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09/08/2026

Correndo para a existência

Algumas coisas estão correndo para a existência e outras se retirando dela apressadamente. Parte do que está surgindo já se extinguiu. O movimento e a mudança continuamente renovam o mundo, enquanto o ininterrupto curso do tempo renova as eras. Neste fluxo, no qual nada permanece, quais coisas o homem deveria precificar mais alto?
É como se apaixonar por pardais que voam e somem de vista. É como a própria vida de cada homem, a exalação do sangue e o respiro do ar. Inspiramos e expiramos a todo instante, e o mesmo ocorre com a capacidade de respiração: nós a adquirimos ao nascer ontem e anteontem e a devolvemos ao elemento de onde a aspiramos inicialmente.

Marco Aurélio, em Meditações

06/08/2026

Alma racional e universal

A maioria das coisas que a multidão admira são comuns, mantidas íntegras por coesão ou por uma organização natural, como pedras, madeira, figueiras, videiras e oliveiras. Já os homens um pouco mais razoáveis admiram aquelas que são unidas por um princípio vivo, como rebanhos e manadas. Homens ainda mais instruídos apreciam as que são unificadas pela alma racional — pela racional, e não pela universal, pois ela é uma alma hábil em alguma arte e especialista em algo ou, simplesmente, porque possui uma série de escravos. Por último, aquele que valoriza a alma racional — universal e adequada para a vida política — não considera nada acima de manter sua alma em condições e atividades compatíveis com a razão e a vida social e coopera com seus semelhantes para esse fim.

Marco Aurélio, em Meditações

02/08/2026

A natureza do universo

Tudo é realizado em conformidade com a natureza do universo, não com outra — seja esta uma que a compreende, uma que é compreendida por ela ou uma externa e independente.

Marco Aurélio, em Meditações

29/07/2026

Faculdade hegemônica

A faculdade hegemônica desperta e dirige a si mesma. Ao passo que faz de si tal como é e como quer ser, faz das coisas que se apresentam tal como deseja.

Marco Aurélio, em Meditações

24/07/2026

Substância do universo

A substância do universo é obediente e complacente. A razão que o governa não tem motivo para fazer o mal, pois não tem malícia. Não prejudica, nem é prejudicada. É responsável pela criação e pelo aperfeiçoamento de tudo.

Marco Aurélio, em Meditações

20/07/2026

Bem comum

Se isto não é a minha própria maldade ou um efeito dela e o bem comum não está ferido, por que estou preocupado? Qual é o dano ao bem comum?

Marco Aurélio, em Meditações

14/07/2026

Habilidade e conhecimento

Por que almas desqualificadas e ignorantes perturbam quem é hábil e conhecedor? Qual alma, então, detém habilidade e conhecimento? É aquela que identifica o início e o fim, que conhece a razão que permeia toda a substância e que, pela eternidade, administra o todo mediante períodos fixados.

Marco Aurélio, em Meditações

05/07/2026

Acerca da conduta

Como se comportou até então perante os deuses, seus pais, irmãos, filhos e professores e perante aqueles que viram você crescer — seus amigos, parentes e escravos? Reflita se sua conduta é digna do ditado: “Nunca ofendeu ninguém com ações ou palavras.”
Recorde-se de tudo que passou e suportou; das belezas que viu; dos prazeres e das dores que desprezou; das honrarias que rejeitou; das tantas vezes que se mostrou amável para pessoas mal-intencionadas. Lembre-se que a história da sua vida está completa e que seu serviço acabou.

Marco Aurélio, em Meditações

25/06/2026

Livro XI | 18

I. Devo considerar o meu vínculo com os homens e que fomos feitos uns para os outros. Sob outra perspectiva, fui concebido para pastorar, como um carneiro que chefia o rebanho ou um touro que conduz a manada. Devo examinar a questão a partir das primeiras convicções: caso não existam somente átomos, a natureza ordena tudo. Assim sendo, as coisas inferiores existem para o benefício das superiores, e essas para o bem umas das outras.
II. Devo avaliar quais tipos de homens são na mesa, na cama e assim por diante. Particularmente, a quais compulsões estão sujeitos devido às suas opiniões e o quanto se orgulham das suas ações.
III. Caso os homens façam o que é certo, não devemos nos descontentar. Caso não, agem por falta de consciência e por ignorância. Nenhuma alma é voluntariamente privada da verdade ou tolhida da aptidão para lidar com os homens conforme seus méritos. Esse é o motivo de se chatearem quando são chamados de injustos, ingratos e gananciosos e, em especial, malfeitores dentre seus vizinhos.
IV. Também erro e sou um homem como qualquer outro. Embora não incorra em certas falhas, ainda estou inclinado a cometê-las — mesmo que a covardia, o apego à reputação ou outras motivações vis me previnam de falhar.
V. Nem sequer sei se os homens estão agindo errado ou não, porque muitas ações são realizadas proporcionalmente às circunstâncias. Um homem precisa saber muito para ser capaz de julgar corretamente as ações do outro.
VI.Caso esteja aborrecido ou aflito, devo ponderar: a vida do homem é um breve instante e logo estaremos todos mortos.
VII. O que nos perturba não são os atos dos homens — pois esses se fundamentam nas suas faculdades hegemônicas —, mas sim nossas próprias opiniões acerca dos atos. Portanto, remova a sua opinião. Pare de julgar um ato como doloroso e sua dor cessará.
Como, então, remover essas opiniões?”
Basta reconhecer que nenhum ato errôneo sofrido por você é vergonhoso. Afinal de contas, se o que é vergonhoso fosse apenas mau, você cometeria muitos erros, seria um ladrão e tudo mais.
VIII. A dor é causada mais pela cólera e pelo aborrecimento em resposta aos atos do que pelos atos em si.
IX. Uma boa disposição é invencível quando é genuína—quando o sorriso não é falso ou fingido. Não há nada que o homem mais violento possa fazer caso você continue tratando-o gentilmente, admoestando-o e calmamente corrigindo-o quando tentar prejudicá-lo. Diga a ele: “Não é assim, meu filho. Fomos constituídos por natureza para outro propósito. Você prejudica não a mim, mas a você mesmo.” Mostre-o, com tato e recorrendo a convicções abrangentes, que nem as abelhas nem quaisquer animais gregários agem como ele. Você deve se dirigir a ele de modo afetuoso, sem sarcasmo ou reprimenda e sem guardar rancor na sua alma. Você deve admoestá-lo não como se fosse um professor ou como se pretendesse impressionar espectadores, mas sim como se ele estivesse sozinho — ainda que outros estejam presentes.
Receba essas nove regras como se fossem dádivas das nove Musas.
Comece, enquanto ainda vive, a ser um homem. Evite, na mesma medida,tagarelar e se aborrecer com os outros, porque ambos são comportamentos antissociais e danosos. Quando encolerizado, retenha esta verdade: ser movido pela paixão não é viril. A brandura e a gentileza, por estarem mais em consonância com a natureza humana, são mais viris. Quem possui essas duas qualidades demonstra força, nervos e coragem, diferente do homem sujeito ao ímpeto da paixão e do descontentamento. Ao passo que se liberta das paixões, o homem se fortalece. A raiva é uma característica da fraqueza tanto quanto o sofrimento. Quem cede à ira está tão ferido e rendido quanto quem cede à dor.
Por fim, caso queira, receba uma décima dádiva do líder das Musas:
X. Esperar que homens maus não façam o mal é insanidade, pois significa expectar o impossível. Permitir que se comportem dessa maneira com o outro mas não com você é irracional e tirânico.

Marco Aurélio, em Meditações

17/06/2026

De acordo com a natureza

A capacidade de viver da melhor maneira está na sua alma. Basta ser indiferente às coisas indiferentes. Adquirirá a indiferença ao observá-las isoladas e juntas, ao se lembrar de que nenhuma produz em nós opiniões sobre si mesmas, e ao notar que nenhuma vêm até nós. Permanecem inertes. Somos nós que produzimos julgamentos sobre elas e, por assim dizer, inscrevemo-nos em nós mesmos. Todavia, está em nosso poder não os inscrever e apagá-los, caso, porventura, invadam nossas mentes de forma imperceptível. Lembre-se que, em breve, nossa atenção e, logo depois, nossa vida chegarão ao fim.
Além do mais, qual é a dificuldade de agir assim quanto a essas coisas? Caso estejam de acordo com a natureza, alegre-se e elas serão fáceis para você. Caso estejam contrárias, procure pelas consoantes e se esforce para achá-las, ainda que não tragam reputação. Todo homem tem a permissão para buscar o seu próprio bem.

Marco Aurélio, em Meditações

12/06/2026

Acerca do lobo e do cordeiro

Quão corrupto e falso é quem afirma: “Estou decidido a tratar você de um modo justo!” O que você está fazendo? Não há porque fazer tal afirmação. Em breve você se manifestará por meio dos seus atos. Está escrito claramente na sua testa. Qualquer que seja seu caráter, está claro no seu olhar—bem como tudo está nos olhos dos amantes, lidos por quem é amado. O homem honesto e bom é como aquele cujo cheiro é forte: quem se aproxima sente, mesmo se não quiser. Já a presunção da simplicidade é como uma vara torta. Nada é mais vergonhoso do que uma amizade entre um lobo e um cordeiro. Evite-a ao máximo. O bom, o simples e o benevolente são visíveis pelo olhar e não deixam dúvidas.

Marco Aurélio, em Meditações

07/06/2026

Desprezo e bajulação

Os homens desprezam uns aos outros, porém se bajulam. Desejam se elevar, porém se rebaixam.

Marco Aurélio, em Meditações

29/05/2026

Natureza e Arte

Nenhuma natureza é inferior à arte, pois as artes imitam as naturezas das coisas. Sendo assim, a natureza mais perfeita e abrangente não pode carecer da maestria artística. Agora, todas as artes criam o inferior em prol do superior. Portanto, a natureza universal também o faz.
Nisso está a origem da justiça, e nela as outras virtudes se fundamentam. Afinal, não é possível ser justo ao valorizar as coisas indiferentes, ao ser facilmente iludido e ao ser descuidado e instável.

Marco Aurélio, em Meditações

26/05/2026

Vigie

Quem tenta obstruir o seu caminho quando você prossegue em concordância com a razão reta é incapaz de desviá-lo da ação apropriada. Por conseguinte, impeça-o de distanciá-lo da sua benevolência em relação a ele.
Vigie não apenas a firmeza dos seus julgamentos e das suas ações, como também a sua gentileza com quem tenta obstrui-lo ou impedi-lo de qualquer jeito. Aborrecer-se é uma fraqueza tanto quanto se desviar da ação adequada e ceder ao medo. Enfim, ambos são igualmente desertores dos seus cargos: o homem motivado pelo temor e o afastado de quem é, por natureza, um parente e amigo.

Marco Aurélio, em Meditações

22/05/2026

O caule e a mente

Um ramo podado de um galho adjacente foi, necessariamente, cortado de toda a árvore. Da mesma maneira, o homem se separa de toda a comunidade social ao se apartar do outro. Enquanto aquele é podado, este se aparta quando odeia ou se afasta do seu vizinho. Ademais, não percebe a simultânea separação entre ele e o sistema social germinada pelo seu ato.
Não obstante, esse homem é privilegiado por Zeus, quem estruturou a sociedade, porque está em nosso poder nos aproximar e nos incorporar ao todo. No entanto, caso a divisão aconteça com frequência, a parte que se dividiu terá dificuldade para se somar à unidade e se restaurar à condição anterior. Afinal, o galho que brotou e se sustentou na árvore desde o início não é como o que foi enxertado. Como os jardineiros dizem: “O caule é o mesmo, porém a mente é outra.”

Marco Aurélio, em Meditações

18/05/2026

Filosofar

É evidente: não há outra condição de vida tão adequada para filosofar como essa em que você agora vive.

Marco Aurélio, em Meditações

13/05/2026

“Ó Citéron!”

No início, as tragédias foram trazidas para os palcos como um meio para lembrar os homens dos acontecimentos, da naturalidade dos fatos e de que, caso os episódios sejam encantadores naquele estreito palco, não devem ser preocupantes neste vasto. Diante disso, você observou a necessidade de tudo ocorrer como ocorre e de tudo precisar ser suportado inclusive por quem clama: “Ó Citéron!”
De fato, certas sentenças foram bem redigidas pelos dramaturgos. Alguns exemplos, dentre vários outros:

Se eu e os meus filhos os deuses negligenciam,
Também há uma razão.”

Não devemos nos irritar e nos desgastar com os eventos.”

A colheita da vida deve ser como ceifar uma frutífera espiga de trigo.”

Depois da tragédia, foi introduzida a comédia antiga, caracterizada pela magistral liberdade de expressão. Devido à franqueza, era um útil lembrete de precaução contra a insolência. Tal peculiaridade foi adotada por Diógenes para fins similares.
Em seguida, veio a comédia intermediária. Identifique a sua essência. Por último, a nova. Repare a sua finalidade inicial, eventualmente reduzida a um mero artifício de mímica. Todos reconhecem a existência de boas passagens até mesmo desses escritores. Contudo, considerando a abordagem geral, para qual objetivo mirava toda a poesia e a dramaturgia?

Marco Aurélio, em Meditações

09/05/2026

Ser bom

Qual é a sua arte? Ser bom. Como essa é bem realizada, senão mediante teoremas gerais — alguns referentes à natureza universal e outros à constituição típica do homem?

Marco Aurélio, em Meditações

05/05/2026

Interesse geral

Agi pelo interesse geral? Bem, fui recompensado! Mantenha isso em mente, e nunca pare de realizar tais ações.

Marco Aurélio, em Meditações

30/04/2026

Alma pronta

Uma alma pronta está preparada para se extinguir, dispersar-se ou subsistir caso seja, a qualquer altura, separada do corpo. Essa prontidão precisa resultar do próprio julgamento do homem, não da mera obstinação — feito os cristãos. Precisa ser ponderada, digna e persuasiva, mas não dramática.

Marco Aurélio, em Meditações