Desde menino as borboletas me
encantam. E acho que elas gostam de mim. Certa vez, na casa do
Brandão, lá em Pocinhos do Rio Verde, uma borboleta assentou-se no
meu rosto e lá ficou, imóvel e tranquila. Não me mexi, com medo de
assustá-la. Ela ficou tanto tempo em meu rosto que deu tempo de o
Brandão ir buscar sua câmera e tirar uma foto.
Penso que borboletas, seres alados,
diáfanos e coloridos, devem ser emissários dos deuses, anjos que
anunciam coisas do amor. Imaginei então que aquela borboleta era um
anjo disfarçado que os deuses me enviavam com uma promessa de
felicidade.
O imaginário mítico e poético
sempre gostou de borboletas. Os gregos, por exemplo, imaginavam a
alma como uma borboleta com corpo de menina. E Fernando Pessoa
dedicou-lhes um maravilhoso poema: Eros e Psique.
Cecília Meireles também brincou com
elas. Compôs um poema em que colocou uma pequenina borboleta
equilibrando a pesadíssima grandeza cósmica:
No mistério do Sem-Fim
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de uma borboleta.
Podem imaginar isso, que uma borboleta
com suas levíssimas asas possa equilibrar um planeta? E numa cena do
filme Sonhos, de Kurosawa, há uma revoada de milhares,
milhões de borboletas.
Isso aconteceu faz muitos anos. A
cena da borboleta pousada no meu rosto estava no esquecimento. Aí
sonhei e a cena se tornou viva de novo.
Os sonhos são um mundo mágico. No
mundo dos sonhos, não há nem antes nem depois, nem lá nem aqui.
Tempo e espaço se misturam.
Aí, sonhando, ouvi o cantarolar de
uma valsinha velha de que ninguém mais se lembra. Era só um
cantarolar, sem palavras. Depois de acordar, fui ao Google e lá
estava ela – “Linda borboleta”:
Certa manhã
Destas manhãs cheias de luz
Por entre as rosas do jardim
Eu vi passar
Gentil borboleta
De asas azuis
E o seu voo incerto
Me fez pensar
Que os namorados
Que passeiam por aí
São borboletas que a voar
De flor em flor
Procuram daqui
E procuram dali
Encontrar um novo amor
Voa, minha linda borboleta
Voa procurando a ilusão
Voa pois a vida é tão boa
Quando se tem
Um amor no coração
Sonhei com a borboleta que pousara no
meu rosto. Mas de repente ela bateu asas e voou em meio às árvores
da mata. Corri atrás, mas ela era mais rápida que eu.
A cena se alterou. A borboleta estava
agora num shopping, voando, voando, e entrou numa joalheria. Fiquei
confuso diante de tantas joias nas vitrines, até que vi a borboleta
pousada num fino cordão de ouro. Mas foi só tocá-la para que ela
se transformasse numa borboleta de vidro, as asas feitas com pedras
coloridas.
Fiquei triste com essa transformação,
porque eu preferia a borboleta viva, aquela que se assentara no meu
rosto. De qualquer maneira, resolvi comprá-la. Era uma joia que eu
poderia dar a alguém que se parecesse com a minha borboleta.
Pus a borboleta de pedras coloridas no
bolso e me fui. Mas aí aconteceu o que eu não imaginara: como no
filme de Kurosawa, milhares de borboletas começaram a sair do meu
bolso e encheram de cores o espaço do shopping. E foi em meio a esse
encantamento onírico que uma das borboletas não voou. Ela se
assentou sobre o meu rosto e ali ficou...
Aí eu acordei...
***
Nestes jardins – há vinte anos –
andaram os nossos muitos passos,
e aqueles que então éramos se
contemplaram nestes lagos.
Se algum de nós avistasse o que
seríamos com o tempo, todos nós choraríamos,
de mútua pena e susto imenso.
E assim nos separamos, suspirando dias
futuros, nenhum se atrevia a desvelar
seus próprios mundos.
E agora que separados vivemos o que
foi vivido, com doce amor choramos quem
fomos nesse tempo antigo.
Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado

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