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09/07/2022

Forrest Gump | 4


Bem, aí teve uma coisa secreta que o técnico Bryant e eles planejaram e que era pra ninguém comentar, nem com a gente mesmo. Iam me ensinar a agarrar um lançamento. Todo dia depois do treino eu trabalhava com os dois gorilas e um zagueiro, correndo e agarrando lançamentos até ficar exausto e com a língua pra fora, pendurada até o umbigo. Mas consegui aprender, e o técnico Bryant disse que essa seria nossa “arma secreta” — como uma “Bomba Atônita” ou coisa parecida —, porque depois de algum tempo de jogo, o outro time ia acabar achando que a bola nunca seria lançada pra mim e não ficaria atento.
Assim”, o técnico Bryant disse, “você fica solto e livre — dois metros e cento e vinte quilos — pra correr as cem jardas em nove segundos e meio. Vai ser incrível!”
Bubba e eu éramos realmente muito amigos, e ele me ajudou a aprender a tocar algumas músicas novas com a gaita. Às vezes, ele descia pro porão e a gente tocava junto, mas Bubba dizia que eu era muito melhor que ele. Vou contar uma coisa, se não fosse a gaita eu já teria feito as malas e ido pra casa, mas isso me fazia tão feliz que nem sei como explicar. Era como se meu corpo todo fosse a gaita e a música me dava arrepios. De modo geral, o truque tá na língua, lábios, dedos e em como se mexe o pescoço. Acho que ficar correndo atrás daqueles lançamentos todos fez com que minha língua encompridasse, o que dá uma nota e tanto, por assim dizer.
Na sexta-feira seguinte, me arrumei todo. Bubba me emprestou um tônico pro cabelo e uma loção pra barba e fui pro prédio do Grêmio Estudantil. Tinha muita gente lá e, claro, Jenny Curran e três ou quatro outras pessoas no palco. Jenny usava um vestido comprido e tocava violão, outra pessoa, um banjo, e tinha um cara com um violino gigantesco que ficava puxando as cordas com os dedos.
O som era muito bom mesmo e Jenny me viu lá atrás daquela gente toda, sorriu e fez sinal com os olhos pra que eu fosse pra frente. Foi muito bom ficar sentado ali no chão, ouvindo e vendo Jenny Curran. Pensei em mais tarde comprar brigadeiro e ver se ela também queria um pouco.
Eles tocaram por mais ou menos uma hora, e todo mundo parecia feliz e se sentindo bem. Tocaram Joan Baez, Bob Dylan e Peter, Paul e Mary. Fiquei ali deitado com os olhos fechados, escutando e, de repente, não sei bem como aconteceu, mas peguei minha gaita e comecei a tocar com eles.
Foi a coisa mais estranha. Jenny cantava Blowing in the wind e quando eu comecei a tocar, ela parou por um segundo, e o tocador de banjo também, e ficaram com a cara de surpresos e, então, Jenny abriu um largo sorriso e continuou a cantar e o tocador de banjo parou e deixou eu tocar a gaita por um certo tempo. Quando terminei, todo mundo bateu palmas e gritou bravo.
Depois disso, Jenny desceu do palco, a banda fez uma pausa e ela disse:
Forrest, como pode ser? Onde aprendeu a tocar gaita?
Só sei que a partir daí Jenny me levou pra tocar com a banda. Eu tocava toda sexta-feira, quando não tinha jogo fora da cidade, e ganhava vinte e cinco paus por noite. Era como um paraíso até que vi o tocador de banjo fodendo Jenny Curran.
Infelizmente, eu não ia tão bem nas aulas de inglês. O senhor Boone me chamou mais ou menos uma semana depois de ler minha autobiografia pra turma e disse:
Senhor Gump, acho que já é hora do senhor parar de fazer graça e começar a ser mais sério.
Me entregou uma redação que eu tinha feito sobre o poeta Wordsworth.
O período romântico — ele disse —, não vem depois de um bando de “besteira clássica”. Nem os poetas Pope e Dryden eram duas “bostas”.
Mandou eu fazer tudo de novo, e aí percebi que o senhor Boone ainda não tinha entendido que eu era um idiota. Mas tava prestes a entender.
Enquanto isso, alguém deve ter dito alguma coisa, porque, um dia, meu orientador do departamento de atletismo me chamou e disse que eu tava dispensado das outras aulas e pra eu me apresentar na manhã seguinte ao doutor Mills, no Centro Médico da Universidade. Logo cedinho fui pra lá e o doutor Mills, que tinha um monte de papéis na frente e olhava pra eles, disse pra eu sentar, e começou a fazer perguntas. Quando terminou, disse pra eu tirar a roupa — toda, menos a cueca, e respirei aliviado por causa do que tinha acontecido com os médicos do Exército — e começou a me examinar, com muita atenção mesmo, olhando dentro dos meus olhos e tudo, e fazendo barulho nas minhas rótulas com um pequeno martelo de borracha.
Depois, o doutor Mills perguntou se eu podia voltar à tarde e trazer a gaita — porque ele tinha ouvido falar sobre isso — e se eu me incomodava de tocar uma música para uma de suas turmas de medicina. Eu disse que ia, se bem que aquilo parecesse esquisito, até mesmo prum pateta como eu.
Tinha mais ou menos umas cem pessoas na turma de medicina, todas de avental verde e tomando notas. O doutor Mills me pôs numa cadeira, no tablado, com um jarro e um copo d’água na frente.
Ele dizia um monte de bobagens que eu não entendia, mas, depois de algum tempo, tive a impressão que ele falava de mim.
Idiot savant — disse em voz alta, e todos olharam na minha direção.
Uma pessoa que não consegue dar um nó na gravata, que mal consegue amarrar os sapatos, que tem a capacidade mental de talvez seis a dez anos de idade e — neste caso — o corpo de... bem... um Adônis. — O doutor Mills sorriu pra mim de uma maneira que não gosto, mas fiquei impassível, acho.
Porém a mente — ele disse —, a mente do idiot savant tem raros momentos de inteligência, de modo que Forrest, que aqui está, é capaz de resolver equações matemáticas complexas, que deixariam todos vocês confusos, e de captar temas musicais complexos com a facilidade de um Liszt ou de um Beethoven. Idiota savant — disse de novo, estendendo a mão na minha direção.”
Eu não sabia bem o que devia fazer, mas ele disse pra eu tocar alguma coisa, por isso peguei a gaita e comecei a tocar Puff, the magic dragon. Todos ficaram ali me olhando como se eu fosse um inseto ou algo assim, e quando a música terminou eles continuaram ali, olhando pra mim — não aplaudiram nem nada. Achei que não tinham gostado, e aí me levantei e disse — Obrigado — e fui embora. Que essa gente se dane.
Tem só mais duas coisas de certa importância no resto desse semestre na escola. A primeira foi quando vencemos o Campeonato Nacional de Futebol Universitário e fomos pro Orange Bowl, e a segunda foi quando achei o tocador de banjo fodendo Jenny Curran.
Foi na noite que eu ia tocar na festa de uma fraternidade, na Universidade. O treino daquela tarde tinha sido muito duro e eu tava com tanta sede que era capaz de beber toda a água de uma privada, como um cachorro. Mas tinha um pequeno armazém a uns cinco ou seis quarteirões do Dormitório, e aí, depois do treino, fui até lá comprar umas limas e açúcar, pra preparar um refresco como minha mãe fazia. Tinha uma mulher vesga atrás do balcão e ela me olhou como se eu fosse um assaltante ou coisa parecida. Procurei as limas e depois de algum tempo ela disse:
Posso ajudar? E eu disse:
Quero algumas limas.
Ela disse que não tinha lima nenhuma. Aí eu pedi pra ela me dar alguns limões, pois pensei em fazer uma limonada, mas ela também não tinha limões, nem laranjas, nem nada. Não era esse tipo de armazém. Fiquei procurando durante umas duas horas, e a mulher foi ficando nervosa e finalmente disse:
Não vai comprar nada?
Aí eu peguei uma lata de pêssegos da prateleira, um pouco de açúcar, achando que já que não tinha outra coisa eu podia fazer uma “pessegada” ou algo parecido. Eu tava quase morrendo de sede. Quando voltei pro porão, abri a lata com uma faca, esmaguei os pêssegos dentro de uma de minhas meias e espremi num jarro. Depois pus um pouco de água e açúcar e misturei, mas vou dizer uma coisa, não tinha gosto de nada parecido com refresco de lima. Pra dizer a verdade, mais do que qualquer coisa, tinha gosto de meias picantes.
Mas de qualquer modo eu tinha de tá na fraternidade às sete horas, e quando cheguei, alguns dos rapazes tavam arrumando as coisas, mas não vi Jenny nem o cara do banjo em lugar nenhum. Perguntei pras pessoas e ninguém sabia, então saí pra respirar um pouco de ar fresco no estacionamento. Vi o carro de Jenny e achei que talvez ela tivesse nele.
As janelas do carro tavam todas embaçadas, de modo que não dava pra ver dentro. Bem, aí, de repente, achei que talvez ela não tivesse conseguido sair e tivesse respirado o gás ou coisa parecida, e então abri a porta e olhei pra dentro. Quando fiz isso, a luz acendeu.
Lá tava ela, deitada no banco de trás, a parte de cima da roupa abaixada e a de baixo levantada. O tocador de banjo também tava lá, em cima dela. Jenny me viu e começou a gritar e a espernear, igualzinho como ela fez no cinema, e de repente me veio na cabeça que talvez ela tivesse sendo molestada, por isso agarrei o tocador de banjo pela camisa, que afinal era tudo que ele vestia, e arranquei ele de cima dela.
Bem, qualquer idiota veria que eu tinha feito a coisa errada de novo. Meu Deus, nem podem imaginar o que aconteceu! Ele me xingava e ela me xingava e tentava levantar e abaixar a roupa. Finalmente Jenny disse: — Oh, Forrest, como pôde fazer isso? — e foi embora. O tocador de banjo pegou o banjo e também se foi.
Bem, só sei que depois disso, ficou evidente que eu nunca mais seria bem recebido pra tocar com a banda e voltei pro porão. Eu ainda não tinha entendido muito bem o que tinha acontecido, porém mais tarde, naquela noite, Bubba viu a luz acesa e desceu. Quando contei aquela coisa toda, ele disse:
Poxa, Forrest, aquela gente tava fazendo amor!
Bem, acho que devia ter percebido sozinho, mas pra ser franco, não era uma coisa que eu queria saber. Às vezes, no entanto, um homem tem de encarar os fatos.
Provavelmente foi uma boa coisa eu me manter ocupado jogando futebol, porque eu tava me sentindo muito mal por entender o que Jenny tava fazendo com aquele tocador de banjo e por ela provavelmente nem mesmo ter pensado em mim. Mas nessa época, a gente tinha passado a temporada invicta e ia disputar ó Campeonato Nacional no Orange Bowl contra aqueles palhaços de Nebraska. Era sempre uma coisa especial jogar contra equipes do norte porque eles tinham pretos no time, e isso assustava alguns dos rapazes — como meu ex-companheiro de quarto, Curtis, por exemplo —, se bem que pra mim não era problema, já que a maioria dos pretos que eu tinha conhecido era mais legal comigo que os brancos.
Bem, mas aí, fomos pro Orange Bowl, em Miami, e quando tava chegando a hora do jogo, ficamos como que excitados. O técnico Bryant veio ao vestiário e não falou muito, a não ser que se a gente quisesse ganhar, tinha de jogar pra valer, ou coisa parecida, e aí fomos pro campo e eles deram o chute inicial. A bola veio direto na minha direção e eu agarrei ela no ar e corri direto prum monte de panacas grandalhões, pretos e brancos, do Nebraska, que pesavam mais ou menos duzentos e cinquenta quilos cada um.
Foi assim a tarde toda. No primeiro tempo eles ganharam de 28 a 7 e a gente ficou muito infeliz e triste. O técnico Bryant veio ao vestiário e balançava a cabeça como se já esperasse que a gente fosse desapontar ele. Aí ele começou a desenhar no quadro-negro e a falar com Snake, o zagueiro, e com alguns outros. Depois ele me chamou e pediu pra eu ir com ele até o corredor.
Forrest — ele disse —, esta merda tem de parar. — A cara dele tava quase encostada na minha e senti sua respiração quente nas minhas bochechas. — Forrest — ele disse —, passamos o ano inteiro treinando você, em segredo, a agarrar os lançamentos, e você foi muito bem. Agora vamos fazer isso neste segundo tempo contra esses imbecis fuleiros de Nebraska e eles vão ficar tão confusos que a sunga deles vai bambolear em torno do tornozelo. Agora é com você, garoto. Vá até lá e corra como se um animal selvagem estivesse querendo pegar você.
Concordei com a cabeça e, então, tava na hora de voltar pro campo. Todo mundo gritava e dava vivas, mas senti que, de certa forma, era uma carga injusta em cima de mim. Mas, diacho, às vezes as coisas são assim.
Na primeira jogada, quando a gente tinha a bola, Snake, o quarterback, combinou:
Certo, agora vamos fazer a Série Forrest — e depois se virou pra mim. — Só tem de correr vinte jardas, olhar pra trás e a bola vai estar ali.
E diabos, tava mesmo! De repente, o placar passou pra 28 a 14.
A gente jogou realmente bem a partir daí, mas os negros e os brancos patetas de Nebraska só ficavam observando a cena. Também tinham seus truques, principalmente o de correrem na nossa direção como se a gente fosse de papel ou coisa parecida.

Mas ainda assim ficaram surpresos por eu agarrar a bola, e depois de eu agarrar umas quatro ou cinco vezes, e o placar marcar 28 a 21, eles botaram dois caras pra correr atrás de mim. No entanto, isso deixou Gwinn, o ponta, sem ninguém pra marcar ele e ele agarrou o lançamento do Snake e colocou a gente na linha das quinze jardas. Weasel, o chutador, conseguiu um field goal e o placar passou pra 28 a 24.
No banco, o técnico Bryant veio até mim e disse:
Forrest, pode ser que você tenha um cérebro de merda, mas vai ter de tirar a gente desta situação. Vou pessoalmente tratar pra que seja eleito presidente dos Estados Unidos ou o que você quiser, se simplesmente conseguir levar essa bola até a linha do gol mais uma vez.
Deu um tapinha na minha cabeça, como se eu fosse um cachorro, e eu voltei pro campo.
Snake ficou preso atrás da linha logo na primeira jogada, e o relógio corria. Na segunda jogada, tentou enganar eles me passando a bola, em vez de lançá-la, mas quase uma tonelada de palermas de Nebraska, pretos e brancos, caiu em cima de mim na mesma hora. Eu fiquei ali, estatelado de costas, pensando que devia ter sido assim quando a carga de bananas caiu em cima de meu pai. Depois, voltei pro grupo pra combinar os outros lances.
Forrest — Snake disse —, finjo que vou lançar pra Gwinn, mas lanço a bola pra você, por isso quero que corra até o final do campo, vire pra direita e a bola vai estar lá.
O olhar de Snake era tão selvagem quanto o de um tigre. Assenti com a cabeça e fiz o que mandaram.
Snake realmente arremessou a bola nas minhas mãos e eu disparei pro meio do campo com as balizas do gol logo à frente. Mas, de repente, um homem gigantesco voou pra cima de mim e me atrasou, e depois todos os pretos de Nebraska e brancos do mundo inteiro começaram a me agarrar, me frear, a bater o pé em mim, e eu caí. Maldição! A gente só precisava de algumas jardas pra vencer o jogo. Quando me levantei, vi Snake reunindo todo mundo pra última jogada, já que a gente não tinha mais direito a pedir tempo. Assim que cheguei, ele disse que ia repetir o truque, e saí correndo, mas de repente ele lançou a bola de propósito cerca de seis metros acima de minha cabeça, fora do meu alcance — acho que pra parar a contagem do tempo, pois só faltavam 2 ou 3 segundos.
Infelizmente, Snake confundiu as coisas. Acho que ele pensou que era a terceira jogada, e teríamos mais uma, mas era a quarta e perdemos a bola, e também, é claro, o jogo. Parecia algo que eu teria feito.
De qualquer jeito, foi extremamente triste pra mim, porque imaginava que Jenny Curran provavelmente teria assistido ao jogo, e quem sabe se eu tivesse conseguido agarrar a bola e ganhado, ela perdoaria o que eu tinha feito? Mas não era pra ser. O técnico Bryant tava muito infeliz com o que tinha acontecido, mas disse:
Bem, garotos, sempre há o outro ano. Exceto pra mim. Não haveria.

Winston Groom, in Forrest Gump

22/06/2022

Forrest Gump | 3


Quando chegamos na Universidade, o técnico Bryant veio ao ginásio — onde a gente tava sentado de short e agasalho — e começou a fazer um discurso. Era quase o mesmo tipo de discurso do técnico Fellers, se bem que até mesmo um simplório como eu percebia que com esse homem não ia ser brincadeira! Ele falou curto e grosso e terminou dizendo que o último homem a entrar no ônibus que ia pro campo de treinamento seria levado não de ônibus, mas em vez disso, pelo chute do técnico Bryant. Sinsenhor. Não duvidamos de suas palavras, e nos empilhamos no ônibus feito panquecas.
Isso foi durante o mês de agosto, que, no estado do Alabama, é mais quente que em qualquer outro lugar. Quer dizer, se colocar um ovo em cima de seu capacete de futebol ele será frito pelo sol em mais ou menos dez segundos. É claro que ninguém tentou, para não deixar o técnico Bryant com raiva. Isso era a última coisa que alguém queria, pois a vida já era quase insuportável do jeito que tava.
O técnico Bryant mandou seus próprios gorilas me mostrarem o lugar. Eles me levaram pra onde eu ia ficar, um prédio bonito de tijolos no campus que disseram que era chamado de “Ape Dorm”, isto é, onde a macacada toda dormia. Os capangas me levaram até lá de carro, e depois pra cima onde ficava meu quarto. Infelizmente, o que parecia bonito por fora não era por dentro. A primeira vista, parecia que ninguém vivia nesse prédio há muito tempo, de tão sujo e emporcalhado, e a maioria das portas tinha as dobradiças arrebentadas e arrombadas e a maioria das janelas também.
Alguns rapazes tavam deitados nos catres, vestindo quase nada por causa do calor de quarenta graus que fazia lá dentro, e as moscas e coisas assim zumbiam e zuniam. No vestíbulo tinha uma grande pilha de jornais, que de início tive medo que obrigassem a gente a ler, já que era uma faculdade e isso tudo, mas logo soube que era pra serem colocados no chão, de modo que você não tivesse de pisar naquela sujeira toda.
Os gorilas disseram que esperavam encontrar meu colega de quarto lá — que se chamava Curtis não sei o quê —, mas não vimos ninguém. Então, eles desfizeram minha mala e me mostraram onde era o banheiro, que parecia pior do que os que a gente vê num posto de gasolina, e foram embora. Mas antes, um dos gorilas disse que Curtis e eu íamos nos dar bem porque nós dois tínhamos quase tanto cérebro quanto uma berinjela. Olhei duro pro gorila que disse isso, porque eu tava cansado de ouvir aquelas besteiras todas, mas ele me disse pra ir pro chão e fazer cinquenta flexões. Depois disso, eu só fazia o que mandavam eu fazer.

Fui dormir no meu catre depois de esticar um lençol por cima dele, para cobrir a sujeira, e sonhei que tava na sala de visitas com a mamãe, como a gente costumava fazer no calor, e ela me preparava um refresco de lima e falava comigo horas seguidas — e, então, de repente, a porta do quarto bateu com força e quase me matou de susto! Tinha um cara ali, na porta, com a cara de alucinado, os olhos saltados, sem dentes na frente, o nariz achatado como uma abóbora, e o cabelo em pé como se tivesse levado um choque elétrico. Imaginei que fosse Curtis.
Entrou no quarto como se esperasse que alguém fosse saltar sobre ele, olhando de um lado pro outro, e passando por cima da porta que ele tinha acabado de derrubar. Curtis não era muito alto, mas em compensação parecia uma geladeira. A primeira coisa que me perguntou foi de onde eu era. Quando respondi Mobile, ele disse que era uma cidade “água com açúcar”, e me informou que era de Opp, onde fazem manteiga de amendoim e que se bobeasse, ele untava meu cu com ela! Isso foi mais ou menos tudo que a gente falou nesse dia.
No treino de futebol daquela tarde, fazia uns mil graus de calor no campo, e os gorilas do técnico Bryant corriam de um lado pro outro, com a cara mal-humorada, gritando e mandando a gente fazer os exercícios. Minha língua já tava de fora, pendurada que nem uma gravata, mas eu me esforçava para fazer tudo certo.
Finalmente, dividiram todo mundo em grupos e me puseram com os beques e começamos a treinar passes.
Antes de eu ir pra Universidade, tinham me mandado um pacote com mais ou menos um milhão de jogadas diferentes de futebol e eu perguntei pro técnico Fellers o que tinha de fazer com aquilo. Ele apenas balançou a cabeça com tristeza e disse que eu não fizesse nada — apenas esperasse até chegar lá e que eles pensassem em alguma coisa.

Gostaria de não ter seguido o conselho do técnico Fellers porque quando corri pra agarrar meu primeiro passe peguei o caminho errado e o gorila chefe veio em disparada aos berros comigo, e quando parou de gritar me perguntou por que eu não tinha estudado as jogadas que tinha me mandado. Quando respondi — Ã, á —, começou a pular e a dar golpes no ar com os braços como se tivesse um monte de marimbondos em cima dele. Quando sossegou, mandou eu dar cinco voltas em volta do campo, correndo, enquanto ele se aconselhava com o técnico Bryant a meu respeito.
O técnico Bryant ficava numa grande torre, olhando a gente lá de cima, como um Grande Deus Buda. Eu corria as voltas e observava o gorila subir até lá. Quando chegou em cima e disse o que queria dizer, o técnico Bryant esticou o pescoço pra frente, e senti seus olhos em brasas me queimando. De repente, uma voz no megafone, alta pra todo mundo ouvir, disse: — Forrest Gump, apresente-se na torre do técnico.
E vi o técnico Bryant e o gorila descendo. O tempo todo que corri, desejei estar correndo pra trás.
Mas imaginem minha surpresa quando vi o técnico Bryant sorrindo. Ele me levou pra arquibancada, nos sentamos e ele me perguntou de novo se eu não tinha estudado as jogadas que ele tinha mandado. Comecei a explicar o que o técnico Fellers tinha dito, mas o técnico Bryant me interrompeu e mandou que eu voltasse pra linha de campo e agarrasse os lançamentos. Aí, eu falei mais alguma coisa, que acho que ele não queria ouvir: que na escola eu nunca tinha agarrado lançamentos porque eles achavam que ia ser muito difícil eu lembrar onde ficava o nosso próprio gol, se me deixassem correr em volta tentando pegar a bola no ar.
Quando ouviu isso, o técnico Bryant semicerrou os olhos de uma maneira realmente esquisita, e perdeu o olhar na distância, como se tivesse olhando pra lua ou coisa parecida. Aí ele falou pro capanga buscar uma bola de futebol e quando a bola chegou, o próprio técnico Bryant mandou que eu corresse uma certa distância e depois me virasse. Quando fiz isso, ele jogou a bola pra mim. Eu vi ela chegando quase como em câmera lenta, mas ela soltou da minha mão e bateu no chão. O técnico Bryant balançou a cabeça pra cima e pra baixo, como se já esperasse por aquilo, mas não sei por que tive a impressão de que ele não tinha gostado.

Desde quando eu era pequeno, sempre que fazia alguma coisa errada, minha mãe dizia: — Forrest, deve ter cuidado senão levam e internam você. — Eu tinha tanto medo do lugar pra onde iam me levar que sempre tentei fazer tudo certo, mas que um raio me parta se existe lugar pior pra onde pudessem me levar que esse tal de Dormitório onde eu tava morando.
Nem a escola de birutas ia admitir fazer tanta merda quanto faziam ali — como, por exemplo, arrancar as privadas, de modo que ao ir ao banheiro só se encontrava um buraco no chão onde fazer cocô, porque tinham jogado a privada pela janela, em cima de algum carro que passava. Certa noite, um bobo grandalhão, que jogava na linha, pegou um rifle e começou a atirar em todas as janelas da casa da fraternidade, do outro lado da rua. Os policiais do campus logo apareceram, mas o cara jogou um grande motor de popa — que não sei onde conseguiu — pela janela, na capota do carro da polícia. O técnico Bryant fez ele correr um monte de voltas extras por causa disso.
Curtis e eu, a gente não se dava tão bem e nunca me senti tão sozinho. Sentia saudades da mamãe e queria voltar pra casa. O problema com o Curtis era que eu não entendia ele. Ele usava tantos palavrões quando falava, que o tempo que eu precisava para adivinhar o que significavam fazia eu perder o fio da meada. A maior parte do tempo, eu entendia que ele dizia que não tava satisfeito com alguma coisa.

Curtis tinha um carro e me dava carona até o campo, mas um dia, quando fui encontrar ele, tava praguejando e resmungando, inclinado sobre a grade de um bueiro.
Parece que um pneu tinha furado e quando ele foi trocar, pôs as porcas na calota e sem querer deixou elas caírem no bueiro. Até conseguir pegar elas, a gente ia acabar se atrasando pro treino, o que não era nada bom, por isso eu disse pro Curtis: — Por que não tira uma porca de cada um dos outros três pneus e assim fica com três porcas em cada pneu, que é o suficiente pra nos levar até o campo?

Curtis parou de dizer nome feio por um instante, olhou pra mim e disse: — Se você é um idiota, como pôde pensar nisso? — E eu disse: — Posso ser um idiota, mas não sou burro — e então Curtis avançou em mim e começou a me perseguir com as ferramentas, me chamando de tudo que é nome que se possa imaginar e isso acabou de vez com a nossa relação.
Depois disso, decidi procurar outro lugar pra ficar, e quando o treino acabou, fui pro porão do Dormitório, e passei o resto da noite ali. Não era mais sujo que lá em cima e tinha uma lâmpada elétrica. No dia seguinte levei meu catre e passei a morar ali.
Enquanto isso, as aulas recomeçaram e eles tinham de resolver o que fazer comigo. Havia um cara no departamento de atletismo que não fazia nada a não ser imaginar em que turma colocaria os patetas pra que pudessem passar de ano. Algumas das aulas eram consideradas fáceis, como Educação Física, e me inscreveram nela. Mas eu também tinha de fazer um curso de inglês e um de ciência ou matemática — não tinha como escapar. Mais tarde, fiquei sabendo que certos professores davam ao jogador de futebol uma espécie de dispensa, já que teriam de treinar muito no campo de futebol e não poderiam passar muito tempo na escola. Tinha um desses professores no departamento de ciências, mas infelizmente a única matéria que ele ensinava era uma chamada Luz Intermediária, pro curso adiantado de física ou coisa parecida. Mas ele me encaixou apesar de eu não ter estudado física na educação física.
Não tive tanta sorte em inglês. Aparentemente, não tinha gente simpática nesse departamento, e aí disseram pra eu ir fundo, me inscrever e faltar às aulas, que depois pensariam em alguma outra coisa.

Na matéria Luz, me deram um livro que pesava três quilos e parecia escrito por um chinês. Mas eu levava ele toda noite pro porão e colocava ele no catre, debaixo da lâmpada, e depois de algum tempo, não sei por quê, ele começou a fazer sentido. O que não fazia sentido era por que a gente tinha de saber aquilo, mas entender as equações era canja. Professor Hooks era o nome do professor, e depois da primeira prova, ele pediu pra eu ir à sala dele depois da aula. E disse:
Forrest, quero que me diga a verdade. Alguém deu pra você as respostas dessas perguntas? — Balancei a cabeça, e aí ele me entregou uma folha de papel com um problema e disse pra me sentar e resolver ele. Quando acabei, o professor Hooks olhou pro que eu tinha feito, balançou a cabeça e disse: — Meu Deus do céu.
A aula de inglês era outra história. O professor era um senhor Boone, e era uma pessoa carrancuda que falava muito. No final do primeiro dia, ele falou pra gente escrever, à noite, uma pequena autobiografia da gente mesmo. Foi a coisa mais difícil que já tentei fazer, mas passei quase a noite toda pensando e escrevendo, e disse tudo que vinha na cabeça porque tinham dito que eu não precisava passar mesmo.
Alguns dias depois, o senhor Boone começou a devolver as redações e a criticar e gozar todas as autobiografias. Aí chegou a vez da minha e imaginei que com certeza não tinha agradado. Mas ele levantou a redação e começou a ler em voz alta e começou a rir e todo mundo também. Eu tinha contado da escola de birutas, de ter jogado futebol para o técnico Fellers e ido ao banquete do All State Football, e sobre o posto de retardamento, e Jenny Curran e o cinema, e tudo mais. Quando acabou, o Sr. Boone disse: — Isso sim é originalidade! É isto o que quero. — E todos olharam pra mim e ele disse: — Sr. Gump, deve pensar em se inscrever no departamento de criação literária. Como imaginou tudo isso? — E eu disse: — Preciso mijar.
O senhor Boone como que deu um salto pra trás e então caiu na gargalhada e todo mundo também e ele disse: — Senhor Gump, o senhor é muito divertido.
E assim, fiquei de novo surpreso.

A primeira partida de futebol foi no sábado, algumas semanas depois. A maior parte do treino fui muito mal, até que o técnico Bryant percebeu o que tinha de fazer comigo, que era quase o que o técnico Fellers tinha feito na escola. Eles apenas me deram a bola e deixaram eu correr. Corri bem nesse dia, e marquei quatro touchdowns. Vencemos a Universidade da Georgia por 35 a 3, e todo mundo me deu tapinhas nas costas até machucar. Depois que fui liberado, liguei pra mamãe e ela tinha escutado o jogo pelo rádio e tava radiante de alegria! Nessa noite, todos foram a festas, mas ninguém me convidou pra nenhuma, então fui pro porão. Passou algum tempo e ouvi uma música vinda de algum lugar lá em cima, e era realmente muito bonita, e, não sei por quê, subi para ver o que era.
No quarto, vi um cara, o Bubba, tocando gaita. Ele tinha quebrado o pé durante o treino, e não podia jogar e não tinha pra onde ir. Ele deixou que eu sentasse num catre e ficasse escutando. Não falamos nem nada — ele sentado num catre e eu no outro —, e eu me sentia muito feliz mesmo, e ele tocava a gaita. Mais ou menos uma hora depois, pedi pra experimentar e ele disse: — OK. Eu não sabia que isso mudaria minha vida pra sempre.
Depois de um certo tempo, acabei tocando muito bem, e Bubba ficou louco, dizendo que nunca tinha ouvido um troço tão bom. Antes de ficar muito tarde, Bubba disse pra eu ficar com a gaita. Eu fiquei, e toquei durante muito tempo, até ficar com sono e dormir.
No dia seguinte, domingo, fui devolver a gaita ao Bubba, mas ele disse que eu ficasse com ela porque ele tinha outra, e eu fiquei muito feliz mesmo, e saí pra dar uma volta. Me sentei debaixo de uma árvore e toquei durante o dia todo, até esgotar o que tinha pra tocar.
Era o fim da tarde, e o sol já tinha quase desaparecido quando voltei pro Dormitório. Atravessava o pátio do campus quando de repente ouvi a voz de uma garota gritar: — Forrest!
Me virei e quem não tava lá senão Jenny Curran em pessoa?
Ela sorriu e se aproximou, pegou minha mão e disse que tinha me visto jogar ontem e como eu tinha jogado bem e tudo mais. Isso mostrou que não tinha ficado com raiva do que aconteceu no cinema. Disse que a culpa não tinha sido minha, que eram coisas que aconteciam. Perguntou se eu não queria tomar uma coca-cola com ela.
Era bom demais pra ser verdade, eu sentado lá com Jenny Curran e ela contando que tava tendo aulas de música e teatro, e que planejava ser atriz ou cantora. Ela tocava numa banda dessa tal de música folk. Disse que ia se apresentar na noite seguinte no prédio do Grêmio Estudantil e pra eu ir. Vou confessar uma coisa: mal podia esperar.

Winston Groom, in Forrest Gump

01/06/2022

Forrest Gump | 2


O banquete do All State Football ia ser numa pequena cidade chamada Flomaton, que o técnico Fellers descrevia como uma “agulha de ferrovia”. Botaram a gente num ônibus — tinha uns cinco ou seis da região que tinha ganhado o prêmio — e fomos levados pra lá. Faltavam uma ou duas horas pra chegar e o ônibus não tinha banheiro. Eu tinha bebido duas sodas antes de partir; por isso, quando chegamos a Flomaton, eu tava realmente apertado.
A coisa ia acontecer no auditório da Flomaton Highschool, e quando entramos, eu e alguns outros achamos o banheiro. Mas quando fui abrir a calça o zíper ficou preso na barra da camisa e não descia de jeito nenhum. Depois de tentar algum tempo, um cara legal da escola adversária saiu pra ir atrás do técnico Fellers que veio com seus dois gorilas e tentaram abrir minha calça. Um deles disse que a única maneira de baixar o fecho era rasgando ele ao meio. O técnico Fellers, quando ouviu isso, pôs as mãos na cintura e disse: — Vocês esperam que eu leve este garoto pra lá com a braguilha aberta e tudo de fora? O que acham que os outros vão pensar? — Daí ele virou pra mim e disse:
Forrest, vai ter de botar uma rolha nisso até terminar tudo e, então, a gente abre sua calça, está bem? — Fiz que sim com a cabeça, porque não sabia que outra coisa fazer, mas pensei na longa noite que ia ter pela frente.
Quando chegamos no auditório, tinha uma porção de gente sentada em várias mesas, rindo e batendo palmas quando a gente apareceu. Fomos colocados numa mesa comprida, no palco, na frente de todo mundo e o que eu mais temia, uma longa noite, se confirmou.
Foi como se toda aquela gente tivesse se levantado pra fazer um discurso — até mesmo os garçons e o porteiro. Queria que minha mãe estivesse lá comigo, porque ela teria me ajudado, mas ela tava em casa, na cama e com gripe. Finalmente, chegou a hora de receber os prêmios, que eram pequenas bolas de futebol douradas, e quando chamassem nossos nomes a gente tinha de ir até o microfone e dizer “obrigado”. Também disseram que se alguém fosse falar mais alguma coisa, que fosse breve se quisesse sair de lá antes da virada do século.
A maioria pegou o prêmio e disse “obrigado”, e então chegou minha vez. Alguém no microfone chamou Forrest Gump, o que, se ainda não disse, é meu nome, e me levantei, avancei e me entregaram o prêmio. Me inclinei no microfone e disse — obrigado —, e todos ficaram de pé aplaudindo e dando vivas. Acho que alguém tinha contado pra eles que eu era uma espécie de idiota e eles queriam ser simpáticos. Mas fiquei tão surpreso com tudo que não sabia o que fazer, por isso fiquei parado ali, de pé. Então, todo mundo se calou e o homem no microfone perguntou se eu não queria dizer alguma coisa. Aí, eu disse: preciso mijar.
Ninguém na plateia disse nada por alguns momentos, só olhavam um pro outro de um modo estranho e, então, deu pra ouvir uma espécie de cochicho baixinho e o técnico Fellers apareceu e me pegou pelo braço e me arrastou de volta ao meu lugar. Ele passou o resto da noite me lançando olhares ferozes, mas quando o banquete acabou, o técnico e seus gorilas me levaram ao banheiro e arrebentaram o fecho, abrindo minha calça, e fiz tanto xixi que dava pra encher um balde!
Gump — o técnico disse depois que eu terminei —, sem dúvida, você leva jeito pra falar.

Bem, no ano seguinte não aconteceu tanta coisa, a não ser que alguém publicou que um idiota fazia sucesso no time All State Football e começou a chegar um monte de cartas de todas as partes do país. Mamãe juntava elas todas e fez um álbum com recortes de jornais e revistas. Um dia chegou um pacote de Nova York com a bola oficial de beisebol assinada pelo time todo dos Yankees. Foi a melhor coisa que já tinha me acontecido! Eu cuidava da bola como se fosse de ouro, até que um dia, no quintal, quando tava jogando, um cachorro grande veio e abocanhou no ar e mastigou ela toda. Essas coisas sempre acontecem comigo.

Um dia, o técnico Fellers me chamou e me levou à sala do diretor. Lá tinha um cara da Universidade que apertou minha mão e perguntou se eu já tinha pensado em jogar futebol no time de lá. Ele disse que tinha estado me “observando”. Balancei a cabeça, porque não tinha pensado.

Todos pareciam ter grande respeito por ele, cheios de dedos e chamando ele de “doutor Bryant”. Mas ele me disse pra chamar ele de “Urso”, nome que achei engraçado, se bem que, em alguns aspectos, ele se parecesse mesmo com um urso. O técnico Fellers avisou que eu não era das pessoas mais brilhantes, mas o Urso disse que quase todos seus jogadores eram assim e que queria me ajudar nos estudos. Uma semana depois me deram um teste com um monte de perguntas esquisitas com que não estou acostumado. Depois de algum tempo fiquei cheio e parei de fazer o teste.

Dois dias depois, o Urso voltou e fui levado à sala do diretor pelo técnico Fellers. O Urso parecia aflito, mas continuava um cara legal; me perguntou se eu tinha dado o máximo de mim no teste. Fiz que sim com a cabeça, mas o diretor revirou os olhos, e o Urso disse: — Bem, então é uma pena, porque o resultado parece indicar que este menino é um idiota.
O diretor, agora, concordava com a cabeça, e o técnico Fellers ali de pé, com as mãos nos bolsos, parecia de mau humor. Pelo visto, era o fim dos meus planos de futebol universitário.

O fato de eu ser muito bobo para jogar futebol na Universidade não pareceu impressionar o Exército dos Estados Unidos. Era meu último ano na escola secundária e, na primavera, todos os outros se formaram. Me deixaram ficar no palco e até me deram uma roupa preta para vestir, e quando chegou a hora, o diretor anunciou que iam me dar um diploma “especial”. Me levantei para ir ao microfone e os dois gorilas também se levantaram e foram comigo — acho que era pra não deixar que eu falasse coisas como no dia do All State Football. Minha mãe tava na primeira fila, chorando e torcendo as mãos, e eu me senti realmente bem, como se tivesse realizado algo de verdade.
Mas quando voltei pra casa, finalmente percebi por que ela tava tão sentida e chorava — tinha recebido uma carta do Exército mandando que eu me apresentasse à junta de retardamento local, ou coisa parecida. Não sabia o que era aquilo, mas minha mãe sabia. Era 1968 e tinha todo tipo de merda pronta pra acontecer.

Mamãe me deu uma carta do diretor da escola pra levar pro pessoal da junta de retardamento, mas, não sei como, perdi ela no caminho. Foi uma cena maluca. Havia um cara preto e grande num uniforme do exército berrando com as pessoas e dividindo elas em grupos. Todos ficávamos ali, em pé, e ele vinha e gritava: — Muito bem, quero que a metade de vocês vá pra lá, e a outra metade fique no mesmo lugar! — Todo mundo andava de um lado pro outro, desnorteado, e até eu pude perceber que o cara era um retardado.
Me levaram pruma sala, puseram a gente em fila e disseram pra tirar a roupa. Eu não tava muito a fim, mas todos tiraram e, então, eu também. Eles examinaram a gente em todo lugar — olhos, nariz, boca, ouvido — e até nossas partes íntimas. A certa altura, me disseram: — Curve-se. — E quando fiz isso, alguém meteu o dedo no meu cu.
Essa não!

Me virei, agarrei o sacana, e dei um soco no topo da cabeça dele. De repente, foi a maior confusão, um bando de gente se juntou e se jogou em cima de mim. Mas tô acostumado com isso. Me livrei de todos e atravessei a porta em disparada. Quando cheguei em casa e contei o que tinha acontecido à mamãe, ela ficou triste, mas disse: — Não se preocupe, Forrest, vai ficar tudo bem.
Não ficou. Na semana seguinte, uma caminhonete parou em frente à nossa casa e vários homens com uniforme do Exército, e capacetes pretos brilhantes, bateram à porta perguntando por mim. Eu tava escondido lá em cima, no meu quarto, mas mamãe apareceu e disse que eles só queriam me dar uma carona de volta ao posto de retardamento. Durante o caminho todo, eles ficaram me vigiando bem de perto, como se eu fosse uma espécie de maníaco.
Havia uma porta que dava pruma sala grande onde tava um homem mais velho usando um uniforme pomposo e que também me olhou com muita atenção. Me acomodaram e largaram outro teste na minha frente, e apesar de ser muito mais fácil que o teste de futebol para a universidade, não era nenhuma moleza.
Quando terminei, me levaram a uma outra sala, onde quatro ou cinco caras sentados atrás de uma mesa comprida começaram a me fazer perguntas e a passar, um pro outro, o que parecia ser o teste que eu tinha acabado de fazer. Aí, começaram a confabular e quando terminaram um deles assinou um papel e me entregou. Quando levei ele pra casa, mamãe leu e se pôs a puxar o cabelo chorando e agradecendo a Deus, porque tava escrito que eu tinha sido “Dispensado Provisoriamente” porque era abobado.

Aconteceu mais uma coisa durante essa semana que foi o evento mais importante de minha vida. Tinha uma pensionista morando com a gente que trabalhava na companhia telefônica como telefonista. Seu nome era srta. French. Era uma mulher realmente simpática, geralmente quieta e sozinha, mas, certa noite em que fazia um calor tremendo, e que desabou um temporal com trovoadas e raios, ela esticou a cabeça pra fora de seu quarto quando eu tava passando e disse: — Forrest, ganhei uma caixa de brigadeiros hoje de tarde. Quer comer um?
Eu disse — sim —, e ela me pôs pra dentro do quarto, e ali, sobre a cômoda, tava a caixa com os brigadeiros. Ela me deu um e, depois, me perguntou se não queria mais, e apontou a cama pra que eu me acomodasse. Devo ter comido uns dez ou onze brigadeiros e os raios faiscavam lá fora, e o trovão, e as cortinas voavam, e a srta. French como que me empurrou e me fez deitar na cama. Começou a me tocar de uma maneira muito pessoal. — Apenas feche os olhos — ela disse —, e ficará tudo bem. — A próxima coisa que percebi é que tinha alguma coisa acontecendo que nunca tinha acontecido antes. Não posso dizer o que era, porque meus olhos tavam fechados, e também porque mamãe me mataria, mas vou dizer uma coisa, a partir daí comecei a ver as coisas de maneira totalmente diferente.
O problema era que apesar, da srta. French ser uma mulher muito gentil e legal, o que ela me fez naquela noite era o tipo de coisa que eu teria preferido que tivesse sido feito por Jenny Curran. E ainda tem mais: eu não conseguia nem mesmo imaginar como devia fazer isso acontecer. Sendo como sou, não é tão fácil pedir a alguém pra me namorar. Pra não dizer coisa pior.
Mas por causa de minha nova experiência, juntei coragem pra perguntar à mamãe o que devia fazer em relação a Jenny, embora não tenha contado nada sobre mim e a srta. French. Mamãe disse que cuidaria disso por mim, e ligou pra mãe de Jenny Curran e explicou a situação e na noite seguinte, adivinhem só quem apareceu na nossa porta? Jenny Curran em pessoa!
Ela tava vestida de branco com um cravo no cabelo e parecia um verdadeiro sonho. Ela entrou e mamãe levou ela pra sala de visitas, deu um sorvete e me chamou, dizendo que eu descesse do quarto, pra onde tinha fugido assim que tinha visto Jenny Curran se aproximar da alameda. Eu preferia ter cinco mil pessoas correndo atrás de mim do que sair de meu quarto naquela hora, porém a mamãe veio, me deu a mão, me levou pra baixo e também me deu um sorvete. Isso facilitou as coisas.
Mamãe disse que podíamos ir ao cinema e deu três dólares a Jenny quando a gente tava saindo. Jenny nunca tinha sido tão legal, conversando e rindo, e eu balançando a cabeça e sorrindo feito um idiota. O cinema ficava a apenas umas três ou quatro quadras lá de casa. Jenny comprou as entradas, entramos e nos sentamos. Ela me perguntou se eu queria pipoca e quando ela voltou com a pipoca, o filme começou.
O filme era sobre duas pessoas, um homem e uma mulher, que se chamavam Bonnie e Clyde e que roubavam bancos, e também tinha outras pessoas interessantes. Tinha muitas mortes, tiros e outras merdas assim. Achei gozado os caras atirarem e matarem uns aos outros daquela maneira, e caía na gargalhada quando isso acontecia, e sempre que eu ria, Jenny Curran parecia escorregar da cadeira. Na metade do filme, ela tava quase no chão. Quando vi, achei que tinha caído da cadeira, por isso peguei ela pelos ombros pra ajudar ela a se levantar de novo.
Mas aí ouvi alguma coisa rasgar, olhei pra baixo e o vestido de Jenny tava completamente aberto e tudo de fora. Com a outra mão tentei cobrir ela, mas ela começou a fazer uns barulhos e a agitar os braços com força. Eu tentava segurar, não deixar ela cair de novo e ficar desarrumada. As pessoas em volta olhavam, procurando ver que confusão era aquela. De repente, um cara passou entre as cadeiras e acendeu uma luz forte na nossa cara, e ao ficar exposta, ela começou a dar risadas estridentes e a gemer e, então, ela deu um pulo e foi embora.
Aí eu me lembro que dois homens chegaram e mandaram eu levantar e acompanhar eles a uma sala. Alguns minutos depois, quatro policiais chegaram e me pediram pra ir com eles. Me levaram pro carro de polícia e dois se sentaram na frente e outros dois atrás comigo, igualzinho como os gorilas do técnico Fellers, só que agora realmente tavam me levando pra “central”. Eles me acompanharam até uma sala, apertaram meus dedos num bloco, tiraram meu retrato e me meteram na cadeia. Foi uma experiência horrível. Fiquei o tempo todo preocupado com Jenny, mas pouco depois minha mãe apareceu e entrou enxugando os olhos com um lenço e torcendo os dedos e eu percebi que novamente tinha feito alguma coisa errada.
Alguns dias depois, teve uma espécie de cerimônia no tribunal. Mamãe me vestiu o terno e me levou, e conhecemos um homem simpático de bigode, que carregava uma pasta grande e que disse ao juiz um monte de coisas. Daí, outras pessoas, inclusive minha mãe, disseram mais outras besteiras e, finalmente, chegou minha vez.
O homem de bigode pegou no meu braço pra me levantar e o juiz perguntou como tudo tinha acontecido. Eu não sabia o que dizer, por isso só balancei os ombros e depois ele perguntou se eu queria acrescentar alguma coisa, e aí eu disse — quero mijar —, porque a gente tinha passado quase a metade do dia ali sentada e eu tava a ponto de explodir! O juiz se inclinou pra frente de sua grande mesa e me examinou como se eu fosse um marciano ou coisa assim. Aí o homem de bigode fez a defesa e o juiz mandou ele me levar ao banheiro, o que ele fez. Olhei pra trás quando saía da sala e vi a coitada da mamãe segurando a cabeça e esfregando os olhos com o lenço.
De qualquer jeito, quando voltei, o juiz coçou o queixo e disse que o caso era “muito peculiar”, mas que achava que eu devia entrar pro Exército ou coisa parecida, que ajudasse a me endireitar. Mamãe contou que o Exército dos Estados Unidos não queria me aceitar porque eu era idiota, mas que nessa manhã mesmo tinha chegado uma carta da Universidade dizendo que se eu jogasse futebol pra eles, eu teria direito a estudar sem pagar.
O juiz disse que isso também parecia peculiar, mas que concordava contanto que eu ficasse longe da cidade.
Na manhã seguinte, minhas malas já tavam prontas e mamãe me levou até o ponto do ônibus e me pôs dentro dele. Olhei pela janela e lá tava ela, mamãe, chorando e enxugando os olhos com seu lenço. Era uma cena que eu conhecia muito bem. Tá gravada na minha memória pra sempre. De qualquer modo, o ônibus deu a partida e fui embora.

Winston Groom, in Forrest Gump

26/05/2022

Forrest Gump | 1

 


Vou dizer uma coisa: ser idiota não é nenhuma caixa de chocolates. As pessoas riem, perdem a paciência, são mesquinhas com você. Dizem que se deve ser atencioso com os deficientes, mas vou dizer uma coisa: nem sempre é assim. Mas não me queixo, porque acho que levei uma vida muito interessante, por assim dizer.
Tenho sido um idiota desde que nasci. Meu QI está próximo de 70, o que me define, segundo eles. É provável que eu seja quase um imbecil ou, talvez, um retardado, mas, pessoalmente, prefiro pensar em mim mesmo como um débil mental, ou algo assim — e não um idiota —, porque quando as pessoas pensam em idiota, é certo pensarem num daqueles idiotas mongoloides — aqueles que têm os olhos juntinhos como chineses, e babam à beça, e brincam com eles mesmos.
Bem, eu sou lento, disso não há dúvida, mas provavelmente sou mais inteligente do que as pessoas imaginam, porque o que se passa na minha mente é uma visão diferente da que veem. Por exemplo, posso pensar coisas muito bem, mas quando tento dizer ou escrever, elas saem como uma espécie de gelatina, ou coisa parecida. Vou mostrar o que quero dizer.
Outro dia, eu descia a rua e um homem trabalhava em seu quintal. Ele tinha um monte de arbustos para plantar e me disse “— Forrest, quer ganhar um dinheirinho?” — e eu disse — Ã-hã —, e então ele me pôs para remover a sujeira. Foram uns dez ou doze carrinhos de sujeira, na hora mais quente do dia, transportando a torto e a direito. Quando acabei, ele tirou um dólar do bolso. Eu devia mesmo é ter ficado com muita raiva por causa do baixo pagamento, mas em vez disso, peguei o maldito dólar e tudo que disse foi “obrigado”, ou algo pateta parecido e continuei a descer a rua, enrolando e desenrolando o dólar na mão, me sentindo um idiota.
Percebem o que quero dizer?
Mas eu sei alguma coisa sobre idiotas. Provavelmente é a única coisa que sei, mas li sobre eles — desde o idiota daquele cara Dochtoévski, até o bobo do Rei Lear, o idiota de Faulkner, Benjie, e até mesmo o velho Boo Radley em To kill a mockingbird — ele era um idiota sério. No entanto, o que mais gosto é do velho Lennie, em Ratos e homens. A maioria desses caras escritores contam direito — porque seus idiotas são sempre mais espertos do que as pessoas reconhecem. Poxa, como concordo com isso. Qualquer idiota concordaria. Hi, hi.
Quando nasci, minha mãe me deu o nome de Forrest por causa do general Nathan Bedford Forrest, que lutou na Guerra Civil. Mamãe sempre dizia que, de alguma maneira, éramos um pouco parentes do general Forrest. E ele foi um grande homem, ela dizia, exceto quando fundou a Ku Klux Klan depois que a guerra acabou. Até minha avó dizia que era um bando de gente ruim. Com o que até posso concordar, porque aqui, o Grão-Mestre Bispo, ou seja lá como chama a si mesmo, tem uma loja de armas na cidade e, certa vez, quando eu tinha uns doze anos, passava por lá e olhei a vitrina, e ele tava pegando, lá dentro, uma corda grande usada por carrascos pra enforcar. Quando me viu, botou ela em volta do próprio pescoço, e puxou pra cima, como se estivesse se enforcando, e pôs a língua pra fora, tudo isso só pra me assustar. Eu saí correndo e me escondi atrás de uns carros no estacionamento, até alguém chamar a polícia, eles virem e me levarem pra casa, pra mamãe. Por isso, o que quer que o general Forrest tenha feito, fundar essa tal de Klan não foi uma boa ideia — qualquer idiota diria a mesma coisa. Apesar disso, foi assim que ganhei meu nome.
Minha mãe é uma pessoa boa de verdade. Todo mundo diz isso. Meu pai morreu logo depois que eu nasci, por isso nunca conheci ele. Ele trabalhava no cais como estivador e, um dia, um guindaste levantava uma rede com um grande carregamento de bananas num dos navios da United Fruit Company, e alguma coisa quebrou e as bananas despencaram e esmagaram ele, deixando ele chato como uma panqueca. Certa vez ouvi uns homens falando do acidente — diziam que foi uma confusão danada, meia tonelada de bananas e meu pai esborrachado embaixo. Não ligo muito pra bananas, a não ser pra pudim de bananas. Disso eu gosto mesmo.
Minha mãe recebeu uma pequena pensão do pessoal da United Fruit e aceitou hóspedes em nossa casa, o que deu pra gente se virar. Quando eu era pequeno, ela me mantinha quase sempre dentro de casa, pra que os outros meninos não me incomodassem. Nas tardes de verão, quando estava muito quente mesmo, ela costumava me colocar lá embaixo, na sala de visitas, e fechava as venezianas, de modo que ficava escuro e fresco, e me preparava um jarro de refresco de lima. Depois ficava ali conversando comigo, só conversando, sem falar sobre nada em particular, como alguém falaria com um cachorro ou um gato, mas eu me acostumei e gostava disso porque sua voz fazia eu me sentir seguro e bem.
No começo, quando eu tava crescendo, ela deixava eu sair e brincar com todo mundo, mas então ela descobriu que eles implicavam comigo, e um dia um dos garotos bateu em minhas costas com uma vara, enquanto eles me perseguiam, e a coisa foi aumentando e virou uma surra de dar medo. Depois disso, ela me disse pra nunca mais brincar com aqueles garotos. Tentei brincar com as garotas, mas não era muito melhor, porque elas corriam de mim.

Mamãe achou que seria bom eu ir pra escola pública porque talvez isso ajudasse a eu ser como todo mundo, mas depois de pouco tempo procuraram a mamãe e disseram que eu não devia estar ali como todo mundo. Mas deixaram eu terminar o primeiro ano. Às vezes, enquanto a professora falava, não sei o que se passava na minha cabeça, mas eu começava a olhar pra fora da janela, pros passarinhos, esquilos, e coisas que subiam e ficavam num grande carvalho, e, então, a professora vinha e reclamava comigo. Às vezes, acontecia uma coisa estranha comigo e eu começava a berrar, e então ela mandava eu sair e sentar no banco do corredor. As outras crianças nunca brincavam comigo, a não ser para me enxotar ou fazer com que eu gritasse pra que pudessem rir de mim — todas, menos Jenny Curran, que pelo menos não corria de mim e às vezes deixava eu ficar do lado dela quando a gente ia pra casa depois das aulas.
Mas, no ano seguinte, me botaram num outro tipo de escola e vou dizer uma coisa: era esquisita. Era como se eles saíssem por aí recolhendo tudo que é pessoa estranha e juntassem todas elas, incluindo as de minha idade e mais novas até rapazes grandes de dezesseis ou dezessete anos. Tinha retardos e espasmos de todo tipo e meninos que não conseguiam nem comer, nem ir ao banheiro sozinhos. Provavelmente eu era o melhor do bando.
Tinha um garoto grande e gordo. Ele devia ter mais ou menos uns quatorze anos, e sofria de uma coisa que fazia ele tremer todo como se estivesse na cadeira elétrica, ou algo assim. A srta. Margaret, nossa professora, mandou eu ir ao banheiro com ele, quando ele precisava ir, pra que ele não fizesse nada esquisito. Mas, de qualquer jeito, ele fez. Eu não sabia como fazer ele parar, por isso me tranquei num dos compartimentos e fiquei ali até ele acabar e, daí, levei ele de volta pra sala.

Fiquei nessa escola por cinco ou seis anos. Não era ruim de todo. Deixavam que a gente pintasse com os dedos e fizesse pequenas coisas, mas em geral, só ensinavam coisas como amarrar os sapatos e não babar a comida, nem ficar furioso, nem gritar e berrar e espalhar cocô em tudo. Quase não usavam livros — a não ser pra mostrar como interpretar os sinais de rua, e coisas como a diferença entre banheiros de Cavalheiros e de Senhoras. De qualquer modo, com todos aqueles malucos graves seria impossível transmitir qualquer coisa mais que isso. Além do mais, acho que a intenção era nos manter longe da raiva dos outros. Afinal, quem quer ver um bando de retardados andando à solta? Até eu podia entender isso.
Quando fiz treze anos, algumas coisas estranhas começaram a acontecer. Primeiro, comecei a crescer pra cima. Cresci quinze centímetros em seis meses, e minha mãe tinha de estar sempre encompridando minhas calças. Também comecei a crescer pro lado. Quando eu tinha dezesseis, media um metro e noventa e oito e pesava cento e vinte e um quilos. Eu sei por que me levaram e me pesaram. Eles disseram que simplesmente não conseguiam acreditar.
O que aconteceu depois causou uma mudança significativa em minha vida. Certo dia, eu voltava pra casa da escola de birutas e um carro parou ao meu lado. O cara me chamou e perguntou meu nome. Eu disse e, então, ele perguntou qual era minha escola e como nunca tinha me visto por ali. Quando falei da escola de birutas, ele perguntou se eu já tinha jogado futebol. Balancei a cabeça. Acho que devia dizer que já tinha visto meninos jogando, mas que eles nunca deixavam eu jogar. Mas como já disse, não sou muito bom em conversas longas, por isso fiz que não com a cabeça. Isso foi umas duas semanas depois das aulas recomeçarem.
Mais ou menos três dias depois, eles vieram e me tiraram da escola de birutas.
Minha mãe estava lá, e também o cara do carro e mais duas pessoas que pareciam seus capangas — acho que pro caso de eu aprontar alguma coisa. Pegaram tudo que era meu e colocaram numa sacola de papel marrom e disseram pra eu me despedir da srta. Margaret, e de repente ela começou a chorar e me deu um grande abraço. Depois, eu disse adeus a todos os outros birutas, e eles estavam babando, tendo ataques, batendo nas carteiras com os punhos. E daí fui embora.
Mamãe foi na frente com o cara e eu fiquei no banco de trás, entre os capangas, igualzinho como a polícia faz naqueles filmes quando levam você pra “central”. Só que a gente não tava indo pro centro. A gente ia pra nova escola secundária que tinham construído. Quando chegamos, eles me levaram pra sala do diretor, e mamãe, eu e o cara entramos, enquanto os dois gorilas esperavam no vestíbulo. O diretor era um homem velho de cabelos grisalhos com uma mancha na gravata e calças largas, e parecia que também tinha saído da escola de birutas. Todos nos sentamos e ele começou a explicar coisas e a me fazer perguntas, e eu só balançava a cabeça, mas o que eles queriam é que eu jogasse futebol. Isso eu entendi por mim mesmo.

Acontece que o cara no carro era um técnico de futebol chamado Fellers. Nesse dia eu não fui à aula nem nada, mas o técnico Fellers me levou ao vestiário, e um dos gorilas me pôs um daqueles uniformes de futebol, com todo aquele enchimento e um capacete de plástico realmente bonito com uma coisa na frente para não deixar meu rosto ser esmagado. O único problema foi que não conseguiram achar sapatos que coubessem nos meus pés, por isso tive de usar meu tênis até que encomendassem outros.
O técnico Fellers e os gorilas me vestiram com a roupa de jogador, depois me fizeram tirar a roupa, e depois me vestir de novo, umas vinte vezes, até que soubesse fazer sozinho. Durante algum tempo tive dificuldade em entender aquela coisa de atleta, porque não conseguia ver uma boa razão para estar vestindo aquilo. Bem, eles tentaram me explicar e, então, um dos gorilas disse pro outro que eu era um “palerma” ou coisa parecida, e acho que eles pensaram que eu não ia entender, mas entendi, porque presto uma atenção especial a esse tipo de merda. Não que fira meus sentimentos. Tenho sido chamado de coisas bem piores que essa. Mas percebi, apesar de tudo.
Depois de algum tempo, um bando de meninos começou a entrar no vestiário, e a tirar a roupa de futebol dos armários e a se vestir. Então fomos todos pra fora e o técnico Fellers reuniu todo mundo, me pôs na frente e me apresentou. Ele dizia um monte de merda que eu não acompanhava direito porque eu tava morrendo de medo, pois ninguém nunca me tinha apresentado a um bando de estranhos. Depois, alguns se aproximaram e apertaram minha mão dizendo que tavam felizes por eu estar ali e esse tipo de coisa. Depois o técnico Fellers soprou um apito, e levei o maior susto, e todos começaram a pular em volta pra se exercitar.

É uma história longa o que aconteceu em seguida, mas, de qualquer modo, comecei a jogar futebol. O técnico Fellers e um dos gorilas me deram atenção especial já que eu não sabia jogar. Tinha aquela coisa de ter de bloquear as pessoas. Tentavam explicar tudo direitinho pra mim, mas depois da gente tentar um montão de vezes, ninguém ficou satisfeito, porque eu não conseguia lembrar o que tinha de fazer.
Então tentaram outra coisa, que chamam de defesa, em que colocam três caras na minha frente e tenho de passar por eles e agarrar o cara que leva a bola. A primeira parte era mais fácil, porque eu só tinha de empurrar e derrubar os outros caras, mas não estavam satisfeitos com a maneira como eu agarrava o cara com a bola, e finalmente me mandaram atacar um carvalho enorme umas quinze ou vinte vezes — acho que era pra eu me acostumar com aquilo. Depois de algum tempo, quando acharam que eu tinha aprendido alguma coisa com o carvalho, me colocaram de volta com os três caras e o que carregava a bola, e ficaram furiosos porque eu não fui pra cima dele de modo violento depois de ter tirado os outros do caminho. Ouvi muito desaforo naquela tarde, e quando paramos de treinar fui ver o técnico Fellers e disse pra ele que não tinha querido pular no cara que levava a bola para não machucar ele. Ele me disse que não machucaria porque o uniforme protegia ele. Na verdade eu não tava com tanto medo de ferir ele quanto de que ficasse com raiva de mim e recomeçassem a me perseguir se eu não fosse legal com todo mundo. Resumindo a história, levei algum tempo para pegar o jeito.
Nesse meio tempo tive de ir à aula. Na escola de birutas, a gente não tinha muito o que fazer, mas ali eles eram mais sérios. De alguma forma, organizaram tudo de modo que eu tivesse três aulas iniciais de familiarização com a escola, onde você apenas se senta e faz o que quiser, e mais três aulas com uma moça que me ensinava a ler. Só nós dois. Ela era muito simpática e bonita, e mais de uma vez tive pensamentos maldosos com ela. Seu nome era srta. Henderson.

A única aula de que eu gostava era o almoço, mas acho que não dá pra chamar aquilo de aula. Na escola de birutas, mamãe preparava um sanduíche, um pedaço de bolo e uma fruta — exceto bananas — pra eu levar. Mas nessa outra escola, havia uma lanchonete com nove ou dez coisas diferentes pra comer e eu tinha dificuldade em decidir o que queria. Acho que alguém deve ter dito alguma coisa, porque depois de uma semana mais ou menos, o técnico me procurou e disse que eu fosse fundo e comesse o que quisesse porque tinha sido “providenciado”. Que merda!
Adivinha quem era da minha turma de familiarização? Nada mais, nada menos que Jenny Curran. Ela me viu no vestíbulo e disse que se lembrava de mim do primeiro grau. Ela tinha crescido, tinha os cabelos pretos bonitos, pernas longas e um rosto atraente, e também outras coisas que não posso dizer.
O futebol não estava indo exatamente como o técnico Fellers gostaria. Ele parecia muito insatisfeito e estava sempre gritando com as pessoas. Gritava comigo também. Eles tentavam imaginar uma maneira de eu simplesmente ficar parado numa posição impedindo que os outros rapazes agarrassem o que levava a bola, mas não deu certo a não ser quando corria com a bola direto para o meio da linha. O treinador estava menos satisfeito ainda com o meu ataque, e vou confessar uma coisa: passei um tempão no carvalho. Simplesmente eu não conseguia me jogar em cima do rapaz que levava a bola, como eles queriam que eu fizesse. Alguma coisa me impedia de fazer isso.
Então, um dia, um acontecimento mudou tudo isso também. Na lanchonete, eu peguei minha comida e fui sentar perto de Jenny Curran. Eu não dizia nada, mas ela era a única pessoa na escola que eu conhecia razoavelmente, e era bom sentar ali com ela. A maior parte do tempo ela não prestava atenção em mim, e falava com outras pessoas. No começo, eu me sentava com alguns jogadores, mas eles agiam como se eu fosse invisível ou coisa parecida. Pelo menos Jenny Curran agia como se eu estivesse lá. Mas pouco tempo depois disso, comecei a reparar num outro cara que também ta-va lá. Ele começou a soltar piadinhas a meu respeito. Dizia besteiras como “Como vai, pateta?” e coisas assim. E isso continuou por uma ou duas semanas e eu não respondia nada, até que finalmente eu disse — ainda agora, mal acredito que tenha dito isso — “não sou nenhum pateta”, e o cara simplesmente olhou pra mim e começou a rir. Jenny Curran disse pra ele ficar calado, mas ele pegou uma caixa de leite e entornou no meu colo. Eu dei um pulo e fugi porque me assustei.
Mais ou menos um dia depois, esse cara me encontrou no corredor e disse que ia me “pegar”. O dia todo eu senti um medo terrível, e à tarde, quando eu saí pra ir pro ginásio, lá estava ele, com a turma de seus amigos. Eu tentei ir pelo outro lado, mas ele me alcançou e começou a empurrar meus ombros. E ele dizia todo tipo de coisa ruim, me chamando de “imbecil” e coisas assim, e, então, me bateu no estômago. Não doeu muito, mas eu quase comecei a chorar, e então me virei e comecei a correr, e percebi que ele e os outros corriam atrás de mim. Corri o mais rápido que pude pro ginásio, atravessei o campo de treinamento de futebol e, de repente, vi o técnico Fellers, sentado na arquibancada me observando. Os caras que me perseguiam pararam e foram embora. O técnico Fellers — ele tava com uma cara realmente esquisita — mandou que eu fosse me vestir imediatamente. Um pouco mais tarde, ele foi ao vestiário com as jogadas desenhadas num pedaço de papel — três delas — e disse que eu decorasse elas o máximo que eu pudesse.
A tarde, no treino, ele organizou dois times, e de repente, o zagueiro me deu a bola e era pra eu correr na linha do touchdown pelo lado. Quando começaram a me perseguir, corri o mais rápido que pude — foi preciso sete ou oito deles para me segurar. O técnico Fellers ficou muito feliz; pulava e gritava, dava tapinhas nas costas de todo mundo. Já tínhamos corrido muito antes, mas acho que sou muito mais rápido quando estão me perseguindo. Que idiota não seria?
De qualquer modo, fiquei muito mais popular depois disso, e os outros caras do time começaram a ser mais simpáticos comigo. Tivemos nosso primeiro jogo e eu tava morrendo de medo, mas eles me deram a bola e corri pra além da linha do gol, duas ou três vezes, e as pessoas nunca foram tão gentis comigo. Sem dúvida esse colégio começou a mudar minha vida. Até mesmo fez eu gostar de correr no futebol, exceto que em geral me faziam correr pelos lados porque eu ainda não conseguia fazer o que gostava que era atropelar as pessoas como se faz pelo meio. Um dos capangas comentou que eu era o meio de campo do segundo grau mais largo do mundo. Não acredito que tenha dito isso como elogio.
Por outro lado, eu aprendia a ler muito bem com a srta. Henderson. Ela me deu Tom Sawyer e mais dois outros livros de que não me lembro, e levei eles pra casa e li todos, mas depois ela me deu uma prova em que não fui tão bem. Mas gostei muito dos livros.
Depois de algum tempo, voltei a me sentar perto de Jenny Curran na lanchonete, e não houve problemas até que, um dia, na primavera, eu tava indo pra casa depois da escola e dei de cara com o garoto que entornou o leite no meu colo e me enxotou naquele dia. Ele segurava uma vara e começou a me chamar de coisas como “retardado” e “imbecil”.
Havia outras pessoas olhando e, então, chegou Jenny Curran, e eu quase fugi de novo. Mas, não sei por quê, não fugi. O cara cutucou meu estômago com a vara e eu disse pra mim mesmo: que vá pro inferno. Agarrei seu braço e com a outra mão dei um soco na cabeça dele e foi o fim dessa história, mais ou menos.
Nessa noite, mamãe recebeu um telefonema dos pais do garoto que diziam que se eu encostasse a mão no filho deles de novo, iam se queixar às autoridades e fariam com que eu fosse “internado”. Expliquei pra mamãe e ela entendeu, mas ficou preocupada. Disse que como agora eu era muito grande, tinha de me controlar, pois podia machucar alguém. Concordei com a cabeça e prometi não machucar mais ninguém. A noite, quando eu tava deitado, escutei ela chorando baixinho no quarto.
Mas o que fiz naquele garoto — bater no topo da cabeça dele — trouxe uma nova luz à maneira de eu jogar o futebol. No dia seguinte, pedi ao técnico Fellers para levar a bola direto e ele concordou, e passei por quatro ou cinco caras até ter espaço e todos eles recomeçarem a correr atrás de mim. Nesse ano participei do campeonato no All State Football. Mal podia acreditar. Minha mãe me deu dois pares de meias e uma camisa nova no meu aniversário. E ela economizou e comprou um terno novo pra mim, que vesti para receber o prêmio do All State Football. Foi meu primeiro terno. Mamãe deu o laço na minha gravata e eu saí.

Winston Groom, in Forrest Gump