19/08/2026

Jards Macalé | Movimento dos Barcos

O impagável Quino

Wide sargasso sea

A história está completa: wide sargasso sea, azul. azul que não me espanta, e canta como uma sereia de papel.

Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés

Diário de Bernardo Soares



124.

(Chapter on Indifference or something like that)

Toda a alma digna de si própria deseja viver a vida em Extremo.

Contentar-se com o que lhe dão é próprio dos escravos. Pedir mais é próprio das crianças. Conquistar mais é próprio dos loucos, porque toda a conquista é
Viver a vida em Extremo significa vivê-la até ao limite, mas há três maneiras de o fazer, e a cada alma elevada compete escolher uma das maneiras. Pode viver-se a vida em extremo pela posse extrema dela, pela viagem Ulisseia através de todas as sensações vividas, através de todas as formas de energia exteriorizada. Raros, porém, são, em todas as épocas do mundo, os que podem fechar os olhos cheios do cansaço soma de todos os cansaços, os que possuíram tudo de todas as maneiras.
Raros podem assim exigir da vida, conseguindo-o, que ela se lhes entregue corpo e alma; sabendo não ser ciumentos dela por saber ter-lhe o amor inteiramente. Mas este deve ser, sem dúvida, o desejo de toda a alma elevada e forte. Quando essa alma, porém, verifica que lhe é impossível tal realização, que não tem forças para a conquista de todas as partes do Todo, tem dois outros caminhos que siga — um, a abdicação inteira, a abstenção formal, completa, relegando para a esfera da sensibilidade aquilo que não pode possuir integralmente na região da atividade e da energia. Mais vale supremamente não agir que agir inutilmente, fragmentariamente, imbastantemente, como a inúmera supérflua maioria inane dos homens; outro, o caminho do perfeito equilíbrio, a busca do Limite na Proporção Absoluta, por onde a ânsia de Extremo passa da vontade e da emoção para a Inteligência, sendo toda a ambição não de viver toda a vida, não de sentir toda a vida, mas de ordenar toda a vida, de a cumprir em Harmonia e Coordenação inteligente.
A ânsia de compreender, que para tantas almas nobres substitui a de agir, pertence à esfera da sensibilidade. Substituir a Inteligência à energia, quebrar o elo entre a vontade e a emoção, despindo de interesse todos os gestos da vida material, eis o que, conseguido, vale mais que a vida, tão difícil de possuir completa, e tão triste de possuir parcial.
Diziam os argonautas que navegar é preciso, mas que viver não é preciso.
Argonautas, nós, da sensibilidade doentia, digamos que sentir é preciso, mas que não é preciso viver.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Claro como água

Como sempre sucedeu, e há-de suceder sempre, a questão central de qualquer tipo de organização social humana, da qual todas as outras decorrem e para a qual todas acabam por concorrer, é a questão do poder, e o problema teórico e prático com que nos enfrentamos é identificar quem o detém, averiguar como chegou a ele, verificar o uso que dele faz, os meios de que se serve e os fins a que aponta. Se a democracia fosse, de facto, o que com autêntica ou fingida ingenuidade continuamos a dizer que é, o governo do povo pelo povo e para o povo, qualquer debate sobre a questão do poder perderia muito do seu sentido, uma vez que, residindo o poder no povo, era ao povo que competiria a administração dele, e, sendo o povo a administrar o poder, está claro que só o deveria fazer para seu próprio bem e para sua própria felicidade, pois a isso o estaria obrigando aquilo a que chamo, sem nenhuma pretensão de rigor conceptual, a lei da conservação da vida. Ora, só um espírito perverso, panglossiano até ao cinismo, ousaria apregoar a felicidade de um mundo que, pelo contrário, ninguém deveria pretender que o aceitemos tal qual é, só pelo facto de ser, supostamente, o melhor dos mundos possíveis. É a própria e concreta situação do mundo chamado democrático, que se é verdade serem os povos governados, verdade é também que não o são por si mesmos nem para si mesmos. Não é em democracia que vivemos, mas sim numa plutocracia que deixou de ser local e próxima para tornar-se universal e inacessível.
Por definição, o poder democrático terá de ser sempre provisório e conjuntural, dependerá da estabilidade do voto, da flutuação das ideologias ou dos interesses de classe, e, como tal, pode ser entendido como um barómetro orgânico que vai registando as variações da vontade política da sociedade. Mas, ontem como hoje, e hoje com uma amplitude cada vez maior, abundam os casos de mudanças políticas aparentemente radicais que tiveram como efeito radicais mudanças de governo, mas a que não se seguiram as mudanças económicas, culturais e sociais radicais que o resultado do sufrágio havia prometido. Dizer hoje governo “socialista”, ou “social-democrata”, ou “conservador”, ou “liberal”, e chamar-lhe poder, é pretender nomear algo que em realidade não está onde parece, mas em um outro inalcançável lugar — o do poder económico e financeiro cujos contornos podemos perceber em filigrana, mas que invariavelmente se nos escapa quando tentamos chegar-lhe mais perto e inevitavelmente contra-ataca se tivermos a veleidade de querer reduzir ou regular o seu domínio, subordinando-o ao interesse geral. Por outras e mais claras palavras, digo que os povos não elegeram os seus governos para que eles os “levassem” ao Mercado, mas que é o Mercado que condiciona por todos os modos os governos para que lhe “levem” os povos. E se falo assim do Mercado é porque é ele, hoje, e mais que nunca em cada dia que passa, o instrumento por excelência do autêntico, único e insofismável poder, o poder económico e financeiro mundial, esse que não é democrático porque não o elegeu o povo, que não é democrático porque não é regido pelo povo, que finalmente não é democrático porque não visa a felicidade do povo.
O nosso antepassado das cavernas diria: “É água”. Nós, um pouco mais sábios, avisamos: “Sim, mas está contaminada”.

José Saramago, em O caderno

Piloto de Guerra — IX




Eu o revejo com precisão, deitado no leito do hospital. Seu joelho ficou preso e foi quebrado pela empenagem do avião durante o salto de paraquedas, mas Sagon não sentiu o choque. Seu rosto e suas mãos estão gravemente queimados, mas, ao final das contas, ele não sofreu nada de preocupante. Ele nos conta lentamente sua história, com uma voz qualquer, como o relatório de uma tarefa…
— Percebi que ele estava atirando quando me vi envolvido em balas traçantes. Meu painel de bordo estourou. Depois, vi um pouco de fumaça, mas não muita, que parecia vir da frente. Pensei que era, você sabe, ali tem um tubo de junção. Ah! Não estava chamejando muito…
Sagon faz bico. Pesa a questão. Julga importante dizer-nos se chamejava muito ou não muito. Hesita:
— Mesmo assim era fogo… Então, eu mandei que saltassem.
Pois o fogo, em dez segundos, transforma o avião em tocha!
— Abri, então, o canopi. Fiz mal. Entrou ar… O fogo… Fiquei incomodado.
Um forno de locomotiva cospe-lhe no ventre uma torrente de chamas, a sete mil metros de altitude e você ficou incomodado! Não trairei Sagon exaltando seu heroísmo ou seu pudor. Ele não reconheceria nem esse heroísmo nem esse pudor. Ele diria: “Sim, sim, fiquei incomodado…”. Ele faz, aliás, visíveis esforços para ser exato.
E bem sei que o campo da consciência é minúsculo. Ela só aceita um problema de cada vez. Se você brigar de soco e a estratégia da luta o preocupar, não sofrerá pelos socos. Quando quase me afoguei, num acidente de hidroavião, a água, que estava gelada, pareceu-me morna. Ou, mais precisamente: minha consciência não considerou a temperatura da água. Ela estava absorvida por outras preocupações. A temperatura da água não deixou nenhum traço em minha lembrança. Assim, a consciência de Sagon foi absorvida pela técnica da partida. O universo de Sagon se limitava à manivela que desliza o canopi para trás, à certa alça do paraquedas cuja localização o preocupou, e o destino técnico de sua tripulação. “Você saltou?” Nada de resposta. “Ninguém a bordo?” Nada de resposta.
— Pensei que estava sozinho. Achei que podia partir… (Ele já estava com o rosto e as mãos tostados). Levantei, pulei a carlinga e me mantive primeiro sobre a asa. Ali, debrucei à frente: não tinha visto o observador…
O observador, morto com um tiro só dos caças, jazia no fundo da carlinga.
— Recuei então e, atrás, não vi o artilheiro…
O artilheiro, também, havia desmoronado.
— Pensei que estava sozinho…
Ele refletiu:
— Se eu soubesse… Podia ter voltado a bordo… Não estava queimando tanto… Eu fiquei assim, muito tempo, na asa… Antes de sair da carlinga, eu tinha compensado o avião para cabrar. O voo estava estabilizado, a respiração suportável e eu me sentia bem. Ah! Fiquei tempo demais na asa… Não sabia o que fazer…
Não que se apresentassem a Sagon problemas inextricáveis: ele pensava estar sozinho a bordo, o avião em chamas e os caças repetiam suas passagens cuspindo projéteis. O que queria nos dizer Sagon é que ele não tinha nenhum desejo. Ele não sentia nada. Dispunha de todo o seu tempo. Imergia numa espécie de ócio infinito. E, ponto por ponto, eu reconhecia essa extraordinária sensação que acompanha às vezes a iminência da morte: um ócio inesperado… Como ela é desmentida pelo real! A imaginária da ofegante precipitação! Sagon permanecia ali, sobre a asa, como ejetado para fora do tempo!
— E depois eu saltei — disse ele —, saltei mal. Eu me vi turbilhonar. Tive medo de abrir cedo demais e me enrolar no paraquedas. Esperei ficar estabilizado. Ah, esperei muito tempo.
Sagon, assim, conserva a lembrança de ter, do início ao fim de sua aventura, esperado. Esperou chamejar mais forte. Depois, esperou na asa, não se sabe o quê. E, em queda livre, na vertical para o solo, ainda esperou.
E se tratava de Sagon mesmo, e ainda que se tratasse de um Sagon rudimentar, mais do que de costume, de um Sagon um pouco perplexo que, à beira de um abismo, esperneava entediado.

Antoine de Saint-Exupéry, em Piloto de Guerra

17/08/2026

Moacir Santos, 100

Hagar, o Horrível

 

Soneto do pássaro

Batem as asas? Rosa aberta, a saia
esculpe, no seu giro, o corpo leve.
Entre músculos suaves, uma alfaia,
selada, tremeluz à vista breve.

O que, mal percebido, se descreve
em termos de pelúcia ou de cambraia,
o que é fogo sutil, soprado em neve,
curva de coxa atlântica na praia,

vira mulher ou pássaro? No rosto,
essa mesma expressão aérea ou grave,
esse indeciso traço de sol-posto,

de fuga, que há no bico de uma ave.
O mais é jeito humano ou desumano,
conforme a inclinação de meu engano.

Carlos Drummond de Andrade, em Antologia Poética

1637 – Boca do rio Sucre

Dioguinho

Há poucos dias, o padre Thomas Gage aprendeu a escapar dos jacarés. Se a gente foge em zig-zag, os jacarés ficam desnorteados. Eles só sabem correr em linha reta.
Em compensação ninguém ensinou-o a escapar dos piratas. Mas, será que alguém conhece a maneira de fugir de dois bons navios holandeses em uma fragata lenta e sem canhões?
Recém-saída ao mar Caribe, a fragata arria as velas e se rende.
Mais desinflada que as velas, rola pelo chão a alma do padre Gage. Viaja com ele todo o dinheiro que juntou na América durante os doze anos que passou salvando sacrílegos e arrancando mortos do inferno.
Os esquifes vão e vêm. Os piratas levam o toucinho, a farinha, o mel, as galinhas, a banha e os couros. Também quase toda a fortuna que o padre trazia em pérolas e em ouro. Não toda, porque respeitaram a sua cama e ele tinha costurado no colchão boa parte de seus bens.
O capitão dos piratas, um mulato fornido, o recebe em seu camarote. Não lhe dá a mão, mas oferece-lhe assento e um jarro de rum com pimenta. Um suor frio brota da nuca do padre e percorre as suas costas. Toma o trago depressa. O capitão Diogo Grillo é conhecido, o padre ouviu falar dele. Sabe que pirateava sob as ordens do terrível Perna de Pau e que agora rouba por conta própria, com patente de corsário dos holandeses. Dizem que Dioguinho mata para não perder a pontaria.
O padre implora, balbucia que não lhe deixaram nada além da batina que veste. Enquanto enche o jarro, o pirata conta, surdo, sem pestanejar, os maus-tratos que sofreu quando era escravo do governador de Campeche.
– Minha mãe ainda é escrava, em Havana. Não conheces minha mãe? É tão boa, a coitada, que dá vergonha.
– Eu não sou espanhol – geme baixinho o padre. – Eu sou inglês – diz e repete, em vão. – Minha nação não é inimiga da vossa. Não são boas amigas, a Inglaterra e a Holanda?
– Hoje ganho, amanhã perco – diz o corsário. Retém um gole de rum, o envia pouco a pouco à garganta.
– Olhe – ordena, e arranca a casaca. Mostra as costas, as costuras dos açoites.
Escutam-se ruídos que chegam da coberta. O sacerdote os agradece, porque ocultam as batidas de seu coração desbocado.
– Eu sou Inglês...
Uma veia lateja, desesperada, na testa do padre Gage. A saliva se nega a passar por sua garganta.
– Levai-me à Holanda. Vos rogo, senhor, levai-me à Holanda. Por favor! Não pode um homem generoso abandonar-me assim, despido e sem...
De um puxão, o capitão solta seu braço das mil mãos do padre no chão com uma bengala e acodem dois homens.
– Fora com ele!
Despede-se de costas, enquanto se olha no espelho.
– Se passas por Havana – diz –, não deixes de visitar minha mãe. Mande-lhe lembranças. Diga-lhe... diga-lhe que as coisas estão indo muito bem para mim.
Enquanto regressa para a sua fragata, o padre Gage sente câimbras na barriga. Andam fortes as ondas e o padre amaldiçoa quem lhe disse, lá em Jerez de la Frontera, há doze anos, que a América estava com as ruas cobertas de ouro e de prata, e que era preciso caminhar com cuidado para não tropeçar com os diamantes.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Complexo de inferioridade

♦ Uma coisa eu lhe garanto, amigo – o seu complexo de inferioridade não é inferior ao de ninguém.

Millôr Fernandes, em A bíblia do caos

Xenofonte, Anábase



A impressão mais forte que Xenofonte causa para quem o lê hoje é a de estar vendo um velho documentário de guerra, como os que são reapresentados de vez em quando no cinema ou na televisão. O fascínio do preto e branco, do filme meio apagado, com fortes contrastes de sombras e movimentos acelerados, vem espontaneamente ao nosso encontro em trechos como este (capítulo V do Livro IV):

Sempre em cima de muita neve acumulada percorrem mais quinze parasangas em três dias. O terceiro dia é particularmente terrível por causa do vento tramontana que sopra no sentido contrário ao da marcha: sopra furiosamente por todos os cantos, queimando tudo e congelando os corpos… Para defender os olhos da reverberação da neve, os soldados, ao andar, colocam alguma coisa negra sobre os olhos; contra o perigo de congelamento, o remédio mais eficaz é mexer sempre os pés, não ficar parado nunca e sobretudo desatar os sapatos à noite… Um grupo de soldados, tendo ficado para trás por tais dificuldades, vislumbra não muito distante, numa vala em meio ao manto de neve, uma poça escura: é neve derretida, pensam. De fato, a neve se desfez naquele ponto, pela presença de uma nascente que brota ali perto, exalando vapores para o céu.

Mas citar Xenofonte não dá certo: aquilo que conta é a sucessão contínua de detalhes visuais e de ação; é difícil encontrar uma passagem que represente plenamente o prazer sempre variado da leitura. Tentemos esta, duas páginas antes:

Alguns gregos que se afastaram do campo contam ter vislumbrado à distância algo similar à massa de um exército e muitas fogueiras surgindo na noite. Ao ouvir isso, os estrategos consideram pouco seguro permanecer acampados de modo disperso e reúnem novamente o exército. Os soldados instalam-se todos ao ar livre, pois parece que vai haver bom tempo. Como se tivesse sido programado, durante a noite cai neve suficiente para cobrir armas, animais e homens encolhidos no chão; as bestas têm os membros tão enrijecidos pelo gelo que não conseguem erguer-se sobre as pernas; os homens hesitam em levantar-se, porque a neve depositada sobre os corpos e ainda não derretida transmite calor. Então, Xenofonte se levanta corajosamente e, despindo-se, começa a dar machadadas na lenha; a exemplo dele, alguém se ergue, arranca-lhe o machado das mãos e prossegue a obra; outros mais se levantam e acendem o fogo; todos untam braços e pernas não com óleo mas com unguentos encontrados na aldeia, feitos com sementes de gergelim, amêndoas amargas e almecegueira, misturados com gordura. Extraído das mesmas substâncias existe até um tipo de unguento perfumado.

A rápida mudança de uma representação visual para outra e daí para a anedota e de novo para o registro de costumes exóticos: este é o tecido que serve de fundo para um contínuo desenrolar de episódios aventurosos, de obstáculos imprevistos na marcha de um exército errante. Cada obstáculo é superado, em geral, mediante uma astúcia de Xenofonte: toda cidade fortificada a ser assaltada, toda tropa inimiga que se opõe em campo aberto, todo vau, toda intempérie exigem um achado, uma centelha de gênio, uma invenção estratégica do narrador-protagonista-comandante. Às vezes, Xenofonte parece uma daquelas personagens infantis de histórias em quadrinhos que, em cada capítulo, superam dificuldades impossíveis; ou melhor, muitas vezes os protagonistas do episódio são dois, os dois oficiais rivais, Xenofonte e Quirísofo, o ateniense e o espartano, e a invenção de Xenofonte é sempre a mais astuta, generosa e decisiva.
Em si mesmo, o tema da Anábase seria adequado a um conto picaresco ou herói-cômico: 10 mil mercenários gregos, engajados com pretexto mentiroso por um príncipe persa, Ciro, o jovem, numa expedição ao interior da Ásia Menor destinada na realidade a derrubar o irmão Artaxerxes II, são derrotados na batalha de Cunaxa e se encontram sem chefes, distantes da pátria, tendo de forçar o caminho de retorno entre populações inimigas. Só querem voltar para casa, mas, o que quer que façam, eles constituem um perigo público: são 10 mil, armados, famintos, aonde chegam depredam e destroem, como uma nuvem de gafanhotos; e arrastam um enorme séquito de mulheres.
Xenofonte não era o tipo de deixar-se tentar pelo estilo heroico da epopeia nem de explorar — a não ser raramente — os aspectos truculento-grotescos de uma situação como aquela. Escreve o memorial técnico de um oficial, um diário de viagem com todas as distâncias e os pontos de referência geográficos e informações sobre os recursos vegetais e animais, e uma resenha de problemas diplomáticos, logísticos, estratégicos e respectivas soluções.
O relato é entremeado de “atas de reuniões” do estado-maior e dos discursos de Xenofonte às tropas ou aos embaixadores dos bárbaros. Dessas passagens oratórias eu conservava, desde os bancos de escola, a lembrança de um grande tédio, mas me equivocava. O segredo, ao ler a Anábase, é jamais pular nada, acompanhar tudo ponto por ponto. Em cada um daqueles discursos existe um problema político: de política externa (as tentativas de relações diplomáticas com os príncipes e os chefes dos territórios através dos quais se pede passagem) ou de política interna (as discussões entre os chefes helênicos, com as habituais rivalidades entre atenienses e espartanos etc.). E como o livro é escrito em polêmica com outros generais, sobre as responsabilidades de cada um na condução daquela retirada, o fundo de polêmicas abertas ou apenas referidas precisa ser extraído daquelas páginas.
Como escritor de ação, Xenofonte é exemplar; se o confrontarmos com o autor contemporâneo que mais lhe corresponde — o coronel Lawrence — verificamos de que modo a mestria do inglês consiste em suspender — subentendido à exatidão, pura concretude, da prosa — um halo de maravilha estética e ética ao redor das histórias e das imagens; no grego não, a exatidão e a secura não deixam subentender nada: as duras virtudes do soldado não pretendem ser nada além das duras virtudes do soldado.
Existe, sim, um pathos da Anábase: é a ânsia do retorno, a angústia do país estrangeiro, o esforço de não se perder, pois enquanto estiverem juntos de algum modo carregam a pátria consigo. Essa luta pela volta de um exército conduzido à derrota numa guerra que não é sua e abandonado a si mesmo, esse combater só para abrir uma brecha contra ex-aliados e ex-inimigos, tudo isso aproxima a Anábase de um filão de nossas leituras recentes: os livros de memória sobre a retirada da Rússia dos alpinos italianos. Não é uma descoberta de agora: em 1953, Elio Vittorini, ao apresentar aquele que viria a tornar-se um livro exemplar no gênero, Il sergente nella neve de Mario Rigoni Stern, o definia como “pequena anábase dialetal”. E, de fato, os capítulos de retirada na neve da Anábase (dos quais extraí as citações anteriores) são ricos em episódios que poderiam ser tomados pelos do Sergente.
Característica de Rigoni Stern e de outros dentre os melhores livros italianos sobre a retirada da Rússia é que o narrador-protagonista é um bom soldado, tal como Xenofonte, e fala das ações militares com empenho e competência. Para eles como para Xenofonte as virtudes guerreiras, no desmoronamento geral das ambições mais pomposas, voltam a ser virtudes práticas e solidárias segundo as quais se mede a capacidade de cada um de ser útil não apenas a si mesmo mas também aos outros. (Lembremos La guerra dei poveri de Nuto Revelli pelo apaixonado furor do oficial desiludido; e um outro bom livro injustamente negligenciado, I lunghi fucili, de Cristoforo M. Negri.)
Porém, acabam aí as analogias. As memórias dos alpinos nascem do contraste de uma Itália humilde e sensata com as loucuras e o massacre da guerra total; nas memórias do general do século V, o contraste se dá entre a situação de nuvem de gafanhotos a que se reduziu o exército de mercenários helênicos e o exercício das virtudes clássicas, filosófico-cívico-militares, que Xenofonte e os seus tratam de adaptar às circunstâncias. E acontece que esse contraste não possui em absoluto a tragicidade comovente do outro: Xenofonte parece convencido de haver conciliado os dois termos. O homem pode reduzir-se a gafanhoto e mesmo assim aplicar a tal condição um código de disciplina e decoro — numa palavra: um “estilo”; e dar-se por satisfeito; não discutir nem muito nem pouco o fato de ser gafanhoto mas somente o modo de sê-lo. Em Xenofonte, já está bem delineada com todos os seus limites a ética moderna da perfeita eficiência técnica, do estar “à altura da situação”, do “fazer bem as coisas que têm de ser feitas” independentemente da avaliação da própria ação em termos de moral universal. Continuo a chamar de moderna essa ética porque assim era na minha juventude e era este o sentido que se extraía de tantos filmes americanos e também dos romances de Hemingway, e eu oscilava entre a adesão a esta moral “técnica” e “pragmática” e a consciência do vazio que se abria por baixo. Mas ainda hoje, quando parece tão longe do espírito da época, creio que tinha algo de bom.
Xenofonte tem o grande mérito, no plano moral, de não mistificar, de nunca idealizar a posição que defende. Se em relação aos costumes dos “bárbaros” manifesta frequentemente o distanciamento e a aversão do “homem civilizado”, deve ser dito que a hipocrisia “colonialista” lhe era estranha. Sabe que comanda uma horda de bandidos em terra estrangeira, sabe que a razão não pertence a ele mas aos bárbaros invadidos. Em suas exortações aos soldados não deixa de relembrar as razões dos inimigos: “Uma outra consideração vocês precisam fazer. Os inimigos terão tempo para destruir-nos e possuem boas razões para preparar-nos ciladas, já que ocupamos suas propriedades…”. Ao tentar conferir um estilo, uma norma, a essa movimentação biológica de homens ávidos e violentos entre as montanhas e as planícies da Anatólia, encontra-se toda a sua dignidade: dignidade limitada, não trágica, no fundo burguesa. Sabemos que se pode muito bem conseguir dar aparência de estilo e dignidade às piores ações, mesmo quando não ditadas como essas por um estado de necessidade. O exército dos helenos que serpenteia entre os desfiladeiros das montanhas e os vaus, entre contínuas emboscadas e saques, não mais distinguindo onde passa de vítima a opressor, circundado também na frieza dos massacres pela suprema hostilidade da indiferença e do acaso, inspira uma angústia simbólica que talvez só nós possamos entender.
1978

Italo Calvino, em Por que ler os clássicos

16/08/2026

Rafa Bernardes | Garçom

Moinhos

Fonte: riptapparel.com

Mistério

Quando comecei a escrever, que desejava eu atingir? Queria escrever alguma coisa que fosse tranquila e sem modas, alguma coisa como a lembrança de um alto monumento que parece mais alto porque é lembrança. Mas queria, de passagem, ter realmente tocado no monumento. Sinceramente não sei o que simbolizava para mim a palavra monumento. E terminei escrevendo coisas inteiramente diferentes.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Capítulo 79 – Compromisso de gato




Não acabaria se houvesse de contar pelo miúdo o que padeci nas primeiras horas. Vacilava entre um querer e um não querer, entre a piedade que me empuxava à casa de Virgília e outro sentimento, – egoísmo, suponhamos, – que me dizia: – Fica; deixa-a a sós com o problema, deixa-a que ela o resolverá no sentido do amor. Creio que essas duas forças tinham igual intensidade, investiam e resistiam ao mesmo tempo, com ardor, com tenacidade, e nenhuma cedia definitivamente. As vezes sentia um dentezinho de remorso; parecia-me que abusava da fraqueza de uma mulher amante e culpa-da, sem nada sacrificar nem arriscar de mim próprio; e, quando ia capitular, vinha outra vez o amor, e me repetia o conselho egoísta, e eu ficava irresoluto e inquieto, desejoso de a ver, e receoso de que a vista me levasse a compartir a responsabilidade da solução.
Por fim interveio um compromisso entre o egoísmo e a piedade; eu iria vê-la em casa, e só em casa, em presença do marido, para lhe não dizer nada, à espera do efeito da minha intimação. Deste modo poderia conciliar as duas forças. Agora, que isto escrevo, quer-me parecer que o compromisso era uma burla, que essa piedade era ainda uma forma de egoísmo, e que a resolução de ir consolar Virgília não passava de uma sugestão de meu próprio padecimento. Ocorre-me a este propósito um naturalista, – não me lembra qual, – mas era um naturalista, – em que li esta observação curiosa: “O gato não nos afaga, afaga-se em nós.” Vejo que eu fazia um compromisso de gato.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Siempre en la Barca pra Paquetá



2ª Faixa: Dolores

Bem que eu não queria ir naquele baile de gala no Clube de Regatas Vasco da Gama. Bacalhau de smoking fica mais deslocado que pinguim de chuteira. Mas o Dininho insistiu e eu acabei indo. Mal-humorado, ancorei o cotovelo no balcão do bar e comecei a encher a cara de cerveja. Já estava chamando urubu de meu louro quando a Aparição me cegou. Instantes depois, refeito do choque, recomecei a beber – só que, humildemente, pra tomar coragem.
Eu me contentaria em ser rato na abóbora daquela Cinderela. O medó fazia meus sovacos destilarem essências dignas de um desastre ecológico em Cubatão. Minha cabeça rodando, girava mais que os casais, fazia perguntas irrespondíveis: e se ela cuspir na minha cara?, será que ela vai reparar que minha faixa é uma adaptação do xale da tia Nicinha?, e se ela disser que essa merda de gravata parece mais mariposa que borboleta?, e se eu pisar no pezinho dela?, e se me der vontade de soltar um pum?, e se além de feder, fizer um barulhão?, e se eu vomitar o ensopadinho, meu Deus?!?
Ela era linda. Estava com uma gargantilha de pérolas de três voltas – minha forca – combinando com o sorriso. E luvas. Luvas. E a ponta de um torturante bandeide no calcanhar. Se ela entrasse em meu quarto, numa noite de lua cheia, só de gargantilha e luvas, mais os bandeides afrodisíacos, eu confesso que seria capaz de cometer uma loucura: dilacerar meu pijama verde de listrinhas, uivando como um lobo; estraçalhar suas luvas brancas com meus cariados caninos; romper a gargantilha com unhas roídas ávidas, deitá-la sobre as pérolas derramadas e, no clímax do surto psicótico, broxar. Tsk, isso acontece!
A orquestra foi fundo em La Puerta. E meu amor, como que hipnotizado, foi atrás da Cinderela. Quando a timidez ameaçava me paralisar, eu pensava no Garrincha driblando os adversários e ia em frente. Cheguei na mesa dela como se tivesse cruzado o Amazonas por debaixo d’água: molhado e sem fôlego.
O suor escorria pelas pernas de tal modo que temi ter feito xixi nas calças. O coroa com pinta de pai devia ser médico porque me fitou longamente, enquanto mordiscava um palito de fósforo. Uma eternidade depois, colocou o que restava do pauzinho no cinzeiro e perguntou:
– Quer um Valium?
Sou do Estácio, qual é?
Não perdi a pose. Esse babaca não me conhece, não sabe com quem tá falando,pomba. Respondi à altura:
– Se o senhor tiver Maracujina, sem querer abusar, eu aceito.
Justo nessa hora, a letra do bolero falava em padecer. Respirei fundo, tive uma rápida crise de choro, e dei a volta por cima:
– Terminei o científico no Externato São José.
Até hoje não entendo a razão daquelas gargalhadas.
Armei um ar entediado, tipo James Dean em Nilópolis, acendi a lapela esquerda do paletó com meu isqueiro Zippo e disse:
– Adoro bolero.
Engasguei com a fumaça e ela não ouviu nada. Ela ficava mais bonita ainda gritando: “Hein? Hein?". Tropecei no cadarço desamarrado do meu insólito sapato social de lona (que eu também usava pra futebol e basquete), e caí nos braços do pai dela, que era um cara até bem-humorado:
– É comigo que você quer dançar?
Ela colocou água na fervura:
– Euclides, vai com calma, meu bem.
Euclides? Meu bem? Hiii.
Mas o cara era realmente compreensivo.
– Dá uma dançada com esse palhaço, Dolores, antes que eu arrebente ele todinho.
Dolores! Fiz careta pra ele. Não levo desaforo pra casa. Ela me arrastou pro salão como quem puxa um poodle.
Dolores! Enlacei a cinturinha dela e dei uma rodopiada pra esquerda. Atingimos em cheio um garçon, e vários cuba-libres afluíram da bandeja para o vértice do decote de Dolores. Ela revelou verve e distinção:
– Bom, gelado tá, mas eu costumo tomar um de cada vez.
Procurei levar um papo descontraído, bacana, pra que a gafe anterior não provocasse efeitos colaterais.
– Minha vó Noêmia sabe fazer pavê de chocolate.
E ela, ardilosa e criativa:
– Pa vê ou pa comê?
Meu gogó fez crunch, de paixão contida.
Continuei a conversa com a maior naturalidade.
– Você costuma ter cólica menstrual?
– Olha, eu...
– Mamãe prefere Regulador Gesteira.
– É mesmo?
– Você tem cabelos sedosos e ondulados. Deve ser graças ao legítimo Óleo de Ovo!
– Pra ser sincera...
– Vacinosan estimula a vida da epiderme. O melhor medicamento pra cútis.
– Quem sabe...
– Para uma dama, extrato, loção e pó-de-arroz, de Myrurgia.
Ela me censurou ternamente:
– Tira a outra mão do bolso que não fica bem...
Disfarcei, cantarolando no ouvidinho dela o Hino do Expedicionário. Tentei cativá-la com uma última cartada.
– Tu lembra do Coronel?
– Coronel?
– Hum, hum. Laerte, Orlando e Coronel. Do time do Vasco, campeão de 56.
Ela riu, brincou com meu topete emplastrado de gumex, beijou meu queixo de levinho e me chamou de maluco.
Voltei a mim na enfermaria do clube, mais do que nunca a Cruz de Malta cravada em meu peito. A turma é boa, é mesmo da fuzarca. Vasco, Vasco, Vas-cô!
Dolores, mesmo não sendo Sierra nem nascida em Salamanca, deixaste abandonada a ilusão que havia em meu coração por ti.

Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo

Finalidades supremas

[...]

Em Oreanda, sentaram-se num banco perto da igreja e ficaram calados, olhando o mar embaixo. Mal se avistava Ialta através da névoa matutina, e nos cumes das montanhas nuvens brancas pairavam imóveis. A folhagem das árvores estava quieta, cigarras cantavam e o ruído surdo e monótono do mar, vindo de baixo, falava de repouso, do sono eterno que nos espera. Esse barulho já se fazia ouvir ali quando não havia nem Ialta, nem Oreanda; ele se faz ouvir agora e será assim também no futuro, surdo e indiferente, quando nós não mais existirmos. E nessa constância, nessa completa indiferença em relação à vida e à morte de cada um de nós, esconde-se, talvez, a garantia de nossa salvação eterna, do incessante movimento da vida na terra, do seu contínuo aperfeiçoamento. Sentado ao lado de uma jovem mulher, que no amanhecer parecia tão bela, tranquilizado e enfeitiçado pela visão desse panorama fantástico – o mar, as montanhas, as nuvens, o amplo céu –, Gúrov pensava que, no fundo, se refletirmos bem, tudo neste mundo é maravilhoso; tudo, exceto aquilo que nós mesmos pensamos e fazemos quando esquecemos das finalidades supremas da existência e da nossa dignidade como homens.
[…]

Anton Tchekhov, em A dama do cachorrinho

15/08/2026

Arnaldo Antunes e Vandal | Novo Mundo (citação: Mundanoh)

Canção de Mim Mesmo

17

Esses são realmente os pensamentos de todos os homens em todos os tempos e terras, não são originais comigo,

Se não são seus tanto quanto meus eles são nada, ou quase nada,
Se não são a charada e a solução da charada eles são nada,
Se não estão perto tanto quanto distantes são nada,

Esta é a relva que cresce onde houver terra e houver água,
Este o ar comum que banha o globo.

Walt Whitman, em Folhas de Relva