é às custas do Armani, ele se veste de maneira casual, usa camisas polo da Hering, o relógio dele é um Seiko. Dinheiro não compra elegância, compra a sua simulação.
Eu e o meu marido estamos tomando café juntos. Ele lê o jornal e responde a tudo o que eu digo ou pergunto com monossilábicos hum-huns. Num impulso, que me surpreende, arranco o jornal da mão dele.
“Quero me separar de você”, digo.
“Não acho a menor graça”, ele responde.
Não acredita que eu esteja falando seriamente, falta-lhe senso de humor, não sabe quando alguém está brincando e portanto também não percebe o contrário.
“Temos que ir falar com o seu advogado, ou o quê?”
“Que bobagem é essa?”
“Vou falar bem devagar. Não quero mais viver com você.”
Pelo meu tom de voz ele compreende afinal o que está acontecendo. A sua boca fica aberta, como alguém em estado de choque.
“O que foi que eu fiz?”, pergunta.
“Nada”, respondo.
“Existe outro homem?”
“Não, é uma coisa só minha. Pode achar que é loucura, talvez seja, mas não tem remédio, quero me separar de você.”
Ele telefona para o escritório, avisa que não vai trabalhar, deve ter surpreendido a secretária e os assessores, ele nunca deixa de ir ao escritório. Sei que pretende me dissuadir. Durante o resto do dia tenta demover-me, de maneira extenuante, o coitado. Pede-me para esperar um pouco, deixar passar um tempo, sugere consultarmos um psicólogo, fazermos uma viagem, ele não pode se ausentar, a situação econômica do país exige sua presença à frente dos negócios, mas fará uma viagem comigo para onde eu quiser. Se eu preferir, posso fazer a viagem sozinha. Tudo para ganhar tempo.
“Sem você, a minha vida acaba.”
Mantenho-me firme, apesar de sentir pena do seu ar infeliz e desgraçado. Quero separar-me imediatamente.
Ele sai de casa, da nossa casa, dizendo, “a casa é sua, e tudo o que tem nela, e mais o que você pedir.” O infeliz, o pobre-diabo generoso e bom, me ama. Mas eu não podia mais ficar presa a ele, sentia-me carente, irrealizada, não queria envelhecer ao seu lado. E se ia me separar, que fosse enquanto ainda podia recomeçar a minha vida.
É uma maravilha, a liberdade. Você fazer o que bem entende sem ter que dar satisfações a ninguém, que coisa boa. Estou separada há seis meses e cada dia é melhor do que o outro. Meu marido queria tudo nos seus lugares, cadeiras, livros, telefones sem fio, blocos de papel, copos, CDs, roupas, revistas, cinzeiros, como se existisse um lugar certo para cada objeto. Não gostava que eu fumasse, afirmava que fazia mal a mim e a ele, como fumante passivo. Dizem que as mulheres têm essa mania de arrumação, mas na minha casa o maníaco era ele. Desde pequena sou desorganizada, minha mãe vivia brigando comigo. Reconheço que perco meus óculos constantemente, nunca acho uma caneta quando preciso, ou uma determinada peça de roupa, o que às vezes me leva ao desespero, e minha irritação acaba sobrando para as empregadas.
Mas esses são ínfimos contratempos, se comparados com os leilões de vasos antigos, o canal Bloomberg, a chatice da presença do meu marido, que me privava da solidão sem me fazer companhia — essa frase é de um escritor francês, não sei onde botei o livro.
Uma mulher desquitada bonita é muito requestada. Mas eu não queria umaaventura passageira e, fazendo uma confissão íntima e até mesmo de mau gosto, posso afirmar que não estava acostumada a uma vida sexual intensa e portanto não tinha muita urgência de arranjar alguém.
Logo me vi cercada de lobos que queriam me devorar. Eu sabia que isso ia acontecer. Rechacei todas as investidas. Mas quando o Dudu Meirelles me procurou, eu, tolamente, flertei um pouco com ele. Logo percebi que Dudu não iria deixar de jogar pingue-pongue, e muito menos abandonar a sua mulherzinha por mim. Felizmente não tivemos nenhuma intimidade, apesar da insistência dele. Os homens só pensam em sexo. Deixei de atender aos telefonemas do Dudu. Ele percebeu que eu não era uma mulher para ser levada para a cama e logo descartada.
Encontro novamente o Carlinhos Varela num jantar. Ele, como já disse, vive arrastando a asa para mim. Sempre ouvi essa expressão “arrastar a asa”, mas só descobri a sua origem quando vi um pombo dando em cima de uma pombinha na praça Antero de Quental. Eu passava pela praça para ir ao cabeleireiro e notei os pombos. Um pombo macho perseguia a fêmea arrastando a asa pelo chão. O pombo acabou conseguindo o que queria, depois de muito tempo. Uma coisa sem graça muito rápida, não sei se valeu a pena ficar tanto tempo na praça olhando os pombos.
Estou usando um vestido que deixa os meus braços inteiramente nus, meus braços são bonitos e gosto de exibi-los. O Carlinhos se aproxima, sei que vai arrastar a asa para mim, dirá que quer morder os meus braços, certo de que agora, divorciada, sou mais acessível.
Estou preparada para dar um passa-fora nele. Carlinhos, depois de me cumprimentar, diz:
“Você não acha que hoje está sendo o dia mais quente do verão?” Respondo que sim, espero o resto, a minha deixa. Mas não tem resto.
Carlinhos logo procura um pretexto para se afastar. E o idiota não mais me procura, me evita o resto da festa. Confesso que senti uma certa frustração, talvez eu não fosse dar nenhum fora nele, não obstante o Carlinhos fosse um cretino. O dia mais quente do verão! Imbecil.
Não tenho ido a muitos jantares. Agora sei que muitos dos convites que recebia eram na verdade dirigidos ao meu marido. Senhor e senhora, o senhor é que importava. Por mais que eu enfeitasse a festa, minha contribuição era secundária. Negócios, o mundo é assim. A princípio isso me incomodou um pouco, mas minha amiga Lulu, uma cínica amargurada, já me havia alertado sobre isso.
Hoje é um dia glorioso. Depois de tanto tempo — dois, três anos? — recebo um telefonema do Chico Mattos Soares. Ele me diz para eu ir até a janela do meu apartamento para ver a lua. Fico tão emocionada que nem consigo falar direito, quanto mais ver a lua. “Vamos dar uma volta ao luar, no calçadão da praia e tomar uma água de coco?”

Rubem Fonseca, em Pequenas Criaturas

Tempestade de almas

Ah, se eu sei, não nascia, ah, se eu sei, não nascia. A loucura é vizinha da mais cruel sensatez. Engulo a loucura porque ela me alucina calmamente. O anel que tu me deste era de vidro e se quebrou e o amor não acabou, mas em lugar de, o ódio dos que amam. A cadeira me é um objeto. Inútil enquanto a olho. Diga-me por favor que horas são para eu saber que estou vivendo nesta hora. A criatividade é desencadeada por um germe e eu não tenho hoje esse germe mas tenho incipiente a loucura que em si mesma é criação válida. Nada mais tenho a ver com a validez das coisas. Estou liberta ou perdida. Vou-lhes contar um segredo: a vida é mortal. Nós mantemos esse segredo em mutismo cada um diante de si mesmo porque convém, senão seria tornar cada instante mortal. O objeto cadeira sempre me interessou. Olho esta que é antiga, comprada num antiquário, e estilo império; não se poderia imaginar maior simplicidade de linhas, contrastando com o assento de feltro vermelho. Amo os objetos à medida que eles não me amam. Mas se não compreendo o que escrevo a culpa não é minha. Tenho que falar pois falar salva. Mas não tenho uma só palavra a dizer. As palavras já ditas me amordaçaram a boca. O que é que uma pessoa diz à outra? Fora “como vai?” Se desse a loucura da franqueza, que diriam as pessoas às outras? E o pior é o que se diria uma pessoa a si mesma, mas seria a salvação, embora a franqueza seja determinada no nível consciente e o terror da franqueza vem da parte que tem no vastíssimo inconsciente que me liga ao mundo e à criadora inconsciência do mundo. Hoje é dia de muita estrela no céu, pelo menos assim promete esta tarde triste que uma palavra humana salvaria.
Abro bem os olhos, e não adianta: apenas vejo. Mas o segredo, este não vejo nem sinto. A eletrola está quebrada e não viver com música é trair a condição humana que é cercada de música. Aliás, música é uma abstração do pensamento, falo de Bach, de Vivaldi, de Haendel. Só posso escrever se estiver livre, e livre de censura, senão sucumbo. Olho a cadeira estilo império e dessa vez foi como se ela também me tivesse olhado e visto. O futuro é meu enquanto eu viver. No futuro vai-se ter mais tempo de viver, e, de cambulhada escrever. No futuro, se diz: se eu sei, eu não nascia. Marli de Oliveira, eu não escrevo cartas pra você porque só sei ser íntima. Aliás eu só sei em todas as circunstâncias ser íntima: por isso sou mais uma calada. Tudo o que nunca se fez, far-se-á um dia? O futuro da tecnologia ameaça destruir tudo o que é humano no homem, mas a tecnologia não atinge a loucura; e nela então o humano do homem se refugia. Vejo as flores na jarra: são flores do campo, nascidas sem se plantar, são lindas e amarelas. Mas minha cozinheira disse: mas que flores feias. Só porque é difícil compreender e amar o que é espontâneo e franciscano. Entender o difícil não é vantagem, mas amar o que é fácil de se amar é uma grande subida na escala humana. Quantas mentiras sou obrigada a dar. Mas comigo mesma é que eu queria não ser obrigada a mentir. Senão o que me resta? A verdade é o resíduo final de todas as coisas, e no meu inconsciente está a verdade que é a mesma do mundo. A Lua é, como diria Paul Éluard, éclatante de silence. Hoje não sei se vamos ter Lua visível pois já se torna tarde e não a vejo no céu. Uma vez eu olhei de noite para o céu circunscrevendo-o com a cabeça deitada para trás, e fiquei tonta de tantas estrelas que se veem no campo, pois, o céu do campo é limpo. Não há lógica, se se for pensar um pouco, na ilogicidade perfeitamente equilibrada da natureza. Da natureza humana também. O que seria do mundo, do cosmos, se o homem não existisse. Se eu pudesse escrever sempre assim como estou escrevendo agora eu estaria em plena tempestade de cérebro que significa brainstorm. Quem terá inventado a cadeira? Alguém com amor por si mesmo. Inventou então um maior conforto para o seu corpo. Depois os séculos se seguiram e nunca mais ninguém prestou realmente atenção a uma cadeira, pois usá-la é apenas automático. É preciso ter coragem para fazer um brainstorm: nunca se sabe o que pode vir a nos assustar. O monstro sagrado morreu: em seu lugar nasceu uma menina que era sozinha. Bem sei que terei de parar, não por causa de falta de palavras, mas porque essas coisas, e sobretudo as que eu só pensei e não escrevi, não se usam publicar em jornais.

Clarice Lispector, em Todos os contos

19/08/2026

Jards Macalé | Movimento dos Barcos

O impagável Quino

Wide sargasso sea

A história está completa: wide sargasso sea, azul. azul que não me espanta, e canta como uma sereia de papel.

Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés

Diário de Bernardo Soares



124.

(Chapter on Indifference or something like that)

Toda a alma digna de si própria deseja viver a vida em Extremo.

Contentar-se com o que lhe dão é próprio dos escravos. Pedir mais é próprio das crianças. Conquistar mais é próprio dos loucos, porque toda a conquista é
Viver a vida em Extremo significa vivê-la até ao limite, mas há três maneiras de o fazer, e a cada alma elevada compete escolher uma das maneiras. Pode viver-se a vida em extremo pela posse extrema dela, pela viagem Ulisseia através de todas as sensações vividas, através de todas as formas de energia exteriorizada. Raros, porém, são, em todas as épocas do mundo, os que podem fechar os olhos cheios do cansaço soma de todos os cansaços, os que possuíram tudo de todas as maneiras.
Raros podem assim exigir da vida, conseguindo-o, que ela se lhes entregue corpo e alma; sabendo não ser ciumentos dela por saber ter-lhe o amor inteiramente. Mas este deve ser, sem dúvida, o desejo de toda a alma elevada e forte. Quando essa alma, porém, verifica que lhe é impossível tal realização, que não tem forças para a conquista de todas as partes do Todo, tem dois outros caminhos que siga — um, a abdicação inteira, a abstenção formal, completa, relegando para a esfera da sensibilidade aquilo que não pode possuir integralmente na região da atividade e da energia. Mais vale supremamente não agir que agir inutilmente, fragmentariamente, imbastantemente, como a inúmera supérflua maioria inane dos homens; outro, o caminho do perfeito equilíbrio, a busca do Limite na Proporção Absoluta, por onde a ânsia de Extremo passa da vontade e da emoção para a Inteligência, sendo toda a ambição não de viver toda a vida, não de sentir toda a vida, mas de ordenar toda a vida, de a cumprir em Harmonia e Coordenação inteligente.
A ânsia de compreender, que para tantas almas nobres substitui a de agir, pertence à esfera da sensibilidade. Substituir a Inteligência à energia, quebrar o elo entre a vontade e a emoção, despindo de interesse todos os gestos da vida material, eis o que, conseguido, vale mais que a vida, tão difícil de possuir completa, e tão triste de possuir parcial.
Diziam os argonautas que navegar é preciso, mas que viver não é preciso.
Argonautas, nós, da sensibilidade doentia, digamos que sentir é preciso, mas que não é preciso viver.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Claro como água

Como sempre sucedeu, e há-de suceder sempre, a questão central de qualquer tipo de organização social humana, da qual todas as outras decorrem e para a qual todas acabam por concorrer, é a questão do poder, e o problema teórico e prático com que nos enfrentamos é identificar quem o detém, averiguar como chegou a ele, verificar o uso que dele faz, os meios de que se serve e os fins a que aponta. Se a democracia fosse, de facto, o que com autêntica ou fingida ingenuidade continuamos a dizer que é, o governo do povo pelo povo e para o povo, qualquer debate sobre a questão do poder perderia muito do seu sentido, uma vez que, residindo o poder no povo, era ao povo que competiria a administração dele, e, sendo o povo a administrar o poder, está claro que só o deveria fazer para seu próprio bem e para sua própria felicidade, pois a isso o estaria obrigando aquilo a que chamo, sem nenhuma pretensão de rigor conceptual, a lei da conservação da vida. Ora, só um espírito perverso, panglossiano até ao cinismo, ousaria apregoar a felicidade de um mundo que, pelo contrário, ninguém deveria pretender que o aceitemos tal qual é, só pelo facto de ser, supostamente, o melhor dos mundos possíveis. É a própria e concreta situação do mundo chamado democrático, que se é verdade serem os povos governados, verdade é também que não o são por si mesmos nem para si mesmos. Não é em democracia que vivemos, mas sim numa plutocracia que deixou de ser local e próxima para tornar-se universal e inacessível.
Por definição, o poder democrático terá de ser sempre provisório e conjuntural, dependerá da estabilidade do voto, da flutuação das ideologias ou dos interesses de classe, e, como tal, pode ser entendido como um barómetro orgânico que vai registando as variações da vontade política da sociedade. Mas, ontem como hoje, e hoje com uma amplitude cada vez maior, abundam os casos de mudanças políticas aparentemente radicais que tiveram como efeito radicais mudanças de governo, mas a que não se seguiram as mudanças económicas, culturais e sociais radicais que o resultado do sufrágio havia prometido. Dizer hoje governo “socialista”, ou “social-democrata”, ou “conservador”, ou “liberal”, e chamar-lhe poder, é pretender nomear algo que em realidade não está onde parece, mas em um outro inalcançável lugar — o do poder económico e financeiro cujos contornos podemos perceber em filigrana, mas que invariavelmente se nos escapa quando tentamos chegar-lhe mais perto e inevitavelmente contra-ataca se tivermos a veleidade de querer reduzir ou regular o seu domínio, subordinando-o ao interesse geral. Por outras e mais claras palavras, digo que os povos não elegeram os seus governos para que eles os “levassem” ao Mercado, mas que é o Mercado que condiciona por todos os modos os governos para que lhe “levem” os povos. E se falo assim do Mercado é porque é ele, hoje, e mais que nunca em cada dia que passa, o instrumento por excelência do autêntico, único e insofismável poder, o poder económico e financeiro mundial, esse que não é democrático porque não o elegeu o povo, que não é democrático porque não é regido pelo povo, que finalmente não é democrático porque não visa a felicidade do povo.
O nosso antepassado das cavernas diria: “É água”. Nós, um pouco mais sábios, avisamos: “Sim, mas está contaminada”.

José Saramago, em O caderno

Piloto de Guerra — IX




Eu o revejo com precisão, deitado no leito do hospital. Seu joelho ficou preso e foi quebrado pela empenagem do avião durante o salto de paraquedas, mas Sagon não sentiu o choque. Seu rosto e suas mãos estão gravemente queimados, mas, ao final das contas, ele não sofreu nada de preocupante. Ele nos conta lentamente sua história, com uma voz qualquer, como o relatório de uma tarefa…
— Percebi que ele estava atirando quando me vi envolvido em balas traçantes. Meu painel de bordo estourou. Depois, vi um pouco de fumaça, mas não muita, que parecia vir da frente. Pensei que era, você sabe, ali tem um tubo de junção. Ah! Não estava chamejando muito…
Sagon faz bico. Pesa a questão. Julga importante dizer-nos se chamejava muito ou não muito. Hesita:
— Mesmo assim era fogo… Então, eu mandei que saltassem.
Pois o fogo, em dez segundos, transforma o avião em tocha!
— Abri, então, o canopi. Fiz mal. Entrou ar… O fogo… Fiquei incomodado.
Um forno de locomotiva cospe-lhe no ventre uma torrente de chamas, a sete mil metros de altitude e você ficou incomodado! Não trairei Sagon exaltando seu heroísmo ou seu pudor. Ele não reconheceria nem esse heroísmo nem esse pudor. Ele diria: “Sim, sim, fiquei incomodado…”. Ele faz, aliás, visíveis esforços para ser exato.
E bem sei que o campo da consciência é minúsculo. Ela só aceita um problema de cada vez. Se você brigar de soco e a estratégia da luta o preocupar, não sofrerá pelos socos. Quando quase me afoguei, num acidente de hidroavião, a água, que estava gelada, pareceu-me morna. Ou, mais precisamente: minha consciência não considerou a temperatura da água. Ela estava absorvida por outras preocupações. A temperatura da água não deixou nenhum traço em minha lembrança. Assim, a consciência de Sagon foi absorvida pela técnica da partida. O universo de Sagon se limitava à manivela que desliza o canopi para trás, à certa alça do paraquedas cuja localização o preocupou, e o destino técnico de sua tripulação. “Você saltou?” Nada de resposta. “Ninguém a bordo?” Nada de resposta.
— Pensei que estava sozinho. Achei que podia partir… (Ele já estava com o rosto e as mãos tostados). Levantei, pulei a carlinga e me mantive primeiro sobre a asa. Ali, debrucei à frente: não tinha visto o observador…
O observador, morto com um tiro só dos caças, jazia no fundo da carlinga.
— Recuei então e, atrás, não vi o artilheiro…
O artilheiro, também, havia desmoronado.
— Pensei que estava sozinho…
Ele refletiu:
— Se eu soubesse… Podia ter voltado a bordo… Não estava queimando tanto… Eu fiquei assim, muito tempo, na asa… Antes de sair da carlinga, eu tinha compensado o avião para cabrar. O voo estava estabilizado, a respiração suportável e eu me sentia bem. Ah! Fiquei tempo demais na asa… Não sabia o que fazer…
Não que se apresentassem a Sagon problemas inextricáveis: ele pensava estar sozinho a bordo, o avião em chamas e os caças repetiam suas passagens cuspindo projéteis. O que queria nos dizer Sagon é que ele não tinha nenhum desejo. Ele não sentia nada. Dispunha de todo o seu tempo. Imergia numa espécie de ócio infinito. E, ponto por ponto, eu reconhecia essa extraordinária sensação que acompanha às vezes a iminência da morte: um ócio inesperado… Como ela é desmentida pelo real! A imaginária da ofegante precipitação! Sagon permanecia ali, sobre a asa, como ejetado para fora do tempo!
— E depois eu saltei — disse ele —, saltei mal. Eu me vi turbilhonar. Tive medo de abrir cedo demais e me enrolar no paraquedas. Esperei ficar estabilizado. Ah, esperei muito tempo.
Sagon, assim, conserva a lembrança de ter, do início ao fim de sua aventura, esperado. Esperou chamejar mais forte. Depois, esperou na asa, não se sabe o quê. E, em queda livre, na vertical para o solo, ainda esperou.
E se tratava de Sagon mesmo, e ainda que se tratasse de um Sagon rudimentar, mais do que de costume, de um Sagon um pouco perplexo que, à beira de um abismo, esperneava entediado.

Antoine de Saint-Exupéry, em Piloto de Guerra