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21/06/2019

A noite anterior

Como retornar à noite anterior a um nascimento? Será possível apagar uma vida para, com o coração vazio, seguir em frente? A resposta é não e quem a grita é o poeta e crítico Walmir Ayala, quando, no ano de 1990, vésperas de sua morte, escreveu A viagem, emocionante livro de poemas que deixou inédito. Ele é lançado, agora e enfim, pela editora Bem-Te-Vi, de Vivi Nabuco, com edição de Sebastião Lacerda.
Poeta da terceira geração do Modernismo, Ayala é, muito mais que isso, um poeta inconfundível, que transforma a poesia em uma fracassada, mas bela, indagação sobre o oculto. Escreve: “Assim no escuro te contemplo/ absoluto no que não te mostras”. Poemas escritos em memória, mas também na esperança da volta de um surfista morto, A viagem é um livro que, afora os possíveis rastos pessoais, interroga a grande escuridão – página negra de tão branca – que antecede a própria poesia.
Ayala se oferece como um repórter da morte. “Sentado, frontal, simétrico,/ sou teu escriba”, admite sem contorcer as palavras. “Agora estou sozinho, sou apenas um retrato terroso,/ E tu navegas para a glória.” O poeta (difícil missão) é aquele que encara o que já não está ali. Mordomo do vazio, ele zela pela presença de um ausente. De nada lhe servem os consolos humanos: “Alguém me disse: ‘tu não o perdeste, agora é que ele é teu”. Não aceitou a metáfora, repeliu-a. Palavras são lençóis que só com grande esforço encobrem o corpo da vida.
O poeta-arqueólogo, porém, se põe a escavar os ossos da língua. Escreve Ayala: “E continuo cavando, cavando com as unhas maceradas/ como se o mistério fosse mensurável”. Não só o mistério não é mensurável, como não é pronunciável. Melhor dizer: não mistério, mas enigma. Isso, porém, em vez de impedir o trabalho da poesia, lhe abre caminho.
Eu o sinto agora como se fosse meu filho”, diz ainda. Quem morreu? Um filho, um ser amado, um ideal? A grande colcha das metáforas encobre a imagem do surfista morto. Torna-a trêmula, esmaecida, uma sombra em que qualquer fantasma se acomoda. Qualquer, mas não qualquer um: sem um laço (de paixão), ele não toma corpo. Anatomia invisível, que não se deixa ler – susto. O poeta diz: “Há um mapa a ser jamais interpretado”. Contudo, é só por esse “jamais” que a poesia se escreve. Poesia: lugar do jamais, posto do nunca.
Mas quem é o menino morto? O próprio poeta, tonto, se pergunta: “Quem é esse menino no retrato claro/ da sala vazia? Tem um ar distante”. A questão já não é o corpo que apodrece ou, até mesmo, se ele de fato existiu. Tampouco a personalidade que o encarnou. Trata-se de outra coisa: da imagem (memória) que o substitui. “– Quem era o menino? – Que importa. Hoje é apenas um retrato, um triste desenho do vento.” Sua alma está em outro lugar: não no retrato fosco, mas no poema.
Eu o sinto agora como se fosse meu filho”, escreve o poeta, alçando-se, repentinamente, ao orgulho da paternidade. Sim: de onde mais escorrem os versos senão desse falso pai verdadeiro? De onde mais alguma coisa fala senão através desses versos? “Eu aqui tenho que compor com palavras a sombra/ desse transe.” Palavras ocupam o lugar do morto. Duras como uma lápide ou uma prancha de surfista, elas o sustentam. A própria ideia, “surfista”, é só uma palavra. O que ela realmente quer dizer?
À entrada, há, sim, um nome: “Em memória de Gustavo Adolfo Cox (1970-1989)”. Dezenove anos, e morto. Meu primeiro impulso é pesquisar essa existência. Algo (a própria poesia, que não precisa do mundo para ser), porém, me detém. Desconheço detalhes da vida de Ayala; algo me diz que é melhor persistir na ignorância. Deixar que a poesia tome o lugar do passado, em vez de reduzi-la a registro (História) ou a ressurreição (Religião). Que ela seja o que é, e isso me basta. Deve bastar.
Nenhuma ignorância – a cegueira em que, de propósito, persevero – tira, contudo, a paixão dos versos. Mapa indecifrável, eles me arrastam por vãos estreitos, ali onde uma legião de leitores ronda à espera de alimento. “Por ti farei da dor uma tensa poesia”, o poeta escreve, legitimando esse sentimento. E ele me ampara e me dá de comer.
A morte, nos diz, despenca um dia “como um anjo de asas despenadas”. Para que interrogá-la? Como acessar a Verdade da morte? Os médicos apresentam atestados, os jornalistas, versões, as testemunhas, seu choro. Mas a poesia está fora de tudo isso – e, no entanto, carrega tudo isso dentro de si. O surfista morto de Saquarema transformou-se em ar: “Paro um momento e te respiro”. A poesia, como a morte, tem esse poder: sem que possamos localizá-la, está por toda parte.
A poesia de Ayala é um bordado sobre a morte. O poeta escreve: “Bordo em teu peito um coração de madressilvas,/ desenho em teu lábio o carmim da paixão”. Ele precisa dessa máscara que encobre, mas realça, a ausência amada. Diz mais: “Assim no escuro te contemplo,/ absoluto no que não te mostras”. O poeta não está cego: o poeta (todo poeta) é cego. Para além dele, inacessível, a vida escorre. Diz: “Éramos tão felizes que só viver bastava”.
Poetas habitam uma noite anterior. Vivem antes. Não para reconstruir o que já não está ali, mas para provar daquele tempo que antecede o real, espécie de poço profundo do qual não só o poema, mas toda a vida emerge. Escreve Ayala: “Olho a noite que me abraça e nem precisa de imagem para ser sentida”. Um tempo em que o corpo, suporte da vida, frágil prancha, ainda não a aguenta. Uma origem.
Tudo o que ele tem (página em branco) é um quarto vazio. “Tento mudar de posição os móveis, a cama/ onde dormias parece um tronco/ levado pelas águas.” Fazer poesia é matar? Não deixa de ser: a metáfora, porque deslocada e torta, é sempre assassina. Mas é a beleza que ela descerra com seu gesto violento. É o osso trêmulo da vida que ela, ocupando seu lugar, nos permite ver.
Aceito, enfim, a frieza da Verdade: no ano de 1989, o jovem Gustavo Adolfo Cox cometeu suicídio em Saquarema. Tinha 19 anos e era filho de criação do poeta Walmir Ayala. Não nego que a informação empresta ainda mais dor aos poemas. O livro se torna um trabalho de luto. Mas será que isso acrescenta mais poesia à poesia?
José Castello, in Sábados inquietos

06/11/2017

Amor, se te repito

Amor, se te repito, se te clamo
se te exijo e te cravo em mim, se espero
sabendo que não vens, e se te gero
em cada instante meu, e se te amo,

amor, se te reservo o que mais quero,
se te acredito exato e te reclamo,
se te adivinho e sonho e te proclamo
Deus, coração e pátria, o que venero.

Amor, se te situo necessário,
se me unifico em ti, eu que fui vário
e fraco para todas as batalhas,

em nome de que glória irei firmado
a conquistar-te, amor, se nem me é dado
pedir no instante extremo que me valhas?
Walmir Ayala

07/05/2017

O mundo interior

O mundo interior já não é
a área nebulosa da nossa mais alta privacidade,
o espaço das formas quase abstratas
onde apoiamos nossos desejos.

É uma abóboda no avesso do mapa,
um antimapa, com sol perene
e luz perfeita,
equidistante e autonutrida,
uma camada fértil e íntegra
onde possivelmente vivem
nossos verdadeiros antípodas.

É o que dizem os profetas, os perscrutadores dos sonhos,
os intérpretes dos testamentos.

Mas eu pergunto pela noite
mãe do terror e da fantasia,
nutriz do sobressalto, sol de sombras,
eu pergunto pela noite que
este mundo interior não conhece.

A luz permanente deve queimar como um inferno:
todas as coisas e todos os seres constantemente exposto e em
silêncio e insônia
as peles transparentes e radiosas como as medusas do mito.
Ansiando pela noite.
Walmir Ayala

06/05/2017

A perícia da noite

Muitas vezes, muitas mesmo, as palavras me traem. Nessas horas, luto para dizer uma coisa, mas digo outra. Foi o que me aconteceu, na semana passada, em uma mesa literária em São Paulo. Trocava ideias com F., uma intelectual que adotei como mestre. Nem sempre compartilhamos os mesmos pensamentos – mas um mestre não é um professor. Professores nos levam a repetir e adotar suas ideias. Mestres, ao contrário, nos incitam a renegá-las, para formar, assim, nossa própria posição.
Nesse dia, eu disse a F. que, cada vez mais, me esforço para abdicar de minhas habilidades intelectuais e, desarmado, ler como um leitor comum. Ela protestou: “Mas você não é um leitor comum e justamente por isso está aqui”. Era verdade. Alguma diferença me levava a ocupar um assento naquela mesa de debates literários. Talvez a expressão que busco não seja “leitor comum”, ideia que remete à mediania e à preguiça. Mas qual seria?
No voo de volta para Curitiba, a sorte me jogou nas mãos a seleção dos melhores poemas de Walmir Ayala organizada por Marco Lucchesi para a Global Editora (Walmir Ayala, Coleção Melhores Poemas). Respostas vêm de onde menos esperamos. Na página 91, no poema “O mundo interior” (que Lucchesi colheu em Estado de choque , livro que Ayala publicou em 1980), encontro palavras mais adequadas para dizer o que tentei dizer.
Explico. Walmir Ayala (1933-1991), poeta, romancista e crítico de arte, é um escritor esquecido. Seu poema é simples (é comum). Nem chega a ser um dos melhores poemas de Ayala – mas o que isso importa? Enquanto o avião sacoleja, leio e releio os versos que dizem, pela via secreta das imagens, o que eu não consigo dizer. Detenho-me nos dois primeiros versos. “O mundo interior já não é/a área nebulosa da nossa mais alta privacidade”. Versos sem brilho, comuns, quase banais, mas que me deixam – como o livro em que Lucchesi os colheu – em estado de choque. Neles encontro as palavras que me faltavam.
Eles ampliam uma ideia de Paul Valéry a que sempre retorno. Ela está em Monsieur Teste, ensaio de 1919, livro que nunca paro de reler. Aconselha Valéry: “Enfastiado de ter razão, de fazer o que tem sucesso, da eficiência dos procedimentos, tentar outra coisa”. É o que procuro. Na aventura de ler, mais que a eficiência e o método, vale o estupor. Volto a Ayala, que, em outro poema, me ajuda ainda mais: “Para cada pensamento/ Um astro estremece e se destina”. A leitura é uma experiência íntima e exclusiva. Muitas teorias se oferecem como armas para a aproximação de um livro. Mas um leitor é, antes de tudo, alguém atravessado – fulminado – pela palavra do outro. São poucos os que, como F., com sua espantosa lucidez e sua coragem intelectual, conseguem se distanciar e ler como se não estivessem ali.
Eu, ao contrário, leio de outro lugar – nem melhor nem pior, apenas outro. Os versos de Ayala reforçam em mim a ideia (contrária às de F., mas não excludente) de que a experiência da leitura transcorre entre sombras. A leitura é, como diz a canadense Claire Varin a respeito de Clarice Lispector, uma aventura “telepática”. Palavra antiga, cercada de superstições e de suspeitas, mas não encontro outra melhor. A conexão entre um livro e seu leitor é uma experiência noturna; não transcorre no terreno da clareza ou da habilidade. Sem desarmar-se, ninguém chega a ler. A leitura é (como se diz dos telepatas e dos hipnotizadores) um exercício de submissão. Um amigo me sopra, em boa hora, uma frase de Gandhi: “O único tirano que aceito nesse mundo é a pequena voz silenciosa que há dentro de mim”. Agarrados a essa voz, lemos.
No mesmo dia em que estive com F., ouvi Fernanda Montenegro dizer (interpretar) uma crônica de Clarice Lispector. Chama-se “Encarnação involuntária”, e, embora não trate de literatura, veio em meu socorro. Relata Clarice que, às vezes, quando vê uma pessoa, sem decidir por isso, nela se encarna. Um dia, em um avião, viu uma missionária – e logo começou a andar com passos de “santa leiga”. Outra vez, deparou com uma prostituta – e, em um segundo, fumava com os olhos entrefechados para um homem. A encarnação voluntária é uma maneira de “ler” o outro, “sendo” o outro. Via cega, em que abdicamos do saber, para experimentar o susto.
Está, outra vez, nos versos de Walmir Ayala: “Eu me pergunto pela noite/ mãe do terror e da fantasia/ nutriz do sobressalto”. É dele, ainda, a ideia (que parece irracional e temerária) de que a luz permanente queima como um inferno. Poetas (Julian Fucks mostrou isto) são cegos. Também o leitor: só em uma atmosfera noturna, renunciando a nossas melhores ideias e convicções, penetramos, de fato, em um livro. Pelo menos nós, “leitores comuns”, como tentei dizer. Leitores que contam apenas consigo e com mais ninguém.
Via torta, mas potente, para um outro tipo de lucidez. Alerta-nos Clarice que só depois de “desencarnar” das pessoas, ela consegue, enfim, ter uma vida própria. Mesmo dessa “vida própria”, porém, ela suspeita. “Vida que, quem sabe, talvez nunca tenha sido própria, senão no momento de nascer”, diz. Quando se livra das sucessivas encarnações, é ainda um espectro (seu próprio espectro) que nela se encarna. “Meu fantasma se incorpora plenamente em mim.” Das fantasias alheias, chegamos às fantasias (fantasmas) próprias. Nunca conseguimos emergir. O eu é um livro que escrevemos sem saber que escrevemos, e até sem precisar escrever. Nas frestas dessa ficção íntima, em súbitos clarões, despontam breves fachos de lucidez – que só pessoas especiais como F. conseguem acessar.
Walmir Ayala não foi um grande poeta, mas só um crítico habilidoso que se agarrou à poesia para descansar um pouco de si. Escrevia versos, como ele mesmo nos diz, “ansiando pela noite”. Ocorre-me agora uma ideia penosa de Truman Capote, que li num prefácio de Ivan Lessa e que fala não só dos escritores, mas também dos leitores: “Estou aqui sozinho na escuridão de minha loucura, sozinho com meu baralho – e, é claro, o chicote que Deus me deu”.
José Castello, in Sábados inquietos

16/09/2014

Até o Fim

Até o fim com esta garganta
e estes olhos
líquidos, até o fim
com estas mãos
trêmulas.

Até o fim com estes pés exaustos
e estes lábios costurados
ao pé da noite. Até o fim
sem dizer nada.

Até o fim estes canais premindo
o sangue.
Até o fim o obrigatório oxigênio
sobrevivência
no abstrato
difícil ar.

Até o fim a tinta ilesa do amor
na alma,
até que quebrem as epidermes
desta mentira,
e o fim prossiga
até o fim.
Walmir Ayala

20/08/2014

A bailarina gris

A aula de dança, de Edgar Degas

PENDIDA
como de uma corola o tempo de
uma flor, ela treme:
seu rosto de vinho e maçã
flui no nostálgico acento
com que ao vento se curva, uma tênue
figura.
De chuva
é a leveza de seu olhar parado, de espuma
é seu sapato, e seu pé
informado e prudente arma um pássaro triste na sombra.

PENDIDA,
debruçada de si como uma lágrima
a bailarina rompe
o segredo: do outro lado é que se esvai
a rosa, seu sangue
é este espanto de que se forma o corpo
do silêncio.
Walmir Ayala

21/07/2014

Tatuagem

Eu não sou um veículo eletrônico,
Eu sou uma golfada de sangue,
Sou um assomo de ciúme,
Uma explosão de ira.
Eu não sou uma película transmissora,
Nem um écran, um zoom de aproximação,
Nem sequer um microscópio.
Eu sou um sono tumultuado,
Sou um sonho que me tatua.
A pela da minha alma tem árvores fantásticas
E saudades maternas, e monstros inconclusos,
Abismos, ligações mais estabelecidas,
Terrores que perfumam a máscara encoberta.

Eu não sou um instrumento.
Sou a mão que e o gesto
Que consuma.
Walmir Ayala

10/06/2014

Enfrentar a vida eterna com prazer

Meus amigos, meus conhecidos, meus afetos e desafetos,
meus leitores e detratores, ouçam e atendam:
quando chegar a hora do meu último repouso,
busquem meu corpo onde ele estiver,
na poeira do Rio ou na neve gaúcha,
nalgum Japão antípoda, ou aqui mesmo,
na rua Dr. Luiz Januário, uma rua que
possivelmente já tenha perdido os belos paralelepípedos
em nome do duvidoso progresso. 

Busquem meu corpo de carro ou rabecão, de carrinho de mão
ou num simples lençol usado,
e depositem ali, atrás da Igreja da mãe de Nazaré,
naquela terra que o mato insiste em invadir,
e onde não há sinal de diferença de classe ou de sonho,
tão singelas são as lápides. 

Deitem-me ali, com toda memória possível que tenham de mim,
lembrem e inventem sobre a minha vida, mas deixem-me ali. 

Quero enfrentar a vida eterna com prazer,
o vento e o azul do céu fazendo um toldo móvel sobre o meu leito. 

Eu e o silêncio
ouvindo eternamente o mar. 
Walmir Ayala

04/06/2014

Crer

Creio em mim. Creio em ti. Deus, onde mora?
Na vontade de crer que me consente
humano e ardente.
No meu repouso em ti, que me alimenta.
No que vejo e recebo, nesta vara
florida num deserto, em meu maná
de agora e de jamais. Saber-me hoje
tão digno do tempo que me mata
é arder-me em Deus, e este saber me basta. 
Walmir Ayala

28/05/2014

O Japão

O outono e o príncipe herdeiro
movem um pincel de ar
e avermelham
as árvores
da porta do sol. 

Silêncio e ausência penteiam a grama,
houvera ali um canto anunciador.
O jardim é um leque de ouro
ou cauda
de pássaro esponsal.
Os deuses invisíveis tangem
rebanhos de lã.
O outono
é menos que um murmúrio. 
Walmir Ayala

17/05/2014

Arte poética

Na adolescência eu queria escrever poemas eternos.
Poemas que não envelhecessem.
Aspirava os pensamentos abstratos, as ideias transcendentes,
jogava palavras como anzóis atrás de uma baleia azul.
Eu queria a estação permanente dos fatos,
aquela zona de mistério que transforma os acontecimentos
em reflexos cíclicos
de uma realidade essência.
Eu desprezava a transitoriedade, dava-me engulhos o trivial,
pousava meu dente na polpa indizível da transcendência.

Hoje eu pouso o coração da poesia na bandeja das coisas que passam,
eu sei que, como todas as civilizações,
a nossa tem um fim,
e já durou demais.
Eu sinto o cheiro de seu sangue congelado,
adivinho o pus acumulado sob sua pele túrgida.
Sei que seremos de repente uma sobrevivência arqueológica.
Por isso não ambiciono mais, para o meu poema, esta imaginária duração,
esta idade virtual com pés de efêmero tato.
Não desejo para o gênero humano poemas capazes de sobreviver à sua legítima história,
mergulho no cotidiano com um alívio e uma surpresa que me renovam a vida.

Não quero mais fazer poemas que não sejam tributo do instante,
quero tocar o perecível e segurar entre os dedos sua respiração
oscilante. Faço poemas transitórios e fugazes.

Os poemas eternos eu deixo para a vida eterna.
Walmir Ayala

09/05/2014

A minha morte são as coisas

A minha morte são as coisas
e não poder retê-las,
é a matéria que existe
e resiste
à minha sorte,
como as estrelas.

A minha morte é a manhã
que se estende claríssima
sem temor, é este amor
de só desesperança,
como um clamor.

A minha morte é esta voz
por que a garganta enseia
e não sabe,
ela cabe
inteira nos meus olhos
que a lágrima incendeia.

Sobretudo é
esta vontade
 de chorar e ir chorando
como uma única pergunta
sem remédio:
até quando?  
Walmir Ayala

29/04/2014

Deus é o Incriado 
é o tudo e o nada
 
o presente e o ausente
 
o respirado
 
e o expirado,
 
é a primeira imagem
 
e a última imagem
 
tocando-se num tempo
 
sem tempo; 
 
é anterior 
 
a todas as imagens,
 
é o que não teve espelho
 
é o que não se vestiu
 
e se vestiu de tudo
 
de água de ar de pó,
 
é o que manipulou
 
o pó e a brasa ardendo
 
ciclo perfeito, o anel.

É o brilho, a matéria 
o símbolo do anel
 
é o invisível dedo
 
da aliança, o espírito
 
do vinho, violeta
 
violáceo rá.

Deus é o que há 
sem ter sido, no entanto
 
inacabado sendo
 
o que não evolui,
 
é o santo
 
o címbalo
 
o fumo
 
o absinto
 
o abismo
 
o projeto
 
do amor
 
mais que perfeito.
 
É o último 
 
teto
 
do inimaginável. 
 
É a algema,
 
a asa livre:
 
é a Imagem.
 
 
Apago a luz e penso: 
mais uma vez apago a luz,
 
e respiro para me sentir respirando
 
com cautela e pasmo.

Hoje vi retratos de meus mortos, 
sorriem em praças e paisagens
 
inatuais.

E eu aqui, ainda vivo, 
como? por que? até quando?
 
Cada trilha me inspira
 
a despedida,
 
e eu me vejo ao lado dos mortos
 
e eles não me veem
 
na névoa dos retratos.

Quem me esqueceu neste lado?
Walmir Ayala

15/04/2014

Arte Poética

Faço poema às vezes com a displicência
de um risco sem figura,
como a preguiça de um gesto
sem destino,
às vezes como o adormecimento
no mormaço,
como o tremor de uma lágrima
de espanto;
faço poema às vezes como a faina
de colher flores, de passar os dedos
nas águas, de voltar-me
por não ver nada mais do que sonhava;
faço poema às vezes como a máquina
registra, como o dedo segue
a linha da leitura, como a força
invisível de virar
a página de um livro casual;
mas às vezes faço poema como erguendo
um punhal contra a rosa, ou contra mim,
como quem morre e resiste e quer morrer assim
faço poema, às vezes.
Faço poema sempre como vivo.
Walmir Ayala

04/04/2014

Penhor


Quanto pode valer um pássaro
de canto puro e goela solta
que gosta de carícia e se espreguiça
como qualquer amado amante?

O dono levou-o à penhora
por trinta e oito mil
cruzeiros. Diz
que vale o dobro.

Avaliado, não dá mais do que mil e quinhentos
diz o causídico do banco, e chama de brincadeira
esta causa de tão pessoal alcance.

Falando por seu advogado
o dono do pássaro diz
que o assunto é muito sério
e pede mesmo que o pássaro
seja tratado com carinho
pois cantando e recebendo amor
é que se prova valioso.

Neste poema, atentem, a palavra é tão banal,
mas o miolo é pura
poesia.
Difícil é contar como canta o pássaro.
Aí é que seríamos sublimes.
Walmir Ayala

18/03/2014

Licor

Dulcíssimas cerejas 
no ritual de outubro.
 
Se eu te mordesse os cílios
 
e gemesses de espanto
 
eu diria que o amor
 
é uma invenção do sonho,
 
que o corpo com que exerço
 
esta dança secreta
 
não tem definição
 
mas é garça e poeira,
 
lasca de unha, mancha
 
de sangue num lençol.

Riríamos do amor 
de tal forma alumbrados
 
que o sonho passaria
 
e eu veria a verdade
 
que paira quando tudo
 
é prazer triturado.

Prazer? Eu sondaria 
milímetros de nervos
 
e pesaria os gestos
 
as mínimas torções
 
concluindo com o nada
 
de uma nuvem traçada
 
numa folha vadia.
 
(Nem sequer uma nuvem
 
distante e verdadeira.)

Se quisesses me ouvir 
eu contaria a história
 
de uma imagem que quis
 
roubar do que é real
 
uma gota de mel.

Diria que este furto 
sem dimensão exata
 
seria toda a glória
 
desta imagem sem voz.
 
Se quisesses me ouvir
 
eu te prometeria
 
logo após dispensar
 
levando a minha história.

E eu te desejaria 
o porto da loucura
 
para que só falasses
 
desta opaca memória.

Dulcíssimas cerejas. 
Outubro, a névoa, nada
 
reconstrói o perdido
 
quando é mito refeito
 
de improvável delícia.

Dulcíssimas cerejas, 
imponderável gesto
 
suspenso entre o remorso
 
e a frustrada carícia.
Walmir Ayala

07/03/2014

Protesto

Não é no teu corpo que se imola
para a ceia dos meus sentidos
a vítima núbil, a áurea mola
que cinge o amor recente aos idos.

         Mas é também no teu corpo que corre
         o sangue que o meu sangue socorre.

Não é no teu corpo que se ergue
a guerra fria dos meus nervos.

nem nasceram tuas transparências
para a cegueira dos meus dedos.

         Mas é também no teu corpo insano
         que perscruto meu desconforto humano.

Não é no teu corpo, nos teus olhos
de fauno, que colho as minhas ditas,
nem o jasmim de tua boca flore
para a visão que me solicita.

         Mas é também no teu corpo único
         que o amor à forma do Amor reúno.

Não é no teu corpo que concentro
minha sede (esta sede ferina
que morre de seu farto alimento
e vive de quanto se elimina)

         Mas é também teu corpo a medida
         destas águas sobre a minha ferida.

Não é no teu corpo, mas é tanto
no teu corpo meu último refúgio,
que amoroso e em pânico me insurjo
contra a fonte que és: júbilo e pranto.

         Mas é também no teu corpo o tudo
         da solidão em que me aclaro e escudo.

         Em teu corpo, canal que brande e acalma
         minha alma, este pássaro árduo e mudo
         na estranha migração da tua alma.
Walmir Ayala