03/07/2026

Milo J e Mon Laferte | Mi Jardin

 

Ignorar o céu

چگونه میتواند زیست
سنگ پشت پیر
سیصد سال
بی خبر از آسمان.

Como pode viver
a velha tartaruga
trezentos anos
ignorando o céu.

Abbas Kiarostami, em Nuvens de algodão

O evangelho segundo Jesus Cristo [Excerto inicial]



Viviam José e Maria num lugarejo chamado Nazaré, terra de pouco e de poucos, na região de Galileia, em uma casa igual a quase todas, como um cubo torto feito de tijolos e barro, pobre entre pobres. Invenções de arte arquitectónica, nenhumas, apenas a banalidade uniforme de um modelo incansavelmente repetido. Com o propósito de poupar alguma coisa nos materiais, tinham-na construído na encosta da colina, apoiada ao declive, escavado pelo lado de dentro, deste modo se criando uma parede completa, a fundeira, com a vantagem adicional de ficar facilitado o acesso à açoteia que formava o tecto. Já sabemos ser José carpinteiro de ofício, regularmente hábil no mester, porém sem talento para perfeições sempre que lhe encomendem obra de mais finura. Estas insuficiências não deveriam escandalizar os impacientes, pois o tempo e a experiência, cada um com seu vagar, ainda não são bastantes para acrescentar, ao ponto de dar-se por isso no trabalho de todos os dias, o saber oficinal e a sensibilidade estética de um homem que mal passou dos vinte anos e vive em terra de tão escassos recursos e ainda menores necessidades. Contudo, não se devendo medir os méritos dos homens apenas pela bitola das suas competências profissionais, convém dizer que, apesar da sua pouca idade, é este José do mais piedoso e justo que em Nazaré se pode encontrar, exacto na sinagoga, pontual no cumprimento dos deveres, e não tendo sido a sua fortuna tanta que o tivesse dotado Deus duma facúndia capaz de o distinguir dos mortais comuns, sabe discorrer com propriedade e comentar com acerto, mormente se vem a propósito introduzir no discurso alguma imagem ou metáfora relacionadas com o seu ofício, por exemplo, a carpintaria do universo. Porém, porque lhe tivesse faltado na origem o golpe de asa duma imaginação verdadeiramente criadora, nunca na sua breve vida será capaz de produzir parábola que se recorde, dito que merecesse ter ficado na memória das gentes de Nazaré e ser legado aos vindouros, menos ainda um daqueles certeiros remates em que a exemplaridade da lição se percebe logo à transparência das palavras, tão luminosa que no futuro rejeitará qualquer intrometida glosa, ou, pelo contrário, suficientemente obscura, ou ambígua, para tornar-se nos dias de amanhã em prato favorito de eruditos e outros especialistas.
Sobre os dotes de Maria, por enquanto, só procurando muito, e mesmo assim não acharíamos mais do que é legítimo esperar de quem não fez sequer dezasseis anos e, embora mulher casada, não passa duma rapariguinha frágil, por assim dizer dez--réis de gente, que também naquele tempo, sendo outros os dinheiros, não faltavam destas moedas. Apesar da fraca figura, Maria trabalha como as mais mulheres, cardando, fiando e tecendo as roupas da casa, cozendo todos os santos dias o pão da família no forno doméstico, descendo à fonte para acarretar a água, depois encosta acima, pelos íngremes carreiros, um gordo cântaro à cabeça, uma infusa apoiada no quadril, e indo depois, ao cair da tarde, por esses caminhos e descampados do Senhor, a apanhar gravetos de lenha e a rapar restolhos, levando por acrescento um cesto com que recolherá as bostas secas do gado, e também esses cardos e espinhosas que abundam nas declivosas alturas de Nazaré, do melhor que Deus foi capaz de inventar para acender um lume e entrançar uma coroa. Todo este arsenal reunido daria uma carga mais própria para ser trazida a casa no lombo do burro, não fosse a poderosa circunstância de estar a besta adstrita ao serviço de José e ao transporte das madeiras. Descalça vai Maria à fonte, descalça vai ao campo, com os seus vestidos pobres que no trabalho mais se sujam e gastam, e que é preciso estar sempre a lavar e remendar, para o marido vão os panos novos e os cuidados maiores, mulheres destas com qualquer coisa se contentam. Maria vai à sinagoga, entra pela porta lateral, que a lei impõe às mulheres, e se, é um supor, lá se encontram ela e trinta companheiras, ou mesmo todas as fêmeas de Nazaré, ou toda a população feminina de Galileia, ainda assim terão de esperar que cheguem ao menos dez homens para que o serviço do culto, em que só como passivas assistentes participarão, possa ser celebrado. Ao contrário de José, seu marido, Maria não é piedosa nem justa, porém não é sua a culpa dessas mazelas morais, a culpa é da língua que fala, senão dos homens que a inventaram, pois nela as palavras justo e piedoso, simplesmente, não têm feminino.
Ora, aconteceu que um belo dia, passadas umas quatro semanas sobre aquela inesquecível madrugada em que as nuvens do céu, de modo extraordinário, apareceram tingidas de violeta, estava José em casa, era isto pela hora do sol-pôr, e estava comendo o seu jantar, sentado no chão e metendo a mão no prato como então era geral costume, e Maria, de pé, esperava que ele acabasse para depois comer ela, e ambos calados, um porque não tinha nada que dizer, outro porque não sabia como dizer o que tinha em mente, aconteceu vir bater à cancela do pátio um pobre desses de pedir, o que, não sendo raridade absoluta, era ali pouco frequente, tendo em vista a humildade do lugar e do comum dos habitantes, sem contar com a argúcia e a experiência da gente pedinchante, sempre que é preciso recorrer ao cálculo de probabilidades, mínimas neste caso. Contudo, das lentilhas com cebola picada e das papas de grão-de-bico que estavam para ser o seu jantar, tirou Maria uma boa porção para uma tigela e foi levá-la ao mendigo, que se sentou no chão, a comer, de fora da porta, donde não passara. Não tinha precisado Maria de pedir licença ao marido de viva voz, ele foi quem lho permitiu ou ordenou com um aceno de cabeça, que já se sabe serem supérfluas as palavras nestes tempos em que um simples gesto basta para matar ou deixar viver, como nos jogos do circo se move o polegar dos césares, apontando para baixo ou para cima. Embora em diferente, também este crepúsculo estava que era uma beleza, com os seus mil fiapos de nuvem esparsos pela amplidão, rosa, nácar, salmão, cereja, são maneiras de falar da terra para que possamos entender-nos, pois estas cores, e todas as outras, não têm, que se saiba, nomes do céu. Sem dúvida estaria o mendigo com fome de três dias, que essa, sim, é fome autêntica, para em tão poucos minutos ter rapado e lambido o prato, e eis que já está batendo à porta para devolver a escudela e agradecer a caridade. Maria veio abrir, o pedinte ali estava, de pé, mas inesperadamente grande, muito mais alto do que antes lhe tinha parecido, afinal é certo o que se diz, que há uma enormíssima diferença entre comer e não ter comido, porquanto a este homem era como se lhe resplandecesse a cara e faiscassem os olhos, ao mesmo tempo que as roupas que vestia, velhas e esfarrapadas, se agitavam sacudidas por um vento que não se sabia donde vinha, e com esse contínuo movimento se nos confundia a vista, a ponto de, em um instante, parecerem os farrapos finas e sumptuosas telas, o que só estando presente se acredita. Estendeu Maria as mãos para receber a tigela de barro, a qual, em consequência duma ilusão de óptica em verdade assombrosa, porventura gerada pelas cambiantes luzes do céu, era como se a tivessem transformado em vaso do mais puro ouro, e, no mesmo instante em que a tigela passava dumas mãos para as outras, disse o mendigo com poderosíssima voz, que até nisto o pobre de Cristo tinha mudado, Que o Senhor te abençoe, mulher, e te dê todos os filhos que a teu marido aprouver, mas não permita o mesmo Senhor que os vejas como a mim me podes ver agora, que não tenho, ó vida mil vezes dolorosa, onde descansar a cabeça. Maria segurava a escudela no côncavo das duas mãos, taça sobre taça, como quem esperava que o mendigo lhe depositasse algo dentro, e ele sem explicação assim fez, que se baixou até ao chão e tomou um punhado de terra, e depois erguendo a mão deixou-a escorregar lentamente por entre os dedos, enquanto dizia em surda e ressoante voz, O barro ao barro, o pó ao pó, a terra à terra, nada começa que não tenha de acabar, tudo o que começa nasce do que acabou. Turbou-se Maria e perguntou, Isso que quer dizer, e o mendigo respondeu apenas, Mulher, tens um filho na barriga, e esse é o único destino dos homens, começar e acabar, acabar e começar, Como soubeste que estou grávida, Ainda a barriga não cresceu e já os filhos brilham nos olhos das mães, Se assim é, deveria meu marido ter visto nos meus olhos o filho que em mim gerou, Acaso não olha ele para ti quando o olhas tu, E tu quem és, para não teres precisado de ouvi-lo da minha boca, Sou um anjo, mas não o digas a ninguém.
Naquele mesmo instante, as roupas resplandecentes voltaram a ser farrapos, o que era figura de titânico gigante encolheu-se e mirrou como se o tivesse lambido uma súbita língua de fogo, e a prodigiosa transformação foi mesmo a tempo, graças a Deus, e logo a seguir a prudente retirada, que do portal já vinha acercando-se José, atraído pelo rumor das vozes, mais abafadas do que o natural duma conversação lícita, mas sobretudo pela exagerada demora da mulher, Que mais te queria o pobre, perguntou, e Maria, sem saber que palavras suas poderia dizer, só soube responder, Do barro ao barro, do pó ao pó, da terra à terra, nada começa que não acabe, nada acaba que não comece, Foi isso que ele disse, Sim, e também disse que os filhos dos homens brilham nos olhos das mulheres, Olha para mim, Estou a olhar, Parece-me ver um brilho nos teus olhos, foram palavras de José, e Maria respondeu, Será o teu filho. O crepúsculo tornara-se azulado, ia tomando já a primeira cor da noite, agora via-se que de dentro da tigela irradiava como uma luz negra que desenhava sobre o rosto de Maria feições que nunca haviam sido dela, os olhos pareciam pertencer a alguém muito mais velho. Estás grávida, perguntou enfim José, Sim, estou, respondeu Maria, Por que não mo disseste antes, Ia dizer-to hoje, esperava que acabasses de comer, E então chegou esse pedinte, Sim, De que mais falou, que o tempo deu sem dúvida para mais, Que o Senhor me conceda todos os filhos que tu quiseres, Que tens aí na tigela, para que dessa maneira brilhe, Terra tenho, O húmus é negro, a argila verde, a areia branca, dos três só a areia brilha se lhe dá o sol, e agora é noite, Sou mulher, não sei explicar, ele tomou a terra do chão e lançou-a dentro, ao mesmo tempo disse as palavras, A terra à terra, Sim.
José foi abrir a cancela, olhou a um lado e a outro. Já não o vejo, sumiu-se, disse, mas Maria afastava-se tranquila em direcção à casa, sabia que o mendigo, se era realmente quem anunciara ser, só se quisesse é que deixaria que o vissem. Pousou a tigela no poial do forno, tirou do borralho uma brasa com que acendeu a candeia, soprando-a até levantar uma pequena chama. José entrou, vinha com uma expressão interrogativa, uma mirada perplexa e desconfiada que tentava disfarçar movendo-se com vagares e solenidade de patriarca que não lhe assentavam bem, sendo tão jovem. Discretamente, fazendo por não dar nas vistas, foi espreitar a tigela, a terra luminosa, compondo na cara um ar de cepticismo irónico, porém, se era uma demonstração de varonia o que pretendia, não lhe valeu a pena, Maria tinha os olhos baixos, estava como ausente. José, com um pauzito, remexeu a terra, intrigado por vê-la escurecer quando a movia e depois retomar o brilho, sobre a luz constante, como mortiça, serpenteavam rápidas cintilações, Não compreendo, decerto há um mistério nisto, ou então a terra trazia-a já ele consigo e tu julgaste que a apanhou do chão, são embelecos de mágico, ninguém viu nunca brilhar a terra de Nazaré. Maria não respondeu, comia o pouco que lhe restara das lentilhas com cebola e das papas de grão-de-bico, acompanhando-as com um pedaço de pão untado de azeite. Ao parti-lo, dissera, como está escrito na lei, porém no tom modesto que convém à mulher, Louvado sejas tu, Adonai, nosso Deus, rei do universo, que fazes sair o pão da terra. Calada, comia, enquanto José, deixando discorrer os pensamentos como se estivesse comentando na sinagoga um versículo da Tora ou a palavra dos profetas, reconsiderava a frase que acabara de ouvir à mulher, a que ele próprio recitara no mesmo acto de partir o pão, e tentava imaginar que cevada seria a que nascesse e frutificasse duma terra que brilhava, que pão daria ela, que luz levaríamos dentro de nós se dele fizéssemos alimento. Tens a certeza de que o mendigo apanhou a terra do chão, tornou a perguntar, e Maria respondeu, Sim, tenho a certeza, E não brilhava antes, No chão não brilhava. Tanta firmeza teria de abalar a postura de desconfiança sistemática que deve ser a de qualquer homem quando confrontado com os ditos e feitos das mulheres em geral e da sua em particular, mas, para José, como para qualquer varão daqueles tempos e lugares, era doutrina muito pertinente a que definia o mais sábio dos homens como aquele que melhor saiba pôr-se a coberto das artes e artimanhas femininas. Falar-lhes pouco e ouvi-las ainda menos é a divisa de todo o homem prudente que não tenha esquecido os avisos do rabi Josephat ben Yohanán, palavras sábias entre as que mais o sejam, À hora da morte se hão-de pedir contas ao varão por cada conversa desnecessária que tiver tido com sua mulher. Interrogou-se José sobre se esta conversa com Maria poderia ser contada no número das necessárias, e, tendo concluído que sim, tomando em consideração a singularidade do acontecimento, jurou no entanto a si mesmo não esquecer nunca as santas palavras do rabi seu homónimo, convém dizer que Josephat é o mesmo que José, para não ter de estar com remorsos tardios à hora da morte, praza a Deus seja ela descansada. E, derradeiramente, tendo-se perguntado se deveria levar ao conhecimento dos anciãos da sinagoga o suspeito caso de mendigo desconhecido e terra luminosa, assentou que deveria fazê-lo, para sossego da sua consciência e defesa da paz do lar.
Maria acabou de comer. Levou fora as tigelas para as lavar, porém não, escusado seria dizê-lo, a que tinha servido ao mendigo. Na casa havia agora duas luzes, a da candeia, lutando trabalhosamente contra a noite que se instalara de vez, e aquela aura luminescente, vibrátil mas constante, como de um sol que não se decidisse a nascer. Sentada no chão, Maria esperava ainda que o marido tornasse a dirigir-lhe a palavra, mas José já não tem mais que dizer-lhe, agora está ocupado a compor mentalmente as frases do discurso que amanhã irá fazer perante o conselho dos anciãos. Aborrece-o não saber exactamente o que se passou entre a mulher e o pedinte, que outras coisas teriam dito um ao outro, mas não quer voltar a perguntar-lhe, porquanto, não sendo de esperar que ela acrescente algo de novo ao que contou já, ele teria de aceitar como verdadeiro o relato duas vezes feito, e se ela, afinal, está a mentir, não o poderá ele saber, mas ela, sim, saberá que mente e mentiu, e rir-se-á dele por baixo do manto, como há boas razões para crer que riu Eva de Adão, de modo mais disfarçado, claro está, pois nessa altura ainda não tinha um manto que a tapasse. Tendo chegado a este ponto, o pensamento de José deu o seguinte e inevitável passo, e eis que lhe está representando agora o misterioso mendigo como um emissário do Tentador, o qual, tendo mudado tanto os tempos e sendo as pessoas hoje mais avisadas, não caiu na ingenuidade de repetir o oferecimento dum simples fruto natural, antes parece que veio trazer a promessa duma terra diferente, luminosa, para isso se servindo, como de costume, da credulidade e da malícia das mulheres. José tem a cabeça em fogo, mas está contente consigo mesmo e com as conclusões a que chegou. Por seu lado, nada sabendo dos meandros de análise demonológica em que se embrenhou a mente do marido, e outro tanto das responsabilidades que lhe estão sendo atribuídas, Maria tenta compreender a estranha sensação de carência que vem experimentando desde que anunciou ao marido a sua gravidez. Não uma ausência interior, por certo, porque de mais sabe ela que se encontra, a partir de agora, e no sentido mais exacto do termo, ocupada, mas precisamente uma ausência exterior, como se o mundo, de um momento para outro, se tivesse apagado ou posto à distância. Recorda, mas é como se estivesse recordando uma outra vida, que depois desta última refeição, e antes de estender as esteiras para dormir, sempre tinha algum trabalho para adiantar, com ele passava o tempo, e agora o que está pensando é que não deveria mover-se do lugar onde se encontra, sentada no chão, olhando a luz que a olha por cima do rebordo da tigela e esperando que o filho nasça. Digamos agora, por respeito à verdade, que o seu pensar não foi assim tão claro, o pensamento, afinal de contas, já por outros, ou o mesmo, foi dito, é como um grosso novelo de fio enrolado sobre si mesmo, frouxo nuns pontos, noutros apertado até à sufocação e ao estrangulamento, está aqui, dentro da cabeça, mas é impossível conhecer-lhe a extensão toda, seria preciso desenrolá-lo, estendê-lo, e finalmente medi-lo, mas isto, por mais que se intente, ou finja intentar, parece que não o pode fazer o próprio sem ajudas, alguém tem de vir um dia dizer por onde se deve cortar o cordão que liga o homem ao seu umbigo, atar o pensamento à sua causa.
Na manhã seguinte, depois duma noite mal dormida, sempre a acordar por obra de um pesadelo em que se via a si mesmo caindo e tornando a cair para dentro de uma imensa tigela invertida que era como o céu estrelado, José foi à sinagoga, a pedir conselho e remédio aos anciãos. O seu insólito caso era de tal maneira extraordinário, ainda que não pudesse imaginar até que ponto, faltando-lhe, como sabemos, o melhor da história, isto é, o conhecimento do essencial, que se não fosse a excelente opinião que dele têm os veteranos de Nazaré, quiçá tivesse de voltar pelo mesmo caminho, corrido, com as orelhas a arder, ouvindo, como um ressoante som de bronze, a sentença do Eclesiástico com que o teriam fulminado, Quem acredita levianamente, tem um coração leviano, e ele, coitado, sem presença de espírito para retorquir, armado do mesmo Eclesiástico, e a propósito do sonho que o perseguira a noite inteira, O espelho e os sonhos são coisas semelhantes, é como a imagem do homem diante de si próprio. Terminado, pois, o relato, olharam os anciãos uns para os outros e depois todos juntos para José, e o mais velho deles, traduzindo numa pergunta directa a discreta suspicácia do conselho, disse, É verdade, inteira verdade e só verdade o que acabas de contar-nos, e o carpinteiro respondeu, Verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade, seja o Senhor minha testemunha. Debateram os anciãos longamente entre eles, enquanto José esperava à parte, e ao fim chamaram-no para anunciar-lhe que, por via de diferenças que persistiam sobre os procedimentos mais convenientes, haviam decidido enviar três emissários a interrogar Maria, directamente, sobre os estranhos acontecimentos, averiguar quem era afinal esse pedinte que ninguém mais vira, a figura que tinha, que exactas palavras pronunciara, se aparecia regularmente por Nazaré a pedir esmola, apurando-se, de passagem, que outras notícias poderia dar a vizinhança acerca do misterioso personagem. Alegrou-se José em seu coração porque, não querendo confessá-lo, intimidava-o a ideia de ter de ir enfrentar-se sozinho com a mulher, por aquele seu modo particular de estar agora, de olhos baixos, é certo, segundo manda a discrição, mas também com uma indisfarçável expressão provocadora, a expressão de quem sabe mais do que tenciona dizer, mas quer que se note. Em verdade, em verdade vos digo, não há limites para a malícia das mulheres, sobretudo as mais inocentes.
Saíram pois os emissários, com José à frente, a indicar o caminho, e eram eles Abiatar, Dotaim e Zaquias, nomes que aqui se deixam registados para estorvar qualquer suspeita de fraude histórica que possa, acaso, perdurar no espírito de todas aquelas pessoas que destes factos e suas versões tenham obtido conhecimento através doutras fontes, porventura mais acreditadas pela tradição, mas não por isso mais autênticas. Enunciados os nomes, provada a existência efectiva de personagens que os usaram, as dúvidas que restem perdem muito da sua força, embora não a legitimidade. Não sendo isto de todos os dias, saírem à rua três anciãos emissários, como se lhes descobria pela dignidade particular da marcha, com as túnicas e as barbas ao vento, em pouco se juntaram ao redor deles alguns garotos, que, cometendo os excessos próprios da sua idade, uns risos, uns gritos, umas correrias, acompanharam os delegados da sinagoga até à casa de José, a quem o ruidoso e denunciador cortejo muito viera enfadando. Atraídas pelo ruído, as mulheres das casas próximas apareceram às portas e, pressentindo novidade, disseram aos filhos que fossem ver que ajuntamento era aquele à porta da vizinha Maria. Penas perdidas foram, que entraram só os homens. A porta fechou-se com autoridade, nenhuma curiosa mulher de Nazaré veio a saber o que em casa do carpinteiro José se passou, até aos dias de hoje.
[…]

José Saramago, em O evangelho segundo Jesus Cristo

Da incompreensão

O primeiro sinal da incompreensão é o riso; o segundo, a seriedade.

Mário Quintana, em Caderno H

1629 – Margens do rio Imperial




Maulicán

Te banhaste no rio? Aproxima-te do fogo. Estás tremendo. Senta-se e bebe. Vamos, capitão. Estás mudo? Se falas a nossa língua como se fosses um de nós... Come, bebe. Nos espera uma longa viagem. Não gostas de nossa chicha? Não gostas de nossa carne sem sal? Nossos tambores fazem teus pés bailarem. Tens boa sorte, menino capitão. Vocês queimam as caras dos cativos com o ferro que não se apaga. Tens má sorte, menino capitão. Agora tua liberdade é minha. Sinto dor por ti. Bebe, bebe, tira o medo de teu coração. Não te terão os que te buscam com ira. Te esconderei. Nunca te venderei. Teu destino está nas mãos do Dono do mundo e dos homens. Ele é justo. Assim. Toma Mais? Antes de que chegue o sol partiremos para Repocura. Quero ver meu pai, e celebrá-lo. Meu pai é muito velho. Logo seu espírito irá comer batatas negras lá, além dos picos de neve. Escutas os passos da noite caminhando? Nossos corpos estão limpos e vigorosos para iniciar a caminhada. Nos esperam os cavalos. Meu coração bate forte, menino capitão. Escutas os tambores de meu coração? Escutas a música da minha alegria?

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

O império das formigas




2.

Na manhã seguinte, Holroyd ficou sabendo que já estavam a quarenta quilômetros de Badama, e isto aumentou sua atenção para o que acontecia nas margens. Ele não perdia nenhuma oportunidade de examinar as redondezas. Não se via qualquer sinal de ocupação humana, com exceção das ruínas de uma casa, tomadas pelo mato bravio, e da fachada manchada de verde do mosteiro de Moju, abandonado havia muitos anos, no qual uma árvore brotava através da abertura de uma janela, e pesadas lianas se entrecruzavam diante dos portais. Revoadas de estranhas borboletas de asas amarelas, semitransparentes, cruzaram o rio naquela manhã; muitas pousaram no barco e foram mortas pelos homens. Foi apenas à tarde que se aproximaram da cuberta abandonada.
À primeira vista não parecia abandonada, pois ambas as suas velas estavam içadas e pendiam frouxas no ar imóvel daquela tarde; e via-se um homem sentado nas pranchas da parte dianteira, ao lado dos pesados remos. Outro homem parecia adormecido, deitado de bruços numa espécie de ponte longitudinal que esses barcos têm na parte do meio. Mas logo ficou aparente, pelo modo como o leme oscilava à toa e o barco parecia vagar de encontro à canhoneira, que alguma coisa ali estava errada. Gerilleau examinou o barco com o binóculo, e pareceu especialmente interessado no rosto escurecido do homem sentado, um indivíduo de pele avermelhada que parecia não ter nariz; estava mais agachado do que sentado, e quanto mais o capitão o examinava menos gostava do que estava vendo, e mais aplicava o olho às lentes.
Mas por fim ele conseguiu afastar a vista e caminhou até Holroyd. Depois voltou à proa e gritou na direção do barco. Gritou algumas vezes sem resposta até que as duas embarcações se cruzaram. Santa Rosa era o nome da cuberta que vinha à deriva, claramente visível.
Quando ela passou, oscilou um pouco ao ser atingida pelas ondas do barco maior, e nesse momento o homem agachado desmoronou no chão como se todas as suas juntas tivessem se desfeito ao mesmo tempo. Seu chapéu tombou, e sua cabeça não era algo agradável de se ver; o corpo descaiu, frouxo, e rolou pelo chão até ficar oculto pelo parapeito.
Caramba! — gritou Gerilleau, e apressou-se a chamar Holroyd, que já tinha ido ao seu encontro. — Viu aquela coisa? — disse o capitão.
Está morto! — exclamou Holroyd. — Claro que sim. É melhor mandar um bote com alguém para subir a bordo. Alguma coisa está errada.
Você por acaso viu o rosto dele?
Como era?
Era... ugh... não tenho palavras.
E o capitão, dando as costas a Holroyd, assumiu o papel estridente e atarefado de comandante.
A canhoneira se aproximou, resfolegando, até emparelhar com a cuberta, e desceu à água um bote com o tenente Da Cunha e três marujos para a abordagem. A curiosidade do capitão o fez levar a canhoneira mais para perto enquanto o tenente subia a bordo, de modo que todo o convés do Santa Rosa e a parte inferior eram visíveis a Holroyd.
Agora ele podia ver claramente que os únicos tripulantes do barco abandonado eram os dois homens mortos, e embora não conseguisse ver seus rostos, podia perceber, vendo suas mãos abertas, com as carnes dilaceradas, que os dois pareciam ter passado por algum excepcional processo de apodrecimento. Por um instante sua atenção se concentrou naqueles dois montes enigmáticos de roupas sujas e membros desconjuntados. Então, seu olhar percebeu o porão escancarado, revelando as pilhas de caixas e de baús, e logo adiante a cabine, inexplicavelmente vazia. Percebeu a seguir que as tábuas do meio do convés estavam cheias de pequenos pontos negros que se moviam.
Sua atenção se fixou nesses pontos. Todos se movimentavam em diferentes direções a partir do corpo do homem caído, parecendo — a imagem lhe veio à mente de maneira desconfortável — uma multidão que se dispersa depois de assistir a uma tourada.
Percebeu que Gerilleau estava ao seu lado, e pediu:
Capitão, tem seu binóculo aí? Pode focalizar aquelas tábuas, ali no meio?
Gerilleau obedeceu, soltou um grunhido, e passou-lhe o binóculo. Seguiu-se um longo momento de escrutínio.
Formigas — disse o inglês, e devolveu o binóculo, devidamente focado, a Gerilleau.
A impressão que tivera fora a de uma multidão de grandes formigas negras, muito parecidas com as formigas comuns a não ser pelo tamanho, e pelo fato de que algumas das maiores entre elas pareciam envoltas numa espécie de tecido cinza. Mas o exame que fizera tinha sido muito rápido para estudar esses detalhes, e já a cabeça do tenente Da Cunha aparecia sobre o parapeito, para um breve diálogo.
É preciso subir a bordo — disse Gerilleau.
O tenente objetou que o barco estava coberto de formigas.
Você está de botas — disse Gerilleau.
O tenente mudou de assunto.
Como foi que morreram esses homens? — perguntou.
O capitão Gerilleau enveredou por uma especulação que Holroyd não conseguiu acompanhar, e os dois começaram a discutir com certa veemência. Holroyd pegou de volta o binóculo e retomou seu escrutínio, primeiro das formigas, e depois do corpo tombado no convés.
Ele me fez uma descrição bastante precisa das formigas.
Disse que eram tão grandes quanto as maiores que ele já tinha visto; eram negras, e moviam-se com uma firme deliberação, não da maneira mecânica e confusa como se movem as formigas comuns. Cerca de uma em cada vinte era bem maior que as demais, e tinha uma cabeça excepcionalmente volumosa. Elas lhe lembraram as formigas líderes que supervisionam o trabalho das operárias, nas espécies cortadoras de folhas; tal como aquelas, pareciam estar dirigindo e coordenando o movimento coletivo do grupo. Empinavam o corpo para trás de modo singular, como se estivessem usando as patas da frente para algum outro propósito. E ele teve a impressão, mesmo estando demasiado distante para comprovar, que a maioria dessas formigas, de ambos os tipos, estava usando equipamentos, ou seja, trazia algumas coisas amarradas ao corpo com o que lhe pareceu serem fios brancos de metal.
Holroyd abaixou o binóculo de repente, ao perceber que a relação disciplinar entre o capitão e seu subordinado estava chegando a um ponto perigoso.
O seu dever — dizia o capitão — é subir a bordo. Minhas instruções são essas.
O tenente parecia a ponto de recusar-se. A cabeça de um dos marinheiros mulatos apareceu ao lado dele.
Acho que esses homens foram mortos pelas formigas — disse Holroyd abruptamente em inglês.
O capitão teve uma explosão de raiva. Não se dignou responder a Holroyd.
Eu lhe ordenei para ir a bordo! — gritou em seu português na direção do subordinado. — Se não for para bordo agora mesmo considerarei um motim, motim da tropa. Motim e covardia! Onde está a coragem que deveria nos inspirar?! Vou colocar vocês a ferros, vou matá-los a tiros como cachorros!
E prorrompeu numa saraivada de insultos e maldições, movendo-se de um lado para o outro. Brandiu os punhos, e comportou-se como se estivesse possesso de raiva, enquanto o tenente o olhava, muito pálido e tenso. A tripulação aproximou-se, com os rostos cheios de espanto.
De repente, numa pausa do desabafo, o tenente tomou uma decisão heroica e, reunindo todas as suas forças, içou-se por cima do parapeito do barco.
Ah! — exclamou Gerilleau; e sua boca fechou-se como um alçapão.
Holroyd viu as formigas recuando diante das botas de Da Cunha. O português caminhou devagar até o corpo do homem caído, inclinou-se, hesitou, agarrou o capote do morto e virou-o de rosto para cima. Uma multidão fervilhante de formigas saiu de dentro das roupas, e Da Cunha recuou às pressas, batendo com os pés nas tábuas do convés.
Holroyd ergueu o binóculo. Viu as formigas espalhadas em torno dos pés do invasor, e fazendo o que ele nunca antes tinha visto formigas fazerem. Elas não tinham nada dos movimentos cegos da formiga comum; olhavam para o homem, assim como uma multidão humana fitaria um monstro gigantesco que acabasse de dispersá-la.
Como foi que ele morreu? — gritou o capitão.
Holroyd entendeu, na resposta do português, que o homem estava muito devorado e não havia como saber.
O que há ali na frente? — perguntou Gerilleau.
O tenente caminhou alguns passos, e começou a responder em português. Parou de súbito e deu algumas batidas no lado da perna. Depois deu uns passos esquisitos, como se estivesse tentando pisar em alguma coisa invisível, e caminhou depressa para a lateral do barco. Em seguida pareceu controlar-se, deu meia-volta, caminhou com firmeza na direção da abertura do porão, e subiu para a parte superior do convés, no lugar onde são manejados os remos; inclinou-se por alguns instantes sobre o segundo cadáver, soltou um grunhido bastante audível, e depois voltou até a cabine, movendo-se com alguma rigidez. Virou-se e começou uma conversa com o capitão, num tom frio e respeitoso de parte a parte, num vívido contraste com a raiva e os insultos de pouco antes. Holroyd captou apenas fragmentos do conteúdo da conversa.
Voltou a concentrar a atenção no binóculo, e surpreendeu-se ao ver que as formigas tinham desaparecido de todas as áreas expostas do convés. Apontou as lentes para a parte escura por baixo da coberta, e teve a impressão de que ela estava cheia de olhos vigilantes.
Todos concordaram que o barco estava de fato abandonado, mas demasiadamente cheio de formigas para que alguns homens pudessem ocupá-lo e dormir dentro dele; teriam que rebocá-lo. O tenente foi até a proa para receber e ajustar o cabo, e os homens no bote ficaram prontos para ajudá-lo quando necessário. O binóculo de Holroyd continuou investigando o barco.
Ele tinha a impressão, cada vez mais forte, de que uma grande atividade, ainda que minúscula e furtiva, estava ocorrendo ali. Viu certo número de formigas enormes, que parecem ter umas duas polegadas de comprimento, carregando pacotes de formato esquisito — cuja utilidade ele não conseguia imaginar — de uma zona mergulhada na escuridão até outra. Não se moviam em colunas ao longo dos trechos iluminados, mas em linhas abertas, espaçadas, que sugeriam estranhamente as linhas de avanço de uma infantaria moderna sob fogo inimigo. Muitas das formigas estavam se abrigando por baixo das roupas do homem morto, e uma grande quantidade delas estava se aglomerando justamente no lado para onde Da Cunha se dirigia.
Ele não as viu avançar para o tenente quando ele voltou para lá, mas não teve a menor dúvida de que tinha acontecido um ataque planejado. De repente o tenente estava gritando e soltando maldições e dando pancadas nas pernas.
Fui picado! — gritou ele, voltando para Gerilleau um rosto cheio de ódio e de acusação.
Depois saltou por sobre a lateral do barco, caiu dentro do bote, e dali pulou para dentro d’água. Holroyd ouviu o espadanar da queda.
Os três homens conseguiram puxá-lo para dentro do bote e o trouxeram de volta para bordo; e na mesma noite ele morreu.

[...]

H. G. Wells, em O país dos cegos e outras histórias

01/07/2026

Vilarejo | Carlinhos Brown

Diário de Bernardo Soares

117

A maioria da gente enferma de não saber dizer o que vê e o que pensa.
Dizem que não há nada mais difícil do que definir em palavras uma espiral: é preciso, dizem, fazer no ar, com a mão sem literatura, o gesto, ascendentemente enrolado em ordem, com que aquela figura abstrata das molas ou de certas escadas se manifesta aos olhos. Mas, desde que nos lembremos que dizer é renovar, definiremos sem dificuldade uma espiral: é um círculo que sobe sem nunca conseguir acabar-se. A maioria da gente, sei bem, não ousaria definir assim, porque supõe que definir é dizer o que os outros querem que se diga, que não o que é preciso dizer para definir. Direi melhor: uma espiral é um círculo virtual que se desdobra a subir sem nunca se realizar. Mas não, a definição ainda é abstrata. Buscarei o concreto, e tudo será visto: uma espiral é uma cobra sem cobra enroscada verticalmente em coisa nenhuma.
Toda a literatura consiste num esforço para tornar a vida real. Como todos sabem, ainda quando agem sem saber, a vida é absolutamente irreal, na sua realidade direta; os campos, as cidades, as ideias, são coisas absolutamente fictícias, filhas da nossa complexa sensação de nós mesmos. São intransmissíveis todas as impressões salvo se as tornarmos literárias. As crianças são muito literárias porque dizem como sentem e não como deve sentir quem sente segundo outra pessoa. Uma criança, que uma vez ouvi, disse, querendo dizer que estava à beira de chorar, não “Tenho vontade de chorar”, que é como diria um adulto, isto é, um estúpido, senão isto: “Tenho vontade de lágrimas”. E esta frase, absolutamente literária, a ponto de que seria afetada num poeta célebre, se ele a pudesse dizer, refere resolutamente a presença quente das lágrimas a romper das pálpebras conscientes da amargura líquida. “Tenho vontade de lágrimas”! Aquela criança pequena definiu bem a sua espiral.
Dizer! Saber dizer! Saber existir pela voz escrita e a imagem intelectual! Tudo isto é quanto a vida vale: o mais é homens e mulheres, amores supostos e vaidades factícias, subterfúgios da digestão e do esquecimento, gentes remexendo-se, como bichos quando se levanta uma pedra, sob o grande pedregulho abstrato do céu azul sem sentido.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Canção de Mim Mesmo | 14

O ganso selvagem guia seu bando pela noite fresca,
Ele grasna, e soa para mim como um convite,
O atrevido pode supô-lo sem sentido, mas eu, ouvindo perto,
Acho seu propósito e lugar lá em cima no céu invernal.

O casquinho afiado alce do norte, o gato na soleira, o chapim, a marmota,
A ninhada da porca grunhente puxando suas tetas,
Os filhotes da perua e ela com suas asas semiabertas,
Vejo neles e em mim a mesma velha lei.

A pressão de meu pé sobre a terra desperta mil afeições,
Elas desdenham o meu esmero em narrá-las.

Estou encantado com o crescer ao ar livre,
Com homens que vivem entre gado ou provam do oceano ou da selva,
Com construtores e pilotos de navios e machadeiros e malhadores, e condutores de cavalos,
Posso comer e dormir com eles semana após semana.
O que é mais comum, mais barato, mais próximo, mais fácil, sou Eu,

Eu buscando oportunidades, gastando para vastos retornos,
Adornando-me para conceder-me ao primeiro que me tomará,
Sem pedir ao céu que baixe à minha boa vontade,
Difundindo-a livremente para sempre.

Walt Whitman, em Folhas de Relva

O sonho de Pedro Henriquez Urena

O sonho que Pedro Henriquez Urena teve ao amanhecer de um dos dias de 1946 não constava de imagens, mas tão somente de pausadas palavras. A voz que as pronunciava não era a sua, porém parecia-se com ela. O tom, em que pese as possibilidades patéticas que o tema permitia, era impessoal e comum. Durante o sonho, que foi breve, Pedro sabia que estava dormindo em seu quarto e que sua mulher estava a seu lado. Na obscuridade do sonho, a voz lhe disse: Há quantas noites passadas, em uma esquina da Rua Córdoba, discutiste com Borges a invocação do anônimo Sevilhano Ó Morte, vem calada / como costumas vir na flecha. Suspeitaram que era o eco deliberado de algum texto latino, já que estas versões correspondiam aos costumes da época, completamente alheias ao nosso conceito de plágio, sem dúvida menos literário do que comercial. O que não suspeitaram, o que não podiam suspeitar, é que o diálogo era profético.
Dentro de poucas horas correrás para a última estação da Constituición, para tua aula na Universidade de La Plata. Alcançarás o trem, colocares a pasta no portavolumes e te acomodarás na tua poltrona, junto à janela. Alguém, cujo nome ignoro mas cujo rosto estou vendo, te dirigirá algumas palavras. Não lhe responderás porque ambos estarão mortos. Já te terás despedido para sempre de tua mulher e de tuas filhas. Não te lembrarás deste sonho porque teu esquecimento é necessário para que se cumpram os fatos.

Jorge Luis Borges, em Livro de Sonhos

Piloto de Guerra — VII





Decerto, às vezes, como hoje, a missão não consegue satisfazer. É tão evidente que estamos jogando um jogo que imita a guerra. Brincamos de mocinho e bandido. Observamos corretamente a moral de nossos livros de história e as regras de nossos manuais. Assim, andei esta noite de carro, pelo terreno. E a sentinela, segundo a ordem, cruzou a baioneta diante desse carro que poderia muito bem ser um tanque. Nós brincamos de cruzar a baioneta diante dos tanques.
Como nos exaltaríamos com essas charadas um pouco cruéis, nas quais temos claramente um papel de figurantes, quando nos pedem para aguentar até a morte? É sério demais, a morte, para uma charada.
Quem se equiparia com exaltação? Ninguém. Nem Hochedé, que é uma espécie de santo, tendo atingido esse dom maior permanente que é sem dúvida o acabamento do homem, o próprio Hochedé refugiou-se no silêncio. Os camaradas que se equipam se calam, então, de cara fechada, e não é por pudor de herói. Essa cara fechada não mascara nenhuma exaltação. Diz o que diz. E eu a reconheço. É a cara fechada do gerente que não entende nada das ordens que lhe ditou um patrão ausente. E que, no entanto, permanece fiel: todos os camaradas sonham com seu quarto calmo, mas não há, entre nós, um só que escolhesse verdadeiramente ir dormir.
Porque o importante não é exaltar-se. Não há, na derrota, nenhuma esperança de exaltação. O importante é equipar-se, subir a bordo, decolar. O que pensamos de nós mesmos não tem nenhuma importância. E a criança que se exaltasse à ideia das aulas de gramática pareceria pretenciosa e suspeita. O importante é gerir um objetivo que não se mostra na hora. Esse objetivo não é para a inteligência, mas para o Espírito. O Espírito sabe amar, mas está dormindo. Sei no que consiste a tentação tanto quanto um padre da Igreja. Ser tentado, é ser tentado quando o Espírito dorme, a ceder às razões da inteligência.
De que serve engajar minha vida nesse desmoronamento de montanha? Ignoro-o. Repetiram-me cem vezes: “Deixe-se ser nomeado aqui ou ali. Ali é seu lugar. Você será mais útil do que numa esquadrilha. Pilotos a gente pode formar aos milhares”.* A demonstração era peremptória. Todas as demonstrações são peremptórias. Minha inteligência aprovava, mas meu instinto prevalecia sobre minha inteligência.
Por que esse raciocínio me parecia ilusório enquanto eu nada tinha a objetar? Eu pensava: “Os intelectuais se mantêm na reserva, como vidros de conserva nas prateleiras da Propaganda para serem comidos depois da guerra…”. Não era uma resposta!
Hoje, ainda, como os camaradas, decolei contra todos os argumentos, todas as evidências, todas as reações do momento. Chegará a hora em que saberei que tinha razão contra minha razão. Eu me prometi, se eu viver, fazer esse passeio noturno através da minha vila. Então, talvez, eu mesmo me habitue, enfim. E verei.
Talvez nada tenha a dizer sobre o que eu vir. Quando uma mulher me parece bonita, eu não tenho nada a dizer a respeito. Eu a olho sorrir, simplesmente. Os intelectuais desmontam o rosto para explicar os pedaços, mas não veem mais o sorriso.
Conhecer não é desmontar nem explicar. É chegar à visão. Mas para ver, convém primeiro participar. É uma dura aprendizagem…
Durante todo o dia, minha vila esteve invisível para mim. Tratava-se, antes da missão, de paredes de estuque e de camponeses mais ou menos sujos. Trata-se agora de um pouco de cascalho a dez quilômetros abaixo de mim. Eis a minha vila.
Mas, essa noite, talvez, um cão de guarda desperte e ladre. Eu sempre experimentei a magia de uma cidadezinha que sonha alto, pela voz de um único cão de guarda na noite clara.
Não tenho nenhuma esperança de me fazer compreender, o que me é absolutamente indiferente. Que se mostre, simplesmente, a mim, atrás das portas fechadas sobre provisões de grãos, sobre o gado, os costumes, minha vila bem acomodada para dormir!
Os camponeses, no retorno dos campos, tendo servido a refeição, posto as crianças para dormir e assoprado o lampião, se fundirão em seu silêncio. E nada mais haverá senão, sob os belos lençóis engomados do campo, os lentos movimentos de respiração, como de um resto de marulho, depois do temporal, sobre o mar.
Deus suspende o uso das riquezas durante o balanço noturno. A herança reservada me aparecerá, assim, mais claramente, quando os homens repousarem, com as mãos abertas pelo jogo do sono inflexível que relaxa os dedos até o amanhecer.
Então, talvez eu contemple o que não tem nome. Terei andado como um cego cujo tato conduziu ao fogo. Ele não saberia descrevê-lo e, no entanto, o terá encontrado. Assim, talvez, mostre-se o que convém proteger, o que não se vê, mas dura, à maneira de uma brasa, sob a cinza das noites de vila.
Eu nada tinha a esperar de uma missão fracassada. Para compreender uma simples vila, é preciso primeiro…
Capitão!
Sim?
Seis caças, seis, na frente, à esquerda!
Isso soou como um trovão. É preciso… Precisa… Eu gostaria: entretanto, de ser pago a tempo. Gostaria de ter direito ao amor. Gostaria de saber por quem vou morrer…

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* O autor se refere às várias tentativas que fizeram para dissuadi-lo de participar em esquadrilhas, justamente por já estar com mais de quarenta anos e ter muitas sequelas de seus acidentes anteriores. (N. T.)

Antoine de Saint-Exupéry, em Piloto de Guerra

O manifesto da cidade

Por que não tentar neste momento, que não é grave, olhar pela janela? Esta é a ponte. Este o rio. Eis a Penitenciária. Eis o relógio. E Recife. Eis o canal. Onde está a pedra que sinto? a pedra que esmagou a cidade. Na forma palpável das coisas. Pois esta é uma cidade realizada. Seu último terremoto se perde em datas. Estendo a mão e sem tristeza contorno de longe a pedra. Alguma coisa ainda escapa da rosa dos ventos. Alguma coisa se endureceu na seta de aço que indica o rumo de – Outra Cidade.
Este momento não é grave. Aproveito e olho pela janela. Eis uma casa. Apalpo tuas escadas, as que subi em Recife. Depois a pilastra curta. Estou vendo tudo extraordinariamente bem. Nada me foge. A cidade traçada. Com que engenhosidade. Pedreiros, carpinteiros, engenheiros, santeiros, artesãos – estes contaram com a morte. Estou vendo cada vez mais claro: esta é a casa, a minha, a ponte, o rio, a Penitenciária, os blocos quadrados de edifícios, a escadaria deserta de mim, a pedra.
Mas eis que surge um Cavalo. Eis um cavalo com quatro pernas e cascos duros de pedras, pescoço potente, e cabeça de Cavalo. Eis um cavalo.
Se esta foi uma palavra ecoando no chão duro, qual é o teu sentido? Como é cavo este coração no peito da cidade. Procuro, procuro. Casa, calçadas, degraus, monumento, poste, tua indústria.
Da mais alta muralha – olho. Procuro. Da mais alta muralha não recebo nenhum sinal. Daqui não vejo, pois tua clareza é impenetrável. Daqui não vejo mas sinto que alguma coisa está escrita a carvão numa parede. Numa parede desta cidade.

A ROSA BRANCA

Pétala alta: que extrema superfície. Catedral de vidro, superfície da superfície, inatingível pela voz.
Pelo teu talo duas vozes à terceira e à quinta e à nona se unem – crianças sábias abrem bocas de manhã e entoam espírito, espírito, superfície, espírito, superfície intocável de uma rosa.
Estendo a mão esquerda que é mais fraca, mão escura que logo recolho sorrindo de pudor. Não te posso tocar. Teu novo entendimento de gelo e glória meu rude pensamento quer cantar.
Tento lembrar-me da memória, entender-te como se vê a aurora, uma cadeira, outra flor. Não temas, não quero possuir-te. Alço-me em direção de tua superfície que já é perfume.
Alço-me até atingir minha própria aparência. Empalideço nessa região assustada e fina, quase alcanço tua superfície divina...
Na queda ridícula as asas de um anjo quebrei. Não abaixo a cabeça rosnante: quero ao menos sofrer tua vitória com o sofrimento angélico de tua harmonia, de tua alegria. Mas dói-me o coração grosseiro como de amor por um homem.
E das mãos tão grandes sai a palavra envergonhada.

Clarice Lispector, em Todos os Contos

30/06/2026

Vento no Varal | Elilson Batista

Sete Chaves

Vamos tomar chá das cinco e eu te conto minha grande história passional, que guardei a sete chaves, e meu coração bate incompassado entre gaufrettes. Conta mais essa história, me aconselhas como um marechal do ar fazendo alegoria. Estou tocada pelo fogo. Mais um roman à clé?
Eu nem respondo. Não sou dama nem mulher moderna.
Nem te conheço.
Então:
É daqui que eu tiro versos, desta festa com arbítrio silencioso e origem que não confesso com quem apaga seus pecados de seda, seus três monumentos pátrios, e passa o ponto e as luvas.

Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés

Factótum


16

Nessa época a minha conta do quarto, comida e roupa lavada etc. estava tão alta que precisei de vários adiantamentos para saldar a dívida. Fiquei em casa até fechar a conta e me mudei logo depois. Eu não tinha como pagar aquelas despesas.
Achei uma pensão perto do meu trabalho. A mudança foi fácil. Eu tinha só o suficiente para encher metade de uma mala…
A proprietária era Mama Strader, uma falsa ruiva de boa aparência que tinha um monte de dentes de ouro na boca e um namorado idoso. Na primeira manhã ela me chamou na cozinha e disse que me daria uma dose de uísque se eu fosse até o quintal alimentar as galinhas. Fui, depois fiquei na cozinha bebendo com ela e Al, o namorado. Cheguei uma hora atrasado no trabalho.
Na noite seguinte bateram na minha porta. Era uma mulher gorda, de uns quarenta e poucos anos. Ela segurava uma garrafa de vinho.
Moro no final do corredor, meu nome é Martha. Faz uns dias que eu escuto você ouvindo música boa. Pensei em lhe trazer uma bebida.
Martha entrou. Ela vestia uma bata verde folgada e, depois de alguns vinhos, começou a me exibir as pernas.
Eu tenho pernas bonitas.
Eu sou um cara que gosta de pernas.
Então veja mais de perto.
As pernas dela eram bem brancas, roliças, flácidas, com veias roxas saltando. Martha me contou a história dela.
Ela era prostituta. Rodava os bares. A principal renda vinha do proprietário de uma loja de departamentos.
Ele me dá grana. Eu entro na loja e pego o que quero. Quem trabalha lá nem me incomoda. Ele mandou me deixarem em paz. Não quer que a esposa saiba que eu trepo melhor que ela.
Martha levantou e ligou o rádio. Bem alto.
Eu sou uma boa dançarina — disse. — Olha pra mim!
Ela rodopiou aquela barraca verde que vestia, dando chutinhos. Não era muito sexy. Com rapidez ela ergueu a bata até a cintura e começou a balançar a bunda na minha direção. A calcinha rosa tinha um buraco grande na nádega direita. Depois, a bata foi parar no chão e ela ficou só de calcinha. Em seguida, a calcinha também foi fazer companhia à bata e ela começou a rebolar. O chumaço de pelos da periquita estava quase escondido pela barriga que balançava, pendurada.
O suor fazia o rímel dela escorrer. De repente, os olhos dela se encolheram. Eu estava sentado na beirada da cama. Ela pulou em cima de mim antes que eu pudesse fazer qualquer movimento. A boca aberta dela pressionava a minha. Tinha gosto de cuspe, cebola, vinho amanhecido e (na minha cabeça) o esperma de quatrocentos caras. Ela enfiou a língua toda babada para dentro da minha boca. Tive ânsia, e a empurrei para longe. Ela ficou de joelhos, puxou meu zíper, e em um segundo o meu pinto mole estava na boca dela. Ela chupou e balançou. Martha usava uma fitinha amarela no cabelo curto e acinzentado. Tinha verrugas e grandes pintas marrons no pescoço e nas bochechas.
Meu pênis subiu; ela gemeu e deu uma mordida. Eu gritei, peguei ela pelos cabelos e a afastei. Fiquei no meio do quarto, ferido e aterrorizado. Tocava uma sinfonia de Mahler no rádio. Antes que eu pudesse me mexer, Martha se ajoelhou e veio de novo para cima de mim. Sem dó, ela agarrou as minhas bolas com as duas mãos. Abriu a boca e foi de novo; a cabeça sacudia, chupava e balançava. Ela deu um baita puxão nas minhas bolas ao mesmo tempo que quase arrancou metade do meu pinto, me forçando a ir pro chão. Sons de sucção tomaram conta do quarto enquanto tocava Mahler no rádio. Era como se eu estivesse sendo devorado por um animal impiedoso. Meu pinto levantou, coberto de saliva e sangue. Ver aquilo a deixou em um frenesi. Já eu, me sentia sendo comido vivo.
Desesperado, pensei que jamais me perdoaria se eu gozasse.
Assim que me abaixei para tentar puxá-la pelos cabelos, ela agarrou as minhas bolas de novo e apertou sem dó alguma. Os dentes foram direto para o meio do pênis, como tesouras, tentando me partir em dois. Gritei, soltei o cabelo dela e caí de costas. A cabeça dela balançava de maneira impiedosa. Com certeza o som da chupada podia ser ouvido por toda a pensão.
Não! — gritei.
Ela insistia naquela fúria desumana. Eu comecei a gozar. Era como se ela estivesse sugando as entranhas de uma cobra encurralada. Era uma fúria misturada com loucura; ela sugou o esperma e engoliu.
E seguia sacudindo e chupando.
Martha! Chega! Já deu!
Não parou. Era como se ela tivesse se transformado em uma enorme boca devoradora. Continuava chupando e sacudindo. Sem parar.
Não! — gritei de novo. Então, ela fez como se estivesse tomando um vanilla malt de canudinho.
Desmaiei. Ela se levantou e começou a se vestir, cantando.

When a New York baby says goodnight
it’s early in the morning
goodnight, sweetheart
it’s early in the morning
goodnight, sweetheart
milkman’s on his way home…

Cambaleei até o chão, apertando os bolsos da frente da calça até achar a carteira. Tirei cinco dólares e dei para ela. Ela pegou a grana, enfiou dentro do vestido, entre os seios e, brincando mais uma vez, agarrou minhas bolas, apertou, soltou e saiu do quarto valsando.

Charles Bukowski, em Factótum

Cruel amor

Um dia, da ponta daquela mesa comum de hóspedes, dona Glorinha me interpelou:
Seu Mario, o senhor ainda não leu o CRUEL AMOR?
Não, eu nunca tinha lido o CRUEL AMOR!...
Pois tudo o que falta à minha vida, toda a imperfeição em que ainda me debato, vem de eu nunca ter lido o CRUEL AMOR... de ter achado ridículo o título... de ter achado ridícula a transcendental pergunta de dona Glorinha…

Mário Quintana, em Sapato Florido

A medicina bate à porta



Tenho tanta raiva de telefone que costumo atender com um rosnado.
Blanc?
Infelizmente.
É o Baiano, meu nego. Mas se você vai escrever sobre isso, não esquece de registrar que meu nome é Wilson Flora, senão o pessoal lá na minha terra não acredita.
Tá.
Eu queria fazer uma rápida consulta médica, por telefone mesmo. É o seguinte:...
Baiano, você sabe que eu detesto esse troço. Parei de clinicar na década de 70. Logo, o máximo que sou, hoje em dia, é uma espécie de palpiteiro com curso superior, que, no meu caso específico, foi bastante inferior.
Mas é coisa simples. Andei bebendo demais e o médico me pediu tanto exame que eu comecei a passar mal só de ler a relação.
Hum... Que tipo de exame?
Glicídios, lipídios, adílios, otacílios...
Você já bebeu hoje?
Pra tomar coragem de ligar pra você. Eu tenho horror dessas conversas sobre doença.
Eu também, Baiano. Parei por causa disso.
Mas é diferente, Blanc. Você viveu durante anos essa dura realidade, eu diria mesmo heroica, nas condições em que se faz medicina em nosso país, e teve um papel preponderante, ainda que por pouco tempo...
Higiênico.
Hein?
O papel. Você tá tentando me vender outro carro? Se essa conversa acabar com a descrição de um modelo 88 de caminhonete, uma joia, que apareceu na agência, em perfeito estado, um milagre etc., na próxima vez que a gente se encontrar, eu vou armado.
Não, nada disso! Poxa, Blanc, até parece que eu, em minha honrada profissão, me comporto feito um escroto qualquer.
Errou só por um pequeno detalhe: um escroto qualquer vende carro com um mínimo de consideração pela vítima. Você, não. Você é Medalha de Ouro em todas as modalidades de escrotidão, 4 x 100, com ou sem vara, em distância, em altura... Você apronta sacanagem até em jogo de peteca.
Compreendo seu mau humor. O Vasco ainda não convenceu, o Edmundo é uma incógnita, e você...
Isso não tem nada que ver com o Vasco.
Tenho um favor pra te pedir. O cara que está monitorando meu quadro (gostou dessa?), quer... bem... sejamos diretos: um exame de próstata, e eu me recuso a permitir que um desconhecido me dede. Escolhi você.
Quer que seja no Canecão, com show de mulatas, noite de autógrafos etc.?
Só te peço que pense no meu caso com carinho. Bom, tenho que sair. Vou a uma dessas casas de instrumentos musicais.
???
O médico disse que vou fazer uma verdadeira bateria de exames. Tô indo comprar um surdo e um apito. O laboratório que se exploda, mas minha bateria sem surdo e sem apito, nem pensar.

Aldir Blanc, em Rua dos Artistas e Arredores

Ver

De tudo que João Guimarães Rosa escreveu, acho a estória do Miguilim a mais bonita. Miguilim era um menininho que vivia num lugar perdido do sertão, precisava andar um dia a cavalo pra se chegar no mais próximo. Mas Miguilim via um mundo embaçado e pensava que o mundo era assim. Não via o passarinho no galho da árvore nem os brotos do milho saídos do chão. Pai de Miguilim, bruto, achava que ele era burro. Desgostava. Batia. E no coração de Miguilim o ódio crescia. Mas um dia chegou um doutor montado em cavalo bonito e tratado. Estranhou que Miguilim fechasse os olhos pra ver melhor. “Esse nosso rapazinho tem a vista curta. Espera aí, Miguilim...” E o senhor tirava os óculos e punha­-os em Miguilim, com todo o jeito. “Olha agora!” Miguilim olhou. “Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas pas­seando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo...” Leiam e comparem, e vejam se o Miguilim não é o João. Os dois eram míopes sem saber. O espanto do Miguilim deve ter sido o espanto do João quando pôs os óculos pela primeira vez. E os dois brincavam com os mesmos brinquedos, até os boizinhos de sabugo, brancos, vermelhos e pretos, esses pretejados no fogo do fogão de lenha... Lendo o Miguilim aprendo sobre o João.

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba