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15/12/2019

Bathophobia

A cegueira nos illude:
mesmo em casa, me appavora,
não havendo quem me adjude,
caminhar, confesso agora.

Sempre assumo uma attitude
precavida: si estou fora,
temo o piso, arisco e rude;
si estou dentro, o que me escora.

Sensação tenho de estar,
sem appoio, em mau local
ou suspenso, num logar
escurissimo e abyssal!

Como, em sonho, a gente pisa
num boeiro ou lodaçal,
num buraco e affunda, bisa,
accordado: é tudo egual!
Glauco Mattoso

19/09/2019

Graphophobia

Por escripto tudo fica
mais explicito e formal.
Mas tem gente, pobre ou rica,
que prefere o termo oral.

Si um poema se publica,
se mantem no original,
mas, na falla, “phallo” é “pica”
e é “suruba” a “bacchanal”.

A palavra soa boa,
ou na rua, ou no Congresso,
ao politico, pois voa,
não é como o texto impresso.

Si eu souber que ninguem grava,
mando alguem tomar no sesso,
mando o povo todo à fava
e as palavras já nem meço.
Glauco Mattoso

28/08/2019

Bathophobia

A cegueira nos illude:
mesmo em casa, me appavora,
não havendo quem me adjude,
caminhar, confesso agora.

Sempre assumo uma attitude
precavida: si estou fora,
temo o piso, arisco e rude;
si estou dentro, o que me escora.

Sensação tenho de estar,
sem appoio, em mau local
ou suspenso, num logar
escurissimo e abyssal!

Como, em sonho, a gente pisa
num boeiro ou lodaçal,
num buraco e affunda, bisa,
accordado: é tudo egual!
Glauco Mattoso

11/08/2019

Agoraphobia

Tem certeza? Tudo eu posso?
Não preciso nem rhymar?
Nem tem metrica este troço?
Que legal? Vou me esbaldar!

E as estrophes? Neste nosso
poeminha, as faço em par?
Ou nem ligo e nem me coço
si as não ponho no logar?

Nossa! Tanta liberdade
eu extranho! Quem diria?
Puxa vida! Attraz de grade
sempre estive, em poesia!

Mas, si tudo fica aberto,
mais me augmenta esta agonia!
Mais eu soffro, e mais me apperto:
Antes, livre eu me sentia!
Glauco Mattoso

29/04/2012

Soneto 92 ambíguo

Quem quer a exatidão não é poeta.
Poetas têm o dom da ambiguidade.
A imagem pode ser falsa ou verdade,
Depende só de como se interpreta.

O matemático é uma linha reta.
Filósofos duvidam da unidade.
Católicos têm fé numa trindade.
Mas o poeta nunca se completa.

Quer no “duplipensar” do autor inglês,
Quer seja o “VIVA VAIA” do concreto
Ou triplo trocadilho, a dois por três,

Palavra de poeta não tem teto,
Tem piso, onde rasteja este freguês
Do pé perverso, meu pé predileto.

Glauco Matoso