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04/11/2019

A vidinha sururu da desigualdade brasileira

Com o chileno Roberto Bolaño e o brasileiro Graciliano Ramos como guias, uma crônica sampleada de discos de vinil


Ô Josué, nunca vi tamanha desgraça/ Quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça”, solta o vinil, o blues espiritual do Chico Science, e lá vai o homem-caranguejo vestido de petróleo em vez da lama do mangue. Os tambores da Nação Zumbi pesam uma tonelada de denúncia desde os anos 1990. É história, bróder.
Lascou a tabaca de Xôla, linda e folclórica cadela recifense, a autêntica e verdadeira travesti canina que representa hoje o cão sem plumas do poeta João Cabral de Melo Neto. Xôla sem pelo e sem esperança foi vítima do vinhoto das usinas que matou muitos rios e riachos de Pernambuco.
Uma vida sururu”, emenda o marisqueiro que disso vive, ostra oleada, repetindo o Luis da Silva do livro Angústia e sua existência entre a burocracia da repartição e o ostracismo — obra universal do gênio russo-alagoano chamado Graciliano Ramos, o melhor livro brasileiro de todos os tempos.
O marisqueiro esmorecido diante de tanto piche nas beiras do Manguaba e do Camaragibe, o marisqueiro já não enfia as ventas na fartura faz é tempo, imagina agora, só imagina a riqueza, qual Baleia sonhando preás, no que chegamos a Vidas Secas, o segundo maior livro da humanidade depois de Angústia.
Ah esse mundão que já foi a lagoa do Mundaú.
Xola me lambe a cara, no carinho das arruaças mundanas, que cachorra, e sigo nessa crônica sampleada: “O que não tem governo, nem nunca terá”, eis o scratch do outro Chico, didáticos arranhões de um DJ no disco de cera de carnaúba, a santa palmeira que está sendo demolida. “Deus é uma coisa brasileira, nordestinamente paciente./ Oh! blood moon.”, deixou aí uma raspinha vinilizada do santo Belchior.
E sabe quem baixa no terreiro agora? O Gog, rapaz, meu Victor Hugo lá das quebradas de Brasília, cabra forte de Riacho Fundo, também autor de Os Miseráveis, lembro bem do nosso encontro na quebrada do DF no ano da graça de 1997, esse poeta sempre teve a palavra desigualdade como relâmpago de tempestade sobre o cerrado, você já se molhou com uma chuva forte sobre o federal distrito?
Desigualdade, repete o coro dos descontentes.
Entre todas as palavras do momento, a mais flamejante talvez seja: desigualdade. E nem é uma boa palavra, incomoda. Começa com des. Des de desalento, des de desespero, des de desesperança. Des, definitivamente, não é um bom prefixo.
Desigualdade.
A danada pisca qual um velho neon da rua Augusta, que me desculpem a infâmia. Haveremos de falar dos nossos velhos inconscientes envelhecidos e fosforescentes. A vida é a palavra que brilha.
A palavra do ano, talvez da década, doravante ouviremos falar muito dela. No dicionário Oxford? Pouco importa. A palavra que demole as estatísticas do mercado.
Babélica e falante quais os mendigos e povos de rua da cidade mais rica do pais, você, palavrinha maldita, já andava pela São João com a Ipiranga, você já viu que alguma coisa acontece.
Tal vocábulo acaba de ser reescrito, com fumaça, nos céus da América Latina, por aviões de uma certa esquadrilha. Não apenas no Chile do gênio-mor Roberto Bolaño, o incrível & superlativo monstro que nos deixou o legado da Estrela Distante e A Literatura Nazista na América, entre outras ideias selvagens que fazem terremotos na estante.
A diferença é que nem todo mundo consegue olhar para cima e ler nos céus como se fosse uma lousa azul do professor Paulo Freire. De-si-gual-da-de.
Como se fosse a faísca, o corisco da sabedoria, quase um Pentecostes bíblico, um bacurau pedagógico. A palavra mágica que fez o milagre de Angicos, no Rio Grande do Norte, quando o método Paulo Freire, em apenas 40 horas de aula alfabetizou 300 extraordinários seres humanos. Maio de 1963.
Há quem mire os céus e não veja nada ainda, como se morasse em São Paulo e a ideia de paraíso fosse o termômetro da Faria Lima.
Há quem não veja nem soletre, mas está escrita no destino de todos os busões da cidade, sentido centro/subúrbio, está na linha reta dos trens e nas curvas da avenida Sapopemba. Está igualmente nas letras garrafais do desespero dos alcoólatras.
Não espere nada do centro se a periferia está morta”, já dizia a banda “mundo livre s/a” quando o modelo escola de Chicago começou a gerar o ovo do desastre.
Desigualdade, quem te escreveu com muita força, furando o papel carbono da história, foi o poeta mineiro Adão Ventura, me contou o Ricardo Aleixo lá no “Além da letra”, o festival de literatura e música de Gonçalves, serra da Mantiqueira, Minas Gerais. A palavra desigualdade dança no vento e ventre das águas do Jequitinhonha, recitou o redemoinho.
Solano Trindade, no semáforo, sinal fechado, fez seu primeiro rap, “tem gente com fome, tem gente com fome”, somente com substantivos deste mesmo dicionário. Você ainda não conhece o Solano? Corra, dá tempo.
Dá tempo para você entender que vivemos uma desigualdade fela da puta. Pegue um busão da Paulista para a Cidade Tiradentes, nem carece recorrer às estatísticas do Nordeste, passe o vale-transporte (enquanto ele ainda existe sob o comando de Paulo Guedes) na catraca e simbora. Dos Jardins ao extremo leste há uma viagem no tempo, sem direito a ficção científica. O patrão jardinesco vive 23 anos a mais, em média, do que um humaníssimo habitante da CT, por todas as razões sociais que a gente bem conhece. Que merda.
Evitei as estatísticas nessa crônica. Poderia matar de desesperança os leitores, os números rendem manchetes, mas carecem de rostos humanos. A ideia era apenas refletir sobre a palavra desigualdade nesse perigo da hora. E repare que é a visão de um brasileiro que veio das vidas secas e vive hoje uma situação privilegiada diante da maioria dos viventes.
Pega a visão, imprensa, só há uma possibilidade de fazer a grande cobertura: mire-se na desigualdade, talvez não haja mais jeito de achar que os pontos da bolsa de valores signifiquem a ideia de fazer um país.
Xico Sá, in El País, 28/10/2019 (acesse aqui)

04/12/2012

Macho perdido: nécessaire X capanga


Depois de citar ao infinitum a expressão macho-jurubeba, recebi uma nova balaiada de mensagens pedindo, encarecidamente, que eu tentasse explicar o que seria o tal homem.
Bela tarefa para cumprir logo ao alvorecer desta segunda sem lei.
A expressão surgiu no Cariri, onde os fracos não têm vez, mas ganhou força no seguinte momento:
Ao me deparar em um banheiro de um moderno restaurante de SP, com dois homens, aparentemente héteros, discutindo sobre técnicas depilatórias e cremes básicos para uma nécessaire masculina, me veio ao cocoruto, imediatamente, a velha imagem da capanga e o kit máximo permitido por um macho-jurubeba.
Como bem sabemos, amigo, o macho-jurubeba é o macho-roots, a criatura de raiz, o sujeito tradicional e quase em extinção nos tempos modernos.
Praticamente extinto, sejamos sinceros. Não há esperança, o velho Francisco, meu pai, lá no seu rancho nas bordas da chapada do Araripe, deve ser um dos derradeiros da legião de bravos.
O macho-jurubeba é um personagem que nos parece nostálgico e, de algum modo, folclórico, mas perfeito para nos revelar o universo dos marmanjos até meados nos anos 1990 –quando Deus fez, de uma costela do David Beckham, o ser doravante conhecido como metrossexual.
Vasculhemos, pois, a capanga, usos, costumes higiênicos e os arredores antropológicos deste predador do nosso paleolítico.
Era sim naturalmente vaidoso o macho popular brasileiro.
Aqui encontramos os vestígios: um espelhinho oval com o escudo do seu time ou uma diva em trajes sumários, um pente nas marcas Flamengo ou Carioca, um corta-unhas Trim ou Unhex, um tubo de brilhantina, um frasco de leite de colônia…
Vemos também, no fundo do embornal, uma latinha de Minâncora e outra de banha de peixe-boi da Amazônia em caso de eventuais ferimentos, calos ou cabruncos.
Em viagens mais longas, barbeador, gillette, pedra-hume –o seu pós-barba naturalíssimo, nada melhor para refrescar a pele e fechar os poros.
Alguns pré-modernos e distintos se antecipavam aos novos tempos usando também Aqua Velva, a loção para o rosto utilizada pelos “homens de maior distinção em todo o mundo”.
Investigamos também, no kit do macho-jurubeba, emplasto poroso Sabiá, pedras de isqueiro com a marca Colibri e um item atual até nossos dias, o polvilho antisséptico Granado, afinal de contas a praga do chulé é atemporal e indisfarçável.
O lenço de pano nem se comenta, não podia faltar nunca.
Ainda no capítulo do asseio corporal e dos bons tratos, façamos justiça às moças. Elas adoravam tirar nossos cravos e espinhas, atitude hoje cada vez mais rara – se alguma o fizer, amigo, a tenha na mais alta conta, a abençoada filha de Eva te ama mesmo.
Objeto de investigação e estudo do caboclo pré-metrossexualismo cachetes de Cibazol.
Aí, porém, já saímos um pouco dos cuidados estéticos e vasculhamos outros armarinhos de miudezas do vasto museu deste homem que –para o bem ou para o mal - já era.
Xico Sá, in xicosa.blogfolha.uol.com.br

18/09/2012

Autoajuda animal: como ser um bom marido


Cena banal, banalíssima, mas que diz muito. Café do embarque, Congonhas.
O maridão, de certa forma até carinhoso, entrega a garrafa de água mineral para a mulher dele.
- Essa é com gás, desde quando eu gosto de água assim?
Lesado, aéreo, o cara fica meio sem resposta.
- Você está comigo há sete anos e não sabe ainda das minhas preferências – a mulher humilha o sujeito.
A cena, banal como esta crônica, mostra o desligamento do homem no varejão da rotina. O camarada é capaz de virar herói de guerra, menos de prestar atenção nos usos e costumes da sua fêmea.
Mulher odeia o desatento reincidente. Nem falo de notar que a princesa decepou as madeixas. É exigir demais. Até porque as meninas de hoje mexem muito na juba.
Uma mudança radical, quando a Lola pinta o cabelo de vermelho, por exemplo, reparamos com uma certa facilidade.
O duro é quando ela exige que notemos uma rápida alteração no tom californiano das pontas, umas tímidas luzes, cruzes!
A fêmea e o mundo capilar é um assunto à parte. Retomemos a inocente garrafa de água com gás e suas circunstâncias.
Acompanhe este outro episódio:
Ela tem alergia a camarão e outros crustáceos. O lesado viaja com ela para São Miguel do Gostoso (RN) e é a primeira coisa que pede para os dois. Achando inclusive que vai fazer bonito, agradá-la.
Não seria nada demais se estivessem ainda se conhecendo. Acontece que eles estavam há mais de dez anos enrabichados sob o mesmo teto. Falha grave, amigo. Digo estavam porque a amiga alérgica decidiu, justamente neste momento, começar a pensar em separação.
O marido, que ainda não se recuperou do pé-na-bunda, ficou traumatizado. Não pode ver camarão pela frente. Adquiriu uma espécie de alergia sentimental incurável.
São casos banalíssimos que representam o descuido no dia-a-dia e no conjunto da obra. Repare que nem estamos falando na desatenção no sexo. Se liga, macho.
O exemplo para ser bom homem e agradar as mulheres, essa arte tão rica e misteriosa, está no reino animal.
Quase uma fábula de Esopo.
Repare nos três segredos da zoofilia fantástica: a atenção de uma coruja, o tesão do galo e a proteção de um cão-de-guarda.
Lembrando sempre destes três bichos e suas funções primordiais, você, meu amigo de fé, meu irmão camarada, seguramente será um novo homem.
Xico Sá, in xicoblogfolha.uol.com.br

16/08/2012

A fêmea e a arte de pedir gostoso

Uma das maiores virtudes de uma fêmea é arte de pedir.
Como elas pedem gostoso.
Como elas são boas nisso.
Resistir, quem há de?
Um simples “posso pegar essa cadeira, moço?” vira um épico, como a cena que serviu de espoleta para esta crônica.
É o jeito de pedir, o ritmo safado da interrogação, a certeza de um “sim” estampado na covinha do sorriso.
Quantos segredos se escondem na covinha de uma mulher.
Pede que eu dou.
Pede todas as jóias da Tiffany´s, minha bonequinha de luxo!
Estou pedindo: pede!
Eu imploro, eu lhe peço todos os seus pedidos mais difíceis.
Não me pede nada simples, faz favor.
Já que vai pedir, que peça alto. Você merece.
Como é lindo uma mulher pedindo o impossível, o que não está ao alcance, o que não está dentro das nossas posses.
Podemos não ter onde cair morto, mas damos um jeito, um truque, um cheque sem fundos.
Até aqueles pedidos silenciosos, quando amarra a fitinha do Senhor do Bonfim ou de Nossa Senhora do Carmo no braço, são lindamente barulhentos.
Homem que é homem vira o gênio da lâmpada diante de uma mulher que pede o impossível.
Ah, quero o batom vermelho dos teus pedidos mais obscenos.
Quero o gloss renovado de todas as vezes que me pede para fazer um pedido, assim, quase sussurrando no ouvido: “Amor, posso te pedir uma coisa? Posso mesmo?”
Um castelo na Inglaterra?
Sim, eu dou na hora.
Que o Íbis seja campeão este ano?
Sim, eu opero o milagre.
Como no pára-choque, o que você pede chorando que não faço sorrindo?!
Pede, benzinho, pede tudo.
Que eu largue a orgia, pare de beber e me regenere???
Pede, minha nega, que o amor tudo pode, por ti cumpro as promessas de todos sambas de regeneração.
Que eu suba na pedreira Paulo Leminski e declame os mais lindos poemas de amor verdadeiro?
Só se for agora, estou indo.
Os melhores cremes da Lancôme? Vou a Paris agora, nem que seja a nado.
Eu lhe peço, me pede.
Não pede mimos baratos…
Pede ATENÇÃO!!!, essa mercadoria tão cara nos dias que correm.