quarta-feira, 29 de abril de 2026
Entre o ser e as coisas
Onda e amor, onde amor, ando indagando
ao largo vento e à rocha imperativa,
e a tudo me arremesso, nesse quando
amanhece frescor de coisa viva.
Às almas, não, as almas vão
pairando,
e, esquecendo a lição que já se
esquiva,
tornam amor humor, e vago e brando
o que é de natureza corrosiva.
N’água e na pedra amor deixa
gravados
seus hieróglifos e mensagens, suas
verdades mais secretas e mais nuas.
E nem os elementos encantados
sabem do amor que os punge e que é,
pungindo,
uma fogueira a arder no dia findo.
Carlos Drummond de Andrade, em Claro Enigma
Pratos variados
O nosso garçom no Tre Scalini, na
Piazza Navona de Roma, desaparecia por longos períodos.
Desconfiava-se que fosse visitar a família ou jantar no restaurante
ao lado. Quando reaparecia, era disputado aos gritos por diversas
mesas, em diversos idiomas.
Desprezava a todos com a mesma
empáfia. Mas conseguimos, finalmente, fazer o nosso pedido. Dizer
que a massa estava perfeita é não dizer nada. O difícil é comer
uma massa que não seja perfeita na Itália. Extraordinário estava o
prato de antipasti, metade dos quais eu nem consegui
identificar mas comi com igual entusiasmo. Só de azeitonas havia
quatro variedades. Depois da massa pedimos — aproveitando uma das
infrequentes aparições do garçom — o sorvete Tartufo, que faz a
fama do restaurante. É uma espécie de torta de chocolate gelada e a
fama é merecida. E a Piazza Navona fica ainda mais bonita depois do
jantar.
A história de que em Paris se come
bem em qualquer boteco é mito que não resiste ao primeiro boteco.
Numa brasserie perto do Arco do Triunfo, à qual recorremos
porque já era tarde e em Paris a gente caminha, e nunca chega ao
Treviso, comi certamente a pior omelete da minha vida. Os
restaurantes franceses, de qualquer categoria, estes sim raramente
falham. Num restaurante da Madeleine, que por certo não receberia
nem um cumprimento do Guide Michelin, quanto mais uma estrela, comi
um magret de canard, que é uma espécie de bife feito de
alguma misteriosa parte do pato, fantástico. Precedido de ostras e
acompanhado de vinho nacional.
Na Place des Vosges, a mais antiga de
Paris, descobrimos um restaurante que, pelo aspecto, antecedia a
praça: Monsieur Não Sei o Que de Cocconnas. Primeiro uma terrine
de canard e depois um peixe coberto com molho crocante
indescritível que foi a melhor coisa que comi nesta viagem. A Lúcia
pediu o pot au feu, um grande cozido no qual entrava,
desconfio, até o plano qüinqüenal do Giscard D’Estaing. O vinho
foi um tinto da região do Rhône, esfriado para não destoar do
peixe.
Fizemos uma única extravagância
alimentar em Paris, embora na verdade nada em Paris, fora a paisagem,
seja muito barato. Fomos comer no Les Belles Gourmandes, cuja
existência o Michelin pelo menos reconhece. Carré d’agneau
para duas pessoas. Pela primeira vez compreendi o verdadeiro sentido
das palavras cordeiro de Deus. Comecei a traduzir a conta para
cruzeiros, mas desisti no segundo zero. Certas coisas não ajudam a
digestão.
Fomos jantar com a Berenice Otero —
que está ótima — no Coup Chou, que já conhecíamos mas que
merece várias revisitas. O meu prato estava muito bom, mas confesso
que passei todo o jantar de olho no prato da Berenice, que tinha
tanta coisa para contar que nem tocava na comida. A educação foi
mais forte e cheguei ao fim da noite sem avançar no prato de
ninguém, no entanto. Mas estive tentado. Outra constatação
parisiense: o Marco Aurélio Garcia está cozinhando cada vez melhor.
E está experimentando com sobremesas!
O nosso hotel em Londres, o
Cumberland, tem dois restaurantes. Um é o L’Épée d’Or, que
justifica o nome de espada especializando-se em coisas no espeto,
tais como o prato que os franceses chamam de brochette mas os
gaúchos — tá doido — preferem chamar de xixo, uma
corruptela do shisykebab, e que em certas churrascarias locais
devia se chamar corruptela mesmo. O outro restaurante do Cumberland é
o Carvery, onde, por um preço fixo, você pode se servir quantas
vezes quiser de grandes assados de carne de rês ou porco, expostos
num balcão supervisionado por chefs de chapelão. Fomos uma
vez no L’Épée d’Or.
O serviço em quase todos os
restaurantes ingleses a não ser os mais tradicionais é feito por
imigrantes, uma variedade de raças e sotaques que só tem uma coisa
em comum: o péssimo serviço. Hindus, indianos ocidentais,
espanhóis, portugueses e italianos distraem-se tanto
desentendendo-se, que esquecem de atender as mesas. No L’Épée
d’Or a comida não justifica o caos, e ainda por cima há o perigo
sempre presente de uma briga acabar com espetos voando sobre a
clientela. Não voltamos lá. No Carvery, da primeira vez que
tentamos entrar, o maître — português — nos informou que
era impossível, o restaurante fecharia dali a pouco e ainda havia 50
pessoas esperando a vez. Tentamos na noite seguinte. Impossível, nos
disse o maître. Desta vez, um espanhol. Havia 80 pessoas
esperando. “Amanhã ele diz que tem 100”, apostei. Voltamos na
noite seguinte só para conferir a aposta. “Impossível”, disse o
italiano, “há 100 pessoas esperando para sentar.” Saí frustrado
mas satisfeito. Tentamos ainda outro dia e desta vez — surpresa! —
conseguimos entrar. A carne é fantástica. E a vantagem é que você
é servido por brasileiros solícitos: você mesmo.
Quanto mais eu conheço restaurantes
chineses por aí mais gosto do Pagoda de Porto Alegre. Com a possível
exceção do Empress of China, em São Francisco, ainda não
encontrei nenhum que se iguale. Em Londres, talvez tenha nos faltado
sorte. Há dezenas de chineses no Soho, a gente escolhe um, entra, e
depois fica pensando que o bom provavelmente é o do lado. Já sei,
já sei. A solução é, da próxima vez, escolher um para entrar e
entrar no do lado. Fomos a apenas um restaurante, digamos assim, mais
encorpado, em Londres. O Bentley’s da Swallow Street, que já
conhecíamos de outra viagem e que nos fora recomendado pelo Armando
Coelho Borges. Coisas do mar. Continua bom. Também fomos na Chesa,
um dos três restaurantes do centro suíço de turismo, excelente. E
eu que pensei que já conhecia batatas suíças…
Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora
Diário de Bernardo Soares
103.
Cultivo o ódio à ação como uma
flor de estufa. Gabo-me para comigo da minha dissidência da vida.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
O Jardim Perdido
Algumas frases no livro se tornaram
desde o início objeto de lenda e paródia. Havia o começo,
surpreendente numa obra de antropologia e de viagem pelo Amazonas:
“Je haïs les voyages et les explorateurs” (“Odeio as
viagens e os exploradores”). Havia a coda final — um monstro de
uma sentença, cláusulas e mais cláusulas ornamentadas se
empilhando, um sforzando barroco trinando até pousar na
imagem, ao mesmo tempo cômica e mágica, do “breve relance do
olhar, carregado de paciência, serenidade e perdão recíproco que
um entendimento involuntário às vezes permite trocarmos com um
gato” (a tradução em inglês é uma boa tentativa: “the
brief glance, heavy with patience, serenity, and mutual forgiveness,
that, through some involuntary understanding, one can sometimes
exchange with a cat”, embora perca o páthos de “alourdi
de patience” e a insinuação de uma quase graça teológica em
“pardon réciproque qu’une entente involontaire permet
parfois”). Tristes trópicos agora tem quase vinte anos.
No intervalo, Claude Lévi-Strauss realizou em larga medida aquela
revolução na antropologia, aquela renovação do vocabulário, dos
rumos da argumentação própria ao “estudo do homem”, que eram
pleiteadas por Tristes trópicos. Até onde alcança o clima
geral da cultura letrada, ele é não só o mais celebrado
antropólogo-etnógrafo vivo, mas também um escritor cujos tratados
técnicos visivelmente especializados conseguiram penetrar na
sensibilidade geral. O “estruturalismo” de Lévi-Strauss, termo
na moda, mas não muito definido, de certa forma parece constituir o
eixo dos trabalhos atuais em linguística e psicologia, em estudos
sociais e estética. Mas a fama de Lévi-Strauss, a influência que
ele exerce no tom de nossa cultura e de nossa palração de leitores
instruídos (o reflexo pálido e suave que os meios de comunicação
de massa devolvem à vida do espírito), tem uma forma paradoxal. Ela
cresceu inversamente à posição dele entre seus pares
profissionais. Do ponto de vista dos colegas antropólogos e
etnógrafos, a curva segue mais ou menos este traçado: apesar da
brevidade do trabalho de campo no Brasil nos anos 1930 e da
metodologia talvez controversa, depois Lévi-Strauss produziu um
estudo clássico das relações de parentesco, As estruturas
elementares do parentesco, publicado em 1949. Junto com vários
artigos técnicos escritos durante os anos que passou nos EUA e um
pouco depois, essa opus constitui um desenvolvimento
fundamental da compreensão do parentesco e da sociedade primitiva,
que se iniciara com Marcel Mauss, Émile Durkheim e a escola
antropológica britânica. No início dos anos 1950, em colaboração
com Roman Jakobson, Lévi-Strauss começou a defender a existência
de analogias fundamentais, de reciprocidades conceituais e
metodológicas entre a linguística e a antropologia. Foi também um
avanço estimulante. Certamente há muito a se aprender com a
possível concordância entre a estrutura formal de uma língua e as
estruturas sociais que ela organiza e reflete (a observação de
Lévi-Strauss de que uma sociedade não pode proibir aquilo que não
sabe nomear e classificar, e de que o reconhecimento do parentesco
permitido ou proibido depende de uma precisão correspondente na
designação linguística, é obviamente profunda e preciosa). Mas
esses paralelos, quando podem ser demonstrados, precisam ser
manuseados com extrema cautela. Saltar da escala monográfica para um
modelo universal de funcionamento da mente humana, construir uma
vasta teoria da mente e da evolução sobre uma base tão frágil, é
abandonar os ideais da ciência. É isso, dizem os antropólogos, que
Lévi-Strauss fez com Tristes trópicos e continua a fazer
desde então. Ele pode ser um escritor de talento, um criador de
mitos modernos, uma espécie de filósofo, mas não é mais um
antropólogo que tem responsabilidade perante a opaca monotonia do
detalhe, o “este é o caso”. Há um precedente famoso. Para
poetas e dramaturgos, para o público em geral, sir James Frazer era
o príncipe dos antropólogos; para os colegas de profissão e
sucessores imediatos, era um fiandeiro de palavras preso no denso
nevoeiro que ele mesmo tinha criado. Assim, as “Mitológicas”, a
“mitologia dos mitos” em quatro volumes que tem ocupado
Lévi-Strauss nos últimos quinze anos ou mais, serão — quando a
tradução estiver completa — nosso Ramo de ouro.
É um tipo de constelação que
reconhecemos: um especialista ultrapassa sua área técnica e adquire
grande renome; os colegas que deixou para trás cerram fileiras num
repúdio melindrado. É a história de Marx e os economistas
acadêmicos, de Freud e os psicólogos contemporâneos, de Toynbee e
os historiadores. A situação não se abranda quando o novo “astro”
expressa sua impaciência com a mesquinharia, o paroquialismo
corporativo de seus pares de outrora. (Lévi-Strauss, aliás, é um
mestre do desdém.) Depois de um período — assim dizem a história
e a hagiografia intelectual —, descobre-se que a obra do grande
dissidente alterou a totalidade do campo com o qual rompera, e os
detratores sobrevivem como ácidas notas de rodapé nas memórias do
Mestre.
A resposta a isso precisa ser
incomodamente dupla, afirmativa e negativa. Se as análises de Marx
sobre o conflito social são ou não são “científicas”, se suas
previsões têm ou não têm alguma força que se possa verificar,
são questões que continuam controvertidas. Ninguém duvidaria da
envergadura das realizações de Freud, da força moldadora de sua
concepção filosófico-literária sobre o clima dominante da
sensibilidade ocidental. Mas o modelo terapêutico que ele procurou
universalizar e os fundamentos neurofisiológicos que tentou
estabelecer para esse modelo vêm se revelando cada vez mais
fugidios. As correntes “avançadas” dos estudos recentes da mente
e do comportamento humano não são freudianas. O quadro que temos
não é, pelo menos não inequivocamente, o do gênio individual, da
rejeição invejosa dos colegas menos dotados e da apoteose
subsequente. O que parece se dar é um desenvolvimento apenas dentro
de uma área sensível de um campo tradicional. Esse desenvolvimento,
que de início observa as convenções e a linguagem profissional do
campo, logo se torna grande demais, problemático demais, para caber
dentro das categorias estabelecidas. Ele rompe e arrasta consigo uma
parte desse seu campo. Surgem novos ordenamentos: a “linguística
antropológica”, a “semiótica” (que é a investigação
sistemática dos signos e dos símbolos) surgiram da crise da
antropologia clássica e do “impulso gravitacional” de
Lévi-Strauss rumo a uma concepção conjunta da linguagem e da
estrutura biológico-social. A querela entre o grande homem e seus
colegas pragmáticos é, muitas vezes, sintoma de transição e
reajuste. Em certo sentido, a relação de Lévi-Strauss com a
antropologia desde o princípio foi tão ambivalente, tão
intrinsecamente subversiva quanto, digamos, a relação de Marx com a
teoria monetária e econômica clássica. Essa “duplicidade”,
essa provocação, explica a opacidade e a importância de Tristes
trópicos.
A nova tradução e edição
(Atheneum, 1973) supera a versão de 1961. Por razões que nunca
ficaram inteiramente claras, vários capítulos foram omitidos da
edição inicial em inglês; agora estão incluídos. Foram
incorporadas as alterações que Lévi-Strauss fez à edição
francesa de 1968. Traduzir Lévi-Strauss é uma tarefa não só
árdua, mas também feita sob a sombra exigente e rigorosa do autor.
Embora tenham adotado um partido às vezes um pouco cansativo e
dilatado demais, justamente com a intenção de esclarecer, de
dissecar a retórica sinuosa do original, John e Doreen Weightman
realizaram um trabalho admirável. Não raro, quando dificuldades
especiais atrapalham a leitura, deixamos a linguagem de Lévi-Strauss
e recorremos à deles. E, sendo os tradutores das “Mitológicas”,
os Weightman mostram uma perspicácia inigualável ao verter a gênese
do vocabulário de Lévi-Strauss, ao ver onde e como se iniciaram
algumas de suas atitudes características.
Num determinado nível, Tristes
trópicos é uma autobiografia intelectual, ironicamente ciente das
distorções, das autodramatizações, complacentes ou críticas,
inevitáveis num autorretrato. Mas as lembranças de Lévi-Strauss de
sua carreira acadêmica, ao mesmo tempo brilhante e apaticamente
vazia, levam a uma passagem que melhor pode fornecer a chave de sua
obra. Por volta dos dezesseis anos de idade, ele conheceu as teorias
de Freud e os textos fundamentais de Marx. Viu em ambos uma espécie
de geologia, uma promessa da compreensão em profundidade, uma
estratégia de atravessar a superfície das aparências no homem e na
história social:
A passagem é difícil, mas oferece
uma pista inequívoca. Combinando Marx e Freud (em relação aos
quais Lévi-Strauss se mantém em certa posição de igualdade),
usando o paradigma da geologia, com suas noções de superfície e
estratos subjacentes e formadores — paradigma que já sugere a
linguística moderna —, devemos desenvolver uma espécie de
entendimento orgânico e unificador do que “significam as coisas”.
Nesse estágio inicial de seu pensamento, Lévi-Strauss deu a esse
entendimento da estrutura o nome de “super-racionalismo”, que não
é um termo muito útil. Hoje ele poderia chama-lo de “mythologique”,
uma lógica racional das maneiras (“mitos”) como o homem
representa, enuncia e controla sua condição biológica, psíquica e
social. Apenas tal compreensão, palavra que supõe uma apreensão
completa, apenas tal understanding,
palavra que, com seu prefixo under-,
implica descer, se aprofundar, poderiam justificar o orgulhoso nome
“antropologia”, estudo do
homem. Ser um antropólogo nesse sentido total significava
preencher e completar as análises socioeconômicas do marxismo com a
leitura freudiana da consciência. Para isso, o jovem Lévi-Strauss
estava disposto a abandonar a filosofia e aceitar um posto secundário
para dar aulas em São Paulo.
O conflito entre esta concepção e a
concepção normal da etnologia e do trabalho de campo é mais do que
evidente. Lévi-Strauss empreendeu longas expedições, fisicamente
penosas, pelo interior do Brasil. Tristes trópicos traz um
relato detalhado de sua vida com vários grupos indígenas. Num dos
casos, pode ter sido o primeiro contato com um homem branco desde
alguns encontros casuais no século XVI. Suas anotações sobre a
alimentação, os costumes sexuais e os artefatos dos índios eram
disciplinadas e copiosas. Comeu comida bichada, passou sede nos
grandes planaltos, percorreu entre tropeções a floresta virgem. Mas
o foco, o enquadramento do diagnóstico, nunca foi o do antropólogo
tradicional; diante dos elaborados desenhos faciais das mulheres
kaduveu, nenhum “cientista” de campo concluiria que elas:
Nenhum psicólogo comportamental,
observando as palhoças isoladas no interior brasileiro, afirmaria
confiante que aqueles grupos de habitantes “desenvolveram várias
formas de loucura” para conseguir enfrentar a chuva, a desnutrição
e o abandono. Além disso, quando Lévi-Strauss atravessa os ermos
lunares do interior, o que o fascina não é tanto a etnografia do
grupo de nhambiquaras com que está viajando: é a relação do mundo
ameríndio com a linha do telégrafo que se estende, semiabandonada,
pelas vastidões estéreis diante deles.
O simbolismo é crucial. Como a
famosa imagem de Joseph Conrad de uma canhoneira disparando tiros
absurdos numa margem costeira da impenetrável floresta africana, a
evocação da linha do telégrafo pelo Mato Grosso, em Lévi-Strauss,
anuncia uma dúvida fundamental. Expressa as ilusões rapaces do
homem branco e da tecnologia em suas relações com o mundo
primitivo. Mas a rapacidade e as ilusões se estendem, e estão
talvez manifestas com ironia ainda maior, na própria atividade da
antropologia. A obsessiva percepção de Lévi-Strauss nesse ponto é,
como ele mesmo ressalta, uma redescoberta: a natureza dúbia da
abordagem antropológica, do estudo racional do homem como foi
desenvolvido pelo Ocidente, já era evidente para Rousseau, o
verdadeiro mestre de Lévi-Strauss. Apenas o homem ocidental —
começando em Heródoto — gerou uma curiosidade sistemática sobre
as outras raças e culturas; somente ele saiu para explorar os cantos
mais remotos da terra em busca da classificação, da definição por
contraste e comparação de sua própria superioridade. Mas essa
busca, tantas vezes desinteressada e altruísta, levou consigo a
conquista e a destruição. O pensamento analítico tem em si uma
estranha violência. Conhecer analiticamente é reduzir o objeto de
conhecimento, por mais complexo, por mais vital que possa ser,
simplesmente a isto: um objeto. É desmembrar. Mais do que qualquer
outro “conhecedor”, o antropólogo leva a destruição junto com
ele. Nenhuma cultura primitiva sobrevive incólume à sua visitação.
Mesmo os presentes que leva — medicamentosos, materiais,
intelectuais — são fatais para as formas de vida, tal como as
encontrou. A busca ocidental do conhecimento é, num sentido trágico,
a exploração final.
É essa fatalidade que confere a
Tristes trópicos seu registro elegíaco, até apocalíptico.
“Uma civilização proliferante e demasiado agitada rompeu o
silêncio dos mares para sempre.” Aonde quer que o viajante branco
vá, ele encontra a desolação, os vestígios cruéis da pilhagem e
da doença trazidas por suas conquistas anteriores. As tribos índias,
as paisagens que o jovem Lévi-Strauss encontrou não eram edênicas,
não eram “primitivas” em sentido puro. Encarnavam uma longa
crônica de infecção, destruição ecológica e deslocamento
forçado. O que tornava os povos da floresta inacessíveis não era
tanto o isolamento geográfico ou o terreno acidentado. Era o fato
brutal de que complexos grupos étnico-linguísticos, antes à
vontade num amplo território, agora estavam reduzidos a poucos. “Até
onde sei, ninguém voltou a ver os mundés desde minha visita, exceto
uma missionária que encontrou um ou dois deles logo antes de 1950,
no Guaporé de Cima, onde três famílias tinham procurado refúgio.”
A dizimação é a culpa irreparável do homem branco. Mas não
exclusivamente. Lévi-Strauss é um observador demasiado sutil,
demasiado irônico para não sugerir que há na ruína das culturas
primitivas um mecanismo ainda mais secreto de limitação, de uma
inevitável inadequação. Os primeiros exploradores a chegar ao
Brasil e à América Central encontraram civilizações que tinham
“alcançado o pleno desenvolvimento e perfeição de que suas
naturezas eram capazes”. A ressalva é obscura, mas vem tingida de
um fatalismo quase calvinista.
Esse “calvinismo” (Lévi-Strauss,
pessoalmente, preferia falar em “pessimismo schopenhaueriano”)
gera sua própria alegoria punitiva. O que o etnógrafo encontrou em
suas incursões amazônicas não foi o paraíso perdido, e sim uma
paródia e uma destruição deliberada dos últimos pomares do Jardim
do Éden. Era como se um homem, expulso do Jardim por ter colhido o
fruto proibido da árvore do conhecimento — coleta essa que define
sua eminência e solidão no mundo orgânico —, tivesse voltado
furioso e começasse a arrancar todo e qualquer vestígio do Éden
perdido que encontrasse em sua paisagem. Lévi-Strauss percebe na
catástrofe ecológica, no tratamento assassino e, no entanto, também
suicida que damos ao meio ambiente, muito mais do que mera ganância
ou estupidez. O homem é possuído de alguma obscura fúria contra
sua própria lembrança do Éden. Aonde quer que vá e encontre
paisagens ou comunidades que parecem se assemelhar à sua imagem da
inocência perdida, ele arremete e espalha destruição.
Assim, se Tristes trópicos é
um dos primeiros clássicos da atual angústia ecológica, também é
muito mais do que isso; em última análise, é uma alegoria
moral-metafísica do fracasso humano. Avança numa arrogante
melancolia até a imagem do globo — que se resfria, esvaziado da
humanidade, purificado do lixo humano — que aparece na coda das
“Mitológicas”. Há melodrama nessa antecipação, há certa
pomposidade (e é uma bela e acertada coincidência que a cátedra
que Lévi-Strauss irá ocupar dentro de poucas semanas na Academia
Francesa seja a de Montherlant). Mas há também uma dor profunda e
genuína. A “antropologia”, diz Lévi-Strauss concluindo Tristes
trópicos, agora pode ser vista como “entropologia”: o estudo
do homem se tornou o estudo da desintegração e da extinção certa.
Não existe trocadilho mais sombrio na literatura moderna.
3 de junho de 1974
George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos
terça-feira, 28 de abril de 2026
Essa não!
Lili teve conhecimento dos antípodas,
na escola.
Logo que chegou em casa, começou a
deitar sabença pra cima da cozinheira. Falou, falou, e, como visse
que Sia Hortênsia não estava manjando nada, ergueu no ar o dedinho
explicativo:
— Imagine só que quando aqui é
meio-dia lá na China é meia-noite!
— Credo! Eu é que não morava numa
terra assim...
— Mas por que, Sia Hortênsia?
— Uma terra onde o dia é de
noite... Cruzes!
Mário Quintana, em Caderno H
Quarto capítulo — A Lição de Siqueleto
Uma vez mais Tuhair decide explorar os
matos vizinhos. A estrada não traz ninguém. Enquanto a guerra não
terminasse era mesmo melhor que nenhuma pessoa estradeasse por ali. O
velho sempre repetia:
— Alguma coisa, algum dia, há-de
acontecer. Mas não aqui, emendava baixinho.
De facto, a única coisa que acontece
é a consecutiva mudança da paisagem. Mas só Muidinga vê essas
mudanças. Tuahir diz que são miragens, frutos do desejo de seu
companheiro. Quem sabe essas visões eram resultado de tanto se
confinarem ao mesmo refúgio. Por isso ele queria uma vez mais
partir, tentar descobrir nem sabia o quê, uma réstia de esperança,
uma saída daquele cerco.
— Você quer sair, não é?
— Quero, tio. Esta estrada está
morta.
— Esta estrada está morta!? Mas
não entende que isso é muito bom, esta estrada estar morta é que
nos dá boa segurança?
— Mas nós, desta maneira, não
vamos a lado nenhum...
— Isso quer dizer que também
aqui não chega ninguém.
O velho pondera: não valia a pena
insistir. O melhor seria uma mentira, dessas tecidas pela bondade.
Diria ao miúdo que aceitava partir. Depois fingiria afastar-se,
enquanto andavam em círculos. Regressariam sempre ao machimbombo, à
mesma estrada de onde haviam partido. Assim ele fizera desde a
primeira vez que saíram da estrada.
Nessa tarde, o velho comanda uma
dessas falsas viagens. Primeiro, seguem ao longo da picada. A estrada
onde moram surge a Muidinga com novas vistas, parecendo pentear a
savana, risco ao meio. Só depois derivam por atalhos e trilhos. No
sossego da paisagem nenhuma coisa pedia urgência. Contudo, Muidinga
não está tranquilo: sempre o susto espreita no farfalhar da
folhagem, o segredar da morte, essa infatigável coscuvilheira. Vão
pisando caminhos saudosos do pé de gente. Tuahir segue à frente,
abrindo trilhos por onde depois o rapaz avança. De repente, o mundo
desaba, o chão desaparece. Tuahir e Muidinga se abismalham, tombados
numa enormíssima cova. É um desses buracos onde a noite se esconde
com o rabo de fora.
— Estamos onde, Tuahir?
— Nem fale. Deve ser morada do
sapo gigante, o tal comedor de escuro.
Ficam sentados, se acostumando ao
nada. Depois, seus olhos lusco-focaram: havia uma rede cobrindo as
paredes do buraco. Nenhum de ambos tem dúvida: estão dentro de uma
armadilha. Só restava esperar. Conversam para distrair os maus
espíritos que sempre aproveitam o silêncio para engordar intenções.
— Sabe o que eu me estou a
lembrar, tio? Lembro de Farida.
— E quem é essa?
— A mulher dos cadernos,
apaixonada de Kindzu.
Tuahir sorri da confissão, cheio de
idade. Sobre as mulheres ele, nos tempos, emitira opiniões que
vinham do coração. Agora, nem tanto:
— Há mulheres que são chuva,
outras cacimbo. Essa tal Farida deve ser uma que vale a pena a gente
se despentear com ela.
Muidinga vai fingindo que escuta,
preocupado em estudar as paredes do buracão e avaliar modos de sair
daquela prisão. O tempo passa sem solução e os dois adormecem,
cada um para seu lado. Muidinga sonha, agitado. Lhe surgem, confusas,
imagens de um tempo que ele nunca foi capaz de tocar. Muidinga se
revê menino, saindo de uma escola. Mas nenhum rosto é legível,
mesmo a escola não possui fachada. Confusas vozes lhe afluem: chamam
por si! Lhe chamam um outro nome. Tenta desesperadamente entender
esse nome. Mas os sons se desfocam, em eco de cacimbo. Depois, tudo
se esfuma, anoitece dentro de seu sonho. Na manhã seguinte, o miúdo
é o primeiro a acordar, o chão lhe doendo nas costas. Aquela noite
lhe dera a certeza: os sonhos são cartas que enviamos a nossas
outras, restantes vidas. Os cadernos de Kindzu não deveriam ter sido
escritos por mão de carne e ossuda mas por sonhos iguais aos dele.
A manhã ainda balbucia, a luz
pestaneja. Súbito, no meio do cacimbo, uma silhueta aparece. É
figura de gente. Muidinga se satisfaz, chama o companheiro:
— Acorda,Tuahir, nos vieram
salvar!
Festejam a chegada do intruso. Dão os
bons-dias mas não há resposta. O cacimbo se desfaz, ao sopro de uma
brisa. O vulto então se esclarece: é um velho alto, torto, usando
sobre o corpo nu uma gabardina comprida, maior que o seu tamanho. Um
dos olhos permanece fechado enquanto o outro está aberto. O olho de
serviço reveza-se, ora um ora outro. De vez em quando, tropeça no
excesso da pouca roupa. Fica espreitando, demorado, incrédulo. Por
fim, lhes lança uma rede. Ficam presos nas malhas, enredilhados como
peixes. Então o velho os puxa, os dois vão ajudando com as pernas a
subir, buraco acima. Saem mas ele não lhes solta. Traz a rede a
arrastar pelo chão, os dois lá dentro, iguais aos bichos caçados.
Quando por fim chegam a sua casa ele reforçou a rede com mais
amarras. Encara os prisioneiros com um só olho enquanto fala na
língua local. Tuahir traduz:
— Ele diz que nos vai semear.
— Semear?
— Não sabe o que é semear? É
isso que nos vai fazer. Ele quer companhia, quer que nasça mais
gente.
— O velho é doido, vai é matar
a gente.
Tuahir então combina com o moço: se
fingiriam doentes, estragados. Gemem, lançam feios cuspes e vómitos.
Mas o velho nem se impressiona. Vai buscar uma lata, abana-a, tirando
dela agudas estridências.
— Meu nome é Siqueleto.
Depois ele se apresenta com sua
estória. Enquanto fala vai sacudindo a lata como se acompanhasse uma
canção. Daquele lugar todos se tinham ido embora, por motivo do
terror. Os bandos assaltaram, mataram, queimaram. A aldeia foi
ficando deserta, todos partiram, um após nenhum. A família lhe
chamava o pensamento: venha connosco, já toda a gente foi embora!
Assim lhe rogavam na hora da partida. Ele respondia:
— Eu sou como a árvore, morro só
de mentira.
E agora perante os dois inesperados
visitantes ele repete as suas parecenças com as árvores que
renascem cada ano. Tuahir acompanha com dificuldade, a ausência de
dentes deforma as palavras do solitário aldeão.
— Sou velho, já assisti muita
desgraça. Mas igual como essa nunca eu vi. E abana a cabeça,
pesaroso.
— Estás triste, velho?,
pergunta-lhe Tuahir.
— Já não fico triste, só
cansado.
Era por causa do cansaço que ele não
abria os dois olhos de uma só vez. O idoso homem tinha, apesar de
tudo, seus pensamentos futuros. Para ele só havia uma maneira de
ganhar aquela guerra: era ficar vivo, teimando no mesmo lugar. Não
desejava nenhuma felicidade, nem sequer se deliciar com doces
lembranças. Lhe bastava sobreviver, restar como um guarda daquela
aldeia em ruínas. Agora ele amaldiçoa os que tinham saído dali.
— Satanhocos, hão-de comer
poeira!
Fala com raiva, todo levantado.
Depois, se zanga com os visitantes. Pontapina nas redes,
insultando-os: vocês são fugistas, vosso mal está nos dentes.
São os dentes que convidam a fome. É por isso eu tirei toda a
dentaria. Estão aqui, nesta lata. Abana a lata ferrugenta, os
dentes tintinam e ele sorri, satisfeito com o barulho.
— É minha música, essa.
Prossegue seus lamentos: nos dias
de hoje, os filhos mordem as mães quando ainda estão no ventre.
Vejam a pedra em que me sento: parece morta, enquanto não, vive
devagarinho, sem barulho. Como eu, conclui. Depois, se volta a
zangar, manifestivo. O velho braceja, boca fora dos bofes.
— Vão os dois para baixo da
terra, satanhocas!
Muidinga, então, se excede. Grita. O
velho aldeão se atenta para escutar, através da tradução de
Tuahir. Por que motivo ele não recebia bem os visitantes como
ordenavam as velhas leis hospitaleiras? De facto, responde o velho,
não é assim a maneira da nossa raça. Antigamente quem chegava era
em bondade de intenção. Agora quem vem traz a morte na ponta dos
dedos.
O rapaz insiste em explicar seus
motivos. As razões deles não eram iguais às dos que hoje cruzem os
matos. Tuahir interrompe-o pedindo calma. Lento como um rosário
desfia toda a estória, razão de estarem ali, requerendo tais
ousadias. Nem Muidinga sabia de tais dotes em seu companheiro. Tuahir
fala de um mundo que nem há, engraçando suas visões. Que a
nossa terra se ia aquietar, todos se familiariam, moçambicanos. E
nos visitaríamos, como nos tempos, roendo os caminhos sem nunca mais
termos medo.
— Verdade isso?, pergunta o
desdentado.
Longe se ouvem tiros, a guerra
continua a infligir seus estrondos. Tuahir prossegue, arrebatado: diz
que ouviu falar de países ricos onde a gente já nem tem que cavar a
terra: enterra-se a enxada, bem direito no chão. Do cabo brotam
árvores, plantas cheias de verde.
— Seremos assim também,
sentenciou.
Mas o desdentado aldeão já
anoitecera, queixo no peito. Seu mundo já era esse que Tuahir
anunciara, de extensos sossegos. O próprio Muidinga está como se
encantado com as palavras de Tuahir. Não é a estória que o fascina
mas a alma que está nela. E ao ouvir os sonhos de Tuahir, com os
ruídos da guerra por trás, ele vai pensando: “não inventaram
ainda uma pólvora suave, maneirosa, capaz de explodir os homens sem
lhes matar. Uma pólvora que, em avessos serviços, gerasse mais
vida. E do homem explodido nascessem os infinitos homens que lhes
estão por dentro”.
Tuahir se revela, por um instante,
como um curandeiro amenizando o universo, seu paciente. E ali está o
velho Siqueleto, sonecando em trégua de existir. Olhando o seu corpo
abandonado dá vontade de sorrir como se faz ao contemplar o sono
indefeso de uma criança. E os dois prisioneiros se entretêm a
fabricar um tabaco, feito de folha que o velho deixara cair. Fumam
com o gosto de serem eles mesmos o incenso, fumam como se em seus
dedos esfumasse o tempo, como se não houvesse rede os aprisionando.
Tuahir adivinhou a cabeça do rapaz:
— Acreditaste em mim? Fizeste
bem. Te dou um conselho: não confies em homem que não sabe mentir.
Foi então que, entre o lusco e o
fusco, vêem chegar a hiena. Ao princípio, parece é nada, só um
arrepio no capim, um suspiro do verde-escuro. Vai surgindo inteira,
balançando as patas traseiras. Depois, se senta, sozinhando,
espreitando o mundo de cá.
Sentem um aperto. Que vinha ali fazer
aquele bicho sem aprumo, despromovido das traseiras? Trazer má sorte
ao destino dos viventes, só podia ser esse o serviço desse animal.
A hiena permanece parada, em vistoria dos cheiros. Depois, se encosta
na própria sombra e, assim deitada, lambe os beiços. Faz medo
ver-lhe à maneira de doméstica, nem besta se parecia. Os bichos
temem o homem, desvizinham-se dele. Mas este, no entanto, deita no
lugar exclusivo de gente.
O velho, entretanto, desperta. Vendo o
espanto dos outros, esclarece a hiena: o bicho sentinelava sua vida.
Ninguém me aproxima, sorri o velho enquanto acaricia a hiena
que se enrosca, regalada. Aquele era o seu exército privado,
segurança e guarda-corpo. Tuahir avisa, em segredo:
— Não confia, miúdo. Aquilo nem
hiena não é.
A noite vai descendo. O frio aperta
enquanto se alarga um silêncio do tamanho da terra. Muidinga se
queixa. Lhe dói o corpo da posição que a rede lhe obrigava,
dobrado pelo umbigo. A dor, afinal, é uma janela por onde a morte
nos espreita. Sucumbente, se encosta a Tuahir a buscar um quentinho.
Mas o sono não lhe chega. Por um buraco da rede Muidinga consegue
retirar um braço. Apanha um pau e escreve no chão.
— Que desenhos são esses?,
pergunta Siqueleto.
— É o teu nome, responde Tuahir.
— Esse é o meu nome?
O velho desdentado se levanta e roda
em volta da palavra. Está arregalado. Joelha-se, limpa em volta dos
rabiscos. Ficou ali por tempos, gatinhoso, sorrindo para o chão com
sua boca desprovida de brancos. Depois, com voz descolorida trauteia
uma canção. Parece rezar. Com aquela cantoria Muidinga acaba por
adormecer. Não faz ideia quanto tempo dorme. Porque desperta em
sobressalto: o brilho de uma lâmina relampeja frente a seus olhos. O
velho Siqueleto armaneja uma faca.
— Andam comigo!
Solta Tuahir e Muidinga das redes. São
conduzidos pelo mato, para lá do longe. Então, frente a uma grande
árvore, Siqueleto ordena algo que o jovem não entende.
— Está mandar que escrevas o
nome dele.
Passa-lhe o punhal. No tronco Muidinga
grava letra por letra o nome do velho. Ele queria aquela árvore para
parteira de outros Siqueletos, em fecundação de si. Embevecido, o
velho passava os dedos pela casca da árvore. E ele diz:
— Agora podem-se ir embora. A
aldeia vai continuar, já meu nome está no sangue da árvore.
Então ele mete o dedo no ouvido, vai
enfiando mais e mais fundo até que sentem o surdo som de qualquer
coisa se estourando. O velho tira o dedo e um jorro de sangue repuxa
da orelha. Ele se vai definhando, até se tornar do tamanho de uma
semente.
Mia Couto, em Terra Sonâmbula
Chuteira
Neto está amarrando suas
chuteiras roxas, todo pimpão. Vê Aguinaga, do outro lado do
vestiário, amarrando uma chuteira da mesma cor. Fecha o tempo. Vai
falar com ele.
NETO Que porra é essa, Aguinaga?
AGUINAGA Do que é que você tá
falando?
NETO Essa porra dessa chuteira roxa.
AGUINAGA Não gosta?
NETO Gosto, Aguinaga. Tanto gosto que
eu venho usando chuteira roxa há um mês.
AGUINAGA Sério? Irado. Esse é o
bonde da chuteira roxa, tum tchi tum tchi…
Aguinaga faz uma dancinha pra
descontrair. Neto não acha a menor graça.
NETO Exatamente. É o bonde da
chuteira roxa. Não é mais o cara da chuteira roxa.
Aguinaga tenta entender se Neto
está falando sério.
NETO Não é mais: Neto? Qual Neto?
Aquele da chuteira roxa. Ah, tá, o Neto é o da chuteira roxa. Você
acha que alguém me conhece pelo nome?
AGUINAGA Nem pela chuteira roxa.
NETO Mas vai conhecer. Ou melhor, ia.
Antes de eu ser só mais um chuteira roxa. Qual Neto? Aquele da
chuteira roxa? Mas aquele não é o Aguinaga?
AGUINAGA Ninguém vai confundir. Eu
sou do ataque. Você é da zaga.
NETO Eu sabia que isso iria surgir em
algum momento.
AGUINAGA Não foi isso que eu quis
dizer....
NETO É porque eu sou da zaga que eu
não tenho direito de usar chuteira roxa?
AGUINAGA Você entendeu errado.
NETO Chuteira colorida é coisa de
atacante! Zagueiro tem que usar chuteira preta! De preferência
Kichute!
AGUINAGA Neto, ninguém repara nessas
coisas!
NETO Em mim não repara. Mas em você
vão reparar, porque você é o craque do time. E sabe o que é pior?
Depois de reparar na sua vão reparar na minha, e achar que fui eu
que copiei você, quando na verdade…
Neto ameaça chorar. Aguinaga traz
ele pro abraço.
NETO … Eu já usava chuteira roxa
antes de todo o mundo, antes do Cristiano Ronaldo, antes de virar
moda.
AGUINAGA Virou moda?
NETO Mas ninguém reparou, sabe por
quê? Porque eu sou só mais um zagueiro. E lesionado, na maior parte
do tempo. Eu tô todo bichado, porra.
Neto chora.
AGUINAGA Relaxa, Neto! Passou. Tirei a
chuteira, já. Tá?
NETO Não! Pode ficar. Deixa que eu
tiro. Ela ficou muito melhor em você. Essa é toda a questão. Deixa
que eu me viro, aqui.
AGUINAGA Sério?
NETO Vai lá! A torcida tá te
chamando.
Aguinaga sai do vestiário, sob os
gritos da torcida. Neto guarda sua chuteira roxa. Tira do armário um
Kichute e veste, enxugando as lágrimas. Ergue a cabeça e entra em
campo.
Gregório Duvivier, em Put some farofa
1618 – Lima
Um porteiro de cor escura
Os amigos reviram suas capas puídas e
varrem o chão com seus chapéus. Cumprida a mútua reverência, se
elogiam:
– Maravilha esse toco de braço!
– E essa tua chaga? Está tremenda!
Atravessam junto o descampado,
perseguidos pelas moscas. Conversam enquanto mijam, de costas para o
vento.
– Tempos sem te ver.
– Corri feito mosca. Sofrendo,
sofrendo.
– Ai.
Laxartixa extrai do bolso uma bolacha
dura, sopra, dá brilho e oferece a Pedepão. Sentados em uma pedra,
contemplam as flores dos abrolhos.
Pedepão morde com todos os seus três
dentes, e conta.
– Na Auditoria, boas esmolas
havia... O melhor lugarzinho de Lima. Me expulsaram a pontapés. Foi
o porteiro.
– Juan Ochoa?
– Satanás, você quer dizer. Lá
sabe meu Deus que eu não fiz nada.
– Já não está Juan Ochoa.
– Verdade?
– O expulsaram feito cachorro. Já
não é porteiro da Auditoria, nem nada.
Pedepão, vingado, sorri. Estica os
dedos de seus pés descalços.
– Por suas maldades, deve ter sido.
– Não, não.
– Por ser burro?
– Não, não. Por ser filho de
mulata e neto de negra. Por isso.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
domingo, 26 de abril de 2026
O Guardador de Rebanhos
III
Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em
frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.
Que pena que tenho dele! Ele era um
camponês
Que andava preso em liberdade pela
cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas coisas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada
por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há
pelos campos...
Por isso ele tinha aquela grande
tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no
campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros…
Fernando Pessoa, em Poemas de Alberto Caeiro
Máquina escrevendo
Sinto que já cheguei quase à
liberdade. A ponto de não precisar mais escrever. Se eu pudesse,
deixava meu lugar nesta página em branco: cheio do maior silêncio.
E cada um que olhasse o espaço em branco, o encheria com seus
próprios desejos.
Vamos falar a verdade: isto aqui não
é crônica coisa nenhuma. Isto é apenas. Não entra em gênero.
Gêneros não me interessam mais. Interessa-me o mistério. Preciso
ter um ritual para o mistério? Acho que sim. Para me prender à
matemática das coisas. No entanto, já estou de algum modo presa à
terra: sou uma filha da natureza: quero pegar, sentir, tocar, ser. E
tudo isso já faz parte de um todo, de um mistério. Sou uma só.
Antes havia uma diferença entre escrever e eu (ou não havia? não
sei). Agora mais não. Sou um ser. E deixo que você seja. Isso lhe
assusta? Creio que sim. Mas vale a pena. Mesmo que doa. Dói só no
começo.
Agora vou falar de umas verdades que
me deixam espantada. É sobre bichos.
Uma pessoa que conheço disse que o
siri, quando se lhe pega por uma perna, essa se solta para que o
corpo todo não fique aprisionado pela pessoa. E que, no lugar dessa
perna caída, nasce outra.
Outra pessoa que conheço estava
hospedada numa casa e foi abrir a porta da geladeira para beber um
pouco de água.
E viu a coisa.
A coisa era branca, muito branca. E,
sem cabeça, arfava. Como um pulmão. Assim: para baixo, para cima,
para baixo, para cima. A pessoa fechou depressa a geladeira. E ali
perto ficou, de coração batendo.
Depois veio a saber do que se tratava.
O dono da casa era perito em caça submarina. E pescara uma
tartaruga. E lhe tirara o casco. E lhe cortara a cabeça. E pusera a
coisa na geladeira para no dia seguinte cozinhá-la e comê-la.
Mas enquanto não era cozida, ela, sem
cabeça, nua, arfava. Como um fole.
Já lhe falei aqui sobre tartarugas.
Escrevi o seguinte: “Da lenta e empoeirada tartaruga carregando seu
pétreo casco, não quero falar. Esse animal nos vem da Era
Terciária, dinossáurico (quando escrevi dinossáurico não sabia
que era mesmo, estava só adivinhando), não me interessa: é por
demais estúpido, não entra em relação com ninguém, nem consigo
próprio. É uma abstração. O ato de amor de duas tartarugas não
deve ter calor nem vida. Sem ser cientista, aventuro-me a
prognosticar que a espécie vai daqui a poucos milênios acabar.”
Esqueci-me de dizer que acho a
tartaruga inteiramente imoral.
Alguém, adivinhando que era falso meu
não interesse por tartarugas, emprestou-me um livrinho sobre elas,
em inglês. Eis um trecho traduzido desse livrinho.
“As tartarugas são répteis raros e
antigos. Seus ancestrais apareceram pela primeira vez há uns 200
milhões de anos, muito antes que os dinossauros. Enquanto estes
animais grandes há muito tempo se extinguiram, as tartarugas, com
sua forma estranha e sem beleza, conseguiram sobreviver, e têm
permanecido relativamente imutáveis pelo menos durante 150 milhões
de anos.”
Sem o casco, sem a cabeça, arfando,
para cima, para baixo, para cima, para baixo. Com vida.
Como compreender uma tartaruga? Como
compreender Deus?
O ponto de partida deve ser: “Não
sei.” O que é uma entrega total.
A máquina continua escrevendo. Por
exemplo, ela vai escrever o seguinte: quem atinge um alto nível de
abstração está em fronteira com a loucura. Que os grandes
matemáticos e físicos o digam. Conheço um grande homem abstrato
que faz de conta que é como todo mundo: come, bebe, dorme com a
mulher, tem filhos. Assim ele se salva de se tornar um x ou uma raiz
quadrada. Quando penso que, muito menina ainda, eu dava aulas
particulares explicativas de matemática e português a ginasianos,
mal acredito. Porque hoje seria incapaz de resolver uma raiz
quadrada. Quanto a português, era com o maior tédio que eu dava as
regras de gramática. Depois, felizmente, vim a esquecê-las. É
preciso antes saber, depois esquecer. Só então se começa a
respirar livremente.
Agora a máquina vai parar. Até
sábado próximo.
Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida
Capítulo 46 – A Herança
Veja-nos agora o leitor, oito dias
depois da morte de meu pai, – minha irmã sentada num sofá, –
pouco adiante, o Cotrim, de pé, encostado a um consolo, com os
braços cruzados e a morder o bigode, – eu a passear de um lado
para outro, com os olhos no chão. Luto pesado. Profundo silêncio.
– Mas afinal, disse Cotrim; esta
casa pouco mais pode valer de trinta contos; demos que valha trinta e
cinco...
– Vale cinquenta, ponderei; a Sabina
sabe que custou cinquenta e oito...
– Podia custar até sessenta, tomou
Cotrim; mas não se segue que os valesse, e menos ainda que os valha
hoje. Você sabe que as casas, aqui há anos, baixaram muito. Olhe,
se esta vale os cinquenta contos, quantos não vale a que você
deseja para si, a do Campo?
– Não fale nisso! Uma casa velha.
– Velha! exclamou Sabina, levantando
as mãos ao teto.
– Parece-lhe nova, aposto?
– Ora, mano, deixe-se dessas coisas,
disse Sabina, erguendo-se do sofá; podemos arranjar tudo em boa
amizade, e com lisura. Por exemplo, o Cotrim não aceita os pretos,
quer só o boleeiro de papai e o Paulo...
– O boleeiro não, acudi eu; fico
com a sege e não hei de ir comprar outro.
– Bem, fico com o Paulo e o
Prudêncio.
– O Prudêncio está livre.
– Livre?
– Há dois anos.
– Livre? Como seu pai arranjava
estas coisas cá por casa, sem dar parte a ninguém! Está direito.
Quanto à prata... creio que não libertou a prata?
Tínhamos falado na prata, a velha
prataria do tempo de Dom José I, a porção mais grave da herança,
já pelo lavor, já pela vetustez, já pela origem da propriedade;
dizia meu pai que o Conde da Cunha, quando vice-rei do Brasil, a dera
de presente a meu bisavô Luís Cubas.
– Quanto à prata, continuou o
Cotrim, eu não faria questão nenhuma, se não fosse o desejo que
sua irmã tem de ficar com ela; e acho-lhe razão. Sabina é casada,
e precisa de uma copa digna, apresentável. Você é solteiro, não
recebe, não...
– Mas posso casar.
– Para quê? interrompeu Sabina.
Era tão sublime esta pergunta, que
por alguns instantes me fez esquecer os interesses. Sorri; peguei na
mão de Sabina, bati-lhe levemente na palma, tudo isso com tão boa
sombra, que o Cotrim interpretou o gesto como de aquiescência, e
agradeceu-mo.
– Que é lá? redargui; não cedi
coisa nenhuma, nem cedo.
– Nem cede?
Abanei a cabeça.
– Deixa, Cotrim, disse minha irmã
ao marido; vê se ele quer ficar também com a nossa roupa do corpo,
é só o que falta.
– Não falta mais nada. Quer a sege,
quer o boleeiro, quer a prata, quer tudo. Olhe, é muito mais sumário
citar-nos a juízo e provar com testemunhas que Sabina não é sua
irmã, que eu não sou seu cunhado, e que Deus não é Deus. Faça
isto, e não perde nada, nem uma colherinha. Ora, meu amigo, outro
ofício!
Estava tão agastado, e eu não menos,
que entendi oferecer um meio de conciliação: dividir a prata.
Riu-se e perguntou-me a quem caberia o bule e a quem o açucareiro; e
depois desta pergunta, declarou que teríamos tempo de liquidar a
pretensão, quando menos em juízo. Entretanto, Sabina fora até
janela que dava para a chácara, – e depois de um instante, voltou,
e propôs ceder o Paulo e outro preto, com a condição de ficar com
a prata; eu ia dizer que não me convinha, mas o Cotrim adiantou-se e
disse a mesma coisa.
– Isso nunca! não faço esmolas!
disse ele.
Jantamos tristes. Meu tio cônego
apareceu para sobremesa, e ainda presenciou uma pequena altercação.
– Meus filhos, disse ele, lembrem-se
que meu irmão deixou um pão bem grande para ser repartido por
todos.
Mas o Cotrim:
– Creio, creio. A questão, porém,
não é de pão, é de manteiga. Pão seco é que eu não engulo.
Fizeram-se finalmente as partilhas,
mas nós estávamos brigados. E digo-lhes, que ainda assim, custou-me
muito a brigar com Sabina. Éramos tão amigos! Jogos pueris, fúrias
de crianças, risos e tristezas da idade adulta, dividimos muita vez
esse pão da alegria e da miséria, irmamente, como bons irmãos que
éramos. Mas estávamos brigados. Tal qual a beleza de Marcela, que
se esvaiu com as bexigas.
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas
Homem de visão na Vila
Foi na última festa junina do 257,
Rua dos Artistas.
O balão deu prego, foi escorado pelos
fios (pauta musical do Orestes) e todo mundo achou que o danado se
acabaria devagarinho quando o mundo estourou feito pluma, a luz
apagou, as crianças gritaram... Aquele poeta que há muito tempo não
dava o ar da sua graça, um que era meio maluco, misturou as
lanterninhas:
— Esse troço foi no meu peito.
Trouxeram o lampião de querosene. O
poeta deu de mostrar um três por quatro e um papel amarrotado.
Ninguém acreditava, ninguém levava a sério:
— De quem será que ele roubou esse
retrato?
— Tão moça, de olhinho claro, não
ia gostar desse traste…
— Que solidão, né, menina? Ter que
inventar uma namorada,tsc,tsc...
Ele ficava olhando o retrato e falava
sozinho:
— Tô decorando ela, tô decorando
elazinha... Vou botar esse papel com os nomes pra São João decidir.
O que ficar mais orvalhado...
Ceceu Rico, o cético da rua, cuspiu
na fogueira:
— Cada vez mais tantã. Isso que ele
tá falando é samba-canção do Lupicínio.
— Não cospe na fogueira que tu fica
seco.
A Lua apareceu de caipira, as manchas
escuras feito sorriso onde falta dente ou bigode de rolha queimada. O
festival de comiseração continuou:
— Dá um pouco de quentão pro
coitado.
— Dá não. Ele ficou assim por
causa da bebida.
— Que isso? Sujeito só bebe que nem
ele quando sente a agonia do peru de véspera, cumpadre. Bebida só
mata quando o tira-gosto é tristeza.
— Isso parece frase dele.
— Pô, não sei se agradeço ou se
fico ofendido.
Velho dilema de quem é amigo de
poeta.
Dançaram a quadrilha. Tuninho Sorvete
chamuscou de novo as calças remendadas na fogueira. Meu avô Aguiar
prendeu as rodinhas no cabo de vassoura. Um buscapé matreiro beijou
a bunda da Isolda. Nunca se viu tanto voluntário pro Corpo de
Bombeiros. Ela rebolou mais que Rainha do Bafo da Onça. Fagulha pra
todo lado. Penteado deu um gole na branquinha e gozou o rescaldo:
— A calça dela ficou entre dois
fogos...
Lindauro não tirava a mão do
hidrante e a Deysinha abriu a torneira:
— O balão lambe e tu é que fica
com a língua de fora, otário.
— Não chacoalha, tá? Manjo teu
repertório. Tás na bronca porque tua bucha anda pingando muito
breu.
— Tu fala de boca-cheia,
Lindauro. Peraí que eu vou apanhar uns amendoins pra tua tromba. Tás
precisando...
— Ah, vai tomar no...
— Tomate cru é na salada, teu cu é
pra garotada.
Nem Santo Antônio, o casamenteiro
calhorda, pacificaria aquele Oriente Médio. Mas o tal poeta, com
certeza por ser meio maluco, pegou o violão e cantou como se
estivesse no sonhado Papel Carbono, ao lado da inesquecível
missiméri:
Tenho certas manchas no passado,
outras hei de ver no teu pescoço...
Ah,eu queria ser moço
pra dizer à mocidade
que ela brinca de “já era”
mas o que era hoje é você.
Um tremor rindo na boca de criança
que não esconde mais a fêmea e
o que ela quer.
Nada é mais profundo e verdadeiro
que o desejo solto na mulher.
Não adianta fugir desse encontro,
Não adianta evitar meu caminho
somos ambos cobra, ambos
passarinho.
Meu fascínio é você que gera.
Teu olhar me enreda,
pago na mesma moeda,
minha bela fera.
Deu um branco momentâneo na festa e
no texto.
O pessoal há havia virado poema do
Manuel Bandeira, todos deitados dormindo profundamente, quando uma
espécie de fada tocou a campainha — ninguém ouviu! —, fez
carinho no bêbado — ninguém viu! — e voltou pro céu num bojo
enorme, meio tangerina, meio charuto, com uma alegoria que lembrava a
metade de um coração, ou a letra C, ou um pedaço de serpentina, ou
uma estrela cadente, sei lá...
No meio da noite despertei, fui pra
varanda olhar o céu e sou a única testemunha de tudo.
Mas acreditem, não me levem a sério,
que eu também costumo beber e sonhar acordado.
Aldir Blanc, em Vila Isabel, inventário da infância
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