Com Mary Hopkin trabalhando no álbum
Post Card. Abbey Road Studios, Londres, 1969
Goodbye
De Paul McCartney e John Lennon
Please don’t wake me up too late
Tomorrow comes and I will not be
late
Late today when it becomes tomorrow
I will leave to go away
Goodbye
Goodbye
Goodbye, goodbye
My love, goodbye
Songs that lingered on my lips
Excite me now and linger on my mind
Leave your flowers at my door
I’ll leave them for the one who
waits behind
Goodbye
Goodbye
Goodbye, goodbye
My love, goodbye
Far away my lover sings a lonely
song
And calls me to his side
When a song of lonely love invites
me on
I must go to his side
Goodbye
Goodbye
Goodbye, goodbye
My love, goodbye
Convidamos Twiggy e o empresário
dela, Justin de Villeneuve, para vir jantar conosco. E foi justamente
ela a primeira pessoa a me dar a dica: “Já viu aquela moça na
televisão?”. Ela se referia à jovem cantora galesa Mary Hopkin.
Respondi: “Não”. E ela me recomendou: “Bem, não deixe de
assistir ao programa na próxima semana”. Eu assisti e pensei:
“Uau, que voz mais incrível”.
Mary Hopkin estava participando de um
programa chamado Opportunity Knocks (A oportunidade bate à
porta), espécie de protótipo de competições como American Idol
– e ela acabou sendo a vencedora. Após assistir à
apresentação dela no programa, pensei: “Ok, eu tenho uma ideia de
umas canções que posso indicar ou compor para ela, e eu posso atuar
na produção”.
Então Mary e eu falamos ao telefone
algumas vezes – também tive que falar com os pais dela, pois ela
só tinha 18 anos e eu não queria que eles pensassem que eu estava
mal intencionado –, e ela e a mãe dela concordaram em vir a
Londres para uma reunião. Sugeri que eu poderia ser o produtor dela
na gravadora Apple, dos Beatles, e encontrar canções que fariam
sucesso na voz dela.
Comecei com uma variante de uma velha
canção russa que outra pessoa tinha escrito: “Those Were the
Days”. Consegui o arranjo com um arranjador amigo meu, reservei um
estúdio e ajudei Mary a aprender a canção. É importante aprender
a canção antes de começar a gravar, porque então você pode fazer
isso sem ficar olhando. Creio que isso transmite mais sentimento à
canção, e Mary era ótima nisso. Ela aprendia rápido. Eu só
enviava a ela uma pequena demo ou algo assim, e ela aprendia a canção
com base nisso, e então nos reuníamos para gravar. Eu montava tudo,
literalmente montava o pacote inteiro. Entrava no estúdio, ouvia os
sons que iam sendo produzidos, incentivava Mary a fazer um bom take,
o que ela fazia com bastante facilidade, e depois mixava.
“Those Were the Days” foi sua
canção de maior sucesso, e eu sabia que seria um hit. Na verdade, a
canção fez um enorme sucesso. Em vários países chegou ao topo das
paradas. Comecei a procurar algo para dar continuidade a esse sucesso
e pensei: “Bem, basta compor algo no mesmo tom extravagante”.
Ainda hoje, mais de cinquenta anos
depois, o que me interessa nesta letra – e acho que nunca fiz isso
antes ou desde então – é o uso da mesma palavra repetidamente, em
cada verso. No caso, a palavra “late”: “Please don’t wake
me until late/ Tomorrow comes and I will not be late/ Late today when
it becomes tomorrow”. Em geral, eu evito isso e tento encontrar
outra palavra sem precisar ficar repetindo. Mas acho que a repetição,
às vezes, é eficaz. “Leave your flowers at my door/ I’ll
leave them for the one who waits behind”. Na terceira estrofe,
a palavra “lonely” também se repete.
“Goodbye” cultiva a tradição do
tipo de canção “Estou indo, mas volto em breve”, que
costumávamos ouvir quando éramos crianças. Elas eram pedidas no
rádio em homenagem a militares que estavam em missão no Bahrein, na
Ilha Christmas, em Hong Kong ou em outro lugar. Também existia em
Liverpool a tradição de ingressar na Marinha Mercante. “O que
você anda fazendo?”, você perguntava a alguém, e eles diziam:
“Entrei na mercante”. E zarpavam mar afora. A canção também se
aplicava às pessoas que emigravam ao Canadá ou à Austrália e
sentiam saudades de casa. Sempre fui influenciado por situações
assim e costumo me colocar no lugar de quem escuta a canção longe
de casa. Depois me imagino fazendo parte do pessoal da casa,
pensando: “Puxa, eles estão perdendo essa festa com todos os tios
e tias e toda essa diversão de estar em casa”. Coisa triste.
Curiosamente, anos depois, eu estava
com a minha família num barco, indo do extremo norte da Escócia até
as Ilhas Shetland. Foi a única embarcação que conseguimos.
Deveríamos ter embarcado no ferry, mas o perdemos, então
contratamos um barquinho de pesca para nos levar. Era um trecho
marítimo bem interessante, que contornava um pedaço de terra firme
com o adequado nome de Cape Wrath (Cabo da Ira), e naquele dia
sentimos a ira do oceano; cheguei até a vomitar. Mas foi maravilhoso
chegar às Ilhas Orkney e ver os bandos de papagaios-do-mar ao longo
das falésias. Eu nunca tinha visto um papagaio-do-mar! O comandante
do barco era o Capitão George. Ele era praticamente norueguês; eles
meio que se cruzam lá em cima, um pouco de sangue escocês, mas meio
norueguês. E ele me contou que “Goodbye” era sua canção
predileta. Compreensível, pois ele sempre saía para pescar e
incorporava esse sentimento de “não se preocupe, vou voltar”.
Fiquei muito contente em produzir
Mary, mas ela queria ser uma cantora folk, pura e simples. Falei:
“Bem, isso é ótimo, você pode ser uma cantora folk. Mas não é
minha praia. Posso recomendar vários bons produtores para você” –
ela acabou trabalhando e se casando com Tony Visconti, o produtor de
David Bowie. De modo que eu produzi um álbum com ela, mas não era
folk. Eram canções que nós dois apreciávamos, mas não era o
estilo que ela queria seguir.
Twiggy estava certa ao falar comigo
sobre ela. Estas duas canções – “Those Were the Days” e
“Goodbye” – fizeram muito sucesso, e o álbum Post Card
também, mas, depois disso, Mary realmente voltou às suas raízes no
estilo folk.
Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente
