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06/12/2025

Pequena tragédia brasileira

A Bem-Amada queria devorar o coração do Poeta.
Não — disse ele —, só terás um pedacinho. Porque noventa por cento pertence aos Editores.

Mário Quintana, em Caderno H

04/08/2025

Os máscaras

O Homem Invisível via-se obrigado a botar máscara. Era uma face enganadora, alheia, sinistra, melancólica...
O Poeta, para entrar em contato com os outros homens, põe-se a fazer poemas.

Mário Quintana, em Sapato Florido

01/08/2025

O poeta e os exegetas

Há anos venho procurando esta raridade bibliográfica: uma edição da Divina Comédia sem comentários. Raridade? Creio que nem existe maravilha assim.

Mário Quintana, em Meditações

22/08/2024

Pré-posfácio

Poeta sou! Cumpro meu fado, estranho
Como o dum santo ou um louco:
Só posso dar demais ou muito pouco,
Que tudo quanto tenho.

José Régio, em Antologia Poética

12/07/2024

Natureza viva

Há trovões arrastando pesados móveis, enormes cômodos pelo céu. Há outros que trabalhar não é com eles e ficam resmungando, num desvão. Por fim atracam-se. As lâmpadas, lá-alto, queimam-se em sucessivos relâmpagos, enquanto o poeta descarrega os nervos. Até que tudo vasa e se extravasa sobre o desespero dos guarda-chuvas em fuga e a verde alegria das árvores.

Mário Quintana, em Porta giratória

04/07/2024

Carvalhos & margaridas

Há poetas, há certos poemas radioativos. São os que, sem querer, vêm operando as transmutações, as mutações humanas. Não eram cogumelos súbitos. Agitava-os o vento shakespeariano de todas as paixões, de todos os cuidados. Não sei se ficamos melhores ou piores: ficamos mais profundos. Mas há, neste mundo, os que sofrem a vertigem das profundezas ou das alturas. Para esses, inclinam-se à beira da estrada umas florinhas silvestres que sempre estão se oferecendo: colhe-me, colhe-nos! E os poetas da planície fazem buquês com elas! Alguns até belíssimos, mas sem perigo algum. Pudera! Eram flores de retórica.

Mário Quintana, em Porta giratória

29/03/2024

A voz

Ser poeta não é dizer grandes coisas, mas ter uma voz reconhecível dentre todas as outras.

Mário Quintana, in Caderno H

03/02/2023

Coração de poeta

O coração do poeta
não sossega um segundo,
mergulha no mar da alma
até encostar no fundo,
depois faz a própria dor
ser a dor de todo mundo.

Bráulio Bessa, in Um carinho na alma

09/09/2022

Contradições?

... mas o que eles não sabem levar em conta é que o poeta é uma criatura essencialmente dramática, isto é, contraditória, isto é, verdadeira.
E por isso é que o bom de escrever teatro é que se pode dizer, com toda a sinceridade, as coisas mais opostas.
Sim, um autor que nunca se contradiz deve estar mentindo.

Mário Quintana, in Caderno H

19/10/2021

Somlyo Georgy

Amo na Hungria o entrelaçamento da vida e da poesia, da história e da poesia, do tempo e do poeta. Em outros lugares se discute este assunto com mais ou menos inocência, com mais ou menos injustiça. Na Hungria todo poeta está comprometido antes de nascer. Attila Joseph, Ady Endre, Gyula Illés são produtos naturais de um grande vaivém entre o dever e a música, entre a pátria e a sombra, entre o amor e a dor.
Somlyo Georgy é um poeta a quem vi crescer com segurança e poder há vinte anos. Poeta de tom apurado e ascendente como um violino, poeta preocupado com sua vida e com as outras vidas, poeta húngaro até a medula, húngaro em sua generosa disposição de compartilhar a realidade e os sonhos de um povo. Poeta do amor mais decidido e da ação mais ardente, guarda em sua universalidade a marca singular da grande poesia de sua pátria.
Um jovem poeta maduro, digno da atenção de nossa época. Uma poesia quieta, transparente e embriagadora como o vinho das areias de ouro.

Pablo Neruda, in Confesso que vivi

18/10/2021

Comunhão

Os verdadeiros poetas não leem os outros poetas. Os verdadeiros poetas leem os pequenos anúncios dos jornais.

Mário Quintana, in Sapato Florido

22/04/2021

Poeta? O que é isso?

Mamãe, que fim levou o papai?
Ele era poeta.
Poeta? O que é isso, mamãe?
Ele também dizia que não sabia. Agora anda, lava essas mãos, o jantar tá na mesa.
Ele não sabia?
Exatamente, não sabia, não. Agora anda, eu disse que era pra lavar essas mãos…

Charles Bukowski, in Você aconselharia alguém a ser escritor?

13/08/2019

O silêncio

Convivência entre o poeta e o leitor, só no silêncio da leitura a sós. A sós, os dois. Isto é, livro e leitor. Este não quer saber de terceiros, não quer que interpretem, que cantem, que dancem um poema. O verdadeiro amador de poemas ama em silêncio…
Mário Quintana, in A vaca e o hipogrifo

02/08/2019

Simultaneidade

Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver!
Você é louco?
Não, sou poeta.
Mário Quintana, in A vaca e o hipogrifo

07/09/2018

Para ser poeta

O primeiro estudo do homem que quer ser poeta é o conhecimento de si próprio, inteiro; ele vasculha a sua alma, inspeciona-a, sonda-a, aprende-a. A partir do momento em que a conhece, deve cultivá-la; isto parece simples: em todos os cérebros dá-se um desenvolvimento natural; tantos egoístas se proclamam autores; muitos outros há que atribuem a si mesmos o seu progresso intelectual! — Mas é preciso tornar a alma monstruosa: Imagine um homem que implanta e cultiva verrugas na cara.
Digo que é preciso ser-se vidente, tornar-se vidente.
O poeta torna-se vidente através de um longo, imenso e ponderado desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele procura-se a si mesmo, ele esgota em si todos os venenos para ficar apenas com as quintessências. Inefável tortura para a qual ele precisa de toda a fé, de toda a força sobre-humana, através da qual ele se torna entre todos o grande demente, o grande criminoso, o grande maldito — e o Sábio supremo! - Porque ele alcançou o desconhecido! Porque ele cultivou a sua alma, já de si rica, mais do que ninguém! Ele alcança o desconhecido, e quando, aterrorizado, acabar por perder a inteligência das suas visões, ele tê-las-á visto! Que ele rebente no seu salto pelas coisas inauditas e infindáveis: outros horríveis trabalhadores virão; e começarão pelos horizontes nos quais o outro vergou!
Jean-Arthur Rimbaud, in Obra Completa

26/08/2018

A um jovem poeta

O almoço que tivemos outro dia, meu caro Jovem Poeta - e três poetas éramos nós em três idades da existência tão importantes como os trinta, os quarenta e os cinquenta -, deixou-me triste. Triste porque o seu descaminho, a sua angústia, a sua neura são sintomáticos de uma luta inglória. Você, que ainda é puro e sabe o quão fundamental é ela para a sua aventura de poeta, fica irado contra os outros, ao sentir que a sua presente agressividade é fruto de um complexo de culpa. É você, não os outros, quem está em crise. E se os outros também o estiverem, razão a mais para você afirmar-se em sua luta, que é a luta de todo poeta, para ajudá-lo a sair dela. Pois você não auxiliará ninguém, muito menos a si mesmo, se seu coração não estiver limpo de ressentimento e sua luta contra “o outro” não for constante. “O outro”, não preciso dizer, é você próprio. É o súcubo que, todos, temos dentro de nós; o ser calhorda, comprável com a moeda da mentira e da lisonja, que de repente adota a gratuidade como norma, por isso que a paixão é mais insaciável que o infinito aberto em cima. E a paixão não se vende nunca.
Cada poeta é uma coisa em si, mas todos os poetas devem o mesmo à Poesia: a própria vida. Há, o poeta, que queimar-se e causar sempre mal-estar aos que não se queimam. Há que ser o grande ferido, o grande inconformado, o grande pródigo. Há que viver em pranto por dentro e por fora, de alegria ou de sofrimento, e nunca dizer não a ninguém, nem mesmo àqueles que optaram pelo não chorar. Há que também não ter o pejo do ridículo, da intriga ou da risota alheia. Quando Gide, ao ver Verlaine bêbado e maltratado, numa rua de Paris, por um grupo de jovens que o perseguiam e caçoavam com empurrões e doestos, contrariou voluntariamente o impulso de socorrê-lo preferindo deixá-lo entregue a um destino que sabia já traçado - que grande página deixou de escrever sobre a covardia humana, sobre o mal da disponibilidade e a tristeza do egoísmo! Veriaine, o pobre Verlaine, talvez dentre os poetas o que mais amou e sofreu…
Você meu caro Jovem Poeta, que foi dotado de talento e de beleza, não tem o direito de negar-se ao seu martírio. Só ele pode tornar a sua poesia emocionante. Só ele pode salvá-lo do formalismo em que caem os que se recusam a estar sempre despertos. É preciso que todos vejam a luz que seu coração transverbera, mesmo coberto por bons panos. Não negue o seu olhar de poeta aos homens que precisam dele, mesmo tendo o pudor de confessá-lo. Abra a sua camisa e saia para o grande encontro!
Vinicius de Moraes, in Para uma menina com uma flor

23/12/2017

De poeta e louco

Minha mão não obedece ao comando
e sai rabiscando pelas páginas em branco.
Tento manter as linhas,
respeitar as margens,
guardar espaços.
As bobagens que eu faço,
essa mão assina, como se fossem minhas.
Flora Figueiredo

07/05/2017

Os olímpicos

Escusado dizer a um bom poeta que os seus versos não prestam: ele não acredita. Em compensação, se disseres a mesma coisa a um mau poeta, ele também não acredita.
Mário Quintana, in A vaca e o hipogrifo

28/05/2016

O credo do poeta

Meu propósito era falar sobre o credo do poeta, mas, olhando para mim, descobri que tenho apenas um tipo claudicante de credo. Esse credo talvez possa ser útil para mim, mas dificilmente é para os outros.
Aliás, acho que todas as teorias poéticas são meras ferramentas para escrever um poema. Suponho que haja tantos credos, tantas religiões, quantos são os poetas. Embora no final eu diga sobre os meus gostos e desgostos no tocante à escrita da poesia, acho que vou começar com algumas memórias pessoais, não só de escritor, mas também de leitor.
Tenho para mim que sou essencialmente um leitor. Como sabem, eu me aventurei na escrita; mas acho que o que li é muito mais importante que o que escrevi. Pois a pessoa lê o que gosta – porém não escreve o que gostaria de escrever, e sim o que é capaz de escrever.
Jorge Luis Borges

19/04/2016

O poeta ficou cansado

Pois não quero mais ser
Teu arauto.
Já que todos têm voz,
por que só eu devo tomar navios
de rota que não escolhi?
Por que não gritas, Tu mesmo,
a miraculosa trama dos teares,
já que Tua voz reboa
nos quatro cantos do mundo?
Tudo progrediu na Terra
e insistes em caixeiros-viajantes
de porta em porta, a cavalo!
Olha aqui, cidadão,
repara, minha senhora,
neste canivete mágico:
corta, saca e fura,
é um faqueiro completo!
Ó Deus,
me deixa trabalhar na cozinha,
nem vendedor nem escrivão,
me deixa fazer Teu pão.
Filha, diz-me o Senhor,
eu só como palavras.
Adélia Prado