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30/03/2022

Beijando o ponto dolorido



Quando o canal corporal ajuda a difundir as emoções de um indivíduo para outro, não se trata apenas de bocejar ou imitar, mas de sentir o que os outros sentem. Mesmo que ainda esteja enraizado em conexões corporais, aqui estamos chegando perto da verdadeira empatia. O contágio emocional, como é conhecido, começa no nascimento, quando um bebê chora ao ouvir outro bebê chorar. Nos aviões e nas maternidades, os bebês às vezes fazem coro como sapos. Pode-se pensar que eles choram em reação a qualquer tipo de ruído, mas estudos mostraram que reagem especificamente aos gritos de bebês da mesma idade. Bebezinhas o fazem mais do que bebezinhos. O fato de isso surgir tão cedo revela a natureza biológica da cola emocional da sociedade. É uma capacidade que compartilhamos com todos os mamíferos.
Na vida real, uma fêmea de orangotango selvagem balançará habilmente de uma árvore alta para outra. Seu filhote pequeno, tentando segui-la através da copa das árvores, para de repente: o espaço entre as duas árvores seguintes é grande demais. Ele choraminga e pede desesperadamente a ajuda da mãe. Ao ouvi-lo, ela pode choramingar e voltar para fazer uma ponte que ajude o jovem. Ela pega o galho de uma árvore com uma das mãos e o galho de outra árvore com a outra mão ou com o pé, depois puxa as duas árvores para mais perto uma da outra enquanto fica agarrada entre elas, permitindo que o filhote cruze usando seu corpo como ponte viva. Essa sequência corriqueira é impulsionada pelo contágio emocional — a mãe fica angustiada com os gemidos de seus filhos — combinado com a inteligência, que permite à mãe entender o problema e encontrar uma solução.
Mais surpreendente é a atração de emoções negativas. Seria de esperar que os sinais de medo e aflição fossem altamente aversivos, mas um estudo recente descobriu que os ratos são na verdade atraídos por outros ratos com dor.21 Estou bastante familiarizado com esse fenômeno em macacos rhesus jovens. Certa vez, um bebê caiu acidentalmente sobre uma fêmea dominante, que o mordeu. Ele gritou tanto que logo foi cercado por outros filhotes. Eu contei oito deles na pilha de bebês, todos subindo sobre a pobre vítima, empurrando, puxando e jogando uns aos outros para o lado. Isso obviamente fez pouco para aliviar o medo do primeiro bebê. Mas a resposta dos macacos parecia automática, como se eles estivessem tão perturbados quanto a vítima e procurassem consolar um ao outro.
Porém, essa talvez não seja toda a história. Se esses bebês macacos estavam tentando se acalmar, por que precisariam se aproximar da vítima, em vez de correr para suas mães? De fato, eles procuraram a fonte real de aflição, em vez de uma fonte garantida de conforto. Bebês macacos fazem isso o tempo todo sem qualquer indicação de que sabem o que está acontecendo. Eles parecem atraídos para o sofrimento dos outros como mariposas para a luz.
Gostamos de ler preocupação nesse tipo de comportamento, mas eles provavelmente não entendem o que aconteceu com o primeiro bebê. Eu chamo esse tipo de atração cega para aqueles que estão em apuros de pré-preocupação. É como se a natureza tivesse dotado crianças e muitos animais de uma regra simples: “Se você sentir a dor de outra pessoa, vá até lá e faça contato!”. É bom perceber, entretanto, que qualquer teoria de autopreservação estrita preveria exatamente o oposto. Se os outros ao seu redor estiverem gritando e choramingando, há uma boa chance de estarem em perigo, portanto o mais sensato seria se retirar. O mesmo se aplica aos sons de aflição. Se gritos agudos irritam seu ouvido, a coisa lógica a fazer é tapar os ouvidos ou se afastar. Mas muitos animais fazem o oposto — se aproximam para descobrir o que está acontecendo, mesmo quando os sons de dor são quase inaudíveis. O ponto é o estado emocional do outro. O fato de que ratos, macacos e muitos outros animais procurem ativamente aqueles que estão com problemas não se encaixa em cenários puramente egoístas, e prova o defeito fundamental das teorias sociobiológicas populares nas décadas de 1970 e 1980.
Em representações sociobiológicas da natureza como um lugar de competição selvagem, todo comportamento se resumia a genes egoístas, e as tendências egoístas eram invariavelmente atribuídas à “lei do mais forte”. A gentileza genuína estava fora de questão, porque nenhum organismo seria tão estúpido a ponto de ignorar o perigo para ajudar o outro. Se tal comportamento ocorresse, deveria ser uma miragem ou um produto de genes “defeituosos”. A infame frase que resumia essa época — “Arranhe um altruísta e verá um hipócrita sangrar”22 — foi citada repetidas vezes com certo regozijo: o altruísmo, dizia-se, deve ser uma farsa. A frase era usada para repelir românticos inveterados e idealistas ingênuos que acreditavam na bondade humana. Não por coincidência, foi também a época de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, assim como de Gordon Gekko, o personagem fictício do filme Wall Street, de 1987: Gekko acreditava que a cobiça era o que fazia o mundo girar. Quase todo mundo estava correndo atrás de uma ideia simples, claramente em desacordo com a forma como os animais sociais, inclusive os seres humanos, foram moldados pela seleção natural.
Felizmente, não se fala mais sobre “genes egoístas”. Enterrada por uma massa de novos dados, a ideia de que o comportamento é invariavelmente egoísta teve uma morte inglória. A ciência confirmou que a cooperação é a primeira e mais importante inclinação da nossa espécie, pelo menos a cooperação com os membros do grupo de pertencimento, tanto que um livro sobre o comportamento humano de Martin Nowak, publicado em 2011, tinha por título SuperCooperators: Altruism, Evolution, and Why We Need Each Other to Succeed [Supercooperadores: altruísmo, evolução e por que precisamos um do outro para ter sucesso]. Quando as pessoas que participaram de um experimento de neuroimagem tiveram escolha entre uma opção egoísta e uma opção altruísta, a maioria optou pela segunda. Elas preferiam a escolha egoísta se houvesse boas razões para evitar a cooperação. Muitos estudos corroboram essa visão, dizendo que tendemos a ser gentis e abertos aos outros, a menos que algo nos detenha. Às vezes brinco que deve ser por isso que Ayn Rand, a romancista e aspirante a filósofa russo-americana, precisava daqueles volumes pesados tão entediantes, cheios de personagens frios, para defender sua posição. O argumento principal dela é que somos individualistas absolutos, mas ela teve de se esforçar muito para nos convencer, porque no fundo todos sabem que não somos assim. Em vez de uma descrição de nossa espécie, Ayn Rand ofereceu uma construção ideológica contraintuitiva.
O modo de vida padrão do primata humano é intensamente social, como mostram nossas atividades favoritas, desde assistir a jogos esportivos e cantar em coros até festejar e sociabilizar. Uma vez que derivamos de uma longa linhagem de animais que vivem em grupo, que sobreviveram ajudando uns aos outros, essas tendências são inteiramente lógicas. Andar sozinho nunca funcionou para nós.
Nadia Ladygina-Kohts forneceu um exemplo típico da natureza propensa ao social de nossos parentes primatas, incluindo a atração pelos sinais de aflição, em seu chimpanzé adotivo, Joni:

Se eu fingir que estou chorando, fechar os olhos e lacrimejar, Joni interrompe imediatamente sua brincadeira ou qualquer outra atividade, corre depressa para mim, todo agitado e exaurido, dos lugares mais remotos da casa, como o telhado ou o teto de sua gaiola, de onde eu não conseguia tirá-lo, apesar de meus chamados e súplicas persistentes. Ele corre apressadamente ao meu redor, como se procurasse o ofensor; olhando para o meu rosto, pega carinhosamente meu queixo na palma da mão, toca de leve o meu rosto com o dedo, como se tentasse entender o que está acontecendo, e se vira, firmando os dedos dos pés como punhos cerrados.

Que melhor prova da compaixão dos símios do que o fato de que um chimpanzé que se recusava a descer do telhado em troca de comida o fez instantaneamente ao ver sua dona sofrer? Quando Nadia fingia chorar, Joni olhava nos olhos dela, e “quanto mais triste e desconsolado meu choro, mais calorosa sua compaixão”. Quando ela pôs as mãos sobre os olhos, ele tentou afastá-las, estendeu os lábios para o rosto dela, olhou-a com atenção, gemendo e choramingando levemente.
Quando animais ou crianças começam a entender o que está acontecendo com uma pessoa que sofre, eles deixam para trás a atração cega e demonstram preocupação empática. Tentam aliviar a dor, como Joni fez com Nadia Kohts. É também a maneira como os pais humanos reagem quando seus filhos esfolam o joelho, batem com a cabeça ou levam tapas ou mordidas de outra criança. A maneira mais rápida de fazê-los parar de chorar é beijar o local dolorido.
O desenvolvimento inicial desse comportamento foi estudado em nossa espécie filmando crianças em suas casas. O pesquisador pede a um parente adulto que finja chorar ou aja como se estivesse com dor, a fim de ver o que as crianças fazem. No filme, as crianças parecem preocupadas enquanto se aproximam do adulto aflito. Elas gentilmente tocam, acariciam, abraçam ou beijam o adulto. As meninas fazem isso mais do que os meninos. O achado mais importante foi que essas respostas surgem muito cedo, antes dos dois anos de idade. O fato de que crianças pequenas já expressem empatia sugere que se trata de algo espontâneo, porque é improvável que alguém as instrua sobre como reagir.
Para mim, a verdadeira revelação foi que as crianças se comportavam exatamente como os símios, que não só se aproximam de alguém aflito, como passam pela mesma rotina de tocar, abraçar e beijar. Após assistir a filmes do estudo humano, percebi de imediato que o tempo todo estive pesquisando uma preocupação empática: por que deveria adotar uma terminologia diferente? Muitos animais, de cães a roedores, de golfinhos a elefantes, exibem um comportamento reconfortante, embora cada espécie use seus próprios gestos. Nas mesmas casas onde as crianças foram filmadas, os psicólogos descobriram acidentalmente que os cães também reagiam à pessoa aflita pondo a cabeça no colo dela ou lambendo seu rosto. Esse comportamento foi depois confirmado por estudos mais direcionados.
Como era de esperar, nem todo mundo gostou de ver a descrição de cães e macacos como seres empáticos, mas ao longo dos anos a resistência diminuiu. A ideia de empatia animal está agora razoavelmente bem estabelecida. Afinal, ninguém está afirmando que os cães têm todas as capacidades mentais que os humanos põem em ação para entender os outros. Muitos níveis diferentes marcam a empatia. Mas podemos certamente reconhecer nos cães sensibilidade para as emoções dos outros, a adoção de emoções semelhantes e expressões de preocupação. Esse é o motivo pelo qual consideramos o cão o melhor amigo do homem, afinal. Nos primatas, a empatia é tão óbvia e comum que agora há dezenas de estudos que examinaram a “consolação”, a tendência para confortar e tranquilizar aqueles que passaram por uma experiência dolorosa. Para documentar como os primatas se consolam, simplesmente esperamos por um incidente espontâneo que lhes provoque estresse — uma briga, uma queda, uma frustração —, e então observamos como os outros os consolam. O consolo através do contato corporal tem um efeito calmante e é típico de relacionamentos sociais íntimos. É também muito eficaz. Em um momento, uma primata está gritando a plenos pulmões e estapeando-se com movimentos espasmódicos do braço, batendo nas laterais do corpo numa birra barulhenta porque não conseguiu a comida que estava implorando. No momento seguinte, enquanto uma amiga a mantém apertada num abraço, seus gritos diminuem para gemidos suaves.
Uma vez que o comportamento de consolação não é de forma alguma limitado a bonobos e chimpanzés, fiquei feliz quando um dia um aluno que entrou para minha equipe disse que queria estudar elefantes. Com Josh Plotnik, observamos o maior mamífero terrestre, conhecido por seus laços sociais e assistência mútua. Em um santuário ao ar livre no norte da Tailândia, onde elefantes asiáticos resgatados vagam em semiliberdade, uma elefanta chamada Mae Perm corria para o lado de sua amiga, uma elefanta cega chamada Jokia, sempre que esta precisava: agia como se fosse o seu cão-guia. As duas estavam sempre em contato vocal, bramindo e ribombando uma para a outra. Se Jokia estivesse irritada ou assustada com qualquer coisa, como o bramido de um elefante macho ou o barulho de trânsito distante, as duas elefantas estendiam as orelhas e erguiam as caudas. Mae Perm podia emitir chilreios tranquilizantes e acariciar Jokia com a tromba, ou colocá-la na boca de Jokia. Isso a deixava imensamente vulnerável (nada é mais sensível e importante para um elefante do que a ponta da tromba), mas validava sua confiança na outra. Jokia fazia o mesmo, pondo a tromba na boca de Mae Perm, mostrando que a confiança era mútua.
Se outros elefantes estivessem por perto, eles podiam reagir da mesma maneira agitada que Jokia: levantavam as caudas, abanando as orelhas, às vezes urinavam e defecavam durante o gorjeio. E se posicionavam num círculo protetor ao redor dela.
Josh encontrou amplas provas de contágio emocional e consolação nesses paquidermes. No entanto, muitas pessoas consideram sua existência tão evidente que às vezes lhe perguntavam por que seus estudos eram necessários. Todo mundo não sabe que os elefantes têm empatia? De certa forma, fico feliz ao ouvir essa pergunta, porque mostra como a ideia de empatia animal se tornou bem estabelecida. Mas a ciência progride em meio a um enorme ceticismo, e quem se lembra da feroz resistência a essa ideia, como eu certamente lembro, percebe que, sem dados sólidos, ela nunca teria se consolidado. Mas definitivamente isso aconteceu, da mesma forma que agora aceitamos que o coração bombeia sangue e que a Terra é redonda. Não podemos nem imaginar que as pessoas costumavam pensar de outra forma.
Contudo, mesmo depois de chegar a esse ponto em relação à sensibilidade emocional dos mamíferos, ainda precisamos de estudos para aprender como ela funciona e em quais circunstâncias encontra expressão, porque a empatia nunca é a única opção. Mae Perm, por exemplo, não deixava de se aproveitar da cegueira de Jokia para roubar a comida dela.
Compreender a deficiência do outro também oferece maneiras de explorá-la.

Frans de Wall, in O último abraço da matriarca

14/03/2022

Macaco vê, macaco faz


Em 1904, o romancista russo, Liev Tolstói publicou uma história infantil cujo início é chocante: “Animais selvagens estavam em exposição em Londres. Para vê-los, as pessoas tinham de pagar em dinheiro, ou trazer cães e gatos que eram jogados para os animais selvagens comerem”. Na história, um cãozinho aterrorizado é empurrado para dentro da jaula de um leão feroz.
Hoje multidões protestariam furiosamente do lado de fora dos portões da exposição. As atitudes mudaram tanto que a maioria de nós ficaria horrorizada, incapaz de assistir ao espetáculo. Isso é revelador: eu poderia redigir uma descrição detalhada de um ataque de leão, e você provavelmente a leria, mas assistir ao ataque sangrento de um leão a um cachorrinho seria uma coisa totalmente diferente. Você recuaria. O canal do corpo nos envolve tão diretamente nos acontecimentos que não temos como escapar. Quase nos sentiríamos como se o leão estivesse nos atacando. Tudo o que podemos fazer é evitar a cena tapando os olhos. É difícil imaginar, portanto, que gerações anteriores tenham gostado de assistir a tais espetáculos. Isso significa que nos tornamos mais empáticos hoje? Não tenho certeza, porque é improvável que a capacidade humana de empatia tenha mudado em tão pouco tempo. Em vez disso, o que mudou é o seu foco. Regulamos a empatia abrindo ou fechando uma porta, dependendo de com quem nos identificamos e de quem nos sentimos próximos. Nós abrimos a porta para amigos e parentes, e para os animais que amamos, mas a fechamos para os inimigos e para os animais com os quais não nos importamos.
Em comparação com um século atrás, o mundo ocidental vem abrindo uma porta de empatia cada vez maior para seus animais favoritos. Eles se tornaram parte da família. Em 1964, o presidente norte-americano Lyndon B. Johnson, de pé no jardim da Casa Branca, ergueu um de seus beagles no ar pelas orelhas diante da imprensa. O incidente causou uma comoção. Enormes pilhas de cartas de ódio chegaram à Casa Branca. Depois, Johnson explicou que era uma maneira de fazer seu cachorro ganir. Bem, o cão ganiu, mas o mundo não conseguiu ver o sentido desse gesto de dominação. A corrente de protesto durou tanto tempo e se tornou tão prejudicial que Johnson foi forçado a emitir um pedido público de desculpas. Na verdade, consta que ele recebeu mais correspondências iradas sobre esse único evento do que sobre toda a Guerra do Vietnã. Isso significa que nos importamos mais com os maus-tratos a um canino, que sobreviveu, do que com as mortes violentas de mais de 1 milhão de civis e soldados humanos? Racionalmente falando, não posso imaginar que assim seja, mas nossas reações viscerais são informadas por nossos sentidos, não por números.
Ler sobre um desastre terrível em uma terra distante dificilmente nos comoverá tanto quanto ver fotos do evento ou assistir a entrevistas com vítimas chorando. Toda instituição de caridade sabe que recursos visuais são importantes para obter doações. A má sorte de Johnson foi que o incidente do cachorro foi fotografado. Somos sempre mais sensíveis a corpos e rostos. Assim, com ou sem razão, o retrato de Anne Frank veio a substituir os milhões de judeus mortos no Holocausto. Uma única foto trágica de um menino sírio de três anos morto de bruços numa praia do Mediterrâneo mudou o debate público sobre a enorme crise de refugiados que vinha ocorrendo havia anos. Precisamos de um objeto de identificação, um corpo e um rosto reais para abrir a porta do nosso coração. Michel de Montaigne, filósofo francês do século XVI, já conhecia o poder da linguagem corporal. No pesar e na compaixão, disse ele, o papel da cognição é grosseiramente superestimado em comparação com a proximidade física. Para Montaigne, não é por acaso que dizemos que fomos “tocados” por um evento, usando um termo corporal, porque a forma como nos relacionamos com os outros é muito auxiliada por realmente ver, sentir e ouvir.
Esse canal do corpo é tão antigo que o compartilhamos com outras espécies. Certa vez vi a chimpanzé May inesperadamente dar à luz ao meio-dia. Foi bem debaixo da janela do meu escritório, que dava para a área externa dos símios, e May estava cercada por uma multidão animada de espectadores. Enquanto os chimpanzés se empurravam uns aos outros para dar uma boa olhada, May estava meio ereta com as pernas abertas, depois levou uma das mãos aberta entre as pernas para pegar o bebê quando ele saísse. Ao lado dela estava Atlanta, sua melhor amiga, uma fêmea mais velha que, para minha surpresa, adotou exatamente a mesma postura. Atlanta não estava grávida — ela estava imitando May. Mas ela também esticou a mão entre as pernas — as próprias pernas. Talvez houvesse naquilo um elemento de demonstração — “É isso o que você deve fazer!” —, da mesma forma que os pais humanos fazem movimentos de mastigar e barulho de sorver ao alimentar o bebê com a colher. Os seres humanos e outros primatas não somente imitam os outros como se identificam tanto com eles que a situação dos outros se torna a deles. Por fim, depois de uma longa espera, o bebê de May surgiu e o grupo se agitou. Um chimpanzé gritou e outros se abraçaram, mostrando o quanto todos tinham sido tocados pelas emoções do momento.
Às vezes os chimpanzés se identificam uns com os outros por diversão. Certa vez, nossos chimpanzés jovens jogaram durante algumas semanas o divertido jogo de perseguir um macho adulto machucado. O macho não fazia o típico jeito de andar com as articulações dos dedos (apoiando o peso frontal nos nós dos dedos), mas sim apoiando-se num pulso dobrado para proteger os dedos mordidos. Em fila indiana atrás dele, os jovens mancavam de modo tão patético quanto esse infeliz macho, parecendo haver sido feridos também. Chimpanzés selvagens na floresta de Budongo, em Uganda, também ficaram fascinados com um deles que se movia de maneira incomum. Macho de quase cinquenta anos, Tinka tinha as mãos gravemente deformadas e os pulsos paralisados, o que significava que não conseguia nem se coçar. Tinka desenvolveu uma técnica de se coçar parecida com a maneira como esticamos uma toalha entre as mãos para secar nossas costas. Ele esticava um cipó com o pé, depois esfregava a cabeça e o corpo de lado contra a planta. Era um procedimento esquisito — os chimpanzés fisicamente capazes não precisariam daquilo. No entanto, vários jovens se esfregavam regularmente contra cipós puxados para esse fim, exatamente como Tinka.
Plutarco disse: “Se você vive com um aleijado, aprenderá a mancar”. A locomoção solidária é conhecida de nossos animais de estimação. Poucos dias depois de um bom amigo meu quebrar a perna, seu cachorro começou a arrastá-la. Nos dois casos, era a perna direita. O cão coxeou por semanas, mas aquilo desapareceu milagrosamente quando meu amigo tirou o gesso. Isso só é possível porque os cães, como muitos mamíferos, estão perfeitamente sintonizados com os corpos dos outros. Eles não só são ótimos sincronizadores como também gostam disso. Alguns cães aprendem a pular corda junto com as crianças, enquanto outros seguem um bebê humano pela casa, rastejando de barriga junto com ele.
Sincronização e mimetismo são comuns na natureza, como quando muitos golfinhos saltam da água ao mesmo tempo ou quando os pelicanos deslizam em formação perfeita. Também vemos isso em animais sob cuidados humanos. Quando dois cavalos são treinados para puxar uma carroça juntos, eles inicialmente empurram e puxam um contra o outro, cada um seguindo seu próprio ritmo. Mas, depois de anos trabalhando juntos, eles acabam agindo como um só, puxando destemidamente a carroça em alta velocidade inclusive através de obstáculos de água durante maratonas cross-country. Eles se oporão mesmo à mais breve separação, como se tivessem se transformado num único organismo. O mesmo princípio funciona entre os cães de trenó. Talvez o caso mais extremo seja o de uma cadela husky que ficou cega mas ainda corria junto com os outros cães, baseada na capacidade de cheirá-los, ouvi-los e senti-los.
A fusão corporal é o princípio central. A zoóloga norte-americana Katy Payne trabalhou com elefantes africanos:

Certa vez, vi uma mãe elefante fazer uma sutil dança de tromba e pé enquanto, sem avançar, ela observava o filho perseguir um gnu em fuga. Eu mesma dancei desse jeito enquanto assistia às apresentações de meus filhos — e um deles, não resisto a contar-lhes, é acrobata de circo.

Um século atrás, Theodor Lipps, o psicólogo alemão que inspirou o termo “empatia”, explicou a Einfühlung (em alemão, literalmente, “sentir dentro”) com um exemplo notavelmente similar: o caso de um equilibrista de corda bamba. Enquanto assistimos ao desempenho do artista, entramos emocionalmente em seu corpo e compartilhamos sua experiência como se estivéssemos na corda com ele. Lipps foi o primeiro a reconhecer esse canal especial que temos para os outros. Não podemos sentir nada que acontece fora de nós, mas, ao nos tornarmos inconscientemente o corpo do outro, ganhamos experiências semelhantes, sentindo a situação dele como se fosse nossa.
Isso explica por que nossas reações são instantâneas. Imagine que o equilibrista de circo caia, e o público tenha empatia apenas com base numa recreação mental. Um processo assim exige tempo e esforço, então meu palpite é que não reagiriam até que o corpo quebrado do acrobata estivesse caído numa poça de sangue no chão. Mas não é isso o que acontece. A reação do público é instantânea: centenas de espectadores murmuram “oh” e “uh” no exato instante em que o pé do equilibrista escorrega. Às vezes eles escorregam de propósito, sem intenção de cair, precisamente porque sabem que o público está com eles a cada passo do percurso. Às vezes me pergunto onde o Cirque du Soleil estaria sem esse tipo de conexão empática.
Há cerca de 25 anos, o canal do corpo recebeu um tremendo impulso a partir da descoberta de neurônios-espelho em um laboratório em Parma, na Itália. Esses neurônios são ativados quando realizamos uma ação, como pegar um copo, mas também quando vemos alguém pegar um copo. Esses neurônios não distinguem entre o nosso comportamento e o de outra pessoa, então possibilitam que o indivíduo entre na pele de outra pessoa. As ações dela se tornam nossas. Essa descoberta foi considerada tão importante para a psicologia quanto a descoberta do DNA para a biologia, pelas profundas implicações para a imitação e outras formas de fusão corporal. Ela explica por que as palavras chegam automaticamente à nossa boca quando assistimos ao gaguejante rei Jorge vi no filme O discurso do rei, de 2010, e por que Atlanta copiou a postura e os movimentos de May.
Em meio a todo o alvoroço que envolve os neurônios-espelho, no entanto, não devemos esquecer que eles não foram descobertos nos seres humanos, mas em macacos. E ainda hoje as provas da existência dos neurônios “macaco vê, macaco faz” em outros primatas são melhores e mais detalhadas do que para o equivalente no cérebro humano. É provável que os neurônios-espelho ajudem os primatas a imitar os outros, como quando abrem uma caixa da mesma forma que um modelo treinado faz, quando se sincronizam com os outros enquanto apertam botões ou quando, na natureza, removem as sementes de uma fruta da mesma maneira que suas mães. Macacos de diferentes grupos processam frutas de modo um pouco diferente, e os jovens copiam fielmente os mais velhos. Na realidade, os primatas são conformistas naturais. Não só imitam como também gostam de ser imitados. Em um experimento, dois pesquisadores deram a um macaco-prego uma bola de plástico para brincar. Um pesquisador imitava cada movimento que o macaco fazia com a bola — jogá-la, sentar-se nela, batê-la contra a parede —, enquanto o outro não. No final, o macaco claramente preferia aquele que o imitara. Em estudo semelhante, adolescentes humanos em um primeiro encontro amoroso foram instruídos a imitar cada movimento do(a) parceiro(a), como pegar um copo, apoiar um cotovelo na mesa ou coçar a cabeça. O(a) parceiro(a) relatou gostar dele(a) muito mais do que aqueles cujo(a) parceiro(a) agiu de forma independente. Eles não percebem por que sentem diferente, mas em algum nível consideramos a imitação um elogio.
É fácil ver como isso funciona quando alguém de quem estamos perto boceja em nossa presença. É quase impossível não bocejar junto. Já assisti a palestras sobre o bocejo (usando termos sofisticados como “pandiculação”) em que todo o público ficava com a boca aberta a maior parte do tempo. O contágio do bocejo está relacionado com a empatia, porque os seres humanos mais propensos a ele são também os mais empáticos em outras medidas, e as mulheres — que em média obtêm uma pontuação mais alta do que os homens em empatia — são mais sensíveis aos bocejos dos outros. Por outro lado, crianças com déficits de empatia, como aquelas com transtorno do espectro autista, muitas vezes não sofrem o contágio do bocejo. Esse conhecimento levou a vários estudos para ver como e quando “pegamos” o bocejo dos outros e se outros animais fazem o mesmo. Agora sabemos que cães e cavalos bocejam em resposta a bocejos humanos — os cachorros fazem isso mesmo que só escutem o dono bocejar —, e que os bocejos costumam se espalhar entre os macacos de um grupo.
Ensinamos nossos chimpanzés a pôr o olho num buraco de um balde para ver um iPod do outro lado. Desse modo, poderíamos testar sua reação particular a vídeos de símios bocejando. Assim que viram os bocejos, eles começaram a bocejar como loucos. Porém só faziam isso se conheciam pessoalmente os símios mostrados nos vídeos. Vídeos de estranhos não os interessavam. Então, não era apenas uma questão de ver uma boca aberta e próxima: eles precisavam se identificar com o chimpanzé que viam bocejar no vídeo. O mesmo papel da familiaridade é conhecido entre os seres humanos. Um estudo de campo secreto feito em restaurantes, salas de espera e estações de trem descobriu que, se um homem fica ao lado de sua esposa e ela boceja, ele bocejará junto com ela. Mas se ele ficar ao lado de um estranho que boceja não será afetado. As reações empáticas são sempre mais fortes quanto mais temos em comum com o outro e quanto mais próximos nos sentimos dele.
Terminemos a história de Tolstói sobre o leão e o cachorrinho. Ao encontrar o grande felino, o pobre cãozinho logo rolou de costas enquanto abanava a cauda freneticamente. Esse ato de rendição deve ter apaziguado o leão, porque ele se absteve de atacar. Não só isso, mas os dois se tornaram grandes amigos. Embora isso possa parecer implausível, existem exemplos contemporâneos suficientes de amizades estranhas entre animais — elefante e cão, coruja e gato, até mesmo leão e cachorro bassê — para não se descartar a história de Tolstói de imediato. A coisa sempre se resume a como os corpos interagem, por exemplo quão cheia estava a barriga do leão e quão convincente foi o rolamento do cachorro.

Frans de Waal, in O último abraço da matriarca

21/02/2022

Sabedoria das eras

Percebemos e interpretamos as emoções usando comunicação, empatia, coordenação e, em especial, lendo a linguagem corporal. Uma vez que é quase impossível para os pesquisadores estudarem como as pessoas percebem as emoções apenas pela observação, eles obtêm mais conhecimento a partir de experiências, geralmente aquelas que apresentam imagens em uma tela sensível ao toque. Os seres humanos são testados dessa maneira o tempo todo, mas isso é feito também com outras espécies.
Nossos chimpanzés ficam muito empolgados com esses estudos, talvez por causa do fascínio pelo feedback imediato da tela sensível ao toque, do mesmo modo como as crianças são atraídas pelos celulares. A maneira mais rápida de fazer com que os chimpanzés entrem no Prédio da Cognição em Yerkes, o que eles fazem de forma voluntária, é passar pelo recinto ao ar livre deles com um carrinho de serviço carregando um computador. Os chimpanzés explodem em guinchos e correm para as portas do prédio onde realizamos o teste, fazendo fila para entrar, ansiosos para passar uma hora no que para eles são diversão e jogos e para nós, testes cognitivos. Nem precisamos recompensá-los pelo desempenho: para eles, tocar imagens e solucionar quebra-cabeças é divertido por si só. Alguns chimpanzés se tornam competitivos: eles ouvem pelo som do monitor como estão se saindo (a solução correta produz um som mais feliz que o erro) e ficam aborrecidos quando ouvem um companheiro próximo se sair melhor que eles. É a melhor maneira de fazer com que se concentrem!
Eu gosto de experimentos que sejam agradáveis tanto para os cientistas quanto para os animais. O truque é criar tarefas interessantes. Por exemplo, durante muito tempo testamos o reconhecimento facial mostrando rostos de primatas humanos; então, diante de um desempenho ruim, concluímos que apenas nós humanos reconhecemos os rostos. Alguns cientistas chegaram ao ponto de alegar a existência de um módulo especial de reconhecimento facial no cérebro humano que evoluiu exclusivamente em nossa linhagem. Mas então os chimpanzés foram testados com faces de sua própria espécie, e prestaram mais atenção e se revelaram tão bons quanto os humanos nessa tarefa.
Eles até mostraram sinais de percepção holística. Nós, humanos, não reconhecemos rostos pelo tamanho do nariz ou pela distância entre os olhos; em vez disso, captamos a configuração geral, percebendo o rosto como um todo. O mesmo acontece com outros primatas, desde que sejam testados sobre sua própria espécie. Até os cães — animais domésticos criados especificamente para se dar bem conosco — reconhecem melhor as emoções dos cães que as dos humanos. Nada disso é terrivelmente surpreendente, mas por demasiado tempo testamos os animais da forma incorreta, baseados na suposição de que nossos rostos devem ser os mais distintos do mundo. Claramente, nem símios nem cães são tão apaixonados por nós como gostaríamos que fossem.
E o que dizer das expressões emocionais? Aqui a coisa complica, pois não podemos perguntar aos animais o que significam suas expressões. Não podemos dar-lhes uma lista de adjetivos como “feliz”, “triste” e assim por diante, como Ekman fez. Lisa Parr, então minha aluna, encontrou uma solução engenhosa usando dados fisiológicos. A fisiologia nos diz como o corpo reage, o que é fundamental, porque as emoções pertencem tanto ao corpo quanto à mente. A palavra moderna inglesa “emotion” deriva do verbo francês “émouvoir”, que significa mover, comover, ou excitar; o latim “emovere” significa agitar. Em outras palavras, as emoções não podem nos deixar em paz. São estados mentais que fazem nosso coração bater mais depressa, nossa pele ganhar cor, nosso rosto tremer, nosso peito se contrair, nossa voz se elevar, nossas lágrimas correrem, nosso estômago se revolver e assim por diante.
Não só as emoções afetam o corpo, como o inverso é igualmente verdadeiro. As emoções são fortemente influenciadas por hormônios (como os do ciclo menstrual), excitação sexual, insônia, fome, exaustão, doença e outros estados corporais. Associamos diferentes emoções a locais específicos do corpo, e o corpo, por sua vez, afeta o que sentimos. Por exemplo, o sistema nervoso entérico — uma rede de milhões de neurônios embutidos no revestimento do trato digestivo — pode nos dar um frio na barriga, ou ansiedade na boca do estômago, o que, por sua vez, diz ao nosso cérebro o que sentimos. Por causa da autonomia do sistema entérico, ele é também chamado de nosso “segundo cérebro”.
O fato de as emoções estarem enraizadas no corpo explica por que a ciência ocidental levou tanto tempo para valorizá-las. No Ocidente, amamos a mente, dando pouca atenção ao corpo. A mente é nobre, enquanto o corpo nos arrasta para baixo. Dizemos que a mente é forte enquanto a carne é fraca, e associamos emoções a decisões ilógicas e absurdas. “Não se deixe levar pelas emoções!”, alertamos. Até recentemente, as emoções eram em grande parte ignoradas, vistas como quase abaixo da dignidade humana.
Em geral, as emoções sabem melhor do que nós o que é bom para nós, mesmo que nem todos estejamos preparados para ouvir. Quando estava tentando decidir se pediria a prima Emma Wedgwood em casamento, Charles Darwin elaborou uma longa lista de argumentos a favor (“Objeto para amar e brincar — melhor que um cão, de todo modo”) e contra (“Não ser forçado a visitar parentes e se dobrar por qualquer ninharia”). Dessa maneira, ele esperava chegar a uma decisão perfeitamente racional, mas duvido muito que sua lista o tenha influenciado para um lado ou para o outro. Ele até esqueceu os dois itens em favor do casamento que muitos de nós colocaríamos no topo da lista: amor e atração física. Ao concluir com um firme CQD (quod erat demonstrandum, “como se queria demonstrar”) que favorecia a proposta a Emma, Darwin agiu como se tivesse produzido algum tipo de prova matemática, mas obviamente sua matemática era ilusória. Sempre nos inclinamos para um lado ou para outro quando temos de tomar uma decisão importante, e raramente é a cabeça que comanda a inclinação. No fraseado elegante de Blaise Pascal, filósofo francês do século XVII, “o coração tem razões que a razão desconhece”.
As emoções nos ajudam a abrir caminho num mundo complexo que não compreendemos totalmente. Elas são o jeito de nosso corpo garantir que façamos o melhor para nós. Além disso, somente o corpo pode realizar as ações necessárias. As mentes sozinhas são inúteis: elas precisam de corpos para se envolver com o mundo. As emoções estão na interface de três coisas: mente, corpo e meio ambiente. Elas também são chamadas de afetos, mas, como esse termo tem definições conflitantes, fico com emoções, definidas da seguinte forma:

Uma emoção é um estado temporário produzido por estímulos externos relevantes para o organismo. Ela é marcada por mudanças específicas no corpo e na mente — cérebro, hormônios, músculos, vísceras, coração, estado de alerta etc. Pode-se inferir qual emoção está sendo desencadeada pelo estado em que o organismo se encontra, bem como por suas mudanças e expressões comportamentais. Em vez de uma relação exclusiva entre uma emoção e o comportamento subsequente, as emoções combinam a experiência individual com a avaliação do ambiente a fim de preparar o organismo para a resposta ideal.

Vamos considerar a emoção do medo. Assim que vê uma cobra, um macaco fica terrivelmente amedrontado. Da mesma forma, você será tomado pelo medo se descer da calçada para a rua e um ônibus passar a centímetros de seu rosto. O medo faz o corpo congelar e tremer enquanto a frequência cardíaca aumenta, a respiração fica mais rápida, os músculos ficam tensos, os pelos ou as penas se arrepiam, e tem-se uma descarga de adrenalina. Tudo isso envia oxigênio ao cérebro e aos músculos para que se possa lidar melhor com o perigo percebido. O macaco precisa decidir se a cobra é perigosa ou inofensiva, e se o melhor que tem a fazer é escalar uma árvore, recuar, fugir ou lutar. Após ver o ônibus, você vai verificar o tráfego e decidir se é seguro atravessar ou se é melhor procurar a faixa de pedestre. As emoções têm sobre os instintos a grande vantagem de não ditarem comportamentos específicos. Os instintos são rígidos e semelhantes a reflexos, o que não é como a maioria dos animais funciona. Em contraste, as emoções concentram a mente e preparam o corpo, enquanto deixam espaço para experimentar e julgar. Elas constituem um sistema de resposta flexível, muito superior aos instintos. Com base em milhões de anos de evolução, as emoções “sabem” coisas sobre o ambiente que nós, como indivíduos, nem sempre sabemos conscientemente. É por isso que se diz que as emoções refletem a sabedoria das eras.
Voltando a Lisa Parr, ela decidiu medir a temperatura dos chimpanzés enquanto os testava. Ensinou-lhes pacientemente a esticar um dedo enquanto punha uma tira em torno dele e media a temperatura da pele. Em nossa espécie, durante a excitação negativa — como quando vemos coisas que nos incomodam ou nos amedrontam —, a temperatura da nossa pele diminui. Uma reação do tipo “lutar ou fugir” nos deixa com os pés frios, pois o sangue é retirado das extremidades. Em um episódio do programa de televisão Caçadores de mitos, sensores de calor foram colocados nos pés de pessoas que se deparavam com tarântulas rastejando na direção delas, ou que faziam um passeio assustador num avião de acrobacia. As quedas de temperatura foram espantosas. Nossos pés congelam quando estamos com medo, reação que compartilhamos com ratos assustados, que ficam com o rabo e as patas frias.
Lisa se perguntou se os símios mostrariam a mesma queda de temperatura. Primeiro, ela passou um pequeno vídeo na tela. Mostrava uma cena feliz, como tratadores de animais se aproximando com baldes cheios de frutas, ou então uma cena desagradável, como um veterinário vindo com uma arma de dardos — o mais perto que ela podia chegar de um predador. Depois de assistir a um ou outro vídeo, os símios deviam escolher entre duas faces na tela: uma com a expressão risonha feliz de sua espécie, a outra com um sorriso nervoso. O objetivo era ver qual face associariam espontaneamente à cena. Eles nunca haviam sido treinados com essas imagens. No primeiro teste, escolheram o rosto risonho para acompanhar a cena feliz e o sorriso angustiado para acompanhar a cena desagradável. Enquanto viam a última cena, a temperatura da pele caiu como nos seres humanos e ratos que enfrentam uma situação desagradável.
Acho difícil explicar esse resultado sem inferir experiências subjetivas. Não se trata mais apenas de emoções, que podem ser deflagradas automaticamente, mas também de sentimentos. Os sentimentos surgem quando as emoções penetram em nossa consciência e nos tornamos conscientes deles. Sabemos que estamos zangados ou apaixonados porque sentimos isso. Podemos dizer que sentimos isso em nossa “barriga”, mas na verdade detectamos mudanças em todo o corpo. Como os símios da experiência de Lisa poderiam selecionar a expressão facial correta, a menos que sentissem alguma coisa? É muito provável que eles tenham se sentido bem ou mal ao ver os vídeos, o que os ajudou a decidir que cara combinaria com o que viram. As medições de temperatura de Lisa confirmaram que eles resolviam a tarefa emocionalmente, e não intelectualmente. O experimento dela nos deixou com a intrigante possibilidade de que os símios sejam tão conscientes de seus sentimentos quanto nós.
Na maioria das vezes, no entanto, os sentimentos dos animais são desconhecidos para nós, e tudo o que podemos fazer é testar suas reações. Experimentos nos ensinaram que macacos e grandes primatas são especialistas em suas próprias expressões faciais. Eles são incrivelmente rápidos e precisos em detectar semelhanças e diferenças, do mesmo modo como podemos instantaneamente diferenciar um sorriso de uma carranca. Quando mostramos aos macacos-prego uma tela com fotos de diferentes objetos — flores, animais, carros, frutas, faces humanas, faces de macacos —, descobrimos que o que eles reconheciam com mais rapidez eram as expressões emocionais de sua própria espécie. Essas imagens eram uma categoria à parte, porque as expressões não são apenas significativas, mas também envolventes. De início, os macacos até reagiam a elas, recusando-se, por exemplo, a tocar a imagem de uma face ameaçadora, ou estalando os lábios diante de um movimento amistoso de sobrancelha. As expressões provocam emoções, ou empatia. Na verdade, é difícil ter empatia sem conexão facial.
O psicólogo sueco Ulf Dimberg identificou a conexão empática em nossa própria espécie na década de 1990, quando colou eletrodos em rostos humanos que lhe permitiram registrar até as menores contrações musculares. Ele descobriu que as pessoas imitam automaticamente as expressões exibidas em um monitor. O mais notável é que elas nem precisam saber o que estão vendo. As imagens de rostos podem ser exibidas subliminarmente (apenas por uma fração de segundo) entre fotos de paisagens, e ainda assim as pessoas as imitarão. Elas acham que estão olhando somente para belas paisagens, sem saber dos rostos na tela, mas depois se sentem bem ou mal, conforme tenham sido expostas a sorrisos ou carrancas. Ver sorrisos nos torna felizes, ao passo que ver carrancas nos deixa zangados ou tristes. Inconscientemente, nossos músculos faciais copiam esses rostos, que então repercutem no modo como nos sentimos.
Na vida real, então, não podemos deixar de ser afetados emocionalmente pelos outros. Nossa conexão empática com os outros é como um aperto de mão por debaixo da mesa entre corpos, percebido como uma “vibração”, que pode ser positiva e inspiradora, ou tóxica, minando nossa energia. Demora-se para perceber isso, porque esses processos podem ocorrer fora de nossas mentes conscientes. Embora fornecesse insights maravilhosos sobre o mundo dos seres humanos, a pesquisa de Dimberg infelizmente encontrou enorme resistência e foi ridicularizada. Por um tempo, sua obra inovadora continuou inédita porque dava prioridade ao corpo, enquanto no Ocidente preferimos que a mente esteja no comando. Gostamos de nos ver sobretudo como seres racionais, como Darwin elaborando sua lista tola de prós e contras do casamento. Podemos camuflar nossas decisões emocionais com racionalizações, dizendo que precisamos daquele carro esportivo para vencer o tráfego, ou daquele chocolate por causa dos antioxidantes. Pela mesma razão, a ciência elevou a empatia a um processo cognitivo. Deixá-la como uma questão de emoções e processos corporais simplesmente não era aceitável, por isso se dizia que empatia significava colocar-se deliberadamente no lugar do outro. Afirmava-se que entendemos os outros com base num “salto de imaginação para dentro do espaço mental da outra pessoa”, ou simulando conscientemente a situação dela. O corpo não fazia parte dessas teorias.
Nos últimos anos, no entanto, a ciência foi forçada a mudar. O corpo está agora na frente e no centro de qualquer consideração sobre a empatia. Novos estudos de imagem cerebral apoiam o processo físico involuntário proposto por Dimberg. E pesquisas descobriram que a empatia é prejudicada quando o mimetismo facial é bloqueado, como quando os seres humanos seguram um lápis entre os dentes, para que os músculos da bochecha não se movam. Nossos rostos têm muito mais mobilidade do que pensamos, o que nos ajuda a nos conectar com os outros, imitando seus movimentos. Isso se tornou um problema para as pessoas em cujo rosto se injetou Botox. O relaxamento muscular as impossibilita de espelhar o rosto dos outros, o que as impede de sentir o que os outros sentem. Pessoas com Botox podem parecer maravilhosas, mas elas têm dificuldade com a empatia. E o problema não está apenas em como elas se relacionam com os outros, mas em como os outros se relacionam com elas. Rostos com Botox parecem congelados e perdem o fluxo de microexpressões utilizadas nas interações diárias. A falta de resposta facial faz com que os outros se sintam isolados, rejeitados até.
O ceticismo inicial da ciência sobre esses processos corporais agora nos parece estranho. Quem não chorou quando os outros choraram, riu quando os outros riram ou pulou de alegria quando os outros pularam? Sentimos o que os outros sentem ao tornar nossas as posturas, os movimentos e as expressões deles. A empatia salta de corpo para corpo.

Frans Waal, in O último abraço da matriarca

15/02/2022

De corpo para corpo | Empatia e compaixão

Minha primeira experiência com chimpanzés foi na faculdade, na Universidade Radboud, em Nijmegen, Holanda. Para ganhar alguns florins, assumi o posto de assistente de pesquisa num laboratório de psicologia. No primeiro dia, fiquei sabendo que o trabalho envolvia chimpanzés. Isso me pegou de surpresa, porque quem em sã consciência manteria símios no último andar de um prédio universitário, em meio a escritórios e salas de aula? As condições de vida estavam longe do ideal e nunca seriam permitidas hoje, mas me diverti muito conhecendo meus dois amigos peludos.
Todos os dias eu os testava em tarefas cognitivas que poderiam ser perfeitas para ratos, mas não eram adequadas para símios. Naquela época, os psicólogos ainda acreditavam em leis universais de aprendizado e inteligência e não se interessavam pelos talentos especiais de cada espécie. Nem mesmo o tamanho do cérebro importava para eles. Como B. F. Skinner, o fundador da escola behaviorista, disse sem rodeios: “Pombo, rato, macaco, qual é qual? Isso não importa”. Agora, no entanto, sabemos que existem muitos tipos diferentes de inteligência, cada qual adaptada aos sentidos especiais e à história natural de uma espécie. Não se pode avaliar um símio ou um elefante da mesma maneira que se avalia um corvo ou um polvo. Grandes primatas, em particular, são seres pensantes que tentam entender cada problema que enfrentam. Eles perdem o interesse assim que descobrem a solução. Em comparação com alguns macacos rhesus testados no mesmo laboratório, nossos chimpanzés tiveram mau desempenho, o que demonstra que desempenho e inteligência não são a mesma coisa. Enquanto os macacos tinham os olhos firmes nas recompensas e mantinham uma rotina para ganhar o máximo que conseguissem, os chimpanzés ficavam entediados. A tarefa estava abaixo do nível deles. Em consequência, eu passava muito tempo fazendo bagunça com eles, e eles gostavam muito mais.
Foi assim que aprendi os sons típicos e outras formas de comunicação dessa espécie, e também a agir como símio, o que não é tão difícil, uma vez que os seres humanos são essencialmente primatas. A única parte que não consegui imitar foi a força muscular deles. Eu não conseguia me balançar pendurado por um único dedo ou saltar de uma parede para a outra sem tocar no chão. Embora não tivessem nem seis anos de idade, eles rapidamente perceberam que eu era um ser fraco que não gostava de ser atrelado com os mesmos laços com que eles atavam uns aos outros. Eu podia dar o tapa mais forte que conseguisse nas costas deles — tão forte que qualquer ser humano teria explodido em protestos irados —, mas eles apenas continuavam rindo como se aquilo fosse a coisa mais engraçada que eu já fizera.
Como era típico da idade deles, seus impulsos sexuais estavam surgindo, e eles eram forçados a projetá-los em nossa espécie. Ambos os machos tinham ereções assim que viam uma mulher passar. Eram tão precisos em identificar o sexo oposto que eu me perguntava como faziam aquilo. Pelo cheiro era improvável, porque seus sentidos são como os nossos: a visão é dominante. Um colega estudante e eu decidimos fazer um teste, o que levou ao meu primeiro experimento comportamental. Nós nos vestimos com saias e perucas e modulamos nossas vozes para ver que tipo de reação receberíamos. Entramos na sala conversando e apontando para os chimpanzés como se fôssemos visitantes fêmeas inesperadas. Eles mal ergueram os olhos. Nenhum pênis ereto, nenhuma confusão, exceto que puxaram nossas saias. Poucos minutos depois, uma das secretárias espiou pela porta, pois vira duas senhoras estranhas entrarem e pensou que estavam perdidas. Com ela, os chimpanzés mostraram imediatamente a reação que esperávamos. Concluímos que é mais fácil enganar as pessoas do que os chimpanzés.
Esse experimento era mais parecido com um trote. Eu hesitaria em mencioná-lo, a não ser pelo fato de que ele ilustra a percepção aguçada — que é o tema deste capítulo. Como um organismo lê a linguagem corporal de outro? Muitos animais têm a mesma sensibilidade que esses dois chimpanzés quando se trata de distinguir gêneros humanos. Até espécies bem distantes de nós, como aves e gatos, fazem isso com facilidade. Conheço muitos papagaios que só gostam de mulheres, ou só de homens. Eles focam na única diferença de sexo visível que se encontra em todo o reino animal: os movimentos masculinos tendem a ser mais bruscos e resolutos que os das fêmeas, mais fluidos e flexíveis. Nós nem precisamos ver corpos inteiros para fazer essa distinção. Quando os cientistas prenderam pequenas luzes nos braços, nas pernas e na pélvis das pessoas e as filmaram andando, descobriram que esses pontos, por si sós, contêm todas as informações de que precisamos para distinguir o gênero. Observando apenas alguns pontos brancos em movimento contra um fundo escuro os indivíduos podem dizer imediatamente se estão olhando para um homem ou uma mulher. O padrão de caminhada varia até com o estágio do ciclo ovulatório da mulher. Se podemos julgar com precisão as pessoas com base em informações tão escassas como essas, não é difícil perceber por que, para muitos animais, a masculinidade ou a feminilidade humana é um livro aberto. Isso também funciona em sentido inverso, porque à distância eu certamente consigo distinguir um chimpanzé macho de uma fêmea pela maneira como eles se movem.
Muitos anos depois, realizamos um experimento mais científico sobre distinções de gênero. Ele originou-se da pesquisa sobre reconhecimento facial com uso de tela sensível ao toque, mas terminou com a descoberta de que os chimpanzés são íntimos dos traseiros uns dos outros. Sentado diante de um monitor, o chimpanzé via primeiro uma foto do traseiro de um animal da sua própria espécie, seguida por dois retratos. Somente um retrato correspondia ao traseiro que ele acabara de ver: ele mostrava a face do mesmo símio. A tarefa era fácil demais se as faces fossem de sexos diferentes, porque os traseiros de machos e fêmeas são muitíssimo diferentes, e as faces de ambos os sexos também diferem.
Mas e se eles tivessem de escolher entre dois retratos de machos depois de ter visto um traseiro de macho, ou entre dois retratos de fêmeas depois de um traseiro de fêmea? Eles ainda escolheriam o correto? Descobrimos que nossos chimpanzés selecionavam o retrato que combinava com o traseiro, mas apenas dos chimpanzés que conheciam pessoalmente. O fato de terem fracassado com estranhos sugere que suas escolhas não se baseavam em alguma coisa das imagens, como cor ou tamanho, mas no conhecimento que vinha de fora, de se verem todos os dias. Tendo uma imagem de corpo inteiro de indivíduos familiares, eles os conheciam tão bem que podiam conectar qualquer parte de seu corpo com qualquer outra parte, como a anterior com a posterior. Publicamos nossas descobertas sob o título de “Faces e traseiros”, e como todo mundo achava engraçado que os símios fossem capazes de fazer isso, recebemos um prêmio Ig Nobel — uma paródia do prêmio Nobel que homenageia pesquisas que “fazem as pessoas rirem primeiro e depois pensar”.
Embora o mesmo experimento nunca tenha sido tentado com seres humanos — muito menos com pessoas despidas —, devemos formar a mesma imagem do corpo inteiro, porque todos nós somos capazes de encontrar amigos e parentes numa multidão, mesmo que só os vejamos de costas.

Frans de Waal, in O último abraço da matriarca

08/02/2022

Emoções mistas

As histórias evolutivas do riso e do sorriso mostram como Jan estava certo ao propor origens separadas para os dois. Eles se originam de diferentes cantos do espectro da emoção. Um começou como uma expressão de medo e submissão, que se tornou um sinal de não hostilidade e, por fim, de afeição. O outro começou como um indicador de brincadeira sensível a bagunça e cócegas, depois se transformou num sinal de vínculo e bem-estar, até de diversão e felicidade. Ambas as expressões têm se aproximado em nossa espécie, e, como muitas vezes misturamos emoções, elas acabaram se fundindo. Com frequência, passamos de um sorriso para uma risada e vice-versa, ou mostramos misturas dos dois.
Expressões misturadas são típicas dos hominídeos, a pequena família de primatas dos seres humanos e símios. Enquanto a maioria dos outros animais, inclusive macacos, tem vozes e exibições distintas, os hominídeos se destacam por sua comunicação matizada. Um macaco faz uma cara de ameaça, um sorriso de dentes à mostra ou uma cara de quem quer brincar, mas não uma combinação ou mistura dessas expressões. Seus sinais são fixos e estereotipados, bastante separados uns dos outros, como se fossem ou azuis, ou vermelhos, nunca roxos. Trata-se de uma limitação séria em comparação com os grandes primatas, que facilmente se movem entre uma cara de beicinho, um gemido e um grito de dentes à mostra. Suas faces estão em constante movimento para cobrir uma ampla gama de tendências, mesmo que conflitivas. Da mesma forma, uma criança pode chorar, depois rir em meio às lágrimas, depois chorar mais.
Usando uma classificação de 25 expressões faciais, analisamos literalmente milhares delas na colônia de chimpanzés de Yerkes durante sua vida cotidiana em seu recinto ao ar livre. Percebemos um enorme grau de matizes e misturas. Por exemplo, um macho jovem que procura contato com o macho alfa tem medo e senta-se à distância, esperando por um sinal simpático. O jovem macho faz sinais amistosos, como estender a mão ao seu líder com arquejos rápidos, mas também grunhidos submissos para demonstrar respeito. Ou uma fêmea está interessada na melancia suculenta de outro, mas fica aborrecida quando é rejeitada e hesita entre implorar e protestar em voz alta, o que pode desencadear uma briga. Ela se move entre beicinhos e gemidos para pedir comida e entre uivos e gritos suaves que traem a crescente frustração. As interações sociais estão cheias dessas tendências conflitantes, e as faces dos seres humanos e dos símios revelam todas elas. Eles mostram não apenas um instantâneo de uma emoção ou outra, mas todos os tons sutis entre elas. Estados emocionais independentes são raros, motivo pelo qual é tão problemático pôr as expressões faciais em caixinhas rotuladas como “irritado”, “triste” ou outras emoções básicas. Isso não funciona para nós, nem para nossos companheiros hominídeos.

Frans de Waal, in O último abraço da matriarca

28/01/2022

Isso foi engraçado!

Certa vez assisti a uma palestra de um filósofo que estava perplexo diante dos aspectos não verbais da comunicação humana. Ele preferia a palavra escrita e falada, mas obviamente não conseguia contornar todas as caras e todos os gestos que fazemos. Por que precisamos de todos esses acompanhamentos, ele se perguntava, e, especialmente, por que são tão exagerados? Quando rimos de uma piada, por exemplo, perdemos o controle parcial sobre nosso corpo e produzimos uma enorme quantidade de hahahas que podem ser ouvidos longe. Por que não podemos dizer simplesmente “Isso foi engraçado” e ficar por aí?
Imaginei a cena de um humorista num pequeno teatro contando a melhor piada de todos os tempos e as pessoas, em vez de caindo das poltronas às gargalhadas, todas quietas murmurando “Isso foi engraçado”. É óbvio que o humorista, sabendo que o nobre senso de humor da humanidade está irrevogavelmente casado com algo muito mais animalesco, se sentiria profundamente ofendido. O riso mostra como o corpo ocupa um lugar central em nossa existência, inclusive na vida mental. O riso une corpo e mente, fundindo-os num todo. Podemos sentir isso como perda de controle, porque gostamos que a mente esteja no comando. Como disse o crítico teatral John Lahr: “Observar o riso provocado tomar conta de uma plateia é presenciar um grande e violento mistério. Rostos em convulsão, lágrimas que correm, corpos que colapsam, não em agonia, mas em êxtase”.
Quando rimos, enlouquecemos. Ficamos moles, nos apoiamos um nos outros, ficamos vermelhos e nossos olhos se enchem de lágrimas, a ponto de dissolver a linha divisória com o choro. Fazemos literalmente xixi nas calças! Depois de uma noite de risos, ficamos totalmente exaustos. Isto se deve, em parte, ao fato de que o riso intenso é marcado por mais expirações (que produzem som) do que por inalações (que absorvem oxigênio), então acabamos ofegando por falta de ar. O riso é uma das grandes alegrias de se ser humano, com benefícios bem conhecidos para a saúde, como redução do estresse, estimulação do coração e dos pulmões e liberação de endorfinas. Não obstante, devemos torcer para que os extraterrestres nunca cheguem a observar um grupo de seres humanos rindo descontrolados, porque eles provavelmente abandonariam a ideia de ter encontrado vida inteligente.
O humor nem sempre é o gatilho para o riso. Quando os psicólogos tomam notas discretas sobre o comportamento humano em shoppings e nas calçadas de nosso habitat natural, eles descobrem que a maioria dos risos ocorre depois de declarações mundanas que são tudo menos divertidas. Tente você mesmo. Observe quando as pessoas riem em bate-papos espontâneos, e verá que muitas vezes não é por nada — nenhuma piada, nenhum trocadilho, nenhuma observação bizarra. É apenas um riso inserido no fluxo da conversa, geralmente ecoado pelo interlocutor. O humor não é fundamental para o riso: as relações sociais, sim. Nossas demonstrações tremendamente ruidosas que mais parecem latidos anunciam bem-estar e gosto compartilhados. O riso de um grupo de pessoas transmite solidariedade e intimidade, não muito diferente do uivo de uma matilha de lobos.
O volume alto da risada de nossa espécie sempre me surpreende: os símios riem com muito mais suavidade, e os macacos mal podem ser ouvidos. Meu palpite é que o volume é inversamente proporcional ao risco de predação. Se o riso dos filhotes de outros primatas fosse tão ensurdecedor quanto o riso de nossos filhos no pátio das escolas, os predadores não teriam dificuldade em localizá-los e atacar no momento certo. O ser humano pode se dar ao luxo de ser barulhento, embora obviamente também dê muitas risadinhas reprimidas e risinhos entredentes.
Em sua festa de oitenta anos, Jan fez uma demonstração esplêndida da sequência da risada humana: ele soltou uma série de gargalhadas, depois inspirou profunda, prolongadamente, para aumentar o efeito. A sala explodiu em gargalhadas, não só porque essa sequência é uma assinatura de nossa espécie, mas também porque é incrivelmente contagiante. Nos experimentos, os seres humanos imitam automaticamente rostos risonhos exibidos na tela do computador, e o propósito de se acrescentar risadas gravadas às séries cômicas da televisão é produzir o contágio. Análises detalhadas de vídeos acerca do comportamento de grandes primatas encontram mimetismo semelhante. Quando um orangotango jovem se aproxima de outro com cara de riso, o outro adota de imediato a mesma expressão, e é por isso que normalmente ambos os parceiros de brincadeiras riem, e não apenas um deles. Até as aves exibem esse comportamento contagiante. Os papagaios da Nova Zelândia, conhecidos como keas, tornam-se instantaneamente brincalhões quando ouvem as vocalizações melodiosas que acompanham as brincadeiras de sua espécie emitidas por alguém oculto. Os cantos, que se assemelham um pouco ao riso, afetam seu estado de ânimo. Os keas imediatamente convidam outras aves para brincar, pegam brinquedos para manipular ou fazem acrobacias aéreas. Nada é tão contagiante quanto a jocosidade e o riso.
A repetitividade do riso dos primatas deriva da respiração ritmada. Nos símios, o riso começa com uma respiração ofegante audível, que fica cada vez mais vocal quanto mais intenso se torna o encontro. Por si só, separada da brincadeira, a respiração ofegante expressa alívio, alegria e um desejo de contato, como quando uma fêmea de chimpanzé caminha até a sua melhor amiga e emite arquejos audíveis antes de beijá-la. Do mesmo modo, Mama ofegava rapidamente para mim antes de agarrar meu braço, depois balbuciava e estalava os lábios quando me catava. Quando se trabalha com símios, aprende-se a ser cuidadoso e observar os seus sinais. Todos esses sons suaves indicavam boas intenções, tanto que, sem eles, eu talvez relutasse em deixar Mama pegar meu braço.
Nadia Ladygina-Kohts, a cientista russa que há um século comparou o desenvolvimento emocional do jovem chimpanzé Joni com o de seu próprio filho pequeno, deu exemplos de momentos alegres que provocaram o arquejo. Um dia, Joni viu Nadia sair de casa e começou a choramingar, mas assim que ela mudou de ideia e ficou ele correu até ela com arquejos rápidos. Quando Joni esperava uma bronca séria por algum malfeito mas foi tratado cordialmente, ele ofegou em agradecimento. Essa respiração ofegante, que comunica alegria e sentimentos positivos, tornou-se a base do riso, que comunica a mesma coisa, só que muito mais alto.
A brincadeira dos animais pode ser bruta, pois eles lutam, mordiscam, pulam uns sobre os outros e arrastam uns aos outros. Sem um sinal inequívoco para esclarecer suas intenções, o comportamento de brincar pode se confundir com uma briga. Sinais de brincadeira dizem aos outros que eles não têm com o que se preocupar, que nada daquilo é sério. Por exemplo, os cães podem “fazer reverência” (agachar-se nos membros dianteiros e manter o traseiro no alto) para ajudar a separar brincadeira de conflito. Mas, assim que um cão se comporta mal e acidentalmente morde o outro, a brincadeira cessa de repente. Uma nova reverência será exigida como “pedido de desculpas”, a fim de que a vítima ignore a ofensa e retome o jogo.
O riso serve ao mesmo propósito: contextualiza o comportamento do outro. Uma chimpanzé empurra a outra com firmeza para o chão e põe os dentes no pescoço dela, deixando-a sem escapatória, mas, como ambas emitem um fluxo constante de risos roucos, elas ficam totalmente relaxadas. Sabem que aquilo é só diversão. Uma vez que os sinais de brincadeira ajudam a interpretar o comportamento do outro, eles são conhecidos como metacomunicação: comunicam algo sobre a comunicação. Da mesma forma, se me aproximo de um colega e dou um tapa no ombro dele com uma risada, ele perceberá o gesto de forma bem diferente do que faria se eu desse o tapa sem um som ou sem qualquer expressão no meu rosto. Meu riso transmite um metassinal a respeito da mão que o atingiu. Rir reformula o que dizemos ou fazemos, e tira o peso de comentários potencialmente ofensivos, e é por isso que o usamos o tempo todo, mesmo quando nada particularmente divertido está acontecendo.
O riso emite sinais não somente para os companheiros de brincadeira, mas também para o mundo exterior. Quando os outros veem ou ouvem o riso, sabem que está tudo bem. Os chimpanzés são espertos o suficiente para utilizar as risadas dessa maneira. Certa vez analisamos centenas de jogos de luta entre jovens chimpanzés para ver em quais momentos eles riam. Estávamos particularmente interessados em jovens com grande diferença de idade, já que os jogos deles costumavam ser brutos demais para os mais novos. Assim que isso acontecia, a mãe do mais novo entrava em cena, às vezes batendo na cabeça do companheiro de brincadeira. A culpa era sempre do mais velho! Descobrimos que, quando os jovens brincam com bebês, eles riem muito mais quando a mãe do bebê os observa do que quando estão sozinhos. Sob os olhos de uma mãe protetora, o riso projeta um clima alegre, como se dissesse: “Veja como estamos nos divertindo!”.
Se um grupo de pessoas ri e você não faz parte dele, você se sentirá excluído. O riso muitas vezes enfatiza o grupo de pertencimento à custa dos outros grupos. É uma forma tão poderosa de deboche e provocação que alguns propuseram que a hostilidade está em sua raiz. Essas teorias falam em “humor excludente” dirigido a pessoas de fora do grupo ou de raça diferente, e retratam o riso como um ato maligno. O filósofo inglês quinhentista Thomas Hobbes, por exemplo, considerava o riso uma expressão de superioridade, como se todo o propósito do homem ao brincar fosse zombar dos outros. Que vida miserável esse homem deve ter tido!
O riso é muito mais típico das relações afetuosas entre amigos, namorados, cônjuges, pais e filhos etc. Onde estariam os casamentos sem a cola essencial do humor? Eu sou de uma família grande e lembro com carinho das risadas em torno da mesa de jantar, e elas podiam ficar tão fortes que eu me sentia como se estivesse morrendo. Eu tinha de sair da sala para recuperar o fôlego e a compostura. O primeiro riso em nossas vidas ocorre sempre no período da criação, como acontece nos outros primatas. A mãe gorila faz cócegas na barriga de seu bebê com o dedo médio já alguns dias após o nascimento, produzindo a primeira risada. Em nossa própria espécie, mães e bebês têm muitas interações, nas quais prestam atenção a cada mudança na expressão e na voz um do outro, com muitos sorrisos e risos. Esse é o contexto original, totalmente desprovido de malícia.
A estimulação física continua fazendo parte disso, e deve ter uma longa história evolutiva, porque as cócegas também estão ligadas a sons semelhantes a risadas entre os ratos. O falecido neurocientista estoniano-americano Jaak Panksepp fez mais do que qualquer outra pessoa para tornar as emoções animais um tema aceitável de discussão. Panksepp foi inicialmente ridicularizado pela ideia de ratos risonhos. Esses roedores continuam desprezados e subestimados, mas eu, que já os tive como animais de estimação, não tenho dúvidas de que são animais complexos que estabelecem laços e brincam. Panksepp notou que os ratos gostam que dedos humanos lhes façam cócegas, tanto que voltam para pedir mais. Quando retiramos a mão e a levamos a outro lugar, eles a seguem, buscando estímulo enquanto emitem rajadas de pios de 50 kHz que estão acima do alcance da audição humana.
Um apreciador de ratos anônimo tentou isso em casa:

Decidi fazer uma pequena experiência com Pinky, o jovem rato de estimação do meu filho. Dentro de uma semana, Pinky ficou completamente condicionado a brincar comigo e, de vez em quando, até emite um guincho agudo que posso ouvir. Assim que entro no quarto, ele começa a roer as barras de sua gaiola e pula como um canguru até eu fazer cócegas nele. Ele ataca minha mão, mordisca, lambe, rola de costas para expor a barriga a fim de que eu faça cócegas (é o seu lugar preferido), e dá chutes de coelho quando luto com ele.

Panksepp concluiu que, para os ratos, receber cócegas é uma experiência gratificante (daí eles buscarem a mão) que requer o estado de ânimo certo. Se os animais estiverem ansiosos ou assustados, por cheiro de gato ou luzes brilhantes, por exemplo, nem cócegas fartas provocarão riso. O entusiasmo deles depende também de experiência e familiaridade anteriores, porque os ratos se aproximam com mais avidez de uma mão que lhes fez cócegas, enquanto emitem um pio agudo, do que de uma mão que só os acariciou. Os ratos fazem pequenos movimentos divertidos, conhecidos como “pulinhos de alegria”, que são típicos de todos os mamíferos que brincam, como cabras, cães, gatos, cavalos, primatas e assim por diante. As vacas brincalhonas de Darwin logo vêm à mente. Embora os animais possuam todos os tipos de sinais de jogo, a única constante é um salto aleatório abrupto. Eles dançam em sua direção com as costas arqueadas (gatos) ou giram em torno de seu eixo e pulam no sofá proibido (cachorros) para mostrar como estão prontos para uma perseguição. O pulinho de alegria é tão reconhecível que é facilmente entendido entre as espécies. Em cativeiro, um filhote de rinoceronte pode brincar com um cachorro, ou um cão com uma lontra, ou um potro com uma cabra, e na selva observaram-se chimpanzés jovens lutando com babuínos, e corvos e lobos se provocando. O jogo tem sua própria linguagem universal.
Podemos usar o riso para desarmar uma situação constrangedora ou tensa. Isso é menos comum em outras espécies, mas não está excluído. Entre os chimpanzés, vi machos esfriarem um conflito em potencial. Três machos adultos, com todos os pelos eriçados, haviam acabado de realizar impressionantes exibições de ataque. É uma situação muito tensa, potencialmente perigosa, na qual os rivais testam os nervos um do outro. Eles balançam de galho em galho, desalojam pedras pesadas, arremessam coisas e batem em superfícies ressonantes. Mas, quando esses três machos se afastaram da cena, de repente um deles literalmente puxou a perna de outro. Este macho resistiu e tentou libertar o pé, sem parar de rir. Então o terceiro entrou na jogada, e em pouco tempo três grandes machos galopavam, batiam nas laterais do corpo um no outro e soltavam gargalhadas roucas, enquanto os pelos voltavam ao lugar. A tensão fora quebrada.
Aristóteles achava que o riso era o que diferenciava os seres humanos dos animais, e muitos psicólogos ainda duvidam que algum animal ria de alegria ou porque alguma coisa é engraçada. Sabe-se muito bem, no entanto, que os símios adoram comédias pastelão, provavelmente por causa de todos os contratempos físicos. Quando uma pessoa de quem gostam caminha na direção deles e escorrega ou cai, sua primeira reação é de tensão preocupada, mas se a pessoa fica bem eles riem com aparente alívio, como fazemos em circunstâncias semelhantes. Já descrevi o riso de Mama quando descobriu que havia sido enganada por um ser humano com máscara de pantera. Reações similares podem ser vistas em bonobos. Há muito tempo, o recinto dos bonobos no Zoológico de San Diego tinha um fosso profundo e seco para separá-los do público. No lado dos bonobos, uma corrente de plástico pendia no fosso para que os macacos descessem e voltassem sempre que quisessem. Mas, quando o macho alfa Vernon descia, o adolescente macho Kalind às vezes puxava rapidamente a corrente para cima. Vernon ficava preso, enquanto Kalind olhava para ele com uma grande cara de riso e batia na lateral do fosso. Ele estava zombando do chefe. A única outra bonobo adulta presente normalmente corria para a cena a fim de resgatar o companheiro largando a corrente de volta, e ficava de guarda até que ele saísse.
Outra risada divertida foi filmada por pesquisadores de campo japoneses na África Ocidental. Um chimpanzé selvagem de nove anos de idade estava esmagando coquinhos com pedras, usando uma técnica comum de martelo e bigorna. Um por um, ele punha os coquinhos na superfície plana de uma pedra grande, enquanto segurava uma pedra pequena na outra mão, depois batia com ela até que os coquinhos quebrassem. Na floresta não é fácil encontrar a combinação certa de pedras para essa tarefa. A mãe do macho olhou para suas ferramentas perfeitas antes de se aproximar e começar a catá-lo. Isso costuma ser um convite para retribuir a catação, então, quando ela terminou, ficou ali esperando que ele girasse e a catasse. Ao fazer isso, ele deixou de cuidar de suas pedras, e em poucos segundos a mãe se apossou delas. Parecia intencional, como se a aproximação e o breve catar tivessem sido uma forma de distraí-lo. No exato momento em que ela pegou as ferramentas dele, foi possível ouvi-la e vê-la rir suavemente consigo mesma, feliz porque a pequena maquinação funcionara.
Essa é uma evidência anedótica, claro, mas esses incidentes sugerem que o riso dos símios pode ser mais do que apenas um sinal de brincadeira. Às vezes, parece se aproximar do significado mais amplo de regozijo, vínculo e ruptura de tensão que conhecemos de nossa própria espécie.

Frans de Waal, in O último abraço da matriarca

12/01/2022

Janela da alma | Quando os primatas riem e sorriem


Fazer cócegas num chimpanzé jovem é muito parecido com fazer cócegas numa criança. O símio tem os mesmos pontos sensíveis: sob as axilas, na lateral do corpo, na barriga. Ele abre bem a boca, fica com os lábios relaxados, arfa audivelmente com o mesmo ritmo familiar de inalação e exalação do riso humano. A impressionante semelhança faz com que seja difícil você não rir também.
O símio mostra também a mesma ambivalência de uma criança. Ele empurra seus dedos para longe, protegendo os pontos vulneráveis enquanto tenta escapar da cócega, mas assim que você para ele volta e quer mais, pondo a barriga bem na sua frente. Dessa vez, basta apontar o dedo, sem nem mesmo tocá-lo, e ele terá outro ataque de riso.
Riso? Espere aí! Um cientista de verdade deve evitar todo e qualquer antropomorfismo, e é por isso que colegas intransigentes nos pedem para mudar nossa terminologia. Por que não chamar a reação do primata de algo neutro, como, digamos, vocalização ofegante? Eu ouvi colegas cautelosos falarem sobre comportamento “semelhante a risos”. Dessa forma, evitamos toda e qualquer confusão entre o ser humano e o animal.
O termo “antropomorfismo”, que significa “forma humana”, vem do filósofo grego Xenófanes, que protestou no século v a.C. contra a poesia de Homero porque ela descrevia os deuses como se parecessem humanos. Xenófanes ridicularizou essa suposição, dizendo que, se os cavalos tivessem mãos, eles “desenhariam seus deuses como cavalos”. Hoje o termo ganhou um significado mais amplo e costuma ser usado para censurar a atribuição de características e experiências semelhantes às humanas a outras espécies. Assim, os animais não fazem “sexo”, mas se empenham em comportamentos de reprodução. Eles não têm “amigos”, apenas parceiros de afiliação preferidos. Tendo em vista que nossa espécie é ainda mais parcial em relação às distinções intelectuais, aplicamos essas castrações linguísticas com mais vigor no domínio cognitivo. Ao reduzir tudo o que os animais fazem ao instinto ou ao aprendizado simples, mantemos a cognição humana em seu pedestal. Se você pensar de outra forma, está sujeito a ser ridicularizado.
Para entender essa resistência, precisamos voltar a outro grego antigo: Aristóteles. O grande filósofo colocou todas as criaturas vivas em uma scala naturae vertical, que vai dos seres humanos (mais próximos dos deuses) a outros mamíferos, e pássaros, peixes, insetos e moluscos ficam perto do fim da fila. Fazer comparações ao longo dessa imensa escada tem sido um passatempo científico popular, mas parece que tudo o que aprendemos com elas é como medir outras espécies por nossos próprios padrões.
Mas qual é a probabilidade de que a imensa riqueza da natureza se encaixe numa única dimensão? Não é de esperar que cada animal tenha sua própria vida mental, inteligência e emoções próprias, adaptadas aos seus próprios sentidos e à sua história natural? Por que a vida mental de um peixe e a de uma ave seriam a mesma? Ou veja-se o caso de predadores e presas: é óbvio que os predadores têm um repertório emocional diferente do das espécies que precisam constantemente olhar por cima do ombro. Os predadores exalam uma autoconfiança fria (exceto quando encontram alguém a sua altura), enquanto os animais que servem de presas conhecem cinquenta tons de medo. Vivem aterrorizados e assustam-se a cada movimento, som ou cheiro inesperados. É por isso que os cavalos disparam, e os cachorros não. Nós evoluímos de coletores de frutas que viviam em árvores — daí olhos frontais, visão de cores e mãos que agarram —, mas, pelo nosso tamanho e nossas habilidades especiais, temos a postura de um predador. É provavelmente por isso que nos damos tão bem com nossos animais de estimação preferidos, que são dois carnívoros peludos.
Na faculdade, eu tinha uma gatinha preta e branca chamada Plexie. Cerca de uma vez por mês, eu punha Plexie numa sacola, com a cabeça para fora, e a levava de bicicleta para brincar com seu melhor amigo, um cãozinho de pernas curtas. Os dois brincavam juntos desde que eram pequenos e continuaram fazendo isso adultos. Eles subiam e desciam correndo as escadas de uma grande casa de estudantes, surpreendiam-se mutuamente a cada virada, a óbvia alegria deles era contagiante. Faziam isso durante horas, até ficarem exaustos. Cães e gatos muitas vezes se dão bem porque ambos estão ansiosos para perseguir e pegar objetos em movimento. Eles também são mamíferos, o que os ajuda a se relacionar conosco. Outros mamíferos reconhecem nossas emoções e nós reconhecemos as deles. É essa conexão empática que atrai os seres humanos para gatos domésticos (600 milhões estimados em todo o mundo) e cães (500 milhões), em vez de, digamos, iguanas ou peixes. Com essa conexão homem-animal, no entanto, vem nossa tendência de projetar sentimentos e experiências nos animais, muitas vezes de forma acrítica.
Podemos dizer que o nosso cão está “orgulhoso” de uma fita que ganhou numa exposição ou que nosso gato está “envergonhado” por não ter conseguido dar um salto. Vamos a hotéis de praia para nadar com golfinhos, convencidos de que os animais devem adorar essa atividade tanto quanto nós. Nos últimos tempos, as pessoas acreditaram na alegação de que Koko, a gorila que aprendera a linguagem manual dos sinais na Califórnia, se preocupava com a mudança climática, ou que os chimpanzés têm religião. Assim que ouço essas sugestões, meus músculos da face se contraem numa carranca e peço provas. O antropomorfismo gratuito é evidentemente inútil. Sim, os golfinhos têm rostos sorridentes, mas como se trata de uma parte imutável de seu semblante, isso não nos diz nada sobre como eles se sentem. E um cachorro carregando uma fita pode simplesmente apreciar toda a atenção e as guloseimas que aparecem em seu caminho.
No entanto, quando pesquisadores de campo experientes, que acompanham símios todos os dias na floresta tropical, me falam da preocupação que os chimpanzés demonstram em relação a um companheiro ferido, trazendo comida ou diminuindo o ritmo de caminhada, não sou avesso a especulações sobre empatia. E quando eles relatam que os orangotangos machos adultos nas copas das árvores anunciam em que direção eles viajarão na manhã seguinte, não me importo com a sugestão de que eles planejem com antecedência. Tendo em vista tudo o que sabemos a partir de experimentos controlados em cativeiro, essas especulações não são disparatadas. Mas, mesmo nesses casos, abundam as acusações de antropomorfismo.
O argumento do antropomorfismo está enraizado na ideia de excepcionalidade humana. Reflete o desejo de separar os seres humanos e negar nossa animalidade. Isso continua sendo habitual nas ciências humanas e em grande parte das ciências sociais, que prosperam sobre a noção de que a mente humana é de alguma forma invenção nossa. No entanto, eu mesmo considero a rejeição da similaridade entre os seres humanos e outros animais um problema maior que essa simples suposição. Apelidei essa rejeição de antroponegação. Ela se interpõe no caminho de uma avaliação franca de quem somos como espécie. Nossos cérebros têm a mesma estrutura básica que os de outros mamíferos: não temos partes novas e usamos os mesmos neurotransmissores antigos. Na verdade, os cérebros são tão semelhantes em todos os casos que, para tratar as fobias humanas, estudamos o medo na amígdala do rato. Cães treinados para permanecer imóveis num scanner cerebral mostram atividade no núcleo caudado quando esperam uma salsicha da mesma forma que essa região se ilumina em executivos que recebem a promessa de um bônus. Em vez de tratar os processos mentais como uma caixa-preta, como gerações anteriores de cientistas fizeram, estamos agora arrombando a caixa para revelar um fundo compartilhado. A neurociência moderna torna impossível manter um dualismo nítido entre seres humanos e animais.
Isso não significa que o planejamento dos orangotangos seja parecido com o que acontece quando eu anuncio um exame em sala de aula e os alunos se preparam para ele, mas bem lá no fundo há continuidade entre os dois processos. Uma continuidade ainda maior aplica-se aos traços emocionais. Uma vez que a nossa compreensão das emoções é parcialmente intuitiva, a continuidade é difícil de explicar com base puramente em dados e teoria. É importante ter uma exposição íntima aos animais, como a que os donos de animais de estimação desfrutam todos os dias. Daí minha simples e não científica recomendação para qualquer estudioso que duvide da profundidade das emoções dos animais: arranje um cachorro.
O antropomorfismo não é tão ruim quanto as pessoas pensam. Com espécies como os grandes símios, na verdade, ele é lógico. A teoria evolucionista quase o impõe, pois conhecemos os símios como “antropoides”, que significa “semelhante a humanos”. Devemos esse termo a Carl Lineu, o biólogo sueco do século XVIII que baseou sua classificação na anatomia, mas poderia facilmente ter tido por base o comportamento. A visão mais simples e mais parcimoniosa é que, se duas espécies relacionadas agem de maneira semelhante em circunstâncias semelhantes, elas devem ser motivadas de modo semelhante. Não hesitamos em fazer essa suposição ao comparar espécies relacionadas como cavalos e zebras, ou lobos e cães, então por que variar as regras para seres humanos e símios?
Felizmente, os tempos estão mudando. As ciências naturais têm enfraquecido permanentemente a divisão entre humanos e animais popular na cultura e na religião ocidentais. Hoje, muitas vezes partimos do extremo oposto, assumindo a continuidade e transferindo o ônus da prova para aqueles que insistem numa divisão. Cabe a eles nos convencer. Quem quiser argumentar que um macaco com cócegas, que quase engasga com suas gargalhadas roucas, deve se encontrar num estado mental diferente de uma criança humana com cócegas tem um trabalho duro pela frente.

Frans de Waal, in O último abraço da matriarca