I. Devo considerar o meu vínculo com
os homens e que fomos feitos uns para os outros. Sob outra
perspectiva, fui concebido para pastorar, como um carneiro que chefia
o rebanho ou um touro que conduz a manada. Devo examinar a questão a
partir das primeiras convicções: caso não existam somente átomos,
a natureza ordena tudo. Assim sendo, as coisas inferiores existem
para o benefício das superiores, e essas para o bem umas das outras.
II. Devo avaliar quais tipos de homens
são na mesa, na cama e assim por diante. Particularmente, a quais
compulsões estão sujeitos devido às suas opiniões e o quanto se
orgulham das suas ações.
III. Caso os homens façam o que é
certo, não devemos nos descontentar. Caso não, agem por falta de
consciência e por ignorância. Nenhuma alma é voluntariamente
privada da verdade ou tolhida da aptidão para lidar com os homens
conforme seus méritos. Esse é o motivo de se chatearem quando são
chamados de injustos, ingratos e gananciosos e, em especial,
malfeitores dentre seus vizinhos.
IV. Também erro e sou um homem como
qualquer outro. Embora não incorra em certas falhas, ainda estou
inclinado a cometê-las — mesmo que a covardia, o apego à
reputação ou outras motivações vis me previnam de falhar.
V. Nem sequer sei se os homens estão
agindo errado ou não, porque muitas ações são realizadas
proporcionalmente às circunstâncias. Um homem precisa saber muito
para ser capaz de julgar corretamente as ações do outro.
VI.Caso esteja aborrecido ou aflito,
devo ponderar: a vida do homem é um breve instante e logo estaremos
todos mortos.
VII. O que nos perturba não são os
atos dos homens — pois esses se fundamentam nas suas faculdades
hegemônicas —, mas sim nossas próprias opiniões acerca dos atos.
Portanto, remova a sua opinião. Pare de julgar um ato como doloroso
e sua dor cessará.
“Como, então, remover essas
opiniões?”
Basta reconhecer que nenhum ato
errôneo sofrido por você é vergonhoso. Afinal de contas, se o que
é vergonhoso fosse apenas mau, você cometeria muitos erros, seria
um ladrão e tudo mais.
VIII. A dor é causada mais pela
cólera e pelo aborrecimento em resposta aos atos do que pelos atos
em si.
IX. Uma boa disposição é invencível
quando é genuína—quando o sorriso não é falso ou fingido. Não
há nada que o homem mais violento possa fazer caso você continue
tratando-o gentilmente, admoestando-o e calmamente corrigindo-o
quando tentar prejudicá-lo. Diga a ele: “Não é assim, meu filho.
Fomos constituídos por natureza para outro propósito. Você
prejudica não a mim, mas a você mesmo.” Mostre-o, com tato e
recorrendo a convicções abrangentes, que nem as abelhas nem
quaisquer animais gregários agem como ele. Você deve se dirigir a
ele de modo afetuoso, sem sarcasmo ou reprimenda e sem guardar rancor
na sua alma. Você deve admoestá-lo não como se fosse um professor
ou como se pretendesse impressionar espectadores, mas sim como se ele
estivesse sozinho — ainda que outros estejam presentes.
Receba essas nove regras como se
fossem dádivas das nove Musas.
Comece, enquanto ainda vive, a ser um
homem. Evite, na mesma medida,tagarelar e se aborrecer com os outros,
porque ambos são comportamentos antissociais e danosos. Quando
encolerizado, retenha esta verdade: ser movido pela paixão não é
viril. A brandura e a gentileza, por estarem mais em consonância com
a natureza humana, são mais viris. Quem possui essas duas qualidades
demonstra força, nervos e coragem, diferente do homem sujeito ao
ímpeto da paixão e do descontentamento. Ao passo que se liberta das
paixões, o homem se fortalece. A raiva é uma característica da
fraqueza tanto quanto o sofrimento. Quem cede à ira está tão
ferido e rendido quanto quem cede à dor.
Por fim, caso queira, receba uma
décima dádiva do líder das Musas:
X. Esperar que homens maus não façam
o mal é insanidade, pois significa expectar o impossível. Permitir
que se comportem dessa maneira com o outro mas não com você é
irracional e tirânico.
Marco Aurélio, em Meditações
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