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09/05/2026

Borboletas



Desde menino as borboletas me encantam. E acho que elas gostam de mim. Certa vez, na casa do Brandão, lá em Pocinhos do Rio Verde, uma borboleta assentou-se no meu rosto e lá ficou, imóvel e tranquila. Não me mexi, com medo de assustá-la. Ela ficou tanto tempo em meu rosto que deu tempo de o Brandão ir buscar sua câmera e tirar uma foto.
Penso que borboletas, seres alados, diáfanos e coloridos, devem ser emissários dos deuses, anjos que anunciam coisas do amor. Imaginei então que aquela borboleta era um anjo disfarçado que os deuses me enviavam com uma promessa de felicidade.
O imaginário mítico e poético sempre gostou de borboletas. Os gregos, por exemplo, imaginavam a alma como uma borboleta com corpo de menina. E Fernando Pessoa dedicou-lhes um maravilhoso poema: Eros e Psique.
Cecília Meireles também brincou com elas. Compôs um poema em que colocou uma pequenina borboleta equilibrando a pesadíssima grandeza cósmica:

No mistério do Sem-Fim
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de uma borboleta.

Podem imaginar isso, que uma borboleta com suas levíssimas asas possa equilibrar um planeta? E numa cena do filme Sonhos, de Kurosawa, há uma revoada de milhares, milhões de borboletas.
Isso aconteceu faz muitos anos. A cena da borboleta pousada no meu rosto estava no esquecimento. Aí sonhei e a cena se tornou viva de novo.
Os sonhos são um mundo mágico. No mundo dos sonhos, não há nem antes nem depois, nem lá nem aqui. Tempo e espaço se misturam.
Aí, sonhando, ouvi o cantarolar de uma valsinha velha de que ninguém mais se lembra. Era só um cantarolar, sem palavras. Depois de acordar, fui ao Google e lá estava ela – “Linda borboleta”:

Certa manhã
Destas manhãs cheias de luz
Por entre as rosas do jardim
Eu vi passar
Gentil borboleta
De asas azuis
E o seu voo incerto
Me fez pensar

Que os namorados
Que passeiam por aí
São borboletas que a voar
De flor em flor
Procuram daqui
E procuram dali
Encontrar um novo amor

Voa, minha linda borboleta
Voa procurando a ilusão
Voa pois a vida é tão boa
Quando se tem
Um amor no coração

Sonhei com a borboleta que pousara no meu rosto. Mas de repente ela bateu asas e voou em meio às árvores da mata. Corri atrás, mas ela era mais rápida que eu.
A cena se alterou. A borboleta estava agora num shopping, voando, voando, e entrou numa joalheria. Fiquei confuso diante de tantas joias nas vitrines, até que vi a borboleta pousada num fino cordão de ouro. Mas foi só tocá-la para que ela se transformasse numa borboleta de vidro, as asas feitas com pedras coloridas.
Fiquei triste com essa transformação, porque eu preferia a borboleta viva, aquela que se assentara no meu rosto. De qualquer maneira, resolvi comprá-la. Era uma joia que eu poderia dar a alguém que se parecesse com a minha borboleta.
Pus a borboleta de pedras coloridas no bolso e me fui. Mas aí aconteceu o que eu não imaginara: como no filme de Kurosawa, milhares de borboletas começaram a sair do meu bolso e encheram de cores o espaço do shopping. E foi em meio a esse encantamento onírico que uma das borboletas não voou. Ela se assentou sobre o meu rosto e ali ficou...
Aí eu acordei...

***

Nestes jardins – há vinte anos – andaram os nossos muitos passos,
e aqueles que então éramos se contemplaram nestes lagos.
Se algum de nós avistasse o que seríamos com o tempo, todos nós choraríamos,
de mútua pena e susto imenso.
E assim nos separamos, suspirando dias futuros, nenhum se atrevia a desvelar
seus próprios mundos.
E agora que separados vivemos o que foi vivido, com doce amor choramos quem
fomos nesse tempo antigo.

Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado

05/05/2026

Que dor dói mais?



Duas cenas. Na primeira, um homem chora a morte da mulher amada. Na segunda, outro homem chora a partida da mulher amada para um novo amor. Que dor dói mais?
Mais que a morte da pessoa amada, dói a partida dela para um novo amor.
A morte, ao levar a pessoa amada, retira-a do tempo, eterniza o amor e congela o abraço – como numa fotografia. Na fotografia tudo está imóvel, não há mudanças, não há tempo. Ali o amor está fixado para sempre. A mulher que morreu, morreu amando, e a morte tornou eterno esse amor. Ela continuará amando sempre na fotografia. E esse amor estará para sempre com o homem que ficou. A pessoa amada nunca o abandonará. Ele sofre, mas a alma está amando e tranquila. A amada morreu, mas na fotografia a imagem dela está inteira. A fotografia é a presença de uma ausência.
Drummond escreveu um poema em que descreve essa ausência:

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Cecília Meireles fotografou com palavras a ausência de sua avó, em “Elegia”:

Um jardineiro desconhecido se ocupará da simetria
desse pequeno mundo em que estás.
Suas mãos vivas caminharão acima das tuas, em descanso

[...]

Tua voz sem corpo estará comandando,
entre terra e água,
o aconchego das raízes tenras

[...]

Tudo em ti era uma ausência que se demorava:
uma despedida pronta a cumprir-se.

A imaginação sofre. Mas o seu sofrimento é belo. Não há esperança nem o suplício da espera. A ausência de esperança tranquiliza a alma.
Mas, quando não é a morte da pessoa amada, e sim a partida da pessoa amada para um novo amor, a imaginação enche a ausência de fantasmas.
Sei que ela está em algum lugar – onde? Que estará fazendo, livre, esquecida de mim? Quem sabe rindo nos braços de um novo amor...
A fotografia fixou o rosto de uma mulher que me amava e não me ama mais. Havendo partido para um novo amor, ela já não pode continuar lá. A morte não a pegou. Viva, ela vai por onde quer, longe de mim. Não é minha.
É preciso que o tempo faça o seu trabalho de esquecimento. Mas o amante abandonado não quer esquecer. Porque ama. Ainda não foi atingido pela graça da desesperança, que chega muito devagar... Por isso ele sofre…

Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado

17/06/2023

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
mais nada.

Cecilia Meireles, in Antologia Poética

08/06/2023

Desenho

Traça a reta e a curva,
a quebrada e a sinuosa
Tudo é preciso.
De tudo viverás.

Cuida com exatidão da perpendicular
e das paralelas perfeitas.
Com apurado rigor.
Sem esquadro, sem nível, sem fio de prumo,
Traçarás perspectivas, projetarás estruturas.
Número, ritmo, distância, dimensão.
Tens os teus olhos, o teu pulso, a tua memória.

Construirás os labirintos impermanentes
que sucessivamente habitarás.

Todos os dias estás refazendo o teu desenho.
Não te fatigues logo. Tens trabalho para toda a vida.
E nem para o teu sepulcro terás a medida certa.

Somos sempre um pouco menos do que pensávamos.
Raramente, um pouco mais.

Cecília Meireles, in Poesia Completa

09/07/2021

Adeus à roça

No Cancioneiro da Inconfidência, Cecília Meireles descreve a desgraça do negro na cata do ouro. Vou transcrever um pedacinho:

Já se ouve cantar o negro,
Que saudade pela serra!
Os corpos naquelas águas,
As almas por longe terra.
Em cada vida de escravo.
Que surda, perdida guerra!

Faço uma paródia para se aplicar ao meu pai:

O corpo naqueles campos,
A alma por longes terras...

Meu pai perdera a guerra. Testa coberta de suor, foice na mão, ele não queria travar uma batalha com a natureza. Ele não nascera para a agricultura. Não nascera para a solidão dos pastos. Sua alma viajava por outros lugares. O apito das locomotivas, o cheiro do carvão, as viagens, o sacolejar do trem cortando os campos, as estações ferroviárias, os hotéis, a caderneta quilométrica, e ele fazendo a praça, espalhando palavras alegres para convencer os fregueses, o retorno à casa depois do triunfo comercial de cada viagem. Sonhava outra vida.
Essa outra vida começava com as locomotivas. Sonhava mudar-se para Juiz de Fora e dizia: “Em Juiz de Fora as rodas das locomotivas são da altura do seu irmão Ivan...” . Eu me assombrava ao ouvir falar dessas coisas que eu nunca vira. Ele abria então a Encyclopaedia no volume XI, “K — Macchabeus”, e me mostrava as fotografias. “Quem inventou a locomotiva foi um inglês chamado George Stephenson”, ele dizia.
Até que chegou um dia quando ele disse: “Vamos nos mudar daqui! Vamos nos mudar para Lambari...” . Não era Juiz de Fora. Para Juiz de Fora o pulo seria muito grande. Era uma cidadezinha pequena, estação de águas, que tinha trem. Eu não me lembro direito do dia da mudança. Lembro-me que me acordaram muito cedo. E eu me espantei ao ver o céu coberto de estrelas. Para mim, menino, céu coberto de estrelas acontecia à noite, quando se ia para a cama. Que estranho! Eu estava me levantando, era manhã, e o céu estava coberto de estrelas!
A mudança foi simples. Não tínhamos móveis. Tudo o que tínhamos cabia numas poucas canastras. Mais o piano, naturalmente. A Encyclopaedia. E a Biblioteca Internacional de Obras Célebres. Umas poucas panelas. Talheres. Louças. Roupas. E foi assim, com o céu coberto de estrelas e o horizonte se avermelhando que eu deixei o mundo onde meus companheiros eram os cavalos, as vacas, as galinhas, os riachinhos e o menino da mata que conversava comigo e me mudei para um mundo desconhecido onde corriam trens de ferro movidos a fogo e vapor…

Rubem Alves, in O velho que acordou menino

10/09/2020

Recado aos amigos distantes

Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.

Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.

Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.

Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto,
fico vossa prisioneira.

Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança.
Cecília Meireles

14/08/2020

Lua adversa

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua…)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…
Cecília Meireles

05/08/2020

Os dias felizes

Os dias felizes estão entre as árvores, como os pássaros:
viajam nas nuvens,
correm nas águas,
desmancham-se na areia.

Todas as palavras são inúteis,
desde que se olha para o céu.

A doçura maior da vida
flui na luz do sol,
quando se está em silêncio.

Até os urubus são belos,
no largo círculo dos dias sossegados.

Apenas entristece um pouco
este ovo azul que as crianças apedrejaram:
formigas ávidas devoram
a albumina do pássaro frustrado.

Caminhávamos devagar,
ao longo desses dias felizes,
pensando que a Inteligência
era uma sombra da Beleza.
Cecília Meireles

13/02/2020

Recado aos amigos distantes

Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.

Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.

Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.

Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto,
fico vossa prisioneira.

Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança.
Cecília Meireles

04/02/2020

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?
Cecília Meireles

11/12/2019

Canção

Nunca eu tivera querido
dizer palavra tão louca:
bateu-me o vento na boca,
e depois no teu ouvido.

Levou somente a palavra,
deixou ficar o sentido.

O sentido está guardado
no rosto com que te miro,
neste perdido suspiro
que te segue alucinado,
no meu sorriso suspenso
como um beijo malogrado.

Nunca ninguém viu ninguém
que o amor pusesse tão triste.
Essa tristeza não viste,
e eu sei que ela se vê bem...
Só se aquele mesmo vento
fechou teus olhos, também...
Cecília Meireles

20/11/2019

Despedida

Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranquilo:
quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? - me perguntarão.
- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras? - Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra...)

Quero solidão.
Cecília Meireles

23/10/2019

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
Cecília Meireles

21/10/2019

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?
Cecília Meireles

09/09/2019

Tu tens um medo

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.
Cecília Meireles

02/12/2018

Canção mínima

No mistério do Sem-Fim,
Equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro, uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de uma borboleta.
Cecília Meireles

30/07/2018

Escrevo o que Não Sou...

Há uma pergunta que, quando feita a um poeta ou escritor, dói mais que picada de escorpião. A mim, pessoalmente, nunca fizeram. Mas fizeram a amigos meus: “Ele é do jeito mesmo como ele escreve?”. É uma pergunta nascida do amor: acharam bonitas as coisas que escrevi e agora estão curiosos para saber se me pareço com o que escrevo. Como disse, nunca me fizeram a pergunta, diretamente. Mas eu respondo. “Não, eu não sou igual ao que escrevo.” Sou um fingidor.
Quem disse isso, que o poeta é um fingidor, foi Fernando Pessoa:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

Fingir é palavra feia. Sugere uma mentira, com o intuito de enganar. No mundo de Fernando Pessoa ela tem um outro sentido. Fingimento é aquilo que faz o ator no teatro: para representar, ele tem de “fingir” sentimentos que não são dele. E finge tão completamente que sente, realmente, uma dor que não é dele, mas de um personagem fictício, ausente. Assim é o poeta. Como pessoa comum, ele sofre. Essa pessoa sofredora não sabe escrever poemas. Ela só sabe sofrer. Mas nessa pessoa que sofre mora um outro, o poeta, o duplo, heterônimo. Esse poeta olha para si mesmo, sofredor, e “finge”, deixa-se possuir por aquela dor que é dele como se fosse de um outro: “chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”.
Sou um fingidor. O que escrevo é melhor que eu. Finjo ser um outro. O texto é mais bonito que o escritor. Fernando Pessoa se espantava com isso. Tinha clara consciência de que era muito pequeno quando comparado com a sua obra. Num dos seus poemas ele diz o seguinte: “Depois de escrever, leio… Por que escrevi isto? Onde fui buscar isto? De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu…”
Vinha-lhe então a suspeita de que aquilo que ele escrevia não era obra dele, mas de um outro: “Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?”.
Contaram-me que ele, Fernando Pessoa, certa vez, aceitou encontrar-se com Cecília Meireles, e marcaram lugar, data e hora para o dito encontro. Cecília compareceu e esperou. Pessoa não foi e mandou, no seu lugar, um menino com uma desculpa esfarrapada. Esse incidente sempre me intrigou. Será que Pessoa era um grosseiro indelicado? Depois, lendo o Livro do desassossego, de Bernardo Soares, encontrei uma curta afirmação que esclareceu tudo: “Nunca pude admirar um poeta que me foi possível ver”. Ao marcar o encontro com Cecília, movido pela delicadeza ou entusiasmo, ele se esqueceu disso. Foi só na hora que lembrou. Cecília amava os seus poemas. Na ausência, certamente, fizera aquilo que todos fazem: imaginou que o poeta se parecia com os seus poemas. Agora, em algum hotel de Lisboa, ela se preparava para se encontrar com a beleza dos poemas na sua forma viva, verbo feito carne. A decepção seria muito grande. “Nunca pude admirar um poeta que me foi possível ver.” Assim, para poupar Cecília da decepção, ele preferiu não aparecer.
Àqueles que fazem essa pergunta a meu respeito, que imaginam que eu possa ser parecido com o que escrevo, aconselho: “Não compareçam ao encontro. Fiquem com o texto”.
Não é mentira, não é falsidade: a poesia é sempre assim. A poesia não é uma expressão do ser do poeta. A poesia é uma expressão do não-ser do poeta. O que escrevo não é o que tenho; é o que me falta. Escrevo porque tenho sede e não tenho água. Sou pote. A poesia é água. O pote é um pedaço de não-ser cercado de argila por todos os lados, menos um. O pote é útil porque ele é um vazio que se pode carregar. Nesse vazio que não mata a sede de ninguém pode-se colher, na fonte, a água que mata a sede. Poeta é pote. Poesia é água. Pote não se parece com água. Poeta não se parece com poesia. O pote contém a água. No corpo do poeta estão as nascentes da poesia.
Escher, o desenhista mágico holandês, tem um desenho chamado Poça de lama: numa estrada encharcada pela chuva, um caminhão deixou as marcas dos seus pneus, onde a água barrenta se empoçou. Coisas feias e sujas, as marcas dos pneus de um caminhão, cheias de água barrenta: nenhum turista seria tolo de fotografar uma delas, quando há tantas coisas coloridas para serem fotografadas. Pois Escher desenhou uma delas. E o que ele viu é motivo de espanto: na superfície de lama suja, refletidas, as copas dos pinheiros contra o céu azul.
Pensei que a poesia é isso: poça de lama onde se reflete algo que ela mesma não contém. A copa dos pinheiros contra o céu azul não está dentro da lama, não é parte do ser da lama. Apenas reflexo: mora no seu não-ser.
Pensei que assim é o poeta: poça de lama onde o céu se reflete.
Nietzsche, escrevendo sobre a poesia de Ésquilo, diz que ela “é apenas uma imagem luminosa de nuvens e céu refletida no lago negro da tristeza”. E Fernando Pessoa, no poema daquele verso que todo mundo canta — “Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena” —, diz o seguinte: “Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu”.
É nessa contradição: o céu se fazendo visível, refletido, na poça de lama, no lago negro da tristeza, no perigo e no abismo do mar.
Não. Não escrevo o que sou. Escrevo o que não sou. Sou pedra. Escrevo pássaro. Sou tristeza. Escrevo alegria. A poesia é sempre o reverso das coisas. Não se trata de mentira. É que nós somos corpos dilacerados — “Oh! Pedaço arrancado de mim!”. O corpo é o lugar onde moram as coisas amadas que nos foram tomadas, presença de ausências, daí a saudade, que é quando o corpo não está onde está… O poeta escreve para invocar essa coisa ausente. Toda poesia é um ato de feitiçaria cujo objetivo é tornar presente e real aquilo que está ausente e não tem realidade.
Enquanto pensava sobre essa crônica, ouvi, por acaso, aquela balada que diz: “like a bridge over troubled waters” — “como uma ponte sobre águas revoltas…”. Letra e música sempre me comoveram. Na liturgia do casamento do meu filho, liturgia que preparei, pedi ao Décio, cirurgião pianista, que tocasse essa canção: pois isso é o máximo que alguém pode ser para a pessoa amada: ponte sobre águas revoltas. Pensei, então, que eu sou “águas revoltas” (onde eu mesmo quase me afogo). O que escrevo é uma ponte de palavras que tento construir para atravessar o rio.
Assim, considero respondida a pergunta: não sou igual ao que escrevo. Guardem o conselho de Fernando Pessoa. É mais seguro não comparecer ao encontro.
Rubem Alves, in Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo

03/12/2017

As caridades odiosas

Foi uma tarde de sensibilidade ou de suscetibilidade? Eu passava pela rua depressa, emaranhada nos meus pensamentos, como às vezes acontece. Foi quando meu vestido me reteve: alguma coisa se enganchara na minha saia. Voltei-me e vi que se tratava de uma mão pequena e escura.
Pertencia a um menino a que a sujeira e o sangue interno davam um tom quente de pele. O menino estava de pé no degrau da grande confeitaria. Seus olhos, mais do que suas palavras meio engolidas, informavam-me de sua paciente aflição. Paciente demais. Percebi vagamente um pedido, antes de compreender o seu sentido concreto. Um pouco aturdida eu o olhava, ainda em dúvida se fora a mão da criança o que me ceifara os pensamentos.
Um doce, moça, compre um doce para mim.
Acordei finalmente. O que estivera eu pensando antes de encontrar o menino? O fato é que o pedido deste pareceu cumular uma lacuna, dar uma resposta que podia servir para qualquer pergunta, assim como uma grande chuva pode matar a sede de quem queria uns goles de água.
Sem olhar para os lados, por pudor talvez, sem querer espiar as mesas da confeitaria onde possivelmente algum conhecido tomava sorvete, entrei, fui ao balcão e disse com uma dureza que só Deus sabe explicar: um doce para o menino.
De que tinha eu medo? Eu não olhava a criança, queria que a cena, humilhante para mim, terminasse logo. Perguntei-lhe: que doce você.
Antes de terminar, o menino disse apontando depressa com o dedo: aquelezinho ali, com chocolate por cima. Por um instante perplexa, eu me recompus logo e ordenei, com aspereza, à caixeira que o servisse.
Que outro doce você quer? perguntei ao menino escuro.
Este, que mexendo as mãos e a boca ainda esperava com ansiedade pelo primeiro, interrompeu-se, olhou-me um instante e disse com delicadeza insuportável, mostrando os dentes: não precisa de outro não. Ele poupava a minha bondade.
Precisa sim, cortei eu ofegante, empurrando-o para a frente. O menino hesitou e disse: aquele amarelo de ovo. Recebeu um doce em cada mão, levantando as duas acima da cabeça, com medo talvez de apertá-los. Mesmo os doces estavam tão acima do menino escuro. E foi sem olhar para mim que ele, mais do que foi embora, fugiu. A caixeirinha olhava tudo:
Afinal, uma alma caridosa apareceu. Esse menino estava nesta porta há mais de uma hora, puxando todas as pessoas que passavam, mas ninguém quis dar.
Fui embora, com o rosto corado de vergonha. De vergonha mesmo? Era inútil querer voltar aos pensamentos anteriores. Eu estava cheia de um sentimento de amor, gratidão, revolta e vergonha. Mas, como se costuma dizer, o Sol parecia brilhar com mais força. Eu tivera a oportunidade de. E para isso fora necessário um menino magro e escuro. E para isso fora necessário que outros não lhe tivessem dado um doce.
E as pessoas que tomavam sorvete? Agora, o que eu queria saber com autocrueldade era o seguinte: temera que os outros me vissem ou que os outros não me vissem? O fato é que, quando atravessei a rua, o que teria sido piedade já se estrangulara sob outros sentimentos. E, agora sozinha, meus pensamentos voltaram lentamente a ser os anteriores, só que inúteis. Em vez de tomar um táxi, tomei um ônibus. Sentei-me.
Os embrulhos estão incomodando? Era uma mulher com uma criança no colo e, aos pés, vários embrulhos de jornal. Ah não, disse-lhes eu. “Dá-dádá”, disse a menina no colo estendendo a mão e agarrando a manga de meu vestido. “Ela gostou da senhora”, disse a mulher rindo. Eu também sorri.
Estou desde manhã na rua, informou a mulher. Fui procurar umas amizades que não estavam em casa. Uma tinha ido almoçar fora, a outra foi com a família para fora.
E a menina?
É menino, corrigiu ela, está com roupa dada de menina mas é menino. O menino comeu por aí mesmo. Eu é que não almocei até agora.
É seu neto?
Filho, é filho, tenho mais três. Olhe só como ele está gostando da senhora. Brinca com a moça, meu filho! Imagine a senhora que moramos numa passagem de corredor e pagamos uma fortuna por mês. O aluguel passado não pagamos ainda. E este mês está vencendo. Ele quer despejar. Mas se Deus quiser, ainda arranjarei os dois mil cruzeiros que faltam. Já tenho o resto.
Mas ele não quer aceitar. Ele pensa que se receber uma parte eu fico descansada dizendo: alguma coisa já paguei e não penso em pagar o resto.
Como a mulher velha estava ciente dos caminhos da desconfiança. Sabia de tudo, só que tinha de agir como se não soubesse – raciocínio de grande banqueiro. Raciocinava como raciocinaria um senhorio desconfiado, e não se irritava.
Mas de repente fiquei fria: tinha entendido. A mulher continuava a falar. Então tirei da bolsa os dois mil cruzeiros e com horror de mim passei-os à mulher. Esta não hesitou um segundo, pegou-os, meteu-os num bolso invisível entre o que me pareceram inúmeras saias, quase derrubando na sua rapidez o menino-menina.
Deus nosso Senhor lhe favoreça, disse de repente com o automatismo de uma mendiga.
Vermelha, continuei sentada de braços cruzados. A mulher também continuava ao lado.
Só que não nos falávamos mais. Ela era mais digna do que eu havia pensado: conseguido o dinheiro, nada mais quis me contar. E nem eu pude mais fazer festas ao menino vestido de menina. Pois qualquer agrado seria agora de meu direito: eu o havia pago de antemão.
Um laço de mal-estar estabelecera-se agora entre nós duas, entre a mulher e eu, quero dizer.
Deixe a moça em paz, Zezinho, disse a mulher.
Evitávamos encostar os cotovelos. Nada mais havia a dizer, e a viagem era longa.
Perturbada, olhei-a de través: velha e suja, como se dizem das coisas. E a mulher sabia que eu a olhara.
Então uma ponta de raiva nasceu entre nós duas. Só o pequeno ser híbrido,radiante, enchia a tarde com o seu suave martelar: “dá dá dá.”
Cecília Meireles, in A descoberta do mundo

19/12/2016

Comer gato por lebre

Você já comeu gato por lebre? perguntaram-me devido a meu ar um pouco distraído.
Respondi:
Como gato por lebre a toda hora. Por tolice, por distração, por ignorância. E até às vezes por delicadeza: me oferecem gato e agradeço a falsa lebre, e quando a lebre mia, finjo que não ouvi. Porque sei que a mentira foi para me agradar. Mas não perdoo muito quando o motivo é de má-fé.
Mas a variedade do assunto está exigindo uma enciclopédia. Por exemplo, quando o gato se imagina lebre. Já que se trata de gato profundamente insatisfeito com a sua condição, então lido com a lebre dele: é direito de gato querer ser lebre.
E há casos em que o gato até que quer ser gato mesmo, mas lebresse oblige, o que cansa muito.
Há também os que não querem admitir que gostam mesmo é de gato, obrigando-nos a achar que é lebre, e aceitamos só para poder comer em paz com tempos e costumes.
Num tratado sobre o assunto, um professor de melancolia diria que já serviu de lebre a muito gato ordinário. Um professor de irritação diria uma coisa que não se publica.
Tenho mesmo vergonha é quando não aceito lebre pensando que era gato. (Há um provérbio que diz: é melhor ser enganado por um amigo do que desconfiar dele.) É o preço da desconfiança.
Mas na verdade, quando aceito gato por lebre, o problema verdadeiro é de quem me ofereceu, pois meu erro foi apenas o de ser crédula.
Estou gostando de escrever isto. É que várias lebres andaram miando pelos telhados, e tive agora a oportunidade de miar de volta. Gato também é hidrófobo.
Cecília Meireles, in Aprendendo a viver

29/03/2016

Ostra feliz não faz pérola

Ostras são moluscos, animais sem esqueleto, macias, que representam as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas, com pingos de limão, paellas, sopas. Sem defesas – são animais mansos -, seriam uma presa fácil dos predadores. Para que isso não acontecesse, a sua sabedoria as ensinou a fazer casas, conchas duras, dentro das quais vivem. Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas saía uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário. Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste. As ostras felizes se riam dela e diziam: “Ela não sai da sua depressão…”. Não era depressão. Era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro de sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor. O seu corpo sabia que, para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de suas asperezas, arestas e pontas, bastava para envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. Assim, enquanto cantava seu canto triste, o seu corpo fazia o trabalho – por causa da dor que o grão de areia lhe causava. Um dia, passou por ali um pescador com o seu barco. Lançou a rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-as para casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro de uma ostra. Ele o tomou nos dedos e sorriu de felicidade: era uma pérola, uma linda pérola. Apenas a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele tomou-a e deu-a de presente para a sua esposa.
Isso é verdade para as ostras. E é verdade para os seres humanos. No seu ensaio sobre o nascimento da tragédia grega a partir do espírito da música, Nietzche observou que os gregos, por oposição aos cristãos, levavam a tragédia a sério. Tragédia era tragédia. Não existia para eles, como existia para os cristãos, um céu onde a tragédia seria transformada em comédia. Ele se perguntou então das razões por que os gregos, sendo dominados por esse sentimento trágico da vida, não sucumbiram ao pessimismo. A resposta que encontrou foi a mesma da ostra que faz uma pérola: eles não se entregaram ao pessimismo porque foram capazes de transformar a tragédia em beleza. A beleza não elimina a tragédia, mas a torna suportável. A felicidade é um dom que deve ser simplesmente gozado. Ela se basta. Mas ela não cria. Não produz pérolas. São os que sofrem que produzem a beleza, para parar de sofrer. Esses são os artistas. Beethoven – como é possível que um homem completamente surdo, no fim da vida, tenha produzido uma obra que canta a alegria? Van Gogh, Cecília Meireles, Fernando Pessoa…
Rubem Alves, in Ostra feliz não faz pérola