sábado, 16 de maio de 2026

Moda reaça

Aproveitando essa onda reaça que tá supermegatendência, a gente está lançando toda uma coleção pra você, jovem reacionário, que quer gastar o dinheiro que herdou honestamente na nossa sociedade tão meritocrática — tirando os impostos, é claro. Pode guardar a camiseta fedida do Che Guevara e raspar essa barba de Fidel. A moda guerrilheira é muito 2002. Quem tá com tudo neste outono é o jovem reaça. A moda é cíclica, gatinhos! Nesta estação, vamos aproveitar o aniversário da revolução democrática e tirar do armário a fardinha verde-oliva do vovô. E o melhor: não precisa nem limpar as manchas de sangue. Superorna.
O último grito do outono fascistão é defender os valores tradicionais e ressuscitar velhos chavões: direitos humanos para humanos direitos, bandido bom é bandido morto, Deus não fez Adão e Ivo. Nossa coleção — que será lançada amanhã, no prédio do DOI-Codi — foi feita pensando em você, cidadão de bem, branco, católico, heterossexual, rico, com as pernas no lugar, funcionando direitinho. Você é o homem da minha coleção. Olha só este soco inglês: é a sua cara. Vestiu bem, homem da minha coleção. Combina com sua correntinha.
O homem da minha coleção anda armado e se algum veado vier dar em cima ele diz que atira na testa. O homem da minha coleção transa com travesti mas se arrepende logo em seguida e enche a bicha de porrada. O homem da minha coleção casou na igreja com a mulher da minha coleção num casamento celebrado pelo padre da minha coleção, homofóbico, racista e com um sotaque ininteligível, apesar de nunca ter saído do Brasil.
A mulher da minha coleção critica periguetes porque elas não se dão valor — chama isso de feminismo. Saia curta, nem pensar. “Depois reclama quando é estuprada…” A mulher da minha coleção acha que mulher gorda devia evitar sair de casa. “Ninguém é obrigado a ver gente obesa.” A mulher da minha coleção finge que não sabe que é traída pelo homem da minha coleção e se vinga estourando o limite do cartão de crédito do homem da minha coleção, que por sua vez finge que não sabe e se vinga saindo com outras mulheres da minha coleção.
Nosso it boy, claro, é o coronel Paulo Malhães, torturador chiquetésimo que deu depoimento à Comissão da Verdade usando uns puta óculos escuros Prada de aro dourado e assumiu ter perdido a conta de quantos cadáveres ocultou. Divo. Viva a revolução — democrática.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

Poema de aniversário

Porque fizeste anos, Bem-Amada, e a asa do tempo roçou teus cabelos negros, e teus grandes olhos calmos miraram por um momento o inescrutável Norte...
Eu quisera dar-te, ademais dos beijos e das rosas, tudo o que nunca foi dado por um homem à sua Amada, eu que tão pouco te posso ofertar. Quisera dar-te, por exemplo, o instante em que nasci, marcado pela fatalidade de tua vinda. Verias, então, em mim, na transparência do meu peito, a sombra de tua forma anterior a ti mesma.
Quisera dar-te também o mar onde nadei menino, o tranqüilo mar de ilha em que perdia e em que mergulhava, e de onde trazia a forma elementar de tudo o que existe no espaço acima – estrelas mortas, meteoritos submersos, o plancto das galáxias, a placenta do Infinito.
E mais, quisera dar-te as minhas loucas carreiras à toa, por certo em premonitória busca de teus braços, e a vontade de grimpar tudo de alto, e transpor tudo de proibido, e os elásticos saltos dançarinos para alcançar folhas, aves, estrelas – e a ti mesma, luminosa Lucina, e derramar claridade em mim menino.
Ah, pudesse eu dar-te o meu primeiro medo e a minha primeira coragem; o meu primeiro medo à treva e a minha primeira coragem de enfrentá-la, e o primeiro arrepio sentido ao ser tocado de leve pela mão invisível da Morte.
E o que não daria eu para ofertar-te o instante em que, jazente e sozinho no mundo, enquanto soava em prece o cantochão da noite, vi tua forma emergir do meu flanco, e se esforçar, imensa ondina arquejante, para se desprender de mim; e eu te pari gritando, em meio a temporais desencadeados, roto e imundo do pó da terra.
Gostaria de dar-te, Namorada, aquela madrugada em que, pela primeira vez, as brancas moléculas do papel diante de mim dilataram-se ante o mistério da poesia subitamente incorporada; e dá-la com tudo o que nela havia de silencioso e inefável - o pasmo das estrelas, o mudo assombro das casas, o murmúrio místico das árvores a se tocarem sob a Lua.
E também o instante anterior à tua vinda, quando, esperando-te chegar, relembrei-te adolescente naquela mesma cidade em que te reencontrava anos depois; e a certeza que tive, ao te olhar, da fatalidade insigne do nosso encontro, e de que eu estava, de um só golpe, perdido e salvo.
Quisera dar-te, sobretudo, Amada minha, o instante da minha morte; e que ele fosse também o instante da tua morte, de modo que nós, por tanto tempo em vida separados, vivêssemos em nosso decesso uma só eternidade; e que nossos corpos fossem embalsamados e sepultados juntos e acima da terra; e que todos aqueles que ainda se vão amar pudessem ir mirar-nos em nosso último leito; e que sobre nossa lápide comum jazesse a estátua de um homem parindo uma mulher do seu flanco; e que nela houvesse apenas, como epitáfio, estes versos finais de uma canção que te dediquei:

... dorme, que assim
dormirás um dia
na minha poesia
de um sono sem fim…

Vinicius de Moraes, em Para viver um grande amor

Flávio Venturini e Vanessa da Mata | Noites com Sol

 

Me gritaram negra

Tinha sete anos apenas,
apenas sete anos,
Que sete anos!
Não chegava nem a cinco!
De repente umas vozes na rua
me gritaram Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra!
Por acaso sou negra?” – me disse
SIM!
Que coisa é ser negra?”
Negra!
E eu não sabia a triste verdade que aquilo escondia.
Negra!
E me senti negra,
Negra!
Como eles diziam
Negra!
E retrocedi
Negra!
Como eles queriam
Negra!
E odiei meus cabelos e meus lábios grossos
e mirei apenada minha carne tostada
E retrocedi
Negra!
E retrocedi . . .
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Neeegra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
E passava o tempo,
e sempre amargurada
Continuava levando nas minhas costas
minha pesada carga
E como pesava!…
Alisei o cabelo,
Passei pó na cara,
e entre minhas entranhas sempre ressoava a mesma palavra
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Neeegra!
Até que um dia que retrocedia , retrocedia e que ia cair
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra!
E daí?
E daí?
Negra!
Sim
Negra!
Sou
Negra!
Negra
Negra!
Negra sou
Negra!
Sim
Negra!
Sou
Negra!
Negra
Negra!
Negra sou
De hoje em diante não quero
alisar meu cabelo
Não quero
E vou rir daqueles,
que por evitar – segundo eles –
que por evitar-nos algum disabor
Chamam aos negros de gente de cor
E de que cor!
NEGRA
E como soa lindo!
NEGRO
E que ritmo tem!
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro
Afinal
Afinal compreendi
AFINAL
Já não retrocedo
AFINAL
E avanço segura
AFINAL
Avanço e espero
AFINAL
E bendigo aos céus porque quis Deus
que negro azeviche fosse minha cor
E já compreendi
AFINAL
Já tenho a chave!
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO
Negra sou!

Victoria Santa Cruz, poetisa peruana

Diário de Bernardo Soares

108.

A vida pode ser sentida como uma náusea no estômago, a existência da própria alma como um incómodo dos músculos. A desolação do espírito, quando agudamente sentida, faz marés, de longe, no corpo, e dói por delegação.
Estou consciente de mim num dia, em que a dor de ser consciente é, como diz o poeta,

Languidez, mareo
Y angustioso afán.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

O Homem que Calculava — Capítulo 21





Nossa vida, na bela cidade dos califas, tornava-se, dia a dia, cada vez mais agitada e trabalhosa. O vizir Maluf encarregou-me de copiar dois livros do filósofo Rhazer(1). São livros que encerram conhecimentos de Medicina. Leio em suas páginas indicações de alto valor sobre o tratamento do sarampo, a cura das enfermidades da infância, dos rins, das articulações e de mil outros males que afligem os homens. Preso por esse trabalho, fiquei impossibilitado de continuar a assistir às aulas de Beremiz em casa do cheique Iezid.
Pelas informações que ouvi do meu amigo calculista, a “aluna invisível”, nas últimas semanas, fizera extraordinários progressos na ciência de Bháskara. Já conhecia quatro operações com os números, os três primeiros livros de Euclides e calculava as frações com numerador 1, 2 ou 3(2).
Certo dia, ao cair da tarde, íamos iniciar a nossa modesta refeição, que consistia apenas em meia dúzia de pastéis de carneiro com cebolas, mel, farinha e azeitonas, quando ouvimos na rua grande tropel de cavalos e, em seguida, gritos, vozes de comando e pragas de soldados turcos.
Levantei-me um pouco assustado. Que teria acontecido? Tive a impressão de que a hospedaria fora cercada por tropa e que outra violência ia ser levada a efeito por ordem do intolerante chefe de Polícia.
A algazarra inesperada não perturbou Beremiz. Inteiramente alheio aos acontecimentos da rua, continuou, como se achava, a traçar, com um pedaço de carvão, figuras geométricas numa grande prancha de madeira. Extraordinário, aquele homem! As agitações mais graves, o perigo, as ameaças dos poderosos não conseguiam desviá-lo de seus estudos matemáticos. Se Asrail, o Anjo da Morte, surgisse ali, de repente, trazendo na lâmina do candjar a sentença do Irremediável, ele continuaria impassível a traçar curvas, ângulos e a estudar as propriedades das figuras, das relações e dos números.
O pequeno aposento em que nos achávamos foi invadido pelo velho Salim, que se fazia acompanhar de dois servos negros e um cameleiro. Mostravam-se todos assustadíssimos, como se algo muito grave tivesse ocorrido.
Por Alá! — gritei impaciente. — Não perturbem o nosso calculista! Que algazarra é essa? Temos nova revolta em Bagdá? Desabou a mesquita de Colimã?
Senhor — gaguejou o velho Salim, com voz trêmula de susto —, a escolta... Uma escolta de soldados turcos acaba de chegar!
Pelo santo nome de Maomé! Que escolta é essa, ó Salim?
É a escolta do poderoso grão-vizir Ibraim Maluf el Barad (que Alá o cubra de benefícios!). Os soldados vieram com ordem de levar, imediatamente, o calculista Beremiz Samir!
Para que tanta bulha, ó chacais! — bradei, exaltado. — Isso não tem importância alguma! Naturalmente o vizir, nosso bom amigo e protetor, deseja resolver, com urgência, um problema de matemática, e precisa do valioso auxílio do nosso sábio calculista!
As minha previsões saíram certas como os cálculos mais perfeitos de Beremiz.
Momentos depois, levados pelos oficiais da escolta, chegamos ao palácio do vizir Maluf.
Encontramos o poderoso ministro no rico salão das audiências, acompanhado de três auxiliares de sua confiança. Tinha na mão uma folha cheia de números e cálculos.
Que novo problema seria aquele que viera perturbar tão profundamente o espírito do digno auxiliar do califa?
O caso é grave, ó Calculista! — começou o vizir, dirigindo-se a Beremiz. — Acho-me, no momento, embaraçado com um dos mais complicados problemas que tenha visto em toda a minha vida. Quero informar-vos minuciosamente dos antecedentes do caso, pois só com vosso auxílio poderemos, talvez, descobrir uma solução.
E o vizir narrou o seguinte:
Anteontem, poucas horas antes de nosso glorioso califa Al-Motacém, Emir dos Crentes, partir para Báçora (onde vai ficar três semanas), houve um incêndio na prisão. Durante muitas horas a violência do fogo ameaçou destruir tudo. Os detentos, fechados em suas celas, sofreram, por muito tempo, tremendo suplício, torturados por indizíveis angústias. Diante disso, o nosso generoso soberano determinou fosse reduzida à metade a pena de todos os condenados! A princípio não demos importância alguma ao caso, pois parecia muito simples ordenar se cumprisse, com todo o rigor, a sentença do rei. No dia seguinte, porém, quando a caravana do Príncipe dos Crentes já se achava longe, verificamos que a tal sentença de última hora envolvia problema extremamente delicado, sem a solução do qual não poderia ter perfeita execução.
Entre os detentos — prosseguiu o ministro — beneficiados pela lei, existe um contrabandista de Báçora, chamado Sanadique, preso há quatro anos, condenado a prisão perpétua. A pena desse homem deve ser reduzida à metade. Ora, como ele foi condenado à prisão por toda a vida, segue-se que deverá agora, em virtude da lei, ser perdoado da metade da pena, ou melhor, da metade do tempo que ainda lhe resta viver. Viverá ele, ainda, certo tempo “x”, desconhecido! Como dividir por dois um período de tempo que ignoramos? Como calcular a metade do “x” da vida?
Depois de meditar alguns minutos, Beremiz respondeu:
Esse problema parece-me extremamente delicado, por envolver questão de pura Matemática e interpretação de lei. É um caso que interessa à justiça dos homens e à verdade dos números. Não posso discuti-lo, com os prodigiosos recursos da Álgebra e da Análise, antes de visitar a cela em que se acha o condenado Sanadique. É possível que o “x” da vida esteja calculado pelo Destino, na parede da cela do próprio condenado.
Julgo infinitamente estranho o vosso alvitre — observou o vizir. — Não me entra na cabeça a relação que possa existir entre as pragas com que os loucos e os condenados adornam os muros das prisões e a resolução algébrica de tão delicado problema.
Sidi! — atalhou Beremiz. — Encontram-se, muitas vezes, nas paredes das prisões, legendas interessantes, fórmulas, versos e inscrições que nos esclarecem o espírito e nos orientam os sentimentos de bondade e clemência. Conta-se que, certa vez, o rei Mazim, senhor da rica província de Korassã, foi informado de que um presidiário hindu escrevera palavras mágicas na parede de sua cela. O rei Mazim chamou um escriba diligente e hábil e determinou-lhe copiasse todas as letras, figuras, versos ou números que encontrasse nas paredes sombrias da prisão. Muitas semanas gastou o escriba para cumprir, na íntegra, a ordem extravagante do rei. Afinal, depois de pacientes esforços, levou ao soberano dezenas de folhas cheias de símbolos, palavras ininteligíveis, figuras disparatadas, blasfêmias de loucos e números inexpressivos. Como traduzir ou decifrar aquelas páginas repletas de coisas incompreensíveis? Um dos sábios do país, consultado pelo monarca, disse: “Rei! Essas folhas contêm maldições, pragas, heresias, palavras cabalísticas, lendas e até um problema de Matemática com cálculos e figuras.”
Respondeu o rei: “As maldições, pragas e heresias não acordam a curiosidade que me vive no espírito. As palavras cabalísticas deixam-me indiferente; não acredito no poder oculto das letras nem na força misteriosa dos símbolos humanos. Interessa-me, entretanto, conhecer o verso, o problema e a lenda, pois são produções que nobilitam o homem e podem trazer consolo ao aflito, ensinamento ao leigo e advertência ao poderoso.”
Diante do pedido do monarca, disse o ulemá:
Eis os versos escritos por um dos condenados:

A felicidade é difícil porque somos muito difíceis em matéria de felicidade.
Não fales da tua felicidade a alguém menos feliz do que tu.
Quando não se tem o que se ama é preciso amar o que se tem.(3)

Eis agora o problema escrito a carvão na cela de um condenado.

Colocar 10 soldados em cinco filas, tendo cada fila 4 soldados.




Esse problema, aparentemente impossível, tem solução muito simples, indicada pela figura, na qual aparecem cinco filas com 4 soldados em cada.
E a seguir o ulemá, para atender ao pedido do rei, leu a seguinte lenda:
Conta-se que o jovem Tzu-Chang dirigiu-se um dia ao grande Confúcio e perguntou-lhe:
Quantas vezes, ó esclarecido filósofo, deve um juiz refletir antes de sentenciar?
Respondeu Confúcio:
Uma vez hoje; dez vezes amanhã.
Assombrou-se o príncipe Tzu-Chang ao ouvir as palavras do sábio. O conceito era obscuro e enigmático.
Uma vez será suficiente — elucidou com paciência o Mestre — quando o juiz, pelo exame da causa, concluir pelo perdão. Dez vezes, porém, deverá o magistrado pensar, sempre que se sentir inclinado a lavrar sentença condenatória.
E concluiu, com sua incomparável sabedoria:
Erra, por certo, gravemente, aquele que hesita em perdoar; erra, entretanto, muito mais ainda aos olhos de Deus, aquele que condena sem hesitar.”
Admirou-se o rei Mazim ao saber que havia, nas paredes úmidas das enxovias, escrita pelos míseros detentos, tanta coisa cheia de beleza e curiosidade. Naturalmente, em meio de quantos amarguravam seus dias no fundo das celas, havia inteligentes e cultos. Determinou, pois, o rei, fossem revistos todos os processos de julgamento e verificou que inúmeras sentenças traduziam clamorosas injustiças. E assim, em consequência da descoberta feita pelo escriba, viram-se restituídos à liberdade muitos inocentes e foram reparadas dezenas de erros judiciários.
Tudo isso pode ser muito interessante — retorquiu o vizir Maluf. — Mas é bem possível que nas prisões de Bagdá não se possa encontrar figuras geométricas, versos ou lendas morais. Quero ver, porém, o resultado a que pretendeis chegar. Vou permitir, portanto, a vossa visita à prisão.

Notas:
(1) O maior vulto da antiga ciência muçulmana. Em seus livros muitas gerações estudaram Medicina.
(2) Os matemáticos árabes não dispunham de nomes para designar os termos das frações.
(3) Mme. de Staël; Pitágoras; Corneille.

Malba Tahan, em O Homem que Calculava

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Hagar, o Horrível

Talvez assim seja

Por outro lado, estou hoje um pouco cansada e é sobre o prazer do cansaço dolorido que vou falar. Todo prazer intenso toca no limiar da dor. Isso é bom. O sono, quando vem, é como um leve desmaio, um desmaio de amor.
Morrer deve ser assim: por algum motivo estar-se tão cansado que só o sono da morte compensa. Morrer às vezes parece um egoísmo. Mas quem morre às vezes precisa muito.
Será que morrer é o último prazer terreno?

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

O caso do trocador silencioso




O trocador é um modelo de instituição brasileira. Porque, fazendo jus ao título, não troca absolutamente coisa nenhuma. E quando troca, exemplifica de maneira esplêndida a expressão “dar o troco” atirando moedas e caraminguás nos cornes do freguês.
Aproveitando o rebote dos dias do mestre, do médico, da criança e outros bichos, eu, na qualidade de defensor dos fracos e oprimidos (por preços módicos e com direito a pechincha), sugiro aos nossos atarefados políticos a criação do Dia do Trocador. Nesta data querida, o citado profissional teria o direito de revidar, com um soco na cara, qualquer atrevimento do tipo nota de cinco, de dez etc... Bom etc. aí é meio sobre a retórica porque pobre quando vê nota de cinquenta pra cima, trata logo de se livrar dela, antes que os hôme arranjem alguma acusação em seu vasto repertório.
Onde tu arranjou essa nota? Canta logo!
Conceiçãããão...
PÔU!
Mas, como diz o Penteado, toda regra tem exceção e toda exceção caga regra.
O Tinoco, lá do Estácio, foi o único trocador que eu conheci que não só cumpria rigorosamente seu dever como, de quebra, distribuía agradecimentos e sorrisos. Aqui entre nós, o motivo dessa conduta insólita era a Janete. Platinada, graça ao conhecido tônico capilar Louramil, Janete lembrava um pouco a Marilim Monrôu — como gostava de dizer o Tinoco, o que, é bom frisar de passagem (já que falamos em trocador), engrandece a Janete. Tinoco detestava referências a coisas “do estrangeiro. O Brasil dá de zero em tudo”.
Toda sexta-feira, dia de folga do Tinoco, Janete melhorava o astral da
casa com o defumadorIndiano, e nosso herói andava atrás dela, de cueca, na maior bolinação.
Peraí, Cocô! Parece que tem bicho-carpinteiro. Isso aqui é coisa séria...
Ah, o encanto de certos apelidos íntimos!
Acabavam na cama. Durante os chamados folguedos eróticos, Tinoco era silencioso e compenetrado, e Janete era penetrada com a maior gritaria.
Agora, meu amor! Fala!Diz uma coisa daquelas no meu ouvidinho.
E o Tinoco hum, ai, hum, ai, hum, ai, e mais nada.
Depois, Janete ficava um pouquinho triste. Bem que disfarçava, mas seu rosto traía um pensamento oculto parecido com o dos compositores ao receberem direitos autorais do ECAD:(é como se faltasse alguma coisa).
Tinoco reparava na tristeza da Janete e, fazendo cafuné, prometia:
Da próxima vez eu falo. Fica triste não, neguinha. Juro que da próxima vez eu falo.
E Ihufas. Na hora do lesco-lesco, Tinoco, que nem as Otoridades, não tinha nada a declarar.
Perturbada por esse silêncio, Janete decidiu ir a um afamado Centro Espírita na Travessa do Carneiro, a Tenda “Esperança e Ray-O-Vac” — a coisa tá tão preta que até os espíritos da luz estão de lanterna.
No tal centro, Janete contou o problema ao caboclo Pena Poluída, que, após prescrever o Pó Solta-a-Língua, deu-lhe uns passes contra mau-olhado e repetiu três vezes:
O negoço tá mais pra palmito que pra beija-flor.
Em casa, Janete preparou a beberagem amaciada com a cachaça “Insumos Básicos” e explicou pro Tinoco:
Bebe de uma vez só. O caboclo disse que é tiro e queda.
De fato, porém mais pra queda do que pra tiro. Entre huns e ais, o Tinoco deixou cair:
Meus concidadãos! Ai... numa conjuntura econômica que... hum... se define por um aperto... ai... os elementos divisionistas... hum...
E por aí afora. Ou adentro.
Janete chorou a noite inteira, enquanto o Tinoco, desolado, fumava na sala, andando pra lá e pra cá.
Sexta-feira seguinte, Janete voltou ao centro com o Tinoco a tiracolo. O caboclo Pena Poluída ouviu tudo, recomendou que a dosagem do remédio fosse triplicada, e pediu que o casal repetisse com ele a exortação:
Se falar não fosse fácil, onde estaria o José Bonifácio? Boca abre à toa que nem janela. Vide Petrônio Portela.
Pra encerrar, Pena Poluída ajoelhou-se, bateu três vezes com a testa no cimento e foi levado com fratura do frontal pro Souza Aguiar, saravá!
De alma lavada, os pombinhos esvoaçaram pro ninho no maior agarramento. A preliminar foi tremenda. Tinoco disse coisa de ruborizar a própria torcida do Curintia. Mas no jogo principal ficou ruço. Já tava na prorrogação e só pintava hum, ai, hum, ai, hum, ai... Janete, desesperada, sabendo que essas coisas não se resolvem em cobrança de pênalti, apelou pro patriotismo do Tinoco:
Fala, desgraçado! Me xinga! Honra o trocador brasileiro!
Tinoco avermelhou como se fosse explodir e:
F... f... f...
Isso querido! Diz!
F... f... favor dar um passinho a frente que o meio do carro tá vazio!

Aldir Blanc, em Rua dos Artista e Arredores

Viagem a Paris

Ouvi dizer que vai a Paris.
Exato.
A negócio?
Não.
Turista?
Não.
Missão política reservada?
Não.
Tão secreta assim?
Não.
Se não sou indiscreto… transa de amor?
Não.
Está muito misterioso.
Não.
Como não? Saúde, talvez.
Não.
Compreendo que não queira alarmar…
Não.
Busca apenas repouso.
Não.
Fugir a esse calorão dos infernos.
Não.
Fugir do trabalho, então.
Não.
Capricho do momento.
Não.
Tantos nãos devem significar um sim.
Não.
Significam sim. Vou repetir as hipóteses.
Não.
Temos pela frente uma indústria nova, de vulto.
Não.
De qualquer maneira, é financiamento internacional.
Não.
Então a coisa está ficando preta.
Não.
Está preta, e há jogadas que só em Paris.
Não.
Percebe-se alguma coisa no ar.
Não.
Não dá para perceber, mas há.
Não.
Mas pode haver a qualquer momento.
Não.
Nem por hipótese?
Não.
Nenhuma nuvem distante, muito distante mesmo?
Não.
No ano que vem?
Não.
Ouvi mal?
Não.
Sendo assim, é segredo pessoal?
Não.
O coração é quem dita a viagem… eu sei.
Não.
Sim, sim. Pode confessar.
Não.
Hoje em dia essas coisas são públicas. Dão até cartaz.
Não.
Sei que não precisa disso, mas…
Não.
Por que não? Está com medo da imprensa?
Não.
Receia perder a situação social?
Não.
A situação financeira?
Não.
Política?
Não.
Pois olhe, melhor é preparar o ambiente.
Não.
Claro que sim. Insinuar mudança em sua vida.
Não.
Discretamente.
Não.
De leve, só uma pincelada. Deixe comigo.
Não.
Não abro manchete nem boto aquela foto em duas colunas, aquela bacana, lembra?
Não.
Só cinco linhas.
Não.
Duas.
Não.
Mas tenho de dizer alguma coisa.
Não.
O senhor é notícia.
Não.
Pode dizer que não, mas é sim.
Não.
Puxa vida, o senhor hoje está medonho. Resolveu responder não a tudo que é pergunta minha?
Não.
Ah, é? Então vamos recomeçar: o senhor vai a Paris?
Vou.
E que é que vai fazer em Paris?
Ver.
Ver o quê?
O último tango em Paris.
E por que é que não me disse isso logo, homem de Deus?
Você não me perguntou, por que eu havia de responder?

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

Sexto capítulo – As idosas profanadoras




À volta do machimbombo Muidinga quase já não reconhece nada. A paisagem prossegue suas infatigáveis mudanças. Será que a terra, ela sozinha, deambula em errâncias? De uma coisa Muidinga está certo: não é o arruinado autocarro que se desloca. Outra certeza ele tem: nem sempre a estrada se movimenta. Apenas de cada vez que ele lê os cadernos de Kindzu. No dia seguinte à leitura, seus olhos desembocam em outras visões.
Muidinga já não reclama para passear pelas cercanias. Apenas Tuahir deseja sair, se espraiar pelos matos. Seu pretexto é a água: é preciso ir buscá-la, armazenar uma boa porção. Aconteceu nessa manhã mais cedo que o habitual:
Vamos!
Eu fico, tio.
Nem pense. Aqui ninguém fica. Se não quer me acompanhar então siga noutra direcção. Mas aqui é que não fica.
Valia a pena discutir? Muidinga se resigna, pois, a ir sozinho pelos carreiros dos bichos. Tuahir segue em oposta direcção. Por onde seguia o moço os capins se infindavam, num moçambique de verdes. Os olhos de Muidinga se meninam a ver as árvores. Em redor, já nada faz recordar a savana empobrecida. Agora a floresta floresce. Os caminhitos com a guerra se desabituaram de servir. E os capins ganharam confianças, cobrindo tudo. De repente, as árvores se suspendem em clareira. Um campo se abre, de cultivos pobres: milho, meixoeira, pouca mapira.
Muidinga pára a olhar. Ali estava, mesmo que indigente, uma extensão da vontade humana. Fica por instantes a inspirar aquele perfume da terra lavrada até que escuta vozes, vindas do fundo da paisagem. Eram mulheres que se aproximavam, cantando. Traziam ramos nas mãos e com eles iam batendo no chão. Da terra se levantavam nuvens e talvez fosse a poeira que não as deixava ver o miúdo. À frente, vem uma velha, corcunda, esbafurada. Muidinga grita para que seja notado. Há um alvoroço. Elas primeiro se alarmam, depois fazem uma roda, bichanando. Muidinga vai chegando perto, curioso. Súbito, elas correm para ele. O moço fica parado. Uma voz dentro o avisa:
Foge, Muidinga!
Mas ele nem dá entendimento. Fugir de um grupo de tão avançadas senhoras? As velhas já estavam junto, cercando-lhe. Gritam em língua que ele desconhece, parecem dedicar--lhe azedos insultos.
A mais velha se acerca e, com insuspeita força, lhe bate na cara. Muidinga fica dominando fervuras, entre receio e rancor. O seu medo estava preparado para as demais situações mas não para enfrentar tão idosa e feminina violência. Uma por uma, todas as outras dão um passo em frente e lhe atiram pancadarias. Lhe batem com paus, ramos secos, lhe atiravam areia, pedras, torrões.
Porquê me batem, mães?
Mas elas não entendem a sua língua. E desse desencontro se enchameia mais a zanga daquela gente. Braços e pernas se cruzam na azáfama de lhe golpejar, gritos e risos se enroscam na fúria de lhe ofender. O miúdo se humilha, olhos prestes a se aguarem, indefeso como bicho fora da toca.
Não me batam mais, por favor!
Então, a mais velha se coloca de pernas abertas sobre seu corpo derrubado e, num puxão, se desfaz da capulana. Aparecem as usadas carnes, enrugadas até aos ossos, os seios pendentes como sacos mortos. Ela grita, se lambe a si mesma, em inesperadas volúpias. Sobe a mão por entre as pernas e se deixa cair sobre o rapaz. E se desata a esfregar de encontro ao prostrado Muidinga, mais ciosa que ansiosa. As outras acompanham xiculunguelando, palmando. Uma por uma, todas restantes vão tirando as roupas, trapos e sacos com que se cobriam. Estão nuas, dançando frenéticas à sua volta. A mais idosa dá mais avanço a seus intentos, puxando as íntimas partes do rapaz, abraçada como se lhe quisesse arrancar a alma. Muidinga nem se quer inteirar da sucedência: estava a ser violentado, em flagrante abuso. A primeira se sacia, abusa e lambuza. Depois, as outras se seguem, num amontanhado de corpos, gorduras e pernas.
O pobre moço nem sabe se perdeu o consenso ou se o mundo rodou mais rápido que as mulheres endoidadas. Sabe apenas que está saindo de um escuro e as luzes pirilampejam, abrindo soluços no céu. No recorte da visão está Tuahir, lhe puxando para uma sombra.
O que aconteceu?, pergunta Muidinga.
Tuahir sorri. E lhe explica com modos paternos. O que aconteceu foi que aquelas mulheres estavam em sagrada cerimónia, afastando os gafanhotos que assaltaram as plantações. Elas estavam a enxotá-los, a esconjurar a maldição. A chegada de um intruso quebrou os mandamentos da tradição. Nenhum homem pode assistir a esta cerimónia. Nenhum, nunca.
É que esses não são gafanhotos próprios. São gafanhotos de alguém.
Tuahir fala apontando os campos onde cardumes de gafanhotos, em nuventanias, mastigavam o mundo. Aquele escasso verde desaparece dentada por dentada.
Vamos para o machimbombo.
Muidinga se deixa levar nos braços do velho. Lhe sabe bem aquele abandono, as marcas dos brutais apertos lhe parecem nem existir. E é assim dorido que Tuahir o deixa tombar no banco do velho machimbombo. O miúdo geme enquanto o velho lhe aquece um chá.
Vá, beba. Fique forte que é para, mais logo, atacar aqueles caderninhos que você sabe.
Mas, tio. Nem sei se vou conseguir.
Consegue. Leia como o velho Siqueleto, um olho aberto de cada turno.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

Inácio Botelho e Nelson Faria | Um Café Lá Em Casa

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Hora do Ângelus

A poesia é pura compaixão.
Até grávida posso ficar,
se lhe aprouver um filho apelidado Francisco.
Tem mesmo alguma coisa no mundo
que obriga o mundo a esperar.
O carroceiro pragueja: ô deus,
a minha lida é mais dura
que a lida de um retireiro.
Sem paciência, a beleza turva-se,
esta que sobre as tardes se inclina
e faz defensáveis
areias, ervas, insetos,
este homem que jamais disse a palavra crepúsculo.

Adélia Prado, em O Coração Disparado

Ilusão?!

Poesia & lenço

E essas que enxugam as lágrimas em nossos poemas como defluxos em lenços... Oh! tenham paciência, velhinhas... A poesia não é uma coisa idiota: a poesia é uma coisa louca!

Mário Quintana, em Caderno H

De stella et adventu magorum



No presépio onde tudo se perfazia estático — simultâneo repetir-se de matérias belas, retidas em arte de pequena eternidade — os Três Reis introduziam o tempo. O mais parava ali, desde a véspera da Noite, sob o fino brilho suspenso das bolas de cores e ao vivo cheiro de ananás, musgo, cera nobre e serragens: o Menino na manjedoura, José e a Virgem, o burrinho e o boi, os pastores com seus surrões, dentro da gruta; e avessa gente e objetos, confusas faunas, floras, provendo a muitíssima paisagem, geografia miudamente construída, que deslumbrava, à alma, os olhos do menino míope.
Em coisa alguma podia tocar-se, que Vovó Chiquinha, de coração exato e austera, e Chiquitinha, mamãe, proibiam. Eles, porém, regulavam-se à parte, com a duração de personagens: o idoso e em barbas Melchior, Gaspar menos avelhado e ruivo, Baltasar o preto — diversos mesmo naquele extraordinário orbe, com túnicas e turbantes e sobraçando as dádivas — um atrás do outro. Dia em dia, deviam avançar um tanto, em sua estrada, branca na montanha. Cada um de nós, pequenos, queria o direito de pegar neles e mudá-los dos quotidianos centímetros; a tarefa tinha de ser repartida. Então, à uma, preferíamos todos o Negro, ou o ancião Brechó, ou el-rei Galgalaad; preferíamos era a briga. Mas Vovó Chiquinha ralhava que não nós, por nossas mãos, os mexíamos, senão a luz da estrela, o cometa ignoto ou milagroso meteoro, rastro sideral dos movimentos de Deus. E Chiquitinha, para restituir-nos à paz dos homens concordiosos, mostrava a fita com a frase em douradas letras — Gloria in excelsis... — clara de campainhas no latim assurdado e umbroso.
No prazo de seu dia, à Lapinha iam chegar, o que nos alvoroçava, como todas as chegadas — escalas para o último enfim, a que se aspira. Mas, de repente, muito antes, apareciam e eram outros, com acompanhamento de vozes em falsete:

Boa noite, oh de casa, 
a quem nesta casa mora... 

A Folia de Reis — bando exótico de homens, que sempre se apresentavam engraçadamente sérios e excessivamente magros, tinham o imprevisto decoro dos pedintes das estradas, a impressiva hombridade esmoler. Alguns traziam instrumentos: rabecas, sanfonas, caixa-de-bater, violas. Entravam, mantinham-se de pé, em roda, unidos, mais altos, não atentavam para as pessoas, mas apenas à sua função, de venerar em festa o Menino-Deus. Pareciam-me todos cegos. Será, só eles veriam ainda a Estrela? Porém, no centro, para nossa raptada admiração, dançavam os dois Máscaras, vestidos de alegria e pompa, ao enquanto das vozes dos companheiros vindos só para cantar:

Eis chegados a esta casa 
os Três Reis do Oriente... 

De onde — oásis de Arábia, Pérsia de Zaratustra, Caldeia astrológica — da parte do Oriente ficava sua pátria incerta, além Jordão, descambado o morro do Bento Velho, por cujo caminho, banda de cá, costumavam descer os viajantes do Araçá e da Lagoa, e, sobre, na vista-alegre a gente se divertia com inteiros arco-íris, no espaço das chuvas, seduzidamente, conforme vinham, balançando-se em seus camelos, para adorar o Rei dos Judeus, fantasiados assim, e Herodes a Belém os enviava: o Guarda-Mor e o Bastião
Dois, só? Respondiam: que por estilos de virtude, porque, os Magos, mesmo, não remedavam de ser. E por que os chamavam, com respeito embora, de “os palhaços”? Bastião, o acólito, de feriada roupa vermelha, gorro, espelho na testa, e que bazofiava, curvando-se para os lados, fazendo sempre símias e facécias, representasse de sandeu. Mas o “mascarado velho”, o Guarda-Mor, esse trajava de truz, seu capacete na cabeça era de papelão preto, imponente, e sérios o enorme nariz e o bigode de pêlos de cauda de boi. Dele, a gente, a gente teria até medo. Pulavam, batendo no chão os bastões enfeitados de fitas e com rodelas de lata, de grave chocalhar. Um dos outros homens alteava o pau com a bandeira, estampa em pano. Entoavam: ...“A lapinha era pequena, não cabiam todos três... Cada um por sua vez, adoraram todos três...” Prestigiava-se ao irreal o presépio, à grossa e humana homenagem, velas acesas; a dança e música e canto rezando mesmo por nós, forçoso demais, em fé acima da nossa vontade; pasmavam-nos.
Depois, recebiam uma espórtula, fino recantando agradeciam: “Deus lhe pague a bela esmola...” — e saíam, saudando sem prosa, só o sagrado visitavam. Mas a gente queria acompanhá-los era para poder ver o que se contava tanto — que, onde não lhes dessem entrada, então, de fora, bradavam cantoria torta, a de amaldiçoar: “Esta casa fede a breu...” — e, que dentro dela morava incréu, a zangação continuava. Em vão, porém, esperava-se turra de violências. Avisados por um anjo, voltavam por outro caminho, seguiam se alontanando.
Se às vezes chegavam outras, folias de maiores distâncias, sucedia-se o em tudo por tudo. Só que, os homens, mais desconhecidos, sempre, diferentes mesmo dos iguais. Nem paravam — no vindo, ido e referido. Duas folias se encontrassem, deviam disputar o uso desafio: a vencedora, de mais arte em luzimento, ganhando em paz, da outra, a sacola com o dinheiro. Os estúrdios, que agora no sertão navegavam! A gente repetia de os esquecer.
Celebrava-se o dia 6, Vovó Chiquinha desmanchava o presépio, estiava o tempo em veranico entes do São Sebastião frechado. Por quanto, tornavam a falar nos foliões, deles não sendo boas, nem de casta lembrança, as notícias aportadas. Sabia-se que, por adiante, facilitavam aos poucos de receber no grupo aparasitados e vadios, pegavam desrumo, o Canto sacro dava mais praça a poracé e lundu, perdiam o conselho. Já mal podiam trocar as fardas, vez em quando, desfeitos do suor e das poeiras e chuvaradas. Passavam fome, quando não entravam em pantagruomérico comer, dormiam irrepousadamente, bebiam do tonel das danadas; pintavam o caneco. Nem honravam mais as praxes de preceito. Uma folia topava outra, e, sem nem um mal-entendimento, em vez de avença desapoderavam-se logo, à acossa, enfrentemente: batiam à força aberta, a bastão, a pau de bandeira, a cacete, espatifavam-se nas cabeças os tampos de rabecas e violas.
Só que não podiam tão cedo parar, no ímpeto de zelo, e iam, iam, à conta inteira, de lugar em lugar, fazenda em fazenda, ultrapassavam seu prazo de cessação, a Epifania, queriam os tantos quantos são nos presépios e os meninos-de-jesus do mundo. Mas, era como se, ao passo com que se distanciavam do Natal, no tempo, fossem perdendo sua mágica realidade e a eficácia devota, o furor de fervor não dava para tanta lonjura, e de tão esticado se estragava. Assim naufragavam por aí, espandongados, adoentados, exaustos, caindo abaixo de sono, em pé mesmo se dormiam. Derrotados, recuavam então, retornando, debandando — se coitados, se danados — não raro sob ameaça e apupos, num remate da santa desordem, na matéria merencória.
A gente se entristecia, de saber, receávamos não voltassem, mais nunca, não houvesse a valente Festa de Reis, beleza de piedade, com o Bastião truão e o Guarda-Mor destronado.
— “Mas, sim, eles voltam. Para o ano, se Deus quiser, todos voltam. Sempre, mesmo. Hão de recomeçar...” Os meninos se sorriam. — “... Eles são homens de boa-vontade...” — repetia Chiquitinha.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra