terça-feira, 13 de novembro de 2018

Bem no fundo

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.
Paulo Leminski

Judas

Ontem, como acontece todos os anos em igual época, os garotos das ruas excitaram-se no ardor de arrancar as tripas de um pobre boneco de palha e trapo.
É uma vingança tardia e inócua que a ralé toma periodicamente contra um cidadão que há tempos se chamou Iehouda de Kerioth, vulgarmente conhecido por Judas Iscariotes, homem de maus bofes, segundo a tradição, apóstolo diletante, provavelmente traidor. Provavelmente, digo eu, mas não exijo que ninguém dê crédito ao que aqui fica, pois seria difícil apurar o grau de verdade que existe nessa trapalhada de coisas antigas.
Possuímos uma certa quantidade de noções que julgamos verdades inconcussas, embora nunca tenhamos tomado a mais insignificante informação sobre elas. Quem vai lá tocar em coisas antigas, cobertas de uma grossa camada de mofo tradicional, polvilhadas da venerável poeira de milênios? Ficaríamos assombrados se nos viessem dizer que elas estão falhadas, rachadas, que há soluções de continuidade por baixo da espessa crosta que as reveste.
Longe de mim a ideia de defender o Iscariotes. Todos nós estamos convencidos de que ele foi um tratante. Deixemo-lo tal qual está, até que os esmerilhadores das pedras do Oriente nos venham demonstrar que ele foi um ótimo rapaz.
Por ora não vejo mal nenhum em que o consideremos o mais acabado representante da infâmia. Se ele não foi tão mau como se diz, naturalmente há de perdoar-nos a má opinião que temos a respeito de sua pessoa. É possível que o nosso juízo sobre ele não esteja muito distante da verdade.
Judas suicidou-se, o que é motivo bastante para que o detestemos. O suicida não está muito longe do assassino. A diferença que há entre os dois é que o primeiro rouba a vida a uma pessoa e o segundo pode fazer o mesmo a muitas. Questão de número apenas.
Continuemos, pois, a dizer que Judas foi um patife. Não há nada de extraordinário em semelhante julgamento. Mais difícil é admitir a santidade de uma criatura. Os santos são raros, e o mundo está cheio de malvados. Eu ficaria pasmo se entre os discípulos de Jesus não houvesse aparecido nenhum birbante. Até me espanta que só um tivesse aberto exceção à monótona bondade que naquelas almas cândidas se encerrava. O que era razoável era surgirem pelo menos quatro ou cinco traidores entre os companheiros do Mestre. Só houve um, o que é lisonjeiro para a humanidade daqueles tempos remotos.
Se o doce Jesus viesse hoje ao mundo, talvez não lhe fosse fácil encontrar tantos espíritos fiéis. A proporção agora seria, pelo menos, de cinquenta por cento de safados.
Quem é santo nestes tempos prosaicos em que o dólar governa o mundo? As consciências tornaram-se mercadoria vulgar. As almas vendem-se e vendem-se caro.
Judas hoje não se enforcaria. Já nenhum traidor se enforca. Trinta dinheiros eram, talvez, uma quantia insignificante, capaz de levar um homem ao desespero de passar uma corda ao pescoço. Atualmente é possível obter somas tentadoras, que dão rendimentos consideráveis a um traidor que se respeita.
Nenhum Iscariotes se suicida. Se os contemporâneos seguissem o exemplo do antigo, não haveria no mundo figueiras que bastassem para pendurar tantos laços…
Graciliano Ramos, in Garranchos

Stubb mata uma baleia

Arte de Erick Rewitzer

Se para Stubb a aparição da Lula foi coisa agourenta, para Queequeg tudo se deu de outro modo.
Quando vuncê vê’ lula”, disse o selvagem, afiando seu arpão na popa do bote suspenso, “depois tu logo vê’ Cachalote.”
O dia seguinte foi extremamente parado e abafado, e, com nada de especial para ocupá-la, a tripulação do Pequod quase não conseguiu resistir ao encanto do sono gerado por um mar tão apático. Pois aquela parte do oceano Índico por onde àquelas alturas viajávamos não é o que os baleeiros chamam de zona agitada; ou seja, ela oferece pouquíssimas aparições de marsopas, peixes-voadores, e outros nativos vivos de águas mais agitadas, como as imediações do Rio da Prata, ou ao largo das costas do Peru.
Era minha vez de ficar no topo do mastro de proa; e, com os ombros apoiados contra as cordas frouxas dos ovéns, para frente e para trás eu balançava indolente no que parecia ser uma atmosfera encantada. Nenhuma vontade conseguiria resistir; naquele divagar perdendo toda a consciência, por fim minha alma se desprendeu do corpo; ainda que meu corpo continuasse a oscilar como um pêndulo, muito tempo depois de a força que lhe tinha dado impulso ter se retirado.
Antes que o abandono total me dominasse, notei que os marinheiros no topo dos mastros principal e de mezena estavam igualmente sonolentos. De modo que, por fim, nós três nos balançávamos desfalecidos no arvoredo, e para cada balanço que fazíamos havia embaixo um meneio do timoneiro que dormitava. As ondas também meneavam suas cristas indolentes; e, ao longo do imenso transe do oceano, o leste meneava para o oeste, e o sol pairava sobre todos.
De repente, pareceu-me que bolhas estouravam para além dos meus olhos fechados; como prensas, minhas mãos se agarraram aos ovéns; uma misteriosa força invisível me salvou; com um choque voltei à vida. E, oh!, bem perto, a sotavento, a menos de quarenta braças, um Cachalote gigantesco rolava pela água como o casco virado de uma fragata, seu dorso enorme e lustroso, de uma cor Etíope, brilhando ao sol como um espelho. Mas ondulando preguiçosa pelas cavas do mar, e, vez ou outra, lançando tranqüila seu jato vaporoso, a baleia parecia um burguês corpulento fumando o seu cachimbo numa tarde de calor. Mas aquele cachimbo, pobre baleia, foi o teu último! Como se tocado por uma varinha de condão, o navio sonolento e todos os que cochilavam começaram de uma vez a despertar; e dezenas de vozes de todas as partes do navio, junto com as três que vinham do alto, lançaram o grito costumeiro, enquanto o peixe enorme, com calma e com regularidade, esguichava no ar a salmoura cintilante.
Arriar os botes! Orçar!”, gritou Ahab. E, obedecendo à sua própria ordem, baixou o leme antes que o timoneiro pudesse pegá-lo.
Os gritos repentinos da tripulação devem ter assustado a baleia; e antes que os botes descessem à água, virando-se com majestade, ela nadou a sotavento, mas com tal tranquilidade, e fazendo tão pouco movimento enquanto nadava, que Ahab, pensando que talvez ainda não estivesse assustada, deu ordens para que nem um remo fosse usado e que nenhuma palavra fosse proferida, senão em sussurros. Assim sentados, tal como Índios de Ontário nas amuradas dos botes, com as pás largas vogávamos rápida e silenciosamente; uma vez que a calmaria não nos permitia usar as velas. Logo, enquanto desse modo deslizávamos em seu encalço, o monstro levantou a cauda perpendicularmente a quarenta pés no ar e afundou, desaparecendo como uma torre que fosse tragada.
Ali vai a cauda!”, foi o grito, anúncio imediatamente seguido da presteza de Stubb em pegar um fósforo e acender seu cachimbo, pois agora haveria descanso garantido. Decorrido o intervalo da sondagem, a baleia emergiu de novo e, estando de frente para o bote do fumante, mais perto dele do que dos outros botes, Stubb se fez de rogado das honras de capturá-la. Era óbvio, àquela altura, que a baleia havia se apercebido de seus perseguidores. Todo o silêncio da cautela de nada mais adiantava. As pás largas foram deixadas, e os remos entraram ruidosamente em ação. Ainda dando baforadas no seu cachimbo, Stubb incitou a tripulação ao ataque.
Sim, uma mudança brusca acometera o peixe. Sensível ao perigo, vinha de “cabeça para fora”; projetando obliquamente essa sua parte para fora da espuma que produzia.
Força, força, meus homens! Não se apressem; demorem bastante – mas façam força; a força de um estrondo de trovão, e só!”, gritou Stubb, soltando a fumaça enquanto falava. “Força, agora; quero um movimento forte e demorado, Tashtego. Força, Tash, meu jovem – força, todos; mas mantenham a calma, mantenham a calma – frieza é a palavra –, devagar, devagar – façam força como os demônios sorridentes e a morte sombria, e levantem perpendicularmente os defuntos enterrados em seus túmulos, rapazes – só isso. Força!”
Uuh-uuh! Uah-ih!”, berrou o nativo de Gay Head em resposta, lançando algum antigo grito de guerra aos céus, enquanto todos os remadores no bote tensionado foram involuntariamente jogados para a frente com o fortíssimo golpe que o Índio impetuoso desferiu.
Mas seus gritos selvagens foram respondidos por outros quase tão selvagens. “Qui-ih! Qui-ih!”, bradou Daggoo, fazendo força para a frente e para trás em seu assento, como um tigre que anda na jaula.
Qua-la! Quu-lu!”, uivou Queequeg, como se estalasse os lábios abocanhando um bom pedaço de bife. E assim, com remos e gritos as quilhas singravam o mar. Enquanto isso, Stubb, mantendo-se à frente, encorajava seus homens ao ataque, sem parar de baforar a fumaça. Como criminosos destemidos eles desciam os remos e os puxavam de volta com força, até que o grito tão esperado surgiu: “Levante-se, Tashtego! – Ao ataque!”. O arpão foi arremessado. “À ré!” Os remadores recuaram; no mesmo instante alguma coisa passou quente e sibilante por seus pulsos. Era a ostaxa mágica. Pouco antes, Stubb havia rapidamente lhe dado duas voltas adicionais em torno do posto da arpoeira, de onde, em razão da rapidez com que corria, a fumaça azul do cânhamo subia e se misturava às baforadas sempre presentes de seu cachimbo. À medida que a ostaxa girava em torno do posto da arpoeira; assim também, antes de chegar àquele ponto, ela passava cortante pelas mãos de Stubb, das quais os panos para a mão, ou pedaços de lona acolchoada, às vezes úteis nessas ocasiões, haviam caído. Era como segurar pela folha a afiada espada de dois gumes de um inimigo, enquanto este a retorce todo o tempo para arrancá-la de suas mãos.
Molhe a ostaxa! Molhe a ostaxa!”, gritou Stubb para o remador da selha (ele sentado perto da selha), o qual, tirando o chapéu, jogou água nela. Mais voltas correram, de modo que a ostaxa começou a parar. O bote voava naquele momento pela água agitada como um tubarão cheio de nadadeiras. Stubb e Tashtego trocaram de lugares – popa por proa –, uma tarefa realmente desconcertante em meio àquela comoção balançante.
Da ostaxa vibrante, esticada por toda a extensão da parte superior do bote, e do fato de estar mais tensa que a corda de uma harpa, a impressão era de que a embarcação tinha duas quilhas – uma cortando a água, a outra o ar –, pois o bote corria agitado através dos dois elementos opostos de uma só vez. Uma cascata contínua se formava na proa; e um torvelinho ininterrupto na esteira; e, ao menor movimento dentro do bote, mesmo o de um dedinho, a embarcação, que vibrava e rangia, oscilava sua amurada convulsiva nas águas. Assim passavam, desbragados; todos os homens agarrados com toda a força aos bancos, para evitar serem lançados à espuma; e a silhueta alta de Tashtego junto ao remo-guia como que se desdobrando em duas para manter seu centro de equilíbrio. Atlânticos e Pacíficos inteiros pareciam ficar para trás enquanto eles disparavam em seu caminho, até que, por fim, a baleia afrouxou um pouco sua fuga.
Recolher – Recolher!”, gritou Stubb ao remador da proa e, voltando-se para a baleia, todas as mãos começaram a puxar o bote para perto dela, enquanto o bote ainda corria a reboque. Logo chegando perto de seu flanco, Stubb, firmando o seu joelho na tosca castanha, dardejou dardo após dardo no peixe fugitivo; a seu comando, o bote ora retrocedia frente às horríveis contorções da baleia, ora se aproximava para um novo ataque.
A corrente vermelha jorrava de todos os lados do monstro, como riachos colina abaixo. Seu corpo torturado rolava não mais na água salgada, mas no sangue, que borbulhava e fervia por centenas de metros em sua esteira. O sol crepuscular, lançando luz sobre aquele lago carmim, devolvia seu reflexo aos rostos de todos, que cintilavam entre si como se fossem peles-vermelhas. Por todo esse tempo, jatos e mais jatos de fumaça branca eram esguichados em agonia do espiráculo da baleia, e baforadas e mais baforadas veementemente expelidas da boca do oficial agitado; enquanto a cada arremesso, recolhendo a lança retorcida (por meio da vioneira a ela presa), Stubb a endireitava, batendo-a contra a amurada, para depois arremessá-la de novo contra a baleia.
Puxar – puxar!”, gritava para o remador da proa, enquanto a baleia abatida arrefecia sua fúria. “Puxar! – mais perto!”, e o bote costeou o flanco do peixe. Quando estava bem em cima da proa, Stubb cravou lentamente sua lança comprida e afiada no peixe, e ali a manteve, revolvendo sempre de novo, cuidadoso, como se estivesse cautelosamente procurando por um relógio de ouro que a baleia tivesse engolido, e que ele temia que se quebrasse antes de conseguir fisgá-lo para fora. Mas aquele relógio de ouro que procurava era a vida mais profunda do peixe. E ele então a atingiu; pois saindo de seu transe para aquela coisa indescritível que se chama “convulsão”, o monstro contorceu-se terrivelmente em seu próprio sangue, envolveu-se num impenetrável, ardente e louco vapor, de tal modo que a embarcação a perigo, retrocedendo de imediato, teve muita dificuldade de sair às cegas daquele crepúsculo frenético para o ar límpido do dia.
Já enfraquecida em sua convulsão, a baleia fez-se mais uma vez presente aos olhos; debatendo-se de um lado para o outro; dilatando e contraindo o espiráculo com espasmos e uma agonizante, seca e crepitante respiração. Por fim, sopros após sopros de sangue coagulado, como a borra púrpura do vinho tinto, foram lançados ao ar repleto de terror; e caindo, escorreram dos flancos imóveis para o mar. Seu coração havia estourado!
Está morta, senhor Stubb”, disse Tashtego.
Sim; os dois cachimbos se apagaram!”, e tirando-os da boca Stubb espalhou as cinzas mortas sobre a água; e, por um instante, ficou a olhar pensativo para o imenso cadáver que havia feito.
Herman Melville, in Moby Dick

Morro Velho, por Milton Nascimento - Sr. Brasil

Reviver

Há que não atentar muito em felicidades, graças, bem-aventuranças distantes e desconhecidas, mas sim em viver da maneira com que gostaríamos de reviver, dentro dos mesmos moldes, até a eternidade. É esta a tarefa que temos pela frente: constante e continuadamente.”
Friedrich Nietzsche, in A vontade do poder

Como Bertrand Russell foi impedido de lecionar na Faculdade Municipal de Nova York

IV
Entre os berros e as ameaças dos zelotes, alguns integrantes do Conselho vacilaram. Mesmo assim, na reunião do dia 18 de março, a maioria permaneceu fiel às suas convicções, e a polêmica nomeação foi confirmada por 11 votos contra 7. A oposição esperava essa a derrota e estava pronta para atacar em todas as frentes. Havendo fracassado em obter a anulação da nomeação de Russell para a Faculdade Municipal, tentaram impedir que ele lecionasse em Harvard. Russell havia sido convidado para dar as aulas William James lá no semestre de outono [o primeiro semestre do ano letivo, com início em setembro] de 1940. No dia 24 de março, Thomas Dorgan, “agente legislativo” da cidade de Boston, escreveu ao reitor James B. Conant: “O senhor sabe que Russell defende o casamento igualitário e o relaxamento das obrigações que restringem a conduta moral. Contratar esse homem, convém observar, é um insulto a todos os cidadãos americanos do Estado do Massachusetts”.
Ao mesmo tempo, a Assembleia Legislativa do Estado de Nova York recebeu o pedido para que fizesse com que o Conselho de Educação Superior rescindisse a nomeação de Russell. O senador Phelps, democrata de Manhattan, apresentou uma resolução que colocaria a Assembleia como assumindo publicamente a posição de que “um defensor da moralidade baixa é pessoa inadequada para ocupar posto importante no sistema educacional de nosso Estado, à custa dos contribuintes”. Essa resolução foi adotada, e até onde sei, nenhuma voz se ergueu em oposição a ela.
Tal resolução foi o prelúdio de uma ação mais drástica. Onze integrantes do Conselho de Educação Superior haviam se mostrado tão teimosos a ponto de desafiar as ordens da hierarquia. Os hereges precisavam ser punidos. Era preciso mostrar a eles quem detinha o verdadeiro poder no Estado de Nova York. Baseando sua opinião nas afirmações do bispo Manning e do reitor Gannon, da Universidade Fordham, o senador John F. Dunigan, líder da minoria, declarou ao Senado que a filosofia de Russell “debocha da religião, do Estado e das relações familiares”. Reclamou das “teorias ímpias e materialistas daqueles que hoje governam o sistema escolar da cidade de Nova York”. A atitude do Conselho, que “insistiu na nomeação de Russell apesar da grande oposição pública”, o argumentou senador, “é uma questão de preocupação para esta Legislatura”. Ele exigiu uma investigação completa do sistema educacional da cidade de Nova York e deixou claro que tal investigação teria como alvo principal as instalações universitárias controladas pelo Conselho de Educação Superior. A resolução do senador Dunigan também foi adotada, com apenas uma pequena modificação.
Mas esses foram apenas conflitos menores. A manobra principal foi conduzida na própria cidade de Nova York. Uma tal sra. Jean Kay, do Brooklyn, que não tivera nenhum destaque anterior por seu interesse nas questões públicas, preencheu um formulário de queixa de contribuinte na Suprema Corte de Nova York para invalidar a nomeação de Russell, sob a alegação de ele ser estrangeiro e defensor da imoralidade sexual. Ela se declarou pessoalmente preocupada com o que poderia acontecer à sua filha Gloria, caso se formasse aluna de Bertrand Russell. O fato de que Gloria Kay poderia não ser aluna de Russell na Faculdade Municipal aparentemente não foi considerado relevante. Posteriormente, os advogados da sra. Kay apresentaram outras duas razões para barrar Bertrand Russell. Por um lado, ele não fora testado quanto à sua competência e, por outro, “era contrário à política pública indicar como professor qualquer pessoa que acreditasse no ateísmo”.
A sra. Kay foi representada por um advogado chamado Joseph Goldstein, que, sob a administração Tammany anterior a LaGuardia, fora magistrado municipal. Em sua ação, Goldstein descreveu as obras de Russell como “devassas, libidinosas, lascivas, venéreas, erotomaníacas, afrodisíacas, irreverentes, limitadas, mentirosas e desprovidas de fibra moral”. Mas isso não foi tudo. De acordo com Goldstein, “Russell dirigia uma colônia de nudismo na Inglaterra. Seus filhos desfilavam nus. Ele e sua esposa desfilavam nus em público. Esse homem, que tem hoje cerca de setenta anos, é adepto da poesia devassa. Russell assente à homossexualidade. Eu iria ainda mais longe e diria que ele a aprova.” Mas nem isso foi tudo. Goldstein, que presumivelmente passa seu tempo livre estudando filosofia, concluiu sua acusação com um veredicto a respeito da qualidade do trabalho de Russell. Esse veredicto danoso diz o seguinte:

Ele não é filósofo na verdadeira acepção da palavra; não é alguém que ame a sabedoria; nem alguém que busque a sabedoria; não é um explorador dessa ciência universal, que tem como objetivo a explicação de todos os fenômenos do universo por meio de suas causas supremas. Na opinião de seu depoente e de uma multidão de outras pessoas, é um sofista; pratica o sofismo; ao dissimular artifícios, engana e trama e por meio de evasivas, apresenta argumentos falaciosos e argumentos que não são embasados pelo raciocínio sólido; tira conclusões que não são deduzidas de premissas sólidas; e todas as suas supostas doutrinas, que ela chama de filosofia, não passam de fetiches e proposições baratas, de mau gosto, desgastadas e remendadas, arquitetadas com a intenção de desviar as pessoas.

De acordo com o jornal Daily News, nem a sra. Kay, nem seu marido, nem Goldstein diziam quem estava pagando as custas do processo.
Russell, até esse ponto, abstivera-se de tecer qualquer comentário, a não ser uma breve declaração, logo no início da campanha, em que dissera: “Não tenho desejo de responder ao ataque do bispo Manning (...). Qualquer pessoa que na juventude decida tanto falar quanto pensar com honestidade, independentemente da hostilidade e das interpretações errôneas, espera tais ataques e logo aprende que o melhor é ignorá-los”. No entanto, agora que o ataque fora levado a um tribunal de Justiça, Russell sentiu-se na obrigação de publicar uma resposta. “Até agora, mantive um silêncio quase ininterrupto a respeito da controvérsia relativa à minha indicação à Faculdade Municipal”, ele observou, “porque não pude admitir que minhas opiniões fossem relevantes. Mas, quando afirmações grosseiramente mentirosas a respeito de minhas ações são feitas em juízo, sinto que devo apresentar a minha versão. Nunca conduzi uma colônia de nudismo na Inglaterra. Nem minha esposa nem eu jamais desfilamos nus em público. Nunca fui adepto de poesias devassas. Tais afirmações são falsidades deliberadas, e aqueles que as proferem devem saber que elas não têm fundamento nos fatos. Ficarei feliz se tiver a oportunidade de negá-las sob juramento.” Deve-se ainda ajuntar que Russell jamais “aprovou” o homossexualismo. Mas esse é um ponto que discutirei em detalhes mais à frente.
A acusação da sra. Kay foi ouvida pelo juiz McGeehan, que antes estivera associado à máquina do Partido Democrático do Bronx. McGeehan já tinha, antes desse caso, destacado-se ao tentar fazer com que um retrato de Martinho Lutero fosse removido de um mural que ilustrava a história do Direito em um fórum. Nicholas Bucci, advogado interno assistente, representou o Conselho de Educação Superior. Com muita propriedade, recusou-se a ser arrastado para uma discussão a respeito das opiniões malignas de Russell e de sua incompetência como filósofo. Ateve-se ao único ponto legalmente relevante do processo – que um estrangeiro não podia ser nomeado para um posto em faculdade municipal. Bucci negou que esse fosse o caso e, assim, pediu que o processo fosse arquivado. McGeehan respondeu, ameaçador: “Se eu descobrir que esses livros dão sustentação às alegações da petição, darei algo sobre o que refletir à Divisão de Recursos e ao Tribunal de Apelação”. Os livros aqui referidos foram os indicados por Goldstein para apoiar suas acusações. Eram Education and the Good Life [A Educação e a Boa Vida], Marriage and Morals [Casamento e Moral], Education and the Modern World [Educação e o Mundo Moderno] e What I Believe [No que eu Acredito].
Paul Edwards, in Apêndice de Porque não sou cristão, de Bertrand Russell

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

A arte questionadora de Mana Neyestani


Era um lugar

Era um lugar em que Deus ainda acreditava na gente...
Verdade
que se ia à missa quase só para namorar
mas tão inocentemente
que não passava de um jeito, um tanto diferente, de rezar
enquanto, do púlpito, o padre clamava possesso contra pecados enormes.
Meu Deus, até o Diabo envergonhava-se.
Afinal de contas, não se estava em nenhuma Babilônia...
Era, tão só, uma cidade pequena,
com seus pequenos vícios e suas pequenas virtudes:
um verdadeiro descanso para a milícia dos Anjos com suas espadas de fogo.
- um amor!
Agora, aquela antiga cidadezinha está dormindo para sempre
em sua redoma azul, em um dos museus do Céu.
Mário Quintana

Noite

Estou olhando as mulheres passarem na rua em frente deste reles botequim.
O cara me diz, meu irmão, pode descolar uma grana para um sujeito faminto?
Foda-se, respondo.
Eu podia estar assaltando, mas estou pedindo — ele não sabia se ameaçava ou suplicava.
Foda-se, repito.
Não consigo ver bem seus olhos ansiosos de cão vadio; é uma dessas noites escuras, propícia para os pés-rapados foderem as rameiras no cantão e terem um alívio agônico enquanto o dia afinal não chega com ânsias mais horrendas.
Rubem Fonseca, in Amálgama

Mas o que é a democracia?

Falamos muito de democracia, mas o que é a democracia? Para os políticos, a democracia são as instituições, o parlamento, os tribunais, coisas que funcionam com eleições e com o voto. Mas não nos damos conta de que no mesmo instante em que coloca seu voto na urna o cidadão está realizando um ato de renúncia ao seu direito e ao seu dever de participar, delegando o seu poder a outras pessoas, que às vezes nem sabe quem são. A democracia pode ser apenas uma fachada sem nada por trás. Por isso, o cidadão deve fazer de sua participação cívica uma obrigação. Não diria que a democracia não é o menos pior dos sistemas políticos, mas digo, sim, que não é o melhor. É preciso inventar alguma coisa melhor, e não nos contentarmos com isso.
José Saramago, in As palavras de Saramago

A cápsula

A Gemini V em exposição na Praça da Sé, em São Paulo, em 1966 - Acervo Estadão

Todo mundo foi ver a Gemini V no Passeio Público (até a enchente esteve lá, uma noite). Todo mundo, menos ele. Não que se colocasse fora da era espacial ou abominasse os Estados Unidos. Deixou de ir por preguiça. É daqueles que, para participarem de um acontecimento histórico, exigem que o acontecimento se verifique no bairro, de preferência na rua onde moram. Em horário cômodo.
Mas chegou o neto de longes plagas, doido de vontade de ver a cápsula, e sem condições para ir sozinho ao centro da cidade. Pediu ao avô que o levasse.
Nunca! Está um calor de lascar.
A gente toma uns sorvetes e vai em frente.
Sem um pingo d’água em casa!
E daí? Pra ver a Gemini não precisa de água. Astronauta é que precisa de muita, pra não desidratar no espaço.
Amanhã nós vamos, menino.
Amanhã a cápsula sobe pra Petrópolis e não volta mais ao Rio. Você parece que não lê jornal!
Impossível resistir. Os dois se mandaram para o centro. Lá estava, no jardim, convidativa como um circo, a barraca de plástico encerrando a supermáquina. “Que chateação!” — pensou o velho. O neto pensava exatamente o contrário. Tanto que, mal avistou a barraca, acelerou o passo, deixando o avô à distância. Em disparada entrou no recinto.
A progressão nas duas escadinhas laterais era lenta, porque os visitantes queriam ver bem a cápsula; alguns o faziam com ar entendido, de quem já entrou em órbita e é íntimo do Schirra e do Cooper. Certamente, para o garoto o ideal seria que todos fossem embora e ele tomasse posse da cápsula. Mal subiu o primeiro degrau, estendeu as mãos para o plástico da cobertura, alisou-o como quem faz carícia. Depois, os dedos passaram ao revestimento metálico. Apalpava a matéria com força, para testá-la, talvez para comunicar-lhe toda a sua emoção.
Olhe para dentro, repare no painel, nos assentos do piloto e do copiloto — sugeriu o visitante de trás, vendo que o garoto não desatava.
Mas ele não tinha tanto olhos de ver quanto mãos de pegar. O tato procurava convencer-se da materialidade da cápsula, esgotar a percepção; depois, a vista que entrasse com seu jogo. Meteu a unha no casco de titânio, querendo tirar uma lasquinha que fosse. Conseguiu uns fiapos, recolhidos imediatamente ao bolso da camisa. Depois arranhou a bandeira norte-americana pintada na fuselagem. Sem a menor intenção de desacato: para conseguir uns grânulos de tinta vermelha das listras, que serviriam, com os fiapos, de eterna recordação e comprovação do encontro, se os colegas duvidassem.
Pressionado pela fila, teve de descer do outro lado, mas avisou: “Vou subir muitas vezes”. E subiu e desceu tantas vezes, contornando a barraca, que mais parecia a própria cápsula, dando voltas à Terra. Já agora, eram os olhos que desfrutavam a viagem. Tiravam fotos retinianas de cada instrumento, cada botão, cada partícula prestigiosa do prestigioso conjunto.
E não descansou. Concluído o voo orbital, aterrissou junto ao funcionário incumbido de dar explicações a quem quisesse. Crivou-o de perguntas, discutiu pontos técnicos da próxima alunissagem. A certa altura, o funcionário coçou a cabeça:
Isso eu não sei informar, me faltam dados… Desculpe.
Ao voltarem para casa, confidenciou ao avô:
Soprei em cima do vidro, para deixar o meu hálito. E risquei como pude minhas iniciais.
De sorte que o avô regressou sem ter visto propriamente a Gemini V, mas ainda a está observando, perfeita, em pleno voo, na fisionomia grave do garoto, que ainda não regressou do cosmo.
Carlos Drummond de Andrade, in 70 historinhas

Nao

1.
Oi! Meu nome é Nao e eu sou um ser-tempo. Você sabe o que é um ser-tempo? Bem, se você me der um minutinho, eu explico.
Um ser-tempo é alguém que existe no tempo, e isso quer dizer você, e eu, e todos nós que estamos aqui, ou já estivemos, ou que um dia estarão. Quanto a mim, estou neste exato instante sentada em um café onde as garçonetes usam uniformes de empregada doméstica, em Akiba, a Cidade Elétrica, escutando uma canção melancólica que toca em algum ponto do seu passado, que também é o meu presente, escrevendo isto e me perguntando sobre você, em algum momento do meu futuro. E se você está lendo isto, talvez também esteja se perguntando sobre mim.
Você se pergunta sobre mim.
Eu me pergunto sobre você.
Quem é você e o que está fazendo?
Você está em um vagão do metrô de Nova York, se segurando numa correia, ou está de molho na sua banheira de hidromassagem em Sunnyvale?
Está se bronzeando em uma praia arenosa em Phuket ou está fazendo as unhas dos pés em Abu Dhabi?
Você é homem ou mulher ou está no meio-termo?
Sua namorada está preparando um jantar gostoso para você ou você vai comer macarrão chinês direto da caixa?
Você está encolhido, de costas viradas para a sua esposa roncadora, ou espera com ansiedade que seu lindo amante termine o banho para fazer amor apaixonado com ele?
Você tem um gato e ele está sentado no seu colo? A cabeça dele cheira a cedro e ar doce e fresco?
Na verdade, não tem muita importância porque, quando você ler isto, tudo estará diferente, e você não estará em nenhum lugar específico, folheando à toa as páginas deste livro, que por acaso é o diário dos meus últimos dias na Terra, se perguntando se você deve continuar a leitura.
E se você resolver não ler mais, ei, problema nenhum, porque não era você que eu esperava, de qualquer forma. Mas se decidir levar a leitura adiante, então imagina só? Você é meu tipo de ser-tempo e juntos vamos criar mágica!
Ruth Ozeki, in A terra inteira e o céu infinito

domingo, 11 de novembro de 2018

Desejo de transformação

Ninguém se trocaria por um dos seus semelhantes, mas todos se trocariam pelo seu sonho. Porque o homem quer conquistar, mas sem deixar de se possuir. Deseja a continuidade do eu e, juntamente, a sua metamorfose - pretensão contraditória que constitui um dos episódios do eterno automatismo.
O homem ama-se e desama-se. Diante dos outros, mostra-se quase sempre satisfeito consigo - com medo de ser ultrapassado ou emulado -, mas quando está só com o seu eu, experimenta um tédio, uma repulsa, uma repugnância, que em regra se transformam em desejo de transformação. Nem todos são capazes de se contemplar sem adulação até às últimas raízes e reconhecer, ainda que no sigilo da alma, a sua miséria, mas quase todos têm a sua sensação e, com frequência, a certeza - o tédio de si pode notar-se mesmo sem as formas do juízo. E os outros instintos - soberba, gula do mais e do novo - ajudam a desejar a mudança. Existe com frequência em nós o narcisismo, mas o espelho é sempre colocado no passado e no futuro - no presente, nunca.
Giovanni Papini, in Relatório sobre os homens

O Azul e o Tempo - Oswaldo Montenegro

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe? nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos, Heterônimo de Fernando Pessoa

Vassouradas

O casal desenvolvera um método para se comunicar de longe nas reuniões sociais. Quando ele esfregava o nariz queria dizer “vamos embora”. Quando ela puxava o lóbulo da orelha esquerda queria dizer “cuidado”, geralmente um aviso para ele mudar de assunto. Puxar o lóbulo da orelha direita significava “você já bebeu demais”.
Naquela noite houve uma confusão nos sinais. Mais tarde, em casa, ela gritava:
Você não me viu quase arrancar a orelha esquerda, não?
Vi, e parei de beber.
Orelha esquerda não é parar de beber. Orelha esquerda é mudar de assunto!
Confundi, pronto.
Ele não entendera o sinal e continuara a contar, às gargalhadas, um caso que ouvira. O caso das vassouradas.

* * *
Acontecera durante o carnaval. A mulher tinha ido visitar parentes em Vitória, mas voltara antes do combinado e cruzara na porta de casa com o marido, que saía vestindo um sarongue. Se não estivesse de sarongue ele teria inventado uma história para justificar sua saída de casa àquela hora, numa terça-feira gorda. A súbita vontade de comer um pastel, alguma coisa assim. O sarongue inviabilizava qualquer desculpa. Um sarongue não se disfarça, não se explica, não se nega. O sarongue está no limite da tolerância e do diálogo civilizado. E como o diálogo era impossível, a mulher partira para a agressão. Buscara uma vassoura dentro da casa. E correra com o homem para dentro de casa a vassouradas. A vassouradas!

* * *
Você não sabia que foi com eles que aconteceu? Com os donos da casa? — gritou a mulher. E completou: — Seu panaca!
Como é que eu ia saber? Me contaram a história mas não disseram quem era!
E eu puxando a orelha feito doida.

* * *
Mais tarde, na cama, ele racionalizou:
Bem feito.
O quê?
Pra ela. Não se bate num homem com uma vassoura.
Ah, é? E o sarongue?
Não interessa. Nada justifica a vassourada.
Sei não...
Podia bater. Podia pedir divórcio. Mas vassourada, não.
O seu tom era o de quem estabelece um dogma. Um mandamento para todos os tempos. Botar o marido para dentro de casa a vassouradas feria a dignidade básica de todos os homens, mesmo os de sarongue.
Aí a mulher disse que o mal já estava feito e que só precisavam repassar o código para que coisas como aquela não acontecessem mais.
Luís Fernando Veríssimo, in Amores veríssimos

As provocativas ilustrações do austríaco Gerhard Haderer











A Máquina do tempo

O pintor Francisco de Goya (1819-1823) pintou um quadro sinistro que representa o deus Cronos devorando um dos seus filhos. A brutalidade plástica e a verdade da tela estão em que ela nos confronta com o nosso destino: à medida que o tempo passa, a vida se vai.
O tempo faz o vivido desaparecer no esquecimento. Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa, descreveu essa tristeza de sentir a vida escorrendo para o passado num poema: “O tempo passa. Não nos diz nada. Envelhecemos. Saibamos, quase maliciosos, sentir-nos ir. Não vale a pena fazer um gesto. Não se resiste ao deus atroz que os próprios filhos devora sempre”.
Por isso eu escrevo, para lutar contra o tempo. A escritura e a leitura fazem os mortos ressuscitar. A escritura e a leitura fazem o passado acontecer de novo. Por isso, ao ler o que aconteceu e não mais existe, nós rimos e choramos como se aquilo que aconteceu estivesse acontecendo de novo. E foi isso que aconteceu comigo. Envelhecendo, tive medo que o meu passado se perdesse.
Resolvi, então, escrever o meu passado, um passado feliz que o tempo me havia roubado, para oferecê-lo às minhas netas. Queria que, quando eu morresse, ele continuasse vivo na memória delas. Escrevi um livro contando a vida que vivi quando menino, na roça. Descrevi a casa velha, pintada de branco. Contei sobre os riachos e as árvores, sobre as noites silenciosas, sobre os ruídos dos bichos na mata, sobre os céus escuros iluminados por milhares de estrelas, sobre o fogão de lenha e sobre a luz das lamparinas iluminando a sala. E sobre algo impensável para elas: não havia eletricidade. Não havia geladeira. As comidas eram guardadas em armários de tela chamados guarda-comida.
Publicado o livro, elas não demonstraram o menor interesse naquilo que eu contava porque o mundo em que eu vivera e amara lhes era estranho. Quem se interessou foram os velhos porque aquele era um mundo que fora deles.
Passado algum tempo, recebi um e-mail em inglês, uma mulher... Desculpava-se pelo inglês. Era uma imigrante egípcia. Entendia bem o português, lia os meus livros e gostava deles. Escrevia-me para me dizer que, no meu livro para as minhas netas, eu usara uma palavra que a apunhalara...
Uma única palavra com o poder de apunhalar! Que palavra poderosa poderia ter sido essa?
Fui apunhalada pelo ‘guarda-comida’”, ela disse. “Eu havia me esquecido de que essa palavra existia. O tempo a mergulhara no esquecimento. Mas quando a li o meu passado voltou, instantaneamente. Instantaneamente eu me vi menina de seis anos na cozinha da minha casa no Cairo, sessenta anos antes. Lá havia um ‘guarda-comida’.” E ela disse o nome em francês: “garde-manger”. “A palavra anulou o espaço: atravessei o Atlântico... A palavra anulou o tempo: o passado ficou presente, ressuscitou do esquecimento...”
Aprendi então que máquinas do tempo existem. Elas se chamam “palavras”.
Podemos, então, pintar uma tela que é o inverso da tela que Goya pintou: a vida devorando o tempo…
Rubem Alves, in Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo

A letra B


Em 1725, Johann Sebastian Bach se preparava para compor sua cantata número 1 em si bemol maior, na igreja luterana de São Tomás, em Leipzig, onde mantinha uso exclusivo e solitário do grande órgão adquirido pelo arcebispo de Leipzig, a seu pedido, dezoito anos antes, diretamente de um fabricante que por ali passara e comentara a existência do órgão, quando ocorreu um grave problema. Bach já sofria de cegueira quase completa, que uns diziam provir de diabetes mal tratada, mas outros mais maldosos garantiam ser efeito do fato de ele ter copiado as partituras de seu irmão 21 anos antes, no escuro. Mas isso pouco se comentava, porque todos testemunhavam a descida corpórea de anjos quando Johann se sentava ao órgão para tocar aos domingos e também, até mesmo, a presença de um pequeno anjo loiro quando ele havia começado a ensaiar uma nova fuga. O problema foi que Bach percebeu que uma das notas de uma frase musical da cantata teimava em não se completar. Sempre que ele começava a tocar a frase que martelava em sua cabeça, o órgão se recusava a soar aquela nota. Ele a tocava, mas, de alguma forma misteriosa, o som emitido era diferente. Da mesma maneira, a própria concepção da frase em sua imaginação e a correspondência mental da melodia estacavam exatamente naquela nota. Tratava-se de um si bemol, disso ele sabia. Pensou em modificar a nota, mas não era possível, pois a nota teimava em ser tocada e era certamente a mais exata para a cantata como Bach a concebera, ainda na noite anterior, durante mais um dos acessos de insônia que vinha tendo havia algumas semanas. O músico revirou o órgão por dentro, sentou-se, esperou, mas tudo continuava intocado, e o instrumento guardava-se com uma perfeição cada vez maior, quanto mais era tocado pelo emissário único dos anjos da esfera intermediária. Esses anjos intermediários, que habitavam uma porção, como diz o nome, mediana das esferas celestes, eram responsáveis pelas coisas terrenas que permitiam aos homens conhecer brevemente alguns enigmas do céu. Não pertenciam às camadas superiores, responsáveis pelos assuntos propriamente celestes, nem às totalmente inferiores, que se encarregavam de problemas estritamente mundanos, como doenças e afogamentos. Contrariado e ansioso, pois a cantata deveria ser apresentada dali a dois dias, quando a igreja contaria com a presença do arcebispo de Leipzig em pessoa, Bach tornou a sua casa, onde nada parecia acalmá-lo. Teimava em repetir aquele si bemol que, por sua vez, resistia a soar a contento. Em sua pequena biblioteca, com a ajuda do filho mais novo, Bach alcançou um volume antigo, cópia apócrifa de um manuscrito cujo original se encontrava guardado na Biblioteca Central do Vaticano. Tratava-se de uma reprodução dos originais de Guido d’Arezzo, escritos ainda no século X, sobre a marcação das notas musicais. Mais uma vez, depois de tantas que já havia folheado aquelas páginas, o músico se debruçou sobre os nomes das notas. Releu o Hino a São João Batista, de onde Guido havia extraído os nomes das notas ut, ré, mi, fá, sol e lá. Ut queant laxis — Para que nós, teus servos; Resonare fibris — possamos elogiar claramente; Mira gestorum — a força dos teus atos; Famuli tuorum — e teus milagres; Solve polluti — absolve a impureza; Labii reatum — de nossos lábios. Como em todas as outras vezes, o músico se emocionava com a precisão das palavras que praticamente justificavam a existência da música; um elogio claro à força e ao milagre de Deus e a mais perfeita absolvição de nossas impurezas. Rezou a Guido e, temerariamente, também a Deus e a outros anjos de sua predileção, a fim de que o iluminassem para que a nota teimosa se decidisse por soar harmoniosamente. Pela primeira vez, Johann percebeu, então, e para sua incompreensível surpresa, que, nas notações musicais de Guido, faltava justamente a correspondência para a nota si. Como isso poderia ter lhe escapado? Percebeu que, caso encontrasse a origem pia da nota, encontraria também a chave para sua recusa em soar. Passou o resto do dia revirando insatisfatoriamente seus outros manuscritos e ainda brigou com seu filho Wilhelm, que dizia, acintosamente, saber a origem oculta da nota. À noite, entre sonhos fragmentados e sempre afetados pela vigília, entreviu uma resposta. As letras iniciais de Sancte Iohannes formavam o si, a nota que faltava. Foi direto ao cravo de seu quarto e acreditou que, finalmente, a nota soaria a contento. Não soou. Voltou à igreja cabisbaixo, e já cruzava o átrio quando Wilhelm surgiu ofegante, insistindo em lhe fornecer a resposta. Pediu-lhe que retomasse a notação grega, ainda proveniente da teoria pitagórica, ligada às esferas celestes e suas correspondências terrestres. Bach negou com veemência aquele descaramento pagão e mandou Wilhelm de volta para casa. Entretanto, ao voltar ao órgão, diante de mais uma recusa renitente da nota, sacou de uma pena que mantinha guardada no bolso de seu casaco e experimentou anotá-la segundo as regras do grego antigo. Desenhou: uma reta vertical do lado esquerdo, acoplada a dois semicírculos que a preenchiam lateralmente. Não conhecia o significado desse símbolo, mas sabia configurá-lo. Desenhou e imediatamente voltou ao órgão. A nota soou clara como se nunca tivesse resistido. O músico, apesar da heresia e diante do pouco tempo que restava para a apresentação, resolveu adotar a notação e, no momento de dar o nome à cantata, ainda ousou nomeá-la em homenagem àquela nota profana, que se intrometera na melodia contrapontística da fé cristã. Chamou-a Cantata em si bemol maior, ou, segundo sua própria anotação, Cantata em B bemol maior. Assim, com uma intervenção pitagórica das esferas cósmicas em meio à devoção piedosa das notas cristãs, nasceu a letra B, que se mantém até os dias de hoje em coisas e seres religiosos e profanos, como as bétulas, os bichos e as bolas.
Noemi Jaffe, in A verdadeira história do alfabeto