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24/10/2021

História

Minha opinião sobre a monarquia? Melhorou muito depois que comprei um casal real – autênticos rei e rainha francos – numa loja de animais em Moema, tendo ido para a loja com a intenção de comprar periquitos, veja você, mas mudando de ideia ao ver o Rei Clódio e a Rainha Basina numa gaiola, sentados em jornal sujo, me olhando por entre as grades com grandes olhos monárquicos e tristes.
Passeio com eles todas as noites agora, por ruas tranquilas – eles afobados, se enforcando na coleira, e sempre procurando outros reis e rainhas muitas esquinas adiante, para poder gritar com ódio ou com saudade, conforme o caso. Eu me preocupo porque, alguns quarteirões depois da delegacia de polícia, um moleque sempre sai para passear com seu grande Napoleão solto e sem coleira – e nesses momentos sou eu que tenho que erguer o Rei Clódio e a Rainha Basina acima da minha cabeça, ou colocá-los em cima do capô de um carro estacionado, enquanto o Napoleão dá saltos tentando alcançá-los, gritando xingamentos em francês, e o molequinho imbecil vem correndo colocar uma coleira nele sem nem jamais pedir desculpas.
Mas de madrugada, de madrugada nos enrodilhamos no sofá para ver filmes antigos, e me sinto feliz vendo filmes de Hitchcock enquanto acaricio os flancos dos monarcas. Quando paro um segundo de acariciar circularmente um quadril com o indicador ou de fazer cafuné no espacinho de cabelo entre a circunferência da coroa, eles estendem suas mãos alongadas pedindo que eu continue.
Às vezes, uma vez por mês, ou menos ainda, noto neles um olhar de espanto, como se percebessem de repente a condição em que se encontram e o quanto decaíram da sua posição anterior de pompa e glória. Olham chocados para os restos de ração nas roupas reais, e as coleiras nos pescoços, e a pobreza geral do apartamento em que vivemos.
Mas logo depois alguma cena interessante acontece no filme – o rosto de Grace Kelly se aproxima do rosto de James Stewart adormecido, ou pássaros soltando guinchos eletrônicos voltam a atacar a escola de Bodega Bay – e eles acompanham comigo o filme até o fim, esquecidos de tudo que foram e de tudo que viveram; e (tenho certeza) felizes, à sua maneira.

Alexandre Soares Silva, in O Homem que Lia os Seus Próprios Pensamentos

20/10/2021

Lubitsch

O camelô ficava na avenida Andrassy perto do Boulevard Cervantes vendendo fotos pornográficas especializadas.
Fotos de mulheres sardentas olhando você fixamente!
Quão fixamente? — perguntou baixinho um professor de filosofia.
Muito fixamente! Como nos primeiros estágios de uma sedução! — e, chegando perto do ouvido do professor de filosofia: — Como se devassasse a sua alma! Como se visse todas as virtudes dentro de você que ninguém jamais soube reconhecer: sua galanteria, sua coragem extraordinária. Mas também como se visse todos os seus defeitos, e simplesmente não se importasse!
Ouvindo isso o professor de filosofia sentiu um arrepio não tanto na coluna cervical mas na sua pequenina alma e comprou três fotos de mulheres sardentas o olhando fixamente.
Espero não me arrepender — disse, e voltou de metrô, olhando de trinta em trinta segundos as fotos escondidas dentro duma edição da Metafísica para Iluministas Tímidos.
Ah ruas de Budapeste, onde amei e fui amado por mulheres que existem dentro de romances que eu teria lido se tivesse seguido o meu plano de ler mais romances húngaros: desenrolem-se como um tapete felpudo ante os meus passos imaginários. Num canto do Boulevard Cervantes há um café chamado Philidor, onde o camelô parou para tomar dois ou três copitos de Muskotály. Da sua pasta de fotos pornográficas especializadas o camelô tirou uma foto e discretamente chamou a atenção do vizinho de mesa, um velhinho que tomava sopa.
Doutor, olha isto.
Não sou doutor, sou um campônio.
Perdão pelo engano mas seus cabelos brancos são doutorados para mim.
Ah, que é isso — disse o velhinho, sua dentadura deslizando para fora de prazer.
Veja isto, mas seja discreto.
O velhinho apanhou a foto e a colocou ao lado do prato de sopa enquanto a examinava.
Uma encantadora jovem tatuada, na pia, arregalando os olhos.
Colocando lentes de contato — esclareceu o camelô.
Ah! Percebo! Delicioso momento íntimo, cotidiano! Mas o que é isto aqui?
É a omoplata dela, doutor.
Ah! Risqué, não?
Se prefere algo mais contido...
Não, quanto é?
Quatro forintes.
Caro! A menina vai à faculdade?
É uma estudante de arte, doutor.
E é muito namoradeira?
Como uma russa num monte de feno.
Riram e depois de um momento sorriram um para o outro, irmanados numa lubricidade sutil que é muitas vezes o mais forte dos elos entre estranhos.
Que mais tem você aí, meu pequeno homenzinho de aparência gnômica?
O camelô passou para a mesa do velhinho e silenciosamente espalhou várias fotos pela mesa.
Uh! Ah! — dizia o velhinho. — Jovens normais, aparentemente saudáveis, colocando ou tirando meias de algodão. Esta aqui, que faz?
Morde o pescoço do namorado que está jogando um desses jogos eletrônicos que os jovens jogam.
É o namorado mesmo?
É a segunda vez que se encontram.
Adoro o sorriso dela enquanto ela morde.
Sim, vê-se que ela pensa muito em sexo.
Safadinha. E esta mulher aqui? Parece que tem enxaqueca.
Sim, não é uma foto boa — disse o camelô varrendo a foto para o lixo ao lado da mesa. — Mas olhe esta. Deve ter 23, 24 anos e está jogando xadrez, percebe?
O que é isto?
Os pezinhos dela nus debaixo da mesa, doutor.
Oh! Ela está esfregando os pezinhos um contra o outro?
Aparentemente.
Sim, distraída, enquanto pensa no que fazer com a torre. Excelente.
Se o senhor gosta de pezinhos… — disse o camelô, indicando a foto de um pé muito pálido fazendo carinho nas costas de um akita preto.
O que é, um tapete?
Um cachorro.
Mas como eu sei se a mulher é bonita?
Percebe-se, eu diria.
Sim, percebe-se — admitiu o velho.
Depois, sem vergonha:
Tem foto de mamilo?
Imediatamente o rosto do camelô se fechou como se ele tivesse acabado de ouvir que sua ex-mulher fez sexo com um anão que chora muito, e ele começou a recolher as fotos.
Isso não tenho. Se é isso que deseja, há outros fornecedores…
Não, foi só uma pergunta.
Perdão. É que há coisas que não vendo.
Eu é que peço perdão, meu caro gnomo benigno.
A boa vontade foi restaurada ao rosto do camelô, como a bandeira de uma dinastia restituída ao trono depois de uma revolução socialista. Inclinando-se na direção do velhinho o camelô sorriu e disse:
Bom, talvez a borda de um mamilo. Mas guardo em outra pasta...
Não se incomode. O que esta foto do pé aqui me lembrou, o que este close-up — o velhinho exagerou na pronúncia do inglês — me lembrou de verdade, é não de um pé, muito menos de um mamilo, mas de uma mão.
Sim?
Sim. E não de qualquer mão, mas da mão de uma menina que conheci na juventude, quando eu era bonito. Porque eu era bonito, acredite.
Opa.
E você tem?
Várias. Esta mão feminina com as unhas não pintadas, por exemplo, agarrando um dedão de pé de homem… Um tanto ousada, admito.
Não, a foto da mão da minha namorada de anos atrás.
O camelô olhou pensativo para o velhinho.
Se o senhor descrever essa mão.
É fácil. Quero uma foto da mão dela com a palma voltada para cima. Quero que a foto pegue da parte interna do cotovelo até a ponta dos dedos. Ao longo do antebraço ela tinha várias pintas. Cinco, para ser exato, nestes pontos aqui.
O velhinho tocou com o indicador em cinco pontos do antebraço do camelô.
Fazendo uma curva — disse.
Certamente não tenho na pasta, mas procurarei no meu arquivo em casa. Se puder me encontrar aqui na terça…
O motivo de querer a foto — disse o velhinho sem ouvir, sorrindo bestamente — a foto dessa mão e não outra, você sabe, é porque ela, a dona da mão, era tão bonita, ninguém diria que uma mulher tão bonita sairia com um camponês como eu, que ganha a vida masturbando morcegos para fazer queijinhos mais tarde condimentados com páprica. Nos encontramos num café, parecido com este… Nos beijamos. Depois sorrimos cheios de timidez, baixamos os olhos, os dois meio embriagados um com o outro, sem ligar para as pessoas à nossa volta, sabe?
Sei.
E começamos a olhar um para a mão do outro cheios de volúpia. Uma volúpia de mãos, de braços, está entendendo? Testando cada articulação, examinando cada pinta. Você sabe como é, esse momento em que de uma hora para a outra você ganha acesso ao corpo da outra pessoa, que alegria, como se estivesse do lado de fora do portão de uma feira mundial de queijos, desses feitos de leite mesmo e não de sêmen de morcego, sabe, de leite de vaca, e de repente abrissem o portão e você pudesse ficar correndo de um lado pro outro na feira esbarrando nos queijos todos, pegando tudo na mão! Meu Deus!
Acredite, sei bem como é.
Nunca mais a vi, mas não esqueço daquela mão, daquela mão que beijei tantas vezes, que mordisquei e fiquei olhando.
O camelô colocou devagar as fotos na pasta e disse:
Deixa só eu checar mais uma vez onde ficavam as pintas. Aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
Esta aqui mais aqui.
O camelô anuiu, fez uma vênia e foi embora.
Aquele era um domingo à tarde e a rua estava meio parada, de modo que ele encurtou o dia e foi direto para a casa velha onde morava desde a juventude na companhia de Kató, uma mulher de um metro e trinta que o fazia feliz exclusivamente com a prática de massagens no couro cabeludo acompanhadas de fofocas e indiretas de que não estava recebendo sexo o suficiente – uma relação estranhamente deliciosa para as duas partes, e cultivada com calma e refinamento.
Chegando em casa evitou Kató que fofocava com a irmã na cozinha e subiu para o sótão onde imediatamente começou a procurar pela foto da mão da ex-namorada do velhinho, procurando na gaveta “MÃO, direita, do antebraço à (1934-37)”. Ficou sentado no chão durante três horas vendo com calma fotos de mãos bonitas de unhas bem-cuidadas, examinando as combinações de pintas. A certa altura a dor nas costas o forçou a se deitar no chão de madeira e a continuar examinando as fotos naquela posição, de vez em quando desviando os olhos para o teto inclinado e pensando nas mãos da sua vida, nas mãos que tinha apertado e mordido também.
Na terça encontrou o velhinho na mesma mesa, dessa vez tomando uma sopa de cebola.
Com uma vênia e um floreio depositou a foto na mesa do velhinho.
Nos esforçamos sempre para agradar.
O velhinho agarrou a foto com seus dedos sujos de sopa e começou a gritar pateticamente, Erzsébet!, Erzsébet!, e beijava a foto e chorava, e as lágrimas que saíam de seus olhos nunca pingavam no chão porque se perdiam nas rugas e sumiam para sempre, como Erzsébet e suas mãos, como Erzsébet e suas cinco pintas no antebraço, como Erzsébet e a juventude – miraculosamente reconstituídas numa foto P&B 15x27 de qualidade erótica indiscutível.
Vai querer também a foto da jogadora de xadrez descalça?
Ah sim, né — disse o velhinho limpando a cara com a manga. — Mas faz desconto?
Dia após dia e foto após foto reconstituiu o velhinho, com a ajuda do camelô, o corpo todo de Erzsébet, e todas as suas cento e duas pintas. Erzsébet estava lá na mesa do café Philidor fatiada em vinte e cinco fotos.
Mesmo o camelô se apaixonou um pouquinho por Erzsébet. E ficavam os dois, camelô e camponês, passando as fotos de um para o outro por entre o vapor da sopa de cebola, calados, corteses, um pouco tristes.

Alexandre Soares Silva, in O Homem que Lia os Seus Próprios Pensamentos

12/10/2021

O homem que lia os seus próprios pensamentos

Aos 40 anos, em algum ponto dos meses seguintes ao seu divórcio, Francisco Marcelino identificou um sentimento pela primeira vez.
De quem é esse sentimento? — perguntou espantado para o analista.
É seu esse sentimento — disse o analista.
Marcelino ficou pensativo.
Não, sério.
Por que você acha que eu não estou falando sério?
Marcelino ignorou a pergunta.
Isso é um negócio que eu estou sentindo?
É, né.
Marcelino já tinha sentido muitas coisas, sabia disso. Era tão emotivo quanto qualquer outro. Sua ex-mulher até o tinha acusado de viver alternando perpetuamente entre estados de raiva, tristeza, ciúme, paranóia e otimismo louco. Mas era a primeira vez que flagrava um sentimento em si próprio no mesmo momento em que o estava sentindo.
Só pra confirmar. Não é você que está sentindo isso? — perguntou para o analista.
Não, é você.
Que coisa bizarra.
Francisco Marcelino achava que isso não era só uma conquista da análise. Depois do divórcio tinha visto dezenas de vídeos sobre sentimentos, tinha lido livros sobre sentimentos, tinha tentado entrar em contato com a sua sombra fazendo caretas na frente de um espelho, e um monte de bobajadas do tipo.
Imaginava que isso que estava acontecendo agora com ele, conseguir saber o que estava sentindo, tinha sido causado por um esforço progressivo de autoconsciência.
Como você chamaria isso que você está sentindo? — perguntou o analista.
Marcelino pensou bastante.
Espanto?
Ok, mas isso é o que você está sentindo por conseguir identificar um sentimento dentro de si. Mas esse sentimento dentro de si, que veio antes do espanto. Como é?
Marcelino realmente tentou descobrir.
Não sei. Putz, já não estou sentindo mais nada.
Nem frustração por não estar sentindo mais nada?
Frustração? Estou? Não sei!
Marcelino saiu do consultório visivelmente frustrado.
Passou vários dias se perguntando a cada momento, “estou sentindo alguma coisa agora? se sim, o que é?” E às vezes vinha uma resposta, “sim, ué, a garoa caindo na minha cabeça”, ou algo um pouco menos evidente, “estou cansado”, ou “estou nervoso, mas por que estou nervoso? ah sim, é por causa do dentista hoje de noite”. Até que ficou tão bom nisso que começou a falar em voz alta o que estava sentindo, por exemplo dizendo enquanto ria, “estou achando graça!, haha!, mas a sensação de graça está passando rapidamente!”, ou aquela vez que chorou vendo um filme de eutanásia no cinema e disse enquanto chorava, “estou triste! estou muito triste!”, completando logo em seguida, “mas um pouco feliz por conseguir identificar que eu estou triste! e agora um pouco envergonhado por estar falando isso no cinema, na frente de todo mundo, com essa mulher se virando na cadeira pra olhar pra minha cara”.
As pessoas o olhavam espantadas. Como é que aquele homem sabia o que estava sentindo? Era uma farsa? Ele estava nomeando sentimentos ao acaso? Mas o estranho é que as emoções que ele nomeava combinavam com a expressão facial dele.
As bizarrices não pararam aí. Uma tarde Francisco Marcelino andava na rua quando começou a ganhar consciência de uma voz dizendo coisas, “amanhã tenho que ir no contador” e “talvez o melhor jeito de ir no contador seja pegar o metrô e descer na estação Praça da Árvore”.
Diminuiu o passo e olhou em volta para descobrir quem tinha dito aquilo. Mas não tinha ninguém por perto. Além disso, era ele mesmo que ia ter que ir no contador no dia seguinte. “Será que fui eu que pensei isso?”, pensou, e logo em seguida concluiu estarrecido que estava ouvindo os seus próprios pensamentos.
Seria possível? Tinha virado um telepata de si mesmo? Marcelino ficou parado na esquina para descobrir o que estava pensando naquele momento. Ouviu dentro da sua cabeça: “Acho que vou passar na padaria comprar iogurte com whey”. Foi quase como se alguém sussurrasse essas palavras no seu ouvido. Sorriu, felicíssimo, e recomeçou a andar, sabendo agora aonde estava indo, e por que estava fazendo isso.
O desabrochar desse grande poder psíquico o deixou inebriado. No trabalho, virou para um amigo e disse:
Vou pensar num número de um a dez.
Ok — disse o amigo.
Francisco Marcelino pensou num número.
Agora me pergunta que número eu pensei — disse Marcelino.
Que número você pensou?
Oito!
O colega quase caiu da cadeira.
Foi sorte. Faz de novo.
Marcelino repetiu várias vezes a experiência para todos os colegas verem. Acertou sempre.
Mas você ouve o que você está pensando assim, tipo uma voz na sua cabeça?
É como um rádio — Marcelino tentou explicar. — Acho que todo mundo consegue ouvir o que está pensando, se sintonizar direito.
Todos ficaram tentando ouvir os próprios pensamentos.
Cara, só estou ouvindo um zumbido — disse um.
Acho que fiquei com dor de cabeça — disse outro.
A fama de Francisco Marcelino se espalhou graças aos vídeos que gravava adivinhando números e cartas em que ele mesmo estava pensando, e em um ano começou a aparecer na tevê com o nome de Dr. Mentalis, o Telepata de Si Mesmo.
No programa de entrevistas Freddy Freddy o apresentador Freddy Freddy perguntou para o Dr. Mentalis o que o famoso telepata estava pensando naquele momento.
Uma música dramática começou a tocar.
O Dr. Mentalis, massageando as têmporas, muito concentrado:
Não estou conseguindo ouvir… Um momento…
Opa opa! — disse Freddy Freddy. — Será que o Dr. Mentalis vai falhar? O que vocês acham, pessoal?
O pessoal gritou NÃÃÃÃÃO.
Eu vou conseguir, Freddy Freddy! Me dá só uns segundos…
Você tem vinte segundos, Dr. Mentalis!
No estúdio começou a tocar um som alto e nervoso de tique-taque enquanto uma contagem regressiva aparecia no canto da tela.
Quando faltavam dois segundos, o Dr. Mentalis sorriu sabido.
Consigo ouvir agora, Freddy Freddy!
O que você está pensando, Dr. Mentalis?
Estou pensando que… Espera… Sim, é isso mesmo… Estou pensando que saindo daqui vou tentar passar naquele restaurante húngaro aqui perto… Pelo menos eu acho que é aqui perto…
O público aplaudiu assombrado.
Era isso mesmo que você estava pensando, Dr. Mentalis?
Era!
O Dr. Mentalis fazia shows em teatros, em cruzeiros, nos bar mitzvas das famílias ricas. Era especialmente dramático quando ele tirava o turbante para ter acesso às suas poderosas ondas cerebrais.
Era um favorito das crianças, que o imitavam. Um irmão mais novo, por exemplo, começava a berrar:
Sou o Dr. Mentalis!
Ah é, que número você está pensando? — perguntava o irmão mais velho.
Cinco!
Você está chutando!
Não estou!
Mas todo mundo podia ver na cara do moleque que ele estava chutando um número qualquer.
Quando sua carreira chegou no auge o Dr. Mentalis quis realizar o seu maior desafio: fazer algo que nenhum mentalista jamais havia conseguido fazer. Quis mostrar que os seus poderes mentais eram tamanhos que ele conseguiria prestar atenção no que uma mulher estava falando.
Para se preparar o Dr. Mentalis ficou dois meses numa fazenda na Islândia tentando prestar atenção no que mulheres falavam, e lendo contos femininos.
Tem um documentário islandês famoso em que o Dr. Mentalis aparece tentando prestar atenção numa mulher em um celeiro, e logo na primeira frase dela ele grita:
Não consigo! É inútil! — e começa a quebrar uma cadeira contra a parede.
Daí o documentário segue o Dr. Mentalis para fora do celeiro até que ele vira uma silhueta solitária na tundra.
Aaaah! Estou profundamente frustrado! — a silhueta do Dr. Mentalis berra ao longe.
Mas ele perseverou, ou não se chamasse Dr. Mentalis.
No seu famoso show no estádio do Morumbi, ele colocou uma assistente bonita, a Artemísia, falando sem parar durante um minuto inteiro. Daí tirou o turbante e jogou no outro lado do palco, começou a massagear as têmporas no seu gesto característico, e disse:
Ela falou que na sexta, acho que foi na sexta, ela ia na chácara da tia dela, irmã da mãe dela, a irmã mais nova da mãe dela, não a mais velha que está brigada com a família… Ela ia mas não foi por algum motivo… Espera, foi porque desde criança essa tia faz ela se sentir mal… Porque é fofoqueira ou algo assim… Nessa parte eu viajei… Mas ela não foi na chácara, e no lugar disso saiu com uma amiga dela chamada Talita, que está chateada porque não vai poder viajar pra Cancun, e elas beberam frozen margaritas e falaram de um tal de Tiaguinho, que é super convencido.
Ninguém sabia se era isso que a Artemísia tinha falado mesmo, porque ninguém no estádio tinha prestado atenção. Mas o Dr. Mentalis perguntou para ela se era isso mesmo que ela tinha falado.
Mais ou menos — respondeu Artemísia, e todos no estádio lotado começaram a aplaudir o triunfo do Dr. Mentalis, que satisfeito da vida colocou de volta o turbante e começou a cavalgar um tigre pelo palco com os braços cruzados no peito ao som de “Assim Falava Zaratustra”.
Essa imagem do Dr. Mentalis cavalgando um tigre foi capa da revista Time com o título “O PODER DA MENTE – Como um brasileiro consegue saber o que está sentindo, ler os próprios pensamentos e prestar atenção em mulheres”.
Nessa época ele deu uma entrevista famosa para a TV.
ENTREVISTADORA: Você se tornou famoso por três truques: saber o que está sentindo, saber o que está pensando, e conseguir prestar atenção parcial em mulheres. O que esses três truques têm em comum?
DR. MENTALIS: Estar presente no momento. Graças a muita meditação, consigo ficar levemente atento ao momento presente. Isso permite que eu faça truques de palco, mas também permite que eu faça outras coisas na vida real que seriam consideradas extraordinárias pela massa ignara.
ENTREVISTADORA: Pode dar um exemplo?
Mas aqui o Dr. Mentalis se distraiu e a pergunta teve que ser repetida por um entrevistador homem.
ENTREVISTADOR: Pode dar um exemplo?
DR. MENTALIS: Por exemplo, quando estou tendo relações sexuais, consigo pensar na mulher com quem estou tendo a relação.
ENTREVISTADOR: O tempo todo?
DR. MENTALIS: Bom, claro que não o tempo todo, mas às vezes, durante a relação, percebo que estou com esta mulher e não aquela. E presto atenção nela durante alguns momentos.
ENTREVISTADOR: Com todo respeito, é difícil acreditar que isso esteja dentro da capacidade de um ser humano.
DR. MENTALIS: Mas é inteiramente possível e já fiz isso algumas vezes.

Não se sabe exatamente o que causou o desaparecimento dos seus poderes psíquicos – fala-se de uma febre, do abuso pecuniário de dons sobrenaturais, de alcoolismo –, mas o fato é que a derrocada chegou de um momento para o outro. Um dia o Dr. Mentalis subiu no palco e se preparou para fazer o seu truque tradicional de descobrir o número em que ele estava pensando.
Vou escrever um número de um a cem neste papel, e vou olhar este papel e transmitir o número para a minha mente.
O Dr. Mentalis escreveu o número 41 no papel, que foi projetado num telão.
Que loucura — disse o Freddy Freddy (foi no programa do Freddy Freddy). — E agora?
Agora vou olhar pro papel e ao mesmo tempo transmitir o número pra minha mente. Preciso de toda concentração!
Boa sorte, Dr. Mentalis!
O Dr. Mentalis ficou olhando fixo para o papel onde estava escrito o número 41.
Estou ficando melancólico! — gritou o Freddy Freddy, que na verdade estava ficando nervoso, mas ao contrário do Dr. Mentalis não era capaz de saber como estava se sentindo. — Que número é, Dr. Mentalis?
E o Dr. Mentalis, olhando para o número escrito no papel:
Não consigo captar… Um momento…
Algum problema, Dr. Mentalis?
O Dr. Mentalis em silêncio.
Quer mais um minuto, Dr. Mentalis? Podemos começar a contagem regressiva?
Espera… Não consigo… Só um segundo…
O programa começou a contagem regressiva de um minuto.
O Dr. Mentalis olhando o número escrito no papel.
Talvez… Espere… Sim, acho que…
E por fim, num tom de dúvida:
Doze?
Som de decepção do público.
Não, Dr. Mentalis! Infelizmente é 41!
Não pode ser… Vi claramente o número 12 na minha mente!
Confira no papel que o senhor tem aberto na mão, Dr. Mentalis!
E o Dr. Mentalis olhou derrotado para o papel, para o qual na verdade nunca tinha deixado de olhar.
Foi a última apresentação do Francisco Marcelino como Dr. Mentalis. O turbante foi para o fundo do armário, junto de um alaúde empoeirado e uma bola de futebol murcha.
Anos depois, sob efeito de muita sambuca, Marcelino tirou do armário aquele turbante duro e coberto de fungos e o colocou na cabeça durante uns minutos, se olhando no espelho e ficando triste, mas sem saber que estava se sentindo triste (pensou que achou engraçado).
Hoje Francisco Marcelino anda pelas calçadas rachadas do seu bairro, um homem comum que de vez em quando se pergunta vagamente, muito vagamente, o que diabos estará pensando ou sentindo.

Alexandre Soares Silva, in O Homem que Lia os Seus Próprios Pensamentos