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06/09/2026
11/05/2026
A bo de segunda
Dois homens se vestindo, cada um em
seu quarto, falando ao telefone. O clima é adolescente, como se
estivessem indo pra balada.
SALDANHA Senador Silveira?
SILVEIRA Fala, Saldanha!
SALDANHA Vai chegar lá na votação
lá do negócio da emenda?
SILVEIRA Nossa, ia te ligar agora pra
perguntar isso!
Os dois riem.
SALDANHA Tô muito na dúvida.
SILVEIRA Tá marcado pra que horas?
SALDANHA Umas nove, mas aquela coisa,
né? Só começa a bombar lá pelas onze.
SILVEIRA Mas a questão é: o pessoal
vai? A última votação que eu fui tava megamicada. Não tinha
ninguém que eu conheço.
SALDANHA Nem fala! Foi o uó. Eu
estreei uma gravata nova e não tinha nem CQC.
SILVEIRA Nossa, odeio quando isso
acontece! Não comprei uma gravata italiana pra gastar na TV Senado!
Os dois riem.
SILVEIRA Você ligou pro pessoal?
SALDANHA O Zezinho do Sindicato tá em
Trancoso. O Josuelton tá em Ibiza. O Pastor Tobias disse que só vai
se o Carlinhos for. O Carlinhos falou que só vai se eu for. Mas eu
só vou se você for, pra gente sentar no fundão e tocar a zoeira.
SILVEIRA E se a gente mandasse o
suplente?
SALDANHA O meu tá cassado.
SILVEIRA A gente pode dar uma
passadinha. Se tiver ruim a gente vaza.
SALDANHA Pode ser uma boa. A gente
passa, dá uma olhadinha e faz uma social pra marcar presença.
SILVEIRA Combinado, então. Ah, essa
votação é sobre o quê?
SALDANHA É uma emenda parlamentar de
orçamento impositivo.
SILVEIRA Sério?
SALDANHA Claro que não, porra! Tu
acha que eu vou saber que porra de votação que vão tá votando, ô
caralho?
Os dois riem.
SILVEIRA A gente se vê lá, filho da
puta. E vai perfumado que depois tem puteiro.
Gregório Duvivier, em Put some farofa
11/04/2026
03/04/2026
20/03/2026
19/03/2026
12/12/2025
Cachorradas
Eu sempre alugo um vídeo pornô,
quando não encontro filmes do Gordo e o Magro disponíveis
nas locadoras. À exceção de algumas gargantas antigas, ou uns três
filmes do diretor cult John Stagliano, é tudo a mesma
chanchada. A gente continua alugando de teimoso. O poeta que escreveu
“Já li todos os livros”, podem crer, assinaria embaixo da frase:
“Quem viu um vídeo erótico viu todos”. Meu amigo Luís Alfredo,
mais sério do que eu, acha que continuamos garimpando nas
prateleiras dos clubes por motivos meio proustianos, à recherche de
alguma coisa que nunca mais encontraremos, talvez mais sonhada do que
vivida no duro (epa!). Mas é nessa procura aí que reside a força
irresistível do cinema. Agora mesmo estou envergando minha fantasia
de Indiana Jones e partindo pra Vídeo Shop da Tijuca, em busca da
xota perdida.
Confesso aos leitores que fui
recentemente à boca-do-lixo pra tentar vender um roteirozinho de
minha modesta autoria, coisa simples, meio soft, com
bestialismo, sodomia e corrupção de menores. Acho que os produtores
não vão se zangar se eu contar a muvuca pra vocês. Em primeira
mão:
Em Brasília, às três da tarde de
uma quarta-feira, rolava a maior suruba superfaturada na mansão de
um ex-ministro. Devido aos preços exorbitantes, um popular (que
havia entrado de penetra) não conseguia comer ninguém. Uma
sugestão: o popular deverá ser protagonizado por João Canabrava,
da Escolinha do Professor Raimundo.
Continuando: Canabrava começava a se
desesperar porque não conseguia afogar o ganso, graças ao altíssimo
cachê cobrado por lobistas e socialites, quando um juiz togado e um
perito da Polícia Federal deram a dica:
– Olha, naquele quarto escuro em
frente, por apenas trinta mil dólares, há uma profissional que pode
quebrar o teu galho.
– Mas eu não tenho essa grana!
– A gente te empresta a juros da
Febraban, desde que você se comprometa a distribuir nosso fumo na
tua repartição.
Após alguma barganha, as partes
chegaram a um acordo, sem precisar recorrer ao Supremo.
Canabrava entrou no aposento às
escuras, tateou o contorno de uma cama e... um orifício! Saudoso
como estava, foi logo invadindo o Kuwait. A suruba foi interrompida
por ganidos e uivos lancinates. As luzes do quarto se acenderam. Uma
cadelinha em pânico, com laço de fita cor-de-rosa e olhos onde se
misturavam dor e prazer, encostava na parede a estrela do xerife em
fogo.
Também assustado, Canabrava chiou:
– Pera lá, trinta mil dólares pelo
cu da cachorra?
Foi aí que o tal ex-ministro
apareceu:
– Pra que esse escândalo, meu
filho? Reconheço que foi um pouco heterodoxo, mas a bichinha também
é um ser humano.
Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo
28/07/2025
30/11/2024
25/11/2024
21/11/2024
Congresso
Charge de Millôr
♦ O
Congresso é uma instituição meio entreposto, meio bordel, meio
confessionário.
♦ O
Congresso é uma organização entre o progresso e o retrocesso.
Millôr Fernandes, em A bíblia do caos
18/11/2024
12/11/2024
31/10/2024
19/09/2024
Siglas
– Bota
aí: “P”
– “P”
– De
“Partido”.
– Ah.
– Nossa
proposta qual é? De união, certo? Acho que a palavra “União”
deve constar do nome.
– Certo.
Partido de União...
– Mobilizadora!
– Boa!
Dá a ideia de ação, de congraçamento dinâmico. Partido da União
Mobilizadora. Como é que fica a sigla?
– PUM.
– Não
sei não...
– É.
Vamos tentar outro. Deixa ver. “P”...
– “P”
é tranquilo.
– Acho
que “Social” tem que constar.
– Claro.
Partido Social...
– Trabalhista?
– Fica
PST Não dá.
– É.
Iam acabar nos chamando de “Ei, você”.
– E
mesmo “trabalhista”, não sei. Alguém aqui é trabalhista?
– Isso
é o de menos. Vamos ver. “P”…
– Quem
sabe a gente esquece o “P”?
– É.
O “P” atrapalha. Bota “A”, de Aliança. Aliança Inovadora...
– AI.
– Que
foi?
– Não.
A sigla. Fica AI.
– Espera.
Eu ainda não terminei. Aliança Inovadora... de Arregimentação
Institucional.
– AIAI...
Sei não.
– É.
Pode ser mal interpretado.
– Vanguarda
Conservadora?
– Você
enlouqueceu? Fica VC.
– Aliança
Republicana de Renovação do Estado.
– ARRE!
– O
quê?
– Calma.
– Espera
aí pessoal. Quem sabe a gente define a posição ideológica do
partido antes de pensar na sigla? Qual é, exatamente, a nossa
posição?
– Bom,
eu diria que estamos entre a centro-esquerda e a centro-direita.
– Então
é no centro.
– Também
não vamos ser radicais...
– Nós
somos a favor da reforma agrária?
– Somos,
desde que não toquem na terra.
– Aceitaremos
qualquer coalizão partidária para impedir a propagação do
comunismo no Brasil.
– Inclusive
com o PCB e o PC do B?
– Claro.
– Não
devemos ter medo de acordos e alianças. Afinal, um partido faz
pactos políticos por uma razão mais alta.
– Exato.
A de chegar ao poder e esquecer os pactos que fez.
– Partido
Ecumênico Republicano Unido.
– PERU?
– Movimento
Institucionalista Alerta e Unido.
– MIAU?!
– Que
tal KIM? - O que significa?
– Nada,
eu só acho o nome bonito.
– MUMU.
Movimento Ufanista Mobilização e – MMM... Movimento Moderador
Monarquista.
– Mas
nós somos republicanos.
– Eu
sei. Mas por uma boa sigla a gente muda.
– TCHAU.
– Hum,
boa. Trabalho e Capital em Harmonia com Amor e União?
– Não,
é tchau mesmo.
– Aonde
é que você vai?
– Abrir
uma dissidência.
Luís Fernando Veríssimo, em Comédias Para se Ler na Escola
03/09/2024
13/06/2024
06/06/2024
17/05/2024
Ética e trapaça
O
sociólogo Peter Berger escreveu um livrinho divertido e inteligente
que eu gostava de ler com meus alunos quando era professor da
Unicamp: Introdução à sociologia. Um dos seus capítulos
tem um título esquisito: “Como trapacear e se manter ético ao
mesmo tempo”. Disse “esquisito” porque é conhecimento comum
que “trapaça” e “ética” não fazem acordos. Mas o momento
atual da política brasileira está demonstrando que esse não é o
caso. Ao contrário, que é de suma importância juntar ética e
trapaça quando as coisas relativas ao dinheiro e ao poder estão em
jogo. Para esclarecer esse assunto enigmático, vou contar uma
pequena estória: Havia numa cidade dos Estados Unidos uma igreja
batista. Os batistas, como se sabe, são um ramo do cristianismo
muito rigoroso nos seus princípios éticos. Havia na mesma cidade
uma fábrica de cerveja que, para a igreja batista, era a vanguarda
de Satanás. O pastor, representante de Deus, não poupava a fábrica
de cerveja nas suas pregações. Aconteceu, entretanto, que, por
razões pouco esclarecidas, a fábrica de cerveja fez uma doação de
500.000 dólares para a igreja batista. Os membros da igreja foram
unânimes em denunciar aquela quantia como dinheiro do Diabo que não
poderia ser aceito. Passada a exaltação dos primeiros dias,
acalmados os ânimos, os mais ponderados começaram a analisar os
benefícios que aquele dinheiro poderia trazer. Uma pintura nova para
a igreja, um órgão de tubos, jardins mais bonitos, um salão social
para festas. Reuniram-se então os membros da igreja em assembleia e
depois de muita discussão registrou-se a seguinte decisão no livro
de atas: “A Igreja Batista Betel resolve aceitar a oferta de
500.000 dólares feita pela cervejaria na firme convicção de que o
Diabo ficará furioso quando souber que o seu dinheiro vai ser usado
para a glória de Deus”. Quando a ideologia é nobre qualquer meio
é permissível. Se esse acordo entre “ética” e “trapaça”
valeu para a igreja, por que não valerá para os partidos políticos?
Rubem Alves, in Ostra feliz não faz pérola
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