Mostrando postagens com marcador Caninos Brancos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Caninos Brancos. Mostrar todas as postagens

23/07/2020

O lobo adormecido

Foi por essa época que os jornais se encheram com a fuga audaciosa de um condenado da prisão de San Quentin. Era um homem feroz. Fora mal feito. Não nascera direito e não tivera nenhuma ajuda da modelagem que recebera nas mãos da sociedade. As mãos da sociedade eram duras, e esse homem constituía uma amostra impressionante de seu trabalho manual. Era uma besta – uma besta humana, é verdade, mas ainda assim uma besta tão terrível que talvez fosse mais bem caracterizada como carnívora.
Na prisão de San Quentin, ele se mostrara incorrigível. O castigo não conseguiu dobrar o seu espírito. Podia morrer numa loucura surda e lutando até o fim, mas não conseguia viver sendo surrado. Quanto mais ferozmente lutava, com mais aspereza a sociedade o tratava, e o único efeito dessa dureza era torná-lo mais violento. Camisas de força, regimes de fome, surras e pancadas eram o tratamento errado para Jim Hall, mas foi o tratamento que recebeu. Era o tratamento que tinha recebido desde os seus tempos de menino gorducho numa favela de San Francisco – argila macia nas mãos da sociedade e pronta a ser modelada.
Foi durante o terceiro período de Jim Hall na prisão que ele encontrou um guarda quase tão animal quanto ele. O guarda tratou-o injustamente, mentiu sobre Jim Hall para o diretor, causou a perda de seu bom conceito, perseguiu-o. A diferença entre eles era que o guarda carregava um molho de chaves e um revólver. Jim Hall tinha apenas as mãos nuas e os dentes. Mas ele pulou sobre o guarda certo dia e usou os dentes na garganta do outro como qualquer animal da selva.
Depois disso, Jim Hall foi viver na solitária. Ali viveu por três anos. A cela era de ferro, o chão, as paredes, o telhado. Nunca saía dessa cela. Nunca via o céu, nem a luz do sol. O dia era um crepúsculo e a noite, um silêncio negro. Ele estava numa tumba de ferro, enterrado vivo. Não via nenhuma face humana, não falava com nenhum humano. Quando a comida era enfiada na cela, rosnava como um animal selvagem. Odiava todas as coisas. Por dias e noites, urrou a sua fúria ao universo. Por semanas e meses, jamais produziu um som, devorando no silêncio negro a própria alma. Era um homem e uma monstruosidade, tão temível quanto qualquer visão que já assombrou um cérebro enlouquecido.
E então, certa noite, ele escapou. O diretor da prisão disse que era impossível, mas ainda assim a cela estava vazia e, despedaçado em duas metades no lado de fora, estava o corpo de um guarda morto. Os outros guardas mortos marcavam a sua trilha pela prisão até os muros externos, e ele matara com as mãos para evitar fazer barulho.
Estava com as armas dos guardas assassinados – um arsenal vivo a fugir pelos morros, perseguido pelo poder organizado da sociedade. Havia um substancial prêmio de ouro pela sua cabeça. Fazendeiros avarentos o caçavam com espingardas. O seu sangue poderia pagar uma hipoteca ou enviar um filho para a universidade. Cidadãos de espírito público baixavam os seus rifles e partiam em busca de Jim Hall. Um bando de cães de caça seguia o rastro de seus pés ensanguentados. E os sabujos investigadores, os lutadores pagos da sociedade, com telefone, telégrafo e trem especial, agarravam-se à sua trilha noite e dia.
Às vezes deparavam-se com o fugitivo, e os homens o enfrentavam como heróis, ou estouravam como uma boiada pelas cercas de arame farpado, para o grande deleite da comunidade que lia a história à mesa do café da manhã. Depois desses encontros, os mortos e feridos eram transportados em carroças para as cidades, e os seus lugares preenchidos por outros homens ansiosos pela caçada humana.
E então Jim Hall desapareceu. Os sabujos buscaram em vão o rastro perdido. Vaqueiros inofensivos em vales remotos eram detidos por homens armados e obrigados a se identificarem, enquanto os restos mortais de Jim Hall eram descobertos numa dúzia de encostas por homens gananciosos que reclamavam o dinheiro do seu sangue.
Nesse meio tempo, os jornais eram lidos em Sierra Vista, menos por interesse que por ansiedade. As mulheres estavam com medo. O juiz Scott não levava a história a sério e ria, mas sem razão, pois foi nos seus últimos dias no tribunal que Jim Hall se postara à sua frente e recebera a sentença. E, na sala aberta do tribunal, Jim Hall proclamara que chegaria o dia em que se vingaria do juiz que o condenara.
Pelo menos daquela vez, Jim Hall tinha razão. Era inocente do crime pelo qual fora condenado. Era um caso, no jargão dos ladrões e da polícia, de “falso pretexto”. Jim Hall estava sendo “conduzido” à prisão por um crime que não tinha cometido. Devido às duas condenações anteriores, o Juiz Scott lhe impôs uma sentença de cinquenta anos.
O juiz Scott não conhecia todos os detalhes, e não sabia que fazia parte de uma conspiração policial, que a evidência era tramada e fruto de falso testemunho, que Jim Hall não tinha culpa do crime de que o acusavam. E Jim Hall, por outro lado, não sabia que o juiz Scott apenas ignorava os detalhes. Jim Hall acreditava que o juiz sabia tudo sobre o caso e estava mancomunado com a polícia na perpetração da monstruosa injustiça. Assim, quando o destino de cinquenta anos de morte em vida foi pronunciado pelo juiz Scott, Jim Hall, odiando todas as coisas na sociedade que o maltratava, levantou-se e teve uma crise de fúria na sala do tribunal, até ser derrubado por meia dúzia de seus inimigos policiais. Para ele, o juiz Scott era a pedra fundamental no arco da injustiça, e sobre o juiz Scott ele esvaziou os frascos da sua ira e lançou as ameaças de sua futura vingança. Depois Jim Hall partiu rumo à sua morte em vida... e escapou.
De tudo isso, Caninos Brancos nada sabia. Mas entre ele e Alice, a esposa do dono, existia um segredo. Toda noite, depois que Sierra Vista já se retirara para dormir, ela se levantava e deixava Caninos Brancos entrar para dormir no saguão grande. Ora, Caninos Brancos não era um cachorro do interior da casa, nem tinha permissão de dormir na casa; assim toda manhã, bem cedo, ela descia furtiva e deixava que ele saísse antes que a família acordasse.
Numa dessas noites, enquanto toda a casa dormia, Caninos Brancos despertou e continuou deitado muito quieto. E muito quieto farejou o ar, lendo a mensagem que trazia sobre a presença de um deus estranho. E aos seus ouvidos chegaram os sons dos movimentos do deus estranho. Caninos Brancos não irrompeu num alarido furioso. Não era a sua maneira de ser. O deus estranho caminhava sem fazer barulho, porém mais silenciosamente caminhava Caninos Brancos, porque ele não tinha roupas que roçassem contra a carne do corpo. Seguiu em silêncio. Na Floresta tinha caçado caça viva infinitamente pequena, e conhecia a vantagem da surpresa.
O deus estranho parou ao pé da grande escada e escutou, e Caninos Brancos estava tão morto, tão sem movimento que observou e esperou. No alto da escada, a passagem conduzia ao senhor do amor e às posses mais queridas do senhor do amor. Caninos Brancos eriçou o pelo, mas esperou. O pé do deus estranho ergueu-se. Ele estava começando a subida.
Foi então que Caninos Brancos atacou. Não deu nenhum aviso, nenhum rosnado antecipou a sua ação. Ergueu o corpo no ar com o pulo que o fez aterrissar nas costas do deus estranho. Caninos Brancos agarrou-se com as patas dianteiras aos ombros do homem, enterrando ao mesmo tempo as presas na sua nuca. Agarrou-se por um momento, o bastante para derrubar o deus de costas. Juntos espatifaram-se no chão. Caninos Brancos soltou-se com um pulo e, quando o homem lutava para se levantar, atacou de novo com as presas cortantes.
Sierra Vista acordou alarmada. O barulho que vinha do andar térreo era como o de vinte demônios em batalha. Escutaram-se tiros de revólver. A voz de um homem gritou de horror e angústia. Houve muitos rosnados e grunhidos, e acima de tudo elevava-se o som de estilhaços e o estrondo de mobília e vidro.
Mas quase tão rápido quanto tinha irrompido, a comoção esmoreceu. A luta não tinha durado mais que três minutos. O pessoal da casa assustado se aglomerou no topo da escada. Lá de baixo, como se de um abismo de escuridão, subia um som de gorgolejo, como de ar fazendo bolhas na água. Às vezes esse gorgolejar tornava-se sibilante, quase um assobio. Mas isso também esmoreceu rapidamente e cessou. Já nenhum som subia da escuridão, a não ser o ofegar pesado de uma criatura lutando dolorosamente por um pouco de ar.
Weedon Scott apertou um botão, e a escada e o saguão térreo foram inundados de luz. Ele e o juiz Scott, revólveres na mão, desceram cautelosamente. Não havia necessidade para essa cautela. Caninos Brancos tinha cumprido o seu dever. No meio dos destroços da mobília derrubada e despedaçada, deitado um pouco de lado, a face escondida por um dos braços, estava um homem. Weedon Scott inclinou-se, retirou o braço e virou a face do homem para cima. A garganta aberta explicava a maneira da sua morte.
Jim Hall – disse o juiz Scott, e pai e filho olharam significativamente um para o outro.
Depois voltaram-se para Caninos Brancos. Ele também estava deitado de lado. Os olhos estavam fechados, mas as pálpebras se ergueram de leve com o esforço de olhar para os deuses que se inclinavam sobre ele, e o rabo agitou-se perceptivelmente num vão esforço de abanar. Weedon Scott o afagou, e a garganta roncou um rosnado de reconhecimento. Mas era um rosnado fraco quando muito, e logo cessou. As pálpebras se abaixaram e fecharam, e todo o corpo pareceu relaxar e achatar-se sobre o chão.
Ele está liquidado, pobre diabo – resmungou o dono.
Vamos cuidar disso – afirmou o juiz, enquanto partia para o telefone.
Francamente, ele tem uma chance em mil – anunciou o cirurgião, depois de trabalhar uma hora e meia em Caninos Brancos.
O amanhecer irrompia pelas janelas e enfraquecia as luzes elétricas. À exceção das crianças, toda a família estava reunida ao redor do cirurgião para ouvir o seu veredicto.
Uma pata traseira quebrada – continuou. – Três costelas quebradas, e pelo menos uma delas perfurou os pulmões. Perdeu quase todo o sangue do corpo. Há uma grande probabilidade de lesões internas. Alguém deve ter saltado sobre ele. Isso sem falar nos três buracos de bala que o trespassaram. Uma chance em mil é realmente otimista. Ele não tem uma chance em dez mil.
Mas ele não deve perder nenhuma chance – exclamou o juiz Scott. – Não faça caso das despesas. Tire raios X... qualquer coisa. Weedon, telegrafe imediatamente para San Francisco e procure o doutor Nichols. Nada contra o senhor, doutor, compreenda, mas ele tem que aproveitar qualquer chance.
O cirurgião sorriu indulgentemente.
Claro que compreendo. Merece tudo o que pode ser feito por ele. Deve ser cuidado como se cuidaria de um ser humano, uma criança doente. E não esqueça o que lhe disse sobre a temperatura. Volto às dez horas de novo.
Caninos Brancos recebeu todos os cuidados. A sugestão do juiz Scott de uma enfermeira profissional foi rejeitada com indignação pelas meninas, que se encarregaram elas próprias da tarefa. E Caninos Brancos conquistou a única chance em dez mil que o cirurgião lhe negara.
O último não deve ser censurado pelo seu julgamento errôneo. Durante toda a sua vida tratara e operara humanos delicados da civilização, que levavam vidas abrigadas e descendiam de muitas gerações protegidas. Comparados a Caninos Brancos, eram frágeis e débeis, agarrando a vida sem nenhuma força na sua garra. Caninos Brancos viera diretamente da Floresta, onde os fracos morrem cedo e não se concede abrigo a ninguém. Nem no seu pai, nem na sua mãe havia alguma fraqueza, nem nas gerações anteriores. Uma constituição de ferro e a vitalidade da Floresta eram a herança de Caninos Brancos, e ele se agarrava à vida, com todo o seu ser e todas as suas partes, em espírito e carne, com a tenacidade que outrora pertencia a todas as criaturas.
Amarrado prisioneiro, sem poder fazer nenhum movimento por causa do gesso e das ataduras, Caninos Brancos passou semanas enfraquecido. Dormia por longas horas e sonhava muito, e pela sua mente cruzava um desfile interminável de visões da Terra do Norte. Todos os fantasmas do passado se manifestaram e vieram lhe fazer companhia. Mais uma vez viveu na toca com Kiche, subiu tremendo nos joelhos de Castor Cinza para lhe oferecer a sua submissão, correu para salvar a vida diante de Lip-lip e de todo o tumulto uivante do bando de filhotes.
Cruzou mais uma vez o silêncio, caçando o alimento vivo durante os meses da escassez, e de novo correu à frente da matilha do trenó, os chicotes de tripa de Mit-sah e Castor Cinza estalando atrás, as vozes gritando “Raa! Raa!” quando chegavam a uma passagem estreita e a matilha se fechava como um leque para passar. Viveu novamente todos os seus dias com Beleza Smith e as lutas que tinha travado. Nessas horas choramingava e rosnava no seu sono, e aqueles que o observavam diziam que estava tendo sonhos ruins.
Mas havia um pesadelo especial que o fazia sofrer muito – os monstros dos bondes tinindo e tilintando que eram para ele linces colossais aos berros. Ele se deitava ao abrigo de uns arbustos, esperando que um esquilo se aventurasse para bem longe do seu refúgio na árvore. Depois, quando pulava sobre o animalzinho, ele se transformava num bonde, ameaçador e terrível, elevando-se acima dele como uma montanha, berrando, tinindo e cuspindo fogo sobre ele. Acontecia o mesmo quando desafiava o gavião a descer do céu. Do alto do azul ele descia veloz, quando caía sobre Caninos Brancos, transformando-se no bonde ubíquo. Ou, ainda, ele estava no cercado de Beleza Smith. Fora do cercado, os homens começavam a se reunir, e ele sabia que haveria uma luta. Observava a porta à espera de seu antagonista. A porta se abria, e, lançando-se sobre ele, vinha o terrível bonde. Mil vezes isso ocorria, e a cada vez o terror que inspirava era vívido e enorme como nunca.
Por fim, chegou o dia em que a última atadura e o último gesso foram retirados. Foi um dia de gala. Toda a Sierra Vista se reuniu ao redor. O dono lhe esfregou as orelhas, e ele emitiu o rosnado de amor. A esposa do dono o chamou de “Bendito Lobo”, nome que foi adotado com aclamação e todas as mulheres o chamavam de Bendito Lobo.
Ele tentou se levantar, mas, depois de várias tentativas, caiu de fraqueza. Passara tanto tempo deitado que os músculos tinham perdido a agilidade, e toda a força os abandonara. Sentiu um pouco de vergonha por causa da sua fraqueza, como se deveras estivesse faltando ao serviço que devia aos deuses. Por essa razão, fez esforços heroicos para se levantar, e por fim ficou de pé sobre as quatro patas, cambaleando e balançando para frente e para trás.
Bendito Lobo! – entoou o coro das mulheres.
O juiz Scott as observava triunfante.
Que seja como suas bocas acabaram de declarar – falou. – Exatamente como sempre afirmei. Um mero cachorro não poderia ter feito o que ele fez. É um lobo.
Um Bendito Lobo! – emendou a esposa do juiz.
Sim, Bendito Lobo – concordou o juiz. – E, a partir de agora, é assim que vou chamá-lo.
Ele vai ter de aprender a caminhar de novo. – disse o cirurgião. – E bem que poderia começar desde já. O esforço não vai machucá-lo. Levem-no para fora.
E para fora ele partiu, como um rei, com toda a Sierra Vista ao seu redor e cuidando dele. Estava muito fraco, e quando chegou ao gramado deitou-se e descansou um pouco.
Depois o cortejo continuou o seu caminho, pequenos jorros de força entrando nos músculos de Caninos Brancos, à medida que ele os usava e o sangue começava a percorrê-los. Chegaram aos estábulos e ali, na soleira da porta, estava Collie com meia dúzia de filhotes gorduchos brincando à sua volta ao sol.
Caninos Brancos observou a cena com um olhar admirado. Collie rosnou avisando-o, e ele cuidou para manter a distância. Com o pé, o dono ajudou um filhote a se arrastar na direção de Caninos Brancos. Ele eriçou o pelo cheio de suspeitas, mas o dono lhe avisou que tudo estava bem. Collie, presa nos braços de uma das mulheres, observava ciumenta, e com um rosnado lhe avisou que nem tudo estava bem.
O filhote se espraiou na sua frente. Ele levantou as orelhas e observou-o curioso. Os focinhos se tocaram, e ele sentiu a pequena língua quente do filhote na sua queixada. A língua de Caninos Brancos veio para fora, ele não sabia bem por que, e ele lambeu a face do filhote.
Aplausos e gritos satisfeitos dos deuses saudaram a cena. Ele ficou surpreso e olhou-os perplexo. Depois a fraqueza o venceu, e ele se deitou, as orelhas de pé, a cabeça inclinada sobre um lado, observando o filhote. Os outros filhotes vieram se arrastando até Caninos Brancos, para grande desgosto de Collie, e ele permitiu com um ar sério que trepassem e caíssem sobre o seu corpo. A princípio, entre os aplausos dos deuses, deixou transparecer um pouco do seu antigo constrangimento e embaraço. Mas depois isso passou, enquanto continuavam as cambalhotas e as pancadas dos filhotes, e ele se deixou ficar deitado, com os olhos pacientes e meio fechados, cochilando ao sol.
Jack London, Caninos Brancos

13/07/2020

O chamado da espécie

Os meses iam e vinham. Havia muita comida e nenhum trabalho na Terra do Sul, e Caninos Brancos vivia gordo, próspero e feliz. Ele não estava apenas no sul geográfico, mas no sul da vida. A bondade humana era como um sol brilhante sobre Caninos Brancos, e ele florescia como uma flor plantada em terra boa.
Mas continuava de certa maneira diferente dos outros cachorros. Conhecia a lei até melhor do que os cachorros que não tinham conhecido outra vida, e observava a lei mais escrupulosamente, mas ainda assim havia nele uma sugestão de ferocidade à espreita, como se a Floresta ainda permanecesse em Caninos Brancos e o lobo dentro dele apenas dormisse.
Ele nunca fazia amizade com os outros cachorros. Tinha vivido solitário, no que dizia respeito à sua espécie, e solitário continuaria a viver. Nos seus dias de filhote, sob a perseguição de Lip-lip e o bando de cachorrinhos, e nos seus dias de luta com Beleza Smith, ele tinha adquirido uma aversão fixa por cachorros. O curso natural da sua vida fora desviado, e, afastando-se da sua espécie, ele se ligara ao humano.
Além disso, todos os cachorros do sul o olhavam com suspeição. Ele despertava neles o medo instintivo da Floresta, e eles sempre o saudavam com rosnados, grunhidos e um ódio beligerante. Por outro lado, aprendeu que não era necessário usar os seus dentes neles. As presas à mostra e os lábios torcidos eram em geral eficazes, raramente deixando de forçar o cachorro que investia aos gritos a recuar sobre as ancas.
Mas havia um tormento na vida de Caninos Brancos – Collie. Ela nunca lhe dava um momento de paz. Não era tão receptiva à lei como ele. Desafiava todos os esforços do dono para que se tornasse amiga de Caninos Brancos. Nos ouvidos desse, nunca deixava de soar o seu rosnado agudo e nervoso. Ela nunca lhe perdoara o episódio da matança das galinhas, e persistia na crença de que as intenções de Caninos Brancos eram ruins. Ela o considerava culpado antes do ato, e tratava-o de acordo com esse julgamento. Tornou-se uma peste para ele, seguindo-o como um policial pelo estábulo e pelo terreno, e se ele se atrevia a olhar curiosamente para uma pomba ou galinha, irrompia num alarido de indignação e fúria. Quanto a Caninos Brancos, o modo favorito de ignorá-la era deitar-se, com a cabeça sobre as patas dianteiras, e fingir que dormia. Isso sempre a confundia e silenciava.
À exceção de Collie, tudo ia bem para Caninos Brancos. Ele aprendera controle e equilíbrio, e conhecia a lei. Alcançou uma serenidade, uma calma, uma tolerância filosófica. Já não vivia num ambiente hostil. O perigo, a dor e a morte não rondavam à espreita por toda parte. Com o tempo, o desconhecido, como um terror e ameaça sempre iminente, esmaecia. A vida era suave e fácil. Fluía sem obstáculos, e nem o medo nem o inimigo o espreitavam pelo caminho.
Sentia saudades da neve sem disso ter consciência. “Um verão estranhamente longo” teria sido o seu pensamento, se tivesse pensado a respeito; nas circunstâncias, apenas sentia saudades da neve de um modo vago e subconsciente. Da mesma forma, especialmente no calor do verão quando sofria com o sol forte, experimentava tênues saudades do norte. No entanto, o único efeito dessa saudade sobre Caninos Brancos era deixá-lo inquieto e desassossegado sem saber o que o incomodava.
Caninos Brancos jamais fora de demonstrar o afeto. Além de se aconchegar e introduzir uma nota sentimental no seu grunhido de amor, não tinha como expressar o seu sentimento. Mas foi-lhe dado descobrir uma terceira maneira. Ele sempre fora suscetível ao riso dos deuses. O riso sempre lhe provocara loucura, deixando-o frenético de raiva. Mas não estava na sua natureza zangar-se com o senhor do amor, e quando o deus decidiu rir de Caninos Brancos de um modo bonachão e por brincadeira, ele ficou confuso. Sentiu a ferroada e o acicate da velha raiva lutando para crescer no seu interior, mas ela lutava contra o amor. Não conseguiu se zangar, mas tinha de fazer alguma coisa. A princípio assumiu uma pose digna, e o dono riu ainda mais. Depois tentou ser mais digno, e o dono riu com mais força do que antes. Por fim, os risos do dono acabaram com a sua dignidade. As mandíbulas se abriram levemente, os lábios levantaram um pouco, uma expressão zombeteira, mais amor que humor, apareceu nos seus olhos. Ele aprendera a rir.
Da mesma forma, aprendeu a fazer brincadeiras com o dono, a ser derrubado e rolado pelo chão, a ser a vítima de inúmeros truques violentos. Em troca fingia raiva, eriçando o pelo e rosnando ferozmente, estalando os dentes em mordidas que tinham toda a aparência de intenção mortal. Mas ele nunca perdia a cabeça. As mordidas eram sempre dadas no ar vazio. Ao fim de uma dessas brincadeiras rudes, quando os golpes, bofetadas, mordidas e rosnados eram rápidos e furiosos, eles se separavam de repente e paravam a alguns metros de distância, olhando um para o outro. E depois, com a mesma subitaneidade, como o sol nascendo num mar de tempestade, começavam a rir. Isso sempre culminava com os braços do dono se fechando ao redor do pescoço e ombros de Caninos Brancos, enquanto o último emitia e rosnava o seu canto de amor.
Mas ninguém mais fazia dessas brincadeiras com Caninos Brancos. Ele não o permitia. Fazia questão da sua dignidade e, quando tentavam qualquer brincadeira, o seu rosnado de aviso e o pelo eriçado eram tudo menos travessos. O fato de dar ao dono essas liberdades não era razão para que fosse um cachorro comum, amando aqui e amando ali, o objeto de qualquer um para uma brincadeira e uma boa diversão. Ele amava com um coração exclusivista, recusando-se a baratear a si mesmo ou ao seu amor.
O dono saía bastante a cavalo, e acompanhá-lo era um dos principais deveres na vida de Caninos Brancos. Na Terra do Norte, ele demonstrara a sua lealdade labutando nos arreios; mas não havia trenós na Terra do Sul, nem os cachorros transportavam cargas nos lombos. Assim ele manifestava a sua lealdade de outro modo, correndo com o cavalo do dono. O dia mais longo jamais o deixava exausto. Ele tinha o caminhar do lobo, macio, incansável e sem esforço, e ao final de oitenta quilômetros chegava lépido à frente do cavalo.
Foi em conexão com as cavalgadas que Caninos Brancos alcançou outro modo de expressão – notável porque o utilizou apenas duas vezes em toda a sua vida. A primeira vez ocorreu quando o dono estava tentando ensinar a um puro-sangue fogoso o método de abrir e fechar portões sem que o cavaleiro precisasse apear. Muitas e repetidas vezes, ele emparelhou o cavalo com o portão tentando fechá-lo, mas toda vez o cavalo se assustava, recuava e arremetia para longe. O animal ficava mais nervoso e excitado a cada momento. Quando empinava, o dono o esporeava obrigando-o a repor as patas dianteiras no chão, com o que ele começava a dar coices com as patas traseiras. Caninos Brancos observava esses movimentos com uma ansiedade crescente até não poder mais se conter, quando pulou na frente do cavalo e latiu selvagem e ameaçadoramente.
Embora muitas vezes tentasse latir depois desse episódio, e o dono o encorajasse, só conseguiu latir apenas mais uma vez, e então não foi na presença do dono. Uma correria pelo pasto, uma lebre aparecendo de repente embaixo das patas do cavalo, uma guinada violenta, um tropeção, uma queda e uma perna quebrada para o dono foram a causa do latido. Caninos Brancos pulou com fúria na garganta do cavalo agressor, mas foi contido pela voz do dono.
Para casa! Vá para casa! – comandou o dono, quando tinha se certificado do seu ferimento.
Caninos Brancos não tinha vontade de abandoná-lo. O dono pensou em escrever uma nota, mas procurou em vão lápis e papel nos seus bolsos. Mais uma vez ordenou que Caninos Brancos fosse para casa.
O último o olhou ansioso, partiu, depois retornou e ganiu baixinho. O dono lhe falou com uma voz gentil mas séria, e ele levantou as orelhas e escutou com uma atenção dolorida.
Tudo bem, meu velho, apenas corra para casa – dizia a voz. – Vá para casa e conte o que aconteceu comigo. Para casa, lobo. Trate de ir para casa!
Caninos Brancos sabia o significado de “casa” e, embora não compreendesse o restante da conversa, sabia que a vontade do dono era que ele fosse para casa. Virou-se e partiu relutante. Depois parou, indeciso, e olhou para trás por cima do ombro.
Para casa! – foi o comando áspero, e desta vez ele obedeceu.
A família estava na varanda, tomando o ar fresco da tarde, quando Caninos Brancos apareceu. Meteu-se entre as pessoas, ofegante, coberto de poeira. – Weedon está de volta – anunciou a mãe de Weedon.
As crianças acolheram Caninos Brancos com gritos de alegria e correram ao seu encontro. Ele as evitou e passou pela varanda, mas elas o encurralaram contra uma cadeira de balanço e a balaustrada. Ele rosnou e tentou abrir caminho entre elas. A mãe olhou apreensiva na sua direção.
Confesso que ele me deixa nervosa ao redor das crianças – disse. – O meu pavor é que algum dia ele as ataque sem mais nem menos.
Rosnando selvagemente, Caninos Brancos pulou do seu canto, derrubando o menino e a menina. A mãe os chamou e consolou, dizendo-lhes para deixar Caninos Brancos em paz.
Um lobo é um lobo – comentou o juiz Scott. – Não dá para confiar em nenhum.
Mas ele não é todo lobo – interveio Beth, falando pelo irmão na sua ausência.
Você só tem a opinião de Weedon a esse respeito – replicou o juiz. – Ele meramente presume que haja algum sangue de cachorro em Caninos Brancos, mas, como ele próprio lhe dirá, nada sabe a esse respeito. Quanto à aparência de Caninos Brancos...
Ele não terminou a frase. Caninos Brancos estava na sua frente, rosnando ferozmente.
Vai embora! Deita! – comandou o juiz Scott.
Caninos Brancos virou-se para a esposa do senhor do amor. Ela gritou de susto, quando ele agarrou o vestido com os dentes e puxou-o até o tecido frágil se rasgar. A essa altura, Caninos Brancos tinha se tornado o centro das atenções. Ele deixara de rosnar e estava parado, a cabeça levantada, olhando nas suas faces. A garganta se mexia espasmodicamente, mas não produzia som, enquanto ele lutava com todo o seu corpo, convulsionado pelo esforço de livrar-se de algo incomunicável que forcejava para ser expresso.
Espero que não esteja ficando louco – disse a mãe de Weedon. – Falei para Weedon que o clima quente talvez não fizesse bem a um animal ártico.
Acho que ele está tentando falar – anunciou Beth.
Nesse momento a fala acudiu a Caninos Brancos, irrompendo numa grande explosão de latidos.
Alguma coisa aconteceu a Weedon – disse a esposa resolutamente.
Agora estavam todos de pé, e Caninos Brancos desceu correndo os degraus, olhando para trás para que o seguissem. Pela segunda e última vez na sua vida, ele latira e se fizera compreender.
Depois desse acontecimento, Caninos Brancos encontrou um lugar mais caloroso nos corações do pessoal de Sierra Vista, e até o criado cujo braço ele tinha rasgado admitia que era um cachorro muito sábio, mesmo que fosse um lobo. O juiz Scott ainda mantinha a sua opinião, e para o desagrado de todos provava o seu pensamento por medições e descrições tiradas da enciclopédia e de várias obras de história natural.
Os dias iam e vinham, despejando o brilho ininterrupto do sol sobre o Vale Santa Clara. Mas, quando se tornaram mais curtos e começou o segundo inverno de Caninos Brancos na Terra do Sul, ele fez uma estranha descoberta. Os dentes de Collie já não eram afiados. Havia um quê de brincadeira nas suas mordidas e uma gentileza que os impedia de machucar de verdade. Ele esqueceu que ela tornara a sua vida um fardo e, quando ela cabriolava ao seu redor, reagia de forma solene, procurando ser brincalhão e tornando-se nada menos que ridículo.
Certo dia, ela o levou para uma longa perseguição pelo pasto dos fundos e dentro da mata. Era a tarde em que o dono devia cavalgar, e Caninos Brancos sabia disso. O cavalo estava selado e esperando à porta. Caninos Brancos hesitou. Mas havia nele algo mais profundo do que toda a lei que tinha aprendido, do que os costumes que lhe foram incutidos, do que o seu amor pelo dono, do que a própria vontade de viver isolado; e quando, no momento de sua indecisão, Collie lhe deu uma mordida e saiu correndo, ele virou-se e seguiu atrás. O dono cavalgou sozinho naquele dia; e na mata, lado a lado, Caninos Brancos correu junto a Collie, assim como a sua mãe, Kiche, e o velho Caolho tinham corrido há muitos anos na silenciosa floresta boreal.
Jack London, in Caninos Brancos

29/06/2020

A terra do sul

Caninos Brancos desembarcou do vapor em San Francisco. Ficou estarrecido. No âmago mais profundo de si mesmo, abaixo de qualquer processo de raciocínio ou ato de consciência, ele tinha associado o poder com a divindade. E jamais os homens brancos lhe pareceram deuses tão maravilhosos como agora, quando caminhava pelo calçamento escorregadio de San Francisco. As cabanas de toras que conhecera eram substituídas por prédios elevados. As ruas estavam cheias de perigos – carros, carroças, automóveis; grandes cavalos puxando com esforço imensos caminhões; e monstruosos bondes elétricos e a cabo buzinando e ressoando pelo meio, berrando a sua ameaça insistente à maneira dos linces que ele conhecera nas matas do norte.
Tudo isso era a manifestação de poder. Através de tudo, por trás de tudo, estava o homem, governando e controlando, expressando-se, como antigamente, pelo seu domínio sobre a matéria. Era colossal, atordoador. Caninos Brancos estava aterrado. O medo pousou na sua mente. Assim como, nos seus dias de filhote, fora obrigado a sentir a sua pequenez e insignificância no dia em que saiu pela primeira vez da Floresta para a vila de Castor Cinza, agora, na sua estatura plenamente desenvolvida e no orgulho da sua força, era obrigado a sentir-se pequeno e insignificante. E havia tantos deuses! Ele estava tonto com o enxame de deuses. O trovão das ruas batia em seus ouvidos. Estava perplexo diante do tremendo e interminável ímpeto e movimento das coisas. Como nunca antes, ele agora sentia a sua dependência do senhor do amor, no encalço de cujos passos seguia, jamais o perdendo de vista não importa o que acontecesse.
Mas Caninos Brancos não devia ter mais do que uma visão de pesadelo da cidade – uma experiência como um sonho ruim, irreal e terrível, que o assombrou muito tempo depois nos seus sonhos. O dono o colocou num vagão de bagagem, preso num canto no meio de arcas e valises empilhadas. Ali dominava um deus atarracado e musculoso, fazendo muito barulho, atirando as arcas e as caixas de um lado para o outro, arrastando-as pela porta e jogando-as nas pilhas, ou lançando-as para fora da porta, em meio a choques e colisões, a outros deuses que as aguardavam.
E ali, nesse inferno de bagagem, Caninos Brancos foi abandonado pelo dono. Ou, pelo menos, Caninos Brancos pensou que fora abandonado, até sentir o cheiro das malas de roupas do dono a seu lado e passar a vigiá-las.
Já estava mais que na hora de o senhor aparecer – resmungou o deus do vagão, uma hora mais tarde, quando Weedon Scott surgiu na porta. – Esse seu cachorro não me deixa pôr nem um dedo nas suas coisas.
Caninos Brancos saiu do vagão. Ficou atônito. A cidade do pesadelo desaparecera. O vagão não tinha sido para ele mais do que um quarto numa casa, e quando entrara no recinto, a cidade estava toda ao seu redor. No intervalo, a cidade tinha sumido. O rugido já não aturdia seus ouvidos. Diante dele estava um campo sorridente, inundado de sol, indolente na sua quietude. Mas Caninos Brancos não teve muito tempo para se maravilhar com a transformação. Ele a aceitou como aceitava todas as atividades e manifestações inexplicáveis dos deuses. Era o seu modo de ser.
Um coche estava esperando. Um homem e uma mulher aproximaram-se do dono. Os braços da mulher se abriram e fecharam em torno do pescoço do dono – um ato hostil! No momento seguinte, Weedon Scott já se soltara do abraço e agarrava Caninos Brancos, que se tornara um demônio enfurecido a rosnar.
Tudo bem, mamãe – dizia Scott, enquanto agarrava Caninos Brancos com firmeza e o acalmava. – Ele achou que você fosse me atacar e não aguentou. Tudo bem. Tudo bem. Vai aprender logo, logo.
E espero que nesse meio tempo eu possa acarinhar o meu filho, quando o seu cachorro não estiver por perto – ela riu, embora estivesse pálida e trêmula de susto.
Ela olhou para Caninos Brancos, que rosnou e eriçou o pelo, fitando-a com olhos malévolos.
Ele vai ter que aprender, e vai aprender sem demora – disse Scott.
Falou suavemente com Caninos Brancos até o acalmar, depois a sua voz tornou-se firme.
Deita! Deita!
Esse fora um dos truques que o dono lhe ensinara, e Caninos Brancos obedeceu, embora se deitasse com relutância e morosidade.
Agora, mãe.
Scott lhe abriu os braços, mas manteve os olhos em Caninos Brancos.
Deita! – avisou. – Deita!
Eriçando o pelo em silêncio, meio agachado porque já se levantava, Caninos Brancos deitou-se de novo e observou o ato hostil ser repetido. Mas nenhum mal aconteceu, nem do abraço do estranho homem-deus que se seguiu. Depois as malas de roupas foram colocadas no coche, os estranhos deuses e o senhor do amor também subiram no carro, e Caninos Brancos os seguiu, ora correndo vigilantemente atrás, ora eriçando o pelo para os cavalos na corrida, avisando-os que ele estava ali para cuidar que nenhum mal acontecesse ao deus que eles puxavam tão velozmente pela terra.
Ao final de quinze minutos, o coche entrou balançando por um portão de pedra e seguiu entre uma fila dupla de nogueiras arqueadas e entrelaçadas. Nos dois lados estendiam-se gramados, a sua larga extensão quebrada, aqui e ali, por grandes carvalhos de ramos robustos. Nas proximidades, em contraste com o verde claro da grama cuidada, os campos de feno queimados de sol exibiam um tom bronzeado e dourado, enquanto mais além viam-se os morros castanhos amarelados e as pastagens nas montanhas. Do topo do gramado, na primeira ondulação suave do nível do vale, a casa de varandas fundas e muitas janelas erguia-se sobranceira.
Caninos Brancos não teve muita oportunidade de ver tudo isso. Mal o coche tinha entrado no terreno da casa, quando foi provocado por um cão pastor, de olhos brilhantes, focinho afilado, justamente indignado e zangado. Estava entre ele e o dono, isolando-o. Caninos Brancos não deu nenhum rosnado de aviso, mas o seu pelo se eriçou enquanto partia para o ataque silencioso e mortal. O ataque nunca se completou. Caninos Brancos parou de um modo abrupto e desajeitado, com as patas dianteiras rígidas retesando o corpo contra o seu momentum, quase sentando-se sobre as ancas, tão desejoso estava de evitar o contato com o cachorro que já estava prestes a atacar. Era uma fêmea, e a lei da sua espécie erguia uma barreira entre eles. Atacá-la exigia de Caninos Brancos nada menos que uma violação do seu instinto.
Mas com a cachorra pastora era diferente. Sendo uma fêmea, ela não possuía esse instinto. Por outro lado, sendo uma cachorra pastora, o seu medo instintivo da Floresta, e especialmente do lobo, era extraordinariamente agudo. Caninos Brancos era um lobo, o saqueador hereditário que pilhara os seus rebanhos desde o tempo em que as ovelhas foram pela primeira vez agrupadas e guardadas por algum de seus obscuros ancestrais. E assim, enquanto ele abandonava a arremetida e retesava-se para evitar o contato, ela pulava em cima dele. Caninos Brancos rosnou involuntariamente ao sentir os dentes no seu ombro, mas fora isso não tentou machucá-la. Recuou, as patas enrijecidas de constrangimento, e tentou passar ao redor dela. Esquivou-se deste ou daquele lado, curvou-se e virou-se, mas em vão. Ela continuava entre ele e o caminho por onde queria prosseguir.
Aqui, Collie! – chamou o homem estranho no coche.
Weedon Scott riu.
Não faz mal, papai. É uma boa disciplina. Caninos Brancos vai ter de aprender muitas coisas, e é bom começar desde já. Ele vai acabar se adaptando bem.
O coche seguiu adiante, e Collie continuava a bloquear a passagem de Caninos Brancos. Ele tentou ultrapassá-la na corrida, deixando o caminho e circulando pelo gramado; mas ela corria no círculo interno e menor, sempre presente, enfrentando-o com as suas duas filas de dentes brilhantes. Ele deu meia volta, passando pelo caminho para o outro gramado, e mais uma vez ela o forçou a se desviar.
O coche estava levando o dono embora. Caninos Brancos o vislumbrava desaparecer entre as árvores. A situação era desesperada. Ele tentou outro círculo. Ela seguiu, correndo rápida. E então, de repente, ele se virou contra Collie. Era o seu velho truque de luta. Ombro a ombro, ele a atacou em cheio. Ela não foi só derrubada. Tão veloz corria que rolou pela grama, ora sobre o lombo, ora sobre o lado, enquanto lutava para se deter, agarrando-se ao cascalho com as patas, e gritando agudamente o seu orgulho ferido e a sua indignação.
Caninos Brancos não esperou. O caminho estava desimpedido, e isso era tudo o que ele queria. Ela partiu atrás dele, sem cessar o seu alarido. Era um caminho reto agora e, quando começaram a correr realmente, Caninos Brancos foi capaz de lhe ensinar muitas coisas. Ela corria freneticamente, histericamente, empregando o máximo das suas forças, anunciando o esforço que fazia a cada pulo; e, durante todo esse tempo, Caninos Brancos corria facilmente à sua frente, sem esforços, deslizando como um fantasma sobre o terreno.
Ao rodear a casa até a porte-cochère, ele alcançou o coche. O carro tinha parado, e o dono estava descendo. Nesse momento, ainda correndo a toda velocidade, Caninos Brancos percebeu de repente um ataque pelo lado. Era um galgo que se precipitava sobre ele. Caninos Brancos tentou enfrentá-lo. Mas corria com demasiada velocidade, e o galgo estava perto demais. O cachorro o golpeou no lado, e tal era o seu momentum para diante, e tal foi a surpresa do ataque, que Caninos Brancos foi jogado ao chão, onde rolou completamente derrubado. Ele saiu do emaranhado um espetáculo de malignidade, as orelhas achatadas para trás, os lábios contorcidos, o focinho enrugado, os dentes estalando após as presas errarem por pouco a garganta macia do galgo.
O dono vinha correndo, mas estava longe demais, e foi Collie quem salvou a vida do galgo. Antes que Caninos Brancos pudesse pular e dar o golpe fatal, bem quando ele estava no ato de saltar em cima do galgo, Collie chegou. Ela fora vencida em habilidade e na corrida, sem falar no fato de ter sido derrubada sem cerimônia no cascalho, e a sua chegada foi como a de um tornado – composto de dignidade ofendida, fúria justificada e ódio instintivo por esse saqueador da Floresta. Atacou Caninos Brancos em ângulo reto no meio do seu pulo, e ele mais uma vez foi derrubado e rolou pelo chão.
No momento seguinte chegava o dono, que com uma das mãos segurou Caninos Brancos, enquanto o pai afastava os outros cachorros.
Sim, senhor, uma recepção muito calorosa para um pobre lobo solitário do Ártico – disse o dono, enquanto Caninos Brancos se acalmava sob a sua mão acariciadora. – Em toda a sua vida só se sabe de uma vez em que foi derrubado, e agora ele rolou pelo chão duas vezes em trinta segundos.
O coche se afastara, e outros deuses estranhos tinham saído da casa. Alguns mantinham-se respeitosamente a distância, mas dois deles, mulheres, cometeram o ato hostil de agarrar o dono pelo pescoço. Entretanto, Caninos Brancos estava começando a tolerar esse ato. Não parecia causar nenhum mal, e os barulhos que os deuses produziam não eram certamente ameaçadores. Esses deuses também faziam tentativas de se aproximar de Caninos Brancos, mas ele os afastava com um rosnado de aviso, e o dono também alertava com palavras. Nessas ocasiões, Caninos Brancos encostava-se nas pernas do dono e recebia palmadinhas tranquilizadoras na cabeça.
Ao ouvir a ordem “Dick! Deita!”, o galgo subira os degraus e deitara-se num dos lados da varanda, ainda rosnando e mantendo o intruso sob uma vigilância soturna. Uma das deusas-mulheres encarregou-se de Collie, com os braços ao redor do seu pescoço, afagando-a e acariciando-a; mas Collie estava muito perplexa e preocupada, ganindo e inquieta, ultrajada pela presença permitida desse lobo, segura de que os deuses estavam cometendo um erro.
Todos os deuses começaram a subir os degraus para entrar na casa. Caninos Brancos seguiu no encalço do dono. Dick, na varanda, rosnou, e Caninos Brancos, nos degraus, eriçou o pelo e rosnou em resposta.
Leve Collie para dentro e deixe os dois brigarem – sugeriu o pai de Scott. – Depois disso ficarão amigos.
Nesse caso Caninos Brancos, para mostrar a sua amizade, terá de ser o principal pranteador no funeral – riu o dono.
O velho Scott olhou incrédulo, primeiro para Caninos Brancos, depois para Dick, e finalmente para o filho.
Você quer dizer que...?
Weedon acenou com a cabeça.
Exatamente isso. Você teria um Dick morto em um minuto... dois minutos no máximo.
Ele virou-se para Caninos Brancos. – Vamos, lobo. É você que terá de entrar.
Caninos Brancos subiu os degraus e cruzou a varanda de pernas enrijecidas, com o rabo rigidamente ereto, mantendo os olhos em Dick para evitar um ataque pelo flanco, e preparado ao mesmo tempo para qualquer manifestação feroz do desconhecido que pudesse saltar sobre ele lá do interior da casa. Mas nada temível apareceu inesperadamente e, quando entrou na casa, explorou o terreno com cuidado, procurando o temível sem encontrá-lo. Depois deitou-se com um grunhido de satisfação aos pés do dono, observando tudo o que acontecia, sempre pronto a se levantar de um salto e a lutar pela vida com os terrores que, sentia, deviam estar à espreita sob a armadilha do teto da morada.
Jack London, in Caninos Brancos

10/06/2020

A longa trilha


Estava no ar. Caninos Brancos sentiu a calamidade vindoura, mesmo antes que houvesse alguma evidência tangível. De maneira vaga, compreendeu que era iminente uma mudança. Não sabia nem como, nem por que, mas captava a vinda do acontecimento futuro através dos próprios deuses. De modos mais sutis do que imaginavam, eles traíam suas intenções ao cachorro-lobo que rondava o alpendre da cabana e que, embora nunca entrasse na cabana, sabia o que se passava dentro das suas mentes.
Ei, escute só isso! – exclamou o condutor de cães na ceia certa noite.
Weedon Scott escutou. Pela porta entrava um ganido ansioso e baixo, como um soluçar abafado que apenas se tornasse audível. Depois vinha a longa fungada, quando Caninos Brancos se assegurava de que o seu deus ainda estava dentro da cabana e não desaparecera numa longa e misteriosa fuga.
Acho que esse lobo sabe o que o senhor vai fazer – disse o condutor de cães.
Weedon Scott olhou para o companheiro com olhos quase suplicantes, embora isso fosse desmentido pelas suas palavras.
Que diabos vou fazer com um lobo na Califórnia? – perguntou.
É o que digo – respondeu Matt. – Que diabos vai fazer com um lobo na Califórnia?
Mas isso não satisfez Weedon Scott. O outro parecia estar julgando a sua atitude com neutralidade.
Os cachorros dos brancos não teriam nenhuma chance contra ele – continuou Scott. – Ele os mataria à primeira vista. Se não me levasse à bancarrota com todas as ações por perdas e danos, as autoridades o tirariam das minhas mãos e o eletrocutariam.
Ele é um rematado assassino, sei – foi o comentário do condutor.
Weedon Scott olhou para o companheiro de modo suspeitoso.
Não funcionaria – disse decidido.
Não funcionaria – concordou Matt. – Ora, o senhor teria de contratar um homem só para cuidar dele.
A suspeita do outro foi abrandada. Acenou com a cabeça alegremente. No silêncio que se seguiu, o ganido baixo e meio soluçante se fez ouvir à porta e depois a longa e inquiridora fungada.
Não dá para negar que ele gosta muito do senhor – disse Matt.
O outro fitou-o com uma raiva súbita.
Raios, homem! Sei o que fazer e o que é melhor para todos!
Concordo com o senhor, só que...
Só o quê? – cortou Scott.
Só que... – o condutor de cães começou suavemente, depois mudou de ideia e deixou transparecer uma crescente raiva dentro de si. – Bem, não precisa ficar tão esquentado. A julgar pelas suas ações, alguém poderia pensar que não sabe o que fazer.
Weedon Scott discutiu consigo mesmo por algum tempo, e depois disse mais gentilmente:
Tem razão, Matt. Não sei o que fazer, e esse é que é o problema.
Ora, seria muito ridículo levar esse cachorro comigo – irrompeu depois de outra pausa.
Concordo com o senhor – foi a resposta de Matt, e mais uma vez o seu patrão não ficou satisfeito com o que ouvia.
Mas como é que, em nome do grande Sardanapalo, ele sabe que o senhor vai embora é o que me intriga – continuou o condutor inocentemente.
Foge à minha compreensão – respondeu Scott, sacudindo tristemente a cabeça.
Então chegou o dia em que, pela porta aberta da cabana, Caninos Brancos viu a valise fatal sobre o chão e o senhor do amor arrumando as suas coisas na mala. Além disso, havia idas e vindas, e a atmosfera até então plácida da cabana estava agitada por estranhas perturbações e desassossegos. Ali estava a evidência indubitável. Caninos Brancos já a tinha pressentido. Ele agora a ponderava. O seu deus estava se preparando para outra fuga. E, como não o levara junto antes, o que podia esperar era ser deixado para trás mais uma vez.
Naquela noite, Caninos Brancos soltou o longo uivo do lobo. Assim como tinha uivado nos seus dias de filhote, quando fugira da Floresta até a vila só para encontrá-la vazia, nada a não ser um monte de lixo a marcar o sítio da tenda de Castor Cinza, ele apontou o focinho para as estrelas frias e desabafou toda a sua dor.
Dentro da cabana, os dois homens tinham acabado de ir para a cama.
Ele não quer comer de novo – observou Matt do seu beliche.
Houve um resmungo vindo do beliche de Weedon Scott, e uma agitação nos cobertores.
Pela maneira como se comportou na outra vez que o senhor viajou, não me admiraria se desta vez ele morresse.
Os cobertores no outro beliche se agitaram irritados.
Oh, cale a boca! – gritou Scott na escuridão. – Você incomoda mais que uma mulher.
Concordo com o senhor – respondeu o condutor, e Weedon Scott não ficou muito certo se o outro tinha dado uma risadinha ou não.
No dia seguinte, a ansiedade e inquietação de Caninos Brancos eram ainda mais pronunciadas. Ele seguia os passos do dono sempre que esse saía da cabana, e rondava o alpendre quando o dono permanecia lá dentro. Pela porta aberta, podia vislumbrar a bagagem no chão. À valise juntaram-se duas grandes malas de lona e uma caixa. Matt estava enrolando a manta de pele e os cobertores do dono dentro de uma pequena lona. Caninos Brancos ganiu ao ver a operação.
Mais tarde, chegaram dois índios. Ele os observou com atenção, enquanto punham a bagagem sobre os ombros e desciam o morro atrás de Matt, que carregava a roupa de cama e a valise. Mas Caninos Brancos não os seguiu. O dono ainda estava na cabana. Depois de algum tempo, Matt retornou. O dono veio até a porta e chamou Caninos Brancos para dentro.
Pobre diabo – disse gentilmente, esfregando as orelhas de Caninos Brancos e dando palmadinhas na sua espinha. – Eu vou pegar a longa trilha, vou para onde você não pode me seguir. Agora me dê um rosnado... o último, um bom rosnado de adeus.
Mas Caninos Brancos recusou-se a rosnar. Em vez disso, e depois de um olhar inquisitivo e desejoso, ele se aconchegou, enterrando a cabeça entre os braços e o corpo do dono, desaparecendo da vista.
O apito! – gritou Matt. Do Yukon elevou-se o berro rouco de um vapor fluvial. – O senhor vai ter de abreviar a despedida. Não deixe de trancar a porta da frente. Vou sair pelos fundos. Vamos!
As duas portas bateram ao mesmo tempo, e Weedon Scott esperou que Matt desse a volta até a frente. De dentro da cabana vinham um ganido e um soluçar surdos. Depois longas e profundas fungadas.
Você tem de cuidar bem dele, Matt – disse Scott, enquanto partiam morro abaixo. – Escreva e me conte como ele está se portando.
Certo – respondeu o condutor. – Mas escute só!
Os dois homens pararam. Caninos Brancos estava uivando como os cachorros uivam quando o dono morreu. Estava dando voz a uma tristeza absoluta, o grito elevando-se em ímpetos de cortar o coração, diminuindo numa aflição tremida, depois elevando-se de novo em torrente após torrente de dor.
O Aurora era o primeiro vapor do ano a partir para o Exterior, e seus conveses estavam apinhados de aventureiros prósperos e caçadores de ouro quebrados, todos igualmente loucos para chegar ao Exterior como antes tinham estado loucos para penetrar no Interior. Perto da prancha de desembarque, Scott estava apertando a mão de Matt, que se preparava para voltar à margem. Mas a mão de Matt se afrouxou no aperto da mão do outro, enquanto seu olhar passava além do companheiro e fixava-se em algo mais atrás. Scott virou-se para ver. Sentado no convés a alguns metros de distância, e observando ansioso, estava Caninos Brancos.
O condutor de cães praguejou em voz baixa, com acentos aterrados nas palavras. Scott só olhava, admirado.
O senhor trancou a porta da frente? – perguntou Matt.
O outro fez que sim com a cabeça e perguntou:
E a dos fundos? – Pode apostar que sim – foi a resposta fervorosa.
Caninos Brancos achatou as orelhas de modo insinuante, mas permaneceu onde estava, sem fazer nenhuma tentativa de se aproximar.
Vou ter de levá-lo comigo para a margem.
Matt deu uns dois passos na direção de Caninos Brancos, mas o outro se esquivou. O condutor correu para pegá-lo, e Caninos Brancos escapou entre as pernas de um grupo de homens. Curvando-se, virando-se, furtando-se, ele escapava pelo convés, eludindo os esforços do outro para capturá-lo.
Mas quando o senhor do amor o chamou, Caninos Brancos aproximou-se com pronta obediência.
Não quer vir para a mão que o alimentou todos esses meses – resmungou o condutor ressentido. – E o senhor... o senhor nunca o alimentou depois daqueles primeiros dias de convivência. Não consigo entender como é que ele decidiu que o senhor é que é o dono.
Scott, que estivera afagando Caninos Brancos, de repente chegou-se mais perto e apontou cortes frescos no focinho e um talho entre os olhos.
Matt inclinou-se e passou a mão pela barriga de Caninos Brancos.
Esquecemos a janela. Ele está todo cortado e arranhado por baixo. Deve ter pulado e quebrado o vidro, meu Deus!
Mas Weedon Scott não estava escutando. Estava pensando rápido. O apito do Aurora fez soar o anúncio final da partida. Alguns homens escapuliam apressados pela prancha de desembarque até a margem. Matt soltou a bandana de seu pescoço e começou a colocá-la ao redor do pescoço de Caninos Brancos. Scott agarrou a mão do condutor.
Adeus, Matt, meu velho. Sobre o lobo... não precisa me escrever. Você entende, eu...!
O quê! – explodiu o condutor. – Não vai me dizer que...
Exatamente isso. Aqui está a sua bandana. Sou eu que vou lhe escrever sobre o lobo.
Matt parou no meio da prancha de desembarque.
Ele não vai suportar o clima! – gritou para Scott. – A não ser que o senhor corte o pelo nos meses de calor!
A prancha de desembarque foi retirada, e o Aurora afastou-se balouçando da margem. Weedon Scott abanou um último adeus. Depois virou-se e inclinou-se sobre Caninos Brancos, parado a seu lado.
Agora rosne, seu sem-vergonha, rosne! – disse enquanto afagava a cabeça receptiva e esfregava as orelhas achatadas.
Jack London, in Caninos Brancos