16/06/2026

Chico Chico | Ribanceira

Pequenos contos da cidade pequena

I
O Poeta está deitado de sapatos sobre a colcha de renda de bilros — relíquia de Vovozinha.
... e de melhores dias — suspira o Anjo, completando-lhe o pensamento.
Anjo, você está cada vez mais aburguesado.
Essa não, menino! Eu não sou comunista...

II
Do ferro de engomar, que se assoprava por trás, saíam faíscas como do traseiro do Diabo. As faces de Marianinha ficavam cada vez mais afogueadas, mais lustrosas e lindas, como as maçãs artificiais que havia no centro de mesa da sala de jantar. Não sei por que estou evocando todos esses pormenores — eles não levam a nenhum enredo notório, desculpem... Eu me aproximo como um gato, por trás.

III
O auto que passa e a vitrina da esquina trocam um duelo de reflexos.

IV
Escarrapachadas nas cadeiras da calçada, as comadres fazem trancinha. Nada lhes escapa. Nem um ponto. Mas para o menino quieto que ali se acha a tiracolo das tias o grande escândalo é a Lua, que acaba de surgir, à traição, enorme, sangrenta, assassina — ao contrário de tudo que se esperava dela —, logo ali entre as torres da igreja.

V
Noite alta um bêbado passa cantando a marchinha de um antigo carnaval. Tem uma voz de vidro moído. Uma voz aguda e esfarelada de velho.

VI
Um rodar, um estrépito de patas. Abafadamente. Mas já não se haviam sumido, há tempo, esses carros puxados a cavalo? Sia Carolina acorda e benze-se. É a Morte! É a Morte que passa, no seu carro fantasma, a visitar seus doentes.

Mário Quintana, em Caderno H

Hagar, o Horrível

Diário de Bernardo Soares

115.

Assim organizar a nossa vida que ela seja para os outros um mistério, que quem melhor nos conheça, apenas nos desconheça de mais perto que os outros. Eu assim talhei a minha vida, quase que sem pensar nisso, mas tanta arte instintiva pus em fazê-lo que para mim próprio me tornei uma não de todo clara e nítida individualidade minha.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Cabeça do Gregorio

Um grande escritório vazio. Ou quase: no canto, vemos uma mesa, com um computador velho. Um funcionário está dormindo. Seu nome é Totoro. Entra um sujeito engravatado. Totoro acorda.
FISCAL Aqui é o departamento de ideias da cabeça do Gregorio?
TOTORO Isso.
FISCAL Vazio, né?
TOTORO Ô. Quem é você?
FISCAL Eu trabalho no outro departamento da cabeça do Gregorio, o de fiscalização de outros departamentos. E o pessoal tem reclamado muito lá em cima de falta de ideias.
TOTORO É que eu tô muito pegado.
FISCAL Você não tava dormindo quando eu cheguei?
TOTORO Não, tava olhando a mesa. Mais de pertinho. Pra ver se era de madeira. Ou não.
FISCAL Você trabalha aqui?
TOTORO Isso. Eu sou o chefe do departamento de ideias.
FISCAL Chefe de quem?
TOTORO Do departamento de ideias.
FISCAL Tem mais alguém trabalhando aqui?
TOTORO Não.
FISCAL Então você é chefe de…?
TOTORO Do departamento de ideias.
FISCAL Tá explicado por que é que não chega ideia nenhuma.
TOTORO A culpa não é minha. Eu sou só um intermediário. Eu espero as ideias caírem e copio elas neste computador. E elas têm chegado muito pouco.
Cai uma bolinha de papel do teto.
FISCAL O que é que é isso?
TOTORO Uma ideia.
FISCAL Você não vai pegar?
TOTORO Em geral eu espero formar um montinho.
FISCAL Mas aqui já tem umas quatro.
Totoro respira fundo e levanta impaciente. Pega as bolinhas.
TOTORO É que não vai prestar. Quer ver? “Batizar um edifício de ‘Edifício é fácil’”.
FISCAL Que merda.
TOTORO Esse tipo de ideia eu nem passo pra vocês.
FISCAL Obrigado.
TOTORO “Um brasileiro, um americano e um japonês…” as que começam assim eu nem leio.
FISCAL Aqui tem uma que parece boa: “Um casal de idosos descobre que eram…”.
TOTORO Isso é do Verissimo.
FISCAL Mas ele roubou do Verissimo?
TOTORO Ele leu. Daí esqueceu que leu. Agora acha que é dele.
FISCAL “Rita Lee/ Ritalina.” Que trocadilho merda.
TOTORO Ele não se deu ao trabalho nem de formular uma frase.
Começa a cair um monte de bolinha.
FISCAL Caraca! Um monte de uma vez só.
TOTORO Relaxa. Isso só acontece quando ele fuma maconha.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

Onde estivestes de noite



As histórias não têm desfecho.”
Alberto Dines

O desconhecido vicia.”
Fauzi Arap

Sentado na poltrona, com a boca cheia de dentes, esperando a morte.”
Raul Seixas

O que vou anunciar é tão novo que receio ter todos os homens por inimigos, a tal ponto se enraízam no mundo os preconceitos e as doutrinas, uma vez aceitas.”
William Harvey

A noite era uma possibilidade excepcional. Em plena noite fechada de um verão escaldante um galo soltou seu grito fora de hora e uma só vez para alertar o início da subida pela montanha. A multidão embaixo aguardava em silêncio.
Ele-ela já estava presente no alto da montanha, e ela estava personalizada no ele e o ele estava personalizado no ela. A mistura andrógina criava um ser tão terrivelmente belo, tão horrorosamente estupefaciente que os participantes não poderiam olhá-lo de uma só vez: assim como uma pessoa vai pouco a pouco se habituando ao escuro e aos poucos enxergando. Aos poucos enxergavam o Ela-ele e quando o Ele-ela lhes aparecia com uma claridade que emanava dela-dele, eles paralisados pelo que é Belo diriam: “Ah, Ah”. Era uma exclamação que era permitida no silêncio da noite. Olhavam a assustadora beleza e seu perigo. Mas eles haviam vindo exatamente para sofrer o perigo.
Os pântanos se exalavam. Uma estrela de enorme densidade guiava-os. Eles eram o avesso do Bem. Subiam a montanha misturando homens, mulheres, duendes, gnomos e anões – como deuses extintos. O sino de ouro dobrava pelos suicidas. Fora da estrela graúda, nenhuma estrela. E não havia mar. O que havia do alto da montanha era escuridão. Soprava um vento noroeste. Ele-ela era um farol? A adoração dos malditos ia se processar.
Os homens coleavam no chão como grossos e moles vermes: subiam. Arriscavam tudo, já que fatalmente um dia iam morrer, talvez dentro de dois meses, talvez sete anos – fora isto que Ele-ela pensava dentro deles.
Olha o gato. Olha o que o gato viu. Olha o que o gato pensou. Olha o que era. Enfim, enfim, não havia símbolo, a “coisa” era! a coisa orgíaca. Os que subiam estavam à beira da verdade. Nabucodonosor. Eles pareciam 20 nabucodonosores. E na noite se desquitavam. Eles estão nos esperando. Era uma ausência – a viagem fora do tempo.
Um cão dava gargalhadas no escuro. “Tenho medo”, disse a criança. “Medo de quê?”, perguntava a mãe. “De meu cão.” “Mas você não tem cão.” “Tenho sim.” Mas depois a criancinha também gargalhou chorando, misturando lágrimas de riso e de espanto.
Afinal chegaram, os malditos. E olharam aquela sempiterna Viúva, a grande Solitária que fascinava todos, e os homens e mulheres não podiam resistir e queriam aproximar-se dela para amá-la morrendo mas ela com um gesto mantinha todos a distância. Eles queriam amá-la de um amor estranho que vibra em morte. Não se incomodavam de amá-la morrendo. O manto de Ela-ele era de sofrida cor roxa. Mas as mercenárias do sexo em festim procuravam imitá-la em vão.
Que horas seria? ninguém podia viver no tempo, o tempo era indireto e por sua própria natureza sempre inalcançável. Eles já estavam com as articulações inchadas, os estragos roncavam nos estômagos cheios de terra, os lábios túmidos e no entanto rachados – eles subiam a encosta. As trevas eram de um som baixo e escuro como a nota mais escura de um violoncelo. Chegaram. O Mal-Aventurado, o Ele-ela, diante da adoração de reis e vassalos, refulgia como uma iluminada águia gigantesca. O silêncio pululava de respirações ofegantes. A visão era de bocas entreabertas pela sensualidade que quase os paralisava de tão grossa. Eles se sentiam salvos do Grande Tédio.
O morro era de sucata. Quando a Ela-ele parava um instante, homens e mulheres, entregues a eles próprios por um instante, diziam-se assustados: eu não sei pensar. Mas o Ele-ela pensava dentro deles.
Um arauto mudo de clarineta aguda anunciava a notícia. Que notícia? a da bestialidade? Talvez no entanto fosse o seguinte: a partir do arauto cada um deles começou a “se sentir”, a sentir a si próprio. E não havia repressão: livres!
Aí eles começaram a balbuciar mas para dentro porque a Ela-ele era cáustica quanto a não disturbarem uns aos outros na sua lenta metamorfose. “Sou Jesus! sou judeu!”, gritava em silêncio o judeu pobre. Os anais da astronomia nunca registraram nada como este espetacular cometa, recentemente descoberto – sua cauda vaporosa se arrastará por milhões de quilômetros no espaço. Sem falar no tempo.
Um anão corcunda dava pulinhos como um sapo, de uma encruzilhada a outra – o lugar era de encruzilhadas. De repente as estrelas apareceram e eram brilhantes e diamantes no céu escuro. E o corcunda-anão dava pulos, os mais altos que conseguia para alcançar os brilhantes que sua cobiça despertava. Cristais! Cristais! gritou ele em pensamentos que eram saltitantes como os pulos.
A latência pulsava leve, ritmada, ininterrupta. Todos eram tudo em latência. “Não há crime que não tenhamos cometido em pensamento”: Goethe. Uma nova e não autêntica história brasileira era escrita no estrangeiro. Além disso, os pesquisadores nacionais se queixavam da falta de recursos para o trabalho.
A montanha era de origem vulcânica. E de repente o mar: a revolta rebentação do Atlântico lhes enchia os ouvidos. E o cheiro salgado do mar fecundava-os e triplicava-os em monstrinhos.
O corpo humano pode voar? A levitação. Santa Tereza d’Ávila: “Parecia que uma grande força me erguia no ar. Isso me provocava um grande medo.” O anão levitava por segundos mas gostava e não tinha medo.
Como é que você se chama, disse mudo o rapaz, para eu chamar você a vida inteira. Eu gritarei seu nome.
Eu não tenho nome lá embaixo. Aqui tenho o nome de Xantipa.
Ah, quero gritar Xantipa! Xantipa! Olhe, eu estou gritando para dentro. E qual é o seu nome durante o dia?
Acho que é... é... parece que é Maria Luísa.
E estremeceu como um cavalo se eriça. Caiu exangue no chão. Ninguém assassinava ninguém porque já eram assassinados. Ninguém queria morrer e não morria mesmo.
Enquanto isso – delicada, delicada – o Ele-ela usava um timbre. A cor do timbre. Porque eu quero viver em abundância e trairia o meu melhor amigo em troca de mais vida do que se pode ter. Essa procura, essa ambição. Eu desprezava os preceitos dos sábios que aconselham a moderação e a pobreza de alma – a simplificação de alma, segundo minha própria experiência, era a santa inocência. Mas eu lutava contra a tentação.
Sim. Sim: cair até a abjeção. Eis a ambição deles. O som era o arauto do silêncio. Porque nenhum poderia se deixar possuir por Aquele-aquela-sem-nome.
Eles queriam fruir o proibido. Queriam elogiar a vida e não queriam a dor que é necessária para se viver, para se sentir e para amar. Eles queriam sentir a imortalidade terrífica. Pois o proibido é sempre o melhor. Eles ao mesmo tempo não se incomodavam de talvez cair no enorme buraco da morte. E a vida só lhes era preciosa quando gritavam e gemiam. Sentir a força do ódio era o que eles melhor queriam. Eu me chamo povo, pensavam.
Que é que eu faço para ser herói? Porque nos templos só entram heróis.
E no silêncio de repente o seu grito uivado que não se sabia se de amor ou dor mortal, o herói cheirando mirra, incenso e benjoim.
Ele-ela cobria a sua nudez com um manto lindo mas como uma mortalha, mortalha púrpura, agora vermelho-catedral. Em noites sem lua Ela-ele virava coruja. Comerás teu irmão, disse ela no pensamento dos outros, e na hora selvagem haverá um eclipse do sol.
Para não se traírem eles ignoravam que hoje era ontem e haveria amanhã. Soprava no ar uma transparência como igual homem nenhum havia respirado antes. Mas eles espargiam pimenta em pó nos próprios órgãos genitais e se contorciam de ardor. E de repente o ódio. Eles não matavam uns aos outros mas sentiam tão implacável ódio que era como um dardo lançado num corpo. E se rejubilavam danados pelo que sentiam. O ódio era um vômito que os livrava de vômito maior, o vômito da alma.
Ele-ela com as sete notas musicais conseguia o uivo. Assim como com as mesmas sete notas podia criar música sacra. Ouviram eles dentro deles o dó-ré-mi-fá-sol-lá-si, o “si” macio e agudíssimo. Eles eram independentes e soberanos, apesar de guiados pelo Ele-ela. Rugindo a morte nos porões escuros. Fogo, grito, cor, vício, cruz. Estou vigilante no mundo: de noite vivo e de dia durmo, esquivo. Eu, com faro de cão, orgiático.
Quanto a eles, cumpriam rituais que os fiéis executam sem entender-lhes os mistérios. O cerimonial. Com um gesto leve Ela-ele tocou numa criança fulminando-a e todos disseram: amém. A mãe deu um uivo de lobo: ela toda morta, ela, também.
Mas era para ter supersensações que para ali se subia. E era sensação tão secreta e tão profunda que o júbilo faiscava no ar. Eles queriam a força superior que reina no mundo através dos séculos. Tinham medo? Tinham. Nada substituía a riqueza do silencioso pavor. Ter medo era a amaldiçoada glória da escuridão, silente como uma Lua.
Aos poucos se habituavam ao escuro e a Lua, antes escondida, toda redonda e pálida, tinha lhes abrandado a subida. Eram trevas quando um por um subira “a montanha”, como chamavam o planalto um pouco mais elevado. Tinham se apoiado no chão para não cair, pisando em árvores secas e ásperas, pisando em cactos espinhosos. Era um medo irresistivelmente atraente, eles prefeririam morrer que abandoná-lo. O Ele-ela era-lhes como a Amante. Mas se algum ousasse por ambição tocá-la era congelado na posição em que estivesse.
Ele-ela contou-lhes dentro de seus cérebros – e todos ouviram-na dentro de si – o que acontecia a uma pessoa quando esta não atendia ao chamado da noite: acontecia que na cegueira da luz do dia a pessoa vivia na carne aberta e nos olhos ofuscados pelo pecado da luz – a pessoa vivia sem anestesia o terror de se estar vivo. Não há nada a temer, quando não se tem medo. Era a véspera do apocalipse. Quem era o rei da Terra? Se você abusa do poder que você conquistou, os mestres o castigarão. Cheios do terror de uma feroz alegria eles se abaixavam e às gargalhadas comiam ervas daninhas do chão e as gargalhadas reboavam de escuridões a escuridões com seus ecos. Um cheiro sufocante de rosas enchia de peso o ar, rosas malditas na sua força de natureza doida, a mesma natureza que inventava as cobras e os ratos e pérolas e crianças – a natureza doida que ora era noite em trevas, ora o dia de luz. Esta carne que se move apenas porque tem espírito.
Das bocas escorria saliva grossa, amarga e untuosa, e eles se urinavam sem sentir. As mulheres que haviam parido recentemente apertavam com violência os próprios seios e dos bicos um grosso leite preto esguichava. Uma mulher cuspiu com força na cara de um homem e o cuspe áspero escorreu-lhe da face até a boca – avidamente ele lambeu os lábios.
Estavam todos soltos. A alegria era frenética. Eles eram o harém do Ele-ela. Tinham caído finalmente no impossível. O misticismo era a mais alta forma de superstição.
O milionário gritava: quero o poder! poder! quero que até os objetos obedeçam as minhas ordens! E direi: move-te, objeto! e ele por si só se moverá.
A mulher velha e desgrenhada disse para o milionário: quer ver como você não é milionário? Pois vou te dizer: você não é o dono do próximo segundo de vida, você pode morrer sem saber. A morte te humilhará. O milionário: Eu quero a verdade, a verdade pura!
A jornalista fazendo uma reportagem magnífica da vida crua. Vou ganhar fama internacional como a autora de “O exorcista” que não li para não me influenciar. Estou vendo direto a vida crua, eu a estou vivendo.
Eu sou solitário, se disse o masturbador.
Estou em espera, espera, nada jamais me acontece, já desisti de esperar. Eles bebiam o amargo licor das ervas ásperas.
Eu sou um profeta! eu vejo o além! se gritava um rapaz.
Padre Joaquim Jesus Jacinto – tudo com jota porque a mãe dele gostava da letra jota.
Era dia trinta e um de dezembro de 1973. O horário astronômico seria aferido pelos relógios atômicos, cujo atraso é de apenas um segundo a cada três mil e trezentos anos.
A outra deu para espirrar, um espirro atrás do outro, sem parar. Mas ela gostava. A outra se chamava J.B.
Minha vida é um verdadeiro romance! gritava a escritora falida.
O êxtase era reservado para o Ele-ela. Que de repente sofreu a exaltação do corpo, longamente. Ela-ele disse: parem! Porque ela se endemoniava por sentir o gozo do Mal. Eles todos através dela gozavam: era a celebração da Grande Lei. Os eunucos faziam uma coisa que era proibido olhar. Os outros, através de Ela-ele, recebiam frementes as ondas do orgasmo – mas só ondas porque não tinham força de, sem se destruírem, receber tudo. As mulheres pintavam a boca de roxo como se fosse fruta esmagada pelos afiados dentes.
O Ela-ele contou-lhes o que acontecia quando não se iniciava na profetização da noite. Estado de choque. Por exemplo: a moça era ruiva e como se não bastasse era vermelha por dentro e além disso daltônica. Tanto que no seu pequeno apartamento havia uma cruz verde sobre fundo vermelho: ela confundia as duas cores. Como é que começara o seu terror? Ouvindo um disco ou o silêncio reinante ou passos no andar de cima – e ei-la aterrorizada. Com medo do espelho que a refletia. Defronte tinha um armário e a impressão era que as roupas se mexiam dentro dele. Aos poucos ia restringindo o apartamento. Tinha medo até de sair da cama. A impressão de que iam agarrar o seu pé embaixo da cama. Era magríssima. O seu nome era Psiu, nome vermelho. Tinha medo de acender a luz no escuro e encontrar a fria lagartixa que morava com ela. Sentia com aflição os dedinhos gelados e brancos da lagartixa. Procurava avidamente no jornal as páginas policiais, notícias do que estava acontecendo. Sempre aconteciam coisas apavorantes para pessoas, como ela, que viviam só e eram assaltadas de noite. Tinha na parede um quadro que era o de um homem que a fixava bem nos olhos, vigiando-a. Essa figura ela imaginava que a seguia por todos os cantos da casa. Tinha medo pânico de ratos. Preferiria morrer a entrar em contato com eles. No entanto ouvia os guinchos deles. Chegava a sentir-lhes as mordidas nos pés. Acordava sempre sobressaltada, suando frio. Ela era um bicho acuado. Normalmente dialogava consigo mesma. Dava prós e contras e sempre quem perdia era ela. Sua vida era uma constante subtração de si mesma. Tudo isso porque não atendeu ao chamado da sirene.
O Ele-ela só deixava mostrar o rosto de andrógina. E dele se irradiava tal cego esplendor de doido que os outros fruíam a própria loucura. Ela era o vaticínio e a dissolução e já nascera tatuada. O ar todo cheirava agora a fatal jasmim e era tão forte que alguns vomitavam as próprias entranhas. A Lua estava plena no céu. Quinze mil adolescentes esperavam que espécie de homem e mulher eles iriam ser.
Então Ela-ele disse:
Comerei o teu irmão e haverá um eclipse total e o fim do mundo.
De vez em quando ouvia-se um longo relincho e não se via cavalo nenhum. Sabia-se apenas que com sete notas musicais fazem-se todas as músicas que existem e que existiam e que existirão. Da Ela-ele emanava-se forte cheiro de jasmim esmagado porque era noite de Lua cheia. O catimbó ou a feitiçaria. Max Ernst quando criança foi confundido com o Menino Jesus numa procissão. Depois provocava escândalos artísticos. Tinha uma paixão ilimitada pelos homens e uma imensa e poética liberdade. Mas por que estou falando nisso? Não sei. “Não sei” é uma resposta ótima.
O que fazia Thomas Edison, tão inventor e livre, no meio deles que eram comandados por Ele-ela?
Gregotins, pensou o estudante perfeito, era a palavra mais difícil da língua.
Escutai! os anjos anunciadores cantam!
O judeu pobre gritava mudo e ninguém o ouviu, o mundo inteiro não o ouvia. Ele disse assim: tenho sede, suor e lágrimas! e para saciar a minha sede bebo meu suor e minhas próprias lágrimas salgadas. Eu não como porco! sigo a Torah! mas dai-me alívio, Jeová, que se parece demais comigo!
Jubileu de Almeida ouvia o rádio de pilha, sempre. “O mingau mais gostoso é feito com Cremogema.” E depois anunciava, de Strauss, uma valsa que por incrível que parecesse chamava-se “O pensador livre”. É verdade, existe mesmo, eu ouvi. Jubileu era dono do “Ao Bandolim de Ouro”, loja de instrumentos musicais quase falida, e era tarado por valsas de Strauss. Era viúvo, ele, quer dizer, Jubileu. Seu rival era “O Clarim”, concorrente na rua Gomes Freire ou Frei Caneca. Jubileu era também afinador de pianos.
Todos ali estavam prestes a se apaixonar. Sexo. Puro sexo. Eles se freavam. A Romênia era um país perigoso: ciganos.
Faltava petróleo no mundo. E, sem petróleo, faltava comida. Carne, sobretudo. E sem carne eles se tornavam terrivelmente carnívoros.
Aqui, Senhor, encomendo a minha alma”, dissera Cristóvão Colombo ao morrer, vestido com o hábito franciscano. Ele não comia carne. Se santificava, Cristóvão Colombo, o descobridor das ondas, e que descobriu S. Francisco de Assis. Hélas! ele morrera. Onde estás agora? onde? pelo amor de Deus, responde!
De repente e bem de leve – fiat lux.
Houve uma debandada assustadiça como de pardais.
Tudo tão rápido que mais parecia terem se esvanecido.
Na mesma hora estavam ora deitados na cama a dormir, ora já despertos. O que existira era silêncio. Eles não sabiam de nada. Os anjos da guarda – que tinham tirado um descanso já que todos estavam na cama sossegados – despertavam frescos, bocejando ainda, mas já protegendo os seus pupilos.
Madrugada: o ovo vinha rodopiando bem lento do horizonte para o espaço. Era de manhã: uma moça loura, casada com rapaz rico, dá à luz um bebê preto. Filho do demônio da noite? Não se sabe. Apuros, vergonha.
Jubileu de Almeida acordou como pão dormido: chocho. Desde pequeno fora murcho assim. Ligou o rádio e ouviu: “Sapataria Morena onde é proibido vender caro”. Iria lá, estava precisando de sapatos. Jubileu era albino, negro aço com cílios amarelos quase brancos. Ele estalou um ovo na frigideira. E pensou: se eu pudesse algum dia ouvir “O pensador livre”, de Strauss, eu seria recompensado na minha solidão. Só ouvira essa valsa uma única vez, não se lembrava quando.
O poderoso queria no seu breakfast comer caviar dinamarquês às colheradas, estalando com os dentes agudos as bolinhas. Ele era do Rotary Club e da Maçonaria e do Diners Club. Tinha o requinte de não comer caviar russo: era um modo de derrotar a poderosa Rússia.
O judeu pobre acorda e bebe água da bica sofregamente. Era a única água que tinha nos fundos da pensão baratíssima onde morava: uma vez veio uma barata nadando no feijão ralo. As prostitutas que lá moravam nem reclamavam.
O estudante perfeito, que não desconfiava que era um chato, pensou: qual era a palavra mais difícil que existia? Qual era? Uma que significava adornos, enfeites, atavios? Ah, sim, gregotins. Decorou a palavra para escrevê-la na próxima prova.
Quando começou a raiar o dia todos estavam na cama sem parar de bocejar. Quando acordavam, um era sapateiro, um estava preso por estupro, uma era dona de casa, dando ordens à cozinheira, que nunca chegava atrasada, outro era banqueiro, outro era secretário etc. Acordavam, pois, um pouco cansados, satisfeitos pela noite tão profunda de sono. O sábado tinha passado e hoje era domingo. E muitos foram à missa celebrada por padre Jacinto que era o padre da moda: mas nenhum se confessou, já que não tinham nada a confessar.
A escritora falida abriu o seu diário encadernado de couro vermelho e começou a anotar assim: “7 de julho de 1974. Eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu! Nesta bela manhã de um sol de domingo, depois de ter dormido muito mal, eu, apesar de tudo, aprecio as belezas maravilhosas da Natureza-mãe. Não vou à praia porque sou gorda demais e esta é uma infelicidade para quem aprecia tanto as ondas verdezitas do Mar! Eu me revolto! Mas não consigo fazer regime: morro de fome. Gosto de viver perigosamente. Tua língua viperina será cortada pela tesoura da complacência”.
De manhã: agnus dei. Bezerro de ouro? Urubu.
O judeu pobre: livrai-me do orgulho de ser judeu!
A jornalista de manhã bem cedo telefona para sua amiga:
Claudia, me desculpe telefonar num domingo a esta hora! Mas acordei com uma inspiração fabulosa: vou escrever um livro sobre Magia Negra! Não, não li o tal do Exorcista, porque me disseram que é má literatura e não quero que pensem que estou indo na onda dele. Você já pensou bem? o ser humano sempre tentou se comunicar com o sobrenatural desde o antigo Egito com o segredo das Pirâmides, passando pela Grécia com seus deuses, passando por Shakespeare no Hamlet. Pois eu também vou entrar nessa. E, por Deus, vou ganhar essa parada!
Havia em muitas casas do Rio o cheiro de café. Era domingo. E o rapaz ainda na cama, cheio de torpor, ainda mal-acordado, se disse: mais um domingo de tédio. Com o que havia sonhado mesmo? Sei lá, respondeu-se, se sonhei, sonhei com mulher.
Enfim, o ar clareia. E o dia de sempre começa. O dia bruto. A luz era maléfica: instaurava-se o mal-assombrado dia diário. Uma religião se fazia necessária: uma religião que não tivesse medo do amanhã. Eu quero ser invejado. Eu quero o estupro, o roubo, o infanticídio, e o desafio meu é forte. Queria ouro e fama, desprezava até o sexo: amava depressa e não sabia o que era o amor. Quero o ouro mau. Profanação. Vou ao meu extremo. Depois da festa – que festa? noturna? – depois da festa, desolação.
Havia o observador que escreveu assim no caderno de notas: “O progresso e todos os fenômenos que o cercam parecem participar intimamente dessa lei de aceleração geral, cósmica e centrífuga que arrasta a civilização ao ‘progresso máximo’, a fim de que em seguida venha a queda. Uma queda ininterrupta ou uma queda rapidamente contida? Aí está o problema: não podemos saber se esta sociedade se destruirá completamente ou se conhecerá apenas uma interrupção brusca e depois a retomada de sua marcha”. E depois: “O Sol diminuiria seus efeitos sobre a Terra e provocaria o início de um novo período glacial que poderia durar no mínimo dez mil anos”. Dez mil anos era muito e assustava. Eis o que acontece quando alguém escolhe, por medo da noite escura, viver a superficial luz do dia. É que o sobrenatural, divino ou demoníaco, é uma tentação desde o Egito, passando pela Idade Média até os romances baratos de mistério.
O açougueiro, que nesse dia só trabalhava das oito às onze horas, abriu o açougue: e parou embriagado de prazer ao cheiro de carnes e carnes cruas, cruas e sangrentas. Era o único que de dia continuava a noite.
Padre Jacinto estava na moda porque ninguém como ele erguia tão limpidamente a taça e bebia com sagrada unção e pureza, salvando todos, o sangue de Jesus, que era o Bem. Com delicadeza as mãos pálidas num gesto de oferenda.
O padeiro como sempre acordou às quatro horas e começou a fazer a massa de pão. De noite amassar ao Diabo?
Um anjo pintado por Fra Angélico, século XV, voejava pelos ares: era a clarineta anunciadora da manhã. Os postes de luz elétrica não tinham ainda sido apagados e lustravam-se empalidecidos. Postes. A velocidade come os postes quando se está correndo de carro.
O masturbador de manhã: meu único amigo fiel é meu cão. Ele não confiava em ninguém, sobretudo em mulher.
A que bocejara a noite toda e dissera: “t’isconjuro, mãe de santo!” começou a se coçar e a bocejar. Diabo, disse ela.
O poderoso – que cuidava de orquídeas, catleias, lélias e oncídios – apertou impaciente a campainha para chamar o mordomo que lhe trouxesse o já atrasado breakfast. O mordomo adivinhava-lhe os pensamentos e sabia quando lhe trazer os galgos dinamarqueses para serem rapidamente acariciados.
Aquela que de noite gritava “estou em espera, em espera, em espera”, de manhã, toda desgrenhada disse para o leite na leiteira que estava no fogo:
Eu te pego, seu porcaria! Quero ver se tu te mancas e ferves na minha cara, minha vida é esperar. É sabido que se eu desviar um instante o olhar do leite, esse desgraçado vai aproveitar para ferver e entornar. Como a morte que vem quando não se espera.
Ela esperou, esperou e o leite não fervia. Então, desligou o gás.
No céu o mais leve arco-íris: era o anúncio. A manhã como uma ovelha branca. Pomba branca era a profecia. Manjedoura. Segredo. A manhã preestabelecida. Ave-Maria, gratia plena, dominus tecum. Benedicta tu in mulieribus et benedictum frutus ventri tui Jesus. Sancta Maria Mater Dei ora pro nobis pecatoribus. Nunca et ora nostrae morte Amem.
Padre Jacinto ergueu com as duas mãos a taça de cristal que contém o sangue escarlate de Cristo. Eta vinho bom. E uma flor nasceu. Uma flor leve, rósea, com perfume de Deus. Ele-ela há muito sumira no ar. A manhã estava límpida como coisa recém-lavada.

AMÉM

Os fiéis distraídos fizeram o sinal da Cruz.

AMÉM
DEUS
FIM

Epílogo:
Tudo o que escrevi é verdade e existe. Existe uma mente universal que me guiou. Onde estivestes de noite? Ninguém sabe. Não tentes responder – pelo amor de Deus. Não quero saber da resposta. Adeus. A-Deus.

Clarice Lispector, em Onde estivestes de noite

15/06/2026

Vitor Kley ft. Joyce Alane | Abalo Psicológico

O impagável Laerte

Retrato do artista quando coisa

Retrato do artista quando coisa: borboletas
Já trocam as árvores por mim.
Insetos me desempenham.
Já posso amar as moscas como a mim mesmo.
Os silêncios me praticam.
De tarde um dom de latas velhas se atraca em meu olho
Mas eu tenho predomínio por lírios.
Plantas desejam a minha boca para crescer por de cima.
Sou livre para o desfrute das aves.
Dou meiguice aos urubus.
Sapos desejam ser-me.
Quero cristianizar as águas.
Já enxergo o cheiro do sol.

Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo

Anarquia

Na escola eu já sentia minha atração para o contrário – adorava o máximo divisor comum, as frações ordinárias e as palavras epicenas ou promíscuas.

Millôr Fernandes, em A bíblia do caos

O Mestre e Margarida — 8



O duelo entre o professor e o poeta
No exato momento em que a consciência abandonou Stiôpa em Ialta, ou seja, por voltas das onze e meia da manhã, ela retornou a Ivan Nikoláievitch Bezdômny, que havia despertado depois de um sono longo e profundo. Durante algum tempo tentou raciocinar sobre o fato de ter ido parar naquele quarto desconhecido com paredes brancas, uma surpreendente mesinha de cabeceira de algum metal leve e uma persiana branca, por trás da qual se podia sentir o sol.
Ivan balançou a cabeça, certificou-se de que não estava doendo e lembrou-se de que estava em uma clínica. Esse pensamento trazia a lembrança da morte de Berlioz, mas hoje isso já não o abalava tanto. Depois de pôr o sono em dia, Ivan Nikoláievitch ficou mais tranquilo e começou a raciocinar com mais clareza. Após ficar algum tempo deitado, imóvel, naquela cama de molas bem limpa, macia e confortável, Ivan viu o botão de uma campainha ao seu lado. Como tinha o hábito de tocar em objetos mesmo sem necessidade, apertou o botão. Esperava que algum retinir ou alguma aparição viriam depois de apertá-lo, mas aconteceu algo totalmente diferente.
Aos pés da cama de Ivan acendeu-se um cilindro translúcido no qual estava escrito a palavra “Beber”. O cilindro ficou algum tempo parado, mas logo começou a girar até que surgiu a inscrição “Enfermeira”. Não é preciso dizer que Ivan ficou espantado com esse esperto cilindro. A inscrição “Enfermeira” foi substituída por “Chamem o doutor”.
Hum... — proferiu Ivan, sem saber o que mais fazer com aquele cilindro. Mas por acaso deu sorte: apertou o botão uma segunda vez na palavra “Assistente”. Em resposta o cilindro soou baixinho, parou, apagou-se e no quarto entrou uma simpática senhora roliça de jaleco branco, limpo, que disse a Ivan:
Bom dia!
Ivan não respondeu, pois considerou a saudação descabida diante das circunstâncias em que se encontrava. Realmente, trancafiaram um homem saudável em uma clínica e ainda fazem de conta que era assim mesmo que tinha de ser!
A mulher, no entanto, sem perder a expressão benevolente do rosto, levantou as cortinas com a ajuda de um apertão em um botão e o quarto foi invadido pelo sol através de uma grade larga, tortuosa e leve que descia até o chão. Do outro lado se abria uma varanda, e atrás dela se avistava a margem de um rio sinuoso e, na outra margem do rio, um alegre bosque de pinheiros.
Hora de tomar um banho — convidou a mulher e, ao alcance de suas mãos, abriu-se uma parede interna e atrás dela surgiu um banheiro maravilhosamente equipado.
Apesar de ter decidido não falar com a mulher, Ivan não resistiu e, quando viu como a água jorrava forte de uma torneira reluzente para a banheira, disse, com ironia:
Nossa! É como no Metropol!
Oh, não — respondeu a mulher, com orgulho —, é bem melhor. Esse equipamento não existe em lugar algum, nem no exterior. Cientistas e médicos vêm especialmente para inspecionar a nossa clínica. Turistas estrangeiros nos visitam todos os dias.
Ao ouvir as palavras “turistas estrangeiros”, Ivan lembrou-se imediatamente do consultor do dia anterior. Ficou taciturno, deu uma olhada, carrancudo, e disse:
Turistas estrangeiros... Como vocês todos adoram turistas estrangeiros, não? Mas no meio deles, entre outras coisas, encontra-se tudo quanto é tipo de gente. Eu, por exemplo, ontem conheci um, precisa ver!
Por pouco não começou a contar sobre Pôncio Pilatos, mas se segurou, entendendo que para a mulher aquelas histórias de nada serviriam, e que tanto fazia, ela não poderia ajudá-lo mesmo.
De banho tomado, imediatamente deram a Ivan Nikoláievitch tudo que um homem de fato precisava depois de um banho: uma camisa passada, ceroulas, meias. Mas isso ainda não era nada: abrindo a porta de um pequeno armário, a mulher apontou para dentro e perguntou:
O que o senhor deseja vestir, um roupão ou um pijama?
Vinculado à nova moradia à força, Ivan quase ergueu os braços por causa do atrevimento da mulher, mas, calado, indicou com o dedo um pijama de flanela cor de papoula.
Depois disso, Ivan Nikoláievitch foi conduzido pelo corredor vazio e silencioso até um consultório de proporções enormes. Ivan resolveu tratar com ironia tudo o que havia naquele prédio equipado às mil maravilhas e logo batizou mentalmente o gabinete de “cozinha industrial”.
E tinha motivo para tanto. Ali havia gaveteiros e pequenos armários de vidro com instrumentos reluzentes e niquelados. Havia poltronas de construção extraordinariamente complexa, luminárias abauladas com cúpulas brilhantes, uma infinidade de frascos, bicos de gás, fios elétricos e aparelhos totalmente desconhecidos para todo mundo.
No consultório, três pessoas tomavam conta de Ivan — duas mulheres e um homem, todos de branco. Antes de mais nada, levaram Ivan para um canto e sentaram-no diante de uma pequena mesa, com a visível intenção de fazê-lo falar.
Ivan começou a examinar a situação. Tinha três caminhos diante de si. O primeiro era extremamente fascinante: lançar-se sobre aquelas lâmpadas e coisas intrincadas e destroçá-las, mandá-las para o espaço; assim expressaria seu protesto por ter sido preso à toa. Porém, o Ivan de hoje se distinguia significativamente do Ivan de ontem, e o primeiro caminho pareceu-lhe duvidoso: se optasse por ele, o pensamento de que ele era um louco desgovernado se enraizaria neles. Por isso, Ivan descartou o primeiro caminho. Havia o segundo: começar o relato sobre o consultor e Pôncio Pilatos imediatamente. No entanto, a experiência do dia anterior demonstrara que não acreditavam em sua história ou a entendiam de maneira distorcida. Por isso Ivan também desistiu desse caminho e resolveu eleger o terceiro: trancafiar-se em um silêncio majestoso.
Não conseguiu realizar isso por completo e, querendo ou não, viu-se obrigado a responder, embora taciturno e carrancudo, uma série de perguntas. E arrancaram dele definitivamente tudo sobre seu passado, chegando ao ponto de perguntar como e quando teve escarlatina, uns quinze anos antes. Depois de preencherem uma página inteira com suas respostas, viraram a folha e a mulher de branco passou a indagar sobre os parentes de Ivan. Iniciou-se uma verdadeira ladainha: quem morreu, quando, por quê, se bebia, se teve doenças venéreas e coisas do gênero. Para concluir, pediram que contasse sobre o acontecimento, desgraça, evento, incidente, infortúnio do dia anterior em Patriarchi Prudý, mas não insistiram muito e não se espantaram com a informação sobre Pôncio Pilatos.
Em seguida a mulher passou Ivan para o homem, que se ocupou dele de maneira diferente e já não perguntou mais nada. Ele tirou sua temperatura, tomou o pulso, examinou seus olhos, iluminando-os com uma espécie de lâmpada. Depois, a outra mulher veio ajudar o homem e furaram as costas de Ivan com alguma coisa, mas não doeu nada; com o cabo de um martelinho desenharam sobre a pele de seu peito alguns sinais; bateram nos joelhos com o martelinho, o que fez as pernas de Ivan pularem; furaram seu dedo e tiraram sangue, furaram a dobra interna do braço na altura do cotovelo e colocaram uma espécie de braceletes emborrachados nos braços…
Ivan apenas sorria para si, malicioso e amargo, e remoía como tudo aquilo acontecera de maneira tola e estranha. Imaginem só! Queria precaver todo mundo contra o perigo que representava aquele consultor desconhecido, pretendia agarrá-lo, mas tudo o que conseguiu foi parar em um misterioso consultório para contar tudo quanto é tipo de asneira sobre o tio Fiôdor, que bebia até cair em Vôlogda. Insuportavelmente tolo!
Finalmente o soltaram. Ele foi acompanhado de volta para seu quarto, onde recebeu uma xícara de café, dois ovos cozidos moles e pão branco com manteiga.
Depois de comer e beber o que lhe foi oferecido, Ivan resolveu esperar algum chefe daquela instituição chegar e tentar conseguir tanto atenção como justiça.
E ele chegou, logo depois do café da manhã. A porta do quarto de Ivan abriu-se de maneira inesperada e por ela entrou uma infinidade de pessoas de jaleco branco. À frente de todos, caminhava um homem de uns quarenta e cinco anos, meticuloso, barbeado à maneira dos artistas de cinema, olhos agradáveis, mas muito penetrantes, e maneiras educadas. A comitiva inteira lhe dispensava sinais de atenção e respeito e, por isso, sua entrada acabou sendo muito solene. “Como Pôncio Pilatos!”, pensou Ivan.
É, sem dúvida, esse era o chefe. Ele se sentou em um banco, enquanto os outros ficaram de pé.
Doutor Stravinski — o homem apresentou-se a Ivan enquanto se sentava e olhou para ele com afabilidade.
Aqui está, Aleksandr Nikoláievitch — disse em voz baixa alguém com uma barbicha bem cuidada e entregou ao chefe uma folha toda preenchida.
Arranjaram um verdadeiro dossiê!”, pensou Ivan. O chefe percorreu a folha com olhos acostumados, balbuciou “uh-hum, uh-hum...” e trocou algumas frases com os que estavam ao redor em uma língua pouco conhecida.
E fala latim, como Pilatos...”, pensou Ivan, triste. Então uma palavra o fez estremecer, e essa palavra era “esquizofrenia”, que coisa, que já tinha sido pronunciada ontem pelo maldito estrangeiro em Patriarchi Prudý, e hoje era repetida aqui pelo doutor Stravinski.
Também disso ele sabia!”, pensou Ivan, aflito.
O chefe, pelo visto, tinha como regra concordar e contentar-se com tudo que lhe dissessem os que estavam ao redor, expressando isso com as palavras “muito bem, muito bem...”.
Muito bem! — disse Stravinski, devolvendo a folha para alguém, e dirigiu-se a Ivan: — O senhor é poeta?
Sou poeta — respondeu Ivan, sombrio, e de repente sentiu pela primeira vez uma inexplicável aversão à poesia, e seus próprios poemas, que súbito lhe vieram à memória, sabe-se lá por que lhe pareceram desagradáveis.
Por sua vez, ele perguntou a Stravinski, franzindo o rosto:
O senhor é doutor?
Ao que Stravinski inclinou a cabeça, precavido e respeitoso.
E o senhor é o chefe daqui? — continuou Ivan.
Stravinski também fez uma reverência.
Preciso falar com o senhor — disse Ivan Nikoláievitch, com ar de importância.
É para isso que estou aqui — retorquiu Stravinski.
A questão é a seguinte — começou Ivan, sentindo que tinha chegado a sua hora. — Tomaram-me por louco e ninguém deseja me ouvir!
Oh, não, vamos escutá-lo com muita atenção — disse Stravinski, em tom sério e tranquilizador — e não permitiremos que o tomem por louco em hipótese alguma.
Então, ouça: ontem à noite, conheci em Patriarchi Prudý um indivíduo misterioso, um estrangeiro de meia-tigela, que sabia da morte de Berlioz de antemão e viu Pôncio Pilatos pessoalmente.
A comitiva ouvia o poeta muda, imóvel.
Pilatos? Pilatos, aquele que viveu na época de Jesus Cristo? — perguntou Stravinski, apertando os olhos para Ivan.
Esse mesmo.
A-hã — disse Stravinski. — E esse Berlioz morreu debaixo de um bonde?
Justamente, ele foi degolado por um bonde ontem, em Patriarchi, diante de meus olhos, e esse mesmo cidadão enigmático...
O conhecido de Pôncio Pilatos? — perguntou Stravinski, que, pelo visto, se distinguia por sua grande compreensão.
Justamente ele — confirmou Ivan, estudando Stravinski. — Então, ele disse, de antemão, que Ánnuchka derramaria o óleo de girassol... E Berlioz escorregou bem naquele lugar! O que o senhor acha disso? — quis saber Ivan, com ar de importância, esperando causar grande efeito com suas palavras.
Mas esse efeito não se deu e Stravinski simplesmente fez a próxima pergunta:
E quem é essa Ánnuchka?
A pergunta deixou Ivan um pouco transtornado, seu rosto contorceu-se.
Ánnuchka não tem nenhuma importância aqui — disse ele, fora de si. — Vai saber diabo quem é ela! Só uma idiota qualquer da Sadôvaia. O importante é que ele sabia de antemão, entende, do óleo de girassol! O senhor está me entendendo?
Entendo perfeitamente — respondeu Stravinski seriamente, e, tocando os joelhos do poeta, acrescentou: — Não se inquiete, continue.
Vou continuar — disse Ivan, tentando acompanhar o tom de Stravinski; já sabia, por sua amarga experiência, que somente a tranquilidade o ajudaria. — Então, esse tipo horroroso, e ele mente que é consultor, é dotado de uma força extraordinária... Por exemplo, você o persegue, mas não há possibilidade de alcançá-lo. E ele anda com mais dois sujeitinhos, também dos bons, mas cada um no seu estilo: um alto de lentes quebradas, e, além desse daí, há também um gato de proporções incríveis, que anda de bonde sozinho. Além disso — sem ser interrompido por ninguém, Ivan falava com cada vez mais ardor e convicção —, ele esteve na varanda de Pôncio Pilatos pessoalmente, sem sombra de dúvida. O que significa isso? Hein? Ele precisa ser preso imediatamente, do contrário causará desgraças indescritíveis.
Então o senhor está tentando prendê-lo? Entendi bem?
Ele é inteligente”, pensou Ivan. “Deve-se reconhecer que em meio aos membros da intelligentsia1 também é possível encontrar uns de inteligência rara. Não dá para negar isso.” E respondeu:
Muito bem! E como não tentar, pense bem! Enquanto isso, detiveram-me aqui à força, enfiaram uma lâmpada nos olhos, dão banho de banheira e fazem perguntas sobre o tio Fiêdia!... Mas já faz tempo que ele não está nesse mundo! Exijo que me soltem imediatamente.
Bom, muito bem, muito bem! — retorquiu Stravinski. — Então, tudo foi esclarecido. Realmente, que sentido tem deter um homem saudável em uma clínica? Tudo bem. Eu lhe darei alta daqui agora mesmo, se o senhor me disser que é normal. Não precisa provar, é só dizer. Então, o senhor é normal?
Fez-se silêncio absoluto. A mulher gorda, que cuidara de Ivan de manhã, olhou para o doutor com devoção, e Ivan pensou mais uma vez: “Definitivamente inteligente.”
Ele gostou muito da proposta do doutor, mas, antes de responder, pensou e repensou, franzindo a testa, e, finalmente, disse, com firmeza:
Eu sou normal.
Então muito bem — exclamou Stravinski, aliviado. — Se é assim, vamos raciocinar logicamente. Tomemos o seu dia de ontem. — Ele se virou e imediatamente lhe entregaram a folha de Ivan. — Em busca de um homem desconhecido, que se apresentou como conhecido de Pôncio Pilatos, o senhor realizou as seguintes ações ontem — Stravinski começou a dobrar seus dedos compridos, olhando ora para a folha, ora para Ivan. — Pendurou um ícone no peito. Não foi?
Foi — concordou Ivan, carrancudo.
Despencou de uma cerca e feriu o rosto. Certo? Apareceu em um restaurante com uma vela acesa na mão, só de roupa de baixo e lá bateu em alguém. Foi trazido para cá amarrado. Uma vez aqui, o senhor ligou para a polícia e pediu que enviassem metralhadoras. Depois, fez uma tentativa de se atirar pela janela. Certo? Pergunta-se: será que é possível, agindo dessa maneira, agarrar ou prender alguém? Se é uma pessoa normal, o senhor mesmo vai responder: de maneira alguma. O senhor quer sair daqui? À vontade. Mas me permita lhe perguntar, para onde o senhor pretende ir?
Até a polícia, claro — respondeu Ivan, já sem a mesma firmeza e se perdendo um pouco diante do olhar do doutor.
Direto daqui?
A-hã.
E não vai passar no seu apartamento? — perguntou rapidamente Stravinski.
Não há tempo para passar lá! Enquanto eu ficar dando voltas pelo apartamento, ele vai escapulir!
Certo. E o que dirá à polícia, antes de mais nada?
Sobre Pôncio Pilatos — respondeu Ivan Nikoláievitch, e seus olhos cobriram-se com uma névoa sombria.
Então, muito bem! — exclamou Stravinski, resignado, virando-se para aquele de barbicha, e ordenou: — Fiódor Vassílievitch, dê alta, por favor, ao cidadão Bezdômny, para que ele vá à cidade. Mas não coloque ninguém naquele quarto e não precisa trocar a roupa de cama. Daqui a duas horas o cidadão Bezdômny estará aqui de novo. Bom — voltou-se ele para o poeta —, não vou desejar-lhe êxito, porque não acredito nem um bocado nessa sorte. Até daqui a pouco! — Ele se levantou e sua comitiva se movimentou.
Por que razão estarei aqui de novo? — perguntou Ivan, aflito.
Stravinski parecia esperar essa pergunta e sentou-se imediatamente, dizendo:
Porque, assim que o senhor aparecer na polícia de ceroulas e disser que viu um homem que conheceu Pôncio Pilatos pessoalmente, será trazido para cá no mesmo instante, e de novo se encontrará naquele mesmo quarto.
O que as ceroulas têm a ver com isso? — perguntou Ivan, olhando ao redor, perplexo.
A razão principal é Pôncio Pilatos. Mas as ceroulas também. Veja bem, nós vamos recolher a roupa emprestada do Estado e devolveremos a roupa que você trajava ao chegar aqui. Mais precisamente, ceroulas. Entretanto, o senhor não pretende ir até o seu apartamento de jeito o nenhum, apesar de eu ter lhe sugerido isso. A seguir, vem Pilatos... e o negócio está fechado!
Então aconteceu algo estranho com Ivan Nikoláievitch. Sua vontade pareceu se fender e ele se sentiu fraco, precisava de um conselho.
Mas o que fazer? — perguntou ele, dessa vez tímido.
Então muito bem! — retorquiu Stravinski. — É uma pergunta muito razoável. Agora, vou lhe dizer o que aconteceu com o senhor de verdade. Ontem, alguém o deixou muito assustado e transtornado com uma história sobre Pôncio Pilatos e outras coisas. Então, o senhor, um homem muito nervoso e irritadiço, saiu pela cidade falando sobre Pôncio Pilatos. É totalmente natural que o tomem por louco. O senhor só tem uma salvação agora: repouso absoluto. É imprescindível que o senhor fique aqui.
Mas ele precisa ser agarrado! — exclamou Ivan, agora implorando.
Tudo bem, mas por que você mesmo precisa persegui-lo? Ponha no papel todas as suas suspeitas e acusações contra essa pessoa. Não há nada mais simples do que enviar sua declaração para o local apropriado, e caso se trate, como o senhor supõe, de estarmos lidando com um criminoso, tudo isso será esclarecido muito rapidamente. Mas com uma condição: não vá quebrar a cabeça e procure pensar menos em Pôncio Pilatos. Sabe-se lá o que contam por aí! Não se deve acreditar em tudo.
Entendi! — declarou Ivan, decidido. — Peço que me deem papel e caneta.
Dê-lhe papel e um lápis pequeno — ordenou Stravinski à mulher gorda, e a Ivan disse o seguinte: — Mas eu o aconselho a não escrever hoje.
Não, não, tem que ser hoje, hoje, é imprescindível — gritou Ivan, com aflição.
Tudo bem. Só que não vá fundir o cérebro. Se não der certo hoje, vai dar amanhã.
Ele vai fugir!
Oh, não — retrucou Stravinski com segurança —, ele não fugirá para lugar algum, isso eu lhe garanto. Lembre-se que aqui ajudarão o senhor com tudo que for possível, e sem isso nada vai dar certo para o senhor. Está me ouvindo? — perguntou Stravinski de repente, com ar de importância, e tomou as duas mãos de Ivan Nikoláievitch. Segurando-as nas suas, e fixando um olhar demorado em Ivan, ele repetiu: — Aqui o ajudarão... está me ouvindo?... Aqui o ajudarão... O senhor se sentirá aliviado. É silencioso e tranquilo aqui... Aqui o ajudarão...
Inesperadamente, Ivan Nikoláievitch bocejou, a expressão de seu rosto se aplacou.
Isso, isso — disse ele em voz baixa.
Então muito bem! — Stravinski concluiu a conversa como estava acostumado e levantou-se. — Até logo! — Apertou a mão de Ivan e, já de saída, virou-se para aquele de barbicha e disse: — Isso, experimente oxigênio... e banhos.
Alguns instantes depois, diante de Ivan não havia mais nem Stravinski, nem a comitiva. Do outro lado da tela da janela, sob o sol do meio-dia, o bosque alegre e primaveril resplandecia às margens do rio, que brilhava um pouco mais próximo.

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida