18/07/2025

No Rio Clarion (1)

Não sei exactamente quem é Deus.
Mas isto direi.
Estava sentada num rio chamado Clarion, numa
pedra salpicada pela água
e pela tarde fora fui escutando as vozes
do rio.
Sempre que a água batia na pedra, esta tinha
algo a dizer,
e a própria água também, e até os musgos,
empurrados debaixo das águas.
E lentamente, muito devagarinho, tornou-se claro para mim
o que eles diziam.
O rio: sou parte do sagrado.
E eu também, disse a pedra. Eu também, sussurrou
o musgo debaixo de água.

Já tinha visitado o rio algumas vezes.
Não o culpo por nada ter acontecido, antes.
Não escutas vozes destas numa hora ou num dia.
Não as escutas de todo, se tiveres os ouvidos cheios de ti próprios.
É difícil escutar o que quer que seja, afinal, através
do trânsito imenso, e da ambição.

Mary Oliver, em Devotions – The Selected Poems of Mary Oliver (versão de Pedro Belo Clara)

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