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16/05/2024

Acerca do caráter

A perfeição do caráter moral consiste em vivenciar cada dia como se fosse o último, sem agitações violentas, letargia ou hipocrisia.

Marco Aurélio, in Meditações

12/09/2023

Intelecto x caráter

There is a depravity of intellect no less really than there is a depravity of character, and it is as possible for the one to be associated with the highest moral qualities, as it is for the other to coexist with the most signal intellectual abilities.
Há uma depravação do intelecto não menos real do que a depravação do carácter, e é tão possível a uma estar associada às qualidades morais mais elevadas, como à outra coexistir com as capacidades intelectuais mais extraordinárias.

Fernando Pessoa, in Aforismos e afins

14/01/2019

Cárater natural

Entre os homens, alguns há que possuem naturalmente um excelente caráter e que assimilam sem necessidade de longa instrução os princípios tradicionais, que abraçam a via da moralidade desde o primeiro momento em que dela ouvem falar; do meio destes é que surgem aqueles gênios que concitam em si toda a gama de virtudes, que produzem eles mesmos virtudes. Mas aos outros, àqueles que têm o espírito embotado, obtuso ou dominado por tradições errôneas, a esses há que raspar a ferrugem que têm na alma. Mais ainda: se transmitirmos os preceitos básicos da filosofia aos primeiros, rapidamente eles atingirão o mais alto nível, pois estão naturalmente inclinados ao bem; se o fizermos aos outros, os de natureza mais fraca, ajudá-los-emos a libertarem-se das suas convicções erradas. Por aqui podes ver como são necessários os princípios básicos. Temos instintos em nós que nos fazem indolentes ante certas coisas, e atrevidos perante outras; ora, nem este atrevimento nem aquela indolência podem ser eliminados se primeiro não removermos as respectivas causas, ou seja, a admiração infundada ou o receio infundado.
Enquanto tivermos em nós esses instintos, bem poderás dizer: “estes são os teus deveres para com teu pai, ou para com os filhos, ou para com os amigos, ou para com os teus hóspedes” — o espírito de lucro será sempre uma causa de hesitações. Um homem bem pode saber que se deve lutar pela pátria, mas o medo convencê-lo-á do contrário; pode saber que se deve suar em benefício dos amigos até a última gota de suor, mas o comodismo impedi-lo-á de o fazer; pode saber que a maior ofensa para uma mulher casada é o marido ter uma amante, mas a sensualidade impeli-lo-á a arranjar uma. Por conseguinte, de nada servirá dar conselhos práticos se primeiro se não removem os obstáculos a que esses conselhos sejam seguidos, do mesmo modo que de nada serve pormos à vista e ao alcance de alguém armas que não poderá usar porque lhe não desamarramos primeiro as mãos! Para que a alma possa pôr em prática os conselhos que lhe damos, devemos primeiro desamarrá-la! Imaginemos alguém que procede como deve ser: pode não proceder assim com frequência, pode não proceder assim com constância, porque não sabe por que motivo procede como deve ser. Às vezes, por mero acaso ou em virtude da prática, podemos desenhar linhas retas, mas não temos à mão uma régua que permita verificar se são realmente retas as linhas que julgamos tais. Um homem que seja bom por acaso não dá garantias de que será sempre bom!
Sêneca, in Cartas a Lucílio

06/07/2018

Caráter

As causas não determinam o caráter da pessoa, mas apenas a manifestação desse caráter, ou seja, as ações.”
Schopenhauer

27/03/2018

Caráter

Dar estilo ao seu caráter... é uma arte deveras considerável que raramente se encontra! Para a exercer é necessário que o nosso olhar possa abranger tudo o que há de forças e de fraquezas na nossa natureza, e que as adaptemos em seguida a um plano concebido com gosto, até que cada uma apareça na sua razão e na sua beleza e que as próprias fraquezas seduzam os olhos. Aqui ter-se-á acrescentado uma grande massa de segunda natureza, nos pontos onde se terá tirado um pedaço da primeira, à custa, nos dois casos, de um paciente exercício e de um trabalho de todos os dias. Neste lugar disfarçou-se uma fealdade que se não podia fazer desaparecer, noutro ela foi transmudada, fez-se dela uma beleza sublime. Grande número de elementos, que se recusavam a tomar forma, foram reservados para ser utilizados nos efeitos de perspectiva: darão os longes, o apelo do infinito. Foi a unidade, a pressão de um mesmo gosto que dominou e afeiçoou no grande e no pequeno: a que ponto, vemo-lo por fim, uma vez terminada a obra; que esse gosto seja bom ou mau, importa menos do que se pensa, basta que tenha havido um.
Serão as naturezas fortes e dominadoras que apreciarão as alegrias mais sutis nesta opressão, nesta escravatura, nesta perfeição ditadas pela lei pessoal; o aspecto de qualquer natureza estilizada, de qualquer natureza, enfim, vencida e submetida, alivia a paixão da sua forte vontade; se têm de construir palácios, se têm de plantar jardins repugna-lhes também deixar a natureza livre. Pelo contrário, os caráteres fracos, aqueles que não se dominam, odeiam a servidão do estilo: sentem que se tornariam inevitavelmente vulgares se esta amarga opressão lhes fosse imposta: não saberiam servir sem se tornar escravos, por isso detestam fazê-lo. Semelhantes espíritos - e podem ser de primeira ordem - empenham-se sempre em se dar a si próprios e em dar ao seu meio o ritmo de naturezas livras - selvagens, arbitrárias, fantasistas, desordenadas e surpreendentes - ou em interpretar-se como tais: e fazem bem, porque é só assim que se satisfazem! Uma única coisa é, com efeito, necessária: que o homem chegue a estar contente consigo, qualquer que seja a arte ou a ficção de que se serve para esse fim: é somente então que ganha uma fisionomia suportável! Os que estão descontentes consigo próprios estão sempre prontos a vingar-se: como nós que seremos as suas vítimas, quanto mais não seja tendo de suportar sempre o seu desagradável espetáculo. Porque o espetáculo da fealdade torna as pessoas más e sombrias.”
Friedrich Nietzsche, in A gaia ciência

05/06/2017

Acerca do caráter

Entre os homens, alguns há que possuem naturalmente um excelente caráter e que assimilam sem necessidade de longa instrução os princípios tradicionais, que abraçam a via da moralidade desde o primeiro momento em que dela ouvem falar; do meio destes é que surgem aqueles gênios que concitam em si toda a gama de virtudes, que produzem eles mesmos virtudes. Mas aos outros, àqueles que têm o espírito embotado, obtuso ou dominado por tradições errôneas, a esses há que raspar a ferrugem que têm na alma. Mais ainda: se transmitirmos os preceitos básicos da filosofia aos primeiros, rapidamente eles atingirão o mais alto nível, pois estão naturalmente inclinados ao bem; se o fizermos aos outros, os de natureza mais fraca, ajudá-los-emos a libertarem-se das suas convicções erradas. Por aqui podes ver como são necessários os princípios básicos. Temos instintos em nós que nos fazem indolentes ante certas coisas, e atrevidos perante outras; ora, nem este atrevimento nem aquela indolência podem ser eliminados se primeiro não removermos as respectivas causas, ou seja, a admiração infundada ou o receio infundado.
Enquanto tivermos em nós esses instintos, bem poderás dizer: “estes são os teus deveres para com teu pai, ou para com os filhos, ou para com os amigos, ou para com os teus hóspedes” — o espírito de lucro será sempre uma causa de hesitações. Um homem bem pode saber que se deve lutar pela pátria, mas o medo convencê-lo-á do contrário; pode saber que se deve suar em benefício dos amigos até a última gota de suor, mas o comodismo impedi-lo-á de o fazer; pode saber que a maior ofensa para uma mulher casada é o marido ter uma amante, mas a sensualidade o impelirá a arranjar uma. Por conseguinte, de nada servirá dar conselhos práticos se primeiro se não removem os obstáculos a que esses conselhos sejam seguidos, do mesmo modo que de nada serve pormos à vista e ao alcance de alguém armas que não poderá usar porque lhe não desamarramos primeiro as mãos! Para que a alma possa pôr em prática os conselhos que lhe damos, devemos primeiro desamarrá-la! Imaginemos alguém que procede como deve ser: pode não proceder assim com frequência, pode não proceder assim com constância, porque não sabe por que motivo procede como deve ser. Às vezes, por mero acaso ou em virtude da prática, podemos desenhar linhas retas, mas não temos à mão uma régua que permita verificar se são realmente retas as linhas que julgamos tais. Um homem que seja bom por acaso não dá garantias de que será sempre bom!
Sêneca, in Cartas a Lucílio

17/01/2017

Acerca do caráter

Suponho que homem algum pode violar a sua natureza. Todos os ímpetos da nossa vontade são torneados pela lei do nosso ser, assim como as desigualdades dos Andes e do Himalaia se tornam insignificantes na curvatura da esfera. Tampouco importa como o meças e experimentes. Um caráter é como um acróstico ou como uma estância alexandrina: lido para diante, para trás, ou de través, diz sempre o mesmo.
(...) Passamos pelo que somos. O caráter fala mais alto do que a nossa vontade. Os homens imaginam que podem patentear as suas virtudes ou os seus vícios somente através de ações ostensivas, e não se dão conta de que, a todo o momento, a virtude e o vício exalam o seu alento.
Ralph Waldo Emerson, in A confiança em si mesmo

29/12/2016

Emoção e caráter

Obedecer aos próprios sentimentos? Arriscar a vida ao ceder a um sentimento generoso ou a um impulso de momento... Isso não caracteriza um homem: todos são capazes de fazê-lo; neste ponto, um criminoso, um bandido, um pirata certamente superam um homem honesto. O grau de superioridade é vencer em si esse elã e realizar o ato heroico, não por um impulso, mas friamente, razoavelmente, sem a expansão de prazer que o acompanha. Outro tanto acontece com a piedade: ela há-de ser habitualmente filtrada pela razão; caso contrário, é tão perigosa como qualquer outra emoção. A docilidade cega perante uma emoção - tanto importa que seja generosa ou piedosa como odienta - é causa dos piores males. A grandeza de caráter não consiste em não experimentar emoções; pelo contrário, estas são de ter no mais alto grau; a questão é controlá-las e, ainda assim, havendo prazer em modelá-las, em função de algo mais.
Friedrich Nietzsche, in A vontade de poder

20/12/2016

Quem decide é o nosso caráter

A nossa vida, como repertório de possibilidades, é magnífica, exuberante, superior a todas as historicamente conhecidas. Mas assim como o seu formato é maior, transbordou todos os caminhos, princípios, normas e ideais legados pela tradição. É mais vida que todas as vidas, e por isso mesmo mais problemática. Não pode orientar-se no pretérito. Tem de inventar o seu próprio destino.
Mas agora é preciso completar o diagnóstico. A vida, que é, antes de tudo, o que podemos ser, vida possível, é também, e por isso mesmo, decidir entre as possibilidades o que em efeito vamos ser. Circunstâncias e decisão são os dois elementos radicais de que se compõe a vida. A circunstância – as possibilidades – é o que da nossa vida nos é dado e imposto. Isso constitui o que chamamos o mundo. A vida não elege o seu mundo, mas viver é encontrar-se, imediatamente, em um mundo determinado e insubstituível: neste de agora. O nosso mundo é a dimensão de fatalidade que integra a nossa vida.
Mas esta fatalidade vital não se parece à mecânica. Não somos arremessados para a existência como a bala de um fuzil, cuja trajetória está absolutamente pré-determinada. A fatalidade em que caímos ao cair neste mundo – o mundo é sempre este, este de agora – consiste em todo o contrário. Em vez de impor-nos uma trajetória, impõe-nos várias e, consequentemente, força-nos... a eleger. Surpreendente condição a da nossa vida! Viver é sentir-se fatalmente forçado a exercitar a liberdade, a decidir o que vamos ser neste mundo. Nem um só instante se deixa descansar a nossa atividade de decisão. Inclusive quando desesperados nos abandonamos ao que queira vir, decidimos não decidir.
É, pois, falso dizer que na vida “decidem as circunstâncias”. Pelo contrário: as circunstâncias são o dilema, sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso caráter.
Ortega y Gasset, in A Rebelião das Massas

22/03/2016

Reflexão para o momento atual

Há uma depravação do intelecto não menos real do que a depravação do caráter, e é tão possível a uma estar associada às qualidades morais mais elevadas, como à outra coexistir com as capacidades intelectuais mais extraordinárias.”
Fernando Pessoa, in Aforismos e afins

24/07/2013

Caráter

"Todo o homem tem três caráteres: o que ele exibe, o que ele tem e o que pensa que tem."
Alphonse Karr

01/03/2013

Estou sempre cercado de mim mesmo

"Se tremo à opinião pública, como chamamos, ou à ameaça de assalto, ou a maus vizinhos, ou à pobreza, ou à mutilação, ou a boatos de revolução, ou de homicídio? Se tremo, que importa a causa? Os nossos próprios vícios tomam formas diversas, de acordo com o sexo, idade, ou temperamento, e, se tementes, prontamente nos alarmamos. A cobiça, ou a malícia que me entristecem, quando as atribuo à sociedade, pertencem-me. Estou sempre cercado de mim mesmo. Por outro lado, a retidão é uma vitória perpétua, celebrada não por gritos de alegria mas com serenidade, que é a alegria permanente ou habitual.
É uma desgraça recorrermos a fatos para confirmação da nossa palavra e dignidade. O capitalista não procura o seu corretor a cada instante para tomar conta dos seus lucros, em moeda corrente. Contenta-se em ler nas cotações da Bolsa que as suas ações subiram. O mesmo transporte que a ocorrência dos melhores acontecimentos me proporcionaria, devo aprender a experimentar, ainda mais puro, na verificação de que a minha posição melhora a cada passo e já comanda os acontecimentos que desejo. Tal exultação só se deteria diante da previsão de uma ordem de coisas tão singular que viesse a atirar nas sombras mais profundas todas as nossas conquistas."
Ralph Waldo Emerson, in O Caráter

24/02/2013

Caráter

"Os homens de caráter são a consciência da sociedade a que pertencem. A medida natural dessa força é a resistência às circunstâncias. Os homens impuros julgam a vida pela versão refletida nas opiniões, nos acontecimentos e nas pessoas. Não são capazes de prever a ação até que ela se concretize. Todavia, o elemento moral da ação preexistia no autor e a sua qualidade, boa ou má, era de fácil predição. Tudo na natureza é bipolar, ou tem um pólo positivo e um pólo negativo. Há um macho e uma fêmea, um espírito e um fato, um norte e um sul. O espírito é o positivo, o fato é o negativo. A vontade é o norte, a ação é o pólo sul. O caráter pode ser classificado como tendo o seu lugar natural no norte. Distribui as correntes magnéticas do sistema. Os espíritos fracos são atraídos para o pólo sul, ou pólo negativo. Só veem na ação o lucro, ou o prejuízo que podem encerrar.
Não podem vislumbrar um princípio, a não ser que este se abrigue noutra pessoa. Não desejam ser amáveis mas amados. Os de caráter gostam de ouvir falar dos seus defeitos; aos outros aborrecem as faltas; adoram os acontecimentos; vinculam a estes um fato, uma conexão, uma certa cadeia de circunstâncias e dai não passam. O grande homem sabe que os eventos são seus servos: estes devem segui-lo.
Uma dada ordem de acontecimentos não tem poder para lhes garantir a satisfação proporcional ao grau de imaginação de que são dotados. O espírito da bondade transcende qualquer série de circunstâncias, ao passo que a prosperidade pertence a um determinado espírito e introduz a força e a vitória, seus frutos naturais, em qualquer ordem de acontecimentos."
Ralph Waldo Emerson, in O Caráter

17/02/2013

Caráter adquirido

“É apenas a experiência que nos ensina quanto o caráter dos homens é pouco flexível, e durante muito tempo, como as crianças, pensamos poder, através de sensatas representações, através da prece e da ameaça, através do exemplo, através dum apelo à generosidade, levar os homens a deixarem a sua maneira de ser, a mudarem a sua conduta e a desistirem da sua opinião, a aumentar a sua capacidade; o mesmo se passa quanto à nossa própria pessoa. É preciso que as experiências venham ensinar-nos o que queremos, o que podemos: até essa altura ignoramo-lo, não temos caráter; e é preciso mais do que uma vez que rudes fracassos venham relançar-nos na nossa verdadeira via. - Enfim, aprendemo-lo, e chegamos a ter aquilo que o mundo chama caráter, isto é o caráter adquirido. Aí existe, portanto, apenas um conhecimento, o mais perfeito possível da nossa própria individualidade: é uma noção abstrata, e por consequência clara das qualidades imutáveis do nosso carácter empírico, do grau e da direção das nossas forças, tanto espirituais como corporais, em suma, do forte e do fraco em toda a nossa individualidade.
Arthur Schopenhauer, in O Mundo como Vontade e Representação

12/02/2013

Humildade

“A humildade fica perto da disciplina moral; a simplicidade de carácter fica perto da verdadeira natureza humana; e a lealdade fica perto da sinceridade de coração. Se um homem cultivar cuidadosamente essas coisas na sua conduta, não estará longe do padrão da verdadeira natureza humana. Com a humildade, ou uma atitude piedosa, um homem raramente comete erros; com a sinceridade de coração, um homem é geralmente digno de confiança; e com a simplicidade de caráter é comumente generoso: cometerá poucos erros.”
Confúcio, in A Sabedoria de Confúcio

09/02/2013

O caráter aspira à largueza

“Quando vemos um grande homem, imaginamos uma semelhança com alguma personalidade histórica e profetizamos a sequência do seu caráter e do seu destino, dedução que necessariamente falhará. Ninguém jamais resolverá o problema do seu caráter, de acordo com os nossos prognósticos, mas de acordo com a própria orientação, personalíssima e sem precedente.
O caráter aspira à largueza; não se deve misturar com as pessoas, nem ser julgado por episódios colhidos na velocidade da vida quotidiana ou em poucas ocasiões. Como um grande edifício, necessita de perspectiva. Não pode formar, e provavelmente não forma, relações rapidamente; e não devemos desejar explicações precipitadas, seja na ética popular ou na nossa própria, da sua ação.
Ralph Waldo Emerson, in O Caráter

25/10/2012

Nem riqueza nem pobreza

“Uma sociedade em que nem a riqueza nem a pobreza existem produz homens de excelente caráter, já que nela não há lugar para violência ou maldade, nem rivalidade ou inveja.”
Platão

10/08/2012

Um amigo: esperança do coração

“A vida caminha precipitadamente. Perseguimos alguns esquemas flutuantes ou somos perseguidos por algum medo ou autoridade atrás de nós. Mas, se, de repente, encontramos um amigo, paramos; o nosso calor e a nossa pressa tornam-se ridículos. Ora a pausa, ora o domínio são necessários e também a força para encher o momento dos eflúvios do coração. O momento é tudo, em todas as relações nobres.
Uma pessoa divina é a profecia do espírito; um amigo é a esperança do coração. A nossa ventura espera pela concretização destas duas em uma.
Os séculos estão a dilatar essa força moral. Toda a força é a sombra ou o símbolo daquela. A poesia é alegre e forte quando extrai nessa fonte a sua inspiração. Os homens só inscrevem os seus nomes no mundo quando estão cheios deste. A história tem sido ignóbil; as nossas nações têm sido a gentalha; nunca vimos um homem: essa forma divina que ainda não conhecemos, mas apenas o sonho e a profecia de tal; não conhecemos os modos majestosos que lhe são peculiares e que acalmam e exaltam o observador.
Um dia veremos que a energia mais particular é a mais pública, que a qualidade afina com a quantidade e a grandeza de caráter atua na sombra e socorre aos que nunca a viram. O que de grandeza já apareceu são os princípios e estímulos para que prossigamos nesse sentido. A história daqueles deuses e santos que o mundo tem escrito, e depois adorado, são provas de caráter”.
Ralph Waldo Emerson, in O Caráter