Carta a uma velha amiga que me disse
ter conhecido um grande poeta, que é meu amigo; e ter sofrido uma
decepção:
“Querida –
Não achou você poético o poeta; e
até se queixa de que, no tempo em que esteve em sua mesa, não lhe
ouviu uma palavra sobre poesia, mas, unicamente, ao sabor da
conversa, comentários sobre sapatos de homem e desastres de
automóvel, quando você gostaria de conversar sobre William
Shakespeare.
É, na verdade, um pouco mortificante.
Nunca falam os poetas de poesia?, me pergunta você. Bem, eles falam.
Cada homem tem costume de falar de seu ofício, e o poeta é um homem
como os outros. Mas acontece que, além de ser um homem como os
outros, e sem deixar de sê-lo, ele tem isso de grave e especial que
é ser um homem a quem tudo concerne e de tudo tira seu mel e seu
fel. Esse menino que passa com um barulhento carrinho feito de
caixotes, a trazer verduras da feira; aqueles operários da
construção, que, depois de almoçar no botequim da esquina com uma
cerveja preta, ficam um pouco sentados na calçada, conversando
à-toa, à espera do sinal para o trabalho; e o próprio carrinho de
tábuas de caixote, e a própria garrafa de cerveja preta – tudo é
matéria do poeta. Não concerne o peixe ao motorista nem a mangueira
ao cirurgião; mas ao poeta tudo concerne, e nesse pedaço de jornal
velho que o vento arrasta pelo chão ele se inspira tão bem quanto
naquela moça que saiu às compras, na manhã fria do bairro, com
calças compridas e um suéter vermelho. Apenas há isto: que a esse
farrapo de jornal ou aos olhos verdes dessa moça, pode acontecer que
tenham de esperar muitos anos para entrar em um verso do poeta, como
podem entrar de repente, atravessando um braço de mar de 1938 ou a
tarde de um agosto antigo. A moça tão linda julga ir onde quer, ao
sabor de sua fantasia; na verdade ela é guiada por um controle
remoto que a faz passar perante o poeta. Este pelo menos assim o crê:
vê gestos de Deus na queda de uma folha ou no salto de um gato.
Quando o poeta fala de sapatos, de
trânsito ou futebol, não está disfarçando: o último jogo do
Flamengo, a corrida dos ônibus depois do túnel e a cor dos sapatos,
tudo se filtra na alma do poeta. Tudo; e com certeza também você,
que ele pode ter incorporado silenciosamente no seu mundo. E quando
amanhã escrever “uma tarde castanha”, se lembrará de seus
cabelos e de sua voz serena.
Não o desame pois, por não ser
poético; isso não é seu ofício: ele é poeta. Adeus.”
Rubem Braga
Rio, 1954/1983
Rubem Braga, em A poesia é necessária
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