Mary Oliver, em Thirst
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
Pesado
Naquela época
Pensei que não conseguiria.
Não se aproxime mais do luto.
sem morrer
Eu me aproximei,
E eu não morri.
Certamente Deus
teve participação nisto,
bem como amigos.
Mesmo assim, eu estava curvado,
e meu riso,
como disse o poeta,
não foi encontrado em lugar nenhum.
Então disse meu amigo Daniel
(corajoso até mesmo entre leões),
“Não é o peso que você carrega
que importa.”
mas como você o carrega —
livros, tijolos, luto —
está tudo atrapalhando
Você o acolhe, o equilibra, o
carrega.
quando você não pode, e não quer,
“Coloque-o no chão.”
Então fui treinar.
Você já reparou?
Você já ouviu falar?
o riso
que acontece, de vez em quando,
saiu da minha boca assustada?
Como eu me demoro
admirar, admirar, admirar
as coisas deste mundo
que sejam gentis, e talvez
também perturbado—
rosas ao vento,
Os gansos-marinhos nas ondas íngremes,
um amor
Para a qual não há resposta?
Cartas Mortas
A receita do romance Letters
[Cartas] (Putnam, 1979), de John Barth, é bastante simples. O
primeiro passo é pegar qualquer um dos vários compêndios de
história da literatura e, depois de um minucioso cruzamento das
referências, guarnecer um texto de 772 páginas, aqui e ali, com
passagens como esta:
É a data de nascimento de João
Calvino, Giorgio de Chirico, Jaime III da Escócia, Carl Orff,
Camille Pissarro, Marcel Proust, James McNeill Whistler. Os Aliados
estão desembarcando na Sicília, a Apolo XI teve um vazamento, o
vice-presidente Fillmore sucedeu Zachary Taylor na presidência dos
EUA, o primeiro contingente de fuzileiros americanos está saindo do
Vietnã, Ben Franklin propõe uma União Colonial aos moldes da Liga
Iroquesa das Seis Nações, os alemães começaram o bombardeamento
da Inglaterra e ratificaram o Tratado de Versalhes, Ra de Thor
Heyerdahl está enfrentando de novo um mar bravio e talvez não
chegue a Barbados, começaram as negociações para a trégua na
Coreia, o mercado financeiro continua em baixa, Woodrow Wilson
apresentou sua proposta da Liga das Nações ao Senado americano.
A finalidade dessas listagens
sincrônicas é sugerir que o passado e o presente, a memória e o
sonho, o real e o fictício fazem parte da mesma brincadeira. Nosso
ser, as sombras fugidias em nossos pensamentos são apenas um longo
Wiedertraum (palavra de mr. Barth), um sonho sonhado de novo.
Tudo se interliga na pulsante teia do tempo. Bertrand Russell
perguntou com suprema concisão: que provas existem de que o passado
inteiro do universo não é uma fantasia da mente nesta última
fração de segundo? Borges pode adotar essa possibilidade numa única
frase tranquila.
Segundo passo: você supõe que o
leitor tem plena familiaridade com todas as suas obras anteriores —
que ele tem na ponta da língua todos os seus enredos, alusões,
personagens e recursos de estilo. Em cada página, você insere
referências mais ou menos sorrateiras, mais ou menos discretas em A
ópera flutuante, The End of the Road [O fim da estrada], The
Sot-Weed Factor, Giles Goat-Boy, Perdido no túnel do terror e
Quimera. Num êxtase de narcisismo intelectualista, segue em
frente. Você faz o personagem principal de Letters descobrir, ler e
comentar todas essas paradas anteriores na sala de espelhos. E aí,
num salto lá de cima da corda para a rede de proteção do próprio
eu, você introduz no novo romance um tal Jacob Horner, máscara
visivelmente autobiográfica tirada de um livro anterior, e ainda
melhor. Outrossim (para imitar o pastiche da linguagem epistolar
clássica feito pelo professor Barth), você divide o referido Horner
numa forma dupla: Jacob Horner, o morador da Fazenda da
Remobilização, redige cartas a Jacob Horner, o morador da Fazenda
da Remobilização, entregando-se a um abandono autista. Um
personagem de um romance prévio, seu mesmo, sonha consigo outra vez.
Mas Pirandello já esteve aqui antes, e foi magistral.
Terceiro passo: sendo um professor de
literatura inglesa e americana sem sombra alguma de dúvida culto e
possuindo um conhecimento não meramente superficial das letras
europeias dos séculos XVIII e XIX, você coze seu enorme tijolo
(Letters é mais longo do que O idiota, Ulisses ou A
montanha mágica) com um carvão acadêmico cuidadosamente
preparado; isto é, ele se torna um palimpsesto de fontes e alusões
literário-histórico-estilísticas. Por trás desse tomo estão
Clarissa, de Samuel Richardson, Werther, de Goethe, e
aquele que é o mais grandioso, o romance epistolar mais nu e cru de
todos, Ligações perigosas, de Laclos. Cada passagem, uma
após a outra, é construída com citações, alusões em acrósticos
duplos, jogos acrônimos com nomes, fatos e citações tirados da
literatura inglesa e americana, de Chaucer a T. S. Eliot. Defoe,
Swift e Samuel Johnson abundam neste que é basicamente um pastiche
de um romance epistolar setecentista. Mas abundam também os
metafísicos, Shakespeare e os humoristas americanos. Quando chega
abril, ele é, claro, “o mais cruel dos meses”; quando se
pormenorizam infindavelmente as genealogias, elas trazem furtivos
ecos dos inventários das heranças em Faulkner, sobretudo em O
urso. Mas a trama e a urdidura não são apenas literárias em
sentido estrito. São tecidas em torno de carretéis biográficos
arcanos. É praticamente impossível entender Letters sem um
íntimo conhecimento da vida, dos amores e das opiniões de Madame de
Staël e seu atormentado amante Benjamin Constant. A intimidade com
as peregrinações eróticas de Lorde Byron também é um requisito
indispensável. (Madame de Staël e Byron se conheciam.) Sabendo do
papel essencial de Napoleão na vida e na imaginação de George Noel
e Corinne, passamos para um conjunto tremendamente erudito de alusões
à suposta fuga de Napoleão para os EUA em 1815, à efetiva estada
americana de Jérôme Bonaparte e às testemunhas ou descendentes
ianques dessa ilustre visita. A ressurreição de figuras
histórico-literárias nada tem de novo nem de ilícito. Mas Barth
não teve sorte. Titãs já estiveram aqui antes dele, e exatamente
no mesmo terreno. O mundo de Madame de Staël e Byron, às
cintilantes margens do lago de Genebra, tece seu espectral sortilégio
em Ada, de Nabokov; Werther renasce, com a vitalidade
do pleno autocontrole, em Carlota em Weimar, de Thomas Mann.
Tais ingredientes, em si, vão
resultar num suflê escolar mais ou menos indigesto. Nenhuma página
aqui, senhor doutor, que não mereça exegeses, glosas, notas de
rodapé, hermenêuticas, explicações, análises semióticas,
comentários psico-históricos e acadêmico-cabalísticos. Que os
adufes ressoem nas coutadas do saber, pois não só o texto do
professor Barth é uma colcha de retalhos, mas esses retalhos muitas
vezes são duplamente, triplamente costurados. Ambrose Mensch propõe
“fazer uma verbena”. Ha, ha! Transposição do famoso faire
cattleya de Proust, significando “fazer amor”. Coisa para
calouro, isso. Mas espere: não é a Proust que o dr. Barth agora nos
encaminha. Ele pergunta num parêntese: “Você conhece o conto ‘La
Fenêtre’ [A janela], de Maupassant, sobre a dama com perfume de
verbena que convida seu galanteador para seu château no
campo?”. Uma corrida da sala de aula até as estantes, onde, de
fato, espera-nos uma edição completa dos contos de Maupassant. Fim
da caçada? De maneira nenhuma. “Perfume de verbena” deveria
despertar alguma lembrança. Deveras, senhor, andamos meio
desmemoriados. Aquele conto intrigante, “Um odor de verbena”, da
coletânea Os invencidos, de Faulkner. Claro! Como demoramos
tanto para perceber? John Barth, Professor Catedrático de Inglês e
de Redação Criativa na Cátedra do Centenário dos Ex-Alunos da
Universidade Johns Hopkins, membro do Instituto Nacional de Artes e
Letras e da Academia de Artes e Ciências dos eua (tudo isso e outras
coisas mais na orelha do livro), fica sentado a sorrir.
John Barth tem se mostrado um escritor
extremamente inteligente, se bem que enfatuado. Possui um ouvido
excepcional para a paródia, o pastiche, o rifacimento, a imitação
satírica. Tem um conhecimento impressionante da literatura e da
história, da guerra de 1812 e do desenvolvimento do cinema
americano, da fauna e da flora de Maryland. Por grosseira que tantas
vezes seja, sua verbalização da sexualidade e da pulsão erótica
na carne humana é de intensa convicção. Sem dúvida voltará a
escrever livros melhores, mas neste aqui os virtuosismos da percepção
e da técnica verbal resultam num desperdício gigantesco. Se o
professor Barth não quer refrear sua prolixidade, não havia ninguém
com a coragem ou a afeição necessárias para dizer ao autor que um
livro com um terço do tamanho e despido de sua espalhafatosa
mecânica autorreferencial ficaria divertido e funcionaria bem? O
lamentável nessa história toda vai muito além do caso particular.
Abrange também o clima atual das publicações que pretendem nos
oferecer um “ótimo momento” — a caçada, ao mesmo tempo
arrogante e descerebrada, ao “blockbuster”. Supõe a
inexistência de um exercício gabaritado da resenha literária,
sobretudo da “literatura dos grandes nomes”. Quantos resenhistas
sob pressão terão tido tempo para examinar e, quanto mais, para
dedicar uma reflexão crítica a esta “nova obra-prima do cômico”?
(Quem escreve os releases tem de dizer essas coisas.) No
entanto, apenas quando a crítica é rigorosa e franca é que se
honra a literatura. Hoje em dia é moda aplicar o rótulo de
narcisista à situação americana. Boa parte dessa atribuição é
obviamente esquemática e simplista demais. Mas, num grau ao mesmo
tempo exato e grotesco, Letters parece comprovar a validade
desse ponto de vista.
Carta ao autor: Prezado John Barth, na
França — onde (como diz um de seus mestres favoritos, o Sterne
Laurence) sabem lidar melhor com essas coisas — existe um
provérbio: um mau livro mata uma boa floresta.
31 de dezembro de 1979
George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos
"Quieto; muito quieto é que a gente chama o amor"
[…]
A virar o ar, viemos; em caminho não
se descansou um dia. Agora eram os brejos da beira do Paracatú. Mas
eu tinha conseguido encher em mim causas enormes. Dispor do rôr
daquilo eu não conciliava, conforme perseguia, custoso, vermelho
meu. Somente quis, nem podia dizer aos outros o que queria, somente
então uns versos dei, que se puxaram, os meus, seguintes!
Hei-de às armas, fechei trato
nasVeredas com o Cão.
Hei-de amor em seus destinos
conforme o sim pelo não.
Em tempo de vaquejada todo gado é
barbatão.
deu doideira na boiada soltaram o
Rei do Sertão...
Travessia dos Gerais tudo com armas
na mão... O
Sertão é a sombra minha e o rei
dele é Capitão!…
Arte que cantei, e todas as cachaças.
Depois os outros à fanfa entoaram ― mesmo sem me entender, só por
bazófias ― mas rogando no estatuto daquela letra e retornando meu
rompante; cantavam melhor cantando. De todos, menos vi Diadorim: ele
era o em silêncios. Ao de que triste: e como eu ia poder levar em
altos aquela tristeza? Aí ― eu quis: feito a correnteza. Daí, não
quis, não, de repentemente. Desde que eu era o chefe, assim eu via
Diadorim de mim mais apartado. Quieto; muito quieto é que a gente
chama o amor: como em quieto as coisas chamam a gente. E já se
estava antefrente do Paracatú ― que também recovava o pouco e
escasso. Esbarrei não, nem examinei o adiante. Demiti meu cavalo
nágua. Os outros me acompanharam. Assim atravessamos.
Vai, viemos, viemos. Esses dias em
ondas. Sei só as encostas que subi, a festo. O Chapadão: céu de
ferro. E era a lua-nova. Aquelas pedras brancas, que de noite tanto
esfriam. As caraíbas estavam dando flór. Por ponto de meu corpo,
medi o enrolar dos longes ventos. Aí se viu, em seus couros, um
vaqueiro pessoalmente. A esse, perfiz: ― Amigo ó amigo, aqui é
aqui? Ao que ele confirmou: ― Aqui, o senhor, meu senhor, os
senhores estão nos andares do rio Urucúia... Aos campos. Sentei que
estava. Estrela gosta de brilhar é por cima do Chapadão. Tanta
doideira fiz? A prazo. Como aquela vista reta vai longe, longe, nunca
esbarra. Assim eu entrei dentro da minha liberdade. Oi, grita, arara,
araraúna, para a tua voz desenrouquecer! O Chapadão é uma estada,
estando. Somente eu sabia respirar. Sumo bebi de mim, e do que eu não
me tonteava. Só estive em meus dias. E ainda hoje, o suceder deste
meu coração copia é o eco daquele tempo; e qualquer fio de meu
cabelo branco que o senhor arranque, declara o real daquilo, daquilo
― sem traslado... Ali eu diante de portas abertas, por livre ir, às
larguras de claridade... Acho que foi assim.
Assim. Mas alguém me impediu. Ou era
que mesmo desse jeito tinha de ser? Urubús perpassaram,
extremamente, e para o poente vinham. Diadorim me chamou, pegando em
meu braço. Diadorim vigiou aquelas diferenças! ele temeu; temeu por
minha salvação, a minha perdição. Ou foi que minha Nossa Senhora
da Abadia mandou que assim tivesse de ser? Mas Diadorim tirou o
açôite de minha ação, ele me puxou, eu segurado, o propósito
para trás. Nas grimpas, naquelas, o significado duma coisa tive, que
depois lhe relato. Ah, só no azul do anoitecer é que o Chapadão
tem fim.
Foi na descida de algumas ladeiras, no
se costear um barrocão. Diadorim disse! ― Estou aqui, te vejo
mesmo, Riobaldo!
Eu disse! ― Ah, não. Ah, paz!
Ele disse! ― A uma coisa eu te digo,
Riobaldo...
Eu disse! ― Pois fala.
Diadorim disse ― a voz dele se
paliava! ― Por querer bem é que eu falo, Riobaldo... ― feito o
sussurro, nessas veredas, mão mansa, de tardinha, descabelando o
buritizal.
Eu disse! ― Vai dizendo! ― ; falei
uma segunda palavra.
A testa dele merujava, coisas grossas
gotas ― mesmo me temesse? ― aquele suor devia de se gelar. Aí
era um aviso, que ele queria me fornecer?
Aí eu não queria ouvir o que fosse,
de repente eu não queria, eu não queria, fiz de ficar indignado. No
eu no meu, não tivessem de me dar a toda aprovação? Ao redor de
mim, assim obedecessem. A chefia sabe chefiar. Por certo, que, para a
jagunçagem, os Gerais mal serviam. A pobreza daquelas terras, só
pobreza, a sina tristezinha do pouco povo. Aonde o povo no rareado,
pelo que faltava de água naquelas chapadas; e a brabeza do gado, que
caminhava em triste achar. Desejar de minha gente, seria que se
atravessasse o do-Chico ― ir em cata de vilas e grandes arraiais,
adonde se ajustar pagas e alugar muitos divertimentos. Conforme no
renovável servisse: ir aonde houvesse política e eleição. Sabia
disso. Eu não era pascácio. Um chefe carece de saber é aquilo que
ele não pergunta. E mesmo eu sempre tive diversas saudades.
Reprazia, para mim, um dia reverter
para o rio das Velhas, cujos campais de gado, com coqueiral de
macaúbas, meio do mato, sobre morro, e o grande revóo baixo da
nhaúma, e o mimoso pássaro que ensina carinhos ― o
manuelzinho-da-cróa... Diadorim, eu gostava dele? Tem muitas épocas
de amor. Amor em perto, às vezes sossega, em muitos adiamentos ―
ao homem da branca barba. ― Tempo de guerrear! ― eu disse, para
Alaripe, o Pacamã-de-Presas, o Acauã e o Fafafa: meus contra-guias.
Em qualquer parte eu não podia arvorar bem fincado meu
mastro-de-guerra? Primeiro, então, por ali mesmo, na areia róxa,
para tomar o instinto do ar, a gente recruzava. Mas, dirá o senhor:
e o Hermógenes? A guerra não era para ser contra o Hermógenes, os
Judas? Sim, sei. Mas, eles, no meu ir eles iam vir, haviam-de. Sabia
isso era eu no coxim da sela, suor nosso. Seguindo, no raso e no
monte, das areias tirando brilhos. A mal o mundo serenava, de
tardinha, quando os jaós cantavam. Ou silêncio tão devassado,
completo, que nos extremos dele a gente pode esperar o lãolalão de
um sino. Diadorim não me entendesse? Ele entendia?
Assim, eu tivesse muito ódio,
Diadorim havia de me entender. Mas eu estava acontecido. Por exemplo,
vinha uma boiada, que passou, no bom-balanceio. Aqueles vaqueiros,
esses com os laços enrodilhados nas garupas, e que, por prazer,
aboiavam. Apreciei de ver como todos souberam jeito de esconder o
medo que de mim deviam de ter. Boiada com rumo na barrra do Paracatú,
salvante que mudassem de roteiro. Mas a gente ia por lados
contrários. Deles até carneamos duas rêses. Se assou carne na moda
do povo dos Gerais ― que era com espeto de vara de folha-miúda,
tanto tempo se esbrazeando para estorricar, o naco de carne se
torrava como um fumo, e o gosto daquele cheiro se supria forte, só
por si punha a boca da gente aguando. Dada a mais cachaça ao menino
Guirigó e ao cego Borromeu! para eles falarem coisas diferentes do
que certas, por em si desencontradas, diversas de tudo. Conselhos me
davam? Mesmo só o igual ao que pudesse dar o cajueiro-anão e o
araticúm, que ― consoante o senhor escrito apontará ― sobejam
nesses campos. Mas a minha sina formava o rebrilhar; em tudo, digo ao
senhor. Conforme fatos houve.
Da mulher ― que me chamaram! ela não
estava conseguindo botar seu filho no mundo. E era noite de luar,
essa mulher assistindo num pobre rancho. Nem rancho, só um papirí
à-tôa. Eu fui. Abri, destapei a porta ― que era simples
encostada, pois que tinha porta; só não alembro se era um couro de
boi ou um tranço de buriti. Entrei no olho da casa, lua me esperou
lá fora. Mulher tão precisada! pobre que não teria o com que para
uma caixa-de-fósforo. E ali era um povoado só de papudos e
pernósticos. A mulher me viu, da esteira em que estava se jazendo,
no pouco chão, olhos dela alumiaram de pavôres. Eu tirei da
algibeira uma cédula de dinheiro, e falei! ― Toma, filha de
Cristo, senhora dona! compra um agasalho para esse que vai nascer
defendido e são, e que deve de se chamar Riobaldo... Digo ao senhor!
e foi menino nascendo. Com as lágrimas nos olhos, aquela mulher
rebeijou minha mão... Alto eu disse, no me despedir: ― Minha
Senhora Dona: um menino nasceu ― o mundo tornou a começar!... ―
e saí para as luas.
[…]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas
Exegese
— Mas que quer dizer esse poema? —
perguntou-me alarmada a boa senhora.
— E que quer dizer uma nuvem? —
retruquei triunfante.
— Uma nuvem? — diz ela. — Uma
nuvem umas vezes quer dizer chuva, outras vezes bom tempo…
Mário Quintana, em Sapato Florido
Diário de Bernardo Soares
90.
Reconhecer a realidade como uma forma
da ilusão, e a ilusão como uma forma da realidade, é igualmente
necessário e igualmente inútil. A vida contemplativa, para sequer
existir, tem que considerar os acidentes objetivos como premissas
dispersas de uma conclusão inatingível; mas tem ao mesmo tempo que
considerar as contingências do sonho como em certo modo dignas
daquela atenção a elas, pela qual nos tornamos contemplativos.
Qualquer coisa, conforme se considera,
é um assombro ou um estorvo, um tudo ou um nada, um caminho ou uma
preocupação. Considerá-la cada vez de um modo diferente é
renová-la, multiplicá-la por si mesma. É por isso que o espírito
contemplativo que nunca saiu da sua aldeia tem contudo à sua ordem o
universo inteiro. Numa cela ou num deserto está o infinito. Numa
pedra dorme-se cosmicamente.
Há, porém, ocasiões da meditação
— e a todos quantos meditam elas chegam — em que tudo está
gasto, tudo velho, tudo visto, ainda que esteja por ver. Porque, por
mais que meditemos qualquer coisa, e, meditando-a, a transformemos,
nunca a transformamos em qualquer coisa que não seja substância de
meditação. Chega-nos então a ânsia da vida, de conhecer sem ser
com o conhecimento, de meditar só com os sentidos ou pensar de um
modo táctil ou sensível, de dentro do objeto pensado, como se
fôssemos água e ele esponja. Então também temos a nossa noite, e
o cansaço de todas as emoções aprofunda-se com serem emoções do
pensamento, já de si profundas. Mas é uma noite sem repouso, sem
Luar, sem estrelas, uma noite como se tudo houvesse sido virado do
avesso — o infinito tornado interior e apertado, o dia feito forro
negro de um trajo desconhecido.
Mais vale, sim, mais vale sempre ser a
lesma humana que ama e desconhece, a sanguessuga que é repugnante
sem o saber. Ignorar como vida! Sentir como esquecimento! Que
episódios perdidos na esteira verde branca das naus idas, como um
cuspo frio do leme alto a servir de nariz sob os olhos das câmaras
velhas!
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
House of Wax | Paul McCartney
Lightning hits the house of wax
Poets spill out on the street
To set alight the incomplete
Remainders of the future
Hidden in the yard
Hidden in the yard
Thunder drowns the trumpets’
blast
Poets scatter through the night
But they can only dream of flight
Away from their confusion
Hidden in the yard
Underneath the wall
Buried deep below a thousand layers
Lay the answer to it all
Lightning hits the house of wax
Women scream and run around
To dance upon the battleground
Like wild demented horses
Hidden in the yard
Underneath the wall
Buried deep below a thousand layers
Lay the answer to it all
Quando escrevi o livro de poemas O
canto do pássaro-preto com Adrian Mitchell, eu fiz uma pequena
turnê com ele e propus: “Por que não ressuscitamos aquela coisa
dos anos 1960, em que a gente toca uma música ambiente enquanto
recita um poema?”. Ele gostou da ideia, e foi isso que fizemos.
Adrian era meu poeta favorito, e como
eu o conhecia tão bem, eu vivia perguntando a ele um monte de coisas
sobre poesia. Nessa época acho que eu estava tentando escrever algo
mais direcionado à poesia. Estou sempre tentando me desafiar,
tentando forçar um pouco meus limites, aprender coisas novas e não
ficar preso à rotina. Se acabei de escrever algo bem simples, como
“Isso é tão doce, baby”, então é melhor não fazer outra
nesse estilo imediatamente. Eu estava em estado de espírito poético.
“Lightning hits the house of wax”
– eu me lembro de falar esse verso ao Adrian com uma ponta de
orgulho. A expressão “casa de cera” evoca muitas referências.
Pode ser um museu de cera como o Madame Tussauds ou um lugar onde
discos são fabricados – conforme o contexto, a expressão “put
to wax” pode significar “gravar em disco”. Suponho que o
“museu de cera” mais famoso seja o daquele filme de terror de
1953 homônimo, com Vincent Price – um filme realmente assustador.
Eu não tinha em mente uma casa de cera específica e não creio que
tenha me inspirado no abominável assassino encarnado por Price –
esse simplesmente não é meu estilo –, mas gostei da ideia de uma
casa de cera.
Lendo agora, com certa distância,
percebo que é um primeiro verso muito ardente. Não tenho certeza se
eu estava tentando dizer conscientemente: “Uau, fogo!”. Você
embarca numa linha de pensamentos e as coisas simplesmente vão
surgindo sem a gente notar. Os poetas estão prestes a incendiar as
incompletas sobras do futuro (“To set alight the incomplete/
Remainders of the future”). Acho que é apenas uma forma de
dizer “esclarecer as coisas”.
“Hidden in the yard/ Underneath
the wall/ Buried deep below a thousand layers/ Lay the answer to it
all”. Ampliei isso com a imagem de mulheres gritando e correndo
ao redor, como cavalos selvagens dementes (“like wild demented
horses”). A canção em si se torna bem dramática. Eu tinha
essa concepção de que as sobras do futuro (“remainders of the
future”) estavam enterradas em algum lugar do quintal, como um
tesouro escondido. Ou seja: não sabemos a resposta para essas sobras
inacabadas, não sabemos o que vai acontecer. Quer dizer, aqui
estamos nós, no meio da crise da covid-19 e realmente não sabemos o
que vai acontecer, mas já vi crianças completamente à vontade com
máscaras, então essa geração de crianças vai pensar: “Todo
mundo usa máscaras, não é mesmo?”.
Depois do raio vem o trovão, e o
trovão abafa o toque das trombetas. É como um filme; há uma
espécie de trilha sonora heráldica acontecendo, e o trovão está
ribombando, então é como a trilha sonora de um filme. Fiz essa
composição ao piano, então não elaborei muito o arranjo enquanto
estava compondo, e sim mais na hora de gravar. Eu ia pensando:
“Certo, aqui vamos deixar um pouquinho mais dramático; os
acompanhamentos devem ser um pouco mais dramáticos e vamos começar
a aprimorar a partir daí”. Nós a tocávamos ao vivo, mas tínhamos
que tomar uma generosa dose de uísque e dar um tapinha na nuca para
lembrar. É meio temperamental. Eu gosto de tocá-la, a banda gosta
de tocá-la, e algumas pessoas na plateia gostam de ouvi-la no show.
Em geral, porém, canções como esta
não perduram em seu repertório, porque você percebe que é nessas
que o público dispersa para tomar uma cerveja, e você pensa: “Bem,
deixe-me atraí-los de volta com ‘Lady Madonna’”. Fui ao show
do Prince e fiquei muito triste porque ele não tocou “Purple
Rain”, mas ele provavelmente estava cansado de “Purple Rain”. É
uma grande decisão que você deve tomar como artista performático –
se vai apenas seguir seus próprios caprichos: “Ok, galera, esta
noite só vamos tocar acústico, e todas essas canções de que
ninguém nunca ouviu falar”. Quando você está diante de cinquenta
mil brasileiros, tem a sensação de que essa não é a melhor coisa
a fazer. Você pensa: “Sabe de uma coisa? Vamos tocar só alguns
sucessos”. Então é isso que eu costumo fazer, mas se estivermos
num clube menor, podemos pegar coisas menos conhecidas, e canções
como “House of Wax” ganham vida novamente.
Hoje em dia, ainda tocamos em espaços
menores por escolha própria, quando estamos nos preparando para uma
turnê ou entre um projeto e outro. Anos atrás, tocamos no
Coachella, um festival de dois fins de semana no deserto da
Califórnia. Você toca no sábado, tem uma semana de folga e volta
no sábado seguinte. Queríamos nos manter em forma, então fizemos
um show surpresa num pequeno lugar chamado Pappy & Harriet’s,
que fica na região da Joshua Tree, nas imediações de onde o
Coachella é realizado, então nosso equipamento estava nas
proximidades. Era um desses bares de beira de estrada, com música ao
vivo e capacidade para trezentas pessoas. Anunciamos às pessoas no
mesmo dia. Não foi um show programado, mas foi divertido.
Levamos David Hockney para nos
acompanhar. Eu disse a ele: “Ah, vamos tocar nesse local, talvez
você goste disso, David”. E ele trouxe o iPad e ficou desenhando.
É um jovem de 83 anos.
Paul McCartney, em As Letras – 1956 até o presente
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026
Escala
Fazendo amor sob o sol, sob o sol
matinal num quarto de hotel
acima do beco
onde homens pobres catam garrafas;
fazendo amor sob o sol
fazendo amor junto a um tapete mais
vermelho que nosso sangue,
fazendo amor enquanto meninos vendem
manchetes
e Cadillacs,
fazendo amor junto a uma foto de Paris
e um maço aberto de Chesterfields,
fazendo amor enquanto outros homens –
pobres
coitados –
trabalham.
Daquele momento – a este... podem
ser anos do jeito como são medidos,
mas é só uma frase atrás na minha
mente –são inúmeros os dias
nos quais a vida para e estaciona e
fica
e espera como um trem nos trilhos.
Eu passo pelo hotel às 8e às 5; vejo
gatos nos becos
e garrafas e vagabundos,
e olho a janela no alto e penso:
não sei mais onde você está,
e sigo caminhando e me pergunto para
onde
a vida vai
quando para.
Charles Bukowski, em Sobre o amor
Botecos
Tinha uma mania: colecionava botecos.
Não os frequentava, apenas. Era um estudioso. Gostava de descobrir
botecos e recomendar para os amigos. Ultimamente vinha se
especializando — um refinamento da sua paixão — no que chamava
de botecos asquerosos. Daqueles que nenhum fiscal da Saúde Pública
incomoda porque não passa pela porta sem desmaiar.
Seu rosto se iluminava na frente de um
boteco asqueroso recém-descoberto. Não resistia e entrava. Depois
contava para os amigos.
— Uma glória. Sabe ovo boiando em
garrafão com água?
— Repelentes, é?
— As galinhas não os receberiam de
volta. A própria mãe!
Descrevia o boteco com carinhoso
entusiasmo.
— E que moscas. Que moscas!
Só não tinha paciência com o falso
sórdido. Alguns botecos assumiam suas privações como uma
declaração de falta de princípios. Ele preferia o sórdido
inconsciente, o sórdido autêntico. Principalmente, o sórdido
pretensioso. Uma vez contara, extasiado, uma cena. Terminara de comer
uma inominável almôndega, pedira um palito para o dono do boteco e
desencadeara uma busca barulhenta e mal-humorada, com o dono
procurando por toda parte e gritando para a mulher:
— Cadê o palito?
Finalmente o dono encontrara o palito,
atrás da orelha, e o oferecera. Ele se emocionava só de contar.
Os amigos, sabendo da sua paixão,
mantinham-se atentos para botecos sórdidos que pudessem
interessá-lo. Muitos ele já conhecia.
— Um que tem uma Virgem Maria
pintada num espelho com uma barata esmigalhada de tapa-olho? Vou
seguido. A cachaça é tão braba que tem bula com contraindicação.
Outro dia lhe trouxeram a notícia do
pior dos botecos. Não era um boteco de quinta categoria. Era um
boteco de última categoria. Ficava no limite entre a vida
inteligente e a vida orgânica. Ele precisava ir lá verificar.
Foi no mesmo dia. Ficou estudando o
boteco de longe, antes de se aproximar. Tinha um garoto na porta do
boteco. A função do garoto era atacar cachorros sarnentos. Quando
passava um cachorro sarnento o garoto o enxotava — para dentro do
boteco!
Ele atravessou a rua na direção do
boteco com aquele brilho no olhar que tem o pesquisador no limiar da
grande revelação, ou o santo antes do doce martírio.
Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora
Mesmo drama
Considere isto reiteradamente: tudo aconteceu e acontecerá do mesmo jeito que acontece. Veja como dramas e cenas inteiras se assemelham ao que experienciou e ao que aprendeu com antigas histórias — das cortes do Adriano, do Antonino, do Filipe, do Alexandre e do Ceso, por exemplo. Mesmo drama, diferentes atores.
Marco Aurélio, em Meditações
Leitura intramuros
A papelaria perto da esquina da minha
casa em Buenos Aires tinha uma boa seleção de livros infantis. Eu
tinha (e tenho ainda) um desejo voluptuoso por cadernos de notas (que
na Argentina costumavam trazer o perfil de um herói nacional na
capa e, às vezes, uma página destacável com figurinhas coláveis
de história natural ou cenas de batalha) e frequentemente circulava
pela loja. A papelaria ficava na frente; nos fundos, havia
prateleiras de livros. Lá estavam os livros grandes e ilustrados da
Editorial Abril, com letras grandes e desenhos brilhantes, escritos
para as criancinhas por Constancio C. Vigil (que, depois de morto,
descobriu-se possuir uma das maiores coleções de literatura
pornográfica da América Latina). Lá estava (como mencionei) a
série de capa amarela de Robin Hood. E havia fileiras duplas de
livros com capa de papelão e formato de bolso, alguns encadernados
em verde, outros em cor-de-rosa. Na série verde, havia as aventuras
do rei Artur, terríveis traduções para o espanhol dos livros de
Just William, Os três mosqueteiros, as histórias de bichos
de Horácio Quiroga. Na série cor-de-rosa, estavam os romances de
Louisa May Alcott, A cabana do Pai Tomas, as histórias da
condessa de Ségur, toda a saga de Heidi. Uma das minhas primas
adorava ler (mais tarde, em certo verão, tomei emprestado dela The
black spectacles [Os óculos escuros], de John Dickson Carr:
viciei-me em romances policiais para o resto da vida), e ambos líamos
às aventuras de piratas de Salgari, encadernadas em amarelo. Às
vezes, ela me pedia emprestado um livro de Just William, da série
encadernada em verde. Mas a série cor-de-rosa, que ela lia
impunemente, estava proibida (aos dez anos de idade eu sabia disso
muito bem) para mim. Suas capas eram uma advertência, mais clara do
que qualquer holofote, de que aqueles eram livros que nenhum menino
decente leria. Eram livros para meninas.
A noção de que certos livros se
destinam aos olhos de certos grupos é quase tão antiga quanto a
própria literatura. Alguns estudiosos sugeriram que, tal como a
epopeia e o teatro gregos tinham como alvo primário uma plateia
masculina, os primeiros romances gregos destinavam-se provavelmente a
uma plateia predominantemente feminina.
Embora Platão escrevesse que na sua
república ideal a escola seria compulsória para ambos os sexos, um
de seus discípulos, Teofrasto, argumentava que se deveria ensinar às
mulheres apenas o suficiente para administrar um lar, porque a
educação avançada "transforma a mulher numa comadre
preguiçosa e briguenta". Uma vez que a alfabetização entre as
mulheres gregas era baixa (ainda que se tenha sugerido que as
cortesãs fossem "perfeitamente letradas"), escravos
instruídos leriam os romances em voz alta para elas. Devido à
sofisticação de linguagem dos autores e ao número relativamente
pequeno de fragmentos que sobreviveram, o historiador Wil iam V.
Harris sustentou que esses romances não eram muito populares, sendo
antes a leitura amena de um limitado público feminino com certo grau
de instrução.
O tema era amor e aventura; o herói e
a heroína eram sempre jovens, belos e bem-nascidos; a desgraça caía
sobre eles, mas o final era sempre feliz; esperava-se que houvesse
confiança nos deuses, bem como virgindade e castidade (pelo menos da
heroína). Desde os romances mais antigos, o conteúdo era exposto
com clareza ao leitor Tendo vivido por volta do começo da era
cristã, o autor do mais antigo romance grego que sobreviveu inteiro"
apresenta a si mesmo a ao seu tema nas duas primeiras linhas: “Meu
nome é Cáriton, de Afrodísias [cidade da Ásia Menor], e sou
empregado do advogado Atenágoras. Vou contar uma história de amor
que aconteceu em Siracusa”. “História de amor - pathos
erotikon: desde as primeiras linhas, os livros destinados às
mulheres estiveram associados com o que mais tarde seria chamado de
amor romântico. Lendo essa literatura permitida, desde a sociedade
patriarcal da Grécia do século I até a Bizâncio do século XII
(quando o último desses romances foi escrito), as mulheres de algum
modo devem ter encontrado estímulos intelectuais nesse mingau: nas
labutas, perigos e agonias de casais amorosos, as mulheres às vezes
descobriam alimento insuspeitado para o pensamento. Séculos mais
tarde, criança leitora de novelas de cavalaria (inspiradas às vezes
em romances gregos), santa Teresa descobriu muitas das imagens que
desenvolveria em seus escritos devotos. “Acostumei-me a lê-las, e
essa pequena falha arrefeceu em mim o desejo e a vontade de fazer
minhas outras tarefas. E eu não me importava em passar muitas horas
do dia e da noite nesse exercício vão, escondida de meu pai. Meu
arrebatamento nisso era tão grande que, se não tivesse um livro
novo para ler, parecia-me que não poderia me sentir feliz.” Vão o
exercício pode ter parecido – contudo, as histórias de Margarida
de Navarra, A princesa de Clèves, de madame de La Fayette, e
os romances das irmãs Brontê e de Jane Austen devem muito à
leitura de romances.
Como mostra a crítica inglesa Kate
Flint, a leitura desses romances não oferecia à leitora apenas um
meio de ocasionalmente "retirar-se para a passividade induzida
pelo ópio da ficção. Muito mais excitante, permitia a ela afirmar
seu sentimento de individualidade e saber que não estava sozinha
nisso Desde tempos antigos, as leitoras descobriram maneiras de
subverter o material que a sociedade colocava em suas prateleiras.
A separação de um grupo de livros ou
de um gênero para um grupo específico de leitores (sejam romances
gregos ou a série cor-de-rosa da minha infância) não apenas cria
um espaço literário fechado que esses leitores são estimulados a
explorar; com frequência, toma esse espaço proibido para os outros.
Disseram-me que os livros de capa cor-de-rosa eram para meninas e que
se fosse visto com um deles nas mãos seria rotulado de efeminado.
Lembro da expressão de censura e surpresa no rosto de um balconista
de Buenos Aires quando comprei um desses livros e de como tive de
explicar rapidamente que se tratava de um presente para uma menina.
(Mais tarde encontrei preconceito semelhante, quando, depois de
coeditar uma antologia de ficção homossexual masculina, amigos
“machos” me disseram que ficariam embaraçados se fossem vistos
com o livro em público, por medo de serem considerados bichas.)
Aventurar-se numa literatura que a sociedade, num gesto de
condescendência, põe de lado para um grupo “menos privilegiado”
ou “menos aceito” é arriscar-se a ser infectado por associação,
uma vez que a mesma cautela não se aplicava à minha prima, que
podia migrar para a série verde sem provocar mais que um gracejo de
sua mãe sobre seus “gostos ecléticos”.
Mas, às vezes, o material de leitura
de um grupo segregado é criado deliberadamente por leitores de
dentro do próprio grupo. Essa criação aconteceu entre as mulheres
da corte japonesa em algum momento do século XI.
Em 894 – cem anos depois da fundação
da nova capital, HeianKyo, onde hoje é Quioto –, o governo japonês
decidiu parar de mandar enviados oficiais à China. Durante os três
séculos anteriores, os embaixadores tinham trazido a arte e os
ensinamentos da milenar vizinha do Japão, e o modo de vida japonês
fora dominado pelos hábitos da China; naquele momento, com o
rompimento da influência chinesa, o país começou a desenvolver um
estilo de vida de sua própria invenção, que atingiu o apogeu no
final do século X, durante a regência de Fujiwara no Michinaga.
Como em qualquer sociedade
aristocrática, os que gozaram dos benefícios desse renascimento
foram poucos. As mulheres da corte japonesa, embora muito
privilegiadas em comparação com as das classes mais baixas, estavam
sujeitas a uma série de regras e limites. Quase totalmente isoladas
do mundo externo, forçadas a seguir rotinas monótonas, limitadas
pela própria linguagem (pois, com raras exceções, não eram
instruídas nos vocabulários de história, filosofia, direito “e
qualquer outra forma de conhecimento”, e suas trocas normalmente se
realizavam por cartas e não através de conversas), as mulheres
tiveram de desenvolver por si mesmas – apesar das pilhas de
restrições – métodos – astutos de explorar e ler sobre o mundo
em que viviam, bem como sobre o mundo fora de suas paredes de papel.
Falando de uma jovem princesa, o príncipe Genji, herói de A
história de Genji, da sra. Murasaki Shikibu, observa: “Não
penso que precisemos nos preocupar com a educação dela. As mulheres
devem ter um conhecimento geral de vários assuntos, mas causa má
impressão se se mostram apegadas a determinado ramo do conhecimento.
Eu não as deixaria completamente ignorantes em nenhum campo. O
importante é que elas devem dar a impressão de que tratam de forma
suave e despreocupada mesmo daqueles temas que levam mais a sério”.
A aparência era fundamental, e, desde
que aparentassem indiferença pelo conhecimento e ignorância
inabálavel, as mulheres da corte podiam manejar para se subtrair à
sua condição. Nessas circunstâncias, é espantoso que tenham
conseguido criar a principal literatura daquele período, inventando
até alguns gêneros no processo. Ser ao mesmo tempo a criadora e a
fruidora da literatura – formar, por assim dizer, um círculo
fechado que produz e consome o que produz, em meio às coerções de
uma sociedade que deseja que o círculo permaneça subserviente –
deve ser visto como um extraordinário ato de coragem.
Na corte, as mulheres passavam os dias
principalmente “olhando para o espaço”, numa agonia de lazer
(“sofrendo de lazer” é uma expressão recorrente) algo
aparentada com a melancolia europeia. Os aposentos quase vazios, com
suas telas e cortinas de seda, estavam geralmente às escuras. Mas
isso não oferecia privacidade. As paredes finas e as balaustradas de
treliça faziam com que os sons viajassem com facilidade, e centenas
de pinturas representam voyeurs espiando as atividades das
mulheres.
As longas horas de lazer compulsório,
interrompidas quando muito por festivais anuais e visitas esporádicas
a templos elegantes, levaram-nas a praticar música e caligrafia,
mas, sobretudo, a ler em voz alta ou ouvir leituras. Nem todos os
livros eram permitidos. No Japão do período Heian, assim como na
Grécia clássica, no islã, na Índia pós-védica e em tantas
outras sociedades, as mulheres estavam proibidas de ler o que se
considerava literatura "séria": deviam confinar-se ao
reino da diversão banal e frívola, que os eruditos confucianos
desprezavam, e havia uma distinção clara entre literatura e
linguagem “masculina” (com temas heroicos e filosóficos e voz
pública) e “feminina” (trivial, doméstica e íntima). Essa
distinção foi levada para muitas áreas diferentes: por exemplo,
como os modos chineses continuavam a ser admirados, a pintura chinesa
era chamada de “masculina”, enquanto a pintura japonesa, mais
leve, era “feminina”.
Mesmo que todas as bibliotecas de
literatura chinesa e japonesa estivessem abertas para elas, as
mulheres do período Heian não encontrariam o som de suas vozes na
maioria dos livros do período. Portanto, em parte para aumentar seu
estoque de material de leitura, em parte para obter acesso a material
de leitura que respondesse às suas preocupações específicas, elas
criaram uma literatura própria. Para registrá-la, desenvolveram uma
transcrição fonética da língua que tinham permissão de falar, o
kanabungaku, um japonês expurgado de quase todas as
construções com palavras chinesas. Essa língua escrita veio a ser
conhecida como “escrita das mulheres” e, estando restrita à mão
feminina, adquiriu, aos olhos dos homens que as dominavam, uma
qualidade erótica. Para ser atraente, uma mulher precisava não
apenas possuir encantos físicos, mas também escrever com caligrafia
elegante, bem como ser versada em música e saber ler, interpretar e
escrever poesia. Essas realizações, no entanto, jamais eram
consideradas equiparáveis às dos artistas e estudiosos masculinos.
“De todas as maneiras de adquirir
livros, escrevê-los é tido como o método mais louvável”,
comentou Walter Benjamim. Em alguns casos, descobriram as mulheres do
período Heian, é o único método. Em sua nova linguagem, elas
escreveram algumas das obras mais importantes da literatura japonesa
e, talvez, de todos os tempos. As mais famosas delas são a
monumental História de Genji, de Murasaki Shikibu, que o
tradutor e erudito inglês Arthur Waley considerou ser o primeiro
romance autêntico do mundo, iniciado provavelmente em 1001 e
terminado não antes de 1010, e O livro de travesseiro, de Sei
Shonagon, mais ou menos da mesma época de Genji e assim chamado
porque foi escrito no quarto da autora e com certeza mantido nas
gavetas de seu travesseiro de madeira.
Em livros como os citados, a vida
cultural e social de homens e mulheres é explorada em minúcias, mas
pouca atenção é dada às manobras políticas que absorviam tanto
tempo dos funcionários da corte. Waley julgou que nesses livros a
“extraordinária imprecisão das mulheres quanto às atividades
puramente masculinas” era desconcertante; mantidas à distância da
linguagem e das atividades políticas, mulheres como Sei Shonagon e a
senhora Murasaki não poderiam, de forma alguma, ir além de
descrições baseadas no que ouviriam falar de tais atividades. De
qualquer forma, essas mulheres estavam escrevendo essencialmente para
elas mesmas – espelhando suas vidas. Exigiam da literatura não as
imagens que interessavam a seus equivalentes masculinos e com as
quais eles se compraziam, mas um reflexo daquele outro mundo em que o
tempo era lento e a conversação escassa, onde a paisagem pouco
mudava, exceto quando as estações traziam mudanças. A história de
Genji, ao mesmo tempo em que exibe uma enorme tela da vida de então,
destinava-se a ser lida sobretudo por mulheres como a autora,
mulheres que compartilhassem sua inteligência e sua perspicácia
sutil em assuntos psicológicos.
Alguns anos após o aparecimento da
História de Genji, a sra. Sarashina, outra mulher brilhante,
descreveu como era apaixonada por histórias quando ainda não
passava de uma menina em alguma província remota. “Mesmo confinada
no interior, de algum modo vim a saber que no mundo existiam coisas
conhecidas como contos, e a partir desse momento meu maior desejo foi
lê-los por mim mesma. Para passar o tempo, minha irmã, minha
madrasta e outras da casa contavam-me histórias tiradas dos Contos,
incluindo episódios sobre Genji, o Príncipe Brilhante; mas, como
dependiam da memória, com certeza não me contavam tudo o que
sabiam, e suas histórias acabavam me deixando mais curiosa do que
antes. Em minha impaciência, consegui uma estátua do Benevolente
Buda que tinha a minha altura. Quando não havia ninguém olhando,
introduzia-me às escondidas na sala do altar, ajoelhava-me e orava
com devoção: ‘Oh, por favor, dê um jeito para que eu possa ir
logo para a Capital, onde há tantos contos, e, por favor permita que
eu leia todos eles’.”
O livro de travesseiro de Sei
Shonagon é um registro aparentemente despreocupado de impressões,
descrições, mexericos, listas de coisas agradáveis e desagradáveis
- repleto de opiniões extravagantes, preconceituosas e petulantes,
totalmente dominadas pela noção de hierarquia. Seus comentários
têm um traço de sinceridade que ela diz (devemos acreditar nela?)
vir do fato de que “nunca pensei que essas notas seriam lidas por
outra pessoa e assim incluí tudo o que veio à minha cabeça, por
mais estranho ou desagradável”. Sua simplicidade explica boa parte
de seu encanto. Eis aqui dois exemplos de “coisas que são
deliciosas”: Descobrir um grande número de histórias que ainda
não lemos. Ou adquirir o segundo volume de uma história cujo
primeiro volume nos deu prazer. Mas com frequência é um
desapontamento.
As cartas são bastante banais, mas
como são esplêndidas! Quando alguém está numa província distante
e nos preocupamos com ele, e então chega subitamente uma carta, é
como se o estivéssemos vendo face a face. E é um grande conforto
termos expressado nossos sentimentos numa carta –
mesmo sabendo que ela ainda pode não ter chegado.
Tal como A história de Genji,
O livro de travesseiro, com sua paradoxal adoração ao poder
imperial e desprezo pelos modos masculinos, valoriza o ócio forçado
e põe a vida doméstica das mulheres no mesmo nível literário das
vidas “épicas” dos homens. Porém, a sra. Murasaki, para quem a
narrativa das mulheres precisava ser trazida à luz dentro da epopeia
dos homens e não, frivolamente, nos limites de suas paredes de
papel, achava a escrita de Sei Shonagon “cheia de imperfeições”:
“Ela é uma mulher bem-dotada, com certeza. Contudo, se alguém dá
rédeas soltas às próprias emoções, mesmo nas circunstâncias
mais inapropriadas. se alguém precisa exemplificar cada coisa
interessante que acontece, as pessoas irão considerar essa pessoa
frívola. E como as coisas podem acabar bem para uma tal mulher?”.
***
Pelo menos dois tipos diferentes de
leitura parecem ocorrer dentro de um grupo segregado.
No primeiro, as leitoras, como
arqueólogas imaginativas, abrem caminho através da literatura
oficial para resgatar das entrelinhas a presença de suas colegas
proscritas, para encontrar espelhos de si mesmas nas histórias de
Clitemnestra, de Gertrude, das cortesãs de Balzac. No segundo tipo,
as leitoras tornam-se escritoras, inventando para si mesmas novas
maneiras de contar histórias, a fim de redimir sobre a página as
crônicas cotidianas de suas vidas confinadas ao laboratório da
cozinha, ao estúdio da saleta de costura, às selvas do quarto das
crianças.
Há talvez uma terceira categoria, em
algum ponto entre essas duas. Muitos séculos depois de Sei Shonagon
e Murasaki Shikibu, do outro lado do globo, a escritora inglesa
George Eliot, escrevendo sobre a literatura de sua época, descreveu
o que chamou “romances tolos de Senhoras Romancistas [...] um
gênero com muitas espécies, determinado pela qualidade particular
de tolice que predomina neles – o frívolo, o prosaico, o devoto ou
o pedante. Mas é uma mistura de todos – uma ordem compósita de
fatuidade feminina responsável pela produção da maior parte de
tais romances, que deveremos distinguir como sendo da espécie
cérebro-e-chapelaria. [...] A desculpa habitual para as
mulheres que se tornam escritoras sem nenhuma qualificação especial
é que a sociedade as segrega de outras esferas de ocupação. A
sociedade é uma entidade que tem uma boa dose de culpa, devendo
responder pela manufatura de muitas mercadorias insalubres, de picles
ruins a má poesia. Mas, como ‘assunto’, a sociedade, o Governo
de Sua Majestade e outras abstrações grandiosas têm uma fatia
excessiva de acusação, bem como de elogio”. E concluía ela: “Em
toda labuta há proveito’; mas os romances tolos das senhoras,
imaginamos, resultam menos da labuta do que da ociosidade atarefada”.
O que George Eliot descrevia era uma ficção que, embora escrita
dentro do grupo, limita-se praticamente a repetir os estereótipos e
preconceitos oficiais que, antes de mais nada, conduziram à criação
do grupo.
Tolice era também a falha que a
senhora Murasald, como leitora, via na escrita de Sei Shonagon.
Porém, a diferença óbvia era que Sei Shonagon não oferecia a suas
leitoras uma versão ridicularizada da imagem delas tal como
consagrada pelos homens. O que Murasaki achava frívolo era o tema: o
mundo cotidiano dentro do qual ela mesma vivia, um mundo cuja
trivialidade Sei Shonagon documentara com tanta atenção como se
fora o mundo cintilante de Genji. Apesar das críticas de sua
colega, o estilo de literatura íntimo e aparentemente banal de Sei
Shonagon floresceu entre as mulheres leitoras da época. O exemplo
mais antigo desse período é o diário de uma senhora da corte
conhecida apenas como a “Mãe de Michitsuna” - o Diário do
fim do verão ou Diário fugaz. Nele a autora tentou fazer
a crônica, tão fiel quanto possível, da realidade de sua
existência. Falando em si mesma na terceira pessoa, escreveu:
"Enquanto os dias arrastavam-se monotonamente, ela lia os velhos
romances e achava a maioria deles uma coleção de invenções
grosseiras. Talvez, disse para si mesma, a história de sua
existência enfadonha, na forma de um diário, pudesse provocar algum
grau de interesse. Talvez pudesse até ser capaz de responder: isto é
vida apropriada para uma dama bem-nascida?”.
Apesar das críticas da senhora
Murasaki, é fácil entender por que a forma confessional, a página
em que uma mulher podia parecer estar dando “rédeas soltas às
emoções”, tornou-se o material de leitura favorito das mulheres
do período Heian. Genji apresentava algo da vida das mulheres
nas personagens que cercavam o príncipe, mas O livro de
travesseiro dava espaço para que as leitoras se tornassem suas
próprias historiadoras.
“Há quatro maneiras de escrever a
vida de uma mulher”, sustenta a crítica americana Carolyn G.
Heilbrun. “A própria mulher pode contá-la, no que ela escolhe
chamar autobiografia; pode contá-la no que escolhe chamar ficção;
um(a) biógrafo(a) pode escrever a vida de uma mulher no que é
chamado de biografia; ou a mulher pode escrever sua própria vida
antes de vivê-la, inconscientemente, sem reconhecer ou nomear o
processo.”
A rotulagem cuidadosa que Carolyn
Heilbrun faz das formas também corresponde vagamente às distintas
literaturas que as escritoras do período Heian produziram:
monogatari (romances), livros de travesseiro e outros. Nesses
textos, as leitoras encontravam suas próprias vidas vividas ou não
vividas, idealizadas ou fantasiadas, ou expostas com prolixidade e
fidelidade documentais. Essa costuma ser a norma em se tratando de
leitores segregados: a literatura que exigem é confessional,
autobiográfica e até didática, porque leitores cujas identidades
são negadas não têm outro lugar onde encontrar suas histórias
exceto na literatura que eles mesmos produzem. No século XVII, em
Portugal, sóror Mariana Alcoforado (ou, com maior probabilidade, um
autor anônimo que usou seu nome) encontrou nas cartas de amor
proibidas um meio de atravessar as paredes do claustro. Essas famosas
Cartas portuguesas, que inspiraram o romance de Diderot La
religieuse, se tornam, na verdade, material de leitura para a própria
freira, como substituição do amante ausente e remédio para seu
desejo insatisfeito, um lugar onde pode encenar sua vida erótica, um
recinto dentro do qual palavras, em vez de ações, encarnam os
eventos de sua paixão, dando um relato factual de seu amor
impossível. Num argumento aplicado à leitura homossexual - e que
pode ser perfeitamente aplicado à leitura feminina, à leitura de
qualquer grupo excluído do reino do poder -, o escritor americano
Edmund White observa que tão logo alguém nota que ele (podemos
acrescentar “ou ela”) é diferente, essa pessoa deve responder
por isso, e que tais prestações de contas são um tipo primitivo de
ficção, “as narrativas orais contadas e recontadas como conversa
de travesseiro, ou em bares, ou no divã do psicanalista”. Ao
contar "uns para os outros - ou para o mundo hostil em torno
deles - as histórias de suas vidas, não estão apenas registrando o
passado, mas também dando forma ao futuro, forjando uma identidade
e, ao mesmo tempo, revelando-a". Em Sei Shonagon, bem como na
sra. Murasaki, encontram-se as sombras da literatura feminina que
lemos hoje.
Uma geração depois de George Eliot,
na Inglaterra vitoriana, a Gwendolen de Oscar Wilde, em A
importância de ser sério, declarava que jamais viajava sem seu
diário porque “deve-se sempre ter algo sensacional para ler no
trem”; ela não estava exagerando. Na definição de Cecily,
réplica de Gwendolen, um diário era “simplesmente um registro,
feito por uma moça muito jovem, de seus pensamentos e impressões e,
consequentemente, destinado a publicação”. A publicação – ou
seja, a reprodução de um texto a fim de multiplicar seus leitores
através de cópias manuscritas, da leitura em voz alta ou da
imprensa – permitiu às mulheres encontrar vozes similares às
suas, descobrir que seu fardo não era único, descobrir na
confirmação da experiência uma base sólida sobre a qual construir
uma imagem autêntica de si mesmas. Isso foi verdade tanto para as
mulheres do período Heian como para George Eliot.
Diferentes das papelarias da minha
infância, as livrarias de hoje não têm somente os livros para
mulheres distribuídos no mercado por interesses comerciais alheios
ao negócio, para determinar e limitar o que uma mulher deve ler, mas
também os livros criados de dentro do grupo, nos quais mulheres
escrevem para elas mesmas aquilo que está ausente dos textos
oficiais. Isso estabelece a tarefa da leitora, talvez prevista pelas
escritoras do período Heian: escalar as paredes: pegar qualquer
livro que pareça atraente, despi-lo daquelas coloridas capas
codificadas e arrumá-lo entre os volumes que o acaso e a experiência
puseram na sua mesinha-de-cabeceira.
Alberto Manguel, em Uma História da Leitura
Um encontro (para se guardar) com Manoel
Eu disse: vim aqui só para falar de
coisas miúdas, as grandezas do ínfimo, não se inquiete. Manoel
sorriu: tenho doutorado em formigas, sente-se. Sentei. Duas cadeiras
na varanda de sua fazenda no Pantanal. A distância infinita entre
dois homens — e, para anulá-la, inesperadamente, uma ema cruzou,
distraída, os nossos olhos. As garças e os tuiuiús só andariam
pela sua obra, em bando, um pouco mais à frente. Difícil conversar
sobre algo tão natural como a água e as suas criaturas com um poeta
que fixou sua vida em terras alagadas. Como começar? Pela seca
sinceridade: digo logo que apreciei o livro, estarei sendo fiel à
verdade. Então, falei: bonito, bonito esse seu O guardador de águas,
Manoel. E acrescentei: é um livro-riacho, e você aqui nesse
aguaçal... Manoel concordou, desimportante: é que só choveu
na palavra onde eu estava. Nas páginas iniciais, você apresenta o
Bernardo da Mata; gostei de ele encurtar as águas, eu disse. Manoel:
e de encolher o horizonte em olho de inseto? Também, respondi, e de
quando ele prende o silêncio com fivela! Manoel atento ao azul
arriscado a pássaro. E aqueles vidrinhos de guardar moscas?,
perguntei. O poeta respondeu: trecos do Bernardo, nadifúndios dele.
E seus, Manoel, eu pensei, mas não disse nada. Os passarinhos vinham
pousar, sanfranciscamente, nos ombros de Bernardo: ele enriquecia a
natureza com a sua incompletude. Ainda não possuía, em seus
instrumentos de trabalho, um abridor de amanhecer. Mas era só o
tempo de o mundo pegar lodo — e aí o ontem choveria no futuro.
Retomei a conversa, curioso: e esse Dialeto-Rã, do Bernardo? Manoel
respondeu: é só linguagem escorregadia. Insisti: eu também me
interesso pelas consoantes líquidas. Ele, quieto, só me mirava.
Será que ele me árvore? Lembrei-me de um verso do livro, marcador
nítido de sua poética: “O que desabre o ser é ver e ver-se”.
Guardei para mim. Falei, apenas: Manoel, a primeira parte me lembrou
O guardador de rebanhos, do Caeiro. Não só no título, mas na
metafísica que ele não tem, como fechar o rio com trinco. Manoel
aquiesceu: “O nada o aperfeiçoa”! E eu: não vale usar verso seu
para escapar. Ele riu. A segunda parte, “Passos para a
transfiguração”, você inseriu desenhos entre os poemas, foi a
primeira vez, não é, Manoel? Ele não confirmou, nem desmentiu.
Pensei em citar um dos versos das páginas seguintes: “Poesia é a
ocupação da Imagem pelo Ser”. Pensei em mudar o rumo da conversa,
perguntar sobre as borboletas, por que afinal adotam os lugares
vazios? Mas resolvi saltar para as teorias de árvore. Quem te
ensinou sobre elas, Manoel? Aprendi sozinho, ele respondeu, na
prática das águas. Comentei: a quarta teoria é a minha preferida —
“há nas árvores avulsas uma assimilação maior de horizontes”.
O poeta fez um gesto de galho. Manoel, perguntei, a chuva é íntima
só mesmo se o escuro umedece nosso corpo? Ele permaneceu num
silêncio de águas paradas, fazendo jus a seus versos da penúltima
parte: “Ao poeta faz bem/ Desexplicar —/ Tanto quanto escurecer
acende os vaga-lumes”. Manoel, continuei, o dialeto coisal, larval,
pedral, você descobriu quando leu Ovídio, não é? O poeta
contemplava o céu, onde ocorria um incêndio de garças nas nuvens.
Eu também desejava fugir daquela conversa, queria conhecer ali, no
seu trastal, a matéria líquida da vida — e de sua escrita. A
poesia, ele diria mais tarde, é um inutensílio. Um beija-flor de
rodas vermelhas voejou perto de nós e fechou o assunto, livrando-me
de prosseguir ali, monumentando a sua obra. Educado, Manoel se
levantou e propôs: vamos dar um giro, enfiar idioma nos mosquitos?
Aceitei o convite e estendo-o a você, leitor: venha! Guarde-se nessa
poesia, de águas e barros, ela engrandece as miudezas da vida.
João Anzanello Carrascoza, em O guardador de águas, de Manoel de Barros
terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
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