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21/03/2023

Metamorfose ambulante | Raul Seixas, 1973


Depois do retumbante sucesso popular de “Ouro de tolo”, Raul Seixas se manteve em alta execução com “Metamorfose ambulante”, balada existencialista que também foi destaque no seu primeiro álbum solo, Krig-ha, Bandolo!, que anunciava um inusitado encontro do rock brasileiro com o candomblé baiano em “Mosca na sopa” e, talvez já por influência de Paulo Coelho, seu parceiro em “Al Capone”, com as filosofias orientais e o misticismo.
Metaformose ambulante” é o autorretrato de um artista em eterna revolução interna. É uma carta de intenções anunciando os seus planos de voo livre, apostando nas contradições como uma das chaves para lidar com um mundo também sempre em movimento. Aos 29 anos, quando se tornou parceiro de Paulo Coelho, Raul foi apresentado por ele às drogas, a seitas esotéricas e também ao pensamento místico do satanista inglês Aleister Crowley.
Além de leituras esotéricas, Paulo Coelho contou em um documentário que “da maconha ao ácido e à cocaína, do chá de cogumelo ao mandrix”, apresentou a Raul todas as drogas, que lhe abriram as portas da percepção para a revolução comportamental sonhada pela contracultura.
Num álbum com mais sucessos populares, como “Ouro de tolo”, “Mosca na sopa”, “Al Capone” e “Rockixe”, foi “Metamorfose ambulante” a música que melhor expressou a natureza, a atitude e o estilo de Raul, com sua letra confessional, analítica e didática.
Eu prefiro ser / Essa metamorfose ambulante / Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.”
Um sucesso espetacular que ultrapassava de longe as suas melhores expectativas, não tirava de Raul Seixas a consciência da efemeridade dos sentimentos, da vida e da glória:
Se hoje eu sou estrela / amanhã já se apagou / se hoje eu lhe odeio / amanhã lhe tenho amor / eu sou um ator.”
Raul morreu dormindo em 1989, aos 44 anos, e sempre dizia que não era um cantor nem um compositor, mas um ator fazendo esses papéis, que era só um magro abusado.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

13/03/2023

Ouro de tolo | Raul Seixas, 1973


Em plena ditadura militar, esta original balada pop, quase um pastiche irônico de Bob Dylan e Roberto Carlos, ousou questionar, pelo deboche e o sarcasmo, o “milagre econômico” e o Brasil Grande da ditadura. Narrada na primeira pessoa, em tom confessional e fazendo paralelos com a vida do cantor, a letra desfila as conquistas e as dúvidas de um sujeito “bem-sucedido”, com salário no banco, carro do ano, apartamento em Ipanema, “depois de passar fome por dois anos na Cidade Maravilhosa”. As realizações materiais e os sonhos de consumo não anestesiam a indignação do personagem com a miséria, as mentiras e as ilusões que o cercam. Miséria também moral e espiritual, de um “ser humano ridículo, limitado / que só usa dez por cento de sua cabeça animal”.
Ouro de tolo” foi instantâneo e retumbante sucesso popular, da noite para o dia transformou Raul num ídolo pop, graças ao humor sarcástico e contundente da letra, à melodia envolvente e ao arranjo que misturava elementos de balada romântica, folk, toada sertaneja e poesia de cordel.
Eu é que não me sento / no trono de um apartamento / com a boca escancarada cheia de dentes / esperando a morte chegar”, provocava Raul.
Na virada dos anos 1950 para os 1960, enquanto muitos de seus contemporâneos e futuros colegas na música se encantavam com a voz e o violão de João Gilberto, o jovem Raul Santos Seixas (1945-1989) estava ligado no rock elétrico de Elvis Presley e companhia e foi o sócio no 1 do Elvis Presley Fã-Clube da Bahia.
A partir da segunda metade dos anos 1960, quando colegas de geração, como Caetano, Gil, Chico, Edu Lobo e Milton Nascimento, começavam a conquistar o Brasil consagrados nos grandes festivais de música, Raul ralava no underground com seus primeiros grupos de rock. Ainda em Salvador, à frente da banda Raulzito e Os Panteras, conseguiu um contrato com a gravadora Odeon, mas, lançado em 1968, o disco homônimo passou em branco.
Em 1971, voltou a investir em sua carreira, no disco coletivo Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das 10, ao lado de Miriam Batucada, Sérgio Sampaio e Edy Star. Hoje cultuado e já anunciando algo do estilo que o consagraria em seguida, o projeto fracassou nas rádios e nas lojas.
Em 1972, Raul classificou duas músicas para a final brasileira do Festival Internacional da Canção, “Let me sing, let me sing”, metade rock e metade baião, que ele mesmo cantou, com um look de Elvis Presley, e “Eu sou eu, Nicuri é o Diabo”, com o grupo Os Lobos. Não ganhou, mas conquistou o público e a imprensa e ganhou um contrato da Philips/Polygram, então a principal gravadora da MPB.
Assim como no álbum coletivo, essas duas canções apontavam para a fusão orgânica de pop e ritmos nordestinos que “Ouro de tolo” iria consolidar. Lançada num compacto em maio de 1973, abriu caminho para o revolucionário álbum Krig-ha, Bandolo!, que chegou ao mercado dois meses depois. Mais do que sinônimo de rock no Brasil, depois desse pulo de pantera, ele criou seu próprio e inconfundível estilo que até hoje ecoa no grito de guerra de seus fãs em shows de qualquer artista: Toca Raul!

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

09/02/2014

17/03/2012

Raul continua tocando

Google Imagens


Virou mania: nos mais diversos shows, de roqueiros a sertanejos, e até nos de Caetano Veloso, em algum momento ouve-se o grito de guerra na plateia: “Toca Rauuuul!”
Que outro artista brasileiro, por mais querido e importante que seja, tem seu nome gritado em apresentações de outros artistas? Quem tem legiões de fãs que se vestem como ele e cantam suas músicas no seu aniversário? E muitos nem eram nascidos quando Raul parou de tocar, em 1989.
A vida breve e turbulenta de Raul Seixas, seu talento de compositor e letrista, sua inteligência e humor, seu personagem e sua pessoa, sua vocação para estrela marginal, são a matéria-prima do emocionante filme de Walter Carvalho, O início, o Fim e o Meio. A quantidade e qualidade de som e imagens recuperados de sua obra, e dos depoimentos sobre sua vida, montados em ritmo roqueiro, fazem rir e chorar, às vezes ao mesmo tempo, do início ao fim. No meio de tudo, Raul, é ele que nos toca.
A galeria de tipos bizarros que passaram por sua vida, satanistas, malucos beleza, velhos roqueiros, gurus de araque, se junta a seus parentes, parceiros e testemunhas, e suas várias mulheres, em depoimentos reveladores. Um dos melhores é de Paulo Coelho, ex-hippie doidão e seu parceiro em muitos clássicos, agora escritor multimilionário em Genebra, em contraste com o processo de pobreza material e decadência física de Raul, contando com sinceridade alguns dos melhores, e piores, momentos dessa dupla do barulho. Às gargalhadas, o mago confessa: “Mas é claro que eu apresentei todas as drogas ao Raul. E não me arrependo de nada, só da cocaína, que é a droga do demônio”.
Raul começou a beber e fumar com 12 anos, foi alcoólatra metade da vida, cheirou quilos de cocaína e litros de éter, que o destruíram aos 44 anos. No final do filme, Marcelo Nova consegue convencer Raul, já muito fragilizado, a fazerem três shows juntos, que se desdobram em 50 apresentações triunfais pelo Brasil, com multidões de fanáticos cantando em coro suas músicas, numa heroica turnê de despedida que termina com o fim de Raul. E o início do seu culto.
Nelson Motta, FSP, in substantivoplural.com.br