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06/07/2025
21/03/2023
Metamorfose ambulante | Raul Seixas, 1973
Depois
do retumbante sucesso popular de “Ouro de tolo”, Raul Seixas se
manteve em alta execução com “Metamorfose ambulante”, balada
existencialista que também foi destaque no seu primeiro álbum solo,
Krig-ha, Bandolo!, que anunciava um inusitado encontro do rock
brasileiro com o candomblé baiano em “Mosca na sopa” e, talvez
já por influência de Paulo Coelho, seu parceiro em “Al Capone”,
com as filosofias orientais e o misticismo.
“Metaformose
ambulante” é o autorretrato de um artista em eterna revolução
interna. É uma carta de intenções anunciando os seus planos de voo
livre, apostando nas contradições como uma das chaves para lidar
com um mundo também sempre em movimento. Aos 29 anos, quando se
tornou parceiro de Paulo Coelho, Raul foi apresentado por ele às
drogas, a seitas esotéricas e também ao pensamento místico do
satanista inglês Aleister Crowley.
Além
de leituras esotéricas, Paulo Coelho contou em um documentário que
“da maconha ao ácido e à cocaína, do chá de cogumelo ao
mandrix”, apresentou a Raul todas as drogas, que lhe abriram as
portas da percepção para a revolução comportamental sonhada pela
contracultura.
Num
álbum com mais sucessos populares, como “Ouro de tolo”, “Mosca
na sopa”, “Al Capone” e “Rockixe”, foi “Metamorfose
ambulante” a música que melhor expressou a natureza, a atitude e o
estilo de Raul, com sua letra confessional, analítica e didática.
“Eu
prefiro ser / Essa metamorfose ambulante / Do que ter aquela velha
opinião formada sobre tudo.”
Um
sucesso espetacular que ultrapassava de longe as suas melhores
expectativas, não tirava de Raul Seixas a consciência da
efemeridade dos sentimentos, da vida e da glória:
“Se
hoje eu sou estrela / amanhã já se apagou / se hoje eu lhe odeio /
amanhã lhe tenho amor / eu sou um ator.”
Raul
morreu dormindo em 1989, aos 44 anos, e sempre dizia que não era um
cantor nem um compositor, mas um ator fazendo esses papéis, que era
só um magro abusado.
Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil
13/03/2023
Ouro de tolo | Raul Seixas, 1973
Em
plena ditadura militar, esta original balada pop, quase um pastiche
irônico de Bob Dylan e Roberto Carlos, ousou questionar, pelo
deboche e o sarcasmo, o “milagre econômico” e o Brasil Grande da
ditadura. Narrada na primeira pessoa, em tom confessional e fazendo
paralelos com a vida do cantor, a letra desfila as conquistas e as
dúvidas de um sujeito “bem-sucedido”, com salário no banco,
carro do ano, apartamento em Ipanema, “depois de passar fome por
dois anos na Cidade Maravilhosa”. As realizações materiais e os
sonhos de consumo não anestesiam a indignação do personagem com a
miséria, as mentiras e as ilusões que o cercam. Miséria também
moral e espiritual, de um “ser humano ridículo, limitado / que só
usa dez por cento de sua cabeça animal”.
“Ouro
de tolo” foi instantâneo e retumbante sucesso popular, da noite
para o dia transformou Raul num ídolo pop, graças ao humor
sarcástico e contundente da letra, à melodia envolvente e ao
arranjo que misturava elementos de balada romântica, folk, toada
sertaneja e poesia de cordel.
“Eu
é que não me sento / no trono de um apartamento / com a boca
escancarada cheia de dentes / esperando a morte chegar”, provocava
Raul.
Na
virada dos anos 1950 para os 1960, enquanto muitos de seus
contemporâneos e futuros colegas na música se encantavam com a voz
e o violão de João Gilberto, o jovem Raul Santos Seixas (1945-1989)
estava ligado no rock elétrico de Elvis Presley e companhia e foi o
sócio no 1 do Elvis Presley Fã-Clube da Bahia.
A
partir da segunda metade dos anos 1960, quando colegas de geração,
como Caetano, Gil, Chico, Edu Lobo e Milton Nascimento, começavam a
conquistar o Brasil consagrados nos grandes festivais de música,
Raul ralava no underground com seus primeiros grupos de rock. Ainda
em Salvador, à frente da banda Raulzito e Os Panteras, conseguiu um
contrato com a gravadora Odeon, mas, lançado em 1968, o disco
homônimo passou em branco.
Em
1971, voltou a investir em sua carreira, no disco coletivo Sociedade
da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das 10, ao lado de
Miriam Batucada, Sérgio Sampaio e Edy Star. Hoje cultuado e já
anunciando algo do estilo que o consagraria em seguida, o projeto
fracassou nas rádios e nas lojas.
Em
1972, Raul classificou duas músicas para a final brasileira do
Festival Internacional da Canção, “Let me sing, let me sing”,
metade rock e metade baião, que ele mesmo cantou, com um look de
Elvis Presley, e “Eu sou eu, Nicuri é o Diabo”, com o grupo Os
Lobos. Não ganhou, mas conquistou o público e a imprensa e ganhou
um contrato da Philips/Polygram, então a principal gravadora da MPB.
Assim
como no álbum coletivo, essas duas canções apontavam para a fusão
orgânica de pop e ritmos nordestinos que “Ouro de tolo” iria
consolidar. Lançada num compacto em maio de 1973, abriu caminho para
o revolucionário álbum Krig-ha, Bandolo!, que chegou ao
mercado dois meses depois. Mais do que sinônimo de rock no Brasil,
depois desse pulo de pantera, ele criou seu próprio e inconfundível
estilo que até hoje ecoa no grito de guerra de seus fãs em shows de
qualquer artista: Toca Raul!
Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil
21/11/2014
09/02/2014
Metamorfose Ambulante - Raul Seixas
Assista ao filme inédito que a Vivo e a Samsung fizeram em homenagem ao Raul Seixas. #raulestávivo
04/01/2013
22/12/2012
17/03/2012
Raul continua tocando

Google Imagens
Virou
mania: nos mais diversos shows, de roqueiros a sertanejos, e até nos de Caetano
Veloso, em algum momento ouve-se o grito de guerra na plateia: “Toca Rauuuul!”
Que outro
artista brasileiro, por mais querido e importante que seja, tem seu nome
gritado em apresentações de outros artistas? Quem tem legiões de fãs que se
vestem como ele e cantam suas músicas no seu aniversário? E muitos nem eram
nascidos quando Raul parou de tocar, em 1989.
A vida breve e turbulenta de Raul Seixas, seu
talento de compositor e letrista, sua inteligência e humor, seu personagem e
sua pessoa, sua vocação para estrela marginal, são a matéria-prima do
emocionante filme de Walter Carvalho, O início, o Fim e o Meio. A quantidade e
qualidade de som e imagens recuperados de sua obra, e dos depoimentos sobre sua
vida, montados em ritmo roqueiro, fazem rir e chorar, às vezes ao mesmo tempo,
do início ao fim. No meio de tudo, Raul, é ele que nos toca.
A galeria
de tipos bizarros que passaram por sua vida, satanistas, malucos beleza, velhos
roqueiros, gurus de araque, se junta a seus parentes, parceiros e testemunhas,
e suas várias mulheres, em depoimentos reveladores. Um dos melhores é de Paulo
Coelho, ex-hippie doidão e seu parceiro em muitos clássicos, agora escritor
multimilionário em Genebra, em contraste com o processo de pobreza material e
decadência física de Raul, contando com sinceridade alguns dos melhores, e
piores, momentos dessa dupla do barulho. Às gargalhadas, o mago confessa: “Mas
é claro que eu apresentei todas as drogas ao Raul. E não me arrependo de nada,
só da cocaína, que é a droga do demônio”.
Raul
começou a beber e fumar com 12 anos, foi alcoólatra metade da vida, cheirou
quilos de cocaína e litros de éter, que o destruíram aos 44 anos. No final do
filme, Marcelo Nova consegue convencer Raul, já muito fragilizado, a fazerem
três shows juntos, que se desdobram em 50 apresentações triunfais pelo Brasil,
com multidões de fanáticos cantando em coro suas músicas, numa heroica turnê de
despedida que termina com o fim de Raul. E o início do seu culto.
Nelson Motta, FSP, in
substantivoplural.com.br
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