segunda-feira, 9 de março de 2026
Entre a Rumba e o Sambão
Baiano entra no campo:
O Fidel tava com aquele povo todo na
praça. O discurso não era longo, graças a Deus. A massa escutava,
embevecida. Quando foi interrompido por aplausos, pela quadragésima
vez, cinco horas de falação, o grande líder bronqueou: “Os
americanos pensam que nós só gostamos de rumba! Nós gostamos de
rumba? Nós somos rumbeiros?”. Um cara meio de porre, logo na
primeira fila, pegou o bongô e mandou no ritmo: “Nós gostamos de
rumba?”. O povão entrou no clima:
“Nós gostamos de rumba?
No!
Nós somos rumbeiros?
No!
Nós gostamos de rumba?
No!
Nós somos rumbeiros?
No!”
Fidel e a galera dançaram 24 horas.
Depois das risadas, perguntei:
– Como seria a adaptação dessa
piada para a realidade brasileira?
Baiano não vacilou um segundo.
– Mole, Blanc. O Collor, no meio do
discurso pro Bush, teria uma ideia genial, e lascaria em inglês:
– The brazilian problem, my dear
Bush, I’ve got it under my skin...
E o Marcilio:
– Dô!...
E o Collor:
– Skin!...
E o Marcilio
– Dô!...
E a putada toda:
– Skindô, skindô!
Do balcão, o Célio perguntou:
– E aí? E aí?
– Aí, Rosane entrava, rebolando à
frente das fantasmas que não estão no mapa.
Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo
Menino a bico de pena
Como conhecer jamais o menino? Para
conhecê-lo tenho que esperar que ele se deteriore, e só então ele
estará ao meu alcance. Lá está ele, um ponto no infinito. Ninguém
conhecerá o hoje dele. Nem ele próprio. Quanto a mim, olho, e é
inútil: não consigo entender coisa apenas atual, totalmente atual.
O que conheço dele é a sua situação: o menino é aquele em quem
acabaram de nascer os primeiros dentes e é o mesmo que será médico
ou carpinteiro. Enquanto isso – lá está ele sentado no chão, de
um real que tenho de chamar de vegetativo para poder entender. Trinta
mil desses meninos sentados no chão, teriam eles a chance de
construir um mundo outro, um que levasse em conta a memória da
atualidade absoluta a que um dia já pertencemos? A união faria a
força. Lá está ele sentado, iniciando tudo de novo mas para a
própria proteção futura dele, sem nenhuma chance verdadeira de
realmente iniciar.
Não sei como desenhar o menino. Sei
que é impossível desenhá-lo a carvão, pois até o bico de pena
mancha o papel para além da finíssima linha de extrema atualidade
em que ele vive. Um dia o domesticaremos em humano, e poderemos
desenhá-lo. Pois assim fizemos conosco e com Deus. O próprio menino
ajudará sua domesticação: ele é esforçado e coopera. Coopera sem
saber que essa ajuda que lhe pedimos é para o seu autossacrifício.
Ultimamente ele até tem treinado muito. E assim continuará
progredindo até que, pouco a pouco – pela bondade necessária com
que nos salvamos – ele passará do tempo atual ao tempo cotidiano,
da meditação à expressão, da existência à vida. Fazendo o
grande sacrifício de não ser louco. Eu não sou louco por
solidariedade com os milhares de nós que, para construir o possível,
também sacrificaram a verdade que seria uma loucura.
Mas por enquanto ei-lo sentado no
chão, imerso num vazio profundo.
Da cozinha a mãe se certifica: você
está quietinho aí? Chamado ao trabalho, o menino ergue-se com
dificuldade. Cambaleia sobre as pernas, com a atenção inteira para
dentro: todo o seu equilíbrio é interno. Conseguido isso, agora a
inteira atenção para fora: ele observa o que o ato de se erguer
provocou. Pois levantar-se teve consequências e consequências: o
chão move-se incerto, uma cadeira o supera, a parede o delimita. E
na parede tem o retrato de O menino. É difícil olhar para o retrato
alto sem apoiar-se num móvel, isso ele ainda não treinou. Mas eis
que sua própria dificuldade lhe serve de apoio: o que o mantém de
pé é exatamente prender a atenção ao retrato alto, olhar para
cima lhe serve de guindaste. Mas ele comete um erro: pestaneja. Ter
pestanejado desliga-o por uma fração de segundo do retrato que o
sustentava. O equilíbrio se desfaz – num único gesto total, ele
cai sentado. Da boca entreaberta pelo esforço de vida a baba clara
escorre e pinga no chão. Olha o pingo bem de perto, como a uma
formiga. O braço ergue-se, avança em árduo mecanismo de etapas. E
de súbito, como para prender um inefável, com inesperada violência
ele achata a baba com a palma da mão. Pestaneja, espera. Finalmente,
passado o tempo necessário que se tem de esperar pelas coisas, ele
destampa cuidadosamente a mão e olha no assoalho o fruto da
experiência. O chão está vazio. Em nova brusca etapa, olha a mão:
o pingo de baba está, pois, colado na palma. Agora ele sabe disso
também. Então, de olhos bem abertos, lambe a baba que pertence ao
menino. Ele pensa bem alto: menino.
– Quem é que você está chamando?
pergunta a mãe lá da cozinha.
Com esforço e gentileza ele olha pela
sala, procura quem a mãe diz que ele está chamando, vira-se e cai
para trás. Enquanto chora, vê a sala entortada e refratada pelas
lágrimas, o volume branco cresce até ele – mãe! absorve-o com
braços fortes, e eis que o menino está bem no alto do ar, bem no
quente e no bom. O teto está mais perto, agora; a mesa, embaixo. E,
como ele não pode mais de cansaço, começa a revirar as pupilas até
que estas vão mergulhando na linha de horizonte dos olhos. Fecha-os
sobre a última imagem, as grades da cama. Adormece esgotado e
sereno.
A água secou na boca. A mosca bate no
vidro. O sono do menino é raiado de claridade e calor, o sono vibra
no ar. Até que, em pesadelo súbito, uma das palavras que ele
aprendeu lhe ocorre: ele estremece violentamente, abre os olhos. E
para o seu terror vê apenas isto: o vazio quente e claro do ar, sem
mãe. O que ele pensa estoura em choro pela casa toda. Enquanto
chora, vai se reconhecendo, transformando-se naquele que a mãe
reconhecerá. Quase desfalece em soluços, com urgência ele tem que
se transformar numa coisa que pode ser vista e ouvida senão ele
ficará só, tem que se transformar em compreensível senão ninguém
o compreenderá, senão ninguém irá para o seu silêncio ninguém o
conhece se ele não disser e contar, farei tudo o que for necessário
para que eu seja dos outros e os outros sejam meus, pularei por cima
de minha felicidade real que só me traria abandono, e serei popular,
faço a barganha de ser amado, é inteiramente mágico chorar para
ter em troca: mãe.
Até que o ruído familiar entra pela
porta e o menino, mudo de interesse pelo que o poder de um menino
provoca, para de chorar: mãe. Mãe é: não morrer. E sua segurança
é saber que tem um mundo para trair e vender, e que o venderá.
É mãe, sim é mãe com fralda na
mão. A partir de ver a fralda, ele recomeça a chorar.
– Pois se você está todo molhado!
A notícia o espanta, sua curiosidade
recomeça, mas agora uma curiosidade confortável e garantida. Olha
com cegueira o próprio molhado, em nova etapa olha a mãe. Mas de
repente se retesa e escuta com o corpo todo, o coração batendo
pesado na barriga: fonfom!, reconhece ele de repente num grito de
vitória e terror – o menino acaba de reconhecer!
– Isso mesmo! diz a mãe com
orgulho, isso mesmo, meu amor, é fonfom que passou agora pela rua,
vou contar para o papai que você já aprendeu, é assim mesmo que se
diz: fonfom, meu amor! diz a mãe puxando-o de baixo para cima e
depois de cima para baixo, levantando-o pelas pernas, inclinando-o
para trás, puxando-o de novo de baixo para cima. Em todas as
posições o menino conserva os olhos bem abertos. Secos como a
fralda nova.
Clarice Lispector, em Todos os contos
Nascer no Cairo, ser fêmea de cupim
Conhece o vocábulo escardinchar? Qual
o feminino de cupim? Qual o antônimo de póstumo? Como se chama o
natural do Cairo?
O leitor que responder “não sei”
a todas estas perguntas não passará provavelmente em nenhuma prova
de Português de nenhum concurso oficial. Mas, se isso pode servir de
algum consolo à sua ignorância, receberá um abraço de
felicitações deste modesto cronista, seu semelhante e seu irmão.
Porque a verdade é que eu também não
sei. Você dirá, meu caro professor de Português, que eu não
deveria confessar isso; que é uma vergonha para mim, que vivo de
escrever, não conhecer o meu instrumento de trabalho, que é a
língua.
Concordo. Confesso que escrevo de
palpite, como outras pessoas tocam piano de ouvido. De vez em quando
um leitor culto se irrita comigo e me manda um recorte de crônica
anotado, apontando erros de Português. Um deles chegou a me passar
um telegrama, felicitando-me porque não encontrara, na minha crônica
daquele dia, um só erro de Português; acrescentava que eu produzira
uma “página de bom vernáculo, exemplar”. Tive vontade de
responder: “Mera coincidência” — mas não o fiz para não
entristecer o homem.
Espero que uma velhice tranquila —
no hospital ou na cadeia, com seus longos ócios — me permita um
dia estudar com toda calma a nossa língua, e me penitenciar dos
abusos que tenho praticado contra a sua pulcritude. (Sabem qual o
superlativo de pulcro? Isto eu sei por acaso: pulquérrimo! Mas não
é desanimador saber uma coisa dessas? Que me aconteceria se eu
dissesse a uma bela dama: a senhora é pulquérrima? Eu poderia me
queixar se o seu marido me descesse a mão?)
Alguém já me escreveu também —
que eu sou um escoteiro ao contrário. “Cada dia você parece que
tem de praticar a sua má ação — contra a língua.” Mas acho
que isso é exagero.
Como também é exagero saber o que
quer dizer escardinchar. Já estou mais perto dos cinquenta que dos
quarenta; vivo de meu trabalho quase sempre honrado, gozo de boa
saúde e estou até gordo demais, pensando em meter um regime no
organismo — e nunca soube o que fosse escardinchar. Espero que
nunca, na minha vida, tenha escardinchado ninguém; se o fiz, mereço
desculpas, pois nunca tive essa intenção.
Vários problemas e algumas mulheres
já me tiraram o sono, mas não o feminino de cupim. Morrerei sem
saber isso. E o pior é que não quero saber; nego-me terminantemente
a saber, e, se o senhor é um desses cavalheiros que sabem qual é o
feminino de cupim, tenha a bondade de não me cumprimentar.
Por que exigir essas coisas dos
candidatos aos nossos cargos públicos? Por que fazer do estudo da
língua portuguesa uma série de alçapões e adivinhas, como essas
histórias que uma pessoa conta para “pegar” as outras? O
habitante do Cairo pode ser cairense, cairel, caireta, cairota ou
cairiri — e a única utilidade de saber qual a palavra certa será
para decifrar um problema de palavras cruzadas. Vocês não acham que
nossos funcionários públicos já gastam uma parte excessiva do
expediente matando palavras cruzadas da Última Hora ou lendo o
horóscopo e as histórias em quadrinhos de O Globo?
No fundo o que esse tipo de gramático
deseja é tornar a língua portuguesa odiosa; não alguma coisa
através da qual as pessoas se entendam, mas um instrumento de
suplício e de opressão que ele, gramático, aplica sobre nós, os
ignaros.
Mas a mim é que não me escardincham
assim, sem mais nem menos: não sou fêmea de cupim nem antônimo de
póstumo nenhum; e sou cachoeirense, de Cachoeiro, honradamente —
de Cachoeiro de Itapemirim!
Rubem Braga, em Ai de ti, Copacabana
A diferença
O que eles chamam de nossos defeitos é o que nós temos de diferente deles. Cultivemo-los pois, com o maior carinho — esses nossos benditos defeitos.
Mário Quintana, em Caderno H
Capítulo III – Cadeia
Fabiano tinha ido à feira da cidade
comprar mantimentos. Precisava sal, farinha, feijão e rapaduras.
Sinha Vitória pedira além disso uma garrafa de querosene e um corte
de chita vermelha. Mas o querosene de seu Inácio estava misturado
com água, e a chita da amostra era cara demais.
Fabiano percorreu as lojas, escolhendo
o pano regateando um tostão em côvado, receoso de ser enganado.
Andava irresoluto, uma longa desconfiança dava-lhe gestos oblíquos.
A tarde puxou o dinheiro, meio tentado, e logo se arrependeu, certo
de que todos os caixeiros furtavam no preço e na medida: amarrou as
notas na ponta do lenço, meteu-as na algibeira, dirigiu-se à bodega
de seu Inácio, onde guardara os picuás.
Aí certificou-se novamente de que o
querosene estava batizado e decidiu beber uma pinga, pois sentia
calor. Seu Inácio trouxe a garrafa de aguardente. Fabiano virou o
copo de um trago, cuspiu, limpou os beiços à manga, contraiu o
rosto. Ia jurar que a cachaça tinha água. Por que seria que seu
Inácio botava água em tudo? perguntou mentalmente. Animou-se e
interrogou o bodegueiro: – Por que é que vossemecê bota água em
tudo?
Seu Inácio fingiu não ouvir. E
Fabiano foi sentar-se na calçada, resolvido a conversar. O
vocabulário dele era pequeno, mas em horas de comunicabilidade
enriquecia-se com algumas expressões de seu Tomás da bolandeira.
Pobre de seu Tomás. Um homem tão direito sumir-se como cambembe,
andar por este mundo de trouxa nas costas. Seu Tomás era pessoa de
consideração e votava. Quem diria?
Nesse ponto um soldado amarelo
aproximou-se e bateu familiarmente no ombro de Fabiano: – Como é,
camarada? Vamos jogar um trinta-e-um lá dentro?
Fabiano atentou na farda com respeito
e gaguejou, procurando as palavras de seu Tomás da bolandeira: –
Isto é. Vamos e não vamos. Quer dizer Enfim, contanto, etc. É
conforme.
Levantou-se e caminhou atrás do
amarelo, que era autoridade e mandava. Fabiano sempre havia
obedecido. Tinha muque e substância, mas pensava pouco, desejava
pouco e obedecia.
Atravessaram a bodega, a corredor,
desembocaram numa sala onde vários tipos jogavam cartas em cima de
uma esteira.
– Desafasta, ordenou o polícia.
Aqui tem gente.
Os jogadores apertaram-se, os dois
homens sentaram-se, o soldado amarelo pegou o baralho. Mas com tanta
infelicidade que em pouco tempo se enrascou. Fabiano encalacrou-se
também. Sinha Vitória ia danar-se, e com razão.
– Bem feito.
Ergueu-se furioso, saiu da sala,
trombudo. – Espera aí, paisano, gritou o amarelo.
Fabiano, as orelhas ardendo, não se
virou. Foi pedir a seu Inácio os troços que ele havia guardado,
vestiu o gibão, passou as correias dos alforjes no ombro, ganhou a
rua.
Debaixo do jatobá do quadro taramelou
com Sinha Rita louceira, sem se atrever a voltar para casa. Que
desculpa iria apresentar a Sinha Vitória? Forjava uma explicação
difícil. Perdera o embrulho da fazenda, pagara na botica uma
garrafada para Sinha Rita louceira. Atrapalhava-se tinha imaginação
fraca e não sabia mentir. Nas invenções com que pretendia
justificar-se a figura de Sinha Rita aparecia sempre, e isto o
desgostava. Arruinaria uma história sem ela, diria que haviam
furtado o cobre da chita. Pois não era? Os parceiros o tinham pelado
no trinta-e-um. Mas não devia mencionar o jogo. Contaria
simplesmente que o lenço das notas ficara no bolso do gibão e
levara sumiço. Falaria assim: – “Comprei os mantimentos. Botei o
gibão e os alforjes na bodega de seu Inácio. Encontrei um soldado
amarelo” Não, não encontrara ninguém. Atrapalhava-se de novo.
Sentia desejo de referir-se ao soldado, um conhecido velho, amigo de
infância. A mulher se incharia com a notícia. Talvez não se
inchasse. Era atilada, notaria a pabulagem. Pois estava acabado. O
dinheiro fugira do bolso do gibão, na venda de seu Inácio. Natural.
Repetia que era natural quando alguém
lhe deu um empurrão, atirou-o contra o jatobá. A feira se
desmanchava; escurecia; o homem da iluminação, trepando numa
escada, acendia os lampiões. A estrela papa-ceia branqueou por cima
da torre da igreja; o doutor juiz de direito foi brilhar na porta da
farmácia; o cobrador da prefeitura passou coxeando, com talões de
recibos debaixo do braço; a carroça de lixo rolou na praça
recolhendo cascas de frutas; seu vigário saiu de casa e abriu o
guarda-chuva por causa do sereno; Sinha Rita louceira retirou-se.
Fabiano estremeceu. Chegaria a fazenda
noite fechada. Entretido com o diabo do jogo, tonto de aguardente,
deixara o tempo correr. E não levava o querosene, ia-se alumiar
durante a semana com pedaços de facheiro. Aprumou-se, disposto a
viajar. Outro empurrão desequilibrou-o. Voltou-se e viu ali perto o
soldado amarelo, que o desafiava, a cara enferrujada, uma ruga na
testa. Mexeu-se para sacudir o chapéu de couro nas ventas do
agressor. Com uma pancada certa do chapéu de couro, aquele tico de
gente ia ao barro. Olhou as coisas e as pessoas em roda e moderou a
indignação. Na catinga ele as vezes cantava de galo, mas na rua
encolhia-se.
– Vossemecê não tem direito de
provocar os que estão quietos.
– Desafasta, bradou o polícia.
E insultou Fabiano, porque ele tinha
deixado a bodega sem se despedir.
– Lorota, gaguejou o matuto. Eu
tenho culpa de vossemecê esbagaçar os seus possuídos no jogo?
Engasgou-se. A autoridade rondou por
ali um instante, desejosa de puxar questão. Não achando pretexto,
avizinhou-se e plantou o salto da reiúna em cima da alpercata do
vaqueiro.
– Isso não se faz, moço, protestou
Fabiano. Estou quieto. Veja que mole e quente é pé de gente.
O outro continuou a pisar com força.
Fabiano impacientou-se e xingou a mãe dele. Aí o amarelo apitou, e
em poucos minutos o destacamento da cidade rodeava o jatobá.
– Toca pra frente, berrou o cabo.
Fabiano marchou desorientado, entrou na cadeia, ouviu sem compreender
uma acusação medonha e não se defendeu. – Está certo, disse o
cabo. Faça lombo, paisano. Fabiano caiu de joelhos, repetidamente
uma lâmina de facão bateu-lhe no peito, outra nas costas. Em
seguida abriram uma porta, deram-lhe um safanão que o arremessou
para as trevas do cárcere. A chave tilintou na fechadura, e Fabiano
ergueu- se atordoado, cambaleou, sentou-se num canto, rosnando –
Hum! hum!
Porque tinham feito aquilo? Era o que
não podia saber. Pessoa de bons costumes, sim senhor, nunca fora
preso. De repente um fuzuê sem motivo. Achava-se tão perturbado que
nem acreditava naquela desgraça. Tinham-lhe caído todos em cima, de
supetão, como uns condenados. Assim um homem não podia resistir.
– Bem, bem.
Passou as mãos nas costas e no peito,
sentiu-se moído, os olhos azulados brilharam como olhos de gato.
Tinham-no realmente surrado e prendido. Mas era um caso tão
esquisito que instantes depois balançava a cabeça, duvidando,
apesar das machucaduras.
Ora, o soldado amarelo... Sim, havia
um amarelo, criatura desgraçada que ele, Fabiano, desmancharia com
um tabefe. Não tinha desmanchado por causa dos homens que mandavam.
Cuspiu, com desprezo: – Safado, mofino, escarro de gente. Por mor
de uma peste daquela, maltratava-se um pai de família. Pensou na
mulher, nos filhos e na cachorrinha. Engatinhando, procurou os
alforjes, que haviam caído no chão, certificou-se de que os objetos
comprados na feira estavam todos ali. Podia ter-se perdido alguma
coisa na confusão. Lembrou-se de uma fazenda vista na última das
lojas que visitara. Bonita, encorpada, larga, vermelha e com
ramagens, exatamente o que Sinha Vitória desejava. Encolhendo um
tostão em côvado, por sovinice, acabava o dia daquele jeito. Tornou
a mexer nos alforjes. Sinha Vitória devia estar desassossegada com a
demora dele. A casa no escuro, os meninos em redor do fogo, a
cachorra Baleia vigiando. Com certeza haviam fechado a porta da
frente.
Estirou as pernas, encostou as carnes
doídas ao muro. Se lhe tivessem dado tempo, ele teria explicado tudo
direitinho. Mas pegado de surpresa, embatucara. Quem não ficaria
azuretado com semelhante despropósito? Não queria capacitar-se de
que a malvadez tivesse sido para ele. Havia engano, provavelmente o
amarelo o confundira com outro. Não era senão isso.
Então porque um sem-vergonha
desordeiro se arrelia, bota-se um cabra na cadeia, dá-se pancada
nele? Sabia perfeitamente que era assim, acostumara-se a todas as
violências, a todas. as injustiças. E aos conhecidos que dormiam no
tronco e aguentavam cipó de boi oferecia consolações: – “Tenha
paciência. Apanhar do governo não é desfeita.” Mas agora rangia
os dentes, soprava. Merecia castigo? – An! E, por mais que
forcejasse, não se convencia de que o soldado amarelo fosse governo.
Governo, coisa distante e perfeita, não podia errar. O soldado
amarelo estava ali perto, além da grade,. era fraco e ruim, jogava
na esteira com os matutos e provocava-os depois. O governo não devia
consentir tão grande safadeza.
Afinal para que serviam os soldados
amarelos? Deu um pontapé na parede, gritou enfurecido. Para que
serviam os soldados amarelos? Os outros presos remexeram-se, o
carcereiro chegou à grade, e Fabiano acalmou-se: – Bem, bem. Não
há nada não.
Havia muitas coisas. Ele não podia
explicá-las, mas havia. Fossem perguntar a seu Tomás da bolandeira,
que lia livros e sabia onde tinha as ventas. Seu Tomás da bolandeira
contaria aquela história. Ele, Fabiano, um bruto, não contava nada.
Só queria voltar para junto de Sinha Vitória, deitar-se na cama de
varas. Porque vinham bulir com um homem que só queria descansar?
Deviam bulir com outros.
– An! Estava tudo errado. – An!
Tinham lá coragem? Imaginou o soldado amarelo atirando-se a um
cangaceiro na catinga. Tinha graça. Não dava um caldo.
Lembrou-se da casa velha onde morava,
da cozinha, da panela que chiava na trempe de pedras. Sinha Vitória
punha sal na comida. Abriu os alforjes novamente: a trouxa de sal não
se tinha perdido. Bem. Sinha Vitória provava o caldo na quenga de
coco. E Fabiano se aperreava por causa dela, dos filhos e da cachorra
Baleia, que era como uma pessoa da família, sabida como gente.
Naquela viagem arrastada, em tempo de seca braba, quando estavam
todos morrendo de fome, a cadelinha tinha trazido para eles um preá.
Ia envelhecendo, coitada. Sinha Vitória, inquieta, com certeza fora
muitas vezes escutar na porta da frente. O galo batia as asas, os
bichos bodejavam no chiqueiro, os chocalhos das vacas tiniam.
Se não fosse isso... An! Em que
estava pensando? Meteu os olhos pela grade da rua. Chi! que pretume!
O lampião da esquina se apagara, provavelmente o homem da escada só
botara nele meio quarteirão de querosene. Pobre de Sinha Vitória,
cheia de cuidados, na escuridão. Os meninos sentados perto do lume,
a panela chiando na trempe de pedras, Baleia atenta, o candeeiro de
folha pendurado na ponta de uma vara que saía da parede.
Estava tão cansado, tão machucado,
que ia quase adormecendo no meio daquela desgraça. Havia ali um
bêbedo tresvariando em voz alta e alguns homens agachados em redor
de um fogo que enchia o cárcere de fumaça. Discutiam e queixavam-se
da lenha molhada.
Fabiano cochilava, a cabeça pesada
inclinava-se para o peito e levantava-se. Devia ter comprado o
querosene de seu Inácio. A mulher e os meninos aguentando fumaça
nos olhos.
Acordou sobressaltado. Pois não
estava misturando as pessoas, desatinando? Talvez fosse efeito da
cachaça. Não era: tinha bebido um copo, tanto assim, quatro dedos.
Se lhe dessem tempo, contaria o que se passara.
Ouviu o falatório desconexo do
bêbedo, caiu numa indecisão dolorosa. Ele também dizia palavras
sem sentido, conversava à toa. Mas irou-se com a comparação, deu
marradas na parede. Era bruto, sim senhor, nunca havia aprendido, não
sabia explicar-se. Estava preso por isso? Como era? Então mete-se um
homem na cadeia porque ele não sabe falar direito? Que mal fazia a
brutalidade dele? Vivia trabalhando como um escravo. Desentupia o
bebedouro, consertava as cercas, curava os animais – aproveitara um
casco de fazenda sem valor. Tudo em ordem, podiam ver. Tinha culpa de
ser bruto? Quem tinha culpa?
Se não fosse aquilo... Nem sabia. O
fio da ideia cresceu, engrossou – e partiu-se. Difícil pensar.
Vivia tão agarrado aos bichos... Nunca vira uma escola. Por isso não
conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares. O demônio
daquela história entrava-lhe na cabeça e saía. Era para um cristão
endoidecer. Se lhe tivessem dado ensino, encontraria meio de
entendê-la. Impossível, só sabia lidar com bichos.
Enfim, contanto... Seu Tomás daria
informações. Fossem perguntar a ele. Homem bom, seu Tomás da
bolandeira, homem aprendido. Cada qual como Deus o fez. Ele, Fabiano,
era aquilo mesmo, um bruto.
O que desejava... An! Esquecia-se.
Agora se recordava da viagem que tinha feito pelo sertão a cair de
fome. As pernas dos meninos eram finas como bilros, Sinha Vitória
tropicava debaixo do baú de trens. Na beira do rio haviam comido o
papagaio, que não sabia falar. Necessidade.
Fabiano também não sabia falar. As
vezes largava nomes arrevesados, por embromação. Via perfeitamente
que tudo era besteira. Não podia arrumar o que tinha no interior. Se
pudesse... Ah! Se pudesse, atacaria os soldados amarelos que espancam
as criaturas inofensivas.
Bateu na cabeça, apertou-a. Que
faziam aqueles sujeitos acocorados em torno do fogo? Que dizia aquele
bêbedo que se esgoelava como um doido, gastando fôlego à toa?
Sentiu vontade de gritar, de anunciar muito alto que eles não
prestavam para nada. Ouviu uma voz fina. Alguém no xadrez das
mulheres chorava e arrenegava as pulgas. Rapariga da vida, certamente
de porta aberta. Essa também não prestava para nada. Fabiano queria
berrar para a cidade inteira, afirmar ao doutor juiz de direito, ao
delegado, a seu vigário e aos cobradores da prefeitura que ali
dentro ninguém prestava para nada. Ele, os homens acocorados, o
bêbedo, a mulher das pulgas, tudo era uma lástima, só servia para
aguentar facão. Era o que ele queria dizer.
E havia também aquele fogo-corredor
que ia e vinha no espírito dele. Sim, havia aquilo. Como era?
Precisava descansar. Estava com a testa doendo, provavelmente em
consequência de uma pancada de cabo de facão. E doía-lhe. a cabeça
toda, parecia-lhe que tinha fogo por dentro, parecia-lhe que tinha
nos miolos uma panela fervendo.
Pobre de Sinha Vitória, inquieta e
sossegando os meninos. Baleia vigiando, perto da trempe. Se não
fossem eles...
Agora Fabiano conseguia arranjar as
ideias. O que o segurava era a família. Vivia preso como um novilho
amarrado ao mourão, suportando ferro quente. Se não fosse isso, um
soldado amarelo não lhe pisava o pé não. O que lhe amolecia o
corpo era a lembrança da mulher e dos filhos. Sem aqueles cambões
pesados, não envergaria o espinhaço não, sairia dali como onça e
faria uma asneira. Carregaria a espingarda e daria um tiro de pé de
pau no soldado amarelo. Não. O soldado amarelo era um infeliz que
nem merecia um tabefe com as costas da mão. Mataria os donos
dele. Entraria num bando de cangaceiros e faria estrago nos homens
que dirigiam o soldado amarelo. Não ficaria um para semente. Era a
ideia que lhe fervia na cabeça. Mas havia a mulher, havia os
meninos, havia a cachorrinha.
Fabiano gritou, assustando o bêbedo,
os tipos que abanavam o fogo, o carcereiro e a mulher que se queixava
das pulgas. Tinha aqueles cambões pendurados ao pescoço. Deveria
continuar a arrastá-los? Sinha Vitória dormia mal na cama de varas.
Os meninos eram uns brutos, como o pai. Quando crescessem, guardariam
as reses de um patrão invisível, seriam pisados, maltratados,
machucados por um soldado amarelo.
– Arreda!
Graciliano Ramos, em Vidas Secas
domingo, 8 de março de 2026
Não se mate
Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.
Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.
O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, pra quê.
Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.
Carlos Drummond de Andrade, em Brejo das Almas
A Metamorfose
[…]
Visto isso, tentou extrair primeiro a
parte superior, deslizando cuidadosamente a cabeça para a borda da
cama. Descobriu ser fácil e, apesar da sua largura e volume, o corpo
acabou por acompanhar lentamente o movimento da cabeça. Ao
conseguir, por fim, mover a cabeça até à borda da cama, sentiu-se
demasiado assustado para prosseguir o avanço, dado que, no fim de
contas caso se deixasse cair naquela posição, só um milagre o
salvaria de magoar a cabeça. E, custasse o que custasse, não podia
perder os sentidos nesta altura, precisamente nesta altura; era
preferível ficar na cama.
Quando, após repetir os mesmos
esforços, ficou novamente deitado na posição primitiva,
suspirando, e viu as pequenas pernas a entrechocarem-se mais
violentamente que nunca, se possível, não divisando processo de
introduzir qualquer ordem naquela arbitrária confusão, repetiu a si
próprio que era impossível ficar na cama e que o mais sensato era
arriscar tudo pela menor esperança de libertar-se dela. Ao mesmo
tempo, não se esquecia de ir recordando a si mesmo que era muito
melhor a reflexão fria, o mais fria possível, do que qualquer
resolução desesperada. Nessas alturas, tentava focar a vista tão
distintamente quanto podia na janela, mas, infelizmente, a
perspectiva da neblina matinal, que ocultava mesmo o outro lado da
rua estreita, pouco alívio e coragem lhe trazia. Sete horas, disse,
de si para si, quando o despertador voltou a bater, sete horas, e um
nevoeiro tão denso, por momentos, deixou-se ficar quieto, respirando
suavemente, como se porventura esperasse que um repouso tão completo
devolvesse todas as coisas à sua situação real e vulgar.
A seguir, disse a si mesmo: Antes de
baterem as sete e um quarto, tenho que estar fora desta cama. De
qualquer maneira, a essa hora já terá vindo alguém do escritório
perguntar por mim, visto que abre antes das sete horas. E pôs-se a
balouçar todo o corpo ao mesmo tempo, num ritmo regular, no intuito
de rebocá-lo para fora da cama. Caso se desequilibrasse naquela
posição, podia proteger a cabeça de qualquer pancada erguendo-a
num ângulo agudo ao cair. O dorso parecia ser duro e não era
provável que se ressentisse de uma queda no tapete. A sua
preocupação era o barulho da queda, que não poderia evitar, o
qual, provavelmente, causaria ansiedade, ou mesmo terror, do outro
lado e em todas as portas. Mesmo assim, devia correr o risco.
Quando estava quase fora da cama — o
novo processo era mais um jogo que um esforço, dado que apenas
precisava rebolar, balouçando-se para um lado e para outro —,
veio-lhe à ideia como seria fácil se conseguisse ajuda. Duas
pessoas fortes — pensou no pai e na criada — seriam largamente
suficientes; não teriam mais que meter-lhe os braços por baixo do
dorso convexo, levantá-lo para fora da cama, curvarem-se com o fardo
e em seguida ter a paciência de o colocar direito no chão, onde era
de esperar que as pernas encontrassem então a função própria.
Bem, à parte o fato de todas as portas estarem fechadas à chave,
deveria mesmo pedir auxílio? A despeito da sua infelicidade não
podia deixar de sorrir ante a simples ideia de tentar.
Tinha chegado tão longe que mal podia
manter o equilíbrio quando se balouçava com força e em breve teria
de encher-se de coragem para a decisão final, visto que daí a cinco
minutos seriam sete e um quarto... quando soou a campainha da porta.
É alguém do escritório, disse, com os seus botões, e ficou quase
rígido, ao mesmo tempo que as pequenas pernas sé limitavam a
agitar-se ainda mais depressa. Por instantes, tudo ficou silencioso.
Não vão abrir a porta, disse Gregório, de si para si, agarrando-se
a qualquer esperança irracional. A seguir, a criada foi à porta,
como de costume, com o seu andar pesado e abriu-a. Gregório apenas
precisou ouvir o primeiro bom dia do visitante para imediatamente
saber quemera: o chefe de escritório em pessoa. Que sina, estar
condenado a trabalhar numa firma em que a menor omissão dava
imediatamente asa à maior das suspeitas! Seria que todos os
empregados em bloco não passavam de malandros, que não havia entre
eles um único homem devotado e leal que, tendo uma manhã perdido
uma hora de trabalho na firma ou coisa parecida, fosse tão
atormentado pela consciência que perdesse a cabeça e ficasse
realmente incapaz de levantar-se da cama? Não teria bastado mandar
um aprendiz perguntar-se era realmente necessária qualquer pergunta
— , teria que vir o próprio chefe de escritório, dando assim a
conhecer a toda a família, uma família inocente, que esta
circunstância suspeita não podia ser investigada por ninguém menos
versado nos negócios que ele próprio? E, mais pela agitação
provocada por tais reflexões do que por qualquer desejo, Gregório
rebolou com toda a força para fora da cama. Houve um baque sonoro,
mas não propriamente um estrondo. A queda foi, até certo ponto,
amortecida pelo tapete; também o dorso era menos duro do que ele
pensava, de modo que foi apenas um baque surdo, nem por isso muito
alarmante. Simplesmente, não tinha erguido a cabeça com cuidado
suficiente e batera com ela; virou-a e esfregou-a no tapete, de dor e
irritação.
— Alguma coisa caiu ali dentro —
disse o chefe de escritório na sala contígua do lado esquerdo.
Gregório tentou supor no seu íntimo que um dia poderia acontecer ao
chefe de escritório qualquer coisa como a que hoje lhe acontecera a
ele; ninguém podia negar que era possível. Como em brusca resposta
a esta suposição, o chefe de escritório deu alguns passos firmes
na sala ao lado, fazendo ranger as botas de couro envernizado. Do
quarto da direita, a irmã segredava para informá-lo da situação:
— Gregório, está aqui o chefe de
escritório.
Eu sei, murmurou Gregório, de si para
si; mas não ousou erguer a voz o suficiente para a irmã o ouvir.
— Gregório — disse então o pai,
do quarto à esquerda —, está aqui o chefe de escritório e quer
saber porque é que não apanhou o primeiro trem. Não sabemos o que
dizer pra ele. Além disso, ele quer falar contigo pessoalmente. Abre
essa porta, faz-me o favor. Com certeza não vai reparar na
desarrumação do quarto.
— Bom dia, Senhor Samsa, saudava
agora amistosamente o chefe de escritório.
— Ele não está bem — disse a mãe
ao visitante, ao mesmo tempo que o pai falava ainda através da
porta, ele não está bem, senhor, pode acreditar. Se assim não
fosse, ele alguma vez ia perder um trem! O rapaz não pensa senão no
emprego. Quase me zango com a mania que ele tem de nunca sair à
noite; há oito dias que está em casa e não houve uma única noite
que não ficasse em casa. Senta-se ali à mesa, muito sossegado, a
ler o jornal ou a consultar horários de trens. O único divertimento
dele é talhar madeira. Passou duas ou três noites a cortar uma
moldurazinha de madeira; o senhor ficaria admirado se visse como ela
é bonita. Está pendurada no quarto dele. Num instante vai vê-la,
assim que o Gregório abrir a porta. Devo dizer que estou muito
satisfeita por o senhor ter vindo. Sozinhos, nunca conseguiríamos
que ele abrisse a porta; é tão teimoso... E tenho a certeza de que
ele não está bem, embora ele não o reconhecesse esta manhã.
— Já vou — disse Gregório, lenta
e cuidadosamente, não se mexendo um centímetro, com receio de
perder uma só palavra da conversa.
— Não imagino qualquer outra
explicação, minha senhora — disse o chefe de escritório. —
Espero que não seja nada de grave. Embora, por outro lado, devadizer
que nós, homens de negócios, feliz ou infelizmente, temos muitas
vezes de ignorar, pura e simplesmente, qualquer ligeira indisposição,
visto que é preciso olhar pelo negócio.
— Bem, o chefe de escritório pode
entrar? — perguntou impacientemente o pai de Gregório, tornando a
bater à porta.
— Não — disse Gregório. Na sala
da esquerda seguiu-se um doloroso silêncio a esta recusa, enquanto
no compartimento da direita a irmã começava a soluçar.
Porque não se juntava a irmã aos
outros? Provavelmente tinha-se levantado da cama há pouco tempo e
ainda nem começara a vestir-se. Bem, porque chorava ela? Por ele não
se levantar e não abrir a porta ao chefe de escritório, por ele
estar em perigo de perder o emprego e porque o patrão havia de
começar outra vez atrás dos pais para eles pagarem as velhas
dívidas? Eram, evidentemente, coisas com as quais, nesse instante,
ninguém tinha de preocupar-se. Gregório estava ainda em casa e nem
por sombras pensava abandonar a família. É certo que, de momento,
estava deitado no tapete e ninguém conhecedor da sua situação
poderia seriamente esperar que abrisse a porta ao chefe de
escritório. Mas, por tão pequena falta de cortesia, que poderia ser
plausivelmente explicada mais tarde, Gregório não iria por certo
ser despedido sem mais nem quê. E parecia-lhe que seria muito mais
sensato deixarem-no em paz por agora do que atormentá-lo com
lágrimas e súplicas. É claro que a incerteza e a desorientação
deles desculpava aquele comportamento.
— Senhor Samsa — clamou então o
chefe de escritório, em voz mais alta -, que se passa consigo? Para
aí barricado no quarto, a responder só por sins) e nãos, a dar uma
série de preocupações desnecessárias aos seus pais e — diga-se
de passagem- a negligenciar as suas obrigações profissionais de uma
maneira incrível! Estou a falar em nome dos seus pais e do seu
patrão e peco-lhe muito a sério uma explicação precisa e
imediata. O senhor espanta-me, espanta-me. Julgava que o senhor era
uma pessoa sossegada, em quem se podia ter confiança, e de repente
parece apostado em fazer uma cena vergonhosa. Realmente, o patrão
sugeriu-me esta manhã uma explicação possível para o seu
desaparecimento — relacionada com o dinheiro dos pagamentos que
recentemente lhe foi confiado — mas eu quase dei a minha solene
palavra de honra de que não podia ser isso.
Agora, que vejo como o senhor é
terrivelmente obstinado, não tenho o menor desejo de tomar a sua
defesa. E a sua posição na firma não é assim tão inexpugnável.
Vim com a intenção de dizer-lhe isto em particular, mas, visto que
o senhor está a tomar tão desnecessariamente o meu tempo, não vejo
razão para que os seus pais não ouçam igualmente. Desde há algum
tempo que o seu trabalho deixa muito a desejar; esta época do ano
não é ideal para uma subida do negócio, claro, admitamos isso,
mas, uma época do ano para não fazer negócio absolutamente nenhum,
essa não existe, Senhor Samsa, não pode existir.
— Mas, senhor — gritou Gregório,
fora de si e, na sua agitação, esquecendo todo o resto, vou abrir a
porta agora mesmo. Tive uma ligeira indisposição, um ataque de
tonturas, que não me permitiu levantar-me. Ainda estou na cama. Mas
me sinto bem outra vez. Estou a levantar-me agora. Dê-me só mais um
minuto ou dois! Não estou, realmente, tão bem como pensava. Mas
estou bem, palavra. Como uma coisa destas pode repentinamente deitar
uma pessoa abaixo. Ainda ontem à noite estava perfeitamente, os meus
pais que o digam; ou, antes, de fato, tive um leve pressentimento.
Deve ter mostrado indícios disso. Porque não o comuniquei eu ao
escritório! Mas uma pessoa pensa sempre que uma indisposição há
de passar sem ficar em casa. Olha, senhor, poupe os meus pais! Tudo
aquilo por que me repreende não tem qualquer fundamento; nunca
ninguém me disse uma palavra sobre isso. Talvez o senhor não tenha
visto as últimas encomendas que mandei. De qualquer maneira, ainda
posso apanhar o trem das oito; estou muito melhor depois deste
descanso de algumas horas. Não se prenda por mim, senhor; daqui a
pouco vou para o escritório e hei de estar suficientemente bom para
o dizer ao patrão e apresentar-lhe desculpas!
[…]
Franz Kafka, em A Metamorfose
1616 – Madrid
Cervantes
– Que novas trazes de nosso pai?
– Jaz, senhor, entre lágrimas e
rezas. Inchado está, e de cor cinza. Já pôs a alma em paz com o
escrivão e com o padre. As carpideiras esperam.
– Se tivesse eu o bálsamo de
Ferrabrás.... Dois goles e no ponto sararia!
– Aos setenta anos que quase tem, e
em agonia? Com seis dentes na boca e uma só mão que serve? Com
cicatrizes tantas de batalhas, afrontas e prisões? De nada serviria
esse feio Brás.
– Não digo dois goles. Duas gotas!
– Tarde chegaria.
– Morreu, dizes?
– Morrendo está.
– Descubra-se, Sancho. E tu,
Rocinante, baixa a testa. Ah, príncipe das armas! Rei das letras!
– Sem ele, senhor, o que será de
nós?
– Nada haveremos de fazer que não
seja em sua alabança.
– Onde iremos parar, tão sozinhos?
– Iremos onde ele quis e não pôde.
– Onde, senhor?
– A endireitar o que torto está na
costa de Cartagena, na ribanceira de La Paz e os bosques de Soconuco.
– Para que nos moam por lá os
ossos.
– Hás de saber, Sancho, irmão meu
de caminhos e correrias, que nas Índias a glória aguarda os
cavaleiros andantes, sedentos de justiça e fama...
– Como foram poucas as
chibatadas....
– ...e recebem os escudeiros, em
recompensa, imensos reinos jamais explorados.
– Não os haverá mais perto?
– E tu, Rocinante, fique sabendo:
nas Índias, os cavalos calçam prata e mordem ouro. São tidos por
deuses!
– Depois de mil tundas, mil e uma.
– Cale-se, Sancho.
– Não nos disse nosso pai que a
América é refúgio de malandros e santuário de putas?
– Cala, te digo!
– Quem às Índias embarca, nos
disse, no cais deixa a consciência.
– Pois lá iremos, a lavar a honra
de quem livres nos pariu no cárcere!
– E se aqui o choramos?
– Homenagem chamas semelhante
traição? Ah, velhaco! Voltaremos ao caminho! Se para ficar no mundo
nos fez, pelo mundo o levaremos. Alcançai-me o elmo! A adarga ao
braço, Sancho! A lança!
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
Factótum – 7
A gente ainda estava em Louisiana.
Tínhamos que encarar uma longa viagem de trem pelo Texas. Nos deram
latas de comida, mas nada de abridores. Deixei minhas latas no chão
e me estiquei no banco de madeira. Os outros homens estavam reunidos
na parte da frente do vagão, rindo e conversando. Fechei os olhos.
Depois de uns dez minutos, senti uma
poeira subindo pelas fendas do banco. Era uma poeira muito velha,
poeira de caixão, e fedia a morte, a algo que já estava morto havia
muito tempo. Ela entrava pelas minhas narinas, se assentava nas
minhas sobrancelhas e tentava invadir minha boca. Depois, ouvi sons
de uma respiração ofegante. Pelas fendas pude ver um homem
acocorado atrás do banco, soprando a poeira no meu rosto. Me sentei.
O homem se esgueirou para fora do espaço atrás do banco e correu
para a frente do vagão. Limpei meu rosto e o encarei. Era difícil
acreditar.
— Se ele partir pra cima, quero que
vocês me ajudem — ouvi ele dizer. — Prometam que vão me ajudar…
O bando me deu uma olhada. Me estiquei
no banco de novo. Eu podia ouvi-los conversando:
— O que esse cara tem?
— Quem ele pensa que é?
— Não fala com ninguém.
— Só fica lá atrás, sozinho.
— Quando a gente levar ele lá para
fora, vamos cuidar disso. Desgraçado.
— Você acha que consegue pegar ele,
Paul? Para mim ele parece um maluco.
— Se eu não conseguir, alguém
consegue. Ele vai comer formiga na nossa mão.
Passado um tempo, fui até a frente do
vagão para beber água. Quando passei por eles, pararam de falar e
me observaram em silêncio enquanto eu bebia do copo. Então, quando
me virei e voltei para o meu canto, eles retomaram a conversa.
O trem fez muitas paradas, noite e
dia. Em cada uma onde havia um pouco de área verde e uma cidade
pequena por perto, um ou dois dos homens saltavam.
— Ei, o que aconteceu com o Collins
e o Martinez?
O encarregado ia pegar a prancheta e
riscar o nome deles da lista. Ele veio até mim.
— Quem é você?
— Chinaski.
— Vai continuar com a gente?
— Eu preciso do emprego.
— Ok. — E saiu.
Em El Paso, o encarregado veio e disse
que íamos trocar de trem. Ganhamos um vale para uma noite em um
hotel próximo e um de refeição para usar em uma lanchonete local;
também nos deram instruções sobre como, quando e onde pegar o
próximo trem na manhã seguinte.
Esperei do lado de fora da lanchonete
enquanto os homens comiam e só entrei quando eles saíram limpando
os dentes e conversando.
— Vamos dar um jeito nele, esse
filho da mãe!
— Cara, eu odeio esse filhote de
cruz-credo.
Entrei e pedi um bife de hambúrguer
com cebola e feijão. Não tinha manteiga para o pão, mas o café
estava bom. Eles já tinham ido embora quando eu saí. Um mendigo
estava caminhando pela calçada em minha direção. Dei para ele o
meu vale do hotel.
Passei aquela noite no parque. Parecia
mais seguro. Eu estava cansado, e aquele banco duro nem me incomodou.
Dormi.
Algum tempo depois, fui acordado pelo
que parecia ser um rugido. Eu nem sabia que jacarés rugiam. Para ser
mais exato, eram várias coisas: um rugido, uma respiração agitada
e um sibilar. Também ouvi o som de mandíbulas estalando. Um
marinheiro bêbado estava no centro da lagoa, segurando um dos
jacarés pelo rabo. A criatura tentava se torcer e alcançar o
marinheiro, mas não era fácil. As mandíbulas eram horripilantes,
mas também lentas e descoordenadas. Outro marinheiro e uma jovem
observavam e riam. Logo depois, o marinheiro deu um beijo na garota e
ambos foram embora juntos, deixando o outro lutando com o jacaré…
Em seguida foi a vez do sol me
acordar. Minha camisa estava quente, quase pegando fogo. O marinheiro
tinha desaparecido. O jacaré também. Em um banco do meu lado
direito estavam uma garota e dois caras jovens. Era óbvio que os
três também tinham dormido no parque naquela noite. Um dos rapazes
se levantou.
— Mickey — disse a garota —,
você tá de pau duro!
Riram.
— Quanto dinheiro a gente tem?
Puxaram os bolsos para fora. Tinham
uma moeda.
— E aí, o que a gente vai fazer?
— Sei lá. Vamos dar uma volta.
Fiquei observando o trio sair do
parque e entrar na cidade.
Charles Bukowski, em Factótum
sábado, 7 de março de 2026
O guardador de águas – IX
Bernardo escreve escorreito, com as
unhas, na água,
O Dialeto-Rã.*
Nele o chão exubera.
O Dialeto-Rã exara lanhos.
Bernardo conversa em rã como quem
conversa em
Aramaico.
Pelos insetos que usa ele sabe o nome
das chuvas.
Bernardo montou no quintal Oficina de
Transfazer
Natureza.
(Objetos fabricados na Oficina, por
exemplo:
Duas aranhas com olho de estame
Um beija-flor de rodas vermelhas
Um imitador de auroras — usado pelos
tordos.
Três peneiras para desenvolver moscas
E uma flauta para solos de garça.)
Bernardo é inclinado a quelônio.
A córnea azul de uma gota de orvalho
o embevece.
*Falado por pessoas de águas,
remanescentes do Mar de Xaraiés, o Dialeto-Rã, na sua escrita, se
assemelha ao Aramaico — idioma falado pelos povos que antigamente
habitavam a região pantanosa entre o Tigre e o Eufrates. Sabe-se que
o Aramaico e o Dialeto-Rã são línguas escorregadias e carregadas
de consoantes líquidas. É a razão desta nota.
Manoel de Barros, em O guardador de águas
O conselheiro
João riu muito quando a Heleninha
contou que tinha um ursinho de estimação, sem o qual não saberia
viver, e que ele se chamava Tedi.
— Vá se acostumando — disse a
futura sogra ao João, dias antes do casamento, depois de a Heleninha
revelar que levaria o Tedi na lua de mel. — Ela não larga esse
ursinho. Desde menininha.
E a Heleninha levou o ursinho de
estimação na lua de mel. E colocou o ursinho na cama do casal,
depois que voltaram da lua de mel e se instalaram no apartamento
novo. E João não se cansava de olhar a nova mulher dormindo
abraçada ao seu ursinho. Bonito aquilo. Heleninha, no fundo, ainda
era uma criança. O ursinho era a segurança de Heleninha. Era o seu
apego à infância e às suas doces ingenuidades. E seu confidente. E
seu conselheiro.
— Ah é? — sorriu João. — Você
conta todos os seus segredos para o Tedi?
— Conto.
— E ele lhe dá conselhos?
— Dá.
— Um dia vou ter que ter uma
conversa com esse ursinho...
— Ele não fala com qualquer um —
disse Heleninha. Séria.
João deu uma boa risada. Mas
Heleninha continuou séria. Estava sentida. O marido estava fazendo
pouco dela. Estava tratando-a como a uma criança. No dia seguinte,
Heleninha pediu para João ir dormir na sala.
— Por quê?
— O Tedi acha que será melhor para
o nosso casamento.
A sogra recomendou ao João que
tivesse paciência. Na verdade, durante toda a infância e a
adolescência de Heleninha os conselhos que ela atribuía ao Tedi
tinham se revelado muito sensatos. A própria escolha do João como
marido fora do Tedi, segundo Heleninha. João entendia do mercado de
capitais. Ficaria rico, comprando e vendendo na hora certa. Daria uma
boa vida a Heleninha, na opinião do Tedi. Estava passando por
dificuldades, no momento, mas quem não estava, no seu ramo? Era só
recomeçar a fazer as escolhas certas e voltaria a ter sucesso no
mercado de capitais. Segundo o Tedi.
João resistiu à conclusão de que
toda a família era louca e decidiu que o jeito era conquistar a boa
vontade do Tedi. Mas como? Nem todo o amor que sentia por Heleninha o
faria puxar conversa com um ursinho de estimação. Que, além de
tudo, não falava com qualquer um. O que fazer? Resolveu pedir a
Heleninha que lhe transmitisse as instruções do Tedi sobre quando e
o que comprar e quando e o que vender. E, seguindo os conselhos do
Tedi, João voltou a ganhar dinheiro.
João não comenta com ninguém do
ramo o segredo do seu sucesso. Nem acredita que são os conselhos do
Tedi os responsáveis pela sua recuperação. É tudo coincidência,
claro. Mas o mercado está de um jeito, raciocina, que se deve
aceitar ajuda de onde vier. E pelo menos o Tedi o deixou voltar para
a cama da Heleninha.
Luís Fernando Veríssimo, em Diálogos impossíveis
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