Mostrando postagens com marcador Nikos Kazantzakis. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Nikos Kazantzakis. Mostrar todas as postagens

26/03/2022

Estranho mistério que é o homem!

Fotograma de Zorba, o Grego (1964), de Michael Cacoyannis, com Anthony Quinn (Zorba) e Alan Bates (Basil)

Assim que chegamos, fomos nos deitar. Zorba esfregava as mãos, satisfeito.
Dia bom esse, patrão! Bem cheio, puxa! Pense bem: esta manhã estávamos lá nos confins do mosteiro e levamos o Higumeno no embrulho. Que a sua maldição nos caia em cima. Depois descemos, encontramos Dona Bubulina, ficamos noivos. Olhe aqui a aliança! Ouro de primeira. Ainda restavam duas libras inglesas, diz ela que quem deu foi o almirante inglês no final do outro século. Ela estava guardando para o enterro, mas preferiu mandar o joalheiro fazer as alianças. Estranho mistério que é o homem!
Dumas, Zorba — disse eu. — acalme-se! Por hoje basta. Amanhã teremos uma solene cerimônia: vamos plantar a primeira pilastra do teleférico. Mandei dizer ao padre Stefânio para vir.
Fez bem, patrão, não é bobagem, não! Que venha o padre-barba-de-bode, que venham também as maiorias da aldeia; vamos até distribuir umas velinhas para eles acenderem. Essas coisas causam impressão: consolidam os nossos negócios. Não olhe para o que eu faço, eu cá tenho um Deus pessoal e um Diabo pessoal. Mas as pessoas...
Pôs-se a rir. Ele não podia dormir, com o cérebro em ebulição.
Olhe — disse ao cabo de um momento, — o meu velho avô... a terra lhe seja leve!... era também um debochado como eu; e mesmo assim, o velho sacripanta foi ao Santo Sepulcro e se tornou hadji. Deus sabe pra quê! Quando voltou à aldeia, um de seus compadres, ladrão de cabras que nunca fizera nada de limpo, lhe disse: “Então, compadre, não trouxe um pedaço da Santa Cruz do Sepulcro?” — “E como é que eu não trouxe! Diga, meu sabido compadre, acha que eu ia me esquecer de você? Vá esta noite lá em casa, leve o padre para abençoar e eu lhe entrego. Leve também um leitãozinho assado e vinho, vamos festejar o acontecimento.
De tardinha, meu avô chega em casa. Tira da porta, já toda carcomida, uma lasquinha de madeira, não maior que um grão de arroz, envolve num pouco de algodão, pinga em cima uma gota de azeite e espera. Logo depois, chega o compadre com o padre, o leitãozinho e o vinho. O padre põe a estola e dá a bênção. Ele faz a entrega do pedaço da madeira e depois todos se atiram ao leitão.
Pois acredite se quiser, patrão! O compadre se ajoelhou diante do pedaço de porta, depois pendurou-o no pescoço, e desse dia em diante virou outro homem. Mudou em tudo e por tudo. Foi para a montanha, juntar-se aos armatolas e aos cleftas (Tribos Guerreiras do Norte da Grécia, sob o domínio Turco), incendiar aldeias turcas. Corria, valente, no meio das balas. Por que devia ter medo? Trazia com ele um pedaço da Santa Cruz, o chumbo não podia atingir o seu corpo.
Zorba desatou a rir.
A ideia é tudo — disse. — você tem fé? Então uma lasca de porta velha vira uma Santa relíquia. Você não tem fé? A Santa Cruz todinha vira porta velha.
Admirava esse homem cujo cérebro funcionava com tanta segurança e audácia e cuja alma, em qualquer ponto que se tocasse, lançava fagulhas.
Já esteve na guerra, Zorba?
E eu sei? — respondeu franzindo a testa. — não me lembro. Que guerra?
Bem, quero dizer, você já foi lutar pela pátria?
Se você mudasse de assunto, hein? Besteiras passadas, besteiras esquecidas.
Chama isso de besteiras, Zorba? Não tem vergonha? É assim que fala da sua pátria?
Zorba levantou a cabeça e olhou-me. Estava estirado na cama e por cima de mim brilhava a lâmpada de azeite. Fitou-me um longo momento, com severidade; depois, agarrando os bigodes com ambas as mãos:
Você é ingênuo e pedante, patrão... salvo o devido respeito — disse finalmente. — tudo o que digo é como se estivesse cantando.
Como assim? — protestei. — compreendo muito, Zorba!
Sim, você compreende com a cabeça. Você diz: “isto é justo, isto não é justo; é assim ou não é assim; você está certo ou está errado”. Mas isso leva a gente para onde? Enquanto você fala, eu observo seus braços, seu peito. Pois bem, que é que eles fazem? Ficam mudos. Não dizem nada. Como se não tivessem uma gota de sangue. Então, como é que você quer compreender? Com a cabeça? Pff!
Vamos, fale claramente, Zorba, não tente fugir! — exclamei para excitá-lo. — creio que você não se aflige muito pela pátria, hein, seu malandro?
Zangou-se e deu um soco na parede que fez ressoar a lataria.
O papaizinho aqui, vociferou, tinha bordado com os próprios cabelos a Igreja de Santo Sofia num pedaço de pano que trazia pendurado no pescoço, contra o peito, como amuleto. Perfeitamente, meu velho, foi com essas grandes patas que eu bordei, e com esses pêlos aqui, que eram, naquele tempo, pretos como azeviche. Esse que lhe fala vagou com Pavlo Melas (oficial grego que se destacou na Guerra contra os comitadjis búlgaros) pelos rochedos da Macedônia — um rapagão, um colosso mais alto que esse barracão, que eu era — com minha fustanela, meu fez vermelho, meus berloques de prata, meus amuletos, meu sabre, minhas cartucheiras e minhas pistolas.
Estava coberto de ferro, de prata e de pregos e quando andava, os metais tilintavam como se passasse um exército! Veja, olhe... olhe... !
Abriu a camisa e abaixou as calças.
Traga a luz, ordenou.
Aproximei a lâmpada do corpo magro e bronzeado: talhos profundos, cicatrizes de balas, golpes de sabre; seu corpo era uma verdadeira peneira.
Olhe agora do outro lado!
Virou-se, mostrando as costas.
Você está vendo, por trás nem um só arranhão. Morou? Então, leve a lâmpada.
Bobagens! — urrou furioso. — uma vergonha! Meu velho, quando é que o homem vai virar verdadeiramente um homem? A gente veste calça, colarinho, chapéu, mas ainda somos umas mulas, lobos, raposas, porcos. Dizem que somos a imagem de Deus! Quem? Nós? Que piada!
Dir-se-ia que lembranças terríveis lhe vinham ao espírito e ele se exasperava cada vez mais, murmurando, entre os dentes moles e estragados palavras vacilantes.
Levantou-se, pegou a garrafa d’água, bebeu a grandes tragos; depois, refeito, acalmou-se um pouco.
Onde você me tocar, eu grito — disse ele. — sou todo chagas e pisadelas, e você a me falar de mulheres! Eu, quando senti que era um homem de verdade, parei de olhar para elas. Tocava nelas um minuto, assim, de passagem, como um galo, e depois ia embora. Essas fuinhas sujas, dizia comigo, querem é sugar toda a minha força, puah! Que se enforquem!
Então, peguei meu fuzil e pé na estrada! Entrei para as guerrilhas como comitadji. Um dia, já escurecendo, fui dar numa aldeia búlgara e me escondi num estábulo, na casa do padre búlgaro que era, ele próprio, um feroz comitadji, uma besta sanguinária. De noite, tirava a batina, punha roupas de pastor, pegava nas armas e penetrava nas cidades gregas. Voltava de manhã, antes de clarear o dia, pingando lama e sangue, e ia dizer a missa. Alguns dias antes de minha chegada, ele tinha matado um professor grego na cama, enquanto dormia. Eu, então, entro no estábulo do padre, me deito na palha atrás dos bois, e espero. Lá pela tardinha, vem o padre dar comida aos animais. Aí eu me jogo sobre ele e o degolo como um carneiro; corto as orelhas e guardo no bolso. Eu fazia coleção de orelhas búlgaras, compreende você? Então, pego as orelhas do padre e dou no pé.
Alguns dias depois, volto à mesma aldeia; em pleno meio-dia, fingindo que era mascate. Tinha deixado as armas na montanha e vinha comprar pão, sal, sapatos para os camaradas. Defronte de uma casa, vejo cinco garotinhos, todos de preto, descalços, de mãos dadas, pedindo esmolas. Três meninas e dois meninos. O maior não devia ter mais de dez anos, o menor era ainda um bebê que a mais velha das meninas carregava no braço, beijando e acariciando para ele não chorar. Não sei como, sem dúvida, foi uma inspiração divina, tive ideia de chegar perto deles:
Vocês são os filhos do padre? — perguntei em búlgaro.
O maior dos meninos levanta a cabecinha:
Do padre que degolaram outro dia no estábulo — respondeu.
Fiquei com lágrimas nos olhos. A terra começou a girar como uma roda de moinho. Eu me apoiei na parede e ela parou de rodar.
Venham cá, meus meninos — disse, — cheguem perto de mim. Tiro a bolsa do cinto; estava cheia de libras turcas e de medjidiês. Ajoelho e despejo tudo no chão.
Tomem — grito eu, — tomem! Tomem!
As crianças se jogam ao chão e começam a catar libras e medjidiês.
É para vocês, é para vocês! — eu gritava, — peguem tudo!
E ainda deixei com eles a minha cesta com as compras.
Tudo isso também é para vocês, tomem!
E logo vou ter com camaradas. Saio da aldeia, abro a camisa, tiro a Santa Sofia que eu tinha bordado, rasgo, jogo para o ar, e pernas para que te quero! E até hoje ainda corro...
Zorba encostou-se à parede, voltando-se para mim:
Foi assim que me libertei — disse.
Libertou-se da pátria?
Sim, da pátria — respondeu com voz firme e calma.
E pouco depois:
Livre da pátria, livre dos padres, livre do dinheiro. Eu vou peneirando. Quanto mais eu vivo, mais eu passo na peneira. Eu me alivio. Como direi? Eu me liberto, viro um homem.
Os olhos de Zorba brilharam, sua boca enorme ria de satisfação.
Calou-se um momento e recomeçou. Seu coração transbordava, não podia mais controlá-lo.
Teve um tempo que eu dizia: aquele é um turco, um búlgaro; este é um grego. Eu fiz pela pátria coisas que deixavam você de cabelo em pé, patrão. Degolei, roubei, queimei aldeias, violei mulheres, exterminei famílias. Por que? Pretextando que eram búlgaros, turcos. Puah! Vá para o Diabo, seu sujo, eu me xingo muitas vezes. Vá para o Diabo imbecil! Agora, olhe o que eu digo: este é um homem direito, aquele é um sujo. Tanto faz se é búlgaro ou grego, não faz diferença. É bom? É mau? É só o que me pergunto hoje. E mesmo assim, agora que estou envelhecendo, juro pelo pão que como, acho que nem vou perguntar mais. Meu velho, sejam bons ou maus, tenho pena de todos. Quando vejo um homem, mesmo que eu banque o indiferente, isso me dói nas entranhas. Olhe, o coitado, digo para mim, ele também come, bebe, ama, tem medo; ele também tem o seu Deus e o seu Diabo; ele também vai bater as botas, e se deitar bem esticado embaixo da terra e ser comido pelos vermes. Eh! Coitado! Somos todos irmãos. Todos carne para os vermes.

Nikos Kazantzakis, in Zorba, o Grego

17/03/2022

— Não se inquiete, minha Bubulina


A primeira pessoa que encontramos de volta à praia, ao cair da noite, foi a nossa Bubulina, de sentinela diante do barracão. Quando acendemos o lampião e vi seu rosto, fiquei assustando.
Que tem você, Madame Hortência? Está doente?
Desde o instante em que luzia em seu espírito a grande esperança, o casamento, nossa velha sereia perdera, toda a sua indefinível e suspeita sedução. Esforçava-se por apagar todo o passado e deixava de lado as vistosas plumas com que se tinha enfeitado, depenando paxás, beis, almirantes. Queria apenas tornar se uma gralha séria e correta. Uma mulher honesta. Não se pintava mais, não se fardava mais, deixava-se levar.
Zorba não abria a boca. Torcia nervosamente o bigode recém-pintado. Inclinou-se, acendeu o fogareiro e pôs água para ferver, para o café.
Cruel — disse de súbito a voz rouca da velha cantora.
Zorba levantou a cabeça e fitou-a. Seus olhos se abrandaram.
Era-lhe impossível que uma mulher se dirigisse a ele em tom aflito sem deixá-lo completamente perturbado. Poderia afogar-se numa lágrima de mulher.
Nada disse, pôs o café e o açúcar e mexeu.
Por que me faz penar tanto tempo antes de se casar comigo? — arrulhou a velha sereia. — não ouso mais me mostrar na aldeia. Estou desonrada! Vou me matar!
Deitara-me fatigado na cama, e apoiado o travesseiro, saboreava esta cena cômica e dolorosa.
Por que não trouxe as coroas de casamento?
Zorba sentiu a mão gorducha da Bubulina tremer no seu joelho.
Este joelho era o último lugar da terra firme ao qual se agarrava esta criatura mil e uma vezes naufragada.
Dir-se-ia que Zorba o compreendera e que seu coração se adoçara. Mas, ainda desta vez, nada disse. Serviu o café nas três xícaras.
Por que não trouxe as coroas, meu querido? — repetiu, numa voz fremente.
Não há coroas bonitas em Cândia — respondeu Zorba num tom seco.
Ofereceu a cada um sua xícara e se agachou a um canto.
Escrevi para Atenas, mandando vir umas lindas — prosseguiu. — encomendei também círios brancos e confeitos de chocolate e de amêndoas torradas.
À medida que falava, sua imaginação ia pegando fogo. Os olhos brilhavam e tal como o poeta na hora ardente da criação, Zorba movia-se em alturas onde se misturavam a ficção e a verdade e se reconhecem como irmãs. Assim acocorado, descansava e bebia ruidosamente o café; acendeu um segundo cigarro — o dia fora bom, tinha a floresta no bolso, pagara as dividas e estava contente.
Prosseguiu:
É preciso que nosso casamento faça barulho, minha Bubulinazinha; vai ver que vestido de noiva encomendei para você! Foi por isso que fiquei tanto tempo em Cândia, meu amor. Fiz vir de Atenas duas grandes costureiras e disse a elas: a mulher com quem vou me casar não tem igual nem no Oriente nem no Ocidente! Foi rainha de quatro potências, mas hoje está viúva; as Potências morreram e ela consente em me aceitar como marido. Quero, portanto, que seu vestido de noiva não tenha igual, ele também: todo de seda, pérolas e estrelas de ouro. As duas costureiras soltaram exclamações: — mas vai ser lindo demais! Todos os convidados vão ficar cegos! — pior para eles, disse eu, que importa? Contanto que minha bem-amada esteja contente!
Apoiada à parede, Madame Hortência escutava. Um sorriso espesso, carnudo, fixara-se no rostinho flácido e gasto, e a fita rosa do pescoço estava a ponto de rasgar-se.
Quero dizer-lhe uma coisa no ouvido — sussurrou ela, lançando a Zorba um olhar mortiço.
Zorba piscou-me o olho e inclinou-se.
Trouxe-lhe uma coisa, esta noite — sussurrou a futura esposa, metendo a lingüinha na grande orelha peluda.
Tirou do corpete um lenço amarrado em trouxa e entregou a Zorba.
Ele pegou o lencinho com dois dedos e o colocou no joelho direito; depois, virando-se para a porta, olhou para o mar.
Não vai tirar o nó, Zorba? — disse ela. — estou vendo que não está com nenhuma pressa!
Deixe eu tomar primeiro o café e fumar um cigarro — disse ele.
já desamarrei, sei o que está dentro.
Desate o nó, desate o nó! — suplicou a sereia.
Já disse que vou fumar primeiro!
E lançou-me um olhar pesado de reprimenda, como para me dizer: “Tudo isso por sua culpa!”
Ele fumava lentamente, soltando a fumaça pelo nariz e olhando o mar.
Amanhã teremos o siroco, disse. — o tempo mudou. As árvores vão inchar, os seios das moças também, não caberão nos corpetes. A marota da primavera, invenção do Diabo!
Calou-se. Depois, ao cabo de um momento:
Tudo o que há de bom nesse mundo é uma invenção do Diabo: as mulheres bonitas, a primavera, o leitão assado, o vinho, tudo isso, foi o Diabo que fez. E o bom Deus fez os monges, os jejuns, a infusão de camomila e as mulheres feias, puah!
Dizendo isso, lançou um olhar feroz sobre a pobre Madame Hortência que o ouvia, encolhida num canto.
Zorba! Zorba! — implorava ela a cada instante.
Mas ele acendeu novo cigarro e tornou a contemplar o mar.
Na primavera — disse ele, — quem governa é satã. Despertam os cintos, as blusas desabotoam, as velhas suspiram… Hê! Dona Bubulina, tire as patas!
Zorba! Zorba!... — implorou de novo a pobre mulher.
Abaixou-se, pegou o lencinho e meteu-o na mão de Zorba.
Ele então jogou fora o cigarro, segurou o nó e o desfez. Tinha agora a mão aberta e olhava.
Que é isso, dona Bubulina? — fez aborrecido.
Anéis, aneizinhos, meu tesouro. Alianças — murmurou trêmula a velha sereia. — o padrinho está aí, a noite é linda, o bom Deus nos olha... vamos ficar noivos, meu Zorba!
Zorba olhava ora para mim, ora para Madame Hortência, ora para as alianças. Uma multidão de demônios brigava dentro dele e, naquele momento, nenhum deles levava a melhor. A pobrezinha olhava-o com terror.
Meu Zorba! Meu Zorba!... — arrulhava ela.
Levantara-me da cama e aguardava. De todos os caminhos aberto diante dele, qual escolheria Zorba?
De súbito abanou a cabeça. A decisão estava tomada. Bateu as mãos e levantou-se de um salto.
Vamos sair! — gritou. — vamos sob as estrelas, para que o bom Deus nos veja! Patrão, pegue as alianças; você sabe rezar os salmos?
Não — respondi divertido. — mas eu me arranjo.
Já tinha saído da cama e ajudei a mulher se levantar.
Pois eu sei. Tinha esquecido de dizer que também já fui menino de coro; ajudava o padre nos casamentos, batizados e enterros, e aprendi de cor os cantos da igreja. Venha, minha Bubulina, venha minha franguinha, conduza você, minha fragata de França, ponha-se à minha direita.
De todos os demônios de Zorba, era ainda o demônio farsante de bom coração que levava a melhor. Zorba tivera piedade da velha cantora, seu coração se despedaço ao ver o olho fanado fixando-o com tanta ansiedade.
Ao Diabo — murmurou ao se decidir, — ainda posso dar uma alegria ao bicho mulher, vamos lá!
Lançou-se à praia, tomou o braço de Madame Hortência, deu-me as alianças, virou-se para o mar e começou a recitar os salmos:
Bendito seja o Senhor nos séculos dos séculos, Amém!”
Virou-se para mim:
Ajude, patrão. Quando eu gritar: Hohé! Hohé! Você passa as alianças.
Continuou a recitar, com a grossa voz de burro:
Pelo servo de Deus, Alexis, e a serva de Deus, Hortência, noivos um do outro e pela sua salvação, imploramos o senhor!”
Kyrie Eleison! Kyrie Eleison! — cantarolava eu, retendo o custo o riso e as lágrimas.
Ainda tem outros versículos que me enforquem se ainda lembro deles! Mas vamos ao assunto.
Caiu de bruços e gritou:
Hohé! Hohé! — estendendo-me a manopla.
Estica a mãozinha, você também, senhora de meu coração — disse ele à noiva.
A mão roliça, estragada pelos trabalhos caseiros, estendeu-se trêmula.
Pus-lhe a aliança no dedo, enquanto Zorba, fora de si, gritava como um dervixe:
O servo de Deus, Alexis, está noivo da serva de Deus, Hortência, em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo, Amém! A serva de Deus, Hortência, está noiva do servo de Deus, Alexis...”
Pronto, terminou. Venha cá, minha franguinha, que eu vou lhe dar o primeiro beijo honesto de sua vida!
Mas Madame Hortência tinha-se atirado ao chão. Abraçava as pernas de Zorba e chorava, Zorba abanou a cabeça compadecido:

Coitada das mulheres! — murmurou.
Madame Hortência levantou-se, sacudiu as saias e abriu os braços.
Hé! Hé! — gritou Zorba. — hoje é terça-feira Santa, tenha modos! Estamos na quaresma! Paciência, minha querida, espere até a Páscoa, nós vamos comer carne. Vamos quebrar ovos vermelhos. Agora já são horas de você voltar para casa. Que é que vão dizer se virem você na rua a estas horas?
Bubulina implorava com os olhos.
Não, não! — fez Zorba, — no domingo de Páscoa! Venha conosco, patrão.
Disse-me ao ouvido:
Não deixe a gente só, pelo amor de Deus! — sussurrou. — não estou em forma.
Tomamos o caminho da aldeia. O céu brilhava, o cheiro do mar nos envolvia, gemiam as aves noturnas. Pendurava ao braço de Zorba a velha sereia deixava-se levar, feliz e melancólica.
Tinha, enfim, chegado ao porto que tanto desejava. A vida toda ela cantara, farreava, zombara das mulheres honestas, mas nunca fora feliz. Quando perfumada, rebocada, vestida de toaletes vistosas, passava nas ruas de Alexandria, de Beirute, de Constantinopla, e via mulheres amamentando bebês, o peito lhe formigava, inchava, intumesciam-se os seios, esmolando eles também uma boca de criança. “Casar-me, casar-me e ter um filho...” sonhara e suspirava por isso durante toda a vida. Mas nunca revelara a vivalma seus sofrimentos. E agora, Deus seja louvado! Um pouco tarde, mas melhor do que nunca: entrava ela, desgovernada e batida pelas ondas, no porto tão desejado.
De quando em quando levantava os olhos e arriscava uma olhadela sobre o homenzarrão desajeitado que ia ao seu lado. Não é, pensava, um rico paxá com um fez de borla de ouro, não é um lindo filho de um bei, mas é melhor que nada. Deus seja louvado! Será meu marido, meu marido de verdade!
Zorba sentia-lhe o peso e a arrastava, com pressa de chegar à aldeia e se desembaraçar dela. E a coitada tropeçava nas pedras, as unhas dos pés quase lhe saindo, os dedos doendo, mas nada dizia.
Para que falar? Para que se queixar? Tudo ia bem, apesar dos pesares!
Já tínhamos transposto a Figueira da Donzela e o jardim da viúva. Apareciam as primeiras casas da aldeia. Paramos.
Boa noite, meu tesouro — disse a velha sereia, com meiguice, pondo-se nas pontas dos pés para chegar à boca do noivo.
Mas Zorba não se inclinava.
Devo jogar-me a seus pés para beijá-los, meu amor? — disse a mulher, prestes a se deixar cair ao chão.
Não, não! — protestou Zorba, comovido, tomando-a nos braços. — eu é que devia beijar os seus pés, meu coração, mas estou com preguiça. Boa noite!
Nós a deixamos e seguimos em silêncio para casa, aspirando a fundo o ar perfumado. De súbito Zorba virou-se para mim:
Que é que a gente deve fazer, patrão? Rir? Chorar? Me dê um conselho.
Não respondi. Eu também tinha a garganta apertada e não sabia por que: soluço? Riso?
Patrão — disse Zorba de um jato, — como é que se chamava esse velhaco Deus antigo que não deixava uma só mulher se queixar? Ouvi dizer qualquer coisa a respeito. Parece também que ele tingia a barba, tatuava os braços e virava touro, cisne, carneiro, burro. Diga qual é o seu nome!
Acho que você está falando de Zeus. Como é que foi se lembrar dele?
Que a terra lhe seja leve! — disse Zorba, levantando os braços para o céu. — meteu-se em boas! Como deve ter sofrido! Um grande mártir, na verdade! Pode crer, patrão, eu manjo um bocado disso! Você engole tudo o que dizem seus livrecos. Mas, essa gente que escreve, são uns pedantes! De fato, que é que eles sabem de mulheres e de conquistas de mulheres? Puras histórias!
Por que você próprio não escreve, Zorba, para nos explicar todos os mistérios do mundo? — caçoei eu.
Por quê? Pela simples razão de que eu vivo todos os mistérios que você conta, e por isso não tenho tempo de escrever sobre eles. Uma hora é a guerra, uma hora são as mulheres, uma hora o vinho, uma hora o santuri: onde vou achar tempo para pegar na boba da pena? E foi assim que a coisa caiu nas mãos dos arranha-papéis. Você vê que todos os que vivem os mistérios não tem tempo de escrever, e todos os que tem tempo não vivem os mistérios. Morou?
Voltemos à vaca fria! E Zeus?
Ah, o pobre diabo! Só eu sei que sofreu. Ele amava as mulheres, é certo, mas não como vocês pensam, vocês, os arranha-papéis! De jeito nenhum! Ele tinha pena delas. Compreendia o sofrimento de todas, se sacrificava por elas. Quando via, num buraco qualquer de província, uma solteirona murchando de desejo e desgosto, ou uma bonita mulherzinha — palavra, mesmo que não fosse bonita, mesmo que fosse um monstro — que não pudesse conciliar o sono porque o marido estava ausente, ele fazia o sinal da cruz, o bom coração, mudava de roupa, tomava a figura que a mulher tinha no pensamento e entrava no seu quarto. Muitas vezes, não tinha a menor vontade de se ocupar com namoricos. Muitas vezes, ele estava mesmo cansado e a gente compreende: como chegar para tantas cabras, o pobre bode! Mais de uma vez tinha preguiça, não estava em forma; você já viu um bode depois de cobrir várias cabras? Ele baba, tem os olhos turvos e ramelentos, tosse, mal se aguenta nas patas. Pois bem, muitas vezes o pobre Zeus ficava nesse estado lastimoso. De manhãzinha, chegava em casa dizendo: “Ah, bom Deus! Quando é que vou poder enfim me deitar e dormir até não querer mais! Já não me aguento em pé!” e não parava de limpar a saliva.
Mas de repente, ele ouvia um queixume: cá embaixo na terra, uma mulher atirava os lençóis para o ar, saía para o terraço quase nua e dava um suspiro. Logo o meu Zeus se tomava de piedade. “Que miséria, gemia ele, tenho que voltar à terra. Tem uma mulher se lamentando, eu vou consolar!” e fazia tanto, e tão bem, que as mulheres o esvaziaram completamente. Adoeceu dos rins, começou a vomitar, ficou paralítico e morreu. Foi então que veio Cristo, seu herdeiro. Viu o estado de penúria do velho. “Pra longe as mulheres!” Exclamou ele.
Admirava o frescor do espírito de Zorba e torcia-me de rir.
Pode rir, patrão; mas se o Deus-Diabo fizer os nossos negócios andarem bem — isso me parece impossível, mas enfim! — sabe que loja eu vou abrir? Uma agência de casamentos. Então, as pobres mulheres que não puderem fisgar um marido, vão chegar: as solteironas, as feias, as cambetas, as vesgas, as mancas, as corcundas, e eu recebo todas numa salinha com uma porção de retratos de belos rapazes nas paredes e digo a elas:
Escolham, belas senhoras, aquele que agradar, e eu faço os arranjos para se tornar seu marido.”
Então eu pego um gajo qualquer meio parecido, visto como na foto, dou-lhe um dinheiro e digo: rua tal, número tal, vai correndo procurar uma tal e lhe faça a corte. Não banque o difícil, sou eu que pago. Durma com ela. Recite todas aquelas doçuras que os homens dizem as mulheres e que a pobre criatura nunca ouviu. Jure que vai casar com ela. Dê a infortunado um pouco daquele prazer que as cabras conhecem, e também as tartarugas e as mil patas. E se aparecesse algum dia um velha cabra no gênero da nossa Bubulina, que ninguém ia querer consolar nem por todo o ouro do mundo, eu fazia o sinal da cruz, e me encarregava dela pessoalmente, eu, o diretor da agência. Então você ia ouvir todos os imbecis dizerem:
Vejam só! Que velho debochado! Então não tem olhos para ver, nem nariz para cheirar?” — “Sim, bando de desalmados, eu tenho um nariz, mas tenho também um coração e sinto pena dela! E quando se tem um coração, a gente pode ter todos os narizes e olhos que quiser, eles não valem nada!” e quando eu estiver completamente impotente por causa das aventuras, e for para o outro mundo, Pedro-o-guarda-chaves vai me abrir a porta do Paraíso: “Entre, pobre Zorba”, dirá; “Entre, grande mártir Zorba, vá se deitar ao lado do seu confrade Zeus. Descanse, meu bravo, você penou muito na terra, receba minha bênção!”
Zorba falava. Sua imaginação armava laços em que ele próprio caía. Ao passarmos pela Figueira da Donzela, suspirou, e com o braço estendido como se prestasse um juramento:
Não se inquiete, minha Bubulina, minha velha barcaça apodrecida e desgovernada! Não se inquiete, eu a consolo! As quatro grandes potências a abandonaram, a mocidade a abandonou, o bom Deus a abandonou, mas o Zorba aqui não a abandona!
Passava da meia-noite quando chegamos à nossa praia.
Começou a ventar. Lá da África vinha o vento quente do sul que inchava as árvores, as vinhas, os seios de Creta. A ilha toda, estendida sobre o mar, recebia arrepiada os sopros quentes do vento que fazia a seiva subir. Zeus, Zorba e o vento sul misturavam-se e eu distinguia, muito preciso, dentro da noite, um rosto pesado de homem de barba preta, cabelos pretos besuntados de óleo a se debruçar, com os lábios vermelhos e quentes, sobre Madame Hortência, a Terra.

Nikos Kazantzakis, in Zorba, o Grego

09/03/2022

Um tiro

[…]
Logo, em torno do mosteiro, a floresta inundou-se com os cantos dos rouxinóis que, feitos de amor e paixão, se elevavam das folhagens úmidas. E com eles tremia, chorava, dilatava-se o pobre coração humano.
Pouco a pouco, sem me dar conta, com a paixão de Cristo, com o canto do rouxinol, entrei no sono como a alma deve entrar no paraíso.
Não dormira nem uma hora quando acordei sobressaltando, assustado:
Zorba — exclamei, — você ouviu? Um tiro de pistola!
Mas Zorba já estava sentado na cama, fumando.
Não se preocupe, patrão. — disse, esforçando-se para conter a raiva; — deixe que eles ajustem as suas contas.
Ouvimos gritos no corredor, barulhos de chinelos arrastando, portas que se abriam e fechavam, e ao longe os gemidos de um homem ferido.
Saltei da cama e abri a porta. Um velho sequinho surgiu diante de mim. Estendeu o braço, como para me impedir a passagem. Trazia um barrete branco pontudo e camisa branca que lhe batia nos joelhos.
Quem é você?
O bispo... — respondeu, e sua voz tremia.
Quase estourei no riso. Um bispo? Onde estavam seus paramentos: casula de ouro, mitra, báculo, pedrarias multicolores?...
Era a primeira vez que eu via um bispo de camisola.
Que tiro foi esse, Monsenhor?
Não sei, não sei — balbuciou, levando-me delicadamente para dentro do quarto.
Da cama, Zorba estourou de rir:
Está com medo, padrezinho? — fez ele. — entre, venha, pobre velho. Nós não somos monges, não tenha medo.
Zorba — disse a meia-voz, — fale com mais respeito: é o bispo.
Meu velho, de camisola de dormir ninguém é bispo. Entre, estou falando!
Levantou-se, tomou-lhe o braço, fê-lo entrar e fechou a porta.
Tirou da sacola uma garrafa de rum e encheu um cálice.
Beba, meu velho — disse ele, — isto vai renovar-lhe as tripas!
O velhinho esvaziou o copo e recobrou o ânimo. Sentou-se em minha cama, encostado à parede.
Reverendíssimo Padre — disse eu, — que tiro foi aquele?
Não sei, meu filho... trabalhei até meia-noite e tinha ido me deitar quando ouvi, ao lado, da cela de Pater Dométios...
Ah! Ah! — fez Zorba, às gargalhadas. — bem que você tinha razão, Zaharia!
O bispo baixou a cabeça.
Deve ter sido algum ladrão — murmurou.
No corredor, cessara a confusão e o mosteiro mergulhou novamente no silêncio. Com seus bondosos olhinhos espantados, o bispo me olhou, com ar suplicante:
Está com sono, meu filho? — perguntou-me.
Senti que não queria voltar para a cela e ficar só. Estava com medo.
Não — respondi-lhe, — não tenho sono, fique.
Começamos a conversar. Zorba, apoiado ao travesseiro, enrolava um cigarro.
Você parece um jovem culto — fez o velhinho. — aqui não há com quem conversar. Eu tenho três teorias que me amenizam a vida.
Gostaria de expô-las a você, meu filho.
Sem esperar a resposta, começou:
Minha primeira teoria é esta: as formas das flores tem influência sobre suas cores; as cores influem nas suas propriedades. É assim que cada flor exerce uma ação diferente sobre o corpo do homem, e, portanto, sobre a alma. É por isso que se deve estar alerta ao atravessar um campo florido.
Calou-se como se aguardasse minha opinião. Eu via o velhinho passear no campo florido, contemplando, com um arrepio secreto, a terra, as flores, sua forma e sua cor. O coitado devia tremer de um temor místico: na primavera, o campo estaria povoado de anjos e demônios multicores.
Ouça agora a minha segunda teoria: toda ideia que possui uma influência verdadeira possui também uma existência verdadeira.
Ela está presente. Não circula invisível no ar. Tem um corpo verdadeiro — olhos, boca, pés, barriga. É homem ou mulher, persegue homens ou mulheres. Eis por que diz o evangelho: “O verbo se fez carne...”
Olhou-me de novo ansioso.
Minha terceira teoria — disse depressa, não podendo suportar o meu silêncio — é esta: há eternidade, mesmo em nossa vida efêmera, mas é-nos muito difícil descobri-la sozinhos. As preocupações quotidianas nos desviam. Somente alguns, os seres de elite, conseguem viver a eternidade, mesmo em sua vida efêmera. Como os demais se perderiam. Deus por piedade lhes mandou a religião — e assim o vulgo pode também viver a eternidade.
Terminara e estava visivelmente aliviado por ter falado.
Levantou os olhinhos sem pestanas e olhou-me sorrindo. Como se dissesse: “Eis aí, dou-lhe tudo o que tenho, tome-o.” fiquei emocionado com esse pobre velho que me oferecia assim, de bom grado, mal me conhecera, os frutos de toda a sua vida.
Ele tinha lágrimas nos olhos.
Que pensa de minhas teorias? — perguntou, tomando-me a mão entre as suas e me fitando. Dir-se-ia que minha resposta iria lhe revelar se sua vida tinha ou não servido para alguma coisa.
Eu sabia que acima da verdade existe outro dever muito mais importante e muito mais humano.
Essas teorias podem salvar muitas almas — respondi.
Iluminou-se a fisionomia do bispo. Era a justificação de toda a sua vida.
Obrigado, meu filho — sussurrou ele, apertando-me ternamente a mão.
Zorba saltou então de seu canto:
Tenho uma quarta teoria! — exclamou.
Olhei-o inquieto. O bispo virou-se para ele;
Fale, meu filho, que sua ideia seja bendita! Qual é a teoria?
Que dois e dois são quatro! — fez Zorba gravemente.
O bispo olhou para ele, pasmado.
E ainda uma quinta teoria, meu bom velho — prosseguiu Zorba: — que dois e dois não são quatro. Escolha a que mais lhe convém!
Não compreendo — balbuciou o bispo, interrogando-me com o olhar.
Nem eu! — fez Zorba, rindo.
Virei-me para o velhinho espantado e mudei de assunto:
A que estudos se dedica aqui no mosteiro? — perguntei-lhe.
Copio os velhos manuscritos do convento, meu filho, e estes dias estou recolhendo todos os epítetos com que a nossa Igreja ornamentou a Virgem.
Suspirou.
Estou velho — disse, — Nada mais posso fazer. Consolo-me inventariando todos esses ornamentos da Virgem e esqueço as misérias do mundo.
Apoiou-se no travesseiro, fechou os olhos e se pôs a murmurar, como se delirasse:
Rosa imperecível, Terra fecunda, Vinha, Fonte, Manancial de Milagres, Escada para o Céu, Fragata, Chave do Paraíso, Aurora, Lâmpada Eterna, Coluna Ardente, Torre Imutável, Fortaleza Inexpugnável, Consolação, Alegria, Luz dos Cegos, Mãe dos órfãos, Mesa, Alimento, Paz, Serenidade, Mel e Leite...”
Ele delira, o coitado... — disse Zorba a meia-voz; — vou cobri-lo para que não sinta frio...
Levantou-se, pôs sobre ele uma coberta e ajeitou o travesseiro.
Ouvi dizer que há setenta e sete espécies de loucura; está é a número setenta e oito.
Raiava o dia. Ouviu-se a simandra. Debrucei-me à janelinha. Às primeiras claridades da aurora, vi um monge magro, longo véu preto à cabeça, contornar lentamente o pátio, batendo com um martelinho numa comprida prancha de madeira espantosamente melodiosa.
Cheia de doçura, harmonia e apelo, a voz da simandra ecoava no ar matinal. Calara-se o rouxinol e começava nas árvores o gorjeio dos primeiros pássaros.
Ouvia, encantado, a doce e sugestiva melodia da simandra. Como será, pensava eu, que um ritmo elevado de vida, mesmo na decadência, pode conservar toda a sua forma exterior, imponente e cheia de nobreza! A alma se evade, mas deixa intacta sua morada a qual, desde há séculos, ela modelava, vasta, complicada, para aí se instalar à vontade.
As maravilhosas catedrais que encontramos nas grandes cidades barulhentas e ateias, pensava eu, são as tais conchas vazias.
Monstros pré-históricos de que só resta o esqueleto, roído pelas chuvas e pelo sol.
Bateram à porta de nossa cela. Ouvimos a voz gutural do padre hospitaleiro:
Vamos, irmãos, levantem-se para as matinas!
Zorba pulou:
Que foi esse tiro de pistola? — exclamou fora de si.
Esperou um pouco. Silêncio. O monge devia, entretanto, estar ainda perto da porta, porque se ouvia sua respiração ofegante. Zorba bateu o pé:
Que é que foi esse tiro de pistola? — tornou a perguntar, furioso.
Ouvimos passos se afastando rapidamente. De um salto, Zorba chegou à porta e abriu-a:
Cambada de imbecis! — disse ele, cuspindo para o monge que ia fugindo. — padres, monges, freiras, tesoureiros, sacristãos, cuspo em todos vocês!
Vamos embora — disse eu, — aqui há cheiro de sangue.
Se fosse só de sangue! — grunhiu Zorba. — vá você às matinas se quiser, patrão. Eu cá vou farejar por aí para ver se descubro alguma coisa.
Vamos embora! — disse de novo, com repugnância, — e faça-me o favor de não ir meter o nariz onde não foi chamado.
Mas é justamente onde eu quero meter o meu nariz! — gritou Zorba.
Refletiu um segundo e sorriu, malicioso:
O Diabo nos presta um belo serviço! — disse. — acho que ele pôs as coisas no devido lugar. Sabe, patrão, quanto pode custar ao mosteiro esse tiro? Sete mil notas!
Descemos para o pátio. Perfumes de flores, doçura matinal, felicidade paradisíaca. Zaharia nos esperava. Correu para nós e segurou no braço de Zorba.
Irmão Canavarro — cochichou trêmulo, — venha, vamos embora!
Que é que foi esse tiro? Mataram alguém? Vamos, monge, fale ou estrangulo você!
O queixo do monge tremia. Olhou em volta. O pátio deserto, as celas fechadas; da igreja aberta escapava, em ondas, a melodia.
Sigam-me os dois — murmurou. — Sodoma e Gomorra!
Esgueirando-nos ao longo das paredes, atravessamos o pátio e deixamos o jardim. A uns cem metros do mosteiro estava o cemitério.
Entramos.
Saltamos por cima dos túmulos. Zaharia abriu a porta da capelinha e fomos atrás. Ao centro, sobre uma esteira, um corpo jazia, envolto num hábito. Ardia uma vela perto da cabeça, outras aos pés.
Debrucei-me sobre o morto.
O fradinho! — murmurei estremecendo. — o fradinho louro do pai Dométios!
Na porta do santuário brilhava o Arcanjo Miguel, de asas abertas, o gládio desembainhado e calçado de sandálias vermelhas.
Arcanjo Miguel — gritou o monge, — lance fogo e chamas, queime-os todos! Arcanjo Miguel, dê um pontapé, saia fora do seu ícone! Levante o gládio, bata! Você não ouviu o tiro de pistola?
Quem matou? Quem? Dométios? Fale, seu barbudo!
O monge escapou das mãos de Zorba, caindo em cheio aos pés do Arcanjo. Ficou um bom momento imóvel, a cabeça levantada, a boca fechada, como se espreitasse algo.
De súbito, levantou-se todo alegre:
Vou queimá-los! — declarou num ar resoluto. — o Arcanjo se mexeu, eu vi, ele me fez um sinal!
Aproximou-se do ícone e colou os grossos lábios no gládio do Arcanjo.
Deus seja Louvado! — disse. — estou aliviado.
Zorba pegou de novo o monge por debaixo dos braços.
Venha cá, Zaharia — disse ele; — vamos, você vai fazer o que eu disser.
E virando-se para mim:
Me dê dinheiro, patrão, eu mesmo vou assinar os papéis. Lá são todos uns lobos, você é um cordeiro, eles vão comer você. Deixe eu agir. Não se meta, que eu pego os grandes porcos. Ao meio-dia, nós vamos embora, com a floresta no bolso. Venha, meu velho Zaharia!
Deslizaram furtivamente para o mosteiro. Fui passear debaixo dos pinheiros.
O sol já estava alto, o orvalho cintilava nas folhas. Um melro voou diante de mim, pousou no galho de uma pereira selvagem, agitou a cauda, abriu o bico, olhou-me e assobiou duas ou três vezes com ar zombeteiro.
Através dos pinheiros eu via no pátio os monges que saíam em fileiras, curvados, véus negros aos ombros. O ofício terminara, iam agora para o refeitório.
Que pena, pensei, que uma tal austeridade e uma tal beleza já não mais tenham alma!”
Estava fatigado, não dormira bem; deitei-me na relva. As violetas selvagens, as giestas, os alecrins, as salvas recendiam.
Esfomeados, zumbiam os insetos, introduzindo-se nas flores, como piratas, para sugar o mel. Ao longe, brilhavam as montanhas, transparentes, serenas, como uma neblina movediça na luz ardente do sol.
Fechei os olhos, tranquilo. Apoderou-se de mim uma alegria discreta, misteriosa — como se todo esse milagre verde que me envolvia fosse o paraíso, como se todo esse frescor, esta leveza, esta sóbria embriaguez fossem Deus. Deus a cada instante muda de face.
Feliz aquele que pode reconhecê-lo sob cada uma de suas feições!
Ora é um copo de água fresca, ora um filho que brinca em nossos joelhos; é uma mulher feiticeira ou simplesmente um passeio matinal.
Pouco a pouco, em minha volta, sem mudar de forma, tudo se tornou um sonho. Eu era feliz. Terra e Paraíso formavam um todo.
Uma flor do campo, com uma grande gota de mel no coração — que minha alma, uma abelha selvagem, saqueava: assim me parecia a vida.
De repente, vi-me brutalmente arrancado dessa beatitude. Ouvi passos e cochichos atrás de mim. No mesmo instante, uma voz alegre:
Patrão, vamos embora!
Zorba estava diante de mim e seus olhos brilhavam com um lampejo diabólico.
Vamos partir? — fiz eu com alívio. — tudo terminou?
Tudo! — disse Zorba, batendo no bolso superior do casaco, — eu tenho aqui dentro a floresta. Que ela nos traga sorte! E aqui estão as sete mil balas que Lola nos levou!
Tirou do bolso interior um maço de notas.
Tome — disse, — pago minhas dívidas, não me envergonha mais diante de você. Aí estão também as meias, as bolsas, os perfumes e a sombrinha de Madame Bubulina. E também os amendoins do papagaio! E a salva que eu lhe trouxe, ainda por cima!
Dou-lhe tudo de presente, Zorba — disse, — vá acender um círio do seu tamanho à Virgem que você ofendeu.
Zorba voltou-se. Pater Zaharia vinha vindo, com o hábito bolorento e imundo, botas acalcanhadas. Puxava os dois animais pela rédea.
Zorba mostrou-lhe o bolo de notas.
Vamos repartir, Pater José — disse ele. — você compra cem quilos de bacalhau e come, meu pobre velho, come até rebentar a pança. Até que vomite e se liberte! Venha, abra a mão.
O monge pegou as notas sebentas e escondeu-as no peito.
Vou comprar petróleo — disse.
Zorba baixou a voz e falou ao ouvido do monge:
É preciso que seja noite, que todo o mundo esteja dormindo e o vento sopre forte — recomendou-lhe. — você vai molhar as paredes em todos os cantos. Basta embeber de petróleo os trapos, os esfregões, a estopa, o que você encontrar, e tocar fogo. Compreendeu?
O monge tremia.
Mas, não trema assim, meu velho! O arcanjo não lhe deu a ordem? Então, petróleo, muito petróleo... e passe bem!
Montamos. Deitei um último olhar ao mosteiro.
Soube de alguma coisa Zorba? — perguntei.
Sobre o tiro? Não se preocupe, patrão. Zaharia bem que tem razão: Sodoma e Gomorra! Dométios matou o belo fradinho. Pronto!
Dométios? Por quê?
Não vá remexer nisso, patrão, eu peço, é só mau cheiro e podridão.
Voltou-se para o mosteiro. Os monges saíam do refeitório, cabeças baixas, mãos cruzadas, e iam se fechar em suas celas.
Vossa maldição caia sobre mim, santos padres! — bradou ele.

Nikos Kazantzakis, in Zorba, o Grego