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04/10/2021

O declínio e a questão da razão (trecho)

Em seu discurso de 1838 no Young Men’s Lyceum, o jovem Abraham Lincoln demonstrou preocupação com o fato de que, à medida que as lembranças da Revolução ficavam para trás, a liberdade da nação era ameaçada por um desprezo pelas instituições governamentais, que protegiam as liberdades civis e religiosas deixadas como legado pelos Fundadores. Para preservar o Estado de direito e evitar a ascensão de um pretenso tirano que poderia “surgir entre nós”, seria necessária uma razão sóbria — “uma razão fria, calculada, imparcial”. Para permanecer “livre até o último dos homens”, ele incitou o povo norte-americano a abraçar a razão, junto com uma “moralidade sólida e, em particular, uma reverência pela constituição e pelas leis”.
Como Lincoln sabia, os fundadores dos Estados Unidos haviam baseado sua jovem república nos princípios iluministas da razão, da liberdade, do progresso e da tolerância religiosa. E a estrutura constitucional que haviam arquitetado se fundamentava num sistema racional de separação dos poderes para evitar a possibilidade, nas palavras de Alexander Hamilton, do surgimento de “um homem sem princípios em sua vida privada”, “de temperamento insolente”, que talvez “viesse montado no cavalinho de pau da popularidade” e “exaltasse e se alinhasse com o disparate propagado pelos extremistas de sua era”, de modo a constranger o governo, “lançando ainda mais coisas nessa confusão para dominar a tempestade e direcionar o furacão”.
Esse sistema estava longe de ser perfeito, mas resistiu por mais de dois séculos graças à sua resiliência e à capacidade de acomodar mudanças essenciais. Líderes como Lincoln, Martin Luther King Jr. e Barack Obama viam os Estados Unidos como uma obra em progresso — um país em processo de autoaperfeiçoamento. E eles tentaram acelerar essa obra, cientes, nas palavras do Dr. King, de que “o progresso não é automático nem inevitável”, mas algo que necessita de esforços e dedicação contínuos. O que fora conquistado desde a Guerra Civil e o movimento dos direitos civis eram lembretes do trabalho que ainda havia por fazer, mas também um tributo à crença do presidente Obama de que os norte-americanos “podem se reinventar constantemente para se adaptar a sonhos cada vez maiores”, e à crença iluminista no que George Washington chamou de “o grande experimento confiado às mãos do povo norte-americano”.
Junto a essa visão otimista dos Estados Unidos como uma nação que poderia se tornar uma reluzente “cidade edificada sobre um monte” também existe uma contranarrativa irracional e sombria na história do país, que se reafirmou com uma vingança — a tal ponto que a razão não apenas está sendo minada, mas ao que parece foi simplesmente defenestrada junto com os fatos, com o debate bem informado e com a criação de políticas deliberativas. A ciência está sendo atacada, bem como a autoridade de especialistas de todos os campos — seja em política internacional, segurança nacional, economia ou educação.
Philip Roth chamou essa contranarrativa de “selvageria nativa americana”, e o historiador Richard Hofstadter notoriamente a descreveu como “estilo paranoide” — uma visão alimentada por “fervorosos exageros, desconfiança e fantasia conspiratória” e focada na percepção de ameaças a “uma nação, uma cultura, um modo de vida”. O ensaio de 1964 de Hofstadter foi inspirado pela campanha de Barry Goldwater e pelos movimentos de direita ao seu redor, assim como seu livro de 1963, Anti-Intellectualism in American Life, concebido em resposta à notória caça às bruxas promovida pelo senador Joseph McCarthy e também ao panorama político e social mais amplo dos anos 1950.
Goldwater perdeu a eleição presidencial, e o macarthismo se autodestruiu depois que um advogado do Exército norte-americano, Joseph Welch, teve a coragem de enfrentar McCarthy: “Afinal de contas, o senhor não tem nenhum senso de decência?”, perguntou Welch. “Não lhe sobrou nenhum senso de decência?”
O malicioso McCarthy, que havia acusado pessoas de deslealdade por todos os cantos de Washington (“o Departamento de Estado abriga um ninho de comunistas e simpatizantes dos comunistas”, avisou ao presidente Truman em 1950), foi admoestado pelo senado em 1954. E, com o lançamento do Sputnik pelos soviéticos, em 1957, o alarmante movimento antirracionalista começou a recuar, dando lugar a uma corrida espacial e a uma série de esforços orquestrados para aprimorar os programas científicos dos Estados Unidos.
Hofstadter notou que o estilo paranoico tende a se manifestar em “ondas episódicas”. O movimento anticatólico e anti-imigrante Know Nothing atingiu seu auge em 1855, quando 43 membros do Congresso admitiram abertamente defender suas próprias ideias. A força do movimento começou a se dissipar rapidamente no ano seguinte, depois que o partido se fragmentou em várias dissidências. No entanto, a intolerância que ele incorporava permaneceu, como um vírus, incubado no sistema político esperando para emergir outra vez.
Hofstadter argumenta que a direita moderna tende a ser mobilizada por um sentimento de ressentimento e desapropriação: “Os Estados Unidos, em grande parte, foram tomados dessas pessoas”, escreveu ele, e elas podem acabar achando que “não têm acesso à barganha política ou à tomada de decisões”.
No caso dos Estados Unidos dos millenials (e de grande parte da Europa Ocidental também), esse ressentimento é exacerbado pelas mudanças demográficas e pelos costumes sociais que fizeram alguns membros da classe operária branca se sentirem cada vez mais marginalizados; por conta de desigualdades de renda cada vez maiores, aceleradas pela crise financeira de 2008; e por forças como a globalização e a tecnologia, que estão acabando com os trabalhos de manufatura e injetando uma nova dose de incerteza e angústia na vida cotidiana.
Trump e outros líderes nacionalistas e anti-imigrantes da direita europeia, como Marine Le Pen na França, Geert Wilders na Holanda e Matteo Salvini na Itália, inflamavam esses sentimentos de medo, ódio e privação de direitos, oferecendo bodes expiatórios em vez de soluções; enquanto liberais e conservadores, preocupados com a ascensão do nativismo e de agendas políticas preconceituosas, alertaram para o fato de que as instituições democráticas estavam cada vez mais ameaçadas. “A segunda vinda”, poema que Yeats escreveu em 1919 em meio aos escombros da Primeira Guerra Mundial, passou por um tremendo revival em 2016 — citado mais vezes em matérias na imprensa durante o primeiro semestre do que ao longo das últimas três décadas, uma vez que articulistas políticos evocaram seus famosos versos: “Tudo se parte, o centro não sustenta./ Mera anarquia avança sobre o mundo.”
O ataque à razão e à verdade atingiu seu ápice nos Estados Unidos durante o primeiro ano de mandato do presidente Trump, mas vinha sendo incubado havia anos pela extrema direita. Durante a campanha de 2016, opositores de Clinton que fabricavam acusações delirantes sobre a morte de Vince Foster na década de 1990 se uniram a membros paranoicos do Tea Party que afirmaram que os ambientalistas queriam controlar a temperatura das casas e as cores dos carros. A eles se juntaram blogueiros do Breitbart e trolls da direita alternativa. Quando Trump ganhou a indicação dos republicanos para concorrer à presidência, as ideias extremistas dos seus apoiadores mais radicais — sua intolerância racial e religiosa, seu ódio pelo governo anterior e sua aceitação das teorias da conspiração e das notícias falsas — chegaram ao grande público.
De acordo com um levantamento feito em 2017 pelo The Washington Post, 47% dos republicanos erroneamente acreditam que Trump venceu no voto popular; 68% acreditam que milhões de imigrantes ilegais votaram em 2016; e mais da metade dos republicanos afirmaram não ver problemas em adiar as eleições presidenciais de 2020 até que se resolvam problemas como a votação dos imigrantes ilegais.19 Outro estudo, conduzido por cientistas políticos na Universidade de Chicago, demonstrou que 25% dos norte-americanos acreditam que a quebra da bolsa em 2008 foi secretamente orquestrada por um pequeno grupo de banqueiros; 19% acreditam que o governo tem algum envolvimento com os ataques terroristas do 11 de Setembro; e 11% acreditaram numa teoria que os próprios pesquisadores inventaram, que dizia que lâmpadas fluorescentes faziam parte de um plano do governo para tornar as pessoas mais passivas e fáceis de serem controladas.
Trump, que lançou sua carreira política promovendo descaradamente o nascimentismo (birtherism) e já falou positivamente sobre o radialista e teórico da conspiração Alex Jones, preside uma administração que se tornou, em seu primeiro ano, a própria personificação dos princípios anti-iluministas, repudiando os princípios do racionalismo, da tolerância e do empirismo tanto nas políticas quanto no modus operandi — um reflexo do estilo impulsivo e errático de seu comandante em chefe em tomar decisões, baseado não em conhecimento, mas no instinto, em caprichos e em ideias preconcebidas (e frequentemente delirantes) a respeito do funcionamento do mundo.
Trump não fez nenhum esforço para acabar com sua ignorância a respeito das políticas interna e externa quando se mudou para a Casa Branca. Seu ex-estrategista chefe, Stephen Bannon, disse que o presidente só “lê o que reafirma suas crenças” e sempre negou, minimizou ou desconsiderou qualquer informação a respeito da interferência russa nas eleições de 2016. Como menções a esse assunto costumavam provocar a ira do presidente e podiam atrapalhar o andamento dos relatórios diários de inteligência, funcionários do governo contaram em entrevista ao The Washington Post que, às vezes, incluíam esse tipo de material somente na versão impressa do PDB (President’s Daily Brief, o relatório diário do presidente), que todos sabiam que ele raramente lia.
Em vez disso, ao que parece o presidente prefere obter suas informações na Fox News, sobretudo no programa matinal bajulador Fox & Friends e em veículos como o Breitbart News e o National Enquirer. De acordo com relatos, ele costuma passar até oito horas por dia vendo TV — um hábito que deve fazer com que muitos leitores se recordem de Chauncey Gardiner, o jardineiro viciado em TV que virou celebridade e estrela política em ascensão no romance O Videota, de Jerzy Kosiński, publicado em 1970. A Vice News também relatou que Trump recebe, duas vezes por dia, uma pasta contendo um clipping elogioso, incluindo “tuítes de admiradores, trechos de entrevistas bajuladoras na TV, matérias jornalísticas repletas de elogios e, de vez em quando, apenas fotos de Trump na TV parecendo poderoso”.
Esse tipo de detalhe absurdo é mais preocupante do que apenas cômico, porque não estamos falando de um mero episódio de Além da imaginação sobre um lunático morando numa enorme casa branca em Washington. A propensão de Trump para o caos não só não foi contida pelos mais próximos a ele, como contaminou toda a sua administração. Ele garante ser “o único que importa”28 quando o assunto é a criação de políticas e, dado o seu desprezo pelo conhecimento institucional, ignora com frequência os conselhos de membros do gabinete e de agências, isso quando não os exclui por completo da discussão.

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Ironicamente, a disfunção que esses hábitos alimentam tende a confirmar a desconfiança que seus apoiadores têm em relação a Washington (um dos principais motivos pelos quais votaram em Trump, em primeiro lugar), criando uma espécie de profecia autorrealizável que, em contrapartida, produz mais cinismo e uma relutância em participar do processo político. Um número crescente de eleitores percebe um descompasso gritante entre suas crenças e as políticas do governo. Políticas de bom senso, como a obrigatoriedade de um atestado de antecedentes criminais para quem quiser comprar uma arma de fogo, apoiada por mais de nove em cada dez norte-americanos, têm encontrado entraves no Congresso, que está repleto de integrantes que dependem de doações da Associação Nacional de Rifles, a NRA. Numa pesquisa feita em 2018, 87% dos norte-americanos disseram ser favoráveis à permanência dos dreamers nos Estados Unidos (os jovens imigrantes que chegaram ao país ainda crianças). Mesmo assim, o Daca, que concede autorização temporária de estadia e trabalho aos dreamers, se transformou num verdadeiro jogo político. E 83% dos norte-americanos (incluindo 75% dos republicanos) afirmaram ser favoráveis à neutralidade da rede — que foi derrubada pela FCC (Federal Communication Commission, a Comissão Federal de Comunicações) de Trump.

Michiko Kakutani, in A morte da verdade

29/09/2021

A morte da verdade – Notas sobre a mentira da era Trump (Introdução)

A morte da verdade (1814), de Francisco Goya

Dois dos regimes mais abomináveis da história da humanidade chegaram ao poder no século XX, e ambos se estabeleceram com base na violação e no esfacelamento da verdade, cientes de que o cinismo, o cansaço e o medo podem tornar as pessoas suscetíveis a mentiras e falsas promessas de líderes determinados a alcançar o poder incondicional. Como Hannah Arendt escreveu em seu livro de 1951, Origens do totalitarismo: “O súdito ideal do governo totalitário não é o nazista convicto nem o comunista convicto, mas aquele para quem já não existe a diferença entre o fato e a ficção (isto é, a realidade da experiência) e a diferença entre o verdadeiro e o falso (isto é, os critérios do pensamento).”
O alarmante para o leitor contemporâneo é que as palavras de Arendt soam cada vez menos como um comunicado do século passado e mais como um terrível reflexo do panorama cultural e político em que vivemos hoje — um mundo no qual as fake news e as mentiras são divulgadas em escala industrial por “fábricas” de trolls russos, lançadas num fluxo ininterrupto pela boca e pelo Twitter do presidente dos Estados Unidos, e espalhadas pelo mundo todo na velocidade da luz por perfis em redes sociais. O nacionalismo, o tribalismo, a sensação de estranhamento, o medo de mudanças sociais e o ódio aos estrangeiros estão novamente em ascensão à medida que as pessoas, trancadas nos seus grupos partidários e protegidas pelo filtro de suas bolhas, vêm perdendo a noção de realidade compartilhada e a habilidade de se comunicar com as diversas linhas sociais e sectárias.
No entanto, não quero fazer uma analogia direta entre as circunstâncias atuais e os horrores opressivos da época da Segunda Guerra Mundial, apenas olhar para determinadas condições e atitudes — ao comentar as obras de George Orwell 1984 e A revolução dos bichos, Margaret Atwood as chamou de “sinais de alerta” — que tornam um povo suscetível à demagogia e à manipulação política, e transformam uma nação numa presa fácil para os aspirantes a autocratas. Quero examinar como o descaso pelos fatos, a substituição da razão pela emoção, e a corrosão da linguagem estão diminuindo o valor da verdade, e o que isso significa para os Estados Unidos e para o mundo.
O historiador sabe o quão frágil é a tessitura dos fatos no cotidiano em que vivemos”, escreveu Arendt em 1971, no ensaio “A mentira na política”. “Ela está sempre correndo o risco de ser perfurada por uma única mentira ou despedaçada pela mentira organizada de grupos, países ou classes, ou negada e distorcida, muitas vezes cuidadosamente acobertada por calhamaços de mentiras, ou simplesmente autorizada a cair no esquecimento. Fatos necessitam de testemunhos para serem lembrados, e de testemunhas confiáveis para serem oficializados, de modo a encontrar um lugar seguro para habitar o domínio dos interesses humanos.”
O termo “declínio da verdade” (usado pelo think tank Rand Corporation para descrever “o enfraquecimento do papel dos fatos e análises” na vida pública norte-americana) entrou para o léxico da era da pós-verdade, que inclui também expressões agora corriqueiras como “fake news” e “fatos alternativos”. E não só as notícias são falsas: também existe a ciência falsa (produzida por negacionistas das mudanças climáticas e anti-vaxxers, os ativistas do movimento antivacina), a história falsa (promovida por revisionistas do Holocausto e supremacistas brancos), os perfis falsos de norte-americanos no Facebook (criados por trolls russos) e os seguidores e “likes” falsos nas redes sociais (gerados por bots).
Trump, o 45º presidente dos Estados Unidos, mente de forma tão prolífica e com tamanha velocidade que o The Washington Post calculou que ele fez 2.140 alegações falsas ou enganosas no seu primeiro ano de governo — uma média de quase 5,9 por dia. As mentiras dele — sobre absolutamente tudo, desde as investigações sobre a interferência russa nas eleições, passando por sua popularidade e suas conquistas, até o tempo que passa vendo TV — são apenas o mais espalhafatoso entre os vários sinais de alerta acerca de seus ataques às instituições democráticas e normas vigentes. Ele ataca rotineiramente a imprensa, o sistema de justiça, as agências de inteligência, o sistema eleitoral e os funcionários públicos responsáveis pelo bom funcionamento do governo norte-americano.
Entretanto, os ataques à verdade não estão limitados aos Estados Unidos. Pelo mundo todo, ondas de populismo e fundamentalismo estão fazendo com que as pessoas recorram mais ao medo e à raiva do que ao debate sensato, corroendo as instituições democráticas e trocando os especialistas pela sabedoria das multidões. Alegações falsas sobre as relações financeiras do Reino Unido com a União Europeia (em anúncios da campanha do partido Vote Leave num ônibus) ajudaram a mudar a votação em favor do Brexit; e a Rússia intensificou a propagação da sua dezinformatsiya durante as campanhas eleitorais na França, na Alemanha, na Holanda e em outros países, em esforços orquestrados de propaganda para desacreditar e desestabilizar democracias.
O papa Francisco nos lembra: “Não existe desinformação inofensiva; acreditar na falsidade pode ter consequências calamitosas.” O ex-presidente Barack Obama comentou que “um dos maiores desafios que temos em nossa democracia é o fato de não compartilharmos a mesma base de fatos” — atualmente as pessoas estão “operando em universos de informação completamente diferentes”. E o senador republicano Jeff Flake fez um discurso no qual alertou que “2017 foi o ano em que nós vimos a verdade — objetiva, empírica, baseada em evidências — ser mais agredida e atacada do que em qualquer outro período da história norte-americana, por meio das mãos da figura mais poderosa do nosso governo”.9

Como isso aconteceu? Quais são as raízes da falsidade na era Trump? Como a verdade e o bom senso se tornaram espécies ameaçadas de extinção, e o que sua morte iminente sugere para o futuro do nosso discurso público, da nossa política e dos nossos governantes? Esse é o tema deste livro.

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É muito fácil encarar Trump — um candidato que baseou sua carreira política no pecado original do nascimentismo (ou birtherism) — como um cisne negro que conquistou seu cargo graças a uma soma perfeita de fatores: um eleitorado frustrado ainda se recuperando da ressaca da crise financeira de 2008; a interferência dos russos na eleição com uma enxurrada de fake news a favor dele nas redes sociais; uma oponente altamente polarizada que simbolizava a elite de Washington, acusada pelos populistas; e uma publicidade espontânea estimada em 5 bilhões de dólares graças à cobertura dos veículos de imprensa obcecados com as visualizações e os cliques gerados pelo ex-astro de reality show.
Se um escritor criasse um vilão como Trump — uma personificação megalomaníaca e extravagante do narcisismo, mendacidade, ignorância, preconceito, grosseria e demagogia com impulsos tirânicos (isso sem falar que é alguém que consome até uma dúzia de Coca-Cola diet por dia) —, seria acusado de ter produzido um personagem muito fantasioso ou sem nenhuma verossimilhança. Na verdade, o presidente dos Estados Unidos frequentemente se apresenta como um personagem menos convincente do que seria uma mistura de Ubu Rei, Triumph the Insult Comic Dog e um personagem descartado de Molière.
No entanto, por mais que a personalidade de Trump possua traços cômicos, não devemos nos cegar diante das consequências tremendamente sérias de seus ataques à verdade e ao Estado de direito, que evidenciam a vulnerabilidade de nossas instituições e comunicações digitais. Um candidato tão exposto durante a campanha por seu histórico de mentiras e práticas comerciais enganosas dificilmente conseguiria tanto apoio popular se setores do público não tivessem adotado uma postura um tanto quanto blasé em relação à verdade. É inegável que existem problemas sistêmicos em relação ao modo como as pessoas obtêm as informações e como passaram a pensar de forma cada vez mais polarizada.
Com Trump, a esfera pessoal é política e, em muitos sentidos, ele é menos uma anomalia caricata e mais um bizarro epítome de uma série de atitudes mais amplas e interligadas que corroem lentamente a verdade nos dias de hoje, desde a mistura do noticiário e da política com o entretenimento até a polarização tóxica que tomou conta da política norte-americana, passando pelo crescente desprezo populista em relação ao conhecimento especializado.
Essas atitudes, por sua vez, são símbolos das dinâmicas que foram ganhando corpo por anos a fio, criando um ambiente perfeito no qual Veritas, a deusa da Verdade (conforme foi retratada por Goya na famosa gravura Murió la Verdad), poderia adoecer e cair morta.
Já faz décadas que a objetividade — ou mesmo a ideia de que as pessoas desejam conhecer a melhor verdade disponível — está fora de moda. A famosa frase do ex-senador Daniel Patrick Moynihan — “Todo mundo tem o direito de ter suas próprias opiniões, mas não seus próprios fatos” — é mais atual do que nunca: a polarização se tornou tão extrema nos Estados Unidos que os eleitores dos estados de maioria republicana e dos de maioria democrata estão tendo dificuldades para entrar em consenso sobre os mesmos fatos. Isso vem acontecendo desde que um verdadeiro sistema solar de sites de notícias de direita passou a orbitar a Fox News e o Breitbart News e consolidou sua força gravitacional sobre a base republicana. E esse cenário vem sendo exponencialmente acelerado pelas redes sociais, que conectam usuários que pensam da mesma forma e os abastecem com notícias personalizadas que reforçam suas ideias preconcebidas, permitindo que eles vivam em bolhas, ambientes cada vez mais fechados e sem comunicação com o exterior.
Quanto a isso, o relativismo está em ascensão desde o início das guerras culturais, na década de 1960. Naquela época, ele foi abraçado pela Nova Esquerda, ansiosa para expor os preconceitos do pensamento ocidental, burguês e primordialmente masculino; e por acadêmicos que pregavam o evangelho do Pós-modernismo, que argumentava que não existem verdades universais, apenas pequenas verdades pessoais — percepções moldadas pelas forças sociais e culturais de um indivíduo. Desde então, o discurso relativista tem sido usurpado pela direita populista, incluindo os criacionistas e os negacionistas climáticos, que insistem que suas teorias sejam ensinadas junto com as teorias “baseadas na ciência”.
O relativismo, é claro, combina perfeitamente com o narcisismo e a subjetividade que estão em expansão, desde “A década do eu”, de Tom Wolfe, até a autoestima na era das selfies. Não é nenhuma surpresa, portanto, que o efeito Rashomon — o ponto de vista de que tudo depende do seu ponto de vista — venha permeando nossa cultura, desde livros de sucesso como Destinos e Fúrias, de Lauren Groff, até séries de TV como The Affair, baseados na ideia de realidades conflitantes e narradores em quem não se pode confiar.
Tenho lido e escrito sobre muitos desses assuntos nas últimas quatro décadas, desde a ascensão do conceito de desconstrução e das batalhas acerca do cânone literário nos campi universitários; debates sobre a releitura ficcional de fatos históricos em filmes como JFK, de Oliver Stone, e A Hora Mais Escura, de Kathryn Bigelow; esforços feitos pelos governos Clinton e Bush para se furtar à transparência e definir a realidade em seus próprios termos; a guerra de Donald Trump contra a linguagem e seus esforços para normalizar o anormal; e a influência da tecnologia na forma como processamos e compartilhamos informações. Nestas páginas pretendo recorrer à leitura de livros e da realidade atual para ligar alguns pontos acerca dos ataques à verdade e situá-los num quadro mais amplo de dinâmicas sociais e políticas que vêm se infiltrando em nossa cultura há anos. Também pretendo chamar a atenção para alguns livros e artigos proféticos do passado, que ajudam a entender melhor o dilema em que nos encontramos hoje.
A verdade é um dos pilares da democracia. Como observou a ex-procuradora-geral interina Sally Yates, a verdade é uma das coisas que nos separam de uma autocracia: “Nós podemos — e devemos — debater políticas e questões, mas esses debates devem se basear em fatos em comum, e não em apelações baratas à emoção e ao medo na forma de mentiras e de uma retórica polarizante.”
Não apenas existe uma verdade objetiva, como deixar de dizê-la é uma questão importante. Não temos como controlar se os agentes públicos mentem para nós. Mas temos como controlar se eles devem responder por essas mentiras ou se então, seja por exaustão ou para proteger nossos interesses políticos, vamos olhar para o outro lado e igualar a indiferença à verdade.”

Michiko Kakutani, in A morte da verdade – Notas sobre a mentira da era Trump