21/09/2026

Gal Costa | Errática

O outro lado

Como serão as coisas quando não estamos a olhar para elas? Esta pergunta, que cada dia me vem parecendo menos disparatada, fi-la eu muitas vezes em criança, mas só a fazia a mim próprio, não a pais nem professores porque adivinhava que eles sorririam da minha ingenuidade (ou da minha estupidez, segundo alguma opinião mais radical) e me dariam a única resposta que nunca me poderia convencer: “As coisas, quando olhamos para elas, são iguais ao que parecem quando não estamos a olhar”. Sempre achei que as coisas, quando estavam sozinhas, eram outras coisas. Mais tarde, quando já havia entrado naquele período da adolescência que se caracteriza pela desdenhosa presunção com que julga a infância donde proveio, acreditei ter a resposta definitiva à inquietação metafísica que atormentara os meus tenros anos: pensei que se regulasse uma máquina fotográfica de modo a que ela disparasse automaticamente numa habitação em que não houvesse quaisquer presenças humanas, conseguiria apanhar as coisas desprevenidas, e desta maneira ficar a conhecer o aspecto real que têm. Esqueci-me de que as coisas são mais espertas do que parecem e não se deixam enganar com essa facilidade: elas sabem muito bem que no interior de cada máquina fotográfica há um olho humano escondido... Além disso, ainda que o aparelho, por astúcia, tivesse podido captar a imagem frontal de uma coisa, sempre o outro lado dela ficaria fora do alcance do sistema óptico, mecânico, químico ou digital do registo fotográfico. Aquele lado oculto para onde, no derradeiro instante, ironicamente, a coisa fotografada teria feito passar a sua face secreta, essa irmã gémea da escuridão. Quando numa habitação imersa em total obscuridade acendemos uma luz, a escuridão desaparece. Então não é raro perguntarmo-nos: “Para onde foi ela?”. E a resposta só pode ser uma: “Não foi para nenhum lugar, a escuridão é simplesmente o outro lado da luz, a sua face secreta”. Foi pena que não mo tivessem dito antes, quando eu era criança. Hoje saberia tudo sobre a escuridão e a luz, sobre a luz e a escuridão.

José Saramago, em O caderno

Gosto de água pura

A meu Pai

Vem do tempo de menino
seu gosto por água pura.
Sempre junto do cardume,
mas sem perder a postura.
Cuidando de procurar
nas coisas que já deixou
num mundo que está por vir
um viver com mais perfume.

O tempo é o que ele possui
para voar dentro do nada.
Vai levar a sua vida
da maneira que lhe caiba.

O seu rio é a sua casa,
sua fonte e aconchego.
Onde mora todos cantam
para amortecer o peso.

No futuro quando pensa,
é o passado o que ele tem.
E ao final de tudo, imune,
algo vai ficar pro bem.

Porém veio a se afoitar
e rumou para um oceano.
Novas águas que lhe sabem
vão lavar seu desengano.

A vontade e o bem-querer
não ficaram no caminho.
Os seus frutos já colheu
e não segue mais sozinho.

Thiago de Mello, em Acerto de contas

Subles




Foi que, uma noite, sozinho em casa e avançando as horas, tomado de sono, deu-me entretanto de telefonar a um ou outro conhecido, ainda que sem assunto e contra meu costume.
Como em duas, três tentativas, a linha estivesse sempre ocupada, comecei, nem sei, a discar a esmo, do modo por que a mão da gente num vazio desses se distrai, tamborilando dedos, por exemplo, ou rabiscando letras e garatujas. Suponho ter formado, de curto, um número impossível e imprevisto, principiado por 7, 9 ou 8. E somenos cochilava, se por metade não dormia.
Despertou-me um apelo brusco:
— Quer falar com Subles?
Que sim, respondi, com presteza que ainda hoje não me explico. Verdade que eu conhecia o Subles, um único Subles, sujeito de raras palavras e riso nenhum ao guichê, funcionário bancário. Aquela hora, se bem o disse, eu não esquivaria interlocutor, aceitava qualquer conversa. Também o torpor que me nublava tirou-me de estranhar o acaso. Guardei o fone ao ouvido.
Sobre pausa normal — convém minuciar — soaram, fim de fio, confusas campainhas, e percebi vozes, como as que no comum se entremetem para as ligações interurbanas. Por uma vez admiti que a chamada partira do próprio Subles, surpreendendo-me por coincidência enquanto eu usava o aparelho; e quis imaginar de que lugar, e que motivo ou erro o trazia a mim. Em tão contadas ocasiões o vira e por último fazia tanto tempo, que nem poderia em rigor evocar-lhe a fala e as feições.
Momento e outro, alteou-se, não entendido, o retalho de colóquio das telefonistas; depois borbulhou no receptor apenas um gorgolejo morto, como o de dentro de um búzio. Demoravam, quase entrei em dúvida. Só silêncio. Enfim, porém, acertaram conexão linha adiante, onde regia voz oficial — crassa, espessa:
— Aão?
— Alô, alô... — me apressei.
Do outro extremo, insistiu, autônomo, o interrogador:
— Quer falar com Subles?
Concordei, sem fazer espantos, posto sabendo que telefonava de moto alheio. Digo que por então eu me lestara, livre da sonolência. Subles — sua memória — vinha palpando. O contínuo quotidiar é que relega as impressões, desmembra-as. Portanto, eu o tinha na lembrança, um pouco mais do que antes achava: a cabeça grande, grisalha, um desmedir-se de orelhas, as mãos, que muito se viam, hábeis no manipular recibos e maços de dinheiro, e o vezo grave, polido, de cumprimentar perguntando-nos: se toda a família passava bem?...
O fone captava simples estalidos, em meio de sussurros, voo menos que o de morcegos, outramente seguidos de rumores de arrasto, como se mudassem um cenário. Tinia com intervalos, mais remoto, o toque de campainhas. E bem o diálogo de telefonistas reescutava-se indistinto, ora uma frase se acentuando, em idioma extraordinariamente estrangeiro. Dei que, pelo melhor, arrumavam uma ligação mais que longínqua. Então, onde estaria Subles? Telefonar-me, ele a mim, dividia-se em ridículo e absurdo. De agora creio que me vi na maior suspensão. Continuei esperando.
Tornaram a chamar, e um ruído regular se estabeleceu, transferindo-nos de circuito. Mas a voz que saltou se distendia de ninguém, falseando timbre, tanto podia ser de homem ou mulher, de um velho, de uma menina.
— Que quer? Que quer? — pareceu-me perguntavam.
— Subles?! — exigi.
— Pode esperar Subles.
Por primeiro suspeitei estar sendo usado num gracejo. Mas a mesma dicção incarnal se seguia acolá, peremptória, por certo reclamando urgência. Teriam posto Subles numa prisão, num manicômio? Dava-me pena imaginar: ele trajado de preto, estragado, distante de todo o mundo. Devia ter naquele instante uma inadiável comunicação a fazer-me, talvez um pedido. Impacientei-me, bradei no bocal: — Alô! Alô!...
— Pode esperar Subles...
Pelo modo, através de engrenagem, trocavam de sistema, aprofundando-me para outro âmbito: pensei na possibilidade de uma rede clandestina. Tudo é tão clandestino, tanta coisa é possível, que a vida é o não-resumo de um milagre. Subles me chamava, de algum ponto perdido naquela trama.
— Alô?
Seria ele? Não o conhecia mais que acauteladamente. Nunca me ocorrera dar-lhe uma palavra desnecessária. Nunca o olhara de verdade.
Já aqui eu estava demasiadamente acordado, atento, lúcido. Ápices de vozes se erguiam, trazidas e levadas, feixe de murmúrios. A espaços, uma entressistia mais forte, renovava o nome de Subles. E alguém chorava, seguro estou, a um canto: emitia insuportável soluço, manso, em decrescendo; podia ser também um mecanismo.
Precisei de fechar os olhos e haver apenas o telefone; perto mesmo de mim, eu temia de repente qualquer coisa. Para acalmar-me, seria bem-vinda a própria fala inumana, já sabida, de séculos há pouco.
E, Subles, eu carecia de ouvi-lo. Compreendi que lhe queria bem, que seria meu amigo. Seus olhos podiam oferecer um raro entendimento profundo, principalmente só seu. Subia-me, de muito, uma tensa calma, algo para além do medo, inconcebível serenidade. Tentei entendê-la, substância evasiva, notar seu espaço de sonho. Foi porém imensamente breve, sem definição.
— Subles... — pedi, talvez só com arrancado pensamento.
— Sabemos. Subles.
— Sim!
— Subles ainda não chegou.
— Aguardo?
— Subles chegará dentro em pouco...
Não sei dizer se círculos de silêncio lançavam-me em seu centro, ou se um mar de música corroía em mim o que não fosse apenas alma — isto é, o intimamente estranho7. Esperei Subles, cujo recado urgia decifrar, de quem eu tinha de ouvir uma revelação. Se não, se não a recebesse, talvez o simples sentido da vida ficaria para mim para sempre incompreendido. Um fio devia unir-nos, e não funcionara. Ou sim? Mas aquela ausência humana tendia a desordenar-se, minha lembrança não a deteve. Sucedeu outra vez a voz, tênue, silabuciada, movitiva:
— Subles acaba de chegar.
— Subles! Pode falar?
Falar?! Mas ele já chegou!
Era outra coisa que uma voz, só, sem respondibilidade, infixa. A orla do fone comprimia-me as cartilagens, impunha-se sobre meu sangue — máquina, em tumulto. Senti que meus cabelos eternamente subiam, num arrepio.
— Alô! Alô! Subles?! — supliquei.
— Como poder ele falar, se já chegou?! Como quer que ele fale?!
Não mais.
— Subles... — gemi.
Ele já chegou.
Tremi de morte, glacial, eu suava. Sem senso, surdo, meu corpo se contraía, e pulsou, num repugno à vertigem, como um cavalo espavorido se rebela refugando. Que me importava o bancário Subles?
Larguei o fone — eu me devolvia a mim, ao quotidiano, ao normal, que nem uma pedra a um poço: descendo, caindo, voltando. Durante um tempo, o telefone não tocava outra vez, não chamou.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

O assunto

E nunca me perguntes o assunto de um poema: um poema sempre fala de outra coisa.

Mário Quintana, em Caderno H

11 | A duplicação de Ivan



O bosque na margem oposta do rio, ainda há uma hora iluminado pelo sol de maio, turvou-se, borrado, e se dissipou.
A água caía como uma cortina contínua do outro lado da janela. No alto, a todo instante, linhas irradiavam, o céu arrebentava, e uma luz vacilante e assustadora era derramada no quarto do doente.
Sentado na cama, Ivan chorava baixinho, olhando para o rio turvo em ebulição. A cada trovoada, ele soltava um grito penoso e cobria o rosto com as mãos. As folhas escritas por Ivan estavam largadas no chão. Tinham sido carregadas pelo vento que soprou no quarto antes de a tempestade começar.
As tentativas do poeta de escrever uma denúncia sobre o terrível consultor não deram em nada. Assim que ele recebeu um toco de lápis e papel das mãos da gorda assistente, que se chamava Praskóvia Fiódorovna, Ivan esfregou as mãos com um ar prático e depressa instalou-se à mesa. O início lhe veio com bastante facilidade:
“À polícia. Do membro da Massolit, Ivan Nikoláievitch Bezdômny. Denúncia. Ontem à noite, eu fui com o falecido M.A. Berlioz a Patriarchi Prudý...”
Mas imediatamente o poeta ficou confuso, principalmente por causa da palavra “falecido”. Logo de saída veio à tona um ponto absurdo: como assim... “fui com o falecido”? Os mortos não vão a lugar algum! Realmente, são capazes de me tomar por louco!
Pensando assim, Ivan Nikoláievitch começou a corrigir o que havia escrito. Saiu o seguinte: “... com M.A. Berlioz, posteriormente falecido...” Mas isso também não o satisfez. Ele teve de recorrer a uma terceira versão, que resultou pior do que as duas primeiras: “... Berlioz, que foi parar debaixo do bonde...” — e aqui não saía de sua cabeça aquele compositor homônimo que ninguém conhecia, e então teve que incluir: “... não o compositor...”
Depois de padecer muito com esses dois Berlioz, Ivan riscou tudo e resolveu começar de uma vez com algo bem forte para atrair a atenção do leitor imediatamente. Então escreveu que um gato pegou o bonde, e depois voltou ao episódio da cabeça decepada. A cabeça e a previsão do consultor o remeteram ao pensamento sobre Pôncio Pilatos e, para ser ainda mais convincente, Ivan resolveu expor na íntegra toda a história do procurador, desde aquele exato momento em que, de manto branco, com a barra cor de sangue, ele saiu para a colunata do palácio de Herodes.
Ivan trabalhava com afinco, riscava o que havia escrito, inseria palavras novas, e até tentou desenhar Pôncio Pilatos, e a seguir um gato nas patas traseiras. Mas os desenhos também não ajudavam e, quanto mais avançava, mais confusa e incompreensível se tornava sua denúncia.
Naquele momento em que uma nuvem assustadora com as bordas fumegantes apareceu ao longe e cobriu o bosque, e o vento soprou, Ivan sentiu que já não tinha forças, que não daria conta da denúncia, desistiu de recolher as folhas que tinham voado e pôs-se a chorar baixinho, amargurado.
Praskóvia Fiódorovna, a assistente de bom coração, que fora dar uma olhada no poeta na hora da tempestade, ficou aflita quando viu que ele chorava. Fechou a cortina para que os raios não assustassem o doente, recolheu as folhas do chão e foi correndo com elas procurar o médico.
O médico apareceu, aplicou uma injeção no braço de Ivan e garantiu que ele não iria mais chorar, que agora tudo iria passar, tudo iria mudar e tudo seria esquecido.
O médico tinha razão. Logo o bosque da outra margem do rio ficou como antes. Ele se delineava até a última árvore sob o céu, que voltara a ficar limpo e completamente azul, como antes, e o rio se acalmou. A desolação começou a deixar Ivan logo após a injeção, e agora o poeta estava deitado, calmo, olhando para o arco-íris que se estendera no céu.
Assim continuou até a noite e ele nem percebeu quando o arco-íris se dissolveu, como o céu ficou triste e desbotado e o bosque enegrecido.
Depois de beber leite morno, Ivan deitou de novo e se admirou com a mudança que se operou em seus pensamentos. O maldito gato diabólico suavizou-se em sua memória, a cabeça decepada não o assustava mais e, deixando de lado o pensamento sobre ela, Ivan começou a refletir que, no fundo, não era assim tão ruim estar na clínica, que Stravinski era muito inteligente, uma celebridade, e que era extremamente agradável lidar com ele. No fim das contas, o ar da noite ficou doce e fresco após a tempestade.
A casa da aflição estava adormecendo. Nos corredores silenciosos as lâmpadas brancas frias iam se apagando e no lugar delas foram acesas, de acordo com os regulamentos, lâmpadas de cabeceira, fracas, azuis, e cada vez mais raramente se ouviam atrás das portas os passos cuidadosos das assistentes nos tapetes de borracha do corredor.
Agora Ivan estava deitado em doce languidez, olhando ora para a pequena lâmpada sob a cúpula do lustre que derramava, do teto, uma luz atenuada, ora para a lua, que saía de trás do bosque negro, e conversava consigo mesmo.
— Realmente, por que fiquei tão alterado por Berlioz ter ido parar debaixo do bonde? — raciocinava o poeta. — No fim das contas, ele que vá para o inferno! Na verdade, o que eu sou dele, amigo do peito ou parente? Pensando melhor sobre essa questão, chegarei à conclusão de que eu, na realidade, nem sequer conhecia o falecido muito bem. Na verdade, o que eu sabia sobre ele? Nada, a não ser que era careca e extremamente eloquente. E tem mais, cidadãos — prosseguia seu discurso, dirigindo-se a uma pessoa qualquer —, vejamos qual é a questão: por que eu, expliquem, fiquei irritado com esse enigmático consultor, mago e professor com aquele olho vazio e negro? Para quê toda essa perseguição sem sentido, só de ceroulas e com uma vela nas mãos, e depois a confusão no restaurante?
— Ei, vá com calma — de repente disse, severo, o Ivan de antes, em algum lugar, de dentro ou ao pé do ouvido, ao novo Ivan. — Ele não sabia de antemão que a cabeça de Berlioz seria decepada? Como não ficar alterado?
— Que conversa é essa, camaradas! — exclamava o novo Ivan ao antigo Ivan. — Que aqui o negócio não cheira bem até uma criança pode entender. Trata-se de uma personalidade cem por cento fora do comum e misteriosa. Mas é exatamente isso o mais interessante! O homem conheceu Pôncio Pilatos pessoalmente, querem algo mais interessante do que isso? Em vez de armar o maior escândalo em Patriarchi, não teria sido mais inteligente perguntar com educação o que aconteceu depois com Pilatos e com aquele preso, Ha-Notzri? O diabo vai saber com o que fui me meter! Um acidente importante, na verdade; o editor de uma revista foi atropelado! E daí, será que a revista vai fechar por causa disso? O que é que se vai fazer? O homem é mortal e, como já foi dito com toda a propriedade, é inesperadamente mortal. Que descanse em paz! Haverá outro editor e até, quem sabe, ainda mais eloquente do que o antigo.
Depois de cochilar um pouco, o novo Ivan perguntou com escárnio ao velho Ivan:
— Então, quem sou eu nesse caso?
— Um idiota! — em algum lugar falou uma voz grave, nítida, que não pertencia a nenhum dos Ivans e que era extremamente parecida com a voz grave do consultor.
Sabe-se lá por que Ivan não se ofendeu com a palavra “idiota”, mas até ficou agradavelmente admirado, sorriu e se acalmou, semiacordado. O sono se apoderava de Ivan e ele já imaginava uma palmeira em sua perna de elefante, um gato passando em frente — não terrível, mas alegre. Resumindo, logo, logo, o sono surpreenderia Ivan, quando de repente, sem fazer barulho, a grade se moveu para o lado, e na varanda surgiu uma figura misteriosa, desviando da luz da lua e acenando com o dedo para Ivan.
Sem se assustar nem um pouco, Ivan se ergueu na cama e viu que na varanda havia um homem. E esse homem, encostando o dedo nos lábios, sussurrou:
— Shh!

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida

20/09/2026

Little Thing No. 4 (Instrumental ) | Elilson José Batista

Calvin e Haroldo

 

Insônia

O homem vigia.
Dentro dele, estumados,
uivam os cães da memória.
Aquela noite, o luar
e o vento no cipó-prata e ele,
o medo a cavalo nele,
ele a cavalo em fuga
das folhas do cipó-prata.
A mãe no fogão cantando,
os zangões, a poeira, o ar anímico.
Ladra seu sonho insone,
em saudade, vinagre e doçura.

Adélia Prado, em Bagagem

1640 – São Salvador, Bahia




Vieira

Cintila a boca enquanto lança palavras armadas como exércitos. O orador mais perigoso do Brasil é um sacerdote português criado na Bahia, baiano de alma.
Os holandeses invadiram estas terras e o jesuíta Antônio Vieira pergunta aos senhores coloniais se não somos tão pretos para eles como os índios para nós. Do púlpito, o dono da palavra desafia os donos da terra e das pessoas:
“Não pode haver maior inconsideração do entendimento nem maior erro de juízo entre homens, que cuidar em que hei de ser vosso senhor porque nasci mais longe do sol, e que vos haveis de ser meu escravo porque nascestes mais perto”.
Na igrejinha da Ajuda, a mais antiga do Brasil, Antônio Vieira acusa também Deus, culpado de ajudar os invasores holandeses:
Ainda que nós somos os pecadores, Deus meu, vós haveis de ser, hoje, o arrependido.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

A Contadora de Filmes

[7]

Nós não fazíamos como as outras pessoas, que esperavam os acordes da marcha que indicava o começo da sessão para entrar feito manada na sala. A gente gostava de chegar cedo e esperar o filme lá dentro.
Eu ficava fascinada com o vazio da sala do cinema na penumbra; parecia uma espécie de caverna misteriosa, secreta, sempre inexplorada. Ao atravessar as pesadas cortinas de veludo me dava a sensação de passar da crueza do mundo real a um maravilhoso mundo mágico.
Nós nos sentávamos na primeira fila, quase grudados naquela enorme telona branca que para mim era como o altar-mor de uma igreja. O auge daquele ritual todo acontecia no maravilhoso instante em que as luzes se apagavam, as cortinas da entrada eram fechadas, a música silenciava e a tela se enchia de vida e de movimento.
Eu ficava como suspensa no ar.
Era esse o clímax do estranho sortilégio que o cinema exercia em mim. Em mim e na minha mãe. Agora eu sei disso. A diferença entre nós duas e meu pai e meus irmãos era que eles apenas gostavam de cinema; nós ficávamos enlouquecidas.
Ao apagar das luzes todos se endireitavam e ficavam duros na frente da tela. Eu não. Eu virava a cabeça para ver aparecer o raio de luz que saía pelas janelinhas do quartinho de projeção e percorria o espaço sobre nós até se chocar com a tela e explodir em imagens e sons. E muitas vezes, quando o filme não era interessante de verdade do jeito que eu esperava (muita conversa e pouca ação), eu deixava de ver a tela para contemplar, encantada, aquele feixe mágico de pó luminoso. Eu achava um prodígio que aquele jorro de luz pudesse transportar coisas tão impressionantes como trens perseguidos por índios a cavalo, barcos de piratas em mares de tormenta e dragões verdes exalando fogo por suas sete cabeças.
E naquele tempo eu pensava que por ali fluía também a voz, o estampido dos tiros, as canções tão bonitas dos mariachis dos filmes mexicanos. Depois, aprendi que não. Também aprendi muitas outras coisas, algumas assim mais técnicas, como, por exemplo, que eram 24 quadros por segundo – ou fotogramas – aquilo que passava diante dos olhos dos espectadores para dar a ilusão de movimento.
Não sabia para quê aquele tipo de sabedoria iria me servir, mas eu queria saber tudo de cinema. Isso aconteceu quando dei para ler as revistas Écran que descobri na biblioteca do povoado da Mina.
Eu lia feito uma desmiolada.
Mas não quero me antecipar, porque isso foi depois que me transformei em contadora de filmes.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

Miss Algrave



Ela era sujeita a julgamento. Por isso não contou nada a ninguém. Se contasse, não acreditariam porque não acreditavam na realidade. Mas ela, que morava em Londres, onde os fantasmas existem nos becos escuros, sabia da verdade.
Seu dia, sexta-feira, fora igual aos outros. Só aconteceu sábado de noite. Mas na sexta fez tudo igual como sempre. Embora a atormentasse uma lembrança horrível: quando era pequena, com uns sete anos de idade, brincava de marido e mulher com seu primo Jack, na cama grande da vovó. E ambos faziam tudo para ter filhinhos sem conseguir. Nunca mais vira Jack nem queria vê-lo. Se era culpada, ele também o era.
Solteira, é claro, virgem, é claro. Morava sozinha numa cobertura em Soho. Nesse dia tinha feito suas compras de comida: legumes e frutas. Porque comer carne ela considerava pecado.
Quando passava pela Piccadilly Circus e via as mulheres esperando homens nas esquinas, só faltava vomitar. Ainda mais por dinheiro! Era demais para se suportar. E aquela estátua de Eros, ali, indecente.
Foi depois do almoço ao trabalho: era datilógrafa perfeita. Seu chefe nunca olhava para ela e tratava-a felizmente com respeito, chamando-a de Miss Algrave. Seu primeiro nome era Ruth. E descendia de irlandeses. Era ruiva, usava os cabelos enrolados na nuca em coque severo. Tinha muitas sardas e pele tão clara e fina que parecia uma seda branca. Os cílios também eram ruivos. Era uma mulher bonita.
Orgulhava-se muito de seu físico: cheia de corpo e alta. Mas nunca ninguém havia tocado nos seus seios.
Costumava jantar num restaurante barato em Soho mesmo. Comia macarrão com molho de tomate. E nunca entrara num pub: nauseava-a o cheiro de álcool, quando passava por um. Sentia-se ofendida pela humanidade.
Cultivava gerânios vermelhos que eram uma glória na primavera. Seu pai fora pastor protestante e a mãe ainda morava em Dublin com o filho casado. Seu irmão era casado com uma verdadeira cadela chamada Tootzi.
De vez em quando Miss Algrave escrevia uma carta de protesto para o Time. E eles publicavam. Via com muito gosto o seu nome: sincerely Ruth Algrave.
Tomava banho só uma vez por semana, no sábado. Para não ver o seu corpo nu, não tirava nem as calcinhas nem o sutiã.
No dia em que aconteceu era sábado e não tinha portanto trabalho. Acordou muito cedo e tomou chá de jasmim. Depois rezou. Depois saiu para tomar ar.
Perto do Savoy Hotel quase foi atropelada. Se isso acontecesse e ela morresse teria sido horrível porque nada lhe aconteceria de noite.
Foi ao ensaio do canto coral. Tinha voz maviosa. Sim, era uma pessoa privilegiada.
Depois foi almoçar e permitiu-se comer camarão: estava tão bom que até parecia pecado.
Então dirigiu-se ao Hyde Park e sentou-se na grama. Levara uma Bíblia para ler. Mas – que Deus a perdoasse – o sol estava tão guerrilheiro, tão bom, tão quente, que não leu nada, ficou só sentada no chão sem coragem de se deitar. Procurou não olhar os casais que se beijavam e se acariciavam sem a menor vergonha.
Depois foi para casa, regou as begônias e tomou banho. Então visitou Mrs. Cabot que tinha noventa e sete anos. Levou-lhe um pedaço de bolo com passas e tomaram chá. Miss Algrave sentia-se muito feliz, embora... Bem, embora.
Às sete horas voltou para casa. Nada tinha a fazer. Então tricotou uma suéter para o inverno. De cor esplendorosa: amarela como o sol.
Antes de dormir tomou mais chá de jasmim com biscoitos, escovou os dentes, mudou de roupa e meteu-se na cama. Suas cortinas de gaze ela mesma fizera e pendurara.
Era maio. As cortinas se balançavam à brisa dessa noite tão singular. Singular por quê? Não sabia.
Leu um pouco o jornal da manhã e fechou a luz da cabeceira. Pela janela aberta via o luar. Era noite de lua cheia.
Suspirou muito porque era difícil viver só. A solidão a esmagava. Terrível não ter uma só pessoa para conversar. Era a criatura mais solitária que conhecia. Até Mrs. Cabot tinha um gato. Ruth Algrave não tinha bicho nenhum: eram bestiais demais para o seu gosto. Nem tinha televisão. Por dois motivos: faltava-lhe dinheiro e não queria ficar vendo as imoralidades que apareciam na tela. Na televisão de Mrs. Cabot vira um homem beijando uma mulher na boca. E isso sem falar no perigo da transmissão de micróbios. Ah, se pudesse escreveria todos os dias uma carta de protesto para o Time. Mas não adiantava protestar, ao que parecia. A falta de vergonha estava no ar. Até já vira um cachorro com uma cadela. Ficou impressionada. Mas se assim Deus queria, que então assim fosse. Mas ninguém a tocaria jamais, pensou. Ficava curtindo a solidão.
Até as crianças eram imorais. Evitava-as. E lamentava muito ter nascido da incontinência de seu pai e de sua mãe. Sentia pudor deles não terem tido pudor.
Como deixava arroz cru na janela, os pombos vinham visitá-la. Às vezes entravam-lhe no quarto. Eram enviados por Deus. Tão inocentes. Arrulhando. Mas era meio imoral o arrulho deles, embora menos do que ver mulher quase nua na televisão. Ia amanhã sem falta escrever uma carta protestando contra os maus costumes daquela cidade maldita que era Londres. Chegara uma vez a ver uma fila de viciados junto de uma farmácia, esperando a vez de tomarem uma aplicação. Como é que a Rainha permitia? Mistério. Escreveria mais uma carta denunciando a própria Rainha. Escrevia bem, sem erros de gramática e batia as cartas na máquina do escritório quando tinha um instante de folga. Mr. Clairson, seu chefe, elogiava muito as suas cartas publicadas. Até dissera que ela poderia um dia vir a ser escritora. Ficara orgulhosa e agradecera muito.
Estava assim deitada na cama com a sua solidão. O embora.
Foi então que aconteceu.
Sentiu que pela janela entrava uma coisa que não era um pombo. Teve medo. Falou bem alto:
– Quem é?
E a resposta veio em forma de vento:
– Eu sou um eu.
– Quem é você? perguntou trêmula.
– Vim de Saturno para amar você.
– Mas eu não estou vendo ninguém! gritou.
– O que importa é que você está me sentindo.
E sentia-o mesmo. Teve um frisson eletrônico.
– Como é que você se chama? perguntou com medo.
– Pouco importa.
– Mas quero chamar seu nome!
– Chame-me de Ixtlan.
Eles se entendiam em sânscrito. Seu contato era frio como o de uma lagartixa, dava-lhe calafrios.
Ixtlan tinha sobre a cabeça uma coroa de cobras entrelaçadas, mansas pelo terror de poder morrer. O manto que cobria o seu corpo era da mais sofrida cor roxa, era ouro mau e púrpura coagulada.
Ele disse:
– Tire a roupa.
Ela tirou a camisola. A lua estava enorme dentro do quarto. Ixtlan era branco e pequeno. Deitou-se ao seu lado na cama de ferro. E passou as mãos pelos seus seios. Rosas negras.
Ela nunca tinha sentido o que sentiu. Era bom demais. Tinha medo que acabasse. Era como se um aleijado jogasse no ar o seu cajado.
Começou a suspirar e disse para Ixtlan:
– Eu te amo, meu amor! meu grande amor!
E – é, sim. Aconteceu. Ela queria que não acabasse nunca. Como era bom, meu Deus. Tinha vontade de mais, mais e mais.
Ela pensava: aceitai-me! Ou então: “Eu me vos oferto.” Era o domínio do “aqui e agora”.
Perguntou-lhe: quando é que você volta?
Ixtlan respondeu:
– Na próxima lua cheia.
– Mas eu não posso esperar tanto!
– É o jeito, disse ele até friamente.
– Vou ficar esperando bebê?
– Não.
– Mas vou morrer de saudade de você! como é que eu faço?
– Use-se.
Ele se levantou, beijou-a castamente na testa. E saiu pela janela.
Começou a chorar baixinho. Parecia um triste violino sem arco. A prova de que tudo isso acontecera mesmo era o lençol manchado de sangue. Guardou-o sem lavá-lo e poderia mostrá-lo a quem não acreditasse nela.
Viu a madrugada nascer toda cor-de-rosa. No fog os primeiros passarinhos começavam a pipilar com doçura, ainda sem alvoroço.
Deus iluminava seu corpo.
Mas, como uma baronesa Von Blich, nostalgicamente recostada no dossel de cetim de seu leito, fingiu tocar a campainha para chamar o mordomo que lhe traria café quente, forte, forte.
Ela o amava e ia esperar ardentemente pela nova lua cheia. Não quis tomar banho para não tirar de si o gosto de Ixtlan. Com ele não fora pecado e sim uma delícia. Não queria mais escrever nenhuma carta de protesto: não protestava mais.
E não foi à igreja. Era mulher realizada. Tinha marido.
Então, no domingo, na hora do almoço, comeu filet mignon com purê de batata. A carne sangrenta era ótima. E tomou vinho tinto italiano. Era mesmo privilegiada. Fora escolhida por um ser de Saturno.
Tinha lhe perguntado por que a havia escolhido. Ele dissera que era por ela ser ruiva e virgem. Sentia-se bestial. Não tinha mais nojo de bichos. Eles que se amassem, era a melhor coisa do mundo. E ela esperaria por Ixtlan. Ele voltaria: eu sei, eu sei, eu sei, pensava ela. Também não tinha mais repulsa pelos casais do Hyde Park. Sabia como eles se sentiam.
Como era bom viver. Como era bom comer carne sangrenta. Como era bom tomar vinho italiano bem adstringente, meio amargando e restringindo a língua.
Era agora imprópria para menores de dezoito anos. E se deleitava, babava-se de gosto nisso.
Como era domingo, foi ao canto coral. Cantou melhor do que nunca e não se surpreendeu quando a escolheram para solista. Cantou a sua aleluia. Assim: Aleluia! Aleluia! Aleluia!
Depois foi ao Hyde Park e deitou-se na grama quente, abriu um pouco as pernas para o sol entrar. Ser mulher era uma coisa soberba. Só quem era mulher sabia. Mas pensou: será que vou ter que pagar um preço muito caro pela minha felicidade? Não se incomodava. Pagaria tudo o que tivesse de pagar. Sempre pagara e sempre fora infeliz. E agora acabara-se a infelicidade. Ixtlan! Volte logo! Não posso mais esperar! Venha! Venha! Venha!
Pensou: será que ele gostara de mim porque sou um pouco estrábica? Na próxima lua cheia perguntaria a ele. Se fosse por isso, não tinha dúvida: forçaria a mão e se tornaria completamente vesga. Ixtlan, tudo o que você quiser que eu faça,eu faço. Só que morria de saudade. Volte, my love.
Sim. Mas fez uma coisa que era traição. Ixtlan a compreenderia e perdoaria. Afinal de contas, a pessoa tinha que dar um jeito, não tinha?
Foi o seguinte: não aguentando mais,encaminhou-se para Piccadilly Circuse achegou-se a um homem cabeludo. Levou-o ao seu quarto. Disse-lhe que não precisava pagar. Masele fez questão e antes de ir embora deixou na mesa de cabeceira uma libra inteira! Bem que estava precisada de dinheiro. Ficou furiosa, porém, quando ele não quis acreditar na sua história. Mostrou-lhe, quase até o seu nariz, o lençol manchado de sangue. Ele riu-se dela.
Na segunda-feira de manhã resolveu-se: não ia mais trabalhar como datilógrafa, tinha outros dons. Mr. Clairson que se danasse. Ia era ficar mesmo nas ruas e levar homens para o quarto. Como era boa de cama, pagar-lhe-iam muito bem. Poderia beber vinho italiano todos os dias. Tinha vontade de comprar um vestido bem vermelho com o dinheiro que o cabeludo lhe deixara. Soltara os cabelos bastos que eram uma beleza de ruivos. Ela parecia um uivo.
Aprendera que valia muito. Se Mr. Clairson, o sonso, quisesse que ela trabalhasse para ele, teria que ser de outro bom modo.
Antes compraria o vestido vermelho decotado e depois iria ao escritório chegando de propósito, pela primeira vez na vida, bem atrasada. E falaria assim com o chefe:
– Chega de datilografia! Você que não me venha com uma de sonso! Quer saber de uma coisa? deite-se comigo na cama, seu desgraçado!e tem mais: me pague um salário alto por mês, seu sovina!
Tinha certeza de que ele aceitaria. Era casado com uma mulher pálida e insignificante, a Joan, e tinha uma filha anêmica, a Lucy. Vai é se deliciar comigo, o filho de uma cadela.
E quando chegasse a lua cheia – tomaria um banho purificador de todos os homens para estar pronta para o festim com Ixtlan.

Clarice Lispector, em Todos os contos

18/09/2026

Atrás da Porta | Nana Caymmi

 

Novos dias (dezembro/2008)

“Este ano vai ser pior...
Pior para quem estiver no nosso caminho.”

Então, que venham os dias.
Um sorriso no rosto e os punhos cerrados que a luta não para.
Um brilho nos olhos que é para rastrear os inimigos (mesmo com medo, enfrente­-os!).
É necessário o coração em chamas para manter os sonhos aquecidos. Acenda fogueiras.
Não aceite nada de graça, nada. Até o beijo só é bom quando conquistado.
Escreva poemas, mas se te insultarem, recite palavrões. Cuidado, o acaso é traiçoeiro e o tempo é cruel, tome as rédeas do teu próprio destino.
Outra coisa, pior que a arrogância é a falsa de humildade.
As pessoas boazinhas também são perigosas, sugam energia e não dão nada em troca.
Fique esperto, amar o próximo não é abandonar a si mesmo. Para alcançar utopias é preciso enfrentar a realidade.
Quer saber quem são os outros? Pergunte quem é você.
Se não ama a tua causa, não alimente o ódio.
Por favor, gentileza gera gentileza. Obrigado!
Os erros são teus, assuma­-os. Os acertos também, divida­-os.
Ser forte não é apanhar todo dia, nem bater de vez em quando, é perdoar e pedir perdão, sempre.
Tenho más notícias: quando o bicho pegar, você vai estar sozinho. Não cultive multidões.
Qual a tua verdade? Qual a tua mentira? Teu travesseiro vai te dizer. Prepare­-se!
Se quiser realmente saber se está bonito ou bonita, pergunte aos teus inimigos, nesta hora eles serão honestos.
Quando estiver fazendo planos, não se esqueça de avisar aos teus pés, são eles que caminham.
Se vai pular sete ondinhas, recomendo que mergulhe de cabeça.
Muito amor, muito amor, mas raiva é fundamental.
Quando não tiver palavras belas, improvise. Diga a verdade.
As manhãs de sol são lindas, mas é preciso trabalhar também nos dias de chuva.
Abra os braços. Segure na mão de quem está na frente e puxe a mão de quem estiver atrás.
Não confunda briga com luta. Briga tem hora para acabar, a luta é para uma vida inteira.
O Ano­-Novo tem cara de gente boa, mas não acredite nele. Acredite em você.
Feliz todo dia!

Sérgio Vaz, em Literatura, pão e poesia

Até, tu, Quino?

Número de emergência

Balcão de companhia aérea. Cliente está sendo atendida.

ATENDENTE Senhora, eu preciso de um número de telefone, para caso aconteça alguma emergência.
CLIENTE Pode ser o meu?
ATENDENTE No caso de um acidente com a senhora, não vai adiantar muito ligar para a senhora.
CLIENTE Ah, tá. Esse número que você quer é para o caso de o avião cair?
ATENDENTE Isso.
CLIENTE É que eu não tinha nem pensado que esse avião podia cair.
ATENDENTE Não vai cair. Mas, caso caia, a gente precisa de um número…
CLIENTE Não dá pra ser o meu? É que tudo sempre acaba voltando pra mim de qualquer jeito.
ATENDENTE Desculpa, mas tem que ser o número de outra pessoa.
CLIENTE Então liga para o meu namorado.
ATENDENTE Telefone?
CLIENTE 9827… Não. Liga não. Que ele nunca atende aquilo lá, só dá caixa postal. Liga pra minha mãe. 9738… Não. Liga não. Que ela é cardíaca e vai cair dura. A não ser que você fale com jeitinho. Você já sabe como é que vai ser a abordagem?
ATENDENTE Não vou ser eu que vou ligar…
CLIENTE Então é melhor não ligar. Liga pra minha irmã. Rita. 7862… Não. Liga não. A Helena vai ficar puta que eu dei o telefone da Rita e não dei o dela. Helena é a outra irmã. Liga pra ela: 8934… Não. Mas aí a Rita é que fica puta. Liga pra Neide. É a empregada. E pede pra Neide ligar pra minha mãe, que a Neide vai saber como falar com ela. A Neide tem muito jeito com a minha mãe. E fala pra Neide pedir pra minha mãe dar a notícia pra Rita e pra Helena ao mesmo tempo, que é pra nenhuma delas ficar puta. Tá anotando?
ATENDENTE Tô tentando…
CLIENTE Não. Apaga. A Neide vai confundir tudo. Liga pro meu namorado mesmo. Ele não vai atender. Mas deixa recado. E pede pra ele ligar pra Neide e explicar pra ela tudo isso que eu te falei. Mas devagar. Não deixa ele ligar pra minha mãe antes de ligar pra Neide que ele mata ela de susto. Eles dois não se dão. Nem deixa ele ligar pra Rita nem pra Helena. E aproveita e diz pra Neide regar as plantas enquanto eu estiver morta. E apagar o meu Facebook senão o Facebook fica me sugerindo de amizade pra pessoas que sabem que eu morri e é a coisa mais constrangedora do mundo. A senha é Senha23 que é a minha Senha de tudo. E já que você tem a minha senha aproveita e libera uns amigos no Candy Crush. Entendeu?
ATENDENTE Acho que sim.
CLIENTE Então repete.
ATENDENTE Olha, vou botar o número da senhora mesmo.
CLIENTE Melhor. Que tudo sempre acaba voltando pra mim de qualquer jeito.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

Da maldade

O que é a maldade? É aquilo que observa com frequência. Em relação a tudo que vier a acontecer, lembre-se: não será distinto do que tem observado ultimamente. Em todo lugar, acima e abaixo, encontrará circunstâncias equivalentes, das quais as cidades, as casas e as velhas histórias — das eras passadas e dos nossos dias — estão repletas. Não há nada novo. Tudo é familiar e transitório.

Marco Aurélio, em Meditações

Correnteza


4

Rita Preta abre a porta de casa e encontra Cid de pé, próximo à entrada do quarto. Ela não tem oportunidade de pensar no que precisa ser dito e se deixa guiar pelo instinto. Enquanto se aproxima, diz frases como “faz dois dias que te procuro” e “você quer me enlouquecer?”. A luz do dia não parece ser suficiente para dissipar a penumbra que envolve a casa e a imagem do filho. “Sabe aonde eu fui ontem?”, continua, “fui à delegacia registrar seu sumiço.” Rita está furiosa, mas se sente ao mesmo tempo aliviada. “Seus irmãos, os vizinhos, todos estão preocupados.” Em circunstâncias normais, ela reagiria com promessas de castigos e punições. Contudo, as horas de angústia só lhe permitem repreender com moderação. Cid permanece em silêncio e, estranhamente, aparenta ser menor do que de fato é. De início, não expressa qualquer emoção. Depois, apenas parece assustado. Rita caminha em sua direção, tenta alcançá-lo, mas tem a estranha impressão de que a sala se expande ao tentar se aproximar do filho. Por fim, ao chegar perto o suficiente para constatar se ele estava bem (corpo e olhos íntegros, pôde verificar num primeiro instante), lembra-se da sacola que segura nas mãos. “Tome”, Rita a estende para o filho. Ele levanta a mão direita para recebê-la. Ela afirma que é, sim, para ele, entre uma inspiração e uma expiração mais profunda.
Ele segura o volume e pergunta: “O que é isso?”.
“Gelo”, ela responde, sorrindo, como se portasse algo realmente valioso. “Eu trouxe do trabalho.”
Cid abre a sacola e percebe que está vazia. Não há indício de gelo ou de água ou de umidade. Um volume oco e sem conteúdo. Rita arregala os olhos com espanto, tenta compreender o que aconteceu, e o vazio começa a consumir tudo ao seu redor.
Rita Preta se levanta do sofá, assustada, o coração acelerado. Acende a luz do ambiente. Após uma noite em claro e avançando noutra, ela acabou por cochilar enquanto esperava por Cid. Dirige-se ao quarto dos filhos — ele passou por aqui? — e deixa que a luz da sala o ilumine o suficiente para que seja possível ver quem está dormindo. Juca está deitado, o lençol pendendo da cama ao chão. Cainho também dorme, e um livro emprestado — reconhece a marca da biblioteca da escola — repousa sobre seu peito, subindo e descendo com o movimento de sua respiração. A cama de cima do beliche permanece vazia. Rita recolhe e fecha o livro. Retira o lençol do chão para que nenhum inseto suba na cama do mais novo.
Estavam exaustos pelas horas de espera para registrar o desaparecimento. Rita tinha a sensação de que a energia de todos se esvaiu enquanto aguardavam atendimento, de pé ou sentados, acomodados por algum tempo nas poucas cadeiras que vagavam. Isso não se devia apenas à frustração por não ter conseguido fazer o registro, mas também à forma como fora recebida pela equipe na delegacia. Ela não teve contato direto nem com o delegado nem com o escrivão, apenas com colaboradores sentados em terminais de computadores, que registravam uma infinidade de problemas enfrentados pelos que vivem numa cidade grande. Por quase uma hora e meia repetiram que o sistema estava “fora do ar”. Ainda assim, Rita continuou a aguardar sua vez. Enquanto isso, ela percebia a maresia penetrando no ambiente sempre que a porta de vidro se abria e se fechava para aqueles que procuravam respostas às suas questões. Ameaças de morte. Roubos. Violência doméstica. Em algumas ocasiões, os envolvidos estavam presentes, juntos, e era necessário que alguém levantasse a voz para apaziguar os ânimos. Aquela pequena sala representava um microcosmo de diversos planos: uma comunidade, um bairro, uma cidade.
Do outro lado da avenida, o oceano e a escuridão prevaleciam onde nada se via, por causa da parca iluminação dos postes distantes. Rita Preta sabia com exatidão os traços daquela paisagem que costumava frequentar, embora nos últimos anos as idas tivessem se tornado mais escassas. O cheiro do mar estava mais acentuado, o que a fazia imaginar que talvez fosse o sargaço acumulado na beira da praia se misturando à água salgada. Foram muitas as vezes em que ela havia se banhado naquela praia, nos dias de genuína liberdade, com ou sem os filhos, nos braços dos amantes ou não, e, certamente, umas poucas vezes com Fátima.
A cabeça de Rita Preta estava realmente ocupada com o sumiço do filho rebelde, mas, se fosse um dia comum, ela poderia ter recordado a primeira vez que avistou o mar. Foi pouco depois de chegar à baía e num dia em que ela carregava como parte do trabalho diversos utensílios com os quais gostaria de brincar: baldes, regadores e pás de plástico dos filhos de seus patrões. Naquela época, Rita ainda não tinha atingido seu pleno crescimento, aumentaria mais doze centímetros nos dois anos seguintes. Ainda não era a Rita Preta, a alcunha surgiria algum tempo depois. Enquanto tentava equilibrar tudo de que precisava cuidar, enquanto o casal à frente se ocupava das crianças que corriam em direção às ondas, sua atenção estava focada nos brinquedos que tinha nos braços para não deixá-los cair. Com os pés e as sandálias afundando na areia, ela olhava para os objetos sob sua guarda, sem perceber que se aproximava do mar. De repente, uma espuma branca cobriu seus pés e, ao olhar para o horizonte vasto, o grande rio, se sentiu mortificada com sua imensidão e sonoridade. Mais uma onda veio e ela deixou tudo cair das mãos antes de correr de volta para a calçada.
“Que idiota”, teria ouvido da patroa se o som das ondas não tivesse abafado a voz dela. A mulher lamentou que ela própria tivesse de correr para tentar impedir que os brinquedos fossem levados pelas ondas. Uma das crianças, o menino, começou a gritar ao ver o mar engolir a pá e a peneira colorida, antes que a mãe pudesse alcançar os objetos. Rita tremia dos pés à cabeça, com um gosto amargo na boca, o medo conhecido. A mulher fazia gestos para que ela voltasse para a areia e a ajudasse com as crianças, que riam e choravam ao mesmo tempo, corriam e esperneavam. Ela também começou a temer as expressões severas da patroa e então se viu obrigada a retornar pé ante pé, atenta ao horizonte, para que, diante de qualquer perigo, pudesse voltar para a calçada acima do nível das águas.
“Começou bem”, teria dito a mulher, caso a memória de Rita não a traísse anos mais tarde — e completou dizendo que precisaria descontar o prejuízo com os brinquedos de seu salário. Mas isso realmente pouco importava a Rita. Meses antes tinha sobrevivido a uma tromba-d’água que devastou a vida de todos à sua volta. Ela continuava atenta ao mar, aflita, temerosa, mas também enfeitiçada, porque passaria a guardar essa experiência íntima como um recomeço. O início de sua vida naquela cidade, para onde sua mãe tinha migrado anos antes prometendo voltar; a vida que conheceria e desbravaria ainda muito nova; e também algo além e que não conseguia explicar, mas que talvez algum dia pudesse compreender: a pedra fundamental, a primeira onda, o prelúdio de algo maior. A história que não era apenas sua, mas de todos, e que não era apenas uma retórica, mas revelava quem exatamente ela era.
Rita Preta atende ao chamado e se senta diante da escrivã responsável pelo registro. Uma mulher de meia-idade, usando óculos e camisa polo azul, com os cabelos crespos tingidos que ainda refletem o brilho do creme para pentear. Ela não dirige o olhar a Rita; está concentrada, como se o próprio corpo fosse uma extensão da máquina, e faz perguntas enquanto percorre o teclado com alguma dificuldade. Pede que se identifique e informe por que se encontra numa delegacia. “Preciso registrar o desaparecimento do meu filho.” A partir daí, inicia uma série de outras perguntas para preencher o formulário à sua frente. Há quanto tempo ele desapareceu. Local. Filiação. Data de nascimento. “A senhora trouxe seu documento? O dele?” “Trouxe a certidão de nascimento”, explica, não havia encontrado a identidade. Acredita que está com ele. “A senhora não sabe nem mesmo o número?” Rita começa a revirar os papéis na bolsa em busca de anotações que possam ajudar, mas não encontra nada. Enquanto isso, a mulher continua as perguntas: onde mora; bairro; número; casa ou apartamento; raça; cor. “Moreno”, responde Rita, e a mulher que se afirma como negra desvia o olhar da tela para encarar Rita melhor. Ela contempla seu rosto por cima dos óculos antes de voltar à tela do computador.
“A senhora poderia descrever o que sabe sobre o desaparecimento? Ele estava em casa? Tinha saído?”
Rita tenta rememorar o que sabe. Explica que estava no trabalho e chegou no início da noite, mas não o encontrou em casa. Tentou telefonar, mas a chamada caía direto na caixa postal. A mulher pergunta se ela fizera buscas pela rua, pelo bairro. Se alguém poderia ter mais informações. Rita responde que não naquele momento. “Eu tinha um compromisso e precisei sair. Achei que ele estivesse com alguém, talvez com a namorada, e que voltaria para casa como sempre fazia.” “E ele estava?”, a escrivã questiona, mantendo uma postura distante, como uma atendente de telemarketing, voz robótica, digitando as informações lentamente. “Que horas a senhora deu pela falta dele?” Rita Preta tem medo de ser censurada pela escrivã e acaba mentindo. Afirma que voltou à meia-noite, quando na realidade eram duas da manhã. “E ele não estava lá”, deduz a mulher. “Não, ele não estava.” Relata que no dia seguinte foi trabalhar preocupada, e ainda assim continuou a acreditar que ele poderia ter chegado. Quando constatou que ele não chegou, decidiu ir até a casa da namorada dele. “Namorada não, a moça com quem ele está ficando”, se corrige, “é assim que eles dizem.”
A funcionária pergunta se ele frequentou a escola naquele dia, mas Rita não tem certeza da resposta. Ela menciona que Cid vinha faltando às aulas. Depois, a moça indaga se ele fazia uso de alguma droga ou estava envolvido em atividades ilegais. Rita responde, categórica: “Nunca. Nunca soube. É respondão. Rebelde. Gosta das coisas do jeito dele. Mas nunca usou nada não, senhora”. É questionada se as pessoas com quem ele andava eram usuários. Ela revela que conhece a maioria das mães e não tinha informações sobre nada ilícito. Contou que sabia que havia tráfico em sua comunidade — “Mas eles estão lá e a gente cá. Não mexem conosco”.
“A senhora tem algo mais a acrescentar?”
Sim. Rita tinha algumas perguntas: O que a senhora acha que deve ter acontecido? A polícia vai procurar por ele?
“O boletim será enviado ao setor competente. Abrirão um processo para realizar as diligências necessárias.”
Rita Preta quer perguntar mais, mas sabe que é bastante tarde. Tem os olhos secos de cansaço e aflição.
A atendente troca um olhar com outra próxima, como se quisesse dizer: “Olha como as coisas são. Não cuidam dos filhos e ainda esperam que a polícia os procure na hora que querem”. Rita mantém o olhar firme, determinada a concluir o registro, mas não vai suportar desdém de ninguém. Ela precisa aturar a indiferença, pelo menos naquele momento, para cumprir o que tinha ido fazer. No fundo, sua vontade era dizer à mulher que ela também poderia não viver num bom lugar e que poderia ter um sobrinho, um vizinho, ou mesmo um filho perdido e conhecer uma mãe passando pelo mesmo problema. Queria expressar — e talvez tenha feito isso, já que se espera que as mães sempre confessem seu irrenunciável altruísmo — que estava sem dormir direito havia mais de vinte e quatro horas, que não podia faltar ao trabalho para procurá-lo, pois isso significaria ter descontado do salário o dinheiro do aluguel e até da alimentação da família. Queria dizer que a atendente se demonstrava pouco solidária e que não se importava com sua fadiga nem com a má sorte que a levara àquela delegacia.
“Ah, não”, um homem que também fazia um registro e estava sentado três cadeiras à frente lamenta, “o sistema caiu.”
A mulher que atende Rita ajeita os óculos e ao mesmo tempo demonstra que está aliviada com a pausa que faria, afinal a recepção está apinhada de gente — “O sistema caiu. Se a senhora precisar do boletim e do número do seu processo, é preciso aguardar”.
“Vai demorar muito?”
“Não temos previsão.”
Rita olha para os filhos e os sente impacientes com a espera. Se levanta mais uma vez e se deixa envolver de novo pela maresia invadindo o ambiente quando a porta se abre para uma mulher que segura um pano ensopado de sangue próximo à testa.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo