O
desejo de se ser diferente daquilo que se é, é a maior
tragédia com que o destino pode castigar o homem. O desejo de ser
outro, diferente daquilo que somos: não pode arder um desejo mais
doloroso no coração humano. Porque não é possível suportar a
vida de outra maneira, apenas sabendo que nos conformamos com aquilo
que significamos para nós próprios e para o mundo. Temos de nos
conformar com aquilo que somos e de ter consciência, quando nos
conformamos, de que em troca dessa sabedoria, não recebemos elogios
da vida, não nos põem no peito nenhuma condecoração por sabermos
e aceitarmos que somos vaidosos ou egoístas, carecas e barrigudos -
não, temos de saber que por nada disso recebemos recompensas, nem
louvores. Temos de suportar, o segredo é isso. Temos de suportar o
nosso caráter, o nosso temperamento, já que os seus defeitos,
egoísmos e avidez, não os mudam nem a experiência, nem a
compreensão. Temos de suportar que os nossos desejos não tenham
plena repercussão no mundo. Temos de suportar que as pessoas que
amamos, não nos amem, ou que não nos amem como gostaríamos. Temos
de suportar a traição e a infidelidade, e o que é mais difícil
entre todas as tarefas humanas, temos de suportar a superioridade
moral ou intelectual de uma outra pessoa.
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19/08/2018
12/06/2018
Velhice
Uma
pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida
e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real,
conhece o significado das coisas, tudo se repete tão terrível e
fastidiosamente. Isso também é velhice. Quando já sabe que um
corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais
que um homem, um ser mortal, faça o que fizer... Depois envelhece o
seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os
olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa
envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, começa a
envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja
o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações,
busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de
prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então
é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia
acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o
dia te traz, conheces tu com exatidão: a Primavera ou o Inverno, os
cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer
nada de inesperado: não te surpreende nem o imprevisto, nem o
invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades,
tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal... e
isso é precisamente a velhice.
Sándor
Márai, in As
velas ardem até ao fim
05/10/2015
Paixão verdadeira
“Toda
paixão verdadeira é sem esperança, do contrário não seria uma
paixão mas um simples pacto, um acordo sensato, uma troca de
interesses banais.”
Sándor
Márai, in As brasas
30/09/2015
Paixão
“É
aí que eu me pergunto: a paixão é de fato tão profunda, tão má,
tão grandiosa, tão desumana?”
Sándor
Márai, in As brasas
27/09/2015
Outrora
“Com
o tempo, tudo se conserva, mas desbota, como essas fotografias de um
passado distante que eram fixadas em placa de metal. A luz e o tempo
esfumam os traços mais nítidos, que aos poucos desaparecem da
placa. É preciso trocar a imagem de posição para que a luz de um
determinado ângulo caia sobre aquela superfície turva, e assim é
possível reconhecer a pessoa cujos traços outrora eram refletidos
num espelho. Da mesma forma desbotam no correr dos anos todas as
recordações humanas. Depois, um belo dia, cai um raio de luz de
algum lugar e então redescobrimos um rosto de repente.”
Sándor
Márai,
in As
brasas
05/08/2014
Vida: capacidade de trabalhar
“Se a vida tem mesmo algum sentido, é só
pela consciência de termos capacidade de trabalhar. O trabalho do escritor, do
compositor, do artista independe da idade, das condições sociais... O criador
espiritual é o único homem que leva para a velhice o sentido da vida, a
possibilidade de criar. Já o cientista, se não tem laboratório e cátedra, fica
estéril.”
Sándor
Márai, in Diário
19/04/2014
Serenidade
“O mundo, às vezes, pode oferecer-nos
coisas maravilhosas. Mas dá-se, então, o acidente e uma alma perde a
serenidade.”
Sándor
Márai
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