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11/06/2026

2. O menino na festa do Natal de Cristo

Como sou romancista, parece que inventei uma “história”. Porque escrevo “parece”? Sei bem que a inventei, mas afigura-se sempre que ela aconteceu num certo lugar, em certo dia, ou antes, precisamente na véspera do Natal, em certa cidade enorme e durante um frio terrível.
Imagino que havia um rapaz muito pequeno numa cave, de seis anos ou ainda mais pequeno. O rapaz, numa manhã húmida e fria, acordou na sua cave. Vestia apenas uma batinha e tremia. Saía-lhe da boca um bafo de vapor branco, e ele, sentado no canto, em cima de uma arca, aborrecia-se e soprava o vapor de propósito, divertindo-se a vê-lo sair. Mas estava com muita fome. Logo de manhã, por várias vezes, já se aproximara do catre em que a mãe doente estava deitada numa esteira e com uma trouxa debaixo da cabeça. Como veio ela parar aqui? Chegara pelos vistos de outra cidade, com o filho, e de repente adoecera. A senhoria tinha sido levada pela polícia dois dias antes; os inquilinos dispersaram-se, era a quadra das festas; só um dos do “pessoal da ganga” estava lá, prostrado de bêbado como um morto havia já vinte e quatro horas, sem dar atenção às festas. Noutro canto do quarto gemia de dores reumáticas uma velha octogenária, antiga ama-seca numa casa qualquer, deitada no leito da morte solitária, queixosa, gemebunda e a resmungar com o miúdo que já tinha medo de se aproximar muito do canto dela. Encontrou, algures no átrio, água para beber, mas não encontrou uma côdea para comer, e já era a décima vez que se aproximava para acordar a mãe. Por fim, começou a sentir pavor da escuridão: havia muito que escurecera mas ninguém acendia as velas. Ao mexer na cara da mãe, espantou-se por ela não se mexer e por estar fria como a parede. “Está muito frio aqui”, pensou ele, e ficou um pouco parado, deixando, inconscientemente, a mão esquecida no ombro da morta; depois soprou para os dedinhos, tentando aquecê-los e, de repente, tendo encontrado às apalpadelas o seu boné em cima do catre, foi devagarinho, na escuridão, para a saída da cave. Teria saído ainda antes, mas tinha medo de um cão grande que, durante todo o dia, uivava em cima, nas escadas, à porta dos vizinhos. O cão já não estava lá, e o miúdo saiu para a rua.
Meu Deus, que cidade! Nunca antes ele vira nada de parecido. Lá, donde ele viera, fazia muito escuro de noite, havia só um lampião em toda a rua. As casas de madeira baixinhas tinham as portadas fechadas; mal caía a noite, não se via ninguém, as pessoas metiam-se dentro das casas, apenas os cães uivavam, matilhas de cães, centenas, milhares deles, a uivarem e a ladrarem toda a noite. Mas, lá, havia calor e davam de comer, e aqui... meu Deus, que me apetece tanto comer alguma coisa! E há tanto barulho aqui, estrondos, tanta luz, cavalos e coches, e frio, frio! Levanta-se um vapor gélido sobre os cavalos esfalfados, dos focinhos sai-lhes bafo quente, tinem as ferraduras nas pedras cobertas de neve, anda toda a gente aos empurrões, e, meu Deus, que fome, nem que fosse um bocadinho qualquer, e de repente começaram-me a doer muito os dedos. Passou ao lado um polícia e virou a cabeça para não olhar para o miúdo.
Outra rua — ah, que larga! Aqui de certeza que atropelam a gente; como eles gritam, correm, tantos coches, tanta luz, tanta luz! E isto o que é? Oh, que vidro tão grande, e atrás do vidro uma sala, e na sala uma árvore até ao teto! É a árvore de Natal, e tantas luzes na árvore, e tantos papelinhos dourados e tantas maçãs, e por todo o lado bonequinhos, cavalinhos; e crianças a correr na sala, todas apinocadas, todas limpinhas, riem-se e brincam e comem e bebem. Eis uma menina que começou a dançar com um rapaz, que linda! E ouve-se a música através do vidro. O rapaz olha, espanta-se e ri-se, mas doem-lhe os dedos, dos pés e das mãos, ficaram roxos, já não se dobram e doem-lhe quando os mexe. O miúdo pensou então, de repente, que lhe doíam muito os dedos, e chorou, e correu mais adiante pela rua, e viu de novo, por outro vidro grande, uma sala, árvores, mas nas mesas há bolos, variados: de amêndoa, vermelhos, amarelos, e estão lá quatro ricas senhoras, e dão bolos a quem entra, e a porta abre-se a cada instante e entram muitos senhores. O rapaz aproximou-se, abriu a porta e entrou. Ui, como gritaram com ele, como abanaram as mãos! Uma senhora aproximou-se dele e meteu-lhe na mão um copeque, abriu-lhe a porta para a rua. Como se assustou! O copeque caiu e tilintou nos degraus: não podia dobrar os dedos inteiriçados e vermelhos para o segurar. Saiu e pôs-se a andar depressa, depressa, mas não sabia para onde. Apetecia-lhe outra vez chorar, mas tinha medo e corria, corria e soprava nos dedos. E ficou muito aflito, porque se sentiu de repente sozinho e assustado, e de chofre, meu Deus, o que era aquilo outra vez? Está lá uma multidão de pessoas. A admirar isto: atrás da vidraça há três bonecos pequenos, todos apinocados com roupas vermelhas e verdes, tal e qual como se estivessem vivos! Está lá um velho que toca um violino grande, há mais dois de pé que tocam violinos pequenos, e abanam todos as cabecinhas ao ritmo da música, e olham uns para os outros, e os lábios deles mexem, e falam, falam mesmo, só que não se ouve através do vidro. E o miúdo, a princípio, pensou que estavam vivos, mas, quando adivinhou que eram bonecos, riu-se de repente. Nunca na vida tinha visto bonecos assim nem sabia que existiam! Apetecia-lhe chorar, mas também era tão engraçado ver os bonecos! De repente pareceu-lhe que alguém lhe puxava pela bata, atrás dele: estava ao pé dele um rapaz grande e mau que lhe deu, sem mais nem menos, um murro na cabeça, arrancou-lhe o boné e assestou-lhe um pontapé. O miúdo rolou pelo chão, toda a gente gritava, e ele, muito aturdido, levantou-se e deitou a correr muito, e então, sem saber onde nem porquê, entrou para um pátio por baixo do arco e sentou-se atrás de uma rima de lenha: “Aqui não me encontram, é escuro.”
Sentou-se, encolheu-se, não conseguia recuperar o fôlego por causa do medo, e de repente, mesmo de repente, sentiu-se muito bem: as mãos e os pés deixaram de lhe doer, e estava ali tanto calor, tão quentinho como no catre do fogão; e estremeceu: ah, estava quase a dormir! Que bom adormecer ali: “Fico aqui um bocado e depois vou outra vez ver os bonecos — pensou e sorriu, lembrando-se —; são tal e qual como se estivessem vivos!...” Então, de súbito, ouviu a mãe a cantar-lhe uma cantiga. “Mamã, estou a dormir, é tão bom dormir aqui!”
Pequenito, vem comigo ver a minha festa da árvore de Natal — sussurrou-lhe uma voz baixinha.
Primeiro pensou que era a mãe, mas não, não era ela; quem o chamava, então? Ele não via, mas alguém se inclinou sobre ele e o abraçou na escuridão, e o miúdo estendeu-lhe a mão e... de repente — oh, que luz! Oh, que árvore! Aquilo nem é uma árvore, nunca ele tinha visto árvores assim! Onde estará? Tudo brilha, tudo é luz, por todo o lado há bonequinhos... mas não: são rapazes e raparigas, só que são tão claros, e todos giram à volta dele, e voam, e todos lhe dão beijos, e pegam nele, e levam-no, e ele também voa, e vê: a mamã a olhar para ele e a rir de felicidade.
Mamã, mamã! Ah, que bom estares aqui, mamã! — grita-lhe o miúdo, e beija de novo os outros meninos, e conta-lhes logo sobre os bonecos atrás do vidro. — Quem sois vós, rapazinhos? Quem sois vós, raparigas? — pergunta, rindo-se de amor por eles.
É a “festa do Natal de Cristo” — responderam-lhe. — Neste dia, Cristo faz sempre a festa da árvore de Natal para os pequeninos que não têm a sua própria árvore... — E soube o menino que estas crianças eram todas como ele, mas umas gelaram ainda nos cestos em que foram abandonadas nas escadas, à porta dos funcionários petersburguenses, outras asfixiaram-se quando estavam com as amas finlandesas a quem os orfanatos entregaram para serem amamentadas, outras morreram ao peito seco das mães durante a grande fome de Samara, outras sufocaram no fedor das carruagens de terceira classe, e agora estão todas aqui, como anjos, todas estão com Cristo, e o próprio Cristo está no meio delas, e estende as mãos para elas, e abençoa-as e abençoa as suas mães pecadoras... E as mães destas crianças também estão aqui, ao lado, e choram; cada mãe reconhece o seu filho, ou a sua filha, que se aproxima dela a voar e a beija, lhe limpa as lágrimas do rosto com as mãozinhas e lhe pede que não chore, porque está muito bem...
No pátio, os guarda-portões encontraram de manhã o corpo pequenino do miúdo que se escondera atrás da lenha e aí gelara; encontraram também a mãe dele... Essa morrera ainda antes do filho; encontraram-se no céu, junto a Deus.
Para que inventei esta história tão inadequada a um diário normal e razoável, ainda por cima do escritor? Eu, que prometi escrever principalmente sobre acontecimentos reais! Mas é mesmo assim, sempre me pareceu que isto poderia acontecer na realidade — ou seja, o que aconteceu na cave e por trás do monte de lenha — já que, aquilo da festa do Cristo... nem sei que vos diga. Poderia acontecer ou não? Para isto sou romancista — para inventar.

Fiodor Dostoievski, em A Submissa e Outras Histórias

19/07/2023

A propósito da neve úmida[1] | 3


Encontrei ali mais dois ex-colegas da escola. Eles pareciam conversar sobre algo muito importante. Nenhum deles pareceu prestar muita atenção à minha entrada, o que era estranho, pois fazia anos que não nos víamos. Pelo visto, consideravam-me algo semelhante a uma mosca, das mais comuns. Não me tratavam assim nem mesmo na escola, embora lá todos me odiassem. É claro que eu compreendia que agora eles deviam me desprezar devido ao meu fracasso na carreira de funcionário, e também porque minha aparência era péssima, andava mal vestido, o que, aos olhos deles, era um sinal evidente de minha incapacidade e pouca importância. Mesmo assim, eu não esperava tal grau de desprezo. Símonov até demonstrou espanto com a minha chegada. Antes também ele sempre parecia de certo modo se espantar com minhas visitas. Tudo isso me deixou desconcertado. Sentei-me com uma certa angústia e fiquei ouvindo o que eles diziam.
Peguei no meio uma conversa séria e até mesmo empolgada a respeito de um jantar de despedida que aqueles senhores queriam organizar já para o dia seguinte, em homenagem a um amigo, Zverkov, que servia no exército como oficial e estava de partida para uma província distante. Monsieur Zverkov tinha sido também meu colega durante toda a escola. Passei a odiá-lo especialmente nas últimas séries. Nos primeiros anos, ele era apenas um menino bonitinho e esperto, de quem todos gostavam. Aliás, eu o odiava também nos primeiros anos por ele ser bonitinho e esperto. Ele foi sempre um mau estudante e, quanto mais velho, pior. Apesar de tudo, conseguiu terminar o curso, pois era protegido de alguém importante. No último ano ele recebeu de herança duzentas almas e, como a maioria de nós era pobre, ele começou a fanfarronar até diante de nós. Era um sujeito vulgar em alto grau, mas era também um bom rapaz, mesmo quando fanfarronava. Entre os estudantes, apesar das demonstrações externas, fantásticas e bombásticas de honra e amor-próprio, todo mundo, com raras exceções, cortejava esse Zverkov e, quanto mais ele fanfarronava, mais o cortejavam. E não buscavam alguma vantagem, faziam aquilo apenas porque ele fora privilegiado pela natureza, que lhe concedera aqueles dons. Acresce que entre nós ele era considerado um especialista em formas corretas de agir e em boas maneiras. Este último item me deixava furioso. Eu detestava sua voz cortante, cheia de autoconfiança, sua adoração das próprias piadas, na realidade terrivelmente idiotas, embora ele tivesse uma língua ferina; odiava seu rosto bonito, mas bobinho (pelo qual, aliás, eu trocaria de boa vontade o meu rosto inteligente), e suas maneiras despachadas de oficial dos anos quarenta. Odiava quando ele falava de seus futuros sucessos com as mulheres (ele não se decidia a procurar mulheres enquanto não tivesse galões de oficial e aguardava-os com impaciência) e também de que ele iria a cada instante bater-se em duelo. Lembro-me de uma vez em que eu, que ficava sempre calado, me engalfinhei de repente com Zverkov, que conversava no tempo livre com os colegas sobre suas futuras aventuras amorosas e, por farra, como um cãozinho novo que se espoja ao sol, declarou que nenhuma das camponesas jovens de sua aldeia deixaria de receber sua atenção, que isso era um droit de seigneur e que, se os homens ousassem protestar, ele haveria de açoitar aqueles canalhas barbudos um por um e cobraria seus tributos em dobro. Nossos cretinos o aplaudiram por isso, mas eu me atraquei com ele, e não foi por pena das moças e de seus pais, mas simplesmente porque um inseto como aquele recebia tantos aplausos. Daquela vez eu venci, mas Zverkov, embora fosse burro, era alegre e atrevido e soube se sair bem por levar tudo na brincadeira, o que, verdade seja dita, diminuiu um pouco a minha vitória. Depois disso, ele me subjugou várias vezes, mas sem maldade, de brincadeira, ao passar por mim com um riso nos lábios. Cheio de raiva, eu o desprezava com o meu silêncio. Na ocasião de nossa formatura, ele demonstrou a intenção de se aproximar de mim; não me opus frontalmente, porque o fato me deixou lisonjeado, mas em seguida nos separamos naturalmente.
Mais tarde, ouvi narrativas sobre seus sucessos na caserna e como tenente, e também sobre suas farras. Depois ouvi outros boatos sobre seus avanços na carreira. Ele já não me cumprimentava na rua e eu desconfiava de que ele tinha medo de se comprometer se mostrasse conhecer alguém tão insignificante como eu. Vi-o certa vez no teatro, no terceiro balcão, já com alamares. Ele se curvava e fazia mesuras para as filhas de um velho general. Nesses três anos ele havia decaído muito, embora continuasse bastante bonito e ágil; parecia inchado e começava a engordar. Via-se que, lá pelos trinta anos, estaria completamente obeso. E era para esse Zverkov, que finalmente estava de partida, que meus colegas queriam oferecer um jantar. Eles sempre se encontraram durante esses três anos, embora no fundo não se considerassem do mesmo nível que ele, estou certo disso.
Um dos outros dois visitantes de Símonov era Ferfítchkin, russo descendente de alemães, de estatura baixa e cara de macaco, um idiota que zombava de todo mundo. Era o meu pior inimigo desde as primeiras séries – um calhorda insolente, um fanfarrãozinho que encenava ter um amor-próprio muito sensível, embora lá no íntimo fosse, evidentemente, o maior covarde. Era um dentre os admiradores de Zverkov, que o bajulavam abertamente e estavam sempre lhe pedindo dinheiro emprestado. O outro visitante de Símonov, Trudoliúbov, não tinha nenhuma característica especial na sua personalidade. Era um militar alto, com um rosto frio, bastante honesto, mas que se inclinava diante de qualquer um que fosse bem-sucedido, e só era capaz de conversar sobre produção. Era parente distante de Zverkov, o que, embora isso pareça tolo, lhe conferia no nosso meio alguma importância. Para ele, eu não era nada, embora me tratasse de uma maneira, eu não diria polida, mas suportável.
Vejamos, se forem sete rublos de cada um – disse Trudoliúbov –, como somos três, serão vinte e um rublos. Dá para jantar bem. Zverkov, naturalmente, não vai pagar.
Claro, se fomos nós que o convidamos – decidiu Símonov.
Vocês acreditam mesmo – intrometeu-se Ferfítchkin de maneira arrogante e veemente, como um lacaio insolente que se vangloria das condecorações do seu patrão general – que Zverkov vai nos deixar pagar tudo? Ele vai aceitar por delicadeza, mas, em compensação, vai pedir champanhe por sua conta, uma meia dúzia.
Ora, para que meia dúzia para nós quatro? – observou Trudoliúbov, que só prestara atenção na meia dúzia.
Bom, então somos três, quatro com Zverkov, são vinte e um rublos para o Hôtel de Paris, amanhã às cinco horas – concluiu Símonov, que tinha sido eleito organizador.
Como vinte e um? – disse eu, um tanto alterado e, creio, até mesmo meio ofendido. – Se contarem comigo, não são vinte e um rublos, e sim vinte e oito.
Julguei que oferecer-me de repente, sem que ninguém esperasse, seria um gesto até bem bonito e que todos eles imediatamente se renderiam a mim e me olhariam com respeito.
Por acaso o senhor também quer ir? – perguntou Símonov aborrecido e de certo modo evitando olhar para mim.
Ele me conhecia de cor e salteado. Fiquei furioso por ele me conhecer tão bem.
E por que não? Parece que eu também fui seu colega e confesso que até me sinto ofendido por não terem me convidado – disse eu, começando a me alterar de novo.
Mas onde nós poderíamos encontrá-lo? – intrometeu-se indelicadamente Ferfítchkin.
O senhor nunca se deu bem com Zverkov – acrescentou Trudoliúbov, franzindo o cenho.
Mas eu já me agarrara à idéia e não a soltava.
Acho que ninguém tem o direito de julgar isso – objetei com voz trêmula, como se algo terrível tivesse acontecido. Talvez seja precisamente por não me ter dado bem com ele antes que agora eu queira ir.
Ora, quem há de entendê-lo! O senhor com seus altos sentimentos... – escarneceu Trudoliúbov.
O senhor será incluído – resolveu Símonov, dirigindo-se a mim. – Amanhã, às cinco horas, no Hôtel de Paris. Não vá se enganar.
E quanto ao dinheiro? – começou Ferfítchkin para Símonov, a meia-voz e indicando-me com a cabeça, porém não terminou, porque até Símonov estava sem jeito.
Basta – disse Trudoliúbov, levantando-se. – Se deu tanta vontade assim nele, que vá.
Mas nós somos um grupinho de amigos – disse Ferfítchkin furioso, apanhando seu chapéu. Não era para ser uma reunião oficial. Pode ser que não queiramos de jeito nenhum a sua presença...
Eles se foram. Ferfítchkin saiu sem se despedir de mim e Trudoliúbov fez-me um leve aceno de cabeça, sem me fitar. Símonov, com quem fiquei frente a frente, estava meio perplexo e contrariado, olhando-me de modo estranho. Permanecia de pé e não me convidou para sentar.
Hum... é... amanhã, então? Quanto ao dinheiro, vai dar agora? É só para eu saber com certeza – balbuciou confuso.
Fiquei vermelho de raiva, mas nesse momento lembrei-me de que desde tempos imemoriais eu devia a Símonov quinze rublos, que, aliás, eu nunca havia esquecido, mas que tampouco nunca devolvera.
O senhor há de concordar que eu não podia saber quando aqui cheguei... e estou muito aborrecido por ter esquecido...
Está bem, está bem, tanto faz. Pagará amanhã, no jantar. Perguntei só para saber... O senhor, por favor...
Embatucou de repente e ficou andando pela sala ainda mais contrariado. Ao caminhar, pôs-se a equilibrar-se nos saltos dos sapatos e a batê-los no chão.
Estou tomando seu tempo? – perguntei, quando já estávamos uns dois minutos calados.
Oh, não! – exclamou ele, como que acordando. – Ou melhor, para dizer a verdade, sim. É que eu ainda preciso dar uma passada... É aqui perto... – acrescentou meio envergonhado, com voz de quem pede desculpa.
Oh, meu Deus! Por que não me disse? – exclamei, pegando meu boné, com um ar incrivelmente desinibido que baixou em mim vindo só Deus sabe de onde.
É aqui pertinho... a dois passos daqui... – repetiu Símonov, acompanhando-me até a saída com uma maneira agitada que não combinava com ele. – Então, amanhã às cinco em ponto! – gritou-me, enquanto eu descia a escada. Ele estava muito contente com a minha saída. Quanto a mim, estava furioso.
Mas por que eu tinha de me meter nessa história?! – ia eu rangendo os dentes pela rua. – E logo para aquele calhorda, aquele porco do Zverkov! É evidente que não devo ir; é evidente que devo mandar tudo isso às favas: sou obrigado a ir, por acaso? Amanhã mesmo mando uma carta a Símonov, avisando.
Mas o motivo verdadeiro da minha raiva era que eu tinha certeza absoluta de que iria ao jantar; de que propositalmente iria; e, quanto mais falta de tato e de decência houvesse na minha ida, mais vontade eu tinha de ir.
E tinha até um motivo de peso para não ir: não tinha dinheiro. Tudo o que possuía eram nove rublos, mas no dia seguinte eu teria de pagar ao meu criado Apollon sete rublos, seu salário mensal; ele morava na minha casa, mas vivia às próprias custas.
Deixar de pagar a Apollon era impossível, devido ao seu temperamento. Mas em outra ocasião falarei sobre esse canalha, sobre essa praga na minha vida.
Aliás, eu sabia perfeitamente que não lhe daria o dinheiro e que não faltaria ao jantar.
Naquela noite tive sonhos monstruosos. Não era de admirar: até conseguir pegar no sono, as lembranças dos anos de prisioneiro na minha vida escolar me oprimiram e não consegui me livrar delas. Eu tinha sido colocado naquela escola por uns parentes distantes, dos quais eu dependia e de quem nunca mais soube nada. Deixaram-me lá, órfão. Já então me retraía, devido às censuras deles. Era pensativo, calado e olhava desconfiado para tudo. Os colegas me receberam com zombarias impiedosas e malévolas pelo fato de eu não me parecer com nenhum deles. Mas eu não podia suportar as zombarias; não podia acostumar-me com a mesma facilidade com que eles se acostumavam uns aos outros. Odiei-os desde o início, isolando-me num orgulho assustado, ferido e exagerado. As grosserias deles me revoltavam. Eles riam cinicamente da minha cara, da minha figura desengonçada; no entanto, que caras idiotas eles tinham! Na nossa escola, as expressões dos rostos modificavam-se com o passar do tempo e tornavam-se particularmente estúpidas. Quantos meninos maravilhosos ingressavam lá! Depois de alguns anos, dava asco olhar para eles. Aos dezesseis anos, eu os observava carrancudo e me espantava com eles; já naquela época eu ficava admirado com a mesquinhez dos seus pensamentos, com as coisas idiotas com que se ocupavam, com seus jogos, suas conversas. Havia tantas coisas importantes que eles não entendiam, tantos assuntos empolgantes e apaixonantes que não despertavam o interesse deles, que sem querer eu comecei a me achar superior a eles. Não era uma vaidade despeitada que me levava a isso e, pelo amor de Deus, não me venham com aqueles chavões aborrecidos e nauseantes: “que eu ficava apenas sonhando, enquanto eles já entendiam a vida real”. Eles não entendiam nada da vida real e juro que era isso o que mais me revoltava neles. Ao contrário, a realidade mais evidente, que saltava aos olhos, era percebida por eles de maneira fantasticamente tola, e já naquela época tinham o hábito de curvar-se unicamente ao sucesso pessoal. Todas as coisas justas, mas oprimidas e humilhadas, eram motivo de suas zombarias impiedosas e infames. Eles achavam que ser inteligente era obter um cargo elevado; aos dezesseis anos já discorriam sobre sinecuras. Evidentemente, muito disso era por estupidez e por causa dos maus exemplos a que foram submetidos na infância e na adolescência. Eram monstruosamente depravados. É claro que isso, na maior parte das vezes, era pura fachada, um cinismo estudado; é claro que a juventude e um certo frescor às vezes transpareciam neles até por trás da depravação; mas mesmo esse frescor era desagradável e se manifestava como uma sensualidade grosseira. Eu os odiava terrivelmente, embora talvez fosse até pior que eles. Eles me pagavam na mesma moeda e não disfarçavam a repugnância que sentiam por mim. Mas eu já não desejava o afeto deles; ao contrário, ansiava o tempo todo por sua humilhação. Para me livrar de suas zombarias, esforçava-me para estudar o melhor possível e finalmente galguei um lugar entre os primeiros alunos. Dessa forma eu me impus. Além disso, pouco a pouco eles foram compreendendo que eu já lia livros que eles não conseguiam ler e entendia de assuntos que não faziam parte de nosso programa escolar, dos quais eles nunca tinham ouvido falar. Encaravam isso com sarcasmo e raiva, mas moralmente se submetiam, ainda mais porque, agindo assim, eu já tinha conseguido até que os professores me notassem. Pararam com as zombarias, mas a antipatia continuou e nossas relações se tornaram frias e tensas. No final, eu mesmo não aguentei mais: com o passar dos anos, cresceu uma necessidade de ter contato com pessoas, de ter amigos. Fiz várias tentativas de me aproximar de alguns deles, mas essa aproximação era sempre artificial e terminava por si mesma. Numa certa época, cheguei a ter um amigo. Mas, no íntimo, eu já era um déspota; queria ter poder absoluto sobre sua alma. Procurei inculcar nele desprezo pelo ambiente que o rodeava; arrogantemente exigi dele um rompimento total e definitivo com esse ambiente. Assustei-o com minha amizade cheia de paixão; levei-o muitas vezes às lágrimas e às convulsões. Era uma alma ingênua, que se entregava com facilidade, mas, quando ele se entregou totalmente a mim, imediatamente passei a odiá-lo e afastei-o de mim – como se eu precisasse dele apenas para triunfar sobre ele e subjugá-lo. Mas eu não poderia triunfar sobre todos; meu amigo também era diferente de todo mundo, era de fato uma exceção das mais raras. A primeira coisa que fiz quando deixei a escola foi abandonar o emprego especial que me haviam destinado, a fim de romper todas as ligações com o passado, amaldiçoá-lo e cobri-lo de cinzas... Com os diabos! Por que, depois de tudo isso, eu tinha de ir à casa daquele Símonov!?…
De manhã cedo acordei sobressaltado e pulei agitado da cama, como se tudo já fosse começar a acontecer. Estava convencido de que teria início naquele mesmo dia uma mudança radical na minha vida. Talvez por falta de costume, sempre me pareceu que o menor acontecimento exterior indicava que imediatamente uma mudança drástica na minha vida iria começar. Apesar disso, fui para o trabalho como de costume, mas escapuli duas horas mais cedo e vim para casa me preparar. “O mais importante é não ser o primeiro a chegar”, pensava, “senão vão achar que estou dando muito valor”. Mas tinha que resolver mil coisas importantes, que me deixaram exausto de tanta preocupação. Eu mesmo limpei novamente as minhas botas; por nada neste mundo Apollon as limparia duas vezes no mesmo dia, pois para ele isso seria quebra de regulamento. Eu as limpei, pegando às escondidas a escova no vestíbulo para que ele não visse e não me tratasse com desprezo depois. A seguir, examinei detalhadamente minhas roupas e vi que estava tudo velho, puído e surrado. Eu tinha descuidado demais de mim. Talvez o uniforme de serviço fosse a coisa mais apresentável, mas não ficava bem ir de uniforme a um jantar. O pior é que a minha calça tinha uma enorme mancha amarela na altura do joelho. Comecei a pressentir que somente essa mancha já tiraria nove décimos do meu amor-próprio. Sabia também que era muito mesquinho pensar assim. “Mas não é hora de ficar pensando; é hora de encarar a realidade”, pensei desanimado. Já naquele momento eu tinha também perfeita consciência de que estava exagerando de maneira monstruosa aqueles fatos; porém, que podia fazer? Não conseguia me dominar mais e tinha tremores febris. Já antevia, desesperado, que o “canalha” do Zverkov me receberia com frieza e arrogância; que o jumento do Trudoliúbov olharia para mim com um desprezo obtuso e inflexível; que o insignificante do Ferfítchkin daria risadinhas nojentas e insolentes às minhas custas para agradar a Zverkov; que no íntimo Símonov compreenderia tudo perfeitamente e me desprezaria pela baixeza de minha vaidade e covardia e, principalmente, eu já antevia como tudo seria paupérrimo, não literário, banal. Estava claro que o melhor seria não ir, mas isto já era totalmente impossível: quando algo começava a me puxar, eu me entregava inteiro, de cabeça. Senão, depois passaria o resto da vida implicando comigo mesmo: “Viu só? Acovardou-se, acovardou-se diante da realidade, acovardou-se!” Ao contrário, queria mostrar para toda aquela “corja” que não era absolutamente o covarde que eu mesmo me imaginava. Além disso: no mais intenso paroxismo da minha febre covarde, eu sonhava sair vencedor, fasciná-los e obrigá-los a me amar – nem que fosse pela “elevação das idéias e indiscutível presença de espírito”. Eles deixariam Zverkov de lado, num canto, calado e envergonhado, e eu o esmagaria. Depois, talvez eu fizesse as pazes com ele, nós brindaríamos, tratando-nos por você, mas o que mais me aborrecia e deixava furioso era que já então eu sabia perfeitamente que, no fundo, não precisava de nada daquilo; que, no fundo, não desejava de modo algum esmagar, dominar, magnetizar quem quer que fosse e, se alcançasse esse resultado, eu seria o primeiro a não dar um tostão por ele. Oh, como rezei a Deus para que aquele dia acabasse logo! Numa angústia indescritível, chegava à janela, abria a janelinha de ventilação e ficava olhando a obscuridade turva da neve úmida que caía densamente.
Finalmente, meu horrível relógio de pêndulo martelou as cinco horas. Agarrei meu chapéu e, esforçando-me para não olhar para Apollon, que desde a manhã esperava seu pagamento, mas que por orgulho não queria ser o primeiro a tocar no assunto, deslizei pela porta, passando por ele, e embarquei no carro de luxo que havia contratado com meus últimos cinquenta copeques e, como um senhor importante, cheguei ao Hôtel de Paris.

Dostoiévski, in Notas do Subsolo

15/07/2023

A propósito da neve úmida[1] | 2


Mas a fase de minhas devassidõezinhas estava terminando, e eu começava a ficar terrivelmente nauseado. Se era assomado pelo arrependimento, eu o enxotava: a náusea que ele causava era demasiada. Aos poucos, porém, fui me acostumando com isso também. Eu me acostumava a tudo, ou melhor, não me acostumava, propriamente, e sim, de certa forma, concordava voluntariamente em suportar. Mas eu tinha uma saída conciliadora, que era refugiar-me em tudo que fosse “belo e sublime”, em sonhos, naturalmente. Eu era um terrível sonhador, sonhava até por três meses seguidos, enfiado no meu canto, e creiam-me: nesses momentos eu não me parecia com aquele senhor que, na perturbação de seu coração de galinha, costurava uma pele de castor alemã à gola do seu capote. De repente me transformava em herói. Não admitiria meu tenente grandalhão na minha casa nem como visita. Já nem conseguia mais imaginá-lo. Agora é difícil dizer quais eram os meus sonhos e como eles podiam me satisfazer, mas o fato é que naquela época eles me satisfaziam. Aliás, mesmo agora eu me satisfaço parcialmente dessa maneira. Sonhos particularmente mais fortes e doces me vinham depois da devassidãozinha, vinham com arrependimento e lágrimas, com maldições e arrebatamentos. Aconteciam momentos tão bons de inebriamento, de tal felicidade, que, juro por Deus, não sentia dentro de mim nem sombra de deboche. O que havia era fé, esperança e amor. Acontece que, naquela época, o que eu acreditava cegamente era que por um milagre, por uma circunstância exterior qualquer, tudo de repente iria mover-se, alargar-se; que de repente surgiria o horizonte da atividade conveniente, nobre e maravilhosa e, principalmente, completamente pronta (exatamente qual seria eu nunca soube, mas o mais importante é que estaria completamente pronta), e eu surgiria de repente neste mundo de Deus nada menos que montado num cavalo branco e com uma coroa de louros. Um papel secundário eu nunca pude aceitar, e era por isso que na vida real ocupava muito tranquilamente o último lugar. Ou herói ou a lama, não havia meio-termo. Isso foi a minha perdição, porque, na lama, eu me consolava dizendo que em outras ocasiões eu era herói, e o herói encobria a sujeira: para uma pessoa comum, é vergonhoso sujar-se na lama, mas um herói está muito acima de tudo e não vai se sujar inteiramente, por isso ele pode sujar-se um pouco. É admirável que esses acessos de “tudo o que é belo e sublime” me vinham também durante minha devassidãozinha, e precisamente no momento em que eu me encontrava já no fundo; vinham como pequenos lampejos isolados, como que para se fazerem lembrar, mas, pelo fato de aparecerem, não a impediam; ao contrário, parece que a avivavam pelo contraste e vinham na medida exata para um bom molho. O molho, aqui, era constituído de contradições e sofrimentos, de uma análise interior martirizante, e todos esses suplícios e supliciozinhos conferiam um sabor picante e até um sentido à minha devassidãozinha – em suma, executavam perfeitamente a função de um bom molho. Tudo isso se dava não sem uma certa profundidade. E acaso eu poderia concordar com uma devassidãozinha de segunda, simples, vulgar, direta, de amanuense, e suportar toda essa sujeira? Que poderia haver nela para me seduzir e atrair para a rua à noite? Não, senhores, eu tinha uma escapatória nobre para tudo...
Porém, quanto amor, senhores, quanto amor eu experimentava nesses meus devaneios, nessas “salvações em tudo o que é belo e sublime”: embora fosse um amor fantástico que jamais se aplicaria a alguma coisa humana e real, ele era tão grande que nem se sentia necessidade de aplicá-lo à realidade, pois seria um luxo excessivo. Tudo, aliás, terminava sempre da maneira mais satisfatória, com a passagem preguiçosa e inebriante para a arte, ou seja, para as belas formas da existência, inteiramente acabadas, fortemente roubadas dos poetas e romancistas e que se adaptam facilmente a toda sorte de serviços e exigências. Eu, por exemplo, triunfo sobre todo mundo. Todos, evidentemente, viraram pó e são obrigados a reconhecer espontaneamente as minhas perfeições, mas eu os perdoo. Ora me apaixono, quando sou um poeta célebre e camerista da corte, ora recebo incontáveis milhões e logo em seguida sacrifico-os em prol do gênero humano e, na mesma ocasião, confesso diante do povo as minhas infâmias que, evidentemente, não são simplesmente infâmias, mas que encerram em si uma quantidade extraordinária de “belo e sublime”, algo “manfrediano”. Todos choram e me beijam (de outra forma, que idiotas eles seriam!), e eu parto, descalço e faminto, para pregar novas ideias e derroto os retrógrados em Austerlitz! Em seguida começa a soar uma marcha, é decretada a anistia, o papa concorda em deixar Roma e ir para o Brasil; depois há um baile para toda a Itália na Villa Borghese, que está situada na margem do lago de Como, que fora transportado para Roma especialmente para essa ocasião; depois há uma cena entre os arbustos, etc., etc. Será que senhores não sabem disso? Os senhores dirão que é vulgar e indigno expor tudo isso em praça pública, depois de tantos arrebatamentos e lágrimas que eu mesmo confessei. Por que seria indigno? Será possível que os senhores pensem que eu me envergonho de tudo isso e que tudo isso era mais idiota do que qualquer episódio de suas próprias vidas? Ademais, acreditem os senhores: algumas coisas estavam até bem resolvidas para mim... Nem tudo se passava no lago de Como. Aliás, os senhores estão certos: de fato era vulgar e indigno. Mas o mais indigno de tudo é que agora comecei a me justificar para os senhores. E mais indigno ainda é eu estar fazendo esta observação. Mas basta, senão isso nunca terá fim: sempre haverá uma coisa mais indigna que a anterior…
Eu não era capaz de ficar mais de três meses seguidos devaneando e começava então a sentir uma necessidade incontrolável de mergulhar na sociedade, o que, para mim, significava visitar o meu chefe de seção, Anton Anônytch Sétotchkin. Foi a única pessoa conhecida com quem mantive uma relação constante durante toda a vida, fato que, agora, até eu mesmo considero surpreendente. Mas, mesmo à sua casa, eu só ia quando entrava na fase oportuna, e meus sonhos atingiam tal felicidade que eu sentia uma necessidade imperiosa de imediatamente abraçar as pessoas e toda a humanidade; e, para isso, era necessário ter a presença de pelo menos uma pessoa concreta. Anton Antônytch recebia às terças-feiras e, consequentemente, a vontade de abraçar toda a humanidade tinha que cair sempre na terça-feira. Esse Anton Antônytch morava perto das Cinco Esquinas, no quarto andar, num apartamento de quatro peças, cada uma menor que a outra, com o teto baixinho, tudo meio amarelado e dando a impressão de economia. Viviam com ele as duas filhas e a tia delas, que servia o chá. As filhas tinham treze e catorze anos e ambas tinham narizinho arrebitado. Eu ficava terrivelmente constrangido na presença das meninas, porque elas cochichavam o tempo todo, dando risadinhas. O dono da casa geralmente permanecia no seu escritório, sentado num divã de couro em frente à mesa, em companhia de algum convidado de cabelos grisalhos, funcionário do nosso departamento ou mesmo de algum outro. Nunca vi lá mais de dois ou três visitantes, e eram sempre os mesmos. Conversavam sobre o imposto indireto, as licitações no senado, os salários, a produção, Sua Excelência, os meios de agradar, etc. etc. Pacientemente, eu ficava ali sentado umas quatro horas junto a essas pessoas como um idiota, ouvindo-as, sem coragem ou sem assunto para falar com elas. Sentia-me burro, vinham-me ondas de suor e parecia que estava tendo um ataque de paralisia, mas isso tinha seu lado bom e útil. Chegando em casa, por algum tempo desistia do meu desejo de abraçar a humanidade.
Pensando bem, eu ainda tinha um tipo de conhecido, o meu colega de escola Símonov. Eu tinha muitos ex-colegas de escola em Petersburgo, mas não me dava com eles e já nem os cumprimentava na rua. Talvez eu tenha pedido transferência para outro departamento justamente para não ficar junto deles e romper de uma vez por todas com a minha infância detestável. Que a maldição caia sobre aquela escola e aqueles terríveis anos de trabalhos forçados! Resumindo, eu me separei dos meus colegas assim que ganhei a liberdade. Restaram uns dois ou três que eu ainda cumprimentava quando encontrava. Um deles era Símonov, que na escola não se distinguia em nada, era quieto e constante, mas em quem eu percebi alguma independência de caráter e mesmo honestidade. Até nem acho que ele fosse muito limitado. Numa certa época, nós dois tivemos alguns momentos bastante agradáveis, mas que não duraram muito e, de repente, parece que foram encobertos por uma espécie de bruma. Aparentemente, essas recordações eram difíceis para ele, que parecia temer que eu voltasse ao antigo tom. Eu desconfiava de que lhe causava muita repugnância, mas apesar de tudo eu o visitava, pois não tinha certeza absoluta disso.
Certa quinta-feira, não suportando minha solidão e sabendo que naquele dia a porta de Anton Antônytch estava fechada, lembrei-me de Símonov. Quando subia para o quarto andar, estava exatamente pensando que esse senhor não se sentia à vontade comigo e que em vão eu o procurava. Mas, como sempre, tais reflexões, como que de propósito, incitavam-me ainda mais a me meter em situações dúbias, e eu entrei. Fazia quase um ano que eu não via Símonov.

Dostoiévski, in Notas do Subsolo

08/07/2023

A propósito da neve úmida[1]

[…]
Já naquela época, eu começava a experimentar os acessos daqueles prazeres de que falei no primeiro capítulo. Mas, depois da história com o oficial, algo começou a me atrair ainda mais para a Avenida Névski: era lá que eu o via com mais frequência, lá podia admirá-lo. Ele também frequentava o lugar de preferência nos feriados. Embora ele também saísse do caminho diante de generais e pessoas de alta posição e também serpenteasse como uma enguia entre eles, quando se tratava de alguém como eu, ou mesmo um pouco melhor, ele simplesmente o esmagava; caminhava diretamente para essa pessoa, como se na sua frente houvesse um espaço vazio, e nunca cedia passagem. Eu me embriagava com a minha raiva, observando-o, e... todas as vezes cedia-lhe o caminho, furioso. Torturava-me ver que nem mesmo na rua eu conseguia ser igual a ele. “Por que você é o primeiro a se desviar?”, implicava eu comigo mesmo, numa histeria furiosa, quando me acontecia acordar antes das três da manhã. “Por que tem de ser você e não ele? Pois não existe lei para isso, isso não está escrito em nenhum lugar. Então, que haja igualdade, como acontece geralmente quando pessoas educadas se encontram: ele cede até a metade, você também cede até a metade, e os dois passam, respeitando-se mutuamente”. Mas isso não acontecia, e era eu que acabava cedendo a passagem; quanto a ele, nem notava o fato. E, de repente, uma ideia mais que espantosa me veio à cabeça: “E se”, pensei, “se eu cruzo com ele e não cedo o caminho? Intencionalmente não me desvio do caminho, nem que tenha de empurrá-lo? Que tal, hein?” Essa ideia audaciosa aos poucos tomou conta de mim, a ponto de não me dar mais sossego. Sonhava constantemente com isso e de maneira terrível e intencional passei a ir com mais frequência à Avenida Névski, para imaginar mais claramente como eu procederia quando fosse executar aquilo. Estava animadíssimo. Cada vez mais o que me propunha a fazer me parecia mais plausível e possível. “É evidente que não vou dar um encontrão para valer”, pensava eu, já antecipadamente mais bondoso devido à alegria, “simplesmente não vou chegar para o lado e vou esbarrar nele sem lhe causar muita dor, ombro com ombro, o bastante para ficar dentro das normas da decência de maneira que ele se choque comigo na mesma medida que eu me chocar com ele”. Finalmente, decidi-me por completo. Os preparativos, no entanto, exigiram muito tempo. Antes de mais nada, durante a execução do plano eu teria de estar com a melhor aparência possível, e para isso precisava de me preocupar com minha roupa. “Se por acaso acontecer um escândalo público (e o público lá é superflu – a condessa costuma ir lá, o príncipe D. também, toda a literatura frequenta o lugar), é preciso estar bem vestido; isso causa boa impressão e imediatamente nos colocará de certa forma em pé de igualdade aos olhos da alta sociedade.” Com essa finalidade, pedi um adiantamento do meu salário e comprei um par de luvas pretas e um chapéu decente na loja de Tchúrkin. As luvas pretas me pareceram respeitáveis e de bom tom, mais do que as cor de limão que eu andara namorando antes. “É uma cor gritante demais, parece que a pessoa quer muito aparecer” – e não levei as cor de limão. Já tinha preparado muito tempo antes uma boa camisa com abotoaduras brancas, de marfim. Mas meu capote exigiu mais tempo. Até que o meu não era tão ruim e aquecia bem; mas era acolchoado com algodão e a gola era de pele de guaxinim, o que o tornava a coisa mais parecida possível com um sobretudo de lacaio. Era necessário, custasse o que custasse, substituir aquela gola por uma de castor, como as que os oficiais usam. Para isso eu passei a frequentar o Mercado dos Estrangeiros e, após algumas tentativas, fixei-me numa pele de castor alemã barata. Esses castores alemães, embora se gastem muito rapidamente e logo adquiram um aspecto lastimável, têm uma aparência bastante decente quando novos; eu precisava dele para uma única ocasião. Perguntei o preço: mesmo assim era caro. Depois de muito refletir, resolvi vender minha gola de guaxinim. O que faltava, e que para mim era uma soma bem considerável, resolvi pedir emprestado a Anton Antônytch Sétotchkin, meu chefe de seção, homem pacífico, embora sério e prático, que não emprestava dinheiro a ninguém, mas a quem, na ocasião do meu ingresso, eu tinha sido especialmente recomendado pela pessoa importante que me arranjara aquele emprego. Eu estava sofrendo terrivelmente. Pedir dinheiro a Anton Antônytch me parecia uma coisa monstruosa e indigna. Cheguei a ficar umas três noites sem dormir; aliás, de maneira geral, naquela época eu dormia pouco, sentia-me febril; meu coração às vezes parecia que ia parar, ou de repente começava a saltar, saltar, saltar... Anton Antônytch a princípio admirou-se, depois franziu o rosto, refletiu e acabou por emprestar-me o dinheiro, exigindo de mim um recibo que lhe dava o direito de receber o que me fora emprestado dentro de duas semanas, descontando-o do meu salário. Desse modo, tudo estava finalmente preparado: a bela gola de castor passou a reinar no lugar do miserável guaxinim, e comecei aos pouquinhos a executar o meu plano. Não era possível decidir-me de chofre, de maneira mal pensada; era necessário elaborar o plano com competência, pouco a pouco. Mas confesso que, depois de inúmeras tentativas, quase entrei em desespero: simplesmente não havia meio de darmos o encontrão! Com todos os preparativos que eu fazia, com toda a determinação que colocava na coisa, parecia que logo-logo haveríamos de nos esbarrar – mas, novamente, eu cedia o caminho e ele passava sem me notar. Ao me aproximar dele, eu chegava até a rezar para que Deus me desse firmeza. Certa vez, eu já me decidira definitivamente a enfrentá-lo, mas no final das contas caí bem aos seus pés, porque no último instante, a menos de um palmo de distância dele, faltou-me coragem. Ele passou por cima de mim com a maior tranquilidade e eu voei para o lado, como uma bola. Naquela noite, novamente fiquei doente, febril, e tive delírios. E, de repente, tudo terminou da melhor maneira possível. Na véspera, à noite, eu havia decidido desistir definitivamente da execução do meu plano e deixar tudo para trás e, com esse objetivo, fui pela última vez à Avenida Névski, só para verificar como deixaria tudo para trás. De repente, a três passos do meu inimigo, repentinamente me decidi, fechei os olhos e – nós nos chocamos fortemente, ombro contra ombro! Eu não cedi nem uma polegada e passei por ele como um igual! Ele nem ao menos se virou e fingiu que não notara, mas foi somente fingimento, estou certo disso. Até hoje tenho certeza disso! Claro está que eu sofri mais, pois ele era mais forte, mas não era isso que importava. O importante foi que consegui o meu objetivo, mantive a minha dignidade, não cedi nem um passo e, à vista de todos, me comportei com ele como uma pessoa do mesmo nível social. Voltei para casa sentindo-me completamente vingado de tudo. Estava na maior alegria. Sentia-me vitorioso e cantava árias italianas. Evidentemente, não vou contar aos senhores o que se passou comigo três dias depois. Se leram a primeira parte, “O subsolo”, serão capazes de adivinhar sozinhos. Aquele oficial foi transferido mais tarde, nem sei para onde. Faz agora uns catorze anos que não o vejo. Que estará fazendo agora o meu querido amigo? Em quem estará pisando?

Dostoiévski, in Notas do Subsolo

04/01/2023

A Criação Absurda | Filosofia e romance

Kirílov

Todos os heróis de Dostoiévski se interrogam sobre o sentido da vida. É nisso que eles são modernos: não temem o ridículo. O que distingue a sensibilidade moderna da sensibilidade clássica é que esta se nutre de problemas morais e aquela de problemas metafísicos. Nos romances de Dostoiévski a questão é apresentada com uma tal intensidade que só pode levar a soluções extremas. A existência é mentirosa ou ela é eterna. Se Dostoiévski se satisfizesse com esse exame, seria filósofo. Mas ele ilustra as consequências que esses jogos do espírito podem ter numa vida humana e é nisso que ele é artista. Entre tais consequências, é a última que o retém aquela que ele próprio, no Diário de um escritor, chamou de suicídio lógico. Nas folhas já prontas em dezembro de 1876 ele de fato imagina o raciocínio do “suicídio lógico”. Persuadido de que a existência humana é uma perfeita absurdidade para quem não tem a fé na imortalidade, o desesperado chega às seguintes conclusões:
Uma vez que, às minhas questões a respeito da felicidade, ele me declarou em resposta, por intermédio da minha consciência, que eu não posso ser feliz de outra maneira senão nessa harmonia com o grande todo, que não concebo e não estarei nunca em estado de conceber, evidentemente (...)”
(...) Uma vez que, enfim, nessa ordem das coisas, assumo ao mesmo tempo o papel da acusação e o da defesa, do réu e do juiz, e uma vez que acho essa comédia por parte da natureza inteiramente estúpida e que até considero humilhante da minha parte aceitar trabalhar nela (...)”
Na minha qualidade indiscutível de acusador e defensor, de juiz e réu, condeno essa natureza que, com uma tão impudente sem-cerimônia, me fez nascer para sofrer – eu a condeno a ser aniquilada junto comigo.”
Há ainda um ponto de humor nessa posição. Esse suicida se mata porque, no plano metafísico, ele está vexado. Em certo sentido, ele se vinga. É a sua maneira de provar que “não o apanharão”. Sabe-se, porém, que o mesmo tema se encarna, mas com a amplitude mais admirável, em Kirílov, personagem de Os possessos, outro partidário do suicídio lógico. O engenheiro Kirílov declara em algum lugar que quer acabar com a vida porque “é sua ideia”. Entende-se bem que é preciso tomar a palavra na acepção apropriada. É por uma ideia, um pensamento que ele se prepara para a morte. É o suicídio superior. Progressivamente, ao longo de muitas cenas em que a máscara de Kirílov se aclara pouco a pouco, o pensamento mortal que a anima nos é exposto. O engenheiro, de fato, retoma os raciocínios do Diário. Sente que Deus é necessário e que é preciso demais que ele exista. Mas sabe que ele não existe e que não pode existir. “Como você não compreende”, exclama, “que aí existe uma razão suficiente para se matar?” Essa atitude acarreta igualmente para ele algumas das consequências absurdas. Ele aceita, por indiferença, deixar utilizar seu suicídio em proveito de uma causa que despreza. “Esta noite decidi que isso não me importava.” Prepara o gesto, afinal, com um sentimento mesclado de revolta e liberdade: “Vou me matar para afirmar a minha insubordinação, a minha nova e terrível liberdade.” Não se trata mais de vingança, mas de revolta. Kirílov, portanto, é um personagem absurdo – com essa reserva essencial, todavia, de que se mata. Mas ele próprio explica essa contradição, e de tal modo que revela ao mesmo tempo o segredo absurdo em toda a sua pureza. Acrescenta realmente à sua lógica mortal uma ambição extraordinária que dá ao personagem toda a sua perspectiva: quer se matar para virar deus.
O raciocínio é de uma clareza clássica. Se Deus não existe, Kirílov é deus. Se Deus não existe, Kirílov deve se matar. Kirílov, portanto, deve se matar para ser deus. Essa lógica é absurda, mas é o que se precisa. Todavia, o interessante é dar um sentido a essa divindade reconduzida à terra. Isso volta a esclarecer a premissa: “Se Deus não existe, eu sou deus”, que ainda fica bastante obscura. É importante observar, antes de tudo, que o homem que apregoa essa pretensão insensata é bem deste mundo. Faz ginástica todas as manhãs para cuidar da saúde. Comove-se com a alegria de Chátov reencontrando a mulher. Num papel que se acha depois de sua morte, pretende desenhar uma figura que “lhes” bota a língua de fora. É pueril e colérico, apaixonado, metódico e sensível. Do super-homem só tem a lógica e a ideia fixa, do homem todo o registro. É ele, no entanto, que fala tranquilamente de sua divindade. Não é louco, ou então Dostoiévski o é. Não é pois uma ilusão de megalômano que o agita. E tomar as palavras no sentido próprio seria ridículo, desta vez.
O próprio Kirílov nos ajuda a compreender melhor. Sobre um problema de Stavróguin ele esclarece que não fala de um deus homem. Poderíamos pensar que é pela preocupação de se distinguir do Cristo. Mas trata-se, na verdade, de anexá-lo. Kirílov efetivamente imagina um momento em que Jesus, morrendo, não se tornou a achar no paraíso. Descobriu, então, que sua tortura tinha sido inútil. “As leis da natureza”, diz o engenheiro, “fizeram o Cristo viver no meio da mentira e morrer por uma mentira”. Apenas nesse sentido, Jesus encarna claramente todo o drama humano. É o homem-perfeito, sendo o que realizou a condição mais absurda. Não é o deus-homem, mas o homem-deus. Como ele, cada um de nós pode ser crucificado e ludibriado – e o é, numa certa medida.
A divindade de que se trata é, portanto, completamente terrena. “Procurei durante três anos”, diz Kirílov, “o atributo da minha divindade e o encontrei. O atributo da minha divindade é a minha independência”. Percebe-se, daí em diante, o sentido da premissa kiriloviana: “Se Deus não existe, eu sou deus.” Tornar-se deus é apenas ser livre sobre esta terra, não servir um ser imortal. É sobretudo, indiscutivelmente, extrair todas as consequências dessa dolorosa independência. Se Deus existe, tudo depende dele e nós nada podemos contra a sua vontade. Se não existe, tudo depende de nós. Para Kirílov, como para Nietzsche, matar Deus é converter-se a si próprio em deus – é realizar nesta terra a vida eterna de que falam os Evangelhos{26}.
Mas se esse crime metafísico é suficiente à realização do homem, por que acrescentar aí o suicídio? Por que se matar, deixar este mundo após ter conquistado a liberdade? Isso é contraditório. Kirílov bem o sabe, acrescentando: “Se você sente isso, você é um czar e, longe de se matar, viverá no auge da glória.” Mas os homens não o sabem, não sentem “isso”. Como no tempo de Prometeu, alimentam neles esperanças cegas{27}. Têm necessidade de que se lhes mostre o caminho e não podem abrir mão da pregação. Kirílov, portanto, deve se matar por amor da humanidade. Deve mostrar a seus irmãos uma estrada real e difícil na qual ele será o primeiro. É um suicídio pedagógico. Kirílov, portanto, se sacrifica. Mas, se ele for crucificado, não será ludibriado. Permanece homem-deus, convencido de uma morte sem futuro, impregnado da melancolia evangélica. “Eu”, afirma, “sou infeliz porque sou obrigado a afirmar minha liberdade”. Mas com ele morto, os homens finalmente esclarecidos, esta terra se povoará de czares e se iluminará da glória humana. O tiro de pistola de Kirílov será o sinal da última revolução. Não é, assim, o desespero que o impele à morte, mas o amor ao próximo como a si mesmo. Antes de encerrar com sangue uma indizível aventura espiritual, Kirílov tem uma palavra tão velha quanto o sofrimento dos homens:
Está tudo bem.”
Esse tema do suicídio em Dostoiévski é então claramente um tema absurdo. Observemos apenas, antes de ir mais longe, que Kirílov repercute em outros personagens que implicam eles próprios novos temas absurdos. Stavróguin e Ivã Karamázov experimentam na vida prática o exercício de verdades absurdas. São eles que a morte de Kirílov liberta. Tentam ser czares. Stavróguin leva uma vida “irônica”, sabe-se bem qual. Faz-se erguer o ódio em torno dele. E, no entanto, a palavra-chave desse personagem está em sua carta de despedida: “Eu não pude detestar nada.” É czar na indiferença. Ivã também o é, recusando-se a abdicar os poderes reais do espírito. Àqueles que, como seu irmão, provam com sua vida que é preciso humilhar-se para crer, poderia responder que a condição é indigna.
Sua palavra-chave é o “Tudo é, permitido”, com o toque de tristeza que lhe convém. E claro que, como Nietzsche, o mais célebre dos assassinos de Deus, ele acabou na loucura. Mas é um risco que se corre e, diante desses fins trágicos, a propensão essencial do espírito absurdo é a de perguntar: “O que é que isso prova?”
Desse modo os romances, como o Diário, apresentam a questão absurda. Implantam a lógica até a morte, a exaltação, a liberdade “terrível”, a glória dos czares tornada inumana. Tudo está bem, tudo é permitido e nada é detestável: são julgamentos absurdos. Mas que prodigiosa criação aquela em que esses seres de fogo e gelo nos parecem tão familiares! O mundo apaixonado da indiferença que resmunga no fundo do coração não nos parece em nada monstruoso. Reencontramos aí nossas angústias cotidianas. E sem dúvida ninguém, como Dostoiévski, soube dar ao mundo absurdo sortilégios tão próximos e tão supliciantes.
No entanto, qual é a sua conclusão? Duas citações mostrarão o completo desabamento metafísico que leva o escritor a outras revelações. Como o raciocínio do suicida lógico provocou alguns protestos dos críticos, Dostoiévski, nas folhas do Diário que aprontou em seguida, desenvolve sua posição e conclui: “Se a fé na imortalidade é tão necessária ao ser humano (que sem ela chega a ponto de se matar), é porque ela é o estado normal da humanidade. Visto que isso acontece, a imortalidade da alma humana existe sem dúvida nenhuma.” Além disso, nas últimas páginas de seu último romance ao fim dessa gigantesca batalha com Deus, umas crianças perguntam a Aliócha: “Karamázov, é verdade o que diz a religião, que ressuscitaremos dentre os mortos, que nos reveremos uns aos outros?” E Aliócha responde: “Claro, nós nos reveremos e nos contaremos de novo, alegremente, tudo o que se passou.”
Assim Kirílov, Stavróguin e Ivã são vencidos. Os Karamázovi respondem a Os possessos e trata-se mesmo de uma conclusão. O caso Aliócha não é ambíguo como o do príncipe Míchkin. Enfermo, este último vive num perpétuo presente, matizado de sorrisos e indiferença, e esse estado de bem-aventurança poderia ser a vida eterna de que fala o príncipe. Aliócha, ao contrário, bem o diz: “Nós nos reencontramos.” Não é mais uma questão de suicídio e de loucura. Com que proveito, para quem está certo de imortalidade e de suas alegrias? O homem faz a troca de sua dignidade pelo ser feliz. “Nós nos contaremos de novo, alegremente, tudo o que se passou.” Ainda assim, a pistola de Kirílov ressoou em algum lugar da Rússia, mas o mundo continuou a rolar suas cegas esperanças. Os homens não compreenderam “isso”.
Não é pois um romancista absurdo que nos fala, mas um romancista existencial. Ainda aqui o salto é comovedor, dá a sua grandeza à arte que o inspira. É uma adesão tocante, repleta de dúvidas, incerta e ardente. Falando dos Karamázovi, Dostoiévski escrevia: “A principal questão a ser perseguida em todas as partes desse livro é aquela mesma com que sofri, consciente ou inconscientemente, em toda a minha vida: a existência de Deus.” É difícil acreditar que um romance tenha bastado para transformar em certeza feliz o sofrimento de uma vida inteira. Um estudioso{28} o assinala com razão: Dostoiévski está mais ligado à parte de Ivã e os capítulos afirmativos dos Karamázovi lhe tomaram três meses de trabalho enquanto o que ele chamava “as blasfêmias”! foram compostas em três semanas e em exaltação. Não há sequer um de seus personagens que não traga esse espinho na carne, que não o exaspere ou que não busque um remédio para isso nos sentidos ou na imortalidade{29}. Demoremo-nos, em todo o caso, nessa dúvida. Eis uma obra em que, num claro-escuro mais impressionante que a luz do dia, podemos acompanhar a luta do homem contra suas esperanças. No fim da linha, o criador escolhe em desfavor de seus personagens. Tal contradição nos permite, desse modo, inserir uma gradação. Não é de uma obra absurda que tratamos, mas de uma obra que apresenta o problema absurdo.
A resposta de Dostoiévski é a humilhação à “vergonha” conforme Stavróguin. Uma obra absurda, ao contrário, não oferece resposta, eis aí toda a diferença. Observemo-lo bem, para terminar: o que contradiz o absurdo nessa obra não é o seu caráter cristão, mas o anunciar a vida futura. Pode-se ser cristão e absurdo. Há exemplos de cristãos que não creem na vida futura. A respeito da obra de arte, seria possível, portanto, precisar uma das direções da análise absurda que se pôde pressentir nas páginas precedentes. Ela leva a se propor “a absurdidade dos Evangelhos”. Ela aclara essa ideia, fértil em desdobramentos, de que as convicções não impedem a incredulidade. Vê-se bem, ao contrário, que o autor de Os possessos, familiarizado com esses caminhos, enveredou, no final, por outro muito diferente. A surpreendente resposta do criador a seus personagens, de Dostoiévski a Kirílov, pode realmente ser assim resumida: a existência é mentirosa e ela é eterna.

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{27} “O homem só resolveu inventar Deus para não se matar. Eis aí o resumo da história universal até o momento”.
{28} Bóris de Schloezer.
{29} Observação curiosa e penetrante de Gide: todos os heróis de Dostoiévski são polígamos.

Albert Camus, in O Mito de Sísifo – Ensaio sobre o absurdo

28/01/2021

Uma histórias dos diabos (trecho)

[...]
Recordava tudo isso e não parava de refletir. É sabido que, por vezes, nos passam pela cabeça séries completas de raciocínios no espaço de um breve instante, na forma de um qualquer tipo de sensações, sem tradução para a linguagem humana corrente e, muito menos, para a língua literária. Tentaremos no entanto traduzir todas essas sensações do nosso herói e apresentar ao leitor nem que seja apenas a sua essência, isto é, o que nelas foi, por assim dizer, o mais importante e verosímil. É que muitas das nossas sensações, traduzidas para a linguagem normal, podem parecer absolutamente inverosímeis. É por isso que nunca surgem à luz do dia, embora cada qual as tenha. As sensações e os pensamentos de Ivan Iliitch eram, evidentemente, um pouco incoerentes. Bom, o leitor já sabe porquê.
Pois é! — passou-lhe pela cabeça. — Falamos, falamos, mas, na hora da verdade, nada. Por exemplo, este Pseldonímov: chegou a casa, depois da cerimónia do casamento, emocionado, cheio de esperança, à espera do momento delicioso... É um dos dias mais venturosos da sua vida... Agora está a receber os convidados, a fazer a festa... modesto, pobre, mas alegre, feliz, sincero... Então se soubesse que eu, neste preciso momento, eu, o seu chefe, estou aqui, mesmo ao lado de sua casa, a ouvir a sua música! Na verdade, o que sentiria ele? Mais: o que sentiria ele se eu, agora mesmo, entrasse de repente em casa dele? Humm... É claro que a princípio se assustaria, ficaria paralisado de embaraço. Eu ia ser um estorvo, talvez estragasse tudo... Sim, mas isso era se entrasse ali um outro general qualquer, mas não eu...
Sim, Stepan Nikiforovitch! O senhor não me compreendeu, mas aqui está um exemplo real.
Pois. Não paramos de gritar sobre o humanismo, mas somos incapazes do heroísmo, da façanha.
Qual heroísmo? Veja bem: nas relações atualmente existentes entre todos os membros da sociedade, se eu entrar, eu, depois da meia-noite, nas bodas do meu subordinado, um registador com dez rublos mensais de ordenado, será uma atrapalhação, um turbilhão de ideias, o último dia de Pompeia, o pânico! Ninguém vai compreender. Stepan Nikiforovitch nem por nada deste mundo compreenderá. Não foi ele quem disse: não vamos aguentar? Pois não, mas isso é para vós, os velhos, gente da paralisia e da estagnação. Porque eu, eu aguento! Transformo o último dia de Pompeia no mais doce dos dias para o meu subordinado, transformo um gesto louco num ato normal, patriarcal, elevado e moral. Como? Pois faça o favor de ouvir...
Bom... eu, digamos, entro; eles ficam espantados, param de dançar, olham-me como bichos do buraco, recuam. É aí, então, que eu me mostro tal como sou: vou direito a Pseldonímov e, com o mais carinhoso dos sorrisos, com as palavras mais simples, com simplíssimas palavras, digo: “Tal e tal, acabo de visitar sua excelência Stepan Nikiforovitch. Suponho que sabes que é perto daqui, na vizinhança...” E conto logo, de uma forma cômica, a minha desventura com Trífon. Depois do Trífon, passo a contar como me meti a pé... “Foi então que ouvi a música, perguntei ao polícia e fiquei a saber, meu amigo, que eram as tuas bodas. “Ora, vou visitar o meu subordinado, pensei, vou ver como é que se divertem os meus funcionários e... como são os casamentos deles. Não me vais expulsar, suponho eu!” Expulsar! Que palavra para um subordinado! Qual expulsar, qual quê! Acho é que vai ficar doido, todo afobado para me chegar uma cadeira, a tremer de exaltação, enfim, no primeiro momento vai ficar de cabeça perdida!...
O que pode haver de mais simples, de mais elegante do que este procedimento? E porque é que eu entraria lá? Isso já é outro problema. Trata-se, por assim dizer, do lado moral da questão. É esse o cerne da questão!
Humm... Onde é que eu ia? Ah, pois!
Vão com certeza sentar-me ao lado do convidado mais importante, um qualquer conselheiro titular ou parente, um capitão na reserva de nariz vermelho... Gógol descrevia lindamente esses originais. Bom, então apresento-me à noiva, é claro, apresento-lhe os meus cumprimentos, animo os convidados. Peço que não se acanhem, que se divirtam, que continuem a dançar, digo umas piadas, rio, brinco, enfim, sou amável e simpático. Aliás, sou sempre amável e simpático quando estou satisfeito comigo próprio... Humm... Na verdade, parece que ainda estou... enfim, um tanto embriagado, mas só...
... Evidentemente, eu, como gentleman, ponho-me em pé de igualdade com eles e não exijo de modo algum qualquer tratamento de privilégio... Mas, moralmente, moralmente é outra coisa: eles vão compreender e vão dar o devido valor... O meu procedimento ressuscitará neles toda a nobreza... E pronto, fico lá meia hora... Uma hora, vá lá... Saio antes da ceia, evidentemente, mas eles vão azafamar-se a assar coisas, a fritar, depois convidam-me, com muitas vênias, mas eu bebo apenas um copo, dou os parabéns, e recuso-me a cear. Direi: tenho assuntos para tratar. E quando eu pronunciar a palavra “assuntos”, vão fazer todos umas caras de respeito, sisudas. E assim, delicadamente, lembro-lhes que entre mim e eles há uma certa diferença, há sim senhor. Terra e céu. Não é que eu queira impor semelhante ideia, mas é preciso... é uma coisa necessária, até no sentido moral, nada a fazer. Aliás, logo a seguir sorrio, até me rio um pouco, pronto, e toda a gente vai ficar animada... Brinco mais uma vez com a noiva, humm... até pode ser assim: insinuo que volto dentro de nove meses na qualidade de padrinho, ih, ih! De certeza que ela vai dar à luz nesse prazo. É que eles reproduzem-se como coelhos. Então todos se riem, a noiva fica muito corada; eu dou-lhe um beijo sentido na fronte, até a abençoo e... pronto, amanhã já o meu feito é conhecido no serviço. Mas amanhã volto a ser rigoroso, exigente, até implacável, mas entretanto já eles sabem como eu sou, já conhecem a minha alma, a minha essência: “Como chefe é muito rigoroso, mas como pessoa é um anjo!” É esta a minha vitória: apanhá-los com uma pequena ação que a vós, meus senhores, nem passaria pela cabeça; torná-los meus: eu sou o pai, eles são os filhos... Ora veja lá Vossa Excelência, Stepan Nikiforovitch, se é capaz de fazer o mesmo...
Será que não sabe, Stepan Nikiforovitch, será que não compreende que o Pseldonímov contará mais tarde aos filhos que nas suas bodas até esteve o general, a beber com ele! Depois os filhos contarão aos seus filhos, e estes aos seus netos, como um caso lendário e sagrado, que um tal dignitário, um homem de Estado (nessa altura serei tudo isso) os honrou, etc., etc. Elevarei moralmente o humilhado, devolvê-lo-ei a si mesmo... É que ele recebe dez rublos mensais de vencimento!... Pois é, e se eu repetir isto cinco ou dez vezes, ou qualquer outra coisa do gênero, adquiro popularidade por todo o lado... Fico gravado em todos os corações, e só o diabo sabe o que virá depois disso, da popularidade...”
Assim, ou quase assim, raciocinava Ivan Iliitch (é que, meus senhores, a gente às vezes diz cada coisa mentalmente, sobretudo num estado um pouco excêntrico!). Todos estes raciocínios relampejaram na sua cabeça no espaço de uns trinta segundos, e seria de prever que, depois de ter envergonhado mentalmente Stepan Nikiforovitch, Ivan Iliitch iria tranquilamente para casa deitar-se. E faria muito bem! Mas, infelizmente, o momento era mesmo excêntrico.
Nem de propósito, neste momento desenharam-se-lhe de súbito na sua imaginação desconcertada as caras convencidas de Stepan Nikiforovitch e Semion Ivánovitch.
Não vamos aguentar! — voltava a dizer Stepan Nikiforovitch, sorrindo com altivez.
Ih, ih, ih! — secundava-o Semion Ivánovitch com o mais abominável dos seus sorrisos.
Vamos lá a ver se não aguentaremos! — disse resolutamente Ivan Iliitch, e até o calor lhe subiu ao rosto. Saiu do passeio e atravessou em passo firme a rua, a caminho da casa do seu subordinado, o registador Pseldonímov.
[…]

Fiodor Dostoiévski, Uma histórias dos diabos

15/02/2020

Uma festa com árvore de natal e um casamento

Há dias assisti a um casamento... mas não! É melhor que vos conte sobre uma festa com árvore de Natal que eu vi. O casamento foi bom, gostei muito, mas a outra festa foi melhor. Não sei porquê, mas, ao assistir ao casamento, lembrei-me da festa da árvore. Aconteceu assim: cinco anos atrás, na véspera do ano novo, fui convidado para um baile infantil. O anfitrião era um homem de negócios muito conhecido, com boas relações na sociedade, batido em intrigas, pelo que era possível supor-se que este baile de crianças fosse um pretexto para os pais se reunirem e falarem de assuntos importantes de maneira desprendida, ocasional, espontânea. Eu era um homem alheio a isso tudo e, não tendo portanto quaisquer assuntos a tratar com ninguém, passei um fim de tarde de forma bastante independente. Havia lá mais um senhor, de condição modesta e sem linhagem nobre, a quem também aconteceu, tal como a mim, assistir à festa da feliz família... A primeira pessoa em quem reparei foi esse homem. Era alto, magro, muito sério, vestido com bastante decoro. Mas era visível que não estava inclinado para as alegrias e para a felicidade da família; quando se afastava para qualquer canto, deixava imediatamente de sorrir e carregava o seu sobrolho espesso e negro. Além do anfitrião, não conhecia mais ninguém presente no baile. Via-se que se aborrecia muito mas que suportava fazer até ao fim, heroicamente, o papel do convidado feliz e cheio de animação. Eu viria a saber mais tarde que se tratava de um senhor da província que tinha um assunto muito sério e complicado para tratar na capital, e que trouxera para o dono da casa uma carta de recomendação, pelo que este se via obrigado a dar-lhe proteção, mas não con amore, tendo-o convidado para o seu baile infantil apenas por delicadeza. Não se jogava às cartas, não lhe ofereceram um charuto, ninguém conversava com ele, tendo os outros convidados reconhecido nele, talvez, o pássaro pela penugem. Por isso o sobredito senhor andava por ali sem saber onde meter as mãos, cofiando por isso as suas suíças durante todo o serão. Umas suíças, aliás, de excelente qualidade. Porém, alisava-as com tanta aplicação que, olhando para ele, nos passava realmente pela cabeça que, nele, no princípio tinham sido criadas as suíças e só depois o homem, para as alisar.
Além desta figura, participando deste modo na felicidade da família do anfitrião, pai de cinco filhos varões bem tratados, gostei de mais um senhor. Mas este era de um gênero absolutamente diferente. Chamava-se Iulian Mastákovitch. Logo ao primeiro olhar, ficava claro que era o convidado de honra e que as relações dele com o anfitrião eram semelhantes às relações do anfitrião com o senhor que cofiava as suíças. Os donos da casa diziam à personalidade um mar de amabilidades, cuidavam dele, serviam-lhe o vinho, mimavam-no e levavam junto dele os convidados para lhe serem apresentados e nunca o contrário. Reparei que nos olhos do anfitrião cintilaram lágrimas quando Iulian Mastákovitch observou que raramente passara momentos tão agradáveis como naquele serão. Senti uma espécie de medo na presença dessa personalidade, por isso, depois de contemplar com prazer as crianças, saí para uma saleta pequena que estava absolutamente vazia e sentei-me lá, do lado do pavilhão das flores da dona de casa, que ocupava quase metade da sala.
Todas as crianças eram incrivelmente queridas e não queriam, em definitivo, imitar os grandes, apesar de toda a persuasão das preceptoras e das mãezinhas. Desnudaram toda a árvore num instante, até ao último rebuçado, e já tinham tido tempo de estragar metade dos brinquedos antes de saberem qual era para quem. Era sobremaneira engraçado um rapazinho de olhos negros e cabelo encaracolado que insistia em matar-me com a sua espingarda de pau. Mas quem atraía as atenções gerais era a irmã dele, menina dos seus onze anos, encantadora como um Amor, quietinha, pensativa, pálida, com grandes olhos proeminentes. Como as crianças lhe tinham feito uma qualquer ofensa, ela refugiou-se também na saleta onde eu estava sentado e, num cantinho, começou a brincar com a sua boneca. Os convidados apontavam com respeito para um rico concessionário do Estado, pai dela, e havia quem observasse em sussurro que já lhe tinham sido destacados, como dote, trezentos mil rublos. Voltei-me para ver quem estava com tanta curiosidade por este facto, e os meus olhos logo recaíram sobre Iulian Mastákovitch que, de mãos atrás das costas e com a cabeça um pouco de viés, escutava com extraordinária atenção a vaniloquência desses senhores. Depois, não deixei de admirar a sabedoria dos anfitriões no tocante à distribuição das prendas entre as crianças. A menina que já tinha trezentos mil rublos de dote recebeu uma riquíssima boneca. Seguiram-se as outras prendas, inferiores, baixando de nível consoante as categorias de todas essas felizes crianças. Finalmente, a última criança, um rapazinho de dez anos, magrinho, pequeno, sardento e de cabelo ruivo, recebeu apenas um livro de novelas que falavam da grandeza da natureza, das lágrimas de ternura, etc., sem ilustrações e sem sequer monograma. Era o filho da preceptora dos filhos dos anfitriões, uma viúva pobre; o rapaz parecia extremamente intimidado. Vestia um casaquinho de nanquim barato. Depois de ter recebido o seu livro, andou durante muito tempo ao lado dos brinquedos; apetecia-lhe muito brincar com as outras crianças mas não se atrevia; tinha todo o ar de quem já sentia e compreendia a sua situação. Gosto muito de observar as crianças. É curiosíssima a sua primeira manifestação independente do caráter. Reparei que o garoto ruivo ficou de tal maneira fascinado pelos brinquedos ricos das outras crianças e pelas suas brincadeiras, sobretudo pelo teatro, em que lhe apetecia muito ter um papel, que resolveu bajular os outros. Sorria muito para as outras crianças, lisonjeava-as, chegando ao ponto de oferecer a sua maçã a um miúdo balofo que já tinha um lenço cheio de guloseimas e de carregar com outro às cavalitas, apenas para que não o pusessem de parte. Não obstante, não tardou que um traquinas qualquer lhe administrasse uma sova. O ruivo não se atreveu a chorar. Nisto chegou a preceptora, mãezinha do rapaz, e ordenou-lhe que não estorvasse as brincadeiras das outras crianças. O garoto refugiou-se também na saleta onde já estava a menina. Esta deixou-o brincar com ela, e puseram-se ambos, com entusiasmo, a ataviar a rica boneca.
Eu já estava havia meia hora no pavilhão circundado de heras e quase adormecera, escutando o tagarelar do ruivinho com a beldade dos trezentos mil rublos de dote, todos atarefados com a boneca, quando entrou de repente na sala Iulian Mastákovitch. Aproveitara-se de uma discussão escandalosa entre as crianças para se esgueirar, sorrateiro, da sala grande. Eu já tinha reparado que, uns momentos antes, ele mantivera uma conversa ardorosa com o paizinho da futura noiva rica, que acabara de conhecer, conversa que versava sobre as vantagens de determinado serviço sobre outro. Agora estava pensativo e parecia fazer contas de cabeça.
Trezentos... trezentos — sussurrava. — Onze... doze... treze, tal, tal. Dezesseis... cinco anos! Digamos, quatro por cento, faz doze... vezes cinco, faz sessenta... e estes sessenta... digamos que, dentro de cinco anos, fazem quatrocentos. Sim! Então... Mas também não pode ser que esse malandro faça só quatro por cento! Talvez oito ou dez por cento. Bom, digamos então quinhentos mil, pelo menos, isso de certeza; e o que sobrar é para os trapos, humm…
Terminando as suas cogitações, assoou o nariz e já ia sair da saleta quando viu de súbito a miúda. Parou. A mim não me via, porque eu estava atrás dos vasos das plantas. O senhor parecia-me emocionadíssimo. Fosse porque os cálculos que fizera tinham surtido os seus efeitos, fosse por qualquer outra coisa, o certo é que não parava quieto e não se cansava de esfregar as mãos. A sua emoção ia crescendo até nec plus ultra 2 , mas depois parou e lançou um olhar resoluto à futura noiva. Já ia a avançar para ela, mas primeiro olhou à volta. Depois, em bicos de pés, com um ar que parecia culpado, começou a aproximar-se da criança. Esboçou um sorrisinho, inclinou-se e beijou-a na cabeça. A miúda, que não esperava o ataque, soltou um grito assustado.
O que está a fazer aqui, minha linda menina? — perguntou ele num sussurro, olhando para trás de vez em quando e dando pancadinhas nas bochechas da garota.
Estamos a brincar...
Ai é? Com ele? — Iulian Mastákovitch olhou de soslaio para o rapazinho. — Tu, meu caro, vai para a sala — disse ao rapaz.
O rapaz calava-se e olhava para ele com os olhos muito abertos. Iulian Mastákovitch olhou de novo ao seu redor e inclinou-se para a miúda.
E isso o que é, minha linda menina, é uma bonequinha? — perguntou.
É uma boneca, pois — respondeu a miúda, de rosto franzido e um pouco tímida.
Uma boneca... Mas, linda menina, sabe de que é feita a sua boneca?
Não sei... — sussurrou a pequena, baixando muito a cabeça.
De trapinhos, alminha... Era melhor ires para a sala, para junto dos teus companheiros — disse Iulian Mastákovitch ao rapazinho, olhando-o com severidade. A miúda e o rapaz franziram as caras e agarraram-se um ao outro. Não queriam separar-se.
A menina sabe por que lhe ofereceram esta boneca? — perguntou Iulian Mastákovitch, baixando cada vez mais a voz.
Não sei.
Porque a menina foi querida e bem comportada toda a semana.
Então, muito emocionado, Iulian Mastákovitch olhou à volta e, baixando a voz cada vez mais, perguntou-lhe numa voz quase a apagar-se de emoção e impaciência:
Diga-me: vai gostar de mim quando eu visitar os seus pais?
Dizendo isto, Iulian Mastákovitch quis beijar mais uma vez a linda menina, mas o ruivinho, vendo que ela estava prestes a chorar, agarrou-lhe nas mãos e choramingou de compaixão. Iulian Mastákovitch enraiveceu-se.
Fora, fora daqui, embora! — disse ao garoto. — Vai para a sala, vai para lá, onde estão os da tua idade!
Não, não! O senhor é que deve sair daqui — disse a menina. — Deixe-o, deixe-o em paz! — dizia ela, quase a chorar.
Ouviu-se um barulho qualquer à porta. Iulian Mastákovitch endireitou de imediato o seu corpo majestoso e assustou-se. Mas o ruivinho assustou-se ainda mais do que Iulian Mastákovitch, abandonou a menina e, devagarinho, cosendo-se contra a parede, saiu da sala e foi para a de jantar. Para evitar suspeitas, Iulian Mastákovitch também foi para a sala de jantar. Estava vermelho como um lagostim e, olhando-se no espelho, como se envergonhou de si mesmo. Talvez o desgostasse a sua impaciência e pressa. Ou talvez o tivessem impressionado tanto as suas contas de cabeça, o tivesse aliciado e inspirado tanto que, apesar de ser um homem importante e sério, cedeu à tentação de se comportar como um rapaz leviano e abordar o seu objeto diretamente, apesar de esse objeto apenas dentro de cinco anos, pelo menos, poder ser o seu objeto. Segui o respeitável senhor para a sala de jantar e assisti a um espetáculo estranhíssimo. Iulian Mastákovitch, todo vermelho de desgosto e raiva, continuava a assustar o rapazinho ruivo que, morto de medo, já não sabia onde se havia de meter.
Lá para fora, sai daqui, o que estás aqui a fazer, seu malandro? Andas a roubar a fruta? Tu roubas a fruta? Sai daqui malandro, fora, moncoso, vai ter com os da tua idade!
O rapaz, assustado, decidiu recorrer a um meio desesperado, isto é, tentou meter-se debaixo da mesa. Então, o seu perseguidor, exaltado até ao último grau, tirou o seu lenço comprido de cambraia e, com ele, pôs-se a enxotar a intimidada criança de debaixo da mesa. É de notar que Iulian Mastákovitch era um pouquinho gorducho. Era um homem cheiinho, de bochechas vermelhas, rechonchudo, barrigudinho, com coxas gordas, enfim, era bem guarnecido, como se costuma dizer, redondinho como uma noz. Suava, resfolegava e enrubescia terrivelmente. Por fim, tão grande era a sua indignação (ou os seus ciúmes, talvez?) que se encarniçou. Eu ri-me às gargalhadas. Iulian Mastákovitch virou-se e, apesar de toda a sua importância, ficou muito confuso. Então, pela porta oposta, entrou o dono da casa. O garoto saiu de debaixo da mesa e pôs-se a limpar os joelhos e os cotovelos. Iulian Mastákovitch apressou-se a levar ao nariz o lenço que segurava por uma ponta.
O anfitrião olhou com certa perplexidade para nós os três, mas, como homem prático e que encarava a vida do ponto de vista sério, aproveitou a ocasião para ficar a sós com o seu convidado.
É este rapaz — disse ele, apontando para o ruivinho — por quem eu tive a honra de fazer-lhe o pedido...
O quê? — disse Iulian Mastákovitch, que ainda não se recompusera por completo.
É o filho da preceptora dos meus filhos — continuou o anfitrião em tom de súplica. — Ela é uma senhora pobre, viúva de um funcionário honesto; por isso... Iulian Mastákovitch, se possível...
Ah, não, não — disse apressadamente Iulian Mastákovitch em voz gritada —, não, desculpe, Filipp Alekséevitch, é impossível. Já me informei, não há vagas, e mesmo que houvesse já há dez candidatos para cada vaga que têm muito mais direito do que ele... Lamento, lamento...
Que pena — disse o anfitrião —, o garoto é modesto, sossegado...
Eu acho que ele é um grande traquinas — respondeu Iulian Mastákovitch, entortando histericamente a boca. — Vai, rapaz, vai, o que estás aqui a fazer? Vai ter com os da tua idade! — disse, dirigindo-se ao garoto.
Neste ponto, pelos vistos não aguentou e olhou para mim pelo rabo do olho. Eu também não aguentei e ri-me na cara dele. Iulian Mastákovitch virou-me a cara e perguntou de forma bastante audível quem era “este jovem estranho”. Começaram os dois a cochichar e saíram da sala. Vi depois que Iulian Mastákovitch, depois de ter ouvido o anfitrião, abanou a cabeça com desconfiança.
Eu, depois de me ter fartado de rir, voltei para a sala grande. Ali, o grande homem, rodeado de pais e mães de família, e também dos anfitriões, estava a explicar qualquer coisa com ardor a uma senhora junto da qual acabara de ser levado. A senhora segurava pela mão a menina da boneca com quem Iulian Mastákovitch tivera aquela cena na saleta. Agora, Iulian Mastákovitch desfazia-se em louvores e admiração relativamente à beleza, aos talentos, à graça e à boa educação da adorável criancinha. Bajulava notoriamente a mãezinha. Esta ouvia-o quase com lágrimas de admiração. Os lábios do pai sorriam. O anfitrião estava contente com as manifestações de alegria geral, já que todos os convidados compartilhavam este espírito alegre, e até os jogos das crianças foram interrompidos para que a conversa não fosse estorvada. O ar estava impregnado de veneração. Ouvi depois a mãezinha da interessante menina, em expressões esmeradas, a pedir a Iulian Mastákovitch que lhe desse a grande honra de oferecer à sua família a preciosa amizade dele, Iulian Mastákovitch; ouvi depois com que sincero entusiasmo Iulian Mastákovitch aceitou o convite e como, depois, os convidados se dispersaram por delicadeza para todos os lados, desfazendo-se em louvores comovidos ao concessionário do Estado, à sua esposa, à menina e, sobretudo, a Iulian Mastákovitch.
Este senhor é casado? — perguntei quase em voz alta a um dos meus conhecidos que estava mais perto de Iulian Mastákovitch.
Iulian Mastákovitch lançou-me um olhar desconfiado e raivoso.
Não! — respondeu o meu conhecido, triste até ao fundo da alma por causa das minhas inconvenientes e intencionais palavras...

Ainda há pouco tempo, passava eu junto da igreja de *** , e a multidão ali reunida impressionou-me. Falava-se do casamento que ali decorria. O dia estava cinzento, começava a cair uma água-neve; seguindo a multidão, entrei na igreja e vi o noivo. Era um homenzinho pequeno, redondinho, cheiinho, barrigudinho, todo aperaltado. Corria, azafamava-se, dava ordens. Por fim correu pela multidão o rumor de que já traziam a noiva. Furei através da multidão e vi uma beldade divina em que ainda mal despontava a primeira primavera. Mas a beldade estava triste e pálida, e trazia um olhar distraído; pareceu-me, até, que os olhos dela estavam vermelhos de lágrimas recentes. O rigor clássico de cada traço do seu rosto dava à beleza dela imponência e solenidade, o que não impedia que, através deste rigor e solenidade, através da tristeza, transparecesse a sua primeira imagem de marca, a imagem infantil e inocente; revelava-se nela qualquer coisa de muito ingênuo, ainda imaturo, verde e que parecia suplicar piedade.
Diziam que ainda mal acabara de fazer dezasseis anos. Olhando com atenção para o noivo, reconheci Iulian Mastákovitch, que vira pela última vez havia cinco anos certos... Meu Deus! Furei de volta por entre a multidão, até à saída da igreja. Entre o povo ali reunido dizia-se que a noiva era rica, que tinha quinhentos mil rublos de dote... Mais tanto, tanto e tanto de enxoval...
O cálculo dele estava correto!”, pensei eu, saindo finalmente para a rua.
Fiódor Dostoiévski, in O Ladrão Honesto e outras Histórias