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06/08/2026
20/05/2026
Folhinha
A morte do escritor
não se quer resolver dentro de mim.
Mas não tenho gosto na infelicidade
e por isso busco meu caminho
como um verme sabe do seu, dentro da
terra.
Muitas coisas me valem quando Deus
fica estranho
e do que é mínimo, às vezes,
vem o desejado consolo.
Informativo Popular Coração de Jesus
é o nome de um calendário de parede.
ABENÇOAI ESTE LAR está escrito nele.
O coração sangra na estampa,
mas o rosto é doce, próprio a
enternecer
as mulheres da cozinha, feito eu.
Toquem mal o piano, vou me deliciar
— nada é mesmo perfeito —,
uma gota de mel desce em minha
garganta.
No dia 8 de janeiro está escrito na
folhinha:
A FÉ GUIOU OS MAGOS — LUA NOVA
AMANHÃ.
Lua nova,
que nome mais bonito pra um consolo.
Adélia Prado, em O Coração Disparado
12/02/2024
Romaria
A
Milton Campos
Os
romeiros sobem a ladeira
cheia
de espinhos, cheia de pedras,
sobem
a ladeira que leva a Deus
e
vão deixando culpas no caminho.
Os
sinos tocam, chamam os romeiros:
Vinde
lavar os vossos pecados.
Já
estamos puros, sino, obrigados,
mas
trazemos flores, prendas e rezas.
No
alto do morro chega a procissão.
Um
leproso de opa empunha o estandarte.
As
coxas das romeiras brincam no vento.
Os
homens cantam, cantam sem parar.
Jesus
no lenho expira magoado.
Faz
tanto calor, há tanta algazarra.
Nos
olhos do santo há sangue que escorre.
Ninguém
não percebe, o dia é de festa.
No
adro da igreja há pinga, café,
imagens,
fenômenos, baralhos, cigarros
e
um sol imenso que lambuza de ouro
o
pó das feridas e o pó das muletas.
Meu
Bom Jesus que tudo podeis,
humildemente
te peço uma graça.
Sarai-me,
Senhor, e não desta lepra,
do
amor que eu tenho e que ninguém me tem.
Senhor,
meu amo, dai-me dinheiro,
muito
dinheiro para eu comprar
aquilo
que é caro mas é gostoso
e
na minha terra ninguém não possui.
Jesus
meu Deus pregado na cruz,
me
dá coragem pra eu matar
um
que me amola de dia e de noite
e
diz gracinhas a minha mulher.
Jesus
Jesus piedade de mim.
Ladrão
eu sou mas não sou ruim não.
Por
que me perseguem não posso dizer.
Não
quero ser preso, Jesus ó meu santo.
Os
romeiros pedem com os olhos,
pedem
com a boca, pedem com as mãos.
Jesus
já cansado de tanto pedido
dorme
sonhando com outra humanidade.
Carlos Drummond de Andrade, in Antologia Poética
09/03/2022
O nada
“Se Deus não existe, Jesus não pode ser seu filho. Toda a sua civilização, chamada judaico-cristã, assenta sobre o nada.”
José Saramago, in As palavras de Saramago
24/12/2021
Natal
Jesus nasceu. Na abóbada infinita
Soam cânticos vivos de alegria;
E toda a vida universal palpita
Dentro daquela pobre estrebaria...
Não houve sedas, nem cetins, nem rendas
No berço humilde em que nasceu Jesus...
Mas os pobres trouxeram oferendas
Para quem tinha de morrer na cruz.
Sobre a palha, risonho, e iluminado
Pelo luar dos olhos de Maria,
Vede o Menino-Deus, que está cercado
Dos animais da pobre estrebaria.
Nasceu entre pompas reluzentes;
Na humildade e na paz deste lugar,
Assim que abriu os olhos inocentes
Foi para os pobres seu primeiro olhar.
No entanto, os reis da terra, pecadores,
Seguindo a estrela que ao presepe os
guia,
Vem cobrir de perfumes e de flores
O chão daquela pobre estrebaria.
Sobem hinos de amor ao céu profundo;
Homens, Jesus nasceu! Natal! Natal!
Sobre esta palha está quem salva o
mundo,
Quem ama os fracos, quem perdoa o mal,
Natal! Natal! Em toda a natureza
Há sorrisos e cantos, neste dia...
Salve Deus da humildade e da pobreza
Nascido numa pobre estrebaria.
Olavo Bilac
19/12/2019
INRI
Senhor,
não voltes,
pois
serás crucificado
novamente,
não
pelos descrentes
e
ateus,
mas
pelos
supostamente
teus.
Elilson
José Batista
03/11/2019
Meretrizes
Foi
Jesus que disse aos fariseus, religiosos que viviam citando as
Escrituras e tentando converter os outros, que as meretrizes
entrariam no Reino dos Céus antes deles. E notem: Jesus não disse:
meretrizes arrependidas. Entram as meretrizes mesmo e, atrás delas
entram também os fariseus hipócritas e tudo o mais que Deus criou.
Um Deus que é todo amor não pode ter no seu universo uma câmara de
torturas eternas em que as almas sofrem por pecados cometidos no
tempo.
Vejo
as pessoas religiosas fechar os olhos para orar. Elas creem que, para
se ver Deus é preciso não ver o mundo. Mas Deus se revela
precisamente na alegria de ver. O Paraíso é uma dádiva de Deus aos
olhos dos homens. O Paraíso é o rosto visível de Deus.
Rubem
Alves, in Do universo à jabuticaba
01/09/2019
Malditos sejam os pecadores
No
idioma aramaico, que Jesus e seus apóstolos falavam, uma mesma
palavra significa dívida e pecado.
Dois
milênios depois, os pobres do mundo sabem que a dívida é um pecado
que não tem expiação. Quanto mais você paga, mais você deve; e
no Inferno está a sua espera o castigo dos credores.
Eduardo
Galeano, in Os filhos dos dias
10/11/2017
Via crucis
Maria
das Dores se assustou. Mas se assustou de fato.
Começou
pela menstruação que não veio. Isso a surpreendeu porque ela era
muito regular.
Passaram-se
mais de dois meses e nada. Foi a uma ginecologista. Esta diagnosticou
uma evidente gravidez.
– Não
pode ser! gritou Maria das Dores.
– Por
quê? a senhora não é casada?
– Sou,
mas sou virgem, meu marido nunca me tocou. Primeiro porque ele é
homem paciente, segundo porque já é meio impotente.
A
ginecologista tentou argumentar:
– Quem
sabe se a senhora em alguma noite...
–
Nunca! mas nunca mesmo!
–
Então, concluiu a ginecologista, não
sei como explicar. A senhora já está no fim do terceiro mês.
Maria
das Dores saiu do consultório toda tonta. Teve que parar num
restaurante e tomar um café. Para conseguir entender.
O
que é que estava lhe acontecendo? Grande angústia tomou-a. Mas saiu
do restaurante mais calma.
Na
rua, de volta para casa, comprou um casaquinho para o bebê. Azul,
pois tinha certeza que seria menino. Que nome lhe daria? Só podia
lhe dar um nome: Jesus.
Em
casa encontrou o marido lendo jornal e de chinelos. Contou-lhe o que
acontecia. O homem se assustou:
– Então
eu sou São José?
– É,
foi a resposta lacônica.
Caíram
ambos em grande meditação.
Maria
das Dores mandou a empregada comprar as vitaminas que a ginecologista
receitara. Eram para o benefício de seu filho.
Filho
divino. Ela fora escolhida por Deus para dar ao mundo o novo Messias.
Comprou
o berço azul. Começou a tricotar casaquinhos e a fazer fraldas
macias.
Enquanto
isso a barriga crescia. O feto era dinâmico: dava-lhe violentos
pontapés. Às vezes ela chamava São José para pôr a mão na sua
barriga e sentir o filho vivendo com força.
São
José então ficava com os olhos molhados de lágrimas. Tratava-se de
um Jesus vigoroso. Ela se sentia toda iluminada.
A
uma amiga mais íntima Maria das Dores contou a história abismante.
A amiga também se assustou:
– Maria
das Dores, mas que destino privilegiado você tem!
–
Privilegiado, sim, suspirou Maria das
Dores. Mas que posso fazer para que meu filho não siga a via crucis?
– Reze,
aconselhou a amiga, reze muito.
E
Maria das Dores começou a acreditar em milagres. Uma vez julgou ver
de pé ao seu lado a Virgem Maria que lhe sorria. Outra vez ela mesma
fez o milagre: o marido estava com uma ferida aberta na perna, Maria
das Dores beijou a ferida. No dia seguinte nem marca havia.
Fazia
frio, era mês de julho. Em outubro nasceria a criança.
Mas
onde encontrar um estábulo? Só se fosse para uma fazenda do
interior de Minas Gerais. Então resolveu ir à fazenda da tia
Mininha.
O
que lhe preocupava é que a criança não nasceria em vinte e cinco
de dezembro.
Ia
à igreja todos os dias e, mesmo barriguda, ficava horas ajoelhada.
Como madrinha do filho escolhera a Virgem Maria. E para padrinho o
Cristo.
E
assim foi se passando o tempo. Maria das Dores engordara brutalmente
e tinha desejos estranhos. Como o de comer uvas geladas. São José
foi com ela para a fazenda. E lá fazia seus trabalhos de marcenaria.
Um
dia Maria das Dores empanturrou-se demais – vomitou muito e chorou.
E pensou: começou a via crucis de meu sagrado filho.
Mas
parecia-lhe que se desse à criança o nome de Jesus, ele seria,
quando homem, crucificado. Era melhor dar-lhe o nome de Emmanuel.
Nome simples. Nome bom.
Esperava
Emmanuel sentada debaixo de uma jabuticabeira. E pensava:
Quando
chegar a hora, não vou gritar, vou só dizer: ai Jesus!
E
comia jabuticabas. Empanturrava-se a mãe de Jesus.
A
tia – a par de tudo – preparava o quarto com cortinas azuis. O
estábulo estava ali, com seu cheiro bom de estrume e suas vacas.
De
noite Maria das Dores olhava para o céu estrelado à procura da
estrela-guia. Quem seriam os três reis magos? quem lhe traria
incenso e mirra?
Dava
longos passeios porque a médica lhe recomendara caminhar muito. São
José deixara crescer a barba grisalha e os longos cabelos
chegavam-lhe aos ombros.
Era
difícil esperar. O tempo não passava. A tia fazia-lhes, para o café
da manhã, brevidades que se desmanchavam na boca. E o frio
deixava-lhes as mãos vermelhas e duras.
De
noite acendiam a lareira e ficavam sentados ali a se esquentarem. São
José arranjava para si um cajado. E, como não mudava de roupa,
tinha um cheiro sufocante. Sua túnica era de estopa. Ele tomava
vinho junto da lareira. Maria das Dores tomava grosso leite branco,
com o terço na mão.
De
manhã bem cedo ia espiar as vacas no estábulo. As vacas mugiam.
Maria das Dores sorria-lhes. Todos humildes: vacas e mulher. Maria
das Dores a ponto de chorar. Ajeitava as palhas no chão, preparando
lugar onde se deitar quando chegasse a hora. A hora da iluminação.
São
José, com seu cajado ia meditar na montanha. A tia preparava
lombinho de porco e todos comiam danadamente. E a criança nada de
nascer.
Até
que numa noite, às três horas da madrugada, Maria das Dores sentiu
a primeira dor. Acendeu a lamparina, acordou São José, acordou a
tia. Vestiram-se. E com um archote iluminando-lhes o caminho,
dirigiram-se através das árvores para o estábulo. Uma grossa
estrela faiscava no céu negro.
As
vacas, acordadas, ficaram inquietas, começaram a mugir.
Daí
a pouco nova dor. Maria das Dores mordeu a própria mão para não
gritar. E não amanhecia.
São
José tremia de frio. Maria das Dores, deitada na palha, sob um
cobertor, aguardava.
Então
veio uma dor forte demais. Ai Jesus, gemeu Maria das Dores. Ai Jesus,
pareciam mugir as vacas.
As
estrelas no céu.
Então
aconteceu.
Nasceu
Emmanuel.
E
o estábulo pareceu iluminar-se todo.
Era
um forte e belo menino que deu um berro na madrugada.
São
José cortou o cordão umbilical. E a mãe sorria. A tia chorava.
Não
se sabe se essa criança teve que passar pela via crucis. Todos
passam.
Clarice
Lispector, in A
via crucis do corpo
07/08/2017
Necessidade de alegria
O
ator que fazia o papel de Cristo no espetáculo de Nova Jerusalém
ficou tão compenetrado da magnitude da tarefa que, de ano para ano,
mais exigia de si mesmo, tanto na representação como na vida
rotineira.
Não
que pretendesse copiar o modelo divino, mas sentia necessidade de
aperfeiçoar-se moralmente, jamais se permitindo a prática de ações
menos nobres. E exagerou em contenção e silêncio.
Sua
vida tornou-se complicada, pois os amigos de bar o estranhavam, os
colegas de trabalho no escritório da Empetur (Empresa Pernambucana
de Turismo) passaram a olhá-lo com espanto, e em casa a mulher
reclamava do seu alheamento.
No
sexto ano de encenação do drama sacro, estava irreconhecível.
Emagrecera, tinha expressão sombria no olhar, e repetia
maquinalmente as palavras tradicionais. Seu desempenho deixou a
desejar.
Foi
advertido pela Empetur e pela crítica: devia ser durante o ano um
homem alegre, descontraído, para tornar-se perfeito intérprete da
Paixão na hora certa. Além do mais, até a chegada a Jerusalém,
Jesus era jovial e costumava ir a festas.
Ele
não atendeu às ponderações, acabou destituído do papel,
abandonou a família, e dizem que se alimenta de gafanhotos no
agreste.
Carlos
Drummond de Andrade, in Contos plausíveis
17/04/2017
O que eu carregava comigo me pesava
Ilustração: Rodrigo Rosa
A
gente viemos do inferno ― nós todos ― compadre meu Quelemém
instrui. Duns lugares inferiores, tão monstro-medonhos, que Cristo
mesmo lá só conseguiu aprofundar por um relance a graça de sua
sustância alumiável, em as trevas de véspera para o Terceiro Dia.
Senhor quer crer? Que lá o prazer trivial de cada um é judiar dos
outros, bom atormentar; e o calor e o frio mais perseguem; e, para
digerir o que se come, é preciso de esforçar no meio, com fortes
dôres; e até respirar custa dôr; e nenhum sossego não se tem. Se
creio? Acho proseável. Repenso no acampo da Macaúba da Jaíba,
soante que mesmo vi e assaz me contaram; e outros ― as ruindades de
regra que executavam em tantos pobrezinhos arraiais: baleando,
esfaqueando, estripando, furando os olhos, cortando línguas e
orelhas, não economizando as crianças pequenas, atirando na
inocência do gado, queimando pessoas ainda meio vivas, na beira de
estrago de sangues... Esses não vieram do inferno? Saudações. Se
vê que subiram de lá antes dos prazos, figuro que por empreitada de
punir os outros, exemplação de nunca se esquecer do que está
reinando por debaixo. Em tanto, que muitos retombam para lá,
constante que morrem... Viver é muito perigoso.
Mas
mor o infernal a gente também media. Digo. A igual, igualmente. As
chuvas já estavam esquecidas, e o miôlo mal do sertão residia ali,
era um sol em vazios. A gente progredia dumas poucas braças, e
calcava o reafundo do areião ― areia que escapulia, sem firmeza,
puxando os cascos dos cavalos para trás. Depois, se repraçava um
entranço de vice-versa, com espinhos e restolho de graviá, de
áspera raça, verde-preto cor de cobra. Caminho não se havendo.
Daí, trasla um duro chão rosado ou cinzento, gretoso e escabro ―
no desentender aquilo os cavalos arupanavam. Diadorim ― sempre em
prumo a cabeça ― o sorriso dele me dobrava o ansiar. Como que
falasse: Hê, valentes somos, corruscubas, sobre ninguém ― que
vamos padecer e morrer por aqui... Os medeiro-vazes... MedeiroVaz se
estugasse adiante, junto com os que rastreavam? Será que de lá
ainda se podia receder? De devagar, vi visagens. Os companheiros se
prosseguindo, só prosseguindo, receei de ter um vágado ― como
tonteira de truaca. Havia eu de saber por que? Acho que provinha de
excessos de ideia, pois caminhadas piores eu já tinha feito, a
cavalo ou a pé, no tosta-sol. Medo, meu medo. Aguentei. Tanto tudo o
que eu carregava comigo me pesava ― eu ressentia as correias dos
correames, os formatos. A com légua-e-meia de andada, bebi meu
primeiro chupo d água, da cabaça ― eu tinha avarezas dela. Alguma
justa noção não emendei, eu pensava desconjuntado. Até que
esbarramos. Até que, no mesmo padrão de lugar, sem mudança
nenhuma, nenhuma árvore nem barranco, nem nada, se viu o sol de um
lado deslizar, e a noite armar do outro. Nem auxiliei a tomar conta
dos bois, nem a destravar os burros de albarda. Onde era que os
animais iam poder pastar? Noite redondeou, noite sem boca. Desarreei,
peei o animal, caí e dormi. Mas, no extremo de adormecer, ainda
intrují duas coisas, em cruz! que Medeiro Vaz estava insensato? ―
e que o Hermógenes era pactário! Tomo que essas traves fecharam
meus olhos. De Diadorim, aí jaz que descansando do meu lado, assim
ouvi! ― Pois dorme, Riobaldo, tudo há-de resultar bem... Antes
palavras que picaram em mim uma gastura cansada; mas a voz dele era o
tanto-tanto para o embabo de meu corpo. Noite essa, astúcia que tive
uma sonhice! Diadorim passando por debaixo de um arco-íris. Ah, eu
pudesse mesmo gostar dele ― os gostares…
Como
vou achar ordem para dizer ao senhor a continuação do martírio, em
desde que as barras quebraram, no seguinte, na brumalva daquele
falecido amanhecer, sem esperança em uma, sem o simples de
passarinhos faltantes? Fomos. Eu abaixava os olhos, para não reter
os horizontes, que trancados não alteravam, circunstavam. Do sol e
tudo, o senhor pode completar, imaginado; o que não pode, para o
senhor, é ter sido, vivido. Só saiba: o Liso do Sussuarão concebia
silêncio, e produzia uma maldade ― feito pessoa! Não destruí
aqueles pensamentos: ir, e ir, vir ― e só; e que Medeiro Vaz
estava demente, sempre existido doidante, só agora pior, se
destapava ― era o que eu tinha rompência de gritar. E os outros,
companheiros, que é que os outros pensavam? Sei? De certo nadas e
noves ― iam como o costume ― sertanejos tão sofridos. Jagunço é
homem já meio desistido por si... A calamidade de quente! E o
esbraseado, o estufo, a dôr do calor em todos os corpos que a gente
tem. Os cavalos venteando ― só se ouvia o resfol deles,
cavalanços, e o trabalho custoso de suas passadas. Nem menos sinal
de sombra. Agua não havia. Capim não havia. A debeber os cavalos em
cocho armado de couro, e dosar a meio, eles esticando os pescoços
para pedir, eles olhavam como para seus cascos, mostrando tudo o que
cangavam de esforço, e cada restar de bebida carecia de ser poupado.
Se ia, o pesadêlo. Pesadêlo mesmo, de delírios. Os cavalos gemiam
descrença. Já pouco forneciam. E nós estávamos perdidos. Nenhum
pôço não se achava. Aquela gente toda sapirava de olhos vermelhos,
arroxeavam as caras. A luz assassinava demais. E a gente dava voltas,
os rastreadores farejando, procurando. Já tinha quem beijava os
bentinhos, se rezava. De mim, entreguei alma no corpo, debruçado
para a sela, numa quebreira. Até minhas testas formaram de chumbo.
Valentia vale em todas horas? Repensei coisas de cabeça-branca. Ou
eu variava? A saudade que me dependeu foi de Otacília. Moça que
dava amor por mim, existia nas Serras dos Gerais ― Buritis Altos,
cabeceira de vereda ― na Fazenda Santa Catarina. Me airei nela,
como a diguice duma música, outra água eu provava. Otacília, ela
queria viver ou morrer comigo ― que a gente se casasse. Saudade se
susteve curta.
Guimarães
Rosa, in Grande sertão: veredas
09/03/2017
Bilhões de anos
Onde
estive eu, durante esse tempo imenso, bilhões de anos, que vão do
big bang até o meu nascimento? Os religiosos vão dizer que estive
no céu, alma desencarnada, à espera do meu nascimento. Eles não
entenderam a minha pergunta. Quando digo “eu” estou me referindo
a uma memória que esse bolso chamado “eu” guarda dentro de si. O
fato é que, desses bilhões de anos, não tenho a menor memória. Se
tivesse, eu teria memória também da enorme espera – eu, esperando
durante bilhões de anos... Mas não. Para mim, o mundo foi criado
quando eu nasci. O big bang aconteceu para mim quando minha mãe me
pariu. Foi grande a demora? Custou-me esperar bilhões de anos? Não.
Foi menos que um segundo. E agora, que a morte se aproxima, sei que
vou voltar para o lugar onde estive. De novo, a espera vai ser
grande? Não. Não esperarei mais que um segundo... Como disse o
poeta ao Menino Jesus: “Até que nasça qualquer dia que tu sabes
qual é...”.
Rubem
Alves,
in Do
universo à jabuticaba
16/12/2016
Acerca de bens materiais
“Tenho
a firme convicção de que nenhuma riqueza de bens materiais pode
fazer progredir o homem, mesmo que ele esteja nas mãos de homens que
demandam uma meta superior. Pode alguém imaginar Moisés, Jesus ou
Gandhi armados de um saco de dinheiro?”
Albert
Einstein
25/11/2014
A volta de Jesus
“Se Jesus Cristo chegasse hoje até nós, as pessoas nem
pensariam em crucificá-lo. Iriam convidá-lo para jantar, ouvir o que ele
tivesse a dizer, e zombariam dele.”
Thomas Carlyle
07/09/2013
Para que as riquezas?
"Todas as riquezas do mundo, ainda
mesmo nas mãos de um homem inteiramente devotado à ideia do progresso, jamais
trarão o menor desenvolvimento moral para a humanidade. Somente seres humanos
excepcionais e irrepreensíveis suscitam ideias generosas e ações elevadas. Mas o
dinheiro polui tudo e degrada sem piedade a pessoa humana. Não posso comparar a
generosidade de um Moisés, de um Jesus ou de um Gandhi com a generosidade de
uma Fundação Carnegie Qualquer."
Albert
Einstein, in Como vejo o mundo
15/12/2012
23/08/2012
A fúria cega à caça do dinheiro
Estive pensando muito na fúria cega com que os homens se atiram à caça
do dinheiro. É essa a causa principal dos dramas, das injustiças, da
incompreensão de nossa época. Eles esquecem o que têm de de mais humano e
sacrificam o que a vida lhes oferece de melhor: as relações
de criatura para criatura. De que serve construir arranha-céus se não há
mais almas humanas para morar neles?
Quero que
abras os olhos, Eugênio, que acordes enquanto é tempo. Peço-te que pegues a
minha Bíblia que está na estante de livros, perto do rádio, leias apenas o
Sermão da Montanha. Não te será difícil achar, pois a página está marcada com
uma tira de papel. Os homens deviam ler e meditar esse trecho, principalmente
no ponto em que Jesus nos fala dos lírios do campo, que não trabalham, nem
fiam, e no entanto nem Salomão em toda a sua glória jamais se vestiu como
um deles.
Está claro que
não devemos tomar as parábolas de Cristo ao pé da letra e ficar deitados à
espera de que tudo nos caia do céu. É indispensável trabalhar, pois um mundo de
criaturas passivas seria também triste e sem beleza. Precisamos,
entretanto, dar um sentido humano às nossas construções. E quando o amor ao
dinheiro, ao sucesso, nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para
olhar os lírios do campo e as aves do céu.
Não penses
que estou fazendo o elogio do puro espírito contemplativo e da renúncia,
ou acho que o povo deva viver narcotizado pela esperança da felicidade na
“outra vida”. Há na terra um grande trabalho a realizar. É tarefa para seres
fortes, para corações corajosos. Não podemos cruzar os braços enquanto os
aproveitadores sem escrúpulos engendram os monopólios ambiciosos, as guerras e
as intrigas cruéis. Temos de fazer-lhes
frente. É indispensável que conquistemos este mundo, não com as armas do
ódio e da violência e sim com as do amor e da persuasão. Considera
a vida de Jesus. Ele foi antes de tudo um homem de ação e não um puro
contemplativo.
Quando falo
em conquista, quero dizer a conquista duma situação decente para todas as
criaturas humanas, a conquista da paz digna, através do espírito de cooperação.
E quando
falo em aceitar a vida não me refiro à aceitação resignada e passiva de todas
as desigualdades e malvadezas, absurdos e misérias do mundo. Refiro-me, sim, à
aceitação da luta necessária, do sofrimento que essa luta nos trará, das horas
amargas a que ela forçosamente nos há de levar.
Érico Veríssimo, in Olhai os lírios do campo
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