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25/03/2025

Adeus

Ou, em francês, adieu, espanhol, adiós, italiano, addio.

São expressões elípticas cujo significado em latim era “recomendo-te a Deus”, usadas no momento de despedida.

Orlando Loureiro Neves, em Dicionário Origem Das Palavras

17/03/2025

Agosto

Após a batalha de Accio, em que Caio Júlio César Octávio (sobrinho do assassinado Júlio César) derrotou Marco António, Roma atribuiu-lhe o título de imperador, a que acrescentou o cognome de augustus que significa majestoso, venerável, magnífico (do verbo augeo, que quer dizer, “aumentar, engrandecer, glorificar, tornar-se maior”).

Ora num certo mês sextilis, o sexto do antigo calendário latino que começava no actual mês de Março, Octávio Augusto entrou em Roma com três sensacionais vitórias: submetera o exército de Janículo, submetera Cleópatra no Egipto e pusera definitivo termo à guerra civil, iniciando um período de paz e grande desenvolvimento cultural (é a época de Horácio, Virgílio, Ovídio, Catulo, Marcial, etc.) que ficou conhecido como “a paz octaviana”.

O mês anterior, o quintilis, tinha mudado de nome por decisão do seu tio Júlio César. Passara, em sua honra, a chamar-se Julius (Julho). Octávio Augusto resolveu fazer o mesmo ao tal sexto mês em que festejara as vitórias: cerca de duas dezenas de anos a. C. pôs-lhe o nome de Augustus (donde veio Agosto). Esta ambição de se engrandecer tanto como o tio, segundo certos autores, levou-o mais longe: aumentou um dia ao seu Agosto para ter o mesmo número de dias de Julho. Como se sabe, no actual calendário, Agosto já não é o sexto, mas o oitavo mês.

Orlando Loureiro Neves, em Dicionário da origem das palavras

06/03/2025

Álbum

Provém do latim e significa a cor branca (donde, também, a palavra alvo). Mas album, o branco, simplesmente, era a designação de um quadro, uma tábua branqueada a gesso ou alvaiade que os romanos fixavam na praça pública, o Campo de Marte, e na qual, em letras pretas, se escreviam as decisões dos vários sectores do governo (daí, igualmente, alvo como local a que se aponta). Assim se davam a conhecer os decretos, as resoluções régias, os acórdãos, etc. Havia o álbum dos pretores (album praetoris), dos senadores (album senatorum), dos pontífices (album pontificis), etc. Se um particular quisesse dar a conhecer aos seus concidadãos qualquer informação escrevê-la-ia, obrigatoriamente, numa tabula de outra cor.
Na Idade Média, a tábua começou a ser substituída por pergaminho e, mais tarde, por papel quase sempre branco. Nele se difundiam as questões religiosas, sobretudo o catálogo dos santos, festas religiosas e outros. A pouco e pouco, passou a registar genealogias e, depois, autógrafos, pensamentos, poesias até que, nos nossos dias, o álbum é, sobretudo, utilizado para arquivar postais, fotografias, recortes e deixou de ter qualquer conotação com o seu próprio significado, branco.

Orlando Loureiro Neves, em Dicionário da origem das palavras

09/02/2025

Alfarrábio

Tudo leva a crer que o livro velho ou antigo denominado “alfarrábio” provém do nome próprio árabe de Abu ben Uzlâg Al-Farabi, por ser natural de Farrabe, no Turquestão. Viveu em Bagdade onde morreu em 950 com 80 anos. Ficou célebre pela sua obra e por ser apontado como “o segundo sábio”. O primeiro seria Aristóteles, a quem Al-Farabi dedicou grande parte do seu trabalho sendo considerado um dos mais sagazes comentadores da filosofia aristotélica.

Orlando Loureiro Neves, em Dicionário da origem das palavras

04/02/2025

Aleatório

Conhece-se a frase de Júlio César quando decidiu atravessar o Rubicão e entrar em Roma, desafiando o Senado: alea jacta est, comumente traduzia por “a sorte está lançada”. Seria mais correto traduzi-la por “os dados estão lançados”.
Alea, em latim, significa “dado”, jogo de dados que é, de fato, um jogo de sorte. “Aleatório” é, pois, tudo o que se refere ao jogo de dados, o que é decidido pela sorte. Também no latim se chamava à casa onde se jogava, antepassada do cassino, aleatorium.

Orlando Loureiro Neves, em Dicionário da origem das palavras

28/01/2025

Alcoviteiro

Virá de “alcofa” pelo árabe al-quffâ que significa “cesto”, “canastra”. Nestes se levavam e traziam coisas. Metaforicamente, nas suas andanças de transportadores de mercadorias, os alcoviteiros e alcoviteiras levavam também as novidades e intrigas que iam conhecendo junto dos seus clientes.
Outra opinião alvitra que a sua procedência, continuando árabe, seria al-qubbâ, com o significado de “edifício em abóbada”, “tenda”, “local onde se dorme”. Daí, a passagem para “alcova”, ou seja “quarto com cama”, é óbvia. O alcoviteiro era, pois, aquele (aquela) que negociava casamentos, amantismos e proxenetismos.

Orlando Loureiro Neves, em Dicionário da origem das palavras

16/01/2025

Alarme

Talvez não se detecte, de imediato, o que se esconde nesta palavra que hoje é indicativa de situação perigosa, de sobressalto perante acontecimento que pode ser prejudicial ou fatal para os seres humanos ou para a Natureza.
Os vocábulos que na palavra se ocultam são italianos. Trata-se de arme que, na língua transalpina, é o plural de “arma”, a que se antepõe alle, “às”, simplesmente. Assim, all’armeé, tão-só, o nosso “às armas” e foi grito soltado pelas tropas italianas nos séculos XVI e XVII, aquando das guerras com os espanhóis.
Passou para a nossa língua, quase directamente, sem ter havido adaptação do plural — deveríamos dizer, em insólito rigor, “alarmas” ou, pelo menos, “alarma”, forma esta usada em tempos antigos e, curiosamente, mantida no castelhano e no português que se fala no Brasil.

Orlando Loureiro Neves, em Dicionário da origem das palavras

10/01/2025

Agonia

Jogo em grego diz-se agon, plural, agones. Agon provém do verbo águein, cujo sentido primeiro é “levar diante de si, tanger”, em se tratando do “rebanho” ou de “seres humanos, escravos ou prisioneiros”. Em sentido absoluto águein passou a significar “dirigir-se para reunir em assembleia” com finalidades diversas, inclusive “para os jogos”. Agon é, pois, o resultado de um águein, isto é, “reunião, assembleia” como já está na Ilíada, a respeito da “assembleia dos deuses” e depois reunião para celebrar os jogos e, por extensão, “as disputas, os jogos”. Derivado de agon, é agonia, “luta, exercício” e, a partir de Demóstenes e Aristóteles, a própria agonia, que o latim eclesiástico tomou do grego com a mesma forma.
Em resumo, “agonia” significa luta, combate; “espírito agonístico”, capacidade, disposição para a luta. Por extensão, à luta contra a dor ou a morte, à angústia pelo sofrimento, passou a designar-se “agonia, a última agonia”.
Da palavra, também “protagonista”, aquele que combate na primeira fila e, depois, o que ocupa o primeiro lugar, o que é o personagem principal.

Orlando Loureiro Neves, em Dicionário da origem das palavras

19/12/2024

Agitador

Em sentido literal correspondia no latim a “condutor de animais” ou “condutor de carros puxados a cavalos nos jogos públicos ou na guerra”, devendo esta origem ao verbo agitare, ou seja, “impelir com força, pôr em movimento”.
Foi palavra que se sinonimizou com “revolucionário”, “instigador de revolta”, a partir da Revolução Francesa.

Orlando Loureiro Neves, em Dicionário da origem das palavras

14/12/2024

Abrigar

O sol está oculto na palavra, mas não no seu significado originário. É que o verbo vem do latim apricare, querendo dizer-se “expor-se ao sol, aquecer-se ao sol”. Sempre que estava frio, os romanos iam à procura do sol para se “abrigarem”.
A palavra deu as voltas semânticas habituais e, hoje, mantendo a significação inicial de “proteger-se do frio” também tem a contrária, “proteger-se do sol”. E foi mais longe nessas andanças porque nos abrigamos de outras conjunturas bem diferentes que nada já têm a ver com o cariz do tempo.

Orlando Loureiro Neves, em Dicionário da origem das palavras

10/12/2024

Abecedário



Mais ou menos há 4000 anos, calcula-se, deve ter surgido o abecedário que os fenícios, com base em sinais de outros povos, sistematizaram e que foi acolhido e sucessivamente modificado pelas populações, sobretudo do Mediterrâneo do Norte.
É fácil compreender a palavra: a+be+ce+de a que os latinos acrescentaram o sufixo ariu(m) que designa “conjunto, lista de” (recorde-se, por exemplo, “noticiário”, “calendário”, “bestiário”, etc.).
Comum é sinonimizar-se “abecedário” com “alfabeto”, o que é legítimo em termos linguísticos e de funções, mas que não tem a ver com a nossa escrita. Realmente, “alfabeto” é a lista dos caracteres gregos, formada pelas duas primeiras letras, o alfa e o beta. “Alfabeto” aproxima-se, sim, dos abecedários árabes (alifato) e hebreu (alefato). Mas foi de “alfabeto” que, na nossa língua, se formou o vocábulo que nomeia aquele que não sabe ler nem escrever, “analfabeto”.

Orlando Loureiro Neves, em Dicionário da origem das palavras

06/12/2024

Abracadabra


Trata-se de uma palavra cabalística, à qual, durante toda a Idade Média, se atribuíram virtudes mágicas para curar ou evitar algumas doenças, sobretudo febres, através da repetição contínua do vocábulo.
São várias as etimologias que têm sido avançadas. Viria do hebreu abreg ad hâbraque significa “envia o teu raio até à morte” ou, ainda do hebreu, deab-ruah-dabar, “pai, espírito, palavra”, o que representaria uma trindade divina. A origem poderia também residir no persa abrasas, denominação mística da divindade (referida, eventualmente, ao deus Mitra) anteposta a dabar, o hebraico, com o significado de “palavra divina”, pelo que a grafia preferível devia de ser abrasadabra.
Mas a etimologia mais comummente aceite faz vir abracadabra de abracax, abraxás, abraxax, termo persa ou, novamente, do hebreu hab’rakah, “nome sagrado”. Todos estes étimos se relacionariam com uma divindade proposta pelo heresiarca Basílides de Alexandria, o mais conhecido gnóstico que viveu nos inícios do século II. Desse deus, o pai incriado, “Abracax”, dependeriam outros deuses e anjos que presidiam aos 365 céus correspondentes aos dias do ano. Mas a construção teológica de Basílides, que tentava explicar o cristianismo, não é conhecida directamente. Nenhuma sua obra chegou até nós e o pouco que se sabe do tão complexo sistema resulta do que se infere das refutações da sua doutrina feitas por Sto. Ireneu e Sto. Hipólito.
Abracadabra” utilizava-se gravada numa pedra ou em metal que se suspendia ao peito como amuleto. Para surtir efeito, na cura das doenças ou na expulsão dos demónios, deveria a palavra escrever-se em triângulo invertido orientando para baixo as energias da parte superior que o talismã captava e as letras dispor-se-iam de tal modo que a palavra se pudesse ler em vários sentidos. Exemplos:

ABRACADABRA
BRACADABR
RACADAB
ACADA
CAD
A

*
ABRACADABRA
BRACADABRA
RACADABRA
ACADABRA
CADABRA
ADABRA
DABRA
ABRA
BRA
RA
A

*
ABRACADABRA
ABRACADABR
ABRACADAB
ABRACADA
ABRACAD
ABRACA
ABRAC
ABRA
ABR
AB
A

Orlando Loureiro Neves, em Dicionário da origem das palavras