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18/07/2025

No Rio Clarion (1)

Não sei exactamente quem é Deus.
Mas isto direi.
Estava sentada num rio chamado Clarion, numa
pedra salpicada pela água
e pela tarde fora fui escutando as vozes
do rio.
Sempre que a água batia na pedra, esta tinha
algo a dizer,
e a própria água também, e até os musgos,
empurrados debaixo das águas.
E lentamente, muito devagarinho, tornou-se claro para mim
o que eles diziam.
O rio: sou parte do sagrado.
E eu também, disse a pedra. Eu também, sussurrou
o musgo debaixo de água.

Já tinha visitado o rio algumas vezes.
Não o culpo por nada ter acontecido, antes.
Não escutas vozes destas numa hora ou num dia.
Não as escutas de todo, se tiveres os ouvidos cheios de ti próprios.
É difícil escutar o que quer que seja, afinal, através
do trânsito imenso, e da ambição.

Mary Oliver, em Devotions – The Selected Poems of Mary Oliver (versão de Pedro Belo Clara)

25/04/2022

Balada | V

Amargura no dia
amargura nas horas,
amargura no céu
depois da chuva,
amargura nas tuas mãos
amargura em todos os teus gestos.

Só não existe amargura
onde não existe o ser.

Estão sendo atropelados
em seus caminhos,
os que nada mais têm a encontrar.
Os que sentiram amargura de fel
escorrendo da boca,
os que tiveram os lábios
macerados de amor.
Estão terrivelmente sozinhos
os doidos, os tristes, os poetas.

Só não morro de amargura
porque nem mais morrer eu sei.

Hilda Hilst, in Baladas

15/09/2021

Gorjeios

Gorjeio é mais bonito do que canto porque nele se
inclui a sedução.
É quando a pássara está enamorada que ela gorjeia.
Ela se enfeita e bota novos meneios na voz.
Seria como perfumar-se a moça para ver o namorado.
É por isso que as árvores ficam loucas se estão gorjeadas.
É por isso que as árvores deliram.
Sob o efeito da sedução da pássara as árvores deliram.
E se orgulham de terem sido escolhidas para o concerto.
As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.

Manoel de Barros

26/01/2019

Poemas aos homens do nosso tempo

Amada vida, minha morte demora.
Dizer que coisa ao homem,
Propor que viagem? Reis, ministros
E todos vós, políticos,
Que palavra além de ouro e treva
Fica em vossos ouvidos?
Além de vossa RAPACIDADE
O que sabeis
Da alma dos homens?
Ouro, conquista, lucro, logro
E os nossos ossos
E o sangue das gentes
E a vida dos homens
Entre os vossos dentes.

***********
Ao teu encontro, Homem do meu tempo,
E à espera de que tu prevaleças
À rosácea de fogo, ao ódio, às guerras,
Te cantarei infinitamente à espera de que um dia te conheças
E convides o poeta e a todos esses amantes da palavra, e os outros,
Alquimistas, a se sentarem contigo à tua mesa.
As coisas serão simples e redondas, justas. Te cantarei
Minha própria rudeza e o difícil de antes,
Aparências, o amor dilacerado dos homens
Meu próprio amor que é o teu
O mistério dos rios, da terra, da semente.
Te cantarei Aquele que me fez poeta e que me prometeu.

Compaixão e ternura e paz na Terra
Se ainda encontrasse em ti, o que te deu.
Hilda Hilst