04/07/2026

O Mestre e Margarida | 9



Truques de Korôviev

Nikanor Ivânovitch Bossôi, presidente da associação de moradores do prédio nº 302-bis, à rua Sadôvaia, em Moscou, onde morava o finado Berlioz, estava terrivelmente atribulado, começando pela noite precedente, de quarta para quinta-feira.
À meia-noite, como já sabemos, uma comissão da qual Jeldýbin fazia parte chegou ao prédio, chamou Nikanor Ivânovitch, informou-o sobre a morte de Berlioz e, junto com ele, dirigiu-se para o apartamento número 50.
Ali, lacraram os manuscritos e os pertences do finado. Nem Grúnia, a empregada, que não morava lá, nem o leviano Stepán Bogdánovitch estavam no apartamento naquele momento. A comissão declarou a Nikanor Ivânovitch que os manuscritos do finado seriam levados para verificação, que sua parte da casa, ou seja, três cômodos (os antigos escritório, sala de visita e sala de jantar da mulher do joalheiro), ficaria à disposição da associação de moradores e que seus pertences deveriam ser guardados nessa área do apartamento até a reclamação dos herdeiros.
A notícia sobre o falecimento de Berlioz espalhou-se por todo o prédio com uma rapidez sobrenatural e, a partir de sete horas da manhã de quinta-feira, começaram a telefonar para Bossôi, e depois também a aparecer pessoalmente com declarações que continham a intenção de ocupar a parte da casa do finado. Em duas horas, Nikanor Ivânovitch recebeu trinta e duas declarações desse tipo.
Nelas, havia súplicas, ameaças, intrigas, denúncias, promessas de realizar reforma por conta própria, reclamações sobre o aperto insuportável e sobre a impossibilidade de viver num mesmo apartamento com bandidos. Entre outras coisas, havia uma descrição, estupenda por sua força artística, do roubo de pelmiêni1 do apartamento número trinta e um, que haviam sido colocados, como se fosse a coisa mais natural do mundo, no bolso de um paletó; havia duas promessas de acabarem com suas vidas por meio de suicídio e uma confissão de gravidez secreta.
Chamavam Nikanor Ivânovitch até a entrada do seu apartamento, agarravam-no pela manga, cochichavam-lhe alguma coisa, piscavam e prometiam pagar pelo favor.
Esse tormento prolongou-se até o meio-dia, quando Nikanor Ivânovitch simplesmente fugiu de seu apartamento para a sala de administração, próxima do portão, mas quando percebeu que também ali o espreitavam, fugiu de lá também. Mal conseguindo se livrar daquelas pessoas que estavam ao seu encalço pelo pátio de asfalto, Nikanor Ivânovitch escondeu-se na sexta entrada e subiu até o quinto andar, exatamente onde se localizava aquele asqueroso apartamento de número cinquenta.
Depois de conseguir se recompor, o gorducho Nikanor Ivânovitch tocou a campainha, mas ninguém lhe abriu a porta. Tocou de novo e de novo, e começou a resmungar e a xingar baixinho. Mesmo assim, não lhe abriram a porta. A paciência de Nikanor Ivânovitch se esgotou e, tirando do bolso um molho de cópias das chaves que pertenciam à administração do prédio, abriu a porta com uma mão soberana e entrou.
Ei, empregada! — gritou Nikanor Ivânovitch na penumbra da entrada do apartamento. — Como é mesmo seu nome? Grúnia, ou o quê? Você não está?
Ninguém respondeu.
Então, Nikanor Ivânovitch tirou da maleta uma trena dobrável, em seguida tirou o lacre da porta do escritório e avançou. Entrar, ele entrou, mas parou estupefato na soleira da porta e até estremeceu.
À mesa do finado, estava sentado um cidadão desconhecido, magricela e comprido, de paletozinho xadrez, bonezinho de jóquei e pincenê... bom, em resumo, aquele mesmo.
Quem seria o senhor, cidadão? — perguntou Nikanor Ivânovitch, assustado.
Ah! Nikanor Ivânovitch! — vociferou em um tenor de taquara rachada o inusitado cidadão e, levantando-se de um salto, cumprimentou o presidente com um aperto de mão forçado e súbito. Nikanor Ivânovitch não ficou nada contente com esse cumprimento.
Perdão — começou a falar ele, desconfiado —, quem seria o senhor? O senhor é representante oficial?
Oh, Nikanor Ivânovitch! — exclamou o desconhecido, afetuoso. — O que significa ser representante oficial ou não oficial? Tudo isso depende de que ponto de vista você olha para o objeto. Tudo isso, Nikanor Ivânovitch, é relativo e instável. Hoje sou um representante não oficial, mas amanhã, quem sabe, um oficial! Mas acontece também o contrário, e como acontece!
Esse argumento não satisfez de forma alguma o presidente da administração do prédio. Sendo em geral uma pessoa desconfiada por natureza, ele concluiu que o cidadão verborrágico que estava diante dele era justamente um representante não oficial, e talvez até um desocupado.
Mas quem seria o senhor? Qual é o seu sobrenome? — perguntava o presidente, de forma cada vez mais severa e começando a avançar em direção ao desconhecido.
Meu sobrenome — respondeu o cidadão, sem se intimidar com o tom severo —, bom, digamos que seja Korôviev. Mas não quer um tira-gosto, Nikanor Ivânovitch? Não faça cerimônia, hein?
Perdão — disse Nikanor Ivânovitch, agora indignado —, mas que tira-gosto que nada! — É preciso reconhecer, mesmo que isso seja desagradável, que Nikanor Ivânovitch era um pouco grosseiro por natureza. — É proibido ficar nos aposentos do finado! O que o senhor está fazendo aqui?
Queira se sentar, Nikanor Ivânovitch — vociferou o cidadão, sem ficar nem um pouquinho perplexo, e começou a rodopiar, oferecendo uma poltrona ao presidente.
Tomado de fúria, Nikanor Ivânovitch recusou a poltrona e berrou:
Mas quem é o senhor?
Permita-me que eu me apresente. Estou aqui na qualidade de intérprete de um senhor estrangeiro, que reside nesse apartamento — apresentou-se aquele que dizia se chamar Korôviev, e bateu com o salto de sua botina castanho-avermelhada, toda suja.
Nikanor Ivânovitch ficou boquiaberto. A presença de um estrangeiro, ainda mais com um intérprete, naquele apartamento era para ele uma verdadeira surpresa que exigia explicações.
O intérprete explicou-se de bom grado. O senhor Woland, artista estrangeiro, fora gentilmente convidado pelo diretor do Teatro de Variedades, Stepán Bogdánovitch Likhodiêiev, a passar o tempo de sua turnê, por volta de uma semana, em seu apartamento, sobre o qual o mesmo havia escrito a Nikanor Ivânovitch ainda ontem, com a solicitação de registrar o estrangeiro como morador temporário, enquanto o próprio Likhodiêiev estivesse em viagem a Ialta.
Ele não me escreveu nada — disse o presidente, admirado.
E se o senhor procurar bem em sua pasta, Nikanor Ivânovitch? — propôs Korôviev, docemente.
Nikanor Ivânovitch deu de ombros, abriu a pasta e encontrou uma carta de Likhodiêiev.
Mas como é que pude me esquecer dela? — balbuciou Nikanor Ivânovitch, olhando para o envelope aberto, abobalhado.
Isso acontece, Nikanor Ivânovitch, isso acontece! — pôs-se a tagarelar Korôviev. — Distração, distração, estafa, hipertensão arterial, meu querido Nikanor Ivânovitch! Eu mesmo sou terrivelmente distraído. Um dia desses, a gente toma umas e contarei alguns fatos de minha biografia, o senhor vai morrer de rir!
Quando é mesmo que ele viaja para Ialta?
Ele já foi, foi embora! — gritou o intérprete. — Sabe, ele já está a caminho! Só o diabo sabe onde ele está! — Então o intérprete começou a agitar os braços como se fossem as asas de um moinho.
Nikanor Ivânovitch alegou que precisava ver o estrangeiro pessoalmente, mas recebeu uma resposta negativa do intérprete: era totalmente impossível. Ele está ocupado. Amestrando o gato.
Posso mostrar o gato, caso deseje — propôs Korôviev.
Foi a vez de Nikanor Ivânovitch recusar, e imediatamente o intérprete fez uma proposta inusitada mas bem interessante ao presidente.
Visto que o senhor Woland não desejava se hospedar em um hotel de jeito nenhum, e estava acostumado a viver em lugares espaçosos, será que a associação de moradores não poderia alugar para Woland o apartamento todo, ou seja, incluindo os cômodos do finado, por uma semaninha, enquanto durasse sua turnê em Moscou?
Afinal, para o finado é indiferente — sibilou Korôviev, sussurrando. — O senhor há de concordar, Nikanor Ivânovitch, de que serve esse apartamento para ele agora?
Nikanor Ivânovitch retrucou, com certa perplexidade, que os estrangeiros deveriam se hospedar no Metropol, nunca em apartamentos particulares...
Estou lhe dizendo, ele é teimoso como o diabo! — pôs-se a sussurrar Korôviev. — Não quer e pronto! Não gosta de hotéis! Estou por aqui desses turistas estrangeiros! — queixou-se Korôviev, em tom íntimo, cutucando seu pescoço nodoso com o dedo. — Acredite, encheram minha paciência! Eles vêm e ficam espionando como o pior filho da puta, ou amolando com seus caprichos: não faz assim, não é assado!.. Mas, para sua associação, Nikanor Ivânovitch, é uma verdadeira vantagem e lucro certo. Dinheiro não é problema para ele. — Korôviev olhou para os lados e em seguida cochichou no ouvido do presidente: — É milionário!
Na proposta do intérprete, havia um sentido prático claro, a proposta era muito concreta, mas havia algo incrivelmente inconcreto na sua maneira de falar, em sua roupa, e naquele pincenê repulsivo e que não servia para nada. Por conta disso, algo nebuloso angustiava o espírito do presidente, mas mesmo assim ele resolveu aceitar a proposta. A questão é que a associação de moradores enfrentava, que coisa, um deficit considerável. Até o outono seria necessário comprar combustível para a calefação a vapor e ninguém sabia com que grana. Mas com o dinheiro do turista estrangeiro, quem sabe, daria para sobreviver. Porém, Nikanor Ivânovitch, homem de negócio precavido, alegou que, antes de tudo, teria de acertar a questão com a agência de turistas estrangeiros.
Eu compreendo! — gritou Korôviev. — Como não dar um jeitinho? Claro! Aqui está o telefone, Nikanor Ivânovitch, e veja se dá esse jeitinho imediatamente! Quanto ao dinheiro, não faça cerimônia — acrescentou, sussurrando, arrastando o presidente até o telefone, na entrada. — Se não dele, de quem mais pegar dinheiro? Se o senhor visse que vila ele tem em Nice! No próximo verão, se o senhor for para o exterior, faça-lhe uma visitinha, e ficará boquiaberto!
O negócio com a agência de turistas estrangeiros foi resolvido por telefone com extraordinária rapidez, o que deixou o presidente admirado. Revelou-se que lá já sabiam das intenções do senhor Woland de hospedar-se no apartamento particular de Likhodiêiev e não se manifestaram nem um pouco contra a ideia.
Maravilha! — vociferava Korôviev.
Um pouco aturdido com o estardalhaço do outro, o presidente alegou que a associação de moradores concordava em alugar o apartamento número cinquenta ao artista Woland por uma semana pelo preço de... Nikanor Ivânovitch hesitou um pouco e disse:
De quinhentos rublos por dia.
Então Korôviev deixou o presidente extremamente espantado. Piscando com ar de ladrão em direção ao quarto, de onde se ouviram os pulos leves de um gato pesado, ele sibilou:
Assim sendo, uma semana sai por três mil e quinhentos?
Nikanor Ivânovitch pensou que a isso ele acrescentaria: “Nossa, que ambição do senhor, Nikanor Ivânovitch!”, mas Korôviev falou algo totalmente diferente:
Mas até parece que isso é quantia que se peça! Peça cinco, e ele dará.
Perplexo, com um sorriso malicioso, Nikanor Ivânovitch, sem saber como, encontrava-se do lado da mesa do finado, onde Korôviev, com a maior rapidez e esperteza, redigiu um contrato em duas vias. Depois disso, foi voando com ele até o quarto, e quando voltou a assinatura corrida do estrangeiro constava em ambas as vias. O presidente também assinou o contrato. Então Korôviev pediu um recibo de cinco...
Por extenso, por extenso, Nikanor Ivânovitch! ... Mil rublos... — E, usando palavras que não combinam com um negócio sério, disse: — Eins, zwei, drei! — E entregou ao presidente cinco maços de cédulas novinhas.
A contagem foi feita, entremeada com piadinhas e ditos de Korôviev, como “negócio é negócio”, “o meu olho é mais esperto” e outras coisas do gênero.
Depois de contar o dinheiro, o presidente recebeu de Korôviev o passaporte do estrangeiro para o registro temporário, colocou-o na pasta junto com o contrato e o dinheiro, e não se conteve, pediu uma entrada gratuita, envergonhado...
Mas que pergunta! — rugiu Korôviev. — Quantos ingressos o senhor quer, Nikanor Ivânovitch? Doze, quinze?
Aturdido, o presidente explicou que ele só precisava de um par de entradas gratuitas, para ele e Pelagueia Antônovna, sua esposa.
Korôviev sacou um bloquinho e, num vapt-vupt, criou para Nikanor Ivânovitch uma entrada gratuita, na primeira fileira, para duas pessoas. Esperto, com a mão esquerda, o intérprete enfiou essa entrada em uma das mãos de Nikanor Ivânovitch e, com a direita, colocou na outra mão do presidente, com um estalo, um maço volumoso. Nikanor Ivânovitch deu uma olhada para o maço, ficou muito ruborizado e começou a afastá-lo.
Não está certo... — balbuciou ele.
Não vou nem ouvir — cochichou Korôviev bem no seu ouvido. — Para nós, não está certo, mas para os estrangeiros, está. O senhor vai ofendê-lo, Nikanor Ivânovitch, não fica bem. Afinal, o senhor fez o seu trabalho...
A punição é severa — cochichou o presidente, em voz baixinha, baixinha, e olhou à sua volta.
Mas onde estão as testemunhas? — cochichou Korôviev na outra orelha. — Estou perguntando, onde estão? O que há com o senhor?
Então aconteceu, como afirmava posteriormente o presidente, um milagre: o maço deslizou por si só e entrou na sua pasta. Depois, o presidente, um tanto debilitado e até esfacelado, encontrou-se na escada. Um turbilhão de pensamentos fervilhava em sua cabeça. Giravam pela vila em Nice, o gato amestrado e a ideia de que realmente não havia testemunhas e de que Pelagueia Antônovna ficaria feliz com as entradas. Eram pensamentos desconexos, mas, de um modo geral, agradáveis. No entanto, uma agulha cutucava o presidente em algum lugar no fundo de sua alma. Era uma agulha de desassossego. Além disso, ali mesmo na escada, um pensamento o apanhou de surpresa, como um golpe: “Como é que o intérprete foi parar no escritório se a porta estava lacrada? E como ele, Nikanor Ivânovitch, não perguntou sobre isso?” Nikanor Ivânovitch ficou olhando para os degraus da escada um tempo, com cara de tacho, mas depois resolveu deixar tudo isso pra lá e não se atormentar mais com essa questão tão complicada...
Assim que o presidente deixou o apartamento, uma voz grave veio voando do quarto:
Não gostei desse Nikanor Ivânovitch. É um tratante e vigarista. Seria possível fazer com que não volte mais?
Meu senhor, basta ordenar! — retorquiu Korôviev de algum lugar, não com a voz trêmula, mas sim clara e sonora.
No mesmo instante o maldito intérprete viu-se na entrada, discou um número e começou, sabe-se lá por quê, a falar muito choroso para o fone:
Alô! Considero um dever informar que o presidente da nossa associação de moradores do prédio nº 302-bis, na rua Sadôvaia, Nikanor Ivânovitch Bossôi, anda especulando com moeda estrangeira. Nesse exato momento, em seu apartamento, número trinta e cinco, no duto de ventilação do banheiro, há quatrocentos dólares embrulhados em jornal. Quem fala é o inquilino do prédio citado, do apartamento número onze, Timofiêi Kvastsôv. Mas suplico que mantenham o meu nome em segredo. Temo vingança por parte do presidente acima referido.
E o desgraçado desligou o aparelho!
O que mais ocorreu no apartamento número cinquenta não se sabe, mas sabe-se o que ocorreu no apartamento de Nikanor Ivânovitch. Ele se trancou no banheiro, puxou o maço que o intérprete lhe impingiu e se certificou de que havia quatrocentos rublos. Nikanor Ivânovitch embrulhou esse maço num pedaço de jornal e escondeu no duto da ventilação.
Dali a cinco minutos, o presidente estava à mesa em sua pequena sala de jantar. Sua esposa trouxe da cozinha arenque em conserva, cuidadosamente cortado e salpicado com muita cebolinha. Nikanor Ivânovitch serviu uma tacinha de vodca, bebeu, serviu uma segunda, bebeu, espetou com o garfo três pedaços de arenque... e, nesse momento, tocaram a campainha. Pelagueia Antônovna trouxe uma panela fumegante e bastava um só olhar para imediatamente adivinhar que, dentro dela, bem no meio de um borsch pegando fogo, havia aquilo que era a coisa mais deliciosa do mundo: osso com tutano.
Com água na boca, Nikanor Ivânovitch começou a rosnar como um cão:
Sumam daqui! Não me deixam comer em paz. Não deixe ninguém entrar, eu não estou, não estou. Quanto ao apartamento, diga que parem de bisbilhotar. Daqui a uma semana haverá reunião...
A esposa correu até a entrada; com uma concha, Nikanor Ivânovitch retirou-o do lago que cuspia fogo — ele, o osso, rachado no sentido do comprimento. Nesse instante, dois cidadãos entraram na sala de jantar, e com eles Pelagueia Antônovna, sabe-se lá por quê, muito pálida. Quando olhou para os cidadãos, Nikanor Ivânovitch também embranqueceu e levantou-se.
Onde fica a privada? — perguntou, com um ar apreensivo, o primeiro, que estava de kossovorôtka branca.
Alguma coisa caiu sobre a mesa da sala de jantar (foi Nikanor Ivânovitch que deixou a concha cair sobre o oleado).
Aqui, aqui — respondeu Pelagueia Antônovna, falando como uma metralhadora.
Os recém-chegados dirigiram-se imediatamente para o corredor.
Qual é o problema? — perguntou, baixinho, Nikanor Ivânovitch, e os seguiu. — Não pode haver nada de mais em nosso apartamento... Seus documentos... Perdão…
O primeiro mostrou os documentos a Nikanor Ivânovitch, sem parar, e o segundo, no mesmo instante, já estava de pé em um banquinho dentro do banheiro, com o braço enfiado no duto da ventilação. Tudo se turvou diante dos olhos de Nikanor Ivânovitch. Tiraram o jornal, mas no maço encontravam-se não rublos, e sim um dinheiro desconhecido, azul ou verde, com a imagem de um velho. No entanto, Nikanor Ivânovitch não viu nada disso direito, diante de seus olhos flutuavam umas manchas.
Dólares na ventilação — disse o primeiro, pensativo, e perguntou a Nikanor Ivânovitch, doce e gentilmente: — Seu pacotinho?
Não! — respondeu Nikanor Ivânovitch, com uma voz terrível. — Inimigos plantaram isso aí!
Isso acontece — concordou aquele, e acrescentou novamente, do mesmo jeito doce: — Bom, precisa entregar o resto.
Não tenho nada! Não tenho, juro por Deus, nunca esteve nas minhas mãos! — gritou o presidente desesperadamente.
Ele se precipitou até a cômoda, com estrondo puxou a gaveta e dela a pasta, gritando de forma desconexa:
Aqui está o contrato... o intérprete nojento que tramou... Korôviev, de pincenê!
Ele abriu a maleta, olhou dentro, enfiou a mão, seu rosto ficou lívido e ele deixou a maleta cair no borsch. Não havia nada na maleta: nem a carta de Stiôpa, nem o contrato, nem o passaporte do estrangeiro, nem o dinheiro, nem as entradas gratuitas. Resumindo, nada além de uma trena dobrável.
Camaradas! — gritou o presidente, exaltado. — Peguem-nos! Espíritos impuros estão no nosso prédio!
Então não se sabe o que deu em Pelagueia Antônovna, mas ela ergueu as mãos e gritou:
Confesse, Iványtch! Você terá redução da pena!
Com os olhos injetados de sangue, Nikanor Ivânovitch ergueu os punhos sobre a cabeça da mulher, rouquejando:
Oh, maldita idiota!
Então ele se sentiu fraco e deixou-se cair em uma cadeira, pelo visto resolvido a aceitar o inevitável.
Nesse momento, no patamar da escada, Timofêi Kondrátievitch Kvastsôv punha às vezes uma orelha, às vezes um olho, no buraco da fechadura da porta do apartamento do presidente, não se aguentando de tanta curiosidade.
Dali a cinco minutos, os inquilinos do prédio, que estavam no pátio, viram quando o presidente, na companhia de mais dois tipos, foi direto até o portão do prédio. Dizem que Nikanor Ivânovitch estava mais pálido do que um defunto, que cambaleava, como um bêbado, quando passou, e que balbuciava algo.
E, dali a uma hora, um cidadão desconhecido apareceu no apartamento número onze, no mesmo momento em que Timofêi Kondrátievitch contava a outros inquilinos, exultando de prazer, como deram uma rasteira no presidente e, com o dedo, chamou a atenção de Timofêi Kondrátievitch da cozinha até a entrada, disse-lhe algo e sumiu junto com ele.

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida

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