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11/07/2026

O Mestre e Margarida | 10 — Notícias de Ialta



Ao mesmo tempo que ocorreu a desgraça a Nikanor Ivânovitch, não muito longe do prédio nº 302-bis, na mesma Sadôvaia, no escritório de Rímski, o diretor financeiro do Teatro de Variedades, encontravam-se duas pessoas: o próprio Rímski e o administrador do Teatro de Variedades, Variênukha.
O grande escritório com duas janelas no segundo andar do teatro dava para a rua Sadôvaia, e uma janela, a que ficava bem atrás do diretor financeiro sentado à mesa, dava para o jardim de verão do teatro, onde se localizavam as cantinas de refrescos, um clube de tiro e um palco ao ar livre. A decoração do escritório, além da mesa, consistia em um monte de velhos cartazes pendurados em uma das paredes, uma mesinha com uma jarra de água, quatro poltronas e, em um canto, um aparador sobre o qual havia uma antiga e empoeirada maquete de algum espetáculo passado. Bom, nem precisa dizer que havia no escritório um cofre de pequenas proporções, gasto, descascado e à prova de fogo, à esquerda de Rímski, ao lado da escrivaninha.
Sentado à mesa, Rímski estava mal-humorado desde muito cedo, pela manhã, enquanto Variênukha, pelo contrário, estava muito animado e especialmente agitado e ativo. No entanto, não tinha como extravasar sua energia.
Variênukha escondia-se agora no escritório do diretor financeiro, para evitar os que infernizavam sua vida pedindo entradas gratuitas, em especial nos dias em que a programação mudava. E hoje era exatamente um desses dias.
Assim que o telefone começava a tocar, Variênukha pegava o fone do gancho e mentia para ele:
Quem? Variênukha? Ele não está. Saiu.
Por favor, ligue para Likhodiêiev mais uma vez — disse Rímski de forma exasperada.
Mas ele não está em casa. Já mandei até Kárpov. Não tem ninguém no apartamento.
Sabe-se lá o que isso significa — sibilava Rímski, estalando as teclas da calculadora.
A porta se abriu e um lanterninha entrou carregando um pacote volumoso de cartazes extras recém-impressos. Com letras garrafais vermelhas em folhas verdes, estava impresso:

Hoje e Todos os Dias no Teatro de Variedades
Programação Extra:
PROFESSOR WOLAND
Sessões de Magia Negra e sua Revelação Total

Variênukha afastou-se do cartaz, que ele tinha jogado em cima da maquete, admirou-o e ordenou que o lanterninha distribuísse e afixasse todos os cartazes imediatamente.
Bom, chamativo — observou Variênukha enquanto o lanterninha saía.
Eu não estou gostando nada dessa história — rosnou Rímski, olhando perversamente para o cartaz através dos óculos de chifre — e me admiro como permitiram que ele apresente isso!
Não, Grigóri Danílovitch, tenho minhas dúvidas, é uma boa decisão. Toda a graça está na revelação.
Não sei, não sei, não tem graça nenhuma e ele sempre inventará algo do gênero! Se pelo menos tivesse nos mostrado esse mágico. Você chegou a vê-lo? Vai saber o diabo de onde ele o desenterrou!
Foi esclarecido que, assim como Rímski, Variênukha não tinha visto o mágico. Ontem Stiôpa viera correndo ver o diretor financeiro (“como um louco”, segundo a expressão de Rímski) com o rascunho já redigido de um contrato, e imediatamente mandou que fizessem uma cópia e liberassem o dinheiro. E o mago evaporou. Ninguém o viu, além do próprio Stiôpa.
Rímski tirou o relógio, viu que já eram duas e cinco e ficou completamente ensandecido. Francamente! Likhodiêiev telefonara por volta das onze horas, dissera que viria dali a meia hora, mas não só não veio como também sumiu do seu apartamento!
Tenho mais o que fazer! — Rímski agora rugia, apontando o dedo para uma pilha de papéis sem assinatura.
Será que ele não foi parar, como Berlioz, debaixo do bonde? — dizia Variênukha, segurando o fone perto da orelha, do qual se ouviam sinais profundos, longos e completamente desesperançosos.
Até que seria bom... — disse Rímski entre os dentes, e mal se ouvia o que falava.
Nesse exato momento uma mulher de jaqueta de uniforme, boné, saia preta e tênis entrou no escritório. De sua pequena bolsa no cinto, tirou um quadradinho branco e um caderno e perguntou:
Onde está o Variedades? Telegrama urgente. Assinem. — Variênukha rabiscou um garrancho no caderno da mulher e, assim que a porta bateu atrás dela, abriu o quadradinho.
Depois de ler o telegrama, pôs-se a pestanejar e entregou o quadradinho a Rímski.
O telegrama dizia o seguinte: “De Ialta a Moscou Variedades Hoje onze e meia polícia investigação apareceu moreno camisa calças descalço psicótico diz chamar-se Likhodiêiev diretor Variedades enviem telegrama urgente para polícia de Ialta onde está diretor Likhodiêiev.”
Era só o que faltava! — exclamou Rímski, e acrescentou: — Mais uma surpresa!
Um falso Dmitri1 — disse Variênukha e começou a falar para o fone: — Telégrafo? Conta do Variedades. Expedir telegrama superurgente... Está me ouvindo?.. “Ialta... delegacia de investigação... diretor Likhodiêiev em Moscou diretor financeiro Rímski”...
Independentemente do informe sobre o impostor de Ialta, Variênukha começou a procurar Stiôpa de novo por telefone em tudo quanto é lugar e, naturalmente, não o encontrou em parte alguma.
No exato instante em que ele, com o fone nas mãos, pensava para onde mais ligaria, entrou a mesma mulher que trouxera o primeiro telegrama e entregou a Variênukha um novo envelope. Variênukha abriu-o depressa, leu o que estava escrito e assobiou.
O que foi? — perguntou Rímski, contorcendo-se nervosamente. Calado, Variênukha lhe entregou o envelope e o diretor financeiro viu as seguintes palavras: “Suplico acreditar largado Ialta hipnose Woland mandem telegrama urgente polícia investigação confirmação identidade Likhodiêiev.”
Rímski e Variênukha releram o telegrama, a cabeça de um encostada na do outro, e depois de reler, calados, os olhos de um cravaram-se nos do outro.
Cidadãos! — de repente enfureceu-se a mulher. — Assinem e depois fiquem calados o quanto quiserem! Afinal, entrego telegramas superurgentes.
Sem despregar os olhos do telegrama, Variênukha rabiscou o caderno de qualquer jeito e a mulher desapareceu.
Você não conversou com ele pelo telefone um pouco depois das onze? — pôs-se a falar o administrador, totalmente perplexo.
Qual é a ordem, messire? — perguntou Fagot ao mascarado.
Bom, fazer o quê? — retrucou o mago, pensativo. — São pessoas como outras quaisquer. Gostam de dinheiro, mas sempre foi assim... A humanidade gosta de dinheiro, independentemente do que seja feito: de couro, de papel, de bronze ou ouro. Bom, são levianas... fazer o quê... a misericórdia às vezes bate em seus corações... são pessoas comuns... em geral fazem lembrar as pessoas de antigamente... só que o problema habitacional as corrompeu... — E ordenou em voz alta: — Coloquem a cabeça no lugar.
Mirando com esmero, o gato enterrou a cabeça no pescoço e esta se assentou perfeitamente, como se nunca tivesse se ausentado de lá. E o principal, não ficou sequer uma cicatriz no pescoço. O gato espanou o fraque e o peitilho da camisa de Bengálski com as patas e os vestígios de sangue desapareceram. Fagot ergueu Bengálski, colocando-o de pé, enfiou em seu bolso um maço de dinheiro e o conduziu para fora do palco, com as seguintes palavras:
Fora daqui! Sem você é mais divertido.
Olhando ao redor insanamente, e cambaleando, o mestre de cerimônias conseguiu se arrastar até o extintor de incêndio e ali se sentiu mal. Então soltou um grito penoso:
Minha cabeça, minha cabeça!
Entre os que correram até ele, também estava Rímski. O mestre de cerimônias chorava, tentava apanhar algo no ar, balbuciava:
Devolvam minha cabeça! Devolvam a cabeça! Peguem o apartamento, os quadros, mas devolvam a cabeça!
Um recepcionista foi correndo em busca de um médico. Tentaram acomodar Bengálski em um sofá do camarim, mas ele começou a se debater, ficou violento. Foram obrigados a chamar uma ambulância. Quando o pobre do mestre de cerimônias foi levado, Rímski correu de volta para o palco e viu que novas maravilhas estavam acontecendo ali. Ah, sim, naquele momento, ou um pouco antes, o mago, junto com sua poltrona desbotada, havia desaparecido do palco, e, a propósito, é preciso dizer que o público nem sequer notou, seduzido que estava com aquelas coisas excepcionais que Fagot desdobrava no palco.
Depois de despachar o vitimado mestre de cerimônias, Fagot anunciou ao público:
Agorinha, depois de nos livrarmos desse chato, vamos abrir uma loja para damas!
E imediatamente o chão do palco cobriu-se com tapetes persas, surgiram enormes espelhos, iluminados nas laterais por tubos esverdeados. Entre os espelhos, vitrines, e nelas os espectadores, alegres e aturdidos, viram vestidos parisienses, de diversas cores e cortes. Isso só em algumas vitrines. Já em outras apareceram centenas de chapéus para damas, com plumas e sem plumas, com fivelas e sem, centenas de sapatos — pretos, brancos, amarelos, de couro, de cetim, de camurça, com tiras, com pedrinhas. Entre os sapatos apareceram estojos de perfumes, montanhas de bolsas de couro de antílope, de camurça, de seda e, entre elas — verdadeiras pilhas de pequenos estojos alongados de ouro cinzelado em que se costuma colocar o batom.
Vai saber o diabo de onde saiu uma moça ruiva com uma toalete preta de gala, uma moça bonita em todos os sentidos, não fosse por uma estranha cicatriz no pescoço que a desfigurava, com um sorriso de proprietária ao lado das vitrines.
Fagot, sorrindo, malicioso e doce, anunciou que a casa estava realizando, sem cobrar nada, a troca de vestidos e calçados femininos velhos por novos modelos parisienses e novos calçados parisienses. Ele acrescentou o mesmo com relação às bolsas e ao restante.
O gato começou a arrastar a pata traseira e com a dianteira fazia uns gestos, próprios de porteiros quando abrem uma porta.
Mesmo afônica e com a língua presa, a moça começou a cantar docemente algo pouco compreensível, mas, a julgar pelos rostos femininos da plateia, muito sedutoramente:
Guerlain, Chanel nº 5, Mitsouko, Narcisse Noir, vestidos de gala, vestidos para coquetéis...
Fagot se contorcia, o gato fazia reverências, a moça abria vitrines de vidro.
Por favor! — vociferava Fagot. — Sem constrangimento ou cerimônia!
O público estava agitado, mas ninguém se atrevia a ir até o palco. Finalmente, uma morena saiu da décima fileira da plateia e, sorrindo, digamos, como se desse na mesma e não tivesse nenhuma importância para ela, passou pela escada lateral e subiu ao palco.
Bravo! — gritou Fagot. — Vamos cumprimentar a primeira cliente! Uma cadeira, Behemoth! Vamos começar pelos calçados, madame!
A morena sentou-se na poltrona e imediatamente Fagot despejou um amontoado de sapatos no tapete diante dela. A morena tirou o sapato do pé direito, experimentou um lilás e pisou pelo tapete, examinando o salto.
Será que não vai me apertar? — perguntou de forma pensativa. Ao que Fagot exclamou, ofendido:
O que é isso, o que é isso! — e o gato miou também, ofendido.
Vou levar esse par, monsieur — disse a morena com orgulho, calçando também o outro sapato.
Os sapatos velhos da morena foram jogados para trás da cortina, para onde também seguiu ela mesma, acompanhada da moça ruiva e de Fagot, que levava vários vestidos da última moda em cabides. O gato ajudava, atarantado, e, para dar um ar de importância, pendurou uma fita métrica no pescoço.
Um minuto depois, a morena saiu de trás da cortina com um vestido que fez um suspiro rodopiar por toda a plateia. A audaciosa mulher, admiravelmente mais bela, parou diante do espelho, moveu os ombros desnudos, tocou os cabelos na nuca e virou-se, tentando ver as próprias costas.
A casa pede que aceite isso como recordação — disse Fagot, oferecendo à morena um estojo aberto com um frasco.
Merci — respondeu a morena, soberanamente, e foi para a plateia pela escada. Enquanto andava, os espectadores saltavam e tocavam no estojo.
Então, de todos os lados, como uma avalanche, mulheres foram para o palco. Em meio ao rebuliço geral de vozes, risinhos e suspiros, ouviu-se uma voz masculina: “Não vou permitir uma coisa dessas!”, e outra feminina: “Seu déspota, pequeno-burguês! Assim você vai quebrar meu braço!” Mulheres desapareciam atrás da cortina, deixavam seus vestidos e saíam com novos. Toda uma fileira de damas sentada em banquinhos de pés dourados batia energicamente os calçados novos no tapete. Fagot se ajoelhava, manejando uma calçadeira de metal. O gato, atolado no meio de um monte de bolsas e sapatos, zanzava de um lado para o outro entre as vitrines e os banquinhos. A moça do pescoço deformado aparecia e desaparecia e chegou até mesmo ao ponto de ficar papeando inteiramente em francês, e o mais impressionante era que todas as mulheres a compreendiam mesmo com meias palavras, até as que não sabiam uma palavra sequer de francês.
Admiração geral foi provocada por um homem que se enfiou no palco. Ele anunciou que sua esposa estava gripada e por isso pedia que lhe dessem algo para levar-lhe. Para provar que era realmente casado, o cidadão prontificou-se em apresentar a certidão. A declaração do marido dedicado foi recebida com gargalhadas e Fagot vociferou que acreditava nele como em si próprio, mesmo sem a certidão, e entregou ao cidadão dois pares de meias de seda, e o gato incluiu de sua parte um pequeno estojo de batom.
As mulheres atrasadas irrompiam no palco, e dali transbordavam bem-aventuradas com vestidos de baile, robes com dragões, trajes sóbrios e pequenos chapéus apoiados sobre uma sobrancelha.
Então Fagot anunciou que, dali a exatamente um minuto, em função da hora tardia, a loja ficaria fechada até a noite do dia seguinte, e uma incomensurável confusão tomou conta do palco. As mulheres agarravam sapatos apressadamente, sem experimentá-los. Uma, feito um furacão, irrompeu para trás da cortina, arrancou ali mesmo seu traje e se apossou da primeira coisa que apareceu pela frente — um chambre de seda com estampa de buquês enormes de flores. Além disso, conseguiu agarrar dois estojos de perfumes.
Exatamente depois de um minuto, houve um disparo de pistola, os espelhos desapareceram, as vitrines e os banquinhos se dissiparam, o tapete evaporou no ar, assim como a cortina. A última coisa que desapareceu foi a altíssima montanha de vestidos e calçados velhos, e o palco ficou novamente austero, vazio e desnudo.
E foi aqui que um novo personagem se intrometeu.
Um barítono agradável, sonoro e muito insistente foi ouvido do camarote número dois:
De qualquer maneira, cidadão artista, seria desejável que, sem perder mais tempo, o senhor revelasse diante dos espectadores a técnica de suas mágicas, em especial a das cédulas de dinheiro. Seria desejável, também, o retorno do mestre de cerimônias ao palco. Os espectadores estão agitados sobre o destino dele.
O barítono pertencia a ninguém menos que o convidado de honra daquela noite, Arkádi Apollônovitch Sempleiárov, presidente da Comissão de Acústica dos Teatros Moscovitas.
Arkádi Apollônovitch estava no camarote com duas damas: a mais velha usava trajes caros e da moda, e a outra — jovenzinha e bonitinha — trajes mais simples. A primeira, como se soube durante a redação do relatório, era a esposa de Arkádi Apollônovitch; a segunda, sua parente distante, atriz iniciante e promissora, que viera de Sarátov e estava morando no apartamento de Arkádi Apollônovitch e sua esposa.
Pardon! — retrucou Fagot. — Peço desculpas, aqui não há nada a ser revelado, tudo está claro.
Não, sinto muito! A revelação é totalmente necessária. Sem isso esses brilhantes números deixarão má impressão. A massa de espectadores exige explicações.
Parece que a massa de espectadores — rebateu o palhaço insolente, interrompendo Sempleiárov — não tem nada a declarar. Mas, levando em consideração o seu profundo e respeitável desejo, Arkádi Apollônovitch, que assim seja, eu farei uma revelação. Porém, para isso, permita-me mais um numerozinho?
Por que não? — respondeu Arkádi Apollônovitch, com ar condescendente. — Mas com uma revelação, sem falta!
Sim, senhor, sim, senhor. Então permita-me perguntar, onde o senhor estava ontem à noite, Arkádi Apollônovitch?
Diante dessa pergunta descabida e, digamos, indelicada, o rosto de Arkádi Apollônovitch ficou alterado, realmente bastante alterado.
Ontem à noite Arkádi Apollônovitch estava em uma reunião da Comissão de Acústica — declarou de forma muito arrogante sua esposa. — Mas não estou entendendo o que isso tem a ver com magia.
Ouiii, madame! — confirmou Fagot. — É natural que a senhora não entenda. Mas,quanto à reunião, está totalmente enganada. Quando saiu para a referida reunião, que, diga-se de passagem, nem estava marcada para ontem, Arkádi Apollônovitch dispensou seu motorista perto do edifício da Comissão de Acústica em Tchístie Prudý (o teatro inteiro silenciou) e, sozinho, tomou um ônibus até a rua Ielôkhovskaia para fazer uma visita a uma atriz do teatro itinerante do distrito, Mílitsa Andrêievna Pokobátko, e com ela passou cerca de quatro horas.
Ai! — alguém soltou uma exclamação de sofrimento em meio ao silêncio absoluto.
De repente a jovem parente de Arkádi Apollônovitch soltou uma gargalhada baixa e terrível.
Tudo está esclarecido! — exclamou ela. — Eu já desconfiava disso fazia muito tempo. Agora está claro porque aquela besta quadrada ganhou o papel de Luisa!
E, agitando-se repentinamente, bateu na cabeça de Arkádi Apollônovitch com seu pequeno e grosso guarda-chuva lilás.
O pérfido Fagot, também chamado Korôviev, gritou:
Vejam, veneráveis cidadãos, um dos casos de revelação que Arkádi Apollônovitch arrumou com tanta impertinência!
Como você se atreve, sua infame, a encostar em Arkádi Apollônovitch? — perguntou a esposa com um ar terrível, levantando-se no camarote em todo seu tamanho gigante.
Um segundo e breve acesso de riso satânico tomou conta da jovem parente.
E quem mais do que eu — respondeu ela, rindo — se atreveria a encostar nele! — E pela segunda vez o estalido seco do guarda-chuva batendo na cabeça de Arkádi Apollônovitch ressoou no teatro.
Polícia! Prendam-na! — gritou a esposa de Sempleiárov com uma voz tão terrível que muitos sentiram o coração gelar.
Então o gato apareceu na ribalta e esbravejou para o teatro inteiro ouvir com uma voz humana:
A sessão acabou! Maestro! Execute uma marcha!!
O enlouquecido maestro, sem se dar conta do que estava fazendo, agitou a batuta, e a orquestra não começou a tocar, nem mesmo a soar ou a retumbar, mas precisamente, seguindo a expressão repulsiva do gato, executou uma marcha incrível, de uma rudeza sem precedentes.
Por um momento pareceu que as palavras dessa marcha, pouco inteligíveis, mas muito audaciosas, tinham sido ouvidas outrora em um café-cantante, sob o brilho das estrelas do sul:

Sua excelência
De passarinhos gostava,

E para si
Belas mocinhas tomava!!!

Mas pode ser que não fosse nenhuma dessas palavras, mas outras com essa mesma música, com letras extremamente inadequadas. O importante não é isso, o importante é que, depois de tudo, algo parecido com uma babel teve início no Teatro de Variedades. A polícia correu até o camarote dos Sempleiárov, os curiosos subiam nas divisórias, ouviam-se explosões infernais de gargalhadas, gritos raivosos, abafados pelo retinir dourado dos pratos da orquestra.
Via-se que o palco tinha ficado repentinamente vazio. O impostor do Fagot e o insolente do gato Behemoth tinham evaporado no ar, desaparecido, como antes havia sumido o mago em sua poltrona de estofamento desbotado.

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida 

04/07/2026

O Mestre e Margarida | 9



Truques de Korôviev

Nikanor Ivânovitch Bossôi, presidente da associação de moradores do prédio nº 302-bis, à rua Sadôvaia, em Moscou, onde morava o finado Berlioz, estava terrivelmente atribulado, começando pela noite precedente, de quarta para quinta-feira.
À meia-noite, como já sabemos, uma comissão da qual Jeldýbin fazia parte chegou ao prédio, chamou Nikanor Ivânovitch, informou-o sobre a morte de Berlioz e, junto com ele, dirigiu-se para o apartamento número 50.
Ali, lacraram os manuscritos e os pertences do finado. Nem Grúnia, a empregada, que não morava lá, nem o leviano Stepán Bogdánovitch estavam no apartamento naquele momento. A comissão declarou a Nikanor Ivânovitch que os manuscritos do finado seriam levados para verificação, que sua parte da casa, ou seja, três cômodos (os antigos escritório, sala de visita e sala de jantar da mulher do joalheiro), ficaria à disposição da associação de moradores e que seus pertences deveriam ser guardados nessa área do apartamento até a reclamação dos herdeiros.
A notícia sobre o falecimento de Berlioz espalhou-se por todo o prédio com uma rapidez sobrenatural e, a partir de sete horas da manhã de quinta-feira, começaram a telefonar para Bossôi, e depois também a aparecer pessoalmente com declarações que continham a intenção de ocupar a parte da casa do finado. Em duas horas, Nikanor Ivânovitch recebeu trinta e duas declarações desse tipo.
Nelas, havia súplicas, ameaças, intrigas, denúncias, promessas de realizar reforma por conta própria, reclamações sobre o aperto insuportável e sobre a impossibilidade de viver num mesmo apartamento com bandidos. Entre outras coisas, havia uma descrição, estupenda por sua força artística, do roubo de pelmiêni1 do apartamento número trinta e um, que haviam sido colocados, como se fosse a coisa mais natural do mundo, no bolso de um paletó; havia duas promessas de acabarem com suas vidas por meio de suicídio e uma confissão de gravidez secreta.
Chamavam Nikanor Ivânovitch até a entrada do seu apartamento, agarravam-no pela manga, cochichavam-lhe alguma coisa, piscavam e prometiam pagar pelo favor.
Esse tormento prolongou-se até o meio-dia, quando Nikanor Ivânovitch simplesmente fugiu de seu apartamento para a sala de administração, próxima do portão, mas quando percebeu que também ali o espreitavam, fugiu de lá também. Mal conseguindo se livrar daquelas pessoas que estavam ao seu encalço pelo pátio de asfalto, Nikanor Ivânovitch escondeu-se na sexta entrada e subiu até o quinto andar, exatamente onde se localizava aquele asqueroso apartamento de número cinquenta.
Depois de conseguir se recompor, o gorducho Nikanor Ivânovitch tocou a campainha, mas ninguém lhe abriu a porta. Tocou de novo e de novo, e começou a resmungar e a xingar baixinho. Mesmo assim, não lhe abriram a porta. A paciência de Nikanor Ivânovitch se esgotou e, tirando do bolso um molho de cópias das chaves que pertenciam à administração do prédio, abriu a porta com uma mão soberana e entrou.
Ei, empregada! — gritou Nikanor Ivânovitch na penumbra da entrada do apartamento. — Como é mesmo seu nome? Grúnia, ou o quê? Você não está?
Ninguém respondeu.
Então, Nikanor Ivânovitch tirou da maleta uma trena dobrável, em seguida tirou o lacre da porta do escritório e avançou. Entrar, ele entrou, mas parou estupefato na soleira da porta e até estremeceu.
À mesa do finado, estava sentado um cidadão desconhecido, magricela e comprido, de paletozinho xadrez, bonezinho de jóquei e pincenê... bom, em resumo, aquele mesmo.
Quem seria o senhor, cidadão? — perguntou Nikanor Ivânovitch, assustado.
Ah! Nikanor Ivânovitch! — vociferou em um tenor de taquara rachada o inusitado cidadão e, levantando-se de um salto, cumprimentou o presidente com um aperto de mão forçado e súbito. Nikanor Ivânovitch não ficou nada contente com esse cumprimento.
Perdão — começou a falar ele, desconfiado —, quem seria o senhor? O senhor é representante oficial?
Oh, Nikanor Ivânovitch! — exclamou o desconhecido, afetuoso. — O que significa ser representante oficial ou não oficial? Tudo isso depende de que ponto de vista você olha para o objeto. Tudo isso, Nikanor Ivânovitch, é relativo e instável. Hoje sou um representante não oficial, mas amanhã, quem sabe, um oficial! Mas acontece também o contrário, e como acontece!
Esse argumento não satisfez de forma alguma o presidente da administração do prédio. Sendo em geral uma pessoa desconfiada por natureza, ele concluiu que o cidadão verborrágico que estava diante dele era justamente um representante não oficial, e talvez até um desocupado.
Mas quem seria o senhor? Qual é o seu sobrenome? — perguntava o presidente, de forma cada vez mais severa e começando a avançar em direção ao desconhecido.
Meu sobrenome — respondeu o cidadão, sem se intimidar com o tom severo —, bom, digamos que seja Korôviev. Mas não quer um tira-gosto, Nikanor Ivânovitch? Não faça cerimônia, hein?
Perdão — disse Nikanor Ivânovitch, agora indignado —, mas que tira-gosto que nada! — É preciso reconhecer, mesmo que isso seja desagradável, que Nikanor Ivânovitch era um pouco grosseiro por natureza. — É proibido ficar nos aposentos do finado! O que o senhor está fazendo aqui?
Queira se sentar, Nikanor Ivânovitch — vociferou o cidadão, sem ficar nem um pouquinho perplexo, e começou a rodopiar, oferecendo uma poltrona ao presidente.
Tomado de fúria, Nikanor Ivânovitch recusou a poltrona e berrou:
Mas quem é o senhor?
Permita-me que eu me apresente. Estou aqui na qualidade de intérprete de um senhor estrangeiro, que reside nesse apartamento — apresentou-se aquele que dizia se chamar Korôviev, e bateu com o salto de sua botina castanho-avermelhada, toda suja.
Nikanor Ivânovitch ficou boquiaberto. A presença de um estrangeiro, ainda mais com um intérprete, naquele apartamento era para ele uma verdadeira surpresa que exigia explicações.
O intérprete explicou-se de bom grado. O senhor Woland, artista estrangeiro, fora gentilmente convidado pelo diretor do Teatro de Variedades, Stepán Bogdánovitch Likhodiêiev, a passar o tempo de sua turnê, por volta de uma semana, em seu apartamento, sobre o qual o mesmo havia escrito a Nikanor Ivânovitch ainda ontem, com a solicitação de registrar o estrangeiro como morador temporário, enquanto o próprio Likhodiêiev estivesse em viagem a Ialta.
Ele não me escreveu nada — disse o presidente, admirado.
E se o senhor procurar bem em sua pasta, Nikanor Ivânovitch? — propôs Korôviev, docemente.
Nikanor Ivânovitch deu de ombros, abriu a pasta e encontrou uma carta de Likhodiêiev.
Mas como é que pude me esquecer dela? — balbuciou Nikanor Ivânovitch, olhando para o envelope aberto, abobalhado.
Isso acontece, Nikanor Ivânovitch, isso acontece! — pôs-se a tagarelar Korôviev. — Distração, distração, estafa, hipertensão arterial, meu querido Nikanor Ivânovitch! Eu mesmo sou terrivelmente distraído. Um dia desses, a gente toma umas e contarei alguns fatos de minha biografia, o senhor vai morrer de rir!
Quando é mesmo que ele viaja para Ialta?
Ele já foi, foi embora! — gritou o intérprete. — Sabe, ele já está a caminho! Só o diabo sabe onde ele está! — Então o intérprete começou a agitar os braços como se fossem as asas de um moinho.
Nikanor Ivânovitch alegou que precisava ver o estrangeiro pessoalmente, mas recebeu uma resposta negativa do intérprete: era totalmente impossível. Ele está ocupado. Amestrando o gato.
Posso mostrar o gato, caso deseje — propôs Korôviev.
Foi a vez de Nikanor Ivânovitch recusar, e imediatamente o intérprete fez uma proposta inusitada mas bem interessante ao presidente.
Visto que o senhor Woland não desejava se hospedar em um hotel de jeito nenhum, e estava acostumado a viver em lugares espaçosos, será que a associação de moradores não poderia alugar para Woland o apartamento todo, ou seja, incluindo os cômodos do finado, por uma semaninha, enquanto durasse sua turnê em Moscou?
Afinal, para o finado é indiferente — sibilou Korôviev, sussurrando. — O senhor há de concordar, Nikanor Ivânovitch, de que serve esse apartamento para ele agora?
Nikanor Ivânovitch retrucou, com certa perplexidade, que os estrangeiros deveriam se hospedar no Metropol, nunca em apartamentos particulares...
Estou lhe dizendo, ele é teimoso como o diabo! — pôs-se a sussurrar Korôviev. — Não quer e pronto! Não gosta de hotéis! Estou por aqui desses turistas estrangeiros! — queixou-se Korôviev, em tom íntimo, cutucando seu pescoço nodoso com o dedo. — Acredite, encheram minha paciência! Eles vêm e ficam espionando como o pior filho da puta, ou amolando com seus caprichos: não faz assim, não é assado!.. Mas, para sua associação, Nikanor Ivânovitch, é uma verdadeira vantagem e lucro certo. Dinheiro não é problema para ele. — Korôviev olhou para os lados e em seguida cochichou no ouvido do presidente: — É milionário!
Na proposta do intérprete, havia um sentido prático claro, a proposta era muito concreta, mas havia algo incrivelmente inconcreto na sua maneira de falar, em sua roupa, e naquele pincenê repulsivo e que não servia para nada. Por conta disso, algo nebuloso angustiava o espírito do presidente, mas mesmo assim ele resolveu aceitar a proposta. A questão é que a associação de moradores enfrentava, que coisa, um deficit considerável. Até o outono seria necessário comprar combustível para a calefação a vapor e ninguém sabia com que grana. Mas com o dinheiro do turista estrangeiro, quem sabe, daria para sobreviver. Porém, Nikanor Ivânovitch, homem de negócio precavido, alegou que, antes de tudo, teria de acertar a questão com a agência de turistas estrangeiros.
Eu compreendo! — gritou Korôviev. — Como não dar um jeitinho? Claro! Aqui está o telefone, Nikanor Ivânovitch, e veja se dá esse jeitinho imediatamente! Quanto ao dinheiro, não faça cerimônia — acrescentou, sussurrando, arrastando o presidente até o telefone, na entrada. — Se não dele, de quem mais pegar dinheiro? Se o senhor visse que vila ele tem em Nice! No próximo verão, se o senhor for para o exterior, faça-lhe uma visitinha, e ficará boquiaberto!
O negócio com a agência de turistas estrangeiros foi resolvido por telefone com extraordinária rapidez, o que deixou o presidente admirado. Revelou-se que lá já sabiam das intenções do senhor Woland de hospedar-se no apartamento particular de Likhodiêiev e não se manifestaram nem um pouco contra a ideia.
Maravilha! — vociferava Korôviev.
Um pouco aturdido com o estardalhaço do outro, o presidente alegou que a associação de moradores concordava em alugar o apartamento número cinquenta ao artista Woland por uma semana pelo preço de... Nikanor Ivânovitch hesitou um pouco e disse:
De quinhentos rublos por dia.
Então Korôviev deixou o presidente extremamente espantado. Piscando com ar de ladrão em direção ao quarto, de onde se ouviram os pulos leves de um gato pesado, ele sibilou:
Assim sendo, uma semana sai por três mil e quinhentos?
Nikanor Ivânovitch pensou que a isso ele acrescentaria: “Nossa, que ambição do senhor, Nikanor Ivânovitch!”, mas Korôviev falou algo totalmente diferente:
Mas até parece que isso é quantia que se peça! Peça cinco, e ele dará.
Perplexo, com um sorriso malicioso, Nikanor Ivânovitch, sem saber como, encontrava-se do lado da mesa do finado, onde Korôviev, com a maior rapidez e esperteza, redigiu um contrato em duas vias. Depois disso, foi voando com ele até o quarto, e quando voltou a assinatura corrida do estrangeiro constava em ambas as vias. O presidente também assinou o contrato. Então Korôviev pediu um recibo de cinco...
Por extenso, por extenso, Nikanor Ivânovitch! ... Mil rublos... — E, usando palavras que não combinam com um negócio sério, disse: — Eins, zwei, drei! — E entregou ao presidente cinco maços de cédulas novinhas.
A contagem foi feita, entremeada com piadinhas e ditos de Korôviev, como “negócio é negócio”, “o meu olho é mais esperto” e outras coisas do gênero.
Depois de contar o dinheiro, o presidente recebeu de Korôviev o passaporte do estrangeiro para o registro temporário, colocou-o na pasta junto com o contrato e o dinheiro, e não se conteve, pediu uma entrada gratuita, envergonhado...
Mas que pergunta! — rugiu Korôviev. — Quantos ingressos o senhor quer, Nikanor Ivânovitch? Doze, quinze?
Aturdido, o presidente explicou que ele só precisava de um par de entradas gratuitas, para ele e Pelagueia Antônovna, sua esposa.
Korôviev sacou um bloquinho e, num vapt-vupt, criou para Nikanor Ivânovitch uma entrada gratuita, na primeira fileira, para duas pessoas. Esperto, com a mão esquerda, o intérprete enfiou essa entrada em uma das mãos de Nikanor Ivânovitch e, com a direita, colocou na outra mão do presidente, com um estalo, um maço volumoso. Nikanor Ivânovitch deu uma olhada para o maço, ficou muito ruborizado e começou a afastá-lo.
Não está certo... — balbuciou ele.
Não vou nem ouvir — cochichou Korôviev bem no seu ouvido. — Para nós, não está certo, mas para os estrangeiros, está. O senhor vai ofendê-lo, Nikanor Ivânovitch, não fica bem. Afinal, o senhor fez o seu trabalho...
A punição é severa — cochichou o presidente, em voz baixinha, baixinha, e olhou à sua volta.
Mas onde estão as testemunhas? — cochichou Korôviev na outra orelha. — Estou perguntando, onde estão? O que há com o senhor?
Então aconteceu, como afirmava posteriormente o presidente, um milagre: o maço deslizou por si só e entrou na sua pasta. Depois, o presidente, um tanto debilitado e até esfacelado, encontrou-se na escada. Um turbilhão de pensamentos fervilhava em sua cabeça. Giravam pela vila em Nice, o gato amestrado e a ideia de que realmente não havia testemunhas e de que Pelagueia Antônovna ficaria feliz com as entradas. Eram pensamentos desconexos, mas, de um modo geral, agradáveis. No entanto, uma agulha cutucava o presidente em algum lugar no fundo de sua alma. Era uma agulha de desassossego. Além disso, ali mesmo na escada, um pensamento o apanhou de surpresa, como um golpe: “Como é que o intérprete foi parar no escritório se a porta estava lacrada? E como ele, Nikanor Ivânovitch, não perguntou sobre isso?” Nikanor Ivânovitch ficou olhando para os degraus da escada um tempo, com cara de tacho, mas depois resolveu deixar tudo isso pra lá e não se atormentar mais com essa questão tão complicada...
Assim que o presidente deixou o apartamento, uma voz grave veio voando do quarto:
Não gostei desse Nikanor Ivânovitch. É um tratante e vigarista. Seria possível fazer com que não volte mais?
Meu senhor, basta ordenar! — retorquiu Korôviev de algum lugar, não com a voz trêmula, mas sim clara e sonora.
No mesmo instante o maldito intérprete viu-se na entrada, discou um número e começou, sabe-se lá por quê, a falar muito choroso para o fone:
Alô! Considero um dever informar que o presidente da nossa associação de moradores do prédio nº 302-bis, na rua Sadôvaia, Nikanor Ivânovitch Bossôi, anda especulando com moeda estrangeira. Nesse exato momento, em seu apartamento, número trinta e cinco, no duto de ventilação do banheiro, há quatrocentos dólares embrulhados em jornal. Quem fala é o inquilino do prédio citado, do apartamento número onze, Timofiêi Kvastsôv. Mas suplico que mantenham o meu nome em segredo. Temo vingança por parte do presidente acima referido.
E o desgraçado desligou o aparelho!
O que mais ocorreu no apartamento número cinquenta não se sabe, mas sabe-se o que ocorreu no apartamento de Nikanor Ivânovitch. Ele se trancou no banheiro, puxou o maço que o intérprete lhe impingiu e se certificou de que havia quatrocentos rublos. Nikanor Ivânovitch embrulhou esse maço num pedaço de jornal e escondeu no duto da ventilação.
Dali a cinco minutos, o presidente estava à mesa em sua pequena sala de jantar. Sua esposa trouxe da cozinha arenque em conserva, cuidadosamente cortado e salpicado com muita cebolinha. Nikanor Ivânovitch serviu uma tacinha de vodca, bebeu, serviu uma segunda, bebeu, espetou com o garfo três pedaços de arenque... e, nesse momento, tocaram a campainha. Pelagueia Antônovna trouxe uma panela fumegante e bastava um só olhar para imediatamente adivinhar que, dentro dela, bem no meio de um borsch pegando fogo, havia aquilo que era a coisa mais deliciosa do mundo: osso com tutano.
Com água na boca, Nikanor Ivânovitch começou a rosnar como um cão:
Sumam daqui! Não me deixam comer em paz. Não deixe ninguém entrar, eu não estou, não estou. Quanto ao apartamento, diga que parem de bisbilhotar. Daqui a uma semana haverá reunião...
A esposa correu até a entrada; com uma concha, Nikanor Ivânovitch retirou-o do lago que cuspia fogo — ele, o osso, rachado no sentido do comprimento. Nesse instante, dois cidadãos entraram na sala de jantar, e com eles Pelagueia Antônovna, sabe-se lá por quê, muito pálida. Quando olhou para os cidadãos, Nikanor Ivânovitch também embranqueceu e levantou-se.
Onde fica a privada? — perguntou, com um ar apreensivo, o primeiro, que estava de kossovorôtka branca.
Alguma coisa caiu sobre a mesa da sala de jantar (foi Nikanor Ivânovitch que deixou a concha cair sobre o oleado).
Aqui, aqui — respondeu Pelagueia Antônovna, falando como uma metralhadora.
Os recém-chegados dirigiram-se imediatamente para o corredor.
Qual é o problema? — perguntou, baixinho, Nikanor Ivânovitch, e os seguiu. — Não pode haver nada de mais em nosso apartamento... Seus documentos... Perdão…
O primeiro mostrou os documentos a Nikanor Ivânovitch, sem parar, e o segundo, no mesmo instante, já estava de pé em um banquinho dentro do banheiro, com o braço enfiado no duto da ventilação. Tudo se turvou diante dos olhos de Nikanor Ivânovitch. Tiraram o jornal, mas no maço encontravam-se não rublos, e sim um dinheiro desconhecido, azul ou verde, com a imagem de um velho. No entanto, Nikanor Ivânovitch não viu nada disso direito, diante de seus olhos flutuavam umas manchas.
Dólares na ventilação — disse o primeiro, pensativo, e perguntou a Nikanor Ivânovitch, doce e gentilmente: — Seu pacotinho?
Não! — respondeu Nikanor Ivânovitch, com uma voz terrível. — Inimigos plantaram isso aí!
Isso acontece — concordou aquele, e acrescentou novamente, do mesmo jeito doce: — Bom, precisa entregar o resto.
Não tenho nada! Não tenho, juro por Deus, nunca esteve nas minhas mãos! — gritou o presidente desesperadamente.
Ele se precipitou até a cômoda, com estrondo puxou a gaveta e dela a pasta, gritando de forma desconexa:
Aqui está o contrato... o intérprete nojento que tramou... Korôviev, de pincenê!
Ele abriu a maleta, olhou dentro, enfiou a mão, seu rosto ficou lívido e ele deixou a maleta cair no borsch. Não havia nada na maleta: nem a carta de Stiôpa, nem o contrato, nem o passaporte do estrangeiro, nem o dinheiro, nem as entradas gratuitas. Resumindo, nada além de uma trena dobrável.
Camaradas! — gritou o presidente, exaltado. — Peguem-nos! Espíritos impuros estão no nosso prédio!
Então não se sabe o que deu em Pelagueia Antônovna, mas ela ergueu as mãos e gritou:
Confesse, Iványtch! Você terá redução da pena!
Com os olhos injetados de sangue, Nikanor Ivânovitch ergueu os punhos sobre a cabeça da mulher, rouquejando:
Oh, maldita idiota!
Então ele se sentiu fraco e deixou-se cair em uma cadeira, pelo visto resolvido a aceitar o inevitável.
Nesse momento, no patamar da escada, Timofêi Kondrátievitch Kvastsôv punha às vezes uma orelha, às vezes um olho, no buraco da fechadura da porta do apartamento do presidente, não se aguentando de tanta curiosidade.
Dali a cinco minutos, os inquilinos do prédio, que estavam no pátio, viram quando o presidente, na companhia de mais dois tipos, foi direto até o portão do prédio. Dizem que Nikanor Ivânovitch estava mais pálido do que um defunto, que cambaleava, como um bêbado, quando passou, e que balbuciava algo.
E, dali a uma hora, um cidadão desconhecido apareceu no apartamento número onze, no mesmo momento em que Timofêi Kondrátievitch contava a outros inquilinos, exultando de prazer, como deram uma rasteira no presidente e, com o dedo, chamou a atenção de Timofêi Kondrátievitch da cozinha até a entrada, disse-lhe algo e sumiu junto com ele.

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida

15/06/2026

O Mestre e Margarida — 8



O duelo entre o professor e o poeta
No exato momento em que a consciência abandonou Stiôpa em Ialta, ou seja, por voltas das onze e meia da manhã, ela retornou a Ivan Nikoláievitch Bezdômny, que havia despertado depois de um sono longo e profundo. Durante algum tempo tentou raciocinar sobre o fato de ter ido parar naquele quarto desconhecido com paredes brancas, uma surpreendente mesinha de cabeceira de algum metal leve e uma persiana branca, por trás da qual se podia sentir o sol.
Ivan balançou a cabeça, certificou-se de que não estava doendo e lembrou-se de que estava em uma clínica. Esse pensamento trazia a lembrança da morte de Berlioz, mas hoje isso já não o abalava tanto. Depois de pôr o sono em dia, Ivan Nikoláievitch ficou mais tranquilo e começou a raciocinar com mais clareza. Após ficar algum tempo deitado, imóvel, naquela cama de molas bem limpa, macia e confortável, Ivan viu o botão de uma campainha ao seu lado. Como tinha o hábito de tocar em objetos mesmo sem necessidade, apertou o botão. Esperava que algum retinir ou alguma aparição viriam depois de apertá-lo, mas aconteceu algo totalmente diferente.
Aos pés da cama de Ivan acendeu-se um cilindro translúcido no qual estava escrito a palavra “Beber”. O cilindro ficou algum tempo parado, mas logo começou a girar até que surgiu a inscrição “Enfermeira”. Não é preciso dizer que Ivan ficou espantado com esse esperto cilindro. A inscrição “Enfermeira” foi substituída por “Chamem o doutor”.
Hum... — proferiu Ivan, sem saber o que mais fazer com aquele cilindro. Mas por acaso deu sorte: apertou o botão uma segunda vez na palavra “Assistente”. Em resposta o cilindro soou baixinho, parou, apagou-se e no quarto entrou uma simpática senhora roliça de jaleco branco, limpo, que disse a Ivan:
Bom dia!
Ivan não respondeu, pois considerou a saudação descabida diante das circunstâncias em que se encontrava. Realmente, trancafiaram um homem saudável em uma clínica e ainda fazem de conta que era assim mesmo que tinha de ser!
A mulher, no entanto, sem perder a expressão benevolente do rosto, levantou as cortinas com a ajuda de um apertão em um botão e o quarto foi invadido pelo sol através de uma grade larga, tortuosa e leve que descia até o chão. Do outro lado se abria uma varanda, e atrás dela se avistava a margem de um rio sinuoso e, na outra margem do rio, um alegre bosque de pinheiros.
Hora de tomar um banho — convidou a mulher e, ao alcance de suas mãos, abriu-se uma parede interna e atrás dela surgiu um banheiro maravilhosamente equipado.
Apesar de ter decidido não falar com a mulher, Ivan não resistiu e, quando viu como a água jorrava forte de uma torneira reluzente para a banheira, disse, com ironia:
Nossa! É como no Metropol!
Oh, não — respondeu a mulher, com orgulho —, é bem melhor. Esse equipamento não existe em lugar algum, nem no exterior. Cientistas e médicos vêm especialmente para inspecionar a nossa clínica. Turistas estrangeiros nos visitam todos os dias.
Ao ouvir as palavras “turistas estrangeiros”, Ivan lembrou-se imediatamente do consultor do dia anterior. Ficou taciturno, deu uma olhada, carrancudo, e disse:
Turistas estrangeiros... Como vocês todos adoram turistas estrangeiros, não? Mas no meio deles, entre outras coisas, encontra-se tudo quanto é tipo de gente. Eu, por exemplo, ontem conheci um, precisa ver!
Por pouco não começou a contar sobre Pôncio Pilatos, mas se segurou, entendendo que para a mulher aquelas histórias de nada serviriam, e que tanto fazia, ela não poderia ajudá-lo mesmo.
De banho tomado, imediatamente deram a Ivan Nikoláievitch tudo que um homem de fato precisava depois de um banho: uma camisa passada, ceroulas, meias. Mas isso ainda não era nada: abrindo a porta de um pequeno armário, a mulher apontou para dentro e perguntou:
O que o senhor deseja vestir, um roupão ou um pijama?
Vinculado à nova moradia à força, Ivan quase ergueu os braços por causa do atrevimento da mulher, mas, calado, indicou com o dedo um pijama de flanela cor de papoula.
Depois disso, Ivan Nikoláievitch foi conduzido pelo corredor vazio e silencioso até um consultório de proporções enormes. Ivan resolveu tratar com ironia tudo o que havia naquele prédio equipado às mil maravilhas e logo batizou mentalmente o gabinete de “cozinha industrial”.
E tinha motivo para tanto. Ali havia gaveteiros e pequenos armários de vidro com instrumentos reluzentes e niquelados. Havia poltronas de construção extraordinariamente complexa, luminárias abauladas com cúpulas brilhantes, uma infinidade de frascos, bicos de gás, fios elétricos e aparelhos totalmente desconhecidos para todo mundo.
No consultório, três pessoas tomavam conta de Ivan — duas mulheres e um homem, todos de branco. Antes de mais nada, levaram Ivan para um canto e sentaram-no diante de uma pequena mesa, com a visível intenção de fazê-lo falar.
Ivan começou a examinar a situação. Tinha três caminhos diante de si. O primeiro era extremamente fascinante: lançar-se sobre aquelas lâmpadas e coisas intrincadas e destroçá-las, mandá-las para o espaço; assim expressaria seu protesto por ter sido preso à toa. Porém, o Ivan de hoje se distinguia significativamente do Ivan de ontem, e o primeiro caminho pareceu-lhe duvidoso: se optasse por ele, o pensamento de que ele era um louco desgovernado se enraizaria neles. Por isso, Ivan descartou o primeiro caminho. Havia o segundo: começar o relato sobre o consultor e Pôncio Pilatos imediatamente. No entanto, a experiência do dia anterior demonstrara que não acreditavam em sua história ou a entendiam de maneira distorcida. Por isso Ivan também desistiu desse caminho e resolveu eleger o terceiro: trancafiar-se em um silêncio majestoso.
Não conseguiu realizar isso por completo e, querendo ou não, viu-se obrigado a responder, embora taciturno e carrancudo, uma série de perguntas. E arrancaram dele definitivamente tudo sobre seu passado, chegando ao ponto de perguntar como e quando teve escarlatina, uns quinze anos antes. Depois de preencherem uma página inteira com suas respostas, viraram a folha e a mulher de branco passou a indagar sobre os parentes de Ivan. Iniciou-se uma verdadeira ladainha: quem morreu, quando, por quê, se bebia, se teve doenças venéreas e coisas do gênero. Para concluir, pediram que contasse sobre o acontecimento, desgraça, evento, incidente, infortúnio do dia anterior em Patriarchi Prudý, mas não insistiram muito e não se espantaram com a informação sobre Pôncio Pilatos.
Em seguida a mulher passou Ivan para o homem, que se ocupou dele de maneira diferente e já não perguntou mais nada. Ele tirou sua temperatura, tomou o pulso, examinou seus olhos, iluminando-os com uma espécie de lâmpada. Depois, a outra mulher veio ajudar o homem e furaram as costas de Ivan com alguma coisa, mas não doeu nada; com o cabo de um martelinho desenharam sobre a pele de seu peito alguns sinais; bateram nos joelhos com o martelinho, o que fez as pernas de Ivan pularem; furaram seu dedo e tiraram sangue, furaram a dobra interna do braço na altura do cotovelo e colocaram uma espécie de braceletes emborrachados nos braços…
Ivan apenas sorria para si, malicioso e amargo, e remoía como tudo aquilo acontecera de maneira tola e estranha. Imaginem só! Queria precaver todo mundo contra o perigo que representava aquele consultor desconhecido, pretendia agarrá-lo, mas tudo o que conseguiu foi parar em um misterioso consultório para contar tudo quanto é tipo de asneira sobre o tio Fiôdor, que bebia até cair em Vôlogda. Insuportavelmente tolo!
Finalmente o soltaram. Ele foi acompanhado de volta para seu quarto, onde recebeu uma xícara de café, dois ovos cozidos moles e pão branco com manteiga.
Depois de comer e beber o que lhe foi oferecido, Ivan resolveu esperar algum chefe daquela instituição chegar e tentar conseguir tanto atenção como justiça.
E ele chegou, logo depois do café da manhã. A porta do quarto de Ivan abriu-se de maneira inesperada e por ela entrou uma infinidade de pessoas de jaleco branco. À frente de todos, caminhava um homem de uns quarenta e cinco anos, meticuloso, barbeado à maneira dos artistas de cinema, olhos agradáveis, mas muito penetrantes, e maneiras educadas. A comitiva inteira lhe dispensava sinais de atenção e respeito e, por isso, sua entrada acabou sendo muito solene. “Como Pôncio Pilatos!”, pensou Ivan.
É, sem dúvida, esse era o chefe. Ele se sentou em um banco, enquanto os outros ficaram de pé.
Doutor Stravinski — o homem apresentou-se a Ivan enquanto se sentava e olhou para ele com afabilidade.
Aqui está, Aleksandr Nikoláievitch — disse em voz baixa alguém com uma barbicha bem cuidada e entregou ao chefe uma folha toda preenchida.
Arranjaram um verdadeiro dossiê!”, pensou Ivan. O chefe percorreu a folha com olhos acostumados, balbuciou “uh-hum, uh-hum...” e trocou algumas frases com os que estavam ao redor em uma língua pouco conhecida.
E fala latim, como Pilatos...”, pensou Ivan, triste. Então uma palavra o fez estremecer, e essa palavra era “esquizofrenia”, que coisa, que já tinha sido pronunciada ontem pelo maldito estrangeiro em Patriarchi Prudý, e hoje era repetida aqui pelo doutor Stravinski.
Também disso ele sabia!”, pensou Ivan, aflito.
O chefe, pelo visto, tinha como regra concordar e contentar-se com tudo que lhe dissessem os que estavam ao redor, expressando isso com as palavras “muito bem, muito bem...”.
Muito bem! — disse Stravinski, devolvendo a folha para alguém, e dirigiu-se a Ivan: — O senhor é poeta?
Sou poeta — respondeu Ivan, sombrio, e de repente sentiu pela primeira vez uma inexplicável aversão à poesia, e seus próprios poemas, que súbito lhe vieram à memória, sabe-se lá por que lhe pareceram desagradáveis.
Por sua vez, ele perguntou a Stravinski, franzindo o rosto:
O senhor é doutor?
Ao que Stravinski inclinou a cabeça, precavido e respeitoso.
E o senhor é o chefe daqui? — continuou Ivan.
Stravinski também fez uma reverência.
Preciso falar com o senhor — disse Ivan Nikoláievitch, com ar de importância.
É para isso que estou aqui — retorquiu Stravinski.
A questão é a seguinte — começou Ivan, sentindo que tinha chegado a sua hora. — Tomaram-me por louco e ninguém deseja me ouvir!
Oh, não, vamos escutá-lo com muita atenção — disse Stravinski, em tom sério e tranquilizador — e não permitiremos que o tomem por louco em hipótese alguma.
Então, ouça: ontem à noite, conheci em Patriarchi Prudý um indivíduo misterioso, um estrangeiro de meia-tigela, que sabia da morte de Berlioz de antemão e viu Pôncio Pilatos pessoalmente.
A comitiva ouvia o poeta muda, imóvel.
Pilatos? Pilatos, aquele que viveu na época de Jesus Cristo? — perguntou Stravinski, apertando os olhos para Ivan.
Esse mesmo.
A-hã — disse Stravinski. — E esse Berlioz morreu debaixo de um bonde?
Justamente, ele foi degolado por um bonde ontem, em Patriarchi, diante de meus olhos, e esse mesmo cidadão enigmático...
O conhecido de Pôncio Pilatos? — perguntou Stravinski, que, pelo visto, se distinguia por sua grande compreensão.
Justamente ele — confirmou Ivan, estudando Stravinski. — Então, ele disse, de antemão, que Ánnuchka derramaria o óleo de girassol... E Berlioz escorregou bem naquele lugar! O que o senhor acha disso? — quis saber Ivan, com ar de importância, esperando causar grande efeito com suas palavras.
Mas esse efeito não se deu e Stravinski simplesmente fez a próxima pergunta:
E quem é essa Ánnuchka?
A pergunta deixou Ivan um pouco transtornado, seu rosto contorceu-se.
Ánnuchka não tem nenhuma importância aqui — disse ele, fora de si. — Vai saber diabo quem é ela! Só uma idiota qualquer da Sadôvaia. O importante é que ele sabia de antemão, entende, do óleo de girassol! O senhor está me entendendo?
Entendo perfeitamente — respondeu Stravinski seriamente, e, tocando os joelhos do poeta, acrescentou: — Não se inquiete, continue.
Vou continuar — disse Ivan, tentando acompanhar o tom de Stravinski; já sabia, por sua amarga experiência, que somente a tranquilidade o ajudaria. — Então, esse tipo horroroso, e ele mente que é consultor, é dotado de uma força extraordinária... Por exemplo, você o persegue, mas não há possibilidade de alcançá-lo. E ele anda com mais dois sujeitinhos, também dos bons, mas cada um no seu estilo: um alto de lentes quebradas, e, além desse daí, há também um gato de proporções incríveis, que anda de bonde sozinho. Além disso — sem ser interrompido por ninguém, Ivan falava com cada vez mais ardor e convicção —, ele esteve na varanda de Pôncio Pilatos pessoalmente, sem sombra de dúvida. O que significa isso? Hein? Ele precisa ser preso imediatamente, do contrário causará desgraças indescritíveis.
Então o senhor está tentando prendê-lo? Entendi bem?
Ele é inteligente”, pensou Ivan. “Deve-se reconhecer que em meio aos membros da intelligentsia1 também é possível encontrar uns de inteligência rara. Não dá para negar isso.” E respondeu:
Muito bem! E como não tentar, pense bem! Enquanto isso, detiveram-me aqui à força, enfiaram uma lâmpada nos olhos, dão banho de banheira e fazem perguntas sobre o tio Fiêdia!... Mas já faz tempo que ele não está nesse mundo! Exijo que me soltem imediatamente.
Bom, muito bem, muito bem! — retorquiu Stravinski. — Então, tudo foi esclarecido. Realmente, que sentido tem deter um homem saudável em uma clínica? Tudo bem. Eu lhe darei alta daqui agora mesmo, se o senhor me disser que é normal. Não precisa provar, é só dizer. Então, o senhor é normal?
Fez-se silêncio absoluto. A mulher gorda, que cuidara de Ivan de manhã, olhou para o doutor com devoção, e Ivan pensou mais uma vez: “Definitivamente inteligente.”
Ele gostou muito da proposta do doutor, mas, antes de responder, pensou e repensou, franzindo a testa, e, finalmente, disse, com firmeza:
Eu sou normal.
Então muito bem — exclamou Stravinski, aliviado. — Se é assim, vamos raciocinar logicamente. Tomemos o seu dia de ontem. — Ele se virou e imediatamente lhe entregaram a folha de Ivan. — Em busca de um homem desconhecido, que se apresentou como conhecido de Pôncio Pilatos, o senhor realizou as seguintes ações ontem — Stravinski começou a dobrar seus dedos compridos, olhando ora para a folha, ora para Ivan. — Pendurou um ícone no peito. Não foi?
Foi — concordou Ivan, carrancudo.
Despencou de uma cerca e feriu o rosto. Certo? Apareceu em um restaurante com uma vela acesa na mão, só de roupa de baixo e lá bateu em alguém. Foi trazido para cá amarrado. Uma vez aqui, o senhor ligou para a polícia e pediu que enviassem metralhadoras. Depois, fez uma tentativa de se atirar pela janela. Certo? Pergunta-se: será que é possível, agindo dessa maneira, agarrar ou prender alguém? Se é uma pessoa normal, o senhor mesmo vai responder: de maneira alguma. O senhor quer sair daqui? À vontade. Mas me permita lhe perguntar, para onde o senhor pretende ir?
Até a polícia, claro — respondeu Ivan, já sem a mesma firmeza e se perdendo um pouco diante do olhar do doutor.
Direto daqui?
A-hã.
E não vai passar no seu apartamento? — perguntou rapidamente Stravinski.
Não há tempo para passar lá! Enquanto eu ficar dando voltas pelo apartamento, ele vai escapulir!
Certo. E o que dirá à polícia, antes de mais nada?
Sobre Pôncio Pilatos — respondeu Ivan Nikoláievitch, e seus olhos cobriram-se com uma névoa sombria.
Então, muito bem! — exclamou Stravinski, resignado, virando-se para aquele de barbicha, e ordenou: — Fiódor Vassílievitch, dê alta, por favor, ao cidadão Bezdômny, para que ele vá à cidade. Mas não coloque ninguém naquele quarto e não precisa trocar a roupa de cama. Daqui a duas horas o cidadão Bezdômny estará aqui de novo. Bom — voltou-se ele para o poeta —, não vou desejar-lhe êxito, porque não acredito nem um bocado nessa sorte. Até daqui a pouco! — Ele se levantou e sua comitiva se movimentou.
Por que razão estarei aqui de novo? — perguntou Ivan, aflito.
Stravinski parecia esperar essa pergunta e sentou-se imediatamente, dizendo:
Porque, assim que o senhor aparecer na polícia de ceroulas e disser que viu um homem que conheceu Pôncio Pilatos pessoalmente, será trazido para cá no mesmo instante, e de novo se encontrará naquele mesmo quarto.
O que as ceroulas têm a ver com isso? — perguntou Ivan, olhando ao redor, perplexo.
A razão principal é Pôncio Pilatos. Mas as ceroulas também. Veja bem, nós vamos recolher a roupa emprestada do Estado e devolveremos a roupa que você trajava ao chegar aqui. Mais precisamente, ceroulas. Entretanto, o senhor não pretende ir até o seu apartamento de jeito o nenhum, apesar de eu ter lhe sugerido isso. A seguir, vem Pilatos... e o negócio está fechado!
Então aconteceu algo estranho com Ivan Nikoláievitch. Sua vontade pareceu se fender e ele se sentiu fraco, precisava de um conselho.
Mas o que fazer? — perguntou ele, dessa vez tímido.
Então muito bem! — retorquiu Stravinski. — É uma pergunta muito razoável. Agora, vou lhe dizer o que aconteceu com o senhor de verdade. Ontem, alguém o deixou muito assustado e transtornado com uma história sobre Pôncio Pilatos e outras coisas. Então, o senhor, um homem muito nervoso e irritadiço, saiu pela cidade falando sobre Pôncio Pilatos. É totalmente natural que o tomem por louco. O senhor só tem uma salvação agora: repouso absoluto. É imprescindível que o senhor fique aqui.
Mas ele precisa ser agarrado! — exclamou Ivan, agora implorando.
Tudo bem, mas por que você mesmo precisa persegui-lo? Ponha no papel todas as suas suspeitas e acusações contra essa pessoa. Não há nada mais simples do que enviar sua declaração para o local apropriado, e caso se trate, como o senhor supõe, de estarmos lidando com um criminoso, tudo isso será esclarecido muito rapidamente. Mas com uma condição: não vá quebrar a cabeça e procure pensar menos em Pôncio Pilatos. Sabe-se lá o que contam por aí! Não se deve acreditar em tudo.
Entendi! — declarou Ivan, decidido. — Peço que me deem papel e caneta.
Dê-lhe papel e um lápis pequeno — ordenou Stravinski à mulher gorda, e a Ivan disse o seguinte: — Mas eu o aconselho a não escrever hoje.
Não, não, tem que ser hoje, hoje, é imprescindível — gritou Ivan, com aflição.
Tudo bem. Só que não vá fundir o cérebro. Se não der certo hoje, vai dar amanhã.
Ele vai fugir!
Oh, não — retrucou Stravinski com segurança —, ele não fugirá para lugar algum, isso eu lhe garanto. Lembre-se que aqui ajudarão o senhor com tudo que for possível, e sem isso nada vai dar certo para o senhor. Está me ouvindo? — perguntou Stravinski de repente, com ar de importância, e tomou as duas mãos de Ivan Nikoláievitch. Segurando-as nas suas, e fixando um olhar demorado em Ivan, ele repetiu: — Aqui o ajudarão... está me ouvindo?... Aqui o ajudarão... O senhor se sentirá aliviado. É silencioso e tranquilo aqui... Aqui o ajudarão...
Inesperadamente, Ivan Nikoláievitch bocejou, a expressão de seu rosto se aplacou.
Isso, isso — disse ele em voz baixa.
Então muito bem! — Stravinski concluiu a conversa como estava acostumado e levantou-se. — Até logo! — Apertou a mão de Ivan e, já de saída, virou-se para aquele de barbicha e disse: — Isso, experimente oxigênio... e banhos.
Alguns instantes depois, diante de Ivan não havia mais nem Stravinski, nem a comitiva. Do outro lado da tela da janela, sob o sol do meio-dia, o bosque alegre e primaveril resplandecia às margens do rio, que brilhava um pouco mais próximo.

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida