sexta-feira, 20 de março de 2026

António Zambujo | Regresso à Infância

 

A rua dos cataventos – I

Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!... E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!

Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...

Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...

Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando!

Mário Quintana, em A rua dos cataventos

O impagável Quino

Capítulo 42 – Que Escapou a Aristóteles

Outra coisa que também me parece metafísica é isto: – Dá-se movimento a uma bola, por exemplo; rola esta, encontra outra bola, transmite-lhe o impulso, e eis a segunda bola a rolar como a primeira rolou. Suponhamos que a primeira bola se chama... Marcela, – é uma simples suposição; a segunda, Brás Cubas; – a terceira, Virgília. Temos que Marcela, recebendo um piparote do passado rolou até tocar em Brás Cubas, – o qual, cedendo à força impulsiva, entrou a rolar também até esbarrar em Virgília, que não tinha nada com a primeira bola; e eis aí como, pela simples transmissão de uma força, se tocam os extremos sociais, e se estabelece uma coisa que poderemos chamar – solidariedade do aborrecimento humano. Como é que este capítulo escapou a Aristóteles?

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

21 de fevereiro

Não quero mais a fúria da verdade. Entro na sapataria popular.
Chove por detrás. Gatos amarelos circulando no fundo.
Abomino Baudelaire querido, mas procuro na vitrina um modelo brutal. Fica boazinha, dor; sábia como deve ser, não tão generosa, não. Recebe o afeto que se encerra no meu peito. Me calço decidida onde os gatos fazem que me amam, juvenis, reais. Antes eu era 36, gata borralheira, pé ante pé, pequeno polegar, pagar na caixa, receber na frente. Minha dor. Me dá a mão. Vem por aqui, longe deles. Escuta querida, escuta. A marcha desta noite. Se debruça sobre os anos neste pulso. Belo belo. Tenho tudo que fere. As alemãs marchando que nem homem.
As cenas mais belas do romance o autor não soube comentar. Não me deixa agora, fera.

Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés

Uma história de tanto amor



Era uma vez uma menina que observava tanto as galinhas que lhes conhecia a alma e os anseios íntimos. A galinha é ansiosa, enquanto o galo tem angústia quase humana: falta-lhe um amor verdadeiro naquele seu harém, e ainda mais tem que vigiar a noite toda para não perder a primeira das mais longínquas claridades e cantar o mais sonoro possível. É o seu dever e a sua arte. Voltando às galinhas, a menina possuía duas só dela. Uma se chamava Pedrina e a outra Petronilha.
Quando a menina achava que uma delas estava doente do fígado, ela cheirava embaixo das asas delas, com uma simplicidade de enfermeira, o que considerava ser o sintoma máximo de doenças, pois o cheiro de galinha viva não é de se brincar. Então pedia um remédio a uma tia. E a tia: “Você não tem coisa nenhuma no fígado.” Então, com a intimidade que tinha com essa tia eleita, explicou-lhe para quem era o remédio. A menina achou de bom alvitre dá-lo tanto a Pedrina quanto a Petronilha para evitar contágios misteriosos. Era quase inútil dar o remédio porque Pedrina e Petronilha continuavam a passar o dia ciscando o chão e comendo porcarias que faziam mal ao fígado. E o cheiro debaixo das asas era aquela morrinha mesmo. Não lhe ocorreu dar um desodorante porque nas Minas Gerais onde o grupo vivia não eram usados assim como não se usavam roupas íntimas de nylon e sim de cambraia. A tia continuava a lhe dar o remédio, um líquido escuro que a menina desconfiava ser água com uns pingos de café – e vinha o inferno de tentar abrir o bico das galinhas para administrar-lhes o que as curaria de serem galinhas. A menina ainda não tinha entendido que os homens não podem ser curados de serem homens e as galinhas de serem galinhas: tanto o homem como a galinha têm misérias e grandeza (a da galinha é a de pôr um ovo branco de forma perfeita) inerentes à própria espécie. A menina morava no campo e não havia farmácia perto para ela consultar.
Outro inferno de dificuldade era quando a menina achava Pedrina e Petronilha magras debaixo das penas arrepiadas, apesar de comerem o dia inteiro. A menina não entendera que engordá-las seria apressar-lhes um destino na mesa. E recomeçava o trabalho mais difícil: o de abrir-lhes o bico. A menina tornou-se grande conhecedora intuitiva de galinhas naquele imenso quintal das Minas Gerais. E quando cresceu ficou surpresa ao saber que na gíria o termo galinha tinha outra acepção. Sem notar a seriedade cômica que a coisa toda tomava:
Mas é o galo, que é um nervoso, é quem quer! Elas não fazem nada demais! e é tão rápido que mal se vê! O galo é quem fica procurando amar uma e não consegue!
Um dia a família resolveu levar a menina para passar o dia na casa de um parente, bem longe de casa. E quando voltou, já não existia aquela que em vida fora Petronilha. Sua tia informou-lhe:
Nós comemos Petronilha.
A menina era criatura de grande capacidade de amar: uma galinha não corresponde ao amor que se lhe dá e no entanto a menina continuava a amá-la sem esperar reciprocidade. Quando soube o que acontecera com Petronilha passou a odiar todo o mundo da casa, menos sua mãe que não gostava de comer galinha e os empregados que comeram carne de vaca ou de boi. O seu pai, então, ela mal conseguiu olhar: era ele quem mais gostava de comer galinha. Sua mãe percebeu tudo e explicou-lhe.
Quando a gente come bichos, os bichos ficam mais parecidos com a gente, estando assim dentro de nós. Daqui de casa só nós duas é que não temos Petronilha dentro de nós. É uma pena.
Pedrina, secretamente a preferida da menina, morreu de morte morrida mesmo, pois sempre fora um ente frágil. A menina, ao ver Pedrina tremendo num quintal ardente de sol, embrulhou-a num pano escuro e depois de bem embrulhadinha botou-a em cima daqueles grandes fogões de tijolos das fazendas das minas gerais. Todos lhe avisaram que estava apressando a morte de Pedrina, mas a menina era obstinada e pôs mesmo Pedrina toda enrolada em cima dos tijolos quentes. Quando na manhã seguinte Pedrina amanheceu dura de tão morta, a menina só então, entre lágrimas intermináveis, se convenceu de que apressara a morte do ser querido.
Um pouco maiorzinha, a menina teve uma galinha chamada Eponina.
O amor por Eponina: dessa vez era um amor mais realista e não romântico; era o amor de quem já sofreu por amor. E quando chegou a vez de Eponina ser comida, a menina não apenas soube como achou que era o destino fatal de quem nascia galinha. As galinhas pareciam ter uma presciência do próprio destino e não aprendiam a amar os donos nem o galo. Uma galinha é sozinha no mundo.


Mas a menina não esquecera o que sua mãe dissera a respeito de comer bichos amados: comeu Eponina mais do que todo o resto da família, comeu sem fome, mas com um prazer quase físico porque sabia agora que assim Eponina se incorporaria nela e se tornaria mais sua do que em vida. Tinham feito Eponina ao molho pardo. De modo que a menina, num ritual pagão que lhe foi transmitido de corpo a corpo através dos séculos, comeu-lhe a carne e bebeu-lhe o sangue. Nessa refeição tinha ciúmes de quem também comia Eponina. A menina era um ser feito para amar até que se tornou moça e havia os homens.

Clarice Lispector, em Todos os contos

quinta-feira, 19 de março de 2026

Salomão Soares & Vanessa Moreno | Drão

O homem e a cidade

Agora, que não preciso mais ir à cidade todo dia, descubro um prazer novo em andar por essas velhas ruas do centro onde tanto vaguei outrora.
E pego um estranho dia de verão: há um alto nevoeiro aéreo sob o céu azul, mas o vento espanta alegremente as nuvens esgotadas de chover; o ar é fino, a luz é clara, a manhã é assanhada, com uma alegria de convalescente que pela primeira vez, depois de longa doença, sai a passear entre as árvores, o mar e as montanhas azuis.
Parece que estamos em maio ou setembro, num desses dias cambiantes e leves em que as folhas têm um brilho mais feliz. E sinto prazer em andar pela calçada larga da Rua do Passeio, em espiar as grandes vitrinas coloridas de presentes de Natal. (Não quero comprar nada, não preciso ganhar mais nada, não é verdade que recebi na minha porta a graça juvenil de uma rosa amarela?)
A calçada está cheia de gente, e é doce a gente se deixar ir andando à toa. Na Rua Senador Dantas vejo livros, camisas, aparelhos elétricos, discos, fuzis submarinos, gravatas; e os cartazes dizem que tudo é muito barato e fácil de comprar, os cartazes me fazem ofertas especiais para levar agora e só começar a pagar em fevereiro... Muito obrigado, muito obrigado, mas não preciso de nada. Entretanto, gosto de ver essa fartura de coisas: fico parado numa porta de mercearia contemplando reluzentes goiabadas e frascos de vinho, bebidas e gulodices de toda a espécie que vieram de terras longes se oferecerem a mim.
Mas de repente houve alguma coisa — a visão de um muro, o som de uma vitrola distante, algum rosto no meio da multidão? —, alguma coisa que me devolveu ao meu ser antigo. Sou um rapaz magro nesta mesma rua, sou o verdadeiro estudante de 1929 e talvez cruze numa esquina, sem conhecê-la ainda, aquela que há de ser a minha amada, e tire do bolso a minha carteirinha da Faculdade para ter direito ao abatimento no cinema. Mas logo, por um instante, sou o homem dramático e silencioso de 1938, e caminho carregado de angústia por essa calçada que, entretanto, é a mesma de hoje — há o vento palpitando nos vestidos coloridos de mulheres finas que sorriem com dentes muito brancos entre os lábios úmidos. E vou andando, tomo um café, sinto uma grande ternura pela cidade grande onde outrora te amei tanto, tanto, oh! para sempre perdida Lenora.
Lenora... E me dá uma humildade entre o povo, completo o dinheiro da entrada de um menino que quer ir ao cinema, espero um bonde, ajudo uma senhora gorda a subir com seu embrulho, ela agradece e sorri, é cinquentona e pobre, mas seu sorriso é bom, ela e eu somos cidadãos da mesma cidade e antes de saltar ela me desejará boas-entradas. Vem o condutor, tem cara de alemão e é gordo, mas ágil e paciente, todos pagam sua passagem na boa ordem civil e cordial. Um homem conduz uma gaiola dentro do bonde, todos querem ver o passarinho — é um pintassilgo, diz ele.
Quieto, vou repetindo sem voz, para mim mesmo, teu nome, Lenora — perdida, para sempre perdida, mas tão viva, tão linda, batendo os saltos na calçada, andando de cabelos ao vento dentro da minha cidade e de minha saudade, Lenora.
Rio, janeiro, 1960.

Rubem Braga, em Ai de ti, Copacabana

Da infinita solidão

Mas só Deus — que é único, que não tem par — poderia dizer o que é a solidão.

Mário Quintana, em Caderno H

Millôr: sempre atual

Diário de Bernardo Soares | 98.

Acordei hoje muito cedo, num repente embrulhado, e ergui-me logo da cama, sob o estrangulamento de um tédio incompreensível. Nenhum sonho o havia causado; nenhuma realidade o poderia ter feito. Era um tédio absoluto e completo, mas fundado em qualquer coisa. No fundo obscuro da minha alma, invisíveis, forças desconhecidas travavam uma batalha em que o meu ser era o solo, e todo eu tremia do embate incógnito. Uma náusea física da vida inteira nasceu com o meu despertar. Um horror a ter que viver ergueu-se comigo da cama. Tudo me pareceu oco e tive a impressão fria de que não há solução para problema algum.
Uma inquietação enorme fazia-me estremecer os gestos mínimos. Tive receio de endoidecer, não de loucura, mas de ali mesmo. O meu corpo era um grito latente. O meu coração batia como se falasse.
Com passos largos e falsos, que em vão procurara tornar outros, percorri, descalço, o comprimento pequeno do quarto, e a diagonal vazia do quarto interior, que tem a porta ao canto para o corredor da casa. Com movimentos incoerentes e imprecisos, toquei nas escovas em cima da cómoda, desloquei uma cadeira, e uma vez bati com a mão movida em baloiço o ferro acre dos pés da cama inglesa. Acendi um cigarro, que fumei por subconsciência, e só quando vi que tinha caído cinza sobre a cabeceira da cama — como, se eu não me debruçara ali? — compreendi que estava possesso, ou coisa análoga, em ser quando não em nome, e que a consciência de mim, que eu deveria ter, se tinha intervalado com o abismo.
Recebi o anúncio da manhã, a pouca luz fria que dá um vago azul branco ao horizonte que se revela, como um beijo de gratidão das coisas. Porque essa luz, esse verdadeiro dia, libertava-me, libertava-me não sei de quê, dava-me o braço à velhice incógnita, fazia festas à infância postiça, amparava o repouso mendigo da minha sensibilidade transbordada.
Ah, que manhã é esta, que me desperta para a estupidez da vida, e para a grande ternura dela! Quase que choro, vendo esclarear-se diante de mim, debaixo de mim, a velha rua estreita, e quando os taipais da mercearia da esquina já se revelam castanho sujo na luz que se extravasa um pouco, o meu coração tem um alívio de conto de fadas reais, e começa a conhecer a segurança de se não sentir.
Que manhã esta mágoa! E que sombras se afastam? E que mistérios se deram? Nada: o som do primeiro elétrico como um fósforo que vai iluminar a escuridão da alma, e os passos altos do meu primeiro transeunte que são a realidade concreta a dizer-me, com voz de amigo, que não esteja assim.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

O grande samba disperso



João Policarpo fala, longos ais. Se canta: mau pranto. Perfunctório. Agarrado de angústias. Cuida de: mentiras, saudades, traição, lembrança. 

A situação parou, meu coração se afundou. Ora, a vida. Entestei com grande espanto, artifícios de ilusão. Não desminto desta fé — o que em mim era verdade. Amar, mais, era proibido. Maria das Mercês... Mas ela era mulher, mulher, simpatia mal mostrada. Ela estava junto a mim, não em minha companhia; em suas faces era de noite, em seus olhos era de dia... Promessa feita — amor desfeito. Se abraçou com minhas pernas ao pé-da-cruz. Só as lagriminhas, quase — dessas águas crocodilas. Só a que seu tanto não sofreu, é que ama com falsidades. O que foi, já manhã clara. De um juramento que dei: que o meu perdão eu não dava. Maria’s Mercês da maldade. Não perdi nenhum valor, amor sofrido dobrado. Cumpro minha obrigação de dor, meu senhor. Estou alegre de trono, só choro estas poucas lágrimas. Amanhã vou esquecer, depois então vou saber: saudade é chateação, pensamento com cansaço. Saí de lá com o coração muito bandido. Saí, senhor. Ninguém dê notícias minhas. Eu não posso chegar à razão, de umas tantas criaturas Maria passou pela tarde. Só — o que sei — é cidade e amor; para que fazer caso? Urubu que praguejou, há-de a ver que não me mate. Desculpe franquezas minhas, mas eu estou na liberdade. Guardei paixão? Agora eu estou em outrora, veja, vou compor aquela tristeza. O tremido do meu ser, que é o viver desnorteado. Agora, se vou lá ver. Sozinho é que sei sofrer. Mas, antes, penar constante, que se usar o mal-comprado. Crescer, mercês de saudade. Aqui estou João Policarpo, um servo do senhor, meu senhor. O senhor quem será, sua graça?
Amorearte de Almeida (doutor, não-compositor). — Vejo as muralhas da cidade. Reflito-as: vastas, várias, as ondas indivíduas, miríades demais. Tenho nos meus ouvidos este sinapismo de sons. O povo popular, a rua estrábica, a pânica floresta, um frondoso gemer, um tudo chão, denso como um bambual, as enfeitiçagens, a preparação do prazer, o paraforamento; luzes, numa remotidão de estrelas; e sempre a noite, antiquíssima — nigrícia. Desesperem-se-me os fatos. O círculo do amor, tão repetido: esta é a água de fontes amargas. O silêncio é moralmente incompleto. Enquanto o tempo não parar de cair, não teremos equilíbrio. Vou ao vento, para meu assento. Vou? Eu ouço. Ou não ou? Mas sou teu irmão. Muito prazer.

Policarpo (sério). — Agradecido.
João do Colégio (vem, recitando sozinho). — Desde que choveu, minha Mãe, doeu muito esta cidade...
Amorearte. — E você quem é, trôpego efebo?
Do Colégio. — Sou só o irmão da Mercês, ela me mandou com um recado. Saber se já pode voltar...
Policarpo. — Nunca nunca!
Amorearte. — Num canunca está você — canunca infausto.
Policarpo. — Sou homem. Sei o que não quero...
Amorearte. — Sabe-se a quantas? Sabe quem você-mesmo é, você se entende, o que quer? Você quererá é: medula, banzo, descordo para desenfastiar, zabumba, gemidão de urso, palavras de doce escárnio, horas de inteira terra; meia-noite sem relógio, dispersão de outras mágoas, ver a vida em grandes grãos, morder o dia, encher a noite; ser o alegre alguém, nas operações de mudar de amor, fauno feito; chorar barrigudamente, um grito próprio para a alma ouvir, entremeio aos romances; dar suas proclamações de dor, de dor de amor de mentira; chorar, de qualquer maneira: eis o problema; tal bruaá... Você diz: o triste de mim... Você, navegador de limo e lodo, por derrota repetida. Você se esbalhou e esbandalhou-se, nos quantos caminhos da cidade, então seu espírito parou as máquinas. Você é um corpo de ressonância. Você está é sufocado de amor, cuja uma paixão ingovernada. Ou você beija, ou mata.
Policarpo. — Eu penso que...
Amorearte. — Cale-se. O pensamento é um fútil pássaro. Toda razão é medíocre. Viver é respirar; pensar já é morrer. Só Deus é dono de todas as simultaneidades. Só há um diálogo verdadeiro: o do silêncio e da voz. Se quer dizer alguma coisa, diga, por exemplo:... Em minha alma se abriu, esta hora, um golfo de Guiné...
Policarpo. — Mas, a ingratidão...
Amorearte. — Isto é o contramotivo. O mugido do vento é um mugido de cobra. Coragem, mais!
O Morenão (não entra, cantando). — Se eu fiz chorar, foi legal...
Amorearte. — E você, quem é, vil hermeneuta? Que é isso?
O Morenão. — O breque. Sou um que foi o homem da Maria das Mercês. Sou mais não. Tudo se acabou tanto, que nem houve. Só foi um engano.
Amorearte (a Policarpo). — Está vendo? Perceba-se, Policarpo!
Policarpo. — Seja o que for, meu senhor. Ela...
Amorearte. — Sempre tem ela. Bela, flor para impurezas, a rara natureza — para você. Mais rara que ela, só a malva amarela, eu sei, eu sei... Seus beiços bugres... Pavã, pavoa. Você queria era ser pedrinha no sapato dela. Mas você gosta dela?
Policarpo. — Não amuo de outra tristeza...
Joaquim Imaculado (passa, cantando). — Mas, afinal, que tenho eu, com peru que outrem comeu?...
Amorearte. — E quem é você, tão recém-chegado? Você vem lá: vejo a tristeza... Agacha-te, escriba!
Joaquim Imaculado. — Serviços, meu senhor. Sou um que ia ser, daqui a muitos anos, o homem da Maria das Mercês. Vou ser mais não. Ia ser só um engano.
Amorearte (a Policarpo). — Está vendo? Concerte-se, Policarpo!
Policarpo. — O bom, para mim, se acabou. Tudo é passado... Me indiguina.
Amorearte. — Mulheres passadas é que movem amores. Tira o sentido disso, Policarpo. Refresca teu coração. Sofre, sofre, depressa, que é para as alegrias novas poderem vir…
Maria das Mercês (chega, chorosa e esplendente). — Triste foi aquele dia, de saudades replantado... Não fui eu que estive em teus braços? No mundo quem te viu, ainda não existiu o outro homem... Sinto no peito, por fora, é o suor? E por dentro, meu amor? De te perder devagar, não sou de me conformar. Debaixo dessa promessa, ai, ai, ai, sem um tiquinho de gratidão, sem uma compreensão, sinto esta separação, que ela só me perambula... Eu quero querer tudo com você, um carinho, um amor, e você está só é aprendendo a amar... Meu amor de enlouquecer, esperar é esta minha agonia... Terá sido um amor que eu perdi?
Policarpo. — Ingrata! Perdemos...
Amorearte. — Alto lá! Basta. Um momento. Seja não, não, sim, sim; mas, vejam bem, se perderam, mesmo. Amor perdido é amor que não foi achado: não-amor. Não o amor-mor, o mor amor. Mas falso amor, algum engano. O falso-amor é um biombo, o mor-amor é um ribombo. Então, se não é, resolvam: e... pirai-vos! — oh grandes entes imorais... Perdido por um, perdido por mil... — como dizem as cachoeiras...
Policarpo. — Ela...
Mercês. — Ele...
Amorearte. — Um momento! Com a natureza humana decaída, eu me entendo. Vocês dois estão quais quiabos no oásis. Se querem dizer alguma coisa, digam, por exemplo: ... Laço foi o que me trouxe. Minha carne viu por meus olhos. Mundo isolado de mim. Bom-grado vou. Amanhã e estrelas. Sinto-me. Quando sinto, minto? Meu teu meu-amor...
Mercês. — ... ai, ai, ai.
Policarpo. — ... ê ê ê, ô ô ô.
Amorearte. — Unissoou. Amor renhido, amor crescido. Cousa grande! Vocês dois são o que-não-sei: o tudo, a... persistência da lua, apesar das cidades. Umbigo — centro, centro, centro. Umbigo — medida ideal. Havei forte amor! O amor não precisa de memória, não arredonda, não floreia: faz forte estilo. E fim.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

quarta-feira, 18 de março de 2026

Cabidela | Seu Pereira e Coletivo 401

Procura da poesia

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
 
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
 
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
 
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
 
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
 
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
 
Repara:
ermas de melodia e conceito,
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

Carlos Drummond de Andrade, em Antologia poética

Segundo capítulo – As Letras do Sonho



Por cima da página, Muidinga espreita o velho. Ele está de olhos fechados, parece dormido. “Fim ao cabo, tenho estado a ler apenas para minhas orelhas”, pensa Muidinga. “Também há já três noites que vou lendo, é natural o cansaço do velho”, condescende Muidinga. Os cadernos de Kindzu se tinham tornado o único acontecer naquele abrigo. Procurar lenha, cozinhar as reservas da mala, carretar água: em tudo o rapaz se apressava. O tempo ele o queria apenas para mergulhar nas misteriosas folhas. O miúdo, em si, se intriga: quem seria o autor dos escritos? O homem de camisa sanguentada, estendido ao lado da mala, seria o tal Kindzu? A voz de Tuahir o surpreende:
Aposto você está pensar nessa porcaria dos cadernos.
Como sabe?
Você, agora, nem faz outra coisa. Já me chateia.
O jovem passa a mão pelo caderno, como se palpasse as letras. Ainda agora ele se admira: afinal, sabia ler? Que outras habilidades poderia fazer e que ainda desconhecia?
Tuahir, não se zanga se lhe chamar de tio...
Que queres, diga lá?
Me conte sobre a minha vida. Quem eu era, antes do senhor me apanhar?
Tio, tio, tio! Essa palavra só me desgosta...
Conte, lhe peço.
Você nem tem estória nenhuma. Lhe apanhei no campo, ganhei pena de lhe ver aranhiçar, com pernas que já nem conheciam andamento...
Mas o senhor me conhecia, sabia quem eu era?
Nada. Você nunca me foi visto. Agora, acabou-se a conversa. Apague a fogueira.
O miúdo desiste de mais pergunta. Por que razão o velho teima em não lhe revelar nenhum passado? Seria verdadeira aquela ignorância dele? Há tempos que os dois estão juntos. O velho lhe dedica paciências, em paternais maternidades. Sem nunca lhe escapar uma ternura. A conversa também é pouca, sem desperdício de palavra. Tuahir volta a insistir para que extinga o fogo. Dentro do carro é um perigo, argumenta. Mas o miúdo resiste, tem medo do escuro. A fogueirinha ajuda a vencer o medo. Ler os escritos do morto é um pretexto para ele não enfrentar a escuridão. A decisão de Tuahir se impõe, reinam as trevas. O respirar dos adormecidos é um ruído que inquieta. Como se neles soasse uma outra alma.
Passado tempo, Muidinga acorda em sobressalto. Uma massa viscosa lhe raspa o rosto, fosse o ventre de uma cobra escorrediça. A medo espreita pela fresta das pálpebras: um monstro lhe lambe a cara. Visto assim, de baixo para o topo, o focinho ganha medonhas dimensões. Aquilo parecia o planeta, todo de chifre. O sol ainda não todo emergira no horizonte. Na obscuridade, Tuahir grita:
Não mexa, miúdo.
Imóvel, o garoto espera. A imagem esbatida se revela então a seus olhos: é um cabrito pastando em seu rosto. O caprino roda a cabeça estudando se o vulto que lambeu é ou não comestível. Tuahir sai do banco e avança, gatinhoso, pé posto em cautela. Se aproxima por trás e dispara um puxado pontapé no animal. Um méééé se amplia pela noite.
Hidjii! Afinal, é um cabrito!
Pensava era o quê?
Pensava era uma hiena. A hiena é que gosta de comer nariz de gente.
O cabrito não vai longe. Sai do autocarro, sacode a cauda. Tuahir enxota o bicho. Em vão.
Vou lá correr com ele, tio.
Vai. Mas não aproveite o caso para me voltar a chamar tio.
Muidinga se ergue. Sai da carcaça do autocarro, pega numa pedra e lança-a sobre o cabrito. O bicho troteia em coices, de casco e caganitas. Mas não se alonja.
Deixa lá. Ele sente falta das pessoas. Eu também começo sentir falta de cabrito. Principalmente aqui no estômago.
Vamos comer o bicho?
Surge ali um novo motivo de briga. Muidinga opõe-se a que o bicho seja morto. O cabrito lhe dá um sentimento de estar em aldeia, longe daquele lugar perdido. No facto, se passava o inacreditável: um bicho lhe trazia de volta o sentimento da família humana. O velho insiste em assar o cabrito: o rapaz deixasse o tempo passar e pensaria mais com a barriga. A fome quando ferra nos faz feras. Muidinga retira uma corda da maleta. Vou amarrar o bicho aqui pertinho, anuncia.
Pertinho não. Deixe ele solto longe, sem corda.
O miúdo entorta o nariz, decidido a desobedecer. Não queria que o animal escapasse. Procura nas redondezas um ramo à altura de receber um nó. Então se admira: aquela árvore, um djambalaueiro, estava ali no dia anterior? Não, não estava. Como podia ter-lhe escapado a presença de tão distinta árvore? E onde estava a palmeira pequena que, na véspera, dava graça aos arredores do machimbombo? Desaparecera! A única árvore que permanecia em seu lugar era o embondeiro, suportando a testa do machimbombo. Seria coisa de crer aquelas mudanças na paisagem? Muidinga hesita em consultar Tuahir. Ele haveria de desdenhar com aquele riso de peixe, a boca à espera de entender a graça. Decerto, lhe acusaria de tontice. Ou ainda pior: lhe lembraria a doença em que se havia exilado não da vida mas da humana meninice. Assim, Muidinga optou por deixar o assunto.
Se despede do cabrito e torneia a árvore de fruta que tanto o intriga. Recolhe um djambalau, examina o negro fruto. O dia já se ergueu, as sombras vão minguando na quentura do chão. O sol, voluminoso, sucessivamente sempre sendo um. Muidinga imagina como será uma aldeia, essas de antigamente, cheiinhas de tonalidades. As colorações que devia haver na vila de Kindzu antes da guerra desbotar as esperanças?! Quando é que cores voltariam a florir, a terra arco-iriscando?
Então ele com um pequeno pau rabisca na poeira do chão: “azul”. Fica a olhar o desenho, com a cabeça inclinada sobre o ombro. Afinal, ele também sabia escrever? Averiguou as mãos quase com medo. Que pessoa estava em si e lhe ia chegando com o tempo? Esse outro gostaria dele? Chamar--se-ia Muidinga? Ou teria outro nome, desses assimilados, de usar em documento?
Mais uma vez contempla a palavra escrita na estrada. Ao lado, volta a escrevinhar. Lhe vem uma outra palavra, sem cuidar na escolha: “luz”. Dá um passo atrás e examina a obra. Então, pensa: “a cor azul tem o nome certo. Porque tem as iguais letras da palavra ‘luz’, fosse o seu feminino às avessas”.
De súbito, lhe chegam sons distantes no tempo, semelhando gritos de meninagem em recreio. O menino estremece: aquela era uma primeira lembrança. Até ali ele não se recordava de ocorrência anterior à enfermidade. Corre em balbúrdias para o autocarro.
Tio, tio! Eu me lembrei de minha escola!
Tuahir sorri, carantonhoso. Faz conta que nem ouve, entretido com nenhuma coisa. O rapaz repete, sacudindo o falso-dito tio.
Me lembrei, juro!
Te lembraste o quê?
Das vozes, da barulheira dos outros meninos.
Escuta uma coisa de vez por todas: nunca houve nenhuns outros meninos, nunca houve nada. Ouviste? Fui eu que te apanhei, baboso e ranhado, faz conta tinhas sido dado parto assim mesmo. Nasceste comigo. Eu não sou teu tio: sou teu pai.
Empurrado com brusquidão, o miúdo tomba sobre os ferros do machimbombo. Afinal, era essa a razão de ele negar ser chamado de tio? Era esse o motivo por que o velho lhe ocultava todo seu passado? Então, o miúdo sorri com doçura e se ergue sobre os joelhos. O corpo lhe tropeça numa fraqueza e volta a permanecer de gatas. O velho se apressa a debruçar sobre ele, em aflição:
Lhe aleijei, miúdo?
Assim como está, Muidinga se limita a negar com a cabeça. Tuahir insiste:
Então, se está sentir mal? Lhe voltou a doença?
O rapaz se volta a erguer e enfrenta o velho. Seu rosto está sereno, parece acrescentado de uma repentina idade:
Se esse é o seu medo vou dizer o seguinte: lhe gosto mesma coisa fosse o autêntico meu pai.
Tuahir reage, apanhado em armadilha. E se torna grave: Levante-se, miúdo! Por que que é que anda a gatinhar pelo chão feito um cabrito? Ambos se separam e se arrumam em quietude. Ficam assim, amuados até serem surpreendidos por barulhos que chegam do mato. O miúdo se levanta, precipitado. Acredita serem pessoas que se aproximam. Ensaia correr, sua intenção é entregar-se de braços, seja quem for que se aproxime. Mas Tuahir lhe corta o gesto com secura:
Não mexa, miúdo!
Porquê? É gente que está vir. Vêm para nos tirar daqui...
Não termina a frase. A mão do velho se calca sobre os seus lábios, impondo o grave silêncio. Então, por entre os altos capins, assoma um elefante. O bicho se arrasta, cansado do seu peso. Mas há no demorar das pernas um sinal de morte caminhando. E, na realidade, se vislumbra que, em plenas traseiras, está coberto de sangue. O animal se afasta, penoso. Muidinga sente o golpe da agonia em seu próprio peito. Aquele elefante se perdendo pelos matos é a imagem da terra sangrando, séculos inteiros moribundando na savana.
Dispararam sobre o bicho.
Quem foi, tio?
São esses da guerra. Querem os dentes para vender lá fora.
Se voltam a sentar em silêncio. Há uma tristeza que nem o cantarolar do velho consegue dispersar.
Tio Tuahir: estou a pensar uma coisa. Mas o senhor vai zangar, eu sei.
Você anda pensar de mais. Não lhe devia ter curado tanto. Um bocadinho de doença até lhe ia fazer bem. Chateava menos...
Mas, tio, é só imaginar. É um sonho que tenho...
Não pensa, rapaz. A vida é tão curta, você quer encher ela de tristezas?
Não, tio. Estou a pensar... Não, é melhor não dizer.
É melhor, mesmo. Fica calado.
Muidinga insiste depois de um silêncio. O velho já tinha regressado ao cantochão.
Vou dizer. Estou a pensar eu sou Junhito.
Quem é Junhito?
Junhito, esse menino do escrito que eu li, aquele da capoeira.
É pena não ser mesmo. Porque se fosse galinha, já eu lhe depenava para um bom caril.
Estou a falar sério, tio Tuahir.
E se vai calar muito sério, também.
O miúdo realmente se mantém calado até ao fim do dia. Já escurece quando reentram para o machimbombo e se preparam para deitar. Mais uma vez lhes chega o barulho do elefante. Parecia um rastolhar, lá longe. Quem sabe o bicho se findou, tombado no vasto chão? O escuro se aproveita para entrar dentro do refúgio dos dois esperantes.
Tio, posso acender a fogueira?
Acenda lá fora.
Mas eu queria ler, tio.
Leia lá fora.
Muidinga arruma uns paus secos e transporta consigo os escritos de Kindzu. Acende o fogo na berma da estrada. Depois, se instala para ler em comodidade o segundo caderno. A voz de Tuahir o sobressalta:
Não vai ler isso sozinho, pois não?

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

Voo

1616 – Santiago Papasquiaro

O deus dos amos, é o deus dos servos?

Falou da vida livre um velho profeta índio. Vestido à antiga, andou por estes desertos e serras levantando pó e cantando, ao triste som de um tronco oco, as façanhas dos antepassados e a perdida liberdade. Predicou o velho a guerra contra quem arrebatou dos índios as terras e os deuses e os arrebenta nas entranhas das minas de Zacatecas. Ressuscitarão os que morram na guerra necessária, anunciou, e renascerão jovens e velozes os velhos que morram lutando.
Os tepehuanos roubaram mosquetões e armaram e esconderam muitos arcos e flechas, porque eles são arqueiros destros como Estrela da Manhã, o flechador divino. Roubaram e mataram cavalos, para comer sua agilidade, e mulas para comer sua força.
A rebelião começou em Santiago Papasquiaro, ao norte de Durango. Os tepehuanes, os índios mais cristãos da região, os primeiros convertidos, pisaram as hóstias; e quando o padre Bernardo Cisneros pediu clemência, responderam Dominas Vobiscum. Ao sul, em Mezquital, romperam a machadadas a cara da Virgem e beberam vinho nos cálices. No povoado de Zape, índios vestidos de batina de jesuíta perseguiram pelos bosques os espanhóis fugitivos. Em Santa Catarina, descarregaram seus porretes sobre o padre Heraldo del Tovar enquanto diziam: Vamos ver se Deus te salva. O padre Juan del Valle ficou estendido na terra, nu, no ar a mão que fazia o sinal da cruz e a outra mão cobrindo seu sexo jamais usado.
Mas pouco durou a insurreição. Nas planícies de Cacária, as tropas coloniais fulminaram os índios. Cai uma chuva vermelha sobre os mortos. A chuva atravessa o ar espesso de pó e criva os mortos com balas de barro vermelho.
Em Zacatecas repicam os sinos, chamando aos banquetes de celebração. Os senhores das minas suspiram aliviados. Não faltará mão de obra nos túneis. Nada interromperá a prosperidade do reino. Poderão eles continuar mijando tranquilos em baciazinhas de prata lavrada e ninguém impedirá que acudam à missa suas senhoras acompanhadas de cem criados e vinte donzelas.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

O Amigo de um Amigo



Pode ser que a erudição de primeiríssima ordem seja tão rara quanto a grande arte ou a grande poesia. Alguns dos talentos e qualidades que ela exige são óbvios: uma extrema concentração, uma vasta memória, mas de grande precisão, espírito fino e penetrante, uma espécie de ceticismo piedoso ao manusear fontes e indicações, clareza na apresentação. Outros requisitos são mais raros e difíceis de definir. O realmente grande erudito tem um faro especial para encontrar o documento escondido, mas fundamental, para concatenar circunstâncias aparentemente díspares. Num relance ele vê a carta roubada enquanto os outros fitam o papel da parede. Como um rabdomante, ele sente o que há de importante sob a superfície batida. Detecta a falha no cristal, a nota falsa no arquivo, a pressão encoberta daquilo que foi falsificado ou amordaçado. Ele adere obstinadamente ao que Blake chamava de “a sacralidade do pequeno detalhe”, mas então extrai a aplicação, a inferência generalizadora, que pode alterar todo o panorama de nossas percepções históricas, literárias e sociais.
No entanto, mesmo esses talentos e sua rara combinação não determinam o que é fundamental para a grande erudição. Tal como o magistral tradutor, ou autor, ou intérprete musical, o erudito realmente grandioso se torna uma unidade com seu material, por mais abstruso, por mais recôndito que seja. Ele amalgama a força de sua personalidade e perícia técnica à época histórica, ao texto literário ou filosófico, à trama sociológica que está analisando e nos apresentando. Por sua vez, essa trama, esse conjunto de fontes primárias vai adquirir algo do estilo e da voz de seu intérprete. Irá se tornar dele sem deixar de ser o que é. Agora existe uma China antiga que é a de Joseph Needham, uma civilização helenista que fala com as inflexões do finado Arnaldo Momigliano, um mapeamento das gramáticas que por muito tempo trará as marcas de Roman Jakobson. E no entanto, em cada um desses casos, a alquimia reinstaura a força do material.
A erudição de Gershom Scholem pertencia a esse gênero raro e vivificante. Não só seus estudos da Cabala modificaram, ainda que de maneira controversa, a imagem do judaísmo — a compreensão que mesmo um judeu agnóstico agora tem de sua proveniência psicológica e histórica —, como também suas explorações, traduções e apresentações dos escritos cabalísticos exercem uma enorme influência na teoria literária em geral, no modo como críticos e estudiosos não judeus e totalmente agnósticos leem poesia. Os ensaios de Scholem, muitos deles compostos numa prosa alemã límpida e clássica (escrever mal é sinal de pouca erudição), abrangem interesses que ultrapassam em muito a Cabala. Não existe nenhum comentador mais arguto, mais sombriamente percuciente, do drama do judaísmo alemão, das ambiguidades na condição da Israel moderna, do papel dos estudos e traduções da Bíblia numa época cada vez mais secularizada. Os gostos não raro subversivos e estranhamente irônicos de Scholem são variados: da mesma forma que William James (e existem outras analogias), ele tomou como campo seu o jogo entre o intelecto e as pluralidades do sentimento humano. Toda manifestação de consciência religiosa, de imaginação mítica, de ilusão criativa o fascinava. Mas fascinavam-no também a matemática, a anatomia do discurso jurídico e a antropologia. Grande parte da caudalosa produção de Scholem é esotérica não só no tema — os arcanos do misticismo medieval e hassídico, da cosmologia gnóstica, da magia e do hermetismo renascentista, mas também nos meios de apresentação. Várias obras-primas de erudição, de solução de problemas, continuam inevitavelmente encerradas em revistas especializadas e em hebraico. Mas as obras principais de Scholem, como As origens da Cabala e o fascinante estudo de Sabatai Tzvi, o pseudomessias místico (ambos publicados pela editora de Princeton), se destinam ao público cultivado, como também aquelas preciosidades em (relativa) miniatura: as recordações pessoais de Scholem, a monografia sobre as visões místicas da criação, sua memória de Walter Benjamin. E em alguns casos as traduções para o inglês trazem atualizações e textos de apoio inexistentes nas primeiras edições hebraicas ou alemãs. Um grande servidor da intuição tem sido muito bem servido.
Scholem e Benjamin se conheceram em 1915, quando Benjamin tinha 23 anos e Scholem, dezessete. A amizade dos dois se tornou matéria de lenda e de pesquisa acadêmica. Ela mostra pontos de profunda afinidade. Benjamin e Scholem eram judeus alemães estranhamente alertas ao ambiente marginal, mas também criativo, das condições sociais e pessoais em que viviam. Eram homens do intelecto — do saber, da citação e do comentário num veio quase rabínico. Ambos eram apaixonados por livros antigos, bibliófilos e colecionadores sistemáticos em suas áreas. Eram exímios praticantes da prosa alemã em registros muito distintos, mas comungavam a mesma pureza de expressão, cujo próprio domínio indicava algo não totalmente inato, não herdado de forma inconsciente. Havia em ambos uma propensão anárquica, uma desconfiança radical em relação às estruturas e convenções estabelecidas. (Os dois conseguiram escapar para a Suíça durante a Primeira Guerra Mundial, e Scholem simulou vários sintomas neuróticos quando foi convocado pela agência de recrutamento.) Mais importante, ambos decidiram abordar problemas filosóficos, históricos e psicológicos centrais de um ângulo exótico. Scholem revolucionou o estudo do judaísmo com seus exames filológico-editoriais de esoterismos extremos — de heresias às vezes desvairadas, de devaneios especulativos patológicos. Análises de livros e brinquedos infantis, de fotos oitocentistas, dos livros de emblemas e da dramaturgia “perdida” do barroco alemão, dos empórios e lojas de departamentos que pipocaram em Paris no Segundo Império levaram Benjamin a sugestões, a “iluminações” (termo que tomou a Rimbaud), que hoje estão no centro do estruturalismo, da sociologia cultural e da semiótica.
Mas as diferenças entre os dois homens eram marcadas. Paradoxalmente, a imersão de Scholem no misticismo religioso se originou de uma visão de mundo profundamente cética e irônica. Tive o privilégio de conhecer Scholem em seus últimos anos, de vê-lo em Jerusalém, Zurique e Nova York. Não posso me atrever sequer a arriscar um palpite de se esse inspirado expositor da meditação cabalista sobre as autodivisões da Unidade Divina, sobre as emanações de luz da fronte divina, sobre a “quebra dos vasos” no momento da criação, acreditava ou não em Deus. Os trejeitos cômicos do sorriso de Scholem, as insinuações de um divertimento voltairiano de fundo eram incontáveis. Benjamin, por outro lado, era aquela rara criatura: um místico moderno, um iniciado nos reinos ocultos do vaticínio, do simbolismo hermético, da magia branca. Benjamin, que deu ao contexto sociológico-econômico de nossa consciência um novo grau de precisão, que respondeu prontamente à revolução na fotografia, no cinema e na rádio como meios de comunicação de massa, que adotou um marxismo mais ou menos pessoal e herético como componente vital de sua perspectiva, era o verdadeiro cabalista. (Também teve experiências com drogas — uma incursão no irracional da qual Scholem recuou.)
O interesse pelo sionismo era um vínculo forte entre ambos, embora as maneiras de colocá-lo em prática iriam se mostrar irreconciliáveis desde o começo. Com uma rigorosa clarividência, Scholem sentia o potencial de catástrofe no amálgama alemão-judaico. Para ele, tornou-se de uma clareza fulgurante que um compromisso sério com a identidade judaica deveria acarretar o domínio do hebraico e a vida em Israel. Há na reconquista de Scholem do passado cabalístico para o conhecimento judaico e para a história geral do pensamento religioso um veemente “sionismo”, um retorno a uma Terra Santa. Benjamin manteve um flerte ardoroso com a ideia de emigrar para a terra que então era a Palestina. Ansioso, várias vezes informou Scholem sobre suas intenções de estudar hebraico. Em 1929, e novamente nos meados dos anos 1930, sob a égide de um impaciente Scholem, Benjamin declarou que estava prestes a deixar uma Europa condenada. Nada resultou desses impulsos prementes e inquietos. Scholem foi para Jerusalém em 1923. Morreu em 1982, cercado de honras, cumprida sua grande obra. Benjamin, reduzido ao absoluto desespero, perseguido, seus escritos dispersos ou fragmentados, se suicidou num buraco sórdido na fronteira franco-espanhola em 1940. (Corria o boato de que os refugiados isolados que tinham cruzado a fronteira seriam entregues à polícia francesa e ficariam à mercê dos nazistas.)
Mas não poderia ser de outra maneira. Walter Benjamin foi um dos últimos e mais inspirados centro-europeus, sendo que essa centralidade indica uma noção geográfica — os espaços definidos por Frankfurt-Viena-Praga-Paris para o judaísmo emancipado — e o conceito do gênio histórico europeu tal como se expressava em francês e em alemão. Como Adorno, como Ernst Bloch e outros fundadores e testemunhas da chamada Escola de Frankfurt de teoria crítica e filosofia da cultura, Benjamin nunca poderia separar sua identidade poliglota, seu papel na intelectualidade, seu próprio físico — o do sábio de botequim por excelência — da fatalidade europeia. E adiou demais a chance de fugir para os eua — chance que seus pares e amigos (Adorno, Bloch, Horkheimer, Brecht) agarraram com maior ou menor senso de oportunidade.
Um fio central em Correspondência — Walter Benjamin e Gershom Scholem, traduzida por Gary Smith e André Lefevere (Schocken, 1989), é a diferença fascinante entre o Messias de Scholem e o Messias de Benjamin. Para Scholem, o messiânico — cujas formas variadas e imensamente ricas ele havia diagnosticado em monografias, em seu magistral As grandes correntes da mística judaica e, acima de tudo, em seu épico de Sabatai Tzvi — era inseparável de um retorno físico, historicamente fundado, a Israel. Foi com o prazer de uma travessura que Scholem insinuou no repertório cabalístico uma parábola que ele mesmo tinha inventado: uma vinda do Messias que alteraria apenas muito ligeiramente as coisas e portanto passaria despercebida — exceto em Israel, cuja criação como Estado seria em si a melhor prova disponível do advento messiânico. Já a visão de Benjamin, que se concentrava na imagem do Angelus Novus, de Paul Klee — o anjo da história, que uma ventania afasta de nós —, era totalmente diversa. O messiânico não significava o sionismo. Implicava a recuperação das vozes dos humilhados e vencidos, soterradas pela história e pelos historiadores. Restauraria a língua adâmica perdida que subjaz secretamente a todas as línguas humanas, e cuja presença generativa fazia ao mesmo tempo possível e impossível o ato da tradução. Para Benjamin, a vinda do Messias se revelaria como uma imagem de transparência rumo à verdade, à justiça social, à racionalidade amorosa se estendendo além do judaísmo e do renascimento de Israel (por milagroso que o considerasse).

A tradução dessa correspondência tem a virtude da clareza. (São 128 cartas ao todo; algumas anteriores a 1932 parecem ter se perdido, e há um toque de prestidigitador na descoberta de Scholem em outubro de 1966, na Alemanha Oriental, de seu lado da correspondência.) Ela não transmite (nem poderia transmitir) de maneira convincente as diferenças de tom dos dois escritores — diferenças que revelam dissonâncias de índole permanentes. Mesmo sob o tom mais afetuoso — às vezes arreliador — de Scholem há uma ponta de autoridade, de exasperação diante da ilusão e do que lhe parece falta de lógica. O tom de Benjamin é de faiscante sutileza, de esforço aparentemente evasivo, mas finamente interiorizado, de dar expressão a coisas intangíveis, a ambiguidades inevitáveis, a um vibrato de percepções e intenções que ele mesmo denominou de “aura”.
No começo da primavera de 1934, por exemplo, a preocupação clarividente de Scholem com a situação europeia e a incapacidade de Benjamin de prover ao indispensável da vida quase resultaram no rompimento da amizade. Escreve Benjamin em 3 de março:

Minha existência está chegando ao limite do precário e a cada dia depende diretamente do bom Deus — para dizer a mesma coisa de forma mais prudente. E com isso não me refiro apenas à ajuda que consigo de tempos em tempos, mas também à minha própria iniciativa, mais ou menos voltada para um milagre.

A espera de um milagre tinha um teor ao mesmo tempo terapêutico — mantinha-o vivo — e incapacitante, na medida em que reduzia ainda mais a utilidade, o estatuto moral e metafísico, da simples ação racional. Para Scholem, a questão de uma possível ajuda divina era pragmática. Ele lutou para conseguir uma colocação profissional para Benjamin em Israel; batalhou para conseguir a publicação ou a divulgação das obras de Benjamin. Mas sua irritação é inequívoca. “Como vai se desenvolver realmente sua situação está ficando cada vez mais incerto para mim”, escreveu Scholem, e “Muitos fatos de nossa correspondência devem lhe ter fugido da memória, pois você não lembra mais o que o levou a tentar explicar sua situação. […] Estamos discutindo em posições falsas, e isso não me agrada”.
Além disso, não eram somente as vacilações de Benjamin em relação ao refúgio na Palestina que exasperavam Scholem, mas, a partir de 1924, o envolvimento extremamente complicado de Benjamin com o marxismo. Scholem sabia de seu envolvimento pessoal e erótico com uma comunista. Sabia da viagem do amigo a Moscou em 1926. O irmão mais velho de Scholem tinha desempenhado um papel trágico e muito importante no Partido Comunista alemão. Scholem se ressentia muito da influência cada vez maior da obra e da pessoa de Brecht sobre Benjamin (o qual passou semanas cruciais com Brecht no exílio dinamarquês). A política de Scholem, se é que havia, era a do desencantamento, da ironia ou até sarcasmo irredutível diante do espetáculo inveterado da loucura e barbárie humanas.
Mas Scholem interpretou mal o recurso herético e profundamente inventivo de Benjamin às teorias marxistas da história e aos instrumentos retóricos do materialismo dialético. Algumas amizades dentro do comunismo ajudaram Benjamin a aclarar as sombras de sua solidão quase anormal. Em vários pontos da enormidade política dos anos 1930, o comunismo e até o stalinismo pareciam oferecer a única resistência efetiva à escalada triunfante do fascismo e do nazismo. Scholem não teve acesso ao diário de Moscou de Benjamin, publicado postumamente. Ali teria encontrado indicações claras do ceticismo de Benjamin, de sua aversão ao clima dominante na sociedade soviética. Mas tal aversão não negava a força inspiradora das análises marxianas do capitalismo oitocentista nem o estímulo a uma interpretação materialista econômica da criação e disseminação de obras artísticas e intelectuais que encontramos na estética marxista. Os estudos pioneiros de Benjamin sobre a reprodutibilidade das obras de arte para as massas, por meio da fotografia e do fac-símile em cores, sua compreensão penetrante do jogo entre a alta cultura e o mercado, suas análises preliminares para uma magnum opus que havia planejado — uma anatomia de “Paris, a Capital do Século XIX” — se fundavam numa luta pessoal com os princípios marxistas. Daí as afinidades com o marxismo personalizado, estrategicamente astuto, das peças e panfletos críticos de Brecht.
E sobretudo Scholem estacava diante do que intuía a contragosto ser, em Benjamin, uma interpretação do marxismo como variante natural da escatologia messiânica judaica — da concentração judaica na esperança milenarista. Rigorosamente informado, Scholem via a opressão política, a miséria humana a que o marxismo-leninismo e seus companheiros de percurso estavam levando. Não quis perceber as dimensões trágicas dessa degeneração dos ideais messiânicos, do apelo utópico, porém incessante, à justiça social, como já era eloquente nos Profetas. A anunciação em parte mística de Benjamin quanto a uma “recuperação da história” — da imposição de critérios morais à história — tinha nascido justamente de um sonho de Moscou-Jerusalém. Sem esse fatídico híbrido, ele não teria produzido muitos de seus melhores escritos — em especial sua última produção, obra-prima de elegância e concisão, “Teses sobre a filosofia da história”. Muito depois, refletindo sobre o gênio de Benjamin e a sucessão de milagres que permitiram a sobrevivência dos textos “perdidos”, Scholem iria reconhecer (ouvi ao vivo) que a sinuosa dança de seu amigo com o marxismo e ao redor dele tinha sido de algum proveito. Na época, parecia-lhe uma traição e um desperdício vulgar de dotes raros.

O que manteve o andamento do diálogo, entre seus altos e baixos, o que lhe dá estatura duradoura são as sucessivas discussões de Kafka. Talvez de maneira subconsciente, toda vez que suas relações estavam tensas, Benjamin e Scholem voltavam a Kafka. O resultado é uma série de leituras — de delineamentos críticos — de originalidade muito penetrante. Em comparação, os truques interesseiros do atual desconstrucionismo ou do pós-estruturalismo chegam a criar constrangimento. Incansavelmente, Scholem e Benjamin põem a operar na esquiva inesgotabilidade de Kafka um poder de imaginação quase equivalente ao de seu objeto. A vontade é de citar uma página após a outra. Limito-me a dois exemplos. Aqui está Scholem escrevendo para Benjamin em 20 de setembro de 1934 (sobre O castelo):

E no entanto as mulheres de Kafka trazem os sinais de outras coisas a que você não presta quase atenção. É evidente que o castelo ou a burocracia com a qual elas mantêm uma relação horrivelmente indefinível, mas exata, não é o mundo primal de que você fala, se é que ele existe. Se fosse o mundo primal, que necessidade então haveria de transformar a relação das mulheres com ele num enigma? Tudo ficaria claro, enquanto na realidade nada é claro e a relação delas com a burocracia é muito instigante, ainda mais porque a própria burocracia chega a advertir contra elas (por exemplo, pela boca do capelão). Em vez disso, o castelo ou burocracia é algo com que o “mundo primal” deve primeiramente manter alguma relação.
Você pergunta o que eu entendo pelo “nada da revelação”. Entendo por ele um estado em que a revelação aparece sem significado, em que ela ainda afirma a si mesma, em que tem validade, mas nenhuma significação. Um estado em que a riqueza de significado se perdeu e o que está em processo de aparição (pois a revelação é esse processo) mesmo assim não desaparece, embora esteja reduzido ao ponto zero de seu conteúdo.

A distinção entre validade e significação é da máxima pertinência a todas as obras de Kafka.

Ou tome-se a grande carta — um ensaio de extrema densidade — de Benjamin, datada de 12 de junho de 1938. Mesmo uma longa citação não faz jus à sua profundidade:

Kafka entreouviu a tradição, e quem ouve dificilmente deixa de ver.
A principal razão pela qual esse entreouvir exige tanto esforço é que apenas os sons mais indistintos chegam ao ouvinte. Não há nenhuma doutrina que se possa aprender, nenhum conhecimento que se possa preservar. As coisas que o ouvinte quer captar enquanto passa não se destinam aos ouvidos de ninguém. Isso supõe um estado de coisas que caracteriza negativamente as obras de Kafka com uma grande precisão. […] A obra de Kafka representa o adoecimento da tradição […].
Disso Kafka tinha absoluta certeza: primeiro, que, se for para ajudar, o sujeito deve ser um idiota; segundo, apenas a ajuda de um idiota é uma verdadeira ajuda. A única coisa incerta é: tal ajuda ainda pode ter alguma serventia para um ser humano? […] Assim, como coloca Kafka, há uma quantidade infinita de esperança, mas não para nós. Essa declaração realmente contém a esperança de Kafka; é a fonte de sua serenidade radiante.

Note-se — e isso é típico das alegorias de Benjamin sobre a leitura — como a própria análise se torna uma parábola ao estilo de Kafka.
Uma imensa tristeza sombreia mesmo a carta mais informal e momentaneamente otimista. Elas foram enviadas quando a Europa ingressou no pesadelo. Além disso, na Palestina, Scholem não só viveu diretamente a violência dos primeiros choques entre árabes e judeus, mas teve também claras intuições das inimizades intratáveis que se estendiam à frente. E no entanto, à sua maneira, é um livro jubiloso. Celebra o elixir da paixão intelectual — a capacidade do cérebro e do sistema nervoso dos homens de mergulhar em interesses abstratos, especulativos, mesmo ou principalmente diante da dor e da adversidade pessoal. Demonstra com prodigalidade a força por trás da aparente fraqueza, que muitas vezes é a senha que permite a sobrevivência do humanismo e dos perseguidos. Aqui, por fim, e não na placa lacônica num austero muro de cemitério, Walter Benjamin tem seu in memoriam. E é totalmente indissociável da maravilha, talvez mais profunda do que o amor, que é a amizade.
22 de janeiro de 1990

George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos