Pois, esse dia da chegada pareceu
durar umas quarenta horas, de tão intenso. Só percebo agora, que
preciso recontar. No caminho Florice me avisou que Fátima era a mais
interessada nos Ressurrectos. Olhou para mim pela primeira vez
perguntando qual seria meu nome, afinal, porque sabia que cheguei sem
nada.
— Aparecida, como combinamos —
Florice respondeu por mim.
— Eu sei, mas a menina precisa de um
sobrenome, acho que pode ser Reis. Aparecida dos Reis, que tal? Se
gostam, está bem, pois foi assim que ficou registrado no caderno da
prefeitura, já está lá seu nome como voluntária no projeto dos
bordados minhotos. Não pediram documentos, eu mesma anotei.
— Fátima é mesmo engraçada —
foi Lourdes quem disse. — Ela arranja tudo como quer, faz de conta
que está pedindo uma opinião e segue do jeito que acha certo de
qualquer forma. Sempre foi assim.
Florice era uma mulher de pensamento
prático, concreto, uma dona de casa impecável, maternal, cuidadosa,
legado de uma vida como enfermeira. Fátima era conectada com o
mundo, com as causas ao seu redor, não gostava de cuidar de casa,
queria estar sempre cercada de pessoas e de movimento. Lourdes, um
amor de criatura. Distraída, filósofa, batizou a fábrica de vinhos
do marido com o nome Beijos de Beber, uma mulher com a cabeça
constantemente acima das nuvens, lendo, pensando.
Já eu não tive tempo de pensar, de
dizer sim ou não, perguntar o que é isso de bordado minhoto, já
estava decidido que essa seria minha ocupação em Aboim, além de
ajudar Fátima com a vida na casa, no alto de uma colina naquela vila
de poucas casas e de frio lancinante. Isso tudo foi tratado na
estrada entre Braga e Aboim, fui comunicada. Queria chamar dona
Fátima, por respeito, mas ela não permitiu.
Quando o cansaço calou a todas por um
tempo, fez-se silêncio e pude ver o Minho pela janela. Na frente de
todas as moradas havia uma construção alta, comprida e estreita,
com uma cruz em cima, e cheguei a achar que eram túmulos. Perguntei
por que enterravam as pessoas assim, no jardim, na frente de casa.
Pareceu piada.
— São espigueiros, menina. Nada
trágico ou dramático, apenas espigueiros onde se armazenam cereais.
Claro que a resposta foi de Fátima.
Riram de mim, da minha primeira vez no Minho, desconhecendo tudo.
Jorge tentou ser discreto, mas também riu e olhou pelo retrovisor.
Era jovem, usava óculos escuros, não pude ver direito o seu rosto,
mas vi seu tamanho, um homem que ocupava todo o espaço, as mãos
firmes na direção do carro, as pernas, olhei o que pude, tentei ser
discreta, mas tempos depois ele disse que percebeu que eu esticava o
pescoço. Ele nos deixou em casa e teria de ir resolver algo com
urgência, não pude ver direito.
Só consegui ter um pouco de paz à
noite, antes do jantar. Quando chegamos à casa levamos muitas horas
descarregando todas as bagagens, fazendo comida para mais tarde, e
logo entrei na rotina porque isso era mais fácil do que tentar
conversar ou entender qualquer coisa. Arrumei a mesa para seis
pessoas, sem fazer as contas, porque assim mandaram. Ocupava-me com o
leva e traz de pratos e taças, mais vinho, até soar a campainha com
a chegada do sexto convidado que faltava.
Era Jorge, com três ramalhetes de
flores e uma cestinha de queijos e geleias. Não trouxe vinho como
manda o costume português porque sei que nessa casa só se toma
Beijos de Beber, ele disse, sendo coberto de abraços por todos. Só
então reparei que era este o nome de todas as garrafas de vinho da
casa, as vazias e as duas caixas cheias, Beijos de Beber.
Apresentaram-me como Aparecida
enquanto eu estava na cozinha, lavando copos e taças. Florice falou
que me desenterraram em Almofala e me assustei, derrubei uma taça e
quebrei dentro da pia, não esperava esse assunto. Fernando explicou
que poderíamos falar dos Ressurrectos naturalmente enquanto
estivéssemos a sós, a família e eu. Jorge é da família. E disse
que não valia a pena sofrer por aquele enigma imenso de ressurgir em
outra terra, não tem muito o que remoer sobre isso, é assim. A mãe
de Jorge era prima das Marias, sabiam de tudo.
Quando por fim nos sentamos para
jantar o assunto era a minha vida. As duas irmãs já sabiam dos
detalhes: que eu falava desde o primeiro dia, que não tinha nenhuma
memóriaalém dos sonhos, da reação emocional ao sino e ao mar, das
pistas esparsas que guardo sobre mim. Minha esperança era de que
Fátima tivesse alguma informação sobre o que eu poderia fazer para
me salvar, mas minha ausência total de lembranças também a
espantava. Sua opinião sobre os Ressurrectos era muito prática e
concreta: era preciso levantar e seguir até que alguma verdade fosse
revelada. Sem jamais parar a vida, porque tudo acontecera por um
esforço do destino para que eu pudesse continuar vivendo. Há o
destino, mas há a vontade, ela disse. Morrer teria sido mais fácil
que atravessar um túnel de terra, há um motivo para que esta sua
vida prossiga.
Em geral vocês todos se lembram de
tudo em algum momento, ela continuou, as coisas começam a voltar,
pouco a pouco, nos sonhos, depois um jorro de lembranças; os nomes
das pessoas, dos lugares, costuma ser assim, mas sua porta está
fechada. A porta da sua memória não abre daqui, é preciso ter
paciência, retomar a vida de outro jeito. Fátima falava disso
enquanto passava um pedaço do pão no azeite e enchia a taça de
alguém, como se quase morrer, nascer de novo, sair da terra não
fosse coisa de sofrer ou de ter angústia.
Quando comecei a perguntar o motivo, a
razão de tudo, o sentido de estar ali sem lembrar, sendo alguém que
perdeu o poder sobre a própria vida, vi o quanto Fátima é uma
mulher menos paciente que a irmã. Interpretou como se me queixasse
deles e me disse que eu deveria agradecer porque estava sendo
acolhida em uma família onde eu poderia caber, um dia, se merecesse
fazer parte, se aprendesse que o destino é forjado pela faca do
segredo, que há golpes e erros e que para todo corte há uma cura.
Jorge olhou assustado para mim, adivinhando meu constrangimento. Foi
a primeira vez que cruzamos olhares. Eu tinha mesmo vontade de
chorar, mas de raiva, não de tristeza. Vontade de responder, de
dizer desaforos, mas não podia e, no mais, ela tinha toda razão.
Daquele ponto da minha vida, ela
disse, ou eu aceitava as mãos que me tiraram do buraco, moldando
meus meses iniciais a uma nova modalidade de vida, ou saía rumo ao
nada. Existem Ressurrectos por todos os lados e poucos tiveram a
minha sorte. Muitos estão no meio das ruas contando alto de onde
vieram sem que ninguém acredite, sem que ninguém diga para onde ir.
Emendou lembrando da matéria de
jornal que leu sobre um pedinte em Istambul, que explicava em francês
sua história, de como apareceu na Turquia sem fazer ideia do que o
levou até lá, mostrava o buraco de onde saiu, virou atração pela
loucura, coitado.
Cada palavra era um golpe seco, uma
sinceridade dolorosa, a dor da verdade da minha condição, sem
nenhum alívio ou disfarce, sem camadas, a verdade crua de que estou
perdida no século, no tempo, no vácuo de uma existência sem nome,
essa coisa que nos faz gente eu não tinha, a ideia de pátria e de
ser parte da história, eu não tinha. Ainda não tenho. Era preciso
aguardar mais um pouco, confiar na possível benevolência do
destino.
Até lá eu seria Aparecida dos Reis,
disse Lourdes, tentando acalmar os ânimos, levantando um brinde a
mim. Era a mais silenciosa das três, mas agiu com muita
sensibilidade para que mudássemos o assunto. Depois brindamos ao
aniversário delas. Contaram que isso aconteceu, o nascimento de três
meninas, porque sua mãe via sempre três andorinhas pousadas no
galho de uma árvore do jardim de sua família, quando estava
grávida. Era este o bordado de um pano colorido em cima da lareira,
emoldurado. Relembravam as histórias da infância, algumas coisas eu
não entendia; quando falavam todas ao mesmo tempo a conversa virava
uma massa de sons confusos.
— E o Jorge, como está levando a
vida?
Enfim um pequeno vale de silêncio
para que Jorge pudesse falar de Catarina, sua mãe. Ele me olhou.
Disse que achava por bem me explicar, se apresentar a mim, aquele
homem todo, de voz grave, adocicado pela gentileza. Desde o começo
notei sua atenção comigo, uma curiosidade impossível de disfarçar.
Sua mãe era prima das três, cresceram juntas em Aboim até que ela
foi estudar em Coimbra. Casou-se com um diplomata moçambicano e
mudaram para a África, onde Jorge nasceu e cresceu, até vir estudar
em Lisboa. Catarina ficou na Ilha de Moçambique. Entendi sua
história enquanto ele falava do pedido da mãe, dos lugares onde
deveria jogar as suas cinzas.
O primeiro era em Aboim, na casa onde
tinha nascido. O segundo, no rio Douro. O terceiro era mesmo na Ilha
de Moçambique, diante da capela de Nossa Senhora do Baluarte. Jorge
tinha um mundo inteiro dentro dele, seus tataravós eram macuas e,
mesmo não tendo sido criado com eles, entendia da religião, dos
antepassados, esse era o tema do seu doutorado, a história dos
macuas.
— Não tenho data certa para voltar.
Estou arrumando a casinha para escrever minha tese aqui em Aboim.
Preciso desse tempo de solidão.
Fernando quis saber sobre a tese e
assim começou um passeio pela mente de Jorge nos guiando pelo mundo
inteiro, falando não só dos macuas, mas de lugares que conheceu,
das coisas que viveu com seus pais e sozinho, das suas viagens por
todo o continente africano, das lembranças da mãe, da sua adoção,
das iguarias estranhas que comeu e bebeu, da vontade de abrir a
cabeça para o total, sempre olhando para mim, para todos. Eu não
estava entendendo muito bem, de vez em quando eu levantava, pegava um
prato, levava uma taça, trazia uma garrafa, mas uma frase ficou
marcada para mim: “O barco de cada um está em seu próprio peito”.
Era um provérbio macua.
Aceitei o vinho, o Beijos de Beber,
fiquei tonta rapidamente. Aceitei receber aquela noite como um
alívio. Sabia que dali em diante tudo iria mudar. Jorge tomou conta
da casa, aos poucos sua voz encheu os espaços, elas o adoravam como
se ainda fosse um menino. Ele as reverenciava como se fossem a marca
de vida de sua mãe, respeitava Fernando com brilho nos olhos e eu
participava de um encontro daqueles destinos. Até que Jorge começou
a falar comigo de novo.
— Eu conheço o Brasil, Aparecida.
Estive no Rio de Janeiro e em Minas Gerais.
— Ela não lembra de nada, a
pobrezinha, nem adianta — Lourdes apressou-se em me salvar, um
pouco bêbada.
— Sim. Uma Ressurrecta. Lembro do
dia em que avisaram da sua chegada. Vocês lembram? — Jorge disse.
— A chegada de Aparecida? Avisaram a
quem?
— Ao senhor Afonso, seu pai. Não
disseram o nome, mas é ela. Acho que eu tinha uns dez anos quando
estive aqui de férias com meus pais. Chegou um homem, sentaram-se
ali no sofá. Já se conheciam, parece que por carta. Deu a notícia
de morte de uma pessoa e depois disse que trazia um outro recado, que
uma mulher brasileira surgiria na família, alguns anos adiante. Foi
uma previsão bem adiantada, pois Cida chegou vinte e cinco anos
depois. Seria a última Ressurrecta, a primeira mulher e com ela
terminaria a missão de vocês, e o senhor Afonso levantou as mãos
para o céu, assim, dando graças. Não sei se havia mais algum
detalhe, a senhora se lembra, dona Fátima?
— Nunca tinha ouvido falar disso,
vocês sabiam?
— Chegando a Lisboa vou procurar na
caderneta de meu pai, ele tomava nota de tudo. Há uma parte em que
escreveu muitas coisas que conversava sobre os Ressurrectos, mas
nunca li. A caligrafia é muito atrapalhada, mas justo a mim ele
confiou o caderno — Florice respondeu.
— E justo para a senhora chegou
Aparecida — Jorge sorriu.
Jorge e seu conhecimento, sua presença
no dia do anúncio da minha chegada; ele e sua memória, sua
seriedade e gentileza, era a primeira chave das descobertas que eu
precisava fazer a partir de então.
Disfarcei a angústia apressando a
limpeza dos pratos que já estavam na pia. Pedi licença para começar
a arrumar as coisas, eu sentia a obrigação de colaborar, todos
perceberam, é claro, mudaram de assunto. Combinamos o dia seguinte,
a reunião seria às duas da tarde. Não sei que reunião era essa,
mas meu nome estava lá e eu deveria ir. Precisávamos dormir. Todos
levaram as coisas para a cozinha, arrumamos depressa o que foi
possível. Doze mãos cuidam bem de uma casa. Jorge foi embora depois
de abraçar a todos e acenar de longe para mim.
Um quarto só meu, o mais alto, todo
em madeira, miúdo, o mínimo para viver. Adormeci rapidamente de
tanto cansaço e consegui sonhar.
O primeiro sonho em Aboim da Nóbrega
me despertou no meio da madrugada. Uma missa parecida à que ouvi na
Igreja dos Mártires, não tão tranquila, não tão em ordem, havia
uma confusão, as badaladas do sino, alguma coisa aconteceu, fora da
igreja as pessoas se arrumavam em círculo. Anotei no Livro das
Visões que talvez meu corpo não fosse cristão, constantemente
tocava uma música na minha cabeça mas eu não reconhecia as
palavras, só a melodia, que relembrei por inteiro. Cantei para
adormecer de novo, chamar a calma, chamar o vento, chamar qualquer
coisa que me desse esperança.
Não consegui mais dormir depois do
sonho porque pensava em Jorge, no pequeno baú de cinzas de sua mãe
que ele carregava, na missão de jogar parte a parte em vários
lugares, refazendo o trajeto do seu amor. A voz de Jorge estava
espalhada por toda extensão da minha cabeça vazia, desocupada de
memórias, tudo só para ele, só para os detalhes do seu corpo, as
mãos, o porte de caçador, de repente meus pensamentos já eram
outros, esqueci dos Ressurrectos, dos sonhos, só tinha para mim o
eco daquela voz, as palavras, macua, Moçambique, o sotaque dele, seu
olhar pousava em mim com atenção, ele me enxergou a noite inteira.
Paixão e feitiçaria são obras do mesmo fogo.