28/10/2026

Chiara Civello e Gilberto Gil | Lo Che Non Vivo Senza Te

 

Para ser grande, sê inteiro

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa), em Odes de Ricardo Reis

Paula

Depois de casarem o último dos seus cinco filhos, Paula contou para o marido que o encontro deles não tinha sido casual, como ele pensava.
— Que encontro?
— O nosso. Há cinquenta anos.
— Eu sempre desconfiei que você tinha planejado tudo, para me fisgar — disse o Osmar, rindo.
Mas Paula estava séria.
— Não planejei nada. Planejaram por mim.
— Quem?
— Eu tinha ordens para me infiltrar na sua vida. Casar com você, se fosse preciso. Acompanhar você em tudo, me informar sobre todas as suas atividades e passar a informação para eles.
— Eles quem?
— Meu casamento com você não foi um casamento, Osmar. Foi uma missão.
Osmar começou a rir de novo. Parou quando viu que Paula continuava séria.
— Mas Paula, você sempre foi uma esposa perfeita. Perfeita!
— E você nunca desconfiou disso? Uma mulher que fazia todas as suas vontades? Que nunca contrariou você em nada? Uma mulher perfeita? Eu estava apenas protegendo meu disfarce.
— Mas... E os nossos cinco filhos?!
— Sempre que eu desconfiava que você estava perdendo o interesse em mim e no nosso casamento, engravidava. Para não comprometer a missão.
— Você também foi uma mãe perfeita!
— Sou uma boa profissional.
— Como você mandava a tal informação?
— A princípio, fazia relatórios escritos e deixava em locais predeterminados. Depois comecei a registrar tudo eletronicamente neste aparelhinho que eles me deram.
— Quer dizer que você nunca foi surda desse ouvido?
— Sempre ouvi perfeitamente dos dois. Gravava tudo, depois colocava a fita no local que tinha combinado com eles.
— Mas “eles” quem?!
— Pois é.
— Como “pois é”?
— Eu não lembro mais quem eram eles. Na última vez que levei uma fita para o tal lugar secreto, a fita anterior não tinha sido recolhida. A tal missão deve ter sido desativada e não me avisaram.
— Você não se lembra para quem trabalhava?
— Não.
— E o que eles queriam saber a meu respeito?
— Também não me lembro.
— Paula, Paula...
— Bom, pelo menos educamos os nossos filhos. Estão todos casados e bem encaminhados na vida...
— Missão cumprida.
— Missão cumprida.
— Boa noite, Paula.
— Juraci.
— O quê?
— “Paula” era codinome.

Luís Fernando Veríssimo, em Diálogos Impossíveis

A Contadora de Filmes

 


[13]

Aquela narração, porém, não foi suficiente para me dar o título. Meu pai declarou empate: meu irmão Mirto e eu tínhamos sido os melhores. E como era um democrata convicto, disse que aquela questão ia ser resolvida através das urnas. E em votação secreta.
Mirto seria o candidato número 1.
Eu seria a candidata número 2.
Foram cortados quatro papeizinhos iguais, distribuídos entre os votantes (os candidatos não tinham direito a voto). Cada um escreveu o número do seu candidato e depois depositou o papelzinho num cone de papel.
E veio a contagem.
Dois votos para meu irmão e dois votos para mim (eu intuí que meu pai e Marcelino tinham votado em mim). Para desempatar, meu pai decidiu fazer o que era mais justo e razoável: nós dois iríamos, juntos, ver o próximo filme. E quem contasse melhor seria o vencedor.
Fomos então ver juntos um filme mexicano carregado de canções; se chamava Guitarras de medianoche e era com ninguém menos que Miguel Aceves Mejía e Lola Beltrán, duas das vozes que mais soavam nos bares do deserto. Meu irmão contou primeiro, e com a mesma graça de sempre. Principalmente quando imitava o sotaque mexicano.
Acontece que eu, que também dominava o tom da fala dos mexicanos (tantos tinham sido os filmes deles que eu tinha visto em minha curta vida), além de contar o filme descrevendo as paisagens e tudo, de repente desandei a cantar as canções interpretadas no filme (de tanto ouvir nos alto-falantes dos bares, sabia todas elas de cor). Eles, que nunca tinham me ouvido cantar, acharam estranho que eu cantasse. E que cantasse tão bem.
Até para mim foi uma surpresa.
Meu pai ficou deslumbrado. Principalmente quando cantei No soy monedita de oro, uma das suas canções favoritas. Foi quando o democrata se esqueceu de votos e plebiscitos e me declarou ganhadora absoluta.
“E ponto final!” rugiu ele quando Mirto quis insinuar um protesto.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

Pé-duro, chapéu-de-couro

 



VII – Termo

Não sabemos, num nosso país que ainda constrói sua gente de tantos diversos sangues, se ele será, o sertanejo, a “rocha viva de uma raça”, o “cerne de uma nacionalidade”.
Mas sua presença é longa lição, sua persistência um julgamento e um recado. Atuais como aquelas palavras do mestre de Leyde:

“Nossos avós ainda não dispunham senão de recursos muito parcos, para mitigar as dores, curar as fraturas e os ferimentos, defender-se do frio, expulsar a escuridão, comunicar-se pessoalmente ou à distância com seus semelhantes, evitar a podridão e o mau-cheiro. Por toda a parte e continuamente o homem tinha de sentir as limitações naturais do bem-estar terrestre. A técnica, a higiene, os aperfeiçoamentos sanitários do ambiente em que vive, tanto lhe facilitando, acostumaram-no mal. Aquela conformada serenidade no desconforto quotidiano, própria das outras gerações, e que os ascetas buscavam como meio de santificação, perdeu-se para o homem moderno. Porém, ao mesmo tempo, correu ele o risco de perder também a simples aceitação da felicidade da vida, onde ela se oferece.”

. . .

Certo, nem é o progresso material obrigatória despaga, nem a sabedoria prega ponto de qualquer retrocesso.
Mas talvez não estejamos desnecessitados de retornar à luz daquilo que, ainda segundo Huizinga, é a condição primordial da cultura, e que verdadeiramente a caracteriza: a dominação da natureza, mas da natureza humana.

. . .

E esta bem pode vir a ser a moção maior da “Ordem do Vaqueiro”.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

O Risadinha

Seria melhor dizer que ele não teve infância. Mas não é verdade. Eu o conheci menino, trepando às árvores, armando alçapão para canários-da-terra, bodoqueando as rolinhas, rolando pneu velho pelas ruas, pegando traseira de bonde, chamando o Professor Asdrúbal de Jaburu. Foi este último um dos mais divertidos e perigosos brinquedos da nossa infância: o velho corria atrás da gente brandindo a bengala, seus bastos bigodes amarelos fremindo sob as ventas vulcânicas.
Nestor, em suma, teve a meninice normal de um filho de funcionário público em nosso tempo, tempo incerto, pois os recursos da Fazenda na província eram magros, e os pagamentos se atrasavam, enervando a população.
Seus companheiros talvez nem soubessem que se chamasse Nestor; era para todos o Risadinha. Falava pouco e ria muito, um riso de fato diminutivo, nascido de reservados solilóquios, quase sempre extemporâneo. Certa feita, na aula de francês, quando entoávamos em coro o presente do subjuntivo do verbo s’en aller, Risadinha pespegou uma bólide de papel bem na ponta do nariz do professor, que era muito branco, pedante a capricho e tinha o nome de Demóstenes. O rosto do mestre passou do pálido ao rubro das suas tremendas cóleras. Um dos seus prazeres, sendo-lhe vetado por lei castigar-nos com o bastão, era desfiar em cima do culpado uma série de insultos preciosos, que ele ia escandindo um por um, sem pressa e com ódio.
— Levante-se, seu Nestor! Sa-cri-pan-ta! Ne-gli-gen-te! Si-co-fan-ta! Tu-nan-te! Man-dri-ão! Ca-la-cei-ro! Pan-di-lha! Bil-tre! Tram-po-li-nei-ro! Bar-gan-te! Es-troi-na! Val-de-vi-nos! Va-ga-bun-do!...
Pegando a deixa da única palavra inteligível, Risadinha erguia o dedo no ar e protestava, com ar ofendido:
— Vagabundo, não, professor.
Era um artista do cinismo, e sua momice de inocência era de tal arte que até mesmo seu Demóstenes não conseguia conter o riso. Como também somente ele já arrancara uma gargalhada do padre-prefeito, um alemão da altura da catedral de Colônia, num dia em que vinha caminhando lento e distraído, fora da forma.
— Por que o senhorr não está na forma? — perguntou-lhe rosnando o padre, como se estivesse de promotor da Inquisição, diante de um herege horripilante.
— É porque estou com o meu pezinho machucado, respondeu com doçura o Risadinha.
— E por que o senhorr não está mancando?
Risadinha olhou com espanto para os seus próprios pés, começando a mancar vistosamente:
— Desculpe, seu padre, é porque eu tinha esquecido.
Foi um precursor de Cantinflas e, a despeito da opinião do leitor, nós lhe achávamos uma graça de doer a barriga.

*
[…]

Paulo Mendes Campos, em O homem que odiava ilhas

27/10/2026

Poema do Aviso Final

É preciso que haja alguma coisa
alimentando meu povo:
uma vontade
uma certeza
uma qualquer esperança
É preciso que alguma coisa atraia
a vida ou a morte:
ou tudo será posto de lado
e na procura da vida
a morte virá na frente
e abrirá caminho

É preciso que haja algum respeito
ao menos um esboço:
ou a dignidade humana
se firmará a machadadas.

Torquato Neto, em O fato e a coisa

Benito di Paula | Ah!, Como Eu Amei

 

Hagar, o Horrível

Poeminho do contra

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!

Mário Quintana, em Caderno H

1647 – Santiago do Chile

Se proíbe o jogo dos índios do Chile

O capitão-geral, dom Marin de Mujica, proclama por caixa e pendão a proibição do jogo da chueca, que os araucanos praticam, segundo a tradição, golpeando uma bola com paus de ponta encurvada, em campo rodeado de ramagens verdes.
Com cem chibatadas serão castigados os índios que não obedeçam; e com multa os demais, porque muito se difundiu a infame chueca entre a soldadesca criolla.
Diz a ordem do capitão-geral que se dita a proibição para que se evitem pecados tão contra a honra de Deus Nosso Senhor e porque correndo a bola os índios treinam para a guerra: do jogo nascem alvoroços e assim depois corre a flecha entre eles. É uma indecência, diz, que na chueca se juntem homens e mulheres quase nus, vestidos apenas de plumas e peles nos quais fundamentam a ventura de ganhar. No começo invocam aos deuses para que a bola seja favorável às suas proezas e corridas e no fim, todos abraçados, bebem mares de chicha.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Capítulo 106 – Jogo Perigoso

 



Respirei e sentei-me. Dona Plácida atroava a sala com exclamações e lástimas. Eu ouvia, sem lhe dizer coisa nenhuma; refletia comigo se não era melhor ter fechado Virgília na alcova e ficado na sala; mas adverti logo que seria pior; confirmaria a suspeita, chegaria o fogo à pólvora, e uma cena de sangue... Foi muito melhor assim. Mas depois? que ia acontecer em casa de Virgília? matá-la-ia o marido? Espancá-la-ia? encerrá-la-ia? expulsá-la-ia? Estas interrogações percorriam lentamente o meu cérebro, como os pontinhos e vírgulas escuras percorrem o campo visual dos olhos enfermos ou cansados. Iam e vinham, com o seu aspecto seco e trágico, e eu não podia agarrar um deles e dizer: és tu, tu e não outro.
De repente vejo um vulto negro; era Dona Plácida, que fora dentro, enfiara a mantilha, e vinha oferecer-se-me para ir casa do Lobo Neves. Ponderei-lhe que era arriscado, porque ele desconfiaria da visita tão próxima.
– Sossegue, interrompeu ela; eu saberei arranjar as coisas. Se ele estiver em casa não entro.
Saiu; eu fiquei a ruminar o sucesso e as consequências possíveis. Ao cabo, parecia-me jogar um jogo perigoso, e perguntava a mim mesmo se não era tempo de levantar e espairecer como um parceiro do Whist. E então sentia-me tomado de uma saudade do casamento, de um desejo de canalizar a vida. Por que não? Meu coração tinha ainda que explorar; não me sentia incapaz de um amor casto, severo e puro. Na verdade, as aventuras são parte torrencial e vertiginosa da vida, isto é, a exceção; eu estava enfarado delas; não sei até se me pungia algum remorso. Mal pensei naquilo, deixei-me ir atrás da imaginação; vi-me logo casado, ao pé de uma mulher adorável, diante de um baby, que dormia no regaço da ama, todos nós no fundo de uma chácara sombria e verde, a espiarmos através das árvores uma nesga do céu azul, extremamente azul…

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

São Paulo

De São Paulo recebi uma carta de Fernanda Montenegro. Telefonei-lhe pedindo licença para publicá-la. Foi dada:

“Clarice
é com emoção que lhe escrevo pois tudo o que você propõe tem sempre essa explosão dolorosa. É uma angústia terrivelmente feminina, dolorosa, abafada, educada, desesperada e guardada.
Ao ler meu nome, escrito por você, recebi um choque não por vaidade mas por comunhão. Ando muito deprimida, o que não é comum. Atualmente em São Paulo se representa de arma no bolso. Polícia nas portas dos teatros. Telefonemas ameaçam o terror para cada um de nós em nossas casas de gente de teatro. É o nosso mundo.
E o nosso mundo, Clarice?
Não este, pelas circunstâncias obrigatoriamente político, polêmico, contundente. Mas aquele mundo de que nos fala Tchekhov: onde repousaremos, onde nos descontrairemos? Ai, Clarice, a nossa geração não o verá. Quando eu tinha quinze anos pensava alucinadamente que minha geração desfaria o nó. Nossa geração falhou, numa melancolia de ‘canção sem palavra’, tão comum no século XIX. O amor no século XXI é a justiça social. E Cristo que nos entenda.
Estamos aprendendo a lição seguinte: amor é ter. Na miséria não está a salvação.
Quem não tem, não dá. Quem tem fome não tem dignidade (Brecht). Clarice, estou pedindo desculpas por este palavrório todo. Mas deixe que eu mantenha com você esta sintonia dolorosa dos que percebem alguns mundos, não apenas este ou aquele, porém até mesmo aquele outro, embora linearmente – como é o caso.
Nossa geração sofre da frustração do repouso. É isso, Clarice? A luta que fizermos, não o faremos pra nós. E temos uma pena enorme de nós por isso. É assim que explico pra mim estas frases que você põe no seu artigo: ‘Eu que dei pra mentir. E com isso estou dizendo uma verdade. Mas mentir já não era sem tempo. Engano a quem devo enganar, e, como sei que estou enganando, digo por dentro verdades duras.’ A luta, a que me refiro lá no alto, seria aquela luta bíblica, a grande luta, a que engloba tudo.
Voltando às ‘verdades duras’ de que você fala: na minha profissão o enganar é a minha verdade. É isso mesmo, Clarice, como profissão. Mas na minha intimidade toda particular, sinto, sem enganos, que nossa geração está começando a comungar com a barata. A nossa barata (Fernanda se refere a um livro meu). Nós sabemos o que significa esta comunhão, Clarice. Juro que não vou afastá-la de mim, a barata. Eu o farei. Preciso já organicamente fazê-lo. Dê-me a calma e a luz de um momento de repouso interior, só um momento.
Com intensa comoção.
Fernanda”

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

Pittsburgh Phill & Cia

 



Um cara chamado Summerfield estava de folga, bebendo uma garrafa de vinho. Era um tipo meio bobo, eu tentava evitá-lo, mas ele estava sempre meio bêbado e pendurado na janela. Sempre me via saindo da minha casa e sempre dizia a mesma coisa:
– Hey, Hank, que tal me levar às corridas?
E eu sempre dizia:
– Uma hora dessas, Joe, hoje não.
Bem, ele continuava insistindo, pendurado na janela e meio bêbado, então um dia eu disse:
– Tudo bem, diabos, vamos...
E lá fomos nós.
Estávamos em janeiro. Em Santa Anita, e se você conhece bem aquela pista sabe do que estou falando, pode ficar realmente frio lá fora quando se está perdendo. O vento sopra vindo da neve das montanhas e nossos bolsos estão vazios e você treme e pensa na morte e nos tempos difíceis e no aluguel e em todo o resto. É um lugar bastante desagradável para perder. Pelo menos em Hollywood Park dá para voltar com um bronzeado.
Então fomos os dois. Ele tagarelou durante todo o caminho. Ele nunca tinha ido a um hipódromo. Tive de ensiná-lo a diferença entre apostar no vencedor, na posição e nos três primeiros colocados. Ele não sabia nem onde ficava a posição de largada, muito menos sobre os programas. Quando chegamos lá, ele usou o meu programa. Tive que ensiná-lo a ler as informações. Paguei sua entrada e comprei um programa das corridas para ele. Tudo que ele tinha era dois dólares. O suficiente para uma aposta.
Ficamos em pé por lá antes da primeira corrida, olhando as mulheres. Joe me contou que ele não pegava uma mulher havia cinco anos. Ele era um sujeito com uma aparência rota, um verdadeiro perdedor. Passávamos o panfleto um para o outro e olhávamos as mulheres, e então Joe disse:
– Por que o cavalo número seis paga catorze para um? Me parece o melhor.
Tentei explicar a ele por que dizia ali que o cavalo pagava quatorze para um e que o número tinha relação com os outros cavalos, mas ele não me ouvia.
– Realmente me parece o melhor. Não consigo entender. Tenho que apostar nesse animal.
– Os dois dólares são seus, Joe – eu disse –, e eu não vou emprestar nenhum dinheiro depois que você perder esse.
O nome do cavalo era Red Charley e se tratava de um animal com uma aparência realmente muito triste. Veio para o desfile de apresentação com quatro ataduras. Seu valor pulou para dezoito para um, quando olharam para ele. Apostei dez dólares na vitória do cavalo que logicamente seria o melhor candidato, Bold Latrine[2], que sofrera uma pequena queda na classificação, mas com bons resultados anteriores, um jóquei esperto e o segundo melhor treinador. Achei que sete para dois era uma boa cotação para esse cavalo.
Era uma corrida de uma milha e um quarto. Red Charley estava cotado em vinte para um quando foi dada largada, e ele saiu em primeiro, era impossível confundi-lo com os outros devido às suas ataduras, e o garoto abriu quatro corpos de diferença para o segundo colocado na primeira volta. Deve ter pensado que estava em uma corrida de quarto de milha. O jóquei tinha apenas duas vitórias em quarenta corridas e podia se ver por quê. Ele tinha seis corpos de diferença na reta. A espuma escorria pelo pescoço de Red Charley e se parecia muito com creme de barbear.
No começo da última curva, os seis corpos de vantagem tinham diminuído para três e todo o grupo estava se aproximando dele. No começo da reta final, Red Charley tinha apenas um corpo e meio de vantagem sobre o meu cavalo, Bold Latrine se aproximava por fora. Parecia que eu ia ganhar. Na metade da reta final eu estava a um pescoço de ganhar. Mais um ataque eu ganharia. Mas correram todo o resto do caminho até a linha de chegada dessa forma. Red Charley ainda tinha um pescoço de vantagem na chegada. Pagou 42,80.
– Tive a impressão de que ele era o melhor – disse Joe, afastando-se em direção ao guichê para receber seu dinheiro.
Quando ele voltou, pediu mais uma vez o programa. Olhou os competidores.
– Por que o Big H paga seis para um? – me perguntou. – Parece o melhor.
– Pode parecer o melhor para você – eu disse –, mas no entendimento dos apostadores e dos estatísticos experientes, profissionais de verdade, ele paga seis para um.
– Não se irrite, Hank. Sei que não sei nada sobre esse jogo. Só quero dizer que, para mim, ele deveria ser o favorito. Vou apostar nele de qualquer forma. Também posso apostar na vitória do dez.
– É o seu dinheiro, Joe. Você teve sorte na primeira corrida, o jogo não é fácil.
Bem, Big H ganhou e pagou 14,40. Joe começou a se pavonear. Lemos o programa no bar e ele nos pagou umas bebidas e deu um dólar de gorjeta ao barman. Enquanto saíamos do bar, ele piscou para o barman e disse:
– O próximo páreo já é de Barney’s Mole.
Barney’s Mole estava cotado em seis para cinco, então não imaginei que esse fosse um anúncio tão significativo. Ao fim do páreo, Barney’s Mole ainda rendeu algum dinheiro. Pagou quatro dólares e vinte centavos e Joe saiu com um lucro de vinte dólares na vitória.
– Dessa vez – ele me falou – acertaram o cavalo favorito.
De nove corridas, Joe acertou oito vencedores. Na viagem de volta, ele ficou se perguntando como havia perdido a sétima corrida.
– Blue Truck parecia de longe o melhor. Não entendo como chegou apenas em terceiro.
– Joe, você ganhou oito de nove corridas. Isso é sorte de principiante. Você não faz ideia de como esse jogo é difícil.
– Me parece fácil. Basta escolher o vencedor e receber o dinheiro.
Não falei com ele durante o resto do percurso. Naquela noite ele bateu à minha porta e trazia uma garrafa de uísque e o boletim de apostas. Ajudei-o com a garrafa, enquanto ele lia o programa e me dizia todos os nove vencedores das corridas do dia seguinte e por que ganhariam. Tínhamos entre nós um verdadeiro especialista. Sei como as corridas sobem à cabeça de um homem. Uma vez acertei dezessete vezes seguidas e estava prestes a comprar casas ao longo da costa e começar um negócio de escravas brancas para proteger meus lucros da receita federal. Veja a que grau de loucura esse negócio pode chegar.
Mal podia esperar para levar Joe às corridas no dia seguinte. Queria ver a sua cara quando todas as suas previsões falhassem. Cavalos eram animais feitos de carne. Eram falíveis. Como diziam os velhos apostadores:
– Há doze maneiras de perder e apenas uma de ganhar.
Tudo bem, não foi assim que aconteceu. Joe ganhou sete de nove... favoritos, azarões, alguns com preços médios. E ele resmungou durante todo o caminho de volta sobre as duas corridas que perdera. Ele não podia entender. Não falei com ele. O filho da puta podia fazer tudo certo, mas as probabilidades o pegariam. Começou a me falar de como eu estava apostando errado e qual era a maneira certa de apostar. Dois dias nas pistas e ele era um especialista. Eu apostava há vinte anos e ele me dizendo que eu não sabia nada sobre o assunto.
Fomos às corridas toda a semana e Joe continuava ganhando. Tornou-se tão insuportável que eu não o tolerava mais. Comprou um terno novo e um quepe, camisa nova e sapatos e começou a fumar cigarros de cinquenta centavos. Disse ao pessoal da assistência social que agora ele era um autônomo e que não precisava mais do dinheiro deles. Joe enlouquecera. Deixou um bigode crescer e comprou um relógio de pulso e um anel muito caro. Na terça-feira seguinte, vi-o dirigir seu próprio carro até o hipódromo, um Caddie preto, modelo 69. Abanou para mim de seu carro e bateu as cinzas de seu cigarro. Não falei com ele durante aquele dia no hipódromo. Ele estava no clube. Quando ele bateu em minha porta naquela noite, tinha a garrafa de uísque de sempre e uma loira alta. Uma loira jovem, bem-vestida, bem-arrumada, tinha um belo corpo e um belo rosto. Entraram juntos.
– Quem é esse velho vagabundo? – ela perguntou a Joe.
– Esse é o meu velho amigo, Hank – ele lhe disse. – A gente se conheceu quando eu era pobre. Ele me levou ao hipódromo um dia.
– Ele não tem mulher?
– O velho Hank não vê uma mulher desde 1965. Escuta, que tal arranjarmos a Big Gertie para ele?
– Nem fodendo, Joe, Big Gertie não ficaria com ele! Olha, ele está coberto de trapos.
– Tenha compaixão, querida, ele é meu amigo. Sei que ele não parece muita coisa, mas nós dois começamos juntos. Sou um sujeito sentimental.
– Bem, Big Gertie não é sentimental, ela gosta de classe.
– Olha, Joe – eu disse –, esqueça a mulher. Apenas sente-se com o boletim das corridas e vamos beber um pouco e depois me dê alguns vencedores para amanhã.
Foi isso que Joe fez. Bebemos e ele disse quais seriam os vencedores. Escreveu nove cavalos para mim em um pedaço de papel. Sua mulher, Big Thelma... bem, Big Thelma apenas me olhava como se eu fosse um cagalhão de cachorro no gramado de alguém.
Aqueles nove cavalos renderam oito vitórias no dia seguinte. Um pagou 62,60 dólares. Não podia entender. Naquela noite, Joe veio com uma outra mulher. Era ainda mais bonita. Sentou com a garrafa e o boletim e escreveu em um papel mais nove cavalos.
Então ele me disse:
– Escuta, Hank, vou me mudar. Encontrei um bom apartamento de luxo bem ao lado do hipódromo. O tempo de deslocamento de ida e de volta às corridas é mínimo. Vamos, querida. A gente se vê por aí, meu velho.
Sabia que esse era o fim. Meu amigo estava me despachando. No dia seguinte, apostei pesado naqueles nove cavalos. Ganhei sete. Reli o programa mais uma vez, quando cheguei em casa, tentando entender por que ele escolhera os cavalos que escolheu, mas parecia não haver nenhum método compreensível. Algumas das escolhas eram realmente intrigantes.
Não voltei a ver Joe pelo resto da temporada, exceto uma vez. Vi-o entrar no clube com duas mulheres. Joe estava gordo e rindo. Vestia um terno de duzentos dólares e usava um anel de diamante no dedo. Perdi em todas as nove corridas daquele dia.
Passaram-se dois anos. Eu estava em Hollywood Park e era um dia particularmente quente, uma quinta-feira e, na sexta corrida eu, por acaso, acertei um vencedor que pagou 26,80. Enquanto eu caminhava para o guichê para receber o dinheiro, ouvi sua voz atrás de mim:
– Ei, Hank! Hank!
Era Joe.
– Jesus Cristo, homem – ele disse –, como é bom ver você!
– Olá, Joe...
Ainda usava seu terno de duzentos dólares em todo aquele calor. O resto de nós estava em camisas de manga. Ele precisava barbear-se e seus sapatos estavam gastos e o terno estava amassado e sujo. O diamante se fora, e seu relógio de pulso também.
– Me dê um cigarro, Hank.
Dei-lhe um cigarro e quando ele o acendeu, notei que suas mãos tremiam.
– Preciso de uma bebida, cara – ele me disse.
Levei-o para o bar e bebemos alguns copos de uísque. Joe estudou o programa.
– Escute, parceiro, já apontei vários vencedores para você, não é mesmo?
– Claro, Joe.
Ficamos ali, olhando o programa.
– Agora, veja essa corrida – disse Joe. – Presta atenção ao Black Monkey. Vai ser uma vitória fácil, Hank. É garantido. E paga oito pra um.
– Gosta das probabilidades dele, Joe?
– Ele vai ganhar, parceiro. Vai ganhar frouxo.
Fizemos nossas apostas no Black Monkey e fomos assistir a corrida. Ele acabou em sétimo.
– Não entendo – disse Joe. – Olha, me empreste mais dois dólares, Hank. Siren Call na próxima, não tem como perder. De jeito nenhum.
Siren Call chegou em quinto, mas isso não ajuda muito quando se está apostando no vencedor. Joe conseguiu mais dois dólares de mim para a nona corrida e seu cavalo perdeu também. Joe me disse que não tinha mais carro e perguntou se eu me importava em lhe dar uma carona para casa.
– Você não vai acreditar nisso – ele me disse –, mas estou de volta à assistência social.
– Acredito, Joe.
– Mas vou dar a volta por cima. Sabe, Pittsburgh Phill faliu pelo menos meia dúzia de vezes. Ele sempre dava a volta por cima. Seus amigos tinham fé nele. Emprestavam dinheiro.
Quando o deixei em casa, descobri que ele morava em uma pensão a quatro quarteirões de onde eu morava. Nunca me mudei. Quando Joe desceu do carro ele disse:
– Tenho uma excelente carta na manga para amanhã. Você vai?
– Não tenho certeza, Joe.
– Se for, me avisa.
– Claro, Joe.
Naquela noite ouvi uma batida em minha porta. Eu conhecia a batida de Joe. Não atendi. A televisão estava ligada, mas não atendi. Segui deitado na cama, bem parado. Ele continuou batendo.
– Hank! Hank! Está aí? EI, HANK!
Então ele realmente bateu com força na porta, o filho da puta. Parecia fora de si. Bateu e bateu. Finalmente parou. Escutei-o se afastar pelo corredor. Então ouvi a porta de entrada do prédio se fechar. Levantei, desliguei a televisão e fui até a geladeira, fiz um sanduíche de presunto e queijo, abri uma cerveja. Então me sentei com a comida, abri o programa do dia seguinte e comecei a olhar a primeira corrida, um prêmio de cinco mil dólares para potros e capões com mais de três anos. Gostei do cavalo número oito. O boletim o dava como cinco para um. Apostaria nele até de olhos fechados.

Charles Bukowski, em Ao Sul de Lugar Nenhum

26/10/2026

Coragem, Mulher | Juliane Gamboa e Ivan Lins

 

Um menino perdido na noite

Já meio adormecido, eu ouvia uma voz que vinha da rua. Voz de menino. “Olha os pastéis, de carne e de queijo...” . Sozinho na rua vazia ele vendia pastéis que sua mãe fizera. Para quem, se nas ruas não havia ninguém? Era como nas estórias: havia sempre um bom menino perdido. Ele me fazia lembrar o menino da mata. Imaginava-me no seu lugar, anunciando pastéis a um mundo adormecido. E toda noite acontecia o mesmo, ele passava com o mesmo anúncio triste: “Olha os pastéis, de carne e de queijo...” . A voz triste daquele menino me marcou. Continuo a ouvi-la.

Rubem Alves, em O velho que acordou menino

A luz da dor

O meu modo de saber é adoecendo.

A uns, a ideia surge em luz.
A mim, se declara
uma pontada no peito.

O advento da dor,
o deflagrar da súbita febre
e eu sei que o meu corpo sabe.

Um dia destes
me desconhecerei vivo
desfalecido de aguda sapiência.

Até lá
repartirei com um anjo
o doce milagre da refeição.

Mia Couto, em Poemas Escolhidos

O ovo

“Carlos acordou e fritou um ovo.” — Anônimo

“N’aquele outomno de 1875, Carlos abriu as pálpebras esguedelhadas — tinha acordado macilento. Trazia-lhe tranquillidade contar as dezoito velas do lustre de ouro, presenteado pelo tio Affonso havia trinta e dois anos. ‘Somente para dar-me esse lustre serviu o tio Affonso’, pensou. Levantou-se da cama com uma fadiga langorosa, arrastando consigo os lençóis de seda indiana e esticou-se num fato de xadrezinho inglês. Cobriu-se com um cache-nez de seda clara e abriu um telegramma, indolente e poseur, em frente ao espelho de Veneza — resvalava, através das árvores, uma luz esverdinhada. Ordenou à criada:
— Frite-me ovos.” — Eça de Queiroz

“Carlos acordou com uma súbita vontade de fritar um ovo, hei de fritar um ovo, pensou, agora mesmo, posto que se não fritá-lo, não poderei comê-lo frito, e terei de me contentar com ele cru, o que não seria do meu agrado. Tendo pensado nisso, fritou o ovo, e não está ruim, pensou, o ovo, frito.” — José Saramago

“Acordei libertado da angústia de não estar acordado. Não estar acordado é enorme: viver é isso. Fritei um ovo.” — Clarice Lispector

“Sonado: Carlos abriu o olho. Bisbilhava-se. A galinha desovou um ovo, disse Migué.
— Larga de afoiteza, gritou tio Janjório. É muita ambicionice comer a galinha que ainda não galinhou.
Carlos nem orelhou. Quando o tio viu, o ovo já não era.” — Guimarães Rosa

“Acordei ao lado de Vânia, que ainda dormia. Seus seios eram rosados e sua pentelheira era vasta e negra. Levantei e acendi um cigarro naquele fogão de bacana. Na cozinha, Branca me esperava, nua, com uma Magnum na mão, tapando-lhe a boceta. Eu disse alguma coisa e ela não gostou. Apontou a arma para os meus testículos.
— Frita, Carlos. Seus ovos vão ser a porra do meu café da manhã.
Alguém bateu na porta. Era Frida, nua. Fodemos.” — Rubem Fonseca

“Carlos acordou com a perna meia dormente. Para ficar com menas dor, recorreu a uma simpatia. Foi até a cozinha e fez um ovo estralado.” — Paulo Coelho

Gregório Duvivier, em Put some farofa

O impagável Quino

 

Diário De Bernardo Soares

140.

Acontece-me às vezes, e sempre que acontece é quase de repente, surgir-me no meio das sensações um cansaço tão terrível da vida que não há sequer hipótese de acto com que dominá-lo. Para o remediar o suicídio parece incerto, a morte, mesmo suposta a inconsciência, ainda pouco. É um cansaço que ambiciona, não o deixar de existir — o que pode ser ou pode não ser possível —, mas uma coisa muito mais horrorosa e profunda, o deixar de sequer ter existido, o que não há maneira de poder ser.
Creio entrever, por vezes, nas especulações, em geral confusas, dos índios, qualquer coisa desta ambição mais negativa do que o nada. Mas ou lhes falta a agudeza de sensação para relatar assim o que pensam, ou lhes falta a acuidade de pensamento para sentir assim o que sentem. O facto é que o que neles entrevejo não vejo. O facto é que me creio o primeiro a entregar a palavras o absurdo sinistro desta sensação sem remédio.
E curo-a com o escrevê-la. Sim, não há desolação, se é profunda deveras, desde que não seja puro sentimento, mas nela participe a inteligência, para que não haja o remédio irónico de a dizer. Quando a literatura não tivesse outra utilidade, esta, embora para poucos, teria.
Os males da inteligência, infelizmente, doem menos que os do sentimento, e os do sentimento, infelizmente, menos que os do corpo. Digo “infelizmente” porque a dignidade humana exigiria o avesso. Não há sensação angustiada do mistério que possa doer como o amor, o ciúme, a saudade, que possa sufocar como o medo físico intenso, que possa transformar como a cólera ou a ambição. Mas também nenhuma dor das que esfacelam a alma consegue ser tão realmente dor como a dor de dentes, ou a das cólicas, ou (suponho) a dor de parto.
De tal modo somos constituídos que a inteligência que enobrece certas emoções ou sensações, e as eleva acima das outras, as deprime também se estende a sua análise à comparação entre todas.
Escrevo como quem dorme, e toda a minha vida é um recibo por assinar.
Dentro da capoeira de onde irá a matar, o galo canta hinos à liberdade porque lhe deram dois poleiros.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego