sábado, 14 de fevereiro de 2026

Fluência

Eu fiz um livro, mas oh, meu Deus,
não perdi a poesia.
Hoje depois da festa,
quando me levantei para fazer café,
uma densa neblina acinzentava os pastos,
as casas, as pessoas com embrulho de pão.
O fio indesmanchável da vida tecia seu curso.
Persistindo, a necessidade dos relógios,
dos descongestionantes nasais.
Meu livro sobre a mesa contraponteava exato
com os pardais, os urinóis pela metade,
o antigo e intenso desejar de um verso.
O relógio bateu sem assustar os farelos sobre a mesa.
Como antes, graças a Deus.

Adélia Prado, em O Coração Disparado

Factótum


1

Cheguei em Nova Orleans, debaixo de chuva, às cinco da manhã. Fiquei sentado na rodoviária por um tempo, mas aquela gente me deprimiu, então peguei minha mala e comecei a andar na chuva mesmo. Eu não sabia onde ficavam as pensões, nem onde era a parte pobre.
A minha mala era de papelão e estava caindo aos pedaços. Ela já tinha sido preta, mas o verniz descascou e só aparecia o papelão amarelo. Eu tentei resolver passando pasta de sapato preto por cima do papelão exposto. Conforme eu andava na chuva, a pasta escorria e, sem perceber, fiquei com umas listras pretas nas duas pernas da calça porque trocava a mala de uma mão para a outra.
Bom, era uma cidade nova. Quem sabe eu daria sorte.
Parou de chover e o sol saiu. Eu estava no bairro negro. Caminhei mais devagar.
Ei, branquelo de merda!*
Coloquei a mala no chão. Uma mulher negra de pele clara** estava sentada nas escadas da varanda, balançando as pernas. Era uma mulher bonita.
Olá, seu branquelo de merda!
Não respondi, só fiquei ali parado, olhando para ela.
Quer dar umazinha, branquelo de merda?
Ela ria da minha cara. Estava com as pernas cruzadas e dava chutinhos com os pés; tinha umas pernas bonitas, estava montada em um salto, esperneava e ria. Peguei a mala e me aproximei dela pela calçada. Quando fiz isso, notei uma cortina lateral se mexer um pouco na janela à minha esquerda. Vi o rosto de um homem negro. Ele era a cara do Jersey Joe Wolcott***. Recuei o passo. A risada da mulher me seguiu pela rua.

Notas:
* Em inglês, “white trash” é um termo pejorativo usado para se referir a pessoas brancas e pobres. Segundo a historiadora Nancy Isenberg, no livro White Trash: The 400-Year Untold History of Class in America (2017) [Lixo branco: os 400 anos de história não contada sobre classe na América, em tradução livre], o termo apareceu, pela primeira vez, em um jornal estadunidense na década de 1820. Porém, o termo teria origem ainda na época da colonização britânica, com a ideia de que as colônias eram lugares que funcionavam como depósitos de pessoas indesejáveis, ou seja, presidiários, pobres, desempregados etc.. [N.T.]
** O termo usado pelo autor é “high yellow” e, segundo o dicionário Collins, é usado de forma pejorativa para denominar uma pessoa negra de pele clara ou, ainda, uma pessoa negra que seja filha de casal birracial. Optou-se, de forma deliberada, por uma expressão que não fosse racista em português brasileiro. [N.T.]
*** Jersey Joe Walcott (1914-1994), também grafado como Wolcott, como no livro, foi um pugilista estadunidense. Filho de imigrantes do Barbados, foi campeão várias vezes na categoria peso-pesado. [N.T.]

Charles Bukowski, em Factótum

Namorados públicos

Da mesma forma que os monumentos históricos ou artísticos, as belezas naturais, os bailes e cafés, os parques e jardins – os casais de namorados são coisa que pertencem ao patrimônio de uma cidade. Uma cidade sem namorados públicos não é uma verdadeira cidade. Os cicerones de Paris costumam mostrá-los aos turistas, inteiramente despreocupados em suas ternuras, como típicas curiosidades locais. No Hyde Park, em Londres, é possível vê-los às centenas, sobre o gramado esmeralda desse parque inexcedível como se estivessem em casa. O transeunte margeia beijos intermináveis, abraços infinitos, olhares abissais, namorados que leem romances, namorados que dormem, namorados que brigam, a um passo uns dos outros, perfeitamente indiferentes ao que lhes vai em torno, – e o que é formidável – guardados da curiosidade, ou malícia alheias, por um passante constable, cuja função é zelar pela perfeita consecução de seus carinhos, com uma imparticipação e fidelidade dignas de todos os aplausos. É claro que os namorados não abusam. Mas nessa questão de carinhos de superfície eles se permitem um uso inumerável. Estrafegam-se em beijos que fariam a inveja de John Gilbert ao tempo da sua paixão por Greta Garbo. Dão-se abraços de não se saber mais quem é o outro. Fazem-se cafunés maravilhosos, esfregam-se os narizes, acarinham-se os rostos, enfim: tudo isso que faz a deliciosa cozinha dos que se amam e que vem sendo a mesma desde os tempos mais recuados no tempo.
Ninguém pode dizer que o Rio não seja uma cidade de namorados: ela o é. Seria difícil, aliás, compreender-se uma cidade tão pródiga em beleza, sem namorados. Mas são namorados, meu Deus, ou tão ousados ou tão tímidos que parecem uma contrafação da natureza humana diante da Natureza. Grande culpada disso foi, até certo tempo, a nossa polícia de costumes, que arrolava todas as carícias de namorados dentro de um mesmo código moral, chegando até ao abuso de prender gente casada que saía para namorar fora de casa. Não. Há carícias e carícias. Que mal existe em se beijarem os namorados em praça pública ou nos cantos de rua? Em que uma coisa dessas ofende a moral? Por que não se poderão eles abraçar ternamente, quando tiverem vontade? Pois parece incrível: outro dia um amigo meu contou que foi “apitado” várias vezes por um guarda do Jardim Botânico, por estar dando um “peguinha” na namorada. De fato: é justo, mais do que justo, que se moralizem os costumes. Nada mais certo. Mas perseguir os namorados, da mesma forma que arrancar as plantas dos parques, ou maltratar os animais, é indício de mau caráter. Que os namorados se beijem à vontade nesta linda Rio de Janeiro. Nada há de mal no beijo dos namorados, como no amor dos pássaros. Deixai-os nos seus parques, nas suas ruas escuras, nos seus portões de casa. Deixai-os namorar, Senhor Prefeito, Senhor Diretor do Jardim Botânico, deixai-os namorar, porque eles têm cada dia menos lugares onde ir esconder seus anseios. Deixai-os se beijarem à vontade, porque o que em seus beijos irrita os burgueses moralizantes é justamente essa liberdade, essa beleza, essa poesia, esse voo que há num beijo de amor. Tréguas aos namorados!

Vinicius de Moraes, em Para viver um grande amor

Chico Buarque | Paratodos

O mistério do telegrama

Há tanta história horrivelmente triste sobre interrogatórios e prisões, que acho que vale a pena contar uma, verdadeira e engraçada, acontecida há algum tempo. Altero apenas os nomes dos personagens, mas garanto a autenticidade do caso, que está registrado em cartório.
Uma senhora (por sinal bem bonita) passou um telegrama a um cavalheiro, com quem andava de amores. O telegrama era um tanto estranho; foi retido, e a sua remetente, detida, passou toda uma noite na polícia. Eis o relato de seu interrogatório: "Aos dez dias do mês de outubro de mil novecentos e... às vinte e três horas e trinta minutos, na Delegacia de Ordem Política e Social, compareceu Maria da Silva, brasileira, desquitada, com 33 anos, residente na rua tal, número tal, apartamento tal, em Copacabana, a fim de esclarecer um telegrama que fora passado e interceptado na Agência Telegráfica do Galeão.
Tendo a declarante sido inquirida, DISSE: A propósito de um telegrama que fora interceptado na Agência Telegráfica do Galeão, expedido pela declarante no dia 9 do corrente mês, aproximadamente às 13 horas, em que figurava como destinatário o sr. Dr. João Silveira, residente na rua tal, número tal, em Belo Horizonte, vazado nos seguintes termos: Tombai — Igreja — Arco-íris — Borboleta — Camelo — Pressão baixa — Rosas vermelhas — Pianista — Vitória — Bahia — Recife — Aeroporto — Eu te amo — Saudades — Maria', esclareceu a declarante: POMBAL — se refere a um pombal existente no Parque de Florianópolis, que, visto ao entardecer, causou a ambos grande impressão; IGREJA — templo católico no Recife onde ambos fizeram um pedido; ARCO-ÍRIS — sensação visual experimentada pela declarante, quando viajava de avião, a baixa altura, em companhia do Dr. João Silveira, ao verem eles, por cinco vezes consecutivas, a aparição de um arco-íris, no trajeto entre Rio e Ilhéus; BORBOLETA — sendo a declarante supersticiosa e acreditando que borboleta amarela traz sorte, e tendo visto uma no início e outra no fim da viagem, ficou impressionada; CAMELO — que a declarante, ao visitar o Parque de Florianópolis em companhia do Dr. João Silveira, teve a oportunidade de se dirigir a um camelo nos seguintes termos: 'Senhor camelo, o senhor não preferia estar agora no deserto, a estar aqui neste parque com todo o conforto?' Que o camelo, com um gesto afirmativo de cabeça, confirmou. Que a declarante fez questão de esclarecer que, tendo sido assistente de Zoologia no Jardim Zoológico do Rio de Janeiro de mil novecentos e sessenta a mil novecentos e sessenta e dois, devotava grande afeição aos animais, especialmente ao camelo, pela sua solidão; PRESSÃO BAIXA — que o Dr. João Silveira, ao se despedir, frequentemente, da declarante, demonstrava a sua tristeza ao se separar com a sua forte queda de pressão; ROSAS VERMELHAS — que a declarante sempre se acha cercada de rosas vermelhas e, quando obsequiada pelo Dr. João com essas flores, dá a isso enorme valor; PIANISTA — esclareceu que se refere a um pianista que toca maravilhosamente, apesar de cego, num restaurante em Recife, de nome Restaurante Leite, e que nessa viagem teve a oportunidade de distinguir o casal, com a música de sua predileção: O Amor É a Coisa Mais Esplêndida do Mundo; VITÓRIA — BAHIA — RECIFE — localidades onde o casal esteve e sobretudo onde teve a ocasião de experimentar essas sensações; AEROPORTO — local das despedidas do casal, onde sempre um levava saudades do que ficava; EU TE AMO — que a declarante acha desnecessário, digo, que a frase em si dispensa maiores esclarecimentos; e finalmente: SAUDADES — que a declarante afirma que só quem a sente é quem sabe, e que só usou essa frase como despedida; que, perguntado à declarante sobre a razão da expedição do referido telegrama, esclareceu que o mesmo tinha o objetivo de reviver momentos felizes que viveram em comum, dando a ele uma surpresa agradável no meio de sua vida atribulada de homem de negócios; que a declarante faz questão de esclarecer que não havia nenhuma intenção subversiva e que essa declaração e esses incidentes referidos poderão ser confirmados pelo dr. João; que a declarante, no ato de suas declarações, se compromete a comparecer a esta delegacia a qualquer momento, a respeito do referido assunto.
E mais não disse nem lhe foi perguntado. E como nada mais houvesse a lavrar, mandou a autoridade encerrar o presente, o qual, depois de lido e achado conforme, assina com a declarante. Eu, Fulano de Tal, escrivão, o datilografei e assino.
Dezembro, 1969

Rubem Braga, em Recado de primavera

Leitura intramuros



[...]
***

Pelo menos dois tipos diferentes de leitura parecem ocorrer dentro de um grupo segregado.
No primeiro, as leitoras, como arqueólogas imaginativas, abrem caminho através da literatura oficial para resgatar das entrelinhas a presença de suas colegas proscritas, para encontrar espelhos de si mesmas nas histórias de Clitemnestra, de Gertrude, das cortesãs de Balzac. No segundo tipo, as leitoras tornam-se escritoras, inventando para si mesmas novas maneiras de contar histórias, a fim de redimir sobre a página as crônicas cotidianas de suas vidas confinadas ao laboratório da cozinha, ao estúdio da saleta de costura, às selvas do quarto das crianças.
Há talvez uma terceira categoria, em algum ponto entre essas duas. Muitos séculos depois de Sei Shonagon e Murasaki Shikibu, do outro lado do globo, a escritora inglesa George Eliot, escrevendo sobre a literatura de sua época, descreveu o que chamou “romances tolos de Senhoras Romancistas [...] um gênero com muitas espécies, determinado pela qualidade particular de tolice que predomina neles – o frívolo, o prosaico, o devoto ou o pedante. Mas é uma mistura de todos – uma ordem compósita de fatuidade feminina responsável pela produção da maior parte de tais romances, que deveremos distinguir como sendo da espécie cérebro-e-chapelaria.” [...] A desculpa habitual para as mulheres que se tornam escritoras sem nenhuma qualificação especial é que a sociedade as segrega de outras esferas de ocupação. A sociedade é uma entidade que tem uma boa dose de culpa, devendo responder pela manufatura de muitas mercadorias insalubres, de picles ruins a má poesia. Mas, como “assunto”, a sociedade, o Governo de Sua Majestade e outras abstrações grandiosas têm uma fatia excessiva de acusação, bem como de elogio”. E concluía ela: ‘Em toda labuta há proveito’; mas os romances tolos das senhoras, imaginamos, resultam menos da labuta do que da ociosidade atarefada”. O que George Eliot descrevia era uma ficção que, embora escrita dentro do grupo, limita-se praticamente a repetir os estereótipos e preconceitos oficiais que, antes de mais nada, conduziram à criação do grupo.
Tolice era também a falha que a senhora Murasald, como leitora, via na escrita de Sei Shonagon. Porém, a diferença óbvia era que Sei Shonagon não oferecia a suas leitoras uma versão ridicularizada da imagem delas tal como consagrada pelos homens. O que Murasaki achava frívolo era o tema: o mundo cotidiano dentro do qual ela mesma vivia, um mundo cuja trivialidade Sei Shonagon documentara com tanta atenção como se fora o mundo cintilante de Genji. Apesar das críticas de sua colega, o estilo de literatura íntimo e aparentemente banal de Sei Shonagon floresceu entre as mulheres leitoras da época. O exemplo mais antigo desse período é o diário de uma senhora da corte conhecida apenas como a "Mãe de Michitsuna" – o Diário do fim do verão ou Diário fugaz. Nele a autora tentou fazer a crônica, tão fiel quanto possível, da realidade de sua existência. Falando em si mesma na terceira pessoa, escreveu: "Enquanto os dias arrastavam-se monotonamente, ela lia os velhos romances e achava a maioria deles uma coleção de invenções grosseiras. Talvez, disse para si mesma, a história de sua existência enfadonha, na forma de um diário, pudesse provocar algum grau de interesse. Talvez pudesse até ser capaz de responder: isto é vida apropriada para uma dama bem-nascida?".
Apesar das críticas da senhora Murasaki, é fácil entender por que a forma confessional, a página em que uma mulher podia parecer estar dando “rédeas soltas às emoções”, tornou-se o material de leitura favorito das mulheres do período Heian. Genji apresentava algo da vida das mulheres nas personagens que cercavam o príncipe, mas O livro de travesseiro dava espaço para que as leitoras se tornassem suas próprias historiadoras.
Há quatro maneiras de escrever a vida de uma mulher”, sustenta a crítica americana Carolyn G. Heilbrun. “A própria mulher pode contá-la, no que ela escolhe chamar autobiografia; pode contá-la no que escolhe chamar ficção; um(a) biógrafo(a) pode escrever a vida de uma mulher no que é chamado de biografia; ou a mulher pode escrever sua própria vida antes de vivê-la, inconscientemente, sem reconhecer ou nomear o processo.”
A rotulagem cuidadosa que Carolyn Heilbrun faz das formas também corresponde vagamente às distintas literaturas que as escritoras do período Heian produziram: monogatari (romances), livros de travesseiro e outros. Nesses textos, as leitoras encontravam suas próprias vidas vividas ou não vividas, idealizadas ou fantasiadas, ou expostas com prolixidade e fidelidade documentais. Essa costuma ser a norma em se tratando de leitores segregados: a literatura que exigem é confessional, autobiográfica e até didática, porque leitores cujas identidades são negadas não têm outro lugar onde encontrar suas histórias exceto na literatura que eles mesmos produzem. No século XVII, em Portugal, sóror Mariana Alcoforado (ou, com maior probabilidade, um autor anônimo que usou seu nome) encontrou nas cartas de amor proibidas um meio de atravessar as paredes do claustro. Essas famosas Cartas portuguesas, que inspiraram o romance de Diderot La religieuse, se tornam, na verdade, material de leitura para a própria freira, como substituição do amante ausente e remédio para seu desejo insatisfeito, um lugar onde pode encenar sua vida erótica, um recinto dentro do qual palavras, em vez de ações, encarnam os eventos de sua paixão, dando um relato factual de seu amor impossível. Num argumento aplicado à leitura homossexual - e que pode ser perfeitamente aplicado à leitura feminina, à leitura de qualquer grupo excluído do reino do poder -, o escritor americano Edmund White observa que tão logo alguém nota que ele (podemos acrescentar – “ou ela”) é diferente, essa pessoa deve responder por isso, e que tais prestações de contas são um tipo primitivo de ficção, “as narrativas orais contadas e recontadas como conversa de travesseiro, ou em bares, ou no divã do psicanalista”. Ao contar “uns para os outros - ou para o mundo hostil em torno deles - as histórias de suas vidas, não estão apenas registrando o passado, mas também dando forma ao futuro, forjando uma identidade e, ao mesmo tempo, revelando-a”. Em Sei Shonagon, bem como na sra. Murasaki, encontram-se as sombras da literatura feminina que lemos hoje.
Uma geração depois de George Eliot, na Inglaterra vitoriana, a Gwendolen de Oscar Wilde, em A importância de ser sério, declarava que jamais viajava sem seu diário porque “deve-se sempre ter algo sensacional para ler no trem”; ela não estava exagerando. Na definição de Cecily, réplica de Gwendolen, um diário era “simplesmente um registro, feito por uma moça muito jovem, de seus pensamentos e impressões e, consequentemente, destinado a publicação”. A publicação – ou seja, a reprodução de um texto a fim de multiplicar seus leitores através de cópias manuscritas, da leitura em voz alta ou da imprensa – permitiu às mulheres encontrar vozes similares às suas, descobrir que seu fardo não era único, descobrir na confirmação da experiência uma base sólida sobre a qual construir uma imagem autêntica de si mesmas. Isso foi verdade tanto para as mulheres do período Heian como para George Eliot.
Diferentes das papelarias da minha infância, as livrarias de hoje não têm somente os livros para mulheres distribuídos no mercado por interesses comerciais alheios ao negócio, para determinar e limitar o que uma mulher deve ler, mas também os livros criados de dentro do grupo, nos quais mulheres escrevem para elas mesmas aquilo que está ausente dos textos oficiais. Isso estabelece a tarefa da leitora, talvez prevista pelas escritoras do período Heian: escalar as paredes: pegar qualquer livro que pareça atraente, despi-lo daquelas coloridas capas codificadas e arrumá-lo entre os volumes que o acaso e a experiência puseram na sua mesinha-de-cabeceira.

Alberto Manguel, em Uma História da Leitura

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Calvin e Haroldo

Intelectual? Não.

Outra coisa que não parece ser entendida pelos outros é quando me chamam de intelectual e eu digo que não sou. De novo, não se trata de modéstia e sim de uma realidade que nem de longe me fere. Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto. Ser intelectual é também ter cultura, e eu sou tão má leitora que agora já sem pudor, digo que não tenho mesmo cultura. Nem sequer li as obras importantes da humanidade. Além do que leio pouco: só li muito, e lia avidamente o que me caísse nas mãos, entre os treze e quinze anos de idade. Depois passei a ler esporadicamente, sem ter a orientação de ninguém. Isto sem confessar que — dessa vez digo-o com alguma vergonha — durante anos só lia romance policial. Hoje em dia, apesar de ter muitas vezes preguiça de escrever, chego de vez em quando a ter mais preguiça de ler do que de escrever.
Literata também não sou porque não tornei o fato de escrever livros “uma profissão”, nem uma “carreira”. Escrevi-os só quando espontaneamente me vieram, e só quando eu realmente quis. Sou uma amadora?
O que sou então? Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável. Sobretudo uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Sonha Alonso Quijano

O homem acorda de um não definido 
Sonho de alfanges e de plano chão 
E tocando sua barba com a mão 
Se pergunta se está morto ou está ferido.
Não o perseguiram os feiticeiros 
Que juraram seu fim à luz da lua?
Nada. Só o frio. Somente a sua 
Doença dos anos derradeiros.
O fidalgo foi um sonho de Cervantes 
E Dom Quixote, um sonho do fidalgo.
O duplo sonho os confunde, e algo 
está ocorrendo, e ocorreu já antes.
Quijano dorme e sonha. Uma batalha: 
Os mares de Lepanto e a metralha.

Jorge Luis Borges, em Livro de Sonhos

Diário de Bernardo Soares

92.

(a child hand's playing with cotton-reels, etc.)

Eu nunca fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida. Nunca tive outra preocupação verdadeira senão a minha vida interior. As maiores dores da minha vida esbatem-se-me quando, abrindo a janela para dentro de mim, pude esquecer-me na visão do seu movimento.
Nunca pretendi ser senão um sonhador. A quem me falou de viver nunca prestei atenção. Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser. Tudo o que não é meu, por baixo que seja, teve sempre poesia para mim. Nunca amei senão coisa nenhuma. Nunca desejei senão o que nem podia imaginar. À vida nunca pedi senão que passasse por mim sem que eu a sentisse. Do amor apenas exigi que nunca deixasse de ser um sonho longínquo. Nas minhas próprias paisagens interiores, irreais todas elas, foi sempre o longínquo que me atraiu, e os aquedutos que se esfumavam — quase na distância das minhas paisagens sonhadas, tinham uma doçura de sonho em relação às outras partes da paisagem — uma doçura que fazia com que eu as pudesse amar.
A minha mania de criar um mundo falso acompanha-me ainda, e só na minha morte me abandonará. Não alinho hoje nas minhas gavetas carros de linha e peões de xadrez — com um bispo ou um cavalo acaso sobressaindo – mas tenho pena de o não fazer.., e alinho na minha imaginação, confortavelmente, como quem no inverno se aquece a uma lareira, figuras que habitam, e são constantes e vivas, na minha vida interior. Tenho um mundo de amigos dentro de mim, com vidas próprias, reais, definidas e imperfeitas.
Alguns passam dificuldades, outros têm uma vida boémia, pitoresca e humilde. Há outros que são caixeiros-viajantes. (Poder sonhar-me caixeiro-viajante foi sempre uma das minhas grandes ambições – irrealizável infelizmente!) Outros moram em aldeias e vilas lá para as vizinhanças de um Portugal dentro de mim; vêm à cidade, onde por acaso os encontro e reconheço, abrindo-lhes os braços, numa atração ... E quando sonho isto, passeando no meu quarto, falando alto, gesticulando.., quando sonho isto, e me visiono encontrando-os, todo eu me alegro, me realizo, me pulo, brilham-me os olhos, abro os braços e tenho uma felicidade enorme, real.
Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!
O que eu sinto quando penso no passado que tive no tempo real, quando choro sobre o cadáver da vida da minha infância ida,... Isso mesmo não atinge o fervor doloroso e trémulo com que choro sobre não serem reais as figuras humildes dos meus sonhos, as próprias figuras secundárias que me recordo de ter visto uma só vez, por acaso, na minha pseudovida, ao virar uma esquina da minha visionação, ao passar por um portão numa rua que subi e percorri por esse sonho fora.
A raiva de a saudade não poder reavivar e reerguer nunca é tão lacrimosa contra Deus, que criou impossibilidades, do que quando medito que os meus amigos de sonho, com quem passei tantos detalhes de uma vida suposta, com quem tantas conversas iluminadas, em cafés imaginários, tenho tido, não pertenceram, afinal, a nenhum espaço onde pudessem ser, realmente, independentes da minha consciência deles!
Oh, o passado morto que eu trago comigo e nunca esteve senão comigo! As flores do jardim da pequena casa de campo e que não existiu senão em mim. As hortas, os pomares, o pinhal, da quinta que foi só um meu sonho! As minhas vilegiaturas supostas, os meus passeios por um campo que nunca existiu! As árvores de à beira da estrada, os atalhos, as pedras, os camponeses que passam... Tudo isto, que nunca passou de um sonho, está guardado na minha memória a fazer de dor e eu, que passei horas a sonhá-los, passo horas depois a recordar tê-los sonhado e é, na verdade, saudade que eu tenho, um passado que eu choro, uma vida-real morta que fito, solene no seu caixão.
Há também as paisagens e as vidas que não foram inteiramente interiores. Certos quadros, sem subido relevo artístico, certas oleogravuras que havia em paredes com que convivi muitas horas — passam a realidade dentro de mim. Aqui a sensação era outra, mais pungente e triste. Ardia-me não poder estar ali, quer eles fossem reais ou não. Não ser eu, ao menos, uma figura a mais desenhada ao pé daquele bosque ao luar que havia numa pequena gravura de um quarto onde dormi já não em pequeno!
Não poder eu pensar que estava ali oculto, no bosque à beira do rio, por aquele luar eterno (embora mal desenhado), vendo o homem que passa num barco por baixo do debruçar-se de um salgueiro! Aqui o não poder sonhar inteiramente doía-me. As feições da minha saudade eram outras. Os gestos do meu desespero eram diferentes. A impossibilidade que me torturava era de outra ordem de angústia. Ah, não ter tudo isto um sentido em Deus, uma realização conforme o espírito dos nossos desejos, não sei onde, por um tempo vertical, consubstanciado com a direção das minhas saudades e dos meus devaneios! Não haver, pelo menos só para mim, um paraíso feito disto! Não poder eu encontrar os amigos que sonhei, passear pelas ruas que criei, acordar, entre o ruído dos galos e das galinhas e o rumorejar matutino da casa, na casa de campo em que eu me supus... E tudo isto mais perfeitamente arranjado por Deus, posto naquela perfeita ordem para existir, na precisa forma para eu o ter que nem os meus próprios sonhos atingem senão na falta de uma dimensão do espaço intimo que entretém essas pobres realidades...
Ergo a cabeça de sobre o papel em que escrevo... E cedo ainda. Mal passa o meio-dia e é domingo. O mal da vida, a doença de ser consciente, entra com o meu próprio corpo e perturba-me. Não haver ilhas para os inconfortáveis, alamedas vetustas, inencontráveis de antes, para os isolados no sonhar! Ter de viver e, por pouco que seja, de agir; ter de roçar pelo facto de haver outra gente, real também, na vida! Ter de estar aqui escrevendo isto, por me ser preciso à alma fazê-lo, e, mesmo isto, não poder sonhá-lo apenas, exprimi-Lo sem palavras, sem consciência mesmo, por uma construção de mim próprio em música e esbatimento, de modo que me subissem as lágrimas aos olhos só de me sentir expressar-me, e eu fluísse, como um rio encantado, por lentos declives de mim próprio, cada vez mais para o inconsciente e o Distante, sem sentido nenhum exceto Deus.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Michael Pipoquinha | Lugar Comum

Tem cada um...

Tem, por exemplo, o Victor, que não perde oportunidade de ostentar sua cultura, para divertimento e, às vezes, irritação da turma. Como na vez em que houve um silêncio na mesa do bar em que eles se reuniam e o Victor disse:
Eu conheço este silêncio de um filme do Bergman.
O Marcão não aguentou.
Como, de um filme do Bergman? Como um silêncio pode ser igual a outro silêncio, que não tem nada a ver?
O Victor apenas sorriu. Não poderia esperar que o Marcão, logo o Marcão, entendesse. O que mais irritava o Marcão era aquele sorriso do Victor.

Mas a melhor do Victor quem contou foi o Mendonça, médico, que também frequentava a turma. O Victor andava tossindo muito, e expectorando, e procurara o Mendonça no seu consultório.
Acho que peguei a gripe.
Você tem muito catarro? — perguntara o médico.
Tenho.
De que cor é o catarro?
E então o Victor pensara um pouco e respondera:
Sabe o verde daquele afresco do Tiepolo no Palazzo Clerici, em Milão?
O Victor estava presente na mesa quando o dr. Mendonça contou o fato e apenas sorriu diante da gargalhada geral da turma. Depois deu de ombros e disse:
O que eu vou fazer se vocês não viajam?
O Marcão ficou pra morrer.

E tem o Pinheiro, também chamado Pinho, cujo sono é lendário. Contam que o Pinho não pode ir ao cinema porque dorme no começo do filme, sempre. Filme de caubói, filme de guerra, inclusive intergalática... Não via nem os créditos completos.
Você chegou a ver o nome do diretor, Pinho?
Não, fui só até o produtor.
Mas não deve ser verdade o que contam sobre a separação do Pinho.

Contam que o casamento do Pinho e da Eneida não estava dando certo — em grande parte porque o Pinho invariavelmente dormia quando a Eneida começava a lhe dizer alguma coisa, às vezes no meio de uma frase. E que um dia a Eneida levantara da cama do casal, saíra à rua, contratara uma empresa de mudança e voltara com três carregadores, que passaram a tirar tudo de dentro do apartamento. Tudo. Geladeira, fogão, móveis da sala, televisão, mesa de jantar...
Este armário também vai, dona?
Tudo.
Deixaram o quarto de dormir, onde o Pinho ainda roncava em cima da cama, para o fim. E o quarto também foi esvaziado.
E a cama, dona?
Eneida hesitou. Levava ou deixava a cama? Decidiu:
A cama vai.
E o doutor?
Fica. Deixem o colchão pra ele.

Aqui as versões divergem. Há quem diga que a Eneida voltou atrás e mandou carregarem o colchão também, deixando o Pinho dormindo no chão. Outros dizem que o colchão, misericordiosamente, ficou. Mas todos concordam que, como não havia mais nada no apartamento onde colocar o bilhete de despedida que escrevera para o marido, a Eneida o colocara entre dois dedos do seu pé. Para o Pinho ler quando acordasse.

Luís Fernando Veríssimo, em Diálogos Impossíveis

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Alô?!

Delicada e preciosa

  “Após cada morte a vida se torna, para nós, mais delicada e preciosa.”

Hermann Hesse, em Do universo à jabuticaba, de Rubem Alves

Capítulo 34 – A Uma Alma Sensível



Há aí, entre as cinco ou dez pessoas que me leem, há aí uma alma sensível, que está decerto um pouquito agastada com o capítulo anterior, começa a tremer pela sorte de Eugênia, e talvez.., sim, talvez, lá no fundo de si mesma, me chame cínico. Eu cínico, alma sensível? Pela coxa de Diana! esta injúria merecia ser lavada com sangue, se o sangue lavasse alguma coisa nesse mundo. Não, alma sensível, eu não sou cínico, eu fui homem; meu cérebro foi um tablado em que se deram peças de todo gênero, o drama sacro, o austero, o piegas, a comédia louçã, a desgrenhada farsa, os autos, as bufonerias, um pandemônio, alma sensível, uma barafunda de coisas e pessoas, em que podias ver tudo, desde a rosa de Esmirna até a arruda do teu quintal, desde o magnífico leito de Cleópatra até o recanto da praia em que o mendigo tirita o seu sono. Cruzavam-se nele pensamentos de vária casta e feição. Não havia ali a atmosfera somente da águia e do beija-flor; havia também a da lesma e do sapo. Retira, pois, a expressão, alma sensível, castiga os nervos, limpa os óculos, – que isso às vezes é dos óculos, – e acabemos de uma vez com esta flor da moita.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Que haverá no céu?

Se não houver cadeiras de balanço no Céu... que será da tia Élida, que foi para o Céu?

Mário Quintana, em Sapato Florido

| 3 | Vida Póstuma



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Depois da Rússia, o outro grande país a se autoproclamar comunista foi a China, que se tornou uma “República do Povo” em 1949. Enquanto Marx e Lênin tinham seu ponto central no proletariado urbano, Mao Tsé-tung argumentava que os camponeses poderiam ser uma força revolucionária caso guiados pelos líderes “corretos”, como ele próprio. Mao evitou o modelo soviético de urgente industrialização e fez do desenvolvimento rural a prioridade máxima, inspirando, assim, muitos marxistas em países do Terceiro Mundo que nem sequer tinham uma indústria digna desse nome.
No entanto, o programa maoísta foi um desastre para o campesinato chinês: o Grande Salto Adiante, um plano de coletivização da agricultura e promoção das indústrias rurais de pequena escala, produziu fome em massa e foi abandonado em 1960, apenas dois anos depois de iniciado. No mesmo período houve a ruptura entre China e União Soviética. Nikita Krushchev havia ridicularizado o Grande Salto, e Mao revidou denunciando-o como “capitalista infiltrado”. Porém, desde a morte do Grande Timoneiro em 1976, a própria China passou a trilhar a rota capitalista e tornou-se a economia industrial que mais rapidamente cresce no mundo, ao mesmo tempo que proclama só agora haver atingido “o primeiro estágio do socialismo”. A despeito de ter abandonado os preceitos de Mao, o governo de Pequim continua a definir-se como marxista-leninista, embora “mercantil-leninista” fosse mais adequado.
Assim como as incontáveis seitas rivais do cristianismo, o marxismo revelou-se em disfarces admiravelmente distintos e em aparência incongruentes – bolcheviques e mencheviques, espartaquistas e revisionistas, stalinistas e trotskistas, maoístas e castristas, eurocomunistas e existencialistas. Marx previra, com severa resignação, que seu nome seria tomado em vão pelos “marxistas” muito depois de sua morte, quando não mais pudesse protestar. Seu mais famoso gesto de irritação face aos ilusórios discípulos foi uma censura aos socialistas franceses nos anos 1870: se eles forem marxistas, lamentou, “tudo o que sei é que então não sou um marxista”. E talvez não fosse. A história do século XX revelou que os países que não possuíam uma economia industrial avançada, uma classe capitalista ou um grande exército de proletários assalariados estavam mais propensos à revolução marxista. Daí o paradoxo observado pelo especialista marxiano David McLellan em 1983, quando quase meio mundo ainda era governado por regimes supostamente herdeiros de Marx:

O próprio fato de que o marxismo não tenha triunfado no Ocidente significa que não se tornou uma ideologia dominante; é, portanto, objeto de estudos sérios sem a intervenção de controles governamentais. Justamente na Europa Ocidental e na América – os países capitalistas – estuda-se Marx com maior desvelo. De fato, é correto afirmar que há mais marxistas reais no Ocidente que em muitos países chamados “marxistas”.

Em Estados comunistas, da Albânia ao Zimbábue, a definição local de marxismo foi elaborada pelo governo, jamais se demandou uma discussão subsequente (nem mesmo se permitiu). No Ocidente, contudo, seu significado tornou-se objeto tanto de profundo debate quanto de sutil revisão. Os trabalhos da chamada Escola de Frankfurt – que incluía Max Horkheimer, Theodor Adorno e Herbert Marcuse – na década de 1930 originaram um nova linha de filosofia marxista conhecida como “teoria crítica”, que rejeitava o determinismo econômico de Lênin e dos bolcheviques. A Escola de Frankfurt e outros pensadores do período, como Antonio Gramsci, também questionaram tradicionais posicionamentos marxistas em relação à consciência de classe do proletariado. O capitalismo, de acordo com Gramsci, mantém sua hegemonia por levar a classe trabalhadora – ou intimidá-la – a aceitar ilusoriamente a cultura burguesa como norma, ao mesmo tempo que reforça certos valores e exclui outros. Para desafiar esse consenso e demolir as pretensões capitalistas, os trabalhadores deveriam desenvolver uma cultura “contra-hegemônica” própria, por meio de novos sistemas de educação popular.
Os marxistas ocidentais, portanto, colocaram ênfase muito maior na importância daquilo que Marx denominava superestrutura – cultura, instituições, linguagem – do processo político, de tal modo que às vezes a reflexão sobre a base econômica desaparecia de todo. Incapazes de mudar o mundo, concentraram-se em interpretá-lo por meio do que ficou conhecido como “estudos culturais”, que estabeleceram sua própria hegemonia em vários campi universitários nas décadas finais do século XX e produziram uma transformação nos estudos de disciplinas como história, geografia, sociologia, antropologia e literatura.
Até a libido foi submetida ao escrutínio marxista. O psiquiatra Wilhelm Reich tentou conciliar Marx e Freud ao propor que os trabalhadores não poderiam ser verdadeiramente livres até que fossem libertados da repressão sexual e da tirania das estruturas familiares tradicionais (embora Marx tenha descartado o amor livre por considerá-lo uma perspectiva “bestial”, equivalente à “prostituição comum”). “O sexo está impregnado no trabalho e nas relações públicas e, portanto, torna-se mais suscetível à satisfação (controlada)”, escreveu Herbert Marcuse, guru da Nova Esquerda, no livro O homem unidimensional, de 1964. “O progresso técnico e o conforto material permitem a inserção sistemática dos elementos libidinosos nos domínios da produção e da troca de mercadorias.”
Esses domínios foram definidos de forma muito mais ampla do que Marx jamais imaginara. Abarcavam toda e qualquer forma de mercadoria cultural – um par de sapatos do tempo da brilhantina, uma fotografia de jornal, um disco pop e uma caixa de cereal eram todos “textos” que poderiam ser “lidos”. A crítica da cultura de massa dos primeiros teóricos influenciados pela Escola de Frankfurt foi gradualmente suplantada por um estudo dos diferentes meios pelos quais as pessoas recebem e interpretam esses textos cotidianos.
À medida que deram uma “guinada linguística” – expandiram-se em estruturalismo, pós-estruturalismo, desconstrutivismo e, depois, pós-modernismo –, os estudos culturais com frequência pareciam uma forma de se esquivar completamente da política, mesmo que muitos de seus adeptos continuem a se denominar marxistas. A lógica de sua burlesca insistência de que não há certezas ou realidades levou ao relativismo sem compromisso ou valor, capaz de celebrar, sem qualquer pudor, tanto a cultura pop norte-americana quanto a superstição medieval. Apesar do desdém pelas grandes narrativas históricas e leis gerais da natureza, muitos estudiosos pareciam aceitar o sucesso duradouro do capitalismo como um inevitável fato da vida. Aqueles que ainda nutriam impulsos subversivos buscaram refúgio em espaços marginais onde o domínio dos vitoriosos não estava bem assegurado: daí o entusiasmo pelo exótico e incorpóreo, desde as teorias conspiratórias dos óvnis aos fetiches sadomasoquistas. Um fascínio pelos prazeres do consumo (telenovelas, shoppings, o kitsch do mercado massificado) revelava o tradicional foco marxista sobre as condições da produção material.
A consequência foi, nas palavras do crítico marxista Terry Eagleton, “uma imensa inflação linguística, como se algo que na esfera política agora parecesse inconcebível ainda fosse bastante viável nas áreas do discurso, dos signos ou da textualidade. A liberdade do texto ou da linguagem viria compensar a falta de liberdade do sistema como um todo”. Os novos inimigos, escreve Eagleton, eram “todos os tipos de sistemas de crenças coerentes, em particular as formas de teoria e organização política que buscavam analisar e influenciar as estruturas da sociedade como um todo. Pois era justamente essa política que parecia ter fracassado”. Nenhuma crítica sistemática ao capitalismo monopolista obteria êxito uma vez que o capitalismo era ele próprio uma ficção, assim como a verdade, a justiça, as leis e todos os outros “constructos linguísticos”.
Cabe então a pergunta: como Marx, que tanto esforço fez para produzir uma crítica sistemática, se encaixa em tudo isso? Enquanto alegremente desconstroem comerciais de TV ou embalagens de bala, os teóricos parecem curiosamente relutantes em apontar seus cutelos para o texto do Capital, talvez por temer um parricídio literário. O historiador pós-modernista Dominick LaCapra afirma que este “é provavelmente o caso mais gritante de texto canônico que tem mais necessidade de uma releitura que de uma leitura literal, direta e atrelada a uma voz autoritária exclusivamente uniforme”.
Nessa linha, a mais notável revisão de Marx é Para ler “O Capital”, de 1965, uma coletânea de ensaios de Louis Althusser e alguns alunos seus, que começa com essa declaração de intenções:

É evidente que todos já lemos e continuamos a ler O Capital. Por quase um século, fomos capazes de lê-lo todos os dias, de forma transparente, em meio aos dramas e sonhos de nossa história, às suas disputas e conflitos, às conquistas e derrotas do movimento operário, que é nossa única esperança e destino. Desde que “viemos ao mundo”, lemos constantemente O Capital nos escritos e discursos daqueles que o leram para nós, bem ou mal, vivos ou mortos: Engels, Kautski, Plekhânov, Lênin, Rosa Luxemburgo, Trotski, Stálin, Gramsci, as lideranças das organizações operárias, seus seguidores e oponentes, fossem filósofos, economistas ou políticos. Lemos pequenas amostras, os “fragmentos” que a conjuntura “selecionou” para nós. Todos lemos, mais ou menos, inclusive o “livro primeiro”, desde “as mercadorias” até “a expropriação dos expropriadores”.
Algum dia, porém, é essencial que O Capital seja lido na íntegra, que o próprio texto seja lido….

Althusser, como qualquer outro leitor, encara a tarefa com um par de lentes ajustadas à sua própria avaliação. Foi ele quem primeiro insistiu no fato de que havia um abismo intransponível, uma “ruptura epistemológica”, entre o Marx dos anos 1840 e o homem que escreveu O Capital 20 anos depois. Ao contrário de Jean-Paul Sartre, que encontrou nos primeiros escritos filosóficos uma rica inspiração para sua formulação do marxismo como uma história da auto-emancipação humana, Althusser deplorava os interesses do jovem Marx por ética, alienação e “ação humana”. Para ele, a história era um “processo sem sujeito” e, portanto, não valia a pena estudá-la ou analisá-la: os indivíduos, mesmo coletivamente, não poderiam jamais evitar ou desafiar as forças impessoais dos aparelhos ideológicos do Estado – educação, religião e família – que produzem e mantêm o sistema de crenças dominante.
Althusser resgatou Marx do estreito determinismo econômico imposto por Lênin e seus herdeiros para confiná-lo em uma camisa-de-força igualmente restritiva. Em Para ler “O Capital” ele reduz a obra maior de Marx a um trabalho meramente científico, sem qualquer vestígio de influência hegeliana, apesar de o próprio Marx reconhecer com prazer esse débito, em particular no capítulo inicial sobre a mercadoria. O marxismo se tornou uma teoria da prática estrutural divorciada da política, da história e da experiência.
Segundo a lógica anti-humanista de Althusser, as pessoas não poderiam ser consideradas responsáveis por suas ações – tese que, anos depois, ele próprio exploraria para se eximir de qualquer culpa pelo homicídio de sua esposa. Em escala maior, serviu para isentar o Partido Comunista (do qual era antigo integrante): o assassinato em massa na União Soviética não era um crime, apenas um erro teórico – ou, no terrível eufemismo de Althusser para o stalinismo, “aquela nova forma de ‘existência não-racional da razão’”. Como escreveu o historiador marxista E.P. Thompson no polêmico A miséria da teoria, de 1979: “Podemos considerar a emergência do althusserianismo como a manifestação de uma ação de patrulha ideológica, uma tentativa de reconstruir o stalinismo no nível teórico.” Para Thompson, a insistência de Althusser em um marxismo totalmente conceitual, não contaminado pela história ou pela experiência, expunha-o como alguém “que tinha apenas um conhecimento fortuito da prática histórica” – pois, no mundo real, a toda hora, “a experiência chega sem ser anunciada e promove mortes e crises substanciais”. Isso era mais verdadeiro do que Thompson podia imaginar. A total extensão da ignorância de Althusser revelou-se em suas memórias póstumas, O futuro dura muito tempo, de 1994, em que confessa ser “um trapaceiro e um enganador”, que às vezes inventava citações ajustadas aos seus objetivos.

De fato, meu conhecimento filosófico dos textos era bastante limitado. Eu … sabia um pouco de Spinoza, nada de Aristóteles, os sofistas e os estoicos, bastante sobre Platão e Pascal, nada sobre Kant, um pouco sobre Hegel e, por fim, algumas passagens de Marx.

Mas como conseguiu se safar? A explicação para seus ilusionismos é surpreendentemente singela:

Eu tinha outra singular habilidade. A partir de uma única frase, pensava que poderia extrair (que ilusão!), se não as ideias mais específicas de um autor ou livro que não lera, ao menos o significado ou as linhas gerais. Obviamente eu tinha algum poder de intuição, assim como a habilidade de vislumbrar relações, ou a capacidade de estabelecer oposições teóricas que me permitiam reconstruir aquelas que acreditava serem as ideias de um autor, tendo por base os autores aos quais se opunha. Eu prosseguia com tranquilidade, estabelecendo contrastes e distinções, e em seguida elaborava uma teoria que amparasse tudo isso.

Graças a esse poder de intuição, Para ler “O Capital” é iluminado pelo brilho de percepções ocasionais, ainda que Althusser tenha estudado apenas algumas passagens de Marx. O livro propõe que O Capital deve ser visto como

uma resposta importante à pergunta que em nenhuma parte foi postulada, que Marx somente logra formular com a multiplicação das imagens necessárias para expressá-la…. A época em que Marx viveu não lhe proporcionou, e ele não poderia adquirir ao longo da vida, um conceito adequado com o qual pensar o que produziu: o conceito da eficácia de uma estrutura a partir de seus elementos.

Marx, em outras palavras, preparou uma bomba de efeito retardado, esperando que alguém fizesse a pergunta que ele já havia respondido. Isso é confirmado por uma carta enviada a Engels em 1867, logo depois de finalizar o primeiro volume, em que previa as objeções de “economistas vulgares” ao Capital:

Se desejasse refutar de antemão todas essas objeções, eu estragaria todo o método dialético da exposição. Ao contrário, o que há de bom nesse método é que ele está constantemente preparando armadilhas para esses sujeitos, a ponto de tornar evidente a sua estupidez.

Mais uma vez é impossível não vir à mente a penetrante ironia do relato A obra-prima ignorada de Balzac: a única falha na obra-prima de Frenhofer não eram as manchas amorfas e aparentemente desastrosas, mas o fato de ter sido executada com um século de antecedência, uma vez que era na verdade uma peça de arte abstrata do século XX. Como escreveu Edmund Wilson ao defender as classes que sofrem privações e sitiar a fortaleza da auto-satisfação burguesa, Marx trouxe para a economia um ponto de vista “cujo valor na época era diretamente proporcional à sua estranheza”.
Durante meio século após a publicação do Capital, no entanto, os economistas vulgares demonstraram pouco interesse em refutar Marx, e preferiam ignorá-lo. Eles viam o sistema capitalista mais como uma necessidade permanente que como uma fase histórica passageira, que contivesse dentro de si os germes de sua própria doença terminal. Enquanto Marx tratava os juros, os lucros e o aluguel como trabalho não-pago, os economistas acadêmicos descreviam os juros obtidos pelos detentores de capital como uma “recompensa pela abstinência”. Para Alfred Marshall – uma personagem dominante na economia britânica durante os períodos vitoriano tardio e eduardiano –, aqueles que acumulavam mais do que gastavam capital estavam realizando um “sacrifício de espera”, e por isso mereciam a recompensa por sua virtuosa moderação.
A economia ortodoxa argumentava que a superprodução – considerada por Marx traço fundamental do capitalismo – simplesmente não poderia ocorrer. De acordo com a lei dos mercados de Say, a oferta criava sua própria demanda: os ganhos com produção e venda de certas mercadorias proporcionavam o poder de compra para a aquisição de outras. Esse mesmo mecanismo autorregulador assegurava que o desemprego não fosse mais que uma breve e acidental imperfeição. Os desempregados aceitariam trabalhar por menos; a consequente queda dos salários diminuiria os preços das mercadorias, que, por sua vez, aumentariam a demanda por produtos e também as vendas, permitindo, então, o retorno do pleno emprego.
A turbulência econômica e o grande desemprego do período entre guerras mundiais forçaram o reconhecimento tardio de que, afinal, o capitalismo apresenta problemas sistemáticos. Alguns economistas passaram a questionar se o sistema era realmente eterno e imutável. Em seu estudo de 1939, Valor e capital, John Hicks duvidava que “se pudesse contar com a longa sobrevivência de algo semelhante a um sistema capitalista” na ausência de novas invenções suficientemente poderosas para manter o investimento. “É inevitável pensar”, acrescentou ele, “que talvez todo o processo de revolução industrial dos últimos 200 anos nada mais tenha sido senão uma vasta e mundana expansão.” J.M. Keynes, nascido no ano da morte de Marx, escreveu no livro A teoria geral do emprego, do juro e da moeda, de 1936: “Vejo o aspecto da aquisição de rendas do capitalismo como uma fase de transição que desaparecerá quando tiver cumprido seu papel.”
Keynes, o mais influente economista do século XX, desafiou a ideia de que o capitalismo do laissez-faire apresentava uma tendência natural ao auto-equilíbrio. A ideia de que o desemprego forçava a queda dos salários e com isso restaurava o pleno emprego talvez fosse verdadeira em companhias ou indústrias individuais. Mas se todos os salários fossem cortados, então todos os rendimentos cairiam, e a demanda ficaria estagnada, o que não incentivaria os empregadores a contratar mais trabalho. Nas palavras da economista keynesiana Joan Robinson: “Em uma multidão, qualquer pessoa pode ter uma visão melhor do desfile ao ficar em pé numa cadeira. Mas se todos fizerem o mesmo, ninguém terá uma visão melhor.”
Antes de Keynes, a maioria dos economistas tratava as ocasionais crises do capitalismo como aberrações negligenciáveis. Ele, como Marx, via-as como o ritmo fatal de um sistema instável. Entretanto, Keynes considerava Marx um excêntrico do “submundo do pensamento econômico”, cujas teorias eram “ilógicas, obsoletas, cientificamente equivocadas e sem interesse ou aplicabilidade no mundo moderno”. A veemência de sua denúncia é surpreendente, dada a semelhança entre a crítica de Marx aos economistas clássicos e a do próprio Keynes a seus sucessores neoclássicos. Como Joan Robinson escreveu em 1948:
Em ambos, o desemprego tem um importante papel. Em ambos, o capitalismo é visto como algo que carrega as sementes da própria decadência. Do lado negativo, como na oposição à ortodoxa teoria do equilíbrio, os sistemas de Keynes e Marx permanecem próximos; e há agora, pela primeira vez, entre os economistas acadêmicos e os marxistas, pontos em comum suficientes para tornar o debate possível. Apesar disso, há ainda poucos estudos sérios feitos por economistas acadêmicos ingleses a respeito de Marx.
Alguns desses estudos sem dúvida foram descartados por sua opacidade estilística. Embora Robinson acreditasse que a teoria da crise de Marx, apresentada no segundo tomo do Capital, tivesse íntimas afinidades com Keynes, ela confessava que “talvez tenha exagerado na semelhança. Os dois últimos volumes do Capital … são excessivamente obscuros e foram submetidos a muitas interpretações. Suas águas são turvas, e, talvez por isso, quem as examinar há de encontrar o próprio rosto”.
Mas a principal razão para ignorar a relação entre Marx e Keynes – na verdade, para negligenciar Marx totalmente – talvez fosse política. Keynes era mais um liberal que um socialista, e orgulhosamente declarava: “A luta de classes me encontrará ao lado da burguesia culta.” O keynesianismo se tornou a nova ortodoxia para os economistas e políticos ocidentais em meados do século XX, precisamente no momento em que a Guerra Fria fazia com que o nome de Marx se transformasse em sinônimo de inimigo. Alguns não-marxistas temiam se contaminar com essa associação.
A grande exceção foi o economista de origem austríaca Joseph Schumpeter, que permaneceu um herói para muitos empreendedores norte-americanos, ainda que sua obra mais famosa, Capitalismo, socialismo e democracia, de 1942, comece com uma avaliação de 54 páginas das conquistas de Marx, tão inesperadamente generosa como as próprias homenagens de Marx à burguesia no Manifesto Comunista.
Como um profeta, admite Schumpeter, Marx sofreu de “visão equivocada e análise imprecisa”, particularmente em sua previsão do aumento da miséria dos trabalhadores. Entretanto, “Marx viu o processo de mudança industrial mais claramente e percebeu sua importância crucial de modo mais completo que qualquer outro economista de sua época”, tornando-se, assim, “o primeiro economista de primeira grandeza a compreender e ensinar sistematicamente como a teoria econômica pode se transformar em análise histórica e como a narrativa histórica pode se transformar em histoire raisonée”. Algumas páginas adiante ele propõe a questão: “Pode o capitalismo sobreviver?” E responde: “Não. Creio que não.” Isso pode parecer um comentário bizarro em um livro concebido como defesa robusta do espírito empreendedor, e certamente Schumpeter, ao contrário de Marx, não se alegrava com isso. (“Se um médico prediz que seu paciente morrerá em breve, isso não quer dizer que este seja o desejo dele.”) Sua tese era que a inovação capitalista – novos produtos e métodos de produção – representa uma força de “destruição criativa” que afinal se tornaria, para seu próprio benefício, extremamente bem-sucedida, e portanto destrutiva.
Na última década do século XX, as obscuras advertências de Schumpeter pareciam se confundir com as de Marx. Com o comunismo agonizando, o capitalismo liberal à moda norte-americana poderia enfim reinar sem desafios – talvez para sempre. “O que estamos testemunhando”, proclamou Francis Fukuyama em 1989, “não é apenas o fim da Guerra Fria, ou a consumação de um determinado período da história do pós-guerra, mas o fim da história como tal, isto é, o ponto final da evolução ideológica da humanidade.” Mas a história em breve retornaria com sua Nêmesis. Em agosto de 1998, a dissolução econômica na Rússia, o colapso monetário na Ásia e o pânico do mercado em todo o mundo levou o jornal Financial Times a se perguntar se havíamos passado “do triunfo à crise do capitalismo global em apenas uma década”. O título do artigo era “Das Kapital revisited”.
Mesmo aqueles que obtinham os maiores benefícios do sistema começaram a questionar sua viabilidade. George Soros, o bilionário especulador que fora responsabilizado pelo desastre tanto da Ásia quanto da Rússia, alertou no livro A crise do capitalismo global: os perigos da sociedade globalizada, de 1998, que o instinto de manada dos detentores do capital deve ser controlado antes que eles tenham esmagado todos os demais sob seus pés:

O capitalismo não demonstra por si só qualquer tendência ao equilíbrio. Os detentores do capital buscam aumentar seus lucros. Se os deixarem agir como desejam, continuarão a acumular capital até a situação ficar insuportável. Há 150 anos, Marx e Engels ofereceram uma ótima análise do sistema capitalista, melhor em alguns aspectos, devo dizer, que a teoria do equilíbrio dos economistas clássicos…. A principal razão para que as terríveis previsões não se tenham concretizado foram as intervenções políticas compensatórias nos países democráticos. Infelizmente, outra vez corremos o risco de tirar as conclusões erradas das lições da história. Agora o perigo não vem do comunismo, mas do fundamentalismo do mercado.

Durante a Guerra Fria, enquanto os Estados comunistas veneravam a obra de Marx como uma escritura sagrada – completa e infalível –, aqueles que estavam do outro lado das trincheiras o ultrajavam como um enviado do demônio. Com a derrubada do Muro de Berlim, contudo, ele conquistou novos admiradores em lugares inesperados. “Não devemos nos felicitar tão rapidamente pela derrota de Marx junto com o marxismo”, escreveu em 1994 o economista de direita Jude Wanniski. “Nossa sociedade mundial é muito mais fluida do que era em seu tempo, mas o processo de renovação não está garantido. As forças de reação que ele corretamente identificou devem ser conquistadas a cada nova geração, uma tarefa monumental que agora nos confronta.” Wanniski, que cunhou a expressão supply-side economics (“economia da oferta”), citou O Capital como a principal inspiração para sua tese de que a produção, mais que a demanda, era a chave da prosperidade. Embora defensor do livre comércio e do padrão-ouro, inimigo da burocracia e admirador do espírito de Klondike, considerava Marx “um dos titãs da teoria e da prática clássicas” – e um profeta genial. Para Wanniski, Marx “chegou muito próximo da verdade” ao sugerir que o capitalismo disseminava as sementes da própria destruição: “Isto é, se o capitalismo requer competição impiedosa, ainda que os capitalistas façam todo o possível para eliminar a competição, temos um sistema inerentemente insustentável, como animais que devoram seus filhotes.”
Em outubro de 1997, John Cassidy, correspondente econômico da revista New Yorker, relatou uma conversa que tivera com um banqueiro inglês que trabalhava em Nova York. “Quanto mais tempo passo em Wall Street”, afirmou o banqueiro, “mais convencido fico de que Marx estava certo. Há um Prêmio Nobel à espera do economista que ressuscitar Marx e o inserir em uma teoria coerente. Estou absolutamente convencido de que a abordagem de Marx é o melhor caminho para entender o capitalismo.” Despertada sua curiosidade, Cassidy leu Marx pela primeira vez e convenceu-se de que seu amigo estava certo. Encontrou

provocantes passagens sobre globalização, desigualdade, corrupção política, monopolização, progresso técnico, declínio da alta cultura, a natureza enervante da existência moderna – temas com que os economistas agora novamente se defrontam, às vezes sem perceber que seguem os passos de Marx.

Citando o famoso slogan criado por James Carville para a campanha presidencial de Bill Clinton em 1992 – “It’s the economy, stupid” (“É a economia, seu estúpido”) –, Cassidy comentava:

o próprio termo de Marx para essa teoria – “a concepção materialista da história” – é agora tão amplamente aceito que analistas de todas as vertentes políticas usam-no, como Carville, sem o devido crédito. Quando os conservadores argumentam que o estado de bem-estar social está condenado porque sufoca a iniciativa privada, ou que a União Soviética entrou em colapso porque não poderia se igualar com eficiência ao capitalismo ocidental, eles adotam o argumento de Marx segundo o qual a economia é a força motriz do desenvolvimento humano.

Como o ridículo burguês de Molière, que descobriu, para seu espanto, que por mais de 40 anos falara em prosa sem o saber, grande parte da burguesia ocidental absorveu as ideias de Marx sem sequer notar. Foi uma leitura tardia de Marx nos anos 1990 que inspirou o jornalista James Buchan a escrever seu brilhante estudo Desejo congelado: uma investigação sobre o significado do dinheiro, publicado em 1997. Como explicou Buchan:

Marx está tão enredado em nosso modelo de pensamento ocidental que poucas pessoas têm consciência de seu débito com ele. Todo mundo que conheço agora acredita que suas atitudes são, em certa medida, uma criação de suas circunstâncias materiais – “que, ao contrário, seu ser social determina sua consciência”, como escreveu Marx – e que as mudanças no modo de produção afetam profundamente as relações humanas, mesmo fora das oficinas e fábricas.
É em grande medida por meio das ideias de Marx, mais que pela economia política, que tais noções chegaram até nós. Da mesma forma, todo mundo que conheço tem a impressão de que a história não é só uma sequência qualquer de acontecimentos, … mas uma espécie de processo em que algo de humano – liberdade, felicidade, potencialidade humana, algo positivo, enfim – se torna cada vez mais efetivo. Marx não criou esse sentimento, mas o disseminou.

Até os jornalistas John Micklethwait e Adrian Wooldridge, da revista The Economist, entusiastas do turbocapitalismo, reconheceram essa dívida: “Como profeta do socialismo, Marx pode estar derrotado”, escrevem no livro O futuro perfeito: os desafios e as armadilhas da globalização, de 2000. “Mas como profeta da ‘interdependência universal das nações’, que é como denominava a globalização, ele ainda pode ser de surpreendente relevância…. Sua descrição da globalização permanece tão aguçada hoje quanto o foi há 150 anos.” O maior medo dos autores era que, “quanto mais bem-sucedida se torna a globalização, mais parece estimular a própria reação a ela”, o que, em outras palavras, parece sugerir o acerto de Marx ao declarar que “o desenvolvimento da indústria moderna … abala a própria base sobre a qual a burguesia assentou seu regime de produção e apropriação. O que a burguesia produz são, sobretudo, seus próprios coveiros”. Graças a todo seu triunfalismo, Micklethwait e Wooldridge têm uma incômoda suspeita de que a destruição criativa forjada pelo capitalismo global “tenha um momento inato de paralisia, quando as pessoas não mais suportarão”.
A queda da burguesia e a vitória do proletariado não se concretizaram. Mas, na obra de Marx, os erros ou profecias não cumpridas sobre o capitalismo são ofuscados e transcendidos pela acurada precisão com que revelou a natureza desse monstro. Enquanto tudo o que é sólido continuar se desmanchando no ar, o vívido retrato feito no Capital das forças que governam nossas vidas – e da instabilidade, alienação e exploração que produzem – jamais perderá a ressonância ou o poder de colocar o mundo em foco. Como o artigo da New Yorker de 1997 concluiu: “Valerá a pena ler seus livros enquanto perdurar o capitalismo.” Longe de ter sido soterrado pelos destroços do Muro de Berlim, Marx só agora emerge em seu verdadeiro significado. Ele ainda pode vir a ser o mais influente pensador do século XXI.

Francis Wheen, em O Capital de Marx – Uma Biografia