quarta-feira, 18 de março de 2026

Cabidela | Seu Pereira e Coletivo 401

Procura da poesia

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
 
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
 
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
 
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
 
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
 
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
 
Repara:
ermas de melodia e conceito,
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

Carlos Drummond de Andrade, em Antologia poética

Segundo capítulo – As Letras do Sonho



Por cima da página, Muidinga espreita o velho. Ele está de olhos fechados, parece dormido. “Fim ao cabo, tenho estado a ler apenas para minhas orelhas”, pensa Muidinga. “Também há já três noites que vou lendo, é natural o cansaço do velho”, condescende Muidinga. Os cadernos de Kindzu se tinham tornado o único acontecer naquele abrigo. Procurar lenha, cozinhar as reservas da mala, carretar água: em tudo o rapaz se apressava. O tempo ele o queria apenas para mergulhar nas misteriosas folhas. O miúdo, em si, se intriga: quem seria o autor dos escritos? O homem de camisa sanguentada, estendido ao lado da mala, seria o tal Kindzu? A voz de Tuahir o surpreende:
Aposto você está pensar nessa porcaria dos cadernos.
Como sabe?
Você, agora, nem faz outra coisa. Já me chateia.
O jovem passa a mão pelo caderno, como se palpasse as letras. Ainda agora ele se admira: afinal, sabia ler? Que outras habilidades poderia fazer e que ainda desconhecia?
Tuahir, não se zanga se lhe chamar de tio...
Que queres, diga lá?
Me conte sobre a minha vida. Quem eu era, antes do senhor me apanhar?
Tio, tio, tio! Essa palavra só me desgosta...
Conte, lhe peço.
Você nem tem estória nenhuma. Lhe apanhei no campo, ganhei pena de lhe ver aranhiçar, com pernas que já nem conheciam andamento...
Mas o senhor me conhecia, sabia quem eu era?
Nada. Você nunca me foi visto. Agora, acabou-se a conversa. Apague a fogueira.
O miúdo desiste de mais pergunta. Por que razão o velho teima em não lhe revelar nenhum passado? Seria verdadeira aquela ignorância dele? Há tempos que os dois estão juntos. O velho lhe dedica paciências, em paternais maternidades. Sem nunca lhe escapar uma ternura. A conversa também é pouca, sem desperdício de palavra. Tuahir volta a insistir para que extinga o fogo. Dentro do carro é um perigo, argumenta. Mas o miúdo resiste, tem medo do escuro. A fogueirinha ajuda a vencer o medo. Ler os escritos do morto é um pretexto para ele não enfrentar a escuridão. A decisão de Tuahir se impõe, reinam as trevas. O respirar dos adormecidos é um ruído que inquieta. Como se neles soasse uma outra alma.
Passado tempo, Muidinga acorda em sobressalto. Uma massa viscosa lhe raspa o rosto, fosse o ventre de uma cobra escorrediça. A medo espreita pela fresta das pálpebras: um monstro lhe lambe a cara. Visto assim, de baixo para o topo, o focinho ganha medonhas dimensões. Aquilo parecia o planeta, todo de chifre. O sol ainda não todo emergira no horizonte. Na obscuridade, Tuahir grita:
Não mexa, miúdo.
Imóvel, o garoto espera. A imagem esbatida se revela então a seus olhos: é um cabrito pastando em seu rosto. O caprino roda a cabeça estudando se o vulto que lambeu é ou não comestível. Tuahir sai do banco e avança, gatinhoso, pé posto em cautela. Se aproxima por trás e dispara um puxado pontapé no animal. Um méééé se amplia pela noite.
Hidjii! Afinal, é um cabrito!
Pensava era o quê?
Pensava era uma hiena. A hiena é que gosta de comer nariz de gente.
O cabrito não vai longe. Sai do autocarro, sacode a cauda. Tuahir enxota o bicho. Em vão.
Vou lá correr com ele, tio.
Vai. Mas não aproveite o caso para me voltar a chamar tio.
Muidinga se ergue. Sai da carcaça do autocarro, pega numa pedra e lança-a sobre o cabrito. O bicho troteia em coices, de casco e caganitas. Mas não se alonja.
Deixa lá. Ele sente falta das pessoas. Eu também começo sentir falta de cabrito. Principalmente aqui no estômago.
Vamos comer o bicho?
Surge ali um novo motivo de briga. Muidinga opõe-se a que o bicho seja morto. O cabrito lhe dá um sentimento de estar em aldeia, longe daquele lugar perdido. No facto, se passava o inacreditável: um bicho lhe trazia de volta o sentimento da família humana. O velho insiste em assar o cabrito: o rapaz deixasse o tempo passar e pensaria mais com a barriga. A fome quando ferra nos faz feras. Muidinga retira uma corda da maleta. Vou amarrar o bicho aqui pertinho, anuncia.
Pertinho não. Deixe ele solto longe, sem corda.
O miúdo entorta o nariz, decidido a desobedecer. Não queria que o animal escapasse. Procura nas redondezas um ramo à altura de receber um nó. Então se admira: aquela árvore, um djambalaueiro, estava ali no dia anterior? Não, não estava. Como podia ter-lhe escapado a presença de tão distinta árvore? E onde estava a palmeira pequena que, na véspera, dava graça aos arredores do machimbombo? Desaparecera! A única árvore que permanecia em seu lugar era o embondeiro, suportando a testa do machimbombo. Seria coisa de crer aquelas mudanças na paisagem? Muidinga hesita em consultar Tuahir. Ele haveria de desdenhar com aquele riso de peixe, a boca à espera de entender a graça. Decerto, lhe acusaria de tontice. Ou ainda pior: lhe lembraria a doença em que se havia exilado não da vida mas da humana meninice. Assim, Muidinga optou por deixar o assunto.
Se despede do cabrito e torneia a árvore de fruta que tanto o intriga. Recolhe um djambalau, examina o negro fruto. O dia já se ergueu, as sombras vão minguando na quentura do chão. O sol, voluminoso, sucessivamente sempre sendo um. Muidinga imagina como será uma aldeia, essas de antigamente, cheiinhas de tonalidades. As colorações que devia haver na vila de Kindzu antes da guerra desbotar as esperanças?! Quando é que cores voltariam a florir, a terra arco-iriscando?
Então ele com um pequeno pau rabisca na poeira do chão: “azul”. Fica a olhar o desenho, com a cabeça inclinada sobre o ombro. Afinal, ele também sabia escrever? Averiguou as mãos quase com medo. Que pessoa estava em si e lhe ia chegando com o tempo? Esse outro gostaria dele? Chamar--se-ia Muidinga? Ou teria outro nome, desses assimilados, de usar em documento?
Mais uma vez contempla a palavra escrita na estrada. Ao lado, volta a escrevinhar. Lhe vem uma outra palavra, sem cuidar na escolha: “luz”. Dá um passo atrás e examina a obra. Então, pensa: “a cor azul tem o nome certo. Porque tem as iguais letras da palavra ‘luz’, fosse o seu feminino às avessas”.
De súbito, lhe chegam sons distantes no tempo, semelhando gritos de meninagem em recreio. O menino estremece: aquela era uma primeira lembrança. Até ali ele não se recordava de ocorrência anterior à enfermidade. Corre em balbúrdias para o autocarro.
Tio, tio! Eu me lembrei de minha escola!
Tuahir sorri, carantonhoso. Faz conta que nem ouve, entretido com nenhuma coisa. O rapaz repete, sacudindo o falso-dito tio.
Me lembrei, juro!
Te lembraste o quê?
Das vozes, da barulheira dos outros meninos.
Escuta uma coisa de vez por todas: nunca houve nenhuns outros meninos, nunca houve nada. Ouviste? Fui eu que te apanhei, baboso e ranhado, faz conta tinhas sido dado parto assim mesmo. Nasceste comigo. Eu não sou teu tio: sou teu pai.
Empurrado com brusquidão, o miúdo tomba sobre os ferros do machimbombo. Afinal, era essa a razão de ele negar ser chamado de tio? Era esse o motivo por que o velho lhe ocultava todo seu passado? Então, o miúdo sorri com doçura e se ergue sobre os joelhos. O corpo lhe tropeça numa fraqueza e volta a permanecer de gatas. O velho se apressa a debruçar sobre ele, em aflição:
Lhe aleijei, miúdo?
Assim como está, Muidinga se limita a negar com a cabeça. Tuahir insiste:
Então, se está sentir mal? Lhe voltou a doença?
O rapaz se volta a erguer e enfrenta o velho. Seu rosto está sereno, parece acrescentado de uma repentina idade:
Se esse é o seu medo vou dizer o seguinte: lhe gosto mesma coisa fosse o autêntico meu pai.
Tuahir reage, apanhado em armadilha. E se torna grave: Levante-se, miúdo! Por que que é que anda a gatinhar pelo chão feito um cabrito? Ambos se separam e se arrumam em quietude. Ficam assim, amuados até serem surpreendidos por barulhos que chegam do mato. O miúdo se levanta, precipitado. Acredita serem pessoas que se aproximam. Ensaia correr, sua intenção é entregar-se de braços, seja quem for que se aproxime. Mas Tuahir lhe corta o gesto com secura:
Não mexa, miúdo!
Porquê? É gente que está vir. Vêm para nos tirar daqui...
Não termina a frase. A mão do velho se calca sobre os seus lábios, impondo o grave silêncio. Então, por entre os altos capins, assoma um elefante. O bicho se arrasta, cansado do seu peso. Mas há no demorar das pernas um sinal de morte caminhando. E, na realidade, se vislumbra que, em plenas traseiras, está coberto de sangue. O animal se afasta, penoso. Muidinga sente o golpe da agonia em seu próprio peito. Aquele elefante se perdendo pelos matos é a imagem da terra sangrando, séculos inteiros moribundando na savana.
Dispararam sobre o bicho.
Quem foi, tio?
São esses da guerra. Querem os dentes para vender lá fora.
Se voltam a sentar em silêncio. Há uma tristeza que nem o cantarolar do velho consegue dispersar.
Tio Tuahir: estou a pensar uma coisa. Mas o senhor vai zangar, eu sei.
Você anda pensar de mais. Não lhe devia ter curado tanto. Um bocadinho de doença até lhe ia fazer bem. Chateava menos...
Mas, tio, é só imaginar. É um sonho que tenho...
Não pensa, rapaz. A vida é tão curta, você quer encher ela de tristezas?
Não, tio. Estou a pensar... Não, é melhor não dizer.
É melhor, mesmo. Fica calado.
Muidinga insiste depois de um silêncio. O velho já tinha regressado ao cantochão.
Vou dizer. Estou a pensar eu sou Junhito.
Quem é Junhito?
Junhito, esse menino do escrito que eu li, aquele da capoeira.
É pena não ser mesmo. Porque se fosse galinha, já eu lhe depenava para um bom caril.
Estou a falar sério, tio Tuahir.
E se vai calar muito sério, também.
O miúdo realmente se mantém calado até ao fim do dia. Já escurece quando reentram para o machimbombo e se preparam para deitar. Mais uma vez lhes chega o barulho do elefante. Parecia um rastolhar, lá longe. Quem sabe o bicho se findou, tombado no vasto chão? O escuro se aproveita para entrar dentro do refúgio dos dois esperantes.
Tio, posso acender a fogueira?
Acenda lá fora.
Mas eu queria ler, tio.
Leia lá fora.
Muidinga arruma uns paus secos e transporta consigo os escritos de Kindzu. Acende o fogo na berma da estrada. Depois, se instala para ler em comodidade o segundo caderno. A voz de Tuahir o sobressalta:
Não vai ler isso sozinho, pois não?

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

Voo

1616 – Santiago Papasquiaro

O deus dos amos, é o deus dos servos?

Falou da vida livre um velho profeta índio. Vestido à antiga, andou por estes desertos e serras levantando pó e cantando, ao triste som de um tronco oco, as façanhas dos antepassados e a perdida liberdade. Predicou o velho a guerra contra quem arrebatou dos índios as terras e os deuses e os arrebenta nas entranhas das minas de Zacatecas. Ressuscitarão os que morram na guerra necessária, anunciou, e renascerão jovens e velozes os velhos que morram lutando.
Os tepehuanos roubaram mosquetões e armaram e esconderam muitos arcos e flechas, porque eles são arqueiros destros como Estrela da Manhã, o flechador divino. Roubaram e mataram cavalos, para comer sua agilidade, e mulas para comer sua força.
A rebelião começou em Santiago Papasquiaro, ao norte de Durango. Os tepehuanes, os índios mais cristãos da região, os primeiros convertidos, pisaram as hóstias; e quando o padre Bernardo Cisneros pediu clemência, responderam Dominas Vobiscum. Ao sul, em Mezquital, romperam a machadadas a cara da Virgem e beberam vinho nos cálices. No povoado de Zape, índios vestidos de batina de jesuíta perseguiram pelos bosques os espanhóis fugitivos. Em Santa Catarina, descarregaram seus porretes sobre o padre Heraldo del Tovar enquanto diziam: Vamos ver se Deus te salva. O padre Juan del Valle ficou estendido na terra, nu, no ar a mão que fazia o sinal da cruz e a outra mão cobrindo seu sexo jamais usado.
Mas pouco durou a insurreição. Nas planícies de Cacária, as tropas coloniais fulminaram os índios. Cai uma chuva vermelha sobre os mortos. A chuva atravessa o ar espesso de pó e criva os mortos com balas de barro vermelho.
Em Zacatecas repicam os sinos, chamando aos banquetes de celebração. Os senhores das minas suspiram aliviados. Não faltará mão de obra nos túneis. Nada interromperá a prosperidade do reino. Poderão eles continuar mijando tranquilos em baciazinhas de prata lavrada e ninguém impedirá que acudam à missa suas senhoras acompanhadas de cem criados e vinte donzelas.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

O Amigo de um Amigo



Pode ser que a erudição de primeiríssima ordem seja tão rara quanto a grande arte ou a grande poesia. Alguns dos talentos e qualidades que ela exige são óbvios: uma extrema concentração, uma vasta memória, mas de grande precisão, espírito fino e penetrante, uma espécie de ceticismo piedoso ao manusear fontes e indicações, clareza na apresentação. Outros requisitos são mais raros e difíceis de definir. O realmente grande erudito tem um faro especial para encontrar o documento escondido, mas fundamental, para concatenar circunstâncias aparentemente díspares. Num relance ele vê a carta roubada enquanto os outros fitam o papel da parede. Como um rabdomante, ele sente o que há de importante sob a superfície batida. Detecta a falha no cristal, a nota falsa no arquivo, a pressão encoberta daquilo que foi falsificado ou amordaçado. Ele adere obstinadamente ao que Blake chamava de “a sacralidade do pequeno detalhe”, mas então extrai a aplicação, a inferência generalizadora, que pode alterar todo o panorama de nossas percepções históricas, literárias e sociais.
No entanto, mesmo esses talentos e sua rara combinação não determinam o que é fundamental para a grande erudição. Tal como o magistral tradutor, ou autor, ou intérprete musical, o erudito realmente grandioso se torna uma unidade com seu material, por mais abstruso, por mais recôndito que seja. Ele amalgama a força de sua personalidade e perícia técnica à época histórica, ao texto literário ou filosófico, à trama sociológica que está analisando e nos apresentando. Por sua vez, essa trama, esse conjunto de fontes primárias vai adquirir algo do estilo e da voz de seu intérprete. Irá se tornar dele sem deixar de ser o que é. Agora existe uma China antiga que é a de Joseph Needham, uma civilização helenista que fala com as inflexões do finado Arnaldo Momigliano, um mapeamento das gramáticas que por muito tempo trará as marcas de Roman Jakobson. E no entanto, em cada um desses casos, a alquimia reinstaura a força do material.
A erudição de Gershom Scholem pertencia a esse gênero raro e vivificante. Não só seus estudos da Cabala modificaram, ainda que de maneira controversa, a imagem do judaísmo — a compreensão que mesmo um judeu agnóstico agora tem de sua proveniência psicológica e histórica —, como também suas explorações, traduções e apresentações dos escritos cabalísticos exercem uma enorme influência na teoria literária em geral, no modo como críticos e estudiosos não judeus e totalmente agnósticos leem poesia. Os ensaios de Scholem, muitos deles compostos numa prosa alemã límpida e clássica (escrever mal é sinal de pouca erudição), abrangem interesses que ultrapassam em muito a Cabala. Não existe nenhum comentador mais arguto, mais sombriamente percuciente, do drama do judaísmo alemão, das ambiguidades na condição da Israel moderna, do papel dos estudos e traduções da Bíblia numa época cada vez mais secularizada. Os gostos não raro subversivos e estranhamente irônicos de Scholem são variados: da mesma forma que William James (e existem outras analogias), ele tomou como campo seu o jogo entre o intelecto e as pluralidades do sentimento humano. Toda manifestação de consciência religiosa, de imaginação mítica, de ilusão criativa o fascinava. Mas fascinavam-no também a matemática, a anatomia do discurso jurídico e a antropologia. Grande parte da caudalosa produção de Scholem é esotérica não só no tema — os arcanos do misticismo medieval e hassídico, da cosmologia gnóstica, da magia e do hermetismo renascentista, mas também nos meios de apresentação. Várias obras-primas de erudição, de solução de problemas, continuam inevitavelmente encerradas em revistas especializadas e em hebraico. Mas as obras principais de Scholem, como As origens da Cabala e o fascinante estudo de Sabatai Tzvi, o pseudomessias místico (ambos publicados pela editora de Princeton), se destinam ao público cultivado, como também aquelas preciosidades em (relativa) miniatura: as recordações pessoais de Scholem, a monografia sobre as visões místicas da criação, sua memória de Walter Benjamin. E em alguns casos as traduções para o inglês trazem atualizações e textos de apoio inexistentes nas primeiras edições hebraicas ou alemãs. Um grande servidor da intuição tem sido muito bem servido.
Scholem e Benjamin se conheceram em 1915, quando Benjamin tinha 23 anos e Scholem, dezessete. A amizade dos dois se tornou matéria de lenda e de pesquisa acadêmica. Ela mostra pontos de profunda afinidade. Benjamin e Scholem eram judeus alemães estranhamente alertas ao ambiente marginal, mas também criativo, das condições sociais e pessoais em que viviam. Eram homens do intelecto — do saber, da citação e do comentário num veio quase rabínico. Ambos eram apaixonados por livros antigos, bibliófilos e colecionadores sistemáticos em suas áreas. Eram exímios praticantes da prosa alemã em registros muito distintos, mas comungavam a mesma pureza de expressão, cujo próprio domínio indicava algo não totalmente inato, não herdado de forma inconsciente. Havia em ambos uma propensão anárquica, uma desconfiança radical em relação às estruturas e convenções estabelecidas. (Os dois conseguiram escapar para a Suíça durante a Primeira Guerra Mundial, e Scholem simulou vários sintomas neuróticos quando foi convocado pela agência de recrutamento.) Mais importante, ambos decidiram abordar problemas filosóficos, históricos e psicológicos centrais de um ângulo exótico. Scholem revolucionou o estudo do judaísmo com seus exames filológico-editoriais de esoterismos extremos — de heresias às vezes desvairadas, de devaneios especulativos patológicos. Análises de livros e brinquedos infantis, de fotos oitocentistas, dos livros de emblemas e da dramaturgia “perdida” do barroco alemão, dos empórios e lojas de departamentos que pipocaram em Paris no Segundo Império levaram Benjamin a sugestões, a “iluminações” (termo que tomou a Rimbaud), que hoje estão no centro do estruturalismo, da sociologia cultural e da semiótica.
Mas as diferenças entre os dois homens eram marcadas. Paradoxalmente, a imersão de Scholem no misticismo religioso se originou de uma visão de mundo profundamente cética e irônica. Tive o privilégio de conhecer Scholem em seus últimos anos, de vê-lo em Jerusalém, Zurique e Nova York. Não posso me atrever sequer a arriscar um palpite de se esse inspirado expositor da meditação cabalista sobre as autodivisões da Unidade Divina, sobre as emanações de luz da fronte divina, sobre a “quebra dos vasos” no momento da criação, acreditava ou não em Deus. Os trejeitos cômicos do sorriso de Scholem, as insinuações de um divertimento voltairiano de fundo eram incontáveis. Benjamin, por outro lado, era aquela rara criatura: um místico moderno, um iniciado nos reinos ocultos do vaticínio, do simbolismo hermético, da magia branca. Benjamin, que deu ao contexto sociológico-econômico de nossa consciência um novo grau de precisão, que respondeu prontamente à revolução na fotografia, no cinema e na rádio como meios de comunicação de massa, que adotou um marxismo mais ou menos pessoal e herético como componente vital de sua perspectiva, era o verdadeiro cabalista. (Também teve experiências com drogas — uma incursão no irracional da qual Scholem recuou.)
O interesse pelo sionismo era um vínculo forte entre ambos, embora as maneiras de colocá-lo em prática iriam se mostrar irreconciliáveis desde o começo. Com uma rigorosa clarividência, Scholem sentia o potencial de catástrofe no amálgama alemão-judaico. Para ele, tornou-se de uma clareza fulgurante que um compromisso sério com a identidade judaica deveria acarretar o domínio do hebraico e a vida em Israel. Há na reconquista de Scholem do passado cabalístico para o conhecimento judaico e para a história geral do pensamento religioso um veemente “sionismo”, um retorno a uma Terra Santa. Benjamin manteve um flerte ardoroso com a ideia de emigrar para a terra que então era a Palestina. Ansioso, várias vezes informou Scholem sobre suas intenções de estudar hebraico. Em 1929, e novamente nos meados dos anos 1930, sob a égide de um impaciente Scholem, Benjamin declarou que estava prestes a deixar uma Europa condenada. Nada resultou desses impulsos prementes e inquietos. Scholem foi para Jerusalém em 1923. Morreu em 1982, cercado de honras, cumprida sua grande obra. Benjamin, reduzido ao absoluto desespero, perseguido, seus escritos dispersos ou fragmentados, se suicidou num buraco sórdido na fronteira franco-espanhola em 1940. (Corria o boato de que os refugiados isolados que tinham cruzado a fronteira seriam entregues à polícia francesa e ficariam à mercê dos nazistas.)
Mas não poderia ser de outra maneira. Walter Benjamin foi um dos últimos e mais inspirados centro-europeus, sendo que essa centralidade indica uma noção geográfica — os espaços definidos por Frankfurt-Viena-Praga-Paris para o judaísmo emancipado — e o conceito do gênio histórico europeu tal como se expressava em francês e em alemão. Como Adorno, como Ernst Bloch e outros fundadores e testemunhas da chamada Escola de Frankfurt de teoria crítica e filosofia da cultura, Benjamin nunca poderia separar sua identidade poliglota, seu papel na intelectualidade, seu próprio físico — o do sábio de botequim por excelência — da fatalidade europeia. E adiou demais a chance de fugir para os eua — chance que seus pares e amigos (Adorno, Bloch, Horkheimer, Brecht) agarraram com maior ou menor senso de oportunidade.
Um fio central em Correspondência — Walter Benjamin e Gershom Scholem, traduzida por Gary Smith e André Lefevere (Schocken, 1989), é a diferença fascinante entre o Messias de Scholem e o Messias de Benjamin. Para Scholem, o messiânico — cujas formas variadas e imensamente ricas ele havia diagnosticado em monografias, em seu magistral As grandes correntes da mística judaica e, acima de tudo, em seu épico de Sabatai Tzvi — era inseparável de um retorno físico, historicamente fundado, a Israel. Foi com o prazer de uma travessura que Scholem insinuou no repertório cabalístico uma parábola que ele mesmo tinha inventado: uma vinda do Messias que alteraria apenas muito ligeiramente as coisas e portanto passaria despercebida — exceto em Israel, cuja criação como Estado seria em si a melhor prova disponível do advento messiânico. Já a visão de Benjamin, que se concentrava na imagem do Angelus Novus, de Paul Klee — o anjo da história, que uma ventania afasta de nós —, era totalmente diversa. O messiânico não significava o sionismo. Implicava a recuperação das vozes dos humilhados e vencidos, soterradas pela história e pelos historiadores. Restauraria a língua adâmica perdida que subjaz secretamente a todas as línguas humanas, e cuja presença generativa fazia ao mesmo tempo possível e impossível o ato da tradução. Para Benjamin, a vinda do Messias se revelaria como uma imagem de transparência rumo à verdade, à justiça social, à racionalidade amorosa se estendendo além do judaísmo e do renascimento de Israel (por milagroso que o considerasse).

A tradução dessa correspondência tem a virtude da clareza. (São 128 cartas ao todo; algumas anteriores a 1932 parecem ter se perdido, e há um toque de prestidigitador na descoberta de Scholem em outubro de 1966, na Alemanha Oriental, de seu lado da correspondência.) Ela não transmite (nem poderia transmitir) de maneira convincente as diferenças de tom dos dois escritores — diferenças que revelam dissonâncias de índole permanentes. Mesmo sob o tom mais afetuoso — às vezes arreliador — de Scholem há uma ponta de autoridade, de exasperação diante da ilusão e do que lhe parece falta de lógica. O tom de Benjamin é de faiscante sutileza, de esforço aparentemente evasivo, mas finamente interiorizado, de dar expressão a coisas intangíveis, a ambiguidades inevitáveis, a um vibrato de percepções e intenções que ele mesmo denominou de “aura”.
No começo da primavera de 1934, por exemplo, a preocupação clarividente de Scholem com a situação europeia e a incapacidade de Benjamin de prover ao indispensável da vida quase resultaram no rompimento da amizade. Escreve Benjamin em 3 de março:

Minha existência está chegando ao limite do precário e a cada dia depende diretamente do bom Deus — para dizer a mesma coisa de forma mais prudente. E com isso não me refiro apenas à ajuda que consigo de tempos em tempos, mas também à minha própria iniciativa, mais ou menos voltada para um milagre.

A espera de um milagre tinha um teor ao mesmo tempo terapêutico — mantinha-o vivo — e incapacitante, na medida em que reduzia ainda mais a utilidade, o estatuto moral e metafísico, da simples ação racional. Para Scholem, a questão de uma possível ajuda divina era pragmática. Ele lutou para conseguir uma colocação profissional para Benjamin em Israel; batalhou para conseguir a publicação ou a divulgação das obras de Benjamin. Mas sua irritação é inequívoca. “Como vai se desenvolver realmente sua situação está ficando cada vez mais incerto para mim”, escreveu Scholem, e “Muitos fatos de nossa correspondência devem lhe ter fugido da memória, pois você não lembra mais o que o levou a tentar explicar sua situação. […] Estamos discutindo em posições falsas, e isso não me agrada”.
Além disso, não eram somente as vacilações de Benjamin em relação ao refúgio na Palestina que exasperavam Scholem, mas, a partir de 1924, o envolvimento extremamente complicado de Benjamin com o marxismo. Scholem sabia de seu envolvimento pessoal e erótico com uma comunista. Sabia da viagem do amigo a Moscou em 1926. O irmão mais velho de Scholem tinha desempenhado um papel trágico e muito importante no Partido Comunista alemão. Scholem se ressentia muito da influência cada vez maior da obra e da pessoa de Brecht sobre Benjamin (o qual passou semanas cruciais com Brecht no exílio dinamarquês). A política de Scholem, se é que havia, era a do desencantamento, da ironia ou até sarcasmo irredutível diante do espetáculo inveterado da loucura e barbárie humanas.
Mas Scholem interpretou mal o recurso herético e profundamente inventivo de Benjamin às teorias marxistas da história e aos instrumentos retóricos do materialismo dialético. Algumas amizades dentro do comunismo ajudaram Benjamin a aclarar as sombras de sua solidão quase anormal. Em vários pontos da enormidade política dos anos 1930, o comunismo e até o stalinismo pareciam oferecer a única resistência efetiva à escalada triunfante do fascismo e do nazismo. Scholem não teve acesso ao diário de Moscou de Benjamin, publicado postumamente. Ali teria encontrado indicações claras do ceticismo de Benjamin, de sua aversão ao clima dominante na sociedade soviética. Mas tal aversão não negava a força inspiradora das análises marxianas do capitalismo oitocentista nem o estímulo a uma interpretação materialista econômica da criação e disseminação de obras artísticas e intelectuais que encontramos na estética marxista. Os estudos pioneiros de Benjamin sobre a reprodutibilidade das obras de arte para as massas, por meio da fotografia e do fac-símile em cores, sua compreensão penetrante do jogo entre a alta cultura e o mercado, suas análises preliminares para uma magnum opus que havia planejado — uma anatomia de “Paris, a Capital do Século XIX” — se fundavam numa luta pessoal com os princípios marxistas. Daí as afinidades com o marxismo personalizado, estrategicamente astuto, das peças e panfletos críticos de Brecht.
E sobretudo Scholem estacava diante do que intuía a contragosto ser, em Benjamin, uma interpretação do marxismo como variante natural da escatologia messiânica judaica — da concentração judaica na esperança milenarista. Rigorosamente informado, Scholem via a opressão política, a miséria humana a que o marxismo-leninismo e seus companheiros de percurso estavam levando. Não quis perceber as dimensões trágicas dessa degeneração dos ideais messiânicos, do apelo utópico, porém incessante, à justiça social, como já era eloquente nos Profetas. A anunciação em parte mística de Benjamin quanto a uma “recuperação da história” — da imposição de critérios morais à história — tinha nascido justamente de um sonho de Moscou-Jerusalém. Sem esse fatídico híbrido, ele não teria produzido muitos de seus melhores escritos — em especial sua última produção, obra-prima de elegância e concisão, “Teses sobre a filosofia da história”. Muito depois, refletindo sobre o gênio de Benjamin e a sucessão de milagres que permitiram a sobrevivência dos textos “perdidos”, Scholem iria reconhecer (ouvi ao vivo) que a sinuosa dança de seu amigo com o marxismo e ao redor dele tinha sido de algum proveito. Na época, parecia-lhe uma traição e um desperdício vulgar de dotes raros.

O que manteve o andamento do diálogo, entre seus altos e baixos, o que lhe dá estatura duradoura são as sucessivas discussões de Kafka. Talvez de maneira subconsciente, toda vez que suas relações estavam tensas, Benjamin e Scholem voltavam a Kafka. O resultado é uma série de leituras — de delineamentos críticos — de originalidade muito penetrante. Em comparação, os truques interesseiros do atual desconstrucionismo ou do pós-estruturalismo chegam a criar constrangimento. Incansavelmente, Scholem e Benjamin põem a operar na esquiva inesgotabilidade de Kafka um poder de imaginação quase equivalente ao de seu objeto. A vontade é de citar uma página após a outra. Limito-me a dois exemplos. Aqui está Scholem escrevendo para Benjamin em 20 de setembro de 1934 (sobre O castelo):

E no entanto as mulheres de Kafka trazem os sinais de outras coisas a que você não presta quase atenção. É evidente que o castelo ou a burocracia com a qual elas mantêm uma relação horrivelmente indefinível, mas exata, não é o mundo primal de que você fala, se é que ele existe. Se fosse o mundo primal, que necessidade então haveria de transformar a relação das mulheres com ele num enigma? Tudo ficaria claro, enquanto na realidade nada é claro e a relação delas com a burocracia é muito instigante, ainda mais porque a própria burocracia chega a advertir contra elas (por exemplo, pela boca do capelão). Em vez disso, o castelo ou burocracia é algo com que o “mundo primal” deve primeiramente manter alguma relação.
Você pergunta o que eu entendo pelo “nada da revelação”. Entendo por ele um estado em que a revelação aparece sem significado, em que ela ainda afirma a si mesma, em que tem validade, mas nenhuma significação. Um estado em que a riqueza de significado se perdeu e o que está em processo de aparição (pois a revelação é esse processo) mesmo assim não desaparece, embora esteja reduzido ao ponto zero de seu conteúdo.

A distinção entre validade e significação é da máxima pertinência a todas as obras de Kafka.

Ou tome-se a grande carta — um ensaio de extrema densidade — de Benjamin, datada de 12 de junho de 1938. Mesmo uma longa citação não faz jus à sua profundidade:

Kafka entreouviu a tradição, e quem ouve dificilmente deixa de ver.
A principal razão pela qual esse entreouvir exige tanto esforço é que apenas os sons mais indistintos chegam ao ouvinte. Não há nenhuma doutrina que se possa aprender, nenhum conhecimento que se possa preservar. As coisas que o ouvinte quer captar enquanto passa não se destinam aos ouvidos de ninguém. Isso supõe um estado de coisas que caracteriza negativamente as obras de Kafka com uma grande precisão. […] A obra de Kafka representa o adoecimento da tradição […].
Disso Kafka tinha absoluta certeza: primeiro, que, se for para ajudar, o sujeito deve ser um idiota; segundo, apenas a ajuda de um idiota é uma verdadeira ajuda. A única coisa incerta é: tal ajuda ainda pode ter alguma serventia para um ser humano? […] Assim, como coloca Kafka, há uma quantidade infinita de esperança, mas não para nós. Essa declaração realmente contém a esperança de Kafka; é a fonte de sua serenidade radiante.

Note-se — e isso é típico das alegorias de Benjamin sobre a leitura — como a própria análise se torna uma parábola ao estilo de Kafka.
Uma imensa tristeza sombreia mesmo a carta mais informal e momentaneamente otimista. Elas foram enviadas quando a Europa ingressou no pesadelo. Além disso, na Palestina, Scholem não só viveu diretamente a violência dos primeiros choques entre árabes e judeus, mas teve também claras intuições das inimizades intratáveis que se estendiam à frente. E no entanto, à sua maneira, é um livro jubiloso. Celebra o elixir da paixão intelectual — a capacidade do cérebro e do sistema nervoso dos homens de mergulhar em interesses abstratos, especulativos, mesmo ou principalmente diante da dor e da adversidade pessoal. Demonstra com prodigalidade a força por trás da aparente fraqueza, que muitas vezes é a senha que permite a sobrevivência do humanismo e dos perseguidos. Aqui, por fim, e não na placa lacônica num austero muro de cemitério, Walter Benjamin tem seu in memoriam. E é totalmente indissociável da maravilha, talvez mais profunda do que o amor, que é a amizade.
22 de janeiro de 1990

George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos

terça-feira, 17 de março de 2026

Foi Deus Quem Fez Você | Chitãozinho & Xororó e Vanessa da Mata

 

Charlatões

Um amigo meu diz que em todos nós existe o charlatão. Concordei. Sinto em mim a charlatã me espreitando. Só não vence, primeiro porque não é realmente verdade, segundo porque minha honestidade básica até me enjoa. Há outra coisa que me espreita e que me faz sorrir: o mau gosto. Ah, a vontade que tenho de ceder ao mau gosto. Em quê? Ora, o campo é ilimitado, simplesmente ilimitado. Vai desde o instante em que se pode dizer a palavra errada exatamente quando ela cairia pior — até o instante em que se diriam palavras de grande beleza e verdade quando o interlocutor está desprevenido e levaria um susto de constrangimento, e haveria o silêncio depois. Em que mais? Em se vestir, por exemplo. Não necessariamente o óbvio do equivalente a plumas. Não sei descrever, mas saberia usar um mau gosto perfeito. E em escrever? A tentação é grande, pois a linha divisória é quase invisível entre o mau gosto e a verdade. E mesmo porque, pior que o mau gosto em matéria de escrever, é certo tipo horrível de bom gosto. Às vezes, de puro prazer, de pura pesquisa simples, ando sobre a linha bamba.
Como é que eu seria charlatã? Eu fui, e com toda a sinceridade, pensando que acertava. Sou, por exemplo, formada em direito, e com isso enganei a mim e aos outros. Não, mais a mim que a todos. No entanto, como eu fui sincera: fui estudar direito porque desejava reformar as penitenciárias do Brasil.
O charlatão é um contrabandista de si mesmo. Que é mesmo o que estou dizendo? Era uma coisa, mas já me escapou. O charlatão se prejudica? Não sei, mas sei que às vezes a charlatanice dói e muito. Imiscui-se nos momentos mais graves. Dá uma vontade de não ser, exatamente quando se é com toda a força. Não posso infelizmente me alongar mais nesse assunto.
Disseram-me que um crítico teria escrito que Guimarães Rosa e eu éramos dois embustes, o que vale dizer dois charlatões. Esse crítico não vai entender nada do que estou dizendo aqui. É outra coisa. Estou falando de algo muito profundo, embora não pareça, embora eu mesma esteja um pouco tristemente brincando com o assunto.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Capítulo IV – Sinha Vitória

Cena do filme Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos


Acocorada junto às pedras que serviam de trempe, a saia de ramagens entalada entre as coxas, Sinha Vitória soprava o fogo. Uma nuvem de cinza voou dos tições e cobriu-lhe a cara, a fumaça inundou-lhe os olhos, o rosário de contas brancas e azuis desprendeu-se do cabeção e bateu na panela. Sinha Vitória limpou as lágrimas com as costas das mãos, encarquilhou as pálpebras, meteu o rosário no seio e continuou a soprar com vontade, enchendo muito as bochechas.
Labaredas lamberam as achas de angico, esmoreceram, tornaram a levantar-se e espalharam-se entre as pedras. Sinha Vitória aprumou o espinhaço e agitou o abano. Uma chuva de faíscas mergulhou num banho luminoso a cachorra Baleia, que se enroscava no calor e cochilava embalada pelas emanações da comida.
Sentindo a deslocação do ar e a crepitação dos gravetos, Baleia despertou, retirou-se prudentemente, receosa de sapecar o pêlo, e ficou observando maravilhada as estrelinhas vermelhas que se apagavam antes de tocar o chão. Aprovou com um movimento de cauda aquele fenômeno e desejou expressar a sua admiração à dona. Chegou-se a ela em saltos curtos, ofegando, ergueu-se nas pernas traseiras, imitando gente. Mas Sinha Vitória não queria saber de elogios.
Deu um pontapé na cachorra, que se afastou humilhada e com sentimentos revolucionários.
Sinha Vitória tinha amanhecido nos seus azeites. Fora de propósito, dissera ao marido umas inconveniências a respeito da cama de varas. Fabiano, que não esperava semelhante desatino, apenas grunhira: – “Hum! hum!” E amunhecara, porque realmente mulher é bicho difícil de entender, deitara-se na rede e pegara no sono. Sinha Vitória andara para cima e para baixo, procurando em que desabafar. Como achasse tudo em ordem, queixara-se da vida. E agora vingava-se em Baleia, dando-lhe um pontapé.
Avizinhou-se da janela baixa da cozinha, viu os meninos, entretidos no barreiro, sujos de lama, fabricando bois de barro, que secavam ao sol, sob o pé de turco, e não encontrou motivo para repreendê-los. Pensou de novo na cama de varas e mentalmente xingou Fabiano. Dormiam naquilo, tinham-se acostumado, mas seria mais agradável dormirem numa cama de lastro de couro, como outras pessoas.
Fazia mais de um ano que falava nisso ao marido. Fabiano a princípio concordara com ela, mastigara cálculos, tudo errado. Tanto para o couro, tanto para a armação. Bem. Poderiam adquirir o móvel necessário economizando na roupa e  no querosene. Sinha Vitória respondera que isso era impossível, porque eles vestiam mal, as crianças andavam nuas, e recolhiam-se todos ao anoitecer. Para bem dizer, não se acendiam candeeiros na casa. Tinham discutido, procurando cortar outras despesas. Como não se entendessem, Sinha Vitória aludira, bastante azeda, ao dinheiro gasto pelo marido na feira, com jogo e cachaça. Ressentido, Fabiano condenara os sapatos de verniz que ela usava nas festas, caros e inúteis. Calçada naquilo, trôpega, mexia-se como um papagaio, era ridícula. Sinha Vitória ofendera-se gravemente com a comparação, e se não fosse o respeito que Fabiano lhe inspirava, teria despropositado. Efetivamente os sapatos apertavam-lhe os dedos, faziam-lhe calos. Equilibrava-se mal, tropeçava, manquejava, trepada nos saltos de meio palmo. Devia ser ridícula, mas a opinião de Fabiano entristecera-a muito. Desfeitas essas nuvens, curtidos os dissabores, a cama de novo lhe aparecera no horizonte acanhado.
Agora pensava nela de mau humor. Julgava-a inatingível e misturava-a às obrigações da casa. Foi a sala, passou por baixo do punho da rede onde Fabiano roncava, tirou do caritó o cachimbo e uma pele de fumo, saiu para o copiar. O chocalho da vaca laranja tilintou para os lados do rio. Fabiano era capaz de se ter esquecido de curar a vaca laranja. Quis acordá-lo e perguntar, mas distraiu-se olhando os xiquexiques e os mandacarus que avultavam na campina.
Um mormaço levantava-se da terra queimada. Estremeceu lembrando-se da seca, o rosto moreno desbotou, os olhos pretos arregalaram-se. Diligenciou afastar a recordação, temendo que ela virasse realidade. Rezou baixinho uma ave-maria, já tranquila, a atenção desviada para um buraco que havia na cerca do chiqueiro das cabras. Esfarelou a pele de fumo entre as palmas das mãos grossas, encheu o cachimbo de barro, foi consertar a cerca. Voltou, circulou a casa atravessando o cercadinho do oitão, entrou na cozinha.
É capaz de Fabiano ter-se esquecido da vaca laranja.
Agachou-se, atiçou o fogo, apanhou uma brasa com a colher, acendeu o cachimbo, pôs-se a chupar o canudo de taquari cheio de sarro. Jogou longe uma cusparada, que passou por cima da janela e foi cair no terreiro. Preparou-se para cuspir novamente. Por uma extravagante associação, relacionou esse ato com a lembrança da cama. Se o cuspo alcançasse o terreiro, a cama seria comprada antes do fim do ano. Encheu a boca de saliva, inclinou-se – e não conseguiu o que esperava. Fez várias tentativas, inutilmente. O resultado foi secar a garganta. Ergueu-se desapontada. Besteira, aquilo não valia.
Aproximou-se do canto onde o pote se erguia numa forquilha de três pontas, bebeu um caneco de água. Água salobra.
Iche!
Isto lhe sugeriu duas imagens quase simultâneas, que se confundiram e neutralizaram: panelas e bebedouros. Encostou o fura-bolos à testa, indecisa. Em que estava pensando? Olhou o chão, concentrada, procurando recordar-se, viu os pés chatos, largos, os dedos separados. De repente as duas ideias voltaram: o bebedouro secava, a panela não tinha sido temperada.
Foi levantar o testo, recebeu na cara vermelha uma baforada de vapor. Não é que ia deixando a comida esturrar? Pôs água nela e remexeu-a com a quenga preta de coco. Em seguida provou o caldo. Insosso, nem parecia bóia de cristão. Chegou- se ao jirau onde se guardavam cumbucos e mantas de carne, abriu a mochila de sal, tirou um punhado, jogou-o na panela.
Agora pensava no bebedouro, onde havia um líquido escuro que bicho enjeitava. Só tinha medo da seca.
Olhou de novo os pés espalmados. Efetivamente não se acostumava a calçar sapatos, mas o remoque de Fabiano molestara-a. Pés de papagaio. Isso mesmo, sem dúvida, matuto anda assim. Para que fazer vergonha à gente? Arreliava-se com a comparação.
Pobre do papagaio. Viajar com ela, na gaiola que balançava em cima do baú de folha. Gaguejava: – “Meu louro.” Era o que sabia dizer. Fora isso, aboiava arremedando Fabiano e latia como Baleia. Coitado. Sinha Vitória nem queria lembrar-se daquilo. Esquecera a vida antiga, era como se tivesse nascido depois que chegara à fazenda. A referência aos sapatos abrira-lhe uma ferida – e a viagem reaparecera. As alpercatas dela tinham sido gastas nas pedras. Cansada, meio morta de fome, carregava o filho mais novo, o baú e a gaiola do papagaio. Fabiano era ruim.
Mal-agradecido.
Olhou os pés novamente. Pobre do louro. Na beira do rio matara-o por necessidade, para sustento da família. Naquele momento ele estava zangado, fitava na cachorrinha as pupilas sérias e caminhava aos tombos, como os matutos em dias de festa. Para que Fabiano fora despertar-lhe aquela recordação? Chegou à porta, olhou as folhas amarelas das catingueiras. Suspirou. Deus não havia de permitir outra desgraça. Agitou a cabeça e procurou ocupações para entreter-se. Tomou a cuia grande, encaminhou-se ao barreiro, encheu de água o caco das galinhas, endireitou o poleiro. Em seguida foi ao quintalzinho regar os craveiros e as panelas de losna. E botou os filhos para dentro de casa, que tinham barro até nas meninas dos olhos. Repreendeu-os: – Safadinhos! porcos! sujos como... Deteve-se. Ia dizer que eles estavam sujos como papagaios.
Os pequenos fugiram, foram enrolar-se na esteira da sala, por baixo do caritó, e Sinha Vitória voltou para junto da trempe, reacendeu o cachimbo. A panela chiava; um vento morno e empoeirado sacudia as teias de aranha e as cortinas de pucumã do teto; Baleia, sob o jirau, coçava-se com os dentes e pegava moscas. Ouviam-se distintamente os roncos de Fabiano, compassados, e o ritmo deles influiu nas ideias de Sinha Vitória. Fabiano roncava com segurança. Provavelmente não havia perigo, a seca devia estar longe.
Outra vez Sinha Vitória pôs-se a sonhar com a cama de lastro de couro. Mas o sonho se ligava à recordação do papagaio, e foi-lhe preciso um grande esforço para isolar o objeto de seu desejo.
Tudo ali era estável, seguro. O sono de Fabiano, o fogo que estalava, o toque dos chocalhos, até o zumbido das moscas davam-lhe sensação de firmeza e repouso. Tinha de passar a vida inteira dormindo em varas? Bem no meio do catre havia um nó, um calombo grosso na madeira. E ela se encolhia num canto, o marido no outro, não podiam estirar-se no centro. A princípio não se incomodara. Bamba, moída de trabalhos, deitar-se-ia em pregos. Viera, porém, um começo de prosperidade. Corriam, engordavam. Não possuíam nada: se retirassem, levariam a roupa, a espingarda, o baú de folha e troças miúdos. Mas iam vivendo, na graça de Deus, o patrão confiava neles – e eram quase felizes. Só faltava uma cama. Era o que aperreava Sinha Vitória. Como já não se estazava em serviços pesados, gastava um pedaço da noite parafusando. E o costume de encafuar-se ao escurecer não estava certo, que ninguém é galinha.
Nesse ponto as ideias de Sinha Vitória seguiram outro caminho, que pouco depois foi desembocar no primeiro. Não era que a raposa tinha passado no rabo a galinha pedrês? Logo a pedrês, a mais gorda. Decidiu armar um mundéu perto do poleiro. Encolerizou-se. A raposa pagaria a galinha pedrês.
Ladrona.
Pouco a pouco a zanga se transferiu. Os roncos de Fabiano eram insuportáveis. Não havia homem que roncasse tanto. Era bom levantar-se e procurar uma vara para substituir aquele pau amaldiçoado que não deixava uma pessoa virar-se. Porque não tinham removido aquela vara incômoda? Suspirou. Não conseguiam tomar resolução. Paciência. Era melhor esquecer o nó e pensar numa cama igual à de seu Tomás da bolandeira. Seu Tomás tinha uma cama de verdade, feita pelo carpinteiro, um estrado de sucupira alisado a enxó, com as juntas abertas a formão, tudo embutido direito, e um couro cru em cima, bem esticado e bem pregado. Ali podia um cristão estirar os ossos.
Se vendesse as galinhas e a marrã? Infelizmente a excomungada raposa tinha comido a pedrês, a mais gorda. Precisava dar uma lição à raposa. Ia armar o mundéu junto do poleiro e quebrar o espinhaço daquela sem-vergonha.
Ergueu-se, foi a camarinha procurar qualquer coisa, voltou desanimada e esquecida. Onde tinha a cabeça?
Sentou-se na janela baixa da cozinha, desgostosa. Venderia as galinhas e a marrã, deixaria de comprar querosene. Inútil consultar Fabiano, que sempre se entusiasmava, arrumava projetos. Esfriava logo – e ela franzia a testa, espantada; certa de que o marido se satisfazia com a ideia de possuir uma cama. Sinha Vitória desejava uma cama real, de couro e sucupira, igual à de seu Tomás da bolandeira.

Graciliano Ramos, em Vidas Secas

Hierarquia

Diz que um leão enorme ia andando chateado, não muito rei dos animais, porque tinha acabado de brigar com a mulher e esta lhe dissera poucas e boas.
Eis que, subitamente, o leão defronta com um pequeno rato, o ratinho mais menor que ele já tinha visto. Pisou-lhe a cauda e, enquanto o rato forçava inutilmente pra escapar, o leão gritava: “Miserável criatura, estúpida, ínfima, vil, torpe: não conheço na criação nada mais insignificante e nojento. Vou te deixar com vida apenas para que você possa sofrer toda a humilhação do que lhe disse, você, desgraçado, inferior, mesquinho, rato!” E soltou-o.
O rato correu o mais que pode, mas, quando já estava a salvo, gritou pro leão: “Será que V. Excelência poderia escrever isso pra mim? Vou me encontrar com uma lesma que eu conheço e quero repetir isso pra ela com as mesmas palavras!”
MORAL: Ninguém é tão sempre inferior.
SUBMORAL: Nem tão nunca superior, por falar nisso

Millôr Fernandes, em Fábulas Fabulosas

Garbo: novidades



Um semanário francês publicou a biografia de Greta Garbo, e embora não conte nada de novo sobre esse fenômeno cinematográfico desconhecido da geração mais moça, atraiu a atenção dos leitores.
A este humilde cronista, a publicação interessou sobretudo porque lhe abriu a urna das recordações; e ainda porque lhe permite desvendar um pequeno segredo velho de vinte e seis anos, e os senhores sabem como os segredos, à força de envelhecer, perdem a significação.
Passado um quarto de século, considero-me desobrigado do compromisso assumido naquela tarde de outono, no Parque Municipal de Belo Horizonte, e revelarei uma página — meia página, se tanto — da vida particular de Greta Garbo.
Está dito na biografia de Paris Match que, depois de recusar o papel de vamp em As mulheres adoram diamantes, oferecido por Louis B. Mayer, a extraordinária atriz se fechou em copas, por cinco meses, em seus aposentos do hotel Miramar, em Santa Mônica, até obter aumento de salário. É falso. Durante esse período, Greta viajou incógnita pela América do Sul, possuída de tedium vitae, e foi dar com sua angulosa e perturbadora figura na capital mineira, onde apenas três pessoas lhe conheceram a identidade.
Corria o ano de 1929, e como corria: a luta pela sucessão do presidente Washington Luís assumira desde logo aspecto violento, mas não deixávamos, eu e um grupo de amigos diletos, de frequentar o cineminha local, onde a Garbo, já em pleno fastígio da glória, desbancava todas as “estrelas” do mundo. Certa manhã, pálido e emocionado, o poeta Abgar Renault bateu-me à porta, reclamando cooperação. Uma senhora estrangeira chegaria pelo noturno da Central, às dez horas (isto é, às três da tarde, pois o trem vinha sempre atrasado). Fora-lhe recomendada por um professor sueco, então nos Estados Unidos, com quem Abgar se correspondia a respeito de poetas elisabetianos. Tínhamos de reservar-lhe aposentos no Grande Hotel, do Arcângelo Maletta, e proporcionar-lhe distrações campestres, mas a senhora fazia questão de não travar relações com ninguém e se ele, Abgar, queria os meus serviços, era em razão de nossa fraterna amizade.
Tomamos providências e, à tardinha, vimos descer do carro-dormitório, dentro de um capotão cinza que lhe cobria o queixo, e por trás dos primeiros óculos pretos que uma filha de Eva usou naquelas paragens, um vulto feminino estranho e seco, pisando duro em sapatões de salto baixo. Mal franziu os lábios para cumprimentar o meu amigo, olhou-me como a um carregador, e disse-nos: “I want to be alone”. Depois, manifestou os dentes num largo sorriso, como a explicar: “Mas isso não atinge a vocês”. E de fato, nos dias que se seguiram, mostrou-se cordialíssima conosco, sempre através dos conhecimentos de inglês de Abgar, já então notáveis.
Não tardei, por iluminação poética, a identificar a misteriosa viajante, que dava grandes passeios pela serra do Curral acima, e um dia se dispôs a ir a pé a Sabará, empresa de que a dissuadimos, horrorizados. Revelei a Abgar minha descoberta e ele, arregalando os olhos, suplicou-me, por tudo quanto fosse sagrado para mim, que não contasse a ninguém. Fiz-lhe a vontade. Os outros amigos ignoraram tudo. Capanema, Emílio Moura, Milton Campos, João Pinheiro Filho etc., olhavam-nos surpresos ante aquela relação estranha. Explicamos que se tratava de uma naturalista em férias, miss Gustafsson. E a cidade não soube que hospedava pessoa daquela importância. É facílimo enganar uma cidade.
Apenas o Jorge, chofer árabe que nos servia, arranhando vários idiomas, acabou pescando, por uma conversa entre Abgar e a estrangeira, quem era ela. Intimamo-lo a calar-se, sob pena de o denunciarmos como “prestista”. Éramos amigos do governo, e este tomara posição contra o dr. Júlio Prestes, candidato à Presidência da República. Jorge encolheu-se, talvez por motivos que sempre desaconselham um encontro com a autoridade.
À véspera da partida, nossa amiga levou-nos a jantar no Grande Hotel e — lembro-me perfeitamente — fixou os olhos na mesa vizinha, onde uma família chegada da Bahia abrangia um garotinho de cerca de dois anos. Greta mirou a testa larga do guri, e disse pensativamente: “É poeta”. Tive a curiosidade de procurar no livro da gerência o nome da família: Amaral; e do neném: José Augusto. É hoje o poeta e crítico de cinema Van Jafa, que, decerto, ignora esse vaticínio.
Saímos ao entardecer para uma volta no parque, e lá Greta Garbo, mãos nas mãos, pediu-nos que jamais lhe revelássemos a identidade. De resto, ela própria não sabia mais ao certo quem era: as personagens que interpretara se superpunham ao “eu” original. Uma confusão… “Gostaria de ficar entre vocês para sempre, tirando leite das vaquinhas num sítio em Cocais. That’s a dream.” Furtamos um papagaio do parque e o oferecemos à amiga; reencontro essa ave no texto de Paris Match, dizendo: “Hello, Greta” e imitando sua risada, entre gutural e cristalina… Como a vida passa! Mas, agora, não posso calar.

Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira

segunda-feira, 16 de março de 2026

Jorge Drexler | Estar acá y estar ahora

Graça

O mundo é um jardim. Uma luz banha o mundo.
A limpeza do ar, os verdes depois das chuvas,
os campos vestindo a relva como o carneiro a sua lã,
a dor sem fel: uma borboleta viva espetada.
Acodem as gratas lembranças:
moças descalças, vestidos esvoaçantes,
tudo seivoso como a juventude,
insidioso prazer sem objeto.
Insisto no vício antigo — para me proteger do inesperado gozo.
E a mulher feia? E o homem crasso?
Em vão. Estão todos nimbados como eu.
A lata vazia, o estrume, o leproso no seu cavalo
estão resplandecentes. Nas nuvens tem um rei, um reino,
um bobo com seus berloques, um príncipe. Eu passeio nelas,
é sólido. O que não vejo, existindo mais que a carne.
Esta tarde inesquecível Deus me deu. Limpou meus olhos e vi:
como o céu, o mundo verdadeiro é pastoril.

Adélia Prado, em O Coração Disparado