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08/09/2024

As uvas


O herói subiu pelo elevador com o velho, um a examinar o outro. Saltaram ambos no quarto andar. Ele apertou a campainha. Na porta ao lado, o velho escolhia uma chave. Nelsinho entendeu na sua careta zombeteira — Olha aí mais um...
Como vai o doutor? — cumprimentou Ivone, cerimoniosa.
Fechou a porta e sorriu:
Tratei você de doutor. Esse velhote não me deixa em paz.
Na mesa um vaso minúsculo de cacto. Espetada em areia, na haste negra luzia pontinho escarlate.
Incenso indiano, querido, para roubar teu coração!
Na janela a tarde bruxuleava. Envolto na nuvem adocicada, tossiu de leve: Ai, só me falta crise de asma.
Muito distinto!
O herói tomou-lhe as mãos e quis beijá-la, mas desviou o rosto.
Que tanta pressa! Nem me achou bonita.
Um passo atrás, que a pudesse admirar: cetim negro, três voltas do colar dourado. Boca inchada de batom. Cabelo preto retinto, olho de sombra roxa — a última encarnação de Mata Hari.
Está linda, meu bem.
A menina que escrevia bilhete no intervalo das aulas: Desta mujer que te quiere mucho, mucho, mucho! Travou das mãos, cruzou-lhe os braços nas costas:
Agora não escapa.
O herói beijou o ar, galinha cega bicando às tontas. Ela sacudiu a cabeça com gritinhos de terror.
Por que me convidou?
Falar com você.
Insistiu que estava sozinha. Não pensei que para conversar.
Cruzes! Nunca imaginei você queria isso.
Afastado na ponta dos braços:
O mesmo olhar inocente do menino. Você é inocente?
Você bem sabe — e forcejando para atraí-la, conseguiu derrubar um brinco.
Viu o que fez?
Depois eu acho.
Ai, que horror! Me solte um pouco. Que tal um cigarro?
Com dedos de ponta amarela acendeu um fósforo.
Fuma demais.
Tão aflita...
Se quer, vou embora.
Não — e segurou-lhe a mão, ainda com o fósforo. — Olhe: do lado que cair a cabeça está o meu amor.
A cabecinha negra rolou para ele.
Gosta de mim, querido? Preciso tanto de alguém. Tão só desde que a mãezinha morreu.
E teu marido?
Coitado do Vivi.
Espreguiçavam-se nos cantos as primeiras sombras da noite.
Quer umas uvinhas, querido?
Na ponta do filete ardia a brasinha — Ivone apresentou-lhe o prato com uvas geladas e um guardanapo engomado. No outro lado da mesa, o rosto em nuvem azul de fumaça. Cruzou a perna, exibiu o chinelinho de pompom vermelho.
Nervoso?
Nem um pouco.
Eu sim. Nunca enganei o Vivi. Boa a uva, não é?
Ótima. Você quer?
Já provei.
Batia o cigarro no vasinho de cacto. Ali no ombro uma pinta de beleza.
Um beijinho na tua pinta!
No estremeção de peixe arisco:
Sinto cócega. Ah, se o Vivi... Nem quero pensar!
Onde é que ele está?
Por aí.
É bom para você?
Muito. Atencioso, bem educado.
Apanhou na radiola o retrato de moldura prateada.
Se não é parecido com você. Por isso goste dele. O primeiro beijo lá na varanda?
Eu podia esquecer? — e roçou o lábio no ombro, errou a pinta. — Você era virgem?
Que pergunta.
É certo o que dizem do Vivi?
Bem que noivo diferente. Pobre de mim, chorei de alegria. Moço prendado, falava línguas.
Só beijinho de muito respeito. Uma educação inglesa. Depois você sabe. ..
Que foi que houve?
Abri de repente a porta: aos beijos com o filho do porteiro!
Aspirou o cigarro ao ponto de recolher as bochechas.
Simpático teu apartamento.
Quer conhecer?
Ivone indicou a cozinha. Abriu a porta do quarto:
Desculpe a desarrumação.
O quarto em perfeita ordem, duas camas de solteiro. Desta vez conseguiu beijá-la, sem que retribuísse.
Espere. Limpar os lábios.
Mais um beijinho.
Não quero manchar tua camisa.
Apanhou lenço de papel sobre a penteadeira.
Ele observou as costas até achar a pinta — agora deixá-la nuazinha. Junto da cama, a lâmpada no garrafão azul.
Muito original.
Olhando-o pelo espelho:
Não é mesmo?
Voltou-se: rubros como antes, grossos de batom. Ele começou a beijar-lhe o pescoço, uma veia pulsava forte. Correu os dedos, esquecidos na nádega — louco por vestido com botão.
Como é que é?
O que, meu bem?
A gente tira?
Que pressa, cruzes! — o biquinho de contrariedade. — Conversar um pouco.
Tenha paciência, filha. Não é hora.
Aborrecida, afastou-se dois passos:
Está bem. Tire a roupa.
Sacou o vestido pela cabeça, tanta prática que nem se despenteou. Ele tirou o paletó.
Um cabide?
Penduro aqui mesmo.
De costas, jogou a calça ao pé da cama. Virou-se e o que viu? Ela de sutiã, anágua, chinelinho de pompom. Em cueca, nosso herói investiu. Ergueu a saia, surpreendeu a coxa no espelho — a matrona é avó torta da donzela. Para se consolar, fechou o olho e fungou-lhe no pescoço. Repelão violento o fez cambalear:
Que é? Que foi?
Espere um pouco.
Acendeu o cigarro, apanhou no guarda-roupa uma toalha, que estendeu sobre a colcha encarnada.
Nelsinho despiu a cueca, apenas de camisa e sapato. Ela o encarou e, a mão atrás, abriu o sutiã: horrendo peito flácido. Excitadíssimo ao vê-la tirar a calcinha, só de anágua. Que se debateu aflita:
E o brinco?
Que brinco? Ah, depois eu acho.
Como é apressado, que horror! Vou lavar as mãos.
Agora não. Depois.
Tem de ser já.
Sem se confessar deprimido, o herói exibiu-se no espelho, admirou as suas graças. De frente e de perfil, erguendo a aba da camisa — grande cadela, deixa estar, ela me paga!
Ivone saiu do banheiro, soltou a anágua, pisou sobre ela — nua, cigarro na boca! Desviou-se mais uma vez do abraço:
Não tira o sapato?
Foi sentar-se na cama, acendeu novo cigarro na brasa do outro.
Nelsinho livrou-se do sapato. Trêmulo, beijava-lhe o braço, o pescoço, a orelha — lembra-se, querida, a noite na varanda?
Cuidado. Eu te queimo.
Fumava sem pressa, a boca feroz, olho no teto.
Sossega, meu bem. Olha a cinza na colcha.
Ergueu-se no cotovelo, amassou o cigarro no cinzeiro. De repente envolveu-o num abraço apertado. Sem explicação, deitou a gemer alto: Ai, ai, ai! Empurrou-o, sacudiu a cabeça:
Bonito o teu olho esquerdo!
Agarrou-o com violência, entre ais lancinantes. O rosto afundado no cabelo, Nelsinho espirrou duas vezes.
Que foi, bem? Resfriou?
A velha asma.
Sem aviso, a defender-se com unha e cotovelo:
Me machucando. Trocar de posição. Mais para baixo. De mau jeito. Não desmanche o penteado.
Ele seguia as instruções, frustrado e miserável. Ivone enlaçou-lhe o pescoço e beijou-o, a gemer fora de tom. No meio do beijo, estremeceu a pálpebra, aos poucos abrindo o olho. Fixou-o no fundo da pupila, franziu a testa. Nelsinho começou a resfolegar, lavado de suor frio.
Nervoso, bem? — melíflua, suspirou a bela.
Em desespero, fechando o olho, tornou a beijá-la: boca escarninha, cheia de dentes. Fio de baba escorreu no queixo, ela desviou o rosto:
Incomodou-se hoje, não foi?
Inibido pela expressão de censura, o sulco na testa acusadora, ainda pediu:
Me beije, querida.
Não fique nervoso. Já passa.
Você é que sabe — a voz sumida.
Isso acontece.
Na separação dos corpos suados um estalo obsceno. Nelsinho deixou-se rolar de costas.
Pois é. Acontece a qualquer um — com amargura medonha na alma.
Bem quietinho — as palavras untuosas de doçura. — Como eu e meu marido.
Compassiva, afofou o travesseiro, que descansasse a cabeça. Alcançou lencinho na gaveta, enxugou-lhe a testa em agonia. Dois cigarros na boca, acendeu-os, estendeu-lhe um.
Primeira vez? — a menina inocente na varanda.
Não queria conversa, preocupado em não se distrair.
Nunca me aconteceu.
Será que das uvas? — os seios sacolejando com o risinho de pouco caso.
Se a gente ficasse de pé?
De pé, não deu resultado: a visão medonha da nádega no espelho. Depois, sentados. E deitados retomaram os cigarros. Nelsinho de costas, ela apoiada no cotovelo, a soprar-lhe a fumaça no olho. Com a mão livre, Ivone ofereceu entre o indicador e o polegar o seio opulento; sem entusiasmo, ele sorveu o leite mais triste. O coração pulsava no travesseiro e rangia no colchão. Tornou o suor a escorrer-lhe da testa.
Igualzinho ao Vivi.
Ivone aspirou fundo, soprou deliciada pelo nariz: uma vez com um homem. Abordada na rua. Na própria lua-de-mel. Nunca soube quem era. Em vez de indignar-se, recolheu-o no apartamento. Tristonho, Nelsinho observava o desejo afoguear-lhe as faces, rouca de perturbação. Engoliu em seco: esmagou a boca de beijos, com receio de que o empurrasse para rematar a frase. Entreabriu o olho a gozar o triunfo, notou a ruga incrédula na testa. Ai dele! a exaltação gloriosa esvaiu-se em derrota sem remédio.
Não se canse tanto, meu bem. Pode ter uma coisa!
Concluiu em sossego a história, na verdade muito interessante.
Com calor? Que abra a janela?
Fique quieta. — E com humildade. — Não sei o que... A primeira vez.
Meu maridinho é bem assim.
A vez do herói acender os cigarros. No silêncio, choro de criança no apartamento vizinho, um relógio ao longe deu as horas. Último clarão do crepúsculo na janela. Chegou até ele a fragrância enjoativa do incenso: Deus, ó Deus, por que não morri de asma aos cinco anos?
Ivone saltou da cama, os peitos bamboleantes, foi apanhar um fósforo na sala. Voltou com o pratinho:
Não quer acabar as uvas?
Deitado, beliscou dois e três grãos. Chupou o sumo, devolveu a casca ao prato. Apanhou outro bago. Tão desconsolado, em vez de cuspir, engoliu a semente e a casca.

Dalton Trevisan, em O Vampiro de Curitiba

24/08/2024

Menino caçando passarinho


Advogado é padre, minha senhora. Pode confiar.
Eu sei, doutor Nelson.
Não se acanhe. Conte a verdade. Enganava seu marido, não é?
Deus me livre!
Nesta citação a senhora é culpada.
Dez anos casada. Um par de filhos. Seis meses atrás, uma perda. O resguardo, descansar na casa da mãe. De volta, deu com porta e janela trancadas. Na rua, recebeu a contrafé do oficial-de-justiça: desquite, alegação de adultério.
Quem é esse João Maria, citado como cúmplice?
Um compadre, doutor. Esse não vai contra mim.
Luto da mãe, o vestido preto colante, broche de borboleta. O marido tinha horror da sogra. Não lhe dirigiu a palavra nos três meses em que a velha se hospedou na casa, doente da bexiga. Tenha pena dela – suplicava a mulher. E você? Tem pena de mim?
Óculo escuro: olho roxo de um murro.
Homem fraco na cama é forte fora dela.
Como disse, doutor?
Conte os fatos, minha senhora.
Passeio no campo, o marido, ela e as filhas. Desde que se negava, alegando mal de mulher, o bruto queria agarrá-la à traição. Atalho no bosque, mandou as crianças na frente. Derrubou-a na grama. Com os gritos, as crianças voltaram, nele batiam com a sombrinha: Não surre a minha mãe! Não afogue a minha mãe!
Cuidar com carinho, dona Olga, de sua defesa.
Na vez seguinte: assinatura da procuração, os preâmbulos. Tão jovem, não definhava longe do marido? A separação de corpos, morando com o pai
A senhora anda nervosa?
Nem queira saber, doutor.
E antes de casar?
Era bem calma. Agora sofro dos nervos – às vezes tenho ataque!
Ai, que beleza: ela tem ataque.
A senhora... delirava, dona Olga? Olhinho baixo: Sim.
Um bem que Deus lhe concedeu. Sabe, o delírio, o que há de maravilhoso. A mulher tem convulsão, dona Olga.
É fato científico. Não se acanhe. Advogado em serviço não tem sexo.
Eu sei, doutor.
Aqui no escritório muita interrupção. Levo os papéis a um lugar sossegado. No hotel da estação, está bem?
Sim.
Esperou de quinze para as quatro até quatro e meia - assustei a pombinha, essa não volta mais.
Dona Olga. Por que não foi?
Eu fui. O doutor não estava mais. Negaceava, a bichinha, sem dizer que não. No escritório, após o expediente, discutir a pensão do marido para os filhos. Seis em ponto, Olga entrou na sala de espera. O herói fechou a porta e investiu.
O doutor era um ídolo. Pensa que mulher separada não é honesta?
Um beijinho só.
Olhe que eu grito.
Picaria – só um pouco – se abrisse a porta. Ligeiro beijo roubado, a que não correspondeu.
Prometo me comportar.
Com a porta aberta – imagine se alguém! – insistiu no assalto. Passos na escada, o elevador ora subia, ora descia. Sentados no sofá, a bela concedeu-lhe a mãozinha, que cobriu de beijos inflamados.
Olhe que eu saio.
Ia sentar-se na outra cadeira. Ele arrastava-a para o sofá. Luta silenciosa e feroz: os dedos arranhados pela unha afiada. Despedida cerimoniosa na porta:
Passe bem, doutor.
Os seus problemas eu resolvo. A senhora tenha confiança.
Surgiu-lhe o marido uma tarde no escritório:
Mais algum papel para assinar, doutor?
Era só.
Desconfio dela, doutor. Falam muito. Anda enfeitada demais.
É moça direitinha. O senhor tem prova? Sabe de fato concreto?
Fato, não sei, doutor. Desconfiança a gente sempre tem. A mulher capricha na roupa de baixo, que o homem se cuide.
Saia preta e blusa branca de rendinha, braço à mostra – uma cicatriz de vacina meio escondida. A moça lia a petição, o doutor lhe afagava o bracinho. A fingir que lia, o rosto abrasado de excitação.
Vamos lá?
Lá não dá, doutor. Lá não dá certo. Que o senhor quer de mim? O homem só faz as coisas por interesse. É esse o preço do homem!
Afogueada, a penugem do braço arrepiadinha. Ele não se conteve: alisou-o de alto a baixo com as duas mãos.
O doutor era influente – não sabia de uma vaga de professora?
Já se considere nomeada, dona Olga.
À saída, ela fez biquinho com o lábio e, estando de salto alto, forçado a se pôr na pontinha do pé.
Se der, eu vou. Não sei se posso. Eu não devo.
Então às cinco?
Choveu bem na hora. Esbarrou no pai dela, o velho farmacêutico.
Eu mando ela sem falta. O doutor pode confiar.
Olga reagiu, que ele cambaleou de costas.
Não adianta. Eu não quero.
Então tudo acabou. O caso foi processado. Quer ir para casa, vá – e arquejava, de fôlego curto.
Entre os artigos de lei, a se lembrar do bracinho arrepiado, o olho amarelo de quem sofre do fígado – eu tenho ataque, doutor! Recado urgente pelo farmacêutico que ela o esperasse em casa, às duas da tarde.
Bateu palmas na porta dos fundos. Olga assomou à janela.
Entre, que já desço.
Abriu a porta: estaria o diabo do velho? À espreita, quem sabe, atrás da cortina? Ela desceu a escada, repuxando a saia no joelho. O vestido caseiro, em chinelinho.
Imediatamente a agarrou aos beijos e abraços.
Louco por você.
Abatida, sem pintura, de olheira – ai, mãe do céu, de olheira!
Que dizia ela? Não mais que balbucios:
Sim, doutor – e revirava o olho. – Ai, doutor.
Sempre a resguardar-se das três mãos. Uma hora inteira de beijos – o dentinho perfumado.
Sossegue. Papai entra de repente. O senhor é doido?
Iniciação ao beijo de língua. O vestido afogado no colo, ele não podia espirrar o seio. Mordiscava a ponta da orelha.
Sabia o que eu queria?
Sim.
Desde quando?
Desde a primeira vez. Da conversa que advogado é padre.
Ai, Olga. Me beije.
Aqui não dá. Se papai chega?
As crianças?
Mandei no vizinho.
Deixe. Mais um pouco. Só um pouco.
Onde já se viu? É loucura.
Conhece a minha posição. Sou casado. Houvesse risco, o primeiro a não querer.
À roda da casa, fingia coçar o nariz, com a mão no rosto. Na hora combinada, surgiu pressurosa e tossindo, lencinho na boca.
Deu volta à chave. Ela caiu-lhe nos braços, toda trêmula. Nem falar podia, tão assustada. Desabotoava o casaquinho – cuidado, querido, o pregador! Ele arrancou a gravata. Aos cochichos – já era hábito. Bem o marido tinha razão: a maravilhosa roupa de baixo – sedas e rendas! Aos beijos, de pé. Aos beijos, sentados no sofá. Deitados no tapete, rolando.
Quer que morda ou beije?
Sim.
Beije ou morda?
Sim. Ai, sim. Ai, sim.
Abra o olho.
Gema comigo, anjo. Agora.
O herói gemeu. Ela o acompanhou em tom mais baixo.
Ai, ai. Eu morro.
Estirada no tapete, bem quieta, a combinação azul acima do joelho.
Ele abotoou o paletó, acendeu cigarro. A bela mordia um grampo, a observá-lo no espelho:
Mais uma para tua coleção?
Você é a única.
Foi introduzir uma nota na bolsa.
Não sou dessas.
Esperou-a no portão dos fundos. No quintal vizinho, um menino caçava, atiradeira em punho e olhar perdido. Gente na rua: a negra velha, um soldado discutia com o barbeiro.
Saltinhos saltitando na pedra, ele tossiu três vezes.
Que imprudência!
De saia xadrez, blusa de lã. Fechada a porta, dela o primeiro beijo:
Obrigada, meu amor. Pode o que quiser. Agradecida pela nomeação, despiu-se a toda pressa. Ele, em cueca e meia preta:
Fique nua.
O seio róseo empinadinho. Já ritual:
Morda ou beije?
Sim – a mania de repetir sim, sim. Como é que um bruto desprezava dona tão querida?
Suspiros e, ao apertá-lo nos braços, o cheiro capitoso de égua trêmula.
Se não corro me atrasava. Bem louca. Você me deixou assim.
Com o João não fazia... isso?
Credo! Isso nunca aconteceu.
O herói beliscava o biquinho do seio inchado.
Teu marido como é?
Um apressado, procurava-a sem aviso; em seguida dava-lhe as costas. Não ficasse mal acostumada – um trapo sujo atirado no canto.
Tem me seguido. Não é arriscado vir aqui? Estou com medo.
Me beije. Não fale.
Vai enjoar de mim? O homem consegue o que quer. Depois corre atrás de outra.
Me beije. Ai, Olga. Não fale. Abra o olho. Grande olho amarelo agora bem vermelho. Acuda, Olguinha, me deu ataque.
Fique de olho aberto.
À saída, assustou-se com o menino trepado na ameixeira.
Tem gente aí.
Boba. É um menino.
Se ele me vê?
Menino caçando passarinho é cego para o que não for passarinho.

Dalton Trevisan, em O Vampiro de Curitiba

18/08/2024

Na pontinha da orelha


Nelsinho abriu o portão, equilibrou-se nos tijolos soltos e, diante da porta, conchegado no saco de estopa, onde limpava os pés, deu com o Paxá. Tarde o cachorro descobriu que era ele, havia rolado os três degraus com o pontapé. Velho e doente, nem rosnou, apenas gemeu de dor; trêmulo, arrastando a perna, perdeu-se no fundo do quintal. O rapaz bateu na porta e, sem esperar, entrou na cozinha deserta. Ouviu as vozes do rádio e, pontinha de pé, dirigiu-se para a sala.
Do corredor espiou a velha na cadeira de balanço, tigela erguida ao peito, a engolir com avidez o caldo de feijão. Imóvel à porta, ele não a tinha enganado: a velha sorvia ruidosamente a sopa, sem deixar de seguir a novela. Nada que denunciasse a atenção – nem piscar de pálpebra, nem arfar de narina, escancarada a boca quando a colher ainda na tigela –, sabia de sua presença desde que saltara do ônibus na esquina. Sob a ladainha dos atores percebia o chio do sapato na areia, o leve toque na porta. Jamais lhe deu as costas – não seria ela, velha matadora, quem se descuidasse do touro. O herói espreitava o dia em que a surpreendesse no sótão, à beira da escada...
Boa noite, dona Gabriela. Já veio a Neusa?
Trocando de roupa. – E segundo a regra do jogo: – Que susto, meu filho, me pregou! – e a colher raspava o fundo da tigela. – O Paxá, coitado, não tem força de latir.
Aviso de que não subestimasse as velhas matadoras: sabia do pontapé no guapeca do coração. Depositou a tigela na mesa do lado. Mão trêmula, alcançou o copo.
Tomando sua cervejinha, dona Gabriela? Expressão obscena de gozo, bebia de olho fechado.
Ganhei do Noca.
A primeira?
É, sim.
Acabou a garrafinha de rum?
Bigode de espuma na boca encarquilhada.
Fale baixo, a Neusa escuta.
Exibiu entre as raízes podres o último canino amarelo.
Um restinho só.
Que tal mais uma?
Minha perdição é você, meu filho. Emprestada, hein? Faço questão de pagar.
O Zezinho não aliviou a carteira?
Nem queira saber.
Suspiro nas entranhas da velha, que emborcou o copo. Apressou-se o rapaz em servi-la.
Bem que escondi – e deu um arrotinho. – Essa tosse. Quero ver se descobre.
Tem muito dinheiro, não é?
A velha girou o rosto – não desvie o olho, conde Nelsinho, que está perdido.
Ai de mim. Tivesse dinheiro, estava gemendo e sofrendo nesta cadeira? Pensa que tenho, é?
No buço da velha secavam as bolhas de espuma.
Quer outra garrafa?
O dedinho inchado de nós catou fiapos da saia.
Conte para ninguém, meu filho. Senão eles escondem. Não me dão um gole.
Fique descansada. É segredinho.
Cuidado, a Neusa.
Ele virou-se, não disfarçou a careta de desgosto.
Que foi, meu bem?
Esse vestido.
Até que engraçadinho, xadrez azul e preto.
Que é que tem?
Sabe que tenho pavor.
A virgem há que fazê-la rastejar. Lavar meu pé, enxugá-lo no cabelo perfumado.
Quer que mude?
Alguma vez iria enfrentá-lo, não hoje:
Bobinha de mim.
Neusa ergueu-se para beijá-lo. Ele voltou o rosto e, franzindo a sobrancelha, designou ali a múmia, pescoço torto a fim de aproveitar a última gota. A garrafa vazia deixou a velha amarga. Mal o percebeu instalado na cadeira:
Ai, meu filho. O que é a doença. Deus te livre sofrer como eu. Velho pode morrer, ninguém liga.
Cruz na boca, ó diaba agourenta.
Disse bem, dona Gabriela. Cadê o pessoal?
Lígia no cinema com o Artur.
E o Zezinho?
Acha que podiam ir só os dois? Afogá-la no barril de rum – ela e o chantagista do Zezinho.
Não tem medo de ficar sozinha?
Ela reclinou-se na cadeira, à mostra o tornozelo inchado – um labirinto de grossas varizes roxas.
O velho sempre só. Nem queira saber o que é viver assim. A ninguém desejo o que sofro. Eu que sei. Isso não é vida. Deus me perdoe. Deus não existe. Se existisse, me deixava tanto sofrer?
Faraó sentado no sarcófago, crispava no joelho pontudo a mão transparente. Ali grudadas duas, três moscas.
Justo cada um pague os seus pecados. Não eu, que nunca desejei mal. Me matei de bater roupa no tanque. Gastei os dedos de esfregar a chapa do fogão. Perdi os olhos de costurar à noite. Se alguém devia sofrer não eu – era o Carlito. Devia ter acontecido para o Carlito.
Ele não morreu?
Levou uma vida feliz. E não sofreu para morrer. Os dias bebendo com as vagabundas. Me arrebentei de trabalhar, condenada a esta cadeira. Ele se regalou e morreu na força do homem.
Morreu de quê?
Tumor na cabeça. Sem ninguém. Pedindo o meu perdão. Que o fosse ver na hora da morte. Rezei no velório, isso sim. Perdoar é que não.
Mão no bolso, Nelsinho batia-se pela saleta, encurralado. Fingindo admirar a Santa Ceia, careta medonha para o papagaio pesteado. Apontou-lhe espingarda imaginária na nuca. Se bem não espantasse as moscas, ela coçou o alvo no pescoço. – Me ouvindo, meu filho? Não queira ficar igual a mim. Fui moça feito você.
Lá estava a praguejá-lo, rainha louca. Bem feito, castigo do céu.
Sempre a falar, dirigiu-se à escada, abriu a porta da despensa. Um passo na escuridão, dobrou a cabeça e, sem acender a luz, afastou as latas de açúcar, feijão, arroz, desentranhou outra garrafa.
Reze por mim, meu filho. Não sei o que é dormir. Sentada na cama, à escuta... A bulha do morcego. Um grilo preto no canteiro de couve. Lá no degrau os dentes do Paxá estalando. Se não é a cervejinha...
Não se trata com médico?
Única esperança é um milagre.
Fez-se o milagre: Neusa assomou à porta. Num salto o rapaz agarrou-lhe a mão. Atravessando o corredor, arrastou-a para a sala vizinha; primeiro exibiu a língua para a velha, entretida em derramar a bebida sem fazer espuma.
Tirou o paletó, estendeu-se com gemido no sofá. Neusa fechou a janela – Zezinho, oito anos, era o olho da diaba. Ao erguer o braço, a blusa branca revelou nesga de carne: sei que não devo, muito magro, uma tosse feia – se não me cuido, nasce cabelo na palma da mão. A bela sentou-se na ponta do sofá, ele cruzou os pés na mesinha.
Por favor, Neusa. Nunca me deixe só com ela. Para aguentar tua avó precisa ser santo. Por que não serve vidro moído na sopa?
Fale baixo. Ela escuta.
O rádio ligado.
Ela entende através da parede.
Bem desconfiei. Ouviu o pontapé no Paxá.
É bruxa.
Mudá-la para o sótão. Acaba rolando da escada.
Não diga bobagem, querido. Chega dessa velha horrorosa.
Que você fez?
Abriu os braços no espaldar. Neusa apoiou a cabeça no seu ombro.
Trabalhei.
Faz tempo que chegou?
Pouco antes de você.
Teu patrão paga extraordinário?
Nem um tostão.
Não quis se fazer de engraçadinho?
Seja bobo, querido. É casado.
E daí?
Tenho noivo particular.
Como é que ele sabe?
Você nunca foi me esperar?
Que foi que falou?
Achou você muito simpático. Até pergunta quando são os doces.
Ah, os doces, e? Esses doces, quem vai comer é o Paxá. Ela aninhou-se no peito e, erguendo a cabeça, beijou-o na pontinha da orelha.
Tenho de esperar muito, querido? Não posso com essa diaba.
Faça isso não. Todo arrepiado.
A moça prendeu-lhe a cabeça nas mãos, deu um beijo frenético: a língua se oferecia no lábio entreaberto.
Não para de chupar bala de hortelã.
Quer que jogue?
Mania essa!
A oportunidade de me salvar: fazer uma cena e adeus, beleza!
Não fique bravo, meu bem.
Com os olhos procurou um lugar: o vaso de violetas? A janela, fechada. Fitou-o chorosa.
Que eu engula?
Se gosta de mim, engole.
Deglutiu a bala inteirinha. Doeu, uma lágrima saltou de cada olho. Esta não me escapa – é minha.
Falei brincando.
Tudo que você quiser.
Tudo, Neusa? Tudo mesmo? Ofereceu-lhe, sim, a boca inchada de beijos.
Crisparam-se as mãos do rapaz no espaldar – sei que não devo, é loucura. A velha na saleta, assim não adianta xarope de agrião. De leve afagou o braço lisinho. Sabe o delírio de uma carne em flor? A mão escorregou – sou fraco, Senhor, não mereço – até empalmar a pêra descascada do seio. O que é prender um pintassilgo no alçapão? O herói apertou a pálpebra: o biquinho do pintassilgo beliscava a mão do dono.
Esmagada pelo abraço, a moça libertou uma das mãos e introduziu-a sob a camisa – cinco patinhas úmidas de mosca a arrepiá-lo da nuca à ponta do pé. Derretido de gozo, comprimiu segunda vez a pálpebra – uma cóceguinha no céu da boca, prestes a uivar.
Estalavam as molas do sofá. Ó Deus, se a velhota, de repente? Sentou-se penosamente, suportando o peso da moça. Ofegante, respirou de boca aberta, dedo tremente abriu a blusa. Afastou-a do sofá para desprender a blusa, espirrou o sutiã no colo da moça. Sempre nova a descoberta do pequeno seio, metade exata de limão – e precipitou-se para beijá-lo. Diante do peito alvacento de pombinha as dores do mundo perdiam o sentido.
Mal o tempo de esconjurar a velha – afogado que afunda terceira vez a cabeça – e rolou, e rolaram os dois pelo sofá, pequeno demais para os acolher. Não podiam deitar-se, suspendeu-a pela cintura, ficaram de pé.
Largou-a um instante, com repelão desfez-se da camisa. Beijou a bela que desfalecia, filhotes famintos roubando alimento um da boca do outro. Mão frenética nas prendas deliciosas, encontrou a lasca da saia, libertou o único botão. Aos poucos a saia preta devassava a calcinha rósea. Um passo atrás, a saia deslizou ao pé da moça: Neusa ai, Neusa! Cheia de aflição, gemeu baixinho – Por lavar, por favor! Desesperado – tomara a velha pense que é o Paxá –, ergueu-a com as duas mãos, que ficasse do seu tamanho. Ela entendeu, alçou-se na ponta do pé, um coube direitinho no outro.
O herói pairou a nove centímetros do chão. Ao tatalar da asa da loucura: Qual é teu nome? Responda depressa: Quem é você? Depressa – e antes que pudesse, dona Gabriela entrou na sala.
Separaram-se, cambaleando cada um de seu lado. O coração de Nelsinho disparou a mil por minuto. Uma veia, de que nunca suspeitara, latejava na testa a ponto de rebentar: Me acuda, mãe do céu.
Que é... a senhora quer, vovó?
Da garganta de Neusa – não era a sua voz. A velha recolheu o braço estendido, balançou a cabeça em silêncio, olho bem aberto. Na teia escura de rugas lampejo azul de desconfiança.
Por que tão quietos?
O herói estupefato diante da velha que os enfrentava sem piscar.
Por que está de pé, menina?
Eu... trocando a lâmpada.
O foco queimou?
Agora mesmo.
Vocês se comportaram? O Nelsinho é de confiança. O que esperando, minha filha? Pegue um foco na despensa.
Neusa pisou o monte de roupa. Ao alcance da megera, junto da porta. Agora estende a mão, agarra a menina – tenho de fazer uma carnificina. Quase um grito, para que o olhasse:
Quer que eu – a voz partiu-se, continuou sem fôlego – outra cervejinha?
Muito gentil, meu filho. Daqui a pouco... Se soubesse. Tão só, lá na sala. Uma dor fininha no coração. Pensei que era o fim.
A moça tornou de mansinho, o seio na mão:
Aqui o foco, vovó.
Descalçou o sapato, subiu na cadeira:
Pronto.
Sentou-se ao lado do rapaz, que enxugava o suor frio da testa. Sempre a vigiar a velha, quase sem vê-la, óculo embaçado. Com um suspiro, a anciã afundou-se na poltrona, repuxou o xale negro polvilhado de caspa.
Ah, minha filha, você soubesse... Contava para o Nelsinho – e o pé sacudido por tremores, um pangaré que espantasse as varejeiras. – Pagando o pecado de outro.
Ah, meus filhos, o que é sofrer como eu – e deu um arroto.
A bruxa de pilequinho.
Mais uma garrafa, dona Gabriela? Mil garrafas não a fariam calar a boca.
Gosto de você, Nelsinho. Como de um filho. Deus o livre e guarde da minha doença. Reze por mim.
Derrotado, baixou a cabeça, prendeu três botões da camisa,
Não queira ficar como eu. Só eu sei. Isso não é vida.
Observando a avó cega e concordando com ela – Sim, vovó. Pois é, vovó. É sim, vovó – Neusa desabotoou um, dois, três botões e voltou a beijá-lo na pontinha da orelha.

Dalton Trevisan, em O Vampiro de Curitiba