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26/08/2025

Carta II

 


Meu querido Vermelindo,

Fiquei bastante contrariado com a notícia de que o seu paciente se tornou cristão. Não alimente vãs esperanças de poder escapar das penalidades habituais; de fato, tenho certeza de que, em seus melhores momentos, nem você mesmo deseja isso. Nesse meio tempo, precisamos tirar a maior vantagem possível dessa situação. Não há motivo para desespero; centenas desses novos convertidos adultos foram recuperados depois de uma breve estada no campo do Inimigo e agora estão conosco. Todos os hábitos do paciente, tanto mentais quanto físicos, continuam militando a nosso favor.
Um dos nossos grandes aliados no presente é a própria Igreja. Não me entenda mal. Não estou falando da Igreja que vemos expandir-se ao longo dos tempos e do espaço, arraigada na eternidade, terrível como um exército levantando suas bandeiras. Esse, posso confessar, é um espetáculo que tira nossos tentadores mais audaciosos do sério. Mas, felizmente, isso é quase invisível para os humanos. Tudo o que o seu paciente vê é o simulacro de um prédio gótico construído pela metade. Quando ele entra nela, vê o dono da mercearia local vindo em sua direção para cumprimentá-lo com aquela bajulação, apressado para lhe empurrar um livrinho intacto, contendo um tipo de liturgia que ninguém entende, e um livrinho surrado, que contém textos alterados de várias canções religiosas, a maioria de mau gosto, e em letras miúdas. Quando ele se assenta no banco de igreja e olha em redor, vê precisamente aquela turma de vizinhos quehavia evitado até então. Você deve investir pesado nesses vizinhos. Faça com que a sua mente pendule entre uma expressão como “o corpo de Cristo” e as faces reais do banco vizinho. É claro que pouco interessa que tipo de pessoa esteja de fato sentado no banco ao lado. Talvez você até saiba que um deles é um grande guerreiro do exército Inimigo. Não importa. Graças ao Nosso Senhor das Profundezas, o seu paciente é um baita tolo. Se algum desses vizinhos desafinar na hora de cantar, ou fizer barulho com as solas dos sapatos, ou tiver queixo duplo, ou vestir roupas bizarras, o paciente vai acreditar facilmente que a sua religião só pode ser, por isso mesmo e de alguma forma, ridícula. No seu estágio atual, ele tem uma ideia de “cristãos” em sua mente que supõe ser espiritual, mas que, na verdade, é, em grande escala, pictórica. A sua mente está cheia de togas e sandálias e armaduras e pernas de fora e o mero fato de que as outras pessoas na igreja vistam roupas modernas representa um empecilho real — ainda que inconsciente — para ele. Nunca deixe que isso venha à tona; nunca deixe que ele pergunte como, afinal, esperava que elas se vestissem. Mantenha tudo nebuloso na mente dele agora e você terá com que se divertir por toda a eternidade, ao proporcionar-lhe a clareza peculiar trazida pelos Infernos.
Então, trabalhe duro na decepção ou no anticlímax que certamente sobrevirá ao paciente nas suas primeiras semanas na igreja. O Inimigo permite que tal decepção ocorra no limiar de todo empreendimento humano. Ela acontece quando o garotinho que ficou encantado na escola maternal com as histórias da Odisseia passa a estudar o grego com seriedade. Ela ocorre quando os amantes se casam e dão início à tarefa real de aprender a viver juntos. Em todas as instâncias da vida, ela marca a transição da aspiração sonhadora para o fazer laborioso. O Inimigo assume esse risco porque ele tem uma fantasia curiosa de tornar todos esses repugnantes vermezinhos humanos naquilo que ele chama de seus amantes e servos “livres” — “filhos” é a palavra que usa com seu amor inveterado de degradar todo o mundo espiritual por ligações anormais com os animaizinhos bípedes. Justamente por desejar a sua liberdade, ele se recusa a conduzi-los, pelas suas meras afeições e hábitos, a quaisquer dos objetivos que colocou diante deles: ele os deixa “fazer as coisas por si mesmos”. E é aí que a nossa oportunidade aparece. Mas lembre-se de que aí também mora o perigo. Uma vez que eles tenham passado com sucesso por esse deserto inicial, tornam-se muito menos dependentes da emoção e, assim, muito mais difíceis de tentar.
Estive escrevendo até aqui partindo do pressuposto de que as pessoas do banco ao lado na igreja não forneçam nenhuma fundamentação racional para a decepção. É claro que, se elas fornecerem essa base — se o paciente ficar sabendo que a mulher com o chapéu bizarro é viciada em jogar bridge, ou que o homem com os sapatos ranhentos é um avarento e chantagista —, então sua tarefa se tornará bem mais fácil. Tudo o que você terá que fazer é manter fora da cabeça dele a questão: “Se eu, sendo o que sou, posso me considerar, em certo sentido, um cristão, por que os diferentes vícios daquelas pessoas sentadas no banco ao lado provariam que a sua religião não passa de hipocrisia e de convenção?” Você poderá se perguntar se é possível evitar a ocorrência de um pensamento tão óbvio até mesmo a uma mente humana. É possível, sim, Vermelindo, é possível! Trate seu paciente da forma adequada e isso simplesmente não passará pela mente dele. Ele ainda não conviveu o bastante com o Inimigo para ter qualquer humildade real. O que ele diz sobre a sua própria pecaminosidade, mesmo de joelhos, é tudo conversa fiada. No fundo, ele ainda acredita que, por ser um convertido, tem um crédito bastante favorável no balanço da contabilidade do Inimigo e pensa que está mostrando grande humildade e condescendência em sequer ir para a igreja com esses vizinhos vulgares e presunçosos. Mantenha-o nesse estado de espírito o máximo de tempo possível.
Com carinho,
Seu tio,
Maldanado

C. S. Lewis, em Cartas de um diabo a seu aprendiz

25/04/2025

A igreja do Diabo


Capítulo I

De uma ideia mirífica

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a ideia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.
Vá, pois, uma igreja — concluiu ele. — Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.
Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a ideia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: “Vamos, é tempo.” E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.

Capítulo II

Entre Deus e o Diabo

Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o recém-chegado detiveram-se logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor.
Que me queres tu? — perguntou este.
Não venho pelo vosso servo Fausto — respondeu o Diabo rindo —, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.
Explica-te.
Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros...
Sabes o que ele fez? — perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.
Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação... Boa ideia, não vos parece?
Vieste dizê-la, não legitimá-la — advertiu o Senhor.
Tendes razão — acudiu o Diabo —; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.
Vai.
Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?
Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja?
O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma ideia cruel no espírito, algum reparo picante no alforje da memória, qualquer cousa que, nesse breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:
Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazê-las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura...
Velho retórico! — murmurou o Senhor.
Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor — a indiferença, ao menos — com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha — ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida... Mas não quero parecer que me detenho em cousas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda... Vou a negócios mais altos...
Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de súplica. Deus interrompeu o Diabo.
Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie — replicou-lhe o Senhor. — Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?
Já vos disse que não.
Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão?
Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.
Negas esta morte?
Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los...
Retórico e sutil! — exclamou o Senhor. — Vai, vai, funda a tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai! vai!
Debalde o Diabo tentou proferir alguma cousa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.

Capítulo III

A boa-nova aos homens

Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas.
Sim, sou o Diabo — repetia ele —; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...
Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínica e deslavada.
Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: “Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu...” O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos do Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.
As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloquência, toda a nova ordem de cousas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.
Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, cousas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, cousas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrando assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente.
E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.
Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regime: “Leve a breca o próximo! Não há próximo!” A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra cousa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E, como alguns discípulos achassem que uma tal explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um apólogo: — Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que acontece aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.

Capítulo IV

Franjas e franjas

A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.
Um dia, porém, longos anos depois notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas malpovoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.
A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das drogas, socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogman; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino cita muitas outras descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calabrês, varão de cinquenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter-se na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia duvidar; o caso era verdadeiro.
Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma cousa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse-lhe:
Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.

Machado de Assis, em Gazeta de Notícias, 12 de fevereiro de 1883

12/08/2024

Os males da perfeição

Corre entre os anjos um boato que aqui transcrevo por conta deles. Deus, cansado de ser infinitamente bom, resolve às vezes trocar de lugar com o Diabo. E, nessas épocas de interinidade, sempre sai ganhando longe do outro.

Mário Quintana, em Porta giratória

17/05/2024

Ética e trapaça

O sociólogo Peter Berger escreveu um livrinho divertido e inteligente que eu gostava de ler com meus alunos quando era professor da Unicamp: Introdução à sociologia. Um dos seus capítulos tem um título esquisito: “Como trapacear e se manter ético ao mesmo tempo”. Disse “esquisito” porque é conhecimento comum que “trapaça” e “ética” não fazem acordos. Mas o momento atual da política brasileira está demonstrando que esse não é o caso. Ao contrário, que é de suma importância juntar ética e trapaça quando as coisas relativas ao dinheiro e ao poder estão em jogo. Para esclarecer esse assunto enigmático, vou contar uma pequena estória: Havia numa cidade dos Estados Unidos uma igreja batista. Os batistas, como se sabe, são um ramo do cristianismo muito rigoroso nos seus princípios éticos. Havia na mesma cidade uma fábrica de cerveja que, para a igreja batista, era a vanguarda de Satanás. O pastor, representante de Deus, não poupava a fábrica de cerveja nas suas pregações. Aconteceu, entretanto, que, por razões pouco esclarecidas, a fábrica de cerveja fez uma doação de 500.000 dólares para a igreja batista. Os membros da igreja foram unânimes em denunciar aquela quantia como dinheiro do Diabo que não poderia ser aceito. Passada a exaltação dos primeiros dias, acalmados os ânimos, os mais ponderados começaram a analisar os benefícios que aquele dinheiro poderia trazer. Uma pintura nova para a igreja, um órgão de tubos, jardins mais bonitos, um salão social para festas. Reuniram-se então os membros da igreja em assembleia e depois de muita discussão registrou-se a seguinte decisão no livro de atas: “A Igreja Batista Betel resolve aceitar a oferta de 500.000 dólares feita pela cervejaria na firme convicção de que o Diabo ficará furioso quando souber que o seu dinheiro vai ser usado para a glória de Deus”. Quando a ideologia é nobre qualquer meio é permissível. Se esse acordo entre “ética” e “trapaça” valeu para a igreja, por que não valerá para os partidos políticos?

Rubem Alves, in Ostra feliz não faz pérola

03/03/2022

Religião de horrores

Esta religião [o cristianismo] foi fundada sobre sangue, sofrimento, renúncia, sacrifício e martírio. É uma religião de horrores. [Em O Evangelho segundo Jesus Cristo] o meu diabo até diz “é preciso ser Deus para se gostar tanto de sangue”, o que soa como um soco no estômago. O próprio diabo diz a Jesus, quando ele sacrifica a ovelha a mando de Deus, “você não aprendeu nada”, quer dizer, não aprendeu a respeitar a vida, a resistir.

José Saramago, in As palavras de Saramago

24/08/2020

Deus e o Diabo

Ilustração: Joel Rea

             Avenida Atlântica. Senti meu ombro sendo tocado.
Era M.
Você sumiu”, disse M. “Deixou de...”
Comprei um sítio na Serra com duas nascentes dentro da propriedade e agora estou criando rãs.”
Criando rãs? Aquela espécie de sapo?”
São muito diferentes. Os sapos preferem viver em terra firme e só procuram locais aquáticos quando vão se reproduzir. As rãs...”
Você cria essa coisa pra quê?”
Para vender.”
Quem compra?”
Restaurantes, açougues... É um alimento muito procurado, por pessoas sofisticadas, evidentemente.”
Caramba. Tem gente que come essa merda?”
É uma delícia.”
Você come?”
Como, grelhada.”
Cara, não estou te reconhecendo. Você largou o trabalho para fazer isso?”
Eu não gostava do que fazia.”
Qual o problema? A grana não era boa?”
Eu não gostava.”
Você sempre dizia que só despachava gente que merecia ir para o inferno.”
É difícil de explicar. O cara merece ir para o inferno, mas não sou eu que devo fazer isso, entendeu?”
Me lembro, nas poucas vezes em que trabalhamos juntos, que você dizia ‘em gente inocente não se dá um peteleco’.”
Claro, gente inocente tem que ser protegida.”
Você gostava de fazer o serviço sozinho.”
É verdade. Não gostava de ficar de olho no parceiro.”
Você ficava de olho no parceiro?”
Ficava. Para ele não fazer besteira. Você tinha a mania de bater nas pessoas que moravam na casa do sujeito que íamos despachar. Bater na empregada? Eu não deixava. Bater em criança?”
Você não deixava, eu sei, você não deixava. Lembra daquele cara que fomos despachar no Leblon?”
Vagamente. Estou tentando esquecer...”
Tinha uma menina, de uns oito anos, que caiu da janela.”
Lembro, lembro, ela chorava muito.”
Quer saber de uma coisa?”
O quê?”
Ela não caiu da janela.”
Como assim?”
Eu joguei ela lá de cima, numa hora que você estava distraído.”
Jogou a menininha lá de cima?”
A pirralha se esborrachou na calçada. Gostei de fazer aquilo.”
Fiquei um tempo calado, ruminando.
Eu moro neste prédio. Décimo andar. Não quer subir para tomar um drinque?”, perguntei.
Um uísque? Grande ideia, cara, vamos logo. Este prédio é antigo? Não tem nem porteiro.”
É muito antigo.”
Subimos.
Você mora sozinho?”
Moro.”
Apartamento velho mas bacana”, disse M. assim que entramos.
Você precisa ver a vista. A praia, o mar.”
Levei-o até a varanda.
Dá uma olhada”, eu disse.
M. era leve. Peguei-o pelas pernas e joguei-o para fora da varanda, para ele se esborrachar lá embaixo.
Ele merecia ir para o inferno. Mas aquela era a última vez que eu ia bancar... Deus? O Diabo? Meu negócio era criar rãs.
Rubem Fonseca, in Histórias curtas

16/10/2019

Vento

O diabo é adulto vestido sempre a rigor. É sério. Não ri. Não sabe dançar. É o espírito de gravidade que faz todas as coisas afundar. Deus é o contrário: criança de mãos dadas com um palhaço de circo. A oração começa com o riso. Deus é o espírito da leveza. Vento. Espírito. Ele faz todas as coisas voar.
Rubem Alves, in Do universo à jabuticaba

05/09/2018

Conversa com o Diabo III

Ele cumpriu a promessa. Veio visitar-me de novo. Veio elegantemente trajado, dessa vez usando um blazer vermelho, por conselho de um famoso figurinista. Depois dos abraços iniciais, ele relembrou o fim da nossa conversa anterior, quando disse que as pessoas que se dizem endemoninhadas não estão possuídas pelo Diabo coisa nenhuma. Estão é possuídas pelo seu próprio traseiro...
Ah! O reverso da palavra! Os que não entendem poesia leem poesia do mesmo jeito que leem bula de remédio, em que cada palavra tem de significar precisamente o que o dicionário diz. Já os poetas sabem que cada palavra significa uma outra coisa. Se um poema dissesse que um peixe engoliu um homem que ficou três dias dentro dele e até escreveu poesia durante esse tempo, você pensaria que isso aconteceu de verdade ou que é literatura, realismo fantástico?
Coisa que Deus gosta de fazer é cozinhar. Mas a culinária divina tem uma peculiaridade: Deus mistura poemas com a comida. Comida que não tem poema misturado não é coisa de Deus. Pois não é isso que é a eucaristia, comida misturada com palavras?
Pois Deus resolveu oferecer um banquete de palavras para os homens e desandou a escrever poemas lindos. E pediu minha opinião.
“‘O que é que você acha disso? Será que os homens vão gostar?’
Eu provei e gostei, mas ponderei: ‘Senhor, banquete maravilhoso. Mas é preciso não se enganar. Os homens vão comer? Claro que vão comer. Vão comer por quê? Porque têm um agudo senso de discriminação, porque são sábios, porque sabem diferenciar literatura boa de literatura ruim? Não é nada disso. Vão comer porque — lamento dizer isso — frequentemente o seu gosto não se diferencia do gosto dos porcos. Eles não sabem distinguir qualidade de quantidade. Falta-lhes o dom da discriminação. Comem tudo, engolem tudo, engordam, quanto mais melhor... Acham que, se está escrito no livro, é palavra de Deus... E aí o senhor vai sorrir enganado pensando que eles realmente perceberam a finura da sua culinária literária. Já viu as revistas que eles devoram? E as revistas pornô? E os livrinhos piedosos, melado de rapadura de tão doces e bobos. Senhor, o povo come qualquer coisa e gosta...’.
“‘É preciso reconhecer que Dostoiévski estava certo: os homens não estão atrás de Deus por amor; o que eles querem mesmo são os milagres...’
Deus então me perguntou: ‘Que devo fazer? Quero convidar para o meu banquete só aqueles que têm o gosto refinado para que possam se deleitar com a beleza dos meus poemas’.
Aí eu respondi: ‘É simples. Vamos misturar os seus poemas com literatura vagabunda, sem sentido, boba, essas revistas que ficam em pilhas nos consultórios médicos e dentários, mais coisas de horror, de absurdo, de autoajuda... Vamos pôr todos os pratos num bufê imenso, os poemas divinos com os pratos que eu, o Testador, vou inventar. Misturamos tudo e observamos. Aqueles que comerem tudo e gostarem de tudo — acham que assim estão agradando a Deus —, esses são os tolos. Incapazes de distinguir o belo das tolices. Mas aqueles que forem seletivos, que não aceitarem tudo, que cheirarem e separarem, aqueles que tiverem a sensibilidade para dizer: ‘Isso é poesia divina e isso é literatura de terceira categoria’, esses merecem ser convidados para o banquete final’.
Deus ponderou a minha sugestão e pediu-me então que escrevesse umas estórias para misturar com os seus poemas. Foi o que fiz. Que isso que estou dizendo é verdade está confirmado pelo próprio Jesus, na parábola do trigo e do joio. Um homem plantou um campo de trigo. Veio um inimigo de noite e semeou joio no meio do trigo. Quando os empregados viram o joio nascendo ficaram horrorizados e puseram-se a arrancá-lo. O dono do campo ordenou que parassem. Que o trigo e o joio crescessem misturados. Assim, usando as palavras do próprio Jesus, os textos ditos sagrados são uma mistura de trigo e joio. Quem pegar o joio pensando que é trigo é um tolo. Vai ficar de fora do banquete...
Na próxima vez vou contar a estória que inventei sobre o primeiro assassinato da história da humanidade. E vou adiantar: o seu tema é uma querela sobre a dieta divina...”
Rubem Alves, in Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo

06/08/2018

Conversa com o Diabo - II

O que é que você diria de um médico que espreme um furúnculo? Espremido o furúnculo, o pus espirra e o seu mau cheiro empesteia o ar. De quem é o fedor? Do furúnculo ou do médico? Eu sou um espremedor de furúnculos. As pessoas sentem o fedor e acham que o mau cheiro é meu. Não se dão conta de que o mau cheiro é deles... Deus cria. Eu testo.
Hoje, no mundo moderno, essa função tem o nome de ‘controle de qualidade’. Empresa que não controla a qualidade dos seus produtos vai à falência. Eu sou o encarregado do controle de qualidade deste mundo de Deus. O pedreiro meia-colher faz uma parede fora do prumo. Eu olho, vejo a parede torta, vou lá e derrubo a parede. Se a casa fosse sua você permitiria que a parede continuasse? Sou malvado por proceder assim? E na fábrica de porcelanas eu vou batendo nos pratos para ver se não há trincas. Se o prato faz música desafinada, eu não tenho pena: quebro o prato. No mundo de Deus tudo tem de ser perfeito. Vou visitar a sua casa, linda, lustrosa, perfumada. Um visitante normal ficaria na sala de visitas. Mas eu sou abelhudo: vou logo espiar debaixo da cama para ver se a vassoura fez a limpeza devida. Se está suja, eu dou um sopro forte e as pulgas começam a pular. Eu sou o culpado? Fui eu que criei as pulgas? Me acusam de malcheiroso, sulfuroso, expelidor de gases fétidos. Errado. Eu só cutuco. A fedentina não é minha. Perguntem a Freud. Os psicanalistas fazem o mesmo que eu. Freud diria que estou certo. Não sou eu que ponho demônios dentro dos homens. São eles, os homens, que os chamam, alimentam e abrigam. Eu só abro os quartos e os demônios saem. Me digam: sou eu o culpado?
Levo minha missão a sério. Carrego sempre comigo os meus instrumentos de teste, uma bigorna e um martelo. Deus testou a fé de Abraão. Teste duro. Acho até que Jeová exagerou. Ordenou que ele sacrificasse o seu único filho adolescente sobre um altar. E o pior: ele levou a ordem de Deus a sério e levou o menino para o monte Moriá para cortar o seu pescoço. Se Deus lhe pedisse, pessoa religiosa, que você cortasse o pescoço do seu filho, você obedeceria? Eu concluiria que Jeová tinha endoidado e tratava de procurar um Deus menos sanguinário. Mas não era para levar a sério. Era só um teste.
Foi isso também que o Espírito de Deus fez com Jesus. Empurrou-o para um deserto, lugar de solidão. Para quê? Para ser testado por mim. E o teste foram quarenta dias sem comer.
Sou eu quem diz a palavra final sobre a qualidade dos homens e das mulheres. Minha bigorna e o meu martelo dizem sempre a verdade.
Um dos meus alunos mais brilhantes, Sigmund Freud, empreendeu a tremenda tarefa de transformar a ‘arte do teste’ em ‘ciência do teste’. Ele pensava — e nisso estava certo — que somos como os bordados. Bordados têm um lado direito bonito que se mostra às pessoas, e um lado avesso, que é uma barafunda de linhas. Temos um lado direito que mostramos para todo mundo, e um lado do avesso, que escondemos. A ciência que ele criou, a que deu o nome de psicanálise, análise da alma, é uma série de artifícios para se ver o lado do avesso da pessoa que ela tenta desesperadamente esconder. Quando lhe chegava um paciente todo produzido, ele logo lhe pedia: ‘Mostre-me o seu traseiro...’.
Essa é a minha tarefa: mostrar o traseiro das pessoas...
Os pregadores não entendem. Quando veem uma pessoa estrebuchando, babando espumas, caindo no chão e rosnando como porco, dizem logo: ‘Está possuída pelo Demônio...’. E se põem a exorcizar-me. Mas aquela coisa horrível não sou eu. Como você pode ver, eu sou educado e elegante. Aquela pessoa está possuída pelo seu próprio traseiro...
Sabe que isso vale também para a literatura? Os textos têm um lado direito e um lado avesso. A Adélia Prado, mulher religiosa, certa de que a poesia a salvaria, dizia que o seu caminho na poesia era ‘o caminho apócrifo de entender a palavra pelo seu reverso, captar a mensagem pelo arauto...’ (Adélia Prado, Poesia reunida, p. 61).
Um outro especialista em ver as coisas pelo avesso foi o filósofo Friedrich Nietzsche. Tinha uma sabedoria de milênios e uma alma de menino. Mas ele me fez uma injustiça. Disse que Deus é riso e que eu sou seriedade: Deus faz voar e eu faço afundar... Nada mais longe da verdade. O traseiro sempre provoca riso. Drummond entendeu melhor. Veja o que ele escreveu do traseiro: ‘A bunda, que engraçada, está sempre sorrindo. Não lhe importa o que vai pela frente do corpo. A bunda basta-se. A bunda se diverte por conta própria. Lá vai sorrindo a bunda...’ (Amor natural, p. 25).
Os judeus são sábios. Dizem que Deus ri. Certo. Tudo deve rir. O avesso faz rir. É feito piada. Vai o contador contando sua anedota, lado direito e, de repente, ele dá uma cambalhota, o avesso aparece no final, surpreendendo a todos os que ouvem. E o riso explode.
Pois Deus, cansado da seriedade dos homens que não sabem ver o avesso, pediu-me que contasse algumas das estórias bíblicas, pelo avesso. São tantas as estórias: a estória que prova que Deus é carnívoro e despreza os vegetarianos, do amor de Deus pelos carecas, do jegue que falou hebraico, do peixe que engoliu um homem sem mastigar e não ficou engasgado, da rainha que gostava de comer galetos al primo canto, da terapia alternativa para curar velhos agonizantes, do monte dos prepúcios, do primeiro homem-bomba...”
Com essas palavras, ele terminou a conversa e disse: “Agora tenho de ir. Outro dia eu volto. Gosto de conversar com você. Você me entende. Até domingo que vem...”.
Rubem Alves, in Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo

17/04/2018

Conversa com o Diabo - I

Ele chegou e foi falando num tom queixoso:
Falam mal de mim. Dizem que gosto das coisas feias, que tenho cheiro de enxofre, chifres e patas de bode. Houve mesmo maledicentes que disseram que eu e Lutero inventamos a guerra química, pois nos atacávamos fazendo uso de gases malcheirosos expelidos pelo orifício inferior. O Riobaldo, conhecedor das tolices da cabeça dos homens, sabia do gosto que têm as pessoas pelas invencionices.”
Pra documentar o que ia dizer, abriu a mala 007 e tirou lá de dentro um volume do livro Grande sertão: veredas. Estava caindo aos pedaços, folhas soltas, folhas rasgadas.
O senhor me perdoe pelo estado do livro. É que ele é minha segunda Bíblia, do jeito como diz a Adélia. Todo dia eu leio um pedacinho. Nem sei mesmo quantas vezes já li o livro de cabo a rabo. Modéstia à parte, é preciso que se saiba que eu ajudei o João. Acham que ele ia inventar tudo aquilo sozinho? Quando termino de ler o livro, começo de novo. Pois não é assim que fazem os rios? A água sobe aos céus pra chover e começar tudo de novo... Está aqui, na página 59: ‘O senhor deve ficar prevenido: esse povo se diverte por demais com baboseira, dum traque de jumento formam um tufão de ventania. Por gosto de rebuliço. Depois eles mesmos acabam temendo e crendo...’. Confesso que nunca vi explicação mais curta e mais certa de como as crenças tomam conta dos pensamentos dos homens. Foi isso que fizeram comigo. Me pintaram feio. E porque me pintaram feio não me reconhecem quando apareço, bonito... Eu sou um esteta. Quando se trata das minhas roupas, eu consulto os especialistas. Não suporto roupa brega, especialmente batina e colarinho clerical...
Falam também mal de mim por aquilo que faço. Mas não sou culpado por cumprir o meu dever. Sou um simples ministro que tem de cumprir as ordens do patrão. E o faço honestamente. Tudo, menos corrupção. Se os homens lessem as Sagradas Escrituras com mais atenção fariam um juízo diferente a meu respeito.
O que é que está escrito nas Escrituras? Que Deus gosta de conversar comigo. Pede minha opinião. Pondera os meus conselhos.
As Escrituras Sagradas não mentem. São inspiradas pelo próprio Deus. Nisso creem católicos, protestantes e evangélicos. Se está escrito é verdade inspirada que tem de ser acreditada. Está lá no livro de Jó, capítulo 1, versículo 6: descreve uma grande reunião das hostes celestiais. Deus convocara todos os seus ministros para uma audiência. E eu era um deles. E notem: foi a mim, somente a mim, que ele dirigiu a palavra. ‘Você por aqui? Por onde é que você tem andado?’, ele perguntou. Respondi: ‘Tenho andado pelo mundo, fazendo meu trabalho de auditoria’. A seguir, ele me perguntou se, nas minhas andanças, eu havia observado Jó, seu filho querido. ‘Não há ninguém como ele. Homem puro, sem culpa, íntegro.’
Ele me perguntou. Tive de responder, dizendo a verdade. Ponderei que a piedade de Jó não era mais que sua obrigação porque ele, Deus, o havia enchido com as maiores mordomias. Havia lhe dado sete filhos, três filhas, sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas jumentas. Além disso, o seu calendário não era marcado por número de dias, mas pelo número de banquetes que aconteciam a intervalos determinados.
Lembrei então ao Criador que a qualidade de uma pessoa não pode ser medida pelas aparências. Aprendi isso de Jesus. Há aquele ditado ‘Por fora bela viola, por dentro pão bolorento’. Minha missão é ver se a bela viola não passa de pão bolorento disfarçado. Não acredito nas aparências. Jesus tinha a mesma opinião. Sabia que os homens são especialistas em enganação. Chamou os fariseus de sepulcros caiados. Por fora, as orações, os jejuns, os dízimos. Por dentro, arrogância, presunção, falta de amor. Por fora, branquidão; por dentro, podridão.
Alguns invejosos do meu prestígio com o Criador puseram-me maldosamente o apelido de ‘tentador’. Mas o que faço não é tentar; é testar. Haverá missão mais importante que essa? Sou o encarregado de dar o certificado de ISO 13.000 às pessoas. O teste tem por objetivo assegurar a boa qualidade do que está sendo testado. Tudo tem de passar por testes antes da aprovação. Até os cachorros sabem disso: antes de abocanhar eles cheiram. O seu olfato é o seu órgão de controle de qualidade. E esse é o meu ministério, o Ministério do Controle de Qualidade.”
Rubem Alves, in Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo

11/07/2017

Barganha

Nenhuma dor significa o fim da sensibilidade; cada uma de nossas alegrias é uma barganha com o diabo.”
Charles Bukowski, in Notas de um velho safado

17/04/2017

O que eu carregava comigo me pesava

Ilustração: Rodrigo Rosa

A gente viemos do inferno ― nós todos ― compadre meu Quelemém instrui. Duns lugares inferiores, tão monstro-medonhos, que Cristo mesmo lá só conseguiu aprofundar por um relance a graça de sua sustância alumiável, em as trevas de véspera para o Terceiro Dia. Senhor quer crer? Que lá o prazer trivial de cada um é judiar dos outros, bom atormentar; e o calor e o frio mais perseguem; e, para digerir o que se come, é preciso de esforçar no meio, com fortes dôres; e até respirar custa dôr; e nenhum sossego não se tem. Se creio? Acho proseável. Repenso no acampo da Macaúba da Jaíba, soante que mesmo vi e assaz me contaram; e outros ― as ruindades de regra que executavam em tantos pobrezinhos arraiais: baleando, esfaqueando, estripando, furando os olhos, cortando línguas e orelhas, não economizando as crianças pequenas, atirando na inocência do gado, queimando pessoas ainda meio vivas, na beira de estrago de sangues... Esses não vieram do inferno? Saudações. Se vê que subiram de lá antes dos prazos, figuro que por empreitada de punir os outros, exemplação de nunca se esquecer do que está reinando por debaixo. Em tanto, que muitos retombam para lá, constante que morrem... Viver é muito perigoso.
Mas mor o infernal a gente também media. Digo. A igual, igualmente. As chuvas já estavam esquecidas, e o miôlo mal do sertão residia ali, era um sol em vazios. A gente progredia dumas poucas braças, e calcava o reafundo do areião ― areia que escapulia, sem firmeza, puxando os cascos dos cavalos para trás. Depois, se repraçava um entranço de vice-versa, com espinhos e restolho de graviá, de áspera raça, verde-preto cor de cobra. Caminho não se havendo. Daí, trasla um duro chão rosado ou cinzento, gretoso e escabro ― no desentender aquilo os cavalos arupanavam. Diadorim ― sempre em prumo a cabeça ― o sorriso dele me dobrava o ansiar. Como que falasse: Hê, valentes somos, corruscubas, sobre ninguém ― que vamos padecer e morrer por aqui... Os medeiro-vazes... MedeiroVaz se estugasse adiante, junto com os que rastreavam? Será que de lá ainda se podia receder? De devagar, vi visagens. Os companheiros se prosseguindo, só prosseguindo, receei de ter um vágado ― como tonteira de truaca. Havia eu de saber por que? Acho que provinha de excessos de ideia, pois caminhadas piores eu já tinha feito, a cavalo ou a pé, no tosta-sol. Medo, meu medo. Aguentei. Tanto tudo o que eu carregava comigo me pesava ― eu ressentia as correias dos correames, os formatos. A com légua-e-meia de andada, bebi meu primeiro chupo d água, da cabaça ― eu tinha avarezas dela. Alguma justa noção não emendei, eu pensava desconjuntado. Até que esbarramos. Até que, no mesmo padrão de lugar, sem mudança nenhuma, nenhuma árvore nem barranco, nem nada, se viu o sol de um lado deslizar, e a noite armar do outro. Nem auxiliei a tomar conta dos bois, nem a destravar os burros de albarda. Onde era que os animais iam poder pastar? Noite redondeou, noite sem boca. Desarreei, peei o animal, caí e dormi. Mas, no extremo de adormecer, ainda intrují duas coisas, em cruz! que Medeiro Vaz estava insensato? ― e que o Hermógenes era pactário! Tomo que essas traves fecharam meus olhos. De Diadorim, aí jaz que descansando do meu lado, assim ouvi! ― Pois dorme, Riobaldo, tudo há-de resultar bem... Antes palavras que picaram em mim uma gastura cansada; mas a voz dele era o tanto-tanto para o embabo de meu corpo. Noite essa, astúcia que tive uma sonhice! Diadorim passando por debaixo de um arco-íris. Ah, eu pudesse mesmo gostar dele ― os gostares…
Como vou achar ordem para dizer ao senhor a continuação do martírio, em desde que as barras quebraram, no seguinte, na brumalva daquele falecido amanhecer, sem esperança em uma, sem o simples de passarinhos faltantes? Fomos. Eu abaixava os olhos, para não reter os horizontes, que trancados não alteravam, circunstavam. Do sol e tudo, o senhor pode completar, imaginado; o que não pode, para o senhor, é ter sido, vivido. Só saiba: o Liso do Sussuarão concebia silêncio, e produzia uma maldade ― feito pessoa! Não destruí aqueles pensamentos: ir, e ir, vir ― e só; e que Medeiro Vaz estava demente, sempre existido doidante, só agora pior, se destapava ― era o que eu tinha rompência de gritar. E os outros, companheiros, que é que os outros pensavam? Sei? De certo nadas e noves ― iam como o costume ― sertanejos tão sofridos. Jagunço é homem já meio desistido por si... A calamidade de quente! E o esbraseado, o estufo, a dôr do calor em todos os corpos que a gente tem. Os cavalos venteando ― só se ouvia o resfol deles, cavalanços, e o trabalho custoso de suas passadas. Nem menos sinal de sombra. Agua não havia. Capim não havia. A debeber os cavalos em cocho armado de couro, e dosar a meio, eles esticando os pescoços para pedir, eles olhavam como para seus cascos, mostrando tudo o que cangavam de esforço, e cada restar de bebida carecia de ser poupado. Se ia, o pesadêlo. Pesadêlo mesmo, de delírios. Os cavalos gemiam descrença. Já pouco forneciam. E nós estávamos perdidos. Nenhum pôço não se achava. Aquela gente toda sapirava de olhos vermelhos, arroxeavam as caras. A luz assassinava demais. E a gente dava voltas, os rastreadores farejando, procurando. Já tinha quem beijava os bentinhos, se rezava. De mim, entreguei alma no corpo, debruçado para a sela, numa quebreira. Até minhas testas formaram de chumbo. Valentia vale em todas horas? Repensei coisas de cabeça-branca. Ou eu variava? A saudade que me dependeu foi de Otacília. Moça que dava amor por mim, existia nas Serras dos Gerais ― Buritis Altos, cabeceira de vereda ― na Fazenda Santa Catarina. Me airei nela, como a diguice duma música, outra água eu provava. Otacília, ela queria viver ou morrer comigo ― que a gente se casasse. Saudade se susteve curta.
Guimarães Rosa, in Grande sertão: veredas

30/11/2016

Deus e o diabo em nossa cabeça

Tudo o que existe, toda a percepção que temos do que existe está em nossa cabeça. Quer dizer, às vezes digo que o lugar da transcendência é a mais imanente de todas as coisas, que é o cérebro humano: é aqui que está Deus, é aqui que está o diabo, que estão o mal, o bem, a justiça a injustiça. Tudo está dentro da cabeça. Então, talvez o que esteja ocorrendo conosco seja uma caminhada lenta, muito lenta, cheia de contradições, em direção à razão. Mas não creio que já tenhamos chegado.
José Saramago, in As palavras de Saramago

31/10/2016

A divina caçada

Parece que foi Gagarin, glorioso herói do espaço, que disse que não viu Deus nas alturas — ele que bem devia saber que não existe um “lá em cima” nem um “lá embaixo” — suposta moradia de Deus e do Diabo. Quando a gente era deste tamanhozinho, aí sim, Deus estava logo ali por detrás das estrelas, todas elas muito perto também. Depois nos aconteceu, com a sapiência adulta, essa infinita distância... Mas na verdade as crianças estavam mais próximas da verdade. Pois Deus não será a procura de Deus? Aquilo mesmo que, dentro de nós, o procura? Tanto assim que o próprio “herege” Renan, perguntando-lhe alguém se Deus existia, respondeu simplesmente: — Ainda não.
Mário Quintana, in A vaca e o hipogrifo

19/09/2016

O inferno é aqui mesmo?

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Preso no trânsito, ele perdeu a paciência e pôs-se a gritar, esmurrando o volante:
Diabo! Diabo!
Ouviu-se um estrondo, uma nuvem de fumaça invadiu o interior do carro e, quando ela se dispersou, lá estava, sentada no carro, a figura inconfundível: os pequenos chifres, os olhinhos malignos, o rabo. O Diabo, em pessoa, sorridente:
Chamaste-me? Aqui estou.
Apavorado, o motorista não sabia o que dizer. Queria voltar atrás, foi engano, Senhor Diabo, eu não chamei ninguém, eu estava apenas protestando contra o trânsito; mas, como se tivesse adivinhado o seu pensamento, o demônio apressou-se a acrescentar:
E vim para ficar. Você sabe, ninguém invoca impunemente o nome do Demônio. De modo que você pode me considerar seu eterno passageiro. Relaxe, fique tranquilo. Temos muito tempo para conversar.
O pobre homem não dizia nada. Olhava o tridente que o Diabo tinha ao lado e se perguntava em que momento começaria a ser espetado com aquela coisa. Isso sem falar no fogo do inferno que decerto em pouco tempo estaria aceso ali. Tentou disfarçadamente abrir a porta; como suspeitava, estava trancada. Demônios sabem como usar a tecnologia moderna contra suas vítimas. Suspirou, pois, e preparou-se para o sofrimento.
O trânsito continuava parado, as horas passavam, e o Diabo, que de início falara loquazmente sobre as delícias do castigo eterno, agora mostrava-se silencioso. Mais, mexia-se inquieto no banco de trás. E de repente não se conteve:
Mas será que essa coisa não anda, meu Deus do céu?
Novo estrondo, e nova nuvem, dessa vez luminosa; o demônio tinha sumido e, em seu lugar, estava um ancião de esplêndidas barbas brancas.
O Diabo já deveria ter aprendido que não se invoca o meu santo nome em vão – disse.
Mas você é Deus! – exclamou o motorista, maravilhado.
Pode me chamar assim – disse Deus.
Ah, e pode fazer um pedido, também. Você merece.
O homem não hesitou:
Quero que você me tire agora deste congestionamento.
Ao que Deus abriu a porta e saltou. Antes de ascender aos céus, esclareceu:
Desse trânsito, meu filho, nem Deus te tira. Acho melhor você chamar o Demônio de novo.
Moacyr Scliar, O imaginário cotidiano