29/06/2026
Helena
No cômodo onde Menelau vivera
Bateram. Nada. Helena estava morta.
A última aia a entrar fechou a porta,
Levaram linho, unguento, âmbar e
cera.
Noventa e sete anos. Suas pernas
Eram dois secos galhos recurvados.
Seus seios até o umbigo desdobrados
Cobriam-lhe três hérnias bem
externas...
Na boca sem um dente os lábios
frouxos
Murchavam, ralo pêlo lhe cobria
O sexo que de perto parecia
Um pergaminho antigo de tons roxos.
Maquiaram-lhe as pálpebras vincadas,
Compuseram seus ossos quebradiços,
Deram-lhe à boca uns rubores
postiços,
Envolveram-na em faixas perfumadas.
Então chamas onívoras tragaram
A carne que cindiu tantas vontades.
Quando sua sombra idosa entrou no
Hades
As sombras dos heróis todas choraram.
Alexei Bueno, em Lucernário
La Morte d’Arthur
O zero e o infinito, de Arthur
Koestler, é um dos clássicos do século. The Spanish Testament
[Testamento espanhol] (também conhecido como Dialogue with Death
[Diálogo com a morte]) tem quase a mesma estatura. The
Sleepwalkers [Os sonâmbulos], sobretudo os capítulos sobre
Kepler, são uma das raras proezas de recriação literária
convincente da grande ciência, da lógica poética da descoberta.
Não compartilho as certezas de Koestler em Reflections on Hanging
[Reflexões sobre a forca], mas o texto resiste como um dos grandes
ensaios polêmicos de nossa época, um momento central no debate
sobre a pena de morte. Há capítulos clássicos em obras
autobiográficas como Arrow in the Blue [Seta no azul]. Mas de
alguma maneira Arthur Koestler é mais do que a soma de seus
escritos. Existem em todas as eras e sociedades homens e mulheres que
prestam um testemunho essencial, cujas sensibilidades pessoais e
vidas individuais concentram e estampam em si os significados mais
amplos da época. Neste século sombrio, coube ao judeu
centro-europeu, talvez mais do que a qualquer outro grupo, a
enormidade de portar e ilustrar a experiência de nossos tempos.
Koestler, que nasceu em Budapeste em 1905, estava no ponto exato onde
se cruzam os terminais nervosos da história, da política, da
linguagem e da ciência. Ele foi atravessado por suas correntes
dolorosas e envolventes. Num catálogo das principais presenças da
modernidade — as políticas do marxismo e do terror fascista; a
psicanálise e os estudos das anatomias mentais; o grande avanço das
ciências biológicas; os conflitos entre a ideologia e as artes —
encontraremos não só os vários livros de Koestler, mas também o
próprio indivíduo. Ele conheceu o exílio e a prisão, o divórcio
e o assustador consolo do álcool, a luta ambígua pela privacidade
no mundo dos meios de comunicação de massa. As carteiras de
identidade de Koestler, autênticas e forjadas, os vistos e carimbos
em seus passaportes, suas agendas do dia e cadernetas de telefones
compõem o mapa e o itinerário dos perseguidos em nosso século.
É por isso que o duplo suicídio de
Arthur e Cynthia Koestler, no dia 3 março de 1983, ou logo antes
desse dia, ainda repercute. É por isso que adquiriu uma força
sugestiva tão marcante. Aqui também a mensagem vinha em maiúsculas.
Narrado com sobriedade pungente na breve memória de George Mikes,
Arthur Koestler: The Story of a Friendship [A história de uma
amizade] (André Deutsch, 1983), o suicídio teve motivos imediatos.
Uma doença degenerativa em fase terminal não demoraria a reduzir
Koestler a uma dor degradante. Mas, como em tudo na vida de Koestler,
o gesto pessoal foi antecedido e sustentado por uma reflexão pública
e ponderada. Koestler tinha manifestado fortes simpatias pelas
posições de um grupo que procurava esclarecer as questões
jurídicas e morais da morte por livre escolha. Tendo encarado tantas
vezes a morte em suas formas mais cruéis e involuntárias, tendo
combatido com tanto vigor a imposição fria da morte judicial aos
condenados, Koestler atribuía enorme valor à liberdade humana, à
dignidade humana perante a morte. Um homem na posse de suas
faculdades mentais deveria ter a chance de converter seu fim num
gesto consoante com o valor central da liberdade de espírito e de
consciência. O castigo previsto em lei para o suicida que não
conseguiu consumar seu intento, como consta em tantos códigos
jurídicos, parecia a Arthur Koestler uma impertinência bárbara.
O bilhete do suicídio estava escrito
desde junho de 1982. Traz a seguinte passagem:
Quero que meus amigos saibam que
estou deixando sua companhia num estado de espírito pacífico, com
algumas tímidas esperanças de um além despersonalizado, que
ultrapassa as fronteiras do tempo, do espaço e da matéria, e
ultrapassa os limites de nossa compreensão. Esse “sentimento
oceânico” me sustentou em muitos momentos difíceis, e me sustenta
agora enquanto escrevo.
Na verdade, e como bem se sabe, as
esperanças ou, melhor, as ansiosas especulações de Koestler nada
tinham de “tímidas”. Seu “sentimento oceânico” (a expressão
vem de Freud)se concentrava na profunda convicção de que existiam
“lá fora” presenças psíquicas, energias organizadoras de tipo
transcendente — embora inacessíveis em sua força oculta, podiam
ser abordadas ou percebidas em certos aspectos dentro dos limites de
nossa consciência e da observação empírica. Por isso seu
interesse insistente, muitas vezes expresso publicamente em tom de
desafio, pela parapsicologia, pela percepção extrassensorial, por
fenômenos que iam de assombrações ao entortamento de colheres. Por
isso sua compilação ardorosa de coincidências “inexplicáveis”.
Pois o secretário de Lincoln, chamado Kennedy, não tinha implorado
ao presidente que não fosse ao teatro, e o secretário de Kennedy,
chamado Lincoln, não tinha implorado ao presidente que não fosse a
Dallas? Booth não atirou em Lincoln num teatro e fugiu para um
armazém e Oswald não atirou em Kennedy de um armazém e fugiu para
um teatro? (Quando me apresentou pela primeira vez esse encadeamento,
Koestler parecia vibrar com uma intensidade maravilhosamente irônica,
espicaçadora, mas também obsessiva. E quando hesitei, aquela voz de
uma ironia insistente, ardendo por dentro, acrescentou: “E não
foram ambos sucedidos por presidentes chamados Johnson?”.) Koestler
legou uma parte considerável de seu patrimônio à dotação de uma
cátedra universitária de estudos de parapsicologia.
Amigos e conhecidos que não o
acompanhassem por essas sendas obscuras eram, com maior ou menor
gentileza, excluídos de sua intimidade. Koestler sabia muito bem
que, com sua crença na telecinética e no extrassensorial, vinha se
tornando um pária no mundo das ciências exatas e naturais. Nunca
seria eleito para a Royal Society. Ao lado do Prêmio Nobel, para o
qual de fato foi indicado, seu maior desejo era pertencer a ela.
Interessante que essas duas honrarias também foram negadas a H. G.
Wells, que em alguns aspectos é o único antecessor genuíno de
Koestler. E ambos fizeram muito mais do que a grande maioria dos
cientistas profissionais para divulgar a severa beleza e a
importância política das ciências entre a comunidade letrada.
Outro critério de Koestler na escolha
de seus íntimos era a bebida. Mikes é afetuosamente direto nesse
assunto. Logo ficou claro para mim e para minha esposa que não
conseguiríamos acompanhar os uísques antes do jantar, o vinho
durante a refeição e depois os numerosos conhaques que regavam as
noites de Koestler. Isso significava que um relacionamento, uma troca
de opiniões, uma sucessão de visitas mútuas frequentes, mesmo
estendendo-se durante anos, não amadureceriam numa intimidade
sincera. Outro obstáculo, não mencionado por Mikes, era o xadrez.
Koestler tinha um jogo rápido e contundente. Mas preferia
interromper a partida a perder para alguém visivelmente inferior em
inteligência, em talento, em experiência de vida. Isso também veio
a significar um véu tácito a nossa confiança recíproca, nossa
descontração quando estávamos juntos. Enfrentei exatamente a mesma
inibição com Jacob Bronowski, aquele outro mestre da Europa Central
cuja morte, somada à de Koestler, parece ter reduzido em muito o
total de inteligência geral, polímata, em nosso mundo. E ele
era um jogador brilhante.
Os conhaques de Koestler, os acessos
de irritação e sarcasmo exacerbado que podiam assustar e humilhar
os mais próximos, tinham uma motivação legítima. Comenta Mikes:
“Um homem feliz era algo estranho e bizarro para ele, quase um
mistério”. Como uma pessoa sensível, inteligente, poderia ser
feliz entre as insânias brutais, as devastações, a cegueira
suicida da história contemporânea? Para Arthur Koestler, o
racionalismo convencional não passava de complacência, de afetação
inaceitável. Seria de fato possível alicerçar políticas liberais
sobre uma ficção da razão, avançar com a ciência sobre bases
positivistas não examinadas, quando o mundo real estava tão
visivelmente à mercê de impulsos desumanos inexplicáveis? Se desde
o começo dos anos 1950 Koestler deixou de participar abertamente no
debate público (absteve-se mesmo durante a invasão soviética da
Hungria), foi por desalento. Quando falavam, as vozes da razão eram
objeto de escárnio.
Mas, nos bons tempos, Arthur Koestler
irradiava uma rara paixão pela vida, uma profunda alegria diante do
desconhecido. Parecia encarnar a ideia de Nietzsche de que existe nos
indivíduos uma motivação mais forte do que o amor, o ódio ou o
medo. É a motivação de se interessar — por um corpo de
conhecimento, por um problema, por um passatempo, pelo jornal de
amanhã. Koestler era sumamente interessado. Imagino que ele marcou
seu encontro com a morte com aquela mesma arte de atenção
cuidadosa, questionadora, que havia dedicado com generosidade à
literatura e às ciências, à política e à psicologia, às tribos
perdidas de Israel e à culinária francesa.
George Mikes, ele também um exilado
húngaro, é demasiado modesto em relação a seus próprios talentos
e realizações. É o autor daquele ensaio clássico How to Be an
Alien [Como ser um extraterrestre] e de uma série de
divertidíssimos livros sobre os perigos dos tempos modernos. Seu
livro sobre Koestler é um retrato criterioso e espirituoso de alguém
que o apreciava muito. Apenas para constar, vou corrigir um episódio
que Mikes relata. Koestler tinha um refúgio em Alpbach, nas
montanhas austríacas. Durante um colóquio de verão, ele me pediu
para pô-lo em contato com um funcionário húngaro de segundo
escalão que estava participando dos procedimentos. Nós três nos
encontramos ao anoitecer, em torno de uma mesa de bar. Brusco,
Koestler perguntou se seria possível revisitar Budapeste e pisar
mais uma vez em solo natal. Depois de pensar um pouco, o húngaro
disse que a visita seria um verdadeiro triunfo e que o regime lhe
daria discretamente uma boa acolhida. Mas disse também que o nome de
Koestler encimava uma lista bem curta (que também incluía Silone)
de pessoas tão odiadas pelas autoridades soviéticas que elas
poderiam vir caçá-lo mesmo em Budapeste. Não seria possível
garantir sua segurança. A KGB tinha seus meios de cruzar as
fronteiras. Quando Koestler e eu voltávamos à sua casa, sob uma
chuva de estrelas e o ar límpido da montanha, disse-lhe que a
presença naquela lista me parecia uma distinção maior do que o
Nobel ou uma cadeira na Royal Society. Ele estacou, me deu um de seus
típicos olhares de esguelha e não falou nada. Mas, por um instante,
pareceu em paz.
11 de junho de 1984
George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos
Nuances
Assento: põe-se embaixo. Acento:
põe-se em cima.
Barco: qualquer embarcação. Barca:
embarcação lenta.
Ciúme: inveja de afeto. Inveja: ciúme
de coisa.
Contagiante: alegria. Contagiosa:
doença.
Corda: em qualquer lugar. Cabo: a
corda, quando num barco.
Cumpridas: as leis não são.
Compridas: as leis são.
Depressão: tristeza de rico.
Desespero: tristeza de pobre.
Despensa: armário. Dispensa: o que
você não guarda na despensa.
Discriminar: o que é feito com o
usuário de drogas. Descriminar: o que deveria ser feito com ele.
Ecologia: proteger o verde. Economia:
multiplicar o verde.
Em trânsito: em movimento. No
trânsito: sem movimento.
Eu te amo: quando se ama. Eu também:
quando não se quer cometer uma grosseria.
Euforia: alegria barulhenta.
Felicidade: alegria silenciosa.
Excelência: perfeição. Vossa
Excelência: crápula.
Fantasia: roupa no Carnaval. Figurino:
na televisão. Caretice desnecessária: no teatro contemporâneo.
Golfinho: baleia extrovertida.
Tubarão: golfinho sociopata.
Golpe: revolução pra quem sofreu.
Revolução: golpe pra quem participou.
Gravar: quando o ator é de televisão.
Filmar: quando ele quer deixar claro que não é de televisão.
Grávida: em qualquer ocasião.
Gestante: em filas e assentos preferenciais.
Guardar: na gaveta. Salvar: no
computador. Salvaguardar: no Exército.
Javali: porco de raiz. Porco: javali
metrossexual.
Língua: dialeto de rico. Dialeto:
língua de pobre.
Menta: no sorvete, na bala ou no
xarope. Hortelã: na horta, no Mojito ou no suco de abacaxi.
Mentira: na vida real. Inverdade: na
política.
Mitologia: religião sem adeptos.
Religião: mitologia com seguidores.
Peça: quando você vai assistir.
Espetáculo: quando você está em cartaz.
Policial: em qualquer ocasião. Tira:
quando está sendo dublado.
Recife: quando você não é de
Recife. Ricife: quando você é de Recife. Récife: quando você não
é de Recife e está imitando alguém de Recife.
Teatro: em São Paulo. Tchiatro: no
Rio. Tiatro: em Ricife. Téatro: na Bahia.
Ukulele: cavaquinho hipster. Rabeca:
violino bêbado.
Vocabulário: léxico de quem não tem
muito léxico. Léxico: vocabulário de quem tem muito vocabulário.
Gregório Duvivier, em Put some farofa
A grande incólume
A água, que não teme os abismos: a grande incólume.
Guimarães Rosa, em Ave, Palavra
O Homem que Calculava | Capítulo 25
Na primeira noite depois do Ramadã(1),
logo que chegamos ao palácio do califa fomos informados por um
velho, nosso companheiro de trabalho, que o soberano preparava
estranha surpresa para o nosso amigo Beremiz.
Aguardava-se grave acontecimento. O
calculista ia ser arguido, em audiência pública, por sete
matemáticos de fama, três dos quais haviam chegado, dias antes, do
Cairo.
Que fazer? Allahur Akbar(2)! Diante
daquela ameaça procurei encorajar Beremiz, fazendo-lhe sentir que
devia ter confiança absoluta em sua capacidade, tantas vezes
comprovada.
O Calculista recordou-me um provérbio
que ouvira de seu mestre Nô-Elin: “Quem não desconfia de si mesmo
não merece a confiança dos outros!”
Sob pesada sombra de apreensões e
tristeza entramos em palácio.
O grande e rutilante divã,
profusamente iluminado, estava repleto de cortesãos e cheiques de
renome.
À direita do califa achava-se o jovem
príncipe Cluzir Schá, convidado de honra, que se fazia acompanhar
de oito doutores hindus, ostentando roupagens vistosas de ouro e
veludo, e exibindo garbosos turbantes de Caxemira. À esquerda do
trono perfilavam-se os vizires, os poetas, os cádis e os elementos
de maior prestígio da alta sociedade de Bagdá. Sobre um estrado,
onde se viam vários coxins de seda, achavam-se os sete sábios que
iam interrogar o calculista. A um gesto do califa o xeque Nurendim
Barur tomou Beremiz pelo braço e conduziu-o, com toda solenidade,
até a uma espécie de tribuna erguida ao centro do rico salão.
Um escravo negro agigantado fez soar
três vezes pesado gongo de prata. Todos os turbantes se curvaram. Ia
ter início a singular cerimônia. A minha imaginação, confesso,
voejava por mundos alucinados.
Um imã tomou do Livro Santo e leu,
numa cadência invariável, pronunciando lentamente as palavras, a
prece do Alcorão(3):
— Em nome de Alá, Clemente e
Misericordioso!
Louvado seja o Onipotente, Criador
de todos os mundos!
A misericórdia é em Deus o
atributo supremo!
Nós Te adoramos, Senhor, e
imploramos a Tua divina assistência!
Conduze-nos pelo caminho certo!
Pelo caminho daqueles que são esclarecidos e abençoados por Ti!
Logo que a última palavra do imã se
perdeu com o seu cortejo de ecos pelas galerias do palácio, o rei
avançou dois ou três passos, parou e disse:
— Uallah! O nosso amigo e aliado,
príncipe Cluzirehdin-Moubarec Schá, senhor de Lahore e Délhi,
pediu-me que proporcionasse aos doutores de sua comitiva o ensejo de
admirarem a cultura e a habilidade do geômetra persa, secretário do
vizir Ibrahim Maluf. Seria desairoso deixar de atender a essa
solicitação de nosso ilustre hóspede. E, assim, sete dos mais
famosos ulemás do Islã vão propor ao calculista Beremiz questões
que se relacionam com a ciência dos números. Se ele souber
responder a todas as perguntas, receberá (assim o prometo),
recompensa tal que o fará um dos homens mais invejados de Bagdá.
Vimos, nesse momento, o poeta Iezid
aproximar-se do califa.
— Comendador dos Crentes! — disse
o xeque. — Tenho em meu poder um objeto que pertence ao calculista.
Trata-se de um anel encontrado em nossa casa por uma das escravas do
harém. Quero restituí-lo ao calculista antes de ser iniciada a
importantíssima prova a que vai submeter-se. É possível que se
trate de um talismã e eu não desejo privar o calculista nem mesmo
do auxílio dos recursos sobrenaturais.
E, depois de breve pausa, o nobre
Iezid disse ainda:
— Minha encantadora filha Telassim,
verdadeiro tesouro entre os tesouros da minha vida, pediu-me fosse
permitido oferecer ao geômetra persa, seu mestre na Ciência dos
Números, pequeno tapete por ela mesma bordado. Esse tapete, se o
Emir dos Crentes consentir, seria colocado sob a almofada destinada
ao calculista que vai ser arguido, hoje, pelos sete maiores sábios
do Islã.
Permitiu o monarca que o anel e o
tapete fossem, no mesmo instante, entregues ao calculista.
O próprio xeque Iezid, sempre
transbordante de simpatia, fez a entrega da caixa. Logo a seguir, a
um sinal do xeque, um mabid(4) adolescente apareceu trazendo nas mãos
o pequeno tapete azul-claro que foi colocado sob a almofada verde de
Beremiz.
— Tudo isso é feitiço, é baraka —
insinuou, em voz baixa, um velhote risonho, magro, de túnica azul e
cara chupada, que se achava bem atrás de mim. — Esse jovem
calculista persa é bom conhecedor de baraka. Faz sortilégios! Esse
tapetezinho azul-claro parece-me um tanto misterioso!
Mostrou-se Beremiz profundamente
emocionado ao receber a joia e o tapete. Apesar da distância em que
me achava, pude notar que alguma coisa de muito grave ocorria naquele
momento. Ao abrir a pequenina caixa os seus olhos brilhantes se
umedeceram. Soube depois que, juntamente com o anel, a piedosa
Telassim havia colocado um papel no qual Beremiz leu emocionado:
“Ânimo. Confia em Deus. Rezo por
ti.”
E o tapete azul-claro?
Haveria, no caso, alguma baraka, como
insinuava o velhinho alegre da túnica azul?
Nada de sortilégios.
Aquele pequeno tapete azul-claro, que
aos olhos dos xeques e ulemás não passava de um simples presente,
trazia, em caracteres cúficos (que só Beremiz saberia decifrar e
ler) alguns versos que abalaram o coração do nosso amigo
calculista. Esses versos, que eu, mais tarde, pude traduzir e
decorar, haviam sido finamente bordados por Telassim, como se fossem
arabescos, nas barras do pequenino tapete:
Eu te amo, querido. Perdoa-me o meu
amor!
Eu fui apanhada como um pássaro
que se extraviou no caminho.
Quando o meu coração foi tocado,
ele perdeu o véu e ficou ao desabrigo. Cobre-o com piedade, querido,
e perdoa o meu amor!
Se não me podes amar, querido,
perdoa a minha dor.
E voltarei para o meu canto e
ficarei sentada no escuro.
E cobrirei com as mãos a nudez do
meu recato(5).
Estaria o xeque Iezid a par daquela
dupla mensagem de carinho e amor?
Não havia motivo para deter-me em tal
ideia. Só mais tarde, como já disse, revelou-me Beremiz, o tal
segredo.
Só Alá sabe a verdade!
Fez-se, no suntuoso recinto, profundo
silêncio.
Ia ter início, no grande e rico divã
do califa, o torneio de espírito e de cultura mais notável ocorrido
até agora sob os céus do Islã.
Iallah!
Notas:
(1) Mês da quaresma muçulmana.
(2) Deus é grande!
(3) Entre os muçulmanos, qualquer
cerimônia pública deve ser precedida de uma prece.
(4) Servidor. Semiescravo.
(5) Versos de Tagore.
Malba Tahan, em O Homem que Calculava
28/06/2026
Um homem doente faz a oração da manhã
Pelo sinal da Santa Cruz,
chegue até Vós meu ventre dilatado
e Vos comova, Senhor, meu mal sem
cura.
Inauguro o dia, eu que a meu crédito
explico
que passei em claro a treva da noite.
Escutei — e é quando às vezes
descanso —
vozes de há mais de trinta anos.
Vi no meio da noite nesgas claríssimas
de sol.
Minha mãe falou,
enxotei gatos lambendo
o prato da minha infância.
Livrai-me de lançar contra Vós
a tristeza do meu corpo
e seu apodrecimento cuidadoso.
Mas desabafo dizendo:
que irado amor Vós tendes.
Tem piedade de mim,
tem piedade de mim
pelo sinal da Vossa Cruz,
que faço na testa, na boca, no
coração.
Da ponta dos pés à cabeça,
de palma à palma da mão.
Adélia Prado, em Bagagem
1629 – Margens do Bío-Bío
Putapichun
Depois de pouco andar, veem chegando
uma multidão da distante cordilheira. Maulicán dá com os
calcanhares em seu cavalo e adianta-se ao encontro do cacique
Putapichun.
Os da cordilheira também trazem um
prisioneiro, que vem tropeçando entre os cavalos, com uma corda ao
pescoço.
No alto de uma colina rasa, Putapichun
crava sua lança de três pontas. Faz desamarrar o prisioneiro e
atira um galho aos seus pés.
– Diga o nome dos capitães mais
valentes do teu exército.
– Não os conheço – gagueja o
soldado.
– Diga um nome – ordenou
Putapichun.
– Não lembro.
– Um.
E diz o nome do pai de Francisco.
– Outro.
E diz outro. A cada nome, deve quebrar
um ramo do galho. Francisco assiste à cena com os dentes apertados.
O soldado diz o nome de doze capitães: tem doze pauzinhos na mão.
– Agora, cava um buraco.
O prisioneiro atira no fundo os
pauzinhos, um por um, repetindo os nomes.
– Atira terra. Cobre esses paus.
Então, sentenceia Putapichun:
– Já estão enterrados os doze
valentes capitães.
E o verdugo faz despencar sobre o
prisioneiro o bastão eriçado de pregos.
Arrancam seu coração. Oferecem a
Maulicán o primeiro sorvo de sangue. A fumaça do tabaco flutua no
ar, enquanto o coração passa de mão em mão.
Depois Putapichun, veloz na guerra e
lento na fala, diz a Maulicán:
– Viemos comprar o capitão que você
leva. Sabemos que é filho de Álvaro, o grande chefe por quem nossas
terras tremeram.
Oferece-lhe uma de suas filhas, cem
ovelhas de Castilha, cinco lhamas, três cavalos com sela lavrada e
vários colares de pedras ricas:
– Com tudo isso, pode-se pagar dez
espanhóis e ainda sobra.
Francisco engole saliva. Maulicán
olha para o chão. Depois, diz:
– Antes, devo levá-lo para que meu
pai o veja, e também os outros chefes da comarca de Repocura. Quero
mostrar-lhes esta prenda de meu valor.
– Esperaremos – aceita Putapichun.
“Anda a minha vida nascendo de morte
em morte”, pensa Francisco. Zunem seus ouvidos.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
Capítulo 59 – Um Encontro
Deve ser um vinho bem enérgico a
política, dizia eu comigo, ao sair da casa de Lobo Neves; e fui
andando, fui andando, até que na rua dos Barbonos vi uma sege, e
dentro um dos ministros, meu antigo companheiro de colégio.
Cortejamo-nos afetuosamente, a sege seguiu, e eu fui andando...
andando... andando...
– Por que não serei eu ministro?
Esta ideia, rútila e grande, –
trajada ao bizarro, como diria o padre Bernardes, – esta idéia
começou uma vertigem de cabriolas e eu deixei-me estar com os olhos
nela, a achar-lhe graça. E não pensei mais na tristeza de Lobo
Neves; senti a atração do abismo. Recordei aquele companheiro de
colégio, as correrias nos morros, as alegrias e travessuras, e
comparei o menino com o homem, e perguntei a mim mesmo por que não
seria eu como ele. Entrava então no Passeio Público, e tudo me
parecia dizer a mesma coisa. – Por que não serás ministro, Cubas?
– Cubas, por que não serás ministro de Estado?
Ao ouvi-lo, uma deliciosa sensação
me refrescava todo o sistema. Entrei, fui sentar-me num banco, a
cavar comigo aquela ideia. E Virgília que havia de gostar! Alguns
minutos depois vejo encaminhar-se para mim uma cara, que me não
pareceu desconhecida. Conhecia-a, fosse donde fosse. Imaginem um
homem de trinta e oito a quarenta anos, alto, magro e pálido. As
roupas, salvo o feitio, pareciam ter escapado ao cativeiro de
Babilônia; o chapéu era contemporâneo do de Gessler. Imaginem
agora uma sobrecasaca mais larga do que pediam as carnes, – ou,
literalmente, os OSSOS da pessoa; a cor preta ia cedendo o passo a um
amarelo sem brilho; o pêlo desaparecia aos poucos; dos oito
primitivos botões restavam três. As calças, de brim pardo, tinham
duas fortes joelheiras, enquanto as bainhas eram roldas pelo tacão
de um botim sem misericórdia nem graxa. Ao pescoço flutuavam as
pontas de uma gravata de duas cores, ambas desmaiadas, apertando um
colarinho de oito dias. Creio que trazia também colete, um colete de
seda escura, roto a espaços, e desabotoado.
– Aposto que me não conhece, Senhor
Doutor Cubas? disse ele.
– Não me lembra...
– Sou o Borba, o Quincas Borba.
Recuei espantado... Quem me dera agora
o verbo solene de um Bossuet ou de Vieira, para contar tamanha
desolação!
Era o Quincas Borba, o gracioso menino
de outro tempo, o meu companheiro de colégio, tão inteligente e
abastado. O
Quincas Borba! Não; impossível; não
pode ser. Não podia acabar de crer que essa figura esquálida, essa
barba pintada de branco, esse maltrapilho avelhentado, que toda essa
ruína fosse o Quincas Borba. E era. Os olhos tinham um resto da
expressão de outro tempo, e o sorriso não perdera certo ar
escarninho, que lhe era peculiar. Entretanto, ele suportava com
firmeza o meu espanto. No fim de algum tempo arredei os olhos; se a
figura repelia, a comparação acabrunhava.
– Não é preciso contar-lhe nada,
disse ele enfim; o senhor adivinha tudo. Uma via de misérias, de
atribulações e de lutas. Lembra-se das nossas festas, em que eu
figurava de rei? Que trambolhão! Acabo mendigo...
E alçando a mão direita e os ombros,
com um ar de indiferença, parecia resignado aos golpes da fortuna, e
não sei até se contente. Talvez contente. Com certeza, impassível.
Não havia nele a resignação cristã, nem a conformidade
filosófica.
Parece que a miséria lhe calejara a
alma, a ponto de lhe tirar a sensação da lama. Arrastava os
andrajos, como outrora a púrpura: com certa graça indolente.
– Procure-me, disse eu, poderei
arranjar-lhe alguma coisa.
Um sorriso magnífico lhe abriu os
lábios. – Não é o primeiro que me promete alguma coisa, replicou,
e não sei se será o último que não me fará nada. E para quê? Eu
nada peço, a não ser dinheiro; dinheiro sim, porque é necessário
comer, e as casas de pasto não fiam. Nem as quitandeiras. Uma coisa
de nada, uns dois vinténs de angu, nem isso fiam as malditas
quitandeiras... Um inferno, meu... ia dizer meu amigo... Um inferno!
o diabo! todos os diabos! Olhe, ainda hoje não almocei.
– Não?
– Não; sai muito cedo de casa. Sabe
onde moro? No terceiro degrau das escadas de São Francisco, à
esquerda de quem sobe; não precisa bater na porta. Casa fresca,
extremamente fresca. Pois saí cedo, e ainda não comi...
Tirei a carteira, escolhi uma nota de
cinco mil-réis, – a menos limpa, – e dei-lha. Ele recebeu-ma com
os olhos cintilantes de cobiça. Levantou a nota ao ar, e agitou-a
entusiasmado.
– In hoc signo vinces!
bradou.
E depois beijou-a, com muitos ademanes
de ternura, e tão ruidosa expansão, que me produziu um sentimento
misto de nojo e lástima. Ele, que era arguto, entendeu-me; ficou
sério, grotescamente sério, e pediu-me desculpa da alegria, dizendo
que era alegria de pobre que não via, desde muitos anos, uma nota de
cinco mil-réis.
– Pois está em suas mãos ver
outras muitas, disse eu.
– Sim? acudiu ele, dando um bote
para mim.
– Trabalhando, conclui eu.
Fez um gesto de desdém; calou-se
alguns instantes; depois disse-me positivamente que não queria
trabalhar. Eu estava enjoado dessa abjeção tão cômica e tão
triste, e preparei-me para sair.
– Não vá sem eu lhe ensinar a
minha filosofia da miséria, disse ele, escarranchando-se diante de
mim.
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas
Supersede
O acadêmico, ilustre, que me
distingue com sua intimidade, estava apreensivo. Interpelei-o:
— Que que há, mestre? Em dia tão
fausto para a Academia, o senhor com esta cara!
— Fausto? Tens certeza? Deus te
ouça, meu filho. Mas tenho cá as minhas nuvens.
— Nuvens?
— Os meus receios.
— Vamos ver se adivinho. Acha que a
supersede… não vai dar renda compensadora?
— Vai dar, e fantástica.
— Tem medo, talvez, de que a
construção, assim gigantesca, não seja bastante segura.
— Aquilo? Aquilo é obra para
séculos.
— Então não entendo. A Academia
assina contrato para levantar um senhor edifício, as firmas
contratantes são as mais idôneas, o imóvel encherá de dinheiro a
instituição, que tem ótimo executivo, e o mestre me sai com esse
ar de quem não comeu e não gostou?
— Por isso mesmo. É bondade demais,
Carlos. Uma coisa assim não existe.
— Não existe, como? Tem terreno de
três mil e quinhentos metros quadrados, oferecido pelo marechal
Castelo Branco e doado pelo Congresso Nacional, tem financiamento no
valor de quinze milhões de dólares, tem projeto bacana de Maurício
Roberto, o contrato será firmado hoje, e vai me dizer que isso não
existe?
— Existe em demasia, o que é
maneira de não existir, de virar conto de Onássis e perturbar a
cabeça da gente.
— Desculpe, mestre, mas o senhor não
estará cultivando complexo de franciscano?
— Não me compreendes, estou vendo.
Não é de admirar. A faculdade de compreensão vai minguando à
medida que se expandem os meios de comunicação. És um, entre
milhões, a prová-lo.
— Perdão, eu…
— Cala e escuta. A Academia atrai ou
não atrai os homens e até as mulheres de letras?
— Realmente.
— E que é a Academia? O fardão, o
espadim, o colar, a poltrona azul e ouro, a cajuada, o jeton que não
dá para pagar a despesa de viver durante um mês, a sepultura e,
principalmente, se não laboro em erro, e se não mentiu Machado, “a
glória que fica, eleva, honra e consola”. Se com apenas isso, que
não é muito, ela se faz tão cobiçada, imagina como vai ser daqui
por diante, com o seu império imobiliário.
— Ora!
— É o que te digo. Todo mundo, mas
todo mundo mesmo, querendo participar do condomínio de quarenta
andares, da renda dos escritórios e dos seis andares de garagem.
Noite e dia, gente de olho no reumatismo, no colesterol, no diabete
da gente… É sinistro.
— Não ligue. Faça figa.
— Eu faço, mas adianta? E os
despachos em sentido adverso? A descaridade dos que desejarão a
minha vaga, sinônimo de minha morte? Cada sorriso, um punhal; cada
blandícia, um pavê envenenado. É o que iremos lucrar, entrando na
área da grande empresa.
— Com a renda, ouço dizer, se
custearão empreendimentos culturais.
— Sobre as nossas campas, abertas
antes da hora. E imaginas que iremos produzir mais, com a burra cheia
de pecúnia? Nosso tempo será todo absorvido com pedidos de empenho
para alugar a melhor loja, o escritório de vista mais panorâmica.
Nossas letras serão de preferência as imobiliárias, de câmbio e
do Tesouro. Manteremos um plantão na Bolsa de Valores. Outro no BNH.
Cibulares e Marcelo serão nossos assessores para a avaliação das
obras, perdão, dos títulos dos candidatos à imortalidade. E as
leis fiscais, os problemas de Imposto de Renda e quejandos não nos
deixarão dormir, quanto mais escrever ensaios ou rapsódias.
— Mestre…
— Em quê? Em investimentos? Em
construção civil? Em juros? Não sou mestre de coisíssima alguma,
sou um condenado à riqueza, uma vítima da prosperidade. O Athayde
vai se ver comigo na próxima sessão! O diabo é que não consigo
brigar com ele. Ninguém consegue. Leva a gente na conversa, no
aveludado. E acabará me nomeando administrador do superedifício,
presta atenção no que eu estou falando!
Disse, e vestiu-se com esmero para a
solenidade de assinatura do contrato.
Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica
26/06/2026
Lugarzinho
Eu conheço UM lugarzinho...
Quantas vezes você já não ouviu
esta frase? Dita por pessoas que conhecem todos os lugares óbvios
que você também conhece mas conhecem um que você não pode
conhecer, porque ninguém conhece, só elas? O curioso é que é
sempre um lugarzinho, nunca é um lugar grande ou apenas um lugar. Há
pessoas que ostentam lugarzinhos como outras ostentam riqueza.
Especializam-se em lugarzinho, têm a volúpia do lugarzinho, só
para poderem nos impressionar depois.
Nem sempre a frase é dita com a
intenção de humilhar quem talvez tenha passado pelo lugarzinho —
o barzinho, o restaurantezinho, o hotelzinho, a cidadezinha, às
vezes até o paizinho — sem se dar conta.
— Vai dizer que você esteve em
Luxemburgo e não visitou Luxemburguette, o único país do mundo que
é só uma esquina?!
Pode haver o sincero desejo de
compartilhar uma descoberta. Devo muitos prazeres a indicações de
amigos de lugarzinhos que não estão nos guias e nos caminhos
normalmente percorridos, como o restaurante L’Hangar, em Paris,
impossível de ser localizado por acaso, já que fica num “impasse”,
uma rua que não leva a lugar nenhum. O Hangar, segundo o informante,
pertence ao filho da escritora Marguerite Duras, que (uma
característica de quem conhece lugarzinhos é conhecer também as
fofocas exclusivas dos lugarzinhos) não se dá com a mãe. Fica no
“impasse” Berthaud, que sai da avenida Beaubourg, bem perto do
Centre Pompidou, também chamado de o mausoléu do Robocop. Não
importa o que você pedir como prato principal no Hangar, não deixe
de pedir, como sobremesa, o demi-cuit, uma espécie de pudim de
chocolate cujo segredo do sucesso é vir para a mesa segundos antes
de ficar pronto.
Coisas de lugarzinhos.
O melhor de conhecer lugarzinhos, no
entanto, é poder dar inveja a quem não os conhece. Eu mesmo já
descobri a minha cota de lugarzinhos e os ostento sem misericórdia.
Vai dizer que você já andou pela região do Périgord, na França,
e não foi a Collonge-la-rouge, uma cidadezinha medieval toda da
mesma cor vermelha? Pobre de você. Quando for, coma omelettes com
trufas negras no Relais Saint-Jacques de Compostelle, que tem este
nome porque Collonge ficava na rota de peregrinação para Santiago
de Compostella, no norte da Espanha. Se quiser, use o meu nome quando
pedir as omelettes. Elas virão perfeitas. É verdade que se não
usar o meu nome elas também estarão perfeitas, pois ninguém saberá
de quem você está falando, mas que diabo.
Há casos em que o lugarzinho não é
nada do que disseram. Casos em que houve mais ficção e desejo de
arrasar você do que verdade na descrição do lugarzinho. Falaram do
ambiente aconchegante e do garçom engraçado mas esqueceram de dizer
que o bife tanto pode ser comido como usado para calçar a mesa. Ou
então a sua experiência simplesmente não reproduz a experiência
de quem indicou o lugarzinho, e naquele hotelzinho rústico tão
elogiado e recomendado lhe botam num quarto já ocupado, por um rato,
e depois ainda cobram a ocupação dupla. E existe o fato inescapável
de que o mesmo lugar pode ser, para alguns, um autêntico lugarzinho,
com todas as conotações de revelação e boas surpresas do termo, e
para outros um lugarzinho no sentido de porcaria.
Uma versão: “Chegamos a esta
cidadezinha maravilhosa que não está nem no mapa e em que nenhuma
casa tinha menos de 400 anos e a Margarida perguntou para um amor de
velhinho ‘dove é il vecê’ e ele não entendia, e chamou toda a
família dele e ninguém entendia, depois juntou toda a cidade e
ninguém entendia, até que veio o prefeito, que sabia inglês, e a
Margarida perguntou ‘where is the vee cee?’ e o prefeito
perguntou ‘What?’ e então a Margarida começou a fazer barulho
de xixi, ‘ssshhh, ssshhh’ e o prefeito perguntou ‘What?’ de
novo, só que baixinho, e aí nós caímos na risada, e a Margarida
riu tanto que só continuou perguntando onde era o banheiro por
farra, porque não precisava mais, foi tão simpático!”
Outra versão: “Chegamos a este
lugar caindo aos pedaços, não sei por que eles gostam tanto de
velharia, e imagina que ninguém sabia o que era WC, a Margarida
apertada tendo que perguntar para um monte de ignorantes que não
falavam língua nenhuma onde era, até que apareceu o manda-chuva,
eles devem eleger o mais ignorante como prefeito, que só complicou
mais as coisas e no fim não adiantava mais, coitada da Margarida.
Mas o que se pode esperar de uma cidade que não está nem no mapa?”
Mortal, no entanto, é quando o
lugarzinho é usado como arma numa competição de vaidades
turísticas.
— Nós fomos jantar no Tour D’Argent
e...
— Não me diga que vocês foram ao
Tour D’Argent e não foram ao Petit Tour.
— O quê?
— O Petit Tour. Um lugarzinho que
nós descobrimos. Fica do lado!
— Nunca ouvi falar.
— Eles não querem muita propaganda.
Cabeça a minha. Devia ter avisado vocês...
— É bom?
— Está brincando? É onde os
cozinheiros do Tour D’Argent vão comer, depois de enganarem os
turistas.
Claro que o Petit Tour não existe.
Pelo menos, não que eu saiba. Mas para quem usa o lugarzinho como
arma, o efeito é mais importante do que a verdade.
A coisa às vezes chega ao exagero.
— O Louvre é espetacular, não é?
— É. Mas ao lado do Louvre tem UM
museuzinho...
O que pode deixar o outro com a
incômoda suspeita de que viu a Mona Lisa errada.
O lugarzinho tem que ser, antes de
mais nada, desconhecido, ou só conhecido por uma minoria
privilegiada, ou — para ser um lugarzinho ainda mais lugarzinho —
só conhecido por uma minoria do lugar. Seu charme não pode ser
intencional. Isto é, o lugarzinho não pode saber que tem charme,
senão não é mais lugarzinho. E como os meteoritos, que só são
detectados no céu quando se desintegram, os lugarzinhos só são
descobertos pouco antes de deixarem de ser, pois a própria
descoberta determina a perda das credenciais de lugarzinho. Se alguém
o recomendou a você, e você, claro, não vai perder a oportunidade
de também poder dizer “Eu conheço UM lugarzinho...” a outros,
não demorará muito antes que o lugarzinho passe a ser frequentado
só por pessoas atrás de lugarzinhos. Perderá toda a
espontaneidade. Os preços aumentarão e é possível que o próprio
lugar também aumente, perdendo o direito ao diminutivo. Se o encanto
do lugarzinho era o menu escrito a giz num quadro-negro, e errado, na
sua visita seguinte você descobrirá que eles estão errando a
grafia dos pratos de propósito e em pouco tempo estarão vendendo
pôsteres com “o nosso famoso menu mal escrito”. E é
fácil prever o que acontecerá depois. Você dirá para alguém,
convencido de que está abafando:
— Eu conheço UM lugarzinho...
E ouvirá:
— Não, não. Esse eu conheço. Não
dá mais para ir lá. Agora, do lado dele tem UM lugarzinho…
Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora
Sobre escrever
Às vezes tenho a impressão de que
escrevo por simples curiosidade intensa. É que, ao escrever, eu me
dou as mais inesperadas surpresas. É na hora de escrever que muitas
vezes fico consciente das coisas, das quais, sendo inconsciente, eu
antes não sabia que sabia.
Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida
Factótum
14
Meu pai chegou com os trinta dólares
à noite. Ao sairmos, os olhos dele estavam marejados.
— Você arruinou os seus pais —
disse. Parece que eles conheciam um dos policiais que lhe perguntou:
“Sr. Chinaski, o que seu filho está fazendo aqui?”.
— Eu fiquei tão envergonhado. Nunca
poderia imaginar o meu próprio filho preso.
Fomos até o carro dele e entramos.
Ele arrancou. Ainda estava chorando.
— Já é ruim o suficiente você não
querer servir o próprio país na guerra…
— O psicólogo disse que eu era
inadequado.
— Meu filho, se não fosse pela
Primeira Guerra Mundial, eu nunca teria conhecido sua mãe e você
nunca teria nascido.
— Tem cigarro?
— Agora você foi preso. Uma coisa
dessas poderia matar sua mãe.
Passamos por alguns bares baratos na
baixa Broadway.
— Vamos entrar e beber alguma coisa.
— O quê? Você quer dizer que teria
coragem de beber logo depois de sair da cadeia por embriaguez?
— É justamente quando mais se
precisa de uma bebida.
— Não ouse contar para sua mãe que
você queria beber logo depois de sair da cadeia — ele me alertou.
— Preciso dar umazinha também.
— Quê?
— Eu disse que também preciso dar
umazinha.
Ele quase passou o sinal vermelho.
Seguimos em silêncio.
— A propósito — disse ele, enfim
—, acho que você sabe que a multa da prisão será adicionada ao
seu quarto, comida e roupa lavada, né?
Charles Bukowski, em Factótum
Angústia
[…]
Se pudesse, abandonaria tudo e
recomeçaria as minhas viagens. Esta vida monótona, agarrada à
banca das nove horas ao meio-dia e das duas às cinco, é estúpida.
Vida de sururu. Estúpida. Quando a repartição se fecha, arrasto-me
até o relógio oficial, meto-me no primeiro bonde de Ponta-da-Terra.
Que estará fazendo Marina? Procuro
afastar de mim essa criatura. Uma viagem, embriaguez, suicídio...
Penso no meu cadáver, magríssimo,
com os dentes arreganhados, os olhos como duas jabuticabas sem casca,
os dedos pretos do cigarro cruzados no peito fundo.
Os conhecidos dirão que eu era um bom
tipo e conduzirão para o cemitério, num caixão barato, a minha
carcaça meio bichada. Enquanto pegarem e soltarem as alças,
revezando-se no mister piedoso e cacete de carregar defunto pobre,
procurarão saber quem será o meu substituto na diretoria da
fazenda.
Enxoto as imagens lúgubres. Vão e
voltam, sem vergonha, e com elas a lembrança de Julião Tavares.
Intolerável. Esforço-me por desviar o pensamento dessas coisas. Não
sou um rato, não quero ser um rato. Tento distrair-me olhando a rua.
À medida que o carro se afasta do
centro sinto que me vou desanuviando. Tenho a sensação de que viajo
para muito longe e não voltarei nunca. Do lado esquerdo são as
casas da gente rica, dos homens que me amedrontam, das mulheres que
usam peles de contos de réis. Diante delas, Marina é uma ratuína.
Do lado direito, navios. Às vezes há diversos ancorados. Rolam
bondes para a cidade, que está invisível, lá em cima, distante.
Vida de sururu.
Há quinze anos era diferente. O
barulho dos bondes não deixava a gente ouvir o sino da igreja. O meu
quarto, no primeiro andar, era um inferno de calor. Por isso, à hora
em que os outros hóspedes iam para a escola, estudar medicina, eu
dava um salto ao Passeio Público e lia, debaixo das árvores, o
noticiário da polícia. Naturalmente a pensão se fechou e d.
Aurora, que naquele tempo era velha, morreu.
O calor aqui também é grande demais.
E faltam plantas. Apenas, um pouco afastados, coqueiros macambúzios,
perfilados, como se esperassem ordens.
Cidade grande, falta de trabalho. O
meu quarto ficava junto à escada, e à noite o cheiro do gás era
insuportável. Quando escurecia, Dagoberto, estudante e repórter,
vinha despejar sobre a minha cama um compêndio de anatomia e uma
cesta de ossos.
O bonde chega ao fim da linha, volta.
Bairro miserável, casas de palha, crianças doentes. Barcos de
pescadores, as chaminés dos navios, longe.
D. Aurora, que tinha sobrenome inglês,
às seis horas encostava-se ao guarda-louça e rosnava, agitava os
caracóis brancos, pregava os óculos nos hóspedes que comiam demais
e nos que estavam em atraso. Havia um rapaz de Minas, dispéptico,
que ela adorava e queria casar com a neta. Enquanto os outros
mastigavam, Dagoberto esquecia o prato e falava sobre os discursos da
câmara.
Retorno à cidade. Os globos opalinos
do Aterro iluminam o gramado murcho e a praia branca. Os coqueiros
empertigados ficam para trás. Penso numa ditadura militar, em
paradas, em disciplina. Os navios também ficam para trás. A pensão,
o meu quarto abafado, o focinho de d. Aurora e a cesta de ossos de
Dagoberto somem-se.
O carro passa pelos fundos do tesouro.
É ali que trabalho. Ocupação estúpida e quinhentos mil-réis
de ordenado.
Rua do Comércio. Lá estão os grupos
que me desgostam. Conto as pessoas conhecidas: quase sempre até os
Martírios encontro umas vinte. Distraio-me, esqueço Marina, que
algumas ruas apenas separam de mim. Afasto-me outra vez da realidade,
mas agora não vejo os navios, a recordação da cidade grande
desapareceu completamente. O bonde roda para oeste, dirige-se ao
interior. Tenho a impressão de que ele me vai levar ao meu município
sertanejo. E nem percebo os casebres miseráveis que trepam o morro,
à direita, os palacetes que têm os pés na lama, junto ao mangue, à
esquerda. Quanto mais me aproximo de Bebedouro mais remoço. Marina,
Julião Tavares, as apoquentações que tenho experimentado estes
últimos tempos, nunca existiram.
Volto a ser criança, revejo a figura
de meu avô, Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva, que
alcancei velhíssimo. Os negócios na fazenda andavam mal. E meu pai,
reduzido a Camilo Pereira da Silva, ficava dias inteiros manzanzando
numa rede armada nos esteios do copiar, cortando palha de milho para
cigarros, lendo o Carlos Magno, sonhando com a vitória do partido
que padre Inácio chefiava. Dez ou doze reses, arrepiadas no
carrapato e na varejeira, envergavam o espinhaço e comiam o
mandacaru que Amaro vaqueiro cortava nos cestos. O cupim devorava os
mourões do curral e as linhas da casa. No chiqueiro alguns bichos
bodejavam. Um carro de bois apodrecia debaixo das catingueiras sem
folhas. Tinham amarrado no pescoço da cachorra Moqueca um rosário
de sabugos de milho queimados. Quitéria, na cozinha, mexia em
cumbucos cheios de miudezas, escondia peles de fumo no caritó.
Eu andava no pátio, arrastando um
chocalho, brincando de boi. Minha avó, sinha Germana, passava os
dias falando só, xingando as escravas, que não existiam. Trajano
Pereira de Aquino Cavalcante e Silva tomava pileques tremendos. Às
vezes subia à vila, descomposto, um camisão vermelho por cima da
ceroula de algodão encaroçado, chapéu de ouricuri, alpercatas e
varapau. Nos dias santos, de volta da igreja, mestre Domingos, que
havia sido escravo dele e agora possuía venda sortida, encontrava o
antigo senhor escorado no balcão de Teotoninho Sabiá, bebendo
cachaça e jogando três-setes com os soldados. O preto era um
sujeito perfeitamente respeitável. Em horas de solenidade usava
sobrecasaca de chita, correntão de ouro atravessado de um bolso a
outro do colete, chinelos de trança, por causa dos calos, que não
aguentavam sapatos. Por baixo do chapéu duro, a testa retinta, úmida
de suor, brilhava como um espelho. Pois, apesar de tantas vantagens,
mestre Domingos, quando via meu avô naquela desordem, dava-lhe o
braço, levava-o para casa, curava-lhe a bebedeira com amoníaco.
Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva vomitava na sobrecasaca
de mestre Domingos e gritava:
— Negro, tu não respeitas teu
senhor não, negro!
Quando o carro para, essas sombras
antigas desaparecem de supetão — e vejo coisas que não me excitam
nenhum interesse: os focos da iluminação pública, espaçados,
cochilando, piongos, tão piongos como luzes de cemitério; um
palácio transformado em albergue de vagabundos; escuridões,
capoeiras, barreiras cortadas a pique no monte; a frontaria de uma
fábrica de tecidos; e, de longe em longe, através de ramagens,
pedaços de mangue, cinzentos. À medida que nos aproximamos do fim
da linha as paradas são menos frequentes. Os postes cintados de
branco passam correndo, o carro está quase vazio, as recordações
da minha infância precipitam-se. E a decadência de Trajano Pereira
de Aquino Cavalcante e Silva precipita-se também.
Estava pegando um século quando
entrou a caducar. Encolhido na cama de couro cru, mijava-se todo,
contava os dedos dos pés e caía na madorna. De repente acordava
sobressaltado:
— Sinha Germana!
Meu pai largava o Carlos Magno, abria
o tabaqueiro, deixava a rede, impaciente:
— Que é que há?
— Homem, você não me dirá onde
está sua mãe? Aqui mais de uma hora chamando essa mulher!
— Morreu.
— Que está me dizendo? estranhava o
velho arregalando os olhos quase cegos. Quando foi isso?
Camilo Pereira da Silva amolava-se:
— Deixe de arrelia. Morreu o ano
passado.
— Tanto tempo! dizia Trajano. E
vocês calados...
Punha-se a folgar com os dedos e
pegava no sono. Quinze minutos depois estava berrando:
— Sinha Germana!
Acabou-se numa agonia leve que não
queria ter fim. E enterrou-se na catacumba desmantelada que nossa
família tinha no cemitério da vila. Mestre Domingos pegou na alça
do caixão e declarou a meu pai que a morte é um mundéu. Fomos
morar na vila. Meteram-me na escola de seu Antônio Justino, para
desasnar, pois, como disse Camilo quando me apresentou ao mestre, eu
era um cavalo de dez anos e não conhecia a mão direita. Aprendi
leitura, o catecismo, a conjugação dos verbos. O professor dormia
durante as lições. E a gente bocejava olhando as paredes, esperando
que uma réstia chegasse ao risco de lápis que marcava duas horas.
Saíamos em algazarra. Eu ia jogar pião, sozinho, ou empinar
papagaio. Sempre brinquei só.
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Graciliano Ramos, em Angústia
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