25/06/2026

Livro XI | 18

I. Devo considerar o meu vínculo com os homens e que fomos feitos uns para os outros. Sob outra perspectiva, fui concebido para pastorar, como um carneiro que chefia o rebanho ou um touro que conduz a manada. Devo examinar a questão a partir das primeiras convicções: caso não existam somente átomos, a natureza ordena tudo. Assim sendo, as coisas inferiores existem para o benefício das superiores, e essas para o bem umas das outras.
II. Devo avaliar quais tipos de homens são na mesa, na cama e assim por diante. Particularmente, a quais compulsões estão sujeitos devido às suas opiniões e o quanto se orgulham das suas ações.
III. Caso os homens façam o que é certo, não devemos nos descontentar. Caso não, agem por falta de consciência e por ignorância. Nenhuma alma é voluntariamente privada da verdade ou tolhida da aptidão para lidar com os homens conforme seus méritos. Esse é o motivo de se chatearem quando são chamados de injustos, ingratos e gananciosos e, em especial, malfeitores dentre seus vizinhos.
IV. Também erro e sou um homem como qualquer outro. Embora não incorra em certas falhas, ainda estou inclinado a cometê-las — mesmo que a covardia, o apego à reputação ou outras motivações vis me previnam de falhar.
V. Nem sequer sei se os homens estão agindo errado ou não, porque muitas ações são realizadas proporcionalmente às circunstâncias. Um homem precisa saber muito para ser capaz de julgar corretamente as ações do outro.
VI.Caso esteja aborrecido ou aflito, devo ponderar: a vida do homem é um breve instante e logo estaremos todos mortos.
VII. O que nos perturba não são os atos dos homens — pois esses se fundamentam nas suas faculdades hegemônicas —, mas sim nossas próprias opiniões acerca dos atos. Portanto, remova a sua opinião. Pare de julgar um ato como doloroso e sua dor cessará.
Como, então, remover essas opiniões?”
Basta reconhecer que nenhum ato errôneo sofrido por você é vergonhoso. Afinal de contas, se o que é vergonhoso fosse apenas mau, você cometeria muitos erros, seria um ladrão e tudo mais.
VIII. A dor é causada mais pela cólera e pelo aborrecimento em resposta aos atos do que pelos atos em si.
IX. Uma boa disposição é invencível quando é genuína—quando o sorriso não é falso ou fingido. Não há nada que o homem mais violento possa fazer caso você continue tratando-o gentilmente, admoestando-o e calmamente corrigindo-o quando tentar prejudicá-lo. Diga a ele: “Não é assim, meu filho. Fomos constituídos por natureza para outro propósito. Você prejudica não a mim, mas a você mesmo.” Mostre-o, com tato e recorrendo a convicções abrangentes, que nem as abelhas nem quaisquer animais gregários agem como ele. Você deve se dirigir a ele de modo afetuoso, sem sarcasmo ou reprimenda e sem guardar rancor na sua alma. Você deve admoestá-lo não como se fosse um professor ou como se pretendesse impressionar espectadores, mas sim como se ele estivesse sozinho — ainda que outros estejam presentes.
Receba essas nove regras como se fossem dádivas das nove Musas.
Comece, enquanto ainda vive, a ser um homem. Evite, na mesma medida,tagarelar e se aborrecer com os outros, porque ambos são comportamentos antissociais e danosos. Quando encolerizado, retenha esta verdade: ser movido pela paixão não é viril. A brandura e a gentileza, por estarem mais em consonância com a natureza humana, são mais viris. Quem possui essas duas qualidades demonstra força, nervos e coragem, diferente do homem sujeito ao ímpeto da paixão e do descontentamento. Ao passo que se liberta das paixões, o homem se fortalece. A raiva é uma característica da fraqueza tanto quanto o sofrimento. Quem cede à ira está tão ferido e rendido quanto quem cede à dor.
Por fim, caso queira, receba uma décima dádiva do líder das Musas:
X. Esperar que homens maus não façam o mal é insanidade, pois significa expectar o impossível. Permitir que se comportem dessa maneira com o outro mas não com você é irracional e tirânico.

Marco Aurélio, em Meditações

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