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23/06/2025
13/04/2025
23/06/2024
04/09/2019
01/09/2019
27/06/2019
06/06/2019
11/09/2014
12/08/2014
06/02/2014
Papel de bodega
Papel de bodega do pé da balança
De cores tão cinza, tão verde e encarnado
Que fica do lado do papel de seda
Que até a manteiga embrulhava em retalhos.
Que fica do lado do papel de seda
Que até a manteiga embrulhava em retalhos.
Papel, eu te quero nos supermercados
Nas lojas de grife, em tudo afinal
Prefiro esse embrulho que a moda rejeita
Dizendo tratar-se de um embrulho banal.
Nas lojas de grife, em tudo afinal
Prefiro esse embrulho que a moda rejeita
Dizendo tratar-se de um embrulho banal.
Papel encorpado de açougues e frios
Melhores que os plásticos que vivem a voar
São plásticos da noite que sobram nas ruas
Que entopem bueiros e afogam o lugar.
Melhores que os plásticos que vivem a voar
São plásticos da noite que sobram nas ruas
Que entopem bueiros e afogam o lugar.
Papel
de bodega, tu não avalias
Tamanha alegria trarias porque
Aceito o teu jeito faceiro e fecundo
E aqui nesse mundo faz falta você.
Tamanha alegria trarias porque
Aceito o teu jeito faceiro e fecundo
E aqui nesse mundo faz falta você.
Jessier Quirino
25/01/2014
Severino Abufelado
Curriculum Vixe!
Sempre
fui um manteiga derretida (fervilhando)
Um cabôco estabanado
Cascavélico, parrudo, malino e espalha-brasas.
Um cabôco estabanado
Cascavélico, parrudo, malino e espalha-brasas.
Já fui:
Hércules de feira
Afrouxador de porca de Mercedes
Fui domador de onça
Carregador de piano
Trocador de alvo em estande de tiro (45 e bazuca)
Flanelinha de estacionamento de crocodilo
Degustador oficial da cachaça Lasca-tudo (daquela do rótulo azul)
Pretendente de guerra do lado de dentro
Lançador de rojão e marcador de quadrilha do São João de Bagdá
Nunca aprendi a voar, mas tenho um primo chamado Falcão.
Hércules de feira
Afrouxador de porca de Mercedes
Fui domador de onça
Carregador de piano
Trocador de alvo em estande de tiro (45 e bazuca)
Flanelinha de estacionamento de crocodilo
Degustador oficial da cachaça Lasca-tudo (daquela do rótulo azul)
Pretendente de guerra do lado de dentro
Lançador de rojão e marcador de quadrilha do São João de Bagdá
Nunca aprendi a voar, mas tenho um primo chamado Falcão.
Durante o capim da infância, comi pólvora com maisena
Purezinho de tutano com pó de osso e rapadura
Raspa de chaminé de navio e prega de cu de búfalo.
Purezinho de tutano com pó de osso e rapadura
Raspa de chaminé de navio e prega de cu de búfalo.
Já pintei muito sete em fama de delegado
Já acertei três tiros (pé de pinto) em alvo de vinte metros
Assisti muito filme de Maciste mastigando quebra-queixo
Fui arrancador de mourão e esmagador de quase-tudo.
Já acertei três tiros (pé de pinto) em alvo de vinte metros
Assisti muito filme de Maciste mastigando quebra-queixo
Fui arrancador de mourão e esmagador de quase-tudo.
Atualmente, por força da idade, ando domesticado:
Sou
presidente da Academia Amolestada de Letras
E reco-requista festivo de zoológico:
E reco-requista festivo de zoológico:
Alegro as criancinhas arrastando uma
vareta na jaulinha dos leões.
Jessier
Quirino
01/11/2013
CPI do prequeté
Meu prefeito foi cassado no vão do TRE
Ninguém pode fazer um caquiado
Se um juiz invocado não quiser.
Ninguém pode fazer um caquiado
Se um juiz invocado não quiser.
Ninguém mais pode entrar numa gandaia
Num esquema político de primeira
Ninguém pode fundar uma empreiteira
Pra ganhar concorrência viciada
Ninguém pode assinar uma papelada
No birô do oitão de um cabaré
Desviar: pão, feijão, milho e café
Nem tampouco uma grana apalavrada
Ninguém pode fazer hoje mais nada
Se um juiz invocado não quiser.
Num esquema político de primeira
Ninguém pode fundar uma empreiteira
Pra ganhar concorrência viciada
Ninguém pode assinar uma papelada
No birô do oitão de um cabaré
Desviar: pão, feijão, milho e café
Nem tampouco uma grana apalavrada
Ninguém pode fazer hoje mais nada
Se um juiz invocado não quiser.
Ninguém pode usurpar nenhum bregueço
Que a imprensa sacode a tirania
Tudo aquilo que antes se fazia
Construindo os arrimos do progresso,
Hoje em dia termina em processo
Nesse vão que se diz TRE
Um juiz todo chei de prequeté
Vem pro meio qual tripa atravessada
Ninguém pode fazer hoje mais nada
Se um juiz invocado não quiser.
Que a imprensa sacode a tirania
Tudo aquilo que antes se fazia
Construindo os arrimos do progresso,
Hoje em dia termina em processo
Nesse vão que se diz TRE
Um juiz todo chei de prequeté
Vem pro meio qual tripa atravessada
Ninguém pode fazer hoje mais nada
Se um juiz invocado não quiser.
Ninguém pode afanar um cadeado
Dar um agá no dinheiro da saúde
Construir, de mentira, dez açudes
Desfalcar um lixão terceirizado
Tudo isso que nunca foi pecado
Hoje em dia é tratado por mundé
Alazão se transforma em pangaré
Na visão dessa lei mumificada
Ninguém pode fazer hoje mais nada
Se um juiz invocado não quiser.
Dar um agá no dinheiro da saúde
Construir, de mentira, dez açudes
Desfalcar um lixão terceirizado
Tudo isso que nunca foi pecado
Hoje em dia é tratado por mundé
Alazão se transforma em pangaré
Na visão dessa lei mumificada
Ninguém pode fazer hoje mais nada
Se um juiz invocado não quiser.
Rapinar, ninguém pode rapinar
Extorquir, ninguém pode extorquir
Se o cristão desejar subtrair
Tem ir pra justiça carimbar
É a lei que não sabe onde vai dar
É a busca que busca o busca-pé
É a raspa fajuta de um rapé
Sufocando uma venta honestizada
Ninguém pode fazer hoje mais nada
Se um juiz invocado não quiser.
Extorquir, ninguém pode extorquir
Se o cristão desejar subtrair
Tem ir pra justiça carimbar
É a lei que não sabe onde vai dar
É a busca que busca o busca-pé
É a raspa fajuta de um rapé
Sufocando uma venta honestizada
Ninguém pode fazer hoje mais nada
Se um juiz invocado não quiser.
TODOS: (Cabaré, busca-pé, pangaré, prequeté)
Meu prefeito foi cassado no vão do TRE
Ninguém pode fazer um caquiado
Se um juiz invocado não quiser.
Ninguém pode fazer um caquiado
Se um juiz invocado não quiser.
Jessier Quirino
05/01/2013
Bandeira nordestina
A bandeira nordestina
É uma planta iluminada
É qualquer raiz plantada
Mostrando o caule maduro.
É uma planta iluminada
É qualquer raiz plantada
Mostrando o caule maduro.
É quando o sol varre o escuro
Com luz e sombra no chão
É quando germina o grão
É quando esbarra o machado
É quando o tronco hasteado
É sombra pra o polegar
É sombra pro fura-bolo
É sombra pro seu-vizinho
É sombra para o mindinho
É sombra prum passarinho
É sombra prum meninote
É sombra prum rapazote
É sombra prum cidadão
É sombra para um terreiro
É sombra pro povo inteiro
Do litoral ao sertão.
Com luz e sombra no chão
É quando germina o grão
É quando esbarra o machado
É quando o tronco hasteado
É sombra pra o polegar
É sombra pro fura-bolo
É sombra pro seu-vizinho
É sombra para o mindinho
É sombra prum passarinho
É sombra prum meninote
É sombra prum rapazote
É sombra prum cidadão
É sombra para um terreiro
É sombra pro povo inteiro
Do litoral ao sertão.
Essa bandeira que eu falo
Tem cores de poesia
Tem verde-folha-voada
Amarelo jaca-aberta…
Tem cores de poesia
Tem verde-folha-voada
Amarelo jaca-aberta…
Em tudo que é
vegetal
Tem bandeira desfraldada
No duro da baraúna
No forte da aroeira
No panejar buliçoso
Das frondosas bananeiras
Nas bandeirolas dos coentros
E na marca sertaneja:
O rijo e forte umbuzeiro.
Tem bandeira desfraldada
No duro da baraúna
No forte da aroeira
No panejar buliçoso
Das frondosas bananeiras
Nas bandeirolas dos coentros
E na marca sertaneja:
O rijo e forte umbuzeiro.
Jessier Quirino
07/10/2012
Malandro na eleição
Historinha de um pleito eleitoral – BÊ-Á-BÁ para as crianças sem partido.
Era uma vez um malandro
Que fugiu da detenção
Em tempos longes, mofados
De roubo e depravação
De malandragem finória
Daria até outra história
Não fosse a convocatória
Duma bendita eleição:
Que fugiu da detenção
Em tempos longes, mofados
De roubo e depravação
De malandragem finória
Daria até outra história
Não fosse a convocatória
Duma bendita eleição:
É que o malandro Moleza
Como era conhecido
Se escondeu num caminhão
Pra mode não ser detido.
Como era conhecido
Se escondeu num caminhão
Pra mode não ser detido.
E deu-se então uma fuga
De grande sabedoria
Pois tinha sido traçada
Com toda geometria:
Fugia ali de carona
Por debaixo duma lona
Por sobre a carroceria.
De grande sabedoria
Pois tinha sido traçada
Com toda geometria:
Fugia ali de carona
Por debaixo duma lona
Por sobre a carroceria.
E já no fim da viagem
Quando o caminhão parava
Moleza foi espiar
Mais ou meno onde é que tava.
Quando o caminhão parava
Moleza foi espiar
Mais ou meno onde é que tava.
Ficou então espantado
Sem muita compreensão
Pois o caminhão parava
No meio duma multidão.
Sem muita compreensão
Pois o caminhão parava
No meio duma multidão.
A multidão se empurrava
Com festa e reboliço
Afinal, ali chegava
O palanque do comício
De onde os home ia falar
E pra Moleza escapar
Ia ser um estrupiço.
Com festa e reboliço
Afinal, ali chegava
O palanque do comício
De onde os home ia falar
E pra Moleza escapar
Ia ser um estrupiço.
Com pouco mais foi subindo
Aquelas arturidade
Pra mode falar pro povo
De suas capacidade.
Aquelas arturidade
Pra mode falar pro povo
De suas capacidade.
E por debaixo da lona
O malandro observou
A tal da politicagem
Por detrás dos bastidor.
Pra sua grande surpresa
Viu esperança acesa:
A política lhe chamou:
O malandro observou
A tal da politicagem
Por detrás dos bastidor.
Pra sua grande surpresa
Viu esperança acesa:
A política lhe chamou:
Ouviu um homem falando
Com a voz de Senador:
– Hoje vai ser moleza
Digo a você com certeza
Já temos dez orador.
Com a voz de Senador:
– Hoje vai ser moleza
Digo a você com certeza
Já temos dez orador.
Escutou um esquerdista
E agitador sindicá:
– Nós exigimo Moleza
Pro setor industriá!
E agitador sindicá:
– Nós exigimo Moleza
Pro setor industriá!
Ouviu depois uma dama
Com vozeirão de artista
Era líder feminista
E dos Direito das Mulé
Que dizia com brabeza:
– Os home só quer Moleza
Mas nós mulé também quer!!
Com vozeirão de artista
Era líder feminista
E dos Direito das Mulé
Que dizia com brabeza:
– Os home só quer Moleza
Mas nós mulé também quer!!
Esse magote de gente
Usava da esperteza
Em nome da capitá
E também da redondeza.
Usava da esperteza
Em nome da capitá
E também da redondeza.
Uns falava abaixadinho
Mas demonstravam franqueza.
De tudo não se sabia
Mas lá no fundo se via
Que só queria Moleza.
Mas demonstravam franqueza.
De tudo não se sabia
Mas lá no fundo se via
Que só queria Moleza.
Ouvindo aquele chamado
De tamanha envergadura
Moleza viu liberdade
No lugar da captura
No mei da fuga acuada
Findava sendo lançada
A sua candidatura.
De tamanha envergadura
Moleza viu liberdade
No lugar da captura
No mei da fuga acuada
Findava sendo lançada
A sua candidatura.
Pra mode sair bonito
No pape de orador
Moleza foi se alembrando
Do que era sabedor:
No pape de orador
Moleza foi se alembrando
Do que era sabedor:
Aproveitou sua fama
De ser grande atirador
E se lançou: Pistolão
De todos os eleitor.
De ser grande atirador
E se lançou: Pistolão
De todos os eleitor.
O cartaz era uma pistola
Sobre título eleitorá
E uma frase que dizia:
Ou você dá voto a mim
Ou então vai se lascar.
Sobre título eleitorá
E uma frase que dizia:
Ou você dá voto a mim
Ou então vai se lascar.
E pegou o microfone
Com a maior desenrolança
Falou de roubo, de jogo
De traficança e matança
Partiu no mei três partido
Partiu depois no comprido
Dobrou e fez uma trança.
Com a maior desenrolança
Falou de roubo, de jogo
De traficança e matança
Partiu no mei três partido
Partiu depois no comprido
Dobrou e fez uma trança.
Fez de forma democrática
Um acordo partidário
Concorda quem é medroso
Discorda quem é otário
Assim tornou-se prefeito
Seu vice não foi eleito
Pois faleceu dum disparo.
Um acordo partidário
Concorda quem é medroso
Discorda quem é otário
Assim tornou-se prefeito
Seu vice não foi eleito
Pois faleceu dum disparo.
Pra começar o governo
Criou logo um estatuto
Onde o produto do roubo
E o roubo do produto
Ganhava o mesmo valor
Pois a ordem dos trator
Não altera o viaduto.
Criou logo um estatuto
Onde o produto do roubo
E o roubo do produto
Ganhava o mesmo valor
Pois a ordem dos trator
Não altera o viaduto.
Devolveu os objeto
De quem já tinha roubado
Deu maconha e cocaína
Pro eleitor viciado
Empregou a mulherada
Dos marido que matou
Pagou o bicho roubado
De cem mil apostador
Findou cercando o currá
De apoio eleitorá
E se fez governador.
De quem já tinha roubado
Deu maconha e cocaína
Pro eleitor viciado
Empregou a mulherada
Dos marido que matou
Pagou o bicho roubado
De cem mil apostador
Findou cercando o currá
De apoio eleitorá
E se fez governador.
Jessier Quirino
27/04/2012
A morrença dos meus cumpade
Mas como é que pode, dois caba tá vivo
Forgoso, gaboso, da vida se rir
Os coro da testa sem nunca franzir
Disposto na luta, lutando contente
Sem mesmo tá canso de ser um vivente,
Um corre pro sul mode podregir
O outro pogrede mesmo por aqui
A morte carrega os dois indivíduo
Dá uma descurpa: morreu por ter ido
O outro, coitado, morreu de não ir.
Forgoso, gaboso, da vida se rir
Os coro da testa sem nunca franzir
Disposto na luta, lutando contente
Sem mesmo tá canso de ser um vivente,
Um corre pro sul mode podregir
O outro pogrede mesmo por aqui
A morte carrega os dois indivíduo
Dá uma descurpa: morreu por ter ido
O outro, coitado, morreu de não ir.
Cumpade Coitim
bateu a biela
Sem frei nas estrada, em riba dum fó
Pedim defuntou-se no mei dum forró
Honório pifou com a mão na bainha
Quem enviuvou Gorete e Ritinha
Foi João Cascavé e Bento Cotó
Bié de Zé Tôta fechou o paletó
Mudou-se pro céu cumpade Biliu
Cumpade Zé Danta ninguém nunca viu
Mas dizem que foi-se daqui pra mió.
Sem frei nas estrada, em riba dum fó
Pedim defuntou-se no mei dum forró
Honório pifou com a mão na bainha
Quem enviuvou Gorete e Ritinha
Foi João Cascavé e Bento Cotó
Bié de Zé Tôta fechou o paletó
Mudou-se pro céu cumpade Biliu
Cumpade Zé Danta ninguém nunca viu
Mas dizem que foi-se daqui pra mió.
Quem bateu as bota
foi Zé Bacamarte,
Findou-se de vez cumpade Zulu,
Quem empacotou-se com tanta pitu
Foi Pinga, Meloso, Meota e Topada
Ginura já tava na última morada
Quando pediu baixa o vaqueiro Zebu
Foi pro beleléu nas bandas do sul
Veúca, Moreno, Ponez e Zezim
Mimosa se foi que nem passarim
Baixou sete palmos, Luiz do Exu.
Findou-se de vez cumpade Zulu,
Quem empacotou-se com tanta pitu
Foi Pinga, Meloso, Meota e Topada
Ginura já tava na última morada
Quando pediu baixa o vaqueiro Zebu
Foi pro beleléu nas bandas do sul
Veúca, Moreno, Ponez e Zezim
Mimosa se foi que nem passarim
Baixou sete palmos, Luiz do Exu.
Deu uma roleta lá
no mei da feira
Juntou-se um bocado com seu criador
Deu adeus ao mundo Mané Vendedor
Foi chegada a hora de Biu das Jumenta
Foi pro rol dos bom, cumpade Pimenta
Biu Pêdo Firmino por fim descansou
Disseram que Nino também botoou
Sargento já foi promovido a defunto
Tiraram Cirila de lá de pé junto.
Juntou-se um bocado com seu criador
Deu adeus ao mundo Mané Vendedor
Foi chegada a hora de Biu das Jumenta
Foi pro rol dos bom, cumpade Pimenta
Biu Pêdo Firmino por fim descansou
Disseram que Nino também botoou
Sargento já foi promovido a defunto
Tiraram Cirila de lá de pé junto.
Perdi meus cumpade
Não sei quando eu vou.
Não sei quando eu vou.
Jessier Quirino, in Besta
Fubana
05/04/2012
Secas de março, de Jessier Quirino
É pau é pedra é
o fim do caminho
É um metro é uma légua é um pobre burrinho
É um caco de vida é a vida é o sol
É a dor é a morte vindo com o arrebol
É galho de jurema é um pé de poeira
Cai já, bambeia é do boi a caveira
É pé de macambira invadindo a cocheira
É vaqueiro morrendo é a reza brejeira
É angico é facheiro é aquela canseira
É farelo é um cisco é um resto de feira
É a fome na porta é um queira ou não queira
Na seca de março é a fuga estradeira
É o pé é o chão é a terra assadeira
É menino na mão e mais dez na traseira
É um Deus lá no céu Padre Cíço no chão
É romeiro rezando dentro dum caminhão
É o filho disposto partindo sozinho
No sul a esperança, é um novo caminho
É o pai fatigado é a mãe a lutar
É a caçimba distante é a lata a pingar
É carcaça de bicho é um mandacaru
É mau cheiro chegando é o voo do urubu
É barriga de vento é um corpo na rede
É anjinho morrendo é a sede é a sede
É o canto agourento daquela acauã
É o voo da asa branca no sol da manhã
É a seca de março torrando o sertão
É promessa de vida, é a nova eleição
É doutor diplomado é doutor coroné
É um pão uma feira um remédio no pé
É um poço uma pipa um cantor uma fã
É a troca e o troco depois de amanhã
É a seca de março torrando o sertão
É a promessa devida da outra eleição
……………………………………………………..
É pau é pedra é o fim do caminho.
É um caco de vida é a vida é o sol
É a dor é a morte vindo com o arrebol
É galho de jurema é um pé de poeira
Cai já, bambeia é do boi a caveira
É pé de macambira invadindo a cocheira
É vaqueiro morrendo é a reza brejeira
É angico é facheiro é aquela canseira
É farelo é um cisco é um resto de feira
É a fome na porta é um queira ou não queira
Na seca de março é a fuga estradeira
É o pé é o chão é a terra assadeira
É menino na mão e mais dez na traseira
É um Deus lá no céu Padre Cíço no chão
É romeiro rezando dentro dum caminhão
É o filho disposto partindo sozinho
No sul a esperança, é um novo caminho
É o pai fatigado é a mãe a lutar
É a caçimba distante é a lata a pingar
É carcaça de bicho é um mandacaru
É mau cheiro chegando é o voo do urubu
É barriga de vento é um corpo na rede
É anjinho morrendo é a sede é a sede
É o canto agourento daquela acauã
É o voo da asa branca no sol da manhã
É a seca de março torrando o sertão
É promessa de vida, é a nova eleição
É doutor diplomado é doutor coroné
É um pão uma feira um remédio no pé
É um poço uma pipa um cantor uma fã
É a troca e o troco depois de amanhã
É a seca de março torrando o sertão
É a promessa devida da outra eleição
……………………………………………………..
É pau é pedra é o fim do caminho.
30/03/2012
O cuscuz do dia-a-dia
Em matéria de mei doido
Eu me sinto mais ou menos
Dei com as palavras no palco
Feito um Biu de paletó
Severino pra platéia.
Dei com as palavras no palco
Feito um Biu de paletó
Severino pra platéia.
Usei palavras plebeias
Que nunca puderam entrar
Em discurso ou poesia.
Que nunca puderam entrar
Em discurso ou poesia.
Palavras soltas, baldias
Daquelas só disponíveis
Nas últimas nuvens do céu.
Daquelas só disponíveis
Nas últimas nuvens do céu.
Conversei com flamboaiãs
No puro flamboaianês.
Despejei cachos de lágrimas
Pros versos de Assaré.
Beijos de rapadura
Pro vozeirão de Luiz
Sofri adivinhaduras
No sertão do pensamento.
No puro flamboaianês.
Despejei cachos de lágrimas
Pros versos de Assaré.
Beijos de rapadura
Pro vozeirão de Luiz
Sofri adivinhaduras
No sertão do pensamento.
Senti, naquele momento
Que isso era um fazimento
Democrático feito jeans.
Que isso era um fazimento
Democrático feito jeans.
Sem rodeio e sem pantins
Sem nhenhenhém, sem besteira
Fiz de velhas cuscuzeiras
Um gordo baú de flandre
Forjado em Campina Grande
Com três tons de serventia:
Deixar minha poesia
Meu verso e meu converseiro
Com textura cor e cheiro
Do cuscuz do dia-a-dia.
Sem nhenhenhém, sem besteira
Fiz de velhas cuscuzeiras
Um gordo baú de flandre
Forjado em Campina Grande
Com três tons de serventia:
Deixar minha poesia
Meu verso e meu converseiro
Com textura cor e cheiro
Do cuscuz do dia-a-dia.
Jessier Quirino
16/02/2012
Comício de Beco Estreito, de Jessier Quirino
Pra se fazer um comício
Em tempo de eleição
Não carece de arrodei
Nem dinheiro muito não
Basta um F-4000
Ou qualquer mei caminhão
Entalado em beco estreito
E um bandeirado má feito
Cruzando em dez posição.
Não carece de arrodei
Nem dinheiro muito não
Basta um F-4000
Ou qualquer mei caminhão
Entalado em beco estreito
E um bandeirado má feito
Cruzando em dez posição.
Um locutor tabacudo
De converseiro comprido
Uns alto-falante rouco
Que espalhe o alarido
Microfone com a flanela
Ou vermelha ou amarela
Conforme a cor do partido.
De converseiro comprido
Uns alto-falante rouco
Que espalhe o alarido
Microfone com a flanela
Ou vermelha ou amarela
Conforme a cor do partido.
Uma gambiarra véia
Banguela no acender
Quatro faixa de bramante
Escrito qualquer dizer
Dois pistom e um tarol
Pode até ficar melhor
Uma torcida pra torcer.
Banguela no acender
Quatro faixa de bramante
Escrito qualquer dizer
Dois pistom e um tarol
Pode até ficar melhor
Uma torcida pra torcer.
Aí é subir pra riba
Meia dúzia de corruto
Quatro babão cinco puta
Uns oito capanga bruto
E acunhar na promessa
E a pisadinha é essa:
Três promessas por minuto.
Meia dúzia de corruto
Quatro babão cinco puta
Uns oito capanga bruto
E acunhar na promessa
E a pisadinha é essa:
Três promessas por minuto.
Anunciar a
chegança
Do corruto ganhador
Pedir o “V” da vitória
Dos dedos dos eleitor
E mandar que os vira-lata
Do bojo da passeata
Traga o home no andor.
Do corruto ganhador
Pedir o “V” da vitória
Dos dedos dos eleitor
E mandar que os vira-lata
Do bojo da passeata
Traga o home no andor.
Protegendo o monossílabo
De dedada e beliscão
A cavalo na cacunda
Chega o dono da eleição
Faz boca de fechecler
E nesse qué-ré-qué-qué
Vez por outra um foguetão.
De dedada e beliscão
A cavalo na cacunda
Chega o dono da eleição
Faz boca de fechecler
E nesse qué-ré-qué-qué
Vez por outra um foguetão.
Com voz de vento encanado
Com o VIVA dos babão
É só dizer que é mentira
Sua fama de ladrão
Falar do roubo dos home
Prometer o fim da fome
E tá ganha a eleição.
Com o VIVA dos babão
É só dizer que é mentira
Sua fama de ladrão
Falar do roubo dos home
Prometer o fim da fome
E tá ganha a eleição.
E terminada a campanha
Faturada a votação
Foda-se povo, pistom
Foda-se caminhão
Promessa, meta, programa…
É só mergulhar na brahma
E curtir a posição.
Faturada a votação
Foda-se povo, pistom
Foda-se caminhão
Promessa, meta, programa…
É só mergulhar na brahma
E curtir a posição.
Sendo um cabra despachudo
De politiquice quente
Batedorzão de carteira
Vigaristão competente
É só mandar pros otário
A foto num calendário
Bem família, bem decente:
De politiquice quente
Batedorzão de carteira
Vigaristão competente
É só mandar pros otário
A foto num calendário
Bem família, bem decente:
Ele, um diabo sério
e honrado
Ela, uma diaba influente
Bem vestido e bem posado
Até parecendo gente
Carregando a tiracolo
Sem pose, sem protocolo
Um diabozinho inocente.
Ela, uma diaba influente
Bem vestido e bem posado
Até parecendo gente
Carregando a tiracolo
Sem pose, sem protocolo
Um diabozinho inocente.
03/02/2012
Padre Ciço contra 007
…Meu nome é BOND, eu sou James Bond
Falou o agente sacando a mão.
Meu nome é CIÇO, eu sou Padre Ciço
Falou meu Padrim Padre Ciço Romão.
O mundo calou-se prestando atenção
Encontro danado que nunca se viu
Vi gente gritando – Puta que pariu!
Essas duas alma, são alma da boa
Caiu no momento chuvosa garoa
E tome mentira milagre e questão.
Falou o agente sacando a mão.
Meu nome é CIÇO, eu sou Padre Ciço
Falou meu Padrim Padre Ciço Romão.
O mundo calou-se prestando atenção
Encontro danado que nunca se viu
Vi gente gritando – Puta que pariu!
Essas duas alma, são alma da boa
Caiu no momento chuvosa garoa
E tome mentira milagre e questão.
Vi Bond mostrando buraco de bala
Tinha mais de vinte no mei do pulmão
Faltavam três veias no seu coração
Mas ele guardava lá dentro da mala
O meu Padrim Ciço pegou a bengala
Meteu num buraco que logo fechou
Todo ferimento se cicatrizou
Surgiu um jumento da cor de ambulância
Puxando uma maca e naquela distancia
Com o tal detetive dali disparou.
Tinha mais de vinte no mei do pulmão
Faltavam três veias no seu coração
Mas ele guardava lá dentro da mala
O meu Padrim Ciço pegou a bengala
Meteu num buraco que logo fechou
Todo ferimento se cicatrizou
Surgiu um jumento da cor de ambulância
Puxando uma maca e naquela distancia
Com o tal detetive dali disparou.
A velha beata se estatelou
Com o baita milagre em pleno sertão
E meu Padrim Ciço ou Ciço Romão
Agora babando se abestalhou
Quando James Bond da maca pulou
Puxou um canhão de dentro do terno
Prendeu uma seca roubando um inverno
Jogou uma corda e a nuvem laçou
A seca covarde dali se pirou
Livrando a gente daquele inferno.
Com o baita milagre em pleno sertão
E meu Padrim Ciço ou Ciço Romão
Agora babando se abestalhou
Quando James Bond da maca pulou
Puxou um canhão de dentro do terno
Prendeu uma seca roubando um inverno
Jogou uma corda e a nuvem laçou
A seca covarde dali se pirou
Livrando a gente daquele inferno.
O meu Padrim Ciço se vendo por baixo
Daquela mentira que Bond aprontou
Pensou nos milagres que já milagrou
Pegou a bengala e foi pro riacho
Numa pescaria contando por baixo
Pescou três baleias e um tubarão
Um fole tocando xaxado e baião
Segundo o primeiro já foi de Gonzaga
Uma vela acesa que nunca se apaga
Duzentas sardinhas e um pé de limão.
Daquela mentira que Bond aprontou
Pensou nos milagres que já milagrou
Pegou a bengala e foi pro riacho
Numa pescaria contando por baixo
Pescou três baleias e um tubarão
Um fole tocando xaxado e baião
Segundo o primeiro já foi de Gonzaga
Uma vela acesa que nunca se apaga
Duzentas sardinhas e um pé de limão.
O agente secreto ficou assustado
Vendo uma baleia no mar do sertão
Puxou a fivela do seu cinturão
E feito um foguete pra cima e pro lado
Saiu flutuando no mei do roçado
Deu mais de mil tiros com seu mosquetão
Prendeu a volante salvou lampião
Matou coronel, feriu deputado
E um mar de corruto, correndo pro lado
Parou a roubança, salvou-se a nação.
Vendo uma baleia no mar do sertão
Puxou a fivela do seu cinturão
E feito um foguete pra cima e pro lado
Saiu flutuando no mei do roçado
Deu mais de mil tiros com seu mosquetão
Prendeu a volante salvou lampião
Matou coronel, feriu deputado
E um mar de corruto, correndo pro lado
Parou a roubança, salvou-se a nação.
Ai Padre Ciço botou um queixão
- Assim ta ca gota de tanta mentira !
Ai James Bond fez padre de mira
Ai Padre Ciço tacou-lhe um bufete
Pegou de surpresa zero zero sete
Os dois se atracaram zero zero oito
O padre tinhoso, mordido e afoito
Falou: – com mentira ninguém me ilude
Foi fazer milagre lá em Hollywood
Milagre pesado maior de dezoito.
- Assim ta ca gota de tanta mentira !
Ai James Bond fez padre de mira
Ai Padre Ciço tacou-lhe um bufete
Pegou de surpresa zero zero sete
Os dois se atracaram zero zero oito
O padre tinhoso, mordido e afoito
Falou: – com mentira ninguém me ilude
Foi fazer milagre lá em Hollywood
Milagre pesado maior de dezoito.
Jessier Quirino
13/01/2012
Conversa de sertanejo
Tu sabes que onde se encontram dois sertanejos, os três tão falando de chuva, de inverno.
Isso foi lá no céu, onde um magote de desocupados ficava, boquinha da noite, todo dia, falando de inverno e de chuva.
- Inverno bom foi em 1935…
- Foi nada, chuva mesmo foi em 42…
Só faltava sair tapa.
Todo dia, já no fim da conversa, passava um velhinho baixinho, magro, de barba branca e comprida, quase arrastando no chão.
Interrompia a discussão só pra dizer:
- Vocês nunca viram chuva!
Dizia isso e ia simbora.Todo dia a mesma coisa, até que um dos camaradas se arretou:
- Me diz uma coisa, quem danado é esse velho abusado que fica dizendo “vocês nunca viram chuva…vocês nunca viram inverno”?
Um caba repondeu:
- Sei quem é não. Dizem que é um tal de Noé…
Jessier Quirino, na coluna De cumpade pra cumpade, no Besta Fubana
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