16/08/2026

Rafa Bernardes | Garçom

Moinhos

Fonte: riptapparel.com

Mistério

Quando comecei a escrever, que desejava eu atingir? Queria escrever alguma coisa que fosse tranquila e sem modas, alguma coisa como a lembrança de um alto monumento que parece mais alto porque é lembrança. Mas queria, de passagem, ter realmente tocado no monumento. Sinceramente não sei o que simbolizava para mim a palavra monumento. E terminei escrevendo coisas inteiramente diferentes.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Capítulo 79 – Compromisso de gato




Não acabaria se houvesse de contar pelo miúdo o que padeci nas primeiras horas. Vacilava entre um querer e um não querer, entre a piedade que me empuxava à casa de Virgília e outro sentimento, – egoísmo, suponhamos, – que me dizia: – Fica; deixa-a a sós com o problema, deixa-a que ela o resolverá no sentido do amor. Creio que essas duas forças tinham igual intensidade, investiam e resistiam ao mesmo tempo, com ardor, com tenacidade, e nenhuma cedia definitivamente. As vezes sentia um dentezinho de remorso; parecia-me que abusava da fraqueza de uma mulher amante e culpa-da, sem nada sacrificar nem arriscar de mim próprio; e, quando ia capitular, vinha outra vez o amor, e me repetia o conselho egoísta, e eu ficava irresoluto e inquieto, desejoso de a ver, e receoso de que a vista me levasse a compartir a responsabilidade da solução.
Por fim interveio um compromisso entre o egoísmo e a piedade; eu iria vê-la em casa, e só em casa, em presença do marido, para lhe não dizer nada, à espera do efeito da minha intimação. Deste modo poderia conciliar as duas forças. Agora, que isto escrevo, quer-me parecer que o compromisso era uma burla, que essa piedade era ainda uma forma de egoísmo, e que a resolução de ir consolar Virgília não passava de uma sugestão de meu próprio padecimento. Ocorre-me a este propósito um naturalista, – não me lembra qual, – mas era um naturalista, – em que li esta observação curiosa: “O gato não nos afaga, afaga-se em nós.” Vejo que eu fazia um compromisso de gato.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Siempre en la Barca pra Paquetá



2ª Faixa: Dolores

Bem que eu não queria ir naquele baile de gala no Clube de Regatas Vasco da Gama. Bacalhau de smoking fica mais deslocado que pinguim de chuteira. Mas o Dininho insistiu e eu acabei indo. Mal-humorado, ancorei o cotovelo no balcão do bar e comecei a encher a cara de cerveja. Já estava chamando urubu de meu louro quando a Aparição me cegou. Instantes depois, refeito do choque, recomecei a beber – só que, humildemente, pra tomar coragem.
Eu me contentaria em ser rato na abóbora daquela Cinderela. O medó fazia meus sovacos destilarem essências dignas de um desastre ecológico em Cubatão. Minha cabeça rodando, girava mais que os casais, fazia perguntas irrespondíveis: e se ela cuspir na minha cara?, será que ela vai reparar que minha faixa é uma adaptação do xale da tia Nicinha?, e se ela disser que essa merda de gravata parece mais mariposa que borboleta?, e se eu pisar no pezinho dela?, e se me der vontade de soltar um pum?, e se além de feder, fizer um barulhão?, e se eu vomitar o ensopadinho, meu Deus?!?
Ela era linda. Estava com uma gargantilha de pérolas de três voltas – minha forca – combinando com o sorriso. E luvas. Luvas. E a ponta de um torturante bandeide no calcanhar. Se ela entrasse em meu quarto, numa noite de lua cheia, só de gargantilha e luvas, mais os bandeides afrodisíacos, eu confesso que seria capaz de cometer uma loucura: dilacerar meu pijama verde de listrinhas, uivando como um lobo; estraçalhar suas luvas brancas com meus cariados caninos; romper a gargantilha com unhas roídas ávidas, deitá-la sobre as pérolas derramadas e, no clímax do surto psicótico, broxar. Tsk, isso acontece!
A orquestra foi fundo em La Puerta. E meu amor, como que hipnotizado, foi atrás da Cinderela. Quando a timidez ameaçava me paralisar, eu pensava no Garrincha driblando os adversários e ia em frente. Cheguei na mesa dela como se tivesse cruzado o Amazonas por debaixo d’água: molhado e sem fôlego.
O suor escorria pelas pernas de tal modo que temi ter feito xixi nas calças. O coroa com pinta de pai devia ser médico porque me fitou longamente, enquanto mordiscava um palito de fósforo. Uma eternidade depois, colocou o que restava do pauzinho no cinzeiro e perguntou:
– Quer um Valium?
Sou do Estácio, qual é?
Não perdi a pose. Esse babaca não me conhece, não sabe com quem tá falando,pomba. Respondi à altura:
– Se o senhor tiver Maracujina, sem querer abusar, eu aceito.
Justo nessa hora, a letra do bolero falava em padecer. Respirei fundo, tive uma rápida crise de choro, e dei a volta por cima:
– Terminei o científico no Externato São José.
Até hoje não entendo a razão daquelas gargalhadas.
Armei um ar entediado, tipo James Dean em Nilópolis, acendi a lapela esquerda do paletó com meu isqueiro Zippo e disse:
– Adoro bolero.
Engasguei com a fumaça e ela não ouviu nada. Ela ficava mais bonita ainda gritando: “Hein? Hein?". Tropecei no cadarço desamarrado do meu insólito sapato social de lona (que eu também usava pra futebol e basquete), e caí nos braços do pai dela, que era um cara até bem-humorado:
– É comigo que você quer dançar?
Ela colocou água na fervura:
– Euclides, vai com calma, meu bem.
Euclides? Meu bem? Hiii.
Mas o cara era realmente compreensivo.
– Dá uma dançada com esse palhaço, Dolores, antes que eu arrebente ele todinho.
Dolores! Fiz careta pra ele. Não levo desaforo pra casa. Ela me arrastou pro salão como quem puxa um poodle.
Dolores! Enlacei a cinturinha dela e dei uma rodopiada pra esquerda. Atingimos em cheio um garçon, e vários cuba-libres afluíram da bandeja para o vértice do decote de Dolores. Ela revelou verve e distinção:
– Bom, gelado tá, mas eu costumo tomar um de cada vez.
Procurei levar um papo descontraído, bacana, pra que a gafe anterior não provocasse efeitos colaterais.
– Minha vó Noêmia sabe fazer pavê de chocolate.
E ela, ardilosa e criativa:
– Pa vê ou pa comê?
Meu gogó fez crunch, de paixão contida.
Continuei a conversa com a maior naturalidade.
– Você costuma ter cólica menstrual?
– Olha, eu...
– Mamãe prefere Regulador Gesteira.
– É mesmo?
– Você tem cabelos sedosos e ondulados. Deve ser graças ao legítimo Óleo de Ovo!
– Pra ser sincera...
– Vacinosan estimula a vida da epiderme. O melhor medicamento pra cútis.
– Quem sabe...
– Para uma dama, extrato, loção e pó-de-arroz, de Myrurgia.
Ela me censurou ternamente:
– Tira a outra mão do bolso que não fica bem...
Disfarcei, cantarolando no ouvidinho dela o Hino do Expedicionário. Tentei cativá-la com uma última cartada.
– Tu lembra do Coronel?
– Coronel?
– Hum, hum. Laerte, Orlando e Coronel. Do time do Vasco, campeão de 56.
Ela riu, brincou com meu topete emplastrado de gumex, beijou meu queixo de levinho e me chamou de maluco.
Voltei a mim na enfermaria do clube, mais do que nunca a Cruz de Malta cravada em meu peito. A turma é boa, é mesmo da fuzarca. Vasco, Vasco, Vas-cô!
Dolores, mesmo não sendo Sierra nem nascida em Salamanca, deixaste abandonada a ilusão que havia em meu coração por ti.

Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo

Finalidades supremas

[...]

Em Oreanda, sentaram-se num banco perto da igreja e ficaram calados, olhando o mar embaixo. Mal se avistava Ialta através da névoa matutina, e nos cumes das montanhas nuvens brancas pairavam imóveis. A folhagem das árvores estava quieta, cigarras cantavam e o ruído surdo e monótono do mar, vindo de baixo, falava de repouso, do sono eterno que nos espera. Esse barulho já se fazia ouvir ali quando não havia nem Ialta, nem Oreanda; ele se faz ouvir agora e será assim também no futuro, surdo e indiferente, quando nós não mais existirmos. E nessa constância, nessa completa indiferença em relação à vida e à morte de cada um de nós, esconde-se, talvez, a garantia de nossa salvação eterna, do incessante movimento da vida na terra, do seu contínuo aperfeiçoamento. Sentado ao lado de uma jovem mulher, que no amanhecer parecia tão bela, tranquilizado e enfeitiçado pela visão desse panorama fantástico – o mar, as montanhas, as nuvens, o amplo céu –, Gúrov pensava que, no fundo, se refletirmos bem, tudo neste mundo é maravilhoso; tudo, exceto aquilo que nós mesmos pensamos e fazemos quando esquecemos das finalidades supremas da existência e da nossa dignidade como homens.
[…]

Anton Tchekhov, em A dama do cachorrinho

15/08/2026

Arnaldo Antunes e Vandal | Novo Mundo (citação: Mundanoh)

Canção de Mim Mesmo

17

Esses são realmente os pensamentos de todos os homens em todos os tempos e terras, não são originais comigo,

Se não são seus tanto quanto meus eles são nada, ou quase nada,
Se não são a charada e a solução da charada eles são nada,
Se não estão perto tanto quanto distantes são nada,

Esta é a relva que cresce onde houver terra e houver água,
Este o ar comum que banha o globo.

Walt Whitman, em Folhas de Relva

Factótum


21

O expediente na fábrica de biscoitos para cachorro era das quatro e meia da tarde até uma da manhã.
Me deram um avental branco encardido e luvas de lona pesadas. As luvas estavam queimadas e tinham buracos, eu conseguia ver meus dedos aparecendo. Recebi instruções de um elfo banguela com uma película sobre o olho esquerdo, branca e verde, com linhas azuis parecendo teias de aranha.
Ele fazia aquele trabalho há uns dezenove anos.
Fui até o meu lugar. Um apito soou e a maquinaria entrou em ação. Os biscoitos para cachorro começaram a se mover. A massa era moldada com uma prensa e depois colocada em telas de metal pesado com bordas de ferro.
Eu peguei uma tela e a coloquei no forno atrás de mim. Me virei. Lá estava a próxima. Não tinha como diminuir a velocidade. A única hora que elas paravam era quando algo enguiçava a máquina. Isso não acontecia com frequência. Quando acontecia, o Elfo resolvia rapidinho.
As chamas saltavam uns cinco metros de altura. O interior do forno era como uma roda-gigante. Cada plataforma aguentava doze telas. Quando o homem do forno (eu) preenchia uma plataforma, chutava uma alavanca que fazia da roda girar um nível, trazendo a próxima saliência vazia para baixo.
As telas eram pesadas. Levantar uma já deixava o cara cansado. Se você pensasse que devia fazer aquilo por oito horas, levantando centenas de telas, nunca ia conseguir. Biscoitos verdes, biscoitos vermelhos, biscoitos amarelos, biscoitos marrons, biscoitos roxos, biscoitos azuis, biscoitos de vitamina, biscoitos de vegetais.
Nesse tipo de emprego a gente fica cansado. Sofremos de um cansaço que ultrapassa a fadiga. Dizemos coisas loucas e brilhantes. Eu soltei palavrões, conversei, contei piadas e cantei. O inferno fervia de risadas. Até o Elfo riu de mim.
Trabalhei lá por algumas semanas. Eu chegava bêbado todas as noites. Não importava; eu tinha o emprego que ninguém queria. Depois de uma hora no forno eu ficava sóbrio. Minhas mãos estavam cheias de bolhas e queimaduras. Todos os dias eu sentava no quarto com dores e estourava as bolhas com alfinetes, que eu primeiro esterilizava com fósforos.

Uma noite, cheguei mais bêbado do que o normal e me recusei a bater o ponto.
— Chega — disse a eles.
O Elfo ficou em choque.
— Como vamos conseguir, Chinaski?
— Ah.
Só mais uma noite!
Coloquei a cabeça dele no meu braço e apertei; as orelhas dele ficaram rosadas.
— Seu merdinha — falei. Depois o soltei.

Charles Bukowski, em Factótum

O impagável Quino

Luz por dentro

Mas há uma beleza interior, de dentro para fora, a transluzir de certas avozinhas trêmulas, de certos velhos nodosos e graves como troncos. De que será ela feita, que nem notamos como a erosão dos anos os terá deformado. Deviam ser caricaturas mas não fazem rir, uns aleijões mas não causam pena. O mesmo não nos acontece ante o penoso espetáculo de um animal velho. Eu gostaria de acreditar que essa inexplicável beleza dos velhos talvez fosse uma prova da existência da alma.

Mário Quintana, em Caderno H

Selma




Eu detestava ler essas entrevistas em que o jornalista perguntava quando e como fora a primeira experiência sexual do entrevistado. E elas, eram sempre mulheres, atrizes ou modelos, respondiam sem hesitar, eu tinha dezesseis anos, foi na escada do prédio onde eu morava, quinze, no banheiro da boate, treze, na capela mortuária velando o corpo da mãe morta, catorze, no motel. As idades variavam de doze a dezessete.
Eu tinha vinte e três anos e ainda não tivera a minha primeira experiência sexual. Todos os amigos da minha idade começaram cedo, com putas. Um deles foi levado pelo pai, entrou no quarto da puta e contou a verdade para ela, que era veado, e pediu à puta para dizer ao pai que ele tinha comido ela, e quando saíram do quarto a puta disse, o seu filho é uma fera, e o pai ficou feliz da vida e até hoje não sabe da verdadeira inclinação sexual do filho.
Eu não tive experiência sexual com puta nem com nenhuma outra mulher. Não que me faltasse vontade. Era coragem o que me faltava. Eu tinha uma fimose que impedia o recuo do prepúcio que cobria a glande, e a cabeça do meu pau era coberta por uma pele que parecia uma pequena tromba de elefante. Essa era uma das desvantagens de não ser judeu. Meus pais teriam me operado quando eu era criança. Que bobagem eu estava dizendo, não tive pai nem mãe, eles morreram quando eu tinha dois anos. Fui criado por uma tia solteirona que não estava interessada no meu pau.
Por isso eu evitava todas as mulheres, putas e também moças de família e empregadinhas mulatinhas, e essas últimas viviam dando bola para mim e quanto mais bola me davam mais infeliz eu ficava.
No meu prédio morava uma moça que era da minha idade, Selma, quase sempre vestida de branco. Um dia subíamos só nós dois no elevador e ela me deu um beijo, mas foi um beijo muito estranho, ela enfiou a língua na minha boca e aquilo me deixou perplexo. Era o primeiro beijo que eu recebia na boca, minha tia me beijava no rosto e eu não esperava que um beijo fosse tão perturbador. Quando o elevador chegou no andar dela a garota de branco disse, o meu nome é Selma e eu quero namorar você.
Eu não disse nada. Estava muito perturbado com aquele beijo. Aquilo não saía da minha cabeça. Normalmente eu gostava de ficar em casa lendo, na verdade eu não gostava de sair de casa a não ser para trabalhar, porque era obrigado, e voltava correndo, tinha a impressão de que as pessoas olhavam para mim e viam o meu pau coberto pela trombinha de elefante. Fiquei em casa mas não consegui ler, aquele beijo da Selma me deixou abalado, desassossegado.
Passei a vigiar a entrada do meu prédio, se eu a visse esperando o elevador dava meia-volta e sumia. Tinha medo de subir com Selma e ela me beijar novamente e querer fazer coisas comigo, o que seria impossível. Que desculpa eu ia inventar, que não fosse vergonhosa ou humilhante? Meu pau é uma tromba de elefante?
Selma era muito esperta. Um dia saltei no meu andar e ela estava esperando na minha porta. Está com medo de mim?, perguntou. Abri a minha porta, disse, com licença, e fechei a porta na cara dela sem fazer barulho.
Dias depois ela me escorou de novo na porta do meu apartamento. Então? Quando vamos tomar um cafezinho juntos?, ela perguntou. Fiquei ruborizado e fugi covardemente, entrando no meu apartamento.
Eu sabia que aquele meu problema de fimose podia ser resolvido cirurgicamente, mas sempre ouvi dizer que em criança era fácil mas que em adulto era muito perigoso. Me contaram a história de um adolescente que foi operar a fimose e teve tantos problemas com essa operação que tiveram que cortar o pau dele.
Fui na internet. Fimose, dizia o site, é a dificuldade, ou mesmo a impossibilidade de expor a glande (“cabeça” do pênis) porque o prepúcio (“pele” que recobre a glande, a cabeça do pênis) tem um anel muito estreito. Havia um desenho que mostrava o prepúcio cobrindo a glande e o denominado anel prepucial, a minha tromba de elefante. Dizia um especialista que o prepúcio tinha como função proteger a glande contra traumatismos diversos, pois os mesmos eram frequentes no homem primitivo que vivia nas florestas. Uma informação importante: a fimose não prejudicava o crescimento do pênis.
Quis saber mais sobre essa operação. A postectomia — postium: prepúcio e tomia: secção —, dizia o site, devia ser feita com anestesia local. O próprio cirurgião realizava um bloqueio no tecido subcutâneo da base peniana, geralmente com lidocaína, sem vasoconstritor. O ato cirúrgico tinha uma duração média de trinta minutos. As complicações pós-operatórias eram raras, mas podiam acontecer hematomas e excepcionais infecções, entre outras coisas. Tardiamente alguns pacientes queixavam-se de alterações da sensibilidade e dores, sendo na grande maioria distúrbios psicogênicos, somatizados na genitália.
Vou fazer essa cirurgia, decidi. Procurei um médico no livro do meu plano de saúde e marquei uma consulta.
Eu estava deitado na mesa operatória quando chegaram o cirurgião e uma enfermeira, ambos com aquela máscara cirúrgica. A enfermeira segurou o meu pênis delicadamemte e aplicou a injeção.
Fechei os olhos durante todo o procedimento cirúrgico.
Pronto, ouvi o médico dizer.
Abri os olhos. Ele havia tirado a máscara.
Foi tudo bem, não foi, doutor?, disse a enfermeira, também tirando a máscara.
Perfeito, dona Selma.
A enfermeira era a Selma, a minha vizinha que andava vestida de branco.
Ela olhou para mim enquanto acariciava a minha mão.
Você está indo para casa daqui a pouco. Mais tarde eu passo lá para ver se está tudo bem. Agora você não vai mais fugir de mim, vai?

Rubem Fonseca, em Ela e Outras Mulheres

14/08/2026

Maria Luiza Jobim | Garota de Ipanema / Girl from Ipanema

A prova do algodão

Segundo a Carta do Direitos Humanos, no seu artigo 12 “Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida, na sua família ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação”. E mais: “Contra tais intromissões ou ataques toda a pessoa tem direito à protecção da lei”. Assim está escrito. O papel exibe, entre outras, a assinatura do representante dos Estados Unidos, a qual assumiria, por via de consequência, o compromisso dos Estados Unidos no que toca ao cumprimento efectivo das disposições contidas na mesma Carta, porém, para vergonha sua e nossa, essas disposições nada valem, sobretudo quando a mesma lei que deveria proteger, não só não o faz, como homologa com a sua autoridade as maiores arbitrariedades, incluindo aquelas que o dito artigo 12 enumera para condenar. Para os Estados Unidos qualquer pessoa, seja emigrante ou simples turista, indiferentemente da sua actividade profissional, é um delinquente potencial que está obrigado, como em Kafka, a provar a sua inocência sem saber de que o acusam. Honra, dignidade, reputação, são palavras hilariantes para os cães cerberos que guardam as entradas do país. Já conhecíamos isto, já o havíamos experimentado em interrogatórios conduzidos intencionalmente de forma humilhante, já tínhamos sido olhados pelo agente de turno como se fôssemos o mais repugnante dos vermes. Enfim, já estávamos habituados a ser maltratados.
Mas agora surge algo novo, uma volta mais ao parafuso opressor. A Casa Branca, onde se hospeda o homem mais poderoso do planeta, como dizem os jornalistas em crise de inspiração, a Casa Branca, insistimos, autorizou os agentes de polícia das fronteiras a analisar e revisar documentos de qualquer cidadão estrangeiro ou norte-americano, ainda que não existam suspeitas de que essa pessoa tenha intenção de participar num atentado. Tais documentos serão conservados “por um razoável espaço de tempo” numa imensa biblioteca onde se guarda todo o tipo de dados pessoais, desde simples agendas de contactos a correios electrónicos supostamente confidenciais. Ali se irá guardando também uma quantidade incalculável de cópias de discos duros dos nossos computadores de cada vez que nos apresentarmos para entrar nos Estados Unidos por qualquer das suas fronteiras. Com todos os seus conteúdos: trabalhos de investigação científica, tecnológica, criativa, teses académicas, ou um simples poema de amor. “Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada”, diz o pobre do artigo 12. E nós dizemos: veja-se o pouco que vale a assinatura de um presidente da maior democracia do mundo.
Aqui está. Praticámos sobre os Estados Unidos a infalível prova do algodão, e eis o que verificámos: não se limitam a estar sujos, estão sujíssimos.

José Saramago, em O caderno

Sumário

Polly Kellog e o motorista Osmar.
Dramas rápidos mas intensos.
Fotogramas do meu coração conceitual.
De tomara-que-caia azul marinho.
Engulo desaforos mas com sinceridade.
Sonsa com bom-senso.
Antena da praça.
Artista da poupança.
Absolutely blind.
Tesão do talvez.
Salta-pocinhas.
Água na boca.
Anjo que registra.

Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés

A Viúva

Quando a amiga lhe apresentou o garotinho lindo dizendo que era seu filho mais novo, ela não pôde resistir e exclamou: “Mas como, seu marido não morreu há cinco anos?” “Sim, é verdade” — respondeu então a outra, cheia daquela compreensão, sabedoria e calor que fazem os seres humanos — “mas eu não”.
MORAL: Não morre a passarada quando morre um pássaro.

Millôr Fernandes, em Fábulas Fabulosas

Zé Sapé




Quando se sabe pouco se imagina muito. O Riobaldo sabia disso e advertia: “O senhor deve ficar prevenido: esse povo diverte por demais com a baboseira, dum traque de jumento formam tufão de ventania. Por gosto de rebuliço. Querem-porque-querem inventar maravilhas glorionhas, depois eles mesmos acabam temendo e crendo. Parece que todo o mundo carece disso. Eu acho...” .
Na minha roça, tão longe do sertão do Riobaldo, era assim mesmo. O que confirma o dito: todo mundo carece disso... Os homens se reuniam ao fim do dia pra contar causos. Não era pra saber. Era pra imaginar. Brincadeira que se levava a sério. As coisas inventadas têm mais força que as não inventadas. Todo mundo sabia que o contador de causos estava mentindo. Mas seria falta de educação dizer a ele que as coisas que ele contava eram invenção. Assim, todo mundo fazia de conta que ele não estava mentindo. Tinha de fazer de conta, senão não tinha graça, não dava medo, não dava assombro. Depois de um causo portentoso, a coisa certa a se dizer era: “Mas isso não é nada...” . Aí aquele que disse começava a contar as suas maravilhas inventadas. Ninguém se interessava por fatos verdadeiros. Fato verdadeiro não dá espanto. O espanto mora no inventado. Os fatos verdadeiros só servem para neles se amarrar a fantasia, feito prego pra se pendurar um quadro. O prego ninguém vê. Os homens da cidade diziam que eram mentiras. Pois eu digo que ali estava o nascedouro do realismo fantástico. Bem diz o Manoel de Barros que o que não existe é mais bonito do que o que existe. Dentre todos os contadores de “causos” lá na roça, o mais imaginoso era o Zé Sapé. Foi assim que, numa roda, depois de um ”causo”, ele disse “mas isso não é nada” e passou a relatar o que lhe acontecera. Relatou, com a gravidade que convém a uma pessoa que só diz verdades. Era depois do almoço. O sol estava no alto do céu, queimando. Deu-lhe uma dor de barriga. Procurou um lugar adequado para obrar. Não podia ter mato alto, porque o mato alto espeta e faz cócegas no traseiro. E tinha de agachar na direção da subida do morro, pra obra não escorrer na direção do pé. Apertado pela necessidade, nem olhou direito. Desafivelou o cinto, baixou as calças, agachou e desapertou-se. Terminada a obra, feita a limpeza com um chumaço de capim, levantou as calças, apertou o cinturão... Aí ele explicou: “Todo mundo gosta de vê o que feiz. Eu virei pra vê. E num é que eu tinha obrado bem na cabeça de uma urutu que tava durmino, aquentano o sor di meio-dia? E a danada num acordô...” .
Acho que, se o Zé Sapé tivesse contado o seu “causo” aos autores bíblicos, o texto sagrado seria diferente. Lá, onde se diz que a mulher pisaria na cabeça da serpente e a serpente lhe morderia o calcanhar, estaria escrito: “E o homem obrará na cabeça da urutu e a urutu não morderá o seu traseiro”...

Rubem Alves, em O Velho que Acordou Menino

Aí pelas três da tarde

Para
José Carlos Abbate

Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em ideias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares à sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo “ciao” ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pelo, mas sem ferir o pudor (o seu pudor, bem entendido), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome depois com sua nudez no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado), e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.

Raduan Nassar, em Obra completa