sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Falando sobre jazz | Amaro Freitas no Um Café Lá Em Casa

A justiça, a verdade, a temperança e a fortaleza

Caso encontre na vida humana algo melhor do que a justiça, a verdade, a temperança e a fortaleza — e do que uma mente satisfeita com aquilo que a possibilita agir racionalmente dentro das condições impostas—, abrace-o com toda sua alma e o aproveite ao máximo.
Caso não se depare com nada supremo em relação à deidade plantada em você — aquela que submete os impulsos a si própria, que examina cuidadosamente as impressões, que se subordina aos deuses, que se preocupa com a humanidade e que, como Sócrates costumava dizer, está livre da persuasão dos sentidos—, não dê lugar a mais nada, pois, se o fizer, perderá a competência de priorizar os bens em sua posse.
É errado rivalizar o aplauso, o poder, o prazer ou similares com aquilo que é racional e politicamente bom. Esses, de repente, elevam-se e nos arrastam — ainda que, em um pequeno grau, possam parecer compatíveis com o que é supremo.
Escolha aquilo que é superior e nada mais.
Mas o que é útil é superior.”
Caso algo lhe tenha utilidade enquanto ser racional, mantenha-o. Caso lhe seja útil somente enquanto animal, esteja ciente e reconheça sem arrogância. De qualquer jeito, tenha cautela e investigue-o por meio de um método confiável.

Marco Aurélio, in Meditações do Imperador Marco Aurélio: Uma Nova Tradução

É da casa do Andrade?


(Voz de homem:)
Alô, é da casa do Andrade?
(Voz de mulher, docemente rouca, com sonoro sotaque do sul de Minas, terminando as palavras na penúltima sílaba:)
Não é, não, senhor. O senhor deve ter discado o número errado.
Desculpe. Para que número eu liguei?
(Percebe-se então que a moça tem um problema de dicção toda vez que há consoante antes do R.)
644341343.
(Sente-se a pausa de dúvida.)
Desculpe. A senhora pode repetir?
644341343.
(Silêncio do outro lado da linha. Ela estranha e diz:)
Alô?
– …Lorena?
(Silêncio. Ele não se surpreende que ela tenha se assustado, já que ele mesmo ainda está assustado com a possibilidade de estar certo.)
Quem tá falando?
Eduardo Mendes.
Meu Deus.
(Pausa longa.)
É você mesmo, Lorena?
(Suspiro.)
– …Sou. Meu Deus… Como você conseguiu meu telefone?
Não consegui. Eu tentei ligar pro Andrade, 644341373. E errei.
Meu Deus. Eduardo… Como pode? Que loucura. Faz quanto tempo? Doze, quinze anos?
(Sem titubear:)
Treze.
Como você está?
Bem. Bem. Você?
Bem também.
Esse número é de São Paulo. Você tá morando aqui?
Tô. Vim há sete anos. Casei com um paulista. Tive o Zé, que tá com três anos. Separei. Tô aqui.
Não acredito. Eu também tenho um Zé. Vai fazer quatro no mês que vem.
(Riem, desnorteados com todo o contexto.)
Que coincidência. Dois Zés. (Hesita.) Você é casado, imagino.
Assino o divórcio hoje à tarde. O Andrade é um amigo que está advogando pra mim nessa confusão toda.
Que pena, Edu. Não é fácil.
(“Edu.”)
É, mas tá tudo bem, a gente achou melhor.
Menos mau.
Menos mau.
(Silêncio.)
Minha Nossa Senhora. Que coisa. Ainda estou sem acreditar nisso tudo. Qual a probabilidade?
Eu diria que nenhuma, Lorena, se não tivesse acontecido.
Eu nunca mais soube de você.
Eu só soube que você entrou no mestrado em Belo Horizonte. E não tinha nem vinte e cinco anos, né? Sempre a garota exemplar.
(Ela riu.)
E virei doutora antes dos trinta!
Não esperaria nada diferente.
Você continua desenhando prédios, senhor engenheiro?
Quase. Hoje eu digo para desenharem prédios.
(Riram.)
Onde você tá morando?
Em Perdizes.
Tá brincando. Eu também! Me mudei com o Zé no começo da semana!
Gente! Não é possível.
Meu Deus.
Cacete. Imagina se é na mesma rua…
Impossível.
Olha, vamos fazer assim, vou contar até três, e a gente diz o nome da rua ao mesmo tempo, tá?
(Ela ria sem parar, mais de nervoso do que de graça.)
Só me falta.
1… 2… 3!
(Juntos:)
Van-der-lei!
(Silêncio.)
Não. Não dá. Vai me dizer que mora no 163 também?
Puta merda.
(Silêncio de muitos segundos.)
Sério. Tô com medo.
Você por acaso não é a moça loira da TR4 prata, é?
(Suspiro incrédulo.)
Sou.
Puta merda. Vi seu vulto na garagem há, tipo, uma hora. Ia ligar pro porteiro pra avisar que seu vidro ficou aberto.
Edu. Que que tá acontecendo?
Não sei… Não sei.
Isso não é algum tipo de brincadeira, né?
Só se for brincadeira do destino. Desce pra garagem. Eu te encontro lá.

Ruth Manus, in Pega lá uma chave de fenda: e outras divagações sobre o amor

Calmíssima!

Ilustração de Fernanda Bornancin 

Dia 86 de Marcembro. No meio do dia e da noite

Hoje o mensageiro do escritório veio me convocar, já que não estive lá em três semanas. Eu fui apenas por diversão. O Escriturário Chefe pensou que eu fosse cumprimentá-lo humildemente e inventar desculpas; mas eu o encarei com indiferença, nem bravo, nem calmo, e me sentei em meu lugar como se não tivesse notado ninguém. Eu olhei para aquela gentalha de escrivães e pensei “Se vocês apenas soubessem quem está entre vocês! Céus! Que bagunça vocês fariam. Até o Escriturário Chefe se curvaria até o chão na minha frente como ele faz com o Diretor”.
Uma pilha de relatórios foi colocada à minha frente, para que fossem feitos as ementas, mas eu não encostei um dedo sequer.
Após algum tempo houve uma agitação no escritório e se comentou que o Diretor estava chegando. Muitos dos funcionários competiam para chamar atenção; mas eu não me movi. Quando ele chegou à nossa sala, cada um correu a abotoar os casacos; mas eu nem pensei em fazer algo do tipo. O que é o Diretor para mim? Devo me levantar perante ele? Nunca. Que tipo de Diretor ele é? Ele é uma tampa de garrafa e não um diretor. Uma simples e comum tampa de garrafa – nada mais.
Eu me diverti quando me trouxeram um documento para assinar. Eles pensaram que eu simplesmente escreveria o meu nome – “fulano de tal, Conselheiro”. E por que não? Mas no topo da página, onde o Diretor geralmente escreve o seu nome, eu anotei, em letras grandes “Ferdinando VIII”. Você deveria ver o silêncio reverencial que se fez. Mas eu fiz um gesto e disse “Cavalheiros, nada de cerimônia, por favor!”. Então eu saí e tomei o rumo da casa do Diretor.
Ele não estava em casa. O mordomo não quis me deixar entrar, mas eu falei com ele de um jeito que o fez ceder.
Eu fui direto ao vestíbulo da Sophie. Ela estava sentada na frente do espelho. Quando ela me viu, pulou da cadeira e deu um passo para trás; mas eu não contei para ela que eu era o Rei da Espanha.
Mas eu contei para ela que a felicidade a aguardava, além do que ela poderia imaginar; e que apesar das tramas dos nossos adversários nós deveríamos nos unir. Isso era tudo o que eu queria lhe dizer, e eu saí. Oh, que criaturas astutas são as mulheres! Agora eu percebi o que a mulher realmente é. Até agora ninguém sabia quem uma mulher ama; eu sou o primeiro a descobrir – ela ama o demônio – e isso é tudo. Você vê uma mulher usando seus binóculos no teatro, de um camarote na primeira fila. Alguém pensaria que ela observa aquele cavalheiro ostentando suas medalhas. Nem um pouco! Ela está observando o demônio que fica atrás dele. Ele se esconde ali e acena para ela com o dedo. E ela se casa com ele – efetivamente – ela se casa com ele!
Essa é toda a sua ambição e o motivo é que sob a língua existe uma pequena bolha na qual há uma minhoquinha do tamanho da cabeça de um alfinete. E isso é preparado por um médico na Rua do Feijão; Eu não lembro o nome dele no momento, mas isso é tão certo que, juntamente com uma parteira, ele quer espalhar o islamismo pelo mundo todo, e em resposta um grande número de pessoas na França já adotou a crença de Maomé.

Nikolai Gogol, in Diário de um louco

Pare de olhar para as minhas tetas, senhor

Big Bart era o sujeito mais malvado do Oeste. Tinha a pistola mais rápida do Oeste e havia fodido mais mulheres do que qualquer outro no Oeste. Não gostava de banho, bobagens e nem de ser o segundo melhor. Também era o chefe de uma caravana que ia para o Oeste e não havia um homem da sua idade que tivesse matado mais índios, trepado com mais mulheres ou matado mais brancos.
Big Bart era o melhor e ele sabia disso, todo mundo sabia. Até seus peidos eram excepcionais, mais altos do que a campainha que anunciava a janta, e ele tinha o pau grande. O que Big Bart fazia era levar a caravana em segurança, foder as mulheres, matar alguns homens e então voltar para recarregar a caravana. Tinha uma barba negra, um cu sujo e dentes amarelos e radiantes.
Tinha acabado de foder a jovem esposa de Billy Joe até deixá-la com as pernas frouxas, enquanto obrigava Billy Joe a ficar olhando. Fez a jovem esposa falar com Billy Joe enquanto a fodia. Fez com que ela gritasse:
Ah, Billy Joe, todo esse caralho enfiado em mim, da minha buceta até a minha garganta, mal posso respirar! Billy Joe, me salve! Não, Billy Joe, não me salve!
Depois que Big Bart gozou, fez com que Billy Joe lavasse seu pau, e então foram todos para um grande jantar de toucinho, ervilhas e biscoitos.
No dia seguinte, encontraram uma carroça que fazia sozinha o caminho pela pradaria. Um garoto magricelo de aproximadamente dezesseis anos com um caso sério de acne estava nas rédeas. Big Bart se aproximou e conduziram lado a lado.
Qual é, garoto – ele disse.
O garoto não respondeu.
Estou falando com você, garoto...
Vai tomar no cu – disse o garoto.
Sou Big Bart.
Vai tomar no cu, Big Bart – disse o garoto.
Qual o seu nome, filho?
Pode me chamar de “Kid”.
Olha, Kid, não há nenhuma chance de um homem conseguir passar por este território indígena com uma única carroça.
Pretendo conseguir – disse Kid.
Ok. É a sua bunda que está em jogo, Kid – disse Big Bart. Enquanto se afastava, os panos da carroça abriram e de lá saiu uma jovenzinha com cem centímetros de peito e um belo e grande traseiro e olhos como os do céu após uma boa chuva. Ela pôs os olhos em Big Bart, e o caralho dele estremeceu contra a protuberância da sela.
Para o seu próprio bem, Kid, você vem conosco.
Vá se foder, velhote – disse Kid –, não aceito conselhos de velhos de cueca suja.
Já matei homens só por piscarem seus olhos – disse Big Bart.
Kid cuspiu no chão. Então espichou a mão e coçou o saco.
Velho, você me aborrece. Desaparece da minha frente ou vou deixá-lo parecido com um pedaço de queijo suíço.
Kid – disse a garota se inclinando sobre ele, uma de suas tetas escapou, dando uma ereção à luz do sol. – Kid, acho que o homem está certo. Sozinhos não teremos nenhuma chance contra aqueles índios filhos da puta. Não seja um imbecil. Diga ao homem que iremos juntos.
Iremos juntos – disse Kid.
Qual o nome da sua garota? – perguntou Big Bart.
Orvalho de Mel – disse Kid.
E pare de olhar para as minhas tetas, senhor – disse Orvalho de Mel –, ou vou espancá-lo até a morte.
As coisas ficaram bem por um tempo. Houve uma escaramuça com os índios no cânion Blueball; 37 índios foram mortos, um capturado. Nenhuma baixa americana. Big Bart comeu o cu do índio capturado e depois o contratou como cozinheiro. Houve outra escaramuça no cânion Clap, 37 índios foram mortos, um capturado. Nenhuma baixa americana. Big Bart comeu o cu...
Era óbvio que Big Bart sentia tesão por Orvalho de Mel. Não podia tirar os olhos dela. Aquele rabo, o grande problema era o rabo. Uma vez, de tanto olhar, caiu de seu cavalo e um dos dois cozinheiros indígenas riu. Ficaram apenas com um cozinheiro indígena.
Um dia Big Bart enviou Kid com um grupo de caça para pegarem alguns búfalos. Big Bart esperou até que eles se afastassem então aproximou-se da carroça de Kid. Saltou para o assento e empurrou os panos para trás e entrou. Orvalho de Mel estava agachada no centro da carroça se masturbando.
Jesus, tesudinha – disse Big Bart –, não cometa esse desperdício.
Saia já daqui – disse Orvalho de Mel, tirando o dedo e o mostrando para Big Bart –, saia daqui e me deixe fazer o que quero!
Seu homem não está dando conta de você, Orvalho de Mel!
Ele está dando conta de mim, idiota, acontece que eu não consigo me satisfazer. Depois das minhas regras fico muito excitada.
Escute, tesudinha...
Vai se foder!
Escute, garota, olhe...
E ele botou sua britadeira pra fora. Estava roxa e balançava pra frente e parar trás como um pêndulo de relógio do tempo do vovô. Gotinhas de cuspe caíram no chão.
Orvalho de Mel não podia tirar os olhos daquele instrumento. Finalmente ela disse:
Você não vai meter essa merda em mim!
Diga isso como se realmente quisesse dizer isso, Orvalho de Mel.
VOCÊ NÃO VAI METER ESSA MERDA EM MIM!
Mas por quê? Por quê? Dê uma olhada nele.
Estou olhando!
Mas por que não quer?
Porque estou apaixonada pelo Kid.
Amor? – disse Big Bart rindo. – Amor? Amor é um conto de fadas para idiotas! Olha bem para essa fantástica foice! Isso ganha do amor sempre!
Amo Kid, Big Bart.
E veja a minha língua – disse Big Bart –, a melhor língua do Oeste.
Colocou a língua para fora e demonstrou alguns movimentos.
Eu amo o Kid – disse Orvalho de Mel.
Bem, vá se foder – disse Big Bart e correu e se atirou em cima dela.
Foi um trabalho do cão para enfiar o pau nela e, quando conseguiu, Orvalho de Mel gritou. Deu sete bombadas e então sentiu que estava sendo puxado para fora.
ERA KID. DE VOLTA DA CAÇADA.
Pegamos o seu búfalo, seu filho da puta. Agora, se você colocar suas calças e sair, acertaremos o resto.
Tenho o gatilho mais rápido do Oeste – disse Big Bart.
Vou abrir um buraco tão grande em você que seu cu vai parecer um poro em sua pele – disse Kid. – Vamos lá, vamos resolver isso. Estou com fome para o jantar. Essa caçada de búfalo me abriu o apetite...
Os homens sentaram ao redor da fogueira observando. Havia uma certa vibração no ar. As mulheres ficaram nas carroças, rezando, se masturbando e bebendo gim. Big bart tinha 34 marcas em sua arma e péssima memória. Kid não tinha nenhuma marca em sua arma. Mas tinha uma confiança que poucos já haviam visto antes. Big Bart parecia o mais nervoso dos dois. Tomou um gole de uísque, bebendo metade do frasco, então caminhou até Kid.
Olhe, Kid...
Fala, filho da puta...
Quero dizer, por que perder a cabeça por uma coisa dessas?
Vou estourar suas bolas, velho!
Por quê?
Você estava se metendo com a minha mulher, velho!
Escute, Kid, não entende o que aconteceu? A fêmea nos colocou um contra o outro. Estamos entrando no jogo dela.
Não quero ouvir sua merda, paizinho! Agora recue e saque! Já chega!
Kid...
Recue e saque!
Os homens na fogueira ficaram tensos. Um leve vento soprou do Oeste e cheirava a merda de cavalo. Alguém tossiu. As mulheres agachadas em suas carroças, bebendo gim, rezando e se masturbando. O crepúsculo chegava.
Big Bart e Kid estavam a trinta passos um do outro.
Saque, titica de galinha – disse Kid –, saque, seu titica de galinha, molestador de mulheres!
Discretamente surgiu uma mulher por entre os panos de uma carroça com um rifle. Era Orvalho de Mel. Ela apoiou o rifle no ombro e fez mira pelo cano.
Vamos, seu estuprador de merda – disse Kid –, SAQUE!
A mão de Big Bart bateu levemente no coldre. Um tiro soou pelo crepúsculo. Orvalho de Mel baixou seu rifle fumegante e voltou para dentro da carroça coberta. Kid estava morto no chão, um buraco em sua testa. Big Bart colocou sua arma, que não tinha sido usada, de volta no coldre e caminhou a passos largos para a carroça. A lua estava alta.

Charles Bukowski, in Ao sul de lugar nenhum

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Moacyr Luz | Lunar (Aldir Blanc Inédito)

Um sonho

Eu tive um sonho esta noite que não quero esquecer,
por isso o escrevo tal qual se deu:
era que me arrumava pra uma festa onde eu ia falar.
O meu cabelo limpo refletia vermelhos,
o meu vestido era de um tom azul, cheio de panos, lindo,
o meu corpo era jovem, as minhas pernas gostavam
do contato da seda. Falava-se, ria-se, preparava-se.
Todo movimento era de espera e aguardos, sendo
que depois de vestida, vesti por cima um casaco
e colhi do próprio sonho, pois de parte alguma
eu a vira brotar, uma sempre-viva amarela,
que me encantou pelo seu miolo azul, um azul
de céu limpo sem as reverberações, de um azul
sem o ‘z’, que o ‘z’ nesta palavra tisna.
Não digo azul, digo blue, a ideia exata
de sua seca maciez. Pus a flor no casaco
que só para isto existiu, assim como o sonho inteiro.
Eu sonhei uma cor.
Agora, sei.

Adélia Prado

Do amor

Penso saber que o amor não tem nada que ver com a idade, como acontece com qualquer outro sentimento. Quando se fala de uma época a que se chamaria de descoberta do amor, eu penso que essa é uma maneira redutora de ver as relações entre as pessoas vivas. O que acontece é que há toda uma história nem sempre feliz do amor que faz que seja entendido que o amor numa certa idade seja natural, e que noutra idade extrema poderia ser ridículo. Isso é uma ideia que ofende a disponibilidade de entrega de uma pessoa a outra, que é em que consiste o amor.
Eu não digo isto por ter a minha idade e a relação de amor que vivo. Aprendi que o sentimento do amor não é mais nem menos forte conforme as idades, o amor é uma possibilidade de uma vida inteira, e se acontece, há que recebê-lo. Normalmente, quem tem ideias que não vão neste sentido, e que tendem a menosprezar o amor como fator de realização total e pessoal, são aqueles que não tiveram o privilégio de vivê-lo, aqueles a quem não aconteceu esse mistério.

José Saramago, in As palavras de Saramago

O Impressionismo de Monet

Vaso de Peônias (1882), de Claude Monet

Cascas de barbatimão

Eu ia para Araxá, isto foi em 1936, ia fazer uma reportagem para um jornal de Belo Horizonte. O trem parou numa estação, ficou parado muito tempo, ninguém sabia por quê.
Saltei para andar um pouco lá fora. Fazia um mormaço chato. Vi uma porção de cascas de árvores. Perguntei o que era aquilo, e me responderam que eram cascas de barbatimão que estavam ali para secar. Voltei para meu assento no trem e ainda esperei parado algum tempo. A certa altura peguei um lápis e escrevi no meu caderno: “Cascas de barbatimão secando ao sol.”
Perguntei a algumas pessoas para que serviam aquelas cascas. Umas não sabiam; outras disseram que era para curtir couro, e ainda outras explicaram que elas davam uma tinta avermelhada muito boa.
Como repórter, sempre tomei notas rápidas, mas nunca formulei uma frase assim para abrir a matéria — “cascas de barbatimão secando ao sol”. Não me lembro nunca de ter aproveitado esta frase. Ela não tem nada de especial, não é de Euclides da Cunha, meu Deus, nem de Machado de Assis; podia ser mais facilmente do primeiro Afonso Arinos, aquele do buriti. Ela me surgiu ali, naquela estaçãozinha da Oeste de Minas, não sei se era Divinópolis ou Formiga.
Um dia, quando eu for chamado a dar testemunho sobre a minha jornada na face da terra, que poderei afirmar sobre os homens e as coisas do meu tempo? Talvez me ocorra apenas isto, no meio de tantas fatigadas lembranças: “cascas de barbatimão secando ao sol”.

Rubem Braga, in Recado de primavera

Quasimodo

A terra da Itália guarda as vozes de seus antigos poetas em suas puríssimas entranhas. Ao pisar o solo das campinas, ao cruzar os parques onde a água cintila, ao atravessar as areias de seu pequeno oceano azul, pareceu-me ir pisando substâncias diamantinas, cristais secretos, todo o fulgor guardado pelos séculos. A Itália deu forma, som, graça e arrebatamento à poesia da Europa; tirou-a de sua primeira forma informe, de sua rusticidade vestida de sotaina e armadura. A luz da Itália transformou as vestimentas esfarrapadas dos jograis e a ferragem das Canções de Gesta em um rio caudaloso de diamantes cinzelados.
Para nossos olhos de poetas recém-chegados à cultura, vindos de países onde as antologias começam com os poetas do ano 1880, era um assombro ver nas antologias italianas a data de 1230 e tantos, 1310 ou 1450 e – entre estas datas – os tercetos deslumbrantes, o apaixonado atavio, a profundidade e a pedraria dos Alighieri, Cavalcanti, Petrarca, Poliziano.
Estes nomes e estes homens emprestaram luz florentina ao nosso doce e poderoso Garcilaso de la Vega, ao suave Boscán, iluminaram Góngora e tingiram com seu dardo de sombra a melancolia de Quevedo, moldaram os sonetos de William Shakespeare da Inglaterra e inflamaram as essências da França, fazendo florescer as rosas de Ronsard e du Bellay.
Assim pois, nascer em terras de Itália é empresa difícil para um poeta, empresa estrelada que implica assumir um firmamento de heranças resplandecentes.
Conheço há anos Salvatore Quasimodo e posso dizer que sua poesia representa essa consciência que para nós pareceria fantasmagórica por sua carga pesada e ardente. Quasimodo é um europeu que dispõe para a ciência certa do conhecimento e do equilíbrio de todas as armas da inteligência. No entanto, sua posição de italiano central, de protagonista atual de um intermitente mas inesgotável classicismo, não o converteram em um guerreiro preso dentro de sua fortaleza. Quasimodo é um homem universal por excelência, que não divide o mundo belicosamente em Ocidente e Oriente mas sim que considera, como absoluto dever contemporâneo, apagar as fronteiras da cultura e estabelecer como dons indivisíveis a poesia, a verdade, a liberdade, a paz e a alegria.
Em Quasimodo unem-se as cores e os sons de um mundo melancolicamente sereno. Sua tristeza não significa a derrotada insegurança de Leopardi mas sim o recolhimento germinal da terra na tarde, essa unção que adquire a tarde quando os perfumes, as vozes, as cores e os sinos protegem o trabalho das sementes mais profundas. Amo a linguagem recolhida deste grande poeta, seu classicismo e seu romantismo e sobretudo admiro nele sua própria impregnação na continuidade da beleza, assim como o poder de transformar tudo em uma linguagem de verdadeira e comovedora poesia.
Por cima do mar e da distância levanto uma fragrante coroa feita com folhas de Araucana e a deixo voando no ar para que a levem o vento e a vida, deixando-a sobre a fronte de Salvatore Quasimodo. Não é a apolínea coroa de louros que tantas vezes vimos nos retratos de Francesco Petrarca. É uma coroa de nossos bosques inexplorados, de folhas que no entanto não têm nome, encharcadas pelo orvalho de auroras austrais.

Pablo Neruda, in Confesso que vivi

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Anésia

A luva de beisebol do Allie


O jantar aos sábados era sempre o mesmo lá no Pencey. Devia ser considerado algo de fabuloso, pois era o único dia em que serviam bife. Aposto que só faziam isso porque uma porção de pais de alunos visitavam o colégio aos domingos, e o velho Thurmer com certeza imaginava que a mãe de todo mundo ia perguntar ao filhinho querido o que é que ele tinha comido no jantar – e ele responderia: “Bife”. Eram uns safados. Valia a pena ver os tais bifes: umas porcariazinhas duras, sem caldo, que a gente mal conseguia partir. Vinham sempre acompanhados de um purê de batata todo encalombado, e a sobremesa era um pudim nojentérrimo que ninguém comia, a não ser talvez os meninos do primário, por inexperiência, ou sujeitos como o Ackley, que comiam qualquer droga.
Mas até que estava bonito quando saímos do refeitório. Já havia uns dez centímetros de neve no chão e continuava a nevar pra cachorro. Estava um bocado bonito, e nós todos começamos a jogar bolas de neve e fazer uma porção de maluquices. Pensando bem, era um bocado infantil, mas todo mundo estava se divertindo pra valer.
Eu não tinha namorada nem nada, por isso combinei com um amigo meu que era do time de luta-livre, o Mal Brossard, da gente tomar um ônibus para Agerstown, comer qualquer coisa por lá e talvez assistir a uma droga dum filme. Nenhum de nós dois estava com vontade de passar a noite inteira sentado em cima do rabo. Perguntei ao Mal se ele se importava que o Ackley fosse conosco, porque o chato nunca fazia nada nas noites de sábado, a não ser ficar trancado no quarto espremendo as espinhas ou coisa que o valha. Mal respondeu que não se importava, mas que também não se entusiasmava muito com a ideia. Ele não gostava muito do Ackley. De qualquer modo, cada um foi para seu quarto se arrumar e tudo, e enquanto eu calçava minhas galochas gritei na direção do quarto do Ackley, perguntando se ele queria ir ao cinema. Bem que ele podia me escutar através das cortinas do banheiro, mas não respondeu logo. Era o tipo do sujeito que odeia responder imediatamente. Afinal veio até meu quarto, atravessando as cortinas, parou na borda do chuveiro e perguntou quem ia, além de mim. Tinha sempre que saber quem ia sair com ele. Juro que se um dia ele sofresse, um naufrágio e alguém fosse socorrê-lo numa porcaria dum bote, o Ackley não saía da água antes de saber quem estava remando. Eu disse que o Mal Brossard também ia, e ele respondeu:
Aquele cretino... Tá bem, me espera um minuto.
Parecia que estava nos fazendo um grande favor. Demorou umas cinco horas para se aprontar. Enquanto esperava, fui até a janela, abri uma banda e comecei a fazer uma bola de neve, sem luva nem nada. A neve estava um bocado boa pra isso, mas não joguei a bola em coisa nenhuma. Cheguei a começar a jogar, num carro que estava estacionado do outro lado da rua. Mas mudei de ideia, porque o carro estava bonito pra chuchu, todo coberto de branco. Aí fiz pontaria num hidrante, mas o hidrante também estava com um jeitão simpático, todo de branco. Afinal resolvi não jogar em lugar nenhum. Fechei a janela e fiquei andando pelo quarto, endurecendo ainda mais a bola de neve. Algum tempo depois, quando o Brossard, o Ackley e eu tomamos o ônibus, ainda estava com ela na mão. O motorista abriu uma janela e me disse para jogá-la fora. Expliquei a ele que não ia atirar a bola em ninguém, mas não houve jeito dele me acreditar. Ninguém nunca acredita na gente.
O Brossard e o Ackley já tinham visto o filme que estava passando, por isso a única coisa que fizemos foi comer uns sanduíches, dar uma voltinha pelas ruas e tomar o ônibus de volta para o Pencey. De qualquer maneira, pouco me importava de não ver o filme. Parece que era uma comédia, com o Cary Grant e essa droga toda, e, além disso, já tinha ido uma vez ao cinema na companhia daqueles dois. Ambos costumavam rir como hienas por causa de qualquer besteira, mesmo que não tivesse a mínima graça. Não dava nem prazer sentar ao lado deles no cinema.
Quando voltamos para o dormitório deviam ser umas quinze para as nove. O Brossard era maníaco por bridge e começou a procurar parceiros para uma partida. O chato do Ackley, pra variar, plantou-se no meu quarto. Só que, em vez de se sentar no braço da poltrona do Stradlater, deitou na minha cama, com a cara bem em cima do meu travesseiro e tudo. Começou a falar, com aquela voz monótona, ao mesmo tempo que espremia as espinhas. Dei-lhe mil indiretas, mas não consegui me livrar dele. Ficou lá falando, naquela voz monótona, sobre uma garota com quem ele dizia ter tido relações sexuais no verão passado. Já tinha me contado essa estória umas cem vezes, mas cada vez que contava era diferente. Numa hora, a coisa tinha acontecido no Buick do primo dele, na hora seguinte já era na praia. Naturalmente, era tudo mentira. Se alguma vez vi alguém virgem, esse alguém era ele. Duvido mesmo que tivesse alguma vez chegado a bolinar uma garota. Fosse como fosse, afinal tive que chegar para ele e dizer que tinha de escrever uma redação para o Stradlater e que por isso ele tinha de dar o fora porque senão eu não conseguia me concentrar. Acabou indo, mas demorou um bocado, como sempre. Depois que saiu, vesti meu pijama e meu roupão, pus o chapéu de caça na cabeça e comecei a escrever a redação.
O problema é que não consegui imaginar uma sala ou uma casa para descrever, tal como o Stradlater tinha me dito que devia ser. De qualquer maneira, não sou lá muito chegado a esse negócio de descrever salas ou casas. Então resolvi escrever sobre a luva de beisebol do meu irmão Allie. Era um assunto um bocado descritivo, no duro. Meu irmão Allie era canhoto, e por isso tinha uma luva de beisebol para a mão esquerda. Mas o que havia de descritivo nela é que tinha uma porção de poemas escritos em todos os dedos, na cova da luva, por todo canto. Em tinta verde. Ele copiava os poemas na luva porque só assim tinha alguma coisa para ler durante o jogo, quando não havia ninguém arremessando. Ele agora está morto. Teve leucemia e morreu quando nós estávamos em Maine, no dia 18 de julho de 1946. Qualquer um teria que gostar dele. Era dois anos mais moço do que eu, mas umas cinquenta vezes mais inteligente. Os professores dele estavam sempre escrevendo cartas para minha mãe, dizendo que era um grande prazer ter um menino como o Allie na turma. E não era simples conversa mole, era mesmo pra valer. O caso é que ele não era só o mais inteligente da família. Era também o melhor de todos, em muitos sentidos. Nunca ficava aborrecido com ninguém. Dizem que as pessoas de cabelo vermelho estão sempre se irritando com a maior facilidade, mas o Allie nunca brigava, e tinha o cabelo um bocado vermelho. Para mostrar como o cabelo dele era vermelho, eu me lembro que uma vez, nas férias de verão, quando eu tinha uns doze anos, estava jogando golfe (comecei a jogar golfe quando tinha dez anos) e, assim sem mais nem menos, tive a impressão de que se me virasse de repente veria o Allie. Olhei para trás e, batata, lá estava ele sentado na bicicleta, do outro lado da cerca – havia uma cerca que corria em volta de todo o campo – a mais de cem metros, me olhando dar a tacada. Isso mostra como o cabelo dele era vermelho. Mas ele era mesmo um menino bom. Às vezes, na mesa de jantar, lembrava de um troço qualquer e ria tanto que quase caía da cadeira. Eu só tinha uns treze anos, e meus pais resolveram que eu precisava ser psicanalisado e tudo, porque quebrei todas as janelas da garagem. Mas realmente acho que eles tinham razão. Dormi na garagem na noite em que ele morreu e quebrei a droga dos vidros todos com a mão, sei lá porquê. Tentei até arrebentar os vidros da camioneta que nós tínhamos naquele verão, mas a essa altura minha mão já estava quebrada e tudo, e não consegui. Reconheço que foi o tipo da coisa estúpida de se fazer, mas eu nem sabia direito o que estava fazendo, e vocês não conheciam o Allie. Minha mão ainda dói de vez em quando, nos dias de chuva e tudo, e nunca mais consegui fechar direito a mão – assim bem apertada – mas, fora isso, não me importo muito. De qualquer jeito, sei que não vou mesmo ser um cirurgião ou um violinista, ou droga nenhuma.
Foi sobre isto que escrevi a redação do Stradlater – a luva de beisebol do Allie. Por acaso, a luva estava na minha mala, por isso fui apanhá-la e copiei os poemas que estavam escritos nela. Tudo que precisei fazer foi mudar o nome do Allie, para ninguém saber que era meu irmão, e não o do Stradlater. Não fiquei lá muito satisfeito com a redação, mas não conseguia pensar em nenhum outro assunto descritivo. Além disso, eu gostava mesmo de escrever sobre a luva do Allie. A coisa me tomou uma hora, porque tive de usar a máquina de escrever do Stradlater, que enguiçava de dois em dois minutos. Só não usei a minha porque estava emprestada a um sujeito que também morava na minha ala.
Acho que deviam ser umas dez e meia quando acabei. Mas não estava cansado, por isso fui até a janela e fiquei algum tempo olhando para fora. Tinha parado de nevar, mas de vez em quando a gente escutava um carro que não conseguia pegar. Também dava para escutar o Ackley roncando, mesmo através da porcaria das cortinas do chuveiro. Ele tinha sinusite, e não podia respirar lá muito bem quando estava dormindo. Aquele sujeito tinha quase tudo que é possível alguém ter: sinusite, espinhas, dentes podres, mau hálito, unhas esculhambadas. A gente tinha de acabar sentindo um pouco de pena do filho da puta.

J. D. Salinger, in O apanhador no campo de centeio

O nascimento do prazer (trecho)

O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer. A alegria verdadeira não tem explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida – e se parece com o início de uma perdição irrecuperável. Esse fundir-se total é insuportavelmente bom – como se a morte fosse o nosso bem maior e final, só que não é a morte, é a vida incomensurável que chega a se parecer com a grandeza da morte. Deve-se deixar-se inundar pela alegria aos poucos – pois é a vida nascendo. E quem não tiver força, que antes cubra cada nervo com uma película protetora, com uma película de morte para poder tolerar a vida. Essa película pode consistir em qualquer ato formal protetor, em qualquer silêncio ou em várias palavras sem sentido. Pois o prazer não é de se brincar com ele. Ele é nós.

Clarice Lispector, in Todas as crônicas 

Os americanos

Mas acho que o doutor Jorge amava mais a educação que as árvores. Para haver árvores é preciso que haja o amor às árvores. Se assim não fosse, como explicar que ele tenha vendido o seu paraíso de árvores a um grupo de missionários protestantes norte-americanos, para que nele fizessem uma escola para meninos e meninas? Não vendeu por precisão. Vendeu por ideal.
Esses americanos foram para Lavras fugindo da peste, a febre amarela que assolou Campinas a partir de 1889. A morte andava solta. Quem podia fugia. A cidade ficou deserta. Aí fugiram também os missionários.
O padre, um alemão, ficou indignado ao saber da chegada dos apóstatas. Galo que canta sozinho no galinheiro se ressente quando outro galo chega e começa a cantar diferente. Tratou de insuflar os católicos para um “auto-de-fé” sem fogueira, só com pedras. Foi preciso que o capitão Evaristo o impedisse. Frustrado o “auto-de-fé”, o padre alemão pôs-se a espalhar boatos sobre os americanos protestantes. Uma empregada da dona Carlota Kemper, havendo ouvido o padre, resolveu tirar a prova. Pôs-se a observar os pés da patroa. Dona Carlota notou e ficou intrigada. “Por que a senhora olha tanto para os meus pés?”, perguntou. A empregada, meio constrangida, respondeu: “Estou vendo se o padre falou a verdade. Ele disse que os protestantes têm pés de bode...” .
Numa coisa o padre alemão estava certo: os protestantes eram gente diferente. Tolerantes, delicados, generosos e justos na sua relação com as pessoas, eram implacáveis com eles mesmos, quando o que estava em jogo era a sua relação com Deus. Com Deus não se brinca. Com Deus não havia jeito de “dar um jeito”. Deus cuidava pessoalmente dos seus negócios, não havia delegado seus poderes a ninguém, fosse igreja ou sacerdote, não precisava de santos que o ajudassem, não admitia intermediários e lobistas. Seus olhos estavam bem abertos e tinha sua contabilidade de pecados sempre em ordem. Deus, com seu olho aberto, morava no superego dos protestantes. O resultado era que a sua consciência doía muito. Todo protestante verdadeiro, dos bons, é perseguido pelo sentimento de culpa. Jamais mentiam. Deus estava vendo. Palavra de protestante valia.
Os católicos, ao contrário, não tinham superego nem consciência que lhes tirasse o sono. Viviam numa farra. Deus estava no céu, muito longe, ouvindo os coros angelicais. Quem cuidava da terra eram os santos, que compreendiam as fraquezas dos homens e eram complacentes. Não só permitiam tudo como também ajudavam, desde que seus protegidos não se esquecessem de pagar suas promessas. Pinga, malandragem, jogo, cigarro de palha, visitas às casas das putas, um tirico no barrigão de algum desafeto do partido oposto... Tudo se permitia ao fiel protegido pelo santo que ia à missa aos domingos, confessava e tomava os sacramentos.
No sertão até velório é festa”, proclamou o Riobaldo. Velório católico era festa, desculpa pra beber o morto, prova de amizade, passar a noite inteira em conversa fiada, prova de estima, comer pastéis e bolinhos que as mulheres fritavam no fogão aceso, prova de tristeza. Quem tem defunto tem de pagar a festa...
Velório protestante não era festa: nem pinga, nem conversa fiada, nem bolinhos e pastéis. Chegada a hora de dormir despachavam todo mundo de barriga vazia, fechavam a casa e deixavam o defunto sozinho na sala. Será que eles não sabiam que era perigoso deixar o defunto sozinho de noite? Pois o Diabo, vendo o morto sem vivos que o velassem, podia roubar o seu corpo e levá-lo para o inferno.
Pra resolver qualquer problema os protestantes iam à Bíblia. A Bíblia era a Palavra de Deus, inspirada de capa a capa, caminho da salvação, norma de vida. O que a Bíblia manda fazer tem de ser feito. O que a Bíblia manda não fazer não pode ser feito. Os católicos achavam que Bíblia era coisa do Diabo. Era mais seguro acreditar no padre.
O doutor Gammon, homem bonito que provocava suspiros, era o reitor da escola. Aos domingos ia a Ribeirão Vermelho, uma cidadezinha às margens do rio Grande distante oito quilômetros de Lavras. Ia lá para pregar a Palavra de Deus. Fazia a pequena viagem num tílburi. Domingo, de manhã bem cedo, um empregado ia ao pasto, pegava o cavalo e o atrelava ao tílburi e lá ia o doutor Gammon pela estradinha de terra. Dona Carlota era rigorosa observadora do domingo. O seu zelo era tal que se alguém lhe entregasse uma carta no dia de domingo ela a abriria só na segunda-feira. Percebeu que o doutor Gammon estava incorrendo em grave pecado. Chamou-o e repreendeu-o. Ele estava transgredindo o quarto mandamento, que manda santificar o sétimo dia: “Não farás nenhum trabalho, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro” (Êxodo 20.10). Não sei se por temor à lei de Deus ou temor à dona Carlota, o fato é que daquele dia em diante, aos domingos, o empregado descansava, o cavalo descansava e o doutor Gammon se cansava. Ia a pé para Ribeirão Vermelho…

Rubem Alves, in O velho que acordou menino

Escadaria | Hamilton de Holanda & Mestrinho

I - Só a dor é positiva – Tormentos da existência – O nada preferível à vida – O fim da filosofia não é consolar – O otimismo insustentável de Leibnitz – Pecado original – O mundo, um lugar de penitência

Se a nossa existência não tem por fim imediato a dor, pode-se dizer que não tem razão alguma de ser no mundo. Porque é absurdo admitir que a dor sem fim que nasce da miséria inerente à vida e enche o mundo seja apenas um puro acidente, e não o próprio fim. Cada desgraça particular parece, é certo, uma exceção, mas a desgraça geral é a regra.
Assim como um regato corre sem ímpetos enquanto não encontra obstáculos, do mesmo modo, na natureza animal, a vida corre inconsciente e descuidosa quando coisa alguma se lhe opõe à vontade. Se a atenção desperta, é porque a vontade não era livre e se produziu algum choque. Tudo o que se ergue em frente da nossa vontade, tudo o que a contraria ou lhe resiste, isto é, tudo o que há de desagradável e de doloroso, sentimo-lo ato contínuo e muito nitidamente. Não nos atentamos à saúde geral do nosso corpo, mas notamos o ponto ligeiro onde o sapato nos molesta; não apreciamos o conjunto próspero dos nossos negócios, e só pensamos numa ninharia insignificante que nos desgosta. – O bem-estar e a felicidade são, portanto, negativos, só a dor é positiva.
Não conheço nada mais absurdo que a maior parte dos sistemas metafísicos, que explicam o mal como uma coisa negativa; só ele, pelo contrário, é positivo, visto que se faz sentir… O bem, a felicidade, a satisfação são negativos, porque não fazem senão suprimir um desejo e terminar um desgosto.
Acrescente-se a isso que, em geral, achamos as alegrias abaixo da nossa expectativa, ao passo que as dores a excedem sobremaneira.
Se quereis num momento esclarecer-vos a esse respeito, e saber se o prazer é superior ao desgosto, ou se apenas se compensam, comparai a impressão do animal que devora outro com a impressão do que é devorado.
A mais eficaz consolação em toda desgraça, em todo sofrimento, é voltar os olhos para aqueles que são ainda mais desgraçados do que nós: esse remédio encontra-se ao alcance de todos. Mas que resulta daí para o conjunto?
Semelhantes aos carneiros que saltam no prado, enquanto, com o olhar, o carniceiro faz a sua escolha no meio do rebanho, não sabemos, nos nossos dias felizes, que desastre o destino nos prepara precisamente a esta hora – doença, perseguição, ruína, mutilação, cegueira, loucura etc.
Tudo o que procuramos colher resiste-nos; tudo tem uma vontade hostil que é preciso vencer. Na vida dos povos, a história só nos aponta guerras e sedições: os anos de paz não passam de curtos intervalos de entreatos, uma vez por acaso. E, da mesma maneira, a vida do homem é um combate perpétuo, não só contra males abstratos, a miséria ou o aborrecimento, mas também contra os outros homens. Em toda parte encontra-se um adversário: a vida é uma guerra sem tréguas, e morre-se com as armas na mão.
Ao tormento da existência vem ainda juntar-se a rapidez do tempo, que nos inquieta, que não nos deixa respirar, e se conserva atrás de cada um de nós como um vigia forçando-nos de chicote em punho. – Poupa apenas aqueles que entregou ao aborrecimento.
Portanto, assim como o nosso corpo rebentaria se estivesse sujeito à pressão da atmosfera, do mesmo modo, se o peso da miséria, do desgosto, dos revezes e dos vãos esforços fosse banido da vida do homem, o excesso da sua arrogância seria tão desmedido que o faria em bocados, ou pelo menos o conduziria à insânia mais desordenada e à loucura furiosa. – Em todo tempo, cada um precisa ter um certo número de cuidados, de dores ou de miséria, do mesmo modo que o navio carece de lastro para manter-se em equilíbrio e andar direito.
Trabalho, tormento, desgosto e miséria, tal é sem dúvida durante a vida inteira o quinhão de quase todos os homens. Mas se todos os desejos, apenas formados, fossem imediatamente realizados, com que se preencheria a vida humana, em que se empregaria o tempo? Coloque-se essa raça num país de fadas, onde tudo cresceria espontaneamente, onde as calhandras voariam já assadas ao alcance de todas as bocas, onde todos encontrariam sem dificuldade a sua amada e a obteriam o mais facilmente possível – ver-se-ia então os homens morrerem de tédio ou enforcarem-se, outros disputarem, matarem-se e causarem-se mutuamente mais sofrimentos do que a natureza agora lhes impõe. Assim, para semelhante raça, nenhum outro teatro, nenhuma outra existência conviriam.
Na primeira mocidade, somos colocados em face do destino que se vai abrir diante de nós, como as crianças em frente do pano de um teatro, na expectativa alegre e impaciente das coisas que vão se passar em cena; é uma felicidade não podermos saber nada de antemão. Aos olhos daquele que sabe o que realmente vai se passar, as crianças são inocentes culpados, condenados não à morte, mas à vida, e que todavia não conhecem ainda o conteúdo da sua sentença. – Nem por isso todos deixam de ter o desejo de chegar a uma idade avançada, isto é, a um estado que se poderia exprimir deste modo: “Hoje é mau, e cada dia o será mais – até que chegue o pior de todos”.
Quando se representa, tanto quanto é possível fazê-lo de uma maneira aproximada, a soma de miséria, de dor e de sofrimentos de todas as espécies que o Sol ilumina no seu curso, deve-se concordar que valeria muito mais que esse astro tivesse o mesmo poder na Terra para fazer surgir o fenômeno da vida que tem na Lua, e seria preferível que a superfície da Terra, como a da Lua, se mantivesse ainda no estado de cristal.
Pode ainda se considerar a nossa vida como um episódio que perturba inutilmente a beatitude e o repouso do nada. Seja como for, aquele para quem a existência é quase suportável, à medida que avança em idade, tem uma consciência cada vez mais clara de que ela é, em todas as coisas, um disappointment, nay, a cheat [uma decepção, ou melhor, uma fraude], em outros termos, que ela possui o caráter de uma grande mistificação, para não dizer de um logro…
Alguém que tenha sobrevivido a duas ou três gerações encontra-se na mesma disposição de espírito que um espectador que, sentado numa barraca de saltimbancos na feira, vê as mesmas farsas repetidas duas ou três vezes sem interrupção: é que as coisas estavam calculadas para uma única representação, e já não fazem nenhum efeito, uma vez dissipadas a ilusão e a novidade.
Perder-se-ia a cabeça, se se observasse a prodigalidade das disposições tomadas, essas estrelas fixas que brilham inumeráveis no espaço infinito, e não têm outro fim senão iluminar mundos, teatros da miséria e dos gemidos, mundos que, no mais feliz dos casos, só produzem o tédio: – pelo menos a apreciarmos a amostra que nos é conhecida.
Ninguém é verdadeiramente digno de inveja, e quantos são para lastimar!
A vida é uma tarefa que devemos desempenhar laboriosamente; e, nesse sentido, a palavra defunctus é uma bela expressão.
Imagine-se por um instante que o ato da geração não era nem uma necessidade nem uma voluptuosidade, mas um caso de pura reflexão e de razão: a espécie humana subsistiria ainda? Não sentiriam todos bastante piedade pela geração futura para lhe poupar o peso da existência, ou, pelo menos, não hesitariam em impor esse a ela a sangue frio?
O mundo é o inferno, e os homens dividem-se em almas atormentadas e em diabos atormentadores.
Certamente ainda terei de ouvir dizer que a minha filosofia carece de consolação – e isso simplesmente porque digo a verdade, enquanto todos gostam de ouvir dizer: o Senhor Deus fez bem tudo o que fez. Ide à igreja e deixai os filósofos em paz. Pelo menos não exijam que eles ajustem as suas doutrinas ao vosso catecismo: é o que fazem os indigentes e os filosofastros a esses, podem-se encontrar doutrinas ao gosto de cada um. Perturbar o otimismo obrigado dos professores de filosofia é tão fácil como agradável.
Brama produz o mundo por uma espécie de pecado ou desvario, e permanece ele próprio no mundo para expiar esse pecado até estar redimido. – Muito bem! – No budismo, o mundo nasce em seguida a uma perturbação inexplicável, que se produz após um longo repouso nessa claridade do céu, nessa beatitude serena, chamada Nirvana, que será reconquistada pela penitência; é como que uma espécie de fatalidade que se deve compreender no fundo de um sentido moral, ainda que essa explicação tenha uma analogia e uma imagem exatamente correspondente na natureza pela formação inexplicável do mundo primitivo, vasta nebulosa donde surgirá um sol. Mas os erros morais tornam mesmo o mundo físico gradualmente pior e sempre pior, até ter tomado a sua triste forma atual.
Para os gregos, o mundo e os deuses eram a obra de uma necessidade insondável. Essa explicação é suportável, porque nos satisfaz provisoriamente. Ormuzd vive em guerra com Ahriman: – isso ainda se pode admitir. – Mas um Deus como esse Jeová, que animi causa, por seu bel-prazer e muito voluntariamente, produz este mundo de miséria e de lamentações, e que ainda se felicita e se aplaude, é que é demasiado forte! Consideremos, portanto, nesse ponto de vista, a religião dos judeus como a última palavra entre as doutrinas religiosas dos povos civilizados; o que concorda perfeitamente com o fato de ser ela também a única que não tem absolutamente nenhum vestígio de imortalidade.
Ainda mesmo que a demonstração de Leibniz fosse verdadeira, embora se admitisse que entre os mundos possíveis este é sempre o melhor, essa demonstração não daria ainda nenhuma teodicéia. Porque o criador não só criou o mundo, mas também a própria possibilidade; portanto, devia ter tornado possível um mundo melhor.
A miséria, que alastra por este mundo, protesta demasiado alto contra a hipótese de uma obra perfeita devida a um ser absolutamente sábio, absolutamente bom, e também todo poderoso; e, de outra parte, a imperfeição evidente e mesmo a burlesca caricatura do mais acabado dos fenômenos da criação, o homem, são de uma evidência demasiado sensível. Há aí uma dissonância que não se pode resolver. As dores e as misérias são, pelo contrário, outras tantas provas em apoio, quando consideramos o mundo como a obra da nossa própria culpa, e portanto como uma coisa que não podia ser melhor. Ao passo que, na primeira hipótese, a miséria do mundo torna-se uma acusação amarga contra o criador e dá margem aos sarcasmos, no segundo caso, aparece como uma acusação contra o nosso ser e a nossa vontade, bem própria para nos humilhar.
Conduz-nos a este profundo pensamento de que viemos ao mundo já viciados, como os filhos de pais gastos pelos desregramentos, e que, se a nossa existência é de tal modo miserável, e tem por desenlace a morte, é porque temos continuamente essa culpa a expiar. De um modo geral, não há nada mais certo: é a pesada culpa do mundo que causa os grandes e inúmeros sofrimentos a que somos votados; e entendemos essa relação no sentido metafísico, e não no físico e empírico. Assim, a história do pecado original reconcilia-me com o antigo testamento; é mesmo a meus olhos a única verdade metafísica do livro, embora aí se apresente sob o véu da alegoria. Porque a nossa existência assemelha-se perfeitamente à consequência de uma falta e de um desejo culpado…
Quereis ter sempre ao alcance da mão uma bússola segura a fim de vos orientar na vida e de encará-la incessantemente sob o seu verdadeiro prisma. Habituai-vos a considerar este mundo como um lugar de penitência, como uma colônia penitenciária, como lhe chamaram já os mais antigos filósofos (Clem. Alex. Strom. L. III, c. 3, p. 399.) e alguns padres da Igreja (Augustin. De civit. Dei, L. XI, 23.).
A sabedoria de todos os tempos, o bramanismo, o budismo, Empédocles e Pitágoras confirmam esse modo de ver; Cícero (Fragmenta de philosophia, v. 12, p. 316, ed. Bip.) conta que os sábios antigos, na iniciação dos mistérios, ensinavam: nos ob aliqua scelera suscepta in vita superiore, poenarum luendarum causa natos esse. Vanini, que acharam mais cômodo queimar que refutar, exprime essa ideia da maneira mais enérgica quando diz: Tot tantisque homo repletus miseriis, ut si christianae religioni non repugnaret: dicere auderem, si doemones dantur, ipsi, in hominum corpora transmigrantes, sceleris poenas luunt (De admirandis naturae arcanis, dial L. p. 353.). Mas, mesmo no puro cristianismo bem compreendido, a nossa existência é considerada como a consequência de uma falta, de uma queda. Se nos familiarizarmos com essa ideia, não esperaremos da vida senão o que ela pode nos dar, e longe de considerarmos as suas contradições, seus sofrimentos, seus tormentos, suas misérias grandes ou pequenas, como coisas inesperadas, contrárias às regras, achá-los-emos perfeitamente naturais, sabendo bem que na Terra cada um sofre a pena da sua existência, e cada um a seu modo. Entre os males de um estabelecimento penitenciário, o menor não é a sociedade que nele se encontra. O que a sociedade dos homens vale, sabem-no aqueles que mereceriam outra melhor, sem que seja necessário que eu o diga. Uma bela alma, um gênio, podem por vezes experimentar aí os sentimentos de um nobre prisioneiro do Estado, que se encontra nas galés rodeado de celerados vulgares; e, como ele, procuram isolar-se. Em geral, porém, essa ideia sobre o mundo torna-nos aptos a ver sem surpresa, e ainda mais, sem indignação, o que se chamam as imperfeições, isto é, a miserável constituição intelectual e moral da maior parte dos homens, que sua própria fisionomia nos revela…
A convicção de que o mundo e, por conseguinte, o homem são tais que não deveriam existir é apresentada de modo que nos deve encher de indulgência uns pelos outros; que se pode esperar, de fato, de uma tal espécie de seres? – Penso, às vezes, que a maneira mais conveniente de os homens se cumprimentarem, em vez de ser Senhor, Sir etc. poderia ser: “companheiro de sofrimentos, soci malorum, companheiro de miséria, my fellow-sufferer”. Por muito original que isso pareça, a expressão é contudo fundada, lança sobre o próximo a luz mais verdadeira, e lembra a necessidade da tolerância, da paciência, da indulgência, do amor ao próximo, sem o que ninguém pode passar, e de que, portanto, todos são devedores.

Arthur Schopenhauer, in As dores do Mundo