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20/11/2025

— Vade retro, Satana!


[…]


O que eu quero é morrer — disse ela.
Te sentes furiosa e derrotada, como me sinto eu por não poder te ajudar — disse ele. — Mas Deus há de nos gratificar no dia da ressurreição.
Tirou o colar de Odudua que Sierva María lhe dera e o pôs nela, em lugar dos que haviam tirado.
Estenderam-se na cama, lado a lado, e partilharam seus rancores, enquanto o mundo se apagava e só ia ficando a nervura do cupim no madeirame do teto. A febre cedeu. Cayetano falou no escuro.
No Apocalipse está anunciado um dia que não amanhecerá nunca — disse. — Queira Deus que seja hoje.
Sierva María tinha dormido uma hora depois que Cayetano saiu, quando um barulho novo a acordou. Diante dela, acompanhado pela abadessa, estava um padre velho de estatura imponente, a pele parda curtida pelo salitre, com a testa de crinas em pé, as sobrancelhas hirsutas, as mãos de camponês e uns olhos que convidavam à confiança. Antes que Sierva María acabasse de acordar, o padre falou em língua ioruba.
Trago teus colares.
Tirou-os do bolso, tais como a ecônoma do convento os havia devolvido por exigência dela. À medida que os punha no pescoço de Sierva Maria, ia enumerando-os e definindo em línguas africanas: o vermelho e branco do amor e do sangue de Xangô, o vermelho e negro da vida e morte de Exu, as sete contas de água e azul pálido de Iemanjá.
Passava com facilidade do ioruba ao congo e do congo ao mandinga, e ela o acompanhava com graça e fluidez. Se no fim passou ao castelhano foi por mera consideração com a abadessa, que não acreditava que Sierva María fosse capaz de tanta doçura.
Era o padre Tomás de Aquino de Narváez, ex-fiscal do Santo Ofício em Sevilha e pároco do bairro dos escravos, escolhido pelo bispo para substituí-lo nos exorcismos, em seus impedimentos por motivo de saúde. Sua fama de homem duro não deixava lugar a dúvidas. Tinha levado à fogueira onze hereges, judeus e maometanos, mas seu crédito se baseava sobretudo nas almas generosas que conseguira arrebatar aos demônios mais astuciosos da Andaluzia. Era refinado de gostos e maneiras e tinha a fala suave dos canarinos. Nascera aqui, filho de um procurador do rei que desposou uma escrava quadrarona, e fizera seu noviciado no seminário local, depois de demonstrada a limpeza de linhagem por quatro gerações de brancos. Suas boas qualificações lhe asseguraram o doutorado em Sevilha, onde viveu e pregou até os cinquenta anos. De regresso à terra, pediu a paróquia mais humilde, apaixonou-se pela religião e pelas línguas africanas e viveu como mais um escravo entre os escravos. Ninguém parecia mais talhado para se entender com Sierva María e com mais autoridade para enfrentar seus demônios.
Sierva María o reconheceu na hora como um arcanjo de salvação, e não se enganou. Na presença dela, desarticulou os argumentos das atas e demonstrou à abadessa que nenhum deles era terminante.
Ensinou-lhe que os demônios da América eram os mesmos da Europa, só que sua advocação e sua conduta eram diferentes. Explicou-lhe as quatro regras usadas para reconhecer a possessão demoníaca e lhe fez ver como era mais fácil ao demônio valer-se delas para que se acreditasse o contrário. Despediu-se de Sierva María com um beliscão de carinho na bochecha.
Dorme sossegada — disse. -Já andei às voltas com inimigos piores.
A abadessa ficou tão contente que o convidou para o famoso chocolate perfumado das clarissas com biscoitinhos de anis e para as maravilhas de pastelaria reservadas aos eleitos. Enquanto o tomavam no refeitório privado, ele deu instruções para os passos seguintes. A abadessa as aceitou de bom grado.
Não tenho nenhum interesse em que essa infeliz se saia bem ou mal — disse. — Só quero que vá embora o quanto antes deste convento.
O padre prometeu que se empenharia ao máximo para que fosse questão de dias, talvez de horas. Ao despedir-se no parlatório, ambos satisfeitos, nem um nem outro podiam imaginar que nunca mais tornariam a ver-se.
Assim aconteceu — o padre Aquino, como o chamavam seus paroquianos, foi a pé para sua igreja, pois havia tempo que rezava pouco, e compensava a falta diante de Deus revivendo a cada dia o martírio de suas saudades. Demorou-se nos portais, atordoado com os pregões dos vendedores de tudo, à espera de que baixasse o sol para atravessar a lamaceira do porto. Comprou os doces mais baratos e uma fração da loteria dos pobres, com a esperança incorrigível de ganhar para restaurar seu templo perdulário. Entreteve-se uma meia hora conversando com as matronas negras, sentadas como ídolos monumentais diante das miudezas de artesanato expostas no chão em cima de esteiras de juta. Por volta das cinco, atravessou a ponte levadiça de Getsemaní, onde acabavam de pendurar o cadáver de um cachorro gordo e sinistro para se saber que tinha morrido de raiva. O ar cheirava a rosas, e o céu era o mais diáfano do mundo.
O bairro dos escravos, bem à beira do manguezal, tremia de miséria.
Nos barracões de barro com tetos de palma, eles conviviam com urubus e porcos, e as crianças bebiam água das poças nas ruas. Apesar disso, era o bairro mais alegre, de cores intensas e vozes radiantes, ainda mais ao entardecer, quando punham de fora as cadeiras para gozar a fresca no meio da rua. O vigário distribuiu os doces entre os meninos do mangue e levou três para jantarem com ele.
A igreja era um rancho de pau-a-pique com teto de palma amarga e uma cruz de madeira na cumeeira. Tinha bancos de tabuões maciços, um só altar com um só santo e um púlpito de madeira onde o vigário pregava aos domingos em línguas africanas. A casa paroquial era um prolongamento da igreja por trás do altar-mor, onde o vigário vivia em condições da maior pobreza, num quarto com uma cama-de-vento e uma cadeira tosca. Ao fundo havia um patiozinho pedregoso e um caramanchão de parreiras com cachos murchos, e uma cerca de espinhos que o separava do mangue. A única água de beber era a de um poço de argamassa a um canto do pátio.
Um sacristão velho e uma menina órfã de quatorze anos, ambos mandingas conversos, ajudavam na igreja e na casa, mas eram dispensados depois do rosário. Antes de fechar a porta, o pároco comeu os três últimos doces acompanhados de um copo d'água e despediu-se dos vizinhos sentados na rua com sua fórmula habitual em castelhano.
Boas e santas noites conceda Deus a todos.
Às quatro da manhã o sacristão que morava a um quarteirão da igreja deu os primeiros toques para a missa única. Antes das cinco, como o Padre demorava, foi procurá-lo no quarto. Não estava.
Também no pátio não o achou. Continuou a procurá-lo nos arredores, porque às vezes ia conversar muito cedo nos pátios vizinhos. Não o encontrou. Aos poucos paroquianos que apareceram, anunciou que não havia missa porque não achavam o vigário. Às oito, já com, o sol quente, a menina empregada foi tirar água do poço, e lá estava O padre Aquino, boiando de barriga para cima com as calças que vestira para dormir. Foi uma morte triste e muito sentida, um mistério que nunca se esclareceu e que a abadessa proclamou como prova terminante da hostilidade do demônio ao seu convento.
A noticia não chegou a cela de Sierva María, que ficou esperando o padre numa expectativa inocente. Não soube explicar a Cayetano como era ele, mas se disse agradecida pela devolução dos colares e pela promessa de resgatá-la. Até então parecera a ambos que o amor bastava para serem felizes.
Foi Sierva María quem compreendeu, desenganada pelo padre Aquino, que a liberdade só dependia deles mesmos. Uma madrugada, depois de longas horas de beijos, implorou a Delaura que não fosse embora. Ele não a levou a sério e despediu-se com mais um beijo. Ela pulou da cama e postou-se diante da porta, de braços abertos.
Ou não vai ou eu vou junto.
Tinha dito a Cayetano, um dia, que gostaria de se refugiar com ele em San Basílio de Palenque, uma aldeia de escravos fugidos a doze léguas dali, onde com certeza seria recebida como uma rainha. Cayetano achou a ideia providencial, mas não a relacionou com a fuga.
Confiava mais em formalismos legais. Esperava que o marquês recuperasse a filha com a comprovação indiscutível de que não estava possuída, e que viriam o perdão e a licença de seu bispo para que ele se integrasse numa comunidade civil onde os casamentos de padres ou de freiras eram tão frequentes que não escandalizavam ninguém. Assim, quando Sierva Maria o colocou diante do dilema de ficar ou levá-la junto, Delaura tratou mais uma vez de distraí-la.
Ela se pendurou ao seu pescoço e ameaçou gritar. Estava amanhecendo.
Assustado, Delaura conseguiu livrar-se com um repelão e escapou no momento em que começavam as matinas A reação de Sierva María foi feroz. Por uma contrariedade banal, arranhou a cara da guardiã, fechou-se com a tranca e ameaçou pôr fogo na cela e incinerar-se ali se não a deixassem ir embora. A guardiã, fora de si por causa do sangue na cara, gritou: — Experimenta só, besta de Belzebu. fogo Como única resposta, Sierva Maria tocou no colchão com a lamparina do Santíssimo. A intervenção de Martina, com seu jeito tranquilizador, impediu a tragédia. Assim mesmo, a guardiã pediu no seu relatório daquele dia que a menina fosse transferida para uma cela mais segura no pavilhão das enclausuradas.
A ansiedade de Sierva María apressou Cayetano a encontrar uma saída imediata que não fosse a fuga. Em duas ocasiões, tentou se avistar com o marques e em ambas foi barrado pelos mastins, que encontrou soltos e à vontade na casa sem dono. A verdade era que o marquês não voltara a viver lá. Vencido por seus medos intermináveis, procurara refugiar-se junto a Dulce Olivia, mas esta não o recebeu. Chamou-a por todos os meios possíveis desde que começaram as suas solidões e só obteve respostas de escárnio em gaivotas de papel. De repente apareceu sem ser chamada e sem se anunciar. Varrera e arrumara a cozinha, inservível por falta de uso, e a panela borbulhava a fogo alegre no fogão. Vestia roupa de domingo, com enfeites de organdi, coberta de adereços e bálsamos da moda, e a única coisa que tinha de louca era um chapéu de abas largas com peixes e passarinhos de pano.
Muito obrigado por teres vindo — disse o marquês. — Eu me sentia muito só. — E concluiu com um lamento: — Perdi Sierva.
A culpa é tua — disse ela, sem dar importância. — Fizeste tudo para que ela se perdesse.
O jantar foi um cozido à moda nativa, com três tipos de carne e o melhor da horta. Dulce Olivia o serviu com maneiras de dona de casa que combinavam muito bem com o seu traje. Os cachorros bravos a seguiam ofegantes, se embarafustavam entre suas pernas, e ela os tratava com sussurros de noiva. Sentou-se à mesa diante do marquês, como poderia ter acontecido quando eram jovens e não tinham medo do amor. Comeram em silêncio, sem se olhar, suando em bicas e tomando a sopa com um desinteresse de casal velho. Depois do primeiro prato, Dulce Olivia fez uma pausa para suspirar e tomou consciência dos seus anos.
Assim teríamos sido — disse.
Sua crueza contagiou o marquês. Viu-a gorda e envelhecida, com dois dentes faltando e os olhos murchos. Assim teriam sido, talvez, se ele tivesse tido coragem de contrariar o pai.
Estás parecendo em teu juízo normal — disse.
Sempre estive — disse ela. — Tu é que nunca me viste como sou.
Eu te distingui no baile quando todas eram moças e bonitas e era difícil distinguir a melhor disse ele.
Eu me distingui a mim mesma para ti — disse ela. — Tu, não. Sempre foste como agora: um pobre-diabo.
Me insultas em minha própria casa — disse ele.
A iminência da briga excitou Dulce Olivia.
É tão minha como tua — disse. — Como também é minha a menina, apesar de ter sido parida por uma cadela. E sem dar tempo à réplica, concluiu: — E o pior são as mãos malvadas em que a entregaste.
As mãos de Deus — disse ele.
Dulce Olivia berrou enfurecida: — As mãos do bispo, que a deixou acabar puta e prenha.
Se morderes a língua, morres envenenada! gritou o marquês, horrorizado.
Sagunta aumenta, mas não mente — disse Dulce Olivia. — E não tentes me humilhar, porque só resto eu para te empoar a cara quando morreres.
Era o final de sempre. Suas lágrimas começaram a cair no prato como se fossem grandes gotas de sopa. Os cães tinham dormido, mas quando a tensão da briga os despertou, levantaram as cabeças alertas e grunhiram com a garganta. O marquês sentiu que o ar lhe faltava.
Estás vendo? — disse, furioso. — É assim que teríamos sido.
Ela se levantou sem terminar. Deixou a mesa, lavou pratos e panelas com uma raiva sórdida, e à medida que lavava ia quebrando a louça na pia. Ele a deixou chorar, até que esvaziou os destroços das vasilhas como uma avalancha de granizo no caixote de lixo. Saiu sem se despedir.
O marquês nunca soube, nem ninguém soube, em que momento Dulce Olivia deixara de ser ela própria e só continuava sendo uma aparição nas noites da casa.
O boato falso de que Cayetano Delaura era filho do bispo substituíra o mais antigo de que eram amantes desde Salamanca. A versão de Dulce Olivia, confirmada e pervertida por Sagunta, dizia com efeito que Sierva María estava sequestrada no convento para saciar os apetites satânicos de Cayetano de Delaura e que tinha concebido um filho de duas cabeças. Suas bacanais, dizia Sagunta, contaminaram toda a comunidade das clarissas.
O marquês nunca mais se refez. De rastos no pantanal da memória, procurou um abrigo contra o terror e só encontrou a lembrança de Bernarda engrandecida pela solidão. Procurou conjurá-la com as coisas que mais odiava nela, suas ventosidades fedorentas, suas respostas ríspidas, seus joanetes de galo, e quanto mais queria aviltá-la mais suas recordações a idealizavam. Derrotado pelas saudades, mandou-lhe recados de sondagem para o trapiche de Mahates, onde supunha que ela estivesse, e de fato estava. Mandou dizer que esquecesse os rancores e voltasse para casa, para que os dois tivessem ao menos com quem morrer. Não recebendo resposta, foi procurá-la.
Teve que remontar os afluentes da memória. A fazenda, que tinha sido a melhor do vice-reinado, estava reduzida a nada. Era impossível distinguir a estrada no meio do capinzal. Do engenho só restavam as ruínas, as máquinas carcomidas pela ferrugem, as ossadas do trapiche. O poço dos suspiros era a única coisa que parecia com vida à sombra das cuieiras. Antes de vislumbrar a casa entre os restos calcinados dos canaviais, o marquês sentiu o perfume dos sabonetes de Bernarda, que acabou sendo o seu cheiro natural, e só então se deu conta de como estava ansioso por vê-la. Na varanda do pórtico, sentada numa cadeira de balanço e comendo cacau com o olhar imóvel no horizonte, lá estava ela. Vestia uma saia de algodão cor-de-rosa e tinha o cabelo ainda molhado do banho recente no poço dos suspiros.
O marquês cumprimentou-a antes de subir os três degraus do pórtico: "Boa tarde." Bernarda respondeu sem olhar para ele, como se o cumprimento tivesse sido de ninguém. O marquês subiu à varanda e dali percorreu o horizonte completo com um olhar contínuo por cima do capinzal. Até onde a vista alcançava, só se viam morros agrestes para além das cuieiras do poço.
Que fim levou o pessoal? — perguntou.Bernarda, tal como fazia o pai, tomou a responder sem o encarar.
Foram todos embora — disse. — Não há uma criatura viva em cem léguas ao redor.
Ele entrou em busca de uma cadeira. A casa estava deteriorada, e uns arbustos com florezinhas murchas despontavam por entre os tijolos do assoalho. Na sala de jantar estava a mesa antiga com as mesmas cadeiras corroídas pelo cupim, o relógio parado numa hora de quem sabia quando, e em todo o ar havia uma poeira invisível que se sentia ao respirar. O marquês levou uma das cadeiras, sentou perto de Bernarda e falou em voz muito baixa.
Vim por tua causa.
Bernarda não se alterou, mas fez com a cabeça uma afirmação apenas perceptível. Ele contou as condições em que estava: a casa solitária, os escravos à espreita detrás dos arbustos com punhais na mão, as noites intermináveis — Aquilo não é vida — disse.
Nunca foi — disse ela.
Talvez pudesse ser — disse ele.
Não diria isso se soubesse quanto o odeio — disse ela.
Também eu sempre acredite que a odiava — disse ele. — Mas agora me acontece que não tenho certeza disso.
Bernarda lhe abriu então suas entranhas, para que ele se visse dentro à luz do dia. Contou COMO o pai a tinha mandado à casa, com o pretexto dos arenques e das azeitonas, como O enganaram com o velho truque da leitura da mão, como concordaram que ela o violasse quando ele se fazia de desentendido e como tinham planejado a manobra fria e certeira de conceber Sierva Maria para agarrá-lo por toda a vida. A única coisa que ele devia agradecer era ter-lhe faltado coragem para o último ato combinado com o pai: misturar láudano na sopa para não precisar aguentá-lo mais.
Eu mesma me pus a corda no pescoço disse. — Mas não me arrependo.
Seria demais esperar que, além de tudo, eu tivesse que amar essa pobre coitada nascida de sete meses, ou a você, que foi a causa de minha desgraça.
Mas o último degrau de sua ruína tinha sido a perda de Judas Iscariote. Procurando-o em outros, ela se entregou à fornicação desbragada com os escravos do trapiche, que era o que mais nojo lhe dava antes de ousar pela primeira vez. Escolhia-os nas quadrilhas e os despachava em fila indiana na orla dos bananais até que o mel fermentado e as barras de cacau acabaram com os seus encantos, e ela ficou inchada e feia, e o ânimo não lhe chegava para tanto corpo.
Então começou a pagar. Primeiro com bugigangas para os mais moços, segundo a beleza e o calibre, e afinal em ouro puro com os que conseguia. Custou demais a descobrir que fugiam em massa para San Basilio de Palenque, para se porem a salvo de sua voracidade insaciável. — Aí eu senti que era capaz de matá-los a golpes de facão — disse, sem uma lágrima. — E não só eles, mas também você e a menina, e o velhaco do meu Pai e todo aquele que tivesse cagado no meu caminho. Mas não era mais ninguém para matar alguém.
Ficaram em silêncio, contemplando o pôr-do-sol sobre as brenhas.
Ouviu-se no horizonte um tropel de animais remotos, e uma voz de mulher inconsolável os chamou pelos nomes, um por um, até que anoiteceu. O marquês suspirou: — Estou vendo que não tenho nada que lhe agradecer.
Levantou-se sem pressa, tornou a pôr a cadeira no lugar, e foi embora por onde tinha vindo, sem se despedir e sem uma luz. A única coisa que se encontrou dele, dois verões mais tarde, numa estrada sem rumo, foi a ossada carcomida pelos urubus.
Martina Laborde fez aquele dia uma sessão de bordado que durou a manhã inteira, para terminar um trabalho atrasado. Almoçou na cela de Sierva María e de lá foi à sua para fazer a sesta. De tarde, já nos últimos pontos, falou com uma estranha tristeza.
Se um dia saíres desta prisão, ou se eu sair primeiro, lembra-te sempre de mim — disse. — Será a minha única glória.
Sierva María só foi entender no dia seguinte, quando a guardiã a acordou aos berros porque Martina não tinha amanhecido em sua cela.
Revistaram o convento de cabo a rabo e não encontraram um rasto. A única notícia que teve dela foi um papel escrito com sua letra floreada, que Sierva Maria encontrou debaixo do travesseiro: Rezarei três vezes por dia para que sejam muito felizes.
Estava ainda aturdida pela surpresa, quando entrou a abadessa com as vigárias e outras reverendas de infantaria, com uma patrulha de guardas armados de mosquetes. Estendeu uma mão colérica para tocar Sierva Maria e gritou: — És cúmplice e vais ser castigada.
A menina levantou a mão livre com uma decisão que paralisou a abadessa onde estava.
Vi quando saíram.
A abadessa ficou atônita.
Não estava sozinha? — Eram seis — disse Sierva María.
Não parecia possível, e menos ainda que saíssem pelo terraço, cuja única via de escape era o pátio fortificado.
Tinham asas de morcego — disse Sierva María batendo os braços. — Abriram as asas no terraço e a levaram voando, voando, até o outro lado do mar.
O capitão da patrulha se benzeu, espantado, e caiu de joelhos.
Ave Maria Puríssima — disse.
Concebida sem pecado original — disseram em coro.
Foi uma fuga perfeita, planejada por Martina nos mínimos detalhes, em sigilo absoluto, logo que descobriu que Cayetano passava as noites no convento. A única coisa que não previu, ou que não lhe importou, foi que devia fechar por dentro a entrada do túnel para evitar qualquer suspeita. Os que investigavam a fuga o encontraram aberto, o exploraram, descobriram a verdade e vedaram logo as duas extremidades.
Sierva María foi levada à força para uma cela com cadeado no pavilhão das enterradas vivas. Nessa noite, sob um luar esplêndido, Cayetano machucou os punhos tentando derrubar a vedação do túnel.
Arrebatado por uma força louca, correu em busca do marquês. Empurrou o portão sem bater e entrou na casa deserta, cuja luz de dentro era a mesma da rua, porque as paredes caiadas pareciam transparentes ao luar.
A limpeza, a arrumação dos móveis, as flores dos canteiros, tudo era perfeito na casa abandonada. O ranger dos gonzos tinha assanhado os mastins, mas Dulce Olivia os fez calar de chofre com uma ordem marcial.
Cayetano a viu nas sombras verdes do pátio, bela e fosforescente, vestida de marquesa, o cabelo enfeitado com camélias vivas de cheiros frenéticos, e ergueu a mão cruzando o índice e o polegar.
Em nome de Deus, quem é a senhora? perguntou.
Uma alma penada — disse ela. — E o senhor? — Sou Cayetano Delaura — disse ele — e venho pedir de joelhos ao senhor marquês que me ouça por um instante.
Os olhos de Dulce Olivia cintilaram de fúria.
— O senhor marquês me disse que nada tem a ouvir de um rufião.
E quem é a senhora para afirmar isso com tamanha certeza? — Sou a rainha desta casa — disse.
Pelo amor de Deus — disse Delaura. — Avise ao marquês que venho falar da filha dele. — E sem mais rodeios com a mão no peito: — Morro de amor por ela.
Uma palavra mais e solto os cachorros — disse Dulce Olivia indignada, e apontou a porta: — Fora daqui. Era tal a força de sua autoridade que Cayetano deixou a casa andando de costas, sem a perder de vista. Na terça-feira, quando Abrenuncio entrou em seu cubículo do hospital, encontrou Delaura arrasado por suas vigílias mortais. Este contou-lhe tudo, de seu castigo até as noites desde os motivos reais de amor na cela. Abrenuncio ficou perplexo.
Teria imaginado qualquer coisa de você, menos esses extremos de loucura.
Cayetano, por sua vez surpreendido, perguntou: — Nunca passou por isso?
Nunca, meu filho — disse Abrenuncio. — O sexo é um talento que não tenho.
Procurou dissuadi-lo. Disse que o amor era um sentimento contra a natureza, que condenava dois desconhecidos a uma dependência mesquinha e malsã, tanto mais efêmera quanto mais intensa. Mas Cayetano não o ouviu. Sua obsessão era fugir para o mais longe possível do jugo do mundo cristão.
Só o marquês pode nos ajudar com a lei disse. — Quis implorar-lhe de joelhos, mas não o encontrei em casa.
Não o encontrará nunca — disse Abrenuncio. — Os rumores que chegaram a ele dizem que o senhor abusou da menina. E agora vejo que do ponto de vista de um cristão ele está certo. — Fitou-o nos olhos: — Não teme se condenar? — Condenado acho que já estou, mas não pelo Espírito Santo — disse Delaura sem perder a calma. — Sempre acreditei que ele leva em conta mais o amor do que a fé.
Abrenuncio não pôde esconder a admiração que lhe causava aquele homem recém-libertado das servidões da razão. Mas não lhe fez promessas falsas, tanto mais que o Santo Ofício entrava na história.
Vocês têm uma religião da morte que lhes infunde coragem e felicidade para enfrentá-la disse. — Eu não: acredito que a única coisa essencial é estar vivo.
Cayetano correu ao convento. Entrou em pleno dia pela porta de serviço e atravessou o jardim sem cuidado algum, convencido de que o poder da oração o tornava invisível. Subiu ao segundo andar, atravessou um corredor solitário de tetos muito baixos, que ligava os dois blocos do convento, e penetrou no mundo silencioso e rarefeito das enterradas vivas. Sem saber, passou defronte da nova cela onde Sierva María chorava por ele. Estava quase chegando ao Pavilhão da prisão quando um grito às suas costas o deteve: — Alto! Virou-se e viu uma freira com a cara coberta pela mantilha e um crucifixo erguido contra ele. Deu um Passo à frente, mas a freira o barrou com o Cristo, gritando: "Vade retro!" Atrás dele ouviu outra voz: "Vade retro!". E logo outra e outra: "Vade retro!" Girou várias vezes sobre si mesmo e sentiu que estava no centro de um círculo de freiras fantásticas de caras cobertas que o acossavam com seus crucifixos, aos gritos:
Vade retro, Satana! Cayetano chegou ao final de suas forças. Foi posto à disposição do Santo ofício e condenado num julgamento em praça pública que lançou sobre ele suspeitas de heresia e provocou distúrbios populares e controvérsias no seio da Igreja. Por uma graça especial, cumpriu a condenação como enfermeiro no hospital Amor de Deus, onde viveu muitos anos em promiscuidade com os doentes, comendo e dormindo com eles no chão e lavando-se em suas águas usadas, mas não conseguiu, como desejava, contrair lepra.
Sierva María o esperou em vão. No terceiro dia, deixou de comer, numa explosão de rebeldia que agravou os indícios da possessão. O bispo, transtornado com a queda de Cayetano, pela morte indecifrável de padre Aquino, pela repercussão pública de uma desgraça que escapou à sua sabedoria e ao seu poder, reassumiu os exorcismos com uma energia inacreditável para a sua idade e dado o seu estado de saúde. Sierva María, dessa vez com o crânio raspado a navalha e metida em camisa-de-força, o enfrentou com uma ferocidade satânica, falando em línguas ou com uivos de pássaros infernais. No segundo dia houve um bramido imenso de gado em fúria a terra tremeu, e se tomou impossível pensar que Sierva María não estivesse à mercê de todos os demônios do inferno. De volta a cela, aplicaram-lhe uma lavagem de água benta, que era o método francês para expulsar os que pudessem ficar nas entranhas.
A perseguição prosseguiu por mais três dias. Embora sem comer havia uma semana, Sierva María conseguiu livrar uma perna e desfechou com o calcanhar um golpe no baixo-ventre do bispo, que o fez cair. Só então descobriram que pudera se soltar porque seu corpo estava tão descarnado que as correias não o prendiam mais. O escândalo aconselhava interromper os exorcismos, e assim entendeu o Cabido Eclesiástico, mas o bispo se opôs.
Sierva María não soube jamais que fim tinha levado Cayetano Delaura, por que ele não voltou com sua cesta de doces dos portais e suas noites insaciáveis. No dia 29 de maio, sem ânimo para mais nada, tornou a sonhar com a janela dando para um campo nevado onde Cayetano Delaura não estava nem voltaria a estar nunca. Tinha no colo um cacho de uvas douradas que tornavam a brotar logo que as comia. Mas dessa vez não as arrancava uma a uma, e sim de duas em duas, mal respirando na ânsia de acabar com o cacho até a última uva. A guardiã que entrou com a incumbência de prepará-la para a última sessão de exorcismos a encontrou morta de amor na cama, os olhos fulgurantes e pele de recém-nascida. Os fios de cabelo brotavam-lhe como borbulhas no crânio raspado, e era possível vê-los crescer.
FIM

Gabriel Garcia Márquez, em Do Amor e Outros Demônios

12/11/2025

Do Amor e Outros Demônios — Capítulo Cinco


 
O bispo chamou Delaura em capítulo a seu escritório e ouviu sem contemplações sua confissão descarnada e completa como se estivesse oficiando não um sacramento, mas uma diligência judicial.
A única fraqueza que teve para com ele foi manter em segredo sua verdadeira falta, mas cassou-lhe comissões e privilégios sem qualquer explicação pública e mandou-o servir como enfermeiro de leprosos no hospital do Amor de Deus. O padre implorou o consolo de rezar a missa das cinco para os doentes, o que lhe foi concedido.
Ajoelhou-se com uma sensação de alívio profundo e rezaram juntos um pai-nosso. O bispo lhe deu a bênção e o ajudou a levantar-se.
Que Deus se apiade de ti — disse. E apagou-o de seu coração.
Mesmo depois de começar a cumprir a condenação, altos dignitários da diocese intercederam em seu favor, mas o bispo foi irredutível. Rejeitou a teoria de que os exorcistas acabam possuídos pelos mesmos demônios que pretendem conjurar. Seu argumento final foi que Delaura não se decidira a enfrentá-los com a autoridade inapelável de Cristo, mas incorrera na impertinência de discutir com eles questões de fé. Foi isso, disse o bispo, que comprometeu sua alma e colocou-o à beira da heresia. Mas causou surpresa que o prelado tivesse sido tão severo com seu homem de confiança, por uma culpa que no máximo mereceria uma penitência de velas verdes.
Martina se encarregou de Sierva María com uma dedicação exemplar.
Também ela ficara mortificada com a negativa do indulto, mas a menina só o notou numa tarde de bordado no terraço, quando ergueu avista e a viu banhada em lágrimas. Martina não disfarçou o seu desespero.
Prefiro estar morta a continuar morrendo nesta prisão.
Sua única esperança, explicou, era o pacto de Sierva María com os demônios. Queria saber quem eram, como eram, como negociar com eles. A menina enumerou seis, e Martina identificou um deles como um demônio africano que certa vez havia perseguido a casa de seus pais— Uma expectativa a animou.
Quero falar com ele. — E precisou o recado: — Dou minha alma em troca.
Sierva Mana se deleitou na malvadeza: — Ele não fala. Basta olhar a cara e já sabe o que quer dizer. — E com toda seriedade prometeu avisá-la para que se encontrasse com o tal na próxima visita.
Cayetano submeteu-se com humildade às condições infames do hospital. Os leprosos, em estado de morte legal, dormiam no chão de terra batida em barracas de folhas de palmeira. Muitos se arrastavam do jeito que podiam. As terças-feiras, dia de curativo geral, eram exaustivas. Cayetano se impôs o sacrifício purificador de lavar os corpos dos doentes em pior estado nas artesas da cocheira. Nisso estava ocupado, na primeira terça-feira da penitência, com a dignidade sacerdotal reduzida ao rude camisolão de enfermeiro, quando apareceu Abrenuncio no alazão presenteado pelo marquês.
Como vai esse olho? — perguntou.
Cayetano não lhe deu oportunidade para falar de sua desgraça ou se condoer do seu estado. Agradeceu o colírio, que de fato havia apagado da retina a imagem do eclipse.
Não tem nada que agradecer — disse Abrenuncio. — Dei-lhe o melhor que conhecemos para a ofuscação solar: gotas de água da chuva.
Convidou-o a lhe fazer uma visita. Cayetano explicou que não podia sair sem licença. Abrenuncio não deu importância.
Se o senhor conhece as fraquezas destes reinos, há de saber que as leis só são cumpridas durante uns três dias — disse. Colocou a sua biblioteca à disposição do padre para que continuasse seus estudos enquanto aguardava justiça. Cayetano o escutou com interesse mas sem nenhuma ilusão. — Aí lhe deixo essa angústia — concluiu Abrenuncio esporeando o cavalo. — Nenhum deus pode ter feito um talento como o seu para desperdiçá-lo esfregando morféticos.
Na terça seguinte levou-lhe de presente o volume das Cartas filosóficas em latim. Cayetano o folheou, farejou por dentro, calculou seu valor. Quanto mais o apreciava, menos entendia Abrenuncio.
Gostaria de saber por que é tão amável comigo — disse.
Porque nós ateus não conseguimos viver sem os padres — disse Abrenuncio. — Os pacientes nos confiam seus corpos, mas não suas almas, e nós vivemos como os diabos, tratando de disputá-las com Deus. — Isso não combina com as suas crenças — disse Cayetano.
Nem eu mesmo sei quais são elas — disse Abrenuncio.
O Santo oficio sabe — disse Cayetano.
Ao contrário do que se poderia esperar, aquele dardo entusiasmou Abrenuncio.
Venha à minha casa e discutiremos isso com calma — disse. — Não durmo mais de duas horas por noite, e sempre aos bocados, de modo que qualquer momento será bom.
Esporeou o cavalo e partiu.
Cayetano aprendeu depressa que um grande poder não se perde pela metade. As mesmas pessoas que antes disputavam a sua intimidade agora fugiam dele como de um leproso. Seus amigos das artes e letras mundanas se afastaram para não ter problemas com o Santo Ofício. Mas para ele tanto fazia. Só tinha coração para Sierva Maria, e ainda assim não lhe bastava. Estava convencido de que não haveria oceanos, nem leis da terra ou do céu, nem poderes do inferno que pudessem separá-los.
Uma noite, por uma inspiração desesperada, fugiu do hospital para tentar entrar de qualquer maneira no convento. Havia quatro portas. A principal, que era a da roda; outra de igual tamanho do lado do mar, e duas pequenas de serviço. As duas primeiras eram intransponíveis.
Foi fácil a Cayetano localizar da praia a janela de Sierva María no pavilhão da prisão, por ser a única ainda não condenada. Passou em revista palmo a palmo o edifício, procurando em vão uma brecha mínima por onde subir.
Estava prestes a desistir, quando se lembrou do túnel por onde a população abastecia o convento durante a Cessatio a Divinis. Os túneis, de quartéis ou de conventos, eram muito da época. Havia nada menos de seis conhecidos na cidade, e outros foram sendo descobertos no curso dos anos com suas arandelas de folhetim. Um leproso que tinha sido coveiro apontou a Cayetano o que buscava, um cano de esgoto em desuso que comunicava o convento com um solar vizinho, onde ficava no século anterior o cemitério das primeiras clarissas.
Saía justo debaixo do pavilhão das presas e diante de um muro alto e escabroso que parecia inacessível. Mas Cayetano conseguiu escalá-lo ao cabo de muitas tentativas frustradas, tal como acreditava conseguir tudo: pelo poder da oração.
O pavilhão ficava um remanso na madrugada. Certo de que a vigilante dormia fora, ele só se preocupava com Martina Laborde, que roncava com a porta entreaberta. Até esse momento, a tensão da aventura o mantivera sempre inquieto, mas quando se viu diante da cela, com o cadeado aberto na argola, seu coração disparou. Empurrou a porta com a ponta dos dedos, parou de viver enquanto durou o ranger dos gonzos, e viu Sierva María dormindo à luz da lamparina do Santíssimo. Ela abriu os olhos, mas custou a reconhecê-lo com o camisolão grosso dos enfermeiros de leprosos.
Ele mostrou as unhas ensanguentadas.
Escalei o muro — disse, sem voz.
Sierva María não se comoveu.
Para quê? — disse.
Para te ver — disse ele.
Não soube o que mais dizer, atarantado com o tremor das mãos e as frestas da voz.
Vá embora — disse Sierva María Ele fez que não várias vezes com a cabeça, de medo que lhe faltasse a voz.
Vá embora — repetiu ela. — Ou começo a gritar. — Ele estava tão perto que pôde sentir sua respiração virgem.
Nem que me matem — disse. Logo se sentiu do lado de lá do terror, e acrescentou com voz firme: — Se vais gritar, podes ir começando.
Ela mordeu os lábios. Cayetano, sentou-se na cama e fez um relato minucioso de seu castigo, mas sem dizer as razões. Ela entendeu mais do que ele era capaz de dizer. Olhou sem receio e perguntou por que estava sem o pano no olho.
Não preciso mais — disse ele, animado. Agora fecho os olhos e vejo uma cabeleira como um rio de ouro.
Saiu duas horas depois, feliz porque Sierva María concordou que voltasse, desde que trazendo os seus doces prediletos dos portais. Na noite seguinte, chegou tão cedo que ainda havia vida no convento e ela estava com o candeeiro aceso para terminar o bordado de Martina. Na terceira noite, levou mechas e óleo para alimentar a luz. Na quarta, um sábado, ficou várias horas ajudando-a a catar os piolhos que tinham voltado a proliferar na prisão. Quando a cabeleira ficou limpa e penteada, ele sentiu mais uma vez o suor gelado da tentação.
Deitou-se ao lado de Sierva María com a respiração opressa e viu seus olhos diáfanos a um palmo dos seus. Ambos ficaram perturbados.
Ele, rezando de medo, sustentou o olhar da menina. Ela se atreveu a falar: — Quantos anos tem? — Fiz trinta e seis em março — disse ele.
Ela o perscrutou.
-Já é um velhinho — disse com uma Ponta de zombaria. Reparou nos sulcos de sua testa e acrescentou com toda a inclemência da idade: — Um velhinho enrugado. — Ele o aceitou de bom humor. Sierva Maria lhe perguntou por que tinha uma mecha branca.
É um sinal — disse — De tintura — disse ela.
Natural — disse ele. — Minha mãe também tinha.
Até então não deixara de olhá-la nos olhos, e ela não dava mostras de se render. Ele suspirou fundo e recitou: — “Ó doces prendas por mim mal achadas.” Ela não entendeu.
É um verso do avô de minha tataravó explicou ele. — Escreveu três éclogas, duas elegias, cinco canções e quarenta sonetos. E a maioria inspirada por uma portuguesa sem maiores encantos que nunca foi dele, primeiro porque era casado e segundo porque ela casou com outro e morreu antes dele.
Também era frade? — Soldado — disse ele.
Alguma coisa mexeu no coração de Sierva María, pois ela quis ouvir o verso de novo. Ele o repetiu e dessa vez prosseguiu, com voz firme e bem-articulada, até o último dos quarenta sonetos do cavaleiro do amor e de armas, dom Garcilaso de La Vega, morto na flor da idade por uma pedrada de guerra.
Ao terminar, Cayetano tomou a mão de Sierva María e a pôs sobre seu coração. Ela sentiu lá dentro o fragor da tempestade.
Estou sempre assim — disse ele.
E sem lhe dar tempo ao pânico, libertou-se da matéria turva que o impedia de viver. Confessou que não passava um instante sem pensar nela, que tudo o que bebia e comia tinha gosto dela, que a vida era ela a toda hora e em toda parte, como só Deus tinha o direito e o poder de ser, e que o gozo supremo de seu coração seria morrer com ela.
Continuou falando sem a fitar, com a mesma fluidez e o mesmo calor com que recitava, até que teve a impressão de que Sierva María tinha dormido.
Mas ela estava atenta, fixos nele os seus olhos de corça assustada.
Apenas se atreveu a perguntar: — E agora? — Agora nada — disse ele. — Basta que saibas.
Não pôde continuar. Chorando em silêncio, passou o braço por baixo da cabeça dela, para que lhe servisse de travesseiro, e ela se enroscou a seu lado. Ficaram assim, sem dormir, sem falar, até que os galos começaram a cantar e ele teve que se apressar para chegar a tempo à missa das cinco. Antes de sair, Sierva María o presenteou com um colar de Odudua: dezoito polegadas de contas de nácar e coral.
O pânico foi substituído pelo naufrágio do coração. Delaura não tinha sossego, fazia as coisas de qualquer jeito, flutuava, até a hora feliz em que fugia do hospital para ir ver Sierva Maria. Chegava ofegante à cela, encharcado pelas chuvas perpétuas, e ela o esperava com ansiedade, mas bastava o sorriso dele para lhe devolver a calma. Uma noite, foi ela quem tomou a iniciativa com os versos que aprendia de tanto ouvir: — “Quando paro a contemplar meu estado e ver os passos por onde me trouxeste...”. — recitou. E perguntou com picardia: — Como continua? “Eu acabarei pois me entreguei sem arte a quem me saberá perder e acabar” — disse ele.
Ela repetiu os versos com a mesma ternura e continuaram até o fim do livro, saltando trechos, pervertendo e tergiversando os sonetos conforme a conveniência, brincando com eles à vontade, com um domínio de donos. De cansaço, pegaram no sono. A guardiã entrou com o desjejum às cinco, em meio à algazarra dos galos, e ambos despertaram assustados. Foi como se a vida parasse para eles. A guardiã pôs o desjejum na mesa, fez uma inspeção de rotina com a lanterna e saiu sem ver Cayetano na cama.
Lúcifer é incrível — zombou ele ao respirar de novo. — Também a mim ele tornou invisível.
Sierva María teve que caprichar na sua astúcia para evitar que a guardiã voltasse a entrar na cela aquele dia. Tarde da noite, depois de um dia inteiro de disfarces, se sentiam amados desde sempre, Cayetano, meio de brincadeira e meio a sério, se atreveu a soltar o cordão do espartilho de Sierva Maria. Ela protegeu o peito com as duas mãos; houve uma chispa de raiva em seus olhos e uma rajada de rubor lhe incendiou o rosto. Cayetano lhe agarrou as mãos com o polegar e o indicador, como se estivessem em fogo vivo, e as afastou do peito.
Ela tentou resistir, e ele lhe opôs uma força terna mas resoluta. 4 — Repete comigo — disse: — “Enfim a vossas mãos hei chegado.” Ela obedeceu.
— “Onde sei que hei de morrer”, — prosseguiu ele, enquanto abria o espartilho com seus dedos gelados. Ela repetiu quase sem VOZ trêmula de medo: — Para que só em mim seja provado o quanto corta uma espada num rendido." Então ele a beijou nos lábios pela primeira vez. O corpo de Sierva María estremeceu com gemido, e ela soltou uma tênue brisa marinha e se abandonou à própria sorte. Ele passou por sua pele as gemas dos dedos, tocando-a muito de leve, e viveu pela primeira vez o prodígio de se sentir em outro corpo. Uma voz interior o fez ver quão longe tinha estado do diabo em suas insônias de latim e grego, nos êxtases da fé, nos ermos da pureza, enquanto ela convivia com todas as potências do amor livre na senzala dos escravos. Deixou-se guiar por ela, tateando no escuro mas se arrependeu no último instante e desmoronou num cataclismo moral. Ficou deitado de costas, com os olhos fechados. Sierva María se assustou com o seu silêncio e sua quietude de morte, e o tocou com um dedo.
Que houve? -perguntou.
Deixa-me agora — murmurou ele. — Estou rezando.
Nos dias seguintes, só tiveram instantes de sossego quando juntos.
Não se fartavam de falar sobre as dores do amor. Esgotavam-se em beijos, declamavam chorando com lágrimas copiosas versos de namorados, cantavam um ao ouvido do outro, revolviam-se em pantanais de desejo até o limite de suas forças: exaustos mas virgens. Pois ele decidira manter o seu voto até receber o sacramento, e ela aceitou.
Nas pausas da paixão, trocavam provas excessivas. Ele afirmou que seria capaz de qualquer coisa por ela. Sierva Maria pediu com crueldade infantil que comesse uma barata. Ele agarrou uma antes que ela pudesse impedir e comeu-a viva. Em outros desafios alucinados, perguntou se ela cortaria a trança por ele, e ela disse que sim, mas avisou entre brincando e séria que só se ele casasse com ela para cumprir a condição da promessa. Ele levou a cela uma faca de cozinha e disse: “Vamos ver se é de verdade”. Ela virou-se de costas para que ele pudesse cortar pela raiz. Insistiu: “Tenha coragem”. Não teve. Dias depois, ela lhe perguntou se era capaz de se deixar degolar como um cabrito. Ele disse que sim com toda firmeza. Ela agarrou a faca e se dispôs a experimentar— Ele saltou de terror com o calafrio final. “Tu não” disse. Ela, rindo muito, quis saber por quê, e ele disse a verdade: “Porque tu, sim, tens coragem”.
Nos remansos da paixão, começaram a desfrutar também dos tédios do amor cotidiano. Ela mantinha a cela limpa e arrumada para quando ele chegava com a naturalidade de marido que volta para casa. Cayetano a ensinava a ler e escrever, e a iniciava no culto da poesia e na devoção do Espírito santo, à espera do dia feliz em que fossem livres e casados.
Ao amanhecer do dia 27 de abril, Sierva María começava a dormir depois que Cayetano deixou a cela, quando entraram sem avisar para buscá-la. Iam iniciar os exorcismos. Foi o ritual de um condenado à morte. Arrastaram-na para o tanque, lavaram-na a baldes de água, despojaram-na aos puxões de seus colares e puseram-lhe o camisolão brutal dos hereges. Uma irmã jardineira cortou-lhe a cabeleira até a altura da nuca com quatro mordidas de uma tesoura de podar e atirou-a numa fogueira acesa no pátio. A irmã cabeleireira acabou de tosar-lhe os cabelos até o tamanho de meia polegada, como usavam as clarissas; debaixo da mantilha, e foi lançando-os ao fogo à medida que cortava. Sierva María viu a deflagração dourada, ouviu o crepitar da lenha virgem e sentiu a exalação acre de chifre queimado sem que se movesse um músculo de seu rosto impenetrável. Por fim lhe puseram uma camisa-de-força, a cobriram com um trapo fúnebre, e dois escravos a levaram à capela numa padiola de soldados.
O bispo tinha convocado o Cabido Eclesiástico, composto de prebendados e esclarecidos, e estes escolheram quatro dos seus para acompanhar o processo de Sierva María. Num último ato de afirmação, o bispo se sobrepôs às misérias de sua saúde. Determinou que a cerimônia não fosse na catedral, como em outras ocasiões memoráveis, mas na capela do convento de Santa Clara, e assumiu em pessoa a execução do exorcismo.
As clarissas, encabeçadas pela abadessa, estavam no coro desde cedo, e ali cantaram as matinas com acompanhamento de órgão, comovidas pela solenidade do dia que despontava. Em seguida entraram os prelados do Cabido Eclesiástico, os prebostes de três ordens e os principais do Santo Ofício. Além destes últimos, não havia nem haveria nenhum laico.
O bispo entrou por último com aparato de grande cerimônia, levado em liteira por quatro escravos, numa aura de aflição inconsolável.
Sentou-se defronte do altar-mor, junto ao catafalco de mármore dos funerais grandiosos, numa poltrona giratória que facilitava o movimento do corpo. Às seis em ponto, os dois escravos levaram Sierva María na padiola, com a camisa-de-força e ainda coberta com o pano roxo.
O calor se tornou insuportável durante a missa cantada. Os baixos do órgão retumbavam no teto, mal deixando lugar para as vozes insípidas das clarissas invisíveis atrás das gelosias do coro. Os dois escravos meio nus que tinham levado a padiola de Sierva María ficaram de guarda junto a ela. No final da missa, a descobriram e deixaram estendida como uma princesa morta sobre o catafalco de mármore. Os escravos do bispo o levaram na poltrona para junto dela, e os deixaram sozinhos num amplo espaço em frente ao altar-mor.
Seguiram-se uma tensão invisível e um silêncio absoluto que pareciam o prelúdio de algum prodígio celestial. Um acólito colocou ao alcance do bispo o acéter com água benta. Ele agarrou o aspersório como se fosse uma maça de guerra, inclinou-se sobre Sierva María e a aspergiu ao longo do corpo murmurando uma oração.
Em seguida proferiu o conjuro que estremeceu os alicerces da capela.
Quem quer que sejas — gritou. — Por ordem de Cristo, Deus e Senhor de tudo o que é visível e invisível, de tudo o que é, que foi e que há de ser, abandona esse corpo redimido pelo batismo e volta às trevas.
Sierva María, fora de si pelo terror, gritou também. O bispo alteou a voz para fazê-la calar, mas ela gritou com mais força. O bispo aspirou fundo e tornou a abrir a boca para continuar o conjuro, mas o ar lhe morreu dentro do peito sem que o pudesse expulsar. Desabou de bruços, boqueando como um peixe fora d'água, e a cerimônia terminou com um estrépito colossal.
Naquela noite, Cayetano encontrou Sierva María tiritando de febre dentro da camisa-de-força. O que mais o indignou foi o escândalo do crânio pelado.
Deus do céu — murmurou com uma raiva surda, enquanto a livrava das correias. -Como é possível que permitas tamanho crime? — Logo que se soltou, Sierva Maria lhe pulou ao pescoço e ficaram abraçados sem falar, ela chorando. Deixou-a desabafar. Depois ergueu-lhe o rosto e disse: Nada de mais lágrimas. — E concluiu com Garcilaso: — “Bastam as que por vós tenho chorado.” Sierva Maria contou o terrível episódio da capela. Falou do estrondo dos coros que eram como de guerra, dos berros alucinados do bispo, de seu hálito abrasador, de seus belos olhos verdes incendiados pela emoção.
Parecia o diabo — disse.
Cayetano tentou acalmá-la. Assegurou que apesar de sua corpulência titânica, de sua voz tempestuosa e de seus métodos marciais, o bispo era um homem bom e sábio. De modo que o pavor de Sierva Maria era compreensível, mas não corria nenhum perigo.
[...]

Gabriel Garcia Márquez, em Do Amor e Outros Demônios

06/11/2025

Do Amor e Outros Demônios – Capítulo Quatro





[…]


Mais uma vez, o bispo comprovou a facilidade do poder terrenal. Apontou Delaura com o indicador trêmulo, sem olhar para ele, e disse ao vice-rei: — Aqui quem está a par dessas novidades é o padre Cayetano.
O vice-rei seguiu a direção do indicador e topou com a fisionomia distante e os olhos atônitos que o fitavam sem pestanejar. Perguntou a Delaura com um interesse real: — Leste Leibniz? 
Sim, Excelência — disse Delaura, e acrescentou: — Pela natureza do meu cargo.
No final da visita, ficou evidente que o interesse maior do vice-rei era pela situação de Sierva María. Por ela própria, explicou, e pela paz da abadessa, cuja atribulação o comovera.
Ainda nos faltam provas cabais, mas as atas do convento atestam que essa pobre criança está possuída pelo demônio — disse o bispo. — A abadessa sabe melhor que nós.
Ela acha que caístes num ardil de Satanás — disse o vice-rei.
Não somente nós, mas toda a Espanha — disse o bispo. — Atravessamos o mar oceano para impor a lei de Cristo, e o conseguimos nas missas, nas procissões, nas festas dos patronos, mas não nas almas.
Falou de Yucatán, onde tinham construído catedrais suntuosas para esconder as pirâmides pagãs, sem perceber que os aborígines acudiam à missa porque debaixo dos altares de prata seus santuários continuavam vivos. Falou da mixórdia de sangue que tinham feito desde a conquista: sangue de espanhóis com sangue de índios, destes e daqueles com negros de toda laia, até mandingas muçulmanos, e perguntava se tal promiscuidade cabia no reino de Deus. Apesar da sua dificuldade de respirar e de sua tossezinha de velho, terminou sem conceder uma pausa ao vice-rei: — Que pode ser tudo isso senão armadilhas do Inimigo? O vice-rei estava alterado.
O desencanto de Vossa Senhoria Ilustríssima é de extrema gravidade — disse.
Não o veja assim Vossa Excelência — disse o bispo com muito bons modos. — Procuro tornar mais evidente a força da fé de que necessitamos para que esses povos sejam dignos de nosso sacrifício.
O vice-rei retomou o fio.
Até onde entendo, os reparos da abadessa são de caráter prático — disse. — Ela acha que talvez outros conventos tenham condições melhores para um caso tão difícil.
Pois saiba Vossa Excelência que escolhemos Santa Clara sem hesitação, dada a integridade, a eficiência e a autoridade de Josefa Miranda — disse o bispo. — E Deus sabe que estamos certos.
Permitir-me-ei transmitir essa sua opinião — disse o vice-rei.
Ela a conhece de sobra — disse o bispo. — O que me inquieta é por que não ousa aceitá-la.
Ao tomar a decisão, sentiu passar a aura de uma crise iminente de asma, e apressou o final da visita. Comunicou que tinha recebido um memorial com as reclamações da abadessa e que prometia resolvê-las com o mais ardente amor pastoral assim que a saúde lhe desse uma trégua. O vice-rei agradeceu e pôs termo à visita com uma cortesia pessoal. Também ele sofria de asma, e ofereceu seus médicos ao bispo. Este não achou necessário.
Tudo o que é meu está nas mãos de Deus disse. — Tenho a idade em que a Virgem morreu.
Ao contrário dos cumprimentos, a despedida foi lenta e cerimoniosa.
Três dos sacerdotes, entre os quais Delaura, acompanharam em silêncio o vice-rei pelos corredores soturnos até a porta principal.
A guarda do vice-rei mantinha afastados os mendigos com uma barreira de alabardas cruzadas. Antes de subir à carruagem, o vice-rei voltou-se para Delaura, apontou-lhe o seu indicador inapelável, e disse: — Não deixes que me esqueça de ti.
Foi uma frase tão imprevista e enigmática que Delaura só conseguiu responder com uma reverência.
O vice-rei foi até o convento para informar a abadessa sobre os resultados da visita. Horas depois, já com o pé no estribo, e apesar da pressão da vice-rainha, negou o indulto a Martina Laborde, porque lhe pareceu um mau precedente para os muitos réus de lesa-majestade humana que encontrou nas enxovias.
O bispo permanecera inclinado para a frente, tentando conter os assobios de sua respiração, com os olhos fechados, até que Delaura voltou.
Os ajudantes já se haviam retirado pé ante pé, e a sala estava na penumbra. Olhando ao redor, o bispo viu as cadeiras vazias alinhadas contra as paredes e Cayetano sozinho na sala. Perguntou-lhe com voz sumida: — Já vimos um homem tão bom? Delaura respondeu com um gesto ambíguo. O bispo se ajeitou com um movimento difícil e continuou apoiado no braço da poltrona até dominar a respiração. Não quis jantar. Delaura apressou-se a acender um candeeiro para iluminar o caminho até o quarto.
Muito mal nos saímos com o vice-rei — disse o bispo.
Havia alguma razão para nos sairmos bem? — perguntou Delaura. — Não se bate à porta de um bispo sem um anúncio formal.
O bispo não estava de acordo e se explicou com grande vivacidade.
Minha porta é a porta da Igreja, e ele se comportou como um cristão dos antigos. O impertinente fui eu, por causa do meu mal de peito, e alguma coisa terei de fazer para me escusar.
Já na porta no quarto havia mudado de tom e de assunto, e despediu-se de Delaura, com uma palmadinha familiar no ombro.
Reza por mim esta noite — disse. — Temo que vá ser muito comprida.
De fato, sentiu-se morrer com a crise de asma que pressentira durante a visita. Como não fizessem efeito um vomitório de tártaro e outros paliativos extremos, tiveram que sangrá-lo às pressas. Ao amanhecer, já tinha recobrado o ânimo.
Cayetano, em vigília na biblioteca ao lado, não soube de nada.
Começava as rezas da manhã quando vieram anunciar que o bispo o esperava no quarto. Encontrou-o na cama, tomando uma xícara grande de chocolate, acompanhado de pão com queijo, respirando como um fole novo e de espírito exaltado. Bastou a Cayetano vê-lo para saber que suas decisões estavam tomadas.
Assim foi. Contrariando o pedido da abadessa, Sierva María ficava em Santa Clara, e o padre Cayetano Delaura continuava a cuidar dela com a plena confiança do bispo. Não estaria mais em regime carcerário, como até ali, e devia participar das facilidades gerais oferecidas à população do convento. O bispo levava em consideração as atas, mas a falta de rigor delas impedia a clareza do processo, de modo que o exorcista devia proceder segundo o seu próprio critério. Por último, determinou a Delaura que visitasse o marquês em seu nome, com poderes para resolver o que fosse necessário, até que ele tivesse tempo e saúde para atendê-lo em audiência.
Não haverá mais nenhuma instrução — disse o bispo para terminar — Que Deus te abençoe.
Cayetano foi ter ao convento com o coração batendo forte, mas não encontrou Sierva Maria em sua cela. Estava na sala de atos, coberta de jóias legítimas e com a cabeleira estendida a seus pés, posando com sua extraordinária dignidade de negra para um célebre retratista da comitiva do vice-rei. Tão admirável quanto sua beleza era a docilidade com que obedecia ao artista. Cayetano caiu em êxtase.
Sentado à sombra, e vendo-a sem ser visto, sobrou-lhe tempo para dissipar qualquer dúvida do coração.
À hora nona, o retrato estava terminado. O pintor examinou-o à distância, deu duas ou três pinceladas finais e antes de assinar pediu a Sierva María que o olhasse. Estava idêntica, de pé numa nuvem e no meio de uma corte de diabos submissos. Ela contemplou o retrato sem pressa e se reconheceu no esplendor dos seus anos. Por fim disse: — É como um espelho.
Até com os demônios? — perguntou o pintor.
Assim mesmo — disse ela.
Terminada a pose, Cayetano a acompanhou até a cela. Nunca a tinha visto andar; fazia-o com a mesma graça e facilidade com que dançava.
Nunca a tinha visto com outro traje que não fosse a bata de presa, e o vestido de rainha lhe dava uma idade e uma elegância que revelavam até que ponto já era mulher. Nunca tinham caminhado juntos, e era encantadora para ele a naturalidade com que se acompanhavam.
A cela estava diferente graças aos dons de persuasão dos vice-reis, que na visita de despedida tinham convencido a abadessa das boas razões do bispo. O colchão era novo, os lençóis de linho, e os travesseiros de penas, e se haviam posto utensílios para o asseio cotidiano e o banho de corpo. A luz do mar entrava pela janela sem cruzetas e resplandecia nas paredes recém-caiadas. Como a comida era a mesma da clausura, não foi mais necessário levar nada de fora, mas Delaura sempre conseguiu passar de contrabando algumas guloseimas dos portais. María quis partilhar a merenda, e Delaura aceitou um dos biscoitinhos que sustentavam o prestígio das clarissas. Enquanto comiam ela fez um comentário casual: — Conheci a neve.
Cayetano não se espantou. Em outra época tinham falado de um vice-rei que quis trazer a neve dos Pireneus, para que os aborígines a conhecessem, pois ignorava que a tínhamos quase dentro do mar, na Serra Nevada de Santa Marta. Talvez dom Rodrigo de Buen Lozano tivesse realizado a façanha com suas artes novidadeiras.
Não — disse a menina. — Foi num sonho.
Contou que estava defronte de uma janela e lá fora caía uma nevada forte, enquanto ela arrancava e comia uma por uma as uvas de um cacho no seu colo. Delaura teve um sobressalto de terror. Temendo a iminência da última resposta, perguntou: — E como acabou? — Tenho medo de contar — disse Sierva María.
Ele não precisou de mais. De olhos fechados, rezou por ela. Ao terminar, era outro.
Não te preocupes — disse. — Prometo que muito breve serás livre e feliz, por graça do Espírito Santo.
Bernarda não sabia até então que Sierva Maria estava no convento.
Soube quase por acaso, uma noite em que encontrou Dulce Olivia varrendo e arrumando a casa, e a confundiu com uma de suas alucinações. Em busca de alguma explicação racional, dedicou-se a revistar quarto por quarto, e no percurso se deu conta de que não via Sierva Maria há muito tempo. Caridad del Cobre lhe transmitiu o que sabia: "O senhor marquês avisou que ela ia para muito longe e que não a veríamos mais". Como a luz estava acesa no quarto do marido, Bernarda entrou sem bater.
Ele estava acordado na rede, em meio à fumaça da bosta que ardia a fogo lento para espantar os mosquitos. Viu a estranha mulher transfigurada pelo roupão de seda, e também pensou que se tratava de um fantasma, porque estava pálida e sinistra, e parecia vir de muito longe. Bernarda lhe perguntou por Sierva María.
Há dias que não está conosco — disse ele.
Ela o tomou no pior sentido, e para poder respirar teve que sentar na primeira poltrona que encontrou.
Quer dizer então que Abrenuncio fez o que era preciso fazer — disse.
O marquês se benzeu: — Deus nos livre! Contou a verdade. Teve o cuidado de explicar que não dissera nada antes porque quis tratá-la, conforme ela queria, como se tivesse morrido. Bernarda ouviu-o concentrada, com uma atenção que ele não merecera em doze anos de má vida comum.
Sabia que ia me custar a vida — disse marquês. — Mas em pagamento da vida dela.
Bernarda suspirou: — Quer dizer que agora nossa vergonha é de domínio público.
Viu nas pálpebras do marido o brilho de uma lágrima, e um tremor lhe subiu das entranhas. Dessa vez não era a morte, mas a certeza inelutável do que mais cedo ou mais tarde havia de acontecer. Não se enganou. O marquês levantou-se da rede com suas últimas forças, desabou diante dela e caiu num choro áspero de velho imprestável.
Bernarda capitulou sob o fogo das lágrimas de homem que molharam suas virilhas através da seda. Confessou, apesar de quanto odiava Sierva María, que era um alívio saber que estava viva.
Sempre entendi tudo, menos a morte — disse.
Tornou a fechar-se no quarto, a melaço e cacau, e quando saiu, duas semanas depois, era um cadáver ambulante. O marquês tinha notado desde muito cedo uns preparativos de viagem, mas não prestou muita atenção. Antes de o sol esquentar, viu Bernarda sair pelo portão do pátio numa mula mansa, seguida por uma outra com a bagagem. Muitas vezes saíra assim, sem arrieiros nem escravos, sem se despedir de ninguém nem dar qualquer explicação. Mas o marquês soube que daquela vez ia embora para nunca mais voltar, porque além dos baús de sempre levava duas bilhas cheias de ouro puro, que manteve enterradas debaixo da cama durante anos.
Jogado de qualquer maneira na rede, o marquês recaiu no pavor de que os escravos o esfaqueassem, e os proibiu de entrar na casa durante o dia. Assim, quando Cayetano Delaura foi visitá-lo Por ordem do bispo, teve que empurrar o portão e entrar sem licença, porque ninguém respondeu às batidas da aldraba. Os mastins se assanharam nos canis, mas o padre seguiu adiante. No pomar, com a chilaba, sarracena e o gorro toledano, o marquês fazia a sesta na rede, coberto de flores de laranjeira. Delaura o contemplou sem acordá-lo, e foi como se visse Sierva María decrepita e esmigalhada pela solidão. O marquês acordou e custou a reconhecê-lo por causa do pano no olho. Delaura, levantou a mão com os dedos esticados em sinal de paz.
Deus o guarde, senhor marquês — disse.
Como tem passado? — Assim, assim — disse o marquês. — Apodrecendo.
Afastou com mão vagarosa as teias de aranha da sesta e sentou-se na rede. Cayetano pediu desculpas por entrar sem ser convidado. O marquês explicou que ninguém fazia caso da aldraba porque se perdera o hábito das visitas. Delaura declarou em tom solene: — O senhor bispo, muito atarefado e sofrendo de asma, me manda aqui representando-o. — Cumprido o protocolo inicial, sentou-se junto à rede e foi ao assunto que lhe abrasava as entranhas. Quero informar-lhe que me foi confiada a saúde espiritual de sua filha.
O marquês agradeceu e quis saber como estava ela.
Bem — disse Delaura. — Mas quero ajudá-la a ficar melhor ainda.
Explicou o sentido e os métodos dos exorcismos. Falou do poder que Jesus deu a seus discípulos para expulsar dos corpos os espíritos imundos e curar enfermidades e fraquezas. Contou a lição evangélica de Legião e os dois mil porcos endemoninhados. Todavia, o mais importante era estabelecer se Sierva María estava de fato possessa. Ele não acreditava, mas precisava da ajuda do marquês para dissipar qualquer dúvida. Antes de mais nada, queria saber, segundo disse, como era a menina antes de ser internada no convento.
Não sei — disse o marquês. — Sinto que a conheço menos quanto mais a conheço.
Atormentava-o a culpa de a ter abandonado à própria sorte no pátio dos escravos. A isso atribuía seus silêncios que podiam durar meses, as explosões de violência irracional, a astúcia com que pendurando nos gatos a campainha que ela lhe prendia no pulso. A maior dificuldade para conhecê-la era o seu vício de mentir por prazer .
Como os negros — disse Delaura — Os negros mentem para nós, não entre eles — disse o marquês.
No quarto, Delaura separou com um simples olhar o que era o Profuso legado da avó e os objetos novos de Sierva María: as bonecas vivas, as dançarinas de corda, as caixas de música. Em cima da cama, tal como a arrumara o marquês, continuava a maleta com que a tinha levado ao convento. A tiorba coberta de poeira estava relegada a um canto. O marquês explicou que era um instrumento italiano caído em desuso, e exagerou a habilidade da filha no tocá-la. Começou a afiná-la Por distração e acabou tocando com boa memória, até cantando a canção que cantava com Sierva María.
Foi um instante revelador. A música disse a Delaura o que o marquês não conseguira dizer da filha. E este se comoveu tanto que não pôde terminar a canção. Suspirou: — Não imagina como ficava bem de chapéu.
Sua emoção contagiou Delaura.
Vejo que gosta muito dela — disse.
Não imagina quanto — disse o marquês. — Eu daria a alma para vê-la.
Mais uma vez Delaura sentiu que o Espírito Santo não saltava o mínimo detalhe.
Nada será mais fácil se pudermos demonstrar que não está possuída — disse.
Fale com Abrenuncio — disse o marquês. Desde o princípio afirmou que Sierva María está sã, mas só ele poderá lhe explicar.
Delaura se viu numa encruzilhada. Abrenuncio talvez lhe fosse providencial, mas falar com ele poderia trazer consequências indesejáveis. O marquês pareceu ler o seu pensamento.
É um grande homem — disse.
Delaura fez com a cabeça um gesto expressivo.
Conheço as regras do Santo Ofício — disse.
Qualquer sacrifício será pouco para recuperá-la — insistiu o marquês. E como Delaura não se manifestava, concluiu: — Peço-lhe pelo amor de Deus.
Delaura, com uma fenda no coração, disse: — Suplico-lhe que não me faça sofrer mais.
O marquês não insistiu. Apanhou a maletinha em cima da cama e pediu a Delaura que a levasse à filha.
Pelo menos vai ficar sabendo que penso nela.
Delaura precipitou-se sem se despedir. Embrulhou-se na capa., pois chovia a cântaros, e guardou debaixo a maleta. Custou a notar que sua voz interior ia repetindo versos soltos da canção da tiorba.
Começou a cantá-la, em voz alta, açoitado pela chuva, e a repetiu decorada até o final. No bairro dos artesãos, dobrou à esquerda da ermida, sempre cantando, e bateu na porta de Abrenuncio.
Ao fim de um longo silêncio, ouviram-se passos inseguros e a voz de sono: — Quem é? — A lei — disse Delaura Foi a única coisa que lhe veio à cabeça para não gritar o nome.
Abrenuncio abriu a porta acreditando que era mesmo gente do governo, e não o reconheceu. — Sou o bibliotecário da diocese — disse Delaura. O médico lhe abriu passagem passagem pelo vestíbulo mergulhado na penumbra e o ajudou a tirar a capa ensopada. No seu estilo próprio, Perguntou em latim: — Em que batalha perdeu esse olho? Delaura narrou em seu latim clássico o contratempo do eclipse e se estendeu em pormenores sobre a persistência do mal, embora o médico do bispo lhe tivesse assegurado que o parche era infalível Mas Abrenuncio só deu atenção à pureza do seu latim.
É de uma perfeição absoluta — disse, maravilhado. — De onde é o senhor? — De Ávila — disse Delaura.
Pois maior ainda é o mérito — disse Abrenuncio.
Fez o visitante tirar a batina e as sandálias, colocou-as para secar e pôs-lhe a sua capa de liberto por cima das calças amarfanhadas.
Depois tirou-lhe o tapa-olho e o jogou no caixote de lixo.
A única coisa ruim desse olho é que vê mais do que deve — disse.
Delaura estava pasmo com a quantidade de livros acumulados na sala.
Abrenuncio reparou, e levou-o à botica, onde havia muitos mais, em estantes que iam até o teto.
Espírito Santo! — exclamou Delaura. — Isto é a biblioteca de Petrarca.
Com uns duzentos livros mais — disse Abrenuncio. Deixou-o saciar a curiosidade. Havia exemplares únicos que na Espanha podiam dar prisão. Delaura os reconhecia e folheava, guloso, repondo-os nas estantes com dor na alma. Em posição privilegiada, com o eterno Fray Gerundio, encontrou Voltaire completo em francês e uma tradução para o latim das Cartas filosóficas.
Voltaire em latim é quase uma heresia— disse brincando.
Abrenuncio contou que a tradução era de um frade de Coimbra que se dava ao luxo de fazer livros raros para distração de peregrinos.
Enquanto Delaura o folheava, o médico perguntou se sabia francês.
Não falo, mas leio — disse Delaura em latim. E acrescentou sem falsos pudores: — E além disso, grego, inglês, italiano, português e um pouco de alemão.
Pergunto por causa do que comentou sobre Voltaire — disse Abrenuncio.
É uma prosa perfeita — E a que mais nos dói — disse Delaura— — Pena que seja de um francês.
O senhor diz isso por ser espanhol — disse Abrenuncio.
Na minha idade, e com tantos sangues cruzados, já não sei mais com certeza de onde sou disse Delaura. — Nem quem sou.
Ninguém sabe por estes reinos — disse Abrenuncio. — E creio que precisarão de séculos para saber.
Delaura conversava sem interromper o exame da biblioteca. De repente, como lhe acontecia com frequência, lembrou-se do livro que o diretor do seminário lhe tinha confiscado aos doze anos e do qual só recordava um episódio que tinha repetido ao longo de sua vida a quem pudesse ajudá-lo.
Lembra o título? — perguntou Abrenuncio.
Nunca soube — disse Delaura. — E daria qualquer coisa para saber como acaba.
Sem anunciar, o médico o pôs diante de um livro que ele reconheceu ao primeiro golpe de vista. Era uma antiga edição sevilhana dos quatro livros do Amadís de Gaula. Delaura, trêmulo, folheou-o e percebeu que estava à beira de renunciar a toda e qualquer salvação. Afinal se atreveu: — Sabe que este é um livro proibido? Como os melhores romances destes séculos — disse Abrenuncio. — Em lugar deles só se imprimem romances para homens doutos. Que leriam esses coitados de hoje se não lessem escondido os romances de cavalaria? — Há outros — disse Delaura — Cem exemplares da edição príncipe do Quixote foram lidos aqui no mesmo ano em que saíram.
Foram lidos, não — disse Abrenuncio. — Passaram pela alfândega a caminho dos diversos reinos.
Delaura não prestou atenção, porque tinha conseguido identificar o precioso exemplar do Amadís de Gaula.
Este livro desapareceu há nove anos do capítulo secreto de nossa biblioteca e nunca mais conseguimos encontrá-lo — disse.
Era de imaginar — disse Abrenuncio — Mas há outros motivos para considerá-lo, um exemplar histórico: durante mais de um ano circulou de mão em mão, pelo menos entre onze pessoas, e pelo menos três morreram— Tenho certeza de que foram vítimas de algum eflúvio desconhecido.
Meu dever seria denunciá-lo ao Santo ofício — disse Delaura.
Abrenuncio levou na brincadeira.
Terei dito uma heresia? — O caso é que tem aqui um livro proibido e alheio, e não denunciou.
— — Esse e muitos outros — disse Abrenuncio, assinalando com um amplo círculo do indicador suas prateleiras atulhadas. — Mas se fosse por isso, o senhor teria vindo há muito tempo e eu não lhe abriria a porta. — Voltou-se para ele e arrematou de bom humor: — Mas me alegra que tenha vindo agora, é um prazer vê-lo aqui.
Foi o marquês, ansioso pela sorte da filha, quem me sugeriu que viesse — disse Delaura.
Abrenuncio o fez sentar diante dele, e os dois se entregaram ao vício da conversação, enquanto uma tempestade apocalíptica convulsionava o mar. O médico fez uma exposição erudita e inteligente sobre a raiva desde a origem da humanidade, sobre seus estragos impunes e a incapacidade milenar da ciência médica para impedi-los. Deu exemplos lamentáveis de como sempre fora confundida com a possessão demoníaca, assim como certas formas de loucura e outras perturbações do espírito. Quanto a Sierva María, depois de tantas semanas, não parecia provável que a contraísse. O único perigo, concluiu Abrenuncio, era que morresse, como tantos outros, em consequência da crueldade dos exorcismos.
A última frase pareceu a Delaura um exagero próprio da medicina medieval, mas ele não discutiu, porque servia bem à sua argumentação teológica de que a menina não estava possuída.
Disse que os três idiomas africanos de Sierva María tão diferentes do espanhol e do português, não tinham de modo algum a carga satânica que lhes atribuíam no convento. Havia numerosos testemunhos de que era dotada de uma força física incomum, mas nenhum de que se tratasse de um poder sobrenatural. Também não se comprovara qualquer ato seu de levitação ou adivinhação do futuro, dois fenômenos que por certo serviam também como provas secundárias de santidade.
Contudo, Delaura tinha procurado o apoio de confrades insignes, até mesmo de outras comunidades, e nenhum ousara pronunciar-se contra as atas do convento nem contrariar a credulidade popular. Mas tinha consciência de que nem os seus critérios nem os de Abrenuncio convenceriam a quem quer que fosse, e muito menos os dois juntos.
Seríamos o senhor e eu contra todos — disse.
Por isso me surpreendeu que viesse — disse Abrenuncio. — Não sou mais que uma peça cobiçada no território de caça do Santo Ofício.
A verdade é que nem sei ao certo por que vim — disse Delaura. — A não ser que essa menina me tenha sido imposta pelo Espírito Santo para pôr a prova minha fé.
Bastou dizê-lo para se libertar do nó de suspiros que o oprimia.
Abrenuncio olhou-o nos olhos, até o fundo da alma, e percebeu que estava quase a chorar.
Não se atormente à toa — disse em tom tranquilizador. — Talvez só tenha vindo porque precisava falar nela.
Delaura sentiu-se nu. Levantou-se, procurou o rumo da porta e só não fugiu em disparada porque estava meio despido. Abrenuncio o ajudou a vestir a roupa ainda molhada, enquanto tratava de fazê-lo ficar para continuar a conversa.
Com o senhor, conversaria sem parar até o próximo século — disse.
Procurou retê-lo com um vidrinho de um colírio transparente para curar a persistência do eclipse no olho. Fê-lo voltar da porta para buscar a maleta que ficara esquecida em algum lugar da casa. Mas Delaura parecia tomado de uma dor mortal. Agradeceu a tarde, o auxilio médico, o colírio, mas a única concessão que fez foi a promessa de voltar outro dia com mais tempo.
Não aguentava mais a vontade de ver Sierva María. Mal notou, na porta, que já era noite fechada. Tinha estiado, mas os canais transbordavam devido ao aguaceiro, e Delaura foi caminhando pelo meio da rua com água pelos joelhos. A porteira do convento quis barrar-lhe a passagem por causa da proximidade do toque de recolher. Ele a empurrou para um lado: — Ordens do senhor bispo.
Sierva Maria acordou assustada e não o reconheceu no escuro. Ele não soube explicar por que ia numa hora tão incomum e lançou mão do pretexto: — Teu pai quer te ver.
A menina reconheceu a maletinha, e seu rosto se incendiou de fúria.
Mas eu não quero — disse.
Desconcertado, ele perguntou por quê.
Porque não — disse ela. — Prefiro morrer.
Ele tentou tirar a correia do seu tornozelo esquerdo são, achando que a agradava.
Deixe-me — disse ela. — Não me toque.
Delaura não ligou e ela soltou-lhe uma série de cusparadas na cara.
Ele se manteve firme e lhe ofereceu a outra face. Sierva María continuou a cuspir. Ele tornou a mudar a face, embriagado pela onda de prazer proibido que lhe subiu das entranhas. Cerrou os olhos e rezou com a alma enquanto ela continuava a cuspir, tanto mais feroz quanto mais ele gozava, até que se deu conta da inutilidade de sua raiva. Então Delaura assistiu ao espetáculo pavoroso de uma verdadeira energúmena. A cabeleira de Sierva María se encrespou com vida própria, como as serpentes da Medusa, e de sua boca saiu uma baba verde, uma saraivada de impropérios em línguas de idólatras.
Delaura brandiu o crucifixo, aproximou-o da cara dela e gritou aterrado: — Sai daí, sejas tu quem fores, besta dos infernos Seus gritos estimularam os da menina, que estava a ponto de romper as fivelas das correias. A guardiã acudiu assustada e forcejou para dominá-la, mas só Martina o conseguiu com seus modos celestiais.
Delaura fugiu.
O bispo estava inquieto porque ele não aparecera para a leitura do jantar. Ele sentiu que flutuava numa nuvem pessoal, onde nada deste mundo ou do outro tinha importância, a não ser a imagem apavorante de Sierva María aviltada pelo diabo. Fugiu para a biblioteca mas não conseguiu ler. Rezou com a fé exacerbada, cantou a canção da tiorba, chorou com lágrimas de óleo ardente que lhe abrasavam as entranhas. Abriu a maleta de Sierva María e pôs as coisas uma a uma em cima da mesa. Conheceu-as, cheirou-as com um desejo ávido do corpo, amou-as e falou com elas em hexâmetros obscenos, até que não pôde mais. Então desnudou o torso, tirou da gaveta da mesa de trabalho a disciplina de ferro que nunca ousara tocar e começou a flagelar-se com um ódio insaciável, que não lhe daria trégua até extirpar de suas entranhas o último vestígio de Sierva Maria.
O bispo, que tinha ficado à espera dele, encontrou-o revolvendo-se num lamaçal de sangue e lágrimas.
É o demônio, meu pai — disse Delaura. — O mais terrível de todos.

Gabriel Garcia Márquez, em Do Amor e Outros Demônios