sábado, 7 de fevereiro de 2026

Stan Getz e Chet Baker

Acontecerá de muito acontecer

Naquela região que parece isolada, em Pedra das Flores, ocorreu estranha enfermidade, abatendo os jovens na cegueira. Não havia remédios que a curassem.
E o mais curioso é que a doença não atingiu as crianças e os velhos. Como se estivessem protegidos ou vacinados na própria natureza contra o mal.
E o que era inesperado e miraculoso, é que os jovens que voltavam a ver, principiavam a envelhecer, como se fosse a semente da juventude a precipitação do desastre. Ou talvez ocorresse uma condenação no tempo, ou severa prescrição da sorte.
Assim, a juventude era atacada pela falta de visão, que se reduzia em totalidade ao envelhar.
É verdade que alguns jovens chegaram a amar a própria cegueira, como se tivessem outros olhos que viam. Ou tinham que roer um osso ou desenterrá-lo. Ou de novo tentar roer até o extremo de alguma treva se acordar.
Alguns idosos, que a isso contemplavam, não conseguiam entender como os jovens podiam amar a própria ceguez. Desconfiavam da existência de algum enigma que se agregava neles, aprendendo a enxergar no escuro, como em avesso de razão, por onde raciocinasse a claridade. Ou talvez houvesse o segredo de os jovens cegos, achando a palavra, passassem a ver magicamente por ela.
E até os infortúnios têm no recesso a súbita invenção do desconhecido, mesmo que tombem duas vezes no mesmo lugar, trovão de noites, folhas ou chãos.
E registro, eu que narro, o fato de os jovens nada verem sem os olhos, ainda que outros sentidos se apurem e alarguem. Mas se pusessem, astutamente, palavras nos olhos, seriam as palavras que veriam. E os olhos serviam a palavra.
Todavia, verifiquei como os cegos, diante da dificuldade, pareciam sobrar na comunidade humana, quando as trevas não raciocinam, sucedendo exatamente o contrário com a claridade, que raciocina de instantes.
Era como se os jovens cegos entrassem dentro do espelho. Mas o espelho vê, o espelho é palavra.
E se pareço velho a alguém, não o sou nos olhos. Não me perco na volta do mar, subindo pela dor de estar vivo.
E os jovens lutarão contra a dita cegueira até que ela morra. E se iam curando de palavra, curando amor na palavra, em elo se afeiçoando, acabando juntos com a cegueira, seja por palavra nas pupilas, seja pela experiência de arrostar a escuridão, ao revogá-la. Tudo vinha pela estremecida sensatez.
Mas a visão dos velhos em Pedra das Flores era tão ditosa, que contemplavam o ignoto, com capacidade olímpica de profetas. Livres da doença, agora com as palavras, iam bem além dos acontecidos. Sem possibilidade dos naufrágios.
E conheci um lutador e espadachim, leitor inveterado, Zatói Duarte, dono de um clube de atletismo no centro da cidade.
Baixo, firme de músculos, tronco robusto, olhos estranhos e azuis. Era apaixonado pelos livros de cavalaria, como Amadis de Gaula, Mio Cid, Rolando da França, ou D. Quixote de la Mancha, como admirava o outro Quixote, de Pedra das Flores, Noe Matusalém e seu Sancho, o cão Crisóstomo.
E tinha que catar um amor na vizinha Milane, de tranças, olhos muito negros, cabelos escuros. Formosa de corpo, mediana. Zatói sabia que “cavaleiro andante sem amores era árvore sem folhas”. E mesmo bem andante, tinha o hábito de carregar uma bengala. Se batia no chão, tornava-se espada, sua Durindana. Era usada, na defesa, em tática guerreira. Temido pela coragem, cortejava Milane, levando-a nos bailes da redondeza, dançando noite inteira, abraçados. Como a canção: “Nunca fora cavaleiro/ de damas tão bem servido, /Como fora D. Quixote/ quando de sua aldeia vinha/”.
Contam que Zatói Duarte teve descomunal batalha com odres de vinho. Ocorreu numa taberna. Ao estreitar contra o peito, tão fortemente, sua dama Milane, ele se desequilibrou, batendo sozinho nos odres de vinho tinto, junto ao canto, estando a sala cheia de gente. Os odres e Duarte rolaram e se derramaram, saltando vinho e sujando alguns. É verdade que no choque Duarte arredou, rápido, Milane, suportando a vinhosa tintura na roupa e na cara. E ao se ver em luta, a bengala no ladrilho pulou, como serpente que dá o bote e se estira com um grito de trovão. E diferente do cajado de Moisés, de uma cobra engolindo a outra, acabou por parar inerte, como arado sem cavalo.
Zatói Duarte pagou o dano ao proprietário da taberna e saiu de alma derramada em Milena.
E eu narro quanto o vinho do amor é longo nas brasas, horas. Embriagável.
Entretanto, o que se sabe não sabe – dizia Pedro Nau, agricultor e cultivador de flores, que se pareciam inventar nele por instinto. Mas o que se sabe não se inventa de novo. Como milagre, não se repete.
E eu, que vou relatando, observo que não há milagre na morte e ainda quer editar obras completas e provar quanto é boa.
A cegueira é mais da consciência que dos sonhos. Ou talvez os sonhos é que sejam cegos. O que era oculto na cegueira dos jovens na região, como fogo nos gravetos da noite, veio à luz, bem maior que os olhos. Pois com palavra já não havia cegueira alguma. E todos precisavam da palavra, para chegarem mais longe ainda.
O pesquisador Pery Grand achou que a origem da doença dos jovens era algum inseto inominado. E viu, assombrado, que a cegueira de vários jovens era de fora para dentro e de outros, como a mais feroz enfermidade, era democraticamente de dentro para fora. Tal se os olhos aprumassem escura ou bizarra ótica. Aos primeiros bastava colocar a palavra sobre os olhos e, noutro caso, precisavam pôr a palavra no coração, dando então olhos vigilantes, sapientes.
Havia de mudar a correnteza de ver para a foz e ao repuxo silente das pálpebras.
O mundo conjuga o que não sabe com o que sabe. E o mundo, vendo sem palavra, principiava a enlouquecer. Só a palavra impedia a loucura mansa que se alçava das pernas para o estômago voraz. E sem ela os velhos tropeçavam, coxeavam.
E o problema não era mais dos olhos, mas das mentes, que obscureciam ou se desequilibravam, e nem raciocinar resolvia, como se caíssem os andaimes do pensamento.
Ou era outra espécie de cegueira, a que roía a capacidade de pensar e sonhar, transparecendo demência nos mínimos gestos.
O que se sabe não se sabe – afirmava Pedro Nau. Porque a loucura se inventava. Não tinha olhos, mas era cega no meio do povo. Agora não separava idosos, ou jovens; ocupava como erva ao bosque. E não se harmonizavam nas fábricas, nas empresas nem nos lares. Tal se um vento tivesse soprado virulento ou entrasse pelas costas. E foi dizimando a cívica normalidade da república, e nem as máscaras serviam. Sem haver descoberta dos motivos de tal aparecimento. Mas, estranhamente, mantinham-se intocáveis apenas alguns felizes ou coroados de alegria.
No mais, atingia essa loucura os casais atordoados, que se apartavam sem rumo. Ou amigos que se dividiam por nadas, ou amantes que se repudiavam. E até mesmo políticos que saíam de partidos sem raciocinar, como se a ebriez absoluta os absorvesse. Não havia mais verossimilhança no visível. Ou melhor, a loucura vazava no ar. E até aves que voavam, enlouqueciam. Cães e gatos nas famílias, excitados em contendas, também enlouqueciam.
Consta ter havido discórdia entre os Chefes do Senado e da Câmara, e ambos nem precisaram endoidar; se acabaram à bala em praça pública.
Soube que o Hospital de Clínica Mental ficou abarrotado em Pedra das Flores. Indo pacientes para a vizinha Riopampa, com mais condições de tratamento. E angustiado, vou descrevendo esses infaustos ocorridos, com medo de ser atropelado ou submetido a eles. Ainda que me sinta lúcido, mas mesmo a lucidez pode estar gripada, ou avariada. Igual ao ataque de febre, que atravessa, como vara, de lado a outro, do abismo. Raciocinar é ir respirando o plasma do universo incriado.
Não me importa quantos instantes têm o abismo, ou quantos instantes raciocinam em nós. E não tenho medo de me escorrer a aurora, não quero que a aurora me escorra de medo.
Tudo se reforma de silêncio, até por debaixo das escadas ou das pernas do cavalo. Apraz atravessar o perigo, se atravessado de luz, como de um rio, no talvegue. O amor às vezes deixa goteiras na alma, como a dos telhados.
O que não registrei foi outro processo de obsessiva cegueira de alguns velhos de Pedra das Flores, o de adentrarem na floresta, como se ali se amoitasse a infância, e se abraçarem às árvores, apertando o rugoso tronco ao peito. E o fundo carnoso dos sonhos, todos palpitando, até os cimos sentirem a mesma seiva do coração. E todas as gerações de árvores e folhas. Mas a loucura se mostrava igual à dos pássaros no ninho. E a infância voava devagar pelo tronco das árvores. E tudo é tempo, mesmo o que não existe. Porque os que amam como um rio, não sabem esquecer.
E a mocidade, depois da crise dos olhos, passou a erguer a bandeira de nova civilização, buscando o que aproximava um e outro, os interesses que se acumpliciam na arrumação do caos. Sabiam que não avançariam sem dar-se as mãos. Como ao céu não carece de se ver, bastando que exista.
É também verdade que parte do povo tinha visões. Contemplava nas ruas de Pedra das Flores, durante a noite, vultos ou almas nos corpos de alguns viventes, como se saíssem para fora, e se expunham. Eram tão refulgentes, que assombravam ou traziam pânico, não havendo então cegueira alguma no mistério.
Mas Verena Silva, a filósofa, formosa dama, alegava, com seus grandes olhos na morenice, que as almas eram estrangeiras, não o corpo. Porque o corpo não tinha certeza dos centímetros finais, sob a terra. Só a alma era bem-aventurada, apesar de todas as aventuranças terem nascimento sem data, a da morte. E se um dia os corpos serão defuntos, a alma não. Portanto, os que viam almas, viam a Eternidade se encantar.
Só Deus não se encanta imóvel, móvel e definitivo. O que apenas é possível noutra vida é de as almas se verem entre si, incorruptíveis. E o sagrado é o começo do imaginado. Igual à paisagem vista de um trem em movimento quando a estação é destino.
Mas o corpo guardava a estupidez de não contemplar os lentos ossos da alma.
Inacabado e corroído silêncio é a penúria. Mas não se deixa de nomear o sulco, o desenho no chão do pé humano.
Porém, em Pedra das Flores houve um lapso do inverno, a impressão de que se evaporava a morte. Quando até os pés de água caíam na luz. Ou porque não se acham humanos, ao tropeçarem nos troncos ou pedras, cambaleantes. Mas sonhando, não se desaparece. Nem a morte se converte de sonho em água.
Depois, diante da voracidade da vida, a voracidade dos dias e noites, o povo padeceu deficiência de alma. E é curioso como a alma não sofre deficiência do corpo, distante e insaciada.
O que muda, não descansa, como no círculo, o desejo. Igual ao povo, que de amar não descansa.
E ouço o ruído das gerações, o ruído de Deus. O vagaroso ruído de rodas e da Eternidade de Deus. Sim, uma porção de viventes buscava a Deus num templo de pedra, com pureza que se despetalava em água do Espírito. E nessa comunidade de homens, mulheres e crianças, havia pessoas simples, rudes e alguns eruditos. Porque Deus não é propriedade de classe alguma, ou sistema de cima para baixo, com política sob pretexto divino.
Não é possível evangelizar batendo, como em pregos, martelo, contra a filosofia, a teologia, a ciência e a arte, sem possibilidade de defesa. Quando os filhos desses que assim agem estão nas melhores universidades. Por que tem de ser o povo analfabeto de saber e alma?Sim, o martelo que pregou o corpo nas mãos do Filho do Homem no madeiro é o mesmo com que batem, batem nos que Nele creem. Mas o que não se entende é amor.
A cultura é adubo, segundo o Apóstolo dos Gentios, Paulo de Tarso. E há terras que apenas com adubo geram flores, germinando neles a revelada Palavra. E tudo soma a favor dos que creem, salvo a ignorância, a brutalidade, que jamais serão sinônimos da obra de Deus, que é o livre mover do Espírito sobre as águas de preconceitos ou arbítrios.
O ruído de Deus aumenta e se escuta o bater na porta. Deus não é sozinho. Nunca será. Deus não derruba a porta, é A Porta. E nossa humana alma precisa se encher de Deus, da superfície ao fundo. E se abrirá o mar; a penha terá água.
Sim, aquela comunidade de Pedra das Flores, no templo todo feito de pedras, fora, e as escolhidas, dentro, segundo o Mestre de Obras, sendo a pedra desprezada, de esquina.
Crescia a comunidade e até nos cardos nasciam rosas e das pedras, flores. Depois árvores ou a divina floresta dos frutos no Espírito.
Foi no meio desse povo, na comunidade, que surgiu Zaqueu Peregrino, ferreiro e louco de Deus. Parecia ter olhos de lâmpada, sobrancelhas espessas, rosto com pele fina, clárida. Fala paciente e firme, com alguns pássaros ocultos na voz, como se fosse livre em fluir.
Não se sustinha com a razão, mas com fé ancestral, invencível. E tinha na mão palavra. Dizia no acontecido e ia acontecer. Ou até desacontecer. Como fonte manando na encosta dos passos. Deus doía muito.
E o que podia ser de animal nele se humanizara, economizando luz.
Mas Zaqueu era doido de Deus, por saber quanto atordoava o amor. Como na noite o rolar das estrelas. O que se abrandava, aquecia. O amor, o amor, abraçando os seres. Não aceitava os monárquicos sistemas a custo do sagrado, salvo o das celestes esferas, inalcançável. E o que Zaqueu profetizava, acontecia.
E se a comunidade suscitava conjeturas, a doutrina era a do Livro do Caminho, e o que rastreava política e domínio familiar, se dissolvia na vinculação fraterna dos integrantes, com ajuda aos mais pobres.
Zaqueu Peregrino comunicava sua febre com o gotejar de perpétuo paraíso. E se perguntava com Jó: “Que é o mortal para que assim o engrandeças? E Zaqueu desesperava de si, por esperar em Deus.
O tempo não é contável na luz nem a luz no tempo, apesar da assistência da noite. E de todas as noites no desequilibrado amor. Como as funduras nos chamam, os ciclos são buracos na água. A língua do Espírito não cochila, mesmo quando se expande. E Deus doía muito. Sim, Deus doía muito na luz, e a luz vazava de sono.
Curiosa era a forma como Zaqueu Peregrino sofria surda hostilidade de alguns dignatários de Pedra das Flores e da própria comunidade. A inveja espiritual, que é a mais extrema. E Zaqueu às vezes não possuía pousada certa. Mas Deus pousava no seu mistério, que até sofria cãibras no andar. Mas não se pode parar dentro da luz. E a luz cirze a razão, para se abotoarem os sonhos. Deus doía nos sonhos.
Zaqueu Peregrino nasceu com encargo de árvore. Eu vi. E se interrompo, é com a presença do agricultor, Pedro Nau. Criava um pomar de uvas, trigo, arroz, tomates, alfaces e frutos. Tinha vocação de viagens nas plantas e ventas do monte. Até os olhos verdejavam.
Pedro Nau se afeiçoara a Zaqueu Peregrino, à sua ventada loucura. E se acharam diante do Camarada Mar, onde às vezes era visto, com cajado de ondas, o famoso Matusalém de Flores. Andarilhava, avantajado, descalço. Duas tartarugas ambulavam ao sol, nas pedras, e ele, de horizonte.

Carlos Nejar, em Acontecerá de muito acontecer

Acredite!

Indague

Antes de atuar em cada episódio, pare e indague-se: “A morte é terrível por privar-me disto?”

Marco Aurélio, em Meditações

| 3 | Vida Póstuma


[…]

Na Alemanha, terra natal de Marx, suas ideias tornaram-se a ideologia dominante do Partido Socialdemocrata (SPD, na sigla em alemão), a partir do congresso de 1891 em Erfurt. Mas a programação do evento era constituída de duas partes distintas e pressagiava uma longa luta entre revolucionários e revisionistas. A primeira seção, esboçada por Karl Kautski, discípulo de Marx, reafirmava teorias familiares tiradas do Capital, tais como a tendência ao monopólio e à pauperização do proletariado; a segunda parte, escrita por Eduard Bernstein, lidava com objetivos políticos mais imediatos – sufrágio universal, educação livre, imposto progressivo. Bernstein viveu em Londres durante os anos 1880 e rendeu-se à influência dos primeiros fabianos. Rosa Luxemburgo queixava-se: “Ele vê o mundo através de lentes inglesas.”
Bernstein, na década seguinte ao congresso de Erfurt, repudiava abertamente grande parte do legado de Marx, descartando sua teoria do valor como “um conceito puramente abstrato” que deixou de explicar a relação entre oferta e demanda. Kautski relutava em criticar seu antigo camarada e parecia muitas vezes até mesmo encorajá-lo: “Você superou nossas táticas, nossa teoria do valor, nossa filosofia; agora tudo depende de qual será a boa-nova que você pensa em colocar no lugar da antiga.”
No final do século, as intenções de Bernstein estavam bastante evidentes. O capitalismo, longe de ser superado por uma crise inevitável e iminente, provavelmente resistiria e traria uma progressiva prosperidade às massas. Com o ajuste adequado, poderia até se provar o motor do progresso social:

É, portanto, muito errado presumir que o presente desenvolvimento da sociedade demonstra relativa ou mesmo absoluta diminuição do número de integrantes das classes com posses. Seu número aumenta tanto relativa quanto absolutamente…. O sucesso do socialismo depende não da diminuição, mas do aumento da riqueza social.

Embora o SPD ainda se definisse como uma organização proletária revolucionária, ele tornara-se, na prática, um partido parlamentarista, progressivamente bem-sucedido e liderado por gradualistas e tecnocratas.

Como especialista em ironias, Marx talvez tenha se visto obrigado a sorrir (ou, ao menos, a repuxar os lábios) diante de seu destino: um profeta sem muita honra em sua própria terra, e ainda menos considerado em seu país de adoção, a Inglaterra, se tornou a inspiração para um levante cataclísmico no local onde menos esperava, a Rússia, nação raramente mencionada no Capital. No entanto, no fim da vida, Marx já havia começado a se arrepender dessa omissão: o sucesso da edição russa do Capital levou-o a imaginar que lá, afinal, talvez houvesse algum potencial revolucionário.
Seu tradutor em São Petersburgo, Nikolai Danielson, era também líder do movimento populista, que acreditava que a Rússia poderia passar diretamente do feudalismo para o socialismo. A descrição de Marx dos efeitos prejudiciais do capitalismo para a alma do homem convenceram-no de que, se possível, esse estágio da evolução econômica deveria ser evitado, e, uma vez que a Rússia já tinha no campo uma forma embrionária de propriedade coletiva da terra, seria uma atrocidade dissolver as comunas camponesas e depositá-las nas mãos de proprietários particulares simplesmente para obedecer a uma suposta lei inelutável da história. Para os marxistas mais ortodoxos, como Georgi Plekhânov, que achavam que as condições para o socialismo não amadureceriam até que a Rússia se industrializasse, esta era uma insensatez – e, ao longo da década que se seguiu ao lançamento de O Capital, Marx parecia ter a mesma opinião. Em 1877, respondendo a um populista russo que protestava contra sua visão determinista da história, Marx escreveu que se a Rússia estivesse destinada a se tornar uma nação capitalista nos mesmos moldes que os países do Ocidente europeu,

ela não conseguiria isso sem antes transformar boa parte dos camponeses em proletários; e, então, quando se encontrar no âmago do regime capitalista, experimentará, como outros povos profanos, a crueldade de suas leis.

Assim mesmo, Marx acompanhava o desenrolar dos acontecimentos na Rússia, que ameaçavam contestar suas teorias. O movimento insurrecional, embora pequeno, impressionava pela sua determinação e eficácia: entre 1879 e 1881, a Vontade do Povo, uma facção dissidente do movimento populista, realizou sete atentados à vida do czar Alexandre II, o último deles bem-sucedido. (Seis anos depois, a Vontade do Povo tentou também assassinar o czar Alexandre III; uma das pessoas enforcadas por tomar parte na trama foi Alexander Ulianov, cujo irmão adolescente, Vladimir Ilich Ulianov, se tornaria mais conhecido como V.I. Lênin.)
A subsequente enxurrada de detenções e execuções levou muitos revolucionários russos ao exílio. Plekhânov mudou-se para a Suíça com vários camaradas, entre eles Vera Zasulich, que em 1876 deu um tiro no governador-geral de São Petersburgo e, quando levada a julgamento, teve um desempenho tão notável que o júri a absolveu da acusação de tentativa de assassinato. A despeito de seu passado, ela desaprovava a tendência cada vez mais regicida e violenta do socialismo russo, que parecia ter perdido de vista os imperativos econômicos formulados no Capital. Mas a questão dos camponeses e proletários continuava a incomodar Vera Zasulich e seus companheiros de exílio às margens do lago Genebra. Em fevereiro de 1881, ela apelou a Marx em busca de uma opinião abalizada: “Você não ignora que O Capital goza de grande popularidade na Rússia”, escreveu ela. “Mas talvez não tenha conhecimento do papel que seu livro desempenhou em nossa discussão sobre a questão agrária.” E pedia gentilmente que Marx “desse sua opinião sobre o possível futuro da comuna rural russa e a teoria da inevitabilidade histórica, segundo a qual todos os países do mundo atravessarão todas as fases da produção capitalista”, e assim tentar encerrar a polêmica.
Marx se debateu com o problema por várias semanas e escreveu cinco rascunhos de resposta. Finalmente enviou uma breve carta dizendo que sua “assim chamada teoria” fora mal interpretada: a inevitabilidade histórica da fase burguesa “é expressamente limitada aos países da Europa Ocidental”. A transição ocidental do feudalismo para o capitalismo representava a transformação de um tipo de propriedade privada em outro, enquanto no caso dos camponeses russos “a propriedade comunal teria, ao contrário, de ser transformada em propriedade privada. Por isso, a análise proposta no Capital não apresenta qualquer razão favorável ou contrária à viabilidade da comuna rural”. Isso era mais encorajador que o comentário que fizera apenas quatro anos antes – porém, muito mais cauteloso que o primeiro rascunho de sua carta a Vera Zasulich, que explicava por que e como o campesinato russo escaparia ao destino de seus companheiros da Europa Ocidental:

Na Rússia, graças a uma singular combinação de circunstâncias, a comuna rural, ainda assentada em escala nacional, pode aos poucos livrar-se de seus traços primitivos e desenvolver-se diretamente como um elemento da produção coletiva em escala nacional…. Para salvar a comuna russa, uma revolução é necessária. A esse respeito, o governo e os “novos pilares da sociedade” estão fazendo o melhor a fim de preparar as massas para esse desastre. Se a revolução vier no momento oportuno, se concentrar todas as forças de modo a permitir total expansão à comuna rural, esta em breve se transformará em elemento de regeneração na sociedade russa e de superioridade em relação aos países escravizados pelo sistema capitalista.

Cinco dias depois de Marx ter enviado a versão final dessa carta, um pequeno grupo da Vontade do Povo assassinou o czar Alexandre II em São Petersburgo arremessando uma bomba em sua carruagem.
Com a plena certeza de que a revolução só se realizaria pela ação coletiva da classe trabalhadora, mais que por proezas individuais ou atos de terrorismo, era de esperar que Marx se aliasse a Vera Zasulich e a Plekhânov mais que aos terroristas radicais. Todavia, em carta à filha Jenny, Marx confidenciou que os exilados na Suíça eram “meros doutrinários, desnorteados anarco-socialistas, e a influência deles no ‘teatro de guerra’ na Rússia é nula”. Os assassinos de São Petersburgo, ao contrário,

são, em todos os aspectos, verdadeiros companheiros, sem pose melodramática, simples, objetivos, heroicos…. Eles se esforçam para ensinar à Europa que seu modus operandi é especificamente russo e historicamente inevitável, que não se presta a moralizações – a favor ou contra –, mais que o terremoto em Chios.

Tal atitude seria inconcebível em um Karl Marx mais jovem: ele passara muitos anos denunciando socialistas que punham suas crenças a serviço de golpes, atentados e conspirações clandestinas. Em 1881, no entanto, estava doente e fatigado. Depois de tanto aguardar o momento oportuno para a revolução proletária e estar com a paciência esgotada, ansiava por qualquer tipo de revolta. Naquela primavera, após o nascimento de um neto, comentaria que as crianças “nascidas neste momento crucial da história … têm diante de si o período mais revolucionário que qualquer outro já visto pela humanidade. O lado ruim neste momento é ser ‘velho’, de modo a apenas prever, e não testemunhar”.
Todos os arquitetos da Revolução de 1917 citavam Marx, em particular O Capital, como a autoridade divina para a concretização de suas propostas. Trotski estudou o livro em 1900, quando se encontrava na Sibéria, exilado em uma vila horrível, infestada de insetos – “removendo as baratas para fora da página”, como lembrava. Lênin alegava ter lido o livro em 1888, com precoces 18 anos, sentado sobre um velho forno na cozinha do apartamento de seu avô. Desde então empregava O Capital – ou os trechos que serviam a seus propósitos – como a lâmina com que golpeava seus rivais. (Máximo Górki disse a respeito dos discursos de Lênin que tinham “o frio brilho de limalhas de aço”.) Embora sua primeira grande obra, O desenvolvimento do capitalismo na Rússia, fosse apresentada como uma espécie de suplemento a Marx, a obra de Lênin nada tinha da ironia e da indignação do Capital. Como Edmund Wilson observou: “Todos os escritos de Lênin são funcionais; todos têm o intuito de atingir um propósito imediato…. Ele é simplesmente um homem que deseja convencer.”
O propósito imediato do livro O desenvolvimento do capitalismo na Rússia era persuadir os camaradas de que a Rússia já emergira do feudalismo graças à rápida expansão de ferrovias, minas de carvão, siderúrgicas e tecelagens nos anos 1880 e 1890. O fato era que somente em Moscou e São Petersburgo havia um proletariado industrial; isso, no entanto, reforçava a responsabilidade de ação da classe como uma organização de vanguarda que expressasse as reivindicações dos camponeses e artesãos de outras localidades. Nas novas fábricas, escreveu Lênin,

a exploração está plenamente desenvolvida e emerge em sua forma pura, sem qualquer detalhe perturbador. O trabalhador não pode deixar de perceber que é oprimido pelo capital…. É por isso que o trabalhador da fábrica é o principal representante de toda a população de explorados.

Mas em seu tratado posterior, Que fazer?, acrescentou que os trabalhadores estavam muito preocupados com sua própria luta econômica para desenvolver uma verdadeira consciência revolucionária:

Muito se fala sobre espontaneidade. Mas o desenvolvimento espontâneo de um movimento da classe trabalhadora leva à sua subordinação à ideologia burguesa; pois tal ação é o sindicalismo, que significa a escravização ideológica dos trabalhadores pela burguesia. Portanto, nossa tarefa, a tarefa da socialdemocracia, é combater a espontaneidade, afastar o movimento da classe trabalhadora desse sindicalismo espontâneo, desejoso de se abrigar sob as asas da burguesia, e trazê-lo para debaixo das asas da socialdemocracia revolucionária.

Campanhas de massa para melhorar as condições e encurtar a semana de trabalho, defendidas por Marx no Capital, eram consideradas por Lênin uma perda de tempo. Em vez disso, os trabalhadores deveriam se colocar à disposição de revolucionários profissionais como ele: “O movimento socialista contemporâneo só poderá se tornar realidade se tiver como base um profundo conhecimento científico…. O portador desse conhecimento não é o proletariado, mas a intelligentsia burguesa.” Nessas sentenças pode-se notar a forma embrionária do que, no final, se tornou uma tirania monstruosa.
Como o autoproclamado portador dos dez mandamentos, Lênin gostava de lembrar a condição intelectual inferior de seus camaradas. “É impossível compreender O Capital de Marx, em especial os primeiros capítulos, sem ter estudado e entendido completamente toda a Lógica de Hegel”, escreveu ele em seus Cadernos filosóficos. “Por conseguinte, meio século depois, nenhum dos marxistas compreende Marx.” Exceto ele, é claro. Apesar de todas as suas leituras e escritos, o “conhecimento científico” de Lênin não era mais profundo que o necessário. Eis uma aguçada avaliação feita por Trotski, que o observava mais de perto que ninguém:

O pensamento de Marx aparece por inteiro no Manifesto Comunista, em Para a crítica da economia política e no Capital. Mesmo que não estivesse destinado a tornar-se o fundador da Primeira Internacional, ele ainda permaneceria por muito tempo a figura que conhecemos hoje. As ideias de Lênin, por outro lado, aparecem na ação revolucionária. Os trabalhos científicos dele são apenas um preâmbulo à ação.

Talvez nem mesmo um preâmbulo. “A tomada do poder”, escreveu Lênin em 1917, “é o objetivo da insurreição. Sua tarefa política ficará clara após a tomada.” Como o historiador Bertram Wolfe mostra, isso faz com que o raciocínio de Marx seja virado do avesso: a convicção marxista de que a economia determina a política “torna-se a visão leninista de que, com suficiente determinação, o próprio poder, o pleno poder político, pode determinar inteiramente a economia”. Não é de causar espanto que a crença predominante na União Soviética tenha adquirido o nome de marxismo-leninismo, e não simplesmente marxismo. O lema favorito de Marx era de omnibus dubitandum (“tudo deve ser questionado”), mas ninguém que tenha tentado pôr isso em prática na Rússia comunista sobreviveu por muito tempo.
O marxismo praticado por Marx era menos uma ideologia que um processo crítico, uma argumentação dialética contínua; Lênin e em seguida Stálin transformaram-no em dogma. (Como, é claro, fizeram outros socialistas antes deles.) “A Federação Socialdemocrata aqui divide com os socialistas germano-americanos a característica de serem os únicos partidos que lograram reduzir a teoria do desenvolvimento marxista a uma rígida ortodoxia”, lamentou Engels, em maio de 1894, a Friedrich Adolph Sorge, um emigrado alemão em Nova York.

Essa teoria deve ser empurrada goela abaixo dos trabalhadores de uma só vez e sem desenvolvimento, como artigos de fé, e não fazer com que os trabalhadores se elevem a seu nível pela força de seu próprio instinto de classe. É por isso que ambas permanecem meras seitas e, como Hegel diz, vêm do nada, por meio do nada e em direção ao nada.

Seria possível até argumentar que a conquista mais verdadeiramente marxista da União Soviética foi seu colapso: uma economia dirigida – centralizada, fechada e burocrática – provou-se incompatível com as novas forças de produção, e assim precipitou uma mudança nas relações de produção. Mikhail Gorbachev o admitiu em seu livro de 1997, Perestroika:

O sistema administrativo que se formou nos anos 1930 e 1940 começou gradualmente a contradizer as demandas e condições do progresso econômico. O potencial positivo dele se exaurira. Tornara-se cada vez mais um obstáculo e originou o mecanismo de ruptura que tanto mal nos fez depois….
Foi nessas condições que se desenvolveu uma atitude preconceituosa diante do papel das relações mercadológicas e da lei do valor sob o socialismo, e em geral se alegava que eram contrárias e estranhas ao socialismo. Além do mais, subestimou-se a contabilidade de lucros e perdas, que abalou os preços e negligenciou a circulação de dinheiro…. Surgiram sinais cada vez mais evidentes de alienação do homem em relação à propriedade coletiva e da falta de coordenação entre os interesses públicos e pessoais do trabalhador.
[...]

Francis Wheen, em O Capital de Marx – Uma Biografia

Criação

Quem escreve romances não quer ver um leão comer grama. Percebe que um mesmo Deus criou o lobo e o cordeiro, e sorriu, “vendo que o trabalho estava bom”.

André Gide, epígrafe de Factótum, de Charles Bukowski

Primeiro capítulo – A estrada morta



Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte.
A estrada que agora se abre a nossos olhos não se entrecruza com outra nenhuma. Está mais deitada que os séculos, suportando sozinha toda a distância. Pelas bermas apodrecem carros incendiados, restos de pilhagens. Na savana em volta, apenas os embondeiros contemplam o mundo a desflorir.
Um velho e um miúdo vão seguindo pela estrada. Andam bambolentos como se caminhar fosse seu único serviço desde que nasceram. Vão para lá de nenhuma parte, dando o vindo por não ido, à espera do adiante. Fogem da guerra, dessa guerra que contaminara toda a sua terra. Vão na ilusão de, mais além, haver um refúgio tranquilo. Avançam descalços, suas vestes têm a mesma cor do caminho. O velho se chama Tuahir. É magro, parece ter perdido toda a substância. O jovem se chama Muidinga. Caminha à frente desde que saíra do campo de refugiados. Se nota nele um leve coxear, uma perna demorando mais que o passo. Vestígio da doença que, ainda há pouco, o arrastara quase até à morte. Quem o recolhera fora o velho Tuahir, quando todos outros o haviam abandonado. O menino estava já sem estado, os ranhos lhe saíam não do nariz mas de toda a cabeça. O velho teve que lhe ensinar todos os inícios: andar, falar, pensar. Muidinga se meninou outra vez. Esta segunda infância, porém, fora apressada pelos ditados da sobrevivência. Quando iniciaram a viagem já ele se acostumava de cantar, dando vaga a distraídas brincriações. No convívio com a solidão, porém, o canto acabou por migrar de si. Os dois caminheiros condiziam com a estrada, murchos e desesperançados.
Muidinga e Tuahir param agora frente a um autocarro queimado. Discutem, discordando-se. O jovem lança o saco no chão, acordando poeira. O velho ralha:
Estou-lhe a dizer, miúdo: vamos instalar casa aqui mesmo.
Mas aqui? Num machimbombo todo incendiado?
Você não sabe nada, miúdo. O que já está queimado não volta a arder.
Muidinga não ganha convencimento. Olha a planície, tudo parece desmaiado. Naquele território, tão despido de brilho, ter razão é algo que já não dá vontade. Por isso ele não insiste. Roda à volta do machimbombo. O veículo se despistara, ficara meio atravessado na rodovia. A dianteira estava amassada de encontro a um imenso embondeiro. Muidinga se encosta ao tronco da árvore e pergunta:
Mas na estrada não é mais perigoso, Tuahir? Não é melhor esconder no mato?
Nada. Aqui podemos ver os passantes. Está-me compreender?
Você sempre sabe, Tuahir.
Não vale a pena queixar. Culpa é sua: não é você que quer procurar seus pais?
Quero. Mas na estrada quem passa são os bandos.
Os bandos se vierem, nós fingimos que estamos mortos. Faz conta falecemos junto com o machimbombo.
Entram no autocarro. O corredor e os bancos estão ainda cobertos de corpos carbonizados. Muidinga se recusa a entrar. O velho avança pelo corredor, vai espreitando os cantos da viatura.
Estes arderam bem. Veja como todos ficaram pequenitos. Parece o fogo gosta de nos ver crianças.
Tuahir se instala no banco traseiro, onde o fogo não chegara. O miúdo continua receoso, hesitando entrar. O velho encoraja:
Venha, são mortos limpos pelas chamas.
Muidinga vai avançando, pisando com mil cautelas. Aquele recinto está contaminado pela morte. Seriam precisas mil cerimónias para purificar o autocarro.
Não faça essa cara, miúdo. Os falecidos se ofendem se lhes mostramos nojo.
Muidinga arruma o saco num banco. Senta-se e observa o recanto conservado. Há tecto, assentos, encostos. O velho, impávido, já se deitou a repousar. De olhos fechados, espreguiça a voz:
Sabe bem uma sombrinha assim. Não descanso desde que fugimos do campo. Você não quer sombrear?
Tuahir, vamos tirar esses corpos daqui.
E porquê? Cheiram-lhe mal?
O miúdo não responde logo. Está virado para a janela quebrada. O velho insiste que descanse. Desde que saíram do campo de deslocados eles não tinham tido pausa. Muidinga permanece de costas viradas. Se escuta apenas o seu respirar, quase resvalando em soluço. Então, ele repete a sussurrante súplica: que se limpe aquele refúgio.
Lhe peço, tio Tuahir. É que estou farto de viver entre mortos.
O velho se apressa a emendar: não sou seu tio! E ameaça: o moço que não abuse familiaridades. Mas aquele tratamento é só a maneira da tradição, argumenta Muidinga.
Em você não gosto.
Não lhe chamo nunca mais.
E me diga: você quer encontrar seus pais porquê?
Já expliquei tantas vezes.
Desconsigo de entender. Vou-lhe contar uma coisa: seus pais não lhe vão querer ver nem vivo.
Porquê?
Em tempos de guerra filhos são um peso que trapalha maningue.
Saem a enterrar os cadáveres. Não vão longe. Abrem uma única campa para poupar esforço. No caminho do regresso encontram mais um corpo. Jazia junto à berma, virado de costas. Não estava queimado. Tinha sido morto a tiro. A camisa estava empapada em sangue, nem se notava a original cor. Junto dele estava uma mala, fechada, intacta. Tuahir sacode o morto com o pé. Revista-lhe os bolsos, em vão: alguém já os tinha vazado.
Eh pá, este gajo não cheira. Atacaram o machimbombo há pouco tempo.
O miúdo estremece. A tragédia, afinal, é mais recente que ele pensava. Os espíritos dos falecidos ainda por ali pairavam. Mas Tuahir parece alheio à vizinhança. Enterram o último cadáver. O rosto dele nunca chega a ser visto: arrastaram-no assim mesmo, os dentes charruando a terra. Depois de fecharem o buraco, o velho puxa a mala para dentro do autocarro. Tuahir tenta abrir o achado, não é capaz. Convoca a ajuda de Muidinga:
Abre, vamos ver o que está dentro.
Forçam o fecho, apressados. No interior da mala estão roupas, uma caixa com comidas. Por cima de tudo estão espalhados cadernos escolares, gatafunhados com letras incertas. O velho carrega a caixa com mantimentos. Muidinga inspecciona os papéis.
Veja, Tuahir. São cartas.
Quero saber é das comidas.
O miúdo remexe no resto. As mãos curiosas viajam pelos cantos da mala. O velho chama a atenção: ele que deixasse tudo como estava, fechasse a tampa.
Tira só essa papelada. Serve para acendermos a fogueira.
O jovem retira os caderninhos. Guarda-os por baixo do seu banco. Não parece pretender sacrificar aqueles papéis para iniciar o fogo. Fica sentado, alheio. No enquanto, lá fora, tudo vai ficando noite. Reina um negro silvestre, cego. Muidinga olha o escuro e estremece. É um desses negros que nem os corvos comem. Parece todas as sombras desceram à terra. O medo passeia seus chifres no peito do menino que se deita, enroscado como um congolote. O machimbombo se rende à quietude, tudo é silêncio taciturno.
Mais tarde, se começa a escutar um pranto, num fio quase inaudível. É Muidinga que chora. O velho se levanta e zanga:
Pára de chorar!
É que me dói uma tristeza...
Chorando assim você vai chamar os espíritos. Ou se cala ou lhe rebento a tristeza à porrada.
Nós nunca mais vamos sair daqui.
Vamos, com a certeza. Qualquer coisa vai acontecer qualquer dia. E essa guerra vai acabar. A estrada já vai-se encher de gente, camiões. Como no tempo de antigamente.
Mais sereno, o velho passa um braço sobre os ombros trementes do rapaz e lhe pergunta:
Tens medo da noite?
Muidinga acena afirmativamente.
Então vai acender uma fogueira lá fora.
O miúdo se levanta e escolhe entre os papéis, receando rasgar uma folha escrita. Acaba por arrancar a capa de um dos cadernos. Para fazer fogo usa esse papel. Depois se senta ao lado da fogueira, ajeita os cadernos e começa a ler. Balbucia letra a letra, percorrendo o lento desenho de cada uma. Sorri com a satisfação de uma conquista. Vai-se habituando, ganhando despacho.
Que estás a fazer, rapaz?
Estou a ler.
É verdade, já esquecia. Você era capaz ler. Então leia em voz alta que é para me dormecer.
O miúdo lê em voz alta. Seus olhos se abrem mais que a voz que, lenta e cuidadosa, vai decifrando as letras. Ler era coisa que ele apenas agora se recordava saber. O velho Tuhair, ignorante das letras, não lhe despertara a faculdade da leitura.
A lua parece ter sido chamada pela voz de Muidinga. A noite toda se vai enluarando. Pratinhada, a estrada escuta a estória que desponta dos cadernos: “Quero pôr os tempos...”.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Gal Costa | Já era tempo

 

Uma esperança

Aqui em casa pousou uma esperança. Não a clássica que tantas vezes verifica-se ser ilusória, embora mesmo assim nos sustente sempre. Mas a outra, bem concreta e verde: o inseto.
Houve um grito abafado de um de meus filhos:
Uma esperança! e na parede bem em cima de sua cadeira! Emoção dele também que unia em uma só as duas esperanças, já tem idade para isso. Antes surpresa minha: esperança é coisa secreta e costuma pousar diretamente em mim, sem ninguém saber, e não acima de minha cabeça numa parede. Pequeno rebuliço: mas era indubitável, lá estava ela, e mais magra e verde não podia ser.
Ela quase não tem corpo, queixei-me.
Ela só tem alma, explicou meu filho e, como filhos são uma surpresa para nós, descobri com surpresa que ele falava das duas esperanças.
Ela caminhava devagar sobre os fiapos das longas pernas, por entre os quadros da parede. Três vezes tentou renitente uma saída entre dois quadros, três vezes teve que retroceder caminho. Custava a aprender.
Ela é burrinha, comentou o menino.
Sei disso, respondi um pouco trágica.
Está agora procurando outro caminho, olhe, coitada, como ela hesita.
Sei, é assim mesmo.
Parece que esperança não tem olhos, mamãe, é guiada pelas antenas.
Sei, continuei mais infeliz ainda.
Ali ficamos, não sei quanto tempo olhando. Vigiando-a como se vigiava na Grécia ou em Roma o começo de fogo do lar para que não apagasse.
Ela se esqueceu de que pode voar, mamãe, e pensa que só pode andar devagar assim.
Andava mesmo devagar – estaria por acaso ferida? Ah não, senão de um modo ou de outro escorreria sangue, tem sido sempre assim comigo.
Foi então que farejando o mundo que é comível, saiu de trás de um quadro uma aranha. Não uma aranha, mas me parecia “a” aranha. Andando pela sua teia invisível, parecia transladar-se maciamente no ar. Ela queria a esperança. Mas nós também queríamos e, oh! Deus, queríamos menos que comê-la. Meu filho foi buscar a vassoura. Eu disse fracamente, confusa, sem saber se chegara infelizmente a hora certa de perder a esperança:
É que não se mata aranha, me disseram que traz sorte...
Mas ela vai esmigalhar a esperança! respondeu o menino com ferocidade.
Preciso falar com a empregada para limpar atrás dos quadros – falei sentindo a frase deslocada e ouvindo o certo cansaço que havia na minha voz. Depois devaneei um pouco de como eu seria sucinta e misteriosa com a empregada: eu lhe diria apenas: você faz o favor de facilitar o caminho da esperança.
O menino, morta a aranha, fez um trocadilho, com o inseto e a nossa esperança. Meu outro filho, que estava vendo televisão, ouviu e riu de prazer. Não havia dúvida: a esperança pousara em casa, alma e corpo.
Mas como é bonito o inseto: mais pousa que vive, é um esqueletinho verde, e tem uma forma tão delicada que isso explica por que eu, que gosto de pegar nas coisas, nunca tentei pegá-la.
Uma vez, aliás, agora é que me lembro, uma esperança bem menor que esta pousara no meu braço. Não senti nada, de tão leve que era, foi só visualmente que tomei consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza. Eu não mexia o braço e pensei: “e essa agora? que devo fazer?” Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu. E acho que não aconteceu nada.

Clarice Lispector, em Todos os contos

O guardador de águas

I

O aparelho de ser inútil estava jogado no chão,
quase coberto de limos —
Entram coaxos por ele dentro.
Crescem jacintos sobre palavras.
(O rio funciona atrás de um jacinto.)
Correm águas agradecidas sobre latas…
O som do novilúnio sobre as latas será plano.
E o cheiro azul do escaravelho, tátil.
De pulo em pulo um ente abeira as pedras.
Tem um cago de ave no chapéu.
Seria um idiota de estrada?
Urubus se ajoelham pra ele.
Luar tem gula de seus trapos.

Manoel de Barros, em O guardador de águas

Calvin e Haroldo

1608 – Sevilha

Mateo Alemán

Mateo Alemán sobe ao navio que parte para o México. Para poder viajar para as Índias, subornou o secretário do rei e demonstrou pureza de sangue.
Judeu de pai e mãe e com um ou outro parente queimado pela Inquisição, Mateo Alemán inventou-se uma cristianíssima linhagem e um imponente escudo de armas, e ao mesmo tempo converteu sua amante, Francisca de Calderón, em sua filha mais velha.
O novelista soube aprender as artes de sua personagem, Guzmán de Alfarache, destro no ofício da florida malícia, quem muda de vestimenta, de nome e de cidade para apagar estigmas e escapar da pobreza. Dançar tenho ao som que todos, dure o que dure, explica Guzmán de Alfarache na novela que a Espanha está lendo.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

O império das formigas



1.

Quando o capitão Gerilleau recebeu instruções para conduzir sua nova canhoneira, a Benjamin Constant, até Badama, situada no rio Batemo, afluente do Guaramadema, para ajudar a população local a combater uma praga de formigas, ele desconfiou que as autoridades estavam zombando dele. Sua promoção se deu por motivos tanto românticos quanto irregulares; a afeição de uma proeminente dama brasileira e os líquidos olhos do capitão tinham desempenhado um papel decisivo nesse processo, e tanto O Diário quanto O Futuro haviam sido pouco respeitosos em seus comentários. Ele sentiu que em breve daria motivos para novas manifestações de desrespeito.
Era um mestiço, e suas concepções de etiqueta e disciplina eram de puro sangue português. Ele abria o coração apenas com Holroyd, o maquinista de Lancashire que viera com o barco, e apenas para praticar sua pronúncia do inglês, que era deficiente com os sons de “th”.
Isto é com efeito para me tornar absurdo! — disse ele. — O que um homem pode fazer contra formigas? Elas vêm e elas vão.
O que se diz — respondeu Holroyd — é que estas não vão. Aquele sujeito que o senhor chamou de Sambo…
Zambo. É uma espécie de pessoa de sangue misturado.
Sim, Sambo. Ele diz que as pessoas é que estão indo embora.
O capitão ficou algum tempo soltando baforadas inquietas. Por fim continuou:
Essas coisas precisam acontecer. O que é isso? Pragas de formigas e coisas assim, pela vontade de Deus. Houve uma praga em Trinidad, de formigas que carregam folhas. Todas as árvores de laranjas, todas as de mangas! O que importa? Às vezes chegam exércitos de formigas em nossas casas; formigas guerreiras; diferente tipo. Você se ausenta e elas fazem limpeza na casa. Então você volta e a casa está limpa, como nova! Nada de baratas, de pulgas, de carrapatos pelo chão.
O tal Sambo — disse Holroyd — diz que elas são um tipo diferente de formiga.
O capitão encolheu os ombros, soltou uma baforada, e concentrou sua atenção no cigarro. Daí a pouco voltou à carga.
Caro Holroyd, o que devo fazer a respeito das malditas formigas? — Ficou refletindo mais um pouco, e murmurou: — É ridículo.
À tarde, ele vestiu o uniforme completo e desceu à terra. Jarros e caixotes foram trazidos para o barco, e daí a pouco ele os acompanhou. Holroyd sentou no convés, aproveitando a temperatura amena do entardecer, fumando com gosto e pensando com admiração no Brasil. Estavam havia cinco dias subindo o Amazonas, já a algumas centenas de milhas do oceano, e a leste e a oeste dele via-se apenas um horizonte como o do mar alto, e ao sul nada além de uma ilha com encostas de areia e alguns arbustos.
A água fluía lenta como a de um canal, suja, espessa, agitada pela presença de crocodilos e de pássaros planadores, e alimentada de troncos de árvores produzidos por alguma fonte inexaurível; e aquele desperdício, aquele impetuoso desperdício, preenchia a alma de Holroyd. A vila de Alemquer, com sua igrejinha dilapidada, suas casas e cabanas cobertas de palha, suas ruínas descoloridas de uma época mais próspera, parecia uma coisa minúscula perdida na selvageria da Natureza, uma moedinha caída num Saara. Holroyd era jovem, esta era sua primeira missão nos trópicos, e ele vinha direto da Inglaterra, onde a Natureza é submetida a cercas, a valas, a drenos, até atingir uma submissão perfeita; e agora ele descobria de súbito a insignificância do ser humano. Por seis dias ele e seu barco tinham resfolegado através de canais pouco frequentados, onde o homem era tão raro quanto a mais rara das borboletas. Num dia avistava-se uma canoa, noutro uma estação distante, no seguinte nem uma pessoa sequer.
Ele começou a perceber que o ser humano é de fato um animal escasso, e que mantém uma posse precária sobre a terra.
Percebeu isto com mais clareza à medida que os dias foram passando, e eles percorriam o trajeto tortuoso que os conduzia ao rio Batemo, na companhia daquele extraordinário comandante que tinha apenas um canhão sob suas ordens e estava proibido de desperdiçar munição. Holroyd estudava o espanhol com toda aplicação, mas ainda estava naquele estágio feito apenas de substantivos e verbos no presente, e a única outra pessoa que sabia algumas palavras em inglês era um negro que trabalhava na fornalha e não conseguia pronunciá-las direito. O imediato, Da Cunha, era português de nascimento e falava francês, mas um francês diferente daquele que Holroyd tinha aprendido em Southport, de modo que o diálogo dos dois se limitava a cumprimentos e a comentários básicos sobre bom ou mau tempo. E o clima dali, como tudo o mais naquele extraordinário mundo novo, não tinha qualquer consideração humana: era quente de noite e quente de dia, o ar fumegava, até mesmo o vento era um vapor escaldante, cheirando a vegetação apodrecida; e os jacarés e os pássaros estranhos, as moscas de todos os tipos e tamanhos, os besouros, as formigas, as cobras e os macacos, todos pareciam espantados sem saber o que o homem ia fazer numa atmosfera cujo sol não tinha alegria e cuja noite não refrescava. Usar roupas era insuportável, mas tirá-las significava ser assado pelo sol durante o dia e expor uma área maior aos mosquitos durante a noite; subir ao tombadilho durante o dia era ficar cego pela luz do sol, e ficar embaixo era sufocar. E durante o dia apareciam certas moscas extremamente espertas, e nocivas aos pulsos e tornozelos. O capitão Gerilleau, a única distração capaz de desviar a mente de Holroyd dessas desventuras físicas, acabou se revelando um sujeito insuportavelmente tedioso, contando o dia inteiro histórias de suas aventuras sentimentais, uma série interminável de mulheres anônimas, que ele desfiava como contas de um rosário. Às vezes propunha um pouco de esporte e os dois atiravam em jacarés; de vez em quando chegavam a aglomerados humanos nos confins da floresta e ficavam por um dia ou dois bebendo, sem fazer nada; uma noite dançaram com garotas mestiças, que acharam o parco espanhol de Holroyd, cujos verbos não tinham passado nem futuro, mais do que suficiente para os seus propósitos. Mas estes eram meros lampejos luminosos na longa e acinzentada travessia do caudaloso rio, daquela correnteza contra a qual as máquinas vibravam e latejavam. Uma certa divindade pagã e liberal, em forma de garrafão, era quem governava o barco da popa à proa.
Mas Gerilleau aprendia coisas sobre as formigas, cada vez mais coisas, em cada parada que faziam ao longo do trajeto, e ia ficando mais interessado em sua missão.
Elas são nova espécie de formigas — disse ele. — Precisamos ser... como mesmo se diz? Entomologia? Grandes. Cinco centímetros! Muito grandes. É ridículo. Somos como macacos, enviados para apanhar insetos. Mas elas estão comendo o país. — Ele explodiu de indignação. — Suponha, de repente, que existem complicações com a Europa. Aqui estou eu, perto de chegar ao Rio Negro, e meu canhão está inútil!
Ele afagou o joelho e continuou resmungando.
Aquelas pessoas, que estavam no local de dançar, vieram de lá. Perderam tudo que tinham. Formigas chegaram na casa deles uma tarde. Tudo destruído. Você sabe que quando formigas chegam a gente foge. Todos fogem e elas ocupam a casa. Se você ficasse seria comido. Está vendo? Bem, depois eles voltam, eles dizem: “As formigas foram embora.” As formigas não foram embora! Eles tentam entrar. O filho entra. As formigas brigam.
Elas o atacaram?
Morderam. Rapidamente ele sai de novo, gritando e correndo. Corre para o rio. Está vendo? Entra na água e afoga as formigas. — Gerilleau fez uma pausa, virou seus olhos líquidos para o rosto de Holroyd, e bateu no joelho dele com os nós dos dedos. — Naquela noite ele morre, como se tivesse sido picado por uma cobra.
Envenenado? Pelas formigas?
Quem sabe? — Gerilleau encolheu os ombros. — Talvez o morderam demais. Quando eu entrei para o serviço eu vim para combater homens. Essas coisas, essas formigas, elas vêm e vão. Não é um trabalho para um homem.
Depois disso ele falou frequentemente das formigas para Holroyd, e, onde quer que eles se aproximassem de qualquer aglomerado humano naquela vastidão de água e luz solar e árvores distantes, Holroyd punha em prática seu domínio crescente do idioma para reconhecer a palavra “saúba”, e perceber o quanto ela se tornava predominante nas conversas.
Ele achou que as formigas estavam ficando interessantes; e quanto mais chegavam perto mais interessantes elas se tornavam. Gerilleau deixou de lado seus antigos temas quase de repente, e o tenente português tornou-se mais aberto ao diálogo; ele tinha algumas informações a respeito da formiga cortadora de folhas, e compartilhava seus conhecimentos. Gerilleau às vezes reproduzia para Holroyd o que ele tinha para contar. Ele falou das pequenas operárias que trabalhavam e lutavam em grupo, e as grandes operárias que lideravam e comandavam, e como estas últimas quase sempre subiam na direção do pescoço, e como suas picadas tiravam sangue. Contou como elas cortavam folhas e com elas preparavam leitos de fungos, e como em Caracas os seus formigueiros chegam a ter centenas de metros de diâmetro. Durante dois dias inteiros os três homens debateram a questão de as formigas terem olhos ou não. A discussão tornou-se perigosamente acalorada na segunda tarde, e Holroyd salvou a situação indo de bote até a margem e trazendo algumas formigas para examinar. Capturou vários espécimes e os trouxe. Algumas tinham olhos e outras não. Outra discussão entre eles era: as formigas mordem ou picam?
Essas formigas — disse Gerilleau, depois de se informar numa fazenda — têm grandes olhos. Elas não correm cegas como a maioria das formigas fazem. Não! Elas ficam nos cantos e olham o que você faz.
E elas picam? — perguntou Holroyd.
Sim. Elas picam. Existe veneno na picada delas. — Ele meditou. — Eu não sei o que os homens podem fazer contra formigas. Elas vêm e vão.
Mas estas não vão.
Elas vão ir — disse Gerilleau.
Depois de Tamandu, há uma longa costa de baixios ao longo de oitenta milhas, totalmente desabitada, e depois dela chega-se à confluência entre o grande rio e o Batemo, a qual é como um imenso lago; e então a floresta se aproxima, chegando a uma distância quase íntima. O caráter da correnteza muda, os troncos submersos tornam-se abundantes. O Benjamin Constant atracou durante aquela noite preso a um mourão, sob a sombra profunda das árvores. Pela primeira vez em muitos dias foi sentida uma rajada de vento fresco, e Holroyd e Gerilleau sentaram-se até tarde, fumando charutos e curtindo aquela sensação deliciosa. A mente de Gerilleau estava ocupada pelas formigas e pelo que elas eram capazes de fazer. Finalmente ele resolveu dormir, e deitou-se num colchão ali no próprio convés, um homem desesperadamente perplexo; suas últimas palavras, quando já parecia adormecido, foram para perguntar, num acesso de ansiedade:
O que se pode fazer com formigas? Toda essa coisa é absurda.
Holroyd ficou coçando os pulsos cobertos de mordidas, e meditando a sós.
Sentou no parapeito e escutou as variações na respiração de Gerilleau até que este mergulhou num sono mais profundo; então, o chapinhar das ondas de encontro ao casco do navio ocupou seus sentidos e lhe trouxe de volta aquele senso de imensidão que o estava invadindo desde que deixaram para trás o Pará e mergulharam no rio. O barco mantinha apenas uma pequena luz acesa. Havia um murmúrio de conversação que logo foi seguido por um completo silêncio. Os olhos dele foram da silhueta sombria do barco até a margem do rio, e dali para a negra e esmagadora presença da floresta, iluminada aqui e ali pelo brilho de um vagalume, de onde emanava continuamente um murmúrio de estranhas e misteriosas atividades…
Era a imensidade inumana daquela terra que o assombrava e oprimia. Ele sabia que os céus eram desabitados, que as estrelas eram apenas pontos luminosos na incrível vastidão do espaço; sabia que o oceano era enorme e indomável, mas na Inglaterra ele se acostumara a pensar na terra como o domínio do ser humano. E na Inglaterra ela pertence ao homem, sem dúvida. As criaturas selvagens têm uma vida difícil, multiplicam-se onde são autorizadas, e por toda parte imperam as estradas, as cercas e a autoridade absoluta do homem. Num atlas, também, a terra é do homem, e as áreas são coloridas para assinalar sua posse, em vívido contraste com o azul universal do mar independente. Ele imaginara o dia em que todas as coisas da terra, as lavouras, as culturas, as vias férreas rápidas, as boas estradas, acabariam prevalecendo num clima de segurança e ordem. Agora, começava a duvidar disso.
A floresta era interminável, aparentava ser invencível, e o Homem parecia na melhor das hipóteses um intruso ocasional, em condições precárias. Era possível viajar muitas milhas no meio da silenciosa luta entre as árvores gigantescas, os cipós estranguladores, as flores onipresentes, e por toda parte surgiam o jacaré, a tartaruga, as incontáveis variedades de aves e os insetos que ali se sentiam em casa e com a certeza de não serem despejados; mas o Homem conseguia no máximo ocupar um pequeno espaço numa clareira, lutava contra o mato, disputava com os bichos e os insetos cada palmo de terreno, era vitimado pelas cobras, pelas feras, pela febre, e acabava sendo enxotado. De muitos lugares ao longo do rio ele já tinha sido visivelmente expulso, e um ou outro riacho deserto preservava o nome de uma casa, e aqui e ali apareciam ruínas de paredes brancas e torres desmoronadas para repetir essa lição. O puma e o jaguar eram mais senhores daquele espaço do que o ser humano.
Quem eram os verdadeiros senhores?
Em algumas poucas milhas quadradas de floresta devem existir mais formigas do que toda a população do mundo! Era uma ideia totalmente nova na mente de Holroyd. Em poucos milhares de anos o Homem tinha emergido da barbárie para um estágio de civilização que o fazia sentir-se como senhor do futuro e proprietário da Terra! Mas o que impedia as formigas de também evoluírem? As formigas que conhecemos vivem em pequenas comunidades de uns poucos milhares de indivíduos, e não ousam um enfrentamento maior com o mundo à sua volta. Mas elas tinham uma linguagem, tinham inteligência! Por que iriam se deter nesse ponto, se os homens não tinham se detido na sua fase de barbárie? Suponhamos que as formigas se tornassem capazes de armazenar conhecimentos, assim como o Homem fizera com seus livros e seus registros; capazes de usar armas, formar grandes impérios, sustentar uma guerra planejada e organizada?!
Lembrou de algumas informações, colhidas por Gerilleau, sobre as formigas que estavam indo enfrentar. Elas empregavam um veneno semelhante ao das serpentes. Obedeciam seus líderes, assim como as formigas cortadoras de folhas. Eram carnívoras, e quando ocupavam um lugar não o abandonavam mais...
A floresta estava tranquila. A água chapinhava incessantemente de encontro ao casco da canhoneira. Sobre a lanterna erguida lá no alto, via-se um torvelinho silencioso de mariposas fantasmas.
Gerilleau mudou de posição no sono, e soltou um suspiro. “O que se pode fazer?”, murmurou ele, e, virando-se para o outro lado, adormeceu novamente.
As meditações de Holroyd iam ficando cada vez mais sinistras, e ele foi arrancado delas pelo zumbido de um mosquito.

H. G. Wells, em O país dos cegos e outras histórias