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06/03/2021

Upgrade

          Eu falo demais. Às vezes enquanto estou falando, falando, falando, chega aquele momento, bem no meio da conversa, em que percebo que a pessoa do meu lado já não está prestando atenção. Continua a mover a cabeça, mas os seus olhos estão completamente anuviados. Está pensando em outra coisa, algo melhor do que aquilo que tenho para dizer.
Eu poderia discordar dessa hipótese, é natural. Poderia discordar de tudo. Minha mulher diz que eu seria capaz de discutir com um abajur. Eu poderia discutir a questão com o sujeito ao meu lado, mas não há prazer nisto. Ele já não presta atenção em mim. Está em outro mundo. Um mundo melhor, ao menos na opinião dele. E eu? Continuo falando, falando, falando. Como um carro cujo freio de mão está puxado, as rodas travadas, mas que continua a deslizar na pista.
Gostaria de parar de falar. De fato, gostaria. Mas as palavras, as frases, as ideias têm uma energia própria. É impossível simplesmente detê-las, trancar os lábios e interromper as palavras, bem ali, no meio de uma frase. Há pessoas que são capazes de fazer isto, eu sei.
Principalmente mulheres.
E quando elas silenciam, isto desperta culpa em quem se encontra perto delas. Provoca no ouvinte um desejo, uma profunda necessidade de inclinar-se para a frente, abraçá-las e dizer, “Lamento”.
Dizer, “Eu te amo.”
Eu daria tudo para ser capaz de fazer isto, esta bendita parada. Eu a aproveitaria muito bem. Eu pararia de falar perto das garotas que realmente valem a pena, e elas desejariam me abraçar, me apertar, me dizer, “Amo você.” E mesmo se no final elas não o fizessem, o simples fato de quererem teria valido alguma coisa. Valido muito.
Naquele dia não consigo parar de falar com um homem chamado Michael. Ele é designer gráfico de um jornal ultraortodoxo no Brooklyn, e estava viajando de Nova York para Louisville, no Kentucky, para fazer companhia ao tio na sucá. Ele não é especialmente próximo ao tio, nem gosta muito especialmente de Louisville, mas o tio lhe enviou a passagem de presente, e Michael é louco pelas milhagens dos programas de fidelidade. Ele fará uma viagem para a Austrália dentro de alguns meses e, com os pontos do voo para Louisville, poderá obter um upgrade para a classe executiva. Em voos longos, Michael me diz, a diferença entre executiva e econômica é como o dia e a noite.
O que você prefere – pergunto –, dia ou noite?
Porque eu, habitualmente, sou um tipo da noite, mas também de dia há algo especial, radiante. De noite é mais silencioso e fresco, e isto é uma consideração significativa, ao menos para mim, que vivo em um país quente. Mas de noite, a pessoa pode se sentir mais solitária se não há alguém ao seu lado, se é que você me entende.
Eu não – diz Michael. A voz dele soa pesada.
Não sou gay – eu lhe digo, porque percebo que o deixei tenso. – Sei que toda esta conversa sobre solidão e noite soa como conversa gay, mas eu não sou. Em todos os trinta e tantos anos de minha vida só uma vez beijei um homem na boca, e, assim mesmo, foi meio que por engano. Eu estava no exército, e, na minha unidade, havia outro soldado chamado Tzlil Druker. Ele trouxe maconha para a base militar, e me chamou para fumar. Tzlil me perguntou se eu já tinha fumado alguma vez, e eu disse que sim. Eu não tinha intenção de mentir, mas simplesmente tenho esta característica: quando me perguntam algo e eu fico tenso, sempre digo que sim. Para agradar. É um reflexo que ainda pode me criar um grande problema. Imaginem que um policial entre no quarto, me veja ao lado de um cadáver e pergunte: “Você o matou?” Pode acabar mal. O policial também pode perguntar, suponhamos: “Você é inocente?” Neste caso, eu me saio bem. Mas cá entre nós, qual é a chance de um policial perguntar uma coisa dessa?
Fumamos juntos, Tzlil e eu, e isto foi uma sensação muito especial. A droga simplesmente calou a minha boca. Eu não precisava falar para ser. Enquanto fumávamos, Tzlil me disse que fazia um ano que tinha se separado da namorada. Que fazia um ano que não beijava uma mulher. Lembro que ele usou esta palavra, “mulher”. Eu lhe disse que nunca tinha beijado uma mulher. Ou garota.
Na boca, quis dizer. No rosto, beijei muito. Tias e coisa e tal. E Tzlil me olhou e não disse nada, mas vi que estava surpreso. E então, de repente, nos beijamos. A língua dele era áspera e azeda, como ferrugem no corrimão da passarela. Lembro que na época pensei que todas as línguas e beijos que me aparecessem na vida seriam assim. Que por não ter beijado ninguém até então, na prática não tinha perdido nada.
E Tzlil disse, ‘Não sou homo’.
E eu ri e disse, ‘Mas tem nome de gay’.
E foi isso.
Oito anos depois eu o encontrei, por acaso, numa lanchonete de húmus; quando o chamei de Tzlil, ele disse que não se chamava mais assim, que tinha saído do Ministério do Interior e mudado o nome para Tsachi.
Espero que não tenha sido por minha causa.”
Michael, que está sentado ao meu lado, há tempo já não me ouve. No início pensei que estivesse tenso porque achou que eu queria dar em cima dele. Depois comecei a suspeitar que ele, sim, era gay e que se ofendera com a minha história, que era como se eu dissesse que beijar um homem é nojento. Mas quando eu o olho nos olhos, não vejo ofensa ou ansiedade, simplesmente muitos pontos de milhagem se acumulando para um upgrade, para comissárias mais bonitas, café mais gostoso, mais espaço para as pernas.
Quando vejo isso, sinto-me culpado.
Não é a primeira vez que vejo isso nos olhos de pessoas com as quais eu falo – e não estou falando de mais espaço para as pernas. Estou me referindo a não prestar atenção, ver que a pessoa está pensando em alguma outra coisa. E sempre me sinto culpado. Minha mulher me diz que não tenho por que me sentir assim. Que o fato de eu falar muito é, obviamente, um pedido de ajuda. Que não importa que palavras eu pronuncie, o que realmente digo naquele momento é “socorro”. Pense nisso, ela diz, você grita “socorro” e eles, enquanto isso, pensam em outra coisa. Se há alguém que deva se sentir culpado, são eles, não você.
A língua da minha mulher é macia e agradável. A língua dela é o melhor lugar no mundo. Se fosse um pouco mais larga e comprida, passaria a morar nela. Eu me enrolaria nela como um pedaço de peixe em arroz. Se eu pensar com que língua comecei a beijar e onde cheguei, posso dizer que fiz algo de bom com essa minha vida. Que também passei por um bom upgrade.
A verdade é que jamais voei na classe executiva, mas se a diferença entre ela e a econômica é como a diferença entre a língua da minha mulher e a de Tzahi-Tzlil Druker, estaria disposto a morar uma semana na sucá mais abominável do mundo, com o tio mais chato para receber esse tipo de upgrade.
Anunciam que logo pousaremos. Continuo a falar. Michael continua a não ouvir. O globo terrestre continua a girar em seu eixo. Mais quatro dias, querida. Daqui a quatro dias voltarei para você. Daqui a quatro dias poderei novamente ficar calado.

Etgar Keret, in De repente, uma batida na porta

02/03/2021

Que animal é você?

          As frases que estou escrevendo agora são em benefício dos espectadores da Televisão Pública Alemã. Uma repórter da televisão que veio à minha casa hoje pediu que eu digitasse algo no computador, porque isto sempre fotografa bem: um escritor escrevendo. É um clichê, ela reconhece, mas clichês são nada mais do que uma versão não sexy da verdade, e o trabalho dela como repórter é transformar esta verdade em algo sexy, romper o clichê com a ajuda de iluminação e extraordinários ângulos de filmagem. E a luz em minha casa entra de forma maravilhosa, sem que ela tenha de acender lâmpada alguma, de modo que tudo o que me cabe é escrever.
No começo fingi que estava escrevendo, mas ela disse que não funcionaria. Que logo se vê que estou fazendo de conta. “Escreva de verdade”, ela exigiu, e depois frisou: “Um conto. Não simplesmente uma sequência de palavras. Escreva de forma natural, como sempre faz.” Eu lhe disse que não era natural para mim escrever enquanto me filmavam para a Televisão Pública Alemã, mas ela insistiu. “Então use isso”, disse. “Escreva o conto exatamente sobre isso – sobre como não é natural, e como deste não natural de repente irrompe algo verdadeiro, cheio de paixão. Algo que inunde você da cabeça aos pés. Ou o contrário. Não sei como é que funciona em você. Quer dizer, de onde exatamente a criação começa em seu corpo. Isto é muito individual.” Ela me contou que certa vez tinha entrevistado um escritor belga que sempre que escrevia tinha uma ereção. Algo na escrita “enrijecia seu órgão” – foi a expressão que ela utilizou. Deve ter sido com certeza uma tradução literal do alemão, mas, para mim, soava muito estranho.
Escreva”, ela exigiu novamente. “Ótimo. Gosto dessa sua péssima postura quando escreve. O pescoço encolhido. Simplesmente incrível. Continue a escrever. Beleza. Assim, natural. Não ligue para mim. Esqueça que estou aqui.”
Então continuo a escrever, sem tomar conhecimento dela, esqueço que está aqui, e estou natural. Tão natural quanto posso estar. Tenho contas a acertar com o público espectador da Televisão Pública Alemã, mas não é a hora de fazer isto. É hora de escrever. Escrever coisas sedutoras, não bobagens, ela já me explicou, senão aparecem horríveis no vídeo.
Meu filho voltou da creche. Corre para mim e me abraça. Sempre que há equipes de televisão em casa, ele me abraça. No começo, os repórteres precisavam pedir, mas agora ele já está treinado: corre para mim, não olha para a câmera, me abraça e diz, “Papai, eu te amo.” Ainda não tem quatro anos e já entende como as coisas funcionam, meu doce filhinho.
Minha esposa não é tão boa, diz a repórter da Televisão Pública Alemã. Flui menos. Ajeita o cabelo o tempo todo, lança olhares para a câmera. Mas isto não é exatamente um problema, sempre é possível excluí-la mais tarde, na edição. Isto é que é bonito na televisão. Na vida real não é assim. Na vida real não se pode excluí-la, apagá-la. Somente Deus pode fazer isso, ou um ônibus, no caso de atropelá-la. Ou uma doença grave. O vizinho de cima é viúvo. Uma doença incurável levou-lhe a esposa. Não câncer, outra coisa qualquer. Algo que começa nos intestinos e acaba mal. Durante meio ano ela evacuou sangue. Foi isto que ele me contou. Meio ano até que Deus a excluiu na edição. Desde que ela morreu, entram aqui no nosso prédio todos os tipos de mulheres com saltos altos e perfume barato. Vêm nas horas mais inesperadas. Às vezes até na hora do almoço. Ele é aposentado, o nosso vizinho de cima, o horário dele é flexível. E essas mulheres, ao menos de acordo com a minha mulher, são prostitutas. Quando ela diz “prostitutas” sai tão naturalmente como se ela dissesse “salsão”. Mas quando ela é filmada, não funciona assim. Ninguém é perfeito.
Meu filho adora as prostitutas que visitam nosso vizinho de cima. “Que animal é você?” ele pergunta quando as encontra na escada. “Hoje sou um rato, um rato ágil e escorregadio.” E logo elas entendem e mandam para ele o nome de um animal: elefante, urso, borboleta. Cada prostituta tem o seu animal. É estranho, porque outras pessoas, quando ele pergunta sobre os animais, não entendem o que ele quer delas. Mas as prostitutas entram no jogo e colaboram.
O que me faz pensar que da próxima vez em que uma equipe de filmagem chegar, eu talvez use uma delas no lugar da minha mulher, e tudo vai sair mais natural. Elas têm uma ótima aparência, barata, mas ótima, e o meu filho também se dá melhor com elas. Quando ele pergunta para a minha mulher que animal ela é, ela sempre insiste: “Não sou animal, queridinho, sou um ser humano. Sou a sua mãe.” E ele sempre começa a chorar.
Por que minha mulher não colabora? Por que dizer que mulheres com perfume barato são “prostitutas” é fácil para ela, mas dizer para o menininho “sou uma girafa” é impossível? Isto me irrita, faz com que eu queira bater em alguém. Não nela, eu a amo, mas em alguém. Livrar-me de minhas frustrações em alguém que mereça. O pessoal da direita pode despejar toda esta raiva nos árabes. Racistas, nos negros. Mas nós da esquerda liberal estamos encurralados. Nos bloqueamos, não temos em cima de quem explodir. “Não as chame de prostitutas”, eu me revolto com a minha mulher, “você não sabe se elas são prostitutas, você não viu alguém lhes pagando ou algo assim, então não as chame disso, está bem? Como é que você se sentiria se alguém a chamasse de prostituta?”
Ótimo”, diz a repórter alemã, “gosto disto. A ruga na testa. O ritmo rápido da digitação. Agora só falta filmar um intercut de algumas traduções das suas coletâneas para outras línguas, para que os nossos telespectadores saibam que você é sucesso – e novamente esse abraço do seu filho. Na primeira vez ele correu muito depressa e o nosso câmera não conseguiu mudar o foco a tempo.” Minha esposa pergunta se a repórter alemã precisa que também ela me abrace de novo, e no íntimo rezo para que ela diga que sim. Quero tanto que minha mulher me abrace de novo, que seus braços lisos se apertem em torno de mim, como se não houvesse mais nada no mundo além de nós. “Não precisa”, diz-lhe a alemã em tom frio, “já temos isso.” “Que animal é você?”, meu filho pergunta para a alemã, e eu traduzo logo para o inglês. “Eu não sou animal”, ela ri e passa os dedos de unhas compridas pelo cabelo dele. “Sou um monstro. Um monstro que veio do outro lado do oceano para comer criancinhas bonitas como você.” “Ela diz que é um pássaro canoro”, traduzo para o meu filho com a maior naturalidade. “Ela diz que é um pássaro canoro de penas vermelhas que voou para cá de uma terra distante.”

Etgar Keret, in De repente, uma batida na porta

09/02/2021

Goiaba

          Não se ouvia ruído dos motores do avião. Não se ouvia nada. Exceto, talvez, o choro surdo das comissárias a alguns assentos de distância mais para trás. Pela janela elíptica, Shkedi olhava a nuvem que pairava bem abaixo dele. Imaginou o avião caindo por ela como uma pedra, fazendo um buraco enorme que seria rapidamente fechado com o primeiro vento, sem deixar sequer uma cicatriz. “Só não caia”, Shkedi pensou, “só não caia.”
Quarenta segundos antes de Shkedi expirar, surgiu um anjo vestido totalmente de branco e lhe contou que ele fora premiado com um último desejo. Shkedi tentou descobrir o que “premiado” sugeria. Será que se tratava de um prêmio como em uma loteria, ou algo um pouquinho mais lisonjeiro: “premiado” por uma conquista, em reconhecimento por seus bons atos? O anjo deu de asas. “Não sei”, confessou com pura sinceridade angelical. “Disseram-me para vir e realizar, não disseram por quê.” “Pena”, disse Shkedi, “porque é absolutamente fascinante. Especialmente agora, quando estou para partir deste mundo, é muito importante para mim saber se eu o deixo simplesmente como qualquer sujeito de sorte ou com um tapinha nas costas.” “Quarenta segundos e você cai fora”, disse o anjo com indiferença. “Se quer passar este tempo tagarelando, por mim, tudo bem. Não tem problema. Leve apenas em consideração que a sua vitrine de oportunidades está se fechando.” Shkedi entendeu e fez logo seu pedido. Mas não antes de fazer ao anjo uma observação em relação ao seu jeito estranho de falar. Quer dizer, estranho para um anjo. O anjo se ofendeu. “O que quer dizer ‘para um anjo’? Alguma vez já ouviu um anjo falando para estar despejando isso em mim?” “Não”, confessou Shkedi. O anjo pareceu de repente muito menos angelical e agradável, mas aquilo não era nada comparado à sua aparência quando ouviu o desejo.
Paz mundial?”, ele berrou irado. “Paz mundial? Você está zombando de mim?”
E então Shkedi morreu.
Shkedi morreu e o anjo ficou. Ficou com o desejo mais maçante e complicado que alguma vez foi solicitado a realizar. Na maioria dos casos, as pessoas pediam um carro novo para a esposa, um apartamento para o filho. Coisas razoáveis. Coisas específicas. Mas paz mundial é um trabalhão. Primeiro, o sujeito o perturba com perguntas, como se ele fosse do setor de informações da companhia telefônica, depois o ofende por falar esquisito, e ainda por cima lhe pede paz mundial. Se ele não tivesse batido as botas, o anjo grudaria nele como herpes e não o largaria até que substituísse o desejo. Mas a alma do fulano já tinha sido despachada para o sétimo céu, e como seria procurá-la por lá agora?
O anjo respirou fundo. “Paz mundial, isto é tudo”, balbuciou, “paz mundial, é tudo.”
E enquanto tudo isso acontecia, a alma de Shkedi já esquecera completamente que havia pertencido a alguém chamado Shkedi, e reencarnou, pura e imaculada, de segunda mão, mas como nova, dentro de uma fruta. Sim, uma fruta. Uma goiaba.
A nova alma não tinha pensamentos. Goiabas não têm pensamentos. Mas tinha sentimentos. Sentia um medo terrível. Tinha medo de cair da árvore. Não tinha palavras para descrever este medo. Mas se tivesse, certamente seria algo no estilo, “Mãezinha, não quero cair”. E enquanto estava pendurada na árvore, apavorada, a paz começou a reinar no mundo. As pessoas transformaram suas espadas em pás, e usinas atômicas foram rápida e sabiamente transformadas para propósitos pacíficos. Mas nada disto tranquilizou a goiaba. Porque a árvore era alta e o solo parecia distante e doloroso. Só não me deixe cair, a goiaba tremia sem palavras, só não caia.

Etgar Keret, in De repente, uma batida na porta

01/02/2021

Universos paralelos

Há uma teoria científica que alega que há bilhões de outros universos, paralelos a este em que vivemos, e que cada um deles é um pouco diferente. Há alguns em que você nunca teria nascido e outros em que não desejaria nascer. Há universos paralelos em que estou transando com um cavalo, há aqueles em que ganhei o grande prêmio da loteria. Há universos onde estou deitado no chão do quarto sangrando lentamente até morrer, e aqueles em que sou eleito, por maioria de votos, para o cargo de presidente do país. Mas este conjunto de universos paralelos não me interessa agora. Interessam-me só aqueles em que ela não está feliz casada e tem um menininho doce. Em que está totalmente só. Há muitos universos assim, tenho certeza. Tento pensar neles agora. Dentre todos esses universos, há aqueles em que jamais nos encontramos. Eles também não me interessam no momento. Dentre os que restaram, há aqueles em que ela não me quer. Ela me diz não. Em alguns deles, de forma delicada, em outros, de modo ofensivo. Nenhum deles me interessa. Restaram somente aqueles em que ela me diz sim, e eu seleciono um deles, mais ou menos como se escolhe uma fruta na quitanda. Escolho o mais bonito, mais maduro, mais doce. É um universo em que o clima é perfeito. Nunca é quente demais ou frio demais, e vivemos ali em uma pequena cabana na floresta. Ela trabalha na biblioteca municipal, quarenta minutos de viagem de nossa casa, e eu trabalho no setor de educação do conselho regional, no prédio em frente àquele em que ela trabalha. Da janela do meu escritório posso às vezes vê-la recolocando livros nas prateleiras. Sempre almoçamos juntos. E eu a amo e ela a mim. E eu a amo e ela a mim. E eu a amo e ela a mim. Eu daria tudo para me transferir para esse universo, mas, por enquanto, até que eu encontre o caminho, só me resta pensar nele, o que não é pouco. Posso me imaginar vivendo lá no meio da floresta. Com ela, em total felicidade. Há um sem-número de universos paralelos no mundo. Em um deles estou transando com um cavalo, no outro ganhei o grande prêmio da loteria. Não quero pensar neles agora, somente naquele, naquele universo com a casa na floresta. Há um universo em que estou deitado com as veias cortadas, sangrando no chão do quarto. É o universo onde foi-me decretado viver até que isso acabe. Não quero pensar nele agora. Somente naquele universo. Uma casa na floresta, sol se pondo, dorme-se cedo. Na cama, meu braço direito está solto, estanque, ela dorme sobre ele, e estamos abraçados. Ela está deitada sobre ele há tanto tempo que começo a parar de senti-lo. Mas não me mexo, está bom para mim assim, com o braço debaixo do seu corpo quente, e continua sendo bom mesmo quando paro de sentir o braço totalmente. Sinto a respiração dela no meu rosto, ritmada, regular, não acaba. Meus olhos começam a se fechar agora. Não só naquele universo, na cama, na floresta, também em outros universos sobre os quais não quero pensar agora. É bom para mim saber que há outro lugar, no coração da floresta, em que adormeço agora feliz.

Etgar Keret, in De repente, uma batida na porta

27/01/2021

Mais vida

          Ouçam uma história doida. Gêmeos idênticos de Jacksonville, Flórida, conheceram gêmeas idênticas de Daytona, também na Flórida. Conheceram-se pela internet. Quer dizer, no início só um casal se conheceu, Tod e Nicky, e quando Tod trouxe Nicky para jantar na casa dos pais, seu irmão gêmeo, Adam, ficou muito entusiasmado. E então Tod lhe contou que Nick tinha uma irmã. Não simplesmente uma irmã, uma gêmea idêntica. Tod e Nicky organizaram este encontro às cegas. Claro que não era exatamente um encontro às cegas, porque tanto Michelle como Adam sabiam exatamente qual era a aparência da outra parte. E para atenuar o embaraço, eles marcaram um encontro duplo, e os quatro foram ao drive-in assistir a um filme. E a qual filme eles foram assistir? Não, não Gêmeos , com Schwarzenegger e DeVito. Foram assistir a Ligações perigosas. Dá para imaginar? Apesar disso, tudo deu certo. As garotas trataram de usar vestidos de cores diferentes para que fosse mais fácil reconhecê-las, e os rapazes vieram de jeans e camiseta branca, e estavam exatamente iguais. Depois do filme, foram jantar, e em algum momento constrangedor, de que ela se lembraria ainda por muitos anos, Nicky beijou Adam por engano, pensando que fosse Tod.
Quando você encontra alguém e se apaixona, qual é a sua sensação mais forte? Não sei em relação a você, mas em momentos assim eu sempre sinto que estou com alguém que é único no mundo. Mas, quando Michelle e Adam se sentaram um em frente ao outro, o que foi que eles pensaram exatamente? Que não há ninguém nesse mundo como Adam? Que não há ninguém à mesa como Michelle? O que quer que tenha sido, no fim acabou em casamento. Na prática, não foi bem assim. No fim, acabou em morte, mas, em alguma etapa intermediária, passou por casamento.
Michelle e Adam se casaram um ano depois que Tod colocou uma aliança no dedo de Nicky. Gêmeas idênticas que se casam com gêmeos idênticos. Não sei se algo assim ocorreu alguma vez na história. Não só na da Flórida, na história do mundo. Foi tão estranho, que eles até foram convidados para um talk-show, e não estou falando de um canal local, foi algo nacional da CBS. Porém, Michelle disse não, porque alegou que se sentiria como a mulher barbada do circo. “Eles não estão nos convidando por causa de algo que fizemos”, tentou explicar a Adam. “Querem nos exibir só porque isto lhes parece estranho. Certamente nos dirão para nos vestirmos igual e começarão a perguntar para Nicky e para mim por que temos o mesmo corte de cabelo. E mesmo se tentarmos alegar que é o corte que mais combina conosco, isto sairá distorcido. Eles nos querem como uma espécie de freak show. E aposto que o apresentador nos ridicularizará com todo tipo de piadinhas em que acabaremos ficando mal. E o público em casa vai rir, e você e Tod também vão rir, porque vocês riem por qualquer coisa, e só eu não saberei onde enfiar a minha cara. Entendeu?”
Adam não entendeu. Ele gostaria muito de aparecer num programa assim. Nunca tinha estado na televisão, e sabia que a turma no trabalho faria a maior festa se o visse em um programa de entrevistas. E também os clientes. Poderia ser uma boa experiência para ele, mas nem tentou discutir. Porque com Michelle, a partir do momento em que ela decidia alguma coisa, já estava fora de questão, não ouvia ninguém. Por fim, foi Adam que apareceu na televisão, no horário nobre e em todo o continente. Ele não estava exatamente no estúdio, mas todo o país assistiu ao vídeo doméstico antigo em que ele aparecia jogando basquete com Tod. Justamente no instante em que ele sorriu e acenou para a câmera, podia-se ver Tod tomando-lhe a bola e fazendo uma cesta. “Desde então”, disse o apresentador no estúdio, “podia-se sentir a rivalidade entre eles.” E, embora de fato não houvesse ali qualquer rivalidade, é assim que a coisa funciona na televisão.
Na realidade, as relações entre Adam e Tod eram excelentes. Em geral os dois casais se davam muito bem. Não moravam longe um do outro e saíam juntos para se divertir nos finais de semana. E quando começaram a falar de filhos, até planejaram tê-los mais ou menos na mesma época, para que crescessem juntos. E estes projetos certamente se concretizariam, não fosse pelo que aconteceu. Embora ninguém suspeitasse de nada. Mesmo olhando para trás, era difícil prever algo assim. E se aconteceu de algum vizinho ter visto, por engano, Nicky e Adam se beijando na rua ou na varanda, certamente pensaria que era Tod, ou que ela fosse Michelle.
E assim o caso deles se estendeu por mais de um ano. Em algum momento eles até pensaram em revelar tudo, contar para todos, divorciar-se e casar-se com o outro. Mas Nicky sabia que isto destruiria Michelle, e Adam também sentia um pouco de pena dela e até de Tod, que, mesmo tendo magoado Adam mais de uma vez, no passado, sempre o amara e queria o seu bem. Houve também o momento em que Nicky propôs que parassem. Isto foi quando ela começou a suspeitar que Tod estava desconfiado. Não havia nada específico, mas ela tinha uma sensação estranha, e eles realmente pararam de se encontrar por algumas semanas. Mas, em seguida, voltaram a ficar juntos, porque o afastamento, verificou-se, era impossível para ambos.
Só conheci Nicky alguns anos depois que toda esta história acabou. Adam estava morto, e Tod já cumprira pena por isto. Michelle não falou uma palavra com Nicky depois que o caso todo foi descoberto; no caso dela, no dia em que Tod disparou três balas na cabeça de Adam à queima-roupa. Michelle nunca foi capaz de perdoar. Fui então convidado como professor visitante de uma universidade do Meio Oeste, e Nicky era a secretária do departamento. Ouvi a história dela pela primeira vez por outra professora do setor, também convidada, da Turquia, e, depois, por ela mesma. Isto foi antes de transarmos.
Ela contou que tinha ido embora da Flórida para se distanciar de tudo, mas não adiantou, porque também ali todos sabiam e falavam do caso pelas suas costas. Contou que, de modo muito estranho, “obstinado”, como sua irmã Michelle certamente denominaria, ela sentia falta de toda essa questão de gêmeos, de como as pessoas se confundiam entre ela e Michelle na rua. “De algum modo”, lembro que ela me contou, antes de nos beijarmos, “quando você tem uma irmã gêmea idêntica no mesmo bairro, você sente mais. Como se você fosse mais de uma pessoa e, além da sua vida, tivesse mais uma a ser vivida. Se quiser, você pode explicar que era sua irmã quando alguém lhe diz ‘Vi você há uma hora tomando um sorvete de baunilha’ ou ‘vi você de vestido rosa no ponto de ônibus’. Mas, de alguma forma, sente como se realmente fosse um pouco você tomando aquele sorvete e usando aquele vestido rosa. Esta é uma sensação muito estranha, como se você vivesse outra vida e fizesse, nesta extensão, todo tipo de coisas misteriosas que jamais saberá.” Não era só disso que ela sentia falta; também do marido, e, sobretudo, de Adam. O homem que parecia exatamente, mas exatamente igual ao marido dela, que estava agora na prisão, e alguém que, sem nenhuma justificativa, ela amava muito mais.
Na mesma noite eu também lhe contei a minha história. E a minha traição. Não com a irmã da minha esposa, mas com alguém do trabalho. Ela era mais jovem que a minha mulher, e muito menos atraente, mas também eu sentia exatamente como Nicky, que eu estava ganhando mais vida. Não necessariamente uma vida mais bem-sucedida ou promissora do que aquela que eu já tinha. Porque pensava que esta vida vinha em adição e não no lugar de, eu a absorvi sem hesitar um segundo. No meu caso, ninguém atirou em ninguém, e minha mulher, apesar de ter suspeitado, nunca sequer nos pegou juntos. Ela e eu continuamos nossa vida em comum. Só que, como todas essas coisas na vida que você acredita que sejam gratuitas, por este romance no trabalho também tive que pagar algo. Quando me propuseram este trabalho por um ano no exterior, ela preferiu ficar em Israel. O motivo oficial eram os filhos, para os quais esta transferência seria difícil, mas a verdade é que lhe convinha ficar longe de mim por um tempo.
Conheci Nicky muito depois de prometer a mim mesmo que não trairia mais. Ainda assim traí. E não que houvesse ali um grande amor. Foi simplesmente uma tentativa de ganhar um pouco mais de vida.

Etgar Keret, in De repente, uma batida na porta

19/01/2021

Refeição de enlutados

          Ela decidiu abrir o restaurante já na manhã seguinte ao enterro. Quando Itamar ouviu isso, simplesmente explodiu. “Faz só uma hora que você enterrou o seu marido e já precisa correr para vender çorba?” Não temos çorba no cardápio, Itamar, Maja disse com tranquilidade, “e não tem absolutamente nada a ver com dinheiro. Tem a ver com pessoas. É melhor para mim ficar com clientes no restaurante do que em casa, sozinha.” “Mas foi você que insistiu para que não cumpríssemos a shivá do luto”, irritou-se Itamar. “Você disse que não queria todo esse aborrecimento...” “Não foi pelo aborrecimento”, Maja protestou. “Não se cumpre a shivá por pessoas que doam o corpo para a ciência. É um fato. Quando o pai de Horoshovsky morreu, ninguém...” “Dá um tempo, mamãe”, Itamar a interrompeu, “sem essa de Horshovsky, Shiferman e de Sra. Pintshevski da rua Bialik 21. Deixa essa gente toda fora disso. Só nós, está bem? Você acha justo abrir o restaurante logo no dia seguinte à morte de papai, como se fosse uma coisa normal?” “Sim”, Maja insistiu, “no meu coração não será uma coisa normal, mas, para os que vêm ao restaurante, sim. Seu pai pode estar morto, mas o negócio está vivo.” “O negócio está morto também”, Itamar disse, rangendo os dentes. “Está morto há anos”. “Nem um cachorro entra lá.”
No hospital, quando comunicaram que Gideon tinha morrido, ela não chorou. Mas depois do que Itamar disse, sim. Não perto dele, naturalmente; todo o tempo em que ele permaneceu lá, ela manteve as aparências. Mas assim que ele saiu, ela chorou feito um bebê. “Isto não significa que eu não seja uma boa esposa”, convenceu-se entre soluços. “Estou muito mais abalada com a morte de Gideon do que com as coisas que Itamar disse, mas de insulto é muito mais fácil chorar.” Era verdade.
Desde que se mudaram para a praça Atarim, realmente a frequência diminuíra. Ela sempre se opusera à mudança, mas Gideon dizia que aquela era a grande oportunidade deles, “a oportunidade única na vida”. E, desde então, toda vez que brigavam, ela o lembrava daquela “oportunidade única na vida”, e agora que ele estava morto, não havia mais a quem lembrar.
Ela e o tailandês ficaram sentados no restaurante vazio por três horas sem trocar uma palavra. O tailandês gostava muito de Gideon, que tinha muita paciência com ele. Costumava lhe explicar por horas como fazer o tsholent e o guefilte, e toda vez que o tailandês estragava alguma coisa e Maja deixava escapar um “pshakref cholera”, Gideon se apressava em acrescentar, “Não faz mal, não faz mal.” Se não aparecerem clientes até as três, vou fechar, ela pensou. Não só hoje. Para sempre. Duas pessoas no negócio é diferente. Quando está lotado, há alguém para ajudar, e quando não, ao menos há com quem falar. “Você OK?”, perguntou o tailandês, e Maja anuiu e tentou sorrir. Talvez até antes mesmo das três. Ela simplesmente fecharia e iria embora.
Eles eram um pouco menos de vinte, e assim que pararam na entrada e olharam o cardápio pendurado na porta, ela soube que haveria confusão. O que entrou primeiro era gigante, mais do que uma cabeça maior do que ela, de cabelo prateado e sobrancelhas grossas como um tapete. “Está aberto?”, ele perguntou, e ela hesitou por um instante, mas, até conseguir responder, o restaurante já estava cheio de unhas com esmalte roxo e dourado, cheiro forte de vodca e gritos de crianças. Ela e o tailandês juntaram algumas mesas e, quando ela se aproximou com o cardápio, o grandalhão lhe disse, “Não precisa agora, senhora, não precisa. Só, por favor, prato, garfo e faca para todos.”
Somente quando arrumou os pratos com o tailandês é que ela percebeu as caixas de piquenique. Tiraram delas comida e garrafas de bebida e começaram a encher os pratos. Sem vergonha alguma. Se Gideon estivesse vivo, ele os poria porta afora, mas ela nem tinha força para dizer algo. “Agora venham, sentem conosco e comam”, o altão ordenou, e Maja fez sinal para que o tailandês se sentasse com eles à mesa e, sem muita vontade, fez o mesmo. “Beba, senhora”, disse o altão, “beba”, e encheu o copo dela de vodca. “Hoje é dia especial.” E quando ela lhe lançou um olhar interrogativo, ele acrescentou com uma piscada, “Hoje é dia que nós descobrimos seu restaurante e de seu colega japonês. Por que você não comer?”
A comida que eles trouxeram era saborosa, e depois de um trago ou dois Maja já não se importou com a grosseria deles. Mesmo não tendo pedido nada e sujado toda a louça, ela se alegrou por terem vindo e preenchido tudo com seus gritos e risadas. Ao menos assim, ela não precisou ficar sozinha. Beberam à saúde dela, ao sucesso do restaurante, e até à saúde de Gideon. Por alguma razão que não conseguiu entender, Maja contou que ele se encontrava no exterior a negócios. Beberam, então, à saúde dos negócios de Gideon no exterior e à saúde de Josef, assim eles chamavam o tailandês, à saúde da família dele, e depois brindaram ao país. E Maja, já um pouco embriagada, tentou lembrar quantos anos tinham se passado desde a última vez em que fizera um brinde ao país. Depois que acabaram tudo o que havia nas caixas, o altão perguntou o que ela achava da comida deles, e Maja disse que era ótima. “Beleza”, o homem sorriu. “Fico feliz. E agora, por favor, o cardápio daqui.” No primeiro instante Maja não entendeu o que ele queria, talvez por causa da vodca, mas o altão se apressou em explicar: “Você se sentou conosco e comeu nossa comida. Agora é hora de sentar com você e comer sua comida.”
Pediram do cardápio, como se nada tivessem comido, e comeram vorazmente. Saladas, sopas, carnes, e até sobremesa. Se ela soubesse que iriam pedir, não teria bebido tanto. Mas apesar do álcool, talvez, na verdade, por causa dele, o trabalho na cozinha foi fácil e agradável. Até Josef, que parecia ainda mais bêbado do que ela, não estragou nada. “Sua comida é apetitosa, senhora”, disse o altão ao tirar a carteira para pagar. “Muito gostosa, até melhor do que a nossa.” E quando acabou de contar as notas e as colocou na mesa, acrescentou, “Seu marido, quando volta do exterior?” Maja hesitou um instante antes de responder, e depois disse que ainda não era certo e que tudo dependia dos negócios dele por lá. “Viajou e deixou mulher assim sozinha?” o altão disse em tom desaprovador mesclado de tristeza, “Isto não é bom.” E Maja, que queria muito dizer que era bom, que tudo estava bem, de verdade, e que estava se ajeitando muito bem, viu-se concordando com ele e sorrindo, como se os seus olhos não brilhassem com lágrimas.

Etgar Keret, in De repente, uma batida na porta

12/01/2021

Josef

          Há conversas que são capazes de modificar a vida de alguém. Tenho certeza disto. Quer dizer, quero acreditar. Sento num café com um produtor. Ele não é bem um produtor, jamais produziu alguma coisa, mas quer produzir. Tem uma ideia para um filme e quer que eu escreva o roteiro. Explico-lhe que não escrevo para cinema e ele aceita isso e chama a garçonete. Estou certo de que vai pedir a conta, mas ele pede mais um expresso. A garçonete me pergunta se também quero mais alguma coisa, e eu peço um copo de água. O que quer ser produtor se chama Yossef, mas se apresenta como Josef. “Ninguém”, diz ele, “é de fato chamado de Yossef. Sempre é Sefi ou Yossi ou Yos, então adotei Josef.” Ele é perspicaz, esse Josef. Capta o que digo em um segundo, “Você está ocupado, não é?” diz, me vendo olhar o relógio, e logo acrescenta, “muito ocupado. Viaja, trabalha, escreve e-mails.” Não há nenhuma maldade ou ironia no modo com que diz isso. É uma espécie de constatação de fatos, no máximo uma expressão de simpatia. Aceno com a cabeça. “Você tem medo de não estar ocupado?”, pergunta. Aceno novamente. “Eu também”, ele diz e sorri com os dentes amarelados. “Porque deve haver algo lá embaixo. Algo ameaçador. Não fosse assim, não trituraríamos o nosso tempo em fragmentos tão pequenos para toda espécie de projetos. E você sabe do que é que tenho mais medo?”, pergunta. Eu hesito um instante, penso o que responder, mas Josef já continua. “De mim, do que eu sou. Você conhece esse nada que preenche você um instante depois que goza? Não com alguém que você ama, com qualquer uma. Ou quando você bate uma. Conhece isto? Disto, eu tenho medo, de espiar dentro de mim e não encontrar nada. Não simplesmente um nada padronizado. Um nada angustiante, não sei exatamente que nome dar a isso...”
Agora ele fica calado. Sinto-me desconfortável com esse silêncio. Se fôssemos mais próximos, talvez eu pudesse ficar calado junto com ele. Mas não no nosso primeiro encontro. Não depois de uma frase assim. “Por vezes”, tento responder sinceramente, “a vida me parece uma armadilha. Algo em que você entra sem suspeitar, e ela se fecha sobre você. E quando você está dentro, dentro da vida, quero dizer, então não há para onde fugir, exceto talvez se suicidar, que também não é exatamente uma fuga, é mais uma desistência. Sabe a que me refiro?”
É foda”, diz Josef, “é simplesmente foda você não escrever o roteiro.” Há algo muito estranho no modo como ele fala. Até xingar ele não xinga como outras pessoas. Não sei o que dizer depois disso, então fico calado. “Não tem importância”, ele diz um instante depois, “o fato de você ter dito ‘não’, só me dará uma chance de encontrar outras pessoas, tomar mais café. Porque esta é a melhor parte em todo esse negócio. Produzir mesmo não parece ser exatamente para mim.” Pelo visto, devo ter concordado, porque ele reagiu. “Você acha que eu não dou para isto, não é? Que eu não sou de fato um produtor, que sou apenas alguém com um pouco de dinheiro da família e que fala bastante.” Aparentemente continuo a concordar, não de forma intencional, devido à pressão, porque agora ele ri. “Você tem razão”, diz, “ou talvez não e eu ainda venha a surpreender você. E a mim mesmo.” Josef pede a conta e insiste em pagar. “O que acha da nossa garçonete?”, pergunta enquanto esperamos que passem o cartão de crédito. “Você acha que ela também está tentando fugir? De si mesma, quero dizer.” Dou de ombros. “E aquele cara que acabou de entrar, de casaco? Veja como está suando. Provavelmente está fugindo de alguma coisa. Quem sabe devamos formar uma start-up? Em vez de um filme, façamos um programa que identifique pessoas que fogem de si mesmas, que têm medo do que descobrirão. Pode ser um sucesso.” Olho para o sujeito que está suando de casaco. É a primeira vez na vida que vejo um terrorista suicida. Depois, no hospital, repórteres de redes estrangeiras pedirão que eu o descreva e direi que não me lembro. Porque me parecerá algo pessoal, algo entre nós dois. Josef também sobreviverá à explosão. A garçonete, não. Isto não depõe contra ela. Em atentados assim, o caráter não é um fator. Tudo, afinal, é uma questão de ângulo e distância. “Este que acabou de entrar está com certeza fugindo de algo”, Josef dá uma risadinha e vasculha os bolsos em busca de moedas para a gorjeta. “Talvez ele concorde em escrever o filme para mim ou ao menos se encontrar em algum café.” Nossa garçonete, cardápio plastificado na mão, se aproxima, saltitante, do sujeito suado de casaco.

Etgar Keret, in De repente, uma batida na porta

07/01/2021

Setembro o ano todo

          Quando a grande depressão começou, a NW foi a mais atingida. O produto deles era destinado à classe alta, que deveria estar imune a depressões, mas, após os distúrbios em Chicago, até os milionários pararam de comprar. Parte deles devido à situação econômica instável, mas a maioria por não querer encarar os vizinhos. As ações encontravam-se em baixa nas Bolsas mundiais, sangrando porcentagens sobre porcentagens. E a NW transformou-se em símbolo da depressão. O Wall Street Journal dedicou-lhes uma reportagem de capa com o título “MAUS VENTOS EM SETEMBRO”, uma alfinetada na propaganda deles, “SETEMBRO O ANO TODO”, em que se via uma família vestida em trajes de banho em meio a um dia ensolarado de outono enfeitando um pinheiro para o Natal. Esta propaganda alastrou-se como fogo. Uma semana depois que começaram a transmiti-la já haviam vendido três mil unidades por dia. Homens ricos compraram, assim como gente menos rica que tentava impressionar. E a NW, sistema de controle climático, transformou-se em símbolo de status, marca oficial de milionários. O que o avião particular simbolizou na década de 1990 e início dos anos 2000, eles simbolizavam hoje. “Nice Weather”, temperatura para ricos. Se você vive na congelada Groelândia e a neve e o cinza o deixam louco, basta passar o seu cartão de crédito, e eles, com um ou dois satélites, lhe arranjarão uma varanda inundada de sol, com uma brisa de outono de Ibiza todos os dias do ano.
Muki Eylon foi um dos primeiros a comprar o sistema. Gostava do seu dinheiro e tinha muita dificuldade de se separar dele, contudo, mais do que amar os milhões que tinha ganhado com venda de armamento e drogas para a Rodésia, odiava o verão úmido de Nova York, a sensação desagradável de camiseta suada grudada nas costas. Comprou o sistema não só para si, mas também para todo o quarteirão. Houve quem interpretasse isso erroneamente como generosidade, mas a verdade é que o fez porque queria que a maravilhosa temperatura fosse mantida até o minimercado na esquina. Aquela loja, além de lhe vender cigarros Noblesse, que importava especialmente para ele, de Israel, também indicava para Muki, mais do que tudo, o seu nível de vida. E desde que Muki assinou o cheque, o clima no quarteirão tornou-se simplesmente um oásis. Sem chuvas desoladoras e sem calores ardentes. Simplesmente setembro o ano todo. E não, Deus o livre, o setembro volátil e irritante de Nova York, mas o das cidadezinhas próximas a Haifa em que havia crescido. Até que de repente ocorreram aqueles distúrbios em Chicago, e os vizinhos começaram a exigir que ele fechasse imediatamente o outono perene deles. No início, ele os ignorou, mas então vieram as cartas de advogados e alguém até deixou um pavão morto no para-brisa do seu carro. Depois disso, a mulher dele também pediu que fechasse. Era janeiro. Muki apagou o sol quente e o dia se tornou, em um instante, curto e triste. Tudo por causa de um pavão morto e da esposa anoréxica e ansiosa que, como sempre, conseguiu dominá-lo com sua fraqueza.
A recessão foi se agravando. As ações da NW em Wall Street chegaram ao chão. Não só elas, também as da empresa de Muki. E pouco depois de despencarem, a coisa piorou e as ações continuaram a cair. Estranho, a lógica diz que armas e drogas se fortalecem exatamente em períodos de recessão mundial, mas ocorreu o oposto. As pessoas não tinham dinheiro para comprar remédios, e logo descobriram o que tinham esquecido havia tempos: armamento é supérfluo, como vidro elétrico em automóveis, e às vezes basta uma pedra grande para estraçalhar a cabeça de alguém. Todos aprenderam muito depressa a se ajeitar sem os fuzis de Muki, muito mais rápido do que ele próprio conseguiu se acostumar ao clima triste de meados de março. E Muki Eylon, ou “Muki Milhão”, como os colunistas financeiros gostavam de chamá-lo, faliu.
Sobrou o apartamento; o ágil contador da empresa ainda conseguiu registrá-lo retroativamente no nome da mulher anoréxica de Muki, mas todo o resto foi embora. Levaram até os móveis. Quatro dias depois chegou o técnico da NW para desconectar o sistema. Quando bateu à porta, estava totalmente molhado da chuva. Muki trouxe um bule de café quente e eles conversaram. Muki lhe contou que pouco depois dos distúrbios em Chicago ele tinha parado de utilizar o sistema. O técnico lhe disse que muitos clientes pararam. Falaram sobre os distúrbios, quando uma multidão furiosa das favelas, raivosa e congelada de frio, arrefeceu a ira apossando-se de bonitas mansões de veraneio. “O sol nos deixou doidos”, contou um dos invasores para um programa de debates alguns dias mais tarde. “Nós aqui congelando, sem dinheiro para aquecimento, e esses cachorros, esses cachorros...” Neste ponto, ele irrompeu em choro. Seu rosto foi borrado na transmissão para que não pudessem identificá-lo, de modo que não se podia bem ver as lágrimas, mas foi possível ouvi-lo soluçando como um animal atropelado. O técnico, que era negro, disse que tinha nascido naquele bairro de Chicago e que hoje tinha vergonha de contar isso. “Esse dinheiro”, ele disse a Muki, “esse dinheiro maldito só fodeu o nosso mundo.”
Depois do café, quando o técnico já estava se preparando para desconectar o sistema, Muki lhe pediu que deixasse acionar o satélite uma última vez. O homem deu de ombros, e Muki interpretou o gesto como um sim. O técnico apertou alguns botões no controle e o sol surgiu de repente por trás da nuvem. “Não é um sol verdadeiro, você sabe”, disse com orgulho, “é simplesmente uma imagem de sol. Fazem isto com lasers.” Muki piscou para ele e disse, “deixe, não estrague. Para mim é sol.” E o técnico sorriu e disse: “Beleza de sol. Pena que não dá para manter até que eu volte para o carro. Não aguento mais essa chuva.” Muki não respondeu, apenas fechou os olhos e deixou os suaves raios de sol acariciarem o seu rosto.

Etgar Keret, in De repente, uma batida na porta

30/12/2020

Peixe dourado

           Yonatan teve uma ideia brilhante para um documentário. Bateria às portas das pessoas. Apenas ele, sem equipe de filmagem, com uma pequena câmera na mão, e perguntaria: “Se vocês encontrassem um peixe dourado falante que lhes concedesse três desejos, o que pediriam?”
As pessoas responderiam, e ele iria editar e montar clips com as respostas mais surpreendentes. Antes de cada conjunto de respostas, veriam a pessoa imóvel, na entrada de sua casa, e, superpostas a esta imagem, viriam as legendas com o nome, dados pessoais, renda mensal e talvez até mesmo o partido em que havia votado na última eleição. Junto com os desejos, todo o assunto se transformaria em um projeto social, que diria algo sobre o enorme abismo entre os nossos sonhos e a verdadeira situação em que a sociedade se encontra.
Era uma ideia genial e barata. Tudo que ele precisava era de uma porta e um coração pulsando atrás dela. E tinha certeza de que, com uma filmagem decente, seria capaz de vendê-la facilmente para o Canal 8 ou o Discovery, fosse como filme ou como uma coleção de vinhetas, cada qual exibindo uma alma diferente à sua porta de entrada e seus três preciosos desejos.
Com um pouco de sorte, talvez pudesse até interessar a algum banco ou empresa de celulares e, por fim, seria possível embalar o produto com o nome do patrocinador. Algo no estilo “Sonhos diversos, desejos diversos, um banco”. Ou “O banco que faz seus sonhos tornarem-se realidade”.
Yonatan decidiu começar a trabalhar nisso sem quaisquer preparações. Pegou sua câmera e foi bater à porta das pessoas. No primeiro bairro que filmou, a maioria dos que concordaram em cooperar pediram as coisas relativamente previsíveis: saúde, dinheiro, um apartamento maior. Mas houve também momentos tocantes. Uma mulher estéril pediu um filho. Um sobrevivente do Holocausto com um número tatuado no braço pediu que todos os nazistas ainda vivos pagassem pelos seus crimes. Um homossexual idoso pediu para ser mulher.
E estes eram desejos apenas de um pequeno bairro no subúrbio de Tel Aviv. Yonatan imaginava o que as pessoas iriam pedir nas cidades em desenvolvimento, comunidades ao longo da fronteira norte, nos assentamentos, nas aldeias árabes, nos centros de absorção de imigrantes repletos de trailers quebrados e pessoas exaustas abandonadas sob o sol do deserto.
Yonatan sabia que, para valorizar o projeto, seria muito importante ter também desempregados, religiosos, árabes, etíopes e expatriados americanos. Começou a planejar um cronograma de filmagens para os dias seguintes: Jafa, Dimona, Ashdod, Sderot, Taibe, Talpiot. Talvez até Hebron. Ele olhou para os nomes de comunidades que anotara no papel. Se conseguisse filmar um árabe pedindo paz como um dos seus desejos, isto seria uma bomba.
Sergei Goralick não gostava que estranhos lhe batessem à porta. Especialmente quando estes estranhos lhe faziam perguntas. Na Rússia, quando era jovem, isto acontecia muito. Pessoas da KGB batiam à sua porta porque seu pai era sionista e teve o pedido de imigração negado.
Quando Sergei se mudou para Israel, e então para Jafa, familiares lhe disseram, ei, o que você espera encontrar em um lugar como esse? Lá só tem drogados e árabes. Mas o que é muito bom com drogados e árabes é que eles não vêm bater à porta de Sergei. Assim, Sergei pode se levantar quando ainda está escuro, partir com seu barquinho para o mar, pescar um pouco e voltar para casa. E tudo sozinho. Em silêncio. Como deve ser.
Até que certo dia, um rapaz de brinco na orelha, parecendo homossexual, bate à sua porta, bem forte, do jeito que Sergei não gosta, e lhe diz que tem algumas perguntas, alguma coisa para a TV.
Sergei lhe diz claramente que não quer, não está interessado, e empurra um pouco a câmera para que ele entenda que está falando sério. Mas o rapaz de brinco insiste. Diz-lhe todos os tipos de coisas. Com rapidez. Sergei mal consegue acompanhar, o seu hebraico não é tão bom.
O rapaz de brinco diminui o ritmo, diz a Sergei que ele tem um rosto forte, um belo rosto, e que precisa dele para este filme. Sergei tenta fechar a porta, mas o rapaz é ágil e consegue entrar. Ele começa a filmar, sem autorização, e, por trás da câmera, novamente fala do rosto de Sergei, que ele transmite bastante sentimento. De repente, o rapaz vê o peixe dourado de Sergei nadando na grande jarra de vidro na cozinha.
O rapaz com o brinco começa a gritar. “Peixe dourado! Peixe dourado!” Isto aborrece Sergei, que lhe pede para não filmar o peixe e explica que se trata de um peixe comum que ele pegou na rede. Mas o rapaz não está ouvindo. Ele continua a filmar e fala várias coisas sobre o peixe, que ele fala, que realiza desejos mágicos.
Sergei não gosta disso, não gosta que o rapaz esteja próximo demais, quase alcançando a jarra. Neste instante, Sergei entende que o rapaz não veio por causa da televisão, que veio tomar o seu peixe. E, antes que a mente de Sergei Goralick realmente entenda o que o seu corpo fez, ele pega a frigideira do fogão e dá uma pancada na cabeça do rapaz de brinco. O rapaz cai. A câmera cai com ele. Quando chega ao chão, a câmera se abre, assim como o crânio do rapaz. Sai muito sangue da cabeça, e Sergei realmente não sabe o que fazer.
Quer dizer, ele sabe exatamente o que fazer, mas isto pode complicá-lo de verdade. Porque se levar o rapaz para o hospital, as pessoas vão perguntar o que aconteceu, o que daria um rumo à situação nada bom para ele.
Não há razão para levá-lo ao hospital – diz o peixinho, em russo. – Ele já está morto.
Ele não pode estar morto – Sergei protesta. – A pancada nem foi forte. Foi apenas uma frigideira.
A pancada não foi forte – o peixe concorda –, mas a cabeça do rapaz pelo visto é ainda menos forte.
Ele queria tirar você de mim – diz Sergei, quase chorando.
Nada disso – diz o peixe. – Ele estava aqui só para filmar alguma bobagem para a TV.
Mas ele disse...
Ele disse exatamente o que estava fazendo – afirma o peixe, interrompendo –, mas você não entendeu. O seu hebraico não é dos melhores.
E o seu é? – Sergei retruca.
Sim, o meu é excelente – diz o peixe impaciente. – Sou um peixe mágico. Fluente em todas as línguas.
A poça de sangue da cabeça do rapaz de brinco fica cada vez maior, e Sergei, desesperado, é obrigado a ficar colado à parede da cozinha para não pisar nela.
Ainda lhe resta um desejo – o peixe lembra Sergei.
Não – Sergei move a cabeça de um lado ao outro –, não posso. Eu o estou guardando.
Guardando para quê? – o peixe pergunta.
Mas Sergei não responde.
Sergei utilizou o primeiro desejo quando descobriram um câncer em sua irmã. Era um câncer de pulmão do tipo que a pessoa não se recupera. Mas o peixe acabou com ele em um segundo. O segundo desejo Sergei tinha desperdiçado cinco anos antes com o filho de Sveta. O garoto ainda era pequeno naquela época, nem tinha três anos, mas os médicos disseram que alguma coisa na cabeça dele não estava em ordem. Ele iria crescer retardado. Sveta chorou a noite toda, e de manhã Sergei voltou para casa e pediu para o peixe dar um jeito. Ele nunca contou isto para Sveta, e alguns meses depois ela o trocou por um policial, um marroquino, que tinha um Honda brilhante. Em seu coração, Sergei dizia que não tinha feito aquilo por Sveta, que formulara o desejo pelo menino. Mas, em sua mente, estava menos seguro, e todos os tipos de pensamentos sobre outras coisas que poderia ter feito com aquele desejo continuaram a corroê-lo, quase enlouquecendo-o. Ainda não formulara o terceiro desejo.
Posso trazê-lo de volta à vida – diz o peixe. – Posso fazer o tempo voltar para um instante antes de ele bater à sua porta. Posso fazer isso. Tudo o que precisa é fazer o pedido.
O peixe move a barbatana de um lado ao outro, um movimento que Sergei sabe que ele só faz quando está realmente emocionado. Entendeu que ele já estava farejando a liberdade. Depois do último desejo, Sergei não teria alternativa, seria obrigado a liberar o seu peixe mágico, o seu amigo.
Tudo ficará bem, de verdade – diz Sergei, meio para o peixe e meio para si. – Só preciso enxugar o sangue. E de noite, quando eu for pescar, vou amarrá-lo a uma pedra e jogá-lo ao mar. Ninguém jamais irá encontrá-lo. É isto. Não vou desperdiçar um pedido com isso.
Você matou uma pessoa, Sergei – diz o peixe –, mas não é um assassino de verdade. Se não vai desperdiçar um desejo com isso, então para que ele vai servir?
Foi em Tira que Yonatan encontrou finalmente o árabe cujo primeiro pedido era paz. Chamava-se Munir, era gordo, com um enorme bigode branco. Superfotogênico. O modo como formulou o desejo foi emocionante. Já durante a filmagem, Yonatan soube que ele seria sua peça promocional.
Ou ele ou o russo com as tatuagens que ele tinha encontrado em Jafa, aquele que olhou diretamente para a câmera e disse que, se encontrasse um peixe dourado falante, não iria lhe pedir nada, só o colocaria em uma grande jarra de vidro em uma prateleira e falaria com ele o dia todo, não importa sobre o quê. Talvez esporte, talvez política, sobre o que quer que um peixe estivesse interessado em falar.
Qualquer coisa, disse o russo, só para não ficar sozinho.

Etgar Keret, in De repente, uma batida na porta

24/12/2020

Conto vitorioso

          Este conto é o melhor conto do livro. Mais do que isso. Esse conto é o melhor conto do mundo. E isto, não fomos nós que decidimos. Isto foi decidido unanimemente por dezenas de especialistas independentes que o compararam – usando padrões laboratoriais rígidos – a uma amostragem representativa da literatura mundial. Este conto é uma inovação israelense exclusiva, única. E aposto que vocês estão se perguntando, como foi que justamente nós (o pequeno e minúsculo Israel) o escrevemos e não os norte-americanos? Então saibam que também os norte-americanos fazem a mesma pergunta. E não são poucos os figurões do mundo editorial norte-americano que estão para perder o emprego por não terem tido uma resposta pronta a tempo.
Exatamente como o nosso exército é o melhor do mundo, este conto também. Trata-se, inclusive, de uma inovação protegida por patente registrada. E onde é que esta patente está registrada? É isso. Está registrada no próprio conto. Neste conto não há tretas, mumunhas ou partes melosas. É todo constituído de um único bloco, uma amálgama de profundas introspecções e alumínio. Não enferruja, não perturba, mas pode perambular. É muito atual, mas também supratemporal. E a história julgará. Aliás, na opinião de muitos e bons, já julgou e nosso conto triunfou.
O que é tão especial neste conto?” As pessoas perguntam por ignorância ou dissimulação [depende de quem]. “O que é que ele tem que não se encontre em Tchekov ou em Kafka ou sei lá quem?” A resposta a esta pergunta é longa e complicada. Mais longa do que o próprio conto, mas menos complexa. Porque não há algo mais intrincado que este conto. Apesar disto, vamos tentar responder com um exemplo. No final deste conto, em contraste com os contos de Tchekov ou de Kafka, um afortunado vencedor – selecionado ao acaso entre os que o leram corretamente – ganhará um carro Mazda Lantis cor cinza metálico. E dentre os que lerem de forma incorreta será sorteado outro carro, mais barato, mas não menos cinza metálico, para que ele ou ela não se sinta mal. Porque este conto não está aqui para mostrar arrogância. Ele está aqui para que vocês se sintam bem. Como está escrito no guardanapo de papel da lanchonete perto da casa de vocês? SE GOSTARAM, CONTEM PARA OS AMIGOS. SE NÃO GOSTARAM, FALEM CONOSCO. Ou neste caso, contem ao conto. Porque este conto não é só narrador, ele é também ouvinte. O ouvido dele, como se diz, está atento aos sentimento do público. E quando o público se encher dele e quiser lhe dar uma conclusão, este conto não arrastará os pés ou se segurará nas bordas do altar, ele simplesmente terá um fim.

Etgar Keret, in De repente, uma batida na porta

18/12/2020

Ilan

          Minha namorada, quando chega ao orgasmo, grita “Ilan”. Não uma vez só, muitas. “Ilan-Ilan-Ilan-Ilan!” Isto é legal, porque sou nascido e criado Ilan. Mas às vezes eu gostaria que ela dissesse alguma outra coisa, não importa o quê. “Meu amado.” “Me rasga ao meio”, “Para, não aguento mais”, ou até mesmo a velha súplica “Não para!”. Seria muito bom ouvir algo diferente, de vez em quando, algo específico em relação à situação – uma emoção um pouco mais ligada ao ato em si. Minha namorada estuda Direito em uma faculdade particular. Ela queria ir para uma grande universidade, mas não foi aceita. Planeja se especializar em direito contratual. Isso existe, advogados que tratam só de contratos. Não se encontram com pessoas, não vão ao tribunal, só ficam sentados o dia todo olhando sucessivas linhas escritas no papel, como se isto fosse o mundo.
Quando aluguei o apartamento, ela estava comigo e, em um minuto, notou que o proprietário do imóvel tentava nos enrolar em alguma cláusula. Eu jamais teria prestado atenção, mas ela percebeu em um segundo. Ela é assim, minha namorada, muito perspicaz. E como tem orgasmos. Nunca vi nada igual em toda a minha vida. Voa em todas as direções, totalmente desenfreada. Como alguém que levou choques elétricos. E também treme de forma incontrolável, no rosto, no pescoço, na planta dos pés. Como se todo o seu corpo tentasse dizer obrigado e não soubesse como.
Certa vez perguntei o que ela gritava quando gozava com outros homens, antes de mim. Com um olhar surpreso, ela disse que com todos gritava “Ilan”. Sempre “Ilan”. Insisti e perguntei o que ela gritava quando tinha orgasmo com aqueles que não se chamavam Ilan. Ela pensou por um instante e disse que nunca tinha transado com alguém que não se chamasse Ilan. Ela já saíra com vinte e oito rapazes, eu incluído, e todos, agora que pensava a respeito, se chamavam Ilan. Depois que ela disse isso, ficou calada. “É uma tremenda coincidência”, eu disse. “Ou talvez você nos escolha assim, Ilans.” “Talvez”, ela disse pensativa, “talvez”.
A partir daquele dia comecei a ficar mais atento a todos os Ilans ao meu redor: o do banco, o meu contador, aquele abusado que sempre aparece de manhã no nosso café e me pede para tirar o caderno de esporte. Não fiz um alarde disso, só registrei na minha cabeça Ilan + Ilan + Ilan. Porque no fundo no fundo, eu sabia que quando o caos se desencadeasse, caso de fato se desencadeasse, seria a partir de um deles.
Estranho, mas já lhes contei tanto sobre a minha namorada e não disse sequer o nome dela. Como se não tivesse nenhuma importância. Realmente não é importante. Se vocês me acordarem no meio da noite, não será o nome dela que virá em minha mente. Tenho certeza de que será este olhar meio de surpresa que ela tem um segundo antes de começar a chorar; a bunda dela; o jeito encantador que sempre fala, como uma menina, “Queria te dizer uma coisa”, antes de falar sobre algo que a emociona. Ela é fantástica, a minha namorada, fantástica. Mas às vezes não tenho certeza de que esta história acabará bem.
O proprietário do nosso apartamento, aquele que quis nos engabelar no contrato, também se chama Ilan. Um cara com uns cinquenta anos, nojento, que recebeu de herança da falecida avó um prédio inteiro na rua Wormaisa e não faz mais nada além de recolher cheques dos inquilinos. Tem uns olhos azuis de aviador, cabelo prateado como uma nuvem. Mas ele não é aviador. Quando assinamos o contrato, ele me contou que prestou todo o serviço militar em Tsrifin, fazendo trabalho burocrático em uma base de transporte. Há poucos anos sua unidade de reserva desistiu de tentar localizá-lo.

Foi completamente por acaso que descobri que eles estavam trepando. Se ela não tivesse compartilhado comigo toda esta história dos Ilans, eu nem teria suspeitado. Quando peguei os dois em casa, ele estava na sala, completamente vestido, e disse que tinha vindo verificar se não estávamos destruindo sua propriedade. Mas depois que ele foi embora, eu a pressionei e ela confessou. Mas sem nenhuma culpa. Em tom factual e seco. Como alguém que diz que o ônibus da linha cinco não vai até a estação norte do trem. E assim que acabou de confessar, disse que queria me pedir algo. O que ela queria pedir era que fizéssemos aquilo uma vez juntos. Ele e eu, juntos.
Ela estava até disposta a fazer um acordo comigo. Se a gente fizesse aquilo apenas uma vez, ela nunca mais sequer olharia para ele. Apenas uma vez na vida ela gostaria de sentir dois Ilans de uma vez só dentro dela. Ele certamente vai concordar, já que é um pervertido entediado. Ela tem certeza disso. E no final, eu também concordarei, porque eu a amo. Realmente amo.
E eis por que me vejo na cama com o meu locador. Um instante antes de tirar a roupa, ele ainda chama a minha atenção para a persiana da cozinha, que não fecha bem e que é preciso lubrificar os eixos. Depois de um tempo, o corpo da minha namorada começa a tremer sobre mim e eu sinto que daqui a pouco ela vai gozar. E quando ela gritar, tudo ficará bem, porque o nosso nome é realmente Ilan. Mas jamais saberemos se o grito dela será por mim ou por ele.

Etgar Keret, in De repente, uma batida na porta

13/12/2020

O que temos nos bolsos?

          Um isqueiro, uma pastilha para tosse, um selo postal, um cigarro amassado, um palito de dente, um lenço de pano, uma caneta, duas moedas de cinco shekels. Isso é apenas uma fração do que eu tenho nos bolsos. Então é de se admirar que estejam tão estufados? Muita gente me chama a atenção sobre isto. Eles me dizem: “Puta merda, que você tem nos bolsos?” Na maioria das vezes eu não respondo, apenas sorrio, às vezes até dou uma risada curta e educada. Como se alguém tivesse me contado uma piada. Se persistissem na pergunta, provavelmente eu iria mostrar-lhes tudo o que tenho ali, poderia até mesmo explicar por que preciso ter todas essas coisas comigo, sempre. Mas eles não fazem isso. Puta merda, um sorriso, uma risada curta, um silêncio constrangedor, e já estamos no assunto seguinte.
O fato é que tudo o que tenho nos bolsos é cuidadosamente escolhido para que eu esteja sempre preparado. Tudo está lá para que eu possa estar em vantagem no momento exato. Na verdade, não é bem assim. Tudo está lá para que eu não fique em desvantagem no momento exato. Porque que tipo de vantagem um palito de dente de madeira ou um selo postal podem realmente proporcionar? Mas se, por exemplo, uma garota bonita – sabe de uma coisa, nem bonita, apenas charmosa, uma garota de aparência comum, mas com um sorriso fascinante de tirar o fôlego – te pede um selo, ou nem sequer pede, se apenas está na rua parada ao lado de uma caixa vermelha de correio em uma noite chuvosa com um envelope sem selo na mão e pergunta se você sabe onde há um posto de correios aberto àquela hora, e, em seguida, tosse um pouco porque está com frio, mas também desesperada, uma vez que, no fundo do seu coração, sabe que não há nenhuma agência de correio aberta na região, com certeza não naquela hora, e nesse momento, nesse exato momento, ela não vai dizer “Puta merda, que você tem nos bolsos?”, mas ficará muito grata pelo selo, talvez nem mesmo grata, ela vai apenas sorrir aquele seu sorriso fascinante, um sorriso fascinante em troca de um selo postal – eu estaria pronto a fechar um negócio destes em qualquer momento da minha vida, mesmo que o preço dos selos suba e o preço dos sorrisos despenque.
Após o sorriso, ela vai dizer obrigada e tossir de novo, por causa do frio, mas também porque está um pouco envergonhada. E vou oferecer-lhe uma pastilha para tosse. “O que mais você tem nos bolsos?”, ela perguntará, mas de forma suave, sem o “puta merda” e sem a negatividade, e vou responder sem hesitar: tudo o que você precisar, meu amor. Tudo o que você precisar.
Então agora vocês já sabem. É isso o que eu tenho nos bolsos. Uma chance de não estragar tudo. Uma mínima chance. Não grande, nem mesmo provável. Sei disso, não sou estúpido. Uma mínima chance de, vamos dizer, quando a felicidade chegar, poder dizer “sim” a ela, e não “Desculpe, eu não tenho um cigarro / palito / moeda para a máquina de refrigerantes”. É isso o que eu tenho ali, cheio e estufado, uma mínima chance de dizer sim e não me lamentar.

Etgar Keret, in De repente, uma batida na porta

03/12/2020

Mancha roxa

          Na emergência disseram que o osso estava fraturado e que o músculo quase se rompera em dois lugares. Algumas pessoas, o médico lhe contou, podem sair de uma colisão frontal a 80 quilômetros por hora sem um arranhão. Ele se lembrava de um homem que tinha chegado ao pronto-socorro, um sujeito gordo que tinha caído do terraço do apartamento no terceiro andar no asfalto, e ficado apenas com uma marca roxa no traseiro. É tudo uma questão de sorte. O que ela, aparentemente, não teve. Um passo mal dado nas escadas, um tornozelo que torceu para o lado errado, e lá estava ela, no hospital, engessada.
Um homem que parecia árabe enrolou as compressas úmidas em torno de seu pé. Disse que era apenas um estagiário e que, se ela quisesse, poderia esperar pelo médico para aquele procedimento, mas que levaria pelo menos mais uma hora, porque estavam sobrecarregados. Quando terminou de engessar, ele disse a ela que, por ser verão, iria coçar o tempo todo. Ele não lhe deu nenhuma sugestão sobre o que fazer em relação a isso, só informou. Poucos minutos depois, a coceira começou. Se não fosse pelo gesso, ela não estaria em casa quando David ligou.
Se não fosse pelo gesso, ela estaria no trabalho. Ele disse que estava em Tel Aviv, tinha vindo a Israel apenas por uma semana, para algum congresso. Algo a ver com a Agência Judaica. Disse que estava se desgastando nessas conferências e que queria vê-la, e ela disse que tudo bem. Se não fosse pelo gesso, ela teria se livrado disso com alguma desculpa, mas estava entediada. Se ele viesse, ela pensou, haveria a emoção do antes. Escolheria uma blusa diante do espelho, faria as sobrancelhas. Então, quando ele chegasse, provavelmente nada iria acontecer, mas ela, de todo modo, já teria curtido a preparação. Além disso, não teria nada a perder. Com qualquer outra pessoa, ela ficaria preocupada em ser desapontada, mas com Davi não havia mais nada com que se preocupar. O cara já a decepcionara na última vez em que haviam se encontrado, encheu-lhe a cabeça dizendo o quanto a amava e, depois de se excitarem um pouco, ela o masturbou e adormeceu vestida na cama do hotel dele. Ele não telefonou no dia seguinte, nem no outro. Depois de dois dias, ela parou de esperar. Sabia que ele tinha voltado para Cleveland ou Portland, ou qualquer que fosse o nome da cidade dele nos Estados Unidos. E doeu. Doeu como quando alguém vê você na rua e finge não reconhecê-lo. Se ela o encontrasse na rua, em Cleveland ou em Portland, ou onde quer que fosse, e ele estivesse lá com a namorada, isto é o que teria acontecido com certeza.
Naquela ocasião, ele tinha lhe contado sobre a namorada. Disse-lhe que iam se casar. Ela não podia dizer que ele lhe escondera isto. Mas havia algo na maneira como ele falou que a fez sentir que tudo o que ele tinha contado era verdade até o momento em que a encontrara, e que agora a vida dele estava tomando um rumo totalmente novo, um rumo que também a incluía. Mas ela deve ter se enganado, ou ele deve ter lhe dado a impressão errada. Depende de como você olha para isso. E do estado de espírito em que ela se encontrava quando imaginava os dois juntos no hotel. Às vezes dizia a si mesma, caia fora, sua idiota. Ele é norte-americano, o que você esperava? Você acha que ele iria jogar fora a vida dele lá, o emprego no tal centro comunitário sobre o qual ele tentou lhe contar, e viria para cá trabalhar como barman ou entregador por sua causa? Mas houve outras vezes em que ela ficou com raiva. Ele não era obrigado a usar aquela palavra “amor”. Poderia ter dito apenas que se sentia atraído por ela, ou que estava com tesão, bêbado e longe de casa. Havia uma grande chance de ela ter-lhe batido uma punheta, mas não teria ficado plantada em casa por dois dias, esperando o telefone tocar. Ela não tinha celular naquela ocasião, simplesmente sentava e ficava esperando. Além disso, era verão, e no seu apartamento não havia ar-condicionado. O ar da sala não se movia, e durante todo o dia ela tentou ler um livro, Submundo, de Don DeLillo, mas, no final do dia, ainda estava no primeiro capítulo. Não se lembrava de nada que tinha lido. Algo sobre um jogo de beisebol. Ela nunca mais voltou a ler aquele livro depois disso, e David não ligou. Mas agora, quase um ano depois, ele de repente o fez, e quando perguntou se poderia vir, ela disse que tudo bem. Principalmente porque não queria que ele percebesse que uma parte dela tinha sido ferida. Ela não queria que ele se sentisse suficientemente importante a ponto de ela não querer vê-lo novamente.
Ele trouxe uma garrafa de vinho e uma pizza. Metade azeitona e metade anchova. Nem sequer telefonou para perguntar o que ela queria, ou se ao menos estava com fome. Mas a pizza estava muito boa. O vinho era branco e estava quente, mas não tiveram paciência de esperar gelar, então eles o tomaram com cubos de gelo. “Uma garrafa de cem dólares”, disse ele, rindo, “e nós bebendo como se fosse Coca Diet.” Pelo visto, quis que ela soubesse que tinha gasto uma nota no vinho. Desde aquela noite, ele disse, tenho andado com uma sensação ruim. Sinto-me um merda. Deveria ter telefonado na manhã seguinte para me explicar. Aliás, eu deveria ter cuidado para que aquilo não acontecesse. Sinto muito. Ela acariciou o rosto dele, de modo não sedutor, mais como uma mãe que consola o filho que acabou de confessar que colou na prova, e disse-lhe que não fora tão terrível. Sim, ela de fato tinha pensado nele. Tinha se perguntado por que ele não tinha telefonado. Mas, em todo caso, ele não devia se sentir mal com isso. Desde o início havia lhe contado que tinha uma namorada.
David contou que já haviam se casado. Quando voltou de Israel, Karen, esse era o nome dela, contou-lhe que estava grávida e eles tinham que decidir entre um aborto ou ficar juntos. Quando Karen falou sobre isso, assim que ele desceu do avião, David ainda tinha o cheiro dela em seu cabelo. Desde a noite em que dormiram juntos, ele não tomara banho, para que o cheiro permanecesse. Eles tinham que decidir entre o aborto ou ficar juntos, Karen lhe disse. E ele não quis ficar junto. Por causa dela, por causa daquela noite. Mas também não queria que Karen abortasse. Era difícil explicar. Ele não era religioso nem nada. Mas a ideia de um aborto parecia tão irreversível, e o deixou muito desconfortável. Então, ele lhe propôs casamento. Um bebê que nasce também é irreversível, ela lhe disse agora, em tom de brincadeira, e ele se encolheu, e disse que sabia disso. E, no mesmo fôlego, acrescentou que era uma menina, e que era a coisa mais maravilhosa que já tinha acontecido com ele. Mesmo que ele e Karen se divorciassem, disse, algo que não acreditava que fosse acontecer, porque estavam indo bem, mas mesmo se isso acontecesse, ele era feliz por Karen não ter abortado. Sua menina era incrivelmente adorável. Na sexta-feira ela faria exatamente cinco meses, e, desde o nascimento, era a primeira vez que ele viajava. Quase decidiu não vir a esta conferência. Deve ter mudado de ideia umas cinco vezes pelo menos, mas, por fim, pegou o avião e veio. Principalmente para vê-la. Para dizer que lamentava.
Vim aqui para pedir-lhe desculpa”, disse ele. Ela teve vontade de lhe dizer que ele estava exagerando. Fazendo muito barulho por pouca coisa. Mas depois de outro silêncio arrastado, disse que o perdoava. Que nunca estivera em sua situação, mas o entendia perfeitamente. E que apenas lamentava ele nunca ter ligado. Assim, para dizer adeus antes de embarcar. “Se eu tivesse telefonado”, ele disse, “teria voltado. E se tivesse voltado, teria me apaixonado por você. Fiquei com medo.” E ela, se quisesse fazê-lo sentir-se mal, poderia ter mencionado que, já naquela época, naquela primeira noite, ele dissera que a amava, mas, em vez disso, ela apenas acariciou sua grande mão que estava pousada sobre a mesa. Depois eles foram para a sala, assistiram a um episódio de Lost e acabaram com o vinho. Três anos antes, quando engravidara de Guiora, ela nem sequer perguntou se ele queria que fizesse um aborto ou que ficassem juntos. Simplesmente foi sozinha fazer o aborto. Dois meses depois, eles se separaram. Este David devia amar Karen um pouco mais do que ela amara Guiora. Ou então ele a odiava menos. Ela sabia que esta noite poderia terminar onde ela queria que terminasse, e isso fez com que se sentisse forte. Se ela continuasse um pouco até que ficasse tarde e dissesse que estava cansada, ele iria embora sem tentar coisa alguma. Se ela olhasse para ele e sorrisse, ele a beijaria. Ela sentiu isso. Mas o que realmente queria? Que ele voltasse para o hotel com tesão, se masturbasse e pensasse nela, pensasse em como as coisas tinham dado certo? Ou que ele passasse a noite com ela e no dia seguinte se sentisse um merda? Ela mudava de ideia a todo instante. Esqueça-o, dizia para si mesma, esqueça-se dele e de como ele se sentirá. Pense em si mesma. O que é que você quer?
Agora, por causa do gesso, ir ao banheiro era uma enorme produção. Tinha que pular em uma perna só e manter o equilíbrio. David não permitiu. Pegou-a nos braços, como um bombeiro salvando-a de um prédio em chamas ou um noivo carregando-a porta adentro na noite de núpcias. Enquanto ela fazia xixi, ele esperou por trás da porta e depois a levou para a sala. No momento que voltaram, o seriado tinha acabado. David contou-lhe o final. Já tinha assistido. Nos Estados Unidos era exibido uma semana antes. Não contou que já tinha assistido, porque não se importava de assistir a ele de novo com ela. De qualquer modo, não era muito ligado em TV. Na primeira vez, também só tinha assistido porque Karen era viciada em seriados. Está quente em seu apartamento, disse ele. Quente de matar. Ela lhe disse que sabia. O proprietário tinha baixado sessenta shekels do aluguel mensal, para ela e sua companheira de apartamento, justamente porque não havia ar-condicionado. Desde que tinha quebrado a perna, estava presa ali, ela disse. No hospital, eles tinham lhe dado um par de muletas, mas quem tem força para descer quatro lances de escadas com muletas? Antes que ela percebesse o que estava acontecendo, ele a pegou e girou sobre seu ombro, como um saco de farinha, e desceu os quatro andares.
Levou-a assim para o parque Meír e ali se sentaram em um banco e fumaram um cigarro. Lá também estava quente e úmido, mas pelo menos havia uma brisa para secar o suor. Era importante para mim que você me perdoasse, disse ele. Extremamente importante. Não consigo nem explicar o porquê. Não é que eu nunca tivesse me comportado antes como um merda com as garotas que namorei, mas com você ... E começou a chorar. Ela levou um instante para perceber o que estava acontecendo. No início, pensou que ele estivesse tossindo, ou sufocado ou alguma outra coisa, mas ele estava simplesmente chorando. Pare com isso, seu idiota, ela disse, meio sorrindo. As pessoas estão olhando. Vão acabar pensando que eu lhe dei o fora, que parti seu coração. Sou um idiota, David disse, eu realmente sou. Eu poderia ter... você nunca foi a Cleveland, não é? Falar de Cleveland e falar de Tel Aviv. Ela sabia o que ele queria falar, falar sobre Karen ou falar sobre ela, e estava feliz que ele não fizesse isso.
Eles subiram os quatro lances de escada muito lentamente. Ele já não tinha força para carregá-la, então simplesmente ela se apoiou nele e mancou, degrau a degrau. No momento em que chegaram à porta, os dois estavam suando, e dentro do gesso, a coceira enlouquecedora começava de novo. Você quer que eu vá?, ele perguntou, ela balançou a cabeça num gesto de não, mas sua boca disse que achava que seria uma boa ideia. Mais tarde, na cama, de frente para o ventilador, ela tentou resumir para si tudo o que tinha acontecido nesta história. Um americano e uma israelense se encontram totalmente por acaso. Uma noite agradável. Um pouco de saliva na palma da mão esquerda dela deslizando para cima e para baixo no pau de David. E duas pessoas, em dois lados do oceano, acabam levando consigo todos esses detalhes não muito importantes por quase um ano. Algumas pessoas caem do terceiro andar de um edifício e ficam apenas com uma mancha roxa no traseiro. Outras fazem um movimento errado quando descem a escada e acabam no hospital, com gesso. Pelo visto, ela e David pertenciam ao segundo tipo.

Etgar Keret, in De repente, uma batida na porta