Aquele oiti cresceu junto comigo.
Enchi, muitas vezes, meu pequeno regador verde na bica do jardim pra
dar de beber ao meu amigo. Fiz, é verdade, um ou outro xixizinho
nele. Mas tudo na maior camaradagem. Sempre repartiu comigo a terra
que o alimentava, pra que eu enchesse o balde e as forminhas de praia
nas tardes em que batia a saudade da ilha de Paquetá. Nunca me deu
esporro nos momentos que gravei meu nome, a canivete, em sua pele.
Sabíamos que era uma coisa dolorosa e difícil de explicar, mas,
quase sempre, são assim as grandes amizades. Salvou muitos gols dos
inimigos nos jogos-contra, trave heroica. Jamais enredou em seus
ramos honestos a linha da minha pipa. Nunca mais vou esquecer sua
alegria no supercampeonato de 58, Vasco doente, balançava os galhos
com a conquista do título, e eu repetia,todo emocionado:
— Casaca, oiti. Mais uma estrela na
nossa bandeira.
Tinha o dia em que as árvores da Rua
dos Artistas cortavam seus cabelos verdes. Vinham os cadetes da L.U.
e deixavam as calçadas cobertas de galhos, que nem ficava, assim de
cabelo, o chão da barbearia do Seu Teófilo. Meu amigo oiti usava um
corte parecido com o meu, “Príncipe Danilo”, e eu mandava selo,
carimbo, estampilha nele. Coração que não cabia no tronco, se
preocupava muito com os ninhos que sustentava e, nos dias de vento,
eu ficava tranquilizando da janela:
— Calma que tá tudo bem.
Esse negoço de elogiar muito um amigo
costuma acontecer quando o cara empacota e é sempre a maior
xaropada. Meus prezados leitores vão me desculpar, mas é que no
caso do oiti não foi morte natural. Ele foi assassinado covardemente
por uma imobiliária sem escrúpulos, sem mãe, em nome do pogresso.
Pogresso é que nem, nos apartamentos que eles mesmos constroem, o
que acontece nos tais respiradouros do banheiro: Você ouve o
barulho, mas não sente o cheiro. Fica aí a sugestão para slogan do
SérgioDourado.
Pois é, meu amigo dançou. Mas vai
ter forra. Em cada morador da Vila cresce, prodigiosa, a revolta.
Protestaremos sempre contra mais esse crime, nós, os sanhaços, os
bem-te-vis, os coleiros, as tímidas juritis a quem ele abrigou; nós,
os vira-latas, que urinamos em seu tronco amistoso; nós, os bêbados,
que vomitamos amparados em seu ombro compreensivo; nós, os
varredores das ruas, que limpamos a testa à sua sombra; nós, as
crianças que nos escondemos atrás de seu corpo, trinta e um de
janeiro, lá vou eu; nós, goiabeiras, avencas, samambaias, pequenas
ervas sem nome, protestaremos contra essa covardia, irmãozinho.
E traremos, aliadas, as cigarras, com
seu otimismo, e elas convidarão os decididos grilos de Vila Isabel,
os mais boêmios da cidade.
Virão sabiás e pintassilgos, cágados
e cabritos, gatos vadios e papagaios que falam palavrão. A denúncia
desse crime estará nas pipas pastorinhas dos carneiros do céu;
estará nos balões — do mais humilde balão japonês passando
pelos grandes balões-tangerina cheios de lanterninhas até o balão
visto pelo Zeca em Cachambi retratando, com cento e trinta e um
figurantes, a Queda da Bastilha. A denúncia desse crime estará nas
estrelas e na lua — na lua, que vezes incontáveis mascarou-se,
linda, com teus galhos. Criaremos códigos e senhas. O apito do
guarda-noturno contará que te mataram. Contará que te mataram o
assovio das facas do amolador. O grito do garrafeiro falará dessa
covardia, assim como os livros de histórias, os gibis e as
figurinhas. Leremos mensagens no desenho das nuvens, conspiraremos
com os botões e as pétalas da primavera, ouviremos os conselhos das
sábias folhas de outono. Seguirão notícias em gaivotas nas salas
de aula e em barcos de jornal nas enchentes provocadas pelas chuvas
de verão. O Penteado, tremendo gozador, inventará lorotas sobre o
passado dos donos de imobiliárias atrás da bananeira. E o Esmeraldo
passará, uma por uma, as mulheres deles na cara.
Porque sabemos que deve haver um
pedaço teu, meu amigo, vivo. Embaixo da terra, em algum lugar, há
um pedaço teu. E vivo.
E nós, que com nossos olhos secos e
amargurados, com nossos galhos cobertos de fuligem, com nossas
plumagens descoloridas, nós que, testemunhando mais esse crime, não
deixamos que morresses de todo, nós vamo partir pra briga.
Volta logo. Combateremos à tua
sombra, e que não falte cachaça e cervejinha pros nossos rapazes.
Volta logo, que nós vamos botar de
novo as cadeiras na calçada e distribuir maços de Lincoln e chupar
rebuçado e vestir pijamas de listras e usar chapéu panamá.
E cada vez que ouvirmos burrices do
tipo “é preciso assumir” ou “o senso deve prevalecer”,
responderemos, orgulhosos do que somos: dá o pé, louro! E mais: uma
aqui pro nossa-amizade!
E, como golpe de misericórdia, a
terrível sentença: conheceu, papudo?
Volta logo, e traz com você muitos
bondes, bondes cheios de passarinhos e cachorros, mariolas, petecas e
sonhadores. Faremos subir novas pipas com a forma dos nossos sonhos,
novos balões que derramam lágrimas de ouro barato, e depois virá a
lua, e desfilarão os ranchos e seremos todos palhaços, índios,
piratas, e todos usaremos sutiã de casquinha de sorvete e nos
apaixonaremos pela mesma deslumbrante odalisca, arrumadeira do 257.
As crianças baterão nos postes, como
nas antigas noites de Ano-Novo. Acenderemos fogueiras e brincaremos
de roda, nós, pássaros, nós, árvores, nós, homens, ao som da
flauta inesquecível do Benedito Lacerda, do violão de Noel.
Vovó Noemia fará uma feijoada, coisa
simples, e convidaremos Cosme e Damião pra ouvir as piadas do Waldyr
Iapetec, a Maria da Ave pra ajudar minha vó, Papai Noel pra levar um
esporro e parar de ficar feito prostituta em porta de loja;
convidaremos o coelho da Páscoa (ô cara chato!), o santo
casamenteiro pra tomar umas batidas feitas pelo Lindauro, o Pena
Branca,
todos os avôs do mundo, que é tão
difícil a alegria sem avô, o lago da Quinta da Boa Vista, os
brinquedos do Parque Shangai, os personagens do presépio, o time
supercampeão do glorioso Vasco da Gama, os ciganos do carro-preto, o
Armindo, que também foi assassinado, a turma toda, até o Ceceu
Rico, que não gosta de festa. Que participem da nossa conjura
abilolada, da nossa inconfidência delirante.
Pode ser que os sicários do verde, os
carrascos da esperança, os verdugos da alegria — em nome do
pogresso — tentem nos dispersar a cacetada, imponham o toque de
silêncio a nossas flautas e violões e declarem estado de sítio nos
fios,telhados e copas verdes onde zoneiam nossos passarinhos.
Será inútil, imobiliárias sem
escrúpulos, sem mãe: a Vila avisa que resistirá até o último
pardal, até o último oiti, até o último sonhador embriagado.
Aldir Blanc, em Pasquim, nº 362

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