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16/06/2023

A Duas Flores

São duas flores unidas,
São duas rosas nascidas
Talvez do mesmo arrebol,
Vivendo no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.

Unidas, bem como as penas
Das duas asas pequenas
De um passarinho do céu…
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.

Unidas, bom como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar…
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.

Unidas… Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rodas da vida,
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!

Castro Alves, in Antologia Poética

02/12/2014

O livro e a América

Talhado para as grandezas, 
Pra crescer, criar, subir,
 
O Novo Mundo nos músculos
 
Sente a seiva do porvir.
 
— Estatuário de colossos —
 
Cansado doutros esboços
 
Disse um dia Jeová:
 
"Vai, Colombo, abre a cortina
 
"Da minha eterna oficina...
 
"Tira a América de lá".

Molhado inda do dilúvio, 
Qual Tritão descomunal,
 
O continente desperta
 
No concerto universal.
 
Dos oceanos em tropa
 
Um — traz-lhe as artes da Europa,
 
Outro — as bagas de Ceilão...
 
E os Andes petrificados,
 
Como braços levantados,
 
Lhe apontam para a amplidão.

Olhando em torno então brada: 
"Tudo marcha!... Ó grande Deus!
 
As cataratas — pra terra,
 
As estrelas — para os céus
 
Lá, do pólo sobre as plagas,
 
O seu rebanho de vagas
 
Vai o mar apascentar...
 
Eu quero marchar com os ventos,
 
Com os mundos... co'os
 firmamentos!!!" 
E Deus responde — "Marchar!" 

"Marchar! ... Mas como?...  Da Grécia
 
Nos dóricos Partenons
 
A mil deuses levantando
 
Mil marmóreos Panteon?...
 
Marchar co'a espada de Roma
 
— Leoa de ruiva coma
 
De presa enorme no chão,
 
Saciando o ódio profundo. . .
 
— Com as garras nas mãos do mundo,
— Com os dentes no coração?... 

"Marchar!... Mas como a Alemanha
 
Na tirania feudal,
 
Levantando uma montanha
 
Em cada uma catedral?...
 
Não!... Nem templos feitos de ossos,
 
Nem gládios a cavar fossos
 
São degraus do progredir...
 
Lá brada César morrendo:
 
"No pugilato tremendo
 
"Quem sempre vence é o porvir!"

Filhos do século das luzes! 
Filhos da Grande nação!
 
Quando ante Deus vos mostrardes,
 
Tereis um livro na mão:
 
O livro — esse audaz guerreiro
 
Que conquista o mundo inteiro
 
Sem nunca ter Waterloo...
 
Eólo de pensamentos,
 
Que abrira a gruta dos ventos
 
Donde a Igualdade vooul...

Por uma fatalidade 
Dessas que descem de além,
 
O século, que viu Colombo,
 
Viu Guttenberg também.
 
Quando no tosco estaleiro
 
Da Alemanha o velho obreiro
 
A ave da imprensa gerou...
 
O Genovês salta os mares...
 
Busca um ninho entre os palmares
 
E a pátria da imprensa achou...

Por isso na impaciência 
Desta sede de saber,
 
Como as aves do deserto
 
As almas buscam beber...
 
Oh! Bendito o que semeia
 
Livros... livros à mão cheia...
 
E manda o povo pensar!
 
O livro caindo n'alma
 
É germe — que faz a palma,
 
É chuva — que faz o mar.

Vós, que o templo das ideias 
Largo — abris às multidões,
 
Pra o batismo luminoso
 
Das grandes revoluções,
 
Agora que o trem de ferro
 
Acorda o tigre no cerro
 
E espanta os caboclos nus,
 
Fazei desse "rei dos ventos"
 
— Ginete dos pensamentos,
 
— Arauto da grande luz! ...

Bravo! a quem salva o futuro 
Fecundando a multidão! ...
 
Num poema amortalhada
 
Nunca morre uma nação.
 
Como Goethe moribundo
 
Brada "Luz!" o Novo Mundo
 
Num brado de Briaréu...
 
Luz! pois, no vale e na serra...
 
Que, se a luz rola na terra,
 
Deus colhe gênios no céu!...
Castro Alves 

14/03/2012

14 de março - Dia Nacional da Poesia: O livro e a América, de Castro Alves


Talhado para as grandezas,
Pra crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
— Estatuário de colossos —
Cansado doutros esboços
Disse um dia Jeová:
"Vai, Colombo, abre a cortina
"Da minha eterna oficina...
"Tira a América de lá".

Molhado inda do dilúvio,
Qual Tritão descomunal,
O continente desperta
No concerto universal.
Dos oceanos em tropa
Um — traz-lhe as artes da Europa,
Outro — as bagas de Ceilão...
E os Andes petrificados,
Como braços levantados,
Lhe apontam para a amplidão.

Olhando em torno então brada:
"Tudo marcha!... Ó grande Deus!
As cataratas — pra terra,
As estrelas — para os céus
Lá, do pólo sobre as plagas,
O seu rebanho de vagas
Vai o mar apascentar...
Eu quero marchar com os ventos,
Com os mundos... co'os firmamentos!!!"
E Deus responde — "Marchar!"

"Marchar! ... Mas como?... Da Grécia
Nos dóricos Partenons
A mil deuses levantando
Mil marmóreos Panteons?...
Marchar co'a espada de Roma
— Leoa de ruiva coma
De presa enorme no chão,
Saciando o ódio profundo. . .
— Com as garras nas mãos do mundo,
— Com os dentes no coração?...

"Marchar!... Mas como a Alemanha
Na tirania feudal,
Levantando uma montanha
Em cada uma catedral?...
Não!... Nem templos feitos de ossos,
Nem gládios a cavar fossos
São degraus do progredir...
Lá brada César morrendo:
"No pugilato tremendo
"Quem sempre vence é o porvir!"

Filhos do século das luzes!
Filhos da Grande nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro — esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo...
Eólo de pensamentos,
Que abrira a gruta dos ventos
Donde a Igualdade voou!...

Por uma fatalidade
Dessas que descem de além,
O seéculo, que viu Colombo,
Viu Guttenberg também.
Quando no tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro
A ave da imprensa gerou...
O Genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou...
 
Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar,

Vós, que o templo das ideias
Largo — abris às multidões,
Pra o batismo luminoso
Das grandes revoluções,
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse "rei dos ventos"
— Ginete dos pensamentos,
— Arauto da grande luz! ...

Bravo! a quem salva o futuro
Fecundando a multidão! ...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo
Brada "Luz!" o Novo Mundo
Num brado de Briaréu...
Luz! pois, no vale e na serra...
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu!...