quinta-feira, 4 de junho de 2020

Tuyo - Eu Sou Dragão

Acerca da esperança e do temor

Não haverá razão para viver, nem termo para as nossas misérias, se for mister temer tudo quanto seja temível. Neste ponto, põe em ação a tua prudência; mercê da animosidade de espírito, repele inclusive o temor que te acomete de cara descoberta. Pelo menos, combate uma fraqueza com outra: tempera o receio com a esperança. Por certo que possa ser qualquer um dos riscos que tememos, é ainda mais certo que os nossos temores se apazíguam, quando as nossas esperanças nos enganam.
Estabelece equilíbrio, pois, entre a esperança e o temor; sempre que houver completa incerteza, inclina a balança em teu favor: crê no que te agrada. Mesmo que o temor reúna maior número de sufrágios, inclina-a sempre para o lado da esperança; deixa de afligir o coração, e figura-te, sem cessar, que a maior parte dos mortais, sem ser afetada, sem se ver seriamente ameaçada por mal algum, vive em permanente e confusa agitação. É que nenhum conserva o governo de si mesmo: deixa-se levar pelos impulsos, e não mantém o seu temor dentro de limites razoáveis. Nenhum diz:
Autoridade vã, espírito vão: ou inventou, ou lho contaram.
Flutuamos ao mínimo sopro. De circunstâncias duvidosas, fazemos certezas que nos aterrorizam. Como a justa medida não é do nosso feitio, instantaneamente uma inquietude se converte em medo.
Sêneca, in Dos Reveses

Hagar, o Horrível


O tango


Onde estarão? Pergunta-se a elegia
De quem não vive mais, como se houvesse
Uma região em que o Ontem pudesse
Ser o Hoje, o Ainda e o Todavia.

Onde estará (repito) o malfeitor
Que fundou nesses becos empoeirados
De terra ou nos perdidos povoados
A seita do facão, do destemor?

Onde estarão aqueles que passaram,
Deixando à epopeia um episódio,
Uma fábula ao tempo e que, sem ódio,
Lucro ou paixão de amor se esfaquearam?

Em sua lenda eu os busco, derradeira
Brasa que, a modo de uma vaga rosa,
Guarda algo dessa chusma valorosa
Vinda dos Corrales, de Balvanera.

Em quais escuros becos, em que ermos
Do outro mundo se instalará a dura
Sombra de quem era uma sombra escura,
Muraña, essa navalha de Palermo?

E esse Iberra fatal (de quem os santos
Se apiadem) que na ponte de uma via
Matou seu irmão Nato, que devia
Mais mortes que ele e assim igualou tantos?

Uma mitologia de punhais
Lentamente se anula no esquecer-se;
Uma canção de gesta foi perder-se
Em sórdidas notícias policiais.

Há outra brasa, outra candente rosa
Das cinzas que inteiros guardará;
Soberbos navalhistas estão lá
E a adaga, com seu peso, silenciosa.

Embora a adaga hostil, ess’outra adaga,
O tempo, os perdessem em maldição,
Hoje, ultrapassando o tempo e a aziaga
Morte, os mortos no tango viverão.

Na música estão, e na cordagem
Da teimosa guitarra trabalhosa,
Que trama na milonga venturosa
A festa e a inocência da coragem.

Gira no baldio a amarela roda
De cavalos e leões, e ouço o ecoar
Desses tangos de Greco e os de Arolas
Que eu vi pelas calçadas a bailar,

Num instante que emerge hoje isolado,
Sem antes nem depois, contra o olvido,
E que tem o sabor do já perdido,
Do já perdido e do recuperado.

Nos acordes, antigas coisas gemem:
O outro pátio com a entrevista parra.
(Por trás dessas paredes que ainda temem,
O Sul guarda um punhal e uma guitarra.)

Essa rajada, o tango, essa diabrura,
Os trabalhosos anos desafia;
Feito de pó e tempo, o homem dura
Menos que a inconsequente melodia,

Que só é tempo. O tango cria um turvo
Passado irreal, pouco se duvida,
A lembrança incrível de dar a vida
Brigando, numa esquina do subúrbio.
Jorge Luis Borges

Dar tempo ao futuro (trecho)

[…] Escolher o futuro como tema é enfrentar um universo de conflitos e de ambiguidades. Porque o futuro apenas existe numa dimensão fluida, quase líquida. Por vezes, como está ocorrendo agora neste país, ele desponta como se fosse um chão material e concreto. Na maior parte das vezes, porém, ele é frágil e nebuloso como uma linha de horizonte que se desfaz quando nos tornamos mais próximos. No conflito entre expectativa e realidade é comum o sentimento de desapontamento que faz pensar que, no passado, o futuro já foi melhor. Na realidade, no momento atual e global muitos de nós deixamos simplesmente de querer saber do futuro. E parece recíproco: o futuro também não quer saber de nós.
Estamos tão entretidos em sobreviver que nos consumimos no presente imediato. Para uma grande maioria, o porvir tornou-se um luxo. Fazer planos a longo prazo é uma ousadia a que a grande maioria foi perdendo direito. Fomos exilados não de um lugar. Fomos exilados da atualidade. E por inerência, fomos expulsos do futuro.
Esta é a condição não apenas de milhões de pessoas, mas de muitos países do nosso continente e do mundo inteiro. O amanhã tornou-se demasiado longe. Mais do que longínquo, tornou-se improvável. Mais do que improvável, tornou-se impensável.
Esta ausência de perspectiva histórica não pode ser atribuída apenas a regimes e governos. O que alguns, maus políticos, fizeram foi reafirmar algo que já existia antes: um profundo alheamento em relação à nossa condição de temporários viajantes do Tempo. O descrédito político gerou o cinismo com que hoje olhamos a gestão do nosso quotidiano.
Todavia, a dificuldade de ver o futuro é, no nosso caso, muito anterior à desilusão política. Esse alheamento resulta de uma filosofia própria do mundo rural africano, em que o Tempo é entendido como uma entidade circular. Nesse universo apenas o presente é credenciado. A ideia de um tempo redondo não é uma categoria exclusivamente africana, mas de todas as sociedades que vivem sob o domínio da lógica da oralidade. Foi a escrita que introduziu a ideia de um tempo linear, fluido e irreversível como a corrente de um rio. Nos casos de Angola e Moçambique, contudo, a lógica da escrita é ainda um universo restrito. Politicamente hegemônico, mas dominado do ponto de vista da representação que fazemos do mundo.
Para a oralidade, só existe o que se traduz em presença. Só é real aquele com quem podemos falar. Os próprios mortos não se convertem em passado, porque eles estão disponíveis a, quando convocados, se tornarem presentes. Em África, os mortos não morrem. Basta uma evocação e eles emergem para o presente, que é o tempo vivo e o tempo dos viventes.
Não quero perder-me em meandros filosóficos. Mas grande parte dos moçambicanos (e imagino dos angolanos) lida com categorias de tempo bem diversas daquela que norteia uma empresa de seguros. Para essas culturas, o futuro não só não tem nome como a sua nomeação é interdita. Na maior parte das línguas moçambicanas há palavra para dizer “amanhã” —
É evidente que, no universo urbano, estes conceitos são reconstruídos e o peso da oralidade vai-se tornando outro. Todavia, mudar de conceitos sobre o tempo leva tempo. E quem fala de tempo fala da espera e da sua irmã gêmea, a esperança.
Infelizmente foi-se generalizando uma atitude de descrença. O acumular de crises e o compensar dos crimes contra a ética convidam-nos a uma desistência da alma. Todos os dias uma silenciosa mensagem nos sugere o seguinte: o futuro não vale a pena. Há que viver o dia-a-dia, ou na linguagem dos mais jovens: há que curtir os prazeres imediatos. A geração dos nossos pais tinha como propósito amealhar um dinheirinho para prevenir acidentes e assegurar um futuro certo e seguro. Teremos nós hoje a mesma fé?
O ditado dizia: “Grão a grão enche a galinha o papo”. Hoje, temos vergonha do pequeno grão e temos tanta pressa e tanta ambição que já não há galinhas, só há pavões. Reina a expectativa do “depressa e muito”. Pagaremos mais tarde esta ilusão de grandeza e velocidade. A vida nos dirá que o depressa sai mal e o muito só é muito para muito poucos.
As campanhas contra a Aids ressentem-se deste desafio. Não se trata apenas de pedir aos jovens que façam contas e sacrifiquem a expressão imediata dos seus desejos. A questão é esta: em nome de quê o jovem abdica do prazer do momento? Antes havia um sujeito maior, uma razão redentora, na forma de uma causa religiosa, ou de um discurso político. Hoje essa razão de longo prazo está descolorida. Necessitamos de reescrever uma narrativa nova, de inventar um tempo que seja brilhante e sedutor. E que dê sentido às escolhas de longa duração, que dê valor à esperança e à moralidade enquanto investimentos a longo termo. Necessitamos de ter a certeza de que vale a pena esperar sem receio de que os abutres devorem, entretanto, o melhor pedaço da nossa alma.
Mia Couto, in E se Obama fosse africano?

Temas que morrem


Sinto em mim que há tantas coisas sobre o que escrever. Por que não? O que me impede? A exiguidade do tema talvez, que faria com que este se esgotasse em uma palavra, em uma linha. às vezes é o horror de tocar numa palavra que desencadearia milhares de outras, não desejadas, estas. No entanto, o impulso de escrever. O impulso puro — mesmo sem tema. Como se eu tivesse a tela, os pincéis e as cores — e me faltasse o grito de libertação, ou a mudez essencial que é necessária para que se digam certas coisas. Às vezes a minha mudez faz com que eu procure pessoas que, sem elas saberem, me darão a palavra-chave. Mas quem? quem me obriga a escrever? O mistério é esse: ninguém, e no entanto a força me impelindo.
Eu já quis escrever o que se esgotaria em uma linha. Por exemplo, sobre a experiência de ser desorganizada, e de repente a pequena febre de organização que me toma como a de uma antiga formiga. É como se o meu inconsciente coletivo fosse o de uma formiga.
Eu também queria escrever, e seriam duas ou três linhas, sobre quando uma dor física passa. De como o corpo agradecido, ainda arfando, vê a que ponto a alma é também o corpo.
E é como se eu fosse escrever um livro sobre a sensação que tive uma vez que passei vários dias em casa muito gripada — e quando saí fraca pela primeira vez à rua, havia sol cálido e gente na rua. E de como me veio uma exclamação entre infantil e adulta: ah, como os outros são bonitos. É que eu vinha do escuro meu para o claro que também descobria que era meu, é que eu vinha de uma solidão de pessoas para o ser humano que movia pernas e braços e tinha expressões de rosto.
Também seria inesgotável escrever sobre beber mal. Bebo depressa demais, e não há alternativas: ou praticamente adormeço dentro de mim e fico morosa, pensativa, sem que um pensamento se esclareça como descoberta, ou fico excitada dizendo tolices de maior brilho instantâneo. Mas — mas há um instante mínimo nesse estado em que simplesmente sei como é a vida, como eu sou, como os outros são, como a arte deveria ser, como o abstracionismo por mais abstrato não é abstrato. Esse instante só não vale a pena porque esqueço tudo depois, quase na hora. É como se o pacto com Deus fosse este: ver e esquecer, para não ser fulminado pelo saber.
E às vezes, por mais absurdo, acho lícito escrever assim: nunca se inventou nada além de morrer, pois faz parte essencial da natureza humana, animal e vegetal, e também as coisas morrem. E, como se houvesse ligação com essa descoberta, vem a outra óbvia e espantosa: nunca se inventou um modo diferente de amor de corpo que é estranho e cego. Cada um vai naturalmente em direção à reinvenção da cópia, que é absolutamente original quando realmente se ama. E de novo volta o assunto morrer. E vem a ideia de que, depois de morrer, não se vai ao paraíso, morrer é que é o paraíso.
A verdade é que sempre me faltou o dom para a minha verdadeira vocação: a de desenhar. Porque eu poderia, sem finalidade nenhuma, desenhar e pintar um grupo de formigas andando ou paradas — e sentir-me inteiramente realizada nesse trabalho. Ou desenharia linhas e linhas, uma cruzando a outra, e me sentiria toda concreta nessas linhas que os outros talvez chamassem de abstratas. Eu também poderia escrever um verdadeiro tratado sobre comer, eu que gosto de comer e no entanto não como tanto. Terminaria sendo um tratado sobre a sensualidade, não especificamente a do sexo, mas a sensualidade de “entrar em contato” íntimo com o que existe, pois comer é uma de suas modalidades — e é uma modalidade que engage de algum modo o ser inteiro.
Também escreveria sobre rir do absurdo de minha condição. E ao mesmo tempo mostrar como ela é digna, e usar a palavra digna me faz rir de novo.
Eu falaria sobre frutas e frutos. Mas como quem pintasse com palavras. Aliás, verdadeiramente, escrever não é quase sempre pintar com palavras?
Ah, estou cheia de temas que jamais abordarei. Vivo deles, no entanto.
Clarice Lispector, in Crônicas para jovens: de escrita e vida

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Um Café Lá Em Casa | Frejat e Nelson Faria

Projeção e a expansão da inteligência

Para meu livre arbítrio o livre arbítrio do próximo é tão indiferente quanto sua insignificante respiração e sua pobre carne. Com efeito, embora sejamos feitos especialmente uns para os outros, a razão de cada um de nós possui sua própria independência, pois de outro modo a maldade do próximo seria um mal para mim; mas os deuses não quiseram isso, para que eu não fosse infeliz por causa de outrem.

O sol parece derramar-se e de fato se alastra em todos os sentidos, mas sem esgotar-se, pois seu alastramento é extensão. É por isso que essas ondas de luz se chamam raios, porque se alastram. Poderás ver o que é um raio – se observares a luz do sol, quando ela penetra por uma abertura estreita em um compartimento escurecido. Ela se lança em linha reta e pára, por assim dizer quando encontra qualquer sólido em seu caminho, impedindo-a de projetar-se pelo ar adiante; ali a luz pára, sem penetrar ou cair. Assim deve ser a projeção e a expansão da inteligência, de forma alguma por esgotamento, mas por extensão; e é preciso que ela não venha chocar-se violentamente e impetuosamente contra os obstáculos que encontra, e tampouco que torne a projetar-se, mas pouse e ilumine o objeto que a recebe. Privar-se-ia de luz aquele que não a recebesse.
Marco Aurélio, in Meditações

Misto-Quente - 15


Meu pai sempre expulsava da nossa casa os garotos da vizinhança. Me diziam para não brincar com eles, mas eu caminhava pela rua e os via, de qualquer modo.
Ei, Henrizinho! – eles gritavam. – Por que você não volta pra Alemanha?
De alguma maneira, tinham descoberto sobre o meu local de nascimento. O pior é que todos eles tinham a mesma idade que eu e não andavam juntos apenas porque moravam na mesma vizinhança, mas porque frequentavam o mesmo colégio católico. Eram garotos durões, jogavam futebol americano de verdade por horas a fio e quase que diariamente dois deles brigavam a socos. Os quatro cabeças da turma eram Chuck, Eddie, Gene e Frank.
Ei, Henrizinho, volte pra Chucrutlândia!
Não tinha como me enturmar com eles...
Então um garoto ruivo se mudou para a casa vizinha à de Chuck. Frequentava uma espécie de escola especial. Certo dia, eu estava sentado na beira da calçada quando ele saiu de casa. Sentou-se ao meu lado no cordão.
Olá, meu nome é Red.
Me chamo Henry.
Ficamos sentados, olhando os garotos jogar futebol. Olhei para Red.
Por que você usa uma luva na mão esquerda? – perguntei.
Só tenho um braço – respondeu.
Essa mão parece de verdade.
É falsa. O braço todo é falso. Toque-o.
O quê?
Toque-o. É falso.
Toquei-o. Era duro, duro como pedra.
Como isso aconteceu?
Nasci assim. O braço é artificial até a altura do cotovelo. Preciso prendê-lo. Tenho pequenos dedos ao final no meu cotovelo, com unhas e tudo, mas os dedos não servem para nada.
Você tem algum amigo? – perguntei.
Não.
Nem eu.
Esses caras não jogam com você?
Não.
Tenho uma bola de futebol.
Você consegue agarrá-la?
Moleza – disse Red.
Vá buscá-la.
Beleza...
Red entrou na garagem do pai e saiu com a bola. Lançou-a para mim. Então recuou no pátio em frente à sua casa.
Vamos lá, jogue...
Mandei. Ergueu seu braço bom e logo também o ruim e pegou o arremesso. O braço produziu um ruído baixo agudo quando ele agarrou a bola.
Bela pegada – eu disse. – Agora lance uma para mim!
Ele ergueu o braço e fez a bola voar; veio como uma bala e tive que dar um jeito de segurá-la depois que bateu no meu estômago.
Você está muito perto – falei. – Recue um pouco mais.
Finalmente, pensei, um pouco de prática em pegadas e arremessos. Era realmente muito bom.
Então era minha vez de lançar. Recuei, afastei um marcador invisível e lancei uma bola com efeito. Red correu para frente, pegou a bola, rolou três ou quatro vezes no chão e continuou de posse dela.
Você é bom, Red. Como consegue jogar tão bem?
Meu pai me ensinou. Nós treinamos bastante.
Em seguida Red recuou e fez a bola voar. Parecia que ela ia me encobrir enquanto eu recuava para apanhá-la. Havia uma cerca entre a casa de Red e a de Chuck, e eu tropecei nela. A bola pegou no topo da cerca e caiu para o outro lado. Dei a volta ao redor do quintal do Chuck para buscá- la. Chuck me alcançou a bola.
Quer dizer que você arranjou um amigo esquisito, hein, Henrizinho?
Dois dias se passaram, e Red e eu estávamos jogando no gramado em frente à sua casa, passando e chutando a bola. Chuck e seus amigos não estavam nas redondezas. Red e eu melhorávamos a olhos vistos. Treinar era tudo o que era preciso. Tudo que um cara precisava era de uma chance. Alguém estava sempre controlando quem merecia ou não essa chance.
Peguei um arremesso por sobre o ombro, girei e mandei a bola de volta a Red, que saltou bem alto e tocou o chão com ela. Talvez um dia jogássemos pela U.S.C. . Então avistei cinco garotos avançando pela calçada em nossa direção. Não era nenhum dos rapazes da escola primária. Tinham a nossa idade e pareciam estar em busca de confusão. Red e eu continuamos passando a bola e eles ficaram nos observando.
Logo um dos garotos pisou no gramado. O maior de todos.
Me jogue a bola – ele disse ao Red.
Por quê?
Quero ver se consigo pegá-la.
Não dou a mínima se você consegue pegá-la ou não.
Ele só tem um braço – eu disse. – Deixe-o em paz.
Fique fora disso, cara de macaco! – Então olhou para Red. – Joga a bola.
Vá pro inferno!
Peguem a bola! – o grandalhão disse aos outros.
Correram para cima de nós. Red se voltou e jogou a bola para cima do telhado da sua casa. Era inclinado, e a bola rolou de volta, mas ficou presa numa calha. Então se lançaram sobre nós. Cinco contra dois, pensei, não temos nenhuma chance. Tomei um soco na cabeça e revidei sem sucesso. Alguém me deu um chute na bunda. Foi um dos bons, e a dor subiu pela minha espinha. Foi quando ouvi um estouro, quase como um tiro de espingarda, e um deles estava no chão, com a mão na testa.
Oh, merda – ele disse –, quebraram meu crânio!
Olhei para Red e ele estava no meio do gramado. Segurava seu braço postiço com a mão do braço bom. Era como um taco. Desferiu mais um golpe. Houve mais um estouro e outro deles desabou no gramado. Comecei a me encher de coragem e acertei um direto na boca de um dos caras. Vi o lábio se abrir e o sangue jorrar sobre o queixo. Os outros dois saíram correndo. Então o grandalhão, que havia sido o primeiro a cair, se ergueu, juntamente com o outro. Tinham as mãos nas cabeças. O garoto com a boca arrebentada continuava ali. Em seguida, os três recuaram até a rua e foram embora juntos. Quando já estavam a uma boa distância, o grandalhão se virou e disse:
Vamos voltar!
Red começou a correr na direção deles e eu o segui. Eles começaram a correr e Red e eu desistimos da perseguição assim que viraram a esquina. Caminhamos de volta, encontramos uma escada na garagem. Pegamos a bola e começamos novamente com os passes...
Um sábado Red e eu decidimos ir nadar na piscina pública da rua Bimini. Red era um cara estranho. Não era de falar muito, mas como falar também não era minha especialidade nos dávamos bem. De qualquer modo, não havia muito a ser dito. A única coisa que realmente lhe perguntei foi sobre a escola que frequentava, ao que ele me respondeu de modo sucinto que se tratava de uma escola especial e que custava a seu pai uma grana considerável.
Chegamos na piscina no início da tarde, fomos até os armários e tiramos a roupa. Estávamos com nossos calções de banho por baixo. Então vi Red desatar o braço e colocá-lo dentro do armário. Era a primeira vez desde o dia da luta que o via sem seu braço postiço. Tentei não olhar para seu braço, que terminava no cotovelo. Caminhamos até um lugar em que você era obrigado a enfiar os pés numa solução de cloro. Fedia, mas evitava a proliferação de frieiras ou coisas do tipo. Depois caminhamos até a piscina e entramos. A água também fedia, e, logo que a água me cobriu, mijei. Havia pessoas de todas as idades tomando banho, homens e mulheres, meninos e meninas. Red realmente gostava da água. Saltitava dentro dela. Em seguida mergulhava, desaparecendo e em seguida voltando à superfície. Cuspia a água que tinha dentro da boca. Tentei nadar. Não podia deixar de notar o braço deformado de Red, não podia deixar de olhá-lo. Procurava sempre observá-lo quando me parecia que ele estava distraído com outra coisa. O braço terminava no cotovelo, numa espécie de curva, e então vi os dedinhos. Não quis olhar muito fixamente, mas acho que eram três ou quatro deles, pequeninos e curvos. Eram muito vermelhos e cada um deles tinha uma unha. Nenhum continuaria a crescer; ficariam assim. Não queria pensar naquilo. Mergulhei. Ia dar um susto em Red. Agarraria suas pernas por trás. Bati em alguma coisa mole. Era a bunda de uma gorda. Senti quando ela me agarrou pelos cabelos e me puxou para fora d’água. A gorda usava uma toca de banho azul, amarrada sob o queixo, formando um sulco na papada. Seus dentes da frente eram cobertos de prata e seu hálito fedia a alho.
Seu pervertidozinho imundo! Aproveitando para passar a mão à vontade, não?
Desvencilhei-me dela e comecei a recuar. À medida que me afastava ela me seguia pela água, seus seios flácidos provocando uma onda à sua frente.
Seu espertinho imundo! Quer chupar meus peitinhos? Você só pensa em sacanagens, hein? Quer comer minha merda? Que tal um pouquinho da merda que sai do meu rabo, hein, espertinho?
Fugi para a parte mais funda da piscina. Estava agora na ponta dos pés, tentando me afastar ainda mais. Engoli um pouco de água. Ela continuava em meu encalço, um navio a vapor em forma de mulher. Foi diretamente para cima de mim. Seus olhos eram pálidos e esbranquiçados, não havia nenhuma cor neles. Senti o corpo dela tocando o meu.
Toque a minha boceta – ela disse. – Eu sei que você quer tocar nela, então, vá em frente, toque minha boceta. Toque! Toque!
Ela esperou.
Se você não fizer isso, vou dizer ao salva-vidas que você me molestou e ele vai colocá-lo na cadeia! Agora, me toque!
Eu não podia fazer aquilo. De súbito, ela invadiu meu calção, agarrou minhas partes e puxou. Ela quase arrancou meu pinto. Lancei-me para trás, mergulhando nas águas profundas, lutando para me afastar ao máximo. Quando emergi, estava a uns dois metros dela e comecei a nadar em direção à água rasa.
Vou dizer ao salva-vidas que você me molestou! – ela gritou.
Então um homem se interpôs entre nós, nadando.
Esse pequeno filho-da-puta! – ela berrou para o homem, apontando para mim. – Ele agarrou minha boceta!
Minha senhora – disse o homem –, o garoto provavelmente pensou que se tratasse da grade do ralo.
Nadei até onde estava Red.
Escute – eu disse –, temos que dar o fora daqui! Aquela gorda vai dizer ao salva-vidas que toquei a boceta dela!
E por que você fez uma coisa dessas?
Queria ver como era a sensação.
E como foi?
Saímos da piscina, tomamos uma ducha. Red colocou de volta o braço postiço e nos vestimos.
Você realmente tocou a boceta dela?
Ora, algum dia um garoto tem que começar a fazer isso.
Cerca de um mês depois, a família de Red se mudou. De um dia para o outro. Simples assim. Red nunca tinha me falado sobre essa possibilidade. Ele se foi, a bola de futebol se foi e se foram também aqueles pequeninos dedos vermelhos com suas unhas minúsculas. Ele era um cara bacana.
Charles Bukowski, in Misto-Quente

Quase Nada


Alguma coisa urgentemente

Os primeiros anos de vida suscitaram em mim o gosto da aventura. O meu pai dizia não saber bem o porquê da existência e vivia mudando de trabalho, de mulher e de cidade. A característica mais marcante do meu pai era a sua rotatividade. Dizia-se filósofo sem livros, com uma única fortuna: o pensamento. Eu, no começo, achava meu pai tão-só um homem amargurado por ter sido abandonado por minha mãe quando eu era de colo. Morávamos então no alto da Rua Ramiro Barcelos, em Porto Alegre, meu pai me levava a passear todas manhãs na Praça Júlio de Castilhos e me ensinava os nomes das árvores, eu não gostava de ficar só nos nomes, gostava de saber as características de cada vegetal, a região de origem. Ele me dizia que o mundo não era só aquelas plantas, era também as pessoas que passavam e as que ficavam e que cada um tem o seu drama. Eu lhe pedia colo. Ele me dava e assobiava uma canção medieval que afirmava ser a sua preferida. No colo dele eu balbuciava uns pensamentos perigosos: — Quando é que você vai morrer? — Não vou te deixar sozinho, filho!
Falava-me com o olhar visivelmente emocionado e contava que antes me ensinaria a ler e escrever. Ele fazia questão de esquecer que eu sabia de tudo o que se passava com ele. Pra que ler? — eu lhe perguntava. Pra descrever a forma desta árvore — respondia-me um pouco irritado com minha pergunta. Mas logo se apaziguava.
Quando você aprender a ler vai possuir de alguma forma todas as coisas, inclusive você mesmo.
No final de 1969 meu pai foi preso no interior do Paraná. (Dizem que passava armas a um grupo não sei de que espécie.) Tinha na época uma casa de caça e pesca em Ponta Grossa e já não me levava a passear. No dia em que ele foi preso, eu fui arrastado para fora da loja por uma vizinha de pele muito clara, que me disse que eu ficaria uns dias na casa dela, que o meu pai iria viajar. Não acreditei em nada mas me fiz de crédulo como convinha a uma criança. Pois o que aconteceria se eu lhe dissesse que tudo aquilo era mentira? Como lidar com uma criança que sabe?
Puseram-me num colégio interno no interior de São Paulo. O padre diretor me olhou e afirmou que lá eu seria feliz.
Eu não gosto daqui.
Você vai se acostumar e até gostar.
Os colegas me ensinaram a jogar futebol, a me masturbar e a roubar a comida dos padres. Eu ficava de pau duro e mostrava aos colegas. Mostrava as maçãs e os doces do roubo. Contava do meu pai. Um deles me odiava. O meu pai foi assassinado, me dizia ele com ódio nos olhos. O meu pai era bandido, ele contava espumando o coração.
Eu me calava. Pois se referir ao meu pai presumia um conhecimento que eu não tinha. Uma carta chegou dele. Mas o padre-diretor não me deixou lê-la, chamou-me no seu gabinete e contou que o meu pai ia bem. — Ele vai bem.
Eu agradeci como normalmente fazia em qualquer contato com o padre-diretor e saí dizendo no mais silencioso de mim: — Ele vai bem.
O menino que me odiava aproximou-se e falou que o pai dele tinha levado dezessete tiros.
Nas aulas de religião o padre Amâncio nos ensinava a rezar o terço e a repetir jaculatórias. — Salve Maria! — ele exclamava a cada início de aula. — Salve Maria! — os meninos respondiam em uníssono.
Quando cresci meu pai veio me buscar e ele estava sem um braço. O padre-diretor me perguntou:
Você quer ir?
Olhei para meu pai e disse que eu já sabia ler e escrever. — Então você saberá de tudo um dia — ele falou.
O menino que me odiava ficou na porta do colégio quando da nossa partida. Ele estava com o seu uniforme bem lavado e passado. Na estrada para São Paulo paramos num restaurante. Eu pedi um conhaque e meu pai não se espantou. Lia um jornal.
Em São Paulo fomos para um quarto de pensão onde não recebíamos visitas.
Vamos para o Rio — ele me comunicou sentado na cama e com o braço que lhe restava sobre as pernas.
No Rio fomos para um apartamento na Avenida Atlântica. De amigos, ele comentou. Mas embora o apartamento fosse bem mobiliado, ele vivia vazio.
Eu quero saber — eu disse para o meu pai.
Pode ser perigoso — ele respondeu.
E desliguei a televisão como se pronto para ouvir. Ele disse não. Ainda é cedo. E eu já tinha perdido a capacidade de chorar.
Eu procurei esquecer. Meu pai me pôs num colégio em Copacabana e comecei a crescer como tantos adolescentes do Rio. Comia a empregada do Alfredinho, um amigo do colégio, e, na praia, precisava sentar às vezes rapidamente porque era comum ficar de pau duro à passagem de alguém. Fingia então que observava o mar, a performance de algum surfista. Não gostava de constatar o quanto me atormentavam algumas coisas. Até meu pai desaparecer novamente. Fiquei sozinho no apartamento da Avenida Atlântica sem que ninguém tomasse conhecimento. E eu já tinha me acostumado com o mistério daquele apartamento. Já não queria saber a quem pertencia, porque vivia vazio. O segredo alimentava o meu silêncio. E eu precisava desse silêncio para continuar ali. Ah, me esqueci de dizer que meu pai tinha deixado algum dinheiro no cofre. Esse dinheiro foi o suficiente para sete meses. Gastava pouco e procurava não pensar no que aconteceria quando ele acabasse. Sabia que estava sozinho, com o único dinheiro acabando, mas era preciso preservar aquele ar folgado dos garotos da minha idade, falsificar a assinatura do meu pai sem remorsos a cada exigência do colégio.
Eu não dava bola para a limpeza do apartamento. Ele estava bem sujo. Mas eu ficava tão pouco em casa que não dava importância à sujeira, aos lençóis encardidos. Tinha bons amigos no colégio, duas ou três amigas que me deixavam a mão livre para passá-la onde eu bem entendesse. Mas o dinheiro tinha acabado e eu estava caminhando pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana tarde da noite, quando notei um grupo de garotões parados na esquina da Barão de Ipanema, encostados num carro e enrolando um baseado. Quando passei, eles me ofereceram. Um tapinha? Eu aceitei. Um deles me disse olha ali, não perde essa, cara! Olhei para onde ele tinha apontado e vi um Mercedes parado na esquina com um homem de uns trinta anos dentro. Vai lá, eles me empurraram. E eu fui. — Quer entrar? — o homem me disse. Eu manjei tudo e pensei que estava sem dinheiro. — Trezentas pratas — falei.
Ele abriu a porta e disse entra, o carro subiu a Niemeyer, não havia ninguém no morro em que o homem parou. Uma fita tocava acho que uma música clássica e o homem me disse que era de São Paulo. Me ofereceu cigarro, chiclete e começou a tirar a minha roupa. Eu pedi antes o dinheiro. Ele me deu as três notas de cem abertas, novinhas. E eu nu e o homem começando a pegar em mim, me mordia de ficar marca, quase me tira um pedaço da boca. Eu tinha um bom físico e isso excitava ele, deixava o homem louco. A fita tinha terminado e só se ouvia um grilo. — Vamos — disse o homem ligando o carro. Eu tinha gozado e precisei me limpar com a sunga.
No dia seguinte meu pai voltou, apareceu na porta muito magro, sem dois dentes. Resolvi contar:
Eu ontem me prostituí, fui com um homem em troca de trezentas pratas.
Meu pai me olhou sem surpresas e disse que eu procurasse fazer outra história da minha vida. Ele então sentou-se e foi incisivo: — Eu vim para morrer. A minha morte vai ser um pouco badalada pelos jornais, a polícia me odeia, há anos me procura. Vão te descobrir mas não dê uma única declaração, diga que não sabe de nada. O que é verdade. — E se me torturarem? — perguntei.
Você é menor e eles estão precisando evitar escândalos.
Eu fui para a janela pensando que ia chorar, mas só consegui ficar olhando o mar e sentir que precisava fazer alguma coisa urgentemente. Virei a cabeça e vi que meu pai dormia. Aliás, não foi bem isso o que pensei, pensei que ele já estivesse morto e fui correndo segurar o seu único pulso. O pulso ainda tinha vida. Eu preciso fazer alguma coisa urgentemente, a minha cabeça martelava. É que eu não tinha gostado de ir com aquele homem na noite anterior, meu pai ia morrer e eu não tinha um puro centavo. De onde sairia a minha sobrevivência? Então pensei em denunciar meu pai para a polícia para ser recebido pelos jornais e ganhar casa e comida em algum orfanato, ou na casa de alguma família. Mas não, isso eu não fiz porque gostava do meu pai e não estava interessado em morar em orfanato ou com alguma família, e eu tinha pena do meu pai deitado ali no sofá, dormindo de tão fraco. Mas precisava me comunicar com alguém, contar o que estava acontecendo. Mas quem?
Comecei a faltar às aulas e ficava andando pela praia, pensando o que fazer com meu pai que ficava em casa dormindo, feio e velho. E eu não tinha arranjado mais um puto centavo. Ainda bem que tinha um amigo vendedor daquelas carrocinhas da Geneal que me quebrava o galho com um cachorro-quente. Eu dizia bota bastante mostarda, esquenta bem esse pão, mete molho. Ele obedecia como se me quisesse bem. Mas eu não conseguia contar para ele o que estava acontecendo comigo. Eu apenas comentava com ele a bunda das mulheres ou alguma cicatriz numa barriga. É cesariana, ele ensinava. E eu fingia que nunca tinha ouvido falar em cesariana, e aguçava seu prazer de ensinar o que era cesariana. Um dia ele me perguntou: — Você tem quantos irmãos? Eu respondi sete. — O teu pai manda brasa, hein?
Fiquei pensando no que responder, talvez fosse a ocasião de contar tudo pra ele, admitir que eu precisava de ajuda. Mas o que um vendedor da Geneal poderia fazer por mim senão contar para a polícia? Então me calei e fui embora.
Quando cheguei em casa entendi de vez que meu pai era um moribundo. Ele já não acordava, tinha certos espasmos, engrolava a língua e eu assistia. O apartamento nessa época tinha um cheiro ruim, de coisa estragada. Mas dessa vez eu não fiquei assistindo e procurei ajudar o velho. Levantei a cabeça dele, botei um travesseiro embaixo e tentei conversar com ele. — O que você está sentindo? — perguntei.
Já não sinto nada — ele respondeu com uma dificuldade que metia medo.
Dói?
Já não sinto dor nenhuma.
De vez em quando lhe trazia um cachorro-quente que meu amigo da Geneal me dava, mas meu pai repelia qualquer coisa e expulsava os pedaços de pão e salsicha para o canto da boca. Numa dessas ocasiões em que eu limpava os restos de pão e salsicha da sua boca com um pano de prato a campainha tocou. A campainha tocou. Fui abrir a porta com muito medo, com o pano de prato ainda na mão. Era o Alfredinho.
A diretora quer saber por que você nunca mais apareceu no colégio — ele perguntou.
Falei pra ele entrar e disse que eu estava doente, com a garganta inflamada, mas que eu voltaria pro colégio no dia seguinte porque já estava quase bom. Alfredinho sentiu o cheiro ruim da casa, tenho certeza, mas fez questão de não demonstrar nada.
Quando ele sentou no sofá é que eu notei como o sofá estava puído e que Alfredinho sentava nele com certo cuidado, como se o sofá fosse despencar debaixo da bunda, mas ele disfarçava e fazia que não notava nada de anormal, nem a barata que descia a parede à direita, nem os ruídos do meu pai que às vezes se debatia e gemia no quarto ao lado. Eu sentei na poltrona e fiquei falando tudo que me vinha à cabeça para distraí-lo dos ruídos do meu pai, da barata na parede, do puído do sofá, da sujeira e do cheiro do apartamento, falei que nos dias da doença eu lia na cama o dia inteiro umas revistinhas de sacanagem, eram dinamarquesas as tais revistinhas, e sabe como é que eu consegui essas revistinhas? roubei no escritório do meu pai, estavam escondidas na gaveta da mesa dele, não te mostro porque emprestei pra um amigo meu, um sacana que trabalha numa carrocinha da Geneal aqui na praia, ele mostrou pra um amigo dele que bateu uma punheta com a revistinha na mão, tem uma mulher com as pernas assim e a câmera pega a foto bem daqui, bem daqui cara, á como os caras tiraram a foto da mulher, ela assim e a câmera pega bem desse ângulo aqui, não é de bater uma punheta mesmo? a câmera pertinho assim e a mulher nua e com as pernas desse jeito, não tou mentindo não cara, você vai ver, um dia você vai ver, só que agora a revistinha não tá comigo, por isso que eu digo que ficar doente de vez em quando é uma boa, eu o dia inteiro deitado na cama lendo revistinha de sacanagem, sem ninguém pra me aporrinhar com aula e trabalho de grupo, só eu e as minhas revistinhas, você precisava ver, cara, você também ia curtir ficar doente nessa de revistinha de sacanagem, ninguém pra me encher o saco, ninguém cara, ninguém.
Aí eu parei de falar e o Alfredinho me olhava como se eu estivesse falando coisas que assustassem ele, ficou me olhando com uma cara de babaca, meio assim desconfiado, e nem sei bem o que passou pela cabeça dele quando meu pai lá no quarto me chamou, era a primeira vez que meu pai me chamava pelo nome, eu mesmo levei um susto de ouvir meu pai me chamar pelo meu nome, e me levantei meio apavorado porque não queria que ninguém soubesse do meu pai, do meu segredo, da minha vida, eu queria que o Alfredinho fosse embora e que não voltasse nunca mais, então eu me levantei e disse que tinha que fazer uns negócios, e ele foi caminhando de costas em direção à porta, como se estivesse com medo de mim, e eu dizendo que amanhã eu vou aparecer no colégio, pode dizer pra diretora que amanhã eu converso com ela, e o meu pai me chamou de novo com sua voz de agonizante, o meu pai me chamava pela primeira vez pelo meu nome, e eu disse tchau até amanhã, e o Alfredinho disse tchau até amanhã, e eu continuava com o pano de prato na mão e fechei a porta bem ligeiro porque não aguentava mais o Alfredinho ali na minha frente não dizendo nem uma palavra, e fui correndo pro quarto e vi que o meu pai estava com os olhos duros olhando pra mim, e eu fiquei parado na porta do quarto pensando que eu precisava fazer alguma coisa urgentemente.
João Gilberto Noll, in Os cem melhores contos brasileiros do século

terça-feira, 2 de junho de 2020

Diários

É certamente uma sorte extraordinária, e muito pouco aproveitada, que existam diários de viagem vindos de culturas desconhecidas, escritos por representantes dessas e não por europeus. Cito apenas dois dos mais minuciosos, que nunca me canso de ler: o livro do peregrino chinês Huan Tsang, que visitou a Índia no século VII, e o do árabe Ibn Batuta, de Tânger, que durante 25 anos viajou por todo o mundo islâmico do século XIV, pela Índia e, provavelmente, também pela China. Com isso, porém, não se esgota toda a riqueza dos diários exóticos. No Japão encontram-se diários literários que, em sutileza e precisão, podem ser comparados a Proust: o Livro de cabeceira da dama de honra Shei Shonagon (o livro de “apontamentos” mais perfeito que conheço) e o diário da autora do romance Genji, Murasaki Shikibu — ambas, aliás, viveram na mesma corte por volta do ano 1000, conheciam-se bem, mas não se davam.
A imagem exatamente oposta a esses relatos de terras distantes é fornecida pelos diários de terras próximas. Trata-se aqui de pessoas muito próximas nas quais nos reconhecemos. O mais belo exemplo desse gênero na literatura alemã são os diários de Hebbel. Estes são amados porque neles não há quase nenhuma página em que não se encontre algo que nos toque pessoalmente. Podemos ter a impressão de já termos, nós mesmos, escrito isto ou aquilo em algum lugar. Talvez já o tenhamos feito realmente, e, se não o fizemos, é certo que poderíamos tê-lo feito. Esse processo do encontro íntimo é emocionante porque, bem ao lado daquilo que nos é “comum”, há também algo que jamais poderíamos ter pensado ou escrito da mesma forma. Trata-se, pois, do espetáculo teatral de dois espíritos que se interpenetram: em determinados pontos, eles se tocam; em outros, formam-se entre eles espaços vazios que não poderiam ser preenchidos de maneira alguma. O homogêneo e o heterogêneo encontram-se tão próximos que isso nos força a pensar; nada é mais profícuo que tais diários da proximidade, como poderiam ser chamados. É próprio deles, ainda, serem “completos” ou seja, profusos, e não escritos sob o jugo de um objetivo determinado.
Elias Canetti, in A consciência das palavras

A Arte de Van Gogh

Amendoeira em flor (1890), de Vincent Van Gogh

In dog we trust ou Mundo cão do truste




Minha vontade é a de colocar cada vez mais poesia neste meu espaço, para encher de beleza e de justa ferocidade o coração do outro, do outro que é você, leitor. Porque tudo o que me vem às mãos através dos jornais, tudo o que me vem aos olhos através da televisão, tudo o que me vem aos ouvidos através do rádio é tão pré-apocalipse, tão pútrido, tão devastador que fico me perguntando: por que ainda insistimos em colocar palavras nas páginas em branco?
Alguns amigos venezuelanos telefonam: você anda tão amarga… tão triste… Pois bem, vejamos as notícias recentes: no Rio (e dizem que ainda continua lindo) esquadrões de extermínio são contratados (por quem?) para matar sistematicamente prostitutas, débeis mentais, mendigos e supostos ladrões, meninos e adolescentes. Ouvi esta notícia na CBN, de madrugada. A miséria grassa adoidada, a crueldade também, os homens políticos continuam com suas mesmices, um dizendo ingenuamente que com uma só “penada” vai dar terra a todos, outro comendo buchada de bode, mas arrotando “tripe à la mode” e um dia desses disse que se saiu bem com a “dívida externa”, quando qualquer um bem informado sabe que nunca nos sairemos bem com a nossa dívida externa, porque (devo citar novamente os especialistas): “O FMI foi criado para institucionalizar o predomínio financeiro de Wall Street sobre o planeta inteiro quando, em fins da Segunda Guerra Mundial, o dólar inaugurou sua hegemonia como moeda internacional. Nunca foi infiel ao amo”.
A esperança para os países da América Latina é e será sempre uma grande ilusão, porque “no mundo dos grandes negócios” só pulhas e vilões é que se saem bem, e a América Latina é e sempre será um grande negócio” para todos os do “Primeiro Mundo”. Enquanto não forem feitas reformas políticas e econômicas essenciais e, principalmente, leitor, um ardente coração, um dilatar-se da alma do Homem, tudo ficará como está. Podem me chamar de louca, de fantasista, de gling-glang, de utopista, ingênua, chamem do que vocês quiserem, até de… Não sei se vocês sabem, mas “Puta” foi uma grande deusa da mitologia grega. Vem do verbo “putare”, que quer dizer podar, pôr em ordem, pensar. Era a deusa que presidia à podadura. Só depois é que a palavra degringolou na propriamente dita, e em “deputado”, “putativo” etc. Se eu, de alguma forma com os meus textos, ando ceifando vossas ilusões, é para fazer nascer em ti, leitor, o ato de pensar. Não sou deusa, não. Sou apenas poeta. Mas o poeta é aquele que é quase profeta:

Olhando o meu passeio
Há um louco sobre o muro
Balançando os pés.
Mostra-me o peito estufado de pelos
E tem entre as coxas um lixo de papéis:
Procura Deus, senhora? Procura Deus?
E simétrico de zelos, balouçante
Dobra-se num salto e desnuda o traseiro.

E há indivíduos e povos iludidos que ainda acreditam que o traseiro do louco possa ser o retrato do divino. “Voilà.” Ilusões de cegos e de moucos. Bom domingo, fofos.
Hilda Hilst, in Correio Popular (25/06/1995)